Servidão humana (PARTE 1) | MAUGHAM, William Somerset

| terça-feira, 15 de novembro de 2011
William Somerset Maugham
Servidão humana
Título da edição original inglesa:
Of human bondage
tradução de António Barata
revisão de Freitas Leça
capa de Bernardo Marques
composto e impresso
nas oficinas gráficas de
Livros do Brasil, Lda.
I
O dia rompera cinzento e triste. As nuvens pairavam, pesadas, e havia no ar certa
aspereza que era uma promessa de neve. Penetrando no quarto em que dormia uma
criança, a criada correu as cortinas. Relanceou um olhar maquinal à casa fronteira, um
prédio revestido de estuque com pórtico, e caminhou em direcção à cama.
- Acorda, Philip - disse ela.
Puxou para trás a roupa da cama, tomou-o nos braços e desceu com ele as
escadas. Philip ia ainda meio adormecido.
- A mamã quer ver-te - acrescentou.
Abriu a porta de um quarto do andar inferior e conduziu a criança até à cama em
que estava uma mulher. Era a mãe dele. Ela estendeu os braços e a pequeno aninhou-se
a seu lado, sem perguntar por que razão o tinham acordado. A mulher beijou-lhe os
olhos e, com as mãos delicadas e magras, procurou sentir o calor do corpo através da
alva camisa de flanela. Aconchegando-o ainda mais a si, perguntou:
- Estás com sono, querido?
A voz era tão débil que parecia vir de muito longe. A criança não respondeu, mas
sorriu consolada. Sentia-se feliz no leito grande e quente, enlaçada por aqueles braços
macios. Procurou fazer-se ainda mais pequenina, encolhendo-se de encontro ao corpo
da mãe, e beijou-a sonolentamente. Fechou os olhos, logo em seguida, e adormeceu
profundamente. O médico avançou e parou junto da cama.
- Por favor, não o levem ainda! - gemeu ela.
Sem responder, o médico olhou-a com ar grave. Sabendo que não lhe permitiriam
ficar com a criança mais tempo, a mulher tornou a beijá-la e correu a mão ao
longo do pequeno corpo até lhe encontrar os pés. Segurou o pé direito, apalpou, um a
um, os cinco dedinhos, e em seguida passou lentamente a mão pelo pé esquerdo.
Soltou um soluço.
- Que é? - perguntou o doutor. - Está cansada?
Ela meneou a cabeça, incapaz de falar, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelas
faces. O médico inclinou-se:
- Deixe-me levá-lo.
Estava demasiado fraca para lhe opor resistência e largou a criança. O doutor
restituiu-a à criada.
- É melhor levá-lo para a cama.
- Sim, sr. doutor.
Ainda adormecido, o petiz foi levado embora. A mãe soluçava agora com o
coração despedaçado.
- Que irá ser dele, pobrezinho?
A enfermeira tentou acalmá-la, até que o pranto cessou devido ao cansaço. O
médico dirigiu-se a uma mesa, do outro lado do quarto, sobre a qual, coberto por uma
toalha, jazia o corpo de um recém-nascido. Levantou a toalha e olhou. Um biombo
separava-o da cama, mas a mulher adivinhou de que se tratava.
- Era menina ou menino ? - cochichou para a enfermeira.
- Outro menino.
A doente não disse mais nada. Pouco depois, a ama do menino regressou.
Aproximou-se do leito.
- O menino Philip não chegou a acordar - disse.
Seguiu-se uma pausa. O médico examinou, mais uma vez, o pulso da enferma.
- Nada me resta fazer por agora - observou. - Voltarei depois do almoço.
- Vou acompanhá-lo à porta, sr. Doutor - disse a ama.
Desceram as escadas em silêncio. No vestíbulo, o médico estacou.
- Já mandou chamar o cunhado de Mrs. Carey?
- Sim, sr. doutor.
- Sabe a que horas chegará?
- Não, senhor. Estou à espera de um telegrama.
- E o menino? Acho melhor afastá-lo daqui.
- Miss Watkin disse que o levaria.
- Quem é?
- É a madrinha, sr. doutor. Acha que Mrs. Carey resistirá?
O médico abanou a cabeça.
II
Passara-se uma semana. Philip estava sentado no chão da sala de visitas de miss
Watkin, na sua casa de Onslow Garden. Era a única criança e habituara-se a brincar
sozinho. A sala fora dotada de sólido mobiliário e em cada um dos sofás viam-se três
grandes almofadas. As poltronas tinham também as suas almofadas. Servindo-se delas
e dos banquinhos dourados, leves e fáceis de transportar, conseguira improvisar uma
espécie de caverna onde se escondia dos Peles-Vermelhas emboscados atrás das
cortinas. Encostou o ouvido ao soalho e fingiu ouvir o tropel dos búfalos que se
precipitavam através da planície. Nisto, sentindo que a porta se abria, susteve por um
momento a respiração, com medo de ser descoberto; mas um puxão violento afastou
uma das cadeiras e as almofadas caíram.
- Menino traquina! Miss Watkin vai zangar-se contigo.
- Olá, Ema! - disse ele.
A ama inclinou-se e beijou-o, depois começou a sacudir as almofadas e a colocálas
nos respectivos lugares.
- Vou para casa? - perguntou Philip.
- Vais, sim. Vou levar-te comigo.
- Estás com um vestido novo!
Era em 1885, e ela usava «tournure». O vestido era de veludo negro, com mangas
justas e ombros inclinados e a saia tinha três grandes folhos. Usava também uma touca
preta com cordões de veludo. Ela hesitou. A pergunta que esperava não veio e
portanto, não pôde dar a resposta que preparara.
- Não te interessa saber como está a mamã ? - indagou por fim.
- Esqueci-me! Como está a mamã?
Chegara a ocasião.
- A tua mãe está bem e é muito feliz.
- Oh! Que bom!
- Tua mãe foi-se embora. Não voltarás a vê-la.
Philip não compreendia o que ela queria dizer.
- Porquê ?
- A tua mamã está no Céu.
Começou a chorar, e Philip chorou também, embora não compreendesse bem
aquilo. Ema era uma mulher alta e ossuda, de cabelos louros e rosto largo. Viera do
Devonshire e, apesar da longa permanência em Londres, não perdera ainda o sotaque
da região. As lágrimas aumentaram-lhe a comoção e apertou o menino contra o peito.
Sentia pena daquela criança privada do único amor desinteressado do mundo.
Afigurava-se-lhe horroroso ter de entregá-la a estranhos. Em poucos minutos, contudo,
recuperou o domínio dos nervos.
- O tio William está à tua espera - falou por fim. - Vai dizer adeus a miss Watkin e
vamos para casa.
- Não quero dizer adeus! - retorquiu o pequeno, procurando instintivamente
ocultar as lágrimas.
- Está bem, vai lá acima buscar o teu chapéu.
O petiz obedeceu, e, quando desceu, Ema estava à sua espera no vestíbulo.
Ouviu o som de vozes no gabinete que ficava por trás da sala de jantar. Parou. Sabia
que Miss Watkin e a irmã estavam a conversar com umas amigas e parecia-lhe que se
lá entrasse - ele já completara nove anos - o lamentariam.
- Acho que devo ir despedir-me de Miss Watkin.
- É melhor - respondeu Ema.
- Vai à frente para preveni-la - pediu ele.
Desejava tirar o maior proveito daquela oportunidade. Ema bateu à porta e
entrou. Ele ouviu-a falar.
- Philip quer despedir-se da senhora.
A conversa interrompeu-se de súbito e Philip entrou, a coxear. Henrietta Watkin
era uma mulher forte, de rosto vermelho e cabelos pintados. Naqueles tempos, tingir os
cabelos suscitava comentários e Philip ouvira muitos, em casa, quando a madrinha lhes
mudara a cor. Ela vivia com uma irmã mais velha, que se conformara, contente, com a
velhice. Duas senhoras, que Philip não conhecia, estavam de visita e olharam-no com
curiosidade.
- Meu pobre filho! - exclamou Miss Watkin, abrindo os braços.
Começou a chorar. Philip compreendeu então o motivo da sua ausência ao
almoço e por que trajava um vestido negro. Miss Watkin sentia-se incapaz de falar.
- Tenho que ir para casa - disse Philip, por fim.
Desenvencilhou-se dos braços de Miss Watkin, que o beijou novamente. Depois
foi junto da irmã dela e despediu-se também. Uma das senhoras estranhas perguntou
se podia beijá-lo, permissão que o petiz concedeu com gravidade. Embora chorasse,
apreciava muito a sensação que provocava. Gostaria de ficar um pouco mais para
continuar a ser alvo das atenções, mas, como sentisse que aguardavam a sua retirada
alegou que Ema estava à sua espera. Saiu da sala. Ema descera para falar com uma
amiga e ele esperou-a no patamar. Ouviu a voz de Henrietta Watkin.
- A mãe dele era a minha melhor amiga. Custa-me acreditar que tenha morrido.
- Não devias ter ido ao enterro, Henrietta - advertiu a irmã. - Eu sabia que isso te
poria nervosa.
Uma das visitantes disse:
- Pobre criança! É horrível pensar que está agora só no mundo. Notei que
coxeava.
- Sim, tem um pé boto. Era um enorme desgosto da mãe!
Ema regressou. Chamaram um carro e ela disse ao cocheiro para onde devia
seguir.
III
Ao chegarem à casa onde Mrs. Carey morrera, em Kensington, numa respeitável
e desolada rua entre Notting Hill Gate e High Street - Ema levou Philip à sala de estar.
O tio escrevia cartas de agradecimento pelas coroas que haviam sido enviadas. Uma
delas, que chegara demasiado tarde para o funeral, estava dentro da caixa de papelão
em cima da mesa da entrada.
- Aqui está o menino Philip - disse Ema.
Mr. Carey levantou-se devagar e apertou a mão do pequeno. Depois, reflectindo,
inclinou-se e beijou-o na testa. Era um homem de estatura abaixo do normal, com
tendência para a obesidade, com os cabelos compridos acamados na cabeça de modo a
ocultar a calvície. Estava bem escanhoado. As feições eram regulares, e era possível
imaginar-se que fora bem apresentável na sua mocidade. Na corrente do relógio trazia
uma cruz de ouro.
- Agora vais viver comigo, Philip - disse Mr. Carey. - Agrada-te?
Dois anos antes, Philip havia sido mandado para o vicariato uma temporada,
depois de um ataque de varicela; mas guardava consigo mais a recordação de um sótão
e de um enorme jardim, do que do tio e da tia.
- Sim.
- Deves considerar-nos, a mim e à tua tia Louise, como pai e mãe.
Os lábios da criança tremeram ligeiramente, corou, mas não respondeu.
- A tua saudosa mãe deixou-te ao meu cuidado.
Mr. Carey não tinha grande facilidade de expressão. Quando chegara a notícia de
que a cunhada estava a morrer, partira imediatamente para Londres, mas pelo
caminho não pensara senão no transtorno que a sua vida sofreria, se a morte dela o
forçasse a tomar a seu cargo o filho. Tinha mais de cinquenta anos, e a mulher, com
quem se casara havia trinta, não tivera filhos; não lhe causava o menor prazer a
presença de um rapazinho que poderia ser barulhento e malcriado. Nunca estimara
muito a cunhada.
- Vou levar-te amanhã para Blackstable - disse.
- Com a Ema?
A criança pôs a mão na dela que lha apertou.
- Acho que a Ema tem de ir-se embora - respondeu Mr. Carey.
- Mas eu quero que a Ema venha comigo.
Philip começou a chorar, e a ama não pôde deixar de chorar também. Mr. Carey
olhava-os perplexo.
- Parece-me que será melhor deixar-me sozinho com o menino Philip por um
momento.
- Sim, senhor.
Embora Philip se agarrasse, ela afastou-o com brandura. mr. Carey sentou o
garoto nos joelhos e cingiu-o com o braço.
- Não deves chorar - disse. - Já estás muito crescido para ter uma ama. Temos de
pensar em mandar-te para a escola.
- Quero que a Ema venha comigo - repetiu o pequeno. - Custa muito dinheiro,
Philip. O teu pai não deixou grande coisa e não sei que foi feito dele. Tens de poupar
todos os vinténs.
Mr. Carey visitara na véspera o procurador da família. O pai de Philip era um
cirurgião com boa clientela e os cargos dos hospitais faziam pensar numa situação
sólida; causou pois surpresa, após a sua morte súbita por envenenamento do sangue,
verificar-se que apenas deixara à viúva pouco mais além do seguro de vida e do que
ela auferisse do aluguer da casa em Bruton Street. Isto acontecera havia seis meses; e
Mrs. Carey, já de saúde delicada e à espera de uma criança, perdera a cabeça e aceitara
a primeira oferta de aluguer que lhe fora feita. Mandou guardar a mobília num
depósito, e, pagando uma renda que o cunhado considerava exorbitante, alugara uma
casa mobilada, por um ano, a fim de não ter aborrecimentos até ao nascimento do filho.
Mas não estava habituada a lidar com dinheiro e não fora capaz de adaptar as despesas
às novas circunstâncias. O pouco de que dispunha fora-se-lhe dos dedos de uma
maneira ou de outra e, pagas todas as despesas, restavam apenas umas duas mil libras
para manter o rapaz até ele ganhar a sua vida. Era impossível explicar tudo isto a
Philip, que continuava a soluçar.
- E melhor ires ter com a Ema - disse Mr. Carey, compreendendo que ela saberia
consolar a criança melhor que ninguém.
Sem uma palavra, Philip saltou dos joelhos do tio, mas Mr. Carey deteve-o.
- Temos de ir amanhã, porque no sábado preciso de preparar o meu sermão, e
tens de dizer à Ema para ter as tuas coisas prontas hoje. Podes levar todos os teus
brinquedos. E, se queres guardar alguma lembrança do teu pai e da tua mãe, podes
ficar com um objecto de cada um deles. Tudo o resto será vendido.
O pequeno saiu da sala. Mr. Carey estava desabituado de trabalhar e voltou à
correspondência, de mau humor. A um lado da secretária havia um maço de contas
que o irritavam sobremaneira. Uma delas, especialmente, parecia-lhe absurda. Logo
após a morte de Mrs. Carey, Ema encomendara ao florista ramos de flores brancas para
o quarto em que estava a senhora morta. Era um total desperdício de dinheiro. Ema
ultrapassara as suas atribuições. Mesmo que não houvesse necessidades financeiras, têla-
ia despedido.
Contudo Philip foi ter com ela, e escondeu-lhe no seio a cara, e chorou
amargamente. E ela, sentindo que ele era como seu filho - criara-o desde a idade de um
mês - consolava-o com meigas palavras. Prometeu que iria vê-lo de vez em quando e
que jamais o esqueceria; falou-lhe da terra para onde ia e da sua própria casa no
Devonshire - o pai dela era guarda da linha em Exeter, e tinha porcos no chiqueiro, e
tinha uma vaca e a vaca acabara de ter um bezerro - até Philip esquecer as lágrimas e se
entusiasmar pensando na próxima viagem. Então pô-lo no chão, porque havia muito
que fazer, e ele ajudou-a a dispor as roupas em cima da cama. Ela mandou-o à sala dos
brinquedos buscar os brinquedos e dentro em pouco ele brincava alegremente.
Mas por fim aborreceu-se de estar sozinho, e voltou para o quarto onde Ema
colocava as coisas dele num grande baú de folha; lembrou-se então de que o tio dissera
que poderia guardar alguma coisa como recordação do pai e da mãe. Disse-o a Ema e
perguntou-lhe que deveria guardar.
- É melhor ires à sala de visitas e veres o que te agrada.
- O tio William está lá.
- Não tem importância. As coisas pertencem-te agora.
Philip desceu lentamente as escadas e encontrou a porta aberta. Mr. Carey saíra
da sala. Philip andou à volta lentamente. Morara tão pouco tempo naquela casa que
nela nada tinha particular interesse para ele. Era uma sala estranha e Philip nada viu
que lhe prendesse a imaginação. Sabia, contudo, quais eram os objectos da mãe e quais
os que pertenciam ao senhorio; então, reparou num relogiozinho de que ouvira uma
vez a mãe dizer que gostava. Com ele subiu novamente as escadas um pouco
desconsoladamente. Em frente da porta do quarto da mãe parou e escutou. Embora
ninguém lhe tivesse dito para não entrar, tinha a sensação de que não deveria fazê-lo;
ficou um pouco medroso e o coração bateu-lhe descontroladamente; mas, ao mesmo
tempo, algo o impeliu a dar volta ao puxador. Voltou-o muito mansamente como para
evitar que alguém o ouvisse e então, sua emente, empurrou a porta. Ficou no limiar um
instante, antes de ter coragem para entrar. Não estava assustado, mas aquilo parecialhe
estranho. Fechou a porta atrás de si. As cortinas estavam corridas e o quarto estava
escuro, à fria luz de uma tarde de Janeiro. No toucador estavam as escovas e o espelho
de Mrs. Carey. Numa bandejinha estavam ganchos. Havia em cima do fogão uma
fotografia sua e outra do pai. Entrara muitas vezes no quarto, na ausência da mãe, mas
agora parecia diferente. Havia algo de curioso no aspecto das cadeiras. A cama estava
feita, como se alguém fosse dormir ali aquela noite, e num saco sobre a travesseira
estava uma camisa de dormir.
Philip abriu um grande armário cheio de vestidos e, trepando, abraçou tantos
quantos pôde e mergulhou o rosto neles. Cheiravam ao perfume que a mãe usava.
Depois, abriu as gavetas cheias de coisas da mãe e contemplou-as... Havia sacos de
alfazema por entre as roupas; o perfume delas era fresco e agradável. A estranheza do
quarto desaparecera, e parecia-lhe que a mãe acabara de sair a passear. Em breve
voltaria e subiria para tomar o chá com ele no quarto dos brinquedos. E pareceu-lhe
sentir o beijo na face.
Não era verdade que a não veria mais. Não era verdade, simplesmente porque
era impossível. Trepou para a cama e deitou a cabeça no travesseiro. Deixou-se ficar
imóvel.
IV
Philip despediu-se, de Ema, choroso, mas a viagem para Blackstable divertiu-o, e,
ao chegar, estava resignado e alegre. Blackstable ficava a sessenta milhas de Londres.
Entregando a bagagem a um carregador, Mr. Carey seguiu a pé com Philip para o
vicariato. Gastaram nisso pouco mais de cinco minutos e, quando chegaram, Philip
recordou-se logo do portão. Era pintado de vermelho e tinha cinco barras; abria para
ambos os lados nos lubrificados gonzos; e era possível, embora fosse proibido, andar
para cá e para lá nele. Atravessaram o jardim em direcção à porta principal. Esta era só
usada por visitantes e aos domingos, ou em ocasiões especiais como quando o vigário
ia para Londres ou regressava. O movimento da casa fazia-se pela porta lateral e havia
uma porta nas traseiras, para o jardineiro e para os mendigos e vagabundos. Era uma
casa bastante espaçosa, de tijolos amarelos e telhado vermelho, construída havia vinte e
cinco anos em estilo eclesiástico. A porta principal lembrava o portal de uma igreja e as
janelas da sala de visitas eram góticas.
Mrs. Carey, sabendo em que comboio vinham, esperava na sala pelo chiar do
portão. Quando o ouviu, dirigiu-se para a porta.
- Cá está a tia Louise - disse Mr. Carey ao avistá-la. - Corre e dá-lhe um beijo.
Philip pôs-se a correr, desajeitadamente, arrastando o pé boto, e depois parou.
Mrs. Carey era uma mulher pequena e engelhada, da mesma idade do marido, rosto
extraordinariamente vincado de profundas rugas e claros olhos azuis. O cabelo
grisalho estava arranjado em caracóis, segundo a moda da sua juventude. Trazia um
vestido preto e o único ornamento era uma cadeia de ouro da qual pendia uma cruz.
Tinha gestos tímidos e uma voz suave.
- Vieste a pé, William? - perguntou quase reprovativamente, ao beijar o marido.
- Nem dei por isso - respondeu ele relanceando um olhar ao sobrinho. - Não te
fez doer andar a pé, pois não, Philip? - perguntou ao garoto.
- Não. Eu ando sempre a pé.
Ficara um pouco surpreendido com a conversa deles. A tia Louise disse-lhe para
entrar, e entraram no vestíbulo. Este era de mosaicos vermelhos e amarelos, nos quais
alternadamente havia uma cruz grega e o cordeiro de Deus. Uma imponente escada
partia do vestíbulo. Era de pinho polido, com um cheiro peculiar; e fora construída
porque, felizmente, sobrara muita madeira quando a igreja levara bancos novos. Os
balaústres eram decorados com os emblemas dos Quatro Evangelistas.
- Mandei acender o fogão, pensando que sentirias frio depois da viagem - disse
Mrs. Carey.
Era um fogão grande e negro que estava na entrada e só se acendia se o tempo ia
muito rigoroso e o vigário se constipava. Não se acendia se Mrs. Carey se constipava.
O carvão estava caro. Além disso, Mary Ann, a criada, não gostava de lume por toda a
parte. Se queriam tantos fogões que contratassem outra rapariga. Durante o Inverno
Mr. e Mrs. Carey permaneciam na sala de jantar, bastando portanto um único fogão; no
Verão não conseguiam fugir desse hábito e, portanto, a sala de visitas só servia nas
tardes de domingo a Mr. Carey para dormir a sesta. Mas todos os sábados havia lume
no escritório para ele poder escrever o seu sermão.
A tia Louise subiu as escadas com Philip e mostrou-lhe um acanhado quarto que
dava para o jardim. Bem em frente da janela havia uma enorme árvore, que Philip logo
reconheceu, porque os ramos eram tão baixos que era possível trepar por eles acima.
- Um quarto pequeno para um rapaz pequeno - disse Mrs. Carey. - Não terás
medo de dormir sozinho?
- Não!
Na primeira visita ao vicariato viera com a ama e pouco trabalho dera a Mrs.
Carey. Agora, ela olhava-o com certa hesitação.
- Sabes lavar as mãos, ou queres que eu tas lave?
- Sei lavar-me sozinho - respondeu ele com firmeza.
- Muito bem, examiná-las-ei quando desceres para o chá - retorquiu Mrs. Carey.
Nada entendia de crianças. Depois de resolvido que Philip viria para Blackstable,
Mrs. Carey pensara bastante em como deveria tratá-lo; estava ansiosa por cumprir o
seu dever; mas, agora que ele estava ali, sentia-se tão tímida à sua frente, como ele em
frente dela. Desejava que ele não fosse malcriado e barulhento, porque o marido não
gostava de rapazes barulhentos e malcriados. Mrs. Carey deu uma desculpa para
deixar Philip só, mas logo em seguida voltou e bateu à porta; perguntou-lhe, sem
entrar, se sabia deitar a água sozinho. Depois, desceu as escadas e tocou a sineta para o
chá.
A sala de jantar, ampla e bem proporcionada, tinha janelas em dois lados com
pesadas cortinas de fustão vermelho; no meio havia uma grande mesa; e numa
extremidade um imponente aparador de mogno com espelho. A um canto estava um
harmónio. De cada lado do fogão havia uma cadeira forrada de couro estampado e
coberta com capa de algodão; uma tinha braços e era chamada «o marido», a outra não
tinha e chamava-se «a esposa». Mrs. Carey nunca se sentava na cadeira de braços: dizia
preferir uma cadeira que não fosse tão confortável; tinha sempre muito que fazer e se a
cadeira dela tivesse braços nunca estaria tão pronta a levantar-se.
Mr. Carey espevitava o lume quando Philip entrou, e mostrou então ao sobrinho
que havia dois atiçadores. Um, grande, brilhante, polido e por usar, era chamado o
Vigário; o outro, muito mais pequeno, e, evidentemente, muito passado pelas chamas,
chamava-se o Cura.
- Por que esperamos? - perguntou Mr. Carey.
- Mandei a Mary Ann arranjar-te um ovo. Creio que terás apetite depois da
viagem.
Mrs. Carey julgava a viagem de Londres a Blackstable muito fatigante. Ela raras
vezes viajava, pois, para viver, tinham apenas trezentas libras por ano, e, quando o
marido tinha férias, como não havia dinheiro para dois, partia sozinho. Apreciava
imenso os congressos religiosos e geralmente procurava ir a Londres uma vez por ano;
e uma vez fora à exposição de Paris e duas ou três vezes à Suíça. Mary Ann trouxe o
ovo e sentaram-se à mesa. A cadeira era baixa de mais para Philip e por momentos
nem Mr. Carey nem a mulher souberam que fazer.
- Ponho uns livros debaixo dele - disse Mary Ann.
Tirou de cima do harmónio a Bíblia enorme e o livro das orações em que o
vigário costumava ler as preces e pô-los na cadeira de Philip.
- Oh! William, não pode sentar-se em cima da Bíblia! - exclamou Mrs. Carey em
tom escandalizado. - Não podes arranjar-lhe uns livros do escritório?
Mr. Carey considerou a questão uns momentos.
- Não vejo razão, uma vez que ponhas o livro das orações por cima, Mary Ann -
disse ele. - O livro das Orações Comuns foi escrito por homens como nós. Não lhe é
atribuída origem divina.
- Não pensara nisso, William - disse a tia Louise.
Philip empoleirou-se em cima dos livros e o vigário, depois de dar graças, cortou
a parte de cima do ovo.
- Toma - disse, estendendo-a a Philip - podes comer este pedaço, se gostas.
Philip gostaria também de um ovo, mas não lhe fora oferecido, portanto aceitou o
que lhe davam.
- Que tal puseram as galinhas na minha ausência? - perguntou o vigário.
- Oh, estiveram horríveis, só um ou dois por dia.
- Que tal achaste esse pedaço, Philip? - perguntou o tio.
- Muito bom, obrigado.
- Terás outro, no domingo à tarde.
Mr. Carey comia sempre um ovo cozido ao chá de domingo, para ter forças para
o serviço da noite.
V
Pouco a pouco, Philip veio a conhecer a gente com quem tinha de viver, e,
através de trechos de conversas, muitos dos quais não se destinavam aos seus ouvidos,
aprendeu bastante, tanto a seu respeito como acerca dos falecidos pais. O pai de Philip
era muito mais novo do que o vigário de Blackstable. Após brilhante carreira no
Hospital de S. Lucas, passara a fazer parte do corpo clínico e a ganhar elevados
honorários. Gastava-os despreocupadamente. Quando o pároco resolveu reformar a
igreja e visitou o irmão com uma subscrição, ficou surpreendido ao receber duzentas
libras. Mr. Carey, pároco por inclinação e económico por necessidade, aceitou a oferta
com um misto de sentimentos: invejando o irmão por lhe ser possível dar tanto
dinheiro, regozijado ao pensar na reforma da igreja, e levemente irritado perante uma
generosidade que tocava as raias da ostentação. Mais tarde, Henry Carey desposou
uma cliente, uma jovem formosa mas pobre, órfã e sem parentes próximos, mas de boa
família; um grupo de amigos distintos compareceu ao casamento. Ao visitá-la durante
a sua estada em Londres, o pároco portara-se com certa reserva. Mostrara-se acanhado
e, no íntimo, causava-lhe mal-estar a grande beleza dela: vestia com uma magnificência
que não ficava bem à esposa de um cirurgião trabalhador, e a encantadora mobília da
sua casa, as flores no meio das quais vivia, mesmo no Inverno, sugeriam uma
extravagância que ele deplorava. Ouvira-a falar das diversões que costumava
frequentar; e, segundo declarou à mulher, ao regressar a casa, era-lhe impossível
aceitar a hospitalidade sem alguma retribuição. Vira uvas na sala de jantar, que deviam
ter custado pelo menos oito xelins a libra; ao almoço, serviram-lhe espargos dois meses
antes de ser possível colhê-los na horta do vicariato. Agora, tudo quanto previra se
realizara; o vigário sentia a satisfação do profeta que vê o fogo e o enxofre destruir a
cidade que não se corrigiu, apesar das suas advertências. O pobre Philip não tinha
praticamente um vintém, e de que valiam agora as altas amizades de sua mãe?
Constava que a extravagância do pai fora na verdade criminosa, e o desaparecimento
da mãe parecia um acto da Providência. Ela entendia de finanças tanto como uma
criança.
Quando Philip completou uma semana em Blackstable, ocorreu um incidente que
irritou sobremodo o tio. Encontrou certa manhã, sobre a mesa, um pequeno volume
que viera, pelo correio, de casa da falecida Mrs. Carey, em Londres. Estava endereçado
a ela. Quando o pároco abriu o volume, depararam-se-lhe doze fotografias de Mrs.
Carey. Mostravam só a cabeça e os ombros, e o cabelo, descendo para a testa, fora
penteado de maneira mais simples que habitualmente, o que lhe emprestava um
aspecto especial; o rosto estava magro e cavado, mas não havia doença capaz de
empanar a beleza das feições. Nos olhos grandes e escuros, lia-se uma tristeza que
Philip não reconhecia. Ao ver a imagem da morta, Mr. Carey sentiu um súbito choque,
logo transformado em perplexidade. As fotografias pareciam recentes e ele não fazia
ideia de quem poderia tê-las encomendado.
- Sabes o que isto significa, Philip? - perguntou.
- Lembro-me da mamã dizer que tirara o retrato - respondeu o interpelado. - Miss
Watkin ralhou-lhe... Ela respondeu: «Quero que o meu filho guarde uma lembrança
minha, para quando crescer».
Mr. Carey encarou Philip uns segundos. A criança falava em claro falsete.
Recordava-se das palavras mas estas não tinham para ele significado algum.
- Acho melhor levares uma das fotografias para o teu quarto, - disse Mr. Carey. -
Ficarei com as outras.
Enviou uma delas a miss Watkin, que lhe escreveu a explicar a maneira como
haviam sido tiradas.
Certa vez, Mrs. Carey repousava, um pouco mais bem disposta do que nos
outros dias e o médico, pela manhã, mostrara-se esperançado. Ema levara o menino a
passear e as criadas tinham descido para a cave. De súbito, Mrs. Carey sentiu-se
horrivelmente só no mundo. Um grande temor se apoderou dela, o de não resistir ao
parto, que esperava para daí a quinze dias. O filho contava nove anos de idade. Como
havia de recordar-se dela? Era-lhe intolerável pensar que ele cresceria e esquecê-la-ia,
esquecê-la-ia totalmente; e amava-o com tanta paixão, porque ele era fraco e aleijado e
porque era seu filho. Não tirava fotografias desde o casamento, havia dez anos. Queria
que o filho soubesse qual o seu aspecto nos derradeiros dias. Não a esqueceria, então -
não a esqueceria de todo. Sabia que, se chamasse a criada e manifestasse desejo de
levantar-se, a criada a impediria, e talvez avisasse o médico; e não sentia, por outro
lado, forças para lotar ou discutir. Ergueu-se do leito, e começou a vestir-se. Estivera
tanto tempo deitada que as pernas cediam ao peso do corpo e tinha tal formigueiro nas
plantas dos pés que mal podia tocar no soalho. Ainda assim continuou. Não estava
acostumada a pentear-se, e ao levantar o braço para passar a escova nos cabelos sentiuse
desfalecer. Seria incapaz de arranjá-los como o fazia a criada. Era uma linda
cabeleira, muito fina e de um profundamente belo doirado. as sobrancelhas, eram
direitas e escuras. Vestiu uma saia preta, mas escolheu o corpo do vestido de noite de
que mais gostava, de damasco branco, muito em moda naquela época. Mirou-se em
seguida no espelho. O rosto estava pálido mas a pele não perdera a limpidez. Nunca
tivera muita cor, e isso realçava ainda mais o rubor da sua formosa boca. Não pôde
conter um suspiro. Não tinha, porém, tempo para se lamentar. Já começava a sentir-se
imensamente cansada; colocou nos ombros as peles que Henry lhe havia dado no Natal
passado (como ele a fizera orgulhosa e feliz naquele dia!) e desceu as escadas com o
coração palpitante. Saiu de casa livremente e fez-se conduzir a um fotógrafo. Pagou
uma dúzia de retratos. No meio da pose, viu-se obrigada a pedir um copo de água; e
vendo-a doente o fotógrafo sugeriu que ela voltasse no dia seguinte, mas Mrs. Carey
insistiu em ficar até ao fim. Finalmente acabara e voltou para a soturna casinha de
Kensington, que odiava do fundo do coração. Seria horrível morrer numa casa como
aquela.
Encontrou aberta a porta de entrada, e, à aproximação do carro, Ema e a criada
desceram a correr, os degraus, para ampará-la. Haviam sofrido um susto, ao encontrar
o quarto vazio. A princípio, julgaram que Mrs. Carey tivesse ido visitar Miss Watkin e
mandaram lá a cozinheira. Miss Watkin veio com ela e ficou à espera, impaciente, na
sala de visitas. Descia agora as escadas transbordante de ansiedade e de censura. Mas o
esforço que Mrs. Carey despendera fora superior às suas forças e, como não fosse já
necessário resistir, desmaiou pesadamente nos braços de Ema; levaram-na para cima.
Permaneceu desmaiada um tempo que pareceu imensamente longo aos que a
observavam, e o médico, chamado com urgência, não compareceu. Só no dia seguinte,
com as primeiras melhoras, conseguiu Miss Watkin alguns esclarecimentos. Philip
brincava no chão do quarto de sua mãe e nenhuma das duas senhoras lhe dava a
menor atenção. Apenas entendia vagamente do que tratavam e ele mesmo não saberia
explicar por que se lhe gravaram na memória aquelas palavras:
- Quero que o meu filho guarde uma lembrança minha para quando crescer.
- Não compreendo por que razão ela encomendou uma dúzia de retratos -
comentou Mr. Carey. - Dois teriam sido suficientes.
VI
Os dias eram todos iguais, no vicariato.
Logo após o pequeno almoço, Mary Ann ia buscar o Times. Mr. Carey
compartilhava-o com dois vizinhos. Conservava-o das dez à uma, quando o jardineiro
o levava a Mr. Ellis, a Limes, onde ficava até às sete; era então levado a Miss Brooks, ao
solar, que, uma vez que o recebia tão tarde, usufruía a vantagem de ficar com ele. No
Verão, quando Mrs. Carey fazia geleia, muitas vezes lhe pedia um exemplar para
cobrir os frascos. Quando o vigário se sentava a ler, a mulher punha o chapéu e saía
para fazer as compras. Philip acompanhava-a. Blackstable era uma vila piscatória.
Consistia numa rua principal onde estavam as lojas, o banco, a casa do médico e as
casas de dois ou três proprietários de navios carvoeiros; em volta do pequeno porto
havia ruas miseráveis onde viviam os pescadores e os pobres; mas como frequentavam
a capela não mereciam consideração. Quando Mrs. Carey cruzava na rua com um
pastor dissidente, atravessava para o outro lado para evitar encontrá-lo, mas se não
tivesse tempo de tal, fixava os olhos no chão. Era um escândalo com o qual o vigário
não se conformava, que houvesse três capelas na High Street: não podia deixar de
pensar que a lei, se quisesse, teria impedido a sua construção. Fazer compras em
Blackstable não era coisa fácil; eram muito frequentes as dissidências criadas pelo facto
da igreja da paróquia ser a duas milhas da cidade; e era necessário comprar só a
frequentadores da igreja; Mrs. Carey sabia perfeitamente que a preferência do vicariato
podia operar alterações na fé de um comerciante. Havia dois açougueiros que iam à
igreja e não compreendiam que o vigário não pudesse comprar a ambos ao mesmo
tempo; tão-pouco se satisfaziam com o plano simples de ir seis meses a um e seis meses
a outro. O talhante que não vendia carne para o vicariato ameaçava constantemente
não ir à igreja e o vigário era por vezes obrigado a fazer ameaças: era muito mau para
ele não ir à igreja, mas se ele levava a iniquidade a ponto de ir agora à capela, então, é
claro, por boa que fosse a carne que vendia, Mr. Carey ver-se-ia forçado a deixá-lo para
sempre. Mrs. Carey parava muitas vezes no banco para transmitir um recado a Josiah
Graves, o gerente, que era mestre de coro, tesoureiro e zelador. Era um homem alto e
magro, com um rosto macilento e um nariz comprido; o cabelo era muito branco; a
Philip parecia extremamente velho. Escriturava as contas da paróquia e ensaiava as
festas do coro e da catequese; embora não houvesse órgão na igreja da paróquia era do
consenso geral (em Blackstable) que o coro que ele dirigia era o melhor de Kent; e
quando havia uma solenidade, como a visita do bispo para o Crisma ou do deão rural
para pregar na Acção de Graças pelas colheitas, ele fazia os preparativos necessários.
Não hesitava, contudo, em fazer toda a espécie de coisas sem uma consulta mais
que pró-forma ao vigário, e o vigário, embora sempre pronto a fugir a complicações
chocava-se bastante com os modos do zelador. Na verdade ele parecia considerar-se a
pessoa mais importante da paróquia. Mr. Carey dizia constantemente à mulher que se
Josiah Graves não se corrigisse lhe daria um dia umas palmatoadas; mas Mrs. Carey
aconselhava-o a ser paciente com Josiah Graves: as intenções eram boas e não era culpa
sua não ser um perfeito cavalheiro. O vigário, encontrando conforto na prática de uma
virtude cristã, cultivava a indulgência; mas vingava-se chamando Bismarck ao zelador,
nas suas costas.
Uma vez houve séria zanga entre os dois, e Mrs. Carey lembrava-se ainda com
consternação dessa triste época. O candidato conservador anunciara a intenção de
organizar um comício em Blackstable; e Josiah Graves, tendo conseguido que este se
realizasse na Casa da Missão, procurou Mr. Carey e disse-lhe que esperava que ele
dissesse algumas palavras. Parece que o candidato pedira a Josiah Graves que
presidisse. Isto ultrapassava os limites do que Mr. Carey suportava. Tinha opiniões
firmes sobre o respeito devido ao clero e era ridículo que um zelador presidisse a uma
sessão em que o vigário estivesse. Fez ver a Josiah Graves que pastor significa guia, isto
é, que o vigário era o guia da paróquia. Josiah Graves respondeu que era o primeiro a
reconhecer a dignidade da igreja, mas aqui era uma questão política e por seu lado fez
ver ao vigário que o Salvador os exortara a dar a César o que era de César. A isto Mr.
Carey respondeu que o demónio também sabia citar as Escrituras nas ocasiões, só ele
era autoridade na Casa da Missão e se não fosse convidado para presidente recusá-la-ia
para uma reunião política. Josiah Graves disse a Mr. Carey que fizesse como quisesse e
pela sua parte pensava que a Capela Wesleyana seria um lugar igualmente propício.
Então Mr. Carey respondeu que se Josiah Graves pusesse os pés no que pouco se
diferençava de um templo pagão, não era digno de ser zelador de uma paróquia cristã.
Em vista disso, Josiah Graves resignou de todas as suas funções e nessa mesma noite
mandou buscar à igreja a batina e a sobrepeliz. A irmã, Miss Graves, que lhe cuidava
da casa, abandonou o seu lugar de secretária da Sociedade Maternal, que concedia, às
parturientes pobres, roupas de flanela, roupas de bebé, carvão e cinco xelins. Mr. Carey
exclamou que era finalmente dono da sua própria casa. Mas depressa verificou que era
obrigado a olhar por coisas de que nada sabia; e Josiah Graves, passados os primeiros
momentos de irritação, reparou que perdera o principal interesse da sua vida. Mrs.
Carey e Miss Graves desgostaram-se muito com a questão; encontraram-se após uma
discreta troca de cartas e procuraram maneira de os reconciliar: falavam de manhã à
noite, uma ao marido, a outra ao irmão; e, como persuadiam aqueles cavalheiros a
fazer o que no íntimo desejavam, ao fim de três semanas de ansiedade fez-se a
reconciliação. Era do interesse de ambos mas atribuíram tudo ao comum amor pelo
Redentor. A sessão realizou-se na Casa da Missão e o médico foi convidado para
presidente. Mr. Carey e Josiah Graves fizeram discursos os dois.
Quando Mrs. Carey acabava a entrevista com o empregado bancário, subia
geralmente a tagarelar um pouco com a irmã dele; e enquanto as senhoras falavam de
assuntos da paróquia, do curato ou do chapéu novo de Mrs. Wilson - Mr. Wilson era o
homem mais rico de Blackstable, pensava-se que tinha pelo menos quinhentas libras
por ano, e casara com a cozinheira - Philip sentava-se gravemente na austera sala que
servia só para receber visitas e entretinha-se a seguir os movimentos do peixinho
dourado no aquário. As janelas não se abriam nunca senão de manhã alguns minutos
para arejar a sala e havia um cheiro a mofo que parecia a Philip possuir misteriosa
relação com os negócios bancários.
Nessa altura Mrs. Carey lembrava-se de que tinha de ir ao merceeiro, e continuavam
a caminhada. Feitas as compras desciam muitas vezes uma rua lateral de casinhas,
a maior parte de madeira, nas quais viviam pescadores (aqui e ali um pescador sentado
no degrau da porta remendava as redes, e redes pendiam, a secar às portas) até
chegarem a uma pequena praia fechada de ambos os lados por armazéns, mas com
vista para o mar. Mrs. Carey parava uns instantes a olhá-lo; era lodoso e amarelo (e
quem adivinharia que pensamentos lhe atravessavam o espírito?) enquanto Philip
procurava pedrinhas arredondadas para atirar. Em seguida voltavam vagarosamente.
Passavam pelo correio para acertar as horas, cumprimentavam Mrs. Wigram, a esposa
do médico, que cosia sentada à janela, e então iam para casa.
O jantar era à uma hora; às segundas, terças e quartas-feiras constava de picado
de carne assada, e às quintas, sextas e sábados, de carneiro. Aos domingos preparavam
uma galinha das deles. à tarde Philip preparava as lições. Estudava latim e matemática
com o tio que disso nada percebia e francês e piano com a tia. De francês era ela
ignorante, mas de piano conhecia o bastante para acompanhar as antiquadas canções
que cantara durante trinta anos. O tio William costumava contar a Philip que quando
era cura a mulher sabia doze canções de cor que poderia cantar de seguida todas as
vezes que lhe pedissem. Cantava ainda muitas vezes quando davam um chá no
vicariato. Eram poucas as pessoas que os Carey convidavam e as reuniões deles
consistiam sempre no cura, Josiah Graves e a irmã, o Dr. Wigram e a mulher. Depois
do chá Miss Graves tocava uma ou duas das «Canções sem Palavras» de Mendelssohn
e Mrs. Carey cantava Quando as andorinhas regressam ou Trota, trota, meu cavalinho.
Todavia os Carey não davam chás muitas vezes; os preparativos exigiam-lhes
muito trabalho, e quando os convidados se retiravam, sentiam-se exaustos. Preferiam
tomar o chá sozinhos e em seguida jogar uma partida de gamão. Mrs. Carey fazia com
que o marido ganhasse, pois ele não gostava de perder. Comiam uma ceia fria às oito
horas. Era uma refeição improvisada, porque Mary Ann não estava disposta a preparar
nada depois do chá e Mrs. Carey ajudava-a a arrumar. Mrs. Carey raras vezes comia
mais do que pão com manteiga, e a seguir um pouco de fruta em calda; mas o vigário
tinha uma fatia de carne fria. Logo após a ceia Mrs. Carey tocava a sineta para as
orações e então Philip ia para a cama. Ele protestava contra a imposição de ser despido
por Mary Ann, e tempo depois conseguiu que lhe fosse estabelecido o direito de se
vestir e despir sozinho. às nove horas Mary Ann, trazia os ovos e a baixela. Mrs. Carey
escrevia a data em cada ovo e registava o total num livro. Ela em seguida pegava no
cesto dos pratos e subia as escadas. Mr. Carey continuava a ler um dos seus velhos
livros, mas, assim que o relógio dava as dez horas, levantava-se, apagava as luzes e
reunia-se à mulher na cama.
Quando Philip chegou, houve dificuldades em decidir em que tarde tomaria o
banho. Não era nunca fácil conseguir água quente suficiente desde que a caldeira da
cozinha não funcionava e era impossível duas pessoas tomarem banho no mesmo dia.
O único homem que tinha um quarto de banho em Blackstable era Mr. Wilson e era
tomado como ostentação sua. Mary Ann tomava banho na cozinha ao domingo à noite,
porque gostava de começar a semana lavada. O tio William não podia tomá-lo ao
sábado, pois tinha na frente um dia trabalhoso e ficava sempre um pouco cansado
depois do banho. Portanto, tomava-o à sexta-feira. Mrs. Carey por idêntica razão
tomava-o às quintas-feiras. Desta forma parecia ser o sábado naturalmente indicado
para Philip, mas Mary Ann declarou que não podia conservar o lume aceso ao sábado
à noite: tendo tanto que cozinhar ao domingo, com a confecção de pastéis e não sabia
que mais, não tinha disposição para dar banho ao rapaz ao sábado à noite; e era
evidente que não podia banhar-se sozinho. Mrs. Carey tinha acanhamento de dar
banho a um rapaz e, é claro, o vigário tinha o sermão. Mas o vigário insistia em que
Philip estivesse limpo e fresco no Dia do Senhor. Mary Ann declarou que preferia ir-se
embora do que encarregar-se disso - ao fim de dezoito anos não esperava que lhe
dessem mais trabalho, deveriam mostrar mais consideração - e Philip disse que não
precisava de ninguém para lhe dar banho, que saberia muito bem banhar-se. Assim se
resolveu. Mary Ann declarou estar convencida de que ele não saberia lavar-se
convenientemente e para que não andasse sujo - não por causa dele ir à presença do
Senhor, mas porque não lhe seria agradável conviver com um rapaz que não estivesse
devidamente asseado - resolveu trabalhar até mais não, mesmo na noite de sábado.
VII
O domingo era um dia fértil em acontecimentos. Mr. Carey costumava dizer que
era o único homem da paróquia que trabalhava sete dias por semana.
Todos em casa se levantavam uma hora antes do costume. Não pode um pobre
pároco ficar um pouco mais na cama no dia de descanso, observava Mr. Carey quando
Mary Ann batia à porta pontualmente às oito. Mrs. Carey levava mais tempo a vestirse
e descia para o pequeno almoço às nove, um tanto ofegante, um pouco antes do
marido. As botas de Mr. Carey estavam em frente do lume para aquecerem. As orações
eram mais longas que de costume e a refeição mais substancial. Depois do pequeno
almoço, o vigário cortava pequenas fatias de pão para a comunhão e Philip tinha o
privilégio de aparar a côdea. Era mandado ao escritório buscar um pisa-papéis de
mármore com o qual Mr. Carey comprimia o pão até ficar fino e compacto; depois era
cortado em pequenos quadrados. A quantidade era regulada pelo tempo. Nos dias
chuvosos poucas pessoas iam à igreja e nos muito bonitos, embora fossem muitas,
poucas ficavam para a comunhão. Havia mais quando estava seco de modo a tornar
agradável o caminho até a igreja, mas não tão bonito que as pessoas tivessem pressa de
se ir embora.
Depois, Mrs. Carey tirava a bandeja da comunhão do guarda-comidas que ficava
na despensa e o vigário polia-o com uma camurça. às dez a carruagem parava à porta e
Mr. Carey calçava as botas. Mrs. Carey levava alguns minutos a pôr o chapéu enquanto
o vigário, metido numa enorme capa, esperava no vestíbulo, com a expressão
fisionómica de um cristão primitivo prestes a ser conduzido à arena. Era extraordinário
que sua mulher, após trinta anos de vida conjugal, não estivesse pronta a horas nas
manhãs de domingo. Finalmente ela chegava, de cetim preto; o vigário não gostava de
cores na esposa de um clérigo fosse quando fosse, mas aos domingos determinara que
estivesse inteiramente de preto; uma vez por outra, em conspiração com Miss Graves,
arriscava uma pena branca ou uma rosa no chapéu, mas o vigário insistia que teria de
ser suprimida; dizia ele que não iria à igreja com a mulher de escarlate (Mulher perdida,
a prostituta do Apocalipse. (N. do t): Mrs. Carey suspirava como mulher, mas obedecia
como esposa. Estavam prestes a subir para a carruagem quando o vigário se lembrava
de que não lhe tinham servido o ovo. Sabiam que tinha de tomar um ovo por causa da
voz, havia duas mulheres na casa e nenhuma tinha o mínimo interesse pelo seu bemestar.
Mrs. Carey censurava Mary Ann, a qual respondia que não podia pensar em
tudo. Corria a buscar um ovo e Mrs. Carey batia-o num copo de xerez. O vigário
tomava-o de um gole. O cálice da comunhão era posto na carruagem e partiam.
O cabriolé viera do Leão Vermelho e tinha um cheiro peculiar a palha velha.
Seguiam com as duas janelas fechadas para que o vigário se não constipasse. O
sacristão estava à espera no portal para pegar na bandeja da comunhão e, enquanto o
vigário se encaminhava para a sacristia, Mrs. Carey e Philip sentavam-se nos bancos
reservados ao vicariato. Mrs. Carey colocava na sua frente a moeda de seis pence que
costumava pôr na salva e dava a Philip três pence para o mesmo fim. A igreja enchia-se
pouco a pouco e o serviço começava.
Philip aborrecia-se durante o sermão mas se ele se agitava Mrs. Carey colocavalhe
suavemente a mão sobre o braço e olhava-o repreensivamente. Recuperava o
interesse quando cantavam o hino final e Mr. Graves dava a volta com a salva.
Quando toda a gente se retirava, Mrs. Carey ia ao banco de Miss Graves para
trocar com ela umas palavras enquanto esperavam pelos cavalheiros, e Philip dirigia-se
à sacristia. O tio, o cura e Mr. Graves vestiam ainda as respectivas sobrepelizes. Mr.
Carey dava-lhe os restos do pão consagrado e dizia lhe que podia comê-lo. Era
costume comê-lo ele, pois lhe parecia blasfemo deitá-lo fora, mas o devorador apetite
de Philip libertava-o dessa obrigação. Depois, contavam o dinheiro. Era em moedas de
um, seis e três pence. Havia sempre dois únicos xelins, um posto na salva pelo vigário e
o outro por Mr. Graves; e algumas vezes havia um florim. Mr. Graves informava o
vigário de quem o dera. Eram sempre estranhos a Blackstable e Mr. Carey desconhecia
quem fosse. Contudo Miss Graves observara o acto de prodigalidade e estava apta a
informar Mrs. Carey de que o estranho viera de Londres, era casado e tinha filhos.
Durante o trajecto para casa Mrs. Carey comunicava a informação e o vigário punha na
ideia visitá-lo e pedir-lhe uma subscrição para a Sociedade Promotora dos Curatos. Mr.
Carey indagava se Philip se comportara devidamente; e Mrs. Carey comentava que
Mrs. Wigram tinha uma capa nova, que Mr. Cox não estava na igreja, e que toda a
gente julgava que Miss Phillips fora pedida. Quando chegavam ao vicariato todos
sentiam merecer um jantar substancial.
Terminado este, Mrs. Carey ia para o quarto sestear e Mr. Carey ficava no sofá da
sala de visitas a passar pelo sono.
Tomavam chá às cinco horas e o vigário comia um ovo para se fortalecer para o
ofício e vésperas. Mrs. Carey não ia, para que Mary Ann pudesse ir, mas lia o serviço
do princípio ao fim e os hinos. Mr. Carey ia a pé para a igreja à noite e Philip coxeando
seguia a seu lado. A caminhada no escuro pelo campo impressionava-o estranhamente
e a igreja com todas as suas luzes à distância, aproximando-se pouco a pouco, parecialhe
acolhedora. A princípio estava tímido com o tio, mas, progressivamente,
acostumara-se a ele e conseguira segurar na sua a mão dele e caminhar mais
tranquilamente com a sensação de protecção.
Ceavam quando regressavam a casa. As chinelas de Mr. Carey esperavam-no
sobre um banquinho em frente do lume e ao lado delas as de Philip uma um sapato de
menino a outra deformada e esquisita. Estava tremendamente cansado quando subia
para o quarto e não resistia quando Mary Ann o despia. Ela beijava-o depois de o
aconchegar bem e ele começou a querer-lhe.
VIII
Philip levara sempre a vida solitária de um filho único e a sua solidão no
vicariato não era maior do que quando a mãe vivia. tornou-se amigo de Mary Ann. Era
uma criaturinha rechonchuda de trinta e cinco anos, filha de um pescador, e viera para
o vicariato aos dezoito; fora o seu primeiro emprego e não fazia tenções de o deixar;
mas mantinha a possibilidade de casamento como uma espada sobre as cabeças do
patrão e da patroa. O pai e a mãe viviam numa casita de Harbour Street e ia visitá-los
nas tardes de folga. As suas histórias do mar tocavam a imaginação de Philip e as
estreitas ruelas do porto foram enriquecidas com as imaginações que a sua infantil
fantasia lhes emprestava. Uma tarde perguntou se poderia ir a casa com ela; mas a tia
receou que apanhasse alguma doença, e o tio declarou que as más companhias
corrompem as boas maneiras. Não gostava da gente do mar porque eram rudes,
grosseiros e iam à capela. Philip, contudo, sentia-se mais à vontade na cozinha do que
na sala de jantar, e sempre que possível, pegava nos bonecos e ia para lá. A tia não se
importava. Detestava o desarrumo e embora reconhecesse que das crianças só se deve
esperar desordem preferia que esta fosse desarrumar para a cozinha. Se ele estava
irrequieto, o tio impacientava-se e dizia que era mais que tempo de ele ir para a escola.
Mrs. Carey achava Philip muito novo, e o seu coração enternecia-se pela criança sem
mãe; todavia as suas tentativas para lhe conquistar a afeição eram desastradas e o
pequeno, intimidado, recebia essas demonstrações com um tal mau humor que ela
ficava mortificada. às vezes ela ouvia a sua voz aguda em risadas na cozinha, mas
quando entrava logo ele ficava silencioso e corava envergonhado quando Mary Ann
explicava a brincadeira. Mrs. Carey não achava graça nenhuma ao que ouvia e sorria
constrangida.
- Ele parece dar-se melhor com Mary Ann do que connosco, William - dizia, ao
pegar de novo na costura.
- Vê-se logo que foi pessimamente educado. É preciso metê-lo na ordem.
No segundo domingo após a chegada de Philip ocorreu um desagradável
incidente. Mr. Carey retirara-se como de costume depois do jantar para uma sestazinha
na sala de visitas, mas encontrava-se num tal estado de irritação que não conseguiu
dormir.
Josiah Graves naquela manhã fizera grandes objecções aos candelabros com que
o vigário enfeitara o altar. Comprara-os em segunda-mão em Tercambury, e achava
que tinham um bom aspecto. Todavia Josiah Graves declarara que eram papistas. Esta
insinuação enfurecia sempre o vigário. Estivera em Oxford quando do movimento que
culminou na separação de Edward Manning da Igreja oficial e sentia certa simpatia
pela Igreja de Roma. Por sua vontade faria o serviço divino mais ornamentado do que
habitualmente na paróquia de Blackstable, e no íntimo suspirava por procissões e velas
acesas. Ficara-se pelo incenso. Detestava a palavra protestante. Dizia-se católico.
Costumava dizer que os papistas necessitavam de um epíteto, eram Católicos
Romanos, mas a Igreja Anglicana era católica no melhor, no mais amplo e no mais
nobre sentido da palavra. Agradava-lhe pensar que o seu rosto escanhoado lhe dava o
aspecto de um padre, e na mocidade possuíra um ar ascético que aumentava essa
impressão. Contava muitas vezes que numa das férias em Bolonha, uma daquelas
férias em que a mulher por economia o não acompanhara, o curé, quando ele estava
sentado na igreja se aproximara dele e o convidara a pregar um sermão. Quando os
seus coadjutores se casavam, despedia-os, pois tinha opinião assente sobre o celibato
do clero inferior. Mas, quando, numa eleição, os liberais lhe tinham escrito na cerca do
jardim em grandes letras azuis: «Este é o caminho para Roma», ficara enfurecido e
ameaçara processar os chefes do partido liberal de Blackstable. Decidira então que
nada do que Josiah Graves dissesse o levaria a tirar os candelabros do altar e
resmungou «Bismarck» uma ou duas vezes irritadamente.
De repente ouviu um ruído inesperado. Puxou o lenço da cara, saltou do sofá em
que estava recostado e foi à sala de jantar. Philip estava sentado à mesa com os cabos à
volta. Construíra um formidável castelo mas qualquer defeito nos alicerces acabara de
fazer ruir o edifício com estrépito.
- Que estás a fazer com esses cubos, Philip? Sabes bem que não tens licença de
brincar ao domingo.
Philip olhou-o um momento com olhos assustados e, como de costume, corou
profundamente.
- Em casa costumava brincar sempre - respondeu.
- Tenho a certeza de que a tua mãe nunca permitiu fazer uma coisa tão
condenável como esta.
Philip não sabia que era condenável; mas se fosse, não queria que se supusesse
que a mãe consentira em tal. Baixou a cabeça e não respondeu.
- Então não sabes que é um grande pecado brincar ao domingo? Por que supões
então que se lhe chama o dia de repouso? Vais à igreja esta noite e como podes olhar de
frente para o teu Criador se violaste uma das Suas Leis durante a tarde ? - Mr. Carey
ordenou-lhe que retirasse os cubos imediatamente e ficou a olhar para ele enquanto
Philip o fazia.
- És um menino muito traquina - continuou. Pensa no desgosto que estás a causar
à tua pobre mãe, no Céu.
Philip sentia vontade de chorar mas tinha uma aversão instintiva a patentear as
lágrimas aos outros e cerrou os dentes para evitar que os soluços escapassem. Mr.
Carey sentou-se na cadeira de braços e começou a folhear as páginas de um livro.
Philip ficou junto da janela. O vicariato ficava afastado da estrada de Tercambury e da
sala de jantar via-se uma nesga semicircular de relva e, para lá, campos verdes até ao
horizonte. Neles pastavam carneiros. O céu estava triste e cinzento. Philip sentia-se
extremamente infeliz.
Mary Ann entrou então para servir o chá e a tia Louise desceu as escadas.
- Fizeste uma boa sestazinha, William? - perguntou.
- Não - respondeu. - Philip fez tanto barulho que não pude dormir um segundo.
Não era inteiramente verdade porque ele ficara acordado por causa dos próprios
pensamentos; e Philip, prestando atenção de mau humor, cogitou que só fizera barulho
uma vez, e que não havia razão para que o tio não tivesse dormido antes ou depois.
Quando Mrs. Carey pediu que lhos explicassem o vigário narrou os factos.
- Nem sequer disse que estava arrependido - concluiu.
- Oh, Philip, tenho a certeza de que estás arrependido - disse Mrs. Carey ansiosa
de que o pequeno não parecesse ao tio mais culpado do que era preciso.
Philip não respondeu. Continuou a mastigar o pão com manteiga. Não sabia que
força o impedia de fazer uma expressão de desgosto. Sentia os ouvidos zumbirem,
estava quase a chorar, mas nem palavra lhe escapava dos lábios.
- Não precisas agravar as coisas com o ar carrancudo! - exclamou Mr. Carey.
O chá terminou em silêncio. De vez em quando, Mrs. Carey olhava subrepticiamente
para Philip, mas o vigário fingia ignorá-lo. Quando Philip viu O tio subir as
escadas e preparar-se para ir para a igreja foi ao vestíbulo e pegou no chapéu e no
casaco, mas o vigário, quando desceu e o viu disse:
- Não quero que vás à igreja esta noite, Philip. Acho que não estás em estado de
espírito apropriado para entrar na Casa de Deus.
Philip não disse uma palavra. Sentiu que lhe caía em cima uma profunda
humilhação e as suas faces coraram.
Permaneceu silenciosamente observando o tio a pôr o chapéu de abas largas e o
enorme capote. Mrs. Carey, como de costume, foi à porta vê-lo sair. Depois voltou-se
para Philip.
- Não faz mal, Philip, no próximo domingo não vais ser um menino mau, não é
verdade?, e o teu tio levar-te-á com ele à noite à igreja.
Tirou-lhe o chapéu e o casaco e levou-o para a sala de jantar.
- Vamos ler os dois o ofício, Philip, e cantaremos os hinos ao harmónio. Agradate?
Philip abanou a cabeça resolutamente. Mrs. Carey ficou desconcertada. Se ele não
quisesse ler o ofício da noite com ela não sabia que fazer-lhe.
- Que queres fazer, então, até o teu tio regressar? - indagou desanimada.
Philip quebrou finalmente o silêncio:
- Quero que me deixe em paz! - exclamou.
- Philip, como podes dizer tal grosseria? Não vês que o teu tio e eu só queremos o
teu bem? Não gostas de mim?
- Odeio-a. Tomara que morresse.
Mrs. Carey perdeu a respiração. Ele dissera as palavras tão furiosamente que teve
um autêntico sobressalto. Não sabia que dizer. Sentou-se na cadeira do marido; e,
enquanto pensava no desejo de amar a aleijada e solitária criança e na ansiosa vontade
de que ela a amasse - era uma mulher estéril, mas, embora fosse claro que Deus não
quisera dar-lhe filhos, mal podia por vezes suportar olhar para as criancinhas, tanta
pena lhe faziam - as lágrimas brotaram-lhe dos olhos e uma a uma, vagarosamente
rolaram-lhe pela face. Philip contemplava-a atónito. Ela puxou do lenço e agora
chorava incontidamente. Subitamente Philip concluiu que ela chorava pelo que ele
dissera e teve pena. Inclinou-se para ela silenciosamente e beijou-a. Era o primeiro beijo
que lhe dava sem ser solicitado. E a pobre senhora, tão pequena no seu cetim preto,
amarelenta e enrugada, com os seus caricatos caracóis, pegou no pequeno ao colo,
envolveu-o nos braços e chorou como se o coração se lhe fosse partir. Todavia as suas
lágrimas eram em parte lágrimas de felicidade pois sentia que a estranheza entre os
dois desaparecera. Amou-o então, com um novo amor, porque ele a fizera sofrer.
IX
No domingo seguinte, quando o vigário fazia os preparativos para a sua sesta na
sala de visitas - todos os actos da sua vida eram realizados como um ritual - e Mrs.
Carey se dispunha a subir as escadas, Philip perguntou:
- Que devo fazer, já que não tenho licença de brincar?
- Não podes estar sentado e calado um bocado?
- Não posso estar sentado até à hora do chá.
Mr. Carey olhou pela janela mas fazia frio e nevoeiro. Não pôde sugerir que
Philip fosse para o jardim.
- Já sei o que podes fazer. Vais decorar a oração para hoje.
Pegou no livro das orações que usavam para rezar, de cima do harmónio, e
folheou-o até encontrar o que queria.
- Não é muito comprida. Se souberes recitá-la sem erros, quando eu vier para o
chá dou-te o pedaço de cima do meu ovo.
Mrs. Carey empurrou a cadeira de Philip para a mesa de jantar - tinham-lhe já
comprado uma cadeira alta - e colocou-lhe o livro na frente.
- O diabo arranja trabalho para ocupar as mãos ociosas - sentenciou Mr. Carey.
Pôs mais carvão no lume para que estivesse um bom brasido quando voltasse
para o chá e dirigiu-se para a sala de visitas.
Desapertou a «volta», arranjou as almofadas e instalou-se confortavelmente no
sofá. Mas, achando a sala de visitas um pouco fria, Mrs. Carey trouxe-lhe do vestíbulo
um cobertor; pôs-lho em cima das pernas e envolveu-lhe os pés nele. Cerrou as cortinas
para que a luz lhe não ofendesse os olhos e, como ele já os fechara, saiu da sala nos
bicos dos pés. O vigário estava em paz consigo mesmo nesse dia e dentro de dez
minutos dormia. Ressonava suavemente.
Era o sexto domingo depois da Epifania e a oração começava com as palavras: «ó
Senhor, cujo Filho abençoado mostrou ao Mundo que tinha o poder de destruir as
obras do demónio e fazer de nós filhos de Deus e herdeiros da vida Eterna». Philip leua
do princípio ao fim. Não conseguiu perceber coisa alguma. Começou a dizer as
palavras em voz alta para si próprio, mas, muitas delas eram-lhe desconhecidas e a
construção das frases era esquisita. Não conseguiu meter na cabeça mais que duas
linhas. A sua atenção desviava-se constantemente: havia árvores de fruto junto das
paredes do vicariato e, de vez em quando, um galho comprido batia na vidraça; os
carneiros pastavam calmamente no campo para lá do jardim. Tinha a impressão de ter
nós dentro do cérebro. Então dominou o pânico de não ser capaz de saber as frases à
hora do chá, e murmurava-as sem cessar de enfiada; não tentava compreendê-las mas,
apenas, como se fosse um papagaio, gravá-las na memória.
Mrs. Carey não conseguiu dormir naquela tarde e por volta das quatro horas
estava tão desperta que desceu as escadas. Pensou que poderia ouvir Philip dizer a
oração para a não errar quando a recitasse ao tio. O tio ficaria satisfeito; veria que o
pequeno era bom, no fundo. Mas, quando Mrs. Carey se aproximou da sala de jantar e
ia entrar, ouviu um som que a fez parar bruscamente. O coração teve um baque. Voltou
para trás e silenciosamente deslizou pela porta da frente. Deu a volta e então,
cautelosamente, espreitou para dentro. Philip continuava sentado na cadeira em que o
pusera, mas com a cabeça apoiada nos braços, sobre a mesa, soluçava desesperadamente.
Via o movimento convulsivo dos seus ombros. Mrs. Carey ficou assustada. O
que sempre a surpreendera no pequeno era que ele parecesse tão senhor de si. Nunca o
vira chorar. Sabia agora que a calma dele era apenas instintiva vergonha de revelar os
seus sentimentos: escondia-se para chorar.
Sem se lembrar de que o marido não gostava de ser acordado de repente, entrou
a correr na sala de visitas.
- William, William - chamou. - O pequeno chora que é de estalar o coração.
Mr. Carey soergueu-se e desembaraçou as pernas do cobertor.
- Por que razão está a chorar?
- Não sei... Oh, William, não devemos permitir que o pequeno seja infeliz. Achas
que é por nossa causa? Se tivéssemos filhos saberíamos que fazer.
Mr. Carey olhou-a perplexo. Sentia-se extraordinariamente impotente.
- Não pode estar a chorar por lhe ter dado a oração para decorar. Não são mais
que dez linhas.
- Não achas que poderia dar-lhe alguns livros com gravuras para ver, William?
Temos alguns da Terra Santa. Não haveria mal algum nisso.
- Está bem, não vejo inconveniente.
Mrs. Carey foi ao escritório. Coleccionar livros era a única paixão de Mr. Carey e
não ia nunca a Tercambury que não passasse uma hora ou duas nos alfarrabistas;
regressava sempre com quatro ou cinco volumes bolorentos. Nunca os lia, pois perdera
havia muito o hábito de ler, todavia gostava de os folhear e de ver as ilustrações, se
eram ilustrados, e de consertar as encadernações. Gostava dos dias de chuva, pois
podia ficar em casa sem lhe pesar na consciência, e passar a tarde a remendar o couro
da Rússia de algum «quarto» maltratado, com clara de ovo e cola. Possuía muitos
volumes de antigas viagens com gravuras em aço e Mrs. Carey encontrou logo dois
que descreviam a Palestina. Tossiu propositadamente à entrada para que Philip tivesse
tempo de recompor-se; sentia que ele ficaria humilhado se se chegasse a ele a meio das
lágrimas. Em seguida manejou com barulho o puxador da porta. Quando entrou,
Philip fingia ler com atenção, ocultando os olhos com as mãos, para ela não poder ver
que estivera a chorar.
- Já sabes a oração? - perguntou ela.
Ele não respondeu logo e ela sentiu que não estava seguro da voz. Ficou
estranhamente embaraçada.
- Não consigo decorá-la - disse ele por fim, com um soluço.
- Está bem, não tem importância - disse ela. - Não te rales.
Trouxe uns livros de gravuras para veres. Vem sentar-te no meu colo e vê-losemos
juntos.
Philip desceu da cadeira e dirigiu-se para ela coxeando. Olhava para o chão de
modo que ela lhe não visse os olhos. Ela envolveu-o nos braços.
- Olha - disse ela - este foi o lugar onde nasceu Nosso Senhor.
Mostrava-lhe uma cidade oriental com terraços, cúpulas e minaretes. No
primeiro plano havia um grupo de palmeiras sob as quais repousavam dois árabes e
camelos. Philip passou a mão pela gravura como se quisesse apalpar as casas e as
soltas roupas dos nómadas.
- Leia o que aqui diz - pediu ele.
Mrs. Carey leu, com a sua voz firme, a página oposta. Era uma romântica
narrativa feita por algum viajante oriental de 1830, pomposa talvez, mas flagrante da
emoção com que o Oriente surgiu à geração que se seguiu a Byron e Chateaubriand.
Instantes depois Philip interrompeu-a.
- Quero ver outra figura.
Quando Mary Ann entrou e Mrs. Carey se levantou para a ajudar a pôr a mesa,
Philip pegou no livro e apressadamente percorreu as ilustrações. Foi com dificuldade
que a tia o convenceu a deixar o volume para tomar chá. Esquecera o horrível esforço
que fizera para decorar a oração; esquecera as lágrimas. No dia seguinte chovia e ele
perguntou pelo livro novamente. Mrs. Carey deu-lho toda contente. Falando com o
marido acerca do futuro do pequeno, verificou que ambos desejavam que ele tomasse
ordens, e o seu interesse pelo livro que descrevia os lugares santificados pela presença
de Jesus parecia um bom sinal. Parecia que o espírito do pequeno se inclinava
naturalmente para as coisas santas. Mas, daí a um ou dois dias ele pediu mais livros.
Mr. Carey levou-o ao escritório, mostrou-lhe a estante onde guardava os livros
ilustrados e escolheu-lhe um dedicado a Roma. Philip segurou-o com avidez. As
gravuras davam-lhe um novo divertimento. Começou a ler a página antes e a página
depois de cada gravura para saber do que se tratava, e em pouco tempo perdeu todo o
interesse pelos brinquedos.
Depois, quando não havia ninguém próximo, escolhia os livros sozinho; e talvez
porque a primeira impressão no seu espírito fora causada por uma cidade oriental,
sentia mais interesse naqueles que descreviam o Levante. O coração pulsava-lhe de
entusiasmo ante as gravuras de mesquitas e palácios deslumbrantes; contudo, havia
uma num livro sobre Constantinopla, que peculiarmente lhe excitou a imaginação.
Chamava-se a Sala das Mil Colunas. Era uma cisterna bizantina que a fantasia popular
dotara de fantásticas proporções; e a lenda que ele leu dizia que um barco se
encontrava sempre atracado à entrada, para tentar os incautos, mas nenhum viajante
que se aventurasse na escuridão tornava a ser visto. E Philip cismava se o barco
vogaria eternamente de nave em nave com colunas ou chegaria finalmente a alguma
estranha mansão.
Certo dia, a boa fortuna favoreceu-o pois descobriu a tradução de Lane das Mil e
Uma noites. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foram as ilustrações e para
começar leu as histórias de fundo mágico e depois as outras; e aquelas de que gostava
lia e relia. Não pensava em mais nada. Esquecia a vida que o cercava. Era preciso
chamá-lo duas ou três vezes para que fosse jantar. Insensivelmente contraíra o mais
delicioso hábito do mundo, o hábito da leitura: ignorava que construíra assim um
refúgio para as amarguras da vida; ignorava também que estava criando um mundo
irreal que transformaria o mundo real quotidiano numa fonte de cruéis decepções.
Dentro em pouco começou a ler outras coisas. Tinha o cérebro precoce. O tio e a tia,
vendo que ele se entretinha e lhes não causava aborrecimentos nem fazia barulho,
deixaram de se preocupar com ele. Mr. Carey possuía tantos livros que os não conhecia
bem e como lia pouco esquecera-se daqueles tantos que comprara uma vez por outra
por serem baratos. Ao acaso, entre sermões e homilias, as viagens, as vidas dos Santos,
dos Padres da Igreja, as histórias da Igreja, estavam novelas antiquadas; e Philip
acabou por descobri-las. Escolheu-as pelos títulos e a primeira que leu foi, As bruxas de
Lancashire e depois leu O admirável Chrichton e muitas mais. Sempre que começava um
livro com dois viajantes solitários cavalgando à beira de uma perigosa ravina, sentia-se
seguro.
Chegara o Verão, e o jardineiro, um velho marujo, fez-lhe uma rede e
dependurou-a nos ramos de um chorão. Ali passava horas esquecidas, alheio a quem
quer que pudesse vir ao vicariato, lendo, lendo apaixonadamente.
Passou Julho; veio Agosto: aos domingos a igreja enchia-se de forasteiros e a
colecta, ao ofertório, elevava-se muitas vezes a duas libras. Nem o vigário nem Mrs.
Carey costumavam sair do jardim durante este período; aborrecia-os ver caras novas e
olhavam com aversão para os visitantes de Londres. A casa fronteira foi alugada por
seis semanas por um senhor que tinha dois rapazinhos, e ele mandou perguntar se
Philip gostaria de ir brincar com eles; mas Mrs. Carey apresentou uma delicada recusa.
Receava que Philip se corrompesse junto de meninos de Londres. Ia ser clérigo e era
necessário evitar que se contaminasse. Acostumara-se a ver nele um pequeno Samuel.
X
Os Carey resolveram mandar Philip para o colégio de Tercambury. O clero das
cercanias mandava para lá os filhos. Achava-se ligada à Catedral por longa tradição: o
director era um cónego honorário e um director precedente era arcediago. Os alunos
eram ali encorajados a desejar ordens sacras e a educação visava a preparar os rapazes
honestos para se devotarem ao serviço de Deus. Anexa, havia uma escola preparatória
e para ela se combinou que Philip iria. Mr. Carey conduziu-o a Tercambury uma tarde
de quinta-feira pelos fins de Setembro. Todo o dia Philip estivera excitado e um pouco
amedrontado. Pouco conhecia da vida escolar a não ser o que lera nas histórias de The
boys Own Paper. Lera também Eric, ou Pouco a Pouco.
Ao descerem do comboio em Tercambury Philip sentia-se mortalmente apreensivo
e durante o trajecto para a cidade permaneceu silencioso e pálido. O alto muro de
tijolos na frente da escola dava-lhe o aspecto de uma prisão. havia nele uma pequena
porta que se abriu ao tocarem a campainha; um homem pesadão e desalinhado veio
buscar o baú e a caixa de brinquedos de Philip. Penetraram na sala de visitas; estava
arranjada com móveis maciços e feios e as cadeiras achavam-se colocadas ao longo das
paredes com uma severa rigidez. Esperaram pelo director.
- Como é Mr. Watson? - perguntou Philip daí pouco.
- Tu próprio verás.
Houve outra pausa. Mr. Carey cismava porque não vinha o director. Philip fez
um esforço e falou de novo.
- Diga-lhe que tenho um pé boto - pediu.
Antes que Mr. Carey pudesse falar a porta abriu-se de repente e Mr. Watson
entrou na sala. Philip achou-o gigantesco. Era um homem com seis pés de altura, largo,
com mãos enormes e uma grande barba vermelha; falava alto e com modos joviais; mas
a sua alegria agressiva encheu de terror o coração de Philip. Apertou a mão de Mr.
Carey e depois agarrou nas suas a mãozinha de Philip.
- Então, jovem amigo, estás contente por vires para a escola?
Philip corou e não encontrou resposta adequada.
- Quantos anos tens?
- Nove - respondeu Philip.
- Deves dizer senhor - observou o tio.
- Julgo que terás muito que aprender - exclamou o director alegremente.
Para pôr o pequeno à vontade começou a fazer-lhe cócegas com os dedos
ásperos. Philip contrafeito e envergonhado esquivava-se ao contacto.
- Para já vou pô-lo no dormitório pequeno... Preferirás, não é verdade? - indagou
de Philip. - Estão lá só oito. Não estranharás tanto.
Nessa altura a porta abriu-se e Mrs. Watson entrou. Era uma mulher morena, de
cabelos negros cuidadosamente repartidos ao meio. Possuía lábios estranhamente
grossos e um nariz pequeno e arredondado. Os olhos eram grandes e negros. Havia
uma singular frieza na sua fisionomia. Falava muito pouco e sorria ainda menos. O
marido apresentou-lhe Mr. Carey e em seguida impeliu para ela Philip afectuosamente.
- É um novo aluno, Helen. Chama-se Carey.
Sem uma palavra, ela apertou a mão de Philip e depois sentou-se, enquanto o
director perguntava a Mr. Carey o que Philip sabia e em que livros estudara. O vigário
de Blackstable sentia-se um pouco embaraçado com as expansões turbulentas de Mr.
Watson e pouco depois levantou-se.
- Creio que é melhor agora deixar-lhes Philip.
- Perfeitamente - respondeu Mr. Watson. - Está bem entregue. Vai progredir
como fogo em palheiro. Não é verdade meu rapaz ?
Sem esperar pela resposta de Philip o homenzarrão soltou ma gargalhada. Mr.
Carey beijou Philip na testa e retirou-se.
- Vamos, meu rapaz - trovejou Mr. Watson. - Vou mostrar-te a sala de aula (No
texto: schoolroom - sala que também servia de refeitório).
Deixou a sala de visitas a passos agigantados e Philip apressadamente coxeava
atrás dele. Entraram num comprido e despido salão com duas mesas que se estendiam
a todo o seu comprimento; de cada lado havia bancos de madeira.
- Ainda cá não está ninguém - disse Mr. Watson. - Vou mostrar-te o pátio de
recreio e em seguida deixo-te à vontade.
Mr. Watson ia na frente. Philip encontrou-se num grande pátio cercado de
grandes paredes de tijolo por três lados. No quarto lado havia uma grade de ferro que
deixava ver um extenso relvado e mais à frente alguns dos pavilhões da King’s School.
Um garotinho vagueava desconsoladamente dando pontapés ao cascalho
enquanto andava.
- Olá, Venning - exclamou Mr. Watson. - Quando voltaste? O garoto aproximouse
e apertou-lhe a mão.
- Aqui está um novo companheiro. E mais velho e maior do que tu, portanto não
o aborreças.
O director encarou amigavelmente as duas crianças aterrando-as com a
estridência da sua voz e em seguida afastou-se com uma risada.
- Como te chamas?
- Carey.
- O que é o teu pai?
- Morreu.
- Oh! E a tua mãe lava? Minha mãe também morreu.
Philip julgou que esta resposta causasse ao colega algum mal-estar, mas Venning
não se calava tão facilmente.
- Está bem, mas lavava antes disso, não?
- Sim - disse Philip indignadamente.
- Então era lavadeira ?
- Não, não era.
- Então não lavava.
O garoto gozava deliciado o êxito da sua dialéctica. Entretanto reparou nos pés
de Philip.
- Que tens no pé?
Philip instintivamente procurou escondê-lo. Colocou-o por trás do outro que era
são.
- Tenho um pé boto - respondeu.
- Como arranjaste isso?
- Sempre o tive assim.
- Deixa-me ver.
- Não.
- Como queiras.
O garoto acompanhou as palavras de um forte pontapé na canela de Philip que o
não esperava e portanto se não pôde defender. A dor foi tão grande que o fez sufocar,
mas maior que a dor foi a surpresa. Não sabia por que Venning lhe dera o pontapé.
Não teve suficiente presença de espírito para lhe dar um estalo na cara. Além disso o
outro era mais pequeno do que ele e lera no The Boys Own Paper que é feio bater nos
mais pequenos. Enquanto Philip esfregava a canela surgiu um terceiro garoto e o algoz
deixou-o em paz. Daí a pouco notou que estavam ambos falando a seu respeito e sentiu
que lhe olhavam para os pés. Ficou furioso e constrangido.
Entretanto chegaram outros, um magote de doze e depois mais, e começaram a
falar do que tinham feito nas férias, onde tinham estado, e que esplêndidas partidas de
cricket tinham jogado. Apareceram alguns alunos novos e em breve Philip viu-se a
falar com eles. Estava tímido e nervoso. Procurava ser agradável mas não conseguia
dizer nada. Fizeram-lhe inúmeras perguntas e respondeu-lhes de bom grado. Um
rapaz perguntou-lhe se sabia jogar o cricket.
- Não - respondeu Philip. - Tenho um pé boto.
O rapaz olhou para baixo rapidamente e corou. Philip viu que ele reconhecia ter
feito uma pergunta indiscreta. Estava demasiado envergonhado para pedir desculpa e
olhava embaraçadamente para Philip.
XI
Na manhã seguinte, quando o badalar de um sino o acordou, Philip olhou
espantado em volta do cubículo. Nessa altura uma voz soou, e lembrou-se de onde
estava.
- Estás acordado, Singer?
