AURORA | NIETZSCHE

| segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Aurora, o despertar de uma nova moralidade. Emancipação da
razão diante da moral. Uma vez que a moralidade não é outra
coisa que a obediência aos costumes, de qualquer natureza que
estes sejam, Aurora quer romper essa maneira tradicional de agir
e de avaliar. Portanto, à medida que o sentido da causalidade
aumenta, diminui a extensão do domínio da moralidade. De fato, a
compreensão das ligações efetivas da causalidade destrói
considerável número de causalidades imaginárias que foram
sendo julgadas no decurso dos tempos como fundamentos da
moral. http://groups.google.com/group/digitalsource
NIETZSCHE
AURORA
COLEÇÃO GRANDES OBRAS DO PENSAMENTO UNIVERSAL
1 — Assim Falava Zaratustra — Nietzsche
2 — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado — Engels
3 — Elogio da Loucura — Erasmo de Rotterdam
4 — A República (parte I) — Platão
5 — A República (parte II) — Platão
6 — As Paixões da Alma — Descartes
7 — A Origem da Desigualdade entre os Homens — Rousseau
8 — A Arte da Guerra — Maquiavel
9 — Utopia — Thomas More
10 — Discurso do Método — Descartes
11— Monarquia — Dante Alighieri
12 — O Príncipe — Maquiavel
13 — O Contrato Social — Rousseau
14 — Banquete — Dante Alighieri
15 — A Religião nos Limites da Simples Razão — Kant
16 — A Política — Aristóteles
17 — Cândido ou o Otimismo — O Ingênuo — Voltaire
18 — Reorganizar a Sociedade — Comte
19 — A Perfeita Mulher Casada — Luis de León
20 — A Genealogia da Moral — Nietzsche
21 — Reflexões sobre a Vaidade dos Homens — Mathias Aires
22 — De Pueris — A Civilidade Pueril — Erasmo de Rotterdam
23 — Caracteres — La Bruyère
24 — Tratado sobre a Tolerância — Voltaire
25 — Investigação sobre o Entendimento Humano — David Hume
26 — A Dignidade do Homem — Pico della Miràndola
27 — Os Sonhos — Quevedo
28 — Crepúsculo dos Ídolos — Nietzsche
29 — Zadig ou o Destino — Voltaire
30 — Discurso sobre o Espírito Positivo — Comte
31 — Além do Bem e do Mal — Nietzsche
32 — A Princesa de Babilônia — Voltaire
33 — A Origem das Espécies (Tomo 1) — Darwin
34 — A Origem das Espécies (Tomo II) — Darwin
35 — A Origem das Espécies (Tomo III) — Darwin
36 — Solilóquios — Santo Agostinho
37 — Livro do Amigo e do Amado — Lúlio
38 — Fábulas — Fedro
39 — A Sujeição das Mulheres — Stuart Mill
40 — O Sobrinho de Rameau — Diderot
41 — O Diabo Coxo — Guevara
42 — Humano, Demasiado Humano — Nietzsche
43 — A Vida Feliz — Sêneca
44 — Ensaio sobre a Liberdade — Stuart Mill
45 — A Gaia Ciência — Nietzsche
46 — Cartas Persas 1 — Montesquieu
47 — Cartas Persas II — Montesquieu
48 — Princípios do Conhecimento Humano — Berkeley
49 — O Ateu e o Sábio — Voltaire
50 — Livro das Bestas — Lúlio
51 — A Hora de Todos — Quevedo
52 — O Anticristo — Nietzsche
53 — A Tranqüilidade da Alma — Sêneca
54 — Paradoxo sobre o Comediante — Diderot
55 — O Conde Lucanor — Juan Manuel
56 — O Governo Representativo — Stuart Mill
57 — Ecce Homo — Nietzsche
58 — Cartas Filosóficas — Voltaire
59 — Carta sobre os Cegos Endereçada àqueles que Enxergam — Diderot
60 — A Amizade — Cícero
61 — Do Espírito Geométrico — Pensamentos — Pascal
62 — Crítica da Razão Prática — Kant
63 — A Velhice Saudável — Cícero
64 — Dos Três Elementos — López Medel
65 — Tratado da Reforma do Entendimeno — Spinoza
66 — Aurora — Nietzsche
67 — Belfagor, o Arquidiabo — A Mandrágora — Maquiavel
FRIEDRICH NIETZSCHE
AURORA
TEXTO INTEGRAL
TRADUÇÃO
ANTONIO CARLOS BRAGA
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CEP 02518-000 — SÃO PAULO — SP
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NIETZSCHE
AURORA
TÍTULO ORIGINAL ALEMÃO
MORGENRÖTHE
http://groups.google.com/group/digitalsource
DIAGRAMAÇÃO: CIBELE LOTITO LIMA
REVISÃO: DENISE SILVA ROCHA COSTA E
MARIA NAZARÉ DE SOUZA LIMA BARACHO
CAPA: CIBELE LOTITO LIMA
COLABORADOR: LUCIANO OLIVEIRA DIAS
COORDENAÇÃO EDITORIAL: CIRO MIORANZA
CONTRA CAPA
Aurora, o despertar de uma nova moralidade. Emancipação da
razão diante da moral. Uma vez que a moralidade não é outra
coisa que a obediência aos costumes, de qualquer natureza que
estes sejam, Aurora quer romper essa maneira tradicional de agir
e de avaliar. Portanto, à medida que o sentido da causalidade
aumenta, diminui a extensão do domínio da moralidade. De fato, a
compreensão das ligações efetivas da causalidade destrói
considerável número de causalidades imaginárias que foram
sendo julgadas no decurso dos tempos como fundamentos da
moral. O poder liberador da razão tem em si a capacidade de
desmitificar significados sociais instituídos pela tradição; o
indivíduo, em sua atividade racional, se descobre como criador de
novos valores. O indivíduo é capaz, portanto, de romper o elo
histórico que une tradição e moralidade, opondo-lhe o binômio
razão e afirmação de si. Com essas principais referências, em
Aurora, Nietzsche discute a história dos costumes e da
moralidade, a história do pensamento e do conhecimento, além de
ressaltar os preconceitos cristãos que vararam a história da
humanidade. A seguir, se concentra em analisar a natureza e a
história dos sentimentos morais, dos preconceitos filosóficos e dos
preconceitos da moral altruísta. Continua depois estabelecendo o
contraponto entre cultura e culturas ou civilização e civilizações,
para ressaltar a intervenção do. Estado, da política e dos povos na
história. Finalmente, parece divertir-se ao apresentar coisas
essencialmente humanas e corriqueiras e pintar o universo do
pensador. Como a aurora anuncia um novo dia, Aurora, para
Nietzsche, é também um novo despertar para uma verdadeira vida
— do homem e da humanidade inteira.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO —......................................................................— 8
VIDA E OBRAS DO AUTOR —........................................................— 11
PREFÁCIO —............................................................................— 14
LIVRO PRIMEIRO —..............................................................— 22
LIVRO SEGUNDO —..............................................................— 95
LIVRO TERCEIRO —...........................................................— 149
LIVRO QUARTO —..............................................................— 202
LIVRO QUINTO —...............................................................— 272
APRESENTAÇÃO
Aurora significa o despertar de uma nova moralidade. É a
emancipação da razão diante da moral. Uma vez que a moralidade
não é outra coisa que a obediência aos costumes, de qualquer
natureza que estes sejam, Aurora quer romper essa maneira
tradicional de agir e de avaliar. Portanto, à medida que o sentido
da causalidade aumenta, diminui a extensão do domínio da
moralidade. De fato, a compreensão das ligações efetivas da
causalidade destrói considerável número de causalidades
imaginárias que foram sendo julgadas no decurso dos tempos
como fundamentos da moral. O poder liberador da razão tem em
si a capacidade de desmitificar significados sociais instituídos pela
tradição; o indivíduo, em sua atividade racional, se descobre como
criador de novos valores. O indivíduo é capaz, portanto, de romper
o elo histórico que une tradição e moralidade, opondo-lhe o
binômio razão e afirmação de si. O mundo da tradição é
essencialmente aquele em que os valores da autoridade são
indiscutíveis. Para reverter essa situação, para conferir à
humanidade um renovado status de independência e liberdade,
nada mais decisivo que a loucura. Com efeito, num mundo
submisso à tradição, idéias novas e divergentes, apreciações e
juízos de valor contrário só puderam surgir e se enraizar
apresentando-se sob a figura da loucura. “Quase em toda parte, é
a loucura que aplaina o caminho da idéia nova, que condena a
imposição de um costume, de uma superstição venerada”, como
diz o próprio Nietzsche.
Dentro dessa perspectiva, Aurora se configura realmente
como um novo dealbar, como novos albores na história da
individualidade num contexto social. Um novo ser se desenha.
Uma nova forma de pensar, de agir e de se comportar. Um novo
ideal de si diante do outro, um novo ideal de cada um diante da
sociedade. Um novo tempo. Uma nova vida. É tudo o que o homem
quer. Ser e ser ele próprio. Assumir o passado enquanto possa
representar uma riqueza para o presente e uma projeção para um
futuro livre, independente e dessacralizado das imposições,
preconceitos e superstições do passado calcado na moralidade dos
costumes. Isso significa também desmitificar a história, libertá-la
de seu romantismo, de suas ilusões, de suas crenças e de sua
submissão aos ideais impostos pela fé cega e pela religião. Isso
significa ainda entrar em outro campo da ética e da estética, ter
outra visão do mundo e de suas antigas “conquistas”, como que
mergulhar em nova perspectiva do possível real, do racional,
derrotando o irracional, o irrazoável, tudo o que foi imposto pela
ditadura do pensamento ultrapassado, da ideologia
preconceituosa, da religião impostora, nova perspectiva que
deveria levar a repensar a finitude humana fora de todo enfoque
teológico e, por conseguinte, levar a libertar toda moralidade
daquilo que ela representa, ou seja, o ônus dos costumes, de uma
tradição milenar, de uma religião sufocante.
Com essas principais referências, em Aurora, Nietzsche
discute a história dos costumes e da moralidade, a história do
pensamento e do conhecimento, além de ressaltar os preconceitos
cristãos que vararam a história da humanidade. A seguir, se
concentra em analisar a natureza e a história dos sentimentos
morais, dos preconceitos filosóficos e dos preconceitos da moral
altruísta. Continua depois estabelecendo o contraponto entre
cultura e culturas ou civilização e civilizações, para ressaltar a
intervenção do Estado, da política e dos povos na história.
Finalmente, parece divertir-se ao apresentar coisas
essencialmente humanas e corriqueiras e pintar o universo do
pensador. Como a aurora anuncia um novo dia, Aurora, para
Nietzsche, é também um novo despertar para uma verdadeira vida
— do homem e da humanidade inteira.
Ciro Mioranza
VIDA E OBRAS DO AUTOR
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em Röcken, Alemanha,
no dia 15 de outubro de 1844. Órfão de pai aos 5 anos de idade,
foi instruído pela mãe nos rígidos princípios da religião cristã.
Cursou teologia e filologia clássica na Universidade de Bonn.
Lecionou Filologia na Universidade de Basiléia, na Suíça, de 1868
a 1879, ano em que deixou a cátedra por doença. Passou a
receber, a título de pensão, 3.000 francos suíços que lhe
permitiam viajar e financiar a publicação de seus livros.
Empreendeu muitas viagens pela Costa Azul francesa e pela Itália,
desfrutando de seu tempo para escrever e conviver com amigos e
intelectuais. Não conseguindo levar a termo uma grande
aspiração, a de casar-se com Lou Andreas Salomé, por causa da
sífilis contraída em 1866, entregou-se à solidão e ao sofrimento,
isolando-se em sua casa, na companhia de sua mãe e de sua
irmã. Atingido por crises de loucura em 1889, passou os últimos
anos de sua vida recluso, vindo a falecer no dia 25 de agosto de
1900, em Weimar. Nietzsche era dotado de um espírito irrequieto,
perquiridor, próprio de um grande pensador. De índole romântica,
poeta por natureza, levado pela imaginação, Nietzsche era o tipo
de homem que vivia recurvado sobre si mesmo. Emotivo e
fascinado por tudo o que resplende vida, era ao mesmo tempo
sedento por liberdade espiritual e intelectual; levado pelo instinto
ao mundo irreal, ao mesmo tempo era apegado ao mundo concreto
e real; religioso por natureza e por formação, era ao mesmo tempo
um demolidor de religiões; entusiasta defensor da beleza da vida,
era também crítico feroz de toda fraqueza humana; conhecedor de
si mesmo, era seu próprio algoz; seu espírito era campo aberto em
que irromperam as mais variadas tendências, sob a influência de
sua agitada consciência.
Espírito irrequieto e insatisfeito, consciência eruptiva e
crítica, vivia uma vida de lutas contra si mesmo, de choques com
a humanidade, de paradoxos sem limite. Assim era Nietzsche.
PRINCIPAIS OBRAS
A gaia ciência (1882)
A genealogia da moral (1887)
Além do bem e do mal (1886)
A origem da tragédia (1872)
Assim falava Zaratustra (1883)
Aurora (1881)
Ecce Homo (1888)
Humano, demasiado humano (1878)
O anticristo (1888)
O caso Wagner (1888)
Crepúsculo dos ídolos (1888)
Opiniões e sentenças misturadas (1879)
O viajante e sua sombra (1879)
Vontade de potência (1901)
AURORA
REFLEXÕES SOBRE OS PRECONCEITOS MORAIS
PREFÁCIO
1
Neste livro encontra-se agindo um ser “subterrâneo” que
cava, perfura e corrói. Ver-se-á, desde que se tenha olhos para tal
trabalho nas profundezas, como avança lentamente, com
circunspecção e com uma suave inflexibilidade, sem que se
perceba em demasia a angústia que acompanha a privação
prolongada de ar e de luz; poder-se-ia até julgá-lo feliz por realizar
esse trabalho obscuro. Não parece que alguma fé o guie, que
alguma consolação o compense? Talvez queira ter para ele uma
longa obscuridade, coisas que lhe sejam próprias, coisas
incompreensíveis, secretas, enigmáticas, porque sabe o que terá
em troca: sua manhã só para ele, sua redenção, sua aurora?...
Certamente voltará: não lhe perguntem o que procura lá em baixo;
ele mesmo o dirá, esse Trofônio, esse ser de aparência
subterrânea, uma vez que de novo se tenha “tornado homem”.
Costuma-se esquecer inteiramente o silêncio quando se esteve
soterrado tanto tempo como ele, só tanto tempo como ele.
2
Com efeito, meus pacientes amigos, vou dizer-lhes o que
procurei lá embaixo, vou dizer-lhes neste prefácio tardio, que
poderia ter-se facilmente tornado um último adeus, uma oração
fúnebre, pois voltei — e re-emergi. Não pensem que pretendo
envolvê-los em semelhante empresa feliz ou mesmo somente em
semelhante solidão! De fato, quem percorre tais caminhos não
encontra ninguém: isso é peculiar aos “caminhos particulares”.
Ninguém vem em seu auxílio; ele próprio deve livrar-se,
completamente só, de todos os perigos, de todos os acasos, de
todas as maldades, de todas as tempestades que sobrevêm. De
fato, tem seu caminho que é próprio dele — e, em acréscimo, a
amargura, por vezes o desdém, que lhe causam esse “próprio
dele”; deve-se enumerar, entre esses elementos de amargura e de
desprezo, a incapacidade, por exemplo, em que se encontram seus
amigos de adivinhar onde ele está ou para onde vai, a ponto de
perguntarem às vezes: “Como? Será que isso é avançar? Será que
ainda tem — um caminho?”
— Foi então que empreendi uma coisa que não podia ser
para todos: desci para as profundezas; passei a perfurar o chão,
comecei a examinar e a minar uma velha confiança sobre a qual,
há alguns milhares de anos, nós, os filósofos, temos o costume de
construir, como sobre o terreno mais firme — e reconstruir
sempre, embora até hoje toda construção tenha ruído: comecei a
minar nossa confiança na moral. Mas será que não me
compreendem?
3
Foi sobre o bem e o mal que até hoje refletimos mais
pobremente: esse foi sempre um tema demasiado perigoso. A
consciência, a boa reputação, o inferno, e às vezes mesmo a
polícia, não permitiam nem permitem imparcialidade; é que,
perante a moral, como perante qualquer autoridade, não é
permitido refletir e, menos ainda, falar: nesse ponto se deve —
obedecer! Desde que o mundo existe, nunca uma autoridade quis
ser tomada por objeto de crítica; e chegar ao ponto de criticar a
moral, a moral enquanto problema, ter a moral por problemática:
como? Isso não foi — isso não é — imoral? — A moral, contudo,
não dispõe somente de toda espécie de meios de intimidação para
manter à distância as investigações e os instrumentos de tortura:
sua segurança se baseia ainda mais numa certa arte de sedução
que possui — ela sabe “entusiasmar”. Ela consegue muitas vezes
com um simples olhar paralisar a vontade crítica e até atraí-la
para seu lado, havendo casos em que a lança mesmo contra si
própria: de modo que, como o escorpião, crava o aguilhão em seu
próprio corpo. De fato, há muito tempo que a moral conhece toda
espécie de loucuras na arte de persuadir: ainda hoje, não há
orador que não se dirija a ela para lhe pedir ajuda (basta, por
exemplo, ouvir nossos anarquistas: como falam moralmente para
convencer! Chegam até a chamar-se a si próprios “os bons e os
justos”). É que a moral, desde sempre, desde que se fala e se
persuade sobre a terra, se afirmou como a maior mestra da
sedução — e no que diz respeito a nós, filósofos, como a
verdadeira Circe dos filósofos. Para que serve isso se, desde Platão,
todos os arquitetos filosóficos da Europa construíram em vão? Se
tudo ameaça ruir ou já se acha perdido nos escombros — tudo o
que eles consideravam leal e seriamente como aere perenius1? Ai!
Como é falsa a resposta que ainda se dá hoje a semelhante
pergunta: “Porque todos eles negligenciaram admitir a hipótese, o
exame dos fundamentos, uma crítica de toda a razão”. — Aí está a
nefasta resposta de Kant2 que realmente não nos jogou a nós,
filósofos, num terreno mais firme e menos enganador! (— e, dito
de passagem, não seria um pouco estranho exigir que um
instrumento se pusesse a criticar sua própria perfeição e sua
própria competência? Que o próprio intelecto “reconhecesse” seu
valor, sua força, seus limites? Não seria até um pouco absurdo? —
). A verdadeira resposta teria sido, ao contrário, que todos os
filósofos construíram seus edifícios sob a sedução da moral,
inclusive Kant — que a intenção deles só aparentemente se dirigia
à certeza, à “verdade”, mas na realidade se dirigia a majestosos
edifícios morais: para nos servirmos ainda uma vez da inocente
linguagem de Kant que considerava como sua tarefa e seu
trabalho, uma tarefa “menos brilhante, mas não sem mérito”,
“aplanar e consolidar o terreno onde seriam construídos esses
majestosos edifícios morais” (Crítica da razão pura, II).
Infelizmente, não conseguiu, bem pelo contrário — é preciso
confessá-lo hoje. Com intenções tão exaltadas, Kant era o digno
filho de seu século que pode ser chamado, mais que qualquer
outro, o século do entusiasmo: como Kant ainda o é, e isso é bom,
com relação ao aspecto mais precioso de seu século (por exemplo,
por esse bom sensualismo que introduziu em sua teoria do
conhecimento). Foi ainda mordido por essa tarântula moral, que
era Rousseau3, e também sentia pesar em sua alma o fanatismo
moral, do qual outro discípulo de Rousseau se sentia e se
proclamava seu executor, refiro-me a Robespierre4 que queria
fundar na terra o império da sabedoria, da justiça e da virtude
(Discurso de 7 de julho de 1794). Por outro lado, com um tal
fanatismo francês no coração, não era possível agir de modo
menos francês, mais profundo, mais sólido, mais alemão — se é
que em nossos dias a palavra “alemão” ainda é permitida nesse
sentido — como o fez Kant: para dar lugar a seu “império moral”,
viu-se obrigado a acrescentar um mundo indemonstrável, um
“para além” lógico — é por isso que teve necessidade de sua crítica
da razão pura! Em outras palavras: ele não teria tido necessidade
dela, se não houvesse uma coisa que lhe importasse mais que
tudo — tornar o “mundo moral” inatacável, melhor ainda,
inatingível para a razão — pois ele sentia com extrema violência a
vulnerabilidade de uma ordem moral perante a razão! Com relação
à natureza e à história, com relação à inata imoralidade da
natureza e da história, Kant, como todo bom alemão, desde a
origem, era um pessimista; acreditava na moral, não porque fosse
demonstrada pela natureza e pela história, mas apesar de ser
incessantemente contradita pela natureza e pela história. Para
compreender este “apesar de”, talvez se poderia recordar qualquer
coisa semelhante em Lutero, esse outro grande pessimista que,
com toda a intrepidez luterana, quis um dia torná-lo sensível a
seus amigos: “Se se pudesse compreender pela razão como o Deus
que mostra tanta cólera e maldade pode ser justo e bom, para que
serviria então a fé?” De fato, desde sempre, nada impressionou
mais profundamente a alma alemã, nada a “tentou” mais que esta
dedução, a mais perigosa de todas, uma dedução que constitui
para todo verdadeiro latino um pecado contra o espírito: credo
quia absurdum est5. Com ele, a lógica alemã entra pela primeira
vez na história do dogma cristão; mas ainda hoje, mil anos depois,
nós, alemães de hoje, alemães tardios sob todos os pontos de vista
— pressentimos algo da verdade, uma possibilidade de verdade,
por trás do célebre princípio fundamental da dialética, pelo qual
Hegel6 ajudou recentemente para a vitória do espírito alemão
sobre a Europa — “a contradição é o motor do mundo, todas as
coisas se contradizem a si próprias” —: porque somos, até em
lógica, pessimistas.
4
Mas os juízos lógicos não são os mais profundos e os mais
fundamentais, para os quais possa descer a coragem de nossa
suspeita: a confiança na razão, que é inseparável da validade
desses juízos, enquanto confiança é um fenômeno moral... Terá
talvez o pessimismo alemão que dar ainda um último passo?
Talvez deverá ainda uma vez confrontar seu credo e seu
absurdum? E se este livro, até na moral, até para além da
confiança na moral, é um livro pessimista — não será
precisamente nisso um livro alemão? De fato, ele representa
efetivamente uma contradição e não teme essa contradição:
denuncia-se aqui a confiança na moral — mas por quê? Por
moralidade! Ou como deveríamos chamar o que se passa neste
livro, o que se passa em nós? — pois, para nosso gosto
preferiríamos expressões mais modestas. Mas não há nenhuma
dúvida, também a nós se dirige um “tu deves”, também nós
obedecemos a uma lei severa acima de nós — e essa é a última
moral que ainda se torna inteligível para nós, a última moral que,
nós também, poderíamos ainda viver, se em alguma coisa somos
ainda homens de consciência, é precisamente nisso: pois, não
queremos voltar ao que consideramos como ultrapassado e
caduco, a alguma coisa que não consideramos como digno de fé,
qualquer que seja o nome que lhe for conferido: Deus, virtude,
justiça, amor ao próximo; não queremos estabelecer uma ponte
mentirosa para um ideal antigo; temos uma aversão profunda
contra tudo o que em nós quisesse reaproximar e se intrometer;
somos os inimigos de toda espécie de fé e de cristianismo atuais;
inimigos das meias medidas de tudo o que é romantismo e de tudo
o que é espírito patrioteiro; inimigos também do refinamento
artístico, da falta de consciência artística que gostaria de nos
persuadir a adorar aquilo em que já não cremos — pois somos
artistas; — inimigos, numa palavra, de todo feminismo europeu
(ou idealismo, se houver preferência para que eu o diga assim) que
eternamente “atrai para as alturas” e que, por isso mesmo,
eternamente “rebaixa”. Ora, como homens possuidores desta
consciência, cremos ainda remontar à retidão e à piedade alemãs
milenares, embora sejamos seus descendentes incertos e últimos,
nós, imoralistas e ateus de hoje, nos consideramos, em certo
sentido, como os herdeiros dessa retidão e dessa piedade, como os
executores de sua vontade interior, de uma vontade pessimista,
como já indiquei, que não teme em se negar a si mesma, porque
nega com alegria! Em nós se cumpre — no caso de desejarem uma
fórmula — a auto-ultrapassagem da moral.
5
— No final das contas, contudo: por que devemos proclamar
em alta voz e com tanto ardor o que somos, o que queremos e o
que não queremos? Consideremos isso mais friamente e mais
sabiamente, de mais longe e de mais alto, vamos dizê-lo como isso
pode ser dito entre nós, com voz tão baixa que o mundo inteiro
não o ouça, que o mundo inteiro não nos ouça! Antes de tudo,
vamos dizê-lo lentamente... Este prefácio chega tarde, mais não
muito tarde; que importam, realmente, cinco ou seis anos? Um tal
livro e um tal problema não têm pressa; e, além disso, somos
amigos do lento, eu bem como meu livro. Não foi em vão que fui
filólogo, e talvez ainda o seja. Filólogo quer dizer professor de
leitura lenta: acaba-se por escrever também lentamente. Agora
isso não só faz parte de meus hábitos, mas até meu gosto se
adaptou a isso — um gosto maldoso talvez? — Não escrever nada
que não deixe desesperada a espécie dos homens “apressados”. De
fato, a filologia é essa arte venerável que exige de seus
admiradores antes de tudo uma coisa: manter-se afastado, tomar
tempo, tornar-se silencioso, tornar-se lento — uma arte de
ourivesaria e um domínio de ourives aplicado à palavra, uma arte
que requer um trabalho sutil e delicado e que nada realiza se não
for aplicado com lentidão. Mas é precisamente por isso que hoje é
mais necessário que nunca, justamente por isso que encanta e
seduz, muito mais numa época de “trabalho”: quero dizer, de
precipitação, de pressa indecente que se aquece e quer “acabar”
tudo bem depressa, mesmo que se trate de um livro, antigo ou
novo. — Essa própria arte não acaba facilmente com o que quer
que seja, ensina a ler bem, isto é, lentamente, com profundidade,
com prudência e precaução, com segundas intenções, portas
abertas, com dedos e olhos delicados... Amigos pacientes, este
livro não deseja para ele senão leitores e filólogos perfeitos:
aprendam a me ler bem!
Ruta, perto de Gênova, outono do ano de 1886.
1 Expressão latina extraída de Odes (III, 30.1) do poeta Quintus Horatius
Flaccus (65-8 a.C.) e que significa “mais perene que o bronze” (NT).
2 Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão; entre suas obras, A religião nos
limites da simples razão e Crítica da razão prática já foram publicadas nesta
coleção da Editora Escala (NT).
3 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo e escritor suíço; entre suas
obras, O contrato social e A origem da desigualdade entre os homens já foram
publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
4 Maximilien de Robespierre (1758-1794), advogado e político francês, um dos
principais líderes da Revolução Francesa de 1789 (NT).
5 Frase latina do escritor romano e cristão Quintus Septimius Florens
Tertulianus (155-220) e que significa “creio porque é absurdo” (NT).
6 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão (NT).
LIVRO PRIMEIRO
1. RAZÃO ULTERIOR
Todas as coisas que duram muito tempo de tal modo se
impregnam aos poucos de razão que a origem que tiram da
desrazão se torna inverossímil. A história exata de uma origem
não é quase sempre sentida como paradoxal e sacrílega? O bom
historiador não está, no fundo, incessantemente em contradição
com seu meio?
2. PRECONCEITO DOS SÁBIOS
Os sábios têm razão quando pensam que os homens de
todas as épocas imaginavam saber o que era bom e mau. Mas é
um preconceito dos sábios acreditar que agora estamos mais bem
informados a respeito do que em qualquer outra época.
3. TUDO TEM SEU TEMPO
Quando o homem atribuía um sexo a todas as coisas, não
via nisso um jogo, mas acreditava ampliar seu entendimento: —
só muito mais tarde descobriu, e nem mesmo inteiramente ainda
hoje, a enormidade desse erro. De igual modo o homem atribuiu a
tudo o que existe uma relação moral, jogando sobre os ombros do
mundo o manto de uma significação ética. Um dia, tudo isso não
terá nem mais nem menos valor do que possui hoje a crença no
sexo masculino ou feminino do sol.
4. CONTRA A PRETENSA FALTA DE HARMONIA DAS ESFERAS
Devemos novamente fazer desaparecer do mundo a
abundância de falsa sublimidade, porque é contrária à justiça que
as coisas podem reivindicar! Por conseguinte, é preciso não
procurar ver o mundo com menos harmonia do que realmente
tem.
5. SEJAM RECONHECIDOS!
O grande resultado que o homem obteve até hoje é que não
temos mais necessidade de viver no temor contínuo dos animais
selvagens, dos bárbaros, dos deuses e de nossos sonhos.
6. O PRESTIDIGITADOR E SEU CONTRÁRIO
O que espanta na ciência é o contrário do que espanta na
arte de prestidigitador. De fato, este quer levar-nos a ver uma
causalidade muito simples onde, na realidade, uma causalidade
muito complicada está em jogo. Pelo contrário, a ciência nos
obriga a abandonar a crença na causalidade simples, nos casos
em que tudo parece extremamente simples e em que não
passamos de vítimas da aparência. As coisas “mais simples” são
muito complicadas — não podemos espantar-nos suficientemente
com elas!
7. MODIFICAÇÃO DO SENTIMENTO DO ESPAÇO
São as coisas verdadeiras ou as coisas imaginárias que mais
contribuíram para a felicidade humana? O que é certo é que a
distância existente entre a maior felicidade e a mais profunda
infelicidade somente assumiu toda a sua amplitude com o auxílio
das coisas imaginadas. Por conseguinte, esta espécie de
sentimento do espaço, sob a influência da ciência, se torna sempre
menor: da mesma maneira que a ciência nos ensinou e nos ensina
ainda a ver terra como pequena e o todo o sistema solar como um
ponto.
8. TRANSFIGURAÇÃO
Sofrimento sem esperança, sonhos confusos, encontros
supra-terrestres — aí estão os três únicos graus que Rafael
estabelece para dividir a humanidade. Nós não olhamos mais o
mundo desta maneira — e também Rafael não teria mais o direito
de vê-lo assim: com seus próprios olhos veria uma nova
transfiguração.
9. CONCEITO DA MORALIDADE DOS COSTUMES
Se compararmos nossa maneira de viver com aquela da
humanidade durante milhares de anos, constataremos que nós,
homens de hoje, vivemos numa época muito imoral: o poder dos
costumes enfraqueceu de uma forma surpreendente e o sentido
moral sutilizou e se elevou de tal modo que podemos muito bem
dizer que se volatilizou. É por isso que nós, homens tardios, tão
dificilmente penetramos nas idéias fundamentais que presidiram a
formação da moral e, se chegarmos a descobri-las, rejeitamos
ainda em publicá-las, tanto nos parecem grosseiras! Tanto
aparentam caluniar a moralidade! Veja-se, por exemplo, a
proposição principal: a moralidade não é outra coisa (portanto,
antes de tudo, nada mais) senão a obediência aos costumes,
sejam eles quais forem; ora, os costumes são a maneira tradicional
de agir e de avaliar. Em toda parte onde os costumes não
mandam, não há moralidade; e quanto menos a vida é
determinada pelos costumes, menor é o cerco da moralidade. O
homem livre é imoral, porque em todas as coisas quer depender de
si mesmo e não de uma tradição estabelecida: em todos os estados
primitivos da humanidade, “mal” é sinônimo de “individual”,
“livre”, “arbitrário”, “inabitual”, “imprevisto”, “imprevisível”. Nesses
mesmos estados primitivos, sempre segundo a mesma avaliação:
se uma ação é executada, não porque a tradição assim o exija,
mas por outros motivos (por exemplo, por causa de sua utilidade
individual) e mesmo pelas razões que outrora estabeleceram o
costume, a ação é classificada como imortal e considerada como
tal até mesmo por aquele que a executa: pois este não se inspirou
na obediência para com a tradição. E o que é a tradição? Uma
autoridade superior à qual se obedece, não porque ordene o útil,
mas porque ordena. — Em que esse sentimento da tradição se
distingue de um sentimento geral do medo? É o temor de uma
inteligência superior que ordena, de um poder incompreensível e
indefinido, de alguma coisa que é mais que pessoal — há
superstição nesse temor. — Na origem, toda a educação e os
cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a
guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as
relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade:
esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si
mesmo como indivíduo. Nos tempos primitivos, tudo dependia,
portanto, do costume e aquele que quisesse se elevar acima dos
costumes devia tornar-se legislador, curandeiro e algo como um
semi-deus: isto é, deveria criar costumes — coisa espantosa e
muito perigosa! — Qual é o homem mais moral? Em primeiro
lugar, aquele que cumpre a lei com mais freqüência: por
conseguinte, aquele que, semelhante ao brâmane, em toda a parte
e em cada instante conserva a lei presente no espírito de tal
maneira que inventa constantemente ocasiões de obedecer a essa
lei. Em seguida, aquele que cumpre a lei também nos casos mais
difíceis. O mais moral é aquele que mais sacrifica aos costumes;
mas quais são os maiores sacrifícios? Respondendo a esta
pergunta, chega-se a desenvolver várias morais distintas; contudo,
a diferença essencial continua sendo aquela que separa a
moralidade do cumprimento mais freqüente da moralidade do
cumprimento mais difícil. Não nos enganemos acerca dos motivos
dessa moral que exige como sinal de moralidade o cumprimento
de um costume nos casos mais difíceis! A vitória sobre si próprio
não é exigida por causa das conseqüências úteis que tem para o
indivíduo, mas para que os costumes, a tradição apareçam como
dominantes, apesar de todas as veleidades contrárias e todas as
vantagens individuais: o indivíduo deve se sacrificar — assim o
exige a moralidade dos costumes. Em compensação, esses
moralistas que, semelhantes aos sucessores de Sócrates,
recomendam ao indivíduo o domínio de si e a sobriedade, como
suas vantagens mais específicas, como a chave mais pessoal de
sua felicidade, esses moralistas constituem a exceção — e se
vemos as coisas de outro modo é porque simplesmente fomos
criados sob a influencia deles: todos seguem uma via nova que
lhes vale a mais severa reprovação dos representantes da
moralidade dos costumes — eles se excluem da comunidade, uma
vez que são imorais, e são, na acepção mais profunda do termo,
maus. Da mesma forma que um romano virtuoso de velha escola
considerava como mau todo cristão que “aspirava, acima de tudo,
à sua própria salvação”. — Em toda a parte onde existe
comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a
idéia de que a punição pela violação dos costumes recai em
primeiro lugar sobre a própria comunidade: esta pena é uma
punição sobrenatural, cuja manifestação e limites são tão difíceis
de captar para o espírito, que os analisa com um medo
supersticioso. A comunidade pode obrigar o indivíduo a reparar,
em relação a outro indivíduo ou à própria comunidade, o dano
imediato que é a conseqüência de seu ato, pode igualmente
exercer uma espécie de vingança sobre o indivíduo porque, por
causa dele — como uma pretensa conseqüência de seu ato — as
nuvens divinas e as explosões da cólera divina se acumularam
sobre a comunidade — mas ela considera, no entanto, acima de
tudo, a culpabilidade do indivíduo como culpabilidade própria
dela e suporta sua punição como sua própria punição: “Os
costumes estão relaxados”, assim geme a alma de cada um, “uma
vez que tais atos se tornaram possíveis”. Toda ação individual,
toda maneira de pensar individual fazem tremer; é totalmente
impossível determinar o que os espíritos raros, escolhidos,
originais tiveram de sofrer no curso dos tempos por serem assim
sempre considerados como maus e perigosos, mais ainda, por se
terem sempre eles próprios considerado assim. Sob o domínio da
moralidade dos costumes, toda forma de originalidade tinha má
consciência; o horizonte dos melhores tornou-se ainda mais
sombrio do que deveria ter sido.
10. MOVIMENTO RECÍPROCO ENTRE O SENTIDO DA MORALIDADE
E O SENTIDO DA CAUSALIDADE
À medida que o sentido da causalidade aumenta, diminui a
extensão do domínio da moralidade: pois, sempre que foram
compreendidos os efeitos necessários, que se chega a imaginá-los
isolados de todos os acasos, de todas as conseqüências ocasionais
(post hoc), de imediato foi destruído um número enorme de
causalidades imaginárias, dessas causalidades que, até então,
eram consideradas como os fundamentos da moral — o mundo
real é muito menor que o mundo da imaginação — a cada vez se
conseguiu fazer desaparecer do mundo uma parte do temor e da
coação, a cada vez também uma parte da veneração e da
autoridade de que gozavam os costumes: a moralidade sofreu uma
perda em seu conjunto. Aquele que, pelo contrário, quiser
aumentar a moralidade deve saber evitar que os resultados
possam tornar-se controláveis.
11. MORAL POPULAR E MEDICINA POPULAR
Desenvolve-se, na moral que reina numa comunidade, um
trabalho constante, ao qual cada um participa: a maioria das
pessoas quer acumular exemplos sobre exemplos que demonstrem
a pretensa relação entre a causa e o efeito, o crime e a punição;
contribuem a confirmar assim a legalidade dessa relação e
aumentam seu crédito: alguns fazem novas observações sobre os
atos e as conseqüências desses atos, tiram deles conclusões e leis:
uma minoria tropeça aqui e acolá e enfraquece a crença sobre este
ou aquele ponto. — Mas todos se reúnem na forma grosseira e
anti-científica de sua ação; quer se trate de exemplos, de
observações ou de reticências, quer se trate da demonstração, da
afirmação, da enunciação ou da refutação de uma lei, são sempre
materiais sem valor, sob uma expressão sem valor, como os
materiais e a expressão de toda medicina popular. Medicina
popular e moral popular vão sempre juntas e não deveriam mais,
como sempre se faz, ser apreciadas de forma tão diferente: ambas
são ciências aparentes da mais perniciosa espécie.
12. A CONSEQÜENCIA COMO COADJUVANTE
Outrora se considerava o sucesso de uma ação não como
uma conseqüência dessa ação, mas como um livre coadjuvante
vindo de Deus. Pode-se imaginar confusão mais grosseira? Era
necessário esforçar-se diversamente em vista da ação e em vista
do sucesso, com práticas e meios totalmente diferentes!
13. PARA A EDUCAÇÃO NOVA DO GÊNERO HUMANO
Colaborem numa obra, vocês que são prestativos e liberais:
ajudem a eliminar do mundo a idéia de punição que em toda parte
se tornou infestante! Não há erva daninha mais perigosa! Essa
idéia foi introduzida não somente nas conseqüências de nossa
maneira de agir — e que poderia haver de mais nefasto e mais
irrazoável que interpretar a causa e o efeito como causa e como
punição! — Mas muito pior que isso foi feito ainda, os
acontecimentos puramente fortuitos foram privados de sua
inocência, servindo-se dessa maldita arte de interpretação por
meio da idéia de punição. A loucura foi impelida até mesmo o
ponto de levar a ver na própria existência uma punição. — Dir-seia
que é a imaginação extravagante de carcereiros e de carrascos
que dirigiu até o presente a educação da humanidade!
14. SIGNIFICAÇÃO DA LOUCURA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
Se, apesar desse formidável jugo da “moralidade dos
costumes”, sob o qual viveram todas as sociedades humanas, se
durante milênios antes de nossa era e mesmo no curso desta até
nossos dias (nós mesmos vivemos num pequeno mundo de
exceção e, de algum modo, na zona má) — idéias novas e
divergentes, avaliações e juízos de valor contrários nunca
deixaram de surgir, isso só ocorreu porque estavam sob a égide de
um salvo-conduto terrível: quase em toda parte, é a loucura que
aplana o caminho da idéia nova, que levanta a proibição de um
costume, de uma superstição venerada. Compreendem por que foi
necessária a assistência da loucura? De qualquer coisa que fosse
tão terrificante e tão incalculável, na voz e nos gestos, como os
caprichos demoníacos da tempestade e do mar e, por conseguinte,
tão dignos como eles do temor e do respeito? De qualquer coisa
que levasse, como as convulsões e a baba do epiléptico, o sinal
visível de uma manifestação absolutamente involuntária? De
qualquer coisa que parecesse imprimir ao alienado o sinal de
alguma divindade, da qual ele parecesse ser como a máscara e o
porta-voz? De qualquer coisa que inspirasse, mesmo ao promotor
de uma idéia nova, a veneração e o temor dele próprio e não já
remorsos, e que o impelisse a ser o profeta e o mártir dessa idéia?
— Enquanto em nossos dias nos dão sem cessar a entender que o
gênio possui, em lugar de um grão de bom senso, um grão de
loucura, os homens de outrora estavam muito mais perto da idéia
de que lá onde houver loucura, há também um pouco de gênio e
de sabedoria — qualquer coisa de “divino”, como se murmurava ao
ouvido. Ou melhor, afirmava-se mais claramente: “Por meio da
loucura, os maiores benefícios foram derramados sobre a Grécia”,
dizia Platão1 com toda a humanidade antiga. Avancemos ainda um
passo: a todos esses homens superiores, impelidos
irresistivelmente a romper o jugo de uma moralidade qualquer e a
proclamar leis novas, não tiveram outra solução, se não eram
realmente loucos, que se tornarem loucos ou simular a loucura. —
Isso vale para todos os inovadores em todos os domínios e não
somente naqueles das instituições sacerdotais e políticas: — até
mesmo o inventor da métrica poética teve de se impor por meio da
loucura2. (Até épocas bem mais tranqüilas, a loucura permaneceu
como uma espécie de convenção entre os poetas: Sólon recorreu a
ela quando inflamou os atenienses para reconquistar Salamina3).
— “Como alguém se torna louco quando não o é e quando não tem
a coragem de fingir que o é?” Quase todos os homens eminentes
das antigas civilizações se entregaram a esse espantoso raciocínio;
uma doutrina secreta, feita de artifícios e de indicações dietéticas,
se conservou a esse respeito, acompanhada do sentimento da
inocência e mesmo da santidade de tal intenção e de tal sonho. As
fórmulas para se tornar “homem-medicina” entre os índios, santo
entre os cristãos da Idade Média, “anguécoque” entre os
groenlandeses, “pajé” entre os brasileiros são, em suas linhas
gerais, as mesmas; o jejum além dos limites, a prolongada
abstinência sexual, o retiro no deserto ou no cimo de uma
montanha ou ainda no alto de uma coluna ou também “a
permanência num salgueiro velho à margem de um lago” e a
ordem de não pensar em outra coisa senão naquilo que pode
desencadear o êxtase e a desordem do espírito. Quem ousaria,
portanto, lançar um olhar no inferno das angústias morais, as
mais amargas e as mais inúteis, onde provavelmente definharam
os homens mais fecundos de todos os tempos! Quem ousaria
escutar os suspiros dos solitários e dos transviados: “Ah! Dêemme
ao menos a loucura, poderes divinos! A loucura para que
termine finalmente por acreditar em mim mesmo! Dêem-me
delírios e convulsões, horas de claridade e de trevas repentinas,
aterrorizem-me com arrepios e ardores que jamais mortal algum
experimentou, cerquem-me de ruídos e de fantasmas! Deixem-me
uivar, gemer e rastejar como um animal: contanto que adquira a
fé em mim mesmo! A dúvida me devora, matei a lei e tenho por lei
o horror dos vivos por um cadáver; se não sou mais do que a lei,
sou o último dos réprobos. De onde vem o espírito novo que está
em mim, se não vem de vocês? Provem-me, portanto, que eu lhes
pertenço! — Só a loucura a mim o demonstra.” E muitas vezes
esse fervor atingia seu objetivo: na época em que o cristianismo
dava amplamente prova de sua fecundidade, multiplicando os
santos e os anacoretas, imaginando assim que se afirmava a si
mesmo, havia em Jerusalém grandes estabelecimentos de
alienados para os santos naufragados, para aqueles que haviam
sacrificado seu último grão de razão.
15. OS MAIS ANTIGOS MEIOS DE CONSOLAÇÃO
Primeira etapa: o homem vê em todo mal-estar, em todo
revés da sorte, alguma coisa pela qual deve fazer sofrer qualquer
outro, não importa quem — é assim que se dá conta do poder que
ainda lhe resta e isso o consola. Segunda etapa: o homem vê em
todo mal-estar e em todo revés da sorte uma punição, isto é, a
expiação da falta e o meio de escapar ao feitiço maléfico de uma
parcialidade real ou imaginária do destino. Se percebe essa
vantagem que consigo traz a infelicidade, deixa de acreditar na
necessidade de fazer sofrer outro qualquer por essa infelicidade —
vai renunciar a esse tipo de satisfação porque agora tem outro.
16. PRIMEIRO PRINCÍPIO DA CIVILIZAÇÃO
Nos povos selvagens há uma categoria de costumes que
parece visar a tornar-se um costume geral: são regulamentações
penosas e, no fundo, supérfluas (por exemplo, o costume
difundido entre os Kamtchadales de jamais raspar com uma faca
a neve grudada nos calçados, de jamais usar uma faca para
ajeitar as brasas do fogo, de nunca pôr um ferro no fogo — e a
morte atinge aquele que infringir esses costumes!) — mas essas
regulamentações mantêm permanentemente na consciência a
idéia do costume, a obrigação ininterrupta de obedecer a ele, com
o objetivo de reforçar o grande princípio pelo qual a civilização
começa: todo costume vale mais do que a ausência de costumes.
17. A NATUREZA BOA E MÁ
Os homens começaram por substituir a natureza por sua
própria pessoa: eles se viam em toda a parte a si mesmos, a seus
semelhantes, isto é, viam seu caráter mau e caprichoso, escondido
de alguma forma por trás das nuvens, das tempestades, dos
animais ferozes, das árvores e das plantas: foi então que
inventaram “a natureza má”. Depois disso veio outra época em
que quiseram se diferenciar da natureza, a época de Rousseau4:
estavam tão cansados uns dos outros que quiseram
absolutamente possuir um recanto do mundo em que o homem
não pudesse se incomodar com sua miséria: inventou-se a
“natureza boa”.
