O Normal e o Patológico | GEORGES CANGUILHEM

| terça-feira, 12 de outubro de 2010
A presente obra é a reunião de dois estudos, um dos quais inédito, relativos ao mesmo assunto. Trata-se, primeiro, da reedição de minha Tese de Doutorado em Medicina, reedição esta que foi facilitada pelo amável consentimento do Comitê de Publicações da Faculdade de Letras de Estrasburgo, tornando possível a realização do projeto das Presses Universitaires de France. Àqueles que conceberam esse projeto, assim como àqueles que favoreceram esta reedição, expresso aqui todo o meu reconhecimento. Não cabe a mim dizer se esta reedição se impunha ou não. É verdade que minha tese teve a ventura de suscitar algum interesse no mundo médico, assim como entre os filósofos. Resta-me esperar que ela não seja agora considerada muito ultrapassada. 1
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GEORGES CANGUILHEM
O Normal e o Patológico
edição revista
Tradução
MARIA THEREZA REDIG DE CARVALHO BARROCAS
Revisão Técnica
MANOEL BARROS DA MOTTA
Tradução do Posfácio de PIERRE MACHEREY
e da Apresentação de LOUIS ALTHUSSER
LUIZ OTÁVIO F. BARRETO LEITE
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6ª edição / 2ª reimpressão—2009
© Copyright
1966, Presses Universitaires de France
Traduzido de:
Le Normal et le Pathologique
Capa: Ampersand Comunicação Gráfica
Editoração eletrônica: Rio Texto
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
C226n Canguilhem, Georges, 1904-1995
6.ed.O normal e o patológico / Georges Canguilhem; tradução de Mana Thereza Redig de Carvalho Barrocas; revisão técnica Manoel Barros da Motta; tradução do
posfácio de Piare Macherey e da apresentação de Louis Althusser, Luiz Otávio Ferreira Barreto Leite. - 6.ed. rev. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
Tradução de: Le normal et le pathologique ISBN 978-85-218-0393-5
1. Teoria do conhecimento. 2. Medicina - Filosofia. 3. Patologia, I. Macherey, Pierre. A filosofia da ciência de Georges Canguilhem. II. Titulo. III. Série.
06-0678. CDD 121
CDU 165
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Impresso no Brasil Printed in Brazil
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Coleção Campo Teórico
Dirigida por Manoel Barros da Motta e Severino Bezerra Cabral Filho
Da mesma coleção:
Do Mundo Fechado ao Universo Infinito Alexandre Koyré
Estudos de História do Pensamento Científico Alexandre Koyré
Estudos de História do Pensamento Filosófico Alexandre Koyré
O Nascimento da Clínica Michel Foucault
A Arqueologia do Saber Michel Foucault
Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade Jacques Lacan
Teoria e Clínica da Psicose Antonio Quinet
Michel Foucault — Uma Trajetória Filosófica Paul Rabinow e Hubert Dreyfus
Raymond Roussel Michel Foucault
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Sumário
PRÓLOGO .........................................................................................................................................6
I ENSAIO SOBRE ALGUNS PROBLEMAS RELATIVOS AO NORMAL E AO PATOLÓGICO
(1943) .................................................................................................................................................7
PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO...............................................................................................8
INTRODUÇÃO................................................................................................................................10
Primeira Parte ...................................................................................................................................12
I. SERIA O ESTADO PATOLÓGICO APENAS UMA MODIFICAÇÃO
QUANTITATIVA DO ESTADO NORMAL? ............................................................................12
II AUGUSTO COMTE E O "PRINCÍPIO DE BROUSSAIS" .....................................................16
III CLAUDE BERNARD E A PATOLOGIA EXPERIMENTAL ...............................................24
IV AS CONCEPÇÕES DE R. LERICHE .....................................................................................35
V AS IMPLICAÇÕES DE UMA TEORIA ..................................................................................40
Segunda Parte ...................................................................................................................................44
I EXISTEM CIÊNCIAS DO NORMAL E DO PATOLÓGICO?.................................................44
II EXAME CRÍTICO DE ALGUNS CONCEITOS: DO NORMAL,
DA ANOMALIA E DA DOENÇA, DO NORMAL E DO EXPERIMENTAL ...........................48
III NORMA E MÉDIA..................................................................................................................59
IV DOENÇA, CURA, SAÚDE.....................................................................................................71
V FISIOLOGIA E PATOLOGIA..................................................................................................81
CONCLUSÃO..................................................................................................................................92
ÍNDICE BIBLIOGRÁFICO..............................................................................................................94
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS .................................................................................................101
II NOVAS REFLEXÕES REFERENTES AO NORMAL E AO PATOLÓGICO (1963-1966)....105
VINTE ANOS DEPOIS... ...............................................................................................................106
I DO SOCIAL AO VITAL..........................................................................................................108
II SOBRE AS NORMAS ORGÂNICAS NO HOMEM.............................................................118
III UM NOVO CONCEITO EM PATOLOGIA: O ERRO.........................................................126
EPÍLOGO.......................................................................................................................................132
BIBLIOGRAFIA............................................................................................................................133
POSFÁCIO.....................................................................................................................................137
A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE GEORGES CANGUILHEM ...............................................137
Epistemologia e História das Ciências Pierre Macherey ........................................................137
A história tal como se faz: sua critica ......................................................................................142
Nascimentos e aventuras dos conceitos...................................................................................145
Uma epistemologia da história: ciência e filosofia..................................................................150
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PRÓLOGO
A presente obra é a reunião de dois estudos, um dos quais inédito, relativos ao mesmo assunto.
Trata-se, primeiro, da reedição de minha Tese de Doutorado em Medicina, reedição esta que foi
facilitada pelo amável consentimento do Comitê de Publicações da Faculdade de Letras de
Estrasburgo, tornando possível a realização do projeto das Presses Universitaires de France.
Àqueles que conceberam esse projeto, assim como àqueles que favoreceram esta reedição, expresso
aqui todo o meu reconhecimento.
Não cabe a mim dizer se esta reedição se impunha ou não. É verdade que minha tese teve a ventura
de suscitar algum interesse no mundo médico, assim como entre os filósofos. Resta-me esperar que
ela não seja agora considerada muito ultrapassada.
Acrescentando algumas considerações inéditas a meu primeiro Ensaio, procuro apenas fornecer um
testemunho senão de meu sucesso, ao menos de meus esforços, para conservar um problema — que
considero fundamental — no mesmo estado de atualidade que seus dados concretos, sempre em
transformação.
G. C.
1966
Esta edição contém algumas retificações de detalhes e algumas notas complementares de
pé de página, assinaladas por um asterisco.
G. C.
1972
7
I
ENSAIO SOBRE ALGUNS
PROBLEMAS RELATIVOS
AO NORMAL E AO PATOLÓGICO
(1943)
8
PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO*
Esta segunda edição de minha Tese de Doutorado em Medicina reproduz exatamente o texto da
primeira, publicada em 1943. Não porque a considere definitivamente satisfatória; mas, por um
lado, o Comitê de Publicações da Faculdade de Letras de Estrasburgo — a que agradeço muito
cordialmente por ter decidido reimprimir minha obra — não podia arcar com as despesas que uma
modificação do texto acarretaria. Por outro lado, as correções ou complementos a este primeiro
ensaio aparecerão em um futuro trabalho, de caráter mais geral. Gostaria apenas de indicar algumas
novas leituras, certas críticas que me foram feitas, algumas reflexões pessoais com que eu poderia e
deveria ter beneficiado a primeira versão de meu ensaio.
E, antes de tudo, mesmo em 1943, deveria ter indicado a ajuda que poderia encontrar, para o tema
central de minha obra, em trabalhos como Traité de psychologie générale, de Pradines, e Structure
du comportement, de Merleau-Ponty. Só pude indicar o segundo, descoberto quando meu
manuscrito já estava no prelo. Ainda não havia lido o primeiro. Basta lembrar as condições em que
era feita a distribuição de livros em 1943 para compreender as dificuldades de documentação da
época. Além disso, devo confessar que não o lamento muito, preferindo muitíssimo uma
convergência, cujo caráter fortuito faz ressaltar melhor o valor de necessidade intelectual, a uma
aquiescência, mesmo totalmente sincera, às opiniões de outrem.
Se escrevesse hoje este ensaio, eu deveria dar um grande destaque aos trabalhos de Selye e à sua
teoria do estado de alarme orgânico. Esta exposição poderia servir de mediação entre as teses —
bem diferentes, à primeira vista — de Leriche e de Goldstein, que considero da maior importância.
Selye estabeleceu que falhas ou distúrbios do comportamento, assim como as emoções e a fadiga
por eles gerados, provocam, por sua freqüente reiteração, uma modificação estrutural do córtex
supra-renal análoga à que é determinada pela introdução no meio interno de substâncias hormonais
impuras ou puras mas em altas doses, ou de substâncias tóxicas. Todo estado orgânico de tensão
desordenada, todo comportamento de alarme e stress provoca a reação supra-renal. Essa reação é
"normal", tendo em vista a ação e os efeitos da corticosterona no organismo. Aliás, essas reações
estruturais, que Selye chama de reações de adaptação e reações de alarme, têm relação tanto com a
tireóide ou com a hipófise, quanto com a supra-renal. Porém essas reações normais (isto é,
biologicamente favoráveis) acabam por desgastar o organismo, no caso de repetições anormais
(isto é, estatisticamente freqüentes) das situações geradoras da reação de alarme. Em certos
indivíduos instalam-se, portanto, doenças de adaptação. As repetidas descargas de corticosterona
provocam ou perturbações funcionais, como o espasmo vascular ou a hipertensão, ou então lesões
morfológicas, como a úlcera de estômago. Por isso é que se observou, na população das cidades
inglesas sujeitas ao raids aéreos da última guerra, uma multiplicação considerável dos casos de
úlcera gástrica.
Se interpretarmos esses fatos do ponto de vista de Goldstein, veremos a doença como o
comportamento catastrófico; se os interpretarmos do ponto de vista de Leriche, a veremos como a
anomalia histológica determinada pela desordem fisiológica. Esses dois pontos de vista não se
excluem; muito pelo contrário.
Da mesma forma, tiraria grande partido, hoje em dia, das obras de Etienne Wolff, Les changements
de sexe e La science des monstres, para minhas referências sobre os problemas da teratogênese.
Insistiria mais na possibilidade e mesmo na obrigação de esclarecer as formações normais pelo
conhecimento das formações monstruosas. Afirmaria com maior convicção ainda que não há, em
* 1950— A primeira edição data de 1943.
9
tese e a priori, diferença ontológica entre uma forma viva perfeita e uma forma viva malograda.
Aliás, será lícito falar de formas vivas malogradas? Que falha pode-se detectar em um ser vivo,
enquanto não se tiver fixado a natureza de suas obrigações como ser vivo?
Deveria também ter levado em conta — mais ainda que as aprovações e confirmações que recebi
de médicos, psicólogos, como meu amigo Lagache, professor da Sorbonne, ou biólogos, como
Sabiani e Kehl, da Faculdade de Medicina de Argel — as críticas ao mesmo tempo compreensivas
e severas de Louis Bounoure, da Faculdade de Ciências de Estrasburgo. Em sua obra L'autonomie
de l'être vivant, Bounoure me acusa — com tanto espírito quanto cordialidade — de me deixar
levar pela "obsessão evolucionista", e considera com grande perspicácia, se assim posso dizer, a
idéia de uma normatividade do ser vivo como uma projeção, sobre toda a natureza viva, da
tendência humana ao aperfeiçoamento. Com efeito, é um grave problema, ao mesmo tempo
biológico e filosófico, saber se é ou não legítimo introduzir a História na Vida (penso, a esse
respeito, em Hegel e nos problemas levantados pela interpretação do hegelianismo). É
compreensível que eu não possa abordar essa questão em um prefácio. Quero ao menos dizer que
ela não me escapa, que espero abordá-la futuramente, e que agradeço a Bounoure por ter me
ajudado a colocá-la.
Finalmente, é certo que, atualmente, ao expor as idéias de Claude Bernard, eu não poderia deixar
de levar em conta a publicação, em 1947, pelo Dr. Delhoume, dos Principes de médecine
expérimentale, em que Claude Bernard examina, com mais precisão que em outras obras, o
problema da relatividade individual do fato patológico. Não penso, no entanto, que minha opinião
sobre as idéias de Claude Bernard se modificasse quanto ao essencial.
Para terminar, acrescento que certos leitores se surpreenderam com a brevidade de minhas
conclusões e com o fato de elas deixarem aberta a porta filosófica. Devo dizer que isso foi
intencional. Tinha tido a intenção de fazer um trabalho de abordagem para uma futura tese
filosófica. Tinha plena consciência de que, na minha Tese de Medicina, tinha me deixado levar,
talvez até demais, pelo demônio filosófico. Foi deliberadamente que dei a minhas conclusões o
caráter de proposições simples e sobriamente metodológicas.
10
INTRODUÇÃO
O problema das estruturas e dos comportamentos patológicos no homem é imenso. O portador de
um defeito físico congênito, um invertido sexual, um diabético, um esquizofrênico levantam
inumeráveis problemas que remetem, em última análise, ao conjunto das pesquisas anatômicas,
embriológicas, fisiológicas, psicológicas. Nossa opinião, no entanto, é que esse problema não deve
ser dividido, e que as chances de esclarecê-lo são maiores se o considerarmos em blocos, do que se
o dividirmos em questões de detalhe. No momento, porém, não temos meios de sustentar essa
opinião pela apresentação de uma síntese suficientemente documentada, que esperamos realizar um
dia. No entanto, não é apenas essa impossibilidade que a publicação de algumas de nossas
pesquisas traduz, mas também a intenção de marcar tempos sucessivos no exame da questão.
A filosofia é uma reflexão para a qual qualquer matéria estranha serve, ou diríamos mesmo para a
qual só serve a matéria que lhe for estranha. Tendo começado o curso de medicina alguns anos
depois de haver terminado o curso de filosofia, e ao mesmo tempo que ensinava filosofia, tornamse
necessárias algumas palavras de explicação a respeito de nossas intenções. Não é
necessariamente para conhecer melhor as doenças mentais que um professor de filosofia pode se
interessar pela medicina. Não é, também, necessariamente para praticar uma disciplina científica.
Esperávamos da medicina justamente uma introdução a problemas humanos concretos. A medicina
nos pareceria, e nos parece ainda, uma técnica ou arte situada na confluência de várias ciências,
mais do que uma ciência propriamente dita. Parecia-nos que uma cultura médica direta viria
favorecer uma colocação mais precisa e o esclarecimento de dois problemas que nos interessavam:
o das relações entre ciências e técnicas e o das normas e do normal. Aplicando à medicina um
espírito que gostaríamos de chamar "sem preconceitos", pareceu-nos que, apesar de tantos esforços
louváveis para introduzir métodos de racionalização científica, o essencial dessa ciência ainda era a
clínica e a terapêutica, isto é, uma técnica de instauração e de restauração do normal, que não pode
ser inteiramente reduzida ao simples conhecimento.
O presente trabalho é, portanto, um esforço para integrar à especulação filosófica alguns dos
métodos e das conquistas da medicina. É preciso dizer que não se trata de dar nenhuma lição, nem
de fazer nenhum julgamento normativo sobre a atividade médica. Não temos a pretensão de querer
renovar a medicina incorporando-lhe uma metafísica. Se a medicina deve ser renovada, cabe aos
médicos a honra e o risco de fazê-lo. Tivemos, porém, a ambição de contribuir para a renovação de
certos conceitos metodológicos, retificando sua compreensão pela influência de uma informação
médica. Que não se espere, portanto, desta obra, mais do que quisermos dar. A medicina é
freqüentemente a presa e a vítima de uma certa literatura pseudofilosófica cujos autores, cumpre
dizer, muitas vezes são os próprios médicos, e da qual a medicina e a filosofia raramente tiram
algum proveito. Não pretendemos incentivar essa tendência. Tampouco pretendemos passar por
historiador da medicina. E se na primeira parte colocamos o problema em perspectiva histórica, foi
unicamente para que ficasse mais facilmente inteligível. Não temos nenhuma pretensão de erudição
no campo da biografia.
Apenas uma palavra sobre a delimitação do assunto. O problema geral do normal e do patológico
pode, do ponto de vista médico, dividir-se em problema teratológico e em problema nosológico, e
este último, por sua vez, em problema de nosologia somática ou de fisiopatologia, e em problema
de nosologia psíquica ou de psicopatologia. E é muito precisamente ao problema de nosologia
somática, ou de fisiologia patológica, que desejamos limitar o presente trabalho, sem, no entanto,
deixar de buscar na teratologia ou na psicopatologia um ou outro dado, noção ou solução que nos
11
parecessem particularmente capazes de esclarecer o exame da questão ou de confirmar algum
resultado.
Fizemos também questão de apresentar nossas concepções em ligação com o exame crítico de uma
tese, geralmente adotada no século XIX, relativa às relações entre o normal e o patológico. Trata-se
de uma tese segundo a qual os fenômenos patológicos são idênticos aos fenômenos normais
correspondentes, salvo pelas variações quantitativas. Assim procedendo, acreditamos obedecer a
uma exigência do pensamento filosófico, que é a de reabrir debates mais do que fechá-los. León
Brunschvicg disse, a respeito da filosofia, que ela é a ciência dos problemas resolvidos. Fazemos
nossa esta definição simples e profunda.
12
Primeira Parte
I. SERIA O ESTADO PATOLÓGICO APENAS UMA MODIFICAÇÃO
QUANTITATIVA DO ESTADO NORMAL?
INTRODUÇÃO AO PROBLEMA
Para agir, é preciso ao menos localizar. Como agir sobre um terremoto ou um furacão? É, sem
dúvida, à necessidade terapêutica que se deve atribuir a iniciativa de qualquer teoria ontológica da
doença. Ver em qualquer doente um homem aumentado ou diminuído em algo já é, em parte,
tranqüilizar-se. O que o homem perdeu pode lhe ser restituído; o que nele entrou, pode sair. Mesmo
se a doença é sortilégio, encantamento, possessão demoníaca, pode-se ter a esperança de vencê-la.
Basta pensar que a doença atinge o homem para que nem toda esperança esteja perdida. A magia
oferece inúmeros recursos para comunicar às drogas e aos ritos de encantamento toda a intensidade
do desejo da cura. Sigerist assinalou que a medicina egípcia provavelmente generalizou a
experiência oriental das afecções parasitárias, combinando-a com a idéia da doença-possessão.
Expulsar vermes é recuperar a saúde [107, 120].1 A doença entra e sai do homem como por uma
porta. Atualmente ainda existe uma hierarquia vulgar das doenças, baseada na maior facilidade de
localizar seus sintomas. Assim, a paralisia agitante é mais doença do que a zona torácica, e a zona
torácica mais do que o furúnculo. Sem querer atentar contra a majestade dos dogmas de Pasteur,
pode-se até dizer que a teoria microbiana das doenças contagiosas deve, certamente, uma parte
considerável de seu sucesso ao fato de conter uma representação ontológica do mal. O micróbio,
mesmo sendo necessária a mediação complicada do microscópio, dos corantes e das culturas, pode
ser visto, ao passo que não se poderia ver um miasma ou uma influência. Ver um ser já é prever um
ato. Ninguém pode contestar o caráter otimista das teorias da infecção quanto a seu prolongamento
terapêutico. A descoberta das toxinas e o reconhecimento do papel patogênico dos terrenos
específicos e individual destruíram a admirável simplicidade de uma doutrina, cuja roupagem
científica dissimulava a persistência de uma reação diante do mal, que é tão antiga quanto o próprio
homem.
Se sentimos, porém, a necessidade de nos tranqüilizarmos é que uma angústia pesa constantemente
sobre nosso pensamento; se delegamos à técnica, mágica ou positiva, a tarefa de restaurar na norma
desejada o organismo afetado pela doença, é porque nada esperamos de bom da natureza por si
própria.
A medicina grega, ao contrário, oferece à nossa consideração, nos escritos e práticas hipocráticos,
uma concepção não mais ontológica, e sim dinâmica da doença, não mais localizante, e sim
totalizante. A natureza (physis), tanto no homem como fora dele, é harmonia e equilíbrio. A
perturbação desse equilíbrio, dessa harmonia, é a doença. Nesse caso, a doença não está em alguma
parte do homem. Está em todo o homem e é toda dele. As circunstâncias externas são ocasiões, e
não causas. O que está em equilíbrio no homem, e cuja perturbação causa a doença, são quatro
humores, cuja fluidez é precisamente capaz de suportar variações e oscilações, e cujas qualidades
são agrupadas duas a duas, segundo seu contraste (quente, frio, úmido, seco). A doença não é
somente desequilíbrio ou desarmonia; ela é também, e talvez sobretudo, o esforço que a natureza
exerce no homem para obter um novo equilíbrio. A doença é uma reação generalizada com
1 As referências entre colchetes remetem aos números do Índice Bibliográfico, p. 107-114 (primeiro grupo de números) e aos tomos,
páginas ou artigos da obra mencionada (números em itálico).
13
intenção de cura. O organismo desenvolve uma doença para se curar. A terapêutica deve, em
primeiro lugar, tolerar e, se necessário, até reforçar essas reações hedônicas e terapêuticas
espontâneas. A técnica médica imita a ação médica natural (vis medicatrix naturae). Imitar é não
somente copiar uma aparência, é reproduzir uma tendência, prolongar um movimento íntimo. É
claro que tal concepção é otimista, mas esse otimismo diz respeito ao sentido da natureza, e não ao
efeito da técnica humana.
O pensamento dos médicos oscila, até hoje, entre essas duas representações da doença, entre essas
duas formas de otimismo, encontrando, de cada vez, para uma ou outra atitude, alguma boa razão
em uma patogenia recentemente elucidada. As doenças de carência e todas as doenças infecciosas
ou parasitárias fazem a teoria ontológica marcar um ponto; as perturbações endócrinas e todas as
doenças marcadas pelo prefixo dis reafirmam a teoria dinamista ou funcional. Essas duas
concepções têm, no entanto, um ponto em comum: encaram a doença, ou melhor, a experiência de
estar doente, como uma situação polêmica, seja uma luta do organismo contra um ser estranho, seja
uma luta interna de forças que se afrontam. A doença difere da saúde, o patológico, do normal,
como uma qualidade difere de outra, quer pela presença ou ausência de um princípio definido, quer
pela re-estruturação da totalidade orgânica. Essa heterogeneidade dos estados normal e patológico
ainda é compreensível na concepção naturista que pouco espera da intervenção humana para a
restauração do normal. A natureza encontraria os meios para a cura.
Contudo, em uma concepção que admite e espera que o homem possa forçar a natureza e dobrá-la a
seus desejos normativos, a alteração qualitativa que separa o normal do patológico era dificilmente
sustentável. Desde Bacon, não se insiste na idéia de que só se pode dominar a natureza
obedecendo-lhe? Dominar a doença é conhecer suas relações com o estado normal que o homem
vivo deseja restaurar, já que ama a vida. Daí a necessidade teórica, mas com prazo técnico diferido,
de fundar uma patologia científica ligando-a à fisiologia. Thomas Sydenham (1624-1689) achava
que para ajudar o doente era preciso delimitar e determinar seu mal. Há espécies mórbidas assim
como há espécies vegetais ou animais. Há uma ordem nas doenças, segundo Sydenham, assim com
há uma regularidade nas anomalias, segundo I. Geoffroy Saint-Hilaire. Pinel justificava todas essa
tentativas de classificação nosológica, levando o gênero à sua perfeição máxima em sua Nosografia
filosófica (1797), a respeito da qual Daremberg disse que era obra de um naturalista mais do que de
um clínico [29, 1201].
Nesse meio tempo, Morgagni (1682-1771), criando a anatomia patológica, havia permitido que se
associasse a lesões de órgão definidas grupos de sintomas estáveis. De modo que a classificação
nosográfica encontrou um substrato na decomposição anatômica. Porém, como desde Harvey e
Haller a anatomia se tinha "animado" para tornar-se fisiologia, a patologia vinha naturalmente
prolongar a fisiologia. Encontra-se em Sigerist uma explanação sumária e magistral de toda essa
evolução das idéias médicas [107, 117-142]. Essa evolução resultou na formação de uma teoria das
relações entre o normal e o patológico, segundo a qual os fenômenos patológicos nos organismos
vivos nada mais são do que variações quantitativas, para mais ou para menos, dos fenômenos
fisiológicos correspondentes. Semanticamente, o patológico é designado a partir do normal, não
tanto como a ou dis, mas como hiper ou hipo.
Essa teoria não defende absolutamente a tese de que saúde e doença sejam opostos quantitativos,
forças em luta, apesar de conservar a confiança tranqüilizadora que a teoria ontológica deposita na
possibilidade de vencer tecnicamente o mal. A necessidade de restabelecer a continuidade, para
melhor conhecer, a fim de melhor agir é tal que, levando-a às últimas conseqüências, o conceito de
doença se desvaneceria. A convicção de poder restaurar cientificamente o normal é tal que acaba
por anular o patológico. A doença deixa de ser objeto de angústia para o homem são, e torna-se
objeto de estudo para o teórico da saúde. É no Patológico, com letra maiúscula, que se decifra o
ensinamento da saúde, de certo modo assim como Platão procurava nas instituições do Estado o
equivalente, ampliado e mais facilmente legível, das virtudes e vícios da alma individual.
* * *
14
A identidade real dos fenômenos vitais normais e patológicos, aparentemente tão diferentes e aos
quais a experiência humana atribuiu valores opostos, tornou-se, durante o século XIX, uma espécie
de dogma, cientificamente garantido, cuja extensão no campo da filosofia e da psicologia parecia
determinada pela autoridade que os biólogos e os médicos lhe reconheciam.
Na França, esse dogma foi exposto, em condições e de acordo com intenções bem diferentes, por
Augusto Comte e Claude Bernard. Na doutrina de Comte, é uma idéia que — explícita e
respeitosamente — ele reconhece dever a Broussais. Em Claude Bernard, é a conclusão tirada de
uma vida inteira de experimentação biológica e cuja prática é codificada metodicamente pela
célebre Introduction à l'étude de la médecine expérimentale. No pensamento de Comte, o interesse
se dirige do patológico para o normal, com a finalidade de determinar especulativamente as leis do
normal, pois é como substituto de uma experimentação biológica muitas vezes impraticável —
sobretudo no homem— que a doença aparece como digna de estudos sistemáticos. A identidade do
normal e do patológico é afirmada em proveito do conhecimento do normal. No pensamento de
Claude Bernard, o interesse dirige-se do normal para o patológico, com a finalidade de uma ação
racional sobre o patológico, pois é como fundamento de uma terapêutica em franca ruptura com o
empirismo que o conhecimento da doença é procurado por meio da fisiologia e a partir dela.
Finalmente, em Comte, a afirmação de identidade permanece puramente conceptual, ao passo que
Claude Bernard tenta precisar essa identidade em uma interpretação de caráter quantitativo e
numérico.
Não é absolutamente para depreciá-la que se qualifica como dogma tal teoria, mas sim para fazer
com que sua repercussão e seu alcance sejam bem apreendidos. Não é absolutamente por acaso que
se decidiu procurar na obra de Augusto Comte e de Claude Bernard os textos que definiram o
sentido dessa teoria. A influência desses dois autores sobre a filosofia, a ciência, e talvez mais
ainda, sobre a literatura do século XIX foi considerável. Ora, é habitual aos médicos procurar a
filosofia de sua arte muito mais na literatura do que na medicina ou na própria filosofia. A leitura
de Littré, de Renan, de Taine certamente suscitou mais vocações para a medicina de que a de
Richerand ou de Trousseau, pois é um fato a ser considerado que geralmente se chega à medicina
na total ignorância das teorias médicas, mas não sem idéias preconcebidas sobre muitos conceitos
médicos. A difusão das idéias de Comte nos meios médicos, científicos e literários foi obra de
Littré e de Charles Robin, primeiro titular da cadeira de histologia na Faculdade de Medicina de
Paris.2 Foi sobretudo no campo da psicologia que sua influência se prolongou. Encontramos seu
reflexo na obra de Renan: "O sono, a loucura, o delírio, o sonambulismo, a alucinação oferecem à
psicologia individual um campo de experiência bem mais fecundo que o estado ordinário. Pois os
fenômenos que, neste estado, são como que apagados por sua tenuidade, aparecem de maneira mais
sensível nas crises extraordinárias, por sua exageração. O físico não estuda o galvanismo nas
quantidades reduzidas em que se apresenta na natureza, mas multiplica-o pela experimentação, a
fim de estudá-lo com maior facilidade, certo, aliás, de que as leis estudadas nesse estado exagerado
são idênticas às do estado natural. Da mesma forma, a psicologia da humanidade deverá ser
edificada sobretudo a partir do estudo das loucuras da humanidade, de seus sonhos, de suas
alucinações que são encontradas a cada página da história do espírito humano" [99, 184]. L. Dugas,
no seu estudo sobre Ribot, mostrou bem o parentesco que há entre as concepções metodológicas de
Ribot e as idéias de Comte e de Renan, seu amigo e protetor [37, 21 e 68]. "A fisiologia e a
patologia — tanto as do espírito quanto as do corpo — não se opõem uma à outra como dois
contrários, mas sim como duas partes de um mesmo todo... O método patológico origina-se ao
mesmo tempo da observação pura e da experimentação. É um meio de investigação poderoso e
fecundo em resultados. A doença é, com efeito, uma experimentação de tipo mais sutil, instituída
pela própria natureza, em circunstâncias bem determinadas e por processos de que a arte humana
não dispõe: ela atinge o inacessível" [100].
Não menos ampla e profunda foi a influência de Claude Bernard sobre os médicos da época que vai
de 1870 a 1914, quer diretamente pela fisiologia, quer indiretamente pela literatura, como
demonstraram os trabalhos de Lamy e Donald-King sobre as relações entre o naturalismo literário e
2 Sobre as relações entre Comte e Robin, ver Genty [42] e Klein [64].
15
as doutrinas biológicas e médicas do século XIX [68 e 34]. O próprio Nietzsche se inspira em
Claude Bernard, e precisamente na idéia de que o patológico e o normal são homogêneos. Antes de
citar um longo trecho sobre a saúde e a doença, extraído das Leçons sur la chaleur animale,3
Nietzsche fez a seguinte reflexão: "O valor de todos os estados mórbidos consiste no fato de
mostrarem, com uma lente de aumento, certas condições que, apesar de normais, são dificilmente
visíveis no estado normal" (La volonté de puissance, § 533, trad. Bianquis, N.R.F., I, 364).
Essas indicações sumárias parecem ser suficientes para mostrar que a tese cujo sentido e alcance
gostaríamos de definir não foi inventada gratuitamente. A história das idéias não pode ser
necessariamente superposta à história das ciências. Porém, já que os cientistas, como homens,
vivem sua vida em um ambiente e em um meio que não são exclusivamente científicos, a história
das ciências não pode negligenciar a história das idéias. Aplicando a uma tese sua própria
conclusão, seria possível dizer que as deformações por ela sofridas no meio de cultura podem
revelar sua significação essencial.
Decidimos centrar nossa exposição em torno dos nomes de Comte e de Claude Bernard porque
esses autores desempenharam, semi-voluntariamente, o papel de porta-bandeira; esta é a razão da
preferência que lhes foi dada, em detrimento de tantos outros, igualmente citados, e que poderiam
ser mais bem explicados sob outras perspectivas.4 É por uma razão precisamente inversa que
decidimos acrescentar, à exposição das idéias de Comte e de Claude Bernard, a exposição das
idéias de Leriche. Leriche é um autor discutido tanto em medicina quanto em fisiologia, e este não
é o menor dos seus méritos. Mas é possível que, expondo suas concepções em uma perspectiva
histórica, nelas se descubram profundidades e um alcance insuspeitados. Sem cair no culto da
autoridade, não se pode contestar a um clínico eminente uma competência muito superior à de
Comte ou de Claude Bernard em matéria de patologia. Aliás, não deixa de ter interesse, para os
problemas examinados aqui, o fato de Leriche ocupar atualmente, no College de France, a cátedra
de medicina ilustrada pelo próprio Claude Bernard. As dissonâncias entre eles só lhes conferem
mais sentido e valor.
3 É o texto citado na p. 38, in fine.
4 Um achado bibliográfico de última hora corrobora nossa escolha. O dogma patológico que queremos discutir está exposto, sem
reservas nem reticências, em 1864, no Journal des débats por Charles Daremberg, sob a égide de Broussais, Comte, Lime, Charles
Robin e Claude Bernard [29].
16
II AUGUSTO COMTE E O "PRINCÍPIO DE BROUSSAIS"
Augusto Comte afirma a identidade real dos fenômenos patológicos e dos fenômenos fisiológicos
correspondentes durante os três estágios principais de sua evolução intelectual, no período
preparatório ao Cours de philosophie positive, período esse que foi marcado, no início, pela
amizade com Saint-Simon, de quem Comte se separou em 1824;1 no período propriamente dito da
filosofia positiva; no período — tão diferente, por certas características, do precedente — do
sistema de política positiva. Comte atribui ao que ele chama de princípio de Broussais um alcance
universal, na ordem dos fenômenos biológicos, psicológicos e sociológicos.
Foi em 1828, comentando o trabalho de Broussais De l 'irritation et de la folie, que Comte aderiu a
esse princípio e o adotou para seu próprio uso [26]. Comte atribui a Broussais o mérito que na
realidade cabe a Bichat, e antes dele a Pinel, de ter proclamado que todas as doenças aceitas como
tal são apenas sintomas, e que não poderiam existir perturbações das funções vitais sem lesões de
órgãos, ou melhor, de tecidos. Mas, sobretudo, acrescenta Comte, "jamais se concebeu de maneira
tão direta e tão satisfatória a relação fundamental entre a patologia e a fisiologia". Com efeito,
Broussais explica que todas as doenças consistem, basicamente, "no excesso ou falta de excitação
dos diversos tecidos abaixo ou acima do grau que constitui o estado normal". Portanto, as doenças
nada mais são que os efeitos de simples mudanças de intensidade na ação dos estimulantes
indispensáveis à conservação da saúde.
A partir de então, Comte elevou a concepção nosológica de Broussais à categoria de axioma geral,
e não seria exagerado dizer que ele lhe atribui o mesmo valor dogmático que tem a lei de Newton
ou o princípio de d'Alembert. Aliás, é certo que, ao procurar ligar seu princípio sociológico
fundamental — "o progresso nada mais é que o desenvolvimento da ordem" — a algum outro
princípio mais geral, capaz de validá-lo, Comte hesita entre a autoridade de Broussais e a de
d'Alembert. Ora ele se refere à redução feita por d'Alembert das leis da comunicação dos
movimentos às leis do equilíbrio [28, 1, 490-94], ora ao aforismo de Broussais. A teoria positiva da
modificabilidade dos fenômenos "se condensa inteiramente nesse princípio universal, que resulta
da extensão sistemática do grande aforismo de Broussais: qualquer modificação, artificial ou
natural, da ordem real diz respeito somente à intensidade dos fenômenos correspondentes..., apesar
das variações de grau, os fenômenos conservam sempre a mesma disposição, já que qualquer
mudança de natureza propriamente dita, isto é, de classe é, aliás, considerada contraditória" [28,
III, 71]. Pouco a pouco, Comte chega quase a reivindicar para si mesmo a paternidade intelectual
desse princípio, em virtude da extensão sistemática que lhe conferiu, exatamente do mesmo modo
como, no início, achava que Broussais, tendo tomado esse princípio de Brown, podia reivindicá-lo
para si próprio, em virtude do uso pessoal que dele havia feito [28, IV App. 223]. É preciso citar,
aqui, um trecho bastante longo, que perderia grande parte de sua força se fosse resumido: "A
judiciosa observação das doenças institui, para com os seres vivos, uma série de experiências
indiretas, muito mais próprias que a maioria das experiências diretas para esclarecer as noções
dinâmicas e mesmo estáticas. Meu Traité philosophique fez com que fossem bastante apreciados o
alcance e a natureza de tal processo, de que emanam realmente as principais aquisições da biologia.
Esse tratado baseia-se no grande princípio cuja descoberta tive de atribuir a Broussais, porque
sobressai do conjunto de seus trabalhos, embora somente eu tivesse elaborado sua formulação geral
e direta. O estado patológico era, até então, relacionado com leis completamente diferentes das que
regem o estado normal: de modo que a exploração de um deles não podia decidir nada para o outro.
Broussais mostra que os fenômenos da doença coincidem essencialmente com os fenômenos da
saúde, da qual só diferem pela intensidade. Esse luminoso princípio tornou-se a base sistemática da
patologia, subordinada, assim, ao conjunto da biologia. Aplicado em sentido inverso, explica e
aperfeiçoa a grande capacidade da análise patológica para esclarecer as especulações biológicas...
As luzes que agora lhe devemos só podem dar uma fraca idéia de sua eficácia ulterior. O regime
1 Sobre as leituras de Comte a respeito de biologia e medicina, no período de 1817 a 1824, em que "ele se preparava não para tornar-se
um biólogo, mas sim um filósofo da biologia", ver H. Gouhier [47, 237].
17
enciclopédico o estenderá sobretudo às funções intelectuais e morais, às quais o princípio de
Broussais ainda não foi condignamente aplicado, de modo que suas doenças nos surpreendem ou
nos emocionam sem nos esclarecer..., além de sua eficácia direta para as questões biológicas, ele
constituirá, no sistema geral da educação positiva, uma vantajosa preparação lógica aos processos
análogos para a ciência final. Pois o organismo coletivo, em virtude de sua complexidade superior,
comporta perturbações ainda mais graves, mais variadas e mais freqüentes que as do organismo
individual. Não tenho medo de assegurar que o princípio de Broussais deve ser estendido até esse
ponto, e já o apliquei nesse campo para confirmar ou aperfeiçoar as leis sociológicas. "Contudo, a
análise das revoluções não poderia esclarecer o estudo positivo da sociedade, sem que haja, a esse
respeito, a iniciação lógica resultante dos casos mais simples apresentados pela biologia" [28, I,
651-53].
Eis, portanto, um princípio de nosologia investido de uma autoridade universal, inclusive no campo
da política. É, aliás, indubitável que esta última utilização projetada lhe confere retroativamente
todo o valor que, segundo Comte, já tinha no campo da biologia.
* * *
É a 40ª Lição do Cours de philosophie positive: considerações filosóficas sobre o conjunto da
ciência biológica, que contém o texto mais completo de Comte sobre o problema que nos interessa.
Trata-se de mostrar quais as dificuldades encontradas nos caracteres originais do ser vivo pela
simples extensão dos métodos de experimentação cuja fecundidade foi comprovada no campo dos
fenômenos físico-químicos: "Uma experimentação qualquer é sempre destinada a descobrir as leis
segundo as quais cada uma das influências determinantes ou modificadoras de um fenômeno
participa de sua realização, e ela consiste, em geral, em introduzir em cada condição proposta uma
modificação bem definida, a fim de apreciar diretamente a variação correspondente do próprio
fenômeno" [27, 169]. Ora, em biologia, a variação imprimida a uma ou várias condições de
existência do fenômeno não pode ser qualquer uma, mas deve estar compreendida entre certos
limites compatíveis com a existência do fenômeno; além disso, o fato do consensus funcional
próprio do organismo impede de acompanhar, com suficiente precisão analítica, a relação que liga
uma perturbação determinada a seus efeitos exclusivos supostos. No entanto, Comte acha que, se
admitirmos que o essencial, na experimentação, não é a intervenção artificial do pesquisador no
curso de um fenômeno que intencionalmente ele visa a perturbar, mas sim, e sobretudo, a
comparação entre um fenômeno padrão e um fenômeno alterado quanto a qualquer uma de suas
condições de existência, daí decorre que as doenças devem poder representar, aos olhos do
cientista, o papel de experimentações espontâneas, permitindo uma comparação entre os diversos
estados anormais do organismo e seu estado normal. "Segundo o princípio eminentemente
filosófico que serve doravante de base geral e direta à patologia positiva, princípio este que foi
definitivamente estabelecido pelo gênio ousado e perseverante de nosso ilustre concidadão
Broussais, o estado patológico em absoluto não difere radicalmente do estado fisiológico, em
relação ao qual ele só poderia constituir, sob um aspecto qualquer, um simples prolongamento mais
ou menos extenso dos limites de variações, quer superiores, quer inferiores, peculiares a cada
fenômeno do organismo normal, sem jamais poder produzir fenômenos realmente novos que não
tivessem de modo nenhum, até certo ponto, seus análogos puramente fisiológicos" [27, 1 75]. Por
conseguinte, qualquer concepção de patologia deve basear-se em um conhecimento prévio do
estado normal correspondente, mas, inversamente, o estudo científico dos casos patológicos tornase
uma etapa indispensável de qualquer pesquisa das leis do estado normal. A observação dos casos
patológicos apresenta vantagens reais e numerosas em relação à exploração experimental
propriamente dita. A passagem do normal ao anormal é mais lenta e mais natural quando se trata de
uma doença, e a volta do estado normal, quando esta ocorre, fornece espontaneamente uma contraprova
verificadora. Além disso, quando se trata do homem, a exploração patológica é mais rica do
que a exploração experimental, necessariamente limitada. Válida, no fundo, para todos os
organismos, mesmo vegetais, o estudo científico dos casos mórbidos convém perfeitamente aos
18
fenômenos mais complexos, e, portanto, mais delicados e mais frágeis, que poderiam ser alterados
por uma experimentação direta, que provocasse uma perturbação excessivamente brusca. Comte
referia-se, nesse trecho, aos fenômenos da vida de relação nos animais superiores e no homem, às
funções nervosas e às funções psíquicas. Enfim, o estudo das anomalias e monstruosidades,
encaradas como doenças ao mesmo tempo mais antigas e menos curáveis que as perturbações
funcionais dos diversos aparelhos vegetais ou neuromotores, completa o estudo das doenças: o
"processo teratológico" vem se juntar ao "processo patológico" para a investigação biológica [27,
179].
Convém, antes de tudo, notar o caráter particularmente abstrato dessa tese, a ausência, durante sua
exposição literal, de qualquer exemplo preciso, de natureza médica, próprio para ilustrá-la. Por não
podermos relacionar essas proposições gerais com exemplos, ignoramos em que ponto de vista
Comte se coloca para afirmar que o fenômeno patológico tem sempre seu análogo em um
fenômeno fisiológico, não constituindo nada de radicalmente novo. Em que uma artéria esclerosada
é análoga a uma artéria normal, em que um coração assistólico é idêntico a um coração de atleta, de
posse de todas as suas capacidades? Sem dúvida, deve-se compreender que na doença como na
saúde, as leis dos fenômenos vitais são as mesmas. Mas, então, por que não dizê-lo expressamente
e por que não apresentar exemplos disso? E mesmo assim, será que isso levaria a admitir que
efeitos análogos sejam determinados, na saúde e na doença, por mecanismos análogos?
Consideremos este exemplo dado por Sigerist: "Durante a digestão, o número de glóbulos brancos
aumenta. O mesmo acontece no início de uma infecção. Conseqüentemente, esse fenômeno é ora
fisiológico, ora patológico, segundo a causa que o provocou" [107, 109].
Nota-se, em seguida, que, apesar da reciprocidade de esclarecimento que o normal recebe de sua
comparação com o patológico, e o patológico de sua assimilação ao normal, Comte insiste várias
vezes na obrigação de determinar previamente o normal e seus verdadeiros limites de variação
antes de explorar metodicamente os casos patológicos. É o mesmo que dizer que, a rigor, um
conhecimento dos fenômenos normais é possível e necessário, mesmo privado das lições da doença
— espécie do gênero da experimentação —, baseado unicamente na observação. Mas o fato de
Comte não apresentar nenhum critério que permita reconhecer a normalidade de um fenômeno
constitui uma grave lacuna. Temos, portanto, boas razões para pensar que, sobre esse ponto, ele se
refere ao conceito usual correspondente, já que utiliza indiferentemente as noções de estado
normal, estado fisiológico e estado natural [27, 175, 176]. Melhor ainda, tendo de definir os limites
das perturbações patológicas ou experimentais, compatíveis com a existência dos organismos,
Comte identifica esses limites com os de uma "harmonia de influências distintas, tanto externas
quanto internas" [27, 169]. De modo que, finalmente esclarecido por esse conceito de harmonia, o
conceito de normal ou de fisiológico é reduzido a um conceito qualitativo e polivalente, estético e
moral, mas ainda que científico.
Da mesma forma, no que se refere à afirmação de identidade do fenômeno normal e do fenômeno
patológico correspondente, é claro que a intenção de Comte é negar a diferença qualitativa que os
vitalistas admitiam entre um e outro. Segundo a lógica, negar uma diferença qualitativa deve levar
a afirmar uma homogeneidade quantitativamente exprimível. Provavelmente é essa a tendência de
Comte, ao definir o patológico como "simples prolongamento mais ou menos extenso dos limites
de variação, quer superiores, quer inferiores, próprios de cada fenômeno do organismo normal". No
entanto, é preciso reconhecer que os termos aqui utilizados, por serem apenas vaga e
imprecisamente quantitativos, conservam ainda uma ressonância qualitativa. Comte herdou de
Broussais esse vocabulário inadequado para a intenção que queria exprimir, e é em Broussais que
temos de buscar a compreensão das incertezas e lacunas da exposição de Comte.
* * *
Resumimos a teoria de Broussais de preferência segundo o tratado De L'irritation et de la folie, já
que, dentre suas obras, era a que Comte conhecia melhor. Pudemos constatar que nem o Traité de
physiologie appliquée à la pathologie nem o Catéchisme de médecine physiologique formulam essa
19
teoria mais claramente, nem de outra maneira.2 Broussais considera a excitação como o fato vital
primordial. O homem só existe pela excitação exercida sobre seus órgãos pelos meios nos quais é
obrigado a viver. As superfícies de relação, tanto internas quanto externas, transmitem, por sua
inervação, essa excitação ao cérebro que a reflete em todos os tecidos, inclusive nas superfícies de
relação. Essas superfícies estão sujeitas a dois tipos de excitação: os corpos estranhos e a influência
do cérebro. É sob a ação contínua dessas múltiplas fontes de excitação que a vida se mantém.
Aplicar a doutrina fisiológica à patologia é pesquisar o modo como "essa excitação pode se desviar
do estado normal e constituir um estado anormal ou doentio" [18, 263]. Esses desvios podem ser de
duas naturezas: por falta ou por excesso. A irritação difere da excitação apenas sob o aspecto da
quantidade. Pode-se defini-la como o conjunto dos distúrbios "produzidos na economia pelos
agentes que tornam os fenômenos da vida mais ou menos pronunciados do que o são no estado
normal" [18, 267]. A irritação é, portanto, "excitação normal, transformada por seu excesso" [18,
300]. Por exemplo, a asfixia por falta de ar oxigenado priva o pulmão de seu excitante normal.
Inversamente, um ar excessivamente oxigenado "super excita o pulmão com tanto maior
intensidade quanto mais excitável por essas vísceras, e a conseqüência é a inflamação" [18, 282].
Os dois desvios, por falta ou excesso, não têm a mesma importância patológica, a segunda
prevalecendo notadamente sobre a primeira: "Essa segunda fonte de doenças, o excesso de
excitação convertido em irritação é, portanto, muito mais fecunda que a primeira, ou a falta de
excitação, e pode-se afirmar que é dela que decorre a maior parte de nossos males" [18, 286].
Broussais identifica os termos anormal, patológico ou mórbido [18, 263, 287, 315], empregando-os
indiferentemente. A distinção entre o normal e o fisiológico e o anormal ou patológico seria,
portanto, uma simples distinção quantitativa, se nos prendermos aos termos excesso e falta. Essa
distinção é válida para os fenômenos mentais, assim como para os fenômenos orgânicos, uma vez
que a teoria fisiológica das faculdades intelectuais foi admitida por Broussais [18, 440]. Assim é,
sumariamente apresentada, a tese cuja fortuna se deve mais provavelmente à personalidade de seu
autor que à coerência de sua composição.
É claro, em primeiro lugar, que, na definição do estado patológico, Broussais confunde a causa e o
efeito. Uma causa pode variar quantitativamente e de modo contínuo e provocar, no entanto, efeitos
qualitativamente diferentes. Tomemos um exemplo simples: uma excitação aumentada
quantitativamente pode determinar um estado agradável logo seguido de dor, duas sensações que
ninguém poderia confundir. Em uma tal teoria, misturam-se constantemente dois pontos de vista: o
do doente que sente a doença e a quem a doença faz sofrer, e o do cientista que não encontra na
doença nada que a fisiologia não possa explicar. Mas ocorre com os estados do organismo o
mesmo que com a música: as leis da acústica não são violadas em uma cacofonia, mas não se pode
concluir daí que qualquer combinação de sons seja agradável.
Em suma, tal concepção pode ser desenvolvida em dois sentidos ligeiramente diferentes, conforme
se estabeleça, entre o normal e o patológico, uma relação de homogeneidade ou uma relação de
continuidade. É sobretudo a relação de continuidade que Bégin, discípulo estritamente obediente,
leva em consideração: "A patologia é apenas um ramo, uma conseqüência, um complemento da
fisiologia, ou melhor, esta engloba o estudo das ações vitais em todas as fases da existência dos
corpos vivos. Passa-se insensivelmente de uma para outra dessas ciências, examinando as funções
desde o instante em que os órgãos funcionam com toda a regularidade e toda a uniformidade de que
são capazes até o momento em que as lesões tornam-se tão graves que todas as funções tornam-se
impossíveis e todos os movimentos param. A fisiologia e a patologia explicam-se reciprocamente"
[3, XVIII]. No entanto, é preciso dizer que a continuidade de uma transição entre um estado e outro
pode muito bem ser compatível com a heterogeneidade desses estados. A continuidade dos estágios
intermediários não anula a diversidade dos extremos. Na obra do próprio Broussais, o vocabulário
trai, às vezes, a dificuldade de limitar-se à afirmação de uma real homogeneidade entre os
fenômenos normais e patológicos, por exemplo: "as doenças aumentam, diminuem, interrompem,
deterioram3 a inervação do encéfalo, sob os aspectos instintivo, intelectual, sensitivo e muscular"
2 Podem-se encontrar boas exposições de conjunto das idéias de Broussais em [14; 29; 13 bis, III; 83].
3 Grifo nosso (G. C.).
20
[18, 114], e "a irritação que se desenvolve nos tecidos vivos nem sempre os altera4 da maneira que
constitui a inflamação" [18, 301]. Mais ainda do que na obra de Comte, pode-se notar a imprecisão
das noções de excesso e falta, seu caráter implicitamente qualitativo e normativo, apenas
dissimulado sob sua pretensão métrica. É em relação a uma medida considerada válida e desejável
— e, portanto, em relação a uma norma — que há excesso ou falta. Definir o anormal por meio do
que é de mais ou de menos é reconhecer o caráter normativo do estado dito normal. Esse estado
normal ou fisiológico deixa de ser apenas uma disposição detectável e explicável como um fato,
para ser a manifestação do apego a algum valor. Quando Bégin define o estado normal como
aquele em que "os órgãos funcionam com toda regularidade e uniformidade de que são capazes",
não podemos deixar de reconhecer que apesar do horror que qualquer ontologia inspirava a
Broussais, um ideal de perfeição paira sobre essa tentativa de definição positiva.
A partir deste ponto podemos esboçar a objeção maior à tese segundo a qual a patologia é uma
fisiologia mais extensa ou mais ampla. A ambição de tornar a patologia e, conseqüentemente, a
terapêutica integralmente científicas, considerando-as simplesmente procedentes de uma fisiologia
previamente instituída, só teria sentido se, em primeiro lugar, fosse possível dar-se uma definição
puramente objetiva do normal como de um fato; e se, além disso, fosse possível traduzir qualquer
diferença entre o estado normal e o estado patológico em termos de quantidade, pois apenas a
quantidade pode dar conta, ao mesmo tempo, da homogeneidade e da variação. Não julgamos estar
depreciando nem a fisiologia nem a patologia ao contestarmos essa dupla possibilidade. Mas, de
qualquer forma, deve-se constatar que nem Broussais nem Comte preencheram essas duas
exigências que parecem inseparáveis da tentativa à qual ligaram seus nomes.
O fato não deve surpreender da parte de Broussais. A reflexão metódica não era seu forte. Para ele,
as teses da medicina fisiológica não tinham tanto o valor de uma previsão especulativa que deveria
ser justificada por pesquisas pacientes mas, sobretudo, o valor de uma indicação terapêutica a ser
imposta, sob forma de sangrias, a tudo e a todos. No fenômeno geral da excitação, transformada em
irritação por seu excesso, é à inflamação que ele visava particularmente, armado de sua lanceta.
Quanto à incoerência de sua doutrina, esta deve ser atribuída, em primeiro lugar, ao fato de
combinar — sem se preocupar muito com suas implicações respectivas — os ensinamentos de
Xavier Bichat e de John Brown, sobre os quais convém dizer algumas palavras.
* * *
O médico escocês Brown (1735-1877), primeiramente aluno e depois rival de Cullen (1712-1780),
foi por ele familiarizado com a noção de irritabilidade proposta por Glisson (1596-1677) e
desenvolvida por Haller. Este último, espírito universal e genial, autor do primeiro grande tratado
de fisiologia (Elementa physiologiae, 1755-1766), entendia por irritabilidade a propriedade que
alguns órgãos, e especialmente os músculos, têm de responder por uma contração a um estímulo
qualquer. A contração não é um fenômeno mecânico análogo à elasticidade; é a resposta específica
do tecido muscular às diversas solicitações externas. Do mesmo modo, a sensibilidade é a
propriedade específica do tecido nervoso [29, II; 13 bis, II; 107,51; 110].
Segundo Brown, a vida só se mantém por uma propriedade peculiar, a incitabilidade, que permite
aos seres vivos serem afetados e reagirem. As doenças são apenas, sob a forma de estenia ou
astenia, uma modificação quantitativa dessa propriedade, conforme a incitação seja excessivamente
forte ou excessivamente fraca. "Fiz ver que a saúde e a doença não passam de um mesmo estado e
dependem da mesma causa, isto é, da incitação que varia, nos diferentes casos, apenas por graus.
Demonstrei que as forças que causam a saúde e a doença são também as mesmas agindo, às vezes,
com um grau de energia adequado, e outras vezes, com força excessiva ou insuficiente. O médico
só deve levar em consideração a aberração que a incitação sofreu, para trazê-la de volta, por meios
adequados, ao ponto onde se situa a saúde" [21, 96, nota].
4 Grifo nosso (G. C.).
21
Sem dar razão nem aos solidistas nem aos humoristas, Brown afirma que a doença não depende de
um defeito primitivo dos sólidos nem dos fluidos, mas unicamente das variações de intensidade da
incitação. Tratar as doenças é corrigir a incitação no sentido do aumento ou da diminuição. Charles
Daremberg assim resume essas idéias: "Brown encampa e adapta a seu sistema uma proposição que
por várias vezes tive oportunidade de lembrar-lhes nessas lições, isto é, que a patologia é um
departamento da fisiologia ou, como disse Broussais, da fisiologia patológica. Brown afirma, com
efeito (§ 65), que está plenamente demonstrado que o estado de saúde e o estado de doença não são
diferentes, pelo próprio fato de que as forças que produzem ou destroem um e outro têm uma
mesma ação; ele procura prová-lo comparando, por exemplo, a contração muscular e o espasmo, ou
o tétano (§ 57 seg.; cf 136)" [29, 1132]. Ora, o que nos parece particularmente interessante na
teoria de Brown é, sem dúvida, como notou várias vezes Daremberg, o fato de ser ela o ponto de
partida das concepções de Broussais; mas é sobretudo o fato de ela ter uma vaga tendência a se
realizar plenamente em uma mensuração do fenômeno patológico. Brown pretendeu avaliar
numericamente a disposição variável dos órgãos a serem incitados: "Seja igual a 6 a afecção
principal (por exemplo, a inflamação dos pulmões na peripneumonia, a inflamação do pé na gota, o
derrame de serosidade em uma cavidade geral ou particular na hidropisia), e seja a afecção menor
de cada parte igual a 3; seja 1.000 o número das partes ligeiramente afetadas. A afecção parcial
estará, para com o resto do corpo, na razão de 6 para 3.000. As causas excitantes que agem sobre
todo o corpo e os remédios que destroem seus efeitos em todo o organismo confirmam a exatidão
de um tal cálculo, em qualquer doença geral" [21, 29]. A terapêutica é baseada em um cálculo:
"Supondo que a diátese estênica tenha subido a 60 graus na escala da incitação, deve-se procurar
subtrair os 20 graus de incitação excessiva e empregar, para esse fim, meios cujo estímulo seja
bastante fraco" [21, 50, nota]. É claro que se tem o direito e o dever de sorrir diante dessa
caricatura de "matematização" do fenômeno patológico, mas com a condição de reconhecer que a
doutrina desenvolve até o fim a exigência de seus postulados e que a coerência de seus conceitos é
bastante completa, ao passo que não o é na doutrina de Broussais.
Ainda há mais, pois um discípulo de Brown, Lynch, elaborou, no espírito desse sistema, uma escala
dos graus de incitação, "verdadeiro termômetro da saúde e da doença", como disse Daremberg, sob
a forma de uma tabela proporcional, anexada às diversas edições ou traduções dos Éléments de
médecine. Essa tabela comporta duas escalas de 0 a 80 colocadas lado a lado e invertidas, de tal
maneira que, ao máximo de incitabilidade (80) corresponde o grau 0 de incitação, e vice-versa. Aos
diversos graus dessa escala correspondem, por afastamento nos dois sentidos, a partir da saúde
perfeita (incitação = 40, incitabilidade = 40), as doenças, suas causas e suas influências, seus
tratamentos. Por exemplo, na zona da escala compreendida entre 60 e 70 graus de incitação
encontram-se afecções da diátese estênica: peripneumonia, frenesi, varíola grave, sarampo grave,
erisipela grave, reumatismo. Assim sendo, a seguinte indicação terapêutica: "Para curar, é preciso
diminuir a incitação. Isso é possível afastando-se os estímulos excessivamente violentos, ao mesmo
tempo que só se permite o acesso dos mais fracos, ou dos estímulos negativos. Os processos
curativos são a sangria, o purgante, a dieta, a paz interior, o frio etc."
Nem é preciso dizer que essa exumação de uma nosologia obsoleta não obedece a nenhuma
intenção recreativa, a nenhum desejo de satisfazer uma vã curiosidade de erudito. Ela pretende
unicamente precisar o sentido profundo da tese de que tratamos. É logicamente irrepreensível que
uma identificação de fenômenos cuja diversidade qualitativa é considerada ilusória tome a forma
de uma quantificação. No caso citado, a forma de identificação métrica é apenas caricatural.
Freqüentemente, porém, uma caricatura fornece a essência de uma forma melhor do que uma cópia
fiel. É verdade que Brown e Lynch só chegam, na realidade, a uma hierarquia conceptual dos
fenômenos patológicos, a uma localização qualitativa de estados entre dois pontos extremos: a
saúde e a doença. Localizar não é medir, um grau não é uma unidade cardinal. Mas o próprio erro é
instrutivo; revela certamente a significação teórica de uma tentativa, e, sem dúvida, também os
limites que a tentativa encontra no próprio objeto ao qual se aplica.5
5 Cf. nosso recente estudo "John Brown. La théorie de l'incitabilité de l'organisme et son importance historique", a ser publicado nas
Actes du XIIIe Congrès International d 'Histoire des Sciences, Moscou, 1971.
22
* * *
Admitindo que Broussais tivesse podido aprender com Brown que afirmar a identidade dos
fenômenos normais e patológicos, apenas com variações quantitativas, é logicamente impor a si
mesmo a pesquisa de um método de medida, o ensinamento recebido de Bichat não deixaria de
contrabalançar essa influência. Em Recherches sur la vie et sur la mort (1800), Bichat opõe o
objeto e os métodos da fisiologia ao objeto e aos métodos da física. A instabilidade e a
irregularidade são, segundo ele, caracteres essenciais dos fenômenos vitais, de modo que fazê-los
encaixar, à força, no quadro rígido das relações métricas é desnaturá-los [12, art. 72, §I]. Foi de
Bichat que Comte e até mesmo Claude Bernard herdaram sua desconfiança sistemática em relação
a qualquer tratamento matemático dado aos fatos biológicos e, especialmente, em relação a
qualquer pesquisa de médias, a qualquer cálculo estatístico.
Ora, a hostilidade de Bichat em relação a qualquer intenção métrica em biologia alia-se,
paradoxalmente, à afirmação de que, no nível dos tecidos que constituem o organismo, as doenças
devem ser explicadas por variações de suas propriedades — variações essas que temos de admitir
serem quantitativas. "Analisar com precisão as propriedades dos corpos vivos; mostrar que todo
fenômeno fisiológico corresponde, em última análise, a essas propriedades consideradas em seu
estado natural, que todo fenômeno patológico deriva de seu aumento, de sua diminuição e de sua
alteração; que todo fenômeno terapêutico tem como princípio sua volta ao tipo natural do qual se
tinham afastado; determinar com precisão os casos em que cada um desses fatores está em jogo...
eis a doutrina geral desta obra" [13, I, XIX]. Encontramos aqui a origem dessa ambigüidade de
noções que já criticamos em Broussais e Comte. Aumento e diminuição são conceitos de valor
quantitativo, porém alteração é um conceito qualitativo. É claro que não se podem criticar
fisiologistas e médicos por caírem na armadilha do Mesmo e do Outro em que tantos filósofos
foram apanhados, desde Platão. Mas é bom saber reconhecer a armadilha, em vez de ignorá-la tão
inconscientemente no próprio instante em que se é apanhado. Toda a doutrina de Broussais já está
em germe nesta proposição de Bichat: "A finalidade de qualquer processo curativo é apenas fazer
as propriedades vitais alteradas voltarem ao tipo que lhes é natural. Qualquer processo que, na
inflamação local, não diminua a sensibilidade orgânica aumentada, que, nos edemas, nas
infiltrações etc., não aumente essa propriedade, nesses casos, totalmente diminuída, que, nas
convulsões, não restabeleça um nível mais baixo da contractilidade animal, que não eleve essa
mesma contractilidade a um grau mais alto na paralisia etc., não atinge em absoluto seu objetivo; é
contra-indicado" [13, I, 12]. A única diferença é que Broussais reduzia toda a patogenia a um
fenômeno de aumento e de excesso e, por conseguinte, toda a terapêutica à sangria. É realmente o
caso de se dizer que em tudo o excesso é um defeito!
* * *
Pode ser surpreendente constatar que a exposição de uma teoria de A. Comte tenha servido de
pretexto para uma exposição retrospectiva. Por que não ter adotado, logo de início, a ordem
histórica? Primeiro porque o relato histórico sempre transtorna a verdadeira ordem de interesse e de
interrogação. É no presente que os problemas solicitam uma reflexão. Se a reflexão leva a uma
regressão, a regressão é necessariamente relativa à reflexão. Assim, a origem histórica importa
menos, na verdade, que a origem reflexiva. É claro que Bichat, fundador da histologia, nada deve a
Augusto Comte. No entanto, nem mesmo isso é certo, se é verdade que as resistências encontradas
na França pela teoria celular provinham em grande parte da fidelidade de Charles Robin ao
positivismo. Ora, sabe-se que, segundo Bichat, Comte não admitia que a análise pudesse ir além
dos tecidos [64]. O que é certo, de qualquer modo, é que, mesmo no meio médico culto, as teorias
de patologia geral próprias de Bichat, de Brown e de Broussais só exerceram influência na medida
em que Comte as reconheceu como suas. Os médicos da segunda metade do século XIX
ignoravam, na sua maioria, Broussais e Brown, mas poucos ignoravam Comte ou Littré; como hoje
23
em dia a maioria dos fisiologistas não pode ignorar Claude Bernard, mas desconhece Bichat, a
quem Claude Bernard está ligado por intermédio de Magendie.
Remontando às fontes longínquas das idéias de Comte, através da patologia de Broussais, de
Brown e de Bichat, podemos compreender melhor o alcance e os limites dessas idéias. Sabemos
que Comte herdara de Bichat, por intermédio de Blainville, seu professor de fisiologia, uma franca
hostilidade contra qualquer matematização da biologia. Ele se justifica detidamente na 40ª Lição do
Cours de philosophie positive. Apesar de discreta, essa influência do vitalismo de Bichat sobre a
concepção positivista dos fenômenos da vida contra-balança as exigências lógicas profundas da
afirmação de identidade entre os mecanismos fisiológicos e os mecanismos patológicos, exigências
essas, aliás, desconhecidas por Broussais, outro intermediário entre Comte e Bichat, sobre um
aspecto preciso de doutrina patológica.
Deve-se, ainda, lembrar que as intenções e os objetivos de Comte são bastante diferentes dos de
Broussais, ou dos ascendentes espirituais deste último, quando expõe as mesmas concepções em
matéria de patologia. Por um lado, Comte pretende codificar os métodos científicos, mas, por
outro, pretende instituir cientificamente uma doutrina política. Afirmando de maneira geral que as
doenças não alteram os processos vitais, Comte se justifica por ter afirmado que a terapêutica das
crises políticas consiste em trazer as sociedades de volta à sua estrutura essencial e permanente, em
só tolerar o progresso nos limites de variação da ordem natural definitiva pela estática social.
Portanto, na doutrina positivista, o princípio de Broussais limita-se apenas a uma idéia subordinada
a um sistema, e foram os médicos, os psicólogos e os literatos de inspiração e de tradição
positivista que a difundiram como concepção independente.
24
III CLAUDE BERNARD E A PATOLOGIA EXPERIMENTAL
É verdade que Claude Bernard jamais se refere a Comte, quando trata do problema das relações
entre o normal e o patológico, dando-lhe uma solução aparentemente semelhante; mas também é
indubitável que ele não podia ignorar a opinião de Comte.
Sabe-se que Claude Bernard leu Comte, com atenção e fazendo anotações, como o provam as notas
datadas provavelmente de 1865-1866 e que foram publicadas por Jacques Chevalier em 1938 [11].
Para os médicos e os biólogos do Segundo Império, Magendie, Comte e Claude Bernard são três
deuses — ou três demônios — do mesmo culto. Littré, tratando da obra experimental de Magendie,
mestre de Claude Bernard, destaca seus postulados, que coincidem com as idéias de Comte sobre a
experimentação em biologia e suas relações com a observação dos fenômenos patológicos [78,
162]. E. Gley foi o primeiro a mostrar que Claude Bernard adotou a lei dos três estados no seu
artigo Progrès des sciences physiologiques (Revue des Deux Mondes, 1º de agosto de 1865) e que
tomou parte em publicações e associações que receberam a influência positivista de Charles Robin
[44, 164-170]. Em 1864, Charles Robin publicava, com Brown-Séquard, o Journal de l'anatomie et
de la physiologie normales et pathologiques de l'homme et des animaux, em cujos primeiros
fascículos foram publicadas memórias de Claude Bernard, Chevreul etc. Claude Bernard foi o
segundo presidente da Sociedade de Biologia fundada por Charles Robin em 1848 e cujos
princípios diretores ele formulou em um estudo que foi lido aos membros fundadores: "Nosso
objetivo, ao estudar a anatomia e a classificação dos seres, é elucidar o mecanismo das funções; ao
estudar a fisiologia, é chegar a compreender de que modo os órgãos podem se alterar, e dentro de
que limites as funções podem se desviar do estado normal" [44, 166]. Lamy, por outro lado,
mostrou que os artistas e escritores que, no século XIX, procuraram na fisiologia e na medicina
fontes de inspiração ou temas de reflexão não fizeram praticamente distinção entre as idéias de
Comte e as de Claude Bernard [68].
Dito isso, é preciso acrescentar que é realmente bastante difícil e delicado expor as idéias de
Claude Bernard sobre o problema preciso do significado e da natureza dos fenômenos patológicos.
Trata-se de um cientista de importância considerável, cujos métodos e descobertas até hoje ainda
não foram esgotados em toda a sua riqueza, a quem médicos e biólogos se referem constantemente,
e de cujas obras não há nenhuma edição completa e crítica! A maioria das aulas proferidas no
Collège de France foram redigidas e publicadas por seus alunos. Porém, o que o próprio Claude
Bernard escreveu, sua correspondência, não foi objeto de nenhuma investigação respeitosa e
metódica. Ocasionalmente são publicados notas e cadernos seus dos quais a polêmica logo se
apodera, para fins tão expressamente tendenciosos, que se chega a pensar se não seriam essas
mesmas tendências, aliás muito diversas, que suscitaram a própria publicação de todos esses
fragmentos. O pensamento de Claude Bernard continua sendo um problema. A única resposta
honesta que lhe será dada será a publicação metódica de seus papéis e a guarda de seus manuscritos
nos arquivos, no dia em que decidirem fazê-lo.1
* * *
A identidade — seria necessário precisar se nos mecanismos, ou nos sintomas, ou em ambos? — e
a continuidade reais dos fenômenos patológicos e dos fenômenos fisiológicos correspondentes são,
na obra de Claude Bernard, uma repetição monótona, mais do que um tema. Encontra-se essa
afirmação nas Leçons de pysiologie expérimentale apliquée à la médecine (1855), sobretudo nas
lições 2 e 22 do tomo II; nas Leçons sur la chaleur animale (1876). Escolhemos, porém, de
1 Foi a d'Arsonval que Claude Bernard legou seus papéis inéditos. Cf. Claude Bernard, Pensées, notes détachées, com prefácio de
d'Arsonval (J.-B. Ballière, 1937). Esses papéis foram minuciosamente analisados pelo Dr. Delhoume, que, no entanto, deles ainda só
publicou fragmentos. Dispomos atualmente de um Catalogue des Manuscrits de Claude Bernard, elaborado pelo Dr. M.-D. Grmek,
Paris, Masson, 1967.