As divisórias do cubículo eram de pinho polido e tinham uma cortina verde na
entrada. Naquele tempo era pouco importante a ventilação e as janelas estavam
fechadas excepto de manhã quando o dormitório era arejado.
Philip levantou-se e ajoelhou para dizer as suas orações. Era uma manhã fria, e
tiritava um pouco, mas fora-lhe ensinado pelo tio que as orações seriam mais bem
recebidas por Deus se as dissesse em camisa de noite do que se esperasse por vestir-se.
Isso não o surpreendia, pois começava a compreender que fora criado por um Deus
que gostava de privar de comodidade aqueles que o adoravam. Depois lavou-se. Havia
duas banheiras para os cinquenta pensionistas e cada aluno tinha um banho por
semana. As lavagens diárias eram feitas numa bacia que, com a cama e a cadeira
constituía o mobiliário de cada compartimento. Os rapazes tagarelavam alegremente
enquanto se vestiam. Philip era todo ouvidos. Depois tocou outro sino e eles desceram
as escadas a correr. Tomaram os seus lugares nos bancos de cada lado das duas
compridas mesas do refeitório; e Mr. Watson, seguido da mulher e dos criados, entrou
e sentou-se. Mrs. Watson lia as orações de uma maneira impressionante e as súplicas
trovejavam em voz alta, como se fossem ameaças dirigidas pessoalmente a cada rapaz.
Philip ouvia, ansioso. Então, Mr. Watson leu um capítulo da Bíblia e os criados
retiraram-se. Logo em seguida o criado desalinhado apareceu com dois enormes bules
de chá e numa segunda volta trouxe grandes travessas de pão com manteiga.
Philip tinha fraco apetite e a camada de manteiga ordinária posta no pão
revolvia-lhe o estômago, mas viu outros rapazes raspá-la, e seguiu-lhes o exemplo.
Todos eles tinham carnes fumadas e coisas semelhantes trazidas nas caixas dos
brinquedos; e alguns tinham como extraordinário ovos ou presunto dos quais Mr.
Watson tirava lucro. Quando ele perguntara a Mr. Carey se Philip poderia tê-los, Mr.
Carey replicara que não achava que os rapazes devessem ser amimados. Mr. Watson
concordou plenamente com ele - considerava que não havia nada melhor do que pão
com manteiga para rapazes em crescimento - mas alguns pais, indevidamente,
alimentando a prole, insistiam nisso.
Philip notou que os «extraordinários» conferiam certa consideração e resolveu
pedi-los quando escrevesse à tia Louise.
Depois do pequeno almoço, saíram para o parque de recreio. Os alunos externos
iam chegando pouco a pouco. Eram filhos do clero local, dos oficiais da guarnição e
dos industriais ou homens de negócio da velha cidade. Pouco depois, tocou uma sineta
e todos correram para dentro da escola. Esta consistia numa grande e comprida sala em
cujos extremos dois professores davam aulas à segunda e terceira classes, e de outra
mais pequena, ligada àquela, de que se servia Mr. Watson, que ensinava a primeira
classe. Para ligar a classe preparatória à primária, estas três classes eram reconhecidas
oficialmente, quer na linguagem corrente quer nos relatórios, por segunda superior,
média e inferior. Philip foi inscrito na última. O professor, um homem de rosto
avermelhado e voz agradável, chamava-se Rice; tinha bom modo para os rapazes e o
tempo passava rapidamente. Philip ficou surpreendido quando faltava um quarto para
as onze e foram levados para fora durante dez minutos de intervalo.
Toda a escola se precipitou ruidosamente para o pátio de recreio. Os novos
alunos reuniram-se no centro enquanto os outros se colocavam ao longo dos muros
opostos. Começaram a jogar o «apanhar o porquinho». Os veteranos corriam de uma
parede para a outra enquanto os novatos procuravam fugir-lhes: quando um era
agarrado e pronunciadas as palavras sacramentais - «um, dois, três e um porquinho
para mim» - tornava-se prisioneiro e por seu lado ajudava a agarrar os que estavam
ainda livres. Philip viu um rapaz passar correndo e tentou agarrá-lo mas o coxear não o
ajudou; e os corredores, aproveitando a oportunidade dirigiram-se para o lugar onde
ele estava. Um deles teve então a brilhante ideia de imitar a corrida desajeitada de
Philip. Os outros rapazes viram e começaram a rir; logo após, todos eles arremedaram
o primeiro; e rodearam Philip, coxeando grotescamente e dando estridentes
gargalhadas com as suas vozes agudas. Perderam a cabeça no prazer do novo
divertimento e sufocavam de alegria irreprimível. Um deles passou uma rasteira a
Philip que caiu pesadamente como sempre caía e feriu um joelho. As gargalhadas
recrudesceram quando ele se levantou. Um rapaz empurrou-o pelas costas e ele teria
caído novamente se um outro o não tivesse segurado. O jogo fora esquecido com a
divertida deformidade de Philip. Um deles inventou um coxear esquisito e
bamboleante que batia o outro por sumamente ridículo e alguns rapazes atiraram-se ao
chão e rebolaram de riso: Philip estava completamente aterrado. Não conseguira
compreender por que se riam dele. O coração batia-lhe tanto, que mal podia respirar e
estava assustado como nunca na vida. Ficou de pé, estupidificado enquanto os rapazes
lhe corriam à volta imitando-o e rindo; gritavam-lhe que os apanhasse mas ele hão se
moveu. Não queria que o vissem correr outra vez. Empregava todas as forças para não
chorar.
Subitamente a sineta soou e todos correram para as aulas. O joelho sangrava e
Philip estava sujo e desgadelhado. Durante alguns minutos Mr. Rice não pôde dominar
a classe. Estavam ainda excitados com a estranha novidade e Philip viu um ou dois
colegas olhando-lhe furtivamente para os pés. Escondeu-os debaixo do banco.
À tarde iam jogar o futebol mas Mr. Watson deteve Philip quando saía depois da
refeição.
- Creio que não podes jogar o futebol, Carey? - Perguntou.
Philip corou acanhado.
- Não, senhor.
- Muito bem. É melhor ires para o campo. Podes caminhar até lá, não podes ?
Philip não fazia ideia onde era o campo mas apesar disso respondeu:
- Posso, sim senhor.
Os rapazes passavam sob a vigilância de Mr. Rice que relanceando um olhar a
Philip e, vendo que não mudara de roupa, perguntou por que não ia jogar.
- Mr. Watson disse que eu não precisava de ir - respondeu Philip.
- Porquê?
Havia rapazes a toda a volta dele olhando-o com curiosidade e uma sensação de
vergonha dominou Philip. Baixou os olhos sem responder. Outros deram a explicação.
- Tem um pé boto.
- Oh! é verdade.
Mr. Rice era bastante novo; licenciara-se havia apenas um ano e sentiu-se
subitamente embaraçado. O seu instinto foi pedir desculpa ao pequeno mas sentia-se
demasiado tímido para tal. Elevou asperamente a voz:
- Então, meninos, por que esperam? Desandem.
Alguns deles já tinham retomado a marcha c os que tinham ficado para trás
puseram-se a caminho, em grupos de dois ou três.
- É melhor vires comigo, Carey - disse o professor - Não sabes o caminho, pois
não?
Philip percebeu a atenção e subiu-lhe à garganta um soluço.
- Não posso ir muito depressa.
- Então irei mais devagar - disse o professor com um sorriso.
Philip afeiçoou-se logo àquele rapaz vulgar, de rosto vermelho, que tivera uma
palavra gentil para ele. Sentiu-se subitamente menos infeliz.
À noite, porém, quando se despiam para se deitarem, o rapaz chamado Singer
saiu do seu compartimento e espreitou para o de Philip.
- Carey, deixa ver o teu pé - disse.
- Não - respondeu Philip.
E meteu-se rapidamente na cama.
- Não me digas que não - tornou Singer. - Anda cá, Mason.
O rapaz do compartimento do lado espreitava pela fresta e, a estas palavras,
entrou. Dirigiram-se a Philip e procuraram arrancar-lhe de cima a roupa da cama mas
este segurava-a firmemente.
- Por que não me deixam em paz? - gritou ele.
Singer agarrou uma escova e com as costas dela bateu nas mãos de Philip
enclavinhadas no cobertor. Philip gritou.
- Por que não nos mostras o teu pé, hem?
- Porque não quero.
Desesperado Philip cerrou o punho e esmurrou o rapaz que o atormentava, mas
estava em inferioridade e o rapaz agarrou-lhe o braço. Começou a torcê-lo.
- Não faças, não faças isso - pediu Philip. - Partes-me o braço.
- Então põe-te quieto e mostra-me o pé.
Philip soltou um suspiro e soluçou. O rapaz deu outra torcedura ao braço. A dor
era insuportável.
- Está bem. Mostrarei - exclamou Philip.
Pôs o pé de fora. Singer conservava a mão no pulso de Philip. Examinou
curiosamente a deformidade.
- Não é medonho? - observou Mason.
Um outro entrou e olhou também.
- Uh! - exclamou com asco.
- Palavra que é esquisito - exclamou Singer fazendo uma careta - é duro?
Tocou-lhe com a ponta do dedo, cautelosamente, como se fosse algo com vida
própria. De repente ouviram o andar pesado de Mr. Watson, nas escadas. Atiraram as
roupas para cima de Philip e correram para os respectivos compartimentos como
coelhos. Mr. Watson entrou no dormitório. Erguendo-se na ponta dos pés podia ver
por cima da travessa que segurava o cortinado verde e olhou para dentro de duas ou
três divisórias. Os pequenos estavam metidos na cama. Apagou as luzes e saiu.
Singer chamou por Philip, mas este não respondeu. Cravara os dentes na
travesseira para que não ouvissem o seu soluçar. Não chorava pela dor que lhe tinham
causado nem pela humilhação que sofrera quando lhe examinaram o pé, mas de raiva
para consigo porque, incapaz de suportar a tortura, tirara o pé para fora de moto
próprio.
E sentiu então a miséria da sua vida. Pareceu ao seu espírito infantil que aquele
infortúnio não mais teria fim. Sem nenhuma razão especial recordou aquela manhã fria
em que Ema o tirara da cama e o pusera junto da mãe. Não pensara mais nisso desde
que tal acontecera, mas agora parecia-lhe sentir o calor do corpo da mãe contra o seu e
os braços dela envolvendo-o. De súbito, pareceu-lhe que a sua vida, a morte da mãe, a
vida no vicariato e aqueles dois terríveis dias na escola, eram um sonho e que acordaria
de manhã e estaria outra vez em casa. As lágrimas iam secando enquanto pensava
nisto. Sentia-se tão infeliz que só podia ser um sonho, que a mãe estava viva e que Ema
subiria daí a pouco para ir deitar-se. Adormeceu.
Mas, quando na manhã seguinte acordou, foi ao toque da sineta; e a primeira
coisa que os seus olhos viram foi a cortina verde do seu compartimento.
XII
Com o tempo a deformidade de Philip deixou de interessar. Aceitavam-na como
aos cabelos vermelhos de um ou à exagerada corpulência de outro. Mas, entretanto, ele
tornara-se horrivelmente sensível. Não corria nunca, se lhe era possível, porque sabia
que isso tornava o coxear mais evidente, e adoptou um andar especial. Quando estava
de pé permanecia tanto quanto podia com o pé boto por trás do outro para que não
atraísse as atenções e estava sempre alerta a qualquer referência. Como não podia
tomar parte nos jogos dos outros rapazes, a vida deles era-lhe estranha; só se
interessava pelo que faziam, à distância; parecia-lhe existir uma barreira entre si e eles.
Por vezes parecia que o julgavam culpado de não jogar o futebol, e era incapaz de os
fazer compreender. Vivia, em geral, isolado. Fora inclinado à loquacidade mas, pouco a
pouco, tornou-se silencioso. Começou a meditar na diferença entre ele e os outros.
Singer, o rapaz mais robusto do dormitório, antipatizava com ele, e Philip, pouco
desenvolvido para a idade, teve de aguentar uma série de maus tratos. Por meados do
período surgiu na escola a mania de um jogo chamado nibs. Era um jogo de dois,
jogado numa mesa ou num banco com aparos de aço. Empurrava-se o aparo com a
unha até lhe colocar a ponta sobre o do adversário, enquanto este manobrava para o
evitar e para, por sua vez, fazer o mesmo; quando o objectivo era atingido aquecia-se
com o bafo a polpa do polegar, comprimia-se este sobre os dois aparos e, se se
conseguia levantá-los sem os deixar cair, ambos se tornavam propriedade do vencedor.
Dentro em pouco só se viam rapazes jogando este jogo e os mais hábeis acumulavam
grande quantidade de aparos. Porém, logo em seguida, Mr. Watson cismou que o jogo
tinha aspecto de profissionalismo, proibiu-o e confiscou todos os aparos em poder dos
rapazes. Philip adquirira grande destreza e foi com pesar que entregou os seus troféus;
porém os dedos apelavam-lhe ainda para o jogo e poucos dias depois, no caminho para
o campo de futebol, entrou numa loja e comprou um penny de aparos «J». Levava-os
soltos no bolso e comprazia-se em apalpá-los. Pouco depois, Singer descobriu que ele
os tinha. Singer entregara também os seus aparos mas escondera um muito grande,
chamado jumbo que era quase invencível e não pôde resistir à oportunidade de
conquistar os «J» de Philip. Embora Philip reconhecesse que estava em desvantagem
com os seus aparos, um sentido de aventura levou-o a correr o risco; por outro lado,
sabia que Singer não lhe admitiria recusa. Havia uma semana que não jogava e sentouse
para o jogo com um frémito de excitação. Perdeu logo dois dos seus aparozitos e
Singer rejubilava, mas à terceira vez, por sorte, jumbo fugiu para o lado e Philip
conseguiu agarrá-lo com o seu «J». Exultou com o triunfo. Nesse instante Mr. Watson
entrou.
- Que estão a fazer? - perguntou.
Olhou de Singer para Philip, mas nenhum respondeu.
- Não sabem que eu proibira que jogassem esse jogo idiota?
O coração de Philip batia desordenadamente. Sabia o que ia acontecer e estava
terrivelmente amedrontado, mas no seu temor havia certo regozijo. Nunca fora
vergastado. Com certeza doeria mas teria de que se gabar mais tarde.
- Venham ao meu gabinete.
O director deu meia volta e eles seguiram-no lado a lado. Singer cochichou para
Philip:
- Desta não escapamos.
Mr. Watson apontou para Singer.
- Inclina-te - ordenou.
Philip, muito branco, via o rapaz tremer a cada pancada e depois da terceira
ouviu-o gritar. Seguiram-se mais três.
- Isto chega. Levanta-te.
Singer ergueu-se. As lágrimas rolavam-lhe pela cara abaixo. Philip aproximou-se.
Mr. Watson olhou-o por momentos.
- Não te darei de chibata. És aluno novo. E não posso bater num aleijado. Vão-se
embora, ambos, e não tornem a ser desobedientes.
Quando voltaram à sala de aula, um grupo de rapazes que tinham sabido
misteriosamente o que acontecera, esperava por eles. Rodearam Singer, à uma, com
perguntas ansiosas. Singer encarou-os com o rosto vermelho de dor e os sulcos das
lágrimas ainda na face. Fez sinal com a cabeça para Philip que parara um pouco atrás
dele.
- Ele escapou porque é aleijado - disse enraivecido.
Philip permaneceu mudo e ruborizado. Notou que o olhavam com desprezo.
- Quantas levaste? - perguntou um rapaz a Singer.
Mas ele não respondeu. Estava furioso porque fora castigado.
- Não me peças para jogar o nibs contigo outra vez - disse a Philip. - É muito bom
para ti. Nada arriscas.
- Eu não te pedi.
- Não pediste?
Rapidamente estendeu o pé e fez Philip tropeçar. Philip tinha sempre pouca
firmeza nas pernas e caiu pesadamente no chão.
- Aleijado! - exclamou Singer.
Durante o resto do período atormentou Philip cruelmente, e ainda que Philip
procurasse furtar-se-lhe ao caminho, a escola era tão pequena que lhe era impossível;
procurou ser amigável e atencioso com ele; rebaixou-se a ponto de lhe comprar um
canivete; mas, embora Singer aceitasse o canivete, não ficou aplacado. Uma ou duas
vezes, perdendo a paciência, socou e deu pontapés no corpulento colega, mas Singer
era tão forte quanto Philip era fraco e obrigava-o sempre depois de maior ou menor
tortura a pedir-lhe perdão. Era isso que amargurava Philip: não podia suportar a
humilhação das desculpas, arrancadas à custa de dores que não conseguia aguentar. E
o pior era que a sua infelicidade parecia não ter fim; Singer tinha só onze anos e não
iria para a escola secundária senão aos treze. Philip verificou que teria de viver dois
anos com um algoz a que não podia escapar. Só era feliz enquanto estudava e quando
ia para a cama. E, então, muitas vezes lhe ocorria aquela estranha sensação de que a
sua vida, com todos os dissabores, não passava de um sonho e que acordaria de manhã
na sua caminha, em Londres.
XIII
Dois anos passaram e Philip ia fazer os doze. Estava na primeira classe nos dois
ou três primeiros lagares, e depois do Natal, quando alguns alunos passassem para a
escola média, seria o melhor aluno. Possuía já grande colecção de prémios, livros sem
valor impressos em papel ordinário, mas de vistosas encadernações decoradas com o
distintivo da escola: a sua posição livrara-o da intimidação e já não era infeliz. Os
companheiros perdoavam-lhe o êxito, devido à sua deformidade.
- No fim de contas, é facílimo para ele ganhar prémios - diziam - não pode fazer
mais nada senão estudar.
Perdera o terror inicial de Mr. Watson. Habituara-se àquela voz de trovão e
quando a pesada mão do director lhe caía nos ombros, Philip vislumbrava vagamente
a intenção de uma carícia. Possuía boa memória, que é mais útil nas realizações
escolares do que a inteligência e sabia que Mr. Watson esperava que ele acabasse a
escola preparatória com uma bolsa de estudo.
Todavia tornara-se muito tímido. O recém-nascido não concebe que o seu corpo é
mais parte de si próprio do que os objectos que o rodeiam, e brinca com os dedos dos
pés sem a mínima noção de que lhe pertencem mais do que a sua roca; e é só pouco a
pouco, através da dor, que compreende a realidade do corpo. São necessárias
experiências idênticas para que o indivíduo se torne consciente de si próprio; contudo
há uma diferença: enquanto todos igualmente adquirem consciência do corpo como
um organismo completo e separado, nem todos adquirem igualmente a consciência de
si próprios como uma personalidade completa e separada. O sentimento de
diferenciação dos outros surge para a maioria com a puberdade mas não se desenvolve
sempre a um grau tal que torne perceptível ao indivíduo a diferença entre o indivíduo
e o seu próximo. São estes, os tão pouco conscientes de si próprios como as abelhas
numa colmeia, os afortunados na vida, pois têm os melhores ensejos de felicidade: as
suas actividades são partilhadas por todos e os seus prazeres só são prazeres porque
fruídos em comum; vêmo-los dançar na segunda-feira de Pentecostes em Hampstead
Heath, aplaudir numa partida de futebol ou assistir a um desfile real das janelas de um
clube de Pall Mall. Por sua causa tem o homem sido considerado um animal sociável.
Philip passou da inocência infantil à amarga consciência de si próprio, através do
ridículo que o seu pé boto provocara. As circunstâncias do seu caso eram tão especiais
que não podia aplicar-lhes as regras estabelecidas válidas para casos vulgares e viu-se
obrigado a pensar por si mesmo. Os inúmeros livros que lera encheram-lhe o espírito
de ideias, as quais, porque só em parte as entendia, alargaram o âmbito da sua
imaginação. Por detrás daquele retraimento doloroso, algo tomara vulto dentro de si, e
obscuramente descobria a sua personalidade. Contudo, às vezes tinha desconcertantes
surpresas; fazia coisas não sabia porquê, e mais tarde, quando reflectia sobre elas via-se
perdido no mar.
Havia um rapaz chamado Luard de quem Philip se tornara amigo e um dia,
quando brincavam na aula, Luard pôs-se a executar proezas com a caneta de ébano de
Philip.
- Não te faças parvo - disse Philip. - Vais parti-la.
- Não!
Mas, palavras não eram ditas, a caneta partiu-se em duas. Luard olhou para
Philip com consternação.
- Oh! Desculpa, sinto muito.
As lágrimas rolaram pela cara de Philip mas não respondeu.
- Que tens? - disse Luard com surpresa. - Arranjar-te-ei outra exactamente igual.
- Não é a caneta que lamento - disse Philip com voz trémula - é que me fora dada
pela minha mãe, pouco antes de morrer.
- Estou tristíssimo, Carey.
- Não tens de quê. A culpa não foi tua.
Philip apanhou os dois pedaços da caneta e examinou-os. Procurou conter os
soluços. Sentia-se extremamente infeliz. E, todavia, não saberia dizer porquê, pois sabia
muito bem que comprara a caneta em Blackstable nas últimas férias por um ou dois
pence. Não sabia, afinal, por que inventara aquela história patética, mas ela fizera-o tão
infeliz como se fosse verdadeira. A atmosfera piedosa do vicariato e o ambiente
religioso da escola tornavam a consciência de Philip muito sensível; sem se aperceber,
absorvera a crença de que o demónio estava constantemente à espreita para se
apoderar da sua alma imortal; e embora não fosse mais verdadeiro do que a maioria
dos rapazes, não mentia nunca, que não sentisse remorsos. Ao reflectir no incidente
sentiu-se desolado e decidiu que deveria ir ter com Luard e dizer-lhe que a história fora
inventada. Embora tivesse horror às humilhações mais do que a qualquer outra coisa
no mundo, embalou-se dois ou três dias na ideia do prazer doloroso de se humilhar
pela glória de Deus. Mas nunca passou disto. Satisfez a consciência pelo método mais
cómodo de expressar o arrependimento apenas ao Todo Poderoso. Contudo, não podia
compreender por que fora tão profundamente tocado pela história que inventara. As
lágrimas que lhe haviam corrido pelas faces lustrosas tinham sido lágrimas verdadeiras.
Por associação de ideias ocorreu-lhe então a cena em que Ema lhe comunicara a
morte da mãe, e, embora as lágrimas não o deixassem falar, insistira em se despedir
das Misses Watkin para que vissem a sua dor e o lamentassem.
XIV
Uma onda de religiosidade varreu, então, a escola. Não mais se ouviram termos
baixos e as simples inconveniências dos pequenos eram olhadas com hostilidade; os
maiores como os «lordes seculares» da Idade Média serviam-se da força dos seus
braços para persuadir os mais fracos a seguirem o caminho da virtude.
Philip, cujo espírito inquieto era ávido de coisas novas, tornou-se muito devoto.
Depressa soube da possibilidade de se filiar na Liga da Bíblia e escreveu para Londres
a pedir informações. Era necessário preencher uma ficha com o nome, a idade e a
escola do candidato; assinar uma declaração solene de que leria todas as noites,
durante um ano, determinado trecho da Santa Escritura; e enviar meia coroa; esta, era
explicado, pediam-na em parte para provar a seriedade do desejo do candidato em se
tornar membro da Liga, e em parte para cobrir as despesas gerais. Philip enviou
devidamente preenchida a papelada e o dinheiro e recebeu em troca um calendário de
um penny, onde estavam marcadas as passagens a ler em cada dia, e uma folha de
papel em que, numa das faces, havia uma gravura do Bom Pastor com um cordeiro e
na outra, decorativamente enquadrada em linhas vermelhas, uma pequena oração para
ser rezada antes de começar a leitura.
Todas as noites se despia o mais rapidamente possível para ter tempo de
executar a sua tarefa antes de se apagar o gás. Lia atentamente, como sempre sem
critério, histórias de crueldades, fraudes, ingratidões, perfídias e baixos ardis. Actos
que lhe provocariam horror na vida real, na leitura passavam-lhe pelo espírito sem
comentários, pois eram cometidos sob a inspiração directa de Deus. O método da Liga
era alternar um livro do Velho Testamento com um livro do Novo e certa noite Philip
deu com estas palavras de Jesus Cristo:
«Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que
eu acabo de fazer à figueira, mas, ainda, se disserdes a esta montanha tira-te e lança-te
ao mar, assim se fará. E todas as coisas que pedirdes orando com fé, conseguireis».
Não lhe causaram impressão especial, mas aconteceu que dois ou três dias mais
tarde, no domingo, o cónego residente as escolheu para tema do sermão. Mesmo que
Philip quisesse ouvi-lo era impossível, porque os rapazes da King’s School se sentavam
no coro e o púlpito ficava na esquina do transepto e por isso o pregador estava quase
de costas para eles. Além disso a distância era tamanha que seria preciso um homem
com uma boa voz e uma dicção primorosa para se fazer ouvir no coro; e, segundo um
velho costume, os cónegos de Tercambury são escolhidos mais pela erudição do que
por quaisquer qualidades utilizáveis numa catedral. Todavia as palavras do texto,
talvez porque as lera recentemente, soaram com bastante clareza aos ouvidos de Philip
e pareceram de repente possuir um significado pessoal. Meditou nelas quase todo o
sermão e naquela noite, ao deitar-se, folheou o Evangelho e encontrou uma vez mais a
passagem. Se bem que acreditasse implicitamente em tudo quanto via impresso, já
aprendera que na Bíblia coisas havia que eram ditas com toda a clareza, mas, muitas
vezes, misteriosamente, tinham outro significado. Não havia ninguém, na escola, a
quem pudesse perguntar, portanto reservou a pergunta para as férias do Natal e então,
certo dia, aproveitou uma oportunidade. Foi depois da ceia, acabadas as orações. Mrs.
Carey contava os ovos que Mary Ann trouxera, como de costume, escrevendo a data
em cada um. Philip, junto à mesa, fingia voltar, com despreocupação, as páginas da
Bíblia.
- Escute, tio William, esta passagem aqui quer realmente dizer isto?
Apontou com o dedo, como se a tivesse encontrado por acaso.
Mr. Carey olhou por cima dos óculos. Segurava o Blackstable times em frente do
lume. Chegava ao anoitecer, húmido do prelo, e o vigário secava-o sempre durante dez
minutos antes de começar a ler.
- Que passagem é? - perguntou.
- Esta que refere que a fé move montanhas.
- Se está assim na Bíblia, é porque é, Philip - garantiu brandamente Mrs. Carey
levantando a cesta da loiça.
Philip olhou para o tio à espera de uma resposta.
- É uma questão de fé.
- Quer dizer que, se se acreditar realmente, se pode mover de facto montanhas?
- Com a graça de Deus - respondeu o vigário.
- Agora dá boa-noite ao teu tio, Philip - disse a tia Louise. - Não pretendes mover
uma montanha esta noite, pois não?
Philip deixou-se beijar na testa pelo tio e subiu as escadas à frente de Mrs. Carey.
Conseguira a informação que procurava. O seu quartinho era gelado, e tiritava ao
vestir a camisa de dormir. Mas tinha a certeza de que as orações agradavam mais a
Deus quando as dizia em condições desconfortáveis. O frio das mãos e dos pés eram
uma oferenda ao Todo-Poderoso. E naquela noite caiu de joelhos, escondeu o rosto nas
mãos e pediu a Deus com todo o fervor que lhe corrigisse o pé boto. Era coisa bem
insignificante comparada com a remoção de montanhas. Sabia que Deus poderia fazêlo,
se o quisesse e a sua fé era absoluta. Na manhã seguinte ao terminar as orações com
o mesmo pedido, fixou uma data para o milagre.
- Ó Deus cheio de bondade e misericórdia, se for da Tua vontade, por favor,
endireita o meu pé na noite da véspera do meu regresso à escola.
Sentia-se contente por ter condensado o seu pedido numa fórmula e repetiu-a
mais tarde, na sala de jantar, durante a pequena pausa que o vigário fazia sempre após
as orações, antes de se levantar da genuflexão. Voltou a dizê-la à tardinha e ainda,
tremendo na camisa de noite, antes de se meter na cama. E acreditava. Pela primeira
vez, esperava com ansiedade pelo fim das férias. Ria de si para si ao imaginar o
espanto do tio quando descesse as escadas a três e três; e depois do pequeno almoço
teria de ir com a tia Louise comprar um par de botas novas. Na escola ficariam
estupefactos.
- Olá, Carey, que aconteceu ao teu pé?
- Oh, agora está bom - responderia despreocupadamente como se fosse a coisa
mais natural do mundo.
Poderia jogar o futebol. O coração saltava-lhe ao imaginar-se a correr, a correr
mais do que qualquer outro rapaz. Depois da Páscoa eram os desportos e poderia
entrar nas corridas; imaginava-se já a saltar os caniçados. Que maravilha ser igual aos
outros, não atrair a curiosidade dos alunos novos que não sabiam ainda da sua
deformidade, nem, no Verão, necessitar das incríveis precauções que tomava enquanto
se despia para o banho e antes de mergulhar o pé na água.
Orou com todo o ardor da sua alma. Dúvida alguma o assaltava. Confiava na
palavra de Deus. E na noite da véspera do regresso à escola foi para a cama trémulo de
comoção. Havia nove no quintal e a tia Louise permitira-se o raro luxo de acender o
fogão do quarto; no quartinho de Philip, contudo, estava tanto frio que ele sentia os
dedos dormentes e teve grande dificuldade em desabotoar o colarinho. Batia os dentes.
Ocorreu-lhe então que deveria fazer qualquer coisa fora do comum para atrair a
atenção de Deus e afastou o tapete que havia em frente da cama para se ajoelhar no
soalho; em seguida veio-lhe à ideia que a camisa de noite fosse um conforto que
pudesse desgostar o Criador e então despiu-a e fez as preces nu. Quando se meteu na
cama estava tão enregelado que lhe custou a adormecer, mas, quando o conseguiu foi
tão profundamente que Mary Ann teve de o sacudir quando lhe trouxe a água quente
na manhã seguinte. Falou-lhe enquanto corria as cortinas, mas ele não respondeu;
lembrara-se imediatamente que aquela era a manhã do milagre. Tinha o coração cheio
de alegria e gratidão. O seu primeiro instinto foi baixar a mão e apalpar o pé que já
devia estar curado, mas fazê-lo significaria duvidar da bondade de Deus. Tinha a
certeza de que o pé estava bom. Por fim, decidiu-se e com os dedos do pé direito tocou
o esquerdo. Depois, passou-lhe a mão por cima.
Desceu as escadas a coxear, no momento em que Mary Ann entrava na sala de
jantar para as orações, e sentou-se para almoçar.
- Estás muito calado esta manhã, Philip - disse a tia Louise.
- Está a pensar no belo almoço que terá amanhã na escola - exclamou o vigário.
Quando Philip respondeu fê-lo de um modo que sempre irritava o tio, com algo
que nada tinha que ver com o assunto em questão.
Este achava o desconversar um mau hábito.
- Suponha que pedira alguma coisa a Deus - principiou Philip - e realmente
acreditava que ia acontecer, como mover uma montanha, por exemplo, e tinha fé, e não
acontecia, que queria isso dizer?
- Que rapaz engraçado que és - exclamou a tia Louise. - Há duas ou três semanas
fizeste perguntas sobre o mover montanhas.
- Quereria dizer apenas que não tinha tido fé - respondeu o tio William.
Philip aceitou a explicação. Se Deus o não curara, era porque ele não acreditava
realmente. E, no entanto, não via como poder acreditar mais do que acreditara. Mas,
talvez não tivesse dado a Deus tempo suficiente. Dera-lhe só dezanove dias. Um ou
dois dias depois começou de novo a sua prece e desta vez fixou para depois da Páscoa.
Era o dia da gloriosa ressurreição do Seu Filho, e Deus, na Sua felicidade talvez se
mostrasse misericordioso. Desta vez Philip acrescentara outros meios de atingir o seu
desejo: formulava-o quando via uma lua nova ou um cavalo mosqueado e procurava
as estrelas cadentes; por ocasião de uma licença houve frango no vicariato e ele partiu o
osso da sorte com a tia Louise desejando mais uma vez que o pé ficasse bom. Apelava
inconscientemente para deuses mais antigos, entre a sua raça, do que o Deus de Israel.
E assediava o Todo-Poderoso com a sua oração, a qualquer hora do dia, quando lhe
lembrava, sempre com as mesmas palavras, pois lhe parecia importante fazer o pedido
sempre nos mesmos termos. Porém, logo em seguida, sentia que ainda desta vez a sua
fé não seria suficientemente forte. Não conseguia dominar a dúvida que o assaltava.
Transformou a sua própria experiência numa regra geral.
- Acho que nunca ninguém tem fé bastante.
Era como o sal, de que a ama costumava contar: todos os pássaros se podem
apanhar se se lhes puser sal na cauda e uma vez comprara um saquinho dele em
Kensington Gardens. Todavia não conseguira nunca aproximar-se o suficiente para pôr
o sal na cauda de um pássaro. Antes da Páscoa já ele renunciara à luta. Sentia um
ressentimento surdo contra o tio, por ele o ter enganado. O texto em que se falava do
mover montanhas era precisamente daqueles que diziam uma coisa e significavam
outra. Concluiu que o tio lhe pregara uma partida.
XV
A King’s School, de Tercambury, para onde Philip foi quando tinha treze anos,
orgulhava-se da sua antiguidade. Tinha a sua origem numa escola abacial fundada
antes da Conquista, onde o ensino rudimentar era ministrado pelos monges
Agostinhos; e, como outros estabelecimentos semelhantes, fora com a extinção dos
mosteiros, reorganizada pelos coadjutores de Henrique VIII e adquirira assim o seu
nome. Desde então, cumprindo o seu modesto objectivo, principiou a dar aos filhos da
nobreza local e dos burgueses de Kent uma educação bastante para as suas
necessidades. Um ou dois homens de letras, a começar por um poeta, cujo génio
apenas foi suplantado por Shakespeare e a terminar com um prosador, cuja visão da
vida profundamente influenciou a geração de Philip, de lá saíram para a conquista da
fama; produzira um ou dois advogados eminentes, se bem que advogados eminentes
seja coisa vulgar, e um ou dois soldados de valor; mas durante os três séculos após a
separação da ordem monástica, preparara especialmente homens da igreja, bispos,
deões, cónegos e sobretudo pastores: havia rapazes na escola cujos pais, avós e bisavós,
ali tinham sido educados e tinham sido todos reitores de paróquias na diocese de
Tercambury; e esses ingressavam decididos já a ordenar-se. No entanto, circunstâncias
várias pareciam indicar que mesmo ali, se estavam operando transformações; alguns,
repetindo o que tinham ouvido em casa, diziam que a Igreja estava longe de ser o que
fora. Não era tanto em relação ao dinheiro, mas à classe de gente que a seguia e que já
não era a mesma; e dois ou três rapazes conheciam pastores cujos pais eram
comerciantes; preferiam partir para as colónias (naquele tempo as colónias eram ainda
a última esperança dos que nada conseguiam na Inglaterra) a tornarem-se curas sob as
ordens de gente que não era educada. Na King’s School como no Vicariato de
Blackstable, era negociante todo aquele que não tinha a sorte de possuir terras (e aqui
residia a perfeita distinção entre um senhor dado à sua lavoura e o proprietário de
terras) ou não pudera seguir uma das quatro profissões que um cavalheiro podia
seguir. Entre os alunos externos, dos quais perto de cento e cinquenta eram filhos da
nobreza local e de oficiais da guarnição, fazia-se sentir aos que tinham pais negociantes
a baixeza da sua condição.
Os mestres não admitiam as ideias modernas sobre educação, que liam de vez
em quando no Times ou no Guardian e esperavam com fervor que a King’s School
permanecesse fiel às suas velhas tradições. As línguas mortas eram ensinadas com
tanta exigência que um antigo aluno raramente se lembrava, pela vida fora, de Homero
ou Virgílio sem uma náusea de enfado; e embora no refeitório, ao jantar, um ou dois
espíritos mais audaciosas sugerissem que a importância da matemática era crescente,
na opinião geral eram um estudo menos nobilitante que o dos clássicos. Não ensinavam
nem alemão nem química e o francês era ensinado pelos professores comuns;
sabiam manter a disciplina melhor que um estrangeiro e desde que conhecessem a
gramática tão bem como qualquer francês parecia-lhes de somenos que nenhum deles
fosse capaz de pedir uma chávena de café num restaurante de Bolonha, a menos que o
criado soubesse alguma coisa de inglês. A geografia era ensinada principalmente
fazendo os alunos desenhar mapas, o que era uma ocupação muito apreciada,
principalmente quando o país em estudo fosse montanhoso: podiam-se desperdiçar
horas a fio a desenhar os Andes ou os Apeninos. Os professores formados por Oxford
ou Cambridge eram ordenados e solteiros; e, se por acaso, pensavam em casar, só
podiam fazê-lo aceitando um dos pequenos benefícios à disposição do Capítulo;
durante muitos anos, todavia, nenhum deles quisera trocar a requintada sociedade de
Tercambury, que em virtude da guarnição de cavalaria possuía um ar tão eclesiástico
quanto marcial, dada a monotonia da vida de um reitorado no campo; e eram já todos
homens de meia-idade.
O reitor, por outro lado, era obrigado a ser casado e dirigia a escola até lhe pesar
a idade. Quando se retirava recompensavam-no com uma pensão muito melhor que a
que qualquer dos outros professores poderia aspirar e um canonicato honorário.
Porém, no ano anterior ao da entrada de Philip na escola, dera-se uma grande
transformação. Era evidente, havia muito, que o Dr. Fleming, reitor que fora um quarto
de século, se tornara demasiado surdo para prosseguir no seu trabalho para a maior
glória de Deus; e quando um dos benefícios das proximidades da cidade vagou, o
Capítulo ofereceu-lho, com um estipêndio de seiscentas libras por ano, insinuando
deste modo que pensava ser tempo de ele se retirar. Poderia entregar-se confortavelmente
aos seus achaques com aquele rendimento. Dois ou três pastores que esperavam
a promoção disseram às esposas ser escandaloso entregar uma paróquia, que
necessitava de um homem jovem, forte e enérgico, a um velho que nada percebia de
actividades paroquiais e que, aliás, já enchera as algibeiras; todavia, os murmúrios do
clero não beneficiado não chegavam aos ouvidos do Capítulo. E quanto aos
paroquianos, nada tinham a dizer, e portanto ninguém lhes pedia a opinião. Tanto os
metodistas como os baptistas possuíam capelas na vila.
Uma vez arrumado deste modo o Dr. Fleming, foi necessário escolher um
sucessor. Era contrário às tradições da escola que fosse escolhido um dos professores
menos graduados. O refeitório era unânime no desejo da eleição de Mr. Watson,
director da escola preparatória; dificilmente se poderia dizer dele que já era um mestre
da King's School, e todos o conheciam havia vinte anos e não haveria o perigo de se
tornar indesejável. Mas o Capítulo reservava-lhes uma surpresa. Escolheu um homem
chamado Perkins. A princípio ninguém sabia quem era Perkins e o nome não
impressionou favoravelmente ninguém; mas ainda o choque não passara, verificou-se
que Perkins era o filho do camiseiro Perkins. O Dr. Fleming informou os professores
precisamente antes do jantar e os seus modos mostravam consternação. Alguns deles
que estavam a jantar tomaram a refeição em silêncio e só fizeram referência ao assunto
quando os criados se retiraram da sala. E então puseram-se a discutir. Os nomes dos
que estavam presentes naquela ocasião não importam, mas várias gerações de alunos
os conheceram por Sighs, Tar, Winks, Squirts e Pat.
Todos conheciam Tom Perkins. A primeira coisa era que não era um homem
distinto. Lembravam-se dele muito bem. Fora um rapaz miúdo, moreno, de cabelos
pretos e olhos grandes. Parecia um cigano. Viera para a escola como externo com uma
bolsa de estudo, portanto a sua educação nada lhe custara. Fora aluno brilhante, é
claro. No dia da distribuição dos prémios era sempre premiado. Era o aluno-modelo, e
lembravam agora amargamente o receio que tinham de que ele tentasse obter outra
bolsa de estudo para uma das escolas públicas mais importantes e lhes fugisse,
portanto, das mãos. O dr. Fleming fora ter com o camiseiro pai - todos se lembravam
da loja, Perkins & Cooper, em St. Catherine’s Street - e dissera-lhe que esperava que
Tom permanecesse lá até ir para Oxford. A escola era o melhor freguês de Perkins &
Cooper e Mr. Perkins só teve de, muito pressuroso, dar a garantia pedida. Tom Perkins
continuou a triunfar, era o melhor aluno de clássicos de que o dr. Fleming se lembrava
e ao deixar o colégio levou consigo a melhor bolsa de estudos que tinham para
oferecer. Conseguiu outra no Magdalen e fez uma brilhante carreira na Universidade.
O boletim escolar consignava as distinções que ele conquistara ano após ano e quando
ganhou um «primeiro duplo» o dr. Fleming escreveu pessoalmente algumas palavras
encomiásticas na primeira página. O seu triunfo foi recebido com a maior satisfação
dado que Perkins & Cooper tinham sofrido reveses: Cooper bebia como uma esponja e
pouco antes de Tom Perkins receber o diploma, os camiseiros abriram falência.
A devido tempo, Tom Perkins tomou as ordens sacras e iniciou a profissão para a
qual era tão admiravelmente dotado. Fora professor assistente em Wellington e depois
em Rugby.
Havia, contudo, grande diferença entre celebrar o seu triunfo nas outras escolas e
servir sob a sua orientação na própria. Tar dera-lhe, muitas vezes, cópias de castigo e
Squints aplicara-lhe tabefes. Não podiam compreender como o Capítulo cometera tal
erro. Ninguém conseguiria esquecer que era filho do falido camiseiro e o alcoolismo de
Cooper parecia aumentar o opróbrio. Reconhecia-se que o Deão apoiara com ardor a
candidatura dele e portanto o convidaria para jantar; mas, poderiam aqueles
agradáveis jantarzinhos continuar a ser os mesmos quando Tom Perkins se sentasse à
mesa? E que dizer da guarnição militar? Ele não poderia esperar que oficiais e homens
distintos o recebessem como a um igual. Daria ao colégio um prejuízo incalculável. Os
pais ficariam descontentes, e ninguém deveria surpreender-se se houvesse uma
retirada em massa. E depois, que rebaixamento chamar-lhe Mr. Perkins. Os professores
pensaram em enviar a sua demissão colectiva, em sinal de protesto, mas o
incomodativo receio de que fosse aceite, fê-los renunciar por unanimidade.
- A única coisa a fazer é prepararmo-nos para as mudanças - disse Sighs que
dirigira a quinta classe durante vinte e cinco anos com inigualável incompetência.
E quando o viram não ficaram tranquilizados. O dr. Fleming convidou-os a
almoçar com ele. Era agora um homem de trinta e dois anos, alto e magro mas com o
mesmo ar selvagem e desmazelado de que se lembravam quando rapaz.
O fato, mal feito e velho, estava enxovalhado. Os cabelos continuavam
compridos e negros como sempre, e era evidente que nunca aprendera a passar-lhes a
escova; caíam-lhe para a testa ao mais pequeno gesto e tinha um movimento habitual
de mão com o qual os puxava de cima dos olhos. Tinha um bigode preto e uma barba
que lhe cobria a cara quase até às maçãs do rosto. Dirigia-se aos mestres muito
desembaraçadamente como se se tivesse separado deles uma ou duas semanas antes;
estava evidentemente satisfeito de os ver. Parecia alheio ao estranho da posição e
aparentava não se dar conta da disparidade ao ser tratado por Mr. Perkins.
Quando se preparou para se despedir, um dos mestres, para dizer alguma coisa,
observou que tinha muito tempo para apanhar o comboio.
- Quero dar uma volta e dar uma vista de olhos à loja - respondeu ele
alegremente.
Houve um nítido embaraço. Espantaram-se de que ele tivesse tal falta de tacto e,
para cúmulo, o dr. Fleming não ouvira o que ele dissera. A esposa berrou-lhe ao
ouvido.
- Quer ir dar uma vo1ta e ver a antiga loja do pai.
Só Tom Perkins não dava pela humilhação que todos sentiam. Voltou-se para
Mrs. Fleming.
- Quem a alugou agora, sabe?
Com dificuldade ela conseguiu responder. Estava furiosa.
- E outro camiseiro - disse com ressentimento. - Chama-se Grove. Já não
compramos lá.
- Gostaria imenso que me deixassem visitar a casa.
- Creio que deixarão se se der a conhecer.
Só no fim do jantar, naquela noite, se fez referência no refeitório ao assunto
presente no espírito de todos. Foi Sighs quem perguntou:
- Ora bem, como acharam o nosso novo director?
Lembraram-se da conversa do almoço. Dificilmente fora uma conversa: fora um
monólogo. Perkins falara incessantemente. Falava muito rapidamente com uma grande
fluência de palavras, numa voz profunda e sonora. Tinha um risinho leve e singular
que deixava ver os seus dentes brancos. Tinham-no seguido com dificuldade pois o seu
espírito saltava de assunto para assunto com uma conexão que eles nem sempre
apreendiam. Falava de pedagogia, o que era muito natural; mas falara imenso das
modernas teorias alemãs, de que nunca tinham ouvido falar e que receberam com
desconfiança. Dissertara sobre os clássicos, e como estivera na Grécia falara de
arqueologia; tinha passado um Inverno em escavações; eles não compreendiam de que
serviria isso a um homem para ensinar rapazes a passar nos exames. Falara de política.
Soou-lhes estranha a comparação entre Lorde Beaconsfield e Alcibíades. Falou de
Gladstone e do Home Rule. Acharam que ele era um liberal. Caiu-lhes o coração aos
pés. Falou da filosofia alemã e da ficção francesa. Não podiam considerar profundo um
homem cujos interesses eram tão diversos.
Foi Winks quem resumiu a impressão geral numa fórmula que reputaram
conclusivamente condenatória. Winks era o mestre da terceira classe superior, um
homem irresoluto de olhar lânguido. demasiado alto para a sua constituição e de
movimentos lentos e frouxos. Dava uma impressão de lassidão e o apelido era-lhe
eminentemente apropriado (Equivale, como alcunha, a «pisca-pisca». (N. do T.).
- É um entusiasta - definiu Winks.
Entusiasmo era falta de distinção. Entusiasmo era falta de cavalheirismo.
Lembrava-lhes o Exército de Salvação com as estridentes trombetas e os tambores.
Entusiasmo significava transformação. Ficaram apavorados ao pensar nos agradáveis e
velhos hábitos que estavam em perigo iminente. Mal se atreviam a olhar para o futuro.
- Parece cada vez mais um cigano - comentou um, após uma pausa.
- Penso se o Deão e o Capítulo sabiam tratar-se de um radical quando o elegeram
- observou outro, amargamente.
Mas a conversa parava. Estavam por de mais perturbados para falarem.
Quando Tar e Sighs caminhavam juntos para a sala do capítulo, no dia da festa,
uma semana depois, Tar, que tinha uma língua mordaz, observou para o colega:
- Ora bem, já assistimos a muitas sessões aqui, não é assim? Pergunto a mim
próprio se assistiremos a outra.
Sighs estava mais melancólico do que nunca.
- Se me aparecesse algum modo de vida, não se me dava de me aposentar.
XVI
Passou-se um ano, e, quando Philip foi para o colégio os antigos mestres
ocupavam ainda os respectivos lugares; todavia, grandes modificações se haviam
operado, não obstante a teimosa resistência deles, não menos formidável porquanto se
ocultava sob a aparência do desejo de aceitar as ideias do novo director. Embora os
mestres da primária continuassem a ensinar o francês, viera outro professor com grau
de doutor em filologia da Universidade de Heidelberga e com um currículo de três
anos passados num lycée (Em francês no texto) francês, para ensinar francês às classes
superiores e alemão a quem o preferisse ao grego. Foi contratado outro professor para
ensinar matemática mais sistematizadamente do que até então se achara necessário.
Nenhum deles era ordenado. Foi uma verdadeira revolução, e, quando os dois
chegaram, os antigos professores receberam-nos com desconfiança. Instalou-se um
laboratório e criaram-se aulas de instrução militar; todos afirmavam que o carácter da
escola se transformava. E só Deus sabia que mais projectos trazia mr. Perkins naquela
sua desgrenhada cabeça. A escola era pequena, como qualquer escola vulgar, não havia
mais de duzentos internos; e era impossível aumentá-la, comprimida como estava pela
catedral; o terreno, com excepção da casa onde viviam alguns dos mestres, era ocupado
pelo cabido da catedral; e não havia mais espaço para construções. No entanto, Mr.
Perkins imaginara um plano complicado através do qual poderia obter espaço
suficiente para duplicar a sua actual lotação. Pretendia atrair rapazes de Londres.
Achava que lhes seria proveitoso o contacto com os rapazes de Kent, e isso
desenvolveria o espírito provinciano destes.
- É contra todas as nossas tradições - sentenciou Sighs, quando Mr. Perkins lhe
fez a sugestão. - Temos tido bastante trabalho para evitar a contaminação dos rapazes
de Londres.
- Oh, que disparate - exclamou Mr. Perkins.
Ninguém até então dissera ao mestre primário que ele dizia disparates, e estava
pensando numa réplica acerada, em que talvez pudesse inserir uma alusão velada do
comércio de camisas, quando Mr. Perkins, com o seu modo impetuoso o atacou
violentamente.
- Aquela casa no recinto da escola... se o senhor casasse eu arranjaria com que o
Capítulo mandasse construir mais dois andares e faríamos dormitórios e salas de
estudo e a sua mulher poderia ajudá-lo.
O envelhecido clérigo teve um choque. Por que se casaria? Tinha cinquenta e sete
anos, um homem não pode casar-se aos cinquenta e sete anos. Era incapaz de andar à
procura de casa naquela altura da vida. Não queria casar-se. Se tivesse de escolher
entre isso e uma paróquia rural, preferiria resignar. Quanto desejava agora era paz e
tranquilidade.
- Não penso em casar-me - respondeu.
Mr. Perkins fitou-o com os seus olhos vivos e escuros e, se havia ironia neles, o
pobre Sighs não o notou.
- Que pena ! Não poderia casar-se para me fazer favor ? Isso ajudar-me-ia imenso
junto do Deão e do Capítulo quando eu sugerisse construir a sua casa.
No entanto, a mais desagradável inovação de Mr. Perkins foi o sistema de dar
ocasionalmente uma aula de outro professor. Pedia como favor, mas ao fim e ao cabo
era um favor que não podia ser recusado e, como Tar, ou antes Mr. Turner observou,
não dignificante para ambas as partes. Não avisava, apenas depois das orações
matinais dizia a um dos mestres:
- Muito gostaria que pudesse tomar conta hoje do sexto às 11 horas. Poderemos
trocar, concorda?
Não sabiam se aquilo era hábito noutras escolas mas, é claro, nunca se fizera em
Tercambury. Os resultados eram curiosos. Mr. Turner, que foi a primeira vítima,
informou a classe de que o reitor lhes daria a aula de Latim naquele dia e, a pretexto de
que talvez quisessem fazer-lhe algumas perguntas, para que não fizessem figura de
tolos, passou o último quarto de hora da aula de História a interpretar-lhes o trecho de
Tito Lívio marcado para aquele dia; porém, quando retomou a classe e olhou para a
folha em que Mr. Perkins escrevera as notas, esperava-o uma surpresa; é que os dois
primeiros alunos da turma parecia terem andado muito mal, enquanto os que nunca se
tinham distinguido, tinham tido boas notas. Quando perguntou a Eldridge, o seu
melhor aluno, o significado daquilo, a resposta veio trombudamente:
- Mr. Perkins não nos deu nenhuma interpretação para fazermos. Perguntou-me
que sabia eu do General Gordon.
Mr. Turner fitou-o atónito. Os rapazes sentiam, evidentemente, terem sido
injustamente tratados e não pôde deixar de concordar com o mudo descontentamento
deles. Também ele não percebia que tivesse que ver o General Gordon com Tito Lívio.
Mais tarde arriscou um esclarecimento.
- Eldridge ficou terrivelmente constrangido por lhe ter perguntado o que sabia do
General Gordon - disse ao reitor com um pretenso ar jocoso.
Mr. Perkins riu.
- Vi que tinham chegado às Leis agrárias de Caio Graco e quis ver se sabiam
alguma coisa sobre as perturbações agrárias na Irlanda. Mas tudo quanto sabiam sobre
a Irlanda era que Dublin era banhada pelo Liffey. Portanto, suspeitei que nunca tinham
ouvido falar no General Gordon.
Então descobriu-se um facto horrível: que o novo reitor tinha a mania dos
conhecimentos gerais. Ele tinha dúvida sobre a utilidade dos exames em assuntos
preparados para esse efeito. Apreciava o senso-comum.
Sighs ficara cada vez mais inquieto; não conseguia afastar da cabeça o
pensamento de que Mr. Perkins lhe iria pedir a fixação do dia do casamento; e
detestava a atitude adoptada pelo superior em relação à literatura clássica. Era, sem
dúvida, um inteligente erudito e estava contratado para um trabalho bem de acordo
com a tradição: estava a escrever um tratado sobre as árvores na Literatura latina; no
entanto referia-se a isso, voluvelmente, como se o achasse um passatempo sem grande
importância, como o bilhar, no qual empregasse as horas vagas, mas que não era
levado a sério. E Squirts, o mestre do terceiro médio, tornava-se de dia para dia mais
neurasténico.
Foi nesta classe que Philip ingressou quando entrou para a escola. O Rev. B. B.
Gordon era homem de natureza incompatível com o magistério: era impaciente e
colérico. Sem ninguém que lhe pedisse contas, lidando apenas com rapazes pequenos,
havia muito que perdera o autodomínio. Iniciava a aula enraivecido e terminava-a
furioso. Era de meia estatura, de compleição corpulenta; tinha cabelos loiros, aparados
muito curtos e já grisalhos e um pequeno e eriçado bigode. O rosto grande, de feições
indistintas e olhinhos azuis, era naturalmente rubro, mas nos seus frequentes acessos
de ira tornava-se escuro e arroxeado. Tinha as unhas roídas até ao sabugo, porque,
enquanto um aluno respondia tremendo, ele, sentado na cadeira, que estremecia com a
fúria que o consumia, roía os dedos. Contavam-se histórias, talvez exageradas, da sua
violência, e dois anos antes houvera certo alvoroço na escola ao constar que um pai
ameaçara processá-lo:
batera com um livro na orelha de um rapaz chamado Walters com tal força que o
ouvido fora afectado e o pequeno tivera de ser retirado da escola. O pai do rapaz
residia em Tercambury, houve grande indignação na cidade e o jornal local referira-se
ao caso; porém, como Mr. Walters era um simples cervejeiro, as simpatias dividiramse.
Os outros alunos, por motivos bem conhecidos deles, embora detestassem o mestre,
tomaram o seu partido na questão, e, para mostrarem a sua indignação por terem
transpirado os assuntos da escola, tornaram quanto possível desagradável a vida do
irmão mais novo de Walters que ainda lá ficara. Todavia Mr. Gordon escapou da
demissão por uma unha negra, e nunca mais bateu num aluno. Foi suprimido o direito
que os mestres tinham de dar palmatoadas e Squirks já não podia aplacar a fúria
batendo na mesa com o ponteiro. O mais que podia, agora, fazer era agarrar o rapaz
pelos ombros e sacudi-lo. Costumava ainda, aos travessos ou teimosos, obrigá-los a
estar de pé com um braço estendido durante dez minutos a meia hora e a linguagem
era tão violenta como antes.
Nenhum mestre teria sido menos indicado para ensinar fosse o que fosse a um
menino tão tímido como Philip. Entrara para a escola com menos terror do que quando
contactara pela primeira vez com Mr. Watson. Conhecia muitos rapazes que tinham
andado com ele na escola preparatória, Crescera, e sentia, instintivamente, que no meio
de tanta gente, a sua deformidade seria menos notada. Logo no primeiro dia, porém,
Mr. Gordon lhe infundiu profundo terror; e o professor, perspicaz em descobrir os
rapazes que lhe tinham medo, parecia, por este motivo, votar-lhe especial antipatia.
Philip tinha prazer no estudo, mas agora começava a olhar com horror as horas
passadas na escola. Preferia ficar estupidamente silencioso, a arriscar uma resposta que
poderia ser errada e provocar uma tempestade de desaforos do mestre, e, quando
chegava a sua vez de se levantar e interpretar, ficava enfiado e pálido de apreensão. Os
seus momentos felizes eram aqueles em que Mr. Perkins ficava com a turma. Era capaz
de satisfazer a paixão dos conhecimentos gerais, que importunava o reitor; lera toda a
espécie de livros complicados para a sua idade, e muitas vezes, Mr. Perkins quando a
pergunta já percorrera a sala, voltava-se para Philip com um sorriso que enchia o
pequeno de contentamento e dizia:
- Vamos, Carey, ensina-lhes.
As boas notas que obtinha nessas ocasiões aumentavam a indignação de Mr.
Gordon. Um dia, aconteceu chegar a Philip a vez de traduzir e o mestre fitava-o,
roendo furiosamente as unhas. Estava de disposição feroz. Philip começou a falar em
voz baixa.
- Não resmungues - gritou o mestre.
Algo pareceu prender a garganta de Philip.
- Vamos. Vamos. Vamos.
De cada vez as palavras eram mais intensamente berradas. O efeito foi
obscurecer a memória de Philip que olhava abstractamente para a página impressa.
Mr. Gordon desatou a respirar fortemente.
- Se não sabes, por que o não confessas? Sabes ou não? Não ouviste traduzir tudo
isso na última aula? Por que não falas? Fala, imbecil, fala!
O mestre segurava os braços da cadeira como para resistir à tentação de se atirar
a Philip. Em tempos passados costumava agarrar os alunos pela garganta, a ponto de
sufocá-los. As veias da testa tornavam-se salientes e o rosto, sombrio e ameaçador.
Parecia louco.
No dia anterior, Philip soubera traduzir perfeitamente o trecho em questão, mas
naquele momento não se lembrava de coisa alguma.
- Não sei traduzir isto - gaguejou.
- E por que não sabes? Vamos traduzir palavra por palavra. Veremos se sabes ou
não.
Philip permaneceu em silêncio, pálido e trémulo, com a cabeça curvada para o
livro. A respiração do mestre tornara-se quase estertorosa.
- O reitor diz que és inteligente. Não sei em que se baseia para afirmar
semelhante coisa. Conhecimentos gerais!
Soltando uma gargalhada selvagem, continuou:
- Não sei por que te puseram nesta turma. Imbecil!
Gostou da palavra e pôs-se a repeti-la a plenos pulmões.
- Imbecil! Imbecil! Imbecil do pé torto!
Sentiu-se um pouco aliviado, notando que Philip corara repentinamente.
Mandou-o buscar o Livro Negro. Philip pousou o seu César e saiu silenciosamente. O
Livro Negro era um sinistro volume onde se registavam os nomes dos alunos em falta,
e as más acções. A repetição de três registos significava uma sova. Philip dirigiu-se a
casa do reitor e bateu à porta do gabinete. Mr. Perkins achava-se sentado à mesa.
- Posso levar o Livro Negro, senhor reitor?
- Está ali - responde Mr. Perkins, indicando o lugar com um movimento de
cabeça. - Fizeste alguma maldade.
- Não sei, senhor reitor.
Mr. Perkins olhou-o de relance e, sem responder, concentrou novamente a
atenção no trabalho. Philip agarrou o livro e retirou-se. Minutos depois, terminada a
aula, voltou a trazê-lo.
- Deixa ver o livro - disse o reitor. - Vejo que Mr. Gordon registou o teu nome por
«grave insolência». Que significa isso?
- Não sei, senhor reitor. Mr. Gordon disse que eu era um imbecil de pé torto.
Mr. Perkins fitou-o de novo. Não sabia se a resposta do rapaz encerrava alguma
dose de sarcasmo, mas notou que ainda estava bastante abalado. Tinha o rosto pálido e
os olhos reflectiam grande angústia. Levantando-se, o reitor foi colocar o livro no seu
lugar e, ao mesmo tempo, pegou nalgumas fotografias.
- Um amigo enviou-me hoje estas vistas de Atenas - disse com naturalidade. -
Olha, aqui está a Acrópole.
Começou a descrever aquilo que via. As suas palavras emprestavam vida às
ruínas. Mostrou-lhe o teatro de Diónisos e explicou a ordem em que as pessoas se
sentavam, descortinando, ao longe, as águas azuis do Egeu. De repente, disse:
- Lembro-me de que Mr. Gordon costumava chamar-me caixeirinho cigano, no
tempo em que eu era seu aluno.
E, antes que Philip, com a atenção posta nas fotografias, pudesse compreender o
sentido da observação, já Mr. Perkins lhe estava a mostrar uma gravura de Salamina.
Com o indicador - cuja unha tinha uma pequena barra preta - apontava a localização
dos navios gregos e persas.
XVII
Os dois anos que se seguiram foram, para Philip, de confortável monotonia. Não
era mais importunado do que os outros rapazes do seu tamanho, e o aleijão, afastandoo
dos jogos, envolvia-o numa obscuridade que o alegrava muito. Não era popular e
levava uma vida solitária. Esteve, durante dois trimestres, com Winks no terceiro ano
secundário. Winks, com o seu ar cansado e as pálpebras caídas, dava uma impressão
de tédio infinito. Cumpria o seu dever, mas fazia-o com o espírito absorto. Era
bondoso, delicado e tolo. Acreditava firmementente na honra dos alunos; julgava que a
melhor maneira de conservá-los apegados à verdade era não imaginar por um instante
sequer a possibilidade de mentirem. «Pede muito, e muito te será dado», costumava ele
dizer. A vida não era difícil no terceiro ano. Sabia-se antecipadamente quais as linhas
que seriam traduzidas e, com o auxílio da cábula que corria de mão em mão, tornavase
fácil resolver qualquer coisa em menos de dois minutos. Enquanto as perguntas
eram formuladas, abrir uma gramática latina sobre os joelhos era a coisa mais natural
do mundo. Winks nunca estranhava o facto de um mesmo e incrível erro aparecer em
doze exercícios diferentes. Não tinha grande fé nos exames, pois notava que os rapazes
nunca se saíam tão bem neles como no decorrer das aulas: isso causava certa decepção,
mas não tinha importância. Com o correr dos meses, passaram todos para a classe
imediatamente superior, tendo aprendido pouco mais do que uma alegre desfaçatez na
deturpação da verdade, o que sem dúvida lhes seria muito mais útil, na vida futura, do
que os conhecimentos de latim.
Caíram, então, nas mãos de Tar. O seu verdadeiro nome era Turner. Era o mais
vivaz dos velhos mestres, um homem baixo, imensamente barrigudo, de barba negra,
que começava a embranquecer, e pele trigueira. As vestes clericais emprestavam-lhe
certo aspecto que lembrava um barril de alcatrão. Embora, por princípio, cada rapaz de
cujos lábios ouvisse a sua alcunha fosse obrigado a copiar quinhentas linhas, não raro,
por ocasião de algum jantar, fazia trocadilhos a esse respeito. Era o mais mundano dos
mestres. Jantava fora com mais frequência do que os outros e a sua sociedade não se
compunha unicamente de elementos clericais. Os alunos consideravam-no como uma
espécie de estroina. Durante as férias, desprezava o trajo clerical, e fora visto na Suíça
com alegres fatos de xadrez. Apreciava uma garrafa de vinho e uma boa refeição e,
como o surpreendessem no Café Royal, certa vez, acompanhado de uma dama,
provavelmente alguma parente próxima, daí em diante as diversas gerações de
estudantes imaginaram-no mergulhado em orgias cujos pormenores circunstanciados
revelavam ilimitada crença na depravação humana.
Mr. Turner achava necessário um trimestre para meter nos eixos os garotos que
vinham do terceiro ano. De vez em quando, deixava escapar uma alusão hábil que
denotava estar perfeitamente ao par do que se passava na classe do colega. Encarava
tudo com bom humor. Para ele, os alunos eram jovens malfeitores que só seguiam o
caminho da verdade se tivessem a certeza de que as mentiras seriam descobertas, e
cuja senso de honra se limitava aos companheiros e não se aplicava às suas relações
com os professores; enfim, que se tornavam menos molestos depois de descobrirem
que isso não lhes trazia vantagem alguma. Orgulhava-se da sua classe e, aos cinquenta
e cinco anos, esperava, com o mesmo ardor de tempos passados, que ela se distinguisse
nos exames. Possuía o génio peculiar aos obesos: irritava-se facilmente e acalmava-se
com mais facilidade ainda. Em breve os alunos descobriram bastante bondade por trás
das invectivas que lhes dirigia constantemente. Não suportava tolos, mas revelava
grande paciência para com os rapazes sob cujo procedimento voluntarioso julgava ver
alguma inteligência. Gostava de convidá-los para o chá e os rapazes, embora jurassem
que não sentiam nem o cheiro dos bolos e das guloseimas - pois era costume pensarem
que a sua corpulência denunciava um apetite voraz e que essa voracidade devia ser
causada por alguma solitária - aceitavam o convite com verdadeiro prazer.
Philip gozava, agora, um pouco mais de conforto, pois o espaço era tão reduzido
que só havia salas de estudo para os alunos do curso secundário. Até então, vivera na
grande sala em que se tomavam as refeições e onde as classes primárias estudavam
numa promiscuidade que o desgostava vagamente. De vez em quando, a presença dos
outros inquietava-o e sentia grande necessidade de se isolar. Saía, então, em solitários
passeios pelo campo. Havia um pequeno arroio que deslizava através de prados
verdejantes; Philip, sem saber porquê, sentia-se imensamente feliz ao vaguear ao longo
das margens, por entre as árvores podadas. Uma vez cansado, deitava-se de bruços na
relva e ficava a observar os movimentos dos cadozes e dos girinos. Dava-lhe especial
prazer passear pelo terreno da escola. Existia um relvado onde, no verão, se jogava o
cricket, mas que permanecia tranquilo o resto do ano. Os rapazes percorriam-no de um
lado para outro, de braço dado, e, de vez em quando, um mais estudioso passava
lentamente, com o olhar abstracto, repetindo algum trecho difícil de decorar. Instalada
nos majestosos olmos, havia ama colónia de gralhas que enchia o ar com seus gritos
melancólicos. Num dos lados elevava-se a Catedral, com a grande torre central, e
Philip, que não conhecia ainda a beleza, sentia, ao vê-la, um deleite perturbador e
incompreensível. Quando lhe reservaram uma sala de estudo (era um aposento
pequeno, com janela para a rua, compartilhado por quatro alunos) comprou uma vista
da Catedral e pregou-a na sua carteira. Começava a despertar-lhe interesse o que via
pela janela da sala, na quarta classe. Dava para velhos relvados, tratados com carinho,
e lindas árvores de densa e rica folhagem. Experimentava estranha sensação dentro do
peito, mas não saberia dizer se era dor ou prazer. Era o primeiro despontar da sensação
estética. Seguiram-se outras transformações. A sua voz, começou a mudar. Já não a
dominava e da garganta escapavam-se-lhe sons esquisitos.
Passou, então, a frequentar as aulas que o reitor ministrava no seu gabinete,
depois do chá, a fim de preparar os alunos para o sacramento da confirmação. A
devoção de Philip não resistira à prova do tempo e havia muito abandonara a leitura
da Bíblia antes de dormir. Agora, porém, sob a influência de Mr. Perkins e ante a nova
condição do corpo que tanto o inquietava, os velhos sentimentos ressuscitavam e
censurou-se amargamente por esse abandono. As chamas do inferno ardiam, ferozes,
aos olhos da sua imaginação. Se tivesse morrido nessa época, quando era pouco mais
do que um infiel, estaria perdido para sempre. Acreditava implicitamente na dor
eterna, muito mais do que na eterna felicidade. Tremia à ideia dos perigos que correra.
Desde o dia em que Mr. Perkins lhe falara com bondade, quando ele sentia o
pungir da humilhação mais insuportável, Philip passara a adorar o mestre como um
cão adora o dono. Procurava, inutilmente, um modo qualquer de lhe agradar.
Guardava a menor palavra de louvor que por acaso lhe caísse dos lábios e, quando
começou a frequentar as tranquilas reuniões realizadas na residência do reitor, estava
preparado para se entregar por completo. Com a boca entreaberta e a cabeça um pouco
inclinada para a frente, a fim de não perder uma só palavra, citava com insistência os
olhos brilhantes de Mr. Perkins. A simplicidade do ambiente emprestava aos assuntos
abordados extraordinário poder emotivo. Muitas vezes o mestre, empolgado também
pela beleza do tema, empurrava o livro para o lado e, entrelaçando as mãos sobre o
coração, como para sofrear-lhe as palpitações, comentava os mistérios da fé comum a
todos. Nem sempre Philip compreendia, mas não procurava compreender. Tinha a
vaga impressão de que era suficiente sentir. Comparava então o reitor, com a cabeleira
preta e rebelde e o seu pálido rosto, aos profetas de Israel, que não receavam vituperar
os próprios reis, e ao lembrar-se do Redentor imaginava-o com os mesmos olhos
escuros e faces descoradas.
Mr. Perkins levava muito a sério essa parte das suas obrigações. Nunca se lhe
notava, nessas ocasiões, aquele humor cintilante que levava os outros mestres a acusálo
de volubilidade. Como arranjasse tempo para tudo, no decorrer do dia, instruía às
vezes, separadamente, durante um quarto de hora, mais ou menos, os rapazes que
preparava para a confirmação. Queria compenetrá-los de que era aquele o primeiro
passo conscientemente sério que iam dar na vida. Procurava sondar-lhes os recessos da
alma e incutir-lhes a sua devoção veemente. Sentia em Philip, não obstante o seu
retraimento, a possibilidade de uma paixão igual à sua. O temperamento do rapaz
afigurava-se-lhe essencialmente religioso. Certo dia, de súbito, desviou-se do assunto
sobre que falava.
- Já pensaste no que serás quando cresceres? - perguntou.
- Meu tio quer que eu me ordene - respondeu Philip.
- E tu?
Philip desviou os olhos. Sentia vergonha de dizer que se considerava indigno.
- Não conheço outro modo de vida que seja tão cheio de felicidade como o nosso.
Quisera fazer-te sentir o privilégio maravilhoso que ele encerra. é possível servir a
Deus onde quer que seja, mas nós estamos mais perto dele. Não quero influenciar-te
mas se viesses a pensar em tal... ah de uma vez para sempre... não poderias deixar de
sentir a alegria e o conforto que nunca mais nos abandonam.
Philip não respondeu, mas o reitor leu-lhe nos olhos uma semi-compreensão das
suas palavras.
- Se continuares como até agora, em breve te transformarás no primeiro aluno de
toda a escola, e ao terminar o curso terás uma bolsa de estudos quase garantida.
Possuis alguns recursos?
- Meu tio diz que, ao completar vinte e um anos, passarei a receber cem libras por
ano.
- Estarás rico. Eu nada tive.
O reitor hesitou um pouco e depois, riscando despreocupadamente com o lápis o
mata-borrão que tinha à frente, continuou.
- Parece-me que a tua escolha de profissão é um tanto ou quanto limitada. Não
poderás, por exemplo, dedicar-te a coisa alguma que exija actividade física.
Philip corou até à raiz dos cabelos, o que acontecia todas as vezes que se referiam
ao pé boto. Mr. Perkins olhou gravemente para ele.
- Parece-me que és hipersensível a respeito da tua infelicidade. Já pensaste em
agradecê-la a Deus?
Philip ergueu os olhos vivamente. Os lábios contraíram-se-lhe. Lembrou-se de
que, durante meses inteiros, confiando no que lhe haviam dito, implorara a Deus que o
curasse como curara o leproso e restituíra a vista ao cego.
- Enquanto a aceitares com rebeldia, só sentirás aumentar a tua vergonha. Se,
pelo contrário, a considerares como uma cruz que és obrigado a transportar porque a
resistência dos teus ombros assim o permite, e aí está o favor de Deus, então
transformá-la-ás numa fonte de venturas, em vez de uma desgraça.
Notou que o rapaz tinha aversão a abordar aquele assunto e por isso deixou-o
retirar-se.
Philip, porém, meditou sobre tudo quanto o reitor lhe dissera. Inteiramente
absorvido pela cerimónia que ia realizar-se dentro em pouco, mergulhou em êxtase
místico. O seu espírito parecia libertar-se dos laços da carne e viver uma nova vida.
Aspirava à perfeição, com todo o ardor de que era capaz. Queria entregar-se por
completo ao serviço de Deus e optou em definitivo pela ordenação. Ao chegar o grande
dia, a alma achava-se tão profundamente comovida pelos preparativos, pelos livros
que estudara e, acima de tudo, pela influência dominadora do mestre, que mal se
continha de alegria e temor. Um pensamento o atormentava. Sabia que teria de dirigirse
sozinho para o altar e assim mostrar o pé não só a toda a escola, reunida para assistir
à cerimónia, como aos estranhos, pessoas vindas da cidade ou pais que queriam estar
presentes à confirmação dos filhos. Chegado o momento, porém, sentiu de súbito a
possibilidade de aceitar a humilhação com alegria. Ao atravessar o altar, coxeando,
pequenino e insignificante sob as majestosas abóbadas da Catedral, ofereceu
conscientemente a sua deformidade em sacrifício a Deus, que o amava.
XVIII
Mas Philip não podia viver por muito tempo no ar rarefeito das alturas. Repetiase,
agora, o que ocorrera quando do seu primeiro arrebatamento religioso. Sentia de tal
forma a beleza da fé e a ânsia de sacrifício ardia-lhe no coração com tamanho fulgor
que as forças pareciam não corresponder à sua ambição. A violência da paixão
extenuara-o. A sua alma tornou-se, de súbito, singularmente árida. Começou a
esquecer a presença de Deus, que sempre lhe parecera tão próximo, e as práticas
religiosas, posto que ainda observadas pontualmente, transformavam-se em mera
formalidade. A princípio censurava a si próprio aqueles lapsos e o temor aos apelos do
inferno redobrava de veemência; mas a paixão estava morta e pouco a pouco outros
interesses passaram a absorver-lhe o pensamento.
Philip tinha poucos amigos. O hábito de ler isolava-o; tal era a necessidade desse
hábito que, após algumas horas passadas em companhia dos colegas, sentia-se fatigado
e inquieto. Orgulhava-se dos largos conhecimentos adquiridos através de inúmeros
livros, mas não sabia ocultar, com o seu espírito vivo, o desprezo com que encarava a
estupidez dos companheiros. Queixavam-se de que Philip era presunçoso e, como
apenas os superava em matérias que consideravam sem importância, perguntavam-lhe
em tom satírico qual a razão de toda aquela fatuidade. Adquirira o senso do humor e
descobrira que tinha o dom de fazer observações amargas, embora verdadeiras, que
feriam o amor-próprio das pessoas. Fazia-as pelo simples prazer que isso lhe dava, sem
perceber quanto eram afrontosas, e sentia-se bastante ofendido ao verificar que as
vítimas principiavam a tratá-lo com hostilidade. As humilhações sofridas quando do
seu ingresso na escola haviam-lhe despertado, com relação aos colegas, uma repulsa de
que nunca se pôde libertar; conservava-se esquivo e calado. Embora tudo fizesse para
afastar a simpatia dos outros rapazes, ansiava ardentemente pela popularidade que
outros com facilidade conquistavam. Admirava-os de longe, extravagantemente. E,
posto que, por inclinação, se mostrasse mais sarcástico para com eles do que para com
os demais, improvisando gracejos à sua custa, faria os maiores sacrifícios para trocar o
lugar com eles. Seria capaz de trocar de lugar mesmo com o mais estúpido da escola,
contanto que tivesse um físico são. Contraiu, então, um hábito singular. Imaginava ser
um rapaz por quem sentia especial predilecção, transferia por assim dizer a própria
alma para o corpo do outro, adoptava-lhe a voz e a espontaneidade do riso; imaginavase
a praticar todos os actos que o outro praticava. Era tudo tão vívido que às vezes
acreditava ter adquirido nova personalidade. Desfrutou, desse modo, muitos
intervalos de fantástica felicidade.
Ao iniciar-se o período do Natal, logo após o sacramento do crisma, Philip foi
transferido para outra saleta de estudo. Um dos que a compartilhavam chamava-se
Rose. Estava na mesma turma de Philip, que sempre o olhara com invejosa admiração.
Não era bonito; embora as grandes mãos e os ossos desenvolvidos sugerissem que viria
a ser um homem alto, possuía um físico canhestro. Os olhos, porém, eram
encantadores, e quando ria (vivia constantemente a rir) as faces enrugavam-se-lhe
jovialmente ao redor deles. Não era sagaz nem estúpido, mas dava conta das suas
obrigações e salientava-se nos jogos. Era o favorito dos mestres e colegas, dedicando,
por sua vez, amizade a todos eles.
Quando Philip foi transferido para o novo estudo, verificou que os outros o
recebiam com frieza, uma vez que estavam juntos havia três trimestres. Ficara nervoso
ao sentir-se intruso. Aprendera, contudo, a ocultar os seus sentimentos, e, devido a
isso, não aborrecia ninguém. Na presença de Rose, então, como se não resistisse ao seu
encanto, o que, aliás, acontecia com todos os outros, Philip mostrava-se ainda mais
retraído e brusco. Fosse em virtude disso, levado a exercer, inconscientemente, a
fascinação que sabia possuir apenas pela observação dos efeitos, ou fosse movido por
pura bondade de coração, o certo é que Rose foi o primeiro a admitir Philip no seu
círculo. Certo dia, de improviso, perguntou-lhe se queria acompanhá-lo ao campo de
futebol. Philip corou:
- Não posso caminhar tão depressa como tu - observou.
- Tolice! Vamos.
Pouco antes de saírem, um rapaz qualquer assomou a cabeça à porta entreaberta
e convidou Rose para ir com ele.
- Não posso - respondeu. - prometi ir com Carey.
- Não te preocupes comigo - disse Philip, prontamente. - Não me importo.
- Tolice! - repetiu Rose.
Olhou para Philip, com aquele seu ar tão afável, e sorriu. Philip sentiu um
palpitar esquisito no coração.
Essa amizade cresceu rapidamente, como acontece entre rapazes, e os dois
tornaram-se inseparáveis. Os colegas, admirados com tão repentina intimidade,
perguntavam a Rose que atractivos descobrira em Philip.
- Oh, não sei - respondeu. - Não é mau rapaz, afinal de contas.
Mais tarde, costumavam entrar na capela de braço dado ou conversar enquanto
passeavam no pátio. Onde quer que um estivesse, o outro também seria encontrado e,
como reconhecendo-lhe a sua qualidade de proprietário, os rapazes que queriam falar
com Rose confiavam recados a Carey. A princípio, Philip mostrava-se reservado. Não
desejava entregar-se inteiramente à alegria e ao desvanecimento que o dominavam.
Mas a desconfiança que lhe inspirava o destino não tardou a transformar-se em imensa
felicidade. Considerava Rose a criatura mais admirável que já vira. Os livros tinham
perdido toda a importância para ele. Não podia dar-lhes atenção quando havia coisa
infinitamente mais séria com que se preocupar. Às vezes, os amigos de Rose vinham
tomar chá na sua sala de estudo ou conversar, quando nada tinham que fazer. Rose
gostava dessas reuniões, que proporcionavam oportunidades para boas pândegas.
Todos concordavam em que Philip era um óptimo camarada, e isso deixou-o radiante.
Por ocasião do último dia do período lectivo, ele e Rose combinaram o comboio
em que voltariam. Assim poderiam encontrar-se na estação e tomar chá na cidade,
antes de regressarem à escola. Philip foi para casa com o coração oprimido. Pensou em
Rose durante todo o tempo das férias, imaginando as coisas que fariam juntos no
período seguinte. Entediou-se no vicariato e, no último dia, o tio fez-lhe a pergunta
costumada, no tom jovial de sempre:
- Então, estás contente por voltar à escola?
- Muito - respondeu, cheio de alegria.
Para estar certo de encontrar-se com Rose na estação, tomou um comboio
anterior àquele em que habitualmente viajava e esperou na plataforma uma hora. Ao
chegar o comboio de Faversham, onde Rose teria que fazer o trasbordo, correu ansioso
ao encontro do amigo. Mas Rose não viera. Perguntou a um carregador quando
chegava outro comboio e esperou. Sofreu nova decepção. Sentia frio e fome; resolveu
seguir para a escola pelo caminho mais curto possível, percorrendo travessas e ruelas
miseráveis. Encontrou Rose na sala de estudo, com os pés sobre o fogão, falando pelos
cotovelos com meia dúzia de colegas, sentados por onde calhava. Apertou a mão de
Philip entusiasticamente, mas este caiu das nuvens, pois notou que Rose esquecera por
completo o encontro marcado.
