A interpretação dos sonhos (segunda parte) | FREUD, S.

| segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
As representações opostas são preferencialmente expressas nos sonhos por um único
elemento. O “não” parece inexistir no que concerne aos sonhos. A oposição entre dois pensamentos, a relação de inversão, pode ser representada nos sonhos de maneira realmente
notável.
A interpretação dos sonhos
(Segunda parte)
e
Sobre os sonhos
VOLUME V
(1900-1901)
DIE
TRAUMDEUTUNG
von
Dr. SIGMUND FREUD
--------------------------------
FLECTERE SI NEQUEO SUPEROS, ACHERONTA MOVEBO.
--------------------------------
LEIPZIG UND WIEN.
FRANZ DEUTICKE.
1900-1901
---------------------------
Capítulo VI (continuação)
(D) CONSIDERAÇÃO À REPRESENTABILIDADE
Ocupamo-nos até agora com a investigação dos meios pelos quais os sonhos
representam as relações entre os pensamentos oníricos. No curso dessa pesquisa, porém,
tocamos mais de uma vez no tópico adicional da natureza geral das modificações por que passa o
material dos pensamentos do sonho para fins de formação de um sonho. Aprendemos que esse
material, despojado em grande parte de suas relações, é submetido a um processo de
compressão, enquanto que, ao mesmo tempo, os deslocamentos de intensidade entre seus
elementos promovem necessariamente uma transposição psíquica dos valores do material. Os
deslocamentos que examinamos até agora mostraram consistir na substituição de alguma
representação particular por outra estreitamente associada a ela em algum aspecto, e foram
utilizados para facilitar a condensação, na medida em que, por meio deles, em vez de dois
elementos, um único elemento intermediário comum a ambos penetra no sonho. Ainda não nos
referimos a nenhum outro tipo de deslocamento. As análises nos mostram, contudo, que existe
uma outra espécie, e que ela se revela numa mudança da expressão verbal dos pensamentos em
causa. Em ambos os casos, há um deslocamento ao longo de uma cadeia de associações; mas
um processo de tal natureza pode ocorrer em várias esferas psíquicas, e o resultado do
deslocamento pode ser, num caso, a substituição de um elemento por outro, enquanto o resultado
em outro caso pode ser o de um elemento isolado ter sua forma verbal substituída por outra.
Esta segunda espécie de deslocamento que ocorre na formação dos sonhos tem não
apenas grande interesse teórico, como é também especialmente adequada para explicar o
aparecimento do fantástico absurdo em que os sonhos se disfarçam. A direção tomada pelo
deslocamento geralmente resulta no fato de uma expressão insípida e abstrata do pensamento
onírico ser trocada por uma expressão pictórica e concreta. A vantagem e, conseqüentemente, o
objetivo dessa troca saltam os olhos. Uma coisa pictórica é, do ponto de vista do sonho, uma coisa
passível de ser representada: pode ser introduzida numa situação em que as expressões abstratas
oferecem à representação nos sonhos o mesmo tipo de dificuldades que um editorialpolítico num
jornal ofereceria a um ilustrador. Mas não somente a representabilidade, como também os
interesses da condensação e da censura podem beneficiar-se dessa troca. Um pensamento onírico
não é utilizável enquanto expresso em forma abstrata, mas, uma vez que tenha sido transformado
em linguagem pictórica, os contrastes e identificações do tipo que o trabalho do sonho requer, e
que ele cria quando já não estão presentes, podem ser estabelecidos com mais facilidade do que
antes entre a nova forma de expressão e o restante do material subjacente ao sonho. Isso se dá
porque, em todas as línguas, os termos concretos, em decorrência da história de seu
desenvolvimento, são mais ricos em associações do que os conceituais. Podemos supor que boa
parte do trabalho intermediário executado durante a formação de um sonho, que procura reduzir os
pensamentos oníricos dispersos à expressão mais sucinta e unificada possível, se processe no
sentido de encontrar transformações verbais apropriadas para os pensamentos isolados. Qualquer
pensamento cuja forma de expressão porventura seja fixa, por outras razões, atua de maneira
determinante e seletiva sobre as possíveis formas de expressão destinadas aos outros
pensamentos, e talvez o faça desde o início - como ocorre ao se compor um poema. Quando um
poema tem de ser escrito em rimas, o segundo verso de um dístico é limitado por duas condições:
precisa expressar um significado apropriado e a expressão desse significado deve rimar com o
primeiro verso. Sem dúvida, o melhor poema será aquele em que deixarmos de notar a intenção de
encontrar uma rima, em que os dois pensamentos, por influência mútua, tiverem escolhido desde o
início uma expressão verbal que permita surgir uma rima com apenas um ligeiro ajustamento
subseqüente.
Em alguns casos, esse tipo de mudança de expressão ajuda a condensação onírica
ainda mais diretamente, descobrindo uma forma de palavras que, devido a sua ambigüidade, seja
capaz de dar expressão a mais de um dos pensamentos do sonho. Dessa maneira, todo o campo
do chiste verbal é posto à disposição do trabalho do sonho. Não há por que nos surpreendermos
com o papel desempenhado pelas palavras na formação dos sonhos. As palavras, por serem o
ponto nodal de numerosas representações, podem ser consideradas como predestinadas à
ambigüidade; e as neuroses (por exemplo, na estruturação de obsessões e fobias), não menos do
que os sonhos, servem-se à vontade das vantagens assim oferecidas pelas palavras para fins de
condensação e disfarce.É fácil demonstrar que também a distorção do sonho se beneficia do
deslocamento de expressão. Quando uma palavra ambígua é empregada em lugar de duas
inequívocas, o resultado é desnorteador; e quando nosso sóbrio método cotidiano de expressão é
substituído por um método pictórico, nossa compreensão fica paralisada, particularmente visto que
um sonho nunca nos diz se seus elementos devem ser interpretados literalmente ou num sentido
figurado, ou se devem ser ligados ao material dos pensamentos oníricos diretamente ou por
intermédio de alguma locução intercalada. [1] Ao se interpretar qualquer elemento onírico, é em
geral duvidoso:
(a) se ele deve ser tomado num sentido positivo ou negativo (como uma relação
antitética),
(b) se deve ser interpretado historicamente (como uma lembrança),
(c) se deve ser interpretado simbolicamente, ou
(d) se sua interpretação deve depender de seu enunciado. Contudo, apesar de toda essa
ambigüidade, é lícito dizer que as produções do trabalho do sonho, que, convém lembrar, não são
feitas com a intenção de serem entendidas, não apresentam a seus tradutores maior dificuldade do
que as antigas inscrições hieroglíficas àqueles que procuram lê-las.
Já apresentei vários exemplos de representações nos sonhos que só se mantêm unidas
pela ambigüidade de seu enunciado. (Por exemplo, “Ela abriu a boca como devia” no sonho da
injeção de Irma [em [1]], e “Afinal, não pude ir”, no sonho que citei por último [em [1]].) Registrarei
agora um sonho em que um papel considerável foi desempenhado pela transformação de
pensamentos abstratos em imagens. A distinção entre esse tipo de interpretação dos sonhos e a
interpretação por meio do simbolismo pode ainda ser traçada com muita nitidez. No caso da
interpretação simbólica dos sonhos, a chave da simbolização é arbitrariamente escolhida pelo
intérprete, ao passo que, em nossos casos de disfarce verbal, as chaves são geralmente
conhecidas e estabelecidas pelo uso lingüístico firmemente consagrado. Quando se dispõe de
idéia certa no momento exato, é possível solucionar no todo ou em parte esse tipo de sonhos, até
mesmo independentemente das informações do sonhador.
Uma senhora conhecida minha teve o seguinte sonho: Ela estava na Ópera. Encenavase
uma ópera de Wagner, que durara até quinze para as oito da manhã. Havia mesas postas nas
primeiras filas da platéia, onde as pessoas estavam comendo e bebendo. Seu primo, que acabara
de voltar da lua-de-mel, estava sentado a uma das mesas com sua jovem esposa, e havia um
aristocrata sentado ao lado deles. A mulher de seu primo, ao que parecia, trouxera-o com ela da
lua-de-mel, muito abertamente, como quem trouxesse um chapéu. No meio das poltronas havia
uma torre alta, com uma plataforma no topo circundada por uma grade de ferro. Lá em cima estava
o maestro, que tinha as feições de Hans Richter. Ele corria em círculos junto à grade e transpirava
violentamente; e dessa posição regia a orquestra, que estava agrupada em torno da base da torre.
Ela própria estava sentada num camarote com uma amiga (que eu conhecia). Sua irmã mais nova
queria, das poltronas, entregar-lhe um grande pedaço de carvão, sob a alegação de que ela não
sabia que iria demorar tanto, e àquela altura devia estar simplismente congelando. (Como se os
camarotes precisassem ser aquecidos durante o longo espetáculo.)
Muito embora tivesse bem focalizado numa única situação, o sonho, sob outros
aspectos, era bastante absurdo: a torre no meio da platéia, por exemplo, com o maestro regendo a
orquestra lá do alto! E, acima de tudo, o carvão que sua irmã lhe entregou! Abstive-me
deliberadamente de pedir uma análise do sonho. Mas, como tivesse algum conhecimento das
relações pessoais da sonhadora, pude interpretar certas partes do sonho independentemente dela.
Eu sabia que ela simpatizara muito com um músico cuja carreira fora prematuramente interrompida
pela loucura. Assim, resolvi considerar a torre entre as poltronas em sentido metafórico. Emergiu
então a idéia de que o homem que ela queria ver no lugar de Hans Richter erguia-se qual uma
torre muito acima dos outros membros da orquestra. A torre poderia ser descrita como uma
imagem composta formada por aposição. A parte inferior de sua estrutura representava a grandeza
do homem; a grade do topo, por trás da qual ele corria em círculos como um prisioneiro ou um
animal enjaulado - o que era uma alusão ao nome do infeliz - representava seu destino final. As
duas idéias poderiam ter-se reunido na palavra “Narrenturm”.
Tendo assim descoberto o modo de representação adotado pelo sonho, poderíamos
tentar utilizar a mesma chave para solucionar seu segundo aparente absurdo - o carvão entregue à
sonhadora por sua irmã. “Carvão” devia significar “amor secreto”:
Kein Feuer, keine Kohle
kann brennen so heiss
als wie heimliche Liebe,
von der niemand nichts weiss.
Ela própria e sua amiga tinham ficado solteiras [alemão “sitzen geblieben”, literalmente,
“ficado sentadas”]. Sua irmã mais nova, que ainda tinha perspectivas de casamento, entregou-lhe o
carvão “por não ter sabido que iria demorar tanto”. O sonho não especificava o que demoraria
tanto. Se isso fosse uma história, diríamos “a encenação”; mas, como se trata de um sonho,
podemos tomar a oração como uma entidade independente, decidir que foi empregada de maneira
ambígua e acrescentar as palavras “até ela se casar”. Nossa interpretação do “amor secreto” é
ainda apoiada pela menção ao primo da sonhadora, sentado com a mulher nas poltronas da
platéia, pelo romance ostensivo atribuído a esta última. O sonho foi dominado pela antítese entre
amor secreto e amor aparente e entre o ardor da própria sonhadora e a frieza da jovem esposa.
Em ambos os casos, além disso, havia alguém “altamente situado” - um termo que se aplica
igualmente ao aristocrata e ao músico no qual se haviam depositado tão grandes esperanças. [1]
A discussão precedente levou-nos enfim à descoberta de um terceiro fator cuja
participação na transformação dos pensamentos do sonho em conteúdo onírico não deve ser
subestimada: a saber, a consideração à representabilidade no material psíquico peculiar que os
sonhos utilizam - ou seja, na sua maior parte, a representabilidade em imagens visuais. Dentre os
vários pensamentos acessórios ligados aos pensamentos oníricos essenciais, dá-se preferência
àqueles que admitem representação visual; e o trabalho do sonho não se furta ao esforço de
remodelar pensamentos inadaptáveis numa nova forma verbal - mesmo numa que seja menos
usual -, contanto que esse processo facilite a representação e, desse modo, alivie a pressão
psicológica causada pela constrição da ação de pensar. Essa vertedura do conteúdo de um
pensamento num outro molde pode, ao mesmo tempo, atender às finalidades da atividade de
condensação e criar ligações, que de outro modo talvez não se fizessem presentes, com algum
outro pensamento; quanto a este segundo pensamento, ele já pode ter tido sua forma original de
expressão modificada, com vistas a juntar-se ao primeiro a meio caminho.
Herbert Silberer (1909) [1] apontou uma boa maneira de observar diretamente a
transformação de pensamentos em imagens no processo de formação dos sonhos e, assim,
estudar isoladamente esse fator do trabalho do sonho. Quando, achando-se num estado de fadiga
e sonolência, ele se impunha alguma tarefa intelectual, verificava que, muitas vezes, um
pensamento lhe escapava e em seu lugar surgia uma imagem, que ele então podia reconhecer
como um substituto do pensamento. Silberer descreve esses substitutos com o termo não muito
apropriado de “auto-simbólicos”. Citarei aqui alguns exemplos do artigo de Silberer [ibid., 519-22] e
terei oportunidade, em virtude de certas características dos fenômenos em pauta, de voltar a eles
posteriormente. [Ver em [1]]
“Exemplo 1. -Pensei em ter de revisar um trecho irregular num ensaio.
“Símbolo. - Vi-me aplainando um pedaço de madeira.”
‘’Exemplo 5. - Eu me esforçava por convercer-me do objetivo de certos estudos
metafísicos que me propunha fazer. Seu objetivo, refleti, era o esforço de conquistar formas de
consciência e camadas de existência cada vez mais elevadas na busca dos fundamentos da
existência.
“Símbolo. - Eu estava empurrando uma longa faca por baixo de um bolo, como se
quisesse levantar uma fatia.
“Interpretação. - Meu movimento com a faca significava ‘meu esforço de conquista’ em
questão. (…) Eis a explicação do simbolismo. Vez por outra, cabe a mim nas refeições cortar um
bolo e distribuir as porções. Realizo essa tarefa com uma faca longa e flexível, o que exige algum
cuidado. Em particular, levantar habilmente as fatias depois de terem sido cortadas traz certas
dificuldades; a faca deve ser empurrada cuidadosamente por baixo da fatia (correspondente ao
lento ‘esforço de conquista’ para chegar aos ‘fundamentos’). Mas há ainda um simbolismo nessa
imagem, pois o bolo do símbolo era um bolo ‘Dobos’ - um bolo com diversas ‘camadas’ através das
quais, ao cortá-lo, a faca tem de penetrar (as ‘camadas’ da consciência e do pensamento).”
“Exemplo 9. - Eu perdera o fio da meada numa cadeia de idéias. Tentei reencontrá-lo,
mas tive de admitir que o ponto de partida me escapara completamente.
“Símbolo. - Parte de uma matriz de linotipo com as últimas linhas caídas.”
Em vista do papel desempenhado pelos chistes, citações, canções e provérbios na vida
mental das pessoas cultas, estaria em total acordo com nossas expectativas que esses tipos de
disfarce fossem utilizados com extrema freqüência para representar os pensamentos do sonho.
Qual é, por exemplo, num sonho, o significado de diversas carroças, cada qual repleta de uma
espécie diferente de legume? Elas representam um contraste desejado com “Kraute und Rüben”
[literalmente, “couves e nabos”], isto é, com “de pernas para o ar”, e portanto, com “desordem”.
Surpreende-me que esse sonho só me tenha sido relatado uma vez.Só no caso de alguns temas
emergiu um simbolismo onírico universalmente válido, com base em alusões e substitutos verbais
genericamente conhecidos. Além disso, boa parte desse simbolismo é partilhada pelos sonhos
com as psiconeuroses, as lendas e os usos populares.
De fato, ao examinarmos o assunto mais detidamente, devemos reconhecer o fato de
que o trabalho do sonho nada faz de original ao efetuar essas substituições. Para atingir seus
objetivos - neste caso, possibilitar uma representação tolhida pela censura - ele simplesmente
percorre as vias que já encontra estabelecidas no inconsciente; e dá preferência às transformações
do material recalcado que também se podem tornar conscientes sob a forma de chistes ou
alusões, e de que se acham tão repletas as fantasias dos pacientes neuróticos. Neste ponto,
chegamos de repente ao entendimento das interpretações de sonhos feitas por Scherner, cuja
exatidão essencial defendi em outros trechos [em [1] e [2]]. A preocupação da imaginação com o
corpo do próprio sujeito de modo algum é peculiar aos sonhos ou característica apenas deles.
Minhas análises têm-me indicado que ele está habitualmente presente nos pensamentos
inconscientes dos neuróticos e que deriva da curiosidade sexual, a qual, nos rapazes ou moças em
crescimento, volta-se para os órgãos genitais do sexo oposto e também para os do próprio sexo.
Tampouco a casa, como acertadamente insistiram Scherner [1861] e Volkelt [1875], é o único
círculo de representações empregado para simbolizar o corpo; e isto se aplica tanto aos sonhos
quanto às fantasias inconscientes da neurose. É verdade que conheço pacientes que preservaram
o simbolismo arquitetônico para o corpo e os órgãos genitais.
(O interesse sexual estende-se muito além da esfera da genitália externa.) Para esses
pacientes, os pilares e as colunas representam as pernas (como nos Cânticos de Salomão), todo
portão representa um dos orifícios corporais (um“buraco”), todo encanamento de água é um
lembrete do aparelho urinário, e assim por diante. Mas o círculo de representações que gira em
torno da vida das plantas ou da cozinha pode, com igual presteza, ser escolhido para ocultar
imagens sexuais. No primeiro caso, o caminho foi bem preparado pelo uso lingüístico, ele próprio
um precipitado de símiles imaginativos que remontam à longínqua antigüidade: por exemplo, a
vinha do Senhor, a semente e o jardim da donzela nos Cânticos de Salomão.
Os detalhes mais repulsivos e também os mais íntimos da vida sexual podem ser
pensados e sonhados em alusões aparentemente inocentes a atividades culinárias; e os sintomas
da histeria jamais poderiam ser interpretados se nos esquecêssemos de que o simbolismo sexual
pode encontrar seu melhor esconderijo por trás do que é corriqueiro e inconspícuo. Há um sentido
sexual válido por trás da intolerância da criança neurótica ao sangue ou à carne crua ou de suas
náuseas ante a visão de ovos ou macarrão, e por trás do enorme exagero, nos neuróticos, do
natural horror humano às cobras. Sempre que as neuroses se valem de disfarces, estão
percorrendo trilhas por onde passou toda a humanidade nas épocas mais remotas da civilização -
trilhas de cuja continuada existência em nossos dias, sob o mais diáfano dos véus, encontram-se
provas nos usos lingüísticos, nas superstições e nos costumes.
Insiro aqui o “florido” sonho de uma de minhas pacientes que já prometi [em [1]] registrar.
Indiquei por meio de grifos seus elementos que devem receber uma interpretação sexual. A
sonhadora perdeu muito de sua simpatia por esse lindo sonho depois que ele foi interpretado.
(a) SONHO INTRODUTÓRIO: Ela entrou na cozinha, onde estavam suas duas
empregadas, e as repreendeu por não terem aprontado sua “comidinha”. Ao mesmo tempo, viu
uma grande quantidade de louça emborcada para secar, louça comum de barro amontoada em
pilhas. Acréscimo posterior: As duas empregadas foram buscar água e tiveram de entrar numa
espécie de rio que chegava até bem junto da casa, entrando pelo quintal.
(b) SONHO PRINCIPAL: Ela estava descendo de uma elevação sobre umas paliçadas
ou cercas de construção estranha reunidas sob grandes painéis e que consistiam em quadradinhos
de pau-a-pique. Não eram feitos para se subir; ela teve dificuldade em encontrar um lugar onde pôr
os pés e ficou contente por seu vestido não ter-se prendido em lugar nenhum, de modo que ela
continuou à medida que prosseguia. Ela segurava um UM GRANDE RAMO na mão; na realidade,
era como uma árvore, todo recoberto de FLORES VERMELHAS que se ramificavam e
espalhavam. Havia uma idéia de que fossem FLORES de cerejeira; mas também pareciam
CAMÉLIAS duplas, embora, é claro, estas não cresçam em árvores. Ao descer, ela estava primeiro
com UMA, depois, de repente, com DUAS, e depois com UMA outra vez. Ao chegar lá embaixo, as
FLORES da parte inferior já estavam bem DESBOTADAS. Então, depois que já havia descido, ela
viu um criado que - sentiu-se inclinada a dizer - estava penteando uma árvore semelhante, ou seja,
estava usando um PEDAÇO DE MADEIRA para arrancar umas MECHAS ESPESSAS DE
CABELO que dela pendiam como musgo. Outros trabalhadores haviam cortado RAMOS
semelhantes de um JARDIM e tinham-nos jogado na ESTRADA, onde FICARAM CAÍDOS, de
modo que MUITAS PESSOAS PEGARAM ALGUNS. Mas ela perguntou se isso estava certo - se
poderia PEGAR UM TAMBÉM. Um HOMEM jovem (alguém que ela conhecia, um forasteiro)
estava de pé no jardim; dirigiu-se a ele para perguntar de que modo tais RAMOS poderiam ser
TRANSPLANTADOS PARA SEU PRÓPRIO JARDIM.
Ele a abraçou, ao que ela se debateu e perguntou o que ele estava pensando, e se
achava que podiam abraçá-la daquela maneira. Ele lhe disse que não havia mal nenhum, que era
permitido. Em seguida, disse estar disposto a entrar no OUTRO JARDIM com ela, para lhe mostrar
como era feito o plantio, e acrescentou algo que ela não conseguiu entender bem: “Seja como for,
preciso de três JARDAS (depois ela forneceu esse dado como três jardas quadradas) ou três
braças de terra.” Era como se ele lhe estivesse pedindo alguma coisa em troca de sua boa
vontade, como se pretendesse RECOMPENSAR-SE NO JARDIM DELA, ou como se quisesse
BURLAR alguma lei, para tirar vantagem disso sem causar mal a ela. Se ele realmente lhe mostrou
algo, ela não tinha nenhuma idéia.
Esse sonho, que expus em virtude de seus elementos simbólicos, pode ser descrito
como “biográfico”. Tais sonhos ocorrem com freqüência durante a psicanálise, mas talvez sejam
bastante raros fora dela.
Naturalmente,[1] disponho desse tipo de material em profusão, mas relatá-lo nos
envolveria muito profundamente num exame das condições neuróticas. Tudo leva à mesma
conclusão, a saber, que não há necessidade de se presumir a operação de qualquer atividade
simbolizadora peculiar da mente no trabalho do sonho, mas sim que os sonhos se servem de
quaisquer simbolizações que já estejam presentes no pensamento inconsciente, por se ajustarem
melhor aos requisitos da formação do sonho, em virtude de sua representabilidade, e também, em
geral, por escaparem da censura.
(E) REPRESENTAÇÃO POR SÍMBOLOS NOS SONHOS - OUTROS SONHOS
TÍPICOS
A análise deste último sonho, de cunho biográfico, é uma prova clara de que reconheci
desde o início a presença do simbolismo nos sonhos. Mas foi apenas gradualmente, e à medida
que minha experiência foi aumentando, que cheguei a uma apreciação plena de sua extensão e
importância, e o fiz sob a influência das contribuições de Wilhelm Stekel (1911), sobre quem não
será fora de propósito dizer algumas palavras aqui. [1925.]
Esse autor, que talvez tenha prejudicado a psicanálise tanto quanto a beneficiou, trouxe
à baila um grande número de traduções insuspeitadas dos símbolos; a princípio, elas foram
recebidas com ceticismo, mas depois, foram confirmadas em sua maior parte e tiveram de ser
aceitas. Não estarei minimizando o valor dos serviços de Stekel ao acrescentar que a reserva
cética com que suas propostas foram recebidas não deixava de ter sua justificativa. E isso porque
os exemplos com que ele confirmava suas interpretações eram amiúde pouco convincentes, e ele
utilizou um método que deve ser rejeitado como cientificamente indigno de confiança. Stekel
chegou a suas interpretações dos símbolos por meio da intuição, graças a um dom peculiar para a
compreensão direta deles. Mas não se pode contar com a existência desse dom em termos gerais;
sua eficácia está isenta de qualquer crítica e, por conseguinte, seus resultados não podem pleitear
credibilidade. É como se se procurasse basear o diagnóstico das doenças infecciosas nas
impressões olfativas recebidas à cabeceira do paciente - embora, indubitavelmente, tenha havido
clínicos capazes de realizar mais do que as outras pessoas por meio do sentido do olfato (que
geralmente é atrofiado), e querealmente conseguiam diagnosticar um caso de febre entérica
através do olfato. [1925.]
Os avanços da experiência psicanalítica trouxeram à nossa atenção pacientes que
demonstravam esse tipo de compreensão direta do simbolismo onírico num grau surpreendente.
Muitas vezes, eram pessoas que sofriam de demência precoce, de modo que, por algum tempo,
houve uma tendência a suspeitar de que todo sonhador dotado dessa apreensão dos símbolos
fosse vítima daquela doença. Mas não é esse o caso. Trata-se de um dom ou peculiaridade
pessoal que não possui nenhum significado patológico visível. [1925.]
Depois de nos familiarizarmos com o abundante emprego do simbolismo que é feito para
representar o material sexual nos sonhos, está fadada a surgir a questão de saber se muitos
desses símbolos não ocorrem com um significado permanentemente fixo, como os “logogramas”
da taquigrafia; e ficamos tentados a elaborar um novo “livro dos sonhos”, baseados no princípio da
decifração [ver em [1]]. Quanto a esse ponto, há que dizer o seguinte: esse simbolismo não é
peculiar aos sonhos, mas característico da representação inconsciente, em particular no povo, e é
encontrado no folclore e nos mitos populares, nas lendas, nas expressões idiomáticas, na
sabedoria dos provérbios e nos chistes correntes em grau mais completo do que nos sonhos.
[1909.]
Seríamos, portanto, levados muito além da esfera da interpretação dos sonhos, se
fôssemos fazer justiça à importância dos símbolos e examinar os numerosos problemas,
basicamente ainda não solucionados, ligados ao conceito de símbolo. Devemos restringir-nos aqui
a assinalar que a representação por símbolos encontra-se entre os métodos indiretos de
representação, mas que todo tipo de indicações nos adverte contra englobá-las com outras formas
de representação indireta, sem que sejamos capazes de formar um quadro conceitual claro de
suas características distintivas. Em diversos casos, o elemento comum entre um símbolo e o que
ele representa é óbvio; em outros, acha-se oculto, e a escolha do símbolo parece enigmática. São
precisamente estes últimos casos que devem ser capazes de lançar luzsobre o sentido último da
relação simbólica, e eles indicam que esta é de natureza genética. As coisas que estão hoje
simbolicamente ligadas provavelmente estiveram unidas em épocas pré-históricas pela identidade
conceitual e lingüística. A relação simbólica parece ser uma relíquia e um marco de identidade
anterior. No tocante a isso, podemos observar como, em muitos casos, o emprego de um símbolo
comum se estende por mais tempo do que o uso de uma língua comum, como já foi ressaltado por
Schubert (1814). Diversos símbolos são tão antigos quanto a própria linguagem, enquanto outros
(por exemplo “dirigível”, “Zeppelin”) vão sendo continuamente cunhados inclusive em nossos dias.
[1914.]
Os sonhos se valem desse simbolismo para a representação disfarçada de seus
pensamentos latentes. Aliás, muitos dos símbolos são, habitualmente ou quase habitualmente,
empregados para expressar a mesma coisa. Não obstante, a plasticidade peculiar do material
psíquico [nos sonhos] nunca deve ser esquecida. Muitas vezes, um símbolo tem de ser
interpretado em seu sentido próprio, e não simbolicamente, ao passo que, em outras ocasiões, o
sonhador pode tirar de suas lembranças particulares o poder de empregar como símbolos sexuais
toda sorte de coisas que não são comumente empregadas como tal. Quando um sonhador dispõe
de uma escolha entre diversos símbolos, ele se decide em favor do que está ligado, em seu tema,
ao restante do material de seus pensamentos - em outras palavras, daquele que tem motivos
individuais para sua aceitação, além dos motivos típicos. [1909; última frase, 1914.]
Embora as investigações posteriores à época de Scherner tenham tornado impossível
contestar a existência do simbolismo onírico - até mesmoHavelock Ellis [1911, 109] admite ser
indubitável que nossos sonhos estão plenos de simbolismo -, é preciso confessar, ainda assim,
que a presença de símbolos nos sonhos não só facilita sua interpretação como também a torna
mais difícil. Em geral, a técnica de interpretar segundo as associações livres do sonhador deixanos
em apuros quando chegamos aos elementos simbólicos do conteúdo do sonho. A
consideração pela crítica científica nos proíbe de voltarmos ao julgamento arbitrário do intérprete
de sonhos, tal como era empregado nos tempos antigos e parece ter sido revivido nas
interpretações imprudentes de Stekel. Somos assim obrigados, ao lidar com os elementos do
conteúdo do sonho que devem ser reconhecidos como simbólicos, a adotar uma técnica
combinada que, por um lado, baseie-se nas associações do sonhador e, por outro, preencha as
lacunas provenientes do conhecimento dos símbolos pelo intérprete. Devemos aliar uma cautela
crítica na solução de símbolos a um estudo cuidadoso destes em sonhos que forneçam exemplos
particularmente claros de seu uso, a fim de desarmarmos qualquer acusação de arbitrariedade na
interpretação dos sonhos. As incertezas que ainda se prendem a nossas atividades como
intérpretes de sonhos decorrem, em parte, de nossos conhecimentos incompletos, que podem ser
progressivamente ampliados à medida que avançarmos, mas decorrem, em parte, de certas
características dos próprios símbolos oníricos. Freqüentemente, eles possuem mais de um ou
mesmo vários significados e, como ocorre com a escrita chinesa, a interpretação correta só pode
ser alcançada, em cada ocasião, partindo-se do contexto. Essa ambigüidade dos símbolos vinculase
à característica dos sonhos de admitirem uma “superinterpretação” [ver em [1]] - de
representarem num único conteúdo pensamentos e desejos que são, muitas vezes, de natureza
amplamente divergente. [1914.]
Levando em conta essas restrições e ressalvas, darei agora prosseguimento ao tema. O
Imperador e a Imperatriz (ou o Rei e a Rainha) de fato representam, em geral, os pais do
sonhador; e o Príncipe ou Princesa representa a própria pessoa que sonha. [1909.] Mas a mesma
alta autoridade é atribuída tanto aos grandes homens quanto ao Imperador, e por essa razão,
Goethe, por exemplo, aparece como um símbolo paterno em alguns sonhos (Hitschmann, 1913).
[1919.] - Todos os objetos alongados, tais como varas, troncos de árvores e guarda-chuvas (sendo
o ato de abrir este último comparável a uma ereção) podem representar o órgão masculino [1909] -
bem como o fazem todas as armas longas e afiadas, como facas, punhais e lanças. [1911.]
Outro símbolo freqüente, embora não inteiramente inteligível, da mesma coisa são as
lixas de unhas - possivelmente por causa do movimentode esfregar para cima e para baixo. [1909.]
- As caixas, estojos, arcas, armários e fornos representam o ventre [1909], o mesmo acontecendo
com os objetos ocos, navios e toda sorte de recipientes. [1919.] - Os quartos, nos sonhos,
costumam ser mulheres (“Frauenzimmer” [ver em [1]]); quando se representam as várias entradas
e saídas deles, essa interpretação dificilmente fica sujeita a dúvidas. [1909.][1] - Com respeito a
isso, o interesse em saber se o quarto está aberto ou trancado é facilmente inteligível. (Cf. o
primeiro sonho de Dora em meu “Fragmento da Análise de um Caso de Histeria”, 1905e. [Nota de
rodapé próxima ao início da Seção II.]) Não há necessidade de designar explicitamente a chave
que abre o quarto; em sua balada do Conde Eberstein, Uhland utilizou o simbolismo de fechaduras
e chaves para compor um encantador exemplo de obscenidade. [1911] - Sonhar que se passa por
uma série de cômodos representa um bordel ou um harém. [1909.]
Mas, como demonstrou Sachs [1914] através de alguns exemplos claros, também pode
ser empregado (por antítese) para representar o casamento. [1914.] - Encontramos um vínculo
interessante com as investigações sexuais da infância quando alguém sonha com dois quartos que
eram originalmente um, ou quando vê um quarto que lhe é familiar dividido em dois no sonho, ou
vice-versa. Na infância, os órgãos genitais femininos e o ânus são considerados como uma área
única - o “traseiro” (segundo a “teoria da cloaca” própria da infância), e só mais tarde é que se faz a
descoberta de que essa região do corpo compreende duas cavidades e orifícios separados. [1919.]
- Os degraus, escadas de mão ou escadarias, ou, conforme o caso, subir ou descer por eles, são
representações do ato sexual. - As paredes lisas pelas quais sobe o sonhador e as fachadas
decasas pelas quais ele desce - muitas vezes, com grande angústia - correspondem a corpos
humanos eretos, e provavelmente repetem no sonho lembranças de um bebê subindo em seus
pais ou na babá. As paredes “lisas” são homens; em seu medo, o sonhador freqüentemente se
agarra a “projeções” nas fachadas das casas. [1911.]
- As mesas, as mesas postas para a refeição e as tábuas também representam mulheres
- sem dúvida por antítese, visto que os contornos de seus corpos são eliminados nos símbolos.
[1909.] “Madeira” parece, por suas conexões lingüísticas, representar, de modo geral, “material”
feminino. O nome da Ilha da “Madeira” significa “madeira” em português. [1911.] Visto que “cama e
mesa” constituem o casamento, esta última muitas vezes ocupa o lugar da primeira nos sonhos, e
o complexo de idéias sexuais é, na medida do possível, transposto para o complexo de comer.
[1909.] - No tocante às peças do vestuário, um chapéu feminino pode amiúde ser interpretado com
certeza como um órgão genital e, além disso, como o de um homem.
O mesmo se aplica a um sobretudo ou casaco [alemão “Mantel”], embora, neste caso,
não fique claro até que ponto o emprego do símbolo se deva a uma assonância verbal. Nos sonhos
produzidos por homens, a gravata aparece amiúde como símbolo do pênis. Sem dúvida, isso
ocorre não apenas porque as gravatas são objetos longos, pendentes e peculiares aos homens,
mas também porque podem ser escolhidas de acordo com o gosto - uma liberdade que, no caso
do objeto simbolizado, é proibida pela Natureza.
Os homens que se valem desse símbolo nos sonhos são, com freqüência, muito
extravagantes com as gravatas na vida real e possuem coleções inteiras delas. [1911.] - É
altamente provável que todos os aparelhos e máquinas complicados que aparecem nos sonhos
representem os órgãos genitais (e, em geral, os masculinos) [1919] - na descrição dos quais o
simbolismo dos sonhos é tão infatigável quanto o “trabalho do chiste”. [1909.] Tampouco há
qualquer dúvida de que todas as armas e instrumentos são usados como símbolos do órgão
masculino: por exemplo, arados, martelos, rifles, revólveres, punhais, sabres, etc. [1919.] - Da
mesma forma, muitas paisagens nos sonhos, especialmente qualquer uma que tenha pontes ou
colinas cobertas de vegetação, podem ser claramente reconhecidas como descrições dos órgãos
genitais.
[1911.] Marcinowski (1912a) publicou uma coletânea de sonhos ilustrados por seus
autores com desenhos que aparentemente representam paisagens e outras localidades que
aparecem nos sonhos. Esses desenhos ressaltam muito nitidamente a distinção entre o sentido
manifesto e o sentido latente de um sonho. Enquanto, para olhos inocentes, eles aparecem como
planos, mapas e assim por diante, uma inspeção mais detida mostra que representam o corpo
humano, os órgãos genitais, etc., e só então é que os sonhos se tornam inteligíveis. (Ver a esse
respeito os trabalhos de Pfister [1911-12 e 1913] sobre criptogramas e quebra-cabeças
pictográficos.) [1914.] Também no caso de neologismos ininteligíveis, vale a pena considerar se
eles não poderiam constituir-se de componentes com um significado sexual. [1911.] - As crianças,
nos sonhos freqüentemente representam os órgãos genitais, e, de fato, tanto os homens quanto as
mulheres têm o hábito de se referir afetuosamente a seus órgãos genitais como os “pequeninos”.
[1909.] Stekel [1909, 473] tem razão em reconhecer um “irmãozinho” como o pênis. [1925.] Brincar
com uma criancinha, bater nela, etc., muitas vezes representam a masturbação nossonhos. [1911.]
- Para representar simbolicamente a castração, o trabalho do sonho utiliza a calvície, o corte de
cabelos, a queda dos dentes e a decapitação. Quando um dos símbolos comuns do pênis aparece
duplicado ou multiplicado num sonho, isso deve ser considerado como um rechaço da castração. O
aparecimento, nos sonhos, de lagartos - animais cujas caudas voltam a crescer quando arrancadas
- tem o mesmo significado. (Cf. o sonho com lagartos em [1]) - Muitos dos animais que são
utilizados como símbolos genitais na mitologia e no folclore desempenham o mesmo papel nos
sonhos: por exemplo, peixes, caracóis, gatos, camundongos (por causa dos pêlos pubianos) e,
acima de tudo, os símbolos mais importantes do órgão masculino - as cobras. Os animaizinhos e
os vermes representam crianças pequenas - por exemplo, irmãos e irmãs indesejados. Ver-se
infestado por vermes constitui, muitas vezes, um sinal de gravidez. [1919.] - Um símbolo bem
recente do órgão masculino nos sonhos merece menção: o dirigível, cujo uso nesse sentido se
justifica por sua relação com voar, bem como, às vezes, por sua forma. [1911.]
Diversos outros símbolos foram apresentados, com exemplos comprobatórios, por
Stekel, mas ainda não foram suficientemente verificados. [1911.] Os escritos de Stekel, e em
particular seu Die Sprache des Traumes (1911), contêm a mais completa coleção de interpretações
de símbolos. Muitos destes indicam penetração, e um exame ulterior demonstrou que são corretos:
por exemplo, sua seção sobre o simbolismo da morte. Mas a falta de senso crítico desse autor e
sua tendência à generalização a qualquer preço lançam dúvidas sobre outras de suas
interpretações ou as tornam inutilizáveis, de modo que é altamente aconselhável ter cautela ao
aceitar suas conclusões. Portanto, contento-me em chamar a atenção apenas para algumas de
suas descobertas. [1914.]
Segundo Stekel, “direita” e “esquerda” têm, nos sonhos, um sentido ético. “A via à direita
significa sempre o caminho da retidão, e a da esquerda, o do crime. Assim, ‘esquerda’ pode
representar homossexualismo, incesto ou perversão, e ‘direita’ pode representar casamento,
relações sexuais com uma prostituta e assim por diante, sempre encarados do ponto de vista moral
individual do sujeito.” (Stekel, 1909, 466 e segs.) - Os parentes, nos sonhos, geralmente
desempenham o papel de órgãos genitais (ibid., 473). Só posso confirmar isso no caso de filhos,
filhas e irmãs menores - isto é, apenas na medida em que eles se enquadram na categoria de
“pequeninos”. Por outro lado, deparei com casos indubitáveis em que “irmãs” simbolizavam os
seios, e “irmãos”, os hemisférios maiores. - Stekel explica que a impossibilidade de alcançar uma
carruagem significa pesar por uma diferença de idade que não se pode alcançar (ibid., 479). - A
bagagem com que se viaja é uma carga de pecados, diz ele, que tem um efeito opressivo (loc. cit.).
[1911.] Mas precisamente a bagagem muitas vezes se revela um símbolo inconfundível dos órgãos
genitais do próprio sonhador. [1914.] - Stekel também atribui significados simbólicos fixos aos
números, tais como amiúde aparecem nos sonhos [ibid., 497 e segs.]. Mas essas explicações não
parecem nem suficientemente verificadas nem genericamente válidas, embora as interpretações
dele costumem parecer plausíveis nos casos individuais. [1911.] Seja como for, o número três tem
sido confirmado sob muitos ângulos como um símbolo dos órgãos genitais masculinos. [1914.]
Uma das generalizações propostas por Stekel concerne ao duplo significado dos
símbolos genitais. [1914.] “Onde”, pergunta ele, “haverá um símbolo que - contanto que a
imaginação o admita de algum modo - não possa ser empregado tanto num sentido masculino
como feminino?” [1911, 73.] Seja como for, a oração entre travessões elimina grande parte da
certeza dessa afirmação, visto que, de fato, a imaginação nem sempre admite isso. Mas penso que
vale a pena observar que, em minha experiência, a generalização de Stekel não pode ser mantida
em face da maior complexidade dos fatos. Além dos símbolos que podem, com igual freqüência,
representar os órgãos genitais masculinos e femininos, existem alguns que designam um dos
sexos predominantemente ou quase exclusivamente, e ainda outros que são conhecidos apenas
com um significado masculino ou feminino. Pois é fato que a imaginação não admite que objetos e
armas longos e rígidos sejam utilizados como símbolos dos órgãos genitais femininos, ou que
objetos ocos, tais como arcas, estojos, etc., sejam empregados como símbolo dos órgãos
masculinos. É verdade que a tendência dos sonhos e das fantasias inconscientes a empregarem
bissexualmente os símbolos sexuais trai uma característicaarcaica, porquanto, na infância, a
distinção entre os órgãos genitais dos dois sexos é desconhecida e a mesma espécie de genitália
é atribuída a ambos. [1911.] Mas também é possível que se seja erroneamente levado a supor que
um símbolo sexual seja bissexual, caso se esqueça de que, em alguns sonhos, há uma inversão
geral do sexo, de modo que o que é masculino é representado como feminino, e vice-versa. Tais
sonhos podem, por exemplo, expressar o desejo de uma mulher de ser homem. [1925.]
Os órgãos genitais também podem ser representados nos sonhos por outras partes do
corpo: o órgão masculino, por uma mão ou um pé, e o orifício genital feminino, pela boca, um
ouvido ou mesmo um olho. As secreções do corpo humano - muco, lágrimas, urina, sêmen, etc. -
podem substituir umas às outras nos sonhos. Esta última afirmativa de Stekel [1911, 49], que é
correta em termos gerais, foi justificadamente criticada por Reitler (1913b) como exigindo uma
certa ressalva: o que de fato acontece é que as secreções importantes, como o sêmen, são
substituídas por secreções irrelevantes. [1919.]
Espera-se que essas indicações muito incompletas possam servir para estimular outros
a empreenderem um estudo geral mais cuidadoso do assunto. [1909.] Eu próprio tentei dar uma
explicação mais elaborada do simbolismo dos sonhos em minhas Conferências Introdutórias sobre
Psicanálise (1916-17 [Conferência X]). [1919.]
Acrescentarei agora alguns exemplos do emprego desses símbolos nos sonhos, com a
idéia de indicar como se torna impossível chegar à interpretação de um sonho quando se exclui o
simbolismo onírico, e como se é irresistivelmente levado a aceitá-lo em muitos casos. [1911.] Ao
mesmo tempo, contudo, gostaria de externar uma advertência categórica contra a supervalorização
da importância dos símbolos na interpretação dos sonhos, contra a restrição do trabalho de traduzir
os sonhos a uma simples tradução de símbolos, e contra o abandono da técnica de utilização das
associações do sonhador. As duas técnicas de interpretação dos sonhos devem ser
complementares uma à outra; mas, tanto na prática como na teoria, o primeiro lugar continua a ser
ocupado pelo processo que descrevi inicialmente e que atribuiuma importância decisiva aos
comentários feitos pelo sonhador, ao passo que a tradução de símbolos, tal como a expliquei, está
também a nosso dispor como método auxiliar. [1909.]
I
UM CHAPÉU COMO SÍMBOLO DE UM HOMEM (OU DOS ÓRGÃOS GENITAIS
MASCULINOS) [1911]
(Extrato do sonho de uma jovem que sofria de agorafobia decorrente de medos de
sedução.)
“Eu ia andando pela rua, no verão, usando um chapéu de palha de formato peculiar; sua
parte central estava virada para cima e as partes laterais pendiam para baixo” (a descrição tornouse
hesitante neste ponto), “de tal modo que um lado estava mais baixo que o outro. Euestava
alegre e com um espírito autoconfiante, e, ao passar por um grupo de jovens oficiais, pensei:
‘Nenhum de vocês pode me fazer mal algum!’ ”
Como nada lhe ocorresse em relação ao chapéu no sonho, eu disse: “Sem dúvida, o
chapéu era um órgão genital masculino, com sua parte central erguida e as duas partes laterais
pendentes. Talvez possa parecer estranho que um chapéu seja um homem, mas você deve estar
lembrada da expressão ‘Unter die Haube kommen‘ [‘achar um marido’ (literalmente, ‘entrar debaixo
da touca’)].” Intencionalmente, não lhe fiz nenhuma interpretação sobre o detalhe das duas partes
laterais que pendiam desigualmente, embora sejam precisamente esses detalhes que apontam o
caminho na determinação de uma interpretação. Prossegui dizendo que, como tinha um marido
com órgãos genitais tão bons, não havia necessidade de ela temer os oficiais - nenhuma
necessidade, bem entendido, de que ela desejasse alguma coisa deles, visto que, em geral, ela
ficava impossibilitada de ir passear sem proteção e desacompanhada, devido a suas fantasias de
ser seduzida. Eu já lhe pudera dar esta última explicação sobre sua angústia em várias ocasiões,
com base em outro material.
A maneira como a paciente reagiu a esse material foi notável. Ela retirou sua descrição
do chapéu e sustentou jamais ter dito que as duas partes laterais estavam penduradas. Eu tinha
certeza demais do que ouvira para me deixar confundir, e mantive minha posição. Ela ficou em
silêncio algum tempo e, depois disso, encontrou coragem bastante para perguntar o que significava
um dos testículos de seu marido ser mais caído do que o outro, e se o mesmo acontecia com todos
os homens. Desse modo, o detalhe notável do chapéu foi explicado e a interpretação foi aceita por
ela.
Na época em que minha paciente me contou esse sonho, eu há muito estava
familiarizado com o chapéu como símbolo. Outros casos menos transparentes haviam-me levado a
supor que o chapéu também pode representar os órgãos genitais femininos.
II
UMA “FILHINHA” COMO ÓRGÃO GENITAL - “SERATROPELADA” COMO SÍMBOLO
DAS RELAÇÕES SEXUAIS
[1911]
(Outro sonho da mesma paciente agorafóbica.)
Sua mãe mandara sua filhinha embora, de modo que ela teve de seguir sozinha. Entrou
então num trem com a mãe e viu sua pequerrucha andar diretamente até os trilhos, de modo que
estava fadada a ser atropelada. Ouviu o estalar de seus ossos. (Isso produziu nela uma sensação
desconfortável, mas nenhum pavor real.) Olhou ao redor, pela janela do vagão do trem, para ver se
as partes não podiam ser vistas por trás. Em seguida, repreendeu a mãe por ter feito a
pequerrucha ir embora sozinha.
ANÁLISE. - Não é nada fácil dar uma interpretação completa do sonho. Ele fazia parte
de um ciclo de sonhos e só podia ser entendido na íntegra se considerado em relação aos outros.
Há dificuldade em obter, com suficiente isolamento, o material necessário para estabelecer o
simbolismo. - Em primeiro lugar, a paciente declarou que a viagem de trem devia ser interpretada
historicamente, como uma alusão a uma viagem que ela fizera ao sair de um sanatório de doenças
nervosas por cujo diretor, é desnecessário dizer, tinha-se apaixonado. A mãe a havia levado
embora, e o médico aparecera na estação e lhe entregara um buquê de flores como presente de
despedida. Fora muito embaraçoso que a mãe testemunhasse essa homenagem. Nesse ponto,
portanto, a mãe figurava como interferindo em suas tentativas de ter um caso amoroso; e fora, de
fato, o papel desempenhado por essa senhora severa durante a adolescência da paciente. - Sua
associação seguinte relacionou-se com a frase “olhou ao redor para ver se as partes não podiam
ser vistas por trás”. A fachada do sonho levaria, naturalmente, a se pensar nas partes de sua
filhinha, que tinha sido atropelada e mutilada. Mas sua associação tomou um rumo inteiramente
diverso. Lembrou-se ela de que, certa vez, vira o pai despido no banheiro, por trás; passou então a
falar nas distinções entre os sexos e ressaltou o fato de que os órgãos genitais do homem podem
ser vistos por trás, mas os da mulher, não. Em relação a isso, ela própria interpretou “a filhinha”
como significando os órgãos genitais, e“sua pequerrucha” - a paciente tinha uma filha de quatro
anos - como sua própria genitália. Repreendeu a mãe por ter esperado que ela vivesse como se
não tivesse órgãos genitais, e assinalou que a mesma recriminação fora expressa na primeira frase
do sonho: “sua mãe mandara sua filhinha embora, de modo que ela teve de seguir sozinha”. Na
imaginação dela, “andar sozinha pelas ruas” significava não ter um homem, não ter nenhuma
relação sexual (“coire”, em latim [de onde se origina “coitus”], significa literalmente “ir com”) - e ela
não gostava disso. Todos os seus relatos indicavam que, quando menina, ela de fato sofrera com o
ciúme da mãe devido à preferência demonstrada para com a filha pelo pai. [1]
A interpretação mais profunda desse sonho foi indicada por outro sonho da mesma noite,
no qual a paciente se identificou com seu irmão. Ela realmente fora uma menina com
características de menino, e muitas vezes lhe disseram que ela deveria ser um menino. Essa
identificação com o irmão deixou particularmente claro que “a pequerrucha” significava um órgão
genital. A mãe estava ameaçando seu irmão (ou ela) de castração, o que só poderia ser um
castigo por brincar com o pênis; assim, a identificação também provou que ela própria se
masturbara quando criança - uma lembrança que até então só tivera quando aplicada a seu irmão.
A informação fornecida pelo segundo sonho mostrou que ela devia ter tomado conhecimento do
órgão masculino numa idade precoce e depois esquecido isso. Ademais, o segundo sonho aludia à
teoria sexual infantil segundo a qual meninas são meninos castrados. [Cf. Freud, 1908c.] Quando
lhe sugeri que ela tivera essa crença infantil, confirmou imediatamente o fato, dizendo-me ter
ouvido a anedota do garotinho que diz à garotinha: “Cortado?”, ao que a menininha responde:
“Não, foi sempre assim.”
Portanto, mandar a pequerrucha (o órgão genital) embora no primeiro sonho também se
relacionava à ameaça de castração. Sua queixa final contra a mãe era por não tê-la dado à luz
como um menino.
O fato de que “ser atropelada” simboliza as relações sexuais não ficaria óbvio partindose
desse sonho, embora tenha sido confirmado por muitas outras fontes.
III
OS ÓRGÃOS GENITAIS REPRESENTADOSPOR EDIFÍCIOS, DEGRAUS E POÇOS
[1911]
(Sonho de um rapaz inibido por seu complexo paterno.)
Ele estava passeando com o pai num lugar que certamente deveria ser o Prater, já que
ele viu a ROTUNDA, com um PEQUENO ANEXO EM FRENTE A ELA ao qual estava preso UM
BALÃO CATIVO, embora parecesse bem MOLE. O pai lhe perguntou para que servia aquilo tudo;
ele ficou surpreso com a pergunta, mas lhe explicou. A seguir, entraram num pátio onde havia uma
grande folha de estanho estendida. Seu pai queria ARRANCAR um pedaço grande dela, mas
primeiro olhou em volta para ver se havia alguém. Ele lhe disse que bastaria ele falar com o
contramestre para poder levar um pedaço sem nenhum problema. UMA ESCADA descia desse
pátio até UM POÇO, cujas paredes eram acolchoadas com uma espécie de material macio, muito
parecidas com uma poltrona de couro. Na extremidade do poço havia uma plataforma alongada, e
então começava outro POÇO…
ANÁLISE. - Esse sonhador pertencia a um tipo de pessoas cujas perspectivas
terapêuticas não são favoráveis: até certo ponto, não oferecem absolutamente nenhuma
resistência à análise, mas, a partir daí, revelam-se quase inacessíveis. Ele interpretou esse sonho
quase sem ajuda. “A Rotunda”, disse, “eram meus órgãos genitais, e o balão cativo em frente a ela
era meu pênis, de cuja flacidez tenho motivos para me queixar.” Entrando então em maiores
detalhes, podemos traduzir a Rotunda como o traseiro (habitualmente considerado pelas crianças
como parte dos órgãos genitais) e o pequeno anexo à frente dele como o saco escrotal. O pai lhe
perguntava, no sonho, o que era tudo aquilo, isto é, qual a finalidade e a função dos órgãos
genitais. Pareceu plausível inverter essa situação e transformar o sonhador no indagador. Visto
que ele de fato jamais fizera essas perguntas ao pai, tivemos de encarar o pensamento do sonho
como um desejo, ou considerá-locomo uma oração condicional, tal como: “Se eu tivesse pedido a
meu pai esclarecimentos sexuais…” Logo encontraremos a continuação desse pensamento em
outra parte do sonho.
O pátio onde estava estendida a folha de estanho não deve ser tomado simbolicamente
à primeira vista. Derivava das dependências comerciais do pai do sonhador. Por motivos de
discrição, usei “estanho” em lugar de outro material, com o qual o pai realmente lidava, mas não fiz
nenhuma outra modificação na linguagem do sonho. O sonhador havia ingressado na firma do pai
e fizera violenta objeção às práticas um tanto suspeitas de que dependiam, em parte, os
rendimentos da empresa. Por conseguinte, o pensamento onírico que acabo de interpretar poderia
prosseguir desta forma: “(Se lhe tivesse perguntado), ele me teria enganado do mesmo modo que
engana seus clientes.” No tocante ao “arrancar” que serviu para representar a desonestidade do
pai nos negócios, o próprio sonhador apresentou uma segunda explicação - a saber, que isso
representava a masturbação. Não só eu já estava familiarizado com essa interpretação (ver em
[1]), como havia algo para confirmá-la no fato de que a natureza secreta da masturbação foi
representada por seu inverso: podia ser praticada abertamente. Exatamente como esperaríamos, a
atividade masturbatória foi também deslocada para o pai do sonhador, tal como a pergunta na
primeira cena do sonho. Ele interpretou prontamente o poço como uma vagina, tendo em conta o
acolchoado macio de suas paredes. Acrescentei, com base em meus próprios conhecimentos
derivados de outras fontes, que tanto descer quanto subir escadas, em outros casos, descrevia
relações sexuais vaginais. (Ver minhas observações [em Freud 1910d], citadas anteriormente, em
[1])
O próprio sonhador deu uma explicação biográfica do fato de o primeiro poço ser
seguido por uma plataforma alongada e, logo depois, por outro poço. Ele tivera relações sexuais
por algum tempo, mas depois as havia abandonado por causa de inibições, e agora esperava
poder reiniciá-las com a ajuda do tratamento. O sonho, porém, foi-se tornando mais vago ao
chegar ao final, e deve parecer provável a quem quer que esteja familiarizado com essas coisas
que a influência de outro tema já se estivesse fazendo sentir na segunda cena do sonho, e que foi
sugerida pelos negócios do pai, por sua conduta fraudulenta e pela interpretação do primeiro poço
como uma vagina: tudo isso apontava para uma ligação com a mãe do sonhador. [1]
IV
O ÓRGÃO MASCULINO REPRESENTADO POR PESSOAS E O ÓRGÃO FEMININO
REPRESENTADO POR UMA PAISAGEM [1911]
(Sonho de uma mulher inculta cujo marido era policial, relatado porB. Dattner.)
“…Então alguém invadiu a casa e ela se assustou e chamou um policial. Mas ele entrara
calmamente numa igreja, à qual se chegava subindo alguns degraus, acompanhado de dois
vagabundos. Atrás da igreja havia uma colina e, mais acima, um bosque cerrado. O policial usava
capacete, gola com insígnia de metal e uma capa. Tinha a barba castanha. Os dois vagabundos,
que acompanhavam pacificamente o policial, tinham aventais semelhantes a sacos atados na
cintura. Em frente à igreja uma trilha levava até a colina; de ambos os lados cresciam relva e
moitas cerradas, que se iam tornando cada vez mais espessas e, no alto da colina, transformavamse
num bosque comum.”
V
SONHOS DE CASTRAÇÃO EM CRIANÇAS
[1919]
(a) Um menino de três anos e cinco meses, que obviamente não gostava da idéia de que
seu pai voltasse da frente de batalha, acordou certa manhãperturbado e excitado. Pôs-se a repetir:
“Por que papai estava carregando a cabeça numa bandeja? Ontem de noite papai estava
carregando a cabeça numa bandeja.”
(b) Um estudante que agora sofre de grave neurose obsessiva recorda-se de ter tido o
seguinte sonho repetidamente durante o sexto ano de vida: Ia ao barbeiro para mandar cortar o
cabelo. Uma mulher grande e de aspecto severo se dirigia a ele e lhe cortava fora a cabeça. Ele
reconhecia a mulher como sua mãe.
VI
SIMBOLISMO URINÁRIO
[1914]
A seqüência de desenhos reproduzida [em [1]] foi encontrada por Ferenczi num jornal
humorístico húngaro chamado Fidibusz, e ele percebeu de imediato quão bem os desenhos
poderiam ser utilizados para ilustrar a teoria dos sonhos. Otto Rank já os reproduziu num trabalho
(1912a, [99]).
Os desenhos trazem o título “Sonho de uma Ama-seca Francesa”; mas é somente o
último quadro, que mostra a babá sendo despertada pelos gritos da criança, que nos diz que os
sete quadros anteriores representam as fases de um sonho. O primeiro quadro retrata o estímulo
que teria feito a moça adormecida acordar: o garotinho toma ciência de uma necessidade e pede
ajuda para satisfazê-la. Mas, no sonho, a sonhadora, em vez de se achar no quarto de dormir, está
levando a criança para passear. No segundo quadro, ela já o levou à esquina de uma rua onde ele
está urinando - e pode continuar a dormir. Mas o estímulo para despertar continua; na verdade,
aumenta. O garotinho, verificando que não está sendo atendido, grita cada vez mais alto. Quanto
mais imperiosamente insiste em que a babá acorde e o auxilie, mais insistente se torna a certeza
do sonho de que tudo vai bem e de que não há necessidade de ela acordar. Ao mesmo tempo, o
sonho traduz o estímulo crescente nas dimensões crescentes de seus símbolos. A corrente de
água produzida pelo menino que urina vai-se avolumando cada vez mais. No quarto quadro, já é
grande o bastante para fazer flutuar um barco a remo; mas seguem-se uma gôndola, um veleiro e,
por fim, um transatlântico. O engenhoso artista, dessa maneira, retratou habilmente a luta entre o
desejo obstinado de dormir e um estímulo inexaurível para acordar.
SONHO DE UMA AMA-SECA FRANCESA
VII
UM SONHO COM ESCADA
[1911]
(Relatado e Interpretado por Otto Rank.)
“Tenho de agradecer ao mesmo colega a quem devo o sonho do estímulo dental
[registrado em [1]] por um sonho de polução igualmente transparente:
“ ‘Eu ia descendo às pressas a escada [de um bloco de apartamentos], perseguindo uma
menininha que me havia feito alguma coisa, a fim de castigá-la. No pé da escada, alguém (uma
mulher adulta?) deteve a criança para mim. Agarrei-a, mas não sei se bati nela, pois de repente me
vi no meio da escada copulando com a menina (como se fosse no ar). Não era uma verdadeira
cópula; eu apenas esfregava minha genitália em seus órgãos genitais externos e, enquanto o fazia,
eu os via com extrema nitidez, bem como a cabeça dela, que estava voltada para cima e para o
lado. Durante o ato sexual eu via penderem acima de mim, à minha esquerda (também como se
fora no ar), duas pequenas pinturas - paisagens representando uma casa circundada de árvores.
Na parte inferior do quadro menor, em vez da assinatura do pintor, eu via meu próprio nome, como
se a pintura se destinasse a ser um presente de aniversário para mim. A seguir, vi uma etiqueta
diante dos dois quadros, que dizia que também se podiam conseguir pinturas mais baratas. (Vi
então a mim mesmo, muito indistintamente, como se estivesse deitado na cama no patamar), e fui
despertado pela sensação de umidade causada pela polução que tivera.’
“INTERPRETAÇÃO. - Na noite do dia do sonho, o sonhador estivera numa livraria e,
enquanto esperava ser atendido, olhara para alguns quadros que ali se achavam expostos e que
representavam temas semelhantes aos do sonho. Aproximara-se de um quadrinho que lhe
agradara particularmente para ver o nome do artista - mas este lhe era inteiramente desconhecido.
“Posteriormente, na mesma noite, quando estava com alguns amigos, ele ouvira a
história de uma empregada da Boêmia que se vangloriava de que seu filho ilegítimo fora ‘feito na
escada’. O sonhador indagara sobre os pormenores desse fato bastante incomum e soubera que a
empregada tinha voltado para sua terra com seu admirador, indo para a casa dos pais, onde não
houvera nenhuma oportunidade de relações sexuais, e que, em sua excitação, o homem copulara
com ela na escada. O sonhador aludira jocosamente a uma expressão maliciosa empregada para
descrever vinhos adulterados e dissera que, de fato, a criança provinha de uma ‘vindima de escada
de adega’.
Basta isso no tocante às conexões com o dia anterior, que surgiram com certa
insistência no conteúdo onírico e foram reproduzidas pelo sonhador sem qualquer dificuldade. Mas
ele trouxe à baila, com igual facilidade, um antigo fragmento de lembrança infantil que também fora
usado no sonho. A escada pertencia à casa onde ele passara a maior parte de sua infância e, em
particular, onde pela primeira vez travara conhecimento consciente com os problemas do sexo.
Com freqüência, brincara nessa escada e, entre outras coisas, costumava deslizar pelo corrimão,
descendo montado nele - o que lhe dera sensações sexuais. Também no sonho, ele correra
escada abaixo com extraordinária rapidez - de fato, com tanta rapidez que, segundo seu próprio
relato específico, não pusera os pés nos degraus, um a um, mas ‘voara’ escada abaixo, como as
pessoas costumam dizer. Caso se leve em consideração a experiência infantil, a parte inicial do
sonho parece representar o fator da excitação sexual. - Mas o sonhador também fizera muitas
vezes brincadeiras de natureza sexual com os filhos dos vizinhos nessa mesma escada e no
prédio adjacente, e satisfizera seus desejos da mesma forma que no sonho.
“Se tivermos em mente que as pesquisas de Freud sobre o simbolismo sexual (1910d
[ver em [1]]) indicaram que, nos sonhos, as escadarias e subir escadas representam quase
invariavelmente a cópula, o sonho se tornará bem transparente. Sua força motivadora, como a
rigor ficou demonstrado por seu resultado - uma polução - era de natureza puramente libidinal. A
excitação sexual do sonhador foi despertada durante o sono, sendo isso representado no sonho
por sua precipitação escada abaixo. O elemento sádico da excitação sexual, baseado nas
brincadeiras da infância, foi indicado pela perseguição e sujeição da criança. A excitação libidinal
aumentou e exerceu pressão no sentido da ação sexual - representada no sonho por ele agarrar a
criança e levá-la até o meio da escada. Até esse ponto,o sonho fora apenas simbolicamente
sexual, e teria sido inteiramente ininteligível para qualquer intérprete inexperiente de sonhos. Mas
esse tipo de satisfação simbólica não foi suficiente para garantir um sono tranqüilo, em vista da
intensidade da excitação libidinal. A excitação levou a um orgasmo e, assim, revelou o fato de que
todo o simbolismo da escada representava a cópula. - Este sonho fornece uma confirmação
especialmente clara do ponto de vista de Freud de que uma das razões da utilização do subir
escadas como símbolo sexual é a natureza rítmica de ambas as atividades, pois o sonhador
declarou expressamente que o elemento definido de maneira mais clara no sonho inteiro foi o ritmo
do ato sexual e seu movimento para cima e para baixo.
“Devo acrescentar uma palavra no tocante aos dois quadros que, independentemente de
seu significado real, também figuraram num sentido simbólico como ‘Weibsbilder‘.Isso ficou
demonstrado de imediato por haver um quadro grande e um pequeno, do mesmo modo que uma
menina grande (ou adulta) e uma pequena apareceram no sonho. O fato de que ‘também se
podiam conseguir pinturas mais baratas’ levou ao complexo das prostitutas, enquanto que, por
outro lado, o aparecimento do prenome do sonhador no quadro pequeno e a idéia de este se
destinar a ser um presente de aniversário para ele foram indícios do complexo paterno. (‘Nascido
na escada’ = ‘gerado pela cópula’.)
“A cena final imprecisa, na qual o sonhador se viu deitado na cama no patamar e
experimentou uma sensação de umidade, parece apontar, além da masturbação infantil, para uma
época ainda mais remota da infância, e ter seu protótipo em cenas igualmente prazerosas de
molhar a cama.”
VIII
UM SONHO MODIFICADO COM ESCADAS
[1911]
Um de meus pacientes, um homem cuja abstinência sexual lhe foi imposta por uma
neurose grave e cujas fantasias [inconscientes] se fixavamna mãe, sonhava repetidamente estar
subindo escadas na companhia dela. Certa vez, fiz-lhe o comentário de que uma dose moderada
de masturbação provavelmente lhe faria menos mal do que sua auto-restrição compulsiva, tendo
isso provocado o seguinte sonho:
Seu professor de piano o repreendia por negligenciar seus estudos de piano e por não
praticar os “Études” de Moscheles e o “Gradus ad Parnassum” de Clementi.
À guisa de comentário, ele ressaltou que “Gradus” também são “degraus” e que o próprio
teclado é uma escadaria, já que contém escalas [escadas de mão].
Cabe dizer que não há nenhum grupo de idéias que seja incapaz de representar fatos e
desejos sexuais.
IX
O SENTIMENTO DE REALIDADE EA REPRESENTAÇÃO DA REPETIÇÃO
[1919]
Um homem que conta agora trinta e cinco anos relatou um sonho do qual se lembrava
nitidamente e que declarou ter tido aos quatro anos de idade. O advogado que estava encarregado
do testamento de seu pai - ele perdera o pai aos três anos - trouxera duas pêras grandes. Deramlhe
uma para comer; a outra ficou no parapeito da janela da sala de estar. Ele acordou com a
convicção da realidade do que havia sonhado e se pôs a pedir obstinadamente a segunda pêra à
mãe, insistindo em que estava no parapeito da janela. Sua mãe rira disso.
ANÁLISE. - O advogado era um velho cavalheiro jovial que, como o paciente parecia
recordar, realmente levara algumas pêras certa vez. O parapeito da janela era tal como ele o vira
no sonho. Nada mais lhe ocorreu em relação a isso - apenas que a mãe lhe contara um sonho
pouco antes. Havia dois pássaros pousados em sua cabeça, e ela se perguntara quando iriam
embora; eles não foram, mas um deles voou até sua boca e sugou-a.
A falta de associações do paciente nos dá o direito de tentar uma interpretação por
substituição simbólica. As duas pêras - “pommes ou poires” - eram os seios da mãe, que o haviam
nutrido; o parapeito dajanela era a projeção formada pelo busto dela - como as sacadas nos
sonhos com casas (ver em [1]). Seu sentimento de realidade depois de acordar foi justificado, pois
sua mãe realmente o amamentara e, a rigor, fizera-o por muito mais tempo que de hábito; e os
seios da mãe ainda lhe estavam disponíveis. O sonho deve ser traduzido por “Dê-me (ou mostreme)
de novo seu seio, mãe, no qual eu costumava beber no passado”. “No passado” foi
representado por ele comer uma das pêras; “de novo” foi representado por seu desejo pela outra.
A repetição temporal de um ato é regularmente indicada nos sonhos pela multiplicação numérica
de um objeto.
É extremamente notável, por certo, que o simbolismo já desempenhe seu papel no
sonho de uma criança de quatro anos. Mas isso é a regra, e não a exceção. Pode-se afirmar com
segurança que os sonhadores dispõem do simbolismo desde o princípio.
A seguinte lembrança não-influenciada de uma moça que conta agora vinte e sete anos
mostra em que idade precoce o simbolismo é empregado, tanto fora da vida onírica quanto dentro
dela. Ela estava entre os três e quatro anos de idade. Sua ama levou-a ao banheiro, juntamente
com um irmão onze meses mais novo que ela e uma prima cuja idade se situava entre as dos dois,
para satisfazerem suas necessidades antes de saírem a passeio. Sendo a mais velha, ela se
sentou no vaso sanitário, enquanto os outros dois sentaram-se em urinóis. Ela perguntou à prima:
“Você também tem uma bolsa? Walter tem uma salsichinha; eu tenho uma bolsa.” A prima
respondeu: “É, eu também tenho uma bolsa.” A ama ouviu, achando muita graça, o que eles
diziam, e relatou a conversa à mãe das crianças, que reagiu com severa reprimenda.
Interpolei aqui um sonho (registrado num trabalho de Alfred Robitsek, 1912) em que o
simbolismo lindamente escolhido possibilitou uma interpretação, apenas com uma ligeira ajuda da
sonhadora.
X
A QUESTÃO DO SIMBOLISMO NOS SONHOSDAS PESSOAS NORMAIS
[1914]
“Uma objeção freqüentemente levantada pelos adversários da psicanálise, e que foi
recentemente externada por Havelock Ellis (1911, 168), é o argumento de que, embora o
simbolismo onírico talvez possa ocorrer como um produto da mente neurótica, não é encontrado
em pessoas normais. Ora, a pesquisa psicanalítica não encontra nenhuma distinção fundamental,
mas apenas quantitativa, entre a vida normal e a vida neurótica; e, de fato, a análise dos sonhos,
onde os complexos recalcados são atuantes tanto nas pessoas sadias quando nas doentes,
mostra uma identidade completa nos mecanismos e no simbolismo delas. Os sonhos ingênuos das
pessoas sadias, na realidade, muitas vezes encerram um simbolismo muito mais simples, mais
compreensível e mais característico do que os sonhos dos neuróticos, pois nestes, como resultado
da ação mais poderosa da censura e, conseqüentemente, de uma distorção onírica mais extensa,
o simbolismo pode ser obscuro e difícil de interpretar. O sonho registrado abaixo servirá para
ilustrar esse fato. Foi sonhado por uma moça que não é neurótica, mas tem um caráter um tanto
pudico e reservado. No decorrer de uma conversa que tive com ela, fiquei sabendo que estava
noiva, mas que havia certas dificuldades que se antepunham a seu casamento e que,
provavelmente, levariam ao adiamento dele. Por livre e espontânea vontade, ela me relatou o
seguinte sonho.
“ ‘Estou arrumando o centro de uma mesa com flores para um aniversário.’ Em resposta
a uma pergunta, ela me disse que, no sonho, parecia estar em sua própria casa (onde não estava
morando no momento) e tinha ‘uma sensação de felicidade’.
“O simbolismo ‘popular’ possibilitou-me traduzir o sonho sem necessidade de ajuda. Era
uma expressão de seus desejos nupciais: a mesa, com seu centro de flores, simbolizava ela
própria e seus órgãos genitais; a moça representava como realizados seus desejos ligados ao
futuro, pois seuspensamentos já estavam ocupados com o nascimento de um bebê; logo, o
casamento já ficara para trás há muito tempo.
“Frisei-lhe que ‘o “centro” de uma mesa‘ era uma expressão inusitada (o que ela admitiu),
mas não pude, é claro, formular-lhe diretamente outras perguntas sobre esse ponto. Evitei
cuidadosamente sugerir-lhe o significado dos símbolos, e apenas perguntei o que lhe vinha à
cabeça em relação às partes isoladas do sonho. No curso da análise, sua reserva cedeu lugar a
um evidente interesse na interpretação e a uma franqueza possibilitada pela seriedade da
conversa.
“Quando lhe perguntei quais tinham sido as flores, sua primeira resposta foi: ‘flores
caras; tem-se de pagar por elas‘, e, em seguida, que tinham sido ‘lírios do vale, violetas e cravinas
ou cravos‘. Presumi que o termo ‘lírio’ aparecera no sonho em seu sentido popular, como símbolo
da castidade; ela confirmou essa suposição, pois sua associação com ‘lírio’ foi ‘pureza‘. ‘Vale’ é um
símbolo feminino freqüente nos sonhos, de modo que a combinação casual dos dois símbolos no
nome inglês dessa flor foi empregado no simbolismo onírico para frisar a preciosidade de sua
virgindade - ‘flores caras, tem-se de pagar por elas‘ - e para expressar sua expectativa de que seu
marido soubesse como apreciar-lhe o valor. A expressão ‘flores caras, etc.‘, como se verá, possuía
um significado diferente no caso de cada um dos três símbolos florais.
“ ‘Violetas‘, aparentemente, era bem assexual; mas, com muita ousadia, ao que me
pareceu, pensei poder desvendar um sentido secreto para essa palavra, num elo inconsciente com
a palavra francesa ‘viol‘ [‘estupro’]. Para minha surpresa, a sonhadora forneceu como associação o
termo inglês ‘violate‘ [‘violar’]. O sonho utilizara a grande similaridade casual entre as palavras
‘violet‘ e ‘violate‘ - a diferença em sua pronúncia está apenas na tonicidade diferenciada de suas
sílabas finais - para expressar, ‘na linguagem das flores’, as idéias da sonhadora sobre a violência
da defloração (outro termo que emprega o simbolismo das flores) e, possivelmente, também, um
traço masoquista de seu caráter. Um belo exemplo das ‘pontes verbais’ [ver em [1]] atravessadas
pelas vias que levam ao inconsciente. As palavras ‘tem-se de pagar por elas‘ significavam ter de
pagar com a vida para ser esposa e mãe.
“No tocante a ‘cravinas’ [pinks], que ela passou a chamar de ‘cravos’ [carnations], pensei
na ligação entre essa palavra e ‘carnal’. Mas a associação da sonhadora foi ‘cor’. Ela acrescentou
que ‘cravos’ eram as flores que seu noivo lhe dava com freqüência e em grande quantidade. No
final de suas observações, ela confessou, súbita e espontaneamente, nãoter dito a verdade: o que
lhe ocorrera não tinha sido ‘cor‘, mas ‘encarnação‘ [incarnation] - a palavra que eu havia esperado.
Aliás, o próprio termo ‘cor’ não era uma associação muito remota, mas determinada pelo
significado de ‘cravo‘ [carnation] (cor de carne) - em outras palavras, determinada pelo mesmo
complexo. Essa falta de sinceridade mostrou ser esse o ponto em que a resistência era maior, e
correspondeu ao fato de ser esse o ponto onde o simbolismo era mais claro e onde a luta entre a
libido e seu recalcamento atingia o nível mais intenso em relação a esse tema fálico. O comentário
da sonhadora no sentido de que seu noivo muitas vezes lhe dava esse tipo de flores foi uma
indicação não só do duplo sentido do termo ‘cravos‘ [carnations], como também de seu significado
fálico no sonho. O oferecimento de flores, fator excitante do sonho oriundo da vida corrente da
moça, foi empregado para expressar uma troca de dádivas sexuais: ela fazia de sua virgindade um
presente e, em troca, esperava uma vida emocional e sexual plena. Também nesse ponto, as
palavras ‘flores caras, tem-se de pagar por elas‘ devem ter tido o que, sem dúvida, era literalmente
um significado financeiro. - Assim, o simbolismo das flores, nesse sonho, abrangia a feminilidade
virginal, a masculinidade e uma alusão ao defloramento pela violência. Vale a pena salientar,
nesse sentido, que o simbolismo sexual das flores, que de fato ocorre muito comumente em outros
contextos, simboliza os órgãos sexuais humanos através das flores, que são os órgãos sexuais
das plantas. Talvez seja verdade, de modo geral, que as ofertas de flores entre aqueles que se
amam tenham esse significado inconsciente.
“O aniversário para o qual ela se estava preparando no sonho significava, sem dúvida, o
nascimento de um bebê. Ela se estava identificando com o noivo e o estava representando como
‘arrumando-a’ para um nascimento - isto é, copulando com ela. O pensamento latente talvez tenha
sido: ‘Se eu fosse ele, não esperaria - defloraria minha noiva sem lhe pedir licença - empregaria a
violência’. Isso foi indicado pelo termo ‘violar‘ e, desse modo, o componente sádico da libido
encontrou expressão.
“Numa camada mais profunda do sonho, a frase ‘Estou arrumando…‘ deve sem dúvida,
ter um significado auto-erótico, isto é, infantil.
“A sonhadora revelou também uma consciência, possibilitada a ela apenas em sonho, de
sua deficiência física: viu a si própria como uma mesa, sem projeções, e, por isso mesmo
depositou ainda mais ênfase na preciosidade do ‘centro‘ - noutra ocasião empregou as palavras
‘um centro de flores‘ - isto é, em sua virgindade. O atributo horizontal de mesa também deve ter
dado alguma contribuição para o símbolo.
“A concentração do sonho deve ser observada: nada havia nele de supérfluo, cada
palavra era um símbolo.
“Posteriormente, a sonhadora produziu um adendo ao sonho: ‘Estou decorando as flores
com papel crepom verde.’ Acrescentou tratar-se de um ‘papel de fantasia‘, do tipo usado para
cobrir vasos de flores comuns. E prosseguiu: ‘Para ocultar coisas desarrumadas, qualquer coisa
visível que não fosse agradável aos olhos; há uma lacuna, um pequeno espaço nas flores. O papel
parece veludo ou musgo‘. - Para ‘decorar‘ ela forneceu a associação ‘decoro‘, como eu havia
esperado. Disse que a cor verde predominava, e sua associação com ela foi ‘esperança‘ - outro elo
com a gravidez. - Nessa parte do sonho, o fator principal não foi a identificação com um homem; as
idéias de vergonha e de auto-revelação vieram para o primeiro plano. Ela se estava embelezando
para ele e admitindo defeitos físicos de que se envergonhava e que estava tentando corrigir. Suas
associações ‘veludo‘ e ‘musgo‘ constituíam uma indicação clara de uma referência aos pêlos
pubianos.
“Esse sonho, portanto, deu expressão a pensamentos de que a moça mal tinha ciência
em sua vida de vigília - pensamentos concernentes ao amor sensual e seus órgãos. Ela estava
sendo ‘arrumada para um aniversário’ - isto é, estava copulando com alguém. O medo de ser
deflorada estava encontrando expressão, o mesmo acontecendo, talvez, com as idéias de um
sofrimento prazeroso. Ela admitia para si própria suas deficiências físicas e as supercompensava
mediante uma supervalorização da virgindade. Sua vergonha apresentava como desculpa para os
sinais de sensualidade o fato de que a finalidade desta era a produção de um bebê. Também as
considerações materiais, estranhas ao espírito dos enamorados, encontraram um meio de
expressar-se. O afeto ligado a esse sonho simples - uma sensação de felicidade - indicou que
poderosos complexos emocionais nele haviam encontrado satisfação.”
Ferenczi (1917) salientou, acertadamente, que o significado dos símbolos e a
significação dos sonhos podem ser alcançados com particular facilidade a partir, precisamente, dos
sonhos das pessoas que não são iniciadas na psicanálise.
Neste ponto, intercalarei um sonho produzido por uma figura histórica contemporânea.
Faço-o porque, no sonho, um objeto que de qualquer modorepresentaria apropriadamente um
órgão masculino tem um atributo adicional que o estabeleceu da maneira mais clara possível como
um símbolo fálico. Dificilmente se poderia tomar o fato de um chicote crescer até um comprimento
interminável em qualquer outro sentido que não o de uma ereção. Afora isso, ademais, o sonho é
um excelente exemplo do modo como pensamentos de natureza séria, muito distantes de qualquer
coisa sexual, podem vir a ser representados por material sexual infantil.
XI
UM SONHO DE BISMARCK [1919]
“Em sua obra Gedanken und Erinnerungen [1898, 2, 194; tradução inglesa de A. J.
Butler, Bismarck, the Man and the Statesman, 1898, 2, 209 e segs.], Bismarck cita uma carta que
escreveu ao Imperador Guilherme I em 18 de dezembro de 1881, no curso da qual ocorre o
seguinte trecho: ‘A comunicação de Vossa Majestade estimula-me a relatar um sonho que tive na
primavera de 1863, nos piores dias do Conflito, do qual nenhuma visão humana poderia vislumbrar
qualquer saída possível. Sonhei (como relatei antes de qualquer outra coisa a minha mulher e a
outras testemunhas na manhã seguinte) que cavalgava por uma estreita trilha alpina, com um
precipício à direita e rochas à esquerda. O caminho foi-se estreitando, de tal modo que o cavalo
recusou-se a prosseguir e era impossível dar meia-volta ou desmontar, devido à falta de espaço.
Então, com o chicote na mão esquerda, golpeei a rocha lisa e invoquei o nome de Deus. O chicote
cresceu até atingir um comprimento interminável, a muralha rochosa desmoronou como um pedaço
de cenário num palco e abriu-se um caminho largo com uma vista das colinas e florestas, como
uma paisagem da Boêmia; havia tropas prussianas com estandartes, e mesmo em meu sonho me
veio imediatamente a idéia de que eu deveria relatar isso a Vossa Majestade. Esse sonho se
realizou e acordei regozijante e fortalecido…’
“A ação desse sonho enquadra-se em duas seções. Na primeira parte, o sonhador viu-se
num impasse do qual foi miraculosamente resgatado nasegunda. A difícil situação em que cavalo e
cavaleiro foram colocados é uma imagem onírica facilmente reconhecível da posição crítica do
estadista, que ele talvez tivesse sentido com particular amargura ao ponderar sobre os problemas
de sua política na noite anterior ao sonho. No trecho citado acima, o próprio Bismarck utiliza o
mesmo símile [de não haver nenhuma ‘saída’ possível] ao descrever a desesperança de sua
situação na época. O significado da imagem onírica, portanto, deve ter sido bem óbvio para ele. Ao
mesmo tempo, é-nos apresentado um belo exemplo do ‘fenômeno funcional’ de Silberer [ver em
[1]]. O processo ocorrido na mente do sonhador - com cada uma das soluções tentadas por seus
pensamentos esbarrando em obstáculos intransponíveis, ao mesmo tempo que, ainda assim, ele
não sabia e não podia desvencilhar-se do exame desses problemas - foi retratado com extrema
propriedade pelo cavaleiro que não podia avançar nem recuar. Seu orgulho, que impedia que ele
pensasse em render-se ou renunciar, foi expresso no sonho pelas palavras ‘era impossível dar
meia-volta ou desmontar’. Na qualidade de homem de ação que se empenhava incessantemente e
lutava pelo bem de outrem, deve ter sido fácil para Bismarck assemelhar-se a um cavalo; e, de
fato, ele assim fez em muitas ocasiões, como por exemplo em seu célebre dito: ‘Um bom cavalo
morre trabalhando’. Nesse sentido, as palavras ‘o cavalo recusou-se a prosseguir’ significavam
nada mais nada menos do que o fato de que o extenuado estadista sentia uma necessidade de
fugir às inquietações do presente imediato, ou, para expressá-lo de outra forma, de que estava no
ato de se libertar dos grilhões do princípio de realidade através do sono e do sonho. A realização
de desejo, que se tornou tão destacada na segunda parte do sonho, já tinha sido sugerida nas
palavras ‘trilha alpina’. Sem dúvida, Bismarck já sabia, nessa ocasião, que iria passar suas
próximas férias nos Alpes - em Gastein; assim, o sonho, levando-o até lá, liberou-o de um só golpe
de todos os fardos dos negócios de Estado.
“Na segunda parte do sonho, os desejos do sonhador foram representados como
realizados de duas maneiras: indisfarçada e obviamente, e além disso, simbolicamente. Sua
realização foi simbolicamente representada pelo desaparecimento da rocha obstrutiva e pelo
surgimento, em seu lugar, de um caminho amplo - a ‘saída’ à procura da qual ele estava, em sua
forma mais conveniente; e foi indisfarçadamente representada na imagem das tropas prussianas
que avançavam. Para explicar essa visão profética, não há absolutamente nenhuma necessidade
de construir hipóteses místicas; a teoria freudiana da realização de desejo basta plenamente.Já por
ocasião desse sonho, Bismarck desejava uma guerra vitoriosa contra a Áustria como a melhor
saída para os conflitos internos da Prússia. Assim, o sonho estava representando esse desejo
como realizado, justamente como é postulado por Freud, quando o sonhador viu as tropas
prussianas com seus estandartes na Boêmia, isto é, em solo inimigo. A única peculiaridade do
caso foi que o sonhador em que estamos aqui interessados não se contentava com a realização de
seu desejo num sonho, mas sabia como obtê-la na realidade. Um aspecto que não pode deixar de
impressionar qualquer um que esteja familiarizado com a técnica psicanalítica da interpretação é o
chicote - que crescia até atingir um ‘comprimento interminável’. Os chicotes, bastões, lanças e
objetos semelhantes nos são familiares como símbolos fálicos; mas, quando um chicote possui
ainda a característica mais notável de um falo, que é sua extensibilidade, mal pode restar alguma
dúvida. O exagero do fenômeno - seu crescimento até um ‘comprimento interminável’ - parece
sugerir uma hipercatexia proveniente de fontes infantis. O fato de o sonhador ter tomado o chicote
nas mãos foi uma alusão clara à masturbação, embora a referência não dissesse respeito, é claro,
às circunstâncias contemporâneas do sonhador, mas a desejos infantis do passado remoto. A
interpretação descoberta pelo Dr. Stekel [1909, 466 e segs.], de que, nos sonhos, a ‘esquerda’
representa o que é errado, proibido e pecaminoso, vem muito a calhar aqui, pois bem poderia
aplicar-se à masturbação praticada na infância em face da proibição. Entre essa camada infantil
mais profunda e a mais superficial, que se relacionava com os planos imediatos do estadista, é
possível identificar uma camada intermediária que se relacionava com as outras duas. Todo o
episódio de uma libertação miraculosa da necessidade, ao bater numa pedra e, ao mesmo tempo,
invocar Deus como auxiliar, tem uma notável semelhança com a cena bíblica em que Moisés extrai
água de uma rocha para os sedentos Filhos de Israel. Podemos presumir, sem hesitação, que essa
passagem, com todos os seus pormenores, era familiar a Bismarck, que provinha de uma família
protestante amante da Bíblia. Não seria improvável que, nessa época de conflito, Bismarck se
comparasse a Moisés, o líder, a quem o povo que ele procurou libertar recompensou com rebelião,
ódio e ingratidão. Aqui, portanto, teríamos a ligação com os desejos contemporâneosdo sonhador.
Mas, por outro lado, o texto da Bíblia contém alguns detalhes que se aplicam bem a uma fantasia
masturbatória. Moisés tomou a vara em face da ordem de Deus, e o Senhor o puniu por essa
transgressão dizendo-lhe que ele deveria morrer sem entrar na Terra Prometida. O ato proibido de
apanhar a vara (no sonho, um ato inequivocamente fálico), a produção de líquido ao golpear com
ela e a ameaça de morte - aí encontramos reunidos todos os principais fatores da masturbação
infantil. Podemos observar com interesse o processo de revisão que fundiu essas duas imagens
heterogêneas (originando-se, uma, da mente de um estadista de gênio, e outra, dos impulsos da
mente primitiva de uma criança) e que, por esse meio, conseguiu eliminar todos os fatores aflitivos.
O fato de que segurar a vara era um ato proibido e de rebelião não mais foi indicado senão
simbolicamente, através da mão ‘esquerda’ que o praticou. Por outro lado, Deus foi invocado no
conteúdo manifesto do sonho, como que para negar tão ostensivamente quanto possível qualquer
idéia de uma proibição ou segredo. Das duas profecias feitas por Deus a Moisés - de que ele veria
a Terra Prometida, mas nela não entraria - a primeira é claramente representada como realizada
(‘a vista das colinas e florestas’), enquanto a segunda, altamente aflitiva, não é mencionada em
absoluto. A água foi provavelmente sacrificada às exigências da elaboração secundária [ver em
[1]], que se esforçou com êxito por fundir esta cena e a primeira numa só unidade; em vez de água,
a própria rocha caiu.
