Servidão humana (PARTE 2) | MAUGHAM, William Somerset

| terça-feira, 15 de novembro de 2011
LVI
Não conseguia afastá-la do pensamento. Ria com raiva da própria insensatez: era
absurdo fazer caso do que lhe dissera uma anémica criadita; mas sentia-se
estranhamente humilhado. Embora ninguém, a não ser Dunsford, soubesse da
humilhação - e ele, com toda a certeza, já a esquecera - Philip compreendeu que não
teria paz enquanto não liquidasse aquele assunto. Pensou no que seria melhor fazer.
Resolveu ir todos os dias à casa de chá; era claro que produzira uma impressão
desagradável na rapariga, mas confiava na sua inteligência para desfazê-la. Trataria de
nada dizer que ofendesse a pessoa mais susceptível do mundo. Tudo isto fez, mas sem
resultado. Quando entrava e dizia boa-noite, ela respondia nos mesmos termos, mas,
quando, certa vez, não disse, a ver se ela o dizia primeiro, ela nada disse. Murmurou
intimamente uma expressão que, embora aplicada com preferência a pessoas do sexo
feminino, não é muito usada na boa sociedade; e, com fisionomia impassível, pediu o
chá. Decidiu não dizer palavra e deixou a casa sem o habitual boa-noite. Prometeu a si
mesmo não mais voltar, mas no dia seguinte, à hora do chá, começou a sentir-se
inquieto. Tentou pensar noutras coisas, mas não pôde dominar os pensamentos. Disse
por fim, com desespero:
- Afinal de contas não há razão para que eu não vá, se quero ir. A luta consigo
próprio durou muito tempo e eram quase sete horas quando entrou na casa de chá.
- Pensei que não viesse - disse-lhe a rapariga quando ele se sentou.
O coração pulou-lhe e ele sentiu-se corar.
- Retiveram-me. Não pude vir antes.
- Estava a despedaçar alguém, não?
- Nada de tão terrível...
- É estudante, não é verdade?
- Sou.
Isso, porém, pareceu satisfazer-lhe a curiosidade. Ela afastou-se e, como àquela
hora tardia não houvesse mais ninguém às suas mesas, mergulhou na leitura de uma
novela. Nesse tempo, ainda não se faziam reedições de livros a preços populares.
Havia uma provisão regular de ficção barata escrita sob encomenda por pobres diabos,
para o consumo dos ignorantes. Philip exultava: ela falara-lhe espontaneamente. Via
aproximar-se o momento em que lhe seria possível dizer tudo quanto pensava a seu
respeito. Seria um grande consolo exprimir a imensidade do seu desprezo. Olhou para
ela. Era verdade que tinha um belo perfil; achava extraordinário que as raparigas
inglesas daquela classe tivessem tão frequentemente uma perfeição de linhas que
chegava a pasmar; mas eram feições de uma frieza de mármore; e o leve tom verde
daquela pele delicada dava uma impressão de pouca saúde; Todas as empregadas da
casa vestiam do mesmo modo: um vestido preto, simples, com avental branco, punhos
e uma pequena touca. Em meia folha de papel que tinha no bolso, Philip fez um esboço
dela inclinada para o livro (lia formando as palavras com os lábios) e deixou o desenho
em cima da mesa ao retirar-se. Fora uma inspiração pois, no dia seguinte, ao entrar, ela
sorriu-lhe.
- Não sabia que desenhava... - disse ela.
- Estudei pintura em Paris, dois anos.
- Mostrei à gerente o desenho que o senhor deixou ontem e ela ficou admirada.
Era o meu retrato, não era?
- Era - respondeu Philip.
Quando ela foi buscar o chá, uma das outras empregadas aproximou-se:
- Vi o retrato que o senhor fez de Miss Rogers. Era ela, sem tirar nem pôr -
observou.
Pela primeira vez, Philip ouvia o apelido da outra e quando pediu a conta,
chamou-a por ele.
- Sabia o meu nome? - perguntou ela ao chegar.
- A sua amiga disse-o quando me falou no desenho.
- Ela quer que faça o dela. Não faça. Se fizer de uma, as outras todas hão-de
querer. - Em seguida, sem pausa alguma e com uma inconsequência característica,
acrescentou: - Onde está aquele rapaz que vinha com o senhor? Foi-se embora?
- Como é que se lembra dele?
- Era um rapaz bem-parecido.
Philip experimentou intimamente uma sensação curiosa. Não sabia o que fosse.
Dunsford tinha bonitos cabelos ondulados, e pele fresca e um lindo sorriso. Philip
pensou nesses predicados com inveja.
- Ora, está apaixonado - explicou, com um sorrisinho.
Philip, repetiu de si para si a conversação, palavra por palavra, enquanto ia
coxeando para casa. Ela era finalmente amiga dele. Quando se apresentasse ocasião,
oferecer-se-ia para lhe fazer um desenho mais bem acabado. Estava certo de que ela
gostaria. O rosto era interessante, o perfil adorável e havia uma curiosa fascinação
naquela tez clorótica. Procurou com que se parecesse; pensou, a princípio, em creme de
ervilhas, mas rejeitou a ideia com horror e lembrou-se das pétalas de um botão de rosa
amarela, aberto por alguém antes de desabrochar. Agora já não lhe queria mal
- Não é má criatura - murmurou.
Fora tolice ofender-se com o que ela dissera; a culpa, sem dúvida, fora dele; a
rapariga não tivera intenção de se mostrar desagradável: já devia estar acostumado a
causar má impressão à primeira vista. Sentia-se lisonjeado com o êxito do seu desenho;
ela olhava-o com mais interesse, depois de lhe conhecer esse pequeno talento. No dia
seguinte, sentiu-se inquieto. Pensou em ir almoçar à casa de chá, mas estava certo de
que estaria lá muita gente a essa hora e Mildred não poderia falar com ele. Já
conseguira desfazer-se do hábito de tomar chá com Dunsford, e, às quatro e meia em
ponto (consultara o relógio uma dúzia de vezes) dirigiu-se para lá.
Mildred estava de costas voltadas. Sentara-se a conversar com o alemão que
Philip vira ali diariamente, até duas semanas antes, e que, desde então, não voltara a
ver. Ela ria-se do que ele dizia. Esse riso, que Philip achou vulgar, fê-lo estremecer.
Chamou-a, mas ela não fez caso; tornou a chamá-la e depois, encolerizando-se, pois
estava impaciente, bateu na mesa com a bengala. Ela aproximou-se de mau modo.
- Como está? - perguntou Philip.
- Parece ter muita pressa...
Baixou os olhos para ele, da maneira insolente que o rapaz tão bem conhecia.
- Escute, que foi que lhe deu? - perguntou.
- Tenha a bondade de fazer o seu pedido e trarei o que deseja. Não posso ficar
toda a noite a conversar.
- Chá com torradas, por obséquio - respondeu Philip, secamente.
Estava furioso com ela. Tinha consigo The Star e pôs-se a ler o jornal muito
interessado, quando ela trouxe o chá.
- Se me der a conta agora não precisarei de incomodá-la mais - disse em tom
glacial.
Ela fez a nota, colocou-a em cima da mesa e voltou para a companhia do alemão.
Daí a pouco, conversava com ele animadamente. Era um homem de estatura meã, com
a cabeça redonda dos seus compatriotas, rosto pálido e grande bigode eriçado. Vestia
sobrecasaca e calça cinzenta e usava no relógio uma grossa corrente de ouro. Pareceu a
Philip que as outras empregadas os observavam, a ele e ao par, trocando olhares
significativos. Estava certo de que riam dele e o sangue ferveu-lhe. Detestava agora
Mildred de todo o coração. Sabia que a melhor coisa que podia fazer era deixar de vir
àquela casa. Não se conformava, porém, com a ideia de ter sido derrotado, e traçou um
plano para mostrar que a desprezava. No dia seguinte, sentou-se a uma mesa diferente
e pediu o chá a outra empregada. O amigo de Mildred lá estava, a conversar com ela.
Esta não deu atenção a Philip que escolheu, para se erguer, um momento em que ela
tinha de cruzar o seu caminho. Quando ela passou, olhou-a como se nunca a tivesse
visto. Repetiu isso durante três ou quatro dias. Esperava que ela aproveitasse a
oportunidade para lhe dizer alguma coisa; julgava que lhe perguntasse por que não se
sentava às suas mesas. Preparara uma resposta impregnada de toda a aversão que
sentia por ela. Sabia que era absurdo incomodar-se, mas não podia evitá-lo. Ela tornara
a derrotá-lo. O alemão desapareceu subitamente, mas Philip continuou a sentar-se às
outras mesas. Ela não lhe prestava atenção. De repente, ele percebeu que tudo quanto
fazia lhe era perfeitamente indiferente. Poderia continuar assim até o Dia de Juízo, sem
resultado.
«Ainda não terminei» disse para consigo.
No dia seguinte, sentou-se no antigo lugar e, quando ela se aproximou, deu-lhe
boas-noites como se a não tivesse desdenhado durante uma semana. Tinha o rosto
plácido, mas não conseguia impedir que o coração lhe batesse doidamente. Havia
pouco que a comédia musical conquistara as preferências do público e ele estava certo
de que Mildred ficaria encantada de assistir a um espectáculo.
- Escute... - disse de súbito - Quer jantar comigo uma noite destas e ir depois ver
A Bela de nova Iorque? Arranjarei duas poltronas de orquestra.
Acrescentou esta última frase, a fim de tentá-la. Sabia que, quando elas iam ao
teatro era para a plateia ou, quando algum homem as convidava, para o balcão, pois
raramente as levavam para lagares mais caros. O rosto pálido de Mildred ficou
impassível.
- Está bem - respondeu.
- Quando podemos ir?
- As quintas, saio mais cedo.
Combinaram os pormenores. Mildred morava com uma tia, em Herne Hill. A
peça começava às oito, de forma que deviam jantar às sete. Ela sugeriu que se
encontrassem na sala de espera da segunda classe da Estação de Vitória. Não
demonstrava nenhum prazer, mas aceitava o convite como se concedesse um favor.
Philip ficou vagamente irritado.
LVII
Philip chegou à Estação de Vitória quase trinta minutos antes da hora marcada
por Mildred e sentou-se na sala de espera da segunda classe. Passava o tempo e ela não
vinha. Começava a ficar ansioso e caminhou para a plataforma a observar os comboios
suburbanos que chegavam. A hora que ela marcara passou e nem sinal dela. Philip
estava impaciente. Entrou nas outras salas de espera e olhou para as pessoas que lá
estavam. De súbito, o coração deu-lhe um salto.
- Estava aí? Pensei que já não viesse.
- Bonito dizer isso, depois de me fazer esperar todo este tempo... Já estava quase
resolvida a voltar para casa.
- Mas não disse que estaria na sala de espera da segunda?...
- Não foi isso o que eu disse. Então acha que ficaria na sala da segunda, quando
podia esperar na da primeira?
Embora estivesse certo de não se ter enganado, Philip nada respondeu e tomaram
um trem.
- Aonde é que vamos jantar? - indagou ela.
- Pensei no Restaurante Adelphi. Serve-lhe?
- O sitio não me faz diferença.
Falava de mau modo. Estava irritada por ter esperado e respondeu com
monossílabos às tentativas de conversação feitas por Philip. Vestia uma capa comprida,
de tecido escuro e grosso, e trazia na cabeça um xale de croché. Chegaram ao
restaurante e ocuparam uma mesa. Ela olhou satisfeita em torno de si. Os quebra-luzes
vermelhos sobre as velas das mesas, o dourado das decorações e os espelhos davam ao
salão um ar de sumptuosidade.
- Nunca vim aqui.
Sorriu para Philip. Tirara a capa: notou que ela trazia um vestido azul-claro com
o decote quadrado; os cabelos estavam penteados com mais esmero do que nunca.
Quando veio o champanhe que ele pedira, os olhos dela brilharam.
- O senhor está a exceder-se... - exclamou ela.
- Só porque pedi champanhe? - perguntou ele, negligente, se nunca bebesse outra
coisa.
- Fiquei admirada quando me convidou a ir ao teatro consigo.
A conversa não corria muito fácil, pois Mildred não parecia ter muita coisa a
dizer; e Philip, nervoso, tinha consciência de não a divertir. Ela escutava distraída o
que ele dizia, com os olhos nas outras pessoas, e não procurava mostrar interesse pelo
companheiro. Este disse uma ou duas graças, mas ela tomou-as a sério. O único sinal
de vivacidade que Philip percebeu nela foi ao falar nas outras empregadas da casa de
chá; não podia suportar a gerente e começou a enumerar-lhe todas as iniquidades.
- Não a suporto de maneira nenhuma, com aqueles ares que ela se dá. às vezes é
por um triz que eu não lhe digo na cara certas coisas que ela pensa que não sei...
- Que coisas? - inquiriu Philip.
- Ora, sei muito bem que ela de vez em quando vai passar o domingo com um
homem a Eastbourne. Uma das pequenas tem uma irmã casada que vai para lá com o
marido e viu-a. Hospedou-se na mesma pensão e andava de aliança, mas sei muito
bem que não é casada.
Philip encheu-lhe o copo, na esperança de que o champanhe a tornasse mais
afável; ansiava por que aquela festa fosse coroada de êxito. Notou que ela segurava a
faca como se fosse uma caneta e erguia o dedo mínimo quando levava o copo à boca.
Tentou diversos assuntos de conversa; não conseguiu interessá-la e lembrou-se,
irritado, de que a vira rir e falar pelos cotovelos com o alemão. Acabaram de jantar e
dirigiram-se para o teatro. Philip, que era um rapaz culto, olhava com desprezo a
comédia musicada. Achava as graças muito vulgares e as melodias banais; parecia-lhe
que, em França faziam aquilo muito melhor. Mildred, porém, divertia-se a valer; ria até
lhe doerem as costelas, olhando para Philip, quando achava graça a alguma coisa, a fim
de trocar com ele um olhar de satisfação. Aplaudia, enlevada.
- Esta é a sétima vez que venho aqui - disse ela, depois do primeiro acto - e sou
capaz de vir mais sete.
Mostrou-se bastante interessada pelas mulheres que estavam nas proximidades.
Chamou a atenção de Philip, apontando para as que estavam pintadas e para as que
usavam cabeleira postiça.
- Essa gente de West End é horrível. Não sei como conseguem fazer isso - disse
ela, levando a mão ao cabelo. - O meu é meu, com toda a certeza.
Não achava ninguém digno de admiração e sempre que falava de alguém era
para dizer alguma coisa desagradável. Isto causou mal-estar a Philip. Imaginou que, no
dia seguinte, ela contaria às colegas que saíra com ele e se aborrecera mortalmente.
Detestava-a e, no entanto, não sabia por que desejava estar junto dela. A caminho de
casa, perguntou:
- Então, divertiu-se?
- Assim...
- Quer sair outra vez comigo uma noite destas?
- Pois sim.
Não conseguia dela outras expressões. Semelhante indiferença enraivecia-o.
- Isso parece querer dizer que pouco lhe importa vir ou não.
- Ora, se o senhor não me levar, outro qualquer me leva. Não faltam homens para
me levar ao teatro.
Philip ficou silencioso. Chegaram à estação e ele foi à bilheteira.
- Já fiz a minha temporada - disse ela.
- Como já é tarde, pensei em acompanhá-la, se não se importa.
- Se lhe dá prazer, para mim é o mesmo.
Comprou, para ela, uma passagem simples, de primeira classe e, para si, uma de
ida e volta.
- O facto é que o senhor não é mesquinho... - disse ela, quando Philip lhe abriu a
porta da carruagem. Philip não soube se ficava satisfeito ou não, quando entrou mais
gente e a conversa se tornou impossível. Desceram em Herne Hill e ele acompanhou-a
até à esquina da rua onde ela morava.
- Vou dar-lhe as boas-noites aqui - disse ela estendendo a mão. - É melhor não ir
até à porta. Sei como essa gente é, e não quero dar que falar a ninguém.
Despediu-se e afastou-se rapidamente. Ele avistava o xale branco na escuridão.
Pensou que ela olhasse para trás, mas tal não aconteceu. Philip tomou nota da casa
onde ela entrara, e em seguida aproximou-se para examiná-la. Era uma pequena casa
de tijolos amarelos, comum e bem arranjada - exactamente igual às outras casitas da
rua. Deteve-se uns minutos ali e dentro em pouco a janela do primeiro andar
escureceu. Voltou lentamente para a estação. A noite não fora satisfatória. Sentia-se
irritado, inquieto e infeliz.
Estirado na cama, ainda lhe parecia vê-la sentada no canto da carruagem, com o
xale de croché na cabeça. Não sabia como passar as horas que deviam decorrer até que
tornasse a pôr-lhe os olhos em cima. Pensava, sonolento, no seu rosto fino, de feições
delicadas, e na palidez esverdeada da sua pele. Não era feliz a seu lado, mas longe dela
sentia-se infeliz. Queria estar junto dela, a contemplá-la, queria tocar-lhe, queria... -
veio-lhe um pensamento que não completou, e de súbito ficou bem acordado - ...queria
beijar-lhe os lábios pálidos e delgados. A verdade chegou afinal. Estava apaixonado
por ela. Era incrível!
Pensara muitas vezes em se apaixonar e uma cena havia que repetidamente
imaginara. Via-se a entrar num salão de baile; os seus olhos pousavam num pequeno
grupo de homens e mulheres, entretidos em conversa; uma delas voltava-se. Os olhares
de ambos encontravam-se e ele sabia que ela sentira também aquela mesma opressão
na garganta. Ficava imóvel. Era alta, bela e morena, de olhos cor da noite; estava
vestida de branco e nos seus cabelos negros fulgiam brilhantes. Ficavam a contemplarse,
esquecidos das pessoas em redor. Ele dirigia-se para ela, e ela avançava na sua
direcção. Ambos sentiam que a formalidade de uma apresentação estaria deslocada.
Ele falava-lhe.
- Andei a procurar-te toda a vida - dizia ele.
- Chegaste por fim - murmurava ela.
- Queres dançar comigo?
Ela atirava-se-lhe aos braços e começavam a dançar. (Philip fazia de conta que
não era coxo) Ela dançava divinamente.
- Nunca tive um par que dançasse como tu - sussurrava ela.
Rasgava o carnet de baile e ficavam a dançar toda a noite.
- Dou graças por te haver esperado - dizia-lhe ele. - Sempre senti que por fim te
encontraria.
Os outros olhavam-nos. Pouco se lhes dava. Não queriam ocultar a sua paixão.
Iam depois para o jardim. Ele cobria-lhe os ombros com um manto muito leve e levavaa
para o carro que os esperava. Tomavam o comboio da meia-noite para Paris; e,
através da noite silenciosa e estrelada, corriam para o desconhecido.
Ao lembrar-se desse velho sonho, parecia-lhe impossível que estivesse apaixonado
por Mildred Rogers. Era um nome grotesco. Não a achava bonita; detestava-lhe a
magreza; só naquela noite em que a vira decotada lhe notara a saliência dos ossos. Uma
a uma, recompôs-lhe as feições. Não gostava da boca e sentia uma vaga repulsa pela
sua cor doentia. Era vulgar. As suas frases, tão grosseiras e raras, repetidas constantemente,
demonstravam a vacuidade do espírito. Recordou-se do riso grosseiro que lhe
provocavam as graças da comédia; lembrou-se do dedinho cuidadosamente estendido
quando levava o copo à boca. Das maneiras, como na conversa, afectava uma distinção
odiosa. A sua insolência veio-lhe à mente; às vezes, sentia desejos de dar-lhe um tabefe;
e, de repente, sem saber por quê - talvez pela ideia de maltratá-la ou pela lembrança
daquelas orelhas minúsculas e bonitas - foi arrebatado por uma onda de comoção.
Desejou-a com veemência. Imaginou tomá-la nos braços, enlaçar aquele corpo delgado
e frágil, beijar-lhe os lábios descorados; veio-lhe uma vontade de passar os dedos
naquelas faces levemente esverdeadas. Queria-a.
Imaginara o amor como um arrebatamento que se assenhoreasse das pessoas, de
tal modo que o mundo pareceria em plena Primavera. Esperara uma felicidade
extática; mas aquilo não era felicidade - era uma fome de alma, um desejo doloroso,
uma angústia amarga que ainda não conhecia. Tentou descobrir em que momento
aquilo começara. Não conseguiu. Lembrava-se apenas de que, ao entrar na casa de chá,
depois das primeiras vezes que lá fora, levava sempre no coração um leve sentimento
de dor. Recordava-se de que, quando ela lhe falava, sentia uma opressão estranha no
peito. Quando ela o deixava, era o sofrimento e quando ela voltava era o desespero.
Estirou-se na cama como costumam estirar-se os cães. Pensou em como
suportaria na alma aquela dor sem trégua.
LVIII
Philip acordou cedo, na manhã seguinte, e o seu primeiro pensamento foi para
Mildred. Ocorreu-lhe que podia encontrá-la na Estação de Vitória e acompanhá-la até à
casa de chá. Barbeou-se apressado, enfiou atabalhoadamente o fato e tomou o ónibus
para a estação. às oito menos vinte, lá estava a observar os comboios que chegavam.
àquela hora da manhã, empregados e empregadas de lojas e escritórios atiram-se dos
vagões aos magotes, acotovelam-se na plataforma, precipitando-se para a saída, ora aos
pares, aqui e ali em grupos, porém sozinhos na maioria dos casos. Pálidos, quase todos
tinham o olhar abstracto, e a luz matinal dava-lhes uma aparência desagradável. Os
mais novos avançavam lépidos, como se tivessem prazer em palmilhar o cimento da
plataforma; mas os outros caminhavam como que movidos por mecanismo, com os
rostos contraídos numa carranca ansiosa.
Por fim, Philip avistou Mildred e dirigiu-se para ela, sôfrego.
- Bom dia - disse. - Pensei em vir saber como estava, depois da noite de ontem.
Ela trazia um velho impermeável castanho e um chapéu de oleado. Era evidente
que não sentia prazer em vê-lo.
- Ora... Estou bem. Não tenho muito tempo a perder.
- Não faz mal que a acompanhe pela Victoria Street?
- Já estou atrasada. Preciso de caminhar depressa - respondeu ela, olhando para o
pé de Philip.
Ele fez-se escarlate.
- Desculpe. Não quero detê-la.
- Como quiser. ..
Ela continuou a andar e Philip, descoroçoado, foi para casa tomar o pequeno
almoço. Odiava-a. Sabia que era tolice incomodar-se por causa dela; não era mulher
que jamais lhe desse a mínima importância, e olharia sempre com repulsa para a sua
deformidade. Resolveu não ir tomar chá naquela tarde mas, sentindo ódio a si próprio,
foi. Quando entrou, ela acenou-lhe com a cabeça e sorriu.
- Acho que hoje de manhã foi um pouco áspera para o senhor. Não esperava
encontrá-lo, e foi uma surpresa, bem vê.
- Não tem importância.
Sentiu-se de súbito aliviado de um grande peso. Estava-lhe imensamente grato
por aquelas palavras de bondade.
- Por que não se senta? - perguntou. - Ninguém a está agora a chamar.
- Está bem...
Philip olhou para ela mas não achou que dizer. Ansioso, espremia o cérebro à
procura de alguma observação que a pudesse reter a seu lado. Desejava dizer-lhe,
naquele instante, quanto ela significava para ele, mas, agora que amava de verdade,
não sabia como falar de amor.
- Onde está o seu amigo do bigode louro? Não o tenho visto ultimamente.
- Ah... Voltou para Birmingham. Os negócios dele são lá. Só vem a Londres de
vez em quando.
- Está apaixonado por si?
- Pergunte-lhe que é melhor - retorquiu ela com uma gargalhada. - E se estivesse,
não sei o que tem o senhor com isso.
Uma resposta azeda veio-lhe à ponta da língua, mas Philip aprendera a dominarse.
- Só desejava saber por que diz coisas como essa - foi tudo quanto se permitiu
dizer.
Ela contemplou-o com aqueles seus olhos indiferentes.
- Parece que não me estima grande coisa... - recomeçou ele.
- Que razão tenho para isso?
- Nenhuma.
Estendeu a mão para o seu jornal.
- O senhor é muito sensível - disse ela, quando lhe viu o gesto. - Ofende-se por
qualquer coisa.
Ele sorriu e olhou, súplice, para a rapariga.
- Quer fazer-me um favor? - perguntou.
- Depende...
- Deixe que eu a acompanhe até à estação esta noite.
- Tanto me faz.
Philip saiu após o chá e voltou para os seus aposentos, mas, às oito, quando a
casa fechou, esperava-a à porta.
- O senhor é esquisito - disse ela ao sair. - Não o compreendo.
- Não pensei que fosse assim tão difícil - respondeu ele com aspereza.
- Alguma das empregadas o viu à minha espera?
- Não sei nem quero saber.
- Elas riem-se todas do senhor, sabe? Dizem que o senhor está babadinho por
mim.
- Pelo muito que isso lhe importa... - resmoneou ele.
- Não comece a discutir.
Na estação, ele comprou uma passagem e disse que ia acompanhá-la até casa.
- O senhor parece que tem muito tempo... - objectou ela.
- Acho que posso gastá-lo como bem entender.
Pareciam estar na iminência de uma disputa. O facto era que ele se odiava por
amá-la. Dir-se-ia que Mildred estava constantemente a humilhá-lo e, a cada desfeita
que suportava, o seu ressentimento crescia. Aquela noite, porém, ela estava mais
amável e loquaz. Contou-lhe que os pais tinham morrido. Deu-lhe a entender que não
precisava de trabalhar para viver e, se o fazia, era por divertimento.
- Minha tia não gosta que eu trabalhe. Em casa, tenho do bom e do melhor. Não
quero que o senhor pense que trabalho porque tenho necessidade.
Philip sabia que ela não dizia a verdade. O código da classe a que ela pertencia
levava-a a usar esse pretexto para evitar o desdouro de ser obrigada a trabalhar.
- A minha família está muito bem relacionada - continuou ela.
Philip sorriu de leve e ela percebeu-o.
- De que se ri? - perguntou vivamente. - Não acredita que eu falo verdade?
- Claro que acredito - assentiu ele.
Ela lançou-lhe um olhar desconfiado, mas logo a seguir não resistiu à tentação de
impressioná-lo com os seus passados esplendores.
- Meu pai teve sempre carro e tínhamos três criados. Uma cozinheira, uma criada
de dentro e um homem para serviços de fora. Tínhamos rosas que eram uma beleza. As
pessoas chegavam a parar ao portão, para perguntar de quem era a casa que tinha
rosas tão lindas. Não me fica muito bem andar misturada com essas raparigas da casa
de chá. Não é com gente dessa classe que eu estou acostumada a andar, e às vezes até
penso que por causa disso devia de facto de deixar de trabalhar. Não é do trabalho que
me importo, não julgue, é da classe de gente com que me misturo nele.
Estavam sentados um defronte do outro no comboio e Philip, ao escutar com
simpatia o que ela contava, sentia-se perfeitamente feliz. Aquela naïveté divertia-o,
comovendo-o um pouco. Notou uma cor muito leve nas faces dela, e achou que seria
delicioso beijá-la no queixo.
- Quando o senhor entrou lá em casa, vi que se tratava de um cavalheiro, em toda
a extensão da palavra. Seu pai era formado?
- Era médico.
- Conhece-se logo um homem formado. Têm qualquer coisa especial. Não sei o
que é, mas conheço logo.
Saíram juntos da estação.
- Olhe, quero que vá comigo ao teatro outra vez - pediu ele
- Tanto me faz - replicou ela.
- Ao menos podia dizer que gostaria de ir.
- Porquê?
- Não tem importância. Vamos marcar o dia. Sábado a noite, serve?
- Sim, pode ser.
Combinaram outros pormenores e por fim pararam na esquina da rua onde ela
morava. Ela estendeu-lhe a mão, e ele segurou-a.
- Escute, tenho imensa vontade de tratá-la por tu...
- Se quiser, pode tratar, pouco se me dá.
- E tratar-me-ás por Philip, queres?
- Se não me esquecer... Acho mais natural chamar-lhe Mr. Carey.
Philip atraiu-a um pouco a si, mas Mildred inclinou-se para trás.
- Que é isso?
- Não queres dar-me um beijo de despedida? - sussurrou.
- Que atrevimento!
Retirou a mão bruscamente e caminhou apressada para casa.
Philip comprou bilhetes para a noite de sábado. Não era dia de ela sair cedo e
portanto não teria tempo de ir a casa mudar de fato. Pretendia, porém, trazer um
vestido consigo pela manhã e vesti-lo à pressa na casa onde trabalhava. Se a gerente
estivesse de bom humor, deixá-la-ia sair às sete. Philip combinara esperá-la na esquina
a partir de um quarto para as sete. Aguardava esse momento com dolorosa
sofreguidão, porque, no trem, durante o trajecto do teatro à estação, julgava que ela se
deixaria beijar. O veículo oferecia todas as facilidades para passar o braço em torno da
cintura de uma rapariga (os trens daquele tempo tinham essa vantagem sobre os táxis
de hoje) e só esse prazer compensava as despesas da noite.
Mas na tarde de sábado, quando foi tomar o seu chá, a fim de confirmar o
combinado, encontrou o homem do bigode louro que ia a sair. Sabia já que ele se
chamava Miller. Era um alemão naturalizado, que inglesara o nome e morava em
Inglaterra havia muitos anos. Philip ouvira-o falar e, embora o seu inglês fosse fluente
e natural, não tinha a entoação do inglês nato. Philip sabia que ele cortejava Mildred e
tinha um ciúme horrível. Consolava-se, todavia, com a frieza do temperamento dela,
que por outro lado o fazia sofrer. E, julgando-a incapaz de paixão, não achava que o
rival estivesse em situação muito melhor do que a sua. Mas agora o coração desfalecia,
pois a sua primeira ideia foi que o súbito aparecimento de Miller prejudicaria a noite
que aguardara com tanta ansiedade. Entrou cheio de horríveis apreensões. A jovem
aproximou-se dele, perguntou-lhe o que queria e em seguida serviu-o.
- Sinto muito - disse com uma expressão de mágoa sincera. - Esta noite não posso
sair.
- Porquê? - perguntou Philip.
- Não faça essa cara tão séria - riu ela. - A culpa não é minha. Minha tia adoeceu a
noite passada. E, como é a noite de folga da criada, tenho de ir cuidar dela. Não pode
ficar sozinha, não acha?
- Não importa. Acompanho-te até casa.
- Mas comprou os bilhetes. Seria uma pena não os aproveitar...
Philip tirou-os do bolso e rasgou-os ostensivamente.
- Por que fez isso?
- Achas então que vou assistir sozinho a uma revista ordinária? Só comprei as
entradas por tua causa.
- Não pode acompanhar-me a casa, é o que quero dizer.
- Arranjaste outros compromissos.
- Não sei o que quer dizer com isso. É tão egoísta como os outros. Não pensa em
mais ninguém. Não tenho culpa de que a minha tia não esteja bem.
Somou apressadamente a nota de despesa e retirou-se. Philip conhecia pouco as
mulheres, pois de contrário saberia que um homem deve aceitar-lhes as mentiras mais
transparentes. Resolveu ficar de vigia à casa, para ver ao certo se Mildred saía ou não
com o alemão. Tinha a lamentável paixão de certificar-se de tudo. às sete, postou-se no
passeio fronteiro. Observou os arredores, à procura de Miller, mas não o viu. Ao fim de
dez minutos, Mildred saiu; trazia a capa e o xale que usava quando Philip a levara ao
Shaftesbury Theatre. Era evidente que não ia para casa. Avistou Philip, antes que este
tivesse tempo de se afastar, teve um pequeno sobressalto e depois caminhou direita a
ele.
- Que faz aqui? - perguntou.
- Tomo ar - respondeu ele.
- Está mas é a espiar-me, seu ordinário! Pensei que fosse um cavalheiro.
- Achas que um cavalheiro podia interessar-se por ti? - murmurou Philip.
Tinha dentro de si um demónio que o forçava a agravar as coisas. Desejava feri-la
tanto como ela o feria.
- Acho que posso mudar de ideia quando me dá vontade. Não sou obrigada a
sair consigo. Já disse que vou para casa e não quero ser seguida nem espiada.
- Viste Miller hoje?
- Não é da sua conta. Para falar a verdade, não o vi. Enganou-se outra vez.
- Avistei-o esta tarde. Saía da casa de chá quando eu entrava.
- Pois bem, e daí? Posso sair com ele se quiser, não posso? Não sei o que é que
tem com isso.
- Ele está a fazer-te esperar, não é assim?
- Pois saiba... prefiro esperar por ele a ver você à minha espera. Assoe-se a esse
guardanapo. Pode ir-se embora e para outra vez não se meta no que não é da sua
conta.
Philip passou repentinamente da cólera ao desespero, e quando falou, a voz
tremia-lhe:
- Escuta, não me trates tão mal, Mildred. Sabes quanto gosto de ti. Amo-te de
todo o coração. Por que não resolves o contrário? Tinha tanto gosto em levar-te ao
teatro esta noite... Vês, ele não veio, não faz o menor caso de ti. Não queres jantar
comigo? Compro outras entradas e vamos aonde quiseres.
- Já disse que não vou. Não vale a pena falar. Já resolvi, e quando digo uma coisa
não volto atrás.
Philip contemplou-a um instante. Tinha o coração dilacerado de angústia.
Passavam pessoas apressadas pelo passeio, e os carros e ónibus rodavam estrepitosos.
Notou que os olhos de Mildred procuravam alguém. Temia perder Miller no meio da
multidão.
- Não posso continuar assim - gemeu Philip. - é por de mais degradante. Se me
for agora será para sempre. Se não saíres comigo esta noite, nunca mais me verás.
- Parece pensar que eu fico muito sentida com isso... O que posso dizer é que
bons ventos o levem!
- Então adeus.
Inclinou a cabeça e afastou-se lentamente, a coxear; esperava do fundo da alma
que ela o chamasse. Parou junto do primeiro poste e olhou por cima do ombro.
Pensava que ela lhe acenaria - estava pronto a esquecer tudo, estava disposto a
qualquer humilhação - mas ela voltara as costas e parecia ter deixado de pensar nele
Philip compreendeu que ela estava satisfeita por se ver livre dele.
LIX
Philip passou uma noite atribulada. Dissera à dona da casa onde morava que não
voltaria e por isso não encontrou que comer; teve de ir jantar ao Gatti. Voltou depois
para os seus aposentos, mas Griffiths divertia-se com os amigos, no andar superior, e
essa alegria ruidosa tornava-lhe a infelicidade ainda mais difícil de suportar. Foi a um
teatro de variedades, mas era sábado e não havia lugares: ficou de pé. Depois de
enfastiar-se meia hora, sentiu as pernas cansadas e foi para casa. Tentou ler, mas não
pôde fixar a atenção, embora precisasse de estudar. O exame de biologia estava
marcado para dali a menos de quinze dias e, conquanto fosse fácil, ultimamente faltara
às aulas e sabia não estar preparado. Era apenas uma prova oral e Philip estava certo
de que, numa quinzena, aprenderia da matéria o suficiente para passar. Confiava na
sua inteligência. Atirou o livro para o lado e entregou-se deliberadamente aos
pensamentos que não lhe saíam do espírito.
Censurou-se amargamente pela maneira como se conduzira aquela noite. Por que
pusera Mildred na alternativa de jantar com ele ou não voltar a vê-lo? A recusa era
certa. Devia ter contado com o orgulho dela. Cortara a própria retirada! Aquilo não
seria tão difícil de suportar se soubesse que ela também sofria, mas conhecia-a de
sobejo: tinha por ele a mais completa indiferença. Se não fosse tolo, podia ter fingido
acreditar nas suas histórias. Devia ter tido força para ocultar o desapontamento e
dominar o furor. Não saberia dizer por que a amava. Lera muito a respeito da
idealização do ser amado, mas sabia exactamente como ela era. Mildred não era jovial
nem inteligente, tinha o espírito comum e uma astúcia vulgar que o revoltava; nela não
havia delicadeza nem afabilidade.
Como ela própria diria, «não nascera ontem». A coisa que mais lhe despertava a
admiração era uma boa peça pregada a uma pessoa de boa fé. «Levar» alguém
causava-lhe sempre satisfação. Philip ria, ao pensar nas suas «boas maneiras» e no
refinamento com que ela comia. Não suportava uma palavra rude, e, até onde lhe
permitia o seu limitado vocabulário, tinha a paixão do eufemismo e farejava indecência
em toda a parte. Jamais diria «calças», mas «roupa de baixo». Achava um tanto
indelicado assoar o nariz e fazia isso com um ar de quem pede desculpa.
Extremamente anémica, sofria por isso de dispepsia e das consequentes indisposições.
Philip sentia repulsa pelo seu busto sem relevo e pelas ancas estreitas, e detestava
aqueles penteados vulgares. Odiava-se e desprezava-se por amá-la.
O caso é que continuava desamparado. Tinha a mesma sensação de quando, na
escola, caía nas mãos de um colega maior do que ele. Lutava contra a força superior até
que a sua própria se esgotava e entregava-se exausto, sem poder mais consigo.
Lembrava-se daquela singular lassidão dos membros, que era quase uma paralisia. Era
como se estivesse morto. Sentia agora esta mesma fraqueza. Amava aquela mulher
como jamais amara. Pouco lhe importavam os defeitos físicos ou de carácter, parecialhe
também. Pelo menos nada significavam para ele. Era como se aquilo nada tivesse a
ver com a sua pessoa; sentia que fora arrebatado por alguma força estranha que o
impelia contra sua vontade e contra os seus interesses. E, porque tivesse a paixão da
liberdade, odiava as cadeias que o prendiam. Riu sozinho ao pensar em quanto ansiara
por uma paixão absorvente. Amaldiçoava-se agora por lhe ter cedido. Lembrou-se do
começo; nada de tudo aquilo aconteceria se ele não tivesse ido com Dunsford à casa de
chá. Tudo fora culpa sua. Não fora a sua ridícula vaidade, nunca daria importância
àquela porca mal-educada.
Fosse como fosse, os acontecimentos daquela noite tinham posto fim a tudo. Não
podia voltar atrás, a não ser que perdesse toda a dignidade. Queria libertar-se do amor
que o obcecava. Era degradante e odioso. Devia afastá-la do pensamento. Dentro em
pouco, aquela angústia diminuiria. O seu espírito voltou ao passado. Ficou a pensar se
Emily Wilkinson e Fanny Price teriam sofrido por sua causa algo de parecido com o
tormento por que passava agora. Sentiu um baque de remorso.
«Eu nem imaginava o que fosse isto», disse para consigo.
Dormiu muito mal. No dia seguinte, domingo, estudou biologia. Sentou-se com o
livro diante dos olhos, formando as palavras com os lábios, a fim de fixar a atenção.
Mas não conseguia reter coisa alguma. O pensamento voltava a todo o instante para
Mildred e repetia mentalmente a discussão, palavra por palavra. Tinha de fazer esforço
para voltar ao livro. Saiu para dar um passeio. As ruas da margem meridional do rio
estavam bastante sujas nos dias de semana, mas havia uma energia, um vaivém que
lhes emprestavam uma vivacidade sórdida; nos domingos, porém, sem as lojas abertas,
sem as carroças, silenciosas e desanimadas, essas ruas eram de uma desolação
indescritível. Philip tinha a impressão de que o dia nunca mais acabava. Estava, porém,
tão cansado que dormiu pesadamente e na segunda-feira entrou na vida resoluto.
Aproximava-se o Natal e bom número de estudantes fora passar nas suas terras as
pequenas férias entre as duas partes do período de Inverno. Philip, porém, recusara o
convite do tio para ir a Blackstable. Desculpara-se com a proximidade do exame, mas
na verdade não queria afastar-se de Londres e de Mildred. Neglicenciara tanto o
trabalho, que só lhe restava agora uma quinzena para aprender o que era ensinado em
três meses. Pôs-se a trabalhar a sério. Cada dia achava mais fácil não pensar em
Mildred. Congratulava-se pela sua força de carácter. A dor que sofria já não era
angústia, mas uma espécie de hipersensibilidade semelhante à que se segue a uma
queda de cavalo, quando, embora não se tenha partido osso algum, se fica abalado e
cheio de escoriações. Philip viu que era capaz de observar com curiosidade as
condições em que vivera nas últimas semanas. Analisava os próprios sentimentos com
interesse. Achava certa graça em si próprio. Uma coisa lhe chamou a atenção: em tais
circunstâncias, importa muito o que se possa pensar. O sistema de filosofia pessoal que
tanta satisfação tivera em arquitectar não lhe servira. Estava intrigado com isso.
Às vezes, porém, quando ia na rua alguma rapariga que se parecia com Mildred,
o coração como que parava de bater. Então, sem se conter, apressava-se para alcançála,
sôfrego e ansioso, para no fim verificar que se tratava de uma desconhecida. Os
colegas voltaram do campo e Philip foi com Dunsford tomar chá num restaurante A. B.
C. O uniforme que tão bem conhecia despertou-lhe tal angústia que não pôde falar.
Veio-lhe a ideia de que talvez Mildred tivesse sido transferida para outra sucursal da
firma para a qual trabalhava e de súbito pudessem encontrar-se frente a frente com ela.
Esse pensamento encheu-o de terror. E se Dunsford lhe notasse a perturbação? Não
encontrava que dizer. Fingia escutar o que o outro lhe contava; a conversa
desesperava-o e o mais que podia fazer era dominar-se para não lhe pedir aos gritos
que, por amor de Deus, calasse a boca.
Veio o dia do exame. Quando chegou a sua vez, Philip dirigiu-se para a banca
examinadora com a maior confiança. Respondeu a três das quatro perguntas.
Mostraram-lhe depois vários espécimes; assistira a poucas aulas e, logo que o
interrogaram sobre coisas que não podia aprender nos livros, não soube responder. Fez
o que pôde para ocultar a sua ignorância; o examinador não insistiu e em breve se
passaram os dez minutos regulamentares. Tinha a certeza de que fora aprovado. No
dia seguinte, porém, quando foi ver o resultado afixado na porta, ficou pasmado por
não encontrar o seu número entre os outros. Muito admirado, percorreu a lista três
vezes. Dunsford estava com ele.
- É pena que te reprovassem - disse.
Acabara de perguntar pelo número de Philip. Este voltou-se e no rosto radiante
do amigo, viu que ele passara.
- Ora, não tem importância - disse Philip. - Ainda bem que tu escapaste. óptimo!
Em Julho, torno a apresentar-me.
Ansiava por levar o outro a pensar que se não importava. Na volta, caminhando
ao longo do Embankment, insistiu em falar de coisas diferentes. Dunsford, sempre
bem-intencionado, queria discutir as causas do malogro de Philip; este porém
obstinava-se em parecer despreocupado. Estava horrivelmente mortificado; e o êxito
de Dunsford, que ele considerava um sujeito muito simpático mas obtuso, tornava a
sua derrota mais difícil de suportar. Sempre se orgulhara da própria inteligência e
agora perguntava a si próprio, desesperado, se não estaria enganado na opinião que
fazia das suas aptidões. Nos três meses do período de Inverno, os estudantes
matriculados em Outubro tinham já os seus grupos e, de um modo geral, tornara-se
visível quais eram os brilhantes, quais os inteligentes ou aplicados e quais os «casos
perdidos». Philip estava cônscio de que a sua reprovação não fora surpresa senão para
ele próprio. Era a hora do chá e sabia que numerosos colegas se encontrariam a tomá-lo
no rés-do-chão da Escola de Medicina; os que tinham passado nos exames estariam
exultantes, os que não gostavam dele haviam de lançar-lhe um olhar de satisfação e os
pobres diabos que tinham sido reprovados tratá-lo-iam com simpatia, a fim de
receberem o mesmo tratamento. O seu impulso era afastar-se do hospital e voltar
passado uma semana, quando ninguém mais pensasse naquilo. Mas foi, precisamente
porque lhe repugnava a ideia de ir. Queria infligir-se um sofrimento. Esqueceu
momentaneamente o seu princípio de «seguir na vida as próprias inclinações com o
devido respeito ao polícia ao virar da esquina»; ou, se procedia de acordo com essa
máxima, devia existir na sua natureza qualquer coisa de estranhamente mórbido que o
levava a experimentar sinistro prazer em se torturar.
Mais tarde, porém, quando, suportada a provação que se impusera, saiu para a
noite, depois da ruidosa conversa na sala de fumo, sentiu-se dominado por um
sentimento de profunda solidão. Philip achava-se absurdo e inútil. Sentiu uma
necessidade urgente de consolo e a tentação de ver Mildred era irresistível. Pensou
amargamente que havia bem pouca esperança de consolação da parte dela; mas queria
vê-la, mesmo que fosse para não lhe falar. No fim de contas, sendo uma empregada da
casa de chá, seria obrigada a servi-lo. Era, no mundo inteiro, a única pessoa com quem
se importava. Inútil esconder esse facto de si próprio. Naturalmente, seria humilhante
voltar àquela casa como se nada tivesse acontecido, mas já não tinha muito amorpróprio.
Embora não o confessasse, nem mesmo a si, passara aqueles dias na ilusão de
que ela lhe escreveria. Ela sabia que uma carta endereçada ao hospital chegaria às mãos
dele; mas não escrevera: era evidente que pouco lhe importava tornar ou não a vê-lo. E
continuava a repetir para consigo:
- Preciso de vê-la. Preciso de vê-la.
O desejo era tão grande que Philip não teve paciência de ir a pé: saltou para um
carro. Era muito económico e jamais tomava um carro quando podia evitá-lo. Ficou em
frente da casa de chá por instantes. Veio-lhe a ideia de que talvez ela tivesse deixado o
emprego e, aterrado, apressou-se a entrar. Viu-a no mesmo instante. Sentou-se e ela
aproximou-se.
- Chá e um sonho, se faz favor - pediu.
Mal podia falar. Por um momento, teve medo de romper em pranto.
- Pensei que tinha morrido - disse Mildred.
Sorria. Sorria! Parecia ter esquecido por completo aquela última cena que Philip
relembrara uma centena de vezes.
- Pareceu-me que se quisesses ver-me, terias escrito - retorquiu.
- Tenho muito que fazer para escrever cartas.
Decididamente, era-lhe impossível dizer uma palavra amável. Philip amaldiçoou
o destino que o acorrentara a semelhante mulher. Mildred foi buscar-lhe o chá.
- Gostaria que eu me sentasse um pouco? - perguntou ao voltar.
- sim.
- Onde esteve todo este tempo?
- Em Londres.
- Pensei que tivesse ido para férias. Por que não apareceu, então?
Philip contemplou-a com os olhos ansiosos e apaixonados.
- Não te lembras de eu ter dito que nunca mais te veria?
- O que está então a fazer agora? Parecia querer que ele bebesse até o fim o cálice
da humilhação; mas Philip conhecia-a o bastante para saber que ela falava à toa;
magoava-o terrivelmente, sem ter tal intenção. Não respondeu.
- Foi uma partida suja o que fez, espiar-me daquela maneira. Sempre pensei que
fosse um cavalheiro em toda a extensão da palavra.
- Não sejas má para mim, Mildred. Não posso suportar isso.
- Você é um tipo engraçado! Não consigo entendê-lo.
- É muito simples. Sou um idiota tão grande que te amo de corpo e alma, e sei
que não me ligas nenhuma.
- Se fosse um cavalheiro, creio que teria vindo pedir-me perdão no dia seguinte.
Era impiedosa. Philip contemplou-lhe o pescoço e pensou em quanto gostaria de
cravar nele a faca destinada a comer o sonho. Sabia o bastante de anatomia para não
errar a carótida. E, ao mesmo tempo, queria cobrir de beijos aquele rosto miúdo e
pálido.
- Se ao menos pudesse fazer-te compreender quanto te amo...
- Ainda não me pediu perdão.
Philip tornou-se muito pálido. Ela achava que não tinha a menor culpa e queria
agora que ele se humilhasse. Philip era muito orgulhoso. Por um instante, esteve
tentado a mandá-la para o inferno, mas não se atreveu. A paixão tornava-o abjecto.
Estava pronto a submeter-se a tudo, menos a deixar de vê-la.
- Sinto muito, Mildred. Peço-te que me perdoes.
Teve de arrancar as palavras à força. Foi um esforço terrível.
- Agora que pediu perdão, não me importo de lhe dizer que preferia ter saído
consigo aquela noite. Pensei que Miller fosse um cavalheiro, mas vi que estava
enganada. Mandei-o passear.
Philip suspirou levemente.
- Mildred, não queres sair comigo esta noite? Vamos jantar a qualquer sítio.
- Oh, não posso. Minha tia espera-me em casa.
- Manda-se um telegrama. Podes dizer que tiveste que ficar no emprego; ela não
desconfiará. Oh, por favor, vamos! Pelo amor de Deus! Não te vejo há tanto tempo e
quero conversar contigo.
Mildred baixou o olhar para o vestido.
- Não te preocupes com isso. Vamos a qualquer parte onde se possa estar à
vontade. E depois iremos às variedades. Dize que sim, por favor. Dar-me-ias tanto
prazer...
A rapariga hesitou um momento. Philip olhava para ela com expressão súplice e
lastimosa.
- Está bem, não é má ideia. Nem sei ao tempo que não vou a parte alguma.
Foi com a maior dificuldade que ele dominou o ímpeto de tomar-lhe a mão e ali
mesmo cobri-la de beijos.
LX
Jantaram no Soho. Philip estava trémulo de alegria. Não era aquele um dos mais
frequentados desses restaurantes baratos onde as pessoas respeitáveis e de pouco
dinheiro jantam, na convicção de que isso é boémio e na certeza de que é económico.
Era um humilde estabelecimento, mantido por um homem de Ruão e pela mulher e
que Philip descobrira por acaso. Sentira-se atraído pela aparência gaulesa da vitrina,
onde se via geralmente um bife cru num prato, ladeado por duas travessas de salada.
As mesas eram servidas por um cediço criado francês que tentava aprender o inglês
numa casa onde nunca ouvia outra língua senão o francês; e os fregueses eram umas
tantas senhoras de virtude fácil, um ou dois ménages que tinham guardanapos
reservados, e alguns homens estranhos que ali entravam para comer refeições parcas e
apressadas.
Philip e Mildred conseguiram uma mesa para ambos. Philip mandou o criado
buscar uma garrafa de Borgonha à taberna mais próxima. Foi-lhes servido potage aux
herbes, um bife dos da vitrina aux pommes e uma omelette au kirsch. O jantar e o ambiente
tinham um ar romântico. Mildred, a princípio um tanto reservada na sua apreciação -
«Não confio muito nos restaurantes estrangeiros, a gente nunca sabe o que põem
nesses pratos complicados» - ficou pouco a pouco encantada com tudo.
- Gosto deste lugar, Philip - disse ela. - A gente até pode pôr os cotovelos sobre a
mesa, não acha?
Entrou um tipo alto, de juba grisalha, barba rala e descuidada. Vestia uma capa
andrajosa e um chapéu de copa baixa. Fez uma inclinação de cabeça para Philip, que já
o encontrara ali.
- Parece um anarquista - disse Mildred.
- E é mesmo. Um dos mais perigosos da Europa. Esteve em todas as prisões do
Continente, e assassinou mais gente que qualquer outro cavalheiro escapado à forca.
Anda sempre com uma bomba no bolso, e, é claro, isso torna a conversa um pouco
difícil porque, quando discordam dele, o homem põe a bomba em cima da mesa com
um gesto significativo.
Mildred considerou com horror e surpresa o recém-chegado e depois lançou a
Philip um olhar desconfiado. Viu-lhe a expressão divertida dos olhos. Franziu o
sobrolho.
- Está a rir-se à minha custa.
Ele soltou uma risada jovial. Sentia-se tão feliz... mas Mildred não gostava que
rissem à custa dela.
- Não vejo que graça tenha dizer mentiras.
- Não te zangues.
Tomou-lhe a mão que estava sobre a mesa, e apertou-a suavemente.
- Tu és tão querida que eu era capaz de beijar o chão que pisas - disse ele.
A palidez esverdeada da pele de Mildred inebriava-o e os lábios finos e brancos
tinham uma fascinação extraordinária. A anemia tornava-lhe a respiração um tanto
curta e ela conservava a boca entreaberta. Isso parecia acrescentar-lhe alguma coisa ao
encanto do rosto.
- Gostas um bocadinho de mim, não gostas? - perguntou.
- Ora, se não gostasse estava aqui? Você é um cavalheiro em toda a extensão da
palavra, não se pode negar.
Tinham acabado de jantar e tomavam o café. Atirando a economia pela janela,
Philip fumava um charuto caro.
- Não podes imaginar que prazer é para mim estar aqui sentado na tua frente, a
olhar-te. Suspirava por ver-te. A tua falta punha-me doente.
Mildred sorriu um pouco e corou de leve. Naquele momento, não sofria da
dispepsia que geralmente a atacava logo após as refeições. Nunca se sentira tão bem
disposta para com Philip e a desusada ternura dos seus olhos enchia-o de alegria.
Sabia, por instinto, que era loucura entregar-se-lhe nas mãos; a sua única esperança
estava em tratá-la com desapego e nunca permitir que Mildred visse a paixão
indomável que lhe fervia no peito. Ela aproveitar-se-ia da sua fraqueza; mas nesse
momento não podia conduzir-se com prudência: disse-lhe toda a agonia que suportara
durante a separação; contou-lhe as lutas íntimas, como tentara dominar aquela paixão,
e como, pensando tê-lo conseguido, descobrira por fim que estava mais forte do que
nunca. Sabia que jamais quisera realmente livrar-se dela. Amava Mildred de tal
maneira, que não lhe importava o sofrimento. Pôs o coração a nu diante dela. Mostroulhe,
com orgulho, toda a sua fraqueza.
Nada seria mais agradável a Philip do que continuar sentado naquele modesto e
cómodo restaurante; mas sabia que Mildred desejava divertir-se. Era irrequieta e, onde
quer que se encontrasse, passado algum tempo, queria ir para outro lugar. Philip
receava enfastiá-la.
- E se fôssemos ao teatro de variedades? - sugeriu.
Pensara subitamente que se ela de facto se interessasse por ele, preferiria ficar
onde estavam.
- Estava mesmo a pensar que se vamos a algum sítio já é tempo de sairmos -
respondeu ela.
- Vamos, então.
Philip esperou com impaciência o fim da representação. Já resolvera
precisamente o que faria e, quando entraram no trem, passou-lhe o braço em torno da
cintura como se fosse um gesto inadvertido. Mas retirou-o vivamente, com uma fraca
exclamação. Picara-se.
Ela riu-se.
- É bem feito, para não colocar o braço onde não deve. Sei sempre quando os
homens tentam abraçar-me pela cintura. Nunca deixam de se picar nesse alfinete.
- Terei mais cuidado.
Tornou a abraçá-la. Ela não se opôs.
- Sinto-me tão bem... - suspirou ele, radiante.
- Se isso o torna feliz... - retorquiu ela.
O trem desceu a St. James Street e penetrou no Parque; Philip beijou-a
rapidamente. Estava estranhamente receoso e esse gesto exigiu toda a sua coragem.
Mildred ofereceu-lhe os lábios em silêncio. Se aquilo não lhe desagradava, também não
parecia dar-lhe qualquer prazer.
- Se ao menos soubesses há quanto tempo eu desejo isto... - murmurou ele.
Tentou beijá-la outra vez, mas Mildred desviou o rosto:
- Uma vez chega.
Na esperança de beijá-la novamente, continuou até Herne Hill, e, ao fim da rua
onde ela morava, perguntou:
- Não queres dar-me outro beijo?
Ela deitou-lhe um olhar indiferente e, depois, olhou em torno, para ver se havia
alguém.
- Tanto me faz.
Philip tomou-a nos braços e beijou-a apaixonadamente, mas ela repeliu-o.
- Cuidado com o meu chapéu, estúpido. Que desastrado! - exclamou.
LXI
Depois, viu-a todos os dias. Começou a tomar os seus almoços na casa de chá,
mas Mildred opôs-se, dizendo que as outras podiam falar. Teve, assim, de contentar-se
com o chá da tarde. Mas esperava-a sempre para acompanhá-la até a estação. Uma ou
duas vezes por semana, jantavam juntos. Deu-lhe pequenos presentes, um bracelete de
ouro, luvas, lenços e coisas semelhantes. Estava a gastar mais do que lhe permitiam os
seus recursos, mas era impossível evitá-lo: só quando dava alguma coisa a Mildred ela
lhe mostrava um pouco de afeição. A rapariga sabia o preço de tudo e a sua gratidão
era exactamente proporcional ao valor do presente. Philip não cuidava disso. Sentia-se
demasiado feliz quando ela o beijava espontaneamente, para se lembrar da maneira
como conseguia essas demonstrações. Descobriu que ela achava aborrecido passar os
domingos em casa, portanto ia à Herne Hill pela manhã, encontrava-a no começo da
rua e acompanhava-a à igreja.
- Eu dantes gostava de ir à igreja - dizia ela. - Fica bem, não é assim?
Depois voltava para almoçar, enquanto ele tomava uma refeição ligeira num
restaurante, e, à tarde, iam dar uma volta pelo Brockwell Park. Não tinham muito que
dizer um ao outro, e Phillip, desesperado, temendo maçá-la (ela aborrecia-se com
facilidade), espremia os miolos à procura de assunto de conversa. Percebeu que esses
passeios a nenhum dos dois divertiam, mas não se podia conformar com a ideia de
deixá-la e fazia todo o possível para prolongá-los. Por fim, Mildred ficava cansada e de
mau humor. Philip sabia que ela não lhe ligava a menor importância e procurava forçar
um amor que a razão lhe dizia não estar na sua natureza: ela era frígida. Não possuía
direitos sobre ela, mas não podia deixar de ser exigente. Agora que tinham mais
intimidade, achava mais difícil dominar o próprio mau humor; irritava-se com
frequência e não podia evitar dizer-lhe palavras ásperas. Discutiam amiúde e Mildred
passava algum tempo sem lhe falar; isto, porém, reduzia-o sempre à sujeição e ia
procurá-la humildemente. Encolerizava-se consigo próprio, por mostrar tão pouca
dignidade. Sentia ciúmes furiosos, se a via falar com algum freguês, na casa de chá.
Nessas ocasiões, parecia ficar fora de si. Insultava-a então deliberadamente, retirava-se
e depois passava a noite sem sono, a revolver-se na cama, ora furioso, ora com
remorsos. No dia seguinte, ia à casa de chá implorar perdão.
- Não fiques zangada comigo - dizia-lhe. - Gosto tanto de ti que não me posso
conter.
- Qualquer dia, isto acaba mal... - respondia ela.
Philip estava sôfrego por ir à casa de Mildred, a fim de que uma intimidade
maior lhe desse vantagem sobre aquelas relações casuais que ela travava nas horas de
trabalho; mas a rapariga não lho permitia.
- A minha tia havia de achar muito esquisito justificava ela.
Suspeitava ele de que essa recusa fosse devida unicamente à pouca vontade de
lhe apresentar a tia. Mildred descrevera-a como viúva de um homem formado (era a
sua fórmula de distinção) e ele tinha a inquietante desconfiança de que a boa mulher
dificilmente poderia ser considerada distinta. Philip imaginava que, na realidade, não
passasse da viúva de um pequeno comerciante. Conhecia o snobismo de Mildred. Não
encontrava, porém, meios para lhe fazer ver que pouco lhe importava a que classe a tia
pertencesse.
A pior discussão que tiveram foi uma noite, durante o jantar, quando ela lhe
contou que um homem a convidara para ir ao teatro. Philip ficou pálido, com a
fisionomia dura e severa.
- Não vais, não é assim? - disse ele.
- E por que não? É um senhor muito distinto.
- Levar-te-ei aonde quiseres.
- Mas não é a mesma coisa. Não posso andar sempre contigo. E além disso ele
pediu-me que dissesse quando e escolhi uma noite em que não saio contigo. Assim não
te faz diferença.
- Se tivesses o menor sentimento de decência, a menor gratidão, nunca sonharias
em sair com ele.
- Não sei por que fala em gratidão. Se quer referir-se às coisas que me deu, pode
levar tudo outra vez. Não preciso delas.
A voz dela tinha o tom injurioso de certos momentos.
- Não tem graça sair sempre consigo. é sempre, «gostas de mim? gostas de
mim?», até eu ficar agoniada.
Ele sabia que era loucura continuar a perguntar-lhe aquilo, mas não podia conterse.
- Ora...gosto de si, sim - respondia ela.
- Só isso? Eu amo-te de todo o coração.
- O meu modo é assim Sou de poucas falas.
- Se soubesses como ficaria feliz com uma simples palavra tua!
- Bom, o que digo e repito é que os outros têm de aceitar-me como sou. Quem
não gostar que não me procure.
Mas às vezes expressava-se ainda com mais franqueza e quando ele vinha com a
pergunta, respondia:
- Oh! Não comece com isso outra vez.
Philip então ficava carrancudo e silencioso. Odiava-a.
- Se é assim que pensas - disse ele nessa ocasião - não sei por que condescendes
em sair comigo.
- Não sou eu que o procuro, pode ficar bem certo disso, você é que me obriga.
Philip sentiu-se amargamente ferido no seu orgulho e retorquiu furioso:
- Quando não tens quem te leve a teatros e jantares, achas que sirvo e quando
aparece outro, posso ir para o diabo. Muito obrigado, estou farto de servir a tua
conveniência.
- Não permito que ninguém me fale dessa maneira. Vou mostrar-lhe que não
preciso da porcaria do seu jantar.
Ergueu-se, vestiu o casaco e saiu apressada do restaurante. Philip continuou
sentado. Resolveu não se afastar dali, mas dez minutos depois saltou para um trem e
seguiu-a. Calculou que ela tivesse tomado um ónibus para a estação; chegariam, assim,
ao mesmo tempo. Viu-a na plataforma, escondeu-se dela e desceu em Herne Hill do
mesmo comboio. Não queria falar-lhe enquanto não fosse a caminho de casa, ocasião
em que ela não lhe poderia fugir.
Logo que a rapariga deixou a rua principal, ruidosa e cheia de luzes, ele
alcançou-a.
- Mildred! - chamou.
Ela continuou a caminhar sem olhar para trás nem responder. Philip repetiu o
nome. Ela parou, então, e encarou-o.
- Que quer? Vi-o a rondar na Estação de Vitória. Por que não me deixa em paz?
- Estou muito arrependido. Não queres fazer as pazes?
- Não. Estou farta do seu mau génio e dos seus ciúmes. Não me importo, não me
importarei nem nunca hei-de importar-me consigo. Não quero mais nada consigo.
Seguiu caminho rapidamente e ele teve de apressar o passo para acompanhá-la.
- Não tens consideração por mim - disse ele. - É muito fácil ser alegre e amável
quando alguém nos é indiferente. Mas quando se está apaixonado como eu, é duro,
muito duro. Tem piedade de mim. Não importa que não faças caso de mim. Afinal de
contas, isso não depende de ti. Só quero que permitas que eu te ame.
Ela continuava a caminhar em silêncio e Philip viu, com agonia, que estavam
apenas a uma centena de metros da casa onde ela morava. Rebaixou-se. Despejou uma
incoerente história de amor e penitência.
- Se me perdoares só esta vez, prometo que nunca mais terás razão de queixa de
mim. Podes sair com quem quiseres. Ficarei muito contente se saíres comigo quando
não tiveres coisa melhor.
Mildred tornou a parar, porque tinham chegado à esquina onde ele sempre a
deixava.
- Pode ir-se embora. Não quero que vá até à porta.
- Não me irei embora sem me dizeres que estou perdoado.
- Estou farta e refarta de tudo isso.
Ele hesitou um momento, porque teve a intuição de que podia dizer algo que a
comovesse. Sentiu quase um engulho ao pronunciar estas palavras:
- És cruel, já tenho suportado tanta coisa... Não sabes o que é ser aleijado. Está
claro que não gostas de mim. Não posso esperar que gostes...
- Philip, nunca tive essa intenção - respondeu ela vivamente, com um súbito
tremor de piedade na voz. - Sabes que isso não é verdade.
Ele começara a representar e a voz era baixa e ronca.
- Oh! Eu bem o sentia! - disse.
Mildred tomou-lhe a mão e olhou-o e os seus olhos estavam marejados de
lágrimas.
- Juro que isso nunca me fez impressão. só nos primeiros dias, depois não pensei
mais nisso...
Ele mantinha um silêncio sombrio e trágico. Queria fazer-lhe crer que a comoção
o dominava.
- Bem sabes que gosto de ti, Philip. é que às vezes és um pouco impertinente.
Vamos fazer as pazes. Estendeu-lhe os lábios e, com um suspiro de alívio, ele beijou-a.
- Agora, és feliz outra vez? - perguntou ela.
- Doidamente.
Desejou-lhe boa-noite e desceu a rua, apressada. No dia seguinte, Philip levoulhe
um pequeno relógio com um alfinete para pregar no vestido. Era um objecto que
ela cobiçava.
Mas, três ou quatro dias mais tarde, ao trazer o chá, Mildred disse-lhe:
- Lembras-te do que prometeste naquela noite? Vais cumprir, não é verdade?
- Vou.
Sabia com exactidão o que ela queria dizer e estava preparado para as palavras
que se seguiriam.
- É porque vou sair com aquele senhor de quem te falei a outra noite.
- Está bem. Faço votos para que te divirtas.
- Não te importas, pois não?
Ele já tinha um excelente domínio sobre si próprio.
- Não gosto disso - respondeu, a sorrir - mas farei o possível para não te ser
desagradável.
Mildred estava entusiasmada com o passeio e tinha prazer em falar dele. Philip
perguntava a si próprio se ela fazia aquilo para magoá-lo ou simplesmente por falta de
tacto. Estava habituado a desculpar-lhe as crueldades, tendo presente a sua falta de
inteligência. Ela não tinha suficiente perspicácia para perceber quando o magoava.
«Não tem muita graça a gente estar apaixonado por uma rapariga que não tem
imaginação nem senso de humor», pensou ele, enquanto a escutava.
Mas a falta dessas qualidades desculpava-a. Philip sentia que, se não tivesse
percebido isso, jamais poderia perdoar-lhe o sofrimento que ela lhe infligia.
- Ele comprou bilhetes para o Tivoli - disse Mildred. - Pediu que eu escolhesse e
escolhi esse. Vamos jantar no Café Royal. Ele diz que é o lugar mais caro de Londres.
«É um cavalheiro em toda a extensão da palavra» - pensou Philip. Mas cerrou os
dentes para que não lhe escapasse uma única sílaba.
Foi ao Tivoli e viu Mildred com o seu companheiro, um rapaz de rosto imberbe,
cabelos lustrosos e com esse aspecto janota do caixeiro-viajante. Estavam sentados na
segunda fila. Mildred trazia um chapéu preto com plumas de avestruz; ficava-lhe bem.
Ela escutava o companheiro com aquele sorriso tranquilo que Philip conhecia. Não
tinha vivacidade de expressão e só a farsa autêntica podia despertar-lhe o riso. Philip,
porém, viu que ela estava interessada e divertida. Reflectiu. Amargamente que aquele
companheiro, ostentoso e jovial, lhe servia à maravilha. O seu temperamento inerte
fazia com que apreciasse gente barulhenta. Philip tinha o amor da discussão, mas,
nenhum talento para a conversação trivial. Admirava a gaiatice fácil em que eram
mestres alguns dos seus amigos, Lawson, por exemplo. E o sentimento da sua
inferioridade fazia-o tímido e desastrado. As coisas que o interessavam aborreciam
Mildred. Ela esperava que os homens falassem de futebol e de corridas de cavalos, e ele
não conhecia nem uma nem a outra coisa. Ignorava as expressões irresistíveis do
humorismo vulgar.
A letra de forma fora sempre um feitiço para Philip e, nos últimos tempos, a fim
de se tornar mais interessante, pusera-se a ler atentamente The Sporting Times.
LXII
Philip não se abandonou sem luta à paixão que o consumia. Sabia que todas as
coisas humanas são transitórias e por isso devem cessar um dia ou outro. Suspirava
ardentemente por esse dia. O amor era como um parasita no seu coração, nutrindo
uma existência odiosa com o sangue da sua vida. Absorvia-o de modo tão intenso, que
ele não podia encontrar prazer noutra coisa. A princípio, deliciava-se com o encanto do
St. James Park, e, muitas vezes, sentava-se a olhar para os ramos de uma árvore
recortada contra o céu: era como uma estampa japonesa. Encontrava uma sempre nova
magia no lindo Tamisa, com os seus batelões e os seus cais; o céu mutável de Londres
enchera-lhe a alma de agradáveis fantasias. Agora, porém, a beleza nada significava
para ele: ficava entediado e inquieto quando não estava com Mildred. às vezes pensava
que podia consolar a sua tristeza olhando quadros, mas percorria a National Gallery
como um indiferente; e nenhuma tela lhe despertava a atenção. Poderia voltar a
interessar-se por todas as coisas que amara? Fora dedicado à leitura, mas agora os
livros não tinham significado para ele; passava as horas vagas na sala de fumar do
clube do hospital, a folhear revistas intermináveis. Aquele amor era um tormento e
Philip ressentia-se amargamente da sujeição em que ele o mantinha. Estava prisioneiro
e suspirava pela liberdade.
Às vezes acordava pela manhã e nada sentia, a sua alma exaltava-se à ideia de
estar livre e de já não a amar. Dentro em pouco, porém, ao acordar de todo, novamente
a dor se lhe aninhava no coração e ele via que não estava ainda curado. Embora
desejasse Mildred como um doido, desprezava-a. Pensava para consigo que não podia
haver no mundo maior tortura do que amar e ao mesmo tempo desprezar.
À força de analisar o estado dos seus sentimentos e de continuamente discutir
consigo a sua situação, Philip chegou à conclusão de que só se poderia curar daquela
degradante paixão fazendo de Mildred sua amante. Era de privação sexual que ele
sofria e, se pudesse pôr-lhe fim, talvez se libertasse das cadeias intoleráveis que o
prendiam. Sabia que Mildred não se interessava por ele nesse sentido. Quando a
beijava apaixonadamente, ela recuava com um desagrado instintivo. Não tinha
sensualidade. Quando ele tentava provocar-lhe ciúmes, contando-lhe as suas aventuras
em Paris, ela não se interessava. Uma ou duas vezes, sentara-se a outras mesas, na casa
de chá, e fingira namorar uma das outras, mas ela ficava totalmente indiferente. Ele
percebia que não era fingimento dela.
- Não te incomodaste por eu não me ter sentado a uma das tuas mesas hoje? -
perguntou-lhe ele de uma vez, quando a acompanhava à estação. - As tuas, pareciam
estar todas ocupadas.
Isto não era verdade, mas Mildred não o contradisse. Mesmo que aquele
afastamento nada significasse para ela, Philip ficar-lhe-ia agradecido se aparentasse o
contrário. Uma censura teria sido um bálsamo para a sua alma.
- Acho que é uma tolice sentar-se todos os dias à mesma mesa. De vez em
quando, é preciso ajudar também as outras.
Mas quanto mais pensava naquilo, mais se convencia de que a completa rendição
dela seria o único meio de se libertar. Ele era como um cavaleiro dos antigos tempos,
metamorfoseado por sortilégios, que andava à procura dos filtros que deviam restituílo
à forma primitiva. Philip tinha uma única esperança. Mildred desejava muito ir a
Paris. Para ela, como para a maioria dos ingleses, Paris era o centro da alegria e da
moda: ouvira falar do Magasin du Louvre, onde se encontravam os últimos modelos
por metade do preço que custavam em Londres. Uma amiga sua passara a lua-de-mel
em Paris e ficara um dia inteiro no Louvre; «e ela e o marido, meu caro, nunca iam
dormir antes das seis da manhã, todo o tempo que estiveram lá. O Moulin Rouge e não
sei que mais».
Pouco interessava a Philip a maneira pela qual chegasse aos seus fins. Pouco lhe
importava o facto de que, se Mildred cedesse aos seus desejos, seria apenas para
realizar por esse preço forçado o seu capricho de conhecer Paris. Ocorrera-lhe até, certa
vez, a ideia doida e melodramática de narcotizá-la. Tentara fazê-la beber, na esperança
de excitá-la, mas ela não gostava de vinho e, se o via com prazer encomendar
champanhe, porque isso era de bom-tom, nunca bebia mais de meia taça. Gostava de
deixar intacta uma grande taça cheia até às bordas.
- Isto é para mostrar aos criados com quem estão a tratar - dizia.
Philip aproveitou uma ocasião em que ela parecia mais amável que de costume.
Ele tinha um exame de anatomia no mês de Março. Uma semana mais tarde, na Páscoa,
Mildred gozaria três dias inteiros de férias.
- Olha, porque não vamos a Paris? - sugeriu ele. - Passaremos uns dias adoráveis.
- Mas como? Isso custaria muito dinheiro.
Philip pensara nisso. A viagem custar-lhe-ia pelo menos vinte e cinco libras. Para
ele, era uma quantia avultada. Mas estava pronto a gastar com ela o seu último vintém.
- Que tem isso? Diz que vais, querida.
- Era só o que faltava! Então vou viajar sozinha com um homem que não é meu
marido? Nem devia pensar em tal coisa.
- Que mal faz?
Discorreu sobre as belezas da Rue de la Paix e o extravagante esplendor das
Folies Bergère. Descreveu o Louvre e o Bon Marché. Falou-lhe do Cabaret du Néant, da
Abbaye e dos vários lugares frequentados pelos estrangeiros. Pintou com cores
refulgentes o aspecto de Paris que ele próprio desprezava. Insistiu para que ela o
acompanhasse até lá.
- Tu dizes que me amas, mas se amasses de verdade havias de querer casar
comigo. Nunca me pediste em casamento...
- Mas sabes que eu não posso. No fim de contas, estou no primeiro ano da escola,
e antes de seis anos não ganharei um vintém.
- Ora, não estou a pedir. Não casaria contigo nem que me pedisses de joelhos.
Mais de uma vez, ele pensara no casamento, mas sempre recuara. Em Paris,
formara a opinião de que o matrimónio era uma ridícula instituição dos filisteus. Sabia,
também, que um laço permanente o arruinaria. Aos seus instintos burgueses, parecia
uma coisa horrorosa casar com uma criadinha. Um casamento desastroso impedi-lo-ia
de arranjar boa clientela. Além disso, possuía apenas o dinheiro suficiente para se
manter até a formatura. Não podia sustentar uma mulher, mesmo que conseguisse
evitar filhos. Pensou em Cronshaw, ligado a uma rameira vulgar, e estremeceu.
Antevia o que Mildred, com as suas ideias de distinção e o seu espírito tacanho, seria
no futuro: era-lhe impossível casar com ela. Mas decidiu apenas com o cérebro; sentia
que era preciso possuí-la a todo custo. E, se não a pudesse ter sem o casamento, casaria.
O futuro a Deus pertence. Aquilo podia ter mau fim - mas não importava. Quando se
apegava a uma ideia ficava obcecado. Não podia pensar noutra coisa e tinha uma
capacidade invulgar de se persuadir da razoabilidade de tudo quanto desejasse fazer.
Deu consigo a refutar todos os argumentos sensatos, contra o casamento, que se lhe
haviam deparado. Via-se cada dia mais apaixonadamente dedicado a Mildred, e o seu
amor insatisfeito tornava-se ressentido e colérico.
- Por Deus, que se ela casa comigo, vai pagar-me tudo o que tenho sofrido - dizia
para consigo.
Por fim, não pôde mais suportar aquela agonia. Uma noite, depois do jantar, no
pequeno restaurante de Soho, ao qual agora iam com frequência, ele falou-lhe.
- Escuta, tu falavas sério o outro dia, quando disseste que não casarias comigo
nem que eu te pedisse?
- Falava. Porquê?
- Porque não posso viver sem ti. Quero-te sempre a meu lado. Procurei esquecerte
mas não pode. E nunca mais poderei. Quero que cases comigo.
Grande leitora de romances baratos, ela sabia perfeitamente como receber
semelhante proposta.
- Fico-te muito agradecida, Philip. O teu pedido é muito lisonjeiro para mim.
- Ora, não digas tolices. Queres casar comigo ou não?
- Achas que seríamos felizes?
- Não. Mas que importância tem isso?
Estas palavras saíram-lhe quase contra vontade. Surpreenderam-na.
- Sim, senhor... Que engraçado. Por que é então que queres casar comigo? O
outro dia disseste que não estavas em condições...
- Penso que ainda tenho perto de mil e quatrocentas libras. Onde come um
comem dois. Isso dará para nos mantermos até que eu me forme e termine o trabalho
do hospital. Depois, posso conseguir um lugar de assistente.
- Quer dizer que nada podes ganhar nesses seis anos. Teremos mais ou menos
quatro libras por semana para o nosso sustento, até que te formes, não é?
- Pouco mais de três libras, deduzindo as taxas que tenho de pagar.
- E um assistente quanto ganha?
- Três libras por semana.
- Mas então é preciso estudar todo esse tempo, gastar quase uma fortuna só para
ganhar três libras por semana, no fim de tudo? Casando contigo, acho que não melhoro
de situação.
Philip ficou calado por um momento.
- Queres dizer que não casas comigo? - perguntou em voz rouca. - Então o meu
grande amor nada significa para ti?
- Nesses assuntos, a gente também tem de pensar em si, não achas? Casar não me
faz diferença, mas é que não quero casar para continuar na mesma. Não vejo a
vantagem disso.
- Se te interessasses por mim, não pensarias dessa forma.
- Sim, talvez...
Ele calou-se. Bebeu um copo de vinho, porque a garganta se lhe secava.
- Olha aquela que vai a sair - disse Mildred. - Comprou aquelas peles no Bon
Marché, em Brixon. Vi-as na vitrina, a última vez que lá estive.
Philip sorriu friamente.
- De que é que estás a rir-te? - perguntou ela. - É verdade, sim. Até disse à minha
tia que nunca compraria uma coisa que estivesse na vitrina, porque toda a gente sabe
quanto ela custa.
- Não te compreendo. Tornas-me terrivelmente infeliz e no mesmo instante falas
de tolices que nada têm que ver com o que estamos a dizer.
- És bruto comigo - respondeu ela, ofendida. - Não posso deixar de notar aquelas
peles porque eu até disse para minha tia...
- Pouco se me dá o que tenhas dito à tua tia - interrompeu ele com impaciência.
- Não gosto que me fales dessa maneira, Philip. Sabes que não gosto disso.
Philip sorriu de leve, mas os olhos lançavam chamas. Ficou calado por instantes,
contemplando-a com ar sombrio. Odiava-a, desprezava-a e amava-a.
- Se eu tivesse um vestígio de bom-senso, nunca mais tornaria a procurar-te -
disse por fim. - Se soubesses quanto me desprezo por te amar!
- Sim, senhor, que coisas lindas para me dizer! - observou ela, carrancuda.
- Tens razão - riu ele. - Vamos ao Pavilion.
- Isso é o que tu tens de esquisito: começas a rir quando menos se espera. E se eu
te torno assim tão infeliz, por que queres levar-me ao Pavilion? Estou disposta a ir para
casa.
- Simplesmente porque me sinto menos infeliz a teu lado do que longe de ti.
- Gostaria de saber o que pensas realmente de mim.
Philip riu francamente.
- Minha querida, se o soubesses, nunca mais falarias comigo...
LXIII
Philip não passou no exame de anatomia de fins de Março. Ele e Dunsford
tinham estudado juntos a matéria no esqueleto que Philip tinha no quarto, faziam
perguntas um ao outro até ficarem ambos a saber de cor todas as inserções musculares
e a significação de todas as tuberosidades e goteiras dos ossos do corpo humano. Na
sala de exame, porém, Philip foi tomado de pânico e não respondeu certo às perguntas,
levado pelo súbito receio de errar. Sabia que estava reprovado e nem mesmo se deu ao
trabalho de ir à escola, no dia seguinte, para ver se o seu número se achava na lista.
Esse segundo malogro colocou-o definitivamente entre os alunos incapazes do seu ano.
Pouco se importou. Tinha outras coisas em que pensar. Repetia para consigo
mesmo que Mildred devia ter sentidos como qualquer outra pessoa e que era apenas
questão de os despertar. Possuía teorias sobre a mulher, dissolutas no fundo. e achava
que tempo viria em que, como qualquer, ela se renderia à persistência. Era questão de
aguardar a oportunidade, manter o sangue-frio, abrandá-la com pequenas atenções,
aproveitar-se dos dias de exaustão física, que abrem o coração para a ternura e
transformar-se num seio amigo onde ela buscasse refúgio contra os pequenos vexames
do serviço. Falou-lhe dos seus camaradas de Paris e das belas amigas. A existência por
ele descrita possuía um encanto e uma alegria fácil, em que nada havia de grosseiro.
Misturando as suas recordações com as aventuras de Mimi e Rodolfo, de Musette e dos
demais boémios, Philip enchia os ouvidos de Mildred com uma história de pobreza
tornada pitoresca por cantos e risos, de amor ilícito que a beleza e a juventude
envolviam numa auréola romântica. Nunca lhe atacava os preconceitos directamente,
mas procurava combatê-los sugerindo que eram suburbanos. Nunca se deixava
perturbar pela desatenção de Mildred, ou irritar pela sua indiferença. Pensava tê-la
aborrecido. E, com esforço, fazia-se afável e divertido; nunca se deixava enfurecer,
nada pedia, jamais se queixava nem fazia recriminações. Quando ela marcava
encontros e faltava, Philip encontrava-a no dia seguinte com um rosto sorridente. Se ela
apresentava desculpas, ele dizia que não tinha importância. Nunca lhe permitia ver
que ficava magoado. Philip compreendera que as suas queixas apaixonadas tinham
cansado Mildred. Tratou de ocultar todos os sentimentos que pudessem, ainda que em
grau mínimo, tornar-se importunos. Foi heróico.
Embora nunca fizesse referências a essa mudança, por não a perceber de modo
consciente, nem por isso Mildred deixou de ser atingida por ela: tornou-se mais
confidencial com Philip. Contava-lhe as suas pequenas contrariedades, e ela sempre as
tinha com a gerente da casa de chá, com uma das suas colegas ou com a tia. Mostravase
bastante tagarela e, embora nunca dissesse coisa alguma que não fosse trivial, Philip
jamais se fatigava de ouvi-la.
- Gosto de ti, quando não me falas de amor - disse-lhe uma vez.
- Isso lisonjeia-me muito - riu ele.
Ela não viu a prostração em que estas palavras o lançavam nem o esforço que
Philip precisava de fazer para dar uma resposta tão leviana.
- Não é que eu me importe de que me beijes de vez em quando. Não me faz mal e
dá-te prazer.
Às vezes, chegava a pedir-lhe que a levasse a jantar fora, e a proposta, porque
partia dela, arrebatava-o.
- Não faria isso com outro - dizia ela, à guisa de desculpa. - Mas sei que posso
fazê-lo contigo.
- Não me poderias dar maior prazer - sorria ele.
Uma noite, lá por fins de Abril, ela fez um desses pedidos.
- Pois não - disse ele. - E depois, aonde queres ir?
- Oh... A parte nenhuma. Vamos ficar sentados a conversar. Não te importas, pois
não?
- Decerto que não.
Philip julgou que ela começava a interessar-se por ele. Três meses antes, a ideia
de uma noite passada em palestra com Mildred ter-lhe-ia causado um aborrecimento
mortal. O dia estava lindo, e a Primavera alegrava-lhe o coração. Contentava-se agora
com bem pouco.
- Escuta, não será maravilhoso quando vier o Verão? - disse ele, quando se viram
na imperial de um ónibus que rodava para Soho, pois ela própria sugeria que ir de
trem seria uma extravagância. - Poderemos passar todos os domingos no Tamisa.
Levaremos a merenda num cesto.
Ela sorriu de leve e Philip animou-se a tomar-lhe a mão. Mildred não a retirou.
- Creio que começas a gostar um pouco de mim - sorriu ele.
- Ora, que tolo! Sabes que gosto, senão não estaria aqui.
Já eram velhos fregueses no pequeno restaurante do Soho e a patronne sorria-lhes
quando entravam. O criado mostrava-se obsequioso.
- Deixa-me hoje pedir o jantar - disse Mildred.
Achando-a mais encantadora do que nunca, Philip passou-lhe a lista e ela
escolheu os seus pratos favoritos. A lista era pequena e já ambos tinham comido muitas
vezes tudo o que o restaurante podia oferecer. Philip estava alegre. Olhava para dentro
dos olhos de Mildred, demorando-se em cada perfeição daquele rosto pálido. Quando
terminaram, Mildred, a título excepcional, aceitou um cigarro. Fumava muito
raramente.
- Não gosto de ver uma senhora a fumar - dizia ela.
Hesitou um momento e depois começou a falar.
- Admiraste-te de eu te ter pedido para sair e jantar fora?
- Fiquei encantado.
- Tenho uma coisa para te dizer, Philip.
Ele olhou rápido para ela, sentindo o coração desfalecer; mas acalmou-se, pois
aprendera a conter-se.
- Bem, podes dizer - disse, a sorrir.
- Mas faz-me o favor de não vires outra vez com tolices, hem? é que eu vou casarme.
- Vais? - exclamou Philip.
Não achou mais nada que dizer. Já considerara essa possibilidade e imaginara,
mesmo, o que diria e faria. Sofrera agonias ao pensar no desespero que se apoderaria
dele. Lembrara-se do suicídio, da fúria alucinada de que ficaria possuído. Mas talvez se
tivesse antecipado de tal forma à comoção por que iria passar, que apenas se sentia
agora exausto. O seu estado era semelhante ao da pessoa seriamente enferma, cuja
vitalidade é tão baixa que ela se torna indiferente a tudo e só deseja ser deixada em
paz.
- Bem vês, já é tempo - disse Mildred. - Estou com vinte e quatro anos e é tempo
de assentar.
Philip permaneceu calado. Olhou para a patronne, sentada atrás do balcão, e os
seus olhos fixaram-se na pluma vermelha que uma das presentes trazia no chapéu.
Mildred irritou-se.
- Podias dar-me os parabéns - disse.
- Realmente? Mal posso acreditar que seja verdade. Tenho sonhado tantas vezes
com isso... Agora, até acho graça ter ficado tão contente quando pediste para sair e
jantar comigo. Com quem vais casar?
- Com Miller - respondeu ela, corando de leve.
- Miller? - exclamou Philip, atónito. - Mas há meses que não o vês.
- Ele veio almoçar a semana passada e fez o pedido. Ganha um dinheirão. Faz
sete libras por semana e com promessa de mais.
Philip calou-se. Recordou que ela sempre gostara de Miller; ele divertia-a; havia
na sua origem estrangeira um encanto exótico que Mildred sentia inconscientemente.
- Acho que era inevitável - disse por fim. - Não podias deixar de aceitar o lance
mais alto. Quando é o casamento?
- No sábado que vem. Já avisei lá na casa.
Philip sentiu uma angústia repentina.
- Tão depressa?
- Vamos casar só pelo civil. Emil acha melhor.
Philip sentia-se horrivelmente cansado. Queria ir-se embora dali e meter-se na
cama. Pediu a conta.
- Vou meter-te num trem que te leve à estação. Acho que não terás de esperar
muito pelo comboio.
- Não vens comigo?
- Prefiro não ir, se não te importas.
- Como quiseres - respondeu ela, com ar altivo. - Suponho que amanhã te verei à
hora do chá?
- Não. Julgo que é melhor fazer ponto final aqui mesmo. Não vejo por que
continuar a ser tão infeliz. Já paguei o carro.
Cumprimentou-a com a cabeça e dirigiu-lhe um sorriso forçado, depois saltou
para um ónibus, e voltou para casa. Fumou uma cachimbada antes de ir para a cama,
mas foi-lhe difícil conservar os olhos abertos. Não sofria dor alguma. caiu num sono
pesado quase no mesmo instante em que pousou a cabeça no travesseiro.
LXIV
Mas cerca das três da madrugada, Philip acordou e não pôde dormir mais.
Começou a pensar em Mildred. Tentava afastá-la do pensamento, mas era inútil. Ficou
a repetir interiormente a mesma coisa, até que a cabeça começou a andar-lhe à roda. O
casamento de Mildred era inevitável. É dura a vida de uma rapariga que tem de
ganhar o próprio sustento. Quem poderá censurá-la quando aceita quem se proponha
dar-lhe um lar confortável? Philip reconhecia que, do ponto de vista de Mildred, seria
uma loucura casar com ele. Só o amor poderia tornar suportável aquela pobreza, e ela
não o amava. Não tinha culpa disso; era um facto que ele devia aceitar como qualquer
outro. Tentou chamar-se à razão. No fundo, bem no fundo do coração - dizia consigo
mesmo - estava o orgulho mortificado; a sua paixão começara pela vaidade ferida, e,
em última análise, era essa a principal causa da sua infelicidade. Desprezava-se a si
próprio tanto quanto desprezava Mildred. Fez, então, planos de futuro, os mesmos
planos de sempre, interrompidos pela recordação dos beijos que dera naquelas faces
macias e pálidas e pelo som daquela voz arrastada. Philip tinha muito que estudar,
pois no Verão devia fazer o exame de química e mais os dois em que fora reprovado.
Afastara-se dos amigos do hospital, mas agora desejava companhia. Houve uma
ocorrência feliz: uma quinzena antes, Hayward escrevera a dizer que ia passar por
Londres e queria jantar com ele. Philip, porém, não desejando ser incomodado,
recusara. Hayward ia voltar para fazer a temporada e Philip resolveu escrever-lhe.
Deu graças quando soaram as oito horas e pôde levantar-se. Estava pálido e
cansado. Depois do banho e da refeição matinal, sentiu-se reconciliado com o mundo e
o seu sofrimento atenuou-se um pouco. Não estava resolvido a ir à aula daquela
manhã. Foi ao Army and Navy Stores comprar um presente de casamento para Mildred.
Depois de muita hesitação, escolheu um estojo de toucador. Custava vinte libras,
quantia que estava além das suas posses; mas era ostentoso e vulgar: Philip estava
certo de que Mildred saberia exactamente quanto aquilo custara. Experimentou uma
satisfação melancólica na escolha de um presente que daria prazer a Mildred e, ao
mesmo tempo, indicaria o desprezo que ele próprio sentia por ela.
Via aproximar-se com apreensão o dia do casamento. Esperava sentir uma
angústia intolerável; foi com alívio que recebeu uma carta de Hayward, na manhã de
sábado, a dizer que chegaria naquele mesmo dia e passaria por sua casa para lhe pedir
que o ajudasse a procurar alojamento. Philip, ansioso por encontrar uma distracção,
consultou um horário e descobriu o único comboio em que Hayward poderia vir. Foi
esperá-lo e o encontro dos amigos foi entusiástico. Deixaram a bagagem na estação e
puseram-se a andar alegremente. Num gesto característico. Hayward propôs que, antes
de mais nada, passassem uma hora na National Gallery, pois havia algum tempo que
não via quadros; afirmava ter precisão de dar-lhes uma olhadela para se pôr em
uníssono com a vida. Havia meses que Philip não tinha com quem falar sobre arte e
literatura. Desde os tempos de Paris, Hayward mergulhara nos modernos
versificadores franceses; e tal é a pletora de poetas em França, que ele tinha vários
novos génios para dar a conhecer a Philip. Andaram pela galeria, apontando para uma
ou outra tela favorita; um assunto conduzia a outro; falavam animadamente. O sol
brilhava e o ar estava tépido.
- Vamos sentar-nos no Parque - convidou Hayward. - Procuremos os quartos
depois do almoço.
A Primavera expandia-se ali. Era um desses dias em que a gente se sente feliz
pelo simples facto de estar vivo. O verde novo das árvores destacava-se delicadamente
contra o céu; e o céu, pálido e azul, estava pintalgado de nuvenzinhas brancas. Na
extremidade do lago ornamental, via-se a massa cinzenta do quartel da Guarda Real. A
elegância disciplinada do cenário tinha o encanto de uma tela do século XVIII. Fazia
lembrar, não Watteau, cujas paisagens são tão idílicas que sugerem apenas esses vales
semeados de bosques que se vêem em sonhos, mas um Jean-Baptiste Pater mais
prosaico. Philip sentiu o coração leve. Compreendia, agora, o que lera uma vez: que a
arte (pois havia arte na sua maneira de contemplar a natureza) pode libertar a alma do
sofrimento.
Foram almoçar num restaurante italiano e pediram um fiaschetto de Chianti.
Prolongaram a refeição para prolongar a palestra. Um lembrava ao outro as pessoas
que tinham conhecido em Heidelberga; falaram dos amigos de Philip em Paris,
conversaram sobre livros, quadros, a vida e a moral. E de súbito, Philip ouviu um
relógio bater as três. Lembrou-se de que, àquela hora, Mildred já estaria casada. Sentiu
uma espécie de picada no coração e por isso não pôde ouvir o que Hayward dizia.
Encheu o copo de Chianti. Não estava habituado ao álcool e este subiu-lhe à cabeça.
Fosse como fosse, estava agora livre de cuidados. O seu espírito ágil permanecera
inactivo tantos meses que a própria conversação o embriagava. Estava agradecido por
ter como companheiro alguém que se interessava pelas coisas que de facto lhe
despertavam interesse.
- Olha, não percamos este lindo dia à procura de quartos. Ficas lá em casa esta
noite. Podes procurar instalação amanhã ou na segunda-feira.
- Está bem. Que faremos, então? - perguntou Hayward.
- Tomamos o barco e vamos até Greenwich.
A ideia seduzira Hayward. Saltaram para um carro que os levou à ponte de
Westminster. Apanharam o barco no instante em que este desatracava. Dentro em
pouco Philip, com um sorriso nos lábios, começou a falar:
- Lembro-me da primeira tarde que passei em Paris. Clutton - acho que era ele -
fez um longo discurso sobre a beleza que os poetas e os pintores dão às coisas. Eles
criam a beleza. Não é possível escolher entre o Campanile de Giotto e uma chaminé de
fábrica, consideradas essas coisas em si mesmas. E depois as coisas belas enriquecemse
das impressões que causam em gerações sucessivas. Eis por que as coisas velhas são
mais belas do que as modernas. A Ode a uma Urna Grega é mais linda agora do que
quando foi escrita, porque, durante uma centena de anos, a leram os namorados e nas
suas estrofes buscaram conforto os desolados.
Philip deixou a Hayward o trabalho de descobrir que coisa, na paisagem que
desfilava ante os seus olhos, lhe sugerira aquelas reflexões. E era agradável saber que o
outro não o desapontaria. Numa reacção súbita contra a vida que levara durante tanto
tempo, Philip sentia-se agora profundamente comovido. A delicada iridescência do ar
londrino dava à pedra cinzenta dos edifícios uma suavidade de pastel. E nas docas e
armazéns havia a graça severa de uma estampa japonesa. Continuaram a descer o rio.
E o esplêndido canal, símbolo do grande Império, alargava-se, sempre coalhado de
embarcações. Philip pensou nos pintores e poetas que tinham tornado belas todas
aquelas coisas e o seu coração inundava-se de gratidão. Chegaram à enseada, de
majestade indescritível. A imaginação palpita, e só Deus sabe que figuras povoam
ainda aquela vasta extensão; o Doutor Johnson, com Boswell a seu lado, o velho Pepys
subindo para bordo de um vaso de guerra; a pampa da História inglesa, o romance e a
grande aventura. Philip voltou-se para o amigo com os olhos a cintilar.
- Ah! Velho Dickens! - murmurou ele, sorrindo um pouco da própria comoção.
- Não estás um tanto arrependido de ter deixado a pintura?! - perguntou
Hayward.
- Não.
- Suponho que gostas da medicina.
- Não. Detesto-a, mas não há nada mais a fazer. A monotonia dos primeiros dois
meses é horrível e infelizmente não tenho temperamento científico.
- Bom, mas não podes mudar a toda a hora de profissão.
- Isso não. Vou ficar nesta. Acho que gostarei mais quando for trabalhar num
hospital. Tenho a impressão de que me interesso mais pelas pessoas do que por
qualquer outra coisa. E até onde posso alcançar, a medicina é a única profissão na qual
se encontra liberdade. Leva-se dentro do crânio o que se sabe. Com um estojo de
instrumentos e umas tantas drogas, pode-se ganhar a vida em qualquer parte.
- Não vais então exercer a clínica?
- Não, pelo menos durante algum tempo. Logo que terminar o meu estágio no
hospital, entrarei como médico de bordo; quero ir ao Oriente: ao Arquipélago Malaio,
ao Sião, à China e todos esses lugares. Depois não faltarão ocupações. Acontece sempre
qualquer coisa, uma epidemia de cólera na índia, por exemplo. Quero andar daqui
para ali. Quero ver o mundo. A única maneira que um homem pobre tem de viajar é
como médico de bordo.
Chegaram a Greenwich. O nobre edifício de Inigo Jones erguia-se imponente
diante do rio.
- Olha, aquele deve ser o lugar onde o Poor Jack mergulhava no lodo, em busca
de moedas - disse Philip.
Passearam pelo parque, onde crianças esfarrapadas brincavam enchendo o ar
com os seus gritos. Aqui e ali, velhos marujos dormiam ao sol, como lagartos. O
ambiente era de cem anos antes.
- Foi pena teres perdido dois anos em Paris - disse Hayward.
- Perdido? Olha para o movimento dessas crianças, olha para o desenho que o sol
traça no chão, atravessando a folhagem das árvores, olha para esse céu... Então? Eu
nunca daria por esse céu, se não tivesse estado em Paris.
Hayward julgou notar que Philip abafava um soluço e olhou para ele, atónito.
- Que foi que te deu?
- Nada. Lamento ser tão estupidamente emotivo, mas havia seis meses que eu
andava faminto de beleza.
- Sempre foste tão prosaico... É muito interessante ouvir-te dizer isso.
- Oh! Diabo! Não quero ser interessante - riu Philip. - Vamos mas é tomar um
bom chá.
LXV
A visita de Hayward fez um grande bem a Philip. Cada dia menos os seus
pensamentos se detinham em Mildred. Recordava o passado com certa repugnância.
Não podia compreender como se submetera à indignidade de tal amor; e quando
pensava em Mildred era com um ódio revoltado, porque ela o submetera a
humilhações sem conta. A sua imaginação apresentava-a agora com todos os seus
defeitos físicos e atitudes exageradas, e fazia-o estremecer a ideia de ter andado tão
preso a ela.
«Isso prova até que ponto sou fraco» - dizia-se ele. A aventura fora como um
desses deslizes que se cometem numa festa, tão horríveis que não há meio de desculpálos:
o único remédio era esquecer. O horror à degradação que sofrera ajudou-o.
Assemelhava-se a uma cobra que muda de pele e olha com náusea para a velha casca.
Exultava na recuperada posse de si próprio. Lamentava agora os prazeres da vida que
lhe tinham escapado, enquanto estivera absorto naquela loucura a que chamavam
amor. Estava farto. Se o amor era aquilo, não mais queria amar. Contou a Hayward
alguma coisa do que acabava de sofrer.
- Não era Sófocles perguntou ele - quem suspirava pelo dia em que se veria livre
dessa besta selvagem que lhe devorava as fibras do coração?
Philip parecia na verdade ter nascido de novo. Respirava o ar ambiente como se
o fizesse pela primeira vez e tomava um interesse infantil por todas as coisas do
mundo. Chamava ao seu período de loucura «seis meses de trabalhos forçados».
Havia poucos dias que Hayward se estabelecera em Londres quando Philip
recebeu de Blackstable, para onde lhe fora enviado, um convite para uma visita
particular a uma exposição de pintura.
Levou Hayward consigo e, examinando o catálogo, viu que Lawson também
exibia um quadro.
- Creio que foi ele quem mandou o convite - disse Philip. - Vamos procurá-lo.
Com toda a certeza, está em frente da tela dele.
Era um perfil de Ruth Chalice que se achava pendurado a um canto. Lawson não
estava longe. Com um chapéu mole de abas largas, no seu fato claro e folgado, parecia
um pouco perdido no meio daquela multidão elegante convidada para a visita
particular. Cumprimentou Philip entusiasticamente e, com a mesma volubilidade de
sempre, contou-lhe que viera morar para Londres, que Ruth Chalice era uma perdida,
que alugara um estúdio, que Paris já não era Paris, que lhe haviam encomendado um
retrato e que o melhor que tinham a fazer era jantar juntos, para terem uma boa
conversa, como nos velhos tempos. Philip lembrou-lhe que fora apresentado a
Hayward e como achara divertida a impressão que o ar imponente e o fato elegante
deste causavam em Lawson. Ele devia estar muito melhor, agora, do que no tempo do
modesto estúdio de ambos, em Paris.
Durante o jantar, Lawson continuou à contar as novidades. Flanagan voltara para
a América. Clutton desaparecera. Chegara à conclusão de que um homem, enquanto
vive em contacto com a arte e os artistas, não tem possibilidade de realizar algo de
bom. A única solução era fugir. Para tornar mais fácil a decisão, brigara com todos os
amigos de Paris. Adquirira a mania de lhes dizer verdades duras, coisa que os fizera
suportar perfeitamente a sua declaração de que estava farto de Paris e ia instalar-se em
Gerona, pequena cidade do norte da Espanha, que lhe chamara a atenção quando se
dirigia de comboio para Barcelona. Agora, vivia lá, sozinho.
- Fará ele um dia coisa que preste? - perguntou Philip.
Interessava-se pelo aspecto humano daquela luta para exprimir alguma coisa tão
obscura no espírito do homem, que chegava a torná-lo mórbido e rabugento. Philip
sentia vagamente que estava no mesmo caso, mas com ele toda a conduta da sua vida
que o deixava perplexo. Aquele era o seu meio de expressão, e não sabia ao certo que
fazer com ele. Não teve, porém, tempo para seguir o curso desses pensamentos, porque
Lawson estava a narrar sem rebuço a história dos seus amores com Ruth Chalice. Ela
abandonara-o por um estudante que acabara de chegar da Inglaterra e estava a portarse
de maneira escandalosa. Lawson achava que alguém devia intervir para salvar o
rapaz. Ruth seria a sua perdição. Philip compreendeu que o agravo principal de
Lawson era o facto de a ruptura ter surgido quando estava em meio o retrato que ele
pintava.
- As mulheres não têm verdadeiro sentido da arte - disse. - Fingem apenas ter.
Terminou, porém, de uma maneira bastante filosófica:
- Seja como for, fiz quatro retratos dela e não sei ao certo se o último em que
estava a trabalhar obteria êxito.
Philip invejou a facilidade com que o pintor conduzia os seus casos amorosos.
Passara dezoito meses bastante agradáveis, conseguira de graça um modelo excelente,
e no fim separara-se dela sem grandes sofrimentos.
- E que me contas de Cronshaw? - perguntou Philip.
- Oh! Está liquidado - respondeu Lawson, com a alegre insensibilidade dos
novos. - Morrerá dentro de seis meses. Apanhou uma pneumonia o Inverno passado.
Passou sete semanas num hospital inglês e, quando teve alta, disseram-lhe que a sua
única salvação era deixar a bebida.
- Pobre diabo - sorriu Philip, que era abstémio.
- Deixou de beber por algum tempo. Mesmo assim ia ao Lilas, pois não podia
viver longe dele, bebia leite quente avec de la fleur d'oranger e estava terrivelmente
enfadonho.
- Garanto que vocês não lhe ocultaram o facto...
- Oh! Ele sabia. Não há muito que recomeçou a beber whisky. Diz que está velho
de mais para adquirir novos hábitos: Preferia ser feliz seis meses e morrer do que
arrastar-se cinco anos. Acho que, ultimamente, tem passado dificuldades horríveis. Tu
compreendes, o homem não ganhou coisa alguma enquanto estava doente e a
vagabunda com quem vive tem-lho feito amargar.
- Lembro-me de que a primeira vez que o vi admirei-o imensamente - disse
Philip. - Achei-o maravilhoso. É revoltante ver que a virtude burguesa e vulgar acaba
sempre por vencer.
- Não há dúvida de que era um caso perdido. Mais cedo ou mais tarde tinha de
acabar na sarjeta - disse Lawson.
Philip sentiu-se chocado porque Lawson não via o que aquele caso tinha de
lastimável. Decerto, não havia ali mais do que uma relação entre causas e efeitos mas
no seu encadeamento inevitável é que estava toda a tragédia da existência.
- Ah! Já me ia esquecendo... - disse Lawson. - Logo que te vieste embora, Philip,
ele mandou-te um presente. Pensei que voltavas e não me preocupei com ele; depois,
achei que não valia a pena mandar. Em todo caso, virá para Londres com o resto das
minhas coisas e podes ir buscá-lo um dia, ao meu estúdio, se quiseres.
- Ainda não disseste de que se trata.