25
preferência, como texto fundamental, as Leçons sur le diabète et la glycogenèse animale (1877),
que, dentre todos os trabalhos de Claude Bernard, pode ser considerado como aquele que é
especialmente consagrado à ilustração de sua teoria, aquele em que os fatos clínicos e
experimentais são apresentados tanto ou mais pela "moral" de ordem metodológica e filosófica que
deles se deve tirar que por sua significação fisiológica intrínseca.
Claude Bernard considera a medicina como a ciência das doenças, e a fisiologia como a ciência da
vida. Nas ciências, é a teoria que ilumina e domina a prática. A terapêutica racional só poderia ser
sustentada por uma patologia científica e uma patologia científica deve se basear na ciência
fisiológica. Ora, o diabetes é uma doença que levanta problemas cuja solução proporciona a
demonstração da tese precedente. O bom senso indica que, conhecendo-se completamente um
fenômeno fisiológico, estamos em condições de avaliar todas as perturbações que ele pode sofrer
no estado patológico: "Fisiologia e patologia se confundem e são, no fundo, uma só e mesma coisa"
[9, 56]. O diabetes é uma doença que consiste única e inteiramente no distúrbio de uma função
normal. "Toda doença tem uma função normal correspondente da qual ela é apenas a expressão
perturbada, exagerada, diminuída ou anulada. Se não podemos, hoje em dia, explicar todos os
fenômenos das doenças, é porque a fisiologia ainda não está bastante adiantada e porque ainda há
uma quantidade de funções normais que desconhecemos" [9,56]. Por essa afirmação, Claude
Bernard se opõe a muitos fisiologistas de sua época, segundo os quais a doença seria uma entidade
extrafisiológica, que viria reacrescentar-se ao organismo. O estudo do diabetes não permite mais
sustentar tal opinião. "Com efeito, o diabetes é caracterizado pelos seguintes sintomas: poliúria,
polidipsia, polifagia, autofagia e glicosúria. Nenhum desses sintomas é propriamente um fenômeno
novo, estranho ao estado normal, nenhum é uma produção espontânea da natureza. Pelo contrário,
todos preexistem, exceto por sua intensidade, que varia no estado normal e no estado de doença"
[9, 65-66]. É fácil demonstrá-lo no que se refere à poliúria, à polidipsia, à polifagia e à autofagia,
mas é menos fácil no que se refere à glicosúria. Claude Bernard sustenta, porém, que a glicoária é
um estado "larvado e desapercebido" no estado normal e que só se torna aparente por sua
exacerbação [9, 67]. Na realidade, ele não demonstra efetivamente o que afirma. Na décima sexta
lição, depois de ter confrontado as opiniões de fisiologistas que afirmam e de outros que negam a
presença constante de açúcar na urina normal, depois de ter mostrado a dificuldade das
experiências e de seu controle, Claude Bernard acrescenta que, na urina normal de um animal
alimentado com substâncias azotadas e privado de açúcares e feculentos, ele jamais conseguiu
identificar a presença da mais fraca quantidade de açúcar, mas que o mesmo não acontece com um
animal alimentado com açúcares ou feculentos em excesso. Segundo ele, é também natural achar
que a glicemia, no curso de suas oscilações, pode determinar a passagem do açúcar para a urina.
"Em suma, não creio que se possa formular essa proposição como verdade absoluta: existe açúcar
na urina normal. Porém admito muito bem que em um grande número de casos podem existir
vestígios de açúcar; há uma espécie de glicosúria fugaz que estabelece — neste caso assim como
em outros — uma passagem insensível e imperceptível entre o estudo fisiológico e o estado
patológico. Concordo, aliás, com os clínicos, no sentido de reconhecer que o fenômeno glicosúrico
só tem realmente um caráter patológico bem comprovado quando se torna permanente" [9, 390].
É interessante constatar que, procurando encontrar um fato particularmente demonstrativo a favor
de sua interpretação, em um caso em que a sentia especialmente contestada, Claude Bernard teve
de admitir, sem provas experimentais, esse mesmo fato — por motivos teóricos — supondo sua
realidade como situada além dos limites de sensibilidade de todos os métodos então usados para
sua detecção. Precisamente a respeito dessa questão, H. Frédéricq admite, hoje em dia, que não há
glicosúria normal, que em certos casos de ingestão considerável de líquido e de diurese abundante,
a glicose não é reabsorvida pelo rim no nível do tubo contornado e é, por assim dizer, eliminada
por lavagem [40, 353]. Isso explica que certos autores como Nolf possam admitir uma glicosúria
normal infinitesimal [90, 251]. Se não há normalmente glicosúria, qual o fenômeno fisiológico de
que a glicosúria diabética seria a exageração quantitativa?
Para abreviar o assunto, sabe-se que a genialidade de Claude Bernard consistiu em mostrar que o
açúcar no organismo animal é um produto desse próprio organismo, e não apenas um produto
importado do reino vegetal por meio da alimentação; que o sangue contém normalmente glicose, e
26
que o açúcar encontrado na urina é um produto geralmente eliminado pelo rim quando a taxa de
glicemia atinge certo limiar. Em outras palavras, a glicemia é um fenômeno constante,
independente do tipo de alimentos ingeridos, de tal modo que é a ausência de glicose sangüínea que
é anormal, e que a glicosúria é a conseqüência de uma glicemia aumentada, e que ultrapassou um
certo teor considerado como limiar. No diabético, a glicemia em si não é um fenômeno patológico,
mas sim pela sua quantidade; em si mesma, a glicemia é "um fenômeno normal e constante do
organismo no estado de saúde" [9, 181]. "Há apenas uma glicemia, que é constante, permanente,
quer no diabetes, quer fora desse estado mórbido. Apenas ela apresenta várias gradações: a
glicemia abaixo de 3 a 4% não causa glicosúria; mas, acima desse ponto, a glicosúria ocorre... É
impossível perceber a passagem do estado normal ao estado patológico, e nenhuma questão poderia
mostrar melhor a íntima fusão da fisiologia e da patologia do que a questão do diabetes" [9, 132].
A energia despendida por Claude Bernard para expor sua tese não parece supérflua se situarmos
essa tese na perspectiva histórica. Em 1866, Jaccoud, professor adjunto* da Faculdade de Medicina
de Paris, falava do diabetes, em uma lição clínica, professando que a glicemia é um fenômeno
inconstante e patológico e que a produção de açúcar no fígado é, segundo os trabalhos de Pavy, um
fenômeno patológico. "Não se pode atribuir o estado diabético à exageração de um fenômeno
fisiológico que não existe... É impossível ver o diabetes como a exageração de uma processão
regular: é a expressão de um processo totalmente estranho à vida normal. Esse processo é, ele
próprio, a essência da doença" [57, 826]. Em 1883, o mesmo Jaccoud, que tinha se tornado
professor de patologia interna, mantinha em seu Traité de pathologie interne todas as suas objeções
à teoria de Claude Bernard, teoria essa que, no entanto, já estava mais solidamente assentada que
em 1866: "A transformação do glicogênio em açúcar é um fenômeno ou patológico ou cadavérico"
[58, 945].
Se quisermos compreender bem o sentido e o alcance da afirmação de continuidade entre os
fenômenos normais e os fenômenos patológicos, é preciso não esquecer que as demonstrações
críticas de Claude Bernard visavam à tese que admite uma diferença qualitativa nos mecanismos e
nos produtos das funções vitais no estado patológico e no estado normal. Essa oposição de teses
talvez apareça melhor em Leçons sur la chaleur animale: "A saúde e a doença não são dois modos
que diferem essencialmente, como talvez tenham pensado os antigos médicos e como ainda pensam
alguns. É preciso não fazer da saúde e da doença princípios distintos, entidades que disputam uma à
outra o organismo vivo e que dele fazem o teatro de suas lutas. Isso são velharias médicas. Na
realidade, entre essas duas maneiras de ser há apenas diferenças de grau: a exageração, a
desproporção, a desarmonia dos fenômenos normais constituem o estado doentio. Não há um único
caso em que a doença tenha feito surgir condições novas, uma mudança completa de cena, produtos
novos e especiais" [8, 391]. Para sustentar essa afirmação, Claude Bernard dá um exemplo que ele
considera particularmente apropriado para ridicularizar a opinião por ele combatida. Dois
fisiologistas italianos, Lussana e Ambrossoli, tendo repetido as experiências de Claude Bernard
sobre a secção do simpático e seus efeitos, negavam o caráter fisiológico do calor gerado pela
vasodilatação nos órgãos interessados. Segundo eles, esse calor era mórbido, diferente, sob todos
os pontos de vista, do calor fisiológico, este originando-se da combustão de alimentos, e aquele da
combustão dos tecidos. Como se não fosse sempre no nível dos tecidos dos quais se tornou parte
integrante que o alimento é queimado, replica Claude Bernard. E pensando ter refutado com
facilidade os autores italianos, acrescenta: "Na realidade, as manifestações fisico-químicas não
mudam de natureza, conforme ocorram dentro ou fora do organismo, e ainda segundo o estado de
saúde ou de doença. Há apenas uma espécie de agente calorífico; o fato de ser gerado em uma
lareira ou em um organismo não faz com que seja menos idêntico a si mesmo. Não poderia haver
distinção entre um calor físico e um calor animal e menos ainda entre um calor mórbido e um calor
fisiológico. O calor animal mórbido e o calor fisiológico só diferem por seu grau, e não por sua
natureza" [8, 394]. Decorre daí a conclusão: "Essas idéias de luta entre dois agentes opostos, de
antagonismo entre a vida e a morte, entre a saúde e a doença, entre a natureza bruta e a natureza
* Em francês, professeur agrégé, professor que, depois de ter passado o concurso de Agrégation, ocupa um cargo que, na hierarquia
universitária, se situa imediatamente abaixo do cargo de professor-titular. É, portanto, mais ou menos o equivalente a professor adjunto.
(N.T.)
27
animada já estão ultrapassadas. É preciso reconhecer em tudo a continuidade dos fenômenos, sua
gradação insensível e sua harmonia" [ibid.].
Estes dois últimos textos nos parecem particularmente esclarecedores, porque revelam uma relação
de idéias que não aparece absolutamente em Leçons sur le diabete. A idéia da continuidade entre o
normal e o patológico está, ela própria, em continuidade com a idéia da continuidade entre a vida e
a morte, entre a matéria orgânica e a matéria inerte. Claude Bernard tem, incontestavelmente, o
mérito de ter negado oposições até então aceitas entre o mineral e o orgânico, entre o vegetal e o
animal, de ter afirmado a onivalência do postulado determinista e a identidade material de todos os
fenômenos físico-químicos qualquer que seja sua sede e qualquer que seja seu comportamento.
Claude Bernard não foi o primeiro a afirmar a identidade das produções da química de laboratório e
da química viva — a idéia já estava formada desde que Woehler realizara a síntese da uréia em
1828 —, ele simplesmente "reforçou o impulso fisiológico que os trabalhos de Dumas e de Liebig
haviam dado à química orgânica".2 Mas foi o primeiro a afirmar a identidade fisiológica das
funções do vegetal e das funções correspondentes do animal. Pensava-se antes dele que a
respiração dos vegetais fosse inversa à dos animais, que os vegetais fixavam o carbono e que os
animais o queimavam, que os vegetais realizavam reduções e os animais, combustões, que os
vegetais realizavam sínteses que os animais destruíam utilizando-as, já que eram incapazes de
realizá-las.
Todas essas oposições foram negadas por Claude Bernard, e a descoberta da função glicogênica do
fígado foi um dos mais belos êxitos da vontade de "reconhecer em tudo a continuidade dos
fenômenos".
Não interessa saber agora se Claude Bernard tem uma idéia exata sobre o que seja uma oposição ou
um contraste, e se tem boas razões para considerar o binômio de noções saúde-doença como
simétrico do binômio vida-morte, para daí tirar a conclusão de que, tendo reduzido à identidade os
termos do segundo, está autorizado a procurar a identificação dos termos do primeiro. Interessa
saber o que Claude Bernard pretendia dizer ao afirmar a unidade da vida e da morte. Saber se
Claude Bernard era ou não materialista ou vitalista é um problema que foi muitas vezes levantado,
para fins de polêmica leiga ou religiosa.3 Parece que uma leitura atenta das Leçons sur les
phénoménes de la vie (1878) sugere uma resposta menos categórica. Claude Bernard não admite
que se distinga, do ponto de vista físico-químico, os fenômenos do reino orgânico e os fenômenos
do reino mineral: "O quimismo do laboratório e o quimismo da vida estão sujeitos às mesmas leis:
não há duas químicas" [10,1, 224]. É o mesmo que dizer que a análise científica e a técnica
experimental podem identificar e reproduzir os produtos das sínteses vitais da mesma forma que as
espécies minerais. Mas é apenas a afirmação da homogeneidade da matéria na forma viva e fora
desta forma, pois, rejeitando o materialismo mecanicista, Claude Bernard afirma a originalidade da
forma viva e de suas atividades funcionais: "Apesar de as manifestações vitais estarem sob a
influência direta das condições físico-químicas, essas condições não poderiam agrupar, harmonizar
os fenômenos na ordem e na sucessão em que se apresentam de modo especial nos seres vivos"
[10, II, 218]. E mais claramente ainda: "Acreditamos, assim como Lavoisier, que os seres vivos
estão sujeitos às leis gerais da natureza e que suas manifestações são expressões físicas e químicas.
Mas, em vez de considerarmos, como os físicos e os químicos, o tipo das ações vitais nos
fenômenos do mundo inanimado, professamos, ao contrário, que a expressão é peculiar, que o
mecanismo é especial, que o agente é específico, apesar de o resultado ser idêntico. Não há um
único fenômeno químico que se realize, no corpo, da mesma forma como fora dele" [ibid.]. Estas
últimas palavras poderiam servir de epígrafe à obra de Jacques Duclaux sobre a Analyse physicochimique
des fonctions vitales. Segundo Duclaux, cujo afastamento de qualquer espiritualismo é
evidente nessa obra, nenhuma reação química intracelular pode ser representada por uma fórmula
de equação obtida graças à experimentação in vitro: "Logo que um corpo se torna representável por
nossos símbolos, a matéria viva o considera como inimigo e o elimina, ou neutraliza... O homem
criou uma química que se desenvolveu a partir da química natural sem com ela se confundir" [36].
2 Pasteur, no artigo sobre Cl. Bernard, ses travaux, son enseignement, sa méthode.
3 Ver o Claude Bernard de Pierre Mauriac [81] e Claude Bernard et le matérialisme de Pierre Lamy [68].
28
De qualquer modo, parece claro que, para Claude Bernard reconhecer a continuidade dos
fenômenos, não significa desconhecer sua originalidade. Conseqüentemente, poder-se-ia afirmar,
simetricamente ao que ele disse sobre as relações entre a matéria bruta e a matéria viva: há apenas
uma fisiologia, mas em vez de considerar que os fenômenos fisiológicos constituem o modelo dos
fenômenos patológicos, deve-se considerar que sua expressão é peculiar, seu mecanismo é especial,
apesar de o resultado ser idêntico; não há um fenômeno que se realize no organismo doente da
mesma forma como no organismo são? Por que afirmar sem restrições a identidade da doença e da
saúde, ao passo que não se afirma o mesmo sobre a morte e a vida, sobre cuja relação pretende-se
moldar a relação entre a doença e a saúde?
* * *
Ao contrário de Broussais e Comte, Claude Bernard traz, para sustentar seu princípio geral de
patologia, argumentos controláveis, protocolos de experiências, e sobretudo métodos de
quantificação dos conceitos fisiológicos. Glicogênese, glicemia, glicosúria, combustão dos
alimentos, calor de vasodilatação não são mais conceitos qualitativos; são os resumos de resultados
obtidos ao cabo de mensurações. Desde então, quando se acha que a doença é a expressão
exagerada ou a expressão diminuída de uma função normal, sabe-se exatamente o que se quer
dizer. Ou pelo menos têm-se os meios de sabê-lo, pois, apesar desse progresso incontestável da
precisão lógica, o pensamento de Claude Bernard não está isento de qualquer ambigüidade.
Em primeiro lugar é preciso notar em Claude Bernard, assim como em Bichat, Broussais e Comte,
uma convergência de conceitos quantitativos e qualitativos na definição dada aos fenômenos
patológicos. Ora o estado patológico é "o distúrbio de um mecanismo normal, que consiste em uma
variação quantitativa, uma exageração ou atenuação dos fenômenos normais" [9, 360], ora o estado
doentio é constituído pelo "exagero, pela desproporção, pela desarmonia dos fenômenos normais"
[8, 391]. Impossível deixar de ver, nesse trecho, que o termo "exageração" tem um sentido
nitidamente quantitativo na primeira definição e um sentido mais qualitativo na segunda. Será que
Claude Bernard julgava anular o valor qualitativo do termo "patológico" substituindo-o pelos
termos dis-túrbio, des-proporção, dês-armonia?
Essa ambigüidade é certamente instrutiva, pois revela a persistência do próprio problema no seio de
uma solução que se acreditava ter sido dada a esse problema. E o problema é o seguinte: o conceito
de doença será o conceito de uma realidade objetiva acessível ao conhecimento científico
quantitativo? A diferença de valor que o ser vivo estabelece entre sua vida normal e sua vida
patológica seria uma aparência ilusória que o cientista deveria negar? Se essa anulação de um
contraste qualitativo é teoricamente possível, é claro então que é também legítima; e se não é
possível, o problema de sua legitimidade é supérfluo.
Pudemos observar que Claude Bernard utiliza indiferentemente duas expressões que são variações
quantitativas e diferenças de grau, isto é, utiliza, de fato, dois conceitos, homogeneidade e
continuidade, o primeiro, implicitamente, e o segundo, expressamente. Ora, a utilização de um ou
outro desses conceitos não leva necessariamente às mesmas exigências lógicas. Se afirmo a
homogeneidade de dois objetos sou obrigado a definir ao menos a natureza de um dos dois, ou
então alguma natureza comum a um e a outro. Mas, se afirmo a continuidade, posso apenas
intercalar entre extremos, sem reduzi-los um ao outro, todos os intermediários cujas disposição
obtenho pela dicotomia de intervalos progressivamente reduzidos. Isso é tão verdadeiro que certos
autores tomam como pretexto a continuidade entre a saúde e a doença para se recusarem a definir
tanto uma como a outra.4 Segundo eles, não existe estado normal completo, nem saúde perfeita.
Isso pode significar que existem apenas doentes. Molière e Jules Romains mostraram com muito
humor que tipo de iatrocracia pode ser justificada por essa afirmação. Mas isso também poderia
significar que não existem doentes, o que não é menos absurdo. Será que, afirmando seriamente
que a saúde perfeita não existe e que por conseguinte a doença não poderia ser definida, os médicos
4 É o caso de H. Roger, por exemplo, em Introduction à la médecine. O mesmo ocorre com Claude e Camus na sua Pathologie générale.
29
perceberam que estavam ressuscitando pura e simplesmente o problema da existência da perfeição
e o argumento ontológico?
Durante muito tempo procurou-se descobrir se seria possível provar a existência do ser perfeito a
partir de sua qualidade de perfeito, já que, tendo todas as perfeições, ele também teria a capacidade
de criar sua própria existência. O problema da existência efetiva de uma saúde perfeita é análogo.
Como se a saúde perfeita fosse apenas um conceito normativo, um tipo ideal? Raciocinando com
todo o rigor, uma norma não existe, apenas desempenha seu papel que é de desvalorizar a
existência para permitir a correção dessa mesma existência. Dizer que a saúde perfeita não existe é
apenas dizer que o conceito de saúde não é o de uma existência, mas sim o de uma norma cuja
função e cujo valor é relacionar essa norma com a existência a fim de provocar a modificação
desta. Isso não significa que saúde seja um conceito vazio.
Mas Claude Bernard está bem longe de um relativismo tão fácil, em primeiro lugar, porque a
afirmação de continuidade subentende sempre, no seu pensamento, a afirmação de homogeneidade,
em seguida porque ele julga poder atribuir sempre um conteúdo experimental ao conceito de
normal. Por exemplo, o que chama de urina normal de um animal é a urina de um animal em jejum,
sempre comparável a ela própria — já que o animal se nutre de suas próprias reservas — e de tal
modo que sirva de termo constante de referência para qualquer urina obtida nas condições de
alimentação que se quiser estabelecer [5,11, 13]. Trataremos, mais adiante, das relações entre o
normal e o experimental. Por enquanto, queremos apenas examinar em que ponto de vista Claude
Bernard se coloca quando considera o fenômeno patológico como variação quantitativa do
fenômeno normal. Naturalmente, está bem claro que se utilizamos, enquanto apreciamos a questão,
dados fisiológicos ou clínicos recentes, não é para criticar Claude Bernard por ter ignorado o que
não podia saber.
* * *
Se considerarmos a glicosúria como o sintoma principal do diabetes, a presença de açúcar na urina
diabética a torna qualitativamente diferente de uma urina normal. O estado patológico identificado
com seu principal sintoma é uma qualidade nova, em relação ao estado fisiológico. Mas se,
considerando a urina como um produto de secreção renal, o médico volta seu pensamento para o
rim e as relações entre filtro renal e a composição do sangue, vai considerar a glicosúria como o
transbordamento da glicemia que ultrapassa um limiar. A glicose que ultrapassa o limiar e
transborda é qualitativamente a mesma que a glicose retida normalmente pelo limiar. Com efeito, a
única diferença é uma diferença de quantidade. Se considerarmos, portanto, o mecanismo renal da
secreção urinária través dos seus resultados — efeitos fisiológicos ou sintomas mórbidos —, a
doença consiste no aparecimento de uma nova qualidade; se considerarmos o mecanismo em si
mesmo, a doença é somente variação quantitativa. Da mesma forma, poderíamos citar a
alcaptonúria como exemplo do mecanismo químico normal que pode produzir um sintoma normal.
Essa afecção rara, descoberta por Boedeker em 1857, consiste essencialmente em um distúrbio do
metabolismo de um ácido aminado, a tirosina. A alcaptona ou ácido homogentísico é um produto
normal do metabolismo intermediário da tirosina, mas os doentes alcaptonúricos se distinguem pela
incapacidade de ultrapassar esse estágio e queimar o ácido homogentísico [41, 10.534]. O ácido
homogentísico passa então para a urina e se transforma em presença dos álcalis, produzindo por
oxidação um pigmento negro que colore a urina, conferindo-lhe, assim, uma qualidade nova que
não é de modo algum a exageração de alguma qualidade apresentada pela urina normal. Pode-se,
aliás, provocar experimentalmente a alcaptonúria pela absorção maciça (50 g em 24 h) de tirosina.
Estamos, portanto, diante de um fenômeno patológico que poderemos definir pela qualidade ou
pela quantidade, conforme o ponto de vista em que nos colocarmos, conforme considerarmos o
fenômeno vital em sua expressão ou em seu mecanismo.
No entanto, será que se pode escolher o ponto de vista? Não será evidente que, se quisermos
elaborar uma patologia científica, devemos considerar as causas reais e não os efeitos aparentes, os
mecanismos funcionais e não suas expressões sintomáticas? Não é evidente que Claude Bernard,
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relacionando a glicosúria com a glicemia e a glicemia com a glicogênese hepática, considera
mecanismos cuja explicação científica cabe em um feixe de relações quantitativas; por exemplo:
leis físicas dos equilíbrios de membrana, leis de concentração das soluções, reações de química
orgânica etc.?
Tudo isto seria incontestável se fosse possível considerar as funções fisiológicas como
mecanismos, os limiares como barragens, as regulações como válvulas de segurança, servofreios
ou termostatos. Mas não nos arriscaríamos então a cair de novo em todas as armadilhas e ciladas
das concepções iatromecanicistas? Tomando o exemplo preciso do diabetes, estamos longe de
considerar, hoje em dia, que a glicosúria seja apenas função da glicemia e que o rim oponha à
filtração da glicose apenas um limiar constante (de 1,70% e não de 3%, como a princípio pensava
Claude Bernard). Segundo Chabanier e Lobo-Onell: "O limiar renal é essencialmente móvel, e seu
comporta-mento é variável de acordo com os pacientes" [25, 16]. Por um lado, em pacientes sem
hiperglicemia, pode-se às vezes constatar uma glicosúria até mesmo tão elevada quanto a dos
verdadeiros diabéticos. Chama-se isso de glicosúria renal. Por outro, em pacientes cuja glicemia
atinge às vezes 3 g ou mais, a glicosúria pode ser praticamente nula. Chama-se isso de
hiperglicemia pura. Melhor ainda, dois diabéticos colocados nas mesmas condições de observação
e que apresentem de manhã, em jejum, uma mesma glicemia de 2,50 g podem apresentar uma
glicosúria variável, um perdendo 20 g e o outro 200 g de glicose na urina [25, 18].
Somos, portanto, levados a introduzir uma modificação no esquema clássico que ligava a glicosúria
ao distúrbio basal apenas por intermédio da hiperglicemia; essa modificação consiste em introduzir,
entre a hiperglicemia e a glicosúria, um nova articulação: "o comportamento renal" [25, 19].
Falando em variabilidade do limiar e em comportamento renal, já se introduz, na explicação do
mecanismo da secreção urinária, uma noção que não pode ser inteiramente transposta em termos
analíticos e quantitativos. Seria o mesmo que dizer que ficar diabético é mudar de rim, proposição
que só parecerá absurda àqueles que identificam uma função com sua sede anatômica. Parece,
portanto, possível concluir que, substituindo os sintomas pelos mecanismos, na comparação entre o
estado fisiológico e o estado patológico, nem por isso se elimina uma diferença de qualidade entre
esses estados.
Essa conclusão impõe-se muito mais quando, deixando de dividir a doença em uma multiplicidade
de mecanismos funcionais alterados, passamos a considerá-la como um acontecimento que diz
respeito ao organismo vivo encarado na sua totalidade. Ora, é exatamente o caso do diabetes.
Admite-se, hoje em dia, que é "uma diminuição do poder de utilização da glicose em função da
glicemia" [25, 12]. A descoberta do diabetes pancreático experimental por von Mering e
Minkowski, em 1889, a descoberta do pâncreas endócrino por Laguesse e o isolamento da insulina
segregada pelas ilhotas de Langerhans por Banting e Best em 1920 tornaram possível afirmar que o
distúrbio fundamental no diabetes é uma hipoinsulinemia. Seria possível dizer, então, que essas
pesquisas, desconhecidas por Claude Bernard, confirmariam, em última análise, seus princípios de
patologia geral? Certamente que não, pois Houssay e Biasotti mostraram em 1930-1931, pela
extirpação conjunta do pâncreas e da hipófise no sapo e no cão, o papel antagonista da hipófise e
do pâncreas no metabolismo dos glicídios. Em conseqüência de uma ablação total do pâncreas, um
cão sadio não sobrevive além de quatro a cinco semanas. Combinando-se, porém, a hipofisectomia
e a pancreatectomia, o diabetes melhora consideravelmente: a glicosúria fica muito reduzida e até
mesmo suprimida em jejum, a poliúria é suprimida, a glicemia chega quase ao normal, o
emagrecimento torna-se muito mais lento. Pensou-se, portanto, poder concluir que a ação da
insulina no metabolismo dos glicídios não era direta, já que sem administração de insulina o
diabetes podia ser atenuado. Em 1937, Young constatava que se podia, às vezes, tornar
definitivamente diabético um cão normal por meio de injeção de um extrato do lobo anterior da
hipófise, repetida diariamente, durante cerca de três semanas. L. Hédon e A. Loubatières, que
retomaram, na França, o estudo do diabetes experimental de Young, concluem: "Uma
superatividade temporária do lobo anterior da hipófise pode causar não apenas um distúrbio
transitório da glicorregulação, mas também um diabetes permanente, e que persiste durante um
tempo indefinido depois do desaparecimento da causa que o provocou" [54, 105].
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A transformação do conceito de diminuição, expresso anteriormente, em conceito de aumento
revelaria toda a perspicácia de Claude Bernard, justamente no momento em que a julgávamos um
erro? Não é o que parece, pois, em última análise, essa hipersecreção hipofisária não passa de um
sintoma, no nível da glândula, de um tumor na hipófise ou de uma modificação endócrina geral
(puberdade, menopausa, gravidez). Em matéria de secreções internas, assim como em matéria de
sistema nervoso, as localizações são mais "privilegiadas" do que absolutas, e o que parece aumento
ou diminuição em algum local é, na realidade, uma alteração no todo. "Nada é mais ilusório,
escreve Rathery, do que considerar o metabolismo dos glicídios como sendo realizado apenas pelo
pâncreas e sua secreção. O metabolismo dos glicídios está na dependência de múltiplos fatores: "a)
as glândulas vasculares sangüíneas; b) o fígado; c) o sistema nervoso; d) as vitaminas; e) os
elementos minerais etc. Ora, qualquer um desses fatores pode entrar em jogo para provocar o
diabetes" [98, 22]. Considerando o diabetes como uma doença da nutrição, considerando a
constante glicemia como um tônus indispensável à existência do organismo tomado como um todo
(Soula),5 não podemos tirar do estudo do diabetes as conclusões de patologia geral que Claude
Bernard tirava em 1877.
O que se critica nessas conclusões não é tanto serem errôneas, mas sobretudo serem insuficientes e
parciais. Elas procedem da extrapolação ilegítima de um caso particular e, mais ainda, de um
engano na definição do ponto de vista adotado. É certo que alguns sintomas são o produto —
quantitativamente variado — de mecanismos constantes no estado fisiológico. Seria o caso, por
exemplo, da hiper-cloridria na úlcera do estômago. É possível que alguns mecanismos sejam os
mesmos no estado de saúde e no estado de doença. No caso da úlcera de estômago, o reflexo que
determina a secreção do suco gástrico parece sempre partir do antro pilórico, se é verdade que são
úlceras estenosantes, na vizinhança do piloro, que são acompanhadas de hipersecreção mais
considerável, e que a ablação dessa região, na gastrectomia, é seguida por uma redução da
secreção.
Antes de tudo, porém, no que se refere ao caso concreto da úlcera, deve-se dizer que o essencial da
doença não consiste na hipercloridria, mas sim no fato de que, nesse caso, o estômago digere-se a si
mesmo, estado que, devemos admitir, difere profundamente do estado normal. Diga-se de
passagem que esse exemplo talvez sirva para fazer entender o que é uma função normal. Uma
função poderia ser chamada de normal enquanto fosse independente dos efeitos que produz. O
estômago é normal enquanto digere sem se digerir. Aplica-se às funções a mesma regra que às
balanças: primeiro fidelidade, depois sensibilidade.
Além disso, deve-se dizer que nem todos os casos patológicos podem ser reduzidos ao esquema
explicativo proposto por Claude Bernard. E, em primeiro lugar, o exemplo que ele invoca em
Leçons sur la chaleur animale. É certo que não há distinção entre calor normal e calor patológico,
no sentido de que um e outro calor se traduzem por efeitos físicos idênticos, a dilatação de uma
coluna de mercúrio, durante uma tomada de temperatura retal ou axilar. A identidade do calor,
porém, não implica a identidade da fonte de calor, nem mesmo a identidade do mecanismo de
liberação das calorias. Claude Bernard replicava a seus opositores italianos que é sempre o
alimento queimado no nível dos tecidos que dá origem ao calor animal. No entanto, um mesmo
alimento pode ser queimado de muitas maneiras, e sua degradação pode cessar em estágios
diferentes. Postular, e com razão, a identidade das leis da química e da física consigo próprias não
obriga a levar em conta a especificidade dos fenômenos que as manifestam. Quando uma mulher
portadora da doença de Basedow respira no recinto fechado cuja variação de volume, durante uma
medida do metabolismo basal, vai traduzir a taxa de consumo de oxigênio, é sempre segundo as
leis químicas da oxidação que o oxigênio é queimado (5 calorias para 1 litro de 02), e é justamente
estabelecendo a constância dessas leis nesse caso que será possível calcular a variação do
metabolismo e qualificá-lo de anormal. É nesse sentido preciso que há identidade entre o
fisiológico e o patológico. Mas também se poderia dizer que há identidade entre o químico e o
patológico. Convenhamos que essa é uma maneira de esvaziar o sentido da palavra patológico, e
5 Curso de Fisiologia sobre A constância do meio interno (La constance du milieu intérieur), Faculté de Médecine de Tolouse, 1938-
1939.
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não de explicá-la. Por acaso não é o mesmo que ocorre quando se declara a homogeneidade do
patológico e do fisiológico?
Em resumo, a teoria de Claude Bernard é válida em certos casos limitados:
1º) Quando se restringe o fenômeno patológico a algum sintoma, não levando em conta seu
contexto clínico (hipercloridria; hipertermia ou hipotermia; hiperexcitabilidade reflexa).
2º) Quando se vai buscar a causa dos efeitos sintomáticos nos mecanismos funcionais parciais
(glicosúria por hiperglicemia; alcaptonúria por metabolismo incompleto da tirosina).
Mesmo limitada a esses casos precisos, a teoria esbarra em muitas dificuldades. Quem consideraria
a hipertensão como simples aumento da pressão arterial fisiológica, esquecendo a modificação
profunda da estrutura e das funções dos órgãos essenciais (coração e vasos, rim, pulmão),
modificação de tal ordem que constitui um novo modo de vida para o organismo, um novo
comportamento que uma terapêutica judiciosa deve respeitar, não agindo intempestivamente sobre
a pressão para trazê-la de volta ao normal? Quem consideraria a hipersensibilidade a certas
substâncias tóxicas como simples modificação quantitativa de uma reatividade normal, sem indagar
primeiro se não é apenas uma hipersensibilidade aparente (em conseqüência de uma má
alimentação renal ou de uma reabsorção excessivamente rápida em reação com um estado geral
definido), sem distinguir, em seguida, a intolerância isotóxica, em que os fenômenos estão
mudados apenas quantitativamente, da intolerância heterotóxica, em que surgem sintomas novos,
em relação com uma mudança da reação celular ao veneno (A. Schwartz)?6 O mesmo se pode dizer
a respeito dos mecanismos funcionais. É claro que se podem fazer experiências com cada um deles
separadamente. No entanto, no organismo vivo todas as funções são interdependentes e seus
ritmos, harmonizados: o comportamento renal só teoricamente pode ser abstraído do
comportamento do organismo funcionando como um todo.
Tomando exemplos na ordem dos fenômenos de metabolismo (diabetes, calor animal), Claude
Bernard encontrou casos excessivamente unilaterais para poderem ser generalizados sem qualquer
arbitrariedade. Como explicar, no quadro de suas idéias, as doenças infecciosas cuja etiologia e
cuja patogenia apenas começavam, na sua época, a sair do limbo pré-científico? É verdade que a
teoria das infecções inaparentes (Charles Nicolle)7 e a teoria do terreno permitem afirmar que a
doença infecciosa já tem raízes no estado dito normal. Essa opinião, porém, apesar de muito
difundida, nem por isso é inatacável. Não é normal, para um indivíduo são, abrigar na sua faringe o
bacilo diftérico, da mesma forma que lhe é normal eliminar fosfatos na urina ou contrair a pupila ao
passar bruscamente da obscuridade para a claridade. Uma doença com prazo diferido ou adiado não
é um estado normal da mesma forma que o exercício de uma função cuja interrupção seria fatal.
Assim, também, convém não esquecer o terreno, como o próprio Pasteur aconselhava, mas sem
chegar ao ponto de considerar o micróbio como um epifenômeno. É preciso um último fragmento
de cristal para obter a solidificação de uma solução super-saturada. A rigor, para uma infecção é
preciso um micróbio. É verdade que se conseguiu produzir lesões típicas da pneumonia ou da febre
tifóide por meio da irritação física ou química do esplâncnico [80]. Para nos limitarmos, porém, à
explicação clássica da infecção, pode-se tentar, uma vez que sobreveio a infecção, reconstituir uma
certa continuidade entre o antes e o depois, por meio de antecedentes etiológicos. Parece difícil
afirmar que o estado infeccioso não traz nenhuma descontinuidade real na história do ser vivo.
As doenças nervosas constituem um outro fato que resiste a uma explicação baseada nos princípios
de Claude Bernard. Durante muito tempo foram empregados os termos exageração e deficit para
descrevê-las. Quando as funções superiores da vida de relação eram consideradas como somas de
reflexos elementares e os centros cerebrais como um arquivo de imagens ou de impressões,
impunha-se uma explicação de tipo quantitativo para os fenômenos patológicos. No entanto, as
concepções de Hughlings Jackson, Head, Sherrington, preparando terreno para teorias mais
6 Curso de Farmacologia, Faculdade de Medicina de Estrasburgo, 1941-1942.
7 Essa expressão "infecção inaparente" parece-nos incorreta. A infecção é inaparente apenas do ponto de vista clínico e no plano
macroscópico. No entanto, do ponto de vista biológico e no plano humoral, ela é aparente, já que se traduz pela presença de anticorpos
no soro. A infecção, po-rém, é apenas um fato biológico, é uma modificação dos humores. Uma infecção inaparente não é uma doença
inaparente.
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recentes, como as de Goldstein, orientaram a pesquisa em direções em que os fatos adquiriram um
valor sintético, qualitativo, antes desconhecido. Voltaremos mais tarde ao assunto. No momento
basta dizer brevemente que, segundo Goldstein, em matéria de distúrbios da fala, só podemos
explicar o comportamento normal a partir do patológico, se tivermos sempre presente a idéia da
modificação da personalidade pela doença. Em geral, não se deve relacionar determinado ato de
uma pessoa normal a um ato análogo de um doente sem compreender o sentido e o valor do ato
patológico para as possibilidades de existência do organismo modificado: "Não se deve
absolutamente crer que as diversas atitudes possíveis de um doente representam apenas uma
espécie de resíduo do comportamento normal, aquilo que sobreviveu à destruição. As atitudes que
sobreviveram no doente jamais se apresentam sob essa mesma forma no homem normal, nem
mesmo nos estágios inferiores de sua autogênese ou de sua filogênese, como freqüentemente se
admite. A doença lhes deu formas peculiares que só se pode compreender bem levando em conta o
estado mórbido" [45, 437].
Enfim, a continuidade do estado normal e do estado patológico não parece real no caso das doenças
infecciosas, como também não o parece a homogeneidade, no caso das doenças nervosas.
* * *
Em suma, Claude Bernard formulou, no campo médico, com a autoridade de todo inovador que
prova o movimento andando, a exigência profunda de uma época que acreditava na onipotência de
uma técnica baseada na ciência, e que se sentia à vontade na vida, apesar, ou talvez por causa das
lamentações românticas. Uma arte de viver — e a medicina o é no pleno sentido da palavra —
implica uma ciência da vida. Uma terapêutica eficaz supõe uma patologia experimental; uma
patologia experimental não se separa de uma fisiologia. "Fisiologia e patologia se confundem e são
uma única e mesma coisa." No entanto, seria temerário deduzir daí, com uma exagerada
simplicidade, que a vida é sempre idêntica a si mesma na saúde e na doença, e que nada aprende na
doença e por meio da doença. A ciência dos contrários é una, dizia Aristóteles. Deve-se concluir
daí que os contrários não são contrários? É urgente, mais ainda que legítimo, que a ciência da vida
tome como objetos de mesma importância teórica, e capazes de se explicar mutuamente, os
fenômenos ditos normais e os fenômenos ditos patológicos, a fim de se tornar adequada à
totalidade das vicissitudes da vida e à variedade de suas manifestações. Isso não leva
necessariamente à conclusão de que a patologia não seja mais que a fisiologia, e ainda menos que a
doença não passe de aumento ou redução do estado normal. É compreensível que a medicina
necessite de uma patologia objetiva, mas uma pesquisa que faz desaparecer seu objeto não é
objetiva. Pode-se negar que a doença seja uma espécie de violação do organismo, considerá-la
como um evento resultante da ação das funções permanentes do organismo, sem negar que essa
ação seja nova. Um comportamento do organismo pode estar em continuidade com os
comportamentos anteriores, e ser, ao mesmo tempo, um comportamento diferente. A
progressividade de um advento não exclui a originalidade de um evento. Um sintoma patológico
pode traduzir isoladamente a hiperatividade de uma função cujo produto é rigorosamente idêntico
ao produto das mesmas funções nas condições ditas normais, mas isso não quer dizer que o mal
orgânico, considerado como outro modo de ser da totalidade funcional, e não como uma soma de
sintomas, não seja para o organismo uma nova forma de se comportar em relação ao meio.
Finalmente, seria conveniente dizer que o fato patológico só pode ser apreendido como tal — isto
é, como alteração do estado normal — no nível da totalidade orgânica; e, em se tratando do
homem, no nível da totalidade individual consciente, em que a doença torna-se uma espécie de mal.
Ser doente é, realmente, para o homem, viver uma vida diferente, mesmo no sentido biológico da
palavra. Voltando ainda uma vez ao mesmo exemplo, o diabetes não é uma doença do rim, pela
glicosúria, nem do pâncreas, pela hipoinsulinemia, nem da hipófise; a doença é do organismo cujas
funções todas estão mudadas, que está ameaçado pela tuberculose, cujas infecções supuradas se
prolongam indefinidamente, cujos membros se tornam inutilizáveis pela arterite e pela gangrena;
mais ainda, a doença é do homem ou da mulher ameaçados de coma, freqüentemente vítimas de
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impotência ou de esterilidade, para quem uma gravidez, se ocorrer, é uma catástrofe, e cujas
lágrimas — ironia das secreções! — são doces.8 É de um modo bastante artificial, parece, que
dispersamos a doença em sintomas ou a abstraímos de suas complicações. O que é um sintoma,
sem contexto, ou um pano de fundo? O que é uma complicação, separada daquilo que ele
complica? Quando classificamos como patológico um sintoma ou um mecanismo funcional
isolados, esquecemos que aquilo que os torna patológicos é sua relação de inserção na totalidade
indivisível de um comportamento individual. De tal modo que a análise fisiológica de funções
separadas só sabe que está diante de fatos patológicos devido a uma informação clínica prévia; pois
a clínica coloca o médico em contato com indivíduos completos e concretos, e não com seus órgãos
ou funções. A patologia, quer seja anatômica ou fisiológica, analisa para melhor conhecer, mas ela
só pode saber que é uma patologia — isto é, estudo dos mecanismos da doença — porque recebe
da clínica essa noção de doença, cuja origem deve ser buscada na experiência que os homens têm
de suas relações de conjunto com o meio.
Se as proposições precedentes têm algum sentido, como explicar o fato de o clínico moderno adotar
mais freqüentemente o ponto de vista do fisiologista do que o ponto de vista do doente? É, sem
dúvida, por causa de um fato que ocorre maciçamente na experiência médica: os sintomas
mórbidos subjetivos e os sintomas objetivos raramente coincidem um com o outro. A história do
urologista para quem um homem que se queixa dos rins é um homem que não tem nada nos rins
não é apenas uma piada. É que, para o doente, os rins são um território musculocutâneo da região
lombar, ao passo que, para o médico, são vísceras em relação com outras vísceras. Ora, o
conhecido fato das dores reflexas, cujas múltiplas explicações são, até hoje, bastante obscuras, nos
impede de achar que as dores — acusadas pelos doentes como sintomas subjetivos primordiais —
mantenham uma relação constante com as vísceras subjacentes para as quais parecem chamar a
atenção. Mas sobretudo a latência — freqüentemente prolongada — de certas degenerescências, a
inaparência de certas infestações ou infecções levam o médico a considerar a experiência
patológica direta do paciente como irrelevante, até mesmo como sistematicamente falsificadora do
fato patológico objetivo. Qualquer médico sabe, às vezes, por tê-lo aprendido às suas próprias
custas, que a consciência sensível imediata da vida orgânica não é, por si mesma, ciência desse
mesmo organismo, não é conhecimento infalível da localização ou da data das lesões patológicas
relativas ao corpo humano.
Talvez seja por isso que até hoje a patologia levou tão pouco em consideração essa característica da
doença: de ser realmente para o doente uma forma diferente da vida. É claro que a patologia tem o
direito de suspeitar e de retificar a opinião do doente que pensa saber também — pelo fato de se
sentir diferente — em que e como ele está diferente. E só porque o doente se engana
manifestamente a respeito do segundo ponto não se pode concluir que se engane também a respeito
do primeiro. Talvez seu sentimento seja o pressentimento do que a patologia contemporânea está
começando a entrever: que o estado patológico não é um simples prolongamento,
quantitativamente variado, do estado fisiológico, mas é totalmente diferente.9
8 Claude Bernard diz que jamais conseguiu encontrar açúcar nas lágrimas dos diabéticos, mas, hoje em dia, é um fato aceito. Cf.
Fromageot e Chaix em "Glucides". Physiologie, fasc. 3, ano II, Paris, Hermann, 1939, p. 40.
9 Depois da primeira publicação deste trabalho (1943), o estudo das idéias de Claude Bernard foi retomado pelo Dr. M.-D. Grmek, La
conception de la maladie et de la santé chez Claude Bernard. Para a referência, ver adiante.
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IV AS CONCEPÇÕES DE R. LERICHE
A invalidade da opinião do doente em relação à realidade de sua própria doença é um argumento de
peso em uma recente teoria da doença; teoria, às vezes, um pouco imprecisa, porém cheia de
sutilezas, concreta e profunda, a teoria de R. Leriche, que nos parece necessário expor e examinar,
depois da teoria precedente, da qual, em certo sentido, ela é um prolongamento, mas da qual se
afasta nitidamente em outros pontos. "A saúde, diz Leriche, é a vida no silêncio dos órgãos" [73,
6.16-1]. Inversamente, a "doença é aquilo que perturba os homens no exercício normal de sua vida e
em suas ocupações e, sobretudo, aquilo que os faz sofrer" [73, 6.22-3]. O estado de saúde, para o
indivíduo, é a inconsciência de seu próprio corpo. Inversamente, tem-se a consciência do corpo
pela sensação dos limites, das ameaças, dos obstáculos à saúde. Tomando essas afirmações em seu
sentido pleno, elas significam que a noção de normal que se tem depende da possibilidade de
infrações à norma. Estamos, enfim, diante de definições que não são absolutamente verbais, em que
a relatividade dos termos opostos é correta. O termo primitivo nem por isso é positivo, e o termo
negativo nem por isso é nulo. A saúde é positiva, mas não é primitiva; a doença é negativa, mas sob
a forma de oposição (perturbação), e não de privação.
No entanto, apesar de ulteriormente não terem sido feitas reservas nem correções à definição de
saúde, a definição de doença foi imediatamente retificada. Pois essa definição da doença é a
definição do doente, e não a do médico. Apesar de válida do ponto de vista da
consciência, ela não o é do ponto de vista da ciência. Com efeito, Leriche demonstra que o silêncio
dos órgãos não equivale necessariamente à ausência de doença; que existem no organismo lesões
ou perturbações funcionais que, durante muito tempo, são imperceptíveis para aqueles cuja vida
tais perturbações estão colocando em perigo. O atraso com que muitas vezes sentimos nossos
distúrbios internos é o preço que pagamos pela prodigalidade com a qual nosso organismo foi
construído, tendo em excesso todos os tecidos: mais pulmão do que, em última análise, é necessário
para respirar, mais rim do que é necessário para segregar a urina sem chegar à intoxicação etc. A
conclusão é que "se quisermos definir a doença será preciso desumanizá-la" [73, 6.22-3]; e,
exprimindo-se mais brutalmente ainda, que, "na doença, o que há de menos importante, no fundo, é
o homem" [73, 6.22-4]. Portanto, não são mais a dor ou a incapacidade funcional e a enfermidade
social que fazem a doença, e sim a alteração anatômica ou o distúrbio fisiológico. A doença ocorre
no nível do tecido e, nesse sentido, não pode haver doença sem doente. Tomemos como exemplo
um homem cuja vida — sem incidente patológico por ele conhecido — tenha sido interrompida por
um assassinato ou um acidente. Segundo a teoria de Leriche, se uma autópsia para fins médicolegais
revelasse um câncer do rim ignorado por seu portador já falecido, deveríamos concluir que
havia uma doença, apesar de não ser possível atribuíla a pessoa alguma: nem ao cadáver — já que
um morto não é mais capaz de ter doenças — nem, retroativamente, ao vivo de outrora, que a
ignorava, tendo terminado sua vida antes do estágio evolutivo do câncer em que, segundo as
probabilidades clínicas, as dores teriam enfim criado o mal.
A doença, que jamais tinha existido na consciência do homem, passa a existir na ciência do
médico. Ora, achamos que não há nada na ciência que antes não tenha aparecido na consciência e
que, especialmente no caso que nos interessa, é o ponto de vista do doente que, no fundo, é
verdadeiro. E eis o motivo: médicos e cirurgiões dispõem de informações clínicas e utilizam
também, às vezes, técnicas de laboratório que lhes permitem saber que estão doentes pessoas que
não se sentem doentes. É um fato. Mas um fato a ser interpretado. Ora, é unicamente por serem os
herdeiros de uma cultura médica transmitida pelos clínicos do passado que os médicos de hoje em
dia podem se adiantar e ultrapassar em perspicácia clínica seus clientes habituais ou ocasionais.
Pensando bem, sempre houve um momento em que a atenção dos médicos foi atraída para certos
sintomas, mesmo que unicamente objetivos, por homens que se queixavam de sofrer ou de não
serem normais, isto é, idênticos a seu passado. E se, hoje em dia, o conhecimento que o médico tem
a respeito da doença pode impedir que o doente passe pela experiência da doença, é porque outrora
36
essa mesma experiência chamou a atenção do médico, suscitando o conhecimento que hoje tem.
Sempre se admitiu, e atualmente é uma realidade incontestável, que a medicina existe porque há
homens que se sentem doentes, e não porque existem médicos que os informam de suas doenças. A
evolução histórica das relações entre o médico e o doente na consulta clínica não muda em nada a
relação normal permanente entre o doente e a doença.
Essa crítica pode ser proposta com tanta audácia porque Leriche, reconsiderando o que suas
primeiras afirmações tinham de um pouco extremado, a confirma em parte. Distinguindo
cuidadosamente o ponto de vista estático do ponto de vista dinâmico, em patologia, Leriche
reivindica para o segundo uma completa primazia. Aos que identificam doença com lesão, Leriche
objeta que o fato anatômico deve ser considerado, na realidade, como "segundo e secundário:
segundo, por ser produzido por um desvio originariamente funcional da vida dos tecidos;
secundário, por ser apenas um elemento da doença, e não o elemento dominante" [73, 6.76-6]. Em
conseqüência disso, é a doença do ponto de vista do doente que, de modo bastante inesperado,
volta a ser o conceito adequado de doença, mais adequado, em todo caso, que o conceito dos
anatomopatologistas. "Impõe-se a noção de que a doença do doente não é a mesma que a doença
anatômica do médico. Uma pedra em uma vesícula biliar atrófica pode não provocar sintomas
durante anos e, por conseguinte, não criar uma doença, quando, no entanto, há um estado
anatomopatológico... Sob as mesmas aparências anatômicas, pode-se ser ou não ser doente... Não
se deve encobrir a dificuldade dizendo simplesmente que há formas silenciosas e larvadas de
doenças: isto não passa de verbalismo. A lesão talvez não baste para constituir a doença clínica, a
doença do doente. Esta é algo diverso da doença do anatomopatologista" [73, 6.76-6]. No entanto,
convém não atribuir a Leriche mais do que ele está disposto a aceitar. Com efeito, o que ele
entende por doente é muito mais o organismo em ação, em funções, do que o indivíduo consciente
de suas funções orgânicas. O doente, nessa nova definição, não é exatamente o doente da primeira,
o homem concreto, consciente de uma situação favorável ou desfavorável na existência. O doente
deixou de ser uma entidade de anatomista, mas continua sendo uma entidade de fisiologista, pois
Leriche esclarece: "Essa nova representação da doença leva o médico a entrar em contato mais
estreito com a fisiologia, isto é, com a ciência das funções, a tratar de fisiologia patológica tanto ou
mais que de anatomia patológica" [73, 6.76-6]. Assim, a coincidência da doença com o doente
ocorre na ciência do fisiologista, mas não ainda na consciência do homem concreto. E, no entanto,
essa primeira coincidência nos basta, pois o próprio Leriche nos fornece os meios de, por meio
dela, obter a segunda.
Retomando as idéias de Claude Bernard, e, provavelmente, sem ter consciência disso, Leriche
afirma também a continuidade e a indiscernibilidade do estado fisiológico e do estado patológico.
Por exemplo, estabelecendo a teoria dos fenômenos de vasoconstrição, mostrando sua
complexidade, desconhecida durante muito tempo, e falando sobre sua transformação em
fenômenos de espasmo, Leriche escreve: "Do tônus à vasoconstrição, isto é, à hipertonia
fisiológica, da vasoconstrição ao espasmo, não há margem de separação. Passa-se de um estado a
outro sem transição, e são os efeitos, mais do que o fato em si, que permitem diferenciações. Da
fisiologia à patologia não há limiar" [74, 234]. É preciso compreender bem esta última afirmação.
Não há limiar quantitativo identificável por métodos objetivos de medida. No entanto, há
certamente distinção e oposição qualitativas, pelos efeitos diferentes da mesma causa
quantitativamente variável. "Mesmo havendo uma perfeita conservação da estrutura arterial, o
espasmo, a longo prazo, tem efeitos patológicos graves: gera a dor, produz necroses localizadas ou
difusas; enfim, e sobretudo, determina obstruções capilares e arteriolares na periferia do sistema"
[74, 234]. Obstrução, necrose, dor, eis alguns fatos patológicos para os quais procuraríamos em vão
equivalentes fisiológicos: uma artéria obstruída deixa de ser fisiologicamente uma artéria, já que se
tornou um obstáculo, e não mais uma via para a circulação; uma célula necrosada não é mais
fisiologicamente uma célula porque há uma anatomia do cadáver, mas seria impossível haver uma
fisiologia do cadáver, por definição etimológica; enfim, a dor deixa de ser uma sensação
fisiológica, já que, segundo Leriche, "a dor não está no plano da natureza".
Em relação ao problema da dor, conhecemos a tese original e profunda de Leriche. É impossível
considerar a dor como a expressão de uma atividade normal, de um sentido capaz de exercício
37
permanente, sentido esse que seria exercido pelo órgão de receptores periféricos especializados, de
vias próprias de condução nervosa e de analisadores centrais delimitados; impossível também
considerá-la como um detector e um sinal de alarme imediato das ameaças externas ou internas à
integridade orgânica, nem como uma reação de defesa salutar que o médico deveria respeitar e até
mesmo reforçar. A dor é "um fenômeno individual monstruoso, e não uma lei da espécie. Um fato
da doença" [74, 490]. Podemos perceber toda a importância destas últimas palavras. Não é mais
pela dor que a doença é definida, é como doença que a dor é apresentada. E o que Leriche entende
por doença, aqui, não é a modificação quantitativa de um fenômeno fisiológico ou normal, é um
estado autenticamente anormal. "A dor-doença está em nós como um acidente que evolui ao
contrário das leis da sensação normal... Tudo nela é anormal, rebelde à lei" [74, 490]. Nesse texto
Leriche tem tal certeza de estar rompendo com um dogma clássico que sente a necessidade de
invocar a majestade desse mesmo dogma no exato momento em que se vê forçado a minar suas
bases. "É claro que a patologia não passa nunca de uma fisiologia desviada. Foi no Collège de
France, nesta cátedra, que nasceu esta idéia, e a cada dia ela nos parece mais verdadeira" [74, 482].
Portanto, o fenômeno da dor verifica eletivamente a teoria, constante na obra de Leriche, do estado
de doença como "novidade fisiológica". Essa concepção surge timidamente nas últimas páginas do
tomo VI da Encyclopédie française (1936): "A doença não se apresenta como um parasita vivendo
no homem e vivendo do homem que ela esgota. Vemos na doença a conseqüência de um desvio,
inicialmente mínimo, da ordem fisiológica. Em suma, a doença é uma nova ordem fisiológica, e a
terapêutica deve ter como objetivo adaptar o homem doente a essa nova ordem" [73, 6.76-6]. Mas
essa concepção se afirma claramente em seguida: "A produção de um sintoma, no cão, mesmo
sendo um sintoma maior, não significa que tenhamos realizado a doença humana. Esta é sempre
um conjunto. Aquilo que a produz, atinge, em nós, de maneira tão sutil, os mecanismos normais da
vida, que suas respostas não são propriamente as respostas de uma fisiologia desviada, e sim de
uma nova fisiologia, na qual muitas coisas, harmonizadas com um novo tom, têm ressonâncias
inusitadas" [76, 11].
Não nos é possível examinar isoladamente essa teoria da dor com toda a atenção que merece; no
entanto, devemos assinalar o interesse que apresenta para o problema de que tratamos. Parece-nos
de importância capital que um médico reconheça na dor um fenômeno de reação total que só tem
sentido, e que só é um sentido, no nível da individualidade humana concreta. "A dor física não
consiste simplesmente em influxos nervosos percorrendo, a uma velocidade determinada, o trajeto
de um nervo. É a resultante do conflito entre um excitante e o indivíduo todo" [74, 488]. Parecenos
de importância capital que o médico proclame que o homem produz sua dor — como faz uma
doença ou seu luto —, em vez de dizer que ele recebe ou sofre essa dor. Inversamente, considerar a
dor como uma impressão recolhida em um ponto do corpo e transmitida ao cérebro é supor que ela
seja toda constituída como tal, sem qualquer relação com a atividade do paciente que a sente. É
possível que a insuficiência dos dados anatômicos e fisiológicos relativos a esse problema deixe a
Leriche toda a liberdade para negar a especificidade da dor, a partir de outros argumentos positivos.
No entanto, o fato de negar a especificidade anatomofisiológica de um aparelho nervoso próprio da
dor não leva necessariamente, na nossa opinião, a negar o caráter funcional da dor. Com efeito, é
mais do que evidente que a dor não é um sinal de alarme sempre fiel e sempre infalível, e que os
finalistas não estão falando a sério ao lhe delegar uma capacidade e responsabilidades de
premonição que nenhuma ciência do corpo humano poderia assumir. Também é evidente, porém,
que é profundamente anormal a indiferença de um ser vivo em relação às suas condições de vida e
à qualidade de suas trocas com o meio. Pode-se admitir que a dor seja um sentido vital, sem admitir
que tenha um órgão específico nem que tenha um valor enciclopédico de informação de tipo
topográfico ou funcional. O fisiologista pode muito bem apontar as ilusões da dor, assim como o
físico o faz em relação às ilusões de ótica; isso significa que um sentido não é um conhecimento, e
que seu valor normal não é um valor teórico, mas não leva necessariamente à conclusão de que o
sentido não tem, normalmente, valor. Parece, sobretudo, que se deve distinguir cuidadosamente a
dor de origem tegumentária da dor de origem visceral. Esta última se apresenta como anormal, mas
parece difícil contestar um caráter normal à dor que nasce à superfície de separação — e também
de encontro — entre o organismo e o meio ambiente. A supressão da dor tegumentária, na
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esclerodermia ou na siringomielia, pode ter como conseqüência a indiferença do organismo em
relação a agressões contra sua integridade.
Porém o que não podemos esquecer é que Leriche, tendo de definir a doença, não achou outro meio
de defini-la a não ser por seus efeitos. Ora, ao menos um desses efeitos, a dor, nos faz deixar
claramente o plano da ciência abstrata pela esfera da consciência concreta. Obtemos, então, a
coincidência total da doença e do doente, pois a dor-doença — para falar como Leriche — é um
fato que ocorre no nível do todo individual consciente; e é um fato que as finas análises de Leriche,
descrevendo a participação e a colaboração de todo o indivíduo na sua dor, nos permitem qualificar
como "comportamento".
* * *
Desde já se pode muito bem ver em que pontos as idéias de Leriche prolongam as de Augusto
Comte e de Claude Bernard, e em que pontos se afastam dessas mesmas idéias, sendo mais
matizadas e sobretudo mais ricas em experiência médica autêntica. É que, a respeito das relações
entre a fisiologia e a patologia, Leriche faz um julgamento de técnico, e não de filósofo, como
Comte, ou de cientista, como Claude Bernard. Apesar das diferenças mencionadas no início, a idéia
comum a Comte e a Claude Bernard é de que uma técnica deve ser normalmente a aplicação de
uma ciência. Esta é a idéia positivista fundamental: saber para agir. A fisiologia deve explicar a
patologia para estabelecer as bases da terapêutica. Comte acha que a doença substitui as
experiências, e Claude Bernard acha que as experiências, mesmo praticadas em animais, nos
iniciam no conhecimento das doenças do homem. Em última análise, porém, tanto para um quanto
para outro, só se pode proceder logicamente partindo do conhecimento fisiológico experimental
para a técnica médica. Leriche, por sua vez, acha que geralmente se procede, de fato, partindo da
técnica médica e cirúrgica, suscitada pelo estado patológico, para o conhecimento fisiológico; e
que, de direito, quase sempre se deveria assim proceder. O conhecimento do estado fisiológico é
obtido por abstração retrospectiva da experiência clínica e terapêutica. "Não sabemos se o estudo
do homem normal, mesmo que esse estudo seja baseado no dos animais, será suficiente para nos
dar informações completas sobre a vida normal do homem. A prodigalidade do plano segundo o
qual fomos construídos constitui uma grande dificuldade de análise. Essa análise é feita sobretudo
estudando os deficits produzidos pelas supressões de órgãos, isto é, introduzindo variáveis na
ordem vital e pesquisando as incidências. Infelizmente, a experiência, em um ser sadio, é sempre
um pouco brutal em seu determinismo, e o homem sadio corrige rapidamente a menor insuficiência
espontânea. É talvez mais fácil observar os efeitos dessas insuficiências quando as variáveis são
introduzidas insensivelmente no homem pela doença, ou terapeuticamente, por ocasião da doença.
Assim, o homem doente pode servir para o conhecimento do homem normal. Analisando-o,
descobrem-se nele deficits que nem a mais sutil experiência conseguiria realizar em animais, e
graças aos quais se pode chegar às características da vida normal. Desse modo, o estudo completo
da doença tende cada vez mais a se tornar um elemento essencial da fisiologia normal" [73, 6.76-
6].
Aparentemente, essas idéias estão mais próximas das idéias de Augusto Comte que das de Claude
Bernard. E, no entanto, há uma profunda diferença. Como vimos, Comte acha que o conhecimento
do estado normal deve preceder, normalmente, a apreciação do estado patológico e que, em última
análise, poderia se constituir sem a mínima referência à patologia, embora nesse caso talvez não
pudesse se estender muito; paralelamente, Comte defende a independência da biologia teórica em
relação à medicina e à terapêutica [27, 247]. Leriche, ao contrário, acha que a fisiologia é a
coletânea das soluções dos problemas levantados pelas doenças dos doentes. Um dos pensamentos
mais profundos sobre o problema do patológico é o seguinte: "Há em nós, a cada instante, muito
mais possibilidades fisiológicas do que a fisiologia nos faz crer. Mas é preciso haver a doença para
que elas nos sejam reveladas" [76, 11]. A fisiologia é a ciência das funções, e dos modos da vida,
mas é a vida que oferece à exploração do fisiologista esses mesmos modos, cujas leis ele codifica.
A fisiologia não pode impor à vida apenas os modos cujo mecanismo lhe seja inteligível. As
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doenças são novos modos da vida. Se não fossem as doenças, que renovam incessantemente o
terreno a ser explorado, a fisiologia marcaria passo em um terreno já repisado. No entanto, a idéia
precedente pode também se estender em um outro sentido, ligeiramente diferente. A doença nos
revela funções normais no momento preciso em que nos impede o exercício dessas mesmas
funções. A doença está na origem da atenção especulativa que a vida dedica à vida, por intermédio
do homem. Se a saúde é a vida no silêncio dos órgãos, não há propriamente ciência da saúde. A
saúde é a inocência orgânica. E deve ser perdida, como toda inocência, para que o conhecimento
seja possível. Segundo Aristóteles, qualquer ciência procede do espanto. Essa afirmação se aplica
também à fisiologia. Porém o espanto verdadeiramente vital é a angústia suscitada pela doença.
Não parece ter sido exagerado anunciar, na introdução a este capítulo, que as concepções de
Leriche, recolocadas na perspectiva histórica, seriam capazes de adquirir um destaque inesperado.
Não parece possível que uma exploração filosófica ou médica dos problemas teóricos colocados
pela doença possa doravante ignorar tais concepções. Mesmo correndo o risco de melindrar certas
pessoas que acham que o intelecto só se realiza no intelectualismo, queremos repetir mais uma vez
que o que constitui o valor da teoria de Leriche, em si, independente de qualquer crítica dirigida a
algum detalhe de conteúdo, é o fato de ser a teoria de uma técnica, uma teoria para a qual a técnica
existe, não como uma serva dócil aplicando ordens intangíveis, mas como conselheira e
incentivadora, chamando a atenção para os problemas concretos e orientando a pesquisa na direção
dos obstáculos sem presumir, antecipadamente, nada acerca das soluções teóricas que lhes serão
dadas.
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V AS IMPLICAÇÕES DE UMA TEORIA
"A medicina, disse Sigerist, é uma das ciências mais intimamente ligadas ao conjunto da cultura, já
que qualquer transformação nas concepções médicas está condicionada pelas transformações
ocorridas nas idéias da época" [107, 42]. A teoria que acabamos de expor, teoria que é ao mesmo
tempo médica, científica e filosófica, comprova perfeitamente essa afirmação. Parece-nos que ela
satisfaz simultaneamente várias exigências e postulados intelectuais do momento histórico-cultural
no qual foi formulada.
Nessa teoria surge, em primeiro lugar, a convicção de otimismo racionalista de que não há
realidade no mal. O que distingue a medicina do século XIX — sobretudo antes da era de Pasteur
— da medicina dos séculos anteriores é seu caráter decididamente monista. Apesar dos esforços
dos iatromecanicistas e dos iatroquimistas, a medicina do século XVIII tinha permanecido, por
influência dos animistas e dos vitalistas, uma medicina dualista, um maniqueísmo médico. A Saúde
e a Doença disputavam o Homem, assim como o Bem e o Mal disputavam o Mundo. É com grande
satisfação intelectual que destacamos o seguinte trecho, em uma história da medicina: "Paracelso é
um iluminado, Van Helmont, um místico, Stahl, um pietista. Todos três inovam com genialidade,
mas sofrem a influência de seu meio e das tradições hereditárias. O que torna extremamente difícil
a apreciação das doutrinas reformadoras desses três grandes homens é a grande dificuldade que se
tem quando se quer separar suas opiniões científicas de suas crenças religiosas... Não é
absolutamente certo que Paracelso não pensasse ter encontrado o elixir da vida; é certo que Van
Helmont confundiu a saúde com a salvação e a doença como pecado; e o próprio Stahl, apesar de
sua clarividência, utilizou, mais do que deveria, a crença no pecado original e na queda do homem,
ao expor suas teorias em La vraie théorie médicale" [48, 311]. Mais do que deveria!, diz o autor,
que é justamente um grande admirador de Broussais, inimigo declarado, no início do século XIX,
de qualquer ontologia médica. A recusa de uma concepção ontológica da doença, corolário
negativo da afirmação de identidade quantitativa entre o normal e o patológico, é, em primeiro
lugar, talvez a recusa mais profunda em admitir a existência do mal. É claro que não se nega que
uma terapêutica científica seja superior a uma terapêutica mágica ou mística. É indiscutível que
conhecer é melhor do que ignorar quando é preciso agir, e, nesse sentido, o valor da filosofia das
Luzes e do positivismo, mesmo com tendências ao cientismo, não se discute. Não se trata
absolutamente de dispensar os médicos de estudar a fisiologia e a farmacodinâmica. É muito
importante não confundir a doença com o pecado nem com o demônio. Mas só porque o mal não é
um ser não se deve concluir que seja um conceito desprovido de sentido, ou que não existam
valores negativos, mesmo entre os valores vitais; não se pode concluir que, no fundo, o estado
patológico não seja nada mais que o estado normal.
Reciprocamente, a teoria em questão traduz a convicção humanista de que a ação do homem sobre
o meio e sobre ele mesmo pode e deve tornar-se inteiramente transparente à compreensão do meio
e do homem, e normalmente deve ser apenas a aplicação da ciência previamente instituída. É
evidente, segundo as Leçons sur le diabète, que, se afirmamos a homogeneidade e a continuidade
reais do normal e do patológico, é para que a ciência fisiológica tenha bases para reger a atividade
terapêutica por intermédio da patologia. Há, aqui, o desconhecimento do fato de que as ocasiões de
renovação e de progresso teórico são encontradas pela consciência humana no seu campo de
atividade não teórica, pragmática e técnica. Recusar à técnica qualquer valor próprio fora do
conhecimento que ela consegue incorporar é tornar ininteligível o ritmo irregular dos progressos do
saber e o fato de a ciência ser ultrapassada pelo poder, fato este que os positivistas constataram
tantas vezes, apesar de deplorá-lo. Se a temeridade de uma técnica que ignora os obstáculos que vai
encontrar não se adiantasse à prudência do conhecimento codificado, os problemas científicos —
que são surpresas antes de serem fracassos — seriam pouco numerosos. Eis o que há de verdade no
empirismo, filosofia da aventura intelectual menosprezada por um método experimental que, por
reação, se sente um pouco tentado demais a se racionalizar.