“Poder-se-ia esperar que ao término de uma fantasia masturbatória infantil que tivesse
incluído o tema da proibição, a criança desejasse que as pessoas de autoridade em seu ambiente
nada soubessem do que havia acontecido. No sonho, esse desejo foi representado por seu oposto,
pelo desejo de informar ao Rei imediatamente do que acontecera. Mas essa inversão se ajustava
de maneira excelente e muito discreta na fantasia de vitória contida na camada superficial dos
pensamentos oníricos e numa parcela do conteúdo manifesto do sonho. Um sonho como esse, de
vitória e conquista, é amiúde uma capa para que um desejo seja bem-sucedido numa conquista
erótica; certas características do sonho, como, por exemplo, a de ter havido um obstáculo ao
avanço do sonhador, mas, depois de ele fazer uso de um chicote extensível, ter-se aberto um
caminho amplo, poderiam apontar nessa direção, mas elas fornecem uma base insuficiente para
se inferir que uma tendência definida de pensamentos e desejos desse tipo teria perpassado o
sonho. Temos aqui um exemplo perfeito de distorção totalmente bem-sucedida do sonho. O que
quer que tenha havido nele de desagradável foi trabalhado, de modo que nunca emergiu através
da camadasuperficial que se estendeu sobre o sonho como um manto protetor. Em conseqüência
disso, foi possível evitar qualquer liberação de angústia. O sonho foi um caso ideal de desejo
realizado com êxito, sem infringir a censura, de modo que bem podemos crer que o sonhador
tenha despertado dele ‘regozijante e fortalecido’.”
Como último exemplo, eis aqui:
XII
O SONHO DE UM QUÍMICO
[1909]
Isso foi sonhado por um homem jovem que se vinha esforçando por abandonar o hábito
de se masturbar, em prol de relações sexuais com mulheres.
PREÂMBULO. - No dia anterior ao sonho, ele estivera dando instruções a um aluno
sobre a reação de Grignard, na qual o magnésio é dissolvido em éter absolutamente puro através
da ação catalisadora do iodo. Dois dias antes, quando a mesma reação estava sendo executada,
ocorrera uma explosão que havia queimado a mão de um dos manipuladores.
SONHO. - (I) Ele devia estar fazendo brometo de fenil-magnésio. Via o aparelho com
particular nitidez, mas substituíra o magnésio por ele próprio. Percebeu-se então num estado
singularmente instável. Ficou a dizer consigo mesmo: “Isso está certo, as coisas estão
funcionando, meus pés já estão começando a se dissolver, meus joelhos estão ficando moles.”
Então, estendeu as mãos e apalpou os pés. Entrementes (como, não sabia dizer), tirou as pernas
do vaso e disse a si mesmo, mais uma vez: “Isso não pode estar certo. É, mas está.” Nesse ponto,
acordou parcialmente e examinou o sonho consigo mesmo, para poder relatá-lo a mim. Estava
positivamente assustado com a solução do sonho. Sentiu-se extremamente excitado durante esse
período de semi-adormecimento e ficou a repetir: “Fenil, fenil.”
(II) Ele estava em ing com sua família inteira e deveria estar em Schottentor às onze e
meia para se encontrar com uma certa mulher. Mas só acordou às onze e meia, e disse para
consigo: “É muito tarde. Não se pode chegar lá antes de meio-dia e meia.” No momento seguinte,
viu toda a família sentada à mesa; via sua mãe com particular nitidez, e a empregada carregando a
terrina de sopa. Então, pensou: “Bem já que começamos a almoçar, é tarde demais para eu sair.”
ANÁLISE. - Ele não tinha nenhuma dúvida de que mesmo a primeira parte do sonho
tinha alguma relação com a mulher com ele se iria encontrar. (Tivera o sonho na noite anterior ao
esperado rendez-vous.) Considerava o aluno a quem dera instruções como uma pessoa
particularmente desagradável.Tinha-lhe dito “Isso não está certo” porque o magnésio não dera
nenhum sinal de ser afetado. E o aluno havia respondido, como se estivesse inteiramente
despreocupado: “É, não está.” O aluno devia representar ele próprio (o paciente), que era tão
indiferente em relação à análise quanto o aluno a respeito da síntese. O “ele” do sonho que
executava a operação representava a mim. Quão desagradável eu deveria considerá-lo por ser tão
indiferente ao resultado!
Por outro lado, ele (o paciente) era o material que estava sendo utilizado para a análise
(ou síntese). O que estava em jogo era o êxito do tratamento. A referência a suas pernas, no
sonho, fez com que se lembrasse de uma experiência da noite anterior. Estava tendo uma aula de
dança e se encontrara com uma moça a quem muito desejava conquistar. Abraçara-a com tanta
força contra si que, em certo momento, ela deu um grito. Ao relaxar a pressão contra as pernas
dela, sentira sua forte pressão receptiva contra a parte inferior das coxas dele, descendo até os
joelhos - o ponto mencionado em seu sonho. De modo que, nesse sentido, a mulher é que era o
magnésio no comentário de que as coisas finalmente estavam funcionando. Ele era feminino em
relação a mim, assim como era masculino em relação à mulher. Se estava funcionando com a
dama, estava funcionando com ele no tratamento. O fato de ele se apalpar e as sensações nos
joelhos apontavam para a masturbação e se encaixavam com sua fadiga do dia anterior. - Seu
encontro com a moça fora marcado, de fato, para as onze e meia. O desejo de não comparecer a
ele, dormindo demais, e de ficar em casa com seus objetos sexuais (isto é, de se ater à
masturbação) correspondiam a sua resistência.
No tocante à repetição da palavra “fenil”, ele me disse que sempre apreciara muito todos
esses radicais que terminavam em “-il”, por serem muito fáceis de usar: benzil, acetil, etc. Isso
nada explicava. Mas, quando lhe sugeri “Schlemihl” como outro radical da série, ele riu
gostosamente e me disse que, durante o verão, lera um livro de Marcel Prévost no qual havia um
capítulo sobre “Les exclus de l’amour”, que de fato continha algumas observações sobre “les
Schlémiliés”. Ao lê-las, ele dissera consigo mesmo: “É assim mesmo que eu sou.” - Se tivesse
faltado ao encontro, isso teria sido outro exemplo de sua “schlemihlidade”.
Poder-se-ia supor que a ocorrência do simbolismo sexual nos sonhos já foi
experimentalmente confirmada por alguns trabalhos efetuados por K.Schrötter, em moldes
propostos por H. Swoboda. Sujeitos em hipnose profunda receberam sugestões de Schrötter,
havendo estas levado à produção de sonhos dos quais grande parte do conteúdo foi determinada
pelas sugestões. Se ele desse ao sujeito a sugestão de que ele deveria sonhar com relações
sexuais normais ou anormais, o sonho, obedecendo à sugestão, utilizaria símbolos que nos são
familiares a partir da psicanálise em lugar do material sexual. Por exemplo, quando se deu a um
sujeito do sexo feminino a sugestão de que sonhasse estar tendo relações homossexuais com uma
amiga, esta apareceu no sonho carregando uma bolsa surrada, com uma etiqueta que trazia os
dizeres “Só para damas”. Afirmou-se que a mulher que teve esse sonho nunca tivera nenhum
conhecimento do simbolismo nos sonhos ou da interpretação destes. Surgem, contudo,
dificuldades em formarmos uma opinião sobre o valor desses interessantes experimentos, pela
infeliz circunstância de o Dr. Schrötter ter-se suicidado pouco depois de efetuá-los. O único registro
deles encontra-se numa comunicação preliminar publicada no Zentralblatt für Psychoanalyse
(Schrötter, 1912). [1914.]
Resultados semelhantes foram publicados por Roffenstein em 1923. Alguns
experimentos realizados por Betlheim e Hartmann (1924) foram de particular interesse, visto não
terem feito uso da hipnose. Esses experimentadores contaram anedotas de natureza
grosseiramente sexual a pacientes que sofriam da síndrome de Korsakoff e observaram as
distorções que ocorriam quando as anedotas eram reproduzidas pelos pacientes nesses estados
confusionais. Constataram que os símbolos que nos são familiares a partir da interpretação dos
sonhos passavam a aparecer (por exemplo, subir escadas, apunhalar e atirar como símbolos de
copulação, e facas e cigarros como símbolos do pênis). Os autores atribuíram especial importância
ao aparecimento do símbolo da escada, pois, como observaram acertadamente, “nenhum desejo
consciente de distorcer poderia ter chegado a um símbolo dessa natureza”. [1925.]
Somente agora, depois de termos avaliado adequadamente a importância do simbolismo
nos sonhos, é que se nos torna possível retomar o tema dos sonhos típicos, interrompido em [1].
[1914.] Penso termos razões para dividir esses sonhos, grosso modo, em duas classes: os que
realmente têm sempre o mesmo sentido e os que, apesar de terem conteúdo idêntico ou
semelhante, devem, não obstante, ser interpretados de maneira extremamente variada. Entre os
sonhos típicos da primeira categoria já tratei [em [1]], com certa riqueza de detalhes, dos sonhos
com exames. [1909.]
Os sonhos com a perda de um trem merecem ser postos ao lado dos sonhos com
exames por causa da similaridade de seu afeto, e sua explicação mostra que estaremos certos ao
fazê-lo. Eles são sonhos de consolação para outra espécie de angústia sentida no sono - o medo
de morrer. “Partir” numa viagem é um dos símbolos mais comuns e mais reconhecidos da morte.
Esses sonhos dizem, de maneira consoladora, “Não se preocupe, você não morrerá (partirá)”, tal
como os sonhos com exames dizem, alentadoramente, “Não tenha medo, nenhum mal lhe
acontecerá desta vez, tampouco”. A dificuldade de compreender esses dois tipos de sonhos se
deve ao fato de que o sentimento de angústia está ligado precisamente à expressão de consolo.
[1911.]
O sentido dos sonhos “com um estímulo dental” [cf. em [1]] [2], que muitas vezes tive de
analisar em pacientes, escapou-me por muito tempo porque, para minha surpresa, havia
invariavelmente resistências fortíssimas a sua interpretação. Provas esmagadoras fizeram com
que, finalmente, eu não mais tivesse nenhuma dúvida de que, nos homens, a força motora desses
sonhos não derivava de outra coisa senão dos desejos masturbatórios do período da puberdade.
Analisarei dois desses sonhos, um dos quais é também um “sonho de voar”. Ambos foram
sonhados pela mesma pessoa - um rapaz com fortes inclinações homossexuais que, todavia, eram
inibidas na vida real.
Ele estava assistindo a uma encenação de “Fidélio” e se achava sentado nas primeiras
filas da Ópera ao lado de L., um homem que lhe era agradável e com que gostaria de fazer
amizade. De repente, ele saiu voando pelos ares, bem por cima das poltronas, levou a mão à boca
e arrancou dois de seus dentes.
Ele próprio disse, a propósito do vôo, que era como se tivesse sido “jogado” no ar. Como
se tratava de uma representação de Fidélio, as palavras
Wer ein holdes Weib errungen…
poderiam parecer adequadas. Mas nem mesmo a conquista da mais adorável das
mulheres estava entre os desejos do sonhador. Dois outros versos seriam mais apropriados:
Wem der grosse Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein…
O sonho efetivamente continha essa “grande jogada”, que, contudo, não era apenas a
realização de um desejo. Escondia também a dolorosa reflexão de que o sonhador muitas vezes
fora infeliz em suas tentativas de amizade, e fora “jogado fora”. Também escondia seu temor de
que esse infortúnio pudesse repetir-se em relação ao rapaz ao lado de quem ele estava
desfrutando da representação de Fidélio. E então se seguiu o que o desdenhoso sonhador
encarava como uma confissão vergonhosa: a de que, certa vez, após ter sido rejeitado por um de
seus amigos, ele se masturbara duas vezes seguidas, no estado de excitação sensual provocado
por seu desejo.
Eis aqui o segundo sonho: Ele estava sendo tratado por dois professores universitários
de suas relações, e não por mim. Um deles estava fazendo alguma coisa com seu pênis. Ele temia
uma operação. O outro empurrava-lhe a boca com um bastão de ferro, de modo que ele perdeu um
ou dois dentes. Estava amarrado com quatro panos de seda.
Dificilmente se pode duvidar de que esse sonho tivesse um sentido sexual. Os panos de
seda identificaram-no com um homossexual que ele conhecia. O sonhador nunca praticara o coito
e nunca procurara ter relações sexuais com homens na vida real; e imaginava as relações sexuais
segundo o modelo da masturbação da puberdade com que outrora estivera familiarizado.
As numerosas modificações do sonho típico com estímulos dentais (por exemplo, sonhos
de que um dente é arrancado por outra pessoa, etc.) devem penso eu, ser explicadas da mesma
maneira. É possível, porém, que nosintrigue descobrir como foi que os “estímulos dentais”
passaram a ter esse significado. Mas eu gostaria de chamar atenção para a freqüência com que o
recalcamento sexual se vale de transposições de uma parte inferior do corpo para uma parte
superior. Graças a elas, torna-se possível, na histeria, que toda sorte de sensações e intenções
sejam efetivadas, se não ali onde são apropriadas - em relação aos órgãos genitais -, pelo menos
em relação a outras partes não objetáveis do corpo. Um exemplo de transposição dessa natureza
é a substituição dos órgãos genitais pelo rosto no simbolismo do pensamento inconsciente. O uso
lingüístico segue o mesmo modelo, ao reconhecer as nádegas [“Hinterbacken”, literalmente,
“bochechas traseiras”] como homólogas às bochechas, e ao traçar um paralelo entre os “labia” e os
lábios que delimitam o orifício da boca. As comparações entre o nariz e o pênis são comuns,
tornando-se a similaridade mais completa pela presença de pêlos em ambos os lugares. A única
estrutura que não oferece qualquer possibilidade de analogia são os dentes; e é precisamente
essa combinação de semelhança e dissimilaridade que torna os dentes tão apropriados para fins
de representação quando alguma pressão é exercida pelo recalcamento sexual.
Não posso pretender que a interpretação dos sonhos com estímulos dentais como
sonhos masturbatórios - uma interpretação cuja correção me parece indubitável - tenha sido
inteiramente esclarecida. Dei a explicação que pude e devo deixar o que resta sem solução. Mas
posso chamar atenção para outro paralelo encontrado no uso lingüístico. Em nossa parte do
mundo, o ato da masturbação é vulgarmente descrito como “sich einen ausreissen” ou “sich einen
herunterreissen” [literalmente, “dar uma puxada para fora” ou “dar uma puxada para baixo”]. [1]
Nada sei da fonte dessa terminologia ou das imagens em que se baseia; mas “um dente” se
enquadraria muito bem na primeira das duas expressões.
Segundo a crença popular, os sonhos com dentes que são arrancados devem ser
interpretados como significando a morte de um parente, mas a psicanálise pode, no máximo,
confirmar essa interpretação somente no sentido jocoso a que aludi acima. Nesse contexto, porém,
citarei um sonho com estímulo dental que foi posto a minha disposição por Otto Rank.
“Um colega meu, que há algum tempo vem dedicando vivo interesse aos problemas da
interpretação de sonhos, enviou-me a seguinte contribuição ao tema dos sonhos com estímulos
dentais.
“ ‘Há pouco tempo, sonhei que estava no dentista e ele perfurava com a broca um dente
posterior em meu maxilar inferior. Trabalhou nele por tanto tempo, que o dente ficou inutilizado.
Segurou-o então com um fórceps e o extraiu com uma facilidade tão grande que provocou meu
assombro. Disse-me que não me preocupasse com aquilo, pois não se tratava do dente que ele
estava realmente tratando, e o colocou na mesa, onde o dente (um incisivo superior, ao que me
pareceu então) desfez-se em várias camadas. Levantei-me da cadeira do dentista, aproximei-me
mais do dente, com um sentimento de curiosidade, e levantei uma questão médica que me
interessava. O dentista explicou-me, enquanto separava as várias partes do dente
impressionantemente alvo e as esmagava (pulverizava-as) com um instrumento, que ele estava
ligado à puberdade e que era só antes da puberdade que os dentes se soltavam com tanta
facilidade e que, no caso das mulheres, o fator decisivo era o nascimento de um filho.
“Percebi então (enquanto estava parcialmente adormecido, creio eu) que o sonho se
fizera acompanhar de uma polução, que, no entanto, não pude relacionar com certeza a qualquer
parte específica do sonho; fiquei muito inclinado a pensar que ela já havia ocorrido enquanto o
dente era arrancado.
“ ‘Passei então a sonhar com uma ocorrência que já não consigo recordar, mas que
terminava por eu deixar meu chapéu e meu paletó em algum lugar (possivelmente, na sala de
espera do consultório do dentista), na esperança de que alguém os trouxesse a mim, e por sair às
pressas, vestindo apenas meu sobretudo, para apanhar um trem que estava de partida. Consegui,
no último momento, saltar para o último vagão, onde já havia alguém de pé. Não pude, entretanto,
chegar até o interior do vagão, mas fui obrigado a viajar numa situação desconfortável da qual
tentei, afinal com êxito, escapar.Entramos num grande túnel e dois trens, indo em direção oposta a
nós, passaram por dentro de nosso trem, como se ele fosse o túnel. Eu olhava pela janela de um
vagão como se estivesse do lado de fora.
“ ‘As seguintes experiências e idéias do dia anterior fornecem material para uma
interpretação do sonho:
“ ‘(I). Eu vinha, de fato, fazendo um tratamento dentário recentemente, e na ocasião do
sonho, sentia dores contínuas no dente do maxilar inferior que era perfurado à broca no sonho, e
no qual o dentista, também na realidade, havia trabalhado por mais tempo do que eu queria. Na
manhã do dia do sonho, eu fora mais uma vez ao dentista por causa da dor, e ele me sugerira que
eu devia extrair outro dente no mesmo maxilar do que ele vinha tratando, dizendo que a dor
provavelmente provinha desse outro. Este era um “dente do siso”, que estava nascendo
exatamente nessa época. Eu levantara, a propósito disso, uma questão relativa à consciência
médica do dentista.
“ ‘(II). Na tarde do mesmo dia, eu fora obrigado a pedir desculpas a uma senhora pelo
mau humor de que estava tomado, devido a minha dor de dente, ao que ela me dissera que estava
com medo de mandar extrair um dente cuja coroa se desfizera quase por completo. Ela achava
que extrair as “presas” era especialmente doloroso e perigoso, embora, por outro lado, um de seus
conhecidos lhe tivesse dito que era mais fácil extrair dentes do maxilar superior, que era onde
ficava o dela. Esse conhecido também lhe dissera que, certa vez, extraíra o dente errado sob
anestesia, e isso aumentara o pavor que ela sentia da operação necessária. Ela me havia então
perguntado se as “presas” eram molares ou caninos e o que se sabia a respeito delas. Ressalteilhe,
por um lado, o elemento de superstição em todas essas opiniões, embora, ao mesmo tempo,
frisasse o núcleo de verdade de certas visões populares. Ela pôde então repetir-me o que
acreditava ser uma crença popular muito antiga e difundida - a de que, se uma mulher grávida
tivesse dor de dentes, teria um menino.
“ ‘(III). Esse dito me interessou, ligado ao que diz Freud, em sua Interpretação dos
Sonhos, sobre o significado típico dos sonhos com estímulos dentais como substitutos da
masturbação, visto que, no dito popular [citado pela senhora], o dente e a genitália masculina (ou
um menino) também foram relacionados. Na noite do mesmo dia, portanto, li todo o trecho
pertinente em A Interpretação dos Sonhos e ali encontrei, entre outras coisas, as seguintes
afirmações, cuja influência sobre meu sonho pode ser observada tão claramente quanto a das
duas outras experiências que mencionei. Freud escreve, a propósito dos sonhos com estímulos
dentais, que, nos homens, a força motora desses sonhos nãoderivava de outra coisa senão os
desejos masturbatórios do período da puberdade’ [em [1]]. E mais: ‘As numerosas modificações do
sonho típico com estímulos dentais (por exemplo, sonhos de que um dente é arrancado por outra
pessoa, etc.) devem, penso eu, ser aplicadas da mesma maneira. É possível, porém, que nos
intrigue descobrir como foi que os “estímulos dentais” passaram a ter esse significado. Mas eu
gostaria de chamar atenção para a freqüência com que o recalcamento sexual se vale de
transposições de uma parte inferior do corpo para uma parte superior.’ (No sonho em exame, do
maxilar inferior para o superior.) ‘Graças a elas, torna-se possível, na histeria, que toda sorte de
sensações e intenções sejam efetivadas, se não ali onde são apropriadas - em relação aos órgãos
genitais -, pelo menos em relação a outras partes não objetáveis do corpo’ [em [1]]. E novamente:
‘Mas posso chamar atenção para outro paralelo encontrado no uso lingüístico. Em nossa parte do
mundo, o ato da masturbação é vulgarmente descrito como “sich einen ausreissen” ou “sich einen
herunterreissen”’ [em [1]]. Eu já estava familiarizado com essa expressão, nos primeiros anos de
minha mocidade, como uma descrição da masturbação, e nenhum intérprete experiente dos
sonhos terá qualquer dificuldade em descobrir o caminho que vai desse até o material infantil
subjacente ao sonho. Acrescentarei apenas que a facilidade com que o dente, que depois de sua
extração transformou-se num incisivo superior, soltou-se no sonho me fez lembrar uma ocasião de
minha infância em que eu próprio arranquei um incisivo superior que estava mole, facilmente e sem
dor. Esse fato, do qual ainda hoje me lembro com clareza em todos os seus detalhes, ocorreu no
mesmo período precoce ao qual remontam minhas primeiras tentativas conscientes de
masturbação. (Esta era uma lembrança encobridora.)
“ ‘A referência de Freud a uma afirmativa de C. G. Jung no sentido de que os ‘sonhos
com estímulos dentais que ocorrem nas mulheres têm o sentido de sonhos com nascimentos’ [em
[1]], bem como a crença popular no significado da dor de dentes nas mulheres grávidas,
explicaram o contraste estabelecido no sonho entre o fator decisivo no caso de mulheres e homens
(puberdade). A esse respeito, recordo-me de um sonho anterior que tive logo após uma visita ao
dentista, e no qual sonhei que as coroas de ouro que tinham acabado de ser fixadas caíam; isso
muito me aborreceu no sonho, por causa da considerável despesa que eu fizera e da qual ainda
não me havia recuperado inteiramente na época. Esse outro sonho tornou-se então inteligível para
mim (em vista de certa experiência minha) como um reconhecimento das vantagens materiais da
masturbação sobre o amor objetal: esteúltimo, do ponto de vista econômico, seria, sob todos os
aspectos, menos desejável (cf. as coroas de ouro); e creio que a observação da senhora sobre o
significado da dor de dentes nas mulheres grávidas havia despertado novamente em mim essas
seqüências de idéias.’
“Isso é o bastante no que concerne à interpretação proposta por meu colega, que é
altamente esclarecedora e à qual, penso eu, não se pode levantar qualquer objeção. Nada tenho a
acrescentar a ela, salvo, talvez, uma sugestão quanto ao sentido provável da segunda parte do
sonho. Esta parece ter representado a transição do sonhador entre a masturbação e as relações
sexuais, que foi aparentemente realizada com grande dificuldade (cf. o túnel pelo qual os trens
entravam e saíam em várias direções), bem como o perigo destas últimas (cf. a gravidez e o
sobretudo [ver em [1]]). O sonhador se valeu, para essa finalidade, das pontes verbais ‘Zahnziehen
(Zug)‘ e ‘Zahn-reissen (Reisen)‘.
“Por outro lado, teoricamente, o caso me parece interessante sob dois aspectos. Em
primeiro lugar, oferece provas em favor da descoberta de Freud de que a ejaculação nos sonhos
acompanha o ato de extrair dentes. Qualquer que seja a forma em que a polução aparece, somos
obrigados a considerá-la como uma satisfação masturbatória promovida sem a assistência de
qualquer estimulação mecânica. Além disso, neste caso, a satisfação que acompanhou a polução
não foi, como geralmente acontece, dirigida a um objeto, ainda que apenas imaginário, mas não
teve objeto se é que se pode dizer isso; foi completamente auto-erótica, ou, no máximo, exibiu um
ligeiro vestígio de homossexualidade (com referência ao dentista).
“O segundo ponto que me parece merecer ênfase é o seguinte. Pode-se plausivelmente
objetar que não há necessidade alguma de se considerar o presente caso como uma confirmação
do ponto de vista de Freud, visto que os fatos do dia anterior seriam suficientes, por si mesmos,
para tornarem inteligível o conteúdo do sonho. A ida do sonhador ao dentista, sua conversa com a
dama e a leitura de A Interpretação dos Sonhos explicariam suficientemente bem como foi que ele
chegou a produzir esse sonho, especialmente uma vez que seu sono foi perturbado por uma dor
de dentes: chegariam mesmo a explicar, se necessário, como foi que o sonho serviu para ele se
desfazer da dor que lhe perturbava o sono - por meio da representação de se livrar do dente
dolorido e, simultaneamente, por afogar com a libido a sensação dolorosa que o sonhador temia.
Mas, mesmo que se dê o máximo desconto possível a tudo isso, não se pode sustentar seriamente
que a simples leitura das explicações de Freud pudesse estabelecer no sonhador a ligação entre a
extração de um dente e o ato da masturbação, ou que pudesse sequer acionar essa ligação, a
menos que ela se houvesse estabelecido há muito tempo, como o próprio sonhador admite ter
acontecido (na expressão ‘sich einen ausreissen‘). Essa ligação pode ter sido revivida não apenas
por sua conversa com a senhora, como também por uma circunstância que ele relatou
subseqüentemente. E isso porque, ao ler A Interpretação dos Sonhos, ele não estava disposto, por
motivos compreensíveis, a crer nesse sentido típico dos sonhos com estímulos dentais e sentira o
desejo de saber se tal sentido se aplicava a todos os sonhos dessa espécie. O presente sonho
confirmou o fato de que era isso o que ocorria, ao menos no que lhe dizia respeito, e assim lhe
mostrou por que ele fora obrigado a sentir dúvidas sobre o assunto. Também nesse aspecto,
portanto, o sonho foi a realização de um desejo - a saber, o desejo de se convencer da faixa de
aplicação e da validade desse ponto de vista de Freud.”
O segundo grupo de sonhos típicos abrange aqueles em que o sonhador voa ou flutua
no ar, cai, nada, etc. Qual o sentido desses sonhos? É impossível dar uma resposta geral. Como
ficaremos sabendo, eles significam algo diferente em cada um dos casos; é apenas a matériaprima
das sensações neles contidas que deriva sempre da mesma fonte. [1909.]
As informações proporcionadas pelos tratamentos psicanalíticos forçam-me a concluir
que também esses sonhos reproduzem impressões da infância, ou seja, relacionam-se com jogos
que envolvem movimento, que são extraordinariamente atraentes para as crianças. Não há um
único tio que não tenha mostrado a uma criança como voar, correndo com ela pela sala em seus
braços estendidos, ou que não tenha brincado de deixá-la cair, fazendo-a cavalgar em seu joelho
e, de repente, estirando a perna, ou levantando-a bem alto e, subitamente, fingindo que vai deixála
cair. As crianças adoram essas experiências e nunca se cansam de pedir que sejam repetidas,
especialmente quando há nelas algo que cause um pequeno susto ou tonteira. Nos anos
posteriores, elas repetem essas experiências nos sonhos; nestes, porém, deixam de fora as mãos
que as sustinham, de modo que flutuam ou caem sem apoio. O prazer que as criancinhas extraem
das brincadeiras desse tipo (bem como dos balanços e gangorras) é bem conhecido; quando
passam a ver façanhas acrobáticas no circo, sua lembrança desses jogos é reavivada. Os ataques
histéricos dos meninos, por vezes, consistem simplesmente em reproduções de façanhas dessa
natureza, executadas com grande habilidade. Não é incomum a ocorrência de que esses jogos de
movimento, embora inocentes em si mesmos, dêem margem a sensações sexuais. As
traquinagens [“Hetzen”] infantis, se é que posso empregar um termo que comumente descreve
todas essas atividades, são o que se repete nos sonhos de voar, cair, ter tonteiras e assim por
diante, ao passo que as sensações prazerosas ligadas a essas experiências transformam-se em
angústia. Mas, com bastante freqüência, como toda mãe sabe, a traquinagem entre crianças acaba
realmente em altercações e lágrimas. [1900.]
Assim, tenho boas razões para rejeitar a teoria de que o que provoca os sonhos com
vôos e quedas é o estado de nossas sensações tácteis durante o sono, ou as sensações do
movimento de nossos pulmões, e assim por diante. A meu ver, essas próprias sensações são
reproduzidas como parte da lembrança à qual remonta o sonho: isto é, são parte do conteúdo do
sonho, e não sua fonte. [1900.]
Esse material, portanto, consistindo em sensações de movimento de tipos semelhantes e
oriundas da mesma fonte, é utilizado para representar toda sorte possível de pensamentos
oníricos. Os sonhos de voar ou flutuar no ar (em geral, de cunho prazeroso) exigem as mais
diversas interpretações; com algumas pessoas, essas interpretações têm de ser de caráter
individual, ao passo que, com outras, podem ser até mesmo de natureza típica. Uma de minhas
pacientes costumava sonhar, com muita freqüência, que estava flutuando a certa altura acima da
rua, sem tocar o chão. Ela era muito baixa e tinha horror à contaminação envolvida no contato com
outras pessoas. Seu sonho de flutuação realizava seus dois desejos, elevando seus pés do chão e
alçando sua cabeça até uma camada mais alta de ar. Em outras mulheres, verifiquei que os
sonhos de voar expressavam o desejo de “ser como um pássaro”, enquanto outras, no sonho,
tornavam-se anjos durante a noite, por não terem sido chamadas de anjos durante o dia. A estreita
ligação entre voar e a representação de pássaros explica por que, nos homens, os sonhos de voar
costumam ter um sentido francamente sensual; e não nos surpreenderemos ao ouvir dizer que
este ou aquele sonhador se sente muito orgulhoso de seus poderes de vôo. [1909.]
O Dr. Paul Federn (de Viena [e, posteriormente, de Nova Iorque]) formulou a atraente
teoria de que bom número desses sonhos de vôo são sonhos de ereção, pois o fenômeno notável
da ereção, em torno do qual a imaginação humana tem girado constantemente, não pode deixar de
ser impressionante, uma vez que envolve uma aparente suspensão das leis da gravidade. (Cf.
nesse contexto, os falos alados dos antigos.) [1911.]
É notável que Mourly Vold, um pesquisador de sonhos de espírito sóbrio e que não se
inclina a interpretações de qualquer espécie, também apóie a interpretação erótica dos sonhos de
voar ou flutuar (Vold, 1910-12, 2, 791). Ele se refere ao fator erótico como “o mais poderoso motivo
dos sonhos de flutuar”, chama atenção para a intensa sensação de vibração no corpo que
acompanha tais sonhos e ressalta a freqüência com que estão ligados a ereções ou poluções.
[1914.]
Os sonhos de cair, por outro lado, são mais amiúde caracterizados pela angústia. Sua
interpretação não oferece nenhuma dificuldade no caso das mulheres, que quase sempre aceitam
o uso simbólico da queda como um modo de descrever a rendição a uma tentação erótica.
Tampouco chegamos ainda a esgotar as fontes infantis dos sonhos de estar caindo. Quase toda
criança caiu numa ocasião ou noutra, e depois foi apanhada e mimada; ou, caso tenha caído do
berço à noite, foi levada para a cama da mãe ou da babá. [1909.]
As pessoas que têm sonhos freqüentes de estar nadando e sentem grande alegria em
furar as ondas, e assim por diante, foram, em geral, pessoas que urinavam na cama, e repetem em
seus sonhos um prazer de que há muito aprenderam a se abster. Logo veremos [em [1]], através
de mais de um exemplo, o que é que os sonhos de estar nadando são mais facilmente usados
para representar. [1909.]
A interpretação dos sonhos com fogo justifica a regra de educação infantil que proíbe a
uma criança “brincar com fogo” - de modo que não molhe a cama à noite. Pois, também no caso
deles, há uma lembrança subjacente da enurese da infância. Em meu “Fragmento da Análise de
um Caso de Histeria” [1905e, Parte II, primeiro sonho de Dora], forneci uma análise e síntese
completas de um desses sonhos com fogo, ligado à história clínica da sonhadora, e mostrei quais
impulsos da idade adulta esse material infantil pode ser utilizado para representar. [1911.]
Seria possível mencionar todo um grupo de outros sonhos “típicos”, se adotássemos
esse termo no sentido de que o mesmo conteúdo manifesto dos sonhos é freqüentemente
encontrado nos sonhos de pessoas diferentes. Por exemplo, poderíamos mencionar os sonhos de
estar passando por ruas estreitas ou atravessando grupos inteiros de salas [cf. em [1]], e os
sonhos com ladrões - contra os quais, a propósito, as pessoas nervosas tomam precauções antes
de irem dormir [ver em [1]]; os sonhos de estar sendo perseguido por animais selvagens (ou por
touros ou cavalos) [ver em [1]], ou de ser ameaçado por facas, punhais ou lanças - sendo estas
duas últimas categorias do conteúdo manifesto dos sonhos de pessoas que sofrem de angústia - e
muitos mais. Uma pesquisa especialmente devotada a esse material recompensaria plenamente o
trabalho envolvido. Mas, em vez disso, tenho duas observações a fazer, embora elas não se
apliquem exclusivamente aos sonhos típicos. [1909.]
Quanto maior o interesse pela solução dos sonhos, mais se é levado a reconhecer que a
maioria dos sonhos dos adultos versa sobre material sexual e dá expressão a desejos eróticos. Um
juízo sobre esse ponto só pode ser formado pelos que realmente analisam os sonhos, ou seja, por
aqueles que atravessam o conteúdo manifesto dos sonhos até chegar aos pensamentos oníricos
latentes, e nunca pelos que se contentam em fazer uma anotação apenas do conteúdo manifesto
(como Näcke, por exemplo, em seus escritos sobre sonhos sexuais). Permitam-me dizer, desde
logo, que este fato não é nada surpreendente, e está em completa harmonia com os princípios de
minha explicação dos sonhos. Nenhuma outra pulsão é submetida, desde a infância, a tanta
supressão quanto a pulsão sexual, com seus numerosos componentes [cf. meus Três Ensaios
sobre a Teoria da Sexualidade, 1905d]; de nenhuma outra pulsão restam tantos e tão poderosos
desejos inconscientes, prontos a produzir sonhos no estado de sono. Ao interpretarmos os sonhos,
nunca nos devemos esquecer da importância dos complexos sexuais, embora também devamos, é
claro, evitar o exagero de lhes atribuir importância exclusiva. [1909.]
Podemos asseverar em relação a muitos sonhos, se forem cuidadosamente
interpretados, que eles são bissexuais, visto que, incontestavelmente, admitem uma
‘’superinterpretação’’ na qual se realizam os impulsos homossexuais do sonhador - impulsos, vale
dizer, que são contrários a suas atividades sexuais normais. Sustentar, contudo, como o fazem
Steckel (1911, [71]) a Adler (1910, etc.), que todos os sonhos devem ser interpretados
bissexualmente parece-me ser uma generalização igualmente indemonstrável e implausível, e que
não estou preparado a apoiar. Em particular, não posso descartar o fato óbvio de que existem
numerosos sonhos que satisfazem outras necessidades que não as que são eróticas no sentido
mais amplo do termo: os sonhos com a fome e a sede, os sonhos de conveniência, etc. Da mesma
forma, as declarações do tipo “o espectro da morte encontra-se por trás de todos os sonhos”
(Stekel [1911, 34]), ou “todo sonho mostra um avanço da orientação feminina para a masculina”
(Adler [1910]), me parecem ir muito além de qualquer coisa que possa ser legitimamente
sustentada na interpretação dos sonhos. [1911.]
A asserção de que todos os sonhos exigem uma interpretação sexual, contra a qual os
críticos se enfurecem de modo tão incessante, não ocorre em parte alguma de minha A
Interpretação dos Sonhos. Não se encontra em nenhuma das numerosas edições deste livro e está
em evidente contradição com outros pontos de vista nele expressos. [1919.]
Já indiquei [em [1]] que sonhos surpreendentemente inocentes podem encarnar desejos
cruamente eróticos, e poderia confirmá-lo por numerosos novos exemplos. Mas é também verdade
que muitos sonhos que parecem indiferentes e que não seriam considerados sob nenhum aspecto
peculiar remontam, na análise, a impulsos desejantes que são inconfundivelmente sexuais e,
muitas vezes, de natureza inesperada. Quem, por exemplo teria suspeitado da presença de um
desejo sexual no seguinte sonho, antes de ele ser interpretado? O sonhador forneceu este relato:
Um pouco atrás de dois imponentes palácios havia uma casinha com as portas fechadas. Minha
mulher conduziu-me pelo trecho de rua que levava à pequena casa e abriu a porta com um
empurrão; a seguir, esgueirei-me com rapidez e facilidade para o interior de um pátio que subia por
uma elevação. Qualquer um, no entanto, que tenha tido um pouquinho de experiência na tradução
de sonhos refletirá, de imediato, que penetrar em espaços estreitos e abrir portas fechadas
encontram-se entre os símbolos sexuais mais comuns, e perceberá facilmente nesse sonho a
representação de uma tentativa de coitus a tergo (entre as duas imponentes nádegas do corpo
feminino). A passagem estreita que subia por uma inclinação representava, é claro, a vagina. A
ajuda atribuída pelo sonhador a sua mulher força-nos a concluir que, na realidade, era apenas a
consideração por ela que o impedia de fazer esse tipo de tentativa. Verificou-se que, no dia do
sonho, fora morar na casa do sonhador uma moça que o atraíra e que lhe dera a impressão de que
não levantaria grandes objeções a uma abordagem dessa espécie. A casinha entre os dois
palácios era uma reminiscência do Hradshin [Cidadela] de Praga e era mais uma referência à
mesma moça, que provinha desse lugar. [1909.]
Quando insisto junto a um de meus pacientes sobre a freqüência dos sonhos de Édipo,
nos quais o sonhador tem relações sexuais com a própria mãe, ele muitas vezes responde: “Não
tenho nenhuma lembrança de ter tido um sonho desses”. Logo depois, contudo, surge a lembrança
de algum outro sonho inconspícuo e indiferente, que o paciente sonhou repetidas vezes. A análise
mostra então que este é, de fato, um sonho com o mesmo conteúdo - mais uma vez, um sonho de
Édipo. Posso afirmar com certeza que os sonhos disfarçados de relações sexuais com a própria
mãe são muitas vezes mais freqüentes do que os sonhos diretos. [1909.]
Em alguns sonhos com paisagens ou outras localidades dá-se ênfase, no próprio sonho,
a um sentimento convicto de que já se esteve lá antes. As ocorrências de “déjà vu” nos sonhos têm
significado especial. Esses lugares são, invariavelmente, os órgãos genitais da mãe de quem
sonha; não existe, de fato, nenhum outro lugar sobre o qual se possa asseverar com tal convicção
que já se esteve lá antes. [1909.]
Apenas numa ocasião fiquei perplexo com um neurótico obsessivo que me contou um
sonho no qual visitava uma casa em que já estivera duas vezes. Mas esse paciente específico já
me narrara, há bastante tempo, um episódio ocorrido quanto tinha 6 anos. Certa feita, ele estivera
partilhando da cama da mãe e fizera uso indevido dessa oportunidade, enfiando o dedo na
genitália dela enquanto ela dormia. [1914.]
Grande número de sonhos, [1] amiúde acompanhados de angústia e tendo por conteúdo
temas como atravessar espaços estreitos ou estar na água, baseiam-se em fantasias da vida intrauterina,
da existência no ventre e do ato do nascimento. O que se segue foi o sonho de um rapaz
que, em sua imaginação, tirara partido de uma oportunidade intra-uterina para observar os pais
copulando.
Ele estava num poço profundo, que tinha uma janela como a do Túnel Semmering. A
princípio, viu uma paisagem deserta pela janela, mas depois inventou um quadro para se encaixar
naquele espaço que surgiu imediatamente e preencheu a lacuna. O quadro representava um
campo que estava sendo lavrado a fundo por algum instrumento; e o ar puro, juntamente com a
idéia de trabalho árduo que acompanhava a cena e com os torrões de terra preto-azulados,
produziam uma impressão encantadora. Aí, ele foi adiante e viu um livro sobre educação aberto
diante de si… e ficou surpreso que nele se dispensasse tanta atenção aos sentimentos sexuais
(das crianças); e isso o levou a pensar em mim.
Eis aqui um interessante sonho com água, produzido por uma paciente, que serviu a
uma finalidade especial no tratamento. Em sua estação de veraneio, no Lago de ---, ela mergulhou
nas águas escuras, exatamente no ponto em que a pálida lua se espelhava.
Sonhos como esse são sonhos de nascimento. Sua interpretação é alcançada
invertendo-se o acontecimento relatado no sonho manifesto; assim, em vez de “mergulhar na
água”, temos “sair da água”, isto é, nascer. Podemos descobrir o local de onde nasce uma criança
trazendo à mente o emprego, em gíria, da palavra “lune” em francês [a saber, “traseiro”]. A lua
pálida era, portanto, o branco traseiro que as crianças logo supõem ser o lugarde onde vieram.
Qual era o sentido de a paciente desejar ter nascido em sua estação de veraneio? Perguntei-lhe, e
ela respondeu sem hesitar: “Não é justamente como se eu houvesse renascido através do
tratamento?” Assim, o sonho foi um convite para que eu continuasse a tratá-la na estação de férias
- isto é, para que a visitasse ali. Talvez também houvesse nele uma sugestão muito tímida do
desejo da própria paciente de vir a ser mãe.
Citarei outro sonho de nascimento, junto com sua interpretação, extraído de um artigo de
Ernest Jones [1910b]. “Ela estava na praia contemplando um garotinho, que parecia ser dela,
entrando na água com dificuldade. Assim fez até que a água o cobriu, e ela só conseguia ver-lhe a
cabeça subindo e descendo perto da superfície. A cena então mudou para o saguão apinhado de
um hotel. O marido a deixou e ela ‘começou a conversar com’ um estranho. A segunda metade do
sonho revelou-se, na análise, como representando sua fuga do marido e a entrada em relações
íntimas com uma terceira pessoa. (…) A primeira parte do sonho foi uma fantasia de nascimento
bastante evidente. Nos sonhos, como na mitologia, a saída da criança das águas uterinas é
comumente representada, por distorção, como a entrada da criança na água; entre muitos outros,
os nascimentos de Adônis, Osíris, Moisés e Baco são ilustrações famosas disso. A subida e
descida da cabeça na água relembraram de imediato à paciente a sensação dos movimentos do
feto que ela experimentara em sua única gestação. Pensar no menino entrando na água induziu a
um devaneio no qual ela se via retirando-o da água, levando-o para um berçário, dando-lhe banho,
vestindo-o, e instalando-o em sua casa.
“A segunda metade do sonho, portanto, representou pensamentos concernentes à fuga
amorosa, que pertenciam à primeira metade do conteúdo latente subjacente; a primeira metade do
sonho correspondeu à segunda metade do conteúdo latente, a fantasia de nascimento. Além
dessa inversão da ordem, ocorreram outras inversões em cada metade do sonho. Na
primeirametade, a criança entrava na água, e então sua cabeça vinha à tona; nos pensamentos
oníricos subjacentes, ocorreu primeiro a sensação dos primeiros movimentos do feto e, em
seguida, a criança saiu da água (uma dupla inversão). Na segunda metade, o marido a deixava;
nos pensamentos oníricos, ela deixava o marido.”
Abraham (1909, 22 e segs.) relatou outro sonho de nascimento, produzido por uma
jovem que se confrontava com seu primeiro parto. Um canal subterrâneo conduzia diretamente à
água, partindo de um lugar no chão de seu quarto - (canal genital - líquido amniótico). Ela erguia a
porta de um alçapão no chão e uma criatura vestida numa pele marrom, muito semelhante a uma
foca, aparecia prontamente. Essa criatura vinha a ser o irmão mais novo da sonhadora, para quem
ela sempre fora como uma mãe. [1911.]
Rank [1912a] mostrou, a partir de uma série de sonhos, que os sonhos de nascimento
utilizam o mesmo simbolismo dos que têm um estímulo urinário. O estímulo erótico é representado
nos segundos como um estímulo urinário; e a estratificação do sentido nesses sonhos corresponde
a uma mudança que se processou no sentido do símbolo desde a primeira infância. [1914.]
Este é um ponto apropriado para se retornar a um tópico que foi interrompido num
capítulo anterior (em [1]) [1]: o problema do papel desempenhado na formação dos sonhos por
estímulos orgânicos que perturbam o sono. Os sonhos que ocorrem sob a influência deles exibem
abertamente não só a tendência usual à realização de desejo e ao atendimento da finalidade da
conveniência, como também, muitas vezes, exibem um simbolismo perfeitamente claro, pois não
raro um estímulo desperta o sonhador depois de este ter feito uma vã tentativa de lidar com ele
num sonho sob um disfarce simbólico. Isso se aplica aos sonhos com polução ou orgasmo, bem
como aos provocados por uma necessidade de urinar ou defecar. “A natureza peculiar dos sonhos
acompanhados de ejaculação não somente nos coloca em condições de revelar diretamente certos
símbolos sexuais já conhecidos como típicos, mas que não obstante foram violentamente
contestados, como também nos permite convencer-nos de que certas situações aparentemente
inocentes não passam de um prelúdio simbólico a cenas claramente sexuais. Estas últimas são,
em geral, representadas sem disfarces nos sonhos relativamente raros que são acompanhados de
polução, ao passo que, com bastante freqüência, culminam em sonhos de angústia, que têm o
mesmo resultado de despertar o sonhador.” [Rank, ibid., 55.]
O simbolismo dos sonhos com estímulos urinários é especialmente transparente e tem
sido reconhecido desde as épocas mais remotas. Já Hipócrates expressava a visão de que os
sonhos com fontes e nascentes indicam um distúrbio da bexiga (Havelock Ellis [1911, 164]).
Scherner [1861, 189] estudou a multiplicidade do simbolismo dos estímulos urinários e asseverou
que “qualquer estímulo urinário de intensidade considerável transforma-se invariavelmente em
estimulação das regiões sexuais e de suas representações simbólicas. (…) Os sonhos com
estímulos urinários são, amiúde, ao mesmo tempo, representantes de sonhos sexuais”. [Ibid., 192.]
Otto Rank, cuja abordagem, em seu trabalho sobre a estratificação dos símbolos nos
sonhos que provocam o despertar [Rank, 1912a], estou seguindo aqui, fez parecer altamente
provável que um grande número de sonhos com estímulos urinários tenha sido, de fato, causado
por estímulo sexual, que fez uma primeira tentativa de encontrar satisfação, regressivamente, na
forma infantil do erotismo uretral. [Ibid., 78.] São particularmente instrutivos os casos em que o
estímulo urinário assim instalado leva a acordar e esvaziar a bexiga, mas nos quais o sonho, não
obstante, tem prosseguimento e a necessidade se expressa então em imagens indisfarçadamente
eróticas.
Os sonhos com estímulo intestinal lançam luz, de maneira análoga, sobre o simbolismo
neles envolvido, e ao mesmo tempo confirmam a ligação entre o ouro e as fezes, que é também
apoiada por numerosas provas oriundas da antropologia social. (Ver Freud, 1908b; Rank, 1912a;
Dattner, 1913; e Reik, 1915.) [Ver também Freud (1957a).] “Assim, por exemplo, uma mulher que
estava recebendo tratamento médico em vista de um distúrbio intestinal sonhou com alguém que
estava enterrando um tesouro nas imediações de uma pequena cabana de madeira que se
assemelhava a uma rústica instalação sanitária externa. Havia uma segunda parte do sonho em
que ela limpava o traseiro de sua filhinha, que se sujara.” [Rank, 1912a, 55.]
Os sonhos de salvamento estão ligados aos sonhos de nascimento. Nos sonhos das
mulheres, salvar, e especialmente salvar das águas, tem o mesmo significado de dar à luz; mas o
sentido se modifica quando o sonhador é um homem. [1911.]
Os ladrões, assaltantes e fantasmas, dos quais algumas pessoas sentem medo antes de
ir dormir, e que às vezes perseguem suas vítimas depois de estarem adormecidas, são todos
originários de uma mesma categoria de reminiscência infantil. São os visitantes noturnos que
levantam as crianças e as carregam para impedir que molhem a cama, ou que levantam a roupa
da cama para se certificarem de onde elas puseram as mãos enquanto dormiam. As análises de
alguns desses sonhos de angústia tornaram-me possível identificar esses visitantes noturnos com
maior exatidão. Em todos os casos, os ladrões representavam o pai do sujeito adormecido, ao
passo que os fantasmas correspondiam a figuras femininas de camisolas brancas. [1909.]
(F) ALGUNS EXEMPLOS. - CÁLCULOS E DITOS NOS SONHOS
Antes de destinar o quarto dos fatores que regem a formação dos sonhos a seu lugar
adequado [em [1]], proponho citar diversos exemplos de minha coleção. Estes servirão, em parte,
para ilustrar a interação dos três fatores que já nos são conhecidos e, em parte, para fornecer
provas confirmatórias do que foram, até agora, assertivas não fundamentadas, ou para indicar
algumas conclusões que inevitavelmente decorrem delas. Ao fazer uma exposição do trabalho do
sonho, tive enorme dificuldade em corroborar minhas descobertas através de exemplos. Os
exemplos que confirmam proposições específicas só trazem convicção ao serem tratados no
contexto da interpretação de um sonho como um todo. Caso sejam desligados de seu contexto,
perdem sua virtude, enquanto que, por outro lado, uma interpretação de sonho que seja levada
mesmo um pouquinho abaixo da superfície logo se torna tão volumosa que nos faz perder o fio da
seqüência de idéias que se destinava a ilustrar. Esta dificuldade técnica deverá servir de desculpa
minha se, no que se segue, eu concatenar toda sorte de coisas cujo único elo comum seja sua
ligação com o conteúdo das seções precedentes deste capítulo. [1900.]
Começarei por dar alguns exemplos de modos de representação peculiares ou
inusitados nos sonhos.
Uma senhora teve o seguinte sonho: Uma criada estava de pé numa escada, como se
estivesse limpando uma janela, e tinha com ela um chimpanzé e um gato-gorila (ela depois corrigiu
isto para um gato angorá). A empregada atirou violentamente os animais na sonhadora; o
chimpanzé se aconchegou a ela, o que foi muito repulsivo. - Este sonho atingiu seu propósito
mediante um expediente extremamente simples: tomou uma figurade retórica literalmente e deu
uma representação exata de seu enunciado. “Macaco”, assim como os nomes de animais em
geral, são empregados como insultos; e a situação do sonho não significava nada mais, nada
menos, do que “atirar insultos”. No curso da atual série de sonhos, encontraremos diversos outros
exemplos da utilização desse recurso simples durante o trabalho do sonho. [1900.]
Outro sonho adotou um procedimento muito semelhante. Uma mulher teve um filho com
o crânio marcadamente deformado. A sonhadora ouvira dizer que a criança crescera assim devido
a sua posição no útero. O médico disse que o crânio poderia ficar com uma conformação melhor
mediante compressão, mas que isso danificaria o cérebro da criança. Ela refletiu que, como se
tratava de um menino, isso lhe causaria menos mal. - Esse sonho continha uma representação
plástica do conceito abstrato de “impressões causadas nas crianças”, com o qual a sonhadora
deparara no curso das explicações que lhe foram dadas durante o tratamento. [1900.]
O trabalho do sonho adotou um método ligeiramente diferente no seguinte exemplo. O
sonho referia-se a uma excursão ao Hilmteich, perto de Graz. O tempo lá fora estava terrível. Havia
um péssimo hotel, a água gotejava das pareces do quarto e as roupas de cama estavam úmidas.
(Esta última parte do sonho foi narrada menos diretamente do que a apresentei.) O sentido do
sonho era o de “supérfluo”. Essa idéia abstrata, que estava presente nos pensamentos do sonho,
recebeu primeiramente uma distorção algo forçada e foi posta numa forma como “transbordante”,
“transbordando” ou “fluido”, após o que foi representada em diversas imagens semelhantes: água
do lado de fora, água nas paredes no lado de dentro, água na umidade das roupas de cama - tudo
fluindo ou “transbordando”. [1900.]
Não ficaremos surpresos em constatar que, para fins de representação nos sonhos, a
grafia das palavras é muito menos importante do que seu som, especialmente se tivermos em
mente que a mesma regra é válida ao se rimarem versos. Rank (1910, 482) registrou com
pormenores e analisou de maneira integral o sonho de uma moça, no qual ela descrevia como
estava andando pelos campos e cortando ricas espigas [“Ähren”] de cevada e trigo. Um amigo de
sua juventude veio em sua direção, mas ela tentou evitar o encontro com ele. A análise mostrou
que o sonho dizia respeito a um beijo- um “beijo respeitoso” [“Kuss in Ehren”, pronunciado da
mesma forma que “Ähren”, com o significado literal de “beijo em sinal de honra”. No próprio sonho,
as “Ähren”, que tinham de ser cortadas, e não arrancadas, figuravam como espigas de milho,
enquanto, condensadas com “Ehren”, representavam um grande número de outros pensamentos
[latentes]. [1911.]
Por outro lado, em outros casos, o curso da evolução lingüística facilitou muito as coisas
para os sonhos, pois a linguagem tem sob seu comando toda uma gama de palavras que
originalmente possuíam um significado pictórico e concreto, mas são hoje empregadas num
sentido descolorido e abstrato. Tudo o que o sonho precisa fazer é imprimir a essas palavras seu
significado anterior e pleno, ou recuar um pouco até uma fase anterior de seu desenvolvimento.
Um homem sonhou, por exemplo, que seu irmão estava numa Kasten [“caixa”]. No decorrer da
interpretação, a Kasten foi substituída por um Schrank [“armário” - também utilizado em sentido
abstrato para significar “barreira”, “restrição”]. O pensamento do sonho fora no sentido de que seu
irmão deveria restringir-se [“sich einschränken”] - em vez de o próprio sonhador fazê-lo. [1909.]
Outro homem sonhou que subia até o cimo de uma montanha que dominava um
panorama extremamente vasto e incomum. Nesse caso, estava ele se identificando com um irmão
que editava um panorama sobre assuntos do Extremo Oriente. [1911.]
Em Der Grüne Heinrich relata-se um sonho em que um cavalo fogoso corria por um belo
campo de aveia, cada grão da qual era “uma amêndoa doce, uma passa e uma nova moeda de um
penny… tudo embrulhado em seda vermelha e atado com um pedaço de cerda de porco”. O autor
(ou o sonhador) nos dá uma interpretação imediata dessa imagem onírica: o cavalo estava
sentindo uma comichão agradável e exclamava “Der Hafer sticht mich!” [1914.]
Segundo Henzen [1890], os sonhos que envolvem trocadilhos e jogos de linguagem
ocorrem com particular freqüência nas antigas sagas nórdicas, nas quais mal se consegue
encontrar um sonho que não contenha uma ambigüidade ou um jogo de palavras. [1914.]
Constituiria uma tarefa por si só coligir esses modos de representação e classificá-los de
acordo com seus princípios subjacentes. [1909.] Algumas dessas representações quase poderiam
ser descritas como chistes e dão a sensação de que nunca se poderia compreendê-las sem a
ajuda de quem sonhou. [1911.]
(1) Um homem sonhou que lhe perguntavam pelo nome de alguém, mas que não
conseguia pensar nele. Ele próprio explicou que o significado disso era que “ele jamais sonharia
com uma coisa dessas”. [1911.]
(2) Uma paciente contou-me um sonho em que todas as pessoas eram especialmente
grandes. “Isso significa”, prosseguiu ela, “que o sonho deve ter a ver com fatos de minha tenra
infância, pois naquela época, é claro, todas as pessoas adultas me pareciam enormemente
grandes”. [Ver em [1].] Ela própria não aparecia no conteúdo desse sonho. - O fato de um sonho
referir-se à infância pode também ser expresso de outra maneira, a saber, por uma tradução do
tempo em espaço. Os personagens e cenas são vistos como se estivessem a grande distância, no
fim de uma longa estrada, ou como se estivessem sendo olhados pelo lado errado de um par de
binóculos. [1911.]
(3) Um homem que, em sua vida profissional, tendia a utilizar uma fraseologia abstrata e
vaga, embora fosse bastante perspicaz de modo geral, sonhou, certa ocasião, que chegava a uma
estação ferroviária no exato momento em que estava chegando um trem. O que aconteceu então
foi que a plataforma se moveu em direção ao trem, enquanto este ficava totalmente parado… uma
inversão absurda do que realmente acontece. Esse pormenor não passava de uma indicação de
que deveríamos esperar encontrar outra inversão no conteúdo do sonho. [Ver em [1]] A análise do
sonho fez com que o paciente se recordasse de alguns livros de gravuras nos quais havia
ilustrações de homens de cabeça para baixo e andando apoiados nas mãos. [1911.]
(4) Noutra ocasião, o mesmo sonhador me relatou um breve sonho que era quase uma
reminiscência da técnica dos rébus. Sonhou que seu tio lhe dava um beijo num automóvel. Passou
imediatamente a me dar a interpretação, que eu mesmo jamais teria adivinhado: a saber, que o
sonho significava auto-erotismo. O conteúdo desse sonho poderia ter sido produzido como um
chiste na vida de vigília. [1911.]
(5) Um homem sonhou que estava tirando uma mulher de trás de uma cama. O sentido
disso foi que ele lhe estava dando preferência. [1914.]
(6) Um homem sonhou que era um oficial sentado à mesa em frente ao Imperador. Isso
significou que se estava colocando em oposição ao pai. [1914.]
(7) Um homem sonhou que estava tratando de alguém que tinha um membro quebrado.
A análise demonstrou que o osso quebrado [“Knochenbruch”] representava um casamento desfeito
[“Ehebruch”, propriamente “adultério”]. [1914.]
(8) Nos sonhos, a hora do dia muitas vezes representa a idade do sonhador em algum
período específico de sua infância. Assim, num sonho, “cinco e um quarto da manhã” significava a
idade de cinco anos e três meses, o que era importante, visto que essa era a idade do sonhador
por ocasião do nascimento de seu irmão mais novo. [1914.]
(9) Eis aqui outro método de representar as idades num sonho. Uma mulher sonhou que
estava andando com duas menininhas cujas idades diferiam em quinze meses. Ela foi incapaz de
se recordar de qualquer família de suas relações a quem isso se aplicasse. Ela mesma propôs a
interpretação de que as duas crianças representavam ela própria e de que o sonho a fazia lembrar
que os dois acontecimentos traumáticos de sua infância estavam separados um do outro
precisamente por esse intervalo. Um ocorrera quando ela contava três anos e meio, e o outro,
quando tinha quatro e três quartos. [1914.]
(10) Não surpreende que uma pessoa que esteja em tratamento psicanalítico muitas
vezes sonhe com ele e seja levada a dar expressão, em seus sonhos, às numerosas idéias e
expectativas que o tratamento suscita. A imagem mais freqüentemente escolhida para representálo
é a de uma viagem, geralmente de automóvel, por ser este um veículo moderno e complicado. A
velocidade do carro é então utilizada pelo paciente como uma oportunidade para dar vazão a
comentários irônicos. - Se “o inconsciente”, como elemento dos pensamentos de vigília do sujeito,
tiver de ser representado num sonho, poderá ser substituído com muita propriedade por regiões
subterrâneas. - Estas, quando ocorrem sem qualquer referência ao tratamento analítico,
representam o corpo feminino ou o ventre da mulher. - “Embaixo”, nos sonhos, amiúde se relaciona
com os órgãos genitais; “em cima”, ao contrário, relaciona-se com o rosto, a boca ou o seio. - Os
animais selvagens são empregados pelo trabalho do sonho, em geral, para representar os
impulsos arrebatados de que o sonhador tem medo, quer sejam os seus próprios, quer os de
outras pessoas. (Torna-se então necessário apenas um ligeiro deslocamento para que os animais
selvagens passem a representar as pessoas possuídas por essas paixões. Não é grande a
distância entre isso e os casos em que um pai temido é representado por um animal de rapina, um
cão ou um cavalo selvagem - uma forma de representação que lembra o totemismo.) Poder-se-ia
dizer que os animais selvagens são empregados para representar a libido, uma força temida pelo
ego e combatida por meio do recalque. É também freqüente o sonhador separar de si mesmo sua
neurose, sua “personalidade enferma”, e retratá-la como uma pessoa independente. [1919.]
(11) Eis aqui um exemplo registrado por Hanns Sachs (1911): “Sabemos, por A
Interpretação dos Sonhos, de Freud, que o trabalho do sonho se vale de diferentes métodos para
dar forma sensorial a palavras ou expressões. Se, por exemplo, a expressão a ser representada é
ambígua, o trabalho do sonho pode explorar esse fato utilizando a ambigüidade como um ponto de
desvio: quando um dos sentidos da palavra está presente nos pensamentos oníricos, o outro pode
ser introduzido no sonho manifesto. Foi o que ocorreu no seguinte sonho curto, no qual se
empregaram, de maneira engenhosa, para fins de representação, impressões apropriadas do dia
anterior. Eu estava sofrendo de um resfriado no “dia do sonho” e, sendo assim, resolvera, à noite,
que se me fosse possível, evitaria sair da cama durante a madrugada. No sonho, eu parecia estar
simplesmente dando continuidade ao que estivera fazendo durante o dia. Tinha estado ocupado
em colar recortes de jornais num álbum e fizera o melhor possível para colocar cada um no lugar
que lhe era adequado. Sonhei que estava tentando colar um recorte no álbum. Mas ele não cabia
na página [‘er geht aber nicht auf die Seite’], o que me causava muita dor. Acordei e percebi que a
dor do sonho persistia sob a forma de uma dor em meu corpo, e fui obrigado a abandonar a
decisão que tomara antes de me deitar. Meu sonho, em sua qualidade de guardião do meu sono,
dera-me a ilusão de realizar meu desejo de ficar na cama, por meio de uma representação plástica
da frase ambígua ‘er geht aber nicht auf die Seite‘ [‘mas ele não vai ao banheiro’].” [1914.]
Podemos chegar a afirmar que o trabalho do sonho se serve, com o propósito de dar
uma representação visual dos pensamentos oníricos, de quaisquer métodos a seu alcance, quer a
crítica de vigília os considere legítimos ou ilegítimos. Isso expõe o trabalho do sonho a dúvidas e
ridicularizações por parte de todos os que apenas ouviram falar da interpretação dos sonhos, mas
nunca a praticaram. O livro de Stekel, Die Sprache des Traumes (1911), é particularmente rico em
exemplos desse tipo. Tenho evitado, contudo, citar exemplos dele, por causa da falta de senso
crítico do autor e da arbitrariedade de sua técnica, que dão margem a dúvidas até mesmo nos
espíritos não preconceituosos. [Ver em [1].] [1919.]
(12) [1914.] Os seguintes exemplos foram extraídos de um trabalho de V. Tausk (1914)
sobre o uso de roupas e cores na produção de sonhos.
(a) A. sonhou que via uma ex-governanta sua num vestido de lustrina [“Lüster”] preta que
estava muito apertado em suas nádegas. - Isso foi explicado como tendo o sentido de que a
governanta era lasciva [“lüstern”].
(b) C. sonhou ver uma moça na Estrada de ---, banhada de luz branca e usando uma
blusa branca. - O sonhador tivera relações íntimas com uma certa Srta. White [Branca] pela
primeira vez nessa estrada.
(c) A Sra. D. sonhou ver o ator vienense Blasel, de oitenta anos de idade, deitado num
sofá e envergando uma armadura completa [“in voller Rüstung”]. Ele começou a saltar sobre as
mesas e cadeiras, sacou de um punhal, olhou-se no espelho e brandiu o punhal no ar como se
estivesse lutando com um inimigo imaginário. - Interpretação: A sonhadora sofria de uma antiga
afecção da bexiga [“Blase”]. Deitava-se num divã em sua análise; quando se olhava no espelho,
pensava consigo mesma que, apesar de sua idade e da moléstia, ainda parecia estar em plena
forma [“rüstig”].
(13) [1919.] UMA “GRANDE REALIZAÇÃO” NUM SONHO. - Um homem sonhou que era
uma mulher grávida deitada na cama. Achou a situação muito desagradável. Exclamou: “Preferia
estar… (durante a análise, depois de se recordar de uma enfermeira, conclui a frase com as
palavras “quebrando pedras”). Por trás da cama pendia um mapa cuja extremidade inferior era
mantida esticada por uma barra de madeira. Ele arrancou a barra, segurando-lhe as duas
extremidades. Ela se quebrou no sentido transversal, mas dividiu-se em duas metades no sentido
do comprimento. Esta ação o aliviou e, ao mesmo tempo, ajudou no parto.
Sem qualquer ajuda, ele interpretou a quebra da barra [“Leiste”] como uma grande
realização [“Leistung”]. Estava fugindo de sua situação incômoda (no tratamento), arrancando-se
de sua atitude feminina… O detalhe absurdo de a barra de madeira não se quebrar simplesmente,
mas dividir-se no sentido longitudinal, foi assim explicado: o sonhador lembrou-se de que essa
combinação de duplicar e destruir era uma alusão à castração. Os sonhos muitas vezes
representam a castração pela presença de dois símbolos do pênis, como a expressão desafiadora
de um desejo antitético [ver em [1]]. Aliás, “Leiste” [“virilha”] é uma parte do corpo nas proximidades
dos órgãos genitais. O sonhador resumiu a interpretação do sonho como significando que ele
levara a melhor sobre a ameaça de castração que o levara a adotar uma atitude feminina. [1]
(14) [1919.] Numa análise que eu estava conduzindo em francês, surgiu para
interpretação um sonho em que eu aparecia como um elefante. Naturalmente, perguntei ao
sonhador por que fui representado naquela forma. “Vous me trompez” [“O senhor está me
enganando”] foi sua resposta (“trompe” = “tromba”).
O trabalho do sonho pode amiúde conseguir representar material muito refratário, como
são os nomes próprios, por um emprego forçado de associações inusitadas. Num de meus sonhos,
o velho Brücke me confiara a tarefa de fazer uma dissecação;… retirei algo que parecia um pedaço
de papel prateado amassado. (Voltarei a esse sonho mais adiante [ver em [1]].) A associação com
isso (à qual cheguei com certa dificuldade) foi “Stanniol”. Percebi então que eu estava pensando no
nome Stannius, o autor de uma dissertação sobre o sistema nervoso dos peixes, a qual eu muito
admirara em minha juventude. A primeira tarefa científica que meu professor [Brücke] me confiou
relacionava-se, de fato, com o sistema nervoso de um peixe, o Ammocoetes [Freud, 1877a]. Era
claramente impossível empregar o nome desse peixe num quebra-cabeça pictórico. [1900.]
Neste ponto, não consigo resistir ao registro de um sonho peculiar, que também merece
ser notado por ter sido sonhado por uma criança, e que é facilmente explicável analiticamente.
“Lembro-me de ter sonhado muitas vezes, quando criança”, disse uma senhora “que Deus usava
na cabeça um chapéu pontiagudo de papel. Muitas vezes, costumavam colocar um desses
chapéus em minha cabeça às refeições, para me impedir de olhar os pratos das outras crianças
para ver qual era o tamanho das porções que lhes eram servidas. Como tinha ouvido dizer que
Deus era onisciente, o sentido do sonho era que eu sabia tudo - apesar do chapéu que me fora
colocado na cabeça.” [1909.]
A natureza do trabalho do sonho [1] e o modo como manipula seu material, os
pensamentos oníricos, são instrutivamente exibidos ao considerarmos os números e cálculos que
ocorrem nos sonhos. Além disso, os números, nos sonhos, são supersticiosamente encarados
como sendo especialmente significativos no tocante ao futuro. Escolherei, portanto, alguns
exemplos dessa natureza, retirados de minha coleção.
I
Extrato de um sonho ocorrido a uma senhora pouco antes do término de seu tratamento:
Ela ia pagar alguma coisa. Sua filha tirou 3 florins e 65 kreuzers de sua bolsa (da mãe). A
sonhadora lhe disse: ‘’O que você está fazendo? Custa apenas 21 kreuzers.” Devido a meu
conhecimento da situação da sonhadora, esse fragmento de sonho me foi inteligível sem qualquer
outra explicação de sua parte. Essa sonhadora viera do exterior e sua filha estava na escola em
Viena. Ela estaria em condições de prosseguir em seu tratamento comigo desde que a filha
permanecesse em Viena. O ano letivo da menina terminaria em três semanas, e isso significava
também o término do tratamento da senhora. No dia anterior ao sonho, a diretora lhe perguntara se
ela não consideraria deixar a filha na escola por mais um ano. Dessa sugestão, ela passara
evidentemente a refletir que, nesse caso, também poderia continuar seu tratamento. Era a isso que
o sonho se referia. Um anoequivale a 365 dias. As três semanas que restavam, tanto do ano letivo
como do tratamento, equivaliam a 21 dias (embora as horas de tratamento fossem inferiores a
isso). Os números, que nos pensamentos oníricos se referiam a períodos de tempo, estavam
ligados, no próprio sonho, a somas em dinheiro - não que não houvesse um sentido mais profundo
em questão, pois ‘’tempo é dinheiro’’. 365 kreuzers montam apenas a 3 florins e 65 kreuzers; e a
insignificância das quantias ocorridas no sonho era, obviamente, o resultado da realização de
desejo. O desejo da sonhadora reduziu o custo tanto do tratamento quanto das anuidades
escolares.
II
Os números ocorridos num outro sonho envolveram circunstâncias mais complicadas.
Uma senhora que, embora ainda jovem, era casada há muitos anos, recebeu a notícia de que uma
conhecida sua, Elise L., que era quase exatamente sua contemporânea, acabara de ficar noiva.
Teve então o seguinte sonho. Ela estava no teatro com o marido. Um setor das poltronas da platéia
estava inteiramente vazio. O marido lhe disse que Elise L. e seu noivo também tinham querido ir,
mas só haviam conseguido lugares ruins - três por 1 florim e 50 kreuzers - e, naturalmente, não
puderam aceitá-los. Ela pensou que, realmente, não teria havido mal algum se eles tivessem feito
isso.
Qual seria a origem do 1 florim e 50 kreuzers? Isso provinha do que, a rigor, fora um
acontecimento irrelevante da véspera. Sua cunhada recebera do marido 150 florins, como um
presente, e se apressara a livrar-se deles comprando uma jóia. Convém notar que 150 florins são
cem vezes mais do que 1 florim e 50 kreuzers. De onde teria vindo o três, que era o número das
entradas de teatro? A única ligação aqui era que sua amiga, que acabara de ficar noiva, era o
mesmo número de meses - três - mais nova que ela. Chegou-se à solução do sonho com a
descoberta do sentido das poltronas vazias. Elas constituíam uma alusão inalterada a um pequeno
incidente que dera a seu marido uma boa desculpa para caçoar dela. Ela planejara ir a uma das
peças que tinham sido anunciadas para a semana seguinte e se dera ao trabalho de adquirir
entradas com vários dias de antecedência, e tivera, portanto, de pagar uma taxa de reserva. Ao
chegarem ao teatro, eles verificaramque um lado da casa estava quase vazio. Não tinha havido
nenhuma necessidade de que ela se apressasse tanto.
Permitiram-me agora pôr os pensamentos oníricos em lugar do sonho: “Foi absurdo
casar tão cedo. Não havia nenhuma necessidade de eu me apressar tanto. Pelo exemplo de Elise
L., vejo que, no final, eu teria arranjado um marido. A rigor, teria conseguido um cem vezes melhor”
(um tesouro), “se pelo menos tivesse esperado” (em antítese à pressa da cunhada). “Meu dinheiro”
(ou dote) “poderia ter comprado três homens igualmente bons.”
Pode-se observar que o sentido e o contexto dos números foram alterados em escala
muito maior nesse sonho do que no anterior. Os processos de modificação e distorção foram mais
longe aqui, devendo isto ser explicado pelo fato de os pensamentos oníricos terem de superar
neste caso um grau especialmente elevado de resistência endopsíquica para poderem obter
representação. Tampouco devemos desprezar o fato de que houve um elemento de absurdo no
sonho, a saber, de três lugares serem tomados por duas pessoas. Vou-me adiantar à minha
discussão sobre o absurdo nos sonhos [em [1]], assinalando que esse detalhe absurdo no
conteúdo do sonho visou a representar o mais intensamente enfatizado dos pensamentos oníricos,
a saber, “foi absurdo casar tão cedo”. O absurdo que tinha de encontrar um lugar no sonho foi
engenhosamente suprido pelo número 3, que derivava, ele próprio, de um ponto de distinção
inteiramente sem importância entre as duas pessoas que estavam sendo comparadas - a diferença
de 3 meses entre a idade delas. A redução dos 150 florins reais para um florim e 50 correspondeu
ao baixo valor atribuído pela sonhadora a seu marido (ou tesouro) em seus pensamentos
suprimidos. [1]
III
O exemplo seguinte exibe os métodos de cálculo empregados pelos sonhos, que os
levaram a um descrédito tão grande. Um homem sonhou que estava acomodado numa cadeira em
casa dos B. - uma família com a qual se dera antes - e lhes dizia: “Foi um grande erro vocês não
terem deixadoeu ficar com Mali.” - “Quantos anos você tem?” perguntou então à moça. - “Nasci em
1882”, respondeu ela. - “Oh, então você tem 28 anos.”
Visto que o sonho data de 1898, é evidente que isso foi um erro de cálculo, e a
incapacidade do sonhador para fazer somas mereceria ser comparada à de um paralítico geral, a
não ser que pudesse ser explicada de alguma outra forma. Meu paciente era uma dessas pessoas
que, sempre que lhes acontece porem os olhos numa mulher, não conseguem afastar dela seus
pensamentos. A paciente que, já havia alguns meses, costumava chegar regularmente a meu
consultório depois dele, e com quem ele assim esbarrava, era uma jovem; ele constantemente
fazia perguntas a respeito dela e se esmerava ao máximo para lhe causar uma boa impressão. Foi
a idade dela que ele calculou em 28 anos. Basta isto à guisa de explicação do resultado do cálculo
aparente. Aliás, 1882 era o ano em que ele se havia casado. - Posso acrescentar que ele era
incapaz de resistir a entabular conversa com os dois outros membros do sexo feminino com quem
deparava em minha casa - as duas empregadas (nenhuma delas jovem, de modo algum) uma ou
outra das quais costumava abrir-lhe a porta; ele explicava a falta de receptividade delas como
sendo devida a considerarem-no um cavalheiro idoso de hábitos assentados.
IV
Eis aqui outro sonho que trata de números, caracterizado pela clareza da maneira pela
qual foi determinado, ou antes, sobredeterminado. Devo tanto o sonho quanto sua interpretação ao
Dr. B. Dattner. “O senhorio do meu bloco de apartamentos, que é agente de polícia, sonhou que
estava em serviço de rua. (Isso era a realização de um desejo.) Um inspetor que tinha na gola o
número 22, seguido de 62 ou 26, aproximou-se dele. De qualquer maneira, havia vários dois nele.
“O simples fato de que, ao relatar o sonho, ele decompôs o número 2262 demonstrou
que seus componentes tinham sentidos isolados. Recordou-se ele de que, na véspera, tinha
havido uma conversa na delegacia sobre o tempo de serviço dos policiais. O ensejo disso fora um
inspetor que se havia aposentado com seus proventos aos 62 anos. O sonhador tinha apenas 22
anos de serviço e faltavam 2 anos e 2 meses para que tivesse direito a uma pensão de 90%. O
sonho representava, em primeiro lugar, a realização de um desejo há muito acalentado pelo
sonhador - o de chegar ao posto de inspetor. O oficial superior com o ‘2262’ na gola era ele
próprio. Estava em serviço de rua - outro de seus desejos favoritos -, servira seus 2 anos e 2
meses restantes e agora, tal como o inspetor de 62 anos de idade, podia aposentar-se com a
pensão integral.” [1]
Ao tomarmos em conjunto estes e alguns exemplos que darei mais adiante [em [1]],
podemos dizer com segurança que o trabalho do sonho, a rigor, não efetua cálculo algum, quer
correta, quer incorretamente; ele simplesmente coloca sob a forma de cálculo números que se
acham presentes nos pensamentos oníricos e podem servir de alusões a um material que não
pode ser representado de nenhuma outra maneira. Nesse aspecto, o trabalho do sonho trata os
números como um meio para a expressão de seu propósito, precisamente da mesma forma que
trata qualquer outra representação, inclusive os nomes próprios e os ditos que ocorrem
reconhecivelmente como representações de palavras. [Ver o segundo parágrafo que se segue.]
É que o trabalho do sonho não pode realmente criar ditos. [Ver em [1] e [2].] Por mais
que figurem nos sonhos ditos e conversas, sejam eles racionais ou irracionais, a análise
invariavelmente prova que tudo o que o sonho fez foi extrair dos pensamentos oníricos fragmentos
de ditos realmente pronunciados ou ouvidos. Ele trata esses fragmentos de maneira extremamente
arbitrária. Não somente os arranca de seu contexto e os corta em pedaços, incorporando algumas
partes e rejeitando outras, como amiúde os reúne numa nova ordem, de modo que um dito que
figura no sonho como um todo integrado revela, na análise, compor-se de três ou quatro
fragmentos desconexos. Ao produzir essa nova versão, o sonho muitas vezes abandona o sentido
que as palavras possuíam originalmente nos pensamentos oníricos e lhes dá um novo sentido. Se
examinarmos detidamente um dito que ocorra num sonho, verificaremos que ele consiste, por um
lado, de partes relativamente claras e compactas e, por outro, de partes que servem de material de
ligação e que, provavelmente, foram inseridas num estágio posterior, do mesmo modo que, na
leitura, inserimos quaisquer letras ou sílabas que possam ter sido acidentalmente omitidas. Assim,
os ditos nos sonhos têm uma estrutura similar à da brecha, na qual blocos razoavelmente grandes
de vários tipos de rocha são consolidados por uma massa intermediária de ligação. [Ver em [1].]
Rigorosamente falando, essa descrição aplica-se apenas aos ditos nos sonhos que
possuem algo da qualidade sensorial da fala, e que são descritos pela própria pessoa que sonha
como sendo ditos. Outros tipos de ditos, que não são, por assim dizer, sentidos pelo sonhador
como tendo sido ouvidos ou pronunciados (isto é, que não têm nenhum acompanhamento acústico
oumotor no sonho), são meramente pensamentos como os que ocorrem em nossa atividade de
pensamento da vigília, e são amiúde transportados sem modificação para nossos sonhos. Outra
fonte abundante desse tipo de ditos indiferenciados, embora difícil de acompanhar, parece ser
proporcionada pelo material que foi lido. Mas o que quer que se destaque acentuadamente nos
sonhos como um dito pode ser rastreado até sua origem em ditos reais que tenham sido proferidos
ou ouvidos pelo sonhador.
Alguns exemplos indicando que os ditos nos sonhos têm essa origem já foram fornecidos
por mim no curso de análises de sonhos que citei para fins inteiramente diversos. Assim, no
“inocente” sonho com o mercado relatado em [1], as palavras proferidas, “isso não se consegue
mais”, serviram para me identificar com o açougueiro, enquanto uma parte do outro dito, “não
reconheço isso; não vou levá-lo”, foi responsável, de fato, por tornar o sonho “inocente”. A
sonhadora, como se poderá recordar, após lhe ter sido feita certa sugestão pela cozinheira na
véspera, respondera com as palavras: “Não reconheço isso; comporte-se direito!” A primeira parte
desse dito, que soou de forma inocente, foi transportada para o sonho à guisa de alusão à sua
segunda parte, que se ajustava esplendidamente à fantasia subjacente ao sonho, mas que, ao
mesmo tempo, a teria traído.
Eis aqui outro exemplo que pode servir por muitos, todos conducentes à mesma
conclusão.
O sonhador estava num grande pátio onde alguns cadáveres estavam sendo queimados.
“Vou embora!” disse ele, “não suporto ver isso”. (Isso não foi claramente um dito.) Encontrou-se
então com os dois aprendizes de açougueiro. “E então”, perguntou, “estava gostoso?” “Não”,
respondeu um deles, “nem um bocadinho” - como se tivesse sido carne humana.
O pretexto inocente do sonho foi o seguinte. O sonhador e sua mulher, depois do jantar,
tinham feito uma visita a seus vizinhos, que eram pessoas excelentes, mas não exatamente
apetitosas. A idosa e hospitaleira senhora estava justamente ceando e tentara forçá-lo (existe uma
expressão de sentido sexual que é jocosamente empregada entre os homens para expressar esta
idéia) a provar um pouco. Ele declinara, dizendo não ter mais nenhum apetite: “Vamos”, retrucara
ela, “você consegue!”, ou alguma coisa nesse sentido. Assim, ele fora obrigado a provar e a
cumprimentara pela ceia, dizendo: “Estava muito gostoso.” Ao ver-se novamente a sós com sua
mulher, ele reclamara da insistência da vizinha e também da qualidade da comida. O pensamento
“Não suporto ver isso”, que também no sonho não chegou a emergir como um dito em sentido
estrito, era uma alusão aos encantos físicos da senhora de quem partira o convite, e deve ser
considerado como significando que ele não tinha nenhum desejo de olhá-los.
Maiores esclarecimentos podem ser extraídos de outro sonho, que relatarei a propósito
disso por causa do dito muito claro que formou seu ponto central, embora tenha de adiar sua
explicação integral para depois de minha discussão dos afetos nos sonhos [em [1]]. Tive um sonho
muito claro. Eu fora ao laboratório de Brücke à noite e, em resposta a uma leve batida na porta,
abrira-a para o (falecido) Professor Fleischl, que entrou com diversos estranhos e, após trocar
algumas palavras, sentou-se à sua mesa. Isso foi seguido por um segundo sonho. Meu amigo Fl.
[Fliess] tinha vindo discretamente a Viena em julho. Encontrei-o na rua, conversando com meu
(falecido) amigo P., e fui com eles a algum lugar onde se sentaram um diante do outro, como se
estivessem a uma pequena mesa. Sentei-me à cabeceira, em sua parte mais estreita. Fl. falou
sobre sua irmã e disse que em três quartos de hora ela estava morta, acrescentando algo assim
como “esse foi o limiar”. Como P. não conseguisse entendê-lo, Fl. voltou-se para mim e me
perguntou quanto eu havia falado com P. sobre suas coisas. Diante disso, dominado por estranhas
emoções, tentei explicar a Fl. que P. (não podia entender coisa alguma, é claro, porque) não
estava vivo. Mas o que realmente disse - e eu próprio notei o erro - foi “NON VIXIT”. Dirigi então a
P. um olhar penetrante. Ante meu olhar fixo, ele empalideceu; e sua forma tornou-se indistinta e
seus olhos adquiriram um tom azul doentio - e por fim, ele se dissolveu. Fiquei muito satisfeito com
isso e compreendi então que Ernst Fleischl também não passara de uma aparição, um “revenant”
[“fantasma” - literalmente, “aquele que retorna”]; e me pareceu perfeitamente possível que pessoas
assim só existissem enquanto se quisesse, e que pudessem ser descartadas se outra pessoa o
desejasse.
Esse belo espécime reúne muitas das características dos sonhos - o fato de eu ter
exercido minhas faculdades críticas durante o sono e de eu próprio haver notado meu erro quando
disse ”Non vixit”, em vez de “Non vivit” [isto é, “ele não viveu”, em vez de “ele não estava vivo”];
minha maneira despreocupada de lidar com pessoas que estavam mortas e eram reconhecidas
como mortas no próprio sonho; o absurdo de minha inferência final e a grande satisfação que me
proporcionou. De fato, esse sonho exibe tantas dessas características intrigantes que eu daria
muito para poder fornecer a solução completa de seus enigmas. A rigor, porém, sou incapaz de
fazê-lo - ou seja, de fazer o que fiz no sonho, de sacrificar à minha ambição pessoas a quem
valorizo imensamente. Qualquer escamoteamento, contudo, destruiria o que sei muito bem ser o
sentido do sonho; por isso me contentarei, tanto aqui como num contexto posterior [em [1]], em
selecionar apenas alguns de seus elementos para interpretação.
A característica central do sonho foi uma cena em que aniquilei P. com um olhar. Seus
olhos se transformaram num azul estranho e sinistro e ele se dissolveu. Essa cena foi
inequivocamente copiada de outra que eu realmente vivenciara. Na ocasião que tenho em mente,
eu era instrutor no Instituto de Fisiologia e tinha de começar a trabalhar de manhã cedo. Chegou
aos ouvidos de Brücke que, às vezes, eu chegava tarde ao laboratório dos alunos. Certa manhã,
ele apareceu pontualmente na hora em que o laboratório abria e aguardou minha chegada. Suas
palavras foram breves e incisivas. Mas o importante não foram as palavras. O que me desarmou
foram os terríveis olhos azuis com que me fitou e que me reduziram a zero - exatamente como
aconteceu com P. no sonho, onde, para meu alívio, os papéis se inverteram. Ninguém que consiga
lembrar-se dos olhos desse grande homem, que preservaram sua beleza marcante mesmo na
velhice, e que algum dia o tenha visto enfurecido, achará difícil imaginar as emoções do jovem
pecador.
Muito tempo se passou, entretanto, antes que eu conseguisse descobrir a origem do
“Non vixit” com que proferi minha sentença no sonho. Finalmente, porém, ocorreu-me que essas
duas palavras tinham alto grau de clareza no sonho, não como palavras ouvidas ou faladas, mas
como palavras vistas. Percebi então, de imediato, de onde provinham. No pedestal do Monumento
ao Imperador José de Hofburg [Palácio Imperial], em Viena, acham-se inscritas estas palavras
expressivas:
Saluti patriae vixitnon diu sed Totus.
Extraí dessa inscrição apenas o bastante para que se encaixasse numa cadeia de idéias
hostil entre os pensamentos oníricos, o suficiente para dar a entender que “esse sujeito não tem
nada que dar opinião no assunto - ele nem sequer está vivo”. E isso me fez recordar que eu tivera
o sonho poucos dias depois da inauguração do monumento em homenagem a Fleischl nas galerias
da Universidade. Nessa época, eu tornara a ver o monumento a Brücke e devo ter refletido
(inconscientemente) com pesar sobre o fato de que a morte prematura de meu brilhante amigo P.,
cuja vida inteira fora devotada à ciência, furtara-lhe o merecido direito a um monumento naquele
mesmo recinto. Assim, dei-lhe esse monumento em meu sonho; e, aliás, como me recordei, seu
primeiro nome era Josef [José].
Pelas regras da interpretação dos sonhos, nem assim eu tinha direito a passar do Non
vixit derivado de minha recordação do Monumento ao Imperador José ao Non vivit exigido pelo
sentido dos pensamentos oníricos. Devia haver algum outro elemento nos pensamentos do sonho
que ajudasse a tornar possível a transição. Ocorreu-me então ser digno de nota que, na cena do
sonho, havia uma convergência de uma corrente de sentimento hostil e uma afetiva para com meu
amigo P., estando a primeira na superfície e a segunda oculta, mas ambas representadas na
expressão única Non vixit. Como fosse digno de homenagens pela ciência, erigi-lhe um
monumento comemorativo; mas, como era culpado de um desejo malévolo (que se expressou no
final do sonho), eu o aniquilei. Notei que esta última frase tinha uma cadência toda especial, e devo
ter tido algum modelo em minha mente. Onde se poderia encontrar uma antítese dessa natureza,
uma justaposição como essa de duas reações opostas a uma única pessoa, ambas alegando ser
completamente justificadas e, ainda assim, não incompatíveis? Somente numa passagem da
literatura - mas uma passagem que exerce profunda impressão sobre o leitor: no discurso de
autojustificação de Brutus em Júlio César, de Shakespeare [iii, 2]; “Como César me amou, choro
por ele; como foi afortunado, regozijo-me com isso; como era bravo, respeito-o; mas, como foi
ambicioso, matei-o”. Não eram a estrutura formal dessas frases e seu sentido antitético
precisamente os mesmos que no pensamento onírico eu desvendara? Assim, eu estivera
desempenhando o papel de Brutus no sonho. Se ao menos pudesse encontrar outra prova, no
conteúdo do sonho, para confirmar esse surpreendente traço de união colateral! Ocorreu-me uma
prova possível: “Meu amigo Fl. veio a Viena em julho.” Não havia nenhuma base na realidade para
esse detalhe do sonho. Que eu soubesse, meu amigo Fl. nunca estivera em Viena em julho. Mas o
mês de julho recebeu esse nome a partir de Júlio César e poderia, portanto, representar muito bem
a alusão que eu queria à idéia intermediária de eu desempenhar o papel de Brutus.
