UM LIVRO DE THOMAS MANN SOBRE SCHOPENHAUER | JORGE LUIS BORGES

| sábado, 26 de novembro de 2011
A glória costuma caluniar os homens; nenhum, talvez, tanto como Schopenhauer. Uma cara de macaco deteriorado e uma antologia de maus humores (reunidos sob o mote
sensacional de O Amor, as Mulheres e a Morte, idéia feliz de algum editor mediterrâneo) representam-no ante o público da Espanha e ante o destas Américas. Os professores
de metafísica toleram ou estimulam esse erro. Há quem o reduza ao pessimismo: redução tão iníqua e tão irrisória como a de não querer ver em Leibniz nada além do
otimismo. (Mann, ao contrário, entende que o pessimismo de Schopenhauer é parte indissociável de sua doutrina. "Todos os manuais", anota, "ensinam que Schopenhauer
foi em primeiro lugar o filósofo da vontade, e em segundo lugar o do pessimismo. Mas não há primeiro nem segundo: Schopenhauer, filósofo e psicólogo da vontade,
não podia não ser pessimista. A vontade é algo infeliz, fundamentalmente: é inquietude, necessidades, cobiça, apetite, anseio, dor, e um mundo da vontade tem de
ser um mundo de sofrimentos...") Eu penso que otimismo e pessimismo são juízos de caráter estimativo, sentimental, que nada têm a ver com a metafisica, que foi a
tarefa de Schopenhauer.
Também foi incomparável como escritor. Outros filósofos - Berkeley, Hume, Henri Bergson, William James - dizem exatamente o que se propõem dizer, mas falta-lhes
a paixão, a virtude persuasiva de Schopenhauer. É famosa a influência que ele exerceu sobre Wagner e sobre Nietzsche.
Thomas Mann, neste seu novíssimo livro (Schopenhauer, 1938, Estocolmo), observa que a filosofia de Schopenhauer é a de um homem jovem. Alega a opinião de Nietzsche,
que pensava que cada um tem a filosofia de seus anos, e que o poema cósmico de Schopenhauer traz a marca da idade juvenil em
que predominam o erótico e o sentido da morte. Neste elegante resumo, o autor de A Montanha Mágica não menciona outro livro de Schopenhauer exceto sua obra capital:
O Mundo como Vontade e Representação. Suspeito que, se a tivesse relido, teria mencionado também aquela fantasmagoria um pouco terrível de Parerga e Paralipomena,
em que Schopenhauer reduz todas as pessoas do universo a encarnações ou máscaras de uma só (que é, previsivelmente, a Vontade) e declara que todos os acontecimentos
de nossa vida, por aziagos que sejam, são invenções puras de nosso eu como as desgraças de um sonho.
Em seus Cuadernos de Recienvenido, Macedonio Fernández aproveitou um momento de distração para registrar que as visitas mais longas são no início breves. Não acreditamos
que seja assim: as visitas longas são desde o início muito longas e continuam a sê-lo, mesmo que sua duração cronológica não passe de uns poucos minutos. O mesmo
acontece com os livros. Alguns (a afirmação é de Novalis) são exatamente infinitos, pela suficiente e simples razão de que não chegamos ao fim... E o caso da maioria
dos contos deste volume. O título" (corroborado por dois prólogos, dos quais um é super-realista e o outro é abominável, também) assegura que são os melhores contos
norte-americanos e ingleses de 1938. Aceitar essa afirmação é chegar à conclusão melancólica de que o ato de elaborar contos breves desapareceu (ou está para desaparecer)
nas pátrias de Chesterton e de Poe, de Kipling e de Henry James. Não o entendo assim, tampouco creio que esta antologia seja de todo inepta; creio que a solução
do problema está, indiretamente, nos quatro nomes gloriosos que mencionei. Quarenta e quatro autores colaboram neste livro: nenhum quer assemelhar-se a Chesterton,
a Poe, a Kipling nem, talvez, a James.

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