- Por que chegas tão atrasado? - perguntou Rose. - Pensei que já não viesses.
- Às quatro e meia, estavas na estação - observou outro colega
- Vi-te quando cheguei.
Philip corou de leve. Não queria dar a entender a Rose que tivera a ingenuidade
de esperar por ele.
- Tive que acompanhar uma amiga da minha família - inventou prontamente. -
Pediram-me que a levasse até ao comboio.
A decepção, porém, deixou-o um pouco mal-humorado. Conservou-se em
silêncio e, quando lhe dirigiam alguma pergunta, respondia com monossílabos.
Pretendia discutir o caso com Rose, quando estivessem a sós. Mas, logo que os outros
se retiraram, Rose veio sentar-se no braço da cadeira em que Philip descansava.
- Sinto-me contente por estarmos no mesmo estudo este período. Formidável, não
achas?
A sua alegria parecia tão sincera que o aborrecimento de Philip se desvaneceu.
Como se nunca se tivessem separado, puseram-se a conversar sobre mil coisas de
interesse comum.
XIX
A princípio, Philip sentia-se tão grato pela amizade de Rose que não tinha
coragem de ter com ele a menor exigência. Aceitava as coisas como realmente eram e
achava a vida agradável. Agora, contudo, a amabilidade universal de Rose começava a
desgostá-lo. Queria uma intimidade mais exclusiva, reclamando como direito o que
antes aceitara como favor. Tinha olhares ciumentos quando via Rose em companhia de
outros, e, embora reconhecesse não ser razoável, não podia reprimir algumas palavras
ásperas. Quando Rose passava uma hora a galhofar noutra sala de estudo, Philip
recebia-o, ao voltar, com o sobrolho carregado. Conservava-se assim o dia inteiro, e o
seu sofrimento era ainda maior porque Rose, ou não lhe notava o mau humor, ou
fingia ignorá-lo. Não raro, inteiramente cônscio da estupidez de tal procedimento,
Philip provocava uma disputa e os dois não se falavam durante alguns dias. Era,
contudo, impossível continuar zangado por muito tempo, e, embora convencido de
que tinha razão, pedia desculpa humildemente. Na semana que se seguia, voltavam a
ser, então, os grandes amigos de sempre. Os bons tempos, porém, haviam passado;
Philip observava que muitas vezes Rose passeava com ele, obedecendo simplesmente
ao velho hábito ou por temor ao seu génio. Já não tinham muito que dizer um ao outro
e muitas vezes Rose mostrava enfado. Philip percebeu que o seu defeito físico
principiava a irritá-lo.
Ao aproximar-se o fim do período dois ou três rapazes foram atacados de
escarlatina e falou-se em mandar todos para casa, a fim de evitar uma epidemia. Os
doentes porém foram isolados, e como não se verificaram outros casos a impressão
geral foi de que o perigo passara. Um daqueles era Philip. Permaneceu no hospital as
férias da Páscoa e ao começar o período do Verão, foi enviado para o vicariato, a fim de
mudar de ares. Embora o médico assegurasse que não havia perigo de contágio, o
vigário recebeu o sobrinho com certo receio. Achou má lembrança do doutor sugerir
que a convalescença se efectuasse à beira-mar, e apenas consentiu em tê-lo em casa
porque não havia outro lugar para onde mandá-lo.
Quando o período já ia em meio, Philip regressou à escola. Esquecera as brigas
que tivera com Rose, lembrando-se apenas de que ele era o seu maior amigo.
Reconhecia ter sido muito tolo e resolveu mostrar-se mais razoável. Durante a doença,
Rose enviara-lhe dois bilhetes, terminando cada um deles com as palavras: «Volta o
mais depressa possível». Philip imaginava que Rose devia estar tão ansioso por vê-lo
quanto ele próprio almejava encontrar-se com o amigo.
Foi informado de que, em consequência da morte de um dos rapazes atacados de
febre, houvera uma mudança na distribuição dos alunos e Rose já não era seu
companheiro de estudo. Foi para ele uma amarga decepção. Assim que chegou, porém,
correu para a sala de Rose. Estava este sentado à carteira, com um companheiro de
nome Hunter, e voltou-se irritado quando Philip entrou.
- Que diabo é isso? - gritou.
E depois, avistando Philip:
- Ah, és tu.
Philip estacou embaraçado.
- Lembrei-me de vir até aqui, para saber como estavas.
- Estamos a trabalhar.
Hunter intrometeu-se na conversa.
- Quando chegaste?
- Há cinco minutos.
Os dois olhavam-no como se os estivesse a incomodar. Era evidente que
esperavam a sua retirada. Philip corou.
- Saio já. Podes procurar-me quando acabares - disse a Rose.
- Está bem.
Philip fechou a porta e dirigiu-se, coxeando, para a sua sala de estudo. Sentia-se
profundamente ofendido. Longe de se mostrar alegre ao voltar a vê-lo, Rose parecia
antes lamentar a sua vinda. Era como se não fossem mais do que simples conhecidos.
Embora esperasse na sala de estudo, sem a abandonar um só momento, o amigo não
apareceu. Na manhã seguinte, por ocasião das orações, viu Rose e Hunter de braço
dado. Outros contaram-lhe o que não lhe era possível deduzir por si mesmo. Esquecera-
se de que três meses constituem um espaço de tempo bem longo na vida de um
estudante, e se os tinha passado na solidão, não acontecera o mesmo com Rose. Hunter
preenchera o lugar vago. Philip notou que o amigo o evitava, dissimuladamente. Seria
incapaz, contudo, de aceitar semelhante situação sem uma explicação directa. Esperou
que Rose se encontrasse só na sala de estudo e dirigiu-se para lá:
- Posso entrar? - perguntou.
Rose olhou-o com um embaraço que o fez ficar furioso com Philip.
- Podes, se quiseres.
- É muita bondade tua - disse Philip em tom sarcástico.
- Que queres?
- Por que tens sido tão estúpido depois da minha volta?
- Ora, não sejas burro - retorquiu Rose.
- Não sei o que vês em Hunter.
- isso é comigo.
Philip baixou o olhar. Era incapaz de dizer o que sentia no íntimo. Receava
submeter-se a uma humilhação. Rose levantou-se.
- Tenho de ir ao ginásio - disse.
Quando saía a porta Philip, com grande esforço, exclamou:
- Olha, Rose, não sejas um animal.
- Ora, vai para o diabo!
Rose fechou violentamente a porta, deixando Philip só, a tremer de raiva. Este
voltou, depois, para a sua sala de estudo e pôs-se a meditar sobre a discussão de
minutos antes. Odiava Rose, agora; faria tudo por magoá-lo. Quantas coisas mordazes
lhe poderia ter dito! Pensou longamente sobre o fim daquela amizade e imaginava os
comentários dos outros. A sua sensibilidade fazia-o ver sorrisos de desprezo e
expressões de admiração nos companheiros que, na verdade, não se preocupavam com
ele. Procurava reconstituir os diálogos dos colegas:
- Afinal de contas, isso não podia durar muito. Duvido mesmo que ele tenha
gostado de Carey. Idiota!
Para mostrar indiferença, iniciou aparente amizade com um rapaz chamado
Sharp, a quem desprezava e odiava. Era londrino, de aspecto pesadão e grosseiro, com
um prenúncio de bigode e bastas sobrancelhas que se uniam por cima do nariz. Tinha
as mãos macias e maneiras urbanas de mais para a sua idade. Ao falar, deixava
transparecer ligeiramente o sotaque londrino. Era desses rapazes indolentes, de
constituição avessa aos desportos, usando de grande astúcia para evitar a participação
nos jogos obrigatórios. Os colegas e os mestres olhavam-no com vaga antipatia e só por
arrogância Philip procurava agora o seu convívio. Dentro de alguns meses, Sharp iria
passar um ano na Alemanha. Detestava a escola e considerava a vida ali como uma
indignidade que fora condenado a suportar, até adquirir idade suficiente para penetrar
no mundo. Londres era tudo o que lhe interessava. Contava várias histórias das suas
proezas lá, nas férias. Da sua conversa - falava em voz macia e profunda - desprendiase,
vagamente, o burburinho das ruas de Londres ao cair da noite. Philip ouvia-o ao
mesmo tempo com fascinação e repulsa. Com a sua viva imaginação, via as multidões
acotovelarem-se em redor dos teatros, o brilho dos restaurantes baratos, bares onde
homens, meio embriagados, sentados em bancos de pernas altas, conversavam com as
criadas e, sob os candeeiros das ruas, o desfilar misterioso de bandos negros em busca
do prazer. Sharp emprestou-lhe algumas novelas baratas de Holywell Street, que
Philip leu no cubículo, com uma espécie de temor maravilhoso.
Certa vez, Rose tentou uma reconciliação. Era um rapaz de boa índole e não
gostava de ter inimizades.
- Olha, Carey, por que continuas obstinado como um burro? Não ganhas nada
em romper comigo.
- Não sei a que te referes - respondeu Philip.
- Bem, não sei por que nos não falamos.
- Aborreces-me - retorquiu Philip.
- Faze o que quiseres.
Rose encolheu os ombros e afastou-se. Philip ficou muito pálido, como acontecia
todas as vezes que se comovia, e o coração batia-lhe com violência. Quando viu Rose
desaparecer, sentiu-se imensamente infeliz. Não sabia explicar por que respondera
daquela forma. Daria tudo para reconquistar a amizade de Rose. Lamentava ter
brigado com o companheiro, e, agora que o fizera sofrer, mostrava-se bastante
arrependido. No momento, porém, não soubera dominar-se. Parecia-lhe que algum
demónio se apoderara dele, obrigando-o a pronunciar palavras amargas quando, na
verdade, o seu maior desejo era apertar a mão de Rose e restabelecer a antiga amizade.
A vontade de magoar fora mais forte do que ele. Procurara vingar-se da dor e da
humilhação que sofrera. Tudo tinha sido produto do seu orgulho e redundara numa
insensatez, pois sabia que Rose não ligaria maior importância ao caso, sendo ele o
único prejudicado. Ocorreu-lhe então a ideia de ir ao encontro de Rose e dizer:
- Olha, desculpa, portei-me como um asno. Não me contive. Esqueçamos.
Sabia, porém, que era incapaz de fazê-lo. Receava que Rose zombasse dele. Teve
raiva a si próprio, e, quando Sharp apareceu, pouco depois, Philip aproveitou a
primeira oportunidade para entrar em disputa com o amigo. Possuía o dom diabólico
de descobrir os pontos fracos dos outros, dizendo coisas que ofendiam por serem
verdadeiras. Sharp, contudo, teve a última palavra.
- Acabo de ouvir Rose falar com Mellor a teu respeito. Mellor disse: «Por que não
lhe deste um pontapé? Isso o ensinaria a ser bem educado». E Rose respondeu: «Não
quis. aleijado dos diabos!».
Philip tornou-se subitamente escarlate. Não pôde responder, pois sentia na
garganta um nó que quase o sufocava.
XX
Philip foi promovido à sexta classe, mas tinha agora profunda aversão ao colégio.
Perdida a ambição, pouco lhe importava o triunfo ou o malogro. Ao amanhecer,
despertava cheio de desânimo ante a perspectiva de mais um dia de fadiga. Estava
cansado de fazer coisas ditadas pelos outros. As restrições aborreciam-no não porque
fossem despropositadas, mas pelo simples facto de serem restrições. Ansiava pela
liberdade. Sentia-se farto de repetir coisas que já sabia e não suportava o constante
repisar de assuntos elementares, por amor de algum colega de espírito bronco.
Com Mr. Perkins, o aluno trabalhava se quisesse. Era ao mesmo tempo
arrebatado e abstracto. A sala da sexta classe era na parte restaurada da velha abadia e
possuía uma janela gótica. Philip tentava enganar o tédio desenhando vezes seguidas
essa janela; noutras ocasiões, desenhava de memória a grande torre da catedral ou o
portão que dava entrada para o recinto do colégio. Tinha queda para o desenho.
Durante a mocidade, a tia Louise pintara a aguarela, e possuía diversos álbuns cheios
de esboços de igrejas, velhas pontes e pitorescas casas de campo. Exibia
frequentemente esses álbuns por ocasião dos chás oferecidos no vicariato. Certa vez,
dera a Philip, como presente de Natal, uma caixa de tintas, e a primeira coisa que ele
fez, foi copiar quadros da tia. Reproduzira-os com mais perfeição do que se podia
esperar e em pouco tempo já começava a pintar obras originais. Mrs. Carey encorajarao.
Era uma boa maneira de afastá-lo do mal e mais tarde esses trabalhos renderiam
algum dinheiro nas quermesses. Dois ou três dos quadros de Philip foram
emoldurados e pendurados no seu quarto de dormir.
Um dia, porém, no fim dos trabalhos matinais, Mr. Perkins chamou-o à parte, no
momento em que se retirava da sala de aula.
- Quero falar contigo, Carey.
Philip esperou. Mr. Perkins correu os dedos magros por entre barba e olhou para
ele. Parecia meditar no que devia dizer.
- Que se passa contigo, Carey? - perguntou, de súbito.
Philip corando olhou-o de relance. Como, porém, já o conhecia na perfeição,
esperou, sem responder, que ele prosseguisse.
- Tenho estado descontente contigo ultimamente. Tens sido negligente e
desatento. Pareces não tomar interesse pelo estudo. Estás a tornar-te um aluno
desmazelado e medíocre.
- Sinto muito, senhor reitor - disse Philip.
- É a única coisa que tens a dizer em tua defesa?
Philip olhou para o chão, aborrecido. Como poderia explicar que estava a morrer
de tédio?
- Este período vais retroceder, como sabes. Não posso dar boas informações.
Philip pensou no que ele diria, se soubesse como essas informações eram
recebidas no vicariato. Chegavam por altura do primeiro almoço. Mr. Carey olhava-as
com indiferença e entregava-as Philip.
- Aqui está o teu boletim. É melhor que o vejas pessoalmente
- observava, rasgando com o dedo a cinta de um catálogo de livros em segunda
mão.
Philip lia-o.
- É bom? - indagava a tia Louise.
- Não tão boas quanto eu mereço - respondia Philip, com um sorriso, entregandolhe
a folha.
- Lerei mais tarde, quando estiver com os óculos - volvia ela.
Terminada a refeição, porém, Mary Ann vinha anunciar a chegada do açougueiro
e Mrs. Carey quase sempre se esquecia de ler o boletim.
Mr. Perkins continuou.
- Estou desiludido contigo. Não posso compreender. Sei que és capaz do que
queres, mas pareces não querer nada. Pretendia nomear-te monitor no próximo
trimestre, mas acho melhor esperar algum tempo.
Philip corou. Desagradava-lhe a ideia de ser posto de lado. Os lábios contraíramse-
lhe.
- E há ainda outra coisa. Precisas de começar a pensar na bolsa de estudo. Não
conseguirás, a não ser que trabalhes com afinco.
O sermão deixou Philip irritado. Estava furioso com o mestre e furioso consigo
mesmo:
- Acho que não vou para Oxford - observou.
- Porque não? Pensei que pretendesses ordenar-te.
- Mudei de ideia.
- Porquê?
Philip não respondeu. Mr. Perkins, na postura estranha de sempre, como a de
certas figuras dos quadros de Perugino, cofiava pensativamente a barba. Olhou para
Philip, com a expressão de quem procura compreender, e, de repente, disse-lhe que
podia ir-se embora.
Mas, aparentemente, não ficou convencido, pois, certa noite, uma semana mais
tarde, quando Philip teve de levar-lhe alguns papeis ao gabinete, a conversa foi
reiniciada. Desta vez, porém, adoptou um método diferente. Falou não na qualidade
de mestre, mas como de um homem para outro. Não parecia interessar-lhe que o
aproveitamento de Philip deixasse a desejar ou que fossem poucas as probabilidades
de vencer os rivais mais preparados na conquista do prémio que lhe facultaria a ida
para Oxford. O que interessava era a mudança de intenções a respeito da sua vida
futura. Mr. Perkins procurou reavivar-lhe o ardente desejo de receber ordens sacras.
Actuou, com grande perícia, sobre os sentimentos do rapaz, o que não foi difícil, uma
vez que ele próprio estava sinceramente comovido. A nova resolução de Philip afligia
imenso o mestre. Desprezava a oportunidade de ser feliz na vida, em troca não sabia
de quê. A voz de Mr. Perkins era bastante persuasiva. Philip, que era muito sensível à
comoção dos outros, e tinha um temperamento altamente sentimental, apesar da
plácida aparência exterior - o rosto, já por natureza, já em virtude do hábito adquirido
em vários anos de escola, raras vezes revelava o que sentia no peito, a não ser pela
facilidade com que corava - deixou-se comover profundamente pelas palavras do
mestre. Ficava-lhe muito grato por demonstrar tanto interesse pela sua pessoa e, por
outro lado, pungiam-lhe a consciência os efeitos do seu procedimento. Era bastante
lisonjeiro saber que Mr. Perkins se preocupava com o seu futuro, quando tinha toda a
escola para lhe absorver a atenção mas, ao mesmo tempo, porém, alguma coisa, como
alguém que estivesse ao seu lado, se agarrava desesperadamente a duas palavras.
- Não quero! Não quero! Não quero!
Sentiu-se resvalar. Via-se impotente diante da fraqueza que parecia brotar no seu
íntimo. Era como a água que invade pouco a pouco uma garrafa posta a boiar. E cerrou
os dentes, repetindo as palavras de si para si:
- Não quero! Não quero! Não quero!
Por fim, Mr. Perkins pousou a mão no ombro de Philip.
- Não desejo influenciar-te. Deves escolher por ti. Pede a Deus Todo-Poderoso
que te auxilie e conduza.
Quando Philip saiu da casa do reitor, estava a chuviscar. Não havia vivalma na
arcada que levava ao edifício principal e as gralhas dormiam silenciosas entre a
ramagem dos olmos. Caminhou em redor, a passos lentos. Sentia calor e a chuva fazialhe
bem. Meditou com calma sobre tudo quanto Mr. Perkins lhe dissera, calmamente
agora que estava longe da sua personalidade ardente e dava graças por não ter
transigido.
Na escuridão podia apenas divisar vagamente a massa enorme da catedral.
Odiava-a agora, por causa dos enfadonhos ofícios a que tinha de assistir. A antífona era
interminável, sendo todos forçados a permanecer de pé enquanto era cantada. Não se
distinguiam as palavras do sermão e ainda por cima exigia-se completa imobilidade
durante a cerimónia, enquanto o corpo ansiava por movimento. Philip lembrou-se
então dos dois ofícios realizados aos domingos, em Blackstable. A igreja era nua e fria e
o ambiente ficava impregnado do odor de brilhantina e roupas engomadas. Pregava
tanto o tio como o cura, cada um por sua vez. à medida que crescera, Philip conhecia
melhor o tio. Intolerante e positivo, não compreendia como um pároco podia pregar,
com sinceridade, caminhos que na realidade não seguia. Tal burla revoltava-o. Seu tio
era um homem fraco e egoísta, cujo principal objectivo consistia em evitar
preocupações.
Mr. Perkins falara-lhe sobre a beleza de uma vida dedicada ao serviço de Deus.
Philip sabia muito bem que espécie de vida os membros do clero levavam na região
que habitava. Havia o vigário de Whitestone, paróquia situada a pouca distância de
Blackstable; era solteirão, e, para fazer alguma coisa resolvera nos últimos tempos
transformar-se em lavrador. De vez em quando, a folha local dava notícia de processos
movidos contra sicrano e beltrano, trabalhadores a quem recusava pagar os respectivos
salários ou comerciantes que acusava de burla. Corriam boatos de que as suas vacas
morriam de fome e falava-se com insistência em medidas a serem tomadas em comum
contra ele. Havia ainda o vigário de Ferne, homem de bonita figura, que usava barba; a
esposa fora obrigada a abandoná-lo, em virtude da sua crueldade, e enchera a
vizinhança com histórias a respeito da sua conduta imoral. O vigário de Surle, pequena
povoação à beira-mar, era visto todas as noites na taberna da esquina. Os zeladores da
igreja iam consultar a opinião de Mr. Carey. Não tinham com quem conversar a não ser
com os pequenos rendeiros e pescadores; nas longas noites de Inverno, o vento soprava
forte, assobiando lugubremente por entre as árvores desfolhadas. Em redor, viam
apenas a nua monotonia dos campos arados. Lutavam com a pobreza e a falta de
trabalho proveitoso. Todos os seus defeitos se desenvolviam livremente. Nada lhes
opunha obstáculo. Tornavam-se obtusos e excêntricos. Philip sabia de tudo isso, mas
na intolerância própria da idade não queria admitir desculpas. Tremia de horror ante a
perspectiva de uma vida semelhante. Queria conhecer mundo.
XXI
Mr. Perkins viu logo que as suas palavras não tinham produzido efeito sobre
Philip, e por isso não lhe deu mais atenção durante o resto do período. Escreveu um
boletim vitriólico. Quando este chegou a Blackstable, a tia Louise perguntou a Philip
que tal achava os resultados e o rapaz respondeu alegremente:
- Péssimos.
- São de facto? - exclamou o vigário. - Deixa ver outra vez.
- Acha que vale a pena eu continuar em Tercanbury? Seria muito melhor se fosse
passar uma temporada à Alemanha.
- Quem te meteu isso na cabeça? - indagou Mrs. Carey.
- Não acha uma boa ideia?
Sharp já deixara o colégio e escrevera a Philip, de Hanover. Impacientava-o ainda
mais imaginar que o amigo iniciava a vida de verdade. Seria impossível suportar mais
um ano de jugo.
- Mas assim não obterás a bolsa de estudo.
- De qualquer maneira, essa probabilidade não existe. Além disso, não me sinto
muito inclinado a ir para Oxford.
- Mas não pretendes ordenar-te, Philip? - perguntou a tia Louise, alarmada.
- Há muito que pus de parte essa ideia.
Mrs. Carey fitou-o com os olhos espantados, e em seguida, acostumada a
dominar-se, tornou a encher a chávena para o tio. Não trocaram uma palavra. Philip
notou então que as lágrimas rolavam lentamente pelas faces dela. Confrangeu-se-lhe o
coração ao verificar que a magoara. No seu vestido negro colado ao corpo, feito por
modéstia na vizinhança, o rosto enrugado, os olhos cansados e sem brilho, os cabelos
grisalhos ainda frivolamente penteados em cachos, como no tempo da sua mocidade -
a pobre mulher era uma figura ridícula mas singularmente patética. Pela primeira vez
Philip o notava.
Mais tarde, quando o vigário se fechou no gabinete em companhia do cura,
rodeou-lhe a cintura com o braço.
- Desculpe-me tê-la magoado, tia Louise - disse. - Mas não é justo que eu me
ordene sem ter vocação para isso, não acha?
- Estou tão desiludida, Philip - gemeu ela. - Fazia empenho nisso. Imaginava verte
cura coadjutor de teu tio, e, quando chegasse o nosso dia... Não havemos de viver
eternamente, não é assim?..., talvez viesses a ocupar o seu lugar.
Philip estremeceu. Foi tomado de pânico. O coração pulsava como um pombo a
debater-se contra as grades da prisão. A tia chorava silenciosamente, com a cabeça
pousada no ombro dele.
- Gostaria que persuadisse o tio William a tirar-me de Tercanbury. Estou farto
daquilo.
Mas o vigário de Blackstable não costumava alterar os planos que fazia, e havia
muito fora estabelecido que Philip devia permanecer na King’s School até aos dezoito
anos, e então iria para Oxford. Fosse como fosse, nem queria ouvir falar na retirada
imediata de Philip, pois não se fizera a comunicação ao director e as mensalidades
teriam de ser pagas em qualquer hipótese.
- Então, o tio comunicará a minha retirada no Natal? - perguntou Philip, ao fim
de longa e por vezes penosa conversação.
- Vou escrever a Mr. Perkins, a pedir a sua opinião.
- Oh, quem me dera ter vinte e um anos. É horrível depender dos outros.
- Não deves responder assim a teu tio, Philip - observou Mrs. Carey com
brandura.
- Mas não vê que Perkins preferirá que eu continue? Cada aluno contribui para
aumentar os seus vencimentos.
- E por que não queres ir para Oxford?
- Qual a vantagem disso, já que não entrarei para a Igreja?
- Tu não podes entrar para a Igreja: já estás dentro dela - disse o vigário.
- Quero dizer que não vou ordenar-me - replicou Philip com impaciência.
- Que pretendes ser, Philip? - perguntou Mrs. Carey.
- Não sei. Nada resolvi ainda. Mas de uma forma ou de outra, será de grande
utilidade conhecer línguas estrangeiras. Passando um ano na Alemanha, lucrarei muito
mais do que se ficar toda a vida naquela toca.
Embora não o manifestasse sentia que Oxford significava pouco mais do que
uma continuação da sua vida no colégio. Desejava ardentemente tornar-se senhor de si
próprio. Além disso, seria sem dúvida reconhecido por antigos colegas e agora só lhe
interessava fugir a todos eles. A sua vida escolar fora um desastre. Queria iniciar
existência nova.
Aconteceu que o seu desejo de partir para a Alemanha coincidia com certas
ideias que tinham sido discutidas ultimamente em Blackstable. às vezes, o vigário
hospedava em sua casa amigos que traziam notícias recentes do mundo exterior; os
visitantes que vinham passar o mês de Agosto à beira-mar também olhavam as coisas
através de um prisma especial. O vigário ouvira dizer que muitas pessoas não
consideravam a educação antiga de grande utilidade no presente, tendo as línguas
modernas adquirido uma importância sem paralelo. O seu espírito achava-se indeciso,
pois um irmão mais novo fora também enviado para Alemanha, ao perder um exame,
criando assim um precedente; viera, porém, a falecer logo em seguida, vitimado pela
febre tifóide, e, em vista disso, a experiência só podia ser considerada temerária. Como
resultado de inúmeras conversações, ficou resolvido que Philip passaria em
Tercanbury mais um trimestre e sairia depois. Philip não se mostrou descontente com
essa resolução. Alguns dias depois do seu regresso, o reitor procurou-o.
- Recebi uma carta de teu tio. Diz ele que queres ir para a Alemanha, e, em vista
disso, pede a minha opinião.
Philip ficou estupefacto. Estava furioso com o tutor por haver faltado à palavra.
- Pensei que estivesse tudo resolvido, senhor reitor. - retorquiu.
- Longe disso. Escrevi a dizer que considero um grande erro retirar-te daqui.
Philip foi sentar-se imediatamente a redigir uma carta violenta para o tio. Não
mediu a linguagem. A raiva não lhe deixou conciliar o sono senão alta noite, e, ao
despertar, na manhã seguinte, pôs-se novamente a meditar sobre a maneira como o
haviam tratado. Esperou impacientemente pela resposta. Recebeu-a dois ou três dias
depois. Era uma carta branda e dolorosa, enviada pela tia Louise dizendo que ficara
muito sentida por ele ter escrito aquelas coisas ao tio, que ficara muito penalizado. Era
um procedimento cruel e pouco cristão. Devia compreender que eles apenas
procuravam o seu bem-estar, e como fossem muito mais velhos do que Philip, eram
melhores juízes sobre o que lhe convinha. O rapaz cerrou os punhos. Já ouvira muitas
vezes aquela afirmação, mas não compreendia por que razão havia de ser verdadeira.
Seus tios não conheciam as condições em que ele vivia. Portanto, como podiam ter a
certeza de que a diferença de idade lhes conferia maior sabedoria? A carta terminava
com a informação de que Mr. Carey tornara sem efeito a notificação feita ao reitor.
Philip ruminou a cólera até à próxima tarde de saída. Eram às terças e quintafeiras,
visto que aos sábados de tarde se realizava o ofício na catedral. Ficou para trás
enquanto o resto da turma saía.
- Por favor, senhor reitor, posso ir a Blackstable esta tarde? - perguntou.
- Não - respondeu Mr. Perkins, laconicamente.
- Desejava tratar de um assunto muito importante com meu tio.
- Não me ouviste dizer que não?
Philip não respondeu, retirando-se em seguida Sentia-se acabrunhado pela
humilhação de ter tido que pedir e de ter recebido uma recusa tão seca. Pôs-se a odiar o
reitor. Revoltava-se contra esse despotismo que não invocava a menor razão para o
mais tirânico dos actos. Não raciocinava no que fazia, e, após o almoço, pelos caminhos
escusos que conhecia tão bem, dirigiu-se à estação a tempo de apanhar o comboio para
Blackstable. Ao chegar ao vicariato, encontrou os tios sentados, na sala de jantar.
- Olá, de onde surgiste? - perguntou o vigário.
Notava-se claramente, que não sentia satisfação alguma em vê-lo.
- Vim para falar a respeito da minha retirada do colégio. Quero saber qual era a
sua intenção ao prometer uma coisa na minha presença e fazer outra diferente uma
semana mais tarde.
A própria audácia infundia-lhe certo temor, porém, escolheu previamente as
palavras que deveria usar, e embora o coração lhe pulsasse com violência, forçou-se a
dizê-las.
- Obtiveste licença para vir aqui hoje à tarde?
- Não. Pedi a Mr. Perkins, mas ele recusou. Se o tio quiser escrever-lhe, a contarlhe
que estive aqui, meter-me-á num bom sarilho.
Mrs. Carey sentada, tricotava com mãos trémulas. Não estava habituada a cenas
e aquilo agitava-a profundamente.
- Merecias bem que lhe escrevesse - disse Mr. Carey.
- Se lhe apraz ser um patife completo, escreva. Não seria de admirar, depois de
ter enviado a Perkins uma carta como aquela.
Philip cometera uma tolice, ao falar desse modo, pois deu ao vigário a
oportunidade que ele procurava.
- Esperas que fique aqui a ouvir as tuas impertinências? - perguntou com
dignidade.
Levantando-se dirigiu-se para o seu gabinete. Philip ouviu-o fechar a porta à
chave.
- Oh, quem me dera já ter vinte e um anos! é horrível sentir-me assim amarrado!
A tia Louise começou a chorar baixinho.
- Oh, Philip, não devias ter falado dessa forma a teu tio. Por favor, vai pedir-lhe
perdão.
- Não estou arrependido. Ele aproveita-se da sua situação. Conservar-me no
colégio é deitar dinheiro à rua, mas que diferença lhe faz ? O dinheiro não é dele... é
crueldade colocarem-me sob a guarda de pessoas sem experiência das coisas!
- Philip!
Não obstante a sua raiva, Philip calou-se subitamente ao som da voz da tia. Era
de comover. Não percebera quão amargas eram as palavras que pronunciava.
- Philip, como podes ser tão indelicado? Bem sabes que só desejamos a tua
felicidade, embora seja certo que não temos experiência. Se tivéssemos tido filhos, não
seria assim. Foi por isso que consultámos Mr. Perkins. - A voz alterava-se-lhe.- Tenho
procurado ser uma mãe para ti. Tenho-te amado como se fosses meu filho.
Era tão pequena e frágil e havia no seu ar de solteirona algo de tão tocante que
Philip se deixou impressionar. Sentiu um nó na garganta e os olhos encheram-se-lhe de
lágrimas.
- Estou arrependido - disse. - Reconheço que fui muito bruto.
Ajoelhou-se ao lado da tia, abraçou-a e beijou-lhe as faces húmidas e engelhadas.
Ela soluçava angustiosamente e, de súbito, Philip compreendeu a tristeza daquela vida
inútil. Era a primeira vez que Mrs. Carey revelava tal comoção.
- Reconheço que não tenho sido o que pretendia ser para ti, Philip, mas não sabia
que fazer. É tão horrível para mim não ter filhos como para ti não teres mãe.
Philip esqueceu a sua cólera e as suas preocupações para só pensar em consolá-la
com palavras entrecortadas e tímidas carícias. Mas o relógio bateu horas e foi preciso
partir sem demora, a fim de apanhar o único comboio que chegava a Tercanbury a
tempo para a chamada. Já no comboio, lembrou-se de que nada fizera. Odiava-se pela
sua fraqueza. Era humilhante deixar-se influenciar pelos ares pomposos do vigário e
pelas lágrimas da tia. Como resultado, porém, da conversa havida entre o casal, foi
enviada outra carta ao reitor. Mr. Perkins leu-a, e encolheu os ombros com impaciência.
Mostrou-a a Philip. Dizia:
Caro Mr. Perkins:
Perdoe-me se venho aborrecê-lo outra vez a respeito do meu pupilo,
mas tanto eu como minha mulher nos temos preocupado ultimamente com
a sua situação. Mostra-se ansioso por deixar o colégio e a tia julga-o muito
infeliz. é-nos difícil encontrar uma solução, uma vez que não somos seus
pais. Acha que não faz progresso algum e diz que conservá-lo ai é deitar
fora o seu dinheiro. Ficarei imensamente grato se o senhor conversar com
ele a esse respeito e caso persista no mesmo propósito, talvez seja melhor
deixá-lo partir no Natal, como era a minha primeira intenção.
Sinceramente,
William Carey
Philip restituiu-lhe a carta. Estava orgulhoso do triunfo. Fora feita a sua vontade,
e sentia-se satisfeito. A sua vontade obtivera uma vitória por cima da vontade dos
outros.
- Não vale a pena gastar meia hora a escrever a teu tio, já que ele muda de ideias
após cada carta que recebe de ti - observou, irritado, o reitor.
Philip nada disse e o seu rosto guardava uma expressão plácida; mas não pôde
impedir que os olhos cintilassem. Mr. Perkins notou-o e pôs-se a rir.
- Marcaste um tento, hem? - exclamou.
Philip sorriu, então, abertamente. Não podia ocultar a sua exaltação.
- É verdade que estás ansioso por te ires embora?
- É, sim, senhor.
- Sentes-te infeliz aqui?
Philip corou. Revoltava-se instintivamente contra qualquer tentativa para lhe
devassar os sentimentos íntimos.
- Não sei dizer, senhor reitor.
Deslizando os dedos por entre a barba, Mr. Perkins fitou-o, pensativo. Quando
falou, foi como se o fizesse para si próprio.
- É claro que as escolas foram feitas para o estudante mediano. Os buracos são
todos redondos e as cravelhas têm de se encaixar neles, qualquer que seja a sua forma.
Não há tempo para nos preocuparmos com outra coisa que não seja o termo médio. -
Depois, repentinamente dirigiu-se a Philip. - Escuta, vou fazer-te uma sugestão. Está a
aproximar-se o fim do período. Mais uma temporada não te matará, e, já que queres ir
para a Alemanha, é melhor que o faças depois da Páscoa. é muito mais agradável na
Primavera do que no Inverno. Se em meados do próximo período ainda mantiveres o
firme propósito de partir, não oporei mais objecção alguma. Que me dizes a isto?
- Muito obrigado, senhor reitor.
O contentamento de Philip era tal por ter obtido os últimos três meses, que não
lhe importava esperar mais um período. O colégio já não lhe parecia uma prisão, pois
sabia que, ao chegar a Páscoa, se livraria dele para sempre. O coração dançava-lhe no
peito. De noite, na capela, correu os olhos pelos rapazes, colocados cada um no seu
lugar, de acordo com as respectivas classes, e riu-se consigo de satisfação, ao pensar
que em breve nunca mais os veria. Chegava quase a votar-lhes certa afeição. Os seus
olhos pousaram em Rose, que como muitos, levara a sério a sua posição de monitor.
Estava convencido de que exercia boa influência no colégio. Philip sorriu ao pensar que
ia livrar-se dele para sempre; dentro de um semestre, pouco lhe importaria que Rose
fosse alto e esbelto ou exercesse as funções de monitor e capitão de team. Philip olhou,
em seguida, para os mestres, com as suas becas. Gordon morrera de apoplexia dois
anos antes, mas os outros achavam-se todos reunidos ali. Compreendia agora as
criaturas medíocres que eram, com excepção de Turner, cujo carácter possuía alguns
reflexos humanos. Indignava-o imaginar que vivera sujeito a eles durante tanto tempo.
Seis meses, porém, passariam depressa. Os louvores daquela gente nada significariam
para ele e as censuras far-lhe-iam encolher os ombros.
Philip aprendera a não revelar as suas emoções por sinais exteriores e ainda se
sentia atormentado pela timidez, mas às vezes exultava de contentamento. Nessas
ocasiões, embora andasse a coxear, silencioso e reservado, a sua alma parecia cantar.
Era como se o próprio andar se lhe tornasse mais leve. Corriam-lhe pelo cérebro ideias
de toda a espécie, e as fantasias sucediam-se com tal rapidez que se tornava impossível
captá-las. Só isso bastava, entretanto, para enchê-lo de júbilo. Agora, como era feliz,
sentia ânimo para o trabalho e, nas restantes semanas do período, resolveu compensar
a sua prolongada negligência. A fácil actividade do cérebro proporcionava-lhe imenso
prazer. Saiu-se muito bem nos exames de conclusão do período. Mr. Perkins fez apenas
uma observação; comentava uma composição feita por Philip e, após as correcções do
costume, disse:
- Resolveste deixar de te fazeres parvo, não foi?
Sorria-lhe com os seus dentes brancos e, Philip baixando a cabeça, sorriu
confundido.
A meia dúzia de rapazes que esperavam dividir entre si os prémios a ser
distribuídos no fim do período de Verão e que haviam cessado de considerar Philip
como um rival sério, começara a ficar apreensiva. Não disse a ninguém que ia partir
por ocasião da Páscoa. Sabia que Rose se orgulhava do seu francês, pois passara dois
ou três períodos de férias na França, e esperava, por outro lado, conseguir o prémio do
Deão, para a melhor composição inglesa. Notava-se-lhe grande preocupação, ao
reconhecer que Philip o estava a suplantar naquelas matérias. Morton, outro aluno, não
poderia ingressar em Oxford, a menos que conseguisse uma das bolsas de estudo
postas à disposição da escola. Perguntou a Philip se pretendia candidatar-se.
- Tens alguma objecção a fazer? - indagou Philip.
Divertia-o imaginar que o futuro de alguém dependesse dele. Havia algo de
romântico em ter ao alcance da mão essas recompensas e em seguida desprezá-las em
benefício de outros. Chegou, afinal, o dia da partida e foi despedir-se de Mr. Perkins.
- Pretendes realmente deixar-nos?
Philip fez uma cara ingénua ante a evidente surpresa do reitor.
- O senhor prometeu não fazer objecção alguma - observou.
- Pensei que se tratasse de um capricho com o qual fosse melhor concordar de
momento. Sei que és obstinado e pertinaz. Por que razão queres deixar-nos? De
qualquer forma, só te falta mais um período. Obterás facilmente a bolsa de Magdalen;
poderás conquistar metade dos prémios que vamos conceder.
Philip olhava-o carrancudo. Sentia-se enganado. Mas Perkins empenhara a
palavra e não podia voltar atrás.
- Estou certo de que gostarás de Oxford. Por enquanto, não precisas de
preocupar-te com o futuro. Talvez não saibas como a vida é encantadora lá, para
aqueles que possuem inteligência.
- Fiz todos os preparativos para ir para a Alemanha, senhor reitor - disse Philip.
- E esses preparativos não são susceptíveis de alteração? - inquiriu Mr. Perkins,
com o seu sorriso zombeteiro. - Sentirei muito a tua falta. Os alunos estúpidos, que
estudam, suplantam sempre os que são inteligentes mas não se aplicam. Mas quando
um aluno inteligente se resolve a trabalhar, acontece o que te aconteceu este período.
Philip corou violentamente. Não estava acostumado a receber elogios. Nunca lhe
tinham dito que era inteligente. O reitor pôs-lhe a mão no ombro.
- Na verdade é aborrecido introduzir o quer que seja na cabeça de uma criatura
obtusa, mas quando, uma vez por outra, encontramos um discípulo que compreende
as coisas quase antes de abrirmos a boca, então o ensino transforma-se na tarefa mais
agradável do mundo.
Philip sentia-se enternecido pela bondade. Nunca pensara que a sua permanência
no colégio interessasse realmente Mr. Perkins. Sentia-se comovido e muito lisonjeado.
Seria agradável terminar gloriosamente a sua fase escolar e matricular-se, então, em
Oxford. Como um relâmpago, passaram-lhe pela memória as descrições feitas por exalunos
que vinham tomar parte em diversos jogos e as cartas vindas da Universidade,
lidas em voz alta na sala de estudo. A vergonha, porém, dominava-o. Considerar-se-ia
um idiota se voltasse atrás. Mr. Carey havia de rir-se ante a vitória obtida pela astúcia
do reitor. Era como que uma queda de dignidade, passar da dramática renúncia aos
prémios, que estavam ao seu alcance porque os desprezava, ao simples e vulgar
empenho de conquistá-los. Bastaria, contudo, um pouco mais de persuasão, o
suficiente para ressalvar o respeito devido a si próprio, e Philip cederia a todos os
desejos de Mr. Perkins. Mas o seu rosto não dava sinal dessas emoções em conflito.
Mostrava-se plácido e carrancudo.
- Prefiro partir, senhor reitor - respondeu.
Como muitos homens que tudo conseguem pela sua influência pessoal, Mr.
Perkins tornou-se um pouco impaciente ao notar que o seu poder não se fazia sentir
desde logo. Tinha muito que fazer e não podia desperdiçar mais tempo com uma
criatura que lhe parecia doentiamente obstinada.
- Muito bem. Prometi que te deixaria ir, se assim o quisesses e cumpro a minha
promessa. Quando partes para a Alemanha ?
O coração de Philip começou a pulsar com violência. A batalha fora vencida, mas
ele não sabia se aquela vitória, no fundo, não significava uma derrota.
- Em princípios de Maio, senhor reitor - respondeu.
- Espero que nos visites quando estiveres de volta.
Estendeu-lhe a mão. Se tivesse dado mais uma oportunidade a Philip, este
mudaria de ideia. Mas parecia considerar o caso como resolvido. Philip afastou-se do
colégio. Os dias de prisão estavam terminados. Todavia, não sentia o incontido júbilo
previsto para aquele momento. Caminhou lentamente em redor do edifício, preso de
profunda depressão. Lamentava ter sido tão tolo. Não queria ir-se embora, mas agora
sabia que seria impossível procurar o reitor e comunicar-lhe a sua mudança de
resolução. Era uma humilhação a que não se submeteria. Teria agido bem? Sentia-se
descontente consigo e com todas as circunstâncias da sua vida. Perguntava a si próprio
se não seria verdade que, quando impomos a nossa vontade, sempre nos
arrependemos, mais tarde.
XXII
O tio de Philip tinha uma amiga de velha data, Miss Wilkinson, que vivia em
Berlim. Era filha de um clérigo, pároco de uma vila em Lincolnshire, com quem Mr.
Carey passara os seus últimos tempos como cura coadjutor. Com a morte do pai,
obrigada a ganhar a vida, empregara-se várias vezes como governanta em França e na
Alemanha. Correspondia-se sempre com Mrs. Carey e, duas ou três vezes, passara as
férias no vicariato de Blackstable, pagando um preço módico pela sua manutenção,
como era hábito fazerem os hóspedes, relativamente raros, dos Carey. Quando se
tornou patente a impossibilidade de resistir aos desejos de Philip, Mrs. Carey escreveulhe
a pedir informações. A resposta recomendava Heldelberga como excelente local
para aprender alemão, e a casa do prof. Erlin como óptima residência. Philip poderia
morar lá pagando trinta marcos por semana, e o próprio professor, que leccionava na
escola secundária local, poderia dar-lhe lições.
Certa manhã de Maio, Philip chegou a Heidelberga. Colocadas as suas coisas
num carrinho-de-mão, deixou a estação na companhia do carregador. O céu
apresentava-se inteiramente azul e as árvores da avenida por onde passavam estavam
cobertas de folhas. Philip sentia no ar algo de novo e, juntamente com a timidez que
nele despontava, ao penetrar na nova vida, rodeado de estranhos, experimentava
grande sensação de euforia. Ficou um pouco desconsolado com o facto de não haver
ninguém à sua espera e sentiu-se embaraçado quando o carregador o deixou à porta de
uma grande casa branca. Um latagão desalinhado fê-lo entrar e conduziu-o à sala de
visitas, que era guarnecida por um conjunto de móveis forrados de veludo verde,
havendo ao centro uma mesa redonda. Sobre esta, dentro de água, achava-se um
ramalhete de flores muito apertadas numa franja de papel, como o osso de uma
costeleta de carneiro, e em redor, muito bem espaçados, livros com encadernações de
couro. Sentia-se o odor a mofo.
Daí a pouco, a cheirar à cozinha, entrou a mulher do professor, uma mulher
baixa e forte, com os cabelos bem repuxados e terminando num rolo. Tinha o rosto
vermelho, olhos pequeninos que cintilavam como contas, e maneiras comunicativas.
Segurou ambas as mãos de Philip e pediu-lhe notícias de Miss Wilkinson, que por duas
vezes passara algumas semanas com ela. Falava em alemão e em mau inglês. Philip
não conseguiu dar-lhe a entender que não conhecia Miss Wilkinson pessoalmente.
Apareceram então as duas filhas. O recém-chegado não as achou muito jovens, mas
talvez não fossem além dos vinte e cinco anos. A mais velha, Thekla, era tão baixa
como a mãe e tinha o mesmo ar indefinido, mas possuía uma cara bonita e abundante
cabeleira escura. Ana, a irmã mais nova, era alta e de feições vulgares, mas possuía um
sorriso agradável que logo lhe conquistou a preferência. Após alguns minutos de
palestra cortês, Frau Erlin acompanhou Philip ao quarto e deixou-o. O aposento estava
situado numa espécie de torre, cujas janelas davam para os topos das árvores da
Anlage; a cama ficava num desvão da parede, de modo que, quando a pessoa se
sentava à secretária, o conjunto não oferecia o aspecto de um quarto de dormir. Philip
esvaziou as malas e separou os livros. Era, finalmente, senhor de si próprio.
À uma hora, uma sineta chamou-o para o almoço. Na sala de visitas estavam
reunidos os hóspedes de Frau Erlin. Foi apresentado ao marido, um homem de meiaidade,
alto, com uma grande cabeça loura que já começava a embranquecer, e um par
de suaves olhos azuis. Falou a Philip num inglês correcto mas um tanto arcaico, que
aprendera no estudo dos clássicos, e não na conversação. O rapaz achava curioso ouvilo
empregar palavras que apenas se encontravam nas peças de Shakespeare. Frau Erlin
considerava o seu estabelecimento uma casa de família e não uma pensão; seria
necessário, contudo, recorrer a subtilezas metafísicas para determinar em que consistia
a diferença. Ao sentarem-se para o almoço, numa sala comprida e escura que dava
para a de visitas, Philip, muito estranho, notou que havia dezasseis pessoas. Frau Erlin
ocupava uma das cabeceiras e era quem trinchava a carne. Servia de criado, com
grande tinir de pratos, o mesmo tipo desajeitado que lhe abrira a porta, e embora
agisse com ligeireza, as primeiras pessoas a ser servidas terminavam antes que as
últimas recebessem o seu quinhão. Frau Erlin fazia questão de que só se falasse a
língua do país, de modo que Philip, mesmo pondo de parte o acanhamento, via-se
obrigado a manter silêncio. Limitou-se a estudar aqueles com quem ia viver. Junto de
Frau Erlin, estavam sentadas outras senhoras idosas, mas Philip não lhes deu muita
atenção. Havia duas raparigas, ambas louras e uma delas muito bonita, a quem Philip
ouviu chamar Fräulein Hedwig e Fräulein Cäcilie. Fräulein Cäcilie usava uma trança
comprida que lhe pendia nas costas. Achavam-se uma ao lado da outra e cochichavam
as duas entre risos abafados; de vez em quando, olhavam para Philip e uma delas dizia
qualquer coisa em surdina; desatavam a rir e Philip corava, envergonhado, sentindo
que o ridicularizavam. Perto delas, estava um chinês, de rosto amarelo e sorriso
comunicativo, que estudava na Universidade as condições de vida do Ocidente. Falava
com tanta rapidez e com sotaque tão esquisito que muitas vezes as raparigas não o
entendiam e punham-se a rir. Ele ria, por sua vez, bem-humoradamente e ao fazê-lo, os
olhos em amêndoa quase se fechavam. Havia ainda dois ou três americanos de paletó
preto, que tinham a pele pálida e seca; eram estudantes de teologia. Philip notou-lhes o
sotaque americano através do péssimo alemão que falavam e observava-os com
desconfiança, pois haviam-lhe ensinado a ver os americanos como uns bárbaros cruéis
e desabridos.
Mais tarde, quando todos conversavam na sala, sentados nas desconfortáveis
cadeiras forradas de velado verde, Fräulein Ana perguntou se Philip queria dar uma
volta com elas.
Philip aceitou o convite. Formou-se um grupo composto das duas filhas da dona
da casa, mais as duas outras raparigas, um dos estudantes americanos, e Philip. Este
caminhava ao lado de Ana e de Fräulein Hedwig. Sentia-se um tanto perturbado.
Nunca conhecera uma rapariga. Em Blackstable, havia apenas as filhas dos rendeiros e
as dos negociantes locais. Conhecia-as de nome e de vista, mas era tímido e temia que
se rissem da sua deformidade Aceitava de bom grado a diferença que o vigário e Mr.
Carey estabeleciam entre a sua classe e a dos rendeiros. O médico tinha também duas
filhas, mas eram ambas muito mais velhas do que Philip, e tinham casado com dois
sucessivos assistentes quando Philip era ainda um rapazinho. Na escola havia duas ou
três raparigas, mais ousadas do que modestas, conhecidas de alguns rapazes;
contavam-se delas histórias fabulosas, devidas, talvez, à imaginação masculina. Philip,
contudo, sempre ocultara sob o manto do desprezo o terror que elas lhe infundiam. A
sua imaginação e os livros que devorara incutiram-lhe o desejo de adoptar uma atitude
byroniana. Via-se dividido entre o seu mórbido acanhamento e a convicção de que lhe
cumpria ser galante. Sentia agora a necessidade de mostrar-se brilhante e espirituoso,
mas o seu cérebro parecia vazio e não sabia que dizer. Fräulein Ana, a filha do
professor, dirigia-lhe de vez em quando a palavra, mais por um sentido de obrigação; a
outra, porém, pouco falava. Olhava de tempos a tempos para Philip e, não raras vezes,
explodia numa gargalhada que o enchia de confusão. Philip percebia que ela o achava
profundamente ridículo. Caminhavam ao longo da encosta de uma colina, entre
pinheiros cujo aroma deleitava o rapaz. O dia estava quente e o céu sem nuvens.
Alcançaram por fim uma eminência de onde se descortinava o vale do Reno,
iluminado pelo Sol. Era uma vasta extensão de terra que cintilava à luz doirada; lá ao
fundo, divisavam-se cidades e, de um extremo a outro, serpenteava a fita prateada do
rio. Na região de Kent, que Philip conhecia, eram raros os grandes espaços abertos. Só
o mar oferecia um horizonte largo e por isso a vastidão em que os seus olhos agora se
perdiam proporcionava-lhe uma comoção especial e indescritível. Sentiu uma súbita
exaltação. Embora não o percebesse, era a primeira vez que experimentava, pura, sem
mescla de outras emoções, a sensação da beleza. Os três sentaram-se num banco, pois
os outros continuaram a caminhar, e, enquanto as raparigas tagarelavam em alemão,
Philip, indiferente à proximidade delas, banqueteava os olhos.
- Meu Deus, sou feliz! - dizia a si próprio, inconscientemente.
XXIII
Às vezes, Philip lembrava-se da King’s School, em Tercanbury, e ria-se consigo
próprio ao imaginar o que estariam a fazer lá em dado instante do dia. De vez em
quando sonhava estar ainda no internato; ao despertar, dava-lhe extraordinária
satisfação verificar que se achava no quartinho da torre. Da sua cama, era possível ver
os grandes cúmulos que flutuavam no céu azul. Exultava na posse da liberdade. Podia
ir para a cama quando bem entendia e levantar-se quando lhe dava na gana. Ninguém
lhe dava ordens. De repente, ocorreu-lhe que não mais lhe seria preciso mentir.
Ficara combinado que o prof. Erlin se incumbiria de ensinar-lhe o Latim e o
Alemão; diariamente, um francês vinha ministrar lições da sua língua materna, ao
passo que, no que dizia respeito à matemática, Frau Erlin recomendara um inglês em
vésperas de doutorar-se em filologia, na Universidade. Chamava-se Wharton. Philip ia
ter com ele todas as manhãs. Morava num quarto situado no último andar de uma casa
velha. Era um quarto sujo e desalinhado, impregnado de um odor acre, composto de
vários cheiros desagradáveis. Em geral, quando Philip chegava, às dez horas da
manhã, o inglês ainda estava deitado. Levantava-se de um salto, vestia um roupão
imundo, calçava umas chinelas de feltro e, enquanto dava a lição, tomava um frugal
pequeno-almoço. Era um homem baixo, gordo devido ao abuso da cerveja, tinha
bigode espesso e comprida cabeleira sempre em desalinho. Estava na Alemanha havia
cinco anos, e achava-se quase inteiramente teutonizado. Falava com desprezo de
Cambridge, onde se licenciara, e enchia-o de horror lembrar a vida que o esperava
quando, depois de doutorar-se em Heidelberga, tivesse de voltar para Inglaterra e
iniciar a carreira pedagógica. Adorava a vida na Universidade alemã, com a sua
liberdade e as suas alegres companhias. Era sócio de um Burschenschaft, e prometeu
levar Philip a um Kneipe. Era muito pobre e não ocultava que as lições ministradas a
Philip eram o que lhe permitia comer carne ao jantar, em vez de pão com queijo. às
vezes, após uma noite de bebedeira, erguia-se com tal dor de cabeça que se via
impossibilitado de tomar o café; dava a lição, assim, com o espírito bastante carregado.
Para essas ocasiões, conservava, debaixo da cama, algumas garrafas de cerveja, as
quais, juntamente com o inseparável cachimbo, o ajudavam a suportar o fardo da vida.
- Um pelo do cão que mordeu - dizia ao deitar a cerveja no copo com todo o
cuidado, para que a espuma não o obrigasse a esperar muito antes de bebê-la.
Em seguida, conversava com Philip sobre a Universidade, os desentendimentos
entre grémios rivais, os duelos e os méritos deste ou daquele professor. Philip aprendia
com ele mais da vida do que de matemática, Não raro, Wharton repoltreava-se na
cadeira, no meio de uma risada, e dizia:
- Bem, hoje não fizemos nada. Não tem que me pagar a lição.
- Ora, não tem importância - retorquia Philip.
Havia naquilo algo de novo e interessante, muito mais importante do que a
trigonometria, que ele nunca pudera compreender. Era como uma janela aberta para a
vida e pela qual tinha a felicidade de espreitar, com o coração a bater
desordenadamente.
- Não, guarde o seu vil dinheiro - insistia Wharton.
- Mas com que vai jantar? - perguntava Philip a sorrir, pois sabia exactamente em
que pé iam as finanças do professor.
Wharton pedira mesmo ao rapaz que lhe pagasse semanal e não mensalmente a
importância das lições, que eram dadas à razão de dois xelins cada uma, porque isso
tornava as coisas menos complicadas.
- Oh, não se preocupe com o meu jantar. Não será a primeira vez que janto uma
garrafa de cerveja, e o espírito nunca se me torna tão claro como nessas ocasiões.
Mergulhando o braço debaixo da cama (os lençóis estavam cinzentos de tão
sujos) pescava outra garrafa. Philip, que era novo e desconhecia as coisas boas da vida
recusava-se a partilhar da cerveja com o mestre, que a bebia sozinho.
- Quanto tempo ficará aqui? - indagou Wharton.
Tanto ele como Philip haviam posto a matemática de lado.
- Não sei ao certo. Talvez um ano. Em casa querem que eu vá para Oxford.
Wharton encolheu os ombros com ar de desprezo. Era novidade para Philip
descobrir que nem todos olhavam com respeito para aquele templo da sabedoria.
- Que pretende fazer lá? Será apenas um colegial glorioso. Por que não se
matricula aqui? Um ano não é suficiente. Fique cinco anos em Heldelberga. Há duas
coisas insubstituíveis na vida: a liberdade de pensamento e a liberdade de acção. Em
França dão-nos a liberdade de acção: faz-se o que bem se entende e ninguém se
intromete, mas é preciso que se pense como todos os outros. Na Alemanha, a pessoa é
obrigada a fazer o que os outros fazem, mas em compensação pode pensar à vontade.
São duas coisas excelentes. Pessoalmente, prefiro a liberdade de pensar. Mas, na
Inglaterra, não se tem nem uma coisa nem a outra: é-se triturado pelas convenções.
Não se pode pensar nem agir como se quer. Isso, porque a Inglaterra é uma nação
democrática. Desconfio que a América ainda é pior.
Recostou-se cautelosamente, pois a cadeira em que estava sentado tinha uma
perna frouxa e é desconcertante um floreio de retórica ser interrompido por uma queda
repentina.
- Devo voltar a Inglaterra ainda este ano, porém, se me for possível juntar o
suficiente para não morrer de fome, farei mais uns doze meses aqui. Mas, depois, serei
forçado a ir. E terei de abandonar isto tudo... - fez um gesto que abrangia o esquálido
sótão, com a cama por fazer, os lençóis atirados pelo chão, uma fileira de garrafas
vazias ao longo da parede e pilhas de livros esfarrapados pelos cantos - terei de
abandonar isto tudo por alguma Universidade provinciana, onde obterei uma cadeira
de filologia. Terei também de jogar ténis e frequentar chás. - Interrompendo-se
bruscamente lançou um olhar zombeteiro a Philip que estava bem vestido, com um
colarinho limpo e os cabelos devidamente escovados. - E, meu Deus ! Serei obrigado a
lavar-me!
Philip corou, com a impressão de que a sua elegância era um crime intolerável.
(Ultimamente, começara a prestar certa atenção à toilette, e saíra de Inglaterra, com uma
linda colecção de gravatas.
O Verão invadiu a natureza como um conquistador. Os dias sucediam-se cada
vez mais belos. O azul do céu era de uma arrogância que espicaçava os nervos como
um aguilhão. O verde das árvores, na Anlage, era violento e cru, e as casas, quando o
sol lhes batia, irradiavam uma claridade ofuscante, que estimulava a ponto de se tornar
dolorosa. às vezes, ao voltar do quarto de Wharton, Philip sentava-se à sombra, num
dos bancos da Anlage, a gozar a fresca e a observar os padrões luminosos que o sol,
infiltrando-se por entre as folhas, desenhava no chão. A sua alma dançava, tão alegre
como os raios do Sol. Deliciava-se com aqueles momentos de lazer, roubados ao
trabalho. Outras vezes vagueava pelas ruas da velha cidade. Olhava com respeito para
os estudantes do grémio, com gilvazes nas faces rubras, que passavam, garbosos, com
os seus bonés coloridos. De tarde, errava pelas colinas com as raparigas da pensão,
indo de vez em quando, rio acima, tomar chá numa frondosa esplanada. De noite,
passeavam de cá para lá no Stadtgarten, ouvindo a banda de música.
Philip depressa veio a saber as particularidades da vida dos hóspedes. Fräulein
Thekla, a filha mais velha do professor, estava noiva de um inglês que passara doze
meses na pensão, a fim de aprender a língua alemã. O casamento devia realizar-se no
fim do ano, mas o rapaz escrevera a declarar que o pai, um mercador de borracha
residente em Slough, não concordara com a união, o que trazia Fräulein Thekla
constantemente banhada em lágrimas. às vezes, ela e a mãe eram vistas, de olhar
severo e voz resoluta, a examinar as cartas do apaixonado relutante. Thekla pintava a
aguarela e havia ocasiões em que saía com Philip e uma outra rapariga, a fim de
desenhar algumas paisagens. A linda Fräulein Hedwig também tinha os seus
aborrecimentos de amor. Era filha de um comerciante de Berlim e um garboso
hussardo, um von, nada menos, havia-se apaixonado por ela. Mas os pais não
permitiam que o rapaz desposasse uma jovem de condição inferior à sua e ela fora
enviada para Heidelberga, a ver se o esquecia. Mas jamais o conseguia, pois
correspondia-se continuamente com o rapaz, que empregava todos os esforços para
persuadir o exasperado pai a mudar de opinião. Contou tudo isto a Philip entre
adoráveis suspiros e rubores, e mostrou-lhe a fotografia do alegre tenente. Philip
preferia-a a todas as raparigas da casa de Frau Erlin; procurava sempre colocar-se a seu
lado nos frequentes passeios que davam. Corava quando os outros comentavam,
brincalhões, a sua evidente preferência. Foi a Fräulein Hedwig que ele fez a primeira
declaração da sua vida mas, infelizmente, foi por acaso e aconteceu da seguinte
maneira: nas noites em que não saíam, as jovens, reunidas na sala de veludo verde,
cantavam pequenas canções habilmente acompanhadas ao piano por Fräulein Ana,
sempre muito prestimosa. A canção predilecta de Fräulein Hedwig chamava-se Ich liebe
dich (amo-te) e certa noite, depois de a cantar, quando estava com Philip na sacada
olhando as estrelas, o rapaz quis fazer um comentário. Começou:
- Ich liebe dich...
O seu alemão era trôpego e custou-lhe encontrar uma palavra com que
continuasse. A pausa foi infinitesimal, mas antes de ele prosseguir, Fräulein Hedwig
exclamou:
- Ach, Herr Carey, Sie mussen mir nicht du sagen (não deve tratar-me na segunda
pessoa do singular).
Philip sentiu-se preso de um enorme desconforto. Nunca teria ousado
pronunciar uma frase tão familiar, e não sabia que responder. Seria pouco elegante
explicar que não estava a fazer uma declaração mas apenas a mencionar o título da
canção.
- Entschuldigen Sie - disse ele. - (Peço-lhe perdão).
- Não tem importância - sussurrou ela.
Sorriu com ar amável, tomou mansamente a mão de Philip, apertou-a e regressou
à sala de visitas.
No dia seguinte, ele sentia-se tão embaraçado que não teve coragem para lhe
falar, e timidamente fez o possível por evitá-la. Quando o convidaram para o passeio
do costume, recusou, alegando ter de estudar. Mas Fräulein Hedwig arranjou ocasião
para lhe falar a sós.
- Por que procede desse modo? - perguntou bondosamente. - Não pense que
estou zangada pelo que disse a noite passada. Se me ama, não é culpa sua. Sinto-me
lisonjeada. Mas, embora não esteja comprometida com Hermann, nunca poderei amar
outra pessoa, pois considero-me noiva dele.
Philip corou outra vez, mas assumiu a expressão perfeita do amante rejeitado.
- Estimo que seja muito feliz - disse.
XXIV
Todos os dias o prof. Erlin dava lição a Philip. Organizou uma lista dos livros
que o rapaz devia ler, a fim de se preparar para a leitura do Fausto, e, ao mesmo
tempo, lançou-o engenhosamente na tradução alemã de uma das peças de Shakespeare
que o rapaz estudara na escola. Era, na Alemanha, o período em que a fama de Goethe
atingira o auge. Apesar da sua atitude um pouco superior em relação ao patriotismo,
fora adoptado como poeta nacional e, desde a guerra de setenta, parecia constituir uma
das glórias mais significativas da unidade nacional. Os entusiastas imaginavam ouvir,
no desenfreamento do Walpurgisnacht, o ribombar da artilharia em Gravelotte. Uma
das coisas que caracterizam a grandeza de um escritor é o facto de diferentes espíritos
encontrarem nele diferentes inspirações. E o prof. Erlin, que odiava os prussianos,
dedicava a Goethe uma admiração arrebatada, porque as suas obras, olímpicas e
serenas, ofereciam a um espírito são o único refúgio contra as investidas da geração
actual. Havia um dramaturgo cujo nome, nos últimos tempos, era muito ouvido em
Heidelberga; no Inverno anterior, uma das suas peças subira à cena, no teatro, entre os
aplausos dos adeptos e as vaias das pessoas decentes. Philip ouviu discussões a esse
respeito, durante o jantar, quando o prof. Erlin, perdendo a calma habitual, dava socos
na mesa e aniquilava qualquer oposição com o troar da sua voz profunda e sonora. Era
um contra-senso, e um contra-senso revoltante. Forçara-se a assistir a toda a
representação, mas não sabia dizer se estava aborrecido ou enojado. Se o Teatro estava
a tomar aquele rumo, então era tempo de a Polícia intervir e fechar as portas de todas
as casas de espectáculos. Não era um puritano, seria capaz de rir, como qualquer outro,
ante a espirituosa imoralidade de uma farsa, no Palais Royal, mas ali não havia senão
sordidez. Com um gesto enfático, apertou o nariz com os dedos e assobiou por entre os
dentes. Era a ruína da família, o fim da moral, a destruição da Alemanha.
- Aber, Adolf - disse Frau Erlin, do outro extremo da mesa. - Acalma-te.
Ele estendeu o punho, para ela. Era a mais mansa das criaturas e nunca se
aventurava a qualquer acto da sua vida sem a consultar.
- Não, Helena, digo-te isto - gritou ele. - Prefiro ver as minhas filhas jazendo
mortas a meus pés a vê-las alinhar com esse desavergonhado.
A peça era a Casa da Boneca, e o autor, Henrik Ibsen.
O prof. Erlin classificava-o do mesmo modo que a Richard Wagner, mas, ao
referir-se a este, não falava com rancor; ria bem-humorado. Era um charlatão, mas um
charlatão bem sucedido, e aí havia qualquer coisa para deleitar as espíritos cómicos.
- Verruckter kerl! Um louco! - exclamava ele.
Vira o Lohengrin e esse passara à revista. Não era mau, embora monótono. Mas o
Sigfried! Ao mencioná-lo, o prof. Erlin apoiou a cabeça na mão e soltou uma
gargalhada estentórea. Não havia melodia do princípio ao fim. Imaginava Richard
Wagner sentado no seu camarote, a rir-se até as lágrimas daquela multidão que o
tomava a sério. Era o maior logro do século XIX. Levou aos lábios o copo de cerveja,
inclinou a cabeça para trás e bebeu até à última gota. E então, limpando os lábios com
as costas da mão, exclamou:
- Garanto-lhes, rapazes, que, antes do século XIX findar, Wagner estará morto e
bem morto. Wagner! Trocaria todas as obras por uma ópera de Donizetti.
XXV
O mais singular dos mestres de Philip era o professor de francês. Monsieur
Ducroz nascera em Genebra. Era um velho alto, de rosto pálido, faces chupadas e longa
cabeleira. Trajava sempre um fato preto e surrado, com buracos nos cotovelos e calças
puídas. A camisa estava sempre suja. Philip não o vira nunca de colarinho lavado. Era
homem de poucas palavras; transmitia as lições conscienciosamente, mas sem
entusiasmo algum, iniciando-as e terminando-as no minuto marcado. Os seus preços
eram módicos. Taciturno por natureza, Philip só conseguiu informar-se a seu respeito
por intermédio de outros. Soube que o velho lutara contra o Papa, ao lado de Garibaldi,
mas abandonara a Itália, desgostoso, ao verificar que todos os seus esforços em prol da
liberdade, isto é, pela instauração da República, resultavam apenas numa mudança de
jugo; finalmente, fora expulso de Genebra por não sabia que crimes políticos. Philip
olhava-o intrigado e surpreso. Em nada se assemelhava à ideia que fazia de um
revolucionário. Falava em voz baixa e era extraordinariamente cortês. Nunca se
sentava senão quando lhe pediam que o fizesse e quando, por acaso, encontrava Philip
na rua, tirava sempre o chapéu, num gesto delicado. Não costumava rir nem mesmo
sorrir. Uma imaginação mais completa do que a de Philip talvez o visse como um
jovem cheio de grandes esperanças, pois tornara-se adulto em 1848, quando os reis, ao
lembrarem-se do seu primo francês, sentiam cãibras no pescoço. E talvez aquela paixão
pela liberdade, que percorreu a Europa, levando à frente os restos de absolutismo e
tirania que reergueram a cabeça durante a reacção posterior à revolução de I789, não
encontrasse peito mais ardente onde se abrigar. Apaixonado pelas teorias da igualdade
e dos direitos humanos, era fácil imaginá-lo a discutir, a lutar atrás de barricadas, em
Paris, fugindo à cavalaria austríaca, em Milão; aprisionado aqui, exilado ali, sem jamais
perder a fé na palavra que parecia mágica - a palavra Liberdade. Finalmente, vencido
pela doença e pela fome, velho, sem outro meio de vida que não fosse leccionar por
preços irrisórios, encontrava-se agora naquela cidadezinha, sob uma tirania pior que
qualquer outra da Europa. Talvez aquele retraimento ocultasse o desprezo pela espécie
humana que abandonara os grandes sonhos da sua mocidade e agora chafurdava num
conforto indolente. Podia ser, também, que os trinta anos de revolução lhe tivessem
ensinado que os homens não eram talhados para a liberdade; e pensava na sua vida
gasta na busca de algo que não valia a pena encontrar. Ou talvez se sentisse cansado e
esperasse apenas, com indiferença, o alívio da morte.
Certa vez, com a indiscrição da sua idade, Philip perguntou se o professor
realmente combatera com Garibaldi. O velho não pareceu dar grande importância à
pergunta. Respondeu muito serenamente, na voz baixa do costume:
- Oui, monsieur.
- Consta que o senhor esteve na Comuna.
- Deveras? Vamos continuar a lição?
Mantinha aberto o livro e Philip, intimidado, começou a traduzir o trecho que
preparara.
Certo dia, Monsieur Ducroz parecia preso de grande dor. Foi-lhe quase
impossível galgar os degraus da escada, para o quarto de Phillip. Uma vez lá, deixouse
cair pesadamente na cadeira, com o rosto contraído e gotas de suor na testa,
procurando refazer-se.
- Receio que esteja doente - observou Philip.
- É coisa sem importância.
Mas Philip notou que o pobre homem sofria e, ao terminar a hora, perguntou se
não seria preferível suspender as lições até que estivesse melhor.
- Não - respondeu o velho, na sua voz baixa e firme. - Prefiro continuar enquanto
me for possível.
Philip, que se tornava morbidamente nervoso sempre que tinha de referir-se a
dinheiro, corou.
- Mas a si não lhe fará diferença - explicou. - Continuarei a pagar as lições na
mesma. Se estivesse de acordo, adiantar-lhe-ia o dinheiro da próxima semana.
Monsieur Ducroz cobrava dezoito pence pela hora. Philip tirou do bolso uma
moeda de dez marcos e colocou-a, embaraçado na mesa. Não tinha coragem para
oferecê-la, como se o velho fosse um mendigo.
- Nesse caso, acho que não voltarei até me sentir melhor.
Pegou na moeda e, sem mais do que a estudada inclinação de cabeça com que
sempre se despedia, saiu.
- Bonjour, monsieur.
Philip ficou vagamente desconcertado. Pensando ter praticado uma acção
generosa, esperara que Monsieur Ducroz fosse cumulá-lo de expressões de gratidão.
Surpreendia-o ver que o velho professor aceitara o presente como se tivesse direito a
ele. Era tão jovem que ainda não sabia quão menor é o sentido da obrigação por parte
dos que recebem favores do que dos que os prestam. Monsieur Ducroz tornou a
aparecer cinco ou seis dias mais tarde. Cambaleava ainda mais e mostrava-se muito
abatido, mas parecia ter vencido a fase aguda do ataque. Não veio mais comunicativo
do que dantes. Continuava misterioso, retraído e sujo. Só fez referência à doença ao
terminar a lição. Ao retirar-se, à porta, que segurava aberta, estacou. Hesitava, como se
sentisse dificuldade em falar.
- Se não fosse aquela moeda que me deu, teria morrido de fome. Foi a única coisa
que me valeu.
Fez uma solene e obsequiosa reverência, e partiu. Philip sentiu um nó na
garganta. Parecia-lhe que compreendia, de certo modo, a desesperada amargura da
luta do velho e como a vida lhe era difícil, quando para ele se mostrava tão agradável!
XXVI
Havia já três meses que Philip estava em Heidelberga quando, certa manhã, Frau
Erlin lhe anunciou que um inglês chamado Hayward iria hospedar-se lá, e na mesma
noite, por ocasião da ceia surgiu a nova figura. Os dias anteriores tinham sido de
grande reboliço. Em primeiro lugar, resultado não se sabe de que planos, à força de
humildes súplicas e ameaças veladas, os pais do jovem inglês de quem Fräulein Thekla
estava noiva convidaram-na a visitá-los na Inglaterra. A jovem partiu, levando um
álbum de aguarelas para mostrar as suas habilidades e uma pilha de cartas para revelar
até que ponto o jovem se comprometera. Uma semana mais tarde, Fräulein Hedwig,
toda sorrisos, anunciava que o tenente dos seus afectos estava a caminho de
Heidelberga, em companhia dos pais. Cansados da insistência do filho e sensibilizados
pelo dote que o pai de Fräulein Hedwig oferecia, consentiram em passar por
Heidelberga, a fim de conhecer a rapariga. O encontro foi satisfatório e Fräulein
Hedwig teve o prazer de exibir o noivo no Stadtgarten, a todos os hóspedes da pensão.
As velhas e silenciosas senhoras que sé sentavam à cabeceira da mesa, ao lado da
mulher do professor, estavam agitadíssimas. Quando Fräulein Hedwig comunicou que
seguiria para casa imediatamente a fim de efectuar o noivado oficial, Frau Erlin,
indiferente a despesas, prometeu servir um Maibowle. O prof. Erlin orgulhava-se da
sua perícia em preparar aquela embriagante mistura e, após o jantar, a grande vasilha
de vinho do Reno e soda, em que sobrenadavam ervas perfumadas e morangos
silvestres, foi colocada solenemente sobre a mesa redonda da sala de visitas. Fräulein
Ana meteu Philip à bulha, por causa da partida da sua amada, e este sentiu-se pouco à
vontade e um tanto melancólico. Fräulein Hedwig interpretou várias canções, Fräulein
Ana tocou a Marcha Nupcial e o professor cantou Die Wacht am rhein. Em meio de tanta
alegria, Philip não prestou muita atenção ao recém-chegado. Ocuparam lugares
opostos, durante a ceia, mas Philip conversava entretidamente com Fräulein Hedwig, e
o novo hóspede, ignorando o alemão, tomara a refeição em silêncio. Ao observar que o
inglês usava gravata azul-desmaiado, Philip sentiu logo súbita antipatia por ele. Era
um rapaz de vinte e seis anos, muito louro, com longa cabeleira ondulada, pela qual
passava com frequência a mão, num gesto negligente. Tinha os olhos grandes e azuis,
de um azul-pálido, onde se lia prematuro cansaço. Trazia o rosto escanhoado, e a boca,
não obstante os lábios estreitos, era bem formada. Fräulein Ana, que se interessava por
fisiognomonia, fez notar a Philip, mais tarde, como era bem delineado o crânio do
rapaz e quão fraca era a parte inferior do rosto. A cabeça, disse ela, era de um pensador
mas os maxilares denotavam falta de carácter. Condenada a uma vida de solteirona,
com os seus malares salientes e um grande nariz deformado, Fräulein Ana dava grande
importância ao carácter. Enquanto comentavam as suas características, o rapaz
conservava-se afastado, a observar as comemorações com uma expressão bemhumorada
mas um tanto ou quanto desdenhosa. Era alto e esbelto. Tinha uma graça
estudada. Weeks, um dos estudantes americanos, vendo-o só, foi-lhe ao encontro e
dirigiu-lhe a palavra. Os dois contrastavam singularmente: o americano, impecável no
seu casaco negro e calças de mescla, magro e ressequido, notando-se já nos seus modos
certa unção eclesiástica; o inglês, metido num traje folgado de tweed, longilíneo e lento
nos gestos.
Philip não conversou com o recém-chegado senão no dia seguinte. Encontraramse
a sós na varanda da sala de visitas, antes do jantar. Foi Hayward quem falou.
- É inglês, não é?
- Sou.
- A comida aqui é sempre má como ontem à noite? - é quase sempre o mesmo.
- Detestável, não acha?
- Detestável.
Philip não achara nada que reparar na comida, e até jantara bem, com apetite e
prazer; não queria, porém, revelar falta de discriminação ao julgar boa uma refeição
que outro considerava péssima.
A visita de Fräulein Thekla a Inglaterra aumentou as ocupações da irmã, que
quase não arranjava tempo para os passeios do costume. Fräulein Cäcilie, com a sua
longa trança loura e o seu narizinho arrebitado, tornara-se ultimamente retraída.
Fräulein Hedwig também se fora e Weeks, o americano que em geral as acompanhava
nas suas excursões, partira em viagem de recreio pelo sul da Alemanha. Philip ficou, a
bem dizer, sozinho. Hayward procurou travar amizade com ele, mas Philip possuía
uma característica lamentável: por acanhamento ou, talvez, por uma herança atávica
do homem das cavernas, antipatizava sempre com as pessoas ao primeiro contacto. Só
depois de certo convívio é que se desvanecia a primeira impressão. Isso tornava-o
pouco acessível. Recebeu com timidez as tentativas de aproximação de Hayward e
quando este, um dia, o convidou para um passeio, aceitou apenas porque não lhe
ocorrera no momento uma desculpa cortês. Fez a observação do costume, irritado
consigo mesmo por causa do rubor que não conseguia ocultar e riu para disfarçar.
- Sinto não poder caminhar muito depressa.
- Deus do céu! Não vamos fazer uma corrida. Prefiro ir devagar. Não se lembra
do capítulo do Marius, em que Peter se refere ao suave exercício do caminhar como o
melhor incentivo da conversação?
Philip era bom ouvinte. Embora tivesse observações inteligentes a fazer, quase
sempre deixava passar a oportunidade. Hayward era comunicativo. Qualquer pessoa
com mais experiência do que ele notaria que o rapaz gostava de se ouvir a si próprio. A
sua atitude superior impressionava Philip. Não podia deixar de admirar, e ao mesmo
tempo temer, um homem que de certo modo desprezava tantas coisas que ele, Philip,
considerava quase sagradas. Condenava a paixão pelo exercício, estigmatizando com a
palavra pol-hunters (Aqueles que praticam desportos com o único fito de ganharem os prémios.
(N. do T) todos aqueles que se dedicam à prática das suas várias modalidades. Philip
não percebia que Hayward tratava apenas de substituí-la pela paixão da cultura.
Subiram em direcção ao castelo e sentaram-se no terraço sobranceiro à cidade,
que se aninhava confortavelmente no fundo do vale, na margem do aprazível Neckar.
O fumo das chaminés pairava por sobre as casas, formando uma névoa azul-pálida.
Os altos telhados e os campanários das igrejas davam-lhe interessante ar
medieval. Tinha um aspecto acolhedor, que dava alento. Hayward falou de Richard
Feverel e Madame Bovary, de Verlaine, Dante e Matthew Arnold. Naquela época, a
tradução de Omar Khayyam, feita por Fitzgerald, era conhecida apenas dos eleitos, e
Hayward recitou-a a Philip. Gostava muito de recitar poesias, suas e alheias, o que
fazia com uma cadência monótona. Ao voltarem para casa, a desconfiança de Philip
pelo novo companheiro transformara-se em entusiástica admiração.
Adquiriram o hábito de passear juntos todas as tardes e Philip entrou no
conhecimento de certos pormenores da vida de Hayward.
Era filho de um juiz da província, por cuja morte, ocorrida pouco antes, herdara
trezentas libras por ano. O seu curso em Charterhouse fora tão brilhante que, ao
dirigir-se a Cambridge, o reitor do Trinity Hall se afastou das normas para exprimir a
satisfação que lhe causava o ingresso do jovem naquele colégio. Preparava-se para uma
carreira de grande destaque. Convivia nos melhores círculos intelectuais, lia Browning
com entusiasmo, fazia troça de Tennyson. Conhecia em todos os pormenores o
tratamento dispensado por Shelley a Harriet, fazia incursões na História da Arte (nas
paredes do seu quarto viam-se reproduções de quadros de G. F. Watts, Burne-Jones e
Botticelli). Escrevia também, com bastante distinção, versos de carácter pessimista. Os
amigos diziam-no um homem de elevados dons e Hayward ouvia-os de bom grado
profetizar o seu futuro renome. Com o correr do tempo tornou-se uma autoridade no
campo da arte e da literatura. Foi influenciado pela Apologia, de Newman; o pitoresco
da fé católica agradava à sua sensibilidade estética; só o temor de seu pai (um homem
rude, de ideias curtas, que lia Macaulay) o impedira de converter-se. Quando, no fim
dos estudos, não conseguiu passar com distinção, os amigos mostraram-se
surpreendidos; ele, porém, encolheu os ombros e insinuou delicadamente que não se
deixava ofuscar pelos examinadores, dando a entender que formar-se com distinção
era um tudo-nada vulgar. Descrevia, com tolerante bom humor, um dos exames orais:
uma criatura entalada num colarinho incrível pusera-se a fazer-lhe perguntas sobre
lógica. Hayward sentiu profundo tédio, e de repente notara que o examinador usava
botas de elástico. Era grotesco e ridículo. Para afastar o pensamento daquilo, começou
a reflectir na beleza gótica da capela do King’s College. Em compensação, passara
alguns dias encantadores em Cambridge; oferecera excelentes jantares e as discussões,
nos seus aposentos, ficaram muitas vezes memoráveis. Citou para Philip o delicioso
epigrama:
- Ouvi dizer, Heraclito, ouvi dizer que havias morrido.