- Ora, é apenas um pedaço de tapete esfarrapado. Acho que não vale coisa
alguma. Perguntei um dia a Cronshaw por que diabo ele te mandava essa porcaria.
Disse-me que a vira numa loja da rua de Rennes, e a comprara por quinze francos.
Creio que é um tapete persa. Ele disse-me que lhe perguntaras o sentido da vida e
aquela era a resposta. Mas estava muito bêbado.
Philip riu.
- Ah! Sim, bem sei. Irei buscá-lo. Era uma das suas manias predilectas. Disse que
eu tinha de descobrir por mim mesmo, pois de contrário a resposta não significaria
coisa alguma.
LXVI
Philip estudou bem e com facilidade. Tinha bastante que fazer para passar nos
três exames de medicina e cirurgia em Julho - os dois primeiros já lhe haviam valido
uma reprovação - mas achava a vida agradável. Travou nova amizade. Lawson, que
andava à procura de modelos, descobrira uma rapariga que trabalhava em pequenos
papéis num dos teatros, e, para induzi-la a posar para ele, organizara um almoço certo
domingo. Ela levou consigo uma companheira; e Philip, convidado a fim de completar
o segundo par, recebeu instruções para limitar as suas atenções a esta última.
Achou isso fácil, pois ela revelou-se uma tagarela espirituosa e agradável. Pediu
a Philip que a visitasse; morava em Vincent Square e estava sempre em casa às cinco
horas, para o chá. Philip visitou-a e ficou encantado com a recepção que teve. Tornou a
ir. Mrs. Nesbit não tinha mais de vinte e cinco anos. Muito pequena, de uma fealdade
simpática, olhos vivos, maçãs do rosto salientes, boca rasgada, lembrava ela, por certos
contrastes da sua tez, um retrato da moderna escola francesa. Tinha a pele muito
branca, as faces muito vermelhas, as sobrancelhas espessas e os cabelos bem negros. O
efeito era singular, um pouco fora do natural, mas estava longe de ser desagradável.
Separada do marido, ganhava o seu sustento e o do filho a escrever romances baratos.
Havia um ou dois editores que se especializavam nesse género e raramente lhe faltava
trabalho. Era mal paga, recebia quinze libras por um romance de trinta mil palavras:
mas estava satisfeita.
- No fim de contas, os leitores pagam apenas dois pence - dizia ela - e gostam de
ler a mesma coisa uma porção de vezes. Eu apenas mudo os nomes e pronto. Quando
estou aborrecida, penso na lavadeira, no aluguer da casa, nas roupas para o pequeno e
continuo a escrever.
Além disso, trabalhava como figurante nos teatros e ganhava de dezasseis a vinte
e um xelins por semana. No fim do dia, estava tão cansada que dormia como uma
pedra. Tirava o maior partido de uma situação difícil. O seu senso de humor permitialhe
rir nos momentos mais aflitivos. às vezes as coisas corriam mal e ela via-se sem
dinheiro algum; então, as suas bugigangas iam para a casa de penhores da Vauxhall
Bridge Road e ela ficava a pão e manteiga até que a situação melhorasse. Jamais perdia
a jovialidade.
Philip interessou-se por aquela vida sem futuro, e Norah Nesbit divertia-o com a
narrativa fantástica das suas lutas. Perguntou-lhe ele por que não tentava um trabalho
literário de melhor qualidade, mas ela sabia que não tinha talento e aquela coisa
abominável que fornecia por milhares de palavras não só era razoavelmente paga
como representava o máximo da sua capacidade. Nada tinha a esperar do futuro senão
a continuação da existência que levava. Parecia não possuir parentes, e as amigas eram
tão pobres como ela.
- Não penso no futuro - disse Norah. - Contanto que tenha dinheiro para pagar
três semanas de aluguer e mais uma ou duas libras para a comida, não me preocupo. A
vida não valeria a pena se eu me incomodasse tanto com o futuro como me incomodo
com o presente. Quando as coisas estão negras, sempre surge qualquer remédio.
Philip habituou-se a ir tomar chá com Norah todos os dias. E a fim de que as suas
visitas não a embaraçassem, levava sempre um bolo, uma libra de manteiga ou um
pouco de chá. Começaram a tratar-se por tu. A simpatia feminina era coisa nova para
ele. Deleitava-se por encontrar alguém que ouvia de bom grado a história dos seus
aborrecimentos. As horas fugiam. Ele não ocultava a sua admiração por Norah. Era
uma companheira deliciosa. Não podia deixar de compará-la a Mildred. Que contraste
entre a estupidez obstinada de uma, incapaz de se interessar pelo que não conhecesse,
e a inteligência tão viva da outra, tão rápida em apanhar as coisas. Ficava aterrado ao
pensar que podia ter-se ligado por toda a vida a uma mulher da espécie de Mildred.
Uma noite, contou a Norah toda a história do seu amor. Não era coisa de que pudesse
orgulhar-se, e foi-lhe bastante agradável ser objecto de tão encantadora simpatia.
- Creio que estás agora curado - disse ela, quando Philip terminou.
Tinha, às vezes, um jeito engraçado de inclinar a cabeça como um cachorrinho de
Aberdeen. Sentada numa cadeira de respaldo vertical, Norah costurava, pois não podia
perder tempo. Philip aninhara-se confortavelmente a seus pés.
- Nem te posso dizer quanto dou graças por tudo estar terminado - suspirou.
- Pobrezinho, deves ter passado maus bocados - murmurou ela e, para lhe
testemunhar a sua simpatia, pousou-lhe a mão no ombro.
Philip tomou-lha e beijou-a, mas Norah retirou-a.
- Por que fizeste isso? - perguntou, corando.
- Desagrada-te?
Ela contemplou-o um momento com olhos cintilantes e depois sorriu.
- Não - respondeu.
Philip pôs-se de joelhos e encarou-a. Norah olhava-o fixamente nos olhos e a sua
boca rasgada tremia com um sorriso.
- Então? - perguntou.
- És uma criatura adorável. Estou tão reconhecido pela tua bondade, gosto tanto
de ti...
- Não sejas tolo.
Philip segurou-a pelos cotovelos e puxou-a para si. Sem oferecer resistência,
Norah inclinou-se um pouco e ele beijou-lhe os lábios vermelhos.
- por que fizeste isso? - tornou ela a perguntar.
- Porque é agradável.
Norah não respondeu, mas os seus olhos tomaram uma expressão de ternura e
passou a mão suavemente pelos cabelos de Philip.
- Isso não é coisa que se faça. Nós éramos excelentes amigos... Seria tão bom
continuar assim.
- Se queres apelar para os meus bons sentimentos, é melhor que deixes de me
acariciar o rosto.
Ela riu-se, mas continuou.
- Estou a portar-me muito mal, não estou?
Surpreendido e achando certa graça naquilo, Philip contemplou-a. Viu os olhos
dela ficarem ternos e húmidos; tinham uma expressão que o encantava. Comoveu-se
de súbito e as lágrimas vieram-lhe aos olhos.
- Norah, gostas de mim? - perguntou, incrédulo.
- Para um rapaz inteligente, fazes perguntas bem tolas.
- Oh, minha querida, nunca me ocorreu essa ideia.
Enlaçou-a com os braços e beijou-a, enquanto ela, corada, rindo e chorando ao
mesmo tempo, se abandonava ao abraço dele.
Daí a pouco, Philip soltou-a e, voltando a sentar-se como antes, olhou para ela
com curiosidade:
- Francamente, estou aturdido! - disse.
- Porquê?
- Estou tão surpreso...
- E satisfeito?
- Deliciado - exclamou ele, sinceramente. - E tão orgulhoso, tão feliz, tão
agradecido...
Tomou-lhe as mãos e cobriu-as de beijos. Era, para ele, o princípio de uma
felicidade que parecia sólida e duradoura. Tornaram-se amantes mas continuaram
amigos. Havia em Norah um instinto maternal que encontrava vazão no seu amor por
Philip; ela precisava de alguém para amimar, repreender e cobrir de desvelos; tinha um
temperamento doméstico e achava prazer em cuidar da saúde e da roupa de Philip. A
susceptibilidade deste em relação ao seu defeito físico despertava-lhe uma piedade
que, instintivamente, se exprimia em ternura. Era jovem, forte e sadia, e parecia-lhe
perfeitamente natural oferecer o seu amor. Tinha boa disposição e uma alma alegre.
Gostava de Philip porque ria com ela de todas as coisas divertidas que lhe
despertavam a atenção, e, acima de tudo, amava-o por ele ser quem era.
Quando lhe explicou isso, Philip respondeu com alegria:
- Tolice. Tu gostas de mim porque sou uma pessoa calada que sabe escutar.
Philip, na realidade, não a amava. Gostava muito dela, sentia prazer na sua
companhia e achava graça e interesse na sua palestra. Ela devolvera-lhe a fé em si
próprio e, por assim dizer, derramara-lhe um bálsamo nas feridas da alma. Sentia-se
imensamente lisonjeado que ela olhasse por ele. Admirava-lhe a coragem, o optimismo
e aquela atrevida atitude de desafio perante o destino. Norah tinha uma pequena
filosofia própria, que era, ao mesmo tempo, prática e ingénua.
- Vês, não acredito em igrejas, pastores e tudo isso - dizia ela - mas acredito em
Deus e não creio que Ele se importe muito com o que a gente faça, contanto que cada
um contribua com a sua parte e de vez em quando ajude o próximo. Em geral, acho as
pessoas muito boas e tenho pena das que o não são.
- Mas, e a outra vida?
- Bom, quanto a isso, nada sei ao certo, é claro - sorriu ela - mas espero que seja
tudo pelo melhor. De qualquer modo, não haverá alugueres a pagar nem romances a
escrever.
Tinha o dom feminino da lisonja delicada. Achava que Philip revelara coragem
ao deixar Paris por ter a consciência de que não seria um grande artista. E ele ficou
encantado quando a companheira exprimiu a sua admiração entusiástica. Nunca
pudera adquirir a certeza sobre se a sua decisão indicava coragem ou falta de firmeza.
Era delicioso verificar que ela a considerava heróica. Norah aventurava-se a levá-lo
para um terreno que os amigos instintivamente evitavam.
- É uma tolice da tua parte ser tão susceptível em relação ao teu pé - dizia ela. Via
que ele corava violentamente, mas continuava. - Sabes, as pessoas estão longe de
pensar nisso tanto como tu. A primeira vez que te vêem, notam, mas depois esquecemse.
Ele não respondia.
- Não estás zangado comigo, não é verdade?
- Não.
Norah punha-lhe os braços à volta do pescoço.
- Sabes, só falo assim porque te amo. Não quero que isso te faça infeliz.
- Acho que podes dizer o que quiseres - respondia ele, sorrindo. - Só desejo poder
fazer alguma coisa para te mostrar quanto te sou grato.
A influência de Norah também se exercia de outros modos. Não permitia que ele
se mostrasse mal-humorado, e, quando Philip perdia a calma, ria-se dele. Tornou-o
mais urbano.
- Podes levar-me a fazer o que quiseres - disse ele, uma vez.
- E lamentas isso?
- Não. Gosto de fazer o que te agrada.
Philip teve o senso de compreender a sua ventura. Parecia-lhe que Norah lhe
dava tudo quanto uma esposa pode dar, deixando-lhe ainda a liberdade; considerava-a
a amiga mais encantadora de quantas tivera e ao mesmo tempo encontrava nela uma
simpatia que não achara em homem algum. As suas relações sexuais não eram senão o
elo mais forte daquela amizade. Completavam-na, mas não eram essenciais. E porque
os sentidos de Philip estavam satisfeitos, ele tornou-se mais sereno e de convívio mais
fácil. Sentia-se na plena posse de si próprio. Pensava às vezes no Inverno durante o
qual vivera obcecado por uma hedionda paixão, e enchia-se de aversão por Mildred e
de horror por si.
Aproximavam-se os exames e Norah estava tão interessada neles como Philip.
Este sentia-se lisonjeado e comovido por tal interesse. Norah fê-lo prometer que viria
em seguida dizer-lhe o resultado. Dessa vez, passou sem dificuldade nas três cadeiras
e, quando ela recebeu a notícia, desfez-se em lágrimas.
- Oh! Que alegria! Estava tão ansiosa.
- Tontinha - riu ele, mas com um nó na garganta.
Como não ficar comovido diante de semelhante solicitude?
- E que é que vais fazer agora? - perguntou ela.
- Posso entrar em férias com a consciência tranquila. Nada tenho a fazer até o
período de Inverno, que começa em Outubro.
- Vais então a Blackstable visitar o teu tio?
- Estás enganada. Vou ficar em Londres, para me divertir contigo.
- Preferia que fosses.
- Porquê? Estás cansada de mim?
Ela riu e pousou-lhe as mãos dos ombros.
- Porque tens estudado de mais. Pareces muito cansado. Precisas de ar puro e de
repouso. Vai, por favor.
Por um momento Philip não respondeu. Contemplava Norah com olhos
apaixonados.
- Olha, se outra pessoa me dissesse isso, não acreditaria. Só pensas no meu bem.
Gostava de saber o que vês em mim.
- Queres dar-me um atestado de boa conduta junto com a demissão? - respondeu
ela, alegremente.
- Direi que és bondosa e solícita, nada exigente, que nunca causas aborrecimentos
e és fácil de contentar.
- Tudo isso é tolice, mas uma coisa eu te posso dizer: sou uma das poucas pessoas
que sabem aproveitar da experiência.
LXVII
Philip aguardava com impaciência o momento de voltar a Londres. Durante os
dois meses que passou em Blackstable, Norah escreveu-lhe frequentemente. Eram
longas cartas em que ela, numa letra graúda e ousada, lhe descrevia espirituosamente
os pequenos acontecimentos da vida quotidiana, os aborrecimentos domésticos da
senhoria, inesgotável assunto de riso, os cómicos contratempos dos seus ensaios - ia
figurar num importante espectáculo, num dos teatros de Londres - as suas estranhas
aventuras com os editores... Philip lia muito, tomava banhos de mar, jogava ténis e
passeava de barco. Em princípios de Outubro, voltou a Londres, a fim de preparar-se
para o seu segundo exame. Desejava vivamente ser aprovado, para acabar de vez com
a rotina do curso. Transposto esse obstáculo, o estudante começa a tratar de doentes,
entrando em contacto não só com pacientes de ambos os sexos, como também com os
livros. Philip via Norah todos os dias.
Lawson passara o Verão em Poole. Trazia inúmeros esboços do porto e da praia.
Tinha duas ou três encomendas de retratos e propunha-se ficar em Londres até que as
brumas do Inverno o afastassem. Hayward, que estava também em Londres, pretendia
passar o Inverno no estrangeiro, mas deixava-se ficar, semana após semana, por pura
incapacidade de se resolver a ir. Engordara durante os últimos dois ou três anos - havia
cinco que Philip o conhecera em Heidelberga - e estava prematuramente calvo. Era
muito susceptível a esse respeito e usava o cabelo comprido para esconder a clareira
que se lhe abria no alto da cabeça. O seu único consolo era possuir agora uma testa
bastante nobre. Os olhos azuis tinham perdido a cor. Em geral, mantinha-os baixos,
com uma expressão apática. A boca, perdida a plenitude da mocidade, tornara-se débil
e descorada. Hayward falava ainda com ar vago das coisas que pretendia fazer no
futuro, mas com menos convicção. Tinha a consciência de que os amigos já não
acreditavam nele. Depois de beber dois ou três copos de whisky mostrava-se propenso
à elegia.
- Sou um falhado - murmurava. - Não fui feito para a brutalidade da luta pela
vida. O mais que posso fazer é ficar de lado e deixar que passe a turba, acotovelando-se
na busca de prazeres.
Dava a impressão de que falhar era coisa mais delicada e refinada do que vencer.
Insinuava que o seu alheamento provinha da repulsa por tudo quanto fosse baixo e
comum. Dizia belas coisas sobre Platão.
- Pensava que nesta altura já tivesses deixado Platão em paz - disse Philip, com
impaciência.
- Pensavas? - perguntou o outro, erguendo as sobrancelhas.
Não se mostrava inclinado a prosseguir no assunto. Descobrira ultimamente a
impressionante dignidade do silêncio.
- Não vejo a utilidade de andar a ler e reler a mesma coisa - disse Philip. - Isso
não passa de uma forma laboriosa de preguiça.
- Acaso julgas ter um espírito tão grande que podes compreender à primeira
leitura o mais profundo dos pensadores?
- Não quero compreender, não sou crítico. Não me interesso pelos escritores por
causa deles mas por mim.
- Então por que lês?
- Um pouco por prazer, porque é um hábito e eu sinto-me tão inquieto quando
não leio como quando não fumo; e outro pouco para me conhecer. Quando leio um
livro, tenho a impressão de que o faço apenas com os olhos, mas às vezes encontro uma
passagem, talvez uma única frase que tem sentido para mim, e que se torna parte de
mim mesmo. Tirei do livro tudo quanto me era útil e nada mais poderei extrair dele,
ainda que torne a lê-lo uma dúzia de vezes. Tenho a impressão de que nós somos como
um botão em flor: a maior parte das nossas leituras desliza sobre nós sem produzir o
menor efeito, mas certas coisas, que têm para nós um sentido especial, abrem uma
pétala: uma a uma, as pétalas desabrocham, e por fim surge a flor.
Philip não estava satisfeito com a metáfora, mas não soube como melhor explicar
uma coisa que sentia mas sobre a qual não tinha ideias claras.
- Queres fazer isto, torna-te aquilo... - observou Hayward, encolhendo os ombros.
- É tão vulgar...
Philip conhecia agora muito bem o amigo. Era fraco e vaidoso, tão vaidoso que se
tornava necessário um cuidado constante para não o melindrar. Misturava preguiça e
idealismo de tal modo que não podia separá-los. Encontrou um dia, no atelier de
Lawson, um jornalista que ficou encantado pela sua conversa, e uma semana mais
tarde o director de um jornal escreveu-lhe, a sugerir-lhe que fizesse crítica nas suas
colunas. Hayward passou quarenta e oito horas em angustiosa indecisão. Falara tanto
tempo em conseguir uma ocupação dessa natureza que não teve coragem para dar
uma recusa formal. A ideia, porém, de ter que fazer alguma coisa aterrorizava-o.
Declinou por fim o convite e respirou aliviado.
- Isso impediria o meu trabalho - confiou a Philip.
- Que trabalho? - perguntou Philip, brutalmente.
- A minha vida interior - respondeu ele.
Pôs-se então a dizer coisas bonitas sobre Amiel, o professor genebrino cujo brilho
prometia uma obra que nunca foi realizada. Por ocasião da sua morte, o motivo e a
justificação do seu malogro não tardaram a revelar-se, sob a forma de um maravilhoso
e pormenorizado diário, encontrado entre os papéis do defunto. Hayward sorria
enigmaticamente.
Podia ainda falar com delícia sobre literatura; o seu gesto era refinado, e elegante
o seu julgamento. Manifestava constante interesse pelas ideias, o que fazia dele um
companheiro agradável. Na realidade, essas ideias nada significavam para ele, uma
vez que não lhe produziam o menor efeito. Tratava-as como teria tratado belas
porcelanas numa sala de leilão. Manuseava-as com prazer, sentia-lhes a forma e o
brilho, avaliava-as mentalmente para depois tornar a pô-las nas prateleiras,
esquecendo-as de todo.
E foi Hayward quem fez uma descoberta capital. Uma noite depois de ter
longamente preparado o terreno, levou Philip e Lawson a um botequim de Beak Street,
notável não só pela sua história - gloriosas lembranças do século XVIII despertavam ali
a imaginação romântica - mas também pelo seu ponche, que era o melhor de Londres,
e ainda pelo seu rapé. Hayward conduziu-os a uma sala comprida, cheia de sombria
magnificência. Das paredes pendiam quadros representando mulheres nuas: eram
vastas alegorias da escola de Haydon; mas o fumo, o gás e a atmosfera londrina
tinham-nas enriquecido, dando-lhes o aspecto de telas antigas. A madeira escura que
forrava as paredes, o ouro maciço e fosco das cornijas e as mesas de mogno davam ao
salão um ar de sumptuoso conforto. Os bancos de couro, ao longo das paredes, eram
fofos e cómodos. Dentro de uma cabeça de carneiro, sobre uma mesa, em frente da
porta, achava-se o famoso rapé. Pediram ponche. Beberam-no. Era ponche de rum
quente. Como descrevê-lo? Não lograriam fazê-lo o vocabulário sóbrio, os epítetos
comedidos da nossa narrativa. Termos pomposos, frases exóticas e de rico lavor
ocorrem à fantasia exaltada. Aquela bebida aquecia o sangue e clareava as ideias,
inundava a alma de bem-estar; predispunha logo a mente a dizer coisas espirituais e a
apreciar o espírito alheio. Tinha o vago da música e a precisão da matemática. Apenas
uma das suas qualidades era susceptível de comparação: possuía o calor de um coração
generoso, mas o gosto, perfume e suavidade não se poderiam exprimir com palavras.
Se tentasse fazê-lo, Charles Lamb, com o seu tacto infinito, teria traçado encantadores
quadros da vida do seu tempo. Lord Byron, visando o impossível, teria podido atingir
o sublime numa estrofe de Don Juan. Oscar Wilde, amontoando jóias de Ispahan sobre
brocados de Bizâncio, poderia ter criado uma beleza perturbadora. Reflectindo sobre
ele, o espírito titubeava e tinha visões de festins de Heliogábalo, subtis harmonias de
Debussy, envoltas no bafio de velhas arcas que guardam punhos de renda, gibões e
gargantilhas de uma geração esquecida. Fazia recordar a pálida fragrância dos lírios do
vale e o sabor do queijo de Cheddar.
Hayward descobriu o botequim onde se obtinha aquela preciosa mistura, ao
encontrar na rua um tal Macalister, que fora seu colega em Cambridge. Era corretor de
fundos e filósofo. Costumava frequentá-lo uma vez por semana; em breve, Philip,
Lawson e Hayward adquiriram o hábito de se encontrarem ali todas as noites de terçafeira.
A evolução da moda tornara-o um lugar pouco frequentado, o que constituía
grande vantagem para os amantes da boa conversa. Macalister era um sujeito robusto e
atarracado, de cara larga e voz macia. Era versado em Kant e julgava tudo do ponto de
vista da razão pura. Gostava de expor as suas doutrinas. Philip escutava-o com vivo
interesse. Havia muito chegara à conclusão de que nada era mais divertido do que a
metafísica, mas não estava certo da sua eficácia nos assuntos da vida. O pequeno e bem
elaborado sistema que construíra em resultado das suas meditações em Blackstable de
nada lhe servira durante o seu capricho por Mildred. Não podia afirmar com
segurança que a razão prestasse grande serviço como norma de conduta. Parecia-lhe
que a vida não dependia dela. Lembrava-se com muita nitidez da violência da emoção
que dele se assenhoreara e da sua incapacidade de reagir, como se estivesse manietado
e por terra. Lia muitas coisas sábias nos livros, mas só podia julgar por experiência
própria. Não sabia se era diferente dos outros. Ao agir, não calculava os prós e os
contras, os benefícios que lhe adviriam do acto ou o prejuízo que pudesse resultar da
omissão; mas todo o seu ser era irresistivelmente impelido. Não agia com uma parte de
si mesmo, mas com toda a sua pessoa. A força que o dominava nada parecia ter de
comum com a razão: esta limitava-se a indicar os métodos de obter aquilo por que a
sua alma ansiava.
Macalister lembrou-lhe o Imperativo Categórico:
- Procede de tal modo que cada uma das tuas acções possa converter-se em regra
universal de procedimento.
- Isso parece-me perfeitamente disparatado - disse Philip.
- Que ousadia qualificar assim um princípio estabelecido por Emmanuel Kant -
retorquiu Macalister.
- Porquê? O respeito pelo que os outros dizem é uma qualidade estupidificante.
Há demasiado respeito no mundo. Kant pensava assim ou assado, não porque isso
fosse verdade, mas porque era Kant.
- Então, qual é a sua objecção ao Imperativo Categórico?
(Falavam como se a sorte de Impérios estivesse em jogo).
- Ele sugere que podemos, por um esforço de vontade, escolher um partido a
tomar e que a razão é o guia mais seguro. Por que haviam os seus ditames de ser
melhores que os da paixão? São diferentes, nada mais.
- Pareces estar satisfeito por ser escravo das tuas paixões.
- Escravo, sim, porque não as posso vencer, mas satisfeito, nunca - retorquiu
Philip, a rir.
Enquanto falava, pensava na loucura que o arrastara para Mildred. Lembrou-se
de como se irritara contra isso e como sofrera com semelhante degradação.
«Graças a Deus, agora estou livre de tudo» - pensou.
No entanto, mesmo ao dizer isso para si, não estava bem certo de que o fazia com
sinceridade. Quando estava sob a influência da paixão, sentira um vigor singular, e o
seu espírito trabalhara com uma força desusada. Dir-se-ia que estava mais vivo, e no
simples facto de existir havia qualquer coisa de emocionante, uma veemência da alma
que tornava um tanto insípida a existência actual. Toda a sua miséria de então recebera
certa compensação, nesse afluxo de vida.
As palavras imprudentes de Philip lançaram-nos numa discussão sobre o livre
arbítrio e a vontade e Macalister, com a sua memória infalível, aduzia argumento sobre
argumento. O seu espírito comprazia-se na dialéctica e obrigava Philip a contradizerse.
Vendo-se encurralado, só conseguia escapar sacrificando as suas teorias, depois de
ter caído em armadilhas de lógica e de ter sido bombardeado com citações.
Finalmente Philip declarou:
- Não posso falar pelos outros, só posso falar por mim. A ilusão da liberdade é
tão forte em mim que não me posso desfazer dela, mas acredito que seja uma simples
ilusão. Contudo, essa ilusão é um dos motores mais poderosos das minhas acções.
Antes de agir, sinto que tenho a faculdade de escolha, e isso influi no que vou fazer.
Mas, uma vez realizada a coisa, parece-me que era inevitável desde a eternidade.
- E que inferes daí? - perguntou Hayward.
- Ora, muito simplesmente, a inanidade do arrependimento. É inútil lamentar o
vaso quebrado, quando todas as forças do Universo se reuniram para fazê-lo cair.
LXVIII
Certa manhã, ao levantar-se, Philip sentiu a cabeça andar à roda e, voltando para
a cama, percebeu de repente que estava doente. Todos os membros lhe doíam e tiritava
de frio. Quando a senhoria lhe trouxe a refeição da manhã, gritou-lhe pela porta aberta
que não se sentia bem, e pediu uma chávena de chá com torradas. Poucos minutos
mais tarde, bateram à porta e Griffiths entrou. Havia um ano que moravam na mesma
casa, sem nunca terem ido além do cumprimento no corredor.
- Ouvi dizer que estava doente - disse Griffiths. - Resolvi entrar para ver o que
tem.
Corando sem saber porquê, Philip disse que não era nada. Estaria bom dentro de
poucas horas.
- Pois sim, mas deixe que lhe tire a temperatura.
- Não é preciso - respondeu Philip, irritado.
- Vamos lá.
Philip pôs o termómetro na boca. Griffiths sentou-se na beira da cama e palrou
animadamente uns instantes, depois pegou no termómetro e examinou-o.
- Escute, meu velho, precisa de ficar na cama, e vou trazer o velho Deacon, para o
ver.
- Tolice! - respondeu Philip. - Não tenho nada. Não quero que se incomode
comigo.
- Mas não é incómodo. Você tem febre e precisa de ficar na cama. Combinado,
não é assim?
Havia um encanto particular na sua maneira, uma mistura de gravidade e
bondade que era infinitamente atraente.
- Você tem admirável ar profissional - murmurou Philip fechando os olhos, a
sorrir.
Griffiths ajeitou-lhe o travesseiro e estendeu com habilidade as roupas da cama,
acomodando o doente. Foi à sala de visitas de Philip procurar um sifão e, como não o
encontrasse, trouxe um do seu próprio quarto. Baixou, depois, os estores.
- Agora, trate de dormir que vou ver se trago o velho logo que ele faça a sua
visita à enfermaria.
O tempo que Philip ficou só pareceu-lhe longo. Tinha a impressão de que a
cabeça lhe ia estalar, sentia uma dor aguda nos membros e temia começar a chorar.
Bateram, enfim, à porta e Griffiths sadio, forte e jovial, entrou.
- Aqui está o dr. Deacon - disse.
O médico, um homem idoso, de maneiras brandas, e que Philip conhecia apenas
de vista, avançou. Algumas perguntas, um breve exame, e o diagnóstico.
- Que diz o senhor? - perguntou a Griffiths, sorrindo.
- Gripe.
- Isso mesmo.
O dr. Deacon correu os olhos em torno daquele tristonho quarto de casa de
hóspedes.
- Não gostaria de ir para o hospital? Pô-lo-ão num quarto particular, onde será
mais bem tratado do que aqui.
- Prefiro ficar onde estou - disse Philip.
Não queria ser incomodado e sempre se sentia intimidado em ambientes novos.
Encolhia-se ante a ideia de enfermeiras a correr em volta dele, e não o atraía o frio
asseio do hospital.
- Posso cuidar dele, doutor - disse Griffiths, prontamente.
- Está bem.
E o dr. Deacon passou uma receita, deu instruções e retirou-se.
- Agora, terá de fazer tudo o que eu disser - disse Griffiths. - Vou ser ao mesmo
tempo a enfermeira de dia e a enfermeira de vela.
- É muita bondade sua, mas não precisarei de nada.
Griffiths pousou na testa de Philip a mão grande, fresca e seca, e esse contacto
pareceu fazer-lhe bem.
- Vou apenas mandar preparar isto no dispensário e voltarei em seguida.
Daí a pouco, trouxe o remédio e deu uma dose ao doente. Subiu depois ao
quarto, para ir buscar os seus livros.
- Não lhe faz diferença que eu estude aqui esta tarde? - perguntou ao descer. -
Vou deixar a porta aberta, quando quiser alguma coisa dê um grito por mim.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Philip, ao despertar de uma sonolência inquieta,
ouviu vozes na sala de visitas. Um amigo viera visitar Griffiths.
- Olha, é melhor não vires esta noite - ouviu dizer a Griffiths.
E, instantes depois, outra pessoa entrou na sala e exprimiu a sua surpresa por
encontrar Griffiths ali. Philip ouviu a explicação deste:
- Estou a cuidar de um aluno do segundo ano que mora aqui. O pobre diabo está
com gripe. Nada de jogo esta noite, meu velho.
Assim que Griffiths ficou só, Philip chamou-o.
- Escute, não é por minha causa que você vai deixar de receber os seus amigos
esta noite, pois não? - perguntou.
- Nada disso. Preciso estudar a minha cirurgia.
- Não mude os seus planos. Eu arranjo-me sozinho. Não precisa de preocupar-se
comigo.
- Está muito bem.
Philip piorou. Ao anoitecer, começou a delirar um pouco, mas pela madrugada
despertou de um sonho agitado. Viu Griffiths levantar-se de uma cadeira de braços,
ajoelhar-se e, com os dedos, deitar, um após outro, vários pedaços de carvão no fogão.
Vestia um roupão por cima do pijama.
- Que faz aí? - perguntou.
- Oh... Acordei-o? Procurava avivar o lume sem fazer barulho.
- Porque não está deitado? Que horas são?
- Mais ou menos cinco. Achei melhor ficar aqui consigo esta noite. Trouxe uma
cadeira de braços. Se tivesse trazido um colchão, dormiria como uma pedra e não
acordaria quando precisasse de mim.
- Era melhor que fosse menos abnegado - gemeu Philip. - E se apanha a gripe?
- Então, terá de cuidar de mim, meu velho - volveu o outro com uma risada.
De manhã, Griffiths ergueu os estores. A noite de vigília deixara-o pálido e
cansado, mas estava de boa disposição.
- Agora vou lavá-lo - disse alegremente para Philip.
- Eu posso lavar-me sozinho - respondeu o doente, envergonhado.
- Tolice. Se estivesse no hospital, seria lavado por uma enfermeira. Posso fazê-lo
tão bem como ela.
Demasiado fraco e acabrunhado para resistir, Philip permitiu que Griffiths lhe
lavasse o rosto, as mãos, os pés, o peito e as costas
Fê-lo com uma delicadeza encantadora, ao mesmo tempo que despejava uma
torrente de palavras amigas; mudou depois os lençóis exactamente como no hospital,
sacudiu o travesseiro e arranjou a roupa da cama.
- Gostaria que a Irmã Arthur me visse. Havia de ficar pasmada. Deacon vem vêlo
daqui a pouco.
- Não posso compreender por que é tão bom para mim - disse Philip.
- Vou praticando. Até é divertido ter um doente...
Griffiths deu-lhe a primeira refeição e foi vestir-se para ir comer alguma coisa.
Poucos minutos antes das dez, voltou com um cacho de uvas e flores.
- Mas você é de uma amabilidade incrível! - exclamou Philip. Esteve na cama
durante cinco dias.
Norah e Griffiths cuidavam dele alternadamente. Embora Griffiths fosse da
mesma idade de Philip, adoptava para com este uma cómica atitude maternal. Era
atencioso, gentil e encorajador; o seu maior predicado, porém, consistia numa
vitalidade que parecia emprestar saúde a todos quantos se aproximavam dele. Philip
não estava habituado aos mimos que a maioria das pessoas recebem das mães e irmãs e
ficou profundamente tocado pela ternura feminina daquele forte rapagão. Melhorou.
Sentado ociosamente no quarto, Griffiths distraía-o, contando-lhe os seus casos
amorosos. Era namorador, capaz de envolver-se em três ou quatro aventuras ao
mesmo tempo; e valia a pena escutar a narrativa dos ardis a que se via obrigado para
se tirar de dificuldades. Tinha o dom de emprestar um encanto romântico a tudo
quanto lhe acontecia. Estava crivado de dívidas, e todos os seus objectos de valor se
achavam empenhados; conseguia, contudo, ser sempre alegre, extravagante e
generoso. Era aventureiro por natureza. Gostava das pessoas de ocupações duvidosas e
propósitos indefinidos. Tinha grandes relações entre a ralé que frequenta os bares de
Londres. Mulheres perdidas tratavam-no como a um amigo, tomavam-no para confidente,
contando-lhe as suas aventuras e dificuldades. Batoteiros, enternecidos com a
sua falta de dinheiro, pagavam-lhe jantares e emprestavam-lhe notas de cinco libras.
Era invariavelmente reprovado nos exames; mas suportava isso com jovialidade e
submetia-se com uma graça tão encantadora às reprimendas paternas que seu pai, um
médico que tinha clínica em Londres, não tinha coragem de se zangar a sério com ele.
- Sou um tapado para os livros - dizia em tom alegre. - Mas é que não posso
estudar.
A vida era demasiado bela. Mas era evidente que, quando ele tivesse passado a
exuberância da mocidade e fosse afinal diplomado, conseguiria um tremendo êxito na
clínica. Curaria os doentes com o simples encanto das suas maneiras.
Philip adorava-o agora como adorara no colégio os rapazes altos, desempenados
e cheios de energia vital. Quando se restabeleceu, já uma sólida amizade os ligava, e
Philip sentia um encanto particular em ver que Griffiths parecia sentir prazer em ficar
sentado na sua pequena sala de visitas, tomando o tempo do amigo com a sua
tagarelice divertida e fumando inúmeros cigarros. Philip levava-o às vezes à casa de
bebidas próximo da Regent Street. Hayward achava-o estúpido, mas Lawson
reconhecia-lhe a sedução e estava ansioso por pintar-lhe um retrato. Griffiths era uma
figura pitoresca, de olhos azuis, tez branca e cabelos crespos. Frequentemente, os
amigos discutiam assuntos que ele desconhecia por completo, e então o rapaz ficava
em silêncio, com um sorriso bondoso no rosto simpático, sentindo perfeitamente que a
sua presença era suficiente contribuição para o entretenimento da companhia. Quando
descobriu que Macalister era corretor, pediu-lhe ansiosamente palpites para a Bolsa. E
Macalister, com o seu sorriso grave, contou-lhe que teria feito fortuna se tivesse
comprado certos títulos em determinadas ocasiões. Isso fazia vir água à boca de Philip,
pois estava a gastar mais do que esperava e não seria nada mau fazer algum dinheiro
pelo fácil método sugerido por Macalister.
- Na próxima vez que souber de um bom palpite, hei-de avisar-te - dizia o
corretor. - às vezes aparecem. A questão é esperar a oportunidade.
Como seria agradável ganhar cinquenta libras e oferecer a Norah as peles de que
ela tanto precisava para o Inverno... Olhava as lojas de Regent Street e escolhia os
artigos que havia de comprar com aquele dinheiro. Ela merecia tudo. Tornara-lhe a
vida muito feliz.
LXIX
Uma tarde, chegou aos aposentos, de volta do hospital, para se lavar e arranjar
antes de ir, como de costume, tomar chá em companhia de Norah e, ao meter a chave
na fechadura, a dona da casa abriu-lhe a porta:
- Tem uma senhora à sua espera - disse ela.
- Eu? - exclamou Philip.
Estava surpreendido. Só podia ser Norah e ele não tinha ideia do que poderia têla
trazido ali.
- Não queria deixá-la entrar, mas ela veio três vezes e parecia tão aborrecida por
não o encontrar... Então, disse-lhe que esperasse.
Philip deixou a senhoria ainda a explicar e precipitou-se para o quarto. O coração
desfaleceu-lhe. Era Mildred. Estava sentada, mas ergueu-se logo que ele entrou. Não
avançou para ele nem falou. A surpresa de Philip era tamanha que nem sabia que
dizer.
- Que diabo queres? - perguntou.
Mildred pôs-se a chorar sem responder. Não levou as mãos aos olhos, mas
conservou-as caídas ao longo do corpo. Parecia uma criadinha a pedir emprego. Havia
uma dolorosa humildade na sua atitude. Philip não saberia dizer que sentimentos lhe
acudiam. Teve o súbito impulso de voltar as costas e fugir do quarto.
- Não pensei em ver-te outra vez - disse por fim.
- Quem me dera ter morrido... - gemeu ela
Philip deixou-a parada onde estava. De momento, só pensava em recobrar o
domínio de si próprio. Tremiam-lhe os joelhos. Olhava para ela, que gemia com
desespero.
- Que aconteceu? - perguntou.
- Ele deixou-me... O Emil...
O coração de Philip sobressaltou-se. Compreendia agora que a amava tão
apaixonadamente como antes. Nunca deixara de amá-la. Abatida e submissa, ali estava
ela na sua frente. Desejou tomá-la nos braços, cobrir-lhe de beijos o rosto manchado de
lágrimas. Quão longa fora a separação! Não sabia como pudera suportá-la.
- É melhor que te sentes. Vou dar-te alguma coisa para beberes.
Arrastou a cadeira para perto do lume e ela sentou-se. Philip misturou whisky e
soda e Mildred, ainda soluçante, bebeu. Olhava-o com os olhos grandes e tristes,
circundados por largas olheiras. Estava mais magra e mais pálida do que quando ele a
vira pela última vez.
- Antes tivesse casado contigo quando mo pediste - disse.
Philip, sem saber porquê, sentiu um nó na garganta. Incapaz de conservar a
reserva que se impusera pôs-lhe a mão no ombro.
- Sinto muitíssimo o que aconteceu.
Ela inclinou a cabeça para o peito dele e rompeu num choro histérico. Como o
chapéu a estorvasse, tirou-o. Nunca sonhara que Mildred fosse capaz de chorar
daquela maneira. Beijou-a repetidas vezes. Isso pareceu aliviá-la um pouco.
- Foste sempre tão bom para mim, Philip - disse ela. - Por isso, sabia que podia
recorrer a ti.
- Conta-me o que aconteceu.
- Oh, não posso, não posso! - exclamou ela, esquivando-se.
Philip caiu de joelhos ao lado de Mildred e encostou a face à dela.
- Bem sabes que não há nada que não possas dizer-me. Nunca te censurei coisa
alguma.
Mildred contou-lhe a história pouco a pouco. Em certos momentos, soluçava
tanto, que mal se podia entender o que dizia.
- Na segunda-feira passada, ele foi a Birmingham e prometeu voltar na quinta,
mas não voltou, nem sexta. Então, escrevi uma carta, a perguntar o que tinha
acontecido e ele nem respondeu. Escrevi de novo, a dizer que, se não respondesse, eu
ia a Birmingham. E hoje de manhã recebi uma carta de um advogado, a dizer que não
tinha qualquer direito a Emil e que, se insistisse, ele pediria a protecção da lei.
- Mas isso é absurdo - gritou Philip. - Um homem não pode tratar a sua mulher
dessa maneira. Tiveram alguma zanga?
- Sim. Tivemos uma questão no domingo. E ele disse que estava farto de mim,
mas já o dissera doutras vezes e voltava sempre. Não pensei que desta vez fosse a
sério. Ele estava assustado porque lhe disse que ia ter um filho. Escondi-lho enquanto
pude. Depois, tive que dizer. Ele respondeu que a culpa era minha, que eu devia ter
tido cuidado. Só queria que ouvisses as coisas que me disse! Mas vi logo que ele não
era um cavalheiro. Deixou-me sem um vintém. Não pagara o aluguer e eu não tinha
dinheiro para pagar. A dona da casa disse-me das boas... O que me disse só se diz a
uma ladra.
- Pensei que tivessem alugado uma casa.
- Isso foi o que ele prometeu, mas fomos para uns quartos mobilados, em
Highbury. Emil era mesquinho. Chamava-me gastadora, mas não me dava nada para
gastar.
Mildred tinha um dom especial para misturar as coisas importantes com as
triviais. Philip estava intrigado. Tudo aquilo lhe parecia incompreensível.
- Nenhum homem podia ser assim tão patife - disse.
- Não o conheces. Eu não voltaria agora para o Emil nem que ele mo viesse pedir
de joelhos. Fui uma tola em ter-me importado com ele. E não ganhava o que dizia. As
mentiras que me contou!
Philip reflectiu um momento. Estava tão profundamente comovido com a
desgraça dela que não podia pensar em si próprio.
- Gostarias que eu fosse a Birmingham? Poderia procurá-lo e tentar arranjar as
coisas.
- Oh, que esperança! Agora, ele não volta mais, conheço-o muito bem.
- Mas é obrigado a sustentar-te. Não pode fugir a isso. Não entendo nada dessas
coisas, mas o melhor é procurar um advogado.
- Mas como? Não tenho dinheiro.
- Eu to darei. Vou escrever um bilhete ao meu advogado, o desportista que foi
executor testamentário de meu pai. Queres que vá lá contigo agora? Julgo que ainda
estará no escritório.
- Não, dá-me uma carta para ele. Vou sozinha.
Mildred estava um pouco mais calma. Philip sentou-se e escreveu o bilhete.
Lembrou-se depois de que ela não tinha dinheiro. Felizmente descontara um cheque no
dia anterior e pôde dar lhe cinco libras.
- És tão bom para mim, Philip - disse ela.
- Sinto-me tão satisfeito por poder fazer alguma coisa por ti...
- Ainda gostas de mim?
- Como sempre gostei.
Mildred ofereceu-lhe os lábios e ele beijou-os. Havia nesse gesto um abandono
que Philip nunca lhe notara até então. Bem valia toda a angústia que sofrera.
Mildred saiu e Philip deu-se conta de que ela passara duas horas ali, na sua
companhia. Sentia-se extraordinariamente feliz.
- Coitadinha! Coitadinha... - murmurava para consigo, com o coração a arder
num amor ainda maior que o antigo.
Nunca mais pensou em Norah até que, pelas oito horas, chegou um telegrama.
Antes de abri-lo adivinhou que era dela.
- Que há? Norah.
Não soube que fazer nem responder. Podia encontrá-la quando terminasse o
espectáculo em que ela tomava parte e acompanhá-la a pé até casa, como às vezes
fazia. Mas toda a alma se lhe revoltava à ideia de vê-la naquela noite. Pensou em
escrever-lhe, mas não se animava a começar com o querida Norah de sempre. Resolveu
telegrafar:
Desolado. Não pude sair. Philip.
Via-a em pensamento. Sentia uma vaga repulsa por aquele rostozinho feio, com
os zigomas salientes e a tonalidade crua da pele. Havia nesta uma aspereza que lhe
causava arrepios. Sabia que o telegrama devia ser seguido de alguma iniciativa da sua
parte, mas, apesar de tudo, adiou-a.
Tornou a telegrafar-lhe no dia seguinte.
Impossível ir. Lamento. Escreverei.
Mildred dera a entender que voltaria às quatro da tarde e ele não quisera dizerlhe
que a hora era inconveniente. Afinal, ela estava em primeiro lugar. Esperou-a com
impaciência. Da janela, viu-a chegar e foi em pessoa abrir a porta da rua.
- Então? Falaste com Nixon?
- Falei - respondeu ela. - Disse que não valia a pena. Não se pode tomar medida
alguma. O remédio é aguentar e cara alegre.
- Mas isso é impossível! - exclamou Philip.
Ela sentou-se, desanimada.
- Nixon deu alguma razão? - perguntou.
Mildred estendeu-lhe uma carta amarrotada.
- Aqui está a tua carta, Philip. Não a entreguei. Ontem não tive coragem de
contar. Não pude. Emil não casou comigo. Não podia. Já tinha mulher e três filhos.
Philip sentiu-se de súbito pungido pelo ciúme e pela angústia. Aquilo
ultrapassava quase as suas forças.
- Foi por isso que não pude voltar para casa da minha tia. Não tenho mais
ninguém no mundo senão tu.
- Mas que foi que te fez ir para ele? - perguntou Philip, em voz baixa, que se
esforçava por manter firme.
- Não sei. No começo, ignorava que, Emil era casado. E quando ele me contou,
disse-lhe boas. Depois, passei meses sem lhe falar, e, quando voltou à casa de chá e
tornou a pedir-me, não sei que se passou comigo. Senti que não podia resistir. Tinha de
ir com ele.
- Tu amava-lo?
- Não sei. Não podia deixar de rir das histórias que me contava. E depois, tinha
qualquer coisa... Dizia que nunca me arrependeria, prometia dar-me sete libras por
semana - garantiu que estava a ganhar quinze, mas era mentira, não estava. E, além
disso, eu já andava aborrecida de ir para o emprego todos os dias e não me dava muito
bem com a minha tia. Ela queria tratar-me como uma criada e não como parenta. Dizia
que eu devia arrumar o meu quarto e que, se não o arrumasse, ninguém o faria para
mim. Oh! Se ao menos eu não tivesse ido atrás desse homem! Mas, quando Emil
apareceu e me pediu que fosse viver com ele, senti que não podia resistir...
Philip afastou-se dela. Sentou-se à mesa e ficou com a cabeça entre as mãos.
Sentia-se horrivelmente humilhado.
- Não estás zangado comigo, Philip? - perguntou ela com voz lastimosa.
- Não - respondeu, erguendo a vista mas evitando olhar para ela. - Estou apenas
muito magoado.
- Porquê?
- Compreendes, amava-te tão apaixonadamente... Fiz tudo quanto pude para que
te interessasses por mim. Pensei que eras incapaz de amar quem quer que fosse. é tão
medonho saber que te dispuseste a sacrificar tudo por aquele tipo reles... Só queria
saber o que viste nele.
- Sinto muito, Philip. Juro que depois me arrependi amargamente.
Philip pensou em Emil Miller, com aquele seu aspecto viscoso e malsão, os olhos
azuis e velhacos, a janotice vulgar. Usava sempre uns berrantes coletes de malha,
vermelhos. Philip suspirou. Ela ergueu-se e caminhou para ele, pondo-lhe os braços em
redor do pescoço.
- Nunca esquecerei que te ofereceste para casar comigo,
Ele tomou-lhe a mão e ergueu os olhos para ela. Ela inclinou-se e beijou-o.
- Philip, se ainda me queres, faço tudo quanto me pedires. Sei que és um
cavalheiro em toda a extensão da palavra.
O coração dele como que parou. Aquelas palavras causavam-lhe um vago nojo.
- É uma grande bondade da tua parte, mas não posso.
- Já não gostas de mim?
- Sim, amo-te de todo o coração.
- Então por que não aproveitamos a vida, enquanto podemos? Agora não tem
importância.
Philip desprendeu-se dela.
- Tu não podes compreender. Desde que te vi fiquei apaixonado por ti, mas
agora... esse homem! Desgraçadamente, tenho uma imaginação muito viva. Só de
pensar nisso fico revoltado.
- És engraçado - disse ela.
Ele pegou-lhe de novo na mão e sorriu-lhe.
- Não deves pensar que eu seja um ingrato. Por muito que te agradeça, nunca
será de mais. Mas... bem vês, isto é mais forte do que eu.
- Es é um bom amigo, Philip.
Continuaram a conversar e em breve tinham voltado à familiaridade e
camaradagem dos velhos tempos. Fazia-se tarde. Philip sugeriu que jantassem juntos e
fossem depois às variedades. Foi necessário persuadi-la, pois tinha a ideia de que devia
portar-se de acordo com a situação e instintivamente sentia não ficar bem sair a passear
a sua desgraça numa casa de diversões. Philip pediu-lhe, por fim, que fosse,
simplesmente para lhe ser agradável. e uma vez convertido o consentimento em
sacrifício, ela acedeu. Tinha uma nova compenetração que fazia as delícias de Philip.
Pediu-lhe que a levasse ao pequeno restaurante de Soho, onde tantas vezes haviam
estado; ele ficou-lhe infinitamente reconhecido, porque tal sugestão mostrava que
Mildred ligava àquele lugar lembranças felizes. Ela foi-se tornando cada vez mais
alegre, à medida que o jantar prosseguia. O borgonha da tasca da esquina aqueceu-lhe
o coração e ela esqueceu-se de que devia manter uma expressão dolorosa. Philip achou
prudente falar-lhe do futuro.
- Penso que estás sem nada, não é verdade? - perguntou ele, quando a
oportunidade se apresentou.
- Só tenho o que me deste ontem e já tive de pagar três libras à senhoria.
- Bom, para começar vou dar-te uma nota de dez libras. Procurarei o meu
advogado para que ele escreva a Miller. Podemos fazê-lo contribuir com alguma coisa,
estou certo disso. Se conseguirmos dele umas cem libras, isso dará para o teu sustento
até nascer a criança.
- Prefiro morrer de fome a aceitar um vintém dele.
- Mas é monstruoso que te abandone dessa maneira.
- Também tenho que pensar no meu orgulho.
A situação era um pouco embaraçosa para Philip. Era necessária uma economia
rigorosa para fazer que o seu dinheiro durasse até terminar os estudos. Precisava
também de alguma coisa com que se manter como interno de medicina e cirurgia nos
hospitais, Mildred, porém, contara-lhe vários exemplos da mesquinhez de Miller e
Philip temia discutir com ela, no caso de ser acusado de falta de generosidade.
- Dele não aceito nem a metade de um vintém. Prefiro pedir esmola. Já teria
procurado trabalho há muito tempo, se não fosse o meu estado. A gente tem que
pensar na saúde, não é verdade?
- Não precisas de te preocupar com o presente - disse Philip. - Posso dar-te tudo o
que quiseres até ficares em condições de trabalhar de novo.
- Sabia poder contar contigo. Disse a Emil que não pensasse que não tinha
ninguém por mim. Disse também que eras um cavalheiro em toda a extensão da
palavra.
Pouco a pouco Philip ficou a saber como se dera a separação.
Parecia que a mulher do tipo descobrira a aventura em que ele andava metido,
nas suas visitas a Londres, e dirigira-se ao chefe da firma para a qual ele trabalhava.
Ameaçou-o com o divórcio e na casa afirmaram-lhe que, em tal caso, seria demitido.
Emil tinha uma apaixonada dedicação pelos filhos e não podia suportar a ideia de ficar
separado deles. Vendo-se na alternativa de escolher entre a mulher e a amante, preferiu
a primeira. Procurara sempre ansiosamente evitar um filho que viesse complicar ainda
mais a situação; e quando Mildred, incapaz de ocultar por mais tempo a gravidez, o
informou do facto, foi assaltado de pânico. Provocou uma zanga e abandonou-a sem
mais demora.
- Quando achas que acaba o tempo? - indagou Philip.
- Nos princípios de Março.
- Faltam três meses.
Era necessário discutir os planos. Mildred declarou que não ficaria nos seus
aposentos em Highbury e Philip também achou mais conveniente que ela ficasse perto
dele. Prometeu procurar-lhe instalação no dia seguinte. Ela sugeriu Vauxhall Bridge
Road, como vizinhança mais conveniente.
- E ficaria perto para depois - acrescentou ela.
- Que queres dizer com isso?
- Ora, não poderei ficar lá além de dois meses ou um pouco mais. Depois, tenho
de ir para uma maternidade. Conheço uma muito séria, frequentada por gente fina.
Cobram quatro guinéus por semana, sem extraordinários. Claro, o doutor é pago em
separado. Uma amiga minha foi para lá e disse que a senhora que toma conta é muito
séria. Pretendo dizer-lhe que meu marido é um oficial que está na índia e que vim para
Londres ter a criança, por ser melhor para a minha saúde.
Philip achava extraordinário ouvi-la falar daquela maneira. Com os seus traços
miúdos e delicados e o seu rosto pálido, tinha um aspecto frio e virginal. Ao pensar nas
paixões inesperadas que ardiam naquele peito, sentiu o coração estranhamente
perturbado. O pulso bateu-lhe com violência.
LXX
Ao chegar a casa, ao contrário do que esperava, Philip não encontrou nenhuma
carta de Norah. Também nada recebeu na manhã seguinte. Esse silêncio irritava-o e, ao
mesmo tempo, alarmava-o. Desde o mês de Junho, costumavam encontrar-se todos os
dias que ele passava em Londres. Ela devia estranhar que Philip deixasse passar dois
dias sem a visitar nem justificar a ausência. Tê-lo-ia, por um infeliz acaso, visto na
companhia de Mildred ? Não podia suportar a ideia de que ela estivesse magoada ou
que sofresse, e resolveu visitá-la naquela tarde. Sentia-se quase inclinado a censurá-la
por lhe ter permitido tomar tanta intimidade com ela. O pensamento de continuar
essas relações enchia-o de repugnância.
Alugou dois quartos para Mildred no segundo andar de uma casa de Vauxhall
Bridge Road. Eram barulhentos, mas Philip sabia que ela gostava do rumor do tráfego
sob as janelas.
- Não suporto essas ruas mortas, onde a gente não vê vivalma o dia inteiro - dizia
ela. - Gosto de movimento.
Depois, encheu-se de coragem e foi a Vincent Square. Ao tocar a campainha,
sentiu o mal-estar da apreensão. Tinha a desagradável consciência de estar a conduzirse
mal para com Norah. Temia as censuras. Sabia-a impulsiva e detestava cenas. Talvez
o melhor fosse contar-lhe francamente que Mildred voltara e que o seu amor por ela
era tão violento como antes. Sentia muito, mas não podia oferecer-lhe mais nada.
Pensou depois no sofrimento de Norah, pois sabia que ela o amava. Antes, esse amor
lisonjeara-o e inspirara-lhe um imenso reconhecimento. Agora, porém, era horrível. Ela
não merecia que ele lhe infligisse uma dor tão amarga. Como iria Norah recebê-lo?
Enquanto subia as escadas passaram-lhe pela mente todas as atitudes possíveis, da
parte dela, e formulou as mais diversas hipóteses. Bateu à porta. Sentiu que estava
pálido e pensava em como esconder o nervosismo.
Norah estava a escrever ardorosamente, mas ergueu-se de um salto assim que ele
entrou.
- Conheci os teus passos! - exclamou. - Onde andaste escondido, meu menino
travesso?
Aproximou-se dele alegremente e enlaçou-lhe o pescoço com os braços. Estava
encantada por vê-lo. Ele beijou-a e, para dissimular a perturbação, disse que estava
morto por chá. Ela avivou o lume para fazer ferver a água.
- Tenho andado muito atarefado - disse, ele, desastradamente.
Ela começou a tagarelar com a vivacidade habitual. Um novo editor acabava de
lhe encomendar um pequeno romance. Ganharia quinze guinéus.
- é dinheiro caído do céu. Vou contar-te o que vamos fazer. Teremos umas
pequenas férias. Que dizes de passar um dia em Oxford, hem? Adoro ver as
universidades.
Philip olhou para ela, a fim de ver se havia alguma sombra de reprovação nos
seus olhos; mas mostravam-se tão francos e alegres como sempre: estava radiante por
vê-lo. Sentiu um aperto no coração. Não lhe podia dizer a verdade brutal. Ela
preparou-lhe umas torradas, cortou-as em pequenos pedaços e deu-lhas como se ele
fosse uma criança.
- Já alimentou o cadáver? - perguntou.
Ele meneou a cabeça, sorrindo. Norah acendeu-lhe um cigarro. Depois, como
gostava de fazer, veio sentar-se-lhe nos joelhos. Era muito leve. Reclinou-se-lhe nos
braços, com um suspiro de felicidade.
- Dize-me alguma coisa bonita - murmurou.
- Que posso dizer-te?
- Podias fazer um esforço de imaginação e dizer que gostas um pouco de mim.
- Bem o sabes.
Não tinha coragem para lhe contar a verdade. Ao menos naquele dia não queria
perturbar-lhe a paz. Talvez lhe escrevesse depois. Seria mais fácil. Não podia suportar
a ideia de vê-la chorar. Norah obrigou-o a beijá-la e, ao fazê-lo, Philip pensou em
Mildred e nos seus lábios pálidos e delgados. E a lembrança da rapariga ficou com ele
todo o tempo, como uma forma incorpórea, mais substancial, porém, do que uma
sombra. E essa visão distraía-lhe continuamente o pensamento.
- Estás muito sossegado hoje - disse Norah.
A loquacidade dela era um gracejo habitual entre ambos.
- Tu não me deixas dizer uma palavra - respondeu Philip. - Até já perdi o hábito
de falar.
- Mas não me escutas, e isso não são modos.
Ele corou de leve, pensando se ela teria alguma desconfiança do seu segredo.
Desviou os olhos, perturbado. O peso de Norah molestava-o naquela tarde e não
desejava que ela lhe tocasse.
- O meu pé está dormente - disse.
- Perdão! - exclamou ela, pondo-se de pé - Preciso emagrecer, se não quiser
perder este hábito de me sentar no colo dos cavalheiros.
Philip começou a bater ostensivamente com o pé no chão e a caminhar de um
lado para o outro. Postou-se depois diante do lume, a fim de que ela não retomasse a
posição anterior. Enquanto Norah falava, dizia consigo que ela valia bem dez
Mildreds; divertia-o muito mais e era interlocutora mais jovial; tinha mais inteligência
e uma natureza mais delicada. Era uma mulherzinha corajosa, honesta e boa; e
Mildred, reflectiu com amargura, não merecia nenhum desses epítetos. Se tivesse a
menor parcela de bom-senso, ficaria com Norah, pois fá-lo-ia muito mais feliz do que
Mildred: no fim de contas, ela amava-o, ao passo que Mildred se mostrava apenas
agradecida pelo auxílio que lhe prestava. Mas, em última análise, o que importava era
amar, mais do que ser amado. E ele ansiava por Mildred com toda a alma. Preferia
passar dez minutos com ela a estar uma tarde inteira com Norah. Dava mais apreço a
um simples beijo dos seus lábios frios do que a tudo quanto Norah lhe pudesse
oferecer.
«Isso está acima das minhas forças», pensou. «Trago-a no sangue.»
Pouco lhe importava que não tivesse coração, que fosse viciosa e vulgar, obtusa, e
cúpida. Amava-a. Preferia sofrer ao lado de uma a ser feliz junto da outra.
Quando se ergueu para sair, Norah disse-lhe naturalmente:
- Bom, ver-te-ei amanhã, não?
- Sim - retorquiu ele.
Sabia ser-lhe impossível vir, pois tinha de ajudar Mildred na mudança. Não teve,
contudo, a coragem de dizê-lo. Resolveu telegrafar depois. Mildred viu os quartos na
manhã seguinte e declarou-se satisfeita. Depois do almoço, Philip subiu com ela a
Highbury. Mildred tinha uma mala de roupas e outra com várias bugigangas,
almofadões, fotografias emolduradas - coisas com que pretendia dar um ar doméstico à
instalação. Possuía ainda duas ou três caixas de papelão grandes, mas tudo podia ir no
tejadilho de um trem. Ao passar pela Victoria Street, Philip escondeu-se no fundo da
carruagem, temendo que Norah andasse por ali. Não tivera ainda tempo para lhe
telegrafar e não o poderia fazer do posto de Vauxhall Bridge, uma vez que ela podia
estranhar que andasse por aquela zona, pois, se chegara até ali, não teria desculpa por
não ter ido ao largo vizinho, onde ela morava. Chegou à conclusão de que era melhor
ir passar meia hora com ela.
Essa necessidade, porém, deixou-o irritado. Estava zangado com Norah porque o
obrigava a estratagemas vulgares e degradantes. Sentia-se, porém, feliz por estar com
Mildred. Achou divertido ajudá-la a desfazer as malas; e experimentou uma agradável
sensação de posse ao instalá-la naqueles aposentos que ele descobrira e cujo aluguer
pagaria. Não permitiu que a rapariga se fatigasse. Era um prazer fazer as coisas para
Mildred, e esta não tinha o menor desejo de fazer o que alguém quisesse fazer por ela.
Foi Philip quem lhe tirou os vestidos da mala. Como Mildred não pretendesse sair de
novo, trouxe-lhe as chinelas e tirou-lhe as botinas. Esse papel de criado encantava-o.
- Estás a acostumar-me mal - disse ela, correndo os dedos afectuosamente pelos
cabelos de Philip, enquanto este, ajoelhado, lhe desabotoava as botinas.
Philip tomou-lhe as mãos e beijou-as.
- Como é bom ter-te aqui comigo...
Arranjou as almofadas e as fotografias. Mildred tinha vários vasos de faiança
verde.
- Vou arranjar flores - disse ele.
Lançou um olhar satisfeito em torno de si.
- Como não pretendo sair mais, vou vestir um roupão - disse ela.
- Desabotoa-me aqui atrás, sim?
Voltou-lhe as costas com tanta indiferença como se ele fosse uma mulher. O seu
sexo nada significava para ela. Mas Philip sentia-se cheio de gratidão pela intimidade
que aquele pedido testemunhava. Com dedos inábeis, desprendeu os colchetes.
- Naquele primeiro dia em que fui à casa de chá, nem imaginei que pudesse um
dia fazer-te isto - disse com um riso forçado.
- É preciso que alguém o faça... - comentou ela.
Entrou no quarto de dormir e meteu-se num roupão azul-claro, enfeitado com
grande quantidade de rendas baratas. A seguir Philip acomodou-a num sofá e foi
preparar-lhe o chá.
- Acho que não posso ficar para tomar chá contigo - disse, pesaroso. - Tenho um
maldito encontro. Mas estarei de volta dentro de meia hora.
Que resposta daria se lhe perguntasse com quem era o encontro? Mas Mildred
não mostrou curiosidade. Philip encomendara jantar para dois, ao alugar os quartos.
Pretendia passar tranquilamente o serão em companhia dela. Tinha tanta pressa de
voltar que tomou um «eléctrico» em Vauxhall Bridge Road. Achou preferível dizer
logo a Norah que não podia demorar-se senão uns minutos.
- Olha, dei um pulo até aqui para ver como estavas - disse, assim que entrou. -
Estou ocupadíssimo.
O rosto dela anuviou-se.
- Mas... que há?
Exasperava-o ver-se forçado a dizer mentiras, e sentiu que corara ao responder
que se tratava de uma demonstração no hospital, à qual era obrigado a assistir. Quis
parecer-lhe que não o acreditara e isso irritou-o ainda mais.
- Ah... Está bem, não faz mal. Ter-te-ei amanhã todo o dia.
Philip encarou-a com ar vago. O dia seguinte era domingo e contava passá-lo
com Mildred. Procurava persuadir-se de que lhe cumpria fazer aquilo por um dever de
decência; não podia deixá-la só numa casa estranha.
- Sinto muitíssimo. Amanhã estou comprometido.
Sabia que isto ia provocar uma cena que daria tudo para evitar. A cor das faces
de Norah avivou-se.
- Mas convidei os Gordon para almoçar - (era um casal de actores que andava em
tournée pelas províncias e passaria o domingo em Londres). - Preveni-te a semana
passada.
- Desculpa, esqueci-me... - Philip hesitou. - Temo que não me seja possível vir.
Não há mais alguém que possas convidar?
- Que vais fazer amanhã, então?
- Preferia que não me submetesses a um interrogatório.
- Não queres dizer-me?
- Não tem a mínima importância, mas é um pouco desagradável ser forçado a dar
conta de tudo quanto faço...
Norah mudou de repente. Conseguiu dominar a cólera veio tomar as mãos do
rapaz.
- Não me desapontes amanhã, Philip. Contava passar o dia junto de ti. Os
Gordon querem conhecer-te e vamos divertir-nos tanto...
- Se pudesse, viria da melhor vontade.
- Não sou muito exigente. Nem te peço muitas vezes que faças uma coisa que te
desagrade. Não poderás faltar a esse teu compromisso... só uma vez?
- Sinto muito, não vejo maneira... - replicou ele, carrancudamente.
- Dize-me o que é - pediu ela, aduladora.
Ele tivera tempo de inventar um pretexto.
- As duas irmãs de Griffiths vieram passar o domingo aqui e temos de levá-las a
passear.
- Só isso? - disse ela alegremente. - O Griffiths pode muito bem arranjar outro
companheiro.
Por que não pensara num motivo mais premente? Era uma mentira mal
engendrada.
- Não, sinto muitíssimo. Não posso... Prometi e tenho de manter a promessa.
- Mas prometeste-me também. Está claro que estou em primeiro lugar.
- Preferia que não insistisses.
Ela exasperou-se.
- Não vens porque não queres. Não sei o que estiveste a fazer estes últimos dias.
Andas tão diferente!
Philip consultou o relógio.
- Creio que são horas de me ir embora - disse ele.
- Então não vens amanhã?
- Não.
- Nesse caso, não precisas vir mais - gritou Norah, perdendo definitivamente a
paciência.
- Como quiseres - replicou ele.
- Não te quero prender mais tempo - acrescentou ela, irónica.
Encolheu os ombros e retirou-se. Sentia-se aliviado porque aquilo podia ter sido
pior. Não houvera lágrimas. Enquanto caminhava, congratulou-se por se ter tão
facilmente tirado da dificuldade. Entrou na Victoria Street e comprou algumas flores
para levar a Mildred.
O jantarzinho foi um grande acontecimento. Philip trouxera um boião de caviar,
de que Mildred, sabia-o, gostava muito. A dona da casa serviu-lhes costeletas com
legumes e uma sobremesa. Philip pedira borgonha, o vinho preferido dela. Com as
cortinas descidas, um bom lume, o ambiente era confortável.
- É como se a gente estivesse em casa - sorriu Philip.
- Eu podia estar em piores condições, não podia?
Terminado o jantar, Philip arrastou duas poltronas para diante do lume e
sentaram-se. Pôs-se a fumar o seu cachimbo, confortado. Sentia-se feliz e disposto à
generosidade.
- Que gostarias de fazer amanhã? - perguntou.
- Oh, vou a Tulse Hill. Lembras-te da gerente lá da casa? Pois está casada e
convidou-me para passar o dia com ela. é claro, pensa que também estou casada.
O coração de Philip desfaleceu.
- Mas recusei um convite só para poder passar o domingo contigo...
Pensou que, se ela o amasse, diria que nesse caso ficava. Sabia muito bem que
Norah, em idêntica situação, não hesitaria.
- Pois foi uma tolice. Há três semanas ou mais que prometi ir.
- Mas, como podes ir sozinha?
- Oh... Digo que Emil está fora, em serviço. O marido dela negoceia em luvas e é
um sujeito muito fino.
Philip permaneceu calado e sentimentos amargos lhe passaram pelo coração. Ela
olhou-o de soslaio.
- Queres ser desmancha-prazeres, Philip? Compreende, é a última vez que posso
sair, sabe Deus por quanto tempo. E, além disso, prometi...
Ele segurou-lhe a mão e sorriu.
- Não, querida. Quero que te divirtas o mais possível. Não desejo senão a tua
felicidade.
Um pequeno livro de capa azul estava aberto em cima do sofá, de costas para
cima. Philip apanhou-o distraidamente. Era uma novela barata, de Courtenay Paget.
Era o pseudónimo de Norah.
- Gosto dos livros dele - disse Mildred. - Já li todos. São tão distintos...
Philip lembrou-se do que Norah dissera de si própria:
- Gozo de uma enorme popularidade entre as cozinheiras. Elas acham-me tão
requintada...
LXXI
Em retribuição das confidências de Griffiths, Philip contara-lhe pormenores das
suas complicações amorosas e no domingo, pela manhã, depois do pequeno almoço,
quando fumavam ao pé do lume, Philip contou-lhe a cena do dia anterior. Griffiths
felicitou-o por se ter livrado tão facilmente das dificuldades.
- Ter uma aventura com uma mulher - observou em ar sentencioso - é a coisa
mais simples do mundo. Mas livrar-se dela é um trabalho dos diabos.
Philip estava um tanto envaidecido da habilidade com que se conduzira no
assunto. Fosse como fosse, sentia imenso alívio. Lembrava-se de Mildred, que estaria a
divertir-se em Tulse Hill e a felicidade dela causava-lhe real satisfação. Fora um acto de
sacrifício da sua parte não a privar daquele prazer, apesar da sua própria decepção; e
isso enchia-lhe o coração de indizível contentamento.
Mas, na manhã de segunda-feira, encontrou em cima da mesa uma carta de
Norah. Dizia:
Querido:
Lamento ter ficado zangada no sábado. Perdoa e vem tomar o chá da
tarde como sempre. Amo-te. Tua
Norah
Caiu-lhe o coração aos pés e ficou sem saber que fazer. Levou o bilhete a Griffiths
e mostrou-lho.
- O melhor é deixá-lo sem resposta - disse este.
- Oh!... Impossível - exclamou Philip. - Sentir-me-ia miserável a pensar nela à
espera, à espera... Não sabes o que é estar em suspenso, aguardando a chegada do
carteiro. Eu sei, e não desejo essa tortura a ninguém.
- Meu caro, não se rompe uma ligação como essa sem que alguém sofra. É preciso
resignarmo-nos ao inevitável. Felizmente, essas coisas não são muito demoradas.
Philip dizia consigo que Norah nada fizera para que ele a fizesse sofrer. E que
sabia Griffiths do grau de angústia de que ela era capaz? Lembrou-se da sua própria
dor, quando Mildred lhe dissera que ia casar. Não queria que ninguém passasse pelo
que ele passara.
- Se estás tão empenhado em não lhe causar sofrimento, volta para ela -
aconselhou Griffiths.
- Isso é impossível.
Philip levantou-se e ficou a caminhar no quarto, de um lado para outro,
nervosamente. Estava furioso com Norah, pela sua insistência. Devia ter compreendido
que ele já não tinha amor para lhe dar. E diziam que as mulheres percebiam tão
depressa essas coisas!
- Podias ajudar-me - disse a Griffiths.
- Meu caro, não faças tanto espalhafato. Bem sabes que toda a gente tem de
resolver esses problemas. Provavelmente, ela não te ama tanto como imaginas. Sempre
temos uma tendência para exagerar a paixão que inspiramos.
Fez uma pausa e olhou para Philip, com ar divertido.
- Olha cá, não há senão uma coisa a fazer. Escreve-lhe a dizer que está tudo
terminado. Mas faz isso de modo que não possa haver dúvida. Ficara magoada, mas o
golpe será menor se fizeres a coisa brutalmente do que se andares com rodeios.
Philip sentou-se à mesa e redigiu a seguinte carta:
Minha querida Norah,
Sinto muito fazer-te infeliz, mas acho melhor que as coisas fiquem
onde as deixámos no sábado. Parece-me inútil continuar, uma vez que já não
nos dá prazer. Tu mandaste-me embora e eu fui. Não pretendo voltar.
Adeus.
Philip Carey
Mostrou a carta a Griffiths e pediu-lhe a opinião. Griffiths leu-a e considerou
Philip com os olhos cintilantes. Não exprimiu o seu pensamento.
- Acho que assim pega - disse.
Philip saiu para ir ao correio. Passou uma manhã desagradável; procurava
imaginar com grandes pormenores os sentimentos de Norah quando recebesse a carta.
Torturava-se ao pensar nas suas lágrimas. Mas, ao mesmo tempo, estava aliviado. A
aflição que se imagina é mais fácil de suportar do que a aflição que se vê. Agora, estava
livre para amar Mildred com toda a alma. O coração batia-lhe mais depressa, à ideia de
ir vê-la naquela tarde, após o trabalho no hospital.
Como de costume, voltou aos seus aposentos para se preparar, mas, mal metera a
chave na fechadura, ouviu uma voz atras de si.
- Posso entrar? Há meia hora que estou à tua espera.
Era Norah. Sentiu-se corar até à raiz dos cabelos. Ela falava alegremente. Não
havia o menor traço de ressentimento na sua voz e nada indicava que tivesse havido
um rompimento entre ambos. Philip sentiu-se encurralado. Encheu-se de pânico, mas
fez o possível pata sorrir.
- Pois não... - respondeu.
Abriu a porta, e ela entrou na frente para a sala de visitas. Philip estava nervoso.
Para disfarçar, ofereceu um cigarro a Norah e acendeu outro para si. Ela olhou com
vivacidade.
- Por que me escreveste aquela carta horrível, meu menino travesso? Se a tivesse
levado a sério sentir-me-ia completamente desgraçada.
- Mas era a sério - respondeu ele, gravemente.
- Não sejas tolo. Perdi a calma no outro dia mas escrevi a pedir desculpa. Não
ficaste satisfeito e por isso estou aqui para me desculpar outra vez. Afinal de contas, és
senhor de ti próprio e não tenho qualquer direito sobre ti. Não pretendo forçar-te a
fazer coisa alguma que não queiras.
Ergueu-se da cadeira em que estava sentada e dirigiu-se para Philip
impulsivamente, com os braços estendidos.
- Vamos fazer as pazes, Philip. Sinto muito se te ofendi.
Ele não pôde impedir que ela lhe segurasse as mãos, mas não teve coragem de
encará-la.
- Infelizmente, é tarde de mais.
Norah deixou-se cair no soalho, a seus pés, e enlaçou-lhe os joelhos.
- Philip, não sejas tolo. Também tenho mau génio e compreendo que te magoei.
Mas é absurdo ficar amuado por causa disso. Para que serve fazer-nos a ambos
infelizes? Foi tão deliciosa a nossa amizade... - E, passando os dedos lentamente pela
mão dele: - Amo-te, Philip.
Ele pôs-se de pé, desembaraçando-se dela, e caminhou para o outro lado da sala.
- Sinto muito, mas não posso fazer nada. Está tudo terminado.
- Queres dizer que já não me amas?
- Acho que sim.
- Procuravas então uma oportunidade para te desfazeres de mim e aproveitaste
esta?
Não respondeu. Norah encarou-o fixamente por um tempo que lhe pareceu
intolerável. Sentada no soalho, onde ele a deixara, inclinara-se contra a poltrona.
Começou a chorar em silêncio, sem ocultar o rosto e, uma a uma, grandes lágrimas lhe
rolaram pelas faces. Não soluçava. Era horrivelmente confrangedor vê-la. Philip
voltou-se para outro lado.
- Sinto muitíssimo magoar-te. Não tenho culpa de não te amar.
Ela não respondeu. Deixou-se ficar simplesmente onde estava, como que
exânime, e as lágrimas corriam-lhe pelo rosto. Aquilo teria sido mais fácil de suportar
se houvesse censuras da parte dela. Philip esperava as explosões do seu génio e estava
preparado para isso. No fundo, sentia que uma zanga de verdade, na qual cada um
dissesse ao outro coisas cruéis, seria de certo modo uma justificação do seu
comportamento. O tempo corria. Por fim, Philip ficou assustado com aquele choro
silencioso; foi ao quarto de dormir e trouxe de lá um copo de água. Inclinou-se para
ela.
- Queres beber um pouco? Far-te-á bem.
Ela aproximou maquinalmente os lábios do copo e bebeu dois ou três golos.
Depois, num murmúrio exausto, pediu um lenço. Enxugou os olhos.
- Bem sabia que não me tinhas o mesmo amor que eu a ti - gemeu ela.
- Acho que é sempre assim - disse ele. - Há sempre um que ama e outro que se
deixa amar.
Pensou em Mildred e uma dor aguda trespassou-lhe o coração. Norah ficou largo
tempo sem responder.
- Eu era tão infeliz e tinha uma vida tão triste... - disse ela por fim.
Não se dirigia a Philip, mas a si mesma. Nunca a ouvira queixar-se da vida que
levava com o marido, nem da sua pobreza. Admirara-lhe sempre a atitude
desassombrada diante do mundo.
- Depois, apareceste e foste tão bom para mim... E admirava-te porque eras
inteligente e era tão maravilhoso ter alguém em quem confiar. Amava-te. Nunca pensei
que pudesse acabar. E sem nenhuma culpa da minha parte...
As lágrimas começaram a rolar de novo, mas agora estava mais senhora de si.
Escondeu o rosto no lenço de Philip. Fez um grande esforço para se dominar.
- Dá-me mais água - pediu.
Enxugou os olhos.
- Sou ridícula... Desculpa. É que não esperava...
- Sinto muito, Norah. Quero que saibas quanto te sou reconhecido por tudo
quanto fizeste por mim.
(Que será que ela viu em mim? - reflectia Philip).
- Oh, é sempre a mesma coisa - suspirou ela. - Quando queremos que os homens
se portem bem devemos tratá-los mal: se a gente se porta correctamente, fazem-nos
sofrer por isso.
Levantou-se do chão e disse que se ia embora. Lançou a Philip um olhar
prolongado e firme. Depois suspirou.
- É uma coisa tão inexplicável... Qual é a significação disto?
Philip tomou uma resolução súbita.
- Penso que é melhor dizer tudo. Não quero que me julgues mal. Quero que
compreendas que foi inevitável. Mildred voltou.
Norah ficou vermelha.
- Por que não me disseste logo? Merecia mais franqueza.
- Não tive coragem.
Norah mirou-se no espelho e endireitou o chapéu.
- Queres chamar-me um trem? - pediu. - Não me sinto com forças para andar.
Philip foi até à porta e deteve um carro que passava. Mas quando ela desceu,
ficou sobressaltado por vê-la tão pálida. Tal era a lassidão dos seus movimentos que se
diria ter envelhecido de súbito Parecia tão doente que Philip não teve coragem de
deixá-la ir sozinha.
- Acompanhar-te-ei, se o permitires.
Não respondeu e ele entrou também no trem. Passaram em silêncio sobre a
ponte, atravessaram ruas sórdidas, no meio das quais crianças brincavam, soltando
gritos agudos. Quando chegaram à porta da casa de Norah, esta não desceu
imediatamente. Parecia não poder reunir as forças necessárias para mover as pernas.
- Espero que me perdoes, Norah - pediu Philip.
Ela voltou os olhos na direcção dele e Philip viu que estavam outra vez brilhantes
de lágrimas. Mas Norah sorriu com esforço.
- Coitado, estás tão preocupado comigo! Não te inquietes. Não te censuro. Isto
passará.
Acariciou-lhe o rosto num gesto leve e rápido, para lhe mostrar que não
guardava ressentimento. Esse gesto foi mais sugerido do que realizado. Depois, saltou
do carro e entrou em casa.
Philip pagou ao cocheiro e dirigiu-se a pé para o apartamento de Mildred. Sentia
um peso estranho no coração. Estava inclinado a exprobrar-se. Mas porquê? Não sabia
que outra coisa pudesse ter feito. Ao passar por uma casa de frutas, lembrou-se de que
Mildred gostava de uvas. Dava graças por poder demonstrar-lhe o seu amor,
lembrando-se do todos os caprichos que ela tinha.
LXXII
Nos três meses que se seguiram, Philip foi ver Mildred todos os dias. Levava os
livros consigo e, depois do chá, estudava, enquanto Mildred, estendida no sofá, lia
novelas. De quando em quando levantava os olhos e ficava a olhá-la. Um sorriso feliz
aflorava-lhe aos lábios. Ela sentia-lhe o olhar.
- Não percas tempo a olhar para mim, pateta. Continua o teu estudo - disse-lhe
um dia.
- Tirana - respondeu-lhe alegremente.
Punha o livro de lado quando a senhoria entrava, a fim de pôr a mesa para o chá
e palrava animadamente com ela. Era uma mulherzinha do povo, de meia-idade, que
tinha a réplica pronta e não era destituída de veia humorística. Mildred tornara-se sua
grande amiga, tendo-lhe contado uma história complicada e fictícia das circunstâncias
que a haviam levado àquela conjuntura. A mulherzinha, dotada de bom coração, ficou
comovida e não se poupava trabalho para proporcionar conforto a Mildred. O senso de
conveniência desta última inspirou-lhe a ideia de fazer passar Philip por seu irmão.
Jantavam juntos e Philip sentia-se deleitado quando o prato que encomendara tentava
o apetite caprichoso da companheira. Que encanto sentar-se junto dela! E, de quando
em quando, por puro contentamento, apertava-lhe a mão. Ao deixar a mesa, ela
instalava-se numa poltrona perto do lume e, sentado no soalho, reclinando-se-lhe nos
joelhos, Philip fumava. Passavam longos momentos sem falar e, às vezes, Philip
percebia que ela dormitava. Não ousava então mover-se, para não a despertar, e ficava
muito quieto, a olhar preguiçosamente para o lume, gozando a sua felicidade.
- Dormiu um soninho? - perguntava a sorrir, quando ela acordava.
- Não estava a dormir - protestava ela. - Tinha só os olhos fechados.
Nunca admitia que tivesse estado a dormir. Possuía um temperamento apático e
o seu estado não lhe causava inconvenientes sérios. Preocupava-se muito com a
própria saúde e aceitava os conselhos de quem quer que os oferecesse. Nas manhãs
bonitas, saía a dar um passeio higiénico e demorava-se fora certo tempo. Quando não
fazia muito frio, ia sentar-se no St. James. Park. Mas o resto do dia passava-o
perfeitamente feliz no seu sofá, a ler novela após novela, ou a tagarelar com a
proprietária da casa. Tinha um interesse inesgotável pelos mexericos e contava a
Philip, com abundância de pormenores, a história da senhoria, dos inquilinos do
primeiro andar e da gente que morava nas casas contíguas. Uma vez ou outra,
Mildred, tomada de pânico, confiava a Philip os seus receios quanto às dores do parto
e ficava aterrorizada à ideia de morrer. Fez-lhe um relato circunstanciado dos partos da
senhoria e da senhora que vivia no primeiro andar. (Mildred não a conhecia. «Eu não
sou de muitas relações« - dizia. - «Não sou dessas que se dão com toda a gente»).
Narrava aqueles pormenores com um curioso misto de horror e satisfação; mas em
geral esperava o acontecimento com calma.
- No fim de contas, não sou a primeira que vai ter um filho, não é assim? E o
doutor diz que tudo correrá bem. Claro, correria mal se eu não fosse bem conformada.
Mrs. Owen, a dona da casa onde ela ia ter a criança, recomendara um médico, e
Mildred visitava-o uma vez por semana. Pagava-lhe quinze guinéus.
- Naturalmente, podíamos encontrar um mais barato, mas Mrs. Owen
recomendou-me tanto esse médico que achei não valer a pena arriscar a saúde para
economizar algumas libras.
- Se estás contente e tranquila, o que menos importa é a despesa - disse Philip.
Aceitava tudo quanto Philip fazia por ela, como se fosse a coisa mais natural
deste mundo e aquele, por sua vez, gostava de gastar dinheiro com Mildred. Cada nota
de cinco libras que lhe dava provocava-lhe um arrepio de prazer e orgulho. E deu-lhe
muitas, porque ela não era económica.
- Não sei para onde vai o dinheiro - ela própria dizia. - Parece que me escorrega
pelos dedos como água.
- Não faz mal - disse-lhe Philip. - Sinto-me tão contente por poder fazer alguma
coisa por ti...
Como não soubesse coser bem, não fez o enxoval da criança; disse a Philip que
saía muito mais barato comprá-lo pronto. Philip acabava de vender um dos títulos
hipotecários em que haviam empregado o seu dinheiro. E agora, com quinhentas libras
no Banco, à espera de serem investidas em algo mais negociável, sentia-se rico.
Falavam muitas vezes no futuro. Philip estava ansioso por que Mildred ficasse com a
criança, mas ela recusava: tinha de ganhar a vida e isso ser-lhe-ia mais fácil se não
tivesse um filho de quem cuidar. O seu plano era voltar para uma das casas da firma
para a qual trabalhara e deixar a criança entregue a alguma boa mulher do campo.
- Posso achar quem cuide bem dela por sete xelins e seis pence por semana. Será
melhor para a criança e para mim.
Isso pareceu a Philip uma falta de sensibilidade, mas quando tentou chamá-la a
razão, ela fingiu pensar que estava a referir-se às despesas.
- Não precisas de te incomodar com isso - disse ela. - Não serás tu quem pagará.
- Sabes que não faço caso do dinheiro.
No fundo do coração, ela tinha a esperança de que o filho nascesse morto. Só
fazia leves alusões a isso, mas Philip compreendia-lhe o pensamento. A princípio,
indignou-se, mas devia confessar que aquela seria a melhor solução para todos.
- Tudo isso é muito bonito de dizer - observara Mildred em tom lamentoso - mas
é já bastante difícil para uma rapariga. ganhar a vida sozinha, quanto mais com um
filho...
- Felizmente podes contar comigo - sorriu-lhe Philip segurando-lhe a mão.
- Tens sido bom para mim, Philip.
- Ora... tolice!
- Não podes dizer que nada te ofereci em troca de tudo o que tens feito por mim.
- Santo Deus! Não quero retribuição. Se alguma coisa fiz por ti, foi porque te amo.
Nada me deves. Não quero que me dês coisa alguma, a não ser que me ames.
Sentia-se um tanto horrorizado ante a ideia de que o corpo de Mildred, era uma
mercadoria que ela podia entregar com indiferença, em pagamento de serviços
prestados.
- Mas quero retribuir, Philip. Tens sido tão bom para mim...
- Pois bem, não perdemos nada por esperar. Quando te restabeleceres, teremos
uma pequena lua-de-mel.
- Seu maroto!... - fez ela, a sorrir.
Mildred esperava ir para a maternidade em Março, e logo que se restabelecesse,
iria passar uma quinzena à beira-mar. Isso daria a Philip o ensejo de estudar sem
interrupção para os exames. Vinham depois as férias da Páscoa e tinham combinado ir
juntos a Paris. Philip falava interminavelmente das coisas que fariam. Paris, naquela
época, era delicioso. Alugariam quarto num hotelzinho que ele conhecia, no Bairro
Latino, e comeriam em pequenos restaurantes, os mais diversos e encantadores. Iriam
ao teatro e levá-la-ia às variedades. Mildred gostaria de conhecer os seus amigos.
Philip falou-lhe de Cronshaw; ela vê-lo-ia também. E havia ainda Lawson, que fora a
Paris passar uns meses. Iriam ao Bal Bullier. Fariam excursões. Iriam até Versalhes,
Chartres, Fontainebleau...
- Mas isso vai custar um dinheirão disse ela.
- Oh! Para o diabo a despesa! Imagina apenas quanto anseio por isso. Não vês o
que essa viagem significa para mim? Nunca amei senão a ti. E nunca amarei.
Ela escutava aquele entusiasmo com olhos sorridentes. Philip julgou ver neles
uma ternura nova e era-lhe grato por isso. Mildred mostrava-se muito mais afável que
de costume. Já não tinha aquele ar de superioridade que o irritava. Estava agora tão
acostumada a ele, que já não se dava ao trabalho de ter atitudes. Já não trazia o cabelo
penteado com o antigo esmero; amarrava-o simplesmente num rolo e renunciou até à
franja que costumava usar. Esse arranjo negligente ficava-lhe muito bem. O rosto
estava tão delgado que os olhos pareciam muito grandes; andavam cercados de
olheiras e o calor das faces acentuava-lhes a cor. Mildred tinha uma expressão absorta,
que era infinitamente comovedora. Havia nela, pensava Philip, um ar de Madona.
desejava que pudessem continuar assim para sempre. Sentia-se mais feliz do que
jamais fora em toda a vida.
Costumava deixá-la às dez da noite, porque Mildred gostava de ir para a cama
cedo. Era obrigado a estudar mais umas horas, em casa, para recuperar o tempo
perdido no serão. Geralmente, penteava o cabelo de Mildred antes de se retirar. Dos
beijos que lhe dava ao despedir-se, fizera um ritual. Beijava-lhe primeiro as palmas das
mãos (como eram finos os seus dedos e lindas as unhas em cujo cuidado ela gastava
tanto tempo!) a seguir beijava-lhe os olhos fechados, primeiro o direito e depois o
esquerdo, e, por fim, os lábios. Ia para casa com o coração a transbordar de amor.
Anelava por uma oportunidade de satisfazer o desejo de sacrifício que o consumia.
Chegou finalmente para Mildred o momento de ir para a maternidade. Philip só
podia visitá-la à tarde. Mildred alterou a sua história e apresentou-se como esposa de
um soldado que fora reunir-se ao seu regimento na Índia. Philip, para a dona do
estabelecimento, ficou a ser seu cunhado.
- Tenho de tomar muito cuidado com o que digo - observou-lhe ela. - Pois há
outra senhora aqui que é esposa de um funcionário da Índia.
- Se fosse a ti, não me inquietava com isso - disse Philip. - Estou convencido de
que o marido dela e o teu foram no mesmo navio.
- Que navio? - perguntou ela, inocentemente.
- O Navio Fantasma.
Mildred, num parto feliz, deu à luz uma menina. Quando Philip teve permissão
de vê-la, encontrou-a ao lado da mãe. Mildred achava-se muito fraca, mas contente por
ver que tudo terminara. Mostrou-lhe a criança e ela também a examinou com
curiosidade.
- É uma coisinha engraçada, não é? Não posso acreditar que seja minha.
A pequerrucha era vermelha, enrugada e tinha um aspecto esquisito. Philip
sorriu ao olhar para ela. Não sabia bem que dizer; isso embaraçava-o porque a
proprietária da casa estava a seu lado. E ele sentia, pela maneira como a mulher o
olhava, que, duvidando da história complicada de Mildred, o tomava pelo pai da
criança.
- Que nome lhe vais pôr? - perguntou.
- Não sei ainda. Madeleine ou Cecília.
A enfermeira deixou-os a sós por uns minutos e Philip, inclinando-se, beijou
Mildred na boca.
- Estou contente por teres sido feliz, querida.
Ela pôs-lhe os braços finos em torno do pescoço.
- Tens sido muito bom para mim, querido Phil.
- Agora sinto que és minha, afinal. Esperei tanto tempo por ti, meu amor.
Ouviram os passos da enfermeira e Philip ergueu-se bruscamente. A enfermeira
entrou. Havia um leve sorriso nos seus lábios.
LXXIII
Três semanas depois, Philip viu Mildred e a filha partirem para Brighton. Tivera
uma rápida convalescença e parecia mais bonita do que nunca. Ia para uma pensão
onde passara alguns fins-de-semana com Emil Miller. Escrevera antes, para dizer que
seu marido fora obrigado a ir à Alemanha, em viagem de negócios e que viria com a
filha. Sentia prazer nas histórias que inventava e revelava certa fertilidade de
imaginação em trabalhar os pormenores. Mildred tencionava procurar em Brighton
uma mulher que estivesse disposta a tomar conta da criança. Philip estava
surpreendido pela insensibilidade com que ela insistia em livrar-se da filha. Mas
Mildred argumentou dentro do bom-senso que seria melhor que a pobrezinha fosse
confiada a alguém, antes de se acostumar a ela. Philip esperava que o instinto materno
se impusesse depois de duas ou três semanas de nascida a criança, e contava com ele
para ajudá-lo a persuadir Mildred a ficar com a filha. Nada disso, porém, aconteceu.
Mildred não era má para a menina; fazia tudo quanto era necessário; divertia-se às
vezes com ela, falava muito a seu respeito; mas, no fundo, era-lhe indiferente. Não
olhava para a filha como parte de si própria. Imaginava-a já parecida com o pai. Estava
constantemente a pensar em como se arranjaria quando ela crescesse. Exasperava-se
por ter cometido a tolice de deitá-la ao mundo.
- Se ao menos naquele tempo, soubesse o que sei hoje... - dizia.
Ria de Philip por vê-lo preocupar-se com o bem-estar da criança.
- Se fosses o pai não estarias mais alvoroçado - disse ela. - Só queria saber se o
Emil faria isso...
O espírito de Philip estava cheio de histórias que ouvira a respeito de crianças
que são entregues aos cuidados de gente mercenária e dos brutos que maltratam essas
infelizes criaturinhas, a eles confiadas pelos pais egoístas e cruéis.
- Não sejas tão tolo - disse Mildred. - Isso é quando a gente paga tudo de uma
vez. Mas quando se paga um tanto por semana, é do interesse de quem cuida tratar
bem da criança.
Philip insistiu para que Mildred entregasse a menina a pessoas que não tivessem
filhos e prometessem não aceitar mais.
- Não regateies quanto ao preço - avisou. - Prefiro pagar meio guinéu por semana
a expor a pequena ao risco de ser mal alimentada ou maltratada.
- És um tipo engraçado, Philip - riu-se ela.
Para ele, havia algo muito comovente no desamparo daquela criaturinha. Era
pequena, feia e chorona. O seu nascimento fora esperado com vergonha e angústia.
Ninguém a queria. E ela dependia dele, um estranho, para ter alimento, abrigo e
roupas com que cobrir a nudez.
Quando o comboio se pôs em movimento, beijou Mildred. Teria beijado a
pequena também, se não temesse que a mãe se risse dele.
- Vais escrever-me, sim, querida? Ficarei à tua espera com toda a impaciência.
- Trate de passar no exame, ouviu?
Estudara com ardor e nos dez últimos dias fez um esforço final. Estava ansioso
por passar, primeiro para poupar tempo e despesa, pois o dinheiro tinha simplesmente
voado, com uma rapidez incrível, nos últimos quatro meses; em segundo lugar porque
esse exame marcava o fim da parte ingrata dos estudos. Depois dele, o estudante
começava com a medicina, obstetrícia e cirurgia, coisas de interesse maior do que a
anatomia e a fisiologia com que se ocupara até então: Philip sentia-se antecipadamente
interessado nessas matérias. Também não queria confessar a Mildred que perdera o
ano, embora o exame fosse se bastante difícil e a maioria dos candidatos ficasse
reprovada da primeira vez; ela desprezá-lo-ia se ele não passasse. Tinha um modo
particularmente humilhante de dar a entender o que pensava.
Mildred mandou-lhe um postal com a notícia de que chegara bem. Philip
roubava meia hora por dia para lhe escrever uma longa carta. Tinha sempre certa
timidez em se expressar de viva voz, mas com a pena na mão achava que lhe podia
escrever todas as coisas que ditas verbalmente lhe pareceriam ridículas. Tirando
proveito dessa descoberta, extravasou todo o coração no papel. Nunca chegara a dizerlhe
o sentimento de adoração que lhe inspiravam todos os seus actos e pensamentos.
Falou-lhe do futuro, da felicidade que o aguardava e também da gratidão que lhe
devia. Perguntava a si próprio (já o fizera muitas vezes, mas sem pô-lo jamais em
palavras) o que havia nela para enchê-lo de tão singular delícia. Não sabia. Sabia
apenas que, quando estava junto de Mildred, era feliz, e, quando longe dela, o mundo
lhe parecia de súbito frio e sem cor; sabia apenas que, quando pensava nela, o coração
parecia crescer-lhe dentro do peito, de tal maneira que lhe era difícil o respirar (como
se aquilo lhe comprimisse os pulmões); pulsava tão desordenadamente, que a delícia
da sua presença chegava a ser quase um sofrimento. Os joelhos tremiam-lhe e sentia-se
estranhamente enfraquecido, como se estivesse trémulo de fome. Esperava as respostas
de Mildred com ansiedade. Não contava que ela lhe escrevesse amiúde, porque sabia
que lhe era difícil redigir cartas. Contentou-se com o bilhete mal alinhavado que
chegou, em resposta a quatro missivas suas. Ela falava-lhe da pensão em que estava,
do tempo e da criança; contava-lhe que fora dar um passeio ao cais com uma senhora
com quem travara amizade e que gostava muito da menina; dizia, também, que iria ao
teatro na noite de sábado e que Brighton estava cheia de gente. Essa maneira de
escrever comovia Philip. O estilo enredado, a formalidade do assunto, davam-lhe um
estranho desejo de rir, de tomá-la nos braços e de beijá-la.
Foi para os exames confiante e satisfeito. E, nas provas escritas, não encontrou
dificuldade alguma. Sabia ter respondido bem, e embora estivesse mais nervoso na
prova oral, conseguiu responder às perguntas com propriedade. Quando soube o
resultado, enviou um telegrama triunfante a Mildred.
Ao voltar para o seu alojamento, Philip encontrou uma carta dela, a dizer que
achava melhor ficar outra semana em Brighton. Encontrara uma mulher que se
dispunha a tomar conta da pequena por sete xelins semanais, mas Mildred queria
pedir informações dela. Dizia beneficiar tanto com o ar da praia que mais uns dias lhe
fariam enorme bem. Era-lhe odioso pedir dinheiro a Philip, mas esperava que lhe
mandasse algum na volta do correio, pois tivera de comprar um chapéu novo, já que
não podia andar em companhia da amiga, sempre com o mesmo chapéu, pois essa
amiga trajava muito bem. Philip teve um instante de amargo desapontamento. Isso
tirou-lhe todo o prazer de ter sido aprovado nos exames.
- Se tivesse por mim a quarta parte do amor que tenho por ela, não ficaria lá nem
um dia mais que o necessário.
Afastou, rápido, esse pensamento. Era puro egoísmo. Sem dúvida, a saúde dela
era mais importante do que qualquer outra coisa. Mas agora, ele nada tinha a fazer;
podia, pois, passar a semana com ela em Brighton e estariam juntos o dia inteiro, O seu
coração exultou com essa ideia. Seria divertido aparecer diante de Mildred assim de
repente, a dizer-lhe que alugara um quarto na mesma pensão. Consultou o horário dos
comboios. Mas deteve-se. Não tinha a certeza de que Mildred sentisse prazer em vê-lo;
travara amizades em Brighton. Ele era sossegado e ela gostava da jovialidade
turbulenta. Não ignorava que se divertia mais com os outros do que com ele. Seria uma
tortura se sentisse que era importuno. Temia correr esse risco. Não ousava sequer
sugerir em carta que, como nada o prendesse na cidade, gostaria de passar a semana
onde pudesse vê-la todos os dias. Mildred, sabia que ele nada tinha a fazer; se o
quisesse a seu lado, ter-lhe-ia escrito. Philip receava a angústia que sofreria se se
oferecesse para ir e ela apresentasse algum pretexto para evitá-lo.
Escreveu-lhe no dia seguinte, enviava uma nota de cinco libras, e, no fim da
carta, dizia que, se fosse boazinha e desejasse vê-lo no sábado, teria prazer em ir a
Brighton; acrescentou, contudo, que de forma alguma queria alterar os planos que ela
tivesse feito. Esperou a resposta com impaciência. E a resposta veio. Mildred dizia-lhe
que, se lhe tivesse comunicado antes o desejo de visitá-la, arranjaria as coisas; mas
prometera ir ver umas variedades na noite de sábado; além disso, se ele fosse para a
pensão, os hóspedes podiam falar... Por que não vinha na manhã de domingo, para
passar o dia? Poderiam almoçar no Metrópole e depois levá-lo-ia a visitar a
distintíssima senhora que ia tomar conta da menina.
Domingo. Philip abençoou-o, porque o dia estava lindo. Quando o comboio se
aproximava de Brighton, o sol jorrava pela janela da carruagem. Mildred esperava-o na
plataforma.
- Que gentileza vires esperar-me! - exclamou, ao tomar-lhe as mãos.
- Contavas que eu fizesse isso, não é verdade?
- Contava, sim. Mas, como é boa a tua aparência!
- Tenho aproveitado muito. Mas acho que o melhor é demorar-me aqui o mais
possível. Lá na pensão mora uma gente muito distinta. Depois de tantos meses sem ver
ninguém, precisava de animação. às vezes, era aborrecido.
Mildred estava muito elegante, com o chapéu novo, de palha negra, enfeitado
com muitas flores baratas. Trazia em redor do pescoço uma boa comprida, imitando
penugem de cisne. Estava ainda muito magra e caminhava um pouco curvada (sempre
fora assim) mas os olhos já não pareciam tão grandes. E se lhe faltava ainda frescura à
tez, esta, por outro lado, perdera o tom terroso. Desceram ambos em direcção ao mar.
Lembrando-se de que havia meses que não caminhava com ela, Philip teve de súbito a
consciência da seu coxear; fez um esforço para caminhar empertigado, a fim de o
ocultar.
- Estás contente por me ver? - indagou ele, com o amor a dançar-lhe doidamente
no coração.
- Claro que estou. Nem precisas de perguntar.
- A propósito: Griffiths manda-te saudades.
- Que atrevimento!
Philip falara-lhe muito de Griffiths. Contara-lhe como ele era namorador e
Mildred divertira-se muitas vezes com a narração de alguma aventura que Griffiths,
com carácter confidencial, contara ao amigo. Mildred escutara, com certa repugnância
fingida, uma vez ou outra, mas geralmente com curiosidade; e Philip, levado pela
admiração, exagerava a beleza e a sedução do outro.
- Tenho a certeza de que gostarás dele tanto como eu. É um tipo muito jovial e
divertido e uma óptima pessoa.
Philip explicou que, quando ambos eram perfeitamente estranhos, Griffiths
cuidara dele numa doença; e, nessa narrativa, o sacrifício de Griffiths não ficou
diminuído.
- Não se pode deixar de gostar dele - concluiu Philip.
- Não gosto de homens bonitos - disse Mildred. - São muito pretensiosos.
- Ele quer conhecer-te. Falei-lhe muito a teu respeito.
- Que lhe disseste? - perguntou Mildred.
A única pessoa a quem Philip podia falar do seu amor por Mildred era Griffiths.
Pouco a pouco, contara-lhe toda a história da sua ligação com ela. Descrevera-a
cinquenta vezes. Detinha-se amorosamente em cada pormenor do seu físico e Griffiths
conhecia com exactidão o modelado daquelas mãos finas e a brancura daquele rosto.
Ria-se de Philip, quando ele lhe falava do encanto dos seus lábios delgados e pálidos.
- Graças a Deus, não vejo as coisas de uma maneira tão séria - dizia-lhe. - A vida,
assim, não valeria a pena...
Philip sorria. Griffiths não conhecia as delícias de uma paixão tão doida que
chegava a ser necessária como a carne e o vinho, como o ar que se respira ou qualquer
outra coisa essencial à existência. Griffiths sabia que Philip olhara pela rapariga
durante o parto e ia agora viajar com ela.
- Bom, devo reconhecer que mereces alguma coisa em troca - observou ele, certa
vez. - Isso deve ter custado bom dinheiro. A sorte é que tens recursos.
- Não tenho - replicou Philip. - Mas que me importa!
Era ainda cedo para o almoço, e Philip e Mildred sentaram-se num dos abrigos
do passeio, para gozar o sol e ver as pessoas que passavam. Caixeiros das lojas de
Brighton desfilavam aos dois e aos três, volteando as bengalas, e as empregadinhas
caminhavam saltitantes, em bandos risonhos. Podiam distinguir-se as pessoas que
tinham vindo de Londres passar ali o dia. O ar vivo como que lhes afugentava a
canseira. Havia muitos judeus, senhoras gordas com vestidos justos de cetim e
brilhantes nos dedos, homenzinhos corpulentos de gestos exuberantes. Viam-se
também senhores de meia-idade, cuidadosamente trajados, que passavam o fim-desemana
num dos grandes hotéis locais; caminhavam compenetradamente depois da
reforçada refeição da manhã, a fim de conseguirem apetite para um almoço igualmente
substancial: passavam o dia na companhia de amigos, a falar do «Dr. Brighton» ou da
«Londres à beira-mar». Aqui e ali, um actor afamado passava, com estudada
indiferença pela atenção que despertava: usava às vezes sapatos de verniz, um casacão
com gola de astracã e bengala de castão de prata; outras vezes, dava a impressão de
voltar de uma caçada, pois passava de knickerbockers, dentro de um sobretudo de
xadrez e com um chapéu também de pano xadrez, puxado para a nuca. O Sol brilhava
sobre o mar azul, calmo e transparente.