18. A MORAL DO SOFRIMENTO INVOLUNTÁRIO
Qual é a alegria mais elevada para os homens em guerra
nessa pequena comunidade constantemente em perigo, onde reina
a moralidade mais rigorosa? Quero dizer, para as almas vigorosas,
vingativas, odiosas, pérfidas, desconfiadas, preparadas para o
pior, endurecidas pelas privações e pela moral? — A alegria da
crueldade. De igual modo, em semelhantes almas, em tais
circunstâncias, é uma virtude ser inventivo e insaciável na
crueldade. A comunidade se diverte com as ações do homem
cruel, esquece nele, de vez, a austeridade do temor e das
contínuas precauções. A crueldade é uma das mais antigas
alegrias da humanidade. Julga-se, por conseguinte, que também
os próprios deuses se reconfortam e se divertem quando lhes é
oferecido o espetáculo da crueldade — de tal modo que a idéia do
sentido e do valor superior que há no sofrimento voluntário e no
martírio escolhido livremente é introduzida no mundo. Pouco a
pouco o costume estabelece na comunidade uma prática conforme
a essa idéia: doravante se desconfia de todo bem-estar exuberante
e se recobra confiança cada vez que se está num estado de grande
dor; então se diz que os deuses poderiam ser desfavoráveis por
causa da felicidade e favoráveis por causa da infelicidade —
desfavoráveis e de modo algum, compassivos! De fato, a
compaixão é considerada desprezível e indigna de uma alma forte
e temível; — mas os deuses são favoráveis porque o espetáculo
das misérias os diverte e os deixa de bom humor: pois, a
crueldade produz sempre o mais voluptuoso sentimento de poder.
Foi assim que se introduziu na noção do “homem moral”, tal como
existe na comunidade, a virtude do sofrimento freqüente, da
privação, da vida difícil, da mortificação cruel — não, para repetilo
ainda, como meio de disciplina, de domínio de si, de aspiração à
felicidade pessoal — mas como uma virtude que dispõe
favoravelmente para a comunidade os deuses maus, porque ela
eleva incessantemente a eles a fumaça de um sacrifício expiatório.
Todos os chefes espirituais dos povos que se mostraram capazes
de pôr em movimento o lodo preguiçoso e terrível dos costumes
tiveram necessidade, além da loucura, do martírio voluntário para
ter crédito — e, como sempre, antes e acima de tudo, crédito neles
mesmos! Quanto mais seu espírito seguia novos caminhos, sendo
conseqüentemente atormentado por remorsos e temor, mais eles
lutavam cruelmente contra sua própria carne, contra seus
próprios desejos e sua própria saúde — como para oferecer à
divindade uma compensação em alegrias, para o caso de ela se
irritar por ver os costumes negligenciados e combatidos em favor
de objetivos novos. Não se deve imaginar, contudo, com
demasiada complacência, que hoje estamos inteiramente
desembaraçados de semelhante lógica do sentimento! Que as
almas mais heróicas se interroguem a respeito em seu foro íntimo!
O menor passo à frente no domínio do livre pensamento e da vida
individual foi conquistado, em todas as épocas, com torturas
intelectuais e físicas: e não apenas a marcha para a frente, não!
Toda espécie de marcha, de movimento, de mudança necessitou
de inumeráveis mártires ao longo desses milênios que procuravam
seus caminhos e que edificavam bases, nos quais, é claro, não se
pensa quando se fala desse espaço ridiculamente diminuto na
existência da humanidade e que é chamado “história universal”; e
mesmo no domínio dessa história universal que não é, no fundo,
senão o barulho que se faz em torno das últimas novidades, não
existe tema mais essencial e mais importante que a antiga
tragédia dos mártires que queriam pôr o lodo em movimento. Nada
foi pago mais caro que essa pequena parcela de razão humana e
de sentimento de liberdade que constitui hoje nosso orgulho. Mas
é por causa deste orgulho que nos é praticamente impossível hoje
ter o senso desse enorme lapso de tempo em que remava a
“moralidade dos costumes” e que precede a “história universal”,
época real e decisiva, de primordial importância histórica, que fixou
o caráter da humanidade, época em que o sofrimento era uma
virtude, a crueldade uma virtude, a vingança uma virtude, a
negação da razão uma virtude, em que, pelo contrário, o bemestar
era um perigo, a sede de saber um perigo, a paz um perigo, a
compaixão um perigo, a incitação à piedade era uma vergonha, o
trabalho uma vergonha, a loucura algo de divino, a mudança algo
de imoral, prenhe de perigo! — Pensais que tudo isso se modificou
e que, por conseguinte, a humanidade mudou de caráter? Oh!
conhecedores do coração humano, aprendam a conhecer-se
melhor!
19. MORALIDADE E EMBRUTECIMENTO
Os costumes representam as experiências dos homens
anteriores acerca do que consideravam útil ou prejudicial — mas o
sentimento dos costumes (moralidade) não se refere a suas
experiências, mas à antiguidade, à santidade, à indiscutibilidade
dos costumes. Aí está porque esse sentimento se opõe a que se
façam novas experiências e se corrijam os costumes: o que quer
dizer que a moralidade se opõe à formação de costumes novos e
melhores: ela embrutece.
20. LIVRES ATORES E LIVRES PENSADORES
Os livres atores estão em desvantagem em relação aos livres
pensadores, pois os homens sofrem de maneira mais visível
conseqüências dos atos do que conseqüências dos pensamentos.
Mas se considerarmos que uns e outros procuram sua satisfação e
que os livres pensadores já a encontram no fato de refletir nas
coisas proibidas e exprimi-las, verificamos que, quanto aos
motivos, eles são perfeitamente idênticos; e quanto aos resultados,
os livres atores vencerão os livres pensadores, partindo do
principio que não julgamos de acordo com a visibilidade mais
próxima e mais grosseira — isto é, como todo o mundo. Há sempre
lugar para rever as calúnias que oprimiram aqueles que por seus
atos quebraram a autoridade de um costume — geralmente
chamamos estes de criminosos. Todos aqueles que subverteram a
lei moral estabelecida sempre foram considerados em primeiro
lugar como homens maus: mas quando já não era possível
restabelecer essa lei e quando a mudança se tornou um hábito, o
atributo se transformava pouco a pouco; — a história trata quase
exclusivamente desses homens maus que, mais tarde, foram
declarados bons.
21. “CUMPRIMENTO DA LEI”
Quando a observância de um preceito moral atinge um
resultado diferente daquele que se havia prometido e esperado e
não traz ao homem moral a felicidade prometida, mas, contra toda
expectativa, a infelicidade e a miséria, resta sempre aos
conscienciosos e aos inquietos a desculpa de dizer: “Cometemos
um erro na execução.” No pior dos casos, uma humanidade
oprimida que sofre profundamente acabará mesmo por decretar:
“É impossível executar o preceito corretamente, somos fracos e
pecadores até o fundo da alma e profundamente incapazes de
moralidade; por conseguinte, não podemos ter nenhuma
pretensão à felicidade e ao sucesso. As promessas e os preceitos
morais são para seres melhores do que nós.”
22. AS OBRAS E A FÉ
Os doutores protestantes continuam a propagar este erro
fundamental, ou seja, que só a fé conta e que as obras são uma
conseqüência natural da fé. Esta doutrina não é absolutamente
verdadeira,, mas tem a aparência tão sedutora que já fascinou
muitas outras inteligências, além daquela de Lutero (penso nas de
Sócrates e Platão): ainda que a evidência e a experiência de todos
os dias prove o contrário. O conhecimento e a fé, apesar de todas
as promessas que encerram, não podem dar nem a força nem a
habilidade necessárias à ação. Não podem substituir o hábito
desse mecanismo sutil e complexo que deveria ter sido posto em
movimento para que qualquer coisa possa passar da
representação à ação. Primeiro e antes de tudo, as obras! Quer
dizer, o exercício, o exercício, e sempre o exercício! A “fé” adequada
surgirá por si própria — estejam certos disso.
23. EM QUE SOMOS MAIS SUTIS
Pelo fato de, durante milênios, se ter considerado as coisas
(a natureza, os instrumentos, a propriedade de toda espécie) como
vivas e animadas, com a força de prejudicar e de subtrair às
intenções humanas, o sentimento de impotência, entre os
homens, foi muito mais forte e mais freqüente do que poderia ter
sido: pois, era necessário manter sob controle as coisas, bem
como os homens e os animais, por meio da força, da coação, da
lisonja, de pactos, de sacrifícios — esta é a origem da maior parte
das práticas supersticiosas, quer dizer, de uma parte, talvez a
preponderante, contudo a mais inutilmente desperdiçada, da
atividade humana. — Mas, uma vez que o sentimento de
impotência e de temor estava num estado de irritação tão violento,
tão contínuo e quase permanente, o sentimento de poder se
desenvolveu de forma tão sutil, que o homem pode agora, nessa
matéria, pesá-lo na mais sensível das balanças. Esse sentimento
se tomou sua inclinação mais violenta; os meios descobertos para
o atingir formam quase a história da cultura.
24. A DEMONSTRAÇÃO DO PRECEITO
De forma geral, o valor ou o não-valor de um preceito — por
exemplo, aquele de assar o pão — é demonstrado pelo fato de que
o resultado prometido aparece ou não, desde que, no entanto, seja
executado minuciosamente. Tudo se passa diversamente com os
preceitos morais: pois, nesse caso particular, não é possível dar-se
conta dos resultados, interpretá-los e defini-los. Estes preceitos
repousam em hipóteses de valor científico muito fraco, cuja
demonstração ou refutação pelos resultados é igualmente
impossível; — mas outrora, quando toda a ciência era rude e
primitiva e quando se tinha tênues pretensões de considerar uma
coisa como demonstrada — outrora o valor ou o não-valor de um
preceito de moralidade eram determinados da mesma maneira que
qualquer outro preceito: invocando os resultados. Entre os
indígenas da América russa há um preceito que diz: “Não deves
lançar ao fogo os ossos dos animais, nem dá-los aos cães” — e
este preceito é demonstrado, acrescentando-se: “Se o fizeres, não
terás sorte na caça.” Ora, num sentido ou em outro, acontece
quase sempre que não se tem sorte na caça; não é fácil, portanto,
refutar dessa maneira o preceito, sobretudo quando é a
comunidade inteira, e não somente o indivíduo, que suporta o
peso da falta; haverá, por conseguinte, sempre uma circunstância
que parecerá demonstrar o valor do preceito.
25. COSTUMES E BELEZA
Em defesa dos costumes é preciso confessar que, em cada
um daqueles que se submetem totalmente a eles, do fundo do
coração e desde o início, os órgãos de ataque e de defesa — físicos
e espirituais — se atrofiam: o que permite a esse indivíduo tornarse
sempre mais belo! De fato, é o exercício destes órgãos, e o
sentimento correspondente, que tornam feio e que conservam a
feiúra. É assim que o velho babuíno é mais feio que o jovem, e a
jovem fêmea de babuíno tanto se parece com o homem: e é,
portanto, a mais bela. — Que se tire disso uma conclusão sobre a
origem da beleza da mulher!
26. OS ANIMAIS E A MORAL
As práticas que são exigidas na sociedade mais refinada,
evitar com precaução tudo o que é ridículo, bizarro, pretensioso,
refrear as virtudes bem como os desejos violentos, mostrar-se
semelhante aos outros, submeter-se a regras, diminuir-se — tudo
isso, enquanto moral social, se encontra até na escala mais baixa
da espécie animal — e é só neste nível inferior que vemos as idéias
ocultas de todas essas amáveis disposições: pretende-se escapar
aos perseguidores a ser favorecido na busca da presa. E por isso
que os animais aprendem a dominar-se e a disfarçar-se de tal
maneira que alguns deles, por exemplo, se adaptam sua cor à cor
do ambiente (por meio do que chamamos a “função cromática”),
chegam a simular a morte, a assumir as formas e as cores de
outros animais ou o aspecto da areia, das folhas, dos líquenes,
das esponjas (o que os naturalistas ingleses denominam mimicry
— mimetismo). E assim que o indivíduo se dissimula sob a
universalidade do termo genérico “homem” ou no meio da
“sociedade” ou ainda, se adapta e se assimila aos príncipes, às
castas, aos partidos, às opiniões de seu tempo ou de seu meio: e a
todas nossas formas sutis de nos fazermos passar por felizes,
reconhecidos, poderosos, amáveis, encontraremos facilmente o
equivalente animal. O sentido da verdade também que, no fundo,
não é outra coisa senão o sentido da segurança, o homem o tem
em comum com o animal: não queremos nos deixar enganar, nem
perder-nos a nós próprios, escutamos com desconfiança os
encorajamentos de nossas próprias paixões, dominamo-nos e
ficamos desconfiados conosco mesmos; tudo isso também o
animal faz; nele também o domínio de si provém do sentido da
realidade (da inteligência). De igual modo, o animal observa os
efeitos que produz na imaginação dos outros animais, aprende a
olhar-se através disso, a considerar-se “objetivamente”, a possuir,
em certa medida, o conhecimento de si. O animal julga
movimentos de seus adversários e de seus amigos, aprende de cor
suas particularidades: contra os representantes de certas
espécies, renuncia definitivamente ao combate, tal como adivinha
à simples aproximação as intenções pacíficas e conciliadoras de
muitas espécies de animais. As origens da justiça e da
inteligência, da ponderação, da valentia — numa palavra, de tudo
o que designamos de virtudes socráticas — são animais: essas
virtudes são uma conseqüência dos instintos que ensinam a
procurar o alimento e a escapar do inimigo. Se considerarmos,
pois, que mesmo o homem superior não fez outra coisa que elevarse
e se aperfeiçoar na qualidade de seu alimento e na idéia do que
considera como oposto à sua natureza, nada poderá impedir de
qualificar de animal o fenômeno moral por inteiro.
27. VALOR DA CRENÇA NAS PAIXÕES SOBRE-HUMANAS
A instituição do casamento mantém obstinadamente a
crença que o amor, embora seja uma paixão, é, contudo,
suscetível de durar enquanto paixão, a crença que o amor
duradouro, o amor por toda a vida pode ser considerado como a
regra. Por essa tenacidade de uma nobre crença, mantida apesar
das refutações tão freqüentes que são quase a regra e que fazem
dela, por conseguinte, uma pia fraus5, a instituição do casamento
conferiu ao amor uma nobreza superior. Todas as instituições que
concederam a uma paixão a crença em sua duração e a tornam
responsável por essa duração, contra a própria essência da
paixão, reconheceram-lhe uma nova ordem: doravante aquele que
é prisioneiro de uma paixão não vê mais nisso, como outrora, uma
degradação ou uma ameaça, mas, pelo contrário, se sente elevado
por ela perante si próprio e diante de seus semelhantes. Pensemos
nas instituições e nos costumes que fizeram do abandono fogoso
de um instante uma fidelidade eterna, do prazer da cólera a eterna
vingança, do desespero o luto eterno, da palavra súbita e única o
compromisso eterno. Por semelhantes transformações, muita
hipocrisia e mentira cada vez mais foram introduzidas no mundo:
cada vez também, e a esse preço somente, um conceito sobrehumano
que eleva o homem.
28. A DISPOSIÇÃO DE ESPÍRITO COMO ARGUMENTO
Qual é a causa de uma alegre determinação que se apodera
de nós diante da ação? — Esta é uma questão que tem
preocupado muito os homens. A resposta mais antiga, que
permanece sempre corrente, é que se deve fazer remontar a causa
a Deus que nos permite compreender com isso que aprova nossa
decisão. Quando outrora se interrogavam os oráculos, desejava-se
trazer de lá para si esta alegre resolução; e todos respondiam às
dúvidas que lhes sobrevinham, quando se apresentam à sua alma
diversas ações possíveis, dizendo: “Eu quero realizar a ação que
for acompanhada desse sentimento.” Por conseguinte, os homens
não se decidiam pela solução mais razoável, mas pelo projeto cuja
imagem tornava a alma mais corajosa e cheia de esperança. A boa
disposição pesava na balança como um argumento mais decisivo
que a razão: porque a disposição de espírito era interpretada de
forma supersticiosa, como o efeito de um deus que promete o êxito
e que quer assim levar a falar, à sua razão, a linguagem da
sabedoria superior. Ora, considerem as conseqüências de
semelhante preconceito quando homens astutos e sequiosos de
poder se serviram dele — quando se servem ainda! “Dispor
favoravelmente os espíritos!” — com isso se pode substituir todos
os argumentos e vencer todas as objeções!
29. OS COMEDIANTES DA VIRTUDE E DO PECADO
Entre os homens da antiguidade que se tornaram célebres
por sua virtude houve, parece, um número considerável deles que
representava a comédia para si mesmos: sobretudo os gregos,
esses comediantes natos, tiveram de simular assim de um modo
inteiramente involuntário e teriam achado que era bom simular.
Por outro lado, cada um se via em competição por sua virtude com
a virtude de outro ou de todos os outros: como seria possível que
não utilizassem todos os artifícios para dar a virtude como
espetáculo a si mesmos em primeiro lugar, fosse isso
simplesmente para se acostumar! Para que servia uma virtude que
não pudesse ser mostrada ou que não se prestasse a ser
mostrada! — O cristianismo pôs um freio a essa comédia da
virtude: inventou o costume de exibir os próprios pecados de uma
forma repugnante, de fazê-los desfilar, introduziu no mundo a
culpabilidade afetada (considerada até hoje “de bom tom” entre os
bons cristãos).
30. A CRUELDADE REFINADA COMO VIRTUDE
Aí está uma moralidade que repousa inteiramente na
necessidade de se distinguir — não tenham dela uma opinião
muito boa! Que inclinação é essa, pois, no fundo e qual é a
segunda intenção que a dirige? Pretendemos que nosso simples
olhar faça mal a nosso vizinho e a seu espírito de inveja, desperte
nele um sentimento de impotência e de desgraça; queremos fazê-lo
saborear a amargura do seu destino, derramando em sua língua
uma gota de nosso mel e, enquanto o fazemos degustar esse
pretenso benefício, o fitamos diretamente nos olhos, fixamente e
com um ar de triunfo. Aí está ele que se tornou humilde e perfeito
agora em sua humildade — procurem aqueles que, por sua
humildade, durante muito tempo ele lhes preparou uma tortura; e
haverão de encontrá-los facilmente! Ele se mostra Compassivo
para com os animais e nós o admiramos — mas ele pretende
assim dar livre curso à sua crueldade em relação a certas pessoas.
Aí está um grande artista: a volúpia que degusta
antecipadamente, imaginando a inveja dos rivais subjugados,
impediu sua força de adormecer até que se tenha tornado um
grande — quantos momentos amargos não fez pagar a outros
espíritos para atingir essa grandeza! A castidade da religiosa: com
que olhar vingador contempla as mulheres que vivem
diferentemente! Que alegria vingadora há em seus olhos! — O
tema é curto, mas as variações poderiam ser inumeráveis, sem
risco de provocar o enfado — pois é sempre uma novidade, por
mais paradoxal e dolorosa que seja, que a moralidade da distinção
não seja, em última instância, senão o prazer de uma crueldade
refinada. Em última instância, quero dizer, sempre na primeira
geração. De fato, quando o hábito de uma ação que distingue se
torna hereditário, a segunda intenção não se transmite (herdamos
apenas sentimentos e não pensamentos): e, supondo que não seja
introduzida a segunda intenção novamente pela educação, na
segunda geração o prazer da crueldade, na ação que distingue, já
não existe mais: mas somente o prazer que o hábito dessa ação
proporciona. Mas precisamente esse prazer é o primeiro grau do
“bem”.
31. A ALTIVEZ DO ESPÍRITO
A altivez do homem que se insurge contra a tese de sua
ascendência animal e que estabelece entre a natureza e o homem
um grande abismo — essa altivez provém de um preconceito sobre
a natureza do espírito e este preconceito é relativamente recente.
Durante o longo período pré-histórico da humanidade supunha-se
que o espírito estava em toda parte e não se pensava de forma
alguma em venerá-lo como uma prerrogativa do homem. Porque se
considerava, pelo contrário, o espiritual (assim como todos os
instintos, as maldades, as tendências) como pertencente a todos,
como, portanto, de essência comum, e não se tinha vergonha de
descender de animais ou de árvores (as raças nobres se sentiam
honradas com essas lendas); via-se no espírito aquilo que nos une
à natureza e não o que dela nos separa. Assim, todos eram criados
na modéstia — e era também a partir de um preconceito.
32. O ENTRAVE
Sofrer moralmente e ficar sabendo depois que esta espécie
de sofrimento repousa num erro, é isso que revolta. De fato, há
uma consolação única em afirmar, por meio do sofrimento, um
“mundo de verdade” mais profundo que qualquer outro mundo, e
é infinitamente preferível sofrer e sentir-se superior à realidade
(pela consciência de se aproximar assim desse “mundo de verdade
mais profundo”) do que viver sem sofrimento e ser privado desse
sentimento de superioridade. Por conseguinte, a altivez e a
maneira habitual de satisfazê-lo são que se opõem à nova
concepção da moral. Que força será necessário utilizar, portanto,
para eliminar esse entrave? Mais altivez? Uma nova altivez?
33. O DESPREZO DAS CAUSAS, DAS CONSEQÜENCIAS E DA REALIDADE
Esses acasos nefastos que se abatem sobre uma
comunidade, tempestades súbitas, secas ou epidemias, despertam
em todos os seus membros a suspeita de que faltas contra os
costumes foram cometidas ou fazem crer que é preciso inventar
novos costumes para apaziguar um novo poder e um novo
capricho dos demônios. Este gênero de suspeita e de raciocínio
evita justamente, portanto, aprofundar a verdadeira causa natural
e considera a causa demoníaca como razão primeira. Há nisso
uma das fontes da má formação hereditária do espírito humano; e
a outra fonte se encontra bem ao lado, pois, de igual modo e
também sistematicamente, se presta uma atenção muito menor às
verdadeiras conseqüências naturais de uma ação do que a suas
conseqüências sobrenaturais (o que é chamado de punições e
graças da divindade). Prescreve-se, por exemplo, tomar certos
banhos em determinados momentos: não se toma banho por uma
questão de higiene, mas porque isso foi prescrito. Não se aprende
a fugir das verdadeiras conseqüências da sujeira, mas o pretenso
descontentamento que a divindade teria ao ver alguém
negligenciar o banho. Sob a pressão de um temor supersticioso,
suspeita-se que esse lavar do corpo sujo tem mais importância do
que o ar, depois são introduzidos significados de segunda e de
terceira mão, estraga-se a alegria e o sentido da realidade e se
termina por não conferir a esse lavar senão enquanto pode ser um
símbolo. Assim, sob o império da moralidade dos costumes, o
homem despreza primeiramente as causas, depois as
conseqüências, em terceiro lugar a realidade e liga todos os seus
sentimentos elevados (de veneração, de nobreza, de altivez, de
reconhecimento, de amor) a um mundo imaginário: que chama de
mundo superior. E hoje ainda vemos as conseqüências disso:
desde que os sentimentos de um homem se elevam de uma forma
ou de outra, esse mundo imaginário está em jogo. É triste dizer,
mas provisoriamente todos os sentimentos elevados devem ser
suspeitos ao homem de ciência, tão ilusórios e extravagantes se
mostram. Não que esses sentimentos devessem ser suspeitos em
si e para sempre, mas, de todas as depurações progressivas que
esperam a humanidade, a depuração dos sentimentos elevados
será uma das mais lentas.
34. SENTIMENTOS MORAIS E CONCEITOS MORAIS
É evidente que os sentimentos morais são transmitidos pelo
fato que as crianças notam nos adultos predileções violentas e
fortes antipatias com relação a certas ações e que, macacos de
nascença, imitam essas predileções e essas antipatias; mais tarde,
no decorrer de sua existência, quando estiverem repletos desses
sentimentos bem adquiridos e bem exercidos, acham conveniente
proceder a um exame tardio, a uma espécie de exposição dos
motivos que irão justificar essas predileções e dessas antipatias.
Mas essa “exposição dos motivos” nada tem a ver neles com a
origem nem com a intensidade desses sentimentos: contenta-se de
se pôr em dia com a conveniência quem quiser que um ser
racional conheça as razões de seus prós e de seus contras, razões
confessáveis e aceitáveis. Neste sentido, a história dos
sentimentos morais é inteiramente diferente da história dos
conceitos morais. Os primeiros são poderosos antes da ação, os
segundos, sobretudo depois, defronte da necessidade de se
explicar a respeito dela.
35. OS SENTIMENETOS E SUA PROVENIÊNCIA DOS JUÍZOS
“Confia em teu sentimento!” — Mas os sentimentos não são
nada de definitivo, nada de original; por trás dos sentimentos há
os juízos e as apreciações que nos são transmitidos sob forma de
sentimentos (predileções, antipatias). A inspiração que decorre de
um sentimento é neta de um juízo — muitas vezes de um juízo
errôneo! — mas, em qualquer caso, não de um juízo que te seja
pessoal! Confiar nos próprios sentimentos significa obedecer mais
ao avô, à avó e aos antepassados do que obedecer aos deuses que
estão em nós, à nossa razão e à nossa experiência.
36. UMA TOLICE DA PIEDADE REPLETA DE SEGUNDAS INTENÇÕES
O quê? Os inventores das antigas culturas, os primeiros
construtores de utensílios e de cordas, de carroças, de barcos e de
casas, os primeiros observadores da conformidade das leis
celestes e das regras da multiplicação — seriam diferentes dos
inventores e dos observadores de nosso tempo e superiores a
estes? Não teriam os primeiros um valor que todas as nossas
viagens, todas as nossas navegações circulares no domínio das
descobertas não chegariam a igualar? Assim fala a voz do
preconceito; assim se argumenta para rebaixar o espírito
moderno. E, no entanto, é evidente que outrora o acaso foi o maior
inventor e o maior observador, o inspirador benevolente dessa
época engenhosa e que, para as mais insignificantes invenções
que ora se fazem, exige-se mais espírito, mais energia e mais
imaginação científica do que houve outrora durante longos
períodos.
37. FALSAS CONCLUSÕES TIRADAS DA UTILIDADE
Quando se demonstrou a extrema utilidade de uma coisa,
não se fez ainda um passo para explicar sua origem: o que
significa que jamais se pode explicar, por meio da utilidade, a
necessidade da existência. Mas é precisamente o juízo inverso que
dominou até o presente — e até mesmo no domínio da ciência
mais rigorosa. Os astrônomos não chegaram a pretender que a
utilidade (suposta) na economia dos satélites (suprir a luz
enfraquecida por uma distância demasiado grande do sol, para
que os habitantes dos astros não tivessem falta de luz) era o
objetivo final dessa economia e explicava sua origem? Isto faz
lembrar também o raciocínio de Cristóvão Colombo: a terra é feita
para o homem; portanto, se há terras, elas devem ser habitadas.
“Será possível que o sol derrame seus raios sobre o nada e que a
vigília noturna das estrelas seja prodigalizada em vão a mares sem
velas e a regiões desabitadas?”
38. OS INSTINOS TRANSFORMADOS PELOS JUÍZOS MORAIS
O próprio instinto se torna um sentimento penoso de
covardia, sob a impressão da censura que os costumes fizeram
repousar sobre ele: ou um sentimento agradável de humildade, se
uma moral, como a cristã, o adotou e o declarou bom. Quer dizer
que esse instinto gozará sempre de uma boa ou de uma má
consciência! Em si, como todo instinto, é independente da
consciência, não possui nem um caráter, nem uma designação
moral e tampouco é acompanhado de um sentimento de prazer ou
de desprazer determinado: só adquire tudo isso como uma
segunda natureza, a partir do momento em que se relaciona com
outros instintos que já receberam o batismo do bem e do mal, ou
se é reconhecido como o atributo de um ser que o povo já definiu e
avaliou do ponto de vista moral. — Assim, os antigos gregos
tinham outra opinião sobre a inveja, diferente da nossa: Hesíodo6
a menciona entre os efeitos da boa e benfazeja Eris e não ficava
chocado com o pensamento de que os deuses tivessem alguma
coisa de invejoso: fenômeno compreensível num estado de coisas
em que a emulação era a alma; emulação que era considerada
como boa e apreciada como tal. De igual modo, os gregos se
distinguiam de nós na avaliação da esperança: consideravam-na
como cega e pérfida; Hesíodo mostrou numa fábula o que se pode
dizer de mais violento contra ela e o que ele diz é tão estranho, que
nenhum intérprete novo compreendeu alguma coisa — pois é
contrário ao espírito moderno que aprendeu do cristianismo a
considerar a esperança uma virtude. Ao contrário, para os gregos
o conhecimento do futuro não parecia inteiramente fechado e a
interrogação do futuro se tinha tornado, em inumeráveis casos,
um dever religioso; enquanto nós nos contentamos com a
esperança, os gregos, graças às predições de seus adivinhos,
tinham muito pouca estima pela esperança e a rebaixavam ao
nível de um mal ou de um perigo. — Os judeus, que consideravam
a cólera de um modo diferente de nós, declararam-na sagrada: é
por isso que colocaram a sombria majestade que a acompanhava
num grau tão elevado que um europeu sequer poderia imagina:
eles conceberam a santidade de seu Javé colérico segundo a
santidade de seus profetas coléricos. Os grandes encolerizados
entre os europeus, se forem avaliados segundo semelhante
medida, não passam, de algum modo, de criaturas de segunda
mão.
39. O PRECPNCEITO DO “ESPÍRITO PURO”
Em toda parte onde reina a doutrina da espiritualidade pura,
ela destruiu com seus excessos a força nervosa: ensinava a
desprezar o corpo, a negligenciá-lo ou a atormentá-lo, a
atormentar e desprezar o próprio homem, por causa de todos os
seus instintos; produzia almas sombrias, tensas, oprimidas —
que, além disso, acreditavam conhecer a causa de seu sentimento
de miséria e esperavam poder suprimi-la! “É no corpo que ela se
encontra! E sempre ainda demasiado viçoso!” — assim concluíam
eles, enquanto na realidade o corpo, com suas dores, não cessava
de se rebelar contra o contínuo desprezo que lhe mostravam. Um
extremo nervosismo, que se tornou geral e crônico, acabava por
ser o apanágio desses virtuosos espíritos puros: eles só conheciam
o prazer sob a forma de êxtase e de outros fenômenos da loucura
— e seu sistema atingia seu apogeu quando consideravam o
êxtase como ponto culminante da vida e como critério para
condenar tudo o que é terrestre.
40. A INCESSANTE REFLEXÃO SOBRE OS COSTUMES
Os numerosos preceitos morais que eram extraídos, às
pressas, de um acontecimento único e insólito, acabavam por
tornar-se rapidamente incompreensíveis: era tão difícil deduzir
deles intenções como reconhecer a penalidade que devia ser
aplicada a uma infração; a dúvida pesava mesmo no desenrolar
das cerimônias; mas, enquanto tudo era concertado em torno
desse assunto, o objeto de semelhante investigação crescia em
valor e o que havia precisamente de absurdo num costume
acabava por se tornar sacrossanto. Não se deve julgar
levianamente a força que a humanidade despendeu nisso durante
milhares de anos sobretudo o efeito que produziam essas
incessantes reflexões sobre os costumes! Chegamos assim a um
imenso terreno de manobra da inteligência: não somente as
religiões nele se desenvolvem e se completam, mas também a
ciência encontra ali seus precursores veneráveis, embora ainda
terríveis; é ali que o poeta, o pensador, o médico, o legislador
cresceram! O medo do incompreensível que, de uma forma
equivocada, exige de nós cerimônias revestiu aos poucos o atrativo
do hermetismo e, quando não se chegava a aprofundar, se
aprendia a criar.
41. PARA DETERMINAR O VALOR DA VIDA CONTEMPLATIVA
Não esqueçamos, sendo homens da vida contemplativa, de
que gênero foram as desgraças e as maldições que atingiram os
homens da vida ativa por meio dos diferentes contragolpes da
contemplação — numa palavra, que conta a vida ativa teria de nos
apresentar, a nós que nos vangloriamos com todo o orgulho de
nossos benefícios. Em primeiro lugar, ela nos oporia: as naturezas
ditas religiosas que, por seu número, predominam entre os
contemplativos e representam, por conseguinte, a espécie mais
corrente; agiram, desde sempre, de modo a tornar a vida difícil
para os homens práticos, a desgostá-los com isso se possível:
obscurecer o céu, apagar o sol, tornar a alegria suspeita, depreciar
as esperanças, paralisar a mão ativa — assim é que elas foram
entendidas e por isso tiveram, para as épocas e os sentimentos
miseráveis, suas consolações, suas esmolas, suas mãos
estendidas e suas bênçãos. Em segundo lugar: os artistas, uma
espécie de homens da vida contemplativa mais rara que a
religiosa, mas ainda bastante freqüente; como indivíduos têm sido
geralmente insuportáveis, caprichosos, invejosos, violentos,
briguentos: essa impressão deve ser deduzida da impressão
tranqüilizadora e exaltante de suas obras. Em terceiro lugar: os
filósofos, uma espécie em que se encontram reunidas forças
religiosas e artísticas, mas de tal modo que um terceiro elemento
pode ser acrescido, o dialético, o prazer de discutir; estiveram na
origem dos mesmos males como os religiosos e os artistas e, além
disso por causa de sua inclinação dialética, produziram o
aborrecimento em muita gente; seu número, contudo, foi sempre
reduzido. Em quarto lugar: os pensadores e os trabalhadores
científicos; raramente procuraram produzir efeitos, contentandose
em escavar silenciosamente suas tocas de toupeira, o que os
levou a suscitar pouco aborrecimento e prazer; tendo sido objeto
de hilaridade e zombaria, chegaram até, sem o saber, a aliviar a
existência dos homens da vida ativa. Finalmente, a ciência acabou
por tornar-se uma coisa muito útil para todos: se, por causa dessa
utilidade, muitos homens predestinados à vida ativa trilham o
caminho da ciência com o suor de seu rosto, não sem maldições e
dores de cabeça, a multidão dos pensadores e dos trabalhadores
científicos não tem culpa de seus dissabores: esse é um
“sofrimento infligido a si próprio”.
42. ORIGEM DA VIDA CONTEMPLATIVA
Durante as épocas bárbaras, quando reinam os juízos
pessimistas sobre o homem e o mundo, o indivíduo se aplica
sempre, confiando na plenitude de sua força, a agir em
conformidade com esses juízos, isto é, a colocar as idéias em ação,
através da caça, da pilhagem, da surpresa, da brutalidade e dos
assassinatos, assim como através das formas enfraquecidas
dessas ações, as únicas toleradas no interior da comunidade. Mas
se o vigor do indivíduo declina, se se sente fatigado ou doente,
melancólico ou saciado e, portanto, momentaneamente sem
desejos e sem apetites, torna-se então um homem relativamente
melhor, isto é, menos perigoso, e suas idéias pessimistas se
exteriorizam apenas em palavras e reflexões, referentes, por
exemplo, a seus companheiros, a sua mulher, a sua vida ou a
seus deuses — e os juízos que então vai emitir serão juízos
desfavoráveis. Nesse estado de espírito, transforma-se em
pensador e anunciador, ou então sua imaginação vai desenvolver
suas superstições, vai inventar novos costumes, vai zombar de
seus inimigos: — mas seja o que for que possa imaginar, todas as
produções de seu espírito vão refletir necessariamente seu estado,
quer dizer, um aumento de seu temor e de sua fadiga, uma
diminuição de sua estima pela ação e pela alegria; será necessário
que o conteúdo dessas produções corresponda ao estado de alma
poético, imaginativo e sacerdotal: o juízo desfavorável deve
predominar. Mais tarde todos os que passaram a fazer de uma
forma contínua o que outrora o indivíduo só fazia por disposição,
aqueles, pois, que emitiam juízos desfavoráveis, viviam na
melancolia e permaneciam pobres em ações e foram chamados
poetas, pensadores, padres ou “milagreiros”: — por que não
atuavam suficientemente, de boa vontade teriam sido desprezados
ou até expulsos da comunidade tais homens; mas havia nisso um
perigo — eles tinham seguido as pegadas da superstição e as
pegadas do poder divino, pelo que não havia dúvida de que
possuíssem meios de ação provenientes de forças desconhecidas.
Nessa estima é que se encontravam as mais antigas gerações de
naturezas contemplativas — desprezadas na medida em que não
despertavam temor. É sob essa forma disfarçada, sob esse aspecto
duvidoso, com um coração mau e um espírito muitas vezes
atormentado, que a contemplação fez sua primeira aparição na
terra, desprezada em segredo e publicamente coberta de sinais de
um respeito supersticioso! Aqui se deve dizer como sempre:
pudenda origo7!
43. QUANTAS FORÇAS O PENSADOR DEVE HOJE REUNIR NELE
Tornar-se estranho às considerações dos sentidos, elevar-se
até a abstração — outrora isso era considerado como uma
verdadeira elevação: mas não podemos mais ter as mesmas
opiniões. A embriaguez criada pelas mais pálidas imagens das
palavras e das coisas, o comércio com seres invisíveis,
imperceptíveis, intangíveis, eram considerados como existência em
outro mundo superior, uma experiência nascida do profundo
desprezo pelo mundo perceptível aos sentidos, esse mundo
sedutor e mau. “Longe de nos seduzir, essas abstrações podem
doravante nos conduzir!” — a essas palavras se lançavam como se
quisessem galgar os cumes. Não é o conteúdo desses jogos
espirituais, mas são os próprios jogos que foram “a coisa superior”
na pré-história da ciência. Daí a admiração de Platão pela
dialética e sua fé entusiástica na relação necessária desta com o
homem bom, liberto dos sentidos. Não foram somente as
diferentes maneiras de conhecer que foram descobertas
separadamente e aos poucos, mas também os meios do
conhecimento em geral, as condições e as operações que no
homem precedem o ato de conhecer. E sempre parecia que a
operação ultimamente descoberta ou os estados de alma novos
fossem apenas meios para chegar a todo conhecimento, mas o
objetivo desejado, o teor e a soma de tudo o que merece ser
conhecido. O pensador tem necessidade da imaginação, do
impulso, da abstração, da espiritualização, do sentido inventivo,
do pressentimento, da indução, da dialética, da dedução, da
crítica, da reunião de materiais, do pensamento impessoal, da
contemplação e da síntese, e não menos de justiça e de amor em
relação a tudo o que existe — mas na história da vida
contemplativa, todos esses meios foram considerados, cada um em
separado, como objetivo e como objetivo supremo, e
proporcionaram a seus inventores essa felicidade que enche a
alma humana, quando é iluminada com o brilho de um objetivo
supremo.
44. ORIGEM E SIGNIFICAÇÃO
Por que esse pensamento retorna sem cessar a meu espírito
e toma cores sempre mais vivas? — O pensamento que outrora os
filósofos, quando estavam na via da origem das coisas,
imaginavam sempre que fariam descobertas de uma significação
inapreciável para toda espécie de ação e de juízo; supunha-se até
mesmo que a salvação dos homens devia depender do
entendimento que possuía da origem das coisas: hoje, pelo
contrário, quanto mais nos entregamos à pesquisa das origens,
menos nosso interesse participa dessa operação, ao contrário,
todas as avaliações, todos os “interesses” que colocamos nas
coisas começam a perder sua significação à medida que recuamos
no conhecimento para cercar de perto as próprias coisas; com o
entendimento da origem a insignificância da origem aumenta:
enquanto o que está próximo, o que está em nós e em torno de nós
começa aos poucos a se mostrar rico de cores, de belezas, de
enigmas e de significações, das quais a antiga humanidade nem
sequer ousava sonhar. Outrora os pensadores giravam em círculo
como animais presos, devorados por uma raiva secreta, lançandose
contra essas barras para quebrá-las; e feliz parecia aquele que,
por alguma fresta, julgava ver alguma coisa de fora, do além e das
coisas distantes.
45. UM DESFECHO TRÁGICO DO CONHECIMENTO
De todos os meios de exaltação, os sacrifícios humanos são
os que, em todos os tempos, mais elevaram e espiritualizaram o
homem. E talvez haja uma só idéia prodigiosa que, ainda agora,
poderia aniquilar qualquer outra aspiração, de modo que obtivesse
a vitória sobre a mais vitoriosa — quero dizer a idéia da
humanidade sacrificando-se a si mesma. Mas a quem deveria ela
se sacrificar? Pode-se já jurar que, se algum dia a constelação
dessa idéia aparecesse no horizonte, o conhecimento da verdade
se manteria como o único objetivo ingente a que semelhante
sacrifício seria proporcional, porque para o conhecimento nenhum
sacrifício é demasiado grande. Esperando por isso, o problema
nunca foi posto, jamais alguém se perguntou se a humanidade em
seu conjunto era capaz de um movimento próprio para fazer o
conhecimento progredir e, menos ainda, que necessidade de
conhecimento impeliria a humanidade a se oferecer a si própria
em holocausto para morrer com a luz de uma sabedoria
antecipada nos olhos. Talvez um dia, quando se chegar a
confraternizar com os habitantes de outros planetas, no interesse
do conhecimento, e quando, alguns milhares de anos adiante, se
tiver conseguido comunicar o próprio saber de estrela em estrela,
talvez então a onda de entusiasmo provocada pelo conhecimento
terá atingido semelhante altura!
46. DUVIDAR QUE SE DUVIDA
“Que travesseiro fofo é a dúvida para uma cabeça bem feita!”
— estas palavras de Montaigne8 sempre exasperaram Pascal9, pois
ninguém como ele tinha exatamente tanta necessidade de um
travesseiro fofo. A que se referia isso, pois?
47. AS PALAVRAS NOS BARRAM O CAMINHO
Em toda parte onde os antigos dos primeiros tempos
colocavam uma palavra creditavam ter feito uma descoberta. E
como na realidade isso era diferente! — eles tinham apenas tocado
um problema e, julgando tê-lo resolvido, haviam criado um
obstáculo à sua salvação. — Agora, para atingir o conhecimento, é
preciso tropeçar em palavras que se tornaram eternas e duras
como pedras, e as pernas se quebrarão mais facilmente que a
palavra.
48. “CONHECE-TE A TI MESMO”, ESSA É TODA A CIÊNCIA
Só depois de conhecer todas as coisas é que o homem
poderá se conhecer a si mesmo. De fato, as coisas são
simplesmente as fronteiras do homem.
49. O NOVO SENTIMENTO FUNDAMENTAL:
NOSSA NATUREZA DEFINITIVAMENTE PERECÍVEL
Outrora procurava-se despertar o sentimento da soberania
do homem mostrando sua origem divina; isso tornou-se hoje uma
via interditada, pois no início está o macaco, cercado de alguma
pessoa animal amedrontadora: — range os dentes como para
dizer: nenhum passo a mais nessa direção! São feitas, por
conseguinte, tentativas na direção oposta: o caminho que a
humanidade toma deve servir para provar sua soberania e sua
natureza divina. Ai! isso também não leva a nada! No final desse
caminho se encontra a urna funerária do último homem que
enterra os mortos (com a inscrição: Nihil humani a me alienum
puto10). Por mais alto que sua evolução possa levar a humanidade
— e talvez no fim seja inferior ao que havia sido no início! — não
há para ela passagem a uma ordem superior, tal como a formiga e
o mosquito no fim da sua “carreira terrestre” não entram na
eternidade e no seio de Deus. O futuro arrasta atrás de si o que foi
o passado: por que deveria haver, para uma pequena estrela
qualquer e para uma pequena espécie vivendo nessa estrela, uma
exceção nesse espetáculo eterno? Afastemos de nós essas
sentimentalidades!
50. A FÉ NA EMBRIAGUEZ
Os homens que conhecem instantes de sublime encanto e
que, em momentos comuns, por causa do contraste e da extrema
usura de suas forças nervosas, se sentem miseráveis e desolados,
consideram tais momentos como a verdadeira manifestação de si
mesmos, de seu “eu”; pelo contrário, a miséria e a desolação como
o efeito do “não-eu”; é por isso que pensam em seu meio, em sua
época, em seu mundo todo, com sentimentos de vingança. A
embriaguez parece-lhes ser a verdadeira vida, o eu autêntico: em
tudo o resto vêem adversários e inimigos da embriaguez, qualquer
que seja a espécie dessa embriaguez, espiritual, moral, religiosa
ou artística. A humanidade deve boa parte de suas desgraças a
esses embriagados entusiastas: pois são infatigáveis semeadores
do joio do descontentamento de si e dos outros, do desprezo de
seu tempo e do mundo e sobretudo do cansaço. Talvez todo um
inferno de criminosos não poderia produzir essas conseqüências
nefastas e distantes, esses efeitos pesados e inquietantes, que
corrompem a terra e o ar e que são o apanágio dessa nobre
pequena comunidade de seres desenfreados, extravagantes e meio
loucos, gênios que não sabem se dominar e que só encontram
alegria em si próprios quando se perdem completamente:
enquanto o criminoso, pelo contrário, muitas vezes dá ainda
provas de domínio de si, de sacrifício e de sabedoria e mantém
vivas essas qualidades naqueles que o temem. Por causa dele a
abóbada celeste que se eleva acima da vida se torna talvez
perigosa e obscura, mas a atmosfera permanece vigorosa e severa.
— Além disso, esses iluminados põem todas as suas forças para
propagar a fé na embriaguez, como se fosse a vida por excelência!
Precisamente como se corrompe rapidamente os selvagens com a
“aguardente”, que os leva a perecer, a humanidade foi corrompida
em seu conjunto, lenta e fundamentalmente, pela aguardente
espiritual dos sentimentos inebriantes e por aqueles que
mantinham vivo o desejo dela: talvez termine por perecer por
causa disso.
51. TAL COMO SOMOS!
“Sejamos indulgentes para com os grandes caolhos!” — disse
Stuart Mill11: como se fosse preciso pedir indulgência, quando
nossa atitude habitual em relação a eles é feita de fé e mesmo de
admiração! Eu digo: sejamos indulgentes para com os homens,
grandes e pequenos, de dois olhos, pois, tal como somos, não
chegaremos além da indulgência!
