Discurso sobre o Estilo | Buffon, George-Louis L. de

| quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
APRESENTAÇÃO George-Louis Leclerc, Conde de Buffon (1707-1788), filósofo naturalista do século XVIII, autor da monumental Histoire Naturelle, é sobretudo mencionado (e suposta ou parcialmente conhecido!) por uma só frase: “Le style, c’est l’homme même”, que aparece neste famoso Discurso de recepção na Academia Francesa, pronunciado a 25 de Agosto 1753. E, como tantas vezes aconteceu na história do pensamento com outras frases, também esta foi desvirtuada ou desviada na sua interpretação e utilizada fora de contexto, suscitando ou desencadeando embora, de modo paradoxal, diferentes matizes e linhas de reflexão, não presentes na mente do seu autor e que vão além do seu intento. Buffon, que escreveu sobre o estilo, foi já criticado, no seu tempo, pelos enciclopedistas e por Condorcet, justamente quanto ao seu estilo. Mas o seu discurso foi muito apreciado pelos românticos (por exemplo Baudelaire, Flaubert e Barbey d’Aurevilly) que, com muitos outros depois deles, interpretaram e subverteram a sua famosa frase. Ou seja, consideraram o estilo sobretudo como expressão do indivíduo criador, como marca e sintoma pessoal, como tradução e concreção de uma idiossincrasia específica, única e intransmissível – o que já nem sequer constituía uma novidade absoluta, pois também Petrarca, numa perspectiva individualista, havia vislumbrado no “stilus” a expressão adequada do “ingenium”. Esta fora igualmente a posição do contemporâneo setecentista alemão, Hamann, mas não a do escritor francês, que porventura se avizinha mais dos clássicos latinos (Cícero, Quintiliano), para os quais o estilo surgia sobretudo como “modus dicendi” e se referia, de modo particular, à arte oratória e ao valor veritativo dos argumentos em prol da persuasão. De facto, o acento de Buffon é predominantemente normativo, recai sobre o carácter da exposição científica, sugere o elogio da escrita que difere da oralidade ou linguagem falada; insiste na relação harmónica e justa que deve existir entre conteúdo e forma, na coesão, na ordem e i i i i i i i i na urdidura dos pensamentos que se devem entrelaçar de acordo com a sua relevância e a sua afinidade intrínseca, deixando de lado as noções menos pertinentes. A beleza do estilo concerne, pois, ao travamento interno das ideias e à sua potência de verdade em torno de um tema nuclear; diz respeito ao movimento e à coerência das razões, à pertinência e ensambladura lógicas da argumentação e da descrição do objecto, à arquitectura de um plano que se vai transformando em obra, e não tanto ao carácter literário. Daí a comparação do estilo com as obras da natureza, que se desdobram, evoluem e se desenrolam segundo uma legalidade interna, nelas impressa pelo Criador; daí também, como corolário, a distinção entre “talento” e “génio”. Este último, dom natural, ao proceder necessariamente segundo “regras”, ao criar consistência, clareza, rigor, graças ao trabalho do discernimento intelectual, suscitará no espírito aprazimento, calor, vitalidade e consonância consigo mesmo – ou seja, a ressonância subjectiva despertada pela ordem objectiva do estilo, que está ao serviço da descoberta da verdade e não da pura expressão da subjectividade. Não obstante a elegância do dizer de Buffon, a falta de alguma clareza no seu conceito de “estilo” proporcionou a este uma certa abertura e indefinição, que inspira muitas variantes hermenêuticas e constitui, em parte, a sua relevância e o seu poder de sugestão, que se conserva até hoje. * * * O leitor interessado e mais diligente encontrará o original francês no seguinte electro-sítio: Buffon, Discours sur le Style. Também poderá consultá-lo na página electrónica da Academia