Depois do lanche, foram a Hove ver a mulher que ia tomar conta da criança.
Morava numa rua escusa, numa casa pequena mas limpa e bem arranjada. Chamava-se
Mrs. Harding. Era uma pessoa um tanto gorda e entrada em anos, tinha cabelos
grisalhos e uma cara vermelha e rechonchuda. Com a sua touca de renda, tinha um
aspecto maternal e Philip achou que devia ser bondosa.
- Não lhe aborrecerá cuidar de uma criança? - perguntou-lhe.
Ela explicou que o marido, coadjutor eclesiástico, era muito mais velho do que
ela e tinha dificuldade em achar trabalho permanente, uma vez que os pastores
precisavam de homens novos, que os auxiliassem; ganhava alguma coisa, de quando
em quando, substituindo alguém que entrava de férias ou caía doente; e uma
instituição de caridade dava-lhes uma pequena pensão. A vida de Mrs. Harding,
porém, era solitária; cuidar de uma criança seria uma distracção, e os poucos xelins que
lhe pagariam semanalmente ajudá-la-iam a manter-se. Prometeu que seria bem
alimentada.
- É uma perfeita senhora, não é? - disse Mildred, quando saíam.
Voltaram para tomar chá no Metrópole. Mildred gostou da multidão e da
orquestra. Philip estava cansado de falar e ficou a observar o rosto da companheira,
enquanto ela examinava com olhos penetrantes os vestidos das mulheres que
entravam. Tinha uma agudeza especial para calcular o preço das coisas. De quando em
quando, inclinava-se para Philip e sussurrava-lhe ao ouvido o resultado das suas
meditações.
- Vês aquela aigrette? Aquilo custa nada menos de sete guinéus. Ou então: - Olha
aquele arminho, Philip. É de coelho, sem dúvida, não é arminho. - Ria, triunfante.
- Era capaz de descobri-lo a uma légua de distância.
Philip sorria, feliz. Estava contente por ver o prazer de Mildred e a ingenuidade
da sua conversa divertia-o e comovia-o ao mesmo tempo. A orquestra tocava músicas
sentimentais.
Depois do jantar, foram a pé até à estação e Philip tomou-lhe o braço. Contou-lhe
os preparativos que fizera para a viagem a França. Mildred devia voltar para Londres
no fim da semana, mas disse-lhe que não podia deixar Brithton antes do sábado da
semana próxima. Já marcara um quarto num hotel de Paris. Esperava ansiosamente a
hora de comprar as passagens.
- Não te importas que vamos em segunda classe? Não devemos ser extravagantes
e é melhor que cheguemos lá com bastante dinheiro.
Falara-lhe uma centena de vezes no Bairro Latino. Vagabundeariam pelas suas
velhas ruas encantadoras e passariam horas sentados nos lindos jardins do
Luxemburgo. Se o tempo estivesse bom, quando se fartassem de Paris, talvez fossem a
Fontainebleau. As árvores estariam então cobertas de folhas. O verde da floresta na
Primavera era a coisa mais bela que ele conhecia; era como uma canção e como o
delicioso sofrimento do amor. Mildred escutava-o calada. Philip voltou-se para ela e
procurou olhar-lhe fundo nos olhos.
- Queres ir, não queres? - perguntou.
- Claro que quero - sorriu ela.
- Não sabes com que ansiedade espero essa viagem. Não sei como hei-de passar
os próximos dias. Tenho medo que aconteça alguma coisa que no-la impeça. às vezes é
endoidecedor não te poder dizer quanto te amo. E no fim de contas, no fim de contas...
Deteve-se de súbito. Chegavam à estação, mas tinham-se demorado no caminho,
de sorte que Philip mal teve tempo de se despedir de Mildred. Deu-lhe um beijo rápido
e precipitou-se para a bilheteira. Mildred continuava parada onde ele a deixara. A
correr, Philip era estranhamente grotesco.
LXXIV
No sábado seguinte, Mildred voltou para Londres; nessa noite Philip teve-a toda
para si. Comprou bilhetes para o teatro, beberam champanhe ao jantar. Era o primeiro
divertimento dela em Londres, havia muito tempo, e Mildred desfrutou-o com ingénuo
entusiasmo. Chegou-se a Philip, no trem, quando se dirigiam do teatro para o quarto
que lhe mandara reservar em Pimlico.
- Chego a acreditar que estejas contente por me ver - disse ele.
Ela não respondeu, mas apertou-lhe a mão de leve. As demonstrações de afeição
eram, nela, tão raras que Philip estava encantado.
- Pedi a Griffiths que jantasse connosco amanhã - contou-lhe.
- Ah! Fico muito contente com isso. Quero conhecer o teu amigo.
Não havia casa de diversões aonde levá-la na noite de Domingo e Philip temia
que ela ficasse aborrecida por passar com ele todo o dia. Griffiths era divertido; havia
de ajudá-los a passar o serão. Philip gostava tanto de ambos que desejava que eles se
conhecessem e ficassem amigos. Deixou Mildred com as seguintes palavras:
- Faltam apenas seis dias.
Tinham combinado jantar, no domingo, na galeria do Romano porque ali a
comida era excelente e parecia custar muito mais do que realmente custava. Philip e
Mildred chegaram primeiro e tiveram de esperar algum tempo por Griffiths.
- Esse diabo anda sempre atrasado - disse Philip. - Provavelmente, está a fazer a
corte a alguma das suas beldades.
Griffiths chegou. Alto e esbelto, era uma bela figura; a cabeça assentava-lhe bem
nos ombros e dava-lhe um ar conquistador que era atraente; e os cabelos ondulados, a
boca vermelha, os olhos azuis, cordiais e atrevidos, tinham um grande encanto. Philip
viu Mildred deitar-lhe um olhar avaliador, e sentiu uma curiosa satisfação. Griffiths
saudou-os com um sorriso.
- Tenho ouvido falar muito de si - disse a Mildred, ao apertar-lhe a mão.
- Não tanto quanto eu do senhor - respondeu ela.
- Nem tão mal - interveio Philip.
- Ele disse horrores a meu respeito?
Griffiths riu e Philip viu que Mildred notava quanto eram brancos e regulares os
seus dentes e como era agradável o seu sorriso.
- Vocês devem sentir-se como velhos amigos - disse Philip. - Tenho falado tanto
de um ao outro...
Griffiths estava na melhor das disposições de espírito, pois passara nos exames
finais e obtivera o seu diploma; acabava de ser nomeado cirurgião interno num
hospital do norte de Londres. Ia assumir o cargo em princípios de Maio e, entretanto,
pretendia passar umas férias em casa; era aquela a sua última semana na capital e
estava resolvido a divertir-se o mais possível. Começou a dizer as alegres tolices que
Philip, incapaz de fazer o mesmo, tanto admirava. Não havia muito no que dizia, mas a
sua vivacidade dava-lhe brilho à palestra. Emanava dele, quase tão sensível como o
calor do corpo, uma tal vitalidade comunicativa, que todos que o conheciam se sentiam
fascinados. Mildred revelou uma vivacidade que Philip não lhe conhecia. Ficou
deliciado por ver que a sua pequena festa obtinha êxito. Ela divertia-se imenso. Ria
cada vez mais alto. Esquecera-se por completo da elegante reserva que se lhe tornara
uma segunda natureza.
Em dado momento, Griffiths disse:
- Olhe, é muito difícil para mim chamar-lhe Mrs. Miller. Philip chama-lhe sempre
Mildred.
- O que te posso dizer é que ela não te arrancará os olhos se lhe chamares
também Mildred - riu Philip.
- Então tem que chamar-me Harry.
Philip, silencioso enquanto os outros dois conversavam, pensava em como era
bom ver criaturas felizes. De quando em quando, Griffiths troçava um pouco, e sem
malícia, da constante seriedade do amigo.
- Acho que ele gosta muito de ti, Philip - sorriu Mildred.
- Não é mau tipo - respondeu Griffiths, tomando a mão de Philip e sacudindo-a
alegremente.
O facto de Griffiths gostar de Philip parecia acrescentar alguma coisa ao seu
encanto pessoal.
Eram todos sóbrios e o vinho que beberam subiu-lhes à cabeça. Griffiths tornouse
mais loquaz e tão barulhento que Philip, embora achasse graça naquilo, teve de lhe
pedir que se aquietasse. Possuía o dom de contar histórias, e as suas aventuras,
narradas por ele próprio, nada perdiam em graça e romantismo. Representava em
todas essas proezas um papel galante e jovial e Mildred, os olhos a cintilar de
animação, incitava-o a prosseguir. Griffiths despejava anedota sobre anedota. Quando
começaram a apagar as luzes, ela mostrou-se surpreendida.
- Palavra de honra, a noite passou depressa. Não pensei que fossem mais de nove
e meia.
Ergueram-se para sair e, ao despedir-se, ela acrescentou:
- Amanhã, vou tomar chá ao quarto de Philip. Pode aparecer, se quiser.
- Está bem - anuiu Griffiths.
Ao voltar para Pimlico, Mildred não falou senão no rapaz. Estava cativada pela
sua bela aparência, pelas suas roupas bem talhadas, pela voz e pela gaiatice.
- Estou contente por teres gostado dele - disse-lhe Philip. - E tu que te eximias um
pouco a conhecê-lo... lembras-te?
- É muito gentil... gostar assim de ti. É um amigo que vale a pena conservar.
Ofereceu o rosto para que Philip o beijasse, coisa que raramente fazia.
- Diverti-me muito esta noite, Philip. Muito obrigada.
- Não sejas tola - riu ele, tão comovido ante a satisfação dela, que sentiu os olhos
húmidos.
Ela abriu a porta e, antes de entrar, voltou-se para Philip.
- Diz ao Harry que estou loucamente apaixonada por ele.
- Está bem - riu ele. - Boa-noite.
No dia seguinte, quando tomavam o chá, Griffiths entrou. Afundou-se
preguiçosamente numa poltrona. Havia uma estranha sensualidade na lentidão de
movimentos dos seus membros alongados. Philip permaneceu calado enquanto os
outros dois tagarelavam sem cessar; mas estava radiante. Admirava tanto ambos que
lhe parecia perfeitamente natural que eles se admirassem mutuamente. Pouco lhe
importava que Griffiths absorvesse a atenção de Mildred, pois tê-la-ia a seu lado
durante o serão. Havia em Philip um pouco da atitude do marido amoroso que confia
na afeição da esposa e fica a olhar divertido enquanto ela namorisca inofensivamente
com um estranho. às sete e meia, porém, olhou para o relógio e disse:
- Já é tempo de irmos jantar, Mildred.
Houve uma pausa momentânea e Griffiths pareceu reflectir.
- Bom, vou-me embora - disse por fim. - Não sabia que era tão tarde.
- Tem algum compromisso para hoje à noite? - indagou ela.
- Não.
Houve outro silêncio. Philip sentiu-se vagamente irritado.
- Vou preparar-me - disse, acrescentando para Mildred: - Não queres lavar as
mãos?
Ela não respondeu.
- Por que não janta connosco? - perguntou a Griffiths.
Este olhou para Philip e viu que ele o contemplava com expressão sombria.
- Já jantei com vocês ontem - respondeu rindo. - Não quero ser indiscreto.
- Ora! Não tem importância - insistiu Mildred. - Faz com que ele venha, Philip.
Não faz mal, não é verdade?
- Pois venha, se quiser.
- Então, está bem - disse Griffiths, prontamente. - Vou lá acima preparar-me.
No momento em que ele deixou o quarto, Philip voltou-se para Mildred,
zangado.
- Por que diabo o convidaste a jantar connosco?
- Não pude deixar de fazê-lo. Seria esquisito nada lhe dizer depois dele ter dito
que não tinha nada que fazer.
- Ora, que asneira! E por que diabo perguntaste se não tinha nada que fazer?
Os lábios descorados de Mildred apertaram-se um pouco.
- Às vezes, também preciso de divertir-me um bocado. Fico cansada de estar
sempre sozinha contigo.
Ouviram Griffiths descer a escada e Philip entrou no quarto de dormir, para
lavar-se. Jantaram num restaurante italiano das proximidades. Philip estava
carrancudo e silencioso, mas depressa percebeu que lhe era desvantajosa a comparação
com Griffiths, e tratou de ocultar o aborrecimento. Bebeu muito vinho para anular a
dor que lhe roía o coração e pôs-se a conversar. Mildred, como que sentindo remorso
pelo que dissera, fez tudo quanto pôde para lhe ser agradável. Foi gentil e afectuosa.
Em dado momento, Philip começou a pensar que fora um tolo em se entregar àquele
sentimento de ciúme. Depois do jantar, entraram num fiacre e foram às variedades.
Mildred, sentada entre os dois, deu-lhe espontaneamente a mão. A raiva de Philip
desvaneceu-se. De súbito, sem saber como, teve a consciência de que Griffiths segurava
a outra mão da rapariga. Outra vez, e violentamente, a dor se apoderou dele. Uma
verdadeira dor física. Tomado de pânico, perguntou a si mesmo o que podia ter
perguntado antes: se Mildred e Griffiths estavam enamorados um do outro. Nada pôde
ver da representação, devido ao nevoeiro de suspeita, raiva, consternação e infortúnio
que parecia pairar-lhe diante dos olhos, mas fez um esforço para ocultar o facto como
se não tivesse importância. Continuou a falar e a rir. Depois, tomado de um estranho
desejo de se torturar, levantou-se e disse que ia beber alguma coisa. Até então, Mildred
e Griffiths nunca tinham ficado a sós um instante. Queria deixá-los entregues a si
próprios.
- Também vou - disse Griffiths. - Estou com sede.
- Ora que tolice! Fique a conversar com Mildred.
Ignorava por que motivo dissera aquilo. Estava a atirá-los aos braços um do
outro, a fim de tornar mais intolerável a dor que sofria. Não foi ao bar; subiu para o
balcão, donde podia vigiá-los sem ser visto. Tinham deixado de olhar para o palco e
sorriam em mútua contemplação. Griffiths falava com a habitual e feliz fluência e
Mildred parecia suspensa dos seus lábios. A cabeça de Philip começou a doer-lhe
horrivelmente. Deixou-se ficar imóvel onde estava. Sabia que, se voltasse, seria
importuno. Os dois estavam a divertir-se sem ele, ao passo que ele sofria, sofria .. O
tempo passava e Philip tinha um extraordinário acanhamento de se lhes reunir. Sabia
que não pensavam nele e reflectiu com amargor que pagara o jantar e os três lugares
das variedades. Ridicularizavam-no! O rosto ardia-lhe de vergonha. Via como Mildred
e Griffiths eram felizes na sua ausência. O seu primeiro impulso foi ir para casa e
deixá-los ali sozinhos. Acontecia, porém, que não tinha consigo o chapéu e o sobretudo
e teria de dar explicações intermináveis. Voltou. Percebeu uma sombra de
aborrecimento nos olhos de Mildred e sentiu um desfalecimento.
- Demoraste-te um tempo dos diabos - disse-lhe Griffiths com um sorriso de
acolhimento.
- Encontrei uns conhecidos. Estive a conversar com eles e não pude libertar-me.
Achei que vocês estariam muito bem aqui sozinhos.
- Diverti-me imenso - disse Griffiths. - Quanto a Mildred. não sei...
Ela deixou escapar um riso de complacência feliz. Havia nele uma tonalidade
vulgar que deixou Philip horrorizado. Propôs que se retirassem.
- Vamos - disse Griffiths. - Levar-te-emos a casa.
Philip suspeitou que ela própria tivesse sugerido aquilo, a fim de poder ficar a
sós com o outro. No carro, não lhe segurou a mão nem ela a ofereceu, mas Philip,
durante todo o tempo teve a certeza de que ela apertava a de Griffiths. A sua ideia
predominante era de que tudo aquilo não passava de uma horrível vulgaridade.
Enquanto o trem rodava, ficou a imaginar que planos teriam feito para se encontrarem
sem o seu conhecimento. Amaldiçoou-se por tê-los deixado a sós; chegara mesmo a
afastar-se para que eles pudessem combinar coisas...
- Vamos aproveitar o trem - disse Philip, quando chegaram à casa onde Mildred
morava. - Estou cansado de mais para ir a pé.
No caminho de volta, Griffiths conversou com alegria e parecia indiferente ao
facto de Philip responder apenas por monossílabos. Este sentiu que o amigo havia de
perceber que alguma coisa se passava com ele. O seu silêncio tornou-se por fim tão
significativo e impossível de romper, que Griffiths, subitamente nervoso, cessou de
falar. Philip queria dizer alguma coisa, mas era tão tímido que mal podia resolver-se a
fazê-lo, embora o tempo passasse e a oportunidade se perdesse. Era melhor dizer a
verdade por uma vez. Forçou-se a falar.
- Estás a namorar a Mildred? - perguntou de repente.
- Eu? - riu Griffiths. - É por isso que estiveste tão esquisito esta noite? é claro que
não, meu velho.
Tentou segurar o braço de Philip, mas este esquivou-se. Sabia que Griffiths
mentia. Não se animava a perguntar-lhe se não tinha segurado a mão de Mildred. De
súbito, sentiu-se muito fraco e abatido.
- Para ti isso não tem importância, Harry - disse. - Já tens tantas mulheres... Não
ma tires. Ela é toda a minha vida. Tenho sido tão infeliz...
Faltou-lhe a voz e não pôde conter um soluço. Estava horrivelmente
envergonhado de si mesmo.
- Meu velho, sabes que não seria capaz de fazer uma coisa que te ferisse. Gosto
demasiado de ti para tal. era apenas uma tolice minha. Se soubesse que levavas a coisa
a sério, teria tido mais cuidado.
- Isso é verdade?
- Dou-te a minha palavra de honra que ela não me interessa.
Philip suspirou, aliviado. O trem parou à porta de casa.
LXXV
No dia seguinte, Philip acordou de bom humor. Como não queria importunar
Mildred com o abuso da sua presença, evitou vê-la antes da hora do jantar. Quando foi
buscá-la, encontrou-a pronta e troçou daquela pontualidade fora do comum. Trazia o
vestido novo que ele lhe dera. Philip notou-lhe a elegância.
- Tem que ir de novo para a costureira - disse ela. - A saia não cai bem.
- Precisas então apressá-la, se queres levar o vestido para Paris.
- Ficará pronto a tempo.
- Temos apenas três dias. Tomaremos o comboio das onze, não é assim?
- Se quiseres.
Tê-la-ia quase um mês exclusivamente para si. Os seus olhos pousaram nela,
numa adoração famélica. Philip conseguia rir um pouco da sua própria paixão.
- Gostaria de saber o que vejo em ti - murmurou.
- Que gentileza! - retorquiu ela.
O corpo dela era tão delgado que quase se lhe via o esqueleto. O peito era chato
como o de um rapaz. A boca, de lábios pálidos e estreitos, era feia, e a pele levemente
esverdeada.
- Durante a viagem vou dar-te pílulas de Bland - disse Philip a rir. - Hei-de
trazer-te gorda e rosada.
- Não quero engordar.
Mildred não falou em Griffiths, mas, durante o jantar, um pouco por malícia,
pois naquela noite sentia-se seguro de si e do seu poder sobre ela, disse:
- Parece-me que travaste forte namoro com o Harry, a noite passada...
- Já te disse que gosto dele - respondeu ela, a rir.
- Felizmente, sei que ele não gosta de ti.
- Como sabes?
- Perguntei-lhe.
Ela hesitou um momento, de olhar fito em Philip, e com um estranho fulgor nos
olhos.
- Queres ler a carta que recebi dele esta manhã?
Deu-lhe um sobrescrito em que Philip reconheceu a letra ousada e nítida de
Griffiths. Eram oito páginas. Bem escrita, franca e cheia de encanto, era a carta de um
homem habituado a cortejar mulheres. Dizia a Mildred que a amava apaixonadamente
desde o primeiro momento em que a vira; não queria amá-la, porque sabia quanto
Philip gostava dela, mas aquilo era superior às suas forças. Philip era tão bom rapaz,
que estava envergonhadíssimo de si próprio. A culpa, porém, não era sua, pois sentiase
arrastado. Dirigia a Mildred galanteios deliciosos. Para terminar, agradecia-lhe ter
consentido em almoçar com ele no dia seguinte e declarava estar impaciente por vê-la.
Philip notou que a carta estava datada da noite anterior; Griffiths devia tê-la escrito
depois de separar-se dele, e dera-se ao trabalho de sair para levá-la ao correio quando
ele o julgava na cama.
Leu-a com um horrível palpitar de coração, mas conseguiu ocultar a surpresa.
Devolveu a carta a Mildred com um sorriso calmo.
- Gostaste do almoço?
- Bastante! - respondeu ela com ênfase.
Sentindo que as mãos tremiam, Philip pô-las debaixo da mesa.
- Não deves levar Griffiths muito a sério. Sabes que ele não passa de uma
borboleta.
Ela pegou na carta e tornou a olhá-la.
- Também é superior às minhas forças - disse Mildred numa voz que procurava
tornar indiferente. - Não sei o que se passa comigo.
- A situação é um pouco embaraçosa para mim, não achas?
Mildred lançou-lhe um olhar rápido.
- O facto é que a encaras com muita calma, devo dizer.
- Que esperas que faça? Queres que me ponha a arrancar os cabelos às mãoscheias?
- Sabia que ias ficar zangado comigo.
- É curioso, mas não estou zangado. Devia saber que isto tinha de acontecer. Fui
um tolo em os ter reunido. Sei perfeitamente que ele tem todas as vantagens sobre
mim; é muito brilhante, é simpático, é mais divertido, sabe falar em coisas que te
interessam...
- Não sei o que queres dizer com isso. Se não sou inteligente, a culpa não é
minha, mas não sou tão tola como imaginas. Isso garanto-te. és importante de mais
para mim, meu menino.
- Vais fazer uma cena? - perguntou ele, com brandura.
- Não, mas não vejo razão para me tratares como se fosse uma não sei quê...
- Desculpa. Não tive intenção de te ofender. Somente quis esclarecer as coisas.
Para quê criar complicações quando podemos evitá-las? Vi que te sentias atraída por
ele e achei isso muito natural. A única coisa que me dói de verdade é saber que ele te
encorajou. Griffiths sabia quanto eu te queria. Acho que foi uma baixeza escrever-te
aquela carta, cinco minutos depois de me garantir que não te dava a menor
importância.
- Estás muito enganado se pensas que, dizendo essas coisas desagradáveis, me
fazes gostar menos dele.
Philip guardou silêncio por um momento. Não sabia que palavras usar para fazer
com que Mildred compreendesse. Queria falar com sangue-frio, com deliberação, mas
encontrava-se num turbilhão de sentimentos e não podia pensar com clareza.
- Não vale a pena sacrificar tudo por um lume de palha. No fim de contas, ele não
se importa com ninguém mais de dez dias e és um tanto fria; essa coisa não pode ter
muita importância para ti.
- É o que julgas.
O tom impertinente que ela adoptara tornava a situação mais difícil para Philip.
- Se amas Griffiths, nada há a fazer. Hei-de suportar a situação da melhor
maneira, Entendemo-nos muito bem, tu e eu. E não procedi mal contigo, não é
verdade? Não me amas, nunca o ignorei, mas tens afeição por mim, e quando formos
para Paris, hás-de esquecer Griffiths. Se tratares de afastá-lo do pensamento, isso não
será difícil e mereço que faças alguma coisa por mim.
Mildred não respondeu. Continuaram a comer. Quando o silêncio se tornou
opressivo, Philip começou a falar de coisas indiferentes. Fingia não notar que Mildred
estava desatenta. As suas respostas eram negligentes e não aventurava qualquer
observação. Por fim, interrompeu abruptamente o que ele dizia:
- Philip, acho que não posso viajar no sábado. O médico diz que não devo.
Ele sabia que aquilo não era verdade, mas perguntou:
- Quando podes então partir?
Mildred olhou para ele e, vendo-lhe o rosto branco e rígido, desviou dele o olhar
nervosamente. Naquele momento, tinha-lhe um pouco de medo.
- É melhor acabar com isto. Não posso ir contigo de maneira nenhuma.
- Era disso mesmo que estava desconfiado. Agora, é tarde para mudar de
resolução. Já comprei as passagens e tudo.
- Disseste que só me levavas se eu quisesse ir. Pois não quero.
- Mudei de ideia. Estou cansado de suportar os teus caprichos. Tens de ir.
- Gosto muito de ti como amigo, Philip. Mais que isso não seria possível. Não
gosto de ti dessa maneira. Não sou capaz, Philip.
- A semana passada, não pensavas assim.
- Era diferente.
- Não conhecias Griffiths?
- Tu próprio disseste que, se gosto dele, não há remédio.
O rosto de Mildred fixou-se numa expressão de enfado e manteve os olhos fitos
no prato. Philip estava pálido de raiva. Quisera dar-lhe um murro na cara e imaginou-a
com um olho enegrecido. A uma mesa vizinha jantavam dois rapazes de dezoito anos,
que, de quando em quando, lançavam olhares para Mildred. «Talvez me invejem por
jantar com uma rapariga bonita - reflectiu Philip. - Talvez desejassem estar no meu
lugar».
Foi Mildred quem quebrou o silêncio.
- De que serve viajarmos juntos? Pensaria nele a toda a hora. Não seria muito
agradável para ti.
- Isso é comigo - retorquiu ele.
Mildred pensou no que estava subentendido nessa frase e corou.
- Mas é nojento.
- Que tem isso ?
- Pensei que fosses um cavalheiro em toda a extensão da palavra.
- Estavas enganada - replicou ele, a rir, pois achava graça à resposta.
- Por amor de Deus, não rias - exclamou ela. - não posso ir contigo, Philip. Sinto
muitíssimo. Sei que não me tenho portado bem contigo, mas não se pode forçar a
natureza.
- Esqueceste o que fiz por ti quando estavas em apuros? Arranjei o dinheiro que
te sustentou até a tua filha nascer. Paguei o médico e tudo mais. Dei o dinheiro para
ires a Brighton e sustento a criança, pago as tuas roupas, dei-te tudo quanto tens no
corpo, agora.
- Se fosses um cavalheiro não me lançavas em rosto o que fizeste por mim.
- Por amor de Deus, cala-te! Pensas que me importa alguma coisa que seja ou não
um cavalheiro ? Se fosse um cavalheiro, não perderia o meu tempo com uma vadia
reles como tu. Pouco se me dá que gostes ou não de mim. Estou cansado de fazer papel
de tolo. Pois hás-de ir comigo a Paris no sábado ou terás de aguentar as consequências!
As faces de Mildred estavam vermelhas de cólera e, quando respondeu, a voz
tinha a crua vulgaridade que geralmente ocultava sob uma pronúncia educada:
- Jamais gostei de ti, nem no princípio, mas agarraste-te a mim. Sempre detestei
os teus beijos. Agora, não deixaria que me tocasses nem que estivesse a morrer de
fome.
Philip tentou engolir o que tinha no prato, mas os músculos da garganta
negaram-se a obedecer. Esgotou o copo e acendeu um cigarro. Estava trémulo. Não
falou. Esperou que ela se movesse, mas Mildred continuava sentada, em silêncio;
olhava fixamente para a toalha branca. Se estivessem sós, tê-la-ia enlaçado e beijado
apaixonadamente; imaginava aquele comprido pescoço branco atirado para trás,
enquanto ele comprimisse os lábios de encontro aos dela. Passaram uma hora sem falar
e por fim Philip achou que o criado começava a olhá-los com curiosidade. Pediu a
conta.
- Vamos? - disse em voz calma.
Sem responder, ela pegou nas luvas e na bolsa. Enfiou o casaco.
- Quando vais encontrar-te com Griffiths outra vez?
- Amanhã - respondeu ela com indiferença.
- É melhor que sejas franca com ele.
Ela abriu maquinalmente a bolsa e viu ali um papel branco. Pegou-lhe.
- Aqui está a conta deste vestido - disse, hesitante.
- E que tem isso?
- Prometi à costureira pagar amanhã.
- Prometeste?
- Isso quer dizer que, depois de teres dito que o comprasse, não o queres pagar?
- Justamente.
- Vou pedir ao Harry - disse ela, com vivo rubor nas faces.
- Terá muito prazer em te ajudar. Actualmente deve-me sete libras e empenhou o
microscópio a semana passada, porque não tinha vintém.
- Não penses que me assustas com isso. Sou capaz de ganhar a minha vida.
- E é o melhor que tens a fazer. Não pretendo dar-te mais nem um chavo.
Mildred pensou no aluguer que precisava de pagar ao sábado e no sustento da
filha, mas nada disse. Deixaram o restaurante e, na rua, Philip perguntou-lhe:
- Queres que chame um trem para ti? Vou dar uma volta.
- Não tenho dinheiro. Tive de pagar uma conta esta tarde.
- Não te fará mal andar a pé. Se amanhã quiseres ver-me, estarei em casa à hora
do chá.
Tirou o chapéu e afastou-se sem pressa. Olhou para trás pouco depois e viu que
ela continuava onde a deixara, com ar desamparado, olhando para os carros que
passavam. Voltou e, com uma risada, pôs-lhe uma moeda na mão.
- Toma estes dois xelins para voltares para casa.
E afastou-se, apressado. antes que ela pudesse falar.
LXXVI
No dia seguinte, à tarde, Philip ficou sentado no quarto a pensar se Mildred viria
ou não. Dormira mal. Passara a manhã no clube da Escola de Medicina, a ler um jornal
após outro. Estava-se em férias e dos estudantes que ele conhecia poucos se
encontravam em Londres; achou, porém, um ou dois com quem conversar.
Jogou uma partida de xadrez, matando assim as horas de tédio. Depois do
lanche, sentiu-se tão cansado, doía-lhe tanto a cabeça, que voltou para os seus
aposentos e deitou-se. Tentou ler um romance. Não vira Griffiths. Este não estava em
casa quando Philip voltara, na noite anterior; ouvira-o chegar, mas não fora, como de
costume, ao seu quarto, ver se ele dormia. E, de manhã, ouviu-o sair cedo. Era evidente
que queria evitá-lo. De súbito, bateram de leve à porta. Philip ergueu-se de um salto e
foi abrir. Mildred estava no limiar. Ela não se moveu.
- Entra.
Fechou a porta atrás dela. Mildred sentou-se. Depois de hesitar, começou:
- Muito obrigada por me teres dado aqueles dois xelins ontem à noite.
- Oh... isso não tem importância.
Ela dirigiu-lhe um leve sorriso, que lembrou a Philip o olhar tímido e suplicante
de um cãozito espancado por travessura, que deseja reconciliar-se com o dono.
- Almocei com o Harry - disse ela.
- Sim?
- Se ainda queres que vá contigo no sábado, Philip, vou.
Uma palpitação de triunfo agitou-lhe o coração, mas durou apenas um instante.
Seguiu-se logo a suspeita.
- Por causa do dinheiro?
- Em parte - respondeu ela simplesmente. - Harry nada pode fazer. Deve cinco
semanas de aluguer, a ti deve sete libras e o alfaiate não o deixa em paz. Está pronto a
empenhar qualquer coisa, mas já empenhou quase tudo. Foi uma dificuldade enorme
conseguir que a costureira esperasse pelo dinheiro do meu vestido novo. No sábado,
tenho de pagar o aluguer do quarto, e não posso arranjar trabalho de um momento
para outro. É preciso esperar uma vaga.
Disse tudo isto com uma voz queixosa e igual, como se relatasse as injustiças do
destino que tinham de ser suportadas como fazendo parte da ordem natural das coisas.
Philip não respondeu. Conhecia bem todos aqueles pormenores.
- Disseste «em parte» - observou por fim.
- Bom, o Harry diz que foste muito decente connosco. Foste um verdadeiro
amigo para ele, e fizeste por mim o que talvez nenhum outro homem teria feito. Diz
que devemos portar-nos bem. E concorda, também, com o que disseste: que é volúvel
por natureza, não é como tu, e seria tola se te deixasse para ir com ele. Diz que com ele
seria uma coisa passageira e contigo é permanente.
- Queres, então, ir comigo? - perguntou Philip.
- Para mim é o mesmo.
Philip olhou para ela e os cantos da boca descaíram-lhe numa expressão
lastimosa. Na verdade, triunfara e ia ter o que desejava. Soltou uma risada de mofa
ante a própria humilhação. Mildred levantou rapidamente os olhos para ele, mas não
falou.
- Esperei com toda a minha alma o momento de viajar contigo e pensei que,
afinal, depois de toda essa miséria, ia ser feliz...
Não terminou o que estava a dizer. Subitamente, sem transição, Mildred rompeu
numa torrente de lágrimas. Estava sentada na mesma cadeira em que Norah estivera a
chorar. E, como esta, escondeu o rosto no espaldar, para o lado onde havia uma
pequena saliência, junto à depressão formada pelo peso da cabeça.
«Não sou feliz com as mulheres» - pensou Philip.
O corpo magro de Mildred estava sacudido de soluços. Philip nunca vira uma
mulher chorar com tão completo abandono. Era horrivelmente doloroso e ele tinha o
coração dilacerado. Sem perceber o que fazia, dirigiu-se para ela e enlaçou-a com os
braços. Ela não resistiu, mas, na sua miséria, deixou-se consolar. Ele sussurrou-lhe
pequenas palavras reanimadoras. Quase sem saber o que dizia, inclinou-se para ela e
beijou-a repetidas vezes.
- És muito, muito infeliz? - perguntou, afinal.
- Preferia estar morta - gemeu ela. - Devia ter morrido quando a criança nasceu.
Como o chapéu a incomodasse, Philip tirou-lho. Acomodou-lhe melhor a cabeça
na cadeira. Depois, foi sentar-se à mesa e ficou a olhá-la.
- O amor é uma coisa terrível, não é? Imagina que há quem deseje amar...
Agora, a violência dos soluços diminuta e ela deixava-se ficar na cadeira, exausta,
com a cabeça atirada para trás e os braços pendentes. Tinha o grotesco aspecto desses
manequins que os pintores usam para estudar efeitos de roupagem.
- Não sabia que o amavas assim - disse Philip.
Entendia perfeitamente o amor de Griffiths, pois colocava-se no lugar dele, via-a
com os seus olhos, tocava-a com as suas mãos; podia julgar-se no corpo de Griffiths, e
foi com os lábios dele que a beijou, foi com os olhos azuis e alegres do outro que sorriu
para ela. A comoção da mulher era o que mais o surpreendia. Nunca a julgara capaz de
paixão, e aquilo era paixão; não havia dúvida. Pareceu-lhe que alguma coisa cedia no
seu coração; percebia-a como algo que realmente se quebrasse e sentiu-se tomado de
uma estranha debilidade.
- Não quero fazer-te infeliz. Não precisas ir comigo se não quiseres. Dar-te-ei o
dinheiro do mesmo modo.
Ela abanou a cabeça.
- Não, disse que ia e vou.
- De que serve isso se estás a morrer de amor por ele?
- Sim, é essa a palavra. Estou a morrer de amor. Sei que isto não durará em mim
como não durará nele, mas, agora...
Fez uma pausa e fechou os olhos como se fosse desmaiar. Uma ideia estranha
ocorreu a Philip, que a expressou no mesmo instante, sem se deter para pensar nela.
- Por que não vais viajar com ele?
- De que modo? Sabes que não temos dinheiro.
- Dou o dinheiro.
- Tu?
Ergueu-se e olhou para Philip. Os seus olhos começaram a brilhar e a cor voltoulhe
às faces.
- Talvez o melhor fosse acabar com isso de uma vez e depois voltares para mim.
Agora, que fizera a sugestão, estava angustiado, e no entanto essa tortura davalhe
uma sensação subtil e singular. Mildred fitava nele os olhos arregalados.
- Oh! Como poderíamos viajar com o teu dinheiro? Harry nem quererá pensar
nisso.
- Depende de o convenceres.
As objecções de Mildred faziam-no insistir e, apesar de tudo, desejava de todo o
coração que ela recusasse com veemência.
- Darei cinco libras e vocês podem ficar fora de sábado até segunda-feira. É muito
fácil. Na segunda-feira, ele vai para casa, até começar a trabalhar no hospital.
- Oh, Philip, falas sério? - exclamou ela, juntando as mãos. - Se pudesses deixarnos
ir... eu amar-te-ia depois... Faria tudo quanto pedisses. Tenho a certeza de que esta
paixão acaba se formos. Queres dar-nos o dinheiro?
- Quero.
Mildred mudara por completo. Começou a rir. Philip podia ver que uma alegria
doida a transfigurava. Ergueu-se e veio ajoelhar-se ao pé dele, segurando-lhe as mãos.
- Tu és bom, Philip. O melhor que conheço. Depois, não ficarás zangado comigo?
Ele meneou a cabeça, a sorrir, mas com que agonia no coração!
- Posso contar ao Harry? E posso dizer também que não te importas? É a única
maneira de ele consentir... Oh, não sabes quanto gosto dele! Depois farei tudo quanto
quiseres. Vou contigo a Paris ou a qualquer parte, na segunda-feira.
Levantou-se e pôs o chapéu.
- Aonde vais?
- Vou perguntar-lhe se está disposto a levar-me.
- Já?
- Queres que fique? Se queres, fico.
Sentou-se, mas ele sorriu ao de leve.
- Não, não, é melhor que vás já. Há apenas uma coisa: de momento, não posso
suportar a presença de Griffiths. Isso ser-me-ia bastante desagradável. Dize-lhe que
não lhe guardo rancor nem coisa parecida, mas pede-lhe que procure não se encontrar
comigo.
- Está bem. - Mildred ergueu-se vivamente e calçou as luvas. - Depois, te conto o
que ele disser.
- Podias jantar comigo hoje.
- Está bem.
Ofereceu-lhe o rosto a beijar, e quando Philip encostou os lábios aos seus,
envolveu-lhe o pescoço com os braços.
- És um amor, Philip.
Duas horas mais tarde, mandou-lhe um bilhete, a dizer que estava com dores de
cabeça e não podia jantar com ele. Philip quase esperava aquilo. Sabia que Mildred
jantava com Griffiths. Sentia um ciúme horrível, mas a súbita paixão que se
assenhoreara daquelas duas criaturas parecia ser uma coisa imposta de fora, como se
um deus lha houvesse instilado e sentiu-se impotente. Afigurava-se tão natural que
eles se amassem... Philip via todas as vantagens que Griffiths tinha sobre ele e
confessava que, no lugar de Mildred, faria o mesmo. O que mais o feria era a traição do
outro; tinham sido tão bons amigos e Griffiths conhecia o seu apaixonado devotamento
por Mildred... Devia tê-lo poupado.
Não tornou a ver Mildred antes de sexta-feira; estava ansioso por vê-la, mas,
quando ela chegou, verificou que fora completamente esquecido, pois os pensamentos
da rapariga giravam em torno de Griffiths e de repente, odiou-a. Via agora por que ela
e Griffiths se amavam. Griffiths era obtuso, oh, tão obtuso! Havia muito sabia disso,
mas fechara sempre os olhos, obtuso e frívolo: aquele seu encanto mascarava um
supino egoísmo; estava disposto a sacrificar quem quer que fosse aos seus apetites. E
quão inútil era a existência que levava, beberricando nos cafés-concerto, frequentando
bares, borboleteando de um amor barato para outro! Jamais lia um livro, era cego a
tudo que não fosse fútil e vulgar. Nunca tinha um pensamento que fosse belo: a
palavra mais comum nos seus lábios era bem; era esse o seu maior elogio para homens
e mulheres. Bem! Não era de admirar que agradasse a Mildred. Tinham sido feitos um
para o outro.
Philip conversou com Mildred de coisas que a nenhum deles interessava. Sabia
que ela desejava falar de Griffiths, mas não lhe deu oportunidade. Não se referiu ao
facto de que, duas noites antes, deixara de jantar com ele, dando uma desculpa
qualquer. Mostrou-se natural; procurou dar-lhe a entender que de súbito ficara
indiferente e exerceu uma habilidade especial em dizer pequenas coisas destinadas a
magoá-la, mas que eram tão indefinidas, tão delicadamente cruéis que ela não tinha de
que queixar-se. Por fim, ela levantou-se.
- Acho que devo ir-me embora - disse.
- Sim, deves ter muito que fazer - respondeu ele.
Ela estendeu-lhe a mão, Philip disse-lhe adeus e abriu a porta. Não ignorava o
que ela tinha a dizer-lhe e sabia também quanto o seu ar frio e irónico a intimidava.
Muitas vezes a sua timidez lhe dava, mau grado seu, um aspecto tão frígido que, sem
intenção da sua parte, assustava as pessoas. Tendo descoberto isso, podia, quando a
ocasião se apresentava, assumir voluntariamente a mesma atitude.
- Não esqueceste o prometido? - perguntou ela por fim, quando Philip lhe abriu a
porta.
- De que se trata?
- Do dinheiro.
- Quanto queres?
Falava com uma fria deliberação que lhe tornava as palavras particularmente
ofensivas. Mildred corou. Sabia que ela o odiava naquele momento e admirava-se do
domínio próprio que a impedia de esbofeteá-lo. Desejava fazê-la sofrer.
- Tenho o vestido e o aluguer amanhã. É só. Harry não quer ir, e assim não
precisamos de dinheiro para isso.
O coração de Philip começou a bater desordenadamente e largou o fecho. A porta
rodou nos gonzos.
- E por que não quer ir?
- Diz que com o teu dinheiro não pode ir.
Um demónio se apoderou de Philip, o demónio secreto que sempre o torturava.
Desejava com toda a alma não ver Mildred e Griffiths partirem juntos. Contudo,
obstinou-se em persuadir Griffiths a isso, por intermédio dela.
- Não sei porquê, dada a minha boa vontade.
- Foi o que eu lhe disse.
- Creio que, se ele quisesse ir, não hesitaria.
- Oh, não é isso, quer ir, sim. Iria já se tivesse dinheiro.
- Se tem esses escrúpulos, dar-te-ei o dinheiro, a ti.
- Disse que o emprestavas, se ele quisesse, e que pagaríamos logo que
pudéssemos.
- Não deixa de ser uma novidade para ti, isso de pedir de joelhos a um homem
que te leve para um fim-de-semana.
- É verdade - declarou com um risinho impudente, que fez passar um arrepio
pela espinha de Philip.
- Que vais fazer então? - perguntou.
- Nada. Harry vai para casa amanhã. Precisa de ir.
Aquilo seria a salvação de Philip. Griffiths ausente, poderia recuperar Mildred.
Ela não conhecia ninguém em Londres e seria obrigada a procurar a sua companhia.
Quando estivessem de novo juntos, poderia fazer com que a rapariga depressa
esquecesse aquele capricho. Seria prudente mais nada dizer. Mas sentia um desejo
diabólico de desfazer os escrúpulos do par. Queria ver até onde iria o abominável
comportamento de ambos para com ele. Se os tentasse um pouco mais, cederiam; e foi
tomado de uma alegria feroz, à ideia de semelhante ignomínia. Embora cada palavra
que pronunciava fosse uma tortura para si, achava nessa tortura um terrível prazer.
- Parece-me que isso ou se faz agora ou nunca mais.
- Foi o que eu lhe disse.
Havia, na voz dela, uma nota de paixão que surpreendeu Philip. No seu
nervosismo, rola as unhas.
- Aonde pensavas ir?
- A... A Oxford. Foi na Universidade de lá que ele estudou, sabes. Disse que ia
mostrar-me os colégios.
Philip lembrou-se de que uma vez sugerira essa visita de um dia a Oxford, e ela
achara que seria extremamente fastidioso.
- E parece que vão ter bom tempo. Lá deve estar muito lindo, agora.
- Fiz tudo o que pude para convencê-lo.
- Por que não fazes outra tentativa?
- Posso dizer que queres que vamos?
- Não acho que precises de chegar a esse ponto - retorquiu Philip.
Ela guardou silêncio por momentos, olhando para ele. Philip procurou retribuirlhe
o olhar de um modo amistoso. Odiava-a, desprezava-a, amava-a de todo o coração.
- Escuta, vou ver se é possível fazer alguma coisa. E depois, se disser que sim,
venho buscar o dinheiro amanhã. A que horas estás aqui?
- Voltarei depois do jantar e ficarei à espera.
- Está bem.
- Agora vou dar-te o dinheiro para o vestido e para o quarto.
Foi à secretária e tirou todo o dinheiro que tinha. O vestido custara seis guinéus;
havia além disso o aluguer e a alimentação dela, e mais o sustento da criança durante
uma semana. Philip deu-lhe oito libras e dez xelins.
- Muito obrigada - disse ela. E retirou-se.
LXXVII
Depois de almoçar no rés-do-chão da Escola de Medicina, Philip voltou ao seu
alojamento. Era uma tarde de sábado e a dona da casa lavava as escadas.
- Mr. Griffiths está no quarto? - indagou.
- Não, senhor. Foi-se embora esta manhã, logo depois de o senhor sair.
- Não voltará?
- Julgo que não. Levou a bagagem.
Que significaria aquilo? - reflectiu Philip. Subiu ao quarto, pegou num livro e
começou a ler. Era a jornada a Meca, de Burton, que ele acabava de trazer da Biblioteca
Pública de Westminster. Leu a primeira página mas não lhe compreendeu o sentido,
porque o seu espírito estava longe. Esperava a todo o momento que tocassem a
campainha. Não ousava crer que Griffiths tivesse partido sem Mildred para casa da
família, no Cumberland. Ela não tardaria a aparecer, à procura do dinheiro. Apertou os
dentes e continuou a ler. Tentava desesperadamente concentrar a atenção no livro. As
frases delineavam-se-lhe no cérebro à custa de esforço, mas eram deformadas pela
agonia que o torturava. Desejou de todo o coração não ter feito aquela horrível oferta
de dinheiro; agora, porém, que estava consumada, não sentia forças para voltar atrás,
não por causa de Mildred, mas por si próprio. Tinha uma obstinação mórbida que o
obrigava a cumprir o prometido. Verificou que as três páginas que lera não lhe
causaram nenhuma impressão. Recomeçou a leitura: surpreendeu-se a reler vezes sem
conta a mesma frase. E elas misturavam-se horrivelmente aos seus pensamentos, como
numa obsessão de pesadelo. O que podia fazer era sair e ficar longe do quarto até à
meia-noite. àquela hora já não poderiam ir; e imaginou-os a tocarem a campainha, de
hora em hora, para saber se ele estava em casa. Gozava à ideia da decepção deles.
Repetia a frase para si mesmo, maquinalmente. Mas não podia fazer aquilo. Que
viessem buscar o dinheiro! E poderia ver então a que profundidade de infâmia um
homem podia descer. Agora, não conseguia ler mais. Não enxergava as palavras.
Inclinou-se para trás na cadeira, fechando os olhos, e, embotado pelo sofrimento, ficou
à espera de Mildred.
A dona da casa apareceu:
- Pode receber a sr.a Miller?
- Mande-a entrar.
Philip reuniu forças para receber Mildred, sem dar o menor sinal do que sentia.
Teve o impulso de cair de joelhos, tomar-lhe as mãos e implorar-lhe que não partisse;
mas sabia não haver meio de dissuadi-la. Contaria a Griffiths o que ele dissera e a
maneira como se portara. Teve vergonha.
- Então, que me dizes da viagem? - perguntou jovialmente.
- Estamos prontos. Harry está lá fora. Disse-lhe que tu não querias vê-lo e por
isso não lhe apareceste. Mas quer saber se pode entrar só por um minuto, para dizer
adeus.
- Não. Não desejo vê-lo - respondeu Philip.
Compreendia que a Mildred pouco importava que ele falasse ou não com
Griffiths. Agora que estava ali, queria que ela se fosse depressa.
- Olha, aqui tens as cinco libras. Gostaria agora que te fosses.
Ela pegou na nota e agradeceu. Voltou-se para sair.
- Quando voltas? - perguntou ele.
- Ah... segunda-feira. Harry precisa de ir para casa da família.
Philip sabia que o que ia dizer era humilhante, mas estava acabrunhado pelo
ciúme e pelo desejo.
- Então, ver-te-ei na volta, não?
Não pôde evitar que a sua voz tomasse um tom de súplica.
- Naturalmente. Avisar-te-ei logo que volte.
Apertaram-se as mãos. Por entre as cortinas da janela, viu Mildred saltar para o
trem estacionado diante da porta. Este pôs-se em movimento. Philip atirou-se para
cima da cama e escondeu o rosto nas mãos. Sentiu que as lágrimas lhe vinham aos
olhos e teve raiva a si próprio; cerrou as mãos e inteiriçou o corpo para se conter; mas
não conseguiu e grandes soluços de dor irromperam-lhe do peito.
Levantou-se por fim, exausto e envergonhado, e foi lavar o rosto. Tomou uma
dose forte de whisky com soda. A bebida fê-lo sentir-se um pouco melhor. Depois, os
seus olhos deram com as passagens para Paris que estavam em cima da chaminé e
agarrando-as num impulso de raiva, atirou-as ao fogo. Sabia que podia devolvê-las e
receber o dinheiro, mas o destruí-las dava-lhe uma sensação de alívio. Saiu a seguir, à
procura de companhia. O clube estava vazio. Sentiu que enlouqueceria se não achasse
com quem conversar. mas Lawson estava no estrangeiro. Foi aos aposentos de
Hayward: a criada que abriu a porta disse-lhe que o patrão fora passar o fim-desemana
a Brighton. Philip dirigiu-se então para uma galeria e verificou que a estavam a
fechar naquele momento. Não sabia que fazer. Estava desorientado. Pensou em
Griffiths e Mildred, a caminho de Oxford, sentados frente a frente no comboio, felizes.
Voltou para o seu quarto; este porém, encheu-o de horror, pois fora tão desgraçado ali
dentro. Tentou mais uma vez ler o livro de Burton mas, enquanto lia, ficou a repetir
mentalmente, numa obstinação, que fora um tolo. Partira dele a sugestão daquela
viagem, ele próprio lhes proporcionara o dinheiro para isso, forçara-os a aceitar. Devia
ter previsto o que aconteceria quando apresentou Mildred a Griffiths. Aquela sua
paixão veemente era o bastante para despertar o desejo do outro. àquela hora, o par
devia ter chegado a Oxford. Instalar-se-iam numa das casas da John Street. Philip
nunca estivera em Oxford, mas Griffiths falara-lhe tanto do lugar, que sabia
exactamente para onde os dois iriam. Jantariam no Claredon. Griffiths tinha o hábito
de jantar lá, quando levava consigo as suas conquistas.
Philip foi comer alguma coisa num restaurante, perto de Charing Cross. Resolveu
ir a um espectáculo e encaminhou-se para um teatro onde representavam uma peça de
Oscar Wilde. ficou a imaginar se Mildred e Griffiths estariam ou não num teatro,
naquela noite: precisavam de matar o tempo e eram ambos suficientemente imbecis
para não se contentarem com palestrar. Philip experimentou uma perversa delícia em
pensar na vulgaridade daqueles espíritos que tão bem se ajustavam um ao outro.
Assistiu à peça com a atenção vaga. Tentava ficar alegre bebendo whisky em cada
intervalo. Depressa o álcool lhe subiu à cabeça, mas a sua embriaguez era ao mesmo
tempo selvagem e melancólica. Quando a peça terminou, tomou outro copo. Não podia
ir para a cama, pois não conseguiria dormir: temia os quadros que a sua viva
imaginação lhe poria diante dos olhos. Tentou não pensar mais nisso. Sabia que bebera
de mais. Por fim invadira-o um desejo de fazer coisas horríveis e sórdidas. Desejava
rolar nas sarjetas. Todo o seu ser ansiava por bestialidades. Queria aviltar-se.
Atravessou Piccadilly, arrastando o pé boto, sombriamente embriagado, com a
raiva e a miséria a dilacerar-lhe o coração. Foi detido por uma prostituta muito
pintada, que lhe segurou o braço. Empurrou-a violentamente, dizendo-lhe palavras
brutais. Caminhou alguns passos e depois parou. Aquela servir-lhe-ia tão bem como
qualquer outra. Estava arrependido de lhe ter dito palavras rudes. Voltou a aproximarse
dela.
- Escuta. . . - começou.
- Vá para o inferno! - gritou a mulher.
Philip riu-se.
- Era só para saber se me dá a honra de cear esta noite na minha companhia.
Ela olhou para Philip, atónita, e hesitou um instante. Viu que ele estava bêbedo.
- Tanto me faz.
Achou divertido que ela usasse uma frase tantas vezes ouvida dos lábios de
Mildred. Levou-a a um dos restaurantes que estava habituado a frequentar com
Mildred. Percebeu que, enquanto caminhavam, ela reparava no seu coxear.
- Tenho um pé boto - disse ele. - Há algum inconveniente nisso?
- Você é um ponto - riu ela.
Quando chegou a casa, Philip sentiu que os olhos lhe doíam e na sua cabeça
havia um martelamento que lhe dava vontade de gritar. Tomou outro whisky com
soda, para se refazer e, deitando-se na cama, mergulhou num sono sem sonhos até ao
meio-dia.
LXXVIII
Chegou por fim a segunda-feira e Philip achou que a sua prolongada tortura
terminara. Examinou o horário dos comboios e verificou que o último pelo qual
Griffiths podia ir para casa; naquela noite, partia de Oxford logo depois da uma hora.
Calculou que Mildred tomasse o que saía poucos minutos depois para Londres. Teve
desejos de ir esperá-la à estação, mas pensou que ela gostaria de ficar um dia em paz.
Talvez lhe rabiscasse duas linhas, à noite, para lhe dizer que voltara, caso contrário, iria
ao seu alojamento na manhã seguinte. Estava agora acobardado. Sentia um ódio
amargo por Griffiths, mas, quanto a Mildred, não obstante o que se passara, o que
experimentava era apenas um desejo intolerável. Estava contente agora por Hayward
não estar em Londres no sábado à tarde, quando, perturbado, saíra em busca de
consolo humano. Não deixaria de lhe contar tudo e Hayward certamente pasmaria
ante a sua fraqueza. Desprezá-lo-ia e talvez ficasse chocado ou enojado pelo facto de
Philip pensar na possibilidade de fazer de Mildred sua amante, depois de ela se ter
abandonado a outro homem. Que lhe importava que fosse escandaloso e repugnante?
Estava disposto a todas as transigências, preparado para degradações ainda mais
humilhantes, uma vez que pudesse satisfazer o seu desejo.
Lá pelo anoitecer, os seus passos conduziram-no, independentemente da
vontade, para a casa onde Mildred morava. Ergueu os olhos para a janela. Estava às
escuras. Não se aventurou a perguntar se ela voltara. Confiava na promessa dela. Mas,
de manhã, não veio a carta esperada e quando, perto do meio-dia, bateu à porta, a
criada disse-lhe que Mildred ainda não regressara. Não compreendia... Sabia que
Griffiths devia ter ido para casa da família no dia anterior, porque tinha de ser
padrinho num casamento e Mildred estava sem dinheiro. Dava voltas à cabeça a
pensar nas hipóteses do que acontecera. Tornou a sair à tarde e deixou um bilhete, a
pedir a Mildred que fosse jantar com ele naquela noite. Tão calmamente, como se nada
tivesse acontecido naquela última quinzena. Disse o lugar e a hora a que deviam
encontrar-se. E, apesar de tudo, manteve o compromisso. Esperou uma hora e ela não
veio. Na manhã de quarta-feira, teve vergonha de ir a casa dela e mandou um
mensageiro com uma carta e instruções para trazer a resposta. Passada uma hora, o
rapaz voltou com a carta de Philip fechada e com o recado de que a senhora ainda não
voltara. Philip estava desesperado. Aquilo era o cúmulo! Repetiu intimamente, muitas
e muitas vezes, que detestava Mildred e, atribuindo a Griffiths a culpa deste último
desapontamento, odiou-o tanto que chegou a conhecer as delícias do homicídio. Saiu a
caminhar ao acaso, pensando na alegria que teria ao atirar-se a ele numa noite escura,
cravar-lhe uma faca na garganta, bem na carótida, e deixá-lo morrer na rua como um
cão. Philip estava com os sentidos perturbados pelo sofrimento e pela raiva. Não
gostava de whisky, mas bebia para se entorpecer. Foi para a cama embriagado, na noite
de terça e na de quarta-feira.
Na manhã de quinta, ergueu-se muito tarde e arrastou-se, lívido e de olhos
remelosos, para a sala de visitas, a ver se havia ali alguma carta. Um curioso
sentimento trespassou-lhe o coração quando reconheceu a letra de Griffiths.
Meu velho:
nem sei como te escrever e, no entanto, sinto que tenho de fazê-lo.
Espero que não estejas muito zangado comigo. Sei que não devia ter levado a
Milly, mas foi uma coisa que não pude evitar. Ela fez-me perder a cabeça e
teria feito tudo para conquistá-la. Quando me disse que nos oferecias
dinheiro para a viagem, não pude resistir. E, agora, tudo terminou e estou
muitíssimo envergonhado de mim mesmo e arrependido de ter procedido
como um idiota. Quisera que me escrevesses, a dizer que não estás zangado
comigo e desejo que permitas que eu te visite. Fiquei muito sentido por
dizeres à Milly que não me querias ver. Sê camarada. Escreve-me duas
linhas, a dizer que me perdoas. Ficarei com a consciência mais leve. Pensei
que não te importasses, porque ofereceste o dinheiro. Mas sei que não devia
aceitar. Vim para casa na segunda-feira e Milly quis ficar um ou dois dias em
Oxford, sozinha. Voltará para Londres na quarta-feira e, assim, quando
receberes esta, já terás falado com ela e espero que tudo se arranje. Escreve a
dizer que estou perdoado. Por favor, escreve de seguida. Sempre teu
Harry.
Philip rasgou a carta, furioso. Não tencionava responder. Desprezava Griffiths
por causa daquelas desculpas. Exasperava-se com os seus pruridos de consciência.
Cada qual podia agir como entendesse, mas era desprezível que viesse depois com
arrependimentos. Achava a carta covarde e hipócrita. Aquele sentimentalismo
causava-lhe repugnância.
«Seria muito fácil, se se pudesse fazer uma grosseria - murmurou para consigo - e
depois dizer que estava arrependido e continuar como se nada tivesse acontecido».
Esperava de todo o coração ter um dia a oportunidade de vingar-se de Griffiths.
Fosse como fosse, sabia que Mildred estava na cidade. Vestiu-se apressado, não
teve paciência para se barbear, bebeu uma chávena de chá, tomou um trem e dirigiu-se
para os aposentos dela. Teve a impressão de que o carro não corria: arrastava-se. Sentia
uma dolorosa ansiedade por vê-la e, inconscientemente, dirigiu uma oração ao Deus,
em quem não acreditava, para que Ele a fizesse recebê-lo com bondade. Só desejava
esquecer. Com o coração a bater, tocou a campainha. Esqueceu todo o seu sofrimento,
no desejo apaixonado de envolvê-la mais uma vez nos seus braços.
- A sr.a Miller está em casa? - perguntou alegremente.
- Foi-se embora - respondeu a criada.
Philip olhou-a com o ar inexpressivo.
- Veio há mais ou menos uma hora e levou as suas coisas.
Por um instante, Philip não atinou com o que dizer
- Entregou-lhe a minha carta? Ela disse para onde ia?
Percebeu a seguir que mais uma vez Mildred o enganara. Não pretendia voltar
para junto dele. Fez um esforço para ocultar o seu vexame.
- Muito bem. Ela mo comunicará. Deve ter mandado carta com o novo endereço.
Voltou para os seus aposentos, desesperado. Devia ter previsto que ela se
portaria daquela maneira. Nunca lhe ligara a menor importância, desde o princípio o
considerara tolo. Não tinha piedade, nem bondade, nem caridade. A única coisa a fazer
era aceitar o inevitável. A dor que sofria era horrível, preferia morrer a suportá-la. E
veio-lhe à ideia que seria melhor acabar com tudo de uma vez. Podia atirar-se ao rio ou
deitar a cabeça num carril do caminho de ferro. Mal, porém, formulara esse
pensamento em palavras, já se rebelava contra ele. A razão dizia-lhe que, dentro de
algum tempo, esqueceria a sua infelicidade. Se empregasse todas as suas forças poderia
esquecê-la e seria grotesco matar-se por causa de uma ordinária qualquer. Tinha
apenas uma vida e era loucura atirá-la fora. Sentia que nunca venceria aquela paixão,
mas sabia que, no fim de contas, era apenas uma questão de tempo.
Não quis ficar em Londres. Lá tudo lhe lembrava a sua infelicidade. Telegrafou
ao tio, avisando-o de que ia a Blackstable e, arrumando as malas à pressa, tomou o
primeiro comboio. Queria fugir daqueles quartos sórdidos onde suportara tanto
sofrimento. Queria respirar ar puro. Estava enojado de si próprio. Sentia-se um pouco
doido.
Desde que Philip entrara na idade adulta, tinham-lhe dado o melhor dos quartos
vagos do vicariato. Era um compartimento de esquina e em frente da janela erguia-se
uma velha árvore que escondia a paisagem; mas, pela outra janela, avistavam-se vastas
campinas, além do jardim e do terreno do vicariato. Philip lembrou-se do papel que
forrava as paredes desde os tempos da sua infância. Naquelas paredes, viam-se
aguarelas esmaecidas, da primeira fase do período Vitoriano, feitas por um amigo da
mocidade do vigário. Tinham um encanto fanado. O toucador estava cercado por
adornos de musselina engomada. Havia um velho armário normando onde se
guardavam as roupas. Philip soltou um suspiro de prazer. Nunca compreendera que
todas aquelas coisas, no fim de contas, tinham alguma significação para ele. No
vicariato, a vida continuava como sempre. Nenhuma peça da mobília fora mudada de
um lugar para outro. O vigário comia as mesmas coisas, dizia as mesmas coisas, saía
para o mesmo passeio todos os dias. Engordara um pouco mais, estava um pouco mais
silencioso e um pouco mais mesquinho. Acostumara-se a viver sem a mulher e
pouquíssima falta sentia dela. Ainda brigava com Josiah Graves. Philip foi visitar o
tesoureiro da igreja. Estava um pouco mais magro, um pouco mais branco e um pouco
mais austero. Mostrava-se ainda autocrático e cada vez mais reprovava as velas do
altar. As lojas de Blackstable tinham ainda aquele aspecto antiquado mas simpático, e
Philip parou na frente da casa onde se vendiam artigos para marujo, botas, encerados e
cordame. Lembrou-se de que, quando criança, sentira ali a atracção do mar, e a magia
da aventura e do desconhecido.
Não podia evitar que o seu coração começasse a pulsar desordenado à chegada
do carteiro, pois a sua hospedeira de Londres podia mandar-lhe alguma carta de
Mildred. Sabia, porém, que não viria carta alguma. Agora podia reflectir com mais
calma e compreendia que, procurando forçar Mildred a amá-lo, tentara o impossível.
Não sabia que eflúvio passava do homem para a mulher, da mulher para o homem, e
tornava um deles escravo do outro. Era cómodo chamar-lhe instinto sexual, mas, se
não passasse disso, ele não compreendia por que causava tão veemente atracção por
uma pessoa, de preferência às outras. Era irresistível: o espírito não podia lutar contra
ele; ao lado dessa força, de nada valiam a amizade, a gratidão e o interesse. Porque não
atraíra sexualmente Mildred, nada do que fizera tivera qualquer efeito sobre ela. Essa
ideia revoltava-o. Transformava a natureza humana em bestial e sentiu subitamente
que o coração dos homens estava cheio de recantos sombrios. Julgara Mildred
assexuada, porque se lhe mostrara indiferente. A sua aparência anémica, os lábios
finos, o corpo de ancas estreitas e peito chato, o langor dos gestos, levara-o a tal
suposição. No entanto, era capaz de súbitas paixões, e para satisfazê-las expunha-se
voluntariamente a todos os riscos. Não compreendera a sua aventura com Emil Miller;
parecera-lhe uma coisa tão contrária ao seu feitio... Mildred não conseguira explicarlha.
Agora, porém, que a vira com Griffiths, Philip sabia que se passara a mesma coisa
da outra vez: perdera a cabeça, levada por um desejo impossível de dominar.
Procurava descobrir que qualidades possuíam aqueles dois homens, para atraí-la de
modo tão irresistível. Tinham ambos uma gaiatice vulgar, que lhe excitava o senso de
humor simplório e certa grosseria natural. O que a arrastara, porém, fora talvez a
sexualidade exuberante que era a característica mais acentuada de ambos. Mildred
tinha uma noção de refinamento e distinção que se arrepiava ante os factos da vida, e
considerava indecentes as funções do corpo, empregando toda a sorte de eufemismos
para designar objectos comuns. Preferia as palavras rebuscadas às simples, por achá-las
mais decorosas. A brutalidade daqueles homens era como um azorrague nas suas
espáduas brancas e magras, fazendo-a estremecer sob uma dor voluptuosa.
Em todo o caso, uma coisa resolvera Philip: não voltaria à casa onde tanto
sofrera. Escreveu à dona do alojamento, a avisá-la. Queria viver no meio das suas
coisas. Decidiu alugar quartos não mobilados: seria agradável e mais barato. O aspecto
económico era de premente importância, pois, no último ano e meio, gastara quase
setecentas libras. Impunha-se a economia mais rígida. às vezes, encarava o futuro com
pânico. Fora um tolo, ao gastar tanto dinheiro com Mildred. Contudo, sabia que, se ela
voltasse, se portaria da mesma maneira. Era-lhe divertido pensar que os amigos o
consideravam um espírito forte, um ser reflectido e calmo, simplesmente porque o seu
rosto não lhes revelava os sentimentos com muita expressão e porque era lento nos
gestos. Achavam-no razoável e elogiavam-lhe o bom-senso. A sua expressão plácida,
porém, não era mais do que uma máscara, usada inconscientemente, tal como a
coloração protectora de certas borboletas, e frequentemente se admirava da fraqueza
da sua vontade. Parecia-lhe que a menor comoção o movia como o vento move as
folhas, e, quando a paixão o arrastava, sentia-se impotente. Não possuía autodomínio.
Mas dava a impressão de possuí-lo, porque era indiferente a muitas coisas que
abalavam as outras criaturas.
Reflectiu com ironia acerca do sistema filosófico que criara para si próprio,
porque não lhe valera de muito na conjuntura por que passara. Ficou a considerar
sobre se o pensamento na verdade ajudava o homem em qualquer circunstância crítica
da vida. Mais lhe parecia ser o joguete de uma força estranha, mas ao mesmo tempo
ligada a ele, que o arrastava como o grande sopro do Inferno impele eternamente Paolo
e Francesca. Antes de agir, reflectia, mas, no momento decisivo, obedecia apenas ao
instinto, à sensação... não sabia bem a quê. Portava-se como se fosse uma máquina
movida tanto pela força do ambiente como pela da personalidade; a sua razão
observava os factos, incapaz de intervir; era como esses deuses de Epicuro que, do alto
do
Empíreo, acompanham as acções dos homens sem poderem alterar a mais
pequena partícula dos acontecimentos.
LXXIX
Alguns dias antes do início do semestre, Philip foi a Londres procurar um
alojamento. Percorreu as ruas em torno de Westminster Bridge Road, mas a falta de
asseio desagradou-lhe. Afinal, escolheu uma habitação em Kensington, que lhe
agradou pelo seu aspecto antigo e tranquilo. Esse bairro lembrava um pouco a Londres
de Thackeray, à beira do Tamisa, quando pela Kensington Road passava a enorme
carruagem dos Newcomes, levando a família para o West London e os plátanos
estavam cheios de folhas. As casas da rua escolhida por Philip tinham dois andares e
na maioria das janelas viam-se «escritos» a anunciar quartos para alugar. Philip bateu à
porta de uma dessas casas, onde o cartaz avisava haver quartos não mobilados, e foi
uma mulher silenciosa e severa, que lhe mostrou quatro compartimentos pequenos,
um dos quais tinha lavatório e fogão. O aluguer era de nove xelins por semana. Philip
não queria tantos quartos, mas o preço era baixo e desejava instalar-se sem demora.
Perguntou à dona da casa se podia encarregar-se da limpeza e de preparar-lhe a
refeição da manhã, mas ela respondeu que tinha muito que fazer. Isso, aliás, não lhe
desagradou, pois a mulher dera a entender que nada queria com ele a não ser receber o
aluguer. Disse-lhe que, se perguntasse na mercearia da esquina, que era também
agência do correio, encontraria uma mulher disposta a fazer-lhe aquele serviço.
Philip tinha uma pequena mobília que conseguira reunir aos poucos, uma
poltrona comprada em Paris, mesa, alguns quadros e o pequeno tapete persa que lhe
fora dado por Cronshaw. O tio oferecera-lhe uma cama articulável que de nada lhe
servia agora, uma vez que já não alugava a casa em Agosto. Com dez libras, Philip
comprou tudo o mais que era essencial. Despendeu dez xelins para colocar um papel
cor de trigo na sala que reservou para as visitas. Pendurou na parede um esboço do
Quai des Grands Augustins que Lawson lhe dera, umas reproduções da Odalisque de
Ingres e da Olympia de Manet - coisas que em Paris tinham sido objecto da sua
contemplação, sempre que se barbeava. Para se lembrar de que ele próprio também
estivera empenhado na prática da arte, pôs à vista o desenho a carvão que fizera do
jovem espanhol Miguel Ajuria: era o melhor de todos os seus trabalhos. Nu, em pé,
com os punhos cerrados, os pés solidamente apoiados no solo, a figura tinha uma força
peculiar e no seu rosto havia aquele ar resoluto que causava tanta impressão. E,
embora Philip, após tanto tempo, visse muito bem os defeitos do seu trabalho, as
lembranças que lhe despertava faziam-no tolerável. Que seria feito de Miguel? Não há
nada mais terrível do que a procura, sem talento, de um ideal artístico. Alquebrado
pelo frio, pela fome e pela doença - teria acabado num hospital, ou, vencido pelo
desespero, procurado a morte nas águas lamacentas do Sena? Com a sua volubilidade
de meridional, talvez tivesse abandonado a luta voluntariamente, e agora, empregado
num escritório de Madrid, voltasse a sua fervente retórica para a política e para as
corridas de touros.
Philip pediu a Lawson e Hayward para verem os seus novos aposentos. E ambos
vieram, um com uma garrafa de whisky e outro com uma lata de paté de foi gras. Ficou
encantado quando lhe elogiaram o gosto. Agradar-lhe-ia convidar também o corretor
escocês, mas possuía apenas três cadeiras e portanto não podia receber mais
convidados. Lawson sabia que, por seu intermédio, Philip se fizera muito amigo de
Norah Nesbit e contou-lhe que poucos dias antes a encontrara na rua...
- Ela perguntou-me como ias.
Philip corou ao ouvir aquele nome, (não pudera ainda libertar-se do hábito
embaraçoso de ficar vermelho quando estava perturbado) e Lawson olhou para ele
com ar de troça. Passava agora a maior parte do ano em Londres, e fizera tais
concessões ao ambiente que já usava o cabelo curto e trazia um elegante fato de sarja e
um chapéu de coco.
- Pelo que vejo, tudo entre vocês terminou - disse ele.
- Há meses que não a vejo.
- Estava bem bonita. Trazia um chapéu elegante, coberto de penas brancas de
avestruz. Deve estar bastante bem.
Philip mudou de assunto, mas continuou a pensar em Norah e, depois de um
intervalo, quando os três falaram de outra coisa, perguntou de repente:
- Pareceu-te que Norah estava zangada comigo?
- Nem nada. Falou bem de ti.
- Estou tentado a procurá-la.
- Ela não te morderá...
Philip pensara muitas vezes em Norah. Quando Mildred o abandonara, o seu
primeiro pensamento fora para ela e dizia a si próprio, com amargor, que Norah nunca
o teria tratado daquela maneira. O primeiro impulso foi procurá-la. Conhecia-lhe o
bom coração. Mas teve vergonha. Norah fora sempre boa para ele e ele tratara-a
abominavelmente.
- Se ao menos tivesse tido o bom-senso de ficar com ela! - disse para consigo,
mais tarde, quando Lawson e Hayward já se tinham ido e ele ficara a fumar o último
cachimbo antes de se deitar.
Lembrou-se das horas agradáveis passadas na confortável salinha de Vincent
Square, das visitas de ambos às galerias de pintura, das idas ao teatro e dos
encantadores serões passados em conversa íntima. Recordou-se da solicitude com que
Norah se interessava pelo seu bem-estar e por tudo quanto lhe dizia respeito. Ela
amara-o com um amor terno e duradouro. Havia nesse amor alguma coisa mais do que
simples sensualidade, era um sentimento quase maternal. Sempre vira nele uma coisa
preciosa, pela qual devia agradecer aos deuses com toda a alma. Resolveu, confiar-se à
sua caridade. Devia ter sofrido horrivelmente, mas Philip sentia que Norah tinha
suficiente grandeza de coração para lhe perdoar; era incapaz de querer mal a alguém.
Devia escrever-lhe? Não. Melhor seria aparecer-lhe de repente e atirar-se a seus pés -
sabia que, quando chegasse a hora, a sua timidez o impediria de fazer esse gesto
dramático, mas era assim que gostava de imaginar a cena. Dir-lhe-ia que, se ela de
novo o quisesse, poderia agora confiar nele para sempre. Estava curado da doença
odiosa de que sofrera. Sabia quanto Norah valia e não teria mais ilusões. A imaginação
voava-lhe para o futuro. Via-se a remar com ela no rio, aos domingos. Levá-la-ia a
Greenwich, pois nunca esquecera a deliciosa excursão em companhia de Hayward, e a
beleza do porto de Londres permanecia como um tesouro permanente na sua
lembrança. Nas quentes tardes de Verão, ficariam sentados no parque, a conversar; ria
consigo, ao lembrar-se da sua alegre conversa que jorrava como um regato
murmurando num leito de seixos, divertida, petulante, cheia de personalidade. A
agonia sofrida havia de apagar-se-lhe do espírito como um sonho mau.
No dia seguinte, perto da hora do chá, um momento em que com toda a certeza,
Norah estaria em casa, foi bater-lhe à porta. Mas, depois de fazê-lo, a coragem faltoulhe
de súbito. Poderia ela perdoar-lhe? Era abominável impor a sua presença daquela
forma... A porta foi aberta por uma criada desconhecida. Philip perguntou se Mrs.
Nesbit estava em casa.
- Queira perguntar-lhe se pode receber Mr. Carey - disse - Esperarei aqui.
A criada subiu as escadas a correr e logo em seguida voltou.
- Quer fazer o favor de subir? Segundo andar, em frente.
- Eu sei - disse Philip, com um leve sorriso.
Subiu com o coração alvoroçado. Bateu à porta.
- Entra - disse a voz jovial que tão bem conhecia.
Parecia dizer: «Entra numa existência de paz e felicidade» Quando Philip entrou,
Norah avançou para o cumprimentar. Apertou-lhe a mão como se se tivessem visto no
dia anterior. Um homem ergueu-se.
- Mr. Carey... Mr. Kingsford.
Muito desapontado por não a encontrar sozinha, Philip sentou-se e examinou o
desconhecido. Nunca lhe ouvira mencionar o nome, mas pareceu-lhe que ocupava a
cadeira com o ar de quem se encontra em sua casa. Era um homem de quarenta anos,
cara escanhoada, cabelos louros, compridos e cuidadosamente fixados com brilhantina;
tinha a tez avermelhada e os olhos pálidos e cansados que os homens louros costumam
ter quando deixam de ser jovens. O nariz era grosso, a boca rasgada e os ossos da face
salientes. Homem de construção robusta, tinha ombros largos e estatura superior à
mediana.
- Estava a pensar no que seria feito de ti - disse Norah com a sua maneira
desembaraçada. - Encontrei Mr. Lawson o outro dia, não te contou? E disse-lhe que já
era tempo de vires fazer-me uma visita.
Philip não descobriu a menor sombra de embaraço na fisionomia de Norah e
admirou a naturalidade com que conduzia uma entrevista em que ele próprio se sentia
acanhado. Norah ofereceu-lhe chá. Ia pôr-lhe açúcar na chávena quando ele a deteve.
- Que estupidez a minha! - exclamou ela. - Tinha-me esquecido.
Philip não acreditou. Norah devia lembrar-se muito bem de que ele nunca
tomava chá com açúcar. Aceitou o incidente como um sinal de que a indiferença dela
era fingida.
A conversação que Philip interrompera continuou e em dado momento começou
a aperceber-se de um leve constrangimento. Kingsford não lhe dava atenção especial.
Falava bem e com fluência, não sem graça, mas com um ar ligeiramente dogmático. Era
jornalista, segundo parecia, e a respeito de cada assunto que tratavam tinha sempre
alguma coisa divertida a dizer. Philip ficou exasperado por se ver posto à margem da
conversação. Estava resolvido a ficar até que o outro saísse. Seria Kingsford um
admirador de Norah? Nos velhos tempos, haviam muitas vezes falado dos homens que
desejavam fazer-lhe a corte e juntos se tinham rido deles. Philip tentou orientar a
conversa para assuntos que só ele e Norah conheciam, mas o jornalista intervinha e
conseguia desviar a palestra para um tema que obrigava Philip ao silêncio. Ficou
levemente ressentido com Norah porque ela devia ver que o expunha ao ridículo. Mas
talvez fizesse aquilo propositadamente e como castigo e este pensamento restituiu-lhe
o bom humor. Por fim, o relógio bateu seis horas e Kingsford ergueu-se.
- Tenho de ir - disse.
Norah apertou-lhe a mão e acompanhou-o ao patamar. Fechou a porta atrás de si
e ficou do lado de fora uns dois minutos.
«Que estarão a dizer?» - pensou Philip.
- Quem é este Mr. Kingsford? - perguntou vivamente, quando ela voltou.
- Oh... É o director de uma das revistas de Harmsworth, que ultimamente tem
ficado com a maioria dos maus trabalhos.
- Pensei que nunca mais se ia embora.
- Estou satisfeita por teres ficado. Queria conversar contigo.
Norah enroscou-se na grande poltrona, de um modo que só a sua pequena
estatura tornava possível, e acendeu um cigarro. Philip sorriu quando a viu assumir
aquela postura que sempre achara engraçada.
- Ficas tal qual uma gata.
Os seus belos olhos negros brilharam.
- Devia perder este hábito. É absurdo portar-me como uma criança, nesta idade.
Mas sinto-me bem, sentada nas pernas.
- É agradável estar sentado aqui outra vez - disse Philip, feliz. - Nem sabes
quanta falta tenho sentido disto.
- Por que diabo não vieste antes? - perguntou Norah, jovial.
- Tive medo... - respondeu ele, corando.
Ela lançou-lhe um olhar cheio de bondade. Os lábios esboçaram um sorriso
encantador.
- Não precisas de o ter...
Ele hesitou um instante. O coração bateu-lhe rápido.
- Lembras-te da última vez que nos encontrámos? Portei-me pessimamente
contigo. Tenho até vergonha de mim próprio.
Norah encarou-o fixamente. Não respondeu. Ele quase perdeu a cabeça. De
súbito, o objectivo da visita pareceu-lhe uma enormidade. Ela nada fazia para ajudá-lo
e mal pôde balbuciar desajeitadamente:
- Poderás perdoar-me algum dia?
Então, impetuosamente, contou que Mildred o abandonara e que a sua
infelicidade fora tão grande que quase pusera termo à existência. Contou-lhe tudo
quanto acontecera entre ambos, o nascimento da criança, o encontro com Griffiths, a
sua insensatez, a sua boa-fé e a imensa decepção. Disse-lhe as vezes que pensara na sua
bondade e no seu amor, quão amargamente lamentara tê-los atirado fora. Só fora feliz
quando junto dela, e sabia agora quanto ela valia. A sua voz estava rouca de comoção.
Sentia às vezes tal vergonha do que dizia que, ao falar, conservava os olhos fixos no
chão. Com o rosto desfigurado pela dor, sentia, no entanto, estranho alívio em dizer
aquelas coisas. Afinal, terminou. Atirou-se para trás, na cadeira, exausto, e esperou.
Nada ocultara; pelo contrário, procurando humilhar-se, pintara-se mais desprezível do
que realmente fora. Estava surpreendido de que ela não falasse, e por fim ergueu os
olhos. Ela não o olhava. Tinha o rosto pálido e parecia mergulhada em reflexão.
- Não tens nada a dizer-me?
Norah teve um sobressalto e corou.
- Acho que passaste um mau bocado - disse. - Sinto imenso.
Pareceu que ia continuar, mas calou-se, e ele ficou de novo à espera. Por fim,
Norah deu a impressão de fazer um esforço para falar.
- Estou noiva de Mr. Kingsford.
- Por que não me disseste logo? - exclamou ele. - Para que deixaste que me
humilhasse diante de ti?
- Lamento. Não podia interromper-te... Conheci-o logo que tu... - Hesitou, como à
procura de expressões que o não ferissem -...que tu me anunciaste a volta da tua amiga.
Durante algum tempo, senti-me desgraçada e ele foi extremamente bondoso para
comigo. Sabia que alguém me fizera sofrer, mas naturalmente ignorava que esse
alguém eras tu. Que teria sido de mim sem ele? De um momento para o outro, senti-me
incapaz de trabalhar... Estava tão fatigada e doente! Falei-lhe acerca de meu marido.
Ofereceu-se para me dar o dinheiro necessário para o meu divórcio, se depois
consentisse em casar com ele. A situação de Kingsford é muito boa e eu não precisaria
de escrever mais nada, a não ser para meu prazer. Nem podes saber o quanto foi gentil
para comigo e as atenções de que me cercou. Isso comoveu-me profundamente. E
agora, gosto muito, muito dele.
- Então já conseguiste o divórcio? - perguntou Philip.
- Obtive uma sentença provisória, que se tornará definitiva em Julho e casaremos
em seguida.
Por algum tempo, Philip não disse palavra.
- O que lamento é ter-me exposto ao ridículo - murmurou por fim.
Pensava na sua longa e humilhante confissão. Ela contemplou-o com curiosidade.
- Nunca me amaste de verdade - disse ela.
- Amar não é uma coisa muito agradável.
Philip tinha, porém, capacidade para se refazer rapidamente e, levantando-se,
estendeu-lhe a mão:
- Estimo que sejas muito feliz. No fim de contas, é a melhor coisa que podia
acontecer-te.
- Virás visitar-me outra vez, sim? - perguntou.
- Não - respondeu ele, sacudindo a cabeça. - A tua felicidade causar-me-ia
demasiada inveja.
Afastou-se lentamente da casa. Norah tinha razão ao afirmar que ele nunca a
amara. Estava desapontado, irritado, mesmo, mas levava a vaidade mais ferida do que
o coração. E sabia-o. Agora, tinha a consciência de que os deuses lhe tinham pregado
uma partida e riu-se de si sem nenhuma alegria. Não é muito agradável possuir-se o
dom de se divertir à custa dos seus próprios absurdos.
LXXX
Nos três meses que se seguiram, Philip estudou matérias novas para ele. A
multidão de alunos que se matriculara havia dois anos na Escola de Medicina
diminuíra bastante: alguns, intimidados pelas dificuldades dos exames, abandonaram
os estudos; outros, como a vida de Londres fosse muito cara para a bolsa paterna,
regressaram à província e outros tinham enveredado por outras profissões. Um
camarada de Philip inventara um plano engenhoso para ganhar dinheiro: comprava
coisas em leilões para empenhá-las, mas, depois, achara mais vantajoso empenhar
objectos comprados a crédito. Um belo dia, os colegas leram-lhe o nome no noticiário
policial, e isso causou alguma sensação na escola. Houve um mandato de prisão,
garantias por parte do pai vexado, e o jovem fora mandado carregar «o fardo do
homem branco», além-mar. A imaginação de outro, que nunca estivera numa cidade,
deixou-se empolgar pela sedução dos bares e das variedades. Passava o tempo no meio
de gente entendida em palpites e dos treinadores, e era agora auxiliar de um homem
de apostas. Philip vira-o uma vez, num bar, perto de Piccadilly Circus, com um
sobretudo cintado e um chapéu de feltro castanho de abas largas e lisas. Um terceiro,
com pendor para o canto e para a mímica, conseguira êxito nas reuniões artísticas da
Escola de Medicina, a imitar comediantes famosos; abandonara o hospital para
ingressar no coro de uma companhia de operetas. Ainda outro - e esse interessava
Philip, porque as suas maneiras bruscas e o seu abuso das interjeições não sugeriam
que fosse capaz de qualquer sentimento profundo - sentia-se asfixiado nas casas de
Londres. Ficava agoniado nos espaços e a sua alma, cuja existência ignorava, debatia-se
espantada, como um pássaro a ofegar na mão que o prende. Sentia a saudade dos
horizontes largos e dos espaços livres e desolados das regiões onde passara a infância.
Um dia, foi-se embora, entre duas aulas, sem dizer nada a ninguém. Soube-se depois
que abandonara a medicina e trabalhava numa quinta.
Philip assistia agora a aulas de medicina e cirurgia. às vezes, de manhã, aprendia
a fazer ligaduras; contente por ganhar algum dinheiro, dava lições de auscultação, ao
mesmo tempo que se exercitava no emprego do estetoscópio e adquiria noções de
farmácia. Ia fazer exame de Matéria Médica em Julho e achava divertido lidar com
várias drogas, unguentos, e fazer misturas e pílulas. Lançava-se avidamente sobre
qualquer coisa donde pudesse extrair uma sugestão de interesse humano.
Viu Griffiths uma vez, de longe, mas, para não ter de fingir que não o conhecia,
evitou-o. Philip alheara-se um pouco dos amigos de Harry, alguns dos quais eram
também seus, ao verificar que sabiam da sua rotura com aquele, pois desconfiava que
não ignorassem a razão. Um deles, sujeito muito alto, de cabeça pequena e ar lânguido
- um rapaz chamado Ramsden, que era dos mais fiéis admiradores de Griffiths e lhe
copiava as gravatas, os sapatos, a maneira de falar e os gestos - contara a Philip que
Griffiths estava muito sentido porque ele não respondera à sua carta. Queria fazer as
pazes.
- Pediu-te que me desses esse recado? - indagou Philip.
- Oh, não, digo isto inteiramente por minha conta. Harry está muito arrependido
do que fez e diz que tu sempre te portaste decentemente com ele. Sei que ficará
satisfeito por se reconciliar contigo. Não vem ao hospital porque tem receio de que, se
o vires, não lhe queiras falar.
- É o que faria.
- Não imaginas como isso o faz sofrer.
- Pois eu posso suportar muito bem esta situação que tanto o incomoda -
respondeu Philip.
- Griffiths está disposto a fazer tudo para repará-la.
- Pura infantilidade e histeria! Que lhe interessa isso? Sou uma pessoa bastante
insignificante e ele pode passar muito bem sem a minha companhia. Ele já não me
interessa.
Ramsden achou Philip áspero e frio. Calou-se por instantes e olhou em torno,
com ar perplexo.
- Harry está arrependidíssimo por se ter metido com aquela mulher.
- Está? - perguntou Philip.
Respondeu com uma indiferença que o deixava satisfeito. Ninguém poderia
adivinhar com que violência o seu coração batia. Esperou, impaciente, que Ramsden
continuasse.
- Suponho que já estejas curado, não é assim?
- Eu? - retorquiu Philip. - Completamente.
Pouco a pouco descobriu a história das relações de Mildred com Griffiths.
Escutou com um sorriso nos lábios, fingindo uma equanimidade que iludiu o obtuso
rapaz com quem falava. O fim de semana que Mildred passara com Griffiths em
Oxford inflamara mais do que extinguira a súbita paixão da rapariga. E, quando
Griffiths fora para casa da família, ela, revelando um sentimento inesperado, resolveu
ficar sozinha em Oxford, onde fora tão feliz. Achava ela que nada podia induzi-la a
voltar para Philip: tinha-lhe repugnância. Griffiths foi o primeiro a ficar admirado ante
a paixão que despertara, pois achara aqueles dois dias em companhia de Mildred um
tanto aborrecidos. Não alimentava o menor desejo de transformar um episódio
divertido numa ligação maçadora. Ela levou-o a prometer que lhe escreveria e, como
Harry era honesto e decente, dotado de polidez natural e do desejo de ser agradável
para com todos, escreveu-lhe, ao chegar a casa, uma longa e encantadora carta.
Mildred respondeu, desajeitadamente, com torrentes de paixão, pois não tinha o dom
da expressão e escrevia mal e de modo vulgar. A carta causara-lhe tédio, e quando no
dia seguinte, recebeu outra e logo a seguir uma terceira, começou a pensar que aquele
amor deixara de ser lisonjeiro para se tornar alarmante. Não respondeu. Ela
bombardeou-o com telegramas, a perguntar-lhe se estava doente e se recebera as suas
cartas. Dizia que aquele silêncio a deixava terrivelmente aflita. Foi forçado a escrever,
mas procurou que a sua resposta fosse o mais aérea possível, sem ser ofensiva.
Suplicou-lhe que não telegrafasse, uma vez que lhe era difícil explicar as mensagens a
sua mãe, uma senhora de costumes antigos, para quem um telegrama era ainda um
acontecimento temível. Mildred respondeu na volta do correio que precisava de vê-lo e
anunciou-lhe a intenção de empenhar o que possuía (tinha o estojo que Philip lhe dera
como presente de casamento e podia arranjar com ele oito libras) a fim de ir até à
cidade a quatro milhas da qual ficava a aldeia onde o pai de Griffiths exercia clínica.
Griffiths assustou-se e dessa vez usou o telégrafo para dissuadi-la. Prometeu avisá-la
da sua chegada a Londres e, quando o fez, verificou que ela já perguntara por ele no
hospital onde ia trabalhar. Não gostou disso e, quando a encontrou, disse-lhe que não
devia vir ali sob pretexto algum. E agora, depois de uma ausência de três semanas,
notava que, decididamente, a aborrecia. Já nem sabia por que se incomodara por causa
dela e resolveu romper tão depressa quanto lhe fosse possível. Era uma pessoa que
detestava as disputas e não gostava de causar sofrimento a ninguém. Ao mesmo
tempo, porém, tinha outras coisas que fazer e estava decidido a não deixar que Mildred
o importunasse. Ao encontrá-la, mostrou-se agradável, alegre, divertido e afeiçoado.
Inventou desculpas convincentes para o intervalo de ausência, mas fez tudo quanto
pôde para evitá-la. Quando ela o obrigava a marcar encontros, esquivava-se,
mandando-lhe telegramas à última hora. Dera ordens à senhoria (os primeiros três
meses de emprego ia passá-los em quartos alugados) para, quando Mildred o
procurasse, dizer que não estava em casa. Ela vigiava-o na rua e Griffiths, sabendo que
Mildred esperara a sua saída do hospital durante horas, dizia-lhe umas palavras
amistosas e encantadoras, e afastava-se invocando quaisquer obrigações profissionais.
Adquiriu grande habilidade em esgueirar-se do hospital sem ser visto. Uma vez, ao
voltar para os seus aposentos à meia-noite, viu uma mulher parada junto à grade do
subsolo e, suspeitando de quem se tratava, preferiu pedir pousada a Ramsden. No dia
seguinte, a senhoria contou-lhe que Mildred ficara sentada no portal, a chorar, horas e
horas, vendo-se ela obrigada a dizer-lhe por fim que, se não se fosse embora, chamaria
a polícia.
- Digo-te, meu rapaz - concluiu Ramsden - tens uma sorte danada por estares
livre disso tudo. Harry diz que, se tivesse a mais leve suspeita de que ela seria assim
tão incomodativa, preferia ir para o inferno a meter-se com ela.
Philip imaginou Mildred sentada naquele portal as longas horas da noite. Via a
face melancólica que erguera para a senhoria, quando esta a mandara embora.
- Que fará ela agora?
- Ora... conseguiu um emprego nalguma parte, graças a Deus. Assim está todo o
dia ocupada.
A última coisa que Philip ouviu, antes do fim do semestre de Verão, foi que a
urbanidade de Griffiths dera por fim lugar ao exaspero, ante aquela constante
perseguição. Dissera a Mildred que estava farto daquela maçada e que o melhor que
ela tinha a fazer era sumir-se e não tornar a importuná-lo.
- Era a única coisa que ele podia fazer - disse Ramsden. - Já era de mais.
- Então, está tudo acabado? - indagou Philip.
- Ora... Há dez dias que nem a vê. Como sabes, Harry é maravilhoso nisso de se
descartar das pessoas. Foi o osso mais duro que teve de roer, mas roeu-o por fim.
Philip não ouviu mais falar dela. Ela perdeu-se na vasta massa anónima da
população de Londres.
LXXXI
No começo do período de Inverno, Philip ficou adido ao serviço de doentes
externos. Eram três os ajudantes de médico que se encarregavam dos doentes externos,
dois dias por semana cada um e Philip inscreveu-se no quadro do dr. Tyrell. Este era
bastante popular entre os estudantes, que competiam uns com os outros para trabalhar
com ele. O dr. Tyrell era alto e magro, de trinta e cinco anos, cabeça muito pequena,
cabelo ruivo aparado curto e olhos azuis. O seu rosto era de um escarlate vivo. Falava
bem, numa voz agradável, gostava de uma boa chalaça, e tomava o mundo pelo lado
bom. Estava habituado ao êxito, tinha uma vasta clientela e a perspectiva de ser
condecorado em breve. Graças ao convívio com os estudantes e os pobres, adquirira
um ar protector, e graças à lida constante com os doentes, a condescendência jovial do
homem de saúde, qualidades essas que constituem o «ar profissional». Os seus
pacientes sentiam-se diante dele como crianças em frente de um professor folgazão. Na
sua presença, cessavam de considerar a doença como um grande mal, achando-a antes
uma espécie de travessura absurda, que divertia em vez de irritar.
O estudante devia trabalhar todos os dias, atender casos e colher as informações
que pudesse. Mas, nos dias em que estava como auxiliar, os seus deveres eram um
pouco mais definidos.
Naquele tempo, o serviço externo do Hospital de S. Lucas consistia em três salas
contíguas, que comunicavam entre si, e uma comprida e sombria sala de espera, com
colunas maciças de alvenaria e compridos bancos. Ali esperavam os pacientes, depois
de ter recebido os «cartões» ao meio-dia. Sentados na obscuridade, com frascos e
boiões de pomada na mão, aguardavam em longas fileiras. Eram criaturas de ambos os
sexos e de todas as idades, algumas bem vestidas, outras esfarrapadas e sujas, dando,
em conjunto, uma impressão estranha e horrível. Lembravam os sombrios desenhos de
Daumier. Todas as salas estavam pintadas da mesma maneira: cor de salmão com uma
barra alta castanha. Sentia-se ali um forte odor de desinfectantes que se misturava à
medida que a tarde avançava, com um cheiro acre de gente. A primeira sala era a
maior e tinha no meio uma mesa e uma cadeira para o médico. De cada lado, havia
uma mesa mais pequena, um pouco mais baixa: a uma destas estava sentado o interno
e à outra, o aluno encarregado do «livro» do dia. Era um grosso volume no qual se
registavam nome, idade, sexo e profissão do paciente, bem como o diagnóstico da
doença.
À uma e meia, o médico interno chegava, tocava a campainha e dizia ao porteiro
que mandasse entrar os doentes antigos. Havia sempre grande quantidade deles e era
necessário atender o maior número possível antes das duas, hora a que chegava o dr.
Tyrell. O interno com quem Philip começou a trabalhar era um homenzinho activo,
demasiado cônscio da sua importância. Tratava os auxiliares com condescendência e
era evidente que não lhe agradava a familiaridade dos estudantes mais velhos, que
haviam sido seus contemporâneos e não costumavam tratá-lo com o respeito que a sua
actual posição exigia. Auxiliado por um dos estudantes, examinava os doentes. Estes
começavam a entrar. Primeiro, os homens. Bronquite crónica, «uma tosse teimosa», era
do que principalmente sofriam. Um doente dirigia-se ao interno e outro ao estudante,
entregando os respectivos «cartões», nos quais, se registavam melhoras, eram escritas
as palavras Rep. 14, e dirigiam-se ao dispensário, com os seus frascos ou boiões, a fim
de receberem remédios para mais quinze dias. Alguns clientes antigos esperavam, a
fim de serem examinados pelo próprio chefe do serviço, mas raramente o conseguiam;
e só três ou quatro, cujo estado parecia exigir tal atenção, ficavam.
O dr. Tyrell entrava sempre com movimentos rápidos e maneiras joviais.
Lembrava vagamente um palhaço a saltar para a pista de um circo com a exclamação:
«Cá estamos!» A sua atitude parecia indicar: «Que tolice é essa de estarem doentes?
Vou pô-los finos!» Sentava-se, perguntava se havia doentes antigos para ver,
examinava-os à pressa, olhando para eles com olhos astutos, enquanto discutia os
sintomas, dizia uma graça ao interno (da qual todos os auxiliares riam com gosto) que
também ria gostosamente mas com ar de quem pensava ser um pouco atrevido da
parte dos alunos rirem daquele modo, e tocava a campainha para o porteiro introduzir
os novos doentes.
Estes entravam, um a um, e caminhavam até à mesa onde se achava o dr. Tyrell.
Eram velhos, novos e de meia-idade, a maioria pertencente à classe operária,
trabalhadores das docas, carroceiros, empregados de fábricas e cafés; mas havia alguns
bem vestidos, que pertenciam a uma classe evidentemente superior: caixeiros,
empregados de escritório e coisas semelhantes. O dr. Tyrell olhava para estes últimos
com desconfiança. às vezes envergavam roupas velhas para aparentar pobreza; mas o
médico tinha olho esperto para desmascarar tais fraudes, e, em muitas ocasiões,
recusava-se a atender pessoas que, pensava ele, podiam muito bem pagar serviços
médicos. As mulheres eram as mais desajeitadas nessa simulação. Traziam um casaco e
uma saia quase andrajosos, mas esqueciam-se de tirar os anéis dos dedos.
- Se a senhora pode comprar jóias é porque pode pagar ao médico. Este hospital é
uma instituição de caridade - dizia o dr. Tyrell.
Devolvia-lhe o «cartão» e mandava entrar o doente seguinte.
- Mas tirei o «cartão»
- Pouco me interessa o seu «cartão»; vá-se embora. Não tem nada que vir aqui
roubar o tempo dos que são pobres de verdade.
A doente retirava-se de mau modo, furiosa.
- Provavelmente, vai escrever uma carta aos jornais acerca da péssima
administração dos hospitais de Londres - dizia o dr. Tyrell com um sorriso, enquanto
pegava no próximo «cartão» e fixava no doente um dos seus olhares astutos.
A maioria dos pacientes vivia sob a impressão de que o hospital era uma
instituição oficial, sustentada pelos impostos que eles pagavam, de maneira que
consideravam aquela assistência como uma coisa a que tinham direito. Imaginavam
que o médico que lhes dedicava o seu tempo era regiamente pago.
O dr. Tyrell dava a cada um dos estudantes um caso a examinar. O rapaz levava
o doente para uma das salas interiores; estas eram mais pequenas e tinham cada uma
um divã revestido de crina preta. Fazia ao doente uma série de perguntas, examinavalhe
os pulmões, o coração e o fígado, rabiscava anotações no «cartão» do hospital,
formava uma ideia aproximada do diagnóstico e depois esperava que o dr. Tyrell
viesse. Este entrava, seguido de um pequeno grupo de alunos, quando acabava os
homens. O estudante lia as suas anotações. O médico fazia-lhe uma ou duas perguntas
e examinava a seguir o doente. Se havia alguma coisa interessante a ouvir, os
estudantes aplicavam os seus estetoscópios. Era frequente ver-se um homem com três
rapazes a auscultar-lhe o peito e dois as costas, ao passo que outros esperavam,
impacientes por observar também. O doente ficava no meio deles, um pouco
embaraçado, mas não de todo descontente por se ver centro de todas as atenções.
Escutava confusamente, enquanto o dr. Tyrell discorria com fluência sobre o caso. Dois
ou três estudantes tornavam a auscultar, para reconhecer o sopro ou a crepitação que o
médico descrevia, e finalmente mandavam o homem vestir-se.
Uma vez examinados todos os casos, o dr. Tyrell voltava para a sala grande e
sentava-se de novo à sua escrivaninha. Perguntava ao estudante que estivesse mais
perto o que receitaria ao doente que acabava de ver. O rapaz mencionava um ou dois
medicamentos.
- Receitava isso? - dizia o dr. Tyrell. - Bem, pelo menos é original. Não nos
precipitemos.
Isto provocava sempre riso entre os alunos. Encantado com o seu dito
humorístico, o médico receitava outra droga que não a sugerida pelo estudante.
Quando havia dois casos exactamente da mesma espécie e o rapaz propunha o
tratamento que o médico indicara para o primeiro, o dr. Tyrell procurava com grande
habilidade descobrir outro remédio. As vezes, para se divertir à custa dos
farmacêuticos do hospital, que, sempre abarrotados de serviço, preferiam fornecer
medicamentos já preparados, essas boas poções de hospital consagradas por anos de
experiência, dava-se o trabalho de passar uma receita complicada.
- Vamos dar um pouco de trabalho aos farmacêuticos - Se continuarmos a receitar
apenas mixtalb, acabam por ficar burros.
Os estudantes riam e o doutor passeava em torno o olhar, gozando o próprio
espírito. Depois, tocava a campainha, e quando o porteiro aparecia, dizia-lhe:
- As velhas, se faz favor.
Inclinava-se para trás na cadeira, a tagarelar com o interno, enquanto o porteiro
mandava entrar o rebanho das doentes. Eram raparigas anémicas, com grandes franjas
e lábios descorados: não podiam digerir a alimentação má e insuficiente; senhoras
idosas, gordas ou magras, envelhecidas prematuramente pelos partos amiudados,
sofriam de bronquite crónica; mulheres que tinham isto, aquilo e aqueloutro. O dr.
Tyrell e o seu interno atendiam-nas rapidamente. O tempo corria e o ar, na pequena
sala, ficava cada vez mais viciado. O médico consultava o relógio.
- Muitas doentes novas, hoje? - perguntava.
- Bastantes, parece-me - dizia o interno.
- É melhor mandá-las entrar. Pode continuar com as antigas.
Entravam. Nos homens, as moléstias mais comuns provinham do abuso do
álcool, mas nas mulheres eram devidas à alimentação deficiente. Perto das seis horas,
estava tudo terminado. Philip, exausto por ter estado de pé todo o tempo, pelo ar
empestado e pelo esforço de atenção, dirigia-se com os colegas até à Escola de
Medicina, a fim de tomar chá.
Achava no trabalho um interesse absorvente. Ali estava a Humanidade em bruto
- material a ser trabalhado pelo artista. E sentia uma curiosa impressão, ao pensar que
estava na mesma posição do artista e que os doentes eram como argila nas suas mãos.
Lembrou-se, com um divertido encolher de ombros, da sua vida em Paris, absorto em
cores, tonalidades, valores e sabe Deus que mais, com o fito de produzir coisas belas:
aquele contacto directo com homens e mulheres dava-lhe uma vibrante sensação de
poder que ainda não experimentara. Achava um interesse infindável em examinar-lhes
os rostos e ouvi-los falar. Cada um tinha a sua característica. Uns arrastavam
desajeitadamente os pés, outros andavam em passo curto e vivo e ainda outros em
passadas lentas e pesadas, tímidos estes, ousados aqueles. Pelo seu aspecto, muitas
vezes se lhes podia adivinhar a profissão. Aprendia-se a maneira de fazer
determinadas perguntas a fim de que fossem compreendidas. Descobria-se sobre que
assuntos quase todos mentiam e quais os quesitos com que se lhes podia arrancar a
verdade. Percebia-se o modo diferente como as pessoas encaravam as mesmas coisas.
O diagnóstico de uma doença perigosa seria aceito por este com um sorriso e uma
graça, e por aquele com mudo desespero. Philip verificou que era menos tímido com
essa gente do que o fora diante de outros. Não era exactamente simpatia o que
experimentava, pois a simpatia implica condescendência; sentia-se, porém, à vontade
com eles. Notou também que era capaz de pô-los à vontade e, quando lhe entregavam
um caso para ver o que podia fazer, parecia-lhe que o doente se entregava nas suas
mãos com uma confiança especial.
«Talvez», pensava ele com um sorriso, «talvez esteja talhado para médico. Que
sorte se encontrei a minha verdadeira vocação!»
Afigurava-se-lhe que, de todos os colegas, era ele o único que via o interesse
dramático daquelas tardes. Para os outros, homens e mulheres eram apenas casos bons,
se complicados, maçadores, se fáceis. Ouviam sopros e espantavam-se diante de
fígados anormais. Um ruído inesperado nos pulmões dava-lhes que falar. Mas, para
Philip, havia muito mais. Achava interesse no simples facto de olhar para os doentes,
para a forma das cabeças ou das mãos, a expressão dos olhos e o comprimento dos
narizes. Via-se naquela sala a natureza humana apanhada de surpresa e com
frequência a máscara do hábito era rudemente arrancada, deixando a alma desnudada.
