Pirro e o ceticismo primitivo | Victor Brochard

| domingo, 9 de outubro de 2011
Os céticos antigos reconheciam expressamente Pirro como seu mestre, e sua doutrina conservou entre os modernos o nome de pirronismo. Parece que todos os escritores céticos assumiram o dever ou o costume de inscrever o nome de Pirro no título de suas obras. Enesidemo intitula uma de suas obras Purrèneioi lÒgoi, e quatro séculos depois da morte de Pirro, Sexto Empírico dá ainda a um de seus livros o nome de Hipotiposes Pirrônicas.
Não obstante, Pirro é um dos filósofos mais mal conhecidos da Antigüidade. Temos poucas informações sobre ele, e além disso essas informações não estão muito bem de acordo umas com as outras. Há, por assim dizer, dois Pirros: o da tradição cética representada por Arístocles, Sexto Empírico e Diógenes, e o da tradição acadêmica conservada por Cícero. Após resumir os principais fatos de sua biografia, examinaremos essas duas tradições e tentaremos, conciliando-as, determinar o verdadeiro caráter de Pirro e o alcance de sua doutrina.
I. Pirro, filho de Pleistarco1, ou, segundo Pausânias2, de Pistócrates, nasceu em Élis, por volta de 365a.C.3 Era pobre e
* Título original: “Pyrrhon et le scepticisme primitif”. Artigo publicado na Revue philosophique de la France et de l’Étranger, Ano 6, 1885, p. 517-532. [Tradução: Jaimir Conte].
1 Diog., IX, 61. – Suidas (PÚrrwn).
2 VI, 24, 4.
3 Para estabelecer as datas de Pirro eis aqui os documentos de que dispomos: 1º um artigo de Suidas (PÚrrwn), no qual se diz que viveu na ápoca de Filipe da Macedônia, na 111ª olimpíada (336-332), o que não nos informa nada de preciso (ver Haas, De sceptic. philos. sucess., Wurtzbourg, 1875, p. 5); – 2º um texto de Diógenes, IX, 62, no qual se diz que viveu 90 anos; – 3º os testemunhos de Diógenes, que nos mostram ele como um companheiro de Alexandre. Como havia, antes de partir para a Ásia, acompanhado as lições de dois mestres e se deidicado à pintura, é permitido conjeturar que tinha mais de 30 anos por ocasião da expedição de Alexandre (327). Daí as datas de 365 a 275 sobre as quais a maioria dos
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dedicou-se inicialmente, sem grande sucesso, à pintura: conservava-se ainda em sua cidade natal, no tempo de Pausânias, lampadófaros muito mediocramente executados, que eram de sua autoria. Seus mestres em filosofia foram Bríson4, discípulo de Sócrates, ou, como parece mais provável, de Euclides de Mégara, depois Anaxarco, a quem ele seguiu em todas as partes na campanha da Ásia. Provavelmente o primeiro lhe ensinou a dialética sutil que enchia tanto de orgulho a escola de Mégara, e que resultava naturalmente numa espécie de ceticismo sofístico. O outro o iniciou na doutrina de Demócrito, pela qual ele conservou sempre um gosto muito vivo5.
historiadores, Zeller, Haas, Maccoll (The Greek Sceptics, Londres e Cambridge, Mac-Millan, 1869), M. Waddington estão de acordo.
4 Quem é esse Bríson cujas lições Pirro seguiu? É um ponto que importa esclarecer, pois é preciso saber se há um vínculo entre o pirronismo e a escola de Mégara. Diógenes o chama de filho de Stílpon; é manifestamente um erro, pois Stílpon ensinou muito mais tarde e teve por discípulo Tímon. (Zeller, Die Philos. der Griechen, tomo II, p. 213, 3ª ed., 1875). Suidas (PÚrrwn) diz que Bríson era discípulo de Clitômaco, o que não está muito bem de acordo com a cronologia, e Suidas se contradiz ao atribuir em outra parte (Swkr£thj) outros mestres a Bríson. Duas hipóteses são possíveis: ou Pirro não foi discípulo de Bríson, ou Bríson não era filho de Stílpon. Zeller (tomo IV, p. 481, 3ª ed., 1880) inclina-se pela primeira; nós nos inclinamos pela segunda. Pirro teve certamente por mestre um Bríson, Diógenes confirma isso e Suidas repete o mesmo duas vezes. Mas resulta do texto de Suidas (Swkr£thj) que o Bríson de que se trata não era o filho de Stílpon, mas um discípulo de Sócrates ou, segundo outros, de Euclides de Mégara. Swkr£thj, filosÒfouj e„rg£sato... BrÚswna `Hrakleènthn Öj ™ristik¾n dialektik¾n, e„s”gage met¦ EÙkle…dou... tinj d brÚswna oÙ Swkr£touj ¢ll' EÙkle…dou ¢kroat¾n gr£fousi toÚtou d kaˆ PÚrrwn ºkro£sato. É sem dúvida o mesmo Bríson do qual Aristóteles diz que tinha encontrado a quadradura do círculo e ao qual chama de sofista (Arist. Ret. III, 2, 13; De anim. histor., VI, 5; IX, 11; De sophism. elenc., XI, 3,– XI, 26. – Cf. Ravaisson, Essai sur la métaphysique d’Aristote, t. II, p. 74, Paris, Joubert, 1846.