52. ONDE ESTÃO OS NOVOS MÉDICOS DA ALMA?
Foram os meios de consolação que deram à vida esse caráter
fundamentalmente miserável no qual agora se acredita: a mais
grave doença da humanidade nasceu da luta contra as doenças e
os remédios aparentes produziram com o tempo um mal pior
daquele que deveriam eliminar. Por ignorância, os remédios eram
considerados estupefacientes e entorpecentes que agiam
imediatamente, o que se costumava chamar de “consolações”,
como curativos propriamente ditos; não se notava até mesmo que
se pagava muitas vezes esse alívio imediato por uma alteração da
saúde, profunda e geral, que os doentes tinham de sofrer os
efeitos da embriaguez, depois da ausência de embriaguez e
finalmente de um sentimento de inquietude, de opressão, de
perturbações nervosas e de mal-estar geral. Quando se caía
doente até certo grau, a cura já não era possível — os médicos da
alma velavam então entre a confiança e a veneração geral. — Com
razão se diz que Schopenhauer12 foi o primeiro a ter tomado de
novo a sério os sofrimentos da humanidade: onde está aquele que
finalmente vai levar a sério os remédios para esses sofrimentos e
vai colocar no pelourinho o inqualificável charlatanismo com o
qual até agora, sob os nomes mais sublimes, a humanidade tratou
as doenças da alma?
53. ABUSOS PARA COM OS CONSCIENCIOSOS
Foram os conscienciosos e não os sem consciência que
tiveram de sofrer terrivelmente sob o peso das exortações à
penitência e do temor do inferno, sobretudo quando eram também
homens de imaginação. Acabou-se, portanto, por entristecer a
vida exatamente daqueles que tinham mais necessidade de
serenidade e de imagens agradáveis — não somente para seu
próprio reconforto e sua própria cura, mas para que a
humanidade pudesse se alegrar com seu aspecto e absorver nela o
brilho de sua beleza. Ai! Quanta crueldade gratuita, quantos maus
tratos provieram das religiões que inventaram o pecado! E homens
que, por meio dessas religiões, quiseram saborear ao máximo de
seu poder!
54. AS IDÉIAS SOBRE A DOENÇA
Tranqüilizar a imaginação do doente para que não tenha
mais que sofrer com idéias que tem de sua doença, mais que com
a própria doença — acho que já é alguma coisa! E não é mesmo
pouco! Compreendem agora nossa tarefa?
55. OS “CAMINHOS”
Os pretensos “atalhos” sempre expuseram a humanidade
aos maiores perigos; com a boa notícia de que um caminho mais
curto foi encontrado, a humanidade sempre abandona seu próprio
caminho — e perde seu caminho.
56. O APÓSTATA DE ESPÍRITO LIVRE
Quem poderia ter, pois, aversão pelos homens piedosos e
firmes em sua fé? Não os olhamos, pelo contrário, com uma
veneração silenciosa, alegrando-nos com seu aspecto, com o
profundo pesar que esses excelentes homens não tenham as
mesmas opiniões que nós? Mas de onde provém essa aversão
repentina e sem razão contra aquele que possuiu toda a liberdade
de espírito e que se tornou “crente”? Quando pensamos nisso,
temos a impressão de ter visto um espetáculo repugnante que
seria necessário preciso apagar rapidamente de nosso espírito!
Não voltaríamos as costas ao homem mais venerado, se
tivéssemos nesse aspecto alguma suspeita a respeito dele? Não
certamente por uma condenação moral, mas pelo desgosto e pelo
receio que subitamente se apoderariam de nós! De onde vem essa
severidade de opinião? Talvez tudo isso pretenderia nos levar a
entender que no fundo não somos totalmente seguros de nós
mesmos! Plantamos em torno de nós, no momento oportuno, as
cercas-vivas do desprezo mais espinhento, para que, no momento
decisivo em que a idade nos torna fracos e esquecidos, possamos
ultrapassar nosso próprio desprezo! — Sinceramente, esta
suposição é errônea e aquele que a formula ignora tudo o que
anima e determina o espírito livre: como este último está longe de
achar a mudança de suas opiniões desprezível em si! Como, pelo
contrário, aprecia a faculdade de mudar sua opinião, qualidade
rara e superior, sobretudo quando se consegue mantê-la até a
velhice! E seu orgulho (e não sua pusilanimidade) chega até a
colher os frutos proibidos do spernere se sperni e do spernere se
ipsum13, longe de se deter no temor que inspiram aos vaidosos e
aos timoratos. Além disso, a doutrina da inocência de todas as
opiniões lhe parece tão firme como a doutrina da inocência de
todas as ações: como se poderia fazer o papel de juiz e de carrasco
dos apóstatas da liberdade intelectual? O aspecto de tal apóstata o
toca, pelo contrário, da mesma maneira que o aspecto de uma
doença repugnante toca o médico: o desgosto físico diante daquilo
que é esponjoso, mole, penetrante, purulento, triunfa
momentaneamente sobre a razão e a vontade de socorrer. Assim
nossa boa vontade é vencida pela idéia da monstruosa
deslealdade que deve ter reinado no apóstata de espírito livre, pela
idéia de uma degenerescência geral que corrói o caráter até a
medula.
57. OUTRO TEMOR, OUTRA CERTEZA
O cristianismo tinha feito planar sobre a vida uma ameaça
ilimitada e totalmente nova e havia criado, igualmente, certezas,
alegrias, divertimentos totalmente novos e novas avaliações das
coisas. Nosso século nega, com boa consciência, a existência
dessa ameaça: e, no entanto, arrasta ainda consigo os velhos
hábitos da certeza cristã, da alegria, do divertimento, da avaliação
cristãs! E até mesmo em suas artes e em suas filosofias mais
nobres! Como tudo isso deve parecer fraco e gasto, enfermo e
desajeitado, arbitrariamente fanático e, acima de tudo, como deve
parecer incerto tudo isso agora que o terrível frente a frente de
tudo isso se perdeu: o onipotente temor do cristão por sua
salvação eterna!
58. O CRISTIANISMO E AS PAIXÕES
No cristianismo podemos ainda ouvir um grande protesto
popular contra a filosofia: a razão dos sábios antigos tinha
desaconselhado ao homem as paixões, o cristianismo quer
restituí-las. Para isso, contesta todo valor moral da virtude, tal
como o entendiam os filósofos — como uma vitória da razão sobre
a paixão — condena de modo geral toda espécie de bom senso e
convida as paixões a se manifestarem em sua medida máxima de
força e esplendor: como amor de Deus, temor de Deus, fé fanática
em Deus, esperança cega em Deus.
59. O ERRO COMO CORDIAL
Cada um diz o que quiser, mas é certo que o cristianismo
quis libertar o homem do peso dos compromissos morais,
acreditando mostrar o caminho mais curto para a perfeição:
exatamente como alguns filósofos acreditavam poder se subtrair à
dialética penosa e longa e à coleta de fatos rigorosamente
controlados, remetendo a uma “via real em direção da verdade”.
Foi um duplo erro nos dois casos — mas foi apesar disso um
grande erro cordial para os desesperados que morriam de fadiga
no deserto.
60. TODO ESPÍRITO ACABA POR SE TORNAR REALMENTE VISÍVEL
O cristianismo assimilou inteiramente o espírito de um
número incalculável de indivíduos que tinham necessidade de
sujeição, de todos esses sutis ou grosseiros entusiastas da
humilhação e da devoção. Assim se desembaraçou de seu peso
campônio — a que se pensa, por exemplo, vivamente ao ver a
primeira imagem do apóstolo Pedro — para se tornar uma religião
muito espiritual, com um rosto marcado de mil rugas, de
subterfúgios e de segundas intenções; deu espírito à humanidade
européia e não se contentou em torná-la astuta sob o ponto de
vista teológico. Nesse espírito, aliado ao poder e muitas vezes à
profunda convicção e à lealdade da abnegação, forjou as
individualidades mais sutis que jamais houve na sociedade
humana: as figuras do mais alto clero católico, sobretudo quando
estas se originavam de uma família nobre e traziam, desde a
origem, a graça inata dos gestos, a força dominadora do olhar,
belas mãos e pés delicados. Ali o rosto humano atinge essa
espiritualização que produz a onda contínua de duas espécies de
felicidade (o sentimento de poder e o sentimento de submissão),
uma vez que um estilo de vida muito regrado submeteu o animal
no homem; ali uma atividade que consiste em abençoar, em
perdoar os pecados, em representar a divindade mantém
permanentemente desperto na alma, e mesmo no corpo, o
sentimento de uma missão sobre-humana; ali reina esse nobre
desprezo da fragilidade do corpo, do bem-estar e da felicidade,
própria dos soldados de nascença; coloca-se a própria altivez na
obediência, o que é sinal distintivo de todos os aristocratas;
encontra-se o próprio idealismo e a própria desculpa na enorme
impossibilidade da própria tarefa. A poderosa beleza e o
refinamento dos príncipes da Igreja sempre demonstraram entre o
povo a verdade da Igreja; uma brutalização momentânea do clero
(como na época de Lutero) leva sempre a crença ao contrário. — E
esse resultado da beleza e do refinamento humanos na harmonia
da figura, do espírito e da tarefa será aniquilado ao mesmo tempo
em que terminam as religiões? E não haveria meio de alcançar
alguma coisa de mais elevado, nem mesmo de sonhar nisso?
61. O SACRIFÍCIO NECESSÁRIO
Esses homens sérios, sólidos, leais, de uma sensibilidade
profunda que ainda hoje são cristãos de coração: devem
experimentar eles próprios uma vez, durante certo tempo, viver
sem cristianismo; devem à sua fé fixar assim domicilio “no
deserto” — a fim de adquirir o direito de ser juízes na questão de
saber se o cristianismo é necessário. Esperando, ficam apegados a
sua gleba e amaldiçoam o mundo que está além: irritam-se até
mesmo quando alguém dá a entender que é justamente no além
que se encontra o mundo inteiro, que o cristianismo não passa, no
final das contas, de um recanto! Não, seu testemunho não terá
peso senão quando vocês tiverem vivido durante anos sem
cristianismo, com um leal desejo de poder, ao contrário, existir
sem ele: até que estiverem longe, bem longe dele. E se não for o
mal da terra que os faça voltar, mas um juízo fundado numa
comparação rigorosa, seu regresso significará alguma coisa! — Os
homens do futuro agirão um dia assim com todos os juízos de
valor do passado; é necessário revivê-los voluntariamente ainda
uma vez e de igual modo seus contrários — para ter, enfim, o
direito de passá-los no crivo.
62. DA ORIGEM DAS RELIGIÕES
Como pode alguém considerar como revelação sua própria
opinião sobre as coisas? Esse é o problema da formação das
religiões: cada vez um homem entrava em jogo para quem esse
fenômeno era possível. A condição prévia era que acreditasse já
precedentemente nas revelações. De repente, uma nova idéia lhe
vem à mente, sua idéia, e o que há de inebriante numa grande
hipótese pessoal que abrange a existência e o mundo inteiro
penetra com tanto poder em sua consciência, que ele não ousa
julgar-se o criador de uma tal felicidade, atribuindo sua causa, e
também a causa que ocasiona esse pensamento novo, a seu deus:
enquanto revelação desse deus. Como poderia um homem ser o
autor de tão grande felicidade? — pergunta sua dúvida pessimista.
Além disso, outras alavancas agem em segredo: por exemplo,
reforça-se uma opinião diante de si mesmo, considerando-a como
uma revelação, elimina-se assim o que ela tem de hipotético, é
subtraída à critica e mesmo à dúvida, e assim é tornada sagrada.
É verdade que nos rebaixamos desse modo ao papel de órgão, mas
nosso pensamento acaba por ser vitorioso sob o nome de
pensamento divino — esse sentimento de permanecer vencedor
com ele no final das contas, esse sentimento vence o sentimento
de rebaixamento. Outro sentimento se agita ainda num segundo
plano: quando se eleva o próprio produto acima de si, fazendo
aparentemente abstração de seu próprio valor, conserva-se,
contudo, uma espécie de alegria do amor paterno e orgulho
paternal que apaga tudo, que faz ainda mais que apagar.
63. ÓDIO DO PRÓXIMO
Supondo que consideremos nosso próximo como ele se
considera a si mesmo — o que Schopenhauer chama compaixão e
que seria exatamente autocompaixão — seriamos forçados a odiálo
se, como Pascal, ele próprio se julga odiável. Era precisamente o
sentimento geral de Pascal com relação aos homens e também
aquele do antigo cristianismo que, sob Nero, foi qualificado de
odium generis humanis14, como Tácito relata.
64. Os DESESPERADOS
O cristianismo possui o faro do caçador para todos aqueles
que, de qualquer maneira que seja, se pode acuar no desespero —
só uma parte da humanidade é capaz disso. Está sempre na
perseguição destes, sempre à espreita. Pascal fez a experiência de
levar a todos ao desespero, por meio do conhecimento mais
incisivo; — a tentativa fracassou, em seu novo desespero.
65. BRAMANISMO E CRISTIANISMO
Há receitas para atingir o sentimento de poder: por um lado,
para aqueles que sabem se dominar e para os quais, por isso, o
sentimento de poder já é familiar; por outro lado, para aqueles que
são incapazes disso. O bramanismo se preocupou com homens do
primeiro tipo, o cristianismo, com homens do segundo.
66. APTIDÃO PARA AS VISÕES
Durante toda a Idade Média, o sinal distintivo e verdadeiro
da humanidade superior era a aptidão para ter visões — ou seja,
ser possuído por uma profunda perturbação mental! E, no fundo,
as regras de vida de todas as naturezas superiores da Idade Média
(as naturezas religiosas) visam a tornar o homem capaz de ter
visões! O que há de espantoso no fato de ainda em nossos dias ter
persistido a estima exagerada que se tem pelas pessoas meio
desreguladas, bizarras, fanáticas, que se dizem gênios? “Elas
viram coisas que os outros não viram” — certamente! E isso
deveria colocar-nos de sobreaviso em relação a elas e de forma
alguma tornar-nos crédulos!
67. PREÇO DOS CRENTES
Aquele que faz questão de tal forma que se tenha fé nele que
garante o céu como recompensa por essa crença, que o garante a
todos, mesmo ao ladrão na cruz — esse deve ter sofrido de uma
dúvida atroz e aprendido a conhecer crucificações de todo tipo:
caso contrário, não pagaria por seus crentes um preço tão
elevado.
68. O PRIMEIRO CRISTÃO
Todos acreditam ainda nas produções literárias do “Espírito
Santo”, ou se ressente dos contragolpes dessa crença: quando
alguém abre a Bíblia, é para “se edificar”, para encontrar em sua
própria miséria, grande ou pequena, uma palavra de consolo —
em resumo, nela ele se procura e se encontra a si mesmo. Que ela
traga também a historia de uma alma das mais ambiciosas e
impertinentes, de um espírito tão cheio de superstição como de
astúcia, a história do apóstolo Paulo — quem a conhece, exceto
alguns sábios? Entretanto, sem essa história singular, sem as
perturbações e as explosões de tal espírito, de tal alma, não
haveria mundo cristão: teríamos apenas ouvido falar de uma
pequena seita judaica, cujo mestre morreu na cruz. É verdade
que, se se tivesse compreendido a tempo essa história, se se
tivesse lido, lido realmente, os escritos de são Paulo, não como são
lidas as revelações do “Espírito Santo”, mas com um espírito
independente, real e livre, sem pensar em qualquer angústia
pessoal — durante mil e quinhentos anos não houve semelhantes
leitores — há muito tempo que não se falaria mais do
cristianismo: tanto isto é verdade que essas páginas do Pascal
judeu põem a nu as origens do cristianismo como as páginas do
Pascal francês nos desvelam o destino e as razões do
aniquilamento fatal. Se o navio do cristianismo lançou por cima de
sua borda boa parte do lastro judeu, se entrou, se pôde entrar nas
águas do paganismo — é à história de um só homem que o deve,
um homem profundamente atormentado, digno de compaixão,
desse homem desagradável aos outros e a si mesmo. Ele vivia com
uma idéia fixa, ou melhor: com uma pergunta fixa, sempre
presente e sempre candente: o que era feito da Lei judaica? Do
cumprimento dessa Lei? Em sua juventude, tinha querido segui-la,
ávido dessa distinção suprema que os judeus souberam imaginar
— esse povo que impeliu a imaginação do sublime moral mais alto
do que qualquer outro povo e que só ele reuniu a criação de um
Deus santo, com a idéia do pecado considerado como falta contra
essa santidade. São Paulo se havia tornado a um só tempo o
defensor fanático e o guarda de honra desse Deus e de sua Lei.
Incessantemente em luta e à espreita contra os transgressores
dessa Lei e contra aqueles que a punham em dúvida, era duro e
implacável contra eles e disposto a puni-los da forma mais
rigorosa. Eis que ele próprio faz a experiência em sua pessoa, pois,
um homem como ele — violento, sensual, melancólico, como era,
refinado no ódio — se sentia incapaz de cumprir essa Lei; mais
ainda e o que lhe pareceu mais estranho: percebeu que sua
ambição desenfreada era continuamente tentada a transgredir a
Lei e que se sentia premido a ceder a esse aguilhão. Que dizer?
Era de fato a “inclinação carnal” que sempre e de novo o forçava a
transgredir a Lei? Não estaria antes, como suspeitou mais tarde,
por trás dessa inclinação, a própria Lei que devia incessantemente
provar seu caráter irrealizável e impelia à transgressão com um
encanto irresistível? Mas nesse tempo não dispunha ainda dessa
escapatória. Talvez tivesse na consciência, como o faz entrever, o
ódio, o crime, a bruxaria, a idolatria, a luxúria, a embriaguez, o
prazer na libertinagem e na orgia — e quanto mais pudesse fazer
para aliviar essa consciência, mais ainda seu desejo de
dominação, pelo extremo fanatismo que colocava na defesa e na
veneração da Lei, tinha momentos em que se dizia: “Tudo é em
vão! A tortura do descumprimento da Lei é insuperável.” Lutero
deve ter experimentado um sentimento análogo quando quis
tornar-se, em seu claustro, o homem do ideal eclesiástico e o que
aconteceu a Lutero — que se pôs um dia a odiar o ideal
eclesiástico, o papa, os santos e todo o clero com um ódio tanto
mais mortal que não ousava confessá-lo — aconteceu também a
são Paulo. A Lei se tornou a cruz sobre a qual se sentia pregado:
como ele a odiava! Como lhe guardava rancor! Como começou a
remexer por todos os lados para encontrar um meio próprio para
aniquilá-la — para não ter de cumpri-la nunca mais! Eis senão
quando a luz eclodiu de repente em seu espírito, graças a uma
visão, como não podia ser de outra maneira nesse epiléptico: ele, o
fogoso zelador da Lei que, no fundo de sua alma, estava cansado
dela até a morte, vê aparecer numa estrada deserta esse Cristo
com um brilho divino no rosto e são Paulo ouve estas palavras:
“Porque me persegues?” Ora, em resumo, eis o que aconteceu: seu
espírito ficou repentinamente iluminado e disse para si mesmo: “O
absurdo é precisamente perseguir esse Jesus! Aí está a saída que
eu procurava, aí está a vingança completa, aí e em nenhum outro
vou ter entre as mãos o destruidor da Lei!” Aquele que sofre os
piores tormentos de orgulho sente-se subitamente restabelecido, o
desespero moral se evaporou, pois, a própria moral se volatilizou,
aniquilada — isto é, cumprida, lá no alto, na cruz! Até o presente
essa morte ignominiosa lhe havia servido de principal argumento
contra essa “vocação messiânica” de que falavam os discípulos da
nova doutrina: mas que aconteceria se ela tivesse sido necessária
para abolir a Lei? — As enormes conseqüências dessa idéia súbita,
dessa solução do enigma, redemoinham diante de seus olhos e se
torna repentinamente o mais feliz dos homens — o destino dos
judeus, não, o destino da humanidade inteira, lhe parece ligado a
esse segundo de iluminação súbita, tem a idéia das idéias, a chave
das chaves, a luz das luzes; em torno dele gravita doravante a
história! Desde então ele é o apóstolo do aniquilamento da lei!
Morrer para o mal — isso quer dizer morrer para a Lei; viver
segundo a carne — é viver segundo a Lei! Ter-se tornado um com o
Cristo — isso quer dizer ter-se tornado, como ele, destruidor da
Lei; morrer em Cristo — isso quer dizer também morrer para a Lei!
Mesmo que fosse ainda possível pecar, não seria pelo menos
contra a Lei; “eu estou fora dela”, disse e acrescenta: “Se eu
quisesse agora reconhecer de novo a Lei e submeter-me a ela,
tornaria Cristo cúmplice do pecado”; pois a Lei existia somente
para gerar sempre o pecado, como o sangue corrompido faz surgir
a doença; Deus jamais teria podido decidir a morte de Cristo se o
cumprimento da Lei tivesse sido possível sem essa morte;
doravante, não somente todos os pecados são remidos, mas o
próprio pecado é abolido; agora a Lei morreu, agora morreu o
espírito carnal em que ela habitava — ou pelo menos esse espírito
está prestes a morrer, a entrar em decomposição. Só mais alguns
dias para viver no seio dessa decomposição! — esse é o destino do
cristão, antes que, unido com Cristo, ressuscite com Cristo,
participando com Cristo da glória divina, doravante “filho de Deus”
como Cristo. — Aqui a exaltação de são Paulo está em seu auge e
com ela o atrevimento de sua alma — a idéia da união com Cristo
o fez perder todo pudor, toda medida, toda submissão, e a
indomável vontade de dominação se revela num inebriamento que
antecipa a glória divina. — Esse foi o primeiro cristão, o inventor do
cristianismo! Antes dele, só havia alguns sectários judeus.
69. INIMITÁVEL
Há uma enorme tensão entre a inveja e a amizade, entre o
desprezo de si e o orgulho: os gregos viviam na primeira, os
cristãos na segunda.
70. PARA QUE SERVE UM INTELECTO GROSSEIRO
A Igreja cristã é uma enciclopédia dos cultos de outrora, das
concepções de origens múltiplas, e é por isso que tem tanto
sucesso com suas missões: ela podia outrora e ela pode ainda hoje
ir onde quiser, ela se encontrava e se encontra sempre na
presença de alguma coisa que se assemelha a ela, a que pode se
assemelhar e substituir aos poucos seu sentido próprio. Não é o
que ela tem em si de cristão, mas o que tem de universalmente
pagão em seus costumes que é a causa do desenvolvimento dessa
religião universal; suas idéias, que têm suas raízes ao mesmo
tempo no espírito judaico e no espírito helênico, souberam se
elevar desde o início tanto acima das separações e das sutilezas de
raças e nações como acima dos preconceitos. Embora se tenha o
direito de admirar essa força de fundir os elementos mais diversos,
não se deve, contudo, esquecer as qualidades desprezíveis dessa
força — essa espantosa grosseria, essa sobriedade de seu
intelecto, no momento em que a Igreja se formou, que lhe
permitiam acomodar-se desse modo com todos os regimes e digerir
as contradições como pedras.
71. A VINGANÇA CRISTÃ CONTRA ROMA
Talvez nada canse mais do que a visão de um perpétuo
vencedor — tinha-se visto Roma submeter, durante dois séculos,
um povo após outro, o círculo estava completo, todo futuro
parecia detido, tudo estava preparado para durar eternamente — e
quando o império construía, construía com a segunda intenção do
“aere perennius15”; — nós que conhecemos apenas a “melancolia
das ruínas” podemos, contudo, compreender essa melancolia
inteiramente diferente das construções eternas, contra as quais era
preciso se defender como se podia — por exemplo, com a leveza de
Horácio. Outros procuraram outras consolações contra essa
lassidão que se aproximava do desespero, contra a consciência
mortal de que todos os processos intelectuais ou sentimentais
eram a partir daí sem esperança, que por toda a parte se escondia
a enorme aranha, preparada para beber impiedosamente todo o
sangue que corresse ainda. — Esse ódio mudo e centenário do
expectador cansado, esse ódio contra Roma em toda parte onde
Roma dominava, acabou por ter livre curso no cristianismo que
resumiu Roma, “o mundo” e o “pecado” num único sentimento;
houve a vingança contra Roma imaginado próximo e súbito o fim
do mundo; houve vingança contra Roma introduzindo de novo um
futuro — Roma tinha sabido transformar tudo em história de seu
passado e de seu presente — um futuro com o qual Roma não
suportaria a comparação; houve vingança contra Roma sonhando
o juízo final — e o judeu crucificado, símbolo da salvação, aparecia
como a mais profunda ridicularização diante dos soberbos
pretores das províncias romanas, pois a partir de então
apareceram como os símbolos da perdição e do “mundo” maduro
para a derrocada.
72. O “ALÉM-TÚMULO”
O cristianismo encontrou em todo o império romano a idéia
dos tormentos infernais: os numerosos cultos secretos tinham
chocado essa idéia com uma complacência toda particular, como
se fosse o ovo mais fecundo em seu poder. Epicuro16 acreditou
não poder fazer nada de melhor em favor de seus semelhantes do
que extirpar essa crença até as raízes: seu triunfo encontrou seu
mais belo eco na boca de um discípulo de sua doutrina, o romano
Lucrécio17. Infelizmente seu triunfo veio muito cedo — o
cristianismo pôs sob sua proteção particular a crença já
declinante nos horrores subterrâneos e nisso mostrou-se hábil!
Como, sem esse golpe de audácia em pleno paganismo, poderia ter
obtido a vitória sobre a popularidade dos cultos de Mitra e de Isis?
Foi assim que pôs os crédulos de seu lado — os seguidores mais
entusiastas de uma nova fé! Os judeus, um povo que amava e que
ama a vida como os gregos e mais ainda que os gregos, tinham
cultivado pouco essa idéia. A morte definitiva como punição do
pecador, a morte sem ressurreição como ameaça extrema — isso
era o que impressionava suficientemente esses homens singulares
que não queriam se desembaraçar de seu corpo, mas que, em seu
refinamento egípcio, esperavam se salvar por toda a eternidade.
(Um mártir judeu de que se fala no segundo livro dos Macabeus18
não pensa em renunciar às estranhas que lhe foram arrancadas;
faz questão em tê-las para o dia da ressurreição dos mortos — isso
é bem judeu!) Os primeiros cristãos estavam bem longe da idéia
das penas eternas, pensavam estar livres da “morte” e esperavam,
dia após dia, uma metamorfose e não mais a morte. (Que estranho
impressão deve ter produzido a primeira morte entre essas
pessoas que estavam à espera! Que mistura de espanto, de
alegria, de dúvida, de pudor e de paixão! — Esse é
verdadeiramente um assunto digno do gênio de um grande
artista!) São Paulo não conseguiu dizer nada melhor em louvor de
seu Salvador, a não ser que ele tinha aberto a cada um as portas
da imortalidade — ele não acreditava ainda na ressurreição
daqueles que não estavam salvos; mais ainda, em razão de sua
doutrina da Lei impossível de cumprir e da morte considerada
como conseqüência do pecado, suspeitava até que ninguém
realmente se havia tornado até o presente imortal (salvo um
reduzido número, um pequeno número de eleitos pela graça e sem
mérito); somente agora a imortalidade começava a abrir suas
portas — e poucos eleitos teriam acesso: o orgulho do eleito não
pode deixar de acrescentar essa restrição. — Em outros lugares,
onde o instinto de vida não era tão forte senão entre os judeus e
os judeus cristãos e quando a perspectiva da imortalidade não
parecia simplesmente mais preciosa que a perspectiva de uma
morte definitiva, o acréscimo, pagão é verdade, mas não
totalmente anti-judaico, do inferno se tornou um instrumento
propício nas mãos dos missionários: então surgiu essa nova
doutrina segundo a qual o pecador e o excluído da salvação eram
também eles imortais, a doutrina da condenação eterna e esta
doutrina foi mais poderosa que a idéia da morte definitiva, que
começou a declinar a partir de então. Foi a ciência que teve de
reconquistar essa idéia, recusando simultaneamente qualquer
outra representação da morte e toda espécie de vida no além.
Tornamo-nos mais nobres em relação a uma coisa interessante: a
vida “depois da morte” já não nos interessa! — um indizível
benefício que é ainda demasiado recente para ser considerado
como tal no mundo inteiro. — E Epicuro triunfa de novo!
73. PARA A “VERDADE”!
“A verdade do cristianismo era demonstrada pela conduta
virtuosa dos cristãos, sua firmeza no sofrimento, sua fé inabalável
e, antes de tudo, pela difusão e pelo crescimento do cristianismo a
despeito de todas as dificuldades.” — Vocês falam assim ainda
hoje! É de dar dó! Aprendam, portanto, que tudo isso não prova
nada, nem pró nem contra a verdade, que é necessário
demonstrar a verdade de outra forma que a veracidade e que a
segunda não é absolutamente um argumento a favor da primeira.
74. SEGUNDA INTENÇÃO DO CRISTÃO
Os cristãos dos primeiros séculos não teriam tido geralmente
esta segunda intenção: “É preferível persuadir-se que se é culpado
do que se persuadir que se é inocente, pois, nunca se sabe como
um juiz tão poderoso possa estar disposto — mas deve-se temer
que ele não espere encontrar senão culpados que têm consciência
de suas faltas! Com seu imenso poder deverá antes perdoar um
culpado que declarar que este está em seu direito.” — Esse era o
sentimento dos pobres provincianos diante do pretor romano: “Ele
é demasiado altivo para que ousemos ser inocentes.” Por que esse
sentimento não teria reaparecido quando os cristãos quiseram
imaginar o juiz supremo!
75. NEM EUROPEU NEM NOBRE
Há alguma coisa de oriental e alguma coisa de feminino no
cristianismo: é o que revela, a propósito de Deus, o pensamento
“quem ama realmente, castiga”; de fato, as mulheres no oriente
consideram o castigo e o isolamento severo de sua pessoa,
distante do mundo, como um testemunho de amor da parte de
seu marido e elas se queixam quando esse testemunho falta.
76. JULGAR MAU É TORNAR MAU
As paixões se tornam más e pérfidas quando são
consideradas com maldade e perfídia. Foi assim que o
cristianismo chegou a fazer de Eros e de Afrodite — sublimes
forças capazes de idealidade — gênios infernais e espíritos
enganadores, criando na consciência dos crentes, a cada excitação
sexual, remorsos que chegavam até a loucura. Não é espantoso
transformar sensações necessárias e normais em fonte de miséria
interior e tornar assim, voluntariamente, a miséria interior
necessária e normal em todos os homens? Além disso, essa miséria
permanece secreta, mas ela não tem senão raízes mais profundas:
pois, nem todos têm, como Shakespeare em seus sonetos, a
coragem de confessar a tristeza provocada pelo cristianismo nesse
domínio. — Uma coisa, contra a qual se é forçado a lutar, que se
deve manter em seus limites ou mesmo, em certos casos, eliminála
completamente da cabeça, deveria, portanto, ser chamada
sempre má? Não é próprio das almas vulgares considerar sempre o
inimigo como mau? Tem-se o direito de chamar inimigo a Eros? As
sensações sexuais, da mesma forma que as sensações de piedade
e de adoração, têm de particular que o homem, ao experimentálas,
faz o bem a outro por seu prazer — não se encontra muitas
vezes na natureza disposições tão benfazejas! E é justamente uma
delas que é caluniada e que é corrompida pela má consciência! —
Mas essa demonização de Eros acabou por ter um desfecho de
comédia: o “diabo” Eros se tornou aos poucos mais interessante
para os homens do que os anjos e os santos, graças aos boatos e
as disposições misteriosas da Igreja em todas as questões eróticas:
é graças a ela que as historias de amor se tornaram o único
interesse verdadeiramente comum a todos os meios — com um
exagero que pareceria incompreensível à antiguidade — e que um
dia não deixará de provocar a hilaridade. Toda a nossa poesia,
todo o nosso pensamento, do mais elevado ao mais baixo, estão
marcados e mais que marcados pela importância excessiva que se
confere ao amor, apresentado sempre como acontecimento
principal. Talvez por causa desse juízo a posteridade haverá de
encontrar em toda a herança da civilização cristã alguma coisa de
mesquinho e de maníaco.
77. TORTURAS DA ALMA
Para as menores torturas que alguém inflige a um corpo
estranho, todos se manifestam em altos brados; a indignação
contra um homem capaz de semelhante ação explode
espontaneamente; chegamos até a tremer com a simples idéia da
tortura que pudesse ser infligida a um homem ou a um animal e
nosso sofrimento se torna insuportável ao ouvir falar de um ato de
tal ordem. Mas estamos longe ainda de ter o mesmo sentimento,
tão geral e tão determinado, quando se trata de torturas da alma e
daquilo que têm de espantoso. O cristianismo as colocou em uso
numa medida insólita e continua pregando esse gênero de
martírio, chegando até a deplorar deserções e frieza quando
descobre um estado de alma sem essas torturas. — De tudo isso
resulta que a humanidade se comporta ainda hoje, diante das
fogueiras espirituais, das torturas e dos instrumentos de tortura
do espírito, com a mesma paciência e a mesma incerteza temerosa
que tinha outrora diante das crueldades praticadas nos corpos de
homens ou de animais. Certamente o inferno não se manteve uma
palavra vã; e aos reais temores do inferno que acabavam de ser
criados correspondia uma nova espécie de piedade, uma horrível e
esmagadora compaixão, outrora desconhecida, para esses seres
“irrevogavelmente condenados”, a piedade que demonstra, por
exemplo, o conviva de Pedro para com Don Juan e que, durante os
séculos cristãos, muitas vezes fez gemer as pedras. Plutarco19
apresenta uma imagem sombria do estado do homem
supersticioso no paganismo: essa imagem se torna inofensiva se
comparada com o cristão da Idade Média que suspeita que não
poderá mais escapar dos “tormentos eternos”. Vê aparecer diante
dele espantosos presságios: talvez uma cegonha trazendo no bico
uma serpente e hesitando em engoli-la. Ou então vê a natureza
inteira empalidecer subitamente ou cores vivas correr sobre o solo.
Ou então os fantasmas dos parentes mortos aparecem com rostos
marcados de vestígios de sofrimentos horríveis. Ou ainda, as
paredes escuras do quarto do homem adormecido se iluminam e
nos vapores amarelados surgem instrumentos de tortura, um
amontoado de serpentes e de demônios se agita. Que espantosa
estada o cristianismo soube fazer desta terra, simplesmente
exigindo crucifixos por toda parte, caracterizando assim a terra
como um lugar onde “o justo é torturado até a morte”! E quando o
ardor de um grande pregador apresentava em público os secretos
sofrimentos de um indivíduo, as torturas da “cela solitária”,
quando um Whitefield20, por exemplo, pregava “como um
moribundo a moribundos”, ora chorando em copiosas lágrimas,
ora batendo violentamente os pés no chão, falando com paixão,
com um tom brusco e incisivo, sem medo de dirigir todo o peso de
seu ataque contra uma única pessoa presente, excluindo-a da
comunidade com uma dureza excessiva — como a terra parecia
então a ponto de se transformar cada vez na “pradaria da
infelicidade”! Via-se então homens acorrendo em massa,
espremidos uns contra os outros, como que tomados de um
acesso de loucura; muitos eram acometidos de cãibras de
angústia; outros jaziam desmaiados e imóveis; alguns tremiam
violentamente ou cortavam o ar durante horas com o ruído de
seus gritos agudos. Por toda parte uma respiração ofegante, como
pessoas semi-estranguladas que aspiram o ar com rumor. “E, na
verdade, diz uma testemunha ocular de um desses sermões,
quase todos os sons que feriam os ouvidos pareciam ser
provocados pelos amargos sofrimentos dos agonizantes.” — Não
esqueçamos que foi o cristianismo que fez do leito de morte um
leito de tortura e que as cenas que ali vemos desde então, os gritos
horríveis que pela primeira vez ali foram possíveis, envenenaram
os sentidos e o sangue de inumeráveis testemunhos para toda a
sua vida e a de seus descendentes! Imagine-se um homem pacato
que não consegue apagar a lembrança de palavras como estas: “Ó
eternidade! Se eu pudesse não ter alma! Se eu pudesse nunca ter
nascido! Estou condenado, condenado, perdido para sempre! Há
seis dias podias ter-me ajudado. Mas agora tudo terminou. Já
pertenço ao diabo, quero ir com ele para o inferno. Partam-se,
pobres corações de pedra! Não querem? Que mais se pode fazer
com corações de pedra? Sou condenado para que vocês se salvem!
Aí está! Sim, é isso mesmo! Vem, bom demônio! Vem!”
78. A JUSTIÇA VINGADORA
A infelicidade e a falta — estas duas coisas foram postas pelo
cristianismo numa mesma balança: de modo que, quando a
infelicidade que se segue a uma falta é grande, medimos, ainda
agora, involuntariamente, a grandeza da falta antiga segundo essa
infelicidade. Mas esta não é uma avaliação antiga e é por isso que
a tragédia grega, onde se trata tão freqüentemente de infelicidade
e falta, embora em outro sentido, faz parte das grandes
libertadoras do espírito, numa medida que nem os próprios
antigos podiam suspeitar. Eles eram ainda bastante descuidados
para não estabelecer uma “relação adequada” entre a falta e a
infelicidade. A falta de seus heróis trágicos é, para dizer a verdade,
a pedra que os faz tropeçar e lhes acontece eventualmente de
quebrar um braço ou perder um olho; e a sensibilidade antiga
comentava: “Certamente deveria ter seguido seu caminho com um
pouco de precaução a mais e com menos arrogância!” Mas estava
reservado apenas ao cristianismo dizer: “Há nisso uma grande
infelicidade e, por trás dessa grande infelicidade, deve se
encontrar uma grave falta, uma falta extremamente grave, mesmo
que não a possamos ver claramente! Se não sentires isso, infeliz, é
porque teu coração se endureceu — e coisas muito piores vão te
acontecer!” Na antiguidade, havia ainda infelicidades verdadeiras,
infelicidades puras, inocentes; é somente com o cristianismo que
toda punição se torna punição merecida: o cristianismo torna
igualmente sofredora a imaginação daquele que sofre, de modo
que o menor mal-estar provoca nessa vítima o sentimento de ser
moralmente reprovado e repreensível. Pobre humanidade! — Os
gregos têm uma palavra peculiar para expressar o sentimento de
revolta que a infelicidade de outrem inspirava: nos povos cristãos,
esse sentimento era inadmissível e é por isso que não conferem
um nome a esse irmão mais viril da compaixão.
79. — UMA PROPOSTA
Se, segundo Pascal e o cristianismo, nosso eu é sempre
odioso, como podemos admitir e aceitar que outros o amem —
fossem eles Deus ou homens? Seria contrário a toda a decência
deixar-se amar, sabendo perfeitamente que só se merece o ódio —
para não falar de outros sentimentos de repulsa. “Mas esse é
justamente o reino da graça.” — Seu amor ao próximo é então
uma graça? Sua piedade é uma graça? Pois bem, se isso lhes é
possível, dêem um passo a mais: amem-se a si mesmos por graça
— então não terão mais necessidade alguma de seu Deus e todo o
drama da queda e da redenção se desenrolará em vocês mesmos
até seu fim!
80. O CRISTÃO COMPASSIVO
A compaixão cristã diante do sofrimento do próximo tem um
reverso: é a profunda suspeita diante de todas as alegrias do
próximo, da alegria que causa ao próximo tudo o que ele quer,
tudo o que pode.
81. HUMANIDADE DO SANTO
Um santo se extraviou entre os crentes e não conseguia
suportar seu ódio constante do pecado. Por fim, diz: “Deus criou
todas as coisas, exceto o pecado: o que há de estranho, se ele não
lhe quer bem? — Mas o homem criou o pecado — e rejeitaria esse
filho único, simplesmente porque desagrada a Deus, o avô do
pecado: Isso é humano? A todo senhor, toda a honra! — Mas o
coração e o dever deveriam antes de tudo falar em favor do filho —
e, só depois, em honra do avô!”
82. AGRESSÃO ESPIRITUAL
“Tu deves decidir isso por ti mesmo, pois é tua vida que está
em jogo!” É Lutero que nos interpela dessa forma e acredita estar
nos colocando a faca na garganta. Mas nós o rejeitamos com as
palavras de alguém superior e mais comedido: “Compete a nós
não formar opinião sobre esta ou aquela coisa e poupar assim
nossa alma da inquietação. De fato, por sua natureza, as coisas
não podem nos forçar a ter uma opinião.”
83. POBRE HUMANIDADE!
Uma gota de sangue a mais ou a menos no cérebro pode
tornar nossa vida indizivelmente miserável e dura, embora
soframos mais com essa gota do que Prometeu com o abutre21.
Mas isso não é verdadeiramente de todo assustador a não ser
quando nem sequer se sabe que essa gota é sua causa. E que se
imagina que é “o diabo”! Ou “o pecado”!
84. A FILOLOGIA DO CRISTIANISMO
Pode-se constatar bastante bem como o cristianismo
desenvolve pouco o sentido da probidade e da justiça, analisando
os escritos de seus sábios: estes apresentam suas suposições com
tanta audácia como se fossem dogmas e a interpretação de uma
passagem da Bíblia raramente os mergulha num embaraço leal.
Incessantemente se pode ler: “Tenho razão porque está escrito” —
e então é uma tal impertinência arbitraria na interpretação que
leva um filólogo a se deter entre a cólera e o riso, para se
perguntar sempre e de novo: Será possível? Isso é honestidade? É
pelo menos decente? As deslealdades que são cometidas a esse
respeito do alto dos púlpitos protestantes, a forma grosseira com
que o pregador explora o fato que ninguém pode contestar,
deforma e acomoda a Bíblia e inculca assim no povo, de todas as
maneiras, a arte de ler mal — tudo isso é subestimado somente
por aquele que nunca vai ou que vai sempre à igreja. Mas, no final
das contas, que se pode esperar dos efeitos de uma religião que,
nos séculos em que foi fundada, executou essa extraordinária
farsa filológica em torno do Antigo Testamento? Refiro-me à
tentativa de tirar o Antigo Testamento dos judeus, com a
justificativa que só continha doutrinas cristãs e que não devia
pertencer senão aos cristãos, o verdadeiro povo de Israel, enquanto
os judeus apenas se tinham arrogado o direito sobre ele. Houve
então um delírio de interpretação e de interpolação que não podia
certamente se aliar-se à boa consciência; quaisquer que fossem os
protestos dos judeus, em toda parte, no Antigo Testamento, devia
tratar-se de Cristo, e nada mais que de Cristo, notadamente de
sua cruz, e todas as passagens em se tratava de madeira, de vara,
de escada, de ramo, de arvore, de salgueiro, de bastão, tudo isso
só poderia ser profecia relativa ao madeiro da cruz: mesmo o
erguimento do unicórnio e da serpente de bronze, o próprio Moisés
de braços abertos em oração, até os espetos em que se assava o
cordeiro pascal — tudo isso não passava de alusões e, de algum
modo, de prelúdios da cruz! Aqueles que afirmavam essas coisas,
alguma vez acreditaram nelas? A Igreja nem mesmo recuou diante
das interpolações no texto da versão dos Setenta22 (por exemplo,
no salmo 96, versículo 10) para conferir em seguida à passagem
fraudulentamente interpolada o sentido de uma profecia cristã. É
que se estava em guerra e que se pensava nos adversários e não
na honestidade.
85. SUTILEZA NA PENÚRIA
Tomem cuidado sobretudo de zombar da mitologia dos
gregos, sob o pretexto de que ela se assemelha tão pouco à sua
profunda metafísica! Deveriam admirar um povo que, nesse caso
particular, pôs um freio à sua inteligência penetrante e teve
durante muito tempo o tato suficiente para escapar dos perigos da
escolástica e da superstição sofisticada!
86. OS INTÉRPRETES CRISTÃOS DO CORPO
Tudo o que pode provir do estômago, dos intestinos, dos
batimentos do coração, dos nervos, da bílis, do esperma — todas
essas indisposições, essas fraquezas, essas irritações, todos esses
acasos da máquina, que conhecemos tão mal — tudo isso um
cristão como Pascal considera como um fenômeno moral e
religioso e se pergunta se é Deus ou o diabo, o bem ou o mal, a
salvação ou a condenação, que é sua causa. Ai! que intérprete
infeliz! Como precisa contornar e torturar seu sistema! Como
precisa contornar-se e torturar-se ele próprio para ainda ter razão!
87. O MILAGRE MORAL
No domínio moral, o cristianismo só conhece o milagre: a
mudança súbita de todas as avaliações, a renúncia repentina a
todos os hábitos, a inclinação repentina e irresistível para pessoas
e objetos novos. Considera este fenômeno como a ação de Deus e o
chama ato de regeneração, atribui-lhe um valor único e
incomparável — Tudo o que de resto é chamado moralidade e que
não tem relação com esse milagre se torna desse modo indiferente
ao cristão e, enquanto sentimento de bem-estar e altivez, talvez
até mesmo objeto de temor. O cânon da virtude, do cumprimento
da Lei, é estabelecido no Novo Testamento, mas de tal forma que
seja o cânon da virtude impossível: os homens que ainda aspiram
a uma perfeição moral devem aprender, em relação a esse cânon,
a se sentir sempre mais distantes de seu objetivo, devem
desesperar da virtude e acabar por lançar-se nos braços do ser
misericordioso — unicamente esta conclusão permitiria aos
esforços morais do cristão conservar um valor, na condição de que
esses esforços permanecessem sempre estéreis, dolorosos e
melancólicos; assim poderiam ainda servir para provocar esse
instante de êxtase em que o homem experimenta “a irrupção da
graça” e o milagre moral: — entretanto, essa luta pela moralidade
não é necessária, pois não é raro que esse milagre se abata sobre
o pecador justamente no momento em que floresce, por assim
dizer, a lepra do pecado; o salto brutal mais profundo e mais
fundamental para fora do pecado parece mesmo mais fácil e
também, como prova evidente do milagre, mais desejável. —
Penetrar o sentido de semelhante reviravolta súbita, irracional e
irresistível, de semelhante passagem da mais profunda miséria ao
mais profundo sentimento de bem-estar do ponto de vista
fisiológico (seria talvez uma forma velada de epilepsia?) — é
assunto para os psiquiatras que têm abundantemente ocasião
para observar semelhantes “milagres” (por exemplo, sob forma de
obsessão do crime ou do suicídio). O “resultado mais agradável”,
relativamente pelo menos, no caso do cristão — não constitui uma
diferença essencial.