Por estranho que pareça, realmente desempenhei o papel de Brutus um dia. Certa
ocasião, atuei na cena entre Brutus e César, de Schiller, ante uma platéia de crianças. Tinha
quatorze anos na época e estava representando com um sobrinho um ano mais velho que eu. Ele
viera da Inglaterra visitar-nos; e também ele era um revenant, pois era o companheiro de
brincadeiras de meus primeiros anos de vida que nele retornavam. Até o final de meus três anos,
tínhamos sido inseparáveis. Tínhamos amado um ao outro e lutado um com o outro; e essa relação
infantil, como já sugeri acima [em [1] e [2]], exerceu uma influência decisiva sobre todas as minhas
relações subseqüentes com contemporâneos. Desde aquela época, meu sobrinho John tem tido
muitas reencarnações, que reviveram ora um lado, ora outro de sua personalidade,
inalteravelmente fixada em minha memória inconsciente. Deve ter havido ocasiões em que ele me
tratou muito mal, e devo ter demonstrado coragem perante meu tirano, pois, anos mais tarde,
falaram-me muitas vezes sobre um breve discurso feito por mim em minha própria defesa, quando
meu pai, que era ao mesmo tempo avô de John, me disse em tom de acusação:“Por que você está
batendo no John?” Minha resposta - eu ainda não tinha dois anos nessa época - foi “Bati nele
porque ele me bateu”. Deve ter sido essa cena de minha infância que desviou o “Non vivit” para
“Non vixit”, pois, na linguagem das crianças mais velhas, o termo usado para bater é “wichsen”
[pronunciado como o inglês “vixen”]. O trabalho do sonho não se envergonha de usar elos como
esse. Havia pouco fundamento na realidade para minha hostilidade em relação a meu amigo P.,
que era muito superior a mim e, por esse motivo, se adequava perfeitamente para figurar como
uma nova edição do meu antigo companheiro de folguedos. Essa hostilidade, portanto, certamente
remontaria a minhas complicadas relações infantis com John. [Ver ainda em [1]] [2]
Como já disse, voltarei a este sonho posteriormente.
(G) SONHOS ABSURDOS - ATIVIDADE INTELECTUAL NOS SONHOS
No curso de nossas interpretações dos sonhos esbarramos tantas vezes no elemento do
absurdo que não mais podemos adiar o momento de investigar sua origem e seu eventual
significado. E isso, porque convém lembrar que o caráter absurdo dos sonhos tem proporcionado
àqueles que negam o valor deles um de seus principais argumentos para encará-los como o
produto sem sentido de uma atividade mental reduzida e fragmentada [ver em [1]].
Começarei por dar alguns exemplos nos quais o absurdo é apenas aparente e
desaparece tão logo o sentido do sonho é examinado mais detidamente. Eis aqui dois ou três
sonhos que versam (por acaso, como talvez pareça à primeira vista) sobre o pai morto do
sonhador.
I
Este é o sonho de um paciente que perdera o pai seis anos antes. O pai sofrera uma
grave calamidade. Estava viajando no trem noturno, que descarrilara. Os assentos do vagão se
entrechocaram e sua cabeça foi comprimida de um lado ao outro. O sonhador o viu então deitado
numa cama, com um ferimento no supercílio esquerdo que se estendia em direção vertical. Ficou
surpreso de que tivesse havido uma calamidade com o pai (visto que já estava morto, como
acrescentou ao relatar-me o sonho). Como estavam claros os olhos dele!
De acordo com a teoria dominante dos sonhos, teríamos de explicar o conteúdo desse
sonho da seguinte maneira. Para começar, devemos supor que, enquanto imaginava o acidente, o
sonhador deve ter-se esquecido de que o pai jazia em seu túmulo há vários anos; mas, à medida
que o sonho prosseguiu, essa lembrança deve ter emergido, levando à surpresa ante seu próprio
sonho enquanto ele ainda dormia. A análise nos ensina, contudo, que é visivelmente inútil procurar
esse tipo de explicações. O sonhador encomendaraum busto do pai a um escultor e o vira pela
primeira vez dois dias antes do sonho. Era nisso que ele havia pensado como uma calamidade. O
escultor nunca vira seu pai e trabalhara utilizando fotografias. No dia imediatamente anterior ao
sonho, o sonhador, em sua devoção filial, mandara um velho criado da família ao estúdio para ver
se ele faria a mesma opinião da cabeça de mármore, a saber, que era muito estreita nas têmporas
de um lado ao outro. O paciente passou então a recordar o material que contribuíra para a
produção do sonho. Sempre que seu pai era atormentado por preocupações de negócios ou
dificuldades familiares, ele tinha o hábito de pressionar as mãos sobre as têmporas, como se
sentisse a cabeça larga demais e quisesse comprimi-la. - Quando o paciente contava quatro anos,
estivera presente na ocasião em que uma pistola, que fora acidentalmente carregada, havia
disparado e enegrecido os olhos do pai. (‘’Como estavam claros os olhos dele!‘’) - No ponto da
testa em que o sonho situou o ferimento do pai aparecia um sulco profundo, durante sua vida,
sempre que ele estava pensativo ou triste. O fato de esse sulco ter sido substituído no sonho por
um ferimento levou à segunda causa excitante do sonho. O sonhador tirara uma fotografia de sua
filhinha. A chapa lhe havia escorregado das mãos e, quando ele a apanhou, havia uma rachadura
que se estendia perpendicularmente pela testa da menina, indo até o supercílio. Ele não pôde
evitar uma premonição supersticiosa a esse respeito, visto que, dias antes do falecimento de sua
mãe, ele quebrara uma chapa fotográfica com o retrato dela.
O absurdo desse sonho não passava, assim, do resultado de um descuido na expressão
verbal, que não soube distinguir o busto e a fotografia da pessoa real. Qualquer um de nós poderia
dizer [olhando para uma fotografia]: “Há algo errado com papai, não acha?’’ A aparência de
absurdo no sonho teria sido fácil de evitar; e, se nos fosse dado julgar por esse exemplo único,
ficaríamos inclinados a pensar que o aparente absurdo fora permitido ou mesmo deliberado.
II
Eis aqui outro exemplo, semelhante em quase todos os aspectos, de um de meus
próprios sonhos. (Perdi meu pai em 1896.) Após sua morte, meu pai desempenhava um papel
político entre os magiares e os reunira politicamente. Vi nesse ponto uma imagem pequena e
indistinta: uma multidão de homens, como se estivessem no Reichstag; alguém de pé sobre uma
ou duas cadeiras, com outras pessoas ao seu redor. Lembrei-me de como ele separecera com
Garibaldi em seu leito de morte, e fiquei contente de que aquela promessa se tivesse realizado.
Que poderia ser mais absurdo do que isso? Foi um sonho ocorrido numa época em que
os húngaros tinham sido arrastados pela obstrução parlamentar para um estado de ilegalidade e
mergulhado na crise da qual foram salvos por Koloman Széll. O detalhe trivial de a cena do sonho
aparecer em imagens de tamanho tão diminuto não deixou de ter importância para sua
interpretação. Nossos pensamentos oníricos costumam ser representados em imagens visuais que
parecem ter mais ou menos o tamanho natural. A imagem que eu via em meu sonho, contudo, era
a reprodução de uma xilogravura inserida numa história ilustrada da Áustria, que exibia Maria
Teresa no Reichstag [Dieta] de Pressburg no famoso episódio de “Moriamur pro rege nostro”. Tal
como Maria Teresa na fotografia, meu pai, no sonho, estava cercado pela multidão. Mas ele estava
de pé sobre uma ou duas cadeiras [“cadeira” = “Stuhl”]. Ele os tinha reunido e, portanto, era um
juiz-presidente [“Stuhlrichter”, literalmente, “Juiz de cadeira”.] (Um elo de ligação foi proporcionado
pela expressão [alemã] coloquial “não precisaremos de nenhum juiz”.) - Os que o estávamos
rodeando havíamos de fato observado como meu pai se parecia, em seu leito de morte, com
Garibaldi. Ele tivera uma elevação de temperatura post-mortem, ficando suas maçãs do rosto
enrubescidas e cada vez mais vermelhas… Ao recordar isso, meus pensamentos prosseguiram
involuntariamente:
Und hinter ihm in wesenlosem Scheine
Lag, was uns alle bändigt, das Gemeine.
Esses pensamentos elevados prepararam o terreno [na análise] para o aparecimento de
algo que era comum [“gemein”] em outro sentido. A elevação de temperatura post-mortem de meu
pai correspondeu às palavras “após sua morte” no sonho. Seu sofrimento mais agudo fora causado
por uma paralisia completa (obstrução) dos intestinos durante suas últimas semanas. Daí decorreu
toda sorte de pensamentos desrespeitosos. Um de meus contemporâneos que perdera o pai
enquanto ainda estava no curso secundário - nessa ocasião, eu mesmo ficara profundamente
emocionado e me oferecera para ser seu amigo - certa feita me contou, desdenhosamente, como
uma de suas parentas passara por uma experiência dolorosa. Seu pai caíra morto na rua e fora
levado para casa; quando despiram o cadáver, verificou-se que no momento da morte, ou postmortem,
ele tivera uma evacuação [“Stuhl”]. A filha se sentira tão desgostosa com isso que não
conseguia impedir que esse detalhe odioso lhe perturbasse a lembrança do pai. Chegamos aqui ao
desejo que se corporificou nesse sonho. “Erguer-se ante os olhos dos filhos, após a morte, grande
e imaculado” - quem não desejaria isto? O que aconteceu com o absurdo do sonho? Seu aparente
absurdo deve-se apenas ao fato de ele ter fornecido uma imagem literal de uma figura de retórica
que é em si perfeitamente legítima e na qual habitualmente desprezamos qualquer absurdo
envolvido na contradição entre duas partes. Nesse exemplo, mais uma vez, é impossível fugir à
impressão de que o aparente absurdo é intencional e foi deliberadamente produzido. [1]
A freqüência com que as pessoas mortas aparecem em sonhos, [1] interagindo e se
associando conosco como se estivessem vivas, tem causado surpresa desnecessária e produzido
algumas explicações notáveis, que põem em grande destaque nossa falta de compreensão dos
sonhos. Não obstante, a explicação desses sonhos é muito óbvia. É freqüentemente nos
apanharmos pensando: “Se meu pai fosse vivo, o que diria sobre isto?” Os sonhos são incapazes
de expressar um “se” dessa ordem, salvo representando a pessoa em questão como presente em
alguma situação específica. Assim, por exemplo, um rapaz que recebera uma grande herança do
avô sonhou, numa época em que se recriminava por ter gasto uma considerável soma de dinheiro,
que seu avô estava vivo novamente e lhe pedia contas. E quando, por não cairmos nessa cilada,
protestamos que afinal de contas a pessoa em questão está morta,o que consideramos como uma
crítica ao sonho é, na realidade, uma idéia consoladora de que a pessoa morta não viveu para
testemunhar o acontecimento, ou um sentimento de satisfação por ela já não poder interferir.
Há um outro tipo de absurdo que ocorre nos sonhos com parentes mortos mas não
expressa ridicularização nem escárnio. Indica um extremo grau de repúdio e, desse modo,
possibilita representar uma idéia recalcada que o sonhador preferiria encarar como totalmente
impensável. Parece impossível elucidar tais sonhos, a menos que se tenha em mente o fato de que
os sonhos não estabelecem diferença entre o que é desejado e o que é real. Por exemplo, um
homem que cuidara do pai durante sua última doença e ficara profundamente acabrunhado com
sua morte teve o seguinte sonho absurdo algum tempo depois. O pai estava vivo de novo e
conversava com ele em seu estilo usual, mas (isso é que foi notável) ele havia realmente morrido,
só que não o sabia. Este sonho só se torna inteligível se, após as palavras “mas ele havia
realmente morrido”, inserirmos “em conseqüência do desejo do sonhador”, e se explicarmos que o
que “ele não sabia” era que o sonhador tivera esse desejo. Enquanto cuidava do pai, o filho
desejara repetidamente que ele morresse, isto é, tivera o que, a rigor, era um pensamento piedoso,
no sentido de que a morte poderia pôr termo aos sofrimentos dele. Durante o luto, após a morte do
pai, até mesmo esse desejo compassivo tornou-se tema de auto-recriminação inconsciente, como
se, por meio disso, ele tivesse realmente contribuído para abreviar a vida do homem enfermo. O
despertar dos impulsos infantis primitivos do sonhador contra o pai tornou possível que essa autorecriminação
se expressasse como um sonho; mas foi precisamente o fato de o instigador do
sonho e os pensamentos diurnos serem tão diametralmente opostos que exigiu o aspecto absurdo
do sonho. [1]
É verdade que os sonhos com mortos amados pelo sonhador levantam problemas
difíceis na interpretação do sonho e que nem sempre podem ser satisfatoriamente solucionados. A
razão disso se encontra na ambivalência emocional de cunho particularmente acentuado que
domina a relação do sonhador com a pessoa morta. É muito comum, nos sonhos dessa espécie, a
pessoa morta ser tratada, de início, como se estivesse viva, depois, subitamente, revelar-se morta
e, numa parte posterior do sonho, estar viva outra vez. Isso tem o efeito de confundir. Por fim,
ocorreu-me que essa alternância entre morte e vida visa a representar a indiferença do sonhador.
(“Tanto se me dá que ele esteja vivo ou morto.”) Essa indiferença, evidentemente, não é real, mas
apenas desejada; destina-se a ajudar o sonhador a repudiar suas atitudes emocionais muito
intensas e amiúde contraditórias, tornando-se assim uma representação onírica de sua
ambivalência. - Em outros sonhos em que o sonhador interage com pessoas mortas, a seguinte
regra muitas vezes ajuda a nos orientar: não havendo no sonho nenhuma menção ao fato de que o
homem morto está morto, o sonhador se está equiparando com ele - está sonhando com sua
própria morte. Se, no curso do sonho, o sonhador de repente diz a si próprio com surpresa, “ora,
mas ele já morreu há tanto tempo”, está repudiando essa equiparação e negando que o sonho
signifique sua própria morte. - Mas de bom grado confesso a impressão de que a interpretação dos
sonhos está longe de ter revelado todos os segredos dos sonhos dessa natureza.
III
No exemplo que exporei a seguir, pude surpreender o trabalho do sonho no próprio ato
de fabricar intencionalmente um absurdo para o qual não havia margem alguma no material. Foi
extraído do sonho que me despertou de meu encontro com o Conde Thun quando eu estava
partindo em viagem de férias. [Ver em [1]] Eu estava num tílburi e ordenei ao cocheiro que me
levasse a uma estação. “Não posso ir com o senhor ao longo da própria linha férrea”, disse eu,
depois de ele ter levantado alguma objeção, como se eu o tivesse fatigado demais. Era como se eu
tivesse viajado com ele parte da distância que normalmente se percorre de trem. A análise
produziu as seguintes explicações dessa história confusa e sem sentido. No dia anterior,eu alugara
um tílburi para me levar a uma rua afastada em Dornbach. O condutor, contudo, não sabia onde
ficava a rua e, como tendem a fazer essas excelentes pessoas, ficou a dar voltas e mais voltas, até
que, finalmente, notei o que estava acontecendo e lhe indiquei o caminho certo, acrescentando
alguns comentários sarcásticos. Uma cadeia de idéias à qual eu retornaria depois, na análise,
levou-me desse condutor aos aristocratas. Na ocasião, foi apenas a idéia passageira de que o que
nos impressiona nos aristocratas, a nós da plebe burguesa, é a preferência que eles têm por
ocupar o lugar do condutor. O Conde Thun, de fato, era o condutor do carro do Estado na Áustria.
A frase seguinte do sonho, todavia, referia-se a meu irmão, que eu estava assim identificando com
o condutor do veículo. Naquele ano, eu havia cancelado uma viagem que faria com ele à Itália.
(“Não posso ir com você pela própria linha do trem.”) E esse cancelamento fora uma espécie de
castigo pelas queixas que ele costumava fazer no sentido de que eu tinha o hábito de cansá-lo
demais nessas viagens (isso apareceu no sonho sem alterações), ao insistir em me deslocar muito
depressa de um lugar para outro e em ver demasiadas belezas num único dia. Na noite do sonho,
meu irmão me acompanhara até a estação, mas descera pouco antes de chegarmos lá, na estação
ferroviária suburbana adjacente ao terminal da linha principal, para ir a Purkersdorf pela linha
suburbana. Fiz-lhe notar que ele poderia ficar um pouco mais comigo indo até Purkersdorf pela
linha principal, em vez da suburbana. Isso levou ao trecho do sonho em que percorri de tílburi parte
da distância que normalmente se percorre de trem. Foi uma inversão do que havia ocorrido na
realidade - uma espécie de argumento “tu quoque”. O que eu dissera a meu irmão tinha sido: “você
pode percorrer na linha principal, em minha companhia, a distância que percorreria pela linha
suburbana”. Provoquei toda a confusão do sonho ao colocar “carro” no lugar de “linha suburbana”
(o que, aliás, foi muito útil para reunir as figuras do condutor e de meu irmão). Dessa maneira,
consegui produzir no sonho algo sem sentido, que parece quase impossível de desenredar e é
quase uma contradição direta do meu comentário anterior no sonho (“Não posso ir com o senhor
pela própria linha do trem”). Dado, porém, que não havia necessidade alguma de eu confundir a
ferrovia suburbana com um carro, devo ter preparado propositadamente toda essa história
enigmática do sonho.
Mas, com que propósito? Agora descobriremos o significado do absurdo nos sonhos e os
motivos que fazem com que ele seja consentido ou mesmo criado. A solução do mistério neste
sonho foi a seguinte: eu precisava que houvesse nesse sonho algo de absurdo e ininteligível ligado
à palavra “fahren”, porque os pensamentos oníricos incluíam um certo juízo que pedia
representação. Uma noite, quando me encontrava na casa da hospitaleira e espirituosa senhora
que aparecia como “zeladora” numa das outras cenas do mesmo sonho, eu ouvira duas charadas,
que não pude solucionar. Uma vez que elas eram conhecidas do restante do grupo, fiz um papel
um tanto ridículo em minhas vãs tentativas de encontrar as respostas. Elas dependiam de
trocadilhos com as palavras “Nachkommen” e “Vorfahren” e, creio eu, diziam o seguinte:
Der Herr befiehlt’s,
Der Kutscher tut’s.
Ein jeder hat’s,
Im Grabe ruht’s.
[O patrão manda,
O cocheiro faz:
Todos o têm,
Na tumba jaz.]
(Resposta: “Vorfahren” [“Seguir viagem“ e “ascendência”; mais literalmente, “ir adiante” e
“antepassados”].)
O que causava uma confusão especial era que a primeira metade da segunda charada
era idêntica à da primeira:
Der Herr befiehlt’s,
Der Kutscher tut’s.
Nicht jeder hat’s,
In der Wiege ruht’s.
[O patrão manda,
cocheiro faz:
Nem todos o têm,
No berço jaz.]
(Resposta: “Nachkommen” [“Seguir atrás” e “descendência”; mais literalmente, “vir
depois” e “descendentes”].)
Quando vi o Conde Thun seguir viagem com tanta imponência e quando, depois disso,
entrei no estado de espírito de Fígaro, com suas observações sobre a bondade dos grandes
senhores por se terem dado ao trabalho de nascer (de se tornarem descendência), essas duas
charadas foram adotadas pelo trabalho do sonho como pensamentos intermediários. Visto que os
aristocratas podiam ser facilmente confundidos com condutores e visto que houve época, em
nossa parte do mundo, em que um condutor era chamado de “Schwager” [“cocheiro” e “cunhado”],
o trabalho de condensação pôde introduzir meu irmão na mesma imagem. Entretanto, o
pensamento onírico que agia por trás de tudo isso dizia: “É absurdo orgulhar-se dos ancestrais; é
preferível ser um antepassado”. Esse julgamento de que algo “é absurdo” foi o que produziu a
aparência de absurdo no sonho. E isso também esclarece o enigma remanescente nessa obscura
região do sonho, ou seja, a razão por que pensei já ter viajado com o condutor antes
[vorhergefahren (“viajado antes”) - vorgefahren (“seguido viagem”) - “Vorfahren” (“ascendência”)].
Um sonho se torna absurdo, portanto, quando o julgamento de que algo “é absurdo”
figura entre os elementos incluídos nos pensamentos oníricos - isto é, quando qualquer das
cadeias de idéias inconscientes do sonhador tem por motivo a crítica ou a ridicularização. O
absurdo, por conseguinte, é um dos métodos pelos quais o trabalho do sonho representa uma
contradição - juntamente com outros métodos como a inversão, no conteúdo do sonho, de uma
relação material nos pensamentos oníricos ([em [1]], ou a exploração da sensação de inibição
motora [em [1]]. Todavia, o absurdo num sonho não deve ser traduzido por um simples “não”;
destina-se a reproduzir o estado de ânimo dos pensamentos oníricos que combina o escárnio ou o
riso com a contradição. É somente com tal finalidade em vista que o trabalho do sonho produz algo
ridículo. Também aqui ele dá uma forma manifesta a uma parcela do conteúdo latente. [1]
Na realidade, já deparamos com um exemplo convincente de um sonho absurdo com
esse tipo de sentido: o sonho - interpretei-o sem nenhuma análise - da encenação de uma ópera
de Wagner que durou até quinze para as oito da manhã e no qual a orquestra era regida de uma
torre, etc. (ver em [1]). Ele evidentemente queria dizer: “Este é um mundo às avessas e uma
sociedade maluca; a pessoa que merece algo não o consegue, e a pessoa que não se importa
com algo realmente o consegue” - e nesse aspecto, a sonhadora estava comparando seu destino
com o de sua prima. Tampouco é por mero acaso que nossos primeiros exemplos de absurdo nos
sonhos se relacionaram com um pai morto. Nesses casos, as condições para a criação de sonhos
absurdos se reúnem de maneira característica. A autoridade exercida pelo pai provoca a crítica de
seus filhos já numa tenra idade, e a severidade das exigências que lhes faz leva-os, para seu
próprio alívio, a ficarem de olhos abertos para qualquer fraqueza do pai; entretanto, a devoção filial
evocada em nossa mente pela figura do pai, particularmente após sua morte, torna mais rigorosa a
censura, que impede qualquer crítica desse tipo de ser conscientemente expressa.
IV
Eis outro sonho absurdo sobre um pai morto. Recebi uma comunicação da câmara
municipal de minha terra natal, referente aos honorários devidos pela manutenção de alguém no
hospital no ano de 1851, que fora exigida por um ataque que esse alguém tivera em minha casa.
Isso me pareceuengraçado, pois, em primeiro lugar, eu ainda não era nascido em 1851 e, em
segundo, meu pai, com quem isso poderia estar relacionado, já estava morto. Fui vê-lo no quarto
ao lado, onde ele estava deitado em sua cama, e lhe contei isso. Para minha surpresa, ele se
lembrou de que, em 1851, tinha-se embriagado certa vez e tivera de ser trancafiado ou detido. Isso
acontecera numa época em que ele trabalhava para a firma T --. “Quer dizer que você também
costumava beber?, perguntei;” “você se casou logo depois disso?” Calculei que, naturalmente, eu
nascera em 1856, que parecia ser o ano imediatamente seguinte ao ano em questão.
A partir da discussão anterior, concluiríamos que a insistência com que este sonho exibia
seus absurdos só poderia ser tomada como indicadora da presença, nos pensamentos oníricos, de
uma polêmica particularmente acirrada e apaixonada. Assim sendo, ficaremos extremamente
surpresos ao observar que, neste sonho, a polêmica se deu abertamente, e que meu pai foi o
objeto explícito de ridicularização. Tal franqueza parece contradizer nossos pressupostos acerca
da ação da censura ligada ao trabalho do sonho. A situação se tornará mais clara, porém, ao se
perceber que, neste exemplo, meu pai foi simplesmente apresentado como um testa-de-ferro e que
a disputa realmente se dava com outra pessoa que só apareceu no sonho numa única alusão.
Enquanto que, normalmente, o sonho versa sobre uma rebelião contra outra pessoa por trás de
quem se oculta o pai do sonhador, aqui se deu o oposto. Meu pai fora transformado num
espantalho para encobrir outra pessoa; e o sonho teve permissão de tratar dessa maneira
indisfarçada uma figura que, em geral, era tratada como sagrada, porque, ao mesmo tempo, eu
sabia com certeza que não era realmente a ele que se aludia. Que era esse o estado de coisas
ficou demonstrado pela causa excitante do sonho. É que ele ocorreu depois de eu ter tomado
conhecimento de que um de meus colegas mais velhos, cuja opinião era considerada acima de
qualquer crítica, havia expressado sua desaprovação e surpresa ante o fato de o tratamento
psicanalítico de um de meus pacientes já ter entrado em seu quinto ano. As primeiras frases do
sonho aludiam, sob um disfarce transparente, ao fato de, por algum tempo, esse colega haver
assumido as obrigações que meu pai já não podia cumprir (“honorários devidos”, “manutenção no
hospital”) e de, quando nossas relações começaram a ser menos amistosas, eu ter-me envolvido
no mesmo tipo de conflito emocionalque, ao surgir um desentendimento entre pai e filho, é
inevitavelmente produzido, graças à posição ocupada pelo pai e à assistência anteriormente
prestada por ele. Os pensamentos oníricos protestaram amargamente contra a reprimenda de que
eu não estava progredindo mais depressa - reprimenda que, aplicando-se primeiro a meu
tratamento do paciente, estendeu-se depois a outras coisas. Conheceria ele alguém, pensei, que
pudesse ir mais depressa? Será que não percebia que, salvo por meus métodos de tratamento,
essas condições eram inteiramente incuráveis e duravam a vida toda? O que eram quatro ou cinco
anos comparados a uma vida inteira, especialmente considerando que a existência do paciente
fora tão facilitada durante o tratamento?
Grande parte da impressão de absurdo desse sonho foi ocasionada pelo encadeamento
de frases de diferentes partes dos pensamentos oníricos sem qualquer transição. Assim, a frase
“Fui vê-lo no quarto ao lado”, etc., abandonou o assunto de que vinham tratando as frases
anteriores e reproduziu corretamente as circunstâncias em que informei a meu pai ter ficado noivo
sem consultá-lo. Essa frase, portanto, relembrava-me o admirável desprendimento demonstrado
pelo ancião nessa oportunidade, contrastando-o com o comportamento de um terceiro - de mais
outra pessoa. Convém observar que o sonho recebeu permissão para ridicularizar meu pai porque,
nos pensamentos oníricos, ele era reconhecido, com irrestrita admiração, como um modelo para
outras pessoas. E da própria natureza de toda censura que, dentre as coisas proibidas, ela permita
que se digam as que são falsas, e não as que são verdadeiras. A frase seguinte, no sentido de ele
se lembrar que “tinha-se embriagado certa vez e fora trancafiado por isso”, já não dizia respeito a
nada que se relacionasse com meu pai na realidade. Aqui, a figura que ele representava era nada
mais, nada menos que o grande Meynert, cujas pegadas eu seguira com profunda veneração e
cujo comportamento para comigo, após um breve período de predileção, transformara-se em
hostilidade indisfarçada. O sonho me fez lembrar que ele próprio me contara que, em certa época
de sua juventude, entregara-se ao hábito de se embriagar com clorofórmio e que, por causa disso,
tivera de ir para um sanatório. Fez-me lembrar também de outro incidente com ele, pouco antes de
sua morte. Havíamos travado uma acirrada controvérsia, por escrito, sobre o tema da histeria
masculina, cuja existência ele negava. Quando o visitei durante suaenfermidade fatal e indaguei
sobre suas condições, ele se estendeu um pouco sobre seu estado e terminou com estas palavras:
“Você sabe, sempre fui um dos casos mais claros de histeria masculina”. Estava assim admitindo,
para minha satisfação e espanto, aquilo que por tanto tempo contestara obstinadamente. Mas a
razão por que me foi possível, nessa cena do sonho, utilizar meu pai como um disfarce para
Meynert não residia em qualquer analogia que eu houvesse descoberto entre as duas figuras. A
cena era uma representação concisa, mas inteiramente apropriada, de uma frase condicional nos
pensamentos oníricos, cuja íntegra dizia: “Se ao menos eu tivesse sido a segunda geração, o filho
de um professor ou de um Hofrat [conselheiro áulico], certamente teria progredido mais depressa”.
No sonho, transformei meu pai num Hofrat e professor. - O mais clamoroso e perturbador absurdo
do sonho reside em seu tratamento da data 1851, que me parecia não diferir de 1856, como se
uma diferença de cinco anos não tivesse importância alguma. Mas isso era exatamente o que os
pensamentos oníricos procuravam expressar. Quatro ou cinco anos eram o intervalo durante o qual
desfrutei do apoio do colega que mencionei antes nesta análise; mas eram também o período
durante o qual eu fizera minha noiva esperar por nosso casamento; e era também, por uma
coincidência fortuita, avidamente explorada pelos pensamentos oníricos, o tempo que fiz meu
paciente mais antigo esperar por uma recuperação completa. “O que são cinco anos?”
perguntavam os pensamentos oníricos; “no que me concerne, esse prazo não é nada; não conta.
Tenho bastante tempo à minha frente. E, assim como acabei conseguindo aquilo, embora não
acreditassem, também realizarei isto.” Afora isso, contudo, o número 51 em si, sem os algarismos
relativos ao século, foi determinado num outro sentido, a rigor, oposto; e foi também por isso que
apareceu no sonho diversas vezes. Cinqüenta e um é a idade que parece particularmente perigosa
para os homens; conheci colegas que morreram subitamente nessa idade e, entre eles, um que,
após longas demoras, fora nomeado professor poucos dias antes de sua morte.
V
Aqui temos mais um sonho absurdo que joga com números. Um de meus conhecidos, o
Sr. M., fora atacado num ensaio com um injustificado grau de violência, ao que todos pensamos,
por ninguém menos que Goethe. O Sr. M., naturalmente, ficou arrasado com o ataque. Queixou-se
amargamente dele com algumas pessoas que o acompanhavam à mesa; sua veneração por
Goethe, entretanto, não foi afetada por essa experiência pessoal. Tentei esclarecer um pouco os
dados cronológicos, que me pareciam improváveis. Goethe morreu em 1832. Uma vez que seu
ataque ao Sr. M. teria naturalmente sido feito antes disso, o Sr. M. devia ser um homem muito
jovem na ocasião. Pareceu-me uma noção plausível que tivesse dezoito anos. Eu não tinha muita
certeza, porém, do ano em que escrevíamos, de modo que todo o meu cálculo se desfazia na
obscuridade. A propósito, o ataque estava contido no famoso ensaio de Goethe sobre a
“Natureza”.
Logo encontraremos meios de justificar o absurdo desse sonho. O Sr. M., com que eu
travara conhecimento em meio a algumas pessoas que me acompanhavam à mesa, pedira-me não
muito antes que examinasse seu irmão, que estava apresentando sinais de paralisia geral. A
suspeita era correta; na ocasião dessa visita, aconteceu um episódio embaraçoso, pois no decorrer
da conversa, o paciente, sem nenhuma razão justificável, revelou coisas íntimas sobre seu irmão
ao falar de suas loucuras juvenis. Eu havia perguntado ao paciente o ano de seu nascimento e o
fizera efetuar várias pequenas somas, para testar a debilitação de sua memória - embora, aliás, ele
ainda ficasse perfeitamente à altura dos testes. Logo pude ver que, no sonho, eu próprio me havia
comportado como um paralítico. (Eu não tinha muita certeza do ano, porém, em que escrevíamos.)
Outra parte do material do sonho derivava de outra fonte recente. O editor de uma revista médica,
com quem eu mantinha relações amistosas, publicara uma crítica altamente desfavorável,
“arrasadora”, do último livro de meu amigo berlinense Fl. [Fliess]. A crítica fora escrita por um
profissional muito jovem, que tinha pouco discernimento. Achei que tinha o direito de intervir e
repreendi o editor por isso. Ele expressou um vivo pesar por haver publicado a crítica, mas se
recusou a fazer qualquer retificação. Assim, cortei relações com a revista, mas, em minha carta de
desligamento, expressei a esperança de que nossas relações pessoais não fossem afetadas pelo
acontecimento. A terceira fontedo sonho fora um relato que eu acabara de escutar de uma
paciente a respeito da doença mental de seu irmão e de como ele havia entrado em delírio
frenético, aos gritos de ‘’Natureza! Natureza!‘’. Os médicos acreditavam que sua exclamação
proviesse do fato de ele ter lido o notável ensaio de Goethe sobre esse assunto, e que isso
mostrava que ele se vinha extenuando em seus estudos de filosofia natural. Quanto a mim, preferi
pensar no sentido sexual em que essa palavra é usada aqui, até mesmo pelas pessoas menos
instruídas. Essa minha idéia ao menos não foi refutada pelo fato de o pobre rapaz, em seguida, ter
mutilado seus próprios órgãos genitais. Ele tinha dezoito anos na ocasião de seu surto.
Posso acrescentar que o livro de meu amigo que fora tão severamente criticado (“fica-se
pensando se o autor é que é louco, ou se nós mesmos o somos”, dissera outro crítico) versava
sobre os dados cronológicos da vida, e mostrava que a duração da vida de Goethe era um múltiplo
de um número [de dias] que tem importância na biologia. Logo, é fácil perceber que, no sonho, eu
me estava colocando no lugar de meu amigo. (Tentei esclarecer um pouco os dados cronológicos.)
Mas comportei-me como um paralítico, e o sonho foi um amontoado de absurdos. Desse modo, os
pensamentos oníricos diziam com ironia: “Naturalmente, ele [meu amigo F.] é que é o tolo, o
maluco, e vocês [os críticos] é que são os gênios que sabem de tudo. É claro que, por acaso, não
seria o inverso, não é mesmo?” Havia muitos exemplos dessa inversão no sonho. Por exemplo,
Goethe atacava o rapaz, o que é absurdo, ao passo que ainda é fácil para um homem bastante
jovem atacar Goethe, que é imortal. Além disso, fiz os cálculos a partir do ano da morte de Goethe,
ao passo que fizera o paralítico calcular a partir do ano de seu nascimento. [Ver em [1], onde esse
sonho já foi mencionado.]
Mas eu também me havia comprometido a mostrar que nenhum sonho é induzido por
outros motivos que não os egoístas. [Ver em [1]] Logo, preciso explicar o fato de, no presente
sonho, ter tornado minha a causa de meu amigo e ter-me colocado em seu lugar. A força de minha
convicção crítica na vida de vigília não basta para explicar isso. A história do paciente de dezoito
anos, contudo, e as diferentes interpretações de sua exclamação “Natureza!” eram alusões à
oposição em que eu mesmo me encontrava perante muitos médicos, por causa de minha crença
na etiologia sexual das psiconeuroses. Podia dizer a mim mesmo: “O tipo de crítica que foi aplicado
a seu amigo será aplicado a você - na verdade, em certa medida, já foi”. O “ele” do sonho,
portanto, pode ser substituído por “nós”: “Sim, vocês têm toda razão, nós é que somos os tolos.”
Havia no sonho um lembrete muito claro de que “mea res agitur”, na alusão ao ensaio breve
maisprimorosamente escrito de Goethe, pois quando, ao final de meu tempo de escola, eu hesitava
na escolha de uma carreira, foi escutar esse ensaio lido em voz alta numa conferência pública que
me fez optar pelo estudo das ciências naturais. [1]
VI
Num ponto anterior deste volume, dispus-me a mostrar que outro sonho em que meu
próprio eu não aparecia era, não obstante, egoísta. Em [1], relatei um curto sonho no qual o
Professor M. dizia: “Meu filho, o Míope…” e expliquei que este era apenas um sonho introdutório,
preliminar a outro em que eu realmente desempenhava um papel. Eis aqui o sonho principal que
faltava, introduzindo uma forma verbal absurda e ininteligível que requer explicação.
Por causa de certos acontecimentos que haviam ocorrido na cidade de Roma, tornara-se
necessário retirar as crianças para local seguro e isso foi feito. A cena transcorreu depois em frente
a um portal, portas duplas no estilo antigo (a “Porta Romana” em Siena, como me dei conta
durante o próprio sonho). Eu estava sentado na borda de uma fonte, extremamente deprimido e
quase em lágrimas. Uma figura feminina - uma criada ou freira - trouxe dois meninos e os entregou
ao pai deles, que não era eu. O mais velho dos dois era claramente meu filho maior; não vi o rosto
do outro. A mulher que trouxera o menino pediu-lhe que lhe desse um beijo de despedida. Ela era
singular por ter um nariz vermelho. O menino recusou-se a beijá-la, mas, estendendo a mão em
sinal de despedida, disse “AUF GESERES” a ela e, depois, “AUF UNGESERES” a nós dois (ou a
um de nós). Tive a impressão de que esta segunda frase denotava uma preferência.
Este sonho foi construído com base num emaranhado de pensamentos provocados por
uma peça a que eu assistira, chamada Das neue Ghetto [ONovo Gueto]. O problema judaico, a
preocupação com o futuro dos filhos, a quem não se pode dar uma pátria, a preocupação de
educá-los de tal maneira que possam movimentar-se livremente através das fronteiras - tudo isso
era facilmente reconhecível entre os pensamentos oníricos correspondentes.
“Junto às águas da Babilônia nos sentamos e choramos.” Siena, como Roma, é famosa
por suas belas fontes. Quando Roma aparecia num de meus sonhos, era preciso que eu
encontrasse um substituto para ela em alguma localidade que me fosse conhecida (ver em [1]).
Perto da Porta Romana, em Siena, víramos um edifício grande e feericamente iluminado.
Soubemos que era o Manicomio, o asilo de loucos. Pouco antes de ter o sonho, eu ouvira dizer
que um homem de credo religioso igual ao meu fora obrigado a renunciar a um cargo que obtivera
com grande esforço num manicômio estatal.
Nosso interesse é despertado pela frase “Auf Geseres” (num ponto em que a situação do
sonho levaria a esperar por “Auf Wiedersehen‘’), bem como por seu oposto inteiramente sem
sentido, ‘’Auf Ungeseres”. De acordo com informações que recebi de filologistas, “Geseres” é uma
palavra hebraica genuína, derivada do verbo “goiser”, e sua melhor tradução é “sofrimentos
impostos” ou “fatalidade”. O uso dessa palavra na gíria nos inclinaria a supor que seu significado é
de “pranto e lamentação”. “Ungeseres” era um neologismo particular meu e foi a primeira palavra a
chamar minha atenção, só que, de início, nada pude extrair dela. Entretanto, o breve comentário ao
final do sonho, no sentido de que “Ungeseres” denotava uma preferência sobre “Geseres”, abriu a
porta às associações e, ao mesmo tempo, a uma elucidação da palavra. Uma relação análoga
ocorre no caso do caviar: o caviar sem sal [“ungesalzen”] é mais apreciado que o salgado
[“gesalzen”]. “Caviar para o general”, pretensões aristocráticas; por trás disso havia uma alusão
jocosa a uma pessoa de minha casa que, por ser mais moça do que eu, cuidaria de meus filhos no
futuro, ao que eu esperava. Isso se harmonizou com o fato de que outra pessoa de minha casa,
nossa excelente babá, fora reconhecivelmente retratada na empregada ou freira do sonho. Não
existia ainda, contudo, nenhuma idéia transicional entre “salgado - sem sal” e “Geseres -
Ungeseres”. Esta foi fornecida por “fermentado - não fermentado” [“gesäuert - ungesäuert”]. Em
sua fuga do Egito, os Filhos de Israel não tinham tempo para deixar que sua massa de pão
crescesse e, em memória disso, até hoje comem pão sem fermento na Páscoa. Neste ponto,
posso inserir uma repentina associação que me ocorreu durante essa parte da análise. Lembreime
de como, na Páscoa anterior, meu amigo de Berlim e eu estávamos passeando pelas ruas de
Breslau, cidade em que éramos forasteiros. Uma garotinhaperguntou-me o caminho para
determinada rua e fui obrigado a confessar que não sabia; e comentei com meu amigo: “Vamos
esperar que, quando crescer, essa garotinha mostre mais discriminação na escolha das pessoas a
quem pedir que a orientem”. Pouco depois, avistei uma placa numa porta com os dizeres “Dr.
Herodes. Horário de Consulta…” “Tomara”, comentei, “que nosso colega não seja médico de
crianças”. Entrementes, meu amigo ia me expondo suas idéias sobre a significação biológica da
simetria bilateral e iniciara uma frase com as palavras ‘’Se tivéssemos um olho no meio da testa,
como um Ciclope…” Isso levou ao comentário do Professor no sonho introdutório, “Meu filho, o
Míope…”, e fui então levado à fonte principal de “Geseres”. Muitos anos antes, quando esse filho
do Professor M., hoje um pensador independente, sentava-se ainda nos bancos escolares, foi
acometido por uma doença dos olhos que, declarou o médico, dava motivos para preocupação. Ele
explicou que, enquanto a afecção permanecesse de um lado só, não teria importância, mas, se
passasse para o outro olho, seria um caso grave. A afecção desapareceu completamente no
primeiro olho, mas, pouco depois, apareceram realmente sinais de que o outro estava sendo
afetado. A mãe do menino, aterrorizada, imediatamente mandou chamar o médico ao local
afastado do interior onde se encontravam. O médico, porém, passou-se então para o outro lado.
“Por que a senhora está fazendo esse ‘Geseres‘?”, indagou à mãe numa exclamação; “se um dos
lados ficou bom, o outro também ficará’’. E tinha razão.
E agora devemos considerar a relação de tudo isso comigo e com minha família. O
banco de escola em que o filho do Professor M. dera seus primeiros passos no conhecimento fora
presenteado por sua mãe a meu filho mais velho, em cujos lábios, no sonho, pus as frases de
despedida. É fácil adivinhar um dos desejos a que essa transferência deu margem. É que a
construção do banco da escola visava também a poupar a criança da miopia e de um distúrbio
unilateral. Daí o aparecimento, no sonho, de “Míope” (e, por trás disso, “Ciclope”) e da referência à
bilateralidade. Minha preocupação com a unilateralidade tinha mais de um sentido: podia referir-se
não apenas à unilateralidade física, mas também à unilateralidade do desenvolvimento intelectual.
E não seria precisamente essa preocupação que, à sua maneira louca, a cena do sonho
contradizia? Depois de se voltar para um lado para dizer palavras de despedida, a criança se
voltou para o outro lado para dizero contrário, como que visando a restaurar o equilíbrio. Era como
se estivesse agindo com a devida atenção à simetria bilateral!
É freqüente, portanto, os sonhos serem mais profundos quando parecem mais
insensatos. Em todas as épocas da história, aqueles que tinham algo a dizer mas não podiam dizêlo
sem perigo enfiaram prontamente a carapuça do bobo. A platéia a que se dirigia seu discurso
proibido tolerava-o mais facilmente quando podia, ao mesmo tempo, rir e lisonjear-se com a idéia
de que as palavras inoportunas eram claramente absurdas. O Príncipe da peça, que teve de se
disfarçar de louco, comportou-se exatamente como fazem os sonhos na realidade; assim,
podemos dizer dos sonhos o que dizia Hamlet de si próprio, ocultando as condições verdadeiras
sob um manto de graça e ininteligibilidade: “Sou louco apenas com o nor-noroeste; quando sopra o
vento sul, sei distinguir um falcão de uma garça!”
Dessa maneira, solucionei o problema do absurdo nos sonhos, demonstrando que os
pensamentos oníricos nunca são absurdos - nunca, pelo menos, nos sonhos das pessoas sadias -
e que o trabalho do sonho produz sonhos absurdos e sonhos que contêm elementos absurdos
isolados quando se depara com a necessidade de representar alguma crítica, ridicularização ou
escárnio que possa estar presente nos pensamentos oníricos.
Minha tarefa seguinte é mostrar que o trabalho do sonho não consiste em nada além de
uma combinação dos três fatores que já mencionei - e de um quarto que ainda tenho de mencionar
[ver em [1]]; que não executa outra função senão a de traduzir os pensamentos oníricos de acordo
com as quatro condições a que está sujeito; e que a questão de a mente atuar nos sonhos com
todas as suas faculdades intelectuais ou com apenas parte delasestá mal colocada e desconsidera
os fatos. Uma vez, contudo, que existem muitos sonhos em cujo conteúdo se exprimem juízos,
fazem-se críticas e se expressam valorizações, em que se sente surpresa ante algum elemento
singular do sonho, em que se fazem tentativas de explicação e se entra em argumentações, devo
agora passar a enfrentar as objeções decorrentes desse tipo de fatos mediante a apresentação de
alguns exemplos escolhidos.
Minha resposta [em síntese] é a seguinte: Tudo o que aparece nos sonhos como
atividade aparente da função de julgamento deve ser encarado, não como uma realização
intelectual do trabalho do sonho, mas como pertencente ao material dos pensamentos oníricos e
deles tendo sido retirada para o conteúdo manifesto do sonho como uma estrutura acabada. Posso
até levar mais longe esta asserção. Mesmo os juízos formulados depois de acordar sobre um
sonho que foi lembrado e os sentimentos em nós despertados pela reprodução de tal sonho fazem
parte, em grande medida, do conteúdo latente do sonho e devem ser incluídos em sua
interpretação.
I
Já citei um exemplo notável disto [em [1]]. [1] Uma paciente recusou-se a me contar um
sonho porque “não era suficientemente claro”. Ela vira alguém no sonho, mas não sabia se era seu
marido ou seu pai. Seguiu-se então um segundo fragmento de sonho em que aparecia uma lata de
lixo [Misttügerl], e isso deu origem à seguinte recordação: quando montara residência pela primeira
vez, ela um dia comentara em tom de brincadeira, na presença de um jovem parente que estava
visitando a casa, que sua tarefa seguinte seria adquirir uma nova lata de lixo. Na manhã do outro
dia, chegou-lhe uma dessas latas, mas estava cheia de lírios-do-vale. Esse fragmento do sonho
servira para representar uma expressão coloquial [alemã]: “não criado com meu próprio esterco”.
Concluída a análise, constatou-se que os pensamentos oníricos estavam relacionados com os
efeitos secundários de uma história que a sonhadora ouvira quando jovem, a respeito de como
uma moça tivera um bebê e não se sabia com clareza quem erarealmente o pai. Aqui, portanto, a
representação onírica transbordara para os pensamentos de vigília: um dos elementos dos
pensamentos oníricos encontrou representação num julgamento de vigília formulado sobre o sonho
como um todo.
II
Aqui temos um caso semelhante. Um de meus pacientes teve um sonho que lhe pareceu
interessante, porque, imediatamente após acordar, ele disse a si mesmo: “Preciso contar isso ao
médico”. O sonho foi analisado e produziu as mais claras alusões a um caso amoroso que ele
havia iniciado durante o tratamento e sobre o qual decidira não me dizer nada.
III
Eis um terceiro exemplo, de minha própria experiência. Estava indo para o hospital com
P. por um bairro em que havia casas e jardins. Ao mesmo tempo, tinha a noção de que já vira esse
bairro muitas vezes em sonhos. Não sabia orientar-me muito bem por ali. Ele me indicou uma
estrada que levava, dobrando a esquina, a um restaurante (fechado, não um jardim). Lá, perguntei
pela Sra. Doni e fui informado de que ela morava num quartinho dos fundos com três filhos. Dirigime
para lá, mas, antes de chegar, encontrei uma figura indistinta com minhas duas filhinhas; leveias
comigo depois de ter ficado com elas um pouquinho. Uma espécie de recriminação contra
minha mulher por havê-las deixado lá.
Quando acordei, tive um sentimento de grande satisfação, cuja razão expliquei a mim
mesmo como sendo que eu iria descobrir, a partir dessa análise, o significado do “Já sonhei com
isso antes”. De fato, porém, a análise não me ensinou nada sobre isso; o que me revelou foi que a
satisfaçãopertencia ao conteúdo latente do sonho e não a qualquer juízo emitido sobre ele. Minha
satisfação prendia-se ao fato de meu casamento haver-me trazido filhos. P. era uma pessoa cujo
rumo na vida correra por algum tempo paralelo ao meu, que depois me deixara para trás tanto
social quanto materialmente, mas cujo casamento não trouxera filhos. Os dois acontecimentos que
ocasionaram o sonho servirão, em vez de uma análise completa, para indicar seu sentido. Na
véspera, eu havia lido num jornal o anúncio da morte da Sra. Dona A---y (que transformei em
“Doni” no sonho), que morrera de parto. Minha mulher me disse que a falecida fora atendida pela
mesma parteira que a assistira no nascimento de nossos dois filhos mais novos. O nome ‘’Dona’’
me chamara a atenção porque eu o tinha encontrado pela primeira vez pouco antes, num romance
inglês. A segunda ocasião do sonho foi fornecida pela data em que ocorreu. Foi na noite anterior
ao aniversário de meu filho mais velho - que parece possuir alguns dotes poéticos.
IV
Experimentei o mesmo sentimento de satisfação ao acordar do sonho absurdo de meu
pai haver desempenhado um papel político entre os magiares após sua morte, e a razão que dei a
mim mesmo para esse sentimento foi que ele era uma continuação do sentimento que
acompanhara a última parte do sonho. [Ver em [1].] Lembrei-me de como ele se parecera com
Garibaldi em seu leito de morte, e fiquei contente de que aquilo se tivesse realizado… (Havia uma
continuação que eu tinha esquecido). A análise permitiu-me preencher essa lacuna no sonho. Era
uma menção a meu segundo filho, a quem eu dera o prenome de uma grande figura histórica
[Cromwell] que me atraíra intensamente na juventude, especialmente depois de minha visita à
Inglaterra. Durante o ano que antecedeu o nascimento desse filho, eu havia decidido usar esse
nome, caso fosse um menino, e com ele saudei o recém-nascido, com um sentimento de extrema
satisfação. (É fácil perceber como a megalomania suprimida dos pais se transfere, em seus
pensamentos, para os filhos, e parece bastante provável que esta seja uma das maneiras pela qual
a supressão desse sentimento, que se faz necessária na vida real, é efetivada.) O direito do
menino de aparecer no contexto desse sonho decorreu do fato de que ele acabara de ter a mesma
infelicidade - facilmente perdoável tanto numa criança quanto num moribundo - de sujar as roupas
de cama. Compare-se, em relação a isso, Stuhlrichter [“juiz-presidente”, literalmente “juiz de
cadeira” ou “de fezes”] e o desejo expresso no sonho de se erguer ante os olhos dos filhos grande
e imaculado. [Ver adiante em [1].]
V
Passo agora a considerar as expressões de juízo emitidas no próprio sonho, mas não
continuadas na vida de vigília ou transpostas para ela. Na busca de exemplos delas, minha tarefa
será grandemente auxiliada se eu puder fazer uso de sonhos que já registrei com outros objetivos
em vista. O sonho do ataque de Goethe ao Sr. M. [em [1]] parece conter um grande número de
atos de juízo. “Tentei esclarecer um pouco os dados cronológicos, que me pareciam improváveis.”
Isto tem toda a aparência de ser uma crítica à idéia absurda de que Goethe pudesse ter feito um
ataque literário a um jovem de minhas relações. “Pareceu-me uma noção plausível que tivesse
dezoito anos.” Também isso soa exatamente como o resultado de um cálculo, embora, é verdade,
um cálculo idiota. Por fim, “eu não tinha muita certeza, porém, do ano em que escrevíamos” parece
ser um exemplo de incerteza ou dúvida num sonho.
Desse modo, todos esses pareciam ser atos de julgamento feitos pela primeira vez no
sonho. Mas a análise mostrou que seu enunciado pode ser tomado de outra maneira, à luz da qual
eles se tornam indispensáveis para a interpretação do sonho, enquanto, ao mesmo tempo, todo e
qualquer vestígio de absurdo é eliminado. A frase “Tentei esclarecer um pouco os dados
cronológicos” colocou-me no lugar de meu amigo [Fliess], que estava realmente procurando lançar
luz sobre os dados cronológicos da vida. Isso retira da frase sua importância como um juízo que
protestasse contra o absurdo das frases anteriores. A oração intercalada, “que me pareceram
improváveis”, era da mesma categoria que a subseqüente, ‘’Pareceu-me uma noção plausível”. Eu
tinha usado quase exatamente essas palavras com a senhora que me contara o caso clínico de
seu irmão: “Parece-me uma noção improvável que seus gritos de ‘Natureza! Natureza!’ tenham tido
algo que ver com Goethe; parece-me muito mais plausível que essas palavras tenham tido o
sentido sexual com que a senhora está familiarizada”. É verdade que aqui se emitiu um julgamento
- não no sonho, porém, mas na realidade, e numa ocasião que foi relembrada e explorada pelos
pensamentos oníricos. O conteúdo do sonho apropriou-se desse juízo exatamente como de
qualquer outro fragmento dos pensamentos oníricos. O número “18”, ao qual o juízo do sonho
estava absurdamente ligado, preserva um vestígio do contexto real do qual o juízo foi extraído. Por
fim, “Eu não tinha muita certeza, porém, do ano em que escrevíamos” destinou-se simplesmente a
levar mais longe minha identificação com o paciente paralítico, em cujo exame, feito por mim, esse
aspecto fora realmente levantado.
A solução do que constitui na aparência atos de julgamento nos sonhos pode servir para
nos lembrar as regras estabelecidas no início deste livro [em [1]] para se executar o trabalho de
interpretação: a saber, que devemos desprezar a aparente coerência entre os componentes do
sonho como uma ilusão não essencial, e que devemos rastrear a origem de cada um de seus
elementos independentemente. O sonho é um conglomerado que, para fins de investigação, deve
ser novamente decomposto em fragmentos. [Ver em [1].] Por outro lado, contudo, é preciso
observar que está em ação nos sonhos uma força psíquica que cria essa concatenação aparente,
ou seja, que submete o material produzido pelo trabalho do sonho a uma “elaboração secundária”.
Isso nos coloca frente a frente com as manifestações de uma força cuja importância avaliaremos
posteriormente [em [1]], como o quarto dos fatores que participam da construção dos sonhos.
VI
Aqui temos mais um exemplo de um processo de julgamento operando num sonho que
já registrei. No sonho absurdo da comunicação proveniente da câmara municipal [em [1]],
perguntei: “Você se casou logo depois disso? Calculei que, naturalmente, eu nascera em 1856,
que parecia ser o ano imediatamente seguinte ao ano em questão”. Tudo isso estava revestido da
forma de um conjunto de conclusões lógicas. Meu pai se casara em 1851, imediatamente após seu
ataque; eu, é claro, era o mais velho da família e nascera em 1856; Q.E.D. Como sabemos, essa
falsa conclusão foi tirada a bem da realização de desejo, e o pensamento onírico predominante
dizia: “Quatro ou cinco anos não são nada; isso não conta”. Todos os passos desse conjunto de
conclusões lógicas, por mais semelhantes que sejam em seu conteúdo e forma, poderiam ser
explicados de outra maneira como determinados pelos pensamentos oníricos. Era o paciente, cuja
longa análise meu colega criticara, que decidira casar-se imediatamente após o término do
tratamento. A forma de minha conversa com meu pai no sonho se parecia com um interrogatório
ou um exame e relembrou-me também um professor da Universidade que costumava anotar
pormenores exaustivos dos estudantes que se inscreviam para suas aulas: “Data de nascimento?”
- “1856” - “Patre?” Em resposta a isto, dava-se o primeiro nome do pai com uma terminação latina
e nós, os estudantes, presumíamos que o Hofrat tirava do prenome do pai conclusões que nem
sempre podiam ser tiradas do nome do próprio aluno. Assim, tirar uma conclusão no sonho não
passava de umarepetição do tirar conclusões que aparecia como um fragmento do material dos
pensamentos oníricos. Algo de novo emerge disto. Quando aparece uma conclusão no conteúdo
do sonho, não há dúvida de que ela decorre dos pensamentos oníricos, mas pode estar presente
nestes como um fragmento de material relembrado ou pode reunir uma série de pensamentos
oníricos numa cadeia lógica. De qualquer modo, porém, uma conclusão no sonho representa uma
conclusão nos pensamentos oníricos.
Neste ponto, podemos reiniciar nossa análise do sonho. O interrogatório do professor
levou a uma lembrança do registro dos Estudantes Universitários (que, no meu tempo, era redigido
em latim). Levou ainda a reflexões sobre o curso de meus estudos acadêmicos. Também os cinco
anos prescritos para os estudos médicos foram muito pouco para mim. Prossegui em meu
trabalho, imperturbável, por vários anos mais e, em meu círculo de relações, era encarado como
malandro e duvidavam que algum dia eu o concluiria. Então me decidi rapidamente a fazer meus
exames e passei a despeito do atraso. Aqui estava um novo reforço dos pensamentos oníricos
com que eu confrontava meus críticos desafiadoramente: “Ainda que vocês não o acreditem, por
eu não me haver apressado, eu vou conseguir, vou levar meus estudos médicos a uma conclusão.
As coisas já aconteceram assim muitas vezes”.
Esse mesmo sonho, em seu trecho inicial, continha algumas frases às quais dificilmente
se poderia recusar o nome de argumentação. Essa argumentação nem ao menos era absurda e
bem poderia ter-me ocorrido no pensamento de vigília: Achei engraçada, no sonho, a comunicação
da câmara municipal, uma vez que, em primeiro lugar, eu ainda não viera ao mundo em 1851 e,
em segundo, meu pai, com quem isso poderia estar relacionado, já estava morto. Ambas essas
afirmações eram não apenas corretas em si mesmas, mas concordavam precisamente com os
argumentos reais que eu apresentaria se realmente recebesse uma comunicação desse tipo.
Minha análise anterior do sonho mostrou que ele brotara de pensamentos oníricos profundamente
amargos e derrisórios (ver em [1]). Se pudermos também presumir que havia fortes razões para a
atividade da censura, compreenderemos que o trabalho do sonho tinha todos os motivos para
produzir uma refutação perfeitamente válidade uma sugestão absurda, seguindo o modelo contido
nos pensamentos oníricos. A análise mostrou, no entanto, que o trabalho do sonho não tivera
liberdade de ação para estabelecer esse paralelo, mas fora obrigado, para esse fim, a utilizar
material oriundo dos pensamentos oníricos. Era exatamente como se houvesse uma equação
algébrica, contendo (além de algarismos) sinais de soma e de subtração, índices e radicais, e
como se alguém tivesse de copiá-la sem entendê-la, passando tanto os símbolos operacionais
quanto os algarismos para sua cópia, mas misturando-os todos. Os dois argumentos [no conteúdo
do sonho] puderam ter sua origem traçada até o seguinte material: era-me aflitivo pensar que
algumas das premissas subjacentes e minhas explicações psicológicas das psiconeuroses
estavam fadadas a despertar ceticismo e riso quando encontradas pela primeira vez. Por exemplo,
eu fora levado a supor que as impressões do segundo ano de vida e, por vezes, até mesmo o
primeiro, deixavam um traço duradouro na vida emocional daqueles que mais tarde iriam adoecer,
e que essas impressões - embora distorcidas e exageradas em muitos aspectos pela memória -
poderiam constituir o primeiro e mais profundo fundamento dos sintomas histéricos. Os pacientes,
a quem eu explicava isso em algum momento apropriado, costumavam parodiar esse
conhecimento recém-adquirido, declarando que estavam prontos a buscar lembranças datadas de
uma época em que ainda não tinham nascido. Era perfeitamente esperável que minha descoberta
do inesperado papel desempenhado pelo pai nos primeiros impulsos sexuais das pacientes
deparasse com uma recepção semelhante (ver a discussão em [1]). Não obstante, eu tinha a sólida
convicção de que essas duas hipóteses eram verdadeiras. À guisa de confirmação, lembrei-me de
alguns exemplos em que a morte do pai ocorrera quando a criança ainda estava em idade muito
tenra, e nos quais certos acontecimentos posteriores, doutra maneira inexplicáveis, provavam que
a criança, ainda assim, havia preservado, inconscientemente, lembranças da figura que tão cedo
desaparecera de sua vida. Eu estava ciente de que essas minhas duas asserções repousavam na
extração de conclusões cuja validade seria contestada. Assim, foi uma vitória da realização de
desejo que precisamente o material das conclusões que eu temia serem contestadas fosse
empregado pelo trabalho do sonho para tirar conclusões que era impossível contestar.
VII
No início de um sonho em que mal toquei até agora [ver em [1]], havia uma clara
expressão de assombro ante o tema que havia emergido. O velho Brücke devia ter-me atribuído
alguma tarefa; ESTRANHAMENTE, relacionava-se com a dissecação da parte inferior de meu
próprio corpo, minha pélvis e minhas pernas, que eu via diante de mim como se estivesse na sala
de dissecação, mas sem notar sua ausência em mim mesmo e também sem nenhum traço de
qualquer sentimento de horror. Louise N. estava de pé a meu lado e fazendo o trabalho comigo. A
pélvis tinha sido esvicerada e era visível ora em seu aspecto superior, ora no inferior, estando os
dois misturados. Podiam-se ver espessas protuberâncias cor de carne (que, no próprio sonho,
fizeram-me pensar em hemorróidas). Algo que estava em cima disso e que se assemelhava a
papel prateado amassado também teve de ser cuidadosamente retirado. Depois, eu estava
novamente de posse de minhas pernas, andando pela cidade. Mas (por estar cansado) apanhei
um táxi. Para meu espanto, o táxi entrou pela porta de uma casa que se abriu e o deixou passar
por um corredor que dobrava uma esquina no final e, por fim, levava de novo ao ar livre.
Finalmente, eu estava excursionando numa paisagem mutável com um guia alpino que carregava
meus pertences. Parte do caminho ele me carregou também, por consideração por minhas pernas
cansadas. O terreno era pantanoso e andávamos pela beirada; havia pessoas sentadas no chão
como peles-vermelhas ou ciganos - entre elas, uma moça. Antes disso, eu estivera avançando
sobre o terreno escorregadio com uma constante sensação de surpresa por poder fazê-lo tão bem
após a dissecação. Por fim, chegamos a uma casinha de madeira em cuja extremidade havia uma
janela aberta. Lá, o guia me colocou no chão e pôs duas tábuas de madeira, que já estavam
preparadas sobre o peitoril da janela, de modo a fazer uma ponte sobre o abismo que tinha de ser
cruzado a partir da janela. Nesse ponto, fiquei realmente amedrontado por causa de minhas
pernas, mas, em vez da esperada travessia, vi dois homens adultos deitados em bancos de
madeira que ficavam junto às paredes da cabana e o que pareciam ser duas crianças dormindo ao
lado deles. Era como se o que iria possibilitar a travessia não fossem as tábuas, mas as crianças.
Acordei sobressaltado.
Quem quer que já tenha feito até mesmo a menor idéia da extensão da condensação
nos sonhos facilmente imaginará o número de páginas que seria preenchido por uma análise
integral desse sonho. Felizmente, contudo, nopresente contexto, só preciso tomar um ponto dele,
que fornece um exemplo de assombro nos sonhos, como exibido pela interpolação
“estranhamente”. Fora este o pretexto do sonho: Louise N., a dama que me assistia em meu
trabalho no sonho, andara me visitando. “Empreste-me alguma coisa para ler”, dissera. Ofereci-lhe
She [Ela], de Rider Haggard. “Um livro estranho, mas repleto de um sentido oculto”, comecei a
explicar-lhe; “o eterno feminino, a imortalidade de nossas emoções…” Nesse ponto, ela me
interrompeu. “Já o conheço. Não tem nada de sua própria autoria?” - “Não, minhas próprias obras
imortais ainda não foram escritas.” - “Bem, e quando é que podemos esperar por essas suas
chamadas explicações últimas, que você prometeu que até nós acharíamos legíveis”, perguntou
ela, com uma ponta de sarcasmo. Nesse ponto, percebi que alguém mais me estava admoestando
por sua boca e silenciei. Refleti sobre a dose de autodisciplina que me estava custando oferecer ao
público até mesmo meu livro sobre sonhos - onde eu teria de revelar tanto do meu próprio caráter.
Das Best was du wissen kannst.
Darfst du den Buben doch nicht sagen.
A tarefa que me fora imposta no sonho, de fazer a dissecação de meu próprio corpo, era,
portanto, minha auto-análise, que estava ligada a meu fornecimento de uma explicação de meus
sonhos. Era apropriado que o velho Brücke entrasse aqui; já nos primeiros anos de meu trabalho
científico, ocorreu-me deixar pendente uma descoberta minha, até que uma enérgica repreensão
dele me forçou a publicá-la. Os outros pensamentos iniciados por minha conversa com Louise N.
eram profundos demais para se tornarem conscientes. Desviaram-se na direção do material que
fora evocado em mim pela menção de She, de Rider Haggard. O juízo “estranhamente” remontava
a esse livro e a outro, Heart of the World [O Coração do Mundo], do mesmo autor; e numerosos
elementos do sonho derivavam-se desses dois romances imaginativos. O terreno pantanoso pelo
qual as pessoas tinham de ser carregadas e o abismo que tinham de atravessar por meio de
tábuas trazidas por elas foram retirados de She; os peles-vermelhas, a moça e a casa de madeira,
de Heart of the World. Em ambos os romances, o guia é uma mulher;ambos versam sobre viagens
perigosas, enquanto She descreve uma estrada cheia de riscos e quase nunca trilhada, que leva a
uma região ainda não descoberta. A sensação de cansaço em minhas pernas, segundo uma
anotação que descobri ter feito sobre o sonho, fora uma sensação real durante o dia.
Provavelmente combinava com um estado de ânimo abatido e com uma reflexão dubitativa: “Por
quanto tempo minhas pernas me carregarão?” O final da aventura em She é que a guia, em vez de
descobrir a imortalidade para si própria e para os outros, perece no misterioso fogo subterrâneo.
Um temor desse tipo estava inequivocamente em ação nos pensamentos oníricos. A “casa de
madeira” era também, sem dúvida, um ataúde, ou seja, a sepultura. Mas o trabalho do sonho
realizou uma obra-prima em sua representação desse mais indesejado de todos os pensamentos,
através de uma realização de desejo. É que eu já estivera numa sepultura antes, mas era uma
sepultura etrusca desenterrada perto de Orvieto, uma câmara estreita com dois bancos de pedra
ao longo das paredes, onde jaziam os esqueletos de dois homens adultos. O interior da casa de
madeira no sonho tinha a aparência exata dela, só que a pedra fora substituída por madeira. O
sonho parece ter dito: “Se tens de descansar numa sepultura, que seja uma sepultura etrusca”. E,
efetuando essa substituição, ele transformou a mais lúgubre das expectativas numa que era
altamente desejável. Infelizmente, como em breve saberemos [em [1]], o sonho pode transformar
em seu oposto a representação que acompanha um afeto, mas nem sempre o próprio afeto. Por
conseguinte, acordei “sobressaltado”, mesmo depois de ter emergido com êxito a idéia de que os
filhos talvez possam realizar o que o pai não conseguiu - uma nova alusão ao estranho romance
em que a identidade de uma pessoa é preservada através de uma série de gerações por mais de
dois mil anos. [1]
VIII
Incluída em outro de meus sonhos houve uma expressão de surpresa ante algo que eu
experimentara nele, mas a surpresa foi acompanhada por uma tentativa tão notável, rebuscada e
quase brilhante de explicação que, nem que seja apenas por ela, não posso resistir a submeter o
sonho inteiroà análise, independentemente de ele possuir dois outros pontos que despertam nosso
interesse. Eu estava viajando pela linha ferroviária Südbahn na noite de 18 para 19 de julho, e,
enquanto dormia, escutei a chamada: “Hollthurn, dez minutos”. Pensei imediatamente em
holotúrias [lesmas-do-mar] - num museu de história natural - que este fora o lugar em que homens
valentes haviam lutado em vão contra o poder superior do governante de seu país - sim, a Contra-
Reforma na Áustria - era como se fosse um lugar na Estíria ou no Tirol. Vi então indistintamente
um pequeno museu em que as relíquias ou pertences desses homens eram preservados. Eu
gostaria de sair, mas hesitei em fazê-lo. Havia mulheres com frutas na plataforma. Estavam
acocoradas no chão e erguiam seus cestos convidativamente. - Hesitei porque não tinha certeza
de que haveria tempo, mas ainda não estávamos em movimento. - De repente, eu estava em outro
compartimento, onde os estofamentos e os assentos eram tão estreitos que as costas ficavam
diretamente pressionadas contra o fundo do vagão. Fiquei surpreso com isso, mas refleti que
PODERIA TER TROCADO DE VAGÃO ENQUANTO ME ACHAVA EM ESTADO DE SONO. Havia
diversas pessoas, inclusive um irmão e irmã ingleses; uma fileira de livros era claramente visível
sobre uma prateleira na parede. Vi “The Wealth of Nations” [A Riqueza das Nações] e “Matter and
Motion” [Matéria e Movimento], de Clerk Maxwell, um volume grosso e encadernado em tecido
marrom. O homem perguntou a sua irmã por um livro de Schiller, se ela o havia esquecido. Era
como se os livros fossem ora meus, ora deles. Nesse ponto, senti-me inclinado a intervir na
conversa num sentido confirmatório ou consubstanciador… Acordei transpirando por todo o corpo,
pois todas as janelas estavam fechadas. O trem estava parado em Marburg [na Estíria].
Enquanto estava anotando o sonho, ocorreu-me um novo fragmento dele, que minha
memória havia tentado omitir. Disse [em inglês] ao irmão e à irmã, referindo-me a determinada
obra: “It is from…”, mas me corrigi: “It is by…” “Sim”, comentou o homem com a irmã, “ele disse
isso corretamente.’’
O sonho começava pelo nome da estação, que devia sem dúvida ter-me acordado
parcialmente. Substituí seu nome, Marburg, por Hollturn. O fato de eu ter ouvido “Marburg” quando
anunciado pela primeira vez, ou talvez depois, foi comprovado pela menção a Schiller no sonho,
pois ele nascera em Marburg, embora não na Marburg da Estíria. Embora viajasse na primeira
classe, eu estava nessa ocasião fazendo minha viagem em condições muito desconfortáveis. O
trem estava inteiramente lotado e, em meu compartimento, eu encontrara uma dama e um
cavalheiro que pareciam muito aristocráticos e não tiveram a civilidade ou não acharam que
valesse a pena disfarçar sua contrariedade por minha intrusão. Minha saudação polida não teve
resposta. Embora o homem e sua mulher estivessem sentados lado a lado (de costas para a
locomotiva), a mulher, não obstante, apressou-se, bem diante dos meus olhos, a ocupar o assento
da janela em frente a ela, colocando nele um guarda-chuva. A porta foi imediatamente fechada e
algumas observações mordazes foram trocadas entre eles sobre a questão da abertura das
janelas. Provavelmente, perceberam de imediato que eu ansiava por ar fresco. Era uma noite
quente e a atmosfera no compartimento completamente fechado logo se tornou sufocante. Minhas
experiências de viagem ensinaram-me que esse tipo de conduta desumana e despótica é
característica de pessoas que estão viajando com passagens grátis ou meias-passagens. Quando
veio o condutor e lhe mostrei a passagem que havia comprado por um alto preço, saíram da boca
da dama, em tom altaneiro e quase ameaçador, as palavras: “Meu marido tem passe livre”. Ela era
uma figura imponente de traços insatisfeitos, cuja idade não estava longe da fase da decadência
da beleza feminina; o homem não proferiu uma só palavra, mas permaneceu sentado e imóvel.
Tentei dormir. Em meu sonho, vinguei-me terrivelmente de meus desagradáveis companheiros;
ninguém poderia suspeitar dos insultos e humilhações que se ocultavam por trás dos fragmentos
esparsos da primeira metade do sonho. Uma vez satisfeita essa necessidade, um segundo desejo
se fez sentir - mudar de compartimento. A cena se modifica com tanta freqüência nos sonhos, e
sem que a menor objeção seja levantada, que não seria nada surpreendente que eu tivesse
prontamente substituído meus companheiros de viagem por outros mais agradáveis, extraídos de
minha memória. Mas ali estava um caso em que algo se ressentiu da mudança de cena e achou
necessário explicá-la. Como e que, subitamente, fui ter noutro compartimento? Não tinha
lembrança de ter-me mudado. Só podia haver uma explicação: devo ter deixado o vagão enquanto
me achava em estado de sono - um acontecimento raro, mas do qual se encontram exemplos na
experiência de um neuropatologista. Sabemos de pessoas que empreenderam viagens de trem
num estado crepuscular, sem trair sua condição anormal por sinal algum, até que, em algum ponto
da jornada, de repente voltaram a si completamente e ficaram atônitas diante da lacuna em sua
memória. No próprio sonho, por conseguinte, eu me estava declarando um desses casos de
“automatisme ambulatoire”.
A análise tornou possível encontrar outra solução. A tentativa de explicação, que
pareceu tão excepcional quando fui obrigado a atribuí-la ao trabalho do sonho, não fora uma
tentativa original de minha própria autoria, mas copiada da neurose de um de meus pacientes. Já
em outro ponto [em [1]] falei sobre um homem extremamente culto e, na vida real, de coração
bondoso, que, pouco depois da morte dos pais, começou a censurar-se por ter inclinações
homicidas, e a seguir caiu vítima das medidas de cautela que foi obrigado a adotar como
salvaguarda. Era um caso de obsessões graves, acompanhadas de completo discernimento. A
princípio, andar pelas ruas tornou-se um fardo para ele, pela compulsão a certificar-se de por onde
desaparecera toda e qualquer pessoa com quem tivesse deparado; se alguém de repente
escapava a seu olhar vigilante, ficavam-lhe a sensação aflitiva e a idéia de que talvez o tivesse
eliminado. O que estava por trás disso era, entre outras coisas, uma fantasia de “Caim” - porque
“todos os homens são irmãos”. Devido à impossibilidade de realizar essa tarefa, ele desistiu das
caminhadas e passava a vida encarcerado entre quatro paredes. Mas as notícias de assassinatos
cometidos lá fora eram constantemente levadas a seu quarto pelos jornais, e sua consciência lhe
sugeria, sob a forma de uma dúvida, que talvez ele fosse o assassino procurado. A certeza de
realmente não ter abandonado sua casa durante semanas protegeu-o dessas acusações por
algum tempo, até que um dia veio-lhe à cabeça a possibilidade de que talvez tivesse deixado a
casa enquanto se achava em estado inconsciente e, desse modo, podido cometer o assassinato
sem saber nada arespeito. Dessa ocasião em diante, trancou a porta da frente da casa e entregou
a chave à sua velha governanta, com instruções estritas para nunca deixá-la cair em suas mãos,
mesmo que ele a pedisse.
Essa, portanto, foi a origem de minha tentativa de explicação no sentido de ter trocado
de vagões enquanto me achava em estado inconsciente; fora transposta para o sonho, prontinha,
do material dos pensamentos oníricos, e estava obviamente destinada, no sonho, a servir ao
propósito de me identificar com a figura desse paciente. Minha lembrança dele fora despertada por
uma associação fácil. Minha última viagem noturna, algumas semanas antes, fora feita na
companhia desse mesmo homem. Ele estava curado e viajava comigo para as províncias e para
visitar parentes seus, que me haviam mandado chamar. Tínhamos um compartimento para nós;
deixamos todas as janelas abertas a noite inteira e passamos um tempo muito agradável enquanto
permaneci acordado. Eu sabia que a raiz de sua doença tinham sido os impulsos hostis contra seu
pai, que datavam da infância e envolviam uma situação sexual. Assim, na medida em que me
identificava com ele, eu estava procurando confessar alguma coisa análoga. E, de fato, a segunda
cena do sonho terminou numa fantasia um tanto extravagante de que meus dois idosos
companheiros de viagem me haviam tratado de maneira tão insociável porque minha chegada
impedira o intercâmbio afetuoso que haviam planejado para aquela noite. Essa fantasia remontava,
contudo, a uma cena da primeira infância em que o filho, provavelmente movido pela curiosidade
sexual, irrompera no dormitório dos pais e dele fora expulso pelas ordens do pai.
É desnecessário, penso eu, acumular outros exemplos. Simplesmente serviriam para
confirmar o que depreendemos dos que já citei - que um ato de julgamento num sonho é apenas
uma repetição de algum protótipo nos pensamentos oníricos. Em regra geral, a repetição é mal
aplicada e interpolada num contexto inapropriado, mas, ocasionalmente, como em nossos últimos
exemplos, é empregada com tal habilidade que, de início, pode dar a impressão de uma atividade
intelectual independente no sonho. A partir deste ponto, podemos voltar nossa atenção para a
atividade psíquica que, embora não pareça acompanhar invariavelmente a construção dos sonhos,
ainda assim, sempre que o faz, empenha-se em fundir os elementos de um sonho que sejam de
origem díspar num todo que faça sentido e esteja isento de contradições. Antes de abordarmos
esse assunto, porém, temos a premente necessidade de considerar as expressões de afeto que
ocorrem nos sonhos e compará-las com os afetos que a análise revela nos pensamentos oníricos.
(H) OS AFETOS NOS SONHOS
Uma observação aguda de Stricker [1879, 51] despertou nossa atenção para o fato de
que a expressão do afeto nos sonhos não pode ser tratada da mesma forma depreciativa com que,
depois de acordar, estamos acostumados a descartar seu conteúdo. “Se temo ladrões num sonho,
os ladrões, é certo, são imaginários - mas o temor é real.” [Ver em [1].] E isso se aplica igualmente
quando me sinto alegre num sonho. Nosso sentimento nos diz que um afeto experimentado num
sonho não é de modo algum inferior a outro de igual intensidade sentido na vida de vigília; e os
sonhos insistem com maior energia em seu direito de serem incluídos entre nossas experiências
anímicas reais no tocante a sua parte afetiva do que em relação a seu conteúdo de
representações. Em nosso estado de vigília, contudo, não podemos de fato incluí-los dessa
maneira, pois não podemos fazer nenhuma avaliação psíquica de um afeto a menos que ele esteja
vinculado a algum material de representações. Quando o afeto e a idéia são incompatíveis em seu
caráter e intensidade, nosso juízo de vigília fica desorientado.
Tem sido sempre motivo de surpresa que, nos sonhos, o conteúdo de representações
não se faça acompanhar pelas conseqüências afetivas que consideraríamos inevitáveis no
pensamento de vigília. Strümpell [1877, 27 e segs.] declarou que, nos sonhos, as representações
ficam despidas de seus valores psíquicos [ver em [1]]. Mas não faltam, nos sonhos, exemplos de
natureza contrária, onde uma intensa expressão de afeto aparece ligada a um tema que não
parece dar margem a qualquer expressão dessa ordem. Num sonho, posso estar numa situação
horrível, perigosa e repulsiva sem sentir nenhum medo ou repulsa, ao passo que noutra ocasião,
pelo contrário, posso ficar apavorado ante algo inofensivo e encantado com alguma coisa pueril.
Esse enigma específico da vida onírica desaparece, talvez mais repentina e
completamente do que qualquer outro, tão logo passamos do conteúdo manifesto para o conteúdo
latente do sonho. Já não precisamos incomodar-nos com o enigma, visto que ele não mais existe.
A análise nos mostra que o material de representações passou por deslocamentos e substituições,
ao passo que os afetos permaneceram inalterados. Não é de admirar que o material de
representações que foi modificado pela distorção onírica, já não seja compatível com o afeto, que é
retido sem modificação; tampouco resta qualquer coisa que cause surpresa depois que a análise
recoloca o material certo em sua posição anterior.
No caso de um complexo psíquico que tenha ficado sob a influência da censura imposta
pela resistência, os afetos são o componente menos influenciado e o único que nos pode dar um
indício de como preencher os pensamentos que faltam. Isso é observado ainda mais claramente
nas psiconeuroses do que nos sonhos. Seus afetos são sempre apropriados, ao menos em sua
qualidade, embora devamos descontar um aumento de sua intensidade devido a deslocamentos
da atenção neurótica. Quando um histérico fica surpreso por ter-se assustado com algo banal ou
quando um homem que sofre de obsessões fica surpreso ante as auto-recriminações tão aflitivas
que decorrem de um nada, ambos se equivocam, pois consideram o conteúdo de representações -
a banalidade ou o nada - como sendo o essencial; e travam uma luta inglória, por tomarem esse
conteúdo de representações como o ponto de partida de sua atividade de pensamento. A
psicanálise pode colocá-los na trilha certa ao reconhecer o afeto como sendo, pelo contrário,
justificado, e ao procurar a representação que corresponde a ele, mas que foi recalcada e trocada
por um substituto. Uma premissa necessária a tudo isso é que a descarga de afeto e o conteúdo
de representações não constituem uma unidade orgânica indissolúvel como a que estamos
habituados a atribuir-lhes, mas que essas duas entidades separadas podem estar meramente
soldadas e, desse modo, podem ser desligadas uma da outra pela análise. A interpretação dos
sonhos mostra que é esse efetivamente o caso.
Começarei por apresentar um exemplo em que a análise explicou a aparente ausência
de afeto num caso em que o conteúdo de representações teria exigido sua liberação.
I
Ela viu três leões num deserto, um dos quais estava rindo; mas não sentiu medo deles.
Depois, contudo, deve ter fugido deles, porque estava tentando subir numa árvore; mas descobriu
que sua prima, que era professora de francês, já estava lá em cima, etc.
A análise trouxe à tona o seguinte material. A causa precipitante indiferente do sonho foi
uma frase de sua composição de inglês: “A juba é o adorno do leão”. Seu pai usava uma barba que
lhe emoldurava o rosto como uma juba. Sua professora de inglês chamava-se Srta. Lyons. Um
conhecido lhe enviara as baladas de Loewe [a palavra alemã para “leão”]. Esses, portanto, eram os
três leões; por que deveria ela temê-los? Ela lera uma história em que um negro, que havia
incitado seus companheiros à revolta, era caçado com cães e subia numa árvore para se salvar. A
sonhadora passou então, com extremo bom humor, a apresentar diversas lembranças
fragmentadas, tais como o conselho de como apanhar leões extraído do Fliegend Blätter: “Pegue
um deserto e passe-o por uma peneira, e o que sobrar serão os leões.’’ E também a anedota muito
divertida, mas não muito conveniente, do oficial a quem perguntaram por que não se esforçava
mais por cair nas boas graças do chefe de seu departamento, e que respondeu que tentara
insinuar-se, mas seu superior já estava em cima. Todo o material tornou-se inteligível quando se
descobriu que a dama recebera, no dia do sonho, a visita do superior de seu marido. Ele fora muito
cortês com ela e lhe beijara a mão, e ela não sentira o mínimo receio dele, embora fosse um
“grande figurão” [em alemão, “grosses Tier” = “grande animal”] e desempenhasse o papel de um
“leão da sociedade” na capital do país de onde ela provinha. Assim, esse leão era como o de
Sonho de uma Noite de Verão, que ocultava a figura de Snug, o marceneiro; e o mesmo se aplica
a todos os leões do sonho, que não são temidos pela sonhadora.
II
Como meu segundo exemplo, posso citar o sonho da jovem que viu o filhinho de sua
irmã morto num caixão [em [1] e [2]], mas que,posso agora acrescentar, não sentiu dor nem pesar.
Sabemos pela análise por que isso se deu. O sonho simplesmente disfarçava o desejo dela de
rever o homem por quem estava apaixonada, e seu afeto tinha de estar de acordo com o desejo, e
não com seu disfarce. Dessa maneira, não havia razão para o pesar.
Em alguns sonhos, o afeto pelo menos permanece em contato com o material de
representações que substituiu aquele a que o afeto se ligava originalmente. Noutros, a dissolução
do complexo foi mais longe. O afeto surge totalmente desligado da idéia a que corresponde e é
introduzido nalgum outro ponto do sonho, onde se ajusta à nova disposição dos elementos
oníricos. A situação é então similar à que encontramos no caso dos atos de julgamento nos sonhos
[em [1]] Quando se extrai uma conclusão importante nos pensamentos oníricos, também o sonho
contém uma; mas a conclusão no sonho pode ser deslocada para um material inteiramente
diferente. Não raro, esse deslocamento segue o princípio da antítese.
Esta última possibilidade é exemplificada no sonho seguinte, que submeti a uma análise
extremamente exaustiva.
III
Um castelo à beira-mar; depois, já não ficava imediatamente junto ao mar, mas num
estreito canal que conduzia ao mar. O Governador era um Sr. P. Eu estava parado com ele num
grande salão de recepção - com três janelas em frente às quais se erguiam cercas de rosas com a
aparência de ameias numa fortaleza. Eu estava ligado à guarnição como uma espécie de oficial de
marinha voluntário. Temíamos a chegada de vasos de guerra inimigos, pois estávamos em guerra.
O Sr. P. tencionava partir e me deu instruções sobre o que deveria ser feito se acontecesse o que
temíamos. Sua mulher inválida estava com os filhos no castelo ameaçado. Caso o bombardeio
começasse, o grande salão deveria ser evacuado. Ele respirou com dificuldade e se virou para
sair; eu o detive e lhe perguntei como iria comunicar-me com ele em caso de necessidade. Ele
acrescentou algo em resposta, mas, imediatamente, caiu morto. Sem dúvida eu lhe impusera um
esforço desnecessário com minhas perguntas. Após sua morte, que não me causou maior
impressão, fiquei pensando se sua viúva continuaria no castelo, se eu deveria comunicar a morte
dele ao Alto Comando e se deveria assumir o comando do castelo, como o seguinte na ordem
hierárquica. Estava parado à janela, observando osnavios que passavam. Eram navios mercantes
que cruzavam rapidamente as águas escuras, alguns deles com diversas chaminés e outros com
conveses abaulados (exatamente como os prédios da estação no sonho introdutório - não relatado
aqui). Então, meu irmão estava de pé a meu lado e ambos olhávamos da janela para o canal. À
visão de um navio, ficamos assustados e exclamamos: “Aí vem o navio de guerra!” Mas constatouse
que eram apenas os mesmos navios que eu já conhecia, retornando. Surgiu então um navio
pequeno, cortado ao meio de maneira cômica. Em seu convés, viam-se alguns objetos curiosos em
forma de xícara ou de caixa. Exclamamos a uma só voz: “É o navio do desjejum!”
Os movimentos rápidos dos navios, o azul profundo e escuro da água e a fumaça
castanha das chaminés - tudo se combinava para criar uma impressão tensa e sinistra.
Os locais do sonho resultaram de uma junção de diversas viagens minhas ao Adriático (a
Miramare, Duino, Veneza e Aquiléia). Uma curta mas agradável viagem de Páscoa que eu fizera a
Aquiléia com meu irmão, algumas semanas antes do sonho, ainda estava viva em minha memória.
O sonho também continha alusões à guerra naval entre os Estados Unidos e a Espanha e às
inquietações a que ela dera margem quanto ao destino de meus parentes na América. Em dois
pontos do sonho, havia afetos em questão. Em determinado ponto, um afeto que seria previsível
estava ausente: chamara-se expressamente a atenção para o fato de que a morte do Governador
não me causara nenhuma impressão. Noutro ponto, quando pensei ver o vaso de guerra, fiquei
assustado e senti todas as sensações de medo enquanto dormia. Neste sonho bem construído, os
afetos foram distribuídos de tal maneira que se evitou qualquer contradição marcante. Não havia
razão para que eu ficasse assustado com a morte do Governador e era bastante razoável que,
como Comandante do Castelo, sentisse medo à vista da belonave. A análise mostrou, porém, que
o Sr. P. era apenas um substituto para mim mesmo. (No sonho, eu era o substituto dele.) Era eu o
Governador que morria subitamente. Os pensamentos oníricos versavam sobre o futuro de minha
família após minha morte prematura. Era este o único pensamento aflitivo entre os pensamentos
oníricos, e deve ter sido dele que o medo foi desligado e vinculado, no sonho, à visão do navio de
guerra.Por outro lado, a análise revelou que a região dos pensamentos oníricos de onde foi
retirado o vaso de guerra estava repleta das mais alegres recordações. Fora um ano antes, em
Veneza, e num dia magicamente belo, estávamos à janela de nosso quarto em frente a Riva degli
Schiavoni, olhando para a lagoa azul onde, naquele dia, havia mais movimento do que de hábito.
Esperava-se por navios ingleses que teriam uma cerimônia de recepção. De repente, minha mulher
gritou, alegre como uma criança: “Aí vem o navio de guerra inglês!” No sonho, fiquei assustado
com essas mesmas palavras. (Vemos mais uma vez que os ditos no sonho decorrem de ditos na
vida real [Ver em [1]]; mostrarei em breve que o elemento “inglês” na exclamação de minha mulher
tampouco escapou ao trabalho do sonho.) Aqui, portanto, no processo de transformar os
pensamentos oníricos no conteúdo manifesto do sonho, transformei a alegria em medo, e bastame
apenas sugerir que essa transformação, ela própria, estava dando expressão a uma parte do
conteúdo onírico latente. Este exemplo prova, contudo, que o trabalho do sonho é livre para
desligar um afeto de suas conexões nos pensamentos oníricos e introduzi-lo em qualquer ponto
que escolher no sonho manifesto.