5 Dióg., IX, 61, 67; Arístocles, ap. Eusébio, Præp. evang., XIV, 18, 27. Além de Bríson e Anaxarco inclui-se às vezes Menedemos entre os mestres de Pirro (Ch. Waddington, Pyrrhon et le Pyrrhonism, in séances et travaux de l’Acad. des. Sciences Morales et politiques, 1876, p. 85, 406, 646.). Mas é evidente a partir de um texto de Diógenes (II, 441) que Menedemos vivia ainda na época da batalha de Lisimaquia (278 a.C.), e que morreu com 74 anos; era, portanto, cerca de 13 anos mais jovem que Pirro. Cf. Suidas (art. ”Aratoj.) É verdade que se lê em Suidas
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Em companhia de Anaxarco, Pirro seguiu Alexandre na Ásia; compôs um poema dedicado ao conquistador e que lhe valeu um presente de 10 mil moedas de ouro6. Ele conheceu os gimnosofistas e os magos indianos, e provavelmente Calano7, que acompanhou certo tempo Alexandre, e deu a todos os gregos, espantados, o espetáculo de uma morte voluntária suportada de uma maneira muito digna e corajosa. Sem dúvida esses acontecimentos produziram sobre o espírito de Pirro uma profunda impressão, e determinaram, pelo menos em parte, o curso que suas idéias deveriam tomar mais tarde.
Após a morte de Alexandre, Pirro retornou à sua pátria; levou aí uma vida simples e normal, cercada pela estima e pela consideração de seus concidadãos, que o nomearam sumo-sacerdote, e depois de sua morte lhe erigiram uma estátua que se via ainda no tempo de Pausânias8. Ele morreu por volta de 275.
Salvo o poema dedicado a Alexandre, Pirro nada escreveu. Sua doutrina não foi conhecida dos antigos senão pelos testemunhos de seus discípulos, e principalmente de Tímon.
Diógenes, de quem tomamos emprestada a maior parte do resumo que se seguirá, não faz nenhuma distinção entre Pirro e Tímon; seguindo inclusive seu costume, é a doutrina geral dos pirrônicos que ele expõe sob o nome de Pirro, sem distinguir o que pertence ao mestre do que os discípulos talvez tenham acrescentado a ela. O mesmo ocorre com Arístocles no fragmento que Eusébio nos conservou.
(Swkr£thj):... Fa…dwna 'Hle‹on kaˆ aÙth „d…a…on susl”santa scol¾n t¾n 'Hleiak¾n ¢p' aÙtoà klhqe‹san, Ûsteron d aÛth 'Eretriak¾ ™kl”qh, Mened”mou e„j 'Erštrin did£xantoj ™k toÚtou d toà didask£lou Ñ PÚrrwn gšgonen. Poder-se-ia a rigor remeter ™k toÚtou didask£lou a Fédon; mas essa única passagem não parece suficiente para incluir Fédon nem Menedemos entre os mestres de Pirro.
6 Diog., IX, 61, 67, Sext., M. 1, 282. Plut., De Alex. fort. I. 10.
7 Plut., Vit. Alex., LXIX.
8 Diog., IX, 65. Paus., VI, 24, 4.
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II. Um historiador antigo, Arístocles9, resumiu nestes termos a doutrina de Pirro: “Pirro de Élis não deixou nenhum escrito; mas seu discípulo Tímon diz que aquele que quer ser feliz deve considerar estes três pontos: primeiro, que são as coisas em si mesmas? Depois, que disposições devemos ter em relação a elas? Finalmente, o que resultará para nós dessas disposições? As coisas não têm diferenças entre si e são igualmente incertas e indiscerníveis. Por isso, nossas sensações e nossos juízos não nos ensinam o verdadeiro nem o falso. Por conseguinte, não devemos confiar nem nos sentidos nem na razão, mas permanecer sem opinião, sem se inclinar para um lado ou para o outro, impassíveis. Seja qual for a coisa de que se trate, diremos que não é necessário nem afirmá-la nem negá-la, ou que é necessário afirmá-la e negá-la ao mesmo tempo, ou que não é necessário afirmá-la nem negá-la. Se nos encontrarmos nessas disposições, diz Tímon, alcançaremos primeiro a afasia, em seguida a ataraxia”. Duvidar de tudo e ser indiferente a tudo, eis todo o ceticismo, na época de Pirro como mais tarde. Epoché, ou suspensão do juízo, e adiaforia, ou indiferença completa, essas são as duas palavras que toda a escola repetirá; isso é o que ocupa o lugar da ciência e da moral. Examinemos um pouco mais de perto esses dois pontos.
Pirro não inventou a dúvida, pois muito antes dele Anaxarco e vários megáricos consideraram a ciência impossível ou incerta. Mas Pirro parece ser o primeiro que recomendou ater-se à dúvida sem mescla de afirmação, à dúvida sistemática, se é que é permitido unir essas duas palavras. Foi ele que, segundo o testemunho de Ascânio10, encontrou a fórmula cética: suspender seu juízo (™pšcein t¾n sugkat£qesin). Aristóteles não emprega em nenhuma parte a palavra ™poc».
A razão que ele apresentava é que sempre podem ser invocados argumentos de força igual a favor e contra cada opinião (¢ntilog…a). O melhor é, pois, não tomar partido, confessar que não se sabe nada (¢katalhy…a); não inclinar-se para nenhum lado
9 Ap. Eus. prep. Evang., XIV, 18, 2, seg.
10 Diog. IX, 61. to tÁj ¢katalhy…aj kaˆ ™pocÁj e‡doj a„sagagèn.
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(¢rrey…a); permanecer em suspensão (™poc»). Daí também diversas fórmulas11 que têm o mesmo significado: eu não defino nada (oÙdn Ðr…zw); nada é inteligível (katalhptÒn); nem sim nem não (oÙdn m©llon). Mas essas fórmulas são ainda muito afirmativas; é necessário entender que ao dizer que não afirma nada, o cético não afirma nem sequer isso. As palavras nem mais isso que aquilo não têm, na sua linguagem, nem um sentido afirmativo e que assinale a igualdade, como quando se diz: o pirata não é mais perigoso que o mentiroso; nem um sentido comparativo, como quando se diz: o mel não é mais doce que a uva; mas um sentido negativo, como quando se diz: Scila não tem mais existência que a quimera. Mais tarde inclusive se substituirá a fórmula oÙdn m©llon pela interrogação: t… m©llon. Em outros termos, em todas essas fórmulas a afirmação é só aparente; ela se destrói a si mesma, como o fogo se apaga com a lenha que ele consumiu, como um purgativo, depois de ter limpado o estômago, desaparece sem deixar sinal.12
Os discípulos de Pirro13 dão a si mesmos o nome de zetéticos porque buscam sempre a verdade; de céticos, porque examinam sempre sem jamais encontrar; de eféticos, porque suspendem sempre seu juízo; de aporéticos, porque estão sempre incertos, não tendo encontrado a verdade.