Francesa: Immortels. E se pretender fazer uma ideia mais completa de Buffon, é bom que mergulhe na sua obra capital, a Histoire Naturelle, presente neste sítio: CNRS. Artur Morão Loures, Maio de 2011 i i i i i i i i Discurso sobre o Estilo George-Louis L. de Buffon Senhores, Cumulastes-me de honra ao chamardes-me para o meio de vós; mas a glória só é um bem enquanto dela se é digno, e não me convenço de que alguns ensaios escritos sem arte e sem outro ornamento a não ser o da natureza sejam títulos suficientes para me atrever a tomar lugar entre os mestres da arte, entre os homens eminentes que representam aqui o esplendor literário da França, e cujos nomes, celebrados hoje pela voz das nações, retumbarão ainda com brilho na boca dos nossos últimos vindouros. Outros motivos tivestes, Senhores, ao lançar os olhos sobre mim; quisestes dar à ilustre companhia a que desde há muito tenho a honra de pertencer um novo sinal de consideração: o meu reconhecimento, embora dividido, não será menos vivo. Mas como satisfazer o dever que ele impõe, neste dia? Tão-só tenho para vos oferecer, Senhores, o vosso bem próprio: algumas ideias sobre o estilo, que respiguei nas vossas obras; foi ao ler-vos, foi ao admirar-vos, que elas foram concebidas; submetendo-as às vossas luzes, elas hão-de surgir com algum sucesso. Em todas as épocas houve homens que souberam ordenar aos outros pelo poder da palavra. Todavia, foi só nos séculos ilustrados que bem Pronunciado na Academia Francesa por M. de Buffon no dia da sua recepção, a 25 de Agosto 1753. 5 i i i i i i i i 6 George-Louis L. de Buffon se escreveu e bem se falou. A verdadeira eloquência pressupõe o exercício do génio e a cultura do espírito. Ela é muito diferente da natural facilidade de falar, que não passa de um talento, de uma qualidade concedida a todos aqueles cujas paixões são fortes, cujos órgãos são lestos e a imaginação pronta. Tais homens sentem vivamente, comovem-se até, e assim o assinalam no exterior; e por uma impressão puramente mecânica transmitem aos outros o seu entusiasmo e os seus afectos. É o corpo que fala ao corpo; todos os movimentos, todos os sinais concorrem e igualmente coadjuvam. Que é necessário para excitar e arrastar a multidão? Que é necessário para abalar até a maior parte dos outros homens e os persuadir? Um tom veemente e patético, gestos expressivos e frequentes, palavras impetuosas e sonantes. Mas para o pequeno número daqueles cuja cabeça é consistente, delicado o gosto e apurado o sentido, e que, como vós, Senhores, não dão grande valor ao tom, aos gestos e ao som fútil das palavras, requerem-se coisas, pensamentos, razões; é necessário saber apresentá-los, matizá-los, ordená-los; não basta impressionar o ouvido e ocupar os olhos; importa, quando se fala ao espírito, agir sobre a alma e tocar o coração. O estilo é apenas a ordem e o movimento que se instaura nos seus pensamentos. Se eles forem encadeados de modo apropriado, se forem ajustados, o estilo torna-se robusto, nervoso e conciso; se eles se sucederem de forma lenta e se juntarem apenas por meio das palavras, por elegantes que sejam, o estilo será difuso, desligado e moroso. Mas, antes de buscar a ordem em que se hão-de apresentar os seus pensamentos, é necessário erigir uma outra mais geral e mais sólida, onde devem ingressar unicamente as primeiras noções e as principais ideias: ao assinalar o seu lugar neste primeiro plano é que um tema será circunscrito e se conhecerá o seu alcance; ao rememorar incessantemente estes primeiros esboços é que se determinarão os justos intervalos que separam as ideias principais, é que germinarão ideias acessórias e intermédias que hão-de servir para os colmatar. Pela força do génio, representar-se-ão todas as ideias gerais e particulares