Riu-se ao repetir-lhe a pitoresca anedota do examinador e das botas.
- É claro que foi uma tolice - acrescentou - mas uma tolice com algo de
aproveitável.
Philip, vibrante de admiração, achava tudo magnífico.
De Cambridge, Hayward voltara a Londres, para estudar advocacia. Alugou
óptimas instalações em Clement's Inn, com as paredes forradas de madeira.
Alimentava, então, ambições vagamente políticas, dando-se como liberal. Foi proposto
para um clube liberal, mas de ambiente distinto. O seu plano era praticar no Foro
(escolhia o Supremo Tribunal de Justiça como menos brutal) e conseguir a eleição para
o Parlamento Logo que se cumprissem as promessas que lhe haviam feito. Nesse meio
tempo, frequentara assiduamente a ópera e travara relações com um pequeno número
de pessoas de gosto idêntico ao seu. Ingressou num dining-club cuja divisa era «o Todo,
o Bom e o Belo» e cultivou platónica amizade por uma dama, de idade um pouco
superior à sua, que vivia em Kensington Square. Quase todas as tardes tomava chá na
sua companhia, à luz de velas, e falava de George Meredith e Walter Pater. Era voz
corrente que qualquer tolo conseguiria aprovação nos exames do Conselho da Ordem
dos Advogados, e por isso os seus estudos foram realizados de maneira dilatória.
Quando, por fim, foi reprovado, considerou isso uma afronta pessoal. Na mesma
ocasião, a dama de Kensington Square comunicou-lhe que seu marido regressava da
índia, em gozo de licença; era um homem de ideias muito estreitas, embora digno a
todos os respeitos e não compreenderia as frequentes visitas de um rapaz. Hayward
sentiu que a vida era cheia de sordidez; a sua alma revoltava-se ante a ideia de
enfrentar novamente o cinismo dos examinadores. Via algo de esplêndido em dar um
pontapé na oportunidade que se lhe apresentava. Estava, além disso, bastante
endividado, pois era difícil viver como uma pessoa de bem, em Londres, apenas com
trezentas libras por ano. Além disso, o seu coração ansiava por Veneza e Florença, que
John Ruskin tão maravilhosamente descrevera. Achava não ter sido talhado para as
actividades vulgares do Foro, pois descobrira que não era bastante pregar uma placa
na porta para conseguir causas; a política moderna, por outro lado, parecia pecar pela
falta de nobreza. Julgava-se poeta. Abandonou, portanto as instalações da Clement’s
Inn e partiu para a Itália. Passara um Inverno em Florença e outro em Roma, e agora
estava a passar o Verão na Alemanha, a fim de ler Goethe no original.
Hayward possuía um dom precioso. Tinha grande senso literário e transmitia o
seu ardor com admirável facilidade. Sabia colocar-se no ponto de vista de um escritor,
apreciar o que ele tivesse de melhor e, em seguida, discutir-lhe a obra com perfeita
compreensão. Philip lera bastante, mas indiscriminadamente, tudo quanto lhe caía nas
mãos; e era óptimo para ele, agora, encontrar alguém que lhe orientasse o gosto. Levou
livros emprestados da pequena biblioteca da cidade e começou a ler as maravilhas de
que Hayward falara. Nem sempre lia com prazer, mas fazia-o com invariável
perseverança. Ansiava por aperfeiçoamento. Sentia-se muito ignorante e humilde. Ao
findar Agosto, quando Weeks voltou do seu giro pelo sul da Alemanha, Philip estava
por completo sob a influência de Hayward. Este não gostava de Weeks. Deplorava o
casaco preto e as calças de mescla do americano, e referia-se com desdém à sua
mentalidade de filho da Nova Inglaterra. Philip escutava com complacência. essas
observações injuriosas a respeito de um homem que o tratara com bondade, mas
quando Weeks, por sua vez, fazia comentários desagradáveis a respeito de Hayward,
zangava-se.
- O teu novo amigo tem ar de poeta - dizia Weeks, com um leve sorriso nos lábios
amargos e preocupados.
- Pois é um poeta.
- Disse-te isso? Na América, chamar-lhe-íamos um bom exemplo da inutilidade.
- Mas não estamos na América - retorquia Philip, friamente.
- Que idade tem ele? Vinte e cinco? E não faz nada, a não ser viver nas pensões e
escrever poesias.
- Não o conheces - interrompeu-o Philip, com calor.
- Se o conheço... tenho encontrado centenas de indivíduos iguais a ele.
Os olhos de Weeks cintilaram, mas Philip, que não compreendia o humorismo
americano, cerrou os lábios numa expressão severa. Para ele, Weeks parecia um
homem de meia-idade, mas o certo é que tinha pouco mais de trinta anos. Possuía um
corpo magro, comprido, o curvado dos eruditos. A cabeça era grande e feia, os cabelos
ralos, de um louro desmaiado, e a pele cor de terra. A boca fina e o nariz, também fino
e comprido, emprestavam-lhe, juntamente com a protuberância dos ossos frontais, um
aspecto desgracioso. Era frio e preciso nos gestos, um homem sem ardor, sem paixão.
Mas tinha uma vida de frivolidade que desconcertava as pessoas de espírito maduro,
cuja convivência os seus instintos o levavam naturalmente a cultivar. Estudava teologia
em Heidelberga, mas os outros estudantes da sua nacionalidade olhavam-no com
desconfiança. Era muito pouco ortodoxo, o que os assustava; além disso, a sua
disposição caprichosa suscitava a desaprovação de todos.
- Por que dizes que já conheceste centenas iguais a ele? - indagou Philip, com
seriedade.
- Encontrei-os no Bairro Latino, em Paris, e encontrei-os nas pensões de Berlim e
de Munique. Vivem nos pequenos hotéis de Perúgia e Assis. São vistos às dúzias
diante dos quadros de Botticelli, em Florença, e sentam-se em todos os bancos da
Capela Sistina, em Roma. Em Itália, bebem vinho em demasia e na Alemanha bebem
cerveja em demasia. Admiram as coisas consagradas, sejam quais forem, e por estes
dias principiarão a escrever grandes obras. Pensa nisto, há centenas de grandes obras a
germinar nos cérebros de centenas de grandes homens, mas a trágica verdade é que
nenhuma dessas centenas de grandes obras será jamais escrita. E o mundo continua.
Weeks falava com seriedade, mas os seus olhos cintilaram de leve, ao fim da
longa explicação e Philip corou, ao notar que o americano zombava dele.
- És um fala-barato - retorquiu, aborrecido.
XXVIII
Nem Hayward nem Weeks imaginavam que essas conversas em que se
entretinham durante as noites de ócio eram depois esmiuçadas pelo cérebro activo de
Philip. Nunca lhe ocorrera, antes, ser a religião um assunto que comportasse discussão.
Para ele, a religião resumia-se à Igreja Anglicana, e não acreditar nos seus
ensinamentos era um sinal de capricho e teimosia que não podia deixar de receber o
merecido castigo, neste mundo ou noutro. Alimentava, contudo, certas dúvidas quanto
ao género de castigo que sofreriam os incrédulos. Podia ser que um juiz misericordioso,
reservando as chamas do inferno para os pagãos - maometanos, budistas, etc.
- poupasse, no entanto, os dissidentes e os católicos-romanos (embora viessem a sofrer
horrível humilhação, mais tarde, ao reconhecerem o erro em que haviam caído!); era
também possível que Ele se mostrasse condescendente para com aqueles que não
tivessem tido ensejo de conhecer a verdade - se bem que o número de tais criaturas
devesse ser muito reduzido, dadas as actividades da Sociedade Missionária. Se
tivessem esse ensejo, porém, e o desprezassem - categoria essa em que estavam
incluídos, é claro, os católicos-romanos e os dissidentes - o castigo seria inevitável e
bem merecido. Era evidente que o incrédulo se encontrava num estado perigoso.
Talvez não lho houvessem dito por estas palavras mas o certo é que haviam dado a
Philip a impressão de que só os adeptos da Igreja Anglicana podiam aspirar à
felicidade eterna.
Uma das afirmações categóricas que lhe fizeram foi a de que o descrente é um
homem perverso e vicioso. Weeks, contudo, embora não depositasse fé em nada do
que Philip acreditava, levava uma vida de pureza cristã. Philip raras vezes encontrara
quem se mostrasse bondoso para com ele, e por isso o comovia o desejo que o
americano tinha de auxiliá-lo. Certa vez, durante um resfriamento que o prendeu na
cama três dias, Weeks tratou-o como o faria uma mãe. Não havia nele vício nem
maldade: havia apenas sinceridade e amor do próximo. Era possível, por conseguinte,
ser-se virtuoso e descrente.
Haviam dado a entender a Philip, igualmente, que as pessoas se tornavam
adeptas de outros credos apenas por obstinação ou interesse pessoal. Intimamente,
todas tinham consciência da falsidade desses credos, procurando por todos os meios
iludir os outros. Visando aperfeiçoar o seu alemão, Philip adquirira o hábito de assistir
todos os domingos ao ofício luterano, mas, após a chegada de Hayward, passou a
acompanhá-lo à missa. Observou que, ao passo que a igreja protestante se apresentava
quase vazia e a congregação parecia desatenta, o templo dos jesuítas estava sempre
apinhado de fiéis que se entregavam com todo o fervor às suas orações. Não tinham
aparência de hipócritas. Esse contraste surpreendeu-o, pois sabia evidentemente que os
luteranos, cuja fé se assemelhava mais à da igreja Anglicana, estavam, por essa razão,
mais próximos da verdade do que os católicos-romanos. A maioria dos homens - a
congregação era quase totalmente masculina - compunha-se de alemães do Sul, e ele
pensava consigo próprio que, se tivesse nascido no Sul da Alemanha, seria naturalmente
católico-romano. Tanto podia ter nascido numa nação católica, como na
Inglaterra; e na Inglaterra, tanto podia pertencer a uma família wesleyana, baptista ou
metodista, como à sua, que felizmente professava a religião oficial. Sentia-se atemorizado
ante o perigo que correra. Travara relações de amizade com o chinês que se
sentava à mesa com ele, duas vezes por dia. Chamava-se Sung. Mostrava-se sempre
sorridente, afável e polido. Era estranho que estivesse condenado a arder no Inferno
pelo simples facto de ser chinês. Mas se a salvação fosse possível, independentemente
da fé que o homem alimentasse, não haveria nenhuma vantagem especial em pertencer
à igreja anglicana.
Cheio de perplexidade, Philip resolveu sondar Weeks. Teve que usar de cautela,
pois era muito sensível ao ridículo e o humor acre com que o americano se referia à
igreja de Inglaterra desconcertava-o. Weeks contundiu-o ainda mais. Levou-o a reconhecer
que aqueles alemães da igreja dos jesuítas estavam tão firmemente convencidos
da verdade do Catolicismo Romano como ele estava da da Igreja Anglicana, e daí
levou-o a admitir que os maometanos e budistas estavam também convencidos da
verdade das respectivas religiões. Dir-se-ia que a consciência da verdade nada
significava: todos tinham a certeza de estarem com a razão. Weeks não pretendia
destruir a crença do rapaz, mas sentia grande interesse pela religião e considerava-a
um assunto absorvente. Descrevera acertadamente a sua convicção, quando afirmava
não acreditar em nada daquilo que constituía a crença dos outros. Uma vez, Philip fezlhe
uma pergunta que ouvira ao tio, no vicariato, por ocasião de uma conversa sobre
certa obra modernamente racionalista que provocava discussões nos jornais.
- Mas por que havias tu de estar na razão, e criaturas como Santo Anselmo e
Santo Agostinho no erro?
- Queres dizer que eles foram homens inteligentes e cultos, ao passo que pões
grandes dúvidas se eu o sou? - perguntou Weeks.
- Sim - respondeu Philip num tom de incerteza, pois feita daquela forma, a
pergunta parecia impertinente.
- Santo Agostinho acreditava que a Terra era plana e que o Sol girava em torno
dela.
- Não vejo o que isso possa provar.
- Ora, prova que cada um tem as crenças da sua geração. Os teus santos viveram
numa era de fé, quando era praticamente impossível deixar de acreditar em coisas que
hoje nos parecem positivamente inacreditáveis.
- Então, como sabes que estamos agora na verdade?
- Mas eu não o sei!
Philip reflectiu um instante e volveu:
- Não vejo razão para que as coisas em que acreditamos presentemente não sejam
tão erróneas como aquelas em que se acreditava no passado.
- Nem eu.
- Então como podes acreditar em alguma coisa?
- Não sei.
Philip perguntou a Weeks o que pensava da religião de Hayward.
- Os homens imaginaram sempre os deuses à sua própria imagem - disse Weeks.
- Hayward acredita no pitoresco.
Após pequena pausa, Philip observou:
Afinal, não compreendo por que se deva acreditar em Deus.
Mal as palavras lhe saíram da boca, concluiu que já não tinha fé.
Perdeu o fôlego de repente, como se tivesse mergulhado em água fria. Voltou-se
para Weeks, com os olhos espantados, e de súbito teve medo. Na primeira
oportunidade, despediu-se do amigo. Queria estar sozinho. Era a coisa mais
extraordinária que já lhe acontecera. Tentou reflectir; aquilo era emocionante, uma vez
que o caso parecia interessar toda a sua vida (julgava que qualquer decisão nesse
terreno alteraria profundamente o curso da sua existência) e um erro podia conduzir à
condenação eterna. Quanto mais reflectia, porém, mais reforçava a sua convicção, e
embora durante as semanas que se seguiram devorasse livros de tendências cépticas,
não o fez senão para confirmar aquilo que sentia instintivamente. O facto é que deixara
de acreditar, não por esta ou aquela razão, mas porque lhe faltava o temperamento
religioso. A fé fora-lhe incutida do exterior. Era uma questão de ambiente e exemplo.
Novo ambiente e novo exemplo proporcionavam-lhe, agora, a oportunidade de
encontrar-se a si próprio. Descartava-se facilmente da crença que alimentava em
criança, como uma capa de que já não necessitava. A princípio, a vida pareceu-lhe
estranha e solitária, sem a fé que, embora nunca o tivesse percebido, representava um
apoio infalível. Sentia-se como um homem que, acostumado a andar apoiado ao
bastão, fosse de repente compelido a dispensá-lo. Parecia, realmente, que os dias eram
mais frios e as noites mais solitárias. A novidade da sensação animava-o, contudo;
parecia transformar-lhe a vida numa aventura emocionante. Em pouco tempo, o bastão
que atirara para longe e a capa que lhe caíra dos ombros assemelhavam-se a um fardo
insuportável de que tivesse sido aliviado. As práticas religiosas durante tantos anos
impostas afiguravam-se-lhe partes integrantes da própria religião. Lembrou-se das
orações e epístolas que fora obrigado a decorar, e dos prolongados ofícios na catedral, a
que assistira sentado, com as pernas e os braços a ansiar por movimento. Lembrou-se
das caminhadas, à noite, através de estradas lamacentas para a matriz de Blackstable, e
do desconforto daquele frio edifício; sentava-se com os pés gelados, os dedos
entorpecidos e doridos e por todo o lado o cheiro incomodativo da brilhantina. Oh!
como se enfastiava! O seu coração saltava de alegria, ao ver que estava livre daquelas
maçadas.
Admirava-se de se ter libertado da crença com tanta facilidade e, ignorando que
tudo se originara nos processos subtis da sua natureza íntima, atribuía à faculdade de
raciocínio a convicção inabalável a que chegara. Sentia-se, indubitavelmente, contente
consigo mesmo. Com a falta de simpatia que a mocidade revela por atitudes diferentes
da sua, Philip desprezava Weeks e Hayward, por se contentarem com o vago símbolo a
que chamavam Deus, sem coragem para darem o passo final que a ele parecia tão
simples. Certo dia subiu, sozinho, a uma colina, para descortinar uma vista que, não
sabia por que razão, sempre o inundara de sensações eufóricas. Era, então, no Outono,
mas os dias ainda se apresentavam quase sempre sem nuvens e o céu parecia brilhar
com mais esplendor. Dir-se-ia que a natureza procurava aumentar a magnificência dos
últimos dias de bom tempo. Olhou a planície, lá em baixo, reverberando ao Sol numa
extensão infinita; à distância, viam-se os telhados de Mannheim e, muito além, os
contornos mal delineados de Worms. Aqui e ali, o Reno cintilava, num reflexo
penetrante. Toda aquela vastidão estava impregnada de pura luz doirada. Com o
coração a bater de alegria, Philip lembrou-se de como Satanás mostrara a Jesus, do alto
de um monte, os reinos da Terra. A Philip inebriado pela beleza do cenário, parecia
que o mundo inteiro se estendia diante dele e estava ansioso por descer e destrutá-lo.
Sentia-se livre de temores degradantes, livre de preconceitos. Podia seguir o seu
caminho sem o insuportável fogo do inferno. De súbito, verificou haver-se também
descartado daquela responsabilidade que transformava todas as acções da sua vida em
questões de premente importância. Respirava mais livremente, numa atmosfera menos
carregada. Só a si próprio tinha que dar satisfação do que fizesse. Liberdade! Era,
afinal, senhor de si próprio. Por velho hábito, agradeceu inconscientemente a Deus o já
não acreditar n'Ele.
Embriagado de orgulho ante a sua inteligência e destemor, Philip iniciou uma
nova vida cheia de entusiasmo. Mas a perda da fé ocasionou, na sua conduta, uma
mudança menor do que esperava. Embora tivesse repelido os dogmas cristãos, nunca
lhe ocorreu criticar a ética cristã; aceitava as virtudes e na verdade achava louvável
praticá-las desinteressadamente, sem aspirar a recompensa ou a castigo. Na casa de
Frau Erlin havia pouca oportunidade para demonstrações de heroísmo, mas Philip
tornou-se, um pouco mais verídico do que costumava ser, mostrando-se por outro
lado, atencioso com as senhoras idosas e insípidas que às vezes travavam conversa com
ele. Desprezava agora os adjectivos violentos e as imprecações eufemísticas que
caracterizam o idioma britânico e que ele cultivara até então, como símbolo de
masculinidade.
Depois de resolver satisfatoriamente a questão, procurou apagá-la da memória, o
que não foi muito fácil. Não podia esquivar-se às saudades nem sufocar as apreensões
que por vezes o atormentavam. Era tão novo, e tinha tão poucos amigos, que a
imortalidade não lhe parecia muito atraente, e por isso deixou também de acreditar
nela. Havia, porém, uma coisa que o martirizava. Dizia consigo mesmo não ser
razoável e procurava afastar aquele estado de alma, olhando-o pelo lado cómico. Mas
as lágrimas vinham-lhe, de facto, ao olhos, ao pensar que nunca mais veria a sua linda
mãe, cujo amor por ele, após a morte, se tornara mais precioso à medida que os anos
corriam. às vezes, como se sofresse inconscientemente a influência de inúmeros
antepassados devotos, deixava-se tomar de grande pânico, receoso de que tudo fosse,
afinal, verdadeiro e existisse de facto, lá em cima, por trás do céu azul, um Deus
ciumento que punisse os ateus com as chamas eternas. Nessas ocasiões a razão não
vinha em seu socorro. Imaginava a angústia de um tormento físico interminável,
sentia-se transido de medo e o suor brotava-lhe por todos os poros. Por fim,
desesperado, exclamava consigo mesmo:
- Afinal de contas, não tenho culpa alguma. Não posso obrigar-me a crer. Se
existe um Deus e se ele me castigar porque honestamente não creio n'Ele, não posso
dar remédio.
XXIX
Chegara o Inverno. Weeks foi a Berlim assistir às prelecções de Paulssen, e
Hayward começou a fazer planos de uma viagem ao Sul. O teatro local abriu as portas.
Philip e Hayward frequentavam-no duas ou três vezes por semana, com a louvável
intenção de melhorarem os seus conhecimentos de alemão. Para Philip, esse método
era muito mais divertido do que ouvir sermões. O drama passava, nessa época, por
uma espécie de renascimento. Várias peças de Ibsen foram incluídas no reportório de
Inverno. Die Ehre, de Sudermann, era nessa época uma peça nova, e a sua apresentação
na tranquila cidade universitária provocou indizível alvoroço; era extravagantemente
elogiada e ao mesmo tempo combatida sem dó nem piedade. Seguiram-se outros
dramaturgos, com peças escritas sob a influência moderna, e Philip assistiu a uma série
de obras em que a vileza humana era posta em evidência. Nunca, na sua vida, vira
uma representação teatral. Humildes companhias passavam, às vezes, por Blackstable,
mas o vigário, já em virtude da sua profissão, já porque considerasse aquilo uma coisa
vulgar, nunca ia aos espectáculos. Philip foi tomado pela paixão do teatro. Vibrava de
comoção ao penetrar no velho teatrinho mal iluminado. Em pouco tempo, descobriu
todas as particularidades da pequena companhia, e, pela distribuição dos papéis, sabia
dizer quais as características das figuras encarnadas. Isso, contudo, não fazia diferença
alguma. Para ele, era a vida real. Uma vida estranha, sombria e torturada, em que
homens e mulheres revelavam a maldade que lhes ia nos corações. Um lindo rosto
escondia um espírito depravado; os virtuosos utilizavam-se da virtude como máscara
para ocultar os seus vícios secretos; os que pareciam fortes desmaiavam intimamente
de fraqueza; os honestos eram corruptos e os castos, libidinosos. Tinha-se a impressão
de um quarto onde, na noite anterior, houvera desenfreada orgia: as janelas não tinham
sido abertas e o ar estava impregnado de cerveja, fumo e gás de iluminação. Não se
ouvia o riso na plateia. Quando muito, havia quem sorrisse escarninhamente do
hipócrita ou do tolo. As personagens expressavam-se por palavras cruéis, que
pareciam arrancadas dos seus corações pela vergonha e pela angústia.
Philip deixou-se arrebatar pela sórdida intensidade do drama. Parecia
contemplar novo ângulo do mundo e ansiava explorá-lo sem demora. Ao terminar a
representação, dirigia-se a uma casa de bebidas e sentava-se com Hayward, ao pé do
lume, a comerem uma sanduíche e beberem uma garrafa de cerveja. Em redor viam-se
grupos de estudantes, que conversavam e riam. Aqui e além, uma família: pai, mãe,
dois filhos e uma filha; às vezes, a rapariga dizia qualquer coisa engraçada e o pai,
recostando-se na cadeira, soltava sonora gargalhada. Era tudo tão inocente e amistoso!
A cena sugeria o agradável aconchego do lar, mas Philip nada disso via. Os seus
pensamentos convergiam para a peça a que acabara de assistir.
- Sente-se que aquilo é a vida real, não é verdade? - disse, cheio de agitação. - Não
posso permanecer aqui por mais tempo. Quero ir para Londres e iniciar a vida de
verdade. Quero ter aventuras. Estou cansado de me preparar para a vida: quero vivê-la
agora.
Às vezes, Hayward deixava que Philip voltasse só para casa. Nunca respondia às
perguntas ansiosas que o rapaz lhe fazia. Com um sorriso jovial e um tanto ou quanto
estúpido, fazia insinuações sobre amores românticos; citou algumas linhas de Rossetti
e certa vez mostrou a Philip um soneto em que havia paixão, pessimismo e sentimento,
a respeito de uma jovem chamada Trude. Hayward envolvia as suas aventuras
sórdidas e vulgares numa auréola de poesia, imaginando andar de mãos dadas com
Péricles e Fídias, só porque, para descrever o objecto das suas atenções, utilizava a
palavra hetaira, em vez de recorrer aos termos mais rudes e apropriados que oferece o
idioma inglês. Durante o dia, levado por mera curiosidade, Philip passou pela pequena
rua de casas brancas e postigos, onde, de acordo com as informações de Hayward,
morava Fräulein Trude. Mas as mulheres de rostos brutais e faces pintadas que
apareceram às portas e chamaram por ele encheram-no de medo. Fugiu, horrorizado,
das ásperas mãos que procuravam detê-lo. Ansiava por aventuras e sentia-se ridículo
por não ter ainda, na sua idade, experimentado aquilo que a ficção lhe ensinara ser a
coisa mais importante da vida... Possuía, no entanto, o dom infeliz de ver tudo como na
verdade era, e a realidade diferia terrivelmente do ideal dos seus sonhos.
Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de
atravessar para poder aceitar a realidade. é uma ilusão pensar que a mocidade seja
feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois
alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em
contacto com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de
uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de selecção, e a
conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do
esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si
próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura
mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. O
estranho é que as próprias pessoas que sofreram esses amargos desenganos trabalham
inconscientemente, movidas por irresistível força íntima, para criar essa mesma
atmosfera. A companhia de Hayward era a pior coisa que Philip podia ter encontrado.
Era um homem que nada sabia ver com os próprios olhos, mas só através do prisma
literário; um homem perigoso porque se iludira a si mesmo, a ponto de se tornar
sincero. Confundia honestamente o seu sensualismo com a emoção romântica, a sua
indecisão com o temperamento artístico e o seu ócio com a calma filosófica. O seu
espírito, vulgar apesar da ânsia de perfeição, via tudo em dimensões maiores do que as
da realidade e os contornos apareciam mal definidos, imersos na névoa doirada do
sentimentalismo. Mentia e no entanto nunca sabia que mentia e quando lhe chamavam
a atenção para isso, dizia que as mentiras eram belas. Era um idealista.
XXX
Philip andava inquieto e insatisfeito. As alusões poéticas de Hayward
perturbavam-lhe a imaginação e a sua alma ansiava por aventuras amorosas. Pelo
menos, era o que ele julgava.
E em casa de Frau Erlin ocorreu qualquer coisa que aumentou as preocupações
de Philip em matéria de sexo. Duas ou três vezes, passeando pelas colinas, encontrara
Fräulein Cäcilie a deambular sozinha. Cumprimentara-a, ao cruzarem-se, e pouco
adiante encontrara o chinês. Não ligou importância ao incidente, mas ao voltar para
casa, certa noite, avistou duas pessoas que caminhavam bem juntinhas uma da outra.
Ao ouvirem passos separaram-se rapidamente, mas, embora não fosse possível
distingui-los na escuridão, tinha quase a certeza que se tratava de Cäcilie e Herr Sung.
O repentino movimento de separação sugeria que caminhavam de braço dado. Philip
ficou perplexo e surpreso. Nunca dera atenção a Fräulein Cäcilie. Era uma jovem
vulgar, de rosto quadrangular e feições grosseiras. Devia ter, o máximo, dezasseis anos,
pois ainda usava os cabelos louros enrolados numa trança. Nessa noite, à ceia, olhou-a
com curiosidade. Embora, ultimamente, pouco falasse às refeições, ela perguntou-lhe:
- Por onde passeou hoje, Herr Carey?
- Subi o Kõnigstuhl.
- Eu não saí - retorquiu ela. - Estava com uma dor de cabeça.
O chinês, sentado a seu lado, voltou-se de repente.
- Sinto muito - disse ele. - Espero que já esteja melhor.
Fräulein Cäcilie estava visivelmente inquieta.
- Encontrou muita gente no caminho ?
Philip não pôde evitar corar por ter de inventar uma mentira.
- Não. Não encontrei vivalma.
Julgou notar uma expressão de alívio perpassar nos olhos dela.
Dentro em pouco, porém, não havia dúvidas sobre as relações entre os dois, uma
vez que várias pessoas os surpreenderam em recantos escuros da casa. As senhoras
idosas, sentadas à cabeceira da mesa, puseram-se a comentar aquilo que já assumia as
proporções de um escândalo. Frau Erlin mostrava-se irritada e atormentada. Fizera o
possível por ignorar tudo. O Inverno estava próximo e nessa época a pensão nunca se
conservava cheia como no Verão. Herr Sung era bom hóspede: ocupava dois quartos
no andar de baixo e bebia uma garrafa de Mosela a cada refeição. Frau Erlin lucrava
bastante com isso, pois cobrava-lhe três marcos por garrafa. Nenhum outro hóspede
bebia vinho e alguns nem mesmo cerveja eram capazes de consumir. Não queria
perder Fräulein Cäcilie, também, cujos pais negociavam na América do Sul e lhe
pagavam bem pela manutenção da jovem. Se, por outro lado, escrevesse ao tio desta,
que residia em Berlim, tinha a certeza de que ele a mandaria logo buscar. Contentavase
em lançar-lhes olhares severos, durante as refeições e, conquanto não ousasse ser
rude para com o chinês, sentia certa satisfação em tratar Cäcilie indelicadamente. Mas
as três senhoras idosas não se davam por satisfeitas. Duas eram viúvas e a outra, uma
holandesa, era uma solteirona de aspecto masculino. Pagavam irrisória quantia na
pensão e davam muito que fazer, mas eram hóspedas permanentes e portanto tinham
de ser suportadas. Dirigiram-se à dona da casa e disseram que era preciso tomar
qualquer providência. Aquilo era vergonhoso e comprometia a reputação do
estabelecimento. Frau Erlin experimentou a obstinação, a raiva, as lágrimas, mas as três
velhas não a deixaram em paz. De repente, enchendo-se de virtuosa indignação,
resolveu pôr fim à história toda.
Após o almoço, levou Cäcilie para o quarto e falou-lhe seriamente. Ficou
perplexa, quando a rapariga assumiu uma atitude atrevida. Faria o que muito bem
entendesse, e, se passeava com o chinês, ninguém tinha nada com isso. Frau Erlin
ameaçou, então, escrever ao tio.
- Tanto melhor para mim. O tio Heinrich arranjará uma família com quem eu
possa ficar em Berlim, durante o Inverno. Herr Sung irá, depois, para Berlim também.
Frau Erlin pôs-se a chorar. As lágrimas rolavam-lhe pelas faces grosseiras,
vermelhas e gordas, provocando o riso de Cäcilie.
- Isso significará três quartos vagos durante o Inverno - disse ela.
A dona da casa experimentou, então, outro plano. Apelou para os melhores
sentimentos de Fräulein Cäcilie: foi bondosa, sensata, tolerante. Passou a tratá-la, não
como criança, mas como mulher feita. O namoro, em si, não apresentava nada de mal,
mas namorar um chinês, de pele amarela, nariz chato e olhinhos de porco! Que coisa
horrível! Dava engulhos só de pensar em tal.
- Bitte, bitte - exclamou Cäcilie, respirando fundo. - Não permito que se fale mal
dele.
- Não é a sério, não? - perguntou Frau Erlin, consternada.
- Eu amo-o! Amo-o! Amo-o!
- Gott im Himmel!
Frau Erlin encarou a jovem com uma surpresa horrorizada. Julgava que se
tratasse apenas de uma travessura infantil, uma brincadeira inocente, mas o calor da
voz dela revelara tudo. Cäcilie fitou-a um instante, com os olhos inflamados, e, depois
de encolher os ombros, retirou-se do quarto.
Frau Erlin guardou segredo sobre os pormenores da entrevista e dois dias depois
modificou a disposição dos lugares na sala de jantar. Convidou Herr Sung a sentar-se a
seu lado, na extremidade da mesa, o que ele aceitou de bom grado, com a sua
indefectível polidez. Cäcilie mostrou-se indiferente à mudança. Agora, porém, como se
o facto de todos ali saberem do namoro os tornasse ainda mais indiscretos, passeavam
juntos, todas as tardes, de colina em colina. Via-se que pouco lhes importava o que
pudessem dizer. Por fim, até a placidez do professor foi atingida. Insistiu com a esposa
para que falasse ao chinês. Frau Erlin levou-o para um canto, por sua vez, e fez-lhe um
sermão: estava a arruinar a reputação da jovem; arruinava a reputação da casa; a sua
conduta era má e perversa. Herr Sung, porém, sorrindo sempre, negava tudo. Não
sabia de que se tratava; não dava atenção alguma a Fräulein Cäcilie e nunca passeara
com ela. Era tudo mentira, pura calúnia!
- Ach, Herr Sung, como pode o senhor afirmar uma coisa destas? Já os viram
tantas vezes!
- Não, está enganada. É mentira.
Olhava para ela com um sorriso interminável que mostrava os seus iguais e
pequenos dentes brancos. Mantinha-se perfeitamente calmo. Negou tudo. Negou com
amável descaramento. Por fim, Frau Erlin perdeu a paciência e disse que a rapariga
confessara que o amava. Não se perturbou. Continuou a sorrir.
- Tolice! Tolice! É tudo mentira!
Era impossível conseguir qualquer coisa daquele homem. O tempo esfriou. Veio
a neve, a geada, e em seguida o degelo, numa sucessão de dias tristes que não
convidavam a passeios. Certa noite, depois de findar a lição com o Professor, Philip
conversava com Frau Erlin, na sala de visitas, quando Ana entrou repentinamente.
- Mamã, onde está Cäcilie? - perguntou.
- Deve estar no quarto.
- A luz está apagada.
Frau Erlin soltou uma exclamação, olhando, desolada, para a filha.
O pensamento de Ana transmitira-se-lhe instantaneamente.
- Chama o Emil - ordenou com voz rouca.
Referia-se à espécie de labrego que servia à mesa e dava conta de quase todos os
trabalhos domésticos. Ele apareceu.
- Emil, desça ao quarto de Herr Sung e entre sem bater. Se houver alguém, diga
que entrou para ver a estufa.
A fisionomia fleumática de Emil não revelou o menor sinal de espanto.
Desceu vagarosamente as escadas. Frau Erlin e Ana deixaram a porta aberta e
ficaram à escuta. Dentro de instantes ouviram Emil subir e chamaram-no.
- Está alguém lá? - perguntou a mulher.
- Sim. Herr Sung está lá.
- Está só?
O indício de um sorriso malicioso estreitou-lhe os lábios.
- Não. Fräulein Cäcilie está lá.
- Oh, é uma vergonha! - exclamou Frau Erlin.
Agora o criado sorria francamente
- Fräulein Cäcilie vai lá todas as noites. Demora-se lá horas a fio.
Frau Erlin pôs-se a torcer as mãos.
- Que coisa abominável! E por que não me disse nada?
- Não era da minha conta - respondeu ele vagarosamente, encolhendo os ombros.
- Sem dúvida lhe pagaram bem. Vá-se embora, ande!
Emil caminhou desajeitadamente para a porta.
- Têm de se ir embora, mamã - sugeriu Ana.
- E quem pagará o aluguer? Os impostos estão por vencer. é muito fácil dizer que
é preciso mandá-los embora. Se fizermos isso, não sei como havemos de pagar as
contas. - Voltou-se para Philip, com o rosto banhado em lágrimas. - Por favor, Herr
Carey, não conte nada do que ouviu. Se Fräulein Forster - era o nome da solteirona
holandesa - se Fräulein Forster soubesse o que se passa, deixar-nos-ia imediatamente. E
se todos partirem, teremos de fechar a casa. Não poderei mantê-la.
- Evidentemente que nada direi.
- Se ela ficar, não lhe dirigirei mais uma palavra - prometeu Ana.
Nessa mesma noite, por ocasião da ceia, Fräulein Cäcilie, mais corada que de
costume, com ar obstinado, sentou-se à mesa pontualmente. Herr Sung, porém, não
apareceu, dando a Philip a impressão de querer fugir à prova. Por fim, surgiu muito
sorridente, os olhinhos dançando, pedindo mil desculpas pelo seu atraso. Insistiu,
como de costume, em servir um pouco do seu Mosela a Frau Erlin, oferecendo também
um copo a Fräulein Forster. A sala estava muito quente, pois a estufa conservara-se
acesa todo o dia e as janelas raramente eram abertas. Emil movia-se de um lado para
outro, meio tonto, mas conseguia servir a todos com ordem e rapidez. As três senhoras
idosas mantinham-se em silêncio, visivelmente desaprovadoras. Frau Erlin mal se
refizera das lágrimas; o marido, calado, parecia muito oprimido. A conversa arrastavase,
Philip sentia a atmosfera pesada daquela reunião de que tantas vezes fizera parte.
Todos tinham um aspecto diverso do que sempre apresentavam. Ele sentia uma vaga
inquietação. Certa vez, os seus olhos encontraram os de Cäcilie e a impressão que teve
era de que ela o olhava com desprezo e ódio. A sala sufocava. Dir-se-ia que a paixão
animal daquele par torturava todos os hóspedes. Pairava no ar um quê de depravação
oriental; como que um odor de varinhas aromáticas, um mistério de vícios ocultos,
parecia cortar-lhe a respiração. Philip sentia o pulsar das artérias na fronte. Não
compreendia que comoção estranha o arrebatava. Parecia sentir qualquer coisa
infinitamente atraente que, ao mesmo tempo, lhe causava repulsa e horror.
Esse estado de coisas prolongou-se alguns dias. Aquela atmosfera de paixão
monstruosa era nauseante, e os nervos dos hóspedes já não suportavam tamanha
tensão. Só Herr Sung se mantinha inalterável. Continuava sorridente, afável e cortês
como dantes. Seria difícil dizer se a sua atitude era um triunfo para a civilização ou
uma expressão de desprezo, da parte do oriental, pelo Ocidente vencido. Cäcilie
continuava provocante e cínica. A própria Frau Erlin, por fim, achou que as coisas
ultrapassavam os limites. Grande pânico se apoderou dela, de repente, pois o marido,
com uma franqueza brutal, sugerira as possíveis consequências de um caso que já
ninguém ignorava. A pobre mulher via o seu bom nome em Heidelberga e a reputação
da sua casa arrumados por um escândalo agora impossível de ocultar. Por uma razão
qualquer - obcecada, talvez, pelo interesse - nunca pensara em semelhante possibilidade;
mas desta vez foi tomada de terror e tornou-se difícil impedir que ela expulsasse
a jovem imediatamente. Por sugestão de Ana, que era muito sensata, escreveram uma
carta ao tio de Cäcilie, em Berlim, a pedir-lhe que mandasse buscar a sobrinha sem
demora.
Resignada a perder os dois hóspedes, Frau Erlin não resistiu à tentação de dar
rédeas ao furor por tanto tempo reprimido. Poderia dizer a Cäcilie o que bem
entendesse.
- Escrevi a seu tio, Cäcilie, a pedir-lhe que a mandasse buscar. Não a posso
conservar por mais tempo aqui em casa.
Os seus olhinhos redondos faiscaram, ao notar a repentina palidez que invadira o
rosto da jovem.
- É uma sem-vergonha. Sem-vergonha - continuou. - Chamou-lhe nomes feios!
- Que mandou dizer a meu tio Heinrich, Frau Erlin? - perguntou Cäcilie,
abandonando a sua atitude de arrogante independência.
- Ele lhe dirá. Espero receber a resposta amanhã.
No dia seguinte, a fim de tornar pública a humilhação, a dona da casa interpelou
Cäcilie por ocasião da ceia.
- Recebi uma carta de seu tio, Cäcilie. Arrume as suas coisas hoje mesmo, pois
amanhã levá-la-emos à estacão. Seu tio esperará o comboio em Berlim, na Central
Bahnhof.
- Muito bem, Frau Erlin.
Herr Sung sorriu para Frau Erlin e, apesar dos protestos, insistiu em deitar vinho
no copo da proprietária, que ceou com bastante apetite. Triunfara sem prudência,
contudo. Ao recolher-se, chamou o criado.
- Emil, se o baú de Fräulein Cäcilie estiver pronto, é melhor trazê-lo para baixo
ainda esta noite. Amanhã, o carregador virá buscá-lo cedo.
O criado retirou-se, voltando pouco depois.
- Fräulein Cäcilie não está no quarto e a sua mala de mão desapareceu.
Com um grito Frau Erlin correu para lá. O baú estava no chão, convenientemente
amarrado, mas não estava a mala, nem o chapéu nem o casaco. O toucador estava
vazio. Ofegante, Frau Erlin correu escada abaixo, em direcção ao quarto do chinês.
Havia mais de vinte anos que não se movimentava com tal desembaraço, e Emil
gritava-lhe que tivesse cuidado para não cair. Não se dando ao trabalho de bater,
entrou. Os quartos estavam vazios. A bagagem fora retirada e a porta que dava para o
jardim, ainda aberta, mostrava por onde se dera a evasão. Sobre a mesa, num
sobrescrito, havia dinheiro equivalente a um mês de pensão, e uma quantia
aproximada por conta dos extraordinários. Vencida de repente pelo cansaço, a gemer, a
dona da casa deixou-se cair pesadamente no sofá. Não podia haver a menor dúvida. Os
dois tinham fugido juntos. Emil permanecia imóvel e impassível.1
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XXXI
Depois de anunciar durante um mês a sua partida para o Sul no dia imediato, e
transferi-la de semana em semana por falta de ânimo para enfrentar a arrumação das
malas ou o tédio da viagem, Hayward foi afinal forçado a uma decisão, pouco antes do
Natal, pelos preparativos dessa festa. Não suportava a ideia de um folguedo teutónico.
Arrepiava-se todo ao pensar na agressiva alegria dessa quadra do ano, e no desejo de
evitá-la resolveu partir na véspera do Natal.
Philip não se entristeceu com o afastamento do amigo porque possuía um
carácter resoluto e irritava-o que alguém não soubesse ao certo o que queria. Embora
sob a influência de Hayward, não podia reconhecer que a indecisão revelasse
encantadora sensibilidade. Ressentia-se, também, da sombra de sarcasmo com que
Hayward olhava os seus modos decididos. Corresponderam-se. Hayward escrevia
cartas de maneira admirável], e, como reconhecesse em si essa qualidade, esmerava-se
ao fazê-lo. O seu temperamento abria-se facilmente às belas influências com que se
punha em contacto, e dessa forma ele conseguia imprimir, às cartas enviadas de Roma,
a delicada e subtil fragrância da Itália. Achava a cidade dos antigos romanos um pouco
vulgar e só reconhecia distinção na decadência do Império. Mas a Roma dos Papas
cativou-lhe a simpatia e nas suas palavras escolhidas transparecia, deliciosamente, uma
beleza rococó. Falava na antiga música sacra, nos Montes Albanos, no langor do
incenso e no encanto nocturno das ruas, sob a chuva, quando as calçadas reflectiam a
luz misteriosa dos candeeiros. Talvez repetisse essas admiráveis cartas a vários amigos.
Não sabia o efeito perturbador que elas produziam em Philip; faziam com que a
existência lhe parecesse muito desenxabida. Com a Primavera, Hayward tornou-se
ditirâmbico. Propôs a ida de Philip para a Itália. Estava a perder tempo em
Heidelberga. A vida ali era banal e os alemães muito grosseiros. Como poderia a alma
revelar-se em cenário tão artificial? Na Toscana, a Primavera espalhava flores por toda
a região. Philip tinha apenas dezanove anos. Que viesse para percorrerem, juntos, as
cidades montanhosas da úmbria. Os nomes dessas cidades cantavam no coração de
Philip. Cäcilie, com o amante, também partira para a Itália. Ao pensar neles, Philip era
tomado de uma inquietação que não sabia justificar. Amaldiçoava a sorte por não ter
dinheiro para viajar; o tio não lhe mandaria mais do que a mesada convencionada de
quinze libras. Não soubera muito bem controlar os seus gastos. Uma vez pagas a
pensão e as lições, muito pouco lhe sobrava, e percebia agora que os passeios com
Hayward lhe haviam saído muito dispendiosos. Frequentemente, sugeria ele
excursões, idas ao teatro ou uma garrafa de vinho quando já se tinha esgotado a
mesada de Philip. Com a irreflexão própria da idade, não quisera confessar que os seus
recursos não comportavam tais extravagâncias.
Felizmente, as cartas de Hayward vinham apenas de raro em raro, e nos
intervalos Philip entregava-se de novo à sua vida laboriosa. Matriculara-se na
universidade e frequentava alguns cursos de conferências. Kuno Fischer alcançara,
então, o pináculo da fama e fizera, durante o Inverno, brilhantes prelecções sobre
Schopenhauer. Foi a iniciação de Philip na filosofia. Possuía um espírito prático e por
isso movimentava-se com dificuldade no reino do abstracto; sentia, porém, inexplicável
fascinação em acompanhar investigações metafísicas. Enchiam-no de pasmo; era o
mesmo que observar um dançarino de corda bamba a fazer proezas sobre um abismo.
Mas era empolgante. O pessimismo seduziu-lhe a mocidade; acreditava ser o mundo,
no qual em breve penetraria, um tenebroso antro de misérias de onde a piedade fora
banida. Nem por isso estava menos ansioso de conhecê-lo. Quando Mrs. Carey, que
servia de correspondente ao marido, transmitindo as suas opiniões, sugeriu a Philip,
em hora oportuna, que era tempo de regressar a Inglaterra, o rapaz concordou,
entusiasmado. Agora, tornava-se necessário decidir o que faria na vida. Deixando
Heidelberga no fim de Julho, teria todo o mês de Agosto para conversar com os tios - e
seria boa ocasião para entrar em combinações.
Marcada a data da partida, Mrs. Carey escreveu-lhe novamente. Relembrava-lhe
miss Wilkinson, cuja bondade permitira a sua ida para a casa de Frau Erlin, em
Heidelberga, e dizia-lhe que ela combinara passar algumas semanas no vicariato.
Devia partir de Flessinga em dia determinado e, se Philip se pusesse em viagem ao
mesmo tempo, poderia procurá-la e virem juntos para Blackstable. A timidez do rapaz
fê-lo responder imediatamente, comunicando não poder embarcar senão um ou dois
dias mais tarde. Imaginava-se à procura de Miss Wilkinson, a perguntar-lhe,
embaraçado, se era realmente ela (com que facilidade poderia dirigir-se a outra pessoa
qualquer e receber uma repreensão!); depois, no comboio, não sabia se as boas
maneiras lhe permitiriam a leitura de algum livro ou se teria a obrigação de conversar
com ela durante todo o trajecto!
Por fim, deixou Heidelberga. Havia três meses que não pensava senão no futuro.
Não levava saudades. Nunca se deu conta de que fora feliz ali. Fräulein Ana ofereceulhe
um exemplar de Der trompeter von Sãckingen e ele, em retribuição, brindou-a com
um volume de William Morris. Muito acertadamente, nenhum dos dois chegou a ler o
presente do outro.
XXXII
Philip ficou surpreendido quando viu o tio e a tia. Nunca notara, que eram
pessoas tão velhas. O vigário recebeu-o com a afável indiferença do costume. Tornarase
um pouco mais gordo e mais calvo, e o cabelo que lhe restava estava mais grisalho.
Philip notou, então, como o tio era insignificante. O seu rosto revelava fraqueza e
egoísmo. A tia Louise apertou-o nos braços e beijou-o; lágrimas de ventura rolaram-lhe
pelas faces. Philip sentiu-se comovido e embaraçado. Não sabia que ela lhe dedicava
uma afeição tão profunda.
- Oh, como o tempo custou a passar na tua ausência, Philip! - exclamou ela.
Afagando-lhe as mãos, fitou-o com olhos jubilosos.
- Cresceste. Estás agora um homem feito.
Um pequeno bigode insinuava-se-lhe no lábio superior. Comprara uma navalha
e, de vez em quando, com prudência infinita, raspava a penugem do queixo liso.
- Sentimo-nos tão sós sem ti - continuou a tia.
E então, muito tímida, com uma pequena tremura na voz perguntou:
- Estás contente por voltar para casa, não estás?
- Sim, muito.
Estava tão magra que parecia quase transparente. Os braços com que envolveu o
pescoço do sobrinho eram ossos tão frágeis que lembravam ossos de galinha, e, oh!
como o seu rosto murcho estava sulcado de rogas! Os cachos grisalhos que ainda usava
à moda da juventude emprestavam-lhe estranho e comovente aspecto. O corpo
alquebrado assemelhava-se a uma folha outoniça; sentia-se que o primeiro vento forte
a levaria pelos ares. Philip compreendeu que nada mais restava na vida àquelas
simples criaturas: pertenciam a uma geração passada e aguardavam a morte com
paciência, um pouco estupidamente. E ele, em pleno vigor da mocidade, sedento de
aventuras e sensações, impressionava-se com aquelas ruínas. Nada tinham construído,
e, quando desaparecessem, seria como se nunca tivessem vindo ao mundo. Sentia pena
da tia Louise e, vendo-se amado por ela, pôs-se de súbito a amá-la também.
Miss Wilkinson, que se conservava discretamente afastada, dando assim
oportunidade a que os Carey abraçassem o sobrinho, penetrou então na sala.
- Esta é Miss Wilkinson, Philip - apresentou Mrs. Carey.
- O filho pródigo voltou - disse ela, estendendo-lhe a mão. - Colhi uma rosa para
a lapela do filho pródigo.
Com um sorriso alegre, prendeu ao casaco de Philip a flor que acabara de colher
no jardim. Ele corou e sentiu-se um tanto ridículo. Sabia que Miss Wilkinson era filha
do último cura de seu tio e já estava familiarizado com as filhas de clérigos. Usavam
vestidos mal talhados e botas resistentes. Geralmente, vestiam-se de preto pois na
infância de Philip os tecidos de desporto ainda não haviam chegado àquela região do
país e as damas do clero não simpatizavam com as cores. Penteavam-se com desalinho
e desprendiam agressivo cheiro de linho engomado. Consideravam pouco decorosos
os encantos femininos e apresentavam a mesma aparência, quer fossem velhas ou
novas. Praticavam a religião com arrogância. A sua estreita ligação com a igreja levavaas
a assumir uma atitude ligeiramente ditatorial para com o resto da humanidade.
Miss Wilkinson era bem diferente. Usava um vestido de musselina branca,
estampado com alegres raminhos de flores, sapatos de bico fino e salto alto, e meias
arrendadas. A inexperiência de Philip, ela parecia maravilhosamente bem trajada; não
notava que o seu vestido era inferior e espalhafatoso. Tinha os cabelos penteados a
capricho, formando um cacho isolado, bem no meio da testa; eram negros, brilhantes e
duros, dando a impressão de que seria impossível despenteá-los. Possuía grandes
olhos pretos e nariz levemente aquilino; de perfil, lembrava, de certo modo, uma ave
de rapina, mas de frente podia dizer-se que era cativante. Sorria muito, mas, como
tivesse a boca mais rasgada do que o natural, procurava, ao sorrir, ocultar os dentes
grandes e amarelados. O que mais embaraçava Philip, contudo, era o seu rosto
empoado com exagero. Possuía ideias muito estreitas sobre a conduta feminina e não
julgava que uma dama pudesse empoar-se. Mas Miss Wilkinson era indubitavelmente
uma dama, como filha de um pastor, pois um pastor era um cavalheiro.
Philip resolveu-se a não gostar dela de todo em todo. Falava com ligeiro sotaque
francês, e isso intrigava-o sobremodo, uma vez que ela nascera e fora educada em
Inglaterra. Achava-lhe o sorriso afectado e as suas maneiras recatadamente desenvoltas
irritavam-no. Conservou-se silencioso e hostil dois ou três dias, mas Miss Wilkinson
não pareceu notar. Era muito afável. Dirigia-se quase exclusivamente a ele, na
conversa, havendo certa lisonja no modo como apelava, de vez em quando, para o seu
juízo sólido. Fazia-o rir, também, e Philip nunca pôde resistir às pessoas que o
divertiam. Possuía ele, por seu turno, o dom de dizer coisas incisivas, uma vez ou
outra, e sempre era agradável encontrar alguém que o ouvisse com prazer. Nem o
vigário, nem Mrs. Carey tinham o senso do humor; nunca achavam graça ao que ele
dizia. à medida que se familiarizava com Miss Wilkinson e perdia a sua timidez,
passava a gostar mais e mais dela; já achava pitoresco o sotaque francês e, numa
reunião oferecida pelo doutor, ela apresentou-se mais bem vestida do que todas as
demais convidadas. Trajava foulard azul com grandes pintas brancas e Philip sentiu-se
agradavelmente impressionado pela sensação que ela causou.
- Aposto que ficaram a fazer má opinião de si - disse-lhe ele, sorrindo. O sonho
da minha vida é ser tomada por uma rapariga de maus costumes - respondeu.
Certo dia, quando Miss Wilkinson se retirara para o quarto, Philip perguntou à
tia Louise qual era a idade dela.
- Oh, querido, nunca deves perguntar a idade de uma mulher; de qualquer
forma, é muito velha para te casares com ela.
O vigário entreabriu os lábios num lento e obeso sorriso.
- Não é nenhuma franguinha, Louise - observou ele. - Já era quase adulta quando
morávamos em Lincolnshire, há vinte anos. Usava um rabicho, que lhe pendia pelas
costas.
- Nessa época, não teria mais de dez anos - disse Philip.
- Tinha, sim - afirmou a tia Louise.
- Acho que estava próxima dos vinte - comentou o vigário.
- Por favor, William, isso também não. Dezasseis ou dezassete, o máximo.
- Quer dizer que deve ter mais de trinta - concluiu Philip.
Nesse instante, Miss Wilkinson desceu os degraus da escada cantando uma
canção de Benjamin Goddard. Pusera o chapéu, pois ela e Philip iam dar um passeio, e
estendeu a mão para que lhe abotoasse a luva. O rapaz fê-lo desajeitadamente.
conquanto embaraçado, sentia-se galante. A conversa já decorria fácil entre os dois;
enquanto caminhavam, abordaram todos os assuntos possíveis. Ela falou-lhe de Berlim
e ele descreveu-lhe a sua temporada em Heidelberga. à medida que falava, coisas que
lhe pareciam destituídas de importância adquiriam novo interesse. Descreveu os
hóspedes de Frau Erlin e desvirtuou um pouco as discussões entre Hayward e Weeks,
fazendo-as passar, de significativas que lhe tinham parecido anteriormente, a absurdas.
As risadas de Miss Wilkinson lisonjeavam-no.
- Tenho imenso medo de si - disse ela. - é tão sarcástico!
Perguntou-lhe então, em ar de troça, se não tivera nenhuma aventura amorosa
em Heidelberga. Sem pensar, Philip respondeu francamente que não, mas ela não quis
acreditar.
- Como é reservado! - replicou. - Compreende-se lá isso na sua idade?!
Ele corou e riu.
- Quer saber muita coisa - retorquiu.
- Ah! Já sabia - exclamou ela triunfante.- Olha como ele cora!
Agradava-lhe que ela o tomasse por um libertino; mudou, pois, o assunto da
conversa para dar a entender que ocultava toda uma série de aventuras. Sentia raiva a
si próprio, por não ser verdade. Não tivera oportunidade.
Miss Wilkinson vivia descontente com a sorte. Lamentava ter de ganhar o
sustento e contou a Philip uma história complicada sobre um tio por parte da mãe que
devia deixar-lhe regular fortuna, ao morrer, mas acabara por casar-se com a cozinheira
e modificar o testamento. Fez insinuações sobre o luxo da sua casa e comparou a vida
que levava em Lincolnshire, com cavalos e carruagens à sua disposição, à abjecta
dependência da sua situação actual. Philip ficou intrigado e mais tarde contou tudo à
tia; esta explicou-lhe então, que os Wilkinson não possuíam senão um cavalito e um
dog-cart. Mrs. Carey ouvira falar, sim, do tio rico, mas, como fosse casado e tivesse
filhos antes de Emily nascer, não era lógico que ela esperasse herdar-lhe a fortuna. Miss
Wilkinson pouco tinha a dizer acerca de Berlim, onde conseguira uma situação estável.
Queixava-se da vulgaridade da vida alemã, comparando-a mordazmente com o
esplendor de Paris, onde passara certo número de anos. Não quis dizer quantos. Fora
governanta em casa de um retratista muito em voga, que se casara com uma judia de
recursos. Tivera, ali, ocasião de conhecer inúmeras pessoas de destaque. Ofuscava
Philip com os seus nomes. Os actores da Comédia Francesa visitavam frequentemente
a família e Coquelin, sentando-se a seu lado durante um jantar, dissera-lhe nunca
haver encontrado um estrangeiro que falasse o francês com tamanha perfeição.
Alphonse Daudet, que também lá aparecia, dera-lhe um exemplar de Safo: prometera,
também, escrever-lhe uma dedicatória no livro, mas ela esquecera-se de lho lembrar,
mais tarde. Guardava o volume como um tesouro, mas emprestá-lo-ia a Philip. Havia
ainda Maupassant. Com um riso borbulhante, Miss Wilkinson olhava matreiramente
para Philip. Que homem, e que escritor! Hayward falara de Maupassant e Philip não
desconhecia totalmente a sua reputação.
- Ele fez-lhe a corte? - indagou.
As palavras pareciam prender-se-lhe estranhamente na garganta, mas mesmo
assim pronunciou-as. Apreciava já bastante Miss Wilkinson; achava grande encanto na
sua conversa, mas não podia imaginar alguém a requestá-la.
- Que pergunta! - exclamou ela. - Pobre Guy! Fazia a corte a todas as mulheres
que encontrava! Era um hábito de que nunca conseguiu libertar-se.
Suspirou levemente, como quem lançava as vistas ternamente para o passado
- Era um homem encantador - murmurou.
Uma pessoa mais experiente do que Philip teria deduzido dessas palavras as
probabilidades do encontro: o ilustre escritor convidado para o almoço en famille; a
governanta, séria, a entrar na sala, acompanhada das duas meninas a quem ministrava
lições; e a apresentação:
- Notre miss anglaise.
- Mademoiselle...
Seguia-se o almoço, durante o qual a miss anglaise se conservava calada, enquanto
o distinto escritor conversava com o dono e a dona da casa.
Mas, para Philip, aquelas palavras sugeriam fantasias muito mais românticas.
- Conte-me tudo quanto sabe a respeito dele - pediu, ansioso.
- Não há mais nada a dizer - respondeu ela sinceramente, mas de forma a sugerir
que nem mesmo três volumes seriam suficientes para descrever toda a série de factos
sensacionais. - Não deve ser curioso.
Pôs-se, então, a falar de Paris. Adorava os boulevards e os Bois. Havia inconfundível
graça em todas as ruas e as árvores dos Campos Elíseos possuíam uma distinção
não observada em parte alguma do mundo. Estavam sentados num muro baixo, à beira
da estrada, e Miss Wilkinson olhava com desdém para os majestosos olmos que se
erguiam na sua frente. E os teatros! As peças eram brilhantes e a interpretação
incomparável. Acompanhava frequentemente madame Foyot, mãe das meninas que
educava, aos estabelecimentos de modas.
- Oh, como é triste ser pobre! - exclamou.- Ver tanta coisa bonita - porque só em
Paris as pessoas sabem vestir-se - e não ter dinheiro para comprar nada! A pobre Foyot
tinha um corpo horrível. Muitas vezes a costureira me cochichava, ao ouvido: «Ah,
mademoiselle, se ao menos ela possuísse o seu corpo!».
Philip notou, então, que Miss Wilkinson tinha formas robustas e se orgulhava
delas.
- Os homens na Inglaterra são tão estúpidos! Só dão importância ao rosto. Os
franceses, que são um povo de amorosos, sabem que as formas têm muito mais valor.
O rapaz nunca se preocupara com aquelas coisas, mas observava agora que os
tornozelos de Miss Wilkinson eram grossos e deselegantes. Desviou os olhos
rapidamente.
- Devia ir para a França. Não gostaria de passar um ano em Paris? Aprenderia o
francês e, ao mesmo tempo, a permanência lá serviria para se déniaiser.
- Que quer dizer isso? - inquiriu Philip.
Ela riu ardilosamente.
- Deve consultar o dicionário. Os ingleses não sabem tratar com mulheres. São
demasiado tímidos. A timidez é ridícula num homem. Nem sabem, mesmo, cortejar.
São incapazes até de dizer a uma mulher que ela é encantadora sem ficarem
comprometidos.
Philip sentia-se numa situação absurda. Sem dúvida, miss Wilkinson esperava
que ele se portasse de modo bem diferente. Dar-lhe-ia grande prazer, mesmo, dizer-lhe
galanteios e frases espirituosas, mas essas coisas nunca lhe ocorriam ao espírito;
quando ocorriam, não as dizia, com medo de representar um papel ridículo.
- Oh, adoro Paris - suspirou Miss Wilkinson. - Mas tive de ir para Berlim.
Permaneci com os Foyot até as meninas se casarem. Nada me restava fazer, então,
quando tive a felicidade de conseguir a minha colocação actual. São parentes de
madame Foyot, e em vista disso aceitei a oferta. Eu ocupava uma casa pequena, na Rue
Bréda, cinquième. Não era respeitável, convém dizer. Com certeza já ouviu falar da Rue
Bréda - ces dames, bem sabe.
Philip fez sinal que sim, mas na verdade não entendia coisa alguma; apenas
suspeitava vagamente, ansioso para que ela não o julgasse muito ignorante.
- Mas eu não me importava. Je suis libre, n’est-ce-pas? Gostava imensamente de
falar francês, e na realidade falava-o bem. Certa vez, tive lá uma aventura muito
curiosa.
Após uma ligeira pausa, Philip insistiu para que continuasse.
- Não quis contar-me as suas aventuras em Heidelberga observou ela.
- Não tinham carácter de aventura - retorquiu ele.
- Que diria Mrs. Carey, se descobrisse o assunto das nossas conversas?
- Não vai imaginar que eu seja capaz de lhe contar.
- Promete?
Depois de Philip prometer ela começou a falar de um jovem artista, estudante
ainda, que morava no andar de cima, mas interrompeu bruscamente a narrativa.
- Por que não se dedica às belas-artes? Pinta tão admiravelmente
- Não tenho suficiente talento.
- Quanto a isso, é aos outros que compete julgar. Je m'y connais, e creio que tem
todas as qualidades de um grande artista.
- Imagine a cara que o tio William faria, se eu lhe dissesse de repente que queria
estudar belas-artes em Paris.
- É ou não é senhor de si próprio?
- Procura desviar a conversa. Conte o resto da história por favor.
Miss Wilkinson com uma risadinha prosseguiu. Encontrara-se com o estudante
de belas-artes diversas vezes, ao subir ou descer as escadas, mas não lhe dera atenção
especial. Notara apenas que tinha olhos bonitos e que lhe tirava o chapéu muito
delicadamente. Um belo dia, deu com uma carta debaixo da porta. Era dele. Dizia-lhe
que havia meses a adorava e que a esperaria no patamar da escada. Oh, era uma carta
encantadora! E claro que não respondera; mas que mulher não se sentiria lisonjeada?
No dia seguinte, apareceu outra carta! Era maravilhosa, apaixonada, comovedora. Ao
cruzar-se novamente com ele, na escada, não sabia para que lado olhar. As cartas
repetiam-se todos os dias e agora ele suplicava que o recebesse. Anunciou que viria de
noite, vers neuf heures, o que a deixou infinitamente embaraçada. Naturalmente, seria
impossível recebê-lo: podia tocar à vontade, que ela não abriria a porta. Mais tarde,
enquanto aguardava o toque de campainha, toda cheia de nervos, o rapaz aparecera de
súbito na sua frente. Esquecera-se de fechar a porta, ao entrar.
- C’était une fatalité.
- E que aconteceu, então? - indagou Philip.
- A história termina aqui - replicou ela, sacudida de riso.
Philip calou-se por um momento. Estranhas sensações pareciam entrechocar-se
no seu coração, que batia violentamente. Via a escura escadaria, os encontros fortuitos
e admirava a audácia das cartas (oh!, nunca teria ousado o mesmo!); e, depois, aquela
entrada silenciosa, quase misteriosa. Afigurava-se-lhe, tudo isso, a verdadeira essência
da vida romântica.
- Como era ele?
- Oh, muito simpático! Charmant garçon.
- Ainda mantém relações com ele?
Philip sentiu ligeira irritação ao fazer esta pergunta.
- Tratou-me abominavelmente. Os homens são sempre os mesmos. Nenhum de
vocês tem coração!
- Desconheço esse particular - retorquiu Philip, com certo embaraço.
- Voltemos para casa - sugeriu Miss Wilkinson.
XXXIII
Philip não conseguia afastar do espírito a história de Miss Wilkinson. Embora ela
tivesse interrompido a narração, compreendeu claramente o sentido das suas palavras
e ficou um tanto escandalizado. Aquilo ficava bem a mulheres casadas, constituía
mesmo regra geral em França, segundo deduzira dos romances mas Miss Wilkinson
era inglesa e solteira, sendo além disso filha de um pastor anglicano. Ocorreu-lhe,
então, não ter sido o estudante de belas-artes o primeiro nem o último dos seus
amantes. Caiu das nuvens. Nunca fizera aquele juízo de Miss Wilkinson. Parecia
impossível que alguém fosse capaz de assediá-la. Na sua ingenuidade, duvidava tãopouco
da história dela como do que lia nos livros, enraivecendo-se consigo mesmo pelo
facto de aquelas coisas maravilhosas nunca lhe acontecerem. Era humilhante que nada
tivesse a contar, quando Miss Wilkinson lhe pediu, com insistência, que descrevesse as
suas aventuras em Heidelberga. Possuía, sem dúvida, certa faculdade inventiva, mas
receava não conseguir persuadi-la de que vivia mergulhado no vício. As mulheres
possuem profunda intuição - lera isso, também - e, sendo assim, talvez viesse a
descobrir facilmente que tudo aquilo não passava de peta. Corou violentamente ao
imaginar que ela poderia rir-se à socapa.
Miss Wilkinson tocava piano e cantava com uma voz algo cansada; mas as suas
canções, da autoria de Massenet, Benjamin Goddard e Augusta Holmès, eram inéditas
para Philip. Passavam juntos horas perdidas, ao piano. Certo dia, quis saber se o rapaz
tinha voz e insistiu em experimentá-la. Achou que ele possuía uma agradável voz de
barítono e prontificou-se a dar-lhe lições. a princípio, envergonhado como era, ele
recusou, mas Miss Wilkinson insistiu e começou a ministrar-lhe uma lição por dia,
após o pequeno-almoço. Possuía o dom de ensinar e via-se que devia ser uma excelente
preceptora. Tinha método e firmeza. Embora o sotaque francês nunca a abandonasse,
pois constituía parte integrante da sua personalidade, os modos melífluos desapareciam
quando se punha a ensinar. Não admitia brincadeiras. A sua voz tornava-se um
pouco peremptória e instintivamente corrigia o desleixo e a desatenção. Mostrando
conhecimento do assunto, iniciou Philip nos exercícios e nas escalas.
Terminada a lição, Miss Wilkinson voltava a sorrir sedutoramente, a sua voz
readquiria com facilidade a macieza e o encanto, mas Philip não conseguia esquecer
tão depressa o papel de aluno como ela o de professora. E essa impressão punha-se em
conflito com as suspeitas que as suas histórias lhe despertavam. Olhava-a com atenção
cada vez maior. Agradava-lhe muito mais à noite que de manhã. De manhã notavamse-
lhe certos vincos no rosto e a pele do pescoço apresentava-se um pouco áspera.
Como seria bom se pudesse ocultar aquilo! Mas fazia calor e ela usava blusas
decotadas. Gostava muito do branco, mas, pela manhã, não lhe ficava bem. às vezes, de
noite, tornava-se muito atraente com o seu vestido que mais parecia traje de jantar e
um lindo colar de granadas ao pescoço. A renda que lhe cobria o peito e os cotovelos
dava-lhe agradável suavidade, enquanto o seu perfume predilecto (em Blackstable
ninguém usava senão água-de-colónia, e assim mesmo apenas aos domingos ou no
caso de alguma dor de cabeça muito forte) perturbava pelo exotismo. Parecia
realmente jovem naqueles momentos.
Philip preocupava-se muito com a idade. Adicionava vinte a dezassete, mas não
conseguia chegar a um resultado satisfatório. Perguntou à tia Louise, mais de uma vez,
por que julgava que Miss Wilkinson tinha trinta e sete anos: não parecia passar dos
trinta, e toda a gente sabia que as estrangeiras envelheciam mais depressa do que as
inglesas: Miss Wilkinson vivera tanto tempo longe da pátria que podia ser considerada
uma estrangeira. Quanto a si, não lhe dava mais de vinte e seis anos.
- Tem mais do que isso - afirmava a tia Louise.
Philip não acreditava na exactidão das afirmações dos Carey. A única coisa de
que se lembravam com clareza era que Miss Wilkinson ainda não usava penteados da
última vez que a tinham visto em Lincolnshire. Na verdade, podia ter então uns doze
anos; passara tempo e o vigário tinha má memória! Vinte anos tinham passado, diziam
eles, mas é costume arredondar os números e, portanto talvez os vinte anos não
passassem de dezoito ou dezassete.
Dezassete e doze faziam apenas vinte e nove, e poder-se-ia taxar de velha uma
pessoa que tinha essa idade? Cleópatra contava quarenta e oito anos quando Marco
António desprezou o mundo pelo seu amor.
O Verão ia lindo. Os dias decorriam quentes e o céu apresentava-se sempre sem
nuvens, mas a vizinhança do mar suavizava o calor e o sol de Agosto, em vez de
oprimir, enchia o ar de um bálsamo revigorante. Havia, no jardim, um lindo lago com
repuxo. Os nenúfares cresciam, viçosos, e os peixinhos dourados vinham apanhar sol à
superfície. Philip e Miss Wilkinson costumavam levar para lá tapetes e almofadas, após
o almoço, e deitar-se na relva, à sombra de uma alta sebe de roseiras. Conversavam e
liam durante toda a tarde. Aproveitavam, também, para fumar os seus cigarros, prática
que o vigário não permitia em casa; achava repugnante o hábito do fumo e amiúde
dizia ser muito triste alguém tornar-se escravo de um hábito. Esquecia-se de que ele
próprio se deixara escravizar pelo seu chá da tarde.
Um dia, Miss Wilkinson ofereceu a Philip La Vie de Bohème. Encontrara-a por
acaso, quando remexia entre os livros do vigário. Viera num lote, entre outros volumes
encomendados por Mr. Carey e permanecera dez anos ignorada.
Philip começou a ler a fascinante, absurda e mal escrita obra-prima de Murger e
deixou-se logo encantar por ela. A sua alma dançava de alegria ante aqueles quadros
de fome combinada com bom humor, de esqualidez pitoresca, de ignóbil e romântico
amor, de tão tocante comicidade. Ah, Rodolphe e Mimi, Musette e Schaunard!
Vagueavam pelas ruas pardacentas do Bairro Latino, metidos em esquisitas roupas à
moda de Luís Filipe, refugiando-se ora numa, ora noutra água-furtada, banhados de
lágrimas e abertos em sorrisos, descuidosos e temerários. Quem poderia resistir-lhes?
Só quando a gente volta ao livro com o juízo mais amadurecido é que verifica quão
grosseiros são os seus prazeres, quão vulgares os seus espíritos; só então se
compreende a absoluta falta de valor dessa alegre sociedade, como artistas e como
homens. Philip estava extasiado.
- Não preferiria ir para Paris em vez de Londres? - perguntou Miss Wilkinson,
sorrindo do seu entusiasmo.
- Agora é demasiado tarde, mesmo que o quisesse - respondeu ele.
Depois de regressar da Alemanha, durante uma quinzena inteira Philip
conversara muitas vezes com o tio, a respeito do seu futuro. Recusara definitivamente
ir para Oxford, e desde que não havia probabilidade de conseguir uma bolsa de
estudos, Mr. Carey convenceu-se de que o estudo, lá, sairia muito dispendioso. Toda a
fortuna de Philip consistia apenas em duas mil libras, e, embora tivesse sido investida
em hipotecas, a cinco por cento, era-lhe impossível viver dos juros. Agora, achava-se
um pouco reduzida. Seria absurdo gastar duzentas libras anuais (o mínimo que se
poderia despender numa Universidade) em Oxford, numa permanência de três anos
que, no fim das contas, não lhe facilitaria nenhum meio de vida. Ansiava por partir
directamente para Londres. Mrs. Carey era de opinião que só existiam quatro
profissões dignas de uma pessoa educada: o Exército, a Marinha, a Advocacia e a
Igreja. Acrescentara a Medicina, que seu cunhado praticara, mas sem esquecer que, na
sua mocidade, ninguém considerava o médico um cavalheiro. As duas primeiras
estavam fora de questão e Philip não queria ordenar-se. Só restava o Direito. O doutor
da localidade observara que muitas pessoas distintas já se dedicavam à engenharia,
mas Mrs. Carey opôs imediata objecção à ideia.
- Não quero ver Philip metido em negócios - disse ela.
- Não, ele precisa de ter uma profissão - respondeu o vigário. - Por que não fazêlo
médico, como o pai?
- Ser-me-ia odioso - interpôs Philip.
Mrs. Carey não se entristeceu com isso. A advocacia também estava posta de
lado, uma vez que o rapaz não ia para Oxford, pois os Carey tinham a impressão de
que ainda era necessário um diploma para se alcançar êxito no foro. Foi sugerido, por
fim, que Philip se iniciasse como aprendiz de solicitador. Escreveram ao advogado da
família, Albert Nixon, que era, juntamente com o vigário de Blackstable, executor
testamentário do falecido Henry Carey, e perguntaram-lhe se se dispunha a tomar
conta de Philip. Dois dias depois, chegou a resposta. Nela o advogado informava não
dispor de vaga alguma e ao mesmo tempo manifestava-se radicalmente contrário ao
plano. A profissão já estava superlotada e sem capital ou relações havia pouca
probabilidade de se ir além de chefe de amanuenses. Era de parecer, contudo, que
Philip devia estudar para contabilista. Nem o vigário nem a mulher sabiam o que isso
significava; o próprio Philip nunca ouvira falar em contabilistas. Mas outra carta do
procurador explicava que o desenvolvimento dos negócios modernos e o número cada
vez maior de companhias, tinham exigido a organização de várias firmas de
contabilistas para examinar os livros e introduzir nas transacções financeiras dos seus
clientes uma ordem que faltava aos métodos antigos. Anos antes, fora concedida a
carta régia e a profissão tornava-se cada vez mais respeitável, lucrativa e importante.
Os contabilistas de cujos serviços Albert Nixon se utilizava havia três anos dispunham
de uma vaga de praticante e aceitariam Philip pela módica quantia de trezentas libras.
Metade dessa importância reverteria ao aprendiz, nos cinco anos do contrato, sob a
forma de salário. A perspectiva não dava para entusiasmar, mas Philip sentia a
necessidade de se decidir por qualquer coisa, e a ideia de viver em Londres
contrabalançava a leve repulsa que tudo aquilo lhe causava. O vigário de Blackstable
escreveu a Mr. Nixon, a perguntar se a profissão era própria de uma pessoa educada. A
resposta dizia que, desde a carta régia, tinham ingressado nela vários rapazes saídos de
escolas secundárias e um, de uma universidade; além do mais, caso Philip se
aborrecesse do trabalho, e após um ano quisesse abandoná-lo, Herbert Carter - era esse
o nome do contabilista - restituiria metade do dinheiro pago pelos cinco anos. Fechouse
o negócio, ficando combinado que Philip começaria a trabalhar a 15 de Setembro.
- Tenho um mês inteiro na minha frente - disse Philip.
- Depois disso, irá para a liberdade e eu para o cativeiro - retorquiu Miss
Wilkinson.
As suas férias durariam seis semanas, e, portanto, deixaria Blackstable apenas
um ou dois dias antes de Philip.
- Encontrar-nos-emos outra vez? - perguntou ela.
- Não vejo razão que o impeça.
- Oh, não fale dessa maneira tão prática! Nunca vi ninguém tão pouco
sentimental.
Philip corou. Temia que Miss Wilkinson o julgasse efeminado; afinal de contas,
ela era jovem, às vezes bem bonita, e ele já caminhava para a casa dos vinte. Era
absurdo que não conversassem senão de arte e literatura. Urgia cortejá-la. Tinham
falado bastante de amor. Havia o estudante de belas-artes da Rue Bréda e o pintor com
cuja família vivera durante tanto tempo, em Paris; pedira-lhe que posasse para um
quadro e logo se pusera a fazer-lhe a corte com tal violência que ela se vira obrigada a
inventar desculpas para não lhe servir de modelo. Era claro que Miss Wilkinson estava
acostumada a essa espécie de atenções. Como estava atraente, agora, com o seu grande
chapéu de palha! Era uma tarde quente, a mais quente daquele Verão, e gotas de suor
perlavam-lhe o lábio superior. Philip lembrou-se de Fräulein Cäcilie e Herr Sung.
Nunca olhara Cäcilie sob o aspecto amoroso, tão desenxabida ela lhe parecia. Agora,
porém, que se tornara passado, a aventura surgia envolta em romantismo. Encontrara,
também, uma oportunidade de idílio. Miss Wilkinson era, por assim dizer, francesa, e
isso dava maior sabor a uma possível aventura. Ao meditar nisso, de noite, na cama, ou
quando se punha a ler um livro sozinho, no jardim, sentia-se electrizado. Quando se
encontrava com Miss Wilkinson, porém, tudo parecia menos pitoresco.
De qualquer forma, depois do que lhe dissera, ela não poderia surpreender-se de
ser cortejada. Qualquer coisa lhe dizia que a rapariga estranharia a sua frieza. Talvez
fosse apenas produto da imaginação, mas por mais de uma vez, no dia anterior, Philip
lera um quê de desprezo nos seus olhos.
- Dava dinheiro para saber em que está a pensar - disse Miss Wilkinson, fitando-o
com um sorriso.
- Não lho digo - respondeu ele.
Estava a pensar que devia beijá-la naquele mesmo instante. Não sabia se era isso
que ela esperava. Mas, afinal de contas, como podia agir sem primeiro preparar
ambiente? Ela tomá-lo-ia por louco, ou talvez o esbofeteasse. Seria capaz, também, de
queixar-se a Mr. Carey. Como teria Herr Sung começado com Cäcilie ? Seria o diabo se
fosse queixar-se a seu tio, pois o doutor e Josiah Graves viriam logo a saber de todo o
ocorrido. Faria o papel de um perfeito idiota. A tia Louise continuava a afirmar que
Miss Wilkinson tinha trinta e sete anos pelo menos. A perspectiva do ridículo a que se
exporia punha-o a tremer; diriam, sem dúvida, ter ela idade suficiente para ser sua
mãe.
- Dou um doce pelo que está a pensar - sorriu Miss Wilkinson.
- Pensava em si - respondeu ele audazmente.
Era, contudo, uma afirmação neutra, que não o comprometia.
- E o que pensava?
- Ah, agora quer saber de mais.
- Menino traquinas! - exclamou Miss Wilkinson.
Cá estava outra vez! Sempre que começava a preparar ambiente ela dizia uma
frase qualquer que lhe lembrava a governanta. Chamava-lhe também menino
traquinas, em tom de brincadeira, quando os seus exercícios de canto não eram
satisfatórios. Desta vez, ficou amuado.
- Gostaria que não me tratasse como a uma criança.
- Ficou zangado?
- Muito.
- Foi sem querer.
Estendeu a mão que ele tomou. Já uma ou duas vezes, ao despedirem-se à noite,
Philip tivera a impressão de que ela lhe apertava ligeiramente a mão, mas agora não
podia haver dúvida a tal respeito.
Não sabia que dizer. Ali estava, afinal, o ensejo para uma aventura, e seria tolo se
não o aproveitasse. Era um pouco banal, porém; esperava coisa mais fascinante. Lera
inúmeras descrições de episódios amorosos, mas não sentia aquela comoção
arrebatadora de que falavam os novelistas. Não se sentia transportado por ondas
sucessivas de paixão. Nem Miss Wilkinson era o ideal. Sonhava com uma jovem de
grandes olhos violáceos e pele alabastrina, uma jovem em cujos cabelos castanhos e
ondeados pudesse mergulhar o rosto. Não seria possível afogar o rosto na cabeleira de
Miss Wilkinson, tão pegajosa lhe parecia. Contudo, como ligação curta, valeria a pena.
Philip vibrava já de legítimo orgulho com a sua conquista. Era preciso seduzi-la, como
uma satisfação a si próprio. Deliberou beijar Miss Wilkinson; não naquele momento,
mas de noite. A escuridão seria mais favorável e, uma vez que a tivesse beijado, o resto
se seguiria com facilidade. Beijá-la-ia naquela mesma noite. Jurou que havia de fazê-lo.