41
No entanto, seria impossível — sem faltar à verdade — acusar Claude Bernard de ter ignorado o
estímulo intelectual que a prática clínica constitui para a fisiologia. Ele próprio reconhece que suas
experiências sobre a glicemia e a produção de glicose no organismo animal tiveram como ponto de
partida observações relativas ao diabetes e à desproporção que se nota, às vezes, entre a quantidade
de hidratos de carbono ingeridos e a quantidade de glicose eliminada pela urina. Ele próprio
formula este princípio geral: "É preciso, em primeiro lugar, colocar o problema médico, tal como
ele é apresentado pela observação da doença, e, em seguida, analisar experimentalmente os
fenômenos patológicos procurando dar-lhes uma explicação fisiológica" [6, 349]. Apesar de tudo, a
verdade é que o fato patológico e sua explicação fisiológica não têm, para Claude Bernard, a
mesma dignidade teórica. O fato patológico acolhe a explicação muito mais do que a provoca. Isso
é mais evidente ainda no texto seguinte: "No fundo, as doenças nada mais são que fenômenos
fisiológicos em novas condições que é preciso determinar" [6, 346]. Para quem conhece fisiologia,
as doenças confirmam a fisiologia que ele já conhece, mas, no fundo, não lhe ensinam nada; os
fenômenos são os mesmos no estado patológico e no estado de saúde, diferindo apenas nas
condições. Como se fosse possível determinar uma essência do fenômeno, não levando em conta as
condições! Como se as condições fossem uma máscara ou uma moldura que não mudassem nem o
rosto nem o quadro! Comparando esta afirmação à de Leriche, já citada, sentiremos toda a
importância significativa de uma nuança verbal: "Há em nós, a cada instante, muito mais
possibilidades fisiológicas do que a fisiologia nos faz crer. Mas é preciso a doença para que elas
nos sejam reveladas."
Também neste ponto, devemos ao acaso da pesquisa bibliográfica a alegria intelectual de constatar,
uma vez mais, que as teses mais aparentemente paradoxais também têm sua tradição, que traduz,
sem dúvida, sua necessidade lógica permanente. No momento exato em que Broussais emprestava
sua autoridade pessoal à teoria que instituía a medicina fisiológica, essa teoria provocava as
objeções de um médico pouco conhecido, o Dr. Victor Prus, premiado em 1821 pela Sociedade de
Medicina do Gard por uma memória, que escreveu para concurso, acerca da definição precisa dos
termos "flegmasia"e "irritação" e sua importância para a medicina prática. Depois de ter contestado
que a fisiologia seja, por si só, a base natural da medicina, e que algum dia possa, por si só,
constituir a base do conhecimento dos sintomas, de seu encadeamento e de seu valor, que a
anatomia patológica não possa jamais ser deduzida do conhecimento dos fenômenos normais, e que
o prognóstico das doenças derive do conhecimento das leis fisiológicas, o autor acrescenta: "Se
quiséssemos esgotar a questão tratada neste artigo, teríamos ainda de demonstrar que afisiologia
está longe de ser o fundamento da patologia, e, ao contrário, só poderia nascer desta.É pelas
transformações que a doença de um órgão e, às vezes, a suspensão completa de seus atos imprimem
às funções, que conhecemos seu uso e sua importância... Assim, uma exostose, comprimindo e
paralisando o nervo ótico, os nervos braquiais, a medula espinhal, nos informa qual é sua direção
habitual. Broussonnet perdeu a memória dos substantivos; quando morreu foi encontrado um
abcesso na parte anterior do seu cérebro, e fomos levados a crer que era ali a sede da memória dos
nomes... Portanto, foi a patologia que, auxiliada pela anatomia patológica, criou a fisiologia; é ela
que, a cada dia, dissipa antigos erros da fisiologia e favorece seus progressos" [95, L].
Ao escrever a Introduction àl'étude de lamédecine expérimentale, Claude Bernard não pretendia
apenas afirmar que a ação eficaz se confunde com a ciência, mas também — e paralelamente —
que a ciência se confunde com a descoberta das leis dos fenômenos. Sobre esse ponto ele está
inteiramente de acordo com A. Comte. Aquilo que, em sua filosofia biológica, Comte chama de
doutrina das condições de existência, Claude Bernard chama de determinismo. Ele se gaba de ter
sido o primeiro a introduzir este termo na língua científica francesa. "Creio que fui o primeiro a
introduzir essa palavra na ciência, mas ela foi empregada pelos filósofos em outro sentido. Será útil
determinar bem o sentido dessa palavra em um livro que escreverei: Du determinisme dans les
sciences [Do determinismo nas ciências]. Será, em suma, uma segunda edição da Introduction à la
médecine expérimentale" [103, 96]. É a fé na validade universal do postulado determinista que é
confirmada pelo princípio: "fisiologia e patologia são uma só e mesma coisa". Houve uma físicoquímica
fisiológica, conforme às exigências do conhecimento científico, isto é, uma fisiologia que
comportava leis quantitativas, verificadas pela experimentação, enquanto a patologia ainda estava
42
sobrecarregada de conceitos précientíficos. É compreensível que, ansiosos — e com toda a razão
— por uma patologia eficaz e racional, os médicos do início do século XIX tenham visto na
fisiologia o modelo a ser adotado, pois era o mais próximo do seu ideal. "A ciência repele o
indeterminado e, quando, em medicina, vêm se basear opiniões no tato médico, na inspiração ou
em uma intuição mais ou menos vaga das coisas, está-se fora da ciência e dá-se um exemplo dessa
medicina fantasiosa que pode oferecer os maiores perigos entregando a saúde e a vida dos doentes
às loucuras de um ignorante inspirado" [6, 96].
Dentre a fisiologia e a patologia da época apenas a primeira comportava leis e postulava o
determinismo de seu objeto, mas isso não é motivo suficiente para concluirmos que as leis e o
determinismo dos fatos patológicos sejam as próprias leis e o próprio determinismo dos fatos
fisiológicos, apesar da legítima aspiração que temos de uma patologia racional. Sabemos pelo
próprio Claude Bernard quais são os antecedentes desse ponto de doutrina. Na lição que consagra à
vida e aos trabalhos de Magendie, no início das Leçons sur les substances toxiques et
médicamenteuses (1857), Claude Bernard nos diz que o mestre cuja cátedra ele ocupava e cujo
ensinamento ele continuara "ia buscar o sentido da verdadeira ciência" junto ao ilustre Laplace.
Sabe-se que Laplace tinha sido o colaborador de Lavoisier nas pesquisas sobre a respiração dos
animais e sobre o calor animal, primeiro êxito espetacular das pesquisas sobre as leis dos
fenômenos biológicos, segundo os métodos de experimentação e da medida acreditados em física e
em química. Desses estudos, Laplace conservava um grande interesse pela fisiologia, e apoiava
ostensivamente Magendie. Ora, apesar de Laplace não utilizar o termo "determinismo", ele é um
dos pais espirituais, e, pelo menos na França, um pai autoritário e autorizado, da doutrina que esse
termo designa. Para Laplace, o determinismo não é uma exigência de método, um postulado
normativo da pesquisa, bastante flexível para não prejulgar nada sobre a forma dos resultados aos
quais vai conduzir; o determinismo é a própria realidade, acabada, moldada ne varietur nos quadros
da mecânica de Newton e Laplace. Pode-se conceber o determinismo como aberto a incessantes
correções das fórmulas de leis e dos conceitos que elas ligam, ou então como fechado sobre seu
suposto conteúdo definitivo. Laplace elaborou a teoria do determinismo fechado. Não é de outra
maneira que Claude Bernard o concebe, e é sem dúvida por esse motivo que ele não concebe
também que a colaboração da patologia e da fisiologia possa levar a uma retificação progressiva
dos conceitos fisiológicos. É o momento de lembrar a frase de Whitehead: "As ciências fazem uma
à outra empréstimos mútuos, mas em geral só tomam emprestadas coisas que já datam de 30 ou 40
anos. É assim que as presunções da física do tempo da minha infância exercem hoje em dia uma
influência profunda sobre o pensamento dos fisiologistas."1
Enfim, e como conseqüência do postulado determinista, é a redução da qualidade à quantidade que
está implicada na identidade essencial do fisiológico e do patológico. Reduzir a diferença entre um
homem são e um diabético a uma diferença quantitativa do teor de glicose do meio interno, delegar
a um limiar renal, considerado simplesmente como uma diferença quantitativa de nível, o cuidado
de discernir o que é diabético do que não é significa obedecer ao espírito das ciências físicas que só
podem explicar os fenômenos — subentendo-os de leis — por sua redução a uma medida comum.
Para fazer entrar os termos em relações de composição e de dependência convém, em primeiro
lugar, obter a homogeneidade desses termos. Como demonstrou E. Meyerson, foi identificando
realidade e quantidade que o espírito humano se fez conhecimento. Mas convém não esquecer que
o conhecimento científico, embora invalidando qualidades que fez aparecer como ilusórias, nem
por isso as anula. A quantidade é a qualidade negada, mas não a qualidade suprimida. A variedade
qualitativa das luzes simples, percebidas pelo olho humano como cores, é reduzida pela ciência à
diferença quantitativa de comprimentos de onda, mas é a variedade qualitativa que persiste ainda
sob a forma de diferenças de quantidade, no cálculo dos comprimentos de onda. Hegel sustenta que
a quantidade, por seu aumento ou sua diminuição, se transforma em qualidade. Isso seria
absolutamente inconcebível se uma relação com a qualidade não persistisse ainda na qualidade
negada a que chamamos quantidade.2
1 Nature and life (Cambridge, 1934). Citado por Koyré em um relatório das Recherches phdo-sophiques, IV, 1934-1935, p. 398.
2 É, aliás, o que Hegel compreendeu perfeitamente; cf. Wissenschaft der Logik (Kap. 1, 3).
43
Desse ponto de vista, é absolutamente ilegítimo sustentar que o estado patológico é, real e
simplesmente, a variação — para mais ou para menos — do estado fisiológico. Pode-se considerar
que esse estado fisiológico tenha, para o ser vivo, uma qualidade e um valor, e então seria absurdo
prolongar esse valor — idêntico a si mesmo sob suas variações — até um estado dito patológico,
cujo valor e cuja qualidade se diferenciam do valor e da qualidade do estado fisiológico com os
quais, no fundo, formam contraste. Ou então o que se entende por estado fisiológico é um simples
resumo de quantidades, sem valor biológico, simples fato ou sistema de fatos físicos e químicos,
mas então esse estado não tem nenhuma qualidade vital e não se pode chamá-lo de são, nem de
normal, nem de fisiológico. Normal e patológico não têm sentido no nível em que o objeto
biológico é decomposto em equilíbrios coloidais e soluções ionizadas. O fisiologista, estudando um
estado que ele chama de fisiológico, o está qualificando por esse fato, mesmo inconscientemente;
ele considera esse estado como qualificado positivamente, pelo ser vivo e para o ser vivo. Ora, não
é esse estado fisiológico, como tal, que se prolonga — idêntico a si mesmo — até um outro estado
capaz de adotar então, inexplicavelmente, a qualidade de mórbido.
É claro que não pretendemos dizer que uma análise das condições ou dos produtos das funções
patológicas não fornecerá ao químico e ao fisiologista resultados numéricos que possam ser
comparados com resultados numéricos obtidos de modo constante ao cabo das mesmas análises,
relativas às funções correspondentes, ditas fisiológicas. Contestamos, porém, que os termos mais e
menos, quando entram na definição do patológico como variação quantitativa do normal, tenham
uma significação puramente quantitativa. Contestamos a coerência lógica do princípio de Claude
Bernard: "A perturbação de um mecanismo normal, consistindo em uma variação quantitativa, uma
exageração ou uma atenuação, constitui o estado patológico." Como já foi assinalado, a propósito
das idéias de Broussais, é em relação a uma norma que se pode falar de mais ou de menos, no
campo das funções e das necessidades fisiológicas. A hidratação dos tecidos é, por exemplo, um
fato a que se pode aplicar os termos de mais e de menos; o teor do cálcio no sangue também. Esses
resultados quantitativamente diferentes não têm nenhuma qualidade, nenhum valor, em um
laboratório, se esse laboratório não tiver nenhuma relação com um hospital ou uma clínica, nos
quais esses resultados vão adquirir ou não valor de uremia, ou de tetania. Pelo fato de a fisiologia
estar situada na confluência do laboratório e da clínica, adota dois pontos de vista sobre os
fenômenos biológicos, mas isso não quer dizer que esses pontos de vista possam ser confundidos.
Se substituirmos um contraste qualitativo por uma progressão quantitativa, nem por isso estaremos
anulando essa oposição. A oposição sempre se mantém no fundo da consciência que decidiu adotar
o ponto de vista teórico e métrico. Portanto, quando dizemos que saúde e doença estão ligadas por
todos os intermediários, e quando se converte essa continuidade em homogeneidade, esquecemos
que a diferença continua a saltar aos olhos, nos extremos, sem os quais os intermediários não
teriam de desempenhar seu papel mediador; mistura-se, sem dúvida, inconscientemente, mas
ilegitimamente, o cálculo abstrato das identidades e a apreciação concreta das diferenças.
44
Segunda Parte
I EXISTEM CIÊNCIAS DO NORMAL
E DO PATOLÓGICO?
INTRODUÇÃO AO PROBLEMA
É interessante observar que os psiquiatras contemporâneos operaram na sua própria disciplina uma
retificação e uma atualização dos conceitos de normal e de patológico, da qual os médicos e
fisiologistas não parecem ter tirado nenhum proveito, no que se refere a suas respectivas ciências.
Talvez seja preciso procurar a razão desse fato nas relações geralmente mais estreitas que a
psiquiatria mantém com a filosofia, por intermédio da psicologia. Na França, sobretudo, Ch.
Blondel, D. Lagache e E. Minkowski contribuíram para definir a essência geral do fato psíquico
mórbido ou anormal e suas relações com o normal. No seu livro La conscience morbide, Blondel
havia descrito casos de alienação em que os doentes se apresentavam ao mesmo tempo como
incompreensíveis para os outros e incompreensíveis para si próprios, casos em que o médico tem
realmente a impressão de lidar com uma estrutura de mentalidade diferente; ele procurava a
explicação para esses casos na impossibilidade que esses doentes têm de transpor para os conceitos
da linguagem usual os dados de sua cenestesia. É impossível para o médico compreender a
experiência vivida pelo doente a partir dos relatos dos doentes. Porque aquilo que os doentes
exprimem por conceitos usuais não é sua experiência direta, mas sua interpretação de uma
experiência para a qual não dispõem de conceitos adequados.
D. Lagache está bastante longe desse pessimismo. Ele acha que se devem distinguir na consciência
anormal variações de natureza e variações de grau; em certas psicoses, a personalidade do doente é
heterogênea da personalidade anterior; em outros, há prolongamento de uma pela outra. Assim
como Jaspers, Lagache distingue as psicoses não compreensíveis das psicoses compreensíveis;
neste último caso, a psicose aparece em relação inteligível com a vida psíquica anterior. Portanto,
salvo pelas dificuldades levantadas pelo problema geral da compreensão do outro, a psicopatologia
constitui uma fonte de documentos utilizáveis em psicologia geral, uma fonte de luz a ser projetada
sobre a consciência normal [66, 8.08-8]. No entanto, e este é o ponto a que queríamos chegar, essa
posição é totalmente diferente da de Ribot, anteriormente assinalada. Segundo Ribot, a doença —
substituto espontâneo e metodologicamente equivalente da experimentação — atinge o inacessível,
mas respeita a natureza dos elementos normais nos quais ela decompõe as funções psíquicas. A
doença desorganiza mas não transforma, revela sem alterar. Lagache não admite a identificação da
doença com a experimentação. Uma experimentação exige uma análise exaustiva das condições de
existência do fenômeno e uma rigorosa determinação das condições que se faz variar para observar
suas incidências. Ora, em nenhum desses pontos a doença mental é comparável à experimentação.
Primeiro, "nada é mais desconhecido do que as condições nas quais a natureza institui essas
experiências, as doenças mentais: o início de uma psicose escapa quase sempre ao médico, ao
paciente, aos que com ele convivem; a fisiopatologia, a anatomopatologia desse processo são
obscuras" [66, 8.08-5]. E a seguir afirma: "no fundo da ilusão que identifica o método patológico
em psicologia com o método experimental, há a representação atomística e associacionista da vida
mental, há a psicologia das faculdades" [ibid.]. Como não existem fatos psíquicos elementares
separáveis, não se podem comparar os sintomas patológicos com elementos da consciência normal,
porque um sintoma só tem sentido patológico no seu contexto clínico que exprime uma perturbação
global. Por exemplo, uma alucinação psicomotora verbal está contida em um delírio, e o delírio, em
45
uma alteração da personalidade [66, 8.08-7]. Conseqüentemente, a psicologia geral pode utilizar os
dados da psicopatologia com o mesmo valor epistemológico que os fatos observados nas pessoas
normais, mas não sem uma adaptação expressa à originalidade do patológico. Ao contrário de
Ribot, Lagache acha que a desorganização mórbida não é o simétrico inverso da organização
normal. Na consciência patológica podem existir formas que não tenham equivalentes no estado
normal, e com as quais a psicologia geral não deixa de se enriquecer: "Mesmo as estruturas mais
heterogêneas, além do interesse intrínseco de seu estudo, são capazes de fornecer dados para os
problemas levantados pela psicologia geral; essas estruturas levantam até mesmo novos problemas,
e uma particularidade curiosa do vocabulário psicopatológico é comportar expressões negativas
que não têm equivalente na psicologia normal: é impossível não reconhecer que noções como a de
discordância lançam uma nova luz sobre nosso conhecimento do ser humano" [66, 8.08-8].
E. Minkowski pensa também que o fato da alienação não pode ser reduzido unicamente a um fato
de doença, determinado por sua referência a uma imagem ou a uma idéia precisa do homem médio
ou normal. É intuitivamente que classificamos um homem como alienado, e o fazemos "como
homens, e não como especialistas". O alienado "não se enquadra" não tanto em relação aos outros
homens, mas em relação à própria vida; não é tanto desviado, mas sobretudo diferente. "É pela
anomalia que o ser humano se destaca do todo formado pelos homens e pela vida. É ela que nos
revela o sentido de uma maneira de ser inteiramente 'singular', e o faz primitivamente, de um modo
muito radical e impressionante. Essa circunstância explica por que o 'ser doente' não esgota
absolutamente o fenômeno da alienação que, impondo-se a nós sob o ângulo de 'ser de modo
diferente' no sentido qualitativo da palavra, abre imediatamente caminho para considerações
psicopatológicas feitas sob esse ângulo" [84, 77]. A alienação ou a anomalia psíquica apresenta,
segundo Minkowski, caracteres próprios que, segundo ele, o conceito de doença não contém. Em
primeiro lugar, na anomalia há o primado do negativo; o mal se destaca da vida, ao passo que o
bem se confunde com o dinamismo vital e encontra seu sentido unicamente "em uma progressão
constante destinada a ultrapassar qualquer fórmula conceitual relativa a essa suposta norma" [84,
78]. Por acaso o mesmo não ocorre no campo somático, e também aí não se fala de saúde apenas
porque existem doenças? No entanto, segundo Minkowski, a alienação mental é uma categoria
mais imediatamente vital do que a doença; a doença somática é suscetível de uma precisão
empírica superior, de uma padronização mais precisa; a doença somática não rompe o acordo entre
semelhantes; o doente é, para nós, o que ele é para si próprio, ao passo que o anormal psíquico não
tem consciência de seu estado. "O individual domina a esfera dos desvios mentais muito mais do
que domina a esfera somática" [84, 79].
A respeito deste último ponto, não podemos partilhar a opinião de Minkowski. Achamos, assim
como Leriche, que a saúde é a vida no silêncio dos órgãos; que, por conseguinte, o normal
biológico só é revelado, como já dissemos, por infrações à norma, e que não há consciência
concreta ou científica da vida, a não ser pela doença. Achamos, como Sigerist, que "a doença isola"
[107, 86], e que mesmo se "esse isolamento não afasta os homens mas, ao contrário, os aproxima
do doente" [107, 95], nenhum doente perspicaz pode ignorar as renúncias e limitações que os
homens sãos impõem a si mesmos para dele se aproximarem. Achamos, como Goldstein, que em
matéria de patologia a norma é, antes de tudo, uma norma individual [46, 272]. Achamos, em
resumo, que considerar a vida uma potência dinâmica de superação, como Minkowski, cujas
simpatias pela filosofia bergsoniana se manifestam em obras como La schizophrénie ou Le temps
vécu, é obrigar-se a tratar de modo idêntico a anomalia somática e a anomalia psíquica. Quando Ey,
aprovando os pontos de vista de Minkowski, declara: "O normal não é uma média correlativa a um
conceito social, não é um julgamento de realidade, é um julgamento de valor, é uma noção-limite
que define o máximo de capacidade psíquica de um ser. Não há limite superior da normalidade"
[84, 93], basta, na nossa opinião, substituir psíquica por física para obter uma definição bastante
correta desse conceito de normal que a fisiologia e a medicina das doenças orgânicas utilizam todo
dia sem se preocupar suficientemente em indicar seu sentido com maior precisão.
Essa despreocupação tem, aliás, razões válidas, sobretudo por parte do médico clínico. Em última
análise, são os doentes que geralmente julgam — de pontos de vista muito variados — se não são
mais normais ou se voltaram a sê-lo. Para um homem que imagina seu futuro quase sempre a partir
46
de sua experiência passada, voltar a ser normal significa retomar uma atividade interrompida, ou
pelo menos uma atividade considerada equivalente, segundo os gostos individuais ou os valores
sociais do meio. Mesmo que essa atividade seja uma atividade reduzida, mesmo que os
comportamentos possíveis sejam menos variados, menos flexíveis do que eram antes, o indivíduo
não dá tanta importância assim a esses detalhes. O essencial, para ele, é sair de um abismo de
impotência ou de sofrimento em que quase ficou definitivamente; o essencial é ter escapado de
boa. Vejamos o exemplo de um rapaz, examinado, recentemente, que tinha caído em uma serra
circular que estava em movimento, e cujo braço tinha sido seccionado transversalmente em três
quartos, tendo ficado indene o feixe vásculo-nervoso interno. Uma intervenção rápida e inteligente
lhe permitiu conservar o braço. O braço apresenta uma atrofia de todos os músculos, assim como o
antebraço. Todo o membro estava frio, a mão cianosada. O grupo dos músculos extensores
apresentava, ao exame elétrico, uma reação de nítida degenerescência. Os movimentos de flexão,
de extensão e de supinação do antebraço ficaram limitados (flexão limitada a 45º; extensão, a 170°,
aproximadamente), a pronação é mais ou menos normal. Esse doente está contente por saber que
vai recuperar grande parte das possibilidades de uso de seu braço. É claro que, em relação ao outro
braço, o membro lesado e restaurado cirurgicamente não será normal do ponto de vista tráfico e
funcional. Mas o essencial é que esse homem vai retomar à profissão que havia escolhido ou que as
circunstâncias lhe haviam proposto, ou talvez mesmo imposto, e na qual, em todo caso, ele
encontrava uma razão, mesmo medíocre, de viver. Mesmo que esse homem obtenha de agora em
diante resultados técnicos equivalentes por processos diferentes de gesticulação complexa,
continuará a ser socialmente apreciado segundo as normas de outrora; continuará a ser carreteiro ou
chofer, e não ex-carreteiro ou ex-chofer. O doente esquece que, por causa de seu acidente, vai lhe
faltar, daí por diante, uma grande margem de adaptação e de improvisação neuromusculares, isto é,
a capacidade de melhorar seu rendimento e de se superar, capacidade esta da qual talvez jamais
tenha feito uso, apenas por falta de oportunidade. O que o doente lembra é de que não está
manifestamente inválido. Essa noção de invalidez merecia um estudo à parte feito por um médico
perito que não considerasse o organismo apenas como uma máquina cujo rendimento deve ser
medido, um perito com bastante senso psicológico para apreciar as lesões mais como diminuição
do que como porcentagem.1 No entanto, os peritos, de modo geral, usam a psicologia apenas para
descobrir psicoses de reivindicação nos pacientes que lhes são apresentados, e para falar em
pitiatismo. De qualquer modo, o médico clínico, em geral, limita-se a entrar em acordo com seus
clientes para definir o normal e o anormal, segundo as normas individuais dos próprios clientes,
exceto, é claro, no caso de um desconhecimento grosseiro, por parte deles, das condições
anatomofisiológicas mínimas da vida vegetativa ou da vida animal. Lembro-me de ter visto, em um
serviço de cirurgia, um retardado mental, operário agrícola, que tinha tido as duas tíbias fraturadas
por uma roda de charrete, e cujo patrão não o tinha mandado se tratar, com medo de qualquer
responsabilidade, e cujas tíbias tinham se soldado por si mesmas em ângulo obtuso. Esse homem
havia sido levado ao hospital por denúncia dos vizinhos. Foi preciso quebrar-lhe de novo as tíbias e
imobilizá-las corretamente. É claro que o chefe do serviço que tomou essa decisão fazia da perna
humana uma idéia diferente que o pobre diabo e seu patrão. É claro também que estava adotando
uma norma que não satisfaria nem um Jean Bouin, nem um Serge Lifar.
Jaspers compreendeu bem quais são as dificuldades para se chegar a essa determinação médica do
normal e da saúde: "É o médico, diz ele, que menos procura o sentido das palavras 'saúde e
doença'.
Do ponto de vista científico, ele trata dos fenômenos vitais. Mais do que a opinião dos médicos, é a
apreciação dos pacientes e das idéias dominantes do meio social que determina o que se chama
'doença' [59, 5]. O que se encontra de comum aos diversos significados dados, hoje em dia ou
antigamente, ao conceito de doença é o fato de serem um julgamento de valor virtual. "Doente é
um conceito geral de não-valor que compreende todos os valores negativos possíveis" [59, 9]. Estar
doente significa ser nocivo, ou indesejável, ou socialmente desvalorizado etc. Inversamente, o que
é desejado na saúde é evidente do ponto de vista fisiológico, e isso dá ao conceito de doença física
1 Esses problemas foram estudados desde então por de Laet e Lobet, Édude de la valeur des gestes professionnels (Bruxelas, 1949), e
por A. Geerts, L 'indemnisation des lésions corporelles à travers les âges (Paris, 1962).
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um sentido relativamente estável. Os valores desejados são "a vida, uma vida longa, a capacidade
de reprodução, a capacidade de trabalho físico, a força, a resistência à fadiga, a ausência de dor, um
estado no qual se sente o corpo o menos possível, além da agradável sensação de existir" [59, 6].
No entanto, a ciência médica não consiste em especular sobre esses conceitos banais para obter um
conceito geral de doença; a tarefa que lhe cabe é determinar quais são os fenômenos vitais durante
os quais os homens se dizem doentes, quais são as origens desses fenômenos, as leis de sua
evolução, as ações que os modificam. O conceito geral de valor se especificou em uma grande
quantidade de conceitos de existência. Mas, apesar do aparente desaparecimento do julgamento de
valor nos conceitos empíricos, o médico persiste em falar de doenças, pois a atividade médica —
pelo interrogatório clínico e pela terapêutica — tem como objeto o doente e seus julgamentos de
valor [59, 6].
Logo, compreende-se perfeitamente que os médicos se desinteressem de um conceito que lhes
parece ou excessivamente vulgar ou excessivamente metafísico. O que lhes interessa é diagnosticar
e curar. Teoricamente, curar é fazer voltar à norma uma função ou um organismo que dela se
tinham afastado. O médico geralmente tira a norma de seu conhecimento da fisiologia, dita ciência
do homem normal, de sua experiência vivida das funções orgânicas, e da representação comum da
norma em um meio social em dado momento. Das três autoridades, a que predomina é, de longe, a
fisiologia. A fisiologia modem. se apresenta como uma antologia canônica de constantes funcionais
em relação com funções de regulação hormonais e nervosas. Essas constantes são classificadas
como normais enquanto designam características médias e mais freqüentes de casos praticamente
observáveis. Mas são também classificadas como normais porque entram, como ideal, nessa
atividade normativa que é a terapêutica. As constantes fisiológicas são, portanto, normais no
sentido estatístico, que é um sentido descritivo, e no sentido terapêutico, que é um sentido
normativo. Mas o que interessa é saber se é a medicina que converte — e como? — os conceitos
descritivos e puramente teóricos em ideais biológicos, ou então se, recebendo da fisiologia a noção
de fatos e de coeficientes funcionais constantes, a medicina não receberia também, e
provavelmente sem que os fisiologistas o percebessem, a noção de norma no sentido normativo da
palavra. E trata-se de saber se, assim, a medicina não estaria retomando da fisiologia o que ela
própria lhe havia dado. Este é o difícil problema a ser examinado agora.
48
II EXAME CRÍTICO DE ALGUNS CONCEITOS: DO NORMAL, DA
ANOMALIA E DA DOENÇA, DO NORMAL E DO EXPERIMENTAL
O Dictionnaire de médecine de Littré e Robin define o normal do seguinte modo: normal
(normalis, de norma, regra), que é conforme à regra, regular. A brevidade desse verbete em um
dicionário médico nada tem que possa nos surpreender depois das observações que acabamos de
expor. O Vocabulaire technique et critique de la philosophie de Lalande é mais explícito: é normal,
etimologicamente — já que norma significa esquadro —, aquilo que não se inclina nem para a
esquerda nem para a direita, portanto o que se conserva em um justo meio-termo; daí derivam dois
sentidos: é normal aquilo que é como deve ser; e é normal, no sentido mais usual da palavra, o que
se encontra na maior parte dos casos de uma espécie determinada ou o que constitui a média ou o
módulo de uma característica mensurável. Na discussão desses sentidos, fizemos ver o quanto esse
termo é equívoco, designando ao mesmo tempo um fato e "um valor atribuído a esse fato por
aquele que fala, em virtude de um julgamento de apreciação que ele adota". Fizemos ver, também,
o quanto esse equívoco foi facilitado pela tradição filosófica realista, segundo a qual toda
generalidade é indício de uma essência, toda perfeição, a realização de uma essência e, portanto,
uma generalidade observável de fato adquire o valor de perfeição realizada, um caráter comum
adquire um valor de tipo ideal. Assinalamos, enfim, uma confusão análoga em medicina, em que o
estado normal designa, ao mesmo tempo, o estado habitual dos órgãos e seu estado ideal, já que o
restabelecimento desse estado habitual é o objeto usual da terapêutica [67].
Parece-nos que esta última observação não é explorada como mereceria ser e, sobretudo que, no
verbete citado, não se tira bastante partido dessa observação no que se refere à equivocidade do
termo normal, cuja existência contentam-se em assinalar, em vez de ver neste termo um problema a
ser elucidado. É certo que, em medicina, o estado normal do corpo humano é o estado que se deseja
restabelecer. Mas será que se deve considerá-lo normal porque é visado como fim a ser atingido
pela terapêutica, ou, pelo contrário, será que a terapêutica o visa justamente porque ele é
considerado como normal pelo interessado, isto é, pelo doente? Afirmamos que a segunda relação é
a verdadeira. Achamos que a medicina existe como arte da vida porque o vivente humano
considera, ele próprio, como patológicos — e devendo, portanto, ser evitados ou corrigidos —
certos estados ou comportamentos que, em relação à polaridade dinâmica da vida, são apreendidos
sob a forma de valores negativos. Achamos que, dessa forma, o vivente humano prolonga, de modo
mais ou menos lúcido, um efeito espontâneo, próprio da vida, para lutar contra aquilo que constitui
um obstáculo à sua manutenção e a seu desenvolvimento tomados como normas. O verbete do
Vocabulaire philosophique parece supor que o valor só pode ser atribuído a um fato biológico por
"aquele que fala", isto é, evidentemente, um homem. Achamos, ao contrário, que, para um ser vivo,
o fato de reagir por uma doença a uma lesão, a uma infestação, a uma anarquia funcional, traduz
um fato fundamental: é que a vida não é indiferente às condições nas quais ela é possível, que a
vida é polaridade e, por isso mesmo, posição inconsciente de valor, em resumo, que a vida é, de
fato, uma atividade normativa. Em filosofia, entende-se por normativo qualquer julgamento que
aprecie ou qualifique um fato em relação a uma norma, mas essa forma de julgamento está
subordinada, no fundo, àquele que institui as normas. No pleno sentido da palavra, normativo é o
que institui as normas. E é nesse sentido que propomos falar sobre uma normatividade biológica.
Julgamos estar tão atentos quanto quaisquer outros para não sucumbirmos à tendência de cair no
antropomorfismo. Não emprestamos às normas vitais um conteúdo humano, mas gostaríamos de
saber como é que a normatividade essencial à consciência humana se explicaria se, de certo modo,
já não estivesse, em germe, na vida. Gostaríamos de saber como é que uma necessidade humana de
terapêutica teria dado origem a uma medicina cada vez mais clarividente em relação às condições
da doença, se a luta da vida contra os inúmeros perigos que a ameaçam não fosse uma necessidade
vital permanente e essencial. Do ponto de vista sociológico, é possível mostrar que a terapêutica
foi, primeiro, uma atividade religiosa, mágica, mas não se deve absolutamente concluir daí que a
necessidade terapêutica não seja uma necessidade vital, necessidade que — mesmo nos seres vivos
49
bem inferiores aos vertebrados quanto à organização — provoca reações de valor hedônico ou
comportamentos de autocura e de auto-regeneração.
A polaridade dinâmica da vida e a normatividade que a traduz explicam um fato epistemológico
cuja importância significativa Bichat havia sentido plenamente. Existe patologia biológica, mas não
existe patologia física, nem química, nem mecânica: "Há duas coisas nos fenômenos da vida:
primeiro, o estado de saúde; segundo, o estado de doença; daí duas ciências distintas: a fisiologia,
que trata dos fenômenos do primeiro estado, e a patologia, que tem como objeto os fenômenos do
segundo. A história dos fenômenos nos quais as forças vitais apresentam seu tipo natural nos leva,
como conseqüência, à história dos fenômenos nos quais essas forças estão alteradas. Ora, nas
ciências físicas só há a primeira história; jamais a segunda é encontrada. A fisiologia está para o
movimento dos corpos vivos assim como a astronomia, a dinâmica, a hidráulica etc. estão para os
movimentos dos corpos inertes; ora, estas últimas ciências não têm nenhuma ciência que lhes
corresponda como a patologia correspondente à primeira. Pela mesma razão, nas ciências físicas
repugna qualquer idéia de medicamento. Um medicamento tem como finalidade trazer as
propriedades de volta a seu tipo natural; ora, as propriedades físicas, como não perdem nunca esse
tipo, não precisam voltar a ele. Nada, nas ciências físicas, corresponde ao que é a terapêutica nas
ciências fisiológicas" [13, I, 20-21]. É claro que, nesse texto, o tipo natural deve ser tomado no
sentido de tipo normal. Para Bichat, o natural não é o efeito de um determinismo; é o termo de uma
finalidade. Sabemos muito bem tudo o que podemos criticar nesse texto, do ponto de vista da
biologia mecanicista ou materialista. Pode-se dizer que Aristóteles acreditara, outrora, em uma
mecânica patológica, já que admitia dois tipos de movimentos: os movimentos naturais, pelos quais
um corpo retoma seu lugar próprio e onde fica em repouso, como a pedra se dirige para "o baixo
terrestre" e o fogo para "o alto celeste"; e os movimentos violentos, pelos quais um corpo é
afastado de seu lugar próprio, como quando se joga uma pedra para o ar. Pode-se dizer que o
progresso do conhecimento físico consistiu em considerar, com Galileu e Descartes, todos os
movimentos como naturais, isto é, conforme às leis da natureza e que, da mesma forma, o
progresso do conhecimento biológico consiste em unificar as leis da vida natural e da vida
patológica. É justamente com essa unificação que Comte sonhava e que Claude Bernard
vangloriou-se de ter realizado, como já vimos anteriormente. Às reservas que, então, julgamos
necessário expor, acrescentamos ainda o seguinte: a mecânica moderna, baseando a ciência do
movimento no princípio da inércia, tornava absurda, com efeito, a distinção entre os movimentos
naturais e os movimentos violentos, já que a inércia é precisamente a indiferença em relação às
direções e às variações do movimento. Ora, a vida está bem longe de uma tal indiferença em
relação às condições que lhe são impostas; a vida é polaridade. O mais simples dos aparelhos
biológicos de nutrição, de assimilação e de excreção traduz uma polaridade. Quando os dejetos da
assimilação deixam de ser excretados por um organismo e obstruem ou envenenam o meio interno,
tudo isso, com efeito, está de acordo com a lei (física, química etc.), mas nada disso está de acordo
com a norma, que é a atividade do próprio organismo. Esse é o fato simples que queremos designar
quando falamos em normatividade biológica.
Há pessoas que, por horror ao finalismo, são levadas a rejeitar até mesmo a noção darwiniana de
seleção pelo meio e de luta pela sobrevivência por causa do termo seleção, evidentemente
importado da área da tecnologia e das ciências humanas e, ao mesmo tempo, por causa da noção de
superioridade que intervém na explicação do mecanismo da seleção natural. Elas salientam o fato
de que a maior parte dos seres vivos são mortos pelo meio, muito antes que as desigualdades por
eles apresentadas possam lhes ser úteis, pois morrem sobretudo germes, embriões e jovens. Porém,
como G. Teissier salientou, só porque muitos seres morrem antes que suas desigualdades possam
servir-lhes, isso não quer dizer que apresentar desigualdades seja biologicamente indiferente [111].
É justamente o único fato a respeito do qual pedimos que concordem conosco. Não há indiferença
biológica. Pode-se, portanto, falar em normatividade biológica. Há normas biológicas sãs e normas
patológicas, e as segundas não são da mesma natureza que as primeiras.
Foi intencionalmente que fizemos alusão à teoria da seleção natural. Queremos mostrar que ocorre
com essa expressão seleção natural o mesmo que ocorre com a antiga expressão vis medicatrix
naturae. Seleção e medicina são técnicas biológicas exercidas intencionalmente e mais ou menos
50
racionalmente pelo homem. Quando falamos em seleção natural ou em atividade medicatriz da
natureza, somos vítimas do que Bergson chama de ilusão de retroatividade se imaginarmos que a
atividade vital pré-humana persegue fins e utiliza meios comparáveis aos dos homens. No entanto,
uma coisa é pensar que a seleção natural utilizaria algo semelhante a pedrigrees e à vis medicatrix,
a ventosas, e outra coisa é achar que a técnica humana prolonga impulsos vitais a serviço dos quais
tenta colocar um conhecimento sistemático que os livraria das tentativas e erros da vida, que são
inúmeros e, muitas vezes, saem caro.
As expressões seleção natural ou atividade medicatriz natural têm o inconveniente de parecer
inscrever as técnicas vitais no quadro das técnicas humanas, quando é o inverso que parece ser
verdade. Toda técnica humana, inclusive a da vida, está inscrita na vida, isto é, em uma atividade
de informação e de assimilação da matéria. Não é apenas porque a técnica humana é normativa que
a técnica vital é considerada como tal, por compaixão. É por ser atividade de informação e
assimilação que a vida é a raiz de toda atividade técnica. Em resumo, é mesmo retroativamente, e
incorretamente, que se fala na existência de uma medicina natural, mas supondo que não se tenha o
direito de falar nessa medicina, isto não nos tira o direito de pensar que nenhum ser vivo jamais
teria desenvolvido uma técnica médica se, nele, assim como em qualquer outro ser vivo, a vida
fosse indiferente às condições que encontra, se ela não fosse reatividade polarizada às variações do
meio no qual se desenrola. É o que Guyénot compreendeu muito bem: "É fato que o organismo
goza de um conjunto de propriedades que só pertencem a ele, graças às quais ele resiste a causas
múltiplas de destruição. Sem essas reações defensivas, a vida se extinguiria rapidamente... O ser
vivo pode encontrar instantaneamente a reação útil em relação a substâncias com as quais nem ele
nem sua raça jamais estiveram em contato. O organismo é um químico incomparável. É o primeiro
dos médicos. As flutuações do meio são, quase sempre, uma ameaça para a existência. O ser vivo
não poderia subsistir se não possuísse certas propriedades essenciais. Qualquer ferida seria mortal
se os tecidos não fossem capazes de cicatrização e o sangue, de coagulação" [52, 186].
Em resumo, achamos que é muito instrutivo meditar sobre o sentido que a palavra normal adquire
em medicina, e que a equivocidade do conceito, assinalada por Lalande, recebe, desse sentido, um
esclarecimento muito grande e de alcance absolutamente geral sobre o problema do normal. É a
vida em si mesma, e não a apreciação médica, que faz do normal biológico um conceito de valor, e
não um conceito de realidade estatística. Para o médico, a vida não é um objeto, é uma atividade
polarizada, cujo esforço espontâneo de defesa e de luta contra tudo que é valor negativo é
prolongado pela medicina, que lhe traz o esclarecimento da ciência humana, relativo, mas
indispensável.
* * *
O Vocabulaire philosophique de Lalande contém uma observação importante, relativa aos termos
anomalia e anormal. Anomalia é um substantivo ao qual, atualmente, não corresponde adjetivo
algum e, inversamente, anormal é um adjetivo sem substantivo,* de modo que o uso os associou,
fazendo de anormal o adjetivo de anomalia. Com efeito, é certo que anormal, que Isidore Geoffroy
Saint-Hilaire ainda empregava em 1836, em sua Histoire des anomalies de 'organisation, e que
consta também do Dictionnaire de médecine de Littré e Robin, caiu em desuso. O Vocabulaire de
Lalande explica que uma confusão de etimologia contribuiu para essa aproximação de anomalia e
anormal. Anomalia vem do grego anomalia, que significa desigualdade, aspereza; omalos designa,
em grego, o que é uniforme, regular, liso; de modo que anomalia é, etimologicamente, anomalos, o
que é desigual, rugoso, irregular, no sentido que se dá a essas palavras, ao falar de um terreno.1
Ora, freqüentemente houve enganos a respeito da etimologia do termo anomalia derivando-o não
de orna-los, mas de nomos, que significa lei, segundo a composição a-nomos. Esse erro de
etimologia encontra-se, precisamente, no Dictionnaire de médecine de Littré e Robin. Ora, o nomos
grego e o norma latino têm sentidos vizinhos, lei e regra tendem a se confundir. Assim, com todo o
* Em francês. Em português há o substantivo anormalidade e o adjetivo anômalo. (N.T.)
1 A. Juret, em seu Dictionnaire élymologique grec et latin (1942), propôs essa mesma etimologia para a palavra anomalia.
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rigor semântico, anomalia designa um fato, é um termo descritivo, ao passo que anormal implica
referência a um valor, é um termo apreciativo, normativo, mas a troca de processos gramaticais
corretos acarretou uma colusão dos sentidos respectivos de anomalia e de anormal. Anormal
tornou-se um conceito descritivo, e anomalia tornou-se um conceito normativo. I. Geoffroy Saint-
Hilaire, que caiu no erro etimológico retomado depois por Littré e Robin, esforça-se para manter o
sentido puramente descritivo e teórico do termo anomalia. A anomalia é um fato biológico e deve
ser tratada como fato que a ciência natural deve explicar, e não apreciar: "A palavra anomalia,
pouco diferente da palavra irregularidade, jamais deve ser tomada no sentido que se deduziria
literalmente de sua composição etimológica. Não existem formações orgânicas que não estejam
submetidas a leis; e a palavra desordem, tomada em seu verdadeiro sentido, não poderia ser
aplicada a nenhuma das produções da natureza. Anomalia é uma expressão recentemente
introduzida na linguagem anatômica, e cujo emprego nesta linguagem é pouco freqüente. Os
zoólogos, dos quais a expressão foi tirada, a utilizam, ao contrário, muito freqüentemente; eles a
aplicam a um grande número de animais que, por sua organização e seus caracteres insólitos, se
encontram, por assim dizer, isolados na série e só têm com outros gêneros da mesma classe
relações de parentesco muito afastadas" [43, 1, 96, 37]. Ora, segundo I. Geoffroy Saint-Hilaire, é
incorreto falar, a respeito de tais animais, em capricho da natureza, ou em desordem, ou em
irregularidade. Se há exceções, são exceções às leis dos naturalistas, e não às leis da natureza, já
que todas as espécies são o que elas devem ser, apresentando da mesma forma a variedade na
unidade e a unidade na variedade [43, 1, 37]. Portanto, em anatomia, o termo anomalia deve
conservar estritamente seu sentido de insólito, de inabitual; ser anormal consiste em se afastar, por
sua própria organização, da grande maioria dos seres com os quais se deve ser comparado [ibid.].
Tendo de definir a anomalia em geral, do ponto de vista morfológico, I. Geoffroy Saint-Hilaire a
coloca imediatamente em relação com dois fatos biológicos, que são o tipo especifico e a variação
individual. Por um lado, todas as espécies vivas apresentam uma grande quantidade de variações na
forma e no volume proporcional dos órgãos; por outro, existe um conjunto de traços "comuns à
grande maioria dos indivíduos que compõem uma espécie", e esse conjunto define o tipo
específico. "Qualquer desvio do tipo específico ou, em outras palavras, qualquer particularidade
orgânica apresentada por um indivíduo comparado com a grande maioria dos indivíduos de sua
espécie, de sua idade, de seu sexo, constitui o que se pode chamar uma Anomalia" [43, 1, 30].É
claro que, assim definida, a anomalia tomada em um sentido geral é um conceito puramente
empírico ou descritivo, ela é um desvio estatístico.
Imediatamente se apresenta um problema, que consiste em saber se devemos considerar como
equivalentes os conceitos de anomalia e de monstruosidade. I. Geoffroy Saint-Hilaire se declara a
favor de sua distinção: a monstruosidade é uma espécie do gênero anomalia. Daí a divisão das
anomalias em Variedades, Vícios de conformação, Heterotaxias e Monstruosidades. As
Variedades são anomalias simples, leves, que não colocam obstáculo à realização de nenhuma
função e que não produzem deformidade; por exemplo: um músculo supranumerário, uma artéria
renal dupla. Os Vícios de conformação são anomalias simples, pouco graves do ponto de vista
anatômico, e que tornam impossível a realização de uma ou várias funções ou produzem uma
deformidade; por exemplo, a imperfuração do ânus, a hipospadia, o lábio leporino. As
Heterotaxias, termo criado por Geoffroy Saint-Hilaire, são anomalias complexas, aparentemente
graves do ponto de vista anatômico, mas que não impedem nenhuma função e não são aparentes
externamente; o exemplo mais notável, apesar de raro, é, segundo Geoffroy Saint-Hilaire, a
transposição completa das vísceras, ou situs inversus. Sabe-se que a dextrocardia, apesar de rara,
não é um mito. As Monstruosidades, enfim, são anomalias muito complexas, muito graves, que
tornam impossível ou difícil a realização de uma ou de várias funções, ou produzem, nos
indivíduos por elas afetados, uma conformação viciosa muito diferente da que sua espécie
geralmente apresenta; por exemplo, a ectromelia ou a ciclopia [43, 1, 33, 39-49].
O interesse de tal classificação é que ela utiliza dois princípios diferentes de discriminação e de
hierarquia; as anomalias são classificadas segundo sua complexidade crescente e segundo sua
gravidade crescente. A relação simplicidade-complexidade é puramente objetiva. É óbvio que uma
costela cervical é uma anomalia mais simples do que a ectromelia ou o hermafroditismo. A relação
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benignidade-gravidade tem um caráter lógico menos nítido. Sem dúvida, a gravidade das anomalias
é um fato anatômico; o critério da gravidade na anomalia é a importância do órgão quanto a suas
conexões fisiológicas ou anatômicas [43, 1, 49]. Ora, a importância é uma noção objetiva para o
naturalista, mas é, no fundo, uma noção subjetiva, no sentido de que inclui uma referência à vida
do ser vivo, considerado como apto a qualificar essa mesma vida segundo o que a favorece ou a
prejudica.
Isso é de tal modo verdadeiro que, aos dois primeiros princípios de sua classificação
(complexidade, gravidade), I. Geoffroy Saint-Hilaire acrescenta um terceiro que é propriamente
fisiológico, a saber: a relação da anatomia com o exercício das funções (obstáculo) e um quarto,
enfim, que é francamente psicológico, quando introduz a noção de influência nociva ou nefasta
sobre o exercício das funções [43, 1, 38, 39, 41, 49]. Aos que se deixassem levar pela tentação de
conferir a este último princípio apenas um papel subordinado, replicaríamos que o caso das
heterotaxias, ao contrário, faz destacar, ao mesmo tempo, o sentido preciso desse princípio e seu
considerável valor biológico. I. Geoffroy Saint-Hilaire criou esse termo para designar modificações
na organização interna, isto é, nas relações das vísceras, sem modificação das funções e sem
aparência externa. Esses casos foram pouco estudados até então, e constituem uma lacuna no
vocabulário anatômico. No entanto, isso não deve nos surpreender, apesar de ser difícil conceber a
possibilidade de uma anormalidade complexa que não só não perturbe a mínima função, mas
também não produza a menor deformidade. "Um indivíduo afetado por heterotaxia pode, portanto,
gozar de sólida saúde; pode viver muito tempo; e, freqüentemente, é só depois de sua morte que se
percebe a presença de uma anomalia que ele próprio havia ignorado" [43,1, 45, 46]. É o mesmo que
dizer que a anomalia é ignorada na medida em que não tem expressão na ordem dos valores vitais.
Assim, de acordo com a própria confissão de um cientista, a anomalia só é conhecida pela ciência
se tiver sido, primeiro, sentida na consciência, sob a forma de obstáculo ao exercício das funções,
sob a forma de perturbação ou de nocividade. No entanto, a sensação de obstáculo, de perturbação
ou de nocividade é uma sensação que se tem de considerar como normativa, já que importa a
referência — mesmo inconsciente — de uma função e de um impulso à plenitude de seu exercício.
Finalmente, para que se possa falar em anomalia, na linguagem científica, é preciso que, para si
mesmo ou para outrem, um ser tenha se apresentado como anormal na linguagem do ser vivo,
mesmo que essa linguagem não seja formulada. Enquanto a anomalia não tem incidência funcional
experimentada pelo indivíduo e para o indivíduo — se se tratar de um homem, ou, relacionada com
a polaridade dinâmica da vida, em qualquer outro ser vivo —, a anomalia ou é ignorada (é o caso
das heterotaxias) ou é uma variedade indiferente, uma variação sobre um tema específico; é uma
irregularidade como há irregularidades insignificantes em objetos moldados no mesmo molde. A
anomalia pode constituir o objeto de um capítulo especial da história natural, mas não da patologia.
Se admitimos, ao contrário, que a história das anomalias e a teratologia constituem, nas ciências
biológicas, um capítulo obrigatório que traduz a originalidade dessas ciências — pois não há uma
ciência especial das anomalias físicas ou químicas — é porque um ponto de vista novo pode
aparecer na biologia, para aí constituir um novo campo. Esse ponto de vista é o da normatividade
vital. Viver é, mesmo para uma ameba, preferir e excluir. Um tubo digestivo, órgãos sexuais são
normas do comportamento de um organismo. A linguagem psicanalítica está muitíssimo certa ao
qualificar como pólos os orifícios naturais da ingestão e da excreção. Uma função não funciona
indiferentemente em vários sentidos. Uma necessidade situa em relação a uma propulsão e a uma
repulsão os objetos de satisfação propostos. Há uma polaridade dinâmica da vida. Enquanto as
variações morfológicas ou funcionais sobre o tipo específico contrariam ou não invertem essa
polaridade, a anomalia é um fato tolerado; em caso contrário, a anomalia é experimentada como
tendo valor vital negativo e se traduz externamente como tal. É porque existem anomalias
experimentadas ou manifestadas como um mal orgânico que existe um interesse — afetivo em
primeiro lugar, e teórico, em seguida — pelas anomalias. É por ter se tornado patológica que a
anomalia suscita o estudo científico das diversas anomalias. De seu ponto de vista objetivo, o
cientista só quer ver, na anomalia, o desvio estatístico, não compreendendo que o interesse
científico do biólogo foi suscitado pelo desvio normativo. Em resumo, nem toda anomalia é
patológica, mas só a existência de anomalias patológicas é que criou uma ciência especial das
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anomalias que tende normalmente — pelo fato de ser ciência — a banir, da definição da anomalia,
qualquer implicação normativa. Quando se fala em anomalias, não se pensa nas simples variedades
que são apenas desvios estatísticos, mas nas deformidades nocivas ou mesmo incompatíveis com a
vida, ao nos referirmos à forma viva ou ao comportamento do ser vivo, não como a um fato
estatístico, mas como a um tipo normativo de vida.
* * *
A anomalia é a conseqüência de variação individual que impede dois seres de poderem se substituir
um ao outro de modo completo. Ilustra, na ordem biológica, o princípio leibnitziano dos
indiscerníveis. No entanto, diversidade não é doença. O anormal não é o patológico. Patológico
implica pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência, sentimento de vida
contrariada. Mas o patológico é realmente o anormal. Rabaud distingue anormal de doente, porque,
segundo o uso recente e incorreto, faz de anormal o adjetivo de anomalia, e, nesse sentido, fala em
anormais doentes [97, 481]; no entanto, como, por outro lado, ele distingue muito nitidamente,
segundo o critério fornecido pela adaptação e pela viabilidade, a doença da anomalia [97, 477], não
vemos nenhuma razão para modificarmos nossas distinções de vocábulos e de sentido.
Sem dúvida, há uma maneira de considerar o patológico como normal, definindo o normal e o
anormal pela freqüência estatística relativa. Em certo sentido, pode-se dizer que uma saúde perfeita
contínua é um fato anormal. Mas é que existem dois sentidos da palavra saúde. A saúde,
considerada de modo absoluto, é um conceito normativo que define um tipo ideal de estrutura e de
comportamento orgânicos; nesse sentido, é um pleonasmo falar em perfeita saúde, pois a saúde é o
bem orgânico. A saúde adjetivada é um conceito descritivo que define uma certa disposição e
reação de um organismo individual em relação às doenças possíveis. Os dois conceitos, descritivo
qualificado e normativo absoluto, são tão distintos que mesmo o homem do povo diz que seu
vizinho tem má saúde ou que ele não tem saúde, considerando como equivalentes a presença de um
fato e a ausência de um valor. Quando se diz que uma saúde continuamente perfeita é anormal,
expressase o fato de a experiência do ser vivo incluir, de fato, a doença. Anormal quer dizer
precisamente inexistente, inobservável. Portanto, isso não passa de outra maneira de dizer que a
saúde contínua é uma norma e que uma norma não existe. Nesse sentido abusivo, é evidente que o
patológico não é anormal. E é mesmo tão pouco anormal que se pode falar em funções normais de
defesa orgânica e de luta contra a doença. Leriche afirma, como já vimos, que a dor não está no
plano da natureza, mas poder-se-ia dizer que a doença é prevista pelo organismo (Sendrail 106).
Com relação aos anticorpos, que são uma reação de defesa contra uma inoculação patológica, Jules
Bordet acha que se pode falar em anticorpos normais que existiriam no soro normal, agindo
eletivamente sobre determinado micróbio, sobre determinado antígeno, e cujas múltiplas
especificidades contribuiriam para assegurar a constância das características químicas do
organismo, eliminando aquilo que não é conforme a essas características [15, 6.16-14]. No entanto,
por mais prevista que possa parecer, não podemos deixar de admitir que a doença é prevista como
um estado contra o qual é preciso lutar para poder continuar a viver, isto é, que ela é prevista como
um estado anormal, em relação à persistência da vida que desempenha aqui o papel de norma.
Portanto, tomando a palavra normal em seu sentido autêntico, devemos formular a equação dos
conceitos de doença, de patológico e de anormal.
Uma outra razão para não confundir anomalia e doença é que a atenção humana não é sensibilizada
por uma e por outra por desvios da mesma espécie. A anomalia se manifesta na multiplicidade
espacial; a doença, na sucessão cronológica. O próprio da doença é vir interromper o curso de algo,
é ser verdadeiramente crítica. Mesmo quando a doença torna-se crônica, depois de ter sido crítica,
há sempre um "passado" do qual o paciente ou aqueles que o cercam guardam certa nostalgia.
Portanto, a pessoa é doente não apenas em relação aos outros, mas em relação a si mesma. É o que
ocorre na pneumonia, na arterite, na ciática, na afasia, na nefrite etc. É próprio da anomalia ser
constitucional, congênita, mesmo se aparece depois do
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nascimento e só se manifesta ao iniciar-se o exercício da respectiva função, por exemplo, na
luxação congênita do quadril. O portador de uma anomalia não pode, portanto, ser comparado a si
mesmo. Poderíamos destacar, aqui, que a interpretação teratogênica dos caracteres teratológicos e,
mais ainda, sua explicação teratogenética permitem situar no devir embriológico a aparição da
anomalia e conferir-lhe a significação de uma doença. Desde que a etiologia e a patogenia de uma
anomalia são conhecidas, o anômalo torna-se patológico. A teratogênese experimental traz
ensinamentos muito úteis a esse respeito [120]. No entanto, apesar de essa conversão da anomalia
em doença ter um sentido, na ciência dos embriologistas, ela não tem nenhum sentido para o ser
vivo cujos comportamentos no meio, fora do ovo ou fora do útero, estão determinados desde o
começo pelas particularidades de sua estrutura.
Quando a anomalia é interpretada quanto a seus efeitos em relação à atividade do indivíduo e,
portanto, à imagem que ele tem de seu valor e de seu destino, a anomalia é enfermidade.*
Enfermidade é uma noção vulgar, mas instrutiva. As pessoas nascem ou se tornam enfermas. É o
fato de tornar-se enfermo, interpretado como uma diminuição irremediável, que repercute sobre o
fato de nascer assim. No fundo, pode haver para um enfermo uma atividade possível e um papel
social condigno. No entanto, a limitação forçada de um ser humano a uma condição única e
invariável é considerada pejorativamente, em referência ao ideal humano normal que é a adaptação
possível e voluntária a todas as condições imagináveis. É o abuso possível da saúde que constitui a
razão do valor que se dá à saúde, assim como — segundo Valéry — é o abuso do poder que está
por trás do amor ao poder. O homem normal é o homem normativo, o ser capaz de instituir novas
normas, mesmo orgânicas. Uma norma única de vida é sentida privativamente e não positivamente.
Aquele que não pode correr se sente lesado, isto é, converte sua lesão em frustração e, apesar
daqueles que o cercam evitarem mostrar-lhe sua incapacidade — como quando crianças afetuosas
evitam correr em companhia de um menino manco —, o enfermo sente muito bem à custa de que
repressão e de que abstenções por parte de seus semelhantes qualquer diferença entre eles e o
próprio enfermo é, aparentemente, anulada.
O que é verdade em relação à enfermidade é também verdade em relação a certos estados de
fragilidade e debilidade, ligados a um desvio de ordem fisiológica. É esse o caso da hemofilia. É
mais uma anomalia que uma doença. Todas as funções do hemofílico se realizam de modo
semelhante às dos indivíduos sãos. Mas as hemorragias são intermináveis, como se o sangue fosse
indiferente à sua situação dentro ou fora dos vasos. Em suma, a vida do hemofílico seria normal se
a vida animal não comportasse, normalmente, relações com um meio, relações cujos riscos, sob a
forma de lesões, devem ser enfrentados pelo animal para compensar as desvantagens de ordem
alimentar que a ruptura com a inércia vegetal comporta, ruptura essa que constitui, sob outros
aspectos, e sobretudo no caminho da consciência, um progresso real. A hemofilia é o tipo da
anomalia de caráter patológico eventual, em virtude do obstáculo aqui encontrado por uma função
vital essencial, a separação estrita do meio interno e do meio externo.
Em resumo, a anomalia pode transformar-se em doença, mas não é, por si mesma, doença. Não é
fácil determinar em que momento a anomalia vira doença. Deve-se ou não considerar a
sacralização da quinta vértebra lombar como fato patológico? Há muitos graus nessa malformação.
Só se deve dizer que a quinta vértebra está sacralizada quando está soldada ao sacro. Nesse caso,
aliás, ela raramente causa dores. A simples hipertrofia de uma apófise transversa, seu contato mais
ou menos real com o tubérculo sacro são, muitas vezes, responsabilizados por danos imaginários.
Em suma, trata-se de anomalias anatômicas de tipo congênito que só se tornam dolorosas muito
tarde ou, às vezes, nunca [101].
* * *
* Em francês, infirmité, que traduzimos como enfermidade, tem o sentido de uma anomalia congênita ou incurável e, de qualquer modo,
definitiva. Ao passo que em português a palavra enfermidade tem sentido mais amplo, podendo ser usada também como sinônimo de
doença passageira ou curável. Nesta tradução, as palavras enfermo e enfermidade estão sendo usadas no sentido francês de anomalia, já
que não há equivalente exato para o termo em português. (N.T.)
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O problema da distinção entre a anomalia — seja ela morfológica, como a costela cervical ou a
sacralização da quinta lombar, ou funcional, como a hemofilia, a hemeralopia ou a pentosúria — e
o estado patológico é bastante obscuro, e, no entanto, é bastante importante do ponto de vista
biológico, pois, afinal, ele nos remete a nada menos que ao problema geral da variabilidade dos
organismos, da significação e do alcance dessa variabilidade. Na medida em que seres vivos se
afastam do tipo específico, serão eles anormais que estão colocando em perigo a forma específica,
ou serão inventores a caminho de novas formas? Conforme sejamos fixistas ou transformistas,
consideraremos de modo diferente um ser vivo portador de um caráter novo. É compreensível que
não tenhamos a intenção de tratar aqui esse problema, mesmo que de maneira superficial. No
entanto, não podemos fingir que o ignoramos. Quando uma drosófila dotada de asas gera, por
mutação, uma drosófila sem asas ou com asas vestigiais, estamos ou não diante de um fato
patológico? Biólogos como Caullery — que não admitem que as mutações sejam suficientes para
explicar os fatos de adaptação e de evolução — ou como Bounoure — que contestam até mesmo o
fato da evolução — insistem sobre o caráter subpatológico ou francamente patológico e mesmo
letal da maioria das mutações. É que, se não são fixistas, como Bounoure [16], acham, ao menos,
como Caullery, que as mutações não saem do quadro da espécie, já que, apesar das diferenças
morfológicas consideráveis, são possíveis cruzamentos fecundos entre indivíduos padrão e
indivíduos mutantes [24, 414]. No entanto, não nos parece contestável que mutações possam dar
origem a novas espécies. Esse fato já era bastante conhecido por Darwin, mas o havia
impressionado menos que a variabilidade individual. Guyénot acha que se trata do único modo de
variação hereditária, atualmente conhecido, a única explicação, parcial, porém indiscutível, da
evolução [51]. Teissier e Ph. L'Héritier demonstram experimentalmente que certas mutações — que
podem parecer desvantajosas no meio que habitualmente é próprio a uma espécie — podem se
tornar vantajosas, se certas condições de existência variarem. A drosófila de asas vestigiais é
eliminada pela drosófila de asas normais, em um meio protegido dos ventos e fechado. No entanto,
em um meio ventilado, já que as drosófilas vestigiais não alçam vôo, ficam subnutridas e, em três
gerações, observam-se 60% de drosófilas vestigiais em uma população mista [77]. Isso jamais
acontece em meio não ventilado. Não diremos em meio normal pois, afinal, ocorre com os meios o
mesmo que com as espécies, segundo I. Geoffroy Saint-Hilaire: eles são tudo o que devem ser em
função das leis naturais, e sua estabilidade não é garantida. À beira-mar, um meio ventilado é um
fato normal, mas será um meio mais normal para insetos ápteros do que para insetos alados, pois
aqueles que não alçarem vôo terão menos oportunidades de serem eliminados. Darwin havia notado
esse fato, que havia provocado ironias, e que é confirmado e explicado pelas experiências
anteriormente relatadas. O meio é normal pelo fato de o ser vivo nele desenvolver melhor sua vida,
e nele manter melhor sua própria norma. É em relação à espécie de ser vivo que o utiliza em seu
proveito que um meio pode ser normal. Ele é normal apenas porque tem como ponto de referência
uma norma morfológica e funcional.
Um outro fato, relatado por Teissier, mostra muito bem que, por meio da variação das formas
vivas, a vida obtém — sem talvez procurar fazê-lo — uma espécie de seguro contra a
especialização excessiva, sem reversibilidade e, portanto, sem flexibilidade, o que é, no fundo, uma
adaptação bem-sucedida. Em certos distritos industriais da Alemanha e da Inglaterra observaram-se
o desaparecimento progressivo de borboletas cinzentas e o aparecimento de borboletas negras da
mesma espécie. Ora, foi possível demonstrar que, nessas borboletas, a coloração negra está
associada a um vigor especial. No cativeiro, as negras eliminam as cinzentas. Por que não ocorre o
mesmo na natureza? Porque sua cor, se destacando mais da casca das árvores, atrai a atenção dos
pássaros. Quando, nas regiões industrializadas, o número de pássaros diminui, as borboletas podem
ser negras impunemente [111]. Em suma, essa espécie de borboletas apresenta, sob a forma de
variedade, duas combinações de caracteres opostos e que se compensam: um maior vigor é
contrabalançado por menor segurança e vice-versa. Em cada uma das variedades um obstáculo foi
contornado, empregando uma expressão de Bergson; uma impotência foi superada. Conforme as
circunstâncias permitam a determinada solução morfológica agir de preferência a outra, o número
de representantes de cada variedade varia e, em última análise, uma variedade tende para uma
espécie.
56
O mutacionismo se apresentou, em primeiro lugar, como uma forma de explicação dos fatos da
evolução cuja adoção pelos geneticistas reforçou ainda o caráter de hostilidade a qualquer atitude
de levar em consideração a influência do meio. Parece, atualmente, que se deve situar o
aparecimento de espécies novas na interferência das inovações por mutação e das oscilações do
meio; parece também que um darwinismo modernizado pelo mutacionismo é a explicação mais
flexível e mais abrangente do fato da evolução que, apesar de tudo, é incontestável [56, 111]. A
espécie seria o agrupamento de indivíduos, todos diferentes em certo grau, e cuja unidade traduz a
normalização momentânea de suas relações com o meio, inclusive com as outras espécies, como
Darwin tinha compreendido muito bem. O ser vivo e o meio, considerados separadamente, não são
normais, porém é sua relação que os torna normais um para o outro. O meio é normal para uma
determinada forma viva na medida em que lhe permite uma tal fecundidade e, correlativamente,
uma tal variedade de formas que, na hipótese de ocorrerem modificações do meio, a vida possa
encontrar em uma dessas formas a solução para o problema de adaptação que, brutalmente, se vê
forçada a resolver. Um ser vivo é normal em um determinado meio na medida em que ele é a
solução morfológica e funcional encontrada pela vida para responder a todas as exigências do
meio. Em relação a qualquer outra forma da qual se afasta, esse ser vivo é normal, mesmo se for
relativamente raro, pelo fato de ser normativo em relação a essa forma, isto é, desvalorizando-a
antes de eliminá-la.
Compreende-se, finalmente, por que uma anomalia — e especialmente uma mutação, isto é, uma
anomalia já de início hereditária — não é patológica pelo simples fato de ser anomalia, isto é,
desvio a partir de um tipo específico, definido por um grupo dos caracteres mais freqüentes em sua
dimensão média. Caso contrário seria preciso dizer que um indivíduo mutante, ponto de partida de
uma nova espécie, é, ao mesmo tempo, patológico porque se desvia e normal porque se conserva e
se reproduz. O normal, em biologia, não é tanto a forma antiga mas a forma nova, se ela encontrar
condições de existência nas quais parecerá normativa, isto é, superando todas as formas passadas,
ultrapassadas e, talvez, dentro em breve, mortas.
Nenhum fato dito normal, por ter se tornado normal, pode usurpar o prestígio da norma da qual ele
é a expressão, a partir do momento em que mudarem as condições dentro das quais ele tomou a
norma como referência. Não existe fato que seja normal ou patológico em si. A anomalia e a
mutação não são, em si mesmas, patológicas. Elas exprimem outras normas de vida possíveis. Se
essas normas forem inferiores — quanto à estabilidade, à fecundidade e à variabilidade da vida —
às normas específicas anteriores, serão chamadas patológicas. Se, eventualmente, se revelarem
equivalentes — no mesmo meio — ou superiores — em outro meio —, serão chamadas normais.
Sua normalidade advirá de sua normatividade. O patológico não é a ausência de norma biológica, é
uma norma diferente, mas comparativamente repelida pela vida.
* * *
Neste ponto apresenta-se um novo problema que nos traz de volta ao cerne de nossas
preocupações: é o problema das relações entre o normal e o experimental. Aquilo que, desde
Claude Bernard, os fisiologistas entendem por fenômenos normais são fenômenos cuja exploração
permanente é possível graças a dispositivos de laboratório, e cujos caracteres medidos se revelam
idênticos a si mesmos em um determinado indivíduo, em determinadas condições e — salvo alguns
desvios de amplitude definida — idênticos de um indivíduo para outro em condições idênticas.
Parece, portanto, que haveria uma definição possível do normal, objetiva e absoluta, a partir da
qual qualquer desvio para além de certos limites seria logicamente taxado de patológico. Em que
sentido o aferimento e a mensuração de laboratório são suficientes para servir de norma à atividade
funcional do ser vivo fora do laboratório?