sob o seu verdadeiro ponto de vista; graças a uma grande acuidade de diswww. lusosofia.net i i i i i i i i Discurso sobre o Estilo 7 cernimento, distinguir-se-ão os pensamentos estéreis dos pensamentos fecundos; devido à sagacidade facultada pelo grande hábito de escrever, reconhecer-se-á de antemão qual será o produto de todas estas operações do espírito. Mesmo que o tema não seja vasto ou complicado, é muito raro que ele se possa abarcar com um simples relance de olhos ou nele entrar em cheio com um só e primeiro esforço de génio; e mais raro é ainda que, após muitas reflexões, se captem todas as suas relações. Não é, pois, possível ocupar-se dele em demasia; é até o único meio de corroborar, de estender e elevar os seus pensamentos: quanto mais substância e força se lhes der pela meditação, tanto mais fácil será, depois, realizá-los pela expressão. Este plano não é ainda o estilo, mas é a sua base; sustenta-o, dirigeo, ordena o seu movimento e submete-o a leis; sem isso, transvia-se o melhor escritor, move-se sem guia a sua pena e lança ao acaso traços irregulares e figuras discordantes. Por brilhantes que sejam as cores que ele emprega, sejam quais forem as belezas que semeia nos pormenores, como o conjunto desagradará ou não se fará sentir, a obra não será construída e, ao admirar-se o espírito do autor, poderá suspeitarse de que ele carece de génio. É por esta razão que os que escrevem como falam, embora falem muito bem, escrevem mal; que os que se abandonam ao primeiro fogo da sua imaginação tomam um tom que não conseguem suster; que os que receiam perder pensamentos isolados, fugidios, e que escrevem em ocasiões diferentes fragmentos soltos, nunca os reúnem sem transições forçadas; que, numa palavra, há tantas obras feitas de pedaços de ligação, e tão poucas que sejam fundidas de um só jacto No entanto, todo o tema é uno; e, por vasto que seja, pode encerrarse num só discurso. As interrupções, as pausas, os segmentos não deveriam utilizar-se a não ser quando se abordam temas diferentes, ou quando, sendo necessário falar de coisas grandes, espinhosas e díspares, a marcha do génio se vê interrompida pela multiplicidade dos obstáculos e constrangida pela necessidade das circunstâncias: de outra maneira, o grande número de divisões, longe de tornar uma obra mais www.lusosofia.net i i i i i i i i 8 George-Louis L. de Buffon sólida, destrói a sua juntura; o livro aparece mais claro aos olhos, mas o desígnio do autor permanece obscuro; não pode causar impressão no espírito do leitor, nem sequer consegue fazer-se sentir a não ser pela continuidade do fio, pela dependência harmónica das ideias, por um desenvolvimento sucessivo, uma gradação sustentada, um movimento uniforme que toda a interrupção destrói ou faz esmorecer. Porque são tão perfeitas as obras da natureza? É que cada obra é um todo, actua segundo um plano eterno do qual ela nunca se desvia; prepara em silêncio os germes das suas produções; esboça por um acto único a forma primitiva de todo o ser vivo; desenvolve-a, aperfeiçoaa por um movimento contínuo e num tempo prescrito. A obra causa assombro; mas a marca divina, cujos traços ela traz consigo, é que nos deve impressionar. O espírito humano nada pode criar; só produzirá após ter sido fecundado pela experiência e pela meditação; os seus conhecimentos são os germes das suas produções: mas se imitar a natureza na sua marcha e no seu labor, se pela contemplação se elevar às verdades mais sublimes, se as reunir, se as encadear, se delas formar um todo, um sistema pela reflexão, estabelecerá em alicerces inabaláveis monumentos imortais. É por ausência de plano, por não ter reflectido bastante sobre o seu objecto que um homem de espírito se encontra embaraçado e não sabe por onde começar a