Organizou todos os planos. Após a ceia, convidou-a para um passeio no jardim.
Miss Wilkinson aceitou e os dois puseram-se a caminhar lado a lado. Philip estava
muito nervoso. Não sabia a razão por que a conversa não tomava o rumo desejado.
Chegara à conclusão de que a primeira coisa a fazer era envolver-lhe a cintura com o
braço; mas não podia enlaçá-la subitamente, no momento em que ela falava da regata
que ia realizar-se na semana seguinte. Conduzia-a ardilosamente para os recantos mais
escuros do jardim, mas a coragem abandonava-o. Miss Wilkinson, porém, insistiu em
afastar-se daquele lugar, com medo dos besouros. Ao percorrerem novamente o
jardim, Philip prometeu a si mesmo decidir-se daquela vez. Mas quando passaram pela
casa, viram Mrs. Carey, à porta.
- Não será melhor virem para dentro? O ar da noite não lhes faz bem.
- Talvez seja melhor entrarmos - exclamou Philip.- Não quero que apanhe um
resfriamento.
Disse-o com um suspiro de alívio. Não poderia tentar mais nada naquela noite.
Mais tarde, porém, quando se recolheu ao quarto, ficou furioso consigo mesmo.
Representara um papel de verdadeiro tolo. Estava certo de que Miss Wilkinson
esperava ser beijada, de contrário não o teria acompanhado ao jardim. Vivia a dizer
que só os franceses sabiam tratar com as mulheres. Philip tinha lido novelas francesas.
Se fosse francês, já a teria envolvido nos braços e declarado a sua ardente paixão; já
teria, sem dúvida, pousado os lábios na sua nuque. Não sabia por que os franceses
beijavam sempre as mulheres na nuque. Não via, mesmo, nada de atraente na parte
posterior do pescoço. Para os franceses, naturalmente, essas coisas tornavam-se muito
mais fáceis; o idioma ajudava tanto. Philip achara sempre que as expressões apaixonadas,
em inglês, pareciam um pouco absurdas. Desejava nunca ter tentado assediar a
virtude de Miss Wilkinson. A primeira semana fora tão divertida! Agora, sentia-se
descoroçoado, mas jurou não desistir; nunca mais se respeitaria a si próprio, se
desistisse. Tomou a resolução irrevogável de beijá-la na noite seguinte.
Quando se levantou, ao amanhecer, notou que chovia e o primeiro pensamento
que lhe ocorreu foi a impossibilidade de passearem à noite, no jardim. Sentiu-se muito
bem-humorado, durante a refeição matinal. Miss Wilkinson mandou dizer por Mary
Ann que uma dor de cabeça a obrigava a permanecer na cama. Só desceu para o chá,
pálida, envolta num roupão que lhe ficava muito bem. Por ocasião da ceia, porém, já se
sentia completamente restabelecida. Foi uma refeição alegre. Após as orações,
anunciou ir directamente para o leito e beijou Mrs. Carey. Depois voltou-se para Philip.
- Meu Deus! - exclamou. - Imagine que ia para beijá-lo, também.
- E por que não? - perguntou ele.
Ela riu e estendeu a mão, comprimindo nitidamente a de Philip.
No dia seguinte, não havia uma nuvem no céu e a chuva tornara o jardim
perfumado e fresco. Philip foi à praia banhar-se e, ao regressar, saboreou um magnífico
jantar. Tinham combinado jogar uma partida de ténis, à tarde, e, em vista disso, Miss
Wilkinson envergou o seu melhor vestido. Sabia trajar com elegância, sem dúvida, e
Philip não podia deixar de admirá-la ao lado da esposa do cura e da filha casada do
doutor. Trazia duas rosas no cinto. Sentou-se numa cadeira do jardim, ao lado do
relvado, segurando uma sombrinha vermelha, cujos reflexos lhe davam ao rosto uma
bonita aparência. Philip apreciava o ténis. Tinha um toque forte, mas jogava junto da
rede, para não ter que correr muito. Apesar do pé defeituoso, era rápido; dificilmente
deixava escapar uma bola. Ficou contente por ganhar todas as séries. Durante o chá,
sentou-se aos pés de Miss Wilkinson, ofegante.
- A flanela fica-lhe bem - disse ela. - Está muito simpático esta tarde.
Ele corou de prazer.
- Ainda bem que posso retribuir o cumprimento. Acho-a perfeitamente
arrebatadora.
Ela sorriu e lançou-lhe um olhar prolongado, com os seus negros olhos.
Após a ceia, insistiu em que ela saísse.
- Já não basta o exercício que fez hoje?
- O jardim deve estar adorável, esta noite. O céu está todo estrelado.
Sentia-se em excelente disposição.
- Sabe que Mrs. Carey esteve a ralhar comigo por sua causa? - disse Miss
Wilkinson, enquanto passeavam pela horta. - Diz ela que eu não devo namoriscar
consigo.
- E anda a namoriscar comigo? Não o notara...
- Foi um gracejo de sua tia.
- Foi muito má em não querer beijar-me ontem, à noite.
- Se visse a cara que seu tio me deitou, quando eu disse aquilo!
- Foi a única coisa que a impediu?
- Prefiro beijar sem testemunhas.
- Não há testemunhas, agora.
Philip enlaçou-lhe a cintura e beijou-lhe os lábios. Ela limitou-se a rir de leve, sem
procurar afastar-se. Aquilo acontecera naturalmente. Philip sentia-se orgulhoso de si
mesmo. Dissera que havia de beijá-la e beijara-a. Fora a coisa mais fácil do mundo.
Lamentava não o ter feito antes. Beijou-a de novo.
- Oh, não deve fazer isso... - murmurou ela. - Porquê?
- Porque eu gosto - respondeu rindo.
XXXIV
No dia seguinte, após o almoço, levaram novamente para a fonte as mantas e
almofadas, junto com os livros; mas nada leram. Miss Wilkinson acomodou-se e abriu
a sua sombrinha vermelha. Philip perdera todo o acanhamento, mas de início ela não
queria deixar-se beijar.
- Procedi muito mal a noite passada. Não consegui dormir. Senti-me tão culpada!
- Que tolice! - exclamou ele. - Aposto que dormiu como uma pedra.
- Imagine o que diria seu tio, se soubesse!
- Não vejo razão para ele o saber.
Ao inclinar-se para ela, o coração pulsava-lhe rápido.
- Por que quer beijar-me?
Sabia que devia responder: - «Porque a amo», mas faltou-lhe coragem para o
dizer.
- Por que acha que seja? - perguntou.
Ela fitou-o com olhos risonhos e tocou-lhe o rosto com a ponta dos dedos.
- Como é lisa a sua pele! - murmurou.
- Preciso de barbear-me - disse ele.
Era singular a dificuldade que Philip encontrava em pronunciar frases
românticas. Sentia que o silêncio o favorecia muito mais do que as palavras. O seu
olhar exprimia coisas inefáveis. Miss Wilkinson suspirou.
- Gosta de mim?
- Gosto, sim, terrivelmente.
Ao tentar beijá-la de novo, ela não fez resistência. Fingiu estar tomado de muito
maior ardor do que na realidade sentia, e essa simulação teve bom êxito, do que ele
próprio se orgulhou.
- Começo a ficar com medo de si - disse Miss Wilkinson.- Virá ao jardim após a
ceia, não? - suplicou ele.
- Só se prometer portar-se devidamente.
- Prometo tudo.
Incendiava-se com a própria chama em parte simulada; à hora do chá, mostrouse
de uma alegria turbulenta. Miss Wilkinson olhava-o, nervosa.
- Não deve andar com os olhos tão brilhantes - observou-lhe ela, pouco depois. -
Que pensará a tia Louise?
- Não me interessa o que ela possa pensar.
Miss Wilkinson emitiu uma risadinha de prazer. Assim que terminaram a ceia ele
perguntou-lhe:
- Quer fazer-me companhia, enquanto fumo um cigarro?
- Por que não deixas Miss Wilkinson repousar? - exclamou Mrs. Carey. - Deves
lembrar-te de que ela não é tão jovem como tu.
- Eu também tencionava sair - replicou ela, com acrimónia.
- Após o almoço caminha bastante, após a ceia repousa um instante - sentenciou
o vigário.
- Sua tia é muito boa, mas às vezes mexe-me com os nervos - disse Miss
Wilkinson, logo que saíram pela porta lateral.
Philip atirou fora o cigarro que mal acendera, e envolveu-lhe a cintura com
ambos os braços. Ela procurou afastá-lo.
- Prometeu que teria juízo, Philip.
- Esperava que eu cumprisse uma promessa dessas?
- Não tão perto de casa, Philip. Imagine se alguém saísse de repente!
Conduziu-a para o fundo do jardim, onde não havia possibilidade de alguém
aparecer e, desta vez, Miss Wilkinson não se preocupou com os insectos. Beijou-a
apaixonadamente. Uma das coisas que o intrigavam era o facto de não a apreciar de
manhã e apenas a suportar de tarde. Mas à noite, o contacto das mãos dela fazia-o
vibrar. Disse coisas que nunca se imaginara capaz de dizer; à luz do dia, pelo menos,
tinha a certeza de que não ousaria dizê-las. Ouvia-se a si próprio com espanto e
satisfação.
- Que linda maneira de cortejar! - exclamou ela.
Era o que ele próprio pensava.
- Oh, se eu pudesse dizer tudo o que me inflama o coração! - murmurou ele com
ardor.
Era esplêndido. Era o mais empolgante jogo de que já participara. E o mais
estranho era que sentia, realmente, o que dizia. Apenas exagerava um pouco. Ficou
extasiado ante o efeito que as suas palavras lhe causavam. Foi, sem dúvida, com muito
esforço que ela manifestou, por fim, o desejo de recolher-se.
- Oh, não vá ainda! - suplicou ele.
- Preciso ir - murmurou ela - tenho medo.
Ocorreu-lhe, de repente, o que lhe competia fazer.
- Não posso recolher-me já. Ficarei aqui, a pensar. Tenho o rosto em fogo. Preciso
da aragem da noite. Boa-noite!
Ele estendeu a mão, gravemente, e ela tomou-a em silêncio. Julgou ouvi-la abafar
um soluço. Como era magnífico! Quando, após um intervalo razoável em que
permaneceu sozinho e aborrecido :. na escuridão do jardim, resolveu voltar para casa,
verificou que Miss Wilkinson já tinha ido para a cama.
Depois disso as coisas tomaram novo rumo entre eles. Nos dois dias que se
sucederam, Philip mostrou-se muito apaixonado. Sentiu-se deliciosamente lisonjeado
ao descobrir que Miss Wilkinson o amava também: ela confessara-lho em inglês e em
francês. E os galanteios que lhe dizia! Ninguém o informara, até então, de que os seus
olhos eram encantadores e a sua boca sensual. Nunca se preocupara muito com a sua
aparência pessoal, mas agora, todas as vezes que podia, mirava-se ao espelho com
satisfação. Ao beijá-la, era admirável aquela sensação que lhe fazia vibrar a alma!
Beijava-a amiúde, pois achava isso mais fácil do que dizer coisas que sabia,
instintivamente, serem esperadas por ela. Ainda achava ridículo afirmar que a
adorava. Desejava ter alguém a quem pudesse gabar-se; analisaria, então, os mínimos
pormenores da sua conduta. às vezes, ela dizia coisas enigmáticas, que o punham
perplexo. Se Hayward estivesse presente, perguntar-lhe-ia qual supunha ser a intenção
dela e o que lhe aconselhava fazer. Não sabia se era melhor precipitar os
acontecimentos ou deixar que seguissem o curso natural. Só lhe restavam três semanas.
- É horrível pensar que as férias vão acabar - observou ela. - Isso parte-me o
coração. E talvez nunca mais nos tornemos a ver.
- Se me quisesse de verdade, não seria tão má para mim - murmurou ele.
- Por que não aceita as coisas como elas são? Os homens são sempre os mesmos.
Nunca ficam satisfeitos.
E ante a insistência dele, exclamou:
- Mas não vê que isso é impossível? Como poderemos, aqui?
Philip propôs toda a sorte de planos, mas não havia meio de ela os aceitar.
- Não quero arriscar-me. Seria um horror se sua tia descobrisse.
Um ou dois dias mais tarde, ocorreu-lhe uma ideia que parecia genial.
- Olhe, não seria possível simular uma forte dor de cabeça, domingo à noite?
Tendo alguém para tomar conta da casa, a tia Louise sem dúvida aproveitaria a
oportunidade para ir à igreja.
Em geral, Mrs. Carey ficava em casa nas noites de domingo, a fim de permitir
que Mary Ann fosse à igreja, mas ficaria contentíssima se pudesse assistir às vésperas.
Philip não julgara necessário comunicar aos tios a radical mudança que, na
Alemanha, se processara no seu modo de encarar o cristianismo. Tinha plena certeza
de que eles não compreenderiam, e por isso julgava preferível frequentar a igreja. Mas
ia apenas pela manhã. Considerava isso uma concessão especial, feita aos preconceitos
da sociedade, e a recusa a ir mais de uma vez por dia era, a seus olhos, uma afirmação
de livre pensamento.
Ao ouvir a sugestão, Miss Wilkinson conservou-se um instante em silêncio e em
seguida sacudiu a cabeça.
- Não; não posso.
No domingo, porém, à hora do chá, Philip teve uma surpresa.
- Creio que não vou à igreja esta noite - disse ela, de repente. - Sinto uma terrível
dor de cabeça.
Muito preocupada, Mrs. Carey ofereceu-lhe uma gotas que ela própria
costumava tomar. Miss Wilkinson agradeceu e, logo depois do chá, anunciou que ia
subir para o quarto e deitar-se.
- Tens a certeza de que não precisarás de nada? - perguntou Mrs. Carey com
ansiedade.
- Pode estar descansada.
- É porque, se não precisares de nada, eu aproveito para ir à igreja. Não me
aparecem muitas oportunidades de ir à noite.
- Isso mesmo, vá.
- Ficarei em casa - disse Philip. - Se Miss Wilkinson quiser alguma coisa é só
chamar-me.
- É melhor deixares aberta a porta da sala de visitas, para que possas ouvir se
Miss Wilkinson te chamar.
- Está bem - respondeu Philip.
Depois das seis horas, portanto, Philip ficou só, em casa, com Miss Wilkinson. A
apreensão abatia-o. Desejava, de todo o coração, nunca ter sugerido aquele plano.
Agora, era tarde, porem. Cumpria-lhe aproveitar a oportunidade que criara. Que
pensaria Miss Wilkinson se ele não o fizesse! Dirigiu-se ao vestíbulo e escutou. Não se
ouvia o menor rumor. Quem sabe se Miss Wilkinson estava de facto com dores de
cabeça? Talvez se tivesse esquecido da sugestão. O coração batia-lhe dolorosamente.
Galgou cauteloso os degraus da escada, estacando sempre que eles rangiam. Estava
diante do quarto de Miss Wilkinson. Pondo-se à escuta, colocou a mão sobre a
maçaneta. Teve a impressão de esperar ali mais de cinco minutos, incapaz de chegar a
uma decisão. A mão tremia-lhe. Sentia vontade de fugir, mas tinha receio de ser
perseguido pelo remorso. Era o mesmo que subir a uma piscina de natação; um
trampolim, visto de baixo, não causava impressão alguma, mas uma vez lá em cima,
olhando a água, a pessoa sentia o coração a desfalecer. A única coisa que obrigava o
banhista a atirar-se era a vergonha de descer, humilhado, os degraus que galgara com
tanto entusiasmo. Reunindo toda a coragem de que era possuidor, Philip fez girar
brandamente a maçaneta e entrou. Tinha a impressão de que estava a tremer como
uma folha.
Encontrou Miss Wilkinson de pé, em frente do toucador, com as costas voltadas
para a porta. Ao vê-la abrir-se, voltou-se num movimento vivo.
- Oh, é você? Que quer?
Já despira a saia e a blusa, e estava apenas com a saia de baixo, que era curta e
mal lhe chegava à altura das botinas; a parte superior era preta, de fazenda brilhante,
com folhos vermelhos. Vestia uma camisola de algodão branco, com mangas curtas.
Tinha um aspecto grotesco. Ao avistá-la, Philip sentiu um desfalecimento. Nunca a
imaginara tão pouco atraente. Era tarde de mais, porém. Empurrou a porta atrás de si e
fechou-a com a chave.
XXXV
Na manhã seguinte Philip despertou cedo. Tivera um sono agitado, mas, quando
estendeu as pernas, ao ver as figuras que o sol desenhava no soalho, a esgueirar-se por
entre as venezianas, soltou um suspiro de satisfação. Estava radiante consigo mesmo.
Pôs-se a pensar em Miss Wilkinson. Pedira-lhe que lhe chamasse Emily, mas, não sabia
porquê, isso era-lhe impossível; para ele, seria sempre Miss Wilkinson. Visto que ela o
censurava por lhe chamar assim, evitava pronunciar-lhe o nome. Na sua infância
ouvira falar frequentemente de uma irmã da tia Louise, viúva de um oficial da
marinha, que se chamava também Emily. Não seria agradável, portanto, tratar Miss
Wilkinson por esse nome, sendo também difícil encontrar outro que lhe assentasse
melhor. Conhecera-a como Miss Wilkinson, e este nome parecia inseparável da
primeira impressão que tivera dela. Carregou o sobrolho, de repente: fosse como fosse,
ele vira-a naquela noite sob o pior aspecto possível. Não podia esquecer o assombro
que experimentara ao vê-la voltar-se, em saia de baixo curta e camisola. Lembrou-se da
ligeira aspereza da sua pele e dos longos e acentuados vincos que apresentava no
pescoço. O seu triunfo fora efémero. Fez novos cálculos sobre a idade dela e agora não
achava que pudesse ter menos de quarenta anos. A aventura tornava-se ridícula. Ela
era velha e sem atractivos. Com a imaginação vivaz, via-a enrugada, desfigurada e
empoada, metida em vestidos ostentosos de mais para a sua posição e muito infantis
para a sua idade. De súbito, estremeceu; não queria vê-la mais. Como tivera coragem
de beijá-la? Ficou horrorizado de si próprio. Seria aquilo amor?
Gastou muito tempo a vestir-se, para afastar assim o momento de voltar a vê-la.
Quando, por fim, entrou na sala de jantar, levava o coração aflito. As orações haviam
terminado e estavam sentados a almoçar.
- Preguiçoso - exclamou alegremente Miss Wilkinson.
Philip olhou para ela e soltou um suspiro de alívio. Estava sentada com as costas
voltadas para a janela. Era, na realidade, bastante bonita. Não sabia por que pensara
aquelas coisas a seu respeito. Recuperou imediatamente a satisfação íntima.
Surpreendeu-se com a mudança que se processara nela. Logo depois do
pequeno-almoço, com voz trémula de emoção, ela confessou que o amava. Mais tarde,
durante a lição de canto, na sala de visitas, estendeu-lhe o rosto em meio de uma escala
e disse:
- Embrasse-moi.
Quando o rapaz se inclinou, Miss Wilkinson lançou-lhe os braços em volta do
pescoço. Foi ligeiramente incómodo, porque o prendera de tal maneira que ele se
sentira quase sufocado.
- Ah, je t’aime! je t’aime! je t’aime! - exclamou ela, no seu extravagante sotaque
francês.
Philip preferiria que ela falasse inglês.
- Já lhe ocorreu que o jardineiro pode passar diante da janela de um momento
para o outro?
- Oh, je m’en fiche du jardinier. je m’en refiche et je m’en contrefiche.
Philip achava tudo isso muito parecido com um romance francês, e não sabia por
que razão se sentia ligeiramente irritado.
Por fim disse:
- Bem, acho que vou à praia dar um mergulho.
- Oh! Não vais deixar-me só, esta manhã... logo esta manhã?
Philip não via razão que o impedisse de ir, mas não se tratava disso.
- Gostarias que eu ficasse? - sorriu.
- Não, meu querido! Pelo contrário. Vai! Quero imaginar-te dominando as
salgadas águas do mar, banhando o corpo no oceano imenso.
Ele agarrou o chapéu e pôs-se a caminho.
- Como as mulheres dizem asneiras! - pensava consigo.
Sentia-se, porém, feliz e lisonjeado. Via-se que ela estava ardentemente
apaixonada. Ao atravessar, coxeando, a rua principal de Blackstable, olhava para os
transeuntes com superioridade. Conhecia muitos deles e, ao cumprimentá-los com um
sorriso, pensava intimamente: «Ah, se esta gente soubesse!» Estava ansioso por que
alguém viesse a saber das suas aventuras. Pensou em escrever a Hayward e pôs-se a
compor mentalmente a carta. Falaria do jardim e da pequena preceptora francesa, flor
exótica entre as rosas, perfumada e perversa. Diria que ela era francesa porque... - ora,
vivera tanto tempo em França que bem podia considerar-se como tal; além disso, seria
vulgar descrever as coisas de maneira muito exacta. Contaria a Hayward como a vira
pela primeira vez, com o seu vestido de musselina preta e mencionaria o pormenor da
flor. Converteu todo o episódio num delicado idílio: o sol e o mar emprestavam-lhe
ardor e magia, as estrelas concorriam com a poesia e o velho jardim do vicariato
proporcionava um cenário adequado e delicioso. Havia algo de George de Meredith
naquilo tudo: não era bem Lucy Feverel nem Clara Middleton, mas possuía um
encanto inefável. O coração de Philip pulsava célere. Estava tão embevecido com as
suas fantasias que começou a pensar nelas, novamente, assim que saiu da água,
gotejando e tiritando de frio, e foi vestir-se na sua cabina ambulante. Recordava o
objecto dos seus afectos. Possuía o narizinho mais adorável do mundo e grandes olhos
castanhos (descrevê-la-ia assim a Hayward); era delicioso mergulhar o rosto nos seus
cabelos fofos, da mesma cor dos olhos, admirar a pele alva como marfim à luz do Sol e
as faces coradas como uma rosa vermelha. Que idade tinha ela? Uns dezoito anos,
talvez. Chamava-se Musette. O seu riso era como o sussurro de um arroio e a sua voz,
tão suave, tão profunda como a mais doce música que jamais ouvira.
- Em que estás a pensar, afinal?
Philip estacou. Caminhava vagarosamente, para casa.
- Venho a fazer-te sinais de longe. Que distracção!
Miss Wilkinson estava diante dele, rindo da sua surpresa.
- Resolvi vir ao teu encontro.
- É muita bondade tua! - disse ele.
- Assustei-te ?
- Um pouco - admitiu ele.
Apesar disso, escreveu a Hayward a carta. Tinha oito páginas.
A quinzena passava rapidamente, e, embora todas as noites, quando iam para o
jardim depois do jantar, Miss Wilkinson se lembrasse de que mais um dia se passara, a
disposição jovial de Philip não deixava a ideia preocupá-lo. Certa noite, Miss
Wilkinson insinuou que seria esplêndido se pudesse trocar a sua situação em Berlim
por outra idêntica, em Londres. Ver-se-iam, então, constantemente. Philip respondeu
que seria óptimo, mas não sentiu entusiasmo algum. Pretendia levar uma vida
divertida, em Londres, e preferiria não ser estorvado. Discorreu livremente sobre todos
os seus projectos, e através deles Miss Wilkinson concluiu que ele já estava ansioso por
partir.
- Se me amasses não falarias desse modo - queixou-se ela
Apanhado de surpresa, o rapaz não encontrou resposta adequada.
- Que tola que foi! - murmurou a preceptora.
Philip notou, com espanto, que ela chorava. Possuía um coração sensível e não
gostava de ver ninguém infeliz.
- Perdoa-me, por favor. Em que foi que te magoei? Não chores.
- Oh, Philip, não me abandones! Não sabes o que significas para mim. A minha
vida era tão triste e tu fizeste-me tão feliz!
Ele beijou-a em silêncio. O tom de verdadeira angústia que se percebia na sua
voz atemorizava-o. Nunca imaginara que ela pensasse tão a sério o que dizia.
- Estou arrependidíssimo. Bem sabes que te amo loucamente. Seria óptimo se
fosses para Londres.
- Bem sabes que isso é impossível. Arranjar uma colocação é a coisa mais difícil
do mundo, e eu detesto a vida inglesa.
Quase sem ter consciência de que representava um papel, comovido pela aflição
dela, insistiu mais vezes. As suas lágrimas lisonjeavam-no vagamente e foi com
verdadeira paixão que a beijou.
Alguns dias mais tarde, porém, Miss Wilkinson fez uma cena. Havia jogo de
ténis no vicariato, e para isso foram convidadas duas raparigas, filhas de um major
aposentado que servira num regimento da Índia e agora se fixara em Blackstable. Eram
ambas bonitas: uma tinha a mesma idade de Philip e a outra era um ou dois anos mais
nova. Como estivessem acostumadas a conviver com rapazes (contavam mil histórias
sobre guarnições montanhesas da Índia, numa época em que as histórias de Rudyard
Kipling andavam em todas as mãos) puseram-se a implicar alegremente com Philip.
Agradavelmente impressionado pela novidade - as raparigas de Blackstable tratavam o
sobrinho do vigário com certa seriedade - o rapaz mostrou-se logo alegre e desembaraçado.
Algum demónio parece que o instigou a encetar violento namoro com as duas
visitantes, e como fosse o único rapaz presente à reunião, elas corresponderam-lhe de
bom grado. Acontecia que jogavam ténis com grande perfeição e como Philip estivesse
cansado de jogar com Miss Wilkinson (desde que chegara a Blackstable, ela começara a
treiná-lo) sugeriu, ao distribuir os parceiros, após o chá, que a preceptora jogasse
contra a mulher do cura, tendo este a seu lado; quanto a ele, bater-se-ia, mais tarde,
com as recém-chegadas. Sentando-se junto da mais velha, disse-lhe em voz baixa:
- Descartemo-nos primeiro dos pexotes, para depois jogarmos uma boa partida.
Miss Wilkinson devia tê-lo ouvido, pois atirou ao chão a raqueta e, alegando
dores de cabeça, foi para dentro. Todos notaram que ela se sentira ofendida e Philip
ficou profundamente aborrecido com esta demonstração pública. Fez-se, não obstante,
a distribuição dos jogadores, mas logo a seguir Mrs. Carey chamou-o.
- Magoaste a Emily, Philip. Está no quarto, a chorar.
- Que foi que eu lhe disse?
- Não sei; é uma história de pexotes ou coisa parecida. Vai pedir-lhe perdão e
dizer-lhe que não o fizeste de propósito. Mostra que és um bom rapaz.
- Está bem.
Bateu à porta do quarto de Miss Wilkinson, mas, como não recebeu resposta,
entrou. Encontrou-a debruçada na cama, chorando amargamente. Pousou-lhe a mão no
ombro.
- Mas que foi que aconteceu?
- Deixa-me em paz. Não quero mais falar contigo.
- Que fiz eu? Sinto muito ter-te magoado. Não foi por querer. Vamos, levanta-te.
- Que infeliz eu sou! Como pudeste ser tão cruel para mim? Sabes muito bem que
detesto esse jogo estúpido. Jogo-o apenas para Jogar contigo.
Ergueu-se e caminhou para o toucador, mas, depois de mirar-se rapidamente no
espelho deixou-se cair numa cadeira. Fez do lenço uma bola que comprimia de
encontro aos olhos.
- Dei-te o que de mais valioso uma mulher pode dar a um homem... oh, que tola
fui!... e ainda te mostras tão ingrato. Pareces não ter coração. Como pudeste ter a
crueldade de me atormentar, namorando raparigas tão vulgares? Só nos resta uma
semana. Não podes conceder-ma, ao menos?
Philip estava mal-humorado. Achava muito infantil a conduta dela. Estava
vexado pelo facto de ela ter dado expansão ao seu génio diante de estranhos.
- Sabes perfeitamente que não ligo a menor importância a nenhuma das
O'Connor. Por que diabo pensaste que eu o faria?
Miss Wilkinson afastou o lenço. As lágrimas tinham-lhe deixado marcas no rosto
empoado e os cabelos estavam um tanto desarranjados. O vestido branco já não lhe
ficava tão bem. Olhou para Philip com olhos famintos e apaixonados.
- Porque tens vinte anos e uma delas tem a mesma idade - respondeu em voz
rouca. - E eu sou uma velha.
Philip corou e desviou o olhar. A angústia com que ela falava inquietava-o
estranhamente. Seria mil vezes melhor que nunca tivesse conhecido Miss Wilkinson.
- Não quero ser a causa da tua infelicidade - exclamou, constrangida. - Acho
melhor desceres e reunires-te aos teus amigos. Já devem estar a cismar no que te
aconteceu.
- Está bem.
Philip sentiu alívio ao deixá-la.
A zanga foi logo seguida de reconciliação, mas o últimos dias trouxeram muitos
aborrecimentos a Philip. Não gostava de falar senão do futuro, e o futuro levava
invariavelmente Miss Wilkinson às lágrimas. A princípio, aquela choradeira
sensibilizava-o e, sentindo-se um monstro, renovava os seus protestos de imorredoura
paixão. Agora, porém, irritava-se facilmente; estaria tudo muito bem se se tratasse de
uma rapariguinha, mas não ficava bem a uma mulher feita chorar a todo o instante.
Não cessava de lhe lembrar a sua inapreciável dívida de gratidão para com ela. Philip
não negava essa verdade, tal a insistência de Miss Wilkinson, mas não compreendia
por que razão devia mostrar-se mais grato a ela do que ela a ele. Era obrigado a revelar
essa gratidão de maneira bastante enfadonha; acostumara-se à solidão, que às vezes se
lhe tornava mesmo uma necessidade; mas Miss Wilkinson considerava-o indelicado se
não estivesse constantemente a seu lado. As O'Connor convidaram-nos para o chá, e
Philip gostaria de ir, mas Miss Wilkinson disse que tinha só cinco dias mais e portanto
queria-o inteiramente para si. Era uma exigência lisonjeira, mas incómoda. Miss
Wilkinson contou-lhe histórias sobre a refinada delicadeza dos franceses, quando em
situação idêntica à sua. Elogiou-lhes a cortesia, o amor ao sacrifício, o tacto perfeito.
Miss Wilkinson parecia exigir muita coisa.
Philip ouvia-a enumerar as qualidades que o verdadeiro amante deve possuir e
não pôde deixar de sentir satisfação pelo facto de ela ir para Berlim.
- Escreve-me sempre, ouviste? Escreve-me todos os dias. Quero saber tudo
quanto fazes. Não deves ocultar-me coisa alguma.
- Estarei muito ocupado - respondeu ele. - Escreverei sempre que for possível.
Ela lançou-lhe apaixonadamente os braços em volta do pescoço. às vezes, ele
sentia-se confundido com aquelas demonstrações de afecto. Seria preferível que ela
fosse mais passiva. Também o surpreendia aquele ardor que destoava dos seus
preconceitos sobre a modéstia do temperamento feminino.
Chegou afinal o dia da partida de Miss Wilkinson. Desceu para o pequenoalmoço
pálida e abatida, trajando um vestido xadrez preto e branco. Parecia uma
preceptora competentíssima. Philip conservava-se em silêncio, pois não sabia que dizer
naquelas circunstâncias; temia fazer alguma observação capaz de lançar Miss
Wilkinson em prantos, mesmo diante de Mr. Carey. Tinham-se despedido no jardim,
na noite anterior, e Philip sentia grande alívio por não haver mais oportunidade de
estarem sós. Deixou-se ficar na sala de jantar após a refeição, receando que ela insistisse
em beijá-lo na escada. Não queria que Mary Ann, mulher já de meia-idade e dona de
uma língua ferina, os surpreendesse em atitude comprometedora. Mary Ann não
gostava de Miss Wilkinson a quem apelidara de gata velha. A tia Louise não se sentia
bem disposta e portanto não pôde ir à estação, mas o vigário e Philip acompanharamna
até lá. Quando o comboio se preparava para partir, ela inclinou-se e beijou Mr.
Carey.
- Devo beijá-lo também, Philip - disse ela.
- Pois não - respondeu ele, corando.
Alçou-se no degrau e ela deu-lhe um rápido beijo. O comboio pôs-se em
movimento e Miss Wilkinson caiu no banco, a chorar desconsoladamente. Ao voltar
para casa, Philip sentia uma nítida sensação de alívio.
- E então? Correu tudo bem? - perguntou a tia Louise, quando eles voltaram.
- Apenas a achei muito chorosa. Insistiu em beijar-me e ao Philip.
- Bem, na idade dela não é perigoso - Mrs. Carey apontou para o aparador.
- Uma carta para ti, Philip. Veio na segunda distribuição.
Era de Hayward e dizia o seguinte:
Meu caro:
Respondo imediatamente à tua carta. Tomei a liberdade de lê-la a
uma grande amiga minha, encantadora mulher cujo auxílio e simpatia me
têm sido muito preciosos, uma mulher, em suma, possuidora de real
sentimento artístico e literário; e ambos a achámos encantadora. Escreveste
do fundo do teu coração e não imaginas a deliciosa naiveté que se
desprende de cada linha. E, pelo simples facto de amares, escreves como
um poeta. Ah, meu caro, assim é que deve ser; senti o ardor da tua paixão e
a sinceridade da tua comoção transformou a prosa num poema musical.
Como deves ser feliz! Quem me dera estar presente, sem ser visto, nesse
jardim encantado, e observá-los a vaguear de mãos dadas por entre as
flores, como Dafnis e Cloé. Parece-me que te vejo, meu Dafnis, com a
chama do amor jovem a brilhar nos olhos, terno, arrebatado e a ardente
Cloé, a teu lado, tão nova, tão meiga, tão fresca - consentindo, ela que
jurara nunca consentir. Rosas, violetas, madressilvas! Oh, meu amigo como
te invejo! Como agrada saber que o teu primeiro amor foi para poesia!
Entesoura esses momentos, pois os deuses imortais te dispensaram o maior
de todos os Dons; recordá-lo-ás com saudade até o dia da tua morte. nunca
mais experimentarás esse despreocupado arrebatamento. O primeiro amor
é sempre o melhor; ela é bela, tu és jovem, o mundo é vosso. Senti que o
pulso se me acelerava quando, na tua adorável simplicidade me contaste
haver mergulhado o rosto nos seus cabelos. Devem ser de um delicioso
castanho, aquele castanho que dá a impressão de ter sido banhado em ouro.
Quisera ver-vos sentados sob frondosas árvores, lado a lado, lendo juntos
Romeu e Julieta; desejaria, então, que caísses de joelhos e, em meu nome
beijasses o solo calcado pelos seus pés. Diz-lhe que essa é a homenagem de
um poeta à sua radiosa mocidade e ao teu amor.
Teu, sempre,
G. Etheridge Hayward.
- Que chorrilho de asneiras! - exclamou Philip, ao terminar a leitura da carta.
Miss Wilkinson - estranha coincidência - sugerira também que lessem juntos
Romeu e Julieta, mas Philip recusara-se terminantemente a fazê-lo. Ao guardar a carta
no bolso, sentiu pungi-lo a tristeza, por ver a realidade tão diferente do ideal.
XXXVI
Alguns dias depois, Philip seguiu para Londres. O cura recomendara uma
pensão em Barnes e aposentos foram reservados por carta, à razão de catorze xelins
por semana. Quando chegou já era noite e a dona da casa, uma esquisita velhinha de
corpo encarquilhado e rosto coberto de profundas rugas, esperava-o para o chá. Quase
toda a sala era ocupada pelo aparador e por uma mesa quadrada; numa das paredes,
havia um sofá estofado com crina de cavalo e, ao lado da lareira, uma poltrona do
mesmo tipo; o encosto desta última estava protegido por uma capa e, no assento, uma
dura almofada substituía as molas que se tinham partido.
Depois de beber o chá, abriu as malas e colocou os livros em ordem. Tentou ler,
em seguida, mas sentia-se muito deprimido. O silêncio da rua perturbava-o um pouco,
aumentando a sua solidão.
No dia seguinte, levantou-se cedo. Vestiu o fraque e pôs a cartola que costumava
usar no colégio; estava muito velha porém, e em vista disso resolveu passar pela loja, a
caminho do escritório, para comprar uma nova. Notou, então, que lhe sobrava tempo
suficiente para passear ao longo do Strand. O escritório de Herbert Carter & C.o estava
situado numa pequena rua transversal à Chancery Lane. Philip teve de pedir
informações a duas ou três pessoas. Notou que olhavam muito para ele e de uma
dessas vezes tirou o chapéu, para ver se se esquecera de tirar a etiqueta. Ao chegar,
bateu à porta, mas ninguém respondeu. Consultando o relógio, verificou serem pouco
mais de nove e meia. Devia ser muito cedo. Voltou dez minutos mais tarde e encontrou
então um empregado de nariz comprido, cara cheia de espinhas e sotaque escocês.
Philip perguntou por Herbert Carter. Ainda não chegara.
- Quando chegará?
- Entre as dez e as dez e meia.
- Esperarei - disse Philip.
- Que deseja? - indagou o auxiliar.
Philip estava nervoso, mas procurou ocultá-lo com uma atitude jocosa.
- Pretendo trabalhar aqui, se não fizer objecção.
- Ah, é o novo praticante ? Acho melhor entrar. Mr. Goodworthy chegará de um
momento para o outro.
Philip entrou, mas ao fazê-lo notou que o auxiliar - que era um rapaz mais ou
menos da sua idade - lhe observara o pé. Tornou-se vermelho, de repente, e, sentandose,
procurou ocultar a deformidade. Olhou em volta da sala. Era escura e triste.
Iluminava-a uma clarabóia. Havia três séries de cadeiras com os respectivos bancos de
pernas altas. Acima do fogão, pendia uma gravura encardida, representando um
combate de boxe. Chegou um escriturário e em seguida outro. Relancearam um olhar a
Philip e perguntaram em voz baixa ao auxiliar (Philip descobriu que este se chamava
Macdougal) quem era. Soou um apito e Macdougal levantou-se.
- Mr. Goodworthy já veio. é o chefe dos escreventes. Devo dizer-lhe que está
aqui?
- Sim, por favor - disse Philip.
O rapaz retirou-se, voltando pouco depois.
- Faça o favor de acompanhar-me.
Philip seguiu-o através do corredor e penetrou numa saleta pouco mobilada,
onde um homenzinho muito magro estava sentado com as costas para o fogão. Era de
estatura muito inferior à mediana. A grande cabeça parecia mal segura no alto do
corpo, dando-lhe um aspecto bastante estranho. Tinha o rosto largo e achatado e olhos
salientes, de cor desmaiada; o cabelo era ralo, louro e sem brilho. Usava suíças muito
irregulares, pois a barba brilhava pela ausência justamente nos pontos onde devia ser
mais espessa. A pele era pastosa e amarela. Estendeu a mão a Philip e, ao sorrir,
mostrou os dentes horrivelmente cariados. Falava com ar protector, mas ao mesmo
tempo tímido, como se procurasse assumir uma importância de que ele próprio não
estava convencido. Esperava que Philip gostasse do trabalho; era um pouco aborrecido,
de início, mas, com o correr do tempo, tornava-se agradável. E ganhava-se dinheiro -
eis o principal, não é verdade? Soltou uma risada, com certo ar misto de superioridade
e timidez.
- Mr. Carter chegará dentro em pouco - esclareceu. - Atrasa-se frequentemente, às
segundas-feiras. Assim que chegar, chamá-lo-ei. Nesse meio tempo, preciso arranjarlhe
que fazer. Sabe alguma coisa de guarda-livros ou contabilidade?
- Infelizmente, não.
- Não esperava que o soubesse. Na escola não se aprendem as coisas úteis ao
comércio - reflectiu uns segundos. - Já sei o que pode fazer.
Dirigiu-se à sala contígua e trouxe de lá uma grande caixa de papelão. Continha
grande quantidade de cartas, todas misturadas, e Philip foi incumbido de colocá-las
por ordem alfabética, de acordo com os nomes dos signatários.
- Vou encaminhá-lo para a sala onde geralmente trabalham os praticantes de
escriturário. Terá um óptimo companheiro.
Chama-se Watson. é filho do chefe da firma Watson, Crag & Thompson, os
cervejeiros. Está a passar um ano connosco, a fim de aprender os segredos do comércio.
Mr. Goodworthy atravessou o sombrio escritório, onde seis ou oito escriturários
tinham iniciado o trabalho, e conduziu Philip para uma estreita sala, situada ao fundo.
Era separada do salão principal por uma divisória de vidro. Watson estava recostado
na cadeira, a ler The Sportsman. Era um rapaz forte e elegante no trajar, que ergueu os
olhos da revista à entrada de Mr. Goodworthy. Afirmava a sua posição, tratando o
chefe dos escriturários por Goodworthy, simplesmente. Este não gostava da
familiaridade, e acintosamente chamava-lhe Mr. Watson. Watson, porém, sem ver
neste tratamento uma repreensão, aceitava-o como um tributo ao seu cavalheirismo.
- O jornal diz que eliminaram o Rigoletto - disse ele para Philip, assim que
ficaram sós.
- Deveras? - respondeu Philip, que nada entendia de corridas de cavalos.
Olhava com admiração para o belo fato de Watson. O fraque assentava-lhe como
uma luva e no meio da enorme gravata ostentava-se um valioso alfinete. A cartola
repousava perto do fogão; era lustrosa e petulante, em forma de sino. Philip sentiu-se
maltrapilho. Watson começou a falar de caça. Era uma maçada ter de passar dias
inteiros naquele infernal escritório, com oportunidade para caçar apenas aos sábados.
Recebia convites formidáveis, de toda a parte, mas via-se obrigado a recusá-los. A sina
era cruel, mas, se Deus quisesse, não a aturaria por muito tempo. Ia passar somente um
ano naquela baiúca, para depois ingressar nos negócios. Havia de ir à caça, então,
quatro vezes por semana e tirar, nesses dias, a barriga de misérias.
- Vai praticar aqui durante cinco anos? - perguntou, indicando o minúsculo
gabinete com um movimento circular do braço.
- Creio que sim - disse Philip.
- Pelo que vejo, encontrar-nos-emos amiúde. Carter é quem faz a contabilidade
da nossa casa, como sabe.
Philip sentia-se subjugado pela condescendência do jovem cavalheiro. Em
Blackstable, o comércio de cerveja fora sempre olhado com polido desprezo e o vigário
contava, mesmo, anedotas a esse respeito. Como se surpreendia ao encontrar agora, em
Watson, uma criatura tão magnífica e importante! Estivera em Winchester e Oxford, o
que se depreendia frequentemente da sua conversa. Ao conhecer os pormenores da
educação de Philip as suas maneiras tornaram-se ainda mais protectoras.
- Quando não se tem a felicidade de frequentar uma boa escola particular, é claro
que essa espécie de escolas é a que mais se recomenda, não é?
Philip interrogou-o sobre os outros empregados.
- Não lhes dou muita atenção, bem vê - respondeu Watson; - Carter não é mau
sujeito. De vez em quando, convidamo-lo para jantar. Os outros são uma corja de
plebeus.
Daí a pouco, Watson ocupou-se com algum trabalho que tinha entre mãos e
Philip começou a classificar as cartas. Depois, Mr. Goodworthy entrou para anunciar a
chegada de Mr. Carter. Philip foi conduzido a uma grande sala contígua à daquele.
Havia ali uma enorme secretária e um par de confortáveis poltronas; um tapete turco
adornava o soalho e as paredes ostentavam gravuras de desporto. Mr. Carter estava
sentado à secretária e ergueu-se para apertar a mão de Philip. Trajava uma comprida
sobrecasaca. Parecia um militar. O bigode era lustroso e usava os cabelos curtos e
grisalhos, muito bem penteados. Mantinha-se sempre muito direito, falava com grande
vivacidade e residia em Enfield. Interessava-se pelos desportos e pelo bem-estar do
país. Era oficial da Guarda Territorial do condado de Hertford e presidente do Clube
Conservador. Quando soube que um magnata local dissera que ninguém o tomaria por
um homem da City, sentiu que não vivera em vão. Falou a Philip em tom amável e sem
cerimónia. Mr. Goodworthy guiá-lo-ia no escritório. Watson era um óptimo rapaz,
perfeito cavalheiro, excelente desportista. Philip caçava? Não. Que pena! Um desporto
de cavalheiros. Já não tinha oportunidades para caçar; deixava-as ao filho. Estava em
Cambridge; mandara-o para Rugby, a esplêndida escola de Rugby frequentada por
rapazes decentes. Num par de anos o filho estaria treinado, o que seria óptimo para
Philip; ia gostar do seu filho - um desportista completo. Fazia votos para que Philip
progredisse e apreciasse o trabalho. Não devia perder as suas aulas; estavam a elevar o
conceito da profissão. Era preciso torná-la bem vista pelas pessoas de distinção social.
Bem, Mr. Goodworthy estava ali. Se quisesse saber de alguma coisa, era só perguntar a
Mr. Goodworthy. Que tal a sua letra? Bem, não fazia mal, Mr. Goodworthy se
encarregaria disso.
Philip sentia-se oprimido por tanto cavalheirismo. Na East Anglia, sabia-se quem
era distinto e quem o não era; mas as verdadeiras pessoas distintas nunca tocavam
nesse assunto.
XXXVII
A principio, a novidade do trabalho conservou Philip interessado. Mr. Carter
ditava-lhe cartas e incumbia-o de passar a limpo os extractos das contas.
Mr. Carter preferia dirigir o escritório dentro dos moldes do verdadeiro
cavalheirismo; não tomava conhecimento da dactilografia e antipatizava com a escrita
estenográfica. O empregado conhecia a taquigrafia, mas só Mr. Goodworthy se
utilizava dessa habilidade. De vez em quando, acompanhado de um dos escriturários
experimentados, Philip saía a examinar os livros de alguma firma; veio a saber, em
pouco tempo, quais os clientes que cumpria tratar com respeito e quais os pouco
cotados. Outras vezes, davam-lhe longas colunas de números para somar. Frequentava
aulas, preparando-se para o primeiro exame. Mr. Goodworthy repetia sempre que o
trabalho era aborrecido a princípio, mas acabaria por se habituar a ele. Philip deixava o
escritório às seis horas da tarde e atravessava a pé a ponte, em direcção a Waterloo. Ao
chegar a casa, encontrava o jantar à sua espera e passava o serão a ler. Nas tardes de
sábado, costumava visitar a National Gallery. Hayward recomendara-lhe um guia
compilado das obras de Ruskin. Munido desse guia, percorria, diligentemente, sala
após sala. Lia com atenção o que o crítico dizia a respeito de um quadro e em seguida,
muito decidido, tratava de vê-lo pelo mesmo ângulo. Os domingos eram muito
monótonos, pois não conhecia ninguém em Londres e passava-os sozinho. Mr. Nixon,
o solicitador, convidou-o para passar um domingo em Hampstead e lá viveu ele horas
felizes, cercado de estranhos de temperamento exuberante. Comeu e bebeu bastante,
deu uma volta pelo campo e retirou-se com um convite para voltar quando lhe
aprouvesse; sentia, porém, um mórbido temor de ser importuno, e, em vista disso,
esperava sempre um convite formal. Era natural que este nunca viesse, pois os Nixon,
que possuíam uma infinidade de amigos, não se lembrariam do jovem solitário a quem
deviam hospitalidade apenas por cortesia. Aos domingos, portanto, Philip levantava-se
tarde e dava um passeio pela margem do rio, que, em Barnes, é lamacento, escuro e
sujeito às marés; não possui o encanto gracioso do Tamisa acima das comportas, nem a
vida romântica das inúmeras embarcações sob a ponte de Londres. De tarde, percorria
o prado, também acinzentado e sombrio. Não é cidade nem campo; os espinheiros são
raquíticos e em redor espalham-se as escórias da civilização. Ia ao teatro nas noites de
sábado e deixava-se ficar mais de uma hora à porta da galeria. Não valia a pena voltar
a Barnes no intervalo entre o encerramento do Museu e a sua refeição num restaurante
A. B. C. Não sabia em que empregar o tempo. Subia a Bond Street, atravessava a
Burlington Arcade e, quando se sentia cansado, sentava-se no Parque; se o tempo
estava húmido, dirigia-se à Biblioteca Pública de St Martin's Lane. Olhava para as
pessoas que passavam e invejava-as por possuírem amigos; às vezes, essa inveja
transformava-se em ódio, ao pensar que a felicidade só sorria aos outros. Nunca
imaginara ser possível sentir-se tão só numa grande cidade. Frequentemente, enquanto
esperava, de pé, à porta da galeria, alguém a seu lado tentava entabular conversa; mas
Philip, como todos os rapazes do interior, desconfiava de estranhos e respondia de um
modo que impedia qualquer aproximação Terminada a peça, obrigado a guardar para
si próprio o juízo que fazia sobre ela, atravessava a ponte, apressado, em direcção a
Waterloo. Ao entrar novamente em casa, onde, por economia, o lume ainda não fora
aceso, apertava-se-lhe o coração. Sentia-se terrivelmente triste. Começava a detestar os
seus aposentos e as intermináveis e solitárias noites que ali passava. Por vezes, a
solidão era tanta que Philip se via impossibilitado de ler; passava horas e horas
sentado, a olhar o fogo, cheio de desespero.
Estava em Londres havia três meses e, a não ser no domingo, passado em
Hampstead, só falara com os companheiros de trabalho. Certa noite, Watson convidouo
para jantar num restaurante e em seguida levou-o a um café-concerto. Mas Philip
sentiu-se cheio de timidez e deslocado. Watson só falava de coisas que não lhe
interessavam e, embora o considerasse um filisteu, não podia deixar de admirá-lo.
Enraivecia-se pelo facto de ele não dar importância à sua cultura. Como levava a sério
o juízo que os outros faziam da sua pessoa, começou a desprezar os atributos que até
então lhe pareciam valiosos. Sentia pela primeira vez a humilhação da pobreza. O tio
mandava-lhe apenas catorze libras por mês e ainda tivera de comprar inúmeras coisas.
O trajo para a noite custou-lhe cinco guinéus. Não ousava dizer a Watson que o
comprara no Strand. Watson era de opinião que só existia um alfaiate em Londres.
- Não danças, não? - perguntou Watson, certo dia, relanceando os olhos para o pé
aleijado de Philip.
- Não - respondeu Philip.
- Que pena. Pediram-me que levasse alguns rapazes a um baile. Poderia
apresentar-te a umas raparigas engraçadas.
Uma ou duas vezes, sem coragem de regressar a Barnes, Philip deixou-se ficar na
cidade e, de noite, pôs-se a deambular pelo West End até encontrar alguma casa onde
se realizasse um baile. Reuniu-se ao pequeno grupo de populares mal vestidos, por trás
dos criados, e, ao mesmo tempo que observava a chegada dos convidados) ouvia a
música que se escoava em ondas pelas janelas. às vezes, apesar do frio, um par
aparecia à sacada, em busca de ar fresco. Supondo-os enamorados, dava meia volta e lá
se ia, a coxear, desconsolado. Jamais ocuparia o lugar daquele homem. Parecia-lhe que
mulher alguma poderia olhá-lo sem manifestar repulsa ante a sua deformidade.
Isso fez que se lembrasse de Miss Wilkinson. Não experimentava satisfação ao
pensar nela. Antes de se despedirem, combinaram que ela escrevesse para a Posta
Restante de Charing Cross, até ele poder mandar-lhe uma morada, e quando lá foi
encontrou três cartas dela. Escrevia em papel azul, com tinta violeta e em francês. O
rapaz perguntava a si próprio por que não escrevia ela em inglês, como qualquer
mulher sensata, e as suas expressões de amor, lembrando uma novela francesa,
deixavam-no indiferente. Ela censurava-o por não ter escrito ainda e Philip, ao
responder, desculpou-se, alegando as suas ocupações. Não sabia como iniciar a carta.
Não se decidiu a usar muito querida ou queridinha e detestava chamar-lhe Emily; por
fim decidiu-se pela palavra querida. Parecia esquisita e um tanto ridícula, assim
isolada, mas, à falta de melhor, servia. Era a primeira carta de amor que escrevia, e
tinha a consciência da sua tibieza; achava que devia dizer coisas veementes, contar que
pensava nela em todos os minutos do dia, que estava ansioso por beijar as suas
encantadoras mãos, que tremia ao pensar nos seus lábios purpurinos, mas inexplicável
pudor o reprimia. Em lugar disso, falava-lhe do seu novo aposento e do escritório. A
resposta veio cheia de cólera, mágoa e reprovação: como podia ele mostrar-se tão frio?
Não sabia que ela dava a vida pelas suas cartas? Dera-lhe tudo quanto uma mulher
pode dar e aquela era a recompensa que recebia. Já estaria cansado dela? Em seguida,
como ele passasse alguns dias sem responder, Miss Wilkinson submeteu-o a um
bombardeamento de cartas. Dizia não poder suportar mais a sua maldade; esperava
inutilmente pelo correio, chorava noites a fio e vivia tão abatida que chamava a atenção
de todos. Se nunca a amara, por que não fora sincero? Acrescentava não poder viver
sem ele, e só lhe restar o suicídio. Chamava-lhe insensível, egoísta e ingrato. Tudo isso
era dito em francês, mas Philip ficou inquieto, embora soubesse que ela escrevia nessa
língua por puro exibicionismo. Não queria torná-la infeliz. Pouco tempo depois chegou
outra carta, onde Miss Wilkinson confessava não suportar aquela separação, e
pretendia por isso passar o Natal em Londres. Em resposta, Philip declarou apreciar
imenso a ideia, e lamentava apenas ter assumido o compromisso de festejar o Natal
com alguns amigos, fora da cidade, compromisso esse a que seria difícil faltar. Miss
Wilkinson mandou dizer, então, que não desejava de nenhum modo ser-lhe pesada,
pois bem notava que ele não a queria receber; estava profundamente sentida e nunca
pensara em sofrer tanta crueldade em troca do bem que praticara. A carta era
comovedora, e Philip imaginou ver vestígios de lágrimas no papel. Escreveu, então,
uma resposta impulsiva, a confessar-se infinitamente arrependido e implorando-lhe
que viesse. Foi com grande alívio que recebeu, mais tarde, a notícia de que seria
impossível a Miss Wilkinson vir a Londres. Dentro em pouco, a chegada das cartas
começou a despertar em Philip uma sensação de desalento; custava-lhe muito abri-las,
pois sabia que elas só continham censuras furiosas e apelos comoventes. Depois de as
ler sentia-se um perfeito brutamontes, mas não conseguia compreender qual a culpa
que lhe cabia em tudo aquilo. Adiava indefinidamente a resposta, até que chegava
outra carta, a anunciar sentir-se ela doente, só e desgraçada.
- Prouvera a Deus nunca a ter conhecido! - exclamava então.
Admirava Watson pela facilidade com que resolvia esses assuntos. O rapaz
arranjara uma aventura com uma actriz que representava em companhias ambulantes
e as suas narrativas enchiam Philip de invejoso espanto. Após algum tempo, porém, as
feições de Watson mudaram e um belo dia contou a Philip o rompimento.
- Achei que não valia a pena usar de subterfúgios e por isso disse-lhe claramente
que estava farto dela - disse ele.
- E ela não fez nenhuma cena terrível?
- A coisa do costume, mas dei logo a entender que não valia a pena fazer
daquelas coisas comigo.
- E ela chorou?
- Começou mas, como não suporto uma mulher chorona, disse-lhe que era
melhor desistir.
O senso de humor de Philip tornava-se mais pronunciado com a passagem dos
anos.
- E ela desistiu? - perguntou a sorrir.
- Pois, que mais havia ela de fazer, não é verdade?
Entretanto, aproximavam-se as festas de Natal. Mrs. Carey estivera de cama todo
o mês de Novembro e o médico sugeriu que ela e o vigário fossem, nessa época do ano,
passar umas semanas na Cornualha, para recobrarem as forças. O resultado foi que
Philip não teve para onde ir, sendo obrigado a passar o Natal no seu quarto.
Influenciado por Hayward, convencera-se de que os festejos levados a efeito naquela
data eram vulgares e bárbaros; resolveu, por isso, não dar importância ao dia. A
incontida alegria que o circundava, porém, afectou-o estranhamente. A dona da casa,
acompanhada do marido, fora passar o dia com uma filha casada, e, para evitar
incómodos, Philip anunciou que tomaria as refeições fora. Por volta do meio-dia,
desceu para a cidade e comeu uma fatia de peru e um pudim de Natal no restaurante
Gatti e, como não tinha que fazer, dirigiu-se à Abadia de Westminster, para assistir ao
ofício vespertino. As ruas estavam quase desertas e os poucos transeuntes tinham um
ar preocupado. Não vagueavam sem destino; caminhavam em direcção a um objectivo
qualquer e raramente iam sós. Philip julgava-os imensamente felizes. Nunca se sentira
tão só na vida. Pretendera passar o dia na rua e jantar, em seguida, num restaurante,
mas não podia enfrentar novamente aqueles grupos de pessoas alegres que
conversavam, riam e se divertiam. Voltou para Waterloo, comprando, na ponte, um
bocado de presunto e duas tortas. Comeu a pequena ceia no quarto, sozinho, e, no
resto do serão, procurou distrair-se com um livro. A sua prostração era quase
intolerável.
Ao regressar ao escritório, no dia seguinte, ficou muito magoado ao ouvir
Watson descrever os divertimentos da véspera. Haviam conseguido a companhia de
duas alegres raparigas e, depois do jantar, tinham retirado as mesas e dançado.
- Só fui para a cama as três horas, e não sei mesmo como consegui chegar lá.
Estava meio tonto, por Deus!
Philip perguntou, por fim, desesperado:
- Como é que travamos conhecimentos em Londres?
Watson fitou-o com surpresa e um ar ao mesmo tempo divertido e desdenhoso.
- Sei lá! As pessoas conhecem-se e pronto. Se frequentares bailes, em breve
conhecerás quanta gente quiseres.
Philip odiava Watson e, no entanto, teria dado tudo na vida para estar no lugar
dele. O velho sentimento experimentado na escola repetia-se agora. Procurava
introduzir-se na pele do outro, imaginando como seria a sua existência, se fosse o
Watson.
XXXVIII
No fim do ano havia muito que fazer. Philip visitava vários lugares com um
empregado chamado Thompson e passava o dia monotonamente, a ler em voz alta
lançamentos de despesas gerais, que o outro conferia; às vezes, davam-lhe também
longas listas de números para somar. Como não tinha cabeça para cálculos, executava
esse trabalho com grande morosidade. Thompson irritava-se com os seus erros. O seu
companheiro de trabalho era um homem de quarenta anos, alta estatura, magro,
pálido, de cabelos pretos e bigode irregular; tinha as faces reentrantes e de cada lado
do nariz delineavam-se profundos vincos. Embirrou com Philip, porque este era
aprendiz de escriturário. Philip tinha à sua frente uma carreira prometedora, pois
podia dispor de trezentos guinéus e manter-se durante cinco anos, ao passo que ele,
com toda a sua experiência e capacidade, nunca chegaria a ser mais do que um simples
empregado com trinta e cinco xelins por semana. Era um homem atrabiliário, tendo às
costas numerosa família, e ressentia-se com o ar de superioridade que imaginava ver
em Philip. Escarnecia dele por ter recebido educação melhor do que a sua e
ridicularizava a pronúncia do rapaz; não perdoava o facto de Philip falar sem o menor
sotaque londrino e por isso exagerava sarcasticamente os seus hh aspirados. De início,
as suas maneiras eram apenas bruscas e casmurras, mas, ao descobrir que Philip não
possuía que dá para a contabilidade, achou prazer em humilhá-lo; as suas investidas
eram grosseiras e estúpidas, mas magoavam Philip que, como autodefesa, assumia
uma atitude de superioridade que não sentia.
- Tomou banho esta manhã? - perguntava Thompson quando Philip chegava
atrasado, pois a sua pontualidade não durara muito.
- Tomei; e o senhor?
- Não, não sou um homem distinto, mas sim um simples empregado. Só tomo
banho ao sábado à noite.
- Deve ser por isso que se mostra mais mal-humorado às segundas-feiras.
- Digna-se efectuar algumas somas hoje? Ou será exigir de mais de um cavalheiro
conhecedor do grego e do latim?
- As suas tentativas de sarcasmo não são muito felizes.
Mas Philip não podia deixar de reconhecer que os outros empregados, mal pagos
c mal vestidos, eram mais úteis do que ele próprio. mr. Goodworthy, não raro,
impacientava-se com ele.
- O senhor já tinha tempo de ter feito alguns progressos - observava. - Não possui
nem metade da aptidão do empregado.
Philip ouvia-o carrancudo. Não gostava de ser censurado. Sentiu-se humilhado
quando Mr. Goodworthy, descontente com umas cópias que lhe dera para fazer, as
entregou a outro funcionário. A princípio, o trabalho era tolerável, visto que tudo
possuía um cunho de novidade, mas agora tornava-se irritante. E, ao descobrir que não
possuía aptidão para o serviço, Philip passou a detestá-lo. às vezes, em lugar de
executar um trabalho que lhe fora confiado, perdia o tempo a traçar figurinhas no
papel do escritório. Desenhava caricaturas de Watson em todas as atitudes concebíveis,
impressionando-o com o seu talento. Ocorreu ao amigo levar os desenhos para casa e,
no dia seguinte, transmitiu-lhe os elogios da sua família.
- Por que não estudaste pintura? - perguntou. - A única desvantagem é que a
profissão não dá dinheiro.
Aconteceu, dois dias mais tarde, que Mr. Carter foi jantar com os Watson e teve,
assim, oportunidade de admirar os esboços. Na manhã seguinte, Philip foi chamado à
sua presença. Philip, que o via raramente, tinha por ele um respeito medroso.
- Escute, meu rapaz. não me interessa o que o senhor faça fora das horas de
serviço; vi, porém, os seus desenhos, e observei que foram executados em papel do
escritório. Mr. Goodworthy por outro lado, informou-me de que o senhor não
demonstra progresso algum. Devo dizer-lhe que só terá êxito como contabilista se
desenvolver actividade. é uma bela profissão, não há dúvida; dia a dia ingressam nela
homens das melhores classes sociais, mas é uma profissão em que se precisa...
Mr. Carter procurou um remate para a frase, mas, não o encontrando, terminou
de maneira um tanto chocha:
- ... em que se precisa desenvolver actividade.
Talvez Philip chegasse a conformar-se com tudo aquilo, se não fosse o acordo que
lhe permitia retirar-se após um ano de trabalho, e receber metade da importância paga
para o seu aprendizado. Julgava-se capaz de coisa melhor do que esse serviço de somar
parcelas e sentia, ao mesmo tempo, que era humilhante realizar tão mal aquilo que
desprezava. os atritos com Thompson alteravam-lhe os nervos. Em Março, Watson
completou o seu ano de estágio e Philip, embora não lhe ligasse importância, viu-o
partir com tristeza. O facto de serem ambos malquistos dos outros cuja classe era
inferior à sua, constituía uma espécie de elo que os unia. Quando Philip se lembrava de
que seria obrigado a passar mais de quatro anos ainda na desoladora companhia
daquela gente, o coração confrangia-se-lhe. Esperava encontrar em Londres coisas
maravilhosas e no entanto a cidade nada lhe dera. Odiava-a, por isso. Não conhecia
uma só alma e não sabia como travar relações. Estava cansado de andar sozinho de um
lado para o outro. Começou então a sentir a impossibilidade de suportar por mais
tempo aquela vida. Deitava-se na cama, de noite, e punha-se a imaginar a sua alegria
quando pudesse fugir para sempre daquela pensão reles e nunca mais regressar ao
sombrio escritório.
Grande decepção o aguardava na Primavera. Hayward anunciou o propósito de
passar essa estação em Londres e Philip ficou muito contente ante a perspectiva de
rever o amigo. Lera tantas coisas naqueles últimos meses, pensara tanto, e não
encontrava ninguém que se interessasse por coisas abstractas, com quem pudesse
discutir as ideias que lhe enchiam o cérebro. Todo o seu entusiasmo, no entanto, se
transformou em desapontamento, quando Hayward escreveu a dizer que a Primavera,
na Itália, estava mais adorável do que nunca, e por esse motivo lhe seria totalmente
impossível abandoná-la. Prosseguindo, perguntava por que não ia Philip ter com ele.
Para que dissipar os dias da sua mocidade enfurnado num escritório, quando o mundo
era tão belo? E a carta continuava: não sei como consegues suportar essa vida. Agora,
quando penso em Fleet Street ou Lincoln's Inn, estremeço de repugnância. Há apenas
duas coisas no mundo capazes de tornar a vida digna de ser vivida - o amor e a arte.
Não posso imaginar-te sentado num escritório curvado sobre o diário da firma. é
verdade que usas uma cartola, um guarda-chuva e uma malinha preta? Acho que a
vida deve ser encarada pelo prisma da aventura: devemos sentir a chama pura e
ardente das paixões, devemos arriscar-nos, expor-nos ao perigo. Por que não te
resolves a estudar belas-artes em Paris? Sempre me pareceu possuíres talento.
Esta sugestão coincidia com os projectos que Philip, havia muito tempo,
acariciava. A princípio, a ideia parecera impraticável, mas não podia afastá-la do
espírito. Nessas constantes meditações, encontrava um meio de fugir ao seu infortúnio.
Todos o julgavam com vocação para a arte. Em Heidelberga, as suas aguarelas eram
unanimemente admiradas e Miss Wilkinson repetira-lhe dezenas de vezes serem elas
encantadoras; até mesmo pessoas estranhas, como os Watson, se mostravam
impressionadas pelos seus esboços. A Vie de Bohème exercera grande influência sobre
ele. Trouxera-a para Londres e, quando sentia recrudescer a sua tristeza, lia umas
páginas e deixava-se transportar para aquelas encantadoras águas-furtadas, onde
Rodolphe e os companheiros dançavam, amavam e cantavam. Começou a pensar em
Paris, como o fazia antes com relação a Londres, mas não temia uma segunda
desilusão. Paris parecia corresponder aos seus anseios de romance, amor e beleza.
Sentia grande paixão pelos quadros; por que, pois, não seria capaz de pintar tão bem
como qualquer outra pessoa? Escrevendo a Miss Wilkinson, perguntou-lhe com quanto
por ano achava que ele poderia viver em Paris. Ela respondeu que oitenta libras seriam
suficientes, ao mesmo tempo que aprovava o projecto com grande entusiasmo. Dizia
que ele possuía demasiadas qualidades boas para se estragar num escritório. «Quem,
podendo tornar-se um grande artista, preferiria ser simples escriturário?» - perguntava
dramaticamente. Suplicava, pois, a Philip que tivesse fé em si próprio: isso era o
principal. Mas Philip era prudente por natureza. Essa história de falar em aventuras e
riscos ficava muito bem a Hayward, cujos títulos de renda davam trezentas libras por
ano. Toda a fortuna de Philip não ia além de mil e oitocentas libras. Ficou indeciso.
Aconteceu que Mr. Goodworthy lhe perguntou, certo dia, subitamente, se
gostaria de ir a Paris. A firma fazia a contabilidade de um hotel, no Faubourg St.
Honoré, explorado por uma companhia inglesa, e, duas vezes por ano, Mr.
Goodworthy ia lá, acompanhado de um escriturário. Sucedeu, porém, que o
funcionário que costumava ir com ele estava doente e a acumulação de serviço impedia
a retirada de qualquer outro. Mr. Goodworthy lembrou-se de Philip, por ser o que
menos falta fazia; por outro lado, a sua posição dava-lhe direito a esse encargo, que era
um dos prazeres da profissão. Philip exultou de contentamento.
- Será preciso trabalhar o dia inteiro - advertiu Mr. Goodworthy - mas teremos as
noites à nossa disposição, e Paris sempre é Paris.
Sorriu com o ar de velho conhecedor.
- Tratam-nos muito bem no hotel, fornecem-nos as refeições e portanto não
precisamos de gastar nada. É assim que gosto de ir a Paris: à custa dos outros.
Quando chegaram a Calais, o coração de Philip pulou de alegria à vista da
multidão de carregadores que gesticulavam na estação.
- Era com o que eu sonhava - disse consigo mesmo.
Observava tudo atentamente, à medida que o comboio corria pelos campos;
adorou as dunas de areia, cuja cor lhe pareceu a coisa mais linda que vira até então;
deixou-se encantar com os canais e os longos renques de álamos. Ao deixarem a Gare
du Nord, sacolejando sobre o calcetamento irregular das ruas, num trem barulhento e
desconjuntado, pareceu-lhe respirar um ar novo e tão inebriante que mal reprimia o
desejo de gritar de alegria. Foram recebidos à porta do hotel pelo gerente, um senhor
corpulento e simpático, que falava um inglês tolerável. Mr. Goodworthy era um velho
amigo e por isso o gerente cumprimentou-o efusivamente. Convidou-os para o jantar
em companhia de sua mulher, numa sala particular, e Philip achou que nunca comera
coisa tão deliciosa como o beefsteak aux pommes nem bebido néctar semelhante ao vin
ordinaire.
Para Mr. Goodworthy, respeitável chefe de família, com excelentes princípios, a
capital da França era o paraíso da obscenidade jovial. No outro dia, pela manhã,
perguntou ao gerente onde encontrar espectáculos «apimentados». Apreciava imenso
aquelas visitas a Paris; evitavam que a gente se enferrujasse, dizia ele. De noite, após o
jantar, levava Philip ao Moulin Rouge e às Folies Bergère. Os seus olhinhos cintilavam
e a sua face contraía-se num sorriso finório e sensual, à procura do pornográfico.
Visitava todos os antros preparados especialmente para o estrangeiro e depois
declarava que uma nação que permitia tais coisas não podia acabar bem. Tocava com o
cotovelo em Philip quando, nalguma revista, surgia uma mulher praticamente nua, e
apontava-lhe as mais tentadoras dentre as cortesãs que davam voltas ao salão. Era uma
Paris vulgar que mostrava a Philip, mas este via-a com os olhos cegos de ilusões. Logo
de manhã cedo saía do hotel, a correr, e dirigia-se aos Champs Elysées ou à Place de la
Concorde. Era em Junho e Paris parecia prateada pela delicadeza do ar. Philip sentia
ternura por aquela gente. Ali estava, finalmente, o sonhado romance.
Passaram lá quase uma semana, regressando no domingo. Quando, alta noite,
Philip entrou no escuro quarto em Barnes, tomara a sua resolução. Abandonaria o
aprendizado e iria estudar belas-artes em Paris. Para que não o julgassem precipitado,
decidiu esperar até que completasse um ano de escritório. Teria as férias na segunda
quinzena de Agosto e ao partir manifestaria a Herbert Carter a sua intenção de não
voltar. Mas, embora, com muito esforço, comparecesse diariamente no escritório, Philip
não conseguia ao menos fingir interesse pelo trabalho. O futuro enchia-lhe os
pensamentos. Depois dos meados de Julho, não havia muito que fazer e Philip
escapava-se frequentemente, alegando ter de ir às aulas de preparação para o exame. O
tempo que assim conseguia era gasto na National Gallery. Lia livros sobre Paris e sobre
pintura. Estava impregnado de Ruskin. Leu inúmeras biografias de pintores, por
Vasari. Gostava da conhecida anedota de Correggio, e chegou a imaginar-se diante de
uma obra-prima, a exclamar: Anch’io son. Pittore. Já não tinha hesitações. Estava
convencido de que possuía qualidades para vir a ser um grande pintor.
- Afinal de contas, pelo menos posso tentar - dizia consigo mesmo. - O principal
na vida é arriscar.
Chegou, por fim, o meado de Agosto. Mr. Carter estava a passar o mês na Escócia
e o escriturário-chefe assumira a direcção do escritório. Desde a viagem a Paris, Mr.
Goodworthy mostrava-se mais amável para com Philip e este, como devesse partir
dentro de poucos dias, olhava o curioso homenzinho com tolerância.
- Então, Carey, começa as férias amanhã? - perguntou-lhe ele ao anoitecer.
Durante o dia inteiro, Philip repetira a si próprio que aquela era a última vez que
se sentaria no odioso escritório.
- Sim, o meu ano termina agora.
- Temo que não tenha feito muitos progressos. Mr. Carter está bastante
descontente com o senhor.
- Não tão descontente como eu com ele - volveu Philip alegremente.
- Não deve falar assim, Carey.
- Não pretendo voltar. Ficou combinado que, se eu não gostasse da contabilidade,
Mr. Carter me restituiria metade do dinheiro pago para o meu aprendizado e me
permitiria a retirada, após um ano de serviço.
- Não deveria resolver as coisas com tanta precipitação.
- Durante dez meses odiei isto tudo: odeio o trabalho, odeio o escritório, odeio a
própria Londres. Preferiria varrer as ruas a passar a minha vida aqui.
- Bem cumpre-me dizer que não o acho apto para a contabilidade.
- Adeus - disse Philip, estendendo-lhe a mão. - Quero agradecer-lhe a bondade
com que sempre me tratou. Desculpe-me se alguma vez lhe causei aborrecimentos.
Desde o início, vi que não dava para isto.
- Bem, se realmente resolveu assim, adeus. Não sei o que pretende fazer, mas, se
alguma vez passar por aqui, não se esqueça de fazer-nos uma visita.
Philip soltou uma risada.
- Temo que seja uma grande grosseria, mas espero, do fundo do coração, nunca
mais pôr os olhos sobre qualquer dos senhores.
XXXIX
O vigário de Blackstable não quis tomar conhecimento do plano arquitectado por
Philip. Julgava que se devia persistir, uma vez iniciada a obra. Como todos os homens
fracos, punha um empenho exagerado em não mudar de resolução.
- Foi por tua própria vontade que escolheste ser contabilista - alegava ele.
- Era a única oportunidade que se me apresentava de ir para Londres. Agora,
detesto a cidade, detesto o trabalho e nada me obrigará a voltar.
Mr. e Mrs. Carey ficaram visivelmente escandalizados com a ideia de Philip se
tornar artista. Não devia esquecer, diziam eles, que seus pais tinham sido pessoas
distintas, e a pintura não era uma profissão séria; era uma profissão de boémios, malafamada,
imoral. E depois, Paris!
- Enquanto tiver voz activa no assunto, não permitirei que vivas em Paris -
declarou o vigário com firmeza.
Era um poço de iniquidades. A mulher de escarlate e a prostituta de Babilónia
ostentavam ali a sua vileza; as cidades da planície não eram mais depravadas.
- Foste educado como um cristão e uma pessoa distinta, e faltaria à confiança que
o teu pai e a tua mãe depositaram em mim se permitisse que te expusesses a
semelhante tentação.
- Pois bem: sei que não sou cristão e começo a duvidar de que seja uma pessoa
distinta - retorquiu Philip.
A discussão tornava-se cada vez mais violenta. Faltava ainda um ano para Philip
entrar na posse da sua pequena herança, e Mr. Carey declarou que só lhe daria uma
mesada se ele resolvesse continuar no escritório.
Era claro que, uma vez deliberado o abandono da carreira, seria melhor que
Philip se retirasse a tempo de recuperar a metade da importância depositada. Mas o
vigário nada queria ouvir. Perdendo a reserva, Philip disse coisas que feriam e
irritavam.
- O tio não tem o direito de desperdiçar o meu dinheiro - exclamou por fim. -
Afinal de contas é o meu dinheiro, não é? Já não sou criança. Não pode impedir que eu
vá para Paris, se me resolver a isso. Não pode obrigar-me a voltar para Londres.
- A única coisa que posso fazer é recusar-te dinheiro, a menos que faças o que me
parece apropriado.
- Pouco me importa. Estou resolvido a ir para Paris. Venderei a minha roupa, os
meus livros, as jóias de meu pai.
A tia Louise permanecia sentada em silêncio, ansiosa e aflita. Sabia que Philip
estava fora de si, e qualquer coisa que dissesse serviria apenas para lhe aumentar a ira.
Finalmente, o vigário manifestou o desejo de não ouvir mais uma palavra sobre o
assunto e deixou a sala com grande dignidade. Durante os três dias que se seguiram, os
dois não se falaram. Philip escreveu a Hayward, a pedir informações sobre Paris e
decidiu partir assim que recebesse resposta. Mrs. Carey meditava incessantemente no
caso; sentia que Philip a incluía no ódio que dedicava ao vigário, e isso torturava-a.
Amava-o do fundo do coração. Resolveu falar-lhe, por fim: escutou atentamente a
narrativa de todas as suas desilusões em Londres e da sua grande ambição para o
futuro.
- Pode ser que nada consiga, mas deixem-me ao menos tentar. O meu malogro
não será maior do que naquele medonho escritório. E sinto-me capaz de pintar. Sei que
tenho esse dom.
Ela não estava tão convicta como o marido de que fosse justo contrariar uma
inclinação tão forte. Tinha lido a história de grandes pintores cujos pais se opuseram às
suas vocações; e, afinal de contas, tanto era possível levar uma vida virtuosa, para
glória de Deus, na qualidade de pintor como na de contabilista encartado.
- A tua ida para Paris enche-me de receios! - disse ela, em tom lastimoso. - Seria
preferível que estudasses em Londres.
- Já que vou estudar pintura, é preciso estudar de verdade. Só em Paris é que se
faz isso.
Por sugestão do sobrinho, Mrs. Carey escreveu ao solicitador, a declarar que
Philip se sentia descontente com o seu trabalho em Londres; perguntava, ao mesmo
tempo, o que pensava de uma mudança. Mr. Nixon respondeu o seguinte:
Prezada Mrs. Carey;
Estive com Mr. Herbert Carter, e sinto dizer-lhe que Philip não fez os
progressos que eram de esperar. Uma vez que o trabalho só lhe inspira
aversão, talvez fosse melhor aproveitar agora a oportunidade que se
oferece de rescindir o contrato. É grande, sem dúvida, o meu
desapontamento, mas, como a senhora sabe, pode-se conduzir um cavalo à
beira de água, mas não se pode obrigá-lo a beber.
Seu, sinceramente,
Albert Nixon
O vigário tomou conhecimento da carta, mas isso serviu apenas para lhe
aumentar a obstinação. Concordaria se Philip abraçasse outra profissão qualquer.
Sugeriu mesmo a de seu pai - a medicina. Nada, porém, o induziria a conceder uma
mesada ao sobrinho, se este teimasse em ir para Paris.
- É simples pretexto para levar vida folgada, para entregar-se à sensualidade -
disse.
- É interessante ouvi-lo censurar a vida folgada nos outros - retorquiu Philip,
acremente.
Nessa altura chegou uma carta de Hayward, indicando o nome de um hotel onde
Philip poderia alugar um quarto por trinta francos mensais; no mesmo sobrescrito, veio
também um bilhete de apresentação à massière de uma escola. Philip leu a carta a Mrs.
Carey e comunicou-lhe a intenção de partir a 1 de Setembro.
- Mas não tens dinheiro algum! - disse ela.
- Vou esta tarde a Tercanbury vender as jóias.
Herdara do pai um relógio de ouro com corrente, dois ou três anéis, algumas
abotoaduras e dois alfinetes de gravata. Um destes últimos tinha uma pérola engastada
e talvez rendesse regular importância.
- O valor de uma coisa tem muito pouco que ver com o que se consegue por ela -
observou a tia Louise.
Philip sorriu, pois era aquela uma das frases predilectas de seu tio.
- Sei isso, mas, na pior das hipóteses, creio que poderei arranjar umas cem libras,
o suficiente para me manter até aos vinte e um anos.
Mrs. Carey não respondeu; subiu ao seu quarto, pôs na cabeça o chapéu preto e
dirigiu-se ao Banco. Em menos de uma hora, estava de volta. Procurou Philip, que lia
na sala de visitas, e entregou-lhe um sobrescrito.
- Que é isto? - inquiriu ele.
- É um pequeno presente para ti - respondeu a tia, sorrindo timidamente.
Ele abriu-o, e encontrou onze notas de cinco libras e um saquinho de papel
repleto de esterlinas.
- Não podia permitir que vendesses as jóias de teu pai. É o dinheiro que eu tinha
no Banco. Está muito perto de perfazer uma centena de libras.
Philip corou e, sem saber como, as lágrimas brotaram-lhe subitamente dos olhos.
- Oh, minha querida tia, não posso aceitar - disse ele. - A tia é infinitamente
bondosa, mas não me seria possível aceitar.
Quando Mrs. Carey se casara, possuía trezentas libras; esse dinheiro,
cuidadosamente administrado, destinava-se a fazer frente a uma despesa imprevista,
um acto urgente de caridade, ou para comprar presentes de Natal e de aniversário para
o marido e para Philip. Com o correr dos anos, diminuíra lamentavelmente, mas ainda
constituía motivo de galhofa para o vigário. Referia-se à esposa como uma mulher rica
e falava constantemente no seu pé-de-meia.
- Aceita-o por favor, Philip. Lamento ter sido extravagante e só me resta isto. Farme-
ás muito feliz se o aceitares.