às vezes deparava-se-lhe um estoicismo natural, profundamente comovedor. Numa
ocasião, Philip ouviu um homem rude e ignorante dizer que era um caso perdido; e
tendo ele próprio domínio sobre si mesmo, admirou-se ante aquele esplêndido instinto
que forçava o indivíduo a conservar um sorriso na presença dos estranhos. Mas serlhe-
ia possível ser estóico quando estava a sós, em frente da sua alma, ou entregar-se-ia
então ao desespero? Em certas ocasiões, havia tragédia. Um dia, uma jovem trouxe a
irmã para ser examinada. Era uma rapariga de dezoito anos, feições delicadas, grandes
olhos azuis, cabelos louros, que faiscavam como ouro quando batido por um raio de
sol outonal; tinha a pele de uma beleza surpreendente. Os olhos dos estudantes riramse
para ela. Não era com frequência que viam uma rapariga bonita naquelas salas
sombrias. A mais velha relatou a história da família: pai e mãe haviam morrido tísicos:
só lhe restavam a irmã e mais um irmão. A rapariga tossia ultimamente e perdera peso.
Tirou a blusa: a pele do pescoço era de uma brancura de leite. O dr. Tyrell examinou-a
em silêncio, com a rapidez de sempre. Mandou que dois ou três auxiliares aplicassem
os estetoscópios num lugar que indicou com o dedo. Depois deixaram-na vestir-se. A
irmã, que se mantinha um pouco afastada, falou ao médico em voz baixa, a fim de não
ser ouvida pela rapariga. A sua voz tremia de medo.
- Ela não está, sr. doutor, não é verdade?
- Infelizmente está, sim.
- É a última. Quando ela se for, não terei mais ninguém.
Começou a chorar, enquanto o doutor a contemplava com ar grave: tinha
também o tipo de tísica; também não viveria muito. A rapariga voltou-se e viu as
lágrimas da irmã. Compreendeu o que significavam. A cor fugiu-lhe do lindo rosto e as
lágrimas começaram a rolar-lhe pelas faces. Por minutos, ficaram as duas a chorar em
silêncio; depois, a mais velha, esquecendo aquele grupo indiferente que as observava,
aproximou-se da irmã, tomou-a nos braços e pôs-se a embalá-la docemente como se
fosse uma criança.
Quando se retiraram, um dos estudantes perguntou:
- Quanto tempo acha que ela durará, doutor?
O dr. Tyrell encolheu os ombros.
- O irmão e a irmã morrerão três meses depois dos primeiros sintomas. Com ela
acontecerá o mesmo. Se fossem ricas, talvez se pudesse fazer alguma coisa. Não lhes
podemos dizer que vão para St. Moritz. Nada se pode fazer por elas.
Outra vez foi um homem de aspecto robusto, no vigor da idade. Sofria de uma
dor persistente e o médico do seu clube parecia não lhe conseguir melhoras. Para ele,
também a sentença foi de morte, não a morte inevitável que horroriza, mas é, contudo,
tolerável porque a ciência nada pode diante dela, mas a morte que é inevitável apenas
porque o doente representa uma pequena roda na grande máquina de uma civilização
complexa e tem tão pouca força como um autómato para mudar as circunstâncias. A
sua única esperança era um repouso absoluto. O dr. Tyrell não pedia impossíveis.
- O senhor precisa de arranjar um trabalho muito mais leve.
- Na minha profissão não existe trabalho leve.
- Bom, se continuar assim será o suicídio. O senhor está muito doente.
- Então o sr. doutor quer dizer que vou morrer?
- Não queria dizer isso... mas é certo que o senhor não está em condições de fazer
trabalho pesado.
- Se não trabalho, quem sustentará minha mulher e os meus filhos?
O dr. Tyrell encolheu os ombros. Este dilema fora-lhe apresentado centenas de
vezes. O tempo urgia e havia muitos doentes para atender.
- Bom, vou dar-lhe um remédio e o senhor pode voltar daqui a uma semana para
me dizer como passa.
O homem pegou no papel onde estava a receita inútil e retirou-se. O doutor
podia dizer o que quisesse. Não se sentia tão mal que não pudesse continuar a
trabalhar. Tinha um bom emprego e não estava em condições de perdê-lo.
- Dou-lhe um ano - disse o dr. Tyrell.
Às vezes havia comédia. De quando em quando, surgia um lampejo de humor
londrino; às vezes, uma senhora velha, escapada de um romance de Charles Dickens,
divertia-os com a sua garrulice e extravagância. Certa ocasião, foi uma mulher que
pertencia ao corpo de baile de um teatro ligeiro famoso. Aparentava cinquenta anos,
mas deu a idade de vinte e oito. Estava escandalosamente pintada e os enormes olhos
negros lançavam olhares impudentes aos rapazes. Os sorrisos dela eram
grosseiramente provocantes. Muito segura de si, tratou o dr. Tyrell, que se divertia
imensamente, com a tranquila familiaridade que teria usado para com algum
admirador avinhado. Sofria de bronquite crónica e contou que isso prejudicava o
exercício da sua profissão.
- Não sei por que sofro disso, palavra que não. Nunca estive um dia de cama, em
toda a minha vida. Basta olhar para mim para se ver...
Revirava os olhos para os rapazes, com um prolongado movimento dos cílios
pintados, mostrando-lhes os dentes amarelos. Falava com sotaque cockney e uma
afectação de requinte que fazia de cada palavra um motivo de riso.
- Isso é o que se chama «tosse de Inverno» - respondeu o dr. Tyrell gravemente -
é doença que aparece com frequência em senhoras de certa idade.
- Ora, vejam lá! Muito lindo dizer isso a uma senhora. Até hoje, ninguém me
tratou por «senhora de certa idade!»
Arregalou os olhos e atirou a cabeça para o lado, encarando-o com uma gaiatice
indescritível.
- É esse o inconveniente da nossa profissão - disse ele. - às vezes, força-nos a ser
pouco galantes.
Agarrou a receita e atirou-lhe um último sorriso melífluo.
- Irá ver-me dançar, querido, sim?
- Com toda a certeza.
Tocou a campainha para mandar entrar a seguinte.
- Estimei que os cavalheiros estivessem aqui, para me proteger.
Mas, de um modo geral, a impressão que aquilo tudo dava não era de drama
nem de comédia. Não se podia descrever. Era múltiplo e vário; havia risos e lágrimas,
felicidade e desdita; era indiferente e interessante Era tudo o que se quisesse: era
tumultuoso e apaixonado; era grave; era triste e cómico; era trivial; era simples e
complexo; a alegria estava lá e o desespero também. O amor das mães pelos
filhos, o dos homens pelas mulheres. A luxúria arrastava-se por aquelas salas,
com pés de chumbo, punindo culpados e inocentes, mulheres desamparadas e
crianças miseráveis. o álcool assenhoreava-se de homens e de mulheres e
cobrava-lhes o inevitável tributo. A morte gemia naquela casa, onde era
diagnosticado o princípio da vida, enchendo de terror e de vergonha alguma
pobre rapariga. Não havia ali nem bem nem mal. Havia apenas factos. Era a
vida.
LXXXII
Perto do fim do ano, quando estava a terminar os três meses de prática no serviço
externo, Philip recebeu uma carta de Lawson, que se encontrava em paris.
Caro Philip.
Cronshaw está em Londres e ficará satisfeito de te ver. Mora em
Hyde Street, 43, Soho.
Não sei onde é, mas acho que poderás descobri-lo. Sê camarada e
olha um pouco por ele. Está numa situação dos diabos. Ele te dirá o que
faz. Em paris, as coisas vão como sempre. Nada parece ter mudado desde
quando estavas aqui, Chutton voltou, mas está perfeitamente intolerável.
Zangou-se com toda a gente. Tanto quanto sei, não tem vintém, mora num
pequeno estúdio nas traseiras do Jardim das Plantas, mas não deixa que
ninguém veja os trabalhos. Como não expõe em parte alguma, não se sabe
o que está a fazer. Pode ser um génio, mas também pode estar maluco. A
propósito, encontrei Flanagan um dia destes. Andava a exibir a esposa pelo
Bairro latino. Mandou a arte à fava e agora está no negócio do «papá».
Parece nadar em dinheiro. Mrs. Flanagan é muito bonita e eu estou a tentar
fazer um retrato dela. No meu lugar, quanto cobrarias? Não os quero
assustar, mas também não pretendo ser um pedaço de asno, pedindo cento
e cinquenta libras quando eles estão dispostos a pagar trezentas.
Sempre teu
Frederick Lawson
Philip escreveu a Cronshaw e recebeu em resposta a seguinte carta. Estava escrita
em meia folha de vulgar papel de escrever e o sobrescrito era fino mas mais sujo do
que a passagem pelo correio podia justificar.
Meu caro Carey:
Está claro que me lembro de ti muito bem. Tenho ideia de que
contribuí para te salvar do «Pântano do Desespero» em que eu próprio
estou irremediavelmente atolado. Terei muito prazer em te ver. Sou um
estranho numa cidade estranha e vivo assediado pelos filisteus. Será um
prazer conversar sobre Paris. Não te peço que me venhas visitar, visto que
os meus alojamentos não têm a magnificência própria para a recepção de
um eminente membro da profissão de monsieur Purgon. Mas, uma noite
destas, entre as sete e as oito, encontrar-me-ás a comer modestamente em
Dean Street, num restaurant chamado «Au Bon Plaisir».
Sinceramente teu
Cronshaw
Philip foi procurá-lo no dia em que recebeu a carta. O restaurante, que consistia
de uma única salinha, era da mais baixa classe e parecia não ter outro freguês senão
Cronshaw. Estava sentado a um canto, ao abrigo das correntes de ar, com o mesmo
sobretudo coçado, sem o qual Philip nunca o vira, e o velho chapéu enfiado na cabeça.
- Como aqui porque posso estar em paz - disse ele. - A casa não vai bem, as
únicas pessoas que vêm aqui são algumas marafonas e um ou dois criados
desempregados. Vão deixar o negócio e a comida é execrável. Mas a ruína deles é
vantagem para mim.
Cronshaw tinha diante de si um copo de absinto. Havia quase três anos que não
se viam e Philip surpreendeu-se com a mudança que se operara no seu aspecto.
Cronshaw, que fora corpulento, estava agora ressequido e amarelado: a pele do
pescoço estava flácida e cheia de rugas. As roupas dançavam-lhe no corpo como se
tivessem sido compradas para outro. E o colarinho, três ou quatro números maior que
a sua medida, agravava o desleixo da sua aparência. As mãos tremiam sem cessar.
Philip lembrou-se de que a letra da carta era um rabisco informe traçado ao acaso.
Cronshaw estava, evidentemente, muito doente.
- Tenho comido pouco nestes dias - disse. - Sinto mal-estar pela manhã. Hoje,
janto apenas uma sopa e, depois, pedirei um pedaço de queijo.
Philip relanceou involuntariamente os olhos para o absinto e Cronshaw,
percebendo isso, mirou-o com a expressão de zombaria com que costumava reprovar
as admoestações do bom-senso.
- Diagnosticaste o meu caso e pensas que faço muito mal em beber absinto.
- Não há dúvida de que tem uma cirrose do fígado.
- Não há dúvida.
Olhou para Philip, daquela maneira que nos tempos passados tinha o poder de
fazê-lo sentir-se incrivelmente acanhado. Parecia sugerir que o que ele pensava era
uma lamentável banalidade. E quando alguém reconhece a evidência, que mais se lhe
pode dizer? Philip mudou de assunto.
- Quando volta para Paris?
- Não volto para Paris. Vou morrer.
A naturalidade com que dizia aquilo surpreendeu Philip. Pensou em meia dúzia
de coisas para dizer, mas pareceram-lhe fúteis. Sabia que Cronshaw estava perdido.
- Então vai instalar-se em Londres? - perguntou hesitante.
- Que me importa Londres? Sou um peixe fora de água. Caminho pelas ruas
cheias de gente, os homens acotovelam-me e tenho a impressão de que vagueio por
uma cidade morta. Senti que não podia morrer em Paris. Quis viver os meus últimos
dias no meio da minha gente. Não sei que instinto obscuro me fez voltar.
Philip não ignorava que Cronshaw vivia com uma mulher e dois filhos
sujíssimos" mas o poeta nunca os mencionara e não queria fazer perguntas. Que seria
feito daquela gente?
- Não sei por que fala em morrer - disse.
- Tive uma pneumonia no Inverno passado. Disseram-me que escapei por
milagre. Segundo parece, sou muito propenso a isso e um segundo ataque matar-me-á.
- Ora, que tolice! O caso não é assim tão grave. O que é preciso é tomar
precauções. Por que não deixa de beber?
- Porque não quero. Que importa o que um homem faz, se está pronto a aceitar as
consequências? Pois bem, estou pronto a aceitá-las. Para ti, é fácil falar em deixar a
bebida, mas ela é a única coisa que me resta. Sem ela, que seria a vida para mim? Podes
compreender a felicidade que o absinto me dá? Ardo por ele e quando bebo saboreio
gota a gota, e depois sinto a alma a na dar numa felicidade inefável. Isso repugna-te. És
um puritano e no íntimo desprezas os prazeres dos sentidos. São os mais violentos e
refinados. Sou um homem dotado, por sorte, de sentidos muito agudos e entreguei-me
a eles de toda a alma. Agora, é preciso pagar o tributo, e estou pronto a pagá-lo.
Philip contemplou-o por um instante. - Não tem medo?
Durante segundos Cronshaw não respondeu. Parecia pensar na resposta.
- Às vezes, quando estou só. - Olhou para Philip. - Pensas que isso é uma
condenação? Estás enganado. Não tenho medo do meu medo. O argumento da
doutrina cristã, de que a gente deve viver sempre com os olhos postos na morte, é uma
loucura. A única maneira de viver é esquecer a morte. A morte não tem importância. O
temor dela jamais devia influenciar a menor das acções de um homem sábio. Sei que
vou morrer lutando para respirar e sei que hei-de ter um medo horrível. Sei também
que não me será possível evitar o amargo arrependimento do género de vida que me
levou a tais circunstâncias; mas desautoriza esse arrependimento. E agora, alquebrado,
velho, doente, pobre, moribundo, tenho ainda nas mãos a minha alma e não me arrependo
de nada.
- Lembra-se daquele tapete persa que me deu? - perguntou Philip. Cronshaw
sorriu com o seu velho e lento sorriso de outrora.
- Disse-te que ele daria uma resposta à tua pergunta, quando me interrogaste
sobre o sentido da vida. Então, descobriste a resposta?
- Não - sorriu Philip. - Quer dizer-ma?
- Não, não, não posso. A resposta nada significará, se não a descobrires por ti
mesmo.
LXXXIII
Cronshaw ia publicar os seus poemas. Havia anos, os amigos insistiam para que
ele o fizesse, mas a sua indolência não lhe permitia dar os passos necessários.
Respondera sempre às exortações dizendo que o amor à poesia estava morto na
Inglaterra. Publicara-se um livro que custara anos de meditação e labor: era
mencionado em duas ou três linhas condescendentes, no meio de uma fornada de
obras do mesmo género, encontrava vinte ou trinta compradores e o resto da edição
era vendido a peso para as fábricas de papel. Havia muito que morrera o desejo de
celebridade. Era uma ilusão como todas as outras. Mas um dos seus amigos
encarregara-se do assunto. Era um homem de letras chamado Leonard Upjohn, que
Philip encontrara uma ou duas vezes, em companhia de Cronshaw, nos cafés do Bairro
Latino. Gozava de considerável reputação em Inglaterra, como crítico, e passava por
ser no seu país o campeão da moderna literatura francesa. Vivera muito tempo em
França, entre os escritores que faziam do Mercure de France a revista mais viva da época
e, pelo simples processo de exprimir-lhes as ideias em inglês, adquirira em Inglaterra
certa fama de originalidade. Philip lera alguns dos seus artigos. O estilo, decalcado no
de sir Thomas Browne, as frases empoladas, cuidadosamente equilibradas, e um
vocabulário obsoleto e coruscante criavam a ilusão da personalidade. Leonard Upjohn
persuadira Cronshaw a confiar-lhe os seus poemas e verificara que os havia em
quantidade suficiente para formar um volume de tamanho razoável. Prometeu
empregar a sua influência junto dos editores. Cronshaw precisava de dinheiro. Depois
da doença, achava cada vez mais difícil trabalhar continuamente. Mal ganhava o
necessário para pagar o que bebia. E, quando Upjohn lhe escreveu que um editor e
depois outro, embora admirassem os poemas, achavam que não valia a pena publicálos,
Cronshaw começou a interessar-se. Insistiu por carta, com Upjohn, para que ele
fizesse novos esforços, pois a sua situação era precária. Agora, que ia morrer, queria
deixar um livro publicado e no fundo estava convencido de que escrevera grandes
poemas. Esperava ofuscar o Universo como um astro novo. Havia algo de magnífico
em conservar toda a vida aqueles tesouros de beleza e, dá-los ao mundo
desdenhosamente, por já não precisar deles, quando ele e o mundo se separavam.
A sua decisão de voltar a Inglaterra fora directamente motivada pela notícia que
Leonard Upjohn lhe dera de ter encontrado um editor para os poemas. Por um milagre
de persuasão, Upjohn convencera o homem a pagar dez libras adiantadamente, por
conta dos direitos de autor.
- Um simples adiantamento, vê bem - disse Cronshaw para Philip.
- Milton só conseguiu dez libras na totalidade.
Upjohn prometera escrever um artigo, assinado, sobre os poemas e pediu aos
críticos seus amigos que o elogiassem. Cronshaw fingia tratar o assunto com
desprendimento, mas era fácil ver que estava encantado com a ideia da sensação que o
livro produziria.
Um dia, Philip combinou jantar na miserável casa de pasto onde Cronshaw
insistia em tomar as refeições. O poeta, porém, não apareceu. Philip soube que não
aparecia ali havia três dias. Comeu alguma coisa e dirigiu-se depois para o endereço
que Cronshaw lhe dera por escrito. Teve alguma dificuldade em localizar Hyde Street.
Era uma rua de casas sórdidas e amontoadas. Muitas das vidraças estavam partidas e
toscamente consertadas com folhas de jornais franceses. Havia anos que não se
pintavam as portas. No rés-do-chão, ficavam pequenas e humildes casas de comércio,
lavandarias, papelarias e remendões. Crianças maltrapilhas brincavam na rua e um velho
realejo moía uma melodia popular. Philip bateu à porta da casa de Cronshaw (na
parte térrea havia uma confeitaria de última classe). Foi atendido por uma francesa
idosa, de avental sujo. Perguntou se Cronshaw estava em casa.
- Ah, sim... Um inglês que mora nas traseiras do andar de cima? Não sei se está.
Se quiser, é melhor ir ver.
A escada era alumiada por um bico de gás. Havia na casa um cheiro repugnante.
Quando Philip subia, uma mulher saiu de um quarto do primeiro andar, olhou para ele
desconfiada, mas nada disse. Havia três portas no último patamar. Philip bateu a uma
delas e tornou a bater. Não teve resposta. Tentou dar volta ao trinco, mas a porta
estava fechada à chave. Bateu à outra porta, não obteve resposta e tornou a
experimentar o trinco. Abriu. O quarto estava às escuras.
- Quem é?
Reconheceu a voz de Cronshaw.
- Carey. Posso entrar?
Nenhuma resposta. Entrou. A janela estava fechada e o mau cheiro era
insuportável. Vinha do candeeiro da rua alguma claridade e Philip viu que era
pequeno e tinha duas camas colocadas ponta com ponta. Havia um lavatório e uma
cadeira, que deixavam pouco espaço livre para uma pessoa se movimentar. Cronshaw
estava na cama que ficava próximo da janela. Não fez o menor movimento, mas teve
um riso baixo e gutural.
- Por que não acendes a vela? - perguntou então.
Philip riscou um fósforo e descobriu que havia um castiçal no soalho, ao lado da
cama. Acendeu a vela e pôs o castiçal em cima do lavatório. Cronshaw estava deitado
de costas, imóvel; tinha um aspecto estranhíssimo, na sua camisa de dormir. A calvície
era desconcertante. Na face terrosa, via-se já a marca da noite.
- Escute, meu velho, você parece muito doente. Não há aqui quem cuide de si?
- George traz-me uma garrafa de leite pela manhã, antes de ir para o trabalho.
- Quem é George?
- Chamo-lhe George mas o nome dele é Adolfo. Participa comigo desta
sumptuosa instalação.
Philip notou então que a segunda cama estava por fazer. O travesseiro estava
negro no lugar onde a cabeça repousava.
- Mas, então quer dizer que não mora só neste quarto? - exclamou.
- E que tem isso? Os quartos custam dinheiro em Soho. George é criado de
mesa, sai às oito da manhã e não volta senão depois da hora de fechar, de forma que
nunca me incomoda. Até me ajuda a passar as horas da noite a contar histórias da sua
vida. É suíço e sempre tive predilecção pelos criados de mesa. Vêem a vida de um
ângulo divertido.
- Há quanto tempo está de cama?
- Três dias.
- Então, todo esse tempo, passou apenas com uma garrafa de leite por dia? Por
que diabo não me escreveu duas linhas? Custa-me pensar que fica aqui todo o dia
deitado, sem uma alma para o atender.
Cronshaw soltou uma risadinha.
- Olha a cara dele... Ora, meu rapaz, acho que estás desolado. Bom tipo!
Philip corou. Não suspeitara que o seu rosto revelasse a consternação que sentia
à vista daquele horrível quarto e das miseráveis circunstâncias em que se encontrava o
pobre poeta. Observando Philip, Cronshaw prosseguiu com um suave sorriso:
- Passei estes dias muito contente. Olha, aqui estão as minhas provas. Lembra-te
de que sou indiferente ao desconforto que tanto atormenta as outras criaturas. Que
importam as circunstâncias da vida, se os nossos sonhos nos tornam soberanos do
tempo e do espaço?
As provas do livro estavam em cima da cama e, mesmo no escuro, conservava-as
sob a mão. Mostrou-as a Philip, com os olhos brilhantes. Voltava as páginas, gozando a
letra de forma. Leu uma estrofe.
- Não está mal, não?
Philip teve uma ideia. Custar-lhe-ia algum dinheiro e não estava em condições
de ter o menor aumento de despesa. Mas, perante aquele caso, a ideia da economia
revoltava-o.
- Olhe, não posso permitir que você fique aqui. Tenho um quarto a mais que
actualmente está vazio, mas posso arranjar facilmente que me emprestem uma cama.
Não quer vir morar comigo por algum tempo? Poderá economizar o aluguer deste.
- Oh, meu rapaz, tu insistirias em que eu conservasse a janela aberta. - Se quiser,
mandarei vedar todas as janelas.
- Amanhã, estarei bom. Podia ter-me levantado hoje, mas tive preguiça. - Então, é
muito fácil mudar-se. E, depois, quando não se sentir bem, pode ir para a cama, e eu lá
estarei para tomar conta de si.
- Se isso te agrada, irei - disse Cronshaw, com o seu sorriso apático, mas
agradável.
- Será óptimo.
Combinaram que Philip viesse buscar Cronshaw no dia seguinte e Philip roubou
uma hora da sua atarefada manhã para tratar da mudança. Encontrou Cronshaw
vestido, sentado na cama, de chapéu e casacão, com a pequena e usada maleta, que
continha as suas roupas e livros, já arrumada: achava-se no chão, a seus pés, e o poeta
dava a impressão de estar sentado na sala de espera de uma estação. Philip riu-se ao
vê-lo. Foram até Kensington num trem de quatro rodas, com as portinholas
cuidadosamente cerradas. Philip instalou o hóspede no seu próprio quarto. Saíra de
manhã cedo e comprara para seu uso uma cama em segunda mão, uma cómoda barata
e um espelho. Cronshaw pôs-se imediatamente a corrigir as provas. Sentia-se muito
melhor.
A não ser pela irritabilidade, que era um sintoma da doença, Philip achou que era
um hóspede fácil de tratar. Tinha aula às nove da manhã, de sorte que só via Cronshaw
à noite. Persuadia-o uma ou duas vezes, a participar do parco jantar que costumava
preparar. Mas, boémio de mais para ficar em casa, Cronshaw preferia comer nalgum
dos mais ordinários restaurantes de Soho. Philip pediu-lhe que procurasse o doutor
Tyrell, mas ele recusou obstinadamente. Sabia que o doutor lhe recomendaria que
deixasse a bebida, e estava resolvido a não o fazer. De manhã, sentia-se sempre
horrivelmente doente, mas o absinto, ao meio-dia, refazia-o, e, à meia-noite, quando
voltava para casa, conseguia falar com aquele brilho que despertara a admiração de
Philip, na primeira vez que o encontrara. As provas estavam corrigidas. O volume
devia aparecer com as outras publicações do princípio da Primavera, quando era de
supor que o público estivesse refeito da avalancha dos livros de Natal.
LXXXIV
No começo do ano, Philip ficou encarregado dos curativos no serviço externo. O
trabalho era da mesma natureza que o anterior, mas possuía esse carácter directo que
constitui uma das vantagens da cirurgia sobre a clínica. Era maior, ali, o número de
doentes atacados desses dois males que a negligência e o falso pudor do povo
permitem que alastrem. O cirurgião assistente, para quem Philip trabalhava, chamavase
Jacobs. Era um homem baixo, gordo, de jovialidade exuberante, calvo e de voz
estridente. Tinha um sotaque cockney e quase todos os estudantes lhe chamavam
«pelintra»; mas a sua habilidade, quer como cirurgião, quer como professor, fazia que
alguns deles lhe esquecessem a origem. Era dotado de considerável jocosidade, que
recaía imparcialmente sobre estudantes e doentes. Sentia grande prazer em expor os
seus auxiliares ao ridículo. Para fazer isso, não encontrava muita dificuldade, uma vez
que os rapazes eram ignorantes, tímidos e não lhe podiam responder como a um igual.
Jacobs enchia as tardes a dizer verdades rudes, sob pretexto de fazer espírito, e
divertia-se mais com elas do que os estudantes, obrigados a recebê-las com um sorriso.
Certo dia, apareceu-lhe um caso: um menino com um pé boto. Os pais queriam saber
se era possível fazer alguma coisa. O dr. Jacobs voltou-se para Philip:
- Esse caso é para ti, Carey. É assunto que conheces um pouco.
Philip corou, tanto mais que o cirurgião falava com intenção evidentemente
humorística e os seus auxiliares, intimidados, riam obsequiosamente. Era de facto um
assunto que Philip estudara com ansiosa atenção, desde que viera para o hospital. Lera
os livros da biblioteca que tratavam de talipes, nas suas várias formas. Mandou o rapaz
tirar os sapatos e as meias. Tinha catorze anos, nariz arrebitado, olhos azuis e cara
pintalgada de sardas. O pai explicou desejar que fizessem alguma coisa, se fosse
possível, pois aquilo era um obstáculo para o filho ganhar a vida. Philip observou-o
com curiosidade. Era um rapaz alegre, nada tímido, mas tagarela e de uma afoiteza
que o pai reprovava. Estava muito interessado no pé.
- É só porque é feio, sabe? - disse a Philip. - Não me incomoda.
- Está quieto, Ernie - acudiu o pai. - Estás a falar de mais.
Philip examinou-lhe o pé e passou a mão pela deformidade. Não podia
compreender por que não sentia o rapaz a humilhação que sempre o deprimira. Por
que não podia ele também encarar o seu defeito com aquela indiferença filosófica? Em
dado momento, o dr. Jacobs aproximou-se dele. O rapaz estava sentado na beira do
divã, tendo de um lado o cirurgião, e Philip do outro. Junto deles, em semicírculo,
agrupavam-se os estudantes. Com o brilho habitual, Jacobs fez uma pequena
dissertação sobre o talipes. Falou das suas variedades e das formas decorrentes de
diversas condições anatómicas.
- Acho que o seu caso é talipes equinus - disse, voltando-se subitamente para
Philip.
- É.
Philip sentiu que os olhos dos colegas estavam postos nele. Amaldiçoou-se por
lhe ser impossível deixar de corar. As palmas das mãos humedeceram-se-lhe de suor.
O cirurgião falava com a fluência devida a uma longa prática e com a admirável
perspicácia que o distinguia. Era profundamente interessado na sua profissão. Mas
Philip não o escutava. Desejava apenas que o homem terminasse quanto antes. Em
dado momento, percebeu que Jacobs se lhe dirigia:
- Não te importas de tirar o sapato por um momento, Carey?
Philip sentiu um estremecimento percorrer-lhe o corpo. O seu ímpeto foi dizer ao
cirurgião que fosse para o inferno, mas não tinha coragem de provocar uma cena.
Temia o ridículo brutal de que seria objecto. Fez um esforço por parecer indiferente.
- Absolutamente nada - respondeu.
Sentou-se e desamarrou os cordões do sapato. Os dedos tremiam-lhe. Pensou que
não conseguiria desfazer o nó. Lembrou-se de quando, na escola, o forçaram a mostrar
o pé, e da humilhação que então lhe roera as entranhas.
- Traz os pés limpinhos, hem? - disse Jacobs, com a sua estridente voz de cockney.
Os estudantes abafaram risadas. Philip notou que o rapaz que estivera a
examinar olhava agora para o pé com aguda curiosidade. Jacobs segurou-lhe o pé e
disse:
- Sim, é o que eu pensava. Pelo que vejo, já foi operado. Quando era criança, não?
Continuou a dissertar com fluência. Os estudantes inclinavam-se para olhar o pé.
Dois ou três examinaram-no minuciosamente, quando Jacobs o soltou.
- Quando terminarem, avisem - disse Philip com um sorriso, ironicamente.
Gostaria de os matar a todos. Pensou em como seria delicioso cravar-lhes um
formão no pescoço (não sabia por que lhe viera ao espírito precisamente esse
instrumento). Que animais eram os homens! Quisera acreditar no inferno para se
consolar com a ideia das torturas horríveis que lhes estariam reservadas. Jacobs
desviou-lhe a atenção para o tratamento. Dirigia-se em parte ao pai do rapaz e em
parte aos estudantes. Philip calçou a meia e apertou o sapato. Por fim, o cirurgião
terminou. Mas, depois, como que levado por uma reflexão tardia, voltou-se para
Philip.
- Olha, acho que vale a pena tentares uma operação. Está claro que não te
deixarei o pé normal, mas penso que posso fazer alguma coisa. Reflecte nisso, e,
quando precisares de férias vem passar uns dias ao hospital.
Philip perguntara muitas vezes a si próprio se seria possível fazer alguma coisa
para corrigir aquele defeito, mas, como a simples ideia de mencionar o assunto lhe
repugnava, evitara consultar qualquer dos operadores do hospital. As seus leituras
diziam-lhe que, depois da intervenção feita quando era criança (e ainda estava
relativamente atrasado, naquela época, o tratamento do talipes) havia agora pouca
esperança de grandes melhoras. Mesmo assim valia a pena tentar a operação, se esta
lhe atenuasse o coxear e permitisse o uso de calçado semelhante ao que todos usavam.
Lembrou-se do fervor com que orara ao Omnipotente, a pedir o milagre que o tio lhe
dissera ser possível. Sorriu melancolicamente.
«Naquele tempo, era uma alma um tanto ingénua», pensou.
Em fins de Fevereiro, o estado de Cronshaw piorou nitidamente. Já não podia
levantar-se. Ficava na cama, insistindo em manter as janelas fechadas. Não queria que
chamassem o médico. Alimentava-se pouco, mas exigia whisky e cigarros. Philip sabia
que ambas as coisas lhe faziam mal, mas o argumento de Cronshaw era irrespondível:
- Sei que essas coisas estão a matar-me. Pouco se me dá. Avisaste-me e fizeste
tudo quanto era necessário: desprezo o teu aviso. Dá-me de beber e vai para o inferno.
Leonard Upjohn aparecia duas ou três vezes por semana, e havia no seu aspecto
algo da folha morta, imagem que descrevia exactamente a maneira como ele surgia.
Era um homem de trinta e cinco anos, com cabelos longos e claros; tinha o rosto pálido
e a aparência doentia de quem vive muito pouco ao ar livre. Usava um chapéu que se
assemelhava aos dos pastores protestantes dissidentes. Philip não gostava dele, por
causa da sua atitude superior; a sua conversação fluente aborrecia-o. Leonard Upjohn
gostava de ouvir o som da própria voz. Tinha o requisito primordial do bom
conversador: não era sensível ao interesse dos interlocutores. Nunca percebia que
estava a dizer às pessoas coisas que elas já sabiam. Dizia a Philip, com palavras
medidas, o que pensava de Rodin, Albert Samain e César Franck. A dona da casa de
Philip vinha durante uma hora, pela manhã, e, como o rapaz tivesse de passar todo o
dia no hospital, Cronshaw ficava muito tempo sozinho. Upjohn disse a Philip que
alguém devia fazer-lhe companhia, mas não se ofereceu para isso.
- É medonho a gente pensar na solidão desse grande poeta. Poderá morrer sem
vivalma que o assista.
- Acho isso muito provável - disse Philip.
- Como pode ser tão empedernido?!
- Por que não vem fazer o seu trabalho para aqui, todos os dias? - perguntou
Philip, secamente. - Assim, estaria perto dele, em caso de necessidade.
- Eu? Meu caro... A mim, só me é possível trabalhar no ambiente a que me
habituei. Além disso, saio tanto...
Upjohn estava também um pouco surpreendido por Philip ter trazido Cronshaw
para sua casa.
- Melhor fora que o tivesse deixado em Soho - disse, erguendo a mão fina num
gesto ondulante. - Havia um quê de romanesco naquela sórdida água-furtada. Se fora
ao menos Wapping ou Shoreditch, era de suportar-se, mas esta respeitabilidade de
Kensington! Que lugar para um poeta morrer!
Com frequência, Cronshaw mostrava-se tão mal-humorado que Philip só não
perdia a paciência por se lembrar de que aquela irritabilidade era um sintoma da
doença. Upjohn chegava muitas vezes antes do regresso de Philip, e Cronshaw, então,
queixava-se amargamente dele. Upjohn escutava complacentemente.
- O facto é que Carey não tem o sentido do belo - dizia a sorrir. - Tem o espírito
burguês.
Era sarcástico para Philip, e o rapaz tinha de exercer grande domínio sobre si, nas
relações com ele. Uma noite, porém, não pôde conter-se. Tivera um dia atarefado no
hospital e sentia-se cansado. Leonard Upjohn aproximou-se dele quando, na cozinha,
preparava uma chávena de chá, e disse-lhe que Cronshaw se queixava da sua
insistência em lhe trazer um médico.
- O amigo não compreende que está a fruir um raro, um excepcional privilégio?
Devia fazer tudo quanto está ao seu alcance para demonstrar que aprecia a grandeza
dessa confiança.
- É um privilégio raro e excepcional que mal posso custear - respondeu Philip.
Sempre que se tratava de dinheiro, Leonard Upjohn assumia uma atitude
levemente desdenhosa. O seu temperamento sensível ficava ofendido pela referência
ao assunto.
- Há um não sei quê de magnífico na atitude de Cronshaw, e o senhor perturba-o
com as suas admoestações importunas. Devia reverenciar os pensamentos delicados do
poeta, mesmo que os não possa aquilatar.
O rosto de Philip anuviou-se.
- Vamos vê-lo - disse friamente.
O poeta encontrava-se deitado de costas, lendo um livro, com o cachimbo na
boca. O ar estava viciado e o quarto, apesar dos esforços de Philip para arranjá-lo, tinha
aquele aspecto de sordidez que parecia acompanhar Cronshaw para onde quer que ele
fosse. O poeta tirou os óculos quando os viu entrar. Philip fervia de raiva.
- Upjohn disse-me que você se lhe queixou da minha insistência em trazer um
médico. Quero que o médico venha porquê você pode morrer de um instante para o
outro e assim eu teria quem pudesse passar o atestado de óbito necessário. De
contrário, haverá um inquérito e serei censurado por não ter chamado esse médico.
- Não pensei nisso. Julguei que querias trazer o médico por minha causa e não
por tua. Agora, podes trazê-lo quando quiseres.
Philip não respondeu, mas encolheu imperceptivelmente os ombros. Cronshaw,
que o observava, riu guturalmente:
- Não fiques zangado, meu caro. Sei muito bem que estás pronto a fazer tudo por
mim, Vamos ver esse doutor. Talvez me possa servir de alguma coisa. E, seja como for,
a visita dele confortar-te-á. - Voltou os olhos para Upjohn. - És um tolo consumado,
Leonard. Por que andas a aborrecer o rapaz? Eu já lhe dou muito incómodo. o mais que
farás por mim será escrever um bonito artigo a meu respeito depois da minha morte.
Conheço-te.
No dia seguinte, Philip procurou o dr. Tyrell. Sentia que era homem capaz de se
interessar pela história. Logo que se livrou do trabalho do dia, Tyrell acompanhou
Philip a Kensington. O médico limitou-se a confirmar os prognósticos do rapaz. Era
um caso perdido.
- Se quiseres, levo-o para o hospital - disse. - Podemos alojá-lo num quarto
pequeno.
- Nada o convenceria a ir.
- Como sabes, pode morrer a toda a hora, ou então apanhar nova pneumonia.
Philip meneou a cabeça afirmativamente. O dr. Tyrell fez uma ou duas sugestões
e prometeu voltar quando o rapaz quisesse. Deixou o endereço. Quando Philip voltou
para junto de Cronshaw, encontrou-o a ler calmamente. O poeta não se deu ao trabalho
de perguntar o que dissera o doutor.
- Estás satisfeito, agora, meu caro? - perguntou.
- Suponho que nada o induzirá a fazer qualquer das coisas que o dr. Tyrell
recomendou...
- Nada - sorriu Cronshaw.
LXXXV
Cerca de quinze dias depois, ao voltar uma noite para casa, após o seu trabalho
diário no hospital, Philip bateu à porta do quarto de Cronshaw. Como não obtivesse
resposta, entrou. Cronshaw jazia na cama, enrodilhado. Philip aproximou-se. Não
sabia se o poeta estava a dormir ou se simplesmente se deixara ficar deitado, num dos
seus irreprimíveis acessos de irritabilidade. Ficou surpreendido ao vê-lo de boca
aberta. Tocou-lhe no ombro e deixou escapar um grito de medo. Meteu a mão por
baixo da camisa de Cronshaw e procurou sentir o coração. Não sabia que fazer. Em
desespero, pôs um espelho diante da boca do homem; pois ouvira dizer que era
costume fazer-se isso. Estremeceu ao lembrar-se de que estava à sós com Cronshaw.
Ainda não tirara o chapéu e o sobretudo: desceu as escadas a correr. Tomou um trem e
mandou seguir para Harley Street. O dr. Tyrell estava em casa.
- Pode vir a minha casa agora mesmo? Parece-me que Cronshaw morreu.
- Se morreu, de nada serve a minha presença.
- Mas ficar-lhe-ia muito agradecido se viesse. Tenho um carro à espera. Não
perderá mais de meia hora.
Tyrell pôs o chapéu. No carro, fez-lhe uma ou duas perguntas.
- Esta manhã, quando o deixei, não parecia ter piorado - disse Philip. - Tive um
grande choque quando entrei há pouco no quarto. E pensar que morreu sozinho...
Acha que ele sabia que ia morrer?
Philip lembrou-se do que Cronshaw dissera. Ficou a pensar se, no último
momento, o terror da morte se apossara dele. Imaginou-se em conjuntura idêntica,
cônscio de que o fim estava próximo e sem ver ninguém a seu lado para lhe dar
coragem, no momento em que se sentisse tomado de medo.
- Estás um tanto perturbado - disse o dr. Tyrell.
Olhou para o rapaz com os seus claros olhos azuis, que não eram destituídos de
simpatia. Quando viu Cronshaw, disse:
- Deve ter morrido há algumas horas. Creio que a morte o apanhou a dormir. às
vezes, acontece.
O corpo, todo encolhido, era repugnante. Nada tinha de humano. o dr. Tyrell
contemplava-o sem comoção. Com um gesto maquinal, tirou o relógio.
- Bem, preciso de ir-me embora. Mandarei a certidão de óbito. Sem dúvida vais
comunicar aos parentes.
- Não creio que tenha parentes - disse Philip.
- E o enterro?
- Tratarei disso.
O dr. Tyrell lançou um olhar rápido a Philip. Devia oferecer umas libras para
ajudar o rapaz nas despesas necessárias? Nada sabia da sua situação. Talvez estivesse
em condições de pagar tudo e achasse impertinente qualquer sugestão nesse sentido.
- Bom, se precisares de mim para alguma coisa, estou às ordens - disse o médico.
Saíram juntos e separaram-se à porta. Philip foi ao telégrafo, para avisar Leonard
Upjohn. Dirigiu-se depois a uma casa funerária, por onde costumava passar todos os
dias, a caminho do hospital. A sua atenção fora muitas vezes atraída para aquele
estabelecimento, pelas três palavras, em letras de prata num fundo de fazenda negra,
que enfeitavam a vitrina, junto com dois modelos de ataúdes: «Economia, Rapidez,
Probidade». Achara-lhes sempre muita graça. O proprietário era um judeuzinho gordo,
de cabelos negros, longos, crespos e gordurosos, vestido de preto, com um grande anel
de brilhante no dedo médio. Recebeu Philip de um modo peculiar, misto de
exuberância natural e gravidade própria do ofício. Não tardou a perceber que Philip
estava desorientado e prometeu mandar em seguida uma mulher para fazer o que o
caso exigia. Fez para o enterro sugestões magnificentes e Philip envergonhou-se
quando ele pareceu achar que as suas objecções eram mesquinhas. Era horrível
regatear em tal assunto, e Philip, por fim, consentiu em fazer uma despesa que mal
podia custear.
- Compreendo perfeitamente - disse o cangalheiro - que não deseje ostentação ou
coisa semelhante. Eu próprio não gosto disso, fique certo. Mas o senhor há-de querer
que o enterro seja digno de um homem educado. Deixe isso comigo. Farei o mais
barato possível, sem esquecer o que é apropriado. Nada mais posso dizer não acha?
Philip foi para casa jantar. Enquanto comia, chegou a mulher para lavar o
cadáver. Pouco depois, entregaram-lhe um telegrama:
Upjohn
Sobremaneira abalado e condoído. Lamento impossibilidade comparecer
hoje. jantar fora. Convosco amanhã cedo. Profunda simpatia.
Dentro em pouco, a mulher bateu à porta da sala de estar.
- Está pronto. Quer vir vê-lo, para ver se está tudo em ordem?
Philip seguiu-a. Cronshaw estava deitado de costas, com os olhos fechados e as
mãos piedosamente sobre o peito.
- Pelo direito, o senhor devia mandar vir flores.
- Amanhã trarei algumas.
A mulher lançou ao cadáver um olhar de satisfação. Terminara a sua tarefa e
agora descia as mangas, tirava o avental e punha o chapéu. Philip perguntou quanto
lhe devia.
- Bem, alguns pagam-me dois xelins e seis pence, outros dão-me cinco xelins.
Philip teve vergonha de dar quantia inferior à maior. A mulher agradeceu-lhe
com o entusiasmo que as circunstâncias lhe pareciam permitir e foi-se embora. Philip
voltou para a sala de estar, tirou da mesa os restos da ceia e sentou-se para ler a
cirurgia, de Walsham. Achou-a difícil. Sentia-se singularmente nervoso. Quando ouvia
barulho na escada, tinha um sobressalto e o coração começava a bater-lhe com
violência. aquela coisa, no quarto contíguo, aquilo que fora um homem e agora era
nada, enchia-o de susto. O silêncio parecia ter vida, como se algum misterioso
movimento se processasse dentro dele; a presença da morte pesava naquele ambiente,
sobrenatural e aterradora. Philip foi tomado de um súbito horror pelo que fora o seu
amigo. Tentou fazer um esforço para ler, mas, num dado momento, atirou o livro para
longe, com desespero. O que o perturbava era a absoluta futilidade daquela vida que
findara havia pouco. Que importava que Cronshaw estivesse vivo ou morto? Se não
tivesse vindo ao mundo, teria sido exactamente o mesmo. Philip pensou na mocidade
de Cronshaw. Era-lhe necessário um esforço de imaginação para figurá-lo mais esbelto,
a caminhar com passadas elásticas, cabelos na cabeça, jovial e cheio de esperança. A
norma de vida de Philip, satisfazer os instintos com o devido respeito ao polícia ao
virar da esquina, não dera resultado naquele caso: Cronshaw seguira esse caminho e
por isso a sua existência redundara num lamentável desastre. Pelos modos, não se
devia confiar nos instintos. Philip estava perplexo. Se aquela norma de vida era inútil,
que outra havia, afinal? E por que agiam as pessoas desta maneira e não daquela?
Portavam-se de acordo com os seus sentimentos, mas esses sentimentos podiam ser
bons ou maus. Parecia questão de puro acaso levarem ao triunfo ou ao desastre. A vida
afigurava-se-lhe uma inextricável confusão. Os homens corriam de um lado para o
outro, apressados, impelidos por forças que desconheciam. E o objectivo daquilo tudo
escapava-lhes. Davam a impressão de se apressarem apenas por amor à pressa.
Na manhã seguinte, Leonard Upjohn apareceu com uma pequena coroa de
louros. Era-lhe agradável a ideia de coroar a cabeça do poeta morto. E, não obstante o
silêncio desaprovador de Philip, tentou colocar os lauréis na cabeça calva. O efeito era
grotesco. Lembrava uma aba de chapéu usada por um artista reles de variedades.
- Ficará melhor sobre o coração - disse Upjohn.
- Mas o senhor colocou-a em cima do estômago - observou Philip.
Upjohn esboçou um ténue sorriso.
- Só um poeta sabe onde fica o coração de um poeta - respondeu.
Voltaram para a sala de estar e Philip contou ao outro as providências que
tomara para o enterro.
- Espero que não se tenha poupado a despesas. Gostaria que o féretro fosse
seguido de uma longa fileira de carros vazios, e gostaria também que os cavalos
levassem altas plumas ondulantes e que houvesse um grande número de carpideiras,
com longos véus de crepe nos chapéus. Agrada-me essa ideia dos carros assim vazios...
- Como quem vai custear o enterro sou eu e não me encontro com excesso de
fundos, procurei fazer a coisa o mais modestamente possível.
- Mas, meu caro, em tal circunstância, por que não lhe arranja um enterro de
indigente? Pelo menos isso teria alguma coisa de poético. O amigo possui o instinto
infalível da mediocridade.
Philip corou levemente, mas não respondeu e, no dia seguinte, ele e Upjohn
acompanharam o carro fúnebre no único veículo que Philip alugara. Lawson, não
podendo comparecer, mandara uma coroa. E, para que o caixão não parecesse muito
abandonado, Philip comprara mais duas. Na volta, o cocheiro chicoteava os cavalos.
Cansadíssimo, o rapaz acabou por adormecer. Foi acordado pela voz de Upjohn.
- De certo modo, é uma sorte que os poemas não tenham ainda aparecido. Creio
que é melhor retê-los um pouco, até que eu escreva o prefácio. Comecei a pensar nele
durante o trajecto para o cemitério. Afigura-se-me que posso fazer coisa bastante boa.
Seja como for, principiarei com um artigo em The Saturday.
Philip não respondeu e fez-se silêncio entre ambos. Por fim, Upjohn falou:
- Parece-me de melhor aviso conservar a cópia desse artigo.
Parei depois outro para uma dessas revistas e, mais tarde, posso utilizá-lo como
prefácio.
Philip procurou ler os mensários e semanas depois o artigo apareceu. Causou
alguma sensação e excertos dele foram reproduzidos em vários jornais. Era um
excelente ensaio, vagamente biográfico, pois ninguém sabia grande coisa do passado
de Cronshaw, mas delicado, terno e colorido. Leonard Upjohn, no seu estilo intrincado,
traçara pequenos e graciosos quadros da vida de Cronshaw no Bairro Latino, a
conversar e a fazer versos. O poeta convertia-se numa figura pitoresca, num Verlaine
inglês. As frases coloridas de Leonard Upjohn assumiam uma trémula dignidade, uma
grandiloquência mais patética ao descrever o sórdido fim, o quartinho miserável de
Soho. E, com uma reticência absolutamente encantadora, sugerindo uma generosidade
muito maior do que a modéstia lhe permitia estadear, insinuou os esforços por ele
feitos para transportar o poeta para uma vivenda escondida entre madressilvas, no
meio de um pomar florido. Em vez disso, alguém, bem intencionado mas despido de
finura, levara o poeta para a respeitabilidade vulgar de Kensington! Leonard Upjohn
descrevia Kensington com aquele humor contido que a estrita limitação ao vocabulário
de sir Thomas Browne exigia. Com delicado sarcasmo, narrava as últimas semanas do
poeta, a paciência com que Cronshaw suportava a atenciosa amabilidade do jovem
estudante que se oferecera para cuidar dele, e a piedade que inspirava o divino
vagabundo naquele ambiente desesperadoramente burguês. Beleza que sai das cinzas,
dizia como Isaías. Era um triunfo para a ironia morrer aquele poeta pária em
semelhante moldura de respeitabilidade vulgar. Isso lembrava a Leonard Upjohn,
Cristo entre os fariseus, e a analogia deu-lhe ensejo para uma passagem de inefável
beleza. Contava depois como um amigo - o bom gosto não lhe permitia mais que uma
leve alusão ao autor de tão delicada fantasia - tinha deposto uma coroa de louros sobre
o coração do poeta morto; e as belas mãos sem vida pareciam descansar com
voluptuosa paixão sobre as folhas de Apolo, olorosas de uma fragrância de arte, e mais
verdes que o jade trazida por bronzeados marinheiros da China multímoda e
inexplicável. E, em admirável contraste, o artigo terminava com a descrição do enterro
burguês, ordinário e prosaico, daquele que devia ter baixado à sepultura como um
príncipe ou como um mendigo. Era a vergastada derradeira, a vitória final dos filisteus
sobre a arte, a beleza e as coisas imateriais.
Leonard Upjohn nunca escrevera coisa melhor. Era um milagre de encanto, graça
e compaixão. No decorrer do artigo, transcreveu os melhores poemas de Cronshaw, de
forma que, quando o volume apareceu, bem pouco trazia de novo, mas aumentara
muito a reputação de Upjohn. Daí por diante, ficou a ser um crítico considerado.
Parecera antes um pouco frio, mas havia naquele artigo um calor de humanidade
infinitamente sedutor.
LXXXVI
Na Primavera, terminado o seu trabalho como auxiliar de cirurgia, Philip entrou
para o serviço do hospital. Esse novo estágio durava seis meses. Tinha de passar todas
as manhãs nas enfermarias, primeiro na dos homens e, depois, na das mulheres,
acompanhando o médico interno. Mantinha o registo dos casos, fazia análises e
entretinha-se com as enfermeiras e enfermeiros. Duas tardes por semana, o médico de
serviço de um grupo de estudantes vinha examinar os doentes. Esse trabalho não
oferecia a lufa-lufa, a constante variedade e o contacto íntimo com a realidade que
caracterizavam o serviço externo. Mas ali Philip adquiriu uma boa dose de
conhecimentos. Dava-se muito bem com os doentes e sentia-se um pouco lisonjeado
por ver o prazer que mostravam ao receber os seus cuidados. Os seus sofrimentos,
sabia-o ele, não lhe despertavam nenhuma simpatia profunda, mas gostava daquela
gente. E porque não se dava ares de importância, era mais popular entre os doentes do
que os outros colegas. Fazia-se agradável, encorajador e amigo. Como todos os que
trabalham em hospitais, verificou que os homens são mais fáceis de tratar do que as
mulheres. Estas eram de ordinário lamurientas e tinham mau génio, queixando-se
amargamente das enfermeiras atarefadíssimas, que não pareciam dar-lhes a atenção a
que se julgavam com direito. Eram turbulentas, ingratas e grosseiras.
Em breve, Philip teve a sorte de arranjar um amigo. Certa manhã, o médico
interno confiou-lhe um novo caso, um homem. Sentando-se à beira da cama, Philip
pôs-se a preencher a papeleta. Nesta, observou que o doente era classificado como
jornalista. Chamava-se Thorpe Athelny, nome invulgar para um doente de hospital.
Idade, quarenta e oito anos. Sofria de um agudo ataque de icterícia e fora levado para a
enfermaria por causa de obscuros sintomas que era necessário observar. Em voz
agradável e educada, respondeu às várias perguntas que Philip, segundo a praxe, lhe
fez. Tornava-se difícil dizer se era alto ou baixo, uma vez que estava deitado, mas a
cabeça e as mãos pequenas sugeriam tratar-se de um homem de estatura abaixo da
mediana. Philip tinha o hábito de olhar para as mãos das pessoas: as de Athelny
surpreenderam-no. Eram muito pequenas e tinham os dedos longos e afilados, com
belas unhas rosadas. Muito lisas, seriam de uma brancura admirável, se não fosse a
icterícia. O doente conservava-as fora da roupa, com uma delas entreaberta, juntos o
médio e o indicador. Enquanto falava a Philip, parecia contemplá-las com satisfação.
Com uma leve cintilação nos olhos, o rapaz olhou para o rosto do doente. Apesar do
tom bilioso, tinha certa distinção: olhos azuis, nariz recurvo, agressivo, mas bem
desenhado, pequena barba pontuda e grisalha. Era meio calvo mas, a julgar pelas
mechas que lhe restavam, devia ter tido um belo cabelo ondulado e ainda o usava
comprido.
- Vejo que é jornalista - disse Philip. - Para que jornais escreve?
- Para todos. O senhor não abre um jornal que não tenha a minha colaboração.
Ao lado da cama havia um diário e, pegando-lhe, Athelny apontou para um
anúncio. Em letras graúdas lia-se o nome de uma firma conhecida, Lynn and Sedley,
Regent Street, London; por baixo, em tipo menor, mas ainda assim de bom tamanho,
esta asserção dogmática: Protelar é roubar tempo. Depois, uma pergunta tanto mais
surpreendente quanto mais razoável: Por que não comprar hoje? Uma repetição em
caracteres grandes, como o martelar da consciência no coração de um criminoso. Por
que não? Depois e ousadamente: Milhares de pares de luvas procedentes dos
principais mercados do mundo, a preços de pasmar. Milhares de pares de meias dos
mais afamados fabricantes do Universo, com descontos sensacionais. Finalmente,
voltava a perguntar, mas desta vez com um carácter de desafio: Por que não comprar
hoje?
- Sou representante da firma Lynn Sedley junto da Imprensa - disse, esboçando
um gesto com a sua bela mão. - «E para que funções inferiores...»
Philip continuou a fazer as perguntas regulamentares, algumas simples assunto
de rotina, outras engenhosamente engendradas para o doente revelar coisas que era de
esperar desejasse ocultar.
- Já viveu no estrangeiro? - perguntou Philip.
- Estive onze anos em Espanha.
- Que fazia lá?
- Era secretário da companhia inglesa das águas, em Toledo.
Philip recordou-se de que Clutton passara alguns meses em Toledo e a resposta
do jornalista levou-o a encará-lo com mais interesse. Sentiu, porém, que não convinha
manifestar esse sentimento: era necessário conservar a distância que devia existir no
hospital, entre doentes e médicos. Terminado o exame, dirigiu-se para as outras camas.
A doença de Thorpe Athelny não era grave e, embora estivesse ainda muito
amarelo, depressa se sentiu bastante melhor. Conservava-se na cama apenas porque o
médico achava que ele devia ficar para observação até que certas reacções se tornassem
normais. Um dia, ao entrar na enfermaria, Philip notou que Athelny, de lápis na mão,
lia um livro. Depô-lo quando o estudante se aproximou da cama.
- Posso ver o que está a ler? - perguntou Philip, que nunca passava por um livro
sem olhá-lo. Pegou-lhe e viu que era um volume de poemas espanhóis de San Juan de
la Cruz e ao abri-lo, caiu de dentro uma tira de papel. Philip apanhou-a e viu que nela
estava escrita uma poesia.
- Não me diga que passa a escrever versos as suas horas de lazer. É uma
ocupação pouco própria para um doente de hospital.
- Procurava fazer algumas traduções. Sabe espanhol?
- Não.
- Bem, mas conhece a história de San Juan de la Cruz, não?
- Não tenho a menor ideia.
- É um dos místicos espanhóis. Dos melhores poetas que a Espanha teve. Achei
que valia a pena traduzi-lo para o inglês.
- Posso ler a sua tradução?
- Ainda está em bruto - disse Athelny; mas deu-a a Philip com uma presteza que
indicava estar ansioso de que lha lesse.
Estava escrita a lápis, numa caligrafia bonita mas original e difícil de ler. Imitava
os caracteres góticos.
- Mas não lhe toma muito tempo escrever assim? é admirável.
- Não sei por que não deva ser bela a letra manuscrita.
Philip leu o primeiro verso:
Numa noite obscura
Com ânsias em amores inflamada
Ó ditosa ventura! -
Saí sem ser notada,
Estando minha casa sossegada.
Philip olhou para Thorpe Athelny com curiosidade. Não sabia se o homem o
intimidava ou atraía. Notara-lhe um ar superior, e corou à ideia de que Athelny podia
tê-lo achado ridículo.
- Que nome pouco comum tem o senhor - observou, para dizer alguma coisa.
- É um nome muito antigo do Yorkshire. Outrora, o chefe da minha família
levava o dia inteiro, a galope, para dar volta às suas terras. Mas os fortes tombaram.
Mulheres fáceis e cavalos lerdos.
Athelny era míope e, ao falar, olhava para o interlocutor com uma intensidade
especial. Tomou o volume de poesias.
- O senhor devia ler espanhol - disse. - É um nobre idioma; não tem a
melifluidade do italiano... a língua dos tenores e dos tocadores de realejo... mas tem
grandeza: não murmura como um regato no jardim, mas cresce, tumultuosa como um
poderoso rio a transbordar.
Esta grandiloquência divertiu Philip, que, no entanto, era sensível à retórica.
Escutava com prazer, enquanto Athelny, com expressões pitorescas e o fogo de um
verdadeiro entusiasmo, lhe descrevia a delícia de ler D. Quixote no original e a música,
romântica, límpida e apaixonada do encantador Calderon.
- Preciso de continuar com o meu trabalho - disse Philip em dado momento.
- Oh! Perdoe-me, esquecera-me... Direi a minha mulher que traga uma vista de
Toledo para lhe mostrar. Quando tiver tempo, venha conversar comigo. Não sabe o
prazer que me dá.
Nos dias que se seguiram, em momentos roubados, sempre que havia
oportunidade, estreitaram-se as relações entre Philip e o jornalista. Thorpe Athelny era
bom conversador. Não dizia coisas brilhantes mas falava de maneira inspiradora, com
uma vivacidade ardente, que inflamava a imaginação. E o cérebro de Philip, povoado
de quimeras, formigava de imagens novas. Athelny tinha uma educação aprimorada.
Tanto de livros como do mundo, sabia muito mais do que Philip. Era muito mais velho
e a fluência da sua conversa dava-lhe certa superioridade. No hospital, porém, Athelny
recebia a caridade e estava sujeito a regras estritas. Equilibrava-se entre as duas
posições com espírito e naturalidade. Certa vez, Philip perguntou-lhe por que viera
para o hospital.
- Ora... Tenho por princípio aproveitar todos os benefícios que a sociedade
proporciona. Tiro vantagens da época em que vivo. Quando adoeço, procuro entrar
para um hospital, não tenho falso pudor e os meus filhos frequentam a escola oficial.
- Sim? - estranhou Philip.
- E a instrução é de primeira ordem. Muito melhor do que a que recebi em
Winchester. Como acha que poderei educá-los a não ser assim? Tenho nove. E o senhor
precisa de ir vê-los, quando eu voltar para casa. Quer?
- Com muito prazer - respondeu Philip.
LXXXVII
Dez dias mais tarde, Thorpe Athelny estava em condições de deixar o hospital.
Deu a Philip o endereço e o rapaz prometeu ir almoçar com ele no domingo seguinte, à
uma hora. Athelny dissera-lhe morar numa casa construída por Inigo Jones. Falou, com
o entusiasmo transbordante com que falava de tudo, da balaustrada de carvalho
antigo. E, quando desceu para abrir a porta a Philip, fê-lo imediatamente admirar a
talha elegante do lintel. Era uma casa pobre que precisava urgentemente de uma
demão de pintura, mas que tinha a dignidade do seu período numa ruazinha entre
Chancery Lane e Holborn, a qual em tempo, passados fora de bom tom, mas que era
agora pouco mais do que uma ruela miserável. Falava-se em demolir-lhe as casas, a fim
de se construírem em lugar delas belos edifícios para escritórios. Enquanto isso não
acontecia, os alugueres eram ali baratos e Athelny conseguira alugar os dois
pavimentos superiores por um preço conveniente. Philip nunca o vira de pé e ficou
surpreendido com o seu pequeno porte. Não teria mais de um metro e sessenta
centímetros de altura. Estava vestido de maneira extravagante, com calças de linho
azul, das usadas pelos trabalhadores franceses e um velho casaco de veludo castanho.
Trazia à cintura uma faixa vermelho vivo e usava colarinho baixo, tendo por gravata
uma laçada flutuante, dessas com que o tipo popular do francês aparece nas caricaturas
do Punch. Acolheu Philip com entusiasmo. Começou a falar, em seguida, da casa,
passando amorosamente a mão pelos balaústres.
- Olhe para isto. Ponha a mão. É como seda. Que milagre de graça! E dizer-se que
dentro de cinco anos o encarregado da demolição vai vender isto como lenha...
Insistiu em levar Philip para um quarto do primeiro andar, onde um homem em
mangas de camisa, uma mulher em desalinho e três crianças, estavam a almoçar.
- Trouxe este cavalheiro só para lhe mostrar o tecto. Já viu coisa mais
maravilhosa? Como está, Mrs. Hodgson? Este senhor é Mr. Carey, que cuidou de mim
quando estive no hospital.
- Entre, senhor - disse o homem. - Os amigos de Mr. Athelny são sempre
benvindos. Mr. Athelny mostra sempre esse tecto a todos os seus amigos. Não importa
o que a gente esteja a fazer. Podemos estar na cama, ou a lavar-nos... ele entra sempre.
Philip percebeu que consideravam Athelny uma criatura um tanto excêntrica,
mas mesmo assim gostavam dele e escutavam boquiabertos quando ele discorria com a
sua fluência impetuosa sobre a beleza daquele tecto do século XVII.
- Que crime demolir isto, hem, Hodgson? Você, um cidadão influente, por que
não escreve para os jornais, a protestar?
O homem em mangas de camisa soltou uma gargalhada e disse a Philip:
- Mr. Athelny diz sempre essa brincadeira. Eles dizem que estas casas são
insalubres e é perigoso morar nelas.
- A salubridade que vá para o diabo, o que importa é a arte! - exclamou Athelny. -
Tenho nove filhos que passam muito bem, apesar dos esgotos defeituosos. Não, não, eu
é que não me arrisco. Nada dessas invenções modernas. Quando me mudar daqui,
antes de alugar casa, quero primeiro ter a certeza de que os esgotos não prestam.
Ouviu-se bater à porta, que foi aberta por uma menina de cabelos louros.
- Papá! A mamã manda dizer que se deixe de conversas e venha almoçar.
- Esta é a minha terceira filha - disse Athelny, apontando para a pequena com o
indicador, num gesto teatral. - Chama-se Maria del Pilar, mas dá com mais vontade
pelo nome de Jane. Jane, o teu nariz precisa de ser assoado.
- Não tenho lenço, papá.
- Ora, ora, menina - respondeu ele, fazendo aparecer um enorme lenço de cor
viva. - Para que foi que o Todo-Poderoso te deu esses dedos?
Subiram e Philip foi levado para uma sala cujas paredes tinham almofadas de
carvalho escuro. No meio via-se uma mesa estreita, de teca, sobre um tripé reforçado
por duas barras de ferro. Era o que na Espanha se chama mesa de hieraje. Iam almoçar
ali, pois estavam dispostos dois lugares e havia duas grandes poltronas com braços
largos, lisos, de carvalho, espaldar e assentos de couro. Eram severas, elegantes e
incómodas. A única peça do mobiliário que existia, além destas, era um bargueno com
ornatos complicados de ferro dourado pousado em cima de um pedestal gótico de
desenho tosco mas de bela talha. Viam-se ali dois esplêndidos pratos, muito partidos,
mas de vivo colorido. Nas paredes, velhos mestres da escola espanhola em descascadas
mas belas molduras. A despeito da tristeza dos motivos, dos estragos do tempo, da má
conservação e apesar da concepção inferior, essas telas tinham a flama da paixão. Nada
havia naquela sala que tivesse algum valor, mas o efeito geral era adorável. Era
magnífica e, no entanto, austera. Philip sentiu que aquele ambiente oferecia o espírito
da velha Espanha. Athelny mostrava ainda o interior do bargueno, com a sua magnífica
ornamentação e as suas gavetas secretas, quando uma bela rapariga, com duas tranças
de luminoso cabelo castanho a caírem-lhe pelas costas, entrou.
- A mãe disse que o almoço está à espera e eu vou pô-lo nos pratos quando se
sentarem à mesa.
- Venha cumprimentar Mr. Carey, Sally. - E, voltando-se para Philip. - Não a acha
enorme? É a minha filha mais velha. Quantos anos tens, Sally?
- Em Junho que vem faço quinze.
- Baptizei-a com o nome de Maria del Sol, porque foi a primeira e dediquei-a ao
glorioso sol de Castela, mas a mãe chama-lhe Sally e o irmão, Cara-de-Pudim.
A rapariga sorriu timidamente, corando. Tinha dentes brancos e regulares. Bem
feita de corpo, alta para a idade, os seus olhos cinzentos eram agradáveis e a testa
ampla. Tinha as faces vermelhas.
- Vai dizer à tua mãe que venha apertar a mão de Mr. Carey antes de ele se
sentar.
- A mamã diz que vem depois do almoço. Ainda não se lavou.
- Pois então vamos lá dentro vê-la. Este senhor não pode comer o pastelão de
Yorkshire, antes de apertar a mão que o preparou.
Philip seguiu o dono da casa, que entrou na cozinha. Era pequena e atravancada.
O barulho era ali grande, mas cessou logo que o estranho penetrou. No entanto, havia
uma grande mesa, em redor da qual, ansiosos por comer, se sentavam os filhos de
Athelny. Ao pé do forno, a tirar dele, uma por uma, batatas assadas, estava uma
mulher.
- Betty, aqui está Mr. Carey - disse Athelny.
- Ora, que ideia de trazê-lo aqui. Que ficará a pensar?
Trazia um avental sujo e tinha as mangas do vestido de algodão arregaçadas até
acima do cotovelo; os cabelos estavam eriçados de ganchos de encaracolar. Mrs.
Athelny era uma mulher grande, umas boas três polegadas mais alta do que o marido,
loura, com os olhos azuis e uma expressão bondosa. Tinha sido uma criatura bonita,
mas o correr dos anos e os muitos partos tornaram-na gorda e desleixada. Os olhos
azuis haviam empalidecido, a pele estava vermelha e áspera, e a cor fugia-lhe dos
cabelos. Empertigou-se, enxugou a mão no avental e estendeu-a ao recém-chegado.
- Seja benvindo - disse, em voz lenta, e dum modo que pareceu curiosamente
familiar a Philip. - Athelny disse que foi muito bom para ele no hospital.
- Agora, vai ser apresentado à tropa - anunciou Athelny. - Este é o Thorpe - disse,
apontando para um rapaz rechonchudo, de cabelos crespos - o meu filho mais velho,
herdeiro do título, das terras e das responsabilidades da família. Aqui Athelstan,
Harold e Edward. - Mostrou com o indicador os três filhos mais pequenos, todos
rosados, saudáveis e sorridentes, embora baixassem os olhos acanhados para os pratos,
ao sentirem-se olhados com simpatia por Philip. - Agora as raparigas, pela ordem:
Maria del sol...
- Cara-de-Pudim - disse um dos pequenos.
- O teu senso de humor é rudimentar, meu filho. Maria de las Mercedes, Maria
del Pilar, Maria de la Concepción, Maria del Rosário.
- Eu trato-as por Sally, Molly, Connie, Rosie e Jane - declarou Mrs. Athelny. -
Agora, Athelny, volta para a tua sala que vou mandar o almoço. Depois, mando as
crianças quando elas se lavarem.
- Minha querida, se tivesse que te dar um nome, seria o de Maria do Sabão. Vives
a torturar esses pobres fedelhos com o sabão.
- Vá à frente, Mr. Carey, senão o Athelny nunca se resolve a sentar-se e a comer o
almoço.
Athelny e Philip instalaram-se nas grandes cadeiras monacais e Sally trouxe-lhes
dois pratos de carne, pastelão, batatas assadas no forno, e couves. Athelny tirou do
bolso seis pence e mandou buscar um jarro de cerveja.
- Espero que não tenha servido aqui o almoço por minha causa... - disse Philip. -
Teria muito prazer em comer junto com as crianças.
- Oh, não, tomo sempre as refeições sozinho. Gosto desses costumes antigos. Não
acho que as mulheres devam sentar-se à mesa com os homens. Isso estraga a conversa
e estou certo de que é muito mau para elas. Assim, ficam com coisas na cabeça e as
mulheres nunca se sentem à vontade quando têm ideias.
Tanto o dono da casa como o hóspede comiam com grande apetite.
- Já provou alguma vez este pastelão do Yorkshire? Ninguém o faz como a minha
mulher. Essa é a vantagem da gente não casar com uma senhora. Reparou que não é
uma senhora pois reparou?
Era uma pergunta embaraçosa e Philip não soube que responder.
- Isso nem me passou pela cabeça... - disse, hesitante.
Athelny riu. Tinha um riso particularmente alegre.
- Não, não é uma senhora nem coisa que se pareça. O pai era um camponês e ela
nunca na vida aspirou os hh. Tivemos doze filhos e nove estão vivos. Já lhe disse que é
tempo de parar, mas ela é uma mulher obstinada, já se habituou e não acredito que
fique satisfeita antes dos vinte.
Neste momento Sally entrou com a cerveja e, depois de encher o copo de Philip,
foi para o outro lado da mesa, para servir o pai.
Este pôs-lhe o braço em torno da cintura.
- Já viu uma mocetona mais jeitosa do que esta? Quinze anos e parece que tem
vinte. Olhe estas faces. Nunca esteve doente na vida. Quem casar com ela será um
felizardo, não é, Sally?
Sally escutou com um vago sorriso ingénuo, não muito embaraçada, pois estava
habituada às saídas do pai, mas com uma modéstia natural que era muito atraente.
- Não deixe a comida esfriar, pai - disse ela, esquivando-se-lhe. - Quando quiser
que traga o pudim, chame, sim?
Ficaram a sós e Athelny levou a caneca de cerveja aos lábios. Bebeu a longos
sorvos.
- Palavra de honra, não há nada melhor do que a cerveja inglesa, hem? - disse. -
Agradeçamos ao Senhor estes prazeres simples da carne assada, do pudim de arroz, do
bom apetite e da cerveja. Já fui casado com uma senhora. Santo Deus! Nunca se case
com uma senhora, meu rapaz.
Philip pôs-se a rir. Estava divertido com a cena: o engraçado homenzinho nas
suas roupas extravagantes, a sala guarnecida de almofadas de madeira, o mobiliário
espanhol, a cozinha inglesa: um conjunto de uma incongruência deliciosa.
- Você ri, meu rapaz, porque não pode imaginar um casamento desigual. Quer
uma companheira que seja do seu nível intelectual. A sua cabeça está cheia de ideias de
camaradagem entre marido e mulher. Asneiras, meu rapaz! Um homem não pensa em
discutir política com a mulher. E que importância acha que dou à opinião de Betty
sobre o cálculo diferencial? O que um homem deseja é uma mulher que saiba cozinhar
e que cuide dos filhos. Já experimentei os dois termos opostos e sei. Vamos ao nosso
pudim.
Bateu palmas e Sally entrou em seguida. Quando começou a tirar os pratos,
Philip quis levantar-se para ajudá-la, mas Athelny deteve-o.
- Deixe isso com ela, meu rapaz. Sally não quer que se incomode, não é assim,
Sally? Nem achará que você é pouco delicado por ficar sentado enquanto ela o serve.
Diabos levem o cavalheirismo, não é verdade, Sally?
- Sim, pai - respondeu a jovem, recatadamente.
- Sabes do que estou a falar, Sally.
- Não, pai. Mas bem sabe que a mamã não gosta que pragueje.
Athelny riu estrepitosamente. Sally trouxe-lhes os pratos de pudim de arroz, rico,
suculento e cheio de nata. Athelny atacou-o com gosto.
- Uma das regras desta casa é que o almoço de domingo deve ser sempre o
mesmo. é um ritual. Carne assada e pudim de arroz, cinquenta domingos por ano. No
domingo de Páscoa, carneiro e ervilhas verdes e no dia de S. Miguel, ganso assado e
molho de maçã. Dessa maneira, conservamos as tradições do nosso povo. Quando
Sally casar, há-de esquecer muitos desses sábios princípios que lhe tenho inculcado,
mas nunca esquecerá que, para se ser bom e feliz, se deve comer aos domingos carne
assada e pudim de arroz.
- Quando terminarem, avisem, para eu trazer o queijo - disse Sally,
imperturbável.
- Conhece a lenda do alcião? - perguntou Athelny. Philip estava a habituar-se
àquele rápido saltar de um assunto para outro. - Quando o maçarico se cansa de voar
sobre as ondas, a sua companheira vem colocar-se abaixo dele e sustenta-o com as asas.
É isso o que um homem quer da esposa. Vivi três anos com a minha primeira mulher.
Era uma pessoa de sociedade, tinha mil e quinhentas libras anuais de rendimento,
dávamos jantares muito elegantes na nossa pequena casa de tijolo vermelho de
Kensington. Ela era encantadora, pelo menos toda a gente o afirmava, os advogados
que nos visitavam com suas esposas, os literatos e os políticos. Oh! Era uma mulher
encantadora. obrigava-me a ir à igreja de chapéu alto e fraque, levava-me a concertos
clássicos, e gostava muito de conferências nas tardes de domingo. Sentava-se à mesa
todas as manhãs às oito e trinta e, se eu vinha atrasado, encontrava o pequeno almoço
frio. Lia os livros consagrados, admirava os mestres da pintura e adorava a música
séria. Santo Deus, como essa mulher me aborrecia! Ainda é encantadora e mora na
mesma casinha de tijolo vermelho, em Kensington, que tem nas paredes os papéis de
Morris e as águas-fortes de Whistler. Dá ainda os mesmos jantares elegantes, com
vitela em molho branco e sorvetes da Gunter, como dava há vinte anos.
Philip não perguntou como duas pessoas tão malcasadas se haviam separado,
mas Athelny contou-lhe.
- Betty não é minha mulher, sabe? A minha legítima esposa não quis concederme
o divórcio. As crianças são bastardas, toda essa tropa. E isso torna-as piores? Betty
era uma das criadas da casinha de tijolo vermelho de Kensington. Há coisa de quatro
ou cinco anos, fiquei em má situação financeira, com sete filhos às costas, e fui pedir à
minha mulher legítima que me ajudasse. Ela respondeu que me daria uma pensão se
eu deixasse a Betty e fosse morar no estrangeiro. Então, acha que posso deixar a Betty?
Preferi passar fome por algum tempo. Minha mulher disse que eu gostava da sarjeta,
que degenerei, desci na escala social. Ganho três libras por semana como agente de
publicidade de um vendedor de roupa branca. E todos os dias dou graças a Deus por
não estar na casinha de tijolo vermelho de Kensington.
Sally trouxe o queijo de Cheddar e Athelny prosseguiu na sua fluente conversa.
- O maior erro do mundo é pensar que o dinheiro é indispensável para educar
uma família. Dinheiro é necessário para fazer senhoras e cavalheiros, mas não desejo
ver os meus filhos transformados em senhoras e cavalheiros. Daqui a um ano, Sally
começara a ganhar a vida. Ela vai entrar como aprendiza num atelíer de costura, não é,
Sally? E os rapazes vão servir a pátria. Quero que entrem todos para a Marinha, é uma
vida alegre, e sadia: boa alimentação, bom soldo e uma pensão para acabarem os dias.
Philip acendeu o cachimbo. Athelny fumava cigarros de tabaco havano, que ele
próprio enrolava. Sally levantou a mesa. Philip mostrava-se reservado e embaraçado,
por ser alvo de tantas confidências. Athelny, com a sua voz poderosa, muito forte para
o seu corpo pequeno, com a sua ênfase e o seu ar exótico, era uma criatura
surpreendente. Lembrava a Philip muitas coisas de Cronshaw. A mesma
independência de espírito, o mesmo amor à boémia, mas um temperamento
infinitamente mais vivo. Menos requintado, não se comprazia naquelas abstracções
que tornavam tão cativante a conversa de Cronshaw. Muito cioso da sua origem
aristocrática, mostrou a Philip as fotografias de um solar Isabelino e disse:
- Os Athelny viveram aí durante sete séculos, meu rapaz. Ah, se visse as
chaminés e os tectos!
Havia um armário dissimulado na parede e dele Athelny tirou uma árvore
genealógica, mostrando-a a Philip com uma satisfação infantil. Era de facto
impressionante.
- Veja como se repetem os nomes da família; Thorpe, Athelstan, Harold, Edward.
Servi-me deles para baptizar os meus filhos. E as filhas como vê receberam nomes
espanhóis.
Philip sentiu mal-estar à ideia de que toda aquela história não passasse de uma
impostura habilidosa, contada não com fins baixos, mas simplesmente pelo desejo de
impressionar e surpreender. Athelny dissera-lhe ter feito os seus estudos em
Winchester, mas Philip, sensível às diferenças de maneiras, não via no seu novo amigo
as características do homem educado num colégio de primeira ordem. Enquanto
Athelny enumerava as grandes alianças que os seus antepassados tinham contraído,
Philip divertiu-se a imaginar se o homem não seria filho de algum comerciante de
Winchester, leiloeiro ou negociante de carvão, e se uma semelhança de sobrenome não
seria a única ligação que havia com a antiga família cuja árvore genealógica exibia.3
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LXXXVIII
Ouviu-se bater à porta e as crianças entraram em tropel.
Estavam agora limpas e arranjadas, rostos reluzentes à força de sabão, e cabelos
alisados. Sally ia levá-los à escola dominical.
Athelny gracejou com eles, na sua maneira teatral e exuberante, e via-se que era
devotado a todos. O orgulho que tinha da boa saúde e aspecto dos filhos era
comovedor. Philip achou que as crianças estavam um pouco intimidadas pela sua
presença e quando o pai as despediu, saíram a correr da sala, visivelmente aliviadas.
Poucos instantes depois, Mrs. Athelny entrou. Tinha tirado os ganchos e penteado a
franja com esmero. Trajando um vestido preto muito simples, com um chapéu
enfeitado de flores baratas, esforçava-se por introduzir as grandes mãos, avermelhadas
pelo trabalho, em luvas de pelica preta.
- Vou à igreja, Athelny - disse. - Precisas de alguma coisa?
- Das tuas preces somente, minha Betty.
- Não te valerão de grande coisa, estás perdido há muito - gracejou ela. Depois,
voltando-se para Philip, disse em voz arrastada: - Não consigo levá-lo à igreja. é um
verdadeiro ateu.
- Não parece a segunda mulher de Rubens? - exclamou Athelny. - Vestida à
moda do século XVII, ficaria esplêndida. é o género de mulher que nos serve, meu
rapaz. Olhe para ela.
- Falas pela tripas de Judas, Athelny - replicou ela tranquilamente.
Conseguiu afinal abotoar as luvas, mas, antes de sair, voltou-se para Philip, com
um sorriso bondoso e levemente embaraçado.
- Fica para o chá, não? Athelny gosta de ter com quem conversar e não é muito
vulgar ter um companheiro inteligente para isso.
- Claro que fica para o chá - disse Athelny. E quando a mulher se foi, acrescentou:
- Faço empenho em mandar as crianças à escola dominical e gosto que Betty vá à igreja.
A religião é excelente para as mulheres. Não sou religioso, mas gosto, que mulheres e
as crianças o sejam.
Philip, exigente em matéria de verdade, ficou um tanto escandalizado por essa
atitude leviana.
- Mas como pode deixar que ensinem a seus filhos coisas que o senhor considera
não serem verdade?
- Se são coisas belas, não me importa muito que não sejam verdadeiras. Querer
satisfazer a razão, ao mesmo tempo que o senso estético, é pedir muita coisa. Preferia
que Betty fosse católica-romana, gostaria de vê-la, no dia da sua conversão, coroada de
flores de papel, mas ela é irremediavelmente protestante. Além disso, a religião é uma
questão de temperamento. Se o seu espírito se inclinar para ela, acreditará em não
importa o quê. Se não for, de nada lhe servirá o que lhe inculcarem, pois acabará por
afastar-se dela. A religião é talvez a melhor escola de moral. É como uma dessas drogas
que vocês, médicos, empregam e que contêm outras em solução: não são eficazes por si
mas permitem a absorção das outras. A religião faz absorver a moral. Perde-se a
primeira e fica a segunda. E é mais provável ser-se um homem de bem tendo
aprendido a bondade através do amor de Deus do que pela leitura de Herbert Spencer.
Isto era contrário a todas as ideias de Philip. Considerava ainda o Cristianismo
uma servidão degradante, da qual devíamos libertar-nos a todo o custo. O seu
subconsciente associava a religião às cerimónias intermináveis da catedral de
Tercanbury e às longas horas de tédio na fria igreja de Blackstable. A moral de que
falava Athelny não era, para ele, mais do que uma parte da religião, conservada pela
inteligência coxa, depois de libertar-se das crenças indispensáveis para lhe servir de
base. Mas, como ele meditava a resposta, Athelny mais disposto a ouvir-se falar do que
a discutir, enveredou por uma longa tirada sobre o Catolicismo Romano. Achava que
essa religião representava um aspecto essencial da Espanha, essa Espanha que tanto
significava para ele, porque se refugiara ali para esquecer o convencionalismo que
durante a vida conjugal achara tão irritante. Com gestos largos e naquele tom enfático
que tanta força dava ao que dizia, Athelny descreveu a Philip as catedrais espanholas,
com os seus vastos espaços sombrios, o ouro maciço do altar, as sumptuosas grades de
ferro, douradas e desbotadas, o ar carregado de incenso, o silêncio. Philip quase
chegava a ver os cónegos, metidos em sobrepelizes curtas de cambraia, os acólitos de
vermelho, a passar da sacristia para o coro; ouvia quase o monótono salmodiar das
vésperas. Os nomes que Athelny mencionava, Ávila, Tarragona, Saragoça, Segóvia,
Córdova, ressoavam-lhe no coração como trombetas. E Philip parecia ver os grandes
edifícios de granito cinzento, engastados nas velhas cidades espanholas, no meio de
uma paisagem amarelenta, áspera e varrida pelo vento.
- Sempre tive vontade de ir a Sevilha - disse tranquilamente, quando Athelny,
com a mão ainda levantada num gesto dramático, fez uma pequena pausa.
- Sevilha! - exclamou Athelny. - Não, não, não vá lá. Sevilha faz lembrar raparigas
dançando ao som de castanholas, cantando nos jardins à beira do Guadalquivir,
corridas de touros, flores de laranjeira, mantones de Manila. Essa é a Espanha da ópera
cómica e de Montmartre. Só uma inteligência superficial se deixará seduzir de modo
permanente pelo seu encanto fácil. Théophile Gautier tirou de Sevilha tudo quanto ela
podia oferecer. Chegámos depois dele e só podemos repetir o que ele sentiu. Gautier
pôs as manápolas gordas sobre o que era evidente e lá nada há senão o evidente; e está
tudo marcado de dedos e maculado. Murillo é o pintor dessa cidade.
Athelny levantou-se da cadeira, aproximou-se do móvel espanhol, baixou a parte
dianteira com os seus grandes gonzos dourados e a sua soberba fechadura: apareceu
uma série de pequenas gavetas Athelny tirou um maço de fotografias.
- Conhece El Greco? - perguntou.
- Ah... Lembro-me de que um dos meus amigos de Paris ficou muito
impressionado com ele.
- El Greco foi o pintor de Toledo. - Athelny não conseguia achar a foto que queria
mostrar. - é um quadro que El Greco pintou da cidade que ele amava. Nenhuma
fotografia é mais exacta. Vamos sentar-nos à mesa.
Philip empurrou a cadeira para diante e Athelny colocou-lhe a reprodução na
frente. Este examinou-a longamente, com curiosidade e em silêncio. Estendeu a mão
para agarrar mais fotografias que o outro lhe passou. Philip nada conhecia daquele
mestre enigmático. No primeiro momento, o desenho arbitrário atrapalhou-o. As
figuras eram extraordinariamente alongadas, as cabeças muito pequenas e as atitudes
extravagantes. Aquilo não era realismo, e no entanto... no entanto, até na fotografia se
tinha a impressão de uma perturbadora realidade. Athelny descrevia com ardor, em
frases coloridas, mas Philip apenas o escutava vagamente. Estava confuso.
Estranhamente comovido. Aqueles quadros pareciam dizer-lhe qualquer coisa, cujo
sentido não compreendia. Eram retratos de homens de olhos grandes e melancólicos
que pareciam dizer-nos não se sabia o quê. Eram espigados monges em hábitos
franciscanos ou dominicanos de fisionomias atormentadas, fazendo gestos cujo sentido
escapava ao observador. Havia uma Assunção da Virgem, uma Crucificação na qual o
pintor, por uma espécie de magia, conseguira dar ao Cristo morto um corpo não
apenas de carne humana, mas de essência divina. E numa Ascenção, o Salvador parecia
elevar-se ao Empíreo e no entanto manter-se com tanta segurança no ar como sobre a
terra firme. Os braços levantados dos Apóstolos, as ondulações das suas roupagens, os
gestos extáticos, davam uma impressão de exaltação e santa alegria. O fundo de quase
todos os quadros era o céu nocturno, a escura noite da alma, com nuvens selvagens,
impelidas pelos estranhos ventos do inferno e sinistramente iluminadas por uma lua
inquietante.
- Vi muitas e muitas vezes esse céu em toledo - disse Athelny.
- Tenho a ideia de que, quando pela primeira vez El Greco chegou à cidade, foi
numa noite assim. E esse céu causou-lhe uma impressão tão forte, que nunca mais
pôde esquecê-lo.
Philip lembrou-se de como Clutton se impressionara ante aquele estranho
mestre, cuja obra via agora pela primeira vez. Clutton era, pensava ele, a pessoa mais
interessante de todas quantas conhecera em Paris. A sua maneira sarcástica, o seu
alheamento hostil tornavam difícil conhecê-lo. Mas, olhando para o passado, Philip
descobrira-lhe uma forca trágica que em vão procurava expressar-se na pintura.
Clutton era um homem de carácter invulgar, místico à maneira de uma época sem
inclinações para o misticismo, e impacientava-se com a vida, por se achar incapaz de
dizer coisas que obscuros impulsos do seu coração lhe sugeriam.
O seu intelecto não fora moldado para as coisas do espírito. Nada de
surpreendente, pois, na profunda simpatia que ele experimentava pelo grego que
descobrira uma nova técnica para exprimir os anseios da sua alma. Philip tornou a
olhar para a série de retratos de fidalgos espanhóis com folhos de renda na gola e
barbas pontudas; rostos pálidos contra o negro sóbrio das suas roupas e a escuridão do
fundo. El Greco foi o pintor da alma; e aqueles senhores, descorados e gastos, não pelo
esgotamento mas pela sujeição, com os seus espíritos torturados, parecem andar
alheios à beleza do mundo, pois os seus olhos apenas se voltam para os próprios
corações, ofuscados pela glória do inefável. Nenhum pintor mostrou de modo mais
impiedoso que o mundo não é mais que um lugar de passagem. As almas dos homens
que pintou têm escritos nos olhos os seus estranhos anseios. Os seus sentimentos são
milagrosarnente agudos, não para sons, aromas e cores, mas para as subtilíssimas
sensações da alma. O nobre leva dentro de si um coração de monge e os seus olhos
vêem as mesmas coisas que nas suas celas vêem os santos - e isso não o surpreende. Os
seus lábios não são lábios que sorriam.
Philip, ainda em silêncio, voltou à vista de Toledo, que para ele era a mais
impressionante de todas as telas. Não podia tirar os olhos dela. Sentia de modo
estranho que se achava no limiar de alguma nova descoberta da vida. A perspectiva da
aventura fazia-o tremer. Pensou por um instante no amor que o consumira: o amor
parecia demasiado trivial ao lado da exaltação que lhe acelerava agora o ritmo do
coração. O quadro que contemplava era mais comprido que largo, e mostrava um
grupo de casas amontoadas em cima de um outeiro; a um canto, um rapaz segurava
um grande mapa da cidade; noutro, via-se a figura clássica que representava o rio Tejo;
e no céu aparecia a virgem cercada de anjos. Essa paisagem era contrária a todos os
conceitos de Philip, pois vivera em ambientes onde se prestava culto ao realismo;
contudo, nenhum dos mestres, cujos passos ele procurara humildemente seguir,
conseguira uma realidade maior. Philip ouviu Athelny dizer que a representação era
tão precisa que, quando os cidadãos de Toledo olhavam para o quadro, chegavam a
reconhecer as suas casas. O artista pintara exactamente aquilo que vira, mas vira com
os olhos do espírito. Havia algo de sobrenatural naquela cidade de um cinzento pálido.
Era uma cidade da alma, vista a uma luz desmaiada, que não era da noite nem do dia.
Ficava sobre um outeiro verde, mas não de um verde deste mundo, e estava cercada de
muralhas maciças e bastiões feitos para o assalto, não de qualquer engenho ou
máquina inventada pelo homem, mas pelas preces e os jejuns, os suspiros contritos e as
mortificações da carne. Era uma cidadela de Deus. Aqueles casas cinzentas não eram
feitas de pedras manuseadas por canteiros; havia qualquer coisa de terrificante no seu
aspecto e não se sabia que homens podiam viver lá dentro. Poder-se-ia caminhar pelas
ruas sem pasmar de encontrá-las desertas, mas ainda assim não vazias, pois sentia-se
uma presença invisível e no entanto manifesta aos sentidos interiores. Era uma cidade
mística, na qual a imaginação vacilava como quem passa da claridade para a escuridão.
a alma desnuda por ali passeava, conhecendo o incognoscível, sentindo-se estranha
possuidora de um conhecimento íntimo, mas inexprimível, do absoluto. E sem
surpresa, naquele céu azul, real de uma realidade que só a alma percebe e não a vista,
como os seus esgarçados farrapos de nuvens arrastados por estranhos ventos, como os
gritos e os suspiros das almas penadas, via-se a Santa Virgem com roupagem vermelha
e um manto azul, cercada de anjos alados. Philip sentia que os habitantes daquela
cidade deviam ter visto a aparição sem espanto, reverentes e gratos, seguindo depois o
seu caminho.
Athelny falou dos escritores místicos de Espanha, de Teresa de Ávila, San Juan
de la Cruz, Fray Diego de Leon; em todos eles se encontrava essa paixão do não visto
que Philip descobria nas pinturas de El Greco; pareciam ter o poder de tocar o
incorpóreo e ver o invisível. Naquela geração de espanhóis fremiam ainda as gloriosas
façanhas de uma grande nação. As suas imaginações enriqueciam-se com os
esplendores da América e das ilhas verdes do mar das Caraíbas. Traziam nas veias a
força de vários séculos de combates contra os mouros. Ciosos de serem os senhores do
mundo, levavam consigo os grandes espaços, os pardacentos descampados e as
montanhas coroadas de neve de Castela, o Sol, o azul do céu e os prados floridos da
Andaluzia. Apaixonada e vária, essa vida tão plena e tão rica dava-lhes um intérmino
anseio de conquistar mais. Insatisfeitos como todos os humanos, lançavam-se com toda
essa vitalidade na busca ansiosa do inefável. A Athelny não desagradava encontrar
alguém a quem pudesse ler as traduções com que por algum tempo preenchera os seus
lazeres. Com a sua voz bela e bem timbrada, recitou o «Cântico da Alma e do Cristo
seu Esposo», o poema encantador que começa com as palavras en una noche oscura, e
depois a noche serena de Fray Luis de Leon. Traduzira-os com grande simplicidade, mas
não sem talento, e encontrara palavras que, em todo caso, sugeriam a áspera grandeza
do original. Os quadros de El Greco explicavam os poemas e os poemas explicavam os
quadros.
Philip professara certo desdém pelo idealismo. Tivera sempre a paixão da vida, e
o idealismo que se lhe deparara afigurava-se-lhe, em geral, uma fuga covarde a essa
mesma vida. Incapaz de suportar os embates da multidão, o idealista isolava-se.
Faltava-lhe força para lutar e por isso classificava a batalha de vulgar; era vaidoso e,
como os seus semelhantes não o estimassem, segundo ele, pelo seu justo valor,
consolava-se com o desprezo que lhes votava. Para Philip, Hayward era o seu tipo
representativo: louro, lânguido e agora excessivamente gordo, com um princípio de
calvície, zelava pelos restos da sua beleza e reservava-se sempre o prazer delicado de
criar obras perfeitas num futuro incerto. No fundo disso, a bebida e triviais amores de
rua. Era para reagir ao que Hayward apresentava que Philip clamava pela vida tal
como era. Imundície, vício, fealdade eram coisas que não o chocavam. Declarava
querer o homem na sua nudez, e, a cada exemplo de baixa crueldade, de egoísmo, de
luxúria, esfregava as mãos: isso era a vida. Em Paris, aprendera que não havia beleza
nem fealdade, mas apenas a verdade; a busca da beleza era sentimentalismo. Não
pintara um anúncio do chocolat Meunier numa paisagem, para fugir à tirania do
bonito?
Aqui, porém, parecia adivinhar algo de novo. Havia algum tempo que
procurava, mas só agora tinha consciência disso. Sentia-se em vésperas de uma
descoberta. Parecia-lhe vagamente existir alguma coisa melhor do que o realismo, que
adorara. Mas, evidentemente, não se tratava aqui do idealismo exangue que se aparta
da vida por fraqueza. era, antes, a aceitação forte e viril da vida em toda a sua
vivacidade, beleza e esqualidez, heroísmo e abjecção. Era ainda realismo, mas um
realismo levado a um grau superior, no qual os factos se transformavam sob uma
claridade mais viva. Parecia-lhe que aprofundava melhor as coisas através dos olhos
daqueles fidalgos mortos de Castela, e os gestos dos santos, a princípio tresloucados e
torturados, adquiriam um significado misterioso. Mas não sabia qual. Tinha a ideia de
uma mensagem muito importante a receber, mas transmitida numa língua
desconhecida. Esperara sempre encontrar o sentido da vida, e ali, se bem que ainda
obscuro, ele se lhe oferecia. Sentia-se profundamente perturbado. Esse princípio de
verdade, discernia-o como se distingue uma cadeia de montanhas à luz de relâmpagos,
numa sombria noite de tempestade. Afigurava-se-lhe que um homem não devia
entregar a própria vida ao acaso, mas que a sua vontade devia ser poderosa. Dir-se-ia
que o domínio sobre si próprio podia ser tão ardente e tão activo como o abandono às
paixões: a vida interior oferecia tanta diversidade, tantas riquezas como a vida daquele
que conquista reinos e explora terras desconhecidas.
LXXXIX
A conversa entre Philip e Athelny foi interrompida por um tempestuoso subir da
escada. Athelny abriu a porta às crianças, que voltavam da escola dominical. E, entre
gritos e risadas, elas entraram. O pai perguntou-lhes alegremente o que tinham
aprendido. Sally apareceu por um momento, com instruções da mãe para que Athelny
entretivesse as crianças enquanto ela aprontava o chá. Começou a contar-lhes uma das
histórias de Andersen. Não eram crianças acanhadas e depressa chegaram à conclusão
de que não havia razão para temer Philip. Jane aproximou-se dele e, em dado
momento, sentou-se-lhe nos joelhos. Era a primeira vez que Philip, na sua vida
solitária, entrava num ambiente de família: os seus olhos sorriam ao pousarem nas
louras crianças atentas ao conto de fadas. A vida do seu novo amigo, embora parecesse
excêntrica à primeira vista, revelava agora possuir a beleza da perfeita naturalidade.
Sally tornou a entrar:
- Vamos, meninos, o chá está pronto - disse.
Jane fugiu dos joelhos de Philip e dirigiram-se todos para a cozinha. Sally
começou a estender a toalha na comprida mesa espanhola.
- A mãe pergunta se pode vir tomar chá com os senhores. Eu servirei o chá aos
pequenos - disse ela.
- Diz à tua mãe que ficaremos muito orgulhosos e honrados se ela nos favorecer
com a sua companhia - respondeu Athelny.
Philip teve a impressão de que ele era incapaz de dizer qualquer coisa sem
floreios de oratória.
- Então, vou pôr a mesa para ela - disse Sally.
Em breve voltava trazendo uma bandeja em que se via um pão feito em casa, um
naco de manteiga e um frasco de compota de morangos. Enquanto colocava as coisas
na mesa, o pai gracejava com ela. Dizia-lhe que já era tempo de arranjar marido.
Contou a Philip que ela era muito orgulhosa e não queria saber dos candidatos que se
alinhavam à porta, dois a dois, do lado de fora da escola dominical, e que
ambicionavam o privilégio de acompanhá-la até casa.
- O pai diz cada uma! - volveu Sally com o seu sorriso plácido e bem-humorado.
- Olhando para ela, ninguém diz que um oficial de alfaiate se alistou no Exército
só porque ela não o cumprimentava, e um engenheiro electricista, veja bem, um
engenheiro electricista, deu em beber, só porque Sally, na igreja, se recusou a
compartilhar com ele o seu hinário. Estremeço só de pensar no que vai acontecer,
quando ela pentear o cabelo para cima.
- A mãe trará depois o chá - disse Sally.
- Sally nunca me presta a menor atenção - riu Athelny, contemplando-a com um
olhar de amoroso orgulho. - Trata das suas ocupações, indiferente a guerras,
revoluções ou cataclismos. Que esposa para um homem de bem!
Mrs. Athelny trouxe o chá. Sentou-se e principiou a cortar o pão e a pôr-lhe
manteiga. Philip divertia-se por ver que ela tratava o marido como se este fosse uma
criança. Serviu-lhe geleia e cortou para ele o pão com manteiga em fatias de tamanho
conveniente. Tirara o chapéu e com o vestido de domingo, que parecia um pouco justo,
lembrava uma dessas mulheres do campo que Philip, quando era criança, costumava
visitar em companhia do tio. Descobriu, então por que lhe era familiar o som da sua
voz. Falava tal qual como a gente dos arredores de Blackstable.
- De que lugar é a senhora? - perguntou-lhe.
- De Kent. Sou de Ferne.
- Era o que eu pensava. Meu tio é o vigário de Blackstable.
- Que graça! - exclamou ela. - Na igreja, estive a pensar se o senhor teria algum
parentesco com o Reverendo Carey. Vi-o muitas vezes. Tenho uma prima que casou
com Mr. Barker, de Roxley Farm, ao pé da igreja de Blackstable. Estava sempre em casa
deles, quando era nova. Não é tão engraçado?
Olhou para o rapaz com um interesse novo e os seus olhos cansados brilharam.
Perguntou-lhe se conhecia Ferne. Era uma bonita aldeia, a cerca de dez milhas de
Blackstable e o pastor desse lugar ia às vezes a Blackstable, para a Festa da Colheita.
Mencionou os nomes de várias pessoas das redondezas. Estava encantada por falar na
região onde passara a juventude. E era um prazer para ela recordar cenas e pessoas que
lhe permaneciam na memória com a tenacidade peculiar à sua classe. Isso dava a Philip
uma sensação esquisita. Um bafejo do campo parecia entrar de repente naquela sala de
painéis de madeira, em plena cidade de Londres. Parecia-lhe ver os fartos campos de
Kent, com os seus olmos imponentes, e as narinas dilatavam-se-lhe ao perfume
daquele ar carregado do sal do Mar do Norte, que o torna vivo e penetrante.
Philip só deixou os Athelny às dez horas. As crianças entraram às oito, para dar
as boas-noites, e, com a maior naturalidade, ofereceram a Philip as faces para beijar. O
rapaz ficou comovido. Sally apenas lhe estendeu a mão.
- Sally nunca beija os cavalheiros antes de os ver duas vezes - explicou o pai.
- Então o senhor tem que me convidar outra vez - disse Philip.
- Não deve dar ouvidos ao que o pai diz - observou Sally, com um sorriso.
- é a mais senhora do seu nariz - acrescentou Athelny.
Cearam pão, queijo e cerveja, enquanto Mrs. Athelny metia as crianças na cama.
E, quando Philip foi à cozinha dar-lhe as boas-noites (lá estava sentada, descansando e
a ler o Weekly Despatch), ela convidou-o cordialmente a voltar.
- Temos sempre um bom almoço aos domingos, quando o Athelny tem emprego.
E vir conversar com ele e até uma obra de caridade.
No sábado seguinte, Philip recebeu um postal de Athelny, a dizer que o
esperavam para almoçar no dia seguinte. temendo, porém, que os recursos da família
não fossem tantos que Athelny desejasse a aceitação do convite, Philip escreveu-lhe a
avisar que iria apenas para o chá. Comprou um grande bolo de ameixas para que a sua
visita não fosse dispendiosa para a família. Verificou que os Athelny o recebiam com
alegria e o bolo completou-lhe a conquista das crianças. Philip insistiu para que todos
tomassem chá, juntos, na cozinha e a refeição foi ruidosa e divertida.
Em breve Philip se habituou a ir a casa dos Athelny todos os domingos. Tornouse
um grande favorito das crianças porque era simples, sem afectações e porque
demonstrava gostar dos pequenos. Logo que ouviam a campainha da porta, um deles
espreitava pela janela, para ver se era de facto Philip e, depois, precipitavam-se todos
para a escada, em tumulto, para lhe abrirem a porta. Atiravam-se-lhe aos braços. Ao
chá brigavam pelo privilegio de se lhe sentar ao lado. e em breve principiaram a
chamar-lhe tio Philip.
Athelny era muito comunicativo e, paulatinamente, Philip conheceu-lhe os vários
estádios da vida. Seguira muitas profissões, e Philip suspeitou que devia deitar a
perder todas as empresas em que se metia. Estivera numa plantação de chá, em Ceilão,
e fora caixeiro-viajante de vinhos italianos na América. Como secretário da Companhia
de Águas de Toledo, trabalhara mais tempo do que em qualquer dos outros empregos.
Fora também jornalista e, por algum tempo, trabalhara como repórter para um
vespertino: ocupara ainda o posto de subdirector de um jornal do centro da Inglaterra
e chegara a ser o director de outro, na Riviera. De todas as suas diferentes ocupações,
recolhera inúmeras anedotas divertidas, que contava com um vivo prazer com a sua
capacidade de narrador. Lera muito e deliciava-se principalmente com livros raros;
expunha as suas reservas de conhecimentos abstrusos com um prazer infantil, ante o
espanto dos interlocutores. Havia três ou quatro anos, a mais negra pobreza levara-o a
aceitar o trabalho de agente de publicidade de uma grande firma de panos. Embora
achasse o trabalho indigno do seu talento, que ele próprio tinha em grande conta, a
firmeza da mulher e as necessidades da família conseguiram que não o abandonasse.
XC
Quando deixava os Athelny, Philip caminhava até Chancery Lane e atravessava
o Strand, para tomar um ónibus na extremidade da Parliament Street. Num domingo,
quando havia já cerca de seis semanas que frequentava a casa de Athelny, seguiu o
caminho de sempre, mas o ónibus de Kensington ia cheio. Estava-se em Junho, mas
chovera durante o dia e a noite estava fria e húmida. Philip andou até Piccadilly
Circus, a fim de conseguir lugar. o ónibus costumava parar junto ao chafariz e quando
chegava ali, raramente trazia mais de dois ou três passageiros. Havia um carro de
quinze em quinze minutos e Philip teve de esperar algum tempo. Contemplou
distraído a multidão. Os cafés estavam a fechar e havia muita gente pelos arredores.
Repercutiam-se ainda no espírito as ideias que Athelny tinha o dom mágico de sugerir.