Aproveito esta oportunidade para fazer uma análise algo detalhada do “navio do
desjejum”, cujo aparecimento no sonho deu uma conclusão tão absurda a uma situação que, até
ali, mantivera-se num nível racional. Quando, posteriormente, reparei com mais exatidão nesse
objeto onírico, ocorreu-me que ele era preto e que, devido ao fato de estar cortado em sua parte
mais larga, no meio, tinha grande semelhança, nessa extremidade, com uma classe de objetos que
haviam despertado nosso interesse nos museus das cidades etruscas. Tratava-se de bandejas
retangulares de cerâmica preta, com duas alças, sobre as quais havia coisas parecidas com
xícaras de chá ou café, que não diferiam muito de um de nossos modernos aparelhos de café. Em
resposta a nossas indagações, soubemos que aquilo era o “toilette” (conjunto de toalete) de uma
dama etrusca, com recipientes para cosméticos e pó-de-arroz, e havíamos comentado, por
brincadeira, que seria uma boa idéia levar um deles conosco para a dona da casa. O objeto do
sonho, por conseguinte, significava uma “toilette” preta, isto é, um traje de luto, e fazia referência
direta a uma morte. A outra extremidade do objeto onírico fez-me lembrar dos barcos fúnebres em
que, nos tempos primitivos, os cadáveres eramcolocados e entregues ao mar como sepultura. Isso
levou ao ponto que explicava por que os barcos retornavam no sonho:
Still, auf gerettetem Boot, treibt in den Hafen der Greis.
Era o retorno após um naufrágio [“Schiffbruch”, literalmente, “quebra do navio”] - o navio
do desjejum estava quebrado ao meio. Mas qual seria a origem do nome do navio “do desjejum”?
Era aqui que entrava a palavra ‘’inglês’’, que sobrara dos navios de guerra. A palavra inglesa
‘’breakfast’’. [‘’desjejum’’] significa ‘’quebra do jejum’’. A “quebra” relacionava-se, mais uma vez,
com o naufrágio [“quebra do navio”], e o jejum estava ligado ao traje ou toilette preto.
Mas apenas o nome navio do desjejum é que foi uma nova construção do sonho. A coisa
existia e me fizera lembrar de uma das mais agradáveis partes de minha última viagem.
Desconfiando da comida que seria oferecida em Aquiléia, tínhamos levado provisões conosco de
Gorizia e comprado uma garrafa de excelente vinho ístrio em Aquiléia. E, enquanto o pequeno
vapor singrava lentamente pelo “Canale delle Mee”, atravessando a lagoa deserta até Grado, nós,
que éramos os únicos passageiros, comemos nosso desjejum no convés em excelente estado de
espírito, e raramente houve um que nos soubesse melhor. Esse, portanto, era o “navio do
desjejum”, e foi precisamente por trás dessa lembrança da mais festiva joie de vivre que o sonho
ocultou os mais sombrios pensamentos sobre um futuro desconhecido e sinistro. [1]
O desligamento entre os fatos e o material de representações que os gerou é a coisa
mais notável que lhes ocorre durante a formação dos sonhos; mas não é a única nem a mais
essencial alteração por eles sofrida no percurso dos pensamentos oníricos para o sonho manifesto.
Se compararmos os afetos dos pensamentos oníricos com os do sonho, uma coisa logo ficará
clara. Sempre que há um afeto no sonho, ele também é encontrado nos pensamentos oníricos.
Mas o inverso não é verdadeiro. O sonho é, em geral, mais pobre de afetos que o material psíquico
de cuja manipulação ele proveio. Quando reconstruo os pensamentos oníricos, habitualmente
encontro neles os maisintensos impulsos psíquicos esforçando-se por se fazerem sentir e lutando,
em geral, contra outros que lhes são nitidamente opostos. Quando, em seguida, torno a me voltar
para o sonho, não é raro ele parecer descolorido e sem qualquer tom afetivo mais intenso. O
trabalho do sonho reduziu ao nível do indiferente não apenas o conteúdo, mas, amiúde, também o
tom afetivo de meus pensamentos. Poder-se-ia dizer que o trabalho do sonho acarreta uma
supressão dos afetos. Tomemos, por exemplo, o sonho da monografia de botânica [em [1]]. Os
pensamentos a ele correspondentes consistiam num apelo apaixonadamente agitado em prol de
minha liberdade de agir como escolhesse e de dirigir minha vida como a mim, e apenas a mim,
parecesse certo. O sonho deles surgido tem um toque de indiferença: “Eu escrevera uma
monografia; ela estava diante de mim; continha pranchas coloridas; plantas secas acompanhavam
cada exemplar”. Isso faz lembrar a paz que desce sobre um campo de batalha recoberto de
cadáveres; não resta nenhum traço da luta que nele se travou.
As coisas podem ser diferentes; vívidas manifestações de afeto podem introduzir-se no
próprio sonho. Por ora, no entanto, vou deter-me no fato incontestável de que um grande número
de sonhos parece ser indiferente, ao passo que nunca é possível penetrar nos pensamentos
oníricos sem ficar profundamente emocionado.
Não se pode fornecer aqui nenhuma explicação teórica completa dessa supressão do
afeto no decorrer do trabalho do sonho. Ela precisaria ser precedida de uma investigação
extremamente minuciosa da teoria dos afetos e do mecanismo do recalcamento. [Ver em [1]].
Permitir-me-ei apenas uma referência a dois pontos. Sou compelido - por outras razões - a retratar
a liberação dos afetos como um processo centrífugo dirigido para o interior do corpo e análogo aos
processos de inervação motora e secretória. Ora, assim como, no estado de sono, o envio de
impulsos motores em direção ao mundo externo parece ficar suspenso, também é possível que a
convocação centrífuga de afetos pelo pensamento inconsciente se torne mais difícil durante o
sono. Nesse caso, os impulsos afetivos sobrevindos no decurso dos pensamentos oníricos seriam,
por sua própria natureza, impulsos fracos, e conseqüentemente, os que penetrassem no sonho
seriam não menos fracos.Segundo este ponto de vista, portanto, a “supressão do afeto” não seria,
de maneira alguma, conseqüência do trabalho do sonho, mas resultaria do estado de sono. Isso
pode ser verdade, mas não a verdade inteira. Precisamos também ter em mente que qualquer
sonho relativamente complexo mostra ser uma solução de compromisso produzida por um conflito
entre forças psíquicas. Por um lado, os pensamentos que formam o desejo são obrigados a lutar
contra a oposição de uma instância censora e, por outro, vimos com freqüência que, no próprio
pensamento inconsciente, toda cadeia de idéias está atrelada a seu oposto contraditório. Uma vez
que todas essas cadeias de idéias são passíveis de afeto, dificilmente estaremos errados, no todo,
se encararmos a supressão do afeto como uma conseqüência da inibição que esses contrários
exercem uns sobre os outros e que a censura exerce sobre as pulsões por ela suprimidas. A
inibição do afeto, por conseguinte, deve ser considerada como a segunda conseqüência da
censura dos sonhos, tal como a distorção onírica é sua primeira conseqüência.
Darei aqui como exemplo um sonho em que o colorido afetivo indiferente do conteúdo
pode ser explicado pela antítese entre os pensamentos oníricos. Trata-se de um sonho curto, que
encherá de repulsa todos os leitores.
IV
Uma colina, sobre a qual havia algo como uma privada ao ar livre: um assento muito
comprido com um grande buraco em sua extremidade. A borda traseira estava densamente
coberta de pequenos montes de fezes de todos os tamanhos e graus de frescura. Havia arbustos
por trás do assento. Urinei no assento; um longo filete de urina lavou e limpou tudo; os montes de
fezes desprenderam-se facilmente e caíram na abertura. Era como se, no final, ainda restassem
alguns.
Por que não senti repugnância durante esse sonho?
Porque, como a análise mostrou, os mais prazerosos e gratificantes pensamentos
contribuíram para promovê-lo. O que me ocorreu de imediato na análise foram as estrebarias de
Augias, limpas por Hércules. Esse Hércules era eu. A colina e os arbustos vinham de Aussee,
onde estavam meus filhos na ocasião. Eu havia descoberto a etiologia infantil das neuroses e,
assim, salvara meus próprios filhos da doença. O assento (exceto, naturalmente, pelo buraco) era
uma cópia exata de um móvel que fora presenteado por uma paciente agradecida. Desse modo,
lembrava-me do quanto meus pacientes me respeitavam. De fato, até mesmo o museu de
excremento humano podiareceber uma interpretação capaz de encher-me o coração de júbilo. Por
mais que me pudesse repugnar na realidade, ele era, no sonho, uma reminiscência das belas
terras da Itália, onde, como todos sabemos, os banheiros das cidades pequenas são equipados
exatamente dessa maneira. O jorro de urina que limpou tudo era um sinal inequívoco de grandeza.
Era assim que Gulliver havia extinguido o grande incêndio de Lilliput - embora, incidentalmente,
isso lhe tivesse granjeado o desfavor da minúscula rainha. Mas também Gargantua, o superhomem
de Rabelais, vingara-se dos parisienses do mesmo modo, sentando-se escarranchado
sobre a Notre Dame e dirigindo seu jato de urina para a cidade. Ainda na noite anterior, antes de
dormir, eu estivera folheando as ilustrações de Garnier para Rabelais. E, estranhamente, ali estava
outra prova de que era eu o super-homem. A plataforma de Notre Dame era meu recanto favorito
em Paris; todas as tardes livres, eu costumava subir as torres da igreja e por lá ficar, entre os
monstros e os demônios. O fato de todas as fezes desaparecerem tão depressa sob o jato fez-me
lembrar o lema “Afflavit et dissipati sunt”, que um dia tencionei colocar como epígrafe de um
capítulo sobre a terapia da histeria.
E agora, vamos à verdadeira causa excitante do sonho. Fora uma tarde quente de verão
e, à noite, eu havia proferido minha palestra sobre a ligação entre a histeria e as perversões, e tudo
o que tivera a dizer desagradara-me intensamente e me parecera completamente desprovido de
qualquer valor. Estava cansado e não sentia nenhum vestígio de prazer em meu difícil trabalho;
ansiava por estar longe de toda aquela escavação da sujeira humana, para poder reunir-me a
meus filhos e depois visitar as belezas da Itália. Nesse estado de espírito, fui da sala de
conferências para um café, onde fiz um modesto lanche ao ar livre, uma vez que não tinha apetite.
Um de meus ouvintes, entretanto, foi comigo e me pediu licença para sentar-se a meu lado
enquanto eu tomava meu café e me engasgava com um bolinho. Começou a lisonjear-me, dizendo
o quanto havia aprendido comigo, como agora via tudo com novos olhos e como eu havia limpado
as estrebarias augíacas dos erros e preconceitos em minha teoria das neuroses. Disse-me, em
resumo, que eu era realmente um grande homem. Meu estado de ânimo não combinava com esse
cântico de louvor; lutei contra meu sentimento de repugnância, fui para casa cedo para fugir dele e,
antes de me deitar, folheei as páginas de Rabelais e li um dos contos de Conrad Ferdinand Meyer,
“Die Leiden eines Knaben” (“Os Infortúnios de um Menino”).
Foi esse o material de que emergiu o sonho. O conto de Meyer trouxe, além disso, uma
rememoração de cenas de minha infância. (Cf. o último episódio do sonho sobre o Conde Thun [
ver em [1]]). O humor diurno de irritação e asco persistiu no sonho, na medida em que foi capaz de
suprir quase todo o material de seu conteúdo manifesto. Durante a noite, entretanto, emergiu um
estado de espírito contrário, de poderosa e até exagerada auto-afirmação, que deslocou o anterior.
O conteúdo do sonho tinha de descobrir uma forma que lhe permitisse expressar no mesmo
material tanto os delírios de inferioridade quanto a megalomania. O compromisso entre eles
produziu um conteúdo onírico ambíguo, mas também, resultou num colorido afetivo indiferente,
devido à inibição mútua desses impulsos contrários.
De acordo com a teoria da realização de desejo, esse sonho não se teria tornado
possível se a cadeia antitética de idéias megalomaníacas (que, é verdade, fora suprimida, mas
tinha um colorido prazeroso) não houvesse surgido além da sensação de nojo. Porque o que é
aflitivo não pode ser representado num sonho; nada que seja aflitivo em nossos pensamentos
oníricos consegue penetrar à força num sonho, a menos que, ao mesmo tempo, empreste um
disfarce à realização de um desejo [Ver em [1]].
Existe ainda outra maneira alternativa pela qual o trabalho do sonho pode lidar com os
afetos nos pensamentos oníricos, além de permitir-lhes passagem ou reduzi-los a nada. Ele pode
transformá-los em seu oposto. Já travamos conhecimento com a regra interpretativa segundo a
qual todo elemento de um sonho, para fins de interpretação, pode representar seu oposto com
tanta facilidade quanto a si próprio. [Ver em [1].] Nunca podemos dizer de antemão se representa
um ou outro; somente o contexto pode decidir. Uma suspeita dessa verdade evidentemente
penetrou na consciência popular: os “livros de sonhos”, com grande freqüência, adotam o princípio
dos contrários em sua interpretação dos sonhos. Essa transformação de uma coisa em seu oposto
é possibilitada pela íntima cadeia associativa que vincula a representação de uma coisa* a seu
oposto em nossos pensamentos. Como qualquer outro tipo de deslocamento, ela pode atender aos
propósitos da censura, mas é também, com freqüência, um produto da realização de desejo, pois
esta não consiste em nada além da substituição de uma coisadesagradável por seu oposto. Tal
como as representações de coisa podem aparecer nos sonhos transformadas em seu oposto, o
mesmo pode acontecer com os afetos ligados aos pensamentos oníricos; e parece provável que
essa inversão do afeto seja ocasionada, em regra geral, pela censura onírica. Na vida social que
nos proporcionou nossa analogia familiar com a censura onírica, também fazemos uso da
supressão e da inversão do afeto, principalmente para fins de dissimulação. Se estou falando com
alguém a quem sou obrigado a tratar com consideração, embora querendo dizer-lhe algo hostil, é
quase mais importante que eu oculte dele qualquer expressão de meu afeto do que abrande a
forma verbal de meus pensamentos. Se me dirigisse a ele com palavras que não fossem impolidas,
mas as fizesse acompanhar por um olhar ou gesto de ódio e desprezo, o efeito que eu produziria
nele não seria muito diferente do que se lhe lançasse em rosto meu desprezo, abertamente. Por
conseguinte, a censura me ordena, acima de tudo, a suprimir meus afetos; e, se eu for um mestre
da dissimulação, fingirei o afeto oposto - sorrirei quando estiver zangado e parecerei afetuoso
quando desejar destruir.
Já nos deparamos com um excelente exemplo desse tipo de inversão de afeto, efetuada
num sonho a serviço da censura onírica. No sonho com “meu tio da barba amarela” [em [1]], senti
extrema afeição por meu amigo R., enquanto e porque os pensamentos oníricos o chamavam de
simplório. Foi desse exemplo de inversão do afeto que derivamos nossa primeira pista da
existência de uma censura do sonho. Tampouco é necessário presumir, nesses casos, que o
trabalho do sonho crie tais afetos contrários a partir do nada; em geral, ele já os encontra à mão no
material dos pensamentos oníricos e simplesmente os intensifica com a força psíquica originária
dos motivos de defesa, até que eles possam predominar para fins de formação do sonho. No
sonho com meu tio que acabei de mencionar, o carinhoso afeto antitético provavelmente surgiu de
uma fonte infantil (como foi sugerido pela última parte do sonho), porque a relação tio-sobrinho,
devido à natureza peculiar das mais remotas experiências de minha infância (cf. análise em [1] [e
adiante, em [1]]), tornara-se a fonte de todas as minhas amizades e todos os meus ódios.
Um excelente exemplo desse tipo de inversão do afeto [1] é encontrado num sonho
registrado por Ferenczi (1916): “Um cavalheiro idoso foi acordado certa noite por sua mulher, que
ficara alarmada porque ele estava gargalhando muito alto e desenfreadamente em seu sono. Mais
tarde, ohomem relatou ter tido o seguinte sonho: Estava deitado na cama e um cavalheiro que me
era conhecido entrou no quarto; tentei acender a luz mas não pude fazê-lo: tentei de novo,
repetidas vezes, mas em vão. Aí, minha mulher saiu da cama para me ajudar, mas também não
conseguiu. No entanto, como se sentisse embaraçada diante do cavalheiro por estar ‘en negligé’
acabou desistindo e voltou para a cama. Tudo isso foi tão engraçado que não pude deixar de rir às
gargalhadas. Minha mulher perguntou: “Por que você está rindo? Por que está rindo?”, mas
apenas continuei rindo até acordar. - No dia seguinte, o cavalheiro estava muito deprimido e com
dor de cabeça; todo aquele riso o havia perturbado, pensou.
“O sonho parece menos divertido quando é considerado analiticamente. O ‘cavalheiro
que lhe era conhecido’ e que entrara no quarto era, nos pensamentos oníricos latentes, a
representação da Morte como o ‘grande Desconhecido’ - uma imagem que lhe viera à mente
durante o dia anterior. O idoso cavalheiro, que sofria de arteriosclerose, tivera boas razões, na
véspera, para pensar em morrer. A gargalhada desenfreada tomou o lugar dos soluços e lágrimas
ante a idéia de que deveria morrer. Era a luz da vida que ele já não conseguia acender. Esse
pensamento sombrio poderia ter estado vinculado a tentativas de cópula que ele fizera pouco
antes, mas que haviam falhado apesar da ajuda de sua mulher en negligé. Ele se apercebeu de
que já estava descendo a serra. O trabalho do sonho conseguiu transformar a idéia sombria da
impotência e da morte numa cena cômica, e seus soluços, em gargalhadas.”
Há uma classe de sonhos que tem um direito especial a ser descrita como “sonhos
hipócritas”, e que submete a uma dura prova a teoria da realização de desejo. [1] Minha atenção foi
despertada por eles quando a Dra. M. Hilferding apresentou o seguinte relato de um sonho de
Peter Rosegger para debate na Sociedade Psicanalítica de Viena.
Escreve Rosegger em sua história “Fremd gemacht!”: “Em geral, costumo dormir bem,
mas foram muitas as noites em que perdi meu repouso - é que, juntamente com minha modesta
carreira de estudioso e homem deletras, por muitos anos arrastei comigo, como um fantasma do
qual não podia libertar-me, a sombra de uma vida de alfaiate.
“Não é que durante o dia eu refletisse com muita freqüência ou intensidade sobre meu
passado. Quem já se despira da pele de um filisteu e estava procurando conquistar a Terra e o
Céu tinha outras coisas a fazer. E nem tampouco, quando jovem e impetuoso, eu dera a menor
atenção a meus sonhos noturnos. Só mais tarde, quando me veio o hábito de refletir sobre tudo, ou
quando o filisteu em mim começou a despertar um tantinho, foi que me perguntei por que era que,
toda vez que sonhava, eu era sempre um aprendiz de alfaiate e assim passava tanto tempo com
meu mestre e trabalhava de graça em sua oficina. Sabia perfeitamente, enquanto me sentava
assim a seu lado, costurando e passando a ferro, que meu lugar certo já não era ali e que, como
cidadão, eu tinha outras coisas com que me ocupar. Mas estava sempre em férias, sempre em
férias de verão, e era assim que ficava sentado ao lado de meu mestre, como seu auxiliar. Isso
muitas vezes me aborrecia, e eu ficava triste com a perda de tempo em que bem poderia ter
encontrado coisas melhores e mais úteis para fazer. Vez por outra, quando algo saía errado, tinha
de suportar uma repreensão de meu mestre, embora nunca se falasse em salário. Muitas vezes,
sentado ali, com as costas vergadas na oficina escura, pensei em dar-lhe aviso-prévio e me
demitir. Um dia, cheguei até a fazê-lo, mas meu mestre não prestou a menor atenção, e cedo lá
estava sentado de novo a seu lado, cosendo.
“Depois dessas jornadas tediosas, que alegria era acordar! E eu me determinara então
que, se esse sonho persistente voltasse a surgir, eu o afastaria de mim energicamente e
exclamaria: ‘Isso não passa de conversa fiada, estou deitado na cama e quero dormir…’ Mas, na
noite seguinte, lá estava eu de novo sentado na oficina do alfaiate.
“E assim continuou por anos, com sinistra regularidade. Ora, um dia aconteceu estarmos
trabalhando, meu mestre e eu, na casa de Alpelhofer (o camponês em cuja casa eu trabalhara
quando me iniciei como aprendiz) e meu mestre se mostrou particularmente insatisfeito com meu
trabalho: ‘Gostaria de saber onde é que você está com a cabeça’, disse-me, e me lançou um olhar
sombrio. A coisa mais sensata a fazer, pensei, seria levantar-me e dizer que só estava com ele
para agradá-lo, e depois sair. Mas não o fiz. Não formulei nenhuma objeção quando meu mestre
tomou um aprendiz e me ordenou que lhe desse espaço no banco. Mudei-me para o canto e
continuei a coser. No mesmo dia, outro diarista foi também contratado, um hipócrita choramingão -
era natural da Boêmia - que havia trabalhado em nossa alfaiataria dezenove anos antes e que um
dia caíra no riacho, ao voltar daestalagem. Quando procurei um assento, não havia mais lugar.
Voltei-me para meu mestre interrogativamente e ele me disse ‘Você não tem dotes de alfaiate,
pode ir! Está despedido!’ Diante disso, meu susto foi tão esmagador que acordei.
“A luz cinzenta da manhã entrava em pálidos clarões pelas janelas sem cortinas de
minha casa, tão conhecida. As obras de arte me rodeavam; ali, em minha bela estante, estavam o
eterno Homero, o gigantesco Dante, o incomparável Shakespeare, o glorioso Goethe - todos os
magníficos imortais. Do quarto ao lado vinham as vozes claras e juvenis das crianças que
acordavam, brincando com sua mãe. Senti-me como se tivesse reencontrado aquela vida espiritual
idilicamente doce, pacífica e poética em que tantas vezes e de maneira tão profunda eu
experimentara uma meditativa felicidade humana. Contudo, irritava-me que não me tivesse
antecipado a meu mestre para dar-lhe o aviso-prévio, mas tivesse sido despedido por ele.
“E quão atônito fiquei! Desde a noite em que meu mestre me despediu, gozei paz; não
sonhei mais com os tempos de alfaiate que estavam tão distantes em meu passado - aqueles
tempos que tinham sido tão alegres em sua despretensão, mas haviam projetado uma sombra tão
extensa sobre meus anos posteriores.”
Nessa série de sonhos de um escritor que fora aprendiz de alfaiate em sua mocidade, é
difícil reconhecer o domínio da realização de desejo. Todo o prazer do sonhador estava em sua
existência diurna, ao passo que, em seus sonhos, era ainda perseguido pela sombra de uma vida
infeliz da qual enfim escapara. Alguns sonhos meus de natureza semelhante permitiram-me lançar
um pouco de luz sobre o assunto. Quando médico recém-formado, trabalhei por muito tempo no
Instituto de Química sem nunca me tornar competente nas habilidades que essa ciência exige; e
por essa razão, em minha vida de vigília, jamais gostei de pensar nesse episódio estéril e
realmente humilhante de minha aprendizagem. Por outro lado, tenho um sonho regularmente
recorrente de trabalhar no laboratório, fazer análises e ter diversas experiências ali. Esses sonhos
são tão desagradáveis quanto os sonhos com exames e nunca são muito nítidos. Enquanto
interpretava um deles, minha atenção acabou sendo atraída pela palavra “análise‘’, que me
forneceu uma chave para sua compreensão. Desde aqueles tempos, tornei-me um “analista”, e
hoje efetuo análises altamente elogiadas, embora seja verdade que se trata de “psico-análises”.
Agora ficou claro para mim: se passei a sentir orgulho de fazer esse tipo de análises em minha vida
diurna e me sinto inclinado a vangloriar-me de ter alcançado tanto sucesso, meus sonhos
relembram-me durante a noite aquelas outras análisesmalsucedidas de que não tenho razão
alguma para me orgulhar. São os sonhos de punição de um parvenu, como os sonhos do aprendiz
de alfaiate que se transformara num famoso escritor. Mas como é possível que um sonho, no
conflito entre o orgulho de um parvenu e sua autocrítica, tome o partido desta e escolha como seu
conteúdo uma advertência sensata, em vez de uma realização de desejo proibida? Como já disse,
a resposta a essa pergunta levanta dificuldades. Podemos concluir que a base do sonho formouse,
em primeiro lugar, de uma fantasia exageradamente ambiciosa, mas que os pensamentos
humilhantes que jogaram água fria na fantasia penetraram no sonho em vez dela. Convém lembrar
que existem na mente impulsos masoquistas que podem ser responsáveis por uma inversão como
essa. Eu não faria objeção a que essa classe de sonhos fosse distinguida dos “sonhos de
realização de desejo” sob o nome de “sonhos de punição”. Não encararia isso como algo que
implicasse qualquer restrição da teoria dos sonhos que propus até aqui; isso não passaria de um
expediente lingüístico para atender às dificuldades daqueles que acham estranho que os opostos
possam convergir. Mas um exame mais atento de alguns desses sonhos traz algo mais à luz.
Numa parte indistinta do pano de fundo de um de meus sonhos com o laboratório, eu tinha uma
idade que me situava precisamente no ano mais sombrio e mais infrutífero de minha carreira
médica. Eu ainda estava sem emprego e não tinha idéia de como poderia ganhar a vida: ao
mesmo tempo, todavia, descobri repentinamente que tinha diante de mim uma opção entre
diversas mulheres com quem poderia casar-me! Portanto, eu era jovem outra vez e, acima de tudo,
ela era jovem outra vez - a mulher que partilhou comigo todos esses anos difíceis. O instigador
inconsciente do sonho revelou-se, desse modo, como sendo um dos desejos que corroem
constantemente o homem que está envelhecendo. O conflito que se travava em outros níveis da
psique entre a vaidade e a autocrítica determinara, é verdade, o conteúdo do sonho, mas só o
desejo mais profundamente enraizado de ser jovem é que possibilitou a esse conflito aparecer
como um sonho. Mesmo quando acordados, às vezes dizemos a nós mesmos: “As coisas vão
muito bem agora e a situação era difícil nos velhos tempos; mesmo assim era uma beleza - eu era
ainda jovem”.
Outro grupo de sonhos, [1] que muitas vezes encontrei em mim mesmo e reconheci
como hipócritas, tem como conteúdo uma reconciliação com pessoas com quem as relações de
amizade cessaram há muito tempo. Nesses casos, a análise habitualmente revela alguma situação
que poderia instar-se a abandonar os últimos remanescentes de consideração por esses examigos
e tratá-los como estranhos ou inimigos. O sonho, porém, prefere retratar a relação oposta.
[Ver em [1].]
Ao formarmos qualquer juízo sobre os sonhos relatados pelos escritores, é razoável
supormos que eles tenham omitido do relato pormenores do conteúdo do sonho que
considerassem dispensáveis ou perturbadores. Seus sonhos, nesse caso, levantarão problemas
que seriam rapidamente resolvidos se seu conteúdo fosse comunicado na íntegra.
Otto Rank me fez notar que o conto de fadas de Grimm sobre “O Pequeno Alfaiate, ou
Sete de um só Golpe” contém um sonho muito semelhante de um parvenu. O alfaiate, que se
tornara herói e genro do Rei, sonha uma noite com seu antigo ofício, deitado ao lado da esposa, a
Princesa. Ela, ficando desconfiada, põe guardas armados na noite seguinte para escutar as
palavras do sonhador e prendê-lo. Mas o alfaiatezinho é advertido e providencia para que seu
sonho seja corrigido.
O complicado processo de eliminação, diminuição e inversão por meio do qual os afetos
dos pensamentos oníricos acabam por transformar-se nos dos sonhos pode ser satisfatoriamente
compreendido em sínteses apropriadas de sonhos que tenham sido completamente analisados.
Citarei mais alguns exemplos de afetos nos sonhos, que mostram realizadas algumas das
possibilidades que enumerei.
V
Se retornarmos ao sonho sobre a estranha tarefa de que me encarregou o velho Brücke,
de fazer uma dissecação de minha própria pélvis [em [1] será lembrado que, no próprio sonho,
faltou-me o sentimento de horror [“Grauen”] que lhe seria apropriado. Ora, isso foi uma realização
de desejo em mais de um sentido. A dissecação significava a auto-análise que eu estava
realizando, por assim dizer, com a publicação deste livro sobre os sonhos - um processo que me
fora tão penoso na realidade que adiei por mais de um ano a impressão do manuscrito já
concluído. Surgiu então um desejo de que eu pudesse vencer esse sentimento de aversão; daí eu
não ter tido nenhum sentimento de horror [“Grauen”] no sonho. Mas também me agradaria muito
não ter de ficar grisalho. “Grauen”, no outro sentido do termo. Eu já estava ficando bastante
grisalho, e os fios cor de gris em meus cabelos eram outro lembrete de que não deveria demorarme
mais. E, como vimos, a idéia de que teria de deixar a cargo de meus filhos a consecução do
objetivo de minha difícil jornada impôs sua representação no final do sonho.
Consideremos agora os dois sonhos em que uma expressão de satisfação foi transposta
para o momento seguinte ao despertar. No primeiro caso, a razão fornecida para a satisfação era a
expectativa de que eu agora descobriria o que significava “Já sonhei com isso antes”, ao passo
que a satisfação realmente se referia ao nascimento de meus primeiros filhos [ver [1]]. No outro
caso, a razão aparente era minha convicção de que algo que fora “prognosticado” estava agora se
tornando realidade, quando a referência real era semelhante à do sonho anterior: tratava-se da
satisfação com que acolhi o nascimento de meu segundo filho [em [1]]. Aqui, os afetos que
dominavam os pensamentos oníricos persistiram nos sonhos, mas é seguro afirmar que em
nenhum sonho as coisas podem ser tão simples assim. Se penetrarmos um pouco mais a fundo
nas duas análises, descobriremos que essa satisfação que havia escapado à censura recebera um
acréscimo de outra fonte. Essa outra fonte tinha motivos para temer a censura e seu afeto teria
indubitavelmente despertado oposição, se ela não se tivesse escudado no afeto similar e legítimo e
de satisfação, proveniente da fonte permissível, e se insinuado, por assim dizer, sob sua asa.
Infelizmente, não posso demonstrar isso no caso efetivo desses sonhos, mas um
exemplo extraído de outra esfera da vida deixará claro o que quero dizer. Suponhamos o caso
seguinte: há uma pessoa de minhas relações a quem odeio, de maneira que tenho uma viva
inclinação a ficar contente quando alguma coisa adversa lhe acontece. Entretanto, o lado moral de
minha natureza não faz concessões a esse impulso. Não me atrevo a expressar o desejo de que
ela seja infeliz e, caso ela depare com algum infortúnio imerecido, suprimo minha satisfação diante
disso e me imponhomanifestações e pensamentos de pesar. Todos já devem ter passado por essa
situação numa ou noutra época. Mas sucede então que a pessoa odiada, por alguma transgressão
sua, envolve-se num merecido dissabor; quando isso acontece, posso dar rédea solta à minha
satisfação por ela ter recebido uma punição justa e, nisto, estou de acordo com muitas outras
pessoas que são imparciais. Posso observar, contudo, que minha satisfação parece mais intensa
que a dessas outras pessoas; ela recebeu um acréscimo da fonte de meu ódio, até então impedida
de manifestar seu afeto, mas que, com a alteração das circunstâncias, já não é mais obstada em
fazê-lo. Na vida social, isso geralmente ocorre sempre que as pessoas antipáticas ou os membros
de uma minoria impopular se mostram sem razão. Sua punição não costuma corresponder a seus
erros, mas a seu erros acrescidos da má vontade dirigida contra eles, a qual antes não tivera
nenhuma conseqüência. Sem dúvida é verdade que aqueles que infligem o castigo estão com isso
cometendo uma injustiça; mas ficam impedidos de percebê-la pela satisfação resultante da retirada
de uma supressão que por muito tempo fora mantida dentro deles. Em casos como esse, o afeto é
justificado em sua qualidade, mas não em sua quantidade, e a autocrítica tranqüilizada quanto ao
primeiro aspecto tende, com extrema facilidade, a se descuidar do exame do segundo. Uma vez
aberta uma porta, é fácil irromperem por ela mais pessoas do que originalmente se tencionava
deixar entrar.
Um traço marcante das pessoas neuróticas - o fato de uma causa passível de liberar um
afeto tender a produzir nelas um resultado qualitativamente justificado, mas quantitativamente
excessivo - pode ser explicado dentro dessa mesma linha, na medida em que admita alguma
explicação psicológica. O excesso provém de fontes de afeto que antes permaneceram
inconscientes e suprimidas. Essas fontes conseguem estabelecer um elo associativo com a causa
liberadora real, e a desejada facilitação [Bahnung] da liberação de seu próprio afeto é aberta pela
outra fonte de afeto, que é inobjetável e legítima. Nossa atenção é assim atraída para o fato de
que, ao considerarmos as instâncias suprimidas e supressoras, não devemos encarar sua relação
como sendo exclusivamente de inibição recíproca. Igual atenção deve ser dada aos casos em que
as duas instâncias provocam um efeito patológico, atuando lado a lado e se intensificando
mutuamente.
Apliquemos agora essas indicações sobre os mecanismos psíquicos a um entendimento
das expressões de afeto nos sonhos. Uma satisfação que seja exibida num sonho e possa, é claro,
ter seu lugar exato imediatamente apontado nos pensamentos oníricos nem sempre é
completamente elucidada apenas por essa referência. Em geral, é necessário buscar outra fonte
delanos pensamentos do sonho, uma fonte que esteja sob a pressão da censura. Em resultado
dessa pressão, essa fonte normalmente produziria, não satisfação, mas o afeto contrário. Graças à
presença da primeira fonte do afeto, porém, a segunda fonte fica habilitada a subtrair do recalque
seu afeto de satisfação e a permitir que ele funcione como uma intensificação da satisfação da
primeira fonte. Assim, parece que os afetos nos sonhos são alimentados por uma confluência de
diversas fontes e sobredeterminados em sua referência ao material dos pensamentos oníricos.
Durante o trabalho do sonho, as fontes de afeto passíveis de produzir o mesmo afeto unem-se
para gerá-lo.
Podemos obter algum discernimento dessas complicações mediante a análise daquele
belo espécime de sonho cujo ponto central era formado pelas palavras “Non vixit”. (Ver em [1] e
segs.) Nesse sonho, externalizações de afeto de diversas qualidades reuniram-se em dois pontos
do conteúdo manifesto. Sentimentos hostis e aflitivos - “dominado por estranhas emoções” foram
as palavras utilizadas no próprio sonho - superpuseram-se no ponto em que aniquilei meu
oponente e amigo com duas palavras. E de novo, ao final do sonho, fiquei extremamente satisfeito
e cheguei a aprovar a possibilidade, que na vida de vigília sabia ser absurda, de existirem
revenants que pudessem ser eliminados por um simples desejo.
Ainda não relatei a causa excitante do sonho. Foi de grande importância e levou a uma
compreensão profunda do mesmo. Eu recebera de meu amigo de Berlim, a quem me referi como
“Fl.” [Fliess], a notícia de que ele estava prestes a sofrer uma operação e de que eu obteria novas
informações sobre seu estado com alguns de seus parentes em Viena. As primeiras notícias que
recebi após a operação não foram tranqüilizadoras e me deixaram inquieto. Eu preferiria muito ir
ter com ele pessoalmente, mas, exatamente nessa ocasião, estava acometido de uma enfermidade
dolorosa que transformava qualquer espécie de movimento numa tortura para mim. Os
pensamentos oníricos informaram-me então que eu temia pela vida de meu amigo. Como era de
meu conhecimento, sua única irmã, que nunca cheguei a conhecer, tinha morrido muito jovem,
após uma doença fulminante. (No sonho, Fl. falou sobre sua irmã e disse que em três quartos de
hora ela estava morta.)Devo ter imaginado que a constituição dele não era muito mais resistente
que a de sua irmã, e que, depois de receber notícias muito piores sobre ele, eu acabaria fazendo a
viagem, afinal - e chegaria tarde demais, pelo que nunca cessaria de me censurar. Essa
recriminação por chegar tarde demais tornou-se o ponto central do sonho, mas foi representada
por uma cena em que Brücke, o venerado professor de meus tempos de estudante, a dirigia a mim
com uma expressão terrível em seus olhos azuis. Logo se evidenciará o que foi que fez a situação
[referente a Fl.] transmudar-se nesses moldes. A cena em si [com Brücke] não podia ser
reproduzida pelo sonho na forma como eu a vivenciara. A outra figura do sonho pôde conservar os
olhos azuis, mas o papel aniquilador foi atribuído a mim - uma inversão que, obviamente, foi obra
da realização de desejo. Meu desassossego a respeito da recuperação de meu amigo, minhas
autocensuras por não ir vê-lo, a vergonha que senti por isso - ele tinha vindo a Viena (para ver-me)
“discretamente” -, a necessidade que eu tinha de me considerar desculpado por minha doença -
tudo isso se combinou para produzir a tormenta emocional que foi claramente percebida em meu
sono e que devastava essa região dos pensamentos oníricos.
Mas havia na causa excitante do sonho outra coisa, que teve em mim um efeito
inteiramente oposto. Junto com as notícias desfavoráveis dos primeiros dias após a operação,
recebi a advertência de não discutir o assunto com ninguém. Senti-me ofendido com isso, pois
implicava uma desconfiança desnecessária de minha discrição. Dava-me plena conta de que essas
instruções não haviam partido de meu amigo e se deviam à falta de tato ou ao excesso de zelo por
parte do intermediário, mas afetou-me de maneira muito desagradável essa censura velada, pois
não era inteiramente injustificada. Como todos sabemos, somente as censuras que têm algum
fundamento é que “colam”; só elas é que nos perturbam. O que tenho em mente não se relaciona,
é verdade, com esse amigo, mas com um período muito anterior de minha vida. Naquela ocasião,
causei problemas entre dois amigos (ambos os quais haviam também decidido honrar-me com
esse título) por dizer a um deles, sem necessidade alguma, no decorrer da conversa, o que o outro
havia falado a seu respeito.
Também nessa ocasião tinham-me feito censuras, e elas ainda estavam em minha
memória. Um dos dois amigos em questão era o Professor Fleischl; posso descrever o outro por
seu prenome “Josef” - que era também o de P., meu amigo e oponente no sonho.
A recriminação por eu ser incapaz de guardar um segredo foi atestada no sonho pelo
elemento “discreto” e pela pergunta de Fl. sobre quanto eu havia falado com P. sobre suas coisas.
Mas foi a intervenção dessa lembrança [de minha antiga indiscrição e suas conseqüências] que
transportou do presente para a época em que trabalhei no laboratório de Brücke a recriminação
contra mim por chegar tarde demais. E, ao transformar a segunda pessoa da cena onírica de
aniquilamento num Josef, fiz com que essa cena representasse não apenas a recriminação feita a
mim por chegar tarde demais, mas também a recriminação, muito mais intensamente recalcada,
por eu ser incapaz de guardar um segredo. Aqui, são excepcionalmente visíveis os processos de
condensação e deslocamento em ação no sonho, bem como suas razões de ser.
Minha ligeira raiva, no presente, pela advertência que eu recebera de não deixar escapar
nada [sobre a doença de Fl.] recebeu reforços de fontes situadas nas profundezas de minha
mente, e assim se avolumou numa corrente de sentimentos hostis contra pessoas de quem eu
realmente gostava. A fonte desse reforço brotava de minha infância. Já assinalei [em [1]] como
minhas amizades calorosas, e também minhas inimizades com contemporâneos, remontam a
minhas relações da infância com um sobrinho que era um ano mais velho que eu; como ele era
superior a mim, como cedo aprendi a me defender dele, como éramos amigos inseparáveis e
como, de acordo com o testemunho dos mais velhos, às vezes brigávamos um com outro e… lhes
fazíamos queixas um do outro. Todos os meus amigos têm sido, num certo sentido, reencarnações
dessa primeira figura que “früh sich einst dem trüben Blick gezeigt”: têm sido revenants. Meu
próprio sobrinhoreapareceu em minha meninice e, nessa ocasião, representamos juntos os papéis
de César e Brutus. Minha vida afetiva sempre insistiu em que eu tivesse um amigo íntimo e um
inimigo odiado. Sempre me foi possível reabastecer-me de ambos, e não raro essa situação ideal
da infância se reproduziu tão completamente que amigo e inimigo convergiram numa só pessoa -
embora não, é claro, ambos ao mesmo tempo ou com oscilações constantes, como talvez tenha
acontecido em minha tenra infância.
Não me proponho discutir neste ponto como é que, nessas circunstâncias, uma
oportunidade recente de geração de um afeto pode retornar a uma situação infantil e ser
substituída por essa situação no que concerne à produção do afeto. [Ver em [1].] Essa questão faz
parte da psicologia do pensamento inconsciente e encontraria lugar adequado numa elucidação
psicológica das neuroses. Para fins da interpretação dos sonhos, presumamos que surja ou seja
construída na fantasia uma lembrança da infância, mais ou menos com o seguinte conteúdo: as
duas crianças entraram em disputa por causa de certo objeto. (Qual era esse objeto é uma questão
que pode ficar em aberto, embora a lembrança ou pseudo-lembrança tenha um objeto bastante
específico em vista.) Cada uma delas alega ter chegado antes da outra e, portanto, ter mais direito
a ele. Vão às vias de fato e a força prevalece sobre o direito. Pelas indicações do sonho, é possível
que eu mesmo soubesse que estava errado (“eu próprio notei o erro”). Dessa vez, porém, fui o
mais forte e continuei senhor do terreno. O vencido correu para seu avô - meu pai - e queixou-se
de mim; defendi-me com as palavras que conheço pelo relato de meu pai: “Bati nele porque ele me
bateu”. Essa lembrança, ou mais provavelmente fantasia, que me veio à mente enquanto eu
analisava o sonho - sem outras indicações, eu mesmo não saberia dizer como1 - constituiu um
elemento intermediário nos pensamentos oníricos, que reuniu os afetos neles desencadeados tal
como um poço recebe a água que para ele flui. Desse ponto em diante, os pensamentos oníricos
seguiram mais ou menos esta linha: “É bem feito de me tenha tido de me dar lugar. Por que tentou
tirar a mim do meu lugar? Não preciso de você; posso muito bem encontrar outra pessoa para
brincar comigo”, etc. Esses pensamentos penetraram então nas vias que levaram a sua
representação no sonho. Houve época em que tive de censurar meu amigo Josef [P.] por uma
atitude deste mesmo tipo: “Ôte-toi que je m’y mette!” Ele seguira meus passos como demonstrador
no laboratório de Brücke, mas a promoção lá era lenta e tediosa. Nenhum dos dois assistentesde
Brücke estava inclinado a sair de seu lugar, e a juventude era impaciente. Meu amigo, que sabia
não ter esperança de viver muito e a quem nenhum laço de intimidade ligava seu superior
imediato, por vezes expressava em voz alta sua impaciência; e como o superior [Fleischl] estava
gravemente enfermo, o desejo de P. de vê-lo fora do caminho talvez tivesse um sentido mais torpe
que a simples esperança de promoção do homem. Como não deixa de ser natural, alguns anos
antes, eu próprio acalentara um desejo ainda mais vivo de preencher uma vaga. Onde quer que
haja hierarquia e promoção, está aberto o caminho para desejos que pedem supressão. O Príncipe
Hal, de Shakespeare, mesmo junto ao leito de seu pai enfermo, não pôde resistir à tentação de
experimentar a coroa. Mas, como seria de se esperar, o sonho puniu meu amigo e não a mim por
esse desejo impiedoso.
“Como foi ambicioso, matei-o.” Como não pudesse esperar pelo afastamento de outro
homem, ele próprio foi afastado. Foram esses meus pensamentos logo depois de ter assistido à
inauguração, na universidade, do monumento comemorativo - não a ele, mas ao outro homem.
Assim, parte da satisfação que senti no sonho deveria ser interpretada como: “Um castigo justo! É
bem feito para você!”
No funeral de meu amigo [P.], um rapaz fizera o que pareceu ser um comentário
inoportuno no sentido de que o orador que pronunciara o discurso fúnebre havia deixado implícito
que, sem esse homem, o mundo se acabaria. Ele havia expressado os sentimentos sinceros de
alguém em cujo pesar um certo exagero estava interferindo. Mas esse seu comentário foi o ponto
de partida dos seguintes pensamentos oníricos. “É bem verdade que ninguém é insubstituível.
Quantas pessoas já acompanhei até a sepultura! Mas ainda estou vivo. Sobrevivi a todos; fiquei
senhor do terreno.” Esse tipo de pensamento, ocorrendo-me num momento em que temia talvez
não encontrar meu amigo [Fl.] vivo se fizesse a viagem para vê-lo, só poderia ser interpretado no
sentido de eu estar radiante por ter, mais uma vez, sobrevivido a alguém, por ter sido ele e não eu
a morrer e por eu ter ficado senhor do terreno, como ficara na cena fantasiada de minha infância.
Essa satisfação de origem infantil por ficar senhor do terreno constituiu a maior parte do afeto
queapareceu no sonho. Eu estava radiante por sobreviver e dei expressão a meu deleite com todo
o egoísmo ingênuo exibido na anedota do casal em que um dos cônjuges diz ao outro: “Se um de
nós morrer, vou-me mudar para Paris”. Era-me óbvio assim que não seria eu a morrer.
Não se pode negar que interpretar e relatar os próprios sonhos exige elevado grau de
autodisciplina. Fica-se condenado a emergir como o único vilão entre a multidão de personagens
nobres com quem se partilha a própria vida. Assim, pareceu-me muito natural que os revenants só
existissem enquanto se quisesse e fossem elimináveis mediante um desejo. Já vimos pelo quê foi
punido meu amigo Josef. Mas os revenants eram uma série de reencarnações do amigo de minha
infância. Desse modo, era também fonte de satisfação para mim o fato de sempre ter conseguido
achar substitutos sucessivos para aquela figura; e senti que seria capaz de encontrar um substituto
para o amigo a quem estava agora a ponto de perder: ninguém era insubstituível.
Mas e a censura onírica, que era feito dela? Por que não levantara as mais enérgicas
objeções contra essa seqüência de idéias flagrantemente egoísta? E por que não transformara a
satisfação ligada a essa cadeia de idéias num agudo desprazer? A explicação, penso eu, foi que
outras seqüências de idéias inobjetáveis ligadas às mesmas pessoas encontraram uma satisfação
simultânea e encobriram, com seu afeto, o afeto proveniente da fonte infantil proibida. Em outra
camada de meus pensamentos, durante a cerimônia de inauguração do monumento, eu assim
refletira: “Quantos amigos valiosos já perdi, uns por morte, outros por um rompimento em nossa
amizade! Quão afortunado foi ter encontrado para eles um substituto e ter ganho um que significa
para mim mais do que os outros jamais poderiam significar, e, numa época da vida em que não é
fácil fazer novas amizades, nunca perder a dele!” Minha satisfação por ter encontrado um
substituto para esses amigos perdidos teve permissão de penetrar no sonho sem interferência,
mas, junto com ela, insinuou-se a satisfação hostil decorrente da fonte infantil. É verdade, sem
dúvida, que a afeição infantil serviu para reforçar minha afeição contemporânea e justificada. Mas
também o ódio infantil conseguiu fazer-se representar.
Mas o sonho conteve, além disso, uma alusão clara a outra cadeia de idéias que poderia
legitimamente levar à satisfação. Pouco tempo antes, apósuma longa espera, nascera uma filha de
meu amigo [Fl.]. Eu sabia quão profundamente ele havia pranteado a irmã que perdera tão cedo, e
lhe escrevi dizendo estar certo de que ele transferira o amor que por ela sentira para a filha, e que
a nenenzinha enfim lhe permitiria esquecer sua perda irreparável.
Portanto, esse grupo de pensamentos ligava-se mais uma vez ao pensamento
intermediário do conteúdo latente do sonho [ver em [1]-[2]] de onde se bifurcavam as vias
associativas em direções contrárias: “Ninguém é insubstituível! Não há nada além de revenants:
todos aqueles que perdemos retornam!” E então os laços associativos entre os componentes
contraditórios dos pensamentos oníricos foram estreitados pela circunstância fortuita de a filhinha
de meu amigo ter o mesmo nome da menina com quem eu costumava brincar em criança, que
tinha minha idade e era irmã de meu primeiro amigo e oponente. [Ver em [1].] Deu-me grande
satisfação saber que o bebê iria chamar-se “Pauline”. E, numa alusão a essa coincidência,
substituí um Josef por outro no sonho e descobri ser impossível eliminar a semelhança entre as
letras iniciais dos nomes “Fleischl” e “Fl.”. Desse ponto, meus pensamentos passaram para a
questão do nome de meus próprios filhos. Insistira em que o nome deles fosse escolhido, não
segundo a moda do momento, mas em memória de pessoas de quem eu havia gostado. O nome
transformava as crianças em revenants. E afinal, refleti, ter filhos não seria nosso único acesso à
imortalidade?
Resta-me apenas acrescentar mais algumas observações sobre a questão do afeto nos
sonhos, de outro ponto de vista. É possível que um elemento dominante na psique da pessoa
adormecida seja constituído por aquilo a que chamamos “disposição de ânimo” - ou tendência a
algum afeto -, e isto pode então exercer uma influência determinante em seus sonhos. Tal
disposição de ânimo pode brotar de suas experiências ou pensamentos da véspera, ou suas fontes
podem ser somáticas. [Ver em [1]] De qualquer modo, será acompanhada pelas cadeias de idéias
que lhe forem apropriadas. Do ponto de vista da formação do sonho, é indiferente que, como às
vezes acontece, esses conteúdos de representações dos pensamentos oníricos determinem
primariamente a disposição de ânimo, ou sejam eles próprios secundariamente despertados por
uma disposição emocional do sonhador que, por sua vez, seja explicável em termos somáticos.
Seja como for, a formação dos sonhos está sujeira à condição de só poder representar algo que
seja a realização de um desejo, e de apenas dos desejos poder extrair sua força psíquica
impulsora. Uma disposição de ânimo atual e operante é tratada da mesma maneira que uma
sensação que surja e se torne atuante durante o sono (ver em [1]), a qual pode ser desprezada ou
reinterpretadano sentido de uma realização de desejo. As disposições de ânimo aflitivas durante o
sono podem tornar-se a força propulsora de um sonho, despertando desejos enérgicos que o
sonho é chamado a realizar. O material a que se ligam as disposições de ânimo é trabalhado até
poder ser utilizado para expressar a realização de um desejo. Quanto mais intenso e dominante é
o papel desempenhado nos pensamentos oníricos pela disposição anímica aflitiva, mais certo é
que os impulsos desejantes mais intensamente suprimidos se valham dessa oportunidade para
chegar à representação. É que, como já está presente o desprazer que, de outro modo, por si só
produziriam necessariamente, eles já encontram realizada a parte mais difícil de sua tarefa - a
tarefa de se imporem à representação. Aqui, mais uma vez, somos confrontados com o problema
dos sonhos de angústia; e estes, como iremos constatar, constituem um caso marginal da função
onírica. [Ver em [1]]
(I) ELABORAÇÃO SECUNDÁRIA [1]
E agora podemos enfim voltar-nos para o quarto dos fatores implicados na formação dos
sonhos. Ao prosseguirmos em nossa investigação do conteúdo dos sonhos da maneira como a
iniciamos - isto é, comparando eventos manifestos no conteúdo do sonho com suas fontes nos
pensamentos oníricos -, chegamos a elementos cuja explicação requer um pressuposto
inteiramente novo. O que tenho em mente são casos em que o sonhador fica surpreso, irritado ou
enojado no sonho e, além disso, com algum fragmento do próprio conteúdo onírico. Como
demonstrei em diversos exemplos [na última seção). a maioria desses sentimentos críticos nos
sonhos não se dirige, de fato, ao conteúdo do sonho, mas mostra constituir-se de partes dos
pensamentos oníricos que foram apropriadas e usadas para um fim conveniente. Entretanto, parte
desse material não se presta a essa explicação; seu correlato no material dos pensamentos
oníricos não se encontra em parte alguma. Qual é, por exemplo, o sentido de uma observação
crítica tão freqüentemente encontrada nos sonhos, ou seja, “Isto é apenas um sonho”? [Ver em
[1].] Temos aí uma verdadeira crítica ao sonho, tal como se poderia fazer na vida de vigília. Com
bastante freqüência, ademais, ela é de fato o prelúdio do despertar; e com freqüência ainda maior,
é precedida por algum sentimento aflitivo que se tranqüiliza ante o reconhecimento de que se trata
de um estado de sonho. Quando ocorre num sonho o pensamento “isto é apenas um sonho”, ele
tem em vista o mesmo propósito das palavras pronunciadas no palco por la belle Hélène, na ópera
cômica de Offenbach que leva esse nome: visa a reduzir a importância do que acaba de ser
vivenciado e a tornar possível tolerar o que vem a seguir. Serve para fazer adormecer uma dada
instância que, nesse momento, teria todos os motivos para ser acionada e proibir a continuação do
sonho - ou da cena da ópera. É mais cômodo, porém, continuar a dormir e tolerar o sonho, porque,
afinal, “é apenas um sonho”. Ameu ver, esse juízo crítico desdenhoso, “é apenas um sonho”,
aparece no sonho quando a censura, que nunca está inteiramente adormecida, sente que foi
apanhada desprevenida por um sonho que já se deixou passar. É tarde demais para suprimi-lo e,
por conseguinte, a censura utiliza essas palavras para combater o sentimento de angústia ou
aflição por ele suscitado. Essa expressão é um exemplo de esprit d’escalier por parte da censura
psíquica.
Esse exemplo, contudo, fornece-nos uma prova convincente que nem tudo que está
contido num sonho decorre dos pensamentos oníricos, mas que pode haver contribuições para seu
conteúdo advindas de uma função psíquica que é indistinguível de nossos pensamentos de vigília.
Surge então a questão de determinar se isso ocorre apenas em casos excepcionais, ou se a
instância psíquica que, no mais, atua apenas como censura tem uma participação habitual na
formação dos sonhos.
Não podemos hesitar em decidir pela segunda alternativa. Não há dúvida de que a
instância censora, cuja influência só reconhecemos, até aqui, nas limitações e omissões no
conteúdo do sonho, é também responsável por intercalações e acréscimos a ele. É fácil
reconhecer tais intercalações. São freqüentemente relatadas com hesitação e introduzidas por um
“como se”; não são particularmente vívidas por si só e são sempre introduzidas em pontos em que
podem servir de elo entre dois fragmentos do conteúdo onírico ou preencher uma lacuna entre
duas partes do sonho. São menos fáceis de reter na memória do que os autênticos derivados do
material dos pensamentos oníricos; quando o sonho é esquecido, elas são sua primeira parte a
desaparecer, e tenho fortes suspeitas de que a queixa corriqueira de se haver sonhado muito, mas
esquecido a maior parte do sonho e conservado apenas fragmentos [em [1]], baseia-se no rápido
desaparecimento justamente desses pensamentos agregadores. Numa análise completa, essas
intercalações por vezes se deixam trair pelo fato de nenhum material ligado a elas ser encontrado
nos pensamentos oníricos. Mas um exame cuidadoso leva-me a considerar esse caso como o
menos freqüente; grosso modo, os pensamentos agregadores reconduzem, mesmo assim, a
algum material nos pensamentos oníricos, mas a um material que não poderia reivindicar aceitação
no sonho, nem por seu próprio valor, nem por ser sobredeterminado. Somente em casos extremos,
ao que parece, é que a função psíquica de formação de sonhos que ora estamos examinando
passa a fazer novas criações. Tanto quanto possível, ela empregaqualquer coisa apropriada que
possa encontrar no material dos pensamentos oníricos.
O que distingue e, ao mesmo tempo, revela essa parte do trabalho do sonho é sua
finalidade. Essa função se comporta da maneira que o poeta maliciosamente atribui aos filósofos:
preenche as lacunas da estrutura do sonho com trapos e remendos. Como resultado de seus
esforços, o sonho perde sua aparência de absurdo e incoerência e se aproxima do modelo de uma
experiência inteligível. Mas seus esforços nem sempre são coroados de êxito. Ocorrem sonhos
que, a uma visão superficial, podem afigurar-se impecavelmente lógicos e racionais; partem de
uma situação possível, dão-lhe prosseguimento através de uma cadeia de modificações coerentes
e - embora com muito menor freqüência - levam-na a uma conclusão que não causa surpresa. Os
sonhos dessa natureza foram submetidos a uma extensa elaboração por essa função psíquica
aparentada ao pensamento de vigília; parecem ter um sentido, mas esse sentido é o mais afastado
possível de sua verdadeira significação. Se os analisamos, podemos convencer-nos de que foi
nesses sonhos que a elaboração secundária manipulou o material da maneira mais livre possível e
preservou ao mínimo as relações existentes nesse material. São sonhos dos quais se poderia dizer
que já foram interpretados uma vez, antes de serem submetidos à interpretação de vigília. Em
outros sonhos, essa elaboração tendenciosa tem êxito apenas em parte; a coerência parece
prevalecer até certo ponto, mas depois o sonho se torna disparatado ou confuso, embora talvez,
mais adiante, possa apresentar pela segunda vez uma aparência de racionalidade. Noutros
sonhos, ainda, a elaboração falha por completo; vemo-nos desamparados frente a um amontoado
de material fragmentário e sem nenhum sentido.
Não desejo negar categoricamente que essa quarta força na formação do sonho - que
logo reconheceremos como uma velha conhecida, visto que, de fato, é a única das quatro com que
estamos familiarizados em outros contextos - não desejo negar que esse quarto fator tem a
capacidade de criar novas contribuições para os sonhos. É certo, porém, que, tal como os
outros,ele exerce sua influência principalmente por suas preferências e seleções do material
psíquico já formado nos pensamentos oníricos. Ora, há um caso em que lhe é poupado, em grande
medida, o trabalho de, por assim dizer, estruturar uma fachada para o sonho - a saber, o caso em
que já existe uma formação dessa natureza no material dos pensamentos oníricos, pronta para ser
usada. Tenho o hábito de descrever esse elemento dos pensamentos oníricos que tenho em mente
como uma “fantasia”. Talvez eu evite mal-entendidos se mencionar o “sonho diurno” [ou devaneio]
como algo análogo a ela na vida de vigília. O papel desempenhado em nossa vida anímica por
essas estruturas ainda não foi plenamente reconhecido e elucidado pelos psiquiatras, embora M.
Benedikt tenha conseguido o que me parece um início muito promissor nessa direção. A
importância dos sonhos diurnos não escapou à visão infalível dos escritores imaginativos; há, por
exemplo, um célebre relato de Alphonse Daudet, em Le Nabab, dos devaneios de um dos
personagens secundários da história. [Ver em [1].] O estudo das psiconeuroses leva à
surpreendente descoberta de que essas fantasias ou sonhos diurnos são os precursores imediatos
dos sintomas histéricos, ou pelo menos de uma série deles. Os sintomas histéricos não estão
ligados a lembranças reais, mas a fantasias construídas com base em lembranças. A freqüente
ocorrência de fantasias diurnas conscientes traz essas estruturas ao nosso conhecimento; mas tal
como há fantasias conscientes dessa natureza, também há grande número de fantasias
inconscientes, que têm de permanecer inconscientes por causa de seu conteúdo e por se
originarem de material recalcado. Uma investigação mais detida das características dessas
fantasias diurnas revela-nos como é acertado que essas formações recebam a mesma designação
que damos aos produtos de nosso pensamento durante a noite - ou seja, a designação de
“sonhos”. Elas partilham com os sonhos noturnos um grande número de suas propriedades e, de
fato, sua investigação poderia terservido como a melhor e mais curta abordagem à compreensão
dos sonhos noturnos.
Como os sonhos, elas são realizações de desejos; como os sonhos, baseiam-se, em
grande medida, nas impressões de experiências infantis; como os sonhos, beneficiam-se de certo
grau de relaxamento da censura. Se examinarmos sua estrutura, perceberemos como o motivo de
desejo que atua em sua produção mistura, rearranja e compõe num novo todo o material de que
eles são construídos. Eles estão, para as lembranças infantis de que derivam, exatamente na
mesma relação em que estão alguns dos palácios barrocos de Roma para as antigas ruínas cujos
pisos e colunas forneceram o material para as estruturas mais recentes.
A função de “elaboração secundária” que atribuímos ao quarto dos fatores envolvidos na
formação do conteúdo dos sonhos mostra-nos em ação, mais uma vez, a atividade que consegue
ter livre vazão na criação de sonhos diurnos sem ser inibida por quaisquer outras influências.
Poderíamos simplificar isso dizendo que este nosso quarto fator procura configurar o material que
lhe é oferecido em algo semelhante a um sonho diurno. No entanto, se um desses sonhos diurnos
já tiver sido formado na trama dos pensamentos oníricos, esse quarto fator do trabalho do sonho
preferirá apossar-se do sonho diurno já pronto e procurará introduzi-lo no conteúdo do sonho. Há
alguns sonhos que consistem meramente na repetição de uma fantasia diurna que talvez tenha
permanecido inconsciente, como, por exemplo, o sonho em que o menino andava numa biga com
os heróis da Guerra de Tróia [em [1]]. Em meu sonho do “autodidasker” [em [1]], pelo menos a
segunda parte foi uma reprodução fiel de uma fantasia diurna, inocente em si mesma, de uma
conversa com o Professor N. Em vista das complexas condições que o sonho tem de satisfazer em
sua gênese, é muito mais freqüente a fantasia já pronta formar apenas um fragmento do sonho, ou
apenas uma parcela da fantasia irromper no sonho. A partir daí, a fantasia é tratada, em geral,
como qualquer outra parcela do material latente, embora freqüentemente permaneça reconhecível
como uma entidade no sonho. Muitas vezes, partes de meus sonhos sobressaem como
causadoras de uma impressão diferente das demais. Parecem-me, por assim dizer, mais fluentes,
mais concatenadas e, ao mesmo tempo, mais fugazes que outras partes do mesmo sonho. Estas,
bem sei, sãofantasias inconscientes que penetraram na trama do sonho, mas jamais consegui
delimitar uma delas com clareza. Afora isso, tais fantasias, como qualquer outro componente dos
pensamentos oníricos, são comprimidas, condensadas, superpostas umas às outras e assim por
diante. Há, todavia, casos transicionais, desde o caso em que elas constituem, inalteradas, o
conteúdo (ou pelo menos a fachada) do sonho, e o extremo oposto, em que são representadas no
conteúdo do sonho apenas por um de seus elementos ou por uma alusão distante. O que acontece
às fantasias presentes nos pensamentos oníricos é também, evidentemente, determinado por
quaisquer vantagens que elas tenham a oferecer aos requisitos da censura e à exigência de
condensação.
Ao selecionar exemplos de interpretação de sonhos, tenho evitado, na medida do
possível, os sonhos em que as fantasias inconscientes desempenhem papel considerável, pois a
introdução desse elemento psíquico específico teria exigido extensas discussões sobre a
psicologia do pensamento inconsciente. Não obstante, não posso escapar inteiramente a um
exame das fantasias neste contexto, dado que, muitas vezes, elas penetram nos sonhos em sua
íntegra e, com freqüência ainda maior, é possível vislumbrá-las claramente por trás do sonho.
Citarei, portanto, mais um sonho, que parece compor-se de duas fantasias diferentes e opostas,
coincidentes entre si em alguns pontos, e das quais uma é superficial, enquanto a segunda
constitui, por assim dizer, uma interpretação da primeira. [Ver anteriormente, em [1].]
O sonho - o único do qual não tenho notas cuidadosas - era mais ou menos o seguinte.
O sonhador, um rapaz solteiro, estava sentado no restaurante onde costumava comer, e que foi
realisticamente representado no sonho. Surgiram então várias pessoas para tirá-lo dali, e uma
delas queria prendê-lo. Ele disse a seus companheiros de mesa: “Depois eu pago; vou voltar”. Mas
eles exclamaram, com sorrisos zombeteiros: “Já conhecemos essa história; isso é o que todos
dizem!” Um dos convivas gritou-lhe: “Lá sevai mais um!’’ Depois o conduziram a um aposento
estreito, onde encontrou uma figura feminina com uma criança no colo. Uma das pessoas que o
acompanhava disse: “Este é o Sr. Müller”. Um inspetor de polícia, ou algum funcionário parecido,
estava remexendo num punhado de cartões ou papéis e, ao fazê-lo, repetia “Müller, Müller, Müller”.
Por fim, formulou uma pergunta ao sonhador, à qual este respondeu com um “Sim”. Em seguida,
ele se voltou para olhar para a figura feminina e observou que ela agora usava uma grande barba.
Não há aqui nenhuma dificuldade em separar os dois componentes. O superficial era
uma fantasia de prisão, que parece como que recém-construída pelo trabalho do sonho. Mas, por
trás dele, é visível um material que foi apenas ligeiramente remodelado pelo trabalho do sonho:
uma fantasia de casamento. Os traços comuns a ambas as fantasias emergem com especial
clareza, tal como numa das fotografias superpostas de Galton. A promessa do rapaz (que até
então era solteiro) de que voltaria a se reunir com os companheiros de jantar à mesa, o ceticismo
de seus companheiros (já escolados pela experiência), a exclamação “lá se vai mais um (para se
casar)” - todos esses traços se encaixavam facilmente na interpretação alternativa. O mesmo se
aplica ao “Sim” com que ele respondeu à pergunta do funcionário. O remexer na pilha de papéis, a
constante repetição do mesmo nome, correspondia a uma característica menos importante, porém,
reconhecível, das festas de casamento, a saber, a leitura de um maço de telegramas de
felicitações, todos endereçados com o mesmo nome. A fantasia do casamento, na realidade, levou
a melhor sobre a fantasia encobridora de prisão, com o aparecimento da noiva em pessoa no
sonho. Através de uma indagação - o sonho não foi analisado -, pude descobrir por que, ao final
dele, a noiva usava barba. Na véspera, o sonhador estivera andando pela rua com um amigo que
era tão arredio ao casamento quanto ele, e lhe chamara a atenção para uma beldade de cabelos
negros que passara por eles. “É”, comentara o amigo, “se pelo menos essas mulheres, em poucos
anos, não ficassem com uma barba igual à do pai…” Não faltaram a esse sonho, naturalmente,
elementos em que a distorção onírica tivesse ido mais a fundo. É bem possível, por exemplo, que
as palavras “depois eu pago” se referissem ao que ele temia ser a atitude do sogro quanto à
questão do dote. De fato, é evidente que toda sorte de receios impedia o sonhador de se atirar com
algum prazer à fantasia de casamento. Um desses receios, o medo de que o casamento pudesse
custar-lhe a liberdade, encarnou-se em sua transformação numa cena de prisão.
Se voltarmos por um momento ao ponto em que o trabalho do sonho se serve de bom
grado de uma fantasia já pronta, em vez de compô-la a partir do material dos pensamentos
oníricos, talvez nos achemos em condições de solucionar um dos mais interessantes enigmas
relacionados com os sonhos. Em [1], relatei a famosa história de como Maury, depois de ser
atingido na nuca por um pedaço de madeira enquanto dormia, despertou de um longo sonho que
era como uma história completa tendo por cenário a época da Revolução Francesa. Visto que o
sonho, tal como relatado, foi coerente e totalmente projetado com vistas a fornecer uma explicação
para o estímulo que acordou o sonhador e cuja ocorrência ele não poderia ter previsto, a única
hipótese possível parece ser a de que todo esse sonho complexo deve ter sido composto e ter
ocorrido no curto espaço de tempo decorrido entre o contato do pedaço de madeira com as
vértebras cervicais de Maury e seu conseqüente despertar. Nunca ousaríamos atribuir tal rapidez à
atividade de pensamento na vida de vigília, e portanto, seríamos levados a concluir que o trabalho
do sonho possui a vantagem de acelerar extraordinariamente nossos processos de pensamento.
Fortes objeções ao que se converteu prontamente numa conclusão popular têm sido
levantadas por alguns autores mais modernos (Le Lorrain, 1894 e 1895; Egger 1895, e outros). Por
um lado, eles lançam dúvidas sobre a exatidão do relato que Maury fez de seu sonho; e por outro,
tentam mostrar que a rapidez das operações de nossos pensamentos de vigília não é menor do
que a desse sonho, depois de descontados os exageros. O debate levantou questões de princípio
cuja solução não me parece imediata. Mas devo confessar que os argumentos apresentados (por
Egger, por exemplo), particularmente contra o sonho de Maury com a guilhotina, não me
convencem. Eu mesmo proporia a seguinte explicação para esse sonho. Acaso será tão
improvável que o sonho de Maury represente uma fantasia já pronta e armazenada em sua
memória por muitos anos, e que foi despertada - ou, diria eu, “aludida” - no momento em que ele
tomou conhecimento do estímulo que o acordou? Se assim fosse, teríamos escapado a toda a
dificuldade de compreender como é que uma história tão longa, com todos os seus pormenores,
poderia ter sido composta no curtíssimo intervalo de que dispunha o sonhador, visto que a história
já teria sido composta. Se o pedaço de madeira tivesse atingido a nuca de Maury quando
acordado, teria havido oportunidade para um pensamento como “Isto é o mesmo que ser
guilhotinado”. Mas, como foi durante o sono que a tábua o atingiu, o trabalho do sonho serviu-se do
estímulo incidente para produzir sem demora uma realização de desejo, como se pensasse (isto
deve ser tomado puramente emsentido figurado): “Eis aqui uma boa oportunidade de realizar uma
fantasia de desejo que se formou em tal ou qual época durante a leitura”. Dificilmente se poderia
contestar, penso eu, que a história do sonho era precisamente do tipo que os jovens tendem a
construir sob a influência de impressões intensamente excitantes. Quem - e, menos ainda, qual o
francês ou o estudioso da história da civilização - poderia deixar de ser cativado pelas narrativas do
Reinado do Terror, quando homens e mulheres da aristocracia, a fina flor da nação, mostravam-se
capazes de morrer com ânimo sereno e de conservar sua agudeza de espírito e a elegância de
suas maneiras até o último momento do fatal chamado? Quão tentador para um jovem mergulhar
em tudo isso em sua imaginação - ver-se dizendo adeus a uma dama, beijando-lhe a mão e
galgando, intrépido, o cadafalso! Ou, se a ambição fosse o motivo principal da fantasia, quão
tentador para ele ocupar o lugar de um daqueles temíveis personagens que, pela simples força de
suas idéias e de sua flamejante eloqüência, dominavam a cidade onde, nessa época, pulsava
convulsivamente o coração da humanidade - que foram levados por suas convicções a enviar
milhares de homens à morte e prepararam o terreno para a transformação da Europa, enquanto,
todo o tempo, suas próprias cabeças não tinham segurança e estavam destinadas a cair um dia
sob a lâmina da guilhotina - quão tentador imaginar-se como um dos girondinos, talvez, ou como o
heróico Danton! Há uma característica na lembrança que Maury guardou do sonho - a de ser
“conduzido ao local da execução, cercado por uma multidão imensa” - que parece sugerir que sua
fantasia era, de fato, desse tipo ambicioso.
Tampouco era necessário que essa fantasia de há muito preparada fosse revivida
durante o sono; bastaria apenas que fosse tocada. O que quero dizer é o seguinte; quando soam
alguns compassos musicais e alguém comenta (como acontece no Don Giovanni) que são do
Fígaro, de Mozart, despertam-se em mim, de uma só vez, inúmeras lembranças, nenhuma das
quais pode penetrar isoladamente em minha consciência no primeiro momento. A frase-chave
serve como um posto avançado através do qual toda a rede é simultaneamente posta em estado
de excitação. É bem possível que o mesmo se dê no caso do pensamento inconsciente. O
estímulo despertador excita o posto avançado psíquico que dá acesso a toda a fantasia da
guilhotina. Mas a fantasia não é repassada durante o sono, e sim apenas na lembrança da pessoa
antes adormecida, após seu despertar. Depois de acordar, ela lembra em todos os detalhes a
fantasia que foi instigada em sua íntegra no sonho. Não há como certificar-se, nesse caso, de que
se está realmente recordando algo que se sonhou. Essa mesma explicação - de que se trata de
fantasiasjá prontas que são excitadas como um todo pelo estímulo despertador - pode ser aplicada
a outros sonhos que se concentram num estímulo despertador, como, por exemplo, o sonho de
Napoleão com a batalha, antes da explosão da máquina infernal [em [1], e [2]].
Entre os sonhos [1] coligidos por Justine Tobowolska em sua dissertação sobre a
passagem manifesta do tempo nos sonhos, o mais instrutivo me parece ser o que relatou Macario
(1857, 46) como sonhado por um autor dramático, Casimir Bonjour (Tobowolska [1900], 53). Certa
noite, Bonjour desejava assistir à primeira apresentação de uma de suas peças, mas estava tão
fatigado que, enquanto sentado nos bastidores, cochilou no momento exato em que o pano subia.
Durante o sono, passou por todos os cinco atos da peça e observou todos os vários sinais de
emoção exibidos pela platéia quando das diferentes cenas. No fim do espetáculo, ficou radiante ao
ouvir seu nome gritado com as mais vivas demonstrações de aplauso. De repente, acordou. Não
podia acreditar no que via nem no que ouvia, pois o espetáculo ainda não passara das primeiras
linhas da primeira cena, e ele não teria dormido por mais de dois minutos. Por certo, não é
demasiadamente precipitado supor, no caso desse sonho, que o fato de o sonhador ter passado
por todos os cinco atos da peça e observado a atitude do público em relação aos diferentes trechos
dela não precisa ter decorrido de nenhuma nova produção de material durante o sono, mas pode
ter reproduzido uma atividade de fantasia já concluída (no sentido que descrevi). Tobowolska,
como outros autores, ressalta o fato de que os sonhos com uma passagem acelerada das
representações têm a característica comum de parecerem singularmente coerentes, ao contrário
de outros sonhos, e que a lembrança deles é muito mais sumária do que pormenorizada. Essa
seria realmente uma característica que tais fantasias já prontas, tocadas pelo trabalho do sonho,
estariam fadadas a possuir, embora esta seja uma conclusão que os autores em causa não
chegam a tirar. Não assevero, contudo, que todos os sonhos de despertar admitam essa
explicação, ou que o problema da passagem acelerada das representações nos sonhos possa,
desse modo, ser inteiramente descartado.
Neste ponto, é impossível evitarmos o exame da relação entre essa elaboração
secundária do conteúdo dos sonhos e os demais fatores do trabalho do sonho. Deveremos acaso
supor que o que acontece é que, aprincípio, os fatores formadores do sonho - a tendência à
condensação, o imperativo de fugir à censura e a consideração à representabilidade pelos
recursos psíquicos acessíveis ao sonho - compõem um conteúdo onírico provisório a partir do
material fornecido, e que esse conteúdo é subseqüentemente remoldado para conformar-se tanto
quanto possível às exigências de uma segunda instância? Isto é muito improvável. Devemos antes
presumir que, desde o início, as exigências dessa segunda instância constituem uma das
condições que o sonho precisa satisfazer, e que essa condição, tal como as formuladas pela
condensação, pela censura imposta pela resistência e pela representabilidade, atua
simultaneamente num sentido indutivo e seletivo sobre o conjunto do material presente nos
pensamentos oníricos. De qualquer modo, porém, dentre as quatro condições para a formação do
sonho, a que conhecemos por último é aquela cujas exigências parecem exercer a influência
menos compulsória nos sonhos.
A consideração que se segue torna altamente provável que a função psíquica que
empreende o que descrevemos como elaboração secundária do conteúdo dos sonhos deva ser
identificada com a atividade de nosso pensamento de vigília. Nosso pensamento desperto (préconsciente)
comporta-se ante qualquer material perceptivo com que se depare exatamente do
mesmo modo que se comporta a função ora examinada em relação ao conteúdo dos sonhos. É
próprio de nosso pensamento de vigília estabelecer ordem nesse material, nele estruturar relações
e fazê-lo conformar-se a nossas expectativas de um todo inteligível. [Ver em [1] e [2].] A rigor,
chegamos a nos exceder nisso. Os adeptos da prestidigitação conseguem iludir-nos por confiarem
nesse nosso hábito intelectual. Em nosso empenho de criar um padrão inteligível com impressões
sensoriais que são oferecidas, muitas vezes incidimos nos mais estranhos erros, ou até falseamos
a verdade do material que nos é apresentado.
As provas disso são por demais conhecidas de todos para que haja qualquer
necessidade de insistirmos nelas ainda mais. Em nossas leituras, passamos por cima de erros
tipográficos que destroem o sentido e temos a ilusão de que o que estamos lendo é correto. Diz-se
que o editor de um popular periódico francês apostou que mandaria o tipógrafo inserir as palavras
“em frente” ou “atrás” em todas as frases de um longo artigo sem que um únicode seus leitores o
notasse. Ganhou a aposta. Há muitos anos, li num jornal um exemplo cômico de falsa ligação.
Certa feita, durante uma sessão da Câmara francesa, uma bomba lançada por um anarquista
explodiu no próprio recinto e Dupuy dominou o pânico subseqüente com as corajosas palavras: “La
séance continue”. Os visitantes das galerias foram solicitados a dar suas impressões como
testemunhas do atentado. Havia entre eles dois homens das províncias. Um deles disse ser
verdade que ouvira uma detonação ao final de um dos discursos, mas presumira que fosse um
costume parlamentar disparar um tiro sempre que um orador se sentava. O segundo, que
provavelmente já tinha ouvido vários discursos, chegara à mesma conclusão, exceto pelo fato de
supor que só se disparava um tiro em homenagem a algum discurso particularmente bemsucedido.
Não há duvida, pois, de que nosso pensamento normal é que é a instância psíquica que
aborda o conteúdo dos sonhos com a exigência de que ele seja inteligível, que o submete a uma
primeira interpretação e que, conseqüentemente, gera um completo desentendimento dele. [Ver
em [1].] Para fins de nossa interpretação, persiste como regra essencial desconsiderar
invariavelmente a aparente continuidade de um sonho como sendo de origem suspeita, e percorrer
o mesmo caminho de volta ao material dos pensamentos oníricos, quer o sonho em si seja claro ou
confuso.
Percebemos agora, aliás, do que é que depende a escala de qualidade dos sonhos entre
a confusão e a clareza, examinada em [1]. As partes do sonho em que a elaboração secundária
conseguiu surtir algum efeito são claras, ao passo que as outras em que seus esforços falharam
são confusas. Visto que as partes confusas do sonho, ao mesmo tempo, são freqüentemente
menos vívidas, podemos concluir que o trabalho secundário do sonho também deve ser
responsabilizado por uma contribuição à intensidade plástica dos diferentes elementos do sonho.
Quando procuro algo com que comparar a forma final assumida pelo sonho, tal como
aparece depois que o pensamento normal faz sua contribuição, não consigo pensar em nada
melhor do que as inscrições enigmáticas com que o Fliegende Blätter vem há muito entretendo os
seus leitores. Eles pretendem levar o leitor a crer que uma certa frase - para efeito de contraste,
uma frase em dialeto e tão chula quanto possível - é uma inscrição latina. Para esse fim, as letras
contidas nas palavras são separadas de sua combinação em sílabas e dispostas numa nova
ordem. Aqui e ali surge uma autêntica palavra latina; em outros pontos, parecemos ver abreviações
de termos latinos, e ainda em outros pontos da inscrição, deixamo-nos ser levados a fazer vista
grossa à falta de sentido das letras isoladas por partes da inscrição que parecem estar apagadas
ou mostrando lacunas. Se quisermos evitar o engodo do chiste, teremos de desprezar tudo o que
faça parecer uma inscrição, olhar firmemente para as letras, não prestar atenção a seu arranjo
aparente e, desse modo, combiná-las em palavras pertencentes a nossa própria língua materna.
A elaboração secundária [1] é o único fator do trabalho do sonho que tem sido observado
pela maioria dos autores no assunto e cuja importância tem sido apreciada. Havelock Ellis (1911,
10-11) fez uma exposição divertida do seu funcionamento: “Com efeito, podemos até imaginar a
consciência adormecida dizendo a si própria: ‘Aí vem nosso amo, a Consciência de Vigília, que
atribui tão enorme importância à razão e à lógica, e assim por diante. Rápido! apanhem as coisas,
ponham-nas em ordem - qualquer ordem serve - antes que ele entre para tomar posse.’”
A identidade entre seu método de trabalho e o do pensamento de vigília foi enunciada
com particular clareza por Delacroix (1904, 926): “Cette fonction d’interprétation n’est pas
particulière au rêve; c’est le même travail de coordination logique que nous faisons sur nos
sensations pendant la veille.” James Sully [1893, 355-6] é da mesma opinião, assim como
Tobowolska (1900,93): “Sur ces successions incohérentes d’hallucinations, l’esprit s’efforce de faire
le même travail de coordination logique qu’il fait pendant la veille sur les sensations. II relie entre
elles par un lien imaginaire toutes ces images décousues et bouche les écarts trop grands qui se
trouvaient entre elles.”
De acordo com alguns autores, esse processo de arranjo e interpretação se inicia
durante o próprio sonho e continua após o despertar. Assim, diz Paulhan (1894, 546): “Cependant
j’ai souvent pensé qu’il pouvait y avoir une certaine déformation, ou plutôt réformation, du rêve dans
le souvenir … La tendance systématisante de l’imagination pourrait fort bien achever après le réveil
ce qu’elle a ébauché pendant le sommeil. De la sorte, la rapidité réelle de la pensée sarait
augmentée en apparencè par les perfectionnements dûs à l’imagination éveilée.”Bernard-Leroy e
Tobowolska (1901, 592): “Dans le rêve, au contraire, l’interprétation et la coordination se font non
seulement à l’aide des données du rêve, mais encore à l’aide de celles de la veille…”
Inevitavelmente, portanto, esse único fator reconhecido na formação dos sonhos teve
sua importância superestimada, de modo que a ele se atribuiu toda a proeza da criação dos
sonhos. Esse ato de criação, como supõem Goblot (1896, 288 e seg.) e mais ainda, Foucault
(1906) é executado no momento do despertar, pois esses dois autores atribuem ao pensamento de
vigília a capacidade de formar um sonho a partir dos pensamentos surgidos durante o sono.
Bernard-Leroy e Tobowolska (1901) assim comentam essa concepção. “On a cru pouvoir placer le
rêve au moment du réveil, et ils ont attribué à la pensée de la veille la fonction de construire le rêve
avec les images présentes dans la pensée du sommeil.”
Dessa discussão da elaboração secundária passarei ao exame de outro fator do trabalho
do sonho recentemente trazido à luz por algumas observações sutilmente perceptivas feitas por
Herbert Silberer. Como mencionei antes (em [1]), Silberer apanhou em flagrante, por assim dizer, o
processo de transformação dos pensamentos em imagens, impondo-se uma atividade intelectual
em estados de fadiga e sonolência. Nessas ocasiões, o pensamento com que ele estava às voltas
desaparecia e era substituído por uma visão que se revelava um substituto do que, em geral, eram
pensamentosabstratos. (Cf. os exemplos do trecho que acabo de citar.) Ora, acontece que, nesses
experimentos, a imagem que surgia, e que poderia ser comparada a um elemento de um sonho,
por vezes representava algo diverso do pensamento que estava sendo abordado- a saber, a
própria fadiga, a dificuldade e o desprazer frente a esse trabalho. Representava, em outras
palavras, o estado subjetivo e o modo de funcionamento da pessoa que empreendia o esforço, em
vez do objeto de seu empenho. Silberer descreveu tais ocorrências, que eram muito freqüentes em
seu caso, como um “fenômeno funcional”, em contraste com o “fenômeno material” que seria
esperável.
Por exemplo: “Uma tarde, estava deitado em meu sofá, sentindo-me extremamente
sonolento; mesmo assim, forcei-me a pensar num problema filosófico. Queria comparar as
concepções de Kant e Schopenhauer sobre o Tempo. Como resultado de minha sonolência, eu
não conseguia manter os argumentos de ambos na mente ao mesmo tempo, o que era necessário
para estabelecer o confronto. Após várias tentativas inúteis, gravei mais uma vez na mente as
deduções de Kant, com toda a força de minha vontade, para que pudesse aplicá-las à formulação
do problema por Schopenhauer. Voltei então minha atenção para este último, mas quando tentei
retornar outra vez a Kant, verifiquei que sua tese me escapara de novo e tentei em vão captá-la
novamente. Esse esforço inútil de recuperar o dossier de Kant que estava armazenado em alguma
parte de minha cabeça foi subitamente representado perante meus olhos fechados como um
símbolo concreto e plástico, como se fosse uma imagem onírica: “Eu pedia uma informação a um
secretário descortês que estava curvado sobre sua escrivaninha e se recusava a dar ouvidos a
meu pedido insistente. Ele se aprumou um pouco e me lançou um olhar desagradável e duro”.
(Silberer, 1909, 513 e seg. [O grifo é de Freud.])
Eis alguns outros exemplos relacionados com a oscilação entre dormir e acordar:
“Exemplo N.º 2. - Circunstâncias: Pela manhã, ao despertar. Enquanto me achava em
certo nível de sono (um estado crepuscular), refletindo sobre um sonho anterior e, de certo modo,
continuando a sonhá-lo, senti-me chegar mais perto da consciência da vigília, mas quis
permanecer no estado crepuscular.
“Cena: Ia dando um passo para atravessar um regato, mas recuei o pé na mesma hora,
com a intenção de permanecer deste lado.” (Silberer, 1912, 625.)
“Exemplo N.º 6. - Circunstâncias iguais à do exemplo N.º 4” (em que ele queria ficar na
cama um pouco mais, porém sem dormir até tarde). “Queria entregar-me ao sono mais um
pouquinho.”
“Cena: Estava me despedindo de alguém e combinava com ele (ou ela) encontrá-lo (la)
novamente dentro em breve.” (Ibid., 627.)
O fenômeno “funcional”, “a representação de um estado em vez de um objeto”, foi
observado por Silberer principalmente nas condições de adormecimento e despertar. É evidente
que a interpretação dos sonhos só se interessa pelo segundo caso. Silberer tem dado exemplos
que revelam de modo convincente que, em muitos sonhos, as últimas partes do conteúdo
manifesto, que são imediatamente seguidas pelo despertar, representam nada mais, nada menos
que uma intenção de acordar ou o processo de acordar. A representação pode ocorrer em termos
de imagens como atravessar um umbral (“simbolismo do umbral”), sair de um quarto e entrar
noutro, partir, voltar para casa, despedir-se de um companheiro, mergulhar n’água etc. Não posso,
entretanto, deixar de observar que tenho deparado com elementos oníricos passíveis de ser
relacionados com o simbolismo do umbral, seja em meus próprios sonhos, seja nos dos sujeitos a
quem tenho analisado, com freqüência muito menor do que seria esperável pelas comunicações de
Silberer.
De modo algum é inconcebível ou improvável que esse simbolismo do umbral venha a
lançar luz sobre alguns elementos situados no meio da trama dos sonhos - nos lugares, por
exemplo, onde há uma questão de oscilações na profundidade do sono e de uma inclinação para
interromper o sonho. Não se apresentaram, porém, exemplos convincentes disso. O que parece
ocorrer com mais freqüência são os casos de sobredeterminação, nos quais parte de um sonho
que tenha derivado seu conteúdo material da interconexão dos pensamentos oníricos é empregada
para representar, além disso, algum estado de atividade mental.
Esse interessantíssimo fenômeno funcional de Silberer, sem nenhuma culpa de seu
descobridor, tem levado a muitos abusos, pois tem sido encarado como um apoio à antiga
inclinação a se darem interpretações abstratas e simbólicas aos sonhos. A preferência pela
“categoria funcional” é levada a tal ponto por certas pessoas que elas se referem ao fenômeno
funcional onde quer que ocorram atividades intelectuais ou processos afetivos nos pensamentos
oníricos, embora esse material não tenha nem mais nem menosdireito do qualquer outro a penetrar
num sonho na qualidade de resto diurno. [Cf. [1] e [2].]