Em primeiro lugar, é preciso destacar que o fisiologista, assim como o físico e o químico, faz
experiências cujos resultados ele compara, com a ressalva mental capital de que esses dados são
válidos para "todas as coisas que, por outro lado, são iguais". Em outras palavras, condições
diferentes fariam surgir normas diferentes. As normas funcionais do ser vivo examinado no
57
laboratório só adquirem um sentido dentro das normas operacionais do cientista. Nesse sentido,
nenhum fisiologista contestará que apenas fornece um conteúdo ao conceito de norma biológica,
mas que de modo algum elabora o que tal conceito tem de normativo. Admitindo certas condições
como normais, o fisiologista estuda objetivamente as relações que definem realmente os fenômenos
correspondentes, mas, no fundo, ele não define objetivamente quais são as condições normais. A
não ser que admitamos que as condições de uma experiência não têm influência sobre a qualidade
de seu resultado — o que está em contradição como cuidado tomado para estabelecê-las —, não se
pode negar a dificuldade que existe em comparar às condições experimentais as condições normais
— tanto no sentido estatístico quanto no sentido normativo — da vida dos animais e do homem. Se
definirmos o anormal ou o patológico pelo que ele tem de insólito — como habitualmente o
fisiologista faz —, de um ponto de vista puramente objetivo, temos de admitir que as condições de
exame em laboratório colocam o ser vivo em uma situação patológica da qual se pretende,
paradoxalmente, tirar conclusões com força de norma. Sabe-se que, freqüentemente, se faz essa
objeção à fisiologia, até mesmo nos meios médicos. Prus, autor de uma memória contra as teorias
de Broussais, da qual já citamos um trecho, escrevia na mesma obra: "As doenças artificiais, e as
ablações de órgãos que são realizadas nas experiências em animais vivos, levam ao mesmo
resultado [que as doenças espontâneas]; no entanto, é importante observar que seria falso
apresentar os serviços prestados pela fisiologia experimental como argumento a favor da influência
que a fisiologia pode exercer sobre a medicina prática... Quando, para conhecer as funções do
cérebro e do cerebelo, se irrita, se perfura ou se fazem incisões em um ou outro desses órgãos, ou
quando deles se retira uma porção mais ou menos considerável, é claro que o animal submetido a
tais experiências está o mais longe possível do estado fisiológico; ele está gravemente doente, e
aquilo que se chama de fisiologia experimental nada mais é, evidentemente, que uma verdadeira
patologia artificial, que simula e cria doenças. Sem dúvida, a fisiologia retira dessas experiências
grandes esclarecimentos, e os nomes dos Magendie, dos Orfila, dos Flourens vão sempre figurar
honrosamente nos seus anais; mas esses próprios esclarecimentos fornecem uma prova autêntica e,
de certo modo, material, de tudo o que esta ciência deve à ciência das doenças" [95, L sqq.].
Era a essa forma de objeção que Claude Bernard respondia nas Leçons sur la chaleur animale:
"Há, certamente, perturbações introduzidas no organismo pela experiência, mas devemos e
podemos levá-las em conta. Será preciso restituir às condições nas quais colocamos o animal a
parte das anomalias que lhes cabe, e suprimiremos a dor tanto no animal quanto no homem, por
causa de um sentimento humanitário e também para afastar as causas de erro trazidas pelo
sofrimento. Porém, os próprios anestésicos que utilizamos exercem, sobre o organismo, efeitos
capazes de provocar modificações fisiológicas e novas causas de erro no resultado de nossas
experiências" [8, 57]. Texto notável este, que mostra o quanto Claude Bernard está próximo da
suposição de que é possível descobrir um determinismo do fenômeno, independente do
determinismo da operação de conhecimento; e como ele é honestamente obrigado a reconhecer a
alteração — em proporções precisamente imperceptíveis — que o conhecimento imprime no
fenômeno conhecido, pela preparação técnica que esse conhecimento implica. Quando se
glorificam os teóricos contemporâneos da mecânica ondulatória por terem descoberto que a
observação perturba o fenômeno observado, acontece, como em outros casos, que a idéia é um
pouco mais antiga do que eles próprios.
Durante suas pesquisas, o fisiologista tem de enfrentar três tipos de dificuldades. Primeiro, deve
certificar-se de que o ser dito normal em situação experimental é idêntico ao ser da mesma espécie
em situação normal, isto é, não artificial. Em seguida, deve assegurar-se da similitude do estado
patológico criado experimentalmente e do estado patológico espontâneo. Ora, freqüentemente o ser
em estado espontaneamente patológico pertence a uma espécie diferente da espécie do ser em
estado patológico experimental. Por exemplo, é claro que não se podem, sem grandes precauções,
tirar conclusões que se apliquem ao homem diabético a partir do cão de von Mering e Minkowski
ou do cão de Young. Enfim, o fisiologista deve comparar o resultado das duas comparações
precedentes. Ninguém pode contestar a grande margem de incerteza que tais comparações
admitem. É tão inútil negar a existência dessa margem quanto é pueril contestar a priori a utilidade
de tais comparações. Em todo caso, compreende-se como é difícil realizar a exigência canônica de
58
"todas as coisas que, por outro lado, são iguais". Pode-se provocar uma crise convulsiva por
excitação do córtex cerebral da frontal ascendente, mas nem por isso se trata de um caso de
epilepsia, mesmo se o eletroencefalograma apresenta, depois de uma e de outra dessas crises,
traçados equivalentes.
Pode-se transplantar em um animal quatro pâncreas simultaneamente, sem que o animal
experimente qualquer desordem de hipoglicemia comparável à que um pequeno adenoma das
ilhotas de Langerhans determina [53 bis]. Pode-se provocar o sono por meio de hipnóticos, mas,
segundo A. Schwartz: "Seria um erro acreditar que o sono provocado por meios farmacológicos e o
sono normal tenham, necessariamente, nessas condições, uma fenomenologia semelhante. Na
realidade, ela é sempre diferente nos dois casos, como provam os exemplos seguintes: se o
organismo está, por exemplo, sob a influência de um hipnótico cortical, oparaldeído, o volume
urinário aumenta, ao passo que durante o sono normal a diurese fica habitualmente reduzida. O
centro da diurese liberado inicialmente pela ação depressiva do hipnótico sobre o córtex está,
portanto, neste caso, livre da ação inibitória ulterior do centro do sono." Não se pode, portanto,
deixar de ver que o fato de provocar artificialmente o sono, pela intervenção exercida sobre os
centros nervosos, não nos esclarece sobre o mecanismo pelo qual o centro hípnico é naturalmente
ativado pelos fatores normais do sono [105, 23-28].
Se é possível definir o estado normal de um ser vivo por uma relação normativa de ajustamento a
determinados meios, não se deve esquecer que o próprio laboratório constitui um novo meio, no
qual, certamente, a vida institui normas cuja extrapolação, longe das condições às quais essas
normas se referem, não ocorre sem certos riscos imprevistos. O meio de laboratório é, para o
animal ou para o homem, um meio possível, entre outros. É claro que o cientista tem razão em ver,
nos seus aparelhos, apenas as teorias que eles materializam, nos produtos empregados, apenas as
reações que eles permitem, e de postular a validade universal dessas teorias e dessas reações; para o
ser vivo, porém, aparelhos e produtos são objetos entre os quais ele se move como em um mundo
insólito. Não é possível que os modos da vida em laboratório não conservem alguma especificidade
em relação com o local e com o momento da experiência.
59
III NORMA E MÉDIA
Parece que o fisiologista encontra, no conceito de média, um equivalente objetivo e cientificamente
válido do conceito de normal ou de norma. É certo que o fisiologista contemporâneo não partilha
mais a aversão de Claude Bernard por qualquer resultado de análise ou de experiência biológica
expresso em média, aversão esta que talvez tenha origem em um texto de Bichat: "Analisa-se a
urina, a saliva, a bílis etc., colhidas indiferentemente deste ou daquele indivíduo, e admite-se que
de seu exame resulte a química animal; mas isso não é química fisiológica; é, se assim se pode
dizer, a anatomia cadavérica dos fluidos. Sua fisiologia é composta do conhecimento das inúmeras
variações que os fluidos podem experimentar conforme o estado de seus órgãos respectivos" [12,
art. 7º, § 1º]. Claude Bernard não é menos categórico. Segundo ele, a utilização das médias faz
desaparecer o caráter essencialmente oscilatório e rítmico do fenômeno biológico funcional. Por
exemplo, se procurarmos o verdadeiro número das pulsações cardíacas pela média das medidas
tomadas várias vezes durante um mesmo dia em um determinado indivíduo, "teremos precisamente
um número falso". Daí a regra seguinte: "Em fisiologia, não se devem jamais apresentar descrições
médias de experiências, porque as verdadeiras relações dos fenômenos desaparecem nessa média;
quando estamos diante de experiências complexas e variáveis, devemos estudar as diversas
circunstâncias em que elas se processam e, em seguida, apresentar a experiência mais perfeita
como tipo, tipo porém que representará sempre um fato verdadeiro" [6, 286]. A procura de valores
biológicos médios é desprovida de sentido, no que se refere a um mesmo indivíduo, por exemplo: a
análise da urina média das 24 horas é "a análise de uma urina que não existe", já que a urina
produzida em jejum difere da urina produzida durante a digestão. Essa pesquisa é geralmente
desprovida de sentido no que se refere a vários indivíduos. "O que há de mais sublime no gênero
foi o que imaginou um fisiologista que, tendo colhido a urina de um mictório da estação de uma
estrada de ferro por onde passavam pessoas de todas as nações, achou que podia, assim, obter a
análise da urina média européia" [6, 236]. Sem querer, aqui, acusar Claude Bernard de confundir
uma pesquisa com uma caricatura de pesquisa, e de acusar um método por falhas cuja
responsabilidade recai sobre os que o utilizam, vamos nos limitar a lembrar que, segundo ele, o
normal é definido muito mais como tipo ideal em condições experimentais determinadas do que
como média aritmética ou freqüência estatística.
Uma atitude análoga é, de novo e mais recentemente, a atitude de Vendryès na sua obra Vie et
probabilité, em que as idéias de Claude Bernard sobre a constância e as regulações do meio interno
são sistematicamente retomadas e desenvolvidas. Definindo as regulações fisiológicas como "o
conjunto das funções que resistem ao acaso" [115, 195], ou, se quisermos, das funções que fazem a
atividade do ser vivo perder o caráter aleatório que teria se o meio interno fosse desprovido de
autonomia em relação ao meio externo, Vendryès interpreta as variações sofridas pelas constantes
fisiológicas — a glicemia, por exemplo — como desvios a partir de uma média individual. Os
termos desvio e média adquirem, nesse caso, um sentido de probabilidade. Os desvios são tanto
mais improváveis quanto maiores forem. "Não faço uma estatística sobre um certo número de
indivíduos. Considero um único indivíduo. Nessas condições, os termos "valor médio" e "desvio"
se aplicam aos diferentes valores que um mesmo componente do sangue de um mesmo indivíduo
pode adquirir, na sucessão dos tempos" [115, 33]. Não achamos, porém, que Vendryès elimine,
assim, a dificuldade que Claude Bernard resolvia ao propor a experiência mais perfeita como tipo,
isto é, como norma de comparação. Com isso, Claude Bernard confessava expressamente que a
norma não é deduzida da experiência de fisiologia. Ao contrário, é o próprio fisiologista que, por
meio de sua escolha, introduz a norma na experiência de fisiologia. Não achamos que Vendryès
possa proceder de outro modo. Ele diz que um determinado homem tem 1% como valor médio de
glicemia quando normalmente a taxa de glicemia é de 1%, e quando, em conseqüência da
alimentação ou de um trabalho muscular, a glicemia sofre variações positivas ou negativas em
torno desse valor médio? No entanto, supondo que, efetivamente, nos limitemos à observação de
um indivíduo apenas, de onde se deduz, a priori, que o indivíduo escolhido como objeto de exame
60
das variações de uma constante represente o tipo humano? Ou bem somos médicos — e é,
aparentemente, o caso de Vendryès — e, conseqüentemente, aptos a diagnosticar o diabetes; ou
então, não tendo aprendido fisiologia durante os estudos de medicina, e querendo saber qual a taxa
normal de uma regulação, iremos procurar a média de um certo número de resultados, obtidos em
indivíduos colocados em situações as mais semelhantes possíveis. Mas, enfim, o problema consiste
em saber dentro de que oscilações em torno de um valor médio puramente teórico os indivíduos
vão ser considerados normais.
Esse problema é tratado com muita clareza e probidade por A. Mayer [82] e H. Laugier [71].
Mayer enumera todos os elementos de biometria fisiológica contemporânea: temperatura,
metabolismo basal, ventilação, calor desprendido, características do sangue, velocidade de
circulação, composição do sangue, das reservas, dos tecidos etc. Ora, os valores biométricos
admitem uma margem de variação. Para imaginarmos uma espécie, escolhemos normas que são, de
fato, constantes determinadas por médias. O ser vivo normal é aquele que é constituído de
conformidade com essas normas. Mas será que devemos considerar qualquer desvio como
anormal? "O modelo é, na realidade, produto de uma estatística. Geralmente, é o resultado de
cálculos de médias. Porém, os indivíduos reais que encontramos se afastam mais ou menos desse
modelo, e é precisamente nisso que consiste sua individualidade. Seria muito importante saber
sobre que pontos os desvios incidem e quais os desvios que são compatíveis com uma
sobrevivência prolongada. Seria preciso sabê-lo em relação aos indivíduos de cada espécie. Tal
estudo está longe de ser feito" [82, 4.54-14].
É a dificuldade da realização de tal estudo no que se refere ao homem que Laugier expõe. Ele o faz,
a princípio, expondo a teoria do homem médio de Quêtelet, sobre a qual voltaremos a falar.
Estabelecer uma curva de Quêtelet não significa resolver o problema do normal em relação a um
determinado caráter, por exemplo, em relação à estatura. São necessárias hipóteses diretrizes e
convenções práticas que permitam decidir em que nível das estaturas, seja em direção às grandes,
seja em direção às pequenas, ocorre a passagem do normal para anormal. O mesmo problema
persiste se substituirmos um conjunto de médias aritméticas por um esquema estatístico a partir do
qual determinado indivíduo se afasta mais ou menos, pois a estatística não fornece nenhum meio
para decidir se o desvio é normal ou anormal. Talvez, por uma convenção que a própria razão
parece sugerir, poder-se-ia considerar como normal o indivíduo cujo retrato biométrico permite
prever que, salvo em caso de acidente, ele terá a duração de vida própria de sua espécie? No
entanto, as mesmas dúvidas reaparecem. "Encontraremos, nos indivíduos que, aparentemente,
morrem de senescência, uma variedade bastante vasta de duração de vida. Devemos tomar como
duração de vida da espécie a média dessas durações ou as durações máximas atingidas por alguns
raros indivíduos, ou algum outro valor?" [71, 4.56-4]. Essa normalidade, aliás, não excluiria outras
anormalidades: determinada deformidade congênita pode ser compatível com uma vida muito
longa. Apesar de, na determinação de uma normalidade parcial, o estado médio do caráter estudado
no grupo observado poder, a rigor, proporcionar um substitutivo de objetividade, de qualquer modo
qualquer objetividade se desvanece na determinação de uma normalidade global, a delimitação em
torno da média permanecendo arbitrária. "Tendo em vista a insuficiência dos dados numéricos
biomédicos e diante da incerteza acerca da validade dos princípios a serem utilizados para
estabelecer a separação entre o normal e o anormal, a definição científica da normalidade parece
atualmente inacessível" [ibid.].
Será ainda mais modesto, ou será, ao contrário, mais ambicioso afirmar a independência lógica dos
conceitos de norma e de média e, conseqüentemente, a impossibilidade definitiva de fornecer o
equivalente integral do norma anatômico ou fisiológico, sob a forma de média objetivamente
calculada?
* * *
Temos a intenção de retomar sumariamente o problema do sentido e do alcance das pesquisas
biométricas em fisiologia, a partir das idéias de Quêtelet e do exame rigorosíssimo que delas fez
61
Halbwachs. Em suma, o fisiologista que faz a critica de seus conceitos de base percebe muito bem
que norma e média são, para ele, dois conceitos inseparáveis. O segundo, porém, parece-lhe
imediatamente capaz de ter uma significação objetiva, e é por isso que ele tenta reduzir o primeiro
conceito ao segundo. Acabamos de ver que essa tentativa de redução esbarra em dificuldades que
são, atualmente, e provavelmente sempre serão insuperáveis. Será que não conviria inverter o
problema e refletir se a ligação dos dois conceitos não poderia ser explicada pela subordinação da
média à norma? Sabe-se que a biometria foi primeiro criada, no campo anatômico, pelos trabalhos
de Galton, generalizando os processos antropométricos de Quêtelet. Quêtelet, estudando
sistematicamente as variações da estatura do homem, havia estabelecido para um determinado
caráter medido nos indivíduos de uma população homogênea e representada graficamente a
existência de um polígono de freqüência que apresentava um máximo correspondente à ordenada
máxima e uma simetria em relação a essa ordenada. Sabe-se que o limite do polígono é uma curva,
e é o próprio Quêtelet que mostrou que o polígono de freqüência tende para uma curva chamada
"curva em sino", que é a curva binomial, ou ainda curva de Gauss. Com essa comparação, Quêtelet
fazia questão de afirmar expressamente que não reconhecia à variação individual referente a um
determinado caráter (flutuação) nenhum outro sentido a não ser o de um acidente que confirma as
leis do acaso, isto é, as leis que exprimem a influência de uma multiplicidade indeterminável de
causas não sistematicamente orientadas, e cujos efeitos, por conseguinte, tendem a se anular por
compensação progressiva. Ora, essa possibilidade de interpretar as flutuações biológicas pelo
cálculo das probabilidades parecia a Quêtelet da mais alta importância metafísica. Significava,
segundo ele, que existe, para a espécie humana, "um tipo ou módulo cujas diversas proporções
podem-se facilmente determinar" [96, 15]. Se não fosse assim, se os homens diferissem entre si,
por exemplo, em relação à estatura, não em conseqüência de causas acidentais, mas pela ausência
de um tipo com o qual fossem comparáveis, nenhuma relação determinada poderia ser estabelecida
entre todas as medidas individuais. Se existe, ao contrário, um tipo em relação ao qual os desvios
sejam puramente acidentais, os valores numéricos de um caráter medido em uma multidão de
indivíduos devem se repartir segundo uma lei matemática, e é o que ocorre de fato. Por outro lado,
quanto maior for o número de medidas tomadas, mais as causas perturbadoras acidentais se
compensarão e se anularão; e o tipo geral aparecerá com maior nitidez. Mas sobretudo, dentre um
grande número de homens cuja estatura varia dentro de limites determinados, aqueles que mais se
aproximam da estatura média são os mais numerosos, aqueles que mais se afastam são os menos
numerosos. A esse tipo humano a partir do qual o desvio é tanto mais raro quanto maior for,
Quêtelet dá o nome de homem médio. O que geralmente esquecemos de dizer, quando citamos
Quêtelet como antepassado da biometria, é que, segundo ele, o homem médio não é absolutamente
um "homem impossível" [96, 22]. A prova da existência do homem médio, em um determinado
clima, está na maneira pela qual os números obtidos para cada dimensão medida (estatura, cabeça,
braço etc.) se agrupam em torno da média, obedecendo à lei das causas acidentais. A média de
estatura em um determinado grupo é tal que o maior dos subgrupos formados por homens da
mesma estatura é o conjunto dos homens cuja estatura mais se aproxima da média. Isso torna a
média típica completamente diferente da média aritmética. Quando se mede a altura de várias
casas, pode-se obter uma altura média, mas de tal forma que pode não haver nenhuma casa cuja
altura exata se aproxime da média. Em resumo, segundo Quêtelet, a existência de uma média é o
sinal incontestável da existência de uma regularidade, interpretada em um sentido expressamente
ontológico: "A principal idéia, para mim, é fazer prevalecer a verdade e mostrar o quanto o homem,
mesmo à sua revelia, está sujeito às leis divinas e com que regularidade ele as cumpre. Aliás, essa
regularidade não é peculiar ao homem: é uma das grandes leis da natureza que são pertinentes tanto
aos animais como às plantas, e talvez seja espantoso que não a tenhamos reconhecido mais cedo"
[96, 21]. O interesse que a concepção de Quêtelet apresenta consiste no fato de identificar, em sua
noção de média verdadeira, as noções de freqüência estatística e de norma, pois uma média que
determina desvios tanto mais raros quanto mais amplos forem é, na verdade, uma norma. Não nos
cabe discutir, aqui, o fundamento metafísico da tese de Quêtelet, mas simplesmente não esquecer
que ele distingue duas espécies de médias: a média aritmética ou mediana e a média verdadeira; e
que de modo algum ele apresenta a média como fundamento empírico da norma, em matéria de
caracteres físicos humanos; ao contrário, ele apresenta explicitamente a regularidade ontológica
62
como algo que se expressa na média. Ora, se pode parecer discutível buscar na vontade de Deus a
explicação para a estatura humana, isso não quer dizer que nenhuma norma transpareça através
dessa média. E é o que nos parece que se pode concluir do exame crítico ao qual Halbwachs
submeteu as idéias de Quêtelet [53].
Segundo Halbwachs, Quêtelet não tinha razão ao considerar a distribuição da altura humana em
torno de uma média como um fenômeno ao qual se possam aplicar as leis do acaso. A condição
primeira para essa aplicação é que os fenômenos, considerados como combinações de elementos
em número indeterminável, sejam realizações todas independentes umas das outras, de tal modo
que nenhuma delas exerça influência sobre a seguinte. Ora, não se podem identificar efeitos
orgânicos constantes com fenômenos regidos pelas leis do acaso. Fazê-lo significa admitir que os
fatos físicos que dependem do meio e os fatos fisiológicos relativos aos processos de crescimento
se entrecruzam de modo que cada realização seja independente das outras, no momento anterior e
no mesmo momento. Ora, isso é insustentável do ponto de vista humano, em que as normas sociais
vêm interferir com as leis biológicas, de modo que o indivíduo humano é produto de uma união que
obedece a todos os tipos de prescrições consuetudinárias e legislativas de ordem matrimonial. Em
resumo, hereditariedade e tradição, hábito e costume são outras tantas formas de dependência e de
ligação interindividual e, portanto, outros tantos obstáculos a uma utilização adequada do cálculo
de probabilidades. O caráter estudado por Quêtelet — a estatura — só seria um fato puramente
biológico se fosse estudado no conjunto dos indivíduos que constituem uma linhagem pura, animal
ou vegetal. Nesse caso, as flutuações para um e outro lado do módulo específico seriam devidas
unicamente à ação do meio. Mas na espécie humana a estatura é um fenômeno inseparavelmente
biológico e social. Mesmo se for função do meio, é preciso considerar, em certo sentido, o meio
geográfico como produto da atividade humana. O homem é um fator geográfico, e a geografia está
profundamente impregnada de história, sob a forma de técnicas coletivas. A observação estatística,
por exemplo, permitiu constatar a influência da drenagem dos pântanos de Sologne sobre a estatura
dos habitantes [89]. Sorre admite que a estatura média de alguns grupos humanos tenha se elevado
provavelmente sob a influência de uma melhor alimentação [109, 286]. No entanto, na nossa
opinião, se Quêtelet se enganou ao atribuir à média de um caráter anatômico humano um valor de
norma divina, ele errou apenas ao especificar a norma, mas não ao interpretar a média como signo
de uma norma. Se é verdade que o corpo humano é, em certo sentido, produto da atividade social,
não é absurdo supor que a constância de certos traços, revelados por uma média, dependa da
fidelidade consciente ou inconsciente a certas normas da vida. Por conseguinte, na espécie humana,
a freqüência estatística não traduz apenas uma normatividade vital, mas também uma
normatividade social. Um traço humano não seria normal por ser freqüente; mas seria freqüente por
ser normal, isto é, normativo em um determinado gênero de vida, tomando essas palavras gênero
de vida no sentido que lhes foi dado pelos geógrafos da escola de Vidal de la Blache.
Isso parecerá ainda mais evidente se, em vez de considerarmos um caráter anatômico, dedicarmos
nossa atenção a um caráter fisiológico global como a longevidade. Flourens, depois Buffon,
procurou um meio de determinar cientificamente a duração natural ou normal da vida do homem,
utilizando e corrigindo os trabalhos de Buffon. Flourens relaciona a duração da vida à duração do
crescimento cujo término ele define pela reunião dos ossos a suas epífises.1 "O homem leva 20
anos para crescer e vive cinco vezes 20 anos, isto é, 100 anos." Que essa duração normal da vida
humana não seja nem a duração freqüente nem a duração média, isto Flourens deixa bem claro:
"Vemos todos os dias homens que vivem 80 ou 100 anos. Sei muito bem que o número dos que
chegam a essa idade é pequeno em relação ao número dos que não chegam mas, enfim, há quem
chegue. E, do fato de se chegar, às vezes, a essa idade, é muito possível concluir que se chegaria
mais freqüentemente até lá se circunstâncias acidentais e extrínsecas, se causas perturbadoras não
viessem se opor a essa longevidade. A maioria dos homens morre de doenças; muito poucos
morrem de velhice propriamente dita" [39, 80-81]. Da mesma forma, Metchnikoff acha que o
homem pode, normalmente, chegar a ser centenário, e que qualquer velho que morre antes de
completar um século de vida é, de direito, um doente.
1 É a própria expressão empregada por Flourens.
63
As variações da duração de vida média do homem, através das épocas, são bastante instrutivas (39
anos em 1865 e 52 em 1920, na França, para o sexo masculino). Buffon e Flourens, para atribuir ao
homem uma vida normal, consideravam-no do mesmo ponto de vista do qual, como biólogos,
observavam um coelho ou um camelo. No entanto, quando se fala em vida média, para mostrar que
aumenta progressivamente, ela é relacionada com a ação que o homem — considerado
coletivamente — exerce sobre si mesmo. É nesse sentido que Halbwachs trata a morte como um
fenômeno social, achando que a idade em que ela ocorre resulta, em grande parte, das condições de
trabalho e de higiene, de atenção à fadiga e às doenças, em resumo, de condições sociais tanto
quanto fisiológicas. Tudo acontece como se uma sociedade tivesse "a mortalidade que lhe
convém", já que o número de mortos e sua distribuição pelas diversas faixas etárias traduzem a
importância que uma sociedade dá ou não ao prolongamento da vida [53, 94-97]. Em suma, já que
as técnicas de higiene coletiva que tendem a prolongar a vida humana ou os hábitos de negligência
que têm como resultado abreviá-la dependem do valor atribuído à vida em determinada sociedade,
é, afinal, um julgamento de valor que se exprime nesse número abstrato que é a duração média da
vida humana. A duração média da vida não é a duração de vida biologicamente normal, mas é, em
certo sentido, a duração de vida socialmente normativa. Nesse caso, ainda, a norma não se deduz da
média, mas se traduz pela média. Seria ainda mais claro se, em vez de considerar a duração média
de vida em uma sociedade nacional, considerada globalmente, essa sociedade fosse
especificamente dividida em classes, em profissões etc. Sem dúvida, constatar-se-ia que a duração
de vida depende do que Halbwachs chama, em outra ocasião, de níveis de vida.
Certamente, levantar-se-á a objeção de que tal concepção é válida para caracteres humanos
superficiais e para os quais, afinal de contas, existe uma margem de tolerância em que as
diversidades sociais podem transparecer, mas que ela certamente não convém nem para caracteres
humanos essenciais de rigidez básica, como a glicemia ou a calcemia ou o PH sangüíneo, nem, de
modo geral, para caracteres específicos dos animais, aos quais nenhuma técnica coletiva confere
uma plasticidade relativa. É claro que não pretendemos sustentar que as médias
anatomofisiológicas traduzam, no animal, normas e valores sociais, mas devemos refletir se essas
normas não traduziriam normas e valores vitais. Vimos, no capítulo precedente, o exemplo, citado
por G. Teissier, dessa espécie de borboletas que oscilam entre duas variedades com uma ou com
outra das quais tende a se confundir, conforme o meio permita uma ou outra das duas combinações
compensadas de caracteres contrastantes. Devemos refletir se não haveria aí uma espécie de regra
geral de invenção das formas vivas. Conseqüentemente, poder-se-ia atribuir à existência de uma
média dos caracteres mais freqüentes um sentido bastante diferente daquele que Quêtelet lhe
atribuía. A existência dessa média não traduziria um equilíbrio específico estável, e sim o equilíbrio
instável de normas e de formas de vida mais ou menos equivalentes e que se enfrentam
momentaneamente. Em vez de considerar um tipo específico como realmente estável, por
apresentar caracteres isentos de qualquer incompatibilidade, não se poderia considerá-lo como
aparentemente estável por ter conseguido momentaneamente conciliar, por um conjunto de
compensações, exigências opostas? Uma forma específica normal seria o produto de uma
normalização entre funções e órgãos cuja harmonia sintética não é oferecida gratuitamente, e sim
conseguida em condições definidas. É mais ou menos o que Halbwachs sugeria, já em 1912, na sua
crítica a Quêtelet: "Por que considerar a espécie como um tipo do qual os indivíduos só se afastam
por acidente? Por que sua unidade não resultaria de uma dualidade de conformação, de um conflito
de dois ou de um número pequeno de tendências orgânicas gerais que, no cômputo geral, se
equilibrariam? Nada mais natural, então, que as atitudes de seus membros expressem essa
divergência por uma série regular de desvios da média em dois sentidos diferentes... Se os desvios
forem mais numerosos em um sentido é sinal de que a espécie tende a evoluir nessa direção, sob a
influência de uma ou várias causas constantes" [53, 61].
No que se refere ao homem e a seus caracteres fisiológicos permanentes, apenas uma fisiologia e
uma patologia humanas comparadas — no sentido em que existe uma literatura comparada — dos
diversos grupos e subgrupos étnicos, éticos ou religiosos, técnicos, que levariam em conta a
complexidade da vida e dos gêneros e dos níveis sociais de vida, poderiam dar uma resposta
precisa a nossas hipóteses. Ora, parece que essa fisiologia humana comparada, feita de um ponto de
64
vista sistemático, ainda está para ser escrita por algum fisiologista. É claro que há compilações
maciças de dados biométricos de ordem anatômica e fisiológica referentes às espécies animais e à
espécie humana dissociada em grupos étnicos, por exemplo, as Tabulae biologicae,2 mas trata-se
de listas sem nenhuma tentativa de interpretação dos resultados das comparações. Entendemos por
fisiologia humana comparada esse gênero de pesquisas das quais o melhor exemplo é constituído
pelos trabalhos de Eijkmann, de Benedict, de Ozorio de Almeida sobre o metabolismo basal em
suas relações com o clima e a raça.3
Acontece, porém, que essa lacuna acaba de ser parcialmente preenchida pelos trabalhos recentes de
um geógrafo francês, Sorre, cuja obra Les fondements biologiques de la geógraphie humaine nos
foi indicada quando a redação deste ensaio estava terminada. Diremos algumas palavras sobre esse
trabalho mais adiante, em seguimento a uma exposição detalhada que fazemos questão de deixar
em seu estado primitivo, não tanto por preocupação de originalidade, mas como prova de
convergência. Em matéria de metodologia, a convergência é de longe mais importante que a
originalidade.
* * *
Em primeiro lugar há de se convir que a determinação das constantes fisiológicas, pela elaboração
de médias experimentais obtidas apenas no âmbito de um laboratório, corre o risco de apresentar o
homem normal como um homem mediano, bem abaixo das possibilidades fisiológicas de que os
homens em situação de influir sobre si mesmos ou sobre o meio são, evidentemente, capazes,
mesmo aos olhos cientificamente menos informados. Pode-se responder observando que as
fronteiras do laboratório se alargaram muito, desde o tempo de Claude Bernard, que a fisiologia
estende sua jurisdição sobre os centros de orientação e de seleção profissional, sobre os institutos
de educação física, em resumo, que a fisiologia espera do homem concreto — e não do homemcobaia
de laboratório em situação bastante artificial — que esse homem concreto fixe, ele mesmo,
as margens de variações toleradas pelos valores biométricos. Quando A. Mayer escreve: "A medida
da atividade máxima da musculatura, no homem é, precisamente, o objeto do estabelecimento dos
recordes esportivos" [82, 4.54-14], faz lembrar o gracejo de Thibaudet: "São as tabelas de recordes
e não a fisiologia que respondem a esta pergunta: a quantos metros o homem pode saltar?"4 Em
suma, a fisiologia não passaria de um método certo e preciso de registro e aferimento das latitudes
funcionais que o homem adquire, ou melhor, conquista progressivamente. Se podemos falar em
homem normal, determinado pelo fisiologista, é porque existem homens normativos, homens para
quem é normal romper as normas e criar novas normas.
Não são apenas as variações individuais — que ocorrem nos "temas" fisiológicos habituais do
homem branco dito civilizado — que nos parecem interessantes como expressão da normatividade
biológica humana; são, mais ainda, as variações dos próprios "temas" de grupo para grupo
conforme os gêneros e os níveis de vida, em relação com as tomadas de posição éticas ou religiosas
relativas à vida, em suma, a normas coletivas de vida. Nesse sentido, Ch. Laubry e Th. Brosse
estudaram, graças às mais modernas técnicas de registro, os efeitos fisiológicos da disciplina
religiosa que permite aos iogues indus o domínio quase integral das funções da vida vegetativa.
Esse domínio é tal que consegue regular os movimentos peristálticos e antiperistálticos, e usar, em
todos os sentidos, a ação dos esfincteres anal e vesical, abolindo assim a distinção fisiológica entre
a musculatura lisa e a estriada. Esse domínio consegue, assim, abolir, a autonomia relativa da vida
vegetativa. O registro simultâneo do pulso, da respiração, do eletrocardiograma, a medida do
metabolismo basal permitiram constatar que a concentração mental, tendendo à fusão do indivíduo
com o objeto universal, produz os efeitos seguintes: ritmo cardíaco acelerado, modificação do
ritmo e da tensão do pulso, modificação do eletrocardiograma: baixa voltagem generalizada,
desaparecimento das ondas, ínfima fibrilação na linha isoelétrica, metabolismo basal reduzido [70,
1604]. A respiração é a chave da ação do iogue sobre as funções fisiológicas aparentemente menos
2 Publicadas em Haia, Junk editor.
3 Encontra-se uma bibliografia desses trabalhos em [61, 299].
4 Le bergsonisme, I, 203.
65
sujeitas à vontade; é ela que tem de agir sobre as outras funções, é por sua redução que o corpo fica
"no ritmo de vida mais lento comparável ao dos animais hibernantes" [ibid.]. Obter uma mudança
da freqüência do pulso que vai de 50 a 150, uma apnéia de 15 minutos, uma abolição quase total da
contração cardíaca é, certamente, romper normas fisiológicas. A menos que se decida considerar
como patológicos tais resultados. Porém isto é evidentemente impossível: "Apesar de os iogues
ignorarem a estrutura de seus órgãos, eles são senhores incontestes de suas funções. Gozam de um
excelente estado de saúde e, no entanto, infligiram a si próprios anos de exercício que não teriam
podido suportar se não tivessem respeitado as leis da atividade fisiológica" [ibid.]. Laubry e Th.
Brosse concluem que, tendo em vista tais fatos, estamos diante de uma fisiologia humana bastante
diferente da simples fisiologia animal: "A vontade parece agir como prova farmacodinâmica e,
entrevemos, assim, para nossas faculdades superiores um poder infinito de regulação e de ordem"
[ibid.]. Eis a razão das observações de Th. Brosse sobre o problema do patológico: "Considerado
sob esse ângulo da atividade consciente em relação com os níveis psicofisiológicos que ela utiliza,
o problema da patologia parece intimamente ligado ao problema da educação. Conseqüência de
uma educação sensorial, ativa, emocional, malfeita ou não feita, esse problema pede,
instantaneamente, uma reeducação. Cada vez mais, a idéia de saúde ou de normalidade deixa de se
apresentar como a idéia de conformidade a um ideal externo (atleta para o corpo, bacharel para a
inteligência). Essa idéia se situa na relação entre o eu consciente e seus organismos
psicofisiológicos, é uma idéia relativista e individualista" [17, 49].
Sobre essas questões de fisiologia e de patologia comparada, somos forçados a nos contentar com
poucos documentos; porém — fato surpreendente —, apesar de seus autores terem obedecido a
intenções diferentes, tendem às mesmas conclusões. Porak, que procurou por meio do estudo dos
ritmos funcionais e de suas perturbações um caminho para o conhecimento do início das doenças,
mostrou a relação entre os gêneros de vida e as curvas da diurese e da temperatura (ritmos lentos),
do pulso e da respiração (ritmos rápidos). Os jovens chineses de 18 a 25 anos têm um débito
urinário médio de 0,5 cm 3por minuto, com oscilações de 0,2 a 0,7; ao passo que esse débito é de 1
cm3 nos europeus, com oscilações de 0,8 a 1,5. Porak interpreta esse fato fisiológico a partir de
influências geográficas e históricas combinadas na civilização chinesa. Dessa massa de influências
ele escolhe duas, que, segundo ele, são capitais: a natureza da alimentação (chá, arroz, vegetais,
germes de trigo) e os ritmos nutritivos determinados pela experiência ancestral; o modo de
atividade que respeita, na China mais que no Ocidente, o desenvolvimento periódico da atividade
neuromuscular. O sedentarismo dos hábitos ocidentais tem uma repercussão nociva sobre o ritmo
dos líquidos. Essa desregulação não existe na China, onde as pessoas conservaram o gosto pelos
passeios a pé "no desejo ardente de se confundir com a natureza" [94, 4-6].
O estudo do ritmo respiratório (ritmo rápido) faz com que se manifestem variações em relação ao
desenvolvimento e à anquilose da necessidade de atividade. Essa necessidade está, ela própria, em
relação com os fenômenos naturais ou sociais que marcam o trabalho humano. Desde a invenção da
agricultura, o dia solar constitui um quadro no qual se inscreve a atividade de muitos homens. A
civilização urbana e as exigências da economia moderna perturbaram os grandes ciclos fisiológicos
da atividade, deixando, no entanto, subsistir alguns vestígios. Sobre esses ciclos fundamentais se
enxertam ciclos secundários. Enquanto as mudanças de posição determinam ciclos secundários nas
variações do pulso, as influências psíquicas é que são preponderantes no caso da respiração. A
respiração se acelera desde o despertar, logo que os olhos se abrem para a luz: "Abrir os olhos já é
tomar a atitude do estado de vigília, já é orientar os ritmos funcionais para o desenvolvimento da
atividade neuromotora, e a flexível função respiratória está apta a responder ao mundo exterior: ela
reage imediatamente à simples abertura das pálpebras" [94, 62]. A função respiratória, pela
hematose que assegura, é tão importante para o uso explosivo ou constante da energia muscular,
que uma regulação muito sutil deve determinar, no mesmo instante, variações consideráveis do
volume de ar inspirado. A intensidade respiratória está, portanto, na dependência da natureza de
nossas agressões, ou de nossas reações, na luta com o meio. O ritmo respiratório é função da
consciência de nossa situação no mundo.
É de se esperar que as observações de Porak o levassem a propor indicações terapêuticas e
higiênicas. É realmente o que acontece. Já que as normas fisiológicas definem não tanto uma
66
natureza humana mas, sobretudo, hábitos humanos relacionados com os gêneros de vida, os níveis
de vida e os ritmos de vida, qualquer regra dietética deve levar em conta esses hábitos. Eis um bom
exemplo de relativismo terapêutico: "As chinesas amamentam seus filhos durante os dois primeiros
anos de vida. Depois do desmame, nunca mais as crianças tomarão leite. O leite de vaca é
considerado como um líquido sujo, que só serve para os porcos. Ora, experimentei muitas vezes o
leite de vaca em meus doentes afetados de nefrite. A anquilose urinária ocorria imediatamente.
Voltando a submeter o doente a um regime de chá e arroz, uma forte crise urinária restabelecia a
eurritmia" [94, 99]. Quanto às causas das doenças funcionais, se considerarmos seu início, são
quase todas perturbações de ritmo, disritmias, devidas à fadiga ou à estafa, isto é, a qualquer
exercício que ultrapasse a justa adaptação das necessidades do indivíduo ao meio ambiente [94,
86]. "Impossível manter um tipo na sua margem de disponibilidade funcional. A melhor definição
do homem seria, creio, a de um ser insaciável, isto é, que ultrapassa sempre suas necessidades" [94,
89]. Eis uma boa definição de saúde, que nos prepara para compreender sua relação com a doença.
Marcel Labbé chega a conclusões análogas quando estuda — principalmente a respeito do diabetes
— a etiologia das doenças da nutrição. "As doenças da nutrição não são doenças de órgãos, e sim
doenças de funções... Os vícios de alimentação desempenham um papel capital na gênese dos
distúrbios da nutrição... A obesidade é a mais freqüente e a mais simples dessas doenças criadas
pela educação mórbida dada pelos pais... A maioria das doenças da nutrição são evitáveis... Falo,
sobretudo, dos hábitos viciosos de vida e de alimentação que os indivíduos devem evitar e que os
pais já afetados por distúrbios da nutrição devem ter cuidado para não transmitir a seus filhos" [65,
10.501]. Não se poderia concluir que, considerando a educação das funções como um meio
terapêutico, como Laubry e Brosse, Porak e Marcel Labbé, estaremos admitindo que as constantes
funcionais são normas habituais? O que o hábito faz, o hábito desfaz, e o hábito refaz. Se podemos
definir, sem usar metáfora, as doenças como vícios, devemos poder definir — também sem usar
metáfora — as constantes fisiológicas como virtudes, no sentido que a palavra tinha na
Antigüidade, sentido que engloba virtude, poder e função.
É desnecessário dizer que as pesquisas de Sorre sobre as relações entre as características
fisiológicas e patológicas do homem, de um lado e, os climas, os regimes alimentares, o meio
biológico, de outro, têm um alcance muito diferente do que os trabalhos que acabamos de citar.
Porém, o que é notável é que todos os pontos de vista já citados estão justificados nessas pesquisas,
e suas suposições, confirmadas. A adaptação dos homens à altitude e sua ação fisiológica
hereditária [109, 51], os problemas dos efeitos da luz [109, 54], da tolerância térmica [109, 58], da
aclimatação [109, 94], da alimentação às expensas de um meio vivo criado pelo homem [109, 120],
da repartição geográfica e da ação plástica dos regimes alimentares [109, 245, 275], da área de
extensão dos complexos patogênicos (doença do sono, impaludismo, peste etc.) [109, 291]: todos
esses problemas são tratados com muita precisão, muita abertura e sempre com bom senso. E claro
que o que interessa a Sorre é, antes de tudo, a ecologia do homem, a explicação dos problemas de
povoamento. No entanto, já que todos esses problemas se resumem, afinal, em problemas de
adaptação, compreende-se como os trabalhos de um geógrafo apresentam grande interesse para um
ensaio metodológico sobre as normas biológicas, Sorre compreendeu muito bem a importância do
cosmopolitismo da espécie humana para uma teoria da labilidade relativa das constantes
fisiológicas — a importância dos estados de falso equilíbrio adaptativo para a explicação das
doenças ou das mutações —, a relação das constantes anatômicas e fisiológicas com os regimes
alimentares coletivos, que ele qualifica, muito judiciosamente, de normas [109, 249]; a
irredutibilidade das técnicas de criação de um ambiente verdadeiramente humano a razões
puramente utilitárias; a importância da ação indireta que o psiquismo humano exerce, pela
orientação da atividade sobre características que durante muito tempo foram consideradas naturais,
assim como a estatura, o peso, diáteses coletivas. Em conclusão, Sorre se obstina em mostrar que o
homem considerado coletivamente está à procura de seus "ideais funcionais", isto é, dos valores de
cada um dos elementos do ambiente para os quais uma função determinada se realiza melhor. As
constantes fisiológicas não são constantes no sentido absoluto do termo. Para cada função e para o
conjunto das funções há uma margem em que entra em jogo a capacidade de adaptação funcional
do grupo ou da espécie. As condições ideais determinam, assim, uma zona de povoamento em que
67
a uniformidade das características humanas traduz não a inércia de um determinismo, mas a
estabilidade de um resultado mantido por um esforço coletivo, inconsciente, porém real [109, 415-
16]. É desnecessário dizer que nos agrada ver um geógrafo apoiar, com a seriedade dos resultados
de suas análises, a interpretação das constantes biológicas por nós proposta. As constantes se
apresentam com uma freqüência e um valor médios, em um determinado grupo, que lhes confere
valor de normal, e esse normal é realmente a expressão de uma normatividade. A constante
fisiológica é a expressão de um estado fisiológico ideal em determinadas condições, dentre as quais
é preciso lembrar as que o ser vivo em geral, e o homo faber em particular, proporcionam a si
mesmos.
Em virtude dessas conclusões, interpretaríamos de modo um pouco diferente de seus autores os
dados tão interessantes fornecidos por Pales e Monglond, com referência à taxa da glicemia nos
negros africanos [92 bis]. Dentre 84 indígenas de Brazzaville, 66% apresentaram hipoglicemia,
39% dos quais de 0,90 g a 0,75 g e 27% abaixo de 0,75 g. De acordo com esses autores, os negros
devem ser considerados, em geral, como hipoglicêmicos. Em todo caso, eles suportam, sem
perturbação aparente, e especialmente sem convulsão nem coma, hipoglicemias consideradas
graves ou até mesmo mortais nos europeus. As causas dessa hipoglicemia teriam de ser buscadas
na subnutrição crônica, no parasitismo intestinal polimórfico e crônico, no impaludismo. "Esses
estados estão situados no limite entre a fisiologia e a patologia. Do ponto de vista europeu, são
patológicos; do ponto de vista indígena, estão tão estreitamente ligados ao estado habitual do negro
que, se não tivéssemos os termos comparativos do branco, poder-se-ia considerá-lo quase como
fisiológico" [92 bis, 767]. Achamos precisamente que, se o europeu pode servir de norma, é apenas
na medida em que seu gênero de vida poderá ser considerado como normativo. A indolência do
negro parece a Lefrou, assim como a Pales e Monglond, estar relacionada com sua hipoglicemia
[76 bis, 278; 92 bis, 767]. Estes últimos autores dizem que o negro leva uma vida na medida de
seus meios. No entanto, não se poderia dizer, do mesmo modo, que o negro tem os meios
fisiológicos na medida da vida que leva?
* * *
A relatividade de certos aspectos das normas anatomofisiológicas e, por conseguinte, de certos
distúrbios patológicos em sua relação com os gêneros de vida e o savoir-vivre não surge apenas da
comparação dos grupos étnicos e culturais atualmente observáveis, mas também da comparação
desses grupos atuais com grupos anteriores desaparecidos. A paleopatologia dispõe, certamente, de
um número de documentos bem mais reduzido ainda do que dispõe a paleontologia ou a
paleografia, e, no entanto, as conclusões prudentes que deles se pode tirar merecem ser destacadas.
Pales, que fez na França uma boa síntese dos trabalhos desse gênero, adota uma definição do
documento paleopatológico estabelecida por Roy C. Moodie,5 isto é, qualquer desvio do estado de
saúde do corpo que tenha deixado marca visível no esqueleto fossilizado [92, 16]. Se os sílex
lascados e a arte dos homens da idade da pedra contam a história de suas lutas, de seus trabalhos e
de seu pensamento, suas ossadas evocam a história de suas dores [92, 307]. A paleopatologia
permite encarar o fato patológico na história da espécie humana como um fato decorrente de
simbiose, quando se trata de doenças infecciosas — e isso não diz respeito apenas ao homem, mas
ao ser vivo em geral —, e como um fato decorrente do nível de cultura ou do gênero de vida,
quando se trata de doenças da nutrição. As afecções de que os homens pré-históricos sofreram se
apresentavam em proporções bem diferentes das que se apresentam à nossa observação, hoje em
dia. Vallois observa que se constata, em relação apenas à pré-história francesa, 11 casos de
tuberculose em vários milhares de ossadas estudadas [113, 672]. Se a ausência de raquitismo,
doença causada por carência de vitamina D, é normal, em uma época em que se utilizavam
alimentos crus ou pouco cozidos [113, 672], o aparecimento da cárie dentária, desconhecida dos
primeiros homens, acompanha de perto a civilização, estando relacionada com a utilização de
5 Encontra-se na bibliografia elaborada por Pales a lista dos trabalhos de Roy C. Moodie [92]. Para uma vulgarização desses trabalhos,
ver H. de Varigny, La mort et la biologie (Alcan).
68
feculentos e com o cozimento da comida, acarretando a destruição das vitaminas necessárias à
assimilação do cálcio [113, 677]. Do mesmo modo, a osteoartrite era muito mais freqüente na idade
da pedra lascada e nas épocas seguintes do que atualmente, e deve-se atribuir esse fato,
provavelmente, a uma alimentação insuficiente, a um clima frio e úmido, já que, em nossas dias, a
diminuição dessa doença traduz uma melhor alimentação, um modo de vida mais higiênico [113,
672].
É fácil compreender a dificuldade que apresenta a realização de um estudo ao qual escapam todas
as doenças cujos efeitos plásticos ou deformantes não chegaram a deixar marcas no esqueleto dos
homens fossilizados ou exumados durante buscas arqueológicas. Compreende-se a prudência
obrigatória das conclusões desse estudo. Porém, na medida em que se pode falar em patologia préhistórica,
dever-se-ia também poder falar em fisiologia pré-histórica, como se fala, sem incorreção
demasiada, na existência de uma anatomia pré-histórica. Ainda aqui, aparece a relação das normas
biológicas de vida com o meio humano, ao mesmo tempo causa e efeito da estrutura e do
comportamento dos homens. Pales, com muito bom senso, chama a atenção para o fato de que, se
Boule pôde determinar, a partir do Homem da Chapelle aux Saints, o tipo anatômico clássico da
raça de Neanderthal, poder-se-ia, sem muito favor, considerá-lo como o tipo mais perfeito de
homem fóssil patológico, afetado de piorréia alveolar, de artrite coxofemoral bilateral, de
espondilose cervical e lombar etc. Sim, mas isso só seria possível se ignorássemos as diferenças do
meio cósmico, do equipamento técnico e do gênero de vida que fazem do anormal de hoje o normal
de outrora.
* * *
Apesar de parecer difícil contestar a qualidade das observações utilizadas supra, talvez se queira
contestar as conclusões às quais essas observações levam, conclusões estas relativas à significação
fisiológica de constantes funcionais interpretadas como normas habituais de vida. Em resposta,
faremos notar que essas normas não são fruto de hábitos individuais que determinado indivíduo
poderia adotar ou abandonar, a seu bel-prazer. Admitimos uma plasticidade funcional do homem,
ligada, nesse homem, à sua normatividade vital, mas não se trata de maleabilidade total e
instantânea, nem de maleabilidade puramente individual. Afirmar, com a devida reserva, que o
homem tem características fisiológicas em relação com sua atividade não significa deixar qualquer
pessoa acreditar que poderá alterar sua glicemia ou seu metabolismo basal pelo método Coué, ou
mesmo pela mudança de ambiente. Não se muda, em alguns dias, aquilo que a espécie elabora
durante milênios. Voelker demonstrou que não se muda de metabolismo basal mudando-se de
Hamburgo para a Islândia. O mesmo fez Benedict, em relação aos americanos do Norte que se
deslocam para as regiões subtropicais. Porém, Benedict constatou que o metabolismo das chinesas
que sempre viveram nos Estados Unidos era mais baixo que a norma americana. De modo geral,
Benedict constatou que certos australianos (Kokatas) têm um metabolismo mais baixo que o de
homens brancos de mesma idade, peso e estatura que vivem nos Estados Unidos, e que, ao
contrário, certos índios (Maias) têm um metabolismo mais elevado, com pulso mais lento e pressão
arterial permanentemente baixa. Pode-se, portanto, concluir, assim como Kayser e Dontcheff:
"Parece estar demonstrado que, no homem, o fator climático não exerce efeito direto sobre o
metabolismo; só muito progressivamente é que, modificando o modo de vida, e permitindo a
fixação de raças especiais, o clima teve uma ação durável sobre o metabolismo basal" [62, 286].
Em resumo, considerar os valores médios das constantes fisiológicas humanas como a expressão de
normas coletivas de vida seria apenas dizer que a espécie humana, inventando gêneros de vida,
inventa, ao mesmo tempo, modos de ser fisiológicos. Os gêneros de vida, porém, não serão
impostos? Os trabalhos da escola francesa de geografia humana demonstraram que não há
fatalidade geográfica. Os meios oferecem ao homem apenas virtualidades de utilização técnica e de
atividade coletiva. É a escolha que decide tudo. É claro que não se trata de uma escolha explícita e
consciente. Porém, a partir do momento que várias normas coletivas de vida são possíveis em
69
determinado meio, aquela que é adotada, e que por sua antigüidade parece natural, continua a ser,
no fundo, a escolhida.
No entanto, em certos casos, é possível colocar em evidência a influência que uma escolha
explícita pode ter sobre o sentido de um modo de ser fisiológico. É a lição que se depreende das
observações e das experiências relativas às oscilações da temperatura no animal homeotermo e ao
ritmo nictemeral.
Os trabalhos de Kayser e de seus colaboradores sobre o ritmo nictemeral no pombo permitiram
demonstrar que as variações da temperatura central diurna e noturna no animal homeotermo
constituem um fenômeno da vida vegetativa, fenômeno este que está sob a dependência das
funções de relação. A redução noturna das trocas é conseqüência da supressão dos excitantes
luminosos e sonoros. O ritmo nictemeral desaparece no pombo tornado experimentalmente cego, e
isolado de seus congêneres normais. A inversão da ordem na sucessão luz-obscuridade inverte o
ritmo depois de alguns dias. O ritmo nictemeral é determinado por um reflexo condicionado
alimentado pela alternância natural do dia e da noite. Quanto ao seu mecanismo, não consiste em
uma hipoexcitabilidade noturna dos centros termor-reguladores, mas na produção suplementar,
durante o dia, de uma quantidade de calor acrescentada à calorificação regulada, de modo idêntico,
de dia e de noite, pelo centro termorregulador. Esse calor depende das excitações, que emanam do
meio e também da temperatura: ela aumenta com o frio. Não levando em consideração nenhuma
produção de calor devida à atividade muscular, é apenas como aumento do tônus de postura, de dia,
que se pode relacionar a elevação que dá à temperatura nictemeral seu caráter ritmado. O ritmo
nictemeral de temperatura é, para o animal homeotermo, a expressão de uma variação de atitude de
todo o organismo em relação ao meio. Mesmo em repouso, a energia do animal não está totalmente
disponível, se este for solicitado pelo meio; uma parte está mobilizada em atitudes tônicas de
vigilância, de preparação. A vigília é um comportamento que, mesmo sem alertas, não é isenta de
certos desgastes [60; 61; 62; 63].
As conclusões precedentes esclarecem, em muito, os resultados de observações e de experiências
relativas ao homem e que, muitas vezes, pareciam contraditórios. Mosso, por um lado, e Benedict,
por outro, não puderam demonstrar que a curva térmica normal depende das condições do meio.
Mas Toulouse e Piéron afirmavam, em 1907, que a inversão das condições de vida (atividade
noturna e repouso diurno) condicionava, no homem, a inversão completa do ritmo nictemeral de
temperatura. Como explicar essa contradição? É que Benedict havia observado indivíduos pouco
habituados à vida noturna e que, nas horas de repouso, durante o dia, participavam da vida normal
de seu meio. Segundo Kayser, enquanto as condições experimentais não forem as de uma inversão
completa do modo de vida, a demonstração da dependência entre o ritmo e o meio não poderá ser
feita. O que confirma essa interpretação são os fatos seguintes: no lactente, o ritmo nictemeral se
manifesta progressivamente, paralelo ao desenvolvimento psíquico da criança. Com a idade de oito
dias, a variação de temperatura é de 0°,09; com cinco meses é de 0°,37; entre 2 e 5 anos é de 0°,95.
Certos autores, Osborne e Voelker, estudaram o ritmo nictemeral durante longas viagens, e
constataram que esse ritmo segue exatamente a hora local [61, 304-306]. Lindhard assinala que,
durante uma expedição dinamarquesa à Groenlândia, em 1906-1908, o ritmo nictemeral
acompanhava a hora local e que uma equipagem inteira chegava a sofrer uma decolagem de até 12
horas para cada "dia", o mesmo ocorrendo em relação à curva diária da temperatura. A inversão
completa não pôde ser obtida em virtude da persistência da atividade normal.6
Eis, portanto, um exemplo de uma constante relativa a condições de atividade, a um gênero
coletivo e mesmo individual de vida, e cuja relatividade traduz normas do comportamento humano
obtidas por meio de um reflexo condicionado de desencadeamento variável. A vontade e a técnica
humana podem fazer, da noite, dia, não apenas no meio em que a atividade humana se desenvolve,
mas no próprio organismo cuja atividade enfrenta o meio. Não sabemos até que ponto outras
constantes fisiológicas poderiam, quando analisadas, se apresentar da mesma maneira, como
6 Rapport of the Danish Expedition of the North East Coast of Greenland 1906-1908. Meddelel-ser om Gronland, p. 44, Kopenhagen,
1917. Citado segundo R. Isenschmidt, Physiologie der Wärmeregulation. In: Handbuch der norm. u. path. Physiologie, t. XVII, p. 3,
1926, Berlim, Springer ed.
70
conseqüência de uma adaptação flexível do comportamento humano. O que nos interessa não é
tanto dar uma solução provisória, mas, sobretudo, mostrar que há um problema a ser colocado. Em
todo caso, neste exemplo, julgamos empregar com propriedade o termo comportamento. A partir
do momento que o reflexo condicionado põe em jogo a atividade do córtex cerebral, o termo
reflexo não deve ser tomado em seu sentido estrito. Trata-se de um fenômeno funcional global, e
não segmentário.
* * *
Em resumo, achamos que se devem considerar os conceitos de norma e de média como dois
conceitos diferentes que nos parece inútil tentar reduzir à unidade por meio da anulação da
originalidade do primeiro. Parece-nos que a fisiologia tem mais a fazer do que procurar definir
objetivamente o normal: deve reconhecer a normatividade original da vida. O verdadeiro papel da
fisiologia, suficientemente importante e difícil, consistiria então em determinar exatamente o
conteúdo das normas dentro das quais a vida conseguiu se estabilizar, sem prejulgar a possibilidade
ou a impossibilidade de uma eventual correção dessas normas. Bichat dizia que o animal é
habitante do mundo, ao passo que o vegetal é habitante apenas do local que o viu nascer. Esse
pensamento é ainda mais verdadeiro em relação ao homem do que em relação ao animal. O homem
conseguiu viver em todos os climas; é o único animal — com exceção talvez das aranhas — cuja
área de expansão tem as dimensões da Terra. Mas, sobretudo, o homem é o animal que, por meio
da técnica, consegue variar, no próprio local, o ambiente de sua atividade. Desse modo, o homem
se revela, atualmente, como a única espécie capaz de variação [114]. Será absurdo supor que os
órgãos naturais do homem possam, a longo prazo, expressar a influência de órgãos artificiais pelos
quais ele multiplicou e multiplica ainda o poder dos primeiros? Não ignoramos que a
hereditariedade dos caracteres adquiridos parece, para a maioria dos biólogos um problema
resolvido negativamente. Tomamos a liberdade de indagar se a teoria da ação do meio sobre o ser
vivo não estaria às vésperas de se recuperar de um longo período de descrédito.7 É verdade que se
poderia objetar que, nesse caso, as constantes fisiológicas expressariam o efeito das condições
externas de existência sobre o ser vivo; e que nossas suposições sobre o valor normativo das
constantes seriam desprovidas de sentido. Elas certamente o seriam, se os caracteres biológicos
variáveis traduzissem a transformação do meio assim como as variações da aceleração da
gravidade estão em relação com a latitude. No entanto, insistimos que as funções biológicas são
ininteligíveis, do modo como são reveladas pela observação, quando só traduzem os estados de
uma matéria passiva diante das transformações do meio. De fato, o meio do ser vivo é também obra
do ser vivo que se furta ou se oferece eletivamente a certas influências. Pode-se dizer, a respeito do
universo de qualquer ser vivo, o que Reininger diz a respeito do universo do homem: "Unser
Weltbild ist immer zugleich ein Wertbild",8 nossa imagem do mundo é sempre também um quadro
de valores.
7 Atualmente, não admitimos mais que tal pergunta possa ser feita.
8 Wertphilosophie und Ethik, p. 29, 1939, Viena-Leipzig, Braumuller.
71
IV DOENÇA, CURA, SAÚDE
Distinguindo anomalia de estado patológico, variedade biológica de valor vital negativo, atribui-se,
em suma, ao próprio ser vivo, considerado em sua polaridade dinâmica, a responsabilidade de
distinguir o ponto em que começa a doença. Isso significa que, em matérias de normas biológicas, é
sempre o indivíduo que devemos tomar como ponto de referência, porque, como diz Goldstein,
determinado indivíduo pode se encontrar "à altura dos deveres resultantes do meio que lhe é
próprio" [46, 265], em condições orgânicas que, para um outro indivíduo, seriam inadequadas ao
cumprimento desses deveres. Goldstein afirma, exatamente como Laugier, que uma média, obtida
estatisticamente, não permite dizer se determinado indivíduo, presente diante de nós, é normal ou
não. Não podemos partir dessa média para cumprir nosso dever médico para com o indivíduo.
Tratando-se de uma norma supra-individual, é impossível determinar o "ser doente" (Kranksein)
quanto ao conteúdo. No entanto, isto é perfeitamente possível quando se trata de uma norma
individual [46, 265, 272].
Do mesmo modo, Sigerist insiste na relatividade individual do normal biológico. Se dermos crédito
à tradição, Napoleão teria tido um pulso de 40, mesmo na época em que gozava de boa saúde!
Portanto, se com 40 contrações por minuto um organismo pode satisfazer as exigências que lhe são
impostas, é porque é sadio, e o número de 40 pulsações — apesar de aberrante em relação ao
número médio de 70 pulsações — é normal para esse organismo.1 "Não devemos, portanto, conclui
Sigerist, nos limitarmos a estabelecer a comparação com uma norma resultante da média, e sim, na
medida do possível, com as condições do indivíduo examinado" [107, 108].
Portanto, se o normal não tem a rigidez de um fato coercitivo coletivo, e sim a flexibilidade de uma
norma que se transforma em sua relação com condições individuais, é claro que o limite entre o
normal e o patológico torna-se impreciso. No entanto, isso não nos leva à continuidade de um
normal e de um patológico idênticos em essência — salvo quanto às variações quantitativas —, a
uma relatividade da saúde e da doença bastante confusa para que se ignore onde termina a saúde e
onde começa a doença. A fronteira entre o normal e o patológico é imprecisa para diversos
indivíduos considerados simultaneamente, mas é perfeitamente precisa para um único e mesmo
indivíduo considerado sucessivamente. Aquilo que é normal, apesar de ser normativo em
determinadas condições, pode se tornar patológico em outra situação, se permanecer inalterado. O
indivíduo é que avalia essa transformação porque é ele que sofre suas conseqüências, no próprio
momento em que se sente incapaz de realizar as tarefas que a nova situação lhe impõe. Certa ama,
que cumpria perfeitamente os deveres inerentes a seu cargo, só veio a saber de sua hipotensão pelos
distúrbios neurove-getativos que sentiu, no dia em que a levaram para passar férias na montanha.
Sem dúvida, ninguém é obrigado a viver em elevadas altitudes. Mas poder fazê-lo significa ser
superior, pois isso pode se tornar, um dia, inevitável. Uma norma de vida é superior a outra quando
comporta o que esta última permite e também o que ela não permite. No entanto, em situações
diferentes, há normas diferentes e que, mesmo enquanto diferentes, se equivalem. Desse ponto de
vista, todas as normas são normais. Nessa ordem de idéias, Goldstein dá uma grande atenção às
experiências de simpatectomia realizadas por Cannon e seus colaboradores em animais. Esses
animais, cuja termorregulação perdeu toda sua flexibilidade habitual, incapazes de lutar por seu
alimento ou contra seus inimigos, são normais apenas no ambiente de laboratório em que estão a
salvo das variações brutais e das súbitas exigências de adaptação ao meio [46,276-77]. Esse
normal, no entanto, não é chamado propriamente normal; já que, para o ser vivo não domesticado e
não preparado experimentalmente, o normal é viver em um meio em que flutuações e novos
acontecimentos são possíveis.
1 O número de 40 pulsações parece menos extraordinário do que o exemplo de Sigerist dá a entender, quando se conhece a influência
que o treinamento esportivo exerce sobre o ritmo cardíaco. O pulso diminui de freqüência com os progressos do treinamento. Essa
diminuição é mais acentuada em um indivíduo de 30 anos do que em um indivíduo de 20. Ela depende, também, do tipo de esporte
praticado. Para um remador, um pulso de 40 é indício de excelente forma. Se o pulso cai abaixo de 40, pode-se falar em
supertreinamento.
72
Portanto, devemos dizer que o estado patológico ou anormal não é conseqüência da ausência de
qualquer norma. A doença é ainda uma norma de vida, mas uma norma inferior, no sentido que não
tolera nenhum desvio das condições em que é válida, por ser incapaz de se transformar em outra
norma. O ser vivo doente está normalizado em condições bem definidas, e perdeu a capacidade
normativa, a capacidade de instituir normas diferentes em condições diferentes. Há muito tempo já
se observou que, na osteartrite tuberculosa do joelho, a articulação se imobiliza em posição
defeituosa (chamada posição de Bonnet). Foi Nélaton quem primeiro deu uma explicação ainda
hoje clássica: "É raro que o membro se conserve normalmente em posição reta. Com efeito, para
acalmar suas dores, os doentes se colocam instintivamente em uma posição intermediária entre a
flexão e a extensão, que faz com que os músculos exerçam menos pressão sobre as superfícies
articulares" [88, H, 209]. O sentido hedônico e, por conseguinte, normativo do comportamento
patológico está, aqui, perfeitamente compreendido. A articulação adota sua forma de capacidade
máxima, sob a influência da contratura muscular, e luta assim, espontaneamente, contra a dor. A
posição só é chamada defeituosa em relação a um uso da articulação que admita todas as posições
possíveis, exceto a flexão anterior. No entanto, é uma norma diferente, em condições diferentes,
que se dissimula sob a aparência desse defeito.
* * *
A observação clínica, sistematicamente realizada, dos ferimentos do cérebro durante a guerra de
1914-1918, possibilitou a Goldstein a formulação de alguns princípios gerais de nosologia
neurológica dos quais convém apresentar um breve resumo.
Se é verdade que os fenômenos patológicos são modificações regulares dos fenômenos normais,
não se pode tirar, dos primeiros, nenhum esclarecimento relativo aos segundos, a não ser que se
tenha percebido o sentido original dessa modificação. Portanto, é preciso começar por compreender
que o fenômeno patológico revela uma estrutura individual modificada. É preciso ter sempre em
mente a transformação da personalidade do doente. Caso contrário, arriscamo-nos a ignorar que o
doente, mesmo quando é capaz de reações semelhantes às que antes podia ter, pode chegar a essas
reações por caminhos completamente diferentes. Essas reações aparentemente equivalentes às
reações normais anteriores não são resíduos do comportamento normal anterior, não são o resultado
de uma redução ou de uma diminuição, não são o aspecto normal da vida menos alguma coisa que
foi destruída, são reações que jamais se apresentam no indivíduo normal sob a mesma forma e nas
mesmas condições [45].
Para definir o estado normal de um organismo, Goldstein leva em conta o comportamento
privilegiado; para compreender a doença é preciso levar em conta a reação catastrófica. Por
comportamento privilegiado entende-se o fato de serem realizadas, e, de certa forma, preferidas,
apenas algumas das reações de que um organismo é capaz, em condições experimentais. Esse modo
de vida caracterizado por um conjunto de reações privilegiadas é aquele no qual o ser vivo
responde melhor às exigências de seu ambiente, vive em harmonia com seu meio; é aquele que
comporta mais ordem e estabilidade, menos hesitação, desordem, reações catastróficas [46,24; -49,
131, 134]. As constantes fisiológicas (pulso, pressão arterial, temperatura etc.) exprimem essa
estabilidade ordenada do comportamento de um organismo individual em meio ambiente de
condições definidas.
"Os sintomas patológicos são a expressão do fato de as relações entre organismo e meio, que
correspondem à norma, terem sido transformadas pela transformação do organismo, e pelo fato de
muitas coisas, que eram normais para o organismo normal, não o serem mais, para a organismo
modificado. A doença é abalo e ameaça à existência. Por conseguinte, a definição de doença exige,
como ponto de partida, a noção de ser individual. A doença surge quando o organismo é
modificado de tal modo que chega a reações catastróficas no meio que lhe é próprio. Isso se
manifesta não apenas em certos distúrbios funcionais, determinados segundo a localização do
deficit, mas de um modo muito geral; isso porque, como acabamos de ver, um comportamento
73
desordenado representa sempre um comportamento mais ou menos desordenado de todo o
organismo" [46, 268-69].
O que Goldstein notou em seus doentes foi a instauração de novas normas de vida por uma redução
do nível de sua atividade, em relação com um meio novo, mas limitado. A redução do meio, nos
doentes afetados por lesões cerebrais, corresponde à sua impossibilidade de responder às
exigências do meio normal, isto é, anterior. Em um meio que não seja extremamente protegido,
esses doentes só teriam reações catastróficas; ora, não sucumbindo à doença, a preocupação do
doente é escapar à angústia das reações catastróficas. Daí a mania de ordem, a meticulosidade
desses doentes, seu gosto positivo pela monotonia, seu apego a uma situação que sabem poder
dominar. O doente é doente por só poder admitir uma norma. Como já dissemos muitas vezes, o
doente não é anormal por ausência de norma, e sim por incapacidade de ser normativo.
É fácil compreender o quanto uma tal visão da doença se afasta da concepção de Comte ou de
Claude Bernard. A doença passa a ser uma experiência de inovação positiva do ser vivo, e não
apenas um fato diminutivo ou multiplicativo. O conteúdo do estado patológico não pode ser
deduzido — exceto pela diferença de formato — do conteúdo da saúde: a doença não é uma
variação da dimensão da saúde; ela é uma nova dimensão da vida. Por mais novas que essas idéias
possam parecer, para um público francês,2 não devem fazer esquecer que, em matéria de
neurologia, são o resultado de uma longa e fecunda evolução cuja iniciativa deve sua origem a
Hughlings Jackson.