É importante assinalar que a dúvida cética não diz respeito às aparências ou fenômenos (fainÒmena) que são evidentes (™nargÁ), mas unicamente às coisas obscuras ou ocultas (¥dhla)14. Nenhum cético duvida de seu próprio pensamento15. O cético reconhece que é dia, que ele vive, que vê claramente. Não contesta que tal objeto lhe parece branco, que o mel lhe parece doce. Mas o
11 Dióg., IX, 74 seg. Cf. Sexto, P., I, 197.
12 Dióg. IX, 74. Arístoc. l. I. Cf. Sexto, P., I, 206; M., VIII, 480.
13 Diog., IX, 70.
14 Ibid. 103.
15 Dióg., IX, 77: Zhte‹n oelegon oÚc §per nooàsin, Ó ti g¦r noe‹tai dÁlon, ¢ll' ï ta‹j aist”sesi met…scousin. – Ibid., 104: kaˆ g¦r to fainÒmenon tiqšmeqa, oÙc æj kaˆ toioàton Ôn.
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objeto é branco?, O mel é doce? Eis o que ele não sabe. Ele ignora tudo o que não aparece aos sentidos; não nega a visão; mas não sabe como ela se efetua. Sente que o fogo queima, mas ignora se está em sua natureza queimar. Um homem está em movimento ou morre; o cético concorda com isso. Mas como isso se dá? Ele não sabe. Se se diz que um quadro apresenta relevos, expressa-se a aparência; se se diz que não tem relevo, não se atém mais à aparência, expressa-se outra coisa.
Não há dúvida, como se vê, que Pirro não fez uma distinção entre o fenômeno e a realidade, ou, como dizemos, entre o subjetivo e o objetivo. Daí esses versos de Tímon:16
A aparência é rainha em todas as partes onde ela se apresenta;
e Enesidemo17 dizia, no primeiro livro de seus Discursos pirrônicos: “Pirro não afirmava nada dogmaticamente por causa da equivalência das razões contrárias; ele se atinha aos fenômenos (to‹j fainomšnoij).”
Será necessário atribuir a Pirro os dez tropos (trÒpoi), ou razões para duvidar (denominados também de tÒpoi ou lÒgoi) que tinham nas argumentações céticas um espaço tão grande? É provável que Pirro, ao mesmo tempo em que opunha as razões contrárias e de igual força, tenha assinalado algumas das contradições dos sentidos. Waddington18 destacou de forma engenhosa dos resumos de Diógenes Laércio e de Sexto um traço que parece pertencer-lhe, e que é como uma lembrança de suas viagens: Demofon, mordomo de Alexandre, sentia calor à sombra e frio ao sol. Mas a questão é saber se esses dez tropos, sob a forma e na ordem em que chegaram até nós, eram já argumentos familiares a Pirro19. Não acreditamos nisso. Os dez tropos são formalmente atribuídos a Enesidemo por
16 Dióg., IX, 105.
17 Ibid. 106.
18 Op. cit.
19 Dióg., IX, 80. Sexto, P., I, 82.
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Diógenes20, por Arístocles21 e por Sexto22: nenhum texto preciso permite atribuí-los a Pirro. Concedamos, se se quiser, que Enesidemo não fez mais que colocar em ordem argumentos conhecidos antes dele, e que se limitou a dar-lhes uma forma mais precisa; mas parece impossível ir mais longe.23
Qual foi o ensinamento moral de Pirro? Sobre esse ponto, novamente, temos poucos documentos. Ele sustentava, diz Diógenes24, “que nada é honesto ou vergonhoso, justo ou injusto, e igualmente para todo o resto; que nada existe realmente e em verdade, mas que em todas as coisas os homens se governam segundo a lei e o costume; pois uma coisa não é mais isto que aquilo.”
Fora essa fórmula completamente negativa, sabemos somente que Pirro considerava a afasia e a ataraxia e, segundo uma expressão que parece ter sido mais familiar para ele, a indiferença (¢diafor…a) como a última palavra à qual devem tender todos os nossos esforços. Não ter opinião sobre o bem, nem sobre o mal, esse é o meio de evitar todas as causas de inquietude. A maior parte das vezes os homens se tornam infelizes por sua culpa;25 sofrem porque são privados do que acreditam ser um bem, ou porque, possuindo-o, temem perdê-lo, ou porque sofrem o que acreditam ser um mal. Suprima-se toda crença desse gênero e todos os males desaparecem; a dúvida é o verdadeiro bem: a tranquilidade a acompanha, como a sombra segue o corpo26. Restará sem dúvida dores que não se pode evitar, porque elas pertencem à nossa natureza, o frio, a fome, a
20 87.
21 Ap. Euséb.,Præp. ev., XIV, XVIII, 11.
22 M., VII, 345.
23 A menção no catálogo de Plutarco por Lamprías (Fabric., Biblioth. Graec., t. V, p. 163) de um livro: Perˆ tîn PÚrrwnoj dška trÒpwn não poderia ser um argumento sério. Ainda que se supusesse que o catálogo é autêntico, na época de Plutarco quase não se fazia a distinção entre Pirro e os pirrônicos.