88. LUTERO, O GRANDE BENFEITOR
O resultado mais importante da ação de Lutero foi ter
despertado a desconfiança em relação aos santos e a toda a vida
contemplativa: somente a partir de sua época o caminho que leva
a uma vida contemplativa não cristã foi novamente tornado
acessível na Europa e um freio foi posto ao desprezo da atividade
laica. Lutero, que se manteve um bom filho de mineiro depois de
ter entrado no convento, onde, na falta de outras profundezas e de
outros “filões”, ele desceu em si mesmo para ali cavar terríveis
galerias subterrâneas — Lutero percebeu finalmente que uma vida
santa e contemplativa lhe era impossível e que a “atividade” que
tinha desde o nascimento lhe minaria o corpo e a alma. Durante
muito tempo tentou encontrar à custa de mortificações o caminho
que leva à santidade — mas tomou por fim uma decisão e disse
para consigo; “Não existe verdadeira vida contemplativa! Nós nos
deixamos enganar! Os santos não valem mais que todos nós
todos.” — Essa era, é verdade, uma maneira bem rústica de ter
razão — mas, para os alemães dessa época, era a única
verdadeiramente apropriada: como ficaram edificados ao poder ler
no Catecismo de Lutero: “Fora dos dez mandamentos, não há obra
que possa agradar a Deus — as obras espirituais tão elogiadas
dos santos, são puramente imaginárias!”
89. A DÚVIDA COMO PECADO
O cristianismo fez tudo o que lhe era possível para fechar
um círculo em torno dele: declarou que a dúvida, por si só,
constituía um pecado. Devemos ser lançados na fé sem a ajuda da
razão, por um milagre, e aí nadar como no elemento mais límpido
e menos equivoco: um simples olhar lançado para a terra firme, o
único pensamento de que talvez não fôssemos feitos para nadar, o
menor sobressalto de nossa natureza anfíbia — são suficientes
para nos levar a cometer um pecado! Devemos notar que, desse
modo, as provas da fé e qualquer reflexão sobre a origem da fé são
condenáveis. Exige-se a cegueira e a embriaguez e um canto
eterno sobre as ondas em que a razão se afogou!
90. EGOÍSMO CONTRA EGOÍSMO
Quanta gente há ainda que raciocina assim: “A vida seria
insuportável se não houvesse Deus!” (Ou como se diz nos círculos
idealistas: “A vida seria insuportável se faltasse no fundo sua
significação ética!”) — Por conseguinte, é necessário que haja um
Deus (ou uma significação moral da existência)! Na verdade, a
coisa é bem outra. Quem se habituou a essa idéia não deseja viver
sem ela: ela é, portanto, necessária para sua sobrevivência — mas
que presunção em decretar que tudo o que é necessário à minha
sobrevivência deve realmente existir! Como se minha sobrevivência
fosse algo necessário! Que aconteceria se outros tivessem a
opinião contrária? Se recusassem justamente viver na
dependência desses dois artigos de fé e se, uma vez realizadas
essas condições, a vida não lhes parecesse mais digna de ser
vivida? — E é isso que acontece atualmente!
91. A BOA-FÉ DE DEUS
Um Deus onisciente e onipotente e que nem sequer cuidasse
para que suas intenções fossem compreendidas por suas criaturas
— seria ele um Deus de bondade? Um Deus que deixa subsistir
durante milênios inumeráveis duvidas e hesitações, como se essas
dúvidas e essas hesitações não tivessem importância para a
salvação da humanidade e que, no entanto, deixa prever as
conseqüências mais espantosas no caso de equívoco sobre a
verdade! Não seria um Deus cruel se possuísse a verdade e se
pudesse assistir friamente ao espetáculo da humanidade se
atormentando miseravelmente por causa dela? — Ou, apesar de
tudo, seria mesmo um Deus de amor — mas incapaz de se
exprimir mais claramente? Não teria espírito suficiente para isso?
Ou eloqüência? Seria muito mais grave! De fato, então se teria
enganado talvez naquilo que chama sua “verdade” e se
assemelharia muito ao “pobre diabo logrado”! Não deveria então
suportar quase os tormentos do inferno quando vê sofrer assim
suas criaturas e, mais ainda, sofrer por toda a eternidade, ao
querer conhecê-lo, e que ele não pode nem aconselhar nem
socorrer, a não ser como um surdo-mudo que faz todo tipo de
sinais indistintos quando seu filho ou seu cão está cercado dos
perigos mais assustadores? Um crente angustiado que
raciocinasse dessa forma seria verdadeiramente perdoável, se a
piedade pelo Deus sofredor estivesse mais a seu alcance que a
piedade pelo “próximo” — pois ele deixa de ser seu próximo se o
mais solitário, o mais original de todos os seres é também o mais
sofredor, o mais necessitado de consolação. — Todas as religiões
possuem um indício que devem sua origem a um estado da
intelectualidade humana demasiado jovem e sem maturidade —
todas elas tomam extraordinariamente com leviandade a obrigação
de dizer a verdade: não sabem ainda nada do dever divino de se
manifestar aos homens com clareza e veracidade. — Ninguém tem
sido mais eloqüente que Pascal para falar do “Deus escondido” e
das razões que tem para se manter tão escondido e nunca dizer as
coisas senão pela metade, sinal de que Pascal nunca pôde se
tranqüilizar a esse respeito: mas fala com tanta segurança que se
poderia crer que se encontrou por acaso nos bastidores. Ele
suspeitava uma imortalidade no “deus absconditus23”, mas teria
tido vergonha e teria tido medo de confessá-lo a si próprio: é por
isso que falava tão alto quanto podia, como alguém que tem medo.
92. NO LEITO DE MORTE DO CRISTIANISMO
Os homens verdadeiramente ativos dispensam agora o
cristianismo e os homens mais moderados e mais contemplativos
da classe intelectual média não possuem mais que um
cristianismo conveniente, isto é, singularmente simplificado. Um
Deus que, em seu amor, dispõe tudo em vista de nosso bem final,
um Deus que nos dá e nos tira nossa virtude bem como nossa
felicidade, de tal modo que, em suma, tudo termina por viver bem
e que não há mais razão para encarar a vida pelo lado negativo ou
mesmo para acusá-lo, numa palavra, a resignação e a humildade
elevadas ao grau de divindade — é isso o que de melhor e de mais
vivo restou do cristianismo. Mas se deveria perceber que, dessa
maneira, o cristianismo evoluiu para um doce moralismo: em vez
de “Deus, a liberdade e a imortalidade”, restou uma forma de
benevolência e de sentimentos honestos e também a crença que,
no universo inteiro, haverão de reinar um dia a benevolência e os
sentimentos honestos: é a eutanásia do cristianismo.
93. O QUE É A VERDADE?
Quem não haveria de ficar contente com a dedução que os
crentes fazem de boa vontade: “A ciência não pode ser verdadeira,
pois nega a Deus; por conseguinte, ela não vem de Deus; logo não
é verdadeira, pois Deus é a verdade”. Não é a dedução, mas a
hipótese primeira que contém o erro. Como, se Deus não fosse
precisamente a verdade e se isso fosse realmente provado? Se
fosse a vaidade, o desejo de poder, a impaciência, o temor, a
loucura extasiada e assustada dos homens?
94. REMÉDIO CONTRA O DESPRAZER
São Paulo já acreditava que um sacrifício era necessário
para dissipar o profundo desprazer que o pecado causa a Deus: e
desde então os cristãos não deixaram de derramar sobre uma
vítima seu descontentamento de si próprios — quer seja o
“mundo” ou a “história” ou a “razão” ou a alegria ou ainda a
tranqüilidade dos outros homens — é necessário que qualquer,
mas qualquer coisa de bom, morra por seus pecados (mesmo que
fosse somente em efígie)!
95. A REFUTAÇÃO HISTÓRICA COMO REFUTAÇÃO DEFINITIVA
Outrora se procurava provar que não há Deus — hoje se
mostra como essa fé na existência de um Deus pôde se formar e
porque essa fé adquiriu peso e importância: é assim que a
contraprova que não há Deus se torna inútil. — Outrora, quando
se havia refutado as “provas da existência de Deus” que tinham
sido propostas, uma dúvida continuava persistindo ainda, ou seja,
se não se podia encontrar provas melhores que aquelas que se
acabava de refutar: nessa época os ateus não sabiam fazer tábua
rasa.
96. “IN HOC SIGNO VINCES!24”
Qualquer que seja o grau de progresso que tenha alcançado
a Europa em toda parte, em matéria religiosa não atingiu ainda a
ingenuidade liberal dos antigos brâmanes, o que prova que na
Índia, há quatro mil anos, se refletia e se transmitia aos
descendentes mais prazer na reflexão do que nós hoje. De fato,
esses brâmanes acreditavam em primeiro lugar que os sacerdotes
eram mais poderosos que os deuses e, em segundo lugar, que era
nos costumes que residia o poder dos sacerdotes: é por isso que
seus poetas não se cansavam de celebrar os costumes (súplicas,
cerimônias, sacrifícios, cantos, melopéias) que consideravam como
os verdadeiros distribuidores de todos os benefícios. Seja qual for
o grau de superstição e de poesia que se misturem a isso, os
princípios permanecem verdadeiros! Um passo mais e os deuses
seriam jogados de lado — o que a Europa deverá igualmente fazer
um dia! Ainda outro passo e se poderia também dispensar os
sacerdotes e os intermediários; veio o profeta que ensinava a
religião da redenção por si mesma, Buda: — como a Europa está
longe ainda deste grau de cultura! Quando finalmente todos os
hábitos e costumes em que se apóia o poder dos deuses, dos
sacerdotes e dos salvadores forem aniquilados, quando, portanto,
a moral, no sentido antigo, tiver sido morta, então virá — o que
virá exatamente então? Mas não procuremos adivinhar,
procuremos antes a captar o que, na Índia, no meio desse povo de
pensadores, foi considerado, há alguns milhares de anos, como o
mandamento do pensamento! Há hoje talvez dez a vinte milhões
de homens, entre os diferentes povos da Europa, que “não
acreditam mais em Deus” — será demais desejar que eles se
transformem em sinal? Desde que se reconheçam assim a eles
próprios, far-se-ão conhecer também — serão imediatamente uma
força na Europa e felizmente uma força entre os povos! Entre
todas as classes! Entre os pobres e os ricos! Entre aqueles que
mandam e aqueles que obedecem! Entre os inquietos e os
pacíficos, os pacificadores por excelência!
1 Platão (427-347 a.C), filósofo grego; a citação é extraída do livro Fedro (NT).
2 Segundo o relata Platão na obra Íon (NT).
3 É o que narra Plutarco (50-125), historiador grego, na vida de Sólon (NT).
4 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo e escritor suíço; entre suas
obras, O contrato social e A origem da desigualdade entre os homens já foram
publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
5 Expressão latina que significa “piedosa fraude” (NT).
6 Hesíodo (séc. VIII a.C), poeta grego; a citação do texto consta na obra desse
poeta, intitulada Os trabalhos e os dias (NT).
7 Expressão latina que significa “vergonhosa origem” (NT).
8 Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592), escritor e pensador francês; a
citação é extraída de sua obra Ensaios, III, XIII (NT).
9 Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico e filósofo francês (NT).
10 Frase latina que significa “Considero que nada de humano me é estranho”
(NT).
11 John Stuart Mill (1806-1873), filósofo e economista inglês; entre suas obras,
A sujeição das mulheres, Ensaio sobre a liberdade e O governo representativo
já foram publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
12 Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão (NT).
13 Expressões latinas que significam “desprezar ser desprezado” e “desprezarse
a si mesmo”, respectivamente (NT).
14 Expressão latina extraída da obra Annales (XV, 44) de Caius Cornelius
Tacitus (65-120), historiador romano (NT).
15 Expressão latina extraída de Odes (III, 30.1) do poeta Quintus Horatius
Flaccus (65-8 a.C.) e que significa “mais perene que o bronze” (NT).
16 Epicuro (341-170 a.C), filósofo materialista grego (NT).
17 Titus Lucretius Carus (98-55 a.C), poeta latino; em sua obra De natura
rerum analisou as teorias de pensadores gregos, como Demócrito e Epicuro
(NT).
18 Segundo livro dos Macabeus, cap. II, versículos 7, 11 (NT).
19 Plutarco (50-125), escritor e historiador grego; duas obras dele chegaram até
nós: Vidas paralelas e Escritos morais (NT).
20 George Whitefield (1714-1770), pregador da efervescência religiosa que se
difundiu na Inglaterra no século XVIII (NT).
21 Segundo a lenda grega, Prometeu roubou o fogo dos deuses e o repassou
aos homens. Por causa disso foi castigado por Zeus que o atou a uma rocha,
ficando exposto aos ataques de um abutre que lhe devorava continuamente
o fígado. Depois de 30 eras ou séculos, Hercules o libertou (NT).
22 O título se refere aos 70 sábios judeus que residiam no Egito e que
traduziram a Bíblia hebraica para o grego nos séculos III e II antes de Cristo
(NT).
23 Expressão latina que significa “deus escondido” (NT).
24 Expressão latina que significa “neste sinal vencerás” (NT).
LIVRO SEGUNDO
97. SE AGIMOS DE UMA FORMA MORAL — NÃO É PORQUE SOMOS
MORAIS
A submissão às leis da moral pode ser provocada pelo
instinto de escravidão ou pela vaidade, pelo egoísmo ou pela
resignação, pelo fanatismo ou pela irreflexão. Pode ser um ato de
desespero como a submissão à autoridade de um soberano: em si,
nada tem de moral.
98. AS MUDANÇAS EM MORAL
Um constante trabalho de transformação se opera na moral
— os crimes de feliz êxito são a causa disso (entre eles conto, por
exemplo, todas as inovações nos juízos morais).
99. EM QUE SOMOS TODOS IRRAZOÁVEIS
Continuamos sempre a tirar as conseqüências de juízos que
consideramos falsos, de doutrinas em que já não acreditamos —
por causa de nossos sentimentos.
100. DESPERTAR DE UM SONHO
Homens nobres e sábios acreditaram outrora na harmonia
das esferas: homens nobres e sábios acreditam ainda no “valor
moral da existência”. Mas há de vir um dia em que essa harmonia,
ela também, não será mais perceptível a seus ouvidos!
Despertarão e perceberão que seus ouvidos haviam sonhado.
101. DIGNO DE REFLEXÃO
Aceitar uma crença simplesmente porque é um hábito
aceitá-la — isso não seria agir de má fé, ser covarde, ser
preguiçoso! — A má-fé, a covardia, a preguiça seriam, portanto, a
condição primeira da moralidade?
102. OS MAIS ANTIGOS JUÍZOS MORAIS
Qual é nossa atitude diante dos atos de nosso próximo? —
Primeiramente consideramos o que deles resulta para nós —
somente os julgamos sob este ponto de vista. É esse efeito
causado sobre nós que consideramos como a intenção do ato — e,
finalmente, as intenções atribuídas a nosso próximo se tornam
nele qualidades permanentes, de modo que fazemos dele, por
exemplo, “um homem perigoso”. Triplo erro! Triplo desprezo, velho
como o mundo! Talvez essa herança nos vem dos animais e de sua
capacidade de julgar! Não se deve procurar a origem de toda moral
nestas horríveis pequenas conclusões: “O que me prejudica é algo
mau (prejudicial em si); o que me é útil, é bom (benfazejo e útil em
si); o que me prejudica uma ou várias vezes é essencialmente
hostil em si; o que me é útil uma ou várias vezes é essencialmente
favorável em si!” O pudenda origo1! Não significará isso interpretar
as miseráveis relações, ocasionais e acidentais que outro pode ter
conosco como se essas relações fossem a essência e o fundo de
seu ser e pretender que para com todos e para consigo mesmo não
seja capaz de relações semelhantes àquelas que tivemos com ele
uma ou várias vezes? E por trás dessa verdadeira loucura não
estará a mais imodesta de todas as segundas intenções: acreditar
que nós próprios somos o principio do bem, porquanto o bem e o
mal são determinados por nós?
103. HÁ DUAS MANEIRAS DE NEGAR A MORALIDADE
“Negar a moralidade” — isso pode significar primeiramente:
negar que os motivos éticos invocados pelos homens os tenham
impelido verdadeiramente a seus atos — o que equivale, portanto,
a afirmar que a moralidade é simples questão de palavras e que
faz parte dos enganos grosseiros ou sutis (no mais das vezes
enganos voltados para si mesmo) que são próprios do homem,
sobretudo talvez dos homens célebres por suas virtudes. E em
seguida isso pode significar: negar que os juízos morais repousam
sobre verdades. Nesse caso, admite-se que esses juízos constituem
verdadeiramente os motivos das ações, mas também que são
erros, fundamentos de todos os juízos morais, que impelem os
homens a ações morais. Este último ponto de vista é o meu:
entretanto, não nego que em muitos casos uma sutil desconfiança
à maneira do primeiro ponto de vista, isto é, no espírito de La
Rochefoucauld2, mantenha igualmente seu valor e em todo o caso
não seja da maior utilidade geral. — Nego, portanto, a moralidade
como nego a alquimia; e se nego as hipóteses, não nego que tenha
havido alquimistas que acreditaram nessas hipóteses e se
basearam nela. — Nego igualmente a imoralidade: não que haja
uma infinidade de homens que se sentem imorais, mas que haja
na verdade uma razão para se sentirem assim. Não nego, é
evidente — desde que eu não seja insensato — que é preciso evitar
e combater numerosas ações ditas imorais; de igual modo que é
preciso cumprir e encorajar numerosas ações ditas morais; penso
que é preciso fazer uma e outra coisa por outras razões que não
aquelas com que se agiu até agora. Devemos mudar nossa
maneira de ver — para chegar finalmente, talvez demasiado tarde,
a mudar nossa maneira de sentir.
104. NOSSAS APRECIAÇÕES
Todas as nossas ações se ligam a maneiras de apreciar;
todas as nossas apreciações de valor nos são próprias ou são
adquiridas. — Estas últimas são as mais numerosas. Por que as
adotamos? Por receio: isto é, nossa prudência nos aconselha ter a
predisposição de tomá-las como nossas — e nos habituamos a
essa idéia, de tal modo que ela acaba por se tornar nossa segunda
natureza. Ter uma apreciação pessoal: isso não significa medir
uma coisa em função do prazer ou desprazer que nos causa, a nós
e a ninguém mais — mais isso é algo extremamente raro! É
preciso pelo menos que a apreciação que temos do outro e que nos
impele a nos servir, na maior parte dos casos, de suas apreciações
parta de nós e seja nosso próprio motivo determinante. Mas essas
determinações, nós as criamos durante nossa infância e
raramente mudamos de opinião a seu respeito; no mais das vezes
somos guiados, por toda a vida, por juízos infantis aos quais nos
habituamos, nascendo assim a maneira como julgamos o próximo
(seu espírito, sua posição, sua moralidade, seu caráter, o que ele
tem de louvável ou de condenável) e sentimo-nos obrigados a
render homenagem a suas apreciações.
105. O EGOÍSMO APARENTE
A maioria das pessoas, seja o que for que essas pessoas
possam pensar e dizer de seu “egoísmo”, nada fazem durante sua
vida por seu ego, mas somente pelo fantasma de ego que se
formou com eles no espírito de seu meio antes de se comunicar a
eles; — por conseguinte, vivem numa névoa de opiniões
impessoais, de apreciações fortuitas e fictícias, um a respeito do
outro, e assim em seqüência, um sempre no espírito do outro.
Estranho mundo de fantasmas que sabe dar-se uma aparência tão
razoável! Esse nevoeiro de opiniões e de hábitos cresce e vive
quase independentemente dos homens que envolve; dele depende
a prodigiosa influencia dos juízos de ordem geral sobre “o homem”
— todos esses homens que não se conhecem uns aos outros
acreditam nessa coisa abstrata que se chama “homem”, isto é,
numa ficção; e toda mudança tentada nessa coisa abstrata pelos
juízos de individualidades poderosas (tais como os príncipes e os
filósofos) produz um efeito extraordinário e insensato sobre a
maioria. — Tudo isso porque cada indivíduo nessa maioria não
sabe opor um verdadeiro ego que lhe seja próprio e que tenha
aprofundado à pálida ficção universal que dessa maneira haveria
de destruir.
106. CONTRA A DEFINIÇÃO DO OBJETIVO MORAL
De todos os lados se ouve hoje definir que o objetivo da
moral é algo como a conservação e o avanço da humanidade; mas
isso significa simplesmente querer possuir uma fórmula e nada
mais. Conservação de quê? Deve-se perguntar antes de tudo,
avanço em direção a quê? — Não foi esquecido o essencial na
fórmula: a resposta a esse “de quê”, a esse “em direção a quê”? O
que resulta disso para a doutrina dos deveres do homem que não
já não tenha sido fixado tacitamente e sem pensar? Essa fórmula
diz de modo suficiente se é preciso visar a prolongar mais a
existência da espécie humana ou fazer sair, desde que possível, o
homem da animalidade? Quão diferentes deveriam ser os meios
nos dois casos, isto é, a moral prática! Supondo que se queira
tornar a humanidade tão razoável quanto possível, isso não
garantiria certamente sua maior duração! Ou supondo que se
pense em sua “maior felicidade”, para responder a esse “de quê”, a
esse “em direção a quê”: pensa-se então no mais alto grau de
felicidade que alguns indivíduos poderiam atingir aos poucos? Ou
numa felicidade média, indefinida, mas que todos poderiam
atingir? E por que se haveria de escolher a moralidade para
alcançar esse objetivo? A moralidade não criou, em seu conjunto,
uma tal fonte de desprazer que se poderia antes considerar que,
com cada refinamento da moralidade, o homem se tornou mais
descontente consigo mesmo, com seu próximo e com sua sorte na
existência? O homem que até o presente foi mais moral não
acreditou acaso que somente o estado do homem que possa se
justificar perante a moral era a mais profunda miséria?
107. NOSSO DIREITO A NOSSAS LOUCURAS
Como se deve agir? Por que se deve agir? — Para as
necessidades próximas e cotidianas do indivíduo é fácil responder
a estas perguntas, mas quanto mais se penetra num domínio de
ações mais sutis, mais extenso e mais importante, mais o
problema se torna incerto e sujeito ao arbitrário. Entretanto, é
necessário que precisamente aqui o arbitrário seja excluído da
decisão! — É o que exige a autoridade da moral: um temor e um
respeito obscuros devem guiar o homem logo a esses atos em que
não percebe imediatamente o objetivo e os meios! Essa autoridade
da moral bloqueia o pensamento nas coisas em que poderia ser
perigoso pensar errado: é assim pelo menos que a moral costuma
justificar-se perante seus acusadores. Errado significa aqui
“perigoso” — mas perigoso para quem? Geralmente não se trata do
perigo da ação que os defensores da moral autoritária têm em
vista, mas de seu próprio perigo, a perda que poderiam sofrer seu
poder e sua influência, a partir do momento em que o direito de
agir segundo a razão própria, ampla ou restrita, fosse concedido a
todos, louca e arbitrariamente: de fato, por sua própria conta, eles
usam sem hesitar do direito ao arbitrário e à loucura — mandam
mesmo quando as perguntas “como devo agir?, por que devo
agir?” não podem ser respondidas senão com muito trabalho e
com muita dificuldade. E se a razão da humanidade cresce com
uma tão extraordinária lentidão que chegou a ser possível negar
às vezes esse crescimento no progresso geral da humanidade, a
quem se deveria volver, a não ser a essa solene presença, diria
mesmo onipresença, de mandamentos morais que não permitem
até mesmo ser posta a pergunta individual do “por que” e do
“como”. Nossa educação não foi construída em vista de evocar em
nós sentimentos patéticos, para nos levar a refugiar-nos na
obscuridade, quando nossa razão deveria conservar toda a sua
clareza e todo o seu sangue-frio! Ou seja, em todas as
circunstâncias elevadas e importantes.
108. ALGUMAS TESES
Ao indivíduo, à medida que procura sua felicidade, não se
deve dar nenhum preceito sobre o caminho que leva à felicidade:
pois a felicidade individual brota segundo suas próprias leis,
ignoradas por todos, de modo que só pode ser bloqueado e detido
por preceitos que vêm de fora. — Os preceitos a que chamamos
“morais” são na verdade dirigidos contra os indivíduos e não
desejam de modo algum sua felicidade. Esses preceitos tem
também pouco a ver com a “felicidade e a prosperidade da
humanidade” — pois é absolutamente impossível conferir a estes
termos uma significação precisa e menos ainda servir-se deles
como um farol no escuro oceano das aspirações morais. — E um
preconceito acreditar que a moralidade seja mais favorável ao
desenvolvimento da razão que a imoralidade. — É um erro
acreditar que o objetivo inconsciente na evolução de todo ser
consciente (animal, homem, humanidade, etc.) seja sua “felicidade
suprema”: há, pelo contrário, em todas as etapas da evolução uma
felicidade particular e incomparável a atingir, nem superior nem
inferior, mas precisamente individual. A evolução não quer a
felicidade, mas só a evolução e nada mais. — Somente se a
humanidade tivesse um objetivo universalmente reconhecido é que
poderíamos propor “imperativos” em sua forma de agir:
provisoriamente, semelhante objetivo não existe. Não se deve,
portanto, colocar as pretensões da moral em relação com a
humanidade; isso seria loucura e infantilidade. — Coisa
absolutamente diversa seria recomendar um objetivo à
humanidade: esse objetivo seria então alguma coisa que
dependeria de nossa vontade; supondo que conviesse à
humanidade, ela poderia então dar-se a si mesma uma lei moral
que lhe conviesse. Mas até o presente a lei moral devia ser posta
acima de nossa vontade: propriamente, não se queria dar-se essa
lei, pretendia-se tomá-la em algum lugar, descobri-la, deixar-se
comandar por ela de onde quer que viesse.
109. AUTODOMÍNIO, MODERAÇÃO E SEUS MOTIVOS DERRADEIROS
Vejo apenas seis métodos profundamente diferentes para
combater a violência de um instinto. Em primeiro lugar, pode-se
evitar as ocasiões de satisfazer um instinto, enfraquecer e eliminar
esse instinto abstendo-se de satisfazê-lo durante períodos mais ou
menos longos. Em segundo lugar, pode-se estabelecer uma lei de
uma ordem severa e regular na satisfação dos próprios apetites:
desse modo são submetidos a uma regra, seu fluxo e refluxo é
encerrado dentro de limites estáveis, para ganhar os intervalos em
que não incomodam mais; — partindo disso, se poderá talvez
passar ao primeiro método. Em terceiro lugar, pode-se entregar-se
deliberadamente à satisfação de um instinto selvagem e
desenfreado até sentir desgosto para obter, por meio desse
desgosto, um poder sobre o instinto: com a condição de não fazer
como aquele cavaleiro que, querendo esfalfar seu cavalo, acabou
por quebrar o pescoço — o que é, infelizmente, a regra em
semelhantes tentativas. Em quarto lugar, existe uma prática
intelectual que consiste em associar à satisfação um pensamento
doloroso e com tanta intensidade que com um pouco de exercício
a idéia da satisfação se torna também cada vez mais dolorosa. (Por
exemplo, quando o cristão se habitua a pensar durante o prazer
sexual na presença e na zombaria do diabo ou no inferno para um
crime cometido por vingança ou ainda no desprezo que incorreria
aos olhos dos olhos que mais venera se cometesse um roubo; de
igual modo alguém pode reprimir um violento desejo de suicido
que lhe veio cem vezes quando pensa na desolação de seus
parentes e de seus amigos e às recriminações que farão, e é assim
que ele chega a se manter à margem da vida: — pois, a partir de
então essas representações se sucedem em seu espírito como a
causa e o efeito). Deve-se ainda mencionar aqui o orgulho do
homem que se revolta, como fizeram, por exemplo, Byron e
Napoleão3 que consideraram como afronta a preponderância de
uma emoção sobre a conduta e a regra geral da razão: daí provém
o habito e o gosto de tiranizar o instinto e de alguma forma
esmagá-lo. (“Não quero ser escravo de um apetite qualquer” —
escrevia Byron em seu diário). Em quinto lugar: tenta-se um
deslocamento das próprias forças acumuladas, dedicando-se a um
trabalho qualquer difícil e pesado, ou submetendo-se
deliberadamente a atrativos e a prazeres novos, desviando assim
para outras direções os pensamentos e as forças físicas. Ocorre o
mesmo quando se favorece temporariamente outro instinto,
dando-lhe freqüentes ocasiões de se satisfazer, para torná-lo
dispensador dessa força que dominaria, em outro caso, o instinto
que importuna, por sua violência, e que se pretende refrear. Outro
também saberia talvez conter a paixão que gostaria de agir como
senhor, concedendo a todos os outros instintos que conhece um
encorajamento e uma permissão momentânea para que devorem o
alimento que o tirano gostaria de reservar para si. E finalmente,
em sexto lugar, aquele que suporta e acha razoável enfraquecer e
oprimir toda a organização física e psíquica chega naturalmente
da mesma forma a enfraquecer um instinto particular demasiado
violento: como faz, por exemplo, aquele que mantém esfomeada
sua sensualidade e que destrói, na verdade, ao mesmo tempo seu
vigor e muitas vezes também sua razão, à maneira do asceta. —
Portanto: evitar as ocasiões, impor regras ao instinto, provocar a
saciedade e o desgosto do instinto, relacioná-lo com uma idéia
martirizante (como a da vergonha, das conseqüências nefastas ou
do orgulho ofendido), em seguida o deslocamento das forças e
finalmente o enfraquecimento e o esgotamento geral — esses são
os seis métodos. Mas a vontade de combater a violência de um
instinto não está em nosso poder mais que o método que se adota
por acaso e o sucesso que se pode alcançar ao aplicá-lo. Em todo
esse processo nosso intelecto não é, ao contrário, senão o
instrumento cego de outro instinto que é o rival daquele cuja
violência nos atormenta, quer seja a necessidade de repouso ou o
medo da vergonha e de outras conseqüências lamentáveis ou
ainda o amor. Enquanto julgamos lamentar a violência de um
instinto, portanto, no fundo é um instinto que se queixa de outro
instinto; o que significa que a percepção do sofrimento que tal
violência nos causa pressupõe a existência de outro instinto
igualmente violento, ou mais violento ainda, e que uma luta se
prepara, na qual nosso intelecto deve tomar partido.
110. O QUE SE OPÕE
Podemos observar em nós o seguinte processo e gostaria que
fosse observado e confirmado muitas vezes. Forma-se em nós o
faro de uma espécie de prazer que não conhecemos ainda, do qual
brota em nós um novo desejo. Tudo depende então do que se opõe
a esse desejo: se são coisas e considerações de espécie comum e
também de homens que estimamos pouco — o objetivo do novo
desejo vai tomar a aparência de um sentimento “nobre, bom,
louvável, digno de sacrifício”, todas as disposições morais
hereditárias se incluirão nisso, e o objetivo se tornará um objetivo
moral — e a partir de então já não pensamos em aspirar a um
desejo, mas a uma moralidade: o que aumenta muito a segurança
de nossa aspiração.
111. AOS ADMIRADORES DA OBJETIVIDADE
Aquele que na infância observou nos pais e conhecidos,
entre os quais cresceu, sentimentos diversos e fortes, mas pouca
firmeza nos juízos e pouco gosto pela retidão intelectual, aquele,
portanto, que usou o melhor de sua força e seu tempo mais
precioso a imitar esses sentimentos: esse observa em si mesmo,
uma vez adulto, que todo objeto novo, todo novo ser humano,
suscitam nele imediatamente simpatia ou antipatia, ou ainda
inveja ou desprezo; sob o peso dessa experiência perante a qual se
sente desarmado, admira a neutralidade dos sentimentos, a
“objetividade” como uma coisa extraordinária, quase genial e de
rara moralidade, e nunca chega a acreditar que também ela é
simplesmente filha da educação e do hábito.
112. PARA A HISTORIA NATURAL DO DEVER E DO DIREITO
Nossos deveres — são os direitos que os outros têm sobre
nós. Como os adquiriram? Porque nos consideram como capazes
de estabelecer contratos e mantê-los, porque nos vervieram na
esfera de nosso poder e nela deixariam uma influência duradoura
se pelo “dever” não usássemos de represálias, isto é, se
interviermos no poder deles. Os direitos dos outros só podem se
referir ao que está em nosso poder: seria irrazoável da parte deles
querer de nós qualquer coisa que não nos pertencesse. Dever-se-ia
dizer mais exatamente: somente naquilo que eles pensam estar em
nosso poder, admitindo que seja a mesma coisa que igualmente
nós pensamos estar em nosso poder. O mesmo erro poderia
facilmente se produzir dos dois lados. O sentimento do dever exige
que tenhamos em toda a extensão de nosso poder a mesma crença
que os outros; isto é, que pudéssemos Prometer certas coisas,
comprometer-nos a fazê-las (“livre-arbítrio”). — Meus direitos: essa
é a parte de meu poder que os outros não somente me
concederam, mas que querem também manter para mim. Como
chegaram a isso? De um lado, por sua sabedoria, seu temor e sua
prudência: seja porque em troca esperam de nós algo de
equivalente (a proteção de seus direitos), seja porque consideram
um embate conosco perigoso e inoportuno, seja porque vêem em
toda diminuição de nossa força uma desvantagem para eles, pois,
nesse caso, seríamos inaptos para uma aliança com eles contra
uma terceira força hostil. Por outro lado, por meio de doações e
cessões. Nesse caso, os outros dispõem de suficiente poder para
ceder uma parte e para poder tornar-se garantes dessa cessão:
caso em que se pressupõe um fraco sentimento de poder naquele
que aceita a dádiva. É assim que se formam os direitos: graus de
poder, reconhecidos e garantidos. Se as relações de poder
sofressem uma modificação essencial, desapareceriam algumas
direitos e outros surgiriam — o que é comprovado pelo direito dos
povos em seu vaivém incessante. Se nosso poder diminui muito, o
sentimento daqueles que garantiam até agora nosso direito se
modifica: pesam as razões que tinham para nos conceder nossa
antiga posse. Se esse exame não estiver em nosso favor, negam
doravante “nossos direitos”. Do mesmo modo, se nosso poder
aumenta de forma considerável, o sentimento daqueles que o
reconheciam até então e do qual não temos mais necessidade, se
modifica também: tentarão reduzir esse poder à sua dimensão
anterior, quererão intervir em nossos negócios, apoiando-se em
seu dever — mas trata-se de palavras inúteis. Em toda parte onde
reina o direito, mantém-se um estado e certo grau de poder,
rechaça-se todo aumento e toda diminuição. O direito dos outros é
uma concessão feita por nosso sentimento de poder ao sentimento
de poder dos outros. Se nosso poder se mostra profundamente
abalado e quebrado, nossos direitos cessam; pelo contrário, se nos
tornamos muito mais poderosos, os direitos que até então
havíamos reconhecido aos outros deixam de existir para nós. — O
“homem eqüitativo” tem, pois, necessidade incessante do toque
sutil de uma balança para avaliar os graus de poder e de direito
que, segundo a vaidade das coisas humanas, só se mantêm em
equilíbrio muito pouco tempo e só fazem subir ou descer: — ser
eqüitativo é, pois, difícil e exige muita experiência, boa vontade e
uma carga enorme de espírito.
113. A ASPIRAÇÃO A SE DISTINGUIR
Aquele que aspira a se distinguir tem constantemente o olho
no vizinho e quer saber quais são os sentimentos deste: mas a
simpatia e o abandono de que essa inclinação tem necessidade
para se satisfazer estão muito longe de ser inspirados pela
inocência, pela compaixão e pela benevolência. Tentamos, pelo
contrário, perceber ou descobrir de que maneira o próximo sofre,
interna e externamente, a nosso aspecto, como perde seu
autocontrole e cede à impressão que nossa mão ou nosso aspecto
faz sobre ele; e mesmo quando aquele que aspira a distinguir-se
dá e quer dar uma impressão alegre, exaltante ou tranqüilizadora,
o que ele gozaria com esse sucesso não é o fato de ter alegrado,
exaltado ou tranqüilizado o próximo, mas de ter deixado sua
marca na alma do outro, de lhe ter alterado a forma e de tê-lo
dominado segundo sua vontade. A aspiração a se distinguir é a
aspiração a subjugar o próximo, mesmo que seja de uma maneira
indireta, mesmo que fosse pelo sentimento ou até mesmo só em
sonho. Há uma longa série de graus nessa secreta vontade de
domínio e para esgotar sua nomeação seria necessário quase
escrever uma história da civilização, desde a primeira barbárie
tosca até a dissimulação do refinamento e da idealidade doentia. A
aspiração a distinguir-se proporciona sucessivamente ao próximo
— para designar por seus nomes apenas alguns graus dessa longa
escala: — primeiro a tortura, depois os golpes, depois o pavor,
depois o espanto angustiado, depois a surpresa, depois a inveja,
depois a admiração, depois a edificação, depois o prazer, depois a
alegria, depois o riso, depois a zombaria, depois o gracejo, depois
os insultos, depois outros golpes desferidos, depois torturas
infligidas: ali, no topo da escala, estão colocados o asceta e o
mártir; cada um sente a maior alegria, justamente como
conseqüência de sua aspiração a se distinguir, em sofrer o que
seu oposto no primeiro grau da escala, o bárbaro, inflige ao outro,
diante do qual quer se distinguir. O triunfo do asceta sobre si
mesmo, seu olhar dirigido para dentro, percebendo o homem
desdobrado num ser sofredor e espectador e que, desde então, não
considera mais o mundo exterior senão para ali juntar, de algum
modo, lenha para sua própria fogueira, esta última tragédia da
necessidade de se distinguir, em que só resta uma única pessoa
que se carboniza em si mesma — esse é o digno desfecho que
convém a tal começo: nos dois casos, uma indizível felicidade com
o espetáculo da tortura! De fato, a felicidade considerada como
sentimento de poder desenvolvido ao extremo talvez nunca se
tenha encontrado na terra de uma forma tão intensa como na
alma dos ascetas supersticiosos. É o que exprimem os brâmanes
na história do rei Viçvamitra que obtinha nos exercícios de
penitência de milhares de anos uma tal força que se empenhou em
construir um novo céu. Creio que, em toda esta categoria de
experiências interiores, somos hoje grosseiros noviços e tateantes
adivinhadores de enigmas; há quatro mil anos sabia-se mais sobre
esses infames refinamentos da fruição de si. A criação do mundo
foi talvez então concebida por um sonhador hindu como uma
operação ascética que um deus impôs a si mesmo! Talvez esse
deus tivesse querido se encerrar na natureza em movimento como
num instrumento de tortura, para sentir assim duplicados sua
felicidade e seu poder! E mesmo supondo que fosse um deus de
amor: que prazer para ele criar homens sofredores, sofrer diante
deles de uma maneira divina e sobre-humana uma tortura
contínua e tiranizar-se assim a si próprio! Mais ainda, supondo
que não era somente um deus de amor, mas um deus de
santidade e de inocência: que delírio não podemos imaginar no
divino asceta quando cria o pecado, os pecadores e a condenação
eterna e, sob seu céu e ao pé de seu trono, uma enorme morada
de tormentos eternos, de eternos gemidos! — Não é totalmente
impossível que a alma de um são Paulo, de um Dante, de um
Calvino e de seus semelhantes não tenham um dia penetrado nos
terríveis mistérios dessa volúpia de poder; — com relação a
semelhantes estados de alma pode-se perguntar se o ciclo da
aspiração a se distinguir voltou verdadeiramente a seu ponto de
partida, se, com o asceta, atingiu seu ponto máximo. Esse círculo
não poderá ser percorrido pela segunda vez, mantendo a idéia
fundamental do asceta e ao mesmo tempo do deus Compassivo?
Quero dizer: fazer mal aos outros para fazê-lo a si próprio, para de
novo triunfar sobre si e sobre sua compaixão e para gozar da
extrema volúpia do poder! — Perdoem estas digressões que se
apresentam a meu espírito enquanto penso em todas as
possibilidades no vasto campo dos excessos psíquicos, aos quais
se entregou o desejo de poder!
114. O CONHECIMENTO DAQUELE QUE SOFRE
A condição das pessoas doentes, durante muito tempo e
horrivelmente torturadas pelo sofrimento, mas cuja inteligência,
apesar disso, não se perturba, não deixa de ter valor para o
conhecimento — sem falar até dos benefícios intelectuais que
trazem consigo toda solidão profunda, toda libertação súbita e
lícita dos deveres e dos hábitos. Aquele que sofre profundamente,
encerrado de alguma forma em seu sofrimento, lança um olhar
gélido para fora, sobre as coisas: todos esses pequenos
encantamentos enganadores em que habitualmente se movem as
coisas, quando são olhadas por alguém saudável, desaparecem
para ele: ele próprio permanece envolto em si, sem encanto e sem
cor. Supondo que viveu até aqui em qualquer perigoso devaneio, o
supremo chamamento à realidade da dor constitui o meio de
arrancá-lo desse devaneio: e talvez seja o único meio. (É possível
que o fundador do cristianismo tenha feito esta experiência na
cruz, pois as palavras mais amargas que já foram pronunciadas
“Meu Deus, por que me abandonaste?” encerram, se interpretadas
em toda a sua profundidade, como se tem o direito, o testemunho
de uma completa desilusão, a maior clarividência sobre a miragem
da vida; no instante do sofrimento supremo, Cristo se torna
clarividente acerca de si mesmo, precisamente como foi também,
segundo conta o poeta, esse pobre Dom Quixote moribundo). A
formidável tensão do intelecto que procura se opor à dor ilumina
com isso tudo o que diz respeito a uma nova luz: e a indizível
atração que sempre exercem todas as novas iluminações é muitas
vezes bastante poderosa para resistir a todas as seduções do
suicídio e para fazer parecer realmente desejável para aquele que
sofre a continuação da vida. Pensa com desprezo no mundo vago,
quente e confortável, onde o homem saudável vive sem
escrúpulos; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais
caras que outrora ele próprio partilhava; sente verdadeiro prazer
ao evocar de qualquer maneira esse desprezo, como se viesse das
profundezas do inferno, infligindo assim à alma os mais amargos
sofrimentos: é por esse contrapeso que consegue resistir à dor
física — sente que agora esse contrapeso é necessário. Com uma
impressionante lucidez sobre sua própria natureza, exclama: “Sê
uma vez teu próprio acusador e teu próprio carrasco, toma teu
sofrimento como uma punição que ti próprio infliges! Goza de tua
superioridade de juiz; melhor ainda: goza teu belo prazer, tua
arbitrária tirania! Eleva-te acima de tua vida como acima de teu
sofrimento, contempla a fundo as razões e as desrazões!” Nosso
orgulho se revolta como nunca antes: sente uma atração
incomparável para defender a vida contra um tirano como o
sofrimento e contra todas as insinuações desse tirano que gostaria
de nos levar a testemunhar contra a vida — a representar a vida
justamente diante do tirano. Nesse estado nos defendemos com
amargor contra toda espécie de pessimismo, para que este não
apareça como uma conseqüência de nosso estado e nos humilhe
como vencidos. Nunca a tentação de ser justo nos juízos foi maior
que agora, pois agora a justiça é um triunfo sobre nós mesmos e
sobre o estado mais irritável que se possa imaginar, um estado
que escusaria todo juízo injusto; — mas não queremos ser
desculpados, queremos mostrar agora mesmo que podemos ficar
“sem mancha”. Passamos por verdadeiras crises de orgulho. — E
agora aponta a primeira aurora de apaziguamento, de cura — é
quase o primeiro efeito com que nos defendermos contra a
preponderância de nosso orgulho: consideramo-nos então patetas
e vaidosos — como se nos tivesse acontecido qualquer coisa de
único! Humilhamos sem reconhecimento a altivez todo-poderosa
que nos fez suportar a dor e reclamamos com violência um
antídoto contra a altivez: procuramos tornar-nos estranhos a nós
próprios, despersonalizar-nos, pois a dor nos tornou por muito
tempo pessoais com violência. “Longe de nós essa altivez,
exclamamos, ela era uma doença e uma crise forte demais!”
Olhamos novamente os homens e a natureza — com um olhar de
desejo: lembramo-nos, sorrindo com tristeza, que temos agora a
respeito deles certas idéias novas e diferentes daquelas de outrora,
que um véu caiu. — Mas como nos reconforta rever as luzes
temperadas da vida e sair desse dia terrivelmente cru, no qual,
quando sofríamos, víamos as coisas e através das coisas. Não nos
encolerizamos se a magia da saúde recomeça seu jogo —
contemplamos esse espetáculo como se estivéssemos
transformados, calmos e cansados ainda. Nesse estado não se
pode ouvir música sem chorar.
115. O QUE CHAMAMOS “EU”
A linguagem e os preconceitos sobre que se edifica a
linguagem formam muitas vezes obstáculo ao aprofundamento
dos fenômenos interiores e dos instintos: porque não existem
palavras senão para graus superlativos desses fenômenos e desses
instintos. — Ora, estamos habituados, quando as palavras nos
faltam, a não observar com rigor, porque é penoso pensar com
precisão; chegava-se até mesmo outrora a decretar
involuntariamente que onde cessa o reino das palavras, cessa
também o reino da existência. Cólera, ódio, amor, piedade, desejo,
conhecimento, alegria, dor — são todos nomes que convêm apenas
a condições extremas; os graus mais ponderados, mais medianos
nos escapam, mais ainda os graus inferiores, incessantemente em
jogo, e no entanto são eles que tecem a trama de nosso caráter e
de nosso destino. Ocorre muitas vezes que essas explosões
extremas — e o prazer ou o desprazer mais medíocres, dos quais
somos conscientes, seja provando uma comida, seja escutando um
som, constituem talvez ainda, segundo uma avaliação exata,
explosões extremas — rasgam a tela e formam então exceções
violentas, quase sempre consecutivas a acumulações: — e como
podem elas, a esse título, induzir o observador ao erro!