- Mas a tia pode precisar do dinheiro - observou ele.
- Não precisarei, não. Guardava-o para o caso de teu tio morrer antes de mim.
Achava útil possuir alguma coisa de que pudesse lançar mão imediatamente, mas
agora penso que não viverei muito tempo.
- Oh, tia, não diga isso. É claro que viverá por muito tempo. Não posso passar
sem a sua amizade.
- Oh, não tenho pena.
A voz embargou-se-lhe, ocultou os olhos, mas, logo a seguir, enxugou-os e sorriu
corajosamente.
- A princípio, costumava pedir a Deus que não me levasse primeiro, pois não
queria deixar o teu tio sozinho no mundo, não queria fazê-lo sofrer. Mas agora concluí
que a minha morte não seria tão dolorosa para ele como a dele para mim. Tem mais
amor à vida do que eu, nunca fui o seu ideal de mulher e estou certa de que tornaria a
casar se alguma coisa me acontecesse. É por isso que prefiro ir primeiro. Não achas que
seja egoísmo meu, Philip? Se ele morresse antes de mim, não suportaria o desgosto.
Philip beijou-lhe a face enrugada e magra. Não sabia por que razão o espectáculo
daquele transbordante amor o enchia de estranha vergonha. Era incompreensível que
ela dedicasse tanta afeição a um homem tão indiferente, tão grosseiramente egoísta. E
ele percebia de modo vago que, no seu íntimo, ela via a indiferença e o egoísmo do
marido; via, mas apesar de tudo, amava-o com humildade.
- Aceitas o dinheiro, Philip? - perguntou ela, afagando-lhe suavemente a mão. -
Sei que podes dispensá-lo; se o aceitares, ficarei tão contente! Sempre quis fazer alguma
coisa por ti. Nunca tive filhos, como sabes, razão por que te amei como verdadeira
mãe. Quando eras criança, embora soubesse que praticava um erro, desejava às vezes
que adoecesses para que eu pudesse ficar a teu lado noite e dia. Mas só estiveste doente
uma vez, e assim mesmo na escola. Gostaria tanto de auxiliar-te... Este é o único ensejo
que tenho. E quando, algum dia, te tornares um grande pintor, não te esquecerás de
mim, antes te lembrarás de que fui eu quem te auxiliou no princípio.
- Como é boa! - exclamou Philip. - Fico-lhe muito agradecido.
Um sorriso brilhou nos cansados olhos dela, um sorriso de pura felicidade.
- Oh! Estou tão satisfeita!
XL
Passados alguns dias, Mrs. Carey foi acompanhar Philip à estação. Mantinha-se à
porta da carruagem, procurando reprimir as lágrimas. Philip estava irrequieto e
ansioso. Quisera ter já partido.
- Beija-me ainda uma vez - disse ela.
Inclinou-se para fora da janela e beijou-a. O comboio pôs-se em movimento,
deixando-a na plataforma de madeira da pequena estação. Agitou o lenço até perdê-lo
de vista. Tinha o coração horrivelmente oprimido e as poucas centenas de jardas que a
separavam do vicariato pareceram-lhe uma distância imensa. Era natural que ele se
mostrasse ansioso por partir, dizia consigo; era ainda rapaz e o futuro acenava-lhe -
enquanto ela cerrava os dentes para não chorar. Fez, mentalmente, uma pequena prece,
a rogar a Deus que o guardasse, que o livrasse das tentações, que lhe concedesse
felicidade e boa sorte.
Philip, porém, esqueceu-se dela pouco depois de se instalar no seu lugar.
Preocupava-se apenas com o futuro. Escrevera a Mrs. Otter, a massière a quem se
destinava a carta de apresentação de Hayward, e levava no bolso um convite para o
chá, no dia seguinte. Ao chegar a Paris, mandou colocar a bagagem num carro e rodou
vagarosamente através de ruas alegres, sobre a ponte e ao longo das vielas do Bairro
Latino. Alugara um quarto no Hôtel des Deux Écoles, situado numa velha rua
transversal ao Boulevard de Montparnasse; ficava próximo da escola de Amitrano,
onde pretendia estudar. Um criado galgou cinco lances de escadas, com a bagagem, e
conduziu Philip a um quartinho que cheirava a mofo pelo facto de as janelas se
conservarem fechadas. Quase todo o espaço era ocupado por uma grande cama de
madeira, com dossel vermelho. As janelas eram ornadas de pesadas cortinas da mesma
cor, bastante encardidas, e a cómoda servia também de lavatório; numa das paredes,
descansava um maciço guarda-roupa desse estilo que se costuma associar ao nome do
bom rei Luís Filipe. O papel das paredes perdera a cor, com o tempo; estava
acinzentado, distinguindo-se nele, vagamente, grinaldas de folhas pardas. Philip achou
o quarto pitoresco e encantador.
Embora fosse tarde, a excitação impedia-o de dormir. Dirigiu-se para o
boulevard, e caminhou em direcção às luzes. Chegou, assim, à estação. A praça que lhe
ficava em frente, com iluminação de arco voltaico, percorrida em todas as direcções por
barulhentos «eléctricos» amarelos, arrancou-lhe um riso de alegria. Havia cafés em
toda a volta e, como estivesse com sede e ansioso por observar a multidão de mais
perto, conseguiu por acaso, um lugar numa das mesas colocadas na calçada do Café de
Versailles. As outras mesas achavam-se ocupadas, pois a noite estava linda.
Philip contemplava as pessoas com grande curiosidade: aqui, pequenos grupos
de famílias, além um punhado de homens de barba, com chapéus esquisitos, falando
em altas vozes e gesticulando; a seu lado, estavam sentados dois homens, com aspecto
de pintores, acompanhados de mulheres que Philip desconfiava não serem suas
legítimas esposas, e atrás dele alguns americanos discutiam animadamente assuntos de
arte. A sua alma vibrava de comoção. Deixou-se ficar ali até tarde, com pena de se
retirar, embora cansado. Quando, por fim, se resolveu a ir para a cama, não conseguiu
dormir; pôs-se a escutar o ruído multiforme de Paris.
No dia seguinte, à hora do chá, dirigiu-se ao Lion de Belfort e, numa rua nova
que partia do Boulevard Raspail, encontrou Mrs. Otter. Era uma insignificante mulher
de trinta anos, de ar provinciano e maneiras estudadamente refinadas, que o
apresentou a sua mãe. Philip descobriu, então, que ela estudava em Paris havia três
anos, e mais tarde veio a saber que vivia separada do marido. Conservava na pequena
sala de visitas um ou dois retratos de sua autoria e Philip, com a sua inexperiência,
achou-os perfeitos.
- Eu só queria saber se um dia chegarei a pintar assim tão bem - disse-lhe ele.
- Oh, espero que sim - respondeu Mrs. Otter, lisonjeada. - Não será possível
consegui-lo imediatamente, é claro.
Era muito amável. Deu-lhe o endereço de um estabelecimento onde encontraria
papel de desenho e carvão.
- Amanhã, às nove horas, irei à Amitrano; se estiver lá, arranjar-lhe-ei um lugar e
o mais que for necessário.
Perguntou-lhe o que pretendia fazer, mas Philip não queria dar a perceber quão
vagamente percebia do assunto.
- Bem, primeiro, quero aprender a desenhar - respondeu.
- Agrada-me muito ouvi-lo falar assim. As pessoas quase sempre procuram fazer
as coisas apressadamente. Só toquei em óleos depois de estudar durante dois anos, e
veja os resultados.
Lançou um rápido olhar ao retrato da mãe, uma pintura empastada, que estava
pendurada acima do piano.
- Se estivesse no seu lugar, seria muito escrupulosa na escolha das minhas
relações. Não me misturaria com estrangeiros.
Philip agradeceu o conselho, embora lhe parecesse estranho. Não fazia grande
empenho em ser cauteloso.
- Vivemos exactamente como se estivéssemos na Inglaterra - disse a mãe de Mrs.
Otter, que até então se conservara calada. - Quando viemos para cá, trouxemos
connosco toda a nossa mobília.
Philip correu os olhos em volta da sala. Enchiam-na móveis maciços e das janelas
pendiam cortinas de renda branca, semelhantes às que a tia Louise usava no vicariato,
durante o Verão. O piano estava coberto por uma capa de seda, e o mesmo sucedia
com o fogão. Mrs. Otter acompanhava o olhar admirado do rapaz.
- De noite, quando as persianas estão fechadas, tem-se a impressão perfeita de
estar em Inglaterra.
- E as nossas refeições são todas feitas à moda da nossa terra - acrescentou a mãe.
- Um ligeiro pequeno-almoço, de manhã, e jantar a meio do dia.
Ao deixar Mrs. Otter, Philip foi comprar o material de desenho de que necessitava.
Na manhã seguinte às nove em ponto, apresentou-se na escola, procurando
aparentar calma. Mrs. Otter, que já lá estava, aproximou-se com um sorriso nos lábios.
Philip, como nouveau, não sabia que espécie de recepção lhe iriam fazer, pois lera que,
nalguns estúdios, os estrangeiros eram objecto de brincadeiras desagradáveis. Mrs.
Otter, porém, tranquilizou-o.
- Não, aqui não existem essas coisas. Como vê, metade dos nossos estudantes é
formada por mulheres e elas dão o tom ao ambiente.
O estúdio era amplo e desimpedido, com paredes cinzentas, onde se achavam
fixados os trabalhos premiados. Uma mulher servia de modelo, sentada numa cadeira.
Cobria-lhe o corpo uma simples capa de pano e cerca de doze homens e mulheres,
dispostos em redor, conversavam ou trabalhavam nos seus desenhos. Era o primeiro
descanso do modelo.
- É melhor não tentar coisa muito difícil a princípio - aconselhou Mrs. Otter. -
Ponha o cavalete neste lugar. Vista daqui, a pose é a mais fácil.
Philip armou o cavalete no ponto indicado e Mrs. Otter apresentou-o a uma
rapariga que estava sentada a seu lado.
- Mr. Carey, miss Price. É a primeira vez que Mr. Carey estuda: portanto, não se
negue a atendê-lo, caso venha a necessitar de algum auxílio.
Voltou-se então para o modelo.
- La pose!
A mulher atirou para o lado o jornal que estivera a ler, La Petite République, e,
despindo a capa com ar aborrecido, subiu para o tablado. Firmou-se em ambos os pés e
cruzou as mãos por trás da cabeça.
- Que pose estúpida! - comentou miss Price. - Não sei por que motivo a
escolheram.
Quando Philip entrou, todos o tinham olhado, com curiosidade, excepto o
modelo, que o fitara com indiferença; agora, porém, ninguém lhe prestava atenção.
Com a sua bela folha de papel na frente, Philip olhava embaraçado para o modelo. Não
sabia por onde começar. Nunca na sua vida vira uma mulher nua. Aquela já não era
nova e tinha os seios murchos. Os cabelos, de um louro descorado, caíam-lhe em
desalinho para a testa e o rosto estava coberto de grandes sardas. Philip lançou uma
olhadela ao trabalho de miss Price. Desenhava aquela pose havia apenas dois dias e
parecia encontrar muitas dificuldades. O papel, à força de ter sido limpo, achava-se em
mísero estado e, aos olhos de Philip, a figura parecia singularmente deformada.
- Iria afirmar que sou capaz de fazer tão bem como aqueles - disse Philip para
consigo.
Principiou pela cabeça, com a intenção de descer gradativamente. Não sabia
porquê, era-lhe muito mais fácil traçar uma cabeça imaginária do que reproduzir a de
um modelo. As dificuldades aumentaram. Olhou para miss Price, que trabalhava com
veemente seriedade. Tinha a testa enrugada pelo esforço e o olhar ansioso. Fazia calor
no estúdio e o suor brotava-lhe na fronte. Era uma rapariga de vinte e seis anos, com
bonitos cabelos de um ouro baço. Não lhes dispensava, porém, cuidado algum, pois
limitara-se a puxá-los para trás e prendê-los apressadamente num rolo. O rosto era
grande, largo e sem relevo, e os olhos pequeninos; tinha a pele pastosa, de aspecto
doentio, e as faces descoradas. Dava a impressão de que nunca tomava banho, levando
mesmo a suspeitar de que não se despia para dormir. Conservava-se sempre séria e em
silêncio. No segundo intervalo levantou-se e deu dois passos à retaguarda para
contemplar o trabalho.
- Não sei porquê, encontro tanta dificuldade - disse ela. - Mas hei-de fazê-lo, seja
como for.
Voltando-se para Philip, perguntou:
- Então, como está a sair-se?
- Mal - respondeu Philip, com um sorriso lastimoso.
Ela lançou um olhar ao que ele estava a fazer.
- Assim, não conseguirá fazer coisa alguma. É preciso tomar medidas e, tem de
esquadriar o papel.
Mostrou-lhe rapidamente como iniciar o trabalho. Philip sentia-se impressionado
pela seriedade da rapariga, mas desagradava-lhe a sua absoluta falta de encanto.
Agradeceu as indicações recebidas e pôs-se novamente a desenhar. Entretanto,
chegaram outros alunos, na maioria homens, pois as mulheres chegavam sempre
primeiro; o estúdio achava-se relativamente cheio, para a época do ano (era ainda
cedo). Entrou mais um rapaz de cabelos finos e pretos, com um enorme nariz e o rosto
tão comprido que lembrava um cavalo. Sentou-se ao lado de Philip, e, pela frente dele
cumprimentou miss Price.
- Estás bastante atrasado. Acordaste agora? - perguntou ela.
- O dia estava tão admirável que resolvi ficar na cama a imaginar como estaria
bonito lá fora.
Philip sorriu, mas miss Price levou a sério a explicação.
- Que esquisito fazer isso, eu teria achado melhor levantar-me e gozá-lo.
- Como é difícil ser humorista! - disse o jovem com gravidade.
Não parecia disposto a trabalhar. Olhou para a tela; estava a pintar a cores e
esboçara, no dia anterior, o modelo que estava a posar. Voltando-se para Philip.
- Veio agora da Inglaterra?
- Sim.
- Como veio parar ao estúdio do Amitrano?
- Era o único de que ouvira falar.
- Espero que não venha na ilusão de aprender aqui alguma coisa que tenha o
mínimo préstimo para si.
- É a melhor escola de Paris - observou miss Price. - É a única onde a arte é levada
a sério.
- Achas que a arte deve ser levada a sério? - perguntou o rapaz.
E como Miss Price respondesse apenas encolhendo desdenhosamente os ombros,
acrescentou:
- O facto é que todas as escolas são más. São académicas, já se sabe. E se esta é
menos prejudicial do que as outras, é porque o ensino aqui é mais improfícuo do que
em qualquer outra parte. Não se aprende nada...
- Para que vem aqui, nesse caso? - interrompeu Philip.
- Conheço o melhor caminho, mas não o sigo. Mis Price, que é culta, há-de
lembrar-se de como se diz isto em latim.
- Prefiro não ser incluída na sua conversa, Mr. Clutton - observou Miss Price
bruscamente.
- A única maneira de se aprender a pintar - continuou ele, imperturbável - é
arranjar um atelier, alugar um modelo e andar para a frente, sem auxílio de ninguém.
- Parece muito simples - disse Philip.
- Requer apenas dinheiro - replicou Clutton.
Começou a pintar, enquanto Philip o olhava de soslaio. Era comprido e
incrivelmente magro. Os seus enormes ossos parecia quererem saltar-lhe do corpo; os
cotovelos, de tão pontiagudos, quase furavam as mangas do velho casaco. As calças já
estavam puídas nas bainhas e ambos os sapatos mostravam feios remendos. Miss Price
levantou-se e caminhou em direcção ao cavalete de Philip.
- Se Mr. Clutton calar a boca por um instante, ajudá-lo-ei um pouco.
- Miss Price não gosta de mim porque tenho humor - disse Clutton,
contemplando com ar meditativo a própria tela. - Detesta-me porque sabe que tenho
génio.
Falava solenemente e o seu nariz disforme tornava bastante estranho o que dizia.
Philip foi obrigado a rir, mas Miss Price fez-se vermelha de raiva.
- És a única pessoa convencida de que tens génio.
- E sou também a única pessoa cuja opinião tem valor para mim.
Miss Price principiou a criticar o trabalho de Philip. Falou fluentemente a
respeito de anatomia e estrutura, planos e linhas, e várias outras coisas que o rapaz não
compreendia. Frequentava o estúdio havia muito tempo, e conhecia bem os pontos
sobre os quais os mestres mais insistiam, mas, embora apontasse os erros cometidos
por Philip, não sabia dizer-lhe como corrigi-los.
- É muita bondade sua incomodar-se tanto comigo - disse Philip.
- Oh, não é nada de mais - respondeu ela, corando embaraçada. - Fizeram assim
comigo, quando vim para cá; portanto, é natural que também faça o mesmo com os
outros.
- Miss Price quer dizer que lhe oferece as vantagens da sua sapiência por um
sentimento de obrigação e não em virtude de qualquer encanto que possa ter a sua
pessoa - esclareceu Clutton.
Miss Price lançou-lhe um olhar furioso e voltou a desenhar. O relógio bateu doze
horas e o modelo, com um suspiro de alívio, desceu do estrado.
Miss Price reuniu os seus apetrechos.
- Muitos daqui vão ao Gravier almoçar - disse a Philip, olhando para Clutton. -
Eu almoço sempre em casa.
- Se quiser, levo-o ao Gravier - ofereceu Clutton.
Philip agradeceu e preparou-se para sair. Quando saíram, Mrs. Otter perguntoulhe
que tal se achara.
- Fanny Price auxiliou-o? Coloquei-o a seu lado porque ajuda sempre os outros,
quando está disposta. É muito mal-humorada, e não sabe desenhar coisa alguma; mas
percebe do assunto e sabe ser útil aos recém-chegados, quando quer dar-se a esse
trabalho.
Enquanto caminhava pela rua, Clutton disse-lhe:
- Você causou impressão a Fanny Price. É melhor acautelar-se.
Philip riu. Nunca encontrara criatura a quem menos quisesse impressionar. Ao
chegar ao restaurante barato onde a maioria dos estudantes tomava as refeições,
Clutton sentou-se numa mesa onde já havia três ou quatro homens. Mandaram vir um
ovo para cada um, um prato de carne, queijo e uma pequena garrafa de vinho - tudo
por um franco. O café era considerado extra. A mesa ficava no passeio e os «eléctricos»
amarelos passavam para cima e para baixo, num soar incessante de campainhas.
- Afinal como se chama? - perguntou Clutton, logo depois de se sentarem.
- Carey.
- Permitam-me que lhes apresente Carey, um velho e leal amigo - disse Clutton,
gravemente. - Mr. Flanagan e Mr. Lawson.
O rapazes riram e prosseguiram a conversa. Conversavam a respeito de mil
coisas e falavam todos ao mesmo tempo. Nenhum deles prestava a menor atenção ao
que os outros diziam. Falaram dos lugares visitados no Verão, dos estúdios, das várias
escolas. Mencionavam nomes desconhecidos para Philip; Monet, Manet, Renoir,
Pizarro, Degas. Philip era todo ouvidos, e, embora se sentisse um pouco deslocado, o
seu coração palpitava de alegria. O tempo voou. Ao levantar-se, Clutton disse:
- Poderá encontrar-me aqui esta noite, se quiser vir. Verá que este é o melhor
lugar para arranjar dispepsia pelo menor preço, em todo o Bairro.
XLI
Philip descia o boulevard de Montparnasse. Não se assemelhava de modo algum
ao Paris que admirara na Primavera, quando viera tratar da escrita do Hotel St. George
- sentia calafrios ao recordar aquela fase da sua vida. Trazia-lhe à mente uma cidade
provinciana, segundo a ideia que delas fazia. Havia ali um ar de negligência e uma
amplidão ensolarada que convidava o espírito a devanear. O alinho das árvores, a
vívida brancura das casas, a vastidão dos espaços, tudo o encantava. Sentia-se
perfeitamente à vontade. Continuava o seu caminho, observando os transeuntes;
julgava ver certa elegância até nos simples operários de amplas cintas vermelhas e
calças largas e nos soldadinhos de uniforme pardo e encantador. Chegou à Avenida do
Observatório e soltou um suspiro de prazer ante aquele espectáculo tão magnificente e
tão gracioso ao mesmo tempo. Penetrou, pouco depois, no Jardim do Luxemburgo; as
crianças brincavam; as amas, com as suas longas fitas, passeavam devagar aos pares,
homens atarefados cruzavam-se de um lado para o outro, com pastas debaixo do
braço, e passavam rapazes vestidos de modo esquisito. Era um quadro de linhas
harmoniosas; a natureza fora arranjada e posta em ordem, mas de forma tão primorosa
que a natureza sem arranjo nem ordem parecia bárbara. Philip estava encantado.
Impressionava-o o facto de se encontrar no local acerca do qual lera tantas coisas; para
ele, era solo clássico. Experimentava o prazer respeitoso de algum velho professor de
grego que contemplasse pela primeira vez as sorridentes planícies de Esparta.
Enquanto deambulava assim, avistou por acaso Miss Price, sentada num banco.
Hesitou um momento, pois não desejava falar com ninguém e os modos rudes da
rapariga pareciam deslocados no meio da alegria que o circundava. Adivinhara,
porém, ser ela muito sensível às afrontas, e, uma vez que o vira, seria um dever de
polidez falar-lhe.
- Que faz por aqui? - perguntou ela, ao vê-lo aproximar-se.
- Espaireço. E você?
- Venho cá todos os dias, das quatro às cinco. Não acho que seja aconselhável
trabalhar sem descanso.
- Posso sentar-me um minuto? - interrogou ele.
- Se quiser.
- A resposta não me parece muito cordial - observou Philip, rindo.
- Não tenho muito jeito para dizer coisas bonitas.
O rapaz calou-se, meio desconcertado, e acendeu um cigarro.
- Clutton disse-lhe alguma coisa a respeito do meu trabalho? - perguntou ela, de
repente.
- Não, parece-me que não - respondeu Philip.
- Ele não presta, sabe? Considera-se um génio, mas não é. Em primeiro lugar, é
preguiçoso. O génio é uma capacidade infinita para o trabalho. Sem persistência, nada
se consegue. Quando nos resolvemos de facto a fazer alguma coisa, é impossível deixar
de obter o triunfo.
Falava apaixonadamente, com uma ênfase que impressionava. Usava um chapéu
de marinheiro, de palha preta, uma blusa branca que não se podia considerar limpa e
uma saia castanha. Não calçava luvas e as mãos não tinham sido lavadas. Era tão
pouco atraente que Philip lamentou ter-se sentado a seu lado. Não sabia se ela desejava
que ele ficasse ou que se fosse embora.
- Farei por você tudo quanto puder - disse Miss Price de repente, sem qualquer
relação com o assunto anterior. - Sei muito bem que, a princípio, as dificuldades são
enormes.
- Muito obrigado - disse Philip, acrescentando pouco depois: - Não quer tomar
chá comigo em qualquer parte?
Ela olhou-o vivamente e corou. Sempre que corava, a sua tez pastosa adquiria
um aspecto curiosamente salpicado, como um prato de morangos com creme que se
tivesse deteriorado.
- Não, obrigada. Por que acha que eu preciso de chá? Acabei agora mesmo de
almoçar.
- Julguei que isso nos ajudaria a passar o tempo - respondeu Philip.
- Se o tempo lhe parece arrastar-se, não precisa de preocupar-se comigo. Não me
importo de ficar sozinha.
Nesse instante, passaram dois homens, trajando blusas de veludo pardo,
enormes calças, e boinas bascas. Eram jovens, mas ambos usavam barba.
- São estudantes de belas-artes? - indagou Philip. - Parece que saíram da Vie de
Bohème.
- São americanos - esclareceu Miss Price, desdenhosamente. - Os franceses já não
usam essas coisas há trinta anos, mas os americanos do Far West compram esses fatos e
fotografam-se no dia seguinte ao da sua chegada a Paris. É a única maneira de
participarem da arte. Mas pouco se incomodam, não lhes falta o dinheiro.
Philip apreciou o ar pitoresco e atrevido dos americanos, achando que isso
revelava um espírito romântico. Miss Price perguntou-lhe as horas.
- Preciso de ir para o estúdio - disse ela. - Vai às aulas de desenho?
Philip nunca ouvira falar em tal coisa. Miss Price explicou, então, que um modelo
posava diariamente, das cinco às seis, para todos que o quisessem desenhar, mediante
a remuneração de cinquenta cêntimos. Era excelente para praticar, pois cada dia
posava um modelo diferente.
- Não me parece que esteja em condições de fazer isso. Terá de esperar um
pouco.
- Não vejo razão que me impeça de experimentar. Não tenho mais nada que
fazer.
Levantaram-se e puseram-se a caminho do estúdio. Philip ignorava se Miss Price
preferia andar só ou na sua companhia. Permanecia junto dela por puro embaraço, pois
não sabia como deixá-la. Ela não falava, limitando-se a responder-lhe às perguntas de
maneira pouco polida.
Um homem, à porta do estúdio, com um grande prato na mão, recebia o meio
franco de cada pessoa que entrava. A frequência era muito maior do que de manhã,
não havendo aquela preponderância de ingleses e americanos nem mulheres em tão
grande proporção. Philip achou que essa reunião correspondia mais à sua expectativa.
Fazia bastante calor e o ar em pouco tempo se tornou irrespirável. Quem posava, dessa
vez, era um velho de longas barbas brancas. Philip tentou pôr em prática os escassos
conhecimentos adquiridos pela manhã, mas em vão; concluiu, por fim, não saber
desenhar tão bem como imaginava. Olhava invejosamente para os esboços dos
vizinhos e punha-se a imaginar quando seria capaz de manejar o carvão com aquela
maestria. A hora passou-se rapidamente. Não querendo importunar Miss Price,
sentara-se a certa distância, mas, no final, quando passou perto dela para se ir embora,
a jovem perguntou-lhe, em tom brusco, como se saíra.
- Não muito bem - respondeu com um sorriso.
- Se tivesse condescendido em sentar-se a meu lado, ter-lhe-ia dado alguns
conselhos. Sem dúvida, considera-se uma sumidade.
- Não, não foi isso. É que temia importuná-la.
- Quando for assim, dir-lho-ei sem rodeios.
Philip pressentia, através das suas maneiras intratáveis, que ela lhe oferecia
auxílio.
- Bem, amanhã não a largarei um só instante.
- Não faz mal - respondeu ela.
O rapaz saiu a imaginar o que faria até a hora do jantar. Estava ansioso por fazer
alguma coisa que fosse característica. Absinthe! Era o mais indicado, não havia dúvida,
e, assim, caminhando em direcção à gare, sentou-se em frente de um café e fez o seu
pedido. Bebeu com náusea e satisfação. O gosto era desagradável, mas o efeito moral
foi magnífico. Sentia-se da cabeça aos pés um estudante de belas-artes e, como tinha o
estômago vazio, logo se sentiu alegre. Olhava para a multidão e achava que todos os
homens eram seus irmãos. Estava feliz. Quando chegou ao Gravier, não havia lugar na
mesa de Clutton, mas este, assim que avistou Philip, a coxear, chamou-o pelo nome.
Arranjaram-lhe um lugar. O jantar foi frugal - um prato de sopa, carne, fruta, queijo,
meia garrafa de vinho - mas Philip não prestou atenção ao que comeu. Apenas se
preocupava com as pessoas sentadas à mesa. Flanagan estava novamente ali: era
americano, um rapaz baixo, de nariz arrebitado, rosto jovial e boca sorridente. Usava
um casaco de desporto, de padrão vivo, um lenço azul em volta do pescoço e um boné
de forma fantástica. Nessa época, o impressionismo reinava no Bairro Latino, mas a
sua vitória sobre as outras escolas era ainda facto recente; e Carolus-Duran,
Bouguereau e outros que tais eram lançados contra Manet, Monet e Degas. Apreciar
estes últimos ainda era um sinal de elegância. Era grande a influência de Whistler
sobre os ingleses, e os seus compatriotas, e os entendidos coleccionavam gravuras
japonesas. Os velhos mestres eram julgados de acordo com os novos moldes. A estima
em que Rafael fora tido durante séculos era agora motivo de mofa para os jovens
ilustrados. Trocariam todas as suas obras, diziam eles, pela cabeça de Filipe IV, de
Velasquez, da National Gallery. Philip encontrou-os empenhados em acalorada
discussão. Lawson, a quem fora apresentado ao almoço, estava sentado na sua frente.
Era um rapaz magro, de rosto sardento e cabelos ruivos. Tinha olhos verdes e
brilhantes. Quando Philip se sentou, Lawson fixou o olhar nele e observou de repente:
- Rafael só era tolerável quando pintava os quadros dos outros. Quando pintava
Peruginos ou Pinturicchios, era encantador; quando pintava Rafaéis - encolheu os
ombros com desprezo - era simplesmente «Rafael».
Lawson falava com tal agressividade que Philip ficou surpreso, mas não foi
preciso responder, porque Flanagan os interrompeu com impaciência:
- Ora, a arte que vá para o inferno! Vamos encharcar-nos de gin.
- Bebeste muito gin a noite passada, Flanagan - advertiu Lawson.
- Mas hoje quero beber ainda mais - respondeu ele. - Imagina a gente morar em
Paris e não pensar senão na arte. - Falava com um forte sotaque do Oeste. - ó Céus, a
vida é uma delícia!
Recompôs-se e, depois, bateu com o punho na mesa.
- Para o inferno com a arte, digo eu.
- Não só o dizes como o repetes de modo maçador - censurou Clutton.
Havia outro americano à mesa. Estava vestido como aqueles magníficos sujeitos
que Philip vira passar pelo Luxemburgo à tarde. Tinha um belo rosto, fino, ascético, de
olhos escuros; envergava o seu trajo extravagante com o ar atrevido de um corsário. Os
cabelos, pretos e em basta quantidade, caíam-lhe amiúde para os olhos e o seu gesto
mais frequente era atirar dramaticamente a cabeça para trás, a fim de afastar a mecha
caída. Começou a falar sobre a Olympia de Manet, então exposta no Luxemburgo.
- Hoje fiquei uma hora diante dela, e garanto que não é um bom quadro.
Lawson pousou a faca e o garfo. Os seus olhos verdes flamejavam. Arfava de
raiva, mas era visível que procurava dominar-se.
- É muito interessante conhecer-se o pensamento do selvagem inculto - disse ele. -
Queres dizer-nos por que não é um bom quadro?
Antes que o americano respondesse alguém se interpôs com veemência:
- Quererás dizer que não soubeste ver a pintura daquela carne, dizes que não é
boa?
- Não disse isso. Acho que o seio direito está muito bem pintado.
- Vá para o diabo o seio direito! - gritou Lawson. - O quadro todo é um milagre
de pintura.
Começou a descrever, em pormenor, as belezas da obra, mas, naquela mesa do
Gravier, quando alguém falava, falava para sua própria edificação. Ninguém o
escutava. O americano interrompeu-o, exaltado:
- Não me venhas dizer que achaste a cabeça boa.
Lawson, já branco de raiva, iniciou, então, a defesa da cabeça, mas Clutton, que
se conservava calado, lendo-se-lhe no rosto um certo desprezo bem-humorado,
interveio:
- Dá-lhe a cabeça. Não queremos a cabeça. Ela não afecta o quadro.
- Vá lá, dar-te-ei a cabeça - exclamou Lawson. - Fica com a cabeça e não nos
aborreças mais.
- E o traço preto? - continuou o americano, lançando triunfalmente para trás uma
mecha de cabelo que quase lhe caía dentro da sopa. - Os objectos, ao natural, não têm
um contorno preto.
- Oh! Deus! Manda fogo do céu para consumir o blasfemo! - disse Lawson. - Que
tem a natureza a ver com isso? Ninguém sabe quando uma coisa está ou não de acordo
com a natureza. O mundo vê a natureza através dos olhos do artista. Durante séculos
inteiros viu cavalos saltar cercas com as pernas estendidas e aceitou-o como facto
incontestável. Viu as sombras pretas, até Manet as descobrir coloridas. Se resolvemos
circundar os objectos com uma linha preta, o mundo verá a linha preta e haverá a linha
preta. Se pintarmos a erva de vermelho e as vacas de azul, o mundo os verá vermelhos
e azuis e serão de facto vermelhos e azuis.
- Para o diabo a arte - murmurou Flanagan. - Quero encharcar-me de gin.
Lawson não tomou conhecimento da interrupção.
- Agora, escuta. Quando a Olympia foi exposta no Salon, Zola, entre os apupos
dos filisteus e os assobios dos pompiers, dos académicos e do público, Zola disse:
«Antevejo o dia em que o quadro de Manet figurará no Louvre na frente da odalisca,
de Ingres, e não será a Odalisca que ganhará na comparação.» A Olympia acabará no
Louvre. Esse dia está cada vez mais próximo. Dentro de dez anos, estará no Louvre.
- Nunca! - gritou o americano, utilizando, agora, ambas as mãos numa súbita e
desesperada tentativa para desenvencilhar-se de uma vez do cabelo que lhe caía para
os olhos. - Daqui a dez anos, o quadro terá morrido. É coisa momentânea, uma moda
passageira. Nenhum quadro poderá viver se não possuir algo que falta absolutamente
a essa tela.
- Que significa esse «algo»?
- A grande arte não pode existir sem um elemento moral.
- Oh! Senhor! - exclamou Lawson, furioso. - Eu bem sabia que era isso... Ele quer
moralidade!
Elevou para o céu as mãos postas, em sinal de súplica, e perguntou:
- Oh! Cristóvão Colombo! Que fizeste, Cristóvão Colombo, ao descobrires a
América?
- Ruskin diz...
Antes, porém, que Philip tivesse tempo de acrescentar a palavra seguinte,
Clutton bateu imperiosamente com o cabo da faca na mesa.
- Cavalheiros - começou ele em tom severo, enquanto o seu enorme nariz se
enrugava de ira - mencionou-se neste instante um nome que eu não esperava tornar a
ouvir na boca de pessoas decentes. É justo que exista liberdade de palavra, mas
devemos observar os limites de decoro comum. Falem de Bouguereau, se quiserem:
provoca o riso a alegre repulsa que o nome inspira; mas não contaminemos os nossos
lábios puros, pronunciando nomes como J. Ruskin, G. F. Watts ou E. B. Jones.
- Quem foi Ruskin, afinal? - indagou Flanagan.
- Foi um dos Grandes Vitorianos. Um mestre do estilo inglês.
- O estilo de Ruskin: uma manta de farrapos e remendos roxos - disse Lawson. -
Além disso, que vão para o diabo os Grandes Vitorianos. Sempre que leio no jornal a
notícia da morte de um Grande Vitoriano, agradeço a Deus o ter acabado com mais um
deles. O seu único talento foi a longevidade. Nenhum artista devia viver depois dos
quarenta anos; nessa idade, o homem produziu o melhor e o que se segue é apenas
repetição. Não achas que a morte prematura de Keats, Shelley, Bonnington e Byron foi
uma grande sorte para eles? Que génio não consideraríamos Swinburne, se tivesse
perecido no dia em que se publicou a primeira série dos Poemas e Baladas!
A ideia agradou, pois nenhum dos presentes ultrapassara os vinte e quatro anos.
Pela primeira vez, mostravam-se unânimes. E desenvolveram o tema. Um deles propôs
uma fogueira festiva das obras dos Quarenta Académicos, à qual os Grandes
Vitorianos seriam também atirados, após o seu quadragésimo aniversário. A proposta
foi recebida entre aclamações. Carlyle e Ruskin, Tennyson, Browning, G. F. Watts, E. B.
Jones, Dickens, Thackeray, foram arremessados às chamas. Seguiram-se Gladstone,
John Bright e Cobden; houve um minuto de discussão a respeito de George Meredith,
mas Matthew Arnold e Emerson foram abandonados de bom grado. Chegou por fim a
vez de Walter Pater.
- Walter Pater, não - murmurou Philip.
Lawson fitou nele os olhos verdes e aquiesceu com a cabeça.
- Tens razão. Walter Pater é a única justificação para a Mona Lisa. Conheces
Cronshaw? Ele dava-se com Pater.
- Quem é Cronshaw? - perguntou Philip.
- Cronshaw é um poeta. Vive aqui em Paris. Vamos ao Lilas.
La Closerie des Lilas era um café ao qual costumavam ir com frequência, de
noite, após o jantar, e onde Cronshaw era invariavelmente encontrado das nove da
noite às duas da manhã. Flanagan, porém, já estava farto de conversas intelectuais e
por isso, ao ouvir a sugestão de Lawson, voltou-se para Philip:
- Oh, demónio, procuremos um lugar onde haja raparigas. Vem comigo ao Gaité
Montparnasse e mergulhemos no gin.
- Prefiro não beber e ir ao encontro de Cronshaw - respondeu Philip, rindo.
XLII
Houve um desacordo geral. Flanagan e mais dois ou três foram às variedades,
enquanto Philip, Clutton e Lawson se puseram lentamente a caminho da Closerie des
Lilas.
- Precisas de ir ao Gaité Montparnasse - disse Lawson a Philip.
- É uma das coisas mais adoráveis de Paris. Vou pintá-lo um dia destes.
Influenciado por Hayward, Philip votava grande desprezo aos teatros de
variedades mas chegara a Paris numa época em que as possibilidades artísticas desses
estabelecimentos acabavam de ser descobertas. Os pormenores da iluminação, as
massas vermelho-escuras ou cor de ouro sujo, a densidade das sombras e as linhas
decorativas ofereciam um tema inteiramente novo. Metade dos estúdios do Bairro
Latino continham esboços executados num ou noutro dos teatros locais. Homens de
letras, seguindo o rasto dos pintores, puseram-se repentinamente, de comum acordo, a
procurar valor artístico nos números de variedades. Comediantes de nariz vermelho
eram elevados aos cornos da Lua pelo seu senso de caracterização; obesas cantoras, que
berravam na obscuridade havia mais de vinte anos, adquiriam, de um momento para o
outro, inimitável chocarrice; outros descobriam um prazer estético nas representações
caninas, havendo finalmente os que esgotavam todo o seu vocabulário para exaltar a
distinção dos prestidigitadores e ciclistas-acrobatas. A multidão, por sua vez, através
de outras influências, tornou-se objecto de simpático interesse. Philip aprendera com
Hayward a desdenhar as massas humanas; adoptara a atitude de alguém que se
envolvesse em solidão e observasse, com repugnância, as palhaçadas do vulgo. Mas
Clutton e Lawson falavam da multidão com entusiasmo. Descreviam a fervilhante
onda de povo que enchia as diversas feiras de Paris, o mar de rostos entrevistos ao
clarão do acetilene, meio ocultos na escuridão, o clangor de trombetas, o alarido de
apitos, o zunzum de vozes. Tudo isso era novo e estranho para Philip. Falaram-lhe,
depois, a respeito de Cronshaw.
- Já leste alguma coisa dele?
- Não - respondeu Philip.
- Aparecem no Yelow Book.
Como é frequente de pintores para escritores, olhavam-no com desprezo por se
tratar de um leigo, com tolerância porque praticava uma arte e com respeito porque ele
se utilizava de um instrumento cujo manejo lhes era desconhecido.
E um tipo extraordinário. A princípio vai desiludir-te um pouco. Ele só se torna
notável depois de bêbedo.
- O que aborrece - acrescentou Clutton - é que leva um tempo enorme para se
embebedar.
Quando chegaram ao café, Lawson disse a Philip que teriam de entrar. Quase
não fazia frio, mas Cronshaw tinha pelas correntes de ar um temor mórbido e, mesmo
quando fazia o maior calor, sentava-se sempre na parte de dentro.
- Conhece quem quer que valha a pena ser conhecido - disse Lawson. - Conheceu
Pater e Oscar Wilde, e conhece Mallarmé e todos os outros tipos.
O objecto da sua busca achava-se sentado no canto mais abrigado do café, com a
gola do casacão levantada. Usava chapéu enterrado até ao meio da testa para se
proteger contra o frio. Era um homenzarrão, corpulento mas não obeso, de rosto
redondo, com um pequeno bigode, olhos diminutos e de certo modo estúpidos. A
cabeça não parecia bastante grande para o corpo. Dava a impressão de uma ervilha mal
equilibrada sobre um ovo. Estava a jogar ao dominó com um francês, e sorriu para os
recém-chegados numa saudação silenciosa. Sem dizer nada empurrou, como para lhes
dar lugar, a pequena pilha de pires correspondentes ao número de copos que já
consumira. Ao ser apresentado a Philip, inclinou a cabeça e continuou a jogar. O
conhecimento da língua, por parte de Philip, era insignificante, mas sabia o suficiente
para verificar que Cronshaw, embora residisse em Paris havia anos, falava
execravelmente o francês.
Reclinou-se na cadeira, afinal, com um sorriso de triunfo.
- Je vous ai battu - disse com pronúncia abominável.
Chamou o criado e voltou-se para Philip.
- Chegou agora da Inglaterra ? Assistiu a partidas de cricket?
Philip sentiu-se meio embaraçado ante essa pergunta inesperada.
- Cronshaw conhece os recordes de todos os grandes jogadores de cricket dos
últimos vinte anos - disse Lawson, sorrindo.
O francês deixou-os, para reunir-se a outros amigos, numa mesa fronteira, e
Cronshaw, com aquela dicção indolente que era uma das suas características, pôs-se a
discorrer sobre os méritos relativos de Kent e Lancashire. Falou sobre a última partida
a que assistira e descreveu-a lance por lance.
- É a única coisa de que sinto falta em Paris - lamentou, ao terminar o bock que
acabara de lhe ser trazido. - Aqui não se tem cricket.
Philip sofrera uma decepção, e Lawson, justificadamente ansioso por mostrar
uma das celebridades do Bairro Latino, ficou impaciente. Cronshaw, naquela noite,
custava a despertar, embora os pires a seu lado indicassem que pelo menos fizera uma
honesta tentativa para se embebedar. Clutton observava a cena com ar divertido.
Julgava descobrir certa afectação nos minuciosos conhecimentos de Cronshaw a
respeito do cricket; gostava de torturar as pessoas com assuntos que as enfastiavam
visivelmente. Clutton aventurou uma pergunta.
- Tens visto ultimamente Mallarmé?
Cronshaw fitou-o demoradamente, como a revolver a pergunta no espírito, e,
antes de responder, bateu com um dos pires sobre a mesa de mármore.
- Traz a minha garrafa de whisky - gritou.
Voltou-se de novo para Philip.
- Tenho a minha garrafa de whisky. Saía muito dispendioso pagar cinquenta
cêntimos por cada gole.
O criado trouxe a garrafa e Cronshaw ergueu-a de encontro à luz.
- Andaram a beber nela. Garçon, quem se serviu do meu whisky?
- Mais, personne, Monsieur Cronshaw!
- Marquei o nível ontem à noite e agora vê onde já está.
- Mas o senhor ainda continuou a beber depois disso. Dessa forma, o senhor
perde tempo em marcar o whisky.
O criado, um sujeito jovial, conhecia Cronshaw intimamente. Cronshaw olhou
fito para ele.
- Se me deres a palavra de honra, como nobre e como cavalheiro, de que
ninguém, além de mim, bebeu o meu whisky, aceito a explicação.
Traduzida literalmente, num francês dos mais toscos, essa observação tinha tanta
graça que a senhora do comptoir não pôde deixar de rir.
- Il est impayable - murmurou.
Ouvindo-a, Cronshaw volveu-lhe um olhar modorrento - era madura, corpulenta
e matrona - e solenemente atirou-lhe um beijo. Ela sacudiu os ombros.
- Nada tema, minha senhora - disse ele em tom poderoso. - Já passei da idade em
que se é tentado pela gratidão e pelas mulheres de quarenta e cinco anos.
Serviu-se de whisky com água, sorveu-o vagarosamente. Limpou os lábios com
as costas da mão.
- Falou muito bem.
Lawson e Clutton sabiam que essa observação de Cronshaw era a resposta à
pergunta sobre Mallarmé. Costumava frequentar as reuniões das noites de terça-feira,
quando o poeta recebia homens de letras e pintores e discorria, com oratória subtil,
sobre qualquer assunto que lhe fosse sugerido. Via-se que Cronshaw estivera lá
recentemente.
- Falou muito bem, mas disse absurdos. Discorreu sobre a arte como se fosse o
que de mais importante existe no mundo.
- Se assim não é, que estamos a fazer aqui? - indagou Philip.
- O que o senhor veio aqui fazer, ignoro-o. Isso não é da minha conta. Mas a arte
é um luxo. os homens só dão importância à conservação própria e à propagação da
espécie. Só depois de satisfeitos esses instintos é que consentem em entreter-se com o
que lhes oferecem os escritores, pintores e poetas.
Cronshaw fez uma pausa, para beber. havia vinte anos, procurava descobrir se
gostava de bebida porque o fazia falar, ou se gostava de falar porque isso lhe
provocava sede.
Depois disse:
- Escrevi ontem um poema.
Sem que lho pedissem, começou a recitá-lo lentamente, marcando o ritmo com o
indicador levantado. Devia ser um lindo poema, mas aconteceu que naquele mesmo
instante entrou uma rapariga. Tinha os lábios escarlates e via-se logo que a cor viva das
suas faces não era natural; enegrecera os cílios e sobrancelhas e pintara ambas as
pálpebras de um atrevido azul que se prolongava em triângulo aos cantos dos olhos.
Era cómico e fantástico. A cabeleira escura estava penteada para cima das orelhas, em
obediência à moda popularizada por Cléo de Merode. O olhar de Philip desviou-se
logo para ela e Cronshaw, terminada a recitação dos versos, sorriu indulgentemente.
- O senhor não me prestou atenção - disse.
- Prestei, sim!
- Não o censuro, pois ilustrou muito bem a afirmação que acabo de fazer. Que é a
arte ao lado do amor? Respeito e aplaudo a sua indiferença pela poesia quando
contempla os encantos prostituídos dessa jovem criatura.
Ela passou junto da mesa a que estavam sentados e Cronshaw tomou-lhe o braço.
- Vem sentar-te ao meu lado, minha filha, e representemos a divina comédia do
amor.
- Fichez-moi la paix - exclamou ela. E, afastando-o com um empurrão, continuou
a andar.
- A arte - continuou Cronshaw, abanando a mão - é simplesmente um refúgio que
os engenhosos inventaram, quando não lhes faltavam o alimento e a mulher, para
fugirem ao tédio da vida.
Cronshaw encheu outra vez o copo e começou a falar ininterruptamente. As
palavras, escolhidas com cuidado, saíam com uma pronúncia clara e cheia. Misturava
sabedoria com tolice, da maneira mais espantosa. Ora zombava dos ouvintes em tom
grave, ora lhes dava, a gracejar, excelentes conselhos. Atacou temas de arte, de
literatura e da vida. Era, alternadamente, devoto e obsceno, alegre e lacrimoso. Depois
de bem embriagado, pôs-se a recitar poesia - sua e de Milton, sua e de Shelley, sua e de
Marlowe.
Exausto, por fim, Lawson levantou-se para ir para casa.
- Vou também - disse Philip.
Clutton, o mais calado de todos, continuou a ouvir, com um sorriso sarcástico
nos lábios, os resmungos de Cronshaw. Lawson acompanhou Philip ao hotel e desejoulhe
boa-noite. Mas quando foi para a cama, Philip não pôde dormir. Todas aquelas
ideias novas, tão negligentemente expostas, fervilhavam-lhe no cérebro. Dominava-o
tremenda excitação. Sentia no seu íntimo uma grande força. Nunca tivera tanta
confiança em si próprio.
- Estou certo de que ainda hei-de ser um grande artista - disse para consigo. -
Sinto isso em mim...
Um arrepio percorreu-lhe o corpo quando lhe veio outro pensamento que não
ousou exprimir em palavras.
- Meu Deus, acho que tenho génio.
Estava, na realidade, bastante embriagado, mas como tinha tomado apenas um
copo de cerveja, aquele efeito só poderia provir de um tóxico mais perigoso do que o
álcool.
XLIII
Às terças e sextas-feiras, os «mestres» passavam a manhã na escola Amitrano, a
criticar os trabalhos executados. Na França, o pintor ganha pouco, a menos que pinte
retratos ou conte entre os seus clientes alguns americanos ricos; e homens de reputação
gostam de aumentar os seus rendimentos, visitando uma vez por semana, duas ou três
horas, os numerosos estúdios onde se ensina arte. Terça-feira era o dia em que Michel
ia ao Amitrano. Era homem idoso, de barbas brancas e tez corada; executara para o
governo diversas decorações que se tornavam, no entanto, objecto de mofa para os
seus próprios alunos. Rollin era discípulo de Ingres, impermeável ao progresso da arte
e de uma impaciência colérica no que dizia respeito àquele tas de forceurs que se
chamavam Manet, Degas, Monet e Sisley. Como professor, porém, era excelente:
solícito, cortês, animador. Por outro lado, Foinet que frequentava o estúdio às sextasfeiras,
era homem de trato difícil. Criatura pequena e encarquilhada, de dentes
estragados, aparência biliosa, tinha uma barba branca pouco asseada e olhos selvagens.
A voz era aguda e o tom sarcástico. Vendera alguns quadros para o Luxemburgo e, aos
vinte e cinco anos, entrevira uma grande carreira. O seu talento, porém, provinha antes
da juventude que da personalidade e por isso havia vinte anos não fazia outra coisa
senão reproduzir a paisagem que lhe proporcionara o primeiro triunfo. Quando o
acusavam de monotonia, replicava:
- Corot pintava sempre a mesma coisa. Por que não posso eu fazer o mesmo?
Invejava o êxito dos outros e sentia uma repulsa pessoal e estranha pelos
impressionistas. Atribuía o seu malogro à doida moda que atraía o público - sale bête -
para as obras deles. O desprezo bem-humorado de Michel Rollin, que lhes chamava
impostores, manifestava-se nele na forma de vitupérios, dos quais os menos violentos
eram crapule e canaille. Divertia-se a caluniar-lhes as vidas particulares, atacando, com
um humor sarcástico, com pormenores ultrajantes e obscenos, a legitimidade das suas
filiações e a pureza das suas relações conjugais. Para acentuar o seu desdém grosseiro,
utilizava imagens e uma ênfase orientais. Também não ocultava o desprezo que sentia
pelos estudantes cujos trabalhos examinava. Era, por isso, odiado e temido por eles. O
seu sarcasmo brutal reduzia as mulheres muitas vezes às lágrimas, o que o levava a
ridicularizá-las ainda mais; apesar dos protestos dos alunos que mais sofriam com os
seus ataques, continuava no estúdio, pois não havia dúvida de que era um dos
melhores mestres de Paris. Às vezes, o proprietário da escola, um antigo modelo,
arriscava-se a repreendê-lo, mas a violenta insolência do pintor levava-o por fim a
apresentar desculpas abjectas.
Foi com Foinet que Philip teve o primeiro contacto. O pintor já se encontrava no
estúdio. Percorria a sala, de cavalete em cavalete, acompanhado de Mrs. Otter, a
massière, que interpretava as suas observações para aqueles que não entendessem o
francês. Fanny Price, ao lado de Philip, trabalhava febrilmente. O nervosismo
empalidecera-lhe o rosto e de vez em quando enxugava as mãos na blusa. De repente,
voltou-se para Philip, com ar ansioso que procurou disfarçar, franzindo o sobrolho.
- Acha que está bom? - indagou, indicando o seu trabalho com um movimento de
cabeça.
Philip levantou-se e foi observar de mais perto. Ficou atónito. A rapariga parecia
não ter nenhum sentido da forma; aquilo estava longe de ser desenho.
- Quem me dera desenhar tão bem - respondeu.
- É natural que não possa, ainda agora chegou. Seria de mais esperar que
desenhasse tão bem como eu. Estou aqui há dois anos.
Fanny Price deixava Philip intrigado. A sua presunção era incrível. Já descobrira
que todos, no estúdio, a detestavam cordialmente, e não era de admirar, uma vez que
ela parecia sentir grande prazer em ferir os companheiros.
- Queixei-me de Foinet a Mrs. Otter - disse ela. - Há duas semanas que não olha
para os meus desenhos. Com Mrs. Otter, contudo, só porque é a massière, gasta mais de
meia hora. Afinal de contas, pago tanto com os outros e o meu dinheiro é tão bom
como o deles. Não vejo motivo para que não me dispensem a mesma atenção que aos
outros.
Tornou a segurar o carvão, mas, após uns instantes, pousou-o com um gemido.
- Não posso trabalhar mais. Estou horrivelmente nervosa. Olhou para Foinet, que
se aproximava na companhia de Mrs. Otter. Esta, medíocre, satisfeita, submissa,
ostentava um ar de importância. O artista sentou-se no banco de uma inglesinha
desanimada, que se chamava Ruth Chalice. Tinha esses lindos olhos escuros, lânguidos
mas apaixonados, esse rosto fino, ascético mas sensual, e essa pele cor de marfim velho,
que, sob a influência de Burne-Jones, eram naquela época cultivados pelas raparigas de
Chelsea. Foinet parecia bem-humorado. Não falou muito, mas com traços rápidos e
resolutos de carvão indicou-lhe os erros. Quando ele se levantou, Miss Chalice
exultava de contentamento. O pintor dirigiu-se a Clutton. Philip também começava a
ficar nervoso, mas Mrs. Otter prometera ajudá-lo. Foinet deixou-se ficar um momento
em frente do cavalete de Clutton, mordendo silenciosamente o polegar. De repente,
distraído, cuspiu para a tela o fragmento de pele que arrancara com os dentes.
- Eis uma óptima linha - disse afinal, indicando com o polegar o traço que lhe
agradava. - Você começa a aprender a desenhar.
Clutton não respondeu, apenas olhou o mestre com o seu ar habitual de
sardónica indiferença à opinião do mundo.
- Começo a achar que tem pelo menos vestígios de talento.
Mrs. Otter, que não gostava de Clutton, franziu os lábios. Nada havia de notável
no trabalho do rapaz. Foinet sentou-se e entrou em pormenores técnicos. Mrs. Otter já
estava um tanto cansada de ficar de pé. Clutton nada dizia, inclinava a cabeça de
quando em quando, e Foinet, satisfeito, achava que o estudante compreendia o que ele
dizia e as razões que dava; quase todos os alunos o escutavam com atenção, mas era
claro que nunca o entendiam. Em seguida, Foinet levantou-se e caminhou na direcção
de Philip
- Chegou há dois dias apenas - apressou-se a explicar mrs. Otter. - é um
principiante. Nunca estudou pintura.
- Ça se voit - comentou o mestre. - Vê-se.
Passou adiante e Mrs. Otter murmurou-lhe:
- Esta é a rapariga em quem lhe falei.
Ele olhou para Miss Price, como se ela fosse um animal repelente, e a voz tornouse-
lhe mais áspera.
- A senhora parece achar que eu não lhe dispenso bastante atenção. A massière
comunicou-me a sua queixa. Bem, mostre-me esse trabalho para o qual deseja a minha
atenção.
Fanny Price corou. O sangue, sob a sua pele doentia, parecia ter uma estranha cor
roxa. Sem responder, apontou para o desenho em que trabalhara desde o princípio da
semana. Foinet sentou-se.
- Então, que deseja que eu lhe diga? Que está bom? Não está. Quer que diga que
está bem desenhado? Não está. Quer que diga que tem algum mérito? Não tem. Quer
que mostre o que está errado? Está tudo errado. Quer que diga o que deve fazer com o
seu trabalho? Rasgue-o. Está satisfeita agora?
Miss Price ficou muito branca. Estava furiosa porque tudo aquilo fora dito diante
de Mrs. Otter. Embora estivesse em França havia tanto tempo e compreendesse o
francês bastante bem, mal conseguiu articular duas palavras.
- Não tem o direito de me tratar assim. O meu dinheiro é tão bom como o dos
outros. Pago para que me ensine. Isso não é ensinar.
- Que diz ela? - perguntou Foinet. - Que diz ela?
Mrs. Otter hesitou em traduzir. Miss Price repetiu, num francês execrável:
- Je vous paye pour m’apprendre.
Os olhos do pintor fuzilaram de raiva. Elevando o tom da voz, agitou o punho no
ar.
- Mais, nom de Dieu, eu não posso ensinar-lhe. Seria mais fácil ensinar um camelo.
Voltou-se para Mrs. Otter.
- Pergunte-lhe se estuda por divertimento ou se espera ganhar dinheiro com isto.
- Vou ganhar a minha vida como pintora - respondeu Miss Price.
- Então é meu dever informá-la de que está a perder o seu tempo. Não importaria
que lhe faltasse talento: hoje em dia não se encontram talentos a todas as esquinas. Mas
falta-lhe qualquer aptidão. Há quanto tempo está aqui? Uma criança de cinco anos,
após duas lições, desenharia melhor do que a senhora. Digo-lhe apenas uma coisa:
abandone essa vã tentativa. É mais provável que ganhe a vida como bonne à tout faire
do que como pintora. Veja!
Tomou um pedaço de carvão, que se quebrou quando ele o aplicava sobre o
papel. Praguejou, e, com o toco, traçou grandes linhas firmes. Desenhava rapidamente
e, ao mesmo tempo, cuspia as palavras como se fossem veneno.
- Veja, estes braços não são do mesmo comprimento. Este joelho está grotesco.
Uma criança de cinco anos, é o que digo. Veja, a figura não se apoia nas pernas. E
aquele pé!
A cada palavra o carvão raivoso deixava uma marca, e, num momento o desenho
em que Fanny Price gastara tanto tempo e pusera tanto empenho estava irreconhecível,
numa confusão de linhas e de manchas. Por fim, o mestre atirou o carvão e levantou-se.
- Aceite o meu conselho, mademoiselle, tente a costura.
E, olhando o relógio:
- É meio-dia. À la semaine prochaine, messieurs.
Miss Price reuniu lentamente as suas coisas. Philip esperou que todos saíssem
para dizer-lhe alguma palavra de conforto. A única coisa que lhe ocorreu foi:
- Sinto muito, sinceramente. Que animal é esse homem!
Ela voltou-se para ele furiosa.
- Foi para isso que ficou à espera? Quando precisar da sua simpatia, pedi-la-ei.
Faça o favor de sair do meu caminho.
Retirou-se do estúdio e Philip, encolhendo os ombros, dirigiu-se ao Gravier, para
almoçar.
- Foi bem feito - disse Lawson, quando Philip lhe contou o que acontecera. -
Trapalhona rabugenta!
Lawson era muito sensível à crítica e, para evitá-la nunca ia ao estúdio por
ocasião das visitas de Foinet.
- Não me interessa a opinião que os outros tenham sobre o meu trabalho -
explicou. - Eu próprio sei se está bom ou mau.
- Significa isso que não queres conhecer as más opiniões dos outros a respeito dos
teus trabalhos - emendou Clutton, secamente.
De tarde, Philip resolveu ir ao Luxemburgo, para admirar os quadros.
Atravessando o jardim, viu Fanny Price sentada no seu banco habitual. Sentia-se
magoado pela rudeza com que ela recebera a sua tentativa bem-intencionada de dizer
alguma coisa gentil e passou-lhe pela frente fingindo não a ver. Miss Price levantou-se,
porém, e veio atrás dele.
- Procura evitar-me?
- Não, é claro que não. Julguei apenas que não quisesse ser importunada.
- Aonde vai ?
- Quero ver os quadros de Manet, de que tanto tenho ouvido falar.
- Gostaria que eu fosse consigo? Conheço bastante o Luxemburgo. Poderei
mostrar-lhe uma ou duas coisas boas.
Philip compreendeu que, incapaz de pedir desculpa directamente, ela procurava
remediar a sua falta com aquele oferecimento.
- É muita bondade sua. Teria muito prazer.
- Se prefere ir sozinho, não precisa de aceitar - volveu ela, desconfiada.
- Não, prefiro ir consigo.
Dirigiram-se juntos para a galeria. A colecção Caillebotte fora ultimamente
exposta, oferecendo pela primeira vez ao estudante a oportunidade de examinar à
vontade as obras dos impressionistas. Até então, só fora possível vê-las no Durand-
Ruel, na Rua Lafitte (e o negociante, ao contrário dos seus colegas ingleses, que
assumem para com o pintor uma atitude de superioridade, sentia sempre prazer em
mostrar ao mais maltrapilho dos estudantes o que lhe interessasse ver) ou na sua
residência particular, onde se encontravam quadros de fama mundial; para isso, não
era difícil obter, às terças-feiras, um cartão de ingresso. Miss Price conduziu Philip
directamente à Olympia, de Manet. Ele ficou a olhar para o quadro, num silêncio
atónito.
- Gosta? - perguntou Miss Price.
- Não sei dizer - respondeu ele, desorientado.
- Pode acreditar que é o melhor quadro da galeria, exceptuando-se, talvez, o
retrato que Whistler fez da mãe.
Deu-lhe tempo para contemplar a obra-prima e em seguida conduziu-o a uma
pintura que representava uma estação de caminho de ferro.
- Olhe, aqui está um Monet. - disse ela - é a Gare St. Lazare.
- Mas os carris não são paralelos - observou Philip.
- Que importância tem isso? - perguntou ela, com arrogância.
Philip sentiu-se envergonhado. Fanny Price assimilara a gíria volúvel dos
estúdios e era-lhe fácil impressionar Philip com a extensão dos seus conhecimentos.
Começou a explicar-lhe os quadros, em tom de superioridade, mas não sem
discernimento; mostrava-lhe as intenções dos pintores e o que ele devia notar. Falava a
gesticular com exagero e Philip, para quem tudo quanto ela dizia era novo, ouvia-a
com um interesse profundo, mas perplexo. Até então, adorara Watts e Burne-Jones. O
lindo colorido do primeiro e o desenho afectado do segundo satisfaziam-lhe
inteiramente a sensibilidade estética. O vago idealismo e a insinuação de uma ideia
filosófica, oculta sob os títulos que eles davam aos seus quadros, estavam bastante de
acordo com as funções da arte, segundo as entendera na diligente leitura de Ruskin.
Ali estava, porém, algo totalmente diverso; ali não havia qualquer intenção moral e a
contemplação daquelas telas não induzia a levar uma vida mais elevada e pura. Philip
estava confuso.
Por fim disse:
- Estou quase morto. Acho que não posso absorver nada mais com proveito.
Vamos sair e sentar-nos num dos bancos.
- É melhor não absorver muita arte de uma só vez - respondeu Miss Price.
Quando saíram ele agradeceu-lhe calorosamente, o incómodo a que se dera.
- Oh, não foi nada - disse ela, com certa rispidez. - Sinto prazer nisso. Se quiser,
poderemos ir amanhã ao Louvre e depois ao Durand-Ruel.
- Não sei como agradecer-lhe.
- Não me ache tão estúpida como a maioria dos outros acham.
- Decerto - confirmou ele, sorrindo.
- Julgam que conseguirão afastar-me do estúdio. estão enganados. Continuarei lá
enquanto muito bem entender. O que aconteceu esta manhã foi tudo obra de Lucy
Otter, sei que foi. Sempre me odiou. Imaginou que depois disto eu me fosse embora.
Não duvido de que ela gostasse de que eu fosse. Receia que eu saiba de mais a seu
respeito.
Miss Price contou-lhe uma longa e complicada história, segundo a qual Mrs.
Otter, insípida e respeitável criatura, tinha amores escabrosos. Em seguida falou de
Ruth Chalice, a jovem que Foinet elogiara.
- Já dormiu com todos os rapazes do estúdio. Não é melhor que uma mulher da
rua. E, além disso, é porca. Não toma banho há mais de um mês, posso assegurar.
Philip escutava-a aflito. Já ouvira vários boatos acerca de Miss Chalice, mas era
ridículo supor que Mrs. Otter, vivendo com a mãe como vivia, não fosse virtuosa. A
mulher que caminhava a seu lado, mentindo malignamente horrorizava-o
positivamente.
- Não me importa o que eles dizem. Prosseguirei da mesma forma. Sinto-me uma
artista; o meu íntimo o confirma. Preferiria matar-me a desistir. Não sou a primeira a
quem os outros ridicularizem nas escolas; às vezes, esses é que se revelam os grandes
génios. A arte é a única coisa que me interessa. Estou disposta a dedicar-lhe toda a
minha vida. é questão, apenas, de persistência e vontade de trabalhar.
Descobria motivos baixos em todo aquele que não concordasse com a opinião
que fazia de si própria. Detestava Clutton. Disse que o amigo de Philip não possuía
verdadeiro talento: era apenas insípido e superficial. Era incapaz de desenhar uma
figura. Quanto a Lawson:
- Um pequeno idiota, com aqueles cabelos ruivos e aquelas sardas. Tem tanto
medo de Foinet que não lhe deixa ver os seus trabalhos. Pelo menos, não acontece isso
comigo, não é assim? Pouco me importa o que Foinet diga a meu respeito. Sei que sou
uma verdadeira artista.
Chegaram à rua onde ela morava, e Philip com um suspiro de alívio, deixou-a.
XLIV
Todavia, quando no domingo seguinte, Miss Price se ofereceu para o
acompanhar ao Louvre, Philip aceitou. Ela mostrou-lhe a Mona Lisa. Philip sentiu
ligeira decepção, mas como lera até as decorar as frases buriladas com que Walter Pater
enriqueceu em beleza a mais famosa tela do mundo, repetiu-as agora para Miss Price.
- Isso é simples literatura - disse ela, desdenhosamente. - é preciso que se liberte
dessas coisas.
Mostrou-lhe os quadros de Rembrandt e fez comentários adequados a cada um
deles. Postou-se em frente dos Discípulos de Emaús.
- Quando conseguir sentir a beleza disto, entenderá algo de pintura - disse ela.
Mostrou-lhe a Odalisca e A fonte, de Ingres. Fanny Price era um guia autoritário
e não deixava Philip observar a seu bel-prazer aquilo de que gostava, antes procurava
forçá-lo a admirar as coisas que ela pessoalmente admirava. Levava o seu estudo de
arte extremamente a sério. Quando Philip, ao passar por uma das janelas da galeria,
avistou o jardim das Tulherias, garrido, cheio de sol e urbano como um quadro de
Rafael, exclamou:
- Olhe, que maravilha! Paremos aqui um instante.
Ela replicou, com indiferença:
- Sim, é verdade, mas nós viemos aqui para admirar os quadros.
O ar outonal, tão leve e vivaz, enchia Philip de bem-estar. E, quando, já por volta
do meio-dia, se acharam no grande pátio do Louvre, sentiu vontade de gritar, como
Flanagan: «A arte que vá para o inferno!»
- Vamos comer juntos alguma coisa, num dos restaurantes do Boul. Mich. -
sugeriu ele.
Miss Price lançou-lhe um olhar desconfiado.
- O almoço espera-me em casa - respondeu.
- Isso não vem ao caso. Pode comê-lo amanhã. Deixe-me oferecer-lhe o almoço.
- Não sei por que faz tanto empenho.
- Sentiria grande prazer nisso - volveu ele, sorrindo.
Atravessaram o rio; na esquina do boulevard St. Michel encontraram um
restaurante.
- Entremos neste.
- Não, neste não. Parece muito luxuoso.
Ela continuava a caminhar decididamente e Philip foi obrigado a segui-la. Poucos
passos adiante, descobriram um restaurante mais pequeno, onde uma dúzia de pessoas
já se achava a almoçar debaixo de um toldo, na calçada. Por cima da janela havia um
anúncio em grandes letras brancas: Déjeuner 1,25, vin compris.
- Não podemos encontrar coisa mais barata do que isto, e o aspecto não é nada
mau.
Instalaram-se numa mesa vaga e esperaram pela omelette, que era o primeiro
prato da lista. Philip deliciava-se a admirar os transeuntes. Sentia-se cheio de afeição
por eles. Estava cansado mas bastante feliz.
- Olhe aquele homem de blusa. Não acha magnífico?
Voltou-se para Miss Price, mas verificou com surpresa que ela baixara a cabeça
para o prato, alheia ao que se passava na rua, enquanto duas teimosas lágrimas lhe
rolavam pelo rosto.
- Que aconteceu? - exclamou ele.
- Se me disser uma única palavra, vou-me embora imediatamente - respondeu
Miss Price.
Philip estava perplexo, mas por felicidade a omelette chegou nesse momento.
Dividiu-a em duas partes e começaram a comer. Philip fazia o possível por falar de
coisas indiferentes, e notava certo esforço em parecer agradável, por parte de Miss
Price; o almoço, porém, não foi o que se esperava. Philip era muito delicado à mesa, e o
modo de comer de Miss Price tirou-lhe o apetite. Comia ruidosamente, com
sofreguidão, um tanto como um animal selvagem na jaula, e após cada serviço
esfregava o prato com pedaços de pão até vê-lo brilhar, como se não quisesse perder
uma só gota de molho. Veio queijo Camembert, Philip notou com repugnância que ela
devorava com casca e tudo o bocado que lhe fora dado. Se estivesse a morrer de fome
não comeria com maior voracidade.
Miss Price era incompreensível. Despediam-se um dia como amigos e, no dia
seguinte, aparecia-lhe rabugenta e descortês. Philip, porém, aprendeu muita coisa com
ela. Embora não soubesse desenhar bem, ela conhecia tudo o que se pode ensinar e as
suas constantes sugestões auxiliavam-lhe o progresso. Mrs. Otter também procurava
ser-lhe útil e às vezes Miss Chalice criticava-lhe os trabalhos. Philip tirava partido, ao
mesmo tempo, da volúvel loquacidade de Lawson e do exemplo de Clutton. Mas
Fanny Price não queria que ele aceitasse sugestões de outra pessoa que não ela e
quando, depois de conversar com alguém, ele lhe pedia auxílio, ela recusava-o com
rudeza brutal. Os outros rapazes, Lawson, Clutton, Flanagan, troçavam dele por isso.
- Toma cuidado, rapaz - diziam eles - ela está apaixonada por ti.
- Ora, deixem-se de tolices - respondia Philip, a rir.
Julgava absurda a ideia de que Miss Price pudesse apaixonar-se por alguém.
Tremia ao pensar na sua deselegância, nos cabelos desgrenhados, nas mãos sujas, no
infalível vestido pardo, já cheio de nódoas e desfiado na bainha. Era pobre, sem
dúvida, mas todos ali eram pobres, e ela podia pelo menos andar limpa; uma agulha e
um pedaço de linha seriam suficientes para lhe consertar a saia.
Philip começara a analisar as suas impressões sobre as pessoas com quem
entrava em contacto. Já não era tão ingénuo como naqueles dias, que pareciam agora
tão distantes, de Heidelberga; e, como começasse a sentir um interesse mais deliberado
pela humanidade, inclinava-se a criticar e examinar. Após três meses de convivência,
achava difícil conhecer melhor Clutton do que no dia em que se encontraram pela
primeira vez. A opinião geral, no estúdio, era de que o rapaz possuía talento; supunhase
que ele chegaria a fazer grandes coisas, e ele participava da opinião geral; mas de
que coisas exactamente se tratava, era o que ninguém sabia, nem ele próprio. Estudara
em diversos estúdios, antes de ingressar no Amitrano: no Julian, no Belas-Artes, no
Mac-Pherson. Permanecia no Amitrano há mais tempo do que em qualquer dos outros,
porque ali o deixavam mais entregue a si próprio. Não gostava de mostrar os seus
trabalhos e, ao contrário da maioria dos rapazes que estudam arte, não pedia nem dava
conselhos a ninguém. Dizia-se que, no pequeno estúdio da Rue Campagne Première,
que lhe servia também de alcova, possuía quadros admiráveis, que fariam a sua
reputação se pudessem convencê-lo a que os exibisse. Como não tinha dinheiro para
pagar um modelo, pintava naturezas-mortas: Lawson referia-se com frequência a uma
bandeja com maçãs que considerava uma obra-prima. Clutton era insusceptível de
contentar; como almejava algo que o seu espírito não apreendia bem, o seu trabalho,
em conjunto, nunca o satisfazia. Talvez lhe agradasse uma parte: o antebraço ou a
perna e o pé de uma figura; um copo ou uma chávena, numa natureza-morta. Cortava
esses pedaços e destruía o resto da tela. Assim, quando alguém manifestava o desejo
de lhe admirar os trabalhos, ele afirmava, sem faltar à verdade, não possuir um único
quadro. Na Bretanha, conhecera um pintor de que ninguém jamais ouvira falar,
esquisito indivíduo que fora corretor e resolvera estudar pintura quando já de meiaidade.
Clutton deixara-se influenciar grandemente pelos quadros desse pintor. Voltava
as costas, agora, aos impressionistas, procurando penosamente desenvolver um
processo individual, não apenas de pintar mas também de ver. Philip sentia nele
qualquer coisa de estranhamente original.
No Gravier, onde tomavam as refeições, e, à noite, no Versailles ou na Closerie
des Lilas, Clutton era propenso a mostrar-se taciturno. Permanecia sentado, com uma
expressão sarcástica no rosto magro, e só falava quando se apresentava oportunidade
para um dito espirituoso. Gostava de duelos verbais e a sua maior alegria era quando
encontrava alguém a quem pudesse alvejar com o seu sarcasmo. Falava quase
exclusivamente em pintura e isso apenas com uma ou duas pessoas que julgava
valerem a pena. Philip punha-se a reflectir se haveria, realmente, algum talento em
Clutton: a sua reserva, o aspecto macilento, o humorismo acerbo pareciam sugerir
personalidade, mas podiam nada mais ser do que uma máscara eficiente a cobrir coisa
nenhuma.
Com Lawson, ao contrário, Philip ganhou logo intimidade. O rapaz tinha uma
variedade de interesses que fazia dele um companheiro agradável. Lia mais do que os
outros estudantes, e, embora o seu rendimento fosse pequeno, gostava de comprar
livros. Emprestava-os de boa vontade. Foi assim que Philip travou conhecimento com
Flaubert, Balzac, Vérlaine, Heredia e Villiers de L'Isle Adam. Iam juntos ao teatro e às
vezes às galerias da ópera Cómica. O Odeon estava ali bem perto e Philip não tardou a
participar da admiração do amigo pelos autores trágicos de Luís XIV e pelo sonoro
alexandrino. Na rua Taitbout, havia os Concerts Rouges, onde, por setenta e cinco
cêntimos, ouviam excelente música e bebiam alguma coisa que não era de todo
intragável; as cadeiras eram incómodas, a casa estava apinhada de gente e o ar
impregnado do fumo de um horrível caporal irrespirável, mas o seu entusiasmo jovem
tornava-os indiferentes a tudo. Frequentavam também, às vezes, o Bal Bullier. Nessas
ocasiões, Flanagan acompanhava-os. A facilidade com que se exaltava e o seu
entusiasmo turbulento provocavam o riso dos companheiros. Dançava muito bem e,
dez minutos depois de entrarem no salão, já estava a rodopiar com alguma caixeirinha
que acabara de conhecer naquele momento.
O desejo de todos eles era possuir uma amante. Isso fazia parte dos apetrechos
do estudante de arte em Paris. Conferia consideração, aos olhos dos companheiros e
era algo de que se vangloriar. Quase não dispunham, porém, do suficiente para se
sustentarem a si próprios, e, embora argumentassem que as mulheres francesas,
devido à sua grande habilidade, eram muito fáceis de manter, dificilmente
encontravam raparigas que concordassem com aquelas circunstâncias. Tinham, na
maior parte, de contentar-se em invejar e difamar as mulheres que recebiam protecção
de pintores de reputação mais bem firmada do que a deles. Era extraordinária a
dificuldade de conseguir essas coisas em Paris. às vezes, ao conhecer uma pequena,
Lawson marcava um encontro. Nas vinte e quatro horas que se seguiam, descrevia-lhe
os encantos, entusiasmado, a toda a gente que encontrava. Na hora aprazada, porém,
ela nunca aparecia. Chegava ao Gravier muito atrasado, mal-humorado, e exclamava:
- Diabos as levem! Por que será que elas não gostam de mim? Talvez seja porque
não falo bem o francês ou por causa dos meus cabelos ruivos. é triste passar mais de
um ano em Paris sem arranjar coisa alguma.
- Não sabes como se faz - dizia Flanagan.
Tinha uma longa lista de triunfos a narrar, e embora os amigos não acreditassem
em tudo quanto dizia, a evidência obrigava-os a convir que nem tudo era mentira. Mas
ele não procurava uma ligação permanente. Estava em Paris havia dois anos.
Persuadira a família a deixá-lo estudar arte em lugar de enviá-lo para a Universidade;
no entanto, uma vez terminado esse período de estudos, devia voltar a Seattle e tornarse
sócio do pai. Resolvera, pois, divertir-se quanto possível em Paris e por isso preferia
a variedade à duração, nas suas ligações amorosas.
- Não sei como consegues apanhá-las - dizia Lawson, furioso.
- Não há dificuldade alguma, meu filho - respondia Flanagan. - Basta a gente
querer. A dificuldade está em livrar-se delas. aí é que é preciso tacto.
Philip vivia por de mais ocupado com o seu trabalho, os livros a cuja leitura se
dedicava, as peças a que assistia, as conversas que escutava, para se preocupar com a
necessidade do convívio feminino. Dizia consigo que teria muito tempo para isso
quando falasse o francês mais fluentemente.
Havia mais de um ano que se separara de Miss Wilkinson. Durante as primeiras
semanas em Paris, estivera muito ocupado para responder a uma carta que ela
escrevera pouco antes da sua partida de Blackstable. Ao receber outra missiva,
sabendo-a cheia de censuras e reprovações, pô-la de parte porque, no momento, não
estava com disposição para tais coisas, e só um mês depois a encontrou, quando
remexia numa gaveta, à procura de um par de meias sem buracos. A carta fechada
perturbou-o profundamente. Temia que Miss Wilkinson tivesse sofrido muito por sua
causa, chegou mesmo a considerar-se um brutamontes. Contudo, era possível que ela
já tivesse deixado de sofrer; de qualquer forma, o pior já passara. Afigurava-se-lhe que
as mulheres eram muitas vezes exageradas nas suas expressões. Estas não significam
tanto como quando são empregadas pelos homens. Tomara a resolução de não voltar a
vê-la. Já que passara tanto tempo sem escrever, não valeria a pena fazê-lo agora.
Resolveu não ler a carta.
- Acho que ela não escreverá mais - disse consigo mesmo. - Não pode deixar de
compreender que tudo está acabado. Afinal de contas, tinha idade suficiente para ser
minha mãe. Devia ter pensado melhor.
Sentiu-se um pouco inquieto, por uma ou duas horas. A sua atitude era
evidentemente a preferível, mas aquilo tudo não deixava de lhe causar um sentimento
de desgosto. Miss Wilkinson, porém, não tornou a escrever; nem tão-pouco apareceu
subitamente em Paris, como ele temia, para expô-lo ao ridículo perante os amigos.
Dentro em pouco, esqueceu-a por completo.
Entretanto, renegara definitivamente os seus antigos deuses. O espanto com que,
pela primeira vez, contemplara os quadros dos impressionistas transformou-se em
admiração. Já discorria com o mesmo ardor dos outros sobre os méritos de Manet,
Monet e Degas. Comprou duas fotografias: uma de um desenho da Odalisca, de Ingres,
e outra da Olympia. Estavam ambas pregadas na parede, acima do lavatório, de
maneira que pudesse admirar-lhes a beleza enquanto se barbeava. Agora, tinha a
certeza de que, antes de Monet, não existira a pintura de paisagens. Grande comoção o
dominava ao postar-se diante dos Discípulos de Emaús, de Rembrandt, ou da Dama do
nariz picado pelas pulgas, de Velasquez. Não era esse o verdadeiro nome do quadro,
mas designavam-no assim, no Gravier, para salientar a beleza da obra, mau grado as
características um tanto desagradáveis do modelo. Ao desprezar Ruskin, Burne-Jones e
Watts, Philip descartou-se também do seu chapéu de coco e da gravata azul com pintas
brancas que usava ao chegar a Paris. Agora, ostentava um chapéu mole, de abas largas,
gravata preta de pintor e uma capa de corte romântico. Andava pelo Boulevard
Montparnasse como se o conhecesse desde a infância, e, à custa de virtuosa
perseverança aprendeu a beber absinto sem repugnância. Deixara crescer o cabelo e só
não tentou a barba, porque a Natureza é cruel e não tem a menor consideração pelos
imortais anseios da juventude.
XLV
Em pouco tempo, Philip verificou que o espírito que animava os seus amigos era
o de Cronshaw. Era dele que Lawson obtinha os seus paradoxos e até mesmo Clutton,
que primava por ter individualidade, expressava-se em termos insensivelmente
adquiridos do companheiro mais velho. Eram suas as ideias que trocavam à mesa e
todas as opiniões se baseavam na sua autoridade. Para compensar o respeito com que
inconscientemente o tratavam, riam-se das suas fraquezas e lamentavam os seus vícios.