Estamos prontos a reconhecer o fato de que os fenômenos de Silberer constituem uma
segunda contribuição do pensamento de vigília à formação dos sonhos, embora esteja presente
com menos regularidade e seja menos significativo do que o primeiro, já introduzido sob a
designação de “elaboração secundária”. Mostrou-se que parte da atenção que atua durante o dia
continua a ser orientada para os sonhos durante o estado de sono, que os controla e critica e se
reserva o poder de interrompê-los. Pareceu plausível reconhecer na instância anímica que assim
permanece desperta o censor a quem tivemos de atribuir tão poderosa influência restritiva sobre a
forma assumida pelos sonhos. O que as observações de Silberer acrescentaram a isso foi o fato
de que, em certas circunstâncias, uma espécie de auto-observação participa disso e presta uma
contribuição ao conteúdo do sonho. As relações prováveis dessa instância auto-observadora, que
talvez seja particularmente acentuada nas mentes filosóficas, com a percepção endopsíquica, os
delírios de observação, a consciência e o censor de sonhos poderão ser mais apropriadamente
tratadas em outro lugar.
Tentarei agora resumir esta longa exposição sobre o trabalho do sonho. Havíamos
deparado com a questão de saber se a alma emprega irrestritamente todas as suas faculdades na
formação dos sonhos, ou apenas um fragmento funcionalmente restrito delas. Nossas
investigações levaram-nos a rejeitar por completo essa forma de colocar a questão, como sendo
inadequada às circunstâncias. Entretanto, se tivéssemos de responder à pergunta com base nos
termos em que foi formulada, seríamos obrigados a responder afirmativamente a ambas as
alternativas, ainda que pareçam mutuamente exclusivas. É possível distinguir duas funções
isoladas na atividade anímica durante a formação do sonho: a produção dos pensamentos oníricos
e sua transformação no conteúdo do sonho. Os pensamentos oníricos são inteiramente racionais e
formados com o dispêndio de toda a energia psíquica de que somos capazes. Situam-se entre
processos de pensamento que não se tornaram conscientes - processos dos quais, após alguma
modificação,também brotam nossos pensamentos conscientes. Por muitas que sejam as questões
interessantes e enigmáticas envolvidas nos pensamentos oníricos, tais questões não têm, afinal,
nenhuma relação especial com os sonhos e não precisam ser tratadas entre os problemas destes.
Por outro lado, a segunda função da atividade anímica na formação do sonho - a transformação
dos pensamentos inconscientes no conteúdo do sonho - é peculiar à vida onírica e dela
característica. Esse trabalho do sonho, propriamente dito, diverge ainda mais de nossa visão do
pensamento de vigília do que tem sido suposto até pelo mais obstinado depreciador do
funcionamento psíquico durante a formação dos sonhos. O trabalho do sonho não é apenas mais
descuidado, mais irracional, mais esquecido e mais incompleto do que o pensamento de vigília; é
inteiramente diferente deste em termos qualitativos e, por essa razão, não é, em princípio,
comparável com ele. Não pensa, não calcula e nem julga de nenhum modo; restringe-se a dar às
coisas uma nova forma. É exaustivamente descritível mediante a enumeração das condições que
tem de satisfazer ao produzir seu resultado. Esse produto, o sonho, tem, acima de tudo, de
escapar à censura, e com esse propósito em vista, o trabalho do sonho se serve do deslocamento
das intensidades psíquicas a ponto de chegar a uma transmutação de todos os valores psíquicos.
Os pensamentos têm de ser reproduzidos, exclusiva ou predominantemente, no material dos
traços mnêmicos visuais e acústicos, e essa necessidade impõe ao trabalho do sonho uma
consideração à representabilidade, que ela atende efetuando novos deslocamentos. É provável
que se tenham de produzir intensidades maioresdo que as disponíveis nos pensamentos oníricos
durante a noite, e para essa finalidade serve a ampla condensação efetuada com os componentes
dos pensamentos oníricos. Pouca atenção é dada às relações lógicas entre os pensamentos; estas
recebem, em última análise, uma representação disfarçada em certas características formais dos
sonhos. Qualquer afeto ligado aos pensamentos oníricos sofre menos modificação do que seu
conteúdo de representações. Tais afetos, via de regra, são suprimidos; quando retidos, são
desligados das representações a que pertencem propriamente, sendo reunidos os afetos de
caráter semelhante. Apenas uma única parcela do trabalho do sonho, e uma parcela que atua em
grau irregular - a reelaboração do material pelo pensamento de vigília parcialmente desperto -,
ajusta-se em certa medida à visão que outros autores procuraram aplicar a toda a atividade da
formação do sonho. [1]
Capítulo VII - A PSICOLOGIA DOS PROCESSOS ONÍRICOS
Entre os sonhos que me foram comunicados por outras pessoas há um que merece
especialmente nossa atenção neste ponto. Foi-me contado por uma paciente que dele tomou
conhecimento numa conferência sobre os sonhos: sua origem real ainda me é desconhecida. Seu
conteúdo impressionou essa dama, contudo, e ela tratou de “ressonhá-lo”, ou seja, de repetir
alguns de seus elementos num sonho dela própria, de tal modo que, assim se apoderando dele,
pudesse expressar sua concordância com ele num determinado ponto.
As condições preliminares desse sonho-padrão foram as seguintes: um pai estivera de
vigília à cabeceira do leito de seu filho enfermo por dias e noites a fio. Após a morte do menino, ele
foi para o quarto contíguo para descansar, mas deixou a porta aberta, de maneira a poder enxergar
de seu quarto o aposento em que jazia o corpo do filho, com velas altas a seu redor. Um velho fora
encarregado de velá-lo e se sentou ao lado do corpo, murmurando preces. Após algumas horas de
sono, o pai sonhou que seu filho estava de pé junto a sua cama, que o tomou pelo braço e lhe
sussurou em tom de censura: “Pai, não vês que estou queimando?” Ele acordou, notou um clarão
intenso no quarto contíguo, correu até lá e constatou que o velho vigia caíra no sono e que a
mortalha e um dos braços do cadáver de seu amado filho tinham sido queimados por uma vela
acesa que tombara sobre eles.
A explicação desse sonho comovente é bem simples e, segundo me disse minha
paciente, foi corretamente fornecida pelo conferencista. O clarão de luz chegou pela porta aberta
aos olhos do homem adormecido e o levou à conclusão a que teria chegado se tivesse acordado,
ou seja, que uma vela caída havia ateado fogo em alguma coisa nas proximidades do corpo. É
possível até que, ao dormir, ele sentisse uma certa preocupação de que o velho não fosse capaz
de cumprir sua tarefa.
Não é que eu tenha qualquer modificação a sugerir nessa interpretação, salvo para
acrescentar que o conteúdo do sonho deve ter sido sobredeterminado e que as palavras proferidas
pelo menino devem ter sido compostas deexpressões que ele realmente proferira em vida e que
estavam ligadas a acontecimentos importantes no espírito do pai. Por exemplo, “Estou queimando”
pode ter sido dito em meio à febre da doença fatal da criança e “Pai não vês?” talvez tenha
derivado de alguma outra situação altamente carregada de afeto que nos é desconhecida.
Entretanto, depois de reconhecermos que o sonho foi um processo dotado de sentido e
passível de ser inserido na cadeia de experiências psíquicas do sonhador, podemos ainda
conjeturar por que teria um sonho ocorrido em tais circunstâncias, quando se fazia necessário o
mais rápido despertar possível. E aqui observaremos que também esse sonho abrigou a realização
de um desejo. O filho morto comportou-se no sonho como vivo; ele próprio advertiu o pai, veio até
sua cama e o segurou pelo braço, tal como provavelmente fizera na ocasião de cuja lembrança se
originou a primeira parte das palavras da criança no sonho. Em nome da realização desse desejo,
o pai prolongou seu sono por um momento. O sonho foi preferido a uma reflexão desperta, porque
podia mostrar o menino vivo outra vez. Se o pai tivesse primeiro acordado, e depois feito a
inferência que o levou a ir até o quarto contíguo, teria, por assim dizer, abreviado a vida de seu
filho por esse breve lapso de tempo.
Não há dúvida sobre qual é a peculiaridade que atrai nosso interesse para esse curto
sonho. Até aqui, estivemos principalmente interessados no sentido secreto dos sonhos e no
método para descobri-lo, bem como nos meios empregados pelo trabalho do sonho para ocultá-lo.
Os problemas da interpretação do sonho ocuparam até aqui o centro da descrição. E agora
esbarramos num sonho que não levanta problemas de interpretação e cujo sentido é óbvio, mas
que, não obstante, como vimos, preserva as características essenciais que diferenciam tão
notavelmente os sonhos da vida de vigília e, por conseguinte, requerem explicação. Só depois de
havermos resolvido tudo o que diz respeito ao trabalho de interpretação é que poderemos começar
a nos aperceber de quão incompleta é nossa psicologia dos sonhos.
Entretanto, antes de partirmos por esse novo caminho, será bom fazermos uma pausa e
olharmos em torno, para ver se, no curso de nossa jornada até este ponto, não teremos
desprezado algo importante. É que deve ficar claramente entendido que a parte fácil e agradável
de nossa viagem ficou para trás. Até aqui, a menos que eu esteja muito equivocado, todos os
caminhos por onde viajamos nos conduziram à luz - ao esclarecimento e a uma compreensão mais
completa. Contudo, mal nos empenhamos em penetrar mais a fundo nos processos anímicos
envolvidos no ato de sonhar, todos os caminhos terminam na escuridão. Não há possibilidade de
explicaros sonhos como um processo psíquico, uma vez que explicar algo significa fazê-lo
remontar a alguma coisa já conhecida, e não há, no momento, nenhum conhecimento psicológico
estabelecido a que possamos subordinar aquilo que o exame psicológico dos sonhos nos habilita a
inferir como base de sua explicação. Pelo contrário, seremos obrigados a formular diversas novas
hipóteses que toquem provisoriamente na estrutura do aparelho psíquico e no jogo das forças que
nele atuam. Precisamos, porém, ter o cuidado de não levar essas hipóteses muito além de suas
primeiras articulações lógicas, ou seu valor se perderá em incertezas. Ainda que não façamos
inferências falsas e levemos em conta todas as possibilidades lógicas, a provável imperfeição de
nossas premissas ameaça levar nossos cálculos a um completo malogro. Nem mesmo partindo da
mais minuciosa investigação dos sonhos ou de qualquer outra função psíquica, tomada
isoladamente, é possível chegar a conclusões sobre a construção e os métodos de funcionamento
do instrumento anímico, ou, pelo menos, prová-las integralmente. Para chegar a esse resultado,
será necessário correlacionar todas as implicações já estabelecidas, derivadas de um estudo
comparativo de toda uma série de funções. Portanto, as hipóteses psicológicas a que formos
levados por uma análise dos processos oníricos deverão ficar em suspenso, por assim dizer, até
que possam ser relacionadas com os resultados de outras investigações que busquem chegar ao
âmago do mesmo problema a partir de outro ângulo de abordagem.
(A) O ESQUECIMENTO DOS SONHOS
Sugiro, por conseguinte, que nos voltemos primeiro para um tema que levanta uma
dificuldade até agora não considerada, mas que, não obstante, é capaz de jogar por terra todos os
nossos esforços de interpretação dos sonhos. Já se objetou, em mais de uma ocasião, que de fato
não temos nenhum conhecimento dos sonhos que nos dispomos a interpretar ou, falando mais
corretamente, que não temos nenhuma garantia de conhecê-los tal como realmente ocorreram.
[Ver em [1]]
Em primeiro lugar, o que lembramos de um sonho, aquilo em que exercemos nossa arte
interpretativa, já foi mutilado pela infidelidade de nossa memória, que parece singularmente
incapaz de reter um sonho e bem pode ter perdido exatamente as partes mais importantes de seu
conteúdo. É muito freqüente, ao procurarmos voltar a atenção para um de nossos sonhos,
descobrirmos-nos lamentando o fato de que, embora tenhamos sonhado mais, não conseguimos
recordar nada além de um único fragmento, ele próprio relembrado com peculiar incerteza.
Em segundo lugar, temos todas as razões para suspeitar de que nossa lembrança dos
sonhos é não apenas fragmentada, mas positivamente inexata e falseada. Por um lado, podemos
duvidar de se o que sonhamos foi realmente tão desconexo e nebuloso quanto é nossa lembrança
dele e, por outro, também se pode pôr em dúvida se um sonho foi realmente tão coerente quanto o
é no relato que dele fornecemos; se, na tentativa de reproduzi-lo, não preenchemos com material
novo e arbitrariamente escolhido o que nunca esteve lá ou o que foi esquecido; se não lhe
acrescentamos adornos e acabamentos, e o arredondamos de tal maneira que não há
possibilidade de determinar qual pode ter sido seu conteúdo original. Na verdade, um autor, Spitta
(1882, [338]), chega a ponto de sugerir que, se o sonho mostra qualquer tipo de ordem ou
coerência, tais qualidades só são introduzidas nele ao tentarmos evocá-lo. [Ver em [1].] Assim,
parece haver um risco de que a própria coisa cujo valor nos propusemos determinar escape-nos
completamente por entre os dedos.
Até aqui, ao interpretarmos os sonhos, temos desconsiderado tais advertências. Ao
contrário, aceitamos como igualmente importante interpretar tanto os componentes mais ínfimos,
menos destacados e mais incertos do conteúdo dos sonhos quanto os que são preservados com
mais nitidez e certeza. O sonho da injeção de Irma continha a frase “Chamei imediatamente o Dr.
M.” [em [1]] e presumimos que nem mesmo esse detalhe teria penetrado no sonho, a menos que
tivesse uma origem específica. Foi assim que chegamos à história da infortunada paciente a cuja
cabeceira eu havia “imediatamente” chamado meu colega mais experimentado. No sonho
aparentemente absurdo que tratou a diferença entre 51 e 56 como um valor desprezível, o número
51 foi mencionado diversas vezes. [Ver em [1].] Em vez de encarar isso como uma coisa banal ou
indiferente, inferimos daí que havia uma segunda linha de pensamentos no conteúdo latente do
sonho, levando ao número 51; e por essa trilha chegamos a meus temores de que 51 anos fossem
o limite de minha vida, em flagrante contraste com a cadeia de pensamentos dominante no sonho,
que era pródiga em seu alarde de uma vida longa. No sonho do “Non vixit” [em [1]], houve uma
interpolação discreta que a princípio me passou despercebida: “Como P. não conseguisse
entendê-lo, Fl. me perguntou”, etc. Quando a interpretação estancou, retornei a essas palavras e
foram elas que me levaram à fantasia infantil que se revelou um ponto nodal intermediário nos
pensamentos oníricos. [Ver em [1]] Chegou-se a isso através dos versos:
Selten habt ihr mich verstanden,
Selten auch verstand ich Euch,
Nur wenn wir im Kot uns fander,
So verstanden wir uns gleich.
Em toda análise se poderiam encontrar exemplos para mostrar que precisamente os
elementos mais triviais de um sonho são indispensáveis a sua interpretação e que o trabalho em
andamento é interrompido quando se tarda a prestar atenção a esses elementos. Ao interpretar
sonhos, atribuímos idêntica importância a cada um dos matizes de expressão lingüística em que
eles nos foram apresentados. E mesmo quando o texto do sonho, tal como o tínhamos, era sem
sentido ou insuficiente - como se o esforço de fornecer dele um relato correto tivesse fracassado -
levamos também essa falha em consideração. Em suma, tratamos como Sagrada Escritura aquilo
que os autores precedentes haviam encarado como uma improvisação arbitrária, remendada às
pressas no embaraço do momento. Essa contradição requer uma explicação.
A explicação nos é favorável, embora sem tirar a razão dos outros autores. À luz de
nosso recém-adquirido entendimento da origem dos sonhos, a contradição desaparece por
completo. É verdade que distorcemos os sonhos ao tentar reproduzi-los; aí reencontramos em
ação o processo que descrevemos como a elaboração secundária (e muitas vezes mal formulada)
do sonho pela instância encarregada do pensamento normal [em [1]]. Mas essa mesma distorção
não passa de uma parte da elaboração a que os pensamentos oníricos são regularmente
submetidos em decorrência da censura do sonho. Os outros autores notaram ou suspeitaram aqui
do papel de distorção do sonho que atua de maneira ostensiva; quanto a nós, estamos menos
interessados nisso, pois sabemos que um processo de distorção muito mais extenso, embora
menos óbvio, já fez o sonho brotar dos pensamentos oníricos ocultos. O único erro cometido pelos
autores precedentes foi supor que a modificação do sonho, no processo de ser lembrado e posto
em palavras, é arbitrária e não admite maior análise, sendo, portanto, passível de nos fornecer
uma imagem enganosa do sonho. Eles subestimaram a extensão do determinismo nos eventos
psíquicos. Não há neles nada de arbitrário. De modo bastante geral, pode-se demonstrar que, se
um elemento deixa de ser determinado por certa cadeia de pensamentos, sua determinação é
imediatamente comandada por outra. Por exemplo, posso tentar pensar arbitrariamente num
número, mas isso é impossível: o número que me ocorre é inequívoca e necessariamente
determinado por pensamentos que haja em mim, ainda que estejam distantes de minha intenção
imediata. Do mesmo modo, as modificações a que os sonhos são submetidos na redação
[Redaktion] da vida de vigília tampouco são arbitrárias. Estão associativamente ligadas ao material
que substituem e servem para indicar-nos o caminho para esse material, que, por sua vez, pode
ser substituto de alguma outra coisa.
Ao analisar os sonhos de meus pacientes, às vezes submeto essa asserção ao seguinte
teste, que nunca me falhou: quando o primeiro relato que me é feito de um sonho por um paciente
é muito difícil de compreender, peço-lhe que o repita. Ao fazer isso, ele raramente emprega as
mesmas palavras. Entretanto, as partes do sonho que ele descreve em termos diferentes são-me
reveladas, por esse fato, como o ponto fraco do disfarce do sonho: servem para mim como serviu
para Hagen o sinal bordado no manto de Siegfried. É esse o ponto por onde se pode iniciar a
interpretação do sonho. Minha solicitação de que o paciente repetisse seu relato do sonho
advertiu-o de que eu tinha o propósito de me empenhar particularmente em solucioná-lo; assim,
sob a pressão da resistência, ele encobre às pressas os pontos fracos do disfarce do sonho,
substituindo quaisquer expressões que ameacem trair seu sentido por outras menos reveladoras.
Desse modo, atrai minha atenção para a expressão que abandonou. O empenho do sonhador em
impedir a solução do sonho fornece-nos uma base para inferir o cuidado com que seu manto foi
tecido.
Menos justificativa tiveram os autores precedentes para devotar tanto espaço à dúvida
com que nosso juízo recebe os relatos de sonhos. É que essa dúvida não tem nenhuma
justificativa intelectual. Em geral, não há garantia de exatidão de nossa memória, mas, mesmo
assim, cedemos à compulsão de dar crédito a seus dados com muito mais freqüência do que seria
obviamente justificado. A dúvida sobre a exatidão do relato de um sonho ou de certos pormenores
dele é também um derivado da censura onírica, da resistência à irrupção dos pensamentos
oníricos na consciência. Essa resistência não se esgotou nem mesmo com os deslocamentos e
substituições que ocasionou; persiste sob a forma de uma dúvida ligada ao material que foi
admitido [na consciência]. Ficamos especialmente inclinados a interpretar mal essa dúvida na
medida em que ela tem o cuidado de nunca atacar os elementos mais intensos do sonho, mas
apenas os fracos e indistintos. Como já sabemos,porém, uma completa transmutação de todos os
valores psíquicos se dá entre os pensamentos oníricos e o sonho [em [1]]. A distorção só é
possibilitada pela retirada do valor psíquico; habitualmente, ela se expressa por esse meio e às
vezes se contenta em não pedir mais nada. Assim, quando um elemento indistinto do conteúdo do
sonho é, além disso, atacado pela dúvida, temos aí uma indicação segura de estarmos lidando
com um derivado mais ou menos direto de um dos pensamentos oníricos proscritos. O estado de
coisas é como o que se instaurava após uma grande revolução numa das repúblicas da
Antigüidade ou da Renascença. As famílias nobres e poderosas que antes haviam dominado o
cenário eram mandadas para o exílio e todos os altos postos eram ocupados por recém-chegados.
Apenas os membros mais empobrecidos e impotentes das famílias derrotadas ou seus
dependentes distantes tinham permissão de permanecer na cidade e, mesmo assim, não
desfrutavam de plenos direitos civis e eram encarados com desconfiança. A desconfiança, nessa
analogia, corresponde à dúvida no caso que estamos considerando. É por isso que, ao analisar um
sonho, insisto em que toda a escala de estimativas de certeza seja abandonada e que a mais
ínfima possibilidade de que possa ter ocorrido no sonho algo de tal ou qual natureza seja tratada
como uma certeza completa. Ao rastrear a origem de qualquer elemento do sonho, descobrir-se-á
que, a menos que essa atitude seja firmemente adotada, a análise chegará a uma paralisação.
Quando se lança qualquer dúvida sobre o valor do elemento em questão, o resultado psíquico, no
paciente, é que não lhe ocorre nenhuma das representações involuntárias subjacentes a esse
elemento. Esse resultado não é evidente por si só. Não seria absurdo que alguém dissesse: “Não
sei ao certo se tal ou qual coisa entrou no sonho, mas eis o que me ocorre a respeito”. De fato,
porém, ninguém jamais diz isso, e é precisamente o fato de a dúvida produzir esse efeito de
interrupção na análise que a revela como um derivado e um instrumento da resistência psíquica. A
psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o
progresso do trabalho analítico é uma resistência.
Também o esquecimento dos sonhos permanece inexplicável enquanto não se leva em
consideração o poder da censura psíquica. Em diversos casos, a sensação de se haver sonhado
muito durante a noite e de se haver retido apenas uma pequena parcela disso pode, na realidade,
ter outro sentido: por exemplo, o de que o trabalho do sonho esteve perceptivelmente ativo a noite
inteira, mas só deixou atrás de si um sonho curto. [Ver em [1], [2] e [3].] Decerto é indubitável que
nos esquecemos cada vez mais dos sonhos à medida que o tempo passa após o despertar; muitas
vezes os esquecemos apesar dos mais esmerados esforços de relembrá-los. Entretanto, sou de
opinião que a extensão desse esquecimento costuma ser superestimada; e de maneira similar se
superestima o grau em que as lacunas do sonho limitam nosso conhecimento dele. Com
freqüência, se pode resgatar, por meio da análise, tudo o que foi perdido pelo esquecimento do
conteúdo do sonho; pelo menos, num número bastante grande de casos, pode-se reconstruir, a
partir de um único fragmento remanescente, não o sonho, é verdade - o que, de qualquer modo,
não tem nenhuma importância -, mas todos os pensamentos oníricos. Isso exige certa dose de
atenção e autodicisplina na condução da análise; isto é tudo - mas mostra que não faltou a atuação
de um propósito hostil [isto é, resistente] no esquecimento do sonho. [1]
Uma prova convincente do fato de que o esquecimento dos sonhos é tendencioso e
serve aos propósitos da resistência é fornecida quando se tem a possibilidade de observar, nas
análises, um estágio preliminar de esquecimento. Não é infreqüente que, no meio do trabalho de
interpretação, uma parte omitida do sonho venha à luz e seja descrita como tendo sido esquecida
até então. Ora, uma parte do sonho assim resgatada do esquecimento é, invariavelmente, a mais
importante; situa-se sempre no caminho mais curto para a solução do sonho e por isso foi mais
exposta à resistência do que qualquer outra parte. Entre os exemplos de sonhos dispersos neste
volume, há um em que parte do conteúdo foi assim acrescentada como uma reflexão posterior.
Trata-se do sonho em que me vinguei de dois desagradáveis companheiros de viagem e que tive
de deixar quase sem interpretação por ser grosseiramente indecente. [Ver em [1]] A porção omitida
era a seguinte: “Eu disse [em inglês], referindo-me a uma das obras de Schiller: ‘It is from…’, mas,
notando o engano, corrigi-me: ‘It is by…’ ‘Sim’, comentou o homem com sua irmã, ‘ele disse isso
corretamente.” ‘
As autocorreções nos sonhos, que parecem tão maravilhosas a certos autores, não
precisam ocupar nossa atenção. Indicarei, em vez disso, a lembrança que serviu de modelo para
meu erro verbal nesse sonho. Quando tinha dezenove anos, visitei a Inglaterra pela primeira vez e
passei um dia inteiro nas praias do Mar da Irlanda. Naturalmente, regalei-me com a oportunidade
de recolher animais marinhos deixados para trás pela maré e estava ocupado com uma estrela-domar
- as palavras “Hollthurn” e “holotúria‘’ [lesma-do-mar] ocorreram no início do sonho - quando
uma encantadora garotinha aproximou-se de mim e perguntou: “É uma estrela-do-mar? Está viva?”
[It is alive] “Sim”, respondi, “está viva” [he is alive]” e, em seguida, embaraçado com meu erro,
repeti a frase corretamente. O sonho substituiu o erro verbal então cometido por outro em que um
alemão está igualmente sujeito a incorrer: “Das Buch ist von Schiller” deveria ser traduzido não por
“from”, mas por “by”. Após tudo o que já aprendemos sobre os propósitos do trabalho do sonho e
sua escolha afoita de métodos para atingi-los, não ficaremos surpresos em saber que ele efetuou
essa substituição por causa do magnífico exemplo de condensação possibilitado pela identidade
fonética entre o inglês “from” e o adjetivo alemão “fromm” [“devoto”, “beatífico”]. Mas como foi que
minha inocente lembrança da beira-mar entrou no sonho? Ela funcionou como o exemplo mais
inocente possível de meu emprego de uma palavra indicativa de gênero ou sexo no lugar errado -
de eu trazer à baila o sexo (a palavra “he”) onde ele não era cabível. Essa, aliás, foi uma das
chaves para a solução do sonho. Ademais, ninguém que tenha conhecimento da origem atribuída
ao título “Matter and Motion” [“Matéria e Movimento”], de Clerk Maxwell [mencionado no sonho, em
[1]] terá qualquer dificuldade em preencher as lacunas: “Le Malade Imaginaire”, de “Molière - “La
matière est-elle laudable?” - Movimento dos intestinos.
Além disso, estou em condições de oferecer uma demonstração ocular do fato de que o
esquecimento dos sonhos, em grande parte, é produto da resistência. Vem um de meus pacientes
e me conta que teve um sonho, masesqueceu todo e qualquer vestígio dele: portanto, é como se
nunca tivesse acontecido. Prosseguimos com nosso trabalho. Deparo com uma resistência; por
isso, explico algo ao paciente e o auxilio, através do incentivo e da pressão, a chegar a um acordo
com algum pensamento desagradável. Mal consigo fazer isso, ele exclama: “Agora me lembro do
que foi que sonhei!” A mesma resistência que estava interferindo em nosso trabalho desse dia
também o fizera esquecer o sonho. Superando essa resistência, resgatei o sonho para sua
memória.
Exatamente da mesma maneira, quando um paciente atinge determinado ponto em seu
trabalho, é possível que consiga lembrar-se de um sonho ocorrido há três ou quatro dias, ou até
mais, e que até então permanecera esquecido.
A experiência psicanalítica forneceu-nos ainda outra prova de que o esquecimento dos
sonhos depende muito mais da resistência que do fato, acentuado pelas autoridades, de serem os
estados de vigília e sono estranhos um ao outro [em [1]]. Não raro me acontece, tal como a outros
analistas e a pacientes em tratamento, depois de ser despertado por um sonho, por assim dizer,
passar imediatamente, e em plena posse de minhas faculdades intelectuais, a interpretá-lo. Nessas
situações, muitas vezes me recusei a descansar enquanto não chegasse a uma compreensão
completa do sonho; contudo, foi minha experiência, algumas vezes, depois de finalmente acordar
pela manhã, constatar que havia esquecido inteiramente tanto minha atividade interpretativa
quanto o conteúdo do sonho, embora sabendo que tivera um sonho e que o interpretara. É muito
mais freqüente o sonho arrastar consigo para o esquecimento os resultados de minha atividade
interpretativa do que minha atividade intelectual conseguir preservá-lo na memória. Não obstante,
não existe entre minha atividade interpretativa e meus pensamentos de vigília o abismo psíquico
que as autoridades supõem para explicar o esquecimento dos sonhos.
Morton Prince (1910 [141]) levantou objeções a minha explicação do esquecimento dos
sonhos, mediante a alegação de que o esquecimento é apenas um caso particular da amnésia
ligada aos estadosmentais dissociados, de que é impossível estender minha explicação dessa
amnésia especial a outros tipos e de que, por conseguinte, minha explicação é destituída de valor
até mesmo para seu propósito imediato. Seus leitores são assim lembrados de que, ao longo de
todas as descrições que faz desses estados dissociados, ele nunca tentou descobrir uma
explicação dinâmica para tais fenômenos. Se o tivesse feito, teria inevitavelmente descoberto que
o recalque (ou, mais precisamente, a resistência criada por ele) é a causa tanto das dissociações
quanto da amnésia ligada ao conteúdo psíquico destas.
Uma observação que pude fazer durante a preparação deste manuscrito mostrou-me
que os sonhos não são mais esquecidos do que outros atos mentais e podem ser comparados,
sem nenhuma desvantagem, com outras funções mentais, no que concerne a sua retenção na
memória. Eu havia conservado registros de um grande número dos meus próprios sonhos que, por
uma razão ou outra, não pudera interpretar por completo na época ou deixara inteiramente sem
interpretação. E agora, passados um a dois anos, tentei interpretar alguns deles com a intenção de
obter mais material para ilustrar meus pontos de vista. Essas tentativas tiveram êxito na totalidade
dos casos; a rigor, pode-se dizer que a interpretação progrediu com mais facilidade após esse
longo intervalo do que na época em que o sonho era uma experiência recente. Uma possível
explicação disso é que, entrementes, superei algumas das resistências internas que antes me
obstruíam. Ao fazer essas interpretações posteriores, comparei os pensamentos oníricos que
evocara na época do sonho com a produção atual, geralmente muito mais abundante, e constatei
que os antigos estavam sempre incluídos entre os novos. Meu assombro diante disso foi
prontamente sustado pela consideração de que, desde longa data, desenvolvi o hábito de fazer
com que meus pacientes, que às vezes me contam sonhos de anos anteriores, interpretem-nos -
pelo mesmo procedimento e com o mesmo sucesso - como se os houvessem sonhado na noite
anterior. Quando chegar à discussão dos sonhos de angústia, apresentarei dois exemplos dessas
interpretações adiadas. [Ver em [1]] Fui levado a fazer minha primeira experiência dessa natureza
pela justificável expectativa de que nisso, como em outros aspectos, os sonhos se comportariam
como sintomas neuróticos. Quando trato um psiconeurótico - um histérico, digamos - pela
psicanálise, sou forçado a chegar a uma explicação tanto dos sintomas mais primitivos e há muito
desaparecidos de sua doença quanto dos sintomas contemporâneos que o trouxeram a mim para
tratamento; e, a rigor, considero o problema primitivo mais fácil de solucionar do que o imediato. Já
em 1895, foi-me possível dar uma explicação, nos Estudos sobre a Histeria [Breuer e Freud, 1895],
do primeiro ataque histérico que uma mulher com mais de quarenta anos tivera aos quinze anos de
idade. [Essa paciente era a Sra. Cäcilie M., mencionada ao final do Caso Clínico V.]
E quero aqui mencionar alguns outros pontos um tanto desconexos sobre a questão da
interpretação dos sonhos, que talvez ajudem a orientar os leitores que se sintam porventura
inclinados a conferir minhas afirmações mediante um trabalho posterior com seus próprios sonhos.
Ninguém deve esperar que uma interpretação de seus sonhos lhe caia no colo como um
maná dos céus. A prática é necessária até mesmo para perceber fenômenos endópticos ou outras
sensações de que nossa atenção está normalmente afastada; e isso ocorre apesar de não haver
nenhum motivo psíquico lutando contra tais percepções. É decididamente mais difícil captar as
“representações involuntárias”. Quem quer que procure fazê-lo deve familiarizar-se com as
expectativas levantadas nesta obra e, de acordo com as regras nela estabelecidas, esforçar-se,
durante o trabalho, por se abster de qualquer crítica, qualquer parti pris e qualquer inclinação
afetiva ou intelectual. Deve ter em mente o conselho de Claude Bernard aos experimentadores de
um laboratório de fisiologia: “travailler comme une bête” - isto é, trabalhar com a mesma
persistência de um animal e com idêntica despreocupação com o resultado. Se esse conselho for
seguido, já não será difícil a tarefa.
Nem sempre se pode consumar a interpretação de um sonho de uma só vez. Depois de
seguirmos uma cadeia de associações, não raro sentimos esgotada nossa capacidade; nada mais
se pode saber do sonho nesse dia. O mais aconselhável, nesse caso, é interromper o trabalho e
retomá-lo em outro dia: outra parte do conteúdo do sonho poderá então atrair nossa atenção e darnos
acesso a outra camada dos pensamentos oníricos. Esse procedimento poderia ser descrito
como interpretação “fracionada” do sonho.
Só com extrema dificuldade é que o principiante na tarefa de interpretar sonhos se deixa
persuadir de que sua tarefa não chega ao fim quando ele tem nas mãos uma interpretação
completa - uma interpretação que faz sentido, é coerente e esclarece todos os elementos do
conteúdo do sonho. É que um mesmo sonho pode ter também outra interpretação, uma
“superinterpretação” que lhe escapou. De fato, não é fácil ter uma concepção da abundância das
cadeias inconscientes de pensamento ativas em nosso psiquismo, todas lutando por encontrar
expressão. Tampouco é fácil dar crédito à perícia exibida pelo trabalho do sonho na descoberta
permanente de formas de expressão capazes de abrigar diversos sentidos - como o Alfaiatezinho
do conto de fadas que acertou sete moscas com um só golpe. Meus leitores estarão sempre
inclinados a me acusar de introduzir uma quantidade desnecessária de engenhosidade em minhas
interpretações; mas a experiência real lhes ensinaria que não é bem assim. [Ver em [1].]
Por outro lado, [1] não posso confirmar a opinião, originalmente formulada por Silberer
[p. ex., 1914, Parte II, Seção 5], de que todos os sonhos (ou muitos sonhos, ou certas classes de
sonhos) requerem duas interpretações diferentes, que se afirma até mesmo possuírem uma
relação fixa entre si. Afirma-se que uma dessas interpretações, que Silberer chama de
“psicanalítica”, dá ao sonho um ou outro sentido, geralmente de cunho infantil-sexual; quanto à
outra interpretação, mais importante, a que ele dá o nome de “anagógica”, diz-se que revela os
pensamentos mais sérios, muitas vezes de implicações profundas, que o trabalho do sonho tomou
como material. Silberer não forneceu provas confirmadoras dessa opinião através do relato de uma
série de sonhos analisados nessas duas direções. E tenho de objetar que inexiste o fato alegado.
A despeito do que ele diz, a maioria dos sonhos não requer ‘’superinterpretação” e, mais
particularmente, é insuscetível à interpretação “anagógica”. Tal como ocorre com muitas outras
teorias formuladas em anos recentes, é impossível desprezar o fato de que as opiniões de Silberer
são influenciadas, até certo ponto, por uma tendência que visa a disfarçar as circunstâncias
fundamentais em que se formam os sonhos e desviar o interesse de suas raízes pulsionais. Em
certo número de casos, pude corroborar as afirmações de Silberer. A análise demonstrou que, em
tais casos, o trabalho do sonho viu-se diante do problema de transformar em sonho uma série de
pensamentos altamente abstratos da vida de vigília, insuscetíveis a receber qualquer
representação direta. Esforçou-se por resolver esse problema apoderando-se de outro grupo do
material intelectual um tanto frouxamente relacionado com os pensamentos abstratos (muitas
vezes, de maneira que se poderia descrever como “alegórica”) e, ao mesmo tempo, passível de ser
representado com menor dificuldade. A interpretação abstrata de um sonho assim surgido é dada
pelo sonhador sem qualquer dificuldade; a interpretação “correta” do material interpolado deve ser
buscada pelos métodos que agora nos são familiares.
Caso se pergunte se é possível interpretar todos os sonhos, a resposta deve ser
negativa. Não se deve esquecer que, na interpretação de um sonho, tem-se como oponentes as
forças psíquicas que foram responsáveis por sua distorção. É numa relação de forças, portanto,
que se determina se nosso interesse intelectual, nossa capacidade de autodisciplina, nossos
conhecimentos psicológicos e nossa prática de interpretar sonhos irão habilitar-nos a dominar
nossas resistências internas. É sempre possível caminhar um pouco: o bastante, pelo menos, para
nos convencermos de que o sonho é uma estrutura provida de sentido, e, em geral, o bastante
para entrever qual é esse sentido. Com muita freqüência, um sonho que vem logo a seguir permitenos
confirmar e levar adiante a interpretação que adotamos experimentalmente para seu
antecessor. Muitas vezes, uma série de sonhos que se estende por um período de semanas ou
meses está baseada num fundo comum e, por conseguinte, deve ser interpretada como um
conjunto interligado. [Ver em [1] e [2].] No caso de dois sonhos consecutivos, observa-se com
freqüência que um deles toma como ponto central algo que se acha apenas na periferia do outro e
vice-versa, de maneira que também suas interpretações são mutuamente complementares. Já
forneci exemplos que mostram que os diferentes sonhos de uma mesma noite, em regra bastante
geral, devem ser tratados como um todo único em sua interpretação. [Ver em [1]]
Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado, é freqüente haver um trecho que
tem de ser deixado na obscuridade; é que, durante o trabalho de interpretação, apercebemo-nos
de que há nesse ponto um emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar e
que, além disso, nada acrescenta a nosso conhecimento do conteúdo do sonho. Esse é o umbigo
do sonho, o ponto onde ele mergulha no desconhecido. [Ver em [1].] Os pensamentos oníricos a
que somos levados pela interpretação não podem,pela natureza das coisas, ter um fim definido;
estão fadados a ramificar-se em todas as direções dentro da intricada rede de nosso mundo do
pensamento. É de algum ponto em que essa trama é particularmente fechada que brota o desejo
do sonho, tal como um cogumelo de seu micélio.
Mas temos de retornar aos fatos concernentes ao esquecimento dos sonhos, pois
deixamos de tirar deles uma importante conclusão. Vimos que a vida de vigília mostra uma
tendência inequívoca a esquecer qualquer sonho que se tenha formado durante a noite, seja como
um todo, logo após o despertar, seja aos bocadinhos no correr do dia; e reconhecemos que o
principal responsável por esse esquecimento é a resistência anímica ao sonho, resistência essa
que já fez o que pôde contra ele durante a noite. Mas, se é assim, uma questão se coloca: como é
que o sonho pode chegar a se formar em face dessa resistência? Tomemos o caso mais extremo,
em que a vida de vigília se descarta de um sonho como se ele nunca houvesse ocorrido. Um
exame da interação das forças psíquicas nesse caso deverá levar-nos a inferir que o sonho de fato
não teria ocorrido se a resistência fosse tão acentuada durante a noite quanto o é durante o dia.
Temos de concluir que, no decorrer da noite, a resistência perde parte de seu poder, embora
saibamos que não o perde inteiramente, uma vez que já mostramos o papel que desempenha na
formação dos sonhos como agente deformador. Mas somos levados a supor que seu poder fique
diminuído à noite e que isso possibilite a formação dos sonhos. Fica então fácil compreender
como, depois de recuperar a plenitude de sua força no momento do despertar, ela passa
imediatamente a se livrar daquilo que foi obrigada a permitir enquanto enfraquecida. Diz-nos a
psicologia descritiva que o principal sine qua non para a formação de sonhos é que a mente esteja
em estado de sono; e agora podemos explicar esse fato; o estado de sono possibilita a formação
de sonhos porque reduz o poder da censura endopsíquica.
É sem dúvida tentador encarar essa inferência como a única possível a partir dos fatos
do esquecimento dos sonhos e fazer dela a base para outras conclusões quanto às condições de
energia que prevalecem durante o sono e a vigília. Por ora, entretanto, deter-nos-emos aqui.
Quando tivermos penetrado um pouco mais a fundo na psicologia dos sonhos, veremos que os
fatores que possibilitam sua formação também podem ser concebidos de outra maneira. Talvez a
resistência à conscientização dos pensamentos oníricos possa ser evitada sem que tenha havido
qualquer redução em seu poder. E parece plausível que ambos os fatores que favorecem a
formação dos sonhos - a redução e a evitação da resistência - sejam
simultaneamentepossibilitados pelo estado de sono. Farei aqui uma interrupção, embora vá
retomar este tema dentro em breve. [Ver em [1]]
Existe outro conjunto de objeções a nosso método de interpretação dos sonhos, do qual
devemos agora tratar. Nosso procedimento consiste em abandonar todas as representações-meta
que normalmente dirigem nossas reflexões, focalizar nossa atenção num único elemento do sonho
e, então, tomar nota de todos os pensamentos involuntários que possam ocorrer-nos a propósito
dele. Tomamos então a parte seguinte do sonho e repetimos o processo com ela. Deixamo-nos
impelir por nossos pensamentos, qualquer que seja a direção em que nos conduzam, e assim
vagamos a esmo de uma coisa para outra. Mas nutrimos a firme crença de que, no final, sem
qualquer intervenção ativa de nossa parte, chegaremos aos pensamentos oníricos de que se
originou o sonho.
Nossos críticos objetam a isso nos seguintes termos: não há nada de maravilhoso no
fato de um elemento isolado do sonho nos conduzir a algum lugar; toda representação pode ser
associada com algo. O que é excepcional é que uma cadeia de pensamentos tão arbitrária e sem
objetivo nos leve aos pensamentos oníricos. A probabilidade é que nos estejamos iludindo.
Seguimos uma cadeia de associações que parte de um elemento até que, por uma razão ou outra,
ela parece romper-se. Se tomarmos então um segundo elemento, é de se esperar que o caráter
originalmente irrestrito de nossas associações se estreite, pois ainda temos a cadeia anterior de
associações em nossa memória e, por essa razão, aos analisarmos a segunda representação
onírica, é mais provável que esbarremos em associações que tenham algo em comum com as da
primeira cadeia. Iludimo-nos então com a idéia de havermos descoberto um pensamento que é um
ponto de ligação entre dois elementos do sonho. Uma vez que nos damos total liberdade para ligar
os pensamentos como bem entendermos, e visto que, na realidade, as únicas transições que
excluímos de uma representação para outra são as que vigem no pensamento normal, não
teremos nenhuma dificuldade, com o correr do tempo, em compor, a partir de alguns “pensamentos
intermediários”, algo que descrevemos como sendo os pensamentos oníricos e que - embora sem
qualquer garantia, pois não dispomos de outros conhecimentos do que sejam os pensamentos
oníricos - alegamos ser o substituto psíquico do sonho. Mas tudo isso é completamente arbitrário;
estamos meramente explorando ligações fortuitas de uma maneira que propicia um efeito
engenhoso. Assim, quem quer que se dê a todo esse trabalho inútil poderá excogitar para qualquer
sonho a interpretação que mais lhe aprouver.
Se de fato nos levantassem tais objeções, poderíamos defender-nos apelando para a
impressão causada por nossas interpretações, para as surpreendentes ligações com outros
elementos do sonho que emergem enquanto seguimos uma de suas representações isoladas, e
para a improbabilidade de que se pudesse chegar a algo capaz de dar uma explicação tão
exaustiva do sonho senão seguindo ligações psíquicas já estabelecidas. Poderíamos também
assinalar, em nossa defesa, que nosso procedimento na interpretação dos sonhos é idêntico ao
procedimento pelo qual resolvemos os sintomas histéricos; e nisso, a correção de nosso método é
atestada pela emergência e desaparecimento coincidentes dos sintomas, ou, para usar um símile,
as afirmações feitas no texto são corroboradas pelas ilustrações que as acompanham. Mas não
temos nenhuma razão para nos esquivarmos do problema de como é possível chegar-se a um
objetivo preexistente seguindo o curso fortuito de uma cadeia de pensamentos arbitrária e sem
meta alguma; e isso porque, embora talvez não possamos solucionar o problema, podemos
esvaziá-lo por completo.
Ocorre que é demonstravelmente inverídico que estejamos sendo arrastados por uma
corrente de representações sem meta alguma quando, no processo de interpretar um sonho,
abandonamos a reflexão e deixamos que emerjam representações involuntárias. Pode-se
demonstrar que a única coisa de que conseguimos libertar-nos são as representações-meta que
nos são conhecidas; mal fazemos isso, as representações-meta desconhecidas - ou, como
dizemos sem precisão, “inconscientes” - assumem o comando e, daí por diante, determinam o
curso das representações involuntárias. Nenhuma influência que possamos exercer sobre nossos
processos anímicos nos facultará pensar sem representações-meta, nem tenho conhecimento de
qualquer estado de confusão psíquica que seja capaz de fazê-lo. Os psiquiatrasrenunciaram com
excessiva pressa, nesse aspecto, a sua crença na concatenação dos processos psíquicos. Sei
com certeza que não ocorrem cadeias de pensamento desprovidas de representações-meta nem
na histeria e na paranóia, nem na formação ou resolução dos sonhos. É possível que elas não
ocorram em nenhum dos distúrbios psíquicos endógenos. Até mesmo os delírios dos estados
confusionais podem ter sentido, se aceitarmos a brilhante sugestão de Leuret [1834, 131] de que
eles só nos são inteligíveis por causa das lacunas que apresentam. Eu próprio formei a mesma
opinião a cada vez que tive oportunidade de observá-los. Os delírios são obra de uma censura que
já não se dá ao trabalho de ocultar seu funcionamento; em vez de colaborar para produzir uma
nova versão que seja inobjetável, ela suprime brutalmente tudo aquilo a que desaprova, de
maneira que o que resta se torna muito desconexo. Essa censura age exatamente como a censura
dos jornais na fronteira russa, que só permite que os periódicos estrangeiros caiam nas mãos dos
leitores por quem tem o dever de zelar depois de colocar uma tarja negra sobre diversos trechos.
É possível que um livre jogo das representações com uma cadeia de associações fortuita
seja encontrado nos processos cerebrais orgânicos destrutivos; o que é encarado como tal nas
psiconeuroses é sempre explicável como um efeito da influência da censura numa cadeia de
pensamentos empurrada para o primeiro plano por representações-meta que permaneceram
ocultas. Tem-se considerado como sinal infalível de que uma associação está isenta da influência
das representações-meta o fato de as associações (ou imagens) em questão parecerem interrelacionadas
de um modo que se descreve como “superficial” - por assonância, ambigüidade
verbal, coincidência temporal sem relação interna de sentido, ou por qualquer associação do tipo
que permitimos nos chistes ou nos trocadilhos. Essa característica está presente nas cadeias de
pensamento que vão dos elementos do sonho até os pensamentos intermediários e, destes, até os
pensamentos oníricos propriamente ditos; já vimos exemplos disso - não sem espanto - em muitas
análises de sonhos. Nenhuma ligação era solta demais, nenhum chiste era precário demais para
servir de ponte entre um pensamento e outro. Mas a verdadeira explicação desse estado de coisas
tolerante não tarda em ser descoberta. Sempre que um elemento psíquico está vinculado a outro
por uma associação objetável ou superficial, há também entre eles um vínculo legítimo e mais
profundo que está submetido à resistência da censura.
A verdadeira razão do predomínio de associações superficiais não está no abandono das
representações-meta, mas sim na pressão da censura. As associações superficiais substituem as
profundas quando a censura torna intransitáveis as vias normais de ligação. Podemos imaginar, a
título de analogia, uma região montanhosa onde uma interrupção geral do tráfego (devida a
inundações, por exemplo) bloqueou as estradas principais, mais importantes, porém onde as
comunicações ainda são mantidas através de trilhas inconvenientes e íngremes, normalmente
utilizadas apenas pelos caçadores.
Aqui se podem distinguir dois casos, embora, em essência, eles sejam o mesmo. No
primeiro, a censura se volta apenas contra a ligação entre dois pensamentos que, separadamente,
não suscitam objeção. Nesse caso, os dois pensamentos penetram sucessivamente na
consciência; a ligação entre eles permanece oculta e, em seu lugar, ocorre-nos entre os dois uma
ligação superficial em que, de outra maneira, nunca teríamos pensado. Essa ligação costuma estar
vinculada a uma parte do complexo de representações muito diferente daquela em que se baseia a
ligação suprimida e essencial. O segundocaso é aquele em que os dois pensamentos, por si só,
são submetidos à censura por causa de seu conteúdo. Sendo assim, nenhum dos dois aparece em
sua forma verdadeira, mas apenas numa forma modificada que a substitui, e os dois pensamentos
substitutos são escolhidos de maneira a possuírem uma associação superficial que reproduza o
vínculo essencial que relaciona os dois pensamentos substituídos. Em ambos os casos, a pressão
da censura resultou num deslocamento de uma associação normal e séria para uma associação
superficial e aparentemente absurda.
Uma vez que estamos cientes da ocorrência desses deslocamentos, não hesitamos, na
interpretação dos sonhos, em confiar tanto nas associações superficiais quanto nas outras.
Na psicanálise das neuroses, faz-se o mais amplo uso desses dois teoremas - que,
quando se abandonam as representações-meta conscientes, as representações-meta ocultas
assumem o controle do fluxo de representações, e que as associações superficiais são apenas
substitutos, por deslocamento, de associações mais profundas e suprimidas. A rigor, esses
teoremas transformaram-se em pilares básicos da técnica psicanalítica. Quando instruo um
paciente a abandonar qualquer tipo de reflexão e me dizer tudo o que lhe vier à cabeça, estou
confiando firmemente na premissa de que ele não conseguirá abandonar as representações-meta
inerentes ao tratamento, e sinto-me justificado para inferir que o que se afigura como as coisas
mais inocentes e arbitrárias que ele me conta está de fato relacionado com sua enfermidade. Há
uma outra representação-meta de que o paciente não desconfia - uma que se relaciona comigo. A
plena avaliação da importância desses dois teoremas, bem como as informações mais
pormenorizadas sobre eles, enquadram-se no âmbito de uma exposição da técnica da psicanálise.
Aqui atingimos, portanto, um dos pontos limítrofes em que, segundo nosso programa, devemos
abandonar o tema da interpretação dos sonhos.
Há uma conclusão verdadeira que podemos extrair dessas objeções, qual seja, que não
precisamos supor que todas as associações ocorridas durante o trabalho de interpretação tenham
tido lugar no trabalho do sonho durante a noite. [Ver em [1] e [2].] É verdade que, ao fazermos a
interpretação no estado de vigília, seguimos um caminho que retrocede dos elementos do sonho
para os pensamentos oníricos, e que o trabalho do sonho seguira um rumo inverso. Mas é
altamente improvável que esses caminhos sejam transitáveis em ambos os sentidos. Ao contrário,
parece que, durante o dia, enveredamos por novas cadeias de pensamentos e que essas veredas
estabelecem contato com os pensamentos intermediários e com os pensamentos oníricos ora num
ponto, ora noutro. É fácil perceber como, dessa maneira, o novo material diurno se imiscui nas
cadeias interpretativas. É provável também que o aumento da resistência instaurado desde a noite
torne necessários novos e mais tortuosos desvios. O número e a natureza dos fios colaterais [ver
em [1]] que assim tecemos durante o dia não têm a menor importância psicológica, desde que nos
conduzam aos pensamentos oníricos de que estamos à procura.
(B) REGRESSÃO
Tendo agora rechaçado as objeções levantadas contra nós, ou tendo pelo menos
indicado onde se acham nossas armas defensivas, não mais devemos adiar a tarefa de abordar as
investigações psicológicas para as quais nos vimos preparando há tanto tempo. Resumamos os
principais resultados de nossa investigação até onde ela nos levou. Os sonhos são atos psíquicos
tão importantes quanto quaisquer outros; sua força propulsora é, na totalidade dos casos, um
desejo que busca realizar-se; o fato de não serem reconhecíveis como desejos, bem como suas
múltiplas peculiaridades e absurdos, devem-se à influência da censura psíquica a que foram
submetidos durante o processo de sua formação; à parte a necessidade de fugir a essa censura,
outros fatores que contribuíram para sua formação foram a exigência de condensação de seu
material psíquico, a consideração a sua representabilidade em imagens sensoriais e - embora não
invariavelmente - a demanda de que a estrutura do sonho possua uma fachada racional e
inteligível. Cada uma dessas proposições abre caminho para novas especulações e postulados
psicológicos; a relação recíproca entre o desejo que é a força propulsora do sonho e as quatro
condições a que está sujeita sua formação, bem como as inter-relações entre essas condições,
precisam ser investigadas; e cabe assinalar o lugar dos sonhos na concatenação da vida anímica.
Foi com vistas a nos relembrar os problemas ainda por solucionar que iniciei este
capítulo com o relato de um sonho. Não houve dificuldade em interpretá-lo - o sonho da criança
que se estava queimando -, muito embora sua interpretação não fosse dada integralmente
segundo nosso sentido. Levantei a questão do motivo por que o sonhador o produzira, em vez de
acordar, e reconheci que um de seus motivos fora o desejo de representar o filho como ainda vivo.
Nossas discussões ulteriores mostrarão que um outro desejo também teve participação nisso. [Ver
adiante, em [1].] Assim, em primeiro lugar, foi em nome da realização de um desejo que o processo
de pensamento durante o sono transformou-se num sonho.
Se eliminarmos a realização de desejo, veremos que resta apenas um aspecto para
distinguir as duas formas de ocorrência psíquica. O pensamento onírico teria sido: “Vejo um clarão
vindo do quarto onde jaz o cadáver. Talvez uma vela tenha caído e meu filho esteja ardendo!” O
sonho reproduziu essas reflexões inalteradas, mas representou-as numa situação que
erarealmente atual e podia ser percebida pelos sentidos como uma experiência de vigília. Temos
aqui a característica psicológica mais geral e mais notável do processo de sonhar: um
pensamento, geralmente um pensamento sobre algo desejado, objetiva-se no sonho, é
representado como uma cena, ou, segundo nos parece, é vivenciado.
Como então explicar essa peculiaridade característica do trabalho do sonho, ou, para
formular a pergunta em termos mais modestos, como descobrir um lugar para ele na trama dos
processos psíquicos?
Se examinarmos o assunto mais de perto, observaremos que dois aspectos quase
independentes ressaltam como característicos da forma assumida por esse sonho. Um deles é o
fato de o pensamento ser representado como uma situação imediata em que o “talvez” é omitido, e
o outro é o fato de que o pensamento se transforma em imagens visuais e em fala.
Nesse sonho específico, a modificação feita nos pensamentos pela colocação da
expectativa por eles expressa no presente do indicativo talvez não pareça particularmente notável.
Isso se deve ao que só se pode descrever como o papel inusitadamente secundário
desempenhado nesse sonho pela realização de desejo. Consideremos, em vez dele, um outro em
que o desejo onírico não se tenha distanciado dos pensamentos de vigília transportados para o
sono - o sonho da injeção da Irma, por exemplo [em [1]]. Neste, o pensamento onírico
representado estava no optativo. “Oxalá Otto fosse responsável pela doença de Irma!” O sonho
recalcou o optativo e o substituiu por um presente direto: “Sim, Otto é responsável pela doença de
Irma”. Esta, portanto, é a primeira das transformações promovidas nos pensamentos oníricos até
mesmo por um sonho isento de distorções. Não precisamos estender-nos nessa primeira
peculiaridade dos sonhos. Podemos abordá-la chamando a atenção para as fantasias conscientes
- os devaneios - que tratam seu conteúdo de representações exatamente do mesmo modo.
Enquanto o Sr. Joyeuse, de Daudet, vagava sem trabalho pelas ruas de Paris (embora suas filhas
acreditassem que ele tinha um emprego e estava sentado em seu escritório), sonhava com
acontecimentos que pudessem trazer-lhe algum auxílio influente e levá-lo a encontrar emprego - e
sonhava no presente do indicativo. Assim, os sonhos se valem do presente da mesmamaneira e
com o mesmo direito que os devaneios. O presente é o tempo em que os desejos se representam
como realizados.
Mas os sonhos diferem dos devaneios em sua segunda característica, ou seja, no fato
de seu conteúdo de representações transmudar-se de pensamentos em imagens sensoriais a que
se dá crédito e que parecem ser vivenciadas. Devo acrescentar desde já que nem todos os sonhos
apresentam essa transformação da representação em imagem sensorial. Há sonhos que
consistem apenas em pensamentos, mas aos quais não se pode, por causa disso, negar a
natureza essencial de sonhos. Meu sonho do “Autodidasker” - a fantasia diurna com o Professor N.
[em [1]] - foi um desses; incluiu poucos elementos sensoriais a mais do que se eu tivesse pensado
seu conteúdo durante o dia. E em todo sonho razoavelmente longo há elementos que,
diversamente dos demais, não recebem forma sensorial, mas são simplesmente pensados ou
sabidos, tal como estamos acostumados a pensar ou saber as coisas na vida de vigília. Cabe
também lembrar aqui que não é apenas nos sonhos que ocorrem essas transformações das
representações em imagens sensoriais: elas são também encontradas nas alucinações e visões,
que podem aparecer como entidades independentes, por assim dizer, na saúde, ou como sintomas
nas psiconeuroses. Em suma, a relação que estamos agora examinando não é, de modo algum,
uma relação exclusiva. Não obstante, persiste o fato de que essa característica dos sonhos,
quando presente, aparece-nos como a mais notável, a tal ponto que nos seria impossível imaginar
o mundo onírico sem ela. Para chegarmos a entendê-la, porém, temos de embarcar numa
discussão que nos levará a extensas divagações.
Como ponto de partida de nossa investigação, gostaria de destacar uma dentre as
muitas observações feitas sobre a teoria do sonhar por aqueles que escrevem sobre o assunto. No
curso de um breve exame do tema dos sonhos, o grande Fechner (1889, 2, 520-1) expressa a
idéia de que a cena de ação dos sonhos é diferente da cena da vida representacional de vigília.
[Ver em [1].] Esta é a única hipótese que torna inteligíveis as particularidades especiais da vida
onírica. [1]
O que nos é apresentado com essas palavras é a idéia de uma localização psíquica.
Desprezarei por completo o fato de que o aparelho anímico em queestamos aqui interessados énos
também conhecido sob a forma de uma preparação anatômica, e evitarei cuidadosamente a
tentação de determinar essa localização psíquica como se fosse anatômica. Permanecerei no
campo psicológico, e proponho simplesmente seguir a sugestão de visualizarmos o instrumento
que executa nossas funções anímicas como semelhante a um microscópio composto, um aparelho
fotográfico ou algo desse tipo. Com base nisso, a localização psíquica corresponderá a um ponto
no interior do aparelho em que se produz um dos estágios preliminares da imagem. No
microscópio e no telescópio, como sabemos, estes ocorrem, em parte, em pontos ideais, em
regiões em que não se situa nenhum componente tangível do aparelho. Não vejo necessidade de
me desculpar pelas imperfeições desta ou de qualquer imagem semelhante. Essas analogias
visam apenas a nos assistir em nossa tentativa de tornar inteligíveis as complicações do
funcionamento psíquico, dissecando essa função e atribuindo suas operações singulares aos
diversos componentes do aparelho. Ao que me consta, não se fez até hoje a experiência de utilizar
esse método de dissecação com o fito de investigar a maneira como se compõe o instrumento
anímico e não vejo nele mal algum. A meu ver, é lícito darmos livre curso a nossas especulações,
desde que preservemos a frieza de nosso juízo e não tomemos os andaimes pelo edifício. E uma
vez que, em nossa primeira abordagem de algo desconhecido, tudo de que precisamos é o auxílio
de algumas representações provisórias, darei preferência, inicialmente, às hipóteses de caráter
mais tosco e mais concreto.
Por conseguinte, retrataremos o aparelho psíquico como um instrumento composto a
cujos componentes daremos o nome de “instâncias”, ou (em prol de uma clareza maior) “sistemas”.
Pode-se prever, em seguida, que esses sistemas talvez mantenham entre si uma relação espacial
constante, do mesmo modo que os vários sistemas de lentes de um telescópio se dispõem uns
atrás dos outros. A rigor, não há necessidade da hipótese de que os sistemas psíquicos realmente
se disponham numa ordem espacial. Bastaria que uma ordem fixa fosse estabelecida pelo fato de,
num determinado processo psíquico, a excitação atravessar os sistemas numa dada seqüência
temporal. Em outros processos, a seqüência talvez seja diferente, e essa éuma possibilidade que
deixaremos em aberto. Para sermos breves, doravante nos referiremos aos componentes do
aparelho como “sistemas-y”.
A primeira coisa a nos saltar aos olhos é que esse aparelho, composto de sistemas-y,
tem um sentido ou direção. Toda a nossa atividade psíquica parte de estímulos (internos ou
externos) e termina em inervações. Por conseguinte, atribuiremos ao aparelho uma extremidade
sensorial e uma extremidade motora. Na extremidade sensorial, encontra-se um sistema que
recebe as percepções; na extremidade motora, outro, que abre as comportas da atividade motora.
Os processos psíquicos, em geral, transcorrem da extremidade perceptual para a extremidade
motora. Portanto, o quadro esquemático mais geral do aparelho psíquico pode ser assim
representado (Fig. 1):
Fig. 1
Isso, contudo, não faz mais do que atender a um requisito com que há muito estamos
familiarizados, ou seja, que o aparelho psíquico deve construir-se como um aparelho reflexo. Os
processos reflexos continuam a ser o modelo de todas as funções psíquicas.
A seguir, temos razões para introduzir uma primeira diferenciação na extremidade
sensorial. Em nosso aparelho psíquico, permanece um traço das percepções que incidem sobre
ele. A este podemos descrever como “traços mnêmicos”, e à função que com ele se relaciona
damos o nome de “memória”. Se levamos a sério nosso projeto de ligar os processos psíquicos a
sistemas, os traços mnêmicos só podem consistir em modificações permanentes dos elementos
dos sistemas. Mas, como já foi assinalado em outro texto, há dificuldades óbvias em se supor que
um mesmo sistema possa reter fielmente as modificações de seus elementos e, apesar disso,
permanecer perpetuamente aberto à recepção de novas oportunidades de modificação. Assim, de
acordo com o princípio que norteia nosso experimento, atribuiremos essas duas funções a
sistemas diferentes. Suporemos que um sistema logo na parte frontal do aparelho recebe os
estímulos perceptivos, mas nãopreserva nenhum traço deles, e portanto, não tem memória,
enquanto, por trás dele, há um segundo sistema que transforma as excitações momentâneas do
primeiro em traços permanentes. O quadro esquemático de nosso aparelho psíquico seria então o
seguinte (Fig. 2):
Fig. 2
É fato conhecido que retemos permanentemente algo mais do que o simples conteúdo
das percepções que incidem sobre o sistema Pcpt. Nossas percepções acham-se mutuamente
ligadas em nossa memória - antes de mais nada, segundo a simultaneidade de sua ocorrência.
Referimo-nos a esse fato como “associação”. Assim, fica claro que, se o sistema Pcpt. não tem
nenhuma memória, ele não pode reter nenhum traço associativo; os elementos isolados do Pcpt.
ficariam intoleravelmente impedidos de desempenhar sua função se o remanescente de uma
ligação anterior exercesse alguma influência nas novas percepções. Portanto, devemos presumir
que a base da associação está nos sistemas mnêmicos. A associação consistiria, assim, no fato de
que, em decorrência de uma diminuição das resistências e do estabelecimento de vias de
facilitação, a excitação é mais prontamente transmitida de um primeiro elemento Mnem. para um
segundo do que para um terceiro.
Um exame mais detido nos indicará a necessidade de supormos a existência não de um,
mais de diversos elementos Mnem., nos quais uma única excitação, transmitida pelos Pcpt., deixa
fixada uma variedade de registros diferentes. O primeiro desses sistemas Mnem. conterá,
naturalmente, o registro da associação por simultaneidade temporal, ao passo que o mesmo
material perceptivo será disposto nos sistemas posteriores em função de outros tipos de
coincidência, de maneira que um desses sistemas posteriores, por exemplo, registrará relações de
similaridade, e assim por diante, no que concerne aos outros. Naturalmente, seria perda de tempo
tentar pôr em palavras a importância psíquica de um desses sistemas. Seu caráter residiria nos
pormenores íntimos de suas relações com os diferentes elementosdo material bruto da memória,
isto é - se pudermos apontar para uma teoria de tipo mais radical -, nos graus de resistência de
condução erguida contra a passagem da excitação proveniente desses elementos.
Cabe-me intercalar aqui uma observação de natureza geral que talvez tenha implicações
importantes. É o sistema Pcpt., desprovido da capacidade de reter modificações, e, portanto, sem
memória, que supre nossa consciência de toda a multiplicidade das qualidades sensoriais. Por
outro lado, nossas lembranças - sem excetuar as que estão mais profundamente gravadas em
nossa psique - são inconscientes em si mesmas. Podem tornar-se conscientes, mas não há dúvida
de que produzem todos os seus efeitos quando em estado inconsciente. O que descrevemos como
nosso “caráter” baseia-se nos traços mnêmicos de nossas impressões; e além disso, as
impressões que maior efeito causaram em nós - as de nossa primeira infância - são precisamente
as que quase nunca se tornam conscientes. Mas, quando as lembranças voltam a se tornar
conscientes, não exibem nenhuma qualidade sensorial, ou mostram uma qualidade sensorial
ínfima se comparadas às percepções. Haveria um esclarecimento extremamente promissor sobre
as condições que regem a excitação dos neurônios se fosse possível confirmar que, nos sistemasy,
a memória e a qualidade que caracteriza a consciência são mutuamente exclusivas.
Os pressupostos até aqui apresentados acerca da estruturação do aparelho psíquico em
sua extremidade sensorial foram formulados sem referência aos sonhos ou às informações
psicológicas que deles pudemos inferir. As provas fornecidas pelos sonhos, contudo, hão de
ajudar-nos a compreender outra parte do aparelho. Vimos [ver em [1]] que só nos foi possível
explicar a formação dos sonhos arriscando a hipótese de existirem duas instâncias psíquicas, uma
das quais submeteria a atividade da outra a uma crítica que envolveria sua exclusão da
consciência. A instância crítica, concluímos, tem uma relação mais estreita com a consciência do
que a instância criticada, situando-se como uma tela entre esta última e a consciência. Ademais,
encontramos razões [em [1]] para identificar a instância crítica com a instância que dirige nossa
vida de vigília e determina nossas ações voluntárias e conscientes. Se, de acordo com nossas
suposições, substituirmos essas instâncias por sistemas, nossa última conclusão deverá levar-nos
a situar o sistema crítico na extremidade motora do aparelho. Introduziremos agora esses dois
sistemas em nosso quadro esquemático e lhes daremos nomes para expressar sua relação com a
consciência (Fig. 3):
Fig. 3
Descreveremos o último dos sistemas situados na extremidade motora como o “préconsciente”,
para indicar que os processos excitatórios nele ocorridos podem penetrar na
consciência sem maiores empecilhos, desde que certas condições sejam satisfeitas: por exemplo,
que eles atinjam certo grau de intensidade, que a função que só se pode descrever como “atenção”
esteja distribuída de uma dada maneira [ver em [1]], etc. Este é, ao mesmo tempo, o sistema que
detém a chave do movimento voluntário. Descreveremos o sistema que está por trás dele como “o
inconsciente”, pois este não tem acesso à consciência senão através do pré-consciente, ao passar
pelo qual seu processo excitatório é obrigado a submeter-se a modificações. [1]
Em qual desses sistemas, portanto, devemos situar o impulso para a formação dos
sonhos? Para simplificar, no sistema Ics. É verdade que, no decorrer de nossas discussões
posteriores, veremos que isso não é inteiramente exato e que o processo de formação dos sonhos
é obrigado a ligar-se a pensamentos oníricos pertencentes ao sistema pré-consciente. [Ver em [1].]
Entretanto, quando considerarmos o desejo onírico, descobriremos que a força propulsora da
formação dos sonhos é fornecida pelo Ics. [em [1]] e, devido a este último fator, tomaremos o
sistema inconsciente como ponto de partida da formação do sonho. Como todas as outras
estruturas de pensamento, esse instigador do sonho se esforçará por avançar para o Pcs. e, a
partir daí, ganhar acesso à consciência.
A experiência nos mostra que essa via que passa pelo pré-consciente para chegar à
consciência é barrada aos pensamentos oníricos durante o dia através da censura imposta pela
resistência. Durante a noite, eles conseguem obter acesso à consciência, mas surge a questão de
determinar como o fazem e graças a que modificação. Se o que permite aos pensamentos oníricos
conseguir isso fosse o fato de haver durante a noite, uma diminuição da resistência que guarda a
fronteira entre o inconsciente e o pré-consciente, teríamos sonhos que seriam da ordem das idéias
e não possuiriam o caráter alucinatório em que ora estamos interessados. Assim, a diminuição da
censura entre os dois sistemas, Ics. e Pcs., só pode explicar sonhos formados como o do
“Autodidasker”, e não sonhos como o do menino que estava queimando, que tomamos como ponto
de partida de nossas investigações.
A única maneira pela qual podemos descrever o que acontece nos sonhos alucinatórios
é dizendo que a excitação se move em direção retrocedente. Em vez de se propagar para a
extremidade motora do aparelho, ela se movimenta no sentido da extremidade sensorial e, por fim,
atinge o sistema perceptivo. Se descrevermos como “progressiva” a direção tomada pelos
processos psíquicos que brotam do inconsciente durante a vida de vigília, poderemos dizer que os
sonhos têm um caráter “regressivo”.
Essa regressão é pois, indubitavelmente, uma das características psicológicas do
processo onírico, mas devemos lembrar que ela não ocorre apenas nos sonhos. A rememoração
deliberada e outros processos constitutivos de nosso pensamento normal envolvem um movimento
retrocedente do aparelho psíquico, retornando de um ato complexo de representação para a
matéria-prima dos traços subjacentes. No estado de vigília, contudo, esse movimento retrocedente
nunca se estende além das imagens mnêmicas; não consegue produzir uma revivescência
alucinatória das imagens perceptivas. Por que as coisas se dão de outro modo nos sonhos?
Quando consideramos o trabalho de condensação nos sonhos, fomos levados a supor que as
intensidades ligadas às representações podem ser completamente transferidas pelo trabalho do
sonho de uma representação para outra [em [1]]. Provavelmente, é essa alteração do processo
psíquico normal que torna possível a catexia do sistema Pcpt. na direção inversa, partindo dos
pensamentos, até se atingir o nível de completa vividez sensorial.
Não nos devemos iludir, exagerando a importância dessas considerações. Não fizemos
mais do que dar nome a um fenômeno inexplicável. Falamos em “regressão” quando, num sonho,
uma representação é retransformada na imagem sensorial de que originalmente derivou. Mas até
mesmo esse passo requer uma justificação. Qual é o sentido dessa nomenclatura, se não nos
ensina nada de novo? Creio que o nome “regressão” nos é útil na medida em que liga um fato que
já nos era conhecido a nosso quadro esquemático, no qual se deu ao aparelho psíquico um sentido
ou direção. E é nesse ponto que esse quadro começa a recompensar-nos por havê-lo construído.
É que o exame dele, sem qualquer reflexão adicional, revela outra característica da formação dos
sonhos. Se encararmos o processo onírico como uma regressão que ocorre em nosso hipotético
aparelho anímico, chegaremos sem demora à explicação do fato empiricamente comprovado de
que todas as relações lógicas pertencentes aos pensamentos oníricos desaparecem durante a
atividade onírica, ou só conseguem expressar-se com dificuldade [em [1]]. Segundo nosso quadro
esquemático, essas relações não estão contidas nos primeiros sistemas Mnem., mas em sistemas
posteriores; e, havendo regressão, elas perderiam necessariamente qualquer meio de expressarse,
exceto por imagens perceptivas. Na regressão, a trama dos pensamentos oníricos decompõese
em sua matéria-prima.
Qual é a modificação que possibilita uma regressão que não pode ocorrer durante o dia?
Quanto a esse ponto, temos de contentar-nos com algumas conjeturas. Sem dúvida, trata-se de
alterações nas catexias de energia ligadas aos diferentes sistemas, alterações estas que
aumentam ou diminuem a facilidade com que tais sistemas podem ser atravessados pelo processo
excitatório. Mas, num aparelho desse tipo, efeitos idênticos da passagem das excitações poderiam
ser produzidos por mais de um modo. Nossos primeiros pensamentos voltam-se, naturalmente,
para o estado de sono e as mudanças de catexia por ele promovidas na extremidade sensorial do
aparelho. Durante o dia, há uma corrente contínua que flui do sistema y das percepções em
direção à atividade motora, mas essa corrente cessa à noite e não pode mais constituir obstáculo a
uma corrente de excitação que flua em sentido oposto. Aqui parecemos ter a “exclusão do mundo
exterior” que algumas autoridades encaram como a explicação teórica das características
psicológicas dos sonhos. (Ver em [1])
No entanto, ao explicar a regressão nos sonhos, devemos ter em mente as regressões
que também ocorrem nos estados patológicos de vigília, e, nesse contexto, a explicação há pouco
fornecida nos deixa em apuros. É que, nesses casos, a regressão ocorre a despeito de uma
corrente sensorial que flui ininterruptamente em direção progressiva. Minha explicação para as
alucinações da histeria e da paranóia e para as visões nos sujeitos mentalmente normais é que
elas de fato constituem regressões - isto é, pensamentos transformados em imagens -, mas os
únicos pensamentos a sofrerem essa transformação são os que se ligam intimamente a
lembranças que foram suprimidas ou permaneceram inconscientes.
Por exemplo, um de meus pacientes histéricos mais jovens, um menino de doze anos,
era impedido de adormecer por “rostos verdes com olhos vermelhos”, que o aterrorizavam. A fonte
desse fenômeno era a lembrança suprimida, embora consciente em certa época, de um menino
que ele via com freqüência quatro anos antes. Esse menino havia-lhe apresentado um quadro
alarmante das conseqüências dos maus hábitos das crianças, inclusive o da masturbação - hábito
pelo qual meu paciente agora se censurava a posteriori [nachträglich]. Sua mãe lhe assinalara, na
ocasião, que esse menino malcomportado tinha o rosto esverdeado e olhos vermelhos (isto é,
avermelhados). Era essa a origem de sua assombração, cujo único propósito, aliás, era relembrarlhe
outra das predições de sua mãe - a de que esses meninos tornam-se idiotas, não conseguem
aprender nada na escola e morrem cedo.Meu pequeno paciente já havia cumprido parte dessa
profecia, pois não estava fazendo progressos na escola e, como mostrou seu relato dos
pensamentos involuntários que lhe ocorriam, estava aterrorizado com a outra parte. Posso
acrescentar que, ao cabo de pouco tempo, o tratamento resultou em ele poder dormir, no
desaparecimento de seu nervosismo e em seu recebimento de uma menção honrosa ao término
do ano letivo.
Nesse mesmo contexto, quero explicar uma visão que me foi descrita por outro paciente
histérico (uma mulher de quarenta anos) como havendo acontecido antes de seu adoecimento.
Certa manhã ela abriu os olhos e viu seu irmão no quarto, embora, como sabia, ele estivesse de
fato num manicômio. Seu filhinho dormia na cama ao lado dela. Para impedir que o menino levasse
um susto e entrasse em convulsões ao ver o tio, ela puxou o lençol sobre o rosto dele, ao que a
aparição se dissipou. Essa visão era uma versão modificada de uma lembrança da infância dessa
senhora e, embora fosse consciente, estava intimamente relacionada com todo o seu material
inconsciente. Sua babá lhe contara que sua mãe (que morrera muito jovem, quando minha
paciente tinha apenas dezoito meses de idade) havia sofrido de convulsões epilépticas ou
histéricas que remontavam a um susto que lhe causara seu irmão (o tio de minha paciente), ao
aparecer-lhe fantasiado de fantasma, com um lençol sobre a cabeça. Assim, a visão continha os
mesmos elementos da lembrança: o aparecimento do irmão, o lençol, o susto e seus resultados.
Entretanto, os elementos se haviam ordenado num contexto diferente e foram transferidos para
outras figuras. O motivo manifesto da visão, ou dos pensamentos que ela substituía, era a
preocupação de que seu filhinho viesse a seguir os passos do tio, com quem tinha grande
semelhança física.
Nenhum dos dois exemplos que citei é inteiramente desvinculado do estado do sono e,
por essa razão, talvez não sejam muito apropriados para comprovar o que pretendo. Desse modo,
remeto o leitor a minha análise de uma mulher que sofria de paranóia alucinatória (Freud, 1896d
[Parte III]) e aos resultados de meus estudos ainda não publicados sobre a psicologia das
psiconeuroses para que se comprove que, nesses casos de transformação regressiva dos
pensamentos, não devemos desprezar a influência de lembranças, principalmente infantis, que
tenham sido suprimidas ou permanecido inconscientes. Os pensamentos vinculados a esse tipo de
lembrança, e cuja expressão é proibida pela censura, são, por assim dizer,atraídos pela lembrança
para a regressão, como a forma de representação em que a própria lembrança se inscreve. Posso
também lembrar que um dos resultados a que se chegou nos Estudos sobre a Histeria [Breuer e
Freud, 1895 - p. ex., no primeiro caso clínico de Breuer] foi que, quando era possível trazer à
consciência cenas infantis (quer fossem lembranças ou fantasias), elas eram vistas como
alucinações e só perdiam essa característica no processo de serem comunicadas. Além disso, é
comumente sabido que, mesmo nas pessoas cuja memória não é normalmente do tipo visual, as
recordações mais primitivas da infância conservam até idade avançada o caráter de vividez
sensorial.
Se agora tivermos presente o enorme papel desempenhado nos pensamentos oníricos
pelas experiências infantis ou pelas fantasias nelas baseadas, a freqüência com que os fragmentos
delas ressurgem no conteúdo do sonho, e quão amiúde os próprios desejos oníricos derivam
delas, não poderemos descartar a probabilidade de que, também nos sonhos, a transformação dos
pensamentos em imagens visuais seja, em parte, resultante da atração que as lembranças
expressas sob forma visual e ávidas de uma revivescência exercem sobre os pensamentos
desligados da consciência e que lutam por encontrar expressão. Desse ponto de vista, o sonho
poderia ser descrito como substituto de uma cena infantil, modificada por transferir-se para uma
experiência recente. A cena infantil é incapaz de promover sua própria revivescência e tem de se
contentar em retornar como sonho.
Essa indicação do modo como as cenas infantis (ou suas reproduções como fantasias)
funcionam, em certo sentido, como modelos para o conteúdo dos sonhos afasta a necessidade de
uma das hipóteses formuladas por Scherner e seus seguidores acerca das fontes internas de
estimulação. Scherner [1861] supõe que, quando os sonhos exibem elementos visuais
particularmente vívidos ou particularmente abundantes, acha-se presente um estado de “estímulo
visual”, isto é, de excitação interna do órgão da visão [ver em [1]]. Não precisamos contestar essa
hipótese, e podemos contentar-nos em presumir que esse estado de excitação se aplique
simplesmente ao sistema perceptivo psíquico do órgão visual: entretanto, podemos ainda assinalar
que o estado de excitação visual que foi criado por uma lembrança, que ele é uma revivescência
de uma excitação visual que foi originalmente imediata. Não posso apresentar, de minha própria
experiência, nenhum bom exemplo de lembrança infantil produtora desse tipo de resultado. Meus
sonhos, em geral, são menos ricos de elementos sensoriais do que sou levado a supor que ocorra
com outras pessoas. Todavia, no caso do mais vívido e belo sonho que tive nos últimos anos, pude
facilmente rastrear a clarezaalucinatória do conteúdo do sonho até as qualidades sensoriais de
impressões recentes ou bastante recentes. Em [1], registrei um sonho em que o azul escuro da
água, o castanho da fumaça que saía das chaminés do navio e o marrom e vermelho escuros dos
prédios deixaram em mim profunda impressão. Esse sonho, pelo menos, deveria ter sua origem
atribuída a algum estímulo visual. O que teria levado meu órgão visual a esse estado de
estimulação? Uma impressão recente, que estava ligada a diversas outras mais antigas. As cores
que vi eram, em primeiro lugar, as de um jogo de tijolos de armar com que, no dia anterior ao
sonho, meus filhos haviam erguido um lindo prédio e o tinham exibido para minha admiração. Os
tijolos grandes eram do mesmo vermelho escuro e os pequenos, dos mesmos tons azul e
castanho. Isso estava associado com impressões cromáticas de minhas últimas viagens pela Itália:
o belo azul do Isonzo e das lagoas e o castanho do Carso. A beleza das cores do sonho era
apenas uma repetição de algo visto em minha lembrança.
Reunamos o que já descobrimos sobre a peculiar propensão dos sonhos a refundir seu
conteúdo de representações em imagens sensoriais. Não explicamos esse aspecto do trabalho do
sonho e não fomos buscar sua origem em quaisquer leis psicológicas conhecidas, mas antes o
destacamos como algo que sugere implicações desconhecidas e o caracterizamos pela palavra
“regressivo”. Formulamos a concepção de que, com toda probabilidade, essa regressão, onde quer
que ocorra, é efeito da resistência que se opõe ao avanço de um pensamento para a consciência
pela via normal, e de uma atração simultânea exercida sobre o pensamento pela presença de
lembranças dotadas de grande força sensorial. No caso dos sonhos, a regressão talvez seja ainda
facilitada pela cessação da corrente progressiva que emana durante o dia dos órgãos dos sentidos;
noutras formas de regressão, a ausência desse fator auxiliar precisa ser compensada por uma
intensificação dos outros motivos para ela. Tampouco devemos esquecer de observar que nesses
casos patológicos de regressão, bem como nos sonhos, o processo de transferênciade energia
deve diferir do que existe nas regressões que ocorrem na vida anímica normal, uma vez que, nos
primeiros, esse processo possibilita uma completa catexia alucinatória dos sistemas perceptivos. O
que descrevemos em nossa análise do trabalho do sonho como “consideração à
representabilidade” poderia ser vinculado à atração seletiva exercida pelas cenas visualmente
relembradas em que os pensamentos oníricos tocam.
Convém ainda observar [1] que a regressão desempenha na teoria da formação dos
sintomas neuróticos um papel não menos importante que na dos sonhos. Assim, cabe distinguir
três tipos de regressão: (a) regressão tópica, no sentido do quadro esquemático dos sistemas-y
que explicamos atrás; (b) regressão temporal, na medida em que se trata de um retorno a
estruturas psíquicas mais antigas; e (c) regressão formal, onde os métodos primitivos de expressão
e representação tomam o lugar dos métodos habituais. No fundo, porém, todos esses três tipos de
regressão constituem um só e, em geral, ocorrem juntos, pois o que é mais antigo no tempo é mais
primitivo na forma e, na tópica psíquica, fica mais perto da extremidade perceptiva. [Cf. Freud,
1917d, onde essa frase recebe uma ressalva.]
Tampouco podemos abandonar o tema da regressão nos sonhos [1] sem formular em
palavras uma noção que já nos ocorreu repetidamente e que ressurgirá com intensidade renovada
quando tivermos penetrado mais a fundo no estudo das psiconeuroses, a saber; que o sonhar é,
em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma
revivescência de sua infância, das moções pulsionais que a dominaram e dos métodos de
expressão de que ele dispunha nessa época. Por trás dessa infância do indivíduo é-nos prometida
uma imagem da infância filogenética - uma imagem do desenvolvimento da raça humana, do qual
o desenvolvimento do indivíduo é, de fato, uma recapitulação abreviada, influenciada pelas
circunstâncias fortuitas da vida. Podemos calcular quão apropriada é a asserção de Nietzsche de
que, nos sonhos, “acha-se em ação alguma primitiva relíquia da humanidade que agora já mal
podemos alcançar por via direta”; e podemos esperar que a análise dos sonhos nos conduza a um
conhecimento da herança arcaica do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato. Os sonhos e
as neuroses parecem ter preservado mais antigüidades anímicas do que imaginaríamos possível,
de modo que a psicanálisepode reclamar para si um lugar de destaque entre as ciências que se
interessam pela reconstrução dos mais antigos e obscuros períodos dos primórdios da raça
humana.
É bem possível que esta primeira parte de nosso estudo psicológico dos sonhos nos
deixe um sentimento de insatisfação. Mas podemos consolar-nos com a idéia de que fomos
obrigados a construir nosso caminho nas trevas. Se não estamos inteiramente errados, outras
linhas de abordagem hão de levar-nos aproximadamente a essa mesma região, e então poderá vir
um tempo em que nos sintamos mais à vontade nela.
(C) REALIZAÇÃO DE DESEJOS
O sonho da criança em chamas, no início deste capítulo, dá-nos uma grata oportunidade
de apreciar as dificuldades com que se defronta a teoria da realização de desejos. Sem dúvida nos
terá surpreendido a todos saber que os sonhos não passam de realizações de desejos, e não
apenas em virtude da contradição trazida pelos sonhos de angústia. Quando a análise nos revelou
pela primeira vez que por trás dos sonhos se ocultavam um sentido e um valor psíquico,
achávamo-nos, sem dúvida, inteiramente despreparados para descobrir que esse sentido era de
caráter tão uniforme. Segundo a definição precisa mas insuficiente de Aristóteles, o sonho é o
pensamento que persiste (desde que estejamos adormecidos) no estado de sono. [Ver em [1].]
Uma vez, portanto, que nosso pensamento diurno produz atos psíquicos de tipos tão variados -
juízos, inferências, negações, expectativas, intenções, etc. - por que seria ele, durante a noite,
obrigado a restringir-se apenas à produção de desejos? Não haverá, ao contrário, numerosos
sonhos que nos mostram outra sorte de atos psíquicos - preocupações, por exemplo -
transmudados em forma de sonho? E acaso o sonho com que iniciamos este capítulo (um sonho
muito particularmente transparente) não foi precisamente desse tipo? Quando o clarão de luz
incidiu sobre os olhos do pai adormecido, ele chegou à preocupada conclusão de que uma vela
havia caído e poderia ter incendiado o cadáver. Transformou essa conclusão num sonho,
revestindo-a do aspecto de uma situação sensorial e no tempo presente. Que papel terá
desempenhado nisso a realização de desejos? Acaso podemos deixar de ver nisso a influência
predominante de um pensamento que persistiu da vida de vigília ou foi estimulado por uma nova
impressão sensorial? Tudo isso é fato e nos compele a examinar mais de perto o papel
desempenhado nos sonhos pela realização de desejo e a importância dos pensamentos da vigília
que persistem no sono.
Já fomos levados pela própria realização de desejo a dividir os sonhos em dois grupos.
Encontramos alguns sonhos que se apresentavam abertamente como realizações de desejo e
outros em que essa realização era irreconhecível e freqüentemente disfarçada por todos os meios
possíveis. Nestes últimos percebemos a atuação da censura onírica. Foi sobretudo nas crianças
que encontramos sonhos de desejo não distorcidos; embora breves,os sonhos francamente de
desejo pareceram (e enfatizo esta ressalva) ocorrer também nos adultos.
Podemos indagar em seguida de onde se originam os desejos que se realizam nos
sonhos. Que possibilidades contrastantes ou que alternativas temos em mente ao levantar esta
questão? Penso ser o contraste entre a vida diurna conscientemente percebida e uma atividade
psíquica que permanece inconsciente e da qual só nos damos conta à noite. Posso distinguir três
origens possíveis para tal desejo: (1) É possível que ele tenha sido despertado durante o dia e, por
motivos externos, não tenha sido satisfeito; nesse caso, um desejo reconhecido do qual o sujeito
não se ocupou fica pendente para a noite. (2) É possível que tenha surgido durante o dia, mas
tenha sido repudiado; nesse caso, o que fica pendente é um desejo de que a pessoa não se
ocupou, mas que foi suprimido. (3) Ele pode não ter nenhuma ligação com a vida diurna e ser um
daqueles desejos que só à noite emergem da parte suprimida da psique e se tornam ativos em
nós. Se nos voltarmos de novo para nosso quadro esquemático do aparelho psíquico,
localizaremos os desejos do primeiro tipo no sistema Pcs.; suporemos que os desejos do segundo
tipo terão sido forçados a recuar [zurückdrängen] do sistema Pcs. para o Ics., único lugar onde
continuam a existir, se é que o fazem; e concluiremos que as moções de desejo [Wunchsregung]
do terceiro tipo são inteiramente incapazes de transpor o sistema Ics. Surge então a questão de
saber se os desejos oriundos dessas diferentes fontes são de igual importância para os sonhos e
se possuem igual poder para instigá-los.