De súbito, o seu coração cessou de bater. Acabava de ver Mildred. Havia
semanas que não pensava nela. A rapariga atravessou a Shaftesbury Avenue e parou
no abrigo, para esperar o desfile de uma série de trens. Aguardando a oportunidade de
passar, não tinha olhos para mais nada. Trazia um grande chapéu de palha negra,
enfeitado de plumas abundantes, e envergava um vestido de seda preta. Naquele
tempo, andavam em moda os vestidos de cauda. O caminho ficou livre e Mildred
atravessou a rua com a saia a arrastar pelo chão e desceu o Piccadilly. Com o coração a
bater descompassadamente, Philip seguiu-a. Não lhe queria falar, mas apenas saber
para onde se dirigia a tal hora. Desejava ver-lhe o rosto. Mildred continuava a
caminhar vagarosamente e dobrou para a Air Street, a fim de entrar na Regent Street.
Tornou a subir na direcção do Circus. Philip estava intrigado. Não podia compreender
o que significava aquele ir e vir. Talvez estivesse à espera de alguém, e sentiu uma
grande curiosidade por saber quem fosse. Mildred alcançou um homem atarracado,
que caminhava em passadas lentas, na mesma direcção que ela. Olhou-o de soslaio ao
passar. Deu mais alguns passos e, chegando à frente da casa de modas Swan e Edgar,
parou e ficou à espera, voltada para a rua. Quando o homem se aproximou, ela sorriu.
O homem encarou-a por um instante, voltou a cabeça para o outro lado e continuou a
andar. Philip compreendeu então.
Foi assaltado de um horror indescritível. Por momentos, sentiu nas pernas uma
fraqueza tal que mal se podia manter em pé. Seguiu-a depois rapidamente e tocou-lhe
no braço.
- Mildred.
Ela voltou-se com um violento sobressalto. Philip teve a impressão de que ela
ficara vermelha, mas a obscuridade impediu-o de ver bem. Por algum tempo, ficaram
frente a frente, a olhar um para o outro sem dizer palavra. Por fim, disse:
- Imagine-se que encontro!
Ele não soube que responder. Estava tremendamente abalado e as frases que se
lhe atropelavam no cérebro pareciam incrivelmente melodramáticas.
- Que horror! - murmurou arquejante e quase para si próprio.
Ela mais nada disse e, voltando-se, fitou os olhos no chão. Philip sentiu que o
rosto se lhe contraía de sofrimento.
- Não haverá um sítio onde possamos conversar?
- Não quero conversar - respondeu ela de mau modo. - Deixe-me em paz, ouviu?
Ocorreu a Philip a ideia de que talvez ela tivesse urgente necessidade de dinheiro
e por isso não pudesse retirar-se àquela hora.
- Se estás muito precisada, tenho aqui duas libras - disse ele, à toa.
- Não sei o que quer dizer. Passava por aqui, a caminho de casa. Esperava
encontrar uma das pequenas da casa onde trabalho.
- Não mintas agora, por amor de Deus - replicou ele.
Depois, vendo que ela estava a chorar, repetiu a pergunta:
- Não podemos ir conversar para algum sítio? Não posso ir ao teu quarto?
- Não pode, não - soluçou ela. - Não tenho licença para levar homens para lá. Se
quiser, encontramo-nos amanhã.
Estava certo de que Mildred não compareceria ao encontro. Não consentiria que
ela lhe fugisse.
- Não. Tens de me acompanhar a qualquer sítio agora mesmo.
- Está bem. Sei de um quarto, mas cobram seis xelins.
- Pouco me importa. Onde é?
Ela deu-lhe o endereço e Philip chamou um trem. Dirigiram-se para uma rua
escura para lá do British Museum, nas proximidades de Gray's Inn Road. Mildred fez o
carro parar à esquina.
- Não gostam que a gente vá de carro até à porta - disse.
Eram as primeiras palavras que um deles pronunciava, desde que haviam
entrado no trem. Andaram uns metros e Mildred bateu a uma porta três pancadas
secas. Philip distinguiu na penumbra um cartaz, a anunciar quartos para alugar. Uma
mulher alta e idosa abriu-lhes a porta tranquilamente e fê-los entrar. Lançou um olhar
inquiridor a Philip e dirigiu-se a Mildred em voz baixa. Mildred conduziu-o através de
um corredor até um quarto que ficava nas traseiras. Estava às escuras. A rapariga
pediu-lhe fósforos e acendeu o bico de gás. Como não houvesse globo, a chama brilhou
num clarão ofuscante. Philip viu que se encontrava num quarto de dormir sórdido,
pequeno de mais para a mobília pintada, a imitar madeira boa. As cortinas de renda
estavam muito sujas. Um grande biombo de papel dissimulava a grade do fogão.
Mildred atirou-se para cima de uma cadeira. Philip sentou-se na beira da cama. Sentia
vergonha. Via agora que as faces de Mildred estavam empastadas de carmim, e as
sobrancelhas enegrecidas a carvão. Mas ela estava magra e doente e o vermelho das
faces exagerava-lhe o esverdeado palor da pele. Mildred contemplava o biombo com ar
vago. Philip não achava que dizer e sentia na garganta uma espécie de sufocação de
choro. Tapou os olhos com as mãos.
- Que horror, meu Deus! - gemeu ele.
- Não sei por que está tão espantado. Pensei que ficaria satisfeito.
Philip não respondeu e, instantes após, ela rompeu num soluço.
- Pensa que faço isto por gosto, não pensa?
- Oh! Querida - exclamou ele. - Sinto muito, sinto tanto, tanto. ..
- Sim... Isso valer-me-á de muito...
Philip tornou a emudecer. Tinha um medo desesperado de dizer alguma coisa
que ela pudesse tomar por censura ou escárnio.
- Onde está a criança? - perguntou por fim.
- Está comigo, aqui, em Londres. Como não tinha dinheiro para continuar com
ela em Brighton, aluguei um quarto em Highbury e foi busca-la. Disse que trabalhava
no teatro. Vir de lá todos os dias para West End é o mesmo que fazer uma viagem. Mas
é difícil encontrar quem queira alugar quarto a uma mulher sozinha.
- Não quiseram readmitir-te na casa de chá?
- Não achei trabalho em parte alguma. Quase que gastei as pernas à procura de
emprego. Uma vez, cheguei a conseguir um lugar, mas só durou uma semana, porque
estava fraca e um dia, quando ia trabalhar, disseram que não me queriam mais. A
culpa não é deles. Precisam de raparigas que sejam fortes, naqueles lugares.
- O teu aspecto não é muito bom. - observou Philip.
- Não estava em condições de sair esta noite. Mas que fazer? Necessitava de
dinheiro. Escrevi ao Emil, a dizer que não tinha recursos, mas nem se deu ao trabalho
de responder à carta.
- Podias ter-me escrito.
- Depois do que aconteceu não tive coragem e também não queria que soubesse
que estava em dificuldades. Não ficaria admirada se me dissesse que tinha o que
merecia.
- Não me conheces bem, sabes? Nem agora.
Por um momento, ficou a recordar a angústia que sofrera por causa dela e sentiu
mal-estar à recordação da sua dor. Mas aquilo não passava de mera recordação. Ao
olhar para Mildred, via que já não a amava. Tinha muita pena, mas estava contente por
se achar livre. Contemplando-a gravemente, perguntava a si próprio por que se deixara
imbecilizar a tal ponto por aquela paixão por ela.
- É um cavalheiro em toda a extensão da palavra - disse Mildred. - é o único que
jamais encontrei. - Fez uma pequena pausa e depois corando: - aborrece-me pedir-lhe,
Philip, mas pode dar-me alguma coisa?
- Por sorte, trago algum dinheiro comigo. Parece-me que só tenho duas libras.
Deu-lhe os soberanos.
- Depois lhe pago, Philip.
- Oh!... não tem importância. Não te preocupes - e sorriu.
Nada dissera do que desejara dizer. Haviam conversado como se tudo aquilo
fosse natural e parecia que ela voltaria ao horror da sua vida e ele nada faria para
impedi-lo. Mildred levantara-se para pegar no dinheiro e ambos estavam de pé.
- Estou a tomar-lhe o tempo? - perguntou ela. - Com certeza quer ir para casa.
- Não, não tenho pressa - respondeu ele.
- Estou satisfeita por ter a sorte de estar sentada.
Estas palavras, com tudo o que traziam implícito, dilaceraram-lhe o coração. E
era terrivelmente doloroso ver o ar exausto com que ela se deixou cair de novo na
cadeira. O silêncio prolongou-se tanto que Philip, embaraçado, acendeu um cigarro.
- Foi muito bom em não me dizer nada desagradável. Pensei que fosse dizer não
sei o quê...
Viu que ela chorava de novo. Lembrou-se de quando Mildred voltara para ele,
depois de ter sido abandonada por Miller e de como chorara. A recordação do
sofrimento dela e da sua própria humilhação parecia tornar mais transbordante ainda a
compaixão que sentia agora.
- Se ao menos pudesse sair disto! - gemeu ela. - Odeio esta vida. Não fui feita
para ela. Não tenho jeito. Era capaz de fazer tudo para me ver livre. Até ser criada, se
pudesse. Oh! preferia ter morrido.
E, lamentando a própria sorte, entregou-se livremente ao pranto. Soluçava
histericamente e o seu corpo magro sacudia-se todo.
- Oh, não sabe o que isto é. Só se sabe quando se cai nela.
Philip não podia suportar aquele choro. Torturava-o o horror da situação.
- Pobrezinha! - murmurava. - Pobrezinha!
Estava profundamente comovido. De repente, teve uma inspiração, que o encheu
de um perfeito êxtase de felicidade.
- Escuta, se queres sair disso, tenho uma ideia. Estou, agora muito mal de
dinheiro. Preciso de fazer todas as economias possíveis, mas moro numa pequena casa,
em Kensington, e tenho um quarto desocupado. Se quiseres, podes ir morar lá com a
tua filha. Pago três xelins e seis pence por semana, para uma mulher cozinhar e fazer a
limpeza. Podias encarregar-te disso e o dinheiro que pago à mulher daria mais ou
menos para custear a maior despesa da comida. Onde come um, comem dois e acho
que a criança não faz grande diferença.
Mildred parou de chorar e olhou para ele.
- Quer dizer que, depois de tudo quanto aconteceu, ainda me aceita?
Philip corou um pouco, embaraçado diante do que precisava dizer.
- Quero que me compreendas. Só te darei um quarto que nada me custa, e o teu
sustento. Nada mais espero de ti, além do trabalho que a mulher da casa faz. Fora
disso, nada quero de ti. Espero que saibas cozinhar o bastante.
Ela pôs-se em pé e quis caminhar para ele.
- Como é bom para mim, Philip.
- Não, por favor, fica onde estás - disse ele, apressado, estendendo a mão como
para afastá-la.
Não sabia porquê; parecia-lhe que seria impossível suportar o contacto dela.
- Não quero ser para ti mais do que um amigo.
- Como é bom para mim - repetiu ela. - Como é tão bom para mim!
- Então aceitas?
- Aceito, sim, farei tudo para sair disto. Nunca se arrependerá do que fez, Philip,
nunca. Quando posso ir?
- Será melhor amanhã.
De súbito, ela desatou de novo a chorar.
- Por que diabo choras agora? - perguntou Philip.
- Estou tão agradecida... Não sei como poderei retribuir-lhe...
- Oh, não tem importância. É melhor ires agora para casa.
Deu-lhe o endereço e disse-lhe que, se fosse às cinco e meia, estaria a esperá-la.
Era tão tarde que Philip teve de ir a pé para casa, mas o caminho não lhe pareceu longo
porque estava embriagado de felicidade. Parecia não pisar o chão.
XCI
No dia seguinte, Philip levantou-se cedo para aprontar o quarto para Mildred.
Disse à mulher que lhe cuidava da casa que já não precisava dela. Mildred chegou às
seis horas, mais ou menos, e Philip, que estava à janela, desceu para ajudá-la a trazer a
bagagem. Esta consistia, agora, apenas em três grandes embrulhos de papel pardo,
porque Mildred vira-se obrigada a vender tudo quanto não lhe fosse absolutamente
necessário. Trazia o mesmo vestido de seda preta da noite anterior e, embora já não
tivesse carmim nas faces, notava-se-lhe ainda nos olhos o negro que resistira à lavagem
rápida da manhã; e isso dava-lhe um aspecto acentuadamente doentio. Ao descer do
trem com a filha nos braços, era uma figura patética. Parecia um pouco acanhada e
nada acharam para dizer um ao outro, além de coisas triviais.
- Chegaste sem novidade?
- Nunca morei nesta parte de Londres.
Philip mostrou-lhe o quarto. Era o mesmo onde Cronshaw morrera. Philip,
embora achasse absurdo, nunca olhara com simpatia a ideia de voltar para ele. E, desde
a morte de Cronshaw, ficara no quarto pequeno, dormindo na cama de campanha para
a qual passara, a fim de proporcionar maior comodidade ao amigo. A criança dormia
placidamente.
- Acho que nem se lembra dela - disse Mildred.
- Desde que a levámos para Brighton nunca mais a vi.
- Onde posso deitá-la? Está tão pesada que não posso pegar-lhe por muito tempo.
- Infelizmente não temos berço - disse Philip, com um riso nervoso.
- Ora! Dorme comigo. Está acostumada.
Mildred depôs a filha numa poltrona e correu os olhos pelo quarto. Reconheceu a
maioria dos objectos que vira no antigo alojamento de Philip. Só uma coisa era nova:
um retrato deste, pintado por Lawson no fim do Verão anterior; estava pendurado por
cima da chaminé. Mildred examinou-o com os olhos críticos.
- Há coisas de que gosto e coisas de que não gosto. Acho que ao natural é melhor
do que no retrato.
- Ah! As coisas estão melhor - notou Philip, a rir. - Nunca me disseste que eu
tinha boa aparência.
- Não sou dessas que se preocupam com a cara dos homens. Não gosto de
homens bonitos. São muito presunçosos.
Os olhos dela varejaram o quarto, na busca instintiva de um espelho. Mas não
havia nenhum. Mildred ergueu a mão e endireitou a grande franja de cabelo.
- Que dirá a gente da casa, da minha vinda para aqui? - perguntou de súbito.
- Ora, aqui só mora um homem com a mulher. Passa o dia fora e nunca vejo a
mulher, a não ser aos sábados, quando vou pagar o aluguer. Vivem retraídos. Desde
que vim para cá, não troquei duas palavras com essa gente.
Mildred dirigiu-se ao quarto de dormir, para desempacotar as suas coisas e
colocá-las em ordem. Philip tentou ler, mas a sua exaltação não lho permitiu.
Repoltreou-se na cadeira, a fumar um cigarro, e, com os olhos sorridentes, pôs-se a
observar a criança que dormia. Sentia-se feliz. Estava absolutamente certo de que já
não amava Mildred. Causava-lhe surpresa que o antigo sentimento o tivesse deixado
de maneira tão completa. Percebia uma leve repulsa física por ela. Achava que, se lhe
tocasse, ficaria todo arrepiado. Não podia compreender. Pouco depois, Mildred bateu à
porta e entrou.
- Ora? não precisas de bater - disse-lhe. - Já deste uma volta pelo palácio?
- É a mais pequena cozinha que vi neste mundo.
- Hás-de achá-la de bom tamanho para cozinhar os nossos sumptuosos repastos -
retorquiu ele, jovialmente.
- Reparei que não há nada em casa. É melhor eu sair, para comprar alguma coisa.
- Sim, mas ouso lembrar-te que devemos ser muitíssimo económicos.
- Que devo fazer para o jantar?
- É melhor escolheres os pratos que sabes preparar - disse Philip a rir.
Deu-lhe algum dinheiro e ela saiu. Voltou meia hora mais tarde e pôs as compras
em cima da mesa. Estava ofegante por ter subido as escadas.
- És anémica - observou Philip. - Vou dar-te pílulas de Blaud.
- Levei muito tempo para encontrar os estabelecimentos. Comprei fígado. É
saboroso, não é? Não se pode comer muito, e assim fica mais económico do que carne.
Havia na cozinha um fogão a gás e Mildred, depois de pôr o fígado ao lume,
voltou para a sala de estar a fim de preparar a mesa.
- Por que pões só um talher? - indagou Philip. - Não queres comer nada?
Mildred corou.
- Pensei que não queria que me sentasse à mesa consigo.
- Mas por que diabo não havia de querer?
- Ora, sou apenas uma criada.
- Não sejas parva. Como podes ser assim tão tola?
Philip sorriu, mas aquela humildade confrangia-lhe o coração de um modo
curioso. Coitadinha! Lembrou-se de quando a vira pela primeira vez. Hesitou um
instante.
- Não penses que estou a fazer-te um favor - disse. - Trata-se de um acordo
perfeitamente comercial. Dou-te casa e comida em troca do teu trabalho. Não me ficas
a dever nada e nada há nisso de humilhante para ti.
Ela não respondeu, mas grossas lágrimas começaram a rolar-lhe pelas faces.
Philip sabia, pela sua experiência no hospital, que as mulheres daquela classe
consideravam o trabalho da casa como degradante. Não pôde deixar de sentir-se um
pouco irritado com ela. Mas censurou-se por isso, pois era evidente que Mildred estava
cansada e doente. Levantou-se e ajudou-a a pôr outro talher na mesa. A criança
acordara e Mildred preparou-lhe o biberão. O fígado e o toucinho estavam prontos.
Sentaram-se ambos à mesa. Por economia, Philip só bebia água, mas tinha em casa
meia garrafa de whisky e julgou que um gole faria bem a Mildred. Fez o que pôde para
que a refeição decorresse animada, mas Mildred estava abatida e exausta. Quando
terminaram, ela ergueu-se e levou a filha para a cama.
- Acho que te fará bem o deitar cedo - disse Philip. - Pareces completamente
derreada.
- Penso em ir-me deitar depois de lavar a louça.
Philip acendeu o cachimbo e começou a ler. Era-lhe agradável ouvir alguém a
mexer na sala contígua. às vezes, a solidão oprimia-o. Mildred entrou para levantar a
mesa e Philip ouviu o ruído dos pratos que ela lavava. Sorriu ao pensar como era
característico de Mildred fazer tudo aquilo de vestido de seda preta. Mas tinha que
estudar. Trouxe o livro para a mesa. Estava a ler a Medicina, de Osler, que acabava de
substituir, na preferência dos estudantes, o livro de Taylor, por muitos anos o tratado
favorito. Pouco depois, Mildred entrou, descendo as mangas. Philip lançou-lhe um
olhar, mas não se moveu. O momento era curioso e sentia-se um pouco nervoso. Temia
que Mildred o imaginasse capaz de se aproveitar da situação. Não sabia bem como
tranquilizá-la, sem brutalidade.
- A propósito, amanhã tenho uma aula às nove e gostaria que me servisses o
pequeno almoço às oito e um quarto. Podes arranjar-me isso?
- Claro que sim. Quando estava na Parliament Street, todas as manhãs tomava o
comboio das oito e doze, em Herne Hill.
- Espero que gostes do teu quarto. Depois de uma noite bem dormida, vais sentirte
outra.
- Estuda até tarde?
- Em geral, até às onze ou onze e meia.
- Então vou dar-lhe boa-noite.
- Boa-noite.
Estavam separados pela mesa. Philip não lhe estendeu a mão. Mildred fechou a
porta sem ruído. Ouviu-lhe os passos no quarto e dentro em pouco o rangido da cama
advertia-o de que ela se deitara.
XCII
O dia seguinte era terça-feira. Philip, como de costume, tomou a primeira
refeição apressadamente e precipitou-se para apanhar a aula das nove. Mal teve tempo
de trocar umas palavras com Mildred. Quando voltou, ao entardecer, encontrou-a
sentada junto da janela, ponteando-lhe as meias.
- Olá, menina diligente! - disse-lhe a sorrir. - Como passaste o dia?
- Ora, fiz uma boa limpeza nos quartos e depois levei a pequena a dar um
passeio.
Mildred trazia um velho vestido preto, o mesmo que usava como uniforme
quando trabalhava na casa de chá. Estava usado, mas ficava-lhe melhor do que o
vestido de seda do dia anterior. A criança, sentada no soalho, ergueu para Philip os
seus grandes olhos misteriosos e rompeu numa risada quando o viu sentar-se a seu
lado e pôr-se a brincar com os seus dedinhos. O sol da tarde entrava no quarto e
enchia-o de uma luz macia.
- É agradável a gente voltar para casa e encontrar alguém. Uma mulher e uma
criança enfeitam muito bem um quarto.
Trouxera da farmácia do hospital um frasco de «Pílulas de Blaud». Entregou-o a
Mildred e recomendou-lhe que tomasse as pílulas depois de cada refeição. Era um
remédio a que ela estava habituada, pois tomara-o repetidas vezes, desde os dezasseis
anos.
- Estou certo de que Lawson havia de gostar dessa tua cútis esverdeada - disse
Philip. - Diria que ela se presta para ser pintada, mas como agora ando muito prosaico,
só ficarei satisfeito quando estiveres branca e corada.
- Já me sinto melhor.
Depois de uma refeição frugal, Philip encheu a bolsa de tabaco e pôs o chapéu. às
terças, costumava ir à casa de bebidas de Beak Street e pareceu-lhe uma feliz coincidência
que Mildred tivesse chegado na véspera, pois desejava tornar perfeitamente
claras as suas relações.
- Vai sair? - perguntou ela.
- Vou, sim. às terças-feiras dou a mim próprio uma noite de folga. Amanhã nos
veremos. Boa-noite.
Philip ia sempre à casa de bebidas com uma sensação de prazer. Macalister, o
corretor filósofo, achava-se geralmente ali e era com alegria que se dispunha a discutir
sobre qualquer assunto. Hayward comparecia regularmente quando estava em
Londres e, embora ele e Macalister não gostassem um do outro, continuavam, pela
força do hábito, a encontrar-se ali naquela noite da semana. Macalister considerava
Hayward um pobre diabo e zombava das suas delicadezas de sentimento. Perguntava
satiricamente pelo trabalho literário do outro e recebia com sorrisos escarninhos as
suas vagas sugestões a propósito de futuras obras-primas. As suas discussões
acaloravam-se com frequência. Mas o ponche era bom e ambos o apreciavam. Em
geral, à medida que a noite avançava, as divergências aplanavam-se e cada um acabava
por achar o outro um excelente rapaz. Naquela noite, Philip encontrou ambos e mais
Lawson na taberna. Lawson vinha mais raramente do que outrora, pois começava a ter
relações em Londres e ia muitas vezes jantar fora. Achavam-se todos de perfeito
acordo, pois Macalister dera-lhes uma boa indicação para a Bolsa e Hayward e Lawson
tinham ganho cinquenta libras cada um. Era uma grande coisa para Lawson, que tinha
hábitos pródigos e ganhava pouco dinheiro. Chegara àquela situação da carreira do
pintor de retratos em que os críticos o mencionam muito e numerosas damas da
aristocracia estão dispostas a deixarem-se retratar de graça (era publicidade para
ambos e dava às grandes damas um ar de protectoras das artes). Mas muito raramente
conseguia Lawson um abastado filisteu que estivesse disposto a pagar bom dinheiro
pelo retrato da esposa. Lawson transbordava de satisfação.
- É a maneira mais notável de fazer dinheiro que encontrei - exclamou. - Nem seis
pence tive que desembolsar.
- Não sabe o que perdeu por não estar aqui na terça-feira passada, meu rapaz -
disse Macalister a Philip.
- Santo Deus! Por que não me escreveu? - replicou este último. - Se soubesse
como me cairiam bem agora umas cem libras...
- Oh, não tivemos tempo para isso. Temos que estar a postos. Tive uma
informação na terça-feira passada e perguntei a esses camaradas se gostariam de
arriscar alguma coisa. Comprei-lhes mil acções quarta-feira de manhã, houve uma alta
na tarde desse mesmo dia e tornei-as a vender. Fiz cinquenta libras para cada um deles
e umas duzentas para mim.
Philip estava doente de inveja. Vendera recentemente o último título de hipoteca
em que fora empregada a sua pequena fortuna e tinha agora apenas seiscentas libras.
às vezes tomava-se de pânico, ao pensar no futuro. Precisava ainda manter-se por dois
anos, antes de se diplomar; depois, pretendia candidatar-se a lugares em hospitais, de
sorte que não podia esperar ganhar fosse o que fosse pelo menos durante três anos.
Com a economia mais estrita não lhe sobraria, ao formar-se, mais do que uma centena
de libras. Era muito pouco para ter como reserva, em caso de doença que o impedisse
de trabalhar ou na falta de trabalho. Uma cartada feliz ser-lhe-ia de grande
importância.
- Ora, não faz mal - disse Macalister. - De uma hora para outra surgirá alguma
coisa. Vai haver outra alta nas sul-africanas, um destes dias, e então verei o que posso
fazer por si.
Macalister trabalhava com acções de minas sul-africanas. Muitas vezes lhes
contara histórias de fortunas súbitas, feitas na grande alta verificada um ou dois anos
antes.
- Bom, para a próxima vez, não se esqueça.
Conversaram até quase à meia-noite. Philip, que de todos era o que morava mais
longe, foi o primeiro a retirar-se. Se não apanhasse o último «eléctrico» teria de ir a pé,
e isso levá-lo-ia a recolher-se muito tarde. Ainda assim, chegou a casa perto da meianoite.
Com surpresa sua, ao entrar encontrou Mildred ainda sentada na sua poltrona.
- Ainda não estás deitada?! - exclamou.
- Não tinha sono.
- Mesmo assim devias ir para a cama, para descansar.
Ela não se moveu. Philip notou que, depois do jantar, a rapariga tornara a
envergar o vestido de seda preta.
- Achei melhor esperar, para ver se precisava de alguma coisa.
Olhou-o e a sombra de um sorriso brincou-lhe nos lábios descorados. Philip não
estava certo de ter ou não compreendido. Sentia-se ligeiramente embaraçado, mas
assumiu uma atitude entre prosaica e alegre.
- É muita bondade da tua parte, mas é também uma travessura. Corre já para a
cama o mais depressa possível, de contrário não poderás levantar-te cedo amanhã.
- Não tenho vontade de me deitar.
- Tolice - retorquiu ele friamente.
Mildred ergueu-se um pouco carrancuda, e foi para o quarto. Ele sorriu, quando
a ouviu fechar ruidosamente a porta com a chave.
Os dias seguintes passaram sem incidentes. Mildred adaptava-se à nova situação.
Philip saía apressado, após a refeição matinal e ela ficava com toda a manhã para
arranjar a casa. Conquanto fossem ambos muito frugais, ela gostava de demorar-se
bastante na compra das poucas coisas de que precisavam. Não se dava ao trabalho de
fazer jantar só para si; contentava-se com uma chávena de cacau e pão e manteiga.
Depois, levava a criança a passear no carrinho e, ao voltar, passava o resto da tarde
ociosa. Andava extenuada e esse repouso fazia-lhe bem. Fez camaradagem com a
retraída senhoria de Philip, quando este a encarregou de pagar o aluguer. E, dentro de
uma semana, sabia mais sobre a vida dos vizinhos do que ele num ano.
- É uma senhora muito séria - disse Mildred. - Uma perfeita dama. Eu disse que
éramos casados.
- Achaste isso necessário?
- Ora, afinal, tinha que dizer alguma coisa... é tão esquisito estar aqui sem ser
casada consigo. Não sei o que ela pensaria de mim.
- Acho que ela não te deu o mínimo crédito.
- Garanto que deu. Contei que estamos casados há dois anos... Tinha que dizer
isso, bem vê, por causa da criança... E que a sua família não queria o casamento porque
você era estudante. (Ela pronunciava «estodante»). Assim, tivemos de guardar segredo,
mas, como os seus pais acabaram por ceder, agora vamos passar o Verão com eles.
- És mestra em histórias da carochinha - observou Philip.
Estava vagamente irritado pelo facto de Mildred ter ainda a paixão de dizer
mentiras. De nada lhe valiam as lições daqueles dois anos. Mas acabou por encolher os
ombros.
No final de contas - reflectiu - ela não teve muitas oportunidades.
Era uma linda tarde quente e sem nuvens, e a gente do sul de Londres parecia
estar nas ruas. Havia no ar essa inquietação que às vezes se apodera do londrino,
quando uma mudança no tempo o traz para o ar livre. Depois de levantar a mesa do
jantar, Mildred foi até à janela. Os ruídos da rua subiam até ela, vozes de pessoas, o
rolar do tráfego incessante, um realejo a distância.
- Com certeza tens de estudar hoje de noite, não, Philip? - disse em ar de
expectativa.
- Preciso de estudar, mas nada me obriga. Tens alguma coisa a propor-me?
- Tinha vontade de sair um pouco. Não podíamos dar uma volta na imperial de
um ónibus?
- Se queres...
- Então vou pôr o chapéu - disse ela, contente.
A noite não permitia que se ficasse em casa. A criança estava a dormir e podiam
deixá-la sozinha sem o menor perigo. Mildred disse que a deixava sempre à noite,
quando saía, e a pequena nunca acordava. Mildred estava com boa disposição de
espírito quando voltou, já de chapéu. Aproveitara a oportunidade para pintar as faces.
Philip pensou que a excitação tivesse trazido um leve colorido àquele rosto pálido.
Ficou sensibilizado ante a alegria infantil de Mildred e censurou-se a si próprio pela
austeridade com que a tratava. A rapariga desatou a rir, quando se viu ao ar livre. O
primeiro ónibus que viram ia para Westminster Bridge; tomaram-no. Philip fumava o
seu cachimbo. Olhavam ambos para as ruas regurgitantes. As lojas estavam vivamente
iluminadas, e as pessoas faziam compras para o dia seguinte. Passaram por um teatro
de variedades a que chamavam o Canterbury e Mildred exclamou:
- Oh, Philip, vamos lá! Há meses que não entro num teatro.
- Sabes que não podemos ir para as poltronas.
- Oh! Não faz mal. Ficarei muito satisfeita nas galerias.
Desceram e andaram uns cem metros, até à entrada. Conseguiram lugares
excelentes, a seis pence, muito alto mas não nas galerias, pois a noite estava tão linda
que havia acomodação de sobra. Os olhos de Mildred cintilavam. Ela divertia-se
imenso. Havia naquela criatura uma simplicidade que comovia. Mildred era um
enigma. Existiam nela certas coisas que ainda lhe agradavam, possuía mesmo - julgava
ele - muito de bom, mas fora mal educada e tivera uma vida árdua. Censurara-lhe,
pois, muita coisa que não dependia dela evitar. E se lhe exigia virtudes que não
estavam ao alcance dela, a falta era sua e não da rapariga. Em circunstâncias diferentes,
Mildred poderia ter sido uma criatura encantadora. Era extraordinariamente incapaz
para a batalha da vida. Ao olhá-la agora de perfil, vendo-lhe a boca levemente aberta e
o delicado rubor das faces, Philip achava-lhe um aspecto estranhamente virginal.
Sentiu uma transbordante compaixão por ela. E, com toda a alma, perdoou-lhe o mal
que lhe causara. A atmosfera do fumo do tabaco fazia doer os olhos de Philip, mas,
quando propôs que se fossem embora, Mildred voltou para ele um rosto súplice, a
pedir-lhe que ficassem até ao fim. Sorriu e consentiu. Ela tomou-lhe a mão e ficou a
segurá-la até ao fim da representação. Quando saíram para a rua apinhada de gente,
Mildred não quis ir para casa. Caminharam até Westminster Bridge Road, olhando
para os transeuntes.
- Há meses que não me divertia tanto como hoje - disse ela.
O coração de Philip transbordava e agradecia ao destino por ter cedido ao súbito
impulso de levar Mildred e a filha para a sua companhia. Era bastante agradável ver a
gratidão feliz da rapariga. Por fim ela sentiu-se cansada e tomaram um ónibus para
casa. Era tarde, e, quando entraram na rua onde moravam, não viram vivalma.
Mildred enfiou o braço no de Philip.
- Exactamente como dantes Phil? - disse ela.
Mildred nunca lhe chamara Phil, que era o diminutivo que Griffiths lhe dava. E,
mesmo agora, isso ainda lhe causava uma curiosa mágoa. Lembrou-se de quanto
desejara morrer; o seu sofrimento fora tão grande que chegara a pensar deveras no
suicídio. Tudo isso parecia muito remoto. Sorriu ao Philip daquele tempo. Agora nada
sentia por Mildred, senão infinita piedade. Chegaram a casa e, quando entraram na
sala de estar, Philip acendeu o gás.
- A menina está bem? - perguntou.
- Vou ver.
Voltou para dizer que a pequena nem se mexera desde que tinham saído. Era
uma criança admirável. Philip estendeu-lhe a mão.
- Então, boa-noite.
- Já vais para a cama?
- É quase uma hora. Não estou acostumado a ficar acordado até tarde.
Ela apertou-lhe a mão e, retendo-a, olhou-o bem nos olhos, com um pequeno
sorriso.
- Phil, a outra noite, naquele quarto, quando me convidaste para vir morar aqui,
não levei a sério, como pensaste, essa história de ser para ti só cozinheira e criada.
- Não levaste? - perguntou Philip, retirando a mão. - Pois eu levei.
- Não sejas tolo dessa maneira - riu-se ela.
Philip sacudiu a cabeça.
- O que disse foi perfeitamente a sério. Noutras condições, não te teria pedido
que viesses para cá.
- Porquê?
- Porque me era impossível. Não sei explicar, mas isso estragaria tudo...
Ela encolheu os ombros.
- Então está muito bem, seja como quiseres. Não te pedirei de joelhos.
Saiu, batendo com a porta atrás de si.
XCIII
Na manhã seguinte Mildred mostrou-se amuada e taciturna. Ficou no quarto até
a hora de aprontar o jantar. Cozinhava mal e, além de costeletas e bifes, pouca coisa
fazia, não sabendo aproveitar as sobras. Desse modo Philip era obrigado a gastar mais
dinheiro do que esperava. Ela serviu à mesa e sentou-se diante de Philip, mas não quis
comer. Philip fez uma observação a esse respeito e Mildred declarou que estava com
dores de cabeça e não tinha fome. Ele sentia-se contente por ter onde passar o resto do
dia. Os Athelny eram alegres e acolhedores: era delicioso e inesperado saber que todos,
naquela família, aguardavam com prazer a sua visita. Quando voltou para casa,
Mildred já estava deitada e no dia seguinte ainda permaneceu silenciosa. à hora do
jantar, sentou-se com uma expressão de altivez no rosto e uma pequena ruga entre as
sobrancelhas. Philip ficou irritado com isso mas convenceu-se de que devia ser mais
atencioso para com ela. Tinha de fazer concessões.
- Estás muito calada - observou com um sorriso amável.
- Sou paga para cozinhar e fazer a limpeza, não sabia que também tinha de falar.
Philip achou a resposta indelicada, mas, já que iam viver juntos, precisava fazer o
possível para que tudo corresse bem.
- Acho que estás zangada comigo por causa de ontem à noite - disse.
Era um assunto melindroso, mas no entanto era necessário discuti-lo.
- Não entendo o que quer dizer.
- Por favor, não estejas zangada comigo. Nunca te pediria que viesses morar aqui,
se não pretendesse que as nossas relações fossem puramente amistosas. Tive essa ideia
porque achei que precisavas de uma casa e de uma oportunidade para procurar
trabalho.
- Ora, não pense que me ralo.
- Bem sei - apressou-se ele a dizer. - Não deves pensar que não esteja agradecido.
Compreendo que querias fazer aquilo apenas para me ser agradável. E só uma
impressão que tenho, não posso livrar-me dela... tudo se tornaria feio, horrível.
- Você tem graça - disse ela, fitando os olhos nele com curiosidade. - Não posso
compreendê-lo.
Já não estava zangada, mas apenas intrigada. Não fazia ideia do que ele queria
dizer. Aceitava a situação, tinha até uma vaga impressão de que Philip se portava de
maneira nobre e de que ela devia admirá-lo. Mas também se sentia inclinada a rir-se
dele e mesmo a desprezá-lo um pouco.
«Que tipo esquisito!» pensou ela.
E a vida de ambos continuava sem maiores incidentes. Philip passava o dia
inteiro no hospital e estudava em casa, à noite, excepto quando ia ter com os Athelny
ou à casa de bebidas de Beak Street. Certa vez, o médico que auxiliava convidou-o para
um banquete e em duas ou três ocasiões foi a festas dadas por colegas seus. Mildred
aceitava a monotonia daquela vida. Se não gostava que Philip a deixasse sozinha certas
noites, não o dizia. De tempos a tempos, ele levava-a às variedades. Mantinha a sua
resolução de não criar entre ambos outros laços que fossem além dos cuidados
domésticos prestados por ela em troca de casa e comida. Mildred chegara à conclusão
de que era inútil tentar conseguir trabalho naquele Verão. Com a aprovação de Philip,
resolveu ficar como estava até o Outono. Achava ela que lhe seria fácil arranjar então
alguma coisa que fazer.
- Pela parte que me toca, podes ficar aqui até conseguires um emprego
conveniente. O quarto está aí e a mulher que trabalhava antes aqui pode tomar conta
da criança.
Philip afeiçoou-se muito à filha de Mildred. Era naturalmente afectuoso e tinha
poucas oportunidades para o mostrar. Mildred não era má para a criança. Cuidava
dela muito bem e, uma vez que a pequena apanhou uma gripe, mostrou-se enfermeira
devotada. Mas a pequena enchia-a de aborrecimento e Mildred ralhava com ela
quando a incomodava. Gostava da filha, mas não tinha o amor materno que poderia têla
induzido a esquecer-se de si própria. Mildred não era expansiva e achava ridículas
as manifestações de ternura. Quando Philip se sentava com a pequenita nos joelhos, a
brincar com ela e a beijá-la, ria-se dele.
- Se fosse o pai dela, garanto que não fazia mais espalhafato - observou ela. - Você
é doido por essa criança.
Philip corou, porque abominava que se rissem dele. Era absurdo que fosse tão
devotado à filha de outro homem e sentia mesmo um pouco de vergonha daquele
excesso de sentimento. Mas a criança, sentindo o apego de Philip, encostava o rosto ao
dele ou aninhava-se-lhe nos braços.
- Para si é tudo muito fácil - disse Mildred. - Como a parte desagradável é
comigo... Gostava de ficar acordado, de madrugada, uma hora inteira, só porque Sua
Senhoria não quer dormir?
Philip lembrou-se de várias coisas da sua infância que julgava esquecidas.
Segurou os dedos do pé da criança.
- Este porquinho foi pró mercado, este porquinho ficou em casa.
Quando entrava em casa, à tarde, o seu primeiro olhar era para a menina, que
encontrava refastelada no chão. E quando ela dava gritinhos de satisfação ao vê-lo,
sentia-se deleitado. Mildred ensinara a filha a chamar-lhe pai, e quando ela fez isso
pela primeira vez, sem ser mandada, a mãe desatou a rir imoderadamente.
- Só gostava de saber se gosta da pequena porque ela é minha filha - disse - ou se
faria o mesmo com qualquer outra criança.
- Como não conheci nenhuma outra criança, não o posso dizer.
Lá pelo fim do segundo trimestre como auxiliar no hospital, teve um bafejo de
sorte. Era em meados de Julho. Foi uma terça-feira à noite à casa de Beak Street e só
encontrou Macalister. Estiveram a conversar sobre os amigos ausentes e passado um
instante Macalister disse-lhe:
- A propósito, soube hoje uma coisa muito importante. é a respeito das acções da
New Kleinfontein, uma mina de ouro da Rodésia. Se quiser arriscar, pode ganhar
alguma coisa.
Philip esperara ansiosamente por semelhante oportunidade, mas, agora que esta
surgia, hesitava. Tinha um medo horrível de perder dinheiro. Não possuía o espírito
do jogador.
- Gostaria muito, mas não sei se terei coragem de arriscar. Quanto poderei
perder, se as coisas correrem mal ?
- Não devia falar-lhe nisto, mas você parecia tão disposto - respondeu Macalister,
secamente.
Philip sentiu que o corretor o considerava um tanto bronco.
- Estou tentadíssimo a atirar-me - disse, a rir.
- Mas sem arriscar não é possível ganhar dinheiro.
Macalister começou a falar de outras coisas e Philip, enquanto respondia,
continuava a pensar que, se a sorte lhe sorrisse, o corretor se divertiria à sua custa, da
próxima vez que se encontrassem. Macalister tinha uma língua sarcástica.
- Acho que vou tentar, se você não se opuser... - disse com sofreguidão.
- Está bem. Vou comprar duzentas e cinquenta acções para si, e, se houver uma
alta de meia coroa, vendo-as imediatamente.
Philip calculou com rapidez o lucro que teria e veio-lhe água à boca. Trinta libras
seriam um presente do céu. A dizer a verdade, a sorte estava em débito para com ele.
Na manhã seguinte, à hora do café, contou a Mildred o que fizera. Ela achou que tinha
sido uma grande tolice.
- Nunca vi ninguém ganhar dinheiro na Bolsa - disse ela. - Era o que o Emil
sempre dizia: não esperes fazer dinheiro na Bolsa.
Philip comprou um jornal da tarde, ao voltar para casa e procurou logo a página
financeira. Nada conhecia do assunto e foi com dificuldade que achou as suas acções.
Viu que elas tinham subido um quarto. O seu coração começou a bater descompassado
e ficou apreensivo à ideia de que Macalister não as tivesse comprado em seu nome, por
esquecimento ou por qualquer outra razão. Macalister prometera telegrafar. Philip não
teve paciência de esperar o «eléctrico.» Saltou para um trem. Era uma extravagância
insólita.
- Há algum telegrama para mim? - perguntou ao irromper na sala.
- Não - disse Mildred.
Desapontado, Philip deixou-se cair numa cadeira.
- Então ele não comprou as acções! Maldito seja! - acrescentou com violência. -
Que sorte cruel! E todo o dia estive a pensar no que faria com o dinheiro.
- Que vai fazer agora? - perguntou ela.
- De que serve falar? Oh! Precisava tanto desse dinheiro...
Ela riu e entregou-lhe um telegrama.
- Estava a brincar consigo. Eu abri...
Philip arrebatou-lhe o papel das mãos. Macalister tinha-lhe comprado duzentas e
cinquenta acções, que vendera em seguida com o lucro de meia coroa, como sugerira.
A nota da comissão viria no dia seguinte. Por um momento, Philip ficou furioso com
Mildred, por causa daquela brincadeira cruel, mas depois só teve pensamentos para a
sua alegria.
- Isso tem tanta importância para mim! - exclamou. - Vou comprar-te um vestido
novo, se quiseres.
- Estou a precisar muito de um - respondeu ela.
- Sabes o que vou fazer? Vou ser operado no fim de Julho.
- Hem? Mas que é que tem? - interrompeu Mildred.
Ocorreu-lhe que uma doença secreta poderia explicar aquela maneira de
proceder que tanto a intrigava. Philip corou porque lhe era odioso ter de aludir à sua
deformidade.
- Não, eles acham que podem melhorar o meu pé. Antes, não tinha tempo para
perder com isso, mas agora o tempo é o que menos importa. Vou começar como
ajudante de cirurgião em Outubro, em vez de fazê-lo no mês que vem. Ficarei no
hospital apenas algumas semanas e depois podemos passar o resto do Verão numa
praia. Isso far-nos-á muito bem, a ti, à criança e a mim.
- Oh, vamos a Brighton, Philip. Gosto de Brighton, há tanta gente distinta lá...
Philip pensara vagamente em alguma pequena aldeia de pescadores na
Cornualha, mas, ao ouvir Mildred, ocorreu-lhe que ela se aborreceria lá mortalmente.
- O lugar pouco importa, contanto que vamos para o mar.
Não sabia porquê, mas sentia subitamente uma irresistível saudade do mar.
Queria banhar-se e pensava, com delícia, em mergulhar na água salgada. Era bom
nadador e nada o enchia de contentamento como um mar picado.
- Olha, vai ser lindo! - exclamou.
- Vai ser como uma lua-de-mel, não é verdade? - disse Mildred. - Quando é que
pode dar-me o vestido novo, Phil?
XCIV
Philip pediu a Jacobs que lhe fizesse a operação. Jacobs aceitou com prazer, uma
vez que naquela época estava precisamente interessado em casos descurados de talipes
e colhia material para uma monografia. Avisou Philip de que não podia deixar-lhe o pé
perfeito, mas julgava-se capaz de fazer alguma coisa. E, embora o rapaz continuasse a
claudicar, ser-lhe-ia possível usar um calçado mais discreto. Philip lembrou-se de como
rezara a Deus, que podia mover montanhas para quem tivesse fé, e sorriu
amargamente.
- Não espero milagres - respondeu.
- Acho que faz muito bem em me deixar tentar alguma coisa. Verá que um pé
boto será um obstáculo para a sua clínica. O leigo é cheio de manias e não gosta que o
médico tenha qualquer coisa de comum com ele.
Philip foi para uma daquelas salas pequenas que existiam à entrada das
enfermarias reservadas para casos especiais. Permaneceu ali um mês, pois o cirurgião
não lhe quis dar alta antes que pudesse andar. Suportou bem a operação e achou
agradável a temporada no hospital. Lawson e Athelny foram vê-lo e um dia Mrs.
Athelny levou com ela duas das crianças. Os estudantes apareciam de quando em
quando para palestrarem. Mildred visitava-o duas vezes por semana. Todos lhe
mostraram bondade, e Philip, sempre surpreendido quando alguém se dava algum
incómodo por sua causa, ficou comovido e grato. Gozava aquela despreocupação: não
precisava de inquietar-se quanto ao futuro nem se o dinheiro duraria muito ou se
passaria ou não nos exames finais. E, com grande alegria sua, podia ler à vontade.
ultimamente, não podia ler muito, pois que Mildred o perturbava: sempre que
procurava fixar a atenção nos livros, ela fazia um comentário fútil, não se dando por
satisfeita enquanto ele não respondesse. E quando estava confortavelmente instalado
com um livro nas mãos, ela aparecia-lhe e pedia-lhe que fizesse alguma coisa: tirar uma
rolha, bater um prego...
Resolveram ir para Brighton em Agosto. Philip queria alugar casa, mas Mildred
disse que assim teria de cuidar do alojamento. Só poderia aproveitar as férias se fossem
para uma pensão.
- Aqui em casa, tenho que andar às voltas com a comida. Estou farta disso e
quero variar.
Philip concordou. E, como Mildred conhecia uma pensão em Kemp Town, onde
não lhes cobrariam mais de vinte e cinco xelins por semana, por cada um, combinou
com Philip escrever para lá, reservando quartos; mas, quando ele voltou para
Kensington, verificou que Mildred nada fizera. Ficou irritado.
- Não sabia que andavas assim tão ocupada.
- Também não posso pensar em tudo. Não tenho culpa de me esquecer, pois não?
Philip estava tão ansioso por ir para o mar, que resolveu ir sem nada comunicar à
dona da pensão.
- Deixaremos a bagagem na estação e iremos à pensão para ver se há quartos. Se
houver, mandamos um carregador buscar as nossas coisas.
- Faça como entender - disse Mildred, secamente.
Não gostava de ser repreendida e, isolando-se num silêncio ostensivo, ficou
negligentemente sentada, enquanto Philip fazia os preparativos para a partida.
A casa era quente e abafada, sob o sol de Agosto, e subia da rua um hálito
malcheiroso. Quando Philip estava na enfermaria, de paredes nuas, suspirara pelo ar
livre e pelo bater das ondas de encontro ao peito. Endoideceria se passasse outra noite
em Londres. Mildred recuperou o bom humor ao ver as ruas de Brighton apinhadas de
gente em férias, e ambos estavam em excelente disposição de espírito, ao dirigirem-se
para Kemp Town. Philip acariciou o rosto da criança.
- Depois de passarmos aqui alguns dias, esta carinha estará com outras cores -
disse, sorrindo.
Chegaram à pensão e despediram o carro. Uma criada desalinhada abriu-lhes a
porta e quando perguntaram se havia quartos, respondeu que ia ver. Foi chamar a
patroa. Uma mulher de meia-idade, gorda e de ar expedito, desceu as escadas, lançoulhes
o olhar inquiridor próprio da sua profissão e perguntou-lhe que quartos
pretendiam.
- Dois quartos de solteiro, sendo um com berço, se é que existe algum por aqui.
- Acho que não posso atendê-los. O que tenho é um belo quarto para casal, onde
poderia pôr um berço.
- Creio que não nos serve - disse Philip.
- Para a semana que vem posso dar-lhes mais outro quarto. Brighton está agora
muito cheia e os hóspedes têm de contentar-se com o que se pode arranjar.
- Se for só por alguns dias, Philip, acho que podíamos remediar-nos - disse
Mildred.
- O mais conveniente seriam dois quartos. Pode recomendar-nos outra casa onde
aceitem hóspedes?
- Recomendar, posso, mas não creio que encontre coisa melhor do que aqui.
- Se fizesse o favor de me dar o endereço...
A casa indicada pela gorda matrona ficava na rua próxima e para lá se dirigiram.
Philip podia caminhar bem, embora tivesse de se apoiar numa bengala. Sentia-se um
tanto fraco. Mildred levava a menina nos braços. Deram alguns passos em silêncio. Ao
cabo de um momento, viu que Mildred chorava. Aborreceu-o, mas não o mostrou.
Mildred, porém, obrigou-o a dar atenção.
- Empreste-me um lenço, sim? - pediu. - Não posso tirar o meu, por causa da
criança - disse com a voz estrangulada pelos soluços, voltando o rosto para o lado
oposto ao dele.
Philip deu-lhe o lenço mas não disse nada. Ela enxugou os olhos e, ante o silêncio
dele, continuou:
- Nem que eu fosse leprosa...
- Por favor, não faças cenas na rua - disse ele.
- é tão esquisito para os outros, insistir daquela maneira em quartos separados...
Que pensarão de nós?
- Se soubessem as circunstâncias, não se surpreenderiam com a nossa moral -
respondeu Philip.
Ela olhou-o de soslaio.
- Vai dizer que não somos casados? - perguntou vivamente.
- Não.
- Então por que não vive comigo como se fôssemos casados?
- Não posso explicar, querida. Não quero humilhar-te, mas isso é simplesmente
impossível. Acredito que seja tolo e absurdo, mas é mais forte do que eu. Amava-te
tanto que, agora... - Calou-se de repente. - Afinal de contas, não há explicação para
estas coisas.
- Ah! Grande amor devia ser esse! - exclamou ela.
A pensão que lhes fora indicada era dirigida por uma solteirona saltitante, de
olhos astutos e conversa volúvel. Ofereceu-lhos um quarto de casal a vinte e cinco
xelins semanais por pessoa e mais cinco xelins pela criança. Podiam, também, dispor
de um quarto para cada pessoa pagando mais uma libra por semana.
- Tenho de cobrar isso - explicou a mulher à guisa de desculpa - porque podia
pôr duas camas até num quarto para solteiro.
- Acho que isso não nos arruinará. Qual é a tua opinião, Mildred?
- Oh! Tanto me faz. Qualquer coisa me serve.
Philip relevou essa resposta azeda com uma risada e, como a dona da pensão
tivesse providenciado para mandar buscar a bagagem, sentaram-se para descansar. O
pé de Philip doía um pouco e foi com prazer que o pousou numa cadeira.
- Acho que não faz mal estar sentada na mesma sala consigo - disse Mildred,
agressivamente.
- Não vamos discutir, Mildred - retorquiu ele delicadamente.
- Não sabia que você podia dar-se ao luxo de deitar fora uma libra por semana.
- Não te zangues comigo. Asseguro-te que é essa a única maneira de podermos
viver juntos.
- Acho que me despreza, é o que é.
- Claro que não. Por que havia de desprezar-te?
- Isto é tão fora do natural...
- É? Não estás apaixonada por mim, pois não?
- Eu?! Por quem me toma?
- Se ao menos fosses uma mulher ardente... Mas não é esse o caso.
- Isso é tão humilhante... - retorquiu ela, amuada.
- Ora... se fosse a ti, não faria tanto barulho, por causa disto.
Havia cerca de doze pessoas na pensão. Comiam numa sala escura e estreita, em
redor de uma comprida mesa, à cabeceira da qual se sentava a proprietária, para servir.
A comida era má. A dona da casa dizia que era cozinha francesa e com isso queria dar
a entender que a qualidade inferior dos géneros estava disfarçada por molhos mal
feitos: solho a fingir de linguado e carneiro da Nova Zelândia mascarado de cordeiro.
A cozinha era pequena e ficava em lugar impróprio, de sorte que tudo era servido
morno. Os pensionistas eram aborrecidos e pretensiosos: velhas senhoras com filhas
solteironas, celibatários ridículos, de maneiras afectadas, pálidos empregados do
comércio, de meia-idade, acompanhados de esposas que falavam das filhas casadas e
dos filhos que ocupavam um bom cargo nas colónias... à mesa, discutia-se o último
romance de Miss Corelli; alguns gostavam mais de Lord Leighton que de Alma
Tadema e outros gostavam mais de Alma Tadema que de Lord Leighton. Mildred em
breve contou às senhoras o seu romântico casamento com Philip, e este viu-se objecto
de interesse, porque a família, gente de muito boa posição, o deserdara, ao vê-lo casar
quando era apenas um «estodante». E o pai de Mildred, que tinha uma grande
propriedade lá para as bandas do Devonshire, não queria fazer nada pelo casal, porque
a filha casara com Philip. Era por isso que tinham ido para uma pensão e a criança não
tinha ama. Ocupavam dois quartos porque estavam habituados a grandes
comodidades, e não gostavam de dormir em quartos acanhados. Os outros hóspedes
também ofereciam explicações para a sua presença; um dos cavalheiros celibatários ia
geralmente passar as férias ao Metrópole, mas gostava de uma companhia alegre, coisa
que não se consegue nos hotéis dispendiosos. E a senhora que tinha uma filha
solteirona mandara reformar a sua linda casa de Londres. «Gwennie, minha querida -
dissera à donzela - este ano não podemos gastar muito no veraneio.» E assim tinham
ido para ali, embora não estivessem habituados a morar em pensões... Mildred achavaos
a todos muito distintos, pois dizia detestar gente vulgar e rude. Gostava que o
cavalheiro fosse cavalheiro em toda a extensão da palavra.
- Quando as pessoas são cavalheiros e senhoras - dizia ela - gosto que sejam
cavalheiros e senhoras de verdade.
Esta observação pareceu enigmática a Philip, mas, quando ouviu Mildred fazê-la
duas ou três vezes a diferentes pessoas e verificou que estas concordavam
calorosamente, chegou à conclusão de que tais palavras eram obscuras apenas para a
sua inteligência.
Era a primeira vez que Mildred e Philip passavam todo o tempo juntos. Em
Londres não a via com tanta frequência. Ficava o dia inteiro no hospital e, quando
voltava, as preocupações domésticas, a criança e os vizinhos davam-lhes assunto para
conversa até a hora em que ele começava a estudar. Agora, passava todo o dia com ela.
Após a primeira refeição, desciam para o mar. Enchiam a manhã com um banho e um
passeio pela praia. à noite, depois de meterem a menina na cama. iam para o cais, onde
as horas decorriam toleravelmente, pois ficavam a ouvir música e a ver as pessoas que
passavam. (Philip divertia-se a imaginar quem eram e a tecer pequenas histórias em
torno delas; adquirira o hábito de responder só com a boca às observações de Mildred,
de sorte que os seus pensamentos não eram perturbados). As tardes, porém, eram
longas e aborrecidas. Sentavam-se ambos na areia. Mildred dizia que deviam tirar o
maior proveito possível do «Doutor Brighton» e Philip não podia ler porque a
companheira fazia frequentes observações sobre isto e aquilo. Se não lhe dava atenção,
ela queixava-se.
- Ora, ponha esse aborrecido livro de lado. Não pode fazer-lhe bem estar sempre
a ler. Estragar a cabeça, é o que pode acontecer, Philip.
- Asneiras! - replicava ele.
- Além disso, é falta de educação.
Philip descobriu que era difícil conversar com ela. Não tinha capacidade para
atentar no que ela própria dizia, de modo que um cão que lhe atravessava o campo da
visão ou um homem de jaqueta berrante que passava evocava uma observação e já ela
esquecia aquilo em que estava a falar. Tinha fraca memória para nomes e ficava
irritada quando não se lembrava deles. Por isso, parava no meio de uma história, para
espremer os miolos. Frequentemente, desistia, vencida, mas não raro a palavra
esquecida lhe ocorria mais tarde e interrompia Philip, que estava a falar de coisas
completamente diferentes.
- Collins, exactamente! Tinha a certeza de que me lembraria. Collins, era esse o
nome de que me não lembrava.
Isso exasperava Philip, que assim ficava com a certeza de que Mildred não lhe
dava ouvidos. No entanto, quando se calava, a rapariga censurava-lhe o ar taciturno. O
espírito dela era desses que não podem fixar-se cinco minutos em abstracções. Quando
Philip dava largas ao seu gosto pelas generalizações, ela apressava-se a revelar o seu
tédio. Mildred sonhava muito e como se lembrava dos seus sonhos com todas as
minúcias, narrava-os todos os dias prolixamente.
Certa manhã Philip recebeu uma longa carta de Thorpe Athelny. Estava a gozar
as férias da maneira teatral que o caracterizava e na qual havia bastante bom-senso.
Havia dez anos que fazia sempre o mesmo. Levava a família para um campo de lúpulo
em Kent, não longe da casa paterna de Mrs. Athelny, e lá passavam as três semanas
ajudando à colheita. Esse trabalho ao ar livre proporcionava-lhes dinheiro, com grande
satisfação de Mrs. Athelny, e renovava-lhes o contacto com a terra-mãe. Era nisto que
Athelny insistia. A permanência no campo dava-lhes uma força nova. Era corno uma
cerimónia mágica, mercê da qual renovavam a juventude, o vigor dos membros e a
bonomia do espírito. Philip ouvira-o dizer muitas coisas fantásticas, retóricas e
pitorescas sobre o assunto. Agora, Athelny convidava-o a passar um dia com eles:
desejava transmitir-lhe certas meditações sobre Shakespeare e sobre o copofónio. Além
disso, as crianças reclamavam a presença do tio Philip. Philip tornou a ler a carta à
tarde quando estava sentado com Mildred, na praia. Pensou em Mrs. Athelny, a alegre
mãe de tantos filhos, com a sua bondosa hospitalidade e o seu bom humor; em Sally,
tão séria para a idade que tinha, com os seus engraçados modos um pouco maternais, o
ar de autoridade, as longas tranças louras e a ampla testa. E depois, em bando,
lembrou-se de todos os outros, alegres, barulhentos, saudáveis e simpáticos. Teve
saudades daquela gente. Tinham os Athelny uma qualidade que ele se lembrava de ter
encontrado noutras pessoas, e que era a bondade. Só agora percebia isso, mas era
evidentemente a beleza daquela bondade que o atraía. Em teoria, não acreditava em
semelhante coisa: se a moral era simples questão de conveniência, bem e mal não
tinham sentido. Não gostava de ser ilógico, mas tinha ali, diante de si, uma bondade
simples, natural, espontânea, e achava-a bela. Meditando, lentamente, rasgou a carta
em pedacinhos. Não via como ir sem Mildred, e não queria ir com ela.
Fazia muito calor, o céu estava limpo, e eles haviam-se refugiado num recanto
sombrio. A criança, muito séria, brincava com seixos, na praia. De quando em quando,
engatinhava até Philip e dava-lhe uma pedrinha, depois tomava-a de novo e colocava-a
cuidadosamente na areia. estava entretida num brinquedo misterioso e complicado,
cujas regras só ela compreendia. Mildred dormia. Deitada, com a cabeça atirada para
trás, tinha a boca levemente aberta, as pernas estendidas, e as botinas sobressaíam das
saias de maneira grotesca. Os olhos de Philip tinham estado vagamente fitos nela, mas
agora examinava-a com atenção especial. Lembrou-se de que a amara apaixonadamente
e perguntou a si próprio por que motivo lhe era agora totalmente indiferente.
Aquela transformação enchia-o de uma dor surda. Parecia-lhe que tudo quanto sofrera
fora em pura perda. O contacto da sua mão provocara-lhe êxtase; desejara penetrar-lhe
na alma, a fim de poder participar de todos os seus pensamentos e comoções. Sofrera
agudamente porque, quando o silêncio caía entre ambos, uma observação que partisse
dela mostrava quão distanciados andavam os seus pensamentos. E rebelara-se ante o
muro intransponível que isola as personalidades umas das outras. Achava estranhamente
trágico tê-la amado de maneira tão doida e não a amar agora. às vezes, odiava-a.
Ela era incapaz de aprender, e a experiência da vida nada lhe ensinara. Continuava tão
estúpida como antes. Ficava revoltado ao ver a insolência com que ela se dirigia à
criada da pensão.
Pôs-se então a reflectir nos seus planos. No fim do quarto ano, estaria em
condições de fazer o exame de obstetrícia e em mais um ano estaria diplomado.
Poderia então tratar de uma viagem à Espanha. Desejava ver as telas que conhecia
apenas de reproduções fotográficas. Sentia de modo profundo que El Greco guardava
um segredo de particular importância para ele; esperava descobri-lo em Toledo. Não
queria fazer as coisas com grande largueza. Com cem libras, podia viver seis meses em
Espanha: se Macalister lhe indicasse outro bom negócio, ganharia facilmente essa
soma. O seu coração inflamava-se ao pensar nas velhas e belas cidades e nas planícies
pardacentas de Castela. Estava convencido de que poderia tirar da vida muito mais do
que ela lhe oferecia agora. Achava que, em Espanha, viveria com maior intensidade.
talvez lhe fosse possível ser médico nalguma daquelas antigas cidades, onde havia
tantos estrangeiros em trânsito ou residentes, e ganhar assim a vida. Isso, porém, seria
muito mais tarde. Primeiro, precisava de ocupar um ou dois lagares em hospitais, pois
assim ganharia experiência e ser-lhe-ia fácil conseguir posteriormente uma colocação.
Desejava obter um posto de médico de bordo, num desses grandes cargueiros que se
demoram muito tempo nos portos, permitindo a visita aos lugares onde param.
Desejava conhecer o Oriente e a sua fantasia estava cheia de quadros de Banguecoque,
de Xangai e dos portos do Japão. Imaginava palmeiras, céus ardentes e azuis, gente de
pele escura, pagodes; os perfumes orientais inebriavam-lhe as narinas. O coração batialhe
num apaixonado desejo pelo que o mundo tem de belo e de estranho.
Mildred acordou.
- Acho que dormi - disse. - Então, sua travessa, que é que fez? Ontem, estava com
o vestido limpo e veja como está agora, Philip.
XCV
Quando voltaram para Londres, Philip começou o seu trabalho de auxiliar nas
enfermarias de cirurgia. Não estava tão interessado na cirurgia como na medicina, que
sendo uma ciência mais empírica, oferecia campo mais vasto à imaginação. O trabalho
era agora mais árduo do que na secção médica. Havia uma aula das nove às dez, hora a
que entrava na enfermaria. Ali se faziam os curativos, retiravam-se os pontos e
renovavam-se as ataduras. Philip orgulhava-se um pouco da leveza da sua mão e
divertia-se a arrancar palavras de aprovação à enfermeira. Em certas tardes da semana,
havia operações. Em pé, ao fundo do anfiteatro, Philip, de bata branca, apressava-se a
passar os instrumentos ao cirurgião ou a limpar o sangue do campo operatório.
Quando se tratava de alguma operação rara, o anfiteatro enchia-se, mas em geral não
havia ali mais de meia dúzia de estudantes, de maneira que as coisas se passavam
numa intimidade que Philip achava agradável. Naquela época, a humanidade parecia
ter a paixão da apendicite e muitos casos eram ali operados. O cirurgião com quem
Philip trabalhava tinha uma amistosa rivalidade com um colega, para ver quem tirava
um apêndice em menos tempo e com menor incisão.
A seu tempo, Philip foi posto no serviço de urgência. Os estudantes dividiam-se
em turnos que duravam três dias e durante os quais ficavam no hospital e tomavam as
refeições na sala comum. Tinham um quarto no rés-do-chão, próximo do serviço de
acidentes com uma cama que de dia se transformava em armário. O estudante de
serviço tinha de ficar à mão dia e noite, para atender os sinistrados. Não paravam
nunca e não decorriam mais que uma ou duas horas sem que soasse a sineta, que
ficava exactamente por cima da cabeceira, fazendo-o levantar-se da cama
instintivamente. Naturalmente, a noite de sábado era a mais movimentada, sendo a
hora do encerramento dos cafés e casas de diversões a de mais intenso trabalho. A
polícia trazia homens terrivelmente embriagados, a necessitar de uma lavagem ao
estômago. As mulheres, um tanto alcoolizadas também, apresentavam-se com
ferimentos na cabeça ou com o nariz posto a sangrar pelos maridos. Algumas juravam
apresentar queixa à polícia e outras, envergonhadas, declaravam que aquilo fora
desastre. O que o estudante podia fizer, fazia, mas, se havia algum caso importante,
mandava chamar o cirurgião interno: tinha nisto muito cuidado, pois o médico não
gostava de descer cinco lances de escadas por uma coisa de nada. Os casos variavam
de golpes nos dedos a carótidas cortadas. Chegavam rapazes com as mãos esmagadas
por uma máquina, homens que tinham sido atropelados por veículos, e crianças que
haviam partido uma perna ou um braço quando brincavam. De quando em quando a
polícia trazia suicidas frustrados. Philip viu um homem de aspecto horrendo e olhos
tresloucados, com um enorme golpe que ia de orelha a orelha, e que ali ficou sob a
custódia de um guarda, em silêncio, furioso por estar vivo. Não fazia segredo da sua
determinação de tentar novamente matar-se logo que se visse livre. As enfermarias
estavam cheias e o cirurgião interno encontrava-se perante um dilema, quando os
doentes eram trazidos pela polícia: se fossem mandados para a esquadra e lá viessem a
morrer, os jornais diriam coisas desagradáveis; e era muito difícil, às vezes, dizer se um
homem estava moribundo ou bêbado. Philip só ia para a cama quando estava muito
cansado, para não ter o incómodo de levantar-se daí a uma hora. Sentava-se na sala do
serviço de acidentes e, nos intervalos do trabalho, conversava com a enfermeira da
noite. Era uma mulher grisalha, de aparência masculina, que ocupava aquele lugar
havia vinte anos. Gostava do serviço porque era dona de si mesma e não havia freira
que a incomodasse. Os seus movimentos eram lentos, mas possuía uma capacidade de
trabalho imensa e jamais falhava em casos de emergência. Os estudantes, quase sempre
inexperientes ou nervosos, achavam nela um esteio. A enfermeira vira centenas deles e
não lhe causavam a menor impressão: chamava-lhes sempre Mr. Brown. E quando,
protestando, lhe diziam os seus nomes verdadeiros, limitava-se a menear a cabeça e
continuava a chamar-lhes Mr. Brown. Philip gostava de palestrar com a enfermeira,
naquela sala nua, com os dois divãs de crina, à luz flamejante do gás. Havia muito que
ela deixara de olhar como seres humanos as pessoas que entravam. Para ela, tratava-se
de bêbados, de braços quebrados ou de pescoços cortados. Encarava o vício, a miséria e
a crueldade do mundo como coisas naturais. Nas acções humanas, nada encontrava
que elogiar ou censurar. Aceitava-as. Tinha uma espécie de humor macabro.
- Lembro-me de um suicida - disse ela um dia a Philip - que se atirou ao Tamisa.
Pescaram-no e trouxeram-no para cá e dez dias depois apanhou a febre tifóide, por ter
engolido água do rio.
- Morreu?
- Morreu. Nunca pude saber se foi suicídio ou não... São uns tipos engraçados,
esses suicidas. Recordo-me de um homem que perdera a mulher e que não encontrava
trabalho. Empenhou as roupas e comprou um revólver, mas fez o serviço muito mal: só
tirou um olho, e acabou por salvar-se. Depois, acredite, sem um olho e com uma parte
da cara a menos, chegou à conclusão de que, no fim de contas, este mundo não era
muito ruim. Daí por diante, passou a viver feliz. Uma coisa que sempre notei é que as
pessoas não se suicidam por amor, como seria de esperar; isso não passa de uma
fantasia dos romancistas. Suicidam-se porque não têm dinheiro. Não sei por que é.
- Sem dúvida porque o dinheiro é mais importante do que o amor - sugeriu
Philip.
Fosse como fosse, naquela época os pensamentos dele estavam bastante
ocupados com questões de dinheiro. Descobrira a pouca verdade que havia naquele
dito frívolo que ele próprio repetira, segundo o qual onde come uma pessoa podem
comer duas. As despesas começavam a apoquentá-lo. Mildred não era boa dona de
casa e eles gastavam tanto com a comida como se comessem num restaurante. A
criança precisava de roupas e Mildred, de calçado, sombrinha e outras pequenas coisas
sem as quais não podia passar. Ao voltarem de Brighton, ela anunciou a intenção de
procurar emprego, mas não tomou providências para isso, até que um dia uma forte
gripe a levou à cama durante uma quinzena. Quando se restabeleceu, respondeu a dois
anúncios, mas nada conseguiu: ou chegava tarde de mais, quando as vagas já estavam
preenchidas, ou o trabalho parecia-lhe superior às suas forcas. Recebeu certa vez uma
proposta, mas o salário era apenas de catorze xelins por semana e achava valer mais do
que isso.
- Não convém a gente deixar-se explorar - observou. - Ninguém respeita quem se
vende barato de mais.
- Não acho muito mau catorze xelins - retorquiu Philip, seco.
Não podia deixar de pensar no auxílio que essa quantia representaria para as
despesas da casa. Mildred começava a insinuar que não conseguia emprego porque
não tinha um vestido decente para se apresentar. Philip deu-lhe o vestido e ela fez uma
ou duas tentativas mais. Pareceu-lhe, porém, que Mildred não se empenhara nelas.
Não queria trabalhar. A única maneira que Philip conhecia de ganhar dinheiro era na
Bolsa. Andava ansioso para repetir a tentativa feliz do Verão; mas rebentara a guerra
no Transval e não se negociavam valores sul-africanos. Macalister contou-lhe que,
dentro de um mês, Redvers Buller entraria em Pretória e a alta seria certa. O remédio
era esperar com paciência. Era necessário um revés dos ingleses, a fim de que os títulos
descessem um pouco; então, sim, valeria a pena comprar. Philip começou a ler
assiduamente os Comentários da City no seu jornal favorito. Andava preocupado e
irritado. Uma ou duas vezes, falou asperamente a Mildred e, como ela não tinha tacto
nem paciência, respondeu-lhe de mau modo, e questionaram. Philip manifestava
sempre o seu arrependimento pelo que dissera, mas Mildred, que não sabia perdoar,
ficava amuada um ou dois dias. Exasperava Philip de todos os modos: pelo jeito de
comer e pelo desalinho em que deixava as roupas na sala de estar. Emocionado pela
guerra, Philip lia avidamente os jornais da manhã e da tarde. Mildred, porém, não se
interessava pelos acontecimentos. Travara relações com uma ou duas pessoas que
moravam na mesma rua. Perguntara-lhe uma delas se gostaria de receber a visita do
pastor. Mildred usava aliança e intitulava-se Mrs. Carey. Nas paredes da casa, viam-se
alguns dos desenhos feitos por ele em Paris: eram nus, dois de mulheres e um de
Miguel Ajuria, este último em pé, firmemente plantado no solo e com os punhos
cerrados. Philip conservava-os porque eram os seus melhores trabalhos e porque lhe
lembravam dias felizes. Havia muito que Mildred encarava aqueles desenhos com
desagrado.
- Preferia que tirasse esses desenhos da parede, Philip - disse-lhe por fim. - Mrs.
Foreman, a do número treze, veio aqui ontem de tarde e eu não sabia para que lado
olhar. Não tirou os olhos deles.
- Mas que têm eles, afinal?
- São indecentes. Ter desenhos de gente nua... Acho isso repugnante. E depois,
não fica bem para a menina. Ela começa a compreender as coisas.
Como podes ser tão vulgar?
- vulgar? Decente é que é. Nunca disse nada, mas acha que gosto de passar todo
o santo dia a olhar para essa gente em pêlo?
- Não tens a menor noção do ridículo, Mildred? - perguntou ele friamente.
- Não sei que tem o ridículo a ver com isto. Vontade não me faltou de tirar essas
coisas das paredes. Quer saber o que penso desses desenhos? Acho que são nojentos.
- Não me interessa o que pensas e proíbo-te de lhes mexer.
Quando Mildred se zangava com Philip, punia-o através da filha. A pequena
gostava tanto dele como ele dela e era com grande prazer que todas as manhãs se
arrastava para o seu quarto (estava quase com dois anos e já podia muito bem) e subia
para cima da cama. Quando Mildred a impedia de fazer isso, chorava com desespero.
às observações de Philip, a mãe respondia:
- Não quero que ela se acostume mal.
E se ele dizia qualquer coisa, respondia:
- Você nada tem que ver com o que faço a minha filha. Quem o ouvisse, pensaria
que era o pai. A mãe dela sou eu e devo saber o que é bom para ela.
A estupidez de Mildred exasperava-o, mas agora era-lhe tão indiferente que só às
vezes o encolerizava. Habituou-se a tê-la em casa. Veio o Natal e com ele dois dias de
folga. Philip trouxe alguns ramos de azevinho e enfeitou o alojamento. No dia de Natal
deu pequenos presentes a Mildred e à criança. Como fossem apenas dois, não podiam
comer um peru, mas Mildred assou uma galinha e aqueceu o pudim de Natal que
comprara numa mercearia das redondezas. Abriram uma garrafa de vinho. Depois do
jantar, Philip sentou-se na sua poltrona ao pé do lume, a fumar o seu cachimbo. O
vinho, a que não estava habituado, fazia-o esquecer um instante as preocupações de
dinheiro que constantemente o assaltavam. Sentia-se feliz e em conforto. Mildred veio
dizer-lhe que a menina desejava dar-lhe o beijo das boas-noites e, com um sorriso, ele
entrou no quarto de dormir da rapariga. Depois, dizendo à pequena que dormisse,
apagou o gás e, deixando a porta aberta para o caso de ela chorar, voltou para a sala.
- Onde vais sentar-te? - perguntou a Mildred.
- Fique na sua cadeira. Vou sentar-me no chão.
Quando se instalou, Mildred aninhou-se diante do lume e recostou-se-lhe nos
joelhos. Philip não pôde deixar de lembrar-se de que tinham ficado uma vez assim, no
quarto dela, em Vauxhall Bridge Road, mas as posições estavam invertidas. Era ele
quem estava sentado no soalho, com a cabeça reclinada nos joelhos de Mildred. Com
que paixão a amava naquele tempo! Sentiu então uma ternura que havia muito não
experimentava. Parecia-lhe ainda ter ao redor do pescoço os suaves bracinhos da
criança.
- Estás bem? - perguntou.
Mildred ergueu os olhos para o companheiro e, com um leve sorriso, inclinou a
cabeça afirmativamente. Ficaram a olhar para o lume em silêncio, com ar sonhador. Por
fim ela voltou-se e fitou-o com curiosidade.
- Sabe que ainda não me beijou uma vez, sequer, desde que estou aqui? - disse de
repente.
- Queres?- ele sorriu.
- Acho que já não gosta de mim.
- Gosto muito de ti.
- Gosta mais da menina.
Não respondeu e Mildred repousou-lhe a face na mão.
- Já não está zangado comigo? - perguntou, dali a pouco, com os olhos postos no
chão.
- Por que havia de estar?
- Nunca me interessei por si como agora. Só depois de passar pelo fogo é que
aprendi a amá-lo.
Philip sentiu um calafrio ao ouvi-la empregar aquela frase que ela lera nas
novelas baratas que devorava. Ficou depois a cismar sobre se o que Mildred dissera
tinha algum sentido para ela própria. Talvez não conhecesse outro modo de expressar
os verdadeiros sentimentos, senão a linguagem pomposa de The Family Herald.
- É uma coisa tão esquisita vivermos juntos assim...
Não respondeu e o silêncio fez-se entre ambos. Mas por fim Philip falou como se
tivesse notado aquela pausa:
- Não deves querer-me mal. Não se podem evitar essas coisas. Lembro-me de que
te achava malvada e cruel porque fazias isto e aquilo. Mas era grande tolice minha.
Não me tinhas amor e era absurdo acusar-te por isso. Pensei que podia fazer com que
me amasses, mas vejo agora que tal coisa era impossível. Não sei o que faz com que
nos amem, mas seja o que for, é a única coisa que importa e, quando ela não existe, não
a podemos criar com bondade, generosidade ou coisa que o valha.
- Acho que, se amasse de verdade, ainda me amaria agora...
- Também creio. Lembro-me de ter pensado naquele tempo que o meu amor
duraria para sempre. Achava preferível morrer a viver longe de ti. Cheguei a desejar
ardentemente que envelhecesses, que ficasses mirrada, enrugada, para que ninguém
mais se importasse contigo e pudesse ter-te toda para mim.
Ela não respondeu e instantes depois ergueu-se e disse que ia para a cama.
Esboçou um sorriso tímido e breve.
- Hoje é dia de Natal, Philip. Não quer dar-me um beijo de boa-noite?
Philip pôs-se a rir, corou de leve e beijou-a. Ela foi para o quarto e ele começou a
ler.
XCVI
A tempestade desencadeou-se duas ou três semanas mais tarde. A atitude de
Philip levara Mildred ao auge de uma estranha exasperação. Havia muitas e diversas
emoções na sua alma, e passava com facilidade de uma a outra disposição de ânimo.
Ficava grande parte do tempo sozinha, a cogitar na sua situação. Não punha todos os
seus sentimentos em palavras, nem mesmo sabia distingui-los uns dos outros, mas
certas coisas permaneciam-lhe no espírito e examinava-as muitas vezes. Nunca
compreendera Philip, nem gostara muito dele. Mas gostava de tê-lo a seu lado por
julgá-lo um cavalheiro. Impressionava-a o facto de Philip ser filho de um médico e
sobrinho de um pastor. Desprezava-o um pouco por tê-lo levado a tantas tolices e ao
mesmo tempo nunca se sentia completamente bem na presença dele. Não podia ficar à
vontade e adivinhava que ele estava a criticar-lhe os modos.
Quando, cansada e cheia de vergonha, ela se refugiara na pequena habitação de
Kensington, queria apenas ficar em paz. Era um consolo pensar que ali não havia
aluguer a pagar. Não precisava sair com bom ou mau tempo e podia ficar
tranquilamente na cama se não se sentisse bem. Abominava a existência que tinha. Era
horrível ter de mostrar-se afável e subserviente. E até agora, ao lembrar-se disso, ela
chorava com pena de si própria, ao pensar na grosseria dos homens e na sua
linguagem brutal. Mas lembrava-se disso muito raramente. Estava agradecida a Philip
por tê-la salvo e quando recordava com que sinceridade a amara e quão mal o tratara,
sentia um angustiante remorso. Era-lhe fácil reparar o mal feito. Isso pouco significava
para ela. Ficara surpreendida quando Philip recusara a sua insinuação, mas encolhera
os ombros: Philip que se desse ares, se isso lhe aprouvesse. Pouco lhe importava, pois
em breve estaria bastante ansioso e seria então a sua vez de recusar. Se ele pensava que
aquilo era uma privação para ela, estava muito enganado. Não tinha dúvidas quanto
ao seu poder sobre ele. Philip era esquisito, mas conhecia-o a fundo. Brigara com ela
vezes sem conta e em todas as ocasiões jurara nunca mais a ver. No entanto, pouco
depois, vinha pedir-lhe de joelhos que lhe perdoasse. Vibrava ao lembrar-se de como
ele rastejara a seus pés, pronto a deitar-se no chão para que o pisasse. Vira-o chorar.
Sabia exactamente como tratá-lo: não lhe dar atenção, fingir que não lhe percebia o
mau humor, deixá-lo a sós como castigo; dentro em pouco se humilharia. Ria
interiormente, bem-humorada, ao pensar que o fizera beijar o chão diante de si. Agora
tinha experiência. Conhecia os homens e não queria saber deles. Estava resolvida a
ficar com Philip. No fim de contas, esse, pelo menos, era um cavalheiro em toda a
extensão da palavra e isso não era coisa para se desprezar. De qualquer modo, não
tinha pressa e não estava disposta a dar o primeiro passo. Sentia-se contente por ver
quanto Philip se apegava à menina, embora isso lhe fosse motivo de riso. Era, cómico
que se afeiçoasse tanto à filha de outro homem. Philip era esquisito, não havia a menor
dúvida.
Mas algumas coisas a deixavam surpreendida. Habituara-se à subserviência dele.
Nos velhos tempos ele sentia-se feliz em fazer alguma coisa para ela e Mildred
acostumara-se a vê-lo ficar abatido por causa de uma resposta áspera e em êxtase ante
uma palavra de bondade. Agora mostrava-se diferente, e Mildred dizia para consigo
que Philip nada melhorara no ano que passara. Nem por um momento lhe ocorrera
que pudesse haver qualquer mudança nos seus sentimentos e achava que ele estava
apenas a fingir quando não dava atenção às suas explosões de génio. Philip, às vezes,
queria ler e pedia-lhe que cessasse de conversar: ela não sabia se explodir ou ficar
carrancuda, mas acabava tão intrigada que não fazia nada. Depois, houve aquela
ocasião em que ele lhe disse desejar manter as relações de ambos num carácter
platónico e, lembrando um incidente do passado comum, ocorreu a Mildred que ele
temesse a possibilidade de uma gravidez. Deu-se ao trabalho de tranquilizá-lo. Aquilo
não lhe importava. Era dessas mulheres incapazes de compreender que um homem
pudesse não ter a obsessão do sexo. As suas relações com os homens não haviam sido
de natureza a fazê-la mudar de ideia e não concebia que fossem capazes de ter outro
interesse. Ocorreu-lhe por fim que Philip amava outra mulher. Passou a vigiá-lo,
suspeitando das enfermeiras do hospital ou de pessoas que ele encontrava fora de casa.
Perguntas ardilosas levaram-na à conclusão de que não havia nenhuma criatura
perigosa em casa de Athelny e foi obrigada a admitir que Philip, como a maioria dos
estudantes de medicina, era indiferente ao sexo das enfermeiras com quem o trabalho o
punha em contacto. Associavam-nas a um vago cheiro de iodofórmio. Philip não
recebia cartas e não tinha nenhum retrato de mulher entre as suas coisas. Se amava
alguém, conseguia ocultar isso com muita habilidade e respondia a todas as perguntas
de Mildred com franqueza e, aparentemente, sem desconfiar que fossem feitas por
algum motivo especial.
- Não creio que goste de outra mulher - concluiu de si para si.
Foi um alívio, porque, nesse caso, era certo que a amava. Mas, se assim fosse, o
seu comportamento era muito estranho. Se era para tratá-la daquele modo, por que a
convidara para morar na sua companhia? Não era natural. Mildred não era mulher que
concebesse a possibilidade da compaixão, da generosidade ou da bondade. Chegava a
uma única conclusão: que Philip era esquisito. Meteu-se-lhe na cabeça que as razões
daquela conduta eram cavalheirescas e, com a fantasia excitada pelas extravagâncias
dos romances baratos, arquitectava toda a espécie de explicações novelescas para a
delicadeza de Philip. A sua imaginação fervilhava de histórias de incompreensões
amargas, purificações pelo fogo, almas brancas de neve, e mortes no frio cruel de uma
noite de Natal. Decidira pôr termo a todas aquelas tolices de Philip, quando fossem a
Brighton. Lá ficariam a sós, toda a gente os julgaria marido e mulher, e havia ainda o
mar e a banda musical. Ao verificar que nada induziria Philip a dormir no mesmo
quarto que ela, quando ele lhe falou sobre isso num tom de voz que ainda não lhe
conhecia, percebeu de súbito que ele não a queria. Ficou estupefacta. Lembrou-se de
tudo quanto lhe dissera no passado e do desespero com que a amara. Sentiu-se
humilhada e furiosa, mas possuía uma espécie de insolência natural que a ajudou a
enfrentar a situação. Não fosse Philip pensar que ela o amava, porque isso não era
verdade. Odiava-o às vezes e ardia por humilhá-lo. Sentia-se, porém, tolhida por uma
estranha impotência. Não sabia de que maneira lidar com ele. Começou a ficar nervosa
na sua presença. Uma ou duas vezes, chegou a chorar. Outras tantas, procurou ser
particularmente gentil para com ele. Mas se lhe tomava o braço quando passeavam à
noite, ao longo da praia, logo ele se esquivava como se o contacto lhe fosse
desagradável. Mildred não encontrava explicação para aquilo. O único poder que
exercia sobre o rapaz era por intermédio da menina, de quem Philip parecia cada vez
gostar mais. Podia fazer com que ficasse pálido de raiva: bastava dar na criança uma
palmada ou um empurrão. E as únicas ocasiões em que o antigo sorriso de ternura
vinha aos olhos dele era quando ela estava com a filha nos braços. Notara isso quando
um fotógrafo da praia lhe tirara uma fotografia nessa pose. Depois disso, assumira
frequentemente a mesma atitude, para que Philip a olhasse.
Quando voltaram para Londres, Mildred começou a procurar o trabalho que
afirmara ser fácil de encontrar. Desejava agora ficar independente de Philip. Pensava
na satisfação com que lhe anunciaria que ia alugar quarto e levar a menina. Mas o seu
coração desfaleceu ao entrar em maior contacto com a realidade. Desabituara-se das
longas horas de serviço e não queria sujeitar-se às impertinências das gerentes, além da
sua dignidade se revoltar à ideia de exibir outra vez um uniforme. Aos vizinhos das
suas relações, contara que a sua situação financeira era de desafogo: seria rebaixamento
se soubessem que ela precisava de trabalhar. A sua indolência natural impunha-se.
Não queria abandonar Philip e, uma vez que ele estava pronto a sustentá-la, não via
motivo para isso. Não dispunha de dinheiro para deitar fora, mas tinha casa e comida e
a situação de Philip podia melhorar muito. O tio estava velho e tinha de morrer um dia
e ele herdaria algum dinheiro, e, mesmo como estavam as coisas, era melhor assim do
que escravizar-se de manhã à noite por uns magros xelins semanais. Os seus esforços
rarearam: continuava a ler as colunas de anúncios do jornal simplesmente para mostrar
que desejava trabalhar, se se apresentasse alguma oportunidade que valesse a pena.
Mas tomava-se de pânico à ideia de que Philip se cansasse de sustentá-la. Já não tinha
domínio sobre ele e imaginava que o rapaz lhe permitia ficar, somente porque gostava
da pequena. Meditava e tornava a meditar sobre a situação, concluindo furiosamente
que um dia ainda havia de fazê-lo pagar tudo aquilo. Não se podia conformar com o
facto de já não ser amada. Forçá-lo-ia a amá-la. Sentia-se melindrada e certas vezes, de
maneira curiosa, chegava a desejar Philip. Este mostrava-se agora tão frio que a
exasperava. Pensava incessantemente nele como amante. Achava que Philip a tratava
de modo abominável e não sabia o que fizera para merecê-lo. Não se cansava de repetir
para consigo que viver daquela maneira não era natural. Pensou depois que, se a
situação fosse diferente e estivesse para ter um filho, Philip certamente casaria com ela.
Tinha esquisitices, mas era um cavalheiro em toda a extensão da palavra, e isso
ninguém podia negar... Por fim, a ideia tornou-se-lhe uma obsessão e decidiu forçar
uma mudança nas relações entre ambos. Ele nem ao menos a beijava, e Mildred queria
levá-lo a isso. Recordava-se do ardor com que lhe comprimia os lábios com os seus.
Essa lembrança dava-lhe uma curiosa sensação. Muitas vezes lhe fitava a boca.
Uma noite, em princípios de Fevereiro, Philip disse-lhe que ia jantar com
Lawson, numa festa que o pintor dava no estúdio, para comemorar o seu aniversário.
Avisou que só voltaria tarde. Lawson comprara duas garrafas do famoso ponche da
casa de Beak Street e estavam dispostos a passar uma noite alegre. Mildred perguntou
se iriam mulheres. Philip respondeu que não, pois só homens tinham sido convidados.
Iam apenas ficar sentados a conversar e a fumar. Mildred não achou que isso pudesse
ser muito divertido. Se fosse pintor, havia de cercar-se de meia dúzia de modelos. Foi
para a cama mas não pôde dormir e em dado momento ocorreu-lhe uma ideia.
Levantou-se e foi correr o ferrolho do postigo da porta da frente, a fim de que Philip
não pudesse entrar. Ele voltou por volta da uma hora da madrugada e Mildred ouviuo
blasfemar ao encontrar o postigo fechado. Ergueu-se da cama e abriu-lhe a porta.
- Por que diabo te fechaste? Desculpa o ter-te feito levantar da cama.
- Deixei-o aberto propositadamente... não sei como ele se fechou.
- Volta depressa para a cama, senão apanhas um resfriamento.
Entrou na sala e acendeu o gás. Ela seguiu-o. Aproximou-se do lume.
- Vou aquecer um pouco os pés. Estão que nem um gelo.
Philip sentou-se e começou a tirar os sapatos. Os seus olhos cintilavam e as faces
estavam afogueadas. Mildred achou que ele estivera a beber.
- Divertiu-se bastante? - perguntou, com um sorriso.
- Sim, a noite foi óptima.
Philip não bebera, mas ficara a conversar e a rir e estava ainda excitado. Uma
noitada como aquela lembrava-lhe os velhos tempos de Paris. Estava muito bem
disposto. Tirou o cachimbo do bolso e encheu-o.
- Não vai deitar-se? - indagou ela.
- Ainda não. Não tenho sono. Lawson estava num dos seus dias. Falou pelos
cotovelos, desde que cheguei até que saí.
- Sobre que conversaram?
- Sabe Deus! Sobre todas as coisas deste mundo. Queria que nos visses a berrar
como desesperados, sem que nenhum escutasse os outros.
Philip riu com prazer ao lembrar-se daquilo, e Mildred riu também. Tinha agora
a certeza absoluta de que ele bebera de mais. Era exactamente o que ela esperava.
Conhecia os homens.
- Dá licença que me sente? - perguntou.
Antes que ele respondesse, sentou-se-lhe nos joelhos.
- Se não vais deitar-te, é melhor ires vestir um roupão.
- Ora, estou muito bem assim. - Depois, pondo-lhe os braços em torno do
pescoço, encostou o rosto ao dele e disse: - Porque é tão mau para mim, Phil?
Ele tentou erguer-se, mas ela não o deixou.
- Amo-o muito, Philip.
- Não digas tolices.
- Não, não são tolices, é verdade. Não posso viver sem si. Quero-o!
Ele libertou-se-lhe dos braços.
- Levanta-te, por favor. É uma tolice tua e estás a fazer com que me sinta um
perfeito idiota.
- Amo-o, Philip. Quero reparar todo o mal que lhe fiz. Não posso continuar
assim, isso não está na natureza humana.
Philip deixou-se escorregar da cadeira, e fê-la cair desamparada.
- Sinto muito, mas é tarde de mais.
Ela deixou escapar um soluço dilacerante:
- Mas porquê? Como é que pode ser tão cruel?
- Acho que é porque te amei demasiado. Consumi essa paixão. Só ao pensar nisso
que queres, fico horrorizado. Não posso olhar para ti, agora, sem pensar em Miller e
em Griffiths. Não se pode evitar essas coisas. Talvez seja dos nervos.
Mildred tomou-lhe a mão e cobriu-a de beijos.
- Não faças isso! - exclamou Philip.
Ela atirou-se para trás, na cadeira.
- Não posso continuar assim. Se não me ama, é melhor que me vá embora.
- Não sejas tola, não tens para onde ir. Podes ficar aqui até quando quiseres, mas
deve ficar plenamente entendido que somos apenas amigos e mais nada.
Então ela deixou de súbito o tom veemente de paixão e riu-se. Foi uma risada
insinuante e macia. Aproximou-se dele com ar furtivo e enlaçou-o, provocante. faloulhe
em vez baixa e cariciosa.
- Não seja um velho tonto. Acho que isso são nervos. Nem imagina como sei ser
boazinha.
Inclinou a cabeça e roçou a cara pela dele. Para Philip, o sorriso dela era um ricto
abominável e o brilho daqueles olhos enchia-o de horror. Recuou instintivamente.
- Não quero - exclamou.
Mas ela não o deixou escapar. Procurou-lhe a boca com os lábios. Philip seguroulhe
as mãos e, apertando-as rudemente, empurrou-a para trás.
- Causas-me nojo - disse.
- Eu?
Mildred procurou apoio com a mão na cornija do fogão. Encarou-o por um
instante e de súbito duas manchas vermelhas apareceram-lhe nas faces. Soltou uma
risada aguda de cólera.
- Causo-te nojo!?
Fez uma pausa e respirou com força. Depois rompeu numa torrente furiosa de
impropérios. Gritou a plenos pulmões. Disse-lhe todos os nomes feios que lhe vieram à
mente. Usou uma linguagem tão obscena que Philip ficou estupefacto. Ela sempre se
mostrara tão desejosa de ser requintada, tão chocada ante o que era grosseiro, que
nunca ocorrera ao rapaz que ela conhecesse as palavras que acabara de empregar.
Mildred avançou e ergueu para ele um rosto que a fúria desfigurava. Enquanto
despejava o seu discurso tumultuoso, a saliva espumava-lhe nos lábios.
- Nunca me importei contigo. Nem uma vez! Sempre trocei de ti. Aborrecias-me,
matavas-me de tédio e odiava-te! Se não fosse por dinheiro, nunca me tocarias. Sentia
vómitos quando era obrigada a deixar que me beijasses. Ríamos de ti, eu e Griffiths,
ríamos porque eras um trouxa. Trouxa! Trouxa!
Tornou a irromper em invectivas abomináveis. Acusou-o das faltas mais baixas,
chamou-lhe mesquinho, idiota, vaidoso e egoísta. Cobriu de um ridículo virulento tudo
quanto lhe era caro. Por fim, voltou-lhe as costas para sair. Mas ficou e, numa violência
histérica, gritou-lhe um epíteto sujo e infamante. Tornou a voltar-se, ergueu o trinco da
porta e abriu-a com estrondo. Depois, deu meia volta e arremessou-lhe a injúria que
sabia ser a única que realmente o atingia. pôs na palavra todo o veneno e toda a malícia
de que era capaz. Lançou-lhe em rosto como uma bofetada:
- Aleijado!
XCVII
Philip acordou sobressaltado na manhã seguinte, certo de que era tarde e
olhando para o relógio viu que eram nove horas. Saltou da cama e foi buscar água
quente à cozinha, para fazer a barba. Não viu sinal de Mildred, e as coisas que ela
utilizara para preparar a ceia da noite anterior ainda estavam por lavar, amontoadas no
lavadouro. Bateu-lhe à porta do quarto.
- Acorda, Mildred. é muito tarde.
Ela não respondeu nem mesmo depois de segundo chamamento, mais forte, e
concluiu que devia estar amuada. Philip tinha muita pressa e não podia preocupar-se
com aquilo. Pôs a água a ferver e saltou para a banheira, que costumava encher ao
deitar-se, para que no dia seguinte a água estivesse menos fria. calculava que,
enquanto ele se vestia, Mildred preparasse o café e o deixasse na sala. Fizera isso duas
ou três vezes, quando estava de mau humor. Mas Philip não a sentia mover-se e
compreendeu que, se quisesse comer alguma coisa, teria de prepará-lo. irritou-se por
Mildred lhe pregar aquela partida exactamente na manhã em que dormira de mais.
Quando acabou de aprontar-se, ainda não havia sinal dela. Ouviu-lhe, porém, os
movimentos no quarto. Era evidente que Mildred estava a levantar se. Philip fez o chá
e cortou duas fatias de pão, que cobriu de manteiga. Comeu-as enquanto calçava os
sapatos, depois, desceu as escadas a correr e dirigiu-se para a rua principal, a fim de
apanhar o «eléctrico». Enquanto os seus olhos procuravam nos postos de jornais
cartazes com as notícias da guerra, pensou na cena da noite anterior: agora, que tudo
passara, não podia deixar de ver o grotesco da situação. Achava que se expusera ao
ridículo, mas não era senhor dos seus sentimentos e, naquele instante, eles haviam sido
avassaladores. Estava agastado com Mildred porque ela o metera naquela absurda
posição. Depois, com renovada surpresa, pensou na explosão da rapariga e na suja
linguagem que ela empregara. Não pôde deixar de corar ao lembrar-se da injúria final.
Mas encolheu os ombros desdenhosamente. Havia muito aprendera que, quando os
colegas se zangavam com ele, nunca deixavam de escarnecer da sua deformidade. Vira
no hospital homens que lhe imitavam o caminhar, não na sua frente, como
costumavam fazer os rapazes da escola, mas quando julgavam que não os via. Sabia
agora que não faziam tal coisa por maldade deliberada, mas porque o homem é por
natureza um animal imitativo e porque aquilo era um meio fácil de provocar o riso.
Sabia-o, mas nunca se pudera resignar.
Foi com prazer que se atirou ao trabalho. A enfermaria pareceu-lhe agradável e
amiga quando entrou. A irmã saudou-o com um sorriso rápido e profissional.
- Chegou muito tarde, Mr. Carey.
- Andei na pândega ontem à noite.
- Isso vê-se.
- Obrigado.
Rindo, foi atender o primeiro dos seus casos, um rapaz com úlceras tuberculosas
e tirou-lhe as ligaduras. O rapaz mostrou-se contente por vê-lo e Philip brincou com
ele, enquanto lhe punha as ligaduras novas. Era o preferido dos doentes; tratava-os
com bom humor, tinha mãos leves e delicadas que os não magoavam. Alguns
estudantes eram um pouco rudes e descuidados nos seus métodos. Philip almoçou
com os amigos, no restaurante do clube. A refeição, que foi frugal, consistiu em bolo
com manteiga e uma chávena de cacau. Falaram sobre a guerra. Vários estudantes
estavam a alistar-se mas as autoridades mostravam-se severas e recusavam os que não
tinham feito estágio em hospitais. Alguém sugeriu que, se a guerra continuasse, dentro
em pouco o governo aceitaria com prazer qualquer médico recém-formado. Mas a
opinião geral era a de que a guerra terminaria dentro de um mês. Agora que Roberts
estava no teatro da luta, as coisas chegariam rapidamente a bom termo. Esta era
também a opinião de Macalister; dissera a Philip que deviam ficar à espreita de uma
oportunidade e comprar acções antes que a paz fosse proclamada. Haveria então
grande alta e podiam ganhar bom dinheiro. Philip dera instruções a Macalister para lhe
comprar acções quando a oportunidade se apresentasse. As trinta libras que ganhara
no Verão aguçavam-lhe o apetite e queria agora ganhar alguns centos.
Ao terminar o trabalho do dia, Philip tomou um «eléctrico» para voltar a
Kensington. Ia a conjecturar sobre qual seria a atitude de Mildred, aquela noite. Era um
aborrecimento pensar que provavelmente se mostraria grosseira e recusaria responderlhe
às perguntas. A noite estava quente para aquela época do ano, e mesmo nas ruas
cinzentas do sul de Londres sentia-se o langor de Fevereiro. Após os meses de Inverno,
a natureza torna-se impaciente: corre na terra um frémito prenunciador da Primavera,
quando reassume as suas actividades eternas. Philip gostaria de continuar a viagem no
«eléctrico». Era-lhe desagradável voltar para casa e queria ar livre. Mas o desejo de ver
a criança assaltou-o de súbito e sorriu aos seus próprios pensamentos, ao imaginar a
menina adiantando-se para ele com gritinhos de satisfação. Ficou surpreendido
quando, ao aproximar-se da casa e olhar maquinalmente para cima, não viu luz na
janela. Subiu as escadas e bateu. Nenhuma resposta. Quando saía, Mildred costumava
deixar a chave debaixo do capacho, onde a encontrou. Entrou e dirigiu-se para a sala;
riscou um fósforo. Acontecera qualquer coisa. Não percebeu logo de que se tratava.
Abriu completamente o gás e acendeu-o. O quarto inundou-se subitamente de luz e
Philip olhou em torno. Cortou-se-lhe a respiração. Estava tudo devastado. Todas as
coisas que ali havia tinham sido destruídas por gosto. A raiva apoderou-se dele.
Precipitou-se para o quarto de Mildred. Encontrou-o vazio e às escuras. Quando
acendeu a luz, viu que ela levara todas as suas coisas e as da criança. (Ao entrar, notara
que o carrinho não estava no patamar, como de costume, mas julgou que Mildred
tivesse levado a filha a passear). Todos os objectos que havia sobre o lavatório tinham
sido quebrados. Uma faca cortara em cruz os assentos das duas cadeiras. O travesseiro
fora aberto e havia largos cortes nos lençóis e nas colchas. O espelho parecia ter sido
partido a martelo. Philip estava desnorteado. Entrou no seu quarto. Confusão geral. A
bacia e o jarro estavam em bocados, o espelho fora despedaçado e os lençóis feitos em
tiras. Mildred rasgara no travesseiro um buraco suficiente para introduzir a mão e
espalhara depois as penas pelo quarto. Esburacara os cobertores. No toucador havia
fotografias da mãe de Philip: as molduras e os vidros tinham sido partidos. Philip
dirigiu-se à cozinha. Tudo quanto era susceptível de partir-se fora partido: copos,
tachos, pratos e travessas.
Philip ofegava. Mildred não deixara nenhuma carta, mas apenas aquela ruína
para assinalar o seu ódio. Podia imaginar a cara convulsa com que ela se encarniçara
naquele trabalho de destruição. Voltou à sala e olhou em torno. Estava tão atónito que
já não sentia raiva. Olhou com curiosidade para a faca de cozinha e para o martelo de
partir o carvão que estavam sobre a mesa, onde Mildred os deixara. Nesse instante,
deu com uma comprida faca de trinchar que se encontrava, quebrada, sobre a cornija
do fogão. Para fazer tantos danos, devia ter gasto muito tempo. O retrato que Lawson
lhe fizera estava cortado em cruz e horrivelmente esburacado. Os seus próprios
desenhos tinham sido rasgados em pedaços. E as reproduções fotográficas da Olympia
de Manet, da Odalisque de Ingres e o retrato de Filipe IV tinham sofrido grandes
golpes. Havia rasgões na toalha da mesa, nas cortinas e nas duas poltronas. Estavam
completamente estragadas. Numa das paredes, por cima da mesa que Philip usava
como escrivaninha, achava-se o pedaço de tapete persa que Cronshaw lhe dera.
Mildred sempre o detestara.
- Se é tapete deve ir para o chão - dizia. - Isso não passa de um pedaço imundo de
fazenda, é o que é.
O tapete enfurecia-a porque Philip lhe dissera que aquilo continha a resposta de
um grande enigma. Julgava que estivesse a troçar dela. Cortara-o à faca três vezes, de
cima a baixo, o que decerto lhe exigira alguma força. Agora, lá estava ele em farrapos.
Philip possuía dois ou três pratos brancos e azuis, de nenhum valor mas que comprara
um a um por muito pouco dinheiro: gostava deles pelas recordações que lhes estavam
associadas. Achavam-se agora espalhados no chão, em cacos. Havia longos cortes na
lombada dos seus livros, e Mildred dera-se ao trabalho de arrancar páginas aos
volumes franceses brochados. Os pequenos enfeites do fogão jaziam no sobrado, em
pedaços. Tudo o que uma faca ou um martelo podiam destruir fora destruído.
Tudo quanto Philip tinha em casa, vendido, não daria mais de trinta libras, mas a
maior parte do que possuía eram coisas amigas. Era uma pessoa doméstica, apegava-se
a todas aquelas quinquilharias, simplesmente porque lhe pertenciam. Tinha orgulho no
seu pequeno lar, que com tão pouco dinheiro soubera arranjar, dando-lhe um cunho
pessoal. Atirou-se para uma cadeira desesperado. Como pudera Mildred ser tão cruel?
Foi tomado de súbito temor. Tornou a levantar-se e dirigiu-se ao corredor, onde ficava
o armário em que guardava as suas roupas. Abriu-o. Deu um suspiro de alívio. Ela
parecia tê-lo esquecido e nenhuma das peças fora tocada.
Philip voltou para a sala e, contemplando a cena, ficou a pensar no que havia a
fazer. Não tinha ânimo para tentar recompor as coisas. Além do mais, não havia
comida nenhuma em casa e estava com fome. Saiu para ir comer. Quando voltou,
sentia-se mais calmo. Uma ligeira angústia se apoderou dele, ao pensar na criança.
Ficou a imaginar se ela sentiria ou não a falta dele. Talvez sentisse, no princípio, mas
numa semana o teria esquecido. E dava graças por ter ficado livre de Mildred. Não
pensava nela com rancor, mas com uma total sensação de tédio.
- Espero em Deus nunca mais tornar a vê-la - disse em voz alta.