Jackson concebe as doenças do sistema nervoso da vida de relação como dissoluções de funções
hierárquicas. Qualquer doença corresponde a um nível nessa hierarquia. É preciso, portanto, em
qualquer interpretação de sintomas patológicos, levar em consideração o aspecto negativo e o
aspecto positivo. A doença é, ao mesmo tempo, privação e reformulação. A lesão de um centro
nervoso superior libera os centros inferiores da regulação e do controle por ele exercidos. As lesões
são responsáveis pela privação de certas funções, porém as perturbações das funções subsistentes
devem ser atribuídas à atividade própria dos centros que, daí por diante, estão insubordinados.
Segundo Jackson, nenhum fato positivo pode ter causa negativa. Uma perda ou uma ausência não
são suficientes para causar o distúrbio do comportamento neurossensoriomotor [38]. Assim como
Vauvenargues diz que não se deve julgar as pessoas por aquilo que elas ignoram, mas sim pelo que
sabem e pela maneira como o sabem, Jackson propõe este princípio metodológico que Head
chamou de regra de ouro: "Observe o que o paciente compreende realmente e evite termos como
amnésia, alexia, surdez verbal etc." [87, 759]. Nada significa dizer que um doente esqueceu certas
palavras, enquanto não se especifica em que situação típica esse deficit é sensível. Pergunta-se a
um paciente considerado afásico: "O seu nome é João?", ele responde: "Não". Mas se lhe
ordenarmos: "Diga: Não!", ele tenta e não consegue. Uma mesma palavra pode ser dita, se tiver
valor de interjeição, e não pode ser dita, se tiver valor de conceito. Às vezes, o doente não consegue
pronunciar a palavra mas chega a ela por meio de uma perífrase. Suponhamos, diz Mourgue, que o
doente, não tendo conseguido dar o nome de alguns objetos usuais, diga, quando lhe apresentam
um tinteiro: "Isto é o que eu chamaria de um pote de porcelana para guardar tinta." Esse paciente
sofre ou não de amnésia? [87, 760].
O grande ensinamento de Jackson é que a linguagem e, de modo geral qualquer função da vida de
relação, pode ter vários usos e, particularmente, um uso intencional e um uso automático. Nas
ações intencionais há uma preconcepção, a ação é executada em potência, é sonhada, antes de ser
efetivamente executada. No caso da linguagem, podem-se distinguir-se dois momentos na
elaboração de uma proposição intencional e abstratamente significativa: um momento subjetivo,
em que as noções vêm à mente, de modo automático, e um momento objetivo, em que são
intencionalmente dispostas segundo o plano de proposição. Ora, A. Ombredane observa que,
conforme as línguas, o intervalo entre esses dois momentos é variável: "Se há línguas em que esse
intervalo é muito acentuado, como se vê pela proposição do verbo em alemão, há também línguas
em que esse intervalo diminui. Do mesmo modo, se nos lembrarmos de que, para Jackson, o
afásico mal pode ultrapassar a ordem do momento subjetivo da expressão, pode-se, como Arnold
2 A obra de Merleau-Ponty, Structure du comportement (Alcan, 1942), tem contribuído em muito para a difusão das idéias de Goldstein.
74
Picks, admitir que a gravidade da desordem afásica varia segundo a estrutura da língua na qual o
doente tenta se exprimir" [91, 194]. Em suma, as concepções de Jackson devem servir de
introdução às concepções de Goldstein.* O doente deve sempre ser julgado em relação com a
situação à qual ele reage e com os instrumentos de ação que o meio próprio lhe oferece — a língua,
no caso dos distúrbios da linguagem. Não há distúrbio patológico em si, o anormal só pode ser
apreciado em uma relação.
Porém, por mais correto que seja o paralelo estabelecido entre Jackson e Goldstein por Ombredane
[91], Ey e Rouart [38] e Cassirer [22], não se pode ignorar sua diferença profunda e a originalidade
de Goldstein. Jackson se coloca em um ponto de vista evolucionista, admite que os centros
hierarquizados das funções de relação e suas respectivas utilizações correspondem a estágios
diferentes da evolução. A relação de hierarquia funcional é também uma relação de sucessão
cronológica; as noções de superior e posterior se confundem. É a posterioridade das funções
superiores que explica sua fragilidade e precariedade. A doença, sendo dissolução, é também
regressão. O afásico ou o apráxico voltam a usar uma linguagem ou uma gesticulação de criança,
ou até mesmo de animal. A doença não cria nada, apesar de ser uma reformulação de um resto e
não apenas a perda de um bem; como diz Cassirer, ela faz o doente regredir "a uma etapa anterior
no caminho que a humanidade teve de abrir lentamente, por um esforço constante" [20, 566]. Ora,
é verdade que, segundo Goldstein, a doença é um modo de vida reduzido, sem generosidade
criativa, já que é desprovido de audácia, mas apesar disso, para o indivíduo, a doença não deixa de
ser uma vida nova, caracterizada por novas constantes fisiológicas, por novos mecanismos para a
obtenção de resultados aparentemente inalterados. Eis a razão dessa advertência, já citada: "Não se
deve crer que as diversas atitudes possíveis de um doente representem apenas uma espécie de
resíduo do comportamento normal, aquilo que sobreviveu à destruição. As atitudes que subsistiram
no doente jamais se apresentam sob essa forma no indivíduo normal, nem mesmo nos estágios
inferiores de sua ontogenia ou de sua filogenia, como freqüentemente se admite. A doença lhes deu
formas peculiares, e só se podem compreendê-las bem se levarmos em consideração o estado
mórbido" [45, 437]. Com efeito, apesar de ser possível comparar a gesticulação de um adulto
doente à de uma criança, a identificação absoluta de uma com a outra resultaria na possibilidade de
definir simetricamente o comportamento da criança como o de um adulto doente. Seria um
absurdo, por desconhecimento dessa avidez que leva a criança a se elevar constantemente até novas
normas, tão profundamente oposta à preocupação de conservação que leva o doente a manter de
modo obsessivo, e às vezes exaustivo, as únicas normas de vida dentro das quais ele se sente
relativamente normal, isto é, com possibilidade de utilizar e de dominar o meio que lhe é próprio.
Ey e Rouart compreenderam muito bem a concepção de Jackson a respeito dessa questão precisa:
"Na ordem das funções psíquicas, a dissolução ocasiona não só uma regressão da capacidade, mas
também uma involução para um nível inferior da evolução da personalidade. A regressão da
capacidade não reproduz exatamente um estágio passado, mas dele se aproxima (distúrbios da
linguagem, da percepção etc.). A involução da personalidade, justamente por ser totalitária, não
pode ser completamente identificada com uma fase histórica do desenvolvimento ontogenético ou
filogenético, pois essa involução leva a marca da regressão da capacidade e, além do mais, como
modo reacional da personalidade no momento atual, ela não pode, mesmo privada de suas
instâncias superiores, voltar a um modo reacional passado. É isso que explica que, apesar de tantas
analogias encontradas entre o delírio e a mentalidade infantil, ou a mentalidade primitiva, não se
pode concluir que haja identidade entre elas" [38, 327].
Foram ainda as idéias de Jackson que orientaram Delmas-Marsalet na interpretação dos resultados
obtidos em terapêutica neuropsiquiátrica pelo emprego do eletrochoque. Mas não contente em
distinguir, assim como Jackson, os distúrbios negativos por deficit dos distúrbios positivos por
liberação das estruturas funcionais restantes, Delmas-Marsalet, assim como Ey e Rouart, insiste
sobre aquilo que a doença faz aparecer de anormal, isto é, exatamente, de novo. Em um cérebro
submetido a efeitos tóxicos, traumáticos, infecciosos, podem aparecer modificações que consistem
* Uma tradução francesa de Aufbau des organismus, sob a responsabilidade de E. Burckardt e J. Kuntz, foi publicada em 1951 (Editora
Gallimard) com o titulo La structure de l'organisme.
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em ligações novas de território para território, em orientações dinâmicas diferentes. Um todo
celular, quantitativamente inalterado, é capaz de usar um novo arranjo de ligações diferentes de
"tipo isomérico", assim como em química os isômeros são compostos de forma global idêntica,
mas que têm determinadas cadeias colocadas em posições diferentes em relação a um núcleo
comum. Do ponto de vista terapêutico, deve-se admitir que o estado de coma obtido por
eletrochoque permite, depois de uma dissolução das funções neuropsíquicas, uma reconstrução que
não é, necessariamente, a reaparição invertida das etapas da dissolução anterior. A cura tanto pode
ser interpretada como a mutação de um arranjo em outro quanto como uma volta do doente ao
estado inicial [33]. Se indicamos aqui essas concepções tão recentes é para mostrar até que ponto a
idéia de que o patológico não se deduz linearmente do normal tende a se impor. Muitos daqueles
que rejeitariam a linguagem e o estilo de Goldstein concordarão com as conclusões de Delmas-
Marsalet, em virtude, justamente, daquilo que, pessoalmente, consideramos como sua fraqueza, a
saber, o vocabulário e as imagens de atomismo psicológico (edifício, pedras de alvenaria,* arranjos,
arquitetura etc.), que utiliza para formular suas conclusões. No entanto, apesar da linguagem, sua
probidade clínica estabelece fatos que merecem ser anotados.
* * *
Talvez se possa objetar que, expondo as idéias de Goldstein e sua relação com as idéias de Jackson,
estamos no campo dos distúrbios psíquicos, mais do que no campo dos distúrbios somáticos; que
descrevemos deficiências da atividade psicomotora, mais do que alterações de funções psicológicas
propriamente ditas, que é o ponto de vista que declaramos querer adotar especialmente. Poderíamos
responder que abordamos não apenas a exposição, mas até mesmo a leitura de Goldstein em último
lugar, e que fomos buscar na fisiopatologia todos os exemplos de fatos patológicos que trouxemos
em apoio de nossas hipóteses e afirmações, para as quais as idéias de Goldstein são um incentivo e
não uma inspiração. Preferimos, porém, apresentar novos trabalhos incontestavelmente
fisiopatológicos, e cujos autores nada devem a Goldstein quanto às tendências de suas pesquisas.
No campo neurológico, há muito que se havia notado, por meio da observação clínica e da
experimentação, que a secção dos nervos provoca sintomas que não podem ser explicados apenas
pela descontinuidade anatômica. Durante a guerra de 1914-1918, uma grande quantidade de fatos
relativos a distúrbios secundários de ordem sensitiva ou motora, posteriores a ferimentos e a
intervenções cirúrgicas, solicitaram, novamente, cuidados. As explicações da época faziam intervir
como fator causal a suplência anatômica, as pseudo-restaurações e, na falta de algo melhor, como
acontece freqüentemente, o pitiatismo. O grande mérito de Leriche é ter, já em 1919, estudado
sistematicamente a fisiologia dos cotos nervosos, e sistematizado as observações clínicas com o
nome de "síndrome do neuroglioma". Nageotte dava o nome de neuroma de amputação à
protuberância muitas vezes bem grande, constituída por cilindro-eixos e neuróglia, que se forma na
parte central da extremidade de um nervo seccionado. Leriche foi o primeiro a ver que o neuroma é
o ponto de partida de um fenômeno de tipo reflexo, e localizou a origem do dito reflexo nos
axônios dispersos do coto central. A síndrome do neuroglioma compreende um aspecto privativo e
um aspecto positivo, em suma, o aparecimento de um distúrbio ainda não conhecido. Leriche,
supondo que as fibras simpáticas são a via normal da excitação que tem origem no nível do
neuroglioma, acha que essas excitações "determinam reflexos vasomotores de tipo inabitual, em
momento inoportuno, quase sempre de tipo vasoconstritivo, e são esses reflexos que, produzindo
uma hipertonia da fibra lisa, determinam, na periferia, uma verdadeira doença nova, justaposta ao
deficit motor e sensitivo devido à secção dos nervos. Essa nova doença é caracterizada por cianose,
esfriamento, edema, distúrbios tróficos, dores" [74, 153]. A conclusão terapêutica de Leriche é que
se deve impedir a formação do neuroglioma sobretudo por meio do enxerto de nervos. O enxerto
talvez não restabeleça a continuidade anatômica, mas, de certo modo, engasta a ponta da
extremidade central e canaliza os prolongamentos da célula nervosa que renascem na extremidade
* Em francês, moellon, cuja tradução exata épedra de mão, pedra relativamente pequena (transportável manualmente) que, misturada à
argamassa, é usada nas consiruções em alvenaria. (N.T.)
76
superior. Pode-se, também, utilizar uma técnica aperfeiçoada por Foerster e que consiste na
ligadura do neurilema e na mumificação do coto pela injeção de álcool absoluto.
A. G. Weiss, trabalhando no mesmo sentido que Leriche, acha, ainda mais taxativamente que este,
que, em matéria de doença do neuroglioma, basta suprimir, imediatamente, o neuroglioma, sem
perder tempo, simulando, por meio de enxerto ou sutura, um restabelecimento de continuidade
anatômica. Não que se espere, assim, uma reconstituição integral no território do nervo lesado. Mas
é preciso escolher. Por exemplo, no caso de um enxerto cubital, é preciso escolher entre esperar a
possível correção da paralisia, se a restauração da continuidade nervosa ocorrer em conseqüência
de enxerto, ou então proporcionar imediatamente ao doente o uso de uma mão, que será sempre
parcialmente paralisada, porém capaz de uma agilidade funcional muito satisfatória.
As pesquisas histológicas de Klein podem, talvez, explicar todos esses fenômenos [119]. Quaisquer
que sejam as modalidades de detalhe observadas conforme os casos (esclerose, inflamação
hemorragia etc.), qualquer exame histológico de neuroma revela um ato constante, é o contato
persistente estabelecido entre o neuroplasma dos cilindro-eixos e a proliferação, às vezes em
proporções consideráveis, da bainha de Schwann. Essa constatação permite estabelecer um paralelo
entre os neuromas e as terminações receptoras da sensibilidade geral, constituídas pela terminação
do axônio propriamente dito e por elementos diferenciados mas sempre derivados da bainha de
Schwann. Esse paralelo confirmaria as concepções de Leriche, segundo as quais o neuroglioma é
realmente um ponto de partida de excitações inabituais.
De qualquer modo, A. G. Weiss e J. Warter têm boas razões para afirmar: "A doença do
neuroglioma ultrapassa singularmente o quadro da simples interrupção motora e sensitiva e muitas
vezes, por sua gravidade, constitui o elemento essencial da enfermidade. Isso é tão verdadeiro que
se, por um meio ou por outro, chega-se a livrar o doente dos distúrbios ligados à existência do
neuroglioma, a paralisia sensitivo-motora que subsiste assume um aspecto verdadeiramente
secundário e freqüentemente compatível com o uso relativamente normal do membro afetado"
[118].
O exemplo da doença do neuroglioma nos parece perfeitamente apropriado para ilustrar a idéia de
que a doença não é apenas o desaparecimento de uma ordem fisiológica, mas o aparecimento de
uma nova ordem vital, idéia que é tanto a de Leriche — como vimos na primeira parte deste estudo
— como a de Goldstein, e que poderia, com razão, se apoiar na teoria bergsoniana da desordem.
Não há desordem, há substituição de uma ordem esperada ou apreciada por uma outra ordem que
de nada nos serve e que temos de suportar.
* * *
No entanto, Weiss e Warter trazem uma confirmação, que certamente não esperavam, para as
idéias de Goldstein sobre a cura, mostrando que uma reconstituição funcional, satisfatória para o
doente e também para seu médico, pode ser obtida sem restitutio ad integrum na ordem anatômica
teoricamente correspondente. "Ser sadio, diz Goldstein, é ser capaz de se comportar
ordenadamente, e isso pode ocorrer apesar da impossibilidade de certas realizações que antes eram
possíveis. No entanto... a nova saúde não é a mesma que a antiga. Assim como era característica,
para a antiga normalidade, uma determinação precisa do conteúdo, assim também uma mudança de
conteúdo é característica da nova normalidade. Isso é óbvio, segundo nosso conceito de organismo
de conteúdo determinado, e torna-se da maior importância para nossa maneira de agir em relação
ao indivíduo curado... Curar, apesar dos deficits, sempre é acompanhado de perdas essenciais para
o organismo e, ao mesmo tempo, do reaparecimento de uma ordem. A isso corresponde uma nova
norma individual. Pode-se compreender o quanto é importante reencontrar uma ordem durante a
cura se atentarmos para o fato de que o organismo parece, antes de tudo, querer conservar ou
adquirir certas peculiaridades que lhe permitirão construir essa nova ordem. É o mesmo que dizer
que o organismo parece visar, antes de tudo, à obtenção de novas constantes. Encontramos
eventualmente, durante a cura — e apesar dos deficits que persistem —, transformações, em certos
77
campos, em relação ao passado, mas as propriedades tornam-se novamente, constantes.
Encontramos, de novo, constantes, tanto no campo somático quanto no campo psíquico: por
exemplo, a freqüência do pulso modificada em relação ao passado, mas relativamente constante, do
mesmo modo que a pressão sangüínea, a glicemia, o comportamento psíquico global etc. Essas
novas constantes garantem a nova ordem. Só podemos compreender o comportamento do
organismo curado se prestarmos atenção a isso. Não temos o direito de tentar modificar essas
constantes, só criaríamos, assim, uma nova desordem. Aprende-mos a nem sempre lutar contra a
febre, mas a considerar eventualmente a elevação térmica como uma dessas constantes que são
necessárias para obter a cura. Podemos agir do mesmo modo diante de pressão sangüínea elevada
ou de certas alterações no psiquismo. Existem muitas outras constantes modificadas desse modo
que ainda hoje temos tendência a suprimir como nocivas, quando agiríamos melhor se as
respeitássemos" [46, 272].
Nesse ponto, gostaríamos de acentuar a objetividade e até mesmo a banalidade das idéias diretrizes
de Goldstein, contrariando certa maneira de citá-lo que aparenta estabelecer a iniciação a uma
fisiologia hermética ou paradoxal. Não são apenas observações de críticos que ignoram suas teses,
observações estas que coincidem com o sentido das próprias pesquisas de Goldstein, são também
constatações experimentais. Kayser escrevia em 1932. "A arreflexia observada após secção
espinhal transversa é causada pela interrupção do próprio arco reflexo. O desaparecimento do
estado de choque, acompanhado do reaparecimento dos reflexos, não é o restabelecimento
propriamente dito, mas a constituição de um novo indivíduo 'reduzido'. Criou-se uma nova
entidade, 'o animal medular' (von Weizsaecker)" [63 bis, 115].
Afirmando que as novas normas fisiológicas não são o equivalente das normas anteriores à doença,
Goldstein, em suma, está apenas confirmando esse fato biológico fundamental: é que a vida não
conhece a reversibilidade. No entanto, apesar de não admitir restabelecimentos, a vida admite
reparações que são realmente inovações fisiológicas. A redução maior ou menor dessas
possibilidades de inovação dá a medida da gravidade da doença. Quanto à saúde, em seu sentido
absoluto, ela nada mais é que a indeterminação inicial da capacidade de instituição de novas
normas biológicas.
* * *
O frontispício do tomo VI da Encyclopédie française, "l'Être humain" [o Ser humano], publicado
sob a direção de Leriche, representa a saúde sob a forma de um atleta, lançador de peso. Essa
simples imagem nos parece tão cheia de ensinamentos quanto todas as páginas seguintes, dedicadas
à descrição do homem normal. Queremos reunir, agora, todas as nossas reflexões, esparsas durante
exposições e exames críticos anteriores, para com elas fazer o esboço de uma definição de saúde.
Se reconhecemos que a doença não deixa de ser uma espécie de norma biológica,
conseqüentemente o estado patológico não pode ser chamado de anormal no sentido absoluto, mas
anormal apenas na relação com uma situação determinada. Reciprocamente, ser sadio e ser normal
não são fatos totalmente equivalentes, já que o patológico é uma espécie de normal. Ser sadio
significa não apenas ser normal em uma situação determinada, mas ser, também, normativo, nessa
situação e em outras situações eventuais. O que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar
a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e
de instituir normas novas em situações novas. Permanecemos normais, com um só rim, em
determinado meio e em determinado sistema de exigências. Mas não podemos mais nos dar ao luxo
de perder um rim, devemos poupá-lo e nos poupar. As prescrições do bom senso médico são tão
familiares que nelas não se procura nenhum sentido profundo. E, no entanto, é aflitivo e difícil
obedecer ao médico que diz: "Poupe-se!". "É fácil dizer para eu me cuidar, mas tenho minha casa
para cuidar", dizia, por ocasião de uma consulta no hospital, uma dona-de-casa que não tinha
nenhuma intenção irônica ou semântica ao dizer esta frase.* Uma família significa a eventualidade
* Em francês há um trocadilho com as palavras: se ménager: se cuidar, se poupar; ménage: cuidado da casa. (N.T.)
78
do marido ou de um filho doente, da calça rasgada que é preciso remendar à noite, quando o
menino está na cama, já que ele só tem uma calça, de ir longe comprar pão se a padaria próxima
estiver fechada por infração aos dispositivos regulamentares etc. Cuidar-se... como é difícil, quando
se vivia sem saber a que horas se comia, sem saber se a escada era íngreme ou não, sem saber o
horário do último bonde porque se a hora tivesse passado, voltava-se a pé para casa, mesmo que
fosse longe.
A saúde é uma margem de tolerância às infidelidades do meio. Porém, não será absurdo falar em
infidelidade do meio? Isso ainda é admissivel quanto ao meio social humano, em que as
instituições são, no fundo, precárias; as convenções, revocáveis; as modas, efêmeras como um
relâmpago. Mas o meio cósmico, o meio do animal de modo geral não será um sistema de
constantes mecânicas, físicas e químicas, não será feito de invariantes? É claro que esse meio
definido pela ciência é feito de leis, mas essas leis são abstrações teóricas. O ser vivo não vive entre
leis, mas entre seres e acontecimentos que diversificam essas leis. O que sustenta o pássaro é o
galho da árvore, e não as leis da elasticidade. Se reduzirmos o galho às leis da elasticidade também
não deveremos falar em pássaro, e sim em soluções coloidais. Em tal nível de abstração analítica,
não se pode mais falar em meio, para um ser vivo, nem em saúde, nem em doença. Da mesma
forma, o que a raposa come é um ovo de galinha, e não a química dos albuminóides ou as leis da
embriologia. Pelo fato de o ser vivo qualificado viver no meio de um mundo de objetos
qualificados, ele vive no meio de um mundo de acidentes possíveis. Nada acontece por acaso, mas
tudo ocorre sob a forma de acontecimentos. É nisso que o meio é infiel. Sua infidelidade é
exatamente seu devir, sua história.
A vida não é, portanto, para o ser vivo, uma dedução monótona, um movimento retilíneo; ela
ignora a rigidez geométrica, ela é debate ou explicação (o que Goldstein chama de
Auseinandersetzung) com um meio em que há fugas, vazios, esquivamentos e resistências
inesperadas. É preciso repetir ainda uma vez. Não fazemos profissão de fé de indeterminismo,
apesar de, hoje em dia, este ser muito bem aceito. Achamos que a vida de qualquer ser vivo,
mesmo que seja uma ameba, não reconhece as categorias de saúde e doença a não ser no plano da
experiência, que é, em primeiro lugar, provação no sentido afetivo do termo, e não no plano da
ciência. A ciência explica a experiência, mas nem por isso a anula.
A saúde é um conjunto de seguranças e seguros (o que os alemães chamam de Sicherungen),
seguranças no presente e seguros para prevenir o futuro. Assim, como há um seguro psicológico
que não representa presunção, há um seguro biológico que não representa excesso, e que é saúde. A
saúde é um guia regulador das possibilidades de reação. A vida está, habitualmente, aquém de suas
possibilidades, porém, se necessário, mostra-se superior à sua capacidade presumida.
Isso é patente nas reações de defesa do tipo inflamatório. Se a luta contra a infecção obtivesse
vitória imediata, não haveria inflamação. Se as defesas orgânicas fossem imediatamente forçadas,
também não haveria inflamação. Se há inflamação é porque a defesa antiinfecciosa é, ao mesmo
tempo, surpreendida e mobilizada. Estar com boa saúde é poder cair doente e se recuperar; é um
luxo biológico.
Ao contrário, a característica da doença consiste em uma redução da margem de tolerância às
infidelidades do meio. E, ao falar em redução, não pretendemos ser alvo das críticas que fizemos às
concepções de Comte e de Claude Bernard. Essa redução consiste em só poder viver em meios
diferentes, e não apenas em alguns lugares do antigo meio. É o que Goldstein compreendeu muito
bem. No fundo, a ansiedade popular diante das complicações da doença traduz apenas essa
experiência. Não é tanto da doença propriamente dita que se cuida, mas sobretudo das doenças que
podem sobreviver à primeira, pois há uma precipitação de doenças, mais do que uma complicação
da doença. Cada doença reduz o poder de enfrentar as outras, gasta o seguro biológico inicial sem o
qual não haveria nem mesmo vida. O sarampo não é nada, mas o que se teme é a broncopneumonia
que pode advir. A sífilis não é tão temida senão a partir das suas incidências, de ordem nervosa. O
diabetes não é tão grave se for apenas glicosúria. Mas, e o estado de coma? Mas, a gangrena? O
que acontecerá se for necessária uma intervenção cirúrgica? A hemofilia, na verdade, não é nada,
79
enquanto não ocorrer nenhum traumatismo. Mas quem é que está a salvo de um traumatismo, a
menos que volte à existência intra-uterina? E nem mesmo assim!
Os filósofos discutem para saber se a tendência fundamental do ser vivo é a conservação ou a
expansão. Parece que a experiência médica poderia trazer um argumento de peso para esse debate.
Goldstein observa que a preocupação mórbida em evitar as situações eventualmente geradoras de
reações catastróficas exprime o instinto de conservação. Esse instinto, segundo ele, não é a lei geral
da vida, e sim a lei de uma vida limitada. O organismo sadio procura, sobretudo, realizar sua
natureza, mais do que se manter em seu estado e em seu meio atuais. Ora, isso exige que o
organismo, enfrentando riscos, aceite a eventualidade de reações catastróficas. O homem sadio não
foge diante dos problemas causados pelas alterações — às vezes súbitas — de seus hábitos, mesmo
em termos fisiológicos; ele mede sua saúde pela capacidade de superar as crises orgânicas para
instaurar uma nova ordem [49].
O homem só se sente em boa saúde — que é, precisamente, a saúde — quando se sente mais do
que normal, isto é, não apenas adaptado ao meio e às suas exigências, mas, também, normativo,
capaz de seguir novas normas de vida. Não foi, evidentemente, com a intenção expressa de dar aos
homens essa impressão que a natureza fez seus organismos com tal prodigalidade: rim demais,
pulmão demais, paratireóides demais, pâncreas demais, até mesmo cérebro demais, se limitássemos
a vida humana à vida vegetativa.3 Tal modo de pensar expressa o mais ingênuo finalismo. No
entanto, a verdade é que, sendo feito assim, o homem se sente garantido por uma superabundância
de meios dos quais lhe parece normal abusar. Ao contrário de certos médicos sempre dispostos a
considerar as doenças como crimes, porque os interessados sempre são de certa forma
responsáveis, por excesso ou omissão, achamos que o poder e a tentação de se tornar doente são
uma característica essencial da fisiologia humana. Transpondo uma frase de Valéry, dissemos que a
possibilidade de abusar da saúde faz parte da saúde.
Para julgar o normal e o patológico não se deve limitar a vida humana à vida vegetativa. Em última
análise, podemos viver, a rigor, com muitas malformações ou afecções, mas nada podemos fazer de
nossa vida, assim limitada, ou melhor, podemos sempre fazer alguma coisa, e é nesse sentido que
qualquer estado do organismo, se for uma adaptação a circunstâncias impostas, acaba sendo, no
fundo, normal, enquanto for compatível com a vida. Mas o preço dessa normalidade é a renúncia a
qualquer normatividade eventual. O homem, mesmo sob o aspecto fisico, não se limita a seu
organismo. O homem, tendo prolongado seus órgãos por meio de instrumentos, considera seu
corpo apenas como um meio de todos os meios de ação possíveis. É, portanto, para além do corpo
que é preciso olhar, para julgar o que é normal ou patológico para esse mesmo corpo. Com uma
enfermidade como o astigmatismo ou a miopia, um indivíduo seria normal em uma sociedade
agrícola ou pastoril, mas seria anormal na marinha ou na aviação. Ora, a partir do momento que a
humanidade ampliou tecnicamente seus meios de locomoção, saber que certas atividades nos são
vedadas faz com que nos sintamos anormais, pois essas atividades se tornaram, para a espécie
humana, ao mesmo tempo uma necessidade e um ideal. Portanto, só se compreende bem que, nos
meios próprios do homem, o mesmo homem seja, em momentos diferentes, normal ou anormal,
tendo os mesmos órgãos, se compreendermos como a vitalidade orgânica se desenvolve em
plasticidade técnica e em ânsia de dominar o meio.
Se deixarmos, agora, essas análises para voltar ao sentimento concreto do estado que elas
procuraram definir, compreende-se que, para o homem, a saúde seja um sentimento de segurança
na vida, sentimento este que, por si mesmo, não se impõe nenhum limite. A palavra valere, que deu
origem a valor, significa, em latim, passar bem. A saúde é uma maneira de abordar a existência
com uma sensação não apenas de possuidor ou portador, mas também, se necessário, de criador de
valor, de instaurador de normas vitais. Daí a sedução que a imagem do atleta exerce ainda hoje
3 Cf. a respeito desta questão W. B. Cannon, La sagesse du corps, cap. XI: La marge de sécurité dans la structure et les fonctions du corps
[A margem de segurança na estrutura e nas funções do corpo], Paris, 1946.
80
sobre nossas mentes, sedução esta da qual o gosto atual por um esporte racionalizado nos parece
uma aflitiva caricatura.4
4 Talvez queiram nos objetar que temos tendência para confundir a saúde com a juventude. Não esqueçamos, no entanto, de que a
velhice é um estágio normal da vida. Mas, com idades iguais, será sadio um velho que manifestar uma capacidade de adaptação ou de
reparação dos desgastes orgânicos que outro não manifeste; por exemplo, uma perfeita e sólida soldadura do colo do fêmur fraturado.
Um velho saudável não é apenas uma ficção de poeta.
81
V FISIOLOGIA E PATOLOGIA
Em conseqüência das análises precedentes, fica evidente que definir a fisiologia como a ciência das
leis ou das constantes da vida normal não é rigorosamente exato, por duas razões. Primeiro, porque
o conceito de normal não é um conceito de existência, suscetível, em si mesmo, de ser medido
objetivamente. Em seguida, porque o patológico deve ser compreendido como uma espécie do
normal, já que o anormal não é aquilo que não é normal, e sim aquilo que é um normal diferente.
Isso não quer dizer que a fisiologia não seja uma ciência. Ela o é autenticamente por sua procura de
constantes e de invariantes, por seus processos métricos, por sua atitude analítica geral. No entanto,
apesar de ser fácil definir — por meio de seu método — o modo como a fisiologia é uma ciência, é
menos fácil definir — por meio de seu objeto — de que ela é a ciência. Poderemos chamá-la de
ciência das condições da saúde? Na nossa opinião, isso já seria preferível a chamá-la de ciência das
funções normais da vida, já que julgamos dever estabelecer uma distinção entre o estado normal e a
saúde. Subsiste, porém, uma dificuldade. Quando se pensa no objeto de uma ciência, pensa-se em
um objeto estável, idêntico a si mesmo. A matéria e o movimento, regidos pela inércia, oferecem
inteira garantia a esse respeito. Mas, e a vida? A vida não é justamente evolução, variação de
formas, invenção de comportamentos? Sua estrutura não é histórica, tanto quanto histológica? A
fisiologia tenderia, então, para a história, que não é, por mais que se queira, ciência da natureza. É
verdade que, apesar disso, o caráter de estabilidade da vida não pode passar despercebido.
Para definir a fisiologia, tudo depende, em suma, da idéia que fazemos da saúde. Raphaël Dubois,
que, ao que se saiba, é o único autor de uma obra de fisiologia em que a definição dessa ciência não
é simplesmente etimológica ou puramente tautológica, fez derivar dessa mesma definição o sentido
da teoria hipocrática da natura medicatrix: "O papel da natura medicatrix se confunde com o papel
das funções normais do organismo que são todas, mais ou menos diretamente, conservadoras e
defensivas. Ora, a fisiologia estuda justamente as funções dos seres vivos ou, em outros termos, os
fenômenos normais do próteon* vivo ou biopróteon" [35, 10]. Ora, se admitirmos, como Goldstein,
que só na doença há tendência verdadeiramente conservadora, que o organismo sadio é
caracterizado pela tendência a enfrentar situações novas e a instituir novas normas, não podemos
nos satisfazer com tal maneira de pensar.
Sigerist, que procura definir a fisiologia compreendendo o sentido da primeira descoberta que lhe
deu origem, a descoberta da circulação do sangue por Harvey (1628), procede à sua maneira
habitual, que consiste em situar essa descoberta na história intelectual da civilização. Por que a
concepção funcional da vida surgiu exatamente naquele momento, nem mais cedo, nem mais tarde?
Sigerist não separa a ciência da vida — nascida em 1628 — da concepção geral — ou melhor,
filosófica — da vida que se exprimia então nas diversas atitudes do indivíduo diante do mundo. As
artes plásticas foram as primeiras, no fim do século XVI e início do século XVII, a definir o estilo
barroco, e liberaram totalmente o movimento. Ao contrário do artista clássico, o artista barroco só
vê na natureza o que está inacabado, virtual, ainda não circunscrito. "O homem da época barroca
não se interessa pelo que é, e sim pelo que vai ser. O barroco é infinitamente mais que um estilo
artístico, é a expressão de uma forma de pensamento que, nessa época, reinava em todos os campos
da atividade humana: na literatura, na música, na moda, no Estado, na maneira de viver, nas
ciências" [107, 41]. Os homens do começo do século XVI, fundando a anatomia, tinham dado lugar
privilegiado ao aspecto estático, delimitado, da forma viva. Aquilo que Woelfflin diz sobre o artista
barroco, isto é, que ele não vê o olho, e sim o olhar, Sigerist também diz sobre o médico, no
começo do século XVII: "Ele não vê o músculo, mas sua contração e o efeito que ela produz. Eis
como nasce a anatomia animata, a fisiologia. O objeto desta última ciência é o movimento. Ela
abre as portas ao ilimitado. Cada problema fisiológico leva às fontes da vida e permite perspectivas
para o infinito" [ibid.]. Harvey, apesar de anatomista, não via, no corpo, a forma, e sim o
movimento. Suas pesquisas não são baseadas na configuração do coração, mas na observação do
* Em francês, proteon; palavra não dicionarizada, nem em francês, nem em português. (N.T.)
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pulso e da respiração, dos movimentos que só cessam com a vida. A idéia funcional, em medicina,
acompanha a arte de Michelangelo e a mecânica dinâmica de Galileu [107, 42].1
É óbvio que, de acordo com as considerações anteriores relativas à saúde, esse "espírito" da
fisiologia nascente parece-nos que não deve ser esquecido na definição da fisiologia como ciência
das condições da saúde. Falamos, muitas vezes, dos modos de ser da vida, preferindo, em certos
casos, esta expressão ao termo comportamento, para fazer sentir melhor que a vida é polaridade
dinâmica. Parece-nos que, definindo a fisiologia como ciência dos ritmos estabilizados da vida,
respondemos a quase todas as exigências oriundas de nossas posições anteriores. Por um lado,
atribuímos à pesquisa um objeto cuja identidade consigo mesmo provém mais de um hábito que de
uma natureza, mas cuja constância relativa talvez seja mais precisamente adequada para explicar os
fenômenos — apesar de tudo, flutuantes — de que trata o fisiologista. Por outro lado, admitimos a
possibilidade de a vida ultrapassar constantes ou invariantes biológicas codificadas e consideradas
convencionalmente como normas, em um determinado momento do saber fisiológico. É que, com
efeito, modos de ser só podem ser estabilizados depois de terem sido testados, pela ruptura de uma
estabilidade anterior. Enfim, parece-nos que, a partir da definição proposta, podemos delimitar
mais corretamente as relações entre a fisiologia e a patologia.
Há dois tipos de comportamentos inéditos da vida. Há os que se estabilizam em novas constantes,
mas cuja estabilidade não constituirá obstáculo a uma nova superação eventual. Trata-se de
constantes normais de valor propulsivo. São realmente normais por normatividade. E há os que se
estabilizam sob forma de constantes que o ser vivo se esforçará, ansiosamente, por preservar de
qualquer perturbação eventual. Trata-se ainda de constantes normais, mas de valor repulsivo,
exprimindo, nelas, a morte da normatividade. Nisso, essas constantes são patológicas, apesar de
normais enquanto nelas puder viver o ser vivo. Em suma, no momento de uma ruptura de
estabilidade fisiológica, em período de crise evolutiva, a fisiologia perde seus direitos, mas nem por
isso perde o fio da meada. Ela não sabe, de antemão, se a nova ordem biológica será fisiológica ou
não, mas terá, posteriormente, meios de encontrar entre as constantes aquelas que reivindica como
suas. Esse processo consistirá, por exemplo, em fazer variar experimentalmente o meio, para saber
se as constantes consideradas podem ou não suportar, sem reação catastrófica, uma flutuação das
condições de existência. É esse fio condutor que nos permite, por exemplo, compreender a
diferença entre a imunidade e a anafilaxia. A presença de anticorpos no sangue é comum a uma e a
outra forma de reatividade. Mas enquanto a imunidade confere ao organismo a insensibilidade a
uma invasão de micróbios ou de toxinas no meio interno, a anafilaxia é uma hipersensibilidade
adquirida à penetração, no meio interno, de substâncias específicas e sobretudo de matérias
protéicas [104]. Depois de uma primeira modificação (por infecção, ou injeção, ou intoxicação) do
meio interno, uma segunda invasão é ignorada pelo organismo imunizado, ao passo que provoca,
no caso da anafilaxia, uma reação de choque extremamente grave, freqüentemente mortal, tão
súbita, que a ela se dá o nome de desencadeante à injeção experimental que a provoca, sendo, por
conseguinte, uma reação tipicamente catastrófica. A presença de anticorpos no soro sangüíneo é,
portanto, sempre normal, se o organismo tiver reagido a uma primeira agressão do meio por uma
modificação de suas constantes e a ele se tiver adaptado; porém, neste caso, a normalidade é
fisiológica e, no primeiro, é patológica.
* * *
Segundo Sigerist, Virchow definia a patologia como uma "fisiologia com obstáculos" [107, 137].
Esse modo de compreender a doença, fazendo-a derivar das funções normais contrariadas por um
fator estranho que as complica sem contudo alterá-las, aproxima-se das idéias de Claude Bernard e
provém de princípios patogênicos bastante simples. Sabemos, por exemplo, como são constituídos
um coração ou um rim, o modo como o sangue ou a urina os atravessam; se imaginarmos
vegetações ulcerantes de endocardite sobre a válvula mitral ou um cálculo no bassinete, estaremos
1 Singer, nas páginas — notáveis, aliás — que dedica a Harvey, insiste sobretudo no caráter tradicional de suas concepções biológicas,
de modo que ele teria sido um inovador pela sua integridade metodológica, e não obstante seus postulados doutrinários [108].
83
em condições de compreender a patologia de sintomas como um sopro cardíaco ou uma dor
irradiada de cólica nefrética. Mas talvez haja, nessa concepção, uma confusão da ordem pedagógica
com a ordem heurística. O ensino da medicina começa justamente pela anatomia e pela fisiologia
do homem normal, a partir das quais se pode deduzir — às vezes bem facilmente, admitindo certas
analogias mecânicas — a razão de certos estados patológicos, por exemplo, no campo circulatório,
o fígado cardíaco, a ascite, os edemas; no campo sensoriomotor, a hemianopsia ou a paraplegia.
Ora, parece que a ordem de aquisição dessas correspondências anatomofisiológicas foi invertida. O
doente foi o primeiro a constatar, um dia, que "alguma coisa não ia bem"; notou certas
modificações, surpreendentes ou dolorosas, da estrutura morfológica ou do comportamento. Com
ou sem razão, chamou a atenção do médico para essas modificações. Este, alertado pelo doente,
procedeu à exploração metódica dos sintomas patentes e, mais ainda, dos sintomas latentes. Se,
tendo morrido o doente, procedeu-se à autópsia, procurou-se, por todas as maneiras possíveis, em
todos os órgãos, certas particularidades que foram comparadas aos órgãos de indivíduos mortos
sem nunca terem apresentado sintomas semelhantes. Confrontou-se a observação clínica e o
protocolo da autópsia. Foi assim que, graças à anatomia patológica, mas também graças a hipóteses
ou a conhecimentos relativos aos mecanismos funcionais, a patologia tornou-se uma fisiologia com
obstáculos.
Ora, acorre aqui um esquecimento profissional, que talvez possa ser explicado pela teoria freudiana
dos lapsos e dos atos falhos, e que deve ser destacado. O médico tem tendência a esquecer que são
os doentes que chamam o médico. O fisiologista tem tendência a esquecer que a fisiologia foi
precedida por uma medicina clínica e terapêutica, e nem sempre tão absurda quanto se diz. Uma
vez reparado esse esquecimento, somos levados a pensar que foi a experiência de um obstáculo,
vivida primeiro por um homem concreto, sob a forma de doença, que suscitou a patologia em seus
dois aspectos, de semiologia clínica e de interpretação fisiológica dos sintomas. Se não houvesse
obstáculos patológicos, não haveria também fisiologia, pois não haveria problemas fisiológicos a
resolver. Resumindo as hipóteses que havíamos proposto quando analisamos as idéias de Leriche,
podemos dizer que, em matéria de biologia, é o pathos que condiciona o logos porque é ele que o
chama. É o anormal que desperta o interesse teórico pelo normal. As normas só são reconhecidas
como tal nas infrações. As funções só são reveladas por suas falhas. A vida só se eleva à
consciência e à ciência de si mesma pela inadaptação, pelo fracasso e pela dor. A. Schwartz
observou, como já o havia feito Emest Naville, a desproporção flagrante entre o lugar que a sono
ocupa na vida dos homens e o lugar que ocupa nas obras de fisiologia [104], assim como George
Dumas observou que a bibliografia relativa ao prazer é ínfima, comparada com a abundância de
trabalhos dedicados à dor. É que dormir e gozar consistem em deixar a vida correr naturalmente.
No Traité de physiologie normale et pathologique [1], Abelous atribui a Brown-Séquard o mérito
de ter criado a endocrinologia, ao constatar, em 1856, que a ablação das supra-renais provocava a
niorte de um animal. Parece tratar-se de um fato que se basta a si mesmo. Ninguém indaga como é
que ocorreu a Brown-Séquard a idéia de praticar a ablação das supra-renais. Ignorando as funções
da supra-renal, a decisão de praticar essa ablação não pode ser tomada apenas por dedução. Não,
mas é um acidente que se imita. E, de fato, Sigerist mostra que justamente foi a clínica que deu
impulso à endocrinologia. Em 1855, Addison descrevia a doença que desde então leva seu nome e
que ele atribuiu a uma afecção das supra-renais [107, 57]. Partindo desse ponto de vista,
compreendem-se as pesquisas experimentais de Brown-Séquard. No mesmo Traité de physiologie
[112, 1011], Tournade observa judiciosamente a relação entre Brown-Séquard e Addison e cita esta
anedota, de grande alcance epistemológico: em 1716 a Academia de Ciências de Bordeaux tinha
proposto como tema de concurso: "Qual é a função das glândulas supra-renais?". Montesquieu,
encarregado do relatório, concluiu que nenhuma das memórias apresentadas podia satisfazer a
curiosidade da Academia, e acrescentou: "O acaso talvez faça um dia o que todo este trabalho não
pôde fazer."
Tomemos o seguinte exemplo, do mesmo tipo de pesquisa: todos os fisiologistas dizem que se deve
a von Mering e Minkowski a descoberta do papel do hormônio pancreático no metabolismo dos
glucídios, em 1889. Mas freqüentemente se ignora que foi involuntariamente que esses dois
pesquisadores tomaram diabético um cão, tão célebre em patologia quanto o de São Roque em
84
hagiografia. Foi para o estudo da secreção pancreática externa e de seu papel na digestão que o cão
tinha sido privado de pâncreas. Naunyn, em cujo serviço a experiência tinha sido feita, conta que
estavam no verão, e que o servente do laboratório ficou impressionado com o número inabitual de
moscas nas gaiolas dos animais. Naunyn, em virtude do princípio de que há moscas onde há
açúcar, aconselhou a análise da urina do cão. Von Mering e Minkowski tinham provocado,
portanto, por meio da pancreatectomia, um fenômeno análogo ao do diabetes [2]. Assim, o artificio
permite a descoberta, mas sem premeditação.
Da mesma forma, meditemos durante um momento sobre estas palavras de Déjerine: "É quase
impossível descrever de modo preciso os sintomas da paralisia do glossofaríngeo: com efeito, a
fisiologia ainda não estabeleceu exatamente qual é a distribuição motora desse nervo, e, por outro
lado, na clínica, a paralisia isolada do glossofaríngeo não se observa, praticamente, nunca. Na
realidade, o glossofaríngeo sempre está lesado juntamente com o pneumogástrico ou o espinhal
etc." [31, 587]. Parece-nos que a razão principal, senão única, pela qual a fisiologia ainda não
estabeleceu exatamente a distribuição motora do glossofaríngeo é justamente o fato de as lesões
desse nervo não provocarem nenhuma síndrome patológica isolada. I. Geoffroy Saint-Hilaire
demonstrava uma perspicácia bastante rara quando atribuía, à ausência de qualquer sintoma
morfológico ou funcional, a lacuna correspondente às heterotaxias na ciência teratológica de seu
tempo.
A concepção de Virchow sobre as relações entre a fisiologia e a patologia é insuficiente não só
porque desconhece a ordem normal de subordinação lógica entre a fisiologia e a patologia, mas
também porque implica a idéia de que a doença, por si mesma, nada cria. Ora, já nos estendemos
por demais expressamente sobre este último ponto, para voltar ainda ao mesmo assunto. No
entanto, os dois erros nos parecem ligados. É por não se admitir na doença nenhuma norma
biológica própria que dela nada se espera para a ciência das normas da vida. Um obstáculo só faria
retardar, interromper ou desviar uma força ou uma corrente, sem alterá-las. Uma vez levantado o
obstáculo, o patológico voltaria a ser fisiológico, o antigo fisiológico. Ora, isto é o que não
podemos admitir, nem segundo Leriche, nem segundo Goldstein. A nova norma não é a norma
antiga. E como essa capacidade de instituir novas constantes com valor de norma pareceu-nos
característica do aspecto fisiológico do ser vivo, não podemos admitir que a fisiologia possa se
constituir antes da patologia, e, independentemente dela, para instituí-la objetivamente.
Não se concebe, hoje em dia, que seja possível publicar um tratado de fisiologia normal sem um
capítulo dedicado à imunidade, à alergia. O conhecimento deste último fenômeno nos permite
compreender que cerca de 97% dos homens brancos apresentam uma cutirreação positiva à
tuberculina, sem, no entanto, serem todos tuberculosos. E, no entanto, o célebre erro de Koch é que
deu origem a esses conhecimentos. Tendo constatado que a injeção de tuberculina em um paciente
já tuberculoso provoca acidentes graves, ao passo que é inofensiva para um indivíduo são, Koch
acreditou ter encontrado na tuberculinização um método infalível de diagnóstico. Mas, tendo lhe
atribuído também erradamente um valor curativo, obteve resultados cuja triste lembrança só foi
apagada por sua conversão ulterior no meio de diagnóstico preciso e de detecção preventiva da
doença que é a cutirreação, processo esse devido a von Pirquet. Quase todas as vezes que, em
matéria de fisiologia humana, dizemos: "Sabe-mos atualmente que...", descobriríamos, procurando
bem — e sem querer diminuir a parte que cabe à experimentação —, que o problema tinha sido
colocado e sua solução muitas vezes esboçada pela clínica e pela terapêutica, e muitas vezes às
custas — biologicamente, é claro — do doente. Assim é que, apesar de Koch ter descoberto em
1891 o fenômeno que leva seu nome e que deu origem à teoria da alergia e à técnica da cutirreação,
já em 1886 Marfan havia tido, do ponto de vista clínico, a intuição de que certas manifestações
tuberculosas podem determinar uma imunidade a outras manifestações, baseando-se na raridade da
coexistência de localizações tuberculosas ósseas, como a coxalgia ou o mal de Pott e da tísica. Em
resumo, no caso da alergia, fenômeno geral do qual a anafilaxia constitui uma espécie, percebemos
a passagem de uma fisiologia ignorante a uma fisiologia sábia, por meio da clínica e da terapêutica.
Hoje em dia, uma patologia objetiva procede da fisiologia, mas outrora a fisiologia procedeu de
uma patologia que se deve chamar de subjetiva, e, por isso mesmo, sem dúvida imprudente, mas
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também, sem dúvida, audaciosa e, por isso mesmo, progressista. Qualquer patologia é subjetiva em
relação ao futuro.
* * *
Será apenas em relação ao futuro que a patologia é subjetiva? Nesse sentido, qualquer ciência
objetiva por seu método e seu objeto é subjetiva em relação ao futuro, já que, a menos que a
consideremos perfeitamente acabada, muitas das verdades de hoje serão amanhã consideradas
como erros do passado. Quando Claude Bernard e Virchow, cada um por seu lado, tinham a
ambição de constituir uma patologia objetiva, um sob a forma de patologia das regulações
funcionais, e o outro sob a forma de patologia celular, eles tinham tendência a incorporar a
patologia às ciências da natureza, a assentar a patologia sobre as bases da lei e do determinismo.2 É
essa pretensão que queremos examinar. Ora, se pareceu impossível manter a definição da fisiologia
como ciência do normal, parece difícil admitir que pudesse haver uma ciência da doença e que
possa haver uma patologia puramente científica.
Essas questões de metodologia médica não despertaram muito interesse na França, nem entre os
filósofos, nem entre os médicos. Que se saiba, o antigo trabalho de Pierre Delbet na coletânea De la
méthode dans les sciences [32] não teve seguidores. Em compensação, em outros países, e
sobretudo na Alemanha, esses problemas são tratados com muita perseverança e cuidado.
Propomos reproduzir, da obra de Herxheimer, Krankheitslehre der Gegenwart (1927), uma
exposição das concepções de Ricker, de Magdebourg e das controvérsias que elas suscitavam.
Damos, intencionalmente, a essa exposição a forma de um resumo das páginas 6 a 18 do livro de
Herxheimer [55],3 parafraseado e entrecortado de citações.
Ricker expôs suas idéias sucessivamente na Pathologie des relations (1905); Éléments d'une
logique de la physicologie considerée comme pure science de la nature (1912); Physiologie,
pathologie, médecine (1923); La pathologie comme science de la nature, pathologie des relations
(1924). Ricker delimita os campos da fisiologia, da patologia, da biologia e da medicina. As
ciências da natureza se baseiam na observação metódica e na reflexão sobre essas observações a
fim de chegar a explicações, isto é, a enunciados de relações causais entre os processos fisicos,
sensíveis, ocorridos no meio a que os homens pertencem, meio este do qual os próprios homens
fazem parte, como seres fisicos. Isso exclui o psiquismo do objeto das ciências da natureza. A
anatomia descreve objetos morfológicos; seus resultados não têm, em si mesmos, valor explicativo,
mas o adquirem por sua ligação com os resultados de outros métodos, contribuindo, assim, para a
explicação dos fenômenos que constituem o objeto de uma ciência independente: a fisiologia.
"Enquanto a fisiologia explora o mais freqüente e mais regular caminho desses processos, e que é
por isso chamado normal, a patologia (que foi artificialmente separada dá fisiologia) trata de suas
formas mais raras que são chamadas anormais; portanto, deve estar também sujeita a métodos
científicos. A fisiologia e a patologia reunidas como uma única ciência, a qual só poderia ser
chamada de fisiologia, examinam os fenômenos no homem físico, tendo em vista um conhecimento
teórico, científico" (La pathologie comme science naturelle, p. 321) [55, 7]. A fisiologia-patologia
deve determinar as relações causais entre fenômenos fisicos, mas, como não existe conceito
científico da vida — exceto um conceito puramente diagnóstico —, ela não tem nada a ver com os
objetivos e fins e, por conseguinte, com os valores em relação à vida. Nenhuma teleologia, mesmo
que não seja transcendente, mas apenas imanente, nenhuma teleologia que parta de uma finalidade
do organismo ou que a ele se refira, ou à conservação da vida etc.; conseqüentemente, nenhum
julgamento de valor pertence ao campo das ciências naturais, nem, portanto, ao campo da
fisiologia-patologia [55, 7].
Isso não exclui a legitimidade dos julgamentos de valor ou das aplicações práticas. Mas os
primeiros se referem à biologia, como parte da filosofia da natureza e, portanto, da filosofia; e as
2 Cf. o estudo de M.-D. Grmek, Opinion de Claude Bernard sur Virchow et la pathologie cellulaire. In: Castalia (Milão), jan.-jun. 1965.
3 As circunstâncias não permitiram que nos referíssemos diretamente às obras de Ricker.
86
segundas se relacionam com a medicina e a higiene, consideradas como ciências aplicadas, práticas
e teleológicas, que têm como função utilizar, de acordo com suas finalidades, o que foi explicado:
"O pensamento teleológico da medicina se baseia nos julgamentos de causalidade da fisiologia e da
patologia que formam, portanto, a base científica da medicina" [55, 8]. A patologia, sendo pura
ciência da natureza, deve proporcionar conhecimentos causais, mas não fazer julgamentos de valor.
A essas proposições de lógica geral, Herxheimer responde, em primeiro lugar, que não se costuma
classificar, como o faz Ricker, a biologia na filosofia, pois se tomarmos como referência as análises
dos representantes da filosofia dos valores, como Windelband, Münsterberg e Rickert, pode-se
reconhecer que a biologia tem o direito de utilizar valores propriamente normativos; deve, portanto,
ser classificada entre as ciências naturais. Além disso, certos conceitos, como os de movimento, de
nutrição, de geração, aos quais o próprio Ricker reconhece um sentido teleológico, são inseparáveis
da patologia, por razões psicológicas próprias da pessoa que trata desses assuntos e, ao mesmo
tempo, por razões que residem nos próprios objetos dos quais ela trata [55, 8].
Por um lado, com efeito, o pensamento científico, mesmo em relação a objetos isentos de valores,
não deixa de ser um julgamento axiológico, pelo fato de ser um ato psicológico. Apenas do ponto
de vista lógico ou científico pode ser "vantajoso" — no dizer do próprio Ricker — adotar certas
convenções ou certos postulados. Nesse sentido, pode-se admitir, assim como Weigert ou Peters,
uma finalidade da organização ou das funções do ser vivo. Desse ponto de vista, noções como
atividade, adaptação, regulação, autoconservação — noções que Ricker gostaria de eliminar da
ciência — são vantajosamente conservadas em fisiologia e, portanto, também em patologia [55, 9].
Em suma, como Ricker compreendeu muito bem, o pensamento científico encontra, na linguagem
usual, na linguagem vulgar não científica, um instrumento deficiente. Porém, como diz Marchand,
isso não obriga a "pressentir em cada termo simplesmente descritivo uma segunda intenção
teleológica". A linguagem usual é insuficiente no sentido que, nessa linguagem, os seus termos
têm, freqüentemente, um valor absoluto, ao passo que, em pensamento, atribuímo-lhes um sentido
apenas relativo. Dizer, por exemplo, que um tumor tem uma vida autônoma não significa que essa
vida seja realmente independente das vias, dos materiais e dos modos de nutrição dos outros
tecidos, e sim que, comparada a estes últimos, ela é relativamente independente. Mesmo em física e
química, empregam-se termos e expressões de significação aparentemente teleológica; no entanto,
ninguém acha que eles correspondem realmente a atos psíquicos [55, 10]. Ricker acha que não se
devem deduzir os processos ou as relações biológicas a partir de qualidades ou de capacidades.
Estas devem ser analisadas em processos parciais, e suas reações recíprocas devem ser constatadas.
Mas ele próprio admite que nos pontos em que essa análise não é aceitável — no caso da
excitabillidade do nervo, por exemplo — a noção de qualidade é inevitável e pode servir de
estimulante para a pesquisa do processo correspondente. Roux, em sua mecânica do
desenvolvimento (Entwickelungsmechanik), é obrigado a admitir certas qualidades ou propriedades
do ovo, a utilizar as noções de pré-formação, de regulação etc., e, no entanto, suas pesquisas são
voltadas para a explicação causal dos processos normais e anormais de desenvolvimento [55, 11-
12].
Por outro lado, se nos colocarmos do ponto de vista do próprio objeto da pesquisa, devemos
constatar um recuo das pretensões do mecanismo físico-químico não apenas em biologia, mas até
mesmo em fisica e química. Em todo caso, são inúmeros os patologistas que respondem
afirmativamente ao problema de saber se o aspecto teleológico dos fenômenos biológicos deve ser
levado em consideração, e entre eles contam-se especialmente os nomes de Aschoff, Lubarsch,
Ziehen, Bier, Hering, R. Meyer, Beitzke, B. Fischer, Hueck, Roessle, Schwarz. Em relação, por
exemplo, às lesões graves do cérebro, como no caso da tabes ou da paralisia geral, Ziehen não sabe
até que ponto se trata de processos destrutivos e até que ponto se trata de processos defensivos e
reparadores, conformes a uma finalidade, mesmo se não a atingem [55, 12-13]. É necessário
também mencionar o ensaio de Schwarz: "La recherche du sens comme catégorie de la pensée
médicale" [A procura do significado como categoria do pensamento médico]. Como categoria da
física — no sentido kantiano da palavra categoria — ele designa a causalidade: "A concepção do
mundo segundo a fisica é determinada pela aplicação da causalidade, como categoria, a uma
matéria mensurável, dispersa, sem qualidade." Os limites de tal aplicação estão no ponto em que tal
87
dissolução em partes não é possível, no ponto em que aparecem, em biologia, objetos
caracterizados por uma uniformidade, uma individualidade, uma totalidade cada vez mais precisas.
A categoria competente, aqui, é a de "sentido". "O sentido é, por assim dizer, o órgão pelo qual
percebemos, no nosso pensamento, a estrutura, o fato de ter forma; é o reflexo da estrutura na
consciência do observador." À noção de sentido Schwarz acrescenta a de finalidade, apesar de esta
pertencer a uma outra ordem de valor. Mas elas têm funções análogas tanto no campo do
conhecimento quanto no do devir, de onde tiram qualidades comuns: "Assim, percebemos o sentido
de nossa própria organização na tendência à autoconservação, e só uma estrutura do meio que seja
dotada de sentido nos permite distinguir finalidades nessa mesma organização. É assim que, pela
consideração das finalidades, a categoria abstrata do sentido se enche de vida real. No entanto, a
consideração das finalidades (como método heurístico, por exemplo) é sempre provisória, um
sucedâneo, por assim dizer, à espera de que o sentido abstrato do objeto se torne acessível a nós."
Em resumo, em patologia, uma maneira de ver teleológica não é mais rejeitada, em princípio, pela
maioria dos cientistas atuais, ao passo que sempre foram empregados, sem que o percebêssemos,
termos de conteúdo teleológico [55, 15-16]. É claro que o fato de levar em consideração os fins
biológicos não deve nos dispensar de procurar uma explicação de tipo causal. Nesse sentido, a
concepção kantiana da finalidade é ainda atual. Por exemplo, é fato que a ablação das supra-renais
provoca sempre a morte. Afirmar que a cápsula supra-renal é necessária à vida é um julgamento de
valor biológico que não dispensa a pesquisa, em detalhes, das causas pelas quais se obtém um
resultado biologicamente útil. No entanto, supondo-se que seja possível uma explicação completa
das funções da supra-renal, o pensamento teleológico que reconhece a necessidade vital da cápsula
supra-renal conservaria ainda seu valor independente, levando-se em consideração justamente sua
aplicação prática. A análise e a síntese formam um todo, sem que uma substitua a outra. É
necessário que tenhamos consciência da diferença entre as duas concepções [55, 17]. É certo que o
termo "teleologia" ainda está por demais carregado de implicações de natureza transcendental para
ser empregado de modo proveitoso; "final" já é um termo melhor; porém o que conviria mais ainda
seria, talvez, "organísmico", termo empregado por Aschoff, pois exprime bem o fato de se referir à
totalidade. Esse modo de se expressar está de acordo com a tendência atual que é a de colocar de
novo em primeiro plano — tanto em patologia como no resto — o organismo total e seu
comportamento [55, 17].
Sem dúvida, Ricker não proscreve de maneira absoluta tais considerações, mas quer eliminá-las
totalmente da patologia como ciência da natureza para devolvê-las à filosofia da natureza, que ele
chama de biologia, e — quanto à sua aplicação prática — à medicina. Ora, desse ponto de vista o
problema é justamente saber se tal distinção é útil em si mesma. Isso foi negado quase
unanimemente, e com razão, ao que parece. É assim que Marchand escreve: "Pois é bem verdade
que a patologia não é apenas uma ciência natural no que se refere ao objeto de suas pesquisas, mas
que sua tarefa é explorar o resultado de suas pesquisas para a medicina prática." Hueck, referindose
a Marchand, diz que isso seria totalmente impossível sem a valorização e a interpretação
teleológica dos processos, que Ricker não aceita. Tomemos como exemplo um cirurgião. O que
diria ele se um patologista lhes respondesse, ao enviar-lhe suas constatações, após a biópsia de um
tumor, que saber se o tumor é maligno ou benigno é uma questão de filosofia, e não de patologia?
O que é que se ganharia com a divisão de trabalho preconizada por Ricker? A medicina prática não
conquistaria, de um modo mais amplo, o sólido terreno científico no qual poderia se basear. Não se
pode, portanto, seguir Honigmann, que, aprovando as idéias de Ricker para a patologia mas
rejeitando-as para o clínico, chega logo à conclusão de que é preciso transferir a fisiologiapatologia
e a anatomia da Faculdade de Medicina para a Faculdade de Ciências. O resultado seria
condenar a medicina à pura especulação eprivar afisiologia-patologia de estímulos da maior
importância. Lubarsch estava certo ao dizer: "Para a patologia geral e a anatomia patológica, os
perigos residem sobretudo no fato de elas se tornarem excessivamente unilaterais e solitárias;
relações mais estreitas entre elas e a clínica, tais como existiam no tempo em que a patologia ainda
não tinha se tornado uma especialidade, seriam certamente do maior proveito para ambas as partes"
[55, 18].
88
* * *
Não há dúvida de que, definindo o estado fisiológico pela freqüência dos mecanismos e das
estruturas que apresentam, e o estado patológico pela raridade desses mesmos mecanismos e
estruturas, Ricker pode, legitimamente, conceber que a um e a outro deve caber o mesmo
tratamento heurístico e explicativo. Como achamos que não devíamos admitir a validade de um
critério de ordem estatística, não podemos também admitir que a patologia se amolde
completamente à fisiologia e se torne ciência, embora continuando a ser, no entanto, ciência do
patológico. Na realidade, todos os que aceitam a redução dos fenômenos biológicos sadios e
patológicos a fatos estatísticos são levados, mais cedo ou mais tarde, a reconhecer o seguinte
postulado, implícito nesta redução, e que consiste em uma frase de Mainzer, citada por Goldstein:
"não há diferença entre vida sadia e vida mórbida" [46, 267].
Ao examinarmos a teoria de Claude Bernard, já vimos em que sentido preciso uma tal proposição
pode ser defendida. As leis da fisica e da química não variam segundo a saúde ou a doença. No
entanto, se admitirmos, do ponto de vista biológico, que a vida não faz diferença entre esses
estados, estaremos nos condenando a não poder nem mesmo distinguir um alimento de um
excremento. É claro que o excremento de um ser vivo pode ser alimento para outro ser vivo, mas
não para ele mesmo. O que distingue um alimento de um excremento não é uma realidade fisicoquímica,
e sim um valor biológico. Da mesma forma, o que distingue o fisiológico do patológico
não é uma realidade objetiva de tipo físico-químico, e sim um valor biológico. Como diz Goldstein,
quando somos levados a pensar que a doença não é uma categoria biológica, isso já nos deveria
fazer duvidar das premissas das quais partimos: "Doença e saúde não seriam noções biológicas! Se
não levarmos em conta as condições complexas do homem, essa regra certamente não é válida para
o animal, já que, para ele, a doença tantas vezes determina o ser ou o não-ser do organismo
individual. Basta pensar no papel fatal que a doença desempenha na vida do animal não
domesticado, do animal que não goza da proteção do homem. Se a ciência da vida não estivesse em
condições de compreender os fenômenos patológicos, surgiriam as mais sérias dúvidas em relação
à exatidão de suas categorias fundamentais" [46, 267].
Ricker reconhece, sem dúvida, os valores biológicos; no entanto, recusando-se a incorporar esses
valores ao objeto de uma ciência, faz do estudo desses valores uma parte da filosofia. Ora, o que
lhe censuraram justamente, segundo Herxheimer e segundo nós mesmos, foi essa inserção da
biologia na filosofia.
Como, então, resolver esta dificuldade: se nos colocarmos no ponto de vista estritamente objetivo,
não há diferença entre a fisiologia e a patologia; e se procurarmos, nos valores biológicos, uma
diferença entre elas, teremos saído do terreno científico?
Como elementos de uma solução, proporíamos as considerações seguintes:
I — No sentido estrito do termo, segundo o uso francês, só há ciência de um objeto se esse objeto
admitir a medida e a explicação causal, em suma, a análise. Toda ciência tende, assim, à
determinação métrica pelo estabelecimento de constantes ou de invariantes.
II — Esse ponto de vista científico é um ponto de vista abstrato, traduz uma escolha e, portanto, o
abandono de outros pontos de vista. Procurar aquilo que a experiência vivida dos homens é na
realidade significa não levar em conta o valor que ela é capaz de receber para eles e por eles. Antes
da ciência, são as técnicas, as artes, as mitologias e as religiões que valorizam espontaneamente a
vida humana. Depois do aparecimento da ciência, são ainda as mesmas funções, mas cujo conflito
inevitável com a ciência deve ser resolvido pela filosofia, que é, assim, expressamente, filosofia
dos valores.
III— O homem, tendo sido levado a criar para si mesmo métodos e uma necessidade de determinar
cientificamente o real, vê forçosamente a ambição de determinação do real estender-se à própria
vida.
89
A vida torna-se um objeto de ciência; e tornou-se, de fato, historicamente, já que nem sempre o foi.
Acontece, portanto, que a ciência da vida tem a vida como sujeito — já que ela é um
empreendimento do homem vivo —, e também como objeto.
IV — Ao procurar determinar as constantes e as invariantes que definem realmente os fenômenos
da vida, a fisiologia faz uma autêntica obra de ciência. Mas, procurando qual é o sentido vital
dessas constantes, qualificando umas como normais e outras como patológicas, o fisiologista faz
mais — e não menos — do que uma obra de ciência no sentido estrito. Não considera mais a vida
apenas como uma realidade idêntica a si mesma, mas como um movimento polarizado. Sem o
saber, o fisiologista deixa de ver a vida com um olhar indiferente, com o olhar do fisico que estuda
a matéria; ele considera a vida como ser vivo que a vida atravessa, também, em certo sentido.
V — É que a atividade científica do fisiologista, por mais que, em seu laboratório, ele a conceba
como separada e autônoma, conserva uma relação mais ou menos estreita, porém incontestável,
com a atividade médica. São os insucessos da vida que chamam — e que sempre chamaram — a
atenção para a vida. Todo conhecimento tem origem na reflexão sobre um insucesso da vida. Isso
não significa que a ciência seja uma receita dos processos de ação, mas, ao contrário, que o
progresso da ciência supõe um obstáculo à ação. É a própria vida, pela diferença que estabelece
entre seus comportamentos propulsivos e seus comportamentos repulsivos, que introduz na
consciência humana as categorias de saúde e de doença. Essas categorias são biologicamente
técnicas e subjetivas, e não biologicamente científicas e objetivas. Os seres vivos preferem a saúde
à doença. O médico tomou, explicitamente, o partido do ser vivo; ele está a serviço da vida, e é a
polaridade dinâmica da vida que ele expressa, quando fala em normal e em patológico. O
fisiologista é, muitas vezes, médico, e é sempre um ser vivo; é por isso que a fisiologia inclui em
seus preceitos de base que, se as funções de um ser vivo assumem aspectos que podem ser, todos,
igualmente explicados pelo cientista, nem por isso esses aspectos são equivalentes para o próprio
ser vivo.
* * *
Em resumo, a distinção entre a fisiologia e a patologia só tem e só pode ter um valor clínico. É por
essa razão que achamos, contrariamente a todos os hábitos médicos atuais, que é medicamente
incorreto falar em órgãos doentes, tecidos doentes, células doentes.
A doença é um comportamento de valor negativo para um ser vivo individual, concreto, em relação
de atividade polarizada com seu meio. Nesse sentido, não é apenas para o homem, mas para
qualquer ser vivo, que só existe doença do todo orgânico, apesar de os termos patologia ou doença,*
por sua relação com pathos e com mal, indicarem que essas noções se aplicam a todos os seres
vivos apenas por regressão simpática a partir da experiência humana vivida. Há doenças do cão e
da abelha.