Se, para responder a essa questão, voltarmos os olhos para os sonhos de que
dispomos, logo nos lembraremos de que é preciso acrescentar uma quarta fonte dos desejos
oníricos, ou seja, as moções de desejo atuais que surgem durante a noite (por exemplo, as
estimuladas pela sede ou pelas necessidades sexuais). Em seguida, formularemos a opinião de
que o lugar de origem de um desejo onírico provavelmente não tem nenhuma influência em sua
capacidade de provocar um sonho. Vêm-me à lembrança o sonho da menininha que prolongou um
passeio pelo lago, interrompido durante o dia, e os outros sonhos infantis que registrei. [Ver em [1]]
Eles foram explicados como devidos a desejos não realizados, mas também não suprimidos, do
dia anterior. São extremamente numerosos os exemplos em que um desejo suprimido durante o
dia encontra vazão num sonho. Acrescentarei um outro exemplo muito simples desta classe. A
sonhadora era uma senhora que gostava muito de troçar das pessoas e uma de suas amigas, uma
mulher mais moça que ela, acabara de ficar noiva. Durante o dia inteiro, seus conhecidos lhe
haviam perguntado se ela conhecia o rapaz e o que pensava dele. Elarespondera apenas com
elogios, com os quais havia silenciado seu juízo real, pois de bom grado teria dito a verdade - que
ele era um “Dutzendmensch” [literalmente, um “homem às dúzias”, um tipo muito comum de
pessoa - gente como ele aparecia às dúzias]. Naquela noite, ela sonhou que lhe faziam a mesma
pergunta e que respondia com a fórmula: “Em caso de repetição de pedidos, basta mencionar o
número”. Por fim, mediante numerosas análises, ficamos sabendo que, sempre que um sonho
sofre distorção, o desejo brotou do inconsciente e foi um desejo que não pôde ser percebido
durante o dia. Assim, à primeira vista, todos os desejos parecem ter igual importância e igual poder
nos sonhos.
Não posso oferecer aqui nenhuma prova de que, não obstante, a verdade é outra, mas
posso dizer que me sinto muito inclinado a supor que os desejos oníricos sejam mais estritamente
determinados. É verdade que os sonhos das crianças provam, fora de qualquer dúvida, que um
desejo não trabalhado durante o dia pode agir como instigador do sonho. Mas não se deve
esquecer que se trata do desejo de uma criança, de uma moção de desejo com a intensidade
própria das crianças. Considero altamente duvidoso que, no caso de um adulto, um desejo não
realizado durante o dia pudesse ser intenso o bastante para produzir um sonho. Ao contrário,
parece-me que, com o controle progressivo exercido sobre nossa vida pulsional pela atividade do
pensamento, ficamos cada vez mais inclinados a renunciar, por ser inútil, à formação ou retenção
de desejos tão intensos quanto os que as crianças conhecem. É possível que haja diferenças
individuais a esse respeito e que algumas pessoas conservem por mais tempo que outras um tipo
infantil de processo anímico, tal como existem diferenças similares no tocante à diminuição do
modo de representação originário, que é por imagens muito vívidas. Em geral, porém, penso que
um desejo não realizado que tenha ficado pendente do dia anterior não basta, no caso de um
adulto, para produzir um sonho. Admito prontamente que uma moção de desejo originária do
consciente possa contribuir para a instigação de um sonho, mas é provável que não faça mais do
que isso. O sonho não se materializaria se o desejo pré-consciente não tivesse êxito em encontrar
reforço de outro lugar.
Do inconsciente, bem entendido. É minha suposição que um desejo consciente só
consegue tornar-se instigador do sonho quando logra despertar um desejo inconsciente do mesmo
teor e dele obter reforço. Segundo indicações provenientes da psicanálise das neuroses, considero
que esses desejos inconscientes estão sempre em estado de alerta, prontos a qualquer momento
para buscar o meio de se expressarem quando surge a oportunidade de se aliarem a uma moção
do consciente e transferirem sua grande intensidade para a intensidade menor desta última. Assim,
fica a aparência de que apenas o desejo consciente se haveria realizado no sonho, e só alguma
pequena peculiaridade na configuração do sonho serve de indicador para nos colocar na pista do
poderoso aliado oriundo do inconsciente. Esses desejos de nosso inconsciente, sempre em estado
de alerta e, por assim dizer, imortais, fazem lembrar os legendários Titãs, esmagados desde os
tempos primordiais pelo peso maciço das montanhas que um dia foram arremessadas sobre eles
pelos deuses vitoriosos e que ainda são abaladas de tempos em tempos pela convulsão de seus
membros. Mas esses desejos, mantidos sob recalcamento, são eles próprios de origem infantil,
como nos ensina a pesquisa psicológica das neuroses. Assim, eu proporia pôr de lado a afirmativa
feita há pouco [em [1]], de que a procedência dos desejos oníricos é indiferente, e substituí-la por
outra com o seguinte teor: o desejo que é representado num sonho tem de ser um desejo infantil.
No caso dos adultos, ele se origina do Ics.; no caso das crianças, onde ainda não há divisão ou
censura entre o Pcs. e o Ics., ou onde essa divisão se está apenas instituindo gradualmente, tratase
de um desejo não realizado e não recalcado da vida de vigília. Estou ciente de que não se pode
provar que esta asserção tenha validade universal, mas é possível provar que ela se sustenta com
freqüência, até mesmo em casos onde não se suspeitaria disso, e não pode ser contestada
enquanto proposição geral.
A meu ver, portanto, as moções de desejo que restam da vida consciente de vigília
devem ser relegadas a uma posição secundária com respeito à formação dos sonhos. Não posso
conferir-lhes, enquanto contribuintes para o conteúdo do sonhos, nenhum outro papel senão o que
é desempenhado, por exemplo, pelo material das sensações atuais que se tornam ativas durante o
sono. [Ver em [1]-[2].] Ater-me-ei a essa mesma linha de raciocínio ao me voltar, agora, para o
exame das incitações psíquicas do sonho deixadas pelavida de vigília e que são diferentes dos
desejos. Quando resolvemos dormir, podemos ter êxito em fazer com que cessem
temporariamente as catexias de energia ligadas a nossos pensamentos de vigília. Todo aquele que
consegue fazer isso com facilidade dorme bem, e o primeiro Napoleão parece ter sido um modelo
dessa classe. Mas nem sempre conseguimos fazê-lo e nem sempre obtemos êxito completo.
Problemas não resolvidos, preocupações martirizantes e o acúmulo excessivo de impressões, tudo
isso transporta a atividade do pensamento para o sono e sustenta processos anímicos no sistema
que denominamos de pré-consciente. Se quisermos classificar as moções de pensamento que
persistem no sono, poderemos dividi-las nos seguintes grupos: (1) o que não foi levado a uma
conclusão durante o dia, devido a algum obstáculo fortuito; (2) o que não foi tratado devido à
insuficiência de nossa capacidade intelectual, o não resolvido; (3) o que foi rejeitado ou suprimido
durante o dia. A estes devemos acrescentar (4) um poderoso grupo que consiste naquilo que foi
ativado em nosso Ics. pela atividade do pré-consciente no decorrer do dia e, por fim, (5) o grupo
das impressões diurnas que foram indiferentes e que, por essa razão, não foram tratadas.
Não há por que subestimar a importância das intensidades psíquicas introduzidas no
estado de sono por esses restos da vida diurna e, particularmente, a importância das do grupo dos
problemas não solucionados. É certo que essas excitações continuam lutando por se expressar
durante a noite, e podemos presumir com igual certeza que o estado de sono impossibilita ao
processo excitatório avançar da maneira habitual no pré-consciente e ser levado a termo pelo
tornar-se consciente. Na medida em que nossos processos de pensamento podem tornar-se
conscientes da maneira normal durante a noite, simplesmente não estamos adormecidos. Não sei
dizer que modificação é provocada no sistema Pcs. pelo estado de sono, mas não há dúvida de
que as características psicológicas do sono devem ser buscadas essencialmente nas modificações
da catexia desse sistema particular - um sistema que também controla o acesso ao poder de
movimento, que fica paralisado durante o sono. Por outro lado, nada na psicologia dos sonhos me
dá razão para supor que o sono produza quaisquer modificações que não sejam secundárias no
estado de coisas que prevalece no sistema Ics. Não há, portanto, nenhum outro caminho aberto às
excitações que ocorrem à noite noPcs. senão o que é seguido pelas excitações de desejo que
provêm do Ics; as excitações pré-conscientes têm de buscar reforço no Ics. e acompanhar as
excitações inconscientes ao longo de seus caminhos tortuosos. Mas qual é a relação dos restos
pré-conscientes do dia anterior com os sonhos? Não há dúvida de que eles penetram nos sonhos
em grande quantidade e se valem do conteúdo destes para ganhar acesso à consciência mesmo
durante a noite. De fato, ocasionalmente dominam o conteúdo do sonho e forçam-no a dar
prosseguimento à atividade diurna. É também certo que os restos diurnos podem, com a mesma
facilidade, ter qualquer outro caráter além do de desejos, mas é altamente instrutivo nesse
contexto - e de importância positivamente decisiva para a teoria da realização de desejo - observar
a condição a que eles têm de submeter-se para serem acolhidos num sonho.
Tomemos um dos sonhos que já registrei - por exemplo, o sonho em que meu amigo
Otto aparecia com os sinais da doença de Graves. [Ver em [1]] Eu estivera preocupado, no dia
anterior, com a aparência de Otto e, como tudo o mais que se relaciona com ele, essa
preocupação me afetou muito de perto. Acompanhou-me, ao que posso presumir, enquanto eu
dormia. É provável que eu estivesse ansioso por descobrir o que poderia andar errado com ele.
Essa preocupação expressou-se durante a noite no sonho que descrevi, cujo conteúdo, em
primeiro lugar, era absurdo e, em segundo, não correspondia em nenhum aspecto à realização de
um desejo. Comecei então a investigar a origem dessa expressão inapropriada da preocupação
que sentira durante o dia e, através da análise, encontrei uma ligação no fato de haver identificado
meu amigo com um certo Barão L., e a mim mesmo, com o Professor R. Havia apenas uma
explicação para eu ter sido obrigado a escolher esse substituto específico para meu pensamento
diurno. Eu devia estar sempre disposto, em meu Ics., para me identificar com o Professor R., uma
vez que por meio dessa identificação se realizava um dos desejos imortais da infância - o desejo
megalomaníaco. Pensamentos ofensivos e hostis a meu amigo, que por certo seriam repudiados
durante o dia, haviam aproveitado a oportunidade para se imiscuírem com o desejo no sonho, mas
minha preocupação diurna também encontrara uma espécie de expressão no conteúdo deste
através de um substituto. [Ver em [1].] O pensamento diurno, que em si não era um desejo, mas,
ao contrário, uma preocupação, foi obrigado a encontrar de algum modo uma ligação com um
desejo infantil já agora inconsciente e suprimido, e que lhe permitisse - devidamente modificado, é
verdade - “originar-se” na consciência. Quanto mais dominante a preocupação, mais forçado seria
o elo passível de seestabelecer; não havia nenhuma necessidade de existir qualquer ligação entre
o conteúdo do desejo e o da preocupação e, de fato, não houve tal ligação em nosso exemplo.
Talvez seja útil [1] prosseguir em nosso exame dessa mesma questão considerando o
modo como se comporta o sonho quando os pensamentos oníricos lhe oferecem um material que é
o oposto completo de uma realização de desejo - preocupações justificadas, reflexões dolorosas,
apercebimentos aflitivos. Os diversos resultados possíveis podem ser classificados num destes
dois grupos: (A) O trabalho do sonho pode ter êxito em substituir todas as representações aflitivas
por seus contrários e em suprimir os afetos desprazerosos ligados a elas. O resultado é um sonho
puro de satisfação, uma “realização de desejo” palpável sobre a qual não parece haver mais nada
a dizer. (B) As representações aflitivas, modificadas em maior ou menor grau, mas mesmo assim
bem reconhecíveis, podem ganhar acesso ao conteúdo manifesto do sonho. É este o caso que
levanta dúvidas sobre a validade da teoria do desejo os sonhos e reclama novas investigações.
Esses sonhos de conteúdo aflitivo podem ser vivenciados com indiferença ou acompanhados pela
totalidade do afeto aflitivo que seu conteúdo de representações parece justificar, ou podem até
levar ao desenvolvimento de angústia e ao despertar.
A análise demonstra que também esses sonhos desprazerosos são realizações de
desejo, tanto quanto os demais. Um desejo inconsciente e recalcado, cuja realização o ego do
sonhador não poderia deixar de vivenciar como aflitivo, aproveitou a oportunidade que lhe foi
oferecida pela catexia persis-tente dos restos diurnos penosos da véspera; emprestou-lhes seu
apoio e assim lhes facultou penetrarem num sonho. Mas, enquanto que, no Grupo A, o desejo
inconsciente concidia com o consciente, no Grupo B se revela o abismo entre o inconsciente e o
consciente (entre o recalcado e o ego) e se realiza a situação do conto de fadas dos três desejos
concedidos pela fada ao marido e à mulher. [Ver adiante, em [1].] A satisfação pela realização do
desejo recalcado pode revelar-se tão grande a ponto de contrabalançar os sentimentos dolorosos
ligados aos restos diurnos [ver em [1]-[2]]; nesse caso, o tom afetivo do sonho é indiferente, apesar
de ele ser, por um lado, a realização de um desejo e, por outro, a realização de um temor. Ou pode
suceder que o ego adormecido tenha uma participação ainda maior na formação do sonho, reaja à
satisfação do desejo recalcado com violentaindignação, e ainda ponha termo ao sonho com um
surto de angústia. Assim, não há dificuldade em perceber que os sonhos desprazerosos e os
sonhos de angústia são tão realização de desejos, no sentido de nossa teoria, quanto o são os
sonhos puros de satisfação.
Os sonhos desprazerosos podem ser também “sonhos de punição”. [Ver em [1]] Cabe
admitir que reconhecê-los significa, em certo sentido, um novo acréscimo à teoria dos sonhos. O
que neles se realiza é também um desejo inconsciente, a saber, o desejo do sonhador de ser
punido por uma moção de desejo recalcada e proibida. Nessa medida, tais sonhos se enquadram
no requisito aqui estabelecido de que a força propulsora para a formação do sonho seja fornecida
por um desejo pertencente ao inconsciente. Uma análise psicológica mais minuciosa, no entanto,
mostra como eles diferem de outros sonhos de desejo. Nos casos que formam o Grupo B, o desejo
formador do sonho é inconsciente e pertence ao recalcado, ao passo que, nos sonhos de punição,
embora se trate também de um desejo inconsciente, deve-se considerá-lo pertencente não ao
recalcado, mas ao “ego”. Portanto, os sonhos de punição indicam a possibilidade de que o ego
tenha uma participação maior do que se supôs na formação dos sonhos. O mecanismo da
formação dos sonhos seria muito esclarecido, em geral, se, em vez da oposição entre “consciente”
e “inconsciente”, falássemos na oposição entre o “ego” e o “recalcado”. Não se pode fazer isso,
porém, sem levar em conta os processos subjacentes às psiconeuroses, e por essa razão tal não
foi feito na presente obra. Acrescentarei apenas que os sonhos de punição não estão sujeitos, em
geral, à condição de que os restos diurnos sejam de tipo aflitivo. Ao contrário, ocorrem com mais
facilidade quando se dá o oposto - quando os restos diurnos são pensamentos de natureza
satisfatória, mas a satisfação que expressam é proibida. O único vestígio desses pensamentos a
aparecer no sonho manifesto é seu oposto diametral, como no caso dos sonhos pertencentes ao
Grupo A. A característica essencial dos sonhos de punição, portanto, seria que, em seu caso, o
desejo formador do sonho não é um desejo inconsciente derivado do recalcado (do sistema Ics.),
mas um desejo punitivo que reage contra este e pertence ao ego, embora seja, ao mesmo tempo,
um desejo inconsciente (isto é, pré-consciente).
Relato agora um de meus próprios sonhos, [1] para ilustrar o que acabo de dizer e, em
particular, a maneira como o trabalho do sonho lida com resto diurno de expectativas penosas, do
dia anterior.
“Começo indistinto. Disse à minha mulher que tinha uma notícia para ela, algo muito
especial. Ela ficou assustada e se recusou a escutar. Garanti-lhe que, pelo contrário, era algo que
ela ficaria muito contente em ouvir, e comecei a contar-lhe que o corpo de oficiais de nosso filho
enviara uma soma em dinheiro (5.000 coroas?)… algo a respeito de uma distinção… distribuição…
Entrementes, eu fora com ela até um quartinho, parecido com uma despensa, procurar alguma
coisa. De repente, vi meu filho aparecer. Não estava de uniforme, mas num traje esportivo
apertado (como uma foca?), com um bonezinho. Trepou num cesto que estava ao lado de um
armário, como se quisesse pôr algo em cima dele. Chamei-o; nenhuma resposta. Pareceu-me que
seu rosto ou sua testa estavam enfaixados. Ele estava acomodando alguma coisa na boca,
empurrando algo para dentro dela. E seus cabelos estavam salpicados de grisalho. Pensei: ‘Será
que ele está tão exausto assim? E será que usa dentes postiços?’ Antes que pudesse chamá-lo de
novo, acordei, sem sentir angústia, mas com o coração batendo depressa. Meu relógio de
cabeceira marcava duas e meia.”
Mais uma vez, é-me impossível apresentar uma análise completa. Tenho de restringirme
a ressaltar alguns pontos salientes. Foram as expectativas penosas do dia anterior que deram
origem ao sonho: ficáramos outra vez, por mais de uma semana, sem notícias de nosso filho que
estava na frente de batalha. É fácil perceber que o conteúdo do sonho expressava a convicção de
que ele fora ferido ou morto. No início do sonho, fez-se claramente um esforço enérgico para
substituir os pensamentos aflitivos por seu contrário. Eu tinha uma notícia agradabilíssima para
comunicar - qualquer coisa sobre dinheiro remetido… distinção… distribuição. (A soma em dinheiro
derivava de uma ocorrência agradável em minha clínica médica; foi uma tentativa de afastamento
completo do assunto.) Mas esse esforço fracassou. Minha mulher desconfiou de algo terrível e se
recusou a me escutar. Os disfarces eram tênues demais e as referências ao que se procurava
recalcar ressaltavam neles por todos os lados. Se meu filho houvesse tombado morto, seus
colegas defarda devolveriam seus pertences e eu teria de distribuir o que ele deixasse entre seus
irmãos e outras pessoas. Freqüentemente se confere uma “distinção” ao oficial que tomba no
campo de batalha. Assim, o sonho pôs-se a dar expressão direta ao que primeiro procurara negar,
embora a tendência para a realização de desejo ainda se mostrasse em ação nas distorções. (Não
há dúvida de que a mudança de lugar, durante o sonho, deve ser entendida como o que Silberer
[1912] descreveu como “simbolismo do umbral”. [Ver em [1]].) Não sabemos dizer, é verdade, o
que foi que deu ao sonho a força impulsora para assim expressar seus pensamentos aflitivos. Meu
filho não apareceu como alguém que “caísse”, mas como alguém que estava “subindo”. De fato,
fora um entusiástico alpinista. Não estava de uniforme, mas usando um traje esportivo; isto
significava que o local do acidente agora temido tinha sido tomado por um acidente anterior,
ocorrido ao praticar esportes; é que ele sofrera uma queda durante uma excursão de esqui e
quebrara o fêmur. A maneira como estava vestido, por outro lado, e que o fazia parecer uma foca,
lembrou de imediato alguém mais jovem - nosso netinho engraçado; já o cabelo grisalho fez-me
lembrar o pai deste, nosso genro, que fora duramente atingido pela guerra. Que significaria isso?…
Mas já falei bastante a respeito. A localização numa despensa e o armário de onde ele queria tirar
algo (“sobre o qual queria pôr alguma coisa”, no sonho) - estas alusões fizeram-me lembrar
inequivocamente de um acidente que eu mesmo me causei quando tinha mais de dois anos, mas
ainda não chegara aos três. Eu havia trepado num tamborete na despensa para pegar alguma
coisa boa que estava sobre um armário ou mesa. O tamborete virou e sua quina me atingiu por
trás da mandíbula inferior; refleti que poderia muito bem ter perdido todos os dentes. Essa
lembrança foi acompanhada por um pensamento admonitório: “é bem feito para você”; e isso
parecia ser um impulso hostil dirigido ao valente soldado. Uma análise mais profunda permitiu-me
enfim descobrir que o impulso oculto poderia haver encontrado satisfação no temido acidente com
meu filho: era a inveja que sentem dos jovens aqueles que envelheceram, e que estes acreditam
haver sufocado por completo. E não há dúvida de que foi precisamente a intensidade da emoção
penosa que teria surgido se tal infortúnio houvesse realmente acontecido que levou essa emoção a
buscar uma realização de desejo recalcada para assim encontrar algum consolo. [1]
Encontro-me agora em condições de dar uma explicação precisa do papel
desempenhado nos sonhos pelo desejo inconsciente. Estou pronto a admitir que há toda uma
classe de sonhos cuja instigação provém principalmente, ou até de maneira exclusiva, dos restos
da vida diurna; e penso que até meu desejo de enfim tornar-me Professor Extraodinário poderia
ter-me deixado dormir em paz aquela noite, se a preocupação com a saúde de meu amigo não
houvesse persistido desde o dia anterior [em [1]]. Mas a preocupação, por si só, não teria formado
um sonho. A força impulsora requerida pelo sonho tinha de ser suprida por um desejo; cabia à
preocupação apoderar-se de um desejo que atuasse como força propulsora do sonho.
A situação pode ser explicada por uma analogia. O pensamento diurno pode
perfeitamente desempenhar o papel de empresário do sonho; mas o empresário, que, como se
costuma dizer, tem a idéia e a iniciativa para executá-la, não pode fazer nada sem o capital; ele
precisa de um capitalista que possa arcar com o gasto, e o capitalista que fornece o desembolso
psíquico para o sonho é, invariável e indiscutivelmente, sejam quais forem os pensamentos do dia
anterior, um desejo oriundo do inconsciente. [1]
Por vezes, o próprio capitalista é o empresário, e sem dúvida, no caso dos sonhos, isso
é o mais comum; um desejo inconsciente é estimulado pela atividade diurna e passa a formar um
sonho. Do mesmo modo, as outras variações possíveis na situação econômica que tomei como
analogia também encontram paralelo nos processos oníricos. O próprio empresário pode fazer
uma pequena contribuição para o capital; diversos empresários podem recorrer ao mesmo
capitalista; vários capitalistas podem reunir-se para fornecer ao empresário o que é preciso. Do
mesmo modo, encontramos sonhos que são sustentados por mais de um desejo onírico; e o
mesmo se dá com outras variações semelhantes que poderiam ser facilmente enumeradas, mas
que não teriam maior interesse para nós. Devemos reservar para mais tarde o que resta a dizer
sobre o desejo onírico.
O tertium comparationis [terceiro elemento de comparação] na analogia que acabo de
empregar - a quantidade posta à disposição do empresário em volume apropriado - admite
aplicação ainda mais detalhada com vistas à elucidação da estrutura dos sonhos. Na maioria dos
sonhos é possívelidentificar um ponto central marcado por uma intensidade sensorial peculiar,
como demonstrei em [1] [e [1]]. Este ponto central é, geralmente, a representação direta da
realização do desejo, pois, se desfizermos os deslocamentos produzidos pelo trabalho do sonho,
veremos que a intensidade psíquica dos elementos dos pensamentos oníricos foi substituída pela
intensidade sensorial dos elementos do conteúdo do sonho propriamente dito. Os elementos
situados nas proximidades da realização de desejo muitas vezes nada têm a ver com seu sentido,
mas revelam ser derivados de pensamentos aflitivos que são contrários ao desejo. Entretanto, por
se encontrarem no que é com freqüência uma relação artificialmente estabelecida com o elemento
central, adquiriram intensidade suficiente para se tornarem capazes de ser representados no
sonho. Assim, o poder que tem a realização de desejo de promover a representação difunde-se por
uma certa esfera a seu redor, dentro da qual todos os elementos - incluindo até os que não
possuem recursos próprios - adquirem força para se fazerem representar. No caso dos sonhos
ativados por diversos desejos, é fácil delimitar as esferas das diferentes realizações de desejo, e
as lacunas do sonho podem freqüentemente ser compreendidas como zonas fronteiriças entre
essas esferas. [1]
Embora as considerações precedentes tenham reduzido a importância do papel
desempenhado pelos restos diurnos nos sonhos, vale a pena dedicar-lhes um pouco mais de
atenção. Eles têm de ser um ingrediente essencial na formação dos sonhos, uma vez que a
experiência revelou o fato surpreendente de que, no conteúdo de todo sonho, identifica-se algum
vínculo com uma impressão diurna recente - muitas vezes, do tipo mais insignificante. Até aqui não
pudemos explicar a necessidade desse acréscimo à mistura que constitui o sonho. [Ver em [1].] E
só é possível fazê-lo se tivermos firmemente presente o papel desempenhado pelo desejo
inconsciente e então buscarmos informações na psicologia das neuroses. Com esta aprendemos
que uma representação inconsciente, como tal, é inteiramente incapaz de penetrar no préconsciente,
e que só pode exercer ali algum efeito estabelecendo um vínculo com uma
representação que já pertença ao pré-consciente, transferindo para ela sua intensidade e fazendose
“encobrir” por ela. Aí temos o fato da “transferência’’, que fornece uma explicação para
inúmerosfenômenos notáveis da vida anímica dos neuróticos. A representação pré-consciente, que
assim adquire imerecido grau de intensidade, pode ser deixada inalterada pela transferência ou
ver-se forçada a uma modificação derivada do conteúdo da representação que efetua a
transferência. Espero que me seja perdoado extrair analogias da vida cotidiana, mas fico tentado a
dizer que a situação de uma representação recalcada assemelha-se à de um dentista norteamericano
em nosso país: não lhe é permitido estabelecer sua clínica, a menos que possa valer-se
de um médico legalmente qualificado para servir-lhe de pretexto e agir como “cobertura” aos olhos
da lei. E, assim como não são exatamente os médicos de maiores clientelas que fazem essa
espécie de aliança com os dentistas, tampouco se escolhem, para servir de cobertura para uma
representação recalcada, representações pré-conscientes ou conscientes que já tenham atraído
sobre si uma parcela suficiente da atenção que atua no pré-consciente. O inconsciente prefere
tecer suas ligações em torno de impressões e representações pré-conscientes que sejam
indiferentes e às quais, por isso mesmo, não se tenha dado atenção ou que tenham sido rejeitadas
e, portanto, perdido prontamente a atenção que lhes era dedicada. Uma conhecida tese da
doutrina da associação, inteiramente confirmada pela experiência, é que uma representação ligada
por um elo muito íntimo em determinada direção tende, por assim dizer, a repelir grupos inteiros de
novas ligações. Tentei certa vez basear uma teoria da paralisia histérica nessa proposição.
Se presumirmos que também nos sonhos atua essa mesma necessidade de
transferência por parte das representações recalcadas, que descobrimos ao analisar as neuroses,
dois dos enigmas do sonho serão resolvidos de um só golpe, a saber, o fato de que toda análise de
um sonho revela o entrelaçamento de alguma impressão recente em sua trama, e que esse
elemento recente é freqüentemente do tipo mais banal [em [1]]. Posso acrescentar que (como já
descobrimos em outro lugar [em [1]-[2]]) a razão por que esses elementos recentes e indiferentes
tantas vezes ganham acesso aos sonhos, como substitutosdos mais antigos dentre todos os
pensamentos oníricos, é que eles são os que menos têm a temer da censura imposta pela
resistência. Todavia, enquanto o fato de os elementos triviais serem preferidos é explicado por sua
isenção da censura, o fato de ocorrerem elementos recentes com tal regularidade aponta para a
existência de uma necessidade de transferência. Ambos os grupos de impressões atendem à
exigência do recalcado, que demanda um material ainda livre de associações - as indiferentes, por
não terem dado margem à formação de muitos vínculos, e as recentes, por ainda não terem tido
tempo de estabelecê-los.
Assim, vemos que os restos diurnos, entre os quais podemos agora incluir as
impressões indiferentes, não apenas tomam emprestado algo do Ics., quando conseguem
participar da formação do sonho - ou seja, a força pulsional que está à disposição do desejo
recalcado -, mas também oferecem ao inconsciente algo indispensável - ou seja, o ponto de
ligação necessário para uma transferência. Se quiséssemos penetrar aqui mais profundamente nos
processos anímicos, teríamos de elucidar melhor a interação das excitações entre o pré-consciente
e o inconsciente, tema para o qual nos atrai o estudo das psiconeuroses, mas sobre o qual
acontece que os sonhos não têm nenhum auxílio a oferecer.
Tenho apenas mais uma coisa a acrescentar sobre os restos diurnos. Não há dúvida de
que são eles os verdadeiros perturbadores do sono, e não os sonhos, os quais, pelo contrário,
interessam-se em protegê-lo. Retornarei a este ponto posteriormente. [Ver em [1]]
Vimos até agora estudando os desejos oníricos: derivamo-los de sua origem na região
do Ics. e analisamos suas relações com os restos diurnos, que, por sua vez, podem ser desejos ou
moções psíquicas de alguma outra natureza ou simplesmente impressões recentes. Assim demos
margem a todas as reivindicações que possam ser levantadas por qualquer das múltiplas
atividades do pensamento de vigília em favor da importância do papel por elas desempenhado no
processo de formação dos sonhos. Não é sequer impossível que nossa exposição tenha fornecido
uma explicação para os casos extremos em que um sonho, dando prosseguimento às atividades
diurnas, chega a uma solução feliz para algum problema não solucionado da vida de vigília. Faltanos
apenas um exemplo desse tipo, para que possamosanalisá-lo e descobrir a fonte dos desejos
infantis ou recalcados cujo auxílio foi convocado e reforçou com tal sucesso os esforços da
atividade pré-consciente. Mas nada disso nos aproximou um passo sequer da solução do enigma
de por que o inconsciente nada tem a oferecer durante o sono além da força propulsora para a
realização de um desejo. A resposta a esta pergunta deve lançar luz sobre a natureza psíquica dos
desejos, e proponho fornecê-la mediante uma referência a nosso quadro esquemático do aparelho
psíquico.
Não temos nenhuma dúvida de que esse aparelho só atingiu sua perfeição atual após
um longo período de desenvolvimento. Tentemos reconduzi-lo a uma etapa anterior de sua
capacidade de funcionamento. Algumas hipóteses cuja justificação deve ser buscada de outras
maneiras dizem-nos que, a princípio, os esforços do aparelho tinham o sentido de mantê-lo tão
livre de estímulos quanto possível; conseqüentemente, sua primeira estrutura seguia o projeto de
um aparelho reflexo, de modo que qualquer excitação sensorial que incidisse nele podia ser
prontamente descarregada por uma via motora. Mas as exigências da vida interferem nessa função
simples, e é também a elas que o aparelho deve o ímpeto para seu desenvolvimento posterior. As
exigências da vida confrontam-no, primeiramente, sob a forma das grandes necessidades
somáticas. As excitações produzidas pelas necessidades internas buscam descarga no
movimento, que pode ser descrito como uma “modificação interna” ou uma “expressão emocional’’.
O bebê faminto grita ou dá pontapés, inerme. Mas a situação permanece inalterada, pois a
excitação proveniente de uma necessidade interna não se deve a uma força que produza um
impacto momentâneo, mas a uma força que está continuamente em ação. Só pode haver mudança
quando, de uma maneira ou de outra (no caso do bebê, através do auxílio externo), chega-se a
uma “vivência de satisfação” que põe fim ao estímulo interno. Um componente essencial dessa
vivência de satisfação é uma percepção específica (a da nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem
mnêmica fica associada, daí por diante, ao traço mnêmico da excitação produzida pela
necessidade. Em decorrência do vínculo assim estabelecido, na próxima vez em que essa
necessidade fordespertada, surgirá de imediato uma moção psíquica que procurará recatexizar a
imagem mnênica da percepção e reevocar a própria percepção, isto é, restabelecer a situação da
satisfação original. Uma moção dessa espécie é o que chamamos de desejo; o reaparecimento da
percepção é a realização do desejo, e o caminho mais curto para essa realização é a via que
conduz diretamente da excitação produzida pelo desejo para uma completa catexia da percepção.
Nada nos impede de presumir que tenha havido um estado primitivo do aparelho psíquico em que
esse caminho era realmente percorrido, isto é, em que o desejo terminava em alucinação. Logo, o
objetivo dessa primeira atividade psíquica era produzir uma “identidade perceptiva” - uma repetição
da percepção vinculada à satisfação da necessidade.
A amarga experiência da vida deve ter transformado essa atividade primitiva de
pensamento numa atividade secundária mais conveniente. O estabelecimento de uma identidade
perceptiva pela curta via da regressão no interior do aparelho não tem em outro lugar da psique o
mesmo resultado que a catexia dessa mesma percepção desde o exterior. A satisfação não
sobrevém e a necessidade perdura. A catexia interna só poderia ter o mesmo valor da externa se
fosse mantida incessantemente, como de fato ocorre nas psicoses alucinatórias e nas fantasias de
fome, que esgotam toda sua atividade psíquica no apego ao objeto de seu desejo. Para chegar a
um dispêndio mais eficaz da força psíquica, é necessário deter a regressão antes que ela se torne
completa, para que não vá além da imagem mnêmica e seja capaz de buscar outros caminhos que
acabem levando ao estabelecimento da desejada identidade perceptiva desde o mundo exterior.
Essa inibição da regressão e o subseqüente desvio da excitação passam a ser da alçada de um
segundo sistema, que controla o movimento voluntário - isto é, que pela primeira vez se vale do
movimento para fins lembrados de antemão. Mas toda a complexa atividade de pensamento que
se desenrola desde a imagem mnêmica até o momento em que a identidade perceptiva é
estabelecida pelo mundo exterior, toda essa atividade de pensamento constitui simplesmente um
caminho indireto para a realização de desejo, caminho esse que a experiência tornou necessário.
O pensamento, afinal, não passa do substituto de um desejoalucinatório, e é evidente que os
sonhos têm de ser realizações de desejos, uma vez que nada senão o desejo pode colocar nosso
aparelho anímico em ação. Os sonhos, que realizam seus desejos pela via curta da regressão,
simplesmente preservaram para nós, nesse aspecto, uma amostra do método primário de
funcionamento do aparelho psíquico, método este que foi abandonado por ser ineficaz. O que um
dia dominou a vida de vigília, quando a psique era ainda jovem e incompetente, parece agora ter
sido banido para a noite - tal como as armas primitivas abandonadas pelos homens adultos, os
arcos e flechas, ressurgem no quarto de brinquedos. O sonho é um ressurgimento da vida anímica
infantil já suplantada. Esses métodos de funcionamento do aparelho psíquico, que são
normalmente suprimidos nas horas de vigília, voltam a tornar-se atuais na psicose e então revelam
sua incapacidade de satisfazer nossas necessidades em relação ao mundo exterior.
É claro que as moções de desejo inconscientes tentam tornar-se eficazes também
durante o dia, e o fato da transferência, assim como as psicoses, indicam-nos que elas lutam por
irromper na consciência através do sistema pré-consciente e por obter o controle do poder de
movimento. Assim, a censura entre o Ics. e o Pcs., cuja existência os sonhos nos obrigaram a
supor, merece ser reconhecida e respeitada como a guardiã de nossa saúde mental. Contudo,
acaso não devemos encarar como um ato de descuido por parte dessa guardiã que ela relaxe suas
atividades durante a noite, permita que as moções suprimidas do Ics. se expressem e possibilite à
regressão alucinatória voltar a ocorrer? Creio que não, pois muito embora esse guardião crítico
repouse - e temos provas de que seus cochilos não são profundos - ele também fecha a porta à
motilidade. Sejam quais forem as moções do Ics., normalmente inibido, a entrarem saltitantes em
cena, não há por que nos preocuparmos; elas permanecem inofensivas, uma vez que são
incapazes de acionar o aparelho motor, o único pelo qual poderiam modificar o mundo externo. O
estado de sono garante a segurança da cidadela a ser guardada. A situação é menos inofensiva
quando o que acarreta o deslocamento de forças não é o relaxamento noturno do dispêndio de
força da censura crítica, mas uma redução patológica dessa força ou uma intensificação patológica
dasexcitações inconscientes, enquanto o pré-consciente está ainda catexizado e o portão de
acesso à motilidade permanece aberto. Quando isso acontece, o guardião é subjugado, as
excitações inconscientes dominam o Pcs. e, a partir daí, obtêm controle sobre nossa fala e nossas
ações, ou então forçam a regressão alucinatória e dirigem o curso do aparelho (que não se
destinava a seu uso) em virtude da atração exercida pelas percepções sobre a distribuição de
nossa energia psíquica. A esse estado de coisas damos o nome de psicose.
Estamos agora no bom caminho para prosseguir na construção da estrutura psicológica,
que interrompemos no ponto em que introduzimos os dois sistemas Ics. e Pcs. Mas há razões para
continuarmos um pouco em nossa apreciação do desejo como a única força impulsora psíquica
para a formação dos sonhos. Aceitamos a idéia de que a razão por que os sonhos são
invariavelmente realizações de desejos é que eles são produtos do sistema Ics., cuja atividade não
conhece outro objetivo senão a realização de desejos e não tem sob seu comando outras forças
senão as moções de desejo. Se insistirmos ainda por mais um momento em nosso direito de
fundamentar especulações psicológicas de tal alcance na interpretação dos sonhos, teremos o
dever de provar que essas especulações nos habilitaram a inserir os sonhos numa concatenação
capaz de abarcar também outras estruturas psíquicas. Se existe um sistema Ics. (ou, para fins de
nossa discussão, algo análogo a ele), os sonhos não podem ser sua única manifestação; todo
sonho pode ser uma realização de desejo, mas, além dos sonhos, tem de haver outras formas
anormais de realização de desejo. E é fato que a teoria que rege todos os sintomas
psiconeuróticos culmina numa única proposição, que assevera que também eles devem ser
encarados como realizações de desejos inconscientes. Nossa explicação faz do sonho apenas o
primeiro membro de uma classe que é de extrema importância para os psiquiatras e cuja
compreensão implica a solução da faceta puramente psicológica do problema da psiquiatria.
Os outros membros dessa classe de realizações de desejos - os sintomas histéricos, por
exemplo - possuem, contudo, uma característica essencialque não consigo descobrir nos sonhos.
Com as investigações que tantas vezes mencionei ao longo desta obra, aprendi que, para
promover a formação de um sintoma histérico, é preciso que convirjam ambas as correntes de
nossa vida anímica. O sintoma não é simplesmente a expressão de um desejo inconsciente
realizado; é preciso que esteja presente também um desejo do pré-consciente realizado pelo
mesmo sintoma, de modo que o sintoma tem pelo menos dois determinantes, cada qual surgindo
de um dos sistemas envolvidos no conflito. Tal como acontece nos sonhos, não há limite para os
outros determinantes que possam estar presentes - para a “sobredeterminação” dos sintomas. O
determinante que não brota do Ics., ao que eu saiba, é invariavelmente uma cadeia de
pensamentos que reage ao desejo inconsciente - uma autopunição, por exemplo. Assim, posso
fazer a afirmação bastante genérica de que o sistema histérico só se desenvolve quando as
realizações de dois desejos opostos, cada qual proveniente de um sistema psíquico diferente,
conseguem convergir numa única expressão. (Vejam-se, a esse respeito, minhas mais recentes
formulações sobre a origem dos sintomas histéricos em meu artigo sobre as fantasias histéricas e
sua relação com a bissexualidade. [Freud, 1908a].) Os exemplos teriam aqui muito pouca
serventia, uma vez que nada senão uma elucidação exaustiva das complicações envolvidas seria
convincente. Assim, deixo que minha afirmação se mantenha como tal e cito um exemplo apenas
para deixar claro esse ponto, e não para convencer. Numa de minhas pacientes, os vômitos
histéricos mostraram ser, por um lado, a realização de uma fantasia inconsciente que datava de
sua puberdade - isto é, do desejo de estar continuamente grávida e ter inúmeros filhos, acrescido
de outro desejo que surgiu posteriormente: o de tê-los com tantos homens quanto possível. Um
poderoso impulso defensivo levantou-se contra esse desejo irrefreado. E como a paciente podia
perder suas formas e sua boa aparência em decorrência dos vômitos, assim deixando de ser
atraente para quem quer que fosse, o sintoma era aceitável também para a cadeia de
pensamentos punitivos e, sendo permitido por ambos os lados, pôde tornar-se realidade. Foi um
método de tratar uma realização de desejo idêntico ao adotado pela rainha dos partas com o
triúnviro romano Crasso. Acreditando que ele empreendera sua campanha por amor ao ouro,
ordenou a rainha que se despejasse ouro fundido em sua garganta depois que ele morreu: “Agora”,
disse ela, “tendes o quequeríeis”. Mas tudo o que sabemos até agora sobre os sonhos é que eles
expressam a realização de um desejo do inconsciente, é como se o sistema dominante, préconsciente,
aquiescesse nisso depois de insistir num certo número de distorções. Tampouco é
possível, em regra geral, encontrar uma seqüência de pensamentos oposta ao desejo onírico e,
como sua contrapartida, realizada no sonho. Apenas aqui e ali, nas análises dos sonhos,
esbarramos em sinais de criações reativas, como, por exemplo, meus sentimentos afetuosos por
meu amigo R. no sonho com meu tio [de barba amarela] (ver em [1]). Mas podemos encontrar em
outro lugar o ingrediente que falta do pré-consciente. Enquanto o desejo do Ics. consegue
encontrar expressão no sonho, depois de sofrer toda sorte de distorções, o sistema dominante se
recolhe num desejo de dormir, realiza esse desejo promovendo as modificações que consegue
produzir nas catexias no interior do aparelho psíquico, e persiste nesse desejo por toda a duração
do sono.
Esse firme desejo de dormir por parte do pré-consciente exerce um efeito geralmente
facilitador na formação dos sonhos. Permitam-me lembrar o sonho do homem que foi levado a
inferir, pelo clarão de luz que provinha do quarto contíguo, que o corpo de seu filho talvez estivesse
pegando fogo [em [1]]. O pai fez essa inferência no sonho, em vez de se deixar acordar pelo
clarão; e sugerimos antes que uma das forças psíquicas responsáveis por esse resultado foi o
desejo que prolongou por aquele momento a vida do filho, a quem ele retratou no sonho. É
provável que nos escapem outros desejos provenientes do recalcado, já que não pudemos analisar
o sonho. Mas podemos presumir que outra força impulsora na produção do sonho foi a
necessidade que tinha o pai de dormir; seu sono, tal como a vida do filho, foi prolongado por um
momento pelo sonho. “Deixe o sonho prosseguir” - foi essa sua motivação - “ou terei de acordar”.
Em todos os outros sonhos, tal como neste, o desejo de dormir oferece apoio ao desejo
inconsciente. Em [1] descrevi alguns sonhos que aparentavam abertamente ser sonhos de
conveniência. Na realidade, porém, todos os sonhos podem reinvindicar seu direito a essa mesma
descrição. A ação do desejo de continuar dormindo pode ser percebida com extrema facilidade nos
sonhos de despertar, que modificam os estímulos sensoriais externos de maneira a torná-los
compatíveis com a continuação do sono; eles os entretecem no sonho para privá-los de qualquer
possibilidade de agirem como lembretes do mundoexterno. Esse mesmo desejo, contudo, deve
desempenhar um papel idêntico para permitir a ocorrência de todos os outros sonhos, embora seja
apenas de dentro que eles ameaçam arrancar o sujeito de seu sono. Em alguns casos, quando o
sonho leva as coisas longe demais, o Pcs. diz à consciência: “Não dê importância! Continue a
dormir! Afinal, é apenas um sonho!” [Ver em [1]] Mas isso descreve, em geral, a atitude de nossa
atividade anímica dominante para com os sonhos, ainda que ela não se expresse abertamente.
Sou levado a concluir que, por toda a duração de nosso estado de sono, sabemos com tanta
certeza que estamos sonhando quanto sabemos estar dormindo. Não devemos prestar demasiada
atenção ao argumento contrário de que nossa consciência nunca se volta para a segunda dessas
certezas, e só se volta para a primeira nas ocasiões especiais em que a censura se sente, por
assim dizer, apanhada de surpresa.
Por outro lado, [1] há pessoas que, durante a noite, têm clara ciência de estarem
dormindo e sonhando, e que assim parecem possuir a faculdade de dirigir conscientemente seus
sonhos. Quando, por exemplo, um desses sonhadores fica insatisfeito com o rumo tomado por um
sonho, ele pode interrompê-lo sem acordar e reiniciá-lo em outra direção - tal como um dramaturgo
popular, quando pressionado, pode dar a sua peça um final mais feliz. Ou, noutra ocasião, caso
seu sonho o tenha levado a uma situação sexualmente excitante, ele pode pensar consigo mesmo:
“Não vou continuar a sonhar com isso e me esgotar numa polução; vou retê-la, em vez disso, para
a situação real”.
O Marquês d’Hervey de Saint-Denys [1867, 268 e segs.] [1], citado por Vaschide [1911,
139], alegava ter adquirido o poder de acelerar o curso de seus sonhos como lhe aprouvesse e de
dar-lhes o rumo que bem entendesse. É como se, em seu caso, o desejo de dormir houvesse dado
lugar a outro desejo pré-consciente, a saber, o de observar seus sonhos e deleitar-se com eles. O
sono é tão compatível com esse tipo de desejo quanto com uma ressalva mental para acordar,
caso uma dada condição seja atendida (por exemplo, no caso de uma mãe que esteja
amamentando ou de uma ama-de-leite) [em [1]]. Além disso, é sabido que qualquer pessoa que se
interesse pelos sonhos recorda um número consideravelmente maior deles depois de acordar.
Ferenczi (1911), [1] ao discutir algumas outras observações sobre o direcionamento dos
sonhos, comenta: “Os sonhos elaboram por todos os ângulos os pensamentos que ocupam no
momento a vida anímica; abandonam uma imagem onírica quando ela ameaça o sucesso de uma
realização de desejo e experimentam uma nova solução, até finalmente lograrem criar uma
realização de desejo que satisfaça às duas instâncias anímicas como uma solução de
compromisso.”
(D) O DESPERTAR PELOS SONHOS - A FUNÇÃO DOS SONHOS - SONHOS DE
ANGÚSTIA
Agora que sabemos que, durante toda a noite, o pré-consciente concentra-se no desejo
de dormir, estamos em condições de levar nossa compreensão do processo onírico um passo
adiante. Mas resumamos primeiro o que aprendemos até agora.
A situação é a seguinte: ou ficaram pendentes da atividade de vigília restos do dia
anterior, e não foi possível retirar deles toda a catexia de energia; ou a atividade de vigília no
decorrer do dia levou à excitação de um desejo inconsciente; ou ainda esses dois fatos
coincidiram. (Já examinamos as diversas possibilidades em relação a isso.) O desejo inconsciente
se liga aos restos diurnos e efetua uma transferência para eles: isso pode acontecer no decurso do
dia ou só depois de se estabelecer o estado de sono. Desperta então um desejo transferido para o
material recente, ou um desejo recente, depois de suprimido, ganha vida nova ao receber um
reforço do inconsciente. Este desejo procura ganhar acesso à consciência pela via normal tomada
pelos processos de pensamento, através do Pcs. (ao qual, na verdade, pertence em parte).
Entretanto, choca-se com a censura, que ainda está operando e a cuja influência então se
submete. Nesse ponto, ele adota a distorção, cujo caminho já fora preparado pela transferência do
desejo para o material recente. Até aí, ele está em vias de se transformar numa idéia obsessiva,
num delírio ou algo parecido - isto é, num pensamento intensificado pela transferência e distorcido
em sua expressão pela censura. Seu avanço subseqüente, porém, é detido pelo estado de sono
em que se acha o pré-consciente. (Há uma probabilidade de que esse sistema se tenha protegido
da invasão diminuindo suas próprias excitações.) O processo onírico, conseqüentemente, entra
num caminho regressivo, que lhe é aberto precisamente pela natureza peculiar do estado de sono,
e é levado por esse caminho pela atração sobre ele exercida por grupos de lembranças; algumas
destas existem apenas sob a forma de catexias visuais, e não como traduções para a terminologia
dos sistemas posteriores. [Ver em [1].] No curso de seu trajeto regressivo, o processo onírico
adquire o atributo da representabilidade. (Abordarei mais adiante a questão da compressão [em
[1]].) Completou agora a segunda parte de sua trajetória em ziguezague. A primeira parte foi
progressiva, indo das cenas ou fantasias inconscientes para o pré-consciente;a segunda
retrocedeu da fronteira da censura até as percepções. Mas, ao tornar-se perceptivo, o conteúdo do
processo onírico encontrou, por assim dizer, um meio de esquivar-se do obstáculo erguido em seu
caminho pela censura e pelo estado de sono do Pcs. [Ver em [1].] Logra chamar a atenção para si
próprio e ser notado pela consciência.
Ocorre que a consciência, que encaramos como um órgão dos sentidos para a
apreensão de qualidades psíquicas, é passível, na vigília, de receber excitações de duas fontes.
Em primeiro lugar, pode receber excitações da periferia de todo o aparelho, do sistema perceptivo;
e além disso, pode receber excitações de prazer e desprazer, que mostram ser quase a única
qualidade psíquica ligada às transposições de energia no interior do aparelho. Todos os outros
processos dos sistemas-y, inclusive o Pcs., carecem de qualquer qualidade psíquica e, desse
modo, não podem ser objetos da consciência, exceto na medida em que trazem prazer ou
desprazer à percepção. Somos assim levados a concluir que essas liberações de prazer e
desprazer regulam automaticamente o curso dos processos de catexização. No entanto, para
possibilitar desempenhos mais delicadamente ajustados, fez-se depois necessário tornar o curso
das representações menos dependente da presença ou da ausência de desprazer. Para esse fim,
o sistema Pcs. precisava ter qualidades próprias que pudessem atrair a consciência, e parece
altamente provável que as tenha obtido ligando os processos pré-conscientes com o sistema
mnêmico dos signos lingüísticos, sistema este não desprovido de qualidade. [Ver [1].] Por
intermédio das qualidades desse sistema, a consciência, que fora até então um órgão sensorial
apenas para as percepções, tornou-se também um órgão sensorial para parte de nossos
processos de pensamento. Assim, existem agora, por assim dizer, duas superfícies sensoriais,
uma voltada para a percepção, e a outra, para os processos de pensamento pré-conscientes.
Tenho de presumir que o estado de sono torna a superfície sensorial da consciência
voltada para o Pcs. muito mais insuscetível à excitação do que a superfície voltada para os
sistemas Pcpt. Além disso, esse abandono do interesse pelos processos de pensamento durante a
noite tem uma finalidade: o pensamento tem de deter-se, porque o Pcs. exige dormir. Uma vez,
contudo, que um sonho se tenha tornado uma percepção, ele fica em condições de excitar a
consciência, por meio das qualidades que agora adquiriu. Essa excitação sensorial passa a
desempenhar aquilo que constitui a sua função essencial: dirige parte da energia de catexização
disponível no Pcs. para a atenção a ser dada ao que está causando a excitação. [Ver em [1].]
Deve-se admitir, portanto, que todo sonho tem um efeito despertador, que põe ematividade parte
da força quiescente do Pcs. O sonho é então submetido por essa força à influência que
descrevemos como elaboração secundária, com vistas à concatenação e à ininteligibilidade. Em
outras palavras, o sonho é tratado por ela tal como qualquer outro conteúdo perceptivo; é recebido
pelas mesmas representações antecipatórias, na medida em que sua temática o permita [em [1]].
Quanto a haver uma direção nessa terceira parte do processo onírico, trata-se novamente de uma
direção progressiva.
Para evitar mal-entendidos, dizer uma palavra sobre as relações cronológicas desses
processos oníricos não deixa de ser oportuno. Uma conjetura muito atraente foi formulada por
Goblot [1896, 289 e segs.], sem dúvida sugerida pelo enigma do sonho de Maury com a guilhotina
[em [1]]. Ele procura mostrar que o sonho não ocupa mais que o período de transição entre o
dormir e o despertar. O processo de despertar leva certo tempo, e durante esse tempo ocorre o
sonho. Imaginamos que a imagem onírica final foi tão poderosa que nos compeliu a acordar,
quando, a rigor, ela só foi poderosa assim porque, naquele momento, já estávamos a ponto de
acordar. “Un rêve c’est un réveil qui commence.”
Já Dugas [1897b] havia assinalado que Goblot teria de desprezar muitos fatos para
poder generalizar sua tese. Ocorrem sonhos dos quais não despertamos - por exemplo, alguns em
que sonhamos estar sonhando. Com nosso conhecimento do trabalho do sonho, não nos é
possível concordar em que ele abranja apenas o período do despertar. Parece provável, ao
contrário, que a primeira parte do trabalho do sonho já começa durante o dia, sob o controle do
pré-consciente. Sua segunda parte - a modificação imposta pela censura, a atração exercida pelas
cenas inconscientes e sua irrupção forçosa na percepção - decerto transcorre ao longo de toda a
noite e, nesse sentido, talvez estejamos sempre certos ao expressar a sensação de havermos
sonhado a noite inteira, embora não saibamos dizer com quê. [Ver em [1].]
Mas parece-me desnecessário supor que os processos oníricos realmente sigam, até o
momento de se tornarem conscientes, a ordem cronológica em que os descrevi: que a primeira
coisa a aparecer seja o desejo onírico transferido, seguindo-se então a distorção causada pela
censura, depois a mudança regressiva de direção, etc. Fui obrigado a adotar essa ordem em
minha descrição, mas o que acontece na realidade é, indubitavelmente, uma exploração
simultânea deste e daquele caminho, uma oscilação da excitação ora para cá, ora para lá, até que,
por fim, ela se acumula na direção maisoportuna e um determinado agrupamento se torna
permanente. Algumas de minhas experiências pessoais levam-me a suspeitar que o trabalho do
sonho freqüentemente requer mais do que um dia e uma noite para atingir seu resultado; se assim
for, já não teremos porque sentir nenhum espanto ante a extraordinária engenhosidade exibida na
formação do sonho. Em minha opinião, até a exigência de que o sonho se torne inteligível como
evento perceptivo pode efetivar-se antes que o sonho atraia para si a consciência. Daí por diante,
contudo, o ritmo é acelerado, pois nesse ponto o sonho é tratado da mesma maneira que qualquer
outra coisa percebida. É como um fogo de artifício, que leva horas para ser preparado, mas se
consome num momento.
O processo onírico adquiriu agora, através do trabalho do sonho, intensidade suficiente
para atrair para si a consciência e despertar o pré-consciente, quaisquer que sejam a duração e a
profundidade do sono; ou então, sua intensidade é insuficiente para conseguir isso e ele tem de
permanecer em estado de alerta, até que, pouco antes do despertar, a atenção se torna mais
móvel e vem a seu encontro. A maioria dos sonhos parece operar com intensidades psíquicas
comparativamente baixas, pois quase todos esperam até o momento de despertar. Mas isso
também explica o fato de que, quando somos repentinamente despertados de um sono profundo,
geralmente percebemos alguma coisa sonhada. Em tais casos, tal quando acordamos
espontaneamente, a primeira coisa que vemos é o conteúdo perceptivo construído pelo trabalho do
sonho e, logo a seguir, o conteúdo perceptivo que nos é oferecido de fora.
Mas o maior interesse teórico prende-se aos sonhos que têm o poder de nos despertar
em meio ao sono. Tendo em mente a conveniência que em tudo o mais é a regra geral, podemos
perguntar por que um sonho, isto é, um desejo inconsciente, recebe o poder de interferir no sono,
isto é, na realização do desejo pré-consciente. A explicação reside, sem dúvida, em relações de
energia de que não temos conhecimento. Se dispuséssemos desse conhecimento, provavelmente
descobriríamos que deixar o sonho seguir seu curso e despender nele certa quantidade de atenção
mais ou menos desinteressada é uma economia de energia, comparada a manter o inconsciente
tão rigidamente controlado à noite quanto de dia. [Ver em [1].] A experiência nos mostra que
sonhar é compatível com dormir, mesmo que o sonho interrompa o sono diversas vezes durante a
noite. Acorda-se por um instante e logo se volta a adormecer. É como espantar uma mosca
durante o sono: um caso de despertar ad hoc. Quando se adormece novamente, elimina-se a
interrupção. Como mostram exemplos tão familiares quanto o sono das mãesque estão
amamentando ou das amas-de-leite [em [1]], a realização do desejo de dormir é inteiramente
compatível com a manutenção de certo dispêndio de atenção em algum sentido específico.
Surge neste ponto uma objeção baseada num melhor conhecimento dos processos
inconscientes. Eu próprio afirmei que os desejos inconscientes são sempre ativos. Entretanto, a
despeito disso, eles não parecem ser suficientemente fortes para se tornarem perceptíveis durante
o dia. Se, no entanto, enquanto prevalece o estado de sono, o desejo inconsciente mostra-se
intenso o bastante para formar um sonho e com ele despertar o pré-consciente, por que faltaria
essa intensidade depois de se ter tomado conhecimento do sonho? Não deveria ele continuar a
repetir-se perpetuamente, tal como a incômoda mosca continua a retornar depois de ter sido
espantada? Que direito temos nós de asseverar que os sonhos se livram da perturbação do sono?
É perfeitamente verídico que os desejos inconscientes permanecem sempre ativos.
Representam caminhos que sempre podem ser percorridos, toda vez que uma quantidade de
excitação se serve deles. [Ver em [1].] Na verdade, um aspecto destacado dos processos
inconscientes é o fato de eles serem indestrutíveis. No inconsciente, nada pode ser encerrado,
nada é passado ou está esquecido. Isso é o que nos impressiona mais vivamente ao estudarmos
as neuroses, em especial a histeria. A via inconsciente de pensamentos que conduz à descarga no
ataque histérico volta imediatamente a tornar-se transitável quando se acumula excitação
suficiente. Uma humilhação experimentada trinta anos antes atua exatamente como uma nova
humilhação ao longo desses trinta anos, assim que obtém acesso às fontes inconscientes de afeto.
Tão logo se roça em sua lembrança, ela ressurge para a vida e se mostra mais uma vez
catexizada com uma excitação que encontra descarga motora num ataque. É precisamente nesse
ponto que a psicoterapia tem de intervir. Sua tarefa consiste em possibilitar aos processos
inconscientes serem finalmente abordados e esquecidos. É que o esmaecimento das lembranças e
o debilitamento afetivo de impressões que já não são recentes, que nos inclinamos a encarar como
óbvios e a explicar como um efeito primário do tempo sobre os traços mnêmicos da psique, são na
realidade modificações secundárias, promovidas somente através de um trabalho árduo. É o préconsciente
que realiza esse trabalho, e a psicoterapia não pode seguir outro caminho senão o de
colocar o Ics. sob o domínio do Pcs.
Há, portanto, dois resultados possíveis para cada processo excitatório inconsciente. Ou
bem ele fica por sua própria conta, caso em que acaba irrompendo em algum ponto e, nessa
ocasião isolada, encontra descarga para sua excitação na motilidade, ou cai sob a influência do
pré-consciente e sua excitação, em vez de ser descarregada, fica ligada pelo pré-consciente. Essa
segunda alternativa é a que ocorre no processo do sonho. [Ver em. [1].] A catexia do Pcs., que
encontra o sonho a meio caminho depois de ele se tornar perceptivo, tendo sido guiada para ele
pela excitação da consciência, liga a excitação inconsciente do sonho e a torna impotente para agir
como perturbação. Se é verdade que o sonhador desperta por um instante, mesmo assim ele de
fato espantou a mosca que ameaçava perturbar seu sono. Começa a ficar claro para nós que
realmente é mais conveniente e econômico deixar que o desejo inconsciente siga seu curso,
manter-lhe aberto o caminho da regressão, para que ele possa formar um sonho, depois ligar o
sonho e desembaraçar-se dele com um pequeno dispêndio de trabalho do pré-consciente, do que
continuar a manter o inconsciente na rédea curta durante todo o período de sono. [Ver em [1].] De
fato, era de se esperar que o sonho, embora possa ter sido originalmente um processo sem
finalidade útil, granjeasse alguma função para si na interação das forças anímicas. E agora
podemos ver qual é essa função. O sonhar tomou a si a tarefa de recolocar sob o controle do préconsciente
a excitação do Ics. que ficou livre; ao fazê-lo, ele descarrega a excitação do Ics., servelhe
de válvula de escape e, ao mesmo tempo, preserva o sono do pré-consciente, em troca de um
pequeno dispêndio de atividade de vigília. Assim, como todas as outras formações psíquicas da
série da qual é membro, ele constitui uma formação de compromisso: serve a ambos os sistemas,
uma vez que realiza os dois desejos enquanto forem compatíveis entre si. Se retornarmos à “teoria
da excreção” dos sonhos formulada por Robert [1886], que expliquei em [1], veremos num relance
que, em essência, devemos aceitar sua descrição da função dos sonhos, embora divergindo dele
nas premissas e em sua visão do próprio processo onírico. [Ver em [1]] [2]
A ressalva “enquanto os dois desejos forem compatíveis entre si” implica uma alusão aos
casos possíveis em que a função de sonhar termina em fracasso. O processo onírico tem
permissão para começar como a realização de um desejo inconsciente, mas, quando essa
tentativa de realização de desejo fere o pré-consciente com tanta violência que ele não consegue
continuar dormindo, o sonho rompe o compromisso e deixa de cumprir a segunda parte de sua
tarefa. Nesse caso, ele é imediatamente interrompido e substituído por um estado de completa
vigília. Mas também aqui não é realmente culpa do sonho que ele apareça agora no papel de
perturbador do sono, e não em seu papel normal de guardião do sono; e não é necessário que isso
nos predisponha contra o fato de ele ter uma finalidade útil. Não é este o único exemplo de um
dispositivo normalmente útil no organismo tornar-se inútil e perturbador tão logo as condições que
lhe dão origem são ligeiramente modificadas; e a perturbação serve ao menos ao novo propósito
de chamar atenção para a modificação e de acionar o mecanismo regulador do organismo contra
ela. O que tenho em mente, é claro, são os sonhos de angústia, e para que não se pense que
estou fugindo dessa prova contrária à teoria da realização de desejo sempre que deparo com ela,
darei ao menos alguns indícios de sua explicação.
Já não há nada de contraditório para nós na idéia de que um processo psíquico gerador
de angústia possa, ainda assim, constituir a realização de um desejo. Sabemos que isso pode ser
explicado pelo fato de o desejo pertencer a um sistema, Ics., ao passo que foi repudiado e
suprimido pelo outro sistema, o Pcs. Mesmo quando a saúde psíquica é perfeita, a subjugação do
Ics. pelo Pcs. não é completa: a medida da supressão indica o grau de nossa normalidade
psíquica. Os sintomas neuróticos mostram que os dois sistemas se encontram em conflito entre si;
são o produto de um compromisso que põe termo ao conflito por algum tempo. De um lado, dão ao
Ics. um escoadouro para a descarga de sua excitação e lhe fornecem uma espécie de porta de
escape, enquanto, de outro, possibilitam ao Pcs. controlar o Ics. até certo ponto. É instrutivo
considerar, por exemplo, a importância de uma fobia histérica ou de uma agorafobia. Suponhamos
que um paciente neurótico seja incapaz de atravessar a rua sozinho, condição que de pleno direito
encaramos como um “sintoma”. Se eliminarmos esse sintoma, obrigando-o a praticar a ação de
que se acredita incapaz, a conseqüência será um ataque de angústia; e a rigor, a ocorrência de um
ataque de angústia na rua é, muitas vezes, a causa precipitante do desencadeamento de uma
agorafobia. Vemos, portanto, que o sintoma foi formado para evitar uma irrupção da angústia; a
fobia se ergue como uma fortificação de fronteira contra a angústia.
Nossa discussão não pode ser levada adiante sem examinarmos o papel desempenhado
pelos afetos nesses processos; neste contexto, porém, só podemos fazê-lo de modo imperfeito.
Assim, presumamos que a supressão do Ics. seja necessária, acima de tudo, porque, se o curso
das representações no Ics. ficasse por sua própria conta, geraria um afeto que foi originalmente de
natureza prazerosa, mas tornou-se desprazeroso depois de ocorrido o processo de “recalcamento”.
O propósito, bem como o resultado da supressão, é impedir essa liberação de desprazer. A
supressão se estende ao conteúdo de representações do Ics., já que a liberação de desprazer
pode começar a partir desse conteúdo. Isso pressupõe uma suposição bastante específica quanto
à natureza da geração do afeto. Ela é encarada como uma função motora ou secretória, a chave
de cuja inervação reside nas representações do Ics. Graças à dominação exercida pelo Pcs.,
essas representações são, por assim dizer, sufocadas e inibidas de enviar impulsos que gerariam
afeto. Desse modo, quando cessa a catexia do Pcs., o perigo é que as excitações inconscientes
liberem um tipo de afeto que (em decorrência do recalcamento já ocorrido) só pode ser vivenciado
como desprazer, como angústia.
Esse perigo se concretiza quando se permite que o processo onírico siga seu curso. As
condições que determinam sua realização são: que tenham ocorrido recalcamentos e que as
moções de desejo suprimidas possam adquirir força suficiente. Esses determinantes, portanto,
estão inteiramente fora da estrutura psicológica da formação dos sonhos. Não fosse o fato de
nosso tema estar ligado à questão da geração de angústia pelo fator isolado da liberação do Ics.
durante o sono, eu poderia omitir qualquer discussão dos sonhos de angústia e evitar a
necessidade de entrar, nestas páginas, em todos os aspectos obscuros que o cercam.
A teoria dos sonhos de angústia, como já declarei repetidamente, faz parte da psicologia
das neuroses. Nada mais temos a ver com ela, uma vez indicado o seu ponto de contato com o
tema do processo onírico. Há apenas mais uma coisa que posso fazer. Uma vez que afirmei que a
angústia neurótica provém de fontes sexuais, posso submeter à análise alguns sonhos de
angústia, a fim de revelar o material sexual contido em seus pensamentos oníricos.
Tenho boas razões para deixar de lado, nesta discussão, os copiosos exemplos
fornecidos por meus pacientes neuróticos, e para preferir citar alguns sonhos de angústia de
pessoas jovens.
Já se vão décadas desde que eu próprio tive um verdadeiro sonho de angústia, mas
recordo-me de um que tive aos sete ou oito anos e submeti à interpretação cerca de trinta anos
depois. Foi um sonho muito vívido, e nele vi minha querida mãe, com uma expressão
peculiarmente serena e adormecida no rosto, sendo carregada para dentro do quarto por duas (ou
três) pessoas com bicos de pássaros e depositada sobre o leito. Acordei aos prantos, gritando, e
interrompi o sono de meus pais. As figuras estranhamente vestidas e insolitamente altas, com
bicos de pássaro, provinham das ilustrações da Bíblia de Philippson. Imagino que fossem deuses
com cabeça de falcão de um antigo relevo de uma tumba egípcia. Além disso, a análise trouxe-me
à lembrança um menino mal-educado, filho de uma concierge, que costumava brincar conosco no
gramado em frente da casa quando éramos crianças e que me inclino a pensar que se chamava
Philipp. Parece-me que foi desse menino que ouvi pela primeira vez o termo vulgar que designa a
relação sexual, em cujo lugar as pessoas cultas utilizam sempre uma palavra latina, “copular”, e
que foi indicado de maneira bastante clara pela escolha das cabeças de falsão. Devo ter
adivinhado o significado sexual da palavra pelo rosto de meu jovem instrutor, que estava bem
familiarizado com os fatos da vida. A expressão do rosto de minha mãe no sonho foi copiada da
visão que eu tivera de meu avô poucos dias antes de sua morte, quando ressonava em estado de
coma. A interpretação feita no sonho pela “elaboração secundária” [em [1]], portanto, deve ter sido
que minha mãe estava morrendo; o relevo da tumba combinava com isso. Despertei com uma
angústia que não cessou enquanto não acordei meus pais. Lembro-me de ter-me acalmado de
repente, ao ver o rosto de minha mãe, como se precisasse ser assegurado de que ela não estava
morta. Mas essa interpretação “secundária”do sonho já se produziu sob a influência da angústia
desenvolvida. Não é que eu estivesse angustiado por ter sonhado que minha mãe estava
morrendo, mas interpretei o sonho nesse sentido em minha revisão pré-consciente porque já
estava sob a influência da angústia. Levando em conta o recalcamento, pode-se rastrear a origem
da angústia até um anseio obscuro e evidentemente sexual que encontrou expressão apropriada
no conteúdo visual do sonho.
Um homem de vinte e sete anos, que estivera gravemente enfermo por um ano, relatou
que entre seus onze e treze anos sonhara repetidamente (com uma grande angústia concomitante)
que um homem com uma machadinha o estava perseguindo; ele tentava correr, mas parecia estar
paralisado e não conseguia sair do lugar. Este é um bom exemplo de um tipo muito comum de
sonho de angústia, que nunca se suspeitaria ter um cunho sexual. Na análise, o sonhador esbarrou
primeiro numa história (de época posterior à do sonho) que lhe fora contada pelo tio, de como certa
noite ele fora atacado na rua por um indivíduo de aparência suspeita; o próprio sonhador concluiu
dessa associação que poderia ter ouvido falar de algum episódio semelhante na época do sonho.
Com respeito à machadinha, lembrou-se que, por volta dessa época, machucara certa vez a mão
com uma machadinha quando cortava lenha. Passou então imediatamente a suas relações com o
irmão mais novo. Costumava maltratar e derrubar esse irmão, e se lembrou particularmente de
uma ocasião em que lhe dera um pontapé na cabeça com a bota, arrancando sangue, e de como
sua mãe dissera: “Tenho medo que um dia ele o mate!” Enquanto parecia ainda ocupado com o
tema da violência, ocorreu-lhe subitamente uma recordação de seus nove anos. Seus pais haviam
chegado a casa tarde e tinham ido para a cama enquanto ele fingia estar dormindo; pouco depois,
ele ouvira sons ofegantes e outros ruídos que lhe pareceram estranhos, e pudera também
vislumbrar a posição dos pais na cama. Outros pensamentos mostraram que ele havia traçado
uma analogia entre essa relação de seus pais e sua própria relação com o irmão mais novo.
Classificara o que havia acontecido entre seus pais sob o conceito de violência e luta e encontrara
provas em favor dessa concepção no fato de ter freqüentemente observado sangue na cama da
mãe.
A experiência cotidiana confirma, diria eu, que a relação sexual entre adultos se afigura a
qualquer criança que a observe como algo estranho e que lhe desperta angústia. Expliquei essa
angústia argumentando que o que está em pauta é uma excitação sexual com que a compreensão
das crianças é incapaz de lidar, e a qual elas sem dúvida também repudiam por seus pais estarem
envolvidos; assim, ela se transforma em angústia. Num período aindamais primitivo da vida, as
excitações sexuais dirigidas ao membro de sexo oposto no casal parental ainda não depararam
com o recalcamento e, como vimos, expressam-se livremente. [Ver em [1]]
Não hesitaria em dar a mesma explicação para as crises de terror noturno
acompanhadas de alucinações (pavor nocturnus), que são tão freqüentes nas crianças. Também
nesse caso, só pode tratar-se de impulsos sexuais não compreendidos e que foram repudiados. A
investigação provavelmente mostraria uma periodicidade na ocorrência dos ataques, uma vez que
o aumento da libido sexual pode ser ocasionado não apenas por impressões excitantes acidentais,
mas também por ondas sucessivas de processos espontâneos de desenvolvimento.
Falta-me material suficiente baseado na observação para me permitir confirmar esta
explicação.
Aos pediatras, por outro lado, parece faltar a única linha de abordagem capaz de tornar
inteligível toda essa classe de fenômenos, seja no aspecto somático, seja no aspecto psíquico.
Não resisto a citar um divertido exemplo de como os antolhos da mitologia médica podem fazer
com que um observador deixe, por pouco, de chegar à compreensão desses casos. Meu exemplo
é extraído de uma tese sobre o pavor nocturnus, de autoria de Debacker (1881,66):
Um menino de treze anos, de saúde delicada, começou a mostrar-se apreensivo e
sonhador. Seu sono tornou-se perturbado e era interrompido quase que semanalmente por graves
ataques de angústia, acompanhados por alucinações. Ele guardava sempre uma recordação muito
clara desses sonhos. Dizia que o diabo lhe gritava: “Agora te pegamos, agora te pegamos!” Havia
então um cheiro de piche e enxofre e sua pele era queimada por chamas. Ele despertava do sonho
aterrorizado e, a princípio, não conseguia gritar. Quando recuperava a voz, podia-se ouvi-lo dizer
claramente: “Não, não, eu não; eu não fiz nada!”, ou “Por favor, não! Não vou fazer de novo!”, ou,
às vezes: “Albert nunca fez isso!” Depois, recusava-se a tirar a roupa, “porque as chamas só o
pegavam quando estava despido”. Enquanto ainda estava tendo esses sonhos com o diabo, que
eram uma ameaça a sua saúde, foi enviado para o campo. Lá, recuperou-se no prazo de dezoito
meses, e certa vez, quando já tinha quinze anos, confessou: “Je n’osais pas l’avouer, mais
j’éprouvais continuellement des picotements et des surexcitations aus parties; à la fin, cela
m’énervaittant que plusieurs fois j’ai pensé me jeter par la fenêtre du dortoir.”
Há realmente muito pouca dificuldade em inferir: (1) que o menino se havia masturbado
quando era mais novo, que provavelmente o negara e que fora ameaçado com severos castigos
por seu mau hábito (cf. sua admissão: “Je ne le ferais plus”, e sua negativa: “Albert n’a jamais fait
ça”); (2) que, com a chegada da puberdade, a tentação de se masturbar havia ressurgido, com as
cócegas em seus órgãos genitais, mas (3) que irrompera nele uma luta pelo recalcamento, a qual
suprimira sua libido e a transformara em angústia e que esta havia tomado o lugar dos castigos
com que outrora o haviam ameaçado.
E agora, vejamos as inferências de nosso autor (ibid. 69): “As seguintes conclusões
podem ser extraídas desta observação:
“(1) A influência da puberdade num menino de saúde delicada pode levar a um estado
de grande fraqueza e resultar num grau considerável de anemia cerebral.
“(2) Essa anemia cerebral produz alterações do caráter, alucinações demonomaníacas e
estados muito violentos de angústia noturna (e talvez também diurna).
“(3) A demonomania e as auto-recriminações do menino remontam às influências de sua
educação religiosa, que o afetaram quando criança.
“(4) Todos os sintomas desaparecem no decurso de uma visita relativamente prolongada
ao campo, em decorrência do exercício físico e da recuperação das forças com a passagem da
puberdade.
“(5) Talvez se possa atribuir uma influência predisponente sobre a gênese do estado
cerebral do menino à hereditariedade e a uma antiga infecção sifilítica do seu pai.”
E aqui temos a conclusão final: “Nous avons fait entrer cette observation dans le cadre
des délires apyrétiques d’inanition, car c’est à l’ischémie cérébrale que nous ratiachons cet état
particulier.”
(E) OS PROCESSOS PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO - RECALCAMENTO
Ao me arriscar na tentativa de penetrar mais a fundo na psicologia dos processos
oníricos, propus a mim mesmo uma árdua tarefa, da qual meus poderes expositivos mal chegam a
ficar à altura. Os elementos que são de fato simultâneos nesse todo complexo só podem ser
representados sucessivamente em minha descrição deles, ao mesmo tempo que, ao expor cada
argumento, tenho de evitar precipitar as razões em que ele se fundamenta: dominar essas
dificuldades está além de minhas forças. Em tudo isso, estou pagando o tributo por não ter podido,
em minha descrição da psicologia do sonho, seguir o desenvolvimento histórico de minhas
concepções. Embora minha linha de abordagem do tema dos sonhos tenha sido determinada por
meu trabalho anterior sobre a psicologia das neuroses, eu não tencionava servir-me desta como
base de referência na presente obra. Não obstante, sou constantemente levado a fazê-lo, em vez
de prosseguir, como desejaria, na direção contrária, utilizando os sonhos como meio de
abordagem da psicologia das neuroses. Estou ciente de todos os problemas em que meus leitores
ficam assim envolvidos, mas não vejo meio de evitá-los. [Ver em [1].]
Em minha insatisfação com esse estado de coisas, alegra-me fazer uma pequena pausa
em outra consideração que parece valorizar mais meus esforços. Descobri-me frente a um tema
sobre o qual, como ficou demonstrado em meu primeiro capítulo, as opiniões das autoridades se
caracterizavam pelas mais agudas contradições. Minha abordagem do problema dos sonhos
encontrou espaço para a maioria dessas opiniões contraditórias. Só achei necessário negar
categoricamente duas delas - a visão de que o sonho é um processo sem sentido [em [1]] e a visão
de que é um processo somático [em [1]]. Salvo por isso, pude encontrar justificativa para todas
essas opiniões mutuamente contraditórias num ou noutro ponto de minha complexa tese e mostrar
que elas haviam deparado com alguma parcela de verdade.
A tese de que os sonhos dão prosseguimento às ocupações e interesses da vida de
vigília [em [1]] foi inteiramente confirmada pela descoberta dos pensamentos oníricos ocultos.
Estes só dizem respeito ao que nos parece importante e tem grande interesse para nós. Os sonhos
nunca seocupam de pormenores insignificantes. Mas também encontramos motivo para aceitar a
visão oposta de que os sonhos apanham os desejos irrelevantes que restam do dia anterior [em
[1]] e de que só conseguem apoderar-se de um grande interesse diurno depois de ele se ter
subtraído, até certo ponto, da atividade de vigília [em [1]]. Verificamos que isso se aplica ao
conteúdo do sonho, que expressa os pensamentos oníricos numa forma alterada pela distorção.
Por motivos ligados ao mecanismo de associação, como vimos, o processo onírico acha mais fácil
obter controle do material de representações recente ou indiferente, que ainda não foi requisitado
pela atividade de pensamento da vigília; e, por motivos de censura, ele transfere a intensidade
psíquica daquilo que é importante, mas objetável, para aquilo que é indiferente.
O fato de os sonhos serem hipermnésicos [em [1]] e terem acesso ao material
proveniente da infância [em [1]] tornou-se um dos pilares de nossa doutrina. Nossa teoria dos
sonhos encara os desejos originários do infantil como a força propulsora indispensável para a
formação dos sonhos.
Naturalmente, não nos ocorreu lançar nenhuma dúvida sobre a importância
experimentalmente demonstrada dos estímulos sensoriais externos durante o sono [em [1]], mas
mostramos que esse material tem com o desejo onírico a mesma relação que os restos de
pensamento deixados pela atividade diurna. Tampouco vimos qualquer razão para contestar a tese
de que os sonhos interpretam os estímulos sensoriais objetivos tal como o fazem as ilusões [em
[1]], mas descobrimos a razão que motiva essa interpretação, razão que não fora especificada por
outros autores. A interpretação é feita de maneira a que o objeto percebido não interrompa o sono
e seja utilizável para fins de realização de desejo. Quanto aos estados subjetivos de excitação nos
órgãos sensoriais durante o sono, cuja ocorrência parece ter sido provada por Trumbull Ladd
[1892; ver em [1]], é verdade que não os aceitamos como uma fonte específica dos sonhos, mas
pudemos explicá-los como resultantes da revivificação regressiva das lembranças que atuam por
trás do sonho.
As sensações orgânicas internas, que foram comumente tomadas como um ponto
cardeal na explicação do sonho [em [1]] preservaram um lugar, embora mais modesto, em nossa
teoria. Tais sensações - as sensações de cair, por exemplo, ou de flutuar ou estar inibido -
fornecem um material acessível a qualquer momento e do qual o trabalho do sonho se vale,
sempre que necessário, para expressar os pensamentos oníricos.
A visão de que o processo onírico é rápido ou instantâneo [em [1]] é, em nossa opinião,
correta no que se refere à percepção, pela consciência, do conteúdo onírico pré-formado; parece
provável que as partes precedentes do processo onírico sigam um curso lento e oscilante.
Pudemos contribuir para a solução do enigma dos sonhos que contêm uma grande quantidade de
material comprimida num lapso curtíssimo de tempo; sugerimos que, em tais casos, trata-se de
uma apoderação de estruturas prontas já existentes na psique.
O fato de os sonhos serem distorcidos e mutilados pela memória [em [1]] é aceito por
nós, mas, em nossa opinião, não constitui obstáculo, pois não passa da parte final e manifesta de
uma atividade distorcedora que atua desde o próprio início da formação do sonho.
No que tange ao debate acirrado e aparentemente irreconciliável sobre se a vida anímica
dorme à noite [em [1]] ou tem tanto domínio de todas as suas faculdades quanto durante o dia [em
[1]], descobrimos que ambos os lados têm razão, mas nenhum está completamente certo.
Encontramos nos pensamentos oníricos provas de uma função intelectual altamente complexa,
que opera com quase todos os recursos do aparelho anímico. Não obstante, não se pode contestar
que esses pensamentos oníricos surgiram durante o dia, e é imperativo presumir que existe na
vida anímica um estado de sono. Portanto, mesmo a teoria do sono parcial [em [1]] mostrou seu
valor, embora tenhamos descoberto que o que caracteriza o estado de sono não é a desintegração
dos vínculos anímicos, mas o fato de que o sistema psíquico que detém o comando durante o dia
se concentra no desejo de dormir. O fator do retraimento do mundo externo [em [1]] preserva sua
importância em nosso esquema; ele ajuda, embora não como determinante exclusivo, a possibilitar
o caráter regressivo da representação nos sonhos. A renúncia ao direcionamento voluntário do
fluxo de representações [em [1]] é indiscutível, mas isso não priva a vida anímica de todo e
qualquer objetivo, pois vimos como, depois de se terem abandonado as representações-meta
voluntárias, as involuntárias assumem o comando. Não fizemos simplesmente aceitar o caráter
frouxo das ligações associativas dos sonhos [em [1]], mas mostramos que ele se estende muito
além do que se havia suspeitado. Descobrimos, contudo, que essas ligações frouxas são meros
substitutos obrigatórios de outras que são válidas e significativas. É bem verdade que
descrevemos os sonhos como absurdos, mas os exemplos nos ensinam quão sensato pode ser o
sonho, mesmo quando parece absurdo.
Não temos divergências de opinião quanto às funções a serem atribuídas aos sonhos. A
tese de que os sonhos agem como uma válvula de segurança da vida anímica [em [1]] e de que,
nas palavras de Robert [1886, 10 e segs.], toda sorte de coisas prejudiciais se tornam inofensivas
por serem representadas no sonho, não apenas coincide exatamente com nossa teoria da dupla
realização de desejos promovida pelo sonho, como também a maneira como é enunciada é mais
inteligível para nós que para o próprio Robert. A visão de que a alma tem plena liberdade de ação
em seu funcionamento nos sonhos [em [1]] é representada, em nossa teoria, pelo fato de a
atividade pré-consciente permitir que os sonhos sigam seu curso. Expressões como “retorno da
vida anímica, nos sonhos, a um ponto de vista embrionário”, ou as palavras empregadas por
Havelock Ellis [1899, 721] para descrever os sonhos - “um mundo arcaico de vastas emoções e
pensamentos imperfeitos” [em [1]] -, parecem-nos antecipações oportunas de nossas próprias
assertivas de que participam da formação dos sonhos modos primitivos de atividade que são
suprimidos durante o dia. Pudemos aceitar inteiramente, como se fosse nosso, o que escreveu
Sully [1893, 362]: “Nossos sonhos são um meio de conservar essas personalidades sucessivas
[anteriores]. Quando adormecidos, retornamos às antigas maneiras de ver e sentir as coisas, aos
impulsos e atividades que nos dominaram num passado distante” [ver em [1]]. [1] Para nós, não
menos que para Delage [1891], aquilo que foi “suprimido” [em [1]] tornou-se “a força propulsora dos
sonhos”.
Reconhecemos plenamente a importância do papel atribuído por Scherner [1861] à
“fantasia onírica”, bem como as interpretações desse autor [em [1]], mas fomos obrigados a situálas,
por assim dizer, numa posição diferente dentro do problema. Não é que os sonhos criem a
fantasia, mas, antes, a atividade inconsciente da fantasia tem grande participação na formação dos
pensamentos oníricos. Devemos a Scherner a indicação da fonte dos pensamentos oníricos, mas
quase tudo o que ele atribui ao trabalho do sonho é realmente atribuível à atividade do
inconsciente durante o dia, que é tanto a instigadora dos sonhos quanto dos sintomas neuróticos.
Fomos obrigados a distinguir o “trabalho do sonho” como algo inteiramente diverso e com uma
conotação muito mais estreita.
Por fim, de modo algum abandonamos a relação existente entre os sonhos e os
distúrbios psíquicos [em [1]], mas estabelecemo-la mais firmemente em novas bases.
Desse modo, pudemos encontrar em nossa estrutura lugar para as mais variadas e
contraditórias descobertas de autores anteriores, graças ao ineditismo de nossa teoria dos sonhos,
que as combina, por assim dizer, numa unidade superior. Demos outro emprego a algumas dessas
descobertas, mas poucas foram as que rejeitamos por completo. Não obstante, nosso edifício
ainda não está terminado. À parte as muitas questões desconcertantes em que nos envolvemos ao
abrir caminho pelas áreas obscuras da psicologia, parecemos atormentados por uma nova
contradição. Por um lado, supusemos que os pensamentos oníricos surgem através de uma
atividade mental inteiramente normal, mas, por outro, descobrimos diversos processos de
pensamento bastante anormais entre os pensamentos oníricos, que se estendem ao conteúdo do
sonho e que depois repetimos no curso de nossa interpretação do sonho. Tudo o que descrevemos
como “trabalho do sonho” parece afastar-se imensamente daquilo que reconhecemos como
processos racionais de pensamento, a tal ponto que as mais severas críticas emitidas pelos
autores anteriores sobre o nível ínfimo de funcionamento psíquico nos sonhos devem parecer
inteiramente justificadas.
Talvez só encontremos esclarecimento e assistência nesta dificuldade conduzindo
nossas investigações ainda mais à frente. E começarei a escolher, para um exame mais
aprofundado, uma das conjunturas que podem levar à formação do sonho.
O sonho, como descobrimos, toma o lugar de diversos pensamentos que derivam de
nossa vida cotidiana e formam uma seqüência completamente lógica. Não podemos duvidar,
portanto, de que esses pensamentos se originem de nossa vida mental normal. Todos os atributos
que tanto valorizamos em nossas cadeias de pensamento e que as caracterizam como realizações
complexas de ordem superior são reencontradas nos pensamentos oníricos. Não há, porém,
necessidade de presumir que essa atividade de pensamento seja executada durante o sono,
possibilidade esta que confundiria gravemente o que até aqui constituiu nosso quadro aceito do
estado psíquico de sono. Ao contrário, é bem possível que esses pensamentos tenham-se
originado no dia anterior, passado despercebidos por nossa consciência desde o início, e talvez já
se tenham completado ao iniciar-se o sono. O máximo que podemos concluir daí é que isso prova
que as mais complexas realizações do pensamento são possíveis sem a assistência da
consciência - um fato de que não poderíamos deixar de nos inteirar, de qualquer modo, através de
toda psicanálise de um paciente que sofra de histeria ou de idéias obsessivas. Esses pensamentos
oníricos certamente não são, em si, inadmissíveis à consciência; é possível quetenha havido
diversas razões para que não se tornassem conscientes para nós durante o dia. O tornar-se
consciente está ligado à aplicação de uma certa função psíquica [em [1]], a da atenção, função
esta que, segundo parece, só se acha disponível numa quantidade específica, a qual pode ter sido
desviada da cadeia de pensamentos em questão para alguma outra finalidade. Há também outra
maneira pela qual essas cadeias de pensamento podem ser apartadas da consciência. O curso de
nossas reflexões conscientes nos mostra que seguimos um determinado caminho em nosso
emprego da atenção. Quando, ao seguirmos esse caminho, esbarramos numa representação que
não resiste à crítica, nós o interrompemos: abandonamos a catexia da atenção. Ora, parece que a
cadeia de pensamentos assim iniciada e abandonada pode continuar a se desenrolar sem que a
atenção torne a voltar-se para ela, a menos que, num ou noutro ponto, ela atinja um grau de
intensidade particularmente elevado, que exija atenção. Assim, quando uma cadeia de
pensamento é inicialmente rejeitada (conscientemente, talvez) pelo julgamento de que é errada ou
inútil para o fim intelectual imediato em vista, o resultado pode ser que essa cadeia de
pensamentos prossiga, inobservada pela consciência, até o início do sono.