Exatamente como enganam o homem de ação. Todos, enquanto
somos, não somos o que parecemos ser segundo os únicos estados
em que temos consciência e pelos quais temos palavras — e, por
conseguinte, a recriminação e o elogio; nós nos desconhecemos
segundo essas explosões grosseiras, que só por nós são
conhecidas, tiramos conclusões a partir de uma matéria em que
as exceções ultrapassam a regra, enganamo-nos ao ler esse escrito
confuso de nosso eu, aparentemente claro. Entretanto, a opinião
que temos de nós próprios, essa opinião que formamos por esse
caminho errôneo, o que chamamos “eu”, trabalha a partir de então
para formar nosso caráter e nosso destino.
116. O MUNDO DESCONHECIDO DO “SUJEITO”
Aquilo que os homens têm mais dificuldade em compreender
é sua ignorância sobre si mesmos, desde os tempos mais remotos
até nossos dias! Não apenas em relação ao bem e ao mal, mas
também em relação a coisas muito mais importantes! A antiga
ilusão segundo a qual saberíamos perfeitamente e em todos os
casos como se efetua a ação humana, continua viva. Não somente
“Deus que vê nos corações”, não somente o homem que age e que
reflete sobre sua ação — mas também qualquer outra pessoa não
duvida realmente de que compreende o fenômeno da ação em
qualquer outra pessoa. “Sei o que quero e o que faço, sou livre e
responsável de meus atos, responsabilizo os outros por aquilo que
fazem, posso nomear todas as possibilidades morais e todos os
movimentos interiores que precedem uma ação; qualquer que seja
a maneira pela qual vocês agem — nela me compreendo a mim
mesmo e nela os compreendo a todos!” — Assim é que todos
pensavam antigamente, é assim que todos pensam ainda.
Sócrates e Platão que nessa matéria foram grandes céticos e
admiráveis inovadores, eram, contudo, inocentemente crédulos
quanto ao preconceito nefasto, a esse profundo erro, que afirma
que “o justo entendimento deve ser seguido forçosamente pela
ação justa”. — Com esse princípio eram sempre herdeiros da
loucura e da presunção universais que pretendem que se conheça
a essência de uma ação. “Seria terrível se a compreensão da
essência do ato justo não fosse seguida pelo ato justo” — essa é a
única forma que parecia necessária a esses grandes homens para
provar esta idéia; o contrário lhes parecia inimaginável e insensato
— e, no entanto, esse contrário responde à realidade nua e crua,
demonstrada cotidianamente e a toda hora, desde sempre! Não é
essa precisamente a verdade “terrível” que o que se pode saber de
um ato não basta nunca para realizá-lo, que a ponte que vai do
entendimento ao ato não foi estabelecida até hoje em nenhum
caso! As ações não são nunca o que nos parecem ser! Custou-nos
tanto aprender que as coisas exteriores não são o que parecem —
pois bem, o mesmo deve ser dito em relação ao mundo interior! Os
atos são realmente “qualquer coisa diferente” — não podemos
dizer mais: e todos os atos são essencialmente desconhecidos. O
contrário é e permanece a crença habitual; temos contra nós o
mais antigo realismo; até aqui a humanidade pensava: “Uma ação
é tal qual nos parece ser.” (Relendo estas palavras me vem à
mente uma passagem muito significativa de Schopenhauer4 que
gostaria de citar para provar que também ele permaneceu sempre
agarrado, sem qualquer espécie de escrúpulo a este realismo
moral: “Na realidade, cada um de nós é um juiz moral competente
e perfeito, conhecendo precisamente o bem e o mal, santificado ao
amar o bem e ao detestar o mal — cada um é tudo isso, uma vez
que não são seus próprios atos, mas atos estranhos que estão em
causa, e que pode se contentar em aprovar ou desaprovar,
enquanto que o peso da execução é levado pelas costas dos
outros. Cada um pode, por conseguinte, ter como professor o
lugar de Deus.”)
117. NA PRISÃO
Minha vista, quer seja aguda, quer seja fraca, não vê senão a
certa distância. Vivo e ajo nesse espaço, essa linha do horizonte é
meu mais próximo destino, grande ou pequeno, ao qual não posso
escapar. Em torno de cada ser se estende assim um círculo
concêntrico que lhe é particular. Igualmente o ouvido nos encerra
num pequeno espaço, da mesma forma que o sentido do tato. E a
partir desses horizontes, onde nossos sentidos encerram cada um
de nós, como nos muros de uma prisão, que avaliamos o mundo,
dizendo que tal coisa está perto, tal outra está longe, tal coisa é
grande, tal outra é pequena, tal coisa é dura e tal outra é mole:
chamamos “sensação” essa forma de medir — e tudo isso é
simplesmente um erro em si! A partir da quantidade de
experiências e emoções que nos são possíveis em média num
espaço de tempo dado, avaliamos nossa vida, a achamos curta ou
longa, rica ou pobre, cheia ou vazia: em função da média da vida
humana, avaliamos aquela de todos os outros seres — e isso, tudo
isso, é simplesmente um erro em si! Se tivéssemos uma vista cem
vezes mais penetrante para as coisas próximas, o homem nos
pareceria enorme; poderíamos até imaginar órgãos por meio dos
quais o homem pareceria incomensurável. Por outro lado, certos
órgãos poderiam ser constituídos de tal maneira que reduziriam e
limitariam sistemas solares inteiros, para torná-los semelhantes a
uma única célula: e para seres inversamente constituídos, uma
única célula do corpo humano poderia apresentar-se em sua
construção, seu movimento e sua harmonia como um sistema
solar. Os hábitos de nossos sentidos nos envolveram num tecido
de sensações enganadoras que são, por sua vez, a base todos os
nossos juízos e de nosso “entendimento” — não há absolutamente
saída, não há escapatória, não há senda voltada para o mundo
real! Estamos em nossa teia como aranhas e ainda que
apanhemos alguma coisa, podemos apanhar somente e sempre o
que se deixar prender em nossa teia.
118. O QUE É, POIS, NOSSO PRÓXIMO?
Que compreendemos, pois, de nosso próximo, senão suas
fronteiras, isto é, aquilo pelo qual de algum modo coloca sua
marca em nós? Tudo o que compreendemos dele são as
modificações que têm lugar em nossa pessoa e das quais ele é a
causa — o que sabemos dele se assemelha a um espaço oco.
Emprestamos-lhe as sensações que seus atos suscitam em nós e
lhe atribuímos assim o reflexo de uma falsa positividade. Nós o
formamos de acordo com o conhecimento que temos de nós
mesmos, a fim de transformá-lo num satélite de nosso sistema: e
quando ele se ilumina ou se escurece para nós, somos nós, nos
dois casos, a causa última — julgamos, contudo, sempre o
contrário! Mundo de fantasmas este em que vivemos! Mundo
invertido, virado para baixo e vazio e que, no entanto, vemos como
em sonho sob um aspecto direto e pleno!
119. VIVER E IMAGINAR
Qualquer que seja o grau que alguém possa atingir no
conhecimento de si, nada pode ser mais incompleto que a imagem
que se faz dos instintos que constituem seu ser. Mal sabe citar por
seus nomes os instintos mais grosseiros: seu número e sua força,
seu fluxo e refluxo, seu jogo recíproco e, antes de tudo, as leis de
sua nutrição permanecem inteiramente desconhecidos. Essa
nutrição se torna, pois, obra do acaso: os acontecimentos
cotidianos de nossa vida lançam sua presa ora a esse instinto, ora
àquele; ele os toma avidamente, mas o vaivém desses
acontecimentos se encontra fora de toda correlação racional com
as necessidades nutritivas do conjunto dos instintos, de modo que
ocorrerá sempre duas coisas — uns desfalecerão e morrerão de
inanição, outros serão alimentados em excesso. Cada momento de
nossa vida faz crescer alguns tentáculos de nosso ser e faz secar
alguns outros, conforme a nutrição que o momento trouxer ou
não. Sob esse ponto de vista, todas as nossas experiências são
alimentos, mas distribuídos às cegas, ignorando aquele que tem
fome e quem já está satisfeito. Em conseqüência dessa nutrição de
cada parte, deixada ao acaso, o estado do pólipo, em seu
desenvolvimento completo, será algo também fortuito como seu
desenvolvimento o foi. Falando mais exatamente: admitindo que
um instinto chega ao ponto em que exige ser satisfeito — ou
exercer sua força ou satisfazê-la ou preencher um vazio (para usar
imagens): examinará cada acontecimento do dia para saber como
pode utilizá-lo para seus próprios fins: qualquer que seja a
condição em que o homem se encontre, que caminhe ou descanse,
que leia ou fale, que se zangue ou lute ou que se alegre, o instinto
alterado tateia de algum modo cada uma dessas condições e, na
maioria dos casos, nada encontrará a seu gosto; deve então
esperar e continuar a ter sede: um instante mais e vai
enfraquecer, mais alguns dias ou meses, se não for satisfeito,
secará como uma planta sem chuva. Talvez essa crueldade do
acaso saltasse mais à vista com cores mais vivas se todos os
instintos exigissem ser satisfeitos tão fundamentalmente como a
fome, que não se contenta com alimentos sonhados; mas a maior
parte dos instintos, sobretudo os chamados morais, se satisfaz
precisamente assim — se for permitido supor que nossos sonhos
servem para compensar, em certa medida, a ausência acidental de
“alimento” durante o dia. Por que o sonho de ontem era cheio de
ternura e de lágrimas, o de anteontem agradável e presunçoso,
aquele outro, mais antigo ainda, aventuroso e cheio de buscas
inquietas? Por que nesse sonho usufruo de indescritíveis belezas
da música, por que em outro plano e me elevo com a volúpia da
águia até os cumes mais longínquos? Essas imaginações em que
se descarregam e jogam nossos instintos de ternura ou de
zombaria ou de excentricidade, nossos desejos de música e de
cumes — e cada qual terá à mão exemplos mais chocantes ainda
— são as interpretações de nossas excitações nervosas durante o
sono, interpretações muito livres, muito arbitrárias da circulação
do sangue, do trabalho dos intestinos, da pressão dos braços e
dos cobertores, do som dos sinos de uma igreja, do rumor de um
cata-vento, dos passos dos notívagos e de outras coisas do gênero.
Se esse texto que em geral permanece o mesmo de uma noite para
outra, recebe comentários variados do ponto que a razão inventiva
imagina ontem e hoje causas tão diferentes para as mesmas
excitações nervosas, isso resulta de que a motivação dessa razão é
hoje diferente da de ontem — outro instinto quis se satisfazer, se
manifestar, se exercer, se aliviar, se expandir — é esse instinto
que estava no momento mais forte de seu fluxo, enquanto ontem
era outro. — A vida desperta não dispõe da mesma liberdade de
interpretação que a vida de sonho e é menos poética, menos
desenfreada — mas será preciso dizer que durante o dia os
instintos também não fazem mais do que interpretar as excitações
nervosas e fixar-lhes as “causas” segundo suas necessidades? Que
entre o estado desperto e o sonho não há diferença essencial? Que
mesmo comparando níveis muito diferentes de cultura, a
liberdade da interpretação desperta nunca é semelhante à
liberdade do outro nível em sonho? Que nossas avaliações e
nossos juízos morais são sempre imagens e fantasias que
escondem um processo fisiológico desconhecido a nós, uma
espécie de linguagem convencional para designar certas irritações
nervosas? Que tudo o que chamamos consciência não é outra
coisa que o comentário mais ou menos fantasioso de um texto
desconhecido, talvez incognoscível, mas pressentido? Tomemos o
exemplo de uma pequena experiência vivida. Suponhamos que
percebemos um dia, enquanto atravessamos a praça pública, que
alguém ri de nós: segundo aquele de nossos instintos que esteja
então em seu ponto culminante, esse incidente terá para nós esta
ou aquela significação — segundo o tipo humano a que
pertencemos será um incidente totalmente diferente. Um vai
recebê-lo como uma gota de chuva, outro vai sacudi-lo para longe
como um inseto; um vai procurar nisso um pretexto para discutir,
outro vai examinar as roupas para verificar se se prestam ao riso,
outro vai meditar sobre o ridículo em si; finalmente, haverá talvez
aquele que vai se alegrar por ter contribuído sem querer para
acrescentar um raio de sol à alegria do mundo — e em cada um
desses casos um instinto conseguirá satisfação, que seja o de
desprezo, o da combatividade, o da meditação ou o da
benevolência. Esse instinto, qualquer que seja, se apoderou do
incidente como de uma presa: por que precisamente esse? Porque,
sequioso e esfomeado, estava à espreita. — Ultimamente, às onze
horas da manhã um homem desfaleceu subitamente diante de
mim, como fulminado por um raio; todas as mulheres da
vizinhança começaram a gritar em desespero; eu mesmo o levantei
e perto dele esperei que recobrasse a fala — durante esse tempo
nenhum músculo de meu rosto se moveu, não fui tomado de
nenhum sentimento, nem de temor nem de piedade, fiz
simplesmente o que devia ser feito de mais urgente e razoável,
continuando depois meu caminho friamente. Supondo que me
tivessem anunciado na véspera que no dia seguinte às onze horas
alguém cairia assim a meus pés, teria sofrido antecipadamente
tormentos de toda espécie, não teria dormido a noite toda e no
momento decisivo teria ficado talvez semelhante a esse homem em
vez de socorrê-lo. De fato, no intervalo todos os instintos possíveis
teriam tido tempo de imaginar e comentar esse acontecimento
diferente. — O que são, pois, os acontecimentos de nossa vida?
Muito mais o que neles pomos do que neles se encontra! Ou
deveríamos até mesmo dizer: são vazios em si mesmo? Viver, é
imaginar?
120. PARA TRANQÜILIZAR O CÉTICO
“Não sei de modo algum o que faço! Não sei absolutamente o
que devo fazer!” — Tens razão, mas não tenhas a respeito
nenhuma dúvida: és tu que és feito! Em cada momento de tua
vida! A humanidade desde sempre confundiu o ativo e o passivo,
esse foi seu eterno erro de gramática.
121. “EFEITO E CAUSA”
Sobre este espelho — e nosso intelecto é um espelho —
passa-se qualquer coisa que manifeste regularidade, uma
determinada coisa segue cada vez outra coisa determinada — é o
que chamamos, quando o percebemos e queremos dar-lhe um
nome, causa e efeito — insensatos que somos! Como se, nesse
caso, tivéssemos compreendido alguma coisa, pudéssemos
compreender alguma coisa! Ora, nada vimos além das imagens
dos “efeitos” e das “causa”! E é precisamente essa visão em
imagens que torna impossível perceber uma relação mais
essencial que aquela da sucessão!
122. AS CAUSAS FINAIS NA NATUREZA
Aquele que, sábio imparcial, estuda a história do olho e de
suas formas nas criaturas inferiores, para mostrar o lento
desenvolvimento do órgão visual, chegará forçosamente à
conclusão ímpar que, na formação do olho, a visão não foi
objetivo, pois ela se manifestou somente quando o acaso
constituiu o aparelho da visão. Um único desses exemplos e das
“causas finais” nos caem dos olhos como escamas!
123. RAZÃO
Como a razão surgiu no mundo? De uma maneira racional,
como seria justo — pelo acaso. Será necessário decifrar esse acaso
como um enigma.
124. O QUE É QUERER?
Rimos daquele que ultrapassa o limiar de sua porta no
momento em que o sol ultrapassa o limiar da sua e que diz:
“Quero que o sol se levante”; e daquele que não pode fazer parar
uma roda e diz: “Quero que ela rode”; e daquele que foi derrubado
numa luta e diz: “Estou no chão, mas quero estar no chão!” Mas,
apesar dos gracejos, agimos alguma vez de outra forma que um
desses três, quando empregamos a expressão: “Eu quero”?
125. SOBRE “O REINO DA LIBERDADE”
Podemos pensar muitas coisas, muito mais das que
podemos fazer e viver — o que quer dizer que nosso pensamento é
superficial e se satisfaz com a aparência, a ponto de nem sequer a
notar. Se o intelecto estivesse rigorosamente desenvolvido,
segundo a medida de nossa força e do exercício que temos de
nossa força, teríamos como supremo principio de nossa reflexão
que não podemos compreender senão aquilo que podemos fazer —
supondo que, de uma maneira geral, exista uma compreensão
Aquele que tem sede sente falta da água, mas seu espírito lhe
apresenta incessantemente diante dos olhos a imagem da água,
como se nada fosse mais fácil de obter — a natureza superficial e
fácil a contentar do intelecto não pode compreender a existência
de uma necessidade verdadeira e se sente superior: orgulha-se de
poder mais, de correr mais depressa, de chegar num instante
quase ao objetivo — e assim o reino das idéias, em contraste com
o reino da ação, do querer e do “viver”, aparece como o reino da
liberdade: enquanto, como já disse, não é mais que o reino do
superficial e da ausência de exigências.
126. O ESQUECIMENTO
Não foi ainda demonstrado que o esquecimento existe; tudo
o que sabemos é que não está em nosso poder nos relembrar.
Provisoriamente colocamos nessa lacuna de nosso poder a palavra
esquecimento: como se isso fosse um poder a mais a registrar.
Mas, afinal, o que é que está em nosso poder! — Se essa palavra
se encontra numa lacuna de nosso poder, as outras palavras não
se encontrariam em outra lacuna do conhecimento de nosso
poder?
127. EM VISTA DE UM OBJETIVO
De todos os atos humanos, os menos compreendidos são
certamente aqueles que são realizados em vista de um objetivo,
porque sempre foram considerados como os mais inteligíveis e
que, para nosso entendimento, são os mais habituais. Os grandes
problemas estão na rua.
128. O SONHO E A RESPONSABILIDADE
Querem ser responsáveis por todas as coisas! Exceto por
seus sonhos! Que lamentável fraqueza, que falta de coragem
lógica! Nada lhes é mais próprio que seus sonhos! Nada é mais
sua obra! Matéria, forma, duração, ator, espectador — nessas
comédias vocês são realmente vocês mesmos! E é precisamente ali
que vocês têm medo e vergonha de vocês mesmos. Já Édipo, o
sábio Édipo, sabia consolar-se com a idéia de que não podemos
nada, se não sonharmos esta ou aquela coisa! Disso concluo que a
grande maioria dos homens deve ter do que se recriminar por ter
sonhos abomináveis. Se fosse de outra maneira, como se poderia
ter explorado sua poesia noturna em favor do orgulho do homem!
— Será preciso acrescentar que o sábio Édipo tinha razão, que
não somos realmente responsáveis por nossos sonhos — mas não
mais que por nosso estado desperto e que a doutrina do livrearbítrio
tem por pai e mãe o orgulho do homem e seu sentimento
de poder? Digo isso talvez demasiadas vezes: mas essa não é uma
razão para que isso seja uma mentira.
129. A PRETENSA LUTA DOS MOTIVOS
Fala-se de “luta dos motivos”, mas assim se designa uma
luta que não é a “luta dos motivos”. Quero dizer que, em nossa
consciência deliberativa, antes de uma ação, se apresentam as
conseqüências de diferentes ações que julgamos poder executar
todas elas e comparamos essas conseqüências. Julgamos estar
decididos a uma ação quando constatamos que suas
conseqüências serão as mais favoráveis; antes de chegar a esta
conclusão em nossas avaliações, nos atormentamos muitas vezes
lealmente por causa das grandes dificuldades que há em
adivinhar as conseqüências, em percebê-las em toda a sua força,
todas, sem exceção: além disso, esse cálculo deve ter também sua
parte de acaso. Mas é então que vem o mais difícil: todas as
conseqüências que definimos separadamente, com tanta
dificuldade, devem ser pesadas umas e outras na mesma balança;
e muitas vezes, para essa casuística da vantagem, não temos nem
balança nem pesos, por causa das diferenças de qualidade entre
todas as conseqüências imagináveis. Supondo, contudo, que nós
nos eximíssemos dessa operação como das outras e que o acaso
tenha posto em nosso caminho conseqüências reciprocamente
comparáveis: então nos restaria efetivamente, na imagem das
conseqüências de uma ação determinada, um motivo para praticar
essa ação — sim! Um motivo! Mas no momento em que nos
decidimos a agir, somos muitas vezes determinados por uma
categoria de motivos diferente da categoria descrita aqui, aquela
que faz parta da “imagem das conseqüências”. Então intervém o
modo segundo o qual nossas forças têm o habito de representar
ou ainda um leve impulso imprimido por urna pessoa que
receamos, veneramos ou amamos, ou ainda a indolência que
prefere executar o que está à mão, ou finalmente o despertar da
imaginação provocado no momento decisivo por um pequeno
incidente qualquer — então age também o elemento corporal que
se apresenta sem que se possa determiná-lo, ou ainda a
disposição do momento, a irrupção de uma paixão qualquer que
está, por acaso, prestes a saltar: numa palavra, agem motivos que
não conhecemos bem ou que ignoramos totalmente e que, por
outro lado, não podemos nunca fazê-los entrar de antemão em
nossos cálculos. É provável que entre eles também haja luta, tirateima,
arrebatamentos e repressão — essa seria a verdadeira “luta
dos motivos”; — qualquer coisa que, para nós, é totalmente
invisível e inconsciente. Calculei as conseqüências e os resultados
e inseri assim um instinto muito importante na ordem de batalha
dos motivos — mas esta ordem de batalha estabeleço-a tão pouco
como a percebo: a própria luta está escondida e a vitória, como
vitória, igualmente; pois, sei muito bem o que acabo de fazer, mas
não sei qual é o motivo que finalmente saiu vitorioso. Estamos,
com efeito, habituados a não fazer entrar em linha todos esses
fenômenos inconscientes e a pensar a preparação de um ato
apenas na medida em que é consciente: e é por isso que
confundimos a luta dos motivos com a comparação das
conseqüências possíveis de diferentes ações — uma das confusões
mais cheias de conseqüências e das mais funestas para o
desenvolvimento da moral!
130. CAUSAS FINAIS? VONTADE?
Nós nos acostumamos a acreditar em dois reinos, o reino
das causas finais e da vontade e o reino do acaso. Neste último
reino, tudo é desprovido de sentido, tudo passa, vai e vem, sem
que alguém possa dizer porquê, para que fim. — Tememos esse
poderoso reino da grande imbecilidade cósmica, pois aprendemos
geralmente a conhecê-lo quando cai no outro mundo, aquele das
causas finais e das intenções, como uma telha cai de um telhado,
atingindo sempre algum de nossos objetivos sublimes. Essa
crença nos dois reinos provém de um velho romantismo e de uma
lenda: nós, anões malignos, com nossa vontade e nossas causas
finais, somos importunados, calcados aos pés, muitas vezes
feridos por gigantes imbecis, arqui-imbecis: os acasos — mas,
apesar de tudo, não gostaríamos de ser privados da medonha
poesia dessa vizinhança, pois esses monstros sobrevêm muitas
vezes quando a existência na teia de aranha das causas finais se
tornou demasiado enfadonha e demasiado pusilânime, causandonos
uma sublime diversão quando sua mão arranca de uma vez a
teia toda. — Não que seja essa a intenção desses seres insensatos!
Nem mesmo se dão conta disso. Mas suas mãos grosseiramente
ossudas atravessam a teia como se fosse ar. — Os gregos
chamavam Moira a esse reino dos imponderáveis e da sublime e
eterna estreiteza de espírito e o colocavam como um horizonte em
torno de seus deuses, um horizonte fora do qual estes não podiam
nem ver nem agir: com esse secreto desafio aos deuses que se
encontra em certo número de povos: quer-se adorar os deuses,
mas se reserva contra eles um último trunfo nas mãos; entre os
hindus e os persas, por exemplo, eram imaginados como
dependentes do sacrifício dos mortais, de modo que, em última
instância, os mortais podiam deixar os deuses morrer de fome e de
sede; entre os escandinavos, duros e melancólicos, criava-se, pela
idéia de um futuro crepúsculo dos deuses, a alegria de uma
vingança silenciosa, em compensação do temor perpétuo que
esses deuses maus inspiravam. Bem diversamente ocorre no
cristianismo, cujas idéias fundamentais não são hindus nem
persas nem gregas nem escandinavas. O cristianismo que ensinou
a adorar no pó o espírito de poder, quis ainda que se abraçasse a
poeira depois: deu a entender que esse todo-poderoso “reino da
imbecilidade” não era tão imbecil como parece, que nós, ao
contrário, somos os imbecis, nós que não notamos que por trás
desse reino há — o bom Deus que até o presente foi menosprezado
sob o nome de raça de gigantes ou de Moira e que ele próprio tece
a teia das causas finais, essa teia mais sutil ainda que aquela de
nossa inteligência — de modo que foi necessário que nossa
inteligência a achasse incompreensível e até mesmo absurda —
essa fábula constituía uma inversão tão audaciosa e um paradoxo
tão ousado que o mundo antigo, tornado muito frágil, foi incapaz
de lhe resistir, tão louca e contraditória pareceu a coisa; — pois,
seja dito entre nós, havia ali uma contradição: se nossa razão não
pode decifrar a razão e os fins de Deus, como fez para decifrar a
conformação de sua razão, a razão da razão e a conformação da
razão de Deus? — Nos tempos mais recentes, perguntou-se, com
efeito, com desconfiança, se a telha que cai do telhado foi lançada
por “amor divino” — e os homens começam a retomar as pegadas
antigas do romantismo dos gigantes e dos anões. Aprendamos
portanto, porque já é tempo, que em nosso reino particular das
causas finais e da razão são também os gigantes que governam! E
nossas próprias teias são também muitas vezes destruídas por nós
mesmos e, igualmente de modo grosseiro, como pela famosa telha.
E, se quiserem concluir: “Há, portanto, um único reino, aquele da
imbecilidade e do acaso?” — seria necessário acrescentar: sim,
talvez haja apenas um reino, talvez não haja nem vontade nem
causas finais e talvez fomos nós que os imaginamos. Essas mãos
de ferro da necessidade que agitam os dados do acaso continuam
seu jogo indefinidamente: é, pois, necessário que sejam
produzidos golpes que pareçam totalmente conformes à finalidade
e à sabedoria. Talvez nossos atos de vontade, nossas causas finais
não sejam outra coisa senão esses golpes — e somos somente
muito limitados e muito vaidosos para compreender nossa
extrema estreiteza de espírito que não sabe o que nós mesmos
agitamos com mãos de ferro, o copo dos dados que, em nossos
atos mais intencionais, não fazemos outra coisa que jogar o jogo
da necessidade. Talvez! — Para ir além desse talvez, seria
necessário já ter sido hóspede do inferno, sentado à mesa de
Perséfone5, e ter jogado os dados e ter apostado com a própria
Perséfone.
131. OS MODOS MORAIS
Como o conjunto dos juízos morais se modificou! Essas
obras-primas das moralidade antiga, as mais prodigiosos de todas,
como o gênio de Epitecto6, nada sabiam da glorificação hoje
corrente do espírito de sacrifício, da vida em prol dos outros;
segundo nossos modos morais, seria necessário literalmente taxálos
de imoralidade, pois lutaram com todas as suas forças por seu
ego e contra a compaixão que os outros nos inspiram (sobretudo
em relação a seus sofrimentos e suas enfermidades morais).
Talvez eles nos respondessem: “Se são para vocês mesmos objeto
de tamanho aborrecimento ou espetáculo tão odioso, fazem bem
em pensar nos outros mais que em vocês!”
132. OS ÚLTIMOS ECOS DO CRISTIANISMO NA MORAL
“Só se é bom pela compaixão: é necessário, pois, que haja
alguma compaixão em todos os nossos sentimentos” — é a moral
de hoje! E de onde vem isso? — O homem que realiza ações sociais
simpáticas, desinteressadas, de interesse comum, é considerado
hoje como o homem moral — esse talvez é o efeito mais geral, a
transformação mais completa que o cristianismo produziu na
Europa: ainda que isso não estivesse em suas intenções nem em
sua doutrina. Mas foi o resíduo da mentalidade cristã que
prevaleceu quando a crença fundamental, muito oposta e
rigorosamente egoísta, de que “uma só coisa é necessária”, a
crença na importância absoluta da salvação eterna pessoal, assim
como os dogmas nos quais se apoiava, foram pouco a pouco
recuando, e que a crença acessória no “amor”, no “amor do
próximo”, de acordo com a monstruosa prática da caridade
eclesiástica, vinha assim ocupar o primeiro plano. Quanto mais se
aprofundava a separação desses dogmas, mais se procurava de
algum modo justificar essa separação por um culto de amor à
humanidade: não ficar atrás em relação ao ideal cristão, mas
passar-lhe à frente se possível, esse foi o secreto aguilhão dos
livres pensadores franceses, de Voltaire e Augusto Comte7: e este
último, com sua célebre máxima moral “viver para os outros”,
supercristianizou, com efeito, o cristianismo. Schopenhauer na
Alemanha, John Stuart Mill na Inglaterra8, conferiram a maior
celebridade à doutrina dos sentimentos simpáticos e da
compaixão ou da utilidade para os outros, como princípio de ação:
mas eles não foram senão ecos — essas doutrinas surgiram em
toda parte ao mesmo tempo, sob formas sutis ou grosseiras, com
uma vitalidade extraordinária, desde a época da Revolução
Francesa aproximadamente, e todos os sistemas socialistas se
colocaram como que involuntariamente no terreno comum dessas
doutrinas. Não existe talvez hoje preconceito mais difundido que
aquele de imaginar que sabemos o que constitui verdadeiramente
a coisa moral. Cada um parece hoje ouvir com satisfação que a
sociedade está prestes a adaptar o indivíduo às necessidades
gerais e que a felicidade assim como o sacrifício de cada um
consiste em considerar-se membro útil e instrumento de um todo:
entretanto, hesita-se muito ainda neste momento para saber onde
é preciso procurar esse todo, se na ordem estabelecida ou na
ordem a ser fundada, se na nação ou na fraternidade dos povos,
ou ainda em novas pequenas comunidades econômicas. Há hoje, a
esse respeito, muitas reflexões, hesitações, lutas, muita excitação
e paixão: mas singular e unânime é a harmonia na exigência que o
ego deve se apagar até que receba de novo, sob forma de
adaptação ao todo, seu círculo fixo de direitos e de deveres — até
que se tenha tornado qualquer coisa de novo e totalmente
diferente. Não queremos nada menos — quer o confessemos ou
não — que uma transformação fundamental, que um
enfraquecimento até, que uma supressão do indivíduo: não nos
cansamos de enumerar e de acusar tudo o que há de mau, de
hostil, de pródigo, de dispendioso, de luxuoso na existência
individual, praticada até este dia, e esperamos instaurar uma
economia mais equilibrada, menos perigosa e mais unida, quando
não existirem mais do que grandes corpos e seus membros.
Consideramos como bom tudo aquilo que, de uma forma ou de
outra, corresponde a esse instinto de agrupamento e a seus
instintos auxiliares; esta é a corrente fundamental na moral de
nossa época; a simpatia e os sentimentos sociais nela se
confundem. (Kant9 permanece ainda fora desse movimento: ele
ensina expressamente que devemos ser insensíveis ao sofrimento
dos outros, se nossos benefícios devem ter um valor moral — o
que Schopenhauer chama, com uma irritação muito conveniente
de sua parte, as futilidades kantianas).
133. “NÃO PENSAR MAIS EM SI”
Seria necessário refletir sobre isso seriamente: por que
saltamos à água para socorrer alguém que está se afogando,
embora não tenhamos por ele qualquer simpatia particular? Por
compaixão: só pensamos no próximo — responde o irrefletido. Por
que sentimos a dor e o mal-estar daquele que cospe sangue,
embora na realidade não lhe queiramos bem? Por compaixão:
nesse momento não pensamos mais em nós — responde o mesmo
irrefletido. A verdade é que na compaixão — quero dizer, no que
costumamos chamar erradamente compaixão — não pensamos
certamente em nós de modo consciente, mas inconscientemente
pensamos e pensamos muito, da mesma maneira que, quando
escorregamos, executamos inconscientemente os movimentos
contrários que restabelecem o equilíbrio, pondo nisso todo o nosso
bom senso. O acidente do outro nos toca e faria sentir nossa
impotência, talvez nossa covardia, se não o socorrêssemos. Ou
então traz consigo mesmo uma diminuição de nossa honra
perante os outros ou diante de nós mesmos. Ou ainda vemos nos
acidentes e no sofrimento dos outros um aviso do perigo que
também nos espia; mesmo que fosse como simples indício da
incerteza e da fragilidade humanas que pode produzir em nós um
efeito penoso. Rechaçamos esse tipo de miséria e de ofensa e
respondemos com um ato de compaixão que pode encerrar uma
sutil defesa ou até uma vingança. Podemos imaginar que no fundo
é em nós que pensamos, considerando a decisão que tomamos em
todos os casos em que podemos evitar o espetáculo daqueles que
sofrem, gemem e estão na miséria: decidimos não deixar de evitar,
sempre que podemos vir a desempenhar o papel de homens fortes
e salvadores, certos da aprovação, sempre que queremos
experimentar o inverso de nossa felicidade ou mesmo quando
esperamos nos divertir com nosso aborrecimento. Fazemos
confusão ao chamar compaixão (Mitleid) ao sofrimento (Leid) que
nos causa um tal espetáculo e que pode ser de natureza muito
variada, pois em todos os casos é um sofrimento de que está
isento aquele que sofre diante de nós: diz-nos respeito a nós tal
como o dele diz respeito a ele. Ora, só nos libertamos desse
sofrimento pessoal quando nos entregamos a atos de compaixão.
Todavia, nunca agimos assim por um só motivo: tão certo é que
queremos assim nos libertar de um sofrimento, como é certo
também que, pela mesma ação, cedemos a um impulso de prazer
— prazer provocado pelo aspecto de uma situação contrária à
nossa, à idéia de que podemos ajudar se o quisermos, ao
pensamento dos elogios e do reconhecimento que recolheremos no
caso de auxiliarmos; provocado pela própria atividade de ajudar,
na medida em que é o ato tenha êxito (e o sucesso causa
progressivamente prazer por si mesmo ao executor), mas
sobretudo provocado pelo sentimento de que nossa ação põe
termo a urna injustiça revoltante (dar livre curso à própria
indignação já é suficiente para reconfortar). Tudo isso, incluindo
elementos ainda mais sutis, faz parte da “compaixão”: — com que
peso a língua se lança, com esta palavra contra um organismo tão
complexo! — Que, pelo contrario, a compaixão seja uma só com o
sofrimento, cujo aspecto a suscita ou que tenha por esta uma
compreensão particularmente sutil e penetrante — são duas
afirmações em contradição com a experiência e aquele que
glorificou a compaixão sob esses dois aspectos carece de
experiência suficiente no domínio da moral. É por isso que levanto
dúvidas ao ler as coisas incríveis que Schopenhauer escreve sobre
a compaixão: ele que gostaria com isso nos levar a crer na grande
novidade de sua descoberta, segundo a qual a compaixão — essa
compaixão que observa tão imperfeitamente e que descreve tão
mal descrita — seria a fonte de toda ação moral presente e futura
— e justamente graças às atribuições que teve de começar a
inventar para ela. — O que é que distingue, no final das contas, os
homens sem compaixão dos homens compassivos? Antes de tudo
— para dar apenas um esboço em grandes linhas — eles não têm
a imaginação irritadiça do temor, a sutil faculdade de pressentir o
perigo; por isso é que sua vaidade é ferida menos depressa se
ocorrer alguma coisa que tivessem podido evitar (a precaução de
sua altivez lhes ordena que não se metam inutilmente nos
assuntos alheios, e gostam mesmo que cada um a começar por
eles se ajude a si próprio e jogue suas próprias cartas). Além
disso, estão geralmente mais habituados que os compassivos a
suportar a dor e não lhes parece injusto que outros sofram, pois
eles mesmos já sofreram. Enfim, o aspecto dos corações sensíveis
lhes causa pena, como o aspecto da estóica impassibilidade a
causa aos homens compassivos; não têm, para os corações
sensíveis, senão palavras desdenhosas e temem que seu espírito
viril e sua fria bravura estejam em perigo, escondem suas
lágrimas diante dos outros e as enxugam, irritados consigo
mesmos. Fazem parte de outro tipo de egoístas, diferentes dos
compassivos; — mas chamá-los maus num sentido distintivo e
bons os homens compassivos, isso não passa de uma moda moral
que faz época: precisamente como a moda contrária teve sua
época, uma época muito longa!
134. EM QUE MEDIDA É NECESSÁRIO PRECAVER-SE CONTRA A
COMPAIXÃO
A compaixão, por pouco que crie verdadeiramente sofrimento
— e isso deve ser aqui nosso único ponto de vista — é uma
fraqueza como todo abandono a uma afetividade nociva. Ela
aumenta o sofrimento no mundo: se, aqui ou acolá, em
conseqüência da compaixão, um sofrimento é indiretamente
atenuado ou suprimido, não deve ser permitido explorar essas
conseqüências ocasionais, totalmente insignificantes em seu
conjunto, para justificar as formas de compaixão que causam
dano. Suponhamos que essas formas predominem, mesmo que
fosse por um dia somente, impeliriam imediatamente a
humanidade para sua perdição. Por si mesma a compaixão não
possui um caráter mais beneficente que qualquer outro instinto: é
somente quando é exigida e elogiada — e isso acontece quando
não se compreende o que nela traz prejuízo, mas que nela se
descobre uma fonte de prazer — que ela reveste uma espécie de
boa consciência; é somente então que nos abandonamos a ela e
que não receamos suas conseqüências. Em outras circunstâncias,
em que se compreender que ela é perigosa, é considerada como
uma fraqueza: ou melhor, como era o caso para os gregos, como
um periódico acesso doentio, de cujos perigos podiam se prevenir,
dando-lhe livre curso de quando em vez. — Aquele que já fez a
experiência de procurar durante certo tempo as ocasiões de
compaixão em sua vida prática e que considera constantemente
em seu íntimo todo o infortúnio que se lhe oferece à sua volta,
torna-se inevitavelmente doente e melancólico. Mas aquele que
quer, num sentido ou em outro, servir de médico à humanidade
deveria usar de muita prudência em relação a este sentimento —
que o paralisa em todos os momentos decisivos, bloqueia seu
saber e sua mão hábil e compassiva.
135. SUSCITAR A COMPAIXÃO
Entre os selvagens, evoca-se com um arrepio moral a idéia
de que se possa ser objeto de compaixão: seria a prova de que se
está privado de toda virtude. Ter compaixão equivale a desprezar:
não se deseja ver um ser desprezível sofrer, isso não proporciona
qualquer prazer. Em compensação, ver um inimigo sofrer, inimigo
que se reconhece como igual em altivez e que não abandona sua
altivez sob tortura, e em geral ver sofrer todo ser que recusa fazer
apelo à compaixão, isto é, à humilhação mais vergonhosa e mais
profunda, esse é o prazer dos prazeres, com isso a alma do
selvagem se edifica até a admiração: acaba por matar semelhante
bravo, quando estiver em seu poder, e lhe rende, a esse inflexível,
as derradeiras honras. Se tivesse gemido, se seu rosto tivesse
perdido sua expressão de frio desdém, se ele se tivesse mostrado
digno de desprezo — pois bem, poderia continuar vivendo como
um cão — não teria mais excitado a altivez do espectador e a
compaixão teria tomado o lugar da admiração.
136. A FELICIDADE NA COMPAIXÃO
Se, como os índios, colocarmos o objetivo de toda atividade
intelectual no conhecimento da miséria humana e se, durante
várias gerações, nos mantivéssemos fiéis a esse espantoso
preceito, a compaixão acabaria por ter, aos olhos de semelhantes
homens do pessimismo hereditário, um valor novo como valor
conservador da vida, que ajuda a suportar a existência mesmo que
esta merecesse ser rejeitada com desgosto e horror. A compaixão
se torna o antídoto do suicida, na medida em que esconde um
prazer e faz provar, em pequenas dores, um sentimento de
superioridade: ela nos desvia de nós mesmos, faz o coração
transbordar, dissipa o medo e o entorpecimento, incita às
palavras, às queixas e às ações — é uma felicidade relativa se
comparada à miséria do conhecimento que, de todos os lados,
empurra o indivíduo para um sombrio impasse e lhe corta o
fôlego. A felicidade, qualquer que seja, dá ar, luz e movimentos
livres.
137. POR QUE DUPLICAR O “EU”?
Observar os acontecimentos de nossa vida com os mesmos
olhos com que observamos os acontecimentos da vida de outro —
tranqüiliza muito e é um remédio recomendável. Observar e
acolher, pelo contrário, os acontecimentos da vida dos outros
como se fossem os nossos — exigência de uma filosofia da
compaixão — isso nos destruirá totalmente em muito pouco
tempo; que se faça, pois, a experiência sem mais delongas.
Certamente, a primeira máxima é além disso mais conforme com a
razão e com uma boa vontade razoável, pois julgamos mais
objetivamente o valor e o sentido de um acontecimento quando
ocorre com os outros e não a nós: por exemplo, o valor de um
falecimento, de uma perda de dinheiro, de uma calúnia. A
compaixão como principio de ação com essa exigência: “sofre o
mal do outro como ele próprio o sofre”, levaria, pelo contrário,
forçosamente o ponto de vista do eu, com seu exagero e seus
desvios, a se tornar também o ponto de vista do outro, do
Compassivo: de tal maneira que teríamos de sofrer ao mesmo
tempo de nosso eu e do eu do outro, carregando-nos assim,
voluntariamente, de um duplo absurdo, em lugar de tornar o peso
do nosso tão leve quanto possível.
138. TORNAR-SE MAIS TERNO
Quando amamos, veneramos e admiramos alguém e
percebemos de repente que ele sofre — sempre com grande
surpresa, pois não podemos duvidar que a felicidade que dele se
expande sobre nós não tenha origem numa inesgotável felicidade
pessoal — nosso sentimento de amor, de veneração e de
admiração se transforma em sua essência: torna-se mais terno,
isto é, o fosso que nos separa parece se nivelar, parece produzir-se
certa aproximação de igual para igual. Só então julgamos possível
retribuir-lhe, enquanto que antes o imaginávamos bem longe de
nosso reconhecimento. Esta faculdade de retribuir nos comove e
nos dá um grande prazer. Procuramos descobrir o que poderia
acalmar a dor de nosso amigo e o damos a ele; se quiser palavras,
olhares, atenções, serviços, presentes consoladores — nós os
damos a ele; mas, antes de tudo, se ele desejar que soframos por
seu sofrimento, nós nos damos como sofredores, pois isso nos
proporciona antes de tudo as delícias do reconhecimento ativo: o
que não passa, numa palavra, de uma boa vingança. Se não quiser
aceitar e não aceita nada de nós, nos retiramos frios e tristes,
quase ofendidos: é como se nosso reconhecimento fosse recusado
— e, nesse ponto de honra, o melhor dos homens fica melindrado.
— De tudo isso se deve concluir que, mesmo no melhor dos casos,
há alguma coisa de degradante no sofrimento e, na compaixão,
alguma coisa que eleva e confere superioridade; o que separa
eternamente esses dois sentimentos.
139. PRETENSAMENTE SUPERIOR!
Vocês dizem que a moral da compaixão é uma moral
superior à do estoicismo? Provem-no! Mas notem bem que, sobre o
que é “superior” e “inferior” em moral, não se deve novamente
decidir segundo avaliações morais: pois não há moral absoluta.
Procurem, portanto, em outros lugares seus padrões — fiquem
atentos!
140. ELOGIO E RECRIMINAÇÃO
Se uma guerra tem um desenlace infeliz, pergunta-se de
quem é a “culpa”; se termina numa vitória, elogia-se o autor. Em
toda parte onde houver fracasso procuramos a culpa, pois o
insucesso traz consigo um descontentamento, contra o qual
empregamos involuntariamente um único remédio: uma nova
excitação do sentimento de poder — e esta se encontra na
condenação do “culpado”. Este culpado não é, como poderíamos
crer, o bode expiatório para a culpa dos outros: é a vitima dos
fracos, dos humilhados, dos rebaixados que procuram um meio
qualquer para provar que ainda têm força. Condenar-se a si
mesmo pode ser também um meio de recuperar, depois do
fracasso, um sentimento de força. — Inversamente a glorificação
do autor é muitas vezes o resultado totalmente cego de outro
instinto que exige sua vítima — e nesse caso, o sacrifício parece
mesmo agradável e sedutor para a vítima: — isso ocorre quando o
sentimento de poder de um povo, de uma sociedade, é culminado
por um sucesso tão grande e prodigioso que sobrevém uma fadiga
da vitória e abandonamos uma parte de nosso orgulho: surge
então um sentimento de abnegação que procura um objeto. —
Quer sejamos elogiados ou recriminados, somos geralmente
somente pretextos para nossos vizinhos e muitas vezes pretextos
arbitrariamente agarrados pelos cabelos, para dar livre curso às
necessidades de recriminação ou de elogio acumuladas neles: nos
dois casos, dispensamos-lhes um benefício para o qual nós não
temos mérito e eles não têm reconhecimento.
141. MAIS BELO, MAS DE MENOR VALOR
Moralidade pitoresca: é a moralidade dos sentimentos que se
elevam em linhas abruptas, atitudes e gestos patéticos, incisivos,
terríveis e solenes. Esse é o grau semi-selvagem da moralidade:
não nos deixemos tentar por seu encanto estético, para lhe
conferir um grau superior.