24 IX, 61. Cf. Sext. M, XI, 140.
25 Diog., IX, 108, seg.; Cf. Aristoc. ap. Euseb. praep. Ev. XIV, 18, 20; Diog. IX, 108, seg.; Cf. Aristoc. ap. Euseb. praep. Ev. XIV, 18, 20.
26 Diog., IX, 107.
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doença: mas estas dores mesmas se tornarão menos fortes se dermos a elas pouca importância: e o sábio pirrônico terá pelo menos a consolação de ter subtraído à dor tudo o que se pode subtrair pela previdência e pela reflexão.
Na prática, o sábio deve viver como todo mundo, conformando-se às leis, aos costumes, à religião de seu país.27 Ater-se ao senso comum e fazer como os outros, essa é a regra que depois de Pirro todos os céticos adotaram. Por uma estranha ironia do destino sua doutrina foi muito frequentemente combatida e ridicularizada em nome do senso comum. Uma de suas principais preocupações era, ao contrário, não contrariar o senso comum. “Nós não nos afastamos do costume”, já dizia Tímon28. Talvez não estivessem completamente errados; o senso comum faz outra coisa a não ser ater-se às aparências?
Este foi o ensinamento de Pirro segundo a tradição cética. Precisamos agora nos voltar para outro lado.
III. Se só conhecêssemos Pirro pelas várias passagens em que Cícero fala dele, jamais suspeitaríamos que ele foi um cético. Em nenhum momento Cícero alude à dúvida pirrônica. Mais ainda, é expressamente a Arcésilas29 que ele atribui a doutrina segundo a qual o sábio não deve ter nenhuma opinião; e quando fala da ™poc» é ainda a propósito de Arcésilas. No entanto, não lhe faltou oportunidade para falar do ceticismo pirrônico. Há na obra Acadêmicos30 duas passagens nas quais, para as exigências de seu argumento, ele enumera com complacência todos os filósofos que colocaram em dúvida a certeza de nossos conhecimentos; ficamos supressos ao encontrar nessa lista os nomes de Parmênides, de Anaxágoras, do próprio Sócrates e de Platão; ficamos ainda mais surpresos de não ler nela o de Pirro.
27 Dióg., 108.
28 Ibid. 105.
29 Acad. II, 24, 77. Nemo superiorum non modo expresserat, sed ne dixerat quidem posse hominem nihil opinari; nec solum posse, sed ita necesse esse sapienti. Cf. II, 18, 59.
30 I, 12, 44. - II, 23, 72, seg.
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Para Cícero, Pirro não passa de um moralista muito dogmático31, muito severo, o mais severo até de toda a Antigüidade. Ele acredita na virtude32, no soberano bem, que é a honestidade33; não admite nem sequer essas acomodações às quais se prestavam os estóicos; as coisas indiferentes, tais como a saúde e a riqueza, que, sem serem bens, se aproximam dos bens segundo Zenão (prohgmšna), são absolutamente sem valor aos olhos de Pirro34. Cícero o cita quase sempre em companhia do severo estóico Aríston35, e diz que levou mais longe que o próprio Zenão a rigidez estóica36.
Esses textos, aos quais os historiadores, salvo Waddington37 e Lewes38, não parecem ter dedicado uma atenção suficiente, são difíceis de conciliar com a tradição que nos referimos ainda a pouco. Eles têm sobre os ensinamentos de Diógenes uma grande vantagem: é que são de uma época muito mais próxima a Pirro, na qual era menos fácil atribuir a este filósofo as idéias de seus sucessores.
Pode-se tentar, no entanto, conciliar as duas tradições. Elas estão de acordo sobre um ponto: as duas atribuem a Pirro a doutrina moral da indiferença (¢diafor…a) e também da apatia (¢p£qeia) que assinala, segundo Cícero, um grau maior; o sábio, segundo
31 Um historiador antigo, Numênio (Dióg., IX, 68) considerava-o também como um dogmático.
32 De Fin., IV, 16, 43: “Pyrrho scilicet, qui virtute constituta, nihil omnino quod appetendum sit relinquat.”
33 Ibid. III, 3, 11: “Eis (Pyrrhoni et Aristoni) istud honestum, non summum modo, sed etiam, ut tu vis, solum bonum videri.”
34 Ac., II, 42, 130: “Huic (Aristoni) summum bonum est, in his rebus neutram in partem moveri, quæ ¢diafor…a ab ipso dicitur. Pyrrho autem ea ne sentire quidem sapientem; quæ ¢p£qeia nominatur.”
35 Acad. II, 42, 130; Fin. IV, 16, 43; IV, 18, 49; III, 3, 11; V. 8, 23; Tusc. V, 30, 85; Off. I, 2, 6; Fin. II, 11, 35; II, 13, 43.
36 Fin. IV. 16, 43. Mihi videntur omnes quidem illi errasse qui finem bonorum esse dixerunt honeste vivere, sed alius alio magis. Pyrrho scilicet maxime… deinde Aristo… Stoici autem quod finem bonorum in una virtute ponant, similes sunt illorum: quod auteur principium officii quaerunt, melius quam Pyrrho.
37 Op. cit.
38 History of philosophy, I, 237.
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Pirro, não deve sentir nem sequer um desejo, nem sequer uma inclinação, por menor que seja; não é somente indiferente, é insensível. O desacordo diz respeito a dois pontos: segundo a tradição mais recente, Pirro é acima de tudo um cético; a suspensão do juízo parece ser o essencial, a indiferença, o secundário. Cícero fala apenas da indiferença. Além disso, na tradição cética, Pirro, longe de empregar estas expressões: a virtude, a honestidade, o soberano bem, declara que na natureza não há nem virtude, nem honestidade.