Resumindo: chamamos uma cadeia de pensamentos como essa de “pré-consciente”;
encaramo-la como completamente racional e acreditamos que possa ter sido simplesmente
negligenciada ou interrompida e suprimida. Acrescentemos uma exposição clara de como
visualizamos a ocorrência de uma cadeia de representações. Cremos que, partindo de uma
representação-meta, uma determinada quantidade de excitação, que denominamos “energia
catexial”, desloca-se pelas vias associativas selecionadas por aquela representação-meta. A
cadeia de pensamentos “desprezada” é aquela que não recebeu essa catexia; a cadeia de
pensamentos “suprimida” ou “repudiada” é aquela da qual essa catexia foi retirada. Em ambos os
casos, elas ficam entregues a suas próprias excitações. Em certas condições, a cadeia de
pensamentos catexizada com uma meta [zielbesetzt] é capaz de atrair para si a atenção da
consciência e, nesse caso, por intermédio da consciência, recebe uma “hipercatexia”. Seremos
obrigados, dentro em pouco, a explicar nossa visão da natureza e função da consciência. [Ver em
[1]]
Uma cadeia de pensamentos assim deslanchada no pré-consciente pode cessar
espontaneamente ou persistir. Visualizamos o primeiro desses resultados como implicando que a
energia ligada à cadeia de pensamentos se difunde por todas as vias associativas que partem
dela; essa energia coloca toda a rede de pensamentos num estado de excitação que dura algum
tempo e depois decai, à medida que a excitação em busca de descarga se vai transformando
numa catexia aquiescente. Quando sobrevém esse primeiro resultado, o processo não tem maior
importância no que concerne à formação do sonho. Dentro de nosso pré-consciente, porém,
espreitam outras representações-meta derivadas de fontes situadas em nosso inconsciente e de
desejos que estão sempre em estado de alerta. Eles podem assumir o controle da excitação ligada
ao grupo de pensamentos deixado à sua própria sorte, estabelecer uma ligação entre ele e um
desejo inconsciente e “transferir-lhe” a energia que pertence a este último. Daí por diante, a cadeia
de pensamentos desprezada ou suprimida fica em condições de persistir, embora o reforço que
recebeu não lhe confira nenhum direito de acesso à consciência. Podemos exprimir isso dizendo
que a cadeia de pensamentos até então pré-consciente foi agora “arrastada para o inconsciente”.
Outras conjunturas podem conduzir à formação do sonho. É possível que a cadeia de
pensamentos pré-consciente tenha estado ligada ao desejo inconsciente desde o início e, por essa
razão, tenha sido repudiada pela catexia-meta dominante; ou então um desejo inconsciente pode
ser ativado por outras razões (por causas somáticas, talvez) e procurar transferir-se para os restos
psíquicos não catexizados pelo Pcs. sem que estes façam qualquer movimento para ir a seu
encontro. Mas todos os três casos têm o mesmo resultado final: passa a existir no pré-consciente
uma cadeia de pensamentos desprovida de catexia pré-consciente, mas que recebeu uma catexia
do desejo inconsciente.
A partir daí, a cadeia de pensamentos passa por uma série de transformações que já
não podemos reconhecer como processos psíquicos normais e que levam a um resultado que nos
desnorteia - uma formação psicopatológica. Vamos enumerar e classificar esses processos:
(1) As intensidades das representações individuais tornam-se passíveis de descarga en
bloc e passam de uma representação para outra, de modo que se formam certas representações
dotadas de grande intensidade. [Cf. pág. 540.] E, uma vez que esse processo se repete várias
vezes, a intensidade de toda uma cadeia de pensamentos pode acabar por concentrar-se num
único elemento de representação. Temos aí o fato da “compressão” ou “condensação”, que se
tornou conhecida no trabalho do sonho. É ela a principalresponsável pela impressão
desconcertante que os sonhos causam em nós, pois não conhecemos nada que lhes seja análogo
na vida anímica normal e acessível à consciência. Também na vida anímica normal encontramos
representações que, como pontos nodais ou resultados finais de cadeias inteiras de pensamento,
possuem um alto grau de significação psíquica; mas essa significação não se expressa em
nenhum aspecto sensorialmente óbvio para a percepção interna; sua representação perceptiva não
é mais intensa, em nenhum aspecto, por causa de sua significação psíquica. No processo de
condensação, por outro lado, toda interligação psíquica se transforma numa intensificação de seu
conteúdo de representações. É o mesmo que acontece quando, ao preparar um livro para
publicação, faço com que alguma palavra de importância especial para a compreensão do texto
seja impressa em tipo espacejado ou em negrito, ou quando, ao falar, pronuncio essa mesma
palavra em voz mais alta, lentamente e com ênfase especial. A primeira dessas duas analogias
nos faz lembrar de imediato um exemplo fornecido pelo próprio trabalho do sonho: a palavra
“trimetilamina” no sonho da injeção de Irma [em [1]]. Os historiadores da arte chamaram-nos a
atenção para o fato de que as esculturas históricas mais antigas obedecem a um princípio
semelhante: expressam a classe das pessoas representadas através do tamanho. O rei é
representado em tamanho duas ou três vezes maior que seus súditos ou seus inimigos derrotados.
As esculturas da época romana utilizavam meios mais sutis para produzir o mesmo resultado. A
figura do Imperador era colocada no centro, de pé, e modelada com cuidado especial, enquanto
seus inimigos jaziam prostrados a seus pés; mas ela já não era um gigante entre anões. As
reverências com que os subalternos ainda hoje saúdam seus superiores são um eco desse mesmo
antigo princípio de representação.
A direção em que avançam as condensações no sonho é determinada, de um lado,
pelas relações pré-conscientes racionais entre os pensamentos oníricos e, de outro, pela atração
exercida pelas lembranças visuais do inconsciente. O efeito do trabalho de condensação é a
obtenção das intensidades necessárias para forçar a irrupção nos sistemas perceptivos.
(2) Graças, também, à liberdade com que as intensidades são transferíveis, formam-se
“representações intermediárias” semelhantes a compromissos, sob a influência da condensação.
(Cf. os numerosos exemplos que forneci [em [1], por exemplo].) Isso é, novamente, algo inaudito
nas cadeias normais de representações, onde a ênfase principal recai sobre a seleção e a
retenção do elemento de representação “correto”. Por outro lado, com notável freqüência ocorrem
formações mistas e compromissos quandotentamos expressar os pensamentos pré-conscientes na
fala. Eles são então encarados como exemplos de “lapsos de linguagem”.
(3) As representações que transferem umas às outras suas intensidades mantêm entre si
as mais frouxas relações. São vinculadas por um tipo de associação que é desdenhado por nosso
pensamento normal e relegado ao uso nos chistes. Em particular, encontramos associações
baseadas em homônimos e parônimos, que são tratadas como tendo o mesmo valor que as
demais.
(4) Os pensamentos mutuamente contraditórios não fazem qualquer tentativa de anular
uns aos outros, mas subsistem lado a lado. Combinam-se freqüentemente para formar
condensações, como se não houvesse nenhuma contradição entre eles, ou chegam a formações
de compromisso que nossos pensamentos conscientes nunca tolerariam, mas que são amiúde
admitidos em nossas ações.
Estes são alguns dos mais notáveis dentre os processos anormais a que os
pensamentos oníricos, antes formados em bases racionais, são submetidos no decurso do trabalho
do sonho. Veremos que a principal característica desses processos é que toda a ênfase recai em
tornar móvel e passível de descarga a energia catexizante; o conteúdo e o significado intrínseco
dos elementos psíquicos a que se ligam as catexias são tratados como coisas de importância
secundária. Poder-se-ia supor que a condensação e a formação de compromisso só se dão para
facilitar a regressão, isto é, quando se trata de transformar pensamentos em imagens. Todavia, a
análise - e, mais ainda, a síntese - dos sonhos que não envolvem essa regressão a imagens,
como, por exemplo, o sonho do “Autodidasker - conversa com o Professor N.” [em [1]], exibe os
mesmos processos de deslocamento e condensação que os outros.
Portanto, somos levados a concluir que dois tipos fundamentalmente diferentes de
processos psíquicos participam da formação dos sonhos. Um deles produz pensamentos oníricos
perfeitamente racionais, com a mesma validade que o pensamento normal; já o outro trata esses
pensamentos de um modo que é excepcionalmente desconcertante e irracional. Já no Capítulo VI
distinguimos esse segundo processo psíquico como sendo o trabalho do sonho propriamente dito.
Que esclarecimentos podemos agora oferecer sobre sua origem?
Não nos seria possível responder a essa pergunta se não houvéssemos feito algum
progresso no estudo da psicologia das neuroses, especialmente da histeria. Dela depreendemos
que os mesmos processos psíquicos irracionais, e outros que não especificamos, regem a
produção dos sintomas histéricos. Na histeria, além disso, deparamos com uma série de
pensamentos perfeitamente racionais, com o mesmo valor de nossos pensamentos conscientes; a
princípio, no entanto, nada sabemos sobre sua existência nessa forma e só podemos reconstruílos
posteriormente. Quando eles se impõem à nossa atenção em determinado ponto, descobrimos,
pela análise do sintoma produzido, que esses pensamentos normais foram submetidos a um
tratamento anormal: foram transformados no sintoma por meio da condensação e da formação de
compromisso, através de associações superficiais e do descaso pelas contradições, e também,
possivelmente, pela via da regressão. Em vista da completa identidade entre os aspectos
característicos do trabalho do sonho e os da atividade psíquica que desemboca nos sintomas
psiconeuróticos, sentimo-nos autorizados a transpor para os sonhos as conclusões a que fomos
levados pela histeria.
Por conseguinte, tomamos da teoria da histeria a seguinte tese: uma cadeia de
pensamento normal só é submetida a esse tratamento psíquico anormal que vimos descrevendo
quando um desejo inconsciente, derivado da infância e em estado de recalcamento, se transfere
para ela. Segundo essa tese, construímos nossa teoria dos sonhos sobre o pressuposto de que o
desejo onírico que fornece a força impulsora provém invariavelmente do inconsciente; esse
pressuposto, como eu mesmo estou pronto a admitir, não pode ser genericamente comprovado,
embora tampouco se possa refutá-lo. Entretanto, para explicar o que se pretende dizer com
“recalcamento”, termo com que já jogamos tantas vezes, é necessário avançar mais uma etapa na
construção de nosso arcabouço psicológico.
Já exploramos a ficção de um aparelho psíquico primitivo [em [1]] cujas atividades são
reguladas pelo esforço de evitar um acúmulo de excitação e de se manter, tanto quanto possível,
sem excitação. Por isso ele foi construído segundo o esquema de um aparelho reflexo. A
motilidade, que é em primeiro lugar um meio de promover alterações internas no corpo, está à sua
disposição como via de descarga. Discutimos depois as conseqüências psíquicas de uma “vivência
de satisfação”, e a isso já pudemos acrescentar uma segunda hipótese, no sentido de que o
acúmulo de excitação (acarretado de diversas maneiras de que não precisamos ocupar-nos) é
vivido como desprazer, e coloca o aparelho em ação com vistas a repetir a vivência de satisfação,
que envolveu um decréscimo da excitação e foi sentida como prazer. A esse tipo de corrente no
interior do aparelho, partindo do desprazer e apontando para o prazer, demos o nome de “desejo”;
afirmamos que só odesejo é capaz de pôr o aparelho em movimento e que o curso da excitação
dentro dele é automaticamente regulado pelas sensações de prazer e desprazer. O primeiro
desejar parece ter consistido numa catexização alucinatória da lembrança da satisfação. Essas
alucinações, contudo, não podendo ser mantidas até o esgotamento, mostraram-se insuficientes
para promover a cessação da necessidade, ou, por conseguinte, o prazer ligado à satisfação.
Tornou-se necessária uma segunda atividade - ou, em nossa terminologia, a atividade de
um segundo sistema - que não permitisse à catexia mnêmica avançar até a percepção e desde aí
ligar as forças psíquicas, mas que desviasse a excitação surgida da necessidade por uma via
indireta que, em última análise, através do movimento voluntário, alterasse o mundo externo de tal
maneira que se tornasse possível chegar a uma percepção real do objeto de satisfação. Já
esboçamos nosso quadro esquemático do aparelho psíquico até esse ponto; os dois sistemas são
o germe daquilo que, no aparelho plenamente desenvolvido, descrevemos como o Ics. e o Pcs.
Para que se possa empregar a motilidade para efetuar no mundo externo alterações que
sejam efetivas, é necessário acumular um grande número de experiências nos sistemas mnêmicos
e uma multiplicidade de registros permanentes das associações evocadas nesse material mnêmico
por diferentes representações-meta. [Ver em [1].] Podemos agora levar nossas hipóteses um
passo à frente. A atividade desse segundo sistema, que explora constantemente o terreno e
alterna o envio de catexias com a retirada delas, precisa, por um lado, dispor livremente da
totalidade do material mnêmico, mas, por outro, seria um gasto desnecessário de energia se ela
enviasse grandes quantidades de catexia pelas diversas vias de pensamento e assim as fizesse
escoar-se sem nenhuma finalidade útil e diminuísse a quantidade disponível para alterar o mundo
externo. Dessa maneira, postulo que, em prol da eficiência, o segundo sistema logra conservar a
maior parte de suas catexias de energia em estado de quiescência e empregar apenas uma
pequena parte do deslocamento. A mecânica desses processos é-me inteiramente desconhecida;
quem desejasse levar estas idéias a sério teria de procurar analogias físicas para elas e descobrir
um meio de visualizar os movimentos que acompanham a excitação neuronal. Insisto tão-somente
na idéia de que a atividade do primeiro sistema-y está orientada para garantir a livre descarga as
quantidades de excitação, enquanto o segundo sistema, por meio das catexias que dele emanam,
consegue inibir essa descarga e transformar a catexia numa catexia quiescente, sem dúvida com
uma elevação simultânea de seu nível. Presumo, portanto, que sob o domínio do segundo sistema
a descarga de excitação seja regida por condições mecânicas muito diferentes das que vigoram
sob o domínio do primeiro sistema. Depois que o segundo sistema conclui sua atividade
exploratória de pensamento, ele suspende a inibição e o represamento das excitações e lhes
permite serem descarregadas no movimento.
Algumas reflexões interessantes decorrem disso, se considerarmos as relações
existentes entre a inibição da descarga exercida pelo segundo sistema e a regulação efetuada pelo
princípio do desprazer. Examinemos a antítese da vivência primária de satisfação, ou seja, a
vivência de pavor frente a algo externo. Suponhamos que incida no aparelho primitivo um estímulo
perceptivo que seja fonte de uma excitação dolorosa. Sobrevêm então manifestações motoras
descoordenadas, até que uma delas faz com que o aparelho se retraia da percepção e, ao mesmo
tempo, da dor. Quando a percepção reaparece, o movimento é imediatamente repetido (um
movimento de fuga, talvez), até que a percepção torne a desaparecer. Nesse caso, não resta
nenhuma inclinação a recatexizar a percepção da fonte de dor, alucinatoriamente ou de qualquer
outra maneira. Pelo contrário, haverá no aparelho primitivo uma inclinação a abandonar
imediatamente a imagem mnêmica aflitiva, caso algo venha a revivê-la, pela razão mesma de que,
se sua excitação transbordasse até a percepção, provocaria desprazer (ou, mais precisamente,
começaria a provocá-lo). A evitação da lembrança que não passa de uma repetição da fuga
anterior frente à percepção, é também facilitada pelo fato de que a lembrança, diversamente da
percepção, não possui qualidade suficiente para excitar a consciência e assim atrair para si uma
nova catexia. Essa evitação de lembrança de qualquer coisa que um dia foi aflitiva, feita sem
esforço e com regularidade pelo processo psíquico, fornece-nos o protótipo e o primeiro exemplo
do recalcamento psíquico. É comumente sabido que boa parcela dessa evitação do aflitivo - dessa
política do avestruz - ainda é visível na vida anímica normal dos adultos.
Em conseqüência do princípio do desprazer, portanto, o primeiro sistema-y é totalmente
incapaz de introduzir qualquer coisa desagradável no contexto de seus pensamentos. Ele não
pode fazer nada senão desejar. Se as coisas permanecessem nesse ponto, a atividade de
pensamento do segundo sistema seria obstruída, já que ela requer livre acesso a todas as
lembranças depositadas pela experiência. Apresentam-se então duas possibilidades: ou a
atividade do segundo sistema consegue libertar-se inteiramente do princípio do desprazer e segue
seu caminho sem se importar com o desprazer das lembranças, ou encontra um método de
catexizar as lembranças desprazerosas que lhe permita evitar a liberação do desprazer. Podemos
descartar a primeira destas possibilidades, pois o princípio do desprazer regula claramente o curso
da excitação tanto no segundo sistema quanto no primeiro. Conseqüentemente, resta-nos a
possibilidade de que o segundo sistema catexize as lembranças de tal maneira que haja uma
inibição da descarga a partir delas, incluindo, portanto, uma inibição da descarga (comparável à de
uma inervação motora) em direção ao desenvolvimento do desprazer. Assim, fomos levados,
partindo de duas direções, à hipótese de que a catexia pelo segundo sistema implica uma inibição
simultânea da descarga de excitação: fomos levados a ela por considerar o princípio do desprazer
e também [como assinalado no penúltimo parágrafo] pelo princípio do dispêndio mínimo de
inervação. Retenhamos isto firmemente, pois é chave de toda a teoria do recalque: o segundo
sistema só pode catexizar uma representação se estiver em condições de inibir o desenvolvimento
do desprazer que provenha dela. Qualquer coisa que pudesse fugir a essa inibição seria
inacessível tanto ao segundo sistema quanto ao primeiro, pois seria prontamente abandonada em
obediência ao princípio do desprazer. A inibição do desprazer, contudo, não precisa ser completa:
o início dele tem de ser permitido, já que é isso que informa ao segundo sistema a natureza da
lembrança em questão e sua possível inadequação ao fim visado pelo processo de pensamento.
Proponho descrever o processo psíquico admitido exclusivamente pelo primeiro sistema
como “processo primário”, e o processo que resulta da inibição imposta pelo segundo sistema,
como “processo secundário”.
Há mais uma razão pela qual, como posso demonstrar, o segundo sistema é obrigado a
corrigir o processo primário. O processo primário esforça-se por promover uma descarga da
excitação, a fim de que, com a ajuda da quantidade de excitação assim acumulada, possa
estabelecer uma “identidade perceptiva” [com a vivência de satisfação (ver em [1]-[2]]. O processo
secundário, contudo, abandonou essa intenção e adotou outra em seu lugar - o estabelecimento
de uma “identidade de pensamento” [com aquela vivência]. O pensar, como um todo, não passa de
uma via indireta que vai da lembrança de uma satisfação (lembrança esta adotada como uma
representação-meta) até uma catexia idêntica da mesma lembrança, que se espera atingir mais
uma vez por intermédio das experiências motoras. O pensar tem que se interessar pelas vias de
ligação entre as representações sem se deixar extraviar pelas intensidades dessas
representações. Mas é óbvio que as condensações de representações e as formações
intermediárias e de compromisso devem obstruir a consecução da identidade buscada. Uma vez
que substituem uma representação por outra, elas provocam um desvio do caminho que partiria da
primeira representação. Tais processos, portanto, são escrupulosamente evitados no pensamento
secundário. É fácil perceber também que o princípio do desprazer, que em outros aspectos fornece
ao processo de pensamento seus mais importantes indicadores, suscita-lhe dificuldades no
estabelecimento de uma “identidade de pensamento”. Por conseguinte, o pensar tem de visar a se
libertar cada vez mais da regulação exclusiva pelo princípio do desprazer e a restringir o
desenvolvimento do afeto na atividade do pensamento ao mínimo exigido para que ele atue como
sinal. O alcance desse maior apuro no funcionamento é visado por meio de uma nova hipercatexia
promovida pela consciência. [Ver adiante, em [1]]Como bem sabemos, contudo, esse objetivo
raramente é atingido por completo, mesmo na vida anímica normal, e nosso pensar está sempre
exposto a um falseamento por interferência do princípio do desprazer.
Não é esse, porém, o hiato na eficácia funcional de nosso aparelho anímico que
possibilita aos pensamentos, que se apresentam como produtos da atividade de pensamento
secundária, ficarem sujeitos ao processo psíquico primário - pois essa é a fórmula com que agora
podemos descrever a atividade que conduz aos sonhos e aos sintomas histéricos. A ineficiência
provém da convergência de dois fatores derivados de nossa história evolutiva. Um desses fatores é
inteiramente imputável ao aparelho anímico e tem influência decisiva na relação entre os dois
sistemas, enquanto o outro se faz sentir em grau variável e introduz na vida anímica forças
pulsionais de origem orgânica. Ambos se originam na infância e constituem um precipitado das
modificações sofridas por nosso organismo anímico e somático desde a infância.
Quando descrevi como “primário” um dos processos psíquicos que ocorrem no aparelho
anímico, o que tinha em mente não eram apenas considerações sobre a importância relativa e a
eficiência; pretendi também escolher um nome que desse uma indicação de sua prioridade
cronológica. É verdade que, até onde sabemos, não existe nenhum aparelho psíquico que possua
apenas um processo primário e, nessa medida, tal aparelho é uma ficção teórica. Mas pelo menos
isto é um fato: os processos primários acham-se presentes no aparelho anímico desde o princípio,
ao passo que somente no decorrer da vida é que os processos secundários se desdobram e vêm
inibir e sobrepor-se aos primários; é possível até que sua completa supremacia só seja atingida no
apogeu da vida. Em conseqüência do aparecimento tardio dos processos secundários, o âmago de
nosso ser, que consiste em moções de desejo inconscientes, permanece inacessível à
compreensão e à inibição pelo pré-consciente; o papel desempenhado por este restringe-se para
sempre a direcionar pelas vias mais convenientes as moções de desejo vindas do inconsciente.
Esses desejos inconscientes exercem uma força compulsiva sobre todas as tendências anímicas
posteriores, uma força com que essas tendências são obrigadas a aquiescer, ou que talvez
possam esforçar-se por desviar e dirigir para objetivos mais elevados. Outro resultado do
aparecimento tardio do processo secundário é que uma ampla esfera do material mnêmico fica
inacessível à catexia pré-consciente.
Entre essas moções de desejo provenientes da infância, que não podem ser destruídas
nem inibidas, há algumas cuja realização seria uma contradiçãodas representações-meta do
pensamento secundário. A realização desses desejos não mais geraria um afeto de prazer, mas
sim de desprazer; e é precisamente essa transformação do afeto que constitui a essência daquilo a
que chamamos “recalcamento”. O problema do recalcamento está na questão de como e devido a
que forças impulsoras ocorre essa transformação; mas esse é um problema em que nos basta
tocar de passagem aqui. É suficiente estabelecermos com clareza que tal transformação realmente
ocorre no curso do desenvolvimento - basta lembrarmos como o nojo surge na infância, depois de
ter estado ausente a princípio - e que está relacionada com a atividade do sistema secundário. As
lembranças com base nas quais o desejo inconsciente provoca a liberação do afeto nunca foram
acessíveis ao Pcs. e, por conseguinte, a liberação do afeto vinculado a essas lembranças também
não pode ser inibida. E justamente por causa dessa geração de afeto que tais representações são
agora inacessíveis até por intermédio dos pensamentos pré-conscientes para os quais transferiram
sua força de desejo. Pelo contrário, o princípio do desprazer assume o controle e faz com que o
Pcs. se afaste dos pensamentos de transferência. Eles ficam entregues a si próprios - “recalcados”
- e é assim que a presença de um reservatório de lembranças infantis subtraídas desde o princípio
ao Pcs. torna-se o sine qua non do recalcamento.
Nos casos mais favoráveis, a geração do desprazer cessa com a retirada da catexia dos
pensamentos de transferência situados no Pcs., e esse desenlace significa que a intervenção do
princípio do desprazer serviu a um fim útil. Mas a questão é outra quando o desejo inconsciente
recalcado recebe um reforço orgânico, que ele passa para seus pensamentos de transferência;
dessa maneira, pode colocá-los em condições de fazer uma tentativa de irromper com sua
excitação, mesmo que tenham perdido sua catexia do Pcs. Segue-se então uma luta defensiva -
porque o Pcs., por sua vez, reforça sua oposição aos pensamentos recalcados (isto é, produz uma
“contracatexia”) - e, a partir daí, os pensamentos de transferência, que são veículos do desejo
inconsciente, irrompem em algum tipo de compromisso obtido pela formação de um sintoma.
Entretanto, a partir do momento em que os pensamentos recalcados são intensamente catexizados
pela moção de desejo inconscientee, por outro lado, abandonados pela catexia pré-consciente,
eles ficam sujeitos ao processo psíquico primário e seu único objetivo é a descarga motora, ou, se
o caminho estiver aberto, a revivificação alucinatória da identidade perceptiva desejada. Já
constatamos empiricamente que os processos irracionais que descrevemos só se dão com os
pensamentos que se encontram sob recalcamento. Agora podemos ver um pouco mais longe em
toda essa situação. Os processos irracionais que ocorrem no aparelho psíquico são os processos
primários. Eles aparecem sempre que as representações são abandonadas pela catexia préconsciente,
deixadas por sua própria conta, e podem ser carregadas com a energia não inibida do
inconsciente, que luta por encontrar um escoadouro. Algumas outras observações apóiam a
concepção de que esses processos, que são descritos como irracionais, não são, na realidade,
falseamentos de processos normais - erros intelectuais - mas sim modos de atividade do aparelho
psíquico que foram libertados de uma inibição. Assim, vemos que a transição da excitação préconsciente
para a motilidade é regida pelos mesmos processos, e que a vinculação das
representações pré-conscientes com as palavras pode facilmente exibir os mesmos deslocamentos
e confusões, que são então atribuídos à desatenção. Finalmente, a comprovação do aumento de
atividade que se torna necessário quando esses modos primários de funcionamento são inibidos
pode ser encontrada no fato de produzirmos um efeito cômico, isto é, um excesso de energia que
tem de ser descarregado no riso, se permitirmos que esses modos de pensamento irrompam na
consciência.
A teoria das psiconeuroses afirma como fato indiscutível e invariável que somente as
moções de desejo sexuais procedentes da infância, que sofreram recalcamento (isto é, uma
transformação do afeto) durante o período de desenvolvimento infantil, são passíveis de ser
revividas em períodos posteriores do desenvolvimento (seja como resultado da constituição sexual
do sujeito, que deriva de uma bissexualidade inicial, seja como resultado de influências
desfavoráveis que atuem no curso de sua vida sexual) e, desse modo, estão aptas a suprir a força
impulsora para a formação de toda sorte de sintomas psiconeuróticos. Apenas mediante a
referência a essas forçassexuais é que podemos cobrir as brechas que ainda se evidenciam na
teoria do recalcamento. Deixarei em aberto a questão de esses fatores sexuais e infantis serem
igualmente exigidos na teoria dos sonhos; deixarei tal teoria incompleta neste ponto, uma vez que
já foi um passo além do que se pode demonstrar ao presumir que os desejos oníricos provêm
invariavelmente do inconsciente. Tampouco proponho investigar mais a fundo a natureza da
distinção entre a interação das forças psíquicas na formação dos sonhos e na dos sintomas
histéricos; ainda não dispomos de um conhecimento suficientemente preciso de um dos dois
termos da comparação.
Mas há outro ponto a que dou importância, e devo confessar que foi exclusivamente por
causa dele que me embrenhei aqui em todas essas discussões dos dois sistemas psíquicos e de
seus modos de atividade e de recalcamento. Não se trata agora de saber se formei uma opinião
aproximadamente correta dos fatores psicológicos em que estamos interessados, ou se, como é
bem possível em assuntos tão difíceis, o quadro que forneço deles é distorcido e incompleto. Por
mais que se possam fazer alterações em nossainterpretação da censura psíquica e das
elaborações racionais e anormais do conteúdo do sonho, continua a ser verdade que tais
processos atuam na formação dos sonhos e mostram a mais estreita analogia, em seus elementos
essenciais, com os processos observáveis na formação dos sintomas histéricos. O sonho, porém,
não é um fenômeno patológico; não pressupõe nenhuma perturbação do equilíbrio psíquico e não
deixa como seqüela nenhuma perda de eficiência. Talvez se faça a sugestão de que nenhuma
conclusão sobre os sonhos das pessoas normais pode ser extraída de meus sonhos ou dos de
meus pacientes, mas essa, penso eu, é uma objeção que se pode desprezar em segurança.
Portanto, se podemos inferir dos fenômenos suas forças impulsoras, temos de reconhecer que o
mecanismo psíquico empregado pelas neuroses não é criado pelo impacto de uma perturbação
patológica sobre a vida anímica, mas já está presente na estrutura normal do aparelho anímico. Os
dois sistemas psíquicos, a censura na passagem entre um e outro, a inibição e a superposição de
uma atividade pela outra, as relações de ambas com a consciência - ou quaisquer que sejam as
interpretações mais corretas dos fatos observados a tomar seu lugar - tudo isso faz parte da
estrutura normal de nosso instrumento anímico, e os sonhos nos mostram um dos caminhos que
levam à compreensão de sua estrutura. Se nos restringirmos ao mínimo de novos conhecimentos
já estabelecido com certeza, ainda assim poderemos dizer sobre os sonhos: eles provaram que o
suprimido continua a existir tanto nas pessoas normais quanto nas anormais e permanece capaz
de funcionamento psíquico. Os próprios sonhos figuram entre as manifestações desse material
suprimido; segundo a teoria, isso acontece em todos os casos, e pode ser empiricamente
observado pelo menos num grande número deles, precisamente nos casos que exibem com mais
clareza as notáveis peculiaridades da vida onírica. Na vida de vigília, o material suprimido da
psique é impedido de se expressar e é isolado da percepção interna, graças ao fato de se
eliminarem as contradições nele presentes - um dos lados é abandonado em favor do outro -;
durante a noite, porém, sob a influência de um impulso à formação de compromissos, esse
material suprimido encontra meios e modos de irromper na consciência.
Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo.
A interpretação dos sonhos é a via real para o conhecimento das atividades da vida
anímica.
Pela análise dos sonhos podemos dar um passo à frente em nosso entendimento da
composição desse que é o mais maravilhoso e mais misterioso de todos os instrumentos. Apenas
um pequeno passo, sem dúvida, mas já é um começo. E esse começo nos permitirá levar sua
análise mais adiante, com base em outras estruturas que devem ser chamadas de patológicas. É
que as enfermidades - ao menos as que são corretamente denominadas de “funcionais” - não
pressupõem a desintegração do aparelho ou a produção de novas divisões em seu interior. Elas
devem ser explicadas em termos dinâmicos, pelo fortalecimento e enfraquecimento dos diversos
componentes da interação de forças, da qual tantos efeitos ficam ocultos enquanto as funções
permanecem normais. Espero poder mostrar em outro texto como a composição do aparelho a
partir de duas instâncias faz com que também a função normal possa se dar com maior
refinamento do que seria possível com apenas uma delas.
(F) O INCONSCIENTE E A CONSCIÊNCIA - REALIDADE
Numa consideração mais detida, percebe-se que aquilo que o debate psicológico das
seções precedentes nos leva a presumir não é a existência de dois sistemas próximos da
extremidade motora do aparelho, mas a existência de dois tipos de processos de excitação ou
modos de sua descarga. Para nós, dá no mesmo, pois temos de estar sempre preparados para
abandonar nosso arcabouço conceptual se nos sentirmos em condição de substituí-lo por algo que
se aproxime mais de perto da realidade desconhecida. Portanto, tentemos corrigir algumas
concepções que poderiam levar a mal-entendidos enquanto víamos os dois sistemas, no sentido
mais literal e grosseiro, como duas localizações no aparelho anímico - concepções que deixaram
vestígios nas expressões “recalcar” e “irromper” [ou “penetrar”, “durchdringen”]. Desse modo,
podemos falar num pensamento inconsciente que procura transmitir-se para o pré-consciente, de
maneira a poder então penetrar na consciência. O que temos em mente aqui não é a formação de
um segundo pensamento situado num novo lugar, como uma transcrição que continuasse a existir
junto com o original; e a noção de irromper na consciência deve manter-se cuidadosamente livre
de qualquer idéia de uma mudança de localização. Do mesmo modo, podemos falar num
pensamento pré-consciente que é recalcado ou desalojado e então acomodado pelo inconsciente.
Essas imagens, derivadas de um conjunto de representações relacionadas com a disputa por um
pedaço de terra, podem tentar-nos a supor como literalmente verdadeiro que um agrupamento
psíquico situado numa dada localização é encerrado e substituído por um novo agrupamento em
outro lugar. Substituamos essas metáforas por algo que parece corresponder melhor ao verdadeiro
estado de coisas, e digamos, em vez disso, que uma catexia de energia é ligada a um determinado
agrupamento psíquico ou retirada dele, de modo que a estrutura em questão cai sob a influência
de uma dada instância ou é subtraída dela. O que fazemos aqui, mais uma vez, é substituir um
modo tópico de representar as coisas por um modo dinâmico. O que consideramos móvel não é a
própria estrutura psíquica, mas sua inervação.
Não obstante, considero conveniente e justificável continuar a fazer uso da imagem
figurada dos dois sistemas. Podemos evitar qualquer possível abuso desse método de figuração
lembrando que as representações, os pensamentos e as estruturas psíquicas em geral nunca
devem ser encarados como localizados em elementos orgânicos do sistema nervoso, mas antes,
por assim dizer, entre eles, onde as resistências e facilitações [Bahnungen] fornecem os correlatos
correspondentes. Tudo o que pode ser objeto de nossa percepção interna é virtual, tal como a
imagem produzida num telescópio pela passagem dos raios luminosos. Mas temos justificativas
para presumir a existência dos sistemas (que de modo algum são entidades psíquicas e nunca
podem ser acessíveis a nossa percepção psíquica), semelhante à das lentes do telescópio, que
projetam a imagem. E, a continuarmos com esta analogia, podemos comparar a censura entre dois
sistemas com a refração que ocorre quando o raio de luz passa para um novo meio.
Até agora, vimos fazendo psicologia por nossa própria conta. Já é tempo de
considerarmos os pontos de vista teóricos que dominam a psicologia atual e examinarmos sua
relação com nossas hipóteses. O problema do inconsciente na psicologia é, nas vigorosas palavras
de Lipps (1897), menos um problema psicológico do que o problema da psicologia. Enquanto a
psicologia lidou com esse problema através de uma explicação verbal no sentido de que “psíquico”
significava “consciente”, e de que falar em “processos psíquicos inconscientes” era de um contrasenso
palpável, qualquer avaliação psicológica das observações feitas pelos médicos sobre os
estados psíquicos anormais estava fora de cogitação. Médico e filósofo só podem unir-se quando
ambos reconhecerem que a expressão “processos psíquicos inconscientes” é “a expressão
apropriada e justificada de um fato solidamente estabelecido”. Só resta ao médico encolher os
ombros quando lhe asseguram que “a consciência é uma característica indispensável do psíquico”,
e talvez, se ainda sentir respeito suficiente pelos enunciados dos filósofos, ele possa presumir que
eles não estavam tratando da mesma coisa ou trabalhando na mesma ciência. É que até mesmo
uma única observação criteriosa da vida anímica de um neurótico, ou uma única análise de um
sonho, terá de deixá-lo com a inabalável convicção de que os processos de pensamento mais
complexos e mais racionais, aos quais decerto não se pode negar o nome de processos psíquicos,
podem ocorrer sem excitar a consciência do sujeito. É verdade que o médico não pode saber
desses processos inconscientes até eles produzirem na consciência algum efeito que possa ser
comunicado ou observado. Mas esse efeito consciente pode exibir um caráter psíquico
inteiramente diverso do caráter do processo inconsciente, de modo que não há como a percepção
interna encarar um deles como substituto do outro. O médico deve sentir-se livre para avançar, por
inferência, desde o efeito consciente até o processo psíquico inconsciente. Assim, ele se inteira de
que o efeito consciente é apenas um resultado psíquico remoto do processo inconsciente, e de que
este não se tornou consciente como tal; além disso, constata que este já estava presente e
atuante, mesmo sem trair de nenhum modo sua existência para a consciência.
É essencial abandonar a supervalorização da propriedade do estar consciente para que
se torne possível formar uma opinião correta da origem do psíquico. Nas palavras de Lipps [1897,
146 e segs.], deve-se pressupor que o inconsciente é a base geral da vida psíquica. O inconsciente
é a esfera mais ampla, que inclui em si a esfera menor do consciente. Tudo o que é consciente tem
um estágio preliminar inconsciente, ao passo que aquilo que é inconsciente pode permanecer
nesse estágio e, não obstante, reclamar que lhe seja atribuído o valor pleno de um processo
psíquico. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é
tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado
pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos
sensoriais.
Agora que a velha antítese entre vida consciente e vida onírica foi reduzida a suas
exatas proporções pelo estabelecimento da realidade psíquica inconsciente, uma série de
problemas oníricos com que os autores anteriores se preocuparam profundamente perdeu sua
importância. Assim, algumas dasatividades cuja boa execução nos sonhos despertava assombro já
não devem hoje ser atribuídas aos sonhos, mas sim ao pensamento inconsciente, que é tão ativo
durante o dia quanto à noite. Se, como disse Scherner [1861, 134 e seg.], os sonhos parecem
empenhar-se em fazer representações simbólicas do corpo [em [1]], sabemos agora que essas
representações são o produto de certas fantasias inconscientes (derivadas, provavelmente, de
moções sexuais), que encontram expressão não apenas nos sonhos mas também nas fobias
histéricas e outros sintomas. Se o sonho dá prosseguimento às atividades diurnas e as conclui,
chegando até a trazer à luz idéias novas e valiosas, tudo o que precisamos fazer é despi-lo do
disfarce onírico, que é o produto do trabalho do sonho e a marca do auxílio prestado por obscuras
forças procedentes das profundezas da alma (cf. o diabo no sonho de Tartini com a sonata); essa
realização intelectual se deve às mesmas forças anímicas que produzem todos os resultados
semelhantes durante o dia. É provável que também nos inclinemos muito a superestimar o caráter
consciente da produção intelectual e artística. As comunicações que nos foram fornecidas por
alguns dos homens mais altamente produtivos, como Goethe e Helmholtz, mostram, antes, que o
que há de essencial e novo em suas criações lhes veio sem premeditação e como um todo quase
pronto. Não há nada de estranho que, em outros casos em que se fez necessária uma
concentração de todas as faculdades intelectuais, a atividade consciente também tenha contribuído
com sua parcela. Mas é privilégio muito abusado a atividade consciente, sempre que tem alguma
participação, ocultar de nós todas as demais atividades.
Mal valeria a pena tratarmos a importância histórica dos sonhos como um tópico
separado. Talvez um sonho tenha impelido algum líder a se aventurar numa empreitada audaciosa
cujo êxito modificou o curso da História. Mas isso só levanta um novo problema se o sonho for
encarado como uma força estranha, em contraste com as outras forças mais familiares da alma; tal
problema não persiste quando o sonho é reconhecido como uma forma de expressão de moções
que se encontram sob a pressão da resistência durante o dia, mas que puderam, durante a noite,
achar reforço em fontes de excitação situadas nas camadas profundas.O respeito conferido aos
sonhos na Antigüidade, entretanto, baseia-se num discernimento psicológico correto e é a
homenagem prestada às forças incontroladas e indestrutíveis do espírito humano, ao poder
“demoníaco” que produz o desejo onírico e que encontramos em ação em nosso inconsciente.
Não é sem intenção que falo em “nosso” inconsciente, pois o que assim descrevo não é
a mesma coisa que o inconsciente dos filósofos ou mesmo o inconsciente de Lipps. Neles, esse
termo é usado simplesmente para indicar um contraste com o consciente: a tese que eles
contestam com tanto ardor e defendem com tanta energia é a tese de que, à parte os processos
conscientes, há também processos psíquicos inconscientes. Lipps leva as coisas mais adiante, ao
afirmar que a totalidade do psíquico existe inconscientemente e que parte dele existe também
conscientemente. Mas não foi para estabelecer esta tese que invocamos os fenômenos dos
sonhos e da formação dos sintomas histéricos; a simples observação da vida normal de vigília
bastaria para provar isso fora de qualquer dúvida. A nova descoberta que nos foi ensinada pela
análise das formações psicopatológicas e do primeiro membro dessa classe - o sonho - reside no
fato de que o inconsciente (isto é, o psíquico) é encontrado como uma função de dois sistemas
separados, e de que isso acontece tanto na vida normal quanto na patológica. Portanto, há dois
tipos de inconsciente, que ainda não foram distinguidos pelos psicólogos. Ambos são inconscientes
no sentido empregado pela psicologia, mas, em nosso sentido, um deles, que denominamos de
Ics., é também inadimissível à consciência, enquanto ao outro chamamos Pcs., porque suas
excitações - depois de observarem certas regras, é verdade, e talvez apenas depois de passarem
por uma nova censura, embora mesmo assim, sem consideração pelo Ics. - conseguem alcançar a
consciência. O fato de, para chegarem à consciência, as excitações terem de atravessar uma
seqüência fixa ou uma hierarquia de instâncias (o que nos é revelado pelas modificações nelas
efetuadas pela censura) permitiu-nos construir uma analogia espacial. Descrevemos as relações
dos dois sistemas entre si e com a consciência dizendo que o sistema Pcs. situa-se como uma tela
entre o sistema Ics. e a consciência. O sistema Pcs. não apenas barra o acesso à consciência,
mas também controla o acesso ao poder da motilidade voluntária e tem a seu dispor, para
distribuição, uma energia de catexia móvel, parte da qual nos é familiar sob a forma de atenção.
[Ver em [1].]
Devemos também evitar a distinção entre “supraconsciente” e “subconsciente”, que se
tornou tão popular na literatura mais recente sobre as psiconeuroses, pois tal distinção parece
servir precisamente para enfatizar a equivalência entre o psíquico e o consciente.
Mas que papel resta em nosso esquema para a consciência, outrora tão onipotente e
que ocultava tudo o mais? Apenas o de um órgão sensorial para a percepção de qualidades
psíquicas. De acordo com as idéias subjacentes a nosso ensaio de um quadro esquemático, só
podemos encarar a percepção consciente como a função própria de um determinado sistema e,
para este, a abreviação Cs. parece apropriada. Em suas propriedades mecânicas, encaramos esse
sistema como semelhante ao sistema perceptivo Pcpt., ou seja, como suscetível à excitação por
qualidades, mas incapaz de reter traços das alterações, isto é, sem memória. O aparelho psíquico,
que se volta para o mundo exterior com seu órgão sensorial dos sistemas Pcpt., é, ele próprio, o
mundo externo em relação ao órgão sensorial da Cs., cuja justificação teleológica reside nesta
circunstância. Aqui encontramos mais uma vez o princípio da hierarquia das instâncias, que parece
reger a estrutura do aparelho. O material excitatório aflui para o órgão sensorial da Cs. vindo de
duas direções: do sistema Pcpt., cuja excitação, determinada por qualidades, é provavelmente
submetida a uma nova revisão antes de se converter numa sensação consciente, e do interior do
próprio aparelho, cujos processos quantitativos são sentidos como uma série de qualidades de
prazer-desprazer quando, sujeitos a certas modificações, penetram na consciência.
Os filósofos que se deram conta de que é possível haver formações de pensamento
racionais e altamente complexas, sem que a consciência tenha qualquer participação nelas,
tiveram dificuldade em atribuir qualquer função à consciência; pareceu-lhes que ela não podia ser
mais do que uma imagem reflexasupérflua do processo psíquico consumado. Nós, por outro lado,
somos resgatados desse embaraço pela analogia existente entre nosso sistema Cs. e os sistemas
perceptivos. Sabemos que a percepção por nossos órgãos sensoriais tem como resultado dirigir
um investimento de atenção para as vias pelas quais se propaga a excitação sensorial adveniente:
a excitação qualitativa do sistema Pcpt. atua como um regulador da descarga da quantidade móvel
no aparelho psíquico. Podemos atribuir a mesma função ao órgão sensorial sobreposto do sistema
Cs. Ao perceber novas qualidades, ele presta uma nova contribuição ao direcionamento das
quantidades móveis de investimento e a sua distribuição de maneira conveniente. Com a ajuda de
sua percepção de prazer e desprazer, ele influencia a circulação dos investimentos dentro do que,
em outros aspectos, é um aparelho inconsciente que atua por meio dos deslocamentos de
quantidades. Parece provável que, no começo, o princípio do desprazer regule automaticamente o
deslocamento dos investimentos, mas é muito possível que a consciência dessas qualidades
introduza, além disso, uma segunda regulação, mais discriminadora, que pode até opor-se à
primeira e que aperfeiçoa a eficiência do aparelho, capacitando-o, em contradição com seu plano
original, a investir e elaborar até mesmo aquilo que está associado à liberação de desprazer. A
psicologia das neuroses nos ensina que esses processos de regulação efetuados pela excitação
qualitativa dos órgãos sensoriais têm uma importante participação na atividade funcional do
aparelho. O domínio automático do princípio primário do desprazer e a conseqüente restrição
imposta à eficiência são interrompidos pelos processos de regulação sensorial, que, por sua vez,
são também automatismos. Constatamos que o recalque (que, embora de início sirva a um
propósito útil, acaba conduzindo a uma renúncia prejudicial à inibição e ao controle anímico) afeta
muito mais facilmente as lembranças do que as percepções porque as primeiras não podem
receber nenhum investimento extra advindo da excitação dos órgãos sensoriais psíquicos. É
verdade, por um lado, que um pensamento que tem de ser rechaçado não se pode tornar
consciente, por ter sofrido recalcamento, mas, por outro, às vezes um desses pensamentos só é
recalcado por ter sido subtraído da percepção consciente em virtude de outras razões. Estas são
indicações das quais tiramos proveito, em nosso procedimento terapêutico, para desfazer
recalcamentos já consumados.
Em seu aspecto teleológico, não há melhor ilustração do valor da hipercatexia posta nas
quantidades móveis pela influência reguladora do órgão sensorial da Cs. do que sua criação de
uma nova série de qualidades e, conseqüentemente, de um novo processo de regulação que
constitui asuperioridade do homem sobre os animais. Os processos de pensamento, em si
próprios, carecem de qualidade, exceto pelas excitações prazerosas e desprazerosas que os
acompanham e que, em vista de seu possível efeito perturbador sobre o pensamento, têm de ser
mantidas dentro de limites. Para que os processos de pensamento possam adquirir qualidades,
eles se associam, nos seres humanos, com lembranças verbais, cujos resíduos de qualidade são
suficientes para atrair para si a atenção da consciência e para dotar o processo de pensar de um
novo investimento móvel oriundo da consciência. [Ver em [1] e [2].]
Toda a multiplicidade dos problemas da consciência só pode ser apreendida por uma
análise dos processos de pensamento na histeria. Estes causam a impressão de que a transição
de um investimento pré-consciente para um investimento consciente é marcada por uma censura
semelhante à existente entre o Ics. e o Pcs. Também essa censura só entra em vigor acima de
certo limite quantitativo, de modo que as estruturas de pensamento de baixa intensidade lhe
escapam. Toda sorte possível de exemplos de como um pensamento pode ser apartado da
consciência ou irromper nela, dentro de certas limitações, encontram-se reunidos no arcabouço
dos fenômenos psiconeuróticos, e todos apontam para as relações íntimas e recíprocas entre a
censura e a consciência. Encerrarei estas reflexões psicológicas com um relato de dois desses
exemplos.
Fui chamado em consulta, no ano passado, para examinar uma jovem inteligente e de
aparência desembaraçada. Estava vestida de maneira surpreendente. É que, embora as roupas de
uma mulher costumem ser criteriosamente cuidadas até o último detalhe, ela trazia uma das meias
dependurada, e dois dos botões de sua blusa estavam desabotoados. Queixou-se de sentir dores
na perna e, sem ser solicitada, expôs a panturrilha. Mas aquilo de que se queixava principalmente
era, empregando suas próprias palavras, uma sensação no corpo, como se houvesse algo “enfiado
nele”, que se “mexia para frente e para trás” e que a “sacudia” de cima a baixo; às vezes, fazia
todo o seu corpo ficar “teso”. Meu colega médico, ali presente ao exame, olhou para mim; não teve
dificuldade em compreender o significado da queixa da jovem. Mas o que a ambos nos pareceu
extraordinário foi o fato de isso não significar nada para a mãe da paciente; ela própria deveria terse
encontrado muitas vezes na situação que sua filha estava descrevendo. Aprópria moça não
tinha noção do alcance de seus comentários, porque, se o tivesse, nunca os teria pronunciado.
Nesse caso, fora possível lograr a censura levando-a a permitir que uma fantasia que normalmente
seria mantida no pré-consciente emergisse na consciência sob o inocente disfarce da formulação
de uma queixa.
Aqui temos outro exemplo: um rapaz de quatorze anos procurou-me para tratamento
psicanalítico, sofrendo de um tic convulsif, vômitos histéricos, dores de cabeça, etc. Comecei o
tratamento assegurando-lhe que, se fechasse os olhos, ele veria imagens ou teria idéias que então
me deveria comunicar. Respondeu por imagens. Sua última impressão antes de me procurar foi
revivida visualmente em sua memória. Estivera jogando damas com o tio e via o tabuleiro em sua
frente. Pensou em várias posições favoráveis ou desfavoráveis, e em jogadas que não deveriam
ser feitas. Viu então um punhal sobre o tabuleiro - um objeto pertencente a seu pai, mas que sua
imaginação colocara sobre o tabuleiro. Logo havia uma foice sobre o tabuleiro e, em seguida, uma
alfange. Apareceu então a imagem de um velho camponês cortando a grama em frente à
longínqua casa do paciente com uma alfange. Passados alguns dias, descobri o sentido dessa
sucessão de imagens. O rapaz se afligira com uma situação familiar infeliz. Tinha um pai que era
um homem duro, sujeito a acessos de cólera, infeliz no casamento com a mãe do rapaz e cujos
métodos educacionais consistiam em ameaças. O pai se divorciara da mãe, mulher meiga e
afetuosa, casara-se outra vez e um dia trouxera para casa uma moça que deveria ser a nova mãe
do rapazinho. Foi nos primeiros dias depois disso que eclodiu a doença do rapaz de quatorze anos.
Sua fúria sufocada contra o pai é que havia construído aquela seqüência de imagens, com suas
alusões compreensíveis. O material para elas fora fornecido por uma recordação da mitologia. A
foice era aquela com que Zeus castrara o pai; a alfange e a imagem do velho camponês
representavam Cronos, o velho violento que devorara seus filhos e de quem Zeus se vingara de
maneira tão pouco filial. [Ver em [1].] O casamento do pai dera ao rapaz a oportunidade de retribuir
as censuras e ameaças que ouvira dele muito tempo antes, por brincar com seus órgãos genitais.
(Cf. jogar [brincar com as] damas; as jogadas proibidas; o punhal que podia ser usado para matar.)
Nesse caso, as lembranças recalcadas por muito tempo e seus derivados que haviam
permanecido inconscientes é que se infiltraram na consciência por um caminho indireto, sob a
forma de imagens aparentemente sem sentido.
Assim sendo, eu buscaria o valor teórico do estudo dos sonhos nas contribuições que ele
faz ao conhecimento psicológico e no esclarecimentopreliminar que traz aos problemas das
psiconeuroses. Quem poderá imaginar a importância dos resultados passíveis de se obter através
de uma compreensão completa da estrutura e das funções do aparelho anímico, se até o estado
atual de nossos conhecimentos nos permite exercer uma influência terapêutica favorável sobre as
formas curáveis de psiconeurose? Mas, e quanto ao valor prático desse estudo - já posso ouvir a
pergunta - como meio de se chegar a uma compreensão da alma, a uma revelação das
características ocultas de cada um? Acaso as moções inconscientes expressas pelos sonhos não
têm o peso de forças reais na vida anímica? Será que se deve fazer pouco da significação ética
dos desejos suprimidos - desejos que, assim como levam aos sonhos, podem um dia levar a outras
coisas?
Não me sinto autorizado a responder a essas perguntas. Não dediquei maior
consideração a esse aspecto do problema dos sonhos. Penso, contudo, que o imperador romano
estava errado ao mandar executar um de seus súditos por ter sonhado que estava assassinando o
imperador. [Ver em [1].] Ele deveria ter começado por tentar descobrir o que significava o sonho; é
muito provável que seu sentido não fosse o que parecia ser. E, mesmo que um sonho com outro
conteúdo tivesse por sentido esse ato de lesa-majestade, acaso não seria acertado ter em mente o
dito de Platão, de que o homem virtuoso se contenta em sonhar com o que o homem perverso
realmente faz [em [1]]? Penso, portanto, que o melhor é absolver os sonhos. Se devemos atribuir
realidade aos desejos inconscientes, não sei dizer. Ela deve ser negada, naturalmente, a todos os
pensamentos transicionais ou intermediários. Se olharmos para os desejos inconscientes,
reduzidos a sua expressão mais fundamental e verdadeira, teremos de concluir, sem dúvida, que a
realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a
realidade material. Portanto, não parece haver justificativa para a relutância das pessoas em
aceitarem a responsabilidade pela imoralidade de seus sonhos. Quando o modo de funcionamento
do aparelho anímico é corretamente avaliado e se compreende a relação que há entre consciente
e inconsciente, descobre-se que desaparece a maior parte daquilo que é eticamente objetável em
nossa vida onírica e de fantasia. Nas palavras de Hanns Sachs [1912, 569]: “Se olharmos em
nossa consciência para algo que nos foi dito por um sonho sobre uma situação contemporânea
(real), não deveremos ficar surpresos ao descobrir que o monstro que vimos sob a lente de
aumento da análise revela-se um minúsculo infusório”.
As ações e opiniões conscientemente expressas são, em geral, suficientes para a
finalidade prática de julgar o caráter dos homens. As ações merecem ser consideradas antes e
acima de tudo, pois muitos impulsos que irrompem na consciência são ainda reduzidos a nada
pelas forças reais da vida anímica, antes de amadurecerem sob a forma de atos. Com efeito, tais
impulsos muitas vezes não encontram nenhum obstáculo psíquico a seu progresso, exatamente
porque o inconsciente tem certeza de que serão detidos em alguma outra etapa. De qualquer
modo, é instrutivo tomar conhecimento do terreno tão revolvido de onde brotam orgulhosamente
nossas virtudes. É muito raro a complexidade de um caráter humano, impelida de um lado para
outro por forças dinâmicas, submeter-se a uma escolha entre alternativas simples, como levaria a
crer nossa doutrina moral antiquada.
E quanto ao valor dos sonhos para nos dar conhecimento do futuro? Naturalmente, isso
está fora de cogitação. [Ver em [1].] Mais certo seria dizer, em vez disso, que eles nos dão
conhecimento do passado, pois os sonhos se originam do passado em todos os sentidos. Não
obstante, a antiga crença de que os sonhos prevêem o futuro não é inteiramente desprovida de
verdade. Afinal, ao retratarem nossos desejos como realizados, os sonhos decerto nos transportam
para o futuro. Mas esse futuro, que o sonhador representa como presente, foi moldado por seu
desejo indestrutível à imagem e semelhança do passado.
APÊNDICE A: UMA PREMONIÇÃO ONÍRICA REALIZADA
A Sra. B., uma mulher respeitável que, além disso, possui senso crítico, contou-me, a
propósito de outra coisa e sem nenhuma segunda intenção, que um dia, alguns anos atrás, havia
sonhado encontrar o Dr. K., um amigo e antigo médico da família, na Kärntnerstrasse, em frente à
loja de Hiess. Na manhã seguinte, ao caminhar pela mesma rua, encontrara de fato a pessoa em
questão, exatamente no lugar com que havia sonhado. Basta isso para meu tema. Acrescento
apenas que nenhum acontecimento subseqüente comprovou a importância dessa miraculosa
coincidência, que, portanto, não pode ser explicada pelo que estaria reservado no futuro.
A análise do sonho foi auxiliada por algumas perguntas, que confirmaram o fato de não
haver nenhuma prova de que ela tivesse lembrado do sonho na manhã seguinte a sua ocorrência
antes de seu passeio - uma prova como haver anotado o sonho ou tê-lo contado a alguém antes
que ele se realizasse. Ao contrário, ela foi obrigada a aceitar a seguinte explicação do que teria
acontecido, que me parece mais plausível, sem levantar qualquer objeção. Uma manhã, ela ia
andando pela Kärntnerstrasse e encontrou seu antigo médico de família em frente à loja de Hiess.
Ao vê-lo, sentiu-se convencida de ter sonhado na noite anterior justamente com aquele encontro
naquele mesmo lugar. De acordo com as regras que se aplicam à interpretação dos sintomas
neuróticos, sua convicção deve ter sido justificada; seu conteúdo, porém, requer uma
reinterpretação.
Eis um episódio do passado da Sra. B. com o qual o Dr. K. está relacionado. Quando ela
era moça, casaram-na sem seu pleno consentimento com um homem idoso, mas abastado. Alguns
anos depois, ele perdeu suafortuna, adoeceu com tuberculose e morreu. Durante muitos anos, a
jovem senhora sustentou a si e ao marido enfermo dando aulas de música. Entre seus amigos no
infortúnio encontrava-se o médico da família, o Dr. K., que se dedicou a cuidar do marido dela e a
ajudou a encontrar seus primeiros alunos. Outro amigo era um advogado, também um Dr. K., que
pôs em ordem os negócios caóticos do comerciante arruinado, ao mesmo tempo em que cortejava
a jovem e - pela primeira e última vez - inflamava-lhe a paixão. Esse caso amoroso não lhe trouxe
nenhuma felicidade real, porque os escrúpulos criados por sua educação e sua mentalidade
interferiram em sua entrega completa enquanto era casada e, depois, quando ficou viúva. No
mesmo contexto em que me contou o sonho, ela também me narrou uma ocorrência real daquele
período infeliz de sua vida, ocorrência esta que, em sua opinião, fora uma coincidência notável. Ela
estava em seu quarto, ajoelhada no chão, com a cabeça enterrada numa poltrona e soluçando com
uma saudade apaixonada de seu amigo e benfeitor, o advogado, quando, naquele exato momento,
a porta se abriu e ele entrou para visitá-la. Não vemos absolutamente nada de notável nessa
coincidência, considerando a freqüência com que ela pensava nele e a assiduidade com que ele
provavelmente a visitava. Além disso, esses incidentes que parecem previamente combinados são
encontrados em toda história de amor. Não obstante, é provável que essa coincidência tenha sido
o verdadeiro conteúdo de seu sonho e a única base de sua convicção de que ele se havia
realizado.
Entre a cena em que seu desejo fora realizado e a época do sonho, mais de vinte e cinco
anos haviam decorrido. Nesse meio tempo, a Sra. B. enviuvara de um segundo marido, que a
deixara com um filho e uma fortuna. O afeto da velha senhora estava ainda centralizado no Dr. K.,
que era agora seu conselheiro e o administrador de seus bens e a quem ela via com freqüência.
Suponhamos que, nos dias que antecederam o sonho, ela tivesse esperado por uma visita dele,
mas que esta não se houvesse realizado - ele já não era tão insistente quanto costumava ser. É
bem possível então que, uma noite, ela tenha tido um sonho nostálgico que a levou de volta aos
velhos tempos. Provavelmente, sonhou com um encontro da época de seu caso amoroso, e a
cadeia de seus pensamentos oníricos a reconduziu à ocasião em que, sem qualquer arranjo
prévio, ele chegara no exato momento em que ela ansiava por sua vinda. É possível que tais
sonhos lhe ocorressem agora com muita freqüência; seriam parte do castigo tardio com que a
mulher paga por sua crueldade juvenil. Mas esses sonhos - derivados de uma corrente de
pensamentos suprimida, repleta de lembranças de encontros nos quais, desde seu segundo
casamento, ela já não gostava de pensar - esses sonhos erampostos de lado ao despertar. E foi
isso o que aconteceu com nosso sonho aparentemente profético. Em seguida, ela saiu e, na
Kärntnerstrasse, num lugar que em si era indiferente, encontrou seu velho médico de família, o Dr.
K. Fazia muito tempo que não o via, a ele que estava intimamente associado com as excitações
daquele tempo feliz-infeliz. Também ele fora um benfeitor, e podemos conjecturar que fosse
utilizado nos pensamentos dela - e talvez também em seus sonhos - como uma figura encobridora
por trás da qual se ocultava a figura mais amada do outro Dr. K. Esse encontro reviveu então sua
lembrança do sonho. Ela deve ter pensado: “Sim, sonhei na noite passada com meu encontro com
o Dr. K”. Mas essa lembrança teve de sofrer a distorção da qual o sonho só escapara por ter sido
completamente esquecido. Ela inseriu o K. indiferente (que a fizera recordar o sonho) no lugar do
K. amado. O conteúdo do sonho - o encontro - transferiu-se para a crença de que ela havia
sonhado precisamente com aquele lugar, porque um encontro consiste em duas pessoas
chegarem ao mesmo lugar ao mesmo tempo. E, se ela teve então a impressão de que o sonho se
havia realizado, estava apenas dando livre curso, dessa maneira, a sua lembrança da cena em
que, em sua infelicidade, ansiara pela vinda dele e seu anseio fora prontamente realizado.
Assim, a criação do sonho a posteriori, única coisa que torna possíveis os sonhos
proféticos, nada mais é do que uma forma de censura, graças à qual o sonho pode irromper na
consciência.
10. nov. 99
APÊNDICE B: RELAÇÃO DOS TRABALHOS DE FREUD QUE
VERSAM EXTENSA OU PREDOMINANTEMENTE SOBRE OS SONHOS
[Dificilmente seria exagero dizer que há alusões aos sonhos na maioria dos trabalhos de
Freud. A seguinte relação de obras (de importância muito variável), entretanto, pode ter alguma
utilidade prática. A data no início de cada item é a do ano em que a obra em questão foi escrita. A
data ao final é a da publicação; ao lado desta data, outros pormenores da obra serão encontrados
na Bibliografia Geral. Os itens entre colchetes foram publicados postumamente.]
[1895 “Projeto para uma Psicologia Científica” (Seções 19, 20 e 21 da Parte I). (1950a.)]
1899 A Interpretação dos Sonhos. (1900a.)
[1899 “Uma Premonição Onírica Realizada”. (1941c.)]
1901 Sobre os Sonhos. (1901a.)
1901 “Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria”. [Título original: “ Sonhos e
Histeria”] (1905e.)
1905 O Chiste e sua Relação com o Inconsciente (Capítulo VI). (1905c.)
1907 Delírios e Sonhos em “Gradiva”, de Jensen. (1907a.)
1910 “Exemplo Típico de um Sonho Edipiano Disfarçado”. (1910l.)
1911 “Acréscimos à Interpretação dos Sonhos”. (1911a.)
1911 “O Manejo da Interpretação dos Sonhos em Psicanálise”. (1911e.)
1911 “Os Sonhos no Folclore” (com Ernest Oppenheim). (1957a.)
1913 “Um Sonho Comprobatório”. (1913a.)
1913 “Material de Contos de Fadas nos Sonhos”. (1913d.)
1913 “Observações e Exemplos da Prática Analítica”. (1913h.)
1914 “Representação de uma ‘Grande Realização’ num Sonho. (1914e.)
1914 “Da História de uma Neurose Infantil” (Seção IV). (1918b.)
1916 Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Parte II). (1916-1917.)
1917 “Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos”. (1917d.)
1920 “Suplementos à Teoria dos Sonhos”. (1920f.)
1922 “Sonhos e Telepatia”. (1922a.)
1923 “Observações sobre a Teoria e a Prática da Interpretação do Sonho”. (1923c.)
1923 “Josef Popper-Lynkeus e a Teoria dos Sonhos”. (1923f.)
1925 “Algumas Notas Adicionais sobre a Interpretação dos Sonhos como um Todo”.
(1925i.)
1929 “Carta a Maxime Leroy sobre um sonho de Descartes”. (1929b.)
1932 “Meu Contato com Josef Popper-Lynkeus”. (1932c.)
1932 Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Conferências XXIX e XXX).
(1933a.)
[1938 Um Esboço de Psicanálise (Capítulo V). (1940a.)]
N.B. - Uma mistura não autorizada da parte de A Interpretação dos Sonhos e Sobre os
Sonhos foi publicada em duas edições nos Estados Unidos com o título de Dream Psychology:
Psychoanalysis for Beginners (com uma introdução de André Tridon), Nova Iorque, McCann, 1920
e 1921, XI + 237 págs.
NOTA DO EDITOR INGLÊS
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1901 Über den Traum. Publicada pela primeira vez como parte (págs. 307-344) de uma
publicação seriada, Grenzfragen des Nerven-und Seelenlebens, org. por L. Löwenfeld e H. Kurella,
Wiesbaden, Bergmann.
1911 2ª edição. (Publicada como brochura separada e ampliada.) Mesmos organizadores, 44
págs.
1921 3ª edição. Munique e Wiesbaden, Bergmann, 44 págs.
1925 Nos Gesammelte Schriften de Freud, 3, 189-256, Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler
Psychoanalytischer Verlag.
1931 No volume coletivo de Freud, Sexualtheorie und Traumlehre, 246-307, mesmos
organizadores.
1942 Nas Gesammelte Werke de Freud, 2 e 3, 643-700, Londres, Imago Publishing Co.
(b) TRADUÇÕES INGLESAS:
1914 De M. D. Eder (com introdução de W. L. Mackenzie). Londres, Heinemann; Nova Iorque,
Rebman. XXXII + 110 págs.
1952 De James Strachey, Londres, Hogarth Press e Institute of Psycho-Analysis, VII + 80 págs.
Nova Iorque, Norton, 120 págs.
Esta tradução é uma reimpressão revista da tradução publicada em 1952.
Apenas dois ou três meses após a publicação de A Interpretação dos Sonhos, já a idéia
de escrever uma versão abreviada de seu livro estava no espírito de Freud. Fliess evidentemente
escrevera para sugerir algo desse tipo, pois, numa carta de 4 de abril de 1900 (Freud, 1950a, Carta
132), Freud rejeitou a proposta, argumentando, entre outras coisas, que “já prometera dar a
Löwenfeld um ensaio da mesma natureza”. Comentou também sobre seu desagrado em embarcar
em semelhante tarefa tão pouco tempo depois de haver terminado seu extenso livro.
Evidentemente, essa relutância persistiu, pois, em 20 de maio (ibid., Carta 136), ele menciona que
não havia sequer iniciado a “brochura” e, em 10 de julho (ibid., Carta 138), anuncia que a adiou
para outubro. Sua última referência a ela na correspondência com Fliess dá-se em 14 de outubro
de 1900 (ibid., Carta 139), onde ele comenta que está escrevendo o ensaio “sem nenhum prazer
real”, uma vez que sua mente está repleta de material para Sobre a Psicopatologia da Vida
Cotidiana (que seria sua produção seguinte). Nesta, aliás, há uma referência (perto do final do
Capítulo VII) ao ensaio Sobre os Sonhos e à questão de a publicação de um resumo poder ou não
interferir nas vendas do livro maior.
Como se verá, o único acréscimo de importância feito por Freud nas edições posteriores
do ensaio foi a seção sobre o simbolismo, introduzida na segunda edição.
SOBRE OS SONHOS
I
Durante a época que se pode descrever como pré-científica, os homens não tinham
nenhuma dificuldade em descobrir uma explicação para os sonhos. Quando se lembravam de um
sonho depois de acordar, encaravam-no como uma manifestação favorável ou hostil de poderes
superiores, demoníacos e divinos. Quando começaram a florescer as maneiras de pensar próprias
da ciência natural, toda essa engenhosa mitologia se transformou em psicologia, e hoje apenas
uma pequena minoria de pessoas cultas duvida de que os sonhos sejam um produto do próprio
psiquismo do sonhador.
Desde a rejeição da hipótese mitológica, porém, os sonhos passaram a carecer de uma
explicação. As condições de sua origem, sua relação com a vida anímica de vigília, sua
dependência de estímulos que se impõem à percepção durante o estado de sono, as muitas
peculiaridades de seu conteúdo que repugnam ao pensamento desperto, a incoerência entre suas
imagens de representação e os afetos a elas ligados e, por fim, seu caráter transitório, a maneira
como o pensamento de vigília os põe de lado como algo que lhe é estranho, e os mutila ou
extingue na memória - todos esses problemas, e outros ainda, vêm aguardando esclarecimento há
muitas centenas de anos e, até agora, nenhuma solução satisfatória foi proposta para eles. Mas o
que se coloca em primeiro plano em nosso interesse é a questão da significação dos sonhos,
questão esta que encerra um duplo sentido. Em primeiro lugar, ela indaga sobre a significação
psíquica do sonhar, sobre a relação dos sonhos com outros processos anímicos e sobre sua
eventual função biológica; em segundo, busca descobrir se os sonhos podem ser interpretados, se
o conteúdo de cada sonho tem um “sentido” tal como estamos acostumados a encontrar em outras
estruturas psíquicas.
Na avaliação da significação dos sonhos, três linhas de pensamento podem ser
distinguidas. Uma delas, que ecoa, por assim dizer, a antiga supervalorização dos sonhos, se
expressa nos trabalhos de certos filósofos. Eles consideram que a base da vida onírica é um
estado peculiar de atividade anímica e chegam até a aclamar esse estado como uma elevação a
um nível superior. Por exemplo, Schubert [1814] declara que os sonhos são a emancipação do
espírito do jugo da natureza externa e a liberação da alma das amarras dos sentidos. Outros
pensadores, sem irem tão longe assim, insistem, não obstante, em que os sonhos brotam
essencialmente de impulsos da alma e representam manifestações de forças anímicas impedidas
de se expandirem livremente durante o dia. (Cf. a “fantasia onírica” de Scherner [1861, 97 e segs.]
e Volkelt [1875, 28 e segs.].) Um grande número de observadores concorda em atribuir à vida
onírica a capacidade de um funcionamento superior, pelo menos em certos âmbitos (na memória,
por exemplo).
Em nítido contraste com isso, a maioria dos autores médicos adota uma visão segundo a
qual os sonhos mal chegam a atingir o nível de fenômenos psíquicos. Segundo sua teoria, os
únicos instigadores dos sonhos são os estímulos sensoriais e somáticos que incidem sobre a
pessoa adormecida desde o exterior, ou que se tornam acidentalmente ativos em seus órgãos
internos. O sonhado, argumentam eles, não pode reclamar para si mais sentido e significado do
que, por exemplo, os sons que seriam produzidos se “os dez dedos de um homem que nada
conhece de música vagassem pelas teclas de um piano”. [Strümpell, 1877, 44.] Os sonhos são
descritos por Binz [1878, 35] como não passando de “processos somáticos inúteis em todos os
casos e, em muitos deles, positivamente patológicos”. Todas as características da vida onírica,
portanto, seriam explicadas como devidas à atividade desconexa de órgãos ou grupos de células
isoladas num cérebro no mais adormecido, atividade essa que lhes é imposta por estímulos
fisiológicos.
A opinião popular é pouco afetada por esse juízo científico e não se interessa pelas
origens dos sonhos; parece persistir na crença de que, apesar de tudo, os sonhos possuem um
sentido, que se relaciona com a predição do futuro e pode ser descoberto por algum processo de
interpretação de um conteúdo freqüentemente confuso e enigmático. Os métodos de interpretação
empregados consistem em transformar o conteúdo do sonho tal como é lembrado, seja
substituindo-o aos pedacinhos, de acordo com uma chave fixa, seja substituindo a totalidade do
sonho por um outro todo com o qual ela mantém uma relação simbólica. As pessoas sérias se riem
desses esforços: “Träume sind Schäume” - “os sonhos são espuma”.
II
Um dia descobri, para meu grande assombro, que a visão dos sonhos que mais se
aproximava da verdade não era a médica, mas a popular, por mais que ainda estivesse semienvolta
na superstição. É que eu fora levado a novas conclusões sobre o tema dos sonhos ao
aplicar-lhes um novo método de investigação psicológica que prestara excelentes serviços na
solução das fobias, obsessões e delírios, etc. Desde então, sob o nome de “psicanálise”,ele
encontrou aceitação por toda uma escola de pesquisadores. De fato, as numerosas analogias
existentes entre a vida onírica e uma grande variedade de estados de enfermidade psíquica na
vida de vigília foram corretamente observadas por muitos investigadores médicos. Portanto,
parecia haver boas razões para esperar que um método de investigação que dera resultados
satisfatórios no caso das estruturas psicopáticas fosse também útil para esclarecer os sonhos. As
fobias e obsessões são tão estranhas à consciência normal quanto os sonhos à consciência de
vigília; sua origem é tão desconhecida da consciência quanto a dos sonhos. No caso dessas
estruturas psicopáticas, considerações de ordem prática levaram a uma investigação de sua
origem e modo de desenvolvimento; ocorre que a experiência havia demonstrado que a descoberta
das seqüências de pensamento que, ocultas da consciência, ligam as idéias patológicas aos
demais conteúdos psíquicos equivale a uma solução dos sintomas, e tem como conseqüência o
domínio de idéias que até então não podiam ser inibidas. Assim, a psicoterapia foi o ponto de
partida do procedimento de que me vali para a explicação dos sonhos.
Esse procedimento é fácil de descrever, embora sejam necessários ensinamentos e
exercícios para que ele possa ser posto em prática.
Quando o utilizamos com outra pessoa, digamos, um paciente com uma fobia, pedimolhe
que dirija sua atenção para a idéia em causa, mas não para refletir sobre ela como tantas
vezes já fez, e sim para observar o que quer que lhe venha à mente, sem exceção, e comunicá-lo
ao médico. Se ele então afirmar que sua atenção é incapaz de apreender coisa alguma,
descartamos isso assegurando energicamente que uma ausência completa de qualquer conteúdo
de representações é inteiramente impossível. E, de fato, logo lhe ocorrem numerosas idéias que
conduzirão a outras, mas que são invariavelmente prefaciadas por um juízo do auto-observador no
sentido de que são absurdas ou sem importância, de que são irrelevantes e lhe ocorreram por
acaso, sem qualquer ligação com o assunto em exame. Percebemos de imediato que era essa
atitude crítica que impedia o sujeito de comunicar qualquer dessas idéias, e que antes disso, na
verdade, era ela que as impedia de se tornarem conscientes. Quando conseguimos induzi-lo a
abandonar sua crítica das idéias que lhe ocorrem e a continuar acompanhando as seqüências de
pensamentos que emergem enquanto ele mantém sua atenção voltada para elas, vemo-nos de
posse de uma quantidade de material psíquico que logo constatamos estar claramente ligado à
idéia patológica que foi nosso ponto de partida; esse material não tarda a revelar ligações entre a
idéia patológica e outras, e acaba por permitir-nos substituir a idéia patológica por uma idéia nova,
que se enquadra de maneira inteligível na trama anímica.
Este não é o lugar para se fornecer um relato pormenorizado das premissas em que se
baseou essa experiência, nem das conseqüências que decorrem de seu invariável sucesso. Assim,
basta-nos dizer que obtemos o material que nos permite resolver qualquer idéia patológica ao
voltarmos nossa atenção precisamente para as associações “involuntárias”, que “interferem em
nossa reflexão” e que são normalmente descartadas por nossa faculdade crítica como dejetos sem
valor.
Ao usarmos esse procedimento com nós mesmos, a melhor maneira de ajudarmos a
investigação consiste em anotar de imediato aquilo que, a princípio, são associações ininteligíveis.
Mostrarei agora quais são os resultados a que chego ao aplicar esse método de
investigação aos sonhos. Qualquer exemplo de sonho, de fato, seria igualmente apropriado para
esse fim, mas, por motivos específicos, escolherei um de meus próprios sonhos, que me pareça
obscuro e sem sentido tal como o recordo e que tenha a vantagem da brevidade. Talvez o sonho
que tive justamente na noite passada atenda a esses requisitos. Seu conteúdo, tal como o anotei
imediatamente após despertar, foi o seguinte:
“Um grupo de pessoas à mesa ou ‘table d’hôte’ … comia-se espinafre … A Sra. E. L.
estava sentada a meu lado; voltava toda a sua atenção para mim e pôs a mão em meu joelho de
maneira íntima. Retirei-lhe a mão, impassível. Então ela disse: ‘Mas o senhor sempre teve olhos
tão bonitos.’ … Vi então a imagem indistinta de dois olhos, como se fosse um desenho ou o
contorno de um par de óculos…”
Foi essa a totalidade do sonho ou, pelo menos, tudo o que pude recordar dele. Pareceume
obscuro e sem sentido, mas, acima de tudo, surpreendente. A Sra. E. L. é uma pessoa com
que mal cheguei a ter relações amistosas em qualquer época, nem tampouco, ao que eu sabia,
jamais desejei ter relações mais estreitas com ela. Não a vejo há muito tempo e seu nome, creio
eu, não foi mencionado nos últimos dias. O processo onírico não foi acompanhado por nenhum tipo
de afeto.
A reflexão sobre esse sonho não fez com que eu me acercasse mais de sua
compreensão. Entretanto, resolvi anotar, sem qualquer premeditação ou crítica, as associações
que se ofereceram à minha auto-observação. Como constatei, é aconselhável, para esse fim,
dividir o sonho em seus elementos e descobrir separadamente as associações ligadas a cada um
desses fragmentos.
Um grupo de pessoas à mesa ou “table d’hôte”. Isso me fez lembrar de imediato um
episódio ocorrido no fim da noite de ontem. Eu voltava de uma pequena reunião em companhia de
um amigo que se ofereceu para tomar um táxi e levar-me a casa. “Prefiro tomar táxis com
taxímetro”, disse ele; “isso ocupa a mente de maneira muito agradável; sempre se tem alguma
coisa para olhar”. Quando ocupamos nossos lugares no carro e o motorista baixou a bandeira, de
modo que se pôde ver a primeira marcação de sessenta hellers, continuei com a brincadeira. “Mal
entramos”, comentei, “e já lhe devemos sessenta hellers. O carro com taxímetro sempre me faz
lembrar a table d’hôte. Torna-me avarento e egoísta, porque está sempre me lembrando o que
devo. Minha dívida parece crescer depressa demais e fico com medo de levar a pior, da mesma
maneira que, na table d’hôte, não consigo evitar um sentimento cômico de que estou recebendo
muito pouco e tenho de ficar de olho em meus próprios interesses.” E prossegui, citando, como que
numa digressão:
Ihr führt ins Leben uns hinein,
Ihr lasst den Armen schuldig werden.
E agora, uma segunda associação sobre a table d’hôte. Algumas semanas atrás, quando
estávamos à mesa num hotel de montanha no Tirol, fiquei muito aborrecido por achar que minha
mulher não estava sendo suficientemente reservada com algumas pessoas sentadas perto de nós,
com quem eu não tinha nenhum desejo de travar conhecimento. Pedi-lhe que se ocupasse mais de
mim do que daqueles estranhos. Isso também foi como se eu estivesse levando a pior na “table
d’hôte”. Chamou-me também a atenção o contraste entre o comportamento de minha mulher à
mesa e o da Sra. E. L. no sonho, que, “voltava toda a sua atenção para mim”.
Continuando. Vi então que os acontecimentos do sonho eram uma reprodução de um
pequeno episódio de natureza exatamente semelhante, que ocorrera entre minha mulher e eu na
época em que a cortejava secretamente. A carícia que ela me fez por baixo da toalha de mesa foi
sua resposta a uma premente carta de amor. No sonho, contudo, minha mulher foi substituída por
alguém que era, comparativamente, uma estranha - E.L.
A Sra. E. L. é filha de um homem com quem estive certa vez endividado. Não pude
deixar de notar que isso revelava uma ligação insuspeitada entre partes do conteúdo do sonho e
minhas associações. Quando se segue a cadeia de associações que parte de um elemento do
conteúdo do sonho, logo se é reconduzido a outro de seus elementos. Minhas associações ao
sonho estavam trazendo à luz ligações que não eram visíveis no próprio sonho.
Quando uma pessoa espera que alguém fique atento a seus interesses sem tirar para si
nenhuma vantagem, sua ingenuidade tende a provocar uma pergunta irônica: “Você acha que vou
fazer isto ou aquilo por seus belos olhos?” Assim sendo, a fala da Sra. E. L. no sonho, “O senhor
sempre teve olhos tão bonitos”, só poderia ter significado: “As pessoas sempre fizeram tudo por
você por amor; você sempre teve tudo sem pagar por isso”. A verdade, por certo, é justamente o
contrário: sempre paguei caro por qualquer vantagem a mim concedida por outras pessoas. O fato
de meu amigo ter-me levado em casa ontem de táxi, sem que eu pagasse, deve, afinal, ter-me
impressionado.
Aliás, o amigo de quem fomos convidados ontem muitas vezes me fez seu devedor. Não
faz muito tempo, deixei passar uma oportunidade de reembolsá-lo. Ele recebeu de mim apenas um
presente - uma terrina antiga com olhos pintados ao redor: o que se conhece como um “occhiale”,
para afastar o mau-olhado. Além disso, ele é cirurgião oculista. Nessa mesma noite, perguntei-lhe
por uma paciente que eu lhe havia encaminhado para consulta, para que lhe receitasse óculos.
Como percebi então, quase todos os elementos do conteúdo do sonho tinham sido
inseridos no novo contexto. A bem da coerência, porém, poder-se-ia ainda perguntar por que é que
se servia justamente espinafre no sonho. A resposta foi que o espinafre me fez lembrar um
episódio ocorrido não faz muito tempo à nossa mesa de família, quando uma das crianças - e
precisamente aquela que realmente merece ser admirada por seus belos olhos - recusou-se a
comer espinafre. Eu próprio me comportava exatamente da mesma maneira quando menino; por
muito tempo, detestei espinafre, até que meu gosto acabou se modificando e promoveu essa
verdura à categoria de um de meus pratos preferidos. Minha própria meninice e a de meu filho
foram assim reunidas pela menção desse prato. “Você deveria ficar contente por ter espinafre”,
exclamara a mãe do pequeno gourmet; “há crianças que se dariam por muito satisfeitas por
comerem espinafre”. Assim me foram relembrados os deveres dos pais para com seus filhos. As
palavras de Goethe,
Ihr führt ins Leben uns hinein
Ihr lasst den Armen schuldig werden,
ganhavam um novo sentido nesse contexto.
Farei aqui uma pausa para examinar os resultados a que cheguei até agora em minha
análise do sonho. Seguindo as associações nascidas dos elementos isolados do sonho, separados
de seu contexto, cheguei a diversos pensamentos e recordações que não pude deixar de
reconhecer como produtos importantes de minha vida anímica. Esse material, revelado pela
análise do sonho, estava intimamente ligado com seu conteúdo; não obstante, a ligação era de tal
ordem que eu nunca poderia ter inferido o material novo a partir do conteúdo onírico. O sonho foi
desprovido de afetos, desconexo e ininteligível, mas, enquanto ia produzindo os pensamentos que
estavam por trás do sonho, dei-me conta de impulsos afetivos intensos e bem fundados; os
próprios pensamentos enquadraram-se imediatamente em cadeias lógicas em que certas
representações centrais apareciam mais de uma vez. Assim, os contrastes entre “egoísta” e
“altruísta” e entre os elementos “estar em débito” e “receber sem pagar” foram representações
centrais desse tipo, que não figuraram no próprio sonho. Eu poderia apertar mais os fios da trama
do material revelado pela análise e mostrar então que eles convergem para um único ponto nodal,
mas certas considerações de natureza pessoal, e não científica, impedem-me de fazê-lo em
público. Eu seria obrigado a deixar transparecer muitas coisas que mais vale permanecerem em
segredo, pois, no caminho de minha descoberta da solução do sonho, revelou-se toda sorte de
coisas que eu não estava disposto a admitir sequer para mim mesmo. Mas então, poderão
perguntar, por que não escolhi algum outro sonho cuja análise se prestasse melhor a ser
comunicada, de modo que eu pudesse fornecer provas mais convincentes do sentido e da interrelação
do material descoberto pela análise? A resposta é que qualquer sonho de que eu tentasse
tratar levaria a coisas igualmente difíceis de comunicar e me imporia idêntica discrição. Tampouco
evitaria essa dificuldade trazendo para análise o sonho de alguma outra pessoa, a menos que as
circunstâncias me permitissem abandonar todo e qualquer disfarce, sem prejuízo para a pessoa
que tivesse confiado em mim.
No ponto a que cheguei agora, sou levado a encarar o sonho como uma espécie de
substituto dos processos de pensamento repletos de significação e afeto aos quais cheguei após a
conclusão da análise. Não conhecemos ainda a natureza do processo que fez com que o sonho
fosse gerado a partir desses pensamentos, mas podemos perceber que é errôneo encará-lo como
puramente físico e sem sentido psíquico, como um processo nascido da atividade isolada de
grupos separados de células cerebrais despertadas do sono.
Duas outras coisas já estão claras. O conteúdo do sonho é muito mais curto do que os
pensamentos dos quais o considero substituto; e a análise revelou que o instigador do sonho foi
um acontecimento sem importância da noite anterior ao sonhar.
Naturalmente, eu não extrairia conclusões de tão amplo alcance se dispusesse apenas
de uma única análise de sonho. Todavia, se a experiência me mostra que, acompanhando
acriticamente as associações nascidas de qualquer sonho, posso chegar a uma cadeia de
pensamentos semelhante, entre cujos elementos os componentes do sonho reaparecem e que
estão interligados de maneira racional e inteligível, é seguro descartar a ligeira possibilidade de
que as ligações observadas numa primeira experiência pudessem dever-se ao acaso. Penso estar
autorizado, portanto, a adotar uma terminologia que fixe nossa nova descoberta. Para contrastar o
sonho, tal como retido em minha memória, com o material pertinente descoberto por sua análise,
chamarei ao primeiro “conteúdo manifesto do sonho”, e ao segundo - sem fazer, a princípio,
nenhuma outra distinção -, “conteúdo latente do sonho”. Vejo-me então frente a dois novos
problemas não formulados até agora: (1) Qual foi o processo psíquico que transformou o conteúdo
latente do sonho no conteúdo manifesto que me é conhecido através da memória? (2) Que motivo
ou motivos tornaram necessária essa transformação? Descreverei o processo que transforma o
conteúdo latente dos sonhos no conteúdo manifesto como “trabalho do sonho”. A contrapartida
dessa atividade - que acarreta uma transformação na direção oposta - já nos é conhecida como o
trabalho de análise. Os demais problemas decorrentes dos sonhos - as questões relativas aos
instigadores do sonho, à origem de seu material, a seu possível sentido, à possível função do
sonhar e às razões pelas quais os sonhos são esquecidos - todos estes problemas serão por mim
examinados com base não no conteúdo manifesto, mas no recém-descoberto conteúdo latente do
sonho. Uma vez que atribuo todas as visões contraditórias e incorretas da vida onírica constantes
da bibliografia sobre o assunto à ignorância do conteúdo latente dos sonhos, tal como revelado
pela análise, terei doravante o máximo cuidado para evitar a confusão entre o sonho manifesto e
os pensamentos oníricos latentes.
III
A transformação dos pensamentos oníricos latentes no conteúdo manifesto do sonho
merece toda a nossa atenção, visto ser esse o primeiro exemplo que nos é conhecido de
transposição do material psíquico de um modo de expressão para outro, de um modo de
expressão que nos é imediatamente inteligível para outro que só podemos chegar a entender com
a ajuda de orientação e esforço, embora também ele deva ser reconhecido como uma função de
nossa atividade anímica.
No tocante à relação entre o conteúdo latente e o manifesto, os sonhos podem ser
divididos em três categorias. Em primeiro lugar, podemos distinguir os sonhos que fazem sentido e
são, ao mesmo tempo, inteligíveis, ou seja, que podem ser inseridos sem maior dificuldade no
contexto de nossa vida anímica. Temos inúmeros desses sonhos. Em sua maior parte, eles são
curtos e em geral nos parecem merecer pouca atenção, já que nada há de espantoso ou estranho
neles. Aliás, sua ocorrência constitui um poderoso argumento contra a teoria segundo a qual os
sonhos se originam da atividade isolada de grupos separados de células cerebrais. Eles não dão
nenhuma indicação de atividade psíquica reduzida ou fragmentária, mas, apesar disso, jamais
questionamos o fato de serem sonhos e não os confundimos com os produtos da vigília. Um
segundo grupo é formado pelos sonhos que, embora sejam coerentes em si e tenham um sentido
claro, produzem, ainda assim, um efeito desconcertante, pois não vemos como encaixar esse
sentido em nossa vida anímica. Tal é o caso ao sonharmos, por exemplo, que um parente de quem
gostamos morreu de peste, sem que tenhamos qualquer razão para esperar, temer ou presumir
uma coisa dessas; e nos perguntamos, assombrados: “Como é que fui arranjar essa idéia?” O
terceiro grupo, enfim, contém os sonhos destituídos de sentido ou inteligibilidade, que parecem
desconexos, confusos e sem significado. A esmagadora maioria dos produtos de nosso sonhar
exibe essas características, que constituem a base da opinião desfavorável que se tem dos sonhos
e fundamentam a teoria médica de que eles são o resultado de uma atividade anímica restrita.