142. SIMPATIA
Se, para compreender nosso próximo, isto é, para reproduzir
seus sentimentos em nós, remontamos muitas vezes ao fundo de
seus sentimentos, determinados desta ou daquela maneira,
perguntando-nos, por exemplo: por que está triste? — a fim de nos
tornarmos tristes nós mesmos pela mesma razão — é muito mais
freqüente evitarmos agir assim e provocamos esses sentimentos
em nós segundo os efeitos que suscitam e são visíveis em nosso
próximo, reproduzindo em nosso corpo a expressão de seus olhos,
de sua voz, de seu andar, de sua altitude (pelo menos até uma
leve semelhança do jogo dos músculos e do enervamento) ou
mesmo o reflexo de tudo isso na palavra, na pintura, na música.
Então surge em nós um sentimento análogo, a partir de uma
velha associação de movimentos e de sentimentos que é levada a
agir nos dois sentidos. Levamos muito longe essa habilidade em
compreender os sentimentos dos outros e em presença de alguém
exercemos sempre e quase involuntariamente essa habilidade:
observe-se sobretudo o jogo dos traços num rosto feminino, como
freme e se ilumina inteiramente sob o domínio de uma constante
imitação, reproduzindo incessantemente os sentimentos que se
agitam em torno dele. Mas é a música que nos mostra mais
claramente como nos tornamos mestres na adivinhação rápida e
sutil dos sentimentos e na simpatia: pelo menos se a música é
efetivamente a imitação de uma imitação de sentimentos e se,
apesar do que haja nisso de distante e vago, nos faz muitas vezes
participar ainda desses sentimentos, de modo que nos tornamos
tristes sem ter o menor motivo para tristeza, como fazem os
loucos, simplesmente porque ouvimos sons e ritmos que lembram
vagamente a entonação e o movimento daqueles que estão de luto
ou mesmo seus costumes. Conta-se de um rei dinamarquês que
ficou enlevado com a música de um menestrel e ficou possuído de
tal entusiasmo guerreiro que se precipitou do trono e matou cinco
pessoas de sua corte reunida em torno dele: não havia guerra nem
inimigos, muito pelo contrário, mas a força que remonta do
sentimento à causa foi suficientemente grande para vencer a
evidência e a razão. Ora, esse é quase sempre o efeito da música
(supondo, é claro, que ela tenha um efeito —) e não se tem
necessidade de casos tão paradoxais para se dar conta disso: o
estado sentimental em que a música nos mergulha está quase
sempre em contradição com a evidência de nossa situação real e
da razão que reconhece essa situação real e suas causas. — Se
perguntarmos como se tornou tão corrente a representação dos
sentimentos alheios, a resposta não deixa qualquer dúvida: uma
vez que o homem é a criatura mais receosa de todas, graças à sua
natureza delicada e frágil, encontrou em sua disposição receosa a
iniciadora dessa simpatia, dessa rápida compreensão dos
sentimentos dos outros (mesmo dos animais). Durante milênios
viu um perigo em tudo o que era estranho, em tudo o que se
agitava: desde que semelhante espetáculo se oferecia a seus olhos,
imitava os traços e a atitude daquilo que via diante dele e tirava
suas conclusões sobre a natureza das más intenções escondidas
por trás desses traços e dessa atitude. Essa interpretação de todos
os movimentos e de todos os traços em função de intenções, o
homem a aplicou à natureza das coisas inanimadas — levado
como estava pela ilusão de que não existia nada de inanimado.
Penso que tudo aquilo que chamamos sentimento da natureza e
que nos toca ao aspecto do céu, dos campos, dos rochedos, da
floresta, das tempestades, das estrelas, dos mares, das paisagens,
da primavera, encontra aqui sua origem. Sem a velha prática do
temor que nos forçava a ver tudo isso sob um sentido secundário e
distante, estaríamos privados hoje das alegrias da natureza,
precisamente como o homem e os animais nos deixariam sem
prazer, se não tivéssemos tido essa iniciadora de toda
compreensão, o temor. Por outro lado, a alegria e a agradável
surpresa e, enfim, o sentimento do ridículo, são os filhos da
simpatia, os últimos filhos e os irmãos muito mais jovens do
temor. — A faculdade de compreensão rápida — que se baseia,
portanto, na faculdade de simular rapidamente — diminui nos
homens e nos povos altivos e soberanos, pois são menos
temerosos: em compensação, todas as variedades de compreensão
e de simulação são familiares aos povos temerosos; ali ainda se
encontra a verdadeira pátria das artes de imitação e da
inteligência superior. — Se, a partir dessa teoria da simpatia como
a proponho aqui, penso na teoria, hoje gozando de favor e
consagrada, de um processo místico, por meio do qual a
compaixão, de dois seres, faz um só e torna possível a um a
compreensão imediata do outro: se recordo que um espírito tão
lúcido como o de Schopenhauer se deliciava com semelhantes
inutilidades exaltadas e miseráveis e que transmitiu esse prazer a
outros espíritos lúcidos ou semi-lúcidos: minha estupefação e
minha tristeza não têm limites. Como deve ser grande o prazer que
nos proporcionam as incompreensíveis tolices! Como o homem se
encontra ainda perto da insensatez ao auscultar seus secretos
desejos intelectuais! — (Por que razão se sentia Schopenhauer tão
cheio de reconhecimento para com Kant, tão profundamente
agradecido? Uma vez o revelou sem equívocos. Alguém havia
falado da forma pela qual a qualitas occulta10 podia ser retirada do
imperativo categórico de Kant para torná-lo inteligível. Aí
Schopenhauer explodiu: “Inteligibilidade do imperativo categórico!
Idéia profundamente errônea! Trevas do Egito! Deus nos livre de
que se torne inteligível Que existe justamente algo de ininteligível,
que nosso miserável juízo com seus conceitos seja limitado,
condicionado, finito, enganador: é essa certeza que é a grande
aquisição de Kant.” — Deixo pensar, se alguém tiver a boa vontade
de conhecer as coisas morais, quando antecipadamente se exalta
com a crença em sua inteligibilidade! Alguém que ainda creia
lealmente nas iluminações do alto, na magia e nas aparições e na
feiúra metafísica do sapo!)
143. AI DE NÓS SE ESSA TENDÊNCIA SE DESENCADEIA!
Supondo que a tendência ao devotamento e à solicitude para
com os outros (“o sentimento de simpatia”) seja duas vezes mais
forte do que realmente é, a permanência na terra se tornaria
intolerável. Que se pense somente nas tolices que cada um comete
todos os dias e a todo momento por devotamento e por solicitude
para consigo mesmo e que insuportável espetáculo então se
oferece: que aconteceria se nos tornássemos para os outros o
objeto dessas tolices e dessas inoportunidades que até agora se
reservaram unicamente para si próprios! Não deveríamos então
partir cegamente em fuga, sempre que um “próximo se
aproximasse” de nós? E não haveríamos de cobrir a afeição de
simpatia com as mesmas palavras injuriosas com que cobrimos
hoje o egoísmo?
144. DISTANCIAR-SE DA MISÉRIA DOS OUTROS
Se nos deixarmos acabrunhar pela miséria e pelos
sofrimentos dos outros mortais e cobrirmos de nuvens nosso céu,
quem suportará as conseqüências desse ensombramento?
Certamente os outros mortais e este será um peso a acrescentar a
suas outras cargas! Não podemos ser para eles nem compassivos,
nem reconfortantes, se quisermos ser o eco de sua miséria e
também se quisermos sem cessar dar ouvidos a essa miséria — a
menos que aprendamos a arte dos olímpicos e que procuremos
doravante edificar-nos com a infelicidade dos homens em vez de
sermos infelizes com ela. Mas isso é um tanto demasiado olímpico
para nós: embora, com a fruição da tragédia, já tenhamos dado
um passo à frente em direção a esse canibalismo ideal dos deuses.
145. “NÃO EGOÍSTA”
Este está vazio e gostaria de estar cheio, aquele está cheio e
gostaria de se esvaziar — ambos se sentem impelidos a procurar
um indivíduo que possa ajudá-los nisso. E esse fenômeno,
interpretado num sentido superior, leva nos dois casos o mesmo
nome: Amor. — Como? O amor seria alguma coisa de não egoísta?
146. OLHAR PARA ALÉM DO PRÓXIMO
Como? A essência daquilo que é verdadeiramente moral
consistiria, para nós, em ter sempre à vista as conseqüências
próximas e imediatas que podem ter nossas ações para os outros e
em tomar decisões segundo essas conseqüências? Esta não passa
de uma moral estreita de pequenos burgueses, embora ainda
chegue a ser uma moral: mas me parece que seria próprio de um
pensamento superior e mais sutil olhar para além dessas
conseqüências imediatas para o próximo, a fim de promover
objetivos mais distantes, mesmo com o risco de fazer sofrer os
outros — por exemplo, promover o conhecimento, mesmo a
despeito da certeza de que nossa liberdade de espírito lançará logo
os outros na dúvida, na angústia e em algo pior ainda. Não temos
o direito de tratar o próximo pelo menos da mesma maneira como
nos tratamos a nós mesmos? E se não pensamos para nós
mesmos de uma maneira tão estreita e pequeno-burguesa nas
conseqüências e nos sofrimentos imediatos, por que seriamos
forçados a agir assim para nosso próximo? Supondo que
tenhamos para nós mesmos o sentido do sacrifício: o que nos
impediria de sacrificar o próximo conosco? — como fizeram até
agora os Estados e os soberanos, sacrificando um cidadão em
proveito dos outros, “para o interesse geral”, como se dizia. Mas
também nós temos interesses gerais e talvez sejam interesses mais
gerais ainda: por que não deveríamos ter o direito de sacrificar
alguns indivíduos da geração atual em favor das gerações futuras?
De modo que suas dificuldades, suas inquietudes, seus
desesperos, seus erros e suas hesitações fossem julgadas
necessárias, porque um novo arado deve abrir o solo e torná-lo
fecundo para todos? — E finalmente, comunicamos ao próximo
um sentimento que o leva a se considerar como vítima e o
persuadimos a aceitar a tarefa para a qual o utilizamos. Somos,
portanto, sem compaixão? Se, entretanto, para além de nossa
compaixão, quisermos obter uma vitória sobre nós mesmos, não
seria essa uma atitude moral mais elevada e mais livre que aquela
em que nos sentimos ao abrigo quando descobrimos que uma
ação faz bem ou mal ao próximo? De fato, pelo sacrifício — em nos
incluímos, nós e nosso próximo — fortaleceríamos e elevaríamos o
sentimento geral do poder humano, supondo mesmo que não
conseguíssemos nada mais. Mas isso já seria um aumento positivo
da felicidade. — no final das contas, se isso fosse mesmo... mas
nenhuma palavra mais! Um olhar basta, vocês me
compreenderam.
147. CAUSA DO “ALTRUÍSMO”
Os homens têm em suma falado do amor com tanta ênfase e
idolatria porque nunca o tiveram em demasia e porque nunca
podiam ficar saciados com esse alimento: é assim que acaba por
se tornar para eles “alimento divino”. Se um poeta quisesse
mostrar a imagem realizada da utopia do amor universal dos
homens, certamente deveria descrever um estado atroz e ridículo
de que nunca se viu igual na terra — cada um seria assediado,
importunado, e desejado, não por um só ser amante, como isso
acontece hoje, mas por milhares e mesmo por todos, graças a uma
tendência irresistível que será insultado então, que será
amaldiçoado como o fez a humanidade antiga com o egoísmo; e os
poetas dessa nova época, se lhes deixarem o tempo para compor
obras, sonharão apenas com o feliz passado sem amor, com o
divino egoísmo, com a solidão que outrora ainda era possível na
terra, com a tranqüilidade, com o estado de antipatia, de ódio, de
desprezo e quaisquer que sejam os nomes que se quiser dar à
infâmia da cara animalidade em que nós vivemos.
148. OLHAR PARA O LONGE
Se só são chamadas morais, como o quer uma definição, as
ações feitas por causa do próximo e unicamente por causa do
próximo, então não há ações morais! Se só são morais, como o
quer outra definição, as ações realizadas sob a influência de uma
vontade livre, então não há igualmente ações morais! — O que é,
pois, que se chama assim e que, no entanto, existe realmente e
exige, por conseguinte, ser explicado? São os efeitos de alguns
equívocos intelectuais. — E, supondo que nos livrássemos desses
erros, que se tornariam as “ações morais”? — Em virtude desses
erros, até agora concedemos a algumas ações um valor superior
ao que possuem realmente: nós as dividimos em ações “egoístas” e
ações “não-livres”. Se agora as juntamos novamente a estas, como
devemos fazer, diminuímos certamente seu valor (o sentimento de
seu valor), rebaixando-as mais do que é justo, pois as ações
“egoístas” e “não-livres” foram avaliadas muito baixo até hoje, por
causa dessa pretensa diferença íntima e profunda. — Serão,
portanto, desde então, realizadas menos frequentemente,
porquanto, desde então serão avaliadas de valor menor? — É
inevitável! Pelo menos por certo tempo, enquanto a balança do
sentimento dos valores sofrer a reação das faltas antigas! Mas em
contrapartida daremos aos homens a coragem para as ações
depreciadas como egoístas e restabeleceremos assim seu valor —
nós lhes tiraremos a má consciência! E como até hoje as ações
egoístas foram as mais freqüentes e ainda o serão por toda a
eternidade, tiraremos da imagem das ações e da vida sua
aparência má! Esse é um resultado superior! Quando o homem
não mais se considerar mau, deixará de sê-lo!
1 Expressão latina que significa “ó vergonhosa origem” (NT).
2 François, duque de La Rochefoucauld (1613-1680), escritor francês, autor de
Reflexões ou sentenças e máximas morais, um dos livros preferidos de
Nietzsche e mais citados em seus escritos (NT).
3 George Gordon, dito Lord Byron (1788-1824), poeta inglês; Napoleão
Bonaparte (1769-1851), militar e político francês, dominou a cena política da
França e da Europa de 1795 a 1814, inclusive como imperador dos
franceses (NT).
4 Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão (NT).
5 Na mitologia grega, deusa que presidia os infernos, rainha dos infernos (NT).
6 Epicteto (50-130), filósofo grego, fundador do estoicismo (NT).
7 François Marie Arouet, dito Voltaire (1694-1778), escritor e filósofo francês;
dentre suas obras, Cartas filosóficas, Cândido ou o otimismo, O ingênuo,
Zadig ou o destino, A princesa de Babilônia, Tratado sobre a tolerância já
foram publicadas nesta coleção da Editora Escala; Auguste Comte (1798-
1857), filósofo francês, fundador do positivismo; dentre suas obras,
Reorganizar a sociedade e Discurso sobre o espírito positivo já foram
publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
8 Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão; John Stuart Mill (1806-
1873), filósofo e economista inglês; dentre suas obras, A sujeição das
mulheres, Ensaio sobre a liberdade e O governo representativo já foram
publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
9 Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão; dentre suas obras, A religião
nos limites da simples razão e Crítica da razão prática já foram publicadas
nesta coleção da Editora Escala (NT).
10 Expressão latina que significa “qualidade oculta” (NT).
LIVRO TERCEIRO
149. PEQUENAS AÇÕES DIVERGENTES SÃO NECESSÁRIAS!
Em questões de costumes, agir uma única vez que seja ao
encontro daquilo que reputamos preferível; ceder aqui, na prática,
conservando, contudo, a liberdade intelectual; comportar-se como
todos e manifestar assim, a todos, uma amabilidade e uma
bondade para compensá-los de alguma forma das divergências de
nossas opiniões: — tudo isso é considerado, entre os homens um
pouco independentes, não somente como admissível, mas também
como “honesto”, “humano”, “tolerante”, “nada pedante” e
quaisquer que sejam os termos que se usa para adormecer a
consciência intelectual: e é assim que um tal faz batizar
cristãmente seu filho apesar de ser ateu, outro cumpre seu serviço
militar como todos, embora condene severamente o ódio entre os
povos, e um terceiro se apresenta à igreja com uma mulher porque
ela é de piedosa família e faz promessas diante de um padre sem
sentir vergonha de sua inconseqüência. “Isso não tem importância
se algum de nós faz o que todos fazem e sempre fizeram” — assim
fala o preconceito grosseiro! E o erro grosseiro! Pois nada é mais
importante que confirmar uma vez mais o que já é poderoso,
tradicional e reconhecido sem razão, pelo ato de alguém
reconhecidamente sensato: é assim que se confere a essa coisa,
aos olhos de todos aqueles que dela ouvem falar, a sanção da
própria razão! Mil respeitos por suas opiniões! Mas pequenas
ações divergentes têm mais valor!
150. O ACASO DOS CASAMENTOS
Se eu fosse um deus e um deus benevolente, nada
provocaria mais minha impaciência que os casamentos dos
homens. Um indivíduo pode progredir muito nos setenta ou
mesmo trinta anos de sua vida — isso é realmente surpreendente,
mesmo para os deuses! Mas se virmos então como emprega a
herança e os legados dessa luta e dessa vitória, os louros de sua
humanidade, no primeiro local em que chega, onde uma jovem
pode recolhê-los; se virmos como se dedica bem a ganhar e mal a
conservar, como está longe de imaginar que poderá, pela
procriação, preparar uma vida ainda mais vitoriosa: então ficamos
impacientes e dizemos: “A longo prazo, a humanidade não pode
chegar a lugar algum, os indivíduos são desperdiçados, o acaso
dos casamentos torna impossível qualquer razão de um grande
progresso da humanidade; — deixemos de ser os espectadores
assíduos e os tolos desse espetáculo sem fim!” — Nessa disposição
de espírito, os deuses de Epicuro se retiraram outrora para sua
tranqüilidade e sua beatitude divina: estavam cansados dos
homens e de suas intrigas amorosas.
151. HÁ AQUI UM NOVO IDEAL A INVENTAR
Não devia ser permitido, quando estamos apaixonados,
tomar uma decisão que comprometa para a vida e fixar uma vez
por todas, por causa de um capricho violento, o caráter da
sociedade em que vivemos: dever-se-ia declarar publicamente sem
valor os juramentos dos apaixonados e impedi-los de se casar: — e
isso porque se deveria conferir ao casamento uma importância
muito maior! De modo que, nos casos em que até o presente era
concluído, não se concluiria mais! A maior parte dos casamentos
não é feita de tal modo que não se deseja por testemunha uma
terceira pessoa? E essa terceira pessoa geralmente não falta — é o
filho — ele é mais que testemunha, é o bode expiatório!
152. FÓRMULA DE JURAMENTO
“Se minto agora, não sou mais um homem honesto e todos
devem ter o direito de me dizê-lo na cara.” — Recomendo esta
fórmula em lugar do juramento jurídico e da usual invocação a
Deus: ela é mais forte. O próprio homem piedoso não tem qualquer
razão para recusá-la: de fato, desde que o juramento habitual não
serve mais de modo suficiente, é necessário que o homem piedoso
escute seu Catecismo que lhe prescreve: “Não invocarás em vão o
nome do Senhor, de Deus!”
153. UM DESCONTENTE
É um desses velhos descontentes: irrita-se contra a
civilização porque pensa que ela visa a tornar acessíveis todas as
coisas boas — honrarias, tesouros, belas mulheres — aos
covardes como aos bravos.
154. CONSOLAÇÕES NOS PERIGOS
Os gregos, numa vida em que os graves perigos e os
cataclismas estavam sempre próximos, procuravam na meditação
e no conhecimento uma espécie de segurança emocional e um
último refugio. Nós que vivemos numa quietude
incomparavelmente maior, levamos o perigo para a meditação e
para o conhecimento, e é na vida que nos repousamos e nos
acalmamos ante esse perigo.
155. CETICISMO EXTINTO
Os empreendimentos arriscados são mais raros nos tempos
modernos que na antiguidade e na Idade Média — provavelmente
porque os tempos modernos deixaram de acreditar nos presságios,
nos oráculos, nos astros e nos adivinhos. Isso significa que nos
tornamos incapazes de acreditar num futuro que nos é reservado,
como o faziam os antigos que — ao contrário de nós — eram muito
menos céticos em relação ao que vinha acontecendo do que ao que
já existia.
156. MAU POR ORGULHO...
“Uma vez que não nos sentimos realmente muito bem!” —
esse era o temor secreto dos gregos da bela época. É por isso que
pregavam a moderação! E nós também!
157. CULTO DA “VOZ DA NATUREZA”
Que significado tem o fato de nossa cultura não só dar
provas de tolerância com relação às manifestações de dor, com
relação às lágrimas, às queixas, às recriminações, às atitudes de
raiva ou de humildade, como também o fato de lhes dar sua
aprovação e incluí-las entre as coisas nobres e inevitáveis? —
enquanto o espírito da filosofia antiga as considerava com desdém
e não lhes reconhecia necessidade alguma? Lembremo-nos, pois,
da maneira como Platão — que não era um dos filósofos mais
desumanos — fala do Filocteto da cena trágica. Nossa civilização
moderna teria falta talvez de “filosofia”? Segundo a avaliação
desses antigos filósofos, todos nós faríamos parte talvez da
“plebe”?
158. CLIMA DO BAJULADOR
Atualmente já não é necessário procurar os bajuladores sem
escrúpulos nas rodas dos príncipes — estes últimos possuem
todos o espírito militar que não tolera o bajulador. Mas essa flor
desabrocha agora nas rodas dos banqueiros e dos artistas.
159. OS EVOCADORES DOS MORTOS
Certos homens vaidosos preferem um fragmento do passado
a partir do momento em que podem revivê-lo sentimentalmente
(sobretudo se isso é difícil), gostariam mesmo, na necessidade, de
fazê-lo ressuscitar dentre os mortos. Uma vez que o número dos
vaidosos é sempre considerável, o perigo dos estudos históricos
não é realmente dos menores, sempre que são aplicados a toda
uma época: desperdiçamos então demasiada força para todas as
ressurreições imagináveis. Talvez se poderá compreender melhor
todo o movimento do romantismo partindo desse ponto de vista.
160. VAIDOSO, ÁVIDO E POUCO SÁBIO
Seus desejos são maiores que sua razão e sua vaidade é
ainda maior que seus desejos — a homens de sua espécie é
conveniente recomendar fundamentalmente muita prática cristã e,
além disso, um pouco de teoria schopenhaueriana!
161. BELEZA ADEQUADA À ÉPOCA
Se nossos escultores, nossos pintores e nossos músicos
quisessem exprimir o sentido de sua época, deveriam mostrar a
beleza empolada, gigantesca e nervosa: precisamente como os
gregos, sob o domínio de sua moral da moderação, viam e
representavam a beleza no Apolo de Belvedere. Nós deveríamos,
em suma, achá-lo feio! Mas os “classicistas” pedantes nos tiraram
toda a lealdade!
162. A IRONIA DOS HOMENS DE HOJE
Está atualmente em moda entre os europeus tratar todos os
grandes interesses com ironia, porque, à força de nos atarefarmos
a seu serviço, não temos tempo para levá-los a sério.
163. CONTRA ROUSSEAU1
Se é verdade que nossa civilização é, por si mesma, algo de
deplorável, vocês têm a possibilidade de prosseguir com suas
conclusões com Rousseau: “Esta civilização deplorável é causa de
nossa má moralidade”, ou de concluir invertendo a fórmula de
Rousseau: “Nossa boa moralidade é causa desta deplorável
civilização. Nossos conceitos sociais do bem e do mal, fracos e
efeminados, sua desmesurada preponderância sobre o corpo e a
alma, acabaram por enfraquecer todos os corpos e todas as almas
e por alquebrar os homens independentes, autônomos, sem
preconceitos, os verdadeiros pilares de uma civilização forte: em
toda parte onde ainda hoje encontramos a má moralidade, vemos
as últimas ruínas desses pilares.” Há, portanto, paradoxo contra
paradoxo! A verdade não pode estar, a qualquer preço, dos dois
lados: estará ela em geral de um lado ou de outro? Convém
examinar!
164. TALVEZ PREMATURO
Parece que atualmente, sob diferentes nomes equivocados
que induzem em erro e, na maioria das vezes, com grande falta de
clareza, aqueles que não se sentem ligados aos costumes e às leis
estabelecidas fazem as primeiras tentativas para se organizar e
para se criar assim um direito: enquanto até agora todos os
criminosos, os livres pensadores, todos os homens imorais e
celerados viviam desacreditados e fora da lei, perecendo sob o
peso da má consciência. Em suma, se deveria aprovar isso e achálo
bom, mesmo que torne perigoso o século futuro e obrigue cada
um de nós a pôr as armas às costas: — mesmo que fosse somente
para houvesse uma força de oposição que relembre sempre que
não há moral absoluta e exclusiva e que toda moralidade que se
afirma à exclusão de qualquer outra destrói muita força viva e
custa muito caro à humanidade. Os divergentes, que são tão
freqüentemente indivíduos inventivos e fecundos, não devem mais
ser sacrificados; não se deve mais considerar como vergonhoso
afastar-se da moral em ações e pensamentos; deve-se fazer
numerosas tentativas novas de existência e de comunidade; é
necessário que um peso enorme de má consciência seja suprimido
do mundo — é necessário que esses objetivos gerais sejam
reconhecidos e implementados por todas as pessoas leais que
procuram a verdade!
165. A MORAL QUE NÃO ABORRECE
Os principais mandamentos que um povo procura
constantemente para que sejam ensinados e pregados se
relacionam com seus principais deslizes e é por isso que não os
considera aborrecedores. Os gregos, que perdiam tão
freqüentemente a moderação, o sangue-frio, o sentido da justiça e
em geral a sabedoria, davam ouvidos às quatro virtudes socráticas
— pois delas tanto precisavam, uma vez que justamente a elas tão
pouco se devotavam!
166. NA ENCRUZILHADA
Que vergonha! Vocês querem entrar num sistema em que é
necessário ser uma engrenagem, plena e totalmente, sob pena de
ser esmagado por essa engrenagem! Disso decorre evidentemente
que cada um é o que seus superiores fazem dele! Onde a caça às
“relações” faz parte dos deveres naturais! Onde ninguém se sente
ofendido quando o tornam atencioso para com alguém,
observando que “pode lhe ser útil”! Onde ninguém tem vergonha
de fazer uma visita para solicitar a intercessão de alguém! Onde
ninguém suspeita sequer que, por uma subordinação tão
intencional a semelhantes costumes, se classifica, de uma vez por
todas, entre as vis vasilhas da natureza que os outros podem
utilizar e quebrar à vontade, sem experimentar com isso um grave
sentimento de responsabilidade, como se se quisesse dizer: “Gente
de minha espécie nunca haverá de faltar: sirvam-se, portanto, de
mim, sem cerimônia!”
167. AS HOMENAGENS INCONDICIONAIS
Quando penso no filósofo alemão mais lido, no músico
alemão mais ouvido, no homem de Estado alemão mais
considerado, sou obrigado a confessar: se atualmente se toma a
vida muito dura para os alemães, esse povo dos sentimentos
absolutos, isso é devido a seus grandes homens. Nos três casos, o
espetáculo é esplêndido para contemplar: é cada vez um rio, tão
poderosamente agitado no leito que ele próprio cavou, que se
poderia muitas vezes acreditar que quer escalar a montanha. E,
no entanto, por mais longe que seja levada a admiração, quem não
gostaria de ser, no final das contas, de outro estilo que o de
Schopenhauer2! E quem gostaria de compartilhar agora, nas
grandes e nas pequenas coisas, as opiniões de Wagner3? — por
mais justa que possa ser a observação daquele que disse que,
sempre que Wagner dá ou toma um impulso, um problema está
escondido — vamos adiante, não é ele que vai trazê-lo à luz. — E,
finalmente, quantos não haveria que gostariam, de todo o coração,
estar de acordo com Bismarck4, com a condição que ele estivesse
de acordo consigo mesmo ou que pelo menos aparentasse sê-lo
doravante! Certamente: não há princípios, mas instintos, um
espírito flexível a serviço de violentos instintos dominantes e por
isso sem princípios — isso não deveria ser nada surpreendente
num homem de Estado, mas deveria antes ser considerado como
justo e normal. Ai! isso foi até agora tão pouco alemão! Tão pouco
como o ruído em torno da música, as dissonâncias e o mau humor
em torno do músico! Tão pouco como a nova e extraordinária
posição escolhida por Schopenhauer: nem acima das coisas, nem
de joelhos diante delas — nos dois casos, isso teria sido ainda
alemão — mas contra as coisas! Incrível e desagradável! Colocar-se
no mesmo nível das coisas, mas ser, apesar disso, seu adversário
e, no final das contas, o adversário de si próprio! — Que deve fazer
o admirador incondicional com semelhante modelo? E sobretudo
de três desses modelos que nem mesmo mostram o desejo de estar
em paz entre si! Aí está Schopenhauer, adversário da música de
Wagner, e Wagner, adversário da política de Bismarck, e
Bismarck, adversário de todo wagnerismo e de todo
schopenhauerismo! Que resta fazer? Onde se refugiar com sua
sede de “veneração em bloco”? Seria possível talvez escolher na
música do compositor algumas centenas de boas medidas que
toquem o coração e que se goste de ter no coração porque têm
coração — seria possível ir embora com esse pequeno espólio e
esquecer todo o resto? E procurar semelhante arranjo com o
filósofo e com o homem de Estado — escolher, guardar no coração
e, sobretudo, esquecer o resto? Sim, se não fosse tão difícil
esquecer! Era uma vez um homem muito orgulhoso que, a
nenhum preço, queria aceitar nada que não fosse de si próprio,
tanto no bem como no mal: mas quando teve necessidades do
esquecimento, não pôde dá-lo a si próprio e foi forçado a conjurar
os espíritos por três vezes; eles vieram, ouviram seu pedido e
disseram no fim: “E justamente a única coisa que não está em
nosso poder!” Os alemães não deveriam tirar proveito da
experiência de Manfredo? Para que conjurar primeiro os espíritos!
É inútil, não se esquece quando se quer esquecer. E como seria
importante “o resto” para esses três grandes homens de nosso
tempo, a fim de poder permanecer seu admirador em bloco! Seria,
portanto, preferível aproveitar a ocasião para tentar algo de novo:
quero dizer, progredir na lealdade para consigo mesmo e tornar-se,
em vez de um povo que repete de uma forma crédula e que odeia
maldosa e cegamente, um povo de aprovação condicional e de
oposição benevolente; mas aprender antes de tudo que as
homenagens incondicionais para com as pessoas são algo de
ridículo, que mudar de opinião a respeito não seria desonroso,
mesmo para os alemães, e que existe uma máxima profunda,
digna de ser seguida: “O que importa não são as pessoas, mas as
coisas.” Esta máxima é, como aquele que a pronunciou, grande,
honesta, simples e silenciosa — assim como Carnot5, soldado e
republicano. — Mas pode-se agora falar assim de um francês a
alemães, e mais ainda de um republicano? Talvez não e talvez não
se tenha até mesmo o direito de lembrar o que Niebuhr6 pôde dizer
outrora aos alemães: que ninguém como Carnot lhe tinha dado a
impressão da verdadeira grandeza.
168. UM MODELO
De que é que gosto em Tucídides7, que é que faz com que eu
o estime mais que Platão8? Ele tem o prazer mais amplo e mais
livre de preconceitos com tudo o que há de típico no homem e nos
acontecimentos e acha que a cada tipo corresponde certa
quantidade de bom senso: é esse bom senso que ele tenta
descobrir. Possui uma maior justiça prática que Platão; não
calunia nem rebaixa os homens que não lhe agradam ou que lhe
causaram dano na vida. Pelo contrário: acrescenta e introduz algo
de grande em todas as coisas e em todas as pessoas, vendo em
toda parte apenas tipos; com efeito, que importa à posteridade, à
qual ele dedica sua obra, o que não é típico! É assim que essa
cultura do mais livre conhecimento do mundo chega nele, o
pensador-homem, a um florescimento maravilhoso, essa cultura
que tem em Sófocles9 seu poeta, em Péricles10 seu homem de
Estado, em Hipócrates11 seu médico, em Demócrito12 seu sábio
naturalista: essa cultura que merece ser batizada com o nome de
seus mestres, os sofistas, e que infelizmente, desde o momento de
seu batismo, começa a se tornar de repente pálida e inacessível
para nós — porque desde logo suspeitamos que essa cultura, por
ter sido combatida por Platão e por todas as escolas socráticas,
devia ser bem imoral! A verdade é tão complicada e enredada que
nos repugna desenroscá-la: que o velho erro (error veritate
simplicior13) siga pois seu velho caminho!
169. O GÊNIO GREGO NOS É MUITO ESTRANHO
Oriental ou moderno, asiático ou europeu: comparado ao
grego, tudo isso se caracteriza pelo tamanho e pelo gosto das
grandes massas, como linguagem do sublime, enquanto que em
Paestum14, em Pompéia e em Atenas nos surpreendemos, diante
da arquitetura grega, ao ver até que ponto, com quais pequenas
massas, os gregos sabiam e gostavam de exprimir coisas
sublimes. — De igual modo, como na Grécia os homens eram
simples na idéia que de si mesmos se faziam! Como os
ultrapassamos no conhecimento dos homens! Como parecem
cheias de labirintos nossas almas e nossas representações da
alma, em comparação com as deles! Se quiséssemos tentar uma
arquitetura conforme à natureza de nossa alma (somos demasiado
frouxos para isso): — o labirinto deveria ser nosso modelo! A
música que nos é própria e que nos exprime verdadeiramente já
permite adivinhar o labirinto (pois, na música os homens se
deixam levar porque imaginam que não há ninguém capaz de vêlos
através de sua música).
170. OUTRAS PERSPECTIVAS DO SENTIMENTO
Que significa a nossa tagarelice sobre os gregos? Que
entendemos, pois, de sua arte, cuja alma é a paixão pela beleza
viril nua! — É só a partir daí que eles tinham o sentimento da
beleza feminina. Tinham, portanto, para esta, uma perspectiva
bem diferente da nossa. Ocorria o mesmo com seu amor pela
mulher: veneravam de outra forma, desprezavam de outro modo.
171. A ALIMENTAÇÃO DO HOMEM MODERNO
O homem moderno se dedica a digerir muitas coisas e
mesmo a digerir quase tudo — essa é a vaidade típica dele: mas
seria de uma espécie superior se, justamente, não se dedicasse a
isso: o homo pamphagus15 não é o que há de mais refinado. Nós
vivemos entre um passado, que tinha um gosto mais delirante e
bizarro que o nosso, e um futuro, que talvez terá um gosto mais
seleto — vivemos demasiadamente no meio-termo.
172. TRAGÉDIA E MÚSICA
Os homens de uma disposição de espírito guerreira, como os
gregos da época de Ésquilo16, são difíceis de comover e quando a
compaixão triunfa uma vez sobre sua dureza, uma espécie de
vertigem se apodera deles, semelhante a uma “força demoníaca” —
eles se sentem então constrangidos e abalados por uma emoção
religiosa. A seguir, experimentam uma reticência em relação a
esse estado; enquanto estão mergulhados nele, usufruem do
êxtase que lhes proporciona a embriaguez e o maravilhoso,
mesclado ao absinto mais amargo do sofrimento: essa é
verdadeiramente uma bebida para os guerreiros, algo raro,
perigoso, doce e amargo que não se partilha facilmente. — A
tragédia se dirige às almas que sentem desse modo a compaixão,
às almas duras e guerreiras que dificilmente vencemos, seja pelo
temor, seja pela compaixão, mas para as quais é útil ser
abrandadas de tempos em tempos. Mas que pode dar a tragédia
àqueles que estão abertos aos “sentimentos simpáticos” como a
vela o está ao vento? Quando os atenienses se tornaram mais
ternos e mais sensíveis, na época de Platão — ah! como estavam
ainda longe da falsa sensibilidade dos habitantes de nossas
grandes e de nossas pequenas cidades! — os filósofos já se
queixavam, contudo, do caráter nocivo da tragédia. Uma época
cheia de perigos, como aquela que começa neste momento, em que
a bravura e a virilidade aumentam de preço, talvez torne
lentamente as almas bastante duras, para que poetas trágicos
lhes sejam necessários: mas, entrementes, estes são antes
supérfluos — para utilizar o termo mais moderado. — Talvez
chegue assim para a música uma época melhor (será certamente
mais maldosa!), aquela em que os artistas músicos tiverem de se
dirigir a homens rigorosamente pessoais, duros em si mesmos,
dominados pela seriedade sombria de sua paixão própria: mas que
pode trazer a música a essas almazinhas de hoje, nascidas com
uma idade feita, excessivamente agitadas, de crescimento
imperfeito, pessoais pela metade, curiosas e ávidas de tudo?
173. OS APOLOGISTAS DO TRABALHO
Na glorificação do “trabalho”, nos infatigáveis discursos
sobre a “bênção do trabalho”, vejo a mesma segunda intenção que
nos elogios dos atos impessoais e de interesse geral: o temor de
tudo o que é individual. Agora nos damos realmente conta,
perante o trabalho — isto é, dessa dura atividade da manhã à
noite — que essa é a melhor polícia, pois ela mantém cada um
com rédeas curtas e se empenha vigorosamente a evitar o
desenvolvimento da razão, dos desejos, do gosto da
independência. De fato, o trabalho usa a força nervosa em
proporções extraordinárias e a subtrai à reflexão, à meditação, aos
sonhos, aos desejos, ao amor e ao ódio, coloca sempre diante dos
olhos um objetivo mesquinho e assegura satisfações fáceis e
regulares. Assim, uma sociedade em que se trabalha sem cessar
duramente terá maior segurança: e é a segurança que hoje se
adora como divindade suprema. — E aí está (ó horror!) justamente
o “trabalhador” que se tornou perigoso! Os “indivíduos perigosos”
formigam! E atrás deles está o perigo dos perigos — o
individuum17!
174. MODA MORAL DE UMA SOCIEDADE MERCANTIL
Por trás desse principio da atual moda moral: “As ações
morais são as ações de simpatia para com os outros”, vejo
dominar o instinto social do temor que assume assim um disfarce
intelectual: esse instinto põe como princípio superior, o mais
importante e o mais próximo, que é necessário retirar da vida o
caráter perigoso que possuía outrora e que cada um deve ajudar
nisso com todas as suas forças. É por essa razão que unicamente
as ações que visam à segurança coletiva e ao sentimento de
segurança da sociedade podem receber o atributo de “bom”! —
Quão poucos prazeres devem desde logo ter os homens para
consigo mesmos, para que tal tirania do temor lhes prescreva a lei
moral superior, para que se deixem assim intimar sem
contestação para não tirar ou desviar o olhar de sua própria
pessoa, mas ter olhos de lince para toda miséria, para todo
sofrimento dos outros! Com nossa intenção, impelida até o
extremo, de querer aparar todas as asperezas e todos os ângulos
da vida, não estamos no caminho certo para reduzir a
humanidade até transformá-la em areia? Em areia! Uma areia
fina, tênue, granulosa, infinita! É este seu ideal, ó heróis dos
sentimentos simpáticos? — Entretanto, resta saber se porventura
se serve mais ao próximo correndo imediatamente e sem cessar
em seu socorro e ajudando-o — o que só pode ser feito muito
superficialmente, a menos que se se torne penhora tirânica — ou
fazendo de si mesmo algo que o próximo vê com prazer, por
exemplo, um belo jardim tranqüilo e fechado que possua altas
muralhas contra as tempestades e a poeira das grandes estradas,
mas também uma porta acolhedora.
175. PENSAMENTO FUNDAMENTAL DE UMA CULTURA DE COMERCIANTES
Vemos hoje formar-se, em diversos lugares, a cultura de
uma sociedade em que o comércio é a alma, precisamente como o
combate singular era a alma da cultura entre os antigos gregos, e
a guerra, a vitória e o direito entre os romanos. Aquele que exerce
o comércio se dedica a taxar tudo sem produzir, a taxar segundo
as necessidades do consumidor e não segundo suas necessidades
pessoais; no negócio dele a pergunta das perguntas é saber “que
pessoas e quantas pessoas consomem isso?” Emprega, desde logo,
portanto, instintivamente e sem cessar esse tipo de taxação: a
tudo, portanto também às produções das artes e das ciências, dos
pensadores, dos sábios, dos artistas, dos homens de Estado, dos
povos, dos partidos e mesmo de épocas inteiras: ele se informa a
respeito de tudo o que se cria, da oferta e da procura, a fim de
fixar para si mesmo o valor de uma coisa. Isso, erigido em princípio
de toda uma cultura, estudado desde o ilimitado até o mais sutil e
imposto a toda espécie de querer e de saber, isso será o orgulho de
vocês, homens do próximo século: se os profetas da classe dos
comerciantes têm razão em lhes prometer a posse! Mas tenho
pouca fé nesses profetas. Credat judaeus Apella18 — para falar
com Horácio.
176. A CRÍTICA DOS PAIS
Por que já suportamos agora a verdade sobre o passado mais
recente? Porque existe sempre uma nova geração que se sente em
contradição com esse passado e que saboreia, nessa crítica,
primícias do sentimento de poder. Antigamente, pelo contrário, a
geração nova queria se basear na antiga e começava a ter
consciência de si mesma não somente aceitando as opiniões dos
pais, mas defendendo-as com mais rigor ainda, se possível.
Criticar a autoridade paterna era outrora um vício: hoje os jovens
idealistas começam por isso.
177. APRENDER A SOLIDÃO
Oh! pobres diabos, vocês que habitam as grandes cidades da
política mundial, jovens dotados, torturados pela ambição,
acreditam que é seu dever dar seu palpite em todos os
acontecimentos (— pois sempre acontece alguma coisa)! Vocês
acreditam que, ao levantar assim poeira e fazer barulho, são a
carroça da história! Vocês espiam sempre e esperam sem cessar o
momento em que poderão jogar sua palavra ao público e perdem
assim toda verdadeira produtividade! Qualquer que seja seu
desejo de grandes obras, o profundo silencio do amadurecimento
nunca chega até vocês! O acontecimento do dia os expulsa de sua
frente como palha leve, enquanto vocês têm a ilusão de apanhar o
acontecimento — pobres diabos! — Sempre que se quer ser um
herói na cena, não se deve nem pensar em saber como atua o coro.
178. AQUELES QUE UTILIZAMOS COTIDIANAMENTE
Esses jovens não têm falta nem de caráter, nem de
disposição, nem de aplicação: mas nunca lhes demos tempo para
se darem a si mesmos uma direção, pelo contrário, os
habituamos, desde sua mais tenra idade, a receber uma direção.
Quando estavam maduros para serem “enviados ao deserto”,
agimos de modo diferente — nós os utilizamos, os subtraímos a si
próprios, os criamos para serem usados cotidianamente, fizemos
disso um dever e um princípio para eles — e agora eles não podem
passar sem isso e não querem que seja de outra forma. Mas a
essas pobres bestas de carga não se deve recusar suas “férias” —
assim é que se designa esse ideal forçado de um século esgotado:
férias em que se pode uma vez ficar preguiçoso com o coração
cheio de alegria, ser estúpido e infantil.
179. TÃO POUCO ESTADO QUANTO POSSÍVEL!
Todas as situações políticas e sociais não merecem que
sejam justamente os espíritos mais dotados que tenham o direito
de se ocupar delas e que sejam forçados a isso: um tal desperdício
dos espíritos é no fundo mais grave que um estado de miséria. A
política é o campo de trabalho para cérebros mais medíocres e
esse campo de trabalho não deveria estar aberto a outros: que a
máquina se quebre antes em mil pedaços de uma vez por todas!
Mas como as coisas se apresentam hoje, quando não somente
todos crêem dever saber cada dia o que se passa, mas quando
cada um quer intervir ativamente a todo instante e abandona para
isso seu próprio trabalho, tudo se transforma numa grande e
ridícula loucura. A este preço, pagamos caro demais a “segurança
pública”: e o que há de mais louco é que desse modo engendramos
cada vez mais o contrário da segurança pública, como nosso
excelente século está demonstrando: como se isso nunca tivesse
sido feito! Dar à sociedade a segurança contra os ladrões e contra
os incêndios, torná-la infinitamente cômoda para toda espécie de
comércio e de relações e transformar o Estado em providência, no
bom e no mau sentido — esses são objetivos inferiores, medíocres
e de modo algum indispensáveis, a que não se deveria visar com
os meios e os instrumentos mais nobres que se tenha — meios que
deveriam precisamente ser reservados aos fins superiores e aos
excepcionais! Nossa época, embora fale muito de economia, é
dissipadora: dissipa o que há de mais precioso: o espírito.
180. AS GUERRAS
As grandes guerras contemporâneas são o resultado dos
estudos históricos.
181. GOVERNAR
Uns governam pelo prazer de governar, outros para não
serem governados: — entre dois males, escolheram o menor.
182. A LÓGICA GROSSEIRA
Diz-se de alguém, com o mais profundo respeito: “É um
homem de caráter!” — Sim! Se exibir uma lógica grosseira, uma
lógica que salta aos olhos menos clarividentes! Mas quando se
trata de um espírito mais sutil e mais profundo, conseqüente à
sua maneira, a maneira superior, os espectadores negam a
existência do caráter. É por isso que os homens de Estado astutos
geralmente representam sua comedia sob a máscara da lógica
grosseira.
183. OS VELHOS E OS JOVENS
“Há algo de imoral na existência dos parlamentos — assim
pensa ainda este ou aquele — pois temos o direito de ali expor
também opiniões contra o governo!” — “Devemos ter sempre sobre
as coisas a opinião que nosso mestre e senhor ordena!” — é o
décimo primeiro mandamento de certos bravos cérebros velhos,
sobretudo na Alemanha do norte. Rimos disso como de uma moda
antiquada: mas antigamente era esta a moral! Talvez um dia
também vamos rir daquilo que, na geração nova educada no
parlamentarismo, passa agora por moral: quero dizer, colocar a
política dos partidos acima da sabedoria pessoal e responder a
cada pergunta que se refere ao bem público segundo o vento que é
necessário para enfunar as velas do partido. “Deve-se ter a esse
respeito a opinião que a situação do partido exige” — esses seriam
os termos do cânon. Agora fazemos, a serviço de semelhante
moral, toda espécie de sacrifícios, até a vitória sobre nós mesmos e
o martírio.