Sobre este último ponto, a conciliação nos parece bastante fácil de ser estabelecida. Cícero força talvez um pouco o sentido das expressões quando empresta a Pirro fórmulas estóicas como virtus, honestum, finis bonorum. Provavelmente ele não se servia dessa linguagem muito dogmática, ou, se a empregava, era no sentido usual que dá a essas palavras a linguagem corrente: ele negligenciava as especulações sobre o bem em si e a definição da virtude. Mas, colocando-se do ponto de vista da prática, e colocando de lado toda teoria, recomendava aos outros e procurava praticar ele mesmo uma virtude que consistia na pura indiferença. Que Pirro, na conduta da vida, não se desinteressava da virtude, é o que nos é provado pelo relato de Diógenes, e principalmente pelos testemunhos, de uma importância capital, de Tímon. Diógenes39 conta, por exemplo, que ele se exercitava para se tornar homem de bem (crhstÒj). Veremos mais adiante em que termos Tímon celebra suas virtudes.
Numa palavra, Cícero cometeu o erro de exprimir em linguagem estóica e dogmática as idéias de Pirro sobre a moral. Pirro não tinha teoria sobre a moral, não mais que sobre qualquer outro assunto.
Resta a questão mais delicada de saber até que ponto Pirro foi cético, e que relação há entre sua dúvida e sua moral. Aqui seríamos levados a crer que é a tradição cética que exagerou seu papel. Que ele tenha recusado se pronunciar sobre qualquer questão, é o que quase não parece poder ser contestado: ainda seria uma
39 Diog., IX, 64.
Pirro e o ceticismo primitivo 11
questão saber qual era para ele o verdadeiro sentido das fórmulas oÙdn m©llon e ™pšcw. Tinham elas um significado moral ou lógico? Queriam dizer: Eu não prefiro isso mais que aquilo, ou: Eu não afirmo isso mais que aquilo? Eu me abstenho de escolher ou de afirmar? É difícil ou, antes, impossível para nós decidir: aqui o ponto de vista lógico e o ponto de vista moral se parecem tanto que se confundem40. Concedamos, entretanto, que estas palavras devem ser entendidas no sentido lógico; admitamos, inclusive, que para justificar sua dúvida, Pirro tenha invocado a equivalência das razões contrárias em favor de cada tese: um texto preciso nos afirma isso e nós não temos nenhuma razão para contestar sua exatidão. Mas foi ele mais longe? ele se dedicou a formular o ceticismo em termos precisos, a lhe dar esta espécie de rigor que ele assumiu entre seus sucessores? O ceticismo, tal como nos é conhecido, é uma teoria muito subtil, elaborada por dialéticos, pronta para a resposta e que procura querela em toda parte. Ela tem uma certa afinidade, pelo menos aparentemente, com a sofística, e Pirro frequentemente foi apresentado como uma espécie de sofista, por exemplo na lenda41 que o apresenta tão incerto da existência das coisas sensíveis que ele que irá chocar-se contra as árvores e as rochas, e que seus amigos são obrigados a acompanhá-lo para vigiá-lo. O pai do pirronismo foi um lógico sutil ou somente um moralista?
Os ensinamentos, infelizmente insuficientes e incompletos, mas de uma autenticidade incontestável, que nos são fornecidos pelos versos de Tímon, permitem, acreditamos nós, responder a esta questão e conciliar a tradição de Diógenes com a de Cícero. Tímon nos representa Pirro como alguém que evita as discussões e escapa às sutilezas dos sofistas42. O que louva nele é sua modéstia, é a vida
40 Na passagem de Arístocles acima citada é expressamente indicado que o objetivo principal de Pirro é encontrar o meio de ser feliz (tÕn mšllonta eÙdaimon”sei). O ponto de vista lógico é subordinado ao ponto de vista moral, e o texto todo pode ser interpretado no sentido de uma teoria moral.
41 Diog., IX, 62.
42 Mullach, V. 127 e seg., t. I, p. 95:
’W gšron, ï Purrwn, tîj À pÒqen Ÿkdusin eârej
latre…hj doxîn te kenofrosÚnhj te sofistîn;
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tranqüila que ele levou43, e que o faz igual aos deuses; é a serenidade de sua alma e o cuidado com que evita as vãs ilusões da suposta ciência. A mesma característica se encontra, por outro lado, entre os sucessores imediatos de Pirro. O que se vê reaparecer mais frequentemente nos fragmentos mutilados de Tímon é o horror às discussões vãs e intermináveis em que se compraziam os filósofos; ele lhes censura sem cessar suas querelas e suas disputas, principalmente seu orgulho e suas pretensões; mede de alguma maneira o valor dos homens por sua ausência de arrogância, e Xenófanes, a quem não obstante ele louva muito, só parcialmente está isento44 (Øp£tufoj). Assim também Fílon de Atenas, discípulo de Pirro, vive longe das disputas das escolas e não se preocupa em adquirir reputação nelas45. Euríloco, outro discípulo de Pirro, era também um inimigo obstinado dos sofistas46. Se Tímon se mostra muito duro com Arcésilas, cujas idéias, segundo o testemunho de Sexto, se aproximam muito das suas, é sem dúvida porque ele usa e abusa da dialética.
Neste caso, a doutrina de Pirro nos aparece sob uma luz nova. Não é por excesso, por refinamento de dialético, indo ainda mais longe que seus contemporâneos, que chegou ao ceticismo; sua doutrina é antes uma reação contra a dialética. Sem dúvida, renuncia à ciência e é cético: mas o ceticismo não é o essencial a seus olhos, e quase não se detém aí; talvez teria ficado surpreso tanto como contrariado de ver seu nome ligado a ele. Cansado das discussões eternas em que se comprazem seus contemporâneos, Pirro toma o partido de responder a todas as perguntas: “ não sei nada”. É uma negativa que ele opõe à vã ciência de seu tempo; é um meio que
43 Mullach, Op. cit. V. 142:
............................ ·Ísta meq' ¹suc…hj
a„eˆ ¢front…stwj kaˆ ¢kin”twj kat¦ taàta
m¾ prÒsec' „ndalmo‹j ¹dulÒgou sof…nj.