- É claro que o pobre do Cronshaw nunca fará coisa que preste - diziam eles. -
Esse não tem remédio.
Sentiam-se orgulhosos por serem os únicos a apreciar-lhe o génio. E, embora,
com o desprezo que a juventude vota às loucuras da meia-idade, falassem dele com
certa superioridade, quando juntos, cada um deles não deixava de considerar um título
de glória o facto de ter sido o único a ouvir-lhe, em determinada ocasião, o verbo
maravilhoso. Cronshaw nunca ia ao Gravier. Nos últimos quatro anos, vivera em
sórdidas condições com uma mulher que só Lawson vira certa vez, num pequeno
alojamento do sexto andar de um dos mais desmantelados edifícios do Quai des
Grands Augustins. Lawson descrevia com grande satisfação a desordem e a porcaria, o
desmazelo.
- E o cheiro era tal que quase rebentava a cabeça da gente.
- Olha que estamos a jantar, Lawson - reclamou um dos outros.
Mas Lawson não quis privar-se do prazer de enumerar pitorescamente os odores
que lhe tinham chegado às narinas. Deleitado pelo seu próprio realismo, descreveu, em
seguida, a mulher que lhe viera abrir a porta. Era pequena e gorda, ainda muito nova,
tinha a pele escura e cabelos pretos que constantemente estavam a desmanchar-se. Não
usava corpete; vestia apenas uma blusa velha e pouco asseada. Com as faces
vermelhas, a boca rasgada e sensual, os olhos brilhantes e lascivos, fazia lembrar a
Bohémienne, de Franz Hals, que está no Louvre. Era de uma vulgaridade ostentosa, que
divertia e, contudo, horrorizava. Uma criança enfezada e suja brincava no soalho.
Todos sabiam que a porca enganava Cronshaw com os mais desprezíveis pulhas do
Bairro Latino. Os ingénuos rapazes que absorviam a sabedoria de Cronshaw em redor
de uma mesa de café não compreendiam como podia ele, com toda a sua
intelectualidade e a sua paixão pela beleza, ligar-se a semelhante criatura. Mas ele
parecia divertir-se com a grosseira linguagem dela e, não raro, usava ele próprio
expressões saídas da sarjeta. Referia-se a ela, ironicamente, como la fille de mon
concierge. Cronshaw era muito pobre. Mal ganhava o sustento com as notas que
escrevia, sobre exposições de pintura, para um ou dois jornais ingleses, e traduzia
bastante. Pertencera à redacção de um jornal inglês em Paris, mas fora despedido por
embriaguez; continuava, porém, a colaborar no mesmo periódico, descrevendo os
leilões do Hôtel Drouot ou as revistas dos teatros de variedades. A vida de Paris
penetrara-lhe nos ossos. Seria incapaz de trocá-la, com toda a sua sordidez, penúria e
dificuldade, por qualquer outra do mundo. Permanecia na cidade o ano inteiro, mesmo
no Verão, quando todos os seus conhecidos arribavam, e só se sentia à vontade dentro
do raio de uma milha à volta do Boulevard St. Michel. O curioso é que nunca
aprendera a falar francês razoavelmente e conservava, nas suas roupas usadas,
adquiridas na La Belle Jardinière, uma indelével aparência inglesa.
Era um homem que teria alcançado êxito na vida século e meio antes, quando a
conversação era um passaporte para as boas relações e o vício da bebida não constituía
obstáculo algum.
- Eu devia ter vivido no século XVIII - dizia ele próprio. - O que preciso é de um
protector. Os meus poemas seriam publicados por subscrição e dedicados a um nobre
qualquer. Sinto irresistível desejo de compor inspiradas quadras sobre o totó de uma
condessa. A minha alma suspira pelo amor de camareiras e pela conversa de bispos.
Citava o romântico Rolla:
- j’e suis venu trop tard dans un monde trop vieux.
Gostava de caras novas e simpatizou muito com Philip, que parecia preencher o
difícil requisito de falar o suficiente para sugerir um assunto de conversa, mas não
tanto que impedisse o monólogo. Philip sentiu-se cativado. Não notava que pouco do
que Cronshaw dizia era novo. A sua personalidade, na conversação, possuía um
curioso poder. Tinha a voz sonora e bela e uma maneira de expor as coisas que era
irresistível para os jovens. Tudo quanto dizia fazia pensar, e muitas vezes, a caminho
de casa, Lawson e Philip andavam da pensão de um para a do outro, a discutir algum
assunto sugerido por uma observação casual de Cronshaw. Foi desconcertante para
Philip - que tinha juvenil sofreguidão pelos resultados concretos - verificar que a poesia
de Cronshaw mal correspondia à expectativa. Nunca fora publicada em volume, mas a
maior parte dela aparecera em jornais e revistas. Depois de muita relutância, Cronshaw
trouxe um maço de páginas destacadas de The yellow Book, The Saturday Review e outras
publicações, com um poema em cada uma. Philip ficou estupefacto ao notar que quase
todos esses poemas lembravam Henley ou Swinburne. Só eram de Cronshaw quando
ele próprio os declamava com a sua voz esplendorosa. Philip transmitiu a sua
decepção a Lawson que, irreflectidamente, repetiu ao autor as palavras do amigo. No
dia seguinte, quando Philip foi à Closerie des Lilas, o poeta voltou-se para ele com seu
sorriso macio:
- Soube que não formula lisonjeira opinião dos meus versos.
Philip sentiu-se embaraçado.
- Não é bem isso - respondeu. - Gostei muito de os ler.
- Não procure poupar a minha susceptibilidade - retorquiu Cronshaw, com um
gesto da mão gorda. - Não dou uma importância exagerada aos meus trabalhos
poéticos. A vida aí está para ser vivida e não para que escrevamos a seu respeito. O
meu objectivo é procurar as múltiplas experiências que ela oferece, arrancando a cada
momento toda a comoção que ela apresenta. Considero os meus escritos como uma
graciosa habilidade que, ao invés de absorver a existência, lhe acrescenta prazer. E
quanto à posteridade, que o diabo a carregue!
Philip sorriu, pois entrava pelos olhos que esse artista não produzira na vida
mais do que um mísero borrão. Cronshaw fitou-o meditativamente e encheu o copo.
Pediu, depois, ao criado que lhe trouxesse um maço de cigarros.
- Você acha graça ouvir-me falar assim, quando sabe que sou pobre e vivo numa
água-furtada em companhia de uma fêmea vulgar que me engana com cabeleireiros e
garçons de café. Traduzo livros miseráveis para o público inglês e escrevo artigos a
respeito de quadros desprezíveis que nem ao menos condenados merecem ser. Mas
faça o favor de me dizer: qual é o sentido da vida?
- Ora, a pergunta é bastante difícil. Por que não lhe responde o senhor?
- Não, porque isso é inútil, a menos que a gente o descubra por si próprio. Para
que supõe que está no mundo?
Philip nunca pensara nisso e meditou um momento, antes de responder.
- Oh, não sei! Penso que estamos aqui para cumprir o nosso dever, fazer o melhor
uso possível das nossas faculdades e evitar magoar os outros.
- Em resumo: não faças a outrem o que não queres que te façam, não é assim?
- Creio que sim.
- Cristianismo.
- Não, não é - protestou Philip, indignado. - Isso nada tem que ver com o
cristianismo. é apenas moral abstracta.
- Moral abstracta é coisa que não existe!
- Nesse caso, suponha que, ao sair daqui, sob a influência da bebida, esquecia a
sua bolsa sobre a mesa e eu a apanhava: por que razão acha que eu lha restituiria ? Não
por medo da polícia.
- Seria o temor ao inferno, se você pecasse, e a esperança no Céu, se fosse justo.
- Mas não acredito em nenhum.
- Talvez. Kant também não acreditava, ao conceber o Imperativo Categórico.
Você renegou um credo, mas conservou a ética desse credo. é ainda um cristão, para
todos os efeitos, e se existir um Deus no Céu, receberá sem dúvida a recompensa. O
Todo-Poderoso não pode ser tão tolo como as igrejas o apresentam. Desde que obedeçamos
às Suas leis, não me parece que Ele ligue importância ao facto de acreditarmos
ou não n’Ele.
- Mas se eu esquecesse aqui a minha carteira tenho a certeza de que ma restituiria
- disse Philip.
- Não por motivos de moral abstracta, mas somente por medo da Polícia.
- As probabilidades de a Polícia descobrir o furto seriam de um para mil.
- Os meus antepassados viveram tanto tempo uma existência civilizada que o
medo da Polícia me impregnou os próprios ossos. A filha do meu concierge não
vacilaria um só momento. Responderá, naturalmente, que ela pertence às classes
criminosas. Nada disso. Ela está, apenas, isenta dos preconceitos vulgares.
- Nesse caso, vão por água abaixo a honra, a virtude, a bondade, a decência, tudo,
enfim - observou Philip.
- Já alguma vez cometeu um pecado?
- Não sei, mas suponho que sim. - respondeu Philip.
- Fala pela boca de um ministro dissidente. Eu nunca cometi pecado algum.
Metido no seu sujo casacão, a gola voltada para cima, o chapéu enterrado na
cabeça, com o rosto rechonchudo e vermelho e os pequeninos olhos cintilantes,
Cronshaw parecia extraordinariamente cómico. Mas Philip levava a coisa demasiado a
sério para rir.
- Nunca praticou nada de que se arrependesse?
- Como poderia arrepender-me de praticar um acto inevitável? - perguntou
Cronshaw, em resposta.
- Mas isso é fatalismo.
- A ilusão nutrida pelo homem de que a sua vontade é livre tem raízes tão
profundas que estou pronto a aceitá-la. Procedo como se fosse um agente livre. Mas,
quando um acto se realiza, está claro que todas as forças do Universo, desde a
eternidade, conspiraram para motivá-lo e nada que eu pudesse fazer o impediria. Era
inevitável. Se foi bom, não me posso arrogar mérito algum; se foi mau, não posso
aceitar censuras.
- Tenho a cabeça à roda - disse Philip.
- Beba um gole de whisky - redarguiu Cronshaw, passando-lhe a garrafa. - Não
há nada melhor do que whisky para clarear as ideias. É natural que você tenha o
espírito lerdo, uma vez que insiste em beber cerveja.
Philip meneou a cabeça e Cronshaw continuou:
- Você não é mau rapaz, mas não quer beber. A sobriedade perturba a
conversação. Quando falo a respeito do bem e do mal... - Philip notou que ele retomava
o fio do discurso. - ...falo convencionalmente. Não atribuo significado algum a essas
palavras. Ninguém me induzirá a instituir uma hierarquia de acções humanas, dando
dignidade a umas e vituperando outras. Os termos vício e virtude não possuem
sentido algum para mim. Não louvo nem censuro. Aceito. Sou a medida de todas as
coisas. Sou o centro do Mundo.
- Mas existem outras pessoas no Mundo - objectou Philip.
- Falo apenas por mim. Só me apercebo dessas outras pessoas na medida em que
elas limitam as minhas actividades. O Mundo também gira em torno delas, e cada uma
julga ser o centro do Universo. Os meus direitos sobre elas não vão além do alcance da
minha força. O que posso fazer é o limite do que devo fazer. Somos gregários, e por
isso vivemos em sociedade. E a sociedade conserva-se unida por meio da força, a força
das armas (isto é, a Polícia) e a força da opinião pública (isto é, Mrs. Grundy)
(Personagem de uma comédia de Morton {séc. XVIII}, que ficou simbolizando a tacanhez da voz
pública (N. do T.). De um lado, tem a sociedade; do outro, o indivíduo: cada um deles é
um organismo que luta pela própria conservação. É a força contra a força. Eu encontrome
só, obrigado a aceitar a sociedade, o que faço de bom grado, uma vez que ela, em
troca dos impostos que pago, me protege a mim, um fraco, contra a tirania de pessoas
mais fortes do que eu. Mas submeto-me às suas leis porque sou compelido a isso. Não
lhe reconheço a justiça; reconheço apenas a força. E, depois de pagar uma taxa para que
a Polícia me proteja e, se eu viver num país onde o recrutamento militar for
obrigatório, depois de servir no Exército que guarda a minha casa e a minha terra
contra o invasor, estou quite com a sociedade. Quanto ao mais, contrabalanço a sua
força com a minha astúcia. Ela cria leis que visam a sua própria conservação, e se eu as
violar sou morto ou encarcerado. A sociedade tem o poder de fazer isso, e, por
conseguinte, o direito. Se eu violar as leis, aceitarei a vingança do Estado, mas não a
considerarei um castigo nem tão-pouco me julgarei culpado. A sociedade procura
atrair-me para o seu serviço, acenando-me com honrarias, riquezas e o bom conceito
dos meus semelhantes. Sou, porém, indiferente à opinião deles. Desprezo as honrarias
e posso muito bem dispensar a riqueza.
- Mas, se todos pensassem assim, tudo ruiria num instante.
- Nada tenho que ver com os outros. Só me ocupo comigo mesmo. Tiro proveito
do facto de que a maior parte da humanidade é levada, com mira nas recompensas, a
realizar coisas que, directa ou indirectamente, me beneficiam.
- Considero esse um modo extremamente egoísta de encarar as coisas - disse
Philip.
- Julga, por acaso, que o homem seja capaz de fazer alguma coisa, a não ser por
motivos egoístas?
- Sim, Julgo.
- É impossível que assim seja. Quando for mais velho, compreenderá que a coisa
mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável
egoísmo da humanidade. é absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que
sacrificariam eles os seus desejos aos nossos? Quando quiser compreender que cada
um, no Mundo, se preocupa apenas consigo próprio, exigirá menos dos seus
semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os
homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer.
- Não, não, não! - exclamou Philip.
Cronshaw riu por entre dentes.
- Empina-se como um potro amedrontado, só porque usei uma palavra a que o
seu cristianismo atribui um significado depreciativo. Vocês possuem uma hierarquia
de valores, e o prazer está colocado muito baixo. No entanto, fala, com um pequeno
arrepio de satisfação, em dever, caridade. Pensa existir apenas o prazer dos sentidos.
Os infelizes escravos que fabricaram a sua moral desprezaram uma satisfação que
dificilmente poderiam gozar. Não se mostraria tão alarmado se eu, em vez de falar
sobre o prazer, falasse sobre a felicidade. A palavra é menos chocante e transporta-o,
em pensamento, da pocilga de Epicuro para o seu jardim. Falarei, contudo, do prazer,
pois vejo que é a ele que os homens aspiram, e nada me prova que aspirem à
felicidade. é o prazer que se oculta por trás de todas as virtudes que praticamos. O
homem pratica acções porque são boas para ele; e, quando são boas para os outros,
também são considerados virtuosos. Se encontrar prazer em dar esmolas, é caridoso; se
lhe agrada auxiliar os outros, é benevolente; se experimenta satisfação em trabalhar em
prol da sociedade, é um filantropo. Mas você visa apenas um prazer individual,
quando dá uma moeda a um mendigo, assim como eu viso unicamente um prazer
pessoal quando bebo whisky com soda. Eu, que sou menos hipócrita do que você, não
me aplaudo a mim mesmo para meu prazer, nem solicito a sua admiração.
- Mas nunca conheceu pessoas que praticassem actos de que não gostassem?
- Não. A sua pergunta é tola. Quer dizer que às vezes as pessoas aceitam uma dor
imediata, de preferência a um prazer imediato. A objecção é tão tola como o modo por
que se exprimiu. é certo que os homens aceitam, em vez de um prazer imediato, uma
dor imediata, mas isso unicamente porque esperam gozar, no futuro, um prazer maior.
Muitas vezes o prazer é ilusório, mas esse erro de cálculo não implica refutação da
regra geral. Você está contuso porque imaginava que os prazeres fossem apenas
sensuais. Mas, meu filho, um homem que morre pela pátria, morre porque sente prazer
nisso, da mesma forma que um homem come picles porque os aprecia. é uma lei da
criação. Se fosse possível ao homem preferir a dor ao prazer, a raça humana já estaria
extinta há muito tempo.
- Mas se tudo isso for verdade - exclamou Philip - qual é a utilidade de tudo? Se
excluirmos o dever, a bondade e a beleza, por que vimos ao mundo?
- Aí vem o maravilhoso Oriente para sugerir uma resposta - volveu Cronshaw,
sorrindo.
E apontou para duas pessoas que, naquele momento, abriam a porta do café e
entravam, trazendo consigo uma lutada de ar frio. Eram levantinos, vendedores
ambulantes de tapetes ordinários, e cada um deles sobraçava uma trouxa. Era noite de
domingo e o café estava repleto. Os vendedores caminhavam por entre as mesas e, na
atmosfera pesada do salão impregnado de fumo, saturado de humidade, pareciam
introduzir uma nota de mistério. Trajavam fatos europeus gastos, com os leves
casacões já no fio, mas ambos usavam fez. Os seus rostos estavam pálidos de frio. Um
deles era de meia-idade, de barba negra; o outro, porém, era um rapaz de dezoito anos,
em cujo rosto a varíola deixara profundas cicatrizes, e tinha só um olho. Passaram
perto de Cronshaw e de Philip.
- Alá é grande e Maomé é o seu profeta - disse Cronshaw, solenemente.
O mais velho avançou, com um sorriso servil, como um cão vadio, habituado às
pancadas. Olhou a furto para a porta e, num movimento rápido e sub-reptício, mostrou
uma gravura pornográfica.
- És Másser Edine, o mercador de Alexandria, ou será da longínqua Bagdade que
trazes as tuas mercadorias, ó meu tio? E esse mancebo de um olho só, verei nele um
dos três reis a respeito de quem Scheherazade contava histórias ao seu senhor?
O sorriso do vendedor tornou-se ainda mais insinuante, embora não
compreendesse uma palavra do que Cronshaw lhe dizia. Como um mágico, fez surgir
uma caixa de sândalo.
- Não, mostra-nos a preciosa trama dos teares orientais - acudiu Cronshaw - pois
quero apontar uma moral e ilustrar uma fábula.
O levantino desdobrou uma toalha de mesa, vermelha e amarela, vulgar,
medonha e grotesca.
- Trinta e cinco francos - disse ele.
- Oh, meu tio! Esse pano não conheceu os tecelões de Samarcanda, nem essas
cores saíram das tinas de Bucara.
- Vinte e cinco francos - sussurrou o vendedor, obsequiosamente.
- Sim, foi manufacturado na última Tule, talvez Birmingham, minha cidade natal.
- Quinze francos - baixou o homem de barba negra.
- Some-te, amigo - disse Cronshaw.- E que os asnos selvagens conspurquem o
túmulo de tua avó materna.
Imperturbável, mas já sem sorrir, o levantino passou com as suas mercadorias
para outra mesa. Cronshaw voltou-se para Philip.
- Já esteve alguma vez no museu de Cluny? Pois verá lá tapetes persas de matiz
delicado e de um padrão cujas linhas belas e intrincadas deliciam e assombram os
olhos. Neles verá o mistério e a beleza sensual do Oriente, as rosas de Hafiz e a taça em
que bebia Omar. Mas, dentro em pouco, verá mais do que isso. Ainda há pouco me
perguntava qual o significado da vida. Vá olhar esses tapetes persas e qualquer dia
obterá a resposta.
- O senhor está misterioso - disse Philip.
- Estou embriagado - respondeu Cronshaw.2
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XLVI
Philip não achou a vida em Paris tão barata como lhe tinham feito acreditar e em
Fevereiro já gastara quase todo o dinheiro com que chegara. O seu orgulho não lhe
permitia apelar para o tutor e, ao mesmo tempo não queria que a tia Louise tivesse
conhecimento dos seus apuros. Tinha a certeza, neste último caso, de que ela
procuraria enviar-lhe algum auxílio da sua própria bolsa e sabia quão magros eram os
seus recursos. Dentro de três meses, atingiria a maioridade e entraria na posse da sua
pequena fortuna. Arranjou-se durante esse período vendendo os poucos objectos que
herdara do pai.
Por essa época, Lawson sugeriu alugarem um pequeno atelier que se encontrava
vago, numa das ruas que davam para o Boulevard Raspail. Era muito barato. Tinha um
pequeno anexo, que poderia ser utilizado como quarto de dormir. E, como Philip
frequentava a escola todas as manhãs, Lawson ficaria com o atelier à sua inteira
disposição durante esse tempo. Depois de andar de escola em escola, Lawson chegara à
conclusão de que seria melhor trabalhar só, e por isso propôs contratarem um modelo
para posar três ou quatro vezes por semana. A princípio, Philip hesitou, por causa da
despesa, mas fizeram as contas e pareceu-lhes que o custo não seria muito maior do
que o de morar num hotel. Estavam tão ansiosos por ter um estúdio próprio que
fizeram cálculos optimistas. Embora o aluguer e o salário da concierge fossem um pouco
mais do que gastavam no hotel, poderiam economizar com o petit déjeuner,
preparando-o eles. Um ano ou dois antes, Philip recusaria compartilhar um quarto com
quem quer que fosse, por ser tão susceptível no que dizia respeito ao pé deformado,
mas essa sensibilidade mórbida tornara-se agora menos acentuada. Em Paris, aquilo
não parecia coisa de grande importância, e, embora nunca conseguisse esquecer-se,
deixou de imaginar que os outros estivessem constantemente a observá-lo.
Mudaram-se para o atelier, compraram duas camas, um lavatório, algumas
cadeiras, e sentiram pela primeira vez a comoção da posse. Estavam tão agitados que
na primeira noite, depois de se deitarem no que poderiam chamar a sua casa, ficaram a
conversar até às três horas da manhã. No dia seguinte, divertiram-se de tal modo a
acender o lume, preparar o café e tomá-lo em pijama, que, quando Philip chegou ao
Amitrano, já eram quase onze horas. Estava de excelente disposição. Cumprimentou
Fanny Price com um aceno de cabeça.
- Como vai o trabalho? - perguntou alegremente.
- Que lhe interessa saber? - indagou ela em resposta.
Philip não pôde conter o riso.
- Não precisa de me bater. Estava apenas a procurar ser gentil.
- Dispenso as suas gentilezas.
- Acha que valha a pena quezilar comigo também ? - inquiriu Philip com
brandura. - Já são muito poucas as pessoas com quem fala, não é verdade?
- Tem alguma coisa com isso?
- Não, é claro.
Começou a trabalhar pensando vagamente por que razão Fanny Price procurava
tornar-se tão desagradável. Chegara à conclusão de que antipatizava com ela. O
mesmo sucedia com todos. Tratavam-na com delicadeza apenas por temor à sua língua
maldosa, pois ela dizia, tanto na presença como nas suas costas, as coisas mais
abomináveis. Philip, porém, sentia-se tão feliz que não queria que Miss Price se
desgostasse com ele. Utilizou-se do artifício que já algumas vezes conseguira dissiparlhe
o mau humor.
- Não quer dar uma olhadela ao meu desenho? Estou um pouco atrapalhado.
- Muito obrigada, mas tenho mais que fazer.
Philip encarou-a com surpresa, pois se havia coisa que ela fizesse com prazer, era
dar conselhos. Miss Price prosseguiu vivamente, em voz baixa e com fúria selvagem:
- Agora que Lawson se foi, você acha conveniente viver em boas relações comigo.
Fico-lhe muito agradecida. Vá procurar outra pessoa para auxiliá-lo. Não quero ficar
com os restos de ninguém.
Lawson possuía o instinto pedagógico. Sempre que descobria alguma coisa,
ficava impaciente por transmiti-la aos outros. Tinha prazer em ensinar e por isso as
suas palavras eram proveitosas. Inconscientemente, Philip adquirira o hábito de sentarse
a seu lado. Nunca lhe passou pela mente que Fanny Price ardesse em ciúmes e
olhasse com raiva cada vez maior para o facto de ele aceitar o ensino de outra pessoa.
- Estava muito satisfeito por contar comigo, quando não conhecia ninguém aqui -
disse ela, com aspereza - mas assim que conheceu outros, pôs-me de lado, como uma
luva velha.
Repetiu com satisfação a metáfora gasta.
- Como uma luva velha. Está bem, não faz mal, mas ninguém me fará ser tola
segunda vez.
Havia nas suas palavras um resquício de verdade. Aborrecido com isso, Philip
respondeu as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça.
- Ora bolas, eu só lhe pedi auxílio porque notei que isso lhe dava prazer.
Ela teve um soluço e lançou-lhe um súbito olhar de angústia.
Depois duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces. O seu aspecto era desmazelado e
grotesco. Sem saber a que atribuir essa nova atitude, Philip reiniciou o trabalho. Aquilo
pesava-lhe na consciência. Não pediu, porém, desculpa à rapariga, por temer que ela
aproveitasse a oportunidade para o censurar. Durante umas semanas, Miss Price não
lhe falou e Philip, passada a sensação desagradável de ser repelido por ela, ficou um
tanto aliviado por se ver livre de uma amizade tão complicada. Desconcertava-o um
pouco o ar de proprietária que ela assumia para com ele. Era uma mulher
extraordinária. Chegava ao estúdio às oito horas em ponto, e, quando o modelo
começava a posar, já estava pronta para trabalhar. Era persistente, não falava com
ninguém, lutava hora após hora com dificuldades para ela insuperáveis e só se retirava
ao meio-dia. Trabalhava em vão, porém. Nem mesmo se aproximava dos medíocres
resultados a que quase todos os jovens chegavam após alguns meses de estudo. Usava
todos os dias o mesmo vestido pardo e feio, que trazia ainda, endurecida na bainha, a
lama do último dia de chuva, com os rasgões, que Philip lhe notara da primeira vez
que a vira, ainda por coser.
Mas um dia ela veio-lhe ao encontro e, com o rosto coberto de rubor, perguntou
se poderia falar-lhe mais tarde.
- Naturalmente. estou ao seu dispor - respondeu Philip, sorrindo.
- Esperá-la-ei ao meio-dia.
Quando a aula terminou, Philip foi ter com ela.
- Concorda em caminhar um pouco comigo? - indagou ela, desviando o olhar,
cheia de embaraço.
- Sem dúvida.
Caminharam em silêncio uns minutos.
- Lembra-se do que me disse outro dia? - perguntou ela, de repente.
- Por favor, não reiniciemos as discussões - disse Philip. - É uma coisa que não
nos traz proveito algum.
Ela encheu o peito rápida e aflitivamente.
- Não quero brigar consigo. É o único amigo que tive em Paris. Julguei mesmo
que gostasse um pouco de mim. Parecia-me existir qualquer coisa entre nós. Uma
afinidade qualquer me aproximava de si. Sabe a que me refiro: o seu defeito no pé.
Philip corou e, instintivamente, fez um esforço para caminhar sem manquejar.
Não gostava que falassem da sua deformidade. Sabia o que Fanny Price queria dizer.
Era feia e sem atractivos, e como ele próprio tivesse um defeito físico, estabelecia-se
entre ambos uma certa simpatia. Ficou bastante irritado com ela, mas conseguiu
conter-se.
- Você disse que só me pedia conselhos para me agradar. Não vê mérito algum
no meu trabalho?
- Só vi os seus desenhos no Amitrano. É muito difícil julgar apenas com essa
base.
- Queria saber se consentiria em ver outros trabalhos meus. Nunca pedi isso a
ninguém. Gostaria de lhos mostrar.
- É muita bondade sua. Terei grande prazer em vê-los. Moro perto daqui - disse
ela, em tom suplicante. - São apenas dez minutos.
- Isso não tem importância - respondeu Philip.
Seguiram pelo boulevard, ela entrou numa rua transversal e em seguida
conduziu-o por outra ainda mais pobre, cheia de lojas ordinárias e, por fim, parou.
Subiram vários lances de escada. Ela abriu uma porta e os dois penetraram num
acanhado sótão com o tecto inclinado e uma pequena janela. Esta encontrava-se
fechada e o quarto cheirava a mofo. Embora estivesse muito frio, não havia ali lume
nem sinal de que o tivesse havido. A cama estava por fazer. Uma cadeira, uma cómoda
que também servia de lavatório e um cavalete barato constituíam todo o mobiliário.
Aquela habitação, de qualquer forma teria sido sórdida, mas a falta de asseio e de
ordem davam-lhe um aspecto repelente. Sobre a chaminé, de mistura com tintas e
pincéis, viam-se uma chávena, um prato sujo e uma cafeteira.
- Fique aqui, que vou colocá-los naquela cadeira, para que possa observá-los
melhor.
Mostrou-lhe vinte telas de pequenas dimensões (dezoito polegadas por doze,
mais ou menos). Colocava-as uma após outra sobre a cadeira, observando a expressão
de Philip, que fazia sinal com a cabeça à medida que as observava.
- Gosta, não é verdade? - perguntou ela, ansiosamente, um momento depois.
- Deixe que as veja todas, primeiro. Depois direi.
Philip tentava dominar-se. Estava apavorado. Não sabia que dizer. Além de
serem as telas mal desenhadas, a cor era distribuída por um amador, por alguém que a
não enxergasse. Não se percebia a menor tentativa de traduzir os valores exactos. A
perspectiva, por sua vez, era grotesca. Parecia obra de uma criança de cinco anos. Uma
criança, porém, mostraria certa ingenuidade e ao menos procuraria reproduzir aquilo
que via. Mas ali estava o produto de um espírito vulgar, repleto de reminiscências de
quadros vulgares Philip lembrou-se de tê-la ouvido falar com entusiasmo sobre Monet
e os impressionistas, mas ali viam-se apenas as piores tradições da Academia Real.
- Pronto - disse ela por fim. - Não tenho mais nada.
Philip não era mais amigo da verdade do que qualquer outra pessoa, mas não
conseguia dizer uma mentira clamorosa, uma mentira propositada, e corou
furiosamente ao responder:
- Acho que são óptimos.
Uma leve cor assomou às faces doentias de Fanny Price, que esboçou um sorriso.
- Sabe que não é obrigado a dizer isso, se não pensa assim. Quero que fale
verdade.
- Mas penso assim.
- Não tem nenhuma crítica a fazer? Deve haver algum quadro que aprecie menos
do que os outros.
Philip olhou em redor de si, sem saber que dizer. Viu então uma paisagem, o
género típico do pitoresco de amador - uma velha ponte, uma casinha coberta de
trepadeiras e a margem povoada de árvores folhudas.
- Não tenho a pretensão de entender de pintura - observou - mas confesso que os
valores desse quadro não me pareceram bem equilibrados.
O sangue subiu ao rosto de Fanny Price e agarrando o quadro, voltou-o de costas
para ele.
- Não compreendo por que razão escolheu logo este para alvo das suas
zombarias. é a melhor coisa que fiz até hoje. Tenho a certeza de que os meus valores
estão exactos. Isso é uma coisa que não se pode ensinar a ninguém: ou se entende de
valores ou não se entende.
- Acho que são todos muitíssimo bons - repetiu Philip.
Ela olhou para as telas com um ar de satisfação.
- Não acho que causem vergonha a ninguém.
Philip consultou o relógio.
- É tarde. Dá licença que a convide para um almoço ligeiro?
- Tenho aqui o meu almoço à espera.
Philip não viu sinal algum dele, mas concluiu que talvez a concierge o trouxesse
depois dele sair. Tinha pressa de se retirar.
O bafio do quarto produzia-lhe dores de cabeça.
XLVII
Em Março, sobreveio a agitação da remessa de quadros para o Salon. Clutton,
como sempre, nada aprontara, e escarneceu bastante das duas cabeças enviadas por
Lawson. Eram, sem dúvida, obra de um estudante, simples retratos de modelos, mas
possuíam certo vigor. Clutton, visando a perfeição, não tolerava os esforços que traíam
hesitação. Encolheu os ombros e disse a Lawson que considerava uma insolência exibir
bagatelas que nunca deviam sair do estúdio. O seu desprezo não baixou de tom
quando soube que as duas cabeças tinham sido aceitas. Flanagan também tentou a
sorte, mas a sua tela foi recusada. Mrs. Otter mandou um irrepreensível Portrait de ma
Mère, esmerado e de segunda ordem. Penduraram-no em lugar excelente.
Hayward, que Philip não via desde a partida de Heidelberga, veio passar alguns
dias em Paris, a tempo de assistir à festa que Lawson e Philip iam realizar no estúdio,
para celebrar a aceitação dos quadros do primeiro. Philip estava ansioso por tornar a
ver Hayward, mas, ao encontrar-se com ele, sentiu certa decepção. O amigo mudara
um tanto de aparência: a sua linda cabeleira tornara-se mais rala, e ao mesmo tempo
que ela esmaecia, o homem ficara murcho e sem cor; os olhos azuis estavam mais
pálidos do que outrora e havia certo relaxamento nas suas feições.
Por outro lado, em espírito, ele parecia não ter mudado, e a cultura que
impressionara Philip aos dezoito anos inspirava-lhe um certo desprezo aos vinte e um.
Philip também sofrera grandes transformações, e, olhando com desdém para as suas
antigas opiniões sobre a arte, a vida e a literatura, não tolerava quem quer que ainda as
abraçasse. Mal se apercebia ele de que desejava ostentar-se diante de Hayward,
quando, ao conduzi-lo pelas galerias, lhe despejou em cima todas as opiniões
revolucionárias que adoptara recentemente. Fê-lo parar diante da Olympia, de Manet e
exclamou, em tom dramático:
- Eu não trocaria esse quadro por todas as obras dos velhos mestres, com
excepção de Velásquez, Rembrandt e Vermeer.
- Quem foi Vermeer? - perguntou Hayward.
- Ora, meu caro amigo, então não conheces Vermeer? Não és civilizado. Não
deves viver nem mais um segundo sem lhe ser apresentado. É um clássico, o único
velho mestre que pintava como um moderno.
Arrancou Hayward do Luxemburgo, e arrastou-o para o Louvre.
- Mas não há mais nada que ver aqui? - perguntou Hayward, com a paixão do
turista que tudo quer ver.
- Só coisas sem importância. Poderás voltar, outro dia, e ver o resto com auxílio
do teu Baedeker.
Chegados ao Louvre, Philip percorreu, com o amigo, a Grande Galeria.
- Gostaria de ver a Gioconda - disse Hayward.
- Oh, meu caro, aquilo é simples literatura.
Finalmente, numa sala pequena, Philip postou-se em frente de O Rendeiro, de
Vermeer de Delft.
- Eis aqui o melhor quadro do Louvre. É equivalente a um Manet.
Ilustrando as suas observações com um dedo expressivo e eloquente, Philip
discorreu sobre a encantadora obra. Usava a gíria dos estúdios com efeito irresistível.
- Nada vejo nele que seja assim tão maravilhoso - comentou Hayward.
- É um quadro para pintores, já se vê. Compreendo perfeitamente que um leigo
não veja grande coisa nele.
Um quê? - perguntou Hayward.
- Um leigo.
Como a maioria das pessoas que cultivam o interesse pelas artes, Hayward tinha
imenso desejo de acertar. Mostrava-se dogmático para com os que não se aventuravam
a fazer afirmações, mas com os audazes era muito modesto. A convicção de Philip
impressionou-o, e por isso aceitou docilmente a sua sugestão implícita de que a
arrogante pretensão do pintor a ser o único juiz possível em pintura tem a recomendála
alguma coisa mais do que a sua insolência.
Uns dias mais tarde, Philip e Lawson realizaram a festa. Cronshaw, fazendo-lhes
uma honrosa excepção, concordou em comer-lhes o jantar, e Miss Chalice ofereceu-se
para vir cozinhar. Não se interessava por pessoas do seu sexo e declinou a sugestão de
que outras raparigas fossem convidadas por sua causa. Clutton, Flanagan, Potter e dois
outros completavam o grupo. A mobília era escassa e o estrado do modelo teve de
fazer as vezes de mesa. Os convidados sentar-se-iam em malas ou, se preferissem, no
próprio soalho. A ementa consistia de um pot-au-feu que Miss Chalice preparara, uma
perna de carneiro assada no restaurante da esquina e servida ainda quente, com
batatas cozidas por Miss Chalice e cenouras fritas, de cujo cheiro o estúdio estava
impregnado (as cenouras fritas constituíam a especialidade dela). Em seguida viriam
as poires flambées, peras com aguardente queimada, que Cronshaw insistira em
preparar. Para terminar, seria servido um enorme fromage de Brie, que estava perto da
janela e adicionava odores fragrantes a todos os outros que já enchiam a sala.
Cronshaw ocupava o lugar de honra, sobre uma mala de coiro, com as pernas cruzadas
como um paxá da Turquia, sorrindo benevolamente para os jovens que o cercavam.
Por força do hábito, embora o pequeno estúdio estivesse bastante quente, pois o lume
conservava-se aceso, Cronshaw vestia o seu casacão com a gola virada para cima e
conservava o chapéu na cabeça. Dava-lhe grande satisfação contemplar os quatro
fiaschi de Chianti, enfileirados à sua frente, de cada lado de uma garrafa de whisky. A
impressão que tinha, disse ele, era de uma esbelta e bela circassiana guardada por
quatro eunucos corpulentos. A fim de que todos ficassem à vontade, Hayward
apareceu trajando um fato de tweed com uma gravata de estudante. A sua aparência era
grotescamente britânica. Todos o trataram com uma polidez muito aparada, e, durante
a sopa, o assunto da conversa foi o tempo e a situação política. Enquanto esperavam a
perna de carneiro, Miss Chalice acendeu um cigarro.
- Rampunzel, Rampunzel, solta os teus cabelos - exclamou ela de repente.
Com um gesto gracioso, desatou uma fita e as tranças caíram-lhe pelos ombros.
Sacudiu, então, a cabeça.
- Sinto-me mais à vontade com os cabelos caídos.
Com os seus grandes olhos castanhos, rosto ascético e delgado, tez pálida e fronte
ampla, ela poderia ter saído de um quadro de Burne-Jones. Possuía mãos compridas e
belas, com dedos profundamente manchados de nicotina. Usava amplas roupagens de
cor malva e verde. Tinha esse ar romântico peculiar à High Street de Kensington. Era
uma esteta lasciva, mas excelente criatura, bondosa e bem-humorada. As suas
afectações não iam além da superfície. Quando alguém bateu à porta, todos gritaram,
cheios de júbilo. Miss Chalice levantou-se e foi abrir. Recebendo a perna de carneiro,
ergueu-a bem alto, como se fosse a cabeça de João Baptista numa bandeja, e, com o
cigarro ainda na boca, avançou em passos solenes e hieráticos.
- Salve, filha de Herodíade - exclamou Cronshaw.
O carneiro foi devorado com enorme prazer, valendo a pena ver com que apetite
comia a pálida rapariga. Clutton e Potter sentaram-se um de cada lado, junto de Miss
Chalice, e todos sabiam que nenhum deles fora repelido por ela. Cansava-se das
pessoas em seis semanas, mas sabia exactamente como tratar depois os cavalheiros que
haviam lançado o coração a seus pés. Não lhes queria mal, embora não mais os amasse,
e tratava-os como amigos, mas sem familiaridade. De vez em quando, pousava em
Lawson olhares melancólicos. As poires flambées obtiveram grande êxito, em parte por
causa da aguardente, e em parte porque Miss Chalice foi de opinião que fossem
comidas com queijo.
- Não sei dizer se acho isto delicioso ou se daqui a pouco estarei a vomitar - disse
ela, depois de se ter fartado da mistura.
O café com conhaque foi servido imediatamente, a fim de impedir qualquer
consequência desagradável. Em seguida, todos se acomodaram para fumar confortavelmente.
Ruth Chalice, incapaz de fazer qualquer coisa que não fosse deliberadamente
artística, acomodou-se numa graciosa atitude ao lado de Cronshaw e recostou de leve a
encantadora cabeça no seu ombro. Perscrutava o sombrio abismo do tempo com olhos
meditativos e de vez em quando, voltava-os para Lawson e suspirava profundamente.
Chegou o Verão, e a inquietação apoderou-se daquela gente moça. Os céus azuis
atraíam-nos para o mar e a brisa agradável, sussurrando por entre as folhas dos
plátanos do boulevard, tentava-os para o campo. Todos fizeram planos para sair de
Paris. Discutiram as dimensões mais apropriadas para as telas que pretendiam pintar,
proveram-se de bastante material para esboços e consideraram os méritos de vários
lugares da Bretanha. Flanagan e Potter foram para Concarneau. Mrs. Otter e a mãe,
com um instinto natural que as fazia preferir as coisas óbvias, escolheram Pont-Aven.
Philip e Lawson resolveram ir para a floresta de Fontainebleau, e Miss Chalice sabia de
um hotel muito bom em Moret, onde havia muita coisa que pintar. Ficava perto de
Paris e nem Philip nem Lawson eram indiferentes às despesas de viagem.
Encontrariam lá Ruth Chalice, e Lawson tinha a ideia de fazer-lhe um retrato ao ar
livre. Era justamente a época em que o Salon estava cheio de retratos executados em
jardins, à luz do Sol, com gente de olhos semicerrados e os reflexos verdes das folhas
ensolaradas nas faces. Clutton foi convidado para fazer parte do grupo, mas preferiu
passar o Verão sozinho. Acabara de descobrir Cézanne e estava ansioso por visitar a
Provença. Queria céus pesados, cujo azul ardente parecia gotejar como bagas de suor,
longas estradas brancas e poeirentas, telhados desbotados, cuja cor o sol queimara, e
oliveiras tornadas cinzentas pelo calor.
Um dia antes de partirem, depois da aula da manhã, Philip arrumou as suas
coisas e dirigiu-se a Fanny Price.
- Vou-me embora amanhã - disse alegremente.
- Para onde? - perguntou ela com vivacidade. - Não me diga que vai deixar Paris!
- A fisionomia alterava-se-lhe.
- Vou passar o Verão fora. Não faz o mesmo?
- Não. Fico em Paris. Julguei que também ficasse. Eu pretendia...
Interrompeu a frase, e encolheu os ombros.
- Vai sentir um calor horroroso. Pode até fazer-lhe mal.
- Muito se importa você com isso! Para onde vai?
- Para Moret.
- A Chalice também vai para lá. Vai com ela?
- Vou com Lawson. Parece que ela também vai, mas não sei se iremos realmente
juntos.
Miss Price emitiu um som gutural e profundo e o seu grande rosto adquiriu uma
tonalidade vermelho-escura.
- Que coisa sórdida! Pensei que você fosse um rapaz decente. Era o único, aqui.
Ela já esteve com Clutton, Potter, Flanagan, e até com o velho Foinet. é por isso que ele
se dá a tanto trabalho com ela. E agora logo dois, você e o Lawson. Mete-me nojo!
- Não diga tolices. É uma rapariga muito correcta. Tratamo-la como se fosse um
rapaz.
- Por favor, não me diga mais nada, não me diga mais nada.
- Mas que lhe importa isso? - perguntou Philip. - Não é da sua conta onde eu
passo o Verão.
- Tinha feito tantos planos - suspirou ela, parecendo falar consigo mesma. - Não
julguei que você possuísse dinheiro para sair de Paris. Quando todos se fossem
embora, poderíamos trabalhar juntos e iríamos ver coisas.
Os seus pensamentos voltaram-se, então, para Ruth Chalice.
- Porca! - exclamou. - Nem é uma criatura com quem se possa falar.
Philip olhava-a, cheio de pasmo. Não era homem para pensar que as raparigas se
apaixonassem por ele: tinha demasiado presente a sua deformidade e sentia-se
desastrado e sem jeito com as mulheres; mas não sabia que outra coisa podia significar
aquela explosão. Fanny Price, no seu vestido pardo e sujo, desmazelada, com os
cabelos caídos sobre o rosto, continuava diante dele e lágrimas de cólera rolavam-lhe
pelas faces. Era repelente. Philip olhou para a porta, na esperança instintiva de que
alguém entrasse de repente, para pôr fim à cena.
- Sinto muito - disse ele.
- Você é igual a todos os outros. Aceita tudo quanto lhe oferecem e nem ao menos
agradece. Tudo quanto sabe foi-lhe ensinado por mim. Ninguém mais se teria
preocupado consigo. Foinet alguma vez se incomodou consigo? Vou dizer-lhe uma
coisa: pode trabalhar aqui durante mil anos, mas nunca conseguirá coisa alguma. Você
é inteiramente destituído de talento. Não possui originalidade alguma. Não sou só eu
que o digo. Todos dizem o mesmo. Você nunca será pintor, por muito que viva.
- Isso também não é da sua conta, pois não? - disse Philip, corando.
- Já sei. Pensa que digo isto só por mau génio. Pergunte ao Clutton, pergunte ao
Lawson, pergunte à Chalice. Nunca, nunca, nunca. Você não tem vocação.
Philip encolheu os ombros e retirou-se. Ela ainda lhe gritou:
- Nunca, nunca, nunca!
Moret era, naquele tempo, uma velha cidade de uma só rua, situada na orla da
floresta de Fontainebleau, e o Écu d’Or um hotel que ainda vivia envolto na atmosfera
decrépita do Ancien Régime. Ficava em frente do sinuoso rio Loing. O pequeno terraço
do quarto de Miss Chalice dava para ele, com uma encantadora vista da velha ponte e
da sua porta fortificada. Costumavam sentar-se ali, à noite, após o jantar, a tomar café,
fumando e discutindo Arte. A pequena distância, desembocava no rio um canal
marginado de choupos, junto ao qual passeavam muitas vezes, após o trabalho.
Passavam o dia inteiro a pintar. Estavam obcecados, como quase toda a sua geração,
pelo temor do pitoresco. Voltavam as costas, pois, às belezas que se apresentavam à
vista de todos, para procurar motivos destituídos de uma graça que tanto
desprezavam. Sisley e Monet tinham pintado o canal com as suas fileiras de choupos e
eles sentiam o desejo de experimentar as forças num tema que tão tipicamente
representava a França. Temiam, porém, a sua beleza formal e tratavam
deliberadamente de evitá-la. Miss Chalice, possuidora de uma inteligente destreza que
impressionava Lawson, apesar do seu desdém pela arte feminina, começou a pintar
um quadro em que procurava fugir à vulgaridade, eliminando os cimos das árvores.
Lawson, por sua vez, teve a brilhante ideia de representar no primeiro plano um
grande cartaz azul do chocolat Menier, fazendo sentir, dessa forma, o horror que lhe
causava o estilo caixa de bombons.
Philip começava a pintar a óleo. Experimentou uma viva sensação de prazer ao
empregar pela primeira vez esse agradável processo. Saía com Lawson pela manhã,
conduzindo a sua pequena caixa de tintas, e sentava-se a pintar uma tela ao lado do
amigo. A sua satisfação não lhe permitia notar que estava apenas a copiar. A influência
de Lawson era tão grande que Philip só sabia ver através dos olhos dele. Lawson
pintava com tonalidades muito sombrias, e ambos viam o verde-esmeralda da erva
como veludo escuro, ao passo que a claridade do céu se transformava, nas suas mãos,
num sombrio azul ultramarino. Durante o mês de Julho, tiveram uma sucessão de dias
esplêndidos; estava muito quente, e o calor, que amortecia o ânimo de Philip, enchia-o
de langor. Não podia trabalhar e o seu espírito povoava-se de mil pensamentos.
Frequentemente, passava as manhãs à beira do canal, à sombra dos choupos, lendo
algumas linhas e sonhando um pouco. às vezes, alugava uma velha bicicleta e saía a
passear pela estrada poeirenta que conduzia à floresta. Deitava-se na relva de uma
clareira e punha-se a meditar. Tinha o cérebro repleto de fantasias românticas. As
damas de Watteau, alegres e despreocupadas, pareciam vaguear, com os seus
cavalheiros, por entre as grandes árvores, a murmurar coisas frívolas e encantadoras
aos ouvidos uns dos outros, mas ainda assim um tanto oprimidos por um medo
indefinido.
Além deles, havia no hotel apenas uma francesa gorda, de meia-idade, figura
rabelaisiana, cujo riso era enorme e obsceno. Passava os dias a pescar pacientemente à
beira do rio, mas nunca conseguia apanhar coisa alguma e Philip muitas vezes ia
conversar com ela. Descobriu que a mulher exercia uma profissão cujo membro mais
notório na nossa época é Mrs. Warren (Alusão á peça de B. Shaw, A profissão da Senhora
Warren. (n. do R.) e tendo acumulado regular pecúlio levava agora uma pacata vida de
bourgeoise. Contava a Philip histórias licenciosas.
- Precisa ir a Sevilha - dizia ela, no seu mau inglês. - As mulheres mais lindas do
mundo!
Fazia um olhar malicioso e sacudia a cabeça.
A dupla papada e a enorme barriga tremiam, agitadas por um riso interno.
O calor tornou-se tal que era quase impossível dormir durante a noite. Parecia
demorar-se sob as árvores, como se fosse uma coisa material. Como não quisessem
abandonar a noite estrelada, sentavam-se os três no terraço do quarto de Ruth Chalice
e ali ficavam horas seguidas, em silêncio, cansados de mais para falar, gozando
voluptuosamente a tranquilidade. Escutavam o murmurar do rio e muitas vezes só
depois do relógio da igreja bater uma, duas e às vezes três badaladas, é que resolviam
arrastar-se para a cama. Repentinamente, Philip percebeu que Ruth Chalice e Lawson
eram amantes. Adivinhou-o pelo modo como a jovem olhava para o pintor e no ar de
dono que este assumia; e, quando Philip ficava perto deles, sentia que uma espécie de
eflúvio os cercava, como se o ar estivesse carregado de alguma coisa estranha. A
revelação foi um choque. Considerava Miss Chalice uma boa companheira e gostava
da sua conversação, mas nunca lhe parecera possível entrar em relações mais íntimas
com ela. No domingo, tinham-se embrenhado todos na floresta, levando uma cesta
com a merenda. Ao chegarem a uma clareira suficientemente silvestre, Miss Chalice,
achando o cenário idílico, insistira em descalçar os sapatos e as meias. A ideia teria sido
encantadora, se os seus pés não fossem um tanto grandes. Além disso, no terceiro dedo
de cada um dos pés tinha um enorme calo. Philip achara-lhe a atitude um pouco
ridícula, mas agora encarava-a de maneira muito diversa. Havia algo de delicadamente
feminino nos seus grandes olhos e nas sua pele azeitonada. Fora um tolo por não ter
descoberto antes que ela era atraente. Julgava ver-lhe um certo tom de desprezo por ele
não lhe dar atenção como mulher, e em Lawson um laivo de superioridade. Invejava
Lawson. Os seus ciúmes, todavia, não visavam o indivíduo, mas o seu amor. Desejaria
estar-lhe na pele e sentir com o seu coração. Ficou perturbado, deixando-se vencer pelo
receio de que o amor sempre lhe escapasse. Queria ser arrebatado por uma paixão,
queria ser transportado num turbilhão, sem que lhe importasse para onde. Miss
Chalice e Lawson pareciam-lhe agora um pouco diferentes e a constante companhia de
ambos tornava-o inquieto. Estava descontente consigo mesmo. A vida não lhe dava
quanto ele queria e tinha a desagradável impressão de estar a perder o seu tempo.
A corpulenta francesa descobriu logo a espécie de relações que o par mantinha e,
com a maior fraqueza, falou nisso a Philip.
- E o senhor - perguntou ela, com o sorriso tolerante de quem enriquecera com a
lubricidade dos seus semelhantes - não arranjou uma petite amie?
- Não - respondeu Philip corando.
- E por que não? C’est de votre âge.
Philip encolheu os ombros. Levava nas mãos um volume de Verlaine, e afastouse.
Tentou ler, mas a sua agitação era demasiado grande. Pensava nos amores fortuitos
conhecidos graças a Flanagan, nas furtivas visitas a casas que ficavam em ruas em culde-
sac, com as salas forradas de velado de Utreque e os encantos mercenários de
mulheres pintadas. Estremeceu. Atirando-se para a erva, estirou os membros como um
animal novo que acaba de despertar. O sussurro das águas, os choupos ramalhando à
suavidade da brisa e o céu azul eram-lhe quase intoleráveis. Estava enamorado do
amor. Julgava sentir nos lábios o beijo ardente de outros lábios e, em volta do pescoço,
a carícia de mãos macias. Imaginava-se nos braços de Ruth Chalice, pensava nos seus
olhos escuros e na sua maravilhosa pele. Fora uma loucura deixar que aquela
esplêndida aventura se lhe escoasse por entre os dedos. Se Lawson triunfara, por que
não triunfaria ele? Mas isso era apenas quando se achava longe dela - quer na cama, de
noite, antes de adormecer, quer à beira do canal, nos seus devaneios ociosos. Quando a
via, os seus sentimentos eram inteiramente diversos. Já não sentia desejo de apertá-la
nos braços e não podia imaginar-se a beijá-la. Era deveras curioso. Longe dela, julgavaa
extremamente linda, lembrava-se apenas dos seus olhos magníficos e da suave
palidez do seu rosto, mas a seu lado notava-lhe o busto chato e os dentes ligeiramente
estragados, e não podia esquecer, também, os calos dos pés. Não se compreendia a si
próprio. Teria de amar apenas em imaginação e na ausência do objecto dos seus
desejos? Estaria privado de gozar todos os prazeres que se lhe ofereciam, por causa de
um defeito de visão que parecia exagerar tudo quanto havia de revoltante?
Philip não sentiu a menor tristeza quando uma mudança no tempo, anunciando
o fim do longo Verão, os obrigou a regressar a Paris.
XLVIII
Quando Philip voltou ao Amitrano, verificou que Fanny Price já não trabalhava
lá. Devolvera a chave do seu armário. Perguntou a Mrs. Otter se sabia que fim ela
levara, e Mrs. Otter, erguendo os ombros, respondeu que provavelmente voltara para
Inglaterra. Philip sentiu-se aliviado. O mau génio dela aborrecia-o profundamente.
Além disso, insistia sempre em dar-lhe conselhos sobre o seu trabalho, considerava-se
ofendida quando os seus preceitos não eram seguidos à risca e não compreendia que
ele já não se julgasse o aluno bisonho dos primeiros dias. Em pouco tempo, esqueceu-a
totalmente. Pintava a óleo, com entusiasmo transbordante. Esperava realizar alguma
coisa com importância suficiente para figurar no Salon do ano seguinte. Lawson
pintava um retrato de Miss Chalice. Era muito retratável e todos os jovens rendidos aos
seus encantos a tinham pintado. Uma indolência natural, aliada ao gosto das atitudes
pitorescas, tornavam-na excelente modelo. Possuía, também, suficientes conhecimentos
de técnica para fazer críticas proveitosas. Como a sua paixão pela arte era antes uma
paixão pela vida de artista, negligenciava de bom grado o seu trabalho. Agradava-lhe a
temperatura tépida do estúdio e a oportunidade de fumar inúmeros cigarros. Falava,
em voz baixa e agradável, sobre o amor e a arte do amor, duas coisas entre as quais não
fazia uma distinção muito clara.
Lawson pintava com extraordinário afã, trabalhando dias seguidos, até mal se
manter de pé, para no fim raspar tudo quanto fizera. Teria esgotado a paciência de
qualquer outra pessoa que não fosse Ruth Chalice. Acabou por fazer uma embrulhada
inextricável.
- O único remédio é pegar numa tela nova e começar outro retrato - disse ele. -
Agora, sei o que vou fazer. Não levará muito tempo.
Philip estava presente nessa altura, e Miss Chalice perguntou-lhe:
- Por que não me pinta, também? Aprenderia muito, observando Mr. Lawson.
Uma das delicadezas de Miss Chalice era referir-se sempre aos amantes pelo
sobrenome.
- Gostaria imenso de fazê-lo, se Lawson não se importasse.
- A mim tanto me faz - disse Lawson.
Era a primeira vez que Philip pintava um retrato. Iniciou-o a medo, mas também
com orgulho. Sentado perto de Lawson, pintava como o via pintar. Aproveitava-lhe o
exemplo e os conselhos de que Lawson e Miss Chalice eram pródigos. Finalmente,
Lawson terminou o seu trabalho e convidou Clutton para criticá-lo. Clutton acabava de
regressar a Paris. Depois de visitar a Provença, seguira para Espanha, ansioso por
admirar Velásquez em Madrid. Estivera também em Toledo, onde permaneceu três
meses, voltando de lá com um nome inteiramente novo para os jovens colegas: contava
maravilhas de um pintor chamado El Greco, que, pelos modos, só poderia ser estudado
em Toledo.
- Sim, já ouvi falar - disse Lawson. - É aquele velho mestre que se distingue por
pintar tão mal como os modernos.
Clutton, mais taciturno do que nunca, não respondeu, limitando-se a olhar
sardonicamente para Lawson.
- Vais mostrar-nos o que trouxeste da Espanha? – perguntou Philip.
- Não pintei na Espanha. Estive muito ocupado.
- Que diabo fizeste, então?
- Meditei sobre várias coisas. Acho que cortei relações com os impressionistas.
Tenho um pressentimento de que dentro de alguns anos eles parecerão inconscientes e
superficiais. Pretendo desembaraçar-me de tudo quanto aprendi até hoje e começar de
novo. Assim que cheguei, destruí todas as minhas pinturas. Nada possuo, agora, além
de um cavalete, tubos de tinta e algumas telas em branco.
- Que vais fazer?
- Ainda não sei. Tenho apenas uma vaga noção daquilo que quero.
Falava devagar, de um modo curioso, como se procurasse ouvir, com grande
esforço, alguma coisa apenas perceptível. Dir-se-ia haver no seu íntimo uma força
misteriosa que ele próprio não compreendia, mas que lutava secretamente pela
obtenção de um escoadouro. O seu vigor impressionava. Lawson temia a crítica que
pedira e, indo de encontro a uma provável censura, fingia desdenhar qualquer opinião
de Clutton. Mas Philip sabia que nada no mundo o tornaria mais feliz do que o louvor
do outro. Durante algum tempo Clutton observou o retrato em silêncio, e, em seguida,
volveu o olhar para a tela de Philip que estava no cavalete.
- Que é isto? - perguntou.
- Também me atirei a um retrato.
- Macaco aplicado - murmurou Clutton.
Voltou, então, a ocupar-se da tela de Lawson. Philip corou, mas não disse coisa
alguma.
- Então, que achas? - perguntou Lawson, por fim.
- O modelado está muito bom - respondeu Clutton. - Também me parece muito
bem desenhado.
- Achas que os valores estão exactos?
- Inteiramente.
Lawson sorriu, deleitado. Sacudiu-se todo, como um cão molhado.
- Estou muito contente por saber que gostaste.
- Eu? Não. Não lhe atribuo a menor importância.
Lawson, desapontado, olhou com espanto para Clutton. Não compreendia o que
ele queria dizer. Clutton não possuía o dom da expressão verbal. Parecia sentir grande
dificuldade em falar. O que dizia era confuso, vacilante e verboso, mas Philip conhecia
o texto em que se inspirava a sua divagação. Clutton, que não lia uma só linha, ouvira
essas palavras dos lábios de Cronshaw, e, embora lhe tivessem causado pouca
impressão, permaneceram-lhe na memória, e mais tarde, emergindo de repente,
adquiriram o caracter de uma revelação: todo o bom pintor tem, ao pintar, dois
objectivos principais: o homem e a intenção da sua alma. Os impressionistas
preocupam-se com outros problemas. Pintaram o homem admiravelmente, mas deram
tanta importância à intenção da sua alma como os retratistas ingleses do século XVIII.
- Mas assim cai-se na literatura - atalhou Lawson. - Contanto que consiga pintar o
homem como o fazia Manet, a sua alma pode ir para o diabo!
- Isso estaria muito bem se pudesses bater Manet no seu próprio terreno, mas não
lhe chegas aos calcanhares. Não é possível a gente nutrir-se com princípios de
anteontem: é um terreno que secou. Deve-se ir além. Quando vi os El Greco, senti que
se pode tirar de um retrato muito mais do que pensávamos.
- Isso é o mesmo que voltar para Ruskin - exclamou Lawson.
- Não: ele ocupava-se da moral; pouco me importa a moral; a intenção didáctica
nada tem com isso, nem a ética e tudo o mais: apenas paixão e emoção. Os maiores
retratistas, Rembrandt e El Greco, pintaram o homem e a intenção da sua alma. Os que
se limitavam a representar o homem eram artistas de segunda classe. Os lírios do
campo, se não tivessem aroma, nem por isso deixariam de ser tão lindos; o aroma,
porém, realça-lhes a beleza. Nesse quadro, por exemplo - prosseguiu Clutton,
apontando para o retrato de Lawson - o desenho e o modelado estão perfeitos, mas são
convencionais. Seria preciso desenhar de forma que se visse ser a rapariga uma cadela
ordinária. A correcção fica bem. El Greco pintava as suas figuras como se tivessem
mais de dois metros de altura, porque desejava exprimir alguma coisa que não podia
conseguir de outro modo.
- Diabos levem El Greco! - disse Lawson. - De que vale estar para aí a falar a
propósito de um homem cuja obra não temos a mínima oportunidade de ver?
Clutton encolheu os ombros, fumou um cigarro em silêncio e retirou-se. Philip e
Lawson entreolharam-se.
- Há certa verdade nas palavras dele - disse Philip.
Lawson considerou, mal-humorado, o quadro que pintara.
- Como diabo se há-de registar a intenção da alma, a não ser pintando
exactamente aquilo que se vê?
Por essa época Philip arranjou uma nova amizade. às segundas-feiras, os
modelos reuniam-se na escola, para que se escolhesse aquele que devia posar durante a
semana, e, um dia, foi escolhido um rapaz que evidentemente não era modelo
profissional. Os ares do jovem despertaram a atenção de Philip. Assentou firmemente
os pés no estrado, cerrando os punhos e lançando a cabeça para a frente, em atitude de
desafio, o que lhe realçava a bela figura. Não havia a mínima gordura no seu corpo, e
os músculos salientes pareciam de aço. Usava os cabelos cortados rente, o que lhe
punha em evidência a perfeita conformação da cabeça, e uma barba curta. Possuía
grandes olhos escuros e espessas sobrancelhas. Conservava-se na pose hora após hora,
sem sinais de cansaço. Na sua fisionomia, adivinhava-se um misto de vergonha e
resolução. O seu ar de energia apaixonada estimulou a imaginação romântica de
Philip. Ao vê-lo vestido, uma vez terminada a pose, pareceu-lhe um rei coberto de
andrajos. Era pouco comunicativo, mas, um ou dois dias depois, por intermédio de
Mrs. Otter, Philip veio a saber que o modelo era espanhol e nunca posara.
- Sem dúvida passava fome - disse Philip.
- Notou as suas roupas? São limpas e correctas, não são?
Potter, um dos americanos que estudavam na Escola Amitrano, foi passar uns
meses em Itália e ofereceu a Philip o seu atelier. Philip ficou satisfeito. Começava a
impacientar-se com os conselhos peremptórios de Lawson e queria estar só. No fim da
semana, procurou o modelo e, alegando que o seu desenho não estava concluído,
perguntou se concordaria em posar para ele particularmente.
- Não sou modelo - respondeu o espanhol. - Tenho outras coisas a fazer na
próxima semana.
- Venha almoçar comigo - disse Philip - e falaremos disso.
Vendo que o outro hesitava, acrescentou, sorridente:
- Afinal de contas, nada terá a perder almoçando comigo...
Encolhendo os ombros, o modelo consentiu, e ambos foram a uma crémerie. O
espanhol falava em mau francês, fluente mas difícil de acompanhar. Philip veio,
contudo, a entender-se com ele. Soube que era escritor e que viera a Paris para escrever
romances. Entretanto, lançava mão de todos os expedientes ao alcance de um homem
destituído de recursos: leccionava, fazia traduções, principalmente de documentos
comerciais, e por fim fora levado a ganhar dinheiro à custa do seu belo físico. Os
modelos eram bem pagos, e o que ganhara na última semana chegava-lhe para as duas
seguintes. Gastava apenas dois francos por dia, segundo contou a Philip, com grande
assombro deste, mas sentia-se humilhado por ter de exibir mercenariamente o próprio
corpo. Considerava a profissão de modelo uma coisa degradante, que só a fome podia
desculpar. Philip explicou então que não queria pintar-lhe o corpo, mas apenas a
cabeça, pois tencionava fazer um retrato que pudesse enviar ao Salon no próximo ano.
- Mas porquê pintar-me a mim? - perguntou o espanhol.
Philip respondeu que a sua cabeça o interessava, e julgava poder fazer um bom
retrato.
- Não me sobra tempo algum. Dói-me roubar um minuto que seja ao meu
trabalho.
- Mas poderia ser só à tarde. Passo as manhãs na escola. Afinal de contas, será
mais agradável posar para mim do que traduzir documentos oficiais.
Corriam lendas, no Quartier Latin, sobre uma época em que os estudantes de
diversos países viviam numa intimidade geral, mas isso passara havia muito e agora as
nações coexistiam ali quase tão separadas como numa cidade do Oriente. No Julian e
na Escola de Belas-Artes, o estudante francês que convivesse com estrangeiros merecia
o desprezo dos compatriotas. Desse modo, era difícil a um inglês conhecer, a não ser
superficialmente, os naturais da cidade onde morava. A maioria dos estudantes, depois
de viver em Paris cinco anos, conhecia do idioma francês apenas o indispensável à vida
prática; levavam uma existência tão britânica como se estudassem em South
Kensington.
Philip, com a sua paixão pelo romântico, viu com alegria essa oportunidade de
entrar em contacto com um espanhol. Empregou todo o seu poder de persuasão para
vencer a relutância do rapaz.
- Vou dizer-lhe o que aceito - disse por fim o espanhol. - Posarei, mas não por
dinheiro e apenas por gosto.
Foram inúteis os protestos de Philip. Por fim, ficou combinado que o outro viria
às treze horas da segunda-feira seguinte. Deu a Philip um cartão onde se lia, impresso,
o seu nome: Miguel Ajuria.
Miguel posava com regularidade e embora não quisesse receber o pagamento
dos seus serviços, pedia a Philip, de vez em quando, cinquenta francos, a título de
empréstimo. O modelo saía, assim, mais dispendioso do que se fosse pago como de
ordinário. Isso dava, porém, ao espanhol a satisfação de sentir que não ganhava a vida
de um modo degradante. A sua nacionalidade levava Philip a considerá-lo uma
personagem romântica, e interrogava-o sobre Sevilha e Granada, Velásquez e
Calderón. Mas Miguel não tinha o menor entusiasmo pela grandeza da sua pátria. Para
ele, como para tantos dos seus compatriotas, a França era o único país onde um
homem inteligente podia viver e Paris, o centro do mundo.
- A Espanha morreu - exclamou. - Não possui escritores, não possui Arte, não
possui coisa alguma!
Pouco a pouco, com a exuberante retórica da sua raça, revelou as suas ambições.
Estava a escrever um romance com o qual esperava obter nome. Achava-se sob a
influência de Zola, e escolhera Paris para cenário da sua história. Contou-a mais tarde a
Philip, que a achou crua e estúpida A sua obscenidade ingénua – c’est la vie, mon cher,
c’est la vie, exclamava ele - servia apenas para salientar o convencionalismo do enredo.
Havia dois anos que trabalhava no livro, enfrentando dificuldades incríveis, privandose
dos prazeres que o tinham atraído a Paris, em luta contra a fome por amor à arte.
Nada o impediria de realizar a grande obra. Era um grande esforço heróico.
- Mas por que não escreve sobre a Espanha? - perguntou Philip. - Seria muito
mais interessante. Conhece a vida do país.
- Paris é o único lugar sobre o qual vale a pena escrever. Paris é a vida.
Certo dia, trouxe uma parte do manuscrito e leu alguns trechos em voz alta,
traduzindo-os em mau francês, com tamanha excitação que Philip mal podia
compreender. Era lamentável. Philip, atrapalhado, olhava para o retrato que pintava:
como era vulgar o espírito que se ocultava por trás daquela testa ampla! Aqueles olhos
cintilantes e apaixonados enxergavam apenas o óbvio e o superficial! O quadro nunca
satisfazia Philip, que o raspava quase totalmente no fim de cada pose. Falavam-lhe em
representar a intenção da alma. Como se poderia adivinhar essa intenção, se as pessoas
eram um acervo de contradições? Gostava de Miguel, e entristecia-o imaginar que toda
aquela luta magnífica era vã. O seu amigo possuía todas as qualidades de um bom
escritor, menos o talento. Philip reparou no seu próprio trabalho. Teria aquele quadro
algum valor ou seria pura perda de tempo? A força de vontade não era o suficiente e a
confiança em si próprio nada significava. Lembrou-se de Fanny Price: ela acreditava
veementemente no seu talento e a sua força de vontade era extraordinária.
- Se eu tivesse a certeza de que me falta a verdadeira aptidão, preferiria
abandonar a pintura - dizia Philip para consigo. - Não vejo vantagem em ser um pintor
de segunda ordem.
Certa manhã, quando saía, o concierge anunciou-lhe a chegada de uma carta.
Ninguém lhe escrevia, a não ser a tia Louise e, às vezes, Hayward, mas aquela letra
era-lhe desconhecida.
A carta dizia:
Venha, por favor, assim que receber esta carta. Não tenho mais forças.
Rogo-lhe que venha pessoalmente. não posso suportar a ideia de ser tocada
por outra pessoa. Quero que fique com tudo nestes três dias nada tive para
comer.
F. Price
Philip ficou pálido de medo. Correu à casa onde ela morava. Espantava-se de que
Fanny Price ainda estivesse em Paris. Como não a encontrava havia meses, julgava que
ela tivesse regressado a Inglaterra. Ao chegar, perguntou à concierge se Miss Price
estava em casa.
- Está. Não a vejo há dois dias.
Philip galgou a escada, e bateu à porta. Não obteve resposta. Chamou-a pelo
nome. A porta estava fechada pelo lado de dentro e inclinando-se viu que a chave
estava na fechadura.
- Queira Deus que ela não tenha feito nenhuma loucura - exclamou em voz alta.
Desceu a escada a correr e disse à porteira que a rapariga estava no quarto, com
toda a certeza. Recebera, naquela manhã, uma carta dela e suspeitava que tivesse
acontecido alguma coisa terrível. Sugeriu que se arrombasse a porta. A porteira, que a
princípio se mostrara mal-humorada e pouco disposta a ouvi-lo, ficou alarmada. Não
podia assumir a responsabilidade do arrombamento. Era preciso chamar o comissaire de
police. Dirigiram-se juntos ao bureau e, de volta, trouxeram também um serralheiro.
Philip soube que Miss Price não pagara o último semestre de aluguer e não dera à
concierge o presente de festas a que ela se julgava com direito no fim de cada ano, em
virtude de um velho costume. Os quatro subiram a escada e bateram novamente à
porta. Ninguém respondeu. O serralheiro meteu mãos à obra, e entraram afinal no
quarto. Philip deu um grito instintivo e cobriu os olhos com as mãos. A infeliz pendia
de uma corda amarrada em volta do pescoço e presa no tecto a um gancho, destinado,
por algum inquilino anterior, a sustentar as cortinas da cama. Fanny Price afastara a
cama para o lado, subindo depois a uma cadeira, que empurrara com o pé. Esta jazia ao
lado dela, no chão. Cortaram a corda. O corpo estava completamente frio.
XLIX
A história, que Philip reconstituiu como pôde, era terrível. Um dos motivos de
queixa dos estudantes era que a rapariga nunca tomava parte nas alegres refeições que
comiam juntos, nos restaurantes próximos. E a razão era evidente: Miss Price vivia
numa penúria extrema. Lembrando-se do dia em que lancharam juntos, quando da sua
chegada a Paris, Philip compreendeu a razão da voracidade que tanto o desconcertara:
Fanny Price estava faminta. A concierge contou-lhe em que consistia a sua alimentação.
Comprava um pedaço de pão, ao voltar da escola, e levava a garrafa de leite colocada
diariamente à porta do quarto. Bebia metade do leite, comia metade do pão, e
guardava o resto para a noite. Era sempre a mesma coisa, dia após dia. Angustiado,
Philip pôs-se a imaginar quanto ela sofrera. Nunca Miss Price dera a entender que
fosse mais pobre do que os outros. Mas a verdade era que os seus recursos se tinham
esgotado, o que a obrigou a abandonar o estúdio. O quartinho em que morava quase
não tinha mobília e o seu vestuário consistia no velho vestido pardo que trazia
constantemente em cima do corpo. Remexendo no quarto, à procura do endereço de
algum amigo da morta, Philip encontrou um pedaço de papel onde o seu próprio nome
fora escrito uma vintena de vezes. Isto causou-lhe uma impressão esquisita. Devia ser
verdade que ela o amara. Ao lembrar-se do corpo emaciado, pendente do tecto,
estremeceu. Se ela o amava por que não permitira que a ajudasse ? Tê-lo-ia feito da
melhor vontade. Sentia remorsos por não ter percebido que ela lhe dedicava uma
afeição especial. Como era patética aquela frase da sua carta: não posso suportar a ideia
de ser tocada por outra pessoa. Morrera de fome.
Philip acabou por achar uma carta, assinada: do teu afeiçoado irmão, Albert.
Vinha de Surbiton, arrabalde de Londres; trazia a data de duas ou três semanas antes, e
recusava um empréstimo de cinco libras. O remetente tinha mulher e filhos para
sustentar e não podia emprestar dinheiro. Aconselhava Fanny a que voltasse para
Londres e procurasse uma colocação qualquer. Philip telegrafou a Albert Price. A
resposta veio pouco depois: Profundamente acabrunhado. Difícil deixar negócios.
Presença indispensável? - Price.
Philip replicou com uma afirmação lacónica e, na manhã seguinte, um
desconhecido apresentou-se no estúdio.
- Chamo-me Price - disse, quando Philip lhe abriu a porta.
Era um tipo um tanto ou quanto vulgar, vestido de preto, com um fumo em
redor do chapéu. Tinha um pouco do aspecto desajeitado da irmã, com um bigodinho
desigual, e falava com sotaque caracteristicamente londrino. Philip pediu-lhe que
entrasse. Enquanto ouvia os pormenores do caso, Albert Price lançava olhares
observadores para os quatro cantos do atelier.
- Não será necessário que eu a veja, pois não? - perguntou ele. - Não tenho os
nervos muito sólidos e não é preciso muita coisa para eu ficar abalado.
Começou a falar com desembaraço. Era negociante de borracha e possuía mulher
e três filhos. Nunca chegara a compreender por que deixara Fanny o seu lugar de
governanta para vir para Paris.
- Eu e minha mulher fizemos-lhe ver que Paris não era lugar onde uma rapariga
pudesse viver. Além disso, a arte nunca deu de comer a ninguém.
Era claro que Albert Price não vivia em relações amigáveis com a irmã. Via no
suicídio de Fanny uma derradeira injúria à sua pessoa. Desagradava-lhe a ideia de que
a pobreza a tivesse levado a tal extremo. Isso parecia importar em desdouro para a
família. Preferia encontrar para o suicídio uma razão mais decorosa.
- Quem sabe se ela não teve algum desgosto com um homem... que diz? Sabe o
que quero dizer... Paris! Ela talvez fizesse isso para fugir à desonra.
Philip sentiu-se corar e amaldiçoou a sua fraqueza. Os olhinhos vivos de Price
pareciam desconfiar dele.
- Acredito que sua irmã fosse perfeitamente virtuosa - respondeu com acrimónia.
- Matou-se porque não tinha que comer.
- Isso é muito duro para a família, Mr. Carey. Bastava que ela me escrevesse. Eu
não permitiria que minha irmã passasse necessidades.
Philip encontrara o endereço de Albert numa carta em que o mesmo recusava um
empréstimo à irmã. encolheu os ombros, porém. De nada valia incriminá-lo.
Abominava o homenzinho e por isso queria livrar-se dele o mais depressa possível.
Albert Price também desejava apressar o enterro, a fim de regressar a Londres. Os dois
dirigiram-se para o pequeno quarto onde Fanny morara. Albert olhou os quadros e a
mobília.
- Confesso que não entendo muito de arte - disse - mas estes quadros podem
render algum dinheiro, não acha?
- Absolutamente nada - respondeu Philip.
- A mobília não vale dez xelins.
Albert Price não conhecia o francês e Philip teve que tratar de tudo. Para descer o
pobre cadáver à sepultura, foi necessário executar inumeráveis formalidades: os papéis
eram obtidos num lugar, assinados noutro, consultadas as autoridades, e assim por
diante. Durante três dias, Philip esteve ocupado de manhã à noite. Afinal, ele e Albert
Price acompanharam o esquife ao cemitério de Montparnasse.
- Quero fazer as coisas com decência - disse Albert Price - mas não há
necessidade de esbanjar dinheiro.
A breve cerimónia foi infinitamente triste, na frialdade da manhã cinzenta.
Estavam presentes umas seis pessoas, companheiras de Fanny no estúdio. Mrs. Otter
compareceu, porque a sua qualidade de massière assim lho parecia exigir, e Ruth
Chalice por possuir bom coração. Lawson, Clutton e Flanagan também foram. Nenhum
deles sentira simpatia por Fanny. Correndo os olhos pelo cemitério cheio de túmulos,
uns simples e humildes, outros vulgares, pretensiosos e feios, Philip estremecia. Aquilo
era horrivelmente sórdido. Ao saírem, Albert Price convidou Philip para o almoço. O
rapaz, porém, além da aversão que o negociante de borracha lhe causava, sentia-se
extenuado. Dormira mal, sonhava constantemente com a figura de Fanny, no seu
vestido em farrapos, pendurada no gancho do tecto. Rebuscou uma desculpa qualquer
mas não a encontrou.
- Leve-me a um lugar onde possamos tomar uma refeição reconfortante. Tudo
isto é terrível para os nervos.
- O restaurante Lavenue é o melhor desta zona - respondeu Philip.
Albert Price instalou-se numa cadeira de veludo, com um suspiro de alívio.
Pediu um almoço substancioso e uma garrafa de vinho.
- Felizmente terminou tudo - disse ele.
Fez perguntas insidiosas. A vida dos pintores em Paris excitava a sua
curiosidade. Julgava-a deplorável, mas queria conhecer pormenores das orgias que a
sua imaginação fantasiava. Com manhosas piscadelas e sorrisos discretos, deu a
entender que Philip suprimira muita coisa na descrição. Era um homem experiente,
conhecia as coisas. Perguntou se Philip já estivera nesses lugares de Montmartre que
têm fama, desde Temple Bar ao Royal Exchange. Gostaria de poder dizer que já fora ao
Moulin Rouge. O almoço estava muito bom e o vinho excelente. Albert Price tornava-se
cada vez mais expansivo, com o progresso de uma digestão feliz.
- Bebamos um pouco de brandy - sugeriu ele, ao ser servido o café. - Para o diabo
a despesa!
Esfregou as mãos.
- Sabe? Tenho vontade de ficar em Paris até amanhã. Que tal se passássemos a
noite juntos?
- Se pensa que vou levá-lo a percorrer as casas de Montmartre, está enganado -
disse Philip.
- Tem razão. Acho que não ficaria bem.
A resposta veio tão séria que divertiu Philip.
- Além disso, seria péssimo para os seus nervos - acrescentou com gravidade.
Albert Price concluiu que seria melhor voltar a Londres no comboio das quatro
horas, e despediu-se de Philip.
- Adeus, meu velho. Sabe uma coisa? Vou ver se me é possível voltar a Paris um
destes dias, e então tomaremos um fartote.
Agitado em demasia para trabalhar naquela tarde, Philip subiu a um ónibus e
atravessou o rio para ir ver as telas novas no Durand-Ruel. Depois, passeou pelo
boulevard. Fazia frio e ventania. Os transeuntes passavam apressados, envoltos nos
casacos, encolhidos para se livrarem do frio, com caras doloridas e preocupadas. A
terra do cemitério de Montparnasse devia estar gelada sob aqueles túmulos brancos.
Philip sentiu-se só no mundo e estranhamente nostálgico em casa. Desejava a
companhia de alguém. àquela hora, Cronshaw devia estar ocupado, e Clutton nunca
recebia bem as visitas; Lawson, por sua vez, pintava outro retrato de Ruth Chalice e
talvez não gostasse de ser incomodado. Resolveu ir procurar Flanagan. Encontrou-o a
pintar, mas o americano largou de bom grado os pincéis e veio conversar com Philip. O
atelier era tépido e confortável, pois Flanagan tinha mais dinheiro do que a maioria
deles. Enquanto ele tratava de fazer o chá, Philip examinou as duas cabeças que o
amigo ia enviar ao Salon.
- Sei que é muito atrevimento mandar seja o que for - disse - mas não me
importo, vou mandá-las. Achas que não prestam?
- São menos más do que esperava - respondeu Philip.