184. O ESTADO, UM PRODUTO DOS ANARQUISTAS
Nos países em que os homens são disciplinados, subsistem
sempre bastantes retardatários não disciplinados: imediatamente
se juntam aos campos socialistas, mais que em qualquer outro
lugar. Se estes viessem um dia a ditar leis, pode-se esperar que se
imporiam correntes de ferro e que exerceriam uma disciplina
terrível: — eles se conhecem! E suportariam essas leis com a
consciência de que eles próprios as promulgaram — o sentimento
de poder, e desse poder, é demasiado recente neles e demasiado
sedutor para que não sofram tudo por amor dele.
185. MENDIGOS
É necessário suprimir os mendigos, pois nos irritamos ao
lhes dar e ao não lhes dar.
186. HOMENS DE NEGÓCIOS
Seus negócios — esses são seus maiores preconceitos, pois
eles os ligam ao local em que vocês estão, à sua sociedade, a seus
gostos. Aplicados nos negócios — mas preguiçosos no que diz
respeito ao espírito, satisfeitos com sua insuficiência, o balcão do
dever fixado a essa satisfação: é assim que vocês vivem, é assim
que querem que seus filhos sejam!
187. UM FUTURO POSSÍVEL
Não se poderia imaginar um estado social em que o malfeitor
se declarasse ele próprio culpado, pronunciasse ele próprio
publicamente sua pena, como o sentimento orgulhoso que honra a
lei que ele próprio fez, que exerce seu poder punindo-se, o poder
do legislador? Pode falhar uma vez, mas por sua punição
voluntária se eleva acima de seu delito; não somente o apaga por
sua franqueza, por sua grandeza e por sua tranqüilidade, mas
acrescenta-lhe ainda um benefício público. — Esse seria o
criminoso de um futuro possível, que supõe, é verdade, a
existência de uma legislação do futuro com a idéia fundamental:
“Eu me submeto somente à lei que eu mesmo promulguei, nas
grandes e nas pequenas coisas.” Muitas tentativas devem ainda
ser feitas! Muitos futuros devem ainda ver o dia!
188. EMBRIAGUEZ E NUTRIÇÃO
Os povos só são tão enganados porque procuram sempre um
enganador, isto é, um vinho excitante para seus sentidos.
Contanto que possam obter esse vinho, contentam-se com pão de
má qualidade. A embriaguez lhes interessa mais que a
alimentação — esta é a isca com que sempre se deixam pescar!
Que significam para eles homens escolhidos em suas fileiras —
mesmo que fossem os especialistas mais competentes — ao lado
de conquistadores ilustres, de velhas e suntuosas casas
principescas? Como mínimo seria necessário que o homem do
povo, para ter sucesso, lhes abrisse a perspectiva de conquistas e
de aparato: isso o levaria talvez a conseguir crédito. Os povos
obedecem sempre e vão mais longe ainda, com a condição de
poder embriagar-se! Não temos até mesmo o direito de lhes
oferecer o prazer sem a coroa de louros, cuja força enlouquece.
Mas esse gosto popularesco que considera a embriaguez mais
importante que a nutrição não surgiu de modo algum das
profundezas do populacho: foi, pelo contrário, transportado e
transplantado para crescer tardiamente com mais abundância,
embora tenha sua origem nas inteligências mais altas, onde
floresceu durante milhares de anos. O povo é o ultimo terreno
inculto onde pode ainda prosperar essa esplendorosa erva
daninha. — Como! E é justamente ao povo que se gostaria de
confiar a política? Para que nela alimente sua embriaguez
cotidiana?
189. SOBRE A GRANDE POLÍTICA
Qualquer que seja a parte que tomem, na grande política, o
interesse e a vaidade dos indivíduos como dos povos, a força mais
viva que os impele a avançar é a necessidade de poder que, não
somente na alma dos soberanos e dos poderosos, mas também, e
não em mínima parte, nas camadas inferiores do povo, brota de
tempos em tempos de fontes inesgotáveis. O momento volta
sempre onde as massas estão prontas a sacrificar sua vida, sua
Chega sempre um momento em que a massa está disposta a
arriscar a sua vida, sua fortuna, sua consciência, sua virtude para
obter esse prazer superior e para reinar, como nação vitoriosa e
tiranicamente arbitrária, sobre outras nações (ou pelo menos para
imaginar que reinam). Então os sentimentos de prodigalidade, de
sacrifício, de esperança, de confiança, de audácia extrema, de
entusiasmo brotam com tal abundância que o soberano ambicioso
ou previdente com sabedoria pode tomar o primeiro pretexto para
uma guerra e substituir à sua justiça a boa consciência do povo.
Os grandes conquistadores sempre tiveram nos lábios a linguagem
patética da virtude: estavam sempre rodeados de massas que se
encontravam em estado de exaltação e somente queriam ouvir
discursos exaltados. Estranha loucura dos juízos morais! Quando
o homem experimenta um sentimento de poder, ele se julga e se
declara bom: e é justamente então que os outros, sobre os quais é
obrigado a desencadear seu poder, o declaram mau! — Hesíodo19,
em sua fábula das idades do homem, descreveu duas vezes
seguidas a mesma época, aquela dos heróis de Homero, e é assim
que de uma só época fez duas: vista por aqueles que foram
submetidos ao domínio terrível, à espantosa pressão desses heróis
aventureiros da força ou que deles haviam ouvido falar seus
antepassados, essa época aparecia como má: mas os descendentes
dessas gerações cavaleirescas veneravam nela um bom velho
tempo, quase feliz. É por isso que o poeta não conseguiu ter outra
saída senão aquela que apresentou — pois tinha provavelmente
em torno dele ouvintes dos dois tipos!
190. A ANTIGA CULTURA ALEMÃ
Quando os alemães começaram a se tornar interessantes
para os outros povos da Europa — e não se passou ainda muito
tempo depois disso — foi graças a uma cultura que hoje já não
possuem, da qual se libertaram com um ardor cego, como se fosse
uma doença: e no entanto não souberam colocar nada melhor em
seu lugar do que a loucura política e nacional. É verdade que com
isso acabaram por se tornar muito mais interessantes ainda para
os outros povos do que outrora tinham sido por sua cultura:
deixemos-lhes, portanto, essa satisfação! É, no entanto, inegável
que essa cultura alemã enganou os europeus e que ela não era
digna nem de ser imitada nem do interesse que despertara e
menos ainda do anseio que havia em copiá-la. Tentemos nos
informar hoje sobre Schiller, Wilhelm von Humboldt,
Schleiermacher, Hegel, Schelling20, ler suas correspondências e
tentemos nos introduzir no vasto círculo de seus discípulos: que
têm eles de comum, qual deles nos impressiona, tal como somos
hoje, ora de uma forma tão insuportável, ora de uma maneira tão
tocante e digna de pena? Por um lado, a ânsia de parecer a
qualquer preço moralmente comovido; por outro lado, o desejo de
uma universalidade brilhante e sem consistência, assim como a
intenção deliberada de ver tudo belo (caracteres, paixões, épocas,
costumes) — infelizmente esse “belo” correspondia a um mau
gosto vago que, no entanto, se vangloriava de ser de origem grega.
É um idealismo terno, bonachão, com reflexos prateados, que
acima de tudo quer ter atitudes e jeitos nobremente disfarçados,
algo de pretensioso como de inofensivo, animado de uma cordial
aversão contra a realidade “fria” ou “seca”, contra a anatomia,
contra as paixões completas, contra toda a espécie de continência
e de ceticismo filosófico, mas especialmente contra o
conhecimento da natureza, por pouco que possa servir a um
simbolismo religioso. Goethe21 assistia à sua maneira a essas
agitações da cultura alemã: colocando-se à parte, resistindo
suavemente, silencioso, afirmando-se sempre mais em seu próprio
caminho melhor. Um pouco mais tarde, também Schopenhauer
assistiu a isso — segundo ele, uma boa parte do mundo
verdadeiro e das diabruras do mundo haviam novamente se
tornado visíveis e falava disso com tanta grosseria como
entusiasmo: pois nessas diabruras havia beleza! — E, no fundo, o
que foi que seduziu os estrangeiros e os impediu de se comportar
como Goethe e Schopenhauer ou simplesmente de se afastarem?
Era esse brilho enfraquecido, essa enigmática claridade de Via
Láctea que resplandecia em torno dessa cultura: isso levava os
estrangeiros a dizer: “Aí está algo que está muito, muito longe de
nós; perdemos a vista, o ouvido, a compreensão, o sentido da
alegria e da avaliação; mas, apesar de tudo, poderiam muito bem
ser estrelas! Os alemães teriam descoberto em silêncio um
pequeno canto no céu onde se teriam instalado? É preciso tentar
se aproximar dos alemães”. E aproximaram-se deles; mas pouco
tempo depois, esses mesmos alemães começaram a ter trabalho
para se desembaraçar desse brilho de Via Láctea: eles sabiam
muito bem que não tinham estado no céu — mas numa nuvem!
191. HOMENS MELHORES
Dizem-me que nossa arte se dirige aos homens de hoje,
ávidos, insaciáveis, indomáveis, desgostosos, atormentados e que
lhes mostra uma imagem da beatitude, da elevação, da
sublimidade, ao lado da imagem de sua feiúra: a fim de que
possam de uma vez por todas esquecer e respirar livremente,
talvez até mesmo extrair desse esquecimento um incentivo à fuga
e à conversão. Pobres artistas, que têm semelhante público! Com
tais segundas intenções, dignas do padre e do médico psiquiatra!
Quanto mais feliz era Corneille22 — “o grande Corneille”, como
exclamava Madame de Sévigné23, com o tom da mulher diante de
um homem completo — como era superior seu público, para o qual
ele podia fazer o bem com as imagens das virtudes cavaleirescas,
do dever rigoroso, do sacrifício generoso, da heróica disciplina de
si mesmo! Quão diversamente um e outro amavam a existência,
não criada por uma “vontade” cega e inculta, que maldizemos
porque não conseguimos destruí-la, mas como um lugar em que a
grandeza e a humanidade são possíveis ao mesmo tempo e onde
até mesmo a coação mais severa das formas, a submissão ao bom
prazer principesco ou eclesiástico, não podem sufocar a altivez
nem o sentimento cavaleiresco nem a graça nem o espírito de cada
indivíduo, mas são antes considerados como um encanto a mais e
um estimulante cuja oposição reforça o domínio de si e a nobreza
inata, o poder hereditário da vontade e da paixão!
192. DESEJAR ADVERSÁRIOS PERFEITOS
Não se poderia contestar aos franceses que foram o povo
mais cristão da terra: não que na França a devoção das massas
tenha sido maior que em outros lugares, mas as formas mais
difíceis de realizar o ideal cristão ali se encarnaram em homens e
não permaneceram no estado de concepção, de intenção, de
esboço imperfeito. Veja-se Pascal24, na união do fervor, do espírito
e da lealdade, o maior de todos os cristãos — e que se pense em
tudo o que se trataria de unir aqui! Veja-se Fénelon25, a expressão
mais perfeita e sedutora da cultura eclesiástica sob todas as suas
formas: um equilíbrio sublime, do qual, como historiador, se
estaria tentado a demonstrar sua impossibilidade, enquanto que
na realidade só foi uma perfeição de uma dificuldade e de uma
improbabilidade infinitas. Veja-se Madame de Guyon26, entre seus
semelhantes, os quietistas franceses: e tudo o que a eloqüência e o
ardor do apóstolo Paulo tentaram adivinhar do estado mais
sublime, mais apaixonado, mais silencioso, mais extasiado e,
numa palavra, semi-divino do cristão, aqui tudo se tornou
verdade, despojando-se dessa inoportunidade judaica de que são
Paulo dá mostras para com Deus, rejeitando-a graças a uma
ingenuidade de palavras e gestos, autenticamente feminina,
refinada e distinta como a conhecia a antiga França. Veja-se o
fundador da Ordem do Trapistas27, o último que levou a sério o
ideal ascético do cristianismo, não que ele fosse uma exceção
entre os franceses, mas, pelo contrário, como verdadeiro francês:
pois, até hoje, sua sombria criação não conseguiu se aclimatar e
prosperar senão entre os franceses; ela os seguiu na Alsácia e na
Argélia. Não esqueçamos dos huguenotes28: depois deles não
houve ainda mais bela união do espírito guerreiro e do amor ao
trabalho, dos costumes refinados e da austeridade cristã. Veja-se
ainda Port-Royal29, onde se verifica o último florescimento da
grande erudição cristã: no tocante a esse florescimento, na França
os grandes homens compreendem melhor isso que os de qualquer
outro lugar. Longe de ser superficial, um grande francês conserva
sempre sua superfície, um envoltório natural que encobre seu
conteúdo e sua profundidade — enquanto que a profundidade de
um grande alemão está geralmente encerrada numa espécie de
frasco estranhamente envolvido, como um elixir que tenta
proteger-se da luz e das mãos frívolas com seu dura e singular
envoltório. — Que se tente adivinhar, depois disso, porque esse
povo, que possui os mais completos da cristandade, gerou
necessariamente também os tipos contrários mais completos do
livre pensamento anticristão! O espírito livre francês, em seu foro
íntimo, sempre lutou com grandes homens e não somente com
dogmas e com sublimes abortos, como os espíritos livres dos
outros povos.
193. ESPÍRITO E MORAL
O alemão que possui o segredo de ser aborrecido com
espírito (Geist), saber e sentimento e que se habituou a considerar
o aborrecimento como moral — o alemão experimenta no espírito
francês o medo que este arranque os olhos da moral — e esse
medo é semelhante, no entanto, ao temor e ao prazer do
passarinho diante da cascavel. Entre os alemães célebres,
nenhum talvez tenha tido mais espírito que Hegel — mas tinha um
medo alemão tão grande, que esse medo criou nele um estilo
particularmente defeituoso. O específico desse mau estilo consiste
em envolver um núcleo, envolvê-lo ainda e sempre, até que mal
traspasse, arriscando um olhar vergonhoso e curioso — como o
“olhar de um jovem através de seu véu”, para falar com Esquilo,
esse velho inimigo das mulheres: — mas esse núcleo é uma
saliência espiritual, muitas vezes impertinente, sobre um assunto
dos mais intelectuais, uma combinação de palavras, sutil e
ousada, como convém numa sociedade de pensadores, como
acessório da ciência — mas apresentado com esse revestimento é
a própria ciência abstrusa e o mais completo aborrecimento moral!
Os alemães encontraram nisso uma forma de espírito que lhes era
permitida e a usufruíram com um entusiasmo tão desenfreado
que a inteligência penetrante de Schopenhauer ficou estupefata de
surpresa — durante toda a sua vida esbravejou contra o
espetáculo que lhe ofereciam os alemães, mas nunca soube
explicá-lo a si.
194. VAIDADE DOS MESTRES DE MORAL
O sucesso, no final das contas medíocre, dos mestres de
moral se explica pelo fato que queriam muitas coisas de uma só
vez, isto é, eram muito ambiciosos: gostavam demais de ditar
preceitos para todos. Mas isso e divagar na confusão e fazer
discursos aos animais para deles fazer homens: que espantoso se
os animais acharem isso aborrecido! Seria necessário escolher
círculos restritos, procurar e encorajar neles certa moral, fazer por
exemplo discursos aos lobos para fazer deles cães. Entretanto, o
grande sucesso fica geralmente reservado àquele que não quer
educar todos nem círculos restritos, mas um só indivíduo e que
não olha à direita nem à esquerda. O século passado é
precisamente superior ao nosso porque possuía tantos homens
educados individualmente, bem como educadores na mesma
proporção que tinham encontrado nisso a vocação de sua vida — e
com a vocação também a dignidade perante si próprios e diante de
qualquer outra “boa companhia”.
195. O QUE SE COSTUMA CHAMAR EDUCAÇÃO CLÁSSICA
Descobrir que a nossa vida está consagrada ao
conhecimento; que nós a desperdiçaríamos, não! que a teríamos
desperdiçado, se essa consagração não nos protegesse de nós
mesmos; recitem-se muitas vezes e com emoção estes versos:
Destino, eu te sigo! Se não o quisesse,
Eu teria de fazê-lo, mesmo em lágrimas!
— E agora, voltando pelo caminho da vida, descobrir
igualmente que ele é algo de irreparável: a dissipação de nossa
juventude, quando nossos educadores não empregaram esses
anos ardentes e ávidos de saber para nos guiar em direção ao
conhecimento das coisas, mas que os utilizaram para a “educação
clássica”! A dissipação de nossa juventude, quando nos
inculcavam, com tanta falta de habilidade como com barbárie, um
saber imperfeito, sobre os gregos e os romanos, bem como sobre
suas línguas, agindo em detrimento do principio superior de toda
cultura que exige que só se dê alimento àquele que está com fome!
Quando nos impunham, à força, a matemática e a física, em lugar
de primeiramente nos fazer passar pelo desespero da ignorância e
reduzir nossa pequena vida cotidiana, nossas ocupações, e tudo o
que se passa da manhã à noite em casa, no escritório, no céu e na
natureza, com milhares de problemas — problemas torturantes,
humilhantes, irritantes — para mostrar então a nossos desejos
que acima de tudo temos necessidade de um saber matemático e
mecânico e nos ensinar então o primeiro entusiasmo científico que
a lógica absoluta desse saber proporciona! Se nos tivessem
ensinado unicamente o respeito por essas ciências; se tivessem
feito tremer de emoção nossa alma, mesmo que uma só vez, diante
das lutas, das derrotas, dos retornos ao combate dos grandes
homens, diante do martirológio, que é a historia da ciência exata!
Pelo contrário, éramos tomados de certo desprezo perante ciências
verdadeiras em proveito dos estudos “históricos”, da “instrução
própria para desenvolver o espírito” e do “classicismo”! E nós nos
deixamos enganar tão facilmente! Instrução própria para
desenvolver o espírito! Não teríamos podido apontar com o dedo os
melhores professores de nossos colégios e perguntar rindo: “Onde
está, pois, essa instrução própria para desenvolver o espírito? E se
não existir, como poderiam ensiná-la?” E o classicismo!
Aprendemos alguma coisa com aquilo que justamente os gregos
ensinavam à sua juventude? Aprendemos a falar como eles, a
escrever como eles? Exercitamo-nos sem descanso na esgrima do
diálogo, na dialética? Aprendemos a mover-nos com beleza e
altivez, a rivalizar na luta, no jogo, no pugilato, como eles?
Aprendemos alguma coisa do ascetismo prático de todos os
filósofos gregos? Fomos exercitados numa única virtude antiga e
da forma com que os antigos se exercitavam nela? Não faltou
inteiramente à nossa educação toda meditação sobre a moral, e
logo, com maior razão o que constitui sua única critica possível,
essas tentativas severas e corajosas de viver segundo esta ou
aquela moral? Tentamos, por pouco que fosse, despertar em nós
um dos sentimentos que os antigos estimavam mais que os
modernos? Apresentavam-nos a divisão do dia e da vida e os
objetivos que um espírito antigo punha acima da vida?
Aprendemos as línguas antigas como aprendemos as línguas vivas
— isto é, para falar, para falá-las corretamente e bem? Em lugar
algum uma aptidão real, uma faculdade nova, como resultado
desses anos difíceis! Mas unicamente informações sobre o que os
homens sabiam e podiam fazer outrora! E que informações! Ano
após ano, nada me parecia mais evidente que o mundo grego e
antigo, apesar da simplicidade e da notoriedade em que parece se
exibir diante de nós, é muito difícil de compreender e pouco
acessível e que a facilidade habitual com que se fala dos antigos é
realmente a leviandade ou a velha vaidade hereditária da
irreflexão. A semelhança das palavras e das idéias nos engana:
mas por trás deles se oculta sempre um sentimento que deveria
parecer estranho e incompreensível para a sensibilidade moderna.
Esses eram os domínios em que as crianças tinham o direito de se
divertir! Já basta que o tenhamos feito quando crianças e que
tenhamos angariado quase uma antipatia definitiva contra a
antiguidade, antipatia nascida de uma familiaridade
aparentemente demasiado grande! De fato, a ilusão de nossos
educadores clássicos, que pretendiam de alguma forma estar de
posse dos antigos, é tamanha que resplandece naqueles que eles
educam com a idéia que, embora não seja feita para tornar felizes,
essa posse pode pelo menos bastar a pobres velhos ratos de
biblioteca, bravos e tolos. “Que eles guardem seu tesouro, que
certamente é digno deles!” — com essa silenciosa segunda
intenção se completou nossa educação clássica. — Tudo isso é
irreparável — pelo menos para nós! Mas não pensemos somente
em nós!
196. AS PEGUNTAS MAIS PESSOAIS SOBRE A VERDADE
“O que é que realmente faço? Que pretendo alcançar
exatamente com isso?” — essa é a questão da verdade, que não se
ensina no estado atual de nossa cultura e que, por conseguinte,
não a colocamos, pois não se disporia de tempo. Por outro lado,
dizer tolices às crianças em vez de lhes falar a verdade, dizer
amabilidades às mulheres e não lhes falar a verdade, falar aos
jovens de seu futuro e de seus prazeres e não da verdade — para
isso encontramos tempo e prazer! — Mas também, o que são
setenta anos! — passam depressa; importa tão pouco que a onda
saiba para onde a leva o mar! Poderia até mesmo haver nisso
alguma prudência ao não o saber. — “Admitamos: mas é uma falta
de brio não querer sequer se informar, nossa civilização não torna
os homens altivos.” — Tanto melhor. — “Realmente tanto melhor?”
197. A HOSPITALIDADE DOS ALEMÃES CONTRA O ILUMINISMO
Passemos em revista as contribuições que, por seu trabalho
intelectual, os alemães da primeira metade deste século trouxeram
para a cultura geral e, em primeiro lugar, os filósofos alemães:
alcançaram o grau primitivo da especulação, pois se satisfaziam
com conceitos em vez de explicações, como os pensadores das
épocas visionárias — ressuscitaram uma espécie de filosofia précientífica.
Em segundo lugar, os historiadores e os românticos
alemães: seus esforços gerais foram orientados no sentido de
colocar em lugar de honra sentimentos antigos e primitivos,
particularmente o cristianismo, a alma popular, as lendas
populares, a linguagem popular, a Idade Média, a ascese oriental,
o hinduísmo. Em terceiro lugar, os sábios: lutaram contra o
espírito de Newton30 e de Voltaire31 e tentaram restabelecer, como
Goethe e Schopenhauer, a idéia de uma natureza divinizada ou
satanizada, e a significação totalmente moral e simbólica dessa
idéia. A principal tendência dos alemães se opunha, em seu
conjunto, ao Iluminismo e também à revolução da sociedade que,
por um grosseiro mal-entendido, passava por ser conseqüência
daquele: a piedade pelas coisas estabelecidas tendia a se
transformar em piedade por tudo o que havia sido estabelecido
outrora, unicamente para permitir que o coração e o espírito
reencontrassem uma vez mais sua plenitude e não dessem mais
espaço a perspectivas futuras e inovadoras. O culto do sentimento
foi erguido no lugar do culto da razão e os músicos alemães,
enquanto artistas do invisível, da exaltação, do lendário, do desejo
infinito, ajudaram a construir o novo templo, com mais sucesso
que todos os artistas da palavra e do pensamento. Mesmo tendo
em conta o fato de que, no detalhe, inúmeras coisas boas foram
ditas e descobertas e que algumas desde então foram julgadas
mais equitativamente que outrora, é necessário, contudo, concluir
que o conjunto constituía um perigo público e, não poucas, o
perigo de rebaixar, sob a aparência de um conhecimento total e
definitivo do passado, o conhecimento em geral abaixo do
sentimento e — para falar com Kant que assim definia sua própria
função — “reabrir o caminho à fé, fixando seus ao saber”.
Respiremos de novo o ar livre: a hora deste perigo passou! E, coisa
estranha: os espíritos que os alemães evocavam justamente com
tanta eloqüência se tornaram com o tempo os adversários mais
perigosos dos desígnios de seus evocadores — a história, a
compreensão da origem e da evolução, a simpatia pelo passado, a
paixão ressuscitada do sentimento e do conhecimento, tudo isso,
depois de ter sido posto durante algum tempo a serviço do espírito
obscurecido, exaltado, retrógrado, revestiu um dia outra natureza
e agora se eleva, com asas mais amplas, sob os olhos de seus
antigos evocadores, e se toma o gênio forte e novo, justamente
desse Iluminismo, contra o qual havia sido evocado. Este
Iluminismo, compete a nós agora fazê-lo progredir — sem nos
importarmos de que houve uma “grande revolução” e também
uma “grande reação” contra ela, e que tanto a revolução como a
reação existem sempre: isso não é, afinal, senão jogo de eventuais
ondas, em comparação com a onda verdadeiramente grande que
nos arrasta e na qual queremos estar!
198. CONFERIR UMA POSIÇÃO A SEU POVO
Ter muitas grandes experiências interiores e repousar nelas
e acima delas o olhar do espírito — assim fazem os homens de
cultura que conferem uma posição a seu povo. Na França e na
Itália, esse era o papel da nobreza, na Alemanha, onde até o
presente a nobreza se colocava, em seu conjunto, entre os pobres
de espírito (talvez não continue assim por muito tempo), esse era o
papel dos padres, dos professores e de seus descendentes.
199. NÓS SOMOS MAIS NOBRES
Fidelidade, generosidade, pudor da boa reputação: estas três
coisas reunidas num só sentimento — é a isto que chamamos
nobre, distinto, nisso ultrapassamos os gregos. A nenhum preço
queremos renunciar a isso, sob o pretexto de que os objetos
antigos dessas virtudes decaíram em nossa consideração (e com
razão), mas gostaríamos de substituir com precaução objetos
novos a essa herança, a mais preciosa de todas. Para compreender
que os mais nobres sentimentos dos gregos, no meio de nossa
nobreza sempre cavaleiresca e feudal, deveriam ser vistos como
medíocres e apenas convenientes, é necessário lembrar-se destas
palavras de consolo que saem da boca de Ulisses nas situações
ignominiosas: “Suporta isso, querido coração! Já suportaste
muitas outras coisas, mais detestáveis ainda! Como um cão!32”
Pode-se colocar em paralelo, como exemplo de aplicação do
modelo mítico, a história daquele oficial ateniense que, diante de
todo o estado-maior, ameaçado com um bastão por outro oficial,
sacudiu a vergonha com estas palavras. “Bate-me! Mas escuta-me
também!” (Foi o que fez Temístocles33, este hábil Ulisses da época
clássica, que era muito homem para dirigir a seu “querido
coração”, nesse momento ignominioso, estas palavras de consolo
na aflição). Os gregos estavam muito longe de encarar
levianamente a vida e a morte por causa de um ultraje, como nós
fazemos graças a um espírito de aventura, cavaleiresco e
hereditário, e de certa necessidade de sacrifício; muito longe
também estavam de procurar ocasiões de arriscar honrosamente a
vida e a morte como nos duelos; ou ainda de estimar a
conservação de um nome sem mancha (honra) mais que a má
reputação, quando esta é compatível com a glória e o sentimento
de poder; ou ainda de ser fiel aos preconceitos e aos artigos de fé
de uma casta, se com isso corriam o risco de impedir a chegada de
um tirano. De fato, este é o segredo pouco nobre de todo bom
aristocrata grego: por um profundo ciúme trata cada um dos seus
companheiros de classe em pé de igualdade, mas está
constantemente pronto a saltar como um tigre sobre a presa —
sobre o poder despótico: que lhe importam então a mentira, o
crime, a traição, a perda voluntária de sua cidade natal! A justiça
era extremamente difícil aos olhos dessa espécie de homens,
passava quase por qualquer coisa de incrível; “o justo”, esta
palavra soava aos ouvidos dos gregos como “o santo” aos ouvidos
dos cristãos. Mas quando Sócrates chegava a ponto de dizer “O
homem virtuoso é o mais feliz”, não se acreditava nos próprios
ouvidos, pensava-se ter ouvido qualquer coisa de louco. Porque a
imagem do mais feliz dos homens evocava em cada cidadão de
extração nobre a ausência total de consideração, a perfeição
diabólica do tirano que tudo e a todos sacrifica à sua arrogância e
a seu prazer. Nos homens que em seus sonhos secretos e
selvagens se encantavam com tal felicidade, a veneração do
Estado não podia ser implantada com bastante profundidade —
mas, na minha opinião, os homens cujo desejo de poder já não
conhece essa raiva cega própria desses nobres gregos não tem
hoje tanta necessidade dessa idolatria do conceito de Estado,
graças ao qual púnhamos outrora um freio a seu desejo.
200. SUPORTAR A POBREZA
A grande superioridade da origem nobre é que ela permite
suportar melhor a pobreza.
201. FUTURO DA NOBREZA
As atitudes do mundo aristocrático mostram que em todos
os seus membros o sentimento do poder joga constantemente seu
jogo encantador. É assim que o indivíduo de nobres costumes,
homem ou mulher, não se deixa levar a gestos de abandono, evita
pôr-se à vontade diante de todos, por exemplo, no trem evita
encostar-se no espaldar do assento, parece não se cansar quando
permanece durante horas de pé no corredor, não constrói sua
casa tendo em vista não o conforto, mas para que produza a
impressão de algo vasto e imponente, como se ela se destinasse à
morada de seres maiores (que vivem mais tempo), responde a
palavras provocantes com dignidade e clareza de espírito, não
como se estivesse descontrolado, aniquilado, envergonhado,
ofegante, à maneira dos plebeus. Assim como sabe conservar a
aparência de uma força física superior, sempre presente, deseja
igualmente manter, com uma serenidade e delicadeza constantes,
mesmo nas situações mais penosas, a impressão que sua alma e
seu espírito estão à altura dos perigos e das surpresas. Uma
cultura aristocrática pode parecer, do ponto de vista das paixões,
quer ao cavaleiro que experimenta um violento prazer em fazer
marchar em passo espanhol um animal distinto e fogoso —
lembremo-nos da época de Luis XIV — quer ao cavaleiro que sente
seu cavalo fugir debaixo dele como uma força da natureza e que
ambos não estão longe de perder a cabeça, mas que se soerguem
com altivez, usufruindo prazerosamente de seu andar: nos dois
casos, a cultura aristocrática respira o poder e se freqüentemente,
em seus costumes, não exige mais que a aparência do sentimento
de poder, entretanto, o verdadeiro sentimento de superioridade
cresce sem cessar pela impressão que esse jogo produz naqueles
que não são nobres e pelo espetáculo dessa impressão. — Essa
felicidade incontestável da cultura aristocrática, edificada sobre o
sentimento de superioridade, começa agora a elevar-se a um nível
ainda superior, porque, graças a todos os espíritos livres, é
doravante permitido àqueles que nasceram e foram educados na
nobreza penetrar sem enfraquecimento na esfera do
conhecimento, para ali procurar confirmações mais espirituais e
aprender uma cortesia superior; é permitido também olhar para
esse ideal de sabedoria vitoriosa que nenhuma época conseguiu
ainda propor a si mesma com tão boa consciência como a época
que está prestes a surgir. E, em último lugar, de que se ocuparia
de agora em diante a nobreza, se parece cada dia mais evidente
que é indecente ocupar-se de política?
202. CUIDADOS A TER COM A SAÚDE
Mal começamos a refletir sobre a fisiologia dos criminosos e
logo nos encontramos, contudo, diante da imperiosa certeza que
entre os criminosos e os doentes mentais não há diferença
essencial: posto que consideremos a maneira corrente de pensar
como a maneira de pensar própria da saúde intelectual. Nenhuma
crença é hoje tão bem aceita como esta. Não deveríamos, portanto,
ter receio de extrair daí as devidas conseqüências e tratar o
criminoso como um doente mental: sobretudo de não tratá-lo com
uma piedade arrogante, mas com uma sabedoria e uma boa
vontade de médico. Ele necessita de mudança de ares e de
sociedade, de um afastamento momentâneo, talvez de solidão e de
nova ocupação — perfeito! Talvez ele veja vantagens em viver certo
tempo sob vigilância a fim de encontrar desse modo proteção
contra si próprio e seu incômodo instinto tirânico — perfeito! É
necessário apresentar-lhe claramente a possibilidade e os meios
da cura (de extirpar, de transformar, de sublimar esse instinto) e
mesmo, no pior dos casos, a improbabilidade dessa cura; deve-se
oferecer ao criminoso incurável, que tem horror de si mesmo, a
oportunidade de se suicidar. Permanecendo isso reservado, como
um meio extremo de obter alivio, nada se deve negligenciar para,
acima de tudo, restituir muita coragem e liberdade de espírito ao
criminoso; deve-se apagar de sua alma todos os remorsos, como
se isso foi questão de limpeza, e sugerir-lhe os meios para
remediar e até compensar largamente o prejuízo que ele causou a
alguém por meio de um benefício feito a outrem, benefício que
talvez supere o erro. Tudo isso com extrema cautela e sobretudo
no anonimato ou utilizando novos nomes, com freqüentes
mudanças de residência, para que a integridade da reputação e a
vida futura do criminoso corram o mínimo risco possível. É
verdade que atualmente aquele que se sente prejudicado quer
sempre vingar-se, abstração feita da maneira como se poderia
remediar esse prejuízo, e se dirige para isso aos tribunais — é isto
que assegura ainda provisoriamente a manutenção do nosso
abominável código criminal, com sua balança de merceeiro e sua
vontade de compensar a falta com a pena. Mas não deveríamos ser
capazes de ultrapassar isso? Como ficaria aliviado o sentimento
geral da vida se, com a crença na falta, nos pudéssemos nos
desembaraçar do velho instinto de vingança e se considerássemos
que é uma sutil sabedoria dos homens felizes abençoar os
inimigos, como faz o cristianismo, e fazer o bem àqueles que nos
ofenderam! Expulsemos do mundo a idéia de pecado — e
enviemos atrás deste a idéia de punição! Que esses demônios em
exílio vão viver doravante longe dos homens, caso tenham mesmo
que viver e não morrer desgostosos de si mesmos! —
Consideremos no entanto, que os danos causados à sociedade e
ao indivíduo pelo criminoso são absolutamente idênticos aos
danos que os doentes lhes causam: os doentes espalham
preocupação, mau humor, não produzem nada e consomem os
rendimentos dos outros, necessitam de vigilantes, de médicos, de
sustento material e vivem à custa do tempo e das forças das
pessoas saudáveis. Entretanto, trataríamos como desnaturado
quem quisesse vingar-se de tudo isso contra os doentes. É verdade
que antigamente se agia assim; nos estágios rústicos da civilização
e ainda hoje, em certos povos selvagens, o doente é efetivamente
tratado como criminoso, como perigo para a comunidade e como
morada de algum ser demoníaco qualquer que nele se encarnou
em conseqüência de uma falta; — o que significa: todo doente é
um culpado! E nós, não estaríamos ainda amadurecidos para a
concepção contrária? Não teríamos ainda o direito de dizer: todo
“culpado” é um doente? — Não, ainda não chegou a hora.
Sobretudo ainda não existem médicos para os quais aquilo que
até agora designamos por moral prática se torne um capítulo da
arte ou da ciência de curar; falta ainda de um modo geral esse
interesse ávido por essas questões que talvez um dia pareça
bastante semelhante ao Sturm und Drang34 que outrora a religião
provocava; as igrejas ainda não estão nas mãos daqueles que
cuidam dos doentes; o estudo do corpo e do regime sanitário ainda
não faz parte das matérias obrigatórias em todas as escolas
primárias ou superiores; ainda não existem sociedades discretas
de homens que se tivessem comprometido a renunciar ao auxílio
dos tribunais, assim como à punição e à vingança das ofensas
recebidas; nenhum pensador teve ainda a coragem de medir a
saúde de uma sociedade, e dos indivíduos que a compõem,
segundo o número de parasitas que ela pode suportar; ainda não
foi encontrado nenhum homem de Estado que tenha guiado sua
charrua no espírito destas palavras cheias de generosidade e
doçura: “Se queres cultivar a terra, cultiva-a com a charrua: farás
então a alegria do pássaro e do lobo que vão atrás da charrua —
farás a alegria de todas as criaturas.”
203. CONTRA O MAU REGIME
Fora com as refeições que os homens hoje fazem, tanto nos
restaurantes como onde quer que viva a classe abastada da
sociedade! Mesmo quando os sábios reputados, são costumes
semelhantes que carregam sua mesa, precisamente como aquela
dos banqueiros: segundo o princípio da maior abundância e da
multiplicidade — disso se segue que os manjares são preparados
em vista do efeito e não das conseqüências e que as bebidas
excitantes devem contribuir para tirar o peso do estômago e do
cérebro. Fora com a dissolução e com a sensibilidade exagerada
que tudo isso acarreta! Fora com os sonhos que esses tais devem
ter! Fora com as artes e os livros que devem servir de sobremesa a
esses banquetes! E que ajam como quiserem, seus atos serão
regidos pela pimenta e pela contradição ou pelo cansaço do
mundo! (As classes ricas na Inglaterra necessitam de seu
cristianismo para poder suportar sua má digestão e suas dores de
cabeça). No final das contas, para dizer não somente tudo o que
isso tem de desgostoso, mas também de divertido, esses homens
não são de modo nenhum boêmios; nosso século e seu tipo de
atividade têm mais poder sobre as extremidades do que sobre o
ventre. Que significam então esses banquetes? — Representam!
Mais o que, santo Deus? A classe social? — Não, o dinheiro: as
classes acabaram! Só existe, o “indivíduo”! Mas o dinheiro
significa poder, glória, preeminência, dignidade, influência; o
dinheiro atribui agora a um homem, em função de quanto ele
possui, a grandeza ou a pequenez do preconceito! Ninguém quer
esconder seu dinheiro, ninguém quer exibi-lo sobre a mesa; é
necessário, portanto, que o dinheiro tenha um representante que
se possa pôr sobre a mesa: vejam nossas refeições!
204. DÂNAE35 E o DEUS OURO
De onde vem essa excessiva impaciência que faz atualmente
do homem um malfeitor, em situações que melhor explicariam
tendências contrárias? Pois, se este utiliza pesos falsos, se aquele
põe fogo à sua casa depois de tê-la segurado acima de seu valor,
se um terceiro é implicado na fabricação de moeda falsa, se três
quartos da alta sociedade se dedicam à fraude lícita e se carregam
a consciência de operações da bolsa e de especulações: o que os
impele? Não é a autêntica necessidade, sua vida não é tão precária
assim, eles comem e bebem sem preocupação — mas o que os
impele, dia e noite, é uma impaciência terrível quando vêem o
dinheiro acumular-se demasiado lentamente e a alegria e o amor
igualmente terríveis que desperta neles o dinheiro acumulado.
Nessa impaciência e nesse amor, contudo, reaparece esse
fanatismo do desejo de poder que inflamou outrora a crença de
estar de posse da verdade, esse fanatismo que usava tão belos
nomes que se podia ousar ser humano com boa consciência
(queimar judeus, hereges e bons livros e exterminar inteiramente
civilizações superiores como as do Peru e do México). Os meios
utilizados pelo desejo de poder mudaram, mas o mesmo vulcão
ferve sempre, a impaciência e o amor desmesurado reclamam
suas vítimas: o que outrora se fazia “por amor a Deus”, hoje se faz
por amor do dinheiro, isto é, daquilo que hoje confere o sentimento
de poder mais elevado e a boa consciência.
205. SOBRE O POVO DE ISRAEL
Entre os espetáculos para que nos convida o próximo século,
é preciso colocar o regulamento definitivo do destino dos judeus
europeus. É de todo evidente agora que eles lançaram seus dados,
que atravessaram o Rubicão36: não lhes resta senão se tornarem
os senhores da Europa ou perder a Europa como perderam
outrora o Egito, onde se haviam deparado com semelhante
alternativa. Na Europa, porém, tiveram uma escola de dezoito
séculos, coisa que nenhum outro povo pôde pretender, e isso de
tal maneira que não foi tanto a comunidade, mas sobretudo os
indivíduos que lucraram com as experiências desse espantoso
período de provas. A conseqüência disso é que, entre os judeus
atuais, os recursos da alma e do espírito são extraordinários;
entre todos os habitantes da Europa são eles que, na desgraça,
têm mais raramente o recurso à bebida ou ao suicídio para sair de
um embaraço profundo — o que é tão tentador para qualquer
pessoa menos capacitada. Todo judeu encontra na história de
seus pais e de seus antepassados uma fonte de exemplos de
raciocínio frio e de perseverança em situações terríveis, da mais
sutil utilização da desgraça e do acaso pela astúcia; sua coragem
sob a capa de uma submissão humilhante, seu heroísmo do
spernere se sperni37 ultrapassa as virtudes de todos os santos.
Durante dois mil anos se quis torná-los desprezíveis tratando-os
com desprezo, impedindo-lhes o acesso a todas as honras, a tudo
o que existe de honroso, impelindo-os pelo contrário para baixo,
para os trabalhos mais sórdidos — para dizer a verdade, esse
procedimento não os tornou mais decentes. Mais desprezíveis,
talvez? Eles mesmos nunca deixaram de se considerar votados às
maiores coisas e as virtudes de todos aqueles que sofrem nunca
deixaram de embelezá-los. A maneira como eles honram os pais e
os filhos, a razão que preside a seus casamentos e a seus hábitos
matrimoniais os distingue entre todos os europeus. Além disso,
eles se empenharam em extrair precisamente um sentimento de
poder e de vingança eterna dos trabalhos que deixávamos para
eles (ou às quais nós os abandonávamos); é preciso até dizer em
desconto de sua usura, que sem essa tortura de seus
depreciadores, às vezes agradável e vantajosa, dificilmente teriam
chegado a considerar-se a si próprios durante tanto tempo. De
fato, a estima por nós mesmos está ligada à possibilidade de fazer
o bem e o mal. Com isso, os judeus não se deixaram levar muito
longe pela vingança; pois, todos eles têm a liberdade de espírito e
também a da alma que produzem no homem a mudança freqüente
de lugar, de clima, o contato com os costumes dos vizinhos e dos
opressores; possuem a maior experiência de todas as relações com
os homens e, mesmo na paixão, conservam a prudência nascida
dessa experiência. Estão tão seguros de sua maleabilidade
intelectual e de sua habilidade que nunca têm necessidade,
mesmo nas situações mais difíceis, de ganhar o pão pela força
física, como trabalhadores rústicos, carregadores, escravos
agrícolas. Vemos ainda por suas maneiras que nunca lhes
inculcamos sentimentos cavaleirescos e nobres na alma, nem lhes
pusemos belas armaduras em seu corpo: algo de indiscreto
alterna com uma deferência muitas vezes terna e quase sempre
penosa. Mas agora, que ano após ano se aliaram inevitavelmente
com a melhor nobreza da Europa, logo terão conquistado uma
herança considerável nas boas maneiras do espírito e do corpo: de
modo que, dentro de cem anos, já terão o porte suficientemente
aristocrático para não provocar, como senhores, a vergonha
daqueles que lhes serão submissos. E é isso que importa! É por
isso que uma regulamentação de seu caso é ainda prematura!
Eles são os primeiros a saber que não se trata para eles de uma
conquista da Europa nem de qualquer tipo de violência: mas
sabem também que a Europa, como um fruto maduro, deverá cair
um dia em suas mãos, bastando para tanto estendê-las.
Esperando, é necessário para eles se distinguir em todos os
domínios da distinção européia e se posicionar entre os primeiros,
até que sejam eles próprios a determinar o que distingue. Serão
então os inventores e os guias dos europeus e não ofenderão mais
o pudor destes. É essa abundância de grandes impressões
acumuladas que constitui a história judaica para todas as famílias
judias, essa abundância de paixões, de virtudes, de decisões, de
renuncias, de combates, de vitórias de toda espécie — a que
deverá chegar finalmente com grandes obras e com grandes
homens intelectuais! Então, quando os judeus puderem mostrar
como sua obra de pedras preciosas e de taças de ouro, tais que os
povos europeus de experiência mais curta e menos profunda não
podem nem puderam produzir — quando Israel tiver transformado
sua vingança eterna em bênção eterna da Europa: então retornará
esse sétimo dia em que o velho Deus dos judeus poderá se alegrar
consigo mesmo, por sua criação e por seu povo eleito — e todos
nós, todos, queremos nos alegrar com ele!