Adotamos para este último verso a correção de Bergk. (Ver Wachsmuth, De Timone Phliasio, Leipzig, 1859, p. 11).
44 Mullach, ibid. V. 29. Pirro, ao contrário, (versos 122) é chamado de ¥tufoj.
45 Ibid., verso 80, 81.
46 Dióg., IX, 69: Ãn polemiètatoj to‹j sofista‹j æj kaˆ T…mwn fhs…n.
Pirro e o ceticismo primitivo 13
imagina para não se deixar envolver nas redes da erística. Seu ceticismo procede de sua indiferença antes que sua indiferença de seu ceticismo. Seu espírito se distancia da lógica para voltar-se inteiramente para as coisas morais; não pensa senão em viver feliz e tranqüilo. “Fazer da dúvida, diz muito bem Waddington, um instrumento de sabedoria e de moderação, de firmeza e de felicidade, esta é a concepção original de Pirro, a idéia geradora de seu sistema”.
Compreende-se neste caso que na época de Cícero a única coisa que chamou a atenção fosse sua maneira de compreender a vida. Sua vida, mais que suas teorias, seus atos mais que suas palavras, são o ensinamento que deixou a seus discípulos: por isso um deles dirá47 que é preciso imitar sua maneira de ser, guardando inteiramente para si suas opiniões. Mais tarde, dir-se-á ainda que é pelos costumes que é necessário assemelhar-se a ele para ser verdadeiramente pirrônico48.
Como Pirro tinha deixado grandes exemplos, como era venerado quase igualmente como um Sócrates49 por todos os que o haviam conhecido, os céticos acharam conveniente mais tarde, uma vez completamente elaborada sua doutrina, invocar seu nome e colocar-se de alguma maneira sob sua proteção. Tratava-se de uma boa resposta para a objeção que se lhes fazia sempre de suprimir a virtude e de tornar a vida impossível. Estavam no seu direito, até certo ponto, e, pouco a pouco, chegou-se, na época de Sexto e de Diógenes, a lhe atribuir teorias um pouco diferentes do que ele havia pensado. Interpretou-se em um sentido lógico o que a princípio tinha talvez apenas um significado moral. Em suma, Pirro foi uma espécie de santo, sob cuja invocação o ceticismo se colocou; mas o pai do pirronismo parece ter sido muito pouco pirrônico. Foi mais tarde que a fórmula do ceticismo converteu-se em: que sei eu? A última palavra do pirronismo primitivo era: tudo me é igual.
47 Diog., IX, 64.
48 Diog., IX, 70. Lšgoito d/¥n tˆj purrèneioj ÐmotropÒj.
49 Lewes, no retrato que faz de Pirro (History of philosophy, I, 237), insiste nesta comparação com Sócrates.
14 Victor Brochard
IV. Segue-se das considerações precedentes que, se alguém deseja formar uma idéia exata de quem foi Pirro, é sua biografia que é necessário estudar, é ao retrato que os antigos nos deixaram dele que é preciso dedicar toda a atenção. Nas informações que nos transmitiu Diógenes, os únicos que nos dão alguma luz sobre este ponto capital, há sem dúvida mais de um traço do qual se deve desconfiar, mais de um detalhe muito ligeiramente acolhido. Mas todos esses fatos, mesmo quando não são absolutamente autênticos, nos mostram pelo menos que idéia a Antingüidade tinha de Pirro, e sem dúvida a maior parte são exatos. Se pudermos confiar neles, Pirro é um personagem muito notável. Nesta longa galeria de homens extraordinários, incomuns ou sublimes, que nos faz percorrer a história da filosofia, ele é certamente um dos mais originais.
Ele viveu respeitosamente (eÙsebîj)50 com sua irmã Filista, que era parteira. Eventualmente, ele mesmo vendia no mercado galinhas e leitões; indiferente a tudo, não desdenhava limpar os utensílios domésticos e lavar a porca. Sua tranquilidade de alma era inalterável, e praticava com serenidade a indiferença que ensinava. Se lhe ocorria ser abandonado enquanto falava, continuava seu discurso sem que seu rosto expressasse o menor descontentamento. Frequentemente se punha a viajar sem avisar ninguém; seguia ao acaso e tomava por companheiros aqueles que lhe agradavam. Gostava de viver sozinho, procurava os lugares desertos e raramente era visto entre os seus. Sua única preocupação era exercer a prática da virtude. Um dia foi surpreendido falando sozinho e, como lhe foi perguntado a razão, respondeu: “Medito sobre os meios de se tornar um homem de bem”. Outra vez51 se encontrava num barco batido pela tempestade; todos os passageiros experimentavam o mais vivo espanto. Somente Pirro não perdeu um instante seu sangue frio e, mostrando um porco ao qual se acabava de dar cevada e que comia muito tranquilamente, disse: “Eis aí a