Na medida em que a análise anatômica e fisiológica dissocia o organismo em órgãos e em funções
elementares, ela tende a situar a doença no nível das condições anatômicas e fisiológicas parciais
da estrutura total ou do comportamento de conjunto. Conforme progride a minúcia da análise, a
doença será colocada no nível do órgão — como Morgagni —, no nível do tecido — como Bichat
—, no nível da célula — como Virchow. Mas, assim procedendo, esquecemos que, histórica, lógica
e histologicamente chegamos até a célula por ordem regressiva, a partir do organismo total, e com
o pensamento, ou talvez mesmo o olhar, voltado para ele. Procurou-se no tecido ou na célula a
solução de um problema levantado pelo organismo inteiro, e que se apresenta primeiro para o
doente, e, em seguida, para o clínico. Procurar a doença no nível da célula é confundir o plano da
vida concreta — em que a polaridade biológica estabelece a diferença entre a saúde e a doença — e
o plano da ciência abstrata — em que o problema recebe uma solução. Não queremos dizer que
uma célula não possa estar doente se, por célula, entendermos um ser vivo unicelular considerado
* Em francês, a palavra maladie, cuja tradução é doença, tem o radical mal (mal). (N.T.)
90
como um todo, como, por exemplo, um protista; mas queremos dizer que a doença de um ser vivo
não se situa em determinadas partes do organismo. É claro que é legítimo falar em leucócito
doente, na medida em que se tem o direito de considerar o leucócito fora de qualquer relação com o
sistema retículo-endotelial e o sistema conjuntivo. Nesse caso, porém, considera-se o leucócito
como um órgão, e mais ainda, como um organismo em situação de defesa e de reação contra um
meio. De fato, aqui se coloca o problema da individualidade. O mesmo dado biológico pode ser
considerado como uma parte ou como um todo. Achamos que é como um todo que ele pode ser
considerado ou não doente.
Células do parênquima renal, pulmonar ou esplênico podem ser consideradas, hoje em dia, como
doentes, e doentes de determinada doença, por um anatomopatologista que talvez jamais ponha os
pés em um hospital ou uma clínica, apenas porque foram retiradas, ou se parecem com as que
foram retiradas — há pouco tempo ou há cem anos, pouco importa —, por um médico, clínico e
terapeuta, do cadáver ou do órgão amputado de um homem cujo comportamento ele havia
observado. Tanto é que o criador da anatomia patológica, Morgagni, na bela dedicatória ao
cirurgião Trew, que se encontra no início de sua obra fundamental, declara que a exploração
anatomopatológica tem a obrigação formal de tomar constantemente como ponto de referência a
anatomia do ser vivo normal, é claro, mas também, e sobretudo, a experiência clínica [85]. O
próprio Virchow, vindo em auxílio de Velpeau, em uma célebre discussão em que os micrógrafos
franceses sustentavam, contra Velpeau, o caráter específico do elemento canceroso, proclamou que,
apesar de o microscópio ser capaz de servir à clínica, é a clínica que deve informar o microscópio
[116]. É verdade que Virchow formulou em outras obras, com a maior clareza, uma teoria da
doença parcelar que nossas análises precedentes levam a refutar. Já dizia ele em 1895: "Na minha
opinião, a essência da doença é uma parte modificada do organismo ou então uma célula
modificada, ou um aglomerado modificado de células (quer se trate de tecido ou órgão)... Na
realidade, qualquer parte doente do corpo está em relação parasitária com o resto do corpo sadio ao
qual pertence e vive às expensas do organismo" [23, 569] . Parece que hoje em dia já abandonamos
completamente essa patologia atomística, e que se considera a doença muito mais como uma
reação do todo orgânico à agressão de um elemento do que como um atributo do próprio elemento.
É justamente Ricker o grande contraditor da patologia celular de Virchow, na Alemanha.4 O que
ele chama de "patologia das relações" é justamente a idéia de que a doença não está no nível da
célula supostamente autônoma, e sim que, para a célula, a doença consiste nas relações com o
sangue e o sistema nervoso, em primeiro lugar, isto é, com um meio interno e um órgão de
coordenação, que fazem do funcionamento do organismo um todo [55, 19]. É de importância
secundária que o conteúdo das teorias patológicas de Ricker pareça discutível a Herxheimer e a
outros; é o espírito de seu ataque que é interessante. Em resumo, quando alguém fala em patologia
objetiva, quando alguém acha que a observação anatômica e histológica, que o teste fisiológico,
que o exame bacteriológico são métodos que permitem fazer cientificamente o diagnóstico da
doença, até mesmo — segundo alguns — sem nenhum interrogatório nem exploração clínica, esse
alguém está sendo vítima, na nossa opinião, da mais grave confusão do ponto de vista filosófico e,
às vezes, da mais perigosa, do ponto de vista terapêutico. Um microscópio, um termômetro, um
caldo de cultura não podem conhecer uma medicina que o médico porventura ignore. Fornecem,
apenas, um resultado. Esse resultado não tem, por si, nenhum valor diagnóstico. Para fazer um
diagnóstico é preciso observar o comportamento do doente. Descobre-se então que determinado
indivíduo, que hospeda na sua faringe bacilos de Loeffler, não está com difteria. Inversamente, em
outro indivíduo, um exame clínico minucioso, conduzido de modo perfeitamente correto, faria
pensar na doença de Hodgkin, ao passo que o exame anatomopatológico de uma biópsia revela a
existência de um neoplasma da tireóide.
Em matéria de patologia, a primeira palavra, historicamente falando, e a última palavra,
logicamente falando, cabem à clínica. Ora, a clínica não é uma ciência e jamais o será, mesmo que
utilize meios cuja eficácia seja cada vez mais garantida cientificamente. A clínica é inseparável da
terapêutica, e a terapêutica é uma técnica de instauração ou de restauração do normal, cujo fim
4 Na URSS é A.-D. Speransky, Fondements de la théorie de la médecine, 1934 (trad. ingl., 1936; trad. alemã, 1950). Cf. o estudo de Jean
Starobinsky: Une théorie soviétique de l'origine nerveuse des maladies, Critique, n. 47, abr. 1951.
91
escapa à jurisdição do saber objetivo, pois é a satisfação subjetiva de saber que uma norma está
instaurada. Não se ditam normas à vida, cientificamente. Mas a vida é essa atividade polarizada de
conflito com o meio, e que se sente ou não normal, conforme se sinta ou não em posição
normativa. O médico optou pela vida. A ciência lhe é útil no cumprimento dos deveres decorrentes
dessa escolha. O apelo ao médico parte do doente.5 É o caso desse apelo patético que faz chamar de
patológicas todas as ciências que a técnica médica utiliza em socorro da vida. Por isso é que há
anatomia patológica, fisiologia patológica, histologia patológica, embriologia patológica. Sua
qualidade de patológica, porém, é uma noção de origem técnica e, por isso, de origem subjetiva.
Não há patologia objetiva. Podem-se descrever objetivamente estruturas ou comportamentos, mas
não se podem chamá-los de "patológicos" com base em nenhum critério puramente objetivo.
Objetivamente, só se podem definir variedades ou diferenças, sem valor vital positivo ou negativo.
5 É claro que, nesse caso, não se trata de doenças mentais, em que o desconhecimento da doença por parte dos doentes freqüentemente
constitui um aspecto essencial da doença.
92
CONCLUSÃO
Na primeira parte deste estudo, pesquisamos as fontes históricas e analisamos as implicações
lógicas de um princípio de patologia que ainda é freqüentemente invocado, e segundo o qual o
estado mórbido no ser vivo nada mais seria que uma simples variação quantitativa dos fenômenos
fisiológicos que definem o estado normal da função correspondente. Julgamos ter demonstrado a
limitação e a deficiência de tal princípio. No decorrer da discussão, e à luz dos exemplos
apresentados, julgamos ter fornecido alguns argumentos críticos a favor das proposições de método
e de doutrina que constituem o objeto da segunda parte, e que resumiríamos do seguinte modo:
É por referência à polaridade dinâmica da vida que se podem chamar de normais determinados
tipos ou funções. Se existem normas biológicas, é porque a vida, sendo não apenas submissão ao
meio mas também instituição de seu próprio meio, estabelece, por isso mesmo, valores, não apenas
no meio, mas também no próprio organismo. É o que chamamos de normatividade biológica.
Não é absurdo considerar o estado patológico como normal, na medida em que exprime uma
relação com a normatividade da vida. Seria absurdo, porém, considerar esse normal idêntico ao
normal fisiológico, pois trata-se de normas diferentes. Não é a ausência de normalidade que
constitui o anormal. Não existe absolutamente vida sem normas de vida, e o estado mórbido é
sempre uma certa maneira de viver.
O estado fisiológico identifica-se com o estado são, mais ainda que com o estado normal. É o
estado que pode admitir uma mudança para novas normas. O homem é são, na medida em que é
normativo em relação às flutuações de seu meio. Na nossa opinião, as constantes fisiológicas têm,
dentre todas as constantes vitais possíveis, um valor propulsivo. Ao contrário, o estado patológico
expressa a redução das normas de vida toleradas pelo ser vivo, a precariedade do normal
estabelecido pela doença. As constantes patológicas têm valor repulsivo e estritamente
conservador.
A cura é a reconquista de um estado de estabilidade das normas fisiológicas. Ela estará mais
próxima da doença ou da saúde na medida em que essa estabilidade estiver mais ou menos aberta a
eventuais modificações. De qualquer modo, nenhuma cura é uma volta à inocência biológica. Curar
é criar para si novas normas de vida, às vezes superiores às antigas. Há uma irreversibilidade da
normatividade biológica.
O conceito de norma é um conceito original que não pode ser reduzido — e menos ainda, em
fisiologia — a um conceito objetivamente determinável por métodos científicos. Portanto, na
verdade, não há uma ciência biológica do normal. Há uma ciência das situações e das condições
biológicas consideradas normais. Essa ciência é a fisiologia.
A atribuição de um valor de "normal" às constantes cujo conteúdo é determinado cientificamente
pela fisiologia reflete a relação da ciência da vida com a atividade normativa da vida e, no que se
refere à ciência da vida humana, com as técnicas biológicas de produção e de instauração do
normal, mais especificamente com a medicina.
Ocorre com a medicina o mesmo que com todas as técnicas. É uma atividade que tem raízes no
esforço espontâneo do ser vivo para dominar o meio e organizá-lo segundo seus valores de ser
vivo. É nesse esforço espontâneo que a medicina encontra seu sentido, mesmo não tendo
encontrado, antes, toda a lucidez crítica que a tornaria infalível. Eis por que, sem ser ela própria
uma ciência, a medicina utiliza os resultados de todas as ciências a serviço das normas da vida.
93
Portanto, existe medicina, em primeiro lugar, porque os homens se sentem doentes. É apenas em
segundo lugar que os homens, pelo fato de existir uma medicina, sabem em que consiste sua
doença.
Qualquer conceito empírico de doença conserva uma relação com o conceito axiológico da doença.
Não é, portanto, um método objetivo que qualifica como patológico um determinado fenômeno
biológico. É sempre a relação com o indivíduo doente, por intermédio da clínica, que justifica a
qualificação de patológico. Embora admitindo a importância dos métodos objetivos de observação
e de análise na patologia, não parece possível que se possa —com absoluta correção lógica —falar
em "patologia objetiva". É claro que a patologia pode ser metódica, crítica, armada de meios
experimentais. Essa patologia pode ser considerada objetiva, em relação ao médico que a pratica.
Mas a intenção do patologista não faz com que seu objeto seja uma matéria desprovida de
subjetividade. Pode-se praticar objetivamente, isto é, imparcialmente, uma pesquisa cujo objeto não
pode ser concebido e construído sem referência a uma qualificação positiva e negativa; cujo objeto,
portanto, não é tanto um fato mas, sobretudo, um valor.
94
ÍNDICE BIBLIOGRÁFICO
No texto, as referências entre colchetes incluem dois grupos de algarismos: o primeiro grupo
remete às obras numeradas a seguir; o segundo grupo, em itálico, remete aos tomos, páginas ou
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101
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
Abelous, 83
Abrami, 125
Addison, 83
Alembert, 16, 111, 139, 140
Ambrossoli, 26
Aristóteles, 33, 39, 49, 115, 128
Aschoff, 86
Bachelard, 109, 110, 135, 139, 140, 141, 147,
155
Bacon, 13
Bacq, 119, 125
Banting, 30
Bégin, 19
Beitzke, 86
Benedict, 64, 68, 69
Bergson, 50, 55, 113, 114
Bernard, 9, 14, 15, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28,
29, 30, 31, 32, 33, 34, 36, 38, 41, 42, 43,
49, 56, 57, 59, 64, 73, 78, 82, 85, 88, 97,
98, 99, 106, 116, 119, 122, 127, 135
Best, 30
Biasotti, 30
Bichat, 16, 20, 22, 23, 28, 49, 59, 70, 89, 94,
131
Bier, 86
Blainville, 23
Blondel, 44
Boedeker, 29
Bordet, 53
Bõsiger, 121
Boule, 68
Bounoure, 9, 55
Brosse, 64, 66, 95
Broussais, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22,
23, 28, 40, 41, 43, 57, 94, 95, 98, 142
Brown, 16, 20, 21, 22, 23, 24, 83, 106, 142
Brown-Séquard, 24, 83
Brunschvicg, 11, 140
Buffon, 62, 63
Bugard, 127
Camus, 28
Cannon, 71, 79, 119
Cassirer, 74
Caullery, 55
Chabanier, 30
Chaix, 34
Chesterton, 118
Chevalier, 24
Chevreul, 24
Comte, 14, 15, 16, 17, 18, 20, 22, 23, 24, 28,
38, 41, 49, 73, 78, 96, 98, 114, 139, 140,
142
Cullen, 20
Dagognet, 125
Dale, 125
Daremberg, 13, 15, 21
Darwin, 55, 56, 118, 121, 141, 152
Decourt, 125
Déjerine, 84
Delbet, 85, 95, 99
Delmas-Marsalet, 74
Descartes, 49, 111, 138, 139, 144, 145, 148
102
Diderot, 110, 111, 139, 140
Dontcheff, 68
Dubois, 81
Duclaux, 27
Dugas, 14
Dumas, 27, 83
Duyckaerts, 120
Eijkmann, 64
Ey, 45, 74
Fischer, 86
Flourens, 57, 62, 63
Foerster, 76
Foucault, 4, 131, 139, 140
Frédéricq, 25
Freund, 113
Fromageot, 34
Galileu, 49, 82
Galton, 61
Garrod, 127
Genty, 14
Geoffroy Saint-Hilaire, 13, 50, 51, 52, 55, 84
Gley, 24, 143
Glisson, 20
Goldstein, 8, 33, 45, 71, 72, 73, 74, 75, 76,
77, 78, 79, 81, 84, 88, 96
Gouhier, 16, 140
Guiraud, 111, 112
Guyénot, 50, 55
Halbwachs, 61, 62, 63
Haldane, 98, 121
Haller, 13, 20, 94, 99
Harvey, 13, 81, 82, 154
Head, 32, 73
Hédon, 30
Hegel, 9, 42, 138, 139, 140
Hering, 86
Herxheimer, 85, 86, 88, 90
Honigmann, 87
Houssay, 30
Hueck, 86, 87
Huxley, 119, 129
Isenschmidt, 69
Ivy, 122
Jaccoud, 26
Jackson, 32, 73, 74, 75, 96, 98
Jaspers, 44, 46
Juret, 50
Kant, 106, 108, 110, 138
Kayser, 68, 69, 77, 108, 122, 125, 141, 143,
146, 148, 150
Kelsen, 113
Klein, 14, 76
Klineberg, 124
Koch, 84
Koyré, 4, 42, 135
La Fontaine, 113
Labbé, 66
Lagache, 9, 44
Laguesse, 30
Lalande, 48, 50
Lamy, 14, 24, 27
Lapassade, 121
Laplace, 42
Laubry, 64, 66, 95
Laugier, 60, 71, 122
Lavoisier, 27, 42
Lefrou, 67
Lejeune, 129
Leriche, 8, 15, 35, 36, 37, 38, 39, 41, 45, 53,
75, 76, 77, 83, 84, 106, 110, 134
Leroi-Gourhan, 116
Lévi-Strauss, 110, 117
L'Héritier, 55
Liebig, 27
Lindhard, 69
103
Littré, 14, 22, 24, 48, 50, 111
Lobo-Onell, 30
Loubatières, 30
Lubarsch, 86, 87
Lussana, 26
Lwoff, 122
Lynch, 21, 95
Magendie, 23, 24, 42, 57, 94
Maily, 112
Mainzer, 88
Marchand, 86, 87
Marfan, 84
Marx, 121, 138, 139
Mauriac, 27
Mayer, 60, 64, 122
Mering, 30, 57, 83
Merleau-Ponty, 8, 73
Metchnikoff, 62
Metz, 122
Meyer, 86
Michelangelo, 82
Minkowski, 30, 44, 45, 57, 83
Molière, 28
Monglond, 67
Montesquieu, 83
Moodie, 67
Morgagni, 13, 89, 90
Mosso, 69
Mourgue, 73
Müller, 118, 143, 144
Münsterberg, 86
Nageotte, 75
Naunyn, 84
Naville, 83
Nélaton, 72
Newton, 16, 42, 142
Nicolle, 32
Nietzsche, 15, 139
Nolf, 25
Ombredane, 73, 74
Orfila, 57
Osborne, 69
Ovídio, 110
Ozorio de Almeida, 64
Pales, 67, 68
Paracelso, 40
Pasteur, 12, 27, 32, 40, 99
Pavy, 26
Péquignot, 130, 131, 133
Peters, 86
Picks, 74
Pinel, 13, 16, 94
Piquemal, 121
Pirquet, 84
Platão, 13, 22, 111, 132, 138
Porak, 65, 66
Prus, 41, 57
Quêtelet, 60, 62, 63, 96, 120, 149
Rabaud, 53
Rathery, 31
Raymond, 4, 129
Reilly, 124, 125, 135
Reininger, 70
Renan, 14
Ribot, 14, 44, 95
Richerand, 14
Ricker, 85, 86, 87, 88, 90
Rickert, 86
Robin, 14, 15, 22, 24, 48, 50, 96
Roessle, 86
Roger, 28
Romains, 28
Rouart, 74
Rousseau, 110
104
Roux, 86
Ruyer, 128
Ryle, 123
Saint-Simon, 16, 96
Schwartz, 32, 58, 83
Schwarz, 86
Selye, 8, 124, 125, 135
Sendrail, 53
Sherrington, 32
Sigerist, 12, 13, 18, 40, 45, 71, 81, 82, 83,
154
Simondon, 128
Singer, 82
Sorre, 62, 64, 66
Soula, 31
Stahl, 40
Starling, 119, 147
Starobinski, 110
Sydenham, 13
Taine, 14
Tarde, 115
Teissier, 49, 55, 63
Thibaudet, 64
Toulouse, 69, 99, 136
Tournade, 83
Trew, 90
Trousseau, 14
Tubiana, 127
Ulmann, 121
Valéry, 54, 79
Vallois, 67
Van Helmont, 40
Vandel, 120
Varigny, 67
Velpeau, 90
Vendryès, 59
Virchow, 82, 84, 85, 89, 90
Voelker, 68, 69
Warter, 76
Weigert, 86
Weiss, 76
Weizsaecker, 77
Whitehead, 42
Windelband, 86
Woelfflin, 81
Young, 30, 57
Ziehen, 86
105
II
NOVAS REFLEXÕES REFERENTES
AO NORMAL E AO PATOLÓGICO
(1963-1966)
106
VINTE ANOS DEPOIS...
Em 1943, como professor-delegado* da Faculdade de Letras de Estrasburgo, em Clermont-Ferrand,
dei um curso sobre As normas e o normal (Les normes et le normal), ao mesmo tempo que redigia
minha Tese de Doutorado em Medicina, defendida em julho do mesmo ano, perante a Faculdade de
Medicina de Estrasburgo. Em 1963, como professor da Faculdade de Letras e Ciências Humanas de
Paris, dei um curso sobre o mesmo tema. Quis, 20 anos depois, me defrontar com as mesmas
dificuldades, mas dispondo de outros meios.
Não seria o caso de retomar exatamente o exame das mesmas questões. Algumas das proposições
que, em meu Ensaio, havia procurado fundamentar solidamente, em virtude de seu caráter talvez só
aparentemente paradoxal, já agora me pareciam óbvias. Não tanto pela força de minha
argumentação, mas sobretudo pela engenhosidade de alguns leitores, que conseguiram encontrar,
para essas proposições, antecedentes que eu desconhecia. Um jovem colega,1 competente
especialista em Kant, estudando a filosofia kantiana em suas relações com a biologia e a medicina
do século XVIII, me chamou a atenção para um texto, desses que geram, ao mesmo tempo,
satisfação por um achado feliz, e embaraço por uma ignorância graças à qual julgávamos poder nos
atribuir uma certa originalidade. Kant notou, provavelmente por volta do ano 1798: "Recentemente
insistiu-se sobre a necessidade de esclarecer o emaranhado do fato político partindo dos deveres do
súdito em vez de partir dos direitos do cidadão. Da mesma forma, foram as doenças que deram
origem à fisiologia; e não foi a fisiologia, e sim a patologia e a clínica que deram início à medicina.
A razão é que, para dizer a verdade, não sentimos o bem-estar, pois este bem-estar é simples
consciência de viver, e só seu impedimento suscita a força de resistência. Não há nada de
surpreendente, portanto, no fato de Brown começar pela classificação das doenças."
Parecia, portanto, desnecessário procurar novas justificações para a tese que apresenta a clínica e a
patologia como o terreno original em que a fisiologia tem suas raízes e como o caminho pelo qual a
experiência humana da doença veicula o conceito de normal até o cerne da problemática do
fisiologista. Acrescente-se a isso o fato de que novas leituras da obra de Claude Bernard,
estimuladas e esclarecidas pela publicação de Principes de médecine expérimentale, em 1947,
iriam atenuar o rigor com que, a princípio, eu havia julgado a idéia de Claude Bernard sobre as
relações entre a fisiologia e a patologia.2 Essas leituras também me tinham tornado sensível ao fato
de Claude Bernard não ter ignorado que a experiência clínica tem obrigatoriamente de preceder a
experimentação de laboratório. "Se estivesse lidando com principiantes, eu lhes diria em primeiro
lugar: vão ao hospital; é a primeira coisa a conhecer. Pois como se pode analisar, por meio da
experimentação, doenças que não se conhecem? Não digo, portanto, para substituir o hospital pelo
laboratório. Digo o contrário: vão primeiro ao hospital; no entanto, isso só não é suficiente para
chegar à medicina científica ou experimental; é preciso, em seguida, ir ao laboratório para analisar
experimentalmente aquilo que constatamos pela observação clínica. Não entendo por que motivo
me fazem essa objeção, pois muitas vezes disse e repeti que a medicina deve sempre começar por
uma observação clínica (ver Introduction, p. 242), e foi desse modo que ela começou, na
Antigüidade."3 Reciprocamente, tendo restituído a Claude Bernard algo que lhe era devido e que eu
lhe havia, em parte, contestado, eu tinha de me mostrar — como também o fiz — um pouco menos
generoso em relação a Leriche.4
* O cargo é chargé d'enseignement. (N.T.)
1 Francis Courtes, professor-assistente na Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Montpellier.
2 Cf. supra, p. 45-53.
3 Principes de médecine expérimentale, p. 170.
4 Cf. meu artigo La pensée de René Leriche. In: Revue philosophique (jul.-set. 1956, p. 313-317).
107
Por todas essas razões, meu curso de 1963 explorou o assunto traçando caminhos diferentes dos de
1943. Outras leituras estimularam de outro modo minhas reflexões. Não se trata apenas de leituras
de trabalhos publicados no intervalo entre meu primeiro ensaio e o presente trabalho. Trata-se
também de leituras que eu poderia fazer ou já ter feito na época. A bibliografia de uma questão
sempre tem de ser atualizada, mesmo no sentido retroativo. Isso se torna compreensível ao
compararmos, aqui mesmo, a bibliografia de 1966 com a de 1943.
Porém, os dois cursos sobre As normas e o normal ultrapassavam em extensão o tema de filosofia
médica tratado pelo Ensaio, e a cujo reexame pretendo ainda me dedicar, nas páginas que se
seguem. O sentido dos conceitos de norma e de normal nas ciências humanas, em sociologia, em
etnologia, em economia, leva a pesquisas que, quer se trate de tipos sociais, de critérios de
inadaptação ou grupo, das necessidades e dos comportamentos de consumo, ou dos sistemas de
preferência, se orientam, em última análise, para o problema das relações entre normalidade e
generalidade. Se, de início, vou buscar alguns elementos de análise nas lições em que examinei, à
minha maneira, alguns aspectos dessa questão, é unicamente para esclarecer, por meio da
confrontação das normas sociais e das normas vitais, a significação específica destas últimas. É
apenas tendo em vista o organismo que permito a mim mesmo algumas incursões no estudo da
sociedade.
Devo confessar que a leitura de estudos posteriores à minha tese de 1943 e de objetivo análogo não
me convenceu de ter, naquela época, colocado mal o problema. Todos os que, como eu, tinham em
vista a fixação do sentido do conceito de normal experimentaram a mesma dificuldade, e não
tiveram outro recurso, diante da polissemia do termo, a não ser fixar, por decisão, o sentido que
lhes parecia mais adequado ao projeto teórico ou prático que pedia uma delimitação semântica. Isso
significa que justamente aqueles que procuraram com mais rigor dar ao normal somente o valor de
um fato valorizaram simplesmente o fato de necessitarem de uma significação limitada. Hoje em
dia, portanto, assim como há cerca de 20 anos, assumo ainda o risco de procurar basear a
significação fundamental do normal por meio de uma análise filosófica da vida compreendida
como atividade de oposição à inércia e à indiferença. A vida procura ganhar da morte, em todos os
sentidos da palavra ganhar e, em primeiro lugar, no sentido em que o ganho é aquilo que é
adquirido por meio do jogo. A vida joga contra a entropia crescente.
108
I DO SOCIAL AO VITAL
Na Crítica da razão pura (metodologia transcendental: arquitetônica da razão pura), Kant distingue
os conceitos — quanto à sua esfera de origem e de validade — em escolásticos e cósmicos, sendo
os últimos o fundamento dos primeiros.
A respeito dos dois conceitos, de norma e de normal, poderíamos dizer que o primeiro é
escolástico, ao passo que o segundo é cósmico ou popular. É possível que o normal seja uma
categoria do pensamento popular porque o povo sente — de maneira profunda, apesar de confusa
— que sua situação social não é justa. No entanto, o próprio termo "normal" passou para a língua
popular e nela se naturalizou a partir de vocabulários específicos de duas instituições: a instituição
pedagógica e a instituição sanitária, cujas reformas, pelo menos no que diz respeito à França,
coincidiram, sob a ação de uma mesma causa — a Revolução Francesa. Normal é o termo pelo
qual o século XIX vai designar o protótipo escolar e o estado de saúde orgânica. A reforma da
medicina como teoria se baseia, por sua vez, na reforma da medicina como prática: está
intimamente ligada, na França, assim como também na Áustria, à reforma hospitalar. Tanto a
reforma hospitalar como a pedagógica exprimem uma exigência de racionalização que se manifesta
também na política, como se manifesta na economia, sob a influência de um maquinismo industrial
nascente que levará, enfim, ao que se chamou, desde então, de normalização.
* * *
Assim como uma escola normal é uma escola onde se ensina a ensinar, isto é, onde se instituem
experimentalmente métodos pedagógicos, assim também um conta-gotas normal é aquele que está
calibrado para dividir um grama de água destilada em 20 gotas, em queda livre, de modo que o
poder farmacodinâmico de uma substância em solução possa ser graduado segundo as prescrições
de uma receita médica. Da mesma forma, também, uma via férrea normal é, dentre as 21 bitolas de
uma via férrea, praticadas em todas as épocas, a via definida pelo afastamento de 1,44 m entre as
bordas internas dos trilhos, isto é, aquela que, em determinado momento da história industrial e
econômica da Europa, pareceu corresponder melhor ao acordo que se procurava obter entre várias
exigências — antes de tudo não concorrentes — de ordem mecânica, energética, comercial, militar
e política. Enfim, também, para o fisiologista, o peso normal do homem, levando em conta o sexo,
a idade e a estatura, é o peso "que corresponde à maior longevidade previsível".1
Nos três primeiros exemplos, o normal parece ser a conseqüência de uma escolha e de uma decisão
exteriores ao objeto assim qualificado, ao passo que, no quarto exemplo, o termo de referência e de
qualificação se apresenta manifestamente como intrínseco ao objeto, se é verdade que a duração de
um organismo individual é uma constante específica, quando a saúde é preservada.
No entanto, pensando bem, a normalização dos meios técnicos da educação, da saúde, do transporte
de pessoas e de mercadorias é a expressão de exigências coletivas cujo conjunto define, em
determinada sociedade histórica, seu modo de relacionar sua estrutura, ou talvez suas estruturas,
com aquilo que ela considera como sendo seu bem particular, mesmo que não haja uma tomada de
consciência por parte dos indivíduos.
Em todos os quatro casos, o que caracteriza um objeto ou um fato dito normal, em referência a uma
norma externa ou imanente, é poder ser, por sua vez, tomado como ponto de referência em relação
a objetos ou fatos ainda à espera de serem classificados como tais. Portanto, o normal é, ao mesmo
tempo, a extensão e a exibição da norma. Ele multiplica a regra, ao mesmo tempo que a indica. Ele
requer, portanto, fora de si, a seu lado e junto a si, tudo o que ainda lhe escapa. Uma norma tira seu
1 Ch. Kayser, Le maintien de l'équilibre pondéral (Acta neurovegetativa, v. XXIV, 1-4, 1963. Wien, Springer).
109
sentido, sua função e seu valor do fato de existir, fora dela, algo que não corresponde à exigência a
que ela obedece.
O normal não é um conceito estático ou pacífico, e sim um conceito dinâmico e polêmico. Gaston
Bachelard, que se interessou muito pelos valores sob sua forma cósmica ou popular, e pela
valorização segundo os eixos da imaginação, percebeu muito bem que todo valor tem de ser obtido
em oposição a um antivalor. É ele que escreve: "A vontade de limpar exige um adversário à
altura."2 Quando se sabe que norma é a palavra latina que quer dizer esquadro e que normalis
significa perpendicular, sabe-se praticamente tudo o que é preciso saber sobre o terreno de origem
do sentido dos termos norma e normal, trazidos para uma grande variedade de outros campos. Uma
norma, uma regra, é aquilo que serve para retificar, pôr de pé, endireitar. "Normar", normalizar é
impor uma exigência a uma existência, a um dado, cuja variedade e disparidade se apresentam, em
relação à exigência, como um indeterminado hostil, mais ainda que estranho. Conceito polêmico,
realmente, esse conceito que qualifica negativamente o setor do dado que não cabe na sua extensão,
embora dependa de sua compreensão. O conceito de direito,* conforme esteja aplicado ao campo da
geometria, da moral ou da técnica, qualifica respectivamente como torto, tortuoso ou canhestro
tudo o que resiste à aplicação do referido conceito.3
Achamos que a razão dessa finalidade e desse uso polêmicos do conceito de norma deve ser
procurada na essência da relação normal-anormal. Não se trata de uma relação de contradição e de
exterioridade, mas de uma relação de inversão e de polaridade. Depreciando tudo aquilo que a
referência a ela própria impede de considerar como normal, a norma cria, por si mesma, a
possibilidade de uma inversão dos termos. Uma norma se propõe como um modo possível de
unificar um diverso, de reabsorver uma diferença, de resolver uma desavença. No entanto, se
propor não é o mesmo que se impor. Ao contrário de uma lei da natureza, uma norma não acarreta
necessariamente seu efeito. Isto é, uma norma pura e simples não tem nenhum sentido de norma. A
possibilidade de referência e de regulação que ela oferece contém — pelo fato de ser apenas uma
possibilidade — a latitude de uma outra possibilidade que só pode ser inversa. Com efeito, uma
norma só é a possibilidade de uma referência quando foi instituída ou escolhida como expressão de
uma preferência e como instrumento de uma vontade de substituir um estado de coisas
insatisfatório por um estado de coisas satisfatório. Assim, qualquer preferência de uma ordem
possível é acompanhada — geralmente de maneira implícita — pela aversão à ordem inversa
possível. O oposto do preferível, em determinado campo de avaliação, não é o indiferente, e sim
aquilo que é repelente ou, mais exatamente, repelido, detestável. Está mais do que claro que uma
norma gastronômica não entra em relação de oposição axiológica com uma norma lógica. Em
compensação, a norma lógica de prevalência do verdadeiro sobre o falso pode ser invertida de
modo a se transformar em norma de prevalência do falso sobre o verdadeiro, assim como a norma
ética de prevalência da sinceridade sobre a hipocrisia pode ser transformada em norma de
prevalência da hipocrisia sobre a sinceridade. No entanto, a inversão de uma norma lógica não tem
como resultado outra norma lógica, e sim, talvez, uma norma estética, assim como a inversão de
uma norma ética não tem, como resultado, outra norma ética, e sim, talvez, uma norma política. Em
resumo, sob qualquer forma implícita ou explícita que seja, as normas comparam o real a valores,
exprimem discriminações de qualidades de acordo com a oposição polar de um positivo e de um
negativo. Essa polaridade da experiência de normalização, experiência cientificamente
antropológica ou cultural — se é verdade que por natureza se deve entender apenas um ideal de
normalidade sem normalização —, baseia a prioridade normal da infração na relação da norma com
seu campo de aplicação.
Uma norma, na experiência antropológica, não pode ser original. A regra só começa a ser regra
fazendo regra, e essa função de correção surge da própria infração. A idade de ouro, o paraíso são
2 La terre et les rêveries du repos, p. 41-42.
* Em francês, o adjetivo droit significa não apenas direito, com todos os sentidos que o termo tem em português, mas também reto.
(N.T.)
3 Seria possível e frutuoso — mas não é aqui o lugar apropriado — constituir famílias semânticas de conceitos que representam o
parentesco do conceito popular de normal e de anormal, por exemplo, a série torvo, torturado, retorcido etc., e a série oblíquo, desviado
através etc.
110
figurações míticas de uma existência inicialmente adequada à sua exigência, de um modo de vida
cuja regularidade nada deve à determinação de uma regra, de um estado de não-culpabilidade com
a inexistência de proibição que ninguém devesse ignorar. Esses dois mitos procedem de uma ilusão
de retroatividade segundo a qual o bem original é o mal ulterior contido. A ausência de técnicas
acompanha a ausência de regras. O homem da idade de ouro e o homem paradisíaco gozam
espontaneamente dos frutos de uma natureza inculta, não solicitada, não corrigida. Nem trabalho,
nem cultura, assim é o desejo de regressão integral. Essa formulação, em termos negativos, de uma
experiência conforme à norma, sem que a norma tivesse de se manifestar na sua função e por sua
função, esse sonho realmente ingênuo de regularidade sem regra significa, no fundo, que o próprio
conceito de normal é normativo, impõe normas até mesmo ao universo do discurso mítico que
narra a inexistência dessas mesmas normas. É isso que explica o fato de, em muitas mitologias, o
evento da idade de ouro marcar o fim de um caos. Como disse Gaston Bachelard: "A multiplicidade
é agitação. Não há na literatura um único caos imóvel."4 Nas Metamorfoses de Ovídio, a terra do
caos não dá frutos, o mar do caos não é navegável, as formas não permanecem idênticas a si
mesmas. A indeterminação inicial é a determinação ulterior negada. A instabilidade das coisas tem,
como correlato, a impotência do homem. A imagem do caos é a imagem de uma regularidade
negada, assim como a imagem da idade de ouro é a de uma regularidade selvagem. Caos e idade de
ouro são os termos míticos da relação normativa fundamental, termos em relação tal que nenhum
dos dois pode deixar de se transformar no outro. O papel do caos é chamar, provocar sua
interrupção e tornar-se ordem. Inversamente, a idade de ouro não pode durar, pois a regularidade
selvagem é mediocridade; as satisfações são modestas — aurea mediocritas — porque não são uma
vitória ganha contra o obstáculo da limitação. Quando a regra é seguida sem consciência de uma
superação possível, qualquer satisfação é simples. Podemos, porém, nos satisfazer simplesmente
com o valor da regra em si? Para apreciar realmente o valor da regra é preciso que a regra tenha
sido submetida à prova da contestação. Não é apenas a exceção que confirma a regra como regra, é
a infração que lhe dá a oportunidade de ser regra fazendo regra. Nesse sentido, a infração é não a
origem da regra, mas a origem da regulação. Na ordem do normativo, o começo é a infração.
Retomando uma expressão kantiana, proporíamos que a condição de possibilidade das regras é o
mesmo que a condição de possibilidade da experiência das regras. A experiência das regras
consiste em pôr à prova, em uma situação de irregularidade, a função reguladora das regras.
Aquilo que os filósofos do século XVIII chamavam de estado de natureza é o equivalente
supostamente racional da idade de ouro. Assim como Lévi-Strauss, é preciso reconhecer que, ao
contrário de Diderot, Rousseau nunca acreditou que o estado de natureza fosse, para a humanidade,
uma origem histórica que a exploração do geógrafo proporcionou à observação do etnógrafo.5 Jean
Starobinski, por sua vez, mostrou de maneira muito feliz6 que o estado de natureza descrito por
Rousseau é a imagem do equilíbrio espontâneo entre o mundo e os valores do desejo, estado
natural e limitado de felicidade pré-histórica no sentido absoluto do termo, já que é da sua ruptura
irremediável que a história jorra como de uma fonte. Portanto, não há, na verdade, nenhum tempo
gramatical adequado ao discurso que trata de uma experiência humana normalizada sem
representação de normas que, na consciência, estejam ligadas à tentação de contrair o exercício
dessas mesmas normas. Porque, ou bem a adequação do fato e do direito passa despercebida e o
estado natural seria então um estado de inconsciência, no qual uma tomada de consciência seria
inexplicável, ou então a adequação é percebida e o estado natural seria um estado de inocência.
Porém, esse estado não pode ser para si mesmo e ao mesmo tempo ser um estado, isto é, uma
disposição estática. Ninguém é consciente de sua inocência inocentemente, já que o fato de ter
consciência da adequação à regra significa ter consciência das razões da regra que se resumem na
necessidade da regra. À máxima socrática, por demais explorada, segundo a qual ninguém é mau
tendo consciência disso, deve-se opor a máxima inversa, segundo a qual ninguém é bom tendo
consciência de o ser. Do mesmo modo, ninguém é são tendo consciência disso. A definição de
Leriche: "A saúde é a vida no silêncio dos órgãos" repete o sentido da frase de Kant. "O bem-estar
4 La terre et les rêveries du repos, p. 59.
5 Tristes tropiques, XXXVIII, "Un petit verre de rhum".
6 Aux origines de la pensée sociologique (Les temps modernes, dez. 1962).
111
não é sentido, pois é simples consciência de viver."7 Mas é no furor da culpabilidade, assim como é
no grito de sofrimento, que a inocência e a saúde surgem como os termos de uma regressão tão
impossível quanto desejada.
O anormal, enquanto a-normal, é posterior à definição do normal, é a negação lógica deste. No
entanto, é a anterioridade histórica do futuro anormal que provoca uma intenção normativa. O
normal é o efeito obtido pela execução do projeto normativo, é a norma manifestada no fato. Do
ponto de vista do fato há, portanto, uma relação de exclusão entre o normal e o anormal. Essa
negação, porém, está subordinada à operação de negação, à correção reclamada pela anormalidade.
Não há, portanto, nenhum paradoxo em dizer que o anormal, que logicamente é o segundo, é
existencialmente o primeiro.
* * *
A palavra latina norma, que, por intermédio da etimologia, suporta o peso do sentido inicial dos
termos norma e normal, é o equivalente do grego . A ortografia, a ortodoxia, a ortopedia são
conceitos normativos avant la lettre. Apesar de o conceito de ortologia ser bem menos familiar,
não é totalmente inútil saber que Platão lhe deu sua caução,8 e que a palavra se encontra, mas sem
citação de referência, no Dictionnaire de la langue française de Littré. A ortologia é a gramática,
no sentido que lhe deram os autores latinos e medievais, isto é, a regulamentação do uso da língua.
Se é verdade que a experiência de normalização é uma experiência especificamente antropológica
ou cultural, pode parecer normal que a língua tenha oferecido a essa experiência um de seus
primeiros campos. A gramática fornece uma matéria inestimável para a reflexão sobre as normas.
Quando Francisco I, por meio do Édito de Villers-Cotterêt, ordena que todos os atos judiciais do
reino sejam redigidos em francês, trata-se de um imperativo.9 No entanto, uma norma não é um
imperativo que deve ser executado sob pena de sanções jurídicas. Quando os gramáticos da mesma
época empreendem a tarefa de fixar o uso da língua francesa, trata-se de normas que determinam a
referência e definem o erro pelo desvio, pela diferença. A referência é tirada do uso. Em meados do
século XVII era esta a tese de Vaugelas: "É ao uso que devemos nos submeter inteiramente, em
nossa língua."10 Os trabalhos de Vaugelas seguem as pegadas dos trabalhos da Academia Francesa,
fundada precisamente para o embelezamento da língua. De fato, no século XVII, a norma
gramatical é a língua usada pelos burgueses parisienses cultos, de modo que essa norma remete a
uma norma política, a centralização administrativa em proveito do poder real. Do ponto de vista da
normalização, não há diferença entre o nascimento da gramática no século XVII, na França, e a
instituição do sistema métrico no fim do século XVIII. Richelieu, os Convencionais e Napoleão
Bonaparte são os instrumentos sucessivos de uma mesma exigência coletiva. Começa-se pelas
normas gramaticais, para acabar nas normas morfológicas dos homens e dos cavalos para fins de
defesa nacional,11 passando pelas normas industriais e higiênicas.
A defmição de normas industriais supõe uma unidade de plano, de direção do trabalho, de
destinação do material fabricado. O verbete "Reparo"* da Enciclopédia de Diderot e d'Alembert,
revisto pelo Corpo Real de Artilharia, expõe admiravelmente os motivos da normalização do
trabalho nos arsenais. A normalização é considerada como uma solução para evitar a confusão dos
esforços, a singularidade das proporções, a dificuldade e a demora da substituição de peças, a
despesa inútil. A uniformização dos desenhos de peças e das tabelas de dimensões, a imposição de
padrões e de modelos têm, como conseqüência, a precisão das peças separadas e a regularidade da
montagem. O verbete "Reparo" contém quase todos os conceitos utilizados em um tratado moderno
7 Descartes já havia dito: "Apesar de a saúde ser o maior de todos os bens referentes ao corpo, é, no entanto, aquele sobre o qual
refletimos menos e a que damos menos valor. O conhecimento da verdade é como a saúde da alma: quando a possuímos, não pensamos
mais nela" (Carta a Chanut, 31 de março de 1649).
8 Sophiste, 239 b.
9 Cf. Pierre Guiraud, La grammaire, Presses Universitaires de France ("Que sais-je?", n. 788), 1958, p. 109.
10 Remarques sur la langue française (1647), prefácio.
11 Instituição do recrutamento e da revisão dos recrutas; instituição das coudelarias nacionais e das remontas.
* Reparo: suporte de boca-de-fogo. (N.T.)
112
de normalização, com exceção do termo "norma". Estamos diante do fato sem a palavra que o
designa.
A definição de normas higiênicas supõe o interesse que se dá — do ponto de vista político — à
saúde das populações considerada estatisticamente, à salubridade das condições de vida, à extensão
uniforme dos tratamentos preventivos e curativos elaborados pela medicina. Foi na Áustria que a
imperatriz Maria Tereza e o imperador José II conferiram um estatuto legal às instituições de
higiene pública, por meio da criação de uma Comissão Imperial de Saúde (Sanitäts-Hofdeputation,
1753) e pela promulgação de um Haupt Medizinal Ordnung, substituído, em 1770, pelo Sanikitsnormativ,
ato de 40 regulamentos relativos à medicina, à veterinária, à farmácia, à formação dos
cirurgiões, à estatística demográfica e médica. Em matéria de normalização, temos aqui a palavra
com o fato por ela designado.
Tanto em um como em outro exemplo, a norma é aquilo que fixa o normal a partir de uma decisão
normativa. Como veremos, tal decisão, relativa a esta ou àquela norma, só pode ser entendida no
contexto de outras normas. A experiência de normalização, em um dado momento, não pode ser
dividida, pelo menos em projeto. Bem o havia compreendido Pierre Guiraud, no caso da gramática,
ao afirmar: "A fundação da Academia Francesa por Richelieu em 1635 se enquadra em uma
política geral de centralização cujos herdeiros são a Revolução Francesa, o Império e a República...
Não seria absurdo achar que a burguesia tomou posse da língua na época em que se apoderara dos
meios de produção."12 Poderíamos dizer a mesma coisa de modo diferente, tentando substituir por
um conceito equivalente o conceito marxista de classe ascendente. Entre 1759, data do
aparecimento da palavra normal, e 1834, data do aparecimento da palavra normalizado, uma classe
normativa conquistou o poder de identificar a função das normas sociais com o uso que ela própria
fazia das normas cujo conteúdo determinava. Bom exemplo de ilusão ideológica...
Deduz-se do exame das relações entre as normas técnicas e as normas jurídicas que, em
determinada sociedade e em determinado momento, a intenção normativa não pode ser dividida.
No sentido rigoroso e atual do termo, a normalização técnica consiste na escolha e na determinação
da matéria, da forma e das dimensões de um objeto cujas características passam a ser, daí por
diante, obrigatórias para a fabricação conforme. A divisão do trabalho obriga os empreiteiros a
adotar uma homogeneidade de normas, no seio de um conjunto técnico-econômico cujas dimensões
estão em constante evolução, tanto em escala nacional quanto internacional. Mas a técnica se
desenvolve na economia de uma sociedade. Uma exigência de simplificação pode parecer urgente
do ponto de vista técnico, mas pode parecer prematura quanto às possibilidades do momento e do
futuro imediato, do ponto de vista industrial e econômico. A lógica da técnica deve ser conciliada
com os interesses da economia. De outro ponto de vista, aliás, a normalização técnica deve temer
uma rigidez excessiva. O que é fabricado tem, finalmente, que ser consumido. É claro que se pode
forçar a lógica da normalização até atingir a normalização das necessidades de consumo por meio
do estímulo da publicidade. Ainda assim seria preciso, antes, ter resolvido a questão que consiste
em saber se a necessidade é um possível objeto de normalização, ou, então, se ela é o sujeito
obrigatório da invenção das normas. Supondo que a primeira das duas afirmações seja a verdadeira,
a normalização tem de prever margens de tolerância para os desvios das necessidades, assim como
prevê margens de tolerância para os objetos caracterizados por normas; mas, no caso das
necessidades, não haverá quantificação. A relação da técnica com o consumo introduz, na
unificação dos métodos, dos modelos, dos processos, das provas de qualificação, uma relativa
flexibilidade, evocada, aliás, pelo termo normalização, que, em 1930, na França, foi preferido ao
termo estandardização, para designar o organismo administrativo encarregado da empresa em
âmbito nacional.13 O conceito de normalização exclui o conceito de imutabilidade e inclui a
antecipação da possibilidade de maior flexibilidade. Vemos, assim, como uma norma técnica
remete gradativamente a uma idéia da sociedade e de sua hierarquia de valores, como uma decisão
de normalização supõe a representação de um conjunto possível das decisões correlativas,
12 Op. cit., p. 109.
13 Cf. Jacques Maily, La normalisation (Paris, Dunod, 1946), p. 157 e segs. Nossa breve exposi-ção sobre a normalização muito deve a
esta obra, útil pela clareza da análise e da informação his-tórica, assim como pelas referências a um estudo do Dr. Hellmich, Vom Wesen
der Normung (1927).
113
complementares ou compensatórias. Esse conjunto deve ser acabado, por antecipação, acabado ou
mesmo fechado. A representação dessa totalidade de normas reciprocamente relativas é a
planificação. A rigor, a unidade de um Plano seria a unidade de um único pensamento. Mito
burocrático e tecnocrático, o Plano é a roupagem moderna da idéia de Providência. Como é
bastante claro que uma assembléia de comissários e uma reunião de máquinas têm certa dificuldade
em se fazer passar por uma unidade de pensamento, devemos admitir que se possa hesitar em dizer,
a respeito do Plano, aquilo que La Fontaine dizia da Providência, isto é, que ela sabe melhor do que
nós aquilo de que precisamos.14 No entanto — e sem ignorar que talvez tenhamos apresentado a
normalização e a planificação como estreitamente ligadas à economia de guerra ou à economia de
regimes totalitários —, é preciso considerar, antes de tudo, as tentativas de planificação como
experiências de constituição de órgãos por meio dos quais uma sociedade poderia presumir, prever
e assumir suas necessidades em vez de se limitar a registrá-las e constatá-las por meio de contas e
balanços. De modo que aquilo que, com o nome de racionalização — espantalho que é agitado,
com satisfação, pelos partidários do liberalismo, variedade econômica do naturismo —, é apontado
como uma mecanização da vida social talvez exprima, ao contrário, a necessidade secreta que a
sociedade experimenta de tornar-se o sujeito orgânico de necessidades reconhecidas como tais.
É fácil compreender como, por meio de sua ligação com a economia, a atividade técnica e sua
normalização estabelecem relação com a ordem jurídica. Existe um direito de propriedade
industrial, uma proteção jurídica às patentes de invenção ou dos modelos registrados. Normalizar
um modelo registrado é proceder a uma expropriação industrial. As exigências da defesa nacional
são a razão invocada por muitos Estados para introduzir tais disposições na legislação. Nesse
ponto, o universo das normas técnicas comunica com o universo das normas jurídicas. Uma
expropriação é feita segundo as normas de direito. Os magistrados que decidem sua realização, os
oficiais de justiça encarregados de executar a sentença são pessoas identificadas com sua função
em virtude de normas, pessoas estabelecidas em suas funções com delegação de competência. O
normal, nesse caso, deriva de uma norma superior por delegação hierarquizada. Em sua Théorie
pure du droit, Kelsen sustenta que a validade de uma norma jurídica resulta de sua inserção em um
sistema coerente, em uma ordem, de normas hierarquizadas, e que tiram seu poder obrigatório de
sua referência direta ou indireta a uma norma fundamental. No entanto, há ordens jurídicas
diferentes porque há várias normas fundamentais irredutíveis. Apesar de se ter objetado que essa
filosofia do direito era incapaz de absorver o fato político no fato jurídico como pretendia fazê-lo,
pelo menos se reconheceu, geralmente, que ela teve o mérito de ter destacado a relatividade das
normas jurídicas hierarquizadas em uma ordem coerente. De modo que um dos críticos mais
convictos de Kelsen chegou a escrever: "O direito é o sistema das convenções e das normas
destinadas a orientar cada conduta, no interior de um grupo, de maneira determinada."15 Mesmo
reconhecendo que o direito, tanto privado quanto público, não tem outra fonte a não ser a fonte
política, pode-se admitir que a oportunidade de legislar seja concedida ao Poder Legislativo por
uma grande variedade de costumes que cabe ao poder institucionalizar em um todo jurídico virtual.
Mesmo na falta do conceito de ordem jurídica, caro a Kelsen, a relatividade das normas jurídicas
pode ser justificada. Essa relatividade pode ser mais ou menos estrita. Existe uma tolerância de
não-relatividade, o que não significa uma falta de relatividade. Na realidade, a norma das normas
continua a ser a convergência. E como poderia ser de outra forma, se o direito "nada mais é do que
a regulação da atividade social"16?
Para resumir, a partir do exemplo — escolhido intencionalmente — da normalização mais
artificial, a normalização técnica, podemos perceber um caráter invariante da normalidade. As
normas são relativas umas às outras em um sistema, ao menos potencialmente. Sua correlatividade
em um sistema social tende a fazer desse sistema uma organização, isto é, uma unidade em si,
senão por si, e para si. Um filósofo, pelo menos, percebeu e localizou o caráter orgânico das
normas morais na medida em que elas são, em primeiro lugar, normas sociais. Foi Bergson,
14 Fables, VI, 4, "Jupiter et le Métayer".
15 Julien Freund, L'essence du politique (Paris, Sirey, 1965), p. 332.
16 Ibid., p. 293.
114
analisando, em Les deux sources de la morale et de la religion, o que ele chama de "o todo da
obrigação".
* * *
A correlatividade das normas sociais: técnicas, econômicas, jurídicas, tende a fazer de sua unidade
virtual uma organização. Não é fácil dizer o que é o conceito de organização em relação ao
conceito de organismo, se se trata de uma estrutura mais geral que o organismo, ao mesmo tempo
mais formal e mais rica, ou se, em relação ao organismo considerado como um tipo fundamental de
estrutura, se trata de um modelo singularizado por tantas condições restritivas que não poderia ter
mais consistência do que uma metáfora.
Deve-se constatar em primeiro lugar que, em uma organização social, as regras de ajustamento das
partes, a fim de formar uma coletividade mais ou menos lúcida quanto à sua finalidade própria, são
exteriores ao complexo ajustado, quer essas partes sejam constituídas de indivíduos, de grupos ou
de empresas com objetivo limitado. As regras devem ser representadas, aprendidas, rememoradas,
aplicadas. Ao passo que, em um organismo vivo, as regras de ajustamento das partes entre si são
imanentes, presentes sem ser representadas, atuantes sem deliberação nem cálculo. Não há, nesse
caso, desvio, distância, nem intervalo de tempo entre a regra e a regulação. A ordem social é um
conjunto de regras com as quais seus servidores ou seus beneficiários, de qualquer modo, seus
dirigentes têm de se preocupar. A ordem vital é constituída por um conjunto de regras vividas sem
problemas.17
O inventor do termo e do primitivo conceito de sociologia, Augusto Comte, nas lições do Cours de
philosophie positive relativas ao que ele chamava, na época, de fisica social, não hesitou em utilizar
os termos organismo social para designar a sociedade, definida como um consenso de partes
coordenadas segundo dois aspectos: a sinergia e a simpatia, cujos conceitos são tirados da medicina
de tradição hipocrática. Organização, organismo, sistema, consenso são indiferentemente utilizados
por Comte para designar o estado de sociedade.18 Já nessa época, A. Comte distinguia a sociedade
do poder, entendendo por poder o órgão e o regulador da ação comum espontânea,19 órgão distinto,
mas não separado do corpo social; órgão racional e artificial, mas não arbitrário da "evidente
harmonia espontânea que sempre deve reinar entre o conjunto e as partes do sistema social".20
Assim, a própria relação entre a sociedade e o governo é uma correlação, e a ordem política
aparece como o prolongamento voluntário e artificial "dessa ordem natural e involuntária para a
qual tendem necessariamente, sempre e sob qualquer aspecto, as diversas sociedades humanas".21
Só no Système de politique positive é que veremos Comte limitar o alcance da analogia por ele
aceita no Cours e acentuar as diferenças que não permitem considerar como equivalentes a
estrutura de um organismo e a estrutura de uma organização social. Na Statique sociale (1852), no
quinto capítulo, "Théorie positive de l'organisme social", Comte insiste sobre o fato de que a
natureza composta do organismo coletivo difere profundamente da indivisível constituição do
organismo. Apesar de serem funcionalmente concorrentes, os elementos do corpo social podem ter
existência separada. Desse ponto de vista, o organismo social apresenta algumas características do
mecanismo. Além disso, e do mesmo ponto de vista, "de acordo com sua natureza composta, o
organismo coletivo possui, em alto grau, a notável aptidão que o organismo individual apresenta
apenas em estado rudimentar, e que é a faculdade de adquirir novos órgãos, mesmo essenciais".22
Conseqüentemente, a regulação, a integração ao todo das partes sucessivamente relacionadas é uma
necessidade social específica. Regular a vida de uma sociedade, família ou cidade é inseri-la em
17 Cf. Bergson, Les deur sources de la morale et de la religion: "Humana ou animal, uma sociedade é uma organização: ela implica uma
coordenação e geralmente também uma subordinação dos elementos uns aos outros: ela oferece, portanto, um conjunto de regras ou de
leis, que pode ser simplesmente vivido ou, além disso, representado" (p. 22).
18 Cours de philosophie positive, 48e Leçon (ed. Schleicher, t. IV, p. 170).
19 Ibid., p. 177.
20 Ibid., p. 176.
21 Ibid., p. 183.
22 Système de politique positive, II, p. 304.
115
uma sociedade ao mesmo tempo mais geral e mais elevada por estar mais próxima da única
realidade social concreta, a Humanidade ou Ser Supremo. A regulação social é a religião, e a
religião positiva é a filosofia, poder espiritual, arte geral da ação do homem sobre si mesmo. Essa
função de regulação social deve ter um órgão distinto, o sacerdócio, cujo poder temporal é apenas
auxiliar. Regular, do ponto de vista social, é fazer prevalecer o espírito de conjunto. De modo que
todo organismo social, se for de dimensões inferiores ao Ser Supremo, é regulado de fora e de
cima. O regulador é posterior àquilo que ele regula: "Com efeito, só se poderiam regular poderes
preexistentes; salvo nos casos de ilusão metafisica, em que pensamos que os estamos criando à
medida que os definimos."23
Diremos, de outra forma — e certamente não o diremos melhor —, que uma sociedade é, ao
mesmo tempo, máquina e organismo. Seria unicamente máquina se os fins da coletividade
pudessem não apenas ser rigorosamente planificados, mas também executados em conformidade
com um programa. Sob esse aspecto, certas sociedades contemporâneas de economia socialista
tendem, talvez, para um modo de funcionamento automático. No entanto, é preciso reconhecer que
essa tendência encontra, ainda, nos fatos — e não apenas na má vontade de executantes céticos —
obstáculos que obrigam os organizadores a apelarem para os recursos da improvisação. Pode-se
mesmo pôr em dúvida que uma sociedade, qualquer que ela seja, possa, ao mesmo tempo, mostrarse
lúcida na fixação de seus fins e eficaz na utilização de seus meios. Em todo caso, com exceção
das sociedades arcaicas e das sociedades primitivas, nas quais o fim está determinado pelo rito e
pela tradição, assim como o comportamento do organismo animal está determinado em um modelo
inato, uma das tarefas de qualquer organização social consiste em descobrir seus fins possíveis, fato
este que bem parece revelar que essa sociedade não tem, na verdade, finalidade intrínseca. No caso
da sociedade, a regulação é uma necessidade à procura de seu órgão e de suas normas de exercício.
No caso do organismo, ao contrário, a própria necessidade revela a existência de um dispositivo de
regulação. A necessidade de alimentos, de energia, de movimentação, de repouso requer, como
condição para seu aparecimento, sob a forma de inquietação e de procura, que o organismo, em
determinado estado de fato, tome como referência um estado ideal de funcionamento, determinado
sob a forma de uma constante. A regulação orgânica ou homeostase assegura, em primeiro lugar, a
volta à constante quando o organismo dela se afastou, em conseqüência das variações de sua
relação com o meio. Assim como a necessidade tem como sede o organismo considerado como um
todo, mesmo quando se manifesta e se satisfaz por meio de um aparelho, assim também sua
regulação exprime a integração das partes ao todo, mesmo quando se exerce por meio do sistema
nervoso e endócrino. É essa a razão pela qual, no interior do organismo, não há propriamente
distância entre os órgãos, não há exterioridade das partes. O anatomista toma conhecimento de um
organismo por meio de uma espécie de amostragem em extensão. Mas o próprio organismo não
vive do modo espacial pelo qual é percebido. A vida de um ser vivo é, para cada um de seus
elementos, a ação imediata da copresença de todos.
Os fenômenos da organização social são como que uma imitação da organização vital, no sentido
em que Aristóteles diz que a arte imita a natureza. Imitar, no caso, não é copiar, e sim procurar
reencontrar o sentido de uma produção. A organização social é, antes de tudo, invenção de órgãos,
órgãos de procura e de recebimento de informações, órgãos de cálculo e mesmo de decisão. Sob a
forma ainda bem sumariamente racional que tomou nas sociedades industriais, a normatividade
pede a planificação, que, por sua vez, requer a elaboração de estatísticas de todos os tipos, e sua
utilização por meio de calculadoras eletrônicas. É tentador, e talvez mesmo legítimo, atribuir hoje
em dia algumas das funções exercidas pelo cérebro — talvez, aliás, as menos intelectuais — às
máquinas de calcular, na organização técnico-econômica a cujo serviço se encontram. Mas isso só
tem sentido se pudermos explicar, sem ser por metáfora, o funcionamento de um circuito de
neurônios corticais a partir do modelo de funcionamento de um analisador eletrônico
transistorizado. Quanto à identificação analógica da informação social por estatísticas com a
informação vital por receptores sensoriais, ela é, ao que se sabe, mais antiga. Foi Gabriel Tarde o
23 Ibid., p. 335.
116
primeiro que, em 1890, na sua obra Les lois de l'imitation, tentou estabelecer essa identificação.24
Segundo ele, a estatística é uma soma de elementos sociais idênticos. A difusão de seus resultados
faz com que sua "informação" e o fato social que está se realizando sejam simultâneos. Podem-se,
portanto, conceber um serviço de estatística e sua função como um órgão sensorial social, embora,
por enquanto, ele não passe de uma espécie de olho embrionário. É preciso notar que a análise
proposta por Tarde baseia-se na concepção da psicologia da época a respeito da função de um
receptor sensorial, como o olho ou o ouvido; segundo essa concepção, as qualidades sensíveis,
como a cor ou o som, sintetizam em uma unidade específica os componentes de um excitante que o
físico desmembra em um grande número de vibrações. De modo que Tarde podia dizer que "nossos
sentidos fazem por nós, cada um separadamente e de seu ponto de vista especial, a estatística do
universo exterior".
Mas a diferença entre a maquinaria social de recepção e de elaboração da informação, de um lado,
e o órgão vivo, de outro, persiste, no entanto, no fato de o aperfeiçoamento de uma e de outra, no
decurso da história do homem e da evolução da vida, ter se operado segundo modos inversos. A
evolução biológica dos organismos se processou pela integração mais rigorosa dos órgãos e
funções de relacionamento com o meio, por uma interiorização mais autônoma das condições de
existência daquilo que Claude Bernard chamou de meio interno. Ao passo que a evolução histórica
das sociedades humanas consistiu no fato de as coletividades de extensão inferior à espécie terem
multiplicado e, de certo modo, espalhado seus modos de ação na exterioridade espacial, suas
instituições, na exterioridade administrativa, acrescentando máquinas aos instrumentos, estoques às
reservas, arquivos às tradições. Na sociedade, a solução de cada novo problema de informação e de
regulação é buscada, senão obtida, por meio da criação de organismos ou de instituições "paralelas"
àqueles cuja insuficiência — por esclerose e rotina — explode em determinado momento. Portanto,
a sociedade tem sempre de resolver um problema sem solução, que é o problema da convergência
das soluções paralelas. Em face disso, o organismo vivo se coloca precisamente como a simples
realização, ou a realização, com simplicidade, de tal convergência. Como disse Leroi-Gourhan:
"Do animal ao homem, tudo acontece, em suma, como se fosse acrescentado cérebro sobre cérebro,
e cada uma das formações desenvolvidas por último acarretasse uma coesão cada vez mais sutil de
todas as formações anteriores, que continuam a desempenhar seu papel."25 Inversamente, o mesmo
autor mostra que "toda a evolução humana concorre para colocar fora do homem aquilo que, no
resto do mundo animal, corresponde à adaptação específica",26 o que no fundo significa que a
exteriorização dos órgãos da tecnicidade é um fenômeno unicamente humano.27 Não é, portanto,
impossível considerar a existência de certa distância entre os órgãos sociais como um caráter
específico da sociedade humana, entendendo-se como órgãos sociais os meios técnicos coletivos de
que o homem dispõe. Na medida em que a sociedade é uma exterioridade de órgãos é que o homem
pode deles dispor, por representação, e, portanto, por escolha. De modo que propor o modelo do
organismo para as sociedades humanas, em sua procura de uma organização cada vez maior, é, no
fundo, sonhar com uma volta não só às sociedades arcaicas, mas, até mesmo, às sociedades
animais.
Portanto, quase não é preciso insistir, agora, sobre o fato de que os órgãos sociais — apesar de
serem reciprocamente fim e meio uns para os outros, em um todo social — não existem uns pelos
outros e pelo todo em virtude de uma coordenação de causalidades. A exterioridade das máquinas
sociais na organização não é diferente, em si, da exterioridade das partes em uma máquina.
A regulação social tende, portanto, para a regulação orgânica e a imita, mas nem por isso deixa de
ser composta mecanicamente. Para poder identificar a composição social com o organismo social,
no sentido próprio desse termo, seria preciso poder falar nas necessidades e normas de uma
sociedade como se fala nas necessidades e normas de vida de um organismo, isto é, sem sombra de
ambigüidade. As necessidades e normas da vida de um lagarto ou de um carapau em seu habitat
24 P. 148- 155 da obra citada. É interessante lembrar que, no fim do século XIX, o serviço de in-formações do exército francês,
lamentavelmente implicado no caso Dreyfus, tinha o nome de serviço de estatística.
25 Le geste et la parole: technique et langage (Paris, 1964), p. 114.
26 Le geste et la parole.. la mémoire et les rythmes (Paris, 1965), p. 34.
27 Ibid., p. 63.
117
natural se exprimem pelo próprio fato de esses animais estarem naturalmente vivos nesse habitat.
Mas basta que um indivíduo questione as necessidades e as normas dessa sociedade e as conteste
— sinal de que essas necessidades e normas não são as de toda a sociedade — para que se perceba
até que ponto a necessidade social não é imanente, até que ponto a norma social não é interna, até
que ponto, afinal de contas, a sociedade, sede de dissidências contidas ou de antagonismos latentes,
está longe de se colocar como um todo. Se o indivíduo levanta a questão da finalidade da
sociedade, não seria porque a sociedade é um conjunto mal unificado de meios, por falta
justamente de um fim com o qual se identificaria a atividade coletiva permitida pela estrutura? Para
apoiar esse ponto de vista, poderíamos invocar a análise de etnógrafos sensíveis à diversidade dos
sistemas de normas culturais. "Nenhuma sociedade, diz Lévi-Strauss, é fundamentalmente boa, mas
também nenhuma é fundamentalmente má; todas oferecem certas vantagens a seus membros,
levando em conta um resto de iniqüidade cuja importância parece aproximadamente constante, e
que corresponde, talvez, a uma inércia específica que se opõe, no plano da vida social, aos esforços
de organização."28
28 Tristes tropiques, cap. XXXVIII.
118
II SOBRE AS NORMAS ORGÂNICAS NO HOMEM
Do ponto de vista da saúde e da doença, e, conseqüentemente, do ponto de vista da reparação dos
acidentes, da correção das desordens, ou, falando popularmente, dos remédios para os males, há a
seguinte diferença entre um organismo e uma sociedade: é que, no caso do organismo, o terapeuta
dos males sabe, de antemão e sem hesitação, qual é o estado normal que deve ser instituído, ao
passo que, no caso da sociedade, ele o ignora.
Em um pequeno livro, Ce qui cloche dans le monde,1 G. K. Chesterton denunciou, com o nome de
"erro médico", a freqüente propensão dos escritores políticos e dos reformadores para determinar o
estado de mal social antes de propor os remédios para esse mal. A refutação viva, brilhante e
irônica daquilo que ele chama de um sofisma baseia-se neste axioma: "Apesar de poder haver
dúvida sobre o modo pelo qual o corpo foi danificado, não há nenhuma dúvida sobre a forma
segundo a qual se deve restaurá-lo... A ciência médica se contenta com o corpo humano normal e
procura apenas restaurá-lo."2 Se não há hesitação sobre a finalidade de um tratamento médico, o
mesmo não ocorre, diz Chesterton, quando se trata de problemas sociais. Pois a determinação do
mal supõe a definição prévia do estado social normal, e a procura dessa definição divide aqueles
que a ela se dedicam. "O problema social é exatamente o contrário do problema médico.
Nós não divergimos a respeito da natureza exata da doença, como fazem os médicos, apesar de
concordarem a respeito da natureza da saúde."3 É sobre o próprio bem social que se discute na
sociedade, o que faz com que uns considerem justamente como mal aquilo que outros procuram
como sendo a saúde!4
Há algo de sério nesse humor. Afirmar que "nenhum médico procura produzir uma nova espécie de
homem, com olhos ou membros dispostos de modo diferente",5 significa reconhecer que a norma
de vida de um organismo é fornecida pelo próprio organismo, e está contida na sua existência. E é
verdade que nenhum médico pensa em prometer a seus doentes nada mais que a volta ao estado de
satisfação vital do qual a doença os afastou.
Mas pode acontecer que haja mais humor na realidade que nos humoristas. No próprio momento
em que Chesterton elogiava os médicos por aceitarem que o organismo lhes fornecesse a norma de
sua atividade restauradora, certos biólogos começavam a conceber a possibilidade de aplicar a
genética à transformação das normas da espécie humana. Com efeito, datam do ano 1910 as
primeiras conferências de H. J. Müller — geneticista célebre por suas experiências de mutações
provocadas — sobre a obrigação social e moral do homem de hoje de intervir sobre si mesmo a fim
de se elevar, de modo geral, ao nível intelectual mais alto, isto é, em suma, a obrigação de
vulgarizar o gênio por meio da eugenia. Tratava-se, em suma, não de um desejo individual, mas de
um programa social; a sorte que esse programa teve, a princípio, pareceu a Chesterton a mais
perfeita confirmação de seu paradoxo. Em Hors de la nuit,6 Müller propunha, como ideal social a
ser realizado, uma coletividade sem classes, sem desigualdades sociais, em que as técnicas de
conservação do material seminal e de inseminação artificial permitiria às mulheres — educadas
racionalmente para se sentirem honradas com tal dignidade — carregar em seu ventre filhos de
homens geniais, como Lenin ou Darwin.7 Ora, foi precisamente na URSS, onde o livro foi escrito,
que o manuscrito de Müller, levado ao conhecimento da alta cúpula a quem o autor pensava que a
obra pudesse agradar, foi severamente julgado, e o geneticista russo que tinha servido de
1 [O que está errado no mundo] Tradução francesa, publicada em 1948 (Gallimard), da obra What is wrong with the world, publicada em
1910.