escrever. Apercebe-se, ao mesmo tempo, de um grande número de ideias; e como não as comparou nem subordinou, nada o determina a preferir umas às outras; permanece, portanto, na perplexidade. Mas quando tiver feito um plano, quando tiver reunido e ordenado todos os pensamentos essenciais ao seu tema, facilmente se dará conta do instante em que deve pegar na pena, reconhecerá o ponto de maturidade da produção do espírito, será forçado a fazê-la desabrochar, sentirá apenas prazer em escrever: as ideias suceder-se-ão com agilidade e o estilo será natural e fácil; o calor brotará deste prazer, espalhar-se-á por toda a parte de e dará vida a cada expressão; tudo se animará cada vez mais; o tom elevar-se-á, os objectos ganharão cor; e o sentimento, aderindo à luz, aumentá-la-á, levá-la-á mais longe, fará www.lusosofia.net i i i i i i i i Discurso sobre o Estilo 9 que ela passe do que se diz ao que se vai dizer, e o estilo tornar-se-á interessante e luminoso. Nada se opõe mais ao calor do que o desejo de pôr em toda a parte traços salientes; nada é mais contrário à luz, que deve originar um corpo e expandir-se uniformemente num escrito, do que estas centelhas que se extraem só á força, fazendo embater as palavras umas nas outras, e que nos deslumbram por alguns instantes apenas para, em seguida, nos deixarem nas trevas. São pensamentos que cintilam apenas pelo contraste: apresenta-se tão-só um lado do objecto, deixam-se na sombra todas as outras faces; e habitualmente este lado que se escolhe é uma ponta, um ângulo no qual se faz actuar o espírito com tanto maior facilidade quanto mais nos afastamos das grandes vertentes sob as quais o bom-senso costuma encarar as coisas. Nada é ainda mais contrário à verdadeira eloquência do que o emprego destes pensamentos refinados e a busca destas ideias ligeiras, desligadas, sem consistência, e que, como a folha do metal batido, só ganham fulgor ao perder a sua solidez. Por isso, quanto mais num escrito se instilar algo deste espírito delicado e brilhante, tanto menos ele terá nervo, luz, calor e estilo; a não ser que este espírito seja ele próprio o fundo do tema, e que o escritor tenha apenas como objecto o gracejo: então a arte de dizer pequenas coisas torna-se talvez mais difícil do que a arte de dizer as grandes. Nada há de mais antagónico ao belo natural do que o esforço que se emprega para exprimir coisas ordinárias ou comuns de um modo singular ou pomposo; nada degrada mais o escritor. Longe de o admirar, lamenta-se que ele tenha passado tanto tempo a fazer novas combinações de sílabas, para dizer tão-só o que toda a gente diz. Este é o defeito dos espíritos cultivados, mas estéreis; têm palavras em abundância, mas não ideias; trabalham, pois, com as palavras e imaginam ter combinado ideias, porque arranjaram frases, e julgam ter depurado a linguagem quando, na verdade, a corromperam, desviando as acepções. Estes escritores não têm um estilo ou, se quisermos, têm apenas a www.lusosofia.net i i i i i i i i 10 George-Louis L. de Buffon sua sombra. O estilo deve gravar pensamentos: eles sabem unicamente rabiscar palavras. Para bem escrever, importa, pois, dominar plenamente o seu tema, é necessário reflectir bastante sobre ele para divisar com clareza a ordem dos seus pensamentos e deles elaborar uma sequência, uma cadeia contínua, em que cada ponto representa uma ideia; e quando se pegar na pena, será necessário guiá-la ordenadamente acerca deste primeiro traço, sem lhe permitir desviar-se, sem a apoiar de forma demasiado incerta, sem lhe incutir outro movimento excepto o que há-de ser determinado pelo espaço que ela deve percorrer. É nisso que consiste a severidade do estilo; é também isso o que fará a sua unidade e regulará a sua presteza, e só isso bastará também para o tornar