50 Diog., IX, 66, seg.
51 Dióg., 68. Cf. Plut., de prof. in virt., II.
Pirro e o ceticismo primitivo 15
calma que devem dar a razão e a filosofia aos que não querem se deixar perturbar pelos acontecimentos”. Duas vezes somente sua indiferença falhou: a primeira foi quando, perseguido por um cão, refugiou-se numa árvore52 e como zombaram dele, respondeu que era difícil despojar-se completamente da humanidade e que se devia fazer um esforço para colocar-se de acordo com as coisas pela razão, se não se podia fazê-lo pelas ações. Numa outra ocasião ele se zangou com sua irmã Filista e como lhe censuram esta inconseqüência, respondeu: “Não é de uma mulher que dependerá a prova de minha indiferença”. Em compensação, suportou operações cirúrgicas com uma impassibilidade e uma indiferença que não foram desmentidas por um instante. E levava mesmo tão longe a indiferença que um dia, tendo seu amigo Anaxarco caído num pântano, continuou seu caminho sem socorrê-lo, e como foi censurado, o próprio Anaxarco elogiou sua impassibilidade. Não se pode aprovar o ideal de perfeição que os dois filósofos tinham proposto a si mesmos; é preciso convir, pelo menos, que Pirro toma muito a sério seus preceitos de conduta. A lenda que corre a seu respeito não é autêntica, e Diógenes nos diz que tinha provocado as contestações de Enesidemo. Se fosse autêntica e tivesse um fundo de verdade, seria preciso explicá-la de uma maneira totalmente diferente de como se faz comumente. Não é por ceticismo, mas por indiferença, que Pirro teria ido, sem dúvida, não contra os rochedos e os muros, mas cometer imprudências que inquietavam seus amigos. Não se apegava à vida. É dele que Cícero53 disse que não fazia nenhuma diferença entre a mais perfeita saúde e a mais dolorosa enfermidade. É ele ainda quem, segundo o testemunho de Epicteto54, dizia que não há diferença entre viver e morrer.
Sua filosofia, como se vê, é a filosofia da resignação, ou, antes, da renúncia absoluta. É por isso, como nos foi dito ainda, que tinha sempre na boca esses versos de Homero:
52 Dióg., l. 1. Arístoc., ap. Euséb., Praep. ev. XIV, 18, 26.
53 De Fin. II, 13, 43... “ut inter optime valere et gravissime aegrotare nihil prorsus dicerent interesse.”
54 Stob., Serm. 121, 28. Purrwn oelege mhdn diafšrein zÁn ½ teqn£nai.
16 Victor Brochard
“Os homens são semelhantes às folhas das árvores”;
e estes:
“Mas você morre por sua vez. Porque se lamenta assim? Pátroclo morreu e ele valia muito mais do que você”.
Este homem extraordinário inspirou a todos os que o viram de perto uma admiração sem limites. Como dissemos, seus concidadãos lhe erigiram uma estátua após sua morte e lhe conferiram as funções de sumo sacerdote55. Havia dado a eles uma idéia bastante elevada da filosofia que em sua honra eximiram os filósofos de todo imposto. Seu discípulo Nausífanes56, o mesmo talvez que foi o mestre de Epicuro, foi seduzido por seus discursos e conta-se que Epicuro interrogava-o frequentemente a respeito de Pirro, cuja vida e caráter admirava. Como acreditar que exerceu tal influência sobre Nausífanes, espírito independente, e sobre Epicuro, tão pouco preocupado com a lógica, se sua principal preocupação tinha sido colocar argumentos em forma? Falava de moral antes que de ciência e sua virtude dava a seus discursos uma autoridade que jamais os raciocínios céticos tiveram.
Mas o que mais que todo resto testemunha em favor de Pirro é a admiração que inspirou a Tímon. Tímon não era de admiração fácil. É o inventor dos Silos* e ridicularizou com uma malícia implacável um grande número de filósofos, entre os quais Platão; somente Pirro mereceu a sua simpatia. Quando Tímon fala de seu mestre, é com entusiasmo “Nobre ancião, exclama57, Pirro, como e por que caminho soubeste escapar à escravidão das doutrinas e dos fúteis ensinamentos dos sofistas? Como rompeste os laços do erro e da crença servil? Tu não te cansas de examinar a natureza do ar que
55 Diog., IX, 69.
56 Ibid., 64.
* Poemas satíricos, em forma de paródia (N.T.).
57 Diog., IX, 65.
Pirro e o ceticismo primitivo 17
envolve a Grécia, nem a natureza e o fim de todas as coisas”. E em outro lugar: “Eu o vi simples e sem arrogância, livre dessas inquietudes confessadas ou secretas, cuja vã multidão dos homens se deixa oprimir em todos os lugares pela opinião e pelas leis instituídas ao acaso”58. “Pirro, desejo ardentemente aprender de ti como, estando ainda sobre a terra, levas uma vida tão feliz e tranqüila, como, único entre os mortais, desfrutas da felicidade dos Deuses”.
Esses versos fazem naturalmente pensar naqueles em que Lucrécio expressa tão eloquentemente sua admiração por Epicuro: é o mesmo sentimento, a mesma efusão de discípulo entusiasta. Mas, todavia, é preciso assinalar que Lucrécio não é um gozador profissional; há uma grande distância entre o grave e severo romano e o espirituoso e mordaz grego, entre o espírito agudo e sutil, pronto para apreender todos os aspectos ridículos e para desmascarar todas as afetações. Além disso, Lucrécio não tinha conhecido pessoalmente Epicuro. Tímon viveu vários anos na intimidade de Pirro. Que sólida virtude era preciso ter para resistir à semelhante prova, e que testemunho mais precioso poderíamos invocar em homenagem a Pirro que o respeito que soube inspirar a um Tímon!
É muito difícil para nós, com nossos hábitos de espírito modernos, representar-nos esse personagem onde tudo parece contraditório e incoerente. Ele nos é apresentado como cético e, com efeito, é cético; no entanto, este cético é mais que estóico. Não se limita a dizer: “Tudo me parece igual”; coloca sua teoria em prática. Viu-se muitos homens, na história da filosofia e das religiões, praticar o desapego dos bens mundanos e a renúncia absoluta; mas uns eram sustentados pela esperança de uma recompensa futura; esperavam o prêmio de sua virtude e os gozos que eles entreviam reconfortavam sua coragem e os asseguravam contra si mesmos. Os outros, na falta de uma esperança, tinham pelo menos um dogma, um ideal ao qual faziam o sacrifício de seus desejos e de sua pessoa; o sentimento de sua perfeição era pelo menos uma compensação a