A única coisa que lhe restava era deixar aqueles quartos. Resolveu avisar a
senhoria na manhã seguinte. Não estava em condições de reparar os danos e restavalhe
tão pouco dinheiro que era obrigado a procurar moradia ainda mais barata. Teria
prazer em sair dali. As despesas eram uma preocupação e a lembrança de Mildred
ficaria para sempre associada àquela casa. Philip sentia-se impaciente e não
descansaria antes de pôr em prática o plano que tinha em mente. Assim, na tarde
seguinte, trouxe um negociante de mobílias em segunda-mão que lhe ofereceu três
libras por todos os seus bens, danificados ou não. Dois dias mais tarde, mudou-se para
uma casa fronteira ao hospital, onde morara ao entrar para a Faculdade. A proprietária
era uma senhora muito decente. Philip ficou com um quarto por seis xelins semanais.
Era pequeno e feio, dava para o pátio das traseiras. Philip, porém, já nada possuía além
das roupas e de um caixote de livros, e estava satisfeito por se instalar tão barato.
XCVIII
Aconteceu então que a sorte de Philip Carey, de nenhuma importância a não ser
para ele próprio, foi atingida pelos acontecimentos por que o seu país estava a passar.
Fazia-se História e o processo era tão momentoso que parecia absurdo poder influir na
vida de um obscuro estudante de medicina. Uma após outra, as batalhas de
Magersfontein, Colenso e Spion Kop, que já tinham sido perdidas nos campos de jogos
de Eton, humilharam a nação e vibraram um golpe de morte no prestígio da
aristocracia e das classes elevadas, que até então não haviam encontrado quem se
opusesse à sua pretensão de possuírem o instinto natural da governação. A velha
ordem estava a ser abalada: na verdade, fazia-se História. Depois, o colosso usou, da
sua força e, errando de novo crassamente, chegou por fim, através do próprio erro, a
algo que se parecia com uma vitória. Cronje rendeu-se em Paardeberg, Ladysmisth foi
libertada e, em princípios de Março, Lord Roberts tomou Bloemfontein.
Foi dois a três dias depois de terem essas notícias chegado a Londres que
Macalister entrou na casa de Beak Street e anunciou alegremente que as coisas estavam
a assumir bom aspecto na Bolsa. A paz aproximava-se. Roberts entraria em Pretória
dentro de poucas semanas e as acções começariam a subir. Tudo indicava que ia haver
uma grande alta.
- Chegou a nossa hora - disse o corretor a Philip. - Não devemos ficar para trás.
Agora ou nunca.
Macalister tinha informações directas. O gerente de uma mina da África do Sul
telegrafara ao sócio principal da firma, a dizer que as instalações estavam intactas.
começariam a trabalhar logo que fosse possível. Aquilo não era uma especulação, mas
um emprego de capital. Para provar a confiança do sócio principal, Macalister contou a
Philip que o homem comprara quinhentas acções para duas irmãs suas. Nunca as
metia em negócio que não fosse tão seguro como o Banco de Inglaterra.
- Vou jogar, até a camisa - disse ele.
As acções estavam cotadas entre dois e um oitavo a dois e um quarto; Macalister
aconselhou Philip a que não fosse ambicioso e se satisfizesse com uma alta de dez
xelins. Ia comprar trezentas para si próprio e sugeriu que Philip ficasse com a mesma
quantidade. Pretendia retê-las para vender quando achasse oportuno. Philip tinha
grande fé no corretor, em parte porque este era escocês, e, portanto, cauteloso por
natureza, e em parte porque acertara da primeira vez. Aceitou pressuroso a proposta.
- Creio que poderemos vendê-las antes da liquidação - disse Macalister - mas, se
não pudermos, conseguirei transferir o pagamento para o próximo ajuste de contas.
Esse pareceu a Philip um sistema de primeira ordem. Reter as acções até o
momento de poder vendê-las com lucro, sem jamais ter que desembolsar um vintém.
Começou a ler no jornal as cotações da Bolsa com um interesse novo. No dia seguinte
houve pequena alta e Macalister escreveu-lhe para dizer que tivera de pagar dois e um
quarto pelas acções. O mercado estava firme. Mas, dentro de um ou dois dias,
produziu-se um recuo. Chegaram da África do Sul notícias menos tranquilizadoras e
Philip viu com ansiedade que os títulos tinham caído dois pontos. Macalister, porém,
estava optimista. Os boers não podiam aguentar-se por muito tempo mais e apostava
como Roberts entraria em Johannesburgo antes de meados de Abril. No momento da
liquidação Philip teve de pagar perto de quarenta libras. Isso aborreceu-o
consideravelmente, mas achou que o melhor caminho era não vender. Na situação em
que estava, o prejuízo seria grande de mais. Durante duas ou três semanas, nada
aconteceu: os boers não compreendiam que estavam vencidos e que nada mais lhes
restava senão render-se. Tiveram, até, um ou dois pequenos êxitos e as acções de Philip
caíram mais meia coroa. Tornou-se evidente que a guerra não terminara. As vendas
aceleraram-se. Quando Macalister encontrou Philip, mostrou-se pessimista.
- Não sei se o melhor não será limitar o prejuízo... Só em diferenças paguei mais
do que desejava.
A ansiedade era uma doença para Philip. Não podia dormir, engolia apressado a
refeição da manhã, reduzida agora a chá e pão com manteiga, e precipitava-se para a
sala de leitura do clube, a fim de ler o jornal. às vezes, as notícias eram más e de outras
não havia notícia alguma. Mas, quando as acções faziam algum movimento, era para
cair. Philip não sabia que fazer. Se vendesse agora, perderia perto de trezentas e
cinquenta libras, ficando assim reduzido a oitenta. Desejava de todo o coração nunca
ter cometido a asneira de especular na Bolsa. Mas o único remédio era reter os títulos.
Algo de decisivo devia acontecer a qualquer momento, e as acções decerto subiriam.
Não esperava agora obter lucro, mas sim recuperar o que perdera. Era a sua única
esperança de poder terminar o curso de medicina. O semestre de Verão começava em
Maio e no fim do período tencionava fazer o exame de obstetrícia. Depois, só teria mais
um ano de estudo. Fez cálculos cuidadosos e chegou à conclusão de que, incluindo
tudo, poderia manter-se com cento e cinquenta libras. Mas era rigorosamente o
mínimo.
Em princípios de Abril foi à casa de bebidas de Beak Street, ansioso por encontrar
Macalister. Era um alívio discutir a situação com o corretor. O saber que numerosas
pessoas, além dele, sofriam perdas de dinheiro, tornava a sua inquietação um pouco
menos intolerável. Mas, quando Philip chegou lá, encontrou Hayward. Mal se sentara,
já o outro dizia:
- Embarco para o Cabo no domingo.
- Tu!? - exclamou Philip.
Hayward era o homem de quem menos esperaria semelhante gesto. No hospital,
os estudantes alistavam-se em grandes grupos. O governo aceitava com prazer quem
tivesse um diploma. E outros, que partiam como simples soldados, escreviam para
casa, a dizer que os punham a trabalhar em hospitais, logo que revelavam a qualidade
de estudantes de medicina. Uma vaga de sentimento patriótico varria o país inteiro. E
apresentavam-se voluntários de todas as classes sociais.
- Em que qualidade embarcas? - indagou Philip.
- Como soldado, na milícia de Dorset.
Philip conhecia Hayward havia oito anos. A intimidade juvenil, que lhe viera da
admiração pelo homem que tão bem sabia falar de arte e de literatura, desaparecera,
substituída pelo hábito. Quando Hayward estava em Londres, Philip e ele encontravam-
se uma ou duas vezes por semana. Hayward ainda falava de livros com delicada
compreensão. Philip, que deixara de ser tolerante, irritava-se às vezes com o amigo. já
não acreditava implicitamente que nada no mundo tem importância fora da Arte.
Ressentia-se com o desprezo de Hayward pela acção e pelo triunfo. Mexendo o seu
ponche, Philip pensava na sua antiga amizade e na ardente expectativa de que Hayward
viesse a produzir grandes coisas. Havia muito perdera todas essas ilusões; sabia agora
que Hayward jamais faria outra coisa senão conversar. Achava mais difícil viver com
as suas trezentas libras anuais, agora que estava com trinta e cinco anos, do que quando
era rapaz. Os seus fatos, embora feitos por um bom alfaiate, eram usados por muito
mais tempo do que antigamente ele julgaria possível. Estava corpulento em excesso e
nenhum arranjo artificioso do cabelo conseguia esconder-lhe a calvície. Os olhos azuis
estavam baços e descorados. Não era difícil adivinhar que bebia demasiado.
- Que diabo de ideia foi essa de ir para o Cabo? - perguntou Philip.
- Ah! Não sei... Achei que devia ir.
Philip ficou silencioso. Sentia-se um pouco constrangido.
Compreendia que Hayward era arrastado por uma intranquilidade de alma que
não sabia a que atribuir. Alguma força interior fazia que ele achasse necessário ir lutar
pela pátria. Era estranho, uma vez que olhava o patriotismo como simples preconceito.
Gabando-se do seu cosmopolitismo, encarava a Inglaterra como um lugar de exílio. Os
compatriotas, considerados em globo, feriam-lhe as susceptibilidades. Que seria -
perguntava Philip a si próprio - que levava as pessoas a fazer coisas tão contrárias a
todas as suas teorias sobre a vida? O razoável para Hayward seria ficar de lado, a
observar com um sorriso os bárbaros a exterminarem-se. Era como se os homens
fossem títeres nas mãos de uma força desconhecida que os impelia a proceder de um
modo ou de outro. Faziam algumas vezes uso da razão para justificar as suas acções. E
quando isso era impossível, procediam da mesma maneira, a despeito da razão.
- A humanidade é muito extraordinária - disse Philip. - Nunca esperaria ver-te
partir como soldado.
Hayward sorriu, levemente embaraçado, e não disse palavra.
- Fui examinado ontem - observou por fim. - Uma gêne... Mas ao menos a gente
tem a vantagem de ficar a saber que está de perfeita saúde.
Philip notou que ele usava ainda, desnecessariamente e com afectação, palavras
francesas. mas, naquele mesmo momento, Macalister entrou.
- Queria falar contigo, Carey - disse. - A minha gente não está resolvida a reter
por mais tempo aquelas acções. O mercado encontra-se numa barafunda dos diabos e
querem que retires os títulos.
O coração de Philip desfaleceu. Sabia que era impossível. Significava aceitar o
prejuízo. O orgulho fê-lo responder com calma:
- Não acho que valha a pena, por enquanto. Podes vendê-las.
- Isso é muito bonito dizer, mas não sei bem se posso. O mercado está estagnado
e não há compradores.
- Mas elas estão cotadas a um e um oitavo.
- Ah, estão... Mas isso não quer dizer coisa alguma. Não se encontra quem pague
tanto.
Philip, por um instante, não soube quer dizer. Tentava dominar-se.
- Queres dizer então que não valem absolutamente nada?
- Ora! Não é isso que estou a dizer. Está claro que valem alguma coisa, mas
compreendes, o facto é que ninguém as compra agora.
- Então, o que deves fazer é vender por quanto puderes.
Macalister olhou para Philip com atenção. Avaliava como era grave o golpe
sofrido.
- Sinto muitíssimo, meu velho, mas todos nós estamos no mesmo barco.
Ninguém pensava que a guerra durasse tanto. Arrastei-te, mas fui contigo.
- Isso não tem importância - disse Philip. - Cada um tem de aceitar a sua sorte.
Voltou para a mesa de onde se levantara para falar com Macalister. Estava
aniquilado. A cabeça começou a doer-lhe violentamente, mas não quis que os amigos o
julgassem pusilânime. Deixou-se ficar ali uma hora. Riu febrilmente de tudo quanto os
outros diziam. Por fim, levantou-se para se ir embora.
- Encaras a coisas com bastante frieza, hem? - disse Macalister, apertando-lhe a
mão. - Acho que ninguém gosta de perder trezentas ou quatrocentas libras.
Philip voltou para o seu feio quarto e atirou-se para a cama; entregou-se ao
desespero. Não cessava de lamentar amargamente a sua loucura, embora tentasse
convencer-se de que era absurdo qualquer arrependimento, pois o que acontecera era
inevitável, precisamente porque acontecera. Mas era inútil. Sentia-se tomado de uma
depressão profunda. Não pôde dormir. Lembrou-se de todas as maneiras como
esbanjara dinheiro nos últimos anos. A cabeça doía-lhe horrivelmente.
Na noite seguinte, chegou pelo correio um extracto da sua conta. Examinou a sua
caderneta do Banco. Depois de pagar tudo restar-lhe-iam sete libras. Sete libras! Dava
graças por poder pagar. Teria sido horrível ver-se obrigado a confessar a Macalister
que não tinha dinheiro. Trabalhara no serviço de oftalmologia durante o trimestre de
Verão e comprara um oftalmoscópio a um estudante. Não o pagara ainda, mas faltavalhe
coragem para dizer ao colega que queria voltar atrás. Precisava também comprar
determinados livros. Tinha consigo cinco libras, as quais lhe durariam seis semanas.
Escreveu, então, ao tio uma carta que julgou muito comercial. Dizia nela que, devido à
guerra, sofrera graves prejuízos e não podia continuar os estudos, a menos que o tio
viesse em seu auxílio. Sugeria que o vigário lhe mandasse cento e cinquenta libras
durante os dezasseis meses seguintes, em prestações mensais. Prometia pagar juros e
restituir o capital pouco a pouco, quando começasse a ganhar dinheiro. Diplomar-se-ia
o mais tardar dentro de ano e meio e estava certo de conseguir então um lugar de
assistente, que lhe daria três libras semanais. O tio respondeu que nada podia fazer.
Não estava certo pedir-lhe que abrisse mão de tal soma quando a situação era das
piores e o pouco que possuía era de seu dever conservar para um caso de doença.
Terminava a carta com uma pequena homilia. Advertira-o oportunamente, e nunca lhe
dera atenção. Para ser sincero, não podia dizer que estava surpreendido. Havia muito
esperava que fosse aquele o fim das extravagâncias e da falta de equilíbrio do sobrinho.
Philip ficou de todas as cores ao ler isto. Nunca lhe ocorrera que o tio pudesse
recusar. Rompeu num acesso de raiva a que, porém, se seguiu um grande pasmo. Se o
tio não o ajudasse, não poderia continuar no hospital. O pânico apoderou-se de Philip
que, pondo de lado o orgulho, tornou a escrever ao vigário de Blackstable, expondo-lhe
o caso com mais premência. Mas talvez não se explicasse com propriedade e o tio não
percebesse em que situação desesperada se encontrava, pois respondeu que não
alterava a sua resolução. Philip estava com vinte e cinco anos e, a dizer a verdade, já
devia ganhar a vida. Quando ele morresse, herdaria alguma coisa, mas até então
negava-se a dar-lhe um vintém que fosse. Philip sentiu nessa carta a satisfação de um
homem que, depois de vários anos de desaprovação à sua conduta, via enfim
realizadas as suas previsões.
XCIX
Philip começou a empenhar as roupas. Para reduzir as despesas tomava só uma
refeição por dia, além do pequeno almoço. Consistia ela em pão com manteiga e cacau
que tomava às quatro horas da tarde, a fim de sustentar-se até ao dia seguinte. às nove,
sentia tanta fome que tinha de ir para a cama. Pensou em pedir um empréstimo a
Lawson, mas o temor de uma recusa inibia-o. Pediu-lhe por fim cinco libras. Lawson
emprestou-as com prazer mas, ao entregá-las, disse:
- Vais devolver-mas dentro de uma semana ou pouco mais, não é? Tenho de
pagar a conta da casa de molduras. Ando muito falto...
Philip sabia que não poderia pagar e a ideia do que Lawson pudesse pensar
deixava-o tão envergonhado que, dentro de dois dias, devolveu-lhe o dinheiro intacto.
Lawson, que casualmente saía para almoçar, convidou Philip a acompanhá-lo. Mas ele
mal pôde comer, tanta satisfação sentia ao ver alimentos sólidos. Estava certo de que,
no domingo, teria o bom jantar dos Athelny. Hesitou em contar-lhes o que acontecera.
A família considerara-o sempre em boa situação e temia que pudessem deixar de
estimá-lo se o soubessem sem dinheiro.
Embora tivesse sido sempre pobre, nunca lhe ocorrera a possibilidade de não ter
que comer. Não era coisa que acontecesse às pessoas em cujo meio vivia. Estava
envergonhado como se tivesse alguma doença infame. Aquela situação encontrava-se
absolutamente fora do campo da sua experiência. Sentia-se tão abatido que, a não
continuar na Faculdade de Medicina, não sabia que outro rumo tomar. Tinha a vaga
esperança de que alguma coisa surgiria. Não podia acreditar que fosse verdade o que
lhe acontecera. Lembrava-se de como, no primeiro ano na escola, julgara a sua vida um
sonho do qual havia de despertar para se encontrar mais uma vez em casa. Cedo,
porém, viu que, dentro de uma semana ou pouco mais, estaria absolutamente sem
dinheiro. Devia tentar ganhar alguma coisa imediatamente. Se já estivesse diplomado,
mesmo com o pé boto ser-lhe-ia possível embarcar para o Cabo, devido à grande
necessidade de médicos. Não fosse aquele defeito, poderia alistar-se num dos
regimentos de voluntários que embarcavam constantemente. Foi ao secretário da
Escola de Medicina e perguntou-lhe se lhe podia dar o posto de explicador para algum
estudante atrasado. Mas o secretário não lhe deu a menor esperança. Philip lia os
anúncios das publicações médicas e candidatou-se ao lugar de assistente não
diplomado de um médico que tinha um dispensário em Fulham Road. Quando o
procurou, viu que o homem lançava um olhar para o seu pé torto. E, ao saber que
estava apenas no quarto ano, disse imediatamente que a sua experiência era
insuficiente. Philip compreendeu que era apenas uma desculpa. O médico não queria
um auxiliar que pudesse não ser tão activo quanto desejava. Philip voltou a atenção
para outros meios de ganhar dinheiro. Sabia francês e alemão e parecia-lhe haver
alguma esperança de encontrar um lugar de correspondente comercial. Essa ideia
deixou-o angustiado, mas cerrou os dentes: não havia outra coisa a fazer. Como a sua
timidez não lhe permitisse responder aos anúncios que exigiam a presença do
candidato, respondia aos que pediam apenas cartas. Mas não tinha experiência nem
recomendações. Estava ciente de que o seu alemão e o seu francês não eram comerciais.
Ignorava os termos usados no comércio e não sabia estenografia nem escrever à
máquina. Não pôde deixar de reconhecer que o seu caso era sem esperança. Pensou em
escrever ao advogado que fora executor testamentário de seu pai, mas não chegou a
fazê-lo porque fora contra o conselho expresso desse profissional que vendera as
hipotecas em que o seu dinheiro estava empregado. Sabia por intermédio do tio que
Mr. Nixon condenava inteiramente o seu modo de viver. Aquele ano passado por
Philip no escritório de contabilidade levara o homem à conclusão de que ele era vadio
e incompetente.
- Prefiro morrer de fome - murmurou Philip para consigo mesmo.
Uma ou duas vezes, pensou no suicídio. Seria fácil tirar uma droga da farmácia
do hospital. Era um consolo pensar que, na pior das hipóteses, tinha à mão meios para
acabar com a vida sem dor. Mas não foi essa uma solução que tomasse a sério. Quando
Mildred o abandonara para ir com Griffiths, a sua angústia fora tão grande que quisera
morrer para se libertar do sofrimento. Não sentia isso agora. Lembrava-se de ter
ouvido a enfermeira do serviço de acidentes contar que as pessoas se suicidavam mais
por falta de dinheiro do que por amor. Riu consigo mesmo ao pensar que o seu caso
era uma excepção. Desejava apenas aliviar as suas mágoas contando-as a alguém. Não
conseguia, porém, forçar-se a uma confissão. Tinha vergonha. Continuou a procurar
trabalho. Passou semanas sem pagar o aluguer, explicando à senhoria que ia receber
dinheiro no fim do mês. Ela nada disse, limitando-se a franzir os lábios e a assumir um
ar carrancudo. Quando chegou o fim do mês e ela lhe perguntou se não podia pagar
alguma coisa por conta, foi com grande mal-estar que respondeu negativamente.
Contou-lhe que ia escrever ao tio e que estava certo de poder pagar a conta no sábado
seguinte.
- Bom, espero que possa, Mr. Carey, porque também tenho o aluguer para pagar
e não posso ficar em atraso. - Não falava zangada, mas sim com uma resolução que
chegava a assustar. Depois de breve pausa, acrescentou: - Se o senhor não pagar no
sábado que vem, terei de me queixar ao secretário do hospital.
- Sim, sim. Pode ficar sossegada.
A mulher fitou-o um instante e depois correu os olhos pelo quarto. Quando
tornou a falar foi sem nenhuma ênfase, como se estivesse a dizer uma coisa
absolutamente natural:
- Tenho boa carne assada lá em baixo. Se o senhor quiser descer à cozinha, terei
muito prazer em lhe servir um bocado.
O rapaz sentiu-se corar até à planta dos pés e sufocou um soluço.
- Muito obrigado, Mrs. Higgins, mas não tenho vontade.
- Está bem.
Quando ela deixou o quarto, Philip atirou-se para cima da cama. Teve de cerrar
os punhos para conseguir não chorar.4
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C
Sábado. Era o dia em que prometera pagar o aluguer. Durante toda a semana
esperara um acontecimento... Não encontrara trabalho. Nunca, até então, fora levado a
tais extremos e estava tão desnorteado que não sabia que fazer. No fundo, tinha a
impressão de que tudo aquilo não passava de um absurdo. Restavam-lhe uns trocos e
vendera todas as roupas sem as quais lhe era possível passar. Possuía alguns livros e
uma ou duas bugigangas com que podia fazer um par de xelins. A senhoria, porém,
vigiava-lhe as idas e vindas. Philip temia que ela o detivesse, se o visse tirar algum
objecto mais do alojamento. O remédio era dizer-lhe que não podia pagar. Faltou-lhe
coragem. Estava-se em meados de Junho. A noite era bela e agradável. Decidiu passá-la
fora. Saiu a caminhar vagarosamente ao longo do cais de Chelsea, pois o rio estava
sereno e silencioso, até se cansar. Depois, sentou-se num banco e dormitou. Não soube
quanto tempo dormiu. acordou sobressaltado, sonhando que um guarda o sacudia
para que seguisse o seu caminho. Quando, porém, abriu os olhos, viu que estava só.
Pôs-se novamente a caminhar, sem saber porquê e, afinal, chegou a Chiswick, onde
tornou a dormir. Em dado momento, a dureza do banco despertou-o. A noite pareceulhe
muito longa. Sentiu um calafrio. Estava tomado por uma sensação de abatimento e
não sabia que diabo fazer. Envergonhava-se de ter dormido no cais. Parecia-lhe
particularmente humilhante. Sentiu que as suas faces se avermelhavam na escuridão.
Lembrou-se de histórias que ouvira. Entre os que viviam daquele modo, achavam-se
oficiais, padres e antigos alunos de Universidades. Acabaria como eles, parado numa
fileira, às espera da sopa de uma instituição de caridade? Seria muito melhor matar-se.
Não podia continuar assim. Lawson havia de ajudá-lo quando conhecesse a sua
situação. Era absurdo que o seu orgulho o impedisse de solicitar auxílio. Por que dera
tamanha queda? Procurara fazer sempre o que lhe parecia melhor e tudo se fora por
água abaixo. Quando podia, ajudava as pessoas e não achava que tivesse sido mais
egoísta do que qualquer outro. Afigurava-se-lhe uma horrível injustiça ficar reduzido
àquela contingência.
Mas era inútil fazer tais reflexões. Continuou a caminhar. Agora, o dia clareava: o
rio estava belo no silêncio, e havia algo de misterioso naquela hora matinal. Tudo
prometia um dia belíssimo e o céu pálido da madrugada estava limpo de nuvens.
Philip sentia-se muito cansado, a fome roía-lhe as entranhas, mas o medo constante de
ser interpelado por um polícia impedia-o de ficar sentado. Era uma mortificação que
não desejava. Sentia-se sujo e ansiava por um banho. Achou-se, por fim, em Hampton
Court. Se não comesse alguma coisa, desataria a chorar. Procurou uma casa de pasto
barata e entrou. Havia lá dentro um cheiro de coisas quentes que lhe causou uma leve
impressão de náusea. Pretendia comer algo substancial que o refizesse para o resto do
dia, mas o seu estômago revoltou-se à vista da comida. Tomou uma chávena de chá e
pão com manteiga. Lembrou-se, então, de que era domingo e podia ir a casa dos
Athelny. Pensou na carne assada e no pastelão que iam comer, mas achava-se
tremendamente cansado e não tinha coragem para enfrentar a família feliz e bulhenta.
Estava a sentir-se fatigado e miserável. Queria ficar só, ficar em paz. Resolveu entrar
nos jardins do palácio e estender-se no chão. Doíam-lhe os ossos. Talvez encontrasse
uma fonte e pudesse lavar as mãos e o rosto e beber uns goles de água. Estava com
muita sede. E agora, que já não tinha fome, pensava com prazer nas flores, na relva e
nas grandes árvores copadas Parecia-lhe poder ali pensar melhor no que faria.
Estendeu-se na relva, à sombra, e acendeu o cachimbo. Por economia, havia, muito que
se limitara a fumar duas cachimbadas por dia; dava graças por ter agora a bolsa cheia
de tabaco. Ignorava o que faziam as pessoas quando não tinham dinheiro. Pouco
depois, adormeceu. Quando despertou, era quase meio-dia e pensou que devia pôr-se
em marcha para Londres, a fim de lá estar na manhã seguinte, para responder aos
oferecimentos de emprego que lhe parecessem prometedores. Lembrou-se de o tio lhe
ter dito que, ao morrer, lhe deixaria o pouco que tinha. Philip não fazia a menor ideia
de quanto fosse. Não podia ser mais do que algumas centenas de libras. E se tentasse
conseguir dinheiro por conta do que viria a herdar? Nada arranjaria sem o
consentimento do tio, e este nunca lho daria.
«O que me resta fazer é esperar que ele morra« - concluiu.
Philip calculou-lhe a idade. O vigário de Blackstable já passara havia muito dos
setenta. Tinha uma bronquite crónica, mas muitos velhos a tinham e viviam
indefinidamente. Entretanto alguma coisa havia de surgir. Philip não podia deixar de
sentir que a sua situação era de todo anormal: as pessoas da sua condição não morriam
de fome. Era por não conseguir acreditar na realidade daquela aventura que não se
entregava ao extremo do desespero. Decidiu pedir meia libra emprestada a Lawson.
Passou todo o dia no jardim e, quando sentia muita fome, fumava. Não comeria nada
antes de se pôr em marcha para Londres. Era uma longa caminhada e devia refazer as
forças para isso. Partiu quando o dia começou a refrescar; e, quando estava cansado,
dormia nos bancos. Ninguém o incomodou. Na Estação de Vitória, lavou-se, penteouse
e barbeou-se. Tomou depois chá e pão com manteiga e, enquanto comia, leu a
coluna de anúncios do jornal da manhã. Ao correr os olhos por eles, deu com um que
pedia um caixeiro para a «secção de roupas» de um armazém muito conhecido. Sentiu
um curioso desfalecimento de coração, porque, com os seus preconceitos burgueses,
parecia-lhe horrendo trabalhar como caixeiro de loja. Mas encolheu os ombros porque,
no fim de contas, que lhe importava aquilo? Resolveu tentar a sorte. Tinha uma
esquisita sensação de que, aceitando todas as humilhações e indo mesmo ao encontro
delas, forçaria a mão do destino em proveito próprio. às nove horas, sentindo-se
terrivelmente acanhado, apresentou-se no local indicado e viu que muitos outros
haviam chegado à sua frente. Eram de todas as idades, desde rapazes de dezasseis
anos até homens de quarenta. Alguns conversavam em voz baixa, mas a maioria estava
silenciosa. Quando Philip foi para o seu lugar, os que se encontravam próximo
lançaram-lhe um olhar de hostilidade. Ouviu um deles dizer:
- A única coisa que desejo é que me recusem o mais depressa possível, para ter
tempo de procurar noutra parte.
O vizinho de Philip examinou-o de alto a baixo e perguntou-lhe:
- Tem prática?
- Não.
O outro fez uma pequena pausa e depois observou:
- Depois do almoço, até nas casas sem importância, não atendem ninguém sem
hora marcada.
Philip olhou para os empregados. Alguns desenrolavam peças de chita e de
cretone e outros, explicou-lhe o vizinho, preparavam as encomendas da província,
feitas pelo correio. Perto das nove e um quarto, chegou o director da casa. Philip ouviu
um dos homens que esperavam, dizer a outro que aquele era Mr. Gibbons. Tratava-se
de um sujeito de meia-idade, baixo e corpulento, de cabelos escuros e lustrosos e barba
negra. Tinha movimentos vivos e uma cara inteligente. Trazia um chapéu alto e vestia
fraque, tendo a lapela adornada por um gerânio branco cercado de folhas. Entrou no
escritório, deixando a porta aberta. Era uma sala muito pequena, onde se via apenas
uma escrivaninha americana num dos cantos, uma estante de livros e um armário. Os
homens que esperavam do lado de fora viram-no tirar maquinalmente o gerânio da
botoeira e pô-lo num frasco de tinta cheio de água. Era contra as regras da casa usar
flor ao peito nas horas de serviço.
(Durante o dia os homens do estabelecimento, desejosos de ser bem vistos pelo
patrão, admiravam a flor).
- Nunca vi coisa mais linda - diziam. - É do seu jardim?
- É, sim - sorria ele com um fulgor de orgulho a encher-lhe os olhos inteligentes.
Tirou o chapéu e mudou de casaco, relanceando os olhos pelas cartas e depois
pelos homens que o esperavam. Fez um leve sinal com o dedo e o primeiro da fila
entrou no escritório. Desfilaram um por um à sua frente, respondendo às perguntas.
Tratava com eles muito laconicamente, conservando os olhos fixos no rosto do
candidato.
- Idade? Tem prática? Por que deixou o último emprego?
Ouvia as respostas com cara inexpressiva. Quando chegou a vez de Philip, o
rapaz teve a impressão de que Mr. Gibbons o examinava com curiosidade. As suas
roupas estavam limpas e eram bastante bem talhadas O seu aspecto era um pouco
diferente do dos outros.
- Prática?
- Acho que não tenho nenhuma - respondeu Philip.
- Não serve.
Philip retirou-se. A provação fora muito menos dolorosa do que esperava e não
sentiu qualquer desapontamento particular. Não podia ter esperança de ser bem
sucedido na primeira tentativa. Conservava consigo o jornal e tornou a percorrer a
secção de anúncios: Uma loja em Holborn precisava também de um caixeiro. Para lá se
dirigiu, mas ao chegar soube que alguém já fora admitido. Se quisesse arranjar alguma
coisa naquele dia, precisava de ir ao estúdio de Lawson antes que o pintor saísse para o
almoço. Encaminhou-se, pois, para Yeoman's Row, pela Brompton Road.
- Escuta, estou um tanto falho até o fim do mês - disse, assim que encontrou uma
oportunidade. - Queria que me emprestasses meia libra... Podes?
Era incrível a dificuldade que achava em pedir dinheiro. Lembrava-se da
maneira despreocupada como os doentes do hospital lhe extraíam pequenas quantias,
quase como se lhe concedessem um favor, embora não tivessem a menor intenção de
restituir o dinheiro.
- Pois não - respondeu Lawson. - Agora mesmo.
Quando, porém, meteu a mão no bolso, descobriu que tinha apenas oito xelins.
Philip sentiu-se desfalecer.
- Ah!... Está bem, empresta-me cinco, sim? - disse num sopro.
- Aqui estão.
Philip foi a uma casa de banhos em Westminster e gastou seis pence num banho.
Depois comeu alguma coisa. Não sabia que fazer naquela tarde. Não queria voltar ao
hospital, por temer que lhe fizessem perguntas; além do mais, nada tinha a fazer lá.
Nos dois ou três serviços em que trabalhara haviam de estranhar um pouco a sua
ausência, mas... que pensassem o que quisessem, pois isso não lhe importava. Não
seria o primeiro estudante que desaparecia sem aviso. Dirigiu-se à biblioteca pública e
leu os jornais até se aborrecer. Depois, pediu as New Arabian Nights de Stevenson, mas
percebeu que não podia ler. As palavras não tinham sentido algum para ele.
Continuou a reflectir sobre a sua situação desamparada. Não cessava de ruminar as
mesmas ideias e a fixidez destas fazia-lhe doer a cabeça. Por fim, desejoso de ar fresco,
entrou no Green Park e estendeu-se na relva. Pensou na desgraça da sua deformidade,
que lhe tornava impossível ir para a guerra. Adormeceu e sonhou que de repente
ficava bom e embarcava para o Cabo num regimento de milícia. As fotografias que vira
nos jornais ilustrados forneceram-lhe material para a fantasia. Era noite. Estava metido
num uniforme de caqui, no veldt, sentado, com os outros soldados, em redor da
fogueira. Ao despertar, viu que ainda estava claro e dentro em pouco ouviu o Big Ben
dar as sete. Tinha doze horas pela frente e nada para fazer. Temia a noite interminável.
O céu estava carregado e talvez até chovesse. Teria de ir para um albergue, onde
conseguiria uma cama. Vira-as anunciadas por lâmpadas, na frontaria de algumas
casas de Lambeth: «Boas camas - 6 pence». Nunca entrara nesses albergues e temia-lhes
o mau cheiro e os parasitas. Resolveu ficar ao ar livre, se lhe fosse possível. Deixou-se
estar no parque até à hora de fecharem os portões e depois começou a caminhar a
esmo. Estava muito cansado. Veio-lhe a ideia de que um acidente seria um
acontecimento feliz, naquelas circunstâncias, pois assim seria levado para um hospital,
onde ficaria semanas numa cama limpa. à meia-noite, sentiu tanta fome que, não
podendo resistir mais, foi a uma taberna, em Hyde Park Corner, comeu duas batatas e
tomou uma chávena de café. Depois, tornou a andar. A inquietação não lhe permitia
dormir e angustiava-o um medo terrível de ser empurrado pela polícia. Notou que
começava a olhar para os guardas de um ângulo novo. Era aquela a terceira noite que
passava ao relento. De quando em quando, sentava-se nos bancos de Piccadilly e,
quando a manhã se aproximou, desceu até ao rio. Ouvia o Big Ben marcar os quartos
de hora e calculava quanto tempo faltava para a cidade despertar. De manhã, gastou
algumas moedas: mandou passar a roupa e tomou um banho. Comprou um jornal para
ler os anúncios e uma vez mais saiu em busca de trabalho.
Continuou assim por vários dias. Comia muito pouco e começava a sentir-se
fraco e doente, de maneira que mal lhe sobrava a energia necessária para prosseguir na
procura do emprego que lhe parecia tão terrivelmente difícil de encontrar. Habituou-se
a passar longas horas nas traseiras das lojas, com a esperança de ser admitido, e a ser
secamente recusado. Andou por toda a cidade de Londres, dirigindo-se aos lugares
indicados nos anúncios, e chegou a conhecer de vista alguns homens que, tão
infrutiferamente como ele, buscavam também ocupação. Um ou dois tentaram fazer
camaradagem com ele, mas Philip sentia-se demasiado infeliz e cansado para os
encorajar a isso. Não procurou mais Lawson, porque lhe devia cinco xelins. Começou a
ficar tão tonto que não conseguia pensar com clareza e cessou de preocupar-se com o
que lhe acontecia. Chorava muito. A princípio ficava envergonhado, enfurecido
consigo mesmo. Mas verificou que o choro o aliviava e, de certa maneira, lhe minorava
a fome. Nas madrugadas sofria muito por causa do frio. Uma noite, entrou no seu
quarto para mudar a roupa branca. Introduziu-se furtivamente, cerca das três horas,
quando estava bem certo de que todos dormiam. Tornou a sair às cinco. Estendeu-se na
cama e a maciez era deliciosa. doíam-lhe todos os ossos e enquanto assim estava,
entregava-se àquele prazer; era tão delicioso que não lhe apeteceu dormir. Habituarase
já à falta de alimento e não sentia muita fome, estava apenas fraco. Agora vinha-lhe
constantemente ao espírito a ideia de dar cabo de si. Mas empregava toda a sua força
para não se fixar nela, pois temia que a tentação lhe tomasse conta dos pensamentos e
lhe fosse impossível fugir-lhe. Repetia para si mesmo que seria absurdo suicidar-se,
visto que alguma coisa aconteceria em breve. Não podia libertar-se da ideia de que a
sua situação era absurda de mais para ser levada a sério. Era como uma doença que
precisava de suportar, mas da qual se restabeleceria inevitavelmente. Todas as noites,
jurava que nada o induziria a passar assim outra noite e resolveu escrever na manhã
seguinte ao tio, a Mr. Nixon, o advogado, ou a Lawson. Mas, quando chegava a hora,
não tinha coragem para fazer a humilhante confissão do seu completo desastre. Não
sabia como Lawson receberia aquilo. Desde que eram amigos, o pintor fora o cabeçade-
vento e Philip sempre se orgulhara do seu bom-senso Teria de contar-lhe toda a
história da sua loucura. Inquietava-o um pressentimento de que Lawson, depois de o
auxiliar, lhe voltaria as costas com frieza. O tio e o advogado, naturalmente, fariam
alguma coisa por ele, mas receava as reprimendas de ambos. Não desejava que
ninguém o repreendesse; cerrava os dentes e repetia: o que acontecera era inevitável
justamente por ter acontecido. Lamentar era absurdo.
Os dias eram intermináveis e os cinco xelins que Lawson lhe emprestara não
durariam muito tempo. Ansiava por que chegasse o domingo, para ir, se pudesse, a
casa dos Athelny. Não sabia o que o impedira de procurá-los antes. Talvez fosse o
desejo de sair da dificuldade por suas próprias mãos. Porque Athelny, que se achara
em situações igualmente desesperadas, era a única pessoa que podia fazer alguma
coisa em seu benefício. Talvez depois de almoçar ele conseguisse contar-lhe que se
encontrava em dificuldades. Repetiu para si mesmo muitas e muitas vezes o que lhe ia
dizer. Tinha um medo imenso de que Athelny se esquivasse com frases vagas. Isso
seria tão horrível que desejava retardar o mais possível fazer aquela prova. Philip
perdera toda a confiança no próximo.
A noite de sábado foi fria e áspera. Philip sofreu tremendamente. Desde o meiodia
desse sábado até a hora em que se arrastou em passos cansados para a casa de
Athelny, nada comeu. Gastou os dois últimos pence, no domingo, pela manhã, num
banho e numa escovadela, nos lavabos de Charing Cross.
CI
Quando Philip tocou à campainha, uma cabeça assomou à janela e em seguida
ouviu na escada o ruidoso tropel das crianças que desciam ao seu encontro. Foi um
rosto pálido, ansioso e magro que ele lhes deu a beijar. Ficou tão comovido com aquela
transbordante afeição que, para ter tempo de se refazer, se demorou propositadamente
a subir as escadas. Achava-se num tal estado de nervos que a menor coisa bastava para
fazê-lo chorar. Perguntaram-lhe por que não viera no domingo anterior e Philip
respondeu que estivera doente. Quiseram saber o que fora e, para os divertir, sugeriu
uma enfermidade misteriosa cujo nome, híbrido e bárbaro, na sua mistura de grego e
latim (a nomenclatura médica está eriçada dessas palavras) lhes fez soltar guinchos de
prazer. Arrastaram Philip para a sala e fizeram-no repetir o nome para edificação do
pai. Athelny ergueu-se e apertou-lhe a mão. Olhou fixamente para Philip, mas os seus
olhos redondos e salientes pareciam sempre exprimir espanto. Philip não soube por
que, nesta ocasião, aquele olhar o perturbou.
- Sentimos muito a sua falta, domingo passado – disse Athelny.
Philip não sabia mentir com desembaraço. Ficou escarlate ao terminar a
exposição do motivo por que não viera. Mrs. Athelny entrou nesse instante e apertoulhe
a mão.
- Espero que esteja melhor, Mr. Carey - desejou ela.
O rapaz não sabia por que motivo ela imaginara ter-lhe acontecido alguma coisa,
pois a porta da cozinha estava fechada quando subira com as crianças e estas não o
haviam deixado.
- O almoço só estará pronto daqui a dez minutos - disse ela na sua voz arrastada.
- não quer tomar um ovo batido num copo de leite enquanto espera?
Havia no seu rosto uma expressão de inquietude que perturbou Philip. Forçou
uma risada e respondeu que não tinha fome. Sally entrou para pôr a mesa e Philip
começou a brincar com ela. A família costumava gracejar, insinuando que ia engordar
tanto como uma tia de Mrs. Athelny, chamada Elisabeth, que as crianças nunca tinham
visto mas que para elas representava o tipo da corpulência grotesca.
- Escuta, Sally, que foi que te aconteceu depois da última vez que estive aqui? -
principiou Philip.
- Que eu saiba, nada.
- Acho que aumentaste de peso.
- Pois tenho a certeza de que o senhor não aumentou - retorquiu ela. - Está um
perfeito esqueleto.
Philip ficou vermelho.
- Isso é um tu quoque, Sally - exclamou o pai. - Serás multada num fio dos teus
cabelos de ouro. Jane, vai buscar a tesoura grande.
- Ora, papá, mas ele está magro - retorquiu Sally. - Só tem a pele e o osso.
- Não é essa a questão, menina. Ele tem a plena liberdade de emagrecer, mas a
tua obesidade ofende o decoro.
Enquanto falava, pôs o braço orgulhosamente em torno da cintura da filha,
olhando-a com olhos de admiração.
- Deixe-me pôr a mesa, pai. Posso estar gorda, mas há muita gente que parece
não se importar com isso.
- Esta tratante! - exclamou Athelny, fazendo um gesto dramático. - Lança-me em
rosto o facto notório de que Joseph, um filho do Levi que vende jóias em Holborn, lhe
propôs matrimónio.
- Aceitaste, Sally? - perguntou Philip.
- Então, ao fim deste tempo ainda não conhece o pai? Não há uma palavra de
verdade naquilo.
- Pois bem, se não te propôs casamento - exclamou Athelny - por S. Jorge e pela
Alegre Inglaterra, vou segurá-lo pelo nariz e perguntar-lhe imediatamente quais são as
suas intenções.
- Sente-se, pai, o almoço está pronto. Vocês, meninos, vão todos lavar as mãos. E
não façam de conta, porque antes de comerem uma migalha de comida, examiná-las-ei.
Antes de começar a comer, Philip julgava estar famélico, mas verificou depois
que a comida lhe revoltava o estômago e que mal podia tocar-lhe. Tinha as ideias
turvas e não percebeu que Athelny, contra o seu hábito, falava muito pouco. Philip
sentia-se aliviado por estar numa casa confortável, mas, de momento a momento,
olhava instintivamente pela janela. O dia estava tempestuoso. Acabara-se o bom
tempo. Fazia frio e soprava um vento áspero. De quando em quando, bátegas de chuva
batiam contra a vidraça. «Que vou fazer numa noite destas?» - reflectiu ele. Os Athelny
costumavam deitar-se cedo e não podia lá ficar para além das dez horas. O coração
desfalecia-lhe à ideia de sair para a escuridão gelada da noite. Agora que estava entre
amigos, aquilo parecia-lhe mais terrível do que quando se encontrava lá fora sozinho.
Ficou a repetir interiormente que muitas outras criaturas também passariam a noite ao
relento. Lutou por distrair o espírito na conversa, mas no meio das suas frases uma
chicotada da chuva nas vidraças fazia-o estremecer.
- Parece até que estamos em Março - comentou Athelny. - Não é o tempo
indicado para fazer a travessia do Canal.
Terminaram a refeição e Sally entrou para levantar a mesa.
- Aceita um mata-ratos de dois pence? - perguntou Athelny, oferecendo-lhe um
charuto.
Philip aceitou e aspirou o fumo com delícia. Aquilo serenou-lhe os nervos de um
modo extraordinário. Quando Sally se retirou, Athelny mandou-a fechar a porta.
- Agora não seremos perturbados - disse, voltando-se para Philip. - Já pedi à
Betty que não deixasse as crianças entrar senão quando eu chamasse.
Philip lançou-lhe um olhar sobressaltado, mas, antes que pudesse compreender o
sentido daquelas palavras, Athelny ajeitou os óculos no nariz com o seu gesto habitual
e prosseguiu:
- Escrevi-lhe no domingo passado, para perguntar por que não viera e, como não
tive resposta, fui ao seu quarto na quarta-feira.
Philip desviou a cabeça e não respondeu. O coração começou a bater-lhe com
violência. Athelny não falava e, em certo momento, o silêncio pareceu intolerável a
Philip. Não achava uma única palavra para dizer.
- A proprietária disse-me que você não aparecia desde sábado à noite. Contou
que lhe devia um mês de aluguer. Onde dormiu toda a semana passada?
Foi com indizível mal-estar que Philip respondeu, sem tirar os olhos da janela:
- Em parte nenhuma.
- Andei à sua procura.
- Porquê?
- Betty e eu já passámos pela mesma situação... com a diferença de que tínhamos
filhos para cuidar. Por que não nos procurou?
- Não pude.
Philip teve medo de não conter o choro. Sentia-se muito fraco. Fechou os olhos e
franziu o sobrolho; procurava dominar-se. Veio-lhe, de súbito, um acesso de raiva
brusco. Por que não o deixavam em paz? Mas estava alquebrado. E depois, os olhos
ainda fechados, e lentamente, para manter a firmeza da voz, contou a história das suas
aventuras nas últimas semanas. Enquanto falava, parecia-lhe haver-se conduzido de
maneira inepta, e isto tornava mais difícil a narrativa. Athelny achá-lo-ia um
consumado imbecil.
- Muito bem. Agora, vai morar connosco até encontrar ocupação - disse Athelny
quando ele terminou.
Philip corou, sem saber porquê.
- Oh, é uma grande bondade sua, mas acho que não devo.
- Porque não?
Philip não respondeu. Recusara instintivamente, por puro medo de incomodar, e
um acanhamento natural impedia-o de aceitar favores. Sabia, além disso, que os
Athelny viviam com dificuldades, e com aquela numerosa família não tinham espaço
nem dinheiro para sustentar um estranho.
- Não há dúvida de que tem de ficar - disse Athelny. - Thorpe dormirá com um
dos irmãos e você pode dormir na cama dele. Não é a sua comida que vai fazer-nos
diferença.
Philip teve medo de falar e Athelny, aproximando-se da porta, chamou a mulher.
- Betty - disse quando ela entrou. - Mr. Carey vem morar connosco.
- Que bom! - exclamou ela. - Vou já preparar a cama.
Falou num tom cordial e amigo, aceitando tudo como muito natural, a tal ponto
que Philip se comoveu profundamente. Nunca esperava que as pessoas fossem
bondosas para ele, e, quando o eram, ficava surpreendido e sensibilizado. Nesse
momento, não pôde evitar que duas grossas lágrimas lhe rolassem pelas faces. Os
Athelny discutiram os arranjos e fingiram não notar a que estado a fraqueza de Philip o
levara. Quando a senhora Athelny se retirou, Philip reclinou-se na cadeira e, olhando
pela janela, riu de leve:
- Não está uma noite muito boa para andar lá fora, pois não?
CII
Athelny disse a Philip que lhe podia conseguir com facilidade um lugar na
grande firma para a qual ele próprio trabalhava. Vários empregados tinham ido para a
guerra e Lynn & Sedley, com fervor patriótico, haviam prometido conservar-lhes os
lugares. O trabalho dos heróis recaía sobre os que ficavam e, como não aumentavam os
salários destes últimos, podiam os patrões fazer economias ao mesmo tempo que
davam prova de patriotismo. Mas a guerra prosseguia e o comércio desenvolvia-se.
Chegavam as férias, época em que grande número de empregados se ausentava
durante quinze dias: teriam de admitir auxiliares. A recente experiência de Philip faziao
duvidar de que mesmo assim lhe dessem emprego. Mas Athelny, apresentando-se
como pessoa de influência na firma, insistia em afirmar que o gerente nada lhe
recusaria. Philip, com o seu conhecimento de Paris, seria muito útil. Era apenas questão
de esperar um pouco, pois havia de conseguir um lugar bem remunerado para
desenhar vestidos e pintar cartazes. Philip fez um cartaz para as vendas de Verão e
Athelny levou-o. Dois dias mais tarde, trouxe-o de volta, dizendo que o gerente o
admirara muitíssimo e lamentava sinceramente não ter de momento vaga na secção de
publicidade. Philip perguntou se não havia outro trabalho.
- Receio que não.
- Está bem certo disso?
- Bem... A verdade é que, amanhã, vão anunciar, a pedir um indicador para a loja
- disse Athelny, olhando para ele com ar de dúvida, através dos óculos.
- Acha que tenho alguma probabilidade de conseguir esse lugar?
Athelny ficou um tanto confuso. Tinha-o levado a esperar coisa bastante melhor:
por outro lado, a sua pobreza não lhe permitia continuar a sustentá-lo por tempo
indefinido.
- Você podia aceitar o lugar enquanto espera coisa melhor. As probabilidades são
sempre maiores se já trabalhar na casa.
- O senhor sabe que não sou orgulhoso - sorriu Philip.
- Se está decidido, deve apresentar-se amanhã, às nove menos um quarto.
Não obstante a guerra, era evidente que havia muita dificuldade em se obter
trabalho, pois, quando Philip entrou na loja, vários pretendentes já estavam à espera.
Reconheceu entre eles alguns dos que encontrara nas suas buscas precedentes. A um
deles, vira-o certa tarde deitado no parque. Para Philip, agora, isso significava que o
homem também estava sem tecto e passava as noites ao relento. Os candidatos a
emprego eram de todas as espécies, velhos e novos, altos e baixos, mas cada um deles
procurara fazer-se elegante para a entrevista com o gerente. Tinham penteado o cabelo
com todo o cuidado e lavado as mãos de maneira escrupulosa. Esperavam num
corredor que, Philip soube-o mais tarde, conduzia ao salão de refeições e às oficinas.
De distância, em distância, interrompia-os uma série de cinco ou seis degraus. Embora
houvesse luz eléctrica na loja, a iluminação ali era apenas a gás e os bicos estavam
protegidos com uma armação de arame; o gás ardia com ruído. Philip chegou
pontualmente, mas eram quase dez horas quando foi admitido no escritório. Era um
compartimento triangular como um pedaço de queijo deitado de lado: havia nas
paredes quadros de mulheres metidas em espartilhos e dois projectos de cartazes: um
homem de pijama com largas listas verdes e brancas, e um navio de velas soltas a
singrar no mar azul, vendo-se numa das velas, em caracteres graúdos, estas palavras:
«grande Venda de Roupas Brancas». A parede mais larga do escritório dava para o
fundo de uma das vitrinas que estava a ser ornamentada àquela hora, de maneira que
um empregado entrava e saía a todo o momento. O gerente lia uma carta. Era um
homem corado, de cabelos louro-pálido e grosso bigode da mesma cor. Pendia-lhe da
corrente do relógio uma porção de medalhas de futebol. Estava sentado, em mangas de
camisa, a uma grande escrivaninha, com um telefone ao lado. à sua frente, achavam-se
os anúncios do dia, trabalho de Athelny, e recortes de jornais colados em cartolina. O
homem relanceou os olhos para Philip, mas nada lhe disse. Ditava uma carta à
dactilógrafa, sentada diante de uma mesa menor, a um canto. Perguntou depois a
Philip o nome, a idade e se tinha prática. Falava com sotaque londrino numa voz
aguda e metálica. Philip notou que os dentes do maxilar superior eram grandes e
salientes; davam a impressão de estar frouxos e de que um puxão poderia arrancá-los.
- Creio que Mr. Athelny já lhe falou a meu respeito - disse Philip.
- Ah, você é o rapaz que fez aquele cartaz?
- Sou, sim, senhor.
- Para nós não serve, sabe, não serve de maneira nenhuma.
Olhou Philip de alto a baixo. Pareceu notar que o rapaz, de certo modo, era
diferente dos outros que o tinham precedido.
- Como sabe, terá de arranjar um fraque. Com certeza não tem... Parece ser um
rapaz sério. Deve ter verificado que a arte não dá nada.
Philip não sabia dizer se ele pensava contratá-lo ou não. O gerente fazia-lhe
observações com ar hostil.
- Tem família?
- Meu pai e minha mãe morreram quando eu era criança.
- Gosto de dar uma oportunidade aos novos. Muitos a quem ajudei são hoje
gerentes de secção. E mostram-se muito reconhecidos, essa justiça lhes faço. Sabem
quanto fiz por eles. Começar de baixo é a única maneira de aprender no comércio e
com perseverança é possível subir até ninguém sabe onde. Se trabalhar com acerto, um
dia poderá encontrar-se numa posição como a minha. Tome nota disto, rapaz.
- Estou pronto a fazer tudo que puder, senhor - respondeu Philip.
Sabia que devia usar «senhor« sempre que possível, mas a palavra soava-lhe de
maneira estranha e receava exagerar. O gerente gostava de falar. Dava-lhe um
agradável sentimento da. sua própria importância e não participou a Philip a sua
decisão senão depois de muito palavrório.
- Bom, acho que serve - disse afinal, com ar pomposo. - Em todo o caso, estou
disposto a dar-lhe uma oportunidade.
- Muito obrigado, senhor.
- Pode começar desde já. Vou pagar-lhe seis xelins por semana, com casa e
comida. Como vê, terá tudo quanto precisa e os seis xelins serão apenas para o bolso. O
pagamento é mensal. Pode começar na segunda-feira. Acho que não tem motivo de
queixa.
- Não, senhor.
- Sabe onde fica Harrington Street, em Shaftesbury Avenue? é lá que vai dormir.
Número dez. Pode ir para lá no domingo, à noite, se quiser. Se não, mande a sua mala
na segunda-feira. - E, inclinando a cabeça. - Passe bem.
CIII
Mrs. Athelny emprestou a Philip dinheiro para pagar à senhoria, o suficiente
para que o deixasse retirar as suas coisas. Por cinco xelins e a cautela de um fato, o
rapaz conseguiu numa casa de penhores um fraque que lhe assentava bem. De
empenhou o resto das roupas. Mandou a mala para Harrington Street e na segundafeira
de manhã dirigiu-se para a loja, em companhia de Athelny, que o apresentou ao
chefe da secção de roupas, entregando-lho. Era um homenzinho de trinta anos, amável
e irrequieto, chamado Sampson. Apertou a mão de Philip e, para mostrar as suas
qualidades, de que muito se orgulhava, perguntou-lhe se falava francês. Ficou
surpreendido quando recebeu resposta afirmativa.
- E alguma outra língua?
- Falo alemão.
- Upa! às vezes também vou a Paris, Parlez-vous français? Já esteve no Maxim's?
Philip foi colocado no alto da escadaria da secção de «fatos«. Consistia o seu
trabalho em dirigir os fregueses para as diversas subsecções. Estas, ao que parecia,
eram muitas: Mr. Sampson enumerou-as rapidamente. De súbito percebeu que Philip
coxeava.
- Que é que tem na perna? - indagou.
- Tenho um pé boto. Mas isso não me impede de caminhar ou de fazer qualquer
outra coisa.
O chefe da secção olhou um momento para o pé com ar de dúvida e Philip
calculou que o homem estivesse a perguntar a si próprio por que o admitira o gerente.
Philip sabia que o gerente nada notara.
- Não espero que acerte com as secções no primeiro dia. Quando tiver alguma
dúvida pergunte a uma das empregadas.
Mr. Sampson retirou-se e Philip, procurando lembrar-se de onde ficava esta ou
aquela secção, aguardava com ansiedade algum cliente que viesse pedir informações. à
uma hora, subiu para almoçar. O refeitório, que ficava no último andar do vasto
edifício, era amplo, comprido e bem iluminado, mas todas as janelas estavam fechadas
por causa da poeira e sentia-se ali um horrível cheiro de cozinha. Havia longas mesas
cobertas por toalhas, com grandes garrafas de água dispostas a intervalos, tendo ao
centro saleiros e galheteiros. Os empregados entravam em grupos ruidosos e
sentavam-se em bancos que guardavam ainda o calor dos que tinham almoçado às
doze e trinta.
- E nada de «pickles«! - observou o homem que estava ao lado de Philip.
Era um rapaz magro e alto, de nariz adunco e rosto pastoso. A cabeça alongada,
de forma irregular, dava a impressão de que o crânio fora comprimido a esmo, aqui e
ali. Via-se-lhe na testa e no pescoço grande quantidade de espinhas vermelhas e
inflamadas. Chamava-se Harris. Philip veio a saber que em certos dias traziam para a
mesa grandes pratos cheios de «mixed-pickles». Eram muito apreciados. Não havia
facas nem garfos, mas um pouco depois um rapaz grande e gordo, de casaco branco,
entrou com um punhado de talheres e atirou-os com grande ruído para cima da mesa.
Cada um agarrou o que precisava. Estavam quentes e gordurosos, por terem sido
lavados havia pouco em água já utilizada. Pratos em que a carne nadava em molho
eram distribuídos em redor da mesa por empregados de casaco branco, e quando eles
os arremessavam, num gesto de prestidigitador, o molho transbordava e caía na toalha.
Trouxeram depois grandes travessas com repolho e batatas, a cuja vista o estômago de
Philip se revoltou. O rapaz notou que todos deitavam grande quantidade de vinagre
na comida. O barulho era ensurdecedor. Conversava-se, ria-se, gritava-se. Ouvia-se o
tinir de facas e garfos e estranhos ruídos de mastigação. Foi com satisfação que Philip
voltou para a loja. Começava a aprender onde ficava esta ou aquela secção, e já era com
menos frequência que fazia perguntas a esse respeito, quando alguém precisava de
uma indicação.
- A primeira à direita. A segunda à esquerda, minha senhora.
Algumas empregadas, quando o trabalho diminuía, dirigiam-lhe algumas
palavras e Philip percebeu que estavam a sondá-lo. às cinco, mandaram-no subir
novamente para o refeitório, a fim de tomar chá. Foi com prazer que se sentou. Viam-se
na mesa grandes fatias de pão prodigamente barradas de manteiga e muitos
empregados tinham os seus potes de geleia, que eram guardados no vestiário e tinham
o nome deles escrito.
Philip estava exausto quando o trabalho terminou, às seis e meia. Harris, o seu
vizinho de mesa, ofereceu-se para levá-lo a Harrington Street, a fim de mostrar-lhe
onde ia dormir. Disse a Philip que havia uma cama desocupada no seu quarto e, como
os outros quartos estavam cheios, achava que Philip seria alojado lá. A casa de
Harrington Street fora uma sapataria, e a loja servia de quarto de dormir. Era muito
escuro, pois três quartas partes de cada janela tinham sido entaipadas; e, como as não
abriam, a única ventilação era feita por uma pequena clarabóia, ao fundo. O local
cheirava a mofo e Philip deu graças por não ter de dormir ali. Harris levou-o à sala de
visitas, que ficava no primeiro andar; tinha um velho piano, cujo teclado dava a
impressão de uma fileira de dentes estragados. Em cima da mesa, numa caixa de
charutos sem tampa, estava um jogo de dominó. Havia por lá números atrasados de
The Strand Magazine e de The Graphic. As outras divisões eram usadas como quartos de
dormir. Aquela em que Philip ia instalar-se ficava no último pavimento. Havia nele
seis camas e ao lado de cada uma delas via-se uma caixa ou um baú. A única mobília
era uma cómoda: tinha quatro gavetas grandes e duas pequenas. Philip, como novato,
ficou com uma destas. Cada uma tinha a sua chave, mas, como todas eram iguais, não
serviam para muito e Harris aconselhou-o a guardar na mala o que fosse de valor. Por
cima da chaminé, pendia um espelho. Harris indicou a Philip o lavabo, uma sala ampla
com oito bacias enfileiradas; era ali que todos os pensionistas se lavavam. O lavabo
dava para outro quarto, onde havia duas banheiras encardidas, com os tabiques
manchados de sabão. Linhas negras marcavam os diferentes níveis alcançados pela
água dos banhos.
Quando Harris e Philip voltaram para o quarto de dormir, encontraram um
homem alto a mudar de roupa e um rapaz de dezasseis anos a assobiar com toda a
força, enquanto escovava o cabelo. Daí a poucos instantes, sem dizer palavra, o homem
alto retirou-se. Harris piscou o olho para o rapaz e o rapaz, ainda a assobiar, piscou
também. Harris disse a Philip que o homem se chamava Prior: estivera no Exército e
agora trabalhava na secção de sedas. Vivia muito isolado. Todas as noites ia ver a
namorada, saindo sem ao menos dizer boa-noite. Harris retirou-se também e o rapaz
ficou a olhar com curiosidade para Philip enquanto este tirava as suas coisas da mala.
Chamava-se Bell e trabalhava de graça, como aprendiz, na secção de miudezas.
Mostrou-se muito interessado no trajo de noite de Philip. Falou-lhe dos outros
ocupantes do quarto, fazendo-lhe toda a espécie de perguntas pessoais. Era um rapaz
alegre e, nos intervalos da conversa, cantava em voz de falsete trechos de canções
ligeiras, Depois de terminar, Philip foi dar um passeio pelas ruas, a olhar os
transeuntes. De vez em quando parava à porta dos restaurantes e olhava para os que
entravam. Sentiu fome: comprou um bolo, que comeu enquanto caminhava. O
ecónomo, o homem que às onze e um quarto fechava o gás, dera-lhe uma chave de
trinco, mas, temendo que fechassem a casa à chave, Philip voltou a tempo. Conhecia já
o sistema de multas: quem entrava depois das onze pagava um xelim, e meia coroa se
chegasse depois das onze e um quarto. Além disso, os atrasos eram levados ao
conhecimento da direcção: à terceira vez, era-se demitido.
Quando Philip chegou, todos, menos o soldado, já haviam voltado e dois
estavam na cama. Philip foi recebido com gritos.
- Oh, Pancrácio! Seu malandro!
Philip viu que Bell vestira ao travesseiro o seu traje de noite. O rapaz estava
radiante com a brincadeira.
- Tem de o vestir na «noite de confraternização«, Pancrácio.
- E, se não toma cuidado, conquista a beldade da firma.
Philip já ouvira falar das «confraternizações», pois o dinheiro descontado no
ordenado para custeá-las causava descontentamento permanente aos empregados.
Eram apenas dois xelins por mês incluindo assistência médica e direito a uma
biblioteca composta de novelas ensebadas. Mas como, além disso, descontavam ainda
quatro xelins por mês para a lavagem de roupa, Philip chegou à conclusão de que
nunca chegaria a ver a quarta parte dos seus seis xelins semanais.
A maioria dos homens comia grossas fatias de toucinho metidas entre dois
pedaços de pão. Essas sanduíches, a ceia habitual dos empregados da firma, eram
fornecidas a dois pence cada uma por uma pequena tenda vizinha. O soldado entrou
pesadamente; silencioso e rápido, tirou a roupa e atirou-se para a cama. às onze e dez,
a chama do gás aumentou subitamente e cinco minutos mais tarde apagou-se. O
soldado adormeceu logo, mas os outros, em pijama e camisa de dormir agruparam-se
perto da grande janela e atiraram os restos das sanduíches para cima das mulheres que
passavam lá em baixo, ao mesmo tempo que lhes gritavam graçolas. A casa fronteira,
de seis andares, era uma oficina de alfaiates judeus, que trabalhavam até às onze horas.
As janelas não tinham cortinas e estavam vivamente iluminadas. A filha do explorador
daquela gente - a família consistia de pai, mãe, dois rapazes e uma rapariga de vinte
anos - percorria a casa para apagar as luzes quando o trabalho terminava. às vezes, a
rapariga permitia que um dos alfaiates lhe fizesse a corte. Os colegas de Philip
divertiam-se imenso a espreitar as manobras de um ou outro homem para ficar para
trás. Faziam pequenas apostas para ver quem acabaria por vencer. à meia-noite,
fechava a taberna do fim da rua e, pouco depois, iam todos para a cama. Bell, que era o
que dormia mais perto da porta, atravessava o quarto a pular de cama para cama e
nem mesmo quando chegava à sua parava de falar. Por fim, tudo mergulhava num
silêncio perturbado apenas pelo roncar firme do soldado e Philip adormecia.
Às sete horas, acordou ao som estridente de uma sineta e às oito menos um
quarto estavam todos vestidos e desciam apressados a escada, descalços, para calçar lá
em baixo, os sapatos. Atacavam-nos a caminho da loja de Oxford Street, onde iam
tomar café. Se chegassem um minuto depois das oito, não encontravam nada e, uma
vez no estabelecimento, não tinham licença de sair para comer. Em certas ocasiões, se
sabiam não poder chegar a tempo, detinham-se numa leitaria perto da casa onde
dormiam e compravam dois bolos: mas isso custava dinheiro e a maioria preferia ficar
sem comer até à hora do almoço. Philip comeu algumas fatias de pão com manteiga,
tomou uma chávena de chá, e, às oito e meia, começou o trabalho do dia.
- A primeira à direita. A segunda à esquerda, minha senhora.
Depressa começou a responder às perguntas de maneira completamente
maquinal. O trabalho era monótono e muito fatigante. Passados alguns dias, doíam-lhe
os pés de tal forma que mal se podia manter direito. Os tapetes grossos e macios
queimavam-lhe as plantas dos pés, e à noite era-lhe doloroso tirar os sapatos. As
lamentações eram gerais e os colegas disseram-lhe que as meias e os sapatos
apodreciam, em consequência daquele suar contínuo. Todos os companheiros de
quarto sofriam da mesma maneira e aliviavam a dor dormindo com os pés fora da
roupa. A principio, Philip não podia caminhar e via-se obrigado a passar os serões na
sala de estar da casa de Harrington Street, com os pés num balde de água fria. O seu
companheiro nessas ocasiões era Bell, o rapaz da secção de miudezas, que muitas vezes
não saía, para arranjar os selos da sua colecção. E, enquanto os prendia com papel
gomado, assobiava monotonamente.
CIV
As «noites sociais» realizavam-se em segundas-feiras alternadas. Havia uma no
princípio da segunda semana de trabalho de Philip na firma. Ficou combinado que iria
em companhia de uma das empregadas da sua secção.
- Não te vendas barato - aconselhou ela. - Faze como eu.
Tratava-se de Mrs. Hodges, uma mulherzinha de quarenta e cinco anos, de
cabelos mal tingidos e rosto bilioso todo estriado de vasos capilares. A esclerótica dos
seus olhos azuis desbotados era amarelenta. Tomada de súbita amizade por Philip, não
havia uma semana que ele estava na loja e já ela o tratava pelo nome de baptismo.
- Nós dois é que sabemos o que é ter visto melhores tempos - disse ela.
Contou a Philip que o seu nome verdadeiro não era Hodges; referia-se sempre ao
«meu marido Misterodges», um advogado que a tratara de maneira tão adorável que
ela preferira abandoná-lo, recuperando a independência. Mas sabia o que era ter
carruagem própria, meu amigo - chamava a todos «meu amigo» - e ela e o marido
nunca comiam a hora certa. Costumava palitar os dentes com o alfinete do enorme
broche de prata: um chicote e um rebenque cruzados, tendo ao centro duas esporas.
Philip sentia-se mal no novo ambiente e as raparigas da loja chamavam-lhe
«convencido». Uma tratou-o um dia por «Phil» e ele não respondeu, porque não tinha
a menor ideia de que ela se dirigisse à sua pessoa. A empregada virou-lhe o rosto,
chamou-lhe «tipo presunçoso» e, na próxima. vez que lhe falou, disse com enfática
ironia «Mister Carey». Era uma Miss Jewell e ia casar-se com um médico. As outras
nunca tinham visto o noivo, mas afirmavam que devia ser um cavalheiro, a julgar pelos
presentes encantadores que lhe dava.
- Nunca dês importância ao que elas dizem, meu amigo - dizia Mrs. Hodges. -
Também passei pelo que estás a passar. Elas não têm educação, as pobrezinhas...
Acredita no que te digo, acabarão por gostar de ti se conservares a dignidade, como
conservei a minha.
A festa realizava-se no restaurante do rés-do-chão. As mesas maiores eram
arrastadas para junto das paredes, a fim de se fazer espaço para a dança, e as mais
pequenas eram preparadas para o whist progressivo.
- Os chefes têm de chegar cedo - disse Mrs. Hodges.
Apresentou Philip a Miss Bennett, que era a beldade da firma. Dirigia a secção de
«Roupas de Baixo» e quando Philip entrou, ela estava a palestrar com o chefe da secção
de «Meias para Cavalheiros». Miss Bennett era uma mulher de proporções maciças, de
cara muito grande e vermelha, fortemente empoada, e busto de dimensões imponentes.
Trazia os cabelos louros penteados com esmero. Estava vestida com luxo exagerado
para a ocasião, mas não sem gosto: vestido negro de gola alta e luvas de glacé também
negro, que não tirava nem para jogar as cartas. Viam-se-lhe em redor do pescoço várias
e pesadas correntes de ouro; braceletes nos pulsos e brincos com medalhões, um dos
quais representava a rainha Alexandra. Exibia uma bolsa de cetim preto e mastigava
«sen-sen».
- Prazer em conhecê-lo, Mr. Carey - disse. - é a primeira vez que vem às nossas
confraternizações, não é? Deve sentir-se um pouco acanhado, mas não há razão para
isso, garanto-lhe.
Fazia o possível para que os convivas se sentissem à vontade. Dava-lhes
palmadinhas no ombro e ria muito.
- Sou muito traquinas, não sou? - exclamou ela, voltando-se para Philip. - Não sei
o que pensará de mim... Mas não posso conter-me.
Aqueles que vinham tomar parte na «noite social» iam entrando os empregados
mais novos, rapazes que não tinham namoradas, e raparigas que não haviam
encontrado ninguém com quem passear. Alguns dos rapazes vestiam traje de passeio,
com gravata branca de laço e lenço de seda vermelha. Como iam representar, tinham
um ar abstracto e atarefado. Uns mostravam-se confiantes, mas outros deixavam
transparecer o nervosismo e olhavam ansiosamente para o público. Em dado
momento, uma rapariga de basta cabeleira sentou-se ao piano e correu os dedos
barulhentamente pelo teclado. Quando o auditório se acomodou, a executante correu
os olhos em redor e disse o nome da peça.
- Um passeio na Rússia.
Estalaram aplausos durante os quais, com muito destreza, ela amarrou guizos
nos pulsos. Sorriu de leve e imediatamente rompeu numa vigorosa melodia. Ao
terminar, estouraram de novo as palmas e quando estas cessaram a rapariga tocou,
como bis, uma peca que imitava o mar. Havia pequenos trilos que representavam o
ruído das ondas e acordes trovejantes, com todo o pedal, para sugerir uma tempestade.
Depois disso, um cavalheiro entoou uma canção chamada Dize-me adeus e, como bis,
mimoseou a plateia com o Canta para eu dormir. O auditório demonstrava o seu
entusiasmo com grande discernimento. Eram todos aplaudidos até bisarem, e, para que
não houvesse ciúmes, as palmas eram iguais para todos. Miss Bennett avançou para
Philip.
- Tenho a certeza de que o senhor toca ou canta, Mr. Carey - disse ela, galhofeira.
- Vê-se na sua fisionomia.
- Receio que esteja enganada.
- Mas nem ao menos recita?
- Não tenho nenhuma habilidade de salão.
O chefe da secção de «Meias para Cavalheiros» era um declamador afamado. Os
empregados da sua área pediram em altas vozes que ele dissesse alguma poesia. Não
foi preciso insistir. O homem despejou um longo poema de carácter trágico, durante o
qual revirou os olhos, pôs a mão no peito e se portou como se sofresse uma terrível
agonia. No último verso tudo se explicava: o herói do poema tinha comido pepinos ao
jantar. Provocou risos, mas um pouco forçados, pois todos conheciam muito bem o
poema. mesmo assim riram alto e longamente. Miss Bennett não cantava, não tocava
nem recitava.
- Oh, não, ela tem uma habilidadezinha própria - disse Mrs. Hodges.
- Ora não comecem a troçar comigo. É verdade que sei ler a mão e predizer o
futuro.
- Oh! Leia a minha mão, Miss Bennett - exclamaram as empregadas da sua
secção, ansiosas por agradar-lhe.
- Não gosto de ler a mão, não gosto, é verdade. Já disse a várias pessoas coisas
horríveis que vieram a acontecer e isso faz as pessoas supersticiosas.
- Oh, Miss Bennett, só uma vez.
Reuniu-se um grupo em seu redor e, no meio de gritos de embaraço, risinhos,
rubores e exclamações de susto ou admiração, a beldade da firma falou com ar
misterioso de homens louros e morenos, de carta com dinheiro e de viagens, até o suor
em grossas bagas lhe perlar a cara pintada.
- Olhem para mim - dizia ela. - Estou numa sopa.
A ceia era às nove. Havia bolos, sanduíches, chá e café, tudo grátis. Mas quem
quisesse uma água mineral tinha de pagar. A galanteria levava muitas vezes os rapazes
a oferecer «ginger-beer» às senhoras, mas as boas maneiras não permitiam que elas
aceitassem. Miss Bennett gostava muito de «ginger-beer» e não se acanhava de beber
duas e até três garrafas durante a noite; mas insistia em pagá-las do seu bolso. Os
homens gostavam dela por isso.
- É muito esquisita - diziam - mas note-se que não é má pessoa, não é como
muitas outras...
Depois da ceia jogava-se whist progressivo. Quando os jogadores passavam de
mesa para mesa, ouviam-se muitas risadas e gritos. Miss Bennett sentia cada vez mais
calor.
- Olhem para mim - dizia. - Estou numa sopa.
No momento oportuno, um dos mais ousados dentre os jovens observou que se
quisessem dançar, já era tempo de começar. A rapariga que tocara os
acompanhamentos sentou-se ao piano e colocou um pé decidido no pedal. Tocou uma
valsa sonhadora, marcando o compasso nos graves, enquanto com a mão direita
bordava arabescos em oitavas alternadas. Para variar, cruzou as mãos e passou a tocar
a melodia nos baixos.
- Ela toca bem, não é verdade? - perguntou Mrs. Hodges a Philip. - E o mais
interessante é que nunca teve lições na vida. é só de ouvido.
Miss Bennett amava a dança e a poesia acima de todas as coisas deste mundo.
Dançava bem, mas com extrema lentidão. Punha nos olhos a expressão de quem tinha
os pensamentos longe, perdidos na distância. Falava incessantemente, sobre o soalho, o
calor, a ceia. Dizia que os salões de Portman tinham os melhores soalhos de Londres e
gostava dos bailes que lá havia. Eram muito selectos, e ela não suportava dançar com
toda a espécie de homens que se não conhece. Ora, bem vê, uma rapariga expõe-se nem
se sabe a quê...
Quase todas as pessoas dançavam muito bem e se divertiam. O suor escorria-lhes
pelos rostos e os colarinhos muito altos dos rapazes amoleciam.
Philip olhava, tomado de uma tristeza que havia muito não se lembrava de ter
experimentado. Sentia-se intoleravelmente só. Não se retirava porque temia parecer
orgulhoso e ria e falava com as raparigas, mas no fundo era infeliz. Miss Bennett
perguntou-lhe se tinha namorada.
- Não - respondeu sorrindo.
- Oh, não faz mal, aqui há muitas para escolher. E algumas delas são muito
distintas. Espero que não leve muito tempo a arranjar uma...
Olhou para ele com ar patusco.
- Não te vendas barato - disse Mrs. Hodges. - é o que recomendo.
Eram quase onze horas quando a festa acabou. Philip não pôde dormir. Como os
outros, mantinha os pés doloridos fora das roupas. Procurava com toda a energia não
pensar na vida que levava. O soldado roncava tranquilamente.
CV
O salário era pago mensalmente pelo secretário. No dia de pagamento, os grupos
de empregados, ao descer do chá, entravam no corredor e juntavam-se à longa fila dos
que esperavam em ordem, como nas bichas que se formam diante de uma bilheteira.
Um a um, os homens penetravam no escritório. O secretário achava-se sentado à
escrivaninha, tendo à frente uma espécie de gamelas, cheias de dinheiro. Perguntava o
nome do empregado, procurava-o rápido no livro de registo e, depois de um olhar de
suspeita dirigido ao funcionário, mencionava em voz alta a soma que este ia receber e,
tirando o dinheiro da gamela, contava-lho na mão.
- Obrigado - dizia. - Outro!
- Obrigado - era a resposta.
O empregado passava para o segundo secretário e, antes de deixar o escritório,
pagava-lhe os quatro xelins correspondentes à lavagem da roupa, os dois xelins para a
associação e as multas em que porventura tivesse incorrido. Com o que lhe restava,
voltava para a sua secção e lá ficava à espera da hora de fechar. Na sua maioria, os
homens que moravam com Philip deviam à mulher que lhes vendia as sanduíches que
habitualmente ceavam. Era uma velha engraçada, muito gorducha, de larga cara
vermelha e cabelos escuros correctamente penteados em bandós, segundo a moda que
nos mostram os primeiros retratos da rainha Vitória. Costumava usar um chapeuzinho
preto, avental branco e mangas arregaçadas até ao cotovelo. Cortava as sanduíches
com as mãozarras sujas e engorduradas. Tinha gordura na blusa, no avental e na saia.
O seu nome era Mrs. Fletcher, mas todos lhe chamavam «Mamã». Gostava realmente
dos empregados da loja - os «meus meninos», como dizia - e nunca lhes negava crédito
no fim do mês. Era sabido que, de quando em quando, emprestava a este e àquele
alguns xelins, em ocasiões de aperto. Era uma boa mulher. Quando iam para férias ou
delas voltavam, os empregados beijavam-lhe as faces gordas e vermelhas. E a mais de
um que perdera o emprego e não conseguia achar outro trabalho, ela dera comida de
graça. Os rapazes ficavam sensibilizados ante o grande coração da velha e retribuíamlhe
com afeição sincera. Havia uma história que gostavam de contar. Um homem que
prosperara em Bradford, a ponto de chegar a ser dono de cinco lojas, voltara depois de
quinze anos para visitar «Mamã Fletcher» e dar-lhe de presente um relógio de ouro.
Philip achou-se com dezoito xelins, o que lhe sobrava do pagamento do mês. Era
o primeiro dinheiro que ganhava com o seu trabalho. Não lhe dava o orgulho que seria
de esperar; causava-lhe apenas uma sensação de desfalecimento. A pequenez da soma
agravava o desamparo da sua situação. Quis dar quinze xelins a Mrs. Athelny, como
pagamento parcial do que lhe devia, mas ela não aceitou mais de meio soberano.
- Mas não vê que assim levarei oito meses a pagar a minha dívida?
- Enquanto o Athelny estiver a trabalhar, posso esperar. E, depois, quem sabe
se eles não lhe darão um aumento?
Athelny prometia sempre falar ao gerente a respeito de Philip. Era absurdo que o
talento do rapaz não fosse aproveitado. Mas nada fez e Philip em breve chegou à
conclusão de que o agente de publicidade não era pessoa de tão grande importância
aos olhos do gerente como o era a seus próprios olhos. às vezes, via Athelny na loja. Lá,
perdia o ar bombástico. E, metido em roupas limpas mas vulgares, passava apressado
através das secções - um homenzinho humilhado, cabisbaixo, ansioso que ninguém
desse pela sua presença.
- Quando penso no tempo que perco naquela firma... - dizia em casa. - Fico quase
tentado a pedir a demissão. Aquilo não é campo para um homem como eu. Estou a
estragar-me, passo fome.
Mrs. Athelny, que costurava tranquilamente, não dava ouvidos àquelas queixas.
Apertava um pouco os lábios.
- É muito difícil encontrar trabalho hoje em dia. O emprego que tens é fixo e
garantido. Espero que fiques nele enquanto estiverem satisfeitos contigo.
Era evidente que Athelny ficaria. Valia a pena observar o ascendente que essa
criatura sem instrução, que não estava presa a ele por nenhum laço legal, adquirira
sobre aquele homem brilhante e volúvel. Agora que Philip se encontrava numa
situação diferente, Mrs. Athelny tratava-o com uma bondade materna e ele comovia-se
ao ver-lhe a ansiedade para que ele comesse bem. Era o conforto da sua vida (e quando
se habituou àquilo, a monotonia desta era o que mais o apavorava) poder ir todos os
domingos àquela casa amiga. Que alegria sentar-se naquelas imponentes cadeiras
espanholas e discutir toda a espécie de coisas com Athelny! Embora as suas condições
de vida não lhe parecessem auspiciosas, voltava sempre para o quarto de Harrington
Street com um sentimento de alegria exultante. A princípio, para não esquecer o que
aprendera, Philip tentou continuar a leitura dos livros de medicina, mas viu que era
inútil. Não podia fixar a atenção no estudo, depois do exaustivo trabalho do dia.
Parecia inútil continuar a estudar, visto não saber quando lhe seria possível voltar para
o hospital. Sonhava frequentemente que estava na enfermaria. O despertar era
doloroso. A sensação de outras pessoas a dormir no mesmo quarto era-lhe
inexprimivelmente penosa. Habituara-se à solidão e estar sempre em companhia de
outros, nunca ficar um instante a sós consigo próprio, parecia-lhe horrível nesses
momentos. Era então que se lhe afigurava mais difícil combater o desespero. Via-se a
continuar naquela vida - «primeira, à direita, segunda, à esquerda, minha senhora»,
indefinidamente. E, além disso, teria de dar graças se não fosse despedido. Os homens
que tinham ido para a guerra em breve estariam de volta; a firma garantira-lhes a
readmissão, e isso significava que outros seriam dispensados. Precisaria de
movimentar-se até mesmo para manter o miserável posto que ocupava.
Só uma coisa podia libertá-lo: era a morte do tio. Receberia então algumas
centenas de libras e com elas ficaria habilitado a concluir o curso de medicina.
Começou a desejar de todo o coração a morte do velho. Calculava o tempo que lhe
podia restar de vida. O pastor já passara dos setenta. Philip não lhe sabia a idade
exacta, mas o tio William devia ter pelo menos uns setenta e cinco. Sofria de bronquite
crónica e todos os Invernos lhe vinha uma tosse rebelde. Embora já soubesse a matéria
de cor, Philip lia e tornava a reler, nos seus livros de medicina, a marcha da bronquite
crónica nos velhos. Um Inverno rigoroso podia ser fatal ao velho. De todo o coração,
Philip desejava chuva e frio. Pensava nisso constantemente, de tal modo que a ideia se
converteu em monomania. O tio William sofria também os efeitos do calor, e em
Agosto havia três semanas de canícula. Philip imaginava que um dia, talvez viesse um
telegrama dizendo que o vigário morrera subitamente, e pensava no inexprimível
alívio que sentiria. Enquanto, no alto da escada, indicava às pessoas as secções
desejadas, reflectia no destino a dar ao dinheiro. Não sabia a quanto montava a
herança; talvez não fossem mais de quinhentas libras, mas mesmo isso seria o bastante.
Deixaria o emprego imediatamente, sem se dar o trabalho sequer de prevenir,
arranjaria a mala e sairia sem dizer palavra a ninguém; voltaria então para o hospital.
Era a primeira coisa a fazer. Estaria muito esquecido? Em seis meses, recordaria tudo;
feito isso, submeter-se-ia aos seus três exames o mais depressa possível; em primeiro
lugar, obstetrícia e, depois, cirurgia e clínica médica. Assaltava-o um medo terrível de
que o tio, não obstante as suas promessas, viesse a deixar tudo à igreja e à paróquia.
Este pensamento tornava-o doente. O tio não seria tão cruel a esse ponto. Mas, se isso
acontecesse, Philip já resolvera quanto ao que lhe cumpria fazer. Não continuaria
indefinidamente daquela maneira. A vida era-lhe tolerável apenas porque podia
esperar algo de melhor. Quando perdesse a esperança, não teria medo. A única decisão
corajosa, em tal circunstância, seria suicidar-se e, pensando nisso repetidas vezes,
deliberava cuidadosamente qual o veneno indolor a tomar e como consegui-lo. Davalhe
ânimo pensar que, se as coisas se tornassem insuportáveis; possuía, afinal de
contas, uma forma de evasão.
- Segundo à direita, minha senhora, e em baixo. Primeira à esquerda, depois siga
a direito. Mr. Philips, faça o favor de seguir em frente.
Uma vez por mês, durante uma semana, Philip ficava «de serviço». Tinha de ir
para a secção às sete da manhã e vigiar os varredores. Quando estes terminavam, devia
tirar as capas das caixas e dos modelos. Depois, à noite, quando os empregados se iam
embora, tinha de repor as coberturas nos modelos e nas caixas e «chefiar» novamente
os varredores. Era um trabalho poeirento e sujo. Não lhe permitia ler, escrever ou
fumar, mas simplesmente andar de cá para lá. O tempo custava imenso a passar.
Quando saía, às nove e meia, davam-lhe uma pequena ceia e era esta a única
compensação, pois o chá das cinco deixava-o com um grande apetite e o pão com
queijo, e o cacau abundante que a firma fornecia, eram recebidos com satisfação.
Um dia, quando havia já três meses que Philip trabalhava na firma de Lynn, Mr.
Sampson entrou na secção a espumar de cólera. O gerente, que, ao entrar, olhara a
vitrina de roupas, mandara chamar o chefe da secção e fizera observações satíricas a
propósito do arranjo das cores. Obrigado a calar-se diante do sarcasmo do seu
superior, Mr. Sampson desforrou-se nos caixeiros e deu uma desanda no pobre-diabo
que tinha a seu cargo a ornamentação da vitrina.
- Quando se quer uma coisa bem feita, há que fazê-la com as próprias mãos -
trovejava. - Já o disse e nunca me canso de repetir. Não se pode confiar nada a vocês. E
ainda se acham inteligentes... Ora... inteligentes!
Atirava-lhes esta palavra como se fosse o mais acerbo termo injurioso.
- Não sabem que, se pusermos um azul eléctrico na vitrina ele matará todos os
outros azuis?
Correu os olhos pela secção, com ar feroz, e o seu olhar recaiu sobre Philip.
- Você fica encarregado de fazer a vitrina na próxima sexta-feira, Carey. Vamos a
ver como se sai.
Voltou para o escritório, a resmungar, cheio de cólera. O coração de Philip
desfaleceu. Quando chegou a sexta-feira, entrou na vitrina com uma doentia sensação
de vergonha. As faces ardiam-lhe. Era horrível exibir-se aos transeuntes e, embora
tentasse convencer-se de que era uma tolice entregar-se a semelhante sentimento,
voltou as costas para a rua. Não havia muita probabilidade de que algum dos
estudantes do hospital passasse pela Oxford Street àquela hora, e não conhecia mais
ninguém em Londres. Mas, enquanto trabalhava, com um nó na garganta, Philip tinha
a permanente impressão de que, ao voltar-se, daria com os olhos em algum conhecido.
Apressou-se o mais possível. Pela simples observação de que todos os vermelhos se
casavam bem, espaçando os modelos mais do que o habitual, Philip conseguiu um
efeito excelente. E quando o chefe da secção foi à rua para apreciar o resultado, ficou
visivelmente satisfeito.
- Sabia que não errava ao mandá-lo para a vitrina. O facto é que você e eu somos
pessoas de educação. Olhe que não diria isso lá na secção, mas você e eu somos
educados e isso dá sempre na vista. Não vale a pena dizer que não, porque sei que isso
dá na vista.
Philip foi escalado para fazer regularmente esse trabalho, mas não pôde
acostumar-se à publicidade. Abominava as manhãs de sexta-feira, quando lhe cumpria
arranjar a vitrina, num medo que o fazia despertar às cinco horas e ficar na cama de
olhos abertos, com o coração angustiado. As raparigas da secção perceberam-lhe o
feitio acanhado e depressa descobriram o seu estratagema de ficar com as costas
voltadas para a rua. Riam dele e chamavam-lhe «arisco».
- Acho que você tem medo que a sua tia passe e risque o seu nome do testamento.
De um modo geral, dava-se bem com as empregadas. Achavam-no um tanto
esquisito, mas o seu pé boto parecia desculpar o facto de não ser como os outros. E,
com o correr do tempo, verificaram que Philip era boa pessoa. Nunca deixava de
auxiliar os outros, era polido e afável.
- Bem se vê que é um cavalheiro - diziam.
- Muito reservado, não é? - observou uma das raparigas, cujo apaixonado
entusiasmo pelo teatro deixara Philip impassível.
Na sua maioria, tinham «amiguinhos», e as que não os tinham preferiam dizer o
contrário a dar a entender que ninguém as procurava. Uma ou outra dera sinais de
querer começar namoro com Philip e este observava-lhes as manobras, e divertia-se
sob o seu ar grave. Fartara-se de amar por muito tempo; quase sempre se sentia
cansado e muitas vezes com fome.
CVI
Philip evitava os lugares que frequentara em tempos mais felizes. As pequenas
reuniões na casa de Beak Street tinham cessado. Macalister, como deixara os amigos
em má situação, não mais aparecera lá e Hayward estava no Cabo. Só restava Lawson,
e Philip, sentindo agora que o pintor e ele já nada tinham de comum, não desejava vêlo.
Mas no sábado à tarde, depois de jantar e mudar de roupa, Philip descia a Regent
Street para ir à biblioteca pública, em St. Martin's Lane, resolvido a passar lá a tarde,
quando, de súbito, se viu em frente do pintor. O seu primeiro impulso foi de passar
sem dizer uma palavra, mas Lawson não lhe deu ensejo.
- Mas onde diabo estiveste metido todo este tempo? - exclamou.
- Eu? - retorquiu Philip.
- Escrevi a convidar-te a vir ao estúdio para uma festa e nem sequer
respondeste...
- Não recebi a tua carta.
- Sim, eu sei. Fui ao hospital perguntar por ti e vi a minha carta no escaninho da
entrada. Largaste a medicina?
Philip hesitou um momento. Envergonhava-se de dizer a verdade, mas a
vergonha que sentia deixava-o encolerizado. Fez um esforço para falar. Não pôde
conter o rubor das faces
- Sim. Perdi o pouco dinheiro que tinha. Não tive recursos para continuar.
- Ah!... Que pena! Que fazes agora?
- Sou indicador numa loja.
Estas palavras sufocaram-no, mas estava resolvido a não ocultar a verdade.
Manteve os olhos fitos em Lawson e viu-lhe o embaraço. Sorriu furioso.
- Se fores à casa Lynn & Sedley e te dirigires para a secção de «Roupas Feitas»,
ver-me-ás metido num fraque, a caminhar de lá para cá, com ar degagê, indicando os
balcões para as damas que querem comprar camisas ou meias. Primeira à direita,
minha senhora. Segunda à esquerda!
Vendo que Philip fazia humorismo, Lawson riu desajeitadamente Não sabia que
dizer. O quadro que Philip lhe pintava horrorizava-o, mas temia mostrar comiseração.
- É uma grande mudança para ti... - disse.
As palavras pareceram-lhe absurdas e logo se arrependeu de tê-las pronunciado.
Philip corou profundamente.
- É... - disse. - A propósito, devo-te cinco xelins.
Meteu a mão no bolso e tirou algumas moedas de prata.
- Ora, não tem importância. Até já me esquecera
- Toma lá, anda.
Lawson recebeu o dinheiro em silêncio. Achavam-se ambos no meio da rua e as
pessoas, ao passarem, acotovelavam-nos. Havia nos olhos de Philip um brilho
sarcástico que causava intenso mal-estar ao pintor. Ignorava que o coração do outro
estava cheio de desespero. Lawson desejava fazer com urgência alguma coisa, mas não
sabia o quê.
- Escuta, não queres ir ao estúdio para conversarmos?
- Não - respondeu Philip.
- Porquê?
- Não há nada a dizer.
Philip viu uma expressão dolorosa nos olhos de Lawson. Lamentava, mas nada
podia fazer: tinha de pensar em si próprio. Não podia suportar a ideia de discutir a sua
situação: só podia aturá-la mediante permanente resolução de não pensar nela.
Receava a própria fraqueza, uma vez que tivesse aberto o coração. Além disso, sentia
uma irresistível repulsa pelos lugares em que fora infeliz. Lembrava-se da humilhação
que sofrera naquele estúdio, quando torturado por uma fome canina, esperara que
Lawson lhe oferecesse uma refeição. Lembrava-se também do dia em que lhe pedira os
cinco xelins emprestados. Detestava a presença de Lawson porque ela lhe lembrava
aqueles dias de completo rebaixamento.
- Então vem jantar comigo uma noite destas. A noite que quiseres.
Philip estava comovido com a bondade do pintor. Era estranho como toda a
gente se mostrava bondosa para ele, reflectiu.
- É uma grande gentileza tua, meu velho, mas prefiro não ir. - Estendeu a mão. -
Adeus.
Lawson, perturbado por uma conduta que lhe parecia inexplicável, apertou-lhe a
mão e Philip, coxeando, afastou-se rapidamente. Levava um peso no coração e, como
era seu costume, começou a censurar-se pelo que fizera. Não sabia que louco orgulho o
levara a recusar aquele oferecimento de amizade. Mas ouviu que alguém corria atrás
dele e, num dado momento, ouviu a voz de Lawson a chamá-lo. Parou e, de súbito, um
sentimento de hostilidade tomou-lhe conta do ser. Philip apresentou a Lawson um
rosto frio e carrancudo.
- Que há?
- Já sabes o que sucedeu a Hayward?
- Sim, sei que foi para o Cabo.
- Morreu... Morreu logo que lá chegou.
Por um momento, Philip não respondeu. Mal podia acreditar no que ouvia.
- Como? - perguntou por fim.
- Ora... Disenteria. Má sorte, não achas? Estava a parecer-me que não sabias.
Quando me disseram, fiquei bastante abalado.
Lawson fez um cumprimento rápido com a cabeça e retirou-se. Philip sentiu uma
pancada seca no coração. Nunca perdera um amigo da sua idade, pois a morte de
Cronshaw, homem muito mais velho do que ele, ocorrera como um facto normal e
esperado. A notícia que acabava de receber causara-lhe um choque. Lembrava-lhe a
sua própria condição mortal, pois embora, como toda a gente, Philip soubesse
perfeitamente que os homens, sem excepção, devem morrer, não tinha nenhum
sentimento íntimo de que isso se aplicasse à sua pessoa. E a morte de Hayward, apesar
de haver já muito tempo que não tinha por ele nenhuma afeição especial, atingiu-o
profundamente. Lembrou-se, de súbito, de todas as boas palestras que haviam tido e
era-lhe doloroso pensar em que jamais conversariam. Recordava-se do seu primeiro
encontro e dos agradáveis meses que tinham passado juntos em Heidelberga. o coração
de Philip batia apressado, ao lembrar-se dos anos decorridos. Continuou a caminhar
maquinalmente, sem notar para onde ia, e de repente verificou, com um movimento de
irritação, que, em vez de dobrar para Haymarket vagueara ao longo da Shaftesbury
Avenue. Aborrecia-o voltar sobre os próprios passos e, além, disso, aquela notícia
tirara-lhe a vontade de ler; queria, sim, ficar sentado na solidão e entregar-se aos seus
pensamentos. Resolveu ir ao British Museum. A solidão era agora o seu único luxo.
Desde que estava na firma Lynn, ia ali com frequência para se postar diante dos grupos
do Partenon. E, sem nenhum pensamento deliberado, deixava que os mármores
divinos lhe dessem repouso à alma perturbada. Naquela tarde, porém, eles nada
tinham para lhe dizer. Passados uns minutos saiu impaciente da sala. Havia ali muita
gente, provincianos de fisionomia atoleimada, estrangeiros a compulsar catálogos; a
fealdade daquela gente conspurcava as obras-primas eternas, a sua agitação turbava o
repouso imortal dos deuses. Entrou noutra sala, onde quase não havia ninguém.
Cansado, sentou-se. Os seus nervos estavam tensos. Não podia afastar do espírito
aquela gente. às vezes, na casa de Lynn, tinha a mesma impressão e contemplava com
horror o desfile. Eram seres tão feios e havia tamanha mesquinhez nas suas faces, que
chegavam a causar terror. Tinham as feições deformadas por todos os desejos vis.
Sentia-se que viviam alheios às ideias de beleza. Tinham olhos furtivos e queixos
fracos. Não havia maldade neles, apenas pequenez e vulgaridade. O único género de
espírito que conheciam era a comicidade baixa. às vezes, Philip surpreendia-se a olhálos,
à procura de descobrir com que animal se pareciam (fazia por evitá-lo, pois isso
rapidamente se transformava em obsessão) e em todos havia um pouco de carneiro, de
cavalo, de raposa ou de bode. Os seres humanos enchiam-no de repulsa.
Mas, pouco depois, a influência do lugar tomou conta dele. Sentiu-se mais
tranquilo. Começou a olhar distraidamente as pedras tumulares que se enfileiravam na
sala. Eram obras de canteiros atenienses do quarto e quinto séculos antes de Cristo.
Muito simples, não constituíam trabalho de grande talento, mas nelas vivia o inefável
espírito de Atenas. O tempo dera ao mármore a cor do mel, de tal maneira que,
inconscientemente, se pensava nas abelhas do Himeto, e suavizara-lhe os contornos.
Algumas das lápidas representavam uma figura nua, sentada num banco. Outras, a
separação dos mortos daqueles que os amavam. Noutras ainda, viam-se os mortos de
mãos unidas com alguém que ficava para trás. Em todos, a trágica palavra adeus; isso e
nada mais. Essa simplicidade era infinitamente tocante. O amigo deixava o amigo, o
filho separava-se da mãe e a necessidade de dominar-se tornava mais pungente a dor
dos que sobreviviam. Muitos, muitíssimos séculos tinham passado sobre aquelas
desgraças. Havia dois mil anos que os que tinham chorado jaziam feitos pó, bem como
aqueles que prantearam. Mas a sua dor continuava viva e enchia o coração de Philip,
de tal modo que sentia um impulso de compaixão, dizendo:
- Coitados, coitados.
E ocorreu-lhe que os visitantes boquiabertos e os gordos turistas a manusear os
seus guias, e mais toda aquela gente vulgar e mesquinha que enchia a loja com os seus
desejos triviais e os seus cuidados comuns, eram mortais e tinham de morrer. Também
amavam e deviam separar-se dos entes queridos, a mãe do filho, a esposa do marido; e
talvez aquilo fosse mais trágico por causa da sordidez e da fealdade das próprias vidas.
Nada sabiam daquilo que dá beleza ao mundo. Havia uma pedra muito bela: um baixo
relevo de dois homens jovens, de mãos dadas; e a reticência da linha, a simplicidade,
faziam pensar que ali o escultor fora tocado por sincera comoção. Era um delicado
monumento elevado a esse sentimento que só um outro no mundo ultrapassa - a
amizade. Ao contemplá-lo, Philip sentiu que as lágrimas lhe vinham aos olhos. Pensou
em Hayward e recordou-se da sua ardente admiração por ele, quando do primeiro
encontro, de como viera depois a desilusão e mais tarde a indiferença, até que por fim
nada os mantinha unidos senão o hábito e as velhas memórias. Uma das coisas
curiosas da vida é que, depois de vermos uma pessoa todos os dias durante meses, se
nos torna tão íntima que não podemos imaginar a existência sem ela; mas vem a
separação e tudo prossegue de idêntica maneira, de modo que a companhia que
parecia essencial revela-se desnecessária. A nossa vida contínua e nós nem ao menos
sentimos a falta do amigo. Philip pensou naqueles remotos dias de Heidelberga.
Hayward, capaz de grandes coisas, mostrara-se cheio de entusiasmo pelo futuro, mas
com o passar do tempo nada realizara e resignara-se ao malogro. Agora, estava morto.
A sua morte fora tão fútil como a sua vida. Morrera ingloriamente, de uma doença
estúpida, falhando uma derradeira vez na realização do que se propunha. Agora, era
exactamente como se nunca tivesse existido.
Philip perguntava consigo, desesperadamente, qual era a finalidade da
existência. Parecia-lhe inane. Passara-se o mesmo com Cronshaw: nenhuma
importância havia no facto de ter vivido. Estava morto e esquecido; o seu livro de
poemas andava pelos alfarrabistas. A sua vida parecia não ter servido senão para dar a
um jornalista ambicioso pretexto para escrever um artigo. E Philip exclamava
interiormente:
- De que serve tudo isto?
Que desproporção entre o esforço e o resultado! As brilhantes esperanças da
juventude tinham de ser pagas ao preço amargo da desilusão. Como a dor, a doença e
a desgraça pesavam na balança! Que significava tudo aquilo? Pensou na sua própria
vida, nas vivas esperanças com que entrara nela, nas limitações que lhe eram impostas
pelo corpo, na falta de amigos e na ausência de afeição que lhe cercara a juventude.
Sempre fizera o que lhe parecia melhor, mas que desastre o seu! Outros homens, sem
maiores vantagens do que ele, triunfavam e outros ainda, com muito mais predicados,
falhavam! Parecia pura questão de sorte. A chuva caía tanto sobre o justo como sobre o
ímpio, e para nada neste mundo havia motivo ou causa.
Ao pensar em Cronshaw, Philip lembrou-se do tapete persa que o poeta lhe dera,
dizendo que ele oferecia uma resposta à sua pergunta sobre o sentido da vida. E, de
súbito, a resposta ocorreu-lhe. Soltou uma risada. Agora que a tinha, era como um
desses quebra-cabeças que nos obcecam até que alguém nos mostra a solução; ficamos
então a imaginar como aquilo nos pôde escapar. A resposta era evidente. A vida não
tem sentido. Sobre a Terra, satélite de um astro que viaja velozmente pelo espaço, seres
vivos surgiram sob a influência de condições criadas pela história do planeta. E, tendo
assim havido um começo de vida na Terra, sob a influência de outras condições haverá
um fim. O homem, que não é mais importante do que as outras formas de vida, não
surgiu como o ponto culminante da criação, mas como uma reacção física ao meto
ambiente. Philip lembrou-se da fábula do rei oriental que, desejando conhecer a
história do homem, recebeu de um sábio quinhentos volumes; atarefado com os
assuntos do governo, solicitou-lhe que os condensasse. Passados vinte anos, o sábio
voltou e a sua história não tinha agora mais de cinquenta volumes; mas o rei,
demasiado velho então para ler tantos e tão maçudos tomos, rogou-lhe que abreviasse
uma vez mais a história. Passaram-se mais vinte anos e o sábio, velho e encanecido,
trouxe um único livro, no qual se continha a ciência que o rei procurava. Mas o rei jazia
no seu leito de morte e não lhe sobraria tempo para ler nem aquele volume. O sábio,
então, narrou-lhe a história do homem numa simples linha. Era esta: nasceu, sofreu e
morreu. A vida não tem nenhum sentido. E, vivendo, o homem não cumpre finalidade
alguma. é indiferente que ele nasça ou não nasça, viva ou deixe de viver. A vida é
insignificante e a morte sem consequência. Philip exultou como exultara na infância,
quando o peso da crença em Deus lhe fora tirado dos ombros. Parecia-lhe que alijava
agora a última carga de responsabilidade. E, pela primeira vez, sentiu-se livre. A sua
insignificância transformava-se em força e ele sentia-se de súbito um igual do destino
cruel que parecia persegui-lo. Porque se a vida não tem sentido, o mundo fica
despojado da sua crueldade. O que fizesse ou deixasse de fazer nada significava. O
malogro não tinha importância e o êxito redundava em nada. Era a criatura mais
insignificante naquela massa pululante da humanidade que, por breve espaço, ocupa a
superfície da Terra. E era todo-poderoso porque arrancara ao caos o segredo da sua
inanidade. Os pensamentos atropelavam-se-lhe no cérebro excitado. Philip aspirava o
ar profundamente, com jubilosa satisfação. Tinha vontade de pular e cantar. Havia
meses que não se sentia tão feliz.
- Oh! Vida - gritou intimamente. - Oh! Vida, onde está o teu aguilhão?