Revelavam, de facto, extraordinária destreza. As dificuldades tinham sido
habilmente evitadas e as cores, lançadas com pinceladas audaciosas, produziam um
efeito que era a um tempo novo e atraente. Sem possuir técnica ou conhecimento de
espécie alguma, Flanagan manejava o pincel com a desenvoltura de um homem que
tivesse pintado a vida inteira.
- Se fosse proibido olhar mais de trinta segundos para um quadro, serias um
grande mestre, Flanagan - comentou Philip, sorrindo.
Aqueles rapazes não tinham o hábito de estragar-se mutuamente com elogios
excessivos.
- Na América não temos tempo para dedicar a um quadro mais de trinta
segundos - gracejou o outro.
Embora fosse uma das criaturas mais estouvadas do mundo, Flanagan tinha uma
ternura inesperada e encantadora. Quando alguém adoecia, ele instalava-se como
enfermeiro. A sua alegria era mais benéfica do que qualquer remédio. Como muitos
compatriotas seus, não tinha essa aversão inglesa pelo sentimentalismo, que é como
que um travão das emoções. Não lhe parecia absurdo revelar os seus sentimentos, e
procurava, numa exuberante demonstração de simpatia, aliviar as aflições dos amigos.
Notou que Philip estava abatido e, levado por uma bondade espontânea, procurou
reanimá-lo com gracejos. Exagerava os americanismos que, segundo sabia, divertiam
imenso os ingleses, e entabulou uma conversa interminável, espirituosa e jovial.
Jantaram juntos e, em seguida, foram ao Gaité Montparnasse, local de diversão
preferido por Flanagan. Por volta das onze horas, a disposição do americano tornara-se
extravagante. Bebera bastante, mas aquela alegria, aquele atordoamento, provinham
antes da sua própria vivacidade. Propôs, então, transferirem-se para o Bal Bullier e
Philip, demasiado cansado para ir até casa, concordou de bom grado. Instalaram-se
numa mesa colocada sobre uma plataforma lateral e pediram um bock. Dali
dominavam o salão. Avistando um amigo, Flanagan soltou um grito selvagem e pulou
a grade que os separava do recinto em que se realizavam as danças. Philip pôs-se a
observar a onda de gente. O Bullier não era frequentado pelos elegantes. Era noite de
quinta-feira e o salão estava superlotado. Havia grande número de estudantes das
diversas faculdades, mas a maioria dos homens compunha-se de caixeiros e
amanuenses. Trajavam as roupas de todos os dias, trajos de confecção ou esquisitos
fraques, e conservavam o chapéu na cabeça, pois não havia outro lugar onde colocá-lo.
Algumas das mulheres tinham ar de criadas, ao passo que outras eram raparigas de
vida fácil, muito pintadas. Predominavam, porém, as empregadas de estabelecimentos.
Apresentavam-se pobremente vestidas, procurando imitar em tecidos baratos a moda
em vigor no outro lado do rio. Quanto às outras, faziam o possível por assemelhar-se à
artista de variedades ou à dançarina mais em voga. Sombreados negros circundavamlhes
os olhos, e as faces ostentavam um escarlate impudente. Lâmpadas fortes e baixas
iluminavam o salão, acentuando as sombras dos rostos: os traços fisionómicos
tornavam-se mais duros e as cores, mais cruas. Era um espectáculo sórdido.
Debruçando-se na grade da plataforma, Philip olhou para o recinto e deixou de ouvir a
música. Dançavam com fúria, davam as voltas compenetradamente, quase sem falar,
com a atenção concentrada na dança. O ambiente sufocava e o suor reluzia nos rostos.
Afigurava-se a Philip que se esqueciam do cuidado habitualmente mantido com a
expressão das fisionomias, em obediência a convenções; via-os agora como realmente
eram. Naquele instante de abandono, assumiam estranhas características animalescas:
uns lembravam raposas, outros lobos, e ainda outros tinham a cara alongada e
estúpida do carneiro. A má alimentação e as condições insalubres de existência
reflectiam-se nas faces descoradas. Interesses mesquinhos embruteciam-lhes as feições
e os olhos eram astutos e fugidios. O aspecto desses entes não traduzia nobreza
alguma, sentindo-se que, para a maioria deles, a vida era uma série de preocupações
insignificantes e de pensamentos abjectos. O ar adensava-se com aquele húmido cheiro
a gente. E continuavam a dançar furiosamente, como impelidos por uma força interior
mas alheia a eles; parecia a Philip que os arrastava o furor do prazer. Procuravam,
desesperadamente, escapar a um mundo de horrores. O desejo de prazer, que
Cronshaw dizia ser o único motivo de toda a acção humana, incitava-os cegamente a
prosseguir, e a própria veemência do desejo parecia despojá-lo de todo o prazer.
Impotentes, sem saberem porquê nem para onde, eram arrastados por um grande
vendaval. O destino pairava sobre eles, e dançavam como se as trevas eternas se
estendessem sob os seus pés. O seu silêncio despertava uma vaga inquietação. Dir-se-ia
que a vida os aterrorizava, privando-os do dom da palavra. Os gritos que partiam dos
seus corações morriam-lhes na garganta. Os olhos estavam conturbados e sombrios.
Contudo, apesar da lascívia bestial que os desfigurava, apesar da baixeza das suas
fisionomias, da crueldade e, o que era pior de tudo, da estupidez, a angústia daqueles
olhos fixos dava à multidão um ar patético e terrível. Philip abominava-os, e, contudo,
sentia o coração transbordar de piedade.
Foi buscar o casacão ao vestiário e saiu para o frio cortante da noite.
L
Philip não conseguia esquecer o triste acontecimento. O que mais o perturbava
era a inutilidade dos esforços de Fanny. Ninguém poderia ter trabalhado com mais
ardor, nem com mais sinceridade: ela acreditava inabalavelmente em si própria; mas
era evidente que a autoconfiança significava muito pouco; todos os seus amigos a
tinham: Miguel Ajuria, entre outros. Que contraste entre a luta heróica do espanhol e a
trivialidade do seu objectivo! A vida escolar infeliz de Philip dera-lhe o hábito de se
analisar e este vício, subtil como o dos estupefacientes, dominava-o a ponto de fazer
que experimentasse um gozo especial em dissecar os próprios sentimentos. Sabia
perfeitamente que a arte não o afectava como aos outros. Um belo quadro fazia
Lawson vibrar. A sua apreciação era instintiva. O próprio Flanagan sentia certas coisas
que Philip só penetrava pelo pensamento. A sua apreciação era intelectual. Se
possuísse, na realidade, um temperamento artístico (detestava esta expressão, mas não
encontrava outra) parecia-lhe que sentiria perante a beleza uma comoção instintiva e
não raciocinada, como sucedia aos outros. Pôs-se, então, a imaginar se o que possuía
não era apenas uma habilidade superficial, que lhe permitia reproduzir os objectos com
exactidão. Isso nada valia. Philip aprendera a desprezar a habilidade técnica. O que
importava era sentir em função da pintura. Lawson pintava de certa maneira, porque
isso estava na sua natureza e, através da tendência do estudante para a imitação,
transparecia a personalidade. Olhando para o retrato de Ruth Chalice, três meses
depois de o pintar, Philip chegou à conclusão de que não passava de uma cópia servil
da obra de Lawson. Sentiu-se inteiramente estéril. Pintava com o cérebro, quando sabia
muito bem que a verdadeira pintura brota do coração.
Philip tinha muito pouco dinheiro, apenas umas mil e seiscentas libras, e seria
preciso observar a mais severa economia. Não poderia contar com nenhum lucro, antes
de dez anos. A história da pintura estava repleta de artistas que nada tinham ganho em
toda a vida. Devia resignar-se à penúria, o que valeria a pena, se fosse para produzir
obras imortais; mas tinha um medo terrível de nunca passar da mediocridade. Valeria
a pena renunciar, para isso, à juventude, à alegria de viver, às múltiplas oportunidades
que este mundo nos oferece? Conhecia a existência que levavam os pintores em Paris, o
bastante para saber que era de um provincianismo estreito. Alguns arrastavam-se mais
de vinte anos em busca de uma fama que nunca alcançavam, descambando, por fim, na
sordidez e no alcoolismo. O suicídio de Fanny suscitou recordações e Philip ouviu
histórias lúgubres, que se contavam, da maneira pela qual esta ou aquela pessoa
escapara ao desespero. Lembrou-se do desdenhoso conselho que o mestre dera à pobre
Fanny. Seria infinitamente preferível que ela o aceitasse, renunciando a um
empreendimento sem probabilidades de êxito.
Philip terminou o retrato de Miguel Ajuria e decidiu enviá-lo ao Salon. Flanagan
ia mandar duas telas, e ele achava que sabia pintar tanto como o outro. Tinha
trabalhado com tanto afinco no retrato que não podia deixar de o julgar meritório. Era
verdade que, quando olhava para a pintura, sentia que algo estava mal, embora não
pudesse dizer o que fosse; longe dela, voltava-lhe o optimismo e a satisfação. Enviou-a
ao Salon e ela foi rejeitada. Não se importou muito com isso, pois fizera o possível por
se persuadir de que o quadro muito dificilmente seria aceito, até que, alguns dias mais
tarde, Flanagan veio a correr anunciar a Lawson e a Philip que um dos seus quadros
fora aceito. Com ar desconcertado, Philip felicitou o amigo, e Flanagan, muito ocupado
em se felicitar também, não percebeu o tom de ironia involuntária na voz de Philip.
Lawson, mais perspicaz, notou-o e olhou para Philip com curiosidade. O seu próprio
quadro, sabia-o havia um ou dois dias, fora também aceito, e ficou vagamente
ressentido com a atitude de Philip. Mas surpreendeu-se ante a pergunta que este lhe
fez, assim que o americano se retirou:
- No meu lugar, mandarias tudo isto à fava?
- Que queres dizer com isso?
- Estou a pensar se valerá a pena ser um pintor de segunda ordem. Não importa,
por exemplo, que um médico ou um negociante sejam medíocres. Ganha-se a vida e
tudo segue. Mas qual é a vantagem de pintar mediocremente?
Lawson gostava de Philip e, julgando-o aborrecido de verdade com a recusa da
tela, tratou de consolá-lo. Todos sabiam que o Salon recusara obras que depois se
tornaram célebres. Era a primeira vez que Philip enviava um trabalho seu: nada mais
natural que uma recusa. O êxito de Flanagan encontrava explicação no aparato e
superficialidade da sua pintura, justamente o tipo do quadro em que um júri entediado
veria mérito. Philip começou a perder a paciência; era humilhante que Lawson o
julgasse capaz de ficar abalado por uma contrariedade tão trivial e não visse que o seu
desânimo provinha da profunda falta de confiança na sua própria capacidade.
Havia algum tempo, Clutton andava um tanto afastado do grupo que tomava as
refeições no restaurante Gravier e vivia bastante isolado. Flanagan dissera que ele
estava apaixonado por uma jovem, mas os modos austeros de Clutton não sugeriam tal
coisa. Philip julgava mais provável que ele se separasse dos amigos, a fim de ver mais
claro nas suas novas ideias. Naquela noite, porém, quando os companheiros de Philip
abandonaram o restaurante, ramo ao teatro, deixando-o só, Clutton entrou de repente e
pediu que lhe servissem um jantar. Iniciou-se a conversa entre os dois, e como Clutton
se apresentasse mais loquaz e menos sarcástico que de costume, Philip resolveu tirar
partido desse bom humor.
- Quero que vejas o meu quadro - disse ele. - pretendo saber como o achas.
- Não, não quero ver.
- Porquê? - indagou Philip, corando.
O pedido era dos que todos faziam uns aos outros, e ninguém pensava em
recusá-lo. Clutton encolheu os ombros.
- Pede-se crítica mas o que se quer, na verdade, são elogios. Além do mais, que
valor pode ter a crítica? Que importa que um quadro seja bom ou mau?
- A mim, importa-me.
- Qual! A gente só pinta por não poder deixar de fazê-lo. É uma função
semelhante a qualquer das outras funções do corpo, com a diferença de que apenas um
número relativamente pequeno de pessoas a possui. Quem pinta, pinta para si próprio;
de contrário suicidar-se-ia. Pensa um pouco nisto. Passar, Deus sabe quanto tempo, a
tentar prender alguma coisa numa tela, suando, pondo nisso toda a alma, e qual é o
resultado? Nove vezes em dez, uma recusa do Salon. Quando é aceita, os visitantes
olham para ela dez segundos, de passagem. Se tiver sorte, algum tolo ignorante
compra-a, pendura-a nas paredes, para olhar para ela só quando está à mesa do jantar.
A crítica nada tem a ver com o artista. Ela julga objectivamente, mas o objectivo não
interessa ao artista.
Clutton pôs as mãos sobre os olhos para melhor se concentrar no que desejava
dizer.
- No artista, a visão traduz-se por uma sensação particular! Ele é impelido a
exprimi-la sem saber porquê, só pode fazê-lo com traços e cores. É como o músico: lê
um ou dois versos e uma certa combinação de notas apresenta-se-lhe ao espírito: ele
não sabe por que tais e tais palavras evocam tais e tais notas; mas evocam. Dou-te outra
razão para provar que a crítica não tem sentido algum: um grande pintor força as
pessoas a verem a natureza como ele a vê. Mas, na geração seguinte, outro pintor vê o
mundo de maneira diversa. Então, o público não o julga pela sua obra, mas pelo seu
predecessor. O grupo de Barbizon acostumou os nossos pais a ver as árvores de certa
maneira, e quando Monet chegou e começou a pintar de outro modo, disseram: «Mas
as árvores não são assim». Nunca lhes passou pela cabeça que as árvores são
exactamente como um pintor as vê. Nós pintamos de dentro para fora. Se impomos a
nossa visão ao mundo, ele chama-nos grandes pintores; se não, ignora-nos, mas nós
continuamos os mesmos. Não atribuímos qualquer sentido às palavras grandeza e
mediocridade. O que acontece posteriormente ao nosso trabalho não tem a menor
importância; tirámos dele tudo quanto podíamos, enquanto o realizávamos.
Seguiu-se uma pausa, durante a qual Clutton, com o seu apetite voraz, consumiu
toda a comida que lhe haviam posto na frente. Fumando um charuto ordinário, Philip
observava-o atentamente. A rudeza da cabeça, que parecia ter saído de uma pedra
refractária ao cinzel do escultor, a cabeleira negra e rebelde, o nariz grande e a solidez
dos maxilares sugeriam um homem forte. No entanto, Philip punha-se a imaginar se
aquela máscara não esconderia uma estranha fraqueza. Talvez Clutton se negasse a
mostrar a sua obra por pura vaidade. Ele revoltava-se à ideia da crítica alheia e não
queria correr o risco de uma recusa no Salon. Queria ser recebido como um mestre,
sem se arriscar a comparações que o pudessem forçar a perder a fé em si próprio.
Havia dezoito meses que Philip o conhecia, e, durante esse tempo, Clutton tornara-se
cada vez mais áspero e amargo. Embora não se dignasse competir com os seus
companheiros, indignava-o o êxito fácil dos que o faziam. Já não suportava Lawson,
deixara de haver entre os dois aquela intimidade dos tempos em que Philip travara
conhecimento com eles.
- Lawson está feito - dizia ele, com desprezo. - Vai voltar para Inglaterra, tornarse
um retratista da moda, ganhar dez mil libras por ano, e antes dos quarenta, será
membro da Academia Real. Especialidade: retratos à mão para a nobreza e a classe
média.
Também Philip olhava para o futuro e via Clutton, vinte anos mais tarde:
amargo, solitário, selvagem e desconhecido; ainda em Paris, cuja vida tomara conta
dele, pontificando para um pequeno cénacle com uma língua ferina, em guerra consigo
e com o mundo, pouco produzindo em virtude da sua paixão crescente pela perfeição,
que não podia atingir, e talvez soçobrando por fim no álcool. Ultimamente Philip
andava preso à ideia de que, vivendo o homem apenas uma vida, deve procurar fazer
que ela seja bem sucedida. Para ele, porém, triunfar não significava adquirir fama ou
dinheiro. Não sabia ao certo como definir o êxito, mas talvez consistisse no maior
número possível de experiências ou no pleno desenvolvimento das suas faculdades. De
qualquer forma, era óbvio que a vida de Clutton parecia destinada a falhar. somente
obras-primas imperecíveis a poderiam justificar. Philip lembrou-se, então, da
extravagante metáfora do tapete persa, de Cronshaw. Meditara amiúde a esse respeito,
mas Cronshaw, com o seu humor faunesco, não quisera precisar-lhe o sentido,
repetindo que não tinha nenhum, a menos que a própria pessoa o descobrisse. No
fundo, a hesitação de Philip em prosseguir na carreira artística vinha do seu desejo de
fazer da vida um triunfo certo.
Clutton recomeçou a falar.
- Lembras-te do sujeito que encontrei na Bretanha e de quem te falei? Vi-o aqui,
em Paris, há dias. Acaba de partir para Taiti. Estava perdido para o mundo. Era um
brasseur d’affaires, um corretor, um stockbroker como acho que dizem em Inglaterra.
Possuía mulher e filhos e tinha um rendimento bastante avultado. Pois mandou tudo
isso à fava para pintar. Deixou tudo, foi para a Bretanha e começou a pintar. Não tinha
nem um tostão e pouco faltou para morrer de fome (Alusão ao pintor Gauguin, de quem
Maugham fez a principal personagem de Um Gosto e Seis Vinténs. (N. do R.).
- E a mulher e os filhos? perguntou Philip.
- Abandonou-os. Que morressem de fome para outro lado.
- Mas isso foi uma baixeza.
- Ora, meu caro, se queres ser um cavalheiro tens de abandonar a ideia de ser
artista. Cavalheiro e artista nada têm a ver um com o outro. Contam por aí histórias de
pinta-monos que borram telas para sustentar a mãe idosa. Isso mostra que eles são
excelentes filhos, mas não lhes desculpa os maus quadros. São apenas comerciantes.
Um artista deixaria que a mãe fosse para um asilo. Conheço um escritor, daqui, cuja
mulher morreu de parto. Gostava dela, estava louco de dor, mas, à cabeceira da mulher
que se finava, ele surpreendeu-se a tomar mentalmente nota das expressões da
moribunda, do que ela dizia e sentia. Um cavalheiro, não?
- Mas esse teu amigo é bom pintor? - indagou Philip.
- Por enquanto, não. Pinta tal qual como Pissarro. Ainda não se encontrou a si
próprio, mas possui o sentido da cor e da decoração. Contudo, o importante não é isso:
é o temperamento de pintor, e ele tem-no. Portou-se como um verdadeiro canalha com
a mulher e os filhos, é verdade. O modo como trata as próprias pessoas que o ajudaram
(certa vez só não morreu de fome graças à bondade de uns amigos) é simplesmente
animal. Acontece que é um grande artista.
Philip pôs-se a meditar sobre o homem que sacrificara o conforto, o lar, o
dinheiro, o amor, a honra, o dever, pelo prazer de traduzir em pintura as sensações que
o mundo lhe despertava. Era magnífico, mas faltava-lhe a coragem.
Ao pensar em Cronshaw, lembrou-se de que não o vira em toda a semana.
Depois que Clutton se foi, Philip dirigiu-se para o café onde estava certo de encontrar o
escritor. Nos primeiros meses da sua estada em Paris, aceitara como um evangelho
tudo quanto Cronshaw dizia. Mas Philip possuía senso prático e não suportava as
teorias que não resultassem em acção. A frágil bagagem poética de Cronshaw não
parecia resultado substancial para uma existência aliás sórdida. Philip não conseguia
extirpar de si os instintos da classe média, de que provinha; e a penúria, o trabalho
mesquinho a que Cronshaw se entregava para não morrer de fome, a monotonia dessa
existência entre a suja mansarda e a mesa do café, chocavam o seu sentimento de
respeitabilidade. Cronshaw era suficientemente perspicaz para sentir a desaprovação
do rapaz e atacava a sua mentalidade de filisteu com uma ironia que era às vezes
brincalhona, mas quase sempre muito aguda.
- És um negociante - dizia ele a Philip. - Queres empregar a vida em títulos
consolidados que te dêem um rendimento certo de três por cento. Eu sou um
perdulário que consome o capital. Gastarei o meu último níquel com o último palpitar
do coração.
A metáfora irritou Philip, porque dava ao orador uma atitude romântica e
lançava descrédito sobre uma tese que ele sabia instintivamente ser forte, mas que, de
momento, não estava em condições de defender como ela o merecia.
Naquela noite, porém, Philip queria falar acerca de si próprio. Por sorte, a pilha
de pires na frente de Cronshaw sugeria que o poeta já se encontrava em estado de
considerar todas as coisas com a suficiente isenção de ânimo.
- Quero pedir-lhe um conselho - disse Philip, de repente.
- Por acaso pretende segui-lo?
Philip encolheu os ombros, com impaciência.
- Não creio que venha a ser grande coisa como pintor, e não vejo vantagem em
ser um artista de segunda ordem. Penso em desistir...
- E porque não?
Philip hesitou um instante.
- Sem dúvida, porque gosto desta vida.
Operou-se uma transformação no rosto redondo e plácido de Cronshaw. Caíramlhe
os cantos da boca, afundaram-se-lhe os olhos nas órbitas. Pareceu ficar
estranhamente velho e curvado.
- Disto? - exclamou, passeando os olhos pelo café em que estavam.
A voz tremia-lhe realmente, um pouco.
- Se podes abandonar isto, resolve enquanto é tempo.
Philip encarou-o com espanto, mas o espectáculo da comoção deixava-o tímido, e
baixou os olhos. Sabia que tinha diante de si a tragédia do falhado. Houve um silêncio.
Cronshaw, pensava Philip, estava a analisar a sua própria vida. Talvez recordasse a
mocidade cheia de brilhantes esperanças e as decepções que lhes embaciaram o fulgor,
a miserável monotonia do prazer e o negro futuro. Os olhos de Philip pausaram na
pequena pilha de pires, e sabia que os de Cronshaw também estavam postos ali.
LI
Passaram-se dois meses.
Parecia a Philip, ao meditar nesses assuntos, que, nos verdadeiros pintores,
escritores e músicos, havia uma força que os levava a absorver-se completamente no
trabalho, a ponto de serem obrigados a subordinar a vida à Arte. Sucumbindo a uma
influência de que nem sequer se apercebiam, tornavam-se meros joguetes do instinto
que os possuía, e a vida escorria-lhes pelos dedos sem ser vivida. Ora, a existência
devia ser vivida e não pintada, e Philip queria aprofundar as suas várias experiências,
extrair de cada momento a sensação que ele pudesse dar. Resolveu-se, afinal, a dar um
passo e aceitar as consequências; tomada a resolução, decidiu pô-la em prática sem
demora. Felizmente, o dia seguinte era aquele em que Foinet fazia a visita semanal ao
estúdio. Perguntar-lhe-ia, com toda a franqueza, se recomendava a continuação dos
seus estudos. Nunca esquecera o brutal conselho que o mestre dera a Fanny Price. Fora
um bom conselho. A lembrança de Fanny Price também não lhe saía da cabeça. Sem
ela, o estúdio assumia um ar estranho. De quando em quando, o gesto de uma das
mulheres, ou o tom de uma voz, por se assemelharem aos dela, causavam-lhe um
sobressalto: a presença dela era mais viva agora que estava morta do que enquanto
vivera. Muitas vezes sonhava com ela, e despertava com um grito de terror. Era
horrível imaginar quanto devia ter sofrido.
Nos dias em que visitava o estúdio, Foinet almoçava num pequeno restaurante
da Rue d'Odessa. Sabendo isso, Philip tomou apressadamente a sua própria refeição, e
foi esperar a saída do pintor. Pôs-se a caminhar de um lado para o outro. Afinal, Foinet
apareceu, de cabeça baixa, andando na sua direcção. Philip estava bastante nervoso,
mas fez um esforço e dirigiu-se ao mestre.
- Pardon, monsieur, desejava falar-lhe um momento.
Foinet relanceou um olhar, reconheceu-o, mas não teve um sorriso.
- Fale - disse.
- Estudo com o senhor há quase dois anos. Desejava que me dissesse francamente
se acha que me vale a pena continuar.
A voz de Philip tremia um pouco. Foinet continuava a caminhar sem levantar os
olhos. Ao observar-lhe o rosto, Philip não lhe descobriu nenhum traço de expressão.
- Não compreendo.
- Sou muito pobre. Se me falta talento, prefiro dedicar-me a outra coisa.
- E o senhor não sabe se tem talento?
- Todos os meus amigos sabem que têm talento, mas estou certo de que alguns
deles se enganam.
Os lábios amargos de Foinet esboçaram um sorriso e perguntou:
- Mora perto daqui?
Philip explicou-lhe onde era o estúdio. Foinet voltou-se.
- Vamos até lá. Vai mostrar-me o seu trabalho.
- Agora? - exclamou Philip.
- Porque não?
Philip não tinha que dizer. Pôs-se a andar em silêncio ao lado do mestre, preso de
horrível mal-estar. Nunca imaginara que Foinet resolvesse ver os seus quadros
imediatamente. Pretendia convidá-lo a ir ao seu atelier num dia qualquer, em data
futura, quando estivesse preparado, ou então levar os seus quadros ao estúdio de
Foinet. E agora tremia de ansiedade. Intimamente esperava que Foinet olhasse o seu
quadro e, apertando-lhe a mão, dissesse, com aquele sorriso que só de raro em raro lhe
aflorava aos lábios: «Pas mal. Continue, meu rapaz. O senhor tem talento, talento de
verdade». O coração de Philip deleitava-se ante essa perspectiva. Que alívio, que
alegria! Poderia então prosseguir, cheio de coragem. Que importavam as dificuldades,
as privações, as decepções, uma vez que triunfaria? Trabalhara tanto que seria demasiado
cruel se toda essa diligência fosse inútil. Lembrou-se, então, sobressaltado, de
que Fanny Price dissera, uma vez, exactamente o mesmo. Ao chegarem a casa, Philip
ficou cheio de medo. Se não lhe faltasse coragem, teria pedido a Foinet que se retirasse.
Não queria conhecer a verdade. À entrada, a concierge entregou-lhe uma carta.
Lançando um olhar ao sobrescrito, reconheceu a letra do tio. Foinet acompanhou-o
escada acima. Philip não atinava com o que dizer. Foinet continuava mudo e esse
silêncio aumentava o nervosismo do rapaz. O professor sentou-se e o aluno, sem dizer
palavra, colocou diante dele o quadro recusado no Salon. Foinet abanou a cabeça sem
falar. Philip mostrou-lhe então os dois retratos que fizera de Ruth Chalice, duas ou três
paisagens pintadas em Moret e alguns esboços.
- É tudo - disse afinal, com um sorriso nervoso.
Foinet enrolou um cigarro e acendeu-o.
- Tem poucos recursos? - perguntou por fim.
- Muito poucos - respondeu Philip, com o coração subitamente gelado. - Mal me
dá para viver.
- Nada mais degradante do que as contínuas preocupações com os meios de
subsistência. As pessoas que desprezam o dinheiro só me inspiram desdém. São
hipócritas ou idiotas. O dinheiro é como que um sexto sentido, sem o qual não
podemos usar de modo completo os outros cinco. Sem um rendimento decente, metade
das possibilidades da vida ficam perdidas para nós. O único cuidado que se deve ter é
não pagar mais de um xelim pelo xelim que se ganha. Há quem diga que a pobreza é o
melhor aguilhão para o artista. Esses nunca lhe sentiram a ponta nas carnes. Não
imaginam quanto a pobreza rebaixa. Expõe-nos a humilhações sem fim, corta-nos as
asas, corrói-nos a alma como um cancro. Não é riqueza o que se pede, mas o necessário
para manter a dignidade, para trabalhar sem embaraços, ser generoso, franco e
independente. Lamento de todo o coração o artista, escritor ou pintor, que depende
inteiramente da sua arte para viver.
Em silêncio, Philip guardou as telas que mostrara.
- Isso parece significar que o senhor não vê em mim grandes promessas.
Monsieur Foinet encolheu levemente os ombros.
- O senhor possui certa habilidade manual. Com trabalho e perseverança, não
vejo motivo para não chegar a ser um pintor cuidadoso e bastante competente.
Encontraria centenas de pessoas de merecimento inferior ao seu, mas também
encontraria centenas com o mesmo merecimento. Não vejo talento em nada do que me
mostrou. Vejo indústria e inteligência. Nunca passará de medíocre.
Philip conseguiu responder com a maior calma:
- Fico-lhe muito reconhecido pelo trabalho que lhe dei. Não sei como agradecerlhe.
Monsieur Foinet levantou-se, como para se ir embora, mas, mudando de ideia,
deteve-se e pôs a mão no ombro de Philip.
- Mas, se me pedisse um conselho, eu diria: reúna toda a sua coragem e tente a
sorte noutra coisa qualquer. Parece duro, mas ouça: daria tudo no mundo para que
alguém me tivesse dado esse conselho quando tinha a sua idade, e para o ter aceitado.
Philip olhou-o, surpreendido. O mestre procurou sorrir, mas os seus olhos
permaneceram graves e tristes.
- É cruel descobrir a nossa mediocridade tarde de mais. Isso não melhora o
carácter.
Dizendo isto, casquinou um risinho breve e em seguida deixou o quarto.
Maquinalmente, Philip pegou na carta do tio. A vista da sua letra tornava-o
inquieto, pois era a tia quem costumava escrever-lhe. Havia três meses que ela andava
doente, e Philip oferecera-se para ir a Inglaterra vê-la; a tia Louise, porém, opusera-se
por temer que a viagem lhe prejudicasse o trabalho. Não queria vê-lo prejudicado por
sua causa. Disse que podia esperar até Agosto, quando gostaria que ele fosse passar
duas ou três semanas no vicariato. Se por acaso piorasse, avisá-lo-ia, pois não queria
morrer sem o ver outra vez. O facto de a carta provir do tio indicava que a tia Louise
estava muito doente, pois não podia segurar a caneta. Philip abriu a carta. Dizia o
seguinte:
Meu caro Philip:
Sinto informar-te que a tua querida tia deixou esta vida na
madrugada de hoje. Morreu subitamente, mas muito tranquila. O seu
estado piorou tão depressa que não tivemos tempo de te mandar chamar.
Ela estava preparada para o fim e repousou cheia de confiança na bemaventurada
ressurreição e resignada à divina vontade de Nosso Senhor
Jesus Cristo. Tua tia gostaria que estivesses presente às suas exéquias;
assim, confio que venhas o mais depressa possível. Há, como é de esperar,
muito trabalho a recair nos meus ombros e encontro-me deveras abatido.
Confio em que possas fazer tudo por mim.
Teu tio afectuoso,
William Carey
LII
No dia seguinte Philip chegou a Blackstable. Desde a morte da mãe, não perdera
nenhum parente próximo. O falecimento da tia afligiu-o; encheu-o, ao mesmo tempo,
de um esquisito temor. Pela primeira vez, sentia a sua condição de mortal. Não sabia o
que seria a vida para o tio, sem a constante companhia da mulher que o amava e dele
cuidara durante quarenta anos. Esperava encontrá-lo mergulhado num grande
abatimento. Incapaz de achar palavras de consolo, receava esse primeiro encontro, e
começou a estudar para a ocasião algumas frases apropriadas.
Entrou no vicariato pela porta lateral e dirigiu-se à sala de jantar. O tio William
estava a ler o jornal.
- O teu comboio veio atrasado - disse ele, erguendo os olhos.
Philip vinha preparado para dar liberdade à sua comoção, mas esta recepção
prosaica perturbou-o. Abatido, mas calmo, o tio estendeu-lhe o jornal.
- Há umas linhas muito gentis sobre ela, no Blackstable Times - disse.
Philip leu-as maquinalmente.
- Queres ir vê-la?
O rapaz acenou que sim e ambos subiram a escada que conduzia ao primeiro
andar. Cercada de flores, a tia Louise repousava no meio da grande cama de casal.
- Gostarias de rezar uma breve oração? - perguntou o vigário.
Vendo o tio ajoelhar-se, Philip seguiu-lhe o exemplo, porque assim esperavam
dele. Diante daquele rosto pequenino e enrugado, só uma ideia lhe acudia ao espírito:
que vida desperdiçada! Um minuto depois, Mr. Carey tossiu e levantou-se. Apontou
para uma coroa colocada ao pé da cama.
- Veio do castelo - disse.
Falava em voz baixa, como se estivesse na igreja, mas sentia-se que, na qualidade
de ministro de Deus, se considerava perfeitamente à vontade.
- Acho que o chá está pronto.
Desceram novamente para a sala de jantar. As cortinas cerradas davam-lhe um
aspecto lúgubre. O vigário tomou lugar na extremidade da mesa em que sua mulher
costumava sentar-se, e serviu-se cerimoniosamente de chá. Philip achava que nenhum
dos dois devia ter vontade de comer, mas, ao notar o apetite imperturbável do tio,
imitou-o com a sua habitual disposição. Por momentos não falaram. Philip pôs-se a
comer um saboroso bolo com o ar de abatimento que a decência lhe parecia indicar.
- As coisas têm mudado muito, desde o tempo em que eu era coadjutor - disse o
vigário, rompendo o silêncio. - Quando era novo, davam às pessoas que acompanhavam
um enterro um par de luvas pretas e um pedaço de seda negra para o chapéu.
A pobre Louise fazia vestidos com essa seda. Ela dizia sempre que doze enterros
lhe davam um vestido novo.
Em seguida, enumerou as pessoas que tinham mandado coroas. Já havia vinte e
quatro. Quando morrera Mrs. Rawlingson, esposa do vigário de Ferne, tinham-lhe
enviado trinta e duas coroas. Era provável, porém, que chegassem muitas outras, no
dia seguinte, pois o funeral sairia do vicariato às onze horas da manhã, e venceriam
facilmente Mrs. Rawlingson. Louise nunca apreciara essa senhora.
- Eu próprio conduzirei a cerimónia. Prometi a Louise não permitir que outra
pessoa a enterrasse.
Philip olhou com ar de censura para o tio, quando este se serviu de segunda fatia
de bolo. Em tais circunstâncias, não pôde deixar de pensar que era gulodice.
- Mary Ann sabe preparar bolos excelentes. Temo que outra pessoa não os faça
tão bem.
- Vai mandá-la embora? - exclamou Philip, com surpresa.
Mary Ann estava no vicariato desde a infância de Philip. Jamais esquecia o
aniversário do rapaz e nunca deixara de lhe oferecer alguma bagatela, absurda e
tocante. Philip tinha por ela verdadeira afeição.
- Vou - respondeu Mr. Carey. - Não julgo conveniente conservar em casa uma
mulher solteira.
- Mas, Deus louvado, ela deve ter mais de quarenta anos!
- Acho que tem, sim. Mas há uns tempos para cá tem andado um tanto
impertinente e autoritária. Penso que é excelente oportunidade para despedi-la.
- Oportunidade como esta, é certo que não se repete - disse Philip.
Pegou num cigarro, mas o tio não deixou que o acendesse.
- Antes do enterro, não - disse, com brandura.
- Está bem - respondeu Philip.
- Não seria muito respeitoso fumar aqui, em casa, enquanto a tua pobre tia
Louise está lá em cima.
Depois do enterro, Josiah Graves, tesoureiro da igreja e gerente do Banco, veio
jantar ao vicariato. Os estores tinham sido levantados e Philip, mau grado seu, sentia
uma curiosa sensação de alívio. A presença do corpo deixava-o contrafeito. Enquanto
ela jazia lá em cima no quarto, fria e rígida, a pobre mulher, toda doçura e bondade
quando viva, parecia exercer sobre os que ficavam uma influência funesta. Tal ideia
horripilava Philip.
Durante uns minutos, o tesoureiro da igreja e ele encontraram-se a sós na sala de
jantar.
- Espero que possas ficar com teu tio algum tempo - disse ele. - Não me parece
aconselhável deixá-lo sozinho, nesta altura.
- Ainda não fiz nenhum plano. Se ele precisar de mim, ficarei com grande prazer.
Para distrair o marido desolado, o tesoureiro, durante o jantar, falou de um
incêndio recente em Blackstable, que destruíra parte da capela metodista.
- Ouvi dizer que a capela não estava no seguro - disse ele, com um pequeno
sorriso.
- Isso não faz diferença - comentou o vigário. - Vão conseguir o dinheiro que
quiserem para a reconstrução. Essa gente esta sempre pronta a dar dinheiro.
- Vejo que Holden mandou uma coroa.
Holden era o ministro dissidente e, embora, por amor de Cristo que morrera por
ambos, Mr. Carey o cumprimentasse na rua, nunca lhe dirigia a palavra.
- Acho que foi muito atrevimento - observou o vigário. - Mandaram quarenta e
uma coroas. A sua era linda. Philip e eu admirámo-la muitíssimo.
- Isso é bondade sua - protestou o empregado bancário.
Notara com satisfação que a sua coroa era a maior de todas. Parecera-lhe muito
bonita.
Começaram a falar sobre as pessoas que acompanharam o enterro. Várias lojas
tinham fechado. O tesoureiro tirou do bolso uma nota impressa: Devido ao funeral de
Mrs. Carey este estabelecimento só abrirá as portas às treze horas.
- Foi ideia minha - disse.
- Foram muito gentis em fechar. - comentou o vigário. - A pobre Louise teria
apreciado isso.
Philip comia. Mary Ann preparara um jantar de domingo: havia frango assado e
torta de groselha.
- Sem dúvida ainda não pensou na pedra tumular? - tornou Josiah Graves.
- Já, sim. Pensei numa simples cruz de pedra. Louise sempre foi contra a
ostentação.
- Não creio que se possa encontrar coisa melhor do que uma cruz. E, como
inscrição, que me diz a: «Com Cristo, o que é bem melhor»?
O vigário franziu os lábios. Era característico do «Bismarck» querer decidir tudo
com os seus alvitres. O texto não lhe agradava: parecia depreciativo para a sua pessoa.
- Não sei se porei assim. Eu prefiro: O Senhor a deu e o Senhor a levou.
- Oh! prefere? Esse sempre me pareceu um pouco vulgar.
O vigário respondeu com certo azedume e Mr. Graves replicou num tom que o
viúvo julgou demasiado autoritário para a ocasião. As coisas já tinham ido muito
longe, uma vez que ele nem sequer podia escolher uma inscrição para o túmulo da
própria esposa. Houve um silêncio e, depois, a conversa desviou-se para assuntos da
paróquia. Philip foi ao jardim fumar o seu cachimbo. Sentou-se num banco e, de súbito
desatou a rir nervosamente.
Alguns dias depois, o tio expressou o desejo de que ele passasse umas semanas
em Blackstable.
- Pois não. Vem a propósito - disse Philip.
- Suponho que não te cause nenhum inconveniente voltar a Paris em Setembro.
Philip não respondeu. Meditara muito sobre o que Foinet lhe dissera, mas ainda
estava tão indeciso que não queria falar no futuro. Havia algo de nobre em renunciar à
arte por estar convicto de que não se distinguiria nela. Mas, infelizmente, só por ele o
seu gesto seria assim interpretado. Para os outros, equivaleria a uma aceitação de
derrota, e ele não queria confessar-se vencido. Era uma criatura obstinada, e a suspeita
de que a sua vocação não o levava para certo rumo tornava-o inclinado a forçar as
circunstâncias e visar precisamente esse rumo. Não podia suportar que os amigos
rissem dele. Isso o teria impedido de abandonar a pintura para sempre, mas o
ambiente diverso fez-lhe de súbito ver as coisas de modo diferente. Como muitos
outros, descobriu que a travessia do Canal torna singularmente fúteis coisas que
pareciam muito importantes. Aquele género de existência, tão encantador que não
podia pensar em deixá-lo, parecia-lhe agora inepto. Cafés e restaurantes, com a sua
comida mal feita, a vida miserável que aquela gente levava, tudo isso começou a
despertar-lhe aversão. Já não lhe importava a opinião dos amigos: Cronshaw, com a
sua retórica, Mrs. Otter com a sua respeitabilidade, Ruth Chalice com suas afectações,
Lawson e Clutton com as suas disputas. Insurgia-se contra todos eles. Escreveu a
Lawson, a pedir-lhe que enviasse tudo o que lhe pertencia. Uma semana mais tarde,
chegavam as suas coisas. Depois de desembrulhar as telas, pôde examiná-las sem
comoção. Notou esse facto com interesse. O tio estava ansioso por ver os quadros.
Embora se tivesse oposto com todas as suas forças à ideia de Philip ir para Paris,
aceitava agora a situação com serenidade. Mostrava-se interessado na vida dos
estudantes e fazia constantes perguntas a Philip, a esse respeito. Sentia, mesmo, certo
orgulho do sobrinho, por ser um pintor e procurava fazê-lo brilhar diante dos
conhecidos. Olhou com avidez para os estudos de modelos que Philip lhe mostrou.
Quando chegou a vez do retrato de Miguel Ajuria, perguntou:
- Por que o pintaste?
- Procurava um modelo e a cabeça dele agradou-me.
- Já que não tens nada que fazer aqui, podias pintar o meu retrato.
- O tio aborrecer-se-ia de posar.
- Não, acho que gostaria.
- Depois veremos.
A vaidade do tio divertia Philip. Via-se que ele ardia em desejos de ser retratado.
Consegui-lo de graça não era oportunidade que se perdesse. Durante dois ou três dias,
fez pequenas insinuações. Censurava a preguiça de Philip, perguntava-lhe quando
começaria a trabalhar e, finalmente, principiou a dizer a quem encontrava que Philip ia
pintar-lhe o retrato. Por fim, veio um dia de chuva e depois do almoço Mr. Carey disse
a Philip.
- Então, que dizes de iniciar o meu retrato esta manhã?
Philip deixou o livro que estava a ler e reclinou-se na cadeira.
- Renunciei à pintura - respondeu.
- Porquê? - perguntou o tio, espantado.
- Não me parece que valha a pena ser um pintor de segunda categoria e cheguei à
conclusão de que nunca passaria disso.
- Surpreendes-me. Antes de embarcar para Paris, tinhas absoluta certeza de que
eras um génio.
- Estava enganado - disse Philip.
- Depois de abraçares uma profissão, julguei que terias o orgulho de continuar
nela. Parece-me que o que te falta é perseverança.
Philip ficou um pouco contrariado de que o tio nem sequer reparasse no que de
verdadeiramente heróico havia na sua decisão.
- «Pedra que muito rola não cria limo» - continuou o vigário.
Philip detestava sobremaneira esse provérbio, que lhe parecia completamente
vazio de sentido. O tio repetira-o várias vezes durante as discussões que precederam o
seu abandono da carreira de contabilista. Isso pareceu despertar no vigário a
lembrança daquela ocasião.
- Já não és uma criança, como sabes. É preciso começar a pensar em qualquer
coisa de sério. Primeiro insistes em estudar contabilidade; depois aborreces-te disso e
resolves ser pintor. Agora, dá-te a veneta e modificas novamente a tua decisão. Isso
indica...
Mr. Carey hesitou um pouco, para considerar que defeitos de carácter isso
indicava e Philip terminou a frase:
- Irresolução, incompetência, falta de previsão e de firmeza.
O vigário ergueu rápido os olhos para o sobrinho, a fim de ver se o rapaz
zombava dele. O rosto de Philip estava impassível, mas havia no seu olhar uma
centelha que o irritou. Philip devia levar as coisas mais a sério. Sentiu-se no direito de
lhe dar uma lição.
- Nada mais tenho com as tuas questões financeiras. Agora, és senhor de ti. Mas
devias lembrar-te de que o teu dinheiro não há-de durar sempre e não será essa tua
infeliz deformidade que te ajudará a ganhar a vida.
Philip já sabia que, quando alguém se zangava com ele, o primeiro pensamento
que ocorria era fazer menção ao pé boto. O seu conceito da raça humana era
determinado pelo facto de que quase ninguém conseguia resistir a essa tentação. Mas
havia-se exercitado em não mostrar o menor sinal de que a alusão o feria. Conseguira
mesmo dominar o rubor que, na infância, fora um dos seus tormentos.
- Como justamente observou - respondeu - as minhas questões financeiras não
lhe competem e sou senhor de mim mesmo.
- Em todo o caso, hás-de fazer-me a justiça de reconhecer que tinha razão quando
me opus à tua ideia de estudares pintura.
- Não estou muito certo disso. Sei que se aproveita mais fazendo tolices
espontaneamente do que agindo de maneira acertada por conselho dos outros. Fiz a
minha tentativa e agora posso fixar-me.
- Em quê?
Philip não estava preparado para a pergunta, pois que ainda nada resolvera.
Estivera a pensar numa dúzia de profissões.
- O melhor seria abraçar a profissão de teu pai e estudar medicina.
- Interessante: é precisamente isso o que eu pretendo fazer.
Pensara na medicina, entre outras coisas, principalmente porque essa ocupação
parecia oferecer bastante liberdade pessoal e a sua experiência da vida de escritório
levara-o a tomar a resolução de nunca mais entrar em nenhum. A resposta ao vigário
escapara-lhe quase inadvertidamente, sendo mais como uma réplica.
Achou graça ao facto de ter tomado a resolução dessa maneira acidental, e ali
mesmo decidiu entrar no Outono para o velho hospital de seu pai.
- Então os teus dois anos em Paris podem ser considerados como tempo perdido?
- Não sei bem. Passei dois anos encantadores e aprendi umas coisas úteis.
- Quais ?
Philip reflectiu por um instante, e a sua resposta não foi destituída de um leve
desejo de irritar.
- Aprendi a olhar para as mãos das pessoas, o que nunca fazia dantes. E em vez
de só olhar para as casas e árvores, aprendi a olhar para as casas e para as árvores
contra o céu. E também aprendi que as sombras não são pretas mas coloridas.
- Suponho que te julgas muito esperto. Acho a tua volubilidade perfeitamente
inepta.
LIII
Mr. Carey retirou-se para o escritório, levando o jornal. Philip passou para a
cadeira em que o tio estivera sentado (era a única confortável da sala) e olhou pela
janela para a chuva que caía. Mesmo com aquele tempo tristonho, havia qualquer coisa
de repousante nos campos verdes que se estendiam para o horizonte. Havia na
paisagem um encanto íntimo que ele não se lembrava de ter notado antes. Dois anos
em França tinham-lhe aberto os olhos para a beleza daquela região.
Pensava com um sorriso na observação do tio. Era uma sorte que o seu espírito
tendesse para a volubilidade. Começava a dar-se conta da grande perda que sofrera
com a morte do pai e da mãe. Era um dos motivos que, na vida, o tinham impedido de
ver as coisas da mesma maneira que os outros. O amor dos pais pelos filhos é o único
sentimento perfeitamente desinteressado. Crescera entre estranhos, o melhor que
pudera, mas raramente fora tratado com paciência ou indulgência. Orgulhava-se do
seu autodomínio. Fora-lhe inculcado pela zombaria dos companheiros. Depois,
chamavam-lhe cínico e insensível. Adquirira um aspecto calmo e alheio e, as mais das
vezes, uma máscara impassível, de maneira que já não podia mostrar os seus
sentimentos. Diziam-no despido de emoções, mas ele sabia que estava à mercê delas:
uma bondade inesperada comovia-o tanto que, às vezes, não se aventurava a falar,
para que não lhe notassem a insegurança da voz. Lembrava-se da amargura da sua
vida na escola, das humilhações que sofrera, dos gracejos que lhe haviam incutido um
terror mórbido de ser ridículo. Recordava-se também do seu sentimento de solidão,
quando perante o mundo; a desilusão e o desapontamento causados pela distância que
separava as quimeras da sua activa imaginação da realidade. Mas, apesar de tudo,
podia observar-se como se fosse outro e sorrir divertido.
«Palavra que, se não fosse volúvel, me enforcaria», reflectiu alegremente.
Tornou a pensar na resposta que dera ao tio, quando este lhe perguntara o que
aprendera em Paris. Aprendera muito mais do que dissera. Certa palestra com
Cronshaw ficara-lhe gravada na memória e uma frase por ele empregada, frase assaz
comum, fizera-lhe trabalhar o cérebro.
- Meu rapaz - dissera Cronshaw - a moral abstracta não existe.
Quando Philip deixou de crer no cristianismo, sentiu que um grande peso lhe
fora tirado dos ombros; despojando-se da responsabilidade que sobrecarregava cada
acto, quando cada acto era de infinita importância para a salvação da sua alma imortal,
experimentou uma viva sensação de liberdade. Mas agora sabia que isso fora uma
ilusão. Ao abandonar a fé em que fora criado, mantivera intacta a moral que era sua
parte integrante. Resolveu, então, pensar por si mesmo sobre as coisas. Determinou
não se deixar influenciar por preconceitos. Descartou-se de vícios e virtudes e rejeitou
os princípios assentes do bem e do mal, com a ideia de encontrar por si próprio uma
norma de vida. Afinal, nem sabia se era necessário possuir tal norma. Essa era uma das
coisas que desejava descobrir. Sem dúvida, muito do que lhe parecia válido assim se
afigurava porque lhe fora ensinado desde a primeira infância. Lera inúmeros livros,
mas eles não o ajudaram muito, pois baseavam-se na moral cristã; e mesmo os autores
que proclamavam não acreditar no cristianismo nunca se davam por satisfeitos senão
quando organizavam um sistema de moral de acordo com o Sermão da Montanha.
Não valia a pena ler um longo volume para aprender que nos devemos conduzir
exactamente como os outros. Philip desejava saber como devia proceder, e julgava-se
capaz de fugir à influência do ambiente. Ao mesmo tempo, porém, era necessário
continuar a viver e, enquanto não formava uma teoria de conduta, traçou para si
mesmo uma regra provisória:
«Segue as tuas inclinações, levando na devida conta o polícia ao virar da
esquina.»
A liberdade completa de espírito, julgava ele, era o que melhor adquirira em
Paris. Afinal, sentia-se absolutamente livre. Lera sem método inúmeras obras
filosóficas, e, agora, aguardava com delícia o lazer dos próximos meses. Começou a ler
a esmo. Atacava cada novo sistema com um pequeno prurido de comoção, à espera de
encontrar nele alguma orientação para a sua conduta. Sentia-se como um viajante em
país desconhecido e, à medida que avançava, era fascinado pela empresa. Lia
comovidamente, como os outros lêem pura literatura, e o coração batia-lhe com força
quando descobria, em palavras nobres, alguma coisa que já sentira de modo obscuro.
Tinha o espírito concreto e movia-se com dificuldade nas regiões abstractas, mas,
mesmo quando não podia seguir o raciocínio, experimentava um curioso prazer em
acompanhar os pensamentos tortuosos que desfilavam agilmente nos limites do
incompreensível. Por vezes, parecia que os grandes filósofos nada tinham para lhe
dizer, ao passo que, noutros, reconhecia um espírito congénere do seu. Era como o
explorador da África Central ao qual se depara subitamente um vasto planalto,
grandes árvores e prados extensos, de modo que é fácil imaginar-se num parque inglês.
Deliciava-se com o robusto bom-senso de Thomas Hobbes. Spinoza enchia-o de
respeito: nunca entrara em contacto com um espírito tão nobre, tão inacessível e
austero - lembrava-lhe a estátua de Rodin, L’Âge d’Airain, que admirava apaixonadamente.
Vinha depois Hume. O cepticismo desse filósofo encantador fazia vibrar em
Philip uma corda simpática, e, ao sabor daquele estilo translúcido expondo ideias
intrincadas em palavras simples, medidas e musicais, lia-o como leria uma novela: com
um sorriso de prazer nos lábios. Mas em nenhum pôde encontrar exactamente o que
desejava. Lera não sabia onde que todo o homem nasce platónico, aristotélico, estóico
ou epicurista; e a história de George Henry Lewis (além de dizer que a filosofia é pura
fantasmagoria) lá estava para demonstrar que o pensamento de cada filósofo estará
inseparavelmente ligado ao homem que ele fora. Conhecendo-se-lhe a vida, era fácil
imaginar em grande parte a filosofia que escrevera. Dir-se-ia que não agimos de certa
maneira por pensar de certa maneira, mas antes pensamos de certa maneira por de
certa maneira termos sido feitos. A verdade nada tem que ver com isso. Não existe a
verdade. Cada homem é o seu próprio filósofo, e os primorosos sistemas que os
grandes homens do passado construíram, só foram válidos para os autores.
O importante, pois, é descobrir o que somos e o nosso sistema filosófico
construir-se-á por si mesmo. Parecia a Philip haver três coisas a encontrar: a relação do
homem com o mundo em que vive, a sua relação com os homens entre os quais vive e,
finalmente, a relação do homem consigo próprio. Traçou um cuidado plano de estudo.
A vantagem de viver no estrangeiro é que, entrando-se em contacto com os usos
e costumes do povo entre o qual se vive, aqueles são observados de fora e percebe-se
que não resultam da necessidade, como julgam os que os praticam. Não se pode deixar
de descobrir que as crenças para nós indiscutíveis são, para o estrangeiro, absurdas. O
ano, passado na Alemanha, e a longa permanência em Paris tinham preparado Philip
para receber os ensinamentos cépticos que lhe chegavam agora com tamanha sensação
de alívio. Via que nada era bom e nada era mau: as coisas adaptavam-se simplesmente
a um fim. Leu a Origem das Espécies. O livro parecia oferecer a explicação de muitos
pontos que o inquietavam. Era, agora, como o explorador que infere a existência de
certos acidentes naturais e, batendo as margens de um largo rio, depara aqui com o
afluente que previa, ali com as planícies férteis e povoadas e, mais além, com as
montanhas. Quando se faz uma grande descoberta, o mundo surpreende-se depois de
que ela não fosse aceita imediatamente, e mesmo nos que lhe reconhecem a verdade o
efeito é sem importância. Os primeiros leitores da Origem das Espécies aceitaram-na
com a inteligência, mas as suas reacções, que são a base da conduta, ficaram intactas.
Philip nascera uma geração após a publicação desse grande livro, e muito do que
escandalizara os contemporâneos da obra, passara a fazer parte das ideias usuais, de
modo que pôde aceitá-la de coração jubiloso. A grandeza da luta pela vida parecia-lhe
emocionante e a regra moral que ela sugeria concordava com as suas predisposições.
Dizia que a força era o direito. De um lado está a sociedade, um organismo com as suas
leis de desenvolvimento e autopreservação, enquanto do outro há o indivíduo. A
sociedade classifica de virtuosas as acções que redundam em seu proveito, e de
viciosas as que a prejudicam. Bem e mal não significam mais do que isso. o pecado é
um preconceito de que o homem livre se deve desembaraçar. Na luta com o indivíduo,
a sociedade dispõe de três armas: a lei, a opinião pública e a consciência. As duas
primeiras podem ser combatidas pela astúcia, única arma do fraco contra o forte - o
vulgo exprime isso muito bem quando diz que pecado é ser apanhado nele - mas a
consciência é o traidor dentro dos muros, lutando na alma de cada um em prol da
sociedade e levando o indivíduo a imolar-se, num sacrifício irreflectido, à prosperidade
do inimigo. Sim, porque é evidente que o Estado e o indivíduo consciente de si próprio
são irreconciliáveis. Aquele serve-se do indivíduo para fins próprios, espezinhando-o
se é contrariado, recompensando-o com medalhas, honras e pensões, se é fielmente
servido; este, forte somente na sua independência, move-se no seio do Estado, e paga
(por conveniência) certos benefícios recebidos, em dinheiro ou serviços mas sem sentir
a menor obrigação; indiferente às recompensas, pede apenas que o deixem em paz. é
um viajante independente que usa os bilhetes da Cook porque lhe poupam incómodos,
mas olha com um desprezo bem-humorado para os grupos que se entregam ao guia. O
homem livre não pode agir mal. Faz tudo quanto deseja... quando pode. A sua força é a
única medida da sua moral. Reconhece as leis do Estado e pode infringi-las sem se
sentir em falta, mas, quando punido, aceita o castigo sem rancor. A força está com a
sociedade.
Mas se, para o indivíduo não existe bem nem mal, a consciência - parecia a Philip
- perde o seu poder. E foi com um grito de triunfo que, segurando a velhaca, a
expulsou de si. Isso, contudo, não o aproximou do sentido da vida. Por que fora criado
o Mundo e para que nasciam os homens? Essa questão continuava tão insolúvel como
sempre. Decerto, havia alguma razão. Pensou em Cronshaw e na sua parábola do
tapete persa. Ele oferecia-a como uma solução do enigma, declarando misteriosamente
que a resposta só tinha valor quando encontrada por quem a procurasse.
- Que diabo quereria dizer? - Philip, sorriu.
E assim, no último dia de Setembro, desejoso de pôr em prática todas essas novas
teorias sobre a vida, Philip, com mil e seiscentas libras e o seu pé boto, partiu pela
segunda vez para Londres, a fim de iniciar a vida pela terceira vez.
LIV
O exame prestado por Philip, antes de entrar no aprendizado de contabilista, era
qualificação suficiente para a sua admissão numa escola de medicina. Escolheu a de S.
Lucas, porque o pai estudara nela. Antes do fim do período de Verão, fora passar um
dia em Londres, a fim de ver o secretário. Este dera-lhe uma lista de aposentos para
alugar e ao voltar para lá, Philip instalou-se numa casa velha e encardida que tinha a
vantagem de ficar a dois minutos do hospital.
- Arranje a sua peça para dissecar - disse-lhe o secretário. - é melhor começar por
uma perna. Quase todos começam assim. Parece que acham mais fácil.
Philip soube que a sua primeira aula seria de anatomia, às onze horas, e cerca das
dez e meia atravessou a rua coxeando e entrou na Escola um pouco nervoso. Logo à
entrada. viam se diversos avisos, listas de conferências, convocações para partidas de
futebol e coisas semelhantes. Percorreu-os com negligência, tentando mostrar-se à
vontade. Jovens de várias idades entravam e procuravam cartas no quadro de
escaninhos; conversavam uns com os outros e desciam para o subsolo, onde ficava a
sala de leitura dos estudantes. Philip notou que alguns colegas deambulavam de cá
para lá, com um ar vago e tímido, e supôs que, como ele, entravam ali pela primeira
vez. Depois de ler todos os avisos, divisou uma porta de vidro que dava para o que
parecia ser museu e, como ainda dispunha de vinte minutos, entrou. Havia uma
colecção de espécimes patológicos. Um rapaz de mais ou menos dezoito anos veio-lhe
ao encontro.
- És do primeiro ano? - perguntou ele.
- Sou - respondeu Philip.
- Sabes onde fica a sala de aulas? São quase onze.
- Então é melhor irmos procurá-la.
Deixando o museu, penetraram num corredor escuro e comprido, cujas paredes
estavam pintadas de duas tonalidades de vermelho. A passagem de outros rapazes
indicava-lhes o caminho. Chegaram a uma porta onde havia uma inscrição com as
palavras: «Anfiteatro de Anatomia». Philip encontrou a sala quase cheia. Assim que
Philip entrou, um servente colocou um copo com água sobre a mesa que ficava no
centro do anfiteatro e depois trouxe um osso ilíaco e dois fémures, o direito e o
esquerdo. Entraram novos alunos, tomaram os seus lugares, e, às onze, o recinto estava
cheio. Viam-se ali cerca de sessenta estudantes. Eram, na sua maioria, muito mais
novos do que Philip, rapazes de dezoito anos e faces imberbes. Mas havia alguns mais
velhos do que ele. Notou um, de estatura elevada e agressivo bigode ruivo, que devia
ter cerca de trinta anos; outro, sujeito baixo, de cabelos pretos, aparentava ser apenas
um ou dois anos mais novo; e havia um terceiro que usava óculos e tinha a barba
grisalha.
O lente, Mr. Cameron, entrou. Era um belo homem, de cabeça branca e traços
regulares. Fez a chamada da longa lista de nomes. Depois pronunciou um pequeno
discurso. Falava em voz agradável, com palavras escolhidas, e parecia sentir um
discreto prazer em dispô-las com cuidado. Sugeriu um ou dois livros a serem
adquiridos e aconselhou a compra de um esqueleto. Falou da anatomia com
entusiasmo: era essencial ao estudo da cirurgia e o seu conhecimento auxiliava na
apreciação artística. Philip aguçou o ouvido. Soube mais tarde que Mr. Cameron
também leccionava na Academia Real. Vivera muitos anos no Japão, regendo uma
cadeira na Universidade de Tóquio, e ufanava-se de saber apreciar o belo.
- Terão de aprender muitas coisas fastidiosas - concluiu com um sorriso
indulgente. - Coisas que hão-de esquecer no instante em que passarem o exame final,
mas em anatomia é melhor ter aprendido e esquecido do que nunca ter aprendido.
Apanhou o ilíaco de cima da mesa e começou a descrevê-lo. Falou bem e com
clareza.
Quando a aula terminou, o rapaz que se dirigira a Philip, no museu patológico e
se sentara a seu lado no anfiteatro, sugeriu que fossem à sala de dissecações. Passaram
novamente pelo corredor e um servente indicou-lhes o caminho. Ao entrarem, Philip
compreendeu donde vinha o cheiro acre que sentira ao passar. Acendeu o cachimbo. O
servente soltou um risinho.
- Depressa se acostumará ao cheiro. Eu já nem sinto...
Perguntou o nome de Philip e examinou uma lista afixada no quadro negro.
- Para o senhor é uma perna... número quatro.
Philip viu outro nome ligado ao seu por uma chave.
- Que quer dizer isto? - indagou.
- Os cadáveres são agora escassos. Temos que distribuir uma peça para dois.
A sala de dissecações era vasta e estava pintada como os corredores: a parte
superior em salmão vivo e o rodapé em terracota escuro. A intervalos regulares, ao
longo da sala, em ângulo recto com as paredes, viam-se mesas de metal com as bordas
um pouco levantadas. Em cada uma delas havia um corpo. Eram, na maioria,
cadáveres de homens. Estavam muito escuros, em consequência do desinfectante
empregado na sua conservação, e tinham a pele coriácea. Achavam-se num estado de
emaciação extrema. O servente levou Philip a uma das mesas. Junto dela encontrava-se
um jovem.
- O seu nome é Carey? - perguntou ele.
- É.
- Bom, então trabalhamos na mesma perna. Que sorte ser de homem, não acha?
- Porquê? - perguntou Philip.
- Em geral, eles preferem que seja de homem - disse o servente. - Quando é de
mulher, a banha atrapalha.
Philip olhou para o cadáver. Os braços e as pernas eram tão finos, que não
tinham forma, e as costelas sobressaíam tanto, que a pele estava distendida. Era um
homem de cerca de quarenta e cinco anos, barba grisalha e rala e cabelo escasso, sem
cor: os olhos estavam fechados e o queixo caído. Philip não podia conceber que aquilo
tivesse sido um homem e, contudo, naquela fileira de mortos, havia qualquer coisa de
pavoroso.
- Eu pretendia começar às duas - disse o jovem que ia dissecar com Philip.
- Está bem, estarei aqui.
Comprara no dia anterior o estojo de instrumentos necessários e recebeu um
armário com chave. Olhou para o colega que o acompanhara até ali, e viu que ele
estava lívido.
- Está a sentir-se mal? - perguntou-lhe Philip.
- Nunca tinha visto um morto.
Seguiram pelo corredor até a entrada da escola. Philip lembrou-se de Fanny
Price. O primeiro cadáver que vira fora o dela, e recordava-se da estranha impressão
que sentira. Havia uma distância imensurável entre os vivos e os mortos: pareciam não
pertencer à mesma espécie; e era esquisito pensar que, poucos momentos antes, estes
últimos falavam, riam, comiam e caminhavam.
Havia algo de horrível nos mortos; era de imaginar que eles exercessem uma
influência maléfica sobre os vivos.
- E se fôssemos comer alguma coisa? - sugeriu a Philip o novo amigo.
Desceram ao rés-do-chão, onde havia uma sala escura que fazia as vezes de
restaurante. Ali, os estudantes podiam encontrar os mesmos pratos que são servidos
nas leitarias. Enquanto comiam, Philip - que pedira bolachas, manteiga e uma chávena
de chocolate - veio a saber que o companheiro se chamava Dunsford. Era um rapaz de
pele fresca, alegres olhos azuis, cabelos escuros e ondulados, pernas e braços
compridos; era sóbrio de palavras e de gestos. Acabava de chegar de Clifton.
- Vai fazer o curso conjunto? - perguntou ele a Philip.
- Vou. Quero formar-me o mais depressa possível.
- Eu também, mas depois vou doutorar-me em cirurgia. Quero ser operador.
A maioria dos estudantes apresentava-se ao mesmo tempo ante os examinadores
da escola de cirurgia e da escola de medicina, mas os mais ambiciosos ou laboriosos
prolongavam os estudos para candidatar-se a um diploma da Universidade de
Londres. Quando Philip entrou para a Escola de S. Lucas, o regulamento acabava de
ser modificado e o curso durava cinco anos, em lugar de quatro, como para os
estudantes matriculados antes do Outono de 1892. Dunsford, que estava inteirado de
tudo, explicou a Philip os pormenores do curso. O primeiro exame «conjunto» consistia
de Biologia, Anatomia e Química; podia, contudo, ser feito por partes e muitos
prestavam exames de Biologia três meses depois de matriculados. Esta ciência fora
recentemente adicionada ao número de matérias que os alunos eram obrigados a
conhecer, mas a soma de conhecimentos requerida era muito pequena.
Philip voltou à sala de dissecações com o atraso de alguns minutos, pois
esquecera-se de comprar as mangas postiças com que costumavam proteger as camisas
e encontrou alguns colegas já em actividade. O seu companheiro principiara à hora
exacta e empenhava-se em dissecar os nervos cutâneos. Dois estudantes entretinham-se
com a segunda perna, ao passo que os outros se ocupavam dos braços.
- Não faz mal que eu tenha começado?
- Não, está muito bem. Vamos para diante! - respondeu Philip.
Apanhou o livro aberto no diagrama da parte dissecada e examinou o que
precisavam de encontrar.
- Você já tem prática disto - disse Philip.
- Ora... Tenho feito muitas dissecações. Em animais, é claro, para o exame précientífico.
Havia uma variedade de conversas em torno da mesa de dissecação: parte sobre
o trabalho, parte sobre as perspectivas da temporada de futebol, os explicadores e as
aulas. Philip sentia-se bastante mais velho do que os outros. Não passavam de colegiais
inexperientes. A idade, porém, é mais questão de conhecimentos que de anos; e
Newson, seu activo companheiro de dissecação, achava-se perfeitamente à vontade na
matéria. Talvez não lhe desagradasse fazer exibição de saber, pois explicava com todos
os pormenores o que fazia. Apesar das suas secretas reservas de sabedoria, Philip
escutava submisso. Depois, tomou o bisturi e as pinças e começou a trabalhar sob as
vistas do outro.
- É óptimo que ele seja assim tão magro - observou Newson, enxugando as mãos.
- O pobre-diabo deve ter passado um mês inteiro sem comer.
- Gostava de saber de que morreu ele - murmurou Philip.
- Ora... não sei. As mesmas coisas de sempre. Inanição, com certeza. Cuidado!
Não cortes essa artéria.
- É muito bonito dizer «não cortes essa artéria» - interveio um dos que
trabalhavam na outra perna. - Este pedaço de asno tem uma artéria fora do seu lugar.
- As artérias estão sempre fora do seu lugar - disse Newson - A posição normal é
coisa que praticamente nunca se encontra. E por isso que se chama normal.
- Não fales assim - pediu Philip - que eu acabo por cortar-me.
- Se te cortares - respondeu Newson, sempre bem informado - põe desinfectante
em seguida. é com o que deves ter mais cuidado. O ano passado, um tipo que se
arranhou de leve e não deu importância ao caso apanhou uma septicemia.
- Curou-se?
- Qual! Morreu ao fim de uma semana. Fui vê-lo à sala mortuária.
Quando chegou a hora do chá, Philip estava com dores nas costas e o lanche fora
tão leve que não lhe faltava apetite. Tinha nas mãos o cheiro característico que logo
pela manhã sentira no corredor. Pareceu-lhe que o bolo tinha também o mesmo gosto.
- Acabarás por habituar-te - disse Newson. - E quando não sentires aquele velho
cheirinho gostoso da sala de dissecações, hás-de achar-te muito só.
- Não deixarei que isso me estrague o apetite - afirmou Philip, comendo um
pedaço de bolo, depois da torrada.
LV
As ideias de Philip sobre a vida dos estudantes de medicina, como as do público
em geral, eram inspiradas nas descrições feitas por Dickens, em meados do século
dezanove. Cedo verificou que Bob Sawyer, se é que existiu, já não tinha semelhança
alguma com o actual estudante de medicina.
Os que procuram a profissão médica são gente da mais variada espécie e entre
eles, naturalmente, encontram-se preguiçosos e negligentes. Como consideram fácil
esse género de existência, malbaratam um par de anos e depois, porque se lhes
esgotem os recursos ou porque os pais, indignados, não queiram sustentá-los mais,
abandonam o hospital. Outros acham os exames demasiado difíceis; uma reprovação
após outra tira-lhes o ânimo, e, tomados de pânico, assim que entram no temido
edifício onde devem prestar exame, esquecem as matérias que parecia trazerem na
ponta da língua. Ficam a ser, ano após ano, o objecto do bem-humorado desprezo dos
mais novos. Alguns passam penosamente os exames de farmácia; outros tornam-se
assistentes não diplomados, posição precária em que ficam à mercê do médico para
quem trabalham; o seu destino é a pobreza, a embriaguez e só Deus sabe o fim que
levam. Na maior parte, porém, os estudantes de medicina são jovens laboriosos da
classe média, com recursos suficientes para viver da maneira respeitável a que estão
habituados: muitos deles são filhos de médicos e já têm um pouco de ar profissional.
Destes últimos, a carreira está traçada: logo após a formatura, candidatam-se a um
posto hospitalar, e, depois desse estágio - e talvez de uma viagem ao Extremo Oriente,
como médicos de bordo - vêm trabalhar com os pais e passam o resto da existência
como médicos do interior. Um ou dois são apontados como excepcionalmente
talentosos; ganham os vários prémios e bolsas de estudo oferecidos todos os anos aos
que os merecem, conseguem cargos após cargos nos hospitais, passam para as
direcções, abrem consultório em Harley Street e, consagrando-se a uma especialidade
ou outra, prosperam, ganham renome e títulos.
A profissão médica é a única que um homem pode abraçar em qualquer idade
com certa probabilidade de nela ganhar a vida. Entre os condiscípulos de Philip havia
três ou quatro que já tinham passado a primeira mocidade. Um estivera na Marinha, da
qual, segundo se dizia, fora expulso por embriaguez; era um homem de trinta anos,
rosto vermelho, maneiras bruscas e voz estentórica. Outro era casado, tinha dois filhos
e perdera a fortuna por culpa de um procurador negligente; tinha uma expressão
humilde, como se o mundo o intimidasse; trabalhava em silêncio e via-se que, naquela
idade, achava difícil conservar as coisas na memória. Era de compreensão lenta. Doía
ver quanto se esforçava.
Philip acomodou-se no seu minúsculo alojamento. Arrumou os livros e
pendurou nas paredes os quadros e esboços que tinha consigo. Por cima, nas águasfurtadas,
morava um rapaz do quinto ano, chamado Griffiths; Philip, porém, pouco o
via, em parte porque ele estava nas enfermarias e também porque estudara em Oxford.
Os estudantes que tinham cursado uma universidade, andavam constantemente
juntos: empregavam diversos meios próprios de rapazes para infundir aos menos
afortunados a devida noção da sua inferioridade. O resto dos estudantes achava essa
serenidade olímpica um tanto difícil de suportar. Griffiths era um rapaz alto, de
abundante cabelo ruivo e crespo, olhos azuis, pele branca e boca muito vermelha, era
um desses privilegiados de quem toda a gente gosta porque têm excelente disposição e
andam sempre alegres. Tocava um pouco de piano e cantava com entusiasmo
cançonetas humorísticas. Todas as noites, enquanto ficava a ler no quarto solitário,
Philip escutava a vozearia e as sonoras gargalhadas dos amigos de Griffiths, lá em
cima. Recordava, então as deliciosas noites de Paris, em que costumavam ficar no
estúdio, Lawson e ele, Flanagan e Clutton, a conversar sobre arte e moral, sobre os
casos amorosos do momento e a fama futura. Sentia-se invadido por uma tristeza
profunda. Era fácil fazer um gesto heróico, mas difícil arrostar com as consequências. O
pior de tudo era que o trabalho lhe parecia muito fastidioso.
Perdera o hábito de ser interrogado pelos professores. Nas aulas, tinha a atenção
dispersa. A anatomia era uma ciência árida, simples questão de decorar uma
quantidade enorme de nomes; a dissecação aborrecia-o; não via utilidade em dissecar
laboriosamente os nervos e artérias, quando, com muito menos trabalho, se podia ver o
lugar exacto onde essas coisas ficavam, nos diagramas de um livro ou nos espécimes
do museu patológico.
Contraía amizades casuais, mas não amigos íntimos, pois não lhe parecia que
tivesse alguma coisa de particular para dizer aos companheiros. Quando procurava
interessar-se nos problemas destes, tinha a impressão de que o achavam com ares
protectores. Não era desses que conseguem falar das suas predilecções sem cuidar de
saber se isso aborrece ou não o interlocutor. Um colega que alimentava pretensões
artísticas, ao ouvir que ele estudara belas-artes em Paris, tentou discutir o assunto com
ele. Philip, porém, não era indulgente com as opiniões que discordavam da sua; e,
percebendo em seguida que as ideias do outro eram convencionais, respondeu por
monossílabos. Desejava travar relações mas não se decidia a tomar a iniciativa. O temor
do mau acolhimento impedia-o de ser afável e ele ocultava a sua timidez, que ainda era
grande, por trás de um exterior frio e taciturno. Tornava a passar pela mesma prova do
colégio, com a diferença, porém, de que a liberdade de vida dos estudantes de
medicina lhe permitia viver bastante isolado.
Não foi por iniciativa sua que travou camaradagem com Dunsford, o latagão de
pele fresca que encontrara ao ingressar na escola. Dunsford ligou-se a Philip
simplesmente porque este fora a primeira pessoa que conhecera em S. Lucas. Não tinha
amigos em Londres, e, nas noites de sábado, Philip e ele adquiriram o hábito de ir
juntos a um teatro de variedades ou à galeria dos teatros. Era estúpido mas bemhumorado
e nunca se ofendia; dizia sempre coisas banais, mas quando Philip troçava
dele limitava-se a sorrir. Tinha um sorriso encantador, Embora o considerasse tolo,
Philip gostava dele; a sua candura divertia-o e o seu génio afável fazia-lhe bem:
Dunsford tinha esse encanto que Philip sabia muito bem não possuir. Iam
frequentemente a uma casa de chá da Parliament Street porque Dunsford admirava
uma das raparigas que serviam ali. Philip não lhe achou nenhum atractivo. Era alta e
magra, de ancas estreitas e busto de rapaz.
- Em Paris, ninguém olharia para ela - disse Philip com desdém.
- Mas o rosto é notável - respondeu Dunsford.
- Que importância tem o rosto?
Ela possuía as feições miúdas, regulares, os olhos azuis e a testa larga e baixa que
os pintores vitorianos, Lord Leigthon, Alma Tadema e centenas de outros, levaram os
contemporâneos a aceitar como tipo de beleza grega. Parecia ter uma cabeleira
opulenta que arranjava com particular esmero, deixando cair sobre a testa o que ela
chamava uma «franja à Alexandra». Era bastante anémica. Tinha os lábios finos e sem
cor, e a pele delicada, de uma leve tonalidade verdoenga, sem o menor toque de
vermelho, nem mesmo nas faces. Os dentes eram óptimos. Tomava grandes precauções
para evitar que o trabalho lhe estragasse as mãos, que eram pequenas, delicadas e
brancas. Servia as mesas com um ar enfastiado.
Muito tímido com mulheres, Dunsford ainda não conseguira conversação com
ela; instou com Philip para que o ajudasse.
- O que eu preciso é de um empurrão - disse ele - porque depois vou por mim
mesmo.
Para lhe ser agradável, Philip fez uma ou duas tentativas, mas ela respondeu com
monossílabos. Tinha-os observado. Eram rapazes e calculava que fossem estudantes.
Não lhe serviam. Dunsford notou que um homem de cabelo louro desmaiado e bigode
hirsuto, com aspecto de alemão, era distinguido pelas atenções da rapariga, sempre
que vinha à casa de chá; e, em tais ocasiões, só depois de chamá-la duas ou três vezes é
que os dois amigos conseguiam ser atendidos. Ela servia os fregueses desconhecidos
com uma insolência glacial, e quando falava a um amigo, era de todo indiferente ao
chamamento dos que tinham pressa. Possuía a arte de tratar as mulheres que pediam
refrescos com o preciso grau de impertinência que as irritava sem lhes dar
oportunidade de queixar-se à gerência. Um dia, Dunsford contou a Philip que ela se
chamava Mildred. Ouvira uma das outras empregadas chamar-lhe assim.
- Que nome detestável - comentou Philip.
- Porquê? - perguntou Dunsford. - Eu gosto.
- É tão pretensioso...
Aconteceu que, naquele dia, o alemão não se encontrava lá e, quando Mildred
trouxe o chá, Philip, sorrindo, observou:
- O seu amigo não veio hoje.
- Não sei o que quer dizer - retorquiu ela, friamente.
- Refiro-me ao fidalgo do bigode louro. Tê-la-á ele abandonado por outra?
- Certas pessoas fariam melhor se cuidassem da sua vida - retorquiu ela.
Afastou-se e, como durante uns minutos não havia a quem atender, sentou-se e
passou os olhos pelo jornal da tarde, que um freguês deixara sobre a mesa.
- Fizeste asneira em irritá-la - disse Dunsford.
- Isso é-me perfeitamente indiferente - replicou Philip.
Estava aborrecido, contudo. Achava injusto que uma mulher se ofendesse
quando ele procurava ser-lhe agradável. Ao pedir a conta, aventurou uma observação
que pretendia levar mais adiante.
- Então, estamos zangados? - perguntou.
- Estou aqui para receber ordens e servir os fregueses. Nada tenho que lhes dizer,
nem quero que falem comigo.
Pôs a folha de papel em que fizera a soma que tinham de pagar em cima da mesa
e voltou para o lugar onde estivera sentada. Philip ficou vermelho de cólera.
- Essa foi em cheio, Carey - disse Dunsford quando se viram na rua.
- Vagabunda mal-educada... - comentou Philip - Não ponho lá mais os pés.
Tinha bastante influência sobre Dunsford para conseguir que ele passasse a
tomar chá noutra parte e Dunsford não tardou a achar outra rapariga para namorar.
Mas a desfeita que a criada lhe fizera avolumava-se. Se ela o tivesse tratado com
civilidade, tê-lo-ia deixado perfeitamente indiferente; mas via-se que não gostara dele e
isso feria-lhe o orgulho. Não podia fugir ao desejo de pagar na mesma moeda. Irritavase
consigo mesmo por alimentar um sentimento tão mesquinho, mas, embora se
abstivesse de ir à casa de chá durante alguns dias, isso não o ajudou a dominar-se e
chegou à conclusão de que era preferível ir vê-la. Depois disso, com certeza deixaria de
pensar nela. Pretextando certa tarde um encontro, pois não pouca vergonha lhe
causava a sua fraqueza, deixou Dunsford e foi direito à casa de chá onde jurara nunca
mais entrar. Viu a criada no momento em que chegou e sentou-se a uma das mesas
dela. Esperava que a rapariga fizesse alguma referência ao facto de ele não ter vindo
durante uma semana, mas ela aproximou-se sem dizer coisa alguma. Ouvira-a dirigirse
a outros clientes:
- O senhor não tem aparecido...
Nem deu mostras de conhecê-lo. Para verificar se ela de facto o esquecera,
perguntou-lhe, quando veio com o chá:
- Viu o meu amigo hoje?
- Não. Há dias que não vem aqui.
Philip quis fazer disto um princípio de conversa, mas sentia um nervosismo
inexplicável e não encontrava nada para dizer. Ela, porém, não lhe deu oportunidade e
retirou-se em seguida. Só quando pagou teve ocasião de lhe dizer alguma coisa.
- Tempo horrível, não acha? - perguntou.
Era mortificante ter de recorrer a uma frase destas. Não compreendia por que ela
o embaraçava a tal ponto.
- Estou todo o dia aqui dentro e o tempo não me faz diferença.
Havia na voz dela certa insolência que o irritou de modo especial. Um sarcasmo
assomou-lhe aos lábios, mas forçou-se ao silêncio.
«Se ao menos ela dissesse qualquer coisa verdadeiramente atrevida»` disso
consigo, indignado, «eu faria queixa e ela iria para a rua. E seria muitíssimo bem feito.»

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