58 Euseb. Praep. ev., I, 14.
18 Victor Brochard
tantos sacrifícios. Todos tinham por ponto de apoio uma fé sólida. Só Pirro não aguarda nada, não espera nada, não crê em nada; no entanto, vive como os que crêem e esperam. Ele não é sustentado por nada e se mantém de pé. Não está desalentado nem resignado, pois não só não se queixa, mas crê não ter nenhum motivo para se queixar. Não é nem um pessimista nem um egoísta; considera-se feliz e quer partilhar com os outros o segredo da felicidade que acredita ter encontrado. Não há outro termo para designar este estado de alma, único talvez na história, que aquele mesmo do qual se serviu: é um indiferente. Não quero certamente dizer que tenha razão nem que seja um modelo a ser imitado; mas como contestar pelo menos que há aí um extraordinário exemplo do que pode a vontade humana? Sejam quais forem as reservas que se possam fazer, existem poucos homens que dão uma idéia mais elevada da humanidade. Neste sentido, Pirro excede Marco Aurélio e Espinosa. E havia apenas um passo a dar para dizer, como alguns de seus discípulos disseram, que a doçura de caráter é a última palavra do ceticismo59.
Não há como se enganar a respeito, é necessário reconhecer aí a influência do Oriente. O espírito grego não estava feito para tais audácias: elas não foram mais renovadas depois de Pirro. Os cínicos haviam podido fazer abnegação de todos os interesses humanos, desprezar o prazer, exaltar a dor, isolar-se do mundo; mas faziam isso com um tom de arrogância e de provocação, e nessa virtude de ostentação e de afetação, o orgulho, a vaidade e o egoísmo encontraram seu lugar. Mais sérios e mais sinceros talvez, os estóicos, pelo menos os mais ilustres dentre eles, renunciam a essa vã afetação e se preocupam menos em surpreender os demais que colocar-se de acordo discreta e honestamente, no seu foro interior, com a razão. Mas, sem contar que admitem ainda algumas atenuações, há neles não sei quê afetação e tensão: resistem com uma maravilhosa coragem, mas sente-se o seu esforço. Em Pirro, a renúncia parece fazer-se fácil, quase natural: não faz nenhum
59 Diog., IX, 108. …tinj kaˆ t¾n ¢paqeian, ¤lloi dš tÁn praÒthta tšloj e„pe‹n faj toàj skeptikoàj.
Pirro e o ceticismo primitivo 19
esforço para se distinguir, e se precisou lutar contra si mesmo (pois se assegura que era, a princípio, de uma natureza viva e colérica), sua vitória parece definitiva. Vive como todo o mundo, sem desdenhar os mais humildes trabalhos; renunciou a todas as pretensões, mesmo a da ciência, principalmente a esta. Não se apresenta como um sábio superior aos outros homens e não crê sê-lo; não tem sequer orgulho de sua virtude. Faz mais que respeitar as crenças populares, conforma-se a elas, faz sacrifícios aos deuses e aceita as funções de sumo sacerdote; não parece tê-las desempenhado pior que outro.
Foi o exemplo dos gimnosofistas e dos magos da Índia que o levou a esse ponto: foi na Índia onde se convenceu de que a vida humana é pouca coisa e que é possível prová-lo. As lições de Bríson e de Anaxarco tinham preparado o terreno: um, ao lhe ensinar a dialética, lhe havia mostrado o nada; o outro lhe havia ensinado que todas as opiniões são relativas e que o espírito humano não é feito para a verdade absoluta. Os gimnosofistas fizeram o resto e lhe ensinaram, melhor que por meio de argumentos e disputas, a vaidade das coisas humanas.
Esta não é apenas uma conjectura. Diógenes60 nos diz que se buscava a solidão e se trabalhava para tornar-se um homem de bem é porque ele jamais havia esquecido as palavras do indiano que tinha censurado Anaxarco por ser incapaz de ensinar aos outros a virtude e de freqüentar muito assiduamente o palácio dos reis.
É preciso, entretanto, evitar diminuir a originalidade de Pirro e reduzi-lo à classe de um simples imitador da sabedoria oriental. É mais e melhor que um gimnosofista indiano. Conhecemos mal os pensamentos desses sábios do Oriente e não sabemos por quais razões justificavam sua renúncia. Mas se, como é permitido presumir, é principalmente nos preceitos de Buda que eles se inspiravam, vê-se a distância que os separa do grego sábio e sutil, conhecedor de todos os jogos da dialética, informado de todas as ciências conhecidas de seu tempo. Não é unicamente sob a
60 Diog., IX, 63.
20 Victor Brochard
influência da tradição, da educação e do exemplo, que o contemporâneo de Aristóteles chegou ao mesmo estado de alma. É apenas depois de ter dado, de certo modo, a volta pelas doutrinas filosóficas, como havia dado a volta ao mundo, que repousou na indiferença e na apatia, não porque ignorava as ciências humanas, mas porque as conhecia muito. Ele une a sabedoria grega à indiferença oriental e a resignação aparenta nele um caráter de grandeza e de gravidade que não podia ter entre os que foram seus modelos.
Em suma, o ensinamento de Pirro foi totalmente diferente daquilo que dizem a maior parte dos historiadores. Onde eles não viram senão um cético e um sofista é necessário ver um severo moralista, cujas idéias podem ser certamente contestadas mas que não se pode deixar de admirar. O ceticismo não é para ele um fim; é um meio; ele o atravessa sem se deter nele. Das duas palavras que resumem todo o ceticismo, epoché e adiaforia, é a última a que tem mais importância a seus olhos. Seus sucessores inverteram a ordem e fizeram da dúvida o essencial, da indiferença o secundário. Conservando a letra de sua doutrina, alteraram seu espírito. Pirro talvez tivesse sorrido e mostrado alguma compaixão, se tivesse visto Sexto Empírico fazer tanto esforço para reunir em duas intermináveis e indigestas obras todos os argumentos céticos. Alcançou seus objetivos de modo bem mais simples. Foi antes de tudo um desenganado: foi um asceta grego.
* * *

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