Porque a mesma onda de fantasia que lhe mostrara, com toda a força de uma
demonstração matemática, que a vida não tinha sentido, trazia consigo outra ideia. E
fora por isso que Cronshaw, imaginava ele, lhe dera o tapete persa. Assim como o
tecelão desenha o tapete sem outro cuidado que não o prazer estético, pode um homem
viver a sua vida; ou, para quem for obrigado a acreditar que os seus actos não
dependem da vontade, nada impede de contemplar a própria existência como um
plano estabelecido. Mas não entra nessa procura nem necessidade nem utilidade. é
simplesmente a busca de uma satisfação pessoal. De acontecimentos diversos, acções,
sentimentos, pensamentos, podia traçar um desenho regular, trabalhado, complicado
ou belo. Essa faculdade de escolher não será talvez uma ilusão, um prodigioso
escamoteio, graças ao qual as aparências se irisam de reflexos? Não importava: assim
parecia; portanto, para ele, era. No curso contínuo da vida (esse rio nascido de
nenhuma fonte e que corre interminavelmente para mar algum) um imaginativo, uma
vez convencido da vaidade da existência, pode encontrar uma satisfação pessoal na
escolha dos vários fios que formam o desenho. Existe um padrão, o mais simples,
perfeito e belo, no qual um homem nasce, chega à virilidade, casa, procria filhos, luta
pelo pão e morre. Mas outros há, intrincados e maravilhosos, nos quais a felicidade não
entra e onde não se tenta o êxito; nesses, pode-se descobrir uma graça mais
perturbadora. Algumas vidas, e entre elas a de Hayward, são truncadas pela cega
indiferença da sorte, quando o desenho ainda está imperfeito. Nesse caso, é
reconfortante pensar que isso não tem a mínima importância. Outras vidas, como a de
Cronshaw, oferecem um desenho difícil de seguir: é preciso mudar de ponto de vista,
alterar velhos conceitos, para poder compreender que semelhante vida é a sua própria
justificação. Afastando o desejo de felicidade, Philip pensava libertar-se das
derradeiras ilusões. A vida afigurava-se-lhe horrível quando medida pelo padrão da
felicidade, mas agora tinha a impressão de ganhar forças ao descobrir que ela podia ser
aferida por outros estalões. A felicidade importava tão pouco como a dor. Uma e outra
contribuíam, como todos os demais pormenores da vida, para a elaboração do
desenho. Por um instante, teve a impressão de pairar acima dos acidentes da sua
existência e sentia que eles já não podiam atingi-lo como antes. O que lhe acontecesse
agora seria apenas mais um motivo a acrescentar à complexidade do padrão. E quando
o fim se aproximasse, rejubilaria pelo seu acabamento. Seria uma obra de arte e nem
por ser ele o único a conhecer-lhe a existência deixaria de ser bela; e com a sua morte a
existência cessaria imediatamente de o ser.
Philip sentia-se feliz.
CVII
Mr. Sampson, o chefe de secção, tomou-se de simpatia por Philip. Era um homem
muito elegante e as empregadas da sua secção diziam que não seria de admirar se ele
casasse com uma das freguesas ricas. Morava fora da cidade e muitas vezes causava
impressão aos seus subordinados, vindo para o trabalho com trajo de noite. Algumas
vezes fora visto pelos que faziam o serviço de limpeza chegar pela manhã ainda enfarpelado
e, enquanto entrava no escritório para vestir o fraque habitual, os empregados
trocavam piscadelas graves. Nesses dias, ao voltar do chá, bebido à pressa, por sua vez
piscava o olho a Philip enquanto descia as escadas, a esfregar as mãos.
- Que noite! Que noite, meu Deus! - exclamava.
Dizia a Philip que ele era o único cavalheiro na casa e que só eles é que sabiam o
que a vida era. Pronunciadas essas palavras, as suas maneiras mudavam de súbito.
Passava a chamar-lhe Mr. Carey em vez de «meu velho», assumia o ar de importância
consentâneo com a sua posição de chefe e fazia voltar Philip ao seu lugar de simples
indicador.
Lynn & Sedley recebiam figurinos de Paris uma vez por semana e adaptavam os
modelos às necessidades dos seus fregueses. A clientela da casa era especial. A parte
principal era constituída por mulheres das pequenas cidades industriais, demasiado
elegantes para fazerem os seus vestidos na localidade onde residiam, e que não
possuíam o suficiente conhecimento de Londres para descobrir bons costureiros ao
alcance das suas posses. Além dessa gente, havia, em singular contraste, grande
número de artistas ligeiros. o próprio Mr. Sampson conquistara essa freguesia para a
casa, com o que muito se orgulhava. Haviam começado por comprar ali roupas para o
palco e o homem induzira grande número a comprar também o resto do vestuário.
- Tão bom como Paquin e por metade do preço - afirmava ele.
Ele tinha um ar persuasivo, afável e comunicativo para essa espécie de fregueses
que comentavam entre si:
- De que vale deitar dinheiro fora, quando se pode comprar no Lynn um vestido
que ninguém dirá que não veio de Paris?
Mr. Sampson tinha grande orgulho na amizade dos artistas populares, e sempre
que ia almoçar às duas horas do domingo, com Miss Victoria Virgo - «ela trazia aquele
azul polvilhado que lhe fizemos e aposto que não disse a ninguém ser de fabrico nosso;
tive mesmo de afirmar-lhe que, se não o tivesse desenhado com as minhas próprias
mãos, juraria que o vestido viera de Paquin» - na sua bela residência de Tulse Hill, no
dia seguinte mimoseava a secção com abundantes pormenores. Philip nunca dera
muita atenção ao vestuário feminino, mas, com o decorrer do tempo, um pouco
divertido consigo próprio, começou a tomar pelo assunto um interesse técnico. Mais do
que ninguém da secção, sabia ver as cores e ainda conservava dos tempos de estudante
em Paris um certo conhecimento de desenho. Mr. Sampson, homem ignorante e
cônscio da sua incompetência, mas com uma habilidade que o habilitava a aproveitar
as sugestões alheias, pedia constantemente a opinião dos empregados da sua secção
sobre os novos desenhos. Teve a inteligência de perceber que a crítica de Philip era
valiosa. Mas, como era muito ciumento, jamais confessaria ter aceitado o conselho de
quem quer que fosse. Quando alterava algum desenho de acordo com uma sugestão de
Philip, acabava sempre por dizer:
- Bom, no fundo isso concorda com a minha ideia.
Um dia, quando havia já cinco meses que Philip estava na casa, Miss Alice
Antónia, a conhecida actriz joco-séria, entrou na loja e pediu para falar a Mr. Sampson.
Era uma mulher avantajada, de cabelos cor de linho, muito pintada, com uma voz
metálica e esse jeito aéreo da comediante habituada à amizade dos rapazes que enchem
as galerias dos teatros de variedades provincianos. Tinha uma nova canção e desejava
que Mr. Sampson lhe desenhasse um trajo.
- Quero uma coisa que chame a atenção - recomendou ela. - Nada dessas
velharias. Quero uma coisa diferente, que ninguém tenha usado.
Mr. Sampson, com modos suaves e familiares, disse que estava absolutamente
certo de arranjar o que ela precisava. Mostrou-lhe esboços.
- Sei que aqui não encontrará nada que preste, mas quero mostrar-lhe o género
que sugeriria...
- Oh! Não! Não é nada disso - retorquiu ela, enquanto passava os olhos,
impacientes pelos desenhos. - Quero uma coisa que dê nas vistas e os deixe de boca
aberta.
- Sim, entendo perfeitamente, Miss Antónia - disse o chefe da secção, com um
sorriso brando, mas com os olhos vagos e estúpidos.
- Creio que, no fim de contas, terei que dar um pulo a Paris.
- Não, não! Penso que podemos servi-la satisfatoriamente, Miss Antónia. O que
conseguir em Paris pode conseguir também aqui.
Depois de ela, numa reviravolta, deixar a loja, Mr. Sampson, um pouco
preocupado, discutiu o assunto com Mrs. Hodges.
- Ela é dura de roer, não há dúvida - disse Mrs. Hodges.
- Alice, mas que queres? - monologou o chefe da secção, irritado. E julgou ter
marcado um tento contra ela.
As suas ideias sobre vestidos de variedades jamais iam além de saias curtas, um
turbilhão de rendas e lantejoulas rebrilhantes. Mas Miss Antónia exprimira-se a esse
respeito de maneira inconfundível.
- Ai, minha vida! - dissera ela.
A exclamação fora lançada num tom que indicava profunda antipatia por coisa
tão comum, mesmo se ela não tivesse acrescentado que aquelas lantejoulas lhe
causavam nojo. Mr. Sampson «expeliu» uma ou duas ideias, mas Mrs. Hodges disselhe
francamente achar que não serviam. Foi ela quem pensou em Philip.
- Sabes desenhar, Phil. Por que não fazes uma experiência para veres do que és
capaz?
Philip comprou uma caixa barata de tintas de aguarela e à noite, enquanto Bell, o
barulhento rapaz, assobiando sempre as mesmas três notas, se entretinha com os selos -
fez uns esboços. Lembrava-se de alguns vestidos que vira em Paris e adaptou um
deles, tirando efeito de uma combinação de cores violentas e pouco comuns. O
resultado divertiu-o e, na manhã seguinte, mostrou o desenho a Mrs. Hodges. Ela ficou
um tanto espantada, mas levou-o ao chefe.
- É invulgar - disse ele. - Isso não se pode negar.
Ficou intrigado, mas ao mesmo tempo o seu olho prático viu que aquilo ia servir
à maravilha. A fim de salvar a sua dignidade, começou a fazer sugestões para alterar o
modelo, mas Mrs. Hodges, com melhor senso, aconselhou-o a mostrá-lo a Miss
Antónia assim como estava.
- Com ela é tudo ou nada. E podia entusiasmar-se por ele.
- É muito mais nada do que tudo - afirmou Mr. Sampson, olhando para o
décolletage. - Ele sabe desenhar. é estranho por que não o disse há mais tempo.
Quando Miss Antónia foi anunciada, o chefe colocou o desenho em cima da
mesa, em posição tal que lhe atraísse a atenção no momento em que ela entrasse no
escritório. Ela reparou logo nele.
- E isto o que é? - indagou ela. - Porque não mo faz?
- É precisamente uma ideia que tivemos para si - disse Mr. Sampson com ar
despreocupado. - Gosta?
- Se gosto!? - exclamou ela. - é isso mesmo o que me serve.
- Ah... Vê? Não precisa de ir a Paris. Basta dizer o que quer para ser atendida.
O trabalho foi posto imediatamente em execução. Philip sentiu um arrepio de
satisfação ao ver terminado o vestido. Mr. Sampson e Mrs. Hodges ficaram com todas
as glórias. Mas isso pouco importava a Philip e, quando foi ao Tivoli em companhia
dos dois ver Miss Antónia usar o vestido pela primeira vez, sentiu-se orgulhoso.
Respondendo às perguntas de Mrs. Hodges, contou-lhe afinal como aprendera a
desenhar -(temendo que as pessoas com quem vivia agora pudessem pensar que se
dava ares de importância, sempre tivera o maior cuidado em não falar das suas
ocupações passadas) - e ela repetiu a informação a Mr. Sampson. O chefe da secção
nada lhe disse sobre o assunto, mas começou a tratá-lo com mais deferência e
oportunamente encomendou-lhe desenhos para dois fregueses da província. Os
modelos agradaram. Mr. Sampson, então, começou a falar às clientes de «um talentoso
jovem, estudante de belas-artes em Paris, sabe?...» que trabalhava para ele. Em breve
Philip, em mangas de camisa, escondido atrás de um biombo, passou a desenhar de
manhã à noite. Algumas vezes, estava tão ocupado que tinha de almoçar às três, com
os retardatários. Gostava disso, porque estes eram poucos e estavam demasiado
cansados para falar. A comida também era melhor, pois consistia nas sobras da mesa
dos chefes de secção. A promoção de Philip a desenhador de vestidos teve grande
efeito na secção. Philip compreendeu que era objecto de inveja. Harris, o empregado de
cabeça disforme, a primeira pessoa que conhecera na firma, e com quem travara
amizade, não podia ocultar a sua amargura.
- Alguns têm sorte... - dizia ele. - Qualquer dia, estás chefe de secção e nós todos
temos de te dar senhoria.
Disse a Philip que devia pedir aumento de ordenado, porque, não obstante o
trabalho difícil de que estava agora encarregado, o rapaz nada mais recebia além dos
seis xelins semanais com que começara. Pedir aumento, contudo, era coisa melindrosa.
O gerente tinha um modo sarcástico de tratar com tais reclamantes.
- Acha que vale mais, não é? Quanto pensa que vale, hem?
O empregado, com o coração na boca, insinuava achar que devia ganhar mais
dois xelins semanais.
- Ah... Está bem, se acha que vale, conte com o aumento. - Depois, fazia uma
pausa e, em certas ocasiões, com um olhar duro como aço, acrescentava. - E também
com a sua demissão.
De nada valia retirar o pedido. O remédio era deixar o emprego. A ideia do
gerente era que os empregados descontentes não faziam bem as coisas e, se não
mereciam aumento, era melhor mandá-los embora de uma vez. O resultado era que
eles nunca pediam melhoria de salário, a menos que estivessem dispostos a deixar a
casa. Philip hesitou. Desconfiava um pouco dos companheiros de quarto, quando lhe
afirmavam que o chefe da sua secção não podia passar sem o seu trabalho. Eram
sujeitos decentes, mas o seu conceito de humorismo era primitivo e haviam de achar
muita graça se, persuadindo Philip a pedir aumento, o fizessem ir para a rua. Philip
não podia esquecer as mortificações sofridas quando andava à procura de trabalho.
Não queria expor-se novamente a isso e sabia haver pouca esperança de conseguir
noutro sítio um emprego como desenhador. Havia em Londres centenas de pessoas
que desenhavam tão bem como ele. Mas precisava muitíssimo de dinheiro. As suas
roupas estavam puídas, e os grossos tapetes apodreciam-lhe os sapatos. Estava quase
persuadido a dar o passo aventuroso, quando, certa manhã, ao sair do café, no rés-dochão,
atravessando o corredor que levava ao escritório do gerente, viu, numa fileira,
homens que procuravam emprego e esperavam o momento de ser atendidos. Havia
cerca de cem candidatos e quem quer que fosse admitido obteria o salário de seis xelins
semanais que Philip ganhava. Viu um dos homens lançar-lhe olhares de inveja, porque
tinha emprego. Isso fê-lo estremecer. Não ousou correr o risco.
CVIII
O Inverno passou. De vez em quando, Philip ia ao hospital, entrando
furtivamente, a horas tardias, quando tinha poucas probabilidades de encontrar algum
conhecido: queria ver se havia lá cartas para ele. Pela Páscoa, recebeu uma, do tio.
Ficou surpreendido, pois o vigário de Blackstable em toda a vida só lhe escrevera meia
dúzia de cartas, e ainda assim sobre negócios.
Caro Philip:
Se pretendes ter férias em breve e quiseres vir até cá, terei prazer em
ver-te. Estive muito mal com a minha bronquite, este Inverno, e o dr.
Wigram nunca esperou que eu resistisse. Tenho uma admirável
constituição e, graças a Deus, sinto-me maravilhosamente refeito.
Teu afeiçoado,
William Carey
A carta encheu Philip de cólera. De que maneira pensava o tio que ele vivia?
Nem ao menos se dava o incómodo de perguntar. Pouco lhe teria importado que ele
morresse de fome. Mas, ao voltar para casa, ocorreu-lhe uma ideia. Deteve-se debaixo
de um lampião e tornou a ler a carta. A letra do tio já não apresentava a mesma firmeza
que a caracterizava. Estava maior e tremida: talvez a doença o tivesse abalado mais do
que ele queria confessar, tendo procurado, naquela nota formal, exprimir um grande
desejo de ver o único parente que tinha no mundo. Philip respondeu, a dizer que em
Julho iria a Blackstable passar duas semanas. O convite vinha a calhar, pois não sabia
que fazer no seu breve período de férias. Os Athelny iam para a colheita em Setembro,
mas ele não podia ser dispensado em tal época, justamente quando eram preparados
os modelos para o Outono. O regulamento dos Lynn impunha quinze dias de férias aos
empregados, mesmo que estes não quisessem. E, durante esse tempo, se não tivesse
para onde ir, o funcionário podia dormir no seu quarto, mas não tinha direito à
comida. Grande número deles não possuía amigos a uma distância razoável de
Londres, e para eles as férias eram um período difícil, durante o qual tinham de pagar
as refeições com os seus magros salários; ficavam o dia inteiro sem nada fazer, por não
terem que gastar. Philip não saía de Londres desde a sua ida a Brighton com Mildred,
havia já dois anos e suspirava por ar fresco e pelo silêncio do mar. Pensou nisso com
um desejo tão apaixonado durante Maio e Junho, que, chegado afinal o momento de
partir, ficou apático.
Na última noite, ao falar com o chefe da secção, a respeito de uns trabalhos que
tinha de interromper, Mr. Sampson perguntou-lhe de repente:
- Quanto é que está a ganhar?
- Seis xelins.
- Não acho que seja bastante. Vou providenciar para que lhe paguem doze
quando voltar.
- Muitíssimo obrigado - sorriu Philip. - Estou a precisar urgentemente de roupa
nova.
- Se trabalhar sempre como até aqui e não andar de namoro com as empregadas,
como fazem muitos, olharei por si, Carey. Tome nota, tem muito que aprender, mas
promete. Justiça lhe seja feita, promete. E, assim que o mereça, tratarei de arranjar-lhe
uma libra por semana.
Philip ficou a pensar em quanto tempo teria de esperar por isso. Dois anos,
talvez?
Sobressaltou-se ao ver a mudança que se operara no tio. Quando o vira pela
última vez, era ainda um homem vigoroso e empertigado, com o seu rosto, redondo e
sensual, sempre bem escanhoado. Estava singularmente decaído. A pele tinha uma
coloração amarela. Viam-se-lhe duas grandes bolsas sob os olhos. Envelhecido e
encurvado, deixara crescer a barba durante a doença e caminhava com muita lentidão.
- Hoje não estou nos meus melhores dias - disse ele, quando Philip, que acabara
de chegar, lhe fazia companhia na sala de jantar. - O calor abate-me.
Enquanto fazia perguntas sobre assuntos da paróquia, Philip examinava-o:
quanto tempo duraria ainda? Um Verão ardente daria cabo dele. Notou-lhe a extrema
magreza das mãos, que um tremor agitava. Aquilo significava muito para Philip. Se o
velho morresse naquele Verão, poderia voltar para o hospital no princípio do trimestre
do Inverno. O coração palpitou-lhe à ideia de não voltar para os Lynn. à hora do
almoço, o vigário sentou-se, encurvado na sua cadeira, e a governanta que o servia
desde a morte da mulher disse:
- Mr. Philip vai trinchar?
O velho, que estava resolvido a fazê-lo para não confessar a sua fraqueza,
pareceu satisfeito em abandonar a tentativa à primeira sugestão.
- Tem excelente apetite - observou Philip.
- Oh! Sim, sempre comi bem. Mas estou mais magro do que quando estiveste
aqui da última vez. Isso alegra-me, pois não gosto de ficar muito gordo. O dr. Wigram
declara que foi muito melhor para mim emagrecer um pouco.
Quando o almoço terminou, a criada trouxe-lhe um remédio.
- Mostra a receita ao sr. Philip - disse o vigário. - Ele também é médico. Gostaria
de saber se achas bem. Eu disse ao dr. Wigram que estás a estudar medicina e que ele
devia fazer uma redução no seus honorários. As contas que tenho de pagar são
tremendas. Durante dois meses visitou-me todos os dias, a cinco xelins a visita. é um
montão de dinheiro, não achas? E ainda agora vem duas vezes por semana. Vou dizerlhe
que não precisa de voltar. Quando tiver necessidade, mandá-lo-ei chamar.
Olhou para Philip com expressão ansiosa, enquanto este lia as receitas. Eram
narcóticos. Eram dois e um deles era o remédio que o vigário explicou que tomava
apenas quando a sua nevrite se tornava insuportável.
- Sou muito cauteloso - disse. - Não quero habituar-me ao ópio.
Não aludiu à situação do sobrinho. Quis parecer a Philip que o tio continuava a
falar acerca de dinheiro numa atitude de defesa, para o caso de ele pedir algum
empréstimo. Gastara tanto com o médico e mais tanto com o farmacêutico, durante a
sua doença, e além disso vira-se obrigado a manter todos os dias o lume aceso no
quarto, e agora, aos domingos, precisava de ir à igreja de carro, tanto de manhã como à
noite. Philip, raivoso, sentiu ganas de lhe dizer que não precisava de ter medo, pois não
lhe pediria dinheiro; mas conteve-se. Parecia-lhe que tudo o velho perdera, menos duas
coisas: os prazeres da mesa e a sovinice. Era uma velhice hedionda.
À tarde, veio o dr. Wigram e, depois da visita, Philip acompanhou-o até ao
portão do jardim.
- Como o acha? - perguntou Philip.
O dr. Wigram mostrava-se mais ansioso por não errar do que por acertar, e
nunca arriscava uma opinião definida quando podia evitá-la. Exercia a profissão em
Blackstable havia trinta e cinco anos. Tinha a reputação de ser muito digno de
confiança e numerosos doentes seus achavam que, para um médico, era melhor ser
prudente do que sábio. Havia um doutor novo em Blackstable - (havia dez anos que se
estabelecera ali, mas era ainda olhado como intruso). Era considerado como muito
inteligente, mas não tinha muita clínica entre as pessoas importantes do lugar, só
porque ninguém sabia nada ao certo a respeito dele.
- Está tão bem quanto é possível - disse o dr. Wigram, em resposta à pergunta de
Philip.
- Tem alguma coisa de grave?
- Bom, Philip, seu tio já não é criança - tornou o médico, com um sorriso prudente
que sugeria que, afinal de contas, o pastor de Blackstable também não era um velho.
- Ele parece achar que o coração não anda bom.
- Não estou satisfeito com o coração - aventurou o outro. - Acho que deve tomar
cuidado, muito cuidado.
Philip tinha uma pergunta na ponta da língua: quanto tempo viveria ainda o
velho? Temia que isso parecesse chocante. Em semelhante assunto, o decoro comum
exige um circunlóquio; mas ao fazer, em vez dessa, outra pergunta, ocorreu-lhe de
repente que o médico devia estar acostumado à impaciência dos parentes dos
enfermos. Competia-lhe ver o que havia por trás das expressões de comiseração. Philip,
sorrindo de leve ante a própria hipocrisia, baixou os olhos.
- Suponho que não esteja em perigo imediato...
Essa era a espécie de pergunta que o médico mais detestava. Se se dizia que um
doente não tinha nem um mês de vida, a família preparava-se para a perda; e se depois
ele sobrevivesse a esse prazo, mostravam-se ressentidos com o médico por se terem
atormentado antes do momento oportuno. Por outro lado, se se dissesse que podia
viver um ano e ele morresse numa semana, a família acusava o médico de não
conhecer o seu ofício. Pensavam em toda a afeição que poderiam ter prodigalizado ao
defunto se soubessem que o seu fim estava tão próximo. O dr. Wigram fez o gesto de
quem lava as mãos.
- Não acho que haja qualquer risco iminente, desde que ele... continue como está -
aventurou por fim. - Mas, por outro lado, não nos devemos de esquecer que ele já não é
rapaz e... bem, a máquina está gasta. Se conseguir passar bem o Verão, não acha que
não chegue sem novidade até o Inverno. E se o Inverno não o incomodar de mais, ora...
não me parece que lhe possa acontecer coisa alguma.
Philip voltou para a sala de jantar onde se encontrava o tio. Com o barrete na
cabeça e um xale nos ombros, o vigário tinha um aspecto grotesco. Os seus olhos
estavam fixos na porta e pousaram no rosto de Philip assim que este entrou. Philip
compreendeu que o tio esperara ansiosamente a sua volta.
- Então, que disse ele de mim?
Philip compreendeu de súbito que o velho temia a morte. Isso deixou-o um
pouco envergonhado e desviou o olhar involuntariamente. As fraquezas da natureza
humana causavam-lhe sempre embaraço.
- Diz que o considera muito melhor - respondeu.
Um brilho de satisfação surgiu nos olhos do tio.
- Tenho uma constituição maravilhosa - afirmou. E, desconfiado, acrescentou: -
que mais te disse?
Philip sorriu.
- Assegura que, se o tio cuidar de si, não vê razão para que não chegue aos cem.
- Não ouso esperar isso, mas não sei por que não possa atingir os oitenta. Minha
mãe viveu até aos oitenta e quatro.
Havia uma pequena mesa ao lado da cadeira de Mr. Carey, e sobre ela via-se
uma Bíblia e o grosso volume do ritual anglicano que havia tantos anos, costumava ler
à família. Estendeu a trémula e agarrou a Bíblia.
- Esses velhos patriarcas atingiam uma bonita idade não era? - disse com um
sorriso estranho, em que Philip leu uma espécie de tímido apelo.
O velho aferrava-se à vida. No entanto, acreditava implicitamente em tudo o que
a sua religião ensinava. Não tinha dúvidas sobre a imortalidade da alma e julgava terse
portado muito bem, de acordo com a sua capacidade: era muito provável que fosse
para o Céu. Na sua longa carreira, a quantos moribundos ministrara o amparo da
religião! Talvez estivesse na mesma situação do médico que não pode aproveitar das
suas próprias receitas. Philip sentia-se intrigado e chocado ante aquele ansioso apego à
Terra. Que horror sem nome moraria no fundo do espírito do velho? Teria gostado de
mergulhar naquela alma, a fim de ver na sua nudez o tremendo pavor do
desconhecido que suspeitava existir ali.
A quinzena passou-se rápida e Philip voltou para Londres. Passou um Agosto
sufocante, atrás do seu biombo, na secção de vestidos, desenhando em mangas de
camisa. Os empregados, por turnos, partiam para férias. à noite, geralmente, Philip ia
ao Hyde Park ouvir a banda. Mais acostumado ao trabalho, cansava-se menos, e o
espírito, refazendo-se da longa estagnação, procurava nova actividade. Todos os seus
desejos se concentravam agora na morte do tio. Continuava a sonhar o mesmo sonho:
certa manhã, era-lhe entregue um telegrama que anunciava o súbito falecimento do
vigário e, com ele, a sua libertação. Quando acordava, via que tudo aquilo não passara
de sonho e deixava-se tomar de um cólera sombria. Agora que o acontecimento parecia
capaz de sobrevir a qualquer momento, ocupava-se em tecer complicados planos de
futuro. Passava rapidamente sobre o ano de estudo que lhe restava para obter o
diploma e demorava-se na viagem a Espanha, na qual punha todo o seu empenho. Lia
livros sobre esse país, emprestados pela biblioteca pública, e já conhecia, pelas
fotografias, o aspecto preciso de cada cidade. Via-se a espairecer nas ruas de Córdova,
na ponte que atravessa o Guadalquivir; vagabundeava pelas tortuosas ruas de Toledo e
sentava-se nas igrejas, onde arrebatava a El Greco o segredo que o misterioso pintor
guardara para ele. Athelny acompanhava-o nessas fantasias, de sorte que, nas tardes
de domingo, traçavam ambos cuidados itinerários, a fim de que Philip nada perdesse
que fosse digno de nota. Para enganar a própria impaciência, Philip começou a estudar
espanhol e, na sala deserta da casa de Harrington Street, passava uma hora, todas as
noites, a fazer exercícios de espanhol e a decifrar, com uma tradução inglesa ao lado, a
linguagem magnificente de D. Quixote. Athelny dava-lhe uma lição por semana e
Philip aprendia algumas frases que lhe seriam de utilidade na viagem. Mrs. Athelny
ria-se deles.
- Vocês dois e esse espanhol! - exclamava. - Por que não fazem alguma coisa que
se aproveite?
Mas Sally, que crescera e que pelo Natal ia mudar de penteado, ficava às vezes ao
pé deles, a escutar com o seu ar grave, enquanto o pai e Philip trocavam observações
numa língua que ela não compreendia. A jovem achava Athelny o homem mais
admirável que existia e só exprimia a sua opinião sobre Philip através dos elogios do
pai.
- O papá acha que o tio Philip é um tipo extraordinário - observava ela aos
irmãos e irmãs.
Thorpe, o mais velho dos rapazes, tinha já idade suficiente para ser admitido a
bordo do Arethusa, e Athelny brindava a família com descrições magníficas do filho,
quando voltasse para as férias, envergando o seu uniforme. Logo que Sally fizesse
dezassete anos, entraria para uma modista. Athelny, sempre retórico, falava nos
pássaros que se cobrem de plumagem, aprendem a voar e abandonam o ninho paterno;
e, com lágrimas nos olhos, dizia-lhes que o ninho estaria sempre ali, se um dia
quisessem regressar. Encontrariam um catre, a mesa posta e o coração de um pai que
nunca se fechava à aflição dos filhos
- Que palavrório é esse, Athelny? - perguntava-lhe a mulher. - Não sei que
tormentos poderão sofrer enquanto andarem direito... Contanto que cada um seja
honesto e não tenha medo de trabalhar, emprego é coisa que não faltará. Isso é o que
eu penso. E o que te digo é que não ficarei triste quando o último dos meus filhos
ganhar a vida com o suor do rosto.
Os muitos partos, os trabalhos árduos e a constante ansiedade começavam a
produzir efeito em Mrs. Athelny. às vezes, à noite, as costas doíam-lhe tanto que tinha
de sentar-se para descansar. O seu ideal de felicidade era ter uma rapariga que lhe
fizesse os trabalhos mais penosos, para que não precisasse de levantar-se antes das sete
da manhã. Athelny agitou a bela mão branca, num gesto ondulante.
- Ah, minha Betty, tu e eu bem merecemos alguma coisa do Estado. Criámos
nove filhos cheios de saúde. Os rapazes servirão o seu rei, as raparigas hão-de
cozinhar, costurar e por sua vez darão à pátria filhos saudáveis. - Voltou-se para Sally
e, para consolá-la daqueles contrastes, acrescentou com grandiloquência: - «Também
servem os que, firmes se limitam a esperar».
Athelny acrescentara ultimamente o socialismo às outras teorias contraditórias
em que acreditava com veemência. Declarou:
- Num Estado socialista, recebíamos uma bela pensão, tu e eu, Betty.
- Ora, não venhas com os teus socialistas. Não suporto essa gente - exclamou ela.
- Isso só quer dizer que outro bando de preguiçosos inúteis vai encher os bolsos à custa
da classe operária. A minha divisa é: «Deixem-me em paz». Não quero que se metam
na minha vida. Quero aproveitar o mais possível o osso duro que me tocou a roer.
Quem fica para trás que o leve o diabo.
- Comparas a vida a um osso duro? - tornou Athelny. - Nunca! Tivemos os
nossos altos e baixos, as nossas lutas, e sempre fomos pobres, mas tem valido a pena
viver e, sim!, tem valido cem vezes a pena, é o que digo quando olho para os meus
filhos.
- Vai falando, Athelny - retorquiu a mulher, contemplando-o sem cólera mas com
serena zombaria. - Quanto aos filhos, ficaste com a parte agradável. Quem os teve foi
eu e quem os aguenta também sou eu. Não digo que não goste deles, já que os temos,
mas se pudesse voltar atrás, ficava solteira. Ora, se tivesse ficado solteira, podia ter
agora a minha lojinha, quatrocentas ou quinhentas libras no Banco e uma rapariga para
fazer o trabalho mais pesado. Oh! Por coisa alguma neste mundo queria recomeçar a
mesma vida.
Philip pensava nos incontáveis milhões para quem a vida não passa de um
eterno mourejar, sem beleza nem fealdade, mas que deve ser aceito com a mesma
tranquilidade com que aceitamos as mudanças de estação. A fúria tomou-lhe conta do
ser, porque tudo aquilo parecia inútil. Não podia reconciliar-se com a crença de que a
vida não tinha significado, e, no entanto, tudo quanto via, todos os seus pensamentos
aumentavam a sua convicção. Mas, na fúria que o dominava, havia um elemento de
alegria. Já que não tinha sentido, a vida não era tão horrível e encarava-a com uma
estranha sensação de força.
CIX
O Outono passou e veio o Inverno. Philip deixara o seu endereço a Mrs. Foster, a
governanta do tio, para que ela pudesse comunicar com ele. Entretanto, ainda ia ao
hospital uma vez por semana, na esperança de encontrar cartas. Uma noite, viu o seu
nome num sobrescrito, traçado numa caligrafia que esperava nunca mais tornar a ver.
Aquilo deu-lhe uma sensação esquisita. Hesitou um instante em abrir a carta. Aquela
letra trazia-lhe um punhado de recordações odiosas. Mas, afinal, impacientando-se
consigo próprio, rasgou o sobrescrito.
William Street, 7
Fitzroy Square
Caro Phil:
Preciso falar consigo uns minutos, o mais breve possível. Estou numa
situação horrível e não sei o que fazer. não é dinheiro.
Sinceramente sua,
Mildred
Rasgou a carta em pedacinhos e, ao sair para a rua, espalhou-os na escuridão.
- Que vá para o diabo - murmurou.
Uma sensação de repugnância invadiu-o à ideia de tornar a vê-la. Pouco lhe
importava que ela estivesse em dificuldades, merecia fosse o que fosse. Pensava em
Mildred com raiva e o amor que um dia tivera aumentava agora o sentimento de
aversão. A sua lembrança enchia-o de náuseas e, enquanto atravessava o Tamisa,
chegou-se ao parapeito da ponte, fugindo instintivamente àqueles pensamentos.
Deitou-se, mas não pôde dormir. Imaginava o que poderia ter acontecido a Mildred e
não conseguia afastar de si o temor de que estivesse doente e faminta. Não lhe teria
escrito se não se encontrasse em situação desesperada. Enfurecia-se consigo próprio
pela sua fraqueza, mas sabia que não encontraria paz enquanto não a visse. Na manhã
seguinte, escreveu um bilhete-postal e pô-lo no correio, quando ia a caminho da loja.
Foi tão ríspido quanto possível, dizendo simplesmente lamentar que se encontrasse em
dificuldades e que iria ao endereço indicado às sete horas daquela noite.
Era uma casa suja, numa rua sórdida. E quando, nauseado à ideia de vê-la,
perguntou se Mildred estava, assaltou-o a doida esperança de que ela tivesse saído. O
ambiente dava a impressão de um desses lugares onde entra e sai gente com
frequência. Não lhe ocorrera olhar para o carimbo da carta de Mildred e não sabia há
quantos dias estaria na caixa da escola. A mulher que atendeu o toque de campainha
não respondeu à sua pergunta, mas precedeu-o silenciosamente pelo corredor e bateu a
uma porta das traseiras.
- Mrs. Miller, está aqui um cavalheiro que deseja vê-la.
A porta abriu-se de leve e Mildred espreitou para fora, desconfiada.
- Ah! é você - disse ela. - Entre.
Philip entrou e ela fechou a porta. Era um quarto de dormir muito pequeno,
desarranjado como todos os lugares em que Mildred morava. Havia um par de sapatos
sujos no chão, um afastado do outro. Em cima da cómoda, via-se um chapéu ao lado de
tranças postiças. Sobre a mesa, uma blusa. Philip procurou onde colocar o seu chapéu.
Os cabides que ficavam atrás da porta estavam cheios de saias e notou que tinham a
barra enlameada.
- Não quer sentar-se? - perguntou ela. Depois soltou uma risada breve e
embaraçada. - Deve ter ficado surpreendido ao receber notícias minhas outra vez
- Estás muitíssimo rouca! - respondeu ele. - Tens alguma coisa na garganta?
- Sim, há algum tempo que tenho.
Philip nada disse. Esperava que ela explicasse porque o chamara. O aspecto do
quarto dizia-lhe bastante claramente que ela voltara para a vida de onde a arrancara.
Que teria acontecido à menina? Havia uma fotografia dela sobre a cornija da chaminé,
mas no quarto não se via o menor sinal da presença de uma criança. Mildred segurava
o lenço, enrolado como uma bola, e passava-o de uma para a outra mão. Philip
percebeu-lhe o grande nervosismo. Olhava fixamente para o lume e ele podia
contemplá-la sem lhe encontrar o olhar. Muito mais magra do que quando o deixara,
Mildred tinha a pele amarela e mirrada mais distendida sobre os zigomas. Tingira o
cabelo, que estava agora cor de linho: isso mudava-a muito, dando-lhe um aspecto
ainda mais vulgar.
- Fiquei aliviada quando recebi a sua carta devo dizer-lhe - disse ela por fim. -
Receei que talvez já não estivesse no hospital.
Philip permaneceu calado.
- Já deve estar formado, não está?
- Não.
- Mas... como?
- Não estou no hospital. Tive de desistir há dezoito meses.
- Você não tem persistência. Parece que não aquece lugar.
Philip ficou mais um instante em silêncio e, quando tornou a falar, foi num tom
glacial:
- Perdi o pouco dinheiro que tinha numa especulação infeliz e não pude
continuar os estudos. Fui obrigado a ganhar a vida como melhor podia.
- Em que trabalha agora?
- Numa loja.
- Ah!...
Ela relanceou-lhe os olhos, mas desviou-os imediatamente. Philip julgou vê-la
corar. Mildred enxugava febrilmente a palma das mãos com o lenço.
- Não deve ter esquecido tudo quanto aprendeu, não é verdade?
As palavras saíam-lhe em jactos, de um modo estranho.
- tudo, não.
- Foi por isso que lhe pedi que viesse. - Baixou a voz, que se tornou um cochicho
rouco. - Não sei o que tenho.
- Por que não vais a um hospital?
- Não gosto, nem quero que os estudantes fiquem a examinar-me. Depois, tenho
medo que me prendam no hospital.
- De que te queixas? - perguntou Philip friamente, com a frase estereotipada que
se usava no serviço hospitalar.
- É que... apareceu-me uma inflamação e até agora não sarou...
Philip sentiu um aperto de horror no coração. O suar gotejou-lhe na testa.
- Deixa-me ver a garganta.
Levou-a até à janela e examinou-a como pôde. De repente, os olhos de ambos
encontraram-se. Havia nos dela um medo mortal. Era horrível de ver. Estava
apavorada. Desejava que ele a tranquilizasse e olhava-o súplice; não se atrevia a pedir
palavras de conforto, mas com todos os nervos tensos esperava recebê-las: ele não as
tinha para dizer.
- Acho que estás muito doente - disse.
- O que poderá ser?
Quando lho disse, a rapariga empalideceu mortalmente e os seus lábios ficaram
amarelos. Começou a chorar, num abandono, silenciosamente a princípio, e depois em
soluços sufocados.
- Sinto muito - disse ele por fim - Mas era preciso dizer...
- Seria preferível que eu me matasse e acabasse tudo de uma vez.
Ele não tomou conhecimento da ameaça.
- Tens dinheiro? - indagou.
- Seis ou sete libras.
- Precisas de abandonar esta vida, compreendes? Não achas que podes encontrar
algum trabalho? Infelizmente não me é possível ajudar-te muito, ganho só doze xelins
por semana.
- Que posso fazer agora? - exclamou ela, impaciente.
- Não sei. Precisas de arranjar alguma coisa.
Falou-lhe em tom grave, expondo-lhe o perigo que corria e o perigo a que
expunha os outros. Mildred escutava com expressão sombria. Philip tentou consolá-la.
Por fim, conseguiu levá-la a uma aquiescência rabugenta, com a promessa de fazer
tudo quanto ele aconselhasse. Passou-lhe uma receita e disse que ia deixá-la na
farmácia mais próxima. Persuadiu-a da necessidade de tomar o remédio com a mais
severa regularidade. Por fim, erguendo-se para sair, estendeu a mão.
- Não desanimes. Em pouco tempo, estarás boa da garganta.
Mas, quando ele ia para sair, o rosto de Mildred contorceu-se de súbito e ela
segurou-o pelo casaco.
- Oh! Não me deixe - exclamou em voz rouca. - Tenho tanto medo, não me deixe
sozinha ainda, Phil, por favor! Não tenho mais ninguém no mundo, é o único amigo
que tive.
Ele sentiu o terror daquela alma, estranhamente parecido com o que vira nos
olhos do tio, ante a ameaça da morte. Baixou os olhos. Duas vezes aquela mulher
entrara na sua vida para fazê-lo infeliz. Não tinha o menor direito sobre ele, e, no
entanto, sem saber porquê, no fundo do seu coração, sentia uma dor estranha. Fora por
isso que, depois de receber a carta de Mildred, não encontrara paz enquanto não
obedecera à chamada.
- Acho que nunca me livrarei disto por completo - disse para consigo.
O que o intrigava era aquela curiosa repugnância física, que lhe tornava
incómoda a presença dela.
- Que queres que faça? - perguntou.
- Vamos jantar juntos. Eu pago.
Ele hesitou. Sentia que Mildred se insinuava novamente na sua vida, quando ele
a julgava desaparecida para sempre. Ela contemplava-o com uma ansiedade aflitiva.
- Sim, sei que me portei muito mal, mas não me deixe sozinha agora. Já teve a sua
vingança. Se me abandonar, não sei o que farei.
- Bem, seja - disse ele - mas vamos a um lugar barato, agora não tenho dinheiro
para deitar fora.
Ela sentou-se e calçou os sapatos, depois mudou de saia e pôs um chapéu. Saíram
juntos e caminharam até encontrar um restaurante na Tottenham Court Road. Philip
desabituara-se de comer àquelas horas e a garganta de Mildred estava em tal estado
que não lhe permitia engolir. Comeram um pouco de presunto frio e Philip bebeu um
copo de cerveja. Estavam sentados um diante do outro, como outrora. Recordar-se-ia
ela? - perguntou Philip a si próprio. Não tinha nada para dizer, e teriam ficado em
silêncio se Philip não fizesse um esforço para falar à luz do restaurante, com aqueles
vulgares espelhos que reflectiam as coisas em série infinita, ela parecia velha e
macilenta. Philip estava ansioso por saber da criança, mas não tinha coragem de
perguntar. Por fim ela falou:
- Sabe? A criança morreu no Verão passado.
- Ah! - exclamou ele.
- Podia dizer que sente muito
- Não sinto - respondeu ele. - Fico muito satisfeito.
Ela relanceou os olhos para ele, e, compreendendo o que ele queria dizer,
desviou-os.
- Chegou a ter-lhe muita afeição, não é verdade? Sempre achei engraçado que
gostasse tanto da filha de outro.
Depois de comer, passaram pela farmácia para levar o remédio que Philip
receitara. E, ao voltarem para o sórdido quartinho, fez-lhe tomar a primeira dose.
Depois ficaram sentados, até à hora de Philip voltar para Harrington Street. Sentia-se
tremendamente aborrecido.
Philip começou a ir vê-la todos os dias. Mildred tomava o remédio que ele
receitara e seguia-lhe as instruções. Em breve, os resultados eram tão visíveis que ela
passou a ter maior confiança na competência de Philip. à medida que melhorava, ia
recobrando coragem. Falava com mais desenvoltura.
- Logo que arranjar emprego, tudo correrá bem - dizia. - Já recebi uma lição e
pretendo aproveitar. Chega de pândegas.
Todas as vezes que a via, Philip perguntava-lhe se já encontrara trabalho. Ela
respondia-lhe que não se apoquentasse, pois arranjá-lo-ia quando quisesse. Não se
apressava. Seria melhor não fazer nada durante algumas semanas. Ele não pôde oporse
a tal, mas, decorrido esse prazo, tornou-se mais insistente. Mildred riu-se dele, pois
estava agora muito mais alegre, e chamou-lhe «apressadinho». Contou-lhe longas
histórias de «gerentes» com quem conversara, pois tinha a ideia de trabalhar nalguma
casa de pasto; repetia o que dissera e ouvira. Nada ficara assente. Mas Mildred estava
certa de conseguir alguma coisa no começo da semana seguinte. Era inútil apressar-se,
e seria um grande erro aceitar coisa que não lhe conviesse.
- É absurdo falar desse modo - disse ele, impaciente. - Deves aceitar qualquer
coisa que possas conseguir. Não estou em condições de te auxiliar e o teu dinheiro não
durará eternamente.
- Oh! Está bem, o dinheiro ainda não se acabou e não se fala mais nisso.
Philip lançou-lhe um olhar penetrante. Tinham passado três semanas desde o dia
em que atendera à sua chamada, e ela possuía então menos de sete libras. Começou a
desconfiar. Lembrou-se de certas coisas que ela dissera. Juntou umas às outras. Ficou a
conjecturar sobre se Mildred teria feito alguma tentativa para encontrar trabalho.
Talvez lhe tivesse mentido aquele tempo. Achava muito estranho que o dinheiro
durasse tanto.
- Quanto pagas de aluguer?
- Ora, a dona da casa é amiga, muito diferente das outras. Está sempre pronta a
esperar ate que eu possa pagar.
Philip calou-se. A sua suspeita era tão horrível que chegava a hesitar. Era inútil
perguntar-lhe, pois ela negaria tudo. Se quisesse saber, teria de averiguar por si
mesmo. Tinha o hábito de deixá-la todas as noites às oito e, quando o relógio bateu,
Philip ergueu-se. Mas, em vez de voltar para Harrington Street, permaneceu na
esquina da Fitzroy Square, a fim de ver quem quer que descesse a William Street. A
espera afigurou-se-lhe interminável e estava a ponto de retirar-se, pensando que a sua
desconfiança não tinha fundamento, quando a porta do n.° 7 se abriu e Mildred saiu.
Philip recuou para o escuro e viu-a caminhar na sua direcção. Trazia o chapéu cheio de
plumas que lhe vira no quarto e um vestido que notou ser demasiado espalhafatoso
para a rua e impróprio para a época do ano. Seguiu-a lentamente, até vê-la entrar em
Tottenham Court Road, onde afrouxou o passo. à esquina de Oxford Street, parou,
olhou em redor e atravessou a rua para entrar num teatro de variedades. Philip
aproximou-se dela e tocou-lhe no braço. Viu que as suas faces e lábios estavam
pintados.
- Aonde vais, Mildred?
Ela teve um sobressalto ao som daquela voz e ficou vermelha, como sempre
acontecia quando era apanhada numa mentira. Depois, o fulgor da cólera, que ele tão
bem conhecia, veio-lhe aos olhos e, instintivamente, procurou defender-se com injúrias.
Mas não pronunciou as palavras que lhe estavam na ponta da língua.
- Ora, ia só ver o espectáculo. Ficar em casa todas as noites sozinha deixa-me
nervosa.
Philip nem sequer fingiu acreditar no que ela dizia.
- Não deves fazer isso. Santo Deus! Já te disse cinquenta vezes como é perigoso.
Tens de parar imediatamente com isso.
- Oh!... cala a boca - exclamou ela, brutalmente. - Como pensas que posso viver?
Philip segurou-lhe o braço e, sem pensar no que fazia, tentou afastá-la dali.
- Por amor de Deus, vem. Deixa-me levar-te a casa. Não sabes o que estás a fazer
é criminoso.
- Que importa? Eles que se amolem. Os homens não foram tão bons para mim
que eu deva preocupar-me por causa deles.
Empurrou-o e, aproximando-se da bilheteira, depositou o dinheiro. Philip tinha
três pence no bolso. Não podia segui-la. Deu meia volta e desceu lentamente a Oxford
Street.
- Não posso fazer mais nada - disse, para consigo. Foi o fim.
Nunca mais a viu.
CX
Como o Natal naquele ano calhava numa quinta-feira, a loja fechava quatro dias.
Philip escreveu ao tio, a perguntar-lhe se não via inconveniente em que ele fosse passar
as festas no vicariato. Recebeu uma resposta de Mrs. Foster, dizendo que Mr. Carey
não estava em condições de escrever pessoalmente mas desejava ver o sobrinho e teria
prazer em que ele fosse. Foi receber Philip à porta e, ao apertar-lhe a mão disse:
- Vai encontrá-lo mudado, desde a última vez que cá esteve mas finja que nada
notou. Ele está muito nervoso com o seu estado de saúde.
Philip assentiu com a cabeça e entrou na sala de jantar.
- Mr. Philip está aqui, meu senhor.
O vigário de Blackstable estava moribundo. Quem olhava para aquelas faces
cavadas e para aquele corpo mirrado, não podia enganar-se. Estava sumido na sua
poltrona, com a cabeça estranhamente atirada para trás e um xale sobre os ombros. Já
não podia caminhar sem o auxílio de bengalas e as mãos tremiam-lhe tanto que com
dificuldade levava o alimento à boca.
Não poderá durar muito - pensou Philip ao olhar para ele.
- Que tal me achas? - perguntou o vigário. - Achas que mudei muito desde a
última vez que estiveste aqui?
- Penso que está com aspecto mais saudável do que no Verão passado.
- Foi o calor. Abate-me sempre.
A conversa de Mr. Carey nos últimos meses consistia no número de semanas que
passara na cama e no número de semanas que passara na sala de estar. Tinha uma
campainha a seu lado e, enquanto falava, tocou-a, para chamar Mrs. Foster, que estava
sentada na sala contígua, pronta a atendê-lo. Queria saber em que dia do mês se
erguera da cama.
- No dia 7 de Novembro, senhor vigário.
Mr. Carey olhou para Philip, para ver como ele recebia a informação.
- Mas ainda como bem, não é, Mrs. Foster?
- Come, sim, senhor, tem um apetite excelente.
- Contudo, parece que não engordei.
Nada o interessava agora senão a sua saúde. Concentrava-se indomavelmente
numa coisa: viver, simplesmente viver, não obstante a monotonia da sua vida e as
dores permanentes, que só o deixavam dormir quando sob a influência da morfina.
- É um horror o dinheiro que tenho de gastar com o médico. - E, tornando a tocar
a campainha: - Mrs. Foster, mostre ao sr. Philip a conta da farmácia.
Com toda a paciência, ela pegou num papel e entregou-o a Philip.
- E isso foi só num mês. Eu pensei... Tu, que és médico, não poderás conseguir os
remédios mais baratos? Pensei em adquiri-los nos depósitos, mas nesse caso tinha de
pagar o porte do correio...
Embora, pelas aparências, estivesse tão pouco interessado em Philip que nem
chegara ainda a perguntar-lhe o que fazia, o vigário parecia satisfeito por ter o
sobrinho em casa. Perguntou-lhe quanto tempo podia demorar-se e, quando Philip
respondeu que devia voltar para Londres na manhã de terça-feira, exprimiu o desejo
de que a visita fosse mais longa. Contou-lhe com minúcia todos os sintomas e repetiu o
que o médico dizia do seu caso. Interrompeu-se de súbito para tocar a campainha e,
quando Mrs. Foster entrou, disse:
- Ah!... Era só para saber se estava aí. Não tinha a certeza.
Quando ela se retirou, o vigário explicou a Philip que se sentia mal quando não
sabia se Mrs. Foster estava ao alcance de chamada. Ela sabia o que era preciso fazer, no
caso de lhe acontecer alguma coisa. Percebendo que a governanta se mostrava cansada
e tinha os olhos pesados pela falta de sono, Philip insinuou ao tio que talvez a fizesse
trabalhar de mais.
- Ora, tolices... - respondeu o velho. - Ela é forte como um cavalo. - E, na próxima
vez que a mulher lhe veio dar o remédio, disse-lhe
- O sr. Philip afirma que a senhora trabalha de mais, Mrs. Foster. Gosta de cuidar
de mim, não gosta?
- Oh! Não é nenhum incómodo, meu senhor. Procuro fazer tudo quanto posso.
Dentro em pouco, o remédio produziu efeito e Mr. Carey adormeceu. Philip
entrou na cozinha e perguntou à governanta como podia resistir àquele trabalho. Sabia
que durante meses ela descansara muito pouco.
- Ora, que hei-de fazer? - respondeu ela. - O pobre senhor vigário depende tanto
de mim que, embora seja às vezes um pouco impertinente, não posso deixar de gostar
dele. Há tantos anos que estou aqui, já nem sei o que farei quando ele se for.
Philip viu que ela era realmente afeiçoada ao velho. Lavava-o, vestia-o, dava-lhe
os alimentos e levantava-se uma dúzia de vezes durante a noite, pois dormia na sala
contígua, a fim de que, sempre que ele acordasse e tocasse a pequena campainha, ela
pudesse acudir sem demora. O vigário podia morrer a qualquer momento, mas
também era possível que vivesse meses. Era admirável que ela cuidasse de um
estranho com tão paciente ternura, e era trágico e lamentável o ser ela a única pessoa
no mundo que se preocupava com ele.
Parecia a Philip que a religião pregada pelo tio durante toda a vida tinha agora
para ele apenas uma importância formal. Todos os domingos, o coadjutor vinha
administrar-lhe a Santa Comunhão e amiúde lia passagens da Bíblia. Era, contudo,
evidente que o homem encarava a morte com horror. Acreditava que ela fosse a porta
de acesso a uma vida sempiterna, mas não queria entrar nessa vida. Sofrendo dores
constantes, acorrentado à sua cadeira e tendo renunciado à esperança de tornar a pôr
os pés fora de casa, tal uma criança nas mãos da mulher a quem pagava para cuidá-lo -
o vigário apegava-se ao mundo que conhecia.
Philip tinha na mente uma pergunta que não podia formular porque estava certo
de que o tio nunca lhe daria senão uma resposta convencional. Na hora extrema, agora
que a máquina se extinguia irremediavelmente, acreditaria ainda o sacerdote na
imortalidade? Talvez no fundo da sua alma, proibida de se manifestar em caso de
premência, morasse a convicção de que Deus não existia e de que após esta vida vinha
o nada. Na noite seguinte à do Natal, Philip achava-se na sala de jantar, em companhia
do tio. Tinha de partir muito cedo, na manhã seguinte, para poder estar na loja às nove
horas. Ia, pois, despedir-se do velho. O vigário de Blackstable dormitava e Philip,
estendido no sofá próximo da janela, deixara cair sobre os joelhos o livro que estava a
ler e corria negligentemente os olhos pela sala. Calculava quanto renderia a venda
daquela mobília. Tinha caminhado pela casa, examinando as coisas que conhecia desde
a infância: duas ou três peças chinesas havia que podiam conseguir um preço decente e
Philip perguntava consigo se valeria ou não a pena levá-las para Londres. A mobília,
porém, era de estilo vitoriano, de mogno, sólida e feia; não daria nada num leilão.
Havia três ou quatro mil livros, mas quem não sabia que os livros rendem pouco? Não
era provável que conseguisse mais de uma centena de libras por eles. Philip não sabia
quanto lhe deixaria o tio e, pela centésima vez, computou a quantia mínima necessária
para terminar o curso, diplomar-se e viver durante o seu estágio como interno de
hospital. Olhou para o velho que dormia um sono inquieto: não havia nada de humano
naquela face encarquilhada; era o focinho de algum estranho animal. Philip pensou no
quão fácil seria acabar com aquela vida inútil. Pensava nisso todos os dias, quando
Mrs. Foster preparava o remédio que dava ao doente uma noite tranquila. Havia dois
frascos. Um continha a droga que ele tomava regularmente e o outro, um opiato, para o
caso em que a dor se tornasse insuportável. Deste último era-lhe preparado um copo,
que ficava ao lado da cama. O velho tomava-o geralmente às três ou quatro horas da
manhã. Seria uma coisa simples duplicar a dose: morreria durante a noite e ninguém
suspeitaria de nada, pois era assim que o dr. Wigram lhe esperava a morte. O fim viria
sem dor. Philip cerrava os punhos ao pensar no dinheiro de que tanto precisava.
Alguns meses mais daquela vida miserável nada significavam para o velho, mas esses
poucos meses representavam tudo para ele. Estava a chegar ao limite a sua capacidade
de resistência e, quando pensava em voltar para o trabalho na manhã seguinte,
estremecia de horror. O coração batia-lhe descompassado à ideia que o obsidiava e, não
obstante fazer esforços para afastá-la do espírito, não conseguia. Seria tão fácil, tão
fácil... Não tinha a menor afeição pelo velho, que por sua vez jamais gostara dele; fora
egoísta toda a vida, egoísta para com a mulher que o adorava, indiferente para com o
menino que lhe haviam confiado. Não era um homem cruel, mas obtuso, duro,
carcomido pelos pequenos prazeres materiais. Seria fácil, extremamente fácil. Mas
Philip não se atrevia... Temia o remorso. De nada lhe valeria o dinheiro se passasse o
resto da vida arrependido do que fizera. Embora muitas vezes tivesse procurado
convencer-se da futilidade do remorso, havia certas coisas que lhe voltavam à mente
de tempos a tempos, aborrecendo-o. Desejaria não as ter na consciência.
O tio abriu os olhos. Philip ficou satisfeito com isso, porque o velho parecia agora
mais humano. Estava francamente horrorizado com a ideia que lhe viera, pois estivera
a premeditar um homicídio e pôs-se a meditar se outras pessoas também tinham
pensamentos tais, ou se era depravado e anormal. Achava que não teria coragem para
fazer aquilo, quando chegasse a hora, mas a ideia lá estava a persegui-lo sem cessar. Só
o medo é que lhe detinha o braço. O tio falou:
- Não estás à espera da minha morte, Philip?
O coração de Philip pôs-se a bater desordenadamente.
- Santo Deus, não!
- Fazes muito bem, meu rapaz. Não gostaria disso. Ficarás com algum dinheirinho
quando eu me for, mas não deves desejar a morte do teu tio. Não aproveitarias o
dinheiro, se assim fizesses.
Falava numa voz baixa, com um tom de curiosa ansiedade. Philip sentia-se
angustiado. Que singular intuição levara o velho a desconfiar dos estranhos desejos
que se agitavam no seu cérebro?
- Espero que viva ainda vinte anos - respondeu.
- Bem... Não posso esperar tal coisa, mas, se tomar cuidado, não vejo por que não
durar mais uns três ou quatro.
O vigário ficou silencioso por um instante e Philip não achava que dizer. Depois,
como se tivesse estado a reflectir sobre o assunto, o velho tornou a falar.
- Toda a gente tem o direito de viver o mais possível.
Philip queria distraí-lo.
- A propósito, nunca mais teve notícias de Miss Wilkinson?
- Tive, sim. Recebi uma carta dela este ano. Casou, sabes?
- Casou?!
- Pois. Casou com um viúvo. Creio que vivem muito bem.
CXI
No dia seguinte, Philip recomeçou o trabalho, mas o fim que ele esperava dentro
de pouco tempo não veio. Passaram-se semanas e meses. o Inverno foi-se e nos parques
as árvores rebentaram em botões e folhas. Uma terrível lassidão assenhoreou-se de
Philip. o tempo escoava-se, embora avançasse a passos lentos. Tinha a impressão de
que a sua juventude também lhe fugia e em breve a perderia sem nada ter realizado. o
seu trabalho parecia-lhe mais fútil, agora que estava certo de que ia deixá-lo. Adquirira
habilidade em desenhar vestidos e, apesar de não ser dotado de faculdade inventiva,
adaptava facilmente as modas francesas ao mercado britânico. às vezes não achava
maus os seus próprios desenhos, mas a casa estragava-os sempre na execução.
Divertia-se ao observar a viva irritação que experimentava quando as suas ideias não
eram executadas com propriedade. Tinha, porém, de proceder com cautela. Sempre
que sugeria alguma coisa original, Mr. Sampson reprovava: os seus fregueses não
desejavam nada outré, aquilo era um negócio muito respeitável e, quando se tinha
semelhante clientela não valia a pena tomar liberdades. Uma ou duas vezes, falou
asperamente a Philip. Pelo simples facto de não se harmonizarem as ideias de ambos,
julgava que o rapaz se excedia.
- Tome cuidadinho, meu bom rapaz, senão qualquer dia ver-se-á no olho da rua.
Philip tinha desejos de dar-lhe um soco no nariz, mas continha-se. No fim de
contas, aquilo não poderia durar muito tempo e então ficaria livre daquela gente para
sempre. Em certas ocasiões, num desespero cómico, exclamava que o tio devia ser de
ferro. Que constituição! As doenças de que sofria teriam matado qualquer pessoa
decente doze meses antes. Quando, por fim, recebeu a notícia de que o vigário estava à
morte, Philip, que andara a pensar erra outras coisas, foi tomado de surpresa. Estava-se
em Julho e dentro de mais uns quinze dias entraria de férias. Recebeu uma carta de
Mrs. Foster, a dizer-lhe que o doutor não dava muitos dias de vida ao Rev. Carey e, se
Philip desejasse ainda vê-lo deveria ir imediatamente. Philip foi ao chefe da secção e
disse que precisava de deixar a casa. Mr. Sampson era um sujeito decente e, quando
teve conhecimento das circunstâncias, não opôs dificuldades. Philip despediu-se dos
colegas. A razão da sua saída espalhara-se de forma exagerada e o pessoal julgava que
o rapaz ia entrar na posse de uma fortuna. mrs. Hodges tinha lágrimas nos olhos
quando lhe apertou a mão.
- Tão cedo não te vemos aqui - disse ela.
- Estou satisfeito por deixar a firma - respondeu ele.
Era estranho, mas tinha verdadeiro pesar em separar-se daquela gente que
julgava ter abominado e, quando se retirou da casa de Harrington Street, foi sem
contentamento. Tinha antecipado tanto as comoções que experimentaria nessa ocasião,
que nada sentia agora. Estava indiferente, como se apenas partisse para uns dias de
férias.
- Sou de uma natureza muito ruim - disse para consigo. - Espero as coisas com
enorme ansiedade e, quando elas se apresentam, fico sempre desapontado.
Chegou a Blackstable às primeiras horas da tarde. Mrs. Foster recebeu-o à porta e
a fisionomia dela mostrou-lhe que o vigário ainda não morrera.
- Está um pouco melhor hoje - disse. - Tem uma constituição maravilhosa.
Fê-lo entrar no quarto, onde o Rev. Carey jazia de costas. Dirigiu a Philip um leve
sorriso, no qual havia um laivo de astúcia satisfeita por ter mais uma vez enganado o
inimigo
- Pensei que tudo se acabava ontem - disse numa voz exausta. - Todos achavam
que eu me ia, não foi, Mrs. Foster?
- O senhor tem uma constituição maravilhosa, não se pode negar.
- Ainda há vida nesta velha carcaça.
Mrs. Foster disse que o vigário não devia falar, pois isso o cansaria. Tratava-o
como a uma criança, com bondoso despotismo. E havia algo de infantil na satisfação do
velho em ter enganado a expectativa dos outros. Ocorreu-lhe em seguida que Philip
fora chamado e divertia-se com o logro em que ele caíra. Se conseguisse evitar outro
ataque cardíaco, ficaria bastante bem dentro de duas semanas. Tivera vários ataques
desses. Davam-lhe a impressão de que ia morrer, mas escapava sempre. Todos falavam
da sua constituição, mas ninguém sabia quanto ela era forte.
- Vais ficar um ou dois dias? - perguntou o velho a Philip, fingindo crer que o
sobrinho viera de férias.
- Já pensara nisso - respondeu Philip,
Dali a pouco, chegou o dr. Wigram, que, depois de ver o vigário, se dirigiu a
Philip. O médico adoptou um tom apropriado.
- Receio que desta vez seja o fim, Philip - disse ele. - Será uma grande perda para
todos nós. Conheci-o durante trinta e cinco anos.
- Mas parece bastante bem, agora - respondeu Philip, jovialmente.
- Estou a mantê-lo vivo à força de drogas, mas isto não pode durar. Estes dois
últimos dias foram terríveis. Meia dúzia de vezes pensei que estava morto.
O doutor calou-se por instantes, mas, ao portão, disse subitamente a Philip:
- Mrs. Foster não lhe disse nada?
- Não compreendo...
- Esta gente é muito supersticiosa. Meteu-se-lhe na cabeça que há no espírito do
vigário algo que ele não tem coragem de confessar, e que não pode morrer antes de se
livrar disso.
Philip não respondeu e o médico continuou:
- Claro que é um disparate. Levou uma vida exemplar, cumpriu o seu dever, foi
bom sacerdote e estou certo de que vamos sentir grande falta dele; nada pode ter feito
que a sua consciência lhe reprove. Duvido que o próximo vigário seja tão bom como
este.
Durante dias, Mr. Carey continuou sem alteração. O apetite, que antes era
excelente, abandonou-o e pouco podia comer. O dr. Wigram não hesitava agora em
ministrar-lhe o opiato para acalmar a dor da nevrite que o atormentava. E isso, mais o
constante tremor dos membros paralíticos, estava a exauri-lo gradualmente. O cérebro
permanecia lúcido. Philip e Mrs. Foster assistiam-no, revezando-se. Ela estava tão
cansada, em virtude dos muitos meses durante os quais atendera às necessidades do
doente, que Philip insistiu em ficar com o tio uma noite, a fim de que ela pudesse
dormir. Passou as longas horas numa poltrona, para não adormecer, e leu, à luz de
uma lâmpada velada, As Mil e Uma Noites. Não tornara a lê-las desde os tempos de
criança, e o livro lembrava-lhe de novo a infância. às vezes, abandonando a leitura,
ficava a ouvir o silêncio da noite. Quando os efeitos do opiato se dissipavam, Mr.
Carey tornava-se inquieto e desatava a pedir coisas constantemente.
Afinal, de manhã cedo, quando os pássaros chilreavam bulhentamente nas
árvores, Philip ouviu que o chamavam pelo nome. Foi até à cama.
Mr. Carey estava deitado de costas, com os olhos fixos no tecto. Não os voltou
para Philip. Este viu que o suor inundava a fronte do tio e, pegando numa toalha,
enxugou-lha.
- És tu, Philip? - perguntou o velho.
Philip teve um sobressalto ao notar-lhe a súbita alteração da voz. Era baixa e
rouca. Só um homem transido de medo falaria daquela maneira.
- Sou. Quer alguma coisa?
Houve uma pausa e os olhos vazios continuavam fitos no tecto. Depois uma
crispação lhe passou pela face.
- Acho que vou morrer - disse o velho.
- Oh! Que tolice! - exclamou Philip. - Ainda viverá muitos anos.
Duas lágrimas brotaram dos olhos do velho. Philip, ao vê-las, ficou terrivelmente
comovido. O tio nunca traíra nenhuma comoção particular nos assuntos da vida, e era
penoso ver-lha agora, pois significava um terror indizível.
- Manda chamar Mr. Simmonds - disse ele. - Quero tomar a comunhão.
Mr. Simmonds era o coadjutor.
- Agora? - perguntou Philip.
- Depressa, senão será tarde.
Philip foi acordar Mrs. Foster, mas era mais tarde do que pensava e ela já estava a
pé. Disse-lhe que mandasse o jardineiro com um recado e voltou para o quarto do tio.
- Mandaste chamar Mr. Simmonds?
- Mandei.
Houve um silêncio. Philip sentou-se na beira da cama e de vez em quando
enxugava-lhe o suor da fronte.
- Deixa-me segurar a tua mão, Philip - disse o velho por fim.
Philip deu-lhe a mão e o moribundo agarrou-a como se se aferrasse à vida,
procurando nela conforto na sua hora extrema. Talvez nunca tivesse amado pessoa
alguma, mas agora voltava-se instintivamente para um ser humano. Tinha a mão
húmida e fria. Segurava a de Philip com uma débil e desesperada energia. O velho
lutava com o medo da morte. E Philip reflectiu que todos deviam passar por aquilo.
Oh! Como era monstruoso! Podiam acreditar num Deus que permitia que as suas
criaturas sofressem tão cruel tortura! Jamais se interessara sentimentalmente pelo tio e
durante dois anos, todos os dias lhe desejara a morte. Agora, porém, não podia
dominar a compaixão que lhe enchia o peito. Que preço se pagava para se ser diferente
dos animais!
Permaneceram num silêncio somente quebrado pela pergunta rouca do
moribundo:
- Ainda não veio?
Afinal, a governanta entrou suavemente para dizer que Mr. Simmonds chegara.
Trazia uma maleta onde estava a sua sobrepeliz. Mrs. Foster trouxe a bandeja da
comunhão. O coadjutor apertou silenciosamente a mão de Philip e, com uma
gravidade profissional, aproximou-se do enfermo. Philip e a governanta saíram do
quarto.
Philip caminhou pelo jardim gotejante do orvalho matinal. Os pássaros cantavam
alegremente. O céu estava azul, mas o ar salino era suave e fresco. As rosas estavam em
plena floração. O verde das árvores, o verde da relva, era vivo e brilhante. Philip
caminhava, e pensava no mistério que se processava naquele quarto. Isso lhe
provocava uma comoção especial. Pouco depois, Mrs. Foster veio dizer-lhe que o tio
desejava vê-lo. O coadjutor estava a guardar as suas coisas na malinha preta. O doente
voltou um pouco a cabeça e recebeu o rapaz com um sorriso. Philip ficou atónito, pois
havia naquela face uma alteração, uma extraordinária mudança. Os olhos já não se
mostravam apavorados e a crispação das feições desaparecera. Parecia tranquilo e feliz.
- Estou bem preparado agora - disse. E a sua voz tinha uma tonalidade diferente.
- Quando o Senhor houver por bem chamar-me, estarei pronto para lhe entregar a alma
nas mãos.
Philip não falou. Bem via que o tio era sincero. Era quase um milagre. Recebera o
corpo e o sangue do Salvador e eles haviam-lhe dado força para enfrentar o inevitável
mergulho na noite eterna. Sabia que estava para morrer: resignava-se. Disse apenas
uma coisa mais:
- Vou juntar-me à minha querida mulher.
Philip surpreendeu-se. Lembrou-se do egoísmo empedernido com que o tio
tratara a mulher e quão obtuso se mostrara diante do seu amor humilde e devotado. O
coadjutor, profundamente comovido, retirou-se e Mrs. Foster, a chorar, acompanhou-o
até a porta. O vigário, exausto pelo esforço, caiu em leve modorra, e Philip sentou-se ao
pé da cama e esperou o fim. A manhã avançava e a respiração do velho ia ficando
estertorosa. Veio o doutor e disse que o vigário estava a agonizar. Estava inconsciente e
arranhava fracamente os lençóis com os dedos. Estava desassossegado e soltou um
grito. O dr. Wigram deu-lhe uma injecção hipodérmica.
- Já não serve de nada, pode morrer de um momento para o outro.
O médico olhou para o relógio e depois para o moribundo. Philip viu que era
uma hora. O dr. Wigram pensava no seu almoço.
- Não vale a pena o senhor esperar - disse Philip.
- Nada mais posso fazer - respondeu o médico.
Quando saiu, Mrs. Foster pediu a Philip que fosse ao carpinteiro, que também se
encarregava dos funerais, e lhe dissesse para mandar uma mulher lavar o corpo.
- O senhor precisa de um pouco de ar fresco - disse ela. - Vai fazer-lhe bem.
O homem morava a meia milha de distância. Quando Philip lhe deu o recado,
perguntou:
- Quando faleceu o pobre senhor?
Philip hesitou. Ocorreu-lhe que podia parecer brutal ir buscar uma mulher para
lavar o cadáver, enquanto o tio ainda vivia. Ficou a imaginar por que teria Mrs. Foster
pedido aquilo. Haviam de pensar que estava aflito por matar o velho. Pareceu-lhe que
o outro o contemplava de um modo esquisito. O homem repetiu a pergunta. Isso
irritou Philip. Não era da sua conta.
- Quando se finou o senhor vigário?
O primeiro impulso de Philip foi dizer que o tio morrera justamente naquele
momento, mas isso parecia inexplicável se o moribundo se arrastasse por mais algumas
horas. Corou e respondeu embaraçado:
- Oh!... Ainda não está bem morto.
O armador lançou-lhe um olhar perplexo e o rapaz apressou-se a explicar.
- Mrs. Foster está sozinha e quer uma mulher lá com ela. O senhor compreende,
não é? Ele pode já estar morto.
O carpinteiro sacudiu a cabeça, aquiescendo.
- Ah, sim. Vou mandar alguém imediatamente.
De volta ao vicariato, Philip subiu ao quarto do moribundo. Mrs. Foster ergueuse
da cadeira em que estava sentada, ao lado da cama.
- Está tal qual como quando o deixou - disse ela.
Desceu para comer alguma coisa e Philip ficou a observar com curiosidade o
processo da morte. Nada havia agora de humano naquele ser inconsciente que
continuava a lutar debilmente. Por vezes, um som murmurado escapava-se-lhe da boca
frouxa. O sol, brilhando num céu sem nuvens, fustigava a terra, mas as árvores do
jardim estavam frescas e agradáveis. Estava um dia lindo. Uma varejeira zumbiu,
batendo na vidraça. De súbito, ouviu-se um ronco forte. Philip estremeceu, apavorado.
Um movimento percorreu os membros do velho. Estava morto. A máquina
desmantelara-se por fim. A mosca zumbia, zumbia ruidosamente contra a vidraça.
CXII
Josiah Graves, com os seus modos autoritários, fez todos os preparativos,
decentes mas económicos, para o funeral. Quando viu tudo terminado, voltou ao
vicariato com Philip. O testamento fora-lhe confiado, e, com o devido senso das
conveniências, leu-o a Philip depois do chá matinal. O documento estava escrito em
meia lauda de papel: o Rev. Carey deixava tudo quanto tinha ao sobrinho. Havia a
mobília, cerca de oitenta libras no Banco, vinte acções da companhia A. B. C., algumas
da cervejaria Allsop, outras de um teatro de variedades de Oxford e ainda outras de
certo restaurante de Londres. Tinham sido compradas a conselho de Mr. Graves e foi
com satisfação que este explicou a Philip:
- O senhor compreende, o povo precisa de comer, gosta de beber e quer
divertimentos. Há uma garantia capital nessas coisas que o público acha necessárias.
Essas palavras revelavam um admirável discernimento entre a grosseria do
vulgo, que deplorava mas aceitava, e o gosto mais refinado dos eleitos. A soma total de
dinheiro empregado subia a cerca de quinhentas libras; a isso devia acrescentar o saldo
da conta do Banco e mais o produto da venda da mobília. Para Philip, era a riqueza.
Não se sentia feliz, mas infinitamente aliviado.
Mr. Graves deixou-o, depois de discutirem o leilão, que devia ser realizado o
mais cedo possível, e Philip sentou-se para examinar os papéis do falecido. O Rev.
William Carey orgulhava-se de nunca destruir coisa alguma: havia pilhas de
correspondência que datava de cinquenta anos antes e montes de contas
cuidadosamente classificadas. O vigário conservava não somente cartas a ele dirigidas
como também cópias das que escrevera. Havia um maço amarelento de cartas que
escrevera ao pai em meados do século, quando, estudante de Oxford, fora passar as
férias na Alemanha. Philip leu-as displicentemente. Era um William Carey que ele não
conhecera, e no entanto havia no rapaz traços que, para um observador agudo, teriam
sugerido o homem que ele seria mais tarde. Eram cartas formais e um pouco
bombásticas. O estudante mostrava-se empenhado em ver tudo quanto era digno de
nota e descrevia com belo entusiasmo os castelos do Reno. As quedas de água de
Schaffhausen fizeram-no «render graças reverentes ao Todo-Poderoso Criador do
Universo, cujas obras são portentosas e belas», e não podia deixar de pensar que
aqueles que viviam diante «desse lavor do abençoado Mestre deviam ser levados por
tal contemplação a existências paras e santas». No meio das contas, Philip encontrou
uma miniatura de William Carey, pintada logo após a sua ordenação. Mostrava um
jovem coadjutor magro, com longos cabelos que lhe caíam em anéis naturais, olhos
escuros e uma face de asceta, pálida, ampla e sonhadora. Philip lembrou-se da
risadinha com que o tio costumava falar das dúzias de chinelas que as suas
admiradoras lhe confeccionavam.
Durante o resto da tarde e todo o serão, Philip devassou a numerosa
correspondência. Olhava rápido para o endereço e para a assinatura, depois rasgava a
carta em duas partes e atirava-a ao cesto de papéis que tinha ao lado. De súbito
deparou-se-lhe uma que trazia a assinatura «Helen». Não conhecia a letra. Era fina,
angulosa e antiquada. Começava por «meu caro William» e terminava com «tua irmã
afeiçoada». Compreendeu, então, que era de sua mãe. Nunca vira nada escrito por ela e
a caligrafia era-lhe estranha. A carta dizia-lhe respeito.
Meu caro William:
Stephen escreveu-te a agradecer as tuas felicitações pelo nascimento do
nosso filho e pelos bondosos votos que fizeste a meu respeito. Graças a Deus,
estamos ambos de Doa saúde e sinto-me profundamente agradecida por essa
mercê. Agora que posso segurar a pena, quero dizer-te, e à querida Louise,
quanto estou sinceramente grata a ambos por todas as bondades que tiveram
para comigo, desde o meu casamento. Vou pedir-te um grande favor.
Stephen e eu queremos que sejas o padrinho do menino, e esperamos que
aceites. Sei que não peço pouca coisa, porque tenho a certeza de que levarás
muito a sério as responsabilidades do encargo, mas espero ansiosamente que
o aceites, porque és um representante da Igreja, além de tio do pequeno.
Muito me preocupo com o bem-estar dele e rogo a Deus dia e noite para que
venha a ser um cristão bom e honesto. Com o teu conselho para o guiar,
espero que se torne um soldado da Fé em Cristo e seja todos os dias da sua
vida temente a Deus, humilde e piedoso.
Tua irmã afeiçoada,
Helen
Philip pôs a carta de lado e, curvando-se sobre a mesa, descansou o rosto nas
mãos. Aquilo comovia-o profundamente e ao mesmo tempo causava-lhe surpresa.
Admirava-se daquele tom religioso, que não lhe parecia sensaborão nem sentimental.
Nada sabia de sua mãe, que morrera havia quase vinte anos, senão que fora bela e era
estranho descobrir que fora simples e piedosa. Nunca pensara nesse lado da sua
natureza. Tornou a ler o que ela escrevera a seu respeito, o que ela esperava e pensava
dele. Quão diferente saíra! Fez um rápido exame de consciência. Talvez fosse melhor
ela ter morrido. Depois, um súbito impulso levou-o a rasgar a carta. Aquele tom de
ternura e simplicidade faziam-na particularmente íntima. Tinha a estranha sensação de
que havia algo de indecoroso em ler uma carta que expunha a alma delicada de sua
mãe. Continuou a passar em revista a enfadonha correspondência do vigário.
Poucos dias depois, voltou para Londres e, pela primeira vez em dois anos,
entrou de dia no átrio do Hospital S. Lucas Foi falar com o secretário da Escola de
Medicina, que ficou surpreendido ao vê-lo, perguntando-lhe com curiosidade o que
estivera a fazer. As aventuras de Philip tinham-lhe dado confiança em si próprio e
olhava muitas coisas sob um ângulo diferente. Outrora, a pergunta ter-lhe-ia causado
atrapalhação. Respondeu com calma e num tom estudadamente vago, que impedia
uma segunda pergunta: assuntos particulares haviam-no obrigado a interromper o
curso e estava ansioso por diplomar-se o mais depressa possível. O primeiro exame
que lhe era dado fazer seria o de ginecologia e obstetrícia. Inscreveu-se, candidatandose
a um lugar na enfermaria de mulheres. Uma vez que se estava em férias, não houve
dificuldade em conseguir um posto como auxiliar de obstetrícia. Ficou combinado que
desempenharia essas funções durante a última semana de Agosto e as duas primeiras
de Setembro. Depois de conversar com o secretário, Philip percorreu a faculdade, mais
ou menos deserta, pois os exames e o semestre de Verão haviam terminado. Vagueou
pelo terraço que dava para o rio. Tinha o coração transbordante. Achava que podia
agora começar uma vida nova e deixar para trás os erros, loucuras e misérias do
passado. O rio a correr sugeria que tudo passava, estava sempre a passar e nada tinha
importância. O futuro estendia-se diante dele, rico de possibilidades.
Voltou a Blackstable e ocupou-se da liquidação dos bens do tio. Marcou-se o
leilão para meados de Agosto, quando a presença dos veraneantes tornaria possível a
obtenção de preços melhores. Foram organizados catálogos e remetidos aos vários
negociantes de livros em segunda mão de Tercanbury, Maidstone e Ashford.
Uma tarde Philip teve a ideia de ir a Tercanbury, visitar a sua antiga escola. Não
a via desde o dia em que, de coração aliviado, a deixara com a sensação de que dali
para diante era senhor de si mesmo. Achou estranho vaguear pelas ruas estreitas de
Tercanbury, que tão bem conhecera durante anos. Olhou as velhas lojas, sempre no
mesmo lugar, a vender sempre as mesmas coisas; os livreiros com obras didácticas,
livros religiosos e as últimas novelas numa das vitrinas e com fotografias da catedral e
da cidade na noutra. As casas de desporto, com os seus tacos de cricket, apetrechos de
pesca, raquetes de ténis e bolas de futebol; o alfaiate onde mandara fazer os fatos
durante toda a meninice; o peixeiro onde o tio comprava peixe sempre que vinha a
Tercanbury. Vagueou pela sórdida rua onde, por trás do alto muro, ficava a casa de
tijolo vermelho onde funcionava a escola preparatória. Mais adiante, via-se o portão
que levava à King’s School. Philip entrou no pátio quadrangular, em redor do qual
ficavam as várias dependências. Eram exactamente quatro horas e os rapazes saíam
apressados da escola. Philip viu os professores nas suas becas e borlas: eram-lhe
desconhecidos. Havia mais de dez anos que deixara aquela escola e muitas mudanças
se tinham ali operado. Viu o director, que caminhava devagar, descendo da escola para
a sua casa particular. Falava com um rapaz crescido, que devia estar no sexto ano.
Estava um pouco mudado; alto, cadavérico, romântico, tal como outrora, sempre com
os mesmos olhos selvagens. A barba negra, porém, estava agora estriada de fios
grisalhos e a face morena e lívida parecia mais fundamente marcada. Philip teve
vontade de se lhe dirigir, mas temia que ele o tivesse esquecido e detestava explicar
quem era.
Aqui e ali, rapazes conversavam uns com os outros e, em dado momento, alguns
dos que tinham ido mudar de roupa à pressa voltaram para jogar a bola; outros
vagueavam em grupos de dois e três e saíam pelo portão. Philip sabia que iam para o
campo de cricket. Outros, enfim, dirigiam-se para o recinto de ténis. Philip encontravase
no meio deles como um estranho. Dois ou três rapazes lançaram-lhe olhares
indiferentes. Os visitantes, atraídos pela escadaria em estilo normando, não eram raros
ali e despertavam pouca atenção. Philip olhava-os com curiosidade. Pensou com
melancolia na distância que o separava deles e reflectiu amargamente em quanto
desejara fazer e no pouco que fizera. Parecia-lhe agora que todos aqueles anos, idos e
esquecidos, tinham sido completamente desperdiçados. Os rapazes, joviais e buliçosos,
faziam as mesmas coisas que ele fizera: era como se nem um dia tivesse decorrido
desde que deixara a escola. Contudo, naquele lugar, onde, pelo menos de nome,
conhecera todos, eram-lhe agora desconhecidos. Dentro de poucos anos, também
outros substituiriam aqueles, que iriam sentir-se depois tão estranhos como ele. Esta
reflexão, porém, não lhe trouxe alívio algum; apenas lhe fazia ver, nítida, a futilidade
da vida humana. Cada geração repetia um ciclo trivial. Que fim teriam levado os seus
companheiros? Deviam andar perto dos trinta anos. Alguns estariam mortos; outros,
casados e com filhos. Seriam soldados e sacerdotes, advogados e médicos. Eram
homens graves que começavam a deixar a mocidade para trás. Teriam alguns deles
malbaratado a vida como ele? Pensou no rapaz a quem fora tão devotado. Era
engraçado, não conseguia lembrar-se do nome. Recordava-se exactamente do seu
aspecto, pois fora o seu maior amigo; mas o nome é que não lhe vinha de forma
alguma à lembrança. Pensou no passado, sorrindo, divertido, das ciumeiras que sofrera
por causa dele. Era irritante não lhe ocorrer aquele nome. Desejou ser outra vez rapaz,
como os que via a vaguear pelo pátio, a fim de que, evitando os seus erros, pudesse
começar de novo e tirar mais proveito da vida. Sentiu uma solidão intolerável. Quase
lamentou ter saído da penúria que sofrera nos últimos dois anos, pois a luta
desesperada pela subsistência amortecera-lhe a dor de viver. Com o suor do teu rosto
ganharás o pão de cada dia: não era um anátema lançado sobre a Humanidade, mas o
bálsamo que a reconciliava com a existência.
Estava, porém, impaciente consigo mesmo. Relembrou a sua ideia acerca da
tessitura da vida: os sofrimentos por que passara não eram mais do que uma parte da
decoração caprichosa e bela. Repetiu para si próprio, veementemente, que devia aceitar
com alegria todas as coisas - o tédio e a exaltação, o prazer e a dor - porque isso
contribuía para a riqueza do desenho. Procurara o belo conscientemente e lembrava-se
de ter, ainda criança, olhado com prazer para a catedral gótica que se avistava da
escola. Foi até lá e contemplou o vulto maciço, cinzento sob o céu nublado, com a torre
central a erguer-se como os louvores dos homens ao seu Deus. Mas o rapazes jogavam
ténis e eram ágeis, fortes e activos. Philip não podia deixar de ouvir-lhes as
exclamações e as risadas. O clamor da mocidade continuava insistente e era apenas
com os olhos que ele via o belo espectáculo que tinha diante de si.
CXIII
No princípio da última semana de Agosto, Philip começou a exercer as suas
funções no «distrito». O trabalho era árduo, pois tinha de atender a uma média de três
partos por dia. A paciente obtinha com antecedência no hospital um «cartão» que,
quando a sua hora chegava, era levado por um mensageiro, geralmente uma
rapariguita, ao porteiro, que ia à casa onde Philip estava alojado, no outro lado da rua.
à noite, o porteiro, que tinha uma chave do trinco, vinha em pessoa acordar Philip.
Havia um certo mistério em levantar-se na escuridão e caminhar pelas ruas desertas de
South Side. àquelas horas da noite, era geralmente o marido quem trazia o «cartão». Se
já tinha muitos filhos, apresentava-se com uma indiferença mal-humorada, mas se
casara havia pouco, mostrava-se nervoso e às vezes embebedava-se, procurando
atenuar a ansiedade. Frequentemente, era preciso caminhar um quilómetro ou mais,
durante os quais, Philip e o mensageiro discutiam as condições de trabalho e o custo da
vida. Philip aprendia coisas sobre os vários ofícios que eram exercidos naquela
margem do rio. Inspirava confiança às pessoas em cujo meio fora lançado. E, durante
as longas horas de vigília num quarto abafado, a parturiente estendida numa cama
larga que ocupava mais de metade do compartimento, a mãe da paciente e a parteira
conversavam com Philip com tanta naturalidade como se palestrassem entre si. As
circunstâncias em que vivera nos últimos dois anos haviam-lhe ensinado várias coisas
sobre a vida dos pobres e estes divertiam-se ao ver que o doutor as conhecia e
respeitavam-no porque se não deixava enganar com os seus pequenos subterfúgios.
Philip era bondoso, tinha mãos delicadas e jamais perdia a paciência. Os doentes
ficavam satisfeitos porque o «doutor» não se negava a beber com eles uma chávena de
chá, e, quando a madrugada vinha encontrá-los ainda de vigília, ofereciam-lhe uma
fatia de pão embebida em molho de carne assada. Philip não era enfastiado e comia
agora quase de tudo com bom apetite. Algumas das casas a que ia, em imundos becos
que partiam de ruas escusas amontoadas umas em cima das outras, sem luz nem ar,
eram simplesmente esquálidas; mas outras, embora em mau estado, os soalhos roídos
pelo caruncho e telhados desfeitos, tinham um inesperado ar de imponência.
Encontravam-se nelas balaustradas de carvalho delicadamente trabalhado e as paredes
conservavam ainda as almofadas de maneira. Eram habitadas por grande número de
pessoas. Em cada quarto vivia uma família e durante o dia ouvia-se a algazarra
incessante das crianças que brincavam no pátio. As paredes velhas eram o nascedouro
de toda a espécie de insectos. O ar estava tão viciado que às vezes, sentindo-se
agoniado, Philip tinha de acender o cachimbo. As pessoas que ali moravam viviam ao
deus dará. As crianças não eram bem acolhidas. O pai recebia-as com uma raiva
ostensiva e a mãe com desespero; era mais uma boca para alimentar, e havia pouco
para sustentar as que já cá estavam. Philip percebia frequentemente o desejo de que a
criança nascesse morta ou morresse em seguida. Assistiu ao parto de uma mulher que
teve gémeos (fonte de comicidade para bem-humorados) e quando ela o soube,
rompeu num choro agudo e longo de miséria. A mãe dela disse francamente:
- Não sei como vão sustentá-los.
- Talvez Nosso Senhor queira levar os anjinhos - disse a parteira.
Philip vislumbrou o rosto do marido, quando este olhou para o minúsculo par de
crianças deitadas lado a lado: estava contraído numa carranca feroz que o sobressaltou.
Sentiu na família ali reunida um horrível ressentimento contra aqueles pobres átomos
que tinham vindo ao mundo sem que ninguém os desejasse. Suspeitava de que, se não
falasse com firmeza, aconteceria um «acidente». Tais ocorrências eram frequentes; as
mães «abafavam» os filhos, e talvez os erros de dieta nem sempre resultassem de
descuido.
- Virei todos os dias - disse Philip. - Aviso-os de que, se lhes acontecer alguma
coisa, haverá um inquérito.
O pai não respondeu, mas encarou o estudante de cenho franzido. Tinha o crime
no pensamento.
- Benza-os Deus! - disse a avó. - Que pode acontecer-lhes?
A grande dificuldade era manter as mães na cama durante dez dias, o tempo
mínimo exigido pela assistência à maternidade. Era difícil atender a família, pois
ninguém cuidaria gratuitamente das crianças e o marido resmungava porque o chá não
estava pronto quando voltava do trabalho, cansado e com fome. Philip ouvira dizer
que os pobres se ajudavam uns aos outros. Mas todas as mulheres se lhe queixavam de
não poderem conseguir, sem remuneração, alguém para arranjar a casa e servir o
almoço às crianças - e elas não podiam pagar. Escutando o que essas criaturas diziam e
tirando deduções de frases que ouvia ocasionalmente, Philip veio a compreender quão
pouco havia de comum entre os pobres e as classes que lhes estão acima. Não
invejavam os seus superiores porque a vida destes era demasiado diferente e tinham
um ideal de bem-estar que fazia a existência das classes abastadas parecer rígida e
formal. Além disso, tinham certo desprezo pelos seus representantes, porque eram
efeminados e porque não trabalhavam com as próprias mãos. Os orgulhosos queriam
simplesmente que os deixassem em paz, mas a maioria olhava para o rico como gente
que devia ser explorada. Sabiam como conseguir certas vantagens que os caridosos
lhes punham ao alcance e aceitavam esses benefícios como um direito que lhes advinha
da loucura dos seus superiores e da sua própria astúcia. Suportavam o pastor com
desdenhosa indiferença, mas a visitadora sanitária despertava neles um ódio acerbo.
Entrava e abria as janelas sem pedir licença e sem perguntar se gostavam ou não («e eu
com a minha bronquite, isso até pode matar-me de frio»), metia o nariz pelos cantos e,
mesmo que não dissessem que a casa estava suja, via-se muito bem o que pensava.
«Isso está muito bem para os que têm criados, mas só queria saber como é que ela
arrumava o quarto, se tivesse quatro filhos, se tivesse de cozinhar, lavar e remendar as
roupas».
Philip descobriu que a maior tragédia da vida daquela gente não era a separação
nem a morte, coisas naturais cuja dor podia ser acalmada pelas lágrimas, mas a perda
do emprego. Viu um homem voltar para casa de tarde, três dias após o parto da
mulher e contar-lhe que fora despedido. Era pedreiro e naquela época o trabalho
escasseava. O operário contou o facto e sentou-se para comer.
- Oh, Jim! - exclamou ela.
O pedreiro comeu impassivelmente uma mistura que estivera a cozer numa
caçarola, à sua espera. Não tirava os olhos do prato. A mulher mirou-o duas ou três
vezes, com expressão alarmada e depois começou a chorar em silêncio. O operário era
um tipo desgracioso, com o rosto rude e castigado pela intempérie. Via-se-lhe na testa
uma longa cicatriz branca. Tinha mãos largas e curtas. Pouco depois, empurrou o prato
para um lado, como se desistisse de fazer força para comer, e voltou a ficar parado, a
olhar para a janela. O quarto ficava no sótão da casa, nas traseiras, e dali nada mais se
via, além de nuvens ameaçadoras. O silêncio parecia carregado de desespero. Philip
sentiu que nada havia a dizer e só restava retirar-se. Ao arrastar-se cansado para fora,
pois estivera de pé a maior parte da noite, o coração encheu-se-lhe de raiva contra a
crueldade do mundo. Conhecia a procura desesperada de trabalho e o desânimo, que é
mais duro de suportar do que a fome. Dava graças por não ter de acreditar em Deus,
pois, perante semelhante estado de coisas, ser-lhe-ia intolerável. Só era possível
reconciliar-se com a existência na certeza de que ela não tinha sentido.
Afigurava-se-lhe que as pessoas que passam o tempo a auxiliar as classes pobres
erram, porque procuram remédio para as coisas que lhes seriam intoleráveis, se
tivessem de suportá-las; e não se lembram de que essas mesmas coisas não incomodam
os que estão habituados a elas. Os pobres não querem quartos amplos e arejados.
Sofrem de frio, porque a sua alimentação não é nutritiva e a sua circulação é má. Os
aposentos espaçosos dão-lhes uma sensação de frialdade e precisam de queimar a
menor quantidade possível de carvão. Não é provação para eles dormirem vários num
quarto: preferem-no até. Nunca estão por um momento a sós, desde que nascem até ao
instante de morrer, e a solidão oprime-os. Comprazem-se na promiscuidade em que
vivem e o constante ruído que os cerca é-lhes indiferente aos ouvidos. Não sentem
necessidade de tomar banho constantemente, e Philip ouviu-os muitas vezes falar com
indignação da necessidade de fazê-lo quando entravam no hospital: era ao mesmo
tempo uma afronta e um incómodo. Desejavam, antes de mais nada, que os deixassem
em paz. Assim, quando o homem tem emprego seguro, a vida corre facilmente e não é
destituída de prazeres. Há bastante tempo para tagarelar; depois do trabalho do dia,
um copo de cerveja sabe muito bem e as ruas são uma fonte constante de
entretenimentos. Quando a gente tem vontade de ler, lá está o Reynold’s ou o The News
of the World, «Mas a senhora sabe como o tempo voa. Quando eu era nova, passava o
dia com o nariz metido nos livros, mas agora não tenho nem cinco minutos para ler o
jornal».
Era hábito fazer três visitas depois de um parto e certo domingo Philip foi ver
uma parturiente à hora do almoço. Levantara-se pela primeira vez.
- Não pude aguentar a cama por mais tempo. Não posso perder tempo e faz-me
nervoso ficar deitada o dia inteiro sem nada fazer. Então disse ao Erb: Olha, vou
levantar-me e fazer-te o almoço.
Erb estava sentado à mesa, já com a faca e o garfo nas mãos.
Era um homem novo, de fisionomia aberta e olhos azuis. Ganhava bom dinheiro
e o casal estava em situação desafogada. Havia apenas meses que tinham casado e
estavam ambos encantados com o rosado bebé que jazia no berço, ao pé da cama.
Sentia-se no ar um delicioso cheiro de bife e os olhos de Philip voltaram-se para o
fogão.
- Ia servir neste instante - disse a mulher.
- Pois sirva - animou-a Philip. - Vou só dar uma vista ao herdeiro e depois retirome.
Marido e mulher riram-se da palavra usada por Philip, e Erb, levantando-se, foi
com o estudante até ao berço. Olhou para o filho com orgulho.
- Um rapaz como se quer, hem? - comentou Philip.
Pegou no chapéu. A mulher de Erb já servira o bife e colocara na mesa um prato
de ervilhas.
- Vão ter um belo almoço - sorriu o estudante.
- Ele só passa os domingos em casa e gosto de fazer algum prato especial, porque
assim sente falta da casa quando está a trabalhar.
- Será que o senhor quer dar-nos o gosto de sentar-se para comer connosco?... -
disse Erb.
- Ora, Erb! - interrompeu-o a mulher, escandalizada.
- Só se não me convidarem - respondeu Philip com o seu agradável sorriso.
- Muito bem, isso é que se chama ser amigo. Sabia que não ficaria ofendido, Polly.
Vai já buscar outro prato, pequena.
Polly estava atarantada. Aquele Erb! Ninguém podia adivinhar as coisas que lhe
dava na telha fazer. Mas pegou num prato e esfregou-o rapidamente no avental, depois
tirou um talher da gaveta da cómoda, onde guardava o seu melhor serviço de mesa, no
meio das melhores toalhas. Havia um jarro de cerveja sobre a mesa e Erb encheu o
copo de Philip. Quis dar-lhe o melhor pedaço do bife, mas Philip insistiu em que as
porções fossem iguais. Era uma sala ensolarada, com duas janelas que chegavam até ao
chão. Tinha sido a sala de estar de uma casa que fora outrora, senão luxuosa, pelo
menos respeitável. Devia ter sido habitada uns cinquenta anos antes por algum
comerciante rico ou por um militar reformado. Antes de casar, Erb fora jogador de
futebol. Nas paredes, havia fotografias de vários teams em atitudes airosas - os
jogadores de cabelos bem lambidos, o capitão orgulhosamente sentado ao centro,
segurando uma taça. Havia outros sinais de prosperidade; fotografias dos parentes de
Erb e da mulher em roupas domingueiras. Sobre a lareira, via-se uma caprichosa
combinação de conchas, formando a miniatura de uma gruta. De cada lado desta,
canecas para cerveja com a inscrição: «Lembrança de Southend» em letras góticas, e
paisagens pintadas. Erb era um tipo característico. Anti-sindicalista, expressava-se com
indignação acerca dos esforços que o sindicato fazia para conquistá-lo. Achava que o
sindicato não lhe servia, pois nunca tinha dificuldade em encontrar trabalho e pagavase
bom salário a quem tivesse cabeça e não se negasse a pôr as mãos em qualquer
serviço que aparecesse. Polly era tímida. No lugar dele, entraria para o sindicato:
quando da última greve, ela esperava que lhe trouxessem Erb numa ambulância todas
as vezes que ele saía. Voltou-se para Philip.
- Ele é cabeçudo, ninguém pode com a vida dele.
- Ora bem, o que eu digo é que estamos num país livre e que não quero ser
mandado.
- De nada vale dizer que estamos num país livre - volveu Polly. - Não é por causa
disso que deixarão de te quebrar a cabeça quando puderem.
Terminada a refeição, Philip passou a bolsa de tabaco a Erb e ambos acenderam
os cachimbos. O estudante levantou-se, pois talvez o esperasse em casa uma
«chamada». Despediu-se. Viu que lhes tinha dado prazer em compartilhar do seu
almoço, e o casal notou que Philip também gostara bastante.
- Bom, passe bem, doutor - disse Erb. - Quando a patroa cair noutra, espero ter
um médico tão bom como o senhor.
- Ora, Erb! - protestou ela. - Como sabes que cairei noutra?
CXIV
Terminaram as três semanas de serviço. Philip assistira a sessenta e dois partos e
já não podia mais. Quando voltou para casa, na última noite, por volta das dez horas,
esperava de todo o coração que não tornassem a chamá-lo. Havia dez dias que não
tinha uma noite inteira de descanso. Acabava de atender um caso horrível. Um
brutamontes meio ébrio viera buscá-lo para o levar a um quarto situado numa viela
malcheirosa, o mais sujo de quantos encontrara. Era uma pequena mansarda em que a
maior parte do espaço estava tomada por uma cama de madeira com um dossel de
trapos vermelhos e nojentos e o tecto era tão baixo que Philip podia tocar-lhe com a
ponta dos dedos. à luz de uma única vela que iluminava frouxamente o quarto, Philip
dirigiu-se para essa cama, fazendo debandar os percevejos que nela fervilhavam. A
mãe, uma mulher gorda, já idosa, tivera uma longa sucessão de filhos nados-mortos.
Era uma história a que Philip estava acostumado. O marido fora soldado na índia. A
legislação imposta àquele país pelo falso pudor inglês dava livre curso à mais funesta
de todas as enfermidades, e no fim quem sofria eram os inocentes. Bocejando, Philip
despiu-se e tomou um banho; depois sacudiu as roupas em cima da água e ficou a
olhar os insectos que caíam nela, esperneando. No momento exacto em que ia para a
cama, ouviu bater à porta e o porteiro do hospital entrou, trazendo-lhe um «cartão».
- Diabos o levem! - exclamou Philip. - Você é a última pessoa que eu desejava ver
hoje. Quem o trouxe?
- Acho que foi o marido, doutor. Mando esperar?
Philip olhou para o endereço, viu que era uma rua sua conhecida e disse ao
porteiro que iria só. Vestiu-se e em cinco minutos, com a maleta negra na mão, estava
na rua. Um homem que a escuridão escondia aproximou-se dele e disse ser o marido.
- Achei melhor esperar, doutor. A zona não é lá de muita confiança e eles não
sabem quem o senhor é.
Philip riu-se.
- Santo Deus, homem, todos conhecem o médico! Já estive em lugares mais
perigosos do que Waver Street.
Era verdade. A mala preta valia como um passaporte nas ruas mais escusas e nos
becos fétidos onde um polícia não ousava aventurar-se. Uma ou duas vezes, um grupo
de homens olhara para Philip com ar de curiosidade quando este passava. Ouvira
cochichar e depois uma voz que dizia:
- É o médico do hospital.
Quando passava, um ou dois deles haviam dito: «Boa-noite, doutor».
- Temos que andar mais depressa, doutor, se não se importa - disse o homem que
o acompanhava. - Disseram-me que não havia tempo a perder.
- Por que deixaram para a última hora? - indagou Philip, estugando o passo.
Olhou de relance para o homem, ao passarem sob um lampião.
- Você parece muito novo - disse.
Era louro, completamente imberbe, parecia um rapazinho. Era baixo, mas forte.
- Você é muito novo para estar casado - disse Philip.
- Fomos obrigados.
- Quanto ganha?
- Dezasseis.
Dezasseis xelins por semana não era muito para sustentar mulher e filho. O
quarto onde o casal morava denotava a extrema pobreza dos ocupantes. Era de bom
tamanho, mas parecia ainda maior por estar quase desguarnecido. Não havia tapete no
chão, nem quadros nas paredes; a maioria dos quartos que Philip conhecia tinha
alguma coisa: fotografias ou, metidas em molduras baratas, gravuras dos números de
Natal dos jornais ilustrados. A parturiente jazia numa pequena cama de ferro, das mais
baratas. Philip ficou surpreendido ao notar como ela era jovem.
- Céus! Mas não pode ter mais de dezasseis anos - disse para a mulher que viera
ajudar.
No «cartão» do hospital, a rapariga figurava com a idade de dezoito anos.
Acontecia, porém, que, quando elas eram muito jovens costumavam aumentar um ou
dois anos. Aquela era também bonita, coisa rara nessas classes em que a constituição é
arruinada pela má alimentação, pelo ar viciado e pelas ocupações pouco saudáveis.
Tinha as feições delicadas, grandes olhos azuis e arranjava a escura cabeleira nesse
complexo penteado que é típico das vendedoras de frutas. Ela e o marido estavam
muito nervosos.
- É melhor esperar lá fora. Fique perto para o caso de precisar de si - disse-lhe
Philip.
Agora que o via melhor, o estudante tornou a surpreender-se com o seu ar
juvenil. Sentia-se que devia andar na rua a brincar com outros rapazelhos, em vez de
esperar ansiosamente o nascimento de um filho. As horas passaram e só quase às duas
a criança nasceu. Parecia tudo correr satisfatoriamente. O marido foi chamado e Philip
comoveu-se ante o modo desajeitado e tímido com que o rapaz beijou a mulher. Meteu
os instrumentos na bolsa. Antes de retirar-se, tomou o pulso à parturiente.
- Olá! - exclamou.
Lançou-lhe um olhar rápido: sucedera alguma coisa. Em casos de emergência,
mandava-se chamar o assistente-chefe do Serviço de Obstetricia. Era um médico
diplomado e Philip encontrava-se sob as suas ordens naquele «distrito». Garatujou
uma nota e, entregando-a ao marido, disse-lhe que corresse ao hospital. Pediu-lhe que
se apressasse, pois a mulher estava em perigo. O rapaz precipitou-se para fora. Philip
esperou ansiosamente. Sabia que a mulher estava a esvair-se em sangue e temia vê-la
morrer de um momento para o outro, antes que o chefe chegasse. Tomou todas as
medidas ao seu alcance. Desejou com fervor que o cirurgião não tivesse sido chamado
para outra parte. Os minutos pareciam intermináveis. Afinal, o homem chegou e,
enquanto examinava a paciente, fez perguntas a Philip em voz baixa. Este viu-lhe na
fisionomia que julgava o caso bastante grave. Chamava-se Chandler. Era um homem
alto, de poucas palavras, nariz comprido, rosto magro e muito enrugado para a idade
que tinha. Abanou a cabeça.
- Era um caso perdido desde o princípio. Onde está o marido?
- Pedi-lhe que esperasse no patamar.