2 Op. cit., p. 10-11.
3 Ibid., p. 12.
4 Comentamos mais demoradamente essas reflexões de Chesterton em nossa conferência: Le problème des régulations dans l'organisme
et dans la société [O problema das regulações no or-ganismo e na sociedade] (Cahiers de l'Alliance Israélite Universelle, n. 92, set-out.
1955).
5 Op. cit., p. 11.
6 Tradução francesa, por J. Rostand (Gallimard, 1938), da obra Out of the night (1935).
7 Op. cit., p. 176.
119
intermediário caiu em desgraça.8 A uma sociedade sem classes não poderia convir um ideal social
baseado em uma teoria de hereditariedade como a genética, que confirma a desigualdade humana
ao criar técnicas destinadas a corrigi-la.
Sem esquecer, portanto, que a genética oferece aos biólogos justamente a possibilidade de conceber
e de aplicar uma biologia formal e, por conseguinte, de superar as formas empíricas da vida,
criando seres vivos experimentais, segundo normas diferentes, admitimos que, até agora, a norma
de um organismo humano consiste em sua coincidência consigo mesmo, até o dia em que essa
norma passa a consistir na coincidência desse organismo com o cálculo de um geneticista
eugenista.
* * *
Se as normas sociais pudessem ser percebidas tão claramente quanto as normas orgânicas, seria
loucura dos homens não se conformarem com elas. Como os homens não são loucos e como não
existem sábios, segue-se que as normas sociais têm de ser inventadas, e não observadas. O conceito
de sabedoria era um conceito que tinha sentido para os filósofos gregos, porque eles concebiam a
sociedade como uma realidade de tipo orgânico, tendo uma norma intrínseca, uma saúde própria,
regra de moderação, de equilíbrio e de compensação, réplica e imitação, na escala humana, da lei
universal que, da totalidade dos seres, fazia um cosmos. Um biólogo contemporâneo, Cannon,
revelou como que um reflexo da identificação dos conceitos jurídicos com os conceitos médicos,
no pensamento grego arcaico, quando deu o título La sagesse du corps [A sabedoria do corpo] à
obra na qual expõe a teoria das regulações orgânicas, da homeostasia.9 Falar em sabedoria do corpo
significa dar a entender que o corpo vivo está em estado permanente de equilíbrio controlado, de
desequilíbrio que, logo que se esboça, é contrariado, de estabilidade mantida contra as influências
perturbadoras de origem externa; em resumo, quer dizer que a vida orgânica é uma ordem de
funções precárias e ameaçadas, mas constantemente restabelecidas por um sistema de regulações.
Atribuindo ao corpo uma sabedoria, Starling e Cannon reimportavam para a fisiologia um conceito
que outrora a medicina exportara para a política. No entanto, Cannon, não podia resistir à tentação
de alargar, por sua vez, o conceito de homeostasia, de modo a lhe conferir o poder de esclarecer os
problemas sociais, dando como título a seu último capítulo: relação entre a homeostasia biológica e
a homeostasia social. A análise dessas relações, porém, é um emaranhado de lugares-comuns de
sociologia liberal e de política parlamentar relativos à alternância entre conservatismo e
reformismo, alternância esta que Cannon considera como a conseqüência de um dispositivo de
compensação entre as duas tendências. Como se essa alternância, em vez de ser a conseqüência de
um dispositivo inerente — mesmo em estado rudimentar — de qualquer estrutura social, não fosse,
na realidade, a expressão da eficácia relativa de um regime inventado para canalizar e amortecer os
antagonismos sociais de uma máquina política que as sociedades modernas adotaram para diferir
— sem poder impedi-las, afmal — a transformação de suas incoerências em crise. Observando as
sociedades da era industrial, podemos indagar se seu estado de fato permanente não seria a crise e
se isso não seria um sintoma óbvio da ausência de um poder de auto-regulação nessas mesmas
sociedades.
As regulações para as quais Cannon inventou o termo geral homeostasia10 são do tipo das que
Claude Bernard havia reunido sob a denominação constantes do meio interno. São normas do
funcionamento orgânico, como a regulação dos movimentos respiratórios sob a ação da taxa de
ácido carbônico dissolvido no sangue, a termorregulação no animal de temperatura constante etc.
Sabe-se, hoje em dia, algo de que Claude Bernard podia apenas suspeitar, isto é, que outras formas
de regulação devem ser levadas em consideração no estudo das estruturas orgânicas e da gênese
8 Cf. Julian Huxley, La génétique soviétique et la science rnondiale (Stock, 1950), p. 206.
9 O título La sagesse du corps foi tirado por Cannon da obra do ilustre fisiologista inglês Starling. A tradução francesa de Z. M. Bacq foi
publicada pelas Éditions de la Nouvelle Critique, 1946. (O original de Cannon intitula-se The wisdom of the body, Nova Iorque, Norton,
1932. As citações são da tradução francesa. (N.T.))
10 Op. cit., p. 19.
120
dessas estruturas. A embriologia experimental contemporânea encontrou seus problemas
fundamentais na existência das regulações morfológicas que, durante o desenvolvimento
embrionário, conservam ou restabelecem a integridade da forma específica, e prolongam sua ação
organizadora na reparação de certas mutilações. De modo que se podem classificar em três tipos o
conjunto das normas graças às quais os seres vivos se apresentam como um mundo distinto:
normas de constituição, normas de reconstituição e normas de funcionamento.
Essas diferentes normas suscitam um mesmo problema para os biólogos, que é o problema de sua
relação com os casos singulares que fazem aparecer, em relação ao caráter específico normal, uma
distância ou um desvio deste ou daquele caráter biológico, estatura, estrutura de órgão, composição
química, comportamento etc. Se é o organismo individual que propõe por si mesmo a norma para
sua restauração, em caso de malformação ou de acidente, o que é que estabelece como norma a
estrutura e as funções específicas que não poderiam ser percebidas a não ser enquanto manifestadas
pelos indivíduos? A termorregulação difere do coelho para a cegonha, do cavalo para camelo. Mas
como dar conta das normas próprias a cada uma dessas espécies, por exemplo, dos coelhos, sem
anular as diferenças ligeiras e fragmentárias que dão aos indivíduos sua singularidade?
O conceito de normal em biologia se define objetivamente pela freqüência do caráter assim
qualificado. Para indivíduos de uma determinada espécie, do mesmo sexo e idade, o peso, a
estatura, a maturação dos instintos são os caracteres que marcam, efetivamente, o mais numeroso
dos grupos distintivamente formados pelos indivíduos de uma população natural e que uma
mensuração revela serem idênticos. Foi Quêtelet que observou, por volta de 1843, que a
distribuição das estaturas humanas podia ser representada pela lei de erros estabelecida por Gauss,
forma-limite da lei binominal e que distinguiu os dois conceitos de média gaussiana ou média
verdadeira e de média aritmética, a princípio confundidas na teoria do homem médio. A
distribuição dos resultados de medida aquém e além do valor médio garante que a média gaussiana
é uma média verdadeira. Os desvios são tanto mais raros quanto maiores.
Em nosso Ensaio (Parte II, 2) havíamos tentado conservar, para o conceito de norma, uma
significação análoga à do conceito de tipo que Quêtelet tinha sobreposto à sua teoria do homem
médio, depois da descoberta da média verdadeira. Significação análoga, isto é, semelhante quanto à
função, mas diferente quanto ao fundamento. Quêtelet considerava a regularidade expressa pela
média, pela maior freqüência estatística, como o efeito, a conseqüência, nos seres vivos, de sua
sujeição a leis de origem divina. Tínhamos procurado mostrar que a freqüência pode ser explicada
por regulações de uma ordem totalmente diferente da conformidade a uma legislação sobrenatural.
Tínhamos interpretado a freqüência como o critério atual ou virtual da vitalidade de uma solução
adaptativa.11 É provável que nossa tentativa não tenha atingido seu objetivo, já que foi criticada por
sua falta de clareza e por ter concluído indevidamente que havia melhor adaptação havendo maior
freqüência.12 Na realidade, há adaptação e adaptação, e o sentido em que a palavra é tomada, nas
objeções que nos foram feitas, não é o mesmo sentido que lhe havíamos dado. Existe uma forma de
adaptação que é especialização para uma determinada tarefa em um meio estável, mas que fica
ameaçada por qualquer acidente que modifique esse meio. E existe uma outra forma de adaptação
que é independente em relação às pressões de um meio estável e, por conseguinte, pode superar as
dificuldades de viver, dificuldades essas que resultam de uma alteração do meio. Ora, tínhamos
definido a normalidade de uma espécie por uma certa tendência à variedade, "uma espécie de
seguro contra a especialização excessiva sem reversibilidade e sem flexibilidade, o que vem a ser
uma adaptação bem-sucedida". Em matéria de adaptação, o perfeito ou acabado significa o começo
do fim das espécies. Na época, nos inspiramos em um artigo do biólogo Albert Vandel, que
desenvolveu, depois, as mesmas idéias em seu livro L 'homme et l'évolution.13 Retomemos, no
entanto, nossa análise.
11 Cf. supra, p. 101-104.
12 Duyckaerts, La notion de normal en psychologie clinique (Vrin, 1954), p. 157.
13 Gallimard, 1. ed., 1949; 2. ed., 1958. A tese da evolução por dicotomia (cisão de um grupo animal em ramo inovador e ramo
conservador) é retomada por Vandel em seu artigo sobre O evolucionismo de Teilhard de Chardin (L'évolutionnisme de Teilhard de
Chardin. In: Études philosophiques, 1965, n. 4, p. 459.
121
Quando se define o normal pelo mais freqüente, cria-se um obstáculo à compreensão do sentido
biológico dessas anomalias às quais os geneticistas deram o nome de mutações. Com efeito, na
medida em que, no mundo animal ou vegetal, uma mutação pode constituir a origem de uma nova
espécie, vemos uma norma nascer de um desvio em relação a uma outra. A norma é a forma de
desvio que a seleção natural conserva. É a concessão que a destruição e a morte fazem ao acaso. No
entanto, sabe-se muito bem que as mutações são mais freqüentemente restritivas do que
construtivas; que, quando são duráveis, freqüentemente são superficiais e que, quando são
consideráveis, acarretam uma certa fragilidade, uma diminuição da resistência orgânica. De modo
que devemos reconhecer que as mutações têm o poder de diversificar as espécies, muito mais que o
poder de explicar a gênese dessas mesmas espécies.
Segundo uma lógica rigorosa, uma teoria mutacionista da gênese das espécies só poderia definir o
normal como aquilo que é temporariamente viável. Mas, de tanto considerar os seres vivos apenas
como mortos em perspectiva, não levamos em conta a orientação adaptativa do conjunto dos seres
vivos, considerados na continuidade da vida, subestimamos esse aspecto da evolução que é a
variação dos modos de vida para a ocupação de todos os lugares vagos.14 Há, portanto, um sentido
da palavra adaptação que, em determinado momento, e em relação a uma espécie e seus mutantes,
permite estabelecer uma distinção entre seres vivos ultrapassados e seres vivos progressivos. A
animalidade é uma forma de vida que se caracteriza pela mobilidade e pela predação. Desse ponto
de vista, a visão é uma função que não pode ser considerada inútil à mobilidade em ambiente claro.
Uma espécie animal cega e cavernícola pode ser considerada adaptada à obscuridade, e pode-se
conceber sua aparição, por mutação, a partir de uma espécie dotada de boa visão, e sua conservação
pelo fato de ter encontrado e ocupado um meio que, se não é adequado, pelo menos não é contraindicado.
Nem por isso se deixa de considerar a cegueira como uma anomalia, não no sentido de
ser uma raridade, mas no sentido em que implica, para os seres vivos interessados, um retrocesso,
uma eliminação em caso de impasse.
Há uma grande dificuldade em explicar a norma específica em biologia, apenas pelo encontro de
séries causais independentes, uma biológica e a outra geográfica; e parece-nos que um dos sinais
dessa dificuldade é o aparecimento, em 1954, na genética das populações, do conceito de
homeostasia genética, devido a Lerner.15 O estudo do arranjo dos genes e do aparecimento de genes
mutantes nos indivíduos de populações naturais e experimentais, relacionado com o estudo dos
efeitos da seleção natural, fez com que se chegasse à conclusão de que o efeito seletivo de um gene
ou de um certo arranjo dos genes não é constante, que depende, sem dúvida, das condições do
meio, mas também de uma espécie de pressão exercida sobre qualquer um dos indivíduos pela
totalidade genética representada pela população. Mesmo nos casos de afecções humanas, por
exemplo, na anemia de Cooley, freqüente na área do Mediterrâneo, sobretudo na Sicília e na
Sardenha, observou-se uma superioridade seletiva dos indivíduos heterozigotos sobre os
homozigotos. Em animais de criação essa superioridade pode ser medida experimentalmente. Essas
medidas confirmam e coincidem, nesse ponto, com antigas observações de criadores acerca da
revigoração das raças por meio da hibridação. Os heterozigotos são mais fecundos. Para um gene
mutante de caráter letal, um heterozigoto goza de uma vantagem seletiva não apenas em relação ao
mutante homozigoto, mas até mesmo em relação ao homozigoto normal. Daí o conceito de
homeostasia genética. Na medida em que a sobrevivência de uma população é favorecida pela
freqüência de heterozigotos, pode-se considerar como uma regulação a relação proporcional entre
fecundidade e heterozigose. O mesmo ocorre, segundo J. B. S. Haldane, em relação à resistência de
uma espécie a certos parasitas. Uma mutação bioquímica pode proporcionar ao mutante uma
capacidade de resistência superior. A diferença bioquímica individual, em uma espécie, torna essa
mesma espécie mais apta à sobrevivência, às custas de mudanças que exprimem morfológica e
fisiologicamente os efeitos da seleção natural. Ao contrário da humanidade, que, segundo Marx, só
14 "Segundo a terminologia de Darwin, os lugares vagos, em determinado local, são não tanto os espaços livres mas, sobretudo, sistemas
de vida (habitat, modo de alimentação, de ataque, de proteção) que são teoricamente possíveis nesse local, mas ainda não são
praticados" (Du développement à l'évolution au XIX siècle, por Canguilhem, Lapassade, Piquemal, Ulmann. In: Thalès, XI, 1960, p. 32).
15 Fomos buscar a parte mais fundamental de nossa informação sobre a homeostasia genética no excelente estudo de Emest Bõsiger,
Tendances actuelles de la génétique des populations, publicado no relatório da XXVI Semana de Síntese (La biologie, acquisitions
récentes, Aubier, 1965).
122
levanta os problemas que pode resolver, a vida multiplica, de antemão, soluções para os problemas
de adaptação que poderão surgir.16
Em resumo, as leituras e reflexões que fizemos desde a publicação de nosso Ensaio de 1943 não
nos levaram a pôr em dúvida a interpretação, então proposta, do fundamento biológico dos
conceitos originais da biometria.
* * *
Não nos parece, também, que devamos modificar profundamente nossa análise das relações entre a
determinação das normas estatísticas e a apreciação da normalidade ou da anormalidade deste ou
daquele desvio individual. No Ensaio, tínhamo-nos baseado em estudos de André Mayer e Henri
Laugier. Dentre os numerosos artigos sobre o mesmo assunto, publicados desde então, dois nos
chamaram a atenção.
O primeiro desses artigos é de autoria de A. C. Ivy: "What is normal or normality?" (1944).17 O
autor distingue quatro acepções do conceito de normal: 1ª) coincidência entre um fato orgânico e
um ideal que estabeleça, por decisão, o limite inferior ou superior de certas exigências; 2ª) a
presença, em um indivíduo, de caracteres (estrutura, função, composição química) cuja medida é
fixada convencionalmente pelo valor central de um grupo homogêneo quanto à idade, sexo etc.; 3ª)
a situação de um indivíduo em relação à média para cada caráter considerado, uma vez que a curva
de distribuição foi elaborada, que o desvio fixo foi calculado e o número de desvios padrão foi
estabelecido; 4ª) a consciência da ausência de handicap. O uso do conceito de normal exige que se
defina inicialmente a acepção segundo a qual a palavra está sendo tomada. O autor só leva em
consideração, para seu estudo, os sentidos n. 3 e 4, com subordinação do último ao precedente. Ele
procura demonstrar o interesse que há em estabelecer o desvio padrão das medidas de estrutura, de
funções, de constituintes bioquímicos, em um grande número de indivíduos, especialmente quando
o desvio dos resultados é grande, e considerar como normais os valores representados por 68,26%
de uma população examinada, isto é, os valores que correspondem à média, mais ou menos um
desvio padrão. São os indivíduos cujos valores se situam fora dessa faixa de 68% que levantam
dificeis problemas de apreciação quanto à sua relação com a norma. Por exemplo: toma-se a
temperatura de 10.000 estudantes aos quais se pergunta se estão se sentindo febris ou não; elaborase
a distribuição das temperaturas e calcula-se, para cada grupo de temperatura idêntica, a
correlação entre o número total de indivíduos e o número de indivíduos que dizem estar com febre.
Quanto mais a correlação for próxima de 1, tanto maior a probabilidade de o indivíduo estar em
estado patológico, do ponto de vista infeccioso. Em 50 indivíduos com 100°F só há 14% de
probabilidade de que um indivíduo normal do ponto de vista subjetivo (isto é, que não esteja se
sentindo febril) esteja normal do ponto de vista bacteriológico.
O interesse do estudo de Ivy reside não tanto nessas indicações de estatística clássica mas,
sobretudo, na simplicidade com que o autor reconhece as dificuldades da coincidência de conceitos
como o normal fisiológico e o normal estático. O estado de plenitude fisiológica (the healthful
condition) é definido como estado de equilíbrio das funções integradas de tal modo que
proporcionam ao indivíduo grande margem de segurança, certa capacidade de resistência em uma
situação crítica ou em uma situação adversa. O estado normal de uma função consiste em não
interferir com outras; mas pode-se objetar a essas proposições que, em conseqüência de sua
integração, a maioria das funções interfere. Se devemos considerar que uma função é normal
enquanto não levar uma outra à anormalidade, a questão não terá sido descabida? De qualquer
modo, a confrontação desses conceitos fisiológicos com o conceito de norma estatística definida
(isto é, o estado de 68% de indivíduos em um grupo homogêneo) revela a incapacidade desse
16 Poder-se-ia mesmo dizer com A. Lwoff: "O organismo vivo não tem problemas; na natureza não há problemas, só há soluções" (Le
concept d' information dans la biologie moléculaire. In: Le concept d'information dans la science contemporaine, Les Editions de
Minuit, 1965, p. 198).
17 Quartely Bull. Northwestern Univ. Med. School, Chicago, 1944, 18, 22-32, Spring-Quarter. Este artigo nos foi indicado e enviado
pelos professores Charles Kayser e Bernard Metz.
123
mesmo grupo para resolver um problema concreto de patologia. Para um velho, o fato de
apresentar funções compreendidas nos 68% correspondentes à sua idade não basta para qualificá-lo
como normal, na medida em que se define o normal fisiológico pela margem de segurança no
exercício das funções. Com efeito, o envelhecimento se traduz dessa margem. No fim das contas,
uma análise como a de Ivy apresenta o interesse de confirmar, a partir de outros exemplos, a
insuficiência do ponto de vista estatístico — insuficiência esta, aliás, muitas vezes reconhecida
antes dele —quando é preciso decidir sobre o que é normal ou não para determinado indivíduo.
229
A necessidade de retificar e de tornar mais flexível o conceito de normal estatístico pela
experiência que o fisiologista adquire acerca da variabilidade das funções também está destacada
no artigo de John A. Ryle, The meaning ofnormal (1947).18 O autor, professor de medicina social
na Universidade de Oxford, procura, em primeiro lugar, demonstrar que certos desvios individuais
em relação às normas fisiológicas nem por isso são índices patológicos. É normal que exista uma
variabilidade fisiológica; essa variabilidade é necessária à adaptação e, portanto, à sobrevivência. O
autor examinou 100 estudantes em boa saúde, isentos de dispepsia, nos quais efetuou medidas da
acidez gástrica. Constatou que 10% dos estudantes apresentaram algo que se poderia considerar
como uma hipercloridria patológica, tal como é observada em casos de úlcera duodenal, e que 4%
apresentaram uma acloridria total, sintoma até então considerado como indicador de anemia
perniciosa progressiva. O autor acha que todas as atividades fisiológicas mensuráveis se mostram
suscetíveis de uma variabilidade análoga, que podem ser representadas pela curva de Gauss, e que,
para uso da medicina, o normal deve estar compreendido entre os limites determinados por um
desvio padrão de um e de outro lado da mediana. Não existe, porém, nenhuma linha de separação
nítida entre as variações inatas compatíveis com a saúde e as variações adquiridas, que são os
sintomas de uma doença. A rigor, pode-se considerar que um desvio fisiológico extremo em
relação à média constitui ou contribui para constituir uma predisposição para este ou aquele
acidente patológico.
John A. Ryle relaciona como se segue as atividades de ordem médica para as quais o conceito de
"normal bem compreendido" corresponde a uma necessidade: 1º) definição do patológico; 2º)
definição de níveis funcionais a serem visados em um tratamento ou uma reeducação; 3º) escolha
do pessoal empregado na indústria; 4º) detecção das predisposições às doenças. É preciso notar —
pois é muito importante — que as três últimas necessidades dessa enumeração dizem respeito aos
critérios de perícia, capacidade, incapacidade, risco de mortalidade.
Ryle distingue, enfim, dois tipos de variações em relação à norma, sobre a anormalidade das quais
pode acontecer que se tenha de decidir, a fim de tomar certas decisões de ordem prática: variações
que afetam um mesmo indivíduo conforme o tempo, variações, em determinado momento, de um
indivíduo para outro, em uma espécie. Esses dois tipos de variações são essenciais para a
sobrevivência. A adaptabilidade depende da variabilidade. Mas o estudo da adaptabilidade deve
sempre levar em conta todas as circunstâncias. Não basta, no caso, proceder a medidas e a testes de
laboratório, é preciso estudar também o meio físico e o meio social, a nutrição, o modo e as
condições de trabalho, a situação econômica e a educação das diferentes classes, pois sendo o
normal considerado como o índice de uma aptidão ou de uma adaptabilidade, é preciso sempre
indagar em relação a que circunstância e para que finalidade se deve determinar a adaptabilidade e
a aptidão. Tomemos um exemplo: o autor faz o relatório dos resultados de uma pesquisa sobre o
volume da tireóide em jovens de 11 a 15 anos, em regiões em que o teor de iodo da água potável
tenha sido dosado com precisão. O normal é a tireóide exteriormente inaparente. A tireóide
aparente parece indicar uma deficiência mineral específica. Porém, como poucas crianças com
tireóide aparente acabam apresentando um bócio, pode-se sustentar que uma hiperplasia
clinicamente identificável exprime um avançado grau de adaptação, e não a primeira etapa de uma
18 The Lancet, 1947, I, 1; o artigo está reproduzido em Concepts of medicine, editado por Brandon Lush (Pergamon Press, 1961).
124
doença. Tendo em vista que a tireóide é sempre menor nos islandeses, e que, inversamente, na
China há regiões em que 60% dos habitantes têm bócio, parece que se pode falar em padrões
nacionais de normalidade. Em resumo, para definir o normal, é preciso tomar como ponto de
referência os conceitos de equilíbrio e de adaptabilidade, é preciso levar em conta o meio externo e
o trabalho que o organismo ou suas partes devem efetuar.
O estudo que acabamos de resumir é interessante, sem intolerância em matéria de metodologia,
levando-nos a admitir que as preocupações de perícia e de avaliação prevalecem sobre as
preocupações de medida no sentido estrito do termo.
Quando se trata de normas humanas, esse estudo reconhece que essas normas são determinadas
como possibilidade de agir de um organismo em situação social, e não como funções de um
organismo encarado como mecanismo vinculado ao meio físico. A forma e as funções do corpo
humano não são apenas a expressão de condições impostas à vida pelo meio, mas a expressão dos
modos de viver socialmente adotados no meio. Em nosso Ensaio, mencionamos observações que
permitiam considerar como provável um emaranhado de influências da natureza e da cultura na
determinação de normas orgânicas humanas, em virtude da relação psicossomática.19 Na ocasião,
nossas conclusões talvez tenham parecido temerárias. Parece-nos, hoje em dia, que o
desenvolvimento dos estudos de medicina psicos-somática e psicossocial, sobretudo nos países
anglo-saxões, tenderia a confirmá-las. Um renomado especialista em psicologia social, Otto
Klineberg, em um estudo sobre as tensões relativas à entente internacional,20 destacou as causas de
ordem psicossomática e psicossocial dos vários tipos de reações e de distúrbios que provocam
modificações — aparentemente duráveis — de constantes orgânicas. Os chineses, os hindus e os
filipinos apresentam uma pressão sistólica média de 15 a 30 pontos inferior à dos americanos. No
entanto, a pressão sistólica média de americanos que passaram muitos anos na China baixou,
durante esse período, de 118 para 109. Da mesma forma, pôde-se notar, por volta de 1920-1930,
que a hipertensão era muito rara na China. Apesar de considerá-la "excessivamente simplista",
Klineberg cita a afirmação feita por um médico americano, por volta de 1929: "Se permanecemos
na China durante bastante tempo, aprende-mos a aceitar as coisas, e nossa pressão sangüínea baixa.
Os chineses, na América do Norte, aprendem o protesto e a não-aceitação, e sua pressão sangüínea
sobe." Supor que Mao Tsé-Tung mudou tudo isso não é fazer ironia, mas apenas aplicar o mesmo
método de interpretação dos fenômenos psicossociais a outros dados políticos e sociais.
O conceito de adaptação, e o conceito de relação psicossomática ao qual leva sua análise, quando
se trata do homem, pode ser retomado e, por assim dizer, reelaborado em função de teorias de
patologia que diferem quanto a suas observações de base, mas convergem quanto a seu espírito. No
homem, o relacionamento das normas fisiológicas com a diversidade dos modos de reação e de
comportamento que dependem, por outro lado, de normas culturais, se prolonga, naturalmente, pelo
estudo das situações patogênicas especificamente humanas. No homem, ao contrário do animal de
laboratório, os estímulos ou agentes patogênicos jamais são recebidos pelo organismo como fatos
físicos em estado bruto, mas são também experimentados pela consciência como sinais de tarefas
ou de provas a serem realizadas.
Hans Selye foi um dos primeiros que — quase ao mesmo tempo que Reilly, na França — se
dedicou ao estudo das síndromes patológicas não específicas, das reações e dos comportamentos
característicos — em toda doença considerada em seu início — do fato geral de "se sentir
doente".21 Uma agressão (isto é, uma estimulação brusca) não específica, provocada por qualquer
estímulo: corpo estranho, hormônio purificado, traumatismo, dor, emoção reiterada, fadiga
inevitável etc., desencadeia, em primeiro lugar, uma reação de alarme, reação esta que também não
é específica e que consiste essencialmente na excitação global do simpático acompanhada por uma
secreção de adrenalina e de noradrenalina. Em suma, o alarme coloca o organismo em estado de
19 Cf. supra, p. 120-126.
20 Tensions affecting international understanding. A survey of research, Nova Iorque, Social Science Research Council, 1950, p. 46-48.
Esta obra foi indicada por Robert Pagés.
21 Cf. Selye, D'une révolution en pathologie (La Nouvelle nouvelle revue française, 1º de março de 1954, p. 409). A obra principal de
Selye é Stress (Montreal, 1950). Antes desta, Le syndrome général d' adaptation et les maladies de l'adaptation (Annales d
'endocrinologie, 1946, n. 5 e 6).
125
urgência, de defesa indeterminada. A essa reação de alarme sucede ou um estado de resistência
específica, como se o organismo, tendo identificado a natureza da agressão, adaptasse sua resposta
ao ataque e atenuasse sua suscetibilidade inicial à agressão, ou então um estado de esgotamento,
quando a intensidade e a continuidade da agressão excedem as capacidades de reação. Essas são as
três fases da síndrome geral de adaptação, segundo Selye. Portanto, a adaptação é por ele
considerada como a função fisiológica por excelência. Propomos defini-la como a impaciência
orgânica das intervenções ou provocações indiscretas do meio, quer seja um meio cósmico (ação
dos agentes físico-químicos) ou humano (emoções). Se por fisiologia entende-se a ciência das
funções do homem normal, é preciso reconhecer que essa ciência se baseia no postulado de que o
homem normal é o homem na natureza. Como disse um fisiologista, Bacq: "A paz, a preguiça, a
indiferença psíquica são trunfos importantes para a conservação de uma fisiologia normal."22 Mas
talvez a fisiologia humana seja sempre mais ou menos uma fisiologia aplicada, fisiologia do
trabalho, do esporte, do lazer, da vida em elevadas altitudes etc., isto é, estudo biológico do homem
em situações culturais geradoras de agressões variadas.23 Nesse sentido, encontraríamos nas teorias
de Selye uma confirmação do fato de que é por seus desvios que se reconhecem as normas.
Pelo nome de doenças da adaptação é preciso compreender todas as espécies de distúrbios da
função de resistência às perturbações, as doenças da função de resistência ao mal. Assim
chamamos as reações que ultrapassam seus objetivos, que continuam em seu impulso e perseveram
quando depois de cessada a agressão. É o caso de afirmar, como F. Dagognet: "O doente cria a
doença pelo próprio excesso de sua defesa e pela intensidade de uma reação que o esgota e o
desequilibra mais do que o protege. Os remédios que anulam ou estabilizam têm precedência sobre
todos os que estimulam, favorecem ou sustentam."24
Não nos compete tomar partido sobre o problema que consiste em saber se as observações de Selye
e as de Reilly e de sua escola são idênticas, e se os mecanismos humorais invocados por um e os
mecanismos neurovegetativos invocados pelos outros se completam ou não.25 De uma e de outra
tese consideramos apenas sua convergência a respeito do seguinte ponto: a prevalência da noção de
síndrome patogênica sobre a noção de agente patogênico, a subordinação da noção de lesão à noção
de perturbação das funções. Em uma lição que teve enorme repercussão, contemporânea das
primeiras pesquisas de Reilly e de Selye, P. Abrami havia chamado a atenção para o número e a
importância dos distúrbios funcionais, ora capazes de diversificar lesões idênticas, do ponto de
vista da sintomatologia clínica, ora capazes, sobretudo, de, com o tempo, dar origem a lesões
orgânicas.26
Estamos já bastante longe da sabedoria do corpo. Com efeito, poderíamos pôr em dúvida essa
sabedoria, estabelecendo uma analogia entre as doenças da adaptação e todos os fenômenos de
anafilaxia, de alergia, isto é, todos os fenômenos de hiper-reatividade do organismo contra uma
agressão à qual ele está sensibilizado. Nesse caso, a doença consiste no exagero da resposta
orgânica, na violência e na obstinação da defesa, como se o organismo visasse mal, calculasse mal.
O termo "erro" ocorreu naturalmente aos patologistas para designar um distúrbio cuja origem tem
de ser procurada na própria função fisiológica, e não no agente externo. Identificando a histamina,
Sir Henry Dale a havia considerado como um produto da "autofarmacologia orgânica". Pode-se,
por conseguinte, deixar de classificar como erro um fenômeno fisiológico que leva ao que Bacq
chama de: "Este verdadeiro suicídio do organismo por substâncias tóxicas que ele estoca em seus
próprios tecidos."27
22 Principes de physiopathologie et de thérapeutique générales (3. ed., Paris, Masson, 1963), p. 232.
23 Cf. Charles Kayser: "O estudo da hiperventilação em altitude elevada e durante o esforço levou a uma séria revisão de nossos
conceitos sobre a importância dos mecanismos reflexos na regulação da respiração. A importância do débito cardíaco no mecanismo
circulatório só apareceu com toda a nitidez quando se estudaram desportistas e sedentários realizando uma prova de esforço. O esporte e
o trabalho levantam um conjunto de problemas puramente fisiológicos que deveremos tentar elucidar." (Physiologie du travail et du
sport. Paris, Hermann, 1947, p. 233).
24 La raison et les remèdes. Paris, Presses Universitaires de France, 1964, p. 310.
25 Cf., sobre esse assunto, Philippe Decourt, Phénomènes de Reilly et syndrome général d'adaptation de Selye (Études et Documents, I),
Tânger, Hesperis, 1951.
26 Les troubles fonctionnels en pathologie (Aula inaugural do curso de patologia médica). In: La Presse médicale, n. 103, 23 de
dezembro de 1936. Este texto nos foi indicado por François Dagognet.
27 Op. cit., p. 202.
126
III UM NOVO CONCEITO EM PATOLOGIA: O ERRO
Em nosso Ensaio, confrontamos a concepção ontológica da doença, que a entende como o oposto
qualificativo da saúde, e a concepção positivista, que a deriva quantitativamente do estado normal.
Quando a doença é considerada como um mal, a terapêutica é tida como uma revalorização;
quando a doença é considerada como uma falta ou um excesso, a terapêutica consiste em uma
compensação. Opusemos, à concepção de Claude Bernard sobre a doença, a existência de afecções
como a alcaptonúria, cujo sintoma não é de modo algum derivável do estado normal, e cujo
processo — metabolismo incompleto da tirosina — não tem relação quantitativa com o processo
normal.1 Hoje em dia, é preciso reconhecer que, mesmo naquela época, nossa argumentação
poderia ter sido mais sólida se fosse mais fartamente alimentada de exemplos, levando em conta o
albinismo e a cistinúria.
Essas doenças do metabolismo por bloqueio das reações em um estágio intermediário já em 1909
receberam, de Sir Archibald Garrod, o nome impressionante de erros natos do metabolismo.2
Distúrbios bioquímicos hereditários, essas doenças genéticas podem, no entanto, não se manifestar
logo ao nascer, mas a longo prazo ou ocasionalmente, como a carência do organismo humano em
uma diástase (glicose-6-fosfatase-desidrogenase), que não se expressa por nenhum distúrbio se o
portador não for levado a introduzir favas em sua alimentação, ou a ingerir primaquina para
combater a malária. Há meio século, a medicina só conhecia uma meia dúzia dessas doenças, que
podiam ser consideradas como raridades. Isso explica por que o conceito de erro inato de
metabolismo não tenha sido um conceito usual em patologia, na época em que começamos nossos
estudos médicos. Hoje em dia, conhecem-se mais de cem doenças bioquímicas hereditárias. A
identificação e o tratamento de algumas dessas doenças, que são especialmente penosas, como a
fenilcetonúria ou idiotia fenil-pirúvica, permitem grandes esperanças em relação à extensão da
explicação genética das doenças. A etiologia de doenças esporádicas ou endêmicas, como o bócio,
constitui o objeto de revisões no sentido da pesquisa de anomalias bioquímicas de natureza
genética.3 Compreende-se, assim, que o conceito de erro inato do metabolismo, apesar de não ter se
tornado propriamente um conceito vulgar, seja, no entanto, hoje em dia, um conceito usual.
Importaram-se para o campo dos fenômenos bioquímicos os termos "anomalia" e "lesão", tirados
da linguagem da patologia morfológica.4
No início, o conceito de erro bioquímico hereditário se baseava na engenhosidade de uma
metáfora; ele se baseia, hoje em dia, na solidez de uma analogia. Na medida em que os conceitos
fundamentais da bioquímica dos aminoácidos e das macromoléculas são conceitos tirados da teoria
da informação, tais como código ou mensagem, na medida em que as estruturas da matéria da vida
são estruturas de ordem linear, o negativo da ordem é a interversão, o negativo da seqüência é a
confusão, e a substituição de um arranjo por outro é o erro. A saúde é a correção genética e
enzimática. Estar doente é ter sido feito falso, ser falso, não no sentido de um bilhete falso ou de
um amigo falso, mas no sentido de um costume falso ou de um verso falso. Já que as enzimas são
os mediadores pelos quais os genes dirigem as sínteses intracelulares de proteínas, já que a
informação necessária a essa função de direção e de supervisão está inscrita nas moléculas de ácido
desoxirribonucléico no nível do cromossomo, essa informação deve ser transmitida como uma
mensagem do núcleo ao citoplasma, e aí deve ser interpretada, para que seja reproduzida,
recopiada, a seqüência de aminoácidos constitutiva da proteína a ser sintetizada. Mas, qualquer que
seja o modo de interpretação, não existe interpretação que não implique um equívoco possível. A
substituição de um aminoácido por outro cria a desordem por ininteligência da ordem dada. Por
exemplo, no caso da anemia de hemácias falciformes, isto é, deformadas em forma de foice por
1 Cf. supra, p. 45.
2 Inborn errors of metabolism (Londres, 14. Frowde, 1909).
3 Cf. M. Tubiana, Le goitre, conception moderne (Revuefrançaise d'études cliniques et biologi-ques, maio de 1962, p. 469-476).
4 Sobre uma classificação das doenças genéticas, cf. P. Bugard, L 'état de maladie, Parte IV (Pa-ris, Masson, 1964).
127
retração consecutiva a uma baixa da pressão de oxigênio, a hemoglobina é que é anormal, pela
substituição do ácido glutâmico pela valina, na cadeia de aminoácidos da globulina.
A introdução do conceito de erro na patologia é um fato de grande importância por dois motivos:
em primeiro lugar, por manifestar uma transformação na atitude do homem em relação à doença —
e não, como se poderia supor, por provocar essa transformação — e, em segundo lugar, por supor
que esteja estabelecido um novo status na tentação de denunciar a confusão estabelecida entre
pensamento e natureza, de protestar contra o fato de se atribuir à natureza os processos do
pensamento, de protestar que o erro é próprio do julgamento, que a natureza pode ser testemunha,
mas nunca juiz etc. Aparentemente, com efeito, tudo acontece como se o bioquímico e o geneticista
atribuíssem aos elementos do patrimônio hereditário seu saber de químico e de geneticista, como se
as enzimas pudessem ou devessem conhecer as reações de acordo com as quais a química analisa
sua ação, e pudessem, em certos casos ou em certos momentos, ignorar uma delas ou ler errado o
enunciado de uma dessas reações. Não se deve esquecer, porém, de que a teoria da informação não
pode ser dividida, e que ela diz respeito tanto ao próprio conhecimento quanto a seus objetos, à
matéria ou à vida. Nesse sentido, conhecer é se informar, aprender a decifrar ou a decodificar. Não
há, portanto, diferença entre o erro da vida e o erro do pensamento, entre o erro da informação
informante e o erro da informação informada. É a primeira que fornece a chave da segunda. Do
ponto de vista filosófico, portanto, diríamos que se trata de um novo tipo de aristotelismo com a
condição, é claro, de não confundir a psicobiologia aristotélica com a tecnologia moderna das
transmissões.5
É também aristotélica, sob certos aspectos, essa noção de erro na composição bioquímica deste ou
daquele constituinte do organismo. O monstro, segundo Aristóteles, é um erro da natureza que se
enganou quanto à matéria. Na patologia molecular atual, o erro gera, sobretudo, o vício da forma,
mas, no entanto, é um erro da natureza que se enganou quanto à matéria. Na patologia molecular
atual, o erro gera, sobretudo, o vício da forma, mas, no entanto, é como microanomalia,
micromonstruosidade que os erros bioquímicos hereditários são considerados. E assim como um
certo número de anomalias morfológicas congênitas são interpretadas como fixação do embrião em
um estágio do desenvolvimento, que, normalmente, deveria ser ultrapassado, assim também um
certo número de erros metabólicos são interpretados como interrupção ou cessação de uma
seqüência de reações químicas.
Em uma tal concepção da doença, o mal é realmente radical. Ele se manifesta no nível do
organismo considerado como um todo em conflito com um meio ambiente, mas provém das
próprias raízes da organização, no nível em que ela ainda é apenas estrutura linear, no ponto em
que começa não o reino, mas a ordem do ser vivo. A doença não é uma queda que sofremos, um
ataque ao qual cedemos, é um vício originário de forma macromolecular. Se a organização é,
originariamente, uma espécie de linguagem, a doença geneticamente determinada deixa de ser
maldição para ser malentendido. Uma hemoglobina pode transmitir informações erradas, assim
como um manuscrito pode também transmitir informações erradas. Mas, neste caso, trata-se de
uma palavra que não remete a nenhuma boca, de uma escrita que não remete a nenhuma mão. Não
há, portanto, má intenção por trás do defeito. Ser doente é ser mau, não como um menino mau, mas
como um terreno mau. A doença deixa de ter qualquer relação com a responsabilidade individual.
Não há mais imprudência, não há mais excesso a recriminar, nem mesmo responsabilidade
coletiva, como em caso de epidemia. Os seres vivos são o resultado das próprias leis da
multiplicação da vida, os doentes são o resultado da panmixia, do amor e do acaso. Tudo isso faz
de nós seres únicos, como já foi dito muitas vezes para nos consolar de sermos feitos de bolinhas
sorteadas na urna da hereditariedade mendeliana. Únicos, certamente, mas também, às vezes,
deficientemente formados. Quando se trata apenas de erro de metabolismo da fructose, por deficit
de aldolase hepática, o caso não é tão grave assim.6 É mais grave quando se trata de hemofilia, por
defeito da síntese de uma globulina. E como encontrar palavras adequadas para expressar a
5 A respeito dessa questão, cf. R. Ruyer, La cybernétique et l'origine de l'nformation, 1954, e G. Simondon, L 'individu et sa genèse
physico-biologique, 1964, p. 22-24.
6 Cf. S. Bonnefoy, L'intolérance héréditaire au fructose (Tese de Doutorado em Medicina, Lyon, 1961).
128
gravidade do erro do metabolismo do triptofânio, que determina, segundo J. Lejeune, a trissomia
mongolóide?
* * *
O termo "erro" mobiliza menos a afetividade do que os termos "doença" e "mal"; sem razão, no
entanto, se é verdade que o erro está na origem do fracasso. É por isso que a introdução da ilusão
teórica no vocabulário da patologia talvez dê a algumas pessoas a esperança de um progresso no
sentido da racionalidade dos valores vitais negativos. De fato, a erradicação do erro, quando obtida,
é irreversível, ao passo que a cura de uma doença constitui, às vezes, uma porta aberta a uma outra
doença; daí o paradoxo das "doenças que é perigoso curar".7
No entanto, pode-se sustentar que a noção de erros orgânicos inatos não é nada tranqüilizadora. É
preciso muita lucidez, aliada a uma grande coragem, para não preferir uma idéia da doença em que
possa ainda haver algum sentimento de culpabilidade individual a uma explicação da doença que
pulveriza e dissemina sua causalidade no genoma familiar, em uma herança que o herdeiro não
pode recusar, já que a herança e o herdeiro são uma só e mesma coisa. No entanto, é preciso
admitir que a noção de erro, como conceito de patologia, é polissêmica. Essa noção consiste,
originariamente, em uma confusão de fórmula, no falso considerado como verdadeiro, mas é
reconhecida como tal através das conclusões de uma pesquisa suscitada pela dificuldade de viver,
ou pela dor, ou pela morte de alguém. Relacionada com a recusa da morte, da dor, da dificuldade
de viver, isto é, com as razões de ser da medicina, o erro de leitura enzimática é experimentado
pelo homem que sofre suas conseqüências como um erro de pilotagem sem erro do piloto. Em
poucas palavras, o emprego do termo que designa o erro lógico não consegue exorcisar
completamente da semântica médica os traços da angústia experimentada diante da idéia de que é
preciso admitir uma anormalidade originária.
Menos tranqüilizadora é a idéia que devemos ter da resposta médica aos erros hereditários, quando
formamos essa idéia como uma idéia e não como um desejo. Por definição, um tratamento não
pode pôr termo àquilo que não é conseqüência de um acidente. A hereditariedade é o nome
moderno da substância. Concebe-se que seja possível neutralizar os efeitos de um erro de
metabolismo fornecendo constantemente ao organismo o produto de reação indispensável ao
exercício de determinada função, exercício este do qual o organismo é privado por uma cadeia
incompleta de reações. E é o que se consegue fazer no caso da oligofrenia fenilpirúvica. No
entanto, compensar durante a vida toda a carência de um organismo é apenas perpetuar uma
situação de deficiência. A solução real para uma heresia é a extirpação. Por que, então, não sonhar
com uma caça aos genes heterodoxos, com uma inquisição genética? E, enquanto isso não
acontece, por que não privar os genitores suspeitos da liberdade de gerar à vontade? Sabe-se que
esses sonhos não são apenas sonhos para alguns biólogos filiados a uma tendência filosófica — se
assim se pode dizer — bastante diferente. Mas, sonhando esses sonhos, entramos em um outro
mundo, limítrofe do admirável mundo novo de Aldous Huxley, do qual foram eliminados os
indivíduos doentes, suas doenças singulares e seus médicos. Imagina-se a vida de uma população
natural como um saquinho de loto, e cabe aos funcionários designados pela ciência da vida
verificar a regularidade dos números que ele contém, antes de se permitir aos jogadores tirá-los
para colocá-los nos cartões. Na origem desse sonho, há a intenção generosa de poupar a seres vivos
inocentes e impotentes o peso atroz de representar os erros da vida. Na meta de chegada desse
sonho, encontra-se a polícia dos genes, encoberta pela ciência dos geneticistas. No entanto, não se
deve deduzir daí a obrigação de adotar uma permissividade genética, mas apenas a obrigação de
relembrar à consciência médica que sonhar com remédios absolutos é, muitas vezes, sonhar com
remédios piores que o mal.
7 Traité des maladies qu'il est dangereux de guérir, por Dominique Raymond (1757). Nova edi-ção aumentada com notas de M.
Giraudy, Paris, 1808.
129
* * *
As doenças por malformações químicas inatas são numerosas quanto a suas variedades, mas cada
uma delas é pouco difundida. Se não fosse assim, o conceito de sabedoria do corpo poderia parecer
bem pouco pertinente. Aliás, poderíamos refutar essa afirmação, dizendo que os erros da
organização não contradizem a sabedoria dos organismos, isto é, dos casos em que a organização é
bem-sucedida. Ocorre hoje em dia com a organização o mesmo que ocorria antigamente com a
finalidade. Sempre se invocaram, contra a finalidade, os derrotados, a desarmonia dos organismos
ou a rivalidade entre as espécies vivas, macroscópicas ou microscópicas. Mas, apesar de esses fatos
constituírem objeções a uma finalidade real, ontológica, eles são, pelo contrário, argumentos a
favor de uma fmalidade possível, operacional. Se existisse uma finalidade perfeita, consumada, um
sistema completo de relações de conveniência orgânica, o próprio conceito de finalidade não teria
nenhum sentido como conceito, como projeto e modelo para pensar a vida, pela simples razão de
que não haveria motivo para pensar nem razão para o pensamento, não havendo nenhuma
defasagem entre a organização possível e a organização real. O pensamento da finalidade exprime
a limitação de finalidade da vida. Se esse conceito tem um sentido, é porque ele é o conceito de um
sentido, o conceito de uma organização possível, e, portanto, não garantida.
De fato, a explicação da relativa raridade das doenças bioquímicas provém do fato de que as
anomalias hereditárias do metabolismo permanecem muitas vezes latentes, como disposições não
ativadas. Não havendo encontros aleatórios com determinado componente do meio em que se vive,
com determinado efeito da concorrência vital, essas anomalias podem permanecer para sempre
ignoradas por seus portadores. Assim como nem todos os germes patogênicos determinam uma
infecção em qualquer hospedeiro, em qualquer circunstância, do mesmo modo nem todas as lesões
bioquímicas constituem a doença de alguém. Pode até mesmo acontecer que, em certos contextos
ecológicos, essas lesões confiram uma certa superioridade àqueles que se deveriam chamar, então,
de seus beneficiários. Por exemplo, no homem, o deficit em glicose-6-fosfato-desidrogenase só foi
diagnosticado quando medicamentos antimaláricos (primaquina) foram administrados a populações
negras dos Estados Unidos. Ora, segundo o Dr. Henri Péquignot: "Quando se estuda o modo como
uma afecção enzimática, que é uma afecção genética, pôde se manter na população negra,
compreendemos que esses indivíduos resistiram muito mais porque os 'doentes' portadores desse
distúrbio são particularmente resistentes à malária. Seus antepassados da África negra eram pessoas
'normais' em relação aos outros que eram inadaptados, já que os negros resistiam à malária, ao
passo que os outros morriam."8
Apesar de reconhecer que o valor eventual de certos erros bioquímicos inatos provém de uma
relação entre o organismo e o meio, assim como o valor de sintoma de certos lapsos ou atos falhos
provém, segundo Freud, da relação com uma determinada situação, abstemo-nos de definir o
normal e o patológico simplesmente por sua relação com o fenômeno da adaptação. Durante o
último quarto de século, esse conceito tem recebido uma tal extensão — às vezes descabida — em
psicologia e em sociologia que, mesmo em biologia, só pode ser utilizado do ponto de vista mais
crítico possível. A definição psicossocial do normal a partir do adaptado implica uma concepção da
sociedade que o identifica subrepticiamente e abusivamente com o meio, isto é, com um sistema de
determinismos, apesar de essa sociedade ser um sistema de pressões que, antes de qualquer relação
entre o indivíduo e ela, já contém normas coletivas para a apreciação da qualidade dessas relações.
Definir a anormalidade a partir da inadaptação social é aceitar mais ou menos a idéia de que o
indivíduo deve aderir à maneira de ser de determinada sociedade, e, portanto, adaptar-se a ela como
a uma realidade que seria, ao mesmo tempo, um bem. Em virtude das conclusões de nosso primeiro
capítulo, parece-nos lícito poder rejeitar esse tipo de definição sem ser taxado de anarquismo. Se as
sociedades são conjuntos mal unificados de meios, podemos negar-lhes o direito de definir a
normalidade pela atitude de subordinação que elas valorizam com o nome de adaptação. No fundo,
8 L 'inadaptation, phénomène social (Pesquisa e debates do C.C.I.F.), Fayard, 1964, p. 39. Como se pode ver pela contribuição do Dr.
Péquignot ao debate, já citado, sobre a inadaptação, ele não identifica anormal com inadaptado, e nossas reservas criticas, nas linhas
seguintes, não se referem a ele.
130
transportado para o terreno da psicologia e da sociologia, esse conceito de adaptação volta à sua
acepção original. É um conceito popular de descrição da atividade técnica. O homem adapta seus
instrumentos e, indiretamente, seus órgãos e seu comportamento a determinada matéria, a
determinada situação. No século XIX, no momento de sua introdução em biologia, o conceito
conservou, no campo de onde se originou, a significação de uma relação de exterioridade, de
desafio entre uma forma orgânica e um meio ambiente que lhe é adverso. Esse conceito foi, em
seguida, teorizado a partir de dois princípios inversos, um teleológico e outro mecanicista. Segundo
o primeiro deles, o ser vivo se adapta de acordo com a procura de satisfações funcionais; segundo o
outro, o ser vivo é adaptado pela ação de necessidades de ordem mecânica, físico-química, ou
biológica (os outros seres vivos da biosfera). Na primeira interpretação, a adaptação é a solução de
um problema de ideal a ser atingido conciliando os dados reais do meio com as exigências do ser
vivo; na segunda interpretação, a adaptação exprime um estado de equilíbrio cujo limite inferior
define, para o organismo, o pior, que é o risco de morte. Mas tanto em uma quanto em outra teoria,
o meio é considerado como um fato físico, e não como um fato biológico, como um fato
constituído e não como um fato a ser constituído. Ao passo que, se considerarmos a relação
organismo-meio como conseqüência de uma atividade verdadeiramente biológica, como a procura
de uma situação na qual o ser vivo, em vez de sofrer influências, recolhe as influências e as
qualidades que correspondem a suas exigências, então os meios nos quais os seres vivos estão
colocados estão delimitados por eles, centrados neles. Nesse sentido, o organismo não está jogado
em um meio ao qual ele tem de se dobrar, mas, ao contrário, ele estrutura seu meio ao mesmo
tempo que desenvolve suas capacidades de organismo.9
Isso é verdade especialmente no que se refere aos meios em que a vida se desenvolve e aos modos
de vida próprios do homem nos grupos técnico-econômicos que, em determinado meio geográfico,
são caracterizados não tanto pelas atividades que lhes são oferecidas mas, sobretudo, pelas
atividades que eles escolhem. Nessas condições, o normal e o anormal são determinados não tanto
pelo encontro de duas séries causais, independentes — o organismo e o meio —, mas, sobretudo,
pela quantidade de energia de que o agente orgânico dispõe para delimitar e estruturar esse campo
de experiências e de empreendimentos a que chamamos nosso meio. Mas — perguntar-se-á —,
como acharíamos a medida dessa quantidade de energia? Essa medida deve ser procurada apenas
na história de cada um de nós. Cada um de nós fixa suas normas ao escolher seus modelos de
exercício. A norma do corredor de fundo não é a mesma do sprinter. Cada um de nós muda suas
próprias normas, em função da idade e de suas normas anteriores. A norma do antigo sprinter não é
mais sua norma de campeão. É normal, isto é, conforme à lei biológica do envelhecimento, que a
redução progressiva das margens de segurança acarrete a diminuição dos níveis de resistência às
agressões do meio. As normas de um velho seriam consideradas como deficiências do mesmo
homem, quando adulto. Esse reconhecimento da relatividade individual e cronológica das normas
não representa um ceticismo diante da multiplicidade, e sim tolerância diante da variedade. No
Ensaio de 1943, chamamos de normatividade a capacidade biológica de questionar as normas
usuais por ocasião de situações críticas, e propusemos medir a saúde pela gravidade das crises
orgânicas superadas pela instauração de uma nova ordem fisiológica.10
* * *
Em páginas admiráveis e comoventes da Naissance de la clinique,* Michel Foucault mostrou como
Bichat fez "o olhar médico girar sobre si mesmo" para pedir, à morte, explicação da vida.11 Não
sendo fisiologista, não temos a pretensão de crer que pedimos à doença explicação para a saúde.
Está tão claro que é isso que teríamos desejado fazer, que não podemos negá-lo; ao mesmo tempo,
porém, alegramo-nos por ter encontrado, na obra do Dr. Péquignot, a absolvição para nossa
ambição de outrora: "No passado, todas as pessoas que tentaram construir uma ciência do normal,
9 Cf. nosso estudo Le vivant et son milieu. In: La connaissance de la vie.
10 Cf. supra, p. 150-151.
* O nacimento da clínica, publicado pela Editora Forense Universitária. (N.T.)
11 Op. cit., p. 148.
131
sem fazer observações a partir do patológico considerado como o dado imediato, fracassaram,
muitas vezes de modo ridículo."12 Inteiramente convencidos do fato analisado supra, de que o
conhecimento da vida, assim como o conhecimento da sociedade, supõe a prioridade da infração
sobre a regularidade, gostaríamos de terminar essas novas reflexões sobre o normal e o patológico
esboçando uma patologia paradoxal do homem normal, mostrando que a consciência da
normalidade biológica inclui a relação com a doença, o recurso à doença, como a única pedra de
toque que essa consciência reconhece e, portanto, exige.
Em que sentido devemos compreender a doença do homem normal? Não no sentido de que
somente o homem normal pode ficar doente, como apenas o ignorante pode se tornar sábio. Não no
sentido de que podem acontecer ligeiros acidentes que perturbem — sem no entanto alterá-lo —
um estado de regularidade e de equilíbrio: o resfriado, a cefaléia, um prurido, uma cólica, qualquer
acidente sem valor de sintoma, alerta sem alarme. Por doença do homem normal deve-se
compreender o distúrbio que, com o tempo, se origina da permanência do estado normal, da
uniformidade incorruptível do normal, a doença que nasce da privação de doenças, de uma
existência quase incompatível com a doença. É preciso admitir que o homem normal só sabe que é
normal em um mundo em que nem todo homem o é, e sabe, por conseguinte, que é capaz de ficar
doente, assim como um bom piloto sabe que é capaz de encalhar seu barco, ou como um homem
educado sabe que é capaz de cometer uma gafe. O homem normal se sente capaz de adoecer, mas
experimenta a certeza de afastar essa eventualidade. Tratando-se da doença, o homem normal é
aquele que experimenta a certeza de poder frear, nele mesmo, um processo que, em outros, iria até
o fim da linha. Portanto, para que o homem normal possa se considerar como tal, e crer na sua
normalidade, precisa não do antegosto da doença, mas de sua sombra projetada.
Pouco a pouco, surge um mal-estar pelo fato de não se estar doente em um mundo em que há
doentes. E se isso ocorresse não por sermos mais fortes que a doença ou mais fortes do que os
outros, mas simplesmente por não ter havido oportunidade de a doença se manifestar? E se, afinal,
quando chegasse a ocasião, nós nos mostrássemos tão fracos, ou talvez mais desprotegidos ainda
do que os outros? Assim nasce, no homem normal, uma inquietação por ter permanecido normal,
uma necessidade da doença como maneira de testar a saúde, isto é, como sua prova, uma procura
inconsciente da doença, uma provocação à doença. A doença do homem normal é o aparecimento
de uma falha na sua confiança biológica em si mesmo.
Nosso esboço de patologia é, evidentemente, uma ficção. A análise que essa patologia substitui
pode ser rapidamente reconstituída, com a ajuda de Platão. "Na minha opinião, dizer que o médico
se enganou, que o calculador ou o gramático se enganaram são apenas maneiras de falar; na
realidade, nenhum deles, na minha opinião, enquanto merece o nome que lhe damos, jamais se
engana; pois ele só se engana na medida em que sua arte o abandona, e, nesse ponto, ele não é mais
artista."13 Apliquemos ao paciente o que foi dito supra a respeito do médico. Diremos que o
homem são só se torna doente enquanto são. Nenhum homem são fica doente, pois ele só é doente
quando sua saúde o abandona e, nesse momento, ele não é mais são. O homem dito são não é,
portanto, são. Sua saúde é um equilíbrio conquistado à custa de rupturas incoativas. A ameaça da
doença é um dos elementos constitutivos da saúde.
12 Initiation à la médecine (Paris, Masson, 1961), p. 26.
13 La République, 340 d (trad. Chambray, Les Belles Lettres).
132
EPÍLOGO
Nossa concepção do normal é, sem dúvida, muito arcaica. No entanto, ela é, ao mesmo tempo —
como alguns críticos observaram em 1943 —, uma concepção da vida que só se pode formar
quando se é jovem, e talvez por isso mesmo seja uma concepção arcaica. Uma observação que não
nos era dirigida encantou-nos, e pedimos licença para aplicá-la à nossa obra: "A noção deste ideal
que é o normal se confundiu com o estado anterior eufórico do indivíduo que tinha acabado de cair
doente... A única patologia então constatada era uma patologia de indivíduos jovens."1 E sem
dúvida era necessária a temeridade da juventude para nos julgarmos à altura de um estudo de
filosofia médica sobre as normas e o normal. A dificuldade de uma tal empresa nos faz estremecer.
Temos consciência disso, atualmente, ao terminar estas poucas páginas de continuação. Por esta
confissão, o leitor poderá avaliar o quanto, com o tempo, e de acordo com nosso discurso sobre as
normas, reduzimos nossas próprias normas.
1 H. Péquignot, Initiation à la médecine, p. 20.
133
BIBLIOGRAFIA
Além das obras e artigos citados em referência, nas páginas precedentes, a lista a seguir inclui
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137
POSFÁCIO
A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE GEORGES CANGUILHEM
Epistemologia e História das Ciências Pierre Macherey
Apresentação de Louis Althusser
Pela primeira vez, temos à mão uma visão sistemática dos trabalhos de G. Canguilhem, apresentada
no artigo que vamos ler.* O nome deste filósofo e historiador das ciências, diretor do Instituto da
História das Ciências da Universidade de Paris, é bem conhecido por todos aqueles que, em
filosofia e nas ciências, se interessam pelas novas pesquisas sobre a epistemologia e a história das
ciências. Seu nome e sua obra irão logo conhecer um público muito mais amplo. É justo que a
revista fundada por Langevin dê acolhida ao primeiro estudo aprofundado que lhe é consagrado na
França.
Epistemologia (ou filosofia das ciências), história das ciências. Essas disciplinas não são novas. Por
que falar de novas pesquisas, e que novidade radical esperar de uma reflexão que já tem um longo
passado e um importante número de trabalhos em seu ativo? Será que nem todo cientista se
interessa, desde que seja um pouco curioso, pela história da sua ciência; será que nem todo
cientista se coloca, mesmo que de forma simples, questões fundamentais sobre a razão de ser dos
problemas, dos conceitos, dos métodos de sua ciência, questões filosóficas (epistemológicas) sobre
sua própria ciência? Não existem excelentes obras, muito eruditas, sobre a história de cada ciência,
e, por exemplo, os próprios matemáticos que assinam sob o nome de Bourbaki a grande obra
matemática dos últimos 20 anos não tiveram o cuidado de dar, em todas as suas obras, uma nota
histórica prévia ao tratamento de todos os problemas? Quanto à filosofia das ciências, ela remonta
às origens da filosofia: de Platão a Husserl e Lenin (em Materialismo e empirocriticismo),
passando pela filosofia cartesiana, pela filosofia racionalista do século XVIII, Kant e Hegel, e
Marx, a filosofia das ciências é muito mais do que uma parte da filosofia entre outras: ela é a sua
parte essencial, na mesma medida em que, pelo menos desde Descartes, a ciência, as ciências
existentes (a matemática com Descartes, depois a física no século XVIII, depois a biologia e a
história no século XIX, depois a matemática, a física e a lógica matemática e a história desde
então) servem de guia e de modelo a toda reflexão filosófica. A filosofia marxista-leninista
recolheu o melhor dessa herança: ela requer uma teoria da história das ciências e uma
epistemologia que remetam uma à outra em uma profunda unidade.
É justamente essa unidade que se constitui atualmente em problema e dificuldade. São muito raras
as obras, seja de história das ciências, seja de epistemologia, que nos propõem essa unidade. Mais
freqüentemente, o historiador narra a "história" de uma ciência narrando a sucessão das
descobertas, ou — no melhor dos casos — a sucessão das teorias, para mostrar o progresso
realizado, fazer ver como toda teoria responde aos problemas insolúveis da teoria precedente etc.
Por isso sugere-se que o progresso ou "história" de uma ciência depende seja dos acasos das
descobertas, seja da necessidade de responder às questões que ficaram anteriormente sem resposta.
Por isso os historiadores das ciências nos indicam que eles fazem da história de que nos falam uma
determinada idéia (raramente enunciada, mas real) que é: ou a idéia de uma história contingente
* O texto de Pierre Macherey foi publicado originalmente na revista La pensée (1972).
138
(uma sucessão de acasos geniais: as descobertas), ou a idéia de uma história lógica, quero dizer,
movida pela lógica, que quer que toda ciência progrida respondendo às questões que ficaram sem
resposta no estado precedente da ciência — como se, pelo contrário, o progresso real de uma
ciência não se fizesse com bastante freqüência refutando-se as questões que ficaram em suspenso e
propondo-se outras questões. As duas concepções da história que acabamos de designar
(contingente, lógica) são concepções idealistas. É no século XVIII, com os enciclopedistas,
d'Alembert, Diderot, Condorcet e seus discípulos, que encontramos os mais puros exemplos dessas
concepções, que são, ainda hoje, geralmente aceitas.
No fundo, as histórias das ciências mais divulgadas não passam, na maioria das vezes, de simples
crônicas científicas, ou, ao contrário das filosofias (idealistas) da história, buscando no
desenvolvimento das ciências algo que justifique, pelo seu "exemplo", os "valores" ideológicos
trazidos por essas filosofias. Muito freqüentemente, da mesma maneira, a parte, essencial a toda a
filosofia racionalista critica (idealista) moderna, a partir de Descartes, que a filosofia, de um modo
amplo, consagra às ciências, não passa da justificação, no exemplo da estrutura e dos problemas de
uma ciência, das teses ideológicas que toda filosofia idealista defende e propõe.
Há alguns anos, sob o efeito de uma conjuntura teórica precisa (reencontro das questões teóricas
colocadas, a partir de problemas científicos reais e de problemáticas diferentes, mas relativamente
convergentes: as de Marx-Lenin, Husserl, Hegel — e até mesmo, paradoxalmente, mas realmente
para quem conhece essas "artimanhas" da história, a problemática de Nietzsche —, sem esquecer
tudo o que provém de válido hoje do modelo lingüístico), a velha concepção tanto da história das
ciências como da filosofia das ciências (epistemologia) é novamente questionada. Caminhos novos
foram abertos, na epistemologia, por Cavaillès, G. Bachelard e J. Vuillemin, e, na história das
ciências, por G. Canguilhem e M. Foucault.
A primeira novidade dessas pesquisas tem a ver com uma exigência elementar, e, no entanto, até o
aparecimento desses autores, freqüentemente negligenciada: o respeito escrupuloso pela realidade
da ciência real. Os novos epistemólogos se parecem com os etnólogos, que fazem "pesquisa de
campo": eles vão ver à ciência de perto, e não aceitam falar daquilo que ignoram, ou do que não
conhecem senão de segunda ou terceira mão (infelizmente era o caso de Brunschivcg), ou
percebem de fora, isto é, de longe. Essa simples exigência de honestidade e de conhecimento
científico, vis-à-vis à realidade de que se fala, subverteu os problemas da epistemologia clássica.
Os epistemólogos modernos simplesmente descobriram que as coisas não se passam na ciência
como se acreditava e, em particular, como muitos filósofos acreditavam.
A segunda novidade dessas pesquisas tem a ver com esta outra exigência elementar: que é por
direito impossível tomar uma simples crônica ou uma filosofia da história (ou seja, uma concepção
ideológica da história, do progresso da história, do progresso da Razão etc.) como a História. Aí
também os novos historiadores da história fizeram pesquisa de campo. Eles estudaram
detalhadamente, à custa de um enorme trabalho de pesquisa (porque tiveram que se servir de
documentos convenientemente desconhecidos, aqueles que seus predecessores se negaram a usar
porque não lhes serviam para suas demonstrações..., aqueles que tinham sido enterrados no
esquecimento oficial, porque contraditórios com as verdades oficiais), a realidade mesma da
história real. E eles também descobriram que, na história, as coisas não se passavam tampouco
como se acreditava. Marx fizera, em sua época, a mesma experiência com aquilo que todo o
mundo, no entanto, considerava como a parte mais "científica" da história: a economia política
inglesa — e, claro, com as concepções ideológicas da história, do "motor" da história e do papel
respectivo da economia, da política e das idéias. Os novos historiadores da ciência, que algumas
vezes estão longe de se dizerem marxistas (G. Canguilhem conhece muito bem Marx, mas invoca,
em seus trabalhos, outros mestres, de Comte* a Cavaillès e Bachelard), fizeram, em seu trabalho de
pesquisa, a mesma experiência. E eles começam a nos apresentar seus resultados.
* G. Canguilhem não desaprovaria este admirável texto de A. Comte: "... Não apenas as diversas partes, de cada ciência, que se é levado
a separar de acordo com uma ordem dogmática, se desenvolveram, na realidade, simultaneamente e sem a influência umas das outras,
motivo pelo qual se tenderia a preferir a ordem histórica; mas, considerando em seu conjunto o desenvolvimento efetivo do espírito
humano, vê-se, além disso, que as diferentes ciências, de fato, foram se aper-feiçoando ao mesmo tempo e mutuamente; vê-se mesmo
que os progressos das ciências e os das artes têm dependido uns dos outros, por inúmeras influências recíprocas, e, finalmente, que to
139
Resultados importantes: que simplesmente estão em vias de alterar as velhas concepções
tradicionais, empiristas, positivistas, idealistas, da epistemologia e da história.
Primeiro resultado: a distinção entre a realidade do trabalho científico real e sua interpretação
espontaneamente "positivista" (é preciso entender essa palavra no seu sentido ideológico, que é
ligeiramente distinto do termo positivismo, com que Comte batizou a sua concepção idealista da
história humana e da história das ciências). A ciência não aparece mais como a simples constatação
de uma verdade nua e dada, que seria encontrada ou revelada, mas como a produção (que também
tem uma história) de conhecimentos, produção dominada por elementos complexos, tais como as
teorias, os conceitos, os métodos, e as múltiplas relações internas, que ligam organicamente esses
elementos diferentes. Conhecer o trabalho real de uma ciência supõe o conhecimento de todo esse
conjunto orgânico complexo.