preciso e simples, igual e claro, vivo e contínuo. Se a esta primeira regra, ditada pelo génio, juntarmos a delicadeza e o gosto, o escrúpulo sobre a escolha das expressões, a atenção para nomear as coisas tão-só pelos termos mais gerais, o estilo terá nobreza. Se lhe juntarmos ainda a desconfiança perante o seu primeiro movimento, o desprezo por tudo o que é apenas brilhante e uma repugnância constante pelo equívoco e pelo chiste, o estilo terá gravidade, terá até majestade. Se, por fim, se escrever como se pensa, se se estiver convencido do que se pretende insinuar, esta boa fé consigo mesmo, que suscita o respeito pelos outros e a verdade do estilo, levá-lo-á a produzir todo o seu efeito, contanto que esta persuasão interior se não assinale por um entusiasmo demasiado forte, e que tenha em toda a parte mais candura do que confiança, mais razão do que ardor. Era assim, Senhores, que me parecia, ao ler-vos, que vós me faláveis, que me instruíeis. A minha alma, que recolhia com avidez estes oráculos da sabedoria, queria levantar voo e elevar-se até vós; inúteis esforços! As regras, dizíeis-me ainda, não podem suprir o génio; se este faltar, elas serão inúteis. Escrever bem é, ao mesmo tempo, bem pensar, bem sentir e bem reproduzir; é ter, ao mesmo tempo, o espírito, alma e gosto. O estilo supõe a reunião e o exercício de todas as faculdades intelectuais. As ideias, só por si, formam o fundo do eswww. lusosofia.net i i i i i i i i Discurso sobre o Estilo 11 tilo, a harmonia das palavras é tão-só o acessório e depende apenas da sensibilidade dos órgãos; basta ter um pouco de ouvido para evitar as dissonâncias e tê-lo exercitado, aperfeiçoado pela leitura dos poetas e dos oradores, para que mecanicamente se seja levado à imitação da cadência poética e dos giros oratórios. Ora a imitação nunca criou nada: por isso, a harmonia das palavras não constitui nem o fundo nem o tom do estilo e encontra-se, muitas vezes, em escritos desprovidos de ideias. O tom é apenas o ajustamento do estilo à natureza do assunto, jamais deve ser forçado; emanará espontaneamente do próprio fundo da coisa e dependerá muito do ponto de generalidade a que se tiver conduzido os seus pensamentos. Se alguém se tiver elevado às ideias mais gerais, se o objecto for grande em si mesmo, o tom parecerá elevar-se à mesma altura; e se, ao sustê-lo nesta elevação, o génio proporcionar o suficiente para dar a cada objecto uma luz intensa, se for possível acrescentar a beleza do colorido à energia de desenho, em suma, se alguém conseguir representar cada ideia por uma imagem viva e bem acabada e elaborar de cada sequência de ideias um quadro harmonioso e animado, o tom não só será elevado, mas sublime. Aqui, Senhores, a aplicação faria mais do que a regra; os exemplos instruiriam melhor do que os preceitos; mas, como não me é permitido citar os fragmentos sublimes que, tantas vezes, me transportaram, ao ler as vossas obras, sou obrigado a restringir-me a reflexões. As obras bem escritas serão as únicas que passarão à posteridade: A quantidade dos conhecimentos, a singularidade dos factos, a própria novidade das descobertas não são garantias seguras da imortalidade: se as obras que os contêm versarem sobre objectos minúsculos, se estiverem escritas sem gosto, sem nobreza e sem génio, perecerão, porque os conhecimentos, os factos e as descobertas facilmente se arrebatam, se transportam e lucram até com ser realizados por mãos mais hábeis. Tais coisas são exteriores ao homem, o estilo é o próprio homem. O estilo não pode, pois, nem arrebatar-se, nem transportar-se, nem alterar-se: se for elevado, nobre, sublime, o autor será igualmente admirado em todos os www.lusosofia.net i i i i i i i i 12 George-Louis L. de Buffon tempos; porque só a verdade é duradoura