- É melhor mandá-lo entrar.
Philip abriu a porta e chamou-o. O rapaz estava sentado no escuro, no primeiro
degrau da escada que levava ao andar inferior. Aproximou-se da cama.
- Que houve? - indagou.
- Há uma hemorragia interna. É impossível fazê-la parar.
O cirurgião hesitou um momento e, porque era uma coisa dolorosa de dizer, fez a
voz um tanto brusca:
- Está a morrer.
O rapaz não pronunciou uma palavra. Ficou absolutamente imóvel, olhando para
a rapariga que jazia sobre a cama, pálida e inanimada. Foi a parteira quem falou.
- Estes senhores fizeram tudo quanto podiam, Harty - disse ela. - Desde o
princípio, vi que isto aconteceria.
- Cale a boca - ordenou Chandler.
As janelas não tinham cortinas e, pouco a pouco, a noite parecia aclarar-se. Não
era ainda a aurora, mas estava próxima. Chandler conservava a mulher com vida por
todos os meios de que dispunha, mas a vida escapava-se e de súbito ela morreu. O
marido, aos pés da cama de ferro ordinário, ali ficou com as mãos sobre as guardas,
muito pálido, sem falar. Uma ou duas vezes, Chandler lançou-lhe um olhar inquieto,
julgando que ele fosse desmaiar. Os seus lábios estavam cinzentos. A parteira soluçava
com ruído, mas o rapaz não lhe prestava atenção. Os seus olhos estavam fixos na
mulher com uma expressão de suprema perplexidade. Lembrava um cão chicoteado,
sem saber porquê. Quando Chandler e Philip reuniram os seus instrumentos, o
primeiro voltou-se para o marido.
- É melhor deitar-se um pouco. Deve estar mais morto do que vivo.
- Não tenho onde me deitar, doutor - respondeu ele.
Havia na sua voz uma humildade que causava pena.
- Não conhece ninguém nesta casa que possa emprestar-lhe uma cama?
- Não, senhor.
- Vieram para cá a semana passada - explicou a parteira. - Ainda não conhecem
ninguém.
Chandler hesitou um momento, embaraçado, depois acercou-se do rapaz e disse:
- Lamento muito o que aconteceu.
Estendeu a mão e o rapaz, depois de um olhar instintivo, para verificar a limpeza
da sua, apertou-lha.
- Obrigado, sr. doutor.
Philip apertou-lhe também a mão. Chandler disse à parteira que fosse buscar o
atestado de óbito de manhã. Saíram da casa e caminharam juntos em silêncio.
- A princípio, abala um pouco, não é assim? - disse Chandler, por fim.
- Um pouco - respondeu Philip.
- Se quiser, direi ao porteiro que não o chame mais esta noite.
- De qualquer modo, o meu serviço termina esta manhã, às oito.
- Quantos casos teve?
- Sessenta e três.
- Excelente. Terá então o seu certificado amanhã.
Chegaram ao hospital e o médico entrou para ver se alguém o procurara. Philip
continuou a andar. O dia fora ardente e mesmo agora, na madrugada, havia uma
tepidez no ar. A rua estava muito silenciosa. Philip não tinha vontade de ir para a
cama.
Era o fim do seu trabalho e não precisava de apressar-se. Saiu a passear,
vagarosamente, satisfeito do ar fresco e do silencio. Pensou em ir até a ponte, olhar o
nascer do dia sobre o rio. Um polícia, à esquina, deu-lhe os bons-dias. Pela. maleta, via
quem era Philip.
- Trabalhou muito esta noite, sr. Doutor - disse.
Philip fez um sinal afirmativo com a cabeça e prosseguiu. Debruçou-se no
parapeito e contemplou o amanhecer. àquela hora, a grande metrópole era como a
cidade dos mortos. O céu estava sem nuvens, mas as estrelas brilhavam frouxamente à
aproximação do dia. Havia uma leve bruma sobre o rio e os grandes edifícios das
bandas do Norte eram como palácios de uma ilha encantada. Um grupo de barcaças
estava ancorado ao largo. Todas as coisas tinham um tom violeta sobrenatural, que era
um tanto perturbador e intimidante. Mas depressa tudo ficou pálido, frio e cinzento.
Surgiu então o Sol, um raio de ouro cortou o céu, e o céu ficou iridescente. Philip não
podia tirar da lembrança a rapariga morta, estendida na cama, branca e exangue, e o
rapaz parado ali perto, como um animal ferido. A nudez do quarto miserável tornava
ainda mais pungente a dor daquela cena. Era cruel que um acaso estúpido cerceasse a
vida daquela criatura quando apenas começava a viver. Mas, ao mesmo tempo que
pronunciava mentalmente estas palavras, Philip pensou na vida que lhe estaria
destinada; os filhos, a eterna luta contra a pobreza, a juventude gasta pelo trabalho e
pelas privações; seria mais tarde uma matrona desleixada... Via-lhe a cara bonita ficar
magra e branca, o cabelo ralo, as lindas mãos, brutalmente deformadas pela faina
diária, converterem-se nas garras de um animal velho. E depois, quando o homem
tivesse deixado para trás a mocidade, a dificuldade em conseguir emprego, os
pequenos salários que teria de aceitar e a inevitável, abjecta penúria do fim. Podia ser
enérgica, industriosa, económica, que isso não a salvaria. Na velhice, era o asilo ou a
dependência da caridade dos filhos. Quem poderia lamentá-la por ter morrido quando
a vida tão pouco lhe oferecia.
Mas a piedade era inane. Philip sentiu que não era disso que aquela gente
precisava. Eles não se apiedavam de si próprios. Aceitavam o seu destino. Era a ordem
natural das coisas. De outra forma, santo Deus!, de outra forma atravessariam o rio em
multidões formigantes, para a zona onde aqueles edifícios se erguiam, seguros e
imponentes. E seria a depredação, o incêndio e a pilhagem. Mas o dia, suave e pálido,
rompera e o nevoeiro era ténue. Banhava todas as coisas numa radiação macia. O
Tamisa estava cinzento, rosado e verde, cinzento como madrepérola e verde como o
coração de uma rosa amarela. Os trapiches e os armazéns de Surrey Side agrupavam-se
em amorável desordem. A cena era tão linda que o coração de Philip batia
apaixonadamente. Estava dominado pela beleza do Universo. Ao lado daquilo, nada
parecia ter importância.
CXV
Philip passou no posto de clínica externa as poucas semanas que lhe restavam de
férias, antes do inicio do período de Inverno. Em Outubro, encetou os estudos
regulares. Estivera tanto tempo ausente do hospital, que se encontrava entre muita
gente nova. Os estudantes que cursavam anos diferentes pouco tinham de comum
entre si e os seus contemporâneos estavam, na maior parte, já diplomados. Alguns
ocupavam lugares de assistentes ou postos em hospitais do interior e casas de saúde,
outros ainda deixaram-se ficar no Hospital de S. Lucas. Os dois anos durante os quais o
seu espírito permanecera inactivo haviam-no revigorado, pensava Philip, e agora
sentia-se disposto a trabalhar com energia.
Os Athelny estavam encantados com a mudança da sorte dele. Philip deixara
fora do leilão umas tantas coisas da casa do tio e oferecera presentes a todos. Ofereceu
a Sally um cordão de ouro que pertencera à tia. Sally estava agora mulher feita.
Trabalhava como aprendiza num atelier de costura de Regent Street e todas as manhãs,
às oito, ia para o serviço. Tinha olhos azuis de expressão franca, testa larga e cabelos
fartos e brilhantes. Era robusta, de ancas largas e seios pujantes. O pai, que gostava de
discutir-lhe a aparência, advertia-a constantemente de que não devia engordar. A
rapariga atraía, porque era sadia, animal e feminina. Tinha muitos admiradores, que a
deixavam imperturbável. Dava a impressão de considerar como uma tolice os assuntos
amorosos. Compreendia-se facilmente que os rapazes a achassem inacessível. Sally
tinha o espírito de uma pessoa mais velha do que a sua idade. Estava acostumada a
ajudar a mãe nos trabalhos da casa e no cuidado das crianças, de modo que adquirira
assim um ar autoritário que levava Mrs. Athelny a dizer que Sally gostava muito de
fazer o que lhe vinha à cabeça. Não falava muito, mas à medida que crescia dava a
impressão de ir adquirindo um tranquilo senso do ridículo, e às vezes fazia uma
observação pela qual se via que, por trás daquele exterior impassível, estava
sossegadamente a divertir-se com o próximo. Philip notou que nunca chegara com ela
a essa intimidade afectuosa que tinha com o resto da numerosa família Athelny. De
quando em quando, a indiferença da rapariga deixava-o levemente irritado. Havia nela
qualquer coisa de enigmático.
Quando Philip lhe deu o cordão, Athelny, com o seu feitio turbulento, insistiu em
que ela devia beijá-lo. Sally, porém, fez-se vermelha e recuou.
- Não, não beijo - disse
- Sua diabinha ingrata! - exclamou Athelny. - Por que não?
- Não gosto de ser beijada por homens - respondeu.
Philip viu-lhe o embaraço e, divertido, é claro, desviou a atenção de Athelny para
outro assunto. Não era coisa muito difícil. Mas a mãe falou-lhe mais tarde sobre isso,
pois, na próxima visita de Philip, Sally aproveitou a primeira oportunidade em que
ficaram alguns minutos a sós para tocar no assunto.
- Magoei-o a semana passada, por não ter querido beijá-lo.
- Não tem importância - respondeu-lhe a rir.
- Não é que seja ingrata. - Corou um pouco ao pronunciar a frase formal que
preparara. - Estimarei sempre o cordão e foi muita gentileza sua presentear-me com
ele.
Philip achava sempre um pouco difícil conversar com ela. A jovem fazia
correctamente as suas obrigações, mas nunca parecia sentir necessidade de conversar.
Contudo, nada havia de insociável nela. Um domingo, à tarde, quando Athelny e a
mulher tinham saído juntos e Philip, tratado como pessoa de família, ficara a ler na sala
de estar, Sally entrou e sentou-se a costurar perto da janela. As roupas dos mais novos
eram feitas em casa e Sally não podia passar os domingos na ociosidade. Philip pensou
que ela desejasse conversar e abandonou o livro.
- Continue a ler - disse ela. Como estava só, vim costurar aqui, a seu lado.
- És a pessoa mais silenciosa que conheço - observou Philip.
- Nesta casa já temos quem converse bastante.
Não havia ironia no tom da voz dela: estava simplesmente a expor um facto. Mas
isso sugeriu a Philip que ela já deixara de tomar o pai pelo herói que imaginava nos
tempos de criança. Mentalmente, associava a conversação brilhante do homem à sua
prodigalidade, causa de tantas dificuldades na vida da família. Comparava a retórica
paterna com o bom-senso prático da mãe. E, embora a vivacidade do pai a divertisse,
talvez lhe causasse por vezes certa irritação. Philip contemplava-a enquanto costurava,
curvada para o trabalho. Era sadia, forte e normal. Seria engraçado vê-la entre as outras
raparigas do atelier, com os seus bustos descarnados e faces anémicas. Mildred era
anémica.
Algum tempo depois, apareceu-lhe um pretendente. Ela saía de quando em
quando, com amigas que arranjara no atelier e encontrara um rapaz, engenheiro
electricista muito bem encaminhado na vida - um partido vantajoso. Certo dia, contou
à mãe que ele lhe propusera casamento.
- Que respondeste? - indagou ela.
- Ora, disse que por enquanto não tenho pressa de me casar. - Fez uma pausa
entre as frases, como era seu hábito. - Como ficou muito aborrecido, disse-lhe que
viesse tomar chá no domingo.
Era uma cerimónia para a qual Athelny se sentia inteiramente solicitado. Ensaiou
durante toda a tarde a maneira de representar o papel de pai nobre, para edificação do
rapaz, até a criançada ter ataques de riso. Pouco antes da chegada do pretendente,
Athelny desencantou um tarbuche egípcio e insistiu em usá-lo.
- Vai-te, Athelny! - disse a mulher. Envergara o seu melhor vestido, que era de
velado negro e lhe ficava muito justo, visto ter engordado de ano para ano. - Vais
deitar tudo a perder.
Tentou arrancar-lhe o tarbuche da cabeça, mas o homenzinho esquivou-se-lhe
habilmente.
- Não me agarres, mulher! Nada me induzirá a tirá-lo. Esse rapaz deve ficar a
saber desde o começo que não é uma família ordinária aquela em que se prepara para
entrar.
- Deixe que ele fique assim, mamã - disse Sally, no seu tom tranquilo e indiferente
de sempre. - Se Mr. Donaldson levar a coisa a mal, pode ir-se embora e que bons
ventos o levem.
Philip achava que o jovem ia ser submetido a uma rude prova, pois e Athelny, no
seu jaquetão de velado castanho, gravata negra de artista e tarbuche vermelho, devia
ser um espectáculo surpreendente para um ingénuo engenheiro electricista. Ao entrar,
foi saudado pelo dono da casa com a altiva cortesia de um grande de Espanha e por
Mrs. Athelny de maneira simples e perfeitamente natural. Sentaram-se nas cadeiras
monacais de alto espaldar, em torno da velha mesa. Mrs. Athelny serviu o chá num
bule de barro vidrado que dava uma nota inglesa e rústica à reunião. Ela própria fizera
bolinhos e sobre a mesa havia geleia feita em casa. Era como um chá no campo e, para
Philip, muito característico e encantador, naquela antiga mansão jacobita. Por qualquer
fantástica razão, meteu-se na cabeça de Athelny discorrer sobre a história bizantina.
Estivera a ler os últimos volumes da Decadência e Queda do Império Romano. E, com
o indicador teatralmente espetado, despejava nos ouvidos espantados do pretendente,
histórias escandalosas sobre Teodora e Irene. Dirigia-se unicamente ao convidado,
numa torrente de empolada oratória. E o rapaz, reduzido a um silêncio impotente,
tímido, inclinava a cabeça a intervalos regulares para mostrar que prestava um
interesse inteligente. Mrs. Athelny não prestava atenção às palavras de Thorpe, mas
interrompia-o de quando em quando para oferecer ao rapaz mais chá ou para obrigá-lo
a aceitar mais bolo com geleia. Philip observava Sally. Estava sentada, com os olhos
baixos, calma, silenciosa e atenta. as suas compridas pestanas faziam-lhe uma linda
sombra no rosto. Impossível saber se achava graça à cena ou se estava interessada pelo
rapaz. Era inescrutável. Uma coisa, porém, não oferecia dúvidas: o engenheiro
electricista tinha boa aparência, era louro, de rosto escanhoado, feições regulares,
agradáveis, e uma fisionomia honesta. Era alto e bem constituído. Philip não pôde
deixar de pensar que daria um excelente companheiro para Sally. E sentiu uma ponta
de inveja pela felicidade que imaginava estar reservada a ambos.
Em dado momento, o pretendente disse achar que já era tempo de retirar-se.
Sally levantou-se sem uma palavra e acompanhou-o até à porta. Quando voltou, o pai
rompeu:
- Bem, Sally, achamos o teu rapaz muito simpático. Estamos preparados para
recebê-lo na nossa família. Mandem correr os pregões e comporei uma canção nupcial.
Sally pôs-se a levantar a mesa do chá. Não dizia palavra. De repente, lançou um
olhar rápido a Philip.
- Como o achou, Mr. Philip?
Jamais quisera chamar-lhe tio Phil, como faziam as crianças, e não o tratava por
Philip.
- Acho que vocês formam um belo par.
Sally deitou-lhe outro olhar vivo e, corando de leve, continuou o seu trabalho.
- Achei o rapaz muito distinto e bem-educado - disse Mrs. Athelny. - Parece-me
que é desses que podem fazer a felicidade de qualquer rapariga.
Sally guardou silêncio por momentos e Philip olhou com curiosidade para ela.
Ninguém poderia dizer se estava a reflectir sobre o que a mãe dissera ou se andava
perdida no mundo da Lua.
- Por que não respondes quando falam contigo, Sally? - observou-lhe a mãe, um
pouco irritada.
- Acho que ele é um tolo.
- Então não aceitas o rapaz?
- Não, não aceito.
- Não sei que mais queres - volveu Mrs. Athelny, visivelmente atónita. - é um
rapaz muito decente e está em condições de dar-te uma casa muito boa. Sem contar a
tua, já temos bastantes bocas para alimentar. Quando se apresenta uma oportunidade
assim é um pecado não aproveitar. E até estou a dizer que poderás ter uma
rapariguinha para fazer o serviço mais pesado.
Philip nunca ouvira Mrs. Athelny referir-se tão directamente às dificuldades da
sua vida. Viu a importância que tinha para eles o sustento de cada filho.
- De nada serve continuar, mãe - disse Sally, com o seu ar tranquilo. - Não casarei
com ele.
- Acho que és uma filha muito cruel, egoísta e sem coração.
- Se quer que eu ganhe a vida, mãe, posso até ajustar-me como criada.
- Não sejas tola, bem sabes que teu pai não consentiria nisso.
Philip surpreendeu o olhar de Sally e julgou ver nele um lampejo de malícia. Que
poderia ter achado de engraçado naquela conversa? Era uma rapariga singular.
CXVI
Durante o seu último ano no «S. Lucas, Philip trabalhou com ardor. Estava
contente com a vida. Achava delicioso ter o coração livre e o bolso suficientemente
cheio para prover às suas necessidades. Ouvira outros falar com desprezo do dinheiro.
Teriam experimentado um dia viver sem ele? sabia que a falta de dinheiro torna o
homem mesquinho, vil e avarento; deforma-lhe o carácter e leva-o a olhar o mundo por
um prisma vulgar. Quando se tem de levar em conta cada vintém, o dinheiro assume
uma importância grotesca. é preciso que estejamos numa situação desafogada para
atribuir-lhe o seu valor real. Levava uma vida solitária, não visitando ninguém a não
ser os Athelny, mas não se sentia só. Ocupava-se com os planos para o futuro e às
vezes pensava no passado. A sua lembrança demorava-se de quando em quando nos
velhos amigos, mas nada fazia para vê-los. Teria gostado de saber o que fora feito de
Norah Nesbit. Era, agora, Norah qualquer coisa, mas não podia lembrar-se de como se
chamava o homem que ia casar com ela. Philip dava graças por tê-la conhecido: era
uma alma boa e corajosa. Uma noite, cerca das sete e meia, viu Lawson caminhando
pelo Piccadilly; vestia o seu trajo de noite e talvez voltasse de um teatro. Cedendo a um
repentino impulso, Philip dobrou rápido uma esquina. Havia dois anos que achava
não poder reatar a amizade interrompida. Ele e Lawson nada mais tinham a dizer um
ao outro. Philip perdera o interesse pela arte. Parecia-lhe ter agora a possibilidade de
gozar com mais ardor do que quando muito novo. Mas a arte afigurava-se-lhe sem
importância. Estava ocupado na formação de um desenho tirado do caos multímodo
da existência, e os materiais com que trabalhava pareciam tornar mais trivial aquela
preocupação com palavras e cores. A amizade de Philip com Lawson fora um motivo
no desenho que ele elaborava; era puro sentimentalismo julgar que o pintor ainda
tivesse algum interesse para ele.
Às vezes, Philip pensava em Mildred. Evitava de propósito as ruas em que havia
probabilidade de vê-la. Mas por vezes um sentimento qualquer, talvez curiosidade,
talvez alguma coisa mais profunda que não gostaria de confessar, fazia-o deambular
pela Regent Street e por Piccadilly, nas horas a que era de esperar ela andasse por ali.
Não sabia, então, se desejava ou se temia encontrá-la. Certa vez, avistou pelas costas
uma criatura que, por um momento, lhe pareceu ser Mildred. Teve uma sensação
curiosa: era uma dor aguda no coração, uma dor estranha, em que havia medo e um
desfalecimento de causar náuseas. E quando apressou o passo e verificou que estava
enganado, não soube se o que experimentava era alívio ou desapontamento.
No princípio de Agosto, Philip passou em Cirurgia, o seu último exame, e
recebeu o diploma. havia sete anos que entrara para o Hospital de S. Lucas. Estava
quase com trinta anos. Desceu as escadas do Royal College of Surgeons levando na
mão o canudo que o habilitaria a fazer clínica, e o coração batia-lhe de satisfação.
«Agora sim, vou começar a vida», pensava.
No dia seguinte, foi à Secretaria, para inscrever-se como candidato a um dos
lugares no hospital. o secretário era um homenzinho agradável, de barba negra. Philip
sempre o achara muito afável. O outro felicitou-o pelo êxito e depois disse:
- Quer um lugar de substituto por um mês, na costa do Sul? Três guinéus por
semana, com casa e comida.
- Não me importaria - respondeu Philip.
- É em Farnley, no Dorsetshire. Com o dr. South. Terá de ir imediatamente. O
assistente dele está com amigdalite. Deve ser uma bela localidade.
Havia qualquer coisa nas maneiras do secretário que deixou Philip intrigado. Era
um pouco suspeito.
- Essa história tem algum gato escondido? - perguntou.
O secretário hesitou um momento, rindo de forma conciliatória.
- Bem, o facto é que o dr. South, segundo dizem, é um tipo esquisito e um tanto
rabugento. As agências não querem mandar-lhe mais assistentes. Não tem papas na
língua e os seus auxiliares não gostam dele.
- Mas acha que ele ficará satisfeito com um médico recém-formado? Afinal de
contas, não tenho prática...
- Deve dar graças por tê-lo a si - afirmou o secretário, diplomaticamente.
Philip reflectiu um momento. Nada tinha a fazer durante as próximas semanas e
estava satisfeito com a oportunidade de ganhar algum dinheiro. Podia economizá-lo
para a viagem a Espanha, que se prometera a si próprio para quando terminasse as
suas funções no «S. Lucas«, ou, se ali não lhe dessem nada, nalgum outro hospital.
- Está bem, vou.
- Mas sucede que tem de ir esta tarde. Pode? Em caso afirmativo, telegrafarei
imediatamente.
Philip gostaria de ter alguns dias livres. Mas vira os Athelny na noite anterior
(fora levar-lhes a boa nova) e não havia razão alguma para que não pudesse partir
imediatamente. A sua bagagem era pequena. Pouco depois das sete daquela noite,
saltava na estação de Farnley e tomava um carro para a residência do dr. South. Era
uma casa comprida e baixa, com as paredes caiadas, recobertas de videiras virgens.
Philip foi introduzido no consultório. Um velho, sentado a uma escrivaninha, ergueu
os olhos quando a criada mandou entrar Philip. Não se levantou nem falou,
simplesmente fixou o olhar em Philip. Este ficou confuso.
- Creio que esta à minha espera - disse. - O secretário do «S. Lucas« telegrafou-lhe
esta manhã.
- Atrasei o jantar meia hora. Quer lavar-se?
- Quero - respondeu Philip.
Achou graça aos modos esquisitos do dr. South. O médico ergueu-se e Philip viu
que era um homem de estatura mediana, magro, de cabelos brancos aparados muito
curto, e larga boca, tão firmemente cerrada que parecia não ter lábios. Tinha as faces
escanhoadas, com excepção das pequenas suíças brancas que lhe aumentavam a forma
quadrada do rosto, dada pelo queixo firme. Vestia um fato de tweed castanho e uma
gravata branca. A roupa dançava-lhe no corpo, frouxa, como se tivesse sido feita para
um homem muito maior. Dava a impressão de um fazendeiro respeitável, dos meados
do século XIX. Abriu uma porta.
- Ali é a sala de jantar - disse, apontando para o compartimento fronteiro. - O seu
quarto é a primeira porta que dá para o patamar. Desça quando estiver pronto.
Durante o jantar, Philip viu que o dr. South estava a examiná-lo, mas falava
pouco e o rapaz compreendeu que não desejava ouvir o assistente conversar.
- Quando se formou? - perguntou o homem, de repente.
- Ontem.
- Esteve em alguma universidade?
- Não.
- O ano passado, quando o meu assistente teve férias, mandaram-me um exuniversitário.
Disse-lhes que não tornassem a mandar-me outro. Esses diabos são
cavalheiros de mais para mim.
Houve outra pausa. O jantar era muito simples mas excelente. Philip mantinha
um exterior calmo, mas o seu coração saltava de comoção. Estava imensamente
satisfeito por ter conseguido um lugar de médico substituto. Isso fazia-o sentir-se
extremamente adulto. Tinha o desejo insano de rir, sem motivo especial. E quanto mais
pensava na sua dignidade profissional, maior era a sua vontade rir.
Mas o dr. South interrompeu-lhe de súbito os pensamentos.
- Que idade tem?
- Vou fazer trinta.
- Como foi que só agora se formou?
- Só comecei a estudar medicina com vinte e dois anos e tive de interromper o
curso por dois anos.
- Porquê?
- Pobreza.
O dr. South lançou-lhe um olhar esquisito e tornou a ficar em silêncio. No fim do
jantar, levantou-se da mesa.
- Sabe que espécie de clientela é esta?
- Não. - retorquiu Philip.
- Na maioria, são pescadores com suas famílias. Tenho o Sindicato e o Hospital
dos Marítimos. Estive sempre só aqui, mas depois que procuraram transformar isto
numa praia elegante, mandaram outro médico para a parte alta e a gente rica vai
procurá-lo. Fico só com os que não podem pagar ao médico.
Philip viu que essa rivalidade era o ponto nevrálgico do velho. - Bem vê que não
tenho prática - observou Philip.
- Nenhum de vocês sabe nada.
Saiu da sala sem mais palavra e deixou Philip entregue a si próprio. Quando a
criada entrou para levantar a mesa, contou a Philip que o dr. South via os doentes das
seis às sete. O trabalho daquela noite estava terminado. Philip foi ao quarto buscar um
livro, acendeu o cachimbo e instalou-se para ler. Era um grande prazer, uma vez que
não lera senão livros de medicina, nos últimos meses. às dez, o dr. South entrou e
olhou para ele. Philip não gostava de ficar com os pés no soalho e arrastara uma
cadeira para descansá-los sobre ela.
- O senhor parece que gosta de pôr-se à vontade - disse o dr. South, com uma
expressão sombria, que teria perturbado Philip se não estivesse tão bem disposto.
Os olhos de Philip brilharam quando respondeu:
- Faz alguma objecção?
O dr. South mirou-o, mas não respondeu directamente.
- Que está a ler?
- O Peregrine Pickle, de Smollet.
- Parece-me que sei que Smollet escreveu o Peregrine Pickle.
- Desculpe. Os médicos não se interessam muito pela literatura, não é assim?
Philip pusera o livro sobre a mesa e o dr. South pegou-lhe. Era um volume que
pertencera ao vigário de Blackstable, um livro fino, encadernado em marroquim
desbotado, com uma gravura em cobre no frontispício. As páginas estavam amareladas
pelo tempo e manchadas. Philip, sem a menor intenção, fez um pequeno movimento
para a frente, quando o dr. South segurou o livro. Um leve sorriso lhe veio aos olhos.
Ao velho médico, muito pouca coisa escapava:
- Acha-me engraçado? - perguntou glacialmente.
- vejo que gosta de livros. é uma coisa que sempre se nota no jeito como as
pessoas os seguram.
O dr. South largou o livro imediatamente.
- O primeiro almoço é às oito e meia - disse, saindo da sala.
«Que velho engraçado!» - pensou Philip.
Cedo descobriu por que achavam os assistentes do dr. South difícil a convivência
com o velho. Em primeiro lugar, o homem opunha-se firmemente a todas as
descobertas dos últimos trinta anos. Não tolerava esses remédios que se tornam moda,
adquirem fama de fazer curas milagrosas e em poucos anos deixam de ser
empregados. Tinha um certo número de receitas tradicionais que trouxera do «S.
Lucas», onde estudara, e usara-as toda a vida. Achava-as tão eficazes como qualquer
outra coisa que tivesse aparecido desde então. Philip admirou-se da desconfiança que o
dr. South mostrava pela assepsia. aceitara por deferência a opinião universal, mas
encarava as precauções que Philip vira recomendar de maneira tão insistente e
escrupulosa no hospital, com a tolerância desdenhosa de um homem que se dignasse
brincar aos soldadinhos de chumbo como uma criança.
- Tenho visto anti-sépticos aparecerem e substituírem logo todos os outros;
depois veio a assepsia e tomou o lugar dos desinfectantes. Patranhas!
Os rapazes que lhe eram mandados conheciam somente a prática hospitalar e
vinham com o desprezo mal disfarçado pelo médico sem especialidade: era uma
prevenção que adquiriam na atmosfera do hospital. Mas tinham visto apenas os casos
complicados que apareciam nas enfermarias. Sabiam tratar uma doença obscura das
glândulas supra-renais, mas ficavam impotentes diante de um resfriamento comum. O
seu conhecimento era teórico e a sua arrogância ilimitada. O dr. South observava-os
com os lábios apertados. Experimentava um prazer selvagem em mostrar-lhes quão
enorme era a sua ignorância e quão injustificável a sua pretensão. A clientela do lugar
era pobre, gente que vivia da pesca. O próprio médico era quem lhes preparava as
receitas. O dr. South perguntava ao assistente como esperava viver se tivesse de dar ao
pescador com dores de estômago uma receita composta de meia dúzia de drogas caras.
Queixava-se também de que os médicos jovens eram incultos. Só liam The Sporting
Times e The British Medical Journal. Não sabiam escrever legivelmente nem redigir
correctamente. Durante dois ou três dias, o dr. South observou Philip atentamente,
pronto a cair sobre ele com áspero sarcasmo se encontrasse ensejo. E Philip, ciente
disso, continuava o seu trabalho, a divertir-se tranquilamente com a situação. Estava
satisfeito com a mudança. Gostava daquela sensação de independência e
responsabilidade. Toda a espécie de gente vinha ao consultório. Sentia-se lisonjeado
porque parecia capaz de inspirar coragem aos seus doentes. E era interessante
acompanhar ali o processo da cura, que num hospital só podia ser verificado com
intervalos distantes. As suas visitas levavam-no a cabanas de telhados baixos, nas quais
se viam apetrechos de pesca e velas, e aqui e ali lembranças de viagens por distantes
mares; um estojo de laca do Japão, arpões e remos da Melanésia, ou adagas dos bazares
de Istambul. Havia um ar de romance naqueles quartinhos abafados a que o sal do mar
dava uma frescura amarga. Philip gostava de conversar com os marujos, e quando
estes viram que ele não era pretensioso, contaram-lhe longas histórias das viagens
longínquas da sua juventude.
Uma ou duas vezes, Philip enganou-se no diagnóstico. (Nunca vira um caso de
sarampo, e, quando viu a erupção, tomou-a por uma misteriosa doença da pele),
algumas vezes, os seus tratamentos diferiram dos do dr. South. A primeira vez que isso
aconteceu, o velho médico atacou-o com uma ironia feroz, que Philip recebeu de bom
humor. Tinha certo dom de réplica pronta e deu uma ou duas que fizeram o dr. South
parar e olhar para ele com curiosidade. O rosto de Philip era grave, mas os olhos
cintilavam. O velho médico não podia fugir à impressão de que o rapaz estava a
zombar dele. habituara-se a ser temido e detestado pelos seus auxiliares e aquilo era
novidade para ele. às vezes, ficava a ponto de se deixar levar pela fúria e mandar Philip
embora no primeiro comboio. Fizera isso com dois ou três assistentes. Mas tinha uma
sensação inquietante de que, se tal acontecesse, Philip rir-se-lhe-ia simplesmente na
cara. E de súbito sentia o que a situação tinha de engraçado. Mau grado seu, a boca
encrespava-se-lhe num sorriso e retirava-se. Dentro em pouco, teve a certeza de que
Philip estava sistematicamente a rir-se à sua custa. Primeiro, ficou surpreendido e
depois divertiu-se.
- Que grande maroto! - dizia para si próprio, a rir. - Que grande maroto!
CXVII
Philip escrevera a Athelny para lhe dizer que ia passar uma temporada como
substituto no Dorsetshire e a seu tempo, recebeu a resposta. Estava redigida com o
formalismo característico de Athelny, engastada de epítetos como um diadema persa
de pedras preciosas. E aquela linda caligrafia de que Thorpe tanto se orgulhava era tão
difícil de ler como os caracteres góticos, a que se assemelhava. Sugeria a Philip que
viesse reunir-se à sua família nos campos de lúpulo de Kent, para onde iam todos os
anos. E, a fim de persuadi-lo, dizia várias coisas belas e complicadas sobre a alma de
Philip e sobre as gavinhas espiraladas do lúpulo. Philip respondeu imediatamente, a
dizer que iria logo que se visse livre. Embora não tivesse nascido naquelas terras, tinha
uma particular afeição pela Ilha de Thanet e ardia de entusiasmo à ideia de passar uma
quinzena tão próximo da gleba e num ambiente que precisava apenas de um céu azul
para ser idílico como os bosques de oliveiras da Arcádia.
As quatro semanas de trabalho em Farnley decorreram rápidas. No alto do
penhasco estava a erguer-se uma cidade nova, com vivendas de tijolo vermelho em
torno dos campos de golfe e acabara de ser inaugurado um grande hotel para receber
os hóspedes, no Verão. Philip, porém, raramente subia até lá. Perto do porto, as
casinholas de pedra do século passado amontoavam-se numa deliciosa confusão e as
ruas estreitas, descendo o declive íngreme, tinham um ar de antiguidade que cativava
a imaginação. Viam-se, à beira-mar, bonitas vivendas que tinham na frente minúsculos
jardins bem cuidados; eram habitadas por capitães reformados da marinha mercante e
por mães ou viúvas de embarcadiços. Tinham essas vivendas um aspecto curioso e
pacato. No pequeno porto, entravam vapores de carga procedentes da Espanha e do
Levante, navios de pequena tonelagem. E, de quando em quando, um veleiro chegava,
impelido pelos ventos da aventura. Philip lembrava-se do pequeno porto sujo de
Blackstable, com os seus barcos carvoeiros. Fora lá que pela primeira vez sentira o
desejo - agora obsessão - das terras do Oriente e das ilhas ensolaradas dos mares
tropicais. Mas ali a gente sentia-se mais perto do vasto e profundo oceano do que nas
praias daquele Mar do Norte que sempre parecia tão circunscrito. Aqui, podia respirar
a plenos pulmões, olhando a vastidão uniforme do mar. E o vento oeste, esse adorável
vento salgado da Inglaterra, sublimava o coração, ao mesmo tempo que o fazia
transbordar de ternura.
Uma noite, na última semana, uma criança bateu à porta do consultório, no
momento em que os dois médicos aviavam as suas receitas. Era uma rapariguita
esfarrapada, de cara suja e pés descalços. Philip abriu a porta.
- Por favor, sr. doutor, pode vir agora a casa de Mrs. Fletcher, em Ivy Lane?
- Que tem Mrs. Fletcher? - gritou o dr. South, com a sua voz áspera.
A pequena não tomou conhecimento da pergunta. Tornou a dirigir-se a Philip:
- Por favor, o filhinho dela sofreu um acidente. Pode ir lá depressa?
- Diga a Mrs. Fletcher que já vou - berrou o dr. South.
A rapariguinha hesitou um momento e, pondo o dedo sujo na boca suja, ficou a
olhar em silêncio para Philip.
- Que há, pequena? - perguntou Philip sorrindo.
- Desculpe, Mrs. Fletcher mandou perguntar se podia ir o doutor novo...
Ouviu-se um ruído no laboratório; o dr. South saiu para o corredor.
- Mrs. Fletcher não está satisfeita comigo? - ladrou ele. - Tenho atendido Mrs.
Fletcher desde que ela nasceu. Por que não hei-de ser digno de tratar também daquele
fedelho imundo?
A pequena deu, por um instante, a impressão de que ia desfazer-se em pranto,
mas depois pareceu resolver o contrário. Deitou a língua de fora ao dr. South e, antes
que ele pudesse refazer-se da surpresa, deitou a correr com quantas pernas tinha.
Philip viu que o velho médico estava contrariado.
- O senhor parece um tanto fatigado e daqui a Ivy Lane é uma boa caminhada -
disse, querendo dar ao outro uma desculpa para não ir.
O dr. South deixou escapar um grunhido surdo.
- Fica muito mais perto para um homem que pode usar ambas as pernas do que
para um homem que só tem perna e meia.
Philip corou e guardou silêncio por momentos.
- Quer que eu vá ou quer ir? - perguntou por fim, friamente.
- De que vale eu ir? Eles preferem-no a si.
Philip pegou no chapéu e foi ver o doente. Quando voltou eram quase oito horas.
O dr. South estava de pé, na sala de jantar, com as costas voltadas para a lareira.
- Demorou-se bastante - observou.
- Sinto muito. Por que não começou a jantar?
- Porque achei melhor esperar. Esteve todo esse tempo em casa de Mrs. Fletcher?
- Não, não estive. Parei para olhar o pôr-do-Sol, na volta, e esqueci-me das horas.
O dr. South não respondeu e a criada trouxe carapaus assados na grelha. Philip
comeu com excelente apetite. De súbito, o dr. South atirou-lhe uma pergunta.
- Por que ficou a olhar o pôr-do-Sol?
Philip respondeu, com a boca cheia:
- Porque me sentia feliz.
O dr. South lançou-lhe um olhar esquisito e a sombra de um sorriso aflorou-lhe
ao rosto velho e cansado. Continuaram a comer em silêncio, mas, quando a criada lhe
serviu vinho do Porto e deixou a sala, o velho reclinou-se na cadeira e fixou os olhos
penetrantes em Philip.
- Você ficou um pouco picado quando falei no seu defeito físico, hem, meu
rapaz? - perguntou.
- É o que toda a gente faz directa ou indirectamente quando se zanga comigo.
- Sem dúvida, sabem que esse é o seu ponto fraco.
Philip encarou-o com olhar firme
- Está muito satisfeito por ter descoberto isso?
O doutor não respondeu, mas soltou uma risada gutural de amarga alegria.
Ficaram sentados por um instante, a olhar-se. Depois, o velho deixou Philip
extremamente surpreendido com estas palavras:
- Por que não fica aqui comigo? Livrar-me-ei desse idiota da amigdalite.
- É muita bondade sua, mas no Outono espero conseguir um lugar no hospital.
Isso vai ajudar-me a obter outro posto, mais tarde.
- Estou a oferecer-lhe sociedade - disse o dr. South com ar rabugento.
- Porquê? - indagou Philip, surpreendido.
- Parece que gostam de si nesta terra.
- Nunca pensei que esse facto encontrasse a sua aprovação - retorquiu Philip,
secamente.
- Acha então que, depois de quarenta anos de prática, dou a mínima importância
a essa história da clientela preferir o meu assistente a mim? Não, meu amigo. Não há o
menor laço afectivo entre num e os meus doentes. Deles não espero gratidão alguma.
Espero apenas que paguem as contas. Então, que diz?
Philip não respondeu, não porque estivesse a pensar na proposta, mas porque
estava atónito. Era, evidentemente, coisa rara oferecer alguém sociedade a um médico
recém-formado. E Philip percebia, admirado, que, embora nada o induzisse a confessálo,
o dr. South simpatizara com ele. Pensou em como se divertiria o secretário do
Hospital de S. Lucas quando lhe contasse.
- A clínica rende cerca de setecentas libras por ano. Podemos calcular quanto
valeria a sua parte. Você pagar-me-ia aos poucos. E, quando eu morresse, ficaria no
meu lugar. Acho que isso é melhor do que andar a bater com a cabeça pelos hospitais
dois ou três anos e aceitar depois lugares de assistente até poder trabalhar por conta
própria.
Philip sabia que estava ali uma oportunidade que a maioria dos seus colegas se
apressaria a segurar com ambas as mãos. Havia médicos de mais e metade deles
aceitaria, agradecida, uma situação segura como aquela, ainda que modesta.
- Sinto muitíssimo, mas não posso - disse. - Isso significa desistir de tudo por que
suspirei durante anos. De um modo ou de outro, passei tempos duros, mas sempre tive
diante de mim a esperança de me formar para poder viajar e agora, quando acordo
pela manhã, os meus próprios ossos sentem o desejo de viajar... Ir, pouco importa para
onde, mas ir, ver lugares onde nunca estive.
Agora a meta parecia-lhe muito mais próxima. Terminaria o seu estágio no «S.
Lucas», em meados do ano seguinte e depois iria a Espanha. Tinha recursos para
passar lá alguns meses, a vaguear naquela terra que para ele era sinónimo de romance:
Depois, embarcaria para o Oriente. Tinha a vida diante de si e o tempo nada lhe
importava. Podia errar, durante anos, se quisesse, no meio de estranha gente, por
lugares desconhecidos, onde a vida assumia estranhos aspectos. Não sabia que
procurava ou que coisas essas viagens lhe podiam trazer. Mas tinha o pressentimento
de que havia de aprender algo de novo sobre a vida e obter uma chave do mistério que
solucionara, apenas para achá-lo depois mais misterioso ainda. E, mesmo que nada
encontrasse, pelo menos aliviaria a inquietação que lhe roía o peito. Mas o dr. South
dava-lhe uma prova de grande bondade e parecia-lhe ingratidão recusar o seu
oferecimento sem lhe dar uma razão aceitável. Assim, com o seu feitio tímido,
procurando parecer tão natural quanto possível, fez uma tentativa para explicar por
que lhe era tão importante a realização dos planos que acariciara com tanta paixão.
O dr. South escutou-o em silêncio e uma expressão de ternura lhe veio aos velhos
olhos astutos. O facto de o médico não insistir para que lhe aceitasse a proposta
pareceu a Philip outro acto de bondade. A benevolência é quase sempre muito
peremptória. O velho pareceu achar boas as razões de Philip. Mudando de assunto,
começou a falar na sua mocidade. Estivera na Armada e fora por causa do seu longo
trato com o oceano que, ao reformar-se, se estabelecera em Farnley. Contou a Philip os
seus remotos dias no Pacífico e doidas aventuras na China. Tomara parte numa
expedição contra os caçadores de cabeças de Bornéu e conhecera a Samoa ainda Estado
independente. Estivera nas ilhas de coral. Philip escutava-o, arrebatado. Pouco a pouco
o dr. South passou a falar de si próprio. Era viúvo, morrera-lhe a mulher havia trinta
anos e a filha casara-se com um fazendeiro da Rodésia. Desaviera-se com o genro e
havia dez anos que a filha não vinha a Inglaterra. Era como se nunca tivesse tido
mulher ou filha. Vivia muito solitário. A sua rabugice pouco mais era do que uma
couraça com que procurava ocultar uma desilusão completa. Para Philip, era trágico
vê-lo ali simplesmente a esperar a morte, não com impaciência mas com certa aversão;
odiava a velhice e não podia resignar-se às suas limitações. No entanto, tinha a
impressão de que a morte era a única solução para a amargura da sua existência. Philip
surgira-lhe no caminho e a afeição natural que a longa separação da filha matara - pois
ela tomara o partido do marido, e o velho nunca chegara a ver os netos - voltava-se
agora para Philip. A princípio, isso deixara-o agastado e dissera consigo que era um
sinal de senilidade. Mas havia em Philip alguma coisa que o atraía e descobria-se a
sorrir para o rapaz sem saber porquê. Philip não o enfastiava. Uma ou duas vezes, o dr.
South pôs-lhe a mão no ombro. Desde que a filha deixara a Inglaterra, havia tantos
anos, fora aquele, de todos os gestos que fizera, o que mais se aproximava de uma
carícia. Quando chegou o dia de Philip partir, o dr. South acompanhou-o até à estação.
Sentia-se estranhamente deprimido.
- Foi uma temporada admirável - disse Philip. - O senhor foi muito bondoso
comigo.
- Deve estar contente por ir-se embora, não é assim?
- Fui muito feliz aqui.
- Mas quer ver o mundo, não é isso? Ah! Tem a mocidade. - Hesitou um
momento. - Não esqueça que, se mudar de ideia, a minha proposta continua de pé.
- É uma grande bondade sua.
Philip apertou-lhe a mão, da janela da carruagem, e o comboio pôs-se em
movimento. Philip pensou na quinzena que ia passar nos campos de lúpulo. Sentia-se
feliz à ideia de tornar a ver os amigos e estava radiante porque o dia estava bonito. O
dr. South, porém, voltou a passos tentos para a sua casa vazia. Sentia-se muito velho e
muito só.
CXVIII
Era já bastante noite quando Philip chegou a Ferne. Era a aldeia natal de Mrs.
Athelny, que estava acostumada a, desde menina, auxiliar a colheita de lúpulo. Dirigiase
para lá todos os anos, com o marido e os filhos. Como muitos dos habitantes de
Kent, a família fazia aquilo muito satisfeita por ganhar algum dinheiro, mas
considerando especialmente aquela excursão anual, esperada com meses de
antecedência, como a melhor das férias. O trabalho não era pesado: fazia-se em
comum, ao ar livre, e para as crianças significava um longo e delicioso piquenique. Ali
os rapazes encontravam-se com as raparigas. Nos longos crepúsculos, quando o
trabalho terminava, passeavam pelas ruelas, em pares amorosos. E à época da colheita
de lúpulo costumavam seguir-se muitos casamentos. Saíam em carros com roupas de
cama, marmitas, panelas, cadeiras e mesas. Ferne, enquanto durava a colheita, ficava
deserta. Muito exclusivistas, os habitantes do lugar não gostavam da intromissão de
«estrangeiros», que era o nome que davam aos que vinham de Londres. Olhavam para
eles com desprezo e ao mesmo tempo com temor. Eram gente turbulenta e os dignos
camponeses não queriam misturar-se com eles. Nos velhos tempos, os trabalhadores
da colheita dormiam em celeiros mas, havia dez anos, erguera-se uma fila de choças de
ambos os lados de um prado. Os Athelny, como muitos outros, ficavam todas as
temporadas com a mesma choça.
Athelny foi esperar Philip à estação, num carro que pedira emprestado na
hospedaria onde lhe reservara um quarto. Dali ao campo de lúpulo, a distância era de
um quarto de milha. Deixaram lá a mala de Philip e dirigiram-se para o prado, onde
ficavam as choças. Estas não passavam de barracões compridos e baixos, divididos em
pequenos quartos de cerca de quatro metros de lado. Na frente de cada uma delas, viase
uma fogueira de gravetos, ao redor da qual se agrupava a família, que olhava com
interesse para a ceia que estava a cozinhar. O ar do mar e o sol tinham bronzeado as
faces dos filhos de Athelny. Mrs. Athelny estava outra, no seu chapéu de abas largas:
sentia-se que os longos anos de cidade não lhe tinham produzido nenhuma
modificação real; era uma mulher nascida e criada naquela vida e podia ver-se que se
sentia mais em casa quando estava no campo. Estava a fritar toucinho e ao mesmo
tempo não perdia de vista os filhos mais novos. Teve, porém, para Philip, um cordial
aperto de mão e um sorriso satisfeito. Athelny mostrava-se entusiasmado com os
encantos da vida rural.
- Vivemos famintos de sol e de luz, nas cidades onde moramos. Isso não é vida, é
uma longa prisão. Vamos vender tudo quanto temos, Betty, e comprar uma granja na
província.
- Já estou a ver-te no campo - respondeu ela com um desdém bem-humorado. -
Ora! No primeiro dia de chuva que tivéssemos no Inverno, chorarias por Londres. - E,
para Philip: - O Athelny é sempre assim quando vem para cá. Granja, essa é muito boa!
Se não sabe diferençar um nabo de uma beterraba.
- O pai esteve muito preguiçoso hoje - observou Jane, com a sua franqueza de
sempre. - Não chegou a encher uma caixa.
- Estou a adquirir prática, menina, e amanhã encherei mais caixas do que vocês
todos juntos.
- Venham comer, meninos! - disse Mrs. Athelny. - Onde está Sally?
- Estou aqui, mãe.
Saiu da choça e as chamas da fogueira projectaram-lhe no rosto uma cor viva.
Ultimamente, Philip apenas a vira com os trajes elegantes que ela usava desde que
estava no atelier de costura. Havia algo de encantador no vestido estampado que trazia
agora; ficava-lhe folgado, facilitando-lhe o trabalho; as mangas arregaçadas, deixavam
à mostra os seus braços fortes e roliços. Usava também um chapéu de largas abas.
- Pareces uma camponesa de contos de fadas - disse Philip ao apertar-lhe a mão.
- É a beldade dos campos de lúpulo - disse Athelny. - Palavra de honra, se o filho
do senhor do castelo a vir, na certa vai pedi-la em casamento antes que o diabo tenha
tempo de esfregar um olho.
- O proprietário não tem filhos, pai - disse Sally.
Olhou em torno, procurando onde sentar-se e Philip arredou-se para lhe dar um
lugar a seu lado. Iluminada pelas chamas da fogueira, estava magnífica. Era como uma
deusa campestre e fazia pensar nessas raparigas frescas e robustas que o velho Herrick
cantou em metro esquisito. A ceia foi simples: pão com manteiga, torresmos, chá para
as crianças e cerveja para o casal Athelny e para Philip. Athelny, que comia
vorazmente, elogiava em alta voz tudo quanto levava à boca. Lançava palavras de
desdém contra Lúculo e amontoava invectivas sobre Brillat-Savarin.
- Essa qualidade tens tu, Athelny - disse a mulher. - Gostas de comer e não te
enganas no caminho.
- Contanto que seja feito pelas tuas mãos, minha Betty... - replicou ele, esticando
um dedo eloquente.
Philip sentia-se muito à vontade. Olhava, feliz, para a série de fogueiras, para a
gente que se agrupava em torno delas e para a cor das chamas contra a noite. Na
extremidade do prado, via-se um renque de grandes olmos e, por cima deles, o céu
estrelado. As crianças falavam e riam e Athelny, criança também no meio delas, faziaas
morrer de riso com as suas artimanhas e fantasias.
- Todos têm o Athelny em grande conta - comentou a mulher - Vejam: Mrs.
Bridges disse-me que não sabia o que fariam se o Athelny não estivesse aqui. Anda
sempre entusiasmado com alguma coisa, mais parece um menino de colégio do que
um pai de família.
Sally guardava silêncio mas rodeava Philip de atenções que o encantavam. Era
agradável tê-la a seu lado e, de quando em quando, lançar um rápido olhar àquele
rosto sadio e queimado do sol. Uma vez encontrou-lhe os olhos e ela sorriu
tranquilamente. Quando a ceia terminou, Jane e o irmão mais pequeno foram buscar,
ao regato que corria ao fundo do prado, um balde de água para lavar os pratos.
- Meninos, mostrem ao tio Philip onde dormimos e depois vão para a cama.
Agarrado pelas mãos das crianças, Philip foi arrastado até à choça. Entrou e
riscou um fósforo. Não havia mobília e, a não ser um baú em que se guardavam as
roupas, não se via ali mais nada além das camas, que eram em número de três e
ficavam encostadas às paredes. Athelny seguiu Philip e mostrou-as com orgulho.
- É nisto que dormimos - exclamou. - Nada de enxergões de molas e colchões de
penas. Nunca dormi tão bem como aqui. Quanto a ti, dormirás entre lençóis. Meu caro
amigo, compadeço-me do fundo do coração.
As camas consistiam numa grossa camada de lúpulo, sobre a qual havia outra de
palha, esta por sua vez coberta por um lençol. Depois de um dia ao ar livre, cercados
pelos aromas do lúpulo, os alegres segadores dormiam um sono de pedra. às nove
horas, reinava silêncio no prado e estavam todos na cama, excepto um ou dois homens
que ainda se demoravam na hospedaria e não voltavam senão às dez, hora de fechar.
Athelny foi até lá em companhia de Philip, mas antes de partirem Mrs. Athelny disselhe:
- Tomamos o chá de manhã ao quarto para as seis, mas acho que o senhor não se
levantará tão cedo. é que temos de começar a trabalhar às seis, compreende?
- Está claro que deve levantar-se cedo - exclamou Athelny - e trabalhar como
todos nós. Tem de ganhar a sua comida. Quem não trabalha não come, meu rapaz.
- Os pequenos vão banhar-se antes do chá e podem chamá-lo quando voltarem.
Eles passam pelo «Alegre Marinheiro».
- Se me acordarem a tempo, irei tomar banho com eles - disse Philip.
Jane, Harold e Edward gritaram de satisfação ante essa ideia e, na manhã
seguinte, Philip foi acordado de um sono profundo pela entrada barulhenta das
crianças. Os rapazes saltaram-lhe para cima da cama e ele teve de tirá-los dali a
chineladas. Vestiu um casaco e um par de calças e desceu. O dia acabava de romper e
havia uma frialdade no ar, mas no céu sem nuvens o Sol brilhava, cor de ouro. Sally,
segurando a mão de Connie, estava parada no meio do caminho, com uma toalha e um
fato de banho no braço. Philip via agora que o seu chapéu era cor de alfazema e, contra
ele, o rosto vermelho e bronzeado dava a impressão de uma maçã. Ela saudou-o com o
seu sorriso lento e suave e Philip notou de súbito que os dentes eram pequenos,
regulares e muito brancos. Por que nunca prestara atenção?
- Fui de opinião que deviam deixá-lo dormir - disse ela. - Mas quiseram ir acordálo.
Eu disse que o senhor não queria ir, na verdade.
- Ora, queria, sim.
Foram pela estrada e depois atravessaram uma zona de charcos. Por um atalho, o
mar ficava a menos de uma milha. A água parecia fria e cinzenta e Philip só ao vê-la
sentiu calafrios. Os outros, porém, tiraram as roupas e correram para o mar, gritando.
Sally fazia tudo com certa lentidão e só entrou na água quando todos já chapinhavam
em torno de Philip. A natação era o único desporto do rapaz, que se sentia à vontade
dentro de água. Começou a fazer de porco-marinho, de afogado e de senhora gorda
que não quer molhar o cabelo. Em breve, a garotada em peso o imitava. O banho foi
barulhento, sendo necessário que Sally se mostrasse bastante severa para que todos
saíssem da água.
- O senhor é pior do que eles - disse a Philip, no seu modo grave e maternal que
era a um tempo tocante e cómico. - Eles não eram assim tão travessos quando o senhor
não estava.
Voltaram. Sally, com o cabelo reluzente a escorrer-lhe pelos ombros e o chapéu
na mão. Mas, quando chegaram à choça, Mrs. Athelny já tinha saído para o campo de
lúpulo. Athelny, metido nas calças mais velhas que um mortal já usara, a jaqueta
abotoada até cima, para não mostrar que estava sem camisa, e um chapéu enorme na
cabeça, fritava arenques numa fogueira de gravetos. Estava encantado consigo próprio:
era um bandoleiro dos pés à cabeça. Logo que viu o bando aproximar-se, começou a
berrar o coro das feiticeiras de Macbeth por cima dos odorosos arenques.
- Comam sem demora, senão a mãe zanga-se - disse quando chegaram.
E, dentro de poucos minutos, Harold e Jane, levando fatias de pão com manteiga
nas mãos, saíram todos a correr pelo prado e entraram no campo de lúpulo. Foram os
últimos a chegar. A paisagem dos campos de lúpulo estava ligada à infância de Philip e
os fornos de lúpulo eram para ele a feição mais típica do condado de Kent. Foi sem a
menor sensação de estranheza, mas como se estivesse em casa, que seguiu Sally através
das longas linhas de lúpulo. O sol estava brilhante e projectava sombras nítidas. Philip
deliciou os olhos na riqueza das folhas verdes. O lúpulo amarelecia e tinha para ele a
beleza e a flama que os poetas vêem nos pâmpanos da Sicília. Enquanto caminhavam
Philip sentia-se assombrado pelo esplendor da cena. Um odor suave subia do solo fértil
de Kent e a brisa caprichosa de Setembro estava impregnada do agradável aroma do
lúpulo. Athelstan sentiu instintivamente a alegria da cena, pois ergueu a voz e
começou a cantar. Era a voz rachada de um rapaz de quinze anos e Sally voltou a
cabeça.
- Está calado, Athelstan, senão vamos ter tempestade.
Daí a pouco ouviram um zunzum de vozes, e dentro de instantes reuniram-se
aos colhedores. Estavam todos a trabalhar activamente, falando e rindo enquanto
trabalhavam. Sentavam-se em cadeiras, em mochos, em caixas, tendo ao lado os seus
cestos e alguns ficavam ao pé do cesto, e atiravam para dentro dele o lúpulo que
colhiam. Havia um bando de crianças por ali, e muitas outras, ainda de colo, em berços
improvisados, ou enroladas em cobertores, em cima da terra parda, macia e seca. As
crianças trabalhavam pouco e brincavam muito. As mulheres debulhavam com afinco;
desde crianças, estavam habituadas à colheita e produziam duas vezes mais do que os
«estrangeiros» de Londres. Vangloriavam-se do número de alqueires que colhiam por
dia, mas queixavam-se de que não ganhavam agora tanto dinheiro como nos velhos
tempos: antigamente, pagavam-lhes um xelim por cinco alqueires, mas agora tinham
de colher oito e até nove alqueires para ganhar um único xelim. Em épocas passadas,
um bom colhedor podia ganhar durante a temporada o bastante para manter-se o resto
do ano, mas as coisas tinham mudado. Conseguiam-se as férias gratuitas, e quase só
isso. Mrs. Hill comprara um piano com o que ganhara na colheita, pelo menos era o
que constava; mas era muito sovina, ninguém queria ser assim, e a maioria achava que
isso não passava de conversa fiada e que, se a verdade fosse dita, talvez descobrissem
que ela gastara na compra algum do dinheiro que tinha no Banco.
Os trabalhadores estavam divididos em grupos de dez, sem contar as crianças, E
Athelny vangloriava-se em alta voz de um dia poder organizar um grupo formado
inteiramente por membros da sua família. Cada companhia tinha o «encarregado da
caixa», cuja tarefa era trazer-lhe os cachos de lúpulo. Consistiam essas caixas num
grande saco metido numa armação de madeira de cerca de sete pés de altura, e longas
fileiras delas eram colocadas entre as alas de lúpulo. E era essa posição que Athelny
aspirava para quando a família estivesse em condições de formar um grupo. Enquanto
isso não acontecia, a sua actividade consistia mais em animar os outros do que
propriamente em trabalhar. Dirigiu-se negligentemente para Mrs. Athelny, que
trabalhava havia meia hora e já despejara um cesto na caixa, e, com o cigarro nos
lábios, começou a debulhar. Afirmou que produziria mais do que todos, com excepção
da mulher. Claro que ninguém trabalhava tanto como ela. Isso trouxe-lhe à lembrança
as provas impostas por Afrodite à curiosa Psiqué. E pôs-se a contar às crianças a
história de amor de Psiqué pelo esposo invisível. Contava-a muito bem. A Philip, que
escutava com um sorriso nos lábios, a velha lenda parecia enquadrar-se
maravilhosamente na cena. O céu estava muito azul e, pensava ele, não podia ser mais
adorável, mesmo na Grécia. As crianças, com os seus cabelos louros e faces rosadas,
fortes, sadias e vivazes; a delicada forma dos cachos de lúpulo; o esmeralda atrevido
das folhas, como um clangor de trombetas; a magia da alameda verde, que se
estreitava até convergir num ponto, à distância; os trabalhadores com os seus grandes
chapéus de palha: talvez houvesse, nisso tudo, mais espírito grego do que se poderia
encontrar nos livros dos professores ou nos museus. Philip dava graças pela beleza da
Inglaterra. Pensou nas coleantes estradas, orladas de sebes, nas pradarias verdes com
os seus álamos, na linha suave dos outeiros coroados de pequenos bosques, na
superfície rasa dos pântanos e na melancolia do Mar do Norte. Comprazia-se em sentir
aquele encanto. Mas, em dado momento Athelny ficou inquieto e anunciou que ia ver
como estava a mãe de Robert Kemp. Conhecia toda a gente e tratava todos pelo nome
próprio. Sabia a história das suas famílias e de tudo quanto lhes acontecera desde o
nascimento. Com uma vaidade inofensiva, Athelny fazia o papel de homem do mundo
no meio deles. Havia na sua familiaridade um quê de condescendência. Philip não quis
acompanhá-lo.
- Tenho de ganhar o meu almoço - disse.
- Muito bem, meu rapaz - respondeu Athelny com um grande gesto, afastando-se
em passadas lentas. - Quem não trabalha não come.
CXIX
Philip, que não tinha cesto, sentou-se ao lado de Sally. Jane achava monstruoso
que ele ajudasse a irmã mais velha e não a ela. O tio Phil prometera-lhe trabalhar com
ela, depois de encher o cesto de Sally. Esta era quase tão rápida no trabalho como a
mãe.
- Debulhar não estraga as mãos? - perguntou Philip.
- Oh! Não. É preciso ter as mãos macias. é por isso que as mulheres são melhores
debulhadoras do que os homens. Quem tem a mão dura e os dedos vagarosos não
pode fazer este serviço como deve ser.
Gostava de ver os movimentos ágeis da rapariga e Sally, por sua vez, mirava-o
com aquele seu jeito maternal tão divertido e ao mesmo tempo tão encantador. Philip
era desajeitado a princípio e a rapariga ria-se dele. Quando se inclinou para lhe mostrar
a melhor maneira de debulhar, as mãos de ambos encontraram-se. Ele ficou
surpreendido por vê-la corar. Não se persuadia de que Sally já era mulher feita. Porque
a conhecera menina de tranças, não podia deixar de considerá-la ainda como uma
criança. No entanto, o número de admiradores com que ela contava mostrava que Sally
já não era criança. Embora estivesse ali havia poucos dias, já um dos primos a olhava
tanto que todos começaram a fazer troça dela. Chamava-se Peter Gann e era filho da
irmã de Mrs. Athelny, casada com um fazendeiro das proximidades de Ferne.
Ninguém ignorava por que motivo ele achava necessário atravessar todos os dias a
plantação...
Às oito, um toque de trompa anunciou a primeira refeição, e, embora Mrs.
Athelny dissesse que eles não a mereciam, nem por isso deixaram de comer com
robusto apetite. Puseram-se de novo a trabalhar até ao meio-dia, quando outra vez
soou a trompa, dando o sinal para o almoço. A intervalos, o medidor ia de caixa em
caixa, acompanhado por um assentador que registava, primeiro no seu livro e depois
na caderneta do debulhador, o número de alqueires de lúpulo debulhado. Logo que
cada caixa se enchia, era medida em cestos de um alqueire cada um e despejada num
enorme saco, o qual, por sua vez era levado pelo medidor, ajudado por outro homem,
até uma grande carroça. Athelny voltou e, de quando em quando, vinha contar quanto
Mrs. Heath ou Mrs. Jones haviam debulhado e concitava a família a bater uma e outra.
Estava a procurar bater records, e às vezes, levado pelo entusiasmo, trabalhava
firmemente durante uma hora. O que mais o divertia naquele trabalho, entretanto, era
mostrar a beleza das suas mãos graciosas, das quais tinha excessivo orgulho. Gastava
muito tempo a tratar delas. Contou a Philip, distendendo os dedos afilados, que os
grandes de Espanha dormiam sempre com as mãos metidas em luvas untadas de óleo,
a fim de lhes preservar a brancura. A mão que segurava a garganta da Europa,
observava dramaticamente, era tão formosa e delicada como a de uma mulher. E
olhava para as suas, enquanto debulhava cuidadosamente o lúpulo, suspirando de
satisfação. Quando se cansou, enrolou um cigarro e discorreu com Philip sobre
literatura. à tarde, fazia muito calor. O trabalho não prosseguia tão activamente e a
conversação diminuía. A tagarelice incessante da manhã minguava, reduzida a
observações casuais. Minúsculas gotas de suor perlavam o lábio superior de Sally, que
tinha a boca levemente entreaberta enquanto trabalhava. Era como um botão de rosa
prestes a abrir.
A hora do repouso dependia do estado do forno. Algumas vezes enchiam-no
cedo e pelas três ou quatro horas já estava debulhada a quantidade máxima de lúpulo
que podia secar durante a noite. Então, o trabalho parava. Mas em geral a última
medição do dia começava às cinco. Medida a sua caixa, cada grupo reunia as suas
coisas, debandava pelo campo e punha-se a tagarelar outra vez, agora que o trabalho
estava terminado. As mulheres voltavam para as choças, a fim de dar banho às crianças
e preparar o jantar, ao passo que uma boa parte dos homens descia pela estrada até a
hospedaria. Um copo de cerveja sabia-lhes bem, após o dia de trabalho. A caixa dos
Athelny era a última a ser medida. Quando chegou o medidor, Mrs. Athelny, com um
suspiro de alívio, levantou-se e estirou os braços. Estivera sentada na mesma posição
durante muitas horas e sentia o corpo dolorido.
- Vamos agora ao «Alegre Marinheiro!» - propôs Athelny. - Os ritos do dia
devem ser devidamente observados, e não há nenhum mais sagrado do que esse.
- Leva uma jarra contigo, Athelny - disse-lhe a mulher - e traz pinto e meio de
cerveja para o jantar.
Deu-lhe o dinheiro, vintém por vintém. O salão do bar já estava cheio. O chão era
de areia, os bancos estavam dispostos em círculo. Nas paredes, viam-se retratos
amarelos de campeões de boxe da época vitoriana. O dono da casa conhecia todos os
fregueses pelo nome. Estava inclinado sobre o balcão, e sorria benignamente para dois
rapazes que jogavam a malha. Quando eles erravam, os espectadores riam a valer. Fezse
lugar para os recém-chegados. Philip ficou sentado entre um velho agricultor
vestido de veludo frisado, com as calças afiveladas abaixo dos joelhos, e um rapaz de
dezassete anos, de cara lustrosa e com uma grande mecha de cabelo, em forma de
gancho, cuidadosamente colada na testa vermelha. Athelny insistiu em tentar a sorte
nas malhas. Apostou meio pinto de cerveja e ganhou. Quando a bebia à saúde do
vencido, disse:
- Prefiro ganhar nisto a ganhar no Derby, meu rapaz.
No meio daqueles campónios, tinha uma figura exótica, com o seu chapéu de
abas largas e a barba em ponta, e era fácil ver que eles o achavam muito esquisito. Mas
a disposição de Athelny era tão jovial e o seu entusiasmo tão contagioso, que era
impossível não gostar dele. A conversação corria livremente. Trocaram-se algumas
graças no sotaque lento e carregado da Ilha de Thanet e havia risadas estrepitosas às
saídas do humorismo local. Uma agradável reunião! Era preciso ter o coração duro
para não sentir um calor de afeição pelo próximo. Os olhos de Philip detiveram-se na
janela, ainda batida pelo sol claro. Tinha pequenas cortinas brancas amarradas com
fitas vermelhas, como as da janelas de uma vivenda, e viam-se no peitoril vasos de
gerânios. Um a um, os desocupados ergueram-se e voltaram alegremente para o campo
onde estava a preparar-se o jantar.
- Espero que esteja pronto para se meter na cama - disse Mrs. Athelny a Philip. -
Não está acostumado a levantar-se às cinco e ficar o dia inteiro ao ar livre.
- Vai tomar banho com a gente, tio Phil, não vai?! - exclamaram os rapazes.
- Claro que vou.
Estava cansado e feliz. Depois do jantar, recostando-se na parede da choça,
sentado numa cadeira sem respaldo, pôs-se a fumar o seu cachimbo e a olhar para a
noite. Sally estava ocupada. Entrava e saía, e ele observava preguiçosamente os seus
movimentos metódicos. O andar dela atraiu-lhe a atenção. Não era particularmente
gracioso, mas fácil e seguro. O movimento das pernas partia dos quadris e os pés
pisavam resolutamente o chão. Athelny saíra para tagarelar com um dos vizinhos e
dentro em pouco Philip ouviu Mrs. Athelny dirigir-se a todos:
- Ora esta, não tenho chá em casa! Queria pedir ao Athelny que o fosse comprar. -
Depois de uma pausa, acrescentou: - Sally dá um pulo até a casa de Mrs. Black e traz
meia libra de chá, sim? Estamos sem nenhum.
- Está bem, mãe.
Mrs. Black tinha uma casinha a cerca de meia milha dali, na estrada, e combinava
as funções de agente do correio com a de provedora geral. Sally saiu da choça,
descendo as mangas.
- Queres que te acompanhe, Sally? - perguntou Philip.
- Não se incomode. Não tenho medo de ir sozinha.
- Sei que não tens medo, mas é que está a chegar a hora de dormir e estou com
vontade de estender as pernas.
Sally não respondeu e saíram juntos. A estrada estava branca e silenciosa.
Nenhum ruído na noite de Verão. Não falaram muito.
- Ainda faz calor - disse Philip.
- Acho que está muito bom para a época do ano.
O silêncio de ambos, porém, não parecia embaraçoso. Achavam agradável
caminhar lado a lado e não sentiam necessidade de falar. De repente, perto de uma
sebe de arbustos, ouviram cochichos e a silhueta de duas pessoas. Estavam sentadas
muito juntas uma da outra e não se separaram à passagem de Philip e Sally.
- Quem serão? - perguntou Sally.
- Pareciam bastante felizes, não pareciam?
- Com certeza pensaram que nós também somos namorados.
Viram a luz da casinha que procuravam e entraram na pequena loja. A luz
ofuscou-os por momentos.
- Chegaram muito tarde - disse Mrs. Black. - Ia já fechar. - E, olhando para o
relógio: - São quase nove.
Sally pediu meia libra de chá (Mrs. Athelny nunca se decidia a comprar mais de
meia libra de cada vez) e de novo se puseram a caminho. De vez em quando, algum
animal nocturno soltava um grito agudo e curto, mas isso parecia tornar o silêncio
ainda mais pronunciado.
- Creio que, se a gente parar, pode ouvir o barulho do mar - disse Sally.
Apuraram o ouvido e imaginaram distinguir o suave ruído de pequenas ondas a
lamber o cascalho. Ao tornarem a passar pela sebe, encontraram ainda ali os
namorados, mas já não falavam; estavam nos braços um do outro, com os lábios
colados.
- Parece que estão muito ocupados - disse Sally.
Dobraram um cotovelo da estrada e uma aragem tépida bateu-lhes nas faces. A
terra desprendia frescura. Havia algo de estranho na noite trémula e alguma coisa, não
se sabia quê, parecia estar à espera. O silêncio tornou-se, subitamente, prenhe de
significação. Philip tinha um estranho pressentimento. O coração parecia-lhe muito
cheio e como que prestes a rebentar. (Estas frases estafadas exprimiam precisamente a
curiosa sensação). Sentia-se feliz, ansioso e expectante. Vieram-lhe à memória os versos
em que Jessica e Lorenzo murmuram entre si palavras melodiosas, terminando as
frases um do outro, sem impedirem que a paixão transpareça clara e brilhante através
dos conceitos que os divertem. Não sabia o que havia no ar que lhe despertava
estranhamente os sentidos. Tinha a impressão de ser um puro espírito, a gozar dos
perfumes, dos sons e dos sabores da terra. Jamais sentira tamanha e tão inefável
capacidade para a beleza. Temia que Sally, falando, quebrasse o encantamento, mas a
rapariga não disse palavra e Philip desejou ouvir o som da voz dela. O seu timbre
grave e rico era a própria voz da noite campestre.
Chegaram ao campo que ela devia atravessar para voltar à choça. Philip foi abrirlhe
a cancela.
- Bom, Sally, vou dar-te aqui as boas-noites.
- Muito obrigada, por me ter acompanhado.
Estendeu-lhe a mão e, ao tomá-la, Philip disse:
- Se fosses boazinha, davas-me o beijo de despedida, como todos os outros.
- Está bem - respondeu ela.
Philip falara por brincadeira. Queria simplesmente beijá-la, porque estava feliz,
gostava dela e a noite era encantadora.
- Boa-noite, então - disse com um sorriso breve, puxando-a para si.
Ela estendeu-lhe os lábios. Eram quentes, macios e cheios. Ele demorou-se um
pouco, eram como uma flor. Depois, sem saber porquê, sem o querer, enlaçou-a com os
braços. Ela abandonou-se em silêncio. O seu corpo era rijo e forte. Sentiu o coração dela
bater contra o seu. Então, perdeu a cabeça. Os sentidos transbordaram-lhe como uma
torrente de águas impetuosas. Levou-a para a sombra mais escura da sebe.
CXX
Philip dormiu profundamente e acordou num sobressalto, para descobrir que
Harold lhe fazia cócegas no rosto com uma pena. Ouviu-se um grito de satisfação
quando abriu os olhos. Estava bêbado de sono.
- Vamos, seu preguiçoso! - disse Jane. - Sally diz que não espera se o tio não
andar depressa.
Lembrou-se então do que acontecera. Sentiu o coração desfalecer e, já com os pés
fora da cama, parou. Não sabia como enfrentá-la. Sentia-se oprimido por uma súbita
onda de reprovação íntima e lamentou amargamente o que fizera. Que lhe diria ela
naquela manhã? Temia o encontro e perguntava a si próprio como pudera cometer tal
loucura. Mas as crianças não lhe deram tempo. Edward pegou-lhe nos calções de
banho e na toalha. Athelstan puxou as roupas da cama e dentro de três minutos
desciam todos ruidosamente para a estrada. Sally sorriu para Philip. Era um sorriso
suave e inocente como o de sempre.
- Quanto tempo levou para se vestir! Pensei que nunca mais vinha. Não havia a
mínima diferença no modo dela. Esperava alguma mudança, subtil ou abrupta.
Imaginava descobrir vergonha ou ódio no seu modo de tratá-lo ou talvez algum
aumento de familiaridade. Mas nada. Ela estava exactamente como sempre.
Caminharam para o mar, juntos, falando e rindo. Sally mantinha-se silenciosa; mas era
sempre assim, reservada e gentil. Estava assombrado. Esperava que o incidente da
noite anterior tivesse causado alguma revolução nela, mas era exactamente como se
nada tivesse acontecido. Como se tudo não passasse de um sonho. Segurando de um
lado a mão de uma das meninas e do outro a de um garoto, enquanto caminhava a
conversar da maneira mais despreocupada possível, Philip procurava uma explicação.
Desejaria Sally que o caso fosse esquecido? Talvez os sentidos a tivessem arrastado
como acontecera com ele e, encarando o que sucedera como um acidente devido a
circunstâncias fora do comum, podia ser que ela tivesse decidido afastar o assunto da
lembrança. Ele emprestava-lhe uma força de pensamento e uma sabedoria
amadurecida que não se lhe ajustavam nem à idade nem ao carácter. Mas
compreendeu que nada conhecia dela. Houvera sempre em Sally algo de enigmático.
Saltaram ao eixo dentro de água e o banho foi tão ruidoso como o do dia anterior.
Sally tinha a mesma atitude maternal para com todos, vigiando-os sempre e
chamando-os quando se afastavam muito. Nadava discretamente, avançando e
recuando, enquanto o resto do bando prosseguia na sua brincadeira. De vez em
quando, voltava-se de costas para boiar. Em dado momento, saiu da água e começou a
enxugar-se. Chamou os outros em tom mais ou menos peremptório e, por fim, só
Philip permaneceu dentro de água. Aproveitou a oportunidade para nadar um bom
pedaço. Estava mais acostumado à água fria nessa manhã e deliciava-se com aquela
frescura salgada. Era agradável poder usar dos membros livremente e vencia a água
com braçadas longas e firmes. Mas Sally, enrolada numa toalha, desceu para a beira da
praia.
- Tens de vir imediatamente, Philip - gritou ela, como se falasse a um menino
confiado aos seus cuidados.
E quando, com um sorriso divertido ante aquele tom autoritário, Philip se
aproximou dela, Sally repreendeu-o.
- É uma travessura ficar tanto tempo na água. Tens os lábios roxos. E olha os
dentes como batem!
- Está bem. Já saio.
Nunca lhe falara daquela maneira. Era como se o que acontecera lhe desse uma
espécie de direito sobre ele e a rapariga o considerasse como uma criança a necessitar
de desvelo. Dentro de poucos minutos, estavam vestidos e puseram-se a caminho.
Sally reparou nas mãos dele.
- Olha, estão completamente roxas.
- Ora, não faz mal! é só a circulação. Faço o sangue voltar num instante.
- Deixa ver.
Ela tomou-lhe as mãos e esfregou-as uma após outra, até lhes voltar a cor.
Comovido e intrigado, Philip observava-a. Não lhe podia dizer nada, por causa das
crianças e não encontrou os olhos dela. Estava, porém, certo de que eles não evitavam
propositadamente os seus, era simplesmente por acaso que os olhares de ambos não se
cruzavam. Durante o dia, nada de extraordinário notou na atitude de Sally. Talvez se
mostrasse mais loquaz que de costume. Quando de novo se encontraram sentados no
campo de lúpulo, contou à mãe que Philip se portara muito mal em não querer sair da
água enquanto não ficara roxo de frio. Era incrível, mas parecia que o único efeito do
incidente da noite anterior fora o despertar nela um sentimento de protecção para com
ele: tinha o desejo natural que sentia em relação aos irmãos e irmãs.
Só na noite seguinte, tornou a ver-se a sós com ela. Ela preparava o jantar e Philip
estava sentado na relva, ao lado do lume. Mrs. Athelny fora fazer compras à aldeia e as
crianças estavam espalhadas aqui e ali. Philip hesitou em falar. Estava muito nervoso.
Sally ocupava-se do seu trabalho com uma tranquila competência e aceitava
placidamente o silêncio que, para ele, era tão embaraçoso. Não sabia como começar.
Sally raramente falava, a menos que lhe dirigissem a palavra ou que tivesse alguma
coisa especial para dizer. Por fim ele não pôde suportar o silêncio.
- Não estás zangada comigo, não, Sally? - lançou ele de súbito.
A rapariga ergueu os olhos calmamente e olhou para ele sem comoção alguma.
- Eu? Não. Por que havia de estar?
Philip ficou pasmado e não respondeu. Ela levantou a tampa da marmita, mexeu
o conteúdo e tornou a tapá-la. Um cheiro agradável se espalhou no ar. Sally tornou a
olhar para ele, com um sereno sorriso que mal lhe separava os lábios. Era mais um
sorriso dos olhos.
- Sempre gostei de ti - disse ela.
O coração de Philip bateu descompassado e sentiu o sangue subir-lhe às faces.
Teve um riso forçado.
- Não sabia isso.
- Porque és um pateta.
- Não sei por que gostas de mim.
- Eu também não. - Pôs mais lenha na fogueira. - Vi que gostava de ti naquele dia
em que chegaste lá a casa, depois de andares a dormir pelas ruas, e não tinhas comido
nada, lembras-te? E eu e a mãe arranjámos-te a cama do Thorpe.
Philip tornou a corar, pois não sabia que ela estava ao par daquele incidente.
Lembrava-se com vergonha e horror.
- Foi por isso que não quis saber dos outros. Lembras-te daquele rapaz com quem
a mãe queria que eu casasse? Convidei-o para tomar chá porque ele me incomodou
muito, mas sabia que não o aceitaria.
Philip estava tão surpreendido que não atinava com o que dizer. Tinha no peito
uma esquisita sensação. Não sabia o que fosse, a menos que se tratasse da felicidade.
Sally mexeu a marmita uma vez mais.
- Queria que os miúdos viessem de uma vez. Não sei onde se meteram. O jantar
está pronto.
- Queres que vá chamá-los? - perguntou Philip.
Era um alívio falar de coisas práticas.
- Não é má ideia, não, confesso... Lá vem a mãe.
Depois, quando ele se levantou, encarou-o sem embaraço:
- Queres que vá hoje à noite passear contigo, depois de meter os pequenos na
cama?
- Quero.
- Então espera-me na cerca. Vou quando estiver livre.
Ficou a esperá-la sob a luz das estrelas, encostado à sebe. Em torno, as amoras
silvestres rebentavam em frutos. Da terra, evolava-se o luxurioso perfume da noite e o
ar estava subtil e parado. O coração batia-lhe doidamente. Não podia compreender o
que lhe acontecera. Associava o amor a gritos e lágrimas veementes, e nada disso havia
em Sally. Mas não podia saber que outra coisa, além do amor, a teria levado a entregarse.
Mas amor, paixão por ele? Não se surpreenderia se ela escolhesse o primo, Peter
Gann, que era alto, esbelto e forte, com o rosto queimado de sol e as passadas longas e
fáceis. «Que teria ela visto em mim?» - perguntava Philip a si próprio. Não sabia se ela
o amava da mesma maneira como ele encarava o amor. E contudo... Estava convencido
da pureza da rapariga. Tinha uma vaga intuição de que várias coisas se haviam
combinado, coisas pelas quais ela se deixara influenciar inconscientemente. As
fragrâncias embriagadoras do ar, do lúpulo e da noite, os instintos naturais da mulher,
a ternura irresistível, uma afeição em que havia um pouco de mãe e outro pouco de
irmã... e dera tudo quanto tinha para dar, porque o coração dela transbordava de
caridade.
Ouviu ruído de passos na estrada e uma figura surgiu da escuridão.
- Sally... - murmurou.
Sally aproximou-se da sebe, e com ela vieram os suaves e puros perfumes do
campo. Parecia trazer consigo o odor do feno recém-cortado, a fragrância do lúpulo
maduro e a frescura da relva nova. Os lábios dela eram macios e cheios contra os seus e
aquele belo corpo vigoroso era firme nos seus braços.
- Leite e mel - disse ele. - Tu és como leite e mel.
Fê-la fechar os olhos e beijou-lhe as pálpebras, primeiro uma e depois a outra. O
braço dela, forte e musculoso, estava nu até ao cotovelo. Philip acariciou-o com a mão,
admirando-lhe a beleza: brilhava nas trevas. Sally tinha a pele que Rubens pintava: o
seu braço era branco, incrivelmente branco e transparente, e tinha dos lados uma
penugem dourada. Era o braço de uma deusa saxónica, mas nenhuma imortal tinha
aquela naturalidade deliciosa e doméstica. E Philip pensou num jardim de vivenda,
cheio dessas flores caras ao coração de todos os homens, a malva-rosa e a rosa branca e
vermelha chamada «York-and-Lancaster», o amor-perfeito, a margarida, a espora e a
madressilva.
- Como podes gostar de mim? - perguntou. - Sou insignificante, aleijado, vulgar e
feio.
Ela tomou-lhe a face com ambas as mãos e beijou-lhe os lábios.
- És um tolo, é o que tu és.
CXXI
Terminada a colheita do lúpulo, Philip, levando no bolso a notícia da sua
nomeação para o cargo de assistente de médico interno do Hospital de S. Lucas, voltou
para Londres com os Athelny. Alugou um modesto alojamento em Westminster e
assumiu as suas funções no começo de Outubro. O trabalho era interessante e variado.
Cada dia aprendia alguma coisa nova. Via Sally amiúde. A vida sorria-lhe. Cerca das
seis horas, estava livre, salvo nos dias de consulta, e então ia até à casa onde Sally
trabalhava, esperá-la quando ela saía. Vários rapazes esperavam também a saída, no
passeio fronteiro ou, um pouco distanciados, na primeira esquina. Duas a duas ou em
pequenos grupos, as raparigas tocavam-se com o cotovelo e riam, ao reconhecê-los. No
seu vestido negro, muito simples, Sally não lembrava a jovem camponesa que
debulhava o lúpulo ao lado do amigo. Afastava-se rapidamente da casa, mas afrouxava
o passo ao aproximar-se dele, encarando-o com o seu belo sorriso tranquilo.
Caminhavam juntos pela rua apinhada de gente. Ele falava-lhe do seu trabalho no
hospital e ela contava-lhe o que estivera a fazer naquele dia. Philip veio a saber o nome
das raparigas com quem ela trabalhava. Sentia em Sally um restrito mas vivo senso do
ridículo. Fazia sobre as raparigas ou os namorados, observações que o divertiam pela
sua graça inesperada. Sally tinha um jeito bem característico de dizer as coisas: muito
gravemente, como se não fosse nada engraçado; contudo, dizia-o com tanta agudeza
que Philip irrompia num riso deliciado. A jovem olhava-o então de relance, vendo-selhe
nos olhos sorridentes que não ignorava a sua veia cómica. Encontravam-se com um
aperto de mão e despediam-se da mesma forma cerimoniosa. Uma vez Philip
convidou-a a tomar chá com ele no seu quarto, mas ela recusou.
- Não, isso não faço. Pareceria esquisito.
Jamais trocavam uma palavra de amor. Ela parecia não desejar mais nada além
da camaradagem daqueles passeios. No entanto Philip tinha a certeza de que ficava
contente por estar a seu lado. Intrigava-o tanto quanto o intrigara no princípio. Não
conseguia entender-lhe a conduta, mas quanto mais a conhecia, mais gostava dela. Era
competente, sabia dominar-se e havia nela uma honestidade encantadora. Sentia-se
que era possível confiar nela em qualquer circunstância.
- És imensamente boa - disse-lhe uma vez, a propósito de nada.
- Acho que sou como toda a gente - respondeu ela.
Ele sabia que não a amava. Era uma grande afeição o que sentia; gostava da sua
companhia. Esta possuía o curioso dom de serená-lo. E, embora achasse ridículo por se
tratar de uma costureirinha de dezanove anos, respeitava-a. Admirava-lhe a saúde
perfeita. Era um esplêndido animal, sem defeitos. A perfeição física enchia-o sempre de
uma admiração respeitosa. Ela fazia-o sentir-se indigno.
Um dia, três semanas depois de voltarem a Londres, quando caminhavam lado a
lado, notou que a rapariga mantinha um silêncio fora do comum. A serenidade da sua
expressão estava alterada por uma leve ruga esboçada na testa.
- Que tens, Sally? - perguntou.
Ela não voltou os olhos para ele, mas conservou-os fitos em frente e a cor do
rosto acentuou-se-lhe.
- Não sei.
Philip compreendeu logo o que ela queria dar a entender. O coração bateu-lhe de
súbito, numa pancada brusca, e sentiu-se empalidecer.
- Que queres dizer? Achas que estás?...
Parou. Não pôde continuar. Nunca lhe passara pelo espírito a possibilidade de
vir a acontecer uma coisa daquelas. Viu então que os lábios de Sally tremiam e que ela
fazia um esforço para não chorar.
- Ainda não tenho a certeza. Talvez não seja nada.
Continuaram a caminhar em silêncio até que chegaram à esquina de Chancery
Lane, onde ele sempre a deixava. Sally estendeu-lhe a mão e sorriu.
- Não te preocupes com isso por enquanto. Esperemos o melhor.
Ele prosseguiu o seu caminho, com os pensamentos num tumulto. Que idiota
fora! Foi a primeira coisa que lhe ocorreu. Um abjecto, um miserável idiota! E repetiu
isso para consigo uma dúzia de vezes, num acesso de raiva. Desprezava-se. Como fora
meter-se em tal embrulhada? Mas, ao mesmo tempo, porque as ideias se lhe sucediam
rápidas no cérebro e mesmo assim pareciam continuar juntas, numa confusão
desesperada, como as peças de um brinquedo de armar vistas num pesadelo - ao
mesmo tempo perguntava a si mesmo o que poderia fazer. Estava tudo tão claro diante
dele! Tudo quanto desejara encontrava-se finalmente ao seu alcance. E agora a sua
inconcebível estupidez erguera aquele novo obstáculo. Nunca fora capaz de vencer o
que reconhecia ser defeito, no seu desejo resoluto de uma vida bem ordenada: era a
paixão por viver no futuro. E ainda mal se instalara no trabalho do hospital, já se
ocupava dos preparativos para as viagens. Muitas vezes procurara não pensar com
excessiva minúcia nos seus planos de futuro. Isso só servia para provocar desânimo.
Mas agora que a sua meta estava tão próxima, não via inconveniente em abandonar-se
a um anseio a que era tão difícil resistir. Em primeiro lugar, queria ir a Espanha. Era
essa a terra do seu coração e já agora estava imbuído do seu espírito, da sua cor e
encanto, da sua história e grandeza. Sentia que essa terra tinha uma mensagem para ele
em particular, uma mensagem que nenhum outro país lhe podia dar. Conhecia as
velhas e soberbas cidades como se desde a infância tivesse palmilhado as suas ruas
sinuosas: Córdova, Sevilha, Toledo, Leão, Tarragona, Burgos... Os grandes pintores da
Espanha eram os pintores da sua alma e o sangue pulsava-lhe rápido ao imaginar-se
em êxtase, face a face com aquelas obras que, mais do que quaisquer outras, eram
significativas para o seu coração inquieto e torturado. Tinha lido os grandes poetas,
mais característicos da sua própria raça do que os poetas de outras terras, porque
pareciam ter tirado a sua inspiração não das correntes gerais da literatura mundial,
mas directamente das planícies ressequidas e perfumadas e das montanhas desoladas
do seu país. Mais alguns meses e iria ressoar-lhe nos ouvidos o idioma que lhe parecia
mais expressivo da grandeza da alma e da paixão. O bom gosto dera-lhe a intuição de
que a Andaluzia era demasiado mole e sensual, um pouco vulgar, mesmo, para
satisfazer o seu ardor. A sua imaginação demorava-se de melhor grado entre as
vastidões de Castela, varridas pelo vento, e a áspera magnificência de Aragão e Leão.
Não sabia bem o que lhe haviam de dar aqueles contactos desconhecidos, mas sentia
que tiraria deles uma força e uma resolução que o tornariam mais capaz de afrontar e
compreender as maravilhas múltiplas de lugares mais distantes e mais estranhos.
Porque aquilo era apenas o começo. Entrara em contacto com as várias companhias
que aceitavam médicos nos seus vapores e sabia exactamente quais eram as suas rotas.
Por homens que haviam viajado nelas, conhecia as vantagens e desvantagens de cada
linha. Pôs de lado a «Oriente», e a «P. & O.» Era difícil conseguir um posto nelas, e
além disso o seu tráfego de passageiros dava pouca liberdade ao médico de bordo. Mas
havia outras linhas de navegação que trabalhavam com grandes cargueiros, em
desafogadas expedições ao Oriente, parando por períodos vários em toda a espécie de
portos, desde um ou dois dias até uma quinzena. Assim, sobrava bastante tempo e
muitas vezes era possível fazer-se uma pequena viagem pelo interior. A remuneração
não era grande e a comida apenas tolerável. Por esse motivo, não havia muita procura
de lugares e um homem diplomado por uma Faculdade londrina tinha as maiores
probabilidades de conseguir colocação, se a solicitasse. Urna vez que não havia
passageiros, além de um ou dois ocasionais, embarcando a negócios de um para outro
porto fora da grande rota comum, a vida a bordo era agradável e cordial. Philip sabia
de cor a lista dos lugares em que tocavam. E cada um deles evocava-lhe visões de um
sol tropical, de uma cor mágica e de uma vida intensa, misteriosa e formigante. Vida!
Isso era o que ele desejava. Afinal, entraria em contacto íntimo com ela. E talvez em
Tóquio ou Xangai fosse possível passar para alguma outra linha e descer às ilhas do sul
do Pacífico. Um médico era útil em qualquer parte. Talvez se lhe apresentasse ensejo
de embrenhar-se na Birmânia, e que esplêndidas florestas na Samatra ou Bornéu não
visitaria ele! Era ainda novo e o tempo não lhe dava cuidados. Não tinha laços em
Inglaterra, não tinha amigos. Podia ir e vir pelo mundo durante anos, conhecendo a
beleza, a maravilha e a multiplicidade da vida.
E agora acontecia aquilo! Afastou logo a possibilidade de que Sally estivesse
enganada. Sentia uma estranha certeza de que os seus temores tinham fundamento.
Afinal de contas, era tão provável... Qualquer pessoa podia ver que a Natureza
construíra aquela rapariga para ser mãe. Sabia bem o que devia fazer. Não devia
permitir que o incidente o fizesse desviar-se um passo sequer do seu caminho. Pensou
em Griffiths; podia imaginar facilmente com que indiferença o rapaz teria recebido
semelhante noticia. Julgá-la-ia um aborrecido contratempo e em seguida trataria de
safar-se como pessoa atilada que era. Teria deixado a rapariga entregue a si própria,
para que saísse da entaladela como melhor pudesse. Philip dizia para consigo que
aquilo acontecera porque era inevitável. Nem ele nem Sally mereciam censuras. Ela era
uma rapariga que conhecia o mundo e as realidades da vida; assumira aquele risco
com os olhos abertos. Seria loucura permitir que tal acidente perturbasse todo o
desenho da sua existência. Era uma das poucas pessoas que tinha consciência aguda da
transitoriedade da vida. Sabia ser necessário tirar dela o melhor partido. Faria por Sally
tudo quanto pudesse, dar-lhe-ia o dinheiro que fosse preciso. Um homem forte jamais
deixaria que o desviassem dos seus propósitos.
Philip dizia tudo isso de si para si, mas tinha a certeza de que não o faria.
Simplesmente, não podia. Conhecia-se bastante.
- Sou de uma fraqueza ridícula - resmungou, cheio de desespero.
Sally mostrara-se boa e confiante para com ele. De modo algum poderia fazer
uma coisa que, não obstante todo o seu raciocínio, achava horrível. Sabia que não teria
sossego nas suas viagens, se levasse consigo o pensamento constante de tê-la tornado
infeliz. Além disso, havia o pai e a mãe; tinham-no tratado sempre bem. Não era
possível retribuir-lhe com ingratidão. A única coisa a fazer era casar com Sally o mais
cedo possível. Escreveria ao dr. South a dizer que ia casar e estava disposto a aceitarlhe
a oferta, caso ela continuasse de pé. Aquela clientela de gente pobre era a única
possível para ele. Lá, a sua deformidade não tinha importância e ninguém zombaria
das maneiras simples de sua mulher. Era curioso pensar nela como sua mulher, davalhe
uma estranha e suave sensação. E uma onda de ternura o assaltava ao pensar no
filho que era dele. Não duvidava de que o dr. South ficasse satisfeito em tê-lo consigo.
E imaginava a vida que levaria com Sally, naquela aldeia de pescadores. Teriam uma
casinha com vistas para o mar e veria os possantes navios passarem ao largo, rumo a
terras que jamais conheceria. Talvez fosse essa a resolução mais sábia. Cronshaw
dissera-lhe que os factos da vida não têm importância para aquele que, pelo poder da
fantasia, se mantém senhor dos reinos gémeos do tempo e do espaço. Era verdade.
Para sempre tu amas e ela será bela! (Célebre verso da célebre Ode a um Vaso Grego, de
Keats. (N. do R.)
O presente de núpcias que daria à esposa seriam todas as suas grandes
esperanças. Renúncia! Enlevado pela beleza desse gesto, Philip passou todo o serão a
pensar nele. Estava tão agitado que não pôde ler. Teve a impressão de que o
arrastavam para a rua. Subiu e desceu Birdcage Walk com o coração a pulsar de
alegria. Mal podia conter a impaciência. Queria ver o contentamento de Sally quando
lhe fizesse a proposta. Se não fosse tão tarde, teria ido procurá-la naquele mesmo
momento. Já se imaginava nos longos serões que passaria com ela, na sala de estar tão
confortável, com as cortinas ainda levantadas para que pudessem ver o mar. Ele,
ocupado com os seus livros; ela, curvada sobre o trabalho; e a lâmpada velada tornavalhe
ainda mais belo o rosto adorável. Falariam sobre o filho, que ia crescendo, e,
quando ela erguesse o rosto para ele, os seus olhos lampejariam de amor. E os
pescadores e as mulheres, os seus clientes, viriam a sentir uma grande afeição por eles
que, por seu turno, participariam das dores e prazeres daquela gente simples. Mas o
seu pensamento voltava para o filho que seria de ambos! Já sentia em si uma
apaixonada devoção pela criança. Pensava em correr-lhe a mão pelos pequeninos
membros perfeitos. Sabia que seria linda. E poria nela todos os seus sonhos de uma
vida rica e variada. Pensando na longa odisseia do seu passado, aceitava-a
alegremente. Aceitava a própria deformidade que tão dura lhe fizera a vida. Sabia que
ela lhe deformara também o carácter, mas percebia agora que graças a ela adquirira
aquele poder de introspecção que tanto prazer lhe dava. Sem isso, jamais teria
possuído a sua aguda apreciação da beleza, a paixão da arte e da literatura, o interesse
no variado espectáculo da vida. O ridículo e o desprezo de que tantas vezes fora alvo
haviam-lhe dado vida interior e feito desabrochar aquelas flores que, sabia-o ele, jamais
perderiam a fragrância. Via, depois, que a normalidade era a coisa mais rara do
mundo: todos tinham algum defeito de corpo ou de espírito. Lembrou-se de toda a
gente que conhecera (o mundo inteiro parecia-se com um hospital, não tinha pés nem
cabeça), via uma longa procissão deformada física e mentalmente, alguns com doença
do espírito, fraqueza de vontade ou tendência para a embriaguez. Naquele momento
podia sentir por todos eles uma santa compaixão. Eram desamparados instrumentos
nas mãos de um acaso cego. Podia perdoar a Griffiths a sua traição e a Mildred a dor
que lhe infligira. Não eram responsáveis pelas suas acções. A única atitude razoável
era aceitar a parte boa dos homens e ter paciência com as suas faltas. As palavras do
Deus agonizante atravessaram-lhe a memória:
Perdoai-lhes, meu Pai, porque eles não sabem o que fazem.
CXXII
Tinha combinado encontrar-se com Sally no sábado, na National Gallery. Ela
ficara de vir assim que se visse livre do trabalho e consentira em almoçar com ele. Dois
dias se haviam passado desde o último encontro de ambos e a sua exaltação não o
deixara um só momento. Era porque se comprazia nessa sensação que não procurara
vê-la. Ensaiara cuidadosamente tudo quanto lhe ia dizer e como o diria. Agora, a sua
impaciência era insuportável. Havia escrito ao dr. South e tinha no bolso o telegrama
que recebera dele naquela manhã: «Vou despedir idiota amigdalite.
Quando vem?» Philip caminhava pela Parliament Sreet. O dia estava lindo e o
Sol, claro e frio, fazia vibrar a luz na rua apinhada de gente. Havia ao longe, uma ténue
brama que esbatia deliciosamente as linhas nobres dos edifícios. Atravessou Trafalgar
Square. De súbito, o coração deu-lhe um pulo no peito. Vira diante de si uma mulher
que lhe pareceu ser Mildred. Tinha a mesma figura e caminhava arrastando levemente
os pés, naquela sua maneira característica. Sem pensar, mas com o coração a pulsar
desordenadamente, aproximou-se dela apressado. Mas, quando a mulher se voltou,
viu que era uma desconhecida. O rosto era o de uma pessoa mais velha e a pele,
amarelenta, estava vincada de rugas. Diminuiu o passo. Estava infinitamente aliviado,
mas não era apenas alívio o que sentia: era desapontamento, também. Assaltou-o o
terror de si próprio. Nunca se libertaria daquela paixão? Apesar de tudo, no fundo do
coração, sentia que um anseio estranho e desesperado por aquela mulher vil ficaria
sempre latente nele. Aquele amor causara-lhe tanto sofrimento, que sabia que nunca se
livraria totalmente dele. Só a morte poderia saciar aquele desejo.
Mas arrancou de si essa angústia. Pensou em Sally, com os seus bondosos olhos
azuis, e inconscientemente os lábios esboçaram um sorriso. Subiu os degraus da
National Gallery e sentou-se no primeiro salão, a fim de poder vê-la no momento em
que ela entrasse. Sempre lhe dera uma sensação confortadora encontrar-se no meio de
quadros. Não olhava para nenhum em particular, mas deixou que a magnificência das
suas cores e a beleza das suas linhas lhe influenciassem a alma. Tinha a imaginação
ocupada por Sally. Seria agradável tirá-la de Londres, onde ela parecia uma figura
deslocada, qual flor do campo entre as orquídeas e azáleas de uma loja. Compreendera,
no campo de lúpulo de Kent, que ela não pertencia à cidade. E estava certo de que a
rapariga floresceria sob os céus suaves de Dorset, adquirindo beleza ainda mais rara.
Sally entrou e ele levantou-se para ir ao seu encontro. Estava vestida de preto, com
punhos brancos e um cabeção de cambraia. Apertaram-se as mãos.
- Esperaste muito tempo?
- Não. Dez minutos. Estás com fome?
- Não muita.
- Então sentemo-nos aqui um pouco, sim?
- Como quiseres.
Sentaram-se calmamente, lado a lado, sem falar. Philip gostava de tê-la perto de
si. Sentia-se aquecido pela sua saúde radiante. Uma chama de vida cercava-a, qual aura
resplandecente.
- Então, como passaste? - disse por fim, com um breve sorriso.
- Oh! Vai tudo bem. Foi rebate falso.
- Sim?
- Não ficas contente?
Uma sensação extraordinária o invadiu. Estava certo de que a suspeita de Sally
era fundada e nem por um instante lhe ocorrera que houvesse uma possibilidade de
engano. Todos os seus planos foram subitamente derribados e a existência, traçada
com tanto cuidado, não era mais do que um sonho que jamais se realizaria. Estava livre
uma vez mais. Livre! Não precisava de desistir de nenhum dos seus projectos e a vida
ainda estava nas suas mãos para fazer com ela o que quisesse. Não sentia nenhum
júbilo, mas apenas consternação. O coração desfalecia-lhe. O futuro estendia-se numa
vacuidade desolada. Era como se tivesse singrado a vastidão dos mares durante largos
anos, por entre perigos e privações, para chegar finalmente a um porto seguro e, no
momento de nele entrar, algum vento contrário se erguesse e o arrastasse outra vez
para o largo. E porque demorara o espírito nessas frescas pradarias e agradáveis
bosques da terra, o vasto deserto do oceano enchia-o de angústia. Faltava-lhe ânimo
para tornar a enfrentar a solidão e a tempestade. Sally observava-o com os seus olhos
claros.
- Não estás contente? - repetiu ela. - Pensei que ficarias louco de alegria.
Ele encarou-a com expressão ansiosa.
- Não sei ao certo - murmurou.
- És engraçado. A maioria dos homens não diria isso.
Philip compreendeu que se iludira. Não era a intenção de sacrifício que o levara a
pensar em casamento, mas sim o desejo de ter uma mulher, um lar e uma afeição. E
agora, que tudo isso parecia escorrer-lhe por entre os dedos, sentia-se tomado de
desespero. Aquilo era a coisa que mais desejava no mundo. Que lhe importavam a
Espanha e as suas cidades, Córdova, Toledo, Leão? Que significavam para ele os
pagodes da Birmânia e as lagunas das ilhas do Pacifico? As Américas estavam ali, ao
alcance da sua mão. Parecia-lhe que em toda a sua vida aspirara aos ideais que outros,
com as suas palavras e escritos, tinham inculcado nele, e nunca seguira o desejo do seu
próprio coração. A sua conduta fora influenciada pelo que julgava dever fazer e não
pelo que desejava de toda a alma. Agora, punha tudo isso de lado com impaciência.
Vivera constantemente no futuro e o presente sempre, sempre lhe fugira por entre os
dedos. Os seus ideais? Pensou no desejo de formar um desenho complexo e belo com
as miríades de factos insignificantes da vida: não vira também que o desenho mais
simples, aquele segundo o qual o homem nasce, trabalha, casa, procria e morre, era de
certo modo o mais perfeito? Podia bem ser que abandonar-se à felicidade fosse aceitar
a derrota; mas era uma derrota melhor do que muitas vitórias.
Relanceou os olhos para Sally, imaginando em que estaria ela a pensar e depois
desviou o olhar.
- Ia pedir-te que casasses comigo - disse.
- Pensei que talvez o pedisses, mas não gostaria de te servir de estorvo.
- Nunca o serias.
- E as tuas viagens, a Espanha e tudo o mais?
- Como sabes que quero viajar?
- Ora, se não havia de saber! Quantas vezes te ouvi falar nisso com o pai, horas e
horas!
- Nada disso tem a menor importância para mim. - Fez uma pausa breve e
acrescentou, num murmúrio baixo e rouco: - Não quero deixar-te! Não posso deixar-te.
Ela não respondeu. Philip não saberia dizer em que ela pensava.
- Não sei se queres casar comigo, Sally.
Ela não se moveu e não havia sombra de comoção no seu rosto, mas não olhou
para ele ao responder:
- Se quiseres.
- Mas tu não queres?
- Ora, está claro que gostaria de ter a minha casa e já é tempo de tratar da minha
vida.
Ele sorriu de leve. Já a conhecia muito bem e aquele tom não o surpreendia.
- Mas não queres casar comigo?
- Não casaria com mais ninguém.
- Então está tudo resolvido.
- A mãe e o pai é que vão ficar admirados, não achas?
- Como me sinto feliz!...
- E eu quero almoçar - respondeu ela.
- Querida.
Sorriu, agarrou-lhe a mão e apertou-a. Levantaram-se e saíram da Galeria.
Pararam um momento na balaustrada, a olhar para Trafalgar Square. Trens e ónibus
deslizavam rápidos para baixo e para cima, a multidão passava apressada em todas as
direcções e o sol brilhava.
FIM
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