Segundo resultado: esse conhecimento supõe um outro conhecimento, o do devir real, da história
desse conjunto orgânico de teoria-conceitos-métodos, e dos seus resultados (aquisições,
descobertas científicas) que, ao mesmo tempo que vêm integrar-se ao conjunto, modificam-no em
sua forma ou em sua estrutura. Por isso a história, a verdadeira história das ciências, aparece como
inseparável de toda epistemologia, como sua condição essencial. Mas a história que esses
pesquisadores descobrem é também uma história nova, que não traz mais a marca idealista das
anteriores filosofias da história, que abandona acima de tudo o velho esquema idealista de um
progresso mecânico (acumulativo: d'Alembert, Diderot, Condorcet etc.) ou dialético (Hegel,
Husserl, Brunschvicg) contínuo, sem rupturas, sem paradoxos, sem recuos, sem saltos. Uma nova
história aparece: a do devir da razão científica, despojada, porém, desse simplismo idealista
tranqüilizador que fazia com que — da mesma forma que um benefício não se perde nunca mas
encontra sempre a sua recompensa — uma questão científica não ficasse nunca sem resposta, mas
que encontras-se sempre sua resposta. A realidade tem um pouco mais de imaginação: existem
questões que jamais terão respostas porque são questões imaginárias, que não correspondem a
problemas reais; há respostas imaginárias, que deixam sem verdadeira resposta o problema real que
elas eludem; há ciências que se dizem ciências e não passam de impostura científica de uma
ideologia social; há ideologias não científicas que, em encontros paradoxais, produzem verdadeiras
descobertas — como se vê o faiscar do fogo nascido do choque de dois corpos estranhos. Por isso
mesmo toda a complexa realidade da história, em todas as suas determinações econômicas, sociais,
ideológicas, entra em jogo na inteligência da própria história científica. As obras de Bachelard, de
Canguilhem e de Foucault são a prova disso.
Diante desses resultados por vezes muito surpreendentes (G. Canguilhem demonstrou também que
a teoria do reflexo havia nascido historicamente no seio da teoria vitalista, e não, como todo o
mundo acreditava, para atender às necessidades da (boa?) causa, no seio da ideologia mecanicista
do século XVII), o mais grave erro que se cometeria seria acreditar que eles nos lançam em alguma
variante do irracionalismo. Seria o erro proveniente de um juízo leviano, mas que teria pesadas
conseqüências. Na verdade, essa nova epistemologia e a nova história das ciências a que ela serve
de base constituem a forma científica de uma concepção verdadeiramente racional de seu objeto.
Que (nacionalismo tenha podido ser idealista, que ele possa conhecer também, em seu velho
domínio de eleição, uma mutação que o leve às margens do materialismo e da dialética, não é algo
que possa surpreender ou inquietar o marxismo. Lenin, em textos que são por todos conhecidos, já
o havia anunciado há meio século.
Louis Althusser
dos têm estado muito estreitamente ligados ao desenvolvimento geral da sociedade humana. Esse vasto encadeamento é de tal modo real
que freqüentemente, para conceber a generalização efetiva de uma teoria científica, o espírito é levado a considerar o aperfeiçoamento de
alguma arte que não tem com ela nenhuma ligação racional, ou mesmo algum progresso particular na organização social, sem o qual
essa descoberta não poderia ter lugar. Veremos a seguir inúmeros exemplos disso. Resulta então daí que não se pode conhecer a
verdadeira história de cada ciência, isto é, a formação real das descobertas de que ela se compõe, senão estudando, de ma-neira geral
e direta. a história da humanidade. É por isso que todos os documentos recolhidos até aqui sobre a história da matemática, da
astronomia, da medicina (...), por mais preciosos que sejam, não podem ser vistos senão como materiais" (Augusto Comte, Curso de
filosofia positiva,2ª Lição (trechos escolhidos), Ed. Gouhier, Aubier, p. 115).
140
* * *
"A história de uma ciência não poderia ser uma simples coleção de biografias, nem, com maior
razão, um quadro cronológico amenizado por anedotas. Ela deve ser também uma história da
formação, da deformação e da retificação dos conceitos científicos..."1
(...) É dessa impaciência, desse desejo de tornar transparentes uns em relação aos outros os
momentos do tempo que a história das ciências deve nos curar. Uma história bem feita, seja ela
qual for, é aquela que logrou tornar sensível a opacidade e a espessura do tempo...
(...) Eis aí o elemento realmente histórico de uma pesquisa, na medida em que a história — sem ser,
por outro lado, miraculosa ou gratuita — é totalmente diferente da lógica, que é capaz de explicar o
acontecimento que ocorreu, mas incapaz de deduzi-lo antes do momento de este existir."2
A obra epistemológica e histórica de G. Canguilhem impressiona, antes de tudo, pela sua
especialização.3
A reflexão nela é tão rigorosa e continuamente relacionada a objetos precisos que, finalmente, se
deve indagar sobre o status de uma pesquisa tão concreta e adaptada: porque, mesmo sendo
erudita, contém um ensinamento geral, e, não tendo senão uma função de conhecimento dos
detalhes, ela tem um alcance de verdade. Daí este paradoxo: o que é que se questiona por meio de
uma série de estudos, cuja consistência parece não se dever senão aos objetivos que se propõe,
entre os quais, contudo, se manifesta uma surpreendente convergência? Um primeiro inventário nos
situa diante de uma diversidade radical. Diversidade de assuntos, em primeiro lugar: a enfermidade,
o meio ambiente, o reflexo, os monstros, as funções da glândula tireóide. Diversidade de temas, em
seguida: dentro de cada obra e de cada artigo encontra-se uma multiplicidade de níveis a ponto de
poder-se pensar na possibilidade de se fazerem várias leituras ao mesmo tempo, para aí buscar e
encontrar uma teoria da ciência, uma teoria da história das ciências e, finalmente, a própria história
das ciências e das técnicas, na realidade de seus caminhos. Isso sem que jamais um nível seja
substituído, como pretexto, pelo outro: não se encontra, a propósito do reflexo ou da tireóide,
utilizados como ilustrações, uma reflexão sobre a história das ciências. As diferentes linhas que se
podem isolar resultam necessariamente semelhantes, e é essa unidade que é preciso pensar, já que a
ligação dos diferentes níveis indica a coerência de uma reflexão, seus objetos e seus métodos.
Mas como abordar essa unidade? Para começar, há dois caminhos possíveis: pode-se procurar um
conteúdo comum, uma problemática comum, um objeto comum ou uma indagação comum. E é
pelo lado do objeto que se é naturalmente atraído: porque qualquer reflexão sobre a ciência, seja ela
histórica ou essencial, parece extrair sua coerência da existência, da presença de fato de uma
ciência constituída. Mas se a ciência é o objeto procurado, é preciso saber como definir esse objeto:
somos então levados de novo e diretamente a uma teoria da ciência, ao problema da existência de
direito da ciência, da sua legalidade, problema que deve ser resolvido dentro da própria ciência, ou
seja, por uma epistemologia. Esse problema, contudo, pressupõe outro: é a existência de fato da
ciência que coloca a questão de direito, questão que não é mais intrínseca ao desenvolvimento da
1 Introduction au traité de physiologie de Kayser, p. 18.
2 Pathologie et physiologie de la thyroide au XIX'- siècle (Thalés, 1958), p. 78, 91.
3 Aos dois títulos já mencionados é preciso acrescentar três livros:
— Essai sur quelques problèmes concernant le normal et le pathologique (Tese de Medicina, 1943);
— La connaissence de la vie (Flammarion);
— La formation du concept de réflexe (PUF), e depois alguns artigos, entre os quais essencialmente:
— Note sur la situation faite à la philosophie biologique en France (Revue de Métaphysique et de Morale, 1947);
— Qu'est-ce que la psychologie? (id., 1958);
— Une epistémologie concordataire (In: L'hommage à Bachelard, PUF);
— L'histoire des sciences dans l'oeuvre épistémologique de G. Bachelard (Annales, Universi-dade de Paris, 1963);
— o artigo sobre Les fonctions de la thyroïde (Thalès, 1958);
— o artigo sobre La psychologie animale et la psychologie humaine d'après Darwin (Revue d'histoire des sciences, 1961);
— La diffusion scientifique (Revue de l 'enseignement supérieur, n. 3, 1961); — G. Bachelard et les philosophes (Sciences,
mar.-abr. 1963);
— Scientific change (Simpósio sobre História da Ciência, Oxford, 1961), a participação em um número de Thalès sobre A
história da idéia de evolução, redigida coletivamente (1960), e na Histoire des sciences dirigida por Taton (PUF).
141
ciência, mas sim uma outra questão, colocada à ciência, e não mais colocada pela ciência. Somos
então levados novamente da problemática do objeto à da questão: ou seja, vai-se descrever o
fenômeno científico como uma atitude, como uma tomada de posição dentro de um debate. E isso
porque a ciência não determina completamente as condições desse debate, porque ela não o assume
totalmente, ficando apenas uma parte no processo, possível também de ser questionada de fora. É
também porque a ciência é uma tomada de posição, que se torna possível, reciprocamente, tomarse
posição em relação a ela.
Os livros de G. Canguilhem colocam-nos, de fato, diante de uma obra essencialmente polêmica,
não restrita à descrição do seu objeto, mas obcecada sempre pela problemática de uma avaliação,
que se empenha menos nos resultados que na formulação de uma determinada questão: O que quer
a ciência? Na medida em que a ciência, na particularidade do seu acontecimento, na sua realidade
discursiva, elabora uma atitude, as formas de uma problemática, na medida mesmo em que a
reflexão sobre a ciência é, ela própria, a busca de uma atitude, a formalização de uma questão. Para
dar conta de uma história das ciências, não se tratará então de fazer a descrição de uma descrição;
aliás, é somente uma determinada tomada de partido ideológica da ciência sobre si mesma que a
leva a não ser senão a descrição de um universo de objetos, tomada de partido que também deve ser
julgada. Toda a filosofia das ciências consiste, pois, em colocar uma questão sobre uma questão.
Não se precisaria parar no inventário de um certo número de descobertas, mas colocar-se a cada
instante, por meio da descrição rigorosa do acontecimento que o seu aparecimento constitui, a
questão principal do seu sentido, da sua razão de ser. Ou ainda, e essa terminologia se esclarecerá
em seguida: não se fará uma teoria sobre teorias, o que seria tão-somente apossar-se de um
determinado número de resultados, mas proceder-se-á a uma conceitualização dos conceitos, que
constitui o próprio esforço para dar conta de um movimento, de um processo, voltando-se à questão
que o ilumina como origem.
Um modo de proceder como esse está tradicionalmente ligado a uma forma de investigação
determinada: a exposição histórica. Através da diversidade dos assuntos e pontos de vista, objeto
ou questão não se apresentam jamais senão na discursividade de uma sucessão, de um desenrolar.
Parece, desde o princípio, que os fenômenos não adquirem sentido senão refletidos em sua
história.4 Desenrolar, história são ainda somente nomes, genéricos demais e até ambíguos:
desenrolar parece significar desenvolvimento, portanto o aparecimento progressivo do que estaria
contido na origem assim como em um germe. Sem temor de atribuir-lhe duplo sentido, poder-se-ia
provisoriamente contentar-se com a palavra "processo" em vez da palavra "progresso", pois esta se
encontra afetada por juízos históricos de valor. Essa hesitação sobre a palavra não é arbitrária: ela
responde à necessidade de denominar uma forma paradoxal. Efetivamente, a exposição histórica
subverte-se em G. Canguilhem: raramente se apresenta na sua ordem imediata (sucessão
cronológica, que terminaria confundindo a história das ciências com a de um acontecimento
contínuo); mais freqüentemente, ela é transcrita de um modo muito elaborado, na maioria das vezes
mais inesperado ainda do que o inverso exato da sua ordem natural: o exemplo mais surpreendente
disso é o artigo "Meio ambiente" da obra Conhecimento da vida (em que se parte de Newton para ir
até o século XX; daí volta-se à Antigüidade, e segue-se de novo a ordem histórica até Newton); no
capítulo referente a Comte, em O normal, a partir de Comte volta-se a Broussais, depois a Brown,
isto é, um século atrás. Quer se trate de uma história reflexiva ou de uma história subvertida,
encontra-se uma distorção paradoxal da sucessão imediata. Antes de dar-nos o segredo de um
sentido, para nós isso será antes de tudo um indicador de método: tal maneira de escrever a história
sugere, primeiramente, uma intenção crítica. O primeiro ponto será então saber como criticar a
maneira vulgar de escrever a história das ciências.
4 Ver, por exemplo, La formation du concept de réflexe, em que se demonstra que os problemas epistemológicos se reportam sempre a
problemas históricos. E também em La connaissance de la vie, p. 16-17: é somente a história que dá o sentido de um "fato experimental"
(a versão de la-boratório da contração muscular); passando por Swammerdam, uma demonstração condensada em sua apresentação
pedagógica nos remete a Galeno.
142
A história tal como se faz: sua critica
Não nos estenderemos sobre o "estilo" histórico no entanto mais divulgado: o das enumerações,
dos recenseamentos, dos inventários. Pode-se demoli-lo facilmente atacando-o em duas das suas
determinações, absurdamente contraditórias, mas cuja junção não é de forma alguma improvisada:
ela confirma a falta de firmeza das suas intenções. Amontoado de fatos (mas a noção de fato
científico, em tal contexto — o amontoado —, perde todo o sentido), a recensão em forma de
crônica dá a ilusão de que existe acúmulo de aquisições: não se encontra senão uma pálida linha
que obstáculo algum vem obscurecer, que não conhece a regressão ou a explosão. Mas,
inversamente, esse acúmulo, na medida em que parece evidente, implica não tanto uma teleologia
(luz ainda demasiado forte), mas a idéia de um acaso. A linha da narração não é senão a forma
dada a uma descontinuidade radical: induzidas uma a uma, alinham-se as aportações que não
aportam nada a ninguém. História puramente contingente, que coleta datas, biografias e anedotas,
mas que afinal não dá conta de nada, sobretudo do status histórico de uma ciência constituída.
Contra uma história assim arbitrária, que, no fundo, não passa de uma história indiferente, deve ser
possível — e é necessário— escrever uma história interessada. É dentro dessa exigência que vai se
travar o debate: por aí a crítica de uma forma de escrever a história, tornada como modelo, cujo
responsável parece ser o primeiro interessado em escrever uma história da ciência: o cientista. Verse-
á que o cientista, muito interessado nessa operação, erra o alvo: em vez de escrever uma história,
ele dá forma a lendas, a sua lenda, reorganizando o passado ao esmagá-lo com sua presença,
submetendo o elemento histórico às normas da sua paixão fundamental: a lógica da sua ciência, ou
seja, da ciência atual. O que é preciso saber é se é possível escrever uma outra história, que se
preocupe em evidenciar um verdadeiro sentido respeitando-se, ao mesmo tempo, a realidade dos
acontecimentos passados, uma história que revele a ciência como constituição e como descoberta.
Vamos partir, portanto, da história das ciências tal como ela se mostra na e pela ciência. Seu lugar
está bem definido no interior da obra científica: está inteiramente colocado no capítulo introdutório,
consagrado ao "histórico" do problema estudado no resto do livro.5 O cientista não tem contas a
prestar à história ao termo do seu processo, mas sim uma conta a saldar com ela primeiramente. Os
exemplos abundam: o mais visível é o de Du Bois Reymond: o histórico que ele traça do problema
do reflexo, não no capítulo introdutório, mas em um discurso oficial.6 Aí se vê completamente que
elementos determinam esse retorno factual ao passado: uma cronologia cheia de furos, entre os
quais se deslizam os elogios retrospectivos, não gratuitamente distribuídos. Essa história é
manifestamente FALSA; pior ainda, sequer é uma história. É possível designá-la por três de seus
traços essenciais: é analítica, regressiva e estática.
Analítica: em um primeiro sentido, porque ela isola uma linha particular e não o histórico de um
problema determinado (o que coloca outras questões) — contenta-se com um tratamento parcial
desse problema. Quando Gley e Dastre fazem a história da questão das secreções internas, "um e
outro desligam as experiências fisiológicas das circunstâncias históricas da sua instituição,
recortam-nas e religam-nas umas às outras, não convocando a clínica e a patologia senão para
confirmar ou verificar hipóteses dos fisiologistas"; nesse pedaço de história, então, a fisiologia não
desempenha um papel principal (ela tem um papel de "exploração, e não de fundamentação").7
Abreviando o desvio, o campo dentro do qual se desenvolve uma problemática particular, impedese
a compreensão da lógica própria do seu movimento. Mas esta não passa ainda de uma primeira
forma de divisão: no fundo, acha-se a vontade de desempatar o interior da própria história,
utilizando-se os critérios dados pelo estado atual de uma ciência. A investigação de um passado
coincide, então, com um trabalho de decomposição; trata-se de descobrir retrospectivamente
parcelas, germes de verdade, e livrá-las das margens de erro. A invenção da descoberta científica
não é nunca então o que suas condições de aparecimento a determinavam, mas o aparecimento puro
daquilo que devia ser. No limite, denunciam-se as invenções falhas, reconstituindo-se a verdadeira
5 É preciso, portanto, insistir na ruptura representada pelo tratado de Kayser com uma velha tradição: a introdução ai é tratadapor ela
mesma, por um historiador das ciências, e não por um fisiologista.
6 Pela comemoração da morte de Johannes Müller em 1858: citado em La formation du concept de ref lese, p. 139.
7 Artigo citado sobre "Les fonctions de la tbyroïde", p. 87.
143
solução de um problema a partir de seus elementos: a isso se chega, por exemplo, se "passarmos
em revista os conhecimentos de toda espécie e origem, nos quais parece que J. Müller poderia
encontrar, com vistas à unificação de que era seguramente capaz, os pressentimentos do que, 60
anos mais tarde, deveria ser o conteúdo de um tratado comum de fisiologia sobre a tireóide".8 Mas
a declaração de Müller em seu Handbuch — "ignora-se qual é a função da tireóide" — omite o
objeto que prioritariamente deve deter a atenção do historiador das ciências — não em uma
confissão de ignorância, mas com a vontade de dizer precisamente o que ele sabe, que comanda
exatamente o conteúdo da sua ignorância. As verdades científicas desfilam, tiradas de seu contexto
real, fazendo crer ao mesmo tempo na continuidade de uma explicação e na persistência de um
ocultamento: as paragens da ignorância retardam a marcha do conhecimento; fala-se, nesse caso, de
uma "viscosidade do progresso".9 A verdade de tal representação da história reside no reverso exato
da descrição que se dá: mostra-se a passagem do falso ao verdadeiro somente sob condição de
pressupor-se o verdadeiro já de partida. Supõe-se, de início, confessadamente ou não, uma idade
de ouro científica, na qual se lê a totalidade da ciência com todo o direito, como que de maneira
transparente, sem que seja necessária a intervenção de um trabalho e de um debate; uma inocência
do verdadeiro, após o que a história não é senão decadência, obscurecimento, crônica de uma luta
vã. O segredo dessa história é, portanto, uma reflexão puramente mítica, nem por isso desprovida
de sentido, pois o mito tem uma função precisa: projetar um começo que renega toda
temporalidade, porque a precede radicalmente, o estado atual da ciência.
A exposição é regressiva, visto que reconstitui verdades a partir do verdadeiro (dado pela
atualidade da ciência, refletida no começo mítico). Mais do que exata, essa história escolheu ser
reflexiva. Esse ponto é importante, porque a outra história, escrita por G. Canguilhem, que será
construída sobre as ruínas desta, será também reflexiva: veremos que, a partir do método
recorrente, pode ser instituída uma outra representação do fato histórico. A regressão na história
dos cientistas é específica, porque confunde seu movimento com o da análise: a retrospecção é, ao
mesmo tempo, recorte; o desdobramento das teorias não é, de fato, senão um surgimento
reconstituído a partir da teoria final.
Finalmente, a exposição é estática, porque nela nenhuma duração é mais possível: tudo é
representado no presente da teoria, que serve de ponto de partida e de referência. Uma vez montado
o cenário (o estado atual de uma teoria) enganosamente, impossível escaparmos ao teatro, e as
intrigas que se representam são apenas simulações. Da mesma forma que o começo não é senão um
reflexo mítico, o tempo dessa história não passa de disfarce de uma lógica. Para retomarmos uma
das imagens usadas por G. Canguilhem, as teorias precedentes não passam de repetições daquela
que vem por último, no sentido teatral da palavra bem como em seu sentido vulgar de
recapitulação.10 Porque no começo e no fim deve-se encontrar a mesma coisa, entre os dois
momentos não se passa nada. As noções vêm e vão embora, mas não ocorreria a ninguém
perguntar-se sobre esse desfile: as coisas não existem então senão porque foi sempre próprio de sua
índole existirem, e termina-se falando de "noções velhas como o mundo".11 Nada aparece, nada
nasce, não há senão o "desenvolvimento" de uma passagem.
Permanece-se então na ciência atualmente constituída: a história não passa de seu desdobramento
inverso, a dedução em espelho, retrospectiva. Dentro dessa perspectiva, é impossível falar da
formaçã o real de uma ciência, de uma teoria (mas justamente vamos ver que não são as teorias
que se "formam"): não há, precedendo o último estágio, se-não uma pré-história artificial, após a
qual tudo está por fazer. O exemplo mais característico dessa deformação é dado pelo conceito de
reflexo em suas relações com o cartesianismo.12 O conceito científico de reflexo, amadurecido,
permite fazer uma teoria do movimento involuntário, independentemente de toda psicologia da
sensibilidade: ele parece inscrever-se naturalmente em um contexto de inspiração mecanicista, e
nada tão natural como procurar suas origens em Descartes. De fato, no artigo 36 do Tratado das
8 Id., p. 78.
9 Id.
10 Artigo "La psychologie darwinienne", p. 85.
11 La formation du concept de réflexe, p. 148.
12 É um dos temas centrais do livro sobre o reflexo.
144
paixões, no Tratado do homem, encontra-se mesmo apalavra, ou a sombra da palavra, e uma
observação que corresponde ao que foi tomado desde então para designar como fenômeno reflexo.
Ora, um estudo atento da fisiologia cartesiana mostra, primeiramente, que se trata de outra coisa
que um fenômeno reflexo nos textos utilizados; segundo, que o conjunto da teoria cartesiana
(concepção dos espíritos animais, da estrutura dos nervos, do papel do coração) tornava impossível
a formulação do conceito de reflexo. O que há então é uma lenda, mas uma lenda tenaz,
verdadeiramente constitutiva e simbólica de uma determinada maneira de escrever a história, ou,
melhor dizendo, de reescrevê-la. O exemplo é suficiente para mostrar que se trata de uma
historiografia, de uma história orientada, apologética, e nem sempre por razões que concernem à
ciência ou à história: Du Bois Reymond usa Descartes com o intuito de escamotear Prochaska, e se
o professor da Universidade de Berlim risca da história o cientista tcheco é para afirmar a
supremacia nacionalista de uma ciência 'forte' sobre a ciência de uma minoria.
Mais do que uma ciência que escreve sua história, vê-se aí um cientista que redige suas Memórias
(o que se faz projetando seu presente em um passado). Mas o exemplo do reflexo não é apenas
demonstrativo, ele nos leva a penetrar nas razões desse desvio e permite descrever a sua forma
exata: porque o conceito de reflexo, uma vez acabado (aperfeiçoado), parece adquirir pleno direito
a um lugar na teoria mecanicista. Será preciso, contudo, ver se esse lugar é exclusivo com relação a
qualquer outro; mas a história segundo o cientista transporta o conceito para uma outra teoria,
harmônica com a primeira: o movimento dessa história fictícia se dá, por conseguinte, entre duas
teorias, ou mesmo entre duas formas de uma mesma teoria. O conceito aí não é senão mediação,
biombo para essa operação de substituição; efetivamente, percebe-se que ele é esquecido como tal,
a ponto de ser reconhecido aí onde não está. Por outro lado, essa historiografia não é um puro
fantasma, um simples fenômeno de projeção; apóia-se em dados reais, utilizados ou explorados por
ela como pretextos: ela se refere sobretudo a certos protocolos de observação julgados como
"suficientes"; a presença de um mesmo fenômeno parece ser suficiente para conflrmar a
permanência do conceito (por exemplo: o reflexo palpebral aparentemente se encontra nas
observações reproduzidas por Descartes; pelo menos o que mais tarde foi reconhecido como
reflexo palpebral é, efetivamente, observado e descrito por Descartes). O mecanismo da
deformação é então o seguinte: tomam-se fenômenos por conceitos e conceitos por teorias; de
saída, há uma confusão organizada de níveis. Uma verdadeira representação da história, pelo
contrário, deve distinguir rigorosamente o que se relaciona com a observação dos fenômenos, Com
a experimentação, o conceito e a teoria.
É que é muito difícil fazer a distinção entre o conceito e a teoria porque, na aparência, ela não
corresponde a operações separadas.
Não se podem apresentar, no momento, senão determinações ainda aproximadas. Um conceito é
uma palavra mais sua definição; o conceito tem uma história; em um certo momento dessa história,
diz-se que ele é formado: quando ele permite instituir um protocolo de observação,13 e quando
passa pela prática de uma sociedade.14 Uma teoria consiste na elaboração geral do que, por
enquanto, será chamado de aplicações do conceito. Enquanto o caminho da história real vai do
conceito ao fenômeno através de duas mediações estreitamente solidárias — experimentação e
teoria —, a história vista pelos cientistas funda-se em uma concepção hierárquica dos níveis, da
observação à teoria, que permite ao mesmo tempo as operações de substituição (fenômeno =
conceito = teoria) e a concepção da história como um encadeamento das teorias: parte-se das
teorias — e se permanece nas teorias —, que se religam umas às outras porque constituem o
elemento mais acabado da prática científica. Modo de proceder tipicamente idealista.
A idéia de um encadeamento implica a dependência em relação a uma lógica, que é a da última
teoria, já que a última teoria é a razão de todas as outras. G. Canguilhem substitui o encadeamento
13 Ver La formation du concept de réflexe, p. 161: "Em 1850, o conceito de reflexo é inscrito nos livros e no laboratório, sob a forma de
aparelhos de exploração e de demonstração, montados para ele, e que não o teriam sido sem ele. O reflexo deixa de ser somente concept
[conceito] para se tornar percept [o percebido]..." (Os grifos e as explicações entre colchetes são do tradutor. (N.T.).)
14 Ao mesmo tempo que aparece o martelo que revela o reflexo rotular, a palavra passa para a linguagem corrente: a difusão do conceito
coincide com sua vulgarização. E, nesse momento, começa uma outra parte da sua história, que é menos a da sua deformação do que o
atestado da sua inadaptação crescente àquilo que se quer fazê-lo dizer: é o começo de sua revisão (inverso da formação).
145
das teorias pela filiação dos conceitos. Da mesma forma será recusado todo critério interno que
não possa ser dado senão por uma teoria científica. O objetivo de G. Canguilhem é, pois, conferir
todo seu valor à idéia de uma história das ciências, buscando identificar, por trás da ciência que
encobre sua história, a história real que governa e constitui a ciência. Trata-se, portanto, de
perseguir a história de fora da própria ciência, o que é uma maneira de expressar que essa história
é, de fato, a passagem de um "não se sabe que" a um "sabe-se". Diremos ainda que é o esforço para
se pensar a ciência em seu corpo real, o conceito, e não tanto em sua legalidade ideal. Modo de
proceder propriamente dialético ou materialista.
Nascimentos e aventuras dos conceitos
Prévia a qualquer elaboração, a orientação que se propõe leva a considerar a história, daqui em
diante, como uma sucessão de acontecimentos reais, e não como o desenrolar de intrigasfictícias
ou como um monte de acidentes esparsos; o método de pesquisa será, portanto, necessariamente
empírico e crítico: deve estar aberto a toda possibilidade de informações, tanto mais porque ele está
diante de um material essencialmente travestido. É preciso, portanto, descrever a formação do
conceito por meio de um certo número de etapas originais, específicas, em que a observação se
inspira mais em uma lógica da biologia do que em uma lógica formal ou filosófica. Cada conceito
tem, pois, sua história própria, na qual sempre se encontram, entretanto, dois momentos essenciais:
o momento do nascimento e aquele no qual ele recebe sua consistência própria (já não se fala mais
de coerência, porque todos os estados de um conceito possuem, por direito, sua própria coerência);
diz-se então do conceito que ele é formado: para o conceito de reflexo, pode-se dizer que essa
segunda etapa é concluída em 1800.15 Essas duas articulações são charneiras, marcas; elas não
constituem, de modo algum, divisões ou resultados.
1. O tema do nascimento nos leva a uma dupla exigência metódica: os conceitos não são dados de
maneira eterna; a questão do seu aparecimento precede legitimamente e contesta, portanto, a da sua
prefiguração. Com o nascimento, descreve-se também o aparecimento de um modo de pensar
científico, independentemente de toda elaboração teórica: a teoria pode coincidir, coexistir com o
conceito, mas não o determina. Ou ainda: um conceito não exige, para aparecer, um pano de fundo
teórico predeterminado; ocorre que o conceito de reflexo não tem sua origem no contexto
mecanicista, para onde foi transposto retrospectivamente, mas surgiu, com a obra de Willis, dentro
de uma doutrina de inspiração dinamista e vitalista. O nascimento de um conceito é, portanto, um
começo absoluto: as teorias, que são como que a "consciência" dele, não vêm senão depois, e
muitas excrescências teóricas podem-se enxertar em um mesmo conceito. A indiferença do
conceito nascente no contexto teórico desse nascimento16 lhe dá sua primeira determinação, que é,
para ele, a promessa de uma história verdadeira: a polivalência teórica. A aventura do conceito
estará, por um lado, na sua passagem de um contexto teórico a outro.
É preciso descrever mais precisamente o conceito em seu nascimento, e as condições desse
nascimento. O conceito, conforme já se disse, começa por ser tão-somente uma palavra e sua
definição. A definição é aquilo que permite identificar o conceito: ela o especifica entre os
conceitos e como conceito. No interior da sucessão dos níveis de que já falamos, a definição tem,
portanto, um valor discriminatório: "Não se pode tomar como o equivalente de uma noção nem
uma teoria geral, à semelhança da explicação cartesiana do movimento involuntário, nem — com
mais razão — uma lembrança de observações, muitas delas bem anteriores a nosso autor";17 a
concepção cientificista da história, ao contrário, elimina a noção ou conceito, confundindo teoria e
15 Ele traz, então, sua definição completa, na qual se pode encontrar — como nas estratificações — toda a história que o separa de seu
nascimento. Cf. La formation du concept de réflexe, p. 131: "O movimento reflexo (Willis) é aquele que, imediatamente provocado por
uma sensação antecedente (Willis), é determinado segundo leis físicas (Willis, Astruc, Unzer, Prochaska), [e em relação com os instintos
(Whytt, Prochaska)], pela reflexão (Willis, Astruc, Unzer, Prochaska) das impressões sensitivas em motrizes (Whytt, Unzer, Prochaska)
no nivel da medula espinhal (Whytt, Prochaska, Legallois), com ou sem consciência concomitante (Prochaska)."
16 Ver Introduction au traité de physiologie de Kayser, p. 18-20: "...os próprios problemas que não nascem necessariamente no terreno
onde encontram sua solução".
17 La formation du concept de réflexe, p. 41.
146
observação. Mas, ao mesmo tempo que ela distingue a função que lhe é própria, a defmição eleva o
conceito acima da sua realidade imediata, valorizando a linguagem de que ele parece estar
inteiramente constituído: da palavra ela faz uma noção.18 Desvelar o aparecimento de uma noção
equivale a levar a ciência à sua matéria-prima imediata: a linguagem, sem perder de vista as
condições práticas da sua produção, que permitem saber se se trata ou não de simples palavras.
Assim, será possível descrever a invenção do conceito, evidenciando seus instrumentos reais: e
trata-se de algo diferente de uma psicologia intelectual. Esses instrumentos são de duas espécies, e
será preciso estudá-los em separado: a linguagem e o campo prático.
Primeiro o campo prático: ele intervém no nível da experimentação, pelo papel efetivamente motor
das técnicas que têm a ver com ciências diferentes da que está em obra; esse papel é determinante
sem ser forçosamente dirigido. Mesmo no momento da observação, a ciência só se constitui se ela
for solicitada por exigências que é incapaz de encontrar nela própria, e que tomam evidentes seus
fenômenos cruciais: na história da fisiologia, esse papel é desempenhado pela clínica, por
intermédio da patologia. O caso das funções da tireóide é particularmente demonstrativo desse tipo
de interferências: "Nesse domínio, a fisiologia tem sido tributária da patologia e da clínica quanto à
significação de suas primeiras pesquisas experimentais, e a clínica tem sido tributária de aquisições
teóricas ou técnicas de origem extramédica."19 O estudo desses encontros é capital: se a sua
particularidade parece ter a ver, na maioria das vezes, com o anedótico, trata-se de anedota
determinante, esclarecedora, já que permite medir a exata profundidade de um campo científico.
Esse conhecimento tem um duplo valor: o desvio pode ser apreciado como um obstáculo na
medida em que — através dele — duas linhas tiverem maior dificuldade de se encontrar; mas a
profundidade de campo anuncia também uma fecundidade, na medida em que mais linhas tiverem
oportunidade de se cruzarem. Ver-se-á que esse desvio, no sentido em que une e no sentido em que
separa, permite dar conta de quase todos os acontecimentos de uma história científica, que deixam
agora de ser acasos obscuros para tomarem-se fatos inteligíveis.
A linguagem é mais do que um meio na gênese de um pensamento científico: é a condição de seu
movimento. Por trás do conceito, a palavra garante as transposições do sentido. É a presença
contínua da mesma palavra que permite a passagem do conceito de um domínio a outro. De um
domínio não científico a um domínio científico: o conceito de limiar, em uma psicologia científica,
é importado da teoria filosófica das pequenas percepções; o conceito de tonus, na fisiologia, vem
da teoria estóica do pneuma. Mas a transposição pode ser feita também de uma ciência para outra:
o conceito de intensidade (que se encontra, depois de Leibniz, na tentativa de uma mathesis
intensorum) se deslocou do terreno da dinâmica para o da ótica. A própria palavra pode mudar, ao
mesmo tempo que desloca o conceito, e esse trabalho da linguagem sobre si mesma precede talvez
a mutação do sentido, concorre com toda a certeza para ela; um apêndice do livro Conhecimento da
vida, que descreve desta maneira — atendo-se ao nível do vocabulário — a passagem da teoria
fibrilar à teoria celular, concluiu: "Vê-se, em resumo, como uma interpretação conjectural do
aspecto estriado da fibra muscular conduziu pouco a pouco os defensores da teoria fibrilar a
fazerem uso de uma terminologia tal que a substituição de uma unidade morfológica por outra, caso
exigisse uma verdadeira conversão intelectual, se achava facilitada pelo fato de que ela encontraria,
em grande parte, preparado seu vocabulário expositivo: vesícula, célula."20 Essa plasticidade das
palavras, esse poder quase "espontâneo" que elas têm de mudar de lugar para acolherem de
antemão o conceito novo, encontra evidentemente sua razão essencial na imagem que o conceito
encerra em si apenas para expô-la nos momentos cruciais da história e das idéias. O estudo das
variações da linguagem conduz, portanto, a uma meditação sobre a função da imaginação. Essa
18 Sobre a importância da palavra e a análise a que se precisa submetê-la para ver se ela sustenta realmente um conceito, portanto, sobre
a dupla atitude diante do papel da linguagem (interesse e cautela), duas citações que se completam.
(Artigo citado sobre a tireóide, p. 80): "Certamente, as palavras não são os conceitos que elas veiculam, e não se sabe nada mais sobre as
funções da tireóide até que se tenha restituído, em uma etimologia correta, o sentido de uma comparação de morfologista. Mas não
resulta indife-rente à história da fisiologia saber que quando Starling lançou, pela primeira vez, em 1905, o ter-mo hormônio, a partir da
sugestão de W. Hardy, foi após consultar um de seus colegas, filólogo de Cambridge, W. Vesey."
(Último artigo sobre Bachelard): "As mesmas palavras não representam os mesmos conceitos. É preciso reconstituir a síntese na qual o
conceito se encontra inserido, ou seja, ao mesmo tempo o contexto conceitual e a intenção diretriz das experiências ou observações."
19 Artigo citado sobre a tireóide, p. 78-79.
20 La connaissance de la vie, Apêndice I, p. 215.
147
função é ambígua: corpo preparado para se prevenir de tudo, a imagem se oferece ao mesmo tempo
como obstáculo e como guia. Obstáculo: encontram-se aí todos os temas bachelardianos do retorno
à mitologia; a ficção recorrente é também uma regressão teórica. É por isso que se pode dizer que
há imagens velhas como o mundo, o que é impossível fazer com respeito aos conceitos: a
propensão ao devaneio reconduz sempre ao mesmo ponto, onde a história parou. O capítulo sobre
"a alma ígnea" do livro Formação do conceito de reflexo mostra o que pode ser esse desfile de
figuras pré-científicas, que leva uma noção aquém das suas possibilidades reais: como se a
imaginação tivesse ido longe demais na exploração destas últimas, ela se refugia então em uma
imagem familiar e sempre tentadora. Apesar de tudo, tais descrições não devem levar a esquecer o
poder de prospecção que as imagens detêm. Willis forma a noção de reflexo no quadro de uma
doutrina fantástica. A invenção aparece como a vontade de ir até ao termo de suas imagens, de
seguir o mais longe possível a lógica do seu sonho: é porque Willis pensa integralmente a vida
como luz que ele recorreu — para descrever o movimento — às leis óticas da reflexão, realizando
entre dois domínios a junção que Descartes justamente não conseguiu alcançar. Imaginar [figured
não é mais então iludir-se ou repousar, retornando aos temas míticos de uma reflexão interrompida:
a imagem recebe uma consistência própria; já não é uma evocação, vista de longe como um porto
de matrícula, mas apreendida de saída como um trampolim para uma verdadeira dedução.21 A
imagem tornou-se, então, o correlato e a condição de uma definição.
Chega-se, portanto, a colocar em evidência uma lógica singular e particularmente precária, a das
palavras. Não se trata de valorizá-la sem reserva, de fazer da vida da linguagem o fundamento da
invenção. Mas a história das ciências não é apenas a história das instituições bem-sucedidas. A
razão de seu movimento — à pequena escala as descobertas singulares — não é freqüentemente
senão o resultado de uma aproximação inesperada ou de um vôo original. Voltar a essas condições
reais, que nem sempre favorecem o momento da invenção, é proporcionar-se a representação de
uma sucessão rigorosa. O levantar vôo pode ser infeliz, a aproximação arriscada; essas
dificuldades mesmas, nesse caso, são os "estimulantes"22 da invenção; e a história, por ser falha,
não é senão mais determinada, e mais racional.23 O fortuito, precisamente porque é sempre
recolocado no campo total de sua aparição, recebe toda sua função da realidade: "Se tudo, em um
sentido, acontece por acaso, ou seja, sem premeditação, nada acontece por acaso, ou seja,
gratuitamente."24 O acontecimento é identificado, no sentido forte que a poesia algumas vezes deu
a esta palavra, como um encontro: é o que paradoxalmente, mas não para o historiador, elimina
suas incertezas. Há encontros que se teriam dado de qualquer jeito, que se dão em vários lugares ao
mesmo tempo, há cadeias de encontros. O tempo da descoberta é assim exatamente situado. Contra
a ilusão de uma viscosidade do progresso, a história caminha então em seu ritmo real. É isso o que
legitima a decisão de se estar atento à opacidade mais do que à transparência (a lógica da ciência).
À decisão de esclarecer o fortuito à luz de uma necessidade circunstancial responde a determinação
de uma produção em lugar de uma dedução. A linha do desenvolvimento se quebrou, mas sobre ela
se começa a poder assinalar as "épocas do saber".
Essa descrição de uma formação repousa essencialmente em uma problemática da origem: a
origem é o que especifica, desde o começo, um conceito, individualiza-o em seu nascimento,
independentemente de toda relação com uma teoria. Ela se apresenta como uma escolha que
determina, sem contê-la, a história particular do conceito. Não tem, portanto, um começo neutro,
um grau zero da prática científica. Um curso inédito, dado por G. Canguilhem, sobre as origens da
psicologia científica (1960-1961), apóia-se na distinção, etimologicamente estabelecida, entre os
conceitos de começo e origem: origo-orior significa sair de, cum-initiare (palavra do latim vulgar)
significa ao contrário entrar em, abrir um caminho. "É quando se abandona a preocupação pelos
21 Esse movimento pode exceder sua finalidade, deixar para trás o próprio conceito, preferindo a sombra que ele projeta para frente no
impulso de uma difusão galopante: ver a história tardia do conceito de reflexo, sua vulgarização, que termina por não mais reter senão a
imagem de que ela faz uma abstração.
22 Ver La connaissance de la vie, capítulo sobre a experimentação.
23 Cf. Introduction au traité de physiologie de Kayser, p. 18-20: "...não é senão a esse preço que se podem situar segundo seu justo valor
de significação os acidentes que impedem em toda pesquisa um desenvolvimento tranqüilo, os impasses da exploração, as crises dos
métodos, as falhas técnicas, às vezes felizmente convertidas em vias de acesso, as novas saídas não premeditadas".
24 Artigo citado sobre a tireóide, p. 85.
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começos que se descobrem as origens." Por conseguinte, esses conceitos não descrevem duas
interpretações de um mesmo momento, mas dois momentos historicamente diferentes: a psicologia
científica começa no século XIX, mas ela encontra suas origens em Locke e Leibniz. Dessa forma,
a apreensão do começo e da origem leva a dois movimentos de comportamento exatamente
inverso:parte-se do começo, mas remonta-se à origem. É esse segundo sentido que designa a
história recorrente tradicional, a história retrospectiva e apologética, como uma arqueologia,
determinação reflexiva das origens. Tal retorno não se fixa como fim a evidenciação de uma
identidade (= eu interpreto o conceito de reflexo em um contexto mecanicista e, aliás, é mesmo
nesse contexto que ele aparece), mas de uma especificidade. Trata-se, dentro do reflexo invertido
da história, de reconhecer o verdadeiro sentido de uma noção, não em um simples contexto teórico
retrospectivo, mas em uma problemática real: "É no presente que os problemas demandam
reflexão. Se a reflexão conduz a uma regressão, esta lhe é necessariamente relativa. Assim sendo, a
origem histórica importa menos, na verdade, que a origem reflexiva."25 Remontar à origem do
conceito é pois resgatar a permanência de uma questão e esclarecer seu sentido atual. Por exemplo,
buscar as origens do conceito de norma, como faz G. Canguilhem no final de seu livro sobre O
normal e o patológico, é mostrar como a idéia de uma fisiologia avançou a partir de uma patologia
e através das necessidades clínicas. Determina-se então, ao mesmo tempo, o sentido e o valor de
uma disciplina: sua natureza.
Esse modo de proceder permite precisar ainda a distinção entre o conceito e a teoria: a presença
contínua do conceito, em toda a linha diacrônica que sua história constitui, atesta a permanência de
um mesmo problema. Definir o conceito é formular um problema; o balizamento de uma origem é
também a identificação do problema. O importante é, pois, reconhecer, através da sucessão das
teorias, "a persistência do problema no âmago de uma solução que se acredita lhe tenha sido
dada".26 Por conseguinte, destacar o conceito para escrever a história de uma ciência e distinguir
sua linha particular é recusar considerar o começo dessa história, e cada uma de suas etapas, como
germe de verdade, como elemento de teoria, unicamente apreciável a partir das normas da teoria
ulterior; recusar-se a fazer a reconstituição de premissas imaginárias para não ver, no que dá início
a essa história, senão a fecundidade de uma atitude, ou ainda a elaboração de um problema. Se o
conceito está do lado das questões, a teoria está do lado das respostas. Partir do conceito é escolher
partir das questões para se escrever a história.
O conceito de norma fornece um bom exemplo dessa destituição do nível teórico e do privilégio
concedido à abertura de uma problemática. É impossível dar uma determinação científica do
conceito de norma: todas as tentativas feitas nesse sentido (pelo objeto da fisiologia, pela idéia de
média...) evadem-se do domínio da ciência. Essas respostas se situam em um nível diferente do da
questão: assim sendo, a resposta à "questão" do "homem médio" de Quêtelet lhe é dada por Deus;
elas não podem, pois, servir de ponto de vista sobre a história, porque pertencem a uma outra
história: a resposta fornecida por Deus é demonstração suficiente. É impossível reduzir o conceito à
teoria que ele apóia circunstancialmente, esclarecê-lo através dela. O que não quer dizer que seja
impossível definir o conceito ou que a questão que nele reside esteja privada de sentido; pelo
contrário, é uma questão em busca de seu sentido, e é por isso que implica fundamentalmente uma
história. Daí o conceito de norma possuir um valor eminentemente heurístico: a norma não é nem
um objeto a ser descrito, nem uma teoria em potencial; assim sendo, ela pode ser utilizada como
regra de pesquisa. "Parece-nos que a fisiologia tem mais a fazer que buscar definir objetivamente27
o normal, e é reconhecer a normatividade original da vida."28 Reconhecer o conceito é permanecer
fiel à questão e à sua natureza de questão em vez de buscar realizá-la, portanto em vez de terminar
com ela sem tê-la realmente respondido. Essa exigência vale tanto para o modo de a ciência
proceder como para a história das ciências, sem que eles sejam assim reconduzidos a uma medida
ou a um ponto de vista comuns: "O que nos importa não é tanto chegar a uma solução provisória,
mas mostrar que um problema merece ser colocado."29 Surpreendentemente, foi nesse sentido que
25 Observauons sur quelques problèmes concernant le normal et le pathologíque, p. 29.
26 Id., p. 38.
27 Em outras palavras: como um objeto.
28 p. 109.
29 Id., p. 108.
149
se recuperou a fórmula que faz da filosofia "a ciência dos problemas resolvidos",30 em uma acepção
que Brunschwicg provavelmente não lhe deu: a filosofia — e é preciso dizer, embora isso não deva
ficar inteiramente claro na continuação deste estudo, que a filosofia é a história — é a ciência dos
problemas independentemente de sua solução, a ciência que não se preocupa com as soluções
porque, de certo modo, elas sempre existem, os problemas são sempre resolvidos em seu próprio
nível; e a história das soluções não é senão uma história parcial, uma história obscura e que
obscurece tudo aquilo que toca, dando a ilusão de que é possível liquidar os problemas e esquecêlos.
A história, deixando para trás a acumulação de teorias e respostas, é justamente a pesquisa dos
problemas esquecidos, até em suas soluções.
O que distingue a Tese de Medicina de 1943 de G. Canguilhem (sobre o normal) de outros livros
seus é que a primeira leva menos longe que estes últimos essa exigência metódica, na medida em
que, em numerosas passagens, parece oferecer a "solução": a vida. Na obra de G. Canguilhem, em
que a fidelidade ao "espírito do vitalismo" é regularmente lembrada, se poderiam distinguir dois
vitalismos: o primeiro, sem sombra de dúvida, forneceria a resposta à questão da fisiologia, ao
mesmo tempo que a fundamentaria; forneceria, porque esse vitalismo é logo criticado pela
interpretação dada ao espírito do vitalismo, que lhe confere um lugar privilegiado em relação a
todas as teorias possíveis: o de não ser teórica senão na aparência, o de não ser no fundo senão a
preservação de um conceito, a vontade de perpetuar uma problemática. A resposta é, nesse caso,
apenas uma transposição da questão, e é o meio encontrado para conservá-la. "O animismo ou o
vitalismo, ou seja, doutrinas que respondem a uma questão, incluindo-a na resposta."31 Há, então,
duas fidelidades possíveis: aquela que toma a questão por uma resposta, que se contenta com uma
palavra, e se apressa em esquecer a questão repetindo incansavelmente a palavra. A outra, mais
secreta e mais dificil, recupera a questão, reencontra-a, reconhece-a e não admite o vitalismo contra
outras teorias senão pelo motivo de que ele não é uma teoria; não porque ele as critique, mas
porque nelas ele critica a teoria (ou, preferentemente, sua ilusão), e assim restitui à ciência — no
caso, à fisiologia— ao mesmo tempo uma história e um futuro.
Desse modo, toca-se em uma das maiores dificuldades presentes no trabalho de investigação* do
conceito: se a presença do conceito compreende a permanência de uma questão, na maioria das
vezes isso não ocorre senão de forma obscura, apresentando a questão como uma resposta,
travestindo o conceito em teoria. Entretanto, a questão jamais é esquecida: transposta, ela
permanece, e é ela que, no final das contas, é refletida por aquele que utiliza o conceito, mesmo que
ignore aquilo que refletiu.
Em resumo: retornar ao conceito significa exibir a questão original, e é esse o sentido da
empreitada de uma arqueologia: na medida em que a questão não está amarrada às suas respostas
por uma relação de necessidade — permanecendo o conceito independente de um contexto teórico
—, a história descreve um verdadeiro vir a ser determinado mas aberto, dedicando-se a restituir
mutações verdadeiras; e estas não podem ser marcadas senão através de sua relação com um
nascimento que só tem valor de medida no sentido de que ele não é o índice de uma imutabilidade.
2. Fazer a história do conceito após seu nascimento é dar conta de um movimento, ainda que se
possua o segredo de sua consistência, que é definida originalmente por uma polivalência. Não se
tratará, portanto, de uma linha reflexiva em si mesma, mas de um trajeto que não existe senão pelas
suas mudanças de sentido, suas distorções. Só assim se desmistifica o tema da origem, pois ele foi
separado da representação de uma idade de ouro da verdade, realizada positivamente por simples
projeção, e negativamente, como não-existência de uma incoerência. Sair da idade de ouro é
acentuar aquilo que justamente fora rejeitado no mito: o caos do erro. Reencontra-se a idéia
bachelardiana do valor epistemológico do falso, que é a única que permite exprimir a passagem do
não-saber ao saber. No princípio do método encontra-se, portanto, a decisão de distinguir a
problemática verdadeiro-não verdadeiro da problemática saber-não saber, e de ater-se
30 Cf. La formation du concept de réflexe.
31 Introduction au traité de physiologie de Kayser, p. 16.
* Défouissement, no original. (N.T.)
150
exclusivamente à segunda; para empregarmos uma terminologia marxista, que não é a de G.
Canguilhem, diremos que a primeira é uma problemática ideológica — e o cientista está
efetivamente comprometido com a ideologia de sua ciência —, em oposição à segunda, que é uma
problemática científica: percebe-se a revolução epistemológica implicada nessa forma particular de
escrever a história. Reconhece-se também a significação de uma teratologia dos conceitos, como
descrição rigorosa do não-saber: por exemplo, um conceito viável retrospectivamente, porque se
sabe apreciar a sua fecundidade, pode aparecer no momento do seu nascimento como aberrante;
ele não repousa em nada; ainda não constituiu seu pano de fundo teórico. É então que se pode
compreender como o conceito evolui por razões não teóricas, particularmente pela intervenção de
uma prática não científica, ou regulada a partir de uma outra ciência: o falso se revela então não
ser, na maioria das vezes, senão a interferência não codificada de dois domínlos remotos; sua
verdade é ser desproporção, mas ao mesmo tempo ele é, então, a condição de aparecimento de uma
ciência.
A história que recusa a se deixar traduzir nos termos de uma lógica dada de partida,
independentemente dela, sabe, no momento devido, encontrar e pensar a lógica do imprevisto. Há
necessidade de precisá-lo? Essa é uma teoria da própria racionalidade histórica, e não uma
ideologia da irracionalidade, ou irracionalismo.32
Uma epistemologia da história: ciência e filosofia
O encontro da história e seu objeto foi assinalado várias vezes: é esse encontro que precisa
serjustificado atualmente. Na trilha de uma história da biologia elabora-se não uma biologia do
conhecimento no sentido tradicional da palavra, isto é, uma explicação mecanicista do processo de
produção dos conhecimentos, mas uma reflexão sobre o conhecimento da biologia, esclarecida
precisamente pelas luzes da biologia. Há uma relação entre o método e o conteúdo da pesquisa,
uma homogeneidade entre os conceitos cuja razão não está unicamente na necessidade, para o
historiador, de passar por onde a ciência já passou. Por essa relação, assinala-se um pensamento
que se reflete continuamente em seus objetos: de repente, a escolha desses objetos é profundamente
significativa; por trás da aparente diversidade de interesses — é daí que se havia partido —
anuncia-se uma unidade de estrutura, uma intenção* determinada. O projeto de tratar da história
das ciências a propósito da biologia é profundamente coerente: compreende-se que valor de
precisão pode-se extrair daí.
Os meios de formulação, para o modo de proceder da ciência e para a observação desse modo de
proceder, não são comuns, mas sim paralelos, incessantemente pedindo emprestado um ao outro. A
linguagem da história está cheia de ressonâncias teóricas. Desse modo, seria possível, no limite,
transportar certas passagens, exclusivamente comprometidas, contudo, pelo movimento da história
científica que elas descrevem, e, à custa de ligeiras transformações, dar-lhes uma outra
32 E isso sem que esteja presente, ou apenas indicada, a intenção de construir um modelo para toda história a partir do tipo de
racionalidade assim evidenciada. Uma análise rigorosa pode ser legitimamente considerada como exemplar; tem-se razão quando se diz
que se aprende com ela: a obra de G. Canguilhem não nos ajuda apenas a refletir sobre certos episódios da história da fisiologia. Mas
seria um contra-senso — e não apenas excessivo — tomá-la ou representá-la como multiplicável ao infinito, ou seja, acreditar que se
pode transportá-la tal qual a outros domínios: a transposição, ou, para falar mais diretamente, o uso de um resultado teórico obedece às
regras de uma variação muito precisa, de uma manipulação comedida. Em outras palavras, seria preci-so, antes de proceder à aplicação
de um método, refletir sobre o que aplicar: o método não traz, na aventura da sua formação, as regras de seu valor; é isso justamente o
que G. Canguilhem nos ensina sobre um caso particular.É preciso então começar por descrever a natureza exata de um método: é o que
fazemos aqui, para depois, em um outro momento, estudarmos as condições de sua transposição, o que implica um conhecimento senão
completo pelo menos coerente (que possui sua coerência) do campo de sua transplantação: o método de que se parte pode ajudar a fazer
esse reconhecimento, mas não é suficiente para abolir o desvio de princípio entre dois domínios. Não é ainda o momento para
desenvolver este ponto. É preciso, entretanto, sublinhar que a maior parte dos epistemólogos refletem sobre um objeto que privilegiam,
sem dizê-lo, ou mesmo sem refletir sobre esse privilégio; e aqueles que os lêem e utilizam-se deles, o fazem como se houvessem feito
esse trabalho de reflexão, e generalizam assim descrições, cujo valor e rigor não se deviam senão a seu caráter profundamente adaptado.
Não seria preciso dar a im-pressão de que este seja o caso tratado aqui. E é para bem ajudar nisso que não se fará alusão, por exemplo —
isso não seria, contudo, sem interesse —, à confrontação possível daquilo que G. Canguilhem alcançou com outros trabalhos: não se
perguntará que lugar teria a noção de corte em sua história da fisiologia. Não se trata de dizer que ele se encontra com outros, ou que
deles se distingue, antes de termos compreendido o que especifica sua atitude.
* Visée, no original. (N.T.)
151
significação, de alcance mais geral; em uma palavra: fazê-las refletir sobre si mesmas para que
expressem em alto e bom som a filosofia que nelas fala silenciosamente.
Vai-se tomar como exemplo, para tal efeito uma passagem do artigo de G. Canguilhem sobre a
psicologia darwiniana: "o que é dito da teoria darwiniana poder-se-ia dizer também da maneira de
inteirar-se das teorias; o que se diz de uma ciência poderia também dizer-se da história das
ciências". Contra um uso estabelecido, colocaremos entre aspas apenas as passagens modificadas:
Na árvore genealógica da "ciência" — sendo por esta substituída a série linear que vai da
"verdade ao erro" — as ramificações marcam etapas e não esboços, e as etapas não são os efeitos
e os testemunhos de um poder plástico, cujo objetivo vai além delas mesmas, são causas e agentes
de uma história sem desenlace antecipado.
Ora, ao mesmo tempo que a "ciência constituída" deixa de ser considerada a promessa inicial — e
para determinados "historiadores" inacessível — da "ignorância", "a ignorância" deixa de ser
considerada a ameaça permanente à "ciência", a imagem de um risco de decadência e de
degradação presente no próprio seio da apoteose. "A ignorância" é a lembrança do estado "précientífico"
da "ciência", é sua pré-história "epistemológica", e não sua antinatureza metafísica ".33
Evidentemente, esse é um jogo que não seria preciso levar muito adiante. Haveria a tentação de
dizer que, depois de tudo, não há mais aí senão um encontro de palavras, caso não se tivesse sido
preparado para dar tanta importância aos meios da formulação de uma idéia, para jamais separar
um sentido do processo de sua figuração e de sua formulação. A persistência de uma linguagem —
em G. Canguilhem não há "cruzamento epistemológico" — é, portanto, significativa: ela nos
conduz de fato — e não podia servir senão a uma introdução como esta — a uma ligação mais
profunda. O artigo "Experimentação" de O conhecimento da vida demonstra já em que sentido os
métodos da ciência podem ser eles próprios considerados como objetos de ciência (nesse caso
preciso, de uma mesma ciência), e, mesmo que eles não assumam seu verdadeiro sentido senão
nessa transferência possível ao mundo dos objetos, a experimentação recebe na biologia um valor
privilegiado porque a experiência sobre as funções é, ela própria, uma função. "É que existe para
nós uma espécie de parentesco fundamental entre as noções de experiência e função. Aprendemos
nossas funções em experiências, e nossas funções são, conseqüentemente, experiências
formalizadas.34 O caráter heurístico da experimentação em biologia liga-se, portanto, à sua função
de reconstituição da realidade das funções: a história da experimentação poderia ser a da
constituição de uma função. A história não é, portanto, a simples aplicação ou superposição de um
olhar a um objeto, ou então esse olhar prolonga um outro olhar, constitui com ele uma série
harmoniosa. Sabe-se que em biologia, precisamente, o objeto do saber se conjuga com o sujeito do
saber: independentemente de um paralelismo ou de uma adequação, elabora-se uma história
inscrita no movimento do que ela tem em vista.
Assim sendo, os conceitos da história, seus meios epistemológicos, são profundamente inspirados
pelo "conhecimento da vida". Um conceito, particularmente, parece poder ser transposto à teoria da
história: o conceito de norma.35 Uma transposição como essa relacionaria os seguintes níveis:
— fisiologia— estado atual de uma ciência;
— patologia— teratologia dos conceitos;
— clínica— inserção em um universo de instrumentos técnicos.
33 Eis aqui o texto em sua forma original, apresentado por inteiro para que se possa apreciar me-lhor a variação de seu sentido. Artigo
citado sobre a Psicologia do homem e do animal segundo Darwin, p. 85: "Na árvore genealógica do homem — que tomou o lugar de
série animal linear — as ramificações marcam etapas, e não esboços, e as etapas não são os efeitos e os testemunhos de um poder
plástico cujo objetivo vai além delas mesmas, são causas e agentes de uma história sem desenlace antecipado. Ora, ao mesmo tempo
que a humanidade deixa de ser considerado a promessa inicial — e, para determinados naturalistas, inacessível — da animalidade, a
animalidade deixa de ser considerada a ameaça permanente à humanidade, a imagem de um risco de decadência e de degradação
presente no próprio seio da apoteose. A animalidade é a lembrança do estado pré-científico da humanidade, é sua pré-história
orgânica, e não sua antinatureza metafísica."
34 Expérimentation. In: La connaissance de la vie.
35 A reflexão sobre o conceito de norma enquadra a obra de G. Canguilhem: ela é o assunto do seu primeiro livro (1943) e também do
curso que ele ministrou na Sorbonne em 1962-1963.
152
No sentido biológico, que é preciso começar a dar em seus termos mais gerais, a presença da norma
implica a possibilidade de introduzir uma margem de tolerância; trata-se de um conceito
essencialmente dinâmico, que não descreve formas paralisadas, mas as condições para a invenção
de novas formas. O conceito de norma contém, pois, a questão: como descrever um movimento, no
sentido da adaptação a condições novas, de resposta organizada a condições imprevistas? O
trabalho do conceito coincide com a recusa de se fundamentar a representação desse movimento na
idéia metafisica de poder, ou na da vida como invenção pura, como plasticidade essencial. Pelo
contrário, o conceito ajuda a recolocar a questão em seu contexto real, a incluí-la em uma outra
questão, a das relações entre o ser vivo e o meio ambiente. Os movimentos orgânicos são eles
próprios condicionados por um movimento fundamental, que é a história do meio ambiente. "Já
que o ser vivo qualificado vive em meio a um mundo de objetos qualificados, ele vive em meio a
um mundo de acidentes possíveis. Nada acontece por acaso, mas tudo ocorre sob a forma de
acontecimentos. Eis o sentido em que o meio ambiente é infiel. Sua infidelidade é, propriamente
falando, seu devir, sua história."36
O ser vivo não se relaciona com uma natureza exterior a si, radicalmente estática, mas com um
meio ambiente habitado por uma história, que é também a do organismo, na medida em que ela
contribui para constituí-la. O fato de que o meio ambiente coloca problemas para o organismo, em
uma ordem legitimamente imprevisível, expressa-se na noção biológica de luta.* Essa forma de
circunscrever a questão fundamental da biologia não a leva a um indeterminismo, ao contrário. "A
ciência explica a experiência, mas ela de modo algum a anula."37 Encontra-se, portanto, como
condição de uma racionalidade, a temática do imprevisível. A biologia e sua história se unem sobre
dois conceitos: a questão e o acontecimento.
Para dar continuidade a esta reflexão filosófica, pode-se, pois, perguntar agora o que seria uma
história construída sistematicamente a partir da idéia de norma. Ela responderia a três exigências:
1. A representação da ciência como debate com um contexto (ver tudo o que foi dito sobre a
importância da noção metódica de campo: campo técnico, campo imaginário, interferência dos
campos científicos, ou de um campo científico com os campos não científicos, sejam eles práticos,
técnicos ou ideológicos): é somente na perspectiva de um desvio* que pode ser justificado o
movimento da história (passagem de um "não se sabe" a um "sabe-se"); paralelamente, o estado
atual de uma questão não recebe todo seu sentido senão da possibilidade de uma inserção em
perspectiva diacrônica. Para ilustrar esse tema, pode-se propor uma nova transposição: "Não se
compreende bem como, em meios ambientes característicos dos homens, o próprio homem se
encontra normal ou anormal em momentos diferentes, possuindo os mesmos órgãos, a não ser que
se compreenda como a vitalidade orgânica se desenvolve no homem em plasticidade técnica e em
avidez de dominação."38 Basta substituir "homem" por "ciência", "possuindo os mesmos órgãos"
por "tendo o mesmo valor de coerência", "vitalidade orgânica" por "pesquisa de uma racionalidade
científica".
2. A rejeição de uma lógica pura, especulativa. O movimento não pode ser descrito a partir da
presença ideal do verdadeiro, mas somente a partir da sua ausência real. Ora, a idéia de norma
fornece justamente os meios para se descrever essa ausência (ela não existe, não pode ser
determinada cientificamente). Compreende-se, nesse caso, como o movimento da história científica
não se reduz à eliminação do falso, mas implica uma retomada do erro no interior do próprio
movimento; do mesmo modo, a doença é também uma norma fisiológica. "É o anormal que suscita
o interesse pelo normal."39
3. A evidenciação de uma questão de princípio: a do "valor" da ciência. Da mesma maneira, a
fisiologia deve ser considerada como uma avaliação do ser vivo, um estudo de suas exigências e de
36 Observations sur quelques problèmes, p. 122.
* Débat, no original. (N.T.)
37 Id.
* Écart, no original. (N.T.)
38 Id., p. 124.
39 Id., p. 129.
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suas possibilidades: de um lado como do outro, o objetivo essencial reside na evidenciação de
questões. Mas, nessa mesma medida, a história (e a inteligência racional da essência da
"historicidade", essência própria à história), ou seja, a filosofia, é questionamento das questões da
ciência: ela se situa, portanto, de fora em relação a esta, coloca para a ciência suas próprias
questões: "A história da ciência não pode ser escrita senão com idéias diretrizes sem relação com as
da ciência. (...) Não há, então, por que se surpreender em ver o histórico do reflexo compor-se
pouco a pouco, como se viu que ele fez, pois esses são motivos não científicos que levam às fontes
da história das ciências."40 Vê-se que a harmonia entre os métodos da história e o que ela escreve
tem como correlato necessário uma descontinuidade, o que permitiria então criticar a idéia de uma
biologia do conhecimento no sentido estrito, após ter-se servido, como guia filosófico, do modelo
mesmo da biologia para dar acesso ao conceito de uma história das ciências.
A filosofia pergunta então: o que quer a ciência? Ou ainda: o que quer cada ciência? O que a
filosofia reflete e que a ciência pratica sem refleti-lo é a determinação, a limitação de um domínio,
portanto, de uma essência real. Esse domínio não é dado, como um mundo de objetos colocado
diante do olhar científico; ele depende da constituição de uma objetividade: "Há muito tempo que
se tem buscado a unidade característica do conceito de uma ciência na direção de seu objeto. O
objeto ditaria o método utilizado para o estudo de suas propriedades. Mas, no fundo, isso seria
limitar a ciência à investigação de um dado, à exploração de um domínio. Do momento em que fica
patente que toda ciência se atribui mais ou menos seu dado e se apropria, de fato, daquilo que se
chama seu domínio, o conceito de uma ciência contou mais com seu método do que com seu
objeto. Ou, mais exatamente, a expressão, objeto da ciência, recebeu um sentido novo. O objeto da
ciência não é mais apenas o domínio específico dos problemas, dos obstáculos a serem resolvidos,
é também a intenção e o desígnio do sujeito da ciência, é o projeto específico que constitui como
tal uma consciência teórica."41
É somente nesse caso que se possui o sentido da reflexão sobre as origens. O objeto da Tese sobre
o normal revela, finalmente, nos últimos capítulos, ser o de mostrar em que terreno ao certo se
constituiu a fisiologia, "o espírito da fisiologia nascente" (ver a chamada a Sigerist, a propósito da
obra de Harvey): uma ciência das condições da saúde. Assim é que se depreende uma linha
histórica, estudada a partir de um conceito central, que antes esboça um comportamento* do que
explora um objeto. Assim, a pesquisa recupera, tematizan-do-a, uma forma conhecida: a história de
um problema científico; chega-se a determinar — em vez do objeto da fisiologia — o seu sujeito
(ver a conclusão da Tese sobre o normal, p. 143-144).
Após ter caracterizado dessa maneira a origem conceitual, é possível empreender o estudo da
ciência tal como ela existe de fato e relacioná-la à sua determinação: o que ela quer. Pode
acontecer que se revele uma desproporção, um deslocamento, não entre as intenções e os atos —
terminologia que não é psicológica senão na aparência, mas que é realmente teórica, e teórica
precisamente como dependente da teoria de uma história real —, mas entre o sentido real, tal
como ele se inscreveu na história, e suas expressões: o caso mais esclarecedor é o da psicologia
cientifica, que, no momento em que acabou de nascer, entra em decadência; sucede então que ela
faz outra coisa que aquilo que ela quer, que está a serviço de interesses diversos dos seus. Ela se
dedica a um domínio que não lhe pertence, mas que lhe foi dado: o homem como instrumento.
Nesse momento é que se coloca a questão da filosofia para a ciência, que só é possível quando a
filosofia se converteu profundamente no que ela é: história (é assim que ela conhece as origens). A
questão pode, então, ser colocada muito diretamente, tanto mais que se tomou como ponto de
partida, como base, uma história cujas regras estão fora da prática da ciência. Eis como termina a
conferência de G. Canguilhem "O que é a psicologia": "Mas ninguém pode mais impedir que a
filosofia continue a se perguntar sobre o status mal definido da psicologia, mal definido tanto pelo
lado das ciências como pelo lado das técnicas. A filosofia se conduz, assim, com sua ingenuidade
constitutiva, tão pouco semelhante à tolice, que ela não exclui um cinismo provisório, e que a leva
a voltar-se, uma vez mais, para o lado popular, isto é, para o lado nativo dos não especialistas. É
40 La formation du concept de réflexe, p. 158-159.
41 Qu'est-ce que la psychologie?. In: Revue de métaphysique, 1958, p. 13.
* Allure, no original. (N.T.)
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então, de modo muito trivial, que a filosofia coloca à psicologia a questão: diga-me a que aspiras,
para que eu saiba quem és? Mas o filósofo pode também dirigir-se ao psicólogo sob a forma —
uma vez não são vezes — de um conselho de orientação, e dizer: quando se sai da Sorbonne pela
rua Saint-Jacques, pode-se subir ou descer; se subirmos, aproximamo-nos do Panthéon, que é o
conservatório de alguns grandes homens, mas se descermos, dirigimo-nos certamente para a
Chefatura de Polícia." Poder-se-ia tomar outro exemplo: o artigo sobre a difusão científica, que
conclui também por uma defesa, cuja possibilidade se encontra fundamentada na epistemologia da
história racional. Na medida em que os meios usados para descrever um objeto implicam uma
concepção do próprio objeto, são criadas então as condições de possibilidade de um
questionamento desse objeto.
Em vez de se fazer uma teoria da ciência, é preciso formular o conceito da ciência, ou o conceito
de cada ciência; e esse conceito não se expressa, em parte alguma aliás, senão na história de suas
formulações: no limite pode acontecer dificilmente de ele ser extraído destas. Esse conceito
caracteriza a ciência como uma função que é preciso encontrar a cada passo, seguindo o caminho
inverso de uma arqueologia: essa função não pode ser descrita em si mesma, independentemente
das suas modalidades de aparecimento. O conceito, longe de dar uma idéia geral dela, especifica a
noção de ciência. Assim, em um sentido bem freudiano, a arqueologia é a elucidação de uma
especificidade atual. Seria descabido tomar emprestado a uma disciplina diferente — não há,
cumpre lembrar, "cruzamento epistemológico" — o termo que caracteriza essa representação:
rejeitar-se-á, portanto, a palavra psicanálise, retomada, contudo, por Bachelard, em um sentido
muito mais distanciado de seu sentido original do que seria aqui. Mas talvez seja permitido dizer
que, com a obra de G. Canguilhem, se possui, no sentido muito forte e não especializado que Freud
dava a essa palavra, ou seja, no sentido objetivo e racional, a análise de uma história.
Pierre Mache
 

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