e, inclusive, eterna. Ora um belo estilo só é tal, de facto, pelo número infinito das verdades que expõe. Todas as belezas intelectuais que nele se encontram, todas as relações de que ele é composto, são outras tantas verdades igualmente úteis, e talvez mais preciosas para o espírito humano do que aquelas que podem constituir o fundo do tema. O sublime só pode encontrar-se nos grandes temas. A poesia, a história e a filosofia têm, todas, o mesmo objecto e um objecto muito grande, o homem e a natureza. A filosofia descreve e pinta a natureza; a poesia pinta-a e embeleza-a: pinta igualmente os homens, engrandeceos, exagera-os, cria os heróis e os deuses. A história pinta apenas o homem, e pinta-o tal como é: por isso, o tom do historiador só se tornará sublime quando fizer o retrato dos grandes homens, quando expuser as acções maiores, os movimentos mais importantes, as revoluções mais significativas; e, aliás em toda a parte, bastará que ele seja majestoso e grave. O tom do filósofo poderá tornar-se sublime, sempre que falar das leis de natureza, dos seres em geral, do espaço, da matéria, do movimento e do tempo da alma, do espírito humano, dos sentimentos, das paixões; quanto ao mais, bastará que ele seja nobre e elevado. Mas o tom do orador e do poeta, contanto que o assunto seja grande, deve sempre ser sublime, porque eles são os mestres que juntam à grandeza do seu tema tanta cor, tanto movimento, tanta ilusão quanto lhes aprouver e que, ao terem sempre de pintar e engrandecer os objectos, devem igualmente, em toda a parte, aplicar toda a força e desdobrar toda a amplitude do seu génio. APELO AOS SENHORES DA ACADEMIA FRANCESA Que grandes objectos, Senhores, impressionam aqui os meus olhos! E que estilo e que tom se deveria empregar para dignamente os pintar e representar! A elite dos homens é a assembleia; a Sabedoria que está à sua cabeça, a Glória, sentada no meio deles, difunde os seus raios sobre www.lusosofia.net i i i i i i i i Discurso sobre o Estilo 13 cada um e cobre-os a todos com um brilho sempre idêntico e sempre renascente. Traços de uma luz mais viva emanam ainda da sua coroa imortal e vão concentrar-se na fronte augusta do mais poderoso e do melhor dos reis. Vejo este herói, este príncipe adorável, este soberano tão caro. Que nobreza em todos os seus traços! Que majestade em toda a sua pessoa! Quanta alma e doçura natural nos seus olhares! Ele volta-os para vós, Senhores, e brilhais com um novo fulgor, um ardor mais vivo vos incandesce; oiço já os vossos divinos acentos e os acordes das vossas vozes; juntai-los para celebrar as suas virtudes, para cantar as suas vitórias, para aplaudir em vista da nossa ventura; juntai-los para fazer brilhar o vosso zelo, expressar o vosso afecto e transmitir à posteridade sentimentos dignos deste grande príncipe e dos seus descendentes. Que concertos! Entram bem fundo no meu coração; serão imortais como o nome de Luís. Ao longe, que outro proscénio de grandes objectos! O Génio da França, que fala a Richelieu e lhe dita, ao mesmo tempo, a arte de ilustrar os homens e de fazer reinar os reis; a Justiça e a Ciência, que guiam Séguier e o elevam conjuntamente ao primeiro lugar dos seus tribunais; a Vitória, que avança a passos largos e precede o carro triunfal dos nossos reis, onde LUÍS O GRANDE, sentado em troféus, com uma mão concede a paz às nações vencidas e, com a outra, reúne neste palácio as Musas dispersas. E junto de mim, Senhores, que outro objecto interessante! A Religião em pranto, que vem buscar o órgão da Eloquência para exprimir a sua dor, e que parece acusar-me de suspender, durante demasiado tempo, os vossos lamentos sobre uma perda que todos, com ela, devemos sentir. www.lusosofia.net

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