Raramente faltam os mais evidentes sinais de incoerência, sobretudo nas composições oníricas de
extensão e complexidade consideráveis.
O contraste entre os conteúdos manifesto e latente dos sonhos só tem importância, é
claro, para os sonhos da segunda categoria e, mais particularmente, os da terceira. É aí que nos
confrontamos com enigmas que só desaparecem depois de substituirmos o sonho manifesto pelos
pensamentos latentes que estão por trás dele; e foi com um espécime da última categoria - um
sonho confuso e ininteligível - que se efetuou a análise que acabo de relatar. Contrariando nossas
expectativas, contudo, esbarramos em motivos que nos impediram de tomar pleno conhecimento
dos pensamentos oníricos latentes. A repetição de experiências semelhantes nos leva a suspeitar
de que existe uma relação íntima e regular entre a natureza ininteligível e confusa dos sonhos e a
dificuldade de comunicar os pensamentos que estão por trás deles. Antes de averiguarmos a
natureza dessa relação, será conveniente voltarmos nossa atenção para os sonhos mais
facilmente inteligíveis da primeira categoria, em que os conteúdos manifesto e latente coincidem e
parece haver uma conseqüente economia do trabalho do sonho.
Além disso, o exame desses sonhos oferece vantagens desde outro ponto de vista.
Ocorre que os sonhos das crianças são dessa índole - plenos de sentido e não-enigmáticos.
Temos aí, aliás, outro argumento contra a teoria que vai buscar a origem dos sonhos numa
atividade cerebral dissociada durante o sono, pois por que é que tal redução do funcionamento
psíquico seria característica do estado de sono dos adultos, mas não do das crianças? Por outro
lado, é-nos plenamente lícito esperar que a explicação dos processos psíquicos das crianças, em
que é bem possível que eles sejam muito simplificados, venha a se revelar um prelúdio
indispensável à investigação da psicologia dos adultos.
Assim, registrarei alguns exemplos de sonhos que colhi de crianças. Uma menininha de
dezenove meses teve de passar o dia inteiro sem comer por ter tido uma crise de vômitos pela
manhã; sua babá declarou que ela ficara indisposta por ter comido morangos. Na noite
subseqüente a esse dia de jejum, ouviram-na dizer seu nome durante o sono e acrescentar:
“Molangos, molangos silvestles, oméete, pudim!” Portanto, estava sonhando que fazia uma
refeição e, em seu cardápio, dava ênfase especial à iguaria específica da qual, tinha razões para
esperar, só lhe seriam permitidas escassas quantidades no futuro próximo. - Um menininho de
vinte e dois meses teve um sonho semelhante com uma regalia que lhe fora negada. Na véspera,
fora obrigado a presentear seu tio com um cesto de cerejas frescas, das quais ele
próprio,naturalmente, só pudera provar uma unidade. Acordou com esta alegre notícia: “Hermann
comeu todas as celejas!” - Certo dia, uma menina de três anos e três meses fez uma viagem por
um lago. O passeio, evidentemente, não lhe parecera longo o bastante, pois ela chorou quando
teve de sair do barco. Na manhã seguinte, comunicou que, durante a noite, estivera passeando no
lago: dera continuidade a sua viagem interrompida. Um menino de cinco anos e três meses deu
sinais de insatisfação durante uma caminhada pelas imediações do Dachstein. Cada vez que se
divisava uma nova montanha, ele queria saber se era o Dachstein, e por fim se recusou a visitar
uma cachoeira com o resto do grupo. Seu comportamento foi atribuído à fadiga, mas encontrou
uma explicação melhor quando, na manhã seguinte, ele contou ter sonhado que havia escalado o
Dachstein. É evidente que tivera a idéia de que a excursão terminaria numa escalada do Dachstein
e ficou deprimido ao ver que a montanha prometida nunca aparecia. Compensou, no sonho, aquilo
que o dia anterior não lhe pudera dar. - Uma menina de seis anos teve um sonho exatamente igual.
Durante um passeio, seu pai teve de parar antes de se atingir o objetivo pretendido porque estava
ficando tarde. No caminho de volta, ela reparou num poste de sinalização que indicava o nome de
outro local de excursão e o pai prometeu levá-la lá também em outra oportunidade. Na manhã
seguinte, ela recebeu o pai com a notícia de que sonhara que ele estivera com ela em ambos os
lugares.
O elemento comum em todos esses sonhos infantis é evidente. Todos realizaram
desejos que se haviam ativado durante o dia, mas permaneceram irrealizados. Os sonhos foram
simples e indisfarçadas realizações de desejo.
Eis aqui outro sonho infantil que, embora à primeira vista não seja muito fácil de
entender, também não passa de uma realização de desejo. Uma menininha de quatro anos
incompletos fora trazida do campo para a cidade por estar sofrendo de uma crise de poliomielite.
Passou a noite com uma tia que não tinha filhos e puseram-na para dormir numa cama grande -
grande demais para ela, é claro. Na manhã seguinte, contou ter sonhado que a cama era pequena
demais para ela, tão pequena que ela não cabia. É fácil reconhecer esse sonho como um sonho de
desejo, se nos recordarmos que as crianças expressam com muita freqüência o desejo de “serem
grandes”. O tamanho da cama foi um lembrete desagradável da pequenez da menina ainda não
crescida; assim, ela corrigiu a proporção indesejada no sonho e cresceu tanto que até a cama
grande ficou pequena demais para ela.
Mesmo quando o conteúdo dos sonhos infantis se torna complicado e sutil, nunca há
dificuldade em reconhecê-los como realizações de desejo. Um menino de oito anos sonhou que
estava andando numa biga com Aquiles e que Diomedes era o cocheiro. Constatou-se que, na
véspera, ele estivera mergulhado num livro de lendas sobre os heróis gregos, e foi fácil perceber
que havia tomado esses heróis por modelos e lamentava não estar em sua época.
Essa pequena coletânea destaca diretamente outra característica dos sonhos infantis:
sua ligação com a vida diurna. Os desejos neles realizados ficaram pendentes durante o dia e, em
regra geral, na véspera, e foram acompanhados na vigília por intensa coloração afetiva. Nada que
seja sem importância ou indiferente, ou que assim se afigure à criança, consegue penetrar no
conteúdo de seus sonhos.
Também nos adultos verifica-se a ocorrência de numerosos exemplos de sonhos desse
tipo infantil, embora, como afirmei, tenham geralmente um conteúdo sucinto. Desse modo, várias
pessoas reagem regularmente ao estímulo da sede durante a noite com sonhos de estarem
bebendo, que assim se esforçam por livrar-se do estímulo e permitir que o sono continue. Em
algumas pessoas, tais “sonhos de conveniência” freqüentemente ocorrem antes do despertar,
quando surge a necessidade de elas se levantarem. Elas sonham que já estão de pé frente ao
lavatório ou que já se encontram na escola ou no escritório, onde têm de chegar em determinado
horário. Na noite que precede uma viagem, não raro sonhamos já ter chegado a nosso destino; do
mesmo modo, antes de uma ida ao teatro ou a uma festa, o sonho muitas vezes antecipa o prazer
futuro - por impaciência, por assim dizer. Noutros sonhos, a realização de desejo se expressa num
grau mais indireto; é preciso estabelecer alguma ligação ou implicação - isto é, o trabalho de
interpretação tem de ser iniciado - para que se possa reconhecer a realização de desejo. Um
homem me contou, por exemplo, que sua jovem esposa sonhara que suas regras haviam
começado. Considerei que, se a menstruação dessa moça havia faltado, ela devia saber que se
defrontava com uma gravidez. Assim, ao comunicar seu sonho, estava anunciando sua gravidez, e
o sentido do sonho era mostrar realizado seu desejo de que a gravidez se retardasse um pouco
mais. Em condições inusitadas ou extremas, esses sonhos de caráter infantil são particularmente
comuns. Assim, o líder de uma expedição polar relatou que os membros de seu grupo, enquanto
passavam o inverno nos campos de gelo e viviam numa dieta monótona e com rações magras,
sonhavam regularmente, como crianças, com grandes refeições, com montanhas de fumo e que
estavam novamente em casa. [1]
Não é nada raro que, de um sonho relativamente longo, complicado e confuso em sua
totalidade, destaque-se um fragmento particularmente claro, que contém uma inequívoca
realização de desejo mas está vinculado a algum outro material ininteligível. No caso dos adultos,
entretanto, qualquer pessoa com alguma experiência em analisar seus sonhos verificará, para sua
surpresa, que mesmo os sonhos que têm a aparência de serem transparentemente claros
raramente são tão simples quanto os das crianças, e que por trás da realização de desejo evidente
pode ocultar-se algum outro sentido.
Seria, de fato, uma solução simples e satisfatória para o enigma dos sonhos se o
trabalho da análise nos habilitasse a encontrar a origem até mesmo dos sonhos mais sem sentido
e mais confusos dos adultos no tipo infantil de realização de um desejo intensamente sentido no
dia anterior. Não há dúvida, porém, de que as aparências não depõem em favor dessa expectativa.
Os sonhos costumam estar repletos do material mais indiferente e estranho, não havendo em seu
conteúdo nenhum sinal da realização de qualquer desejo.
Entretanto, antes de nos afastarmos dos sonhos infantis, com sua indisfarçada
realização de desejo, não devo deixar de mencionar uma das principais características dos sonhos,
que há muito se evidenciou e que ressalta precisamente nesse grupo com particular clareza. Cada
um desses sonhos pode ser substituído por uma frase desiderativa: “Ah, se o passeio no lago
tivesse durado mais!” - “Oxalá eu já estivesse asseado e vestido!” - “Que bom se eu pudesse ter
guardado as cerejas em vez de dá-las a meu tio!” Mas os sonhos nos fornecem mais do que essas
frases desiderativas. Mostram-nos o desejo já realizado; representam sua realização como real e
presente; e o material empregado na representação onírica consiste principalmente, embora não
exclusivamente, em situações e em imagens sensoriais, sobretudo de caráter visual. Portanto,
mesmo nesse grupo infantil, não está completamente ausente uma espécie de transformação que
merece ser descrita como trabalho do sonho: um pensamento expresso no subjuntivo [modo do
desejo] é substituído por uma representação no presente do indicativo.
IV
Estaremos inclinados a supor que algum tipo de transformação tenha ocorrido mesmo
nos sonhos confusos, embora não saibamos dizer se, também no caso deles, o que se
transformou foi um [enunciado] optativo. Entretanto, há dois trechos no exemplo de sonho que
relatei, e em cuja análise fizemos algum progresso, que nos dão motivo para suspeitar de algo
dessa natureza. A análise mostrou que minha mulher se havia interessado por outras pessoas à
mesa e que eu achara isso desagradável; o sonho continha precisamente o oposto disso - a
pessoa que tomou o lugar de minha mulher voltava toda sua atenção para mim. Mas uma
experiência desagradável não pode gerar nada mais apropriado do que o desejo de que seu
oposto tivesse ocorrido - que foi o que o sonho representou como realizado. Havia uma relação
exatamente igual entre o amargo pensamento revelado pela análise, de que eu nunca tivera nada
de graça, e a observação feita pela mulher do sonho - “O senhor sempre teve olhos tão bonitos”.
Assim, parte da oposição entre conteúdo manifesto e conteúdo latente do sonho é atribuível à
realização de desejo.
Mas outra conquista do trabalho do sonho, a qual tende a produzir sonhos incoerentes, é
ainda mais notável. Se, numa situação qualquer, compararmos o número de elementos de
representação ou o espaço tomado para anotá-los, no caso do sonho e no caso dos pensamentos
oníricos a que a análise nos conduz, e dos quais se encontram vestígios no próprio sonho, não nos
restará nenhuma dúvida de que o trabalho do sonho efetuou uma obra de compressão ou
condensação em larga escala. É impossível, a princípio, formar qualquer juízo sobre o grau dessa
condensação; no entanto, quanto mais fundo mergulharmos na análise do sonho, mais
impressionante ele se afigura. De cada elemento do conteúdo do sonho ramificam-se fios
associativos em duas ou mais direções; cada situação do sonho parece compor-se de duas ou
mais impressões ou experiências. Por exemplo, sonhei certa vez com uma espécie de piscina em
que os banhistas se espalhavam em todas as direções; num certo ponto da borda da piscina, havia
alguém de pé que se inclinava para um dos banhistas, como que para ajudá-lo a sair da água. A
situação era composta da lembrança de uma experiência que tive na puberdade e de dois quadros,
um dos quais eu vira pouco antes do sonho. Um deles era da série de Schwind que ilustra a lenda
de Melusina, mostrando as náiades surpreendidas em seu banho no lago (Cf. os banhistas
espalhados, no sonho); o outro era uma pintura do Dilúvio, de autoria de um mestre italiano; já a
pequena experiência recordada de minha puberdade era a de ter visto o instrutor de uma escola de
natação ajudando a sair da água uma dama que se demorara até depois do horário reservado para
os banhistas masculinos. - No caso do exemplo que escolhi para interpretação, a análise da
situação levou-me a uma pequena série de recordações, cada uma das quais fizera alguma
contribuição para o conteúdo do sonho. Em primeiro lugar, havia o episódio da época de meu
noivado do qual já falei. A pressão em minha mão debaixo da mesa, que fizera parte desse
episódio, forneceu ao sonho o detalhe “embaixo da mesa” - detalhe que tive de acrescentar como
uma reflexão feita a posteriori sobre minha lembrança do sonho. No episódio em si, não tinha
havido, é claro, nada de “voltar [toda a atenção] para mim”; a análise mostrou que esse elemento
era a realização de um desejo pela apresentação do oposto de um acontecimento real, e que
estava relacionado com o comportamento de minha mulher na table d’hôte. Por trás dessa
recordação recente, porém, ocultava-se uma cena parecidíssima e muito mais importante da época
de nosso noivado, que nos deixou brigados por um dia inteiro. A colocação da mão em meu joelho
pertencia a um contexto inteiramente diferente e dizia respeito a pessoas totalmente distintas. Esse
elemento do sonho, por sua vez, foi o ponto de partida de dois conjuntos independentes de
lembranças - e assim por diante.
O próprio material dos pensamentos oníricos reunido para formar a situação do sonho
deve adaptar-se, é claro, para esse fim. Deve haver um ou mais elementos comuns em todos os
componentes. O trabalho do sonho procede então como fazia Francis Galton ao produzir suas
fotografias de família. Superpõe os diversos componentes, por assim dizer, fazendo-os coincidir
um com o outro. O elemento comum a eles destaca-se então claramente da imagem conjunta,
enquanto os detalhes contraditórios quase que se anulam mutuamente. Esse método de produção
também explica, até certo ponto, os diversos graus da indefinição característica exibida por tantos
elementos do conteúdo do sonho. Baseando-se nessa descoberta, a interpretação do sonho
estabeleceu a seguinte regra: ao analisarmos um sonho, caso uma incerteza se decomponha num
“ou…ou”, devemos substituí-la, para fins de interpretação, por um “e”, e tomar cada uma das
aparentes alternativas como um ponto de partida independente para uma série de associações.
Quando um desses elementos comuns não se faz presente entre os elementos oníricos,
o trabalho do sonho trata de criá-lo, de maneira que seja possível dar aos pensamentos uma
representação comum no sonho. A maneira mais conveniente de reunir dois pensamentos oníricos
que a princípio nada têm em comum é alterar a forma verbal de um deles, e assim aproximá-lo do
outro, que pode estar similarmente revestido de uma nova forma de expressão lingüística. Há um
processo paralelo a esse na elaboração de rimas, onde o som semelhante tem de ser buscado da
mesma maneira que o elemento comum em nosso caso. Grande parte do trabalho do sonho
consiste na criação desse tipo de pensamentos intermediários, que são amiúde altamente
engenhosos, embora freqüentemente pareçam forçados; estes criam então um vínculo entre a
imagem composta no conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricos, que são diversos
em sua forma e essência e foram determinados pelos fatores motivadores do sonho. A análise de
nosso exemplo de sonho fornece-nos uma dessas situações em que um pensamento recebe uma
nova forma para entrar em contato com outro que lhe é essencialmente estranho. Ao conduzir a
análise, esbarrei no seguinte pensamento: “Às vezes eu gostaria de conseguir alguma coisa sem
pagar.” Com essa forma, porém, o pensamento não poderia ser empregado no conteúdo do sonho.
Por isso, recebeu uma nova formulação: “Eu gostaria de gozar de alguma coisa sem despesas
[‘Kosten’].” Ora, a palavra “Kosten”, em seu segundo sentido, adequa-se ao círculo de
representações da “table d’hôte” e, portanto, pôde ser representada no “espinafre” servido no
sonho. Quando em casa aparece à mesa um prato que as crianças recusam, a mãe começa por
tentar a persuasão e insiste em que “provem [‘Kosten‘] só um pouquinho”. Talvez pareça estranho
que o trabalho do sonho se sirva tão livremente da ambigüidade verbal, mas outras experiências
nos ensinarão que essa é uma ocorrência bastante comum.
O processo de condensação explica ainda certos componentes do conteúdo do sonho
que lhe são peculiares e não são encontrados no representar da vigília. O que tenho em mente são
as “personagens coletivas” e “mistas” e as estranhas “formações compostas”, criações que não
diferem muito dos animais mistos inventados pela fantasia dos povos do Oriente. Estes, porém, já
assumiram formas estereotipadas em nosso pensamento, ao passo que, nos sonhos, novas
formas compostas são perpetuamente construídas numa variedade inesgotável. Todos estamos
familiarizados com tais formações, a partir de nossos próprios sonhos.
Há muitas maneiras variadas de compor figuras desse tipo. Posso construir um
personagem dando-lhe as feições de duas pessoas, ou posso dar-lhe a forma de uma pessoa mas
pensar nela, no sonho, como tendo o nome de outra; posso ainda ter a imagem visual de uma
pessoa, mas colocá-la numa situação apropriada a outra. Em todos esses casos, a combinação de
diferentes pessoas num único representante no conteúdo do sonho tem um sentido: destina-se a
indicar um “e” ou um “assim como”, ou a comparar entre si as pessoas originais em algum aspecto
particular, que pode até ser especificado no próprio sonho. Em regra geral, contudo, esse elemento
comum entre as pessoas fusionadas só pode ser descoberto pela análise e só é indicado no
conteúdo do sonho pela formação da figura coletiva.
As estruturas mistas que ocorrem nos sonhos com tão imensa profusão são compostas
de maneiras igualmente variáveis, e as mesmas regras se aplicam a sua resolução. Não me é
necessário citar nenhum exemplo. Sua estranheza desaparece por completo uma vez que
tomemos a decisão de não classificá-las na mesma categoria dos objetos de nossa percepção de
vigília, mas sim de lembrar que são produtos da condensação onírica e enfatizam, numa forma
eficazmente abreviada, alguma característica comum dos objetos que estão assim combinados.
Também nesse caso, o elemento comum tem que ser descoberto, na maioria das vezes, através
da análise. O conteúdo do sonho simplesmente afirma, por assim dizer: “Todas estas coisas têm
em comum o elemento x.” A dissecação dessas formações mistas por meio da análise é
freqüentemente o caminho mais curto para descobrir o sentido de um sonho. - Assim, em certa
ocasião, sonhei que estava sentado num banco com um de meus antigos professores
universitários, e que o banco, cercado por outros, deslocava-se para a frente em rápida velocidade.
Isso era uma combinação de um salão de conferências com um trottoir roulant. Não levarei mais
adiante esta seqüência de idéias. - Noutra ocasião, eu estava sentado num vagão de trem e
segurava no colo um objeto com o formato de uma cartola [“Zylinderhut”, literalmente “chapeú
cilíndrico”], mas que era feito de vidro transparente. Essa situação fez-me pensar no provérbio: “Mit
den Hute in der Hand kommt man duchs ganze Land”. O cilindro de vidro levou-me, por um curto
desvio, a pensar na camisa de um lampião de gás incandescente [lâmpada de Auer], e logo
percebi que eu gostaria de fazer uma descoberta que me tornasse tão rico e independente quanto
meu compatriota, o Dr. Auer von Welsbach, tornou-se pela sua, e que gostaria de viajar em vez de
permanecer em Viena. No sonho, eu estava viajando com minha descoberta, o chapéu em forma
de cilindro de vidro - uma descoberta que por certo ainda não tinha grande utilidade prática. - O
trabalho do sonho gosta particularmente de reproduzir duas representações contrárias por uma
mesma formação mista. Assim, por exemplo, uma mulher teve um sonho em que se via
carregando um alto ramo de flores, tal como o que o anjo carrega nos quadros que representam a
Anunciação. (Isso representava a inocência; aliás, o nome dela era Maria.) Por outro lado, o ramo
estava coberto de grandes flores brancas semelhantes a camélias. (Isso representava o oposto da
inocência e estava associado com A dama das camélias.)
Boa parte do que aprendemos sobre a condensação nos sonhos pode ser resumida
nesta fórmula: cada elemento do conteúdo do sonho é “sobredeterminado” pelo material dos
pensamentos oníricos; não decorre de um único elemento dos pensamentos oníricos, podendo sua
origem remontar a toda uma série deles. Esses elementos não precisam necessariamente ter uma
estreita relação mútua nos próprios pensamentos oníricos; podem pertencer às mais distantes e
diversas regiões a trama desses pensamentos. O elemento onírico é, no sentido mais estrito da
palavra, o “representante” de todo esse material diverso no conteúdo do sonho. Mas a análise
revela ainda um outro lado da complexa relação entre o conteúdo do sonho e os pensamentos
oníricos. Assim como as ligações levam de cada elemento do sonho a diversos pensamentos
oníricos, também cada pensamento onírico isolado, em geral, é representado por mais de um
elemento do sonho; os fios da associação não convergem simplesmente dos pensamentos oníricos
para o conteúdo do sonho, mas se cruzam e entrelaçam muitas vezes no curso de sua jornada.
A condensação, juntamente com a transformação dos pensamentos em situações
(“dramatização”) é a característica mais importante e peculiar do trabalho do sonho. Até agora,
porém, nada transpirou sobre algum motivo que pudesse exigir essa compressão do material.
V
No caso dos sonhos complicados e confusos em que estamos agora interessados, a
simples condensação e dramatização não bastam para explicar a totalidade da impressão que nos
causa a dessemelhança entre o conteúdo do sonho e os pensamentos oníricos. Temos provas da
operação de um terceiro fator, e essas provas merecem cuidadosa triagem.
Antes de mais nada, quando chegamos, por meio da análise, ao conhecimento dos
pensamentos oníricos, observamos que o conteúdo manifesto do sonho lida com um material
inteiramente diferente dos pensamentos latentes. Isso, por certo, não passa de uma aparência que
se evapora ante um exame mais detido, pois acabamos descobrindo que a totalidade do conteúdo
do sonho deriva dos pensamentos oníricos e que quase todos os pensamentos oníricos se acham
representados no conteúdo do sonho. Não obstante, ainda persiste algo dessa diferença. O que
sobressai nítida e claramente do sonho como seu conteúdo essencial tem de se contentar, depois
da análise, em desempenhar um papel extremamente subalterno entre os pensamentos oníricos; e
aquilo que, ante a prova dada por nossos sentimentos, tem direito a ser o mais proeminente entre
os pensamentos oníricos, ou bem não se acha presente como material de representações no
conteúdo do sonho ou recebe apenas uma alusão remota em alguma região obscura do sonho.
Podemos expressar isso da seguinte maneira: no decurso do trabalho do sonho, a intensidade
psíquica se transfere dos pensamentos e representações a que propriamente corresponde para
outros que, a nosso juízo, não têm nenhum direito a essa ênfase. Nenhum outro processo contribui
tanto para ocultar o sentido do sonho e para tornar irreconhecível a ligação entre o conteúdo
onírico e os pensamentos oníricos. No decorrer desse processo, que descreverei como
“deslocamento onírico”, a intensidade psíquica, a importância ou a potencialidade afetiva dos
pensamentos se transforma, como constatamos ainda, em vividez sensorial. Presumimos, sem
maiores considerações, que o elemento mais nítido no conteúdo manifesto de um sonho é o mais
importante, mas, na verdade [graças ao deslocamento ocorrido], muitas vezes um elemento
indistinto é o que se revela como o derivado mais direto do pensamento onírico essencial.
O que chamei de deslocamento onírico poderia ser igualmente descrito [na expressão de
Nietzsche] como “uma transposição dos valores psíquicos”. Mas não terei feito uma apreciação
exaustiva desse fenômeno enquanto não acrescentar que esse trabalho de deslocamento ou
transposição de valores é executado em graus muito variáveis nos diferentes sonhos. Há sonhos
que se produzem quase sem nenhum deslocamento. São eles os que fazem sentido e são
inteligíveis, como, por exemplo, aqueles que reconhecemos como sonhos de desejo indisfarçados.
Por outro lado, existem sonhos em que nem um fragmento sequer dos pensamentos oníricos
preservou seu próprio valor psíquico, ou nos quais tudo o que era essencial nos pensamentos
oníricos foi substituído por algo trivial. E entre esses dois extremos podemos encontrar toda uma
série de casos transicionais. Quanto mais obscuro e confuso parece um sonho, maior a parcela
atribuível ao fator do deslocamento em sua formação.
Nosso exemplo de sonho exibe pelo menos um grau de deslocamento tal que seu
conteúdo parece ter um centro diferente do de seus pensamentos oníricos. No primeiro plano do
conteúdo do sonho, ocupa lugar proeminente uma situação em que uma mulher parece me fazer
investidas amorosas; já nos pensamentos oníricos, a ênfase principal recai sobre o desejo de ao
menos uma vez desfrutar de um amor desinteressado, um amor que “não custe nada”, idéia esta
que se oculta por trás da frase a respeito dos “olhos tão bonitos” [“belos olhos”] e da alusão forçada
a “espinafre”.
Se desfazemos o deslocamento onírico por meio da análise, obtemos o que parecem ser
informações completamente fidedignas sobre dois problemas muito debatidos no tocante aos
sonhos: seus instigadores e sua ligação com a vida de vigília. Há sonhos que revelam
imediatamente sua derivação dos acontecimentos do dia; em outros não se descobre nenhum
vestígio dessa derivação. Quando pedimos ajuda à análise, descobrimos que todo sonho, sem
nenhuma exceção possível, remonta a uma impressão dos últimos dias ou, como provavelmente
seria mais correto dizer, do dia imediatamente anterior ao sonho, do “dia do sonho”. A impressão
que desempenha o papel de instigador do sonho pode ser tão importante que não nos surpreenda
o fato de nos ocuparmos dela durante o dia e, nesse caso, dizemos do sonho, acertadamente, que
ele dá prosseguimento aos interesses significativos de nossa vida de vigília. Em geral,porém,
quando se encontra no conteúdo do sonho uma ligação com alguma impressão da véspera, essa
impressão é tão banal, insignificante e indigna de ser lembrada que é somente com dificuldade que
nós mesmos conseguimos recordá-la. E nesses casos, o próprio conteúdo do sonho, mesmo que
seja coerente e inteligível, parece ocupar-se das mais indiferentes trivialidades, que seriam
indignas de nosso interesse se estivéssemos acordados. Boa parte do desprezo que se vota aos
sonhos deve-se à preferência assim mostrada em seu conteúdo pelo que é indiferente e trivial.
A análise desfaz a aparência enganadora em que se fundamenta esse juízo
desdenhoso. Se o conteúdo do sonho destaca alguma impressão indiferente como sua instigadora,
a análise invariavelmente traz à luz uma vivência significativa, pela qual o sonhador tem boas
razões para ser estimulado. Essa vivência foi substituída pela indiferente, com a qual está ligada
por abundantes vínculos associativos. Enquanto o conteúdo do sonho trata de um material de
representações insignificante e desinteressante, a análise desvenda as numerosas vias
associativas que ligam essas trivialidades com coisas da mais alta importância psíquica na
estimativa do sonhador. Se o que penetra no conteúdo dos sonhos são impressões e material
indiferentes e triviais, e não justificadamente estimuladores e interessantes, isso é apenas o efeito
do processo de deslocamento. Se respondermos a nossas perguntas sobre os instigadores do
sonho e a vinculação entre o sonhar e os assuntos cotidianos com base no novo discernimento
que adquirimos da substituição do conteúdo manifesto pelo conteúdo latente dos sonhos,
chegaremos às seguintes conclusões: os sonhos nunca se ocupam de coisas que não julgaríamos
merecedoras de nosso interesse durante o dia, e as trivialidades que não nos afetam durante o dia
são incapazes de acompanhar-nos em nosso sono.
Qual foi o instigador do sonho no exemplo que escolhemos para análise? Foi o evento
decididamente insignificante de meu amigo ter-me oferecido uma corrida de táxi gratuita. A
situação da table d’hôte no sonho continha uma alusão a essa causa precipitante banal, pois, em
minha conversa, eu havia comparado o taxímetro a uma table d’hôte. Mas posso também apontar
a vivência importante representada por essa vivência trivial. Alguns dias antes, eu desembolsara
uma considerável soma em dinheiro em favor de um membro de minha família que me é querido.
Não surpreende, diziam os pensamentos oníricos, que essa pessoa se sentisse grata a mim: um
amor desses não seria “gratuito”. O amor gratuito, porém, ficou em primeiro plano nos
pensamentos oníricos. O fato de, não muito antes, eu ter feito diversas corridas de táxi com o
parente em questão tornou possível que a corrida de táxi com meu amigo me lembrasse de minhas
ligações com essa outra pessoa.
A impressão indiferente que se torna instigadora do sonho graças a esse tipo de
associações está sujeita a uma outra condição que não se aplica à verdadeira fonte do sonho: ela
deve ser sempre uma impressão recente, que provenha do dia do sonho.
Não posso abandonar o tema do deslocamento onírico sem chamar atenção para um
processo notável que ocorre na formação dos sonhos e no qual a condensação e o deslocamento
combinam-se para produzir o resultado. Ao examinarmos a condensação, já vimos a maneira como
duas representações dos pensamentos oníricos que tenham algo em comum, algum ponto de
contato, são substituídas no conteúdo do sonho por uma representação composta, na qual um
núcleo relativamente nítido retrata o que elas têm em comum, enquanto alguns detalhes colaterais
indistintos correspondem aos aspectos em que elas diferem entre si. Quando, além da
condensação, ocorre o deslocamento, o que se forma não é uma representação mista, mas sim
uma “entidade comum intermediária”, que mantém com os dois elementos diferentes uma relação
semelhante à que é mantida pela resultante de um paralelograma de forças com seus
componentes. Por exemplo, no conteúdo de um de meus sonhos, falava-se numa injeção de propil.
De início, a análise levou-me apenas a uma vivência indiferente que agira como instigadora do
sonho e na qual tinha havido uma participação da amila. Ainda não me era possível justificar a
confusão entre amila e propil. No grupo de representações por trás do mesmo sonho, entretanto,
havia também uma recordação de minha primeira visita a Munique, onde o Propileu me havia
chamado a atenção. Os pormenores da análise tornavam plausível supor que a influência desse
segundo grupo de representações sobre o primeiro é que fora responsável pelo deslocamento de
amila para propil. Propil é, por assim dizer, uma representação intermediária entre amila e propileu,
e penetrou no conteúdo do sonho como uma espécie de compromisso, através de condensação e
deslocamento simultâneos.
Mais ainda do que no processo de condensação, há no processo de deslocamento uma
premente necessidade de descobrir o motivo desses enigmáticos esforços por parte do trabalho do
sonho.
VI
É o processo de deslocamento o principal responsável por sermos incapazes de
descobrir ou reconhecer os pensamentos oníricos no conteúdo do sonho, a menos que
compreendamos a razão de sua distorção. Não obstante, os pensamentos oníricos são também
submetidos a outra forma de transformação, mais suave, que leva à descoberta de uma nova
conquista por parte do trabalho do sonho, porém uma conquista facilmente inteligível. Os primeiros
pensamentos oníricos com que deparamos ao prosseguir na análise freqüentemente nos
impressionam pela forma inusitada em que são expressos; não se revestem da linguagem sóbria
que costuma ser empregada por nossos pensamentos, mas, ao contrário, são simbolicamente
representados por meio de símiles e metáforas, em imagens semelhantes às do discurso poético.
Não há dificuldade em explicar o constragimento imposto à forma pela qual os pensamentos
oníricos se expressam. O conteúdo manifesto dos sonhos consiste, em sua maior parte, em
situações pictóricas, e os pensamentos oníricos, por conseguinte, devem ser submetidos, em
primeiro lugar, a um tratamento que os torne adequados a esse tipo de representação. Se nos
imaginarmos diante do problema de representar os argumentos de um editorial político ou os
discursos dos advogados perante um tribunal numa série de imagens, compreenderemos com
facilidade as modificações que precisam necessariamente ser efetuadas pelo trabalho do sonho,
devido a considerações à representabilidade no conteúdo do sonho.
O material psíquico dos pensamentos oníricos inclui, habitualmente, recordações de
vivências marcantes - não raro da primeira infância - que portanto são em si percebidas, em geral,
como situações que têm um conteúdo visual. Sempre que surge a possibilidade, essa parte dos
pensamentos oníricos exerce uma influência decisiva sobre a forma assumida pelo conteúdo do
sonho; constitui, por assim dizer, um núcleo de cristalização que atrai para si o material dos
pensamentos oníricos e, desse modo, afeta sua distribuição. A situação do sonho não é, com
freqüência, outra coisa senão uma repetição modificada, e complicada por interpolações, de uma
dessas vivências marcantes; por outro lado, as reproduções fiéis e diretas de cenas reais
raramente aparecem nos sonhos.
O conteúdo dos sonhos, todavia, não consiste inteiramente em situações, mas inclui
também fragmentos desconexos de imagens visuais, ditos e até fragmentos de pensamentos
inalterados. Portanto, talvez seja interessante enumerar muito sucintamente os modos de
representação de que dispõe o trabalho do sonho para reproduzir os pensamentos oníricos na
forma peculiar de expressão necessária aos sonhos.
Os pensamentos oníricos a que chegamos por meio da análise revelam-se como um
complexo psíquico da mais intricada estrutura possível. Suas partes mantêm entre si as mais
variadas relações lógicas: representam primeiros planos e panos de fundo, condições, digressões
e ilustrações, seqüências de provas e contra-argumentações. Cada cadeia de pensamentos é
quase invariavelmente acompanhada por sua contrapartida contraditória. Não falta a esse material
nenhuma das características que nos são familiares por nosso pensamento de vigília. Ora, quando
tudo isso tem de ser transformado num sonho, o material psíquico é submetido a uma pressão que
o condensa enormemente, a uma fragmentação interna e a um deslocamento que criam, por assim
dizer, novas superfícies, e a uma operação seletiva em prol de suas partes mais apropriadas para
construir situações. Ao levarmos em conta a gênese do material, um processo dessa natureza
merecerá ser descrito como uma “regressão”. No curso dessa transformação, contudo, perdem-se
os vínculos lógicos que até então mantinham unido o material psíquico. É somente o conteúdo
substantivo dos pensamentos oníricos, por assim dizer, que o trabalho do sonho domina e
manipula. A restauração das ligações destruídas pelo trabalho do sonho é uma tarefa a ser
executada pelo trabalho de análise.
Portanto, os meios de expressão ao alcance do sonho podem ser qualificados de
escassos em comparação com os de nossa linguagem intelectual; ainda assim, o sonho não
precisa abandonar por completo a possibilidade de reproduzir as relações lógicas presentes nos
pensamentos oníricos. Pelo contrário, ele logra com bastante freqüência substituí-los por
características formais de sua própria urdidura.
Em primeiro lugar, os sonhos levam em conta a ligação que inegavelmente existe entre
todas as partes dos pensamentos oníricos, combinando a totalidade do material numa única
situação. Reproduzem o encadeamento lógico pela proximidade no tempo e no espaço, assim
como um pintor representa todos os poetas num único grupo num quadro do Parnaso. É verdade
que eles nunca estiveram de fato reunidos num único cimo de montanha, mas certamente formam
um grupo conceitual. Os sonhos levam esse método de representação aos mínimos detalhes e,
freqüentemente, quando nos mostram muito próximos dois elementos do conteúdo do sonho, isso
indica que há alguma ligação especialmente íntima entre o que a eles corresponde nos
pensamentos oníricos. A propósito, cabe observar que todos os sonhos produzidos numa mesma
noite dão a conhecer, na análise, que derivam do mesmo círculo de pensamentos.
A relação causal entre dois pensamentos ou é deixada sem representação, ou é
substituída por uma seqüência de dois trechos de sonho de extensão diferente. Aqui, a
representação freqüentemente se inverte, com o princípio do sonho representando a
conseqüência, e sua conclusão, a premissa. A transformação imediata de uma coisa em outra no
sonho parece representar a relação de causa e efeito.
A alternativa “ou… ou” nunca se expressa nos sonhos, sendo ambas as alternativas
inseridas no texto do sonho como se fossem igualmente válidas. Já mencionei que o “ou…ou”
empregado no relato do sonho deve ser traduzido por “e”. [Ver em [1].]
As representações opostas são preferencialmente expressas nos sonhos por um único
elemento. O “não” parece inexistir no que concerne aos sonhos. A oposição entre dois
pensamentos, a relação de inversão, pode ser representada nos sonhos de maneira realmente
notável. Pode ser representada pela transformação de outra parte do conteúdo onírico em seu
oposto - como numa reflexão a posteriori, por assim dizer. Em breve tomaremos conhecimento de
outro método para expressar a contradição. A sensação de inibição do movimento, tão comum nos
sonhos, serve também para expressar uma contradição entre dois impulsos, um conflito da
vontade.
Uma única dessas relações lógicas - a de similaridade, consonância, a posse de
atributos comuns - é favorecida em altíssimo grau pelo mecanismo da formação do sonho. O
trabalho do sonho se vale desses casos como base para a condensação onírica, reunindo tudo o
que exibe tal concordância numa nova unidade.
Esta breve série de apontamentos grosseiros é insuficiente, por certo, para lidar com
toda a gama de meios formais empregados pelos sonhos para a expressão de relações lógicas nos
pensamentos oníricos. Os diferentes sonhos formam-se com maior ou menor cuidado nesse
aspecto; atêm-se com maior ou menor exatidão ao texto que lhes é apresentado; empregam em
maior ou menor grau os expedientes ao alcance do trabalho do sonho. Na segunda dessas
alternativas, eles se mostram obscuros, confusos e desconexos. Quando, no entanto, um sonho se
afigura obviamente absurdo, quando seu conteúdo inclui um absurdo palpável, isso se dá
intencionalmente; seu aparente desprezo por todos os requisitos da lógica expressa parte do
conteúdo intelectual dos pensamentos oníricos. O absurdo no sonho significa a presença, nos
pensamentos oníricos, de contradição, escárnio e ironia. Uma vez que esta afirmação se opõe de
maneira extremamente acentuada à opinião de que os sonhos são produto de uma atividade
mental dissociada e acrítica, quero enfatizá-la através de um exemplo.
Um de meus conhecidos, o Sr. M., fora atacado num ensaio com um injustificado grau de
violência, ao que todos pensamos, por ninguém menos que Goethe. O Sr. M., naturalmente, ficou
arrasado com o ataque. Queixou-se amargamente dele com algumas pessoas que o
acompanhavam à mesa; sua veneração por Goethe, entretanto, não foi afetada por essa
experiência pessoal. Tentei esclarecer um pouco os dados cronológicos, que me pareciam
improváveis. Goethe morreu em 1832. Uma vez que seu ataque ao Sr. M. naturalmente teria sido
feito antes disso, o Sr. M. devia ser um homem muito jovem na ocasião. Pareceu-me uma noção
plausível que tivesse dezoito anos. Eu não tinha muita certeza, porém, do ano em que
escrevíamos, de modo que todo o meu cálculo se desfazia na obscuridade. A propósito, o ataque
estava contido no famoso ensaio de Goethe sobre a “Natureza”.
O caráter absurdo desse sonho ficará ainda mais flagramente óbvio se eu explicar que o
Sr. M. é um homem de negócios ainda moço, que está muito longe de ter quaisquer interesses
poéticos e literários. Não tenho dúvidas, porém, de que uma vez penetrando na análise do sonho,
conseguirei mostrar quanto “método” existe em seu contra-senso.
O material do sonho decorreu de três fontes:
(1) O Sr. M., com quem travei conhecimento entre algumas pessoas à mesa, pediu-me
um dia que examinasse seu irmão mais velho, que estava mostrando sinais de atividade mental
perturbada. No decorrer de minha conversa com o paciente ocorreu um episódio embaraçoso, pois
ele entregou o irmão, sem nenhuma razão justificável, ao falar sobre suas loucuras da juventude.
Eu havia perguntado ao paciente o ano de seu nasciment. (cf. o ano da morte de Goethe, no
sonho) e o fizera efetuar diversos cálculos para testar a debilitação de sua memória.
(2) Um periódico médico, que, entre outros, trazia meu nome na folha de rosto, publicara
uma crítica positivamente “arrasadora”, feita por um crítico jovem, de um livro de meu amigo F., de
Berlim. Pedi explicações disso ao editor, mas, embora expressasse seu pesar, ele se recusou a
fazer qualquer retratação. Assim, cortei relações com o periódico, mas, em minha carta de
renúncia, expressei a esperança de que nossas relações pessoais não fossem afetadas pelo
acontecimento. Essa era a verdadeira fonte do sonho. A recepção desfavorável do trabalho de meu
amigo causara-me profunda impressão. O livro continha, em minha opinião, uma descoberta
biológica fundamental, que só agora - passados muitos anos - começa a ter boa acolhida dos
especialistas.
(3) Uma paciente minha, pouco tempo antes, dera-me uma descrição da enfermidade de
seu irmão e de como ele entrara num delírio frenético aos gritos de “Natureza! Natureza!”. Os
médicos acreditavam que sua exclamação provinha de ele ter lido o notável ensaio de Goethe
sobre esse assunto e que isso denotava que ele se vinha sobrecarregando com um excesso de
trabalho em seus estudos. Eu havia comentado parecer-me mais plausível que sua exclamação da
palavra “Natureza” fosse tomada no sentido sexual em que é empregada aqui pelas pessoas
menos cultas. Pelo menos, pensei, essa minha idéia não foi refutada, dado o fato de que o pobre
rapaz depois mutilou seus próprios órgãos genitais. Ele tinha dezoito anos na ocasião de seu surto.
Por trás de meu próprio eu, no conteúdo do sonho, ocultava-se, em primeiro lugar, meu
amigo que fora tão maltratado pelo crítico. “Tentei esclarecer um pouco os dados cronológicos.” O
livro de meu amigo versava sobre os dados cronológicos da vida e, entre outras coisas, mostrava
que a extensão da vida de Goethe era um múltiplo de um certo número de dias que tem
importância na biologia. Mas esse eu era comparado com um paralítico: “Eu não tinha muita
certeza, porém, do ano em que escrevíamos”. Assim, o sonho fez com que meu amigo parecesse
comportar-se como um paralítico e, nesse aspecto, era um amontoado de absurdos. Os
pensamentos oníricos, porém, diziam ironicamente: “Naturalmente, ele [meu amigo F.] é que é um
tolo, um maluco, e vocês [os críticos] é que são os gênios que sabem de tudo. É claro que não
seria o inverso, não é?” Havia inúmeros exemplos dessa inversão no sonho. Por exemplo, Goethe
atacava o rapaz, o que é absurdo, ao passo que ainda é fácil um homem bem jovem atacar o
grande Goethe.
Eu gostaria de sustentar que nenhum sonho é instigado por moções que não sejam
egoístas. Na realidade, o eu desse sonho não representa apenas meu amigo, mas também a mim.
Identifiquei-me com ele porque o destino de sua desoberta parecia prenunciar a recepção das
minhas. Se eu expusesse minha teoria que ressalta o papel desempenhado pela sexualidade na
etiologia dos distúrbios psiconeuróticos (cf. a alusão ao grito de “Natureza! Natureza!” do paciente
de dezoito anos), depararia com as mesmas críticas; e já me estava preparando para enfrentá-las
com o mesmo escárnio.
Quando prosseguimos no exame dos pensamentos oníricos, continuamos a encontrar o
escárnio e o desprezo como correlatos dos absurdos do sonho manifesto. É bem sabido que foi a
descoberta do crânio fendido de uma ovelha no Lido de Veneza que deu a Goethe a idéia da
chamada teoria “vertebral” do crânio. Meu amigo se vangloria de que, quando estudante,
desencadeou uma tempestade que levou à destituição de um velho professor que, embora um dia
se tivesse distinguido (entre outras coisas, precisamente em conexão com o mesmo ramo de
anatomia comparada), havia-se tornado incapaz de ensinar devido à demência senil. Assim, a
agitação provocada por meu amigo serviu para combater o nocivo sistema o segundo qual não
existe limite de idade para os funcionários acadêmicos nas universidades alemãs - porque a idade,
proverbialmente, não é defesa contra a loucura. - No hospital daqui, tive a honra de servir durante
anos sob as ordens de um chefe que há muito era um fóssil e que por décadas fora notoriamente
um débil mental, mas que tinha permissão para continuar exercendo seu cargo de
responsabilidade. Nesse ponto, pensei num termo descritivo baseado na descoberta do Lido.
Alguns de meus jovens contemporâneos de hospital inventaram, a propósito desse homem, uma
versão do que era então uma canção popular: “Das hat kein Goethe g’schrieben, das hat kein
Schiller g’dicht…”
VII
Ainda não chegamos ao término de nossa consideração do trabalho do sonho. Além da
condensação, do deslocamento e da disposição pictórica do material psíquico, somos obrigados a
atribuir-lhe mais uma atividade, embora esta não se mostre em operação em todos os sonhos. Não
tratarei exaustivamente dessa parte do trabalho do sonho e, sendo assim, limito-me a observar que
a maneira mais fácil de se ter uma representação de sua natureza é supor - embora a suposição
provavelmente não corresponda aos fatos - que ela só entra em ação DEPOIS de se ter formado o
conteúdo onírico. Sua função consistiria, portanto, em dispor os componentes do sonho de tal
maneira que eles formem um todo mais ou menos interligado, uma composição onírica. Desse
modo, o sonho recebe uma espécie de fachada (embora, é verdade, ela não oculte seu conteúdo
em todos os pontos), e assim recebe uma primeira interpretação preliminar, que é apoiada por
interpolações e ligeiras modificações. A propósito, essa elaboração do conteúdo do sonho só é
possível quando não é executada com excessiva meticulosidade; ademais, ela não nos oferece
nada além de um flagrante mal-entendido dos pensamentos oníricos. Antes de iniciarmos a análise
de um sonho, temos que livrar o terreno dessa tentativa de interpretação.
A motivação dessa parte do trabalho do sonho é particularmente óbvia. A consideração à
inteligibilidade é o que leva a essa elaboração final do sonho, e isso revela a origem dessa
atividade. Frente ao conteúdo onírico que tem diante de si, ela se comporta exatamente como o faz
nossa atividade psíquica normal, em geral, diante de qualquer conteúdo perceptivo que lhe seja
apresentado. Entende esse conteúdo com base em certas representações antecipatórias e o
ordena, já no momento de percebê-lo, segundo a pressuposição de que seja inteligível; assim
procedendo, ela corre o risco de falseá-lo e, de fato, quando não consegue harmonizá-lo como
algo já familiar, torna-se presa dos mais estranhos mal-entendidos. Como é sabido, somos
incapazes de ver uma série de sinais estranhos ou de ouvir uma sucessão de palavras
desconhecidas sem falsear de imediato a percepção por uma consideração à inteligibilidade, com
base em alguma coisa já conhecida.
Os sonhos que passaram por esse tipo de elaboração por parte de uma atividade
psíquica completamente análoga ao pensamento de vigília podem ser descritos como “bemconstruídos”.
No caso de outros sonhos, essa atividade falhou por completo; não se fez sequer
uma tentativa de ordenar ou interpretar o material, e como, depois de acordar, sentimo-nos
identificados com essa última parte do trabalho do sonho, formamos o juízo de que o sonho foi
“irremediavelmente confuso”. Do ponto de vista da análise, contudo, um sonho que se assemelhe a
um amontoamento desordenado de fragmentos desconexos é tão valioso quanto outro
cuidadosamente burilado e provido de uma superfície. No primeiro caso, inclusive, é-nos poupado
o trabalho de demolir o que foi superposto ao conteúdo onírico.
Seria um equívoco, porém, supor [1] que essas fachadas de sonho não passam de
elaborações errôneas e um tanto arbitrárias do conteúdo do sonho pela instância consciente de
nossa vida anímica. Na produção da fachada do sonho empregam-se, não raro, fantasias de
desejo presentes nos pensamentos oníricos sob forma pré-construída, e que têm o mesmo caráter
dos apropriadamente chamados “sonhos diurnos”, que nos são familiares na vida de vigília. As
fantasias de desejo reveladas pela análise nos sonhos noturnos com freqüência se revelam
repetições ou versões modificadas de cenas da infância; por isso, em alguns casos, a fachada do
sonho revela diretamente o núcleo real do sonho, distorcido pela mescla com outro material.
O trabalho do sonho não exibe nenhuma outra atividade senão as quatro que já foram
mencionadas. Se nos atemos à definição de “trabalho do sonho” como o processo de
transformação dos pensamentos oníricos no conteúdo do sonho, decorre daí que o trabalho do
sonho não é criativo, não desenvolve fantasias que lhe sejam próprias, não emite juízos e não tira
conclusões; não tem outras funções que não sejam a condensação e o deslocamento do material e
sua transmutação em forma pictórica, ao que se deve acrescentar,como fator variável, a parcela
final de elaboração interpretativa. É verdade que, no conteúdo do sonho, encontramos diversas
coisas que nos inclinaríamos a encarar como produto de alguma outra função intelectual superior,
mas, na totalidade dos casos, a análise mostra convincentemente que essas operações
intelectuais estavam previamente efetuadas nos pensamentos oníricos e que foram apenas
INCORPORADAS pelo conteúdo do sonho. Uma conclusão tirada no sonho nada mais é do que a
repetição de uma conclusão dos pensamentos oníricos; quando essa conclusão é transposta para
o sonho sem modificação, ela se afigura impecável; quando o trabalho do sonho a desloca para
algum outro material, parece absurda. Um cálculo no conteúdo do sonho não significa nada além
da existência de um cálculo nos pensamentos oníricos; todavia, enquanto este último é sempre
racional, o cálculo do sonho pode produzir os resultados mais desvairados, caso seus fatores
sejam condensados ou suas operações matemáticas sejam deslocadas para outro material. Nem
sequer os ditos que ocorrem no conteúdo onírico são composições originais; revelam-se uma
miscelânea de ditos proferidos, escutados ou lidos, que se reavivaram nos pensamentos oníricos e
cujo enunciado é produzido com exatidão, ao passo que sua origem é inteiramente desprezada e
seu sentido, violentamente alterado.
Talvez seja bom apoiar estas últimas afirmativas em alguns exemplos.
(1) Eis um sonho bem construído e de aparência inocente, produzido por uma paciente:
Ela sonhou que estava indo ao mercado com a cozinheira, que carregava a cesta.
Depois de ela haver pedido algo, o açougueiro lhe disse: “Isso não se consegue mais” e lhe
ofereceu outra coisa, acrescentando: “Isto também é bom.” Ela o rejeitou e se dirigiu à mulher que
vendia verduras, que tentou convencê-la a comprar uma estranha hortaliça, que vinha amarrada
em feixes mas era de cor negra. Disse: “Não reconheço isso: não vou levá-lo.”
O comentário “Isso não se consegue mais” provinha do próprio tratamento. Alguns dias
antes, eu havia explicado à paciente, com essas mesmas palavras, que as lembranças infantis
mais antigas “não se conseguiam mais como tais”, sendo substituídas, na análise, por
“transferências” e sonhos. Portanto, o açougueiro era eu.
O segundo dito - “Não reconheço isso” - ocorrera num contexto inteiramente diverso. No
dia anterior, ela havia repreendido a cozinheira, que aliás também aparecia no sonho, com as
palavras: “Comporte-se direito! Não reconheço isso!”, querendo dizer, sem dúvida, que não
compreendia tal comportamento e não o toleraria. Em conseqüência do deslocamento, foi a parte
mais inocente desse dito que penetrou no conteúdo do sonho, mas, nos pensamentos oníricos,
apenas a outra parte do dito é que desempenhava um papel. Ocorre que o trabalho do sonho havia
reduzido à completa ininteligibilidade e à inocência extrema uma situação fantasiosa em que eu me
comportaria de maneira imprópria com essa dama, de um modo especial. Mas essa situação
esperada pela paciente em sua fantasia era, por sua vez, apenas uma reedição de algo que ela
realmente vivenciara um dia. [1]
(II) Eis um sonho de aparência totalmente sem sentido, contendo números. Ela ia pagar
alguma coisa. Sua filha retirou-lhe da bolsa 3 florins e 65 kreuzers, mas ela lhe disse: “O que está
fazendo? Custa só 21 kreuzers.”
A sonhadora viera do exterior e sua filha estava numa escola daqui; estaria em
condições de prosseguir seu tratamento comigo enquanto a filha permanecesse em Viena. No dia
anterior ao sonho, a diretora da escola lhe sugerira que ela deixasse a filha no colégio por mais um
ano. Nesse caso, ela também poderia continuar com o tratamento por um ano. As cifras do sonho
tornam-se significativas se nos lembrarmos que “tempo é dinheiro”. Um ano é igual a 365 dias ou,
expresso em dinheiro, 365 kreuzers, ou 3 florins e 65 kreuzers. Os 21 kreuzers correspondiam às 3
semanas que ainda transcorreriam entre o dia do sonho e o final do período letivo, e também até o
término do tratamento da paciente. Evidentemente, eram as considerações financeiras que haviam
induzido essa dama a recusar a proposta da diretora e que eram responsáveis pela pequenez das
somas mencionadas no sonho.
(III) Uma dama que, embora ainda jovem, já estava casada há vários anos, recebeu a
notícia de que uma conhecida sua, a Srta. Elise L., que tinha quase exatamente a sua idade, havia
ficado noiva. Essa foi a causa precipitante do seguinte sonho:
Ela estava no teatro com o marido. Um lado da platéia estava completamente vazio. O
marido lhe contou que Elise L., e seu noivo tinham querido ir também, mas só haviam conseguido
lugares ruins - três por um florim e 50 kreuzers - e, naturalmente, não puderam aceitá-los. Ela
pensou que realmente não lhes teria causado nenhum prejuízo fazê-lo.
O que nos interessa aqui é a fonte dos números no material dos pensamentos oníricos e
as transformações que sofreram. De onde proviria a cifra de 1 florim e 50 kreuzers? Provinha do
que, na realidade, fora um acontecimento irrelevante da véspera. Sua cunhada fora presenteada
pelo marido com 150 florins e se apressara a livrar-se deles comprando uma jóia. Convém notar
que 150 florins são cem vezes mais que 1 florim e 50 kreuzers. A única ligação com os “três”, que
era o número de entradas de teatro, estava em que sua amiga que acabara de ficar noiva era
precisamente três meses mais moça que ela. A situação do sonho era a repetição de um pequeno
incidente a propósito do qual seu marido freqüentemente fazia troça dela. Em certa ocasião, ela se
apressara muito a comprar antecipadamente entradas para uma peça e, ao chegar ao teatro,
descobrira que um lado da platéia estava quase completamente vazio. Não teria sido necessário
ela se apressar tanto. Por fim, não nos deve passar despercebido o absurdo, no sonho, de duas
pessoas comprarem três entradas para uma peça.
Agora, os pensamentos oníricos: “Foi absurdo casar tão cedo. Não teria sido necessário
eu me apressar tanto. Pelo exemplo de Elise L., vejo que teria acabado conseguindo um marido.
Na verdade, teria conseguido um cem vezes melhor” (uma jóia), “se ao menos tivesse esperado.
Meu dinheiro” (ou dote) “poderia ter comprado três homens tão bons quanto ele.”
VIII
Após termos travado conhecimento com o trabalho do sonho através da exposição
precedente, ficamos decerto inclinados a considerá-lo um processo psíquico sumamente peculiar,
do qual, ao que saibamos, não existe semelhante em parte alguma. É como se transportássemos
para o trabalho do sonho todo o assombro que antes costumava ser despertado em nós por seu
produto, o sonho. Na realidade, contudo, o trabalho do sonho é apenas o primeiro que
descobrimos dentre toda uma série de processos psíquicos responsáveis pela gênese de sintomas
histéricos, fobias, obsessões e delírios. A condensação e sobretudo o deslocamento são
características invariáveis também desses outros processos. A transmutação numa forma pictórica,
por outro lado, permanece como uma peculiaridade do trabalho do sonho. Se esta explicação situa
o sonho numa mesma série ao lado das formações produzidas pela doença psíquica, isso torna
ainda mais importante que desvendemos as condições determinantes essenciais de processos
como os que ocorrem na formação do sonho. É provável que fiquemos surpresos ao saber que
nem o estado de sono nem a doença encontram-se entre essas condições indispensáveis. Toda
uma série de fenômenos da vida cotidiana das pessoas sadias - como o esquecimento, os lapsos
de linguagem, os atos falhos e uma certa classe de erros - deve sua origem a um mecanismo
psíquico análogo ao dos sonhos e ao dos outros membros da série.
O âmago do problema está no deslocamento, que é, decididamente, a mais notável das
singulares conquistas do trabalho do sonho. Quando nos aprofundamos no assunto, passamos a
compreender que a condição determinante essencial do deslocamento é puramente psicológica:
algo da ordem de uma motivação. Deparamos com seu rastro ao levarmos em consideração certas
vivências a que não nos podemos furtar na análise dos sonhos. Ao analisar meu sonho-modelo, fui
obrigado a interromper meu relato dos pensamentos oníricos, em [1], porque, como confessei,
havia entre eles alguns que eu preferiria ocultar dos estranhos e que não poderia comunicar a
outras pessoas sem grave prejuízo para importantes aspectos pessoais. Acrescentei que nada se
ganharia se eu escolhesse outro sonho em vez daquele para comunicar sua análise: esbarraria em
pensamentos oníricos que exigiriam manter-se em segredo no caso de todo sonho de conteúdo
obscuro ou confuso. Entretanto, se prosseguisse na análise por minha própria conta, sem
nenhuma referência a outras pessoas (a quem, na realidade, uma experiência tão pessoal quanto
meu sonho não poderia estar destinada), eu acabaria chegando a pensamentos que me
surpreenderiam, de cuja presença em mim eu não estaria ciente, que me seriam não apenas
estranhos, mas também desagradáveis, e que, portanto, eu me sentiria inclinado a contestar
energicamente, embora a cadeia de pensamentos que perpassa a análise insistisse neles de
maneira implacável. Há apenas um modo de explicar esse estado de coisas, que é de ocorrência
bastante universal; trata-se de supor que esses pensamentos realmente estavam presentes em
minha vida anímica, de posse de uma certa intensidade ou energia psíquicas, mas que se
encontravam numa situação psicológica peculiar, em conseqüência da qual não podiam tornar-se
conscientes para mim. (Descrevo esse estado particular como sendo um estado de
“recalcamento”.) Não posso deixar de concluir, então, que existe um vínculo casual entre a
obscuridade do conteúdo do sonho e o estado de recalcamento (inadmissibilidade à consciência)
de alguns dos pensamentos oníricos, e que o sonho se veria forçado a ser obscuro para não trair
os pensamentos oníricos proscritos. Assim, chegamos ao conceito de uma “distorção onírica”, que
é produto do trabalho do sonho e serve à finalidade da dissimulação, ou seja, do disfarce.
Quero submeter isso à prova do sonho-modelo que escolhi para análise e indagar qual
foi o pensamento que penetrou no sonho sob forma distorcida e que eu estaria inclinado a repudiar
se assim não fosse. Lembro que minha corrida gratuita de táxi me fizera recordar minha recente e
dispendiosa corrida com um membro de minha família, que a interpretação do sonho fora “Quisera
poder um dia experimentar um amor que não me custasse nada”; e que, pouco tempo antes do
sonho, eu fora obrigado a despender uma considerável soma em dinheiro por causa dessa mesma
pessoa. Tendo em mente esse contexto, não posso fugir à conclusão de que lamento ter feito essa
despesa. Só depois de reconhecer essa moção é que meu desejo de um amor que não me
exigisse nenhum gasto, no sonho, adquire sentido. Não obstante, posso honestamente dizer que,
quando decidi gastar aquela importância, não hesitei por um só momento. Meu pesar por ter de
fazê-lo - a corrente contrária de sentimento - não se tornou consciente para mim. Por que não o fez
é outra questão, que nos levaria muito longe e cuja resposta me é conhecida, mas pertence a outro
contexto.
Se analiso um sonho que não é meu, mas de outra pessoa, a conclusão é a mesma,
embora as razões para acreditar nela sejam diferentes. Quando o sonhador é uma pessoa sadia,
não me resta outro recurso para obrigá-la a reconhecer as idéias recalcadas que foram
descobertas senão apontar o contexto dos pensamentos oníricos, e nada posso fazer se ela se
recusa a reconhecê-los. Quando, no entanto, lido com um paciente neurótico, um histérico, por
exemplo, ele constata que a aceitação do pensamento recalcado lhe é obrigatória, graças a sua
vinculação com os sintomas da doença e à melhora que ele experimenta quando troca esses
sintomas pelas idéias recalcadas. No caso, por exemplo, da paciente que teve o sonho recémcitado
com os três ingressos de teatro que custavam 1 florim e 50 kreuzers, a análise levou à
inevitável conclusão de que ela menosprezava seu marido (cf. sua idéia de que poderia ter
conseguido outro “cem vezes melhor”), lamentava haver-se casado com ele e gostaria de trocá-lo
por outro. É verdade que ela afirmava amar o marido e que sua vida afetiva nada sabia desse
menosprezo por ele, mas todos os seus sintomas levavam à mesma conclusão que o sonho. E,
depois de se haverem revivido lembranças recalcadas de um certo período em que,
conscientemente, ela não amara o marido, seus sintomas se dissiparam e sua resistência à
interpretação do sonho desapareceu.
IX
Agora que estabelecemos o conceito de recalcamento e relacionamos a distorção do
sonho com o material psíquico recalcado, podemos expressar em termos gerais a principal
descoberta a que fomos levados pela análise dos sonhos. No caso dos sonhos inteligíveis e
providos de sentido, descobrimos que eles são realizações do desejo indisfarçadas, isto é, que, em
seu caso, a situação onírica representa como realizado um desejo conhecido pela consciência, que
ficou pendente da vida diurna e é merecidamente digno de interesse. A análise nos ensinou algo
inteiramente análogo no caso dos sonhos obscuros e confusos: também aí a situação onírica
representa um desejo como realizado - um desejo invariavelmente oriundo dos pensamentos
oníricos, mas que é representado de forma irreconhecível e só pode ser explicado quando, na
análise, remonta-se à sua origem. Nesses casos, ou o próprio desejo é recalcado e estranho à
consciência, ou está intimamente ligado a pensamentos recalcados e neles se baseia. Portanto, a
fórmula para esses sonhos é a seguinte: eles são realizações disfarçadas de desejos recalcados. É
interessante, nesse contexto, observar que se confirma a crença popular de que os sonhos sempre
prevêem o futuro. Na realidade, o futuro que o sonho nos mostra não é o futuro que ocorrerá, mas
o que gostaríamos que ocorresse. A alma popular comporta-se aqui como geralmente o faz:
acredita no que deseja.
Os sonhos se enquadram em três classes, conforme sua atitude para com a realização
de desejo. A primeira classe consiste nos que representam indisfarçadamente um desejo não
recalcado; são os sonhos de tipo infantil que se tornam cada vez mais raros nos adultos. Em
segundo lugar, há os sonhos que expressam disfarçadamente um desejo recalcado; estes,
indubitavelmente, constituem a esmagadora maioria de todos os nossos sonhos e exigem análise
para serem compreendidos. Em terceiro lugar, temos os sonhos que representam um desejo
recalcado, mas o fazem com um disfarce insuficiente ou sem disfarce. Estes últimos sonhos são
invariavelmente acompanhados de angústia, que os interrompe. Em seu caso, a angústia ocupa o
lugar da distorção onírica e, nos sonhos da segunda classe, a angústia só é evitada graças ao
trabalho do sonho. Não há grande dificuldade em provar que o conteúdo de representações que
nos gera angústia nos sonhos foi outrora um desejo, mas passou desde então pelo recalcamento.
Há também sonhos claros de conteúdo aflitivo, mas que no próprio sonho não é sentido
como aflitivo. Por essa razão, não podem ser considerados como sonhos de angústia, mas sempre
foram usados como prova de que os sonhos não têm sentido nem valor psíquico. A análise de um
desses sonhos mostrará que estamos lidando com realizações bem disfarçadas de desejos
recalcados, ou seja, com um sonho da segunda classe; mostrará também a admirável aptidão do
processo de deslocamento para disfarçar desejos.
Uma moça sonhou ver morto diante de si o único filho que restara a sua irmã, nas
mesmas circunstâncias em que, poucos anos antes, realmente vira o cadáver do primeiro filho da
irmã. Não sentiu nenhuma dor frente a isso, mas, naturalmente, rejeitou a idéia de que essa
situação representasse algum desejo seu. Tampouco havia necessidade de se supor isso. Mas
fora ao lado do ataúde da primeira criança que, anos antes, ela vira e falara com o homem de
quem estava enamorada; se o segundo filho morresse, ela sem dúvida reencontraria esse homem
na casa de sua irmã. Ela ansiava por tal encontro, mas lutava contra esse sentimento. No dia do
sonho, havia comprado um ingresso para uma conferência a ser proferida por esse mesmo
homem, por quem ainda estava apaixonada. Seu sonho foi um simples sonho de impaciência, do
tipo que ocorre com freqüência antes de viagens, idas ao teatro e outros prazeres semelhantes
esperados no futuro. Entretanto, para disfarçar de si mesma esse anseio, a situação foi deslocada
para um acontecimento de natureza extremamente inadequada para produzir um sentimento de
júbilo, embora de fato o tivesse feito no passado. Convém observar que o comportamento afetivo
no sonho era apropriado ao conteúdo real que estava em segundo plano, e não ao que fora
impelido para o primeiro plano. A situação onírica antecipava o encontro há tanto desejado por ela;
não oferecia nenhuma base para sentimentos penosos.
X
Até o presente, os filósofos não tiveram oportunidade de se interessarem por uma
psicologia do recalcamento. É lícito, portanto, que nos permitamos fazer uma primeira abordagem
desse tema até hoje desconhecido através da criação de uma imagem pictórica do curso dos
acontecimentos na formação do sonho. É verdade que o quadro esquemático a que chegamos -
não apenas a partir do estudo dos sonhos - é bastante complicado, mas não podemos trabalhar
com algo mais simples. Nossa hipótese é que, em nosso aparelho anímico, existem duas
instâncias formadoras do pensamento, das quais a segunda goza do privilégio de que seus
produtos tenham livre acesso à consciência, ao passo que a atividade da primeira é em si
inconsciente e só pode chegar à consciência por intermédio da segunda. Na fronteira entre as duas
instâncias, na passagem da primeira para a segunda, há uma censura que só deixa passar o que
lhe é agradável e retém tudo o mais. De acordo com nossa definição, portanto, o que é rejeitado
pela censura fica em estado de recalcamento. Em certas condições, uma das quais é o estado de
sono, a relação de forças entre as duas instâncias se modifica de tal maneira que o recalcado não
pode mais ser refreado. No estado de sono, isto provavelmente ocorre graças a um relaxamento
da censura; quando isso acontece, torna-se possível ao que até então estava recalcado facilitar-se
o caminho para a consciência. Entretanto, visto que a censura nunca é completamente eliminada,
mas simplesmente reduzida, o material recalcado tem de submeter-se a certas alterações que
atenuam seus aspectos ofensivos. O que se torna consciente, nesses casos, é um compromisso
entre as intenções de uma das instâncias e as exigências da outra. Recalcamento - relaxamento
da censura - formação de compromisso: este é o modelo básico da gênese não apenas de sonhos,
mas também de muitas outras estruturas psicopatológicas; e nesses casos podemos observar
também que a formação de compromisso é acompanhada por processos de condensação e
deslocamento e pelo emprego de associações superficiais, com as quais nos familiarizamos no
trabalho do sonho.
Não temos nenhuma razão para encobrir o fato de que, na hipótese que formulamos
para explicar o trabalho do sonho, um papel é desempenhado pelo que se poderia descrever como
um elemento “demoníaco”. Tivemos a impressão de que a formação dos sonhos obscuros ocorre
como se uma pessoa que fosse dependente de uma segunda tivesse de fazer um comentário
fadado a ser desagradável ao ouvidos desta segunda, e foi com base nesse símile que chegamos
aos conceitos de distorção onírica e censura, esforçando-nos por traduzir nossa impressão numa
teoria psicológica sem dúvida grosseira, mas que pelo menos é lúcida. Com o que quer que a
investigação adicional do assunto nos permita identificar nossa primeira e segunda instâncias,
podemos seguramente esperar a confirmação de um correlato de nossa hipótese de que a
segunda instância controla o acesso à consciência e pode barrar esse acesso à primeira.
Quando termina o estado de sono, a censura recupera prontamente sua plena força e
pode então eliminar tudo o que dela foi conquistado durante o seu período de fraqueza. Esta deve
ser pelo menos parte da explicação do esquecimento dos sonhos, como mostra uma observação já
confirmada em incontáveis ocasiões. Durante o relato de um sonho ou durante sua análise, não é
raro ressurgir um fragmento do conteúdo onírico que parecia esquecido. Esse fragmento resgatado
do olvido invariavelmente nos proporciona o melhor e mais direto acesso ao sentido do sonho. E,
com toda a probabilidade, essa deve ter sido a única razão para que fosse esquecido, ou seja,
para que fosse novamente suprimido.
XI
Uma vez que reconheçamos que o conteúdo do sonho é a representação de um desejo
realizado e que sua obscuridade se deve a alterações feitas pela censura no material recalcado,
não mais teremos qualquer dificuldade em descobrir a função dos sonhos. Afirma-se comumente
que o sono é perturbado pelos sonhos, mas, curiosamente, somos levados a uma visão contrária e
temos de encarar o sonho como guardião do sono.
No caso dos sonhos das crianças, não haveria dificuldade em aceitar essa afirmação. O
estado de sono ou alteração psíquica implicada no sono, seja ela qual for, é promovido por uma
decisão de dormir que é imposta à criança ou à qual ela chega com base nas sensações de fadiga,
e que só é possibilitada pelo afastamento de estímulos que possam sugerir ao aparelho psíquico
outros objetivos que não o de dormir. Os meios pelos quais é possível manter afastados os
estímulos externos são-nos conhecidos; mas quais são os meios disponíveis para controlar os
estímulos psíquicos internos que se opõem ao adormecimento? Observemos uma mãe que esteja
fazendo seu filho dormir. A criança expressa um fluxo incessante de desejos: quer mais um beijo,
quer continuar brincando. A mãe satisfaz alguns desses desejos, mas usa sua autoridade para
adiar outros para o dia seguinte. É claro que os desejos ou necessidades que possam surgir
exercem um efeito inibidor sobre o adormecimento. Todos conhecemos a divertida história contada
por Balduin Groller [um popular romancista austríaco do século XIX] sobre o garotinho malcriado
que acordou no meio da noite e gritou no quarto das crianças: “Eu quero o rinoceronte!” Uma
criança mais bem-comportada, em vez de gritar, teria sonhado que estava brincando com o
rinoceronte. Uma vez que se acredita no sonho que mostra realizado o desejo durante o sono, ele
anula o desejo e possibilita o dormir. Não há como contestar que as imagens oníricas suscitam
essa crença, pois se revestem da aparência psíquica das percepções, e as crianças ainda não
adquiriram a faculdade posterior de distinguir as alucinações ou fantasias da realidade.
Os adultos já aprenderam a fazer essa distinção; também já se aperceberam da
inutilidade do desejar e, após uma longa prática, sabem como adiar seus desejos até que eles
possam realizar-se pelo caminho longo e indireto da alteração do mundo exterior. No caso deles,
por conseguinte, as realizações de desejo pelo curto caminho psíquico são raras também no sono;
a rigor, é possível até que jamais ocorram, e que tudo o que nos parece formado à maneira de um
sonho infantil exija, na realidade, uma solução muito mais complexa. Por outro lado, no caso dos
adultos - e isto decerto se aplica sem exceção a qualquer pessoa na plena posse de seus sentidos
-, já ocorreu no material psíquico uma diferenciação que não está presente nas crianças. Surgiu
uma instância psíquica que, ensinada pela experiência da vida, exerce uma influência dominadora
e inibidora sobre as moções anímicas e mantém essa influência com zelosa severidade, e que,
devido a sua relação com a consciência e com a motilidade voluntária, está provida dos mais fortes
instrumentos de poder psíquico. Parte das moções infantis foi suprimida por essa instância como
sendo inútil à vida, e todo o material de pensamento oriundo dessas moções encontra-se em
estado de recalcamento.
Ora, enquanto essa instância, na qual reconhecemos nosso eu normal, concentra-se no
desejo de dormir, parece ser compelida pelas condições psicofisiológicas do sono a relaxar a
energia com que está habituada a conter o material recalcado durante o dia. Por si só, é claro,
esse relaxamento não causa nenhum dano; por mais que as moções suprimidas da alma infantil
possam agitar-se, seu acesso à consciência é ainda difícil e seu acesso à motilidade é barrado, em
decorrência desse mesmo estado de sono. Mas é preciso resguardar-se do perigo de o sono ser
perturbado por elas. Pelo menos, devemos supor que, mesmo durante o sono profundo, um certo
quantum de atenção livre monta guarda contra os estímulos sensoriais e que esse guarda pode às
vezes considerar mais aconselhável o despertar do que a continuação do sono. De outra maneira,
não se explicaria que possamos ser acordados a qualquer momento por estímulos sensoriais de
uma certa qualidade. Como já insistia há muito tempo o fisiologista Burdach [1838, 486], a mãe,
por exemplo, é acordada pelo choramingar de seu bebê; o moleiro, pela paralisação de seu
moinho; e a maioria das pessoas, ao ser suavemente chamada por seu próprio nome. Ora, a
atenção que assim está em alerta é também dirigida para os estímulos internos de desejo
provenientes do material recalcado e se combina com eles para formar o sonho, que, como
compromisso, satisfaz simultaneamente a ambas as instâncias. O sonho proporciona uma espécie
de consumação psíquica ao desejo suprimido (ou formado com o auxílio do material recalcado),
representando-o como realizado; mas atende também à outra instância, permitindo que o sono
prossiga. Nesse aspecto, nosso eu tende a se comportar como uma criança; dá crédito às imagens
do sonho, como se quisesse dizer: “Sim, sim! Você tem toda a razão, mas deixe-me continuar
dormindo!” O menosprezo que mostramos pelo sonho quando acordados e que relacionamos com
seu caráter confuso e aparentemente ilógico, provavelmente não passa do julgamento proferido
por nosso eu adormecido sobre as moções recalcadas, julgamento este que se apóia, com pleno
direito, na impotência motora desses perturbadores do sono. Por vezes nos damos conta, durante
o sono, desse julgamento desdenhoso. Quando o conteúdo do sonho excede a censura em
demasia, pensamos: “Afinal, é apenas um sonho!” - e continuamos a dormir.
Essa visão não se contradiz pelo fato de haver casos marginais em que o sonho - como
acontece com os sonhos de angústia - já não consegue desempenhar sua função de impedir a
interrupção do sono e assume, em vez disso, a outra função de fazê-lo cessar prontamente. Assim
procedendo, comporta-se simplesmente como um vigia noturno consciencioso, que primeiro
cumpre seu dever pela supressão das perturbações, para que os cidadãos não sejam despertados,
mas depois continua a cumpri-lo, indo ele próprio acordar os cidadãos, quando as causas da
perturbação lhe parecem graves e de um tipo que ele não pode enfrentar sozinho.
A função de sonho como guardião do sono torna-se particularmente evidente quando um
estímulo externo incide sobre os sentidos da pessoa adormecida. Em geral se reconhece que os
estímulos sensoriais surgidos durante o sono influenciam o conteúdo dos sonhos; isso pode ser
experimentalmente comprovado e figura entre as poucas descobertas acertadas (e, aliás, muito
supervalorizadas) da investigação médica dos sonhos. Mas essa descoberta envolve um enigma
que até hoje se mostra insolúvel. É que o estímulo sensorial que o experimentador faz incidir sobre
a pessoa adormecida não é corretamente reconhecido no sonho: ele é submetido a uma dentre um
número indefinido de interpretações possíveis, cuja escolha aparentemente arbitrária fica entregue
à ausência de determinismo psíquico. Mas é claro que não existe tal ausência de determinismo
psíquico. Há diversas maneiras pelas quais a pessoa adormecida pode reagir a um estímulo
sensorial externo. Pode acordar ou conseguir continuar dormindo apesar dele. Neste último caso,
pode servir-se de um sonho para se livrar do estímulo externo e, também para isso, dispõe de mais
de um método. Por exemplo, pode livrar-se do estímulo sonhando que está numa situação
absolutamente incompatível com ele. Foi esse o caminho usado por uma pessoa adormecida
sujeita à perturbação causada por um doloroso abscesso no períneo. Ela sonhou que estava
andando a cavalo, usando como sela a cataplasma que se destinava a aliviar-lhe a dor, e assim
evitou ser perturbada. Ou então, como ocorre com maior freqüência, o estímulo externo recebe
uma interpretação que o traz para o contexto de um desejo recalcado que, naquele momento,
aguarda realização; dessa maneira, o estímulo externo é despojado de sua realidade e tratado
como se fosse parte do material psíquico. Desse modo, alguém sonhou que havia escrito uma
comédia com determinado enredo; ela era encenada num teatro, terminava o primeiro ato e havia
uma chuva de aplausos; as palmas eram impressionantes… O sonhador deve ter conseguido
prolongar o sono até depois de cessar a interferência, pois, quando acordou, já não escutou o
barulho, embora concluísse, com acerto, que alguém deveria ter estado sacudindo um tapete ou
batendo um colchão. Todo sonho que ocorre imediatamente antes de a pessoa ser despertada por
um ruído forte tentou desmentir esse estímulo causador do despertar dando-lhe uma outra
explicação, e assim buscou prolongar o sono, nem que fosse apenas por um momento.
XII
Ninguém que aceite a visão de que a censura é a principal razão da distorção onírica
ficará surpreso em saber, pelos resultados da interpretação dos sonhos, que a análise encontra
nos desejos eróticos a origem da maioria dos sonhos dos adultos. Essa afirmação não visa aos
sonhos de conteúdo sexual indisfarçado, que são sem dúvida conhecidos de todos os sonhadores
por experiência própria e que, em geral, constituem os únicos a serem descritos como “sonhos
sexuais”. Mas até estes últimos sonhos causam muitas surpresas pela escolha das pessoas a
quem transformam em objetos sexuais, por seu descaso para com todas as restrições que o
sonhador impõe a seus desejos sexuais na vida de vigília, e pelos detalhes estranhos que
insinuam o que comumente se conhece como “perversões”. Entretanto, inúmeros outros sonhos
que nada mostram de erótico em seu conteúdo manifesto revelam, pelo trabalho de interpretação
na análise, ser realizações de desejos sexuais; por outro lado, a análise prova que muitos dos
pensamentos que ficam pendentes da atividade da vida de vigília como “restos do dia anterior” só
alcançam representação nos sonhos através da assistência de desejos oníricos recalcados.
Não é por exigência teórica que isso é postulado, mas, para explicar esse fato, pode-se
assinalar que nenhum outro grupo de pulsões é submetido a uma supressão tão vasta pelas
exigências da educação cultural quanto as pulsões sexuais; entretanto, ao mesmo tempo, elas são
também as pulsões que, na maioria das pessoas, escapam com maior facilidade ao controle das
instâncias anímicas superiores. Desde que tomamos conhecimento da sexualidade infantil,
freqüentemente tão discreta em suas manifestações e que é sempre despercebida e mal
interpretada, estamos autorizados a dizer que quase todo homem civilizado preserva as formas
infantis de vida sexual num ou noutro aspecto. Podemos assim compreender como é que os
desejos sexuais infantis recalcados passam a fornecer as forças propulsoras mais freqüentes e
poderosas para a formação dos sonhos.
Só existe um meio pelo qual um sonho que expresse desejos eróticos pode ter êxito em
parecer inocentemente assexual em seu conteúdo manifesto. O material das representações
sexuais não deve ser figurado como tal, mas substituído no conteúdo do sonho por insinuações,
alusões e formas similares de representação indireta. Entretanto, diversamente de outras formas
de representação indireta, a que é empregada no sonho não deve ser imediatamente inteligível. Os
meios de representação que atendem essas condições costumam ser descritos como “símbolos”
das coisas que representam. Voltou-se para eles interesse especial desde que se notou que os
sonhadores que falam uma mesma língua servem-se dos mesmos símbolos, e que a rigor, em
alguns casos, o emprego dos mesmos símbolos, ultrapassa o âmbito do uso da mesma língua.
Uma vez que os próprios sonhadores não se dão conta do significado dos símbolos que
empregam, é difícil, à primeira vista, descobrir a fonte da ligação entre os símbolos e aquilo que
substituem e representam. O fato em si, porém, está fora de dúvida e é importante para a técnica
da interpretação dos sonhos. É que, com a ajuda do conhecimento do simbolismo onírico, é
possível compreender o sentido dos elementos singulares do conteúdo do sonho, ou de
fragmentos separados do sonho, ou, em alguns casos, até mesmo de sonhos inteiros, sem que
seja preciso pedir ao sonhador suas associações. Aproximamo-nos aqui do ideal popular de
traduzir os sonhos e, por outro lado, retornamos à técnica de interpretação utilizada pelos antigos,
para quem a interpretação do sonho era idêntica à interpretação por meio de símbolos.
Embora o estudo dos símbolos oníricos esteja longe de ser completo, estamos em
condições de formular com certeza uma série de diversas afirmações gerais e diversas
informações especiais sobre o assunto. Há símbolos que encerram um único sentido quase que
universalmente: assim, o imperador e a imperatriz (ou o rei e a rainha) representam os pais, os
quartos representam as mulheres, e suas entradas e saídas, os orifícios do corpo. A maioria dos
símbolos oníricos serve para representar pessoas, partes do corpo e atividades investidas de
interesse erótico; em particular, os órgãos genitais são representados por diversos símbolos
amiúde muito surpreendentes, e uma imensa variedade de objetos é empregada para denotá-los
simbolicamente. As armas pontiagudas e os objetos longos e duros, como troncos de árvore e
bastões, representam o órgão genital masculino, enquanto os armários, caixas, carros ou fornos
podem representar o útero. Nesses casos, o tertium comparationis, o elemento comum nessas
substituições, é imediatamente inteligível, mas há outros símbolos em que não é tão fácil
apreender a ligação. Símbolos como a escada ou subir escadas para representar relação sexual,
gravatas para o órgão masculino, ou madeira para o feminino, provocam nossa incredulidade, até
chegarmos por algum outro meio à compreensão da relação simbólica subjacente a eles. Além
disso, diversos símbolos oníricos são bissexuais e podem relacionar-se com os órgãos genitais
masculinos ou femininos, conforme o contexto.
Alguns símbolos são universalmente disseminados e podem ser encontrados em todos
os sonhadores pertencentes a um mesmo grupo lingüístico ou cultural; outros ocorrem apenas
dentro dos limites mais restritos e individuais, sendo símbolos formados por um indivíduo a partir
de seu próprio material de representações. Na primeira classe podemos distinguir alguns cujo
direito de substituir as representações sexuais é imediatamente justificado pelo uso lingüístico
(como, por exemplo, os derivados da agricultura: “fertilização” ou “semente”), e outros cuja relação
com as representações sexuais parece remontar às mais antigas eras e às mais obscuras
profundezas de nosso funcionamento conceitual. O poder de construir símbolos não se esgotou,
nos dias atuais, para nenhum dos dois tipos de símbolos que distingui no início deste parágrafo.
Certos objetos recém-descobertos (como as aeronaves) são, como podemos observar,
imediatamente adotados como símbolos sexuais universalmente utilizáveis.
A propósito, seria um equívoco esperar que, se tivéssemos um conhecimento ainda mais
profundo do simbolismo onírico (da “linguagem dos sonhos”), poderíamos prescindir de perguntar
ao sonhador por suas associações ao sonho e retornar inteiramente à técnica de interpretação de
sonhos da Antigüidade. À parte os símbolos individuais e as oscilações no emprego dos universais,
nunca se sabe se um determinado elemento do conteúdo do sonho deve ser interpretado
simbolicamente ou em seu sentido próprio, mas pode-se ter certeza de que nem todo o conteúdo
do sonho deve ser interpretado simbolicamente. O conhecimento do simbolismo onírico nunca fará
mais do que nos habilitar a traduzir certos componentes do conteúdo do sonho e não nos isentará
da necessidade de aplicarmos as regras técnicas que forneci anteriormente. Contudo, prestará
uma assistência extremamente valiosa à interpretação precisamente nos pontos em que as
associações do sonhador são insuficientes ou faltam por completo.
O simbolismo onírico é também indispensável para a compreensão do que se conhece
como sonhos “típicos”, comuns a todos, e dos sonhos “recorrentes” dos indivíduos.
Se, nesta breve discussão, parece incompleta a exposição que fiz do modo simbólico de
expressão nos sonhos, posso justificar minha negligência chamando a atenção para um dos mais
importantes conhecimentos de que dispomos sobre esse assunto. O simbolismo onírico se estende
muito além do âmbito dos sonhos; não é peculiar aos sonhos, mas exerce uma influência
dominante similar sobre a representação nos contos de fadas, nos mitos e lendas, nos chistes e no
folclore. Permite-nos rastrear as íntimas ligações existentes entre os sonhos e estas últimas
produções. Não devemos supor que o simbolismo onírico seja uma criação do trabalho do sonho;
com toda a probabilidade, ele é uma característica do pensar inconsciente que fornece ao trabalho
do sonho o material para a condensação, o deslocamento e a dramatização.
XIII
Não tenho a pretensão de haver lançado luz, nestas páginas, sobre todos os problemas
dos sonhos, nem de haver tratado de maneira convincente os que de fato examinei. Aqueles que
se interessarem pela vasta bibliografia sobre os sonhos poderão reportar-se a um trabalho de
Sante de Sanctis (I sogni, 1899), e os que quiserem conhecer argumentos mais pormenorizados
em favor da visão dos sonhos que eu mesmo expus deverão recorrer a meu livro A Interpretação
dos Sonhos, de 1900. Só me resta indicar em que direção deverá prosseguir minha exposição do
tema do trabalho do sonho.
Estipulei como tarefa da interpretação do sonho substituí-lo pelos pensamentos oníricos
latentes, ou seja, desenredar o que foi urdido pelo trabalho do sonho. Ao fazê-lo, levantei uma
série de novos problemas psicológicos que versam sobre o mecanismo desse trabalho do sonho
como tal, bem como sobre a natureza e as condições do que se descreve como recalcamento; por
outro lado, afirmei a existência dos pensamentos oníricos - um abundante reservatório de
formações psíquicas da mais alta ordem, que se caracteriza por todos os traços do funcionamento
intelectual normal, mas que, não obstante, é subtraído da consciência até emergir sob forma
distorcida no conteúdo do sonho. Não posso senão presumir que tais pensamentos estejam
presentes em todas as pessoas, uma vez que em quase todas, inclusive as mais normais, são
capazes de sonhar. O material inconsciente dos pensamentos oníricos e sua relação com a
consciência e com o recalcamento levantam outras questões importantes para a psicologia, cujas
respostas sem dúvida terão de ser adiadas até que a análise tenha esclarecido a origem de outras
formações psicopatológicas, tais como os sintomas histéricos e as idéias obsessivas.

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