206. A IMPOSSÍVEL CLASSE
Pobre, alegre e independente! — essas qualidades podem
estar reunidas numa única pessoa; pobre, alegre e escravo! — isso
também é possível — e eu não poderia dizer nada de melhor aos
operários escravos das fábricas: supondo que isso não lhes pareça
em geral como uma vergonha de serem utilizados, quando isso
ocorre, como o parafuso de uma máquina e de algum modo como
tapa-buraco do espírito inventivo dos homens. Com os diabos
acreditar que, por um salário mais elevado, o que há de essencial
em sua desgraça, isto é, sua subserviência impessoal, pudesse ser
supresso! Com os diabos deixar-se convencer que, por um
aumento dessa impessoalidade no meio das engrenagens de uma
nova sociedade, a vergonha do escravo pudesse ser transformada
em virtude! Com os diabos ter um preço mediante o qual se deixa
de ser uma pessoa para passar a ser uma engrenagem! Vocês são
cúmplices da loucura atual das nações que não pensam senão em
produzir muito e em enriquecer o mais possível? Sua tarefa seria
de lhes apresentar outro abatimento, de lhes mostrar que grandes
somas de valor interior são dissipadas para um objetivo tão
exterior! Mas onde está seu valor interior, se vocês não sabem
mais o que é respirar livremente? Se mal sabem se possuir vocês
mesmos? Se estão cansados demais de vocês mesmos, como uma
bebida que perdeu seu frescor? Se prestam atenção aos jornais e
espiam seu vizinho rico, devorados de inveja ao ver a subida e a
queda rápida do poder, do dinheiro e das opiniões? Se não têm
mais fé na filosofia esfarrapada, na liberdade de espírito do
homem sem necessidades? Se a pobreza voluntária e idílica, a
ausência de profissão e o celibato, que deveriam convir
perfeitamente aos mais intelectuais dentre vocês, se tornaram
objeto de zombaria? Em compensação, a flauta socialista dos
apanhadores de ratos lhes ressoa sempre aos ouvidos — esses
apanhadores de ratos que querem inflamá-los em esperanças
absurdas! Que lhes dizem de estar prontos e nada mais, prontos
de hoje para amanhã, de modo que vocês esperam algo de fora,
esperam sem cessar, vivendo de resto como sempre — até que
essa espera se transforma em fome e sede, em febre e loucura, e
que se ergue finalmente, em todo o seu esplendor, o dia da besta
triunfante! — Pelo contrário, cada um deveria pensar por si:
“Antes emigrar, para procurar tornar-me senhor em regiões
selvagens e intactas do mundo e sobretudo para me tornar senhor
de mim mesmo; mudar de lugar mal um sinal de escravidão
contra mim se manifeste; não evitar a aventura e a guerra e, no
pior dos acasos, estar pronto para morrer: contanto que não seja
necessário suportar mais essa indecente servidão para não me
tornar venenoso e conspirador!” Este é o estado de espírito que
conviria ter: os operários na Europa deveriam se considerar
doravante como uma verdadeira impossibilidade como classe e não
como algo de duramente condicionado e impropriamente
organizado; deveriam suscitar uma época de grande enxame para
fora da colméia européia, como nunca antes vista, e protestar por
meio desse ato de liberdade de estabelecimento um ato de grande
estilo contra a máquina, o capital e a alternativa que hoje os
ameaça: dever escolher entre ser escravo do Estado ou escravo de
um partido revolucionário. Pudesse a Europa livrar-se de um
quarto de seus habitantes! Seria um alívio para ela e para eles.
Somente ao longe, nos empreendimentos dos colonos partindo aos
enxames para a aventura, se poderia finalmente reconhecer
quanto de bom senso e de equidade, quanta sã desconfiança a
mãe Europa inculcou em seus filhos — nesses filhos que não
podiam mais suportar viver ao lado dela, essa velha mulher
embrutecida, e que corriam o risco de se tornarem melancólicos,
irritadiços e gozadores como ela. Fora da Europa, seriam as
virtudes da Europa que viajariam com esses trabalhadores e o que
na pátria começava a degenerar em perigoso descontentamento e
em tendências criminosas, fora dela ganharia um caráter
selvagem e belo e seria chamado heroísmo. — Assim é que um ar
mais puro sopraria finalmente sobre a velha Europa, atualmente
superpovoada e dobrada sobre si mesma! E que importa se então
nos faltará um pouco de “braços” para o trabalho! Talvez nos
lembraríamos então que nos habituamos a numerosas
necessidades somente desde que se tornou fácil satisfazê-las —
bastaria esquecer algumas necessidades! Talvez iríamos então
introduzir chineses: e estes trariam a maneira de pensar e de viver
que convêm às formigas trabalhadoras. Sim, no conjunto,
poderiam até mesmo contribuir para infundir no sangue da
Europa turbulenta e que se extenua um pouco de calma e de
contemplações asiáticas e — o que certamente é bem mais
necessário — um pouco de persistência asiática.
207. COMO SE COMPORTAM OS ALEMÃES DIANTE DA MORAL
Um alemão é capaz de grandes coisas, mas é pouco provável
que as realize, pois ele obedece onde pode, como convém aos
espíritos preguiçosos por natureza. Se for colocado numa situação
perigosa de ficar só e sacudir sua preguiça, se não lhe for mais
possível esconder-se como um número numa soma (nessa
qualidade tem infinitamente menos valor que um francês ou um
inglês) — descobrirá suas forças: torna-se então perigoso, mau,
profundo, audacioso, e traz à luz do dia o tesouro de energia
latente que conserva em si, um tesouro no qual, por outra,
ninguém acredita (nem sequer ele próprio). Quando, num caso
desse gênero, um alemão obedece a si próprio — é a grande
exceção — ele o faz com o mesmo peso, a mesma inflexibilidade, a
mesma resistência que aplica habitualmente a obedecer a seu
soberano e a seus deveres profissionais: embora, como dizíamos,
ele tenha então envergadura para fazer grandes coisas que não
têm qualquer relação com a “fraqueza de caráter” que ele julga
possuir. Mas habitualmente receia depender apenas de si, receia
improvisar (é por isso que a Alemanha consome tantos
funcionários e tanta tinta). — A leveza de caráter lhe é estranha, é
muito temeroso para se abandonar a ela; mas em situações
totalmente novas, que o arrancam de seu torpor, é quase de
espírito frívolo; usufruí então da raridade de sua nova situação
como de uma bebedeira, e ele se reconhece na bebedeira! Assim, o
alemão é hoje quase frívolo em política: se bem que aí também ele
tenha por si o preconceito da profundidade e da seriedade, que ele
não deixa de explorar em suas relações com as outras forças
políticas, e está, contudo, cheio de uma arrogância secreta, com a
idéia de poder finalmente divagar, seguir os caprichos e seus
gostos de novidades, mudar pessoas, partidos e esperanças como
se fossem máscaras. — Os sábios alemães, que pareciam ser até
agora os mais alemães dos alemães, eram e são talvez ainda tão
bons como os soldados alemães, graças à sua tendência profunda
e quase infantil para a obediência em todas as coisas exteriores,
graças também à necessidade de se encontrarem muitas vezes
isolados na ciência e de terem de responder a muitas coisas; se
eles sabem proteger seu estilo orgulhoso, simples e paciente, e sua
independência das loucuras políticas em tempos em que o vento
sopra em outras direções, é ainda possível esperar deles grandes
coisas; tal como são (ou eram) representam, em estado
embrionário, qualquer coisa de superior. — A vantagem e a
desvantagem dos alemães, mesmo entre seus sábios, é que se
encontravam até agora mais próximos da superstição e da
necessidade de crer que os outros povos; seus vícios continuam a
ser, hoje como ontem, a embriaguez e a tendência ao suicídio (este
último é um sinal do peso de um espírito que se deixa facilmente
levar a abandonar as rédeas); o perigo para eles reside em tudo o
que bloqueia as forças da razão e desencadeia as paixões (como o
uso excessivo da música e das bebidas alcoólicas): pois a paixão
alemã se volta contra o que lhe pessoalmente útil, é por si mesma
destrutiva, como aquela da embriaguez. O próprio entusiasmo tem
menos valor na Alemanha que em outros lugares, pois é estéril. Se
um alemão realizou qualquer coisa de grande, foi sob a pressão do
perigo, num momento de bravura, com os dentes cerrados, o
espírito tenso e muitas vezes com uma inclinação à generosidade.
— Poder-se-ia aconselhar a colocar-se em contato freqüente com
os alemães — pois cada alemão tem qualquer coisa a dar, se se
souber conduzi-lo a encontrá-la, a reencontrá-la (pois ele é
fundamentalmente desordenado). — Mas se um povo desse gênero
se ocupa de moral: qual será a moral que justamente o haverá de
satisfazer? Antes de tudo, ele vai querer certamente que sua
tendência cordial a obedecer pareça idealizada. “O homem deve ter
qualquer coisa a que possa obedecer sem condições” — esse é um
sentimento alemão, uma conseqüência da lógica alemã: é
encontrado na base de todas as doutrinas morais alemãs. Como é
diferente a impressão que se sente diante de toda a moral antiga!
Todos os pensadores gregos, por diversa que seja a imagem que
nos é proposta, parecem semelhantes, enquanto moralistas, a esse
professor de ginástica que exorta um jovem: “Vem! Segue-me!
Confia-te à minha disciplina! Chegarás talvez então a alcançar um
mérito maior do que todos os gregos.” A distinção pessoal — esta é
a virtude antiga. Submeter-se, obedecer publicamente ou em
segredo — esta é a virtude alemã. — Muito tempo antes de Kant e
de seu imperativo categórico, Lutero havia dito, guiado pelo
mesmo sentimento, que devia existir um ser no qual o homem
pudesse confiar de modo absoluto — esta era sua prova da
existência de Deus; ele queria, mais rude e mais plebeu que Kant,
que se obedecesse cegamente não a uma idéia, mas a uma pessoa
e, no final das contas, Kant efetuou seu desvio pela moral apenas
para chegar à obediência para com a pessoa: é exatamente o culto
do alemão, qualquer que seja o traço imperceptível de culto que
tenha restado em sua religião. Os gregos e os romanos tinham
outros sentimentos e teriam ridicularizado um tal “deve haver um
ser”: era próprio de sua liberdade de sentimento totalmente
meridional se precaverem contra a “confiança absoluta” e
conservar no último reduto do coração um leve ceticismo em
relação a tudo e a todos, fosse ele deus, homem ou idéia. O filósofo
antigo vai mais longe ainda! Nil admirari38 — nesta frase ele vê
toda a filosofia. E um alemão, penso em Shopenhauer, chega ao
ponto de dizer o contrário: Admirari, id est philosophari39. — Que
se passará então, se um dia, como acontece às vezes, o alemão se
encontrar na situação em que é capaz de grandes coisas? Se
chegar a hora da exceção, a hora da desobediência? — Não creio
que Schopenhauer tenha razão ao dizer que a única vantagem dos
alemães sobre os outros povos reside no fato de que entre eles há
mais ateus do que entre os outros — mas sei de uma coisa:
quando o alemão está na situação em que é capaz de grandes
coisas, ele se eleva sempre acima da moral! E por que não o faria?
E agora está na situação de fazer alguma coisa de novo, isto é,
comandar — a si ou aos outros! Ora, é justamente comandar que
sua moral alemã não o ensinou! A arte de comandar está nele
esquecida!
1 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo e escritor suíço; entre suas
obras, O contrato social e A origem da desigualdade entre os homens já foram
publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
2 Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão (NT).
3 Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão (NT).
4 Otto Bismarck (1815-1898), estadista alemão (NT).
5 Lazare Carnot (1753-1823), político e cientista francês (NT).
6 Berthold Georg Niebuhr (1776-1831), diplomata e historiador alemão (NT).
7 Tucídides (465-395 a.C), historiador grego (NT).
8 Platão (427-347 a.C), filósofo grego; dentre suas obras, A república já foi
publicada nesta coleção da Editora Escala (NT).
9 Sófocles (496-406 a.C), poeta trágico grego (NT).
10 Péricles (495-429 a.C), estadista ateniense (NT).
11 Hipócrates (460-377 a.C), médico grego (NT).
12 Demócrito (460-370 a.C), filósofo grego (NT).
13 Expressão latina que significa “o erro é mais simples que a verdade” (NT).
14 Histórica cidade grega do sul da Itália, fundada no século VII antes de
Cristo; pertencia à Magna Grécia e foi conquistada pelos romanos no ano
273 a.C; inexistente hoje como centro urbano, a lembrança grega, contudo,
persiste em suas ruínas, destacando-se os templos, considerados os mais
bem conservados da época da colonização helênica da Itália meridional. A
cidade de Pompéia, citada a seguir, foi fundada pelos oscos no século VI
antes de Cristo, mas foi dominada também pelos gregos e pelos etruscos;
anexada a Roma em 290 a.C, foi totalmente destruída no ano 79 de nossa
era por uma violenta erupção do Vesúvio (NT).
15 Expressão latina que significa “homem comilão”; na realidade, o termo
latino phago, phagonis (tomado do grego phágon, derivado de phágein,
comer) já significava comilão; composto com o prefixo grego pan (tudo),
pamphagus significa Concretamente “come tudo” (NT).
16 Ésquilo (525-456 a.C), poeta trágico grego (NT).
17 Vocábulo latino que significa “indivíduo” (NT).
18 Frase extraída da obra Satirae (I, 5, 100) do poeta latino Quintus Horatius
Flaccus (65-8 a.C.) e que significa “O judeu Apella que o creia” ou “Que o
judeu Apella acredite nisso” (NT).
19 Hesíodo (séc. VIII a.C), poeta grego (NT).
20 Friedrich von Schiller (1750-1805), escritor alemão; Wilhelm von Humboldt
(1767-1835), lingüista e político alemão; Friedrich Daniel Ernst
Schleiermacher (1768-1834), teólogo protestante alemão; Georg Wilhelm
Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão; Friedrich Wilhelm Joseph von
Schelling (1775-1854), filósofo alemão (NT).
21 Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), escritor alemão (NT).
22 Pierre Corneille (1606-1684), poeta dramático francês (NT).
23 Marie de Rabutin-Chantal, madame de Sévigné (1626-1696), escritora
francesa (NT).
24 Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico e filósofo francês; escapando
da morte num acidente de carruagem quando tinha 31 anos, largou a vida
mundana e decidiu entregar-se inteiramente a Deus, passando a viver como
um místico, embora nunca tenha deixado de lado suas experiências
científicas (NT).
25 François de Salignac de La Mothe Fénelon (1651-1715), escritor francês,
bispo de Cambrai; teve problemas com o Vaticano por causa de seu apoio a
Madame de Guyon (NT).
26 Jeanne-Marie Bouvier de La Motte, dita Madame Guyon (1648-1717),
mística francesa, difundiu o quietismo, doutrina teológica que afirmava a
presença contínua de Deus na alma e pregava um abandono total a ele;
condenadas pela Igreja, a doutrina e Madame de Guyon, esta foi presa e
exilada (NT).
27 Armand Jean Le Bouthillier de Rancé (1626-1700) foi o fundador da Ordem
monástica dos Trapistas; na verdade, foi o reformador dessa Ordem que, na
origem, era beneditina, impondo urna regra extremamente severa,
caracterizada especialmente pelo silêncio perpétuo; o designativo trapistas
deriva do nome do mosteiro que se chama Notre-Dame de la Trappe (NT).
28 Assim eram chamados pelos católicos os protestantes franceses durante as
guerras de religião nos séculos XVI e XVII; o termo huguenote é uma
corruptela do vocábulo alemão Eidgenossen que significa confederados (NT).
29 Port-Royal era um mosteiro feminino que se celebrizou por adotar a
doutrina jansenista (pregada pelo bispo Jansênio) que se caracterizava por
uma observância estrita e um rigorismo extremado; o mosteiro se tornou um
centro de cultura religiosa e atraiu muitos solitários, entre eles Pascal; o
jansenismo foi condenado pela Igreja e Pascal tentou defendê-lo, mas em
vão; as monjas foram expulsas e o mosteiro foi demolido (NT).
30 Isaac Newton (1642-1727), físico, matemático e astrônomo inglês (NT).
31 François Marie Arouet, dito Voltaire (1694-1778), escritor e filósofo francês;
dentre suas obras, Cartas filosóficas, Cândido ou o otimismo, O ingênuo,
Zadig ou o destino, A princesa de Babilônia, Tratado sobre a tolerância já
foram publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
32 Citação extraída da obra Odisséia (XX, 18) do poeta grego Homero, que teria
vivido no século IX a.C. (NT).
33 Temístocles (528-462 a.C), estadista ateniense que transformou Atenas na
maior potência naval da época (NT).
34 “Tempestade e pressão”, com o sentido figurado de titanismo,
impetuosidade.
35 Segundo a mitologia grega, Dânae era filha de Acrisio, rei de Argos; como o
oráculo havia predito que ela teria um filho que mataria o avô, Acrisio
mandou encerrá-la numa prisão subterrânea; Zeus se encantou de tal forma
com a beleza de Dânae, que penetrou na prisão disfarçado em chuva de
ouro, fecundando a jovem que foi mãe de Perseu; este, anos mais tarde,
matou involuntariamente o avô nos jogos públicos (NT).
36 Rubicão (Rubicone, em italiano) é o nome de rio da Itália; na época da
República romana marcava a fronteira entre a Gália Cisalpina e a Itália; no
ano 49 antes de Cristo, Júlio César, que era governador da Gália,
atravessou-o ilegalmente para marchar com seu exército sobre Roma,
provocando a guerra contra Pompeu, confronto bélico que depois se
transformou em guerra civil. César, no fim, levou a melhor e se tornou o
primeiro imperador de Roma. Subsiste ainda hoje a expressão atravessar o
Rubicão que significa superar uma dificuldade enorme ou tomar uma
decisão audaciosa e irrevogável (NT).
37 Expressão latina que significa “desprezar de ser desprezado, menosprezar
por ser menosprezado” (NT).
38 Expressão latina que significa “não se surpreender com nada” (NT).
39 Frase latina que significa “surpreender-se, isto é, filosofar” (NT).
LIVRO QUARTO
208. QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA
“E, em resumo, que querem afinal de novo?” — Não
queremos mais que as causas sejam pecados e os efeitos,
carrascos.
209. A UTILIDADE DAS TEORIAS MAIS SEVERAS
Somos indulgentes com as fraquezas morais de um homem e
se o passarmos por um crivo, é somente pela malha larga deste
que ele confessa sempre sua fé numa moral severa. Em
compensação, sempre examinamos no microscópio a vida dos
moralistas de espírito livre: com a segunda intenção de que um
passo em falso na vida seria o melhor argumento contra um
conhecimento indesejável.
210. O QUE É “EM SI”
Outrora perguntava-se: o que é que faz rir? Como se
houvesse, fora de nós mesmos, coisas cuja propriedade fosse fazer
rir e então as pessoas se perdiam então em conjeturas (um teólogo
julgava mesmo que fosse “a ingenuidade do pecado”). Hoje
costuma-se perguntar: o que é o riso? Como se produz? Refletiuse
e finalmente se determinou que em si não há nada de bom,
nada de belo, nada de sublime, nada de mau, mas antes estados
de alma que levam a atribuir às coisas fora de nós mesmos esses
qualificativos. Retiramos então esses atributos às coisas ou pelo
menos recordamos que fomos nós que os atribuímos a elas: —
cuidemos para que esta convicção não nos faça perder a faculdade
de atribuir, cuidemos para não nos tornarmos ao mesmo tempo
mais ricos e mais avaros.
211. PARA AQUELES QUE SONHAM A IMORTALIDADE
Desejam, portanto, a duração eterna dessa bela consciência
de vocês mesmos? Não é vergonhoso? Esquecem todas as outras
coisas que, por sua vez, teriam de suportá-los por toda a
eternidade como os suportaram até agora com uma paciência
mais que cristã? Ou julgam que seu aspecto possa lhes
proporcionar um sentimento de bem-estar eterno? Um único
homem imortal na terra bastaria para inspirar a tudo o que o
envolvesse um tal desgosto que dele resultaria uma verdadeira
epidemia de suicídio! E vocês, pobres habitantes da terra como
são, com seus pequenos conceitos de alguns milhares de minutos
no tempo, querem estar eternamente dependentes da existência
eterna e universal! Há algo de mais inoportuno? — Mas, no final
das contas, sejamos indulgentes com um ser de setenta anos! —
Ele não pôde exercer a imaginação para descrever seu próprio
“aborrecimento eterno” — faltou-lhe tempo!
212. EM QUE NOS CONHECEMOS
Desde que um animal percebe outro, mede-se com ele em
pensamento: os homens das épocas selvagens agiam da mesma
maneira. De onde se segue que quase cada homem só aprende a
conhecer-se com relação à sua força de defesa e de ataque.
213. OS HOMENS DE VIDA FALHA
Alguns são modelados de tal matéria que é permitido à
sociedade fazer deles isto ou aquilo: sob todos os aspectos eles se
sentirão bem e não terão de se queixar de uma vida falha. Outros
são modelados de uma matéria muito especial — não é preciso
que seja particularmente nobre, mas apenas mais rara — para
que possam não se sentir insatisfeitos, salvo num só no caso,
aquele em que poderiam viver segundo seus únicos objetivos que
lhes é possível ter: — em todos os outros casos, a sociedade sofre
o prejuízo. De fato, tudo o que aparece ao indivíduo como vida
falha, sem êxito, todo o seu fardo de desencorajamento, de
impotência, de doença, de irritabilidade, de avidez, ele lança sobre
a sociedade — e é assim que se forma em torno dele uma
atmosfera viciada e pesada ou, no caso mais favorável, uma
nuvem de tempestade.
214. PARA QUE CONSIDERAÇÃO!
Vocês sofrem e exigem que sejamos indulgentes para com
vocês quando seu sofrimento os leva a serem injustos com as
coisas e com os homens! Mas que importa a consideração que
temos! Vocês deveriam, contudo, ser mais circunspectos em seu
próprio interesse! Que bela maneira de se indenizar do sofrimento,
usando este acréscimo de prejuízo em seu julgamento! É sobre
vocês mesmos que recai sua vingança quando difamam alguma
coisa; perturbam assim sua vista e não só a dos outros: vocês se
habituam a ver torto e de viés!
215. A MORAL DAS VÍTIMAS
“Sacrificar-se com entusiasmo”, “imolar-se a si próprio” —
esses são os clichês de sua moral e acredito de boa vontade que,
como vocês o dizem, estão “de boa fé”: mas eu os conheço melhor
que vocês mesmos, se sua “boa fé” é capaz de andar de braço dado
com semelhante moral. Olham do mais alto essa outra moral
sóbria que exige o domínio de si, a severidade, a obediência, vocês
chegam a chamá-la egoísta e certamente! — vocês são sinceros
com vocês mesmos ao dizer que ela lhes desagrada — é necessário
que lhes desagrade! De fato, ao sacrificar-se com entusiasmo, ao
imolar-se a vocês mesmos, usufruem com embriaguez da idéia de
não ser mais que um com o poderoso, seja deus ou homem, ao
qual vocês se consagram: saboreiam o sentimento de seu poder
que torna a afirmar-se com um sacrifício. Na realidade, só se
sacrificam na aparência, sua imaginação os torna deuses e
usufruem de vocês mesmos como se fossem deuses. Avaliada do
ponto de vista dessa fruição, como lhes parece fraca e pobre essa
moral “egoísta” da obediência, do dever, da razão: desagrada
porque aqui é preciso sacrificar e imolar de verdade, sem que o
autor do sacrifício tenha como vocês a ilusão de ser
metamorfoseado em deus. Numa palavra, vocês querem a
embriaguez e o excesso, e essa moral que desprezam se ergue
contra a embriaguez e contra o excesso — creio realmente que ela
lhes causa desprazer!
216. OS MAUS E A MÚSICA
A perfeita felicidade do amor que há na confiança absoluta
teria algum dia podido acontecer a pessoas que não fossem
profundamente desconfiadas, más e irritadiças? De fato, estas
gozam no amor de um formidável estado de exceção de seu
espírito, que lhes parece incrível e no qual jamais acreditaram.
Um belo dia são submergidos por esse sentimento ilimitado,
semelhante a uma visão, contrastando com todo o resto de sua
vida secreta e visível: como um delicioso enigma, uma maravilha
com centelhas douradas, ultrapassando todas as palavras e todas
as imagens. A confiança absoluta torna mudo; há até uma espécie
de sofrimento e de peso nesse feliz mutismo; é por isso que essas
almas, oprimidas pela felicidade, experimentam geralmente mais
reconhecimento para com a música do que todas as outras, ainda
que melhores: pois, por meio da música, vêem e ouvem, como
numa nuvem colorida, seu amor tornado de algum modo mais
distante, mais comovente e menos pesado; a música constitui para
essas almas o único meio de ser espectadora de seu estado de
exceção e de participar de seu aspecto, com uma espécie de
afastamento e de alívio. Qualquer amante pensa, ao ouvir música:
“Ela fala de mim, fala em meu lugar, ela sabe tudo!”
217. O ARTISTA
Os alemães querem ser transportados pelo artista a uma
espécie de paixão sonhada; os italianos querem, graças a ele,
descansar de suas paixões verdadeiras; os franceses querem que
lhes ofereça uma ocasião de comprovar seu juízo e um pretexto
para discorrer. Sejamos, pois, equilibrados!
218. AGIR COMO ARTISTA COM AS PRÓPRIAS FRAQUEZAS
Se é absolutamente necessário que tenhamos fraquezas e
que tenhamos também de reconhecê-las como leis acima de nós,
desejo a cada um suficientes capacidades artísticas para saber dar
relevo a suas virtudes por meio de suas fraquezas, de modo a nos
tornar, por suas fraquezas, ávidos de suas virtudes: foi o que os
grandes músicos souberam fazer num grau tão excepcional. Há
com freqüência na música de Beethoven1 um tom grosseiro,
presumido, impaciente; em Mozart2, uma jovialidade de homem
honesto, cujo coração e espírito devem contentar-se; em Richard
Wagner3, uma inquietude fugaz e insinuante, em que o paciente
está aponto de perder seu bom humor: mas é então que o
compositor retoma sua força, como os primeiros. Todos criaram
em nós, por suas fraquezas, uma fome devoradora de suas
virtudes e tornaram nosso paladar dez vezes mais sensível a cada
gota de espírito sonoro, de beleza sonora, de bondade sonora.
219. O DISPARATE NA HUMILHAÇÃO
Causaste, por tua desrazão, um sofrimento infinito a teu
próximo e destruíste irremediavelmente sua felicidade; agora
vences tua vaidade e vais te humilhar junto dele, renuncias diante
dele à tua desrazão e pensas que, depois dessa cena difícil,
extremamente penosa para ti, tudo está resolvido, que o dano
voluntário de tua honra compensa o dano involuntário da
felicidade do outro: repleto desse sentimento, tu te afastas,
reconfortado, com a virtude reconquistada. Mas o outro conservou
a profunda dor que tinha antes, não há nada de consolador para
ele no fato de seres irrazoável e o teres confessado; ele se lembra
até do penoso espetáculo que lhe ofereceste quando te desprezaste
diante dele, como de uma nova ferida de que te é devedor; mas
não pensa na vingança e não compreende como, entre ti e ele,
alguma coisa poderia ser reparada. No fundo, representaste esse
papel diante de ti mesmo e para ti mesmo: convidaste uma
testemunha, novamente por tua causa e não por causa dele —
não te iludas!
220. A DIGNIDADE E O TEMOS
As cerimônias, os costumes de aparato e de dignidade, os
rostos sérios, os ares solenes, os discursos indiretos e tudo o que,
em geral, se chama dignidade: é a forma de dissimular própria
daqueles que carregam o temor no fundo de si mesmos; querem
desse modo inspirar temor (deles próprios ou daquilo que
representam). Os homens sem temor — isto é, originariamente
aqueles que são sempre e indubitavelmente terríveis — não têm
necessidade de dignidade nem de cerimônias; por suas palavras e
atitudes sustentam o bom e mais ainda o mau renome da
honestidade e da lealdade, para indicar que têm consciência de
seu caráter terrível.
221. MORALIDADE DO SACRIFÍCIO
A moralidade que se avalia segundo o espírito de sacrifício é
aquela de uma semi-selvageria. A razão deve obter uma vitória
difícil e sangrenta no íntimo da alma, deve abater terríveis
instintos contrários; isso não é possível sem uma espécie de
crueldade, como nos sacrifícios exigidos pelos deuses canibais.
222. ONDE O FANATISMO É DESEJÁVEL
Não se pode entusiasmar as naturezas fleumáticas sem
fanatizá-las.
223. O OLHO REMÍVEL
Não há nada que os artistas, os poetas, os escritores receiem
mais que o olho que percebe sua. pequena fraude, que percebe
imediatamente que muitas vezes se detiveram no limite, antes de
se entregar à inocente alegria de se contentar a si mesmos ou de
cair nos efeitos fáceis; o olho que verifica se não há pequenas
coisas que quiseram vender muito caro, se não tentaram exaltar e
embelezar, sem ser eles próprios exaltados; o olho que, por meio
de todos os artifícios de sua arte, vê o pensamento como se
apresentava inicialmente diante deles, talvez como uma
encantadora visão de luz, mas talvez também como um plágio
perpetrado à custa de todos, como um pensamento banal que
querem estender, encurtar, colorir, desenvolver, temperar, para
fazer dele alguma coisa. — Oh! esse olho que reconhece em sua
obra toda a sua inquietude, sua espionagem e sua avidez, sua
imitação e seu exagero (que não passa de imitação invejosa), que
conhece o rubor de sua vergonha como sua arte de dissimular
esse rubor e de lhe conferir outro sentido diante de vocês mesmos!
224. O QUE HÁ DE “EDIFICANTE” NA INFELICIDADE ALHEIA
Ele está infeliz e eis que chegam os “apiedados”, os
“compassivos”, que lhe arrancam a infelicidade. — Quando vão
embora, no fim, satisfeitos e edificados, estão repletos do espanto
do infeliz como de seu próprio espanto e passaram uma bela
tarde.
225. MEIO DE SER RAPIDAMENTE DESPREZADO
Um homem que fala depressa e muito cai
extraordinariamente baixo em nossa estima, dentro de muito
pouco tempo, mesmo se fala de modo sensato — e não só na
proporção do aborrecimento que nos causa, mas muito mais
baixo. De fato, pensamos que já se tornou inoportuno a muita
gente e acrescentamos ao desprezar que nos causa todos os
outros desprazeres que supomos que nos tenha causado.
226. DAS RELAÇÕES COM AS CELEBRIDADES
A — Mas por que evitas este grande homem?
B — Não gostaria de aprender a ignorá-lo! Nossos defeitos
não concordam juntos: eu sou míope e desconfiado, e ele usa os
diamantes falsos com tanto prazer como os verdadeiros.
227. ACORRENTADOS
Cuidado com todos os espíritos acorrentados! Por exemplo,
com mulheres inteligentes que o destino confinou num local
mesquinho e limitado, onde envelhecem. Elas estão lá, deitadas ao
sol, aparentemente preguiçosas e meio cegas: mas cada passo
estranho, toda espécie de imprevisto as leva a se sobressaltar e a
mostrar os dentes; vingam-se de tudo o que conseguiu escapar de
seu canil.
228. VINGANÇA NO ELOGIO
Aí está uma página cheia de elogios e vocês dizem que ela é
desinteressante: mas se descobrem que há vingança dissimulada
nesses elogios, vão achar essa página quase muito sutil e vão se
divertir muito com sua riqueza de pequenos traços e figuras
audaciosas. Não é o próprio homem, mas sua vingança que é sutil,
tão rica e tão inventiva; ele próprio mal se dá conta disso.
229. ALTIVEZ
Ai! nenhum de nós conhece o sentimento que experimenta o
torturado depois da tortura, quando foi reconduzido à sua cela
com seu segredo! — Ele o guarda ainda entre os dentes. Como
querem conhecer o júbilo da altivez humana!
230. “UTILITÁRIO”
Hoje, os sentimentos se entrecruzam nas questões de moral,
a ponto de, para um, demonstrarmos a moral por sua utilidade e,
para outro, a refutarmos precisamente por sua utilidade.
231. DA VIRTUDE ALEMÃ
Como um povo deve ser degenerado em seu gosto, servil
diante das dignidades, das categorias sociais, dos costumes, da
pompa e do aparato, para considerar o que é simples como mau, o
homem simples (schlicht) como homem mau (schlecht)! É preciso
opor sempre ao orgulho moral dos alemães esta pequena palavra
“mau” e nada mais!
232. EXTRATO DE UMA DISCUSSÃO
A — Meu amigo, você ficou rouco de tanto falar!
B — Estou, portanto, refutado. Não falemos mais disso!
233. Os “CONSCIENCIOSOS”
Notaram quais eram os homens que conferiam a maior
importância à consciência mais severa? Aqueles que conhecem
muitos sentimentos miseráveis, que pensam em si mesmos com
receio e que têm medo dos outros, aqueles que querem esconder o
melhor possível seu intimo — tentam se impor a si próprios por
essa severidade conscienciosa e esse rigor do dever, graças à
impressão severa e dura que os outros (sobretudo os
subordinados) devem ter deles.
234. RECEIO DA CELEBRIDADE
A — Que alguém se furte à própria celebridade, que ofenda
deliberadamente seus elogiadores, que receie ouvir juízos
pronunciados contra ele, por medo do elogio — isso se encontra,
isso existe — quer você acredite ou não!
B — Isso se encontra, isso existe! Só um pouco de paciência,
jovem arrogante!
235. RECUSAR AGRADECIMENTOS
Pode-se muito bem recusar um pedido, mas nunca se tem o
direito de recusar agradecimentos (ou, o que é o mesmo, aceitá-los
friamente e de maneira convencional). Isso ofenderia
profundamente — e por quê?
236. PUNIÇÃO
Que coisa estranha nossa maneira de punir! Não purifica o
criminoso, não é uma expiação: pelo contrário, suja mais que o
próprio crime.
237. PERIGO NUM PARTIDO
Em quase todos os partidos há uma aflição ridícula, mas que
não é desprovida de perigo: sofrem com ela todos aqueles que
durante longos anos foram fieis e dignos defensores da opinião do
partido e que um dia percebem subitamente que alguém muito
mais poderoso se apoderou da trombeta. Como poderiam suportar
serem reduzidos ao silêncio? E é por isso que levantam o tom e, às
vezes, até mesmo o alteram.
238. A ASPIRAÇÃO À ELEGÂNCIA
Se uma natureza vigorosa não tem inclinação à crueldade e
não se ocupa constantemente de si própria, aspira
involuntariamente à elegância — é sua marca distintiva. Os
caracteres fracos, ao contrário, amam os juízos rudes — eles se
associam aos heróis do desprezo da humanidade, aos
caluniadores da existência, religiosos ou filósofos, ou se
entrincheiram atrás dos costumes severos e de uma estrita
“vocação”: é assim que procuram se criar um caráter e uma
espécie de vigor. E isso também, eles fazem involuntariamente.
239. ADVERTÊNCIA AOS MORALISTAS
Nossos músicos fizeram uma grande descoberta: acharam a
feiúra interessante, ela também era possível em sua arte! É por
isso que se precipitam com embriaguez no oceano da feiúra e
nunca foi tão fácil fazer música. Agora conquistamos o último
plano geral tenebroso, no qual o mais leve clarão de música
adquire o brilho do ouro e da esmeralda; agora ousamos provocar
no ouvinte a perturbação e a revolta, deixá-lo sem fôlego, para lhe
dar em seguida, num momento de enfraquecimento e de
apaziguamento, um sentimento de beatitude que dispõe a apreciar
música. Descobrimos o contraste: é agora que os efeitos mais
poderosos são possíveis, e por bom preço: ninguém mais reclama
boa música. Mas é preciso se apressar! A arte tem pouco tempo de
vida desde que se fez essa descoberta. — Ah! se nossos
pensadores tivessem ouvidos para escutar, através de sua música,
o que se passa na alma de nossos músicos! Até quando será
preciso esperar para reencontrar semelhante ocasião de
surpreender o homem interior em flagrante delito de maldade,
cometida com toda a inocência! De fato, nossos músicos estão
bem longe de suspeitar que transpõe em música sua própria
história, história do enfeamento da alma. Outrora um músico era
quase forçado por sua arte a se tornar um homem bom. — E
agora!
240. DA MORALIDADE DO PALCO
Engana-se aquele que imagina que o efeito produzido pelo
teatro de Shakespeare4 é moral e que a visão de Macbeth afasta
definitivamente dos perigos da ambição: engana-se uma segunda
vez quando pensa que o próprio Shakespeare teve a mesma
impressão que ele. Aquele que é verdadeiramente possuído por
uma ambição furiosa contempla com alegria essa imagem de si
mesmo; e quando o herói perece, vítima de sua paixão, esse é
precisamente o ingrediente mais picante na bebida ardente dessa
alegria. O poeta sentiu, pois, de outra maneira? Com que altivez
real, sem nada de libertino, o ambicioso percorre sua carreira,
uma vez perpetrado seu audacioso crime! É somente a partir
desse momento que atrai “diabolicamente” e que impele à imitação
as naturezas semelhantes; — diabolicamente quer dizer aqui: com
revolta contra o interesse e a vida, em benefício de uma idéia e de
um instinto. Acreditam, portanto, que Tristão e Isolda5
testemunharam contra o adultério porque ambos morrem? Seria
virar os poetas de cabeça para baixo, eles que, sobretudo como
Shakespeare, são apaixonados pela paixão em si e de modo algum
pela disposição mórbida que gera: quando o coração não se segura
mais à vida do que como uma gota na borda do copo. Não é a falta
e suas conseqüências que os interessam, tanto Shakespeare como
Sófocles6 (em Ájax, Filocteto, Édipo): mesmo que tivesse sido fácil
nos casos indicados, fazer da falta a alavanca do drama,
justamente como procuraram evitá-lo. De igual modo, o poeta
trágico, por suas imagens da vida, não quer prevenir contra a vida!
Pelo contrário, exclama: “É o encanto de todos os encantos essa
existência agitada, mutável, perigosa, sombria e muitas vezes
ardentemente ensolarada! Viver é uma aventura, tomem este ou
aquele partido na vida, ela sempre conservará essa característica!”
— É assim que fala numa época inquieta e vigorosa que inebria e
atordoa pela metade sua superabundância de sangue e de
energia, numa época mais maldosa que a nossa: aí está porque
temos necessidade de modificar e de adaptar o objetivo de um
drama de Shakespeare, isto é, de não conseguir compreendê-lo.
241. MEDO E INTELIGÊNCIA
Se é verdade o que se afirma hoje categoricamente, que não
é preciso procurar na luz a causa do pigmento negro da pele, esse
fenômeno poderia ser o último efeito de freqüentes acessos de
raiva (e de afluxos de sangue sob a pele) acumulados durante
séculos? Enquanto entre outras raças mais inteligentes, o
fenômeno da palidez e do medo, também muito freqüentes, teria
contribuído para produzir a cor branca da pele? — De fato, o grau
de temor é uma medida da inteligência: e o fato de se abandonar
muitas vezes a uma raiva cega é o sinal de que a animalidade está
ainda bem próxima e tenta se impor de novo — castanho
acinzentado, essa talvez seria a cor primitiva do homem —
qualquer coisa que lembra o macaco e o urso, como seria justo.
242. INDEPENDÊNCIA
A independência (chamada “liberdade de pensamento”, em
sua dose mais fraca) é a forma de renúncia que o espírito
dominador acaba por aceitar — ele que há muito procurava o que
dominar e não encontrou nada senão ele mesmo.
243. AS DUAS DIREÇÕES
Se tentarmos contemplar o espelho em si, acabamos por não
descobrir senão os objetos que nele se refletem. Se quisermos
agarrar esses objetos, voltamos a ver somente o espelho. — Essa é
a história geral do conhecimento.
244. O PRAZER QUE A REALIDADE CAUSA
Nossa tendência atual de encontrar prazer na realidade —
quase todos a temos — não pode ser compreendida de outra forma
que admitindo que, durante muito tempo e até a saciedade,
encontramos nosso prazer na irrealidade. Essa tendência, tal
como se apresenta hoje, sem escolha e sem sutileza, não é isenta
de perigos: — seu menor perigo é a falta de gosto.
245. SUTILEZA DO SENTIMENTO DE PODER
Napoleão ficava exasperado por falar mal e nesse aspecto ele
não mentia a si próprio: mas seu desejo de dominar quem não
perdia nenhuma ocasião para se manifestar e se mostrava mais
sutil que seu espírito sutil impelia-o a falar ainda pior do que
realmente podia. É assim que se vingava de sua própria
exasperação (era ciumento de todas as suas paixões, porque elas
tinham poder) para usufruir de seu belo prazer autocrático. Em
seguida, usufruía uma segunda vez desse belo prazer com relação
aos ouvidos e ao juízo de seus ouvintes: como se fosse muito bom
para eles de lhes falar assim. Rejubilava-se mesmo em segredo
com a idéia de perturbar o juízo e de estragar o gosto pelo brilho e
pelo trovão da mais alta autoridade — que reside na união do
poder com a genialidade; — enquanto seu juízo e seu gosto
conservavam nele próprio a convicção de que falava mal. —
Napoleão, como tipo completo, totalmente desejado e realizado por
um único instinto, pertence à humanidade antiga, cujas
características — a construção simples e o desenvolvimento
engenhoso de um só e de um pequeno número de motivos — são
bastante fáceis de identificar.
246. ARISTÓTELES E O CASAMENTO
Nos filhos dos grandes gênios explode a loucura; naqueles
dos grandes virtuosos, a estupidez — observa Aristóteles7. Queria,
desse modo, convidar ao casamento os homens excepcionais?
247. ORIGEM DO MAU TEMPERAMENTO
A injustiça e a instabilidade emocional de certos homens,
sua desordem e falta de medida, são as últimas conseqüências de
inúmeras inexatidões lógicas, falta de profundidade, de conclusões
apressadas de que seus antepassados se tornaram culpados. Os
homens de bom temperamento, em compensação, descendem de
raças refletidas e sólidas, que ergueram bem alto a razão — que
isso tenha sido para fins louváveis ou não, isso não conta muito.
248. SIMULAÇÃO POR DEVER
A bondade foi particularmente desenvolvida por uma
simulação persistente que queria parecer boa: por toda a parte
onde existia um grande poder, reconheceu-se a necessidade
particular dessa espécie de simulação — ela inspira a segurança e
a confiança e centuplica a soma real de força física. A mentira é,
senão a mãe, pelo menos a ama da bondade. De igual modo, a
honestidade foi criada especialmente pela exigência de urna
aparência de honestidade e de lealdade: na aristocracia
hereditária. Do exercício constante de uma simulação acaba por
nascer a natureza: a simulação, a longo prazo, se suprime a si
própria, órgãos e instintos são os frutos inesperados do jardim da
hipocrisia.
249. QUEM NUNCA ESTÁ SÓ!
O homem receoso não sabe o que é estar só; há sempre um
inimigo atrás de sua cadeira. — Ah! quem, portanto, poderia nos
contar a historia desse sentimento sutil que se chama solidão!
250. NOITE E MÚSICA
Foi somente na noite e na semi-obscuridade das sóbrias
florestas e das cavernas que o ouvido, órgão do medo, pôde se
desenvolver tão abundantemente como o fez, graças à maneira de
viver da idade do medo, isto é, da mais longa das épocas humanas
que houve: à luz, o ouvido é muito menos necessário. Disso
decorre a característica da música, arte da noite e da penumbra.
251. DE MANEIRA ESTÓICA
Há uma serenidade peculiar no estóico quando se sente sob
pressão no cerimonial que ele próprio prescreveu a suas ações; ele
sente prazer então em si mesmo como dominador.
252. PENSEMOS NISSO!
Aquele que é punido nunca é o mesmo que cometeu o ato. É
sempre o bode expiatório.
253. EVIDÊNCIA
É triste dizer, mas há uma coisa que é necessário
demonstrar com mais rigor e obstinação, é a evidência. De fato, a
maioria das pessoas não tem olhos para vê-la. Mas essa
demonstração é tão aborrecida!
254. AQUELES QUE ANTECIPAM
O que distingue as naturezas poéticas, mas é também um
perigo para elas, é sua imaginação que esgota de antemão: a
imaginação que antecipa o que vai ocorrer ou poderia ocorrer, que
se alegra ou sofre com isso de antemão, e que, no momento final
do acontecimento ou da ação, já está fatigado. Lord Byron8, que
conhecia isso muito bem, escrevia em seu diário: “Se algum dia
tiver um filho, ele deverá se tornar alguma coisa de totalmente
prosaico — jurista ou pirata”.
255. CONVERSA SOBRE A MÚSICA
A — Que é que você acha desta música?
B — Ela me subjugou, não tenho absolutamente nada a
dizer. Escute! Ela recomeça!
A — Tanto melhor! Vamos tomar cuidado para que agora
sejamos nós que a subjugamos. Posso acrescentar algumas
palavras a esta música? E mostrar-lhe também um drama que
talvez não tenha querido ver na primeira audição?
B — Já estou escutando! Tenho dois ouvidos e mais que isso
se for necessário. Venha para bem perto de mim!
A — Não é ainda isto que ela nos quer dizer, até aqui,
promete somente que quer dizer alguma coisa, alguma coisa de
inaudito, como o dá a entender através destes gestos. Como faz
sinais! Como se endireita! Como gesticula! E eis que parece ter
chegado o momento de tensão suprema: ainda duas fanfarras e
vai apresentar seu tema soberbo e adornado, soando como pedras
preciosas. É uma bela mulher? Ou um belo cavalo? Logo, ele olha
em torno dele, arrebatado, pois há olhares de encanto a recolher;
— somente agora seu tema lhe agrada completamente, somente
agora se torna inventivo, ousa trechos novos e audaciosos. Como
valoriza seu tema! Ah! prepare-se! — Ele não se dedica somente a
ornar, mas também a pintá-lo! Ele sabe muito bem qual é a cor da
saúde e se empenha a fazê-la aparecer — é mais sutil no
conhecimento de si do que eu pensava. E agora crê já ter
convencido seus ouvintes, apresenta suas invenções como se
fossem as coisas mais importantes sob o sol, aponta seu tema
com um dedo insolente, como se fosse demasiado bom para este
mundo. — Ah! como é desconfiado! Tem medo de que nos
cansemos! É por isso que envolve suas melodias em açúcar —
agora apela mesmo para os mais grosseiros de nossos sentidos,
para nos comover e nos manter de novo sob seu poder! Escute
como evoca a força elementar dos ritmos, da tempestade e do
trovão! E agora que percebeu de que estes ritmos nos possuem,
nos estrangulam e estão prestes a nos matar, ele ousa misturar de
novo seu tema ao jogo dos elementos para nos convencer, a nós
que estamos semi-estupefatos e abalados, que nossa estupefação
e nossa emoção são os efeitos de seu tema miraculoso. E a partir
daqui os ouvintes lhe dão crédito: desde que o tema ressoa uma
lembrança desses comovedores efeitos elementares nasce em sua
memória — e o tema aproveita agora dessa lembrança — aí está
ele, que se torna “demoníaco”! Que conhecedor da alma humana,
este músico! Ele nos domina com os artifícios de um orador
popular. — Mas a música emudece!
B — E o faz perfeitamente bem! Pois não posso mais
suportar ouvi-lo! Prefiro dez vezes me deixar enganar que conhecer
uma vez a verdade à sua maneira!
A — Isso é o que eu queria ouvir de você. Os melhores são
hoje feitos à sua imagem: você fica satisfeito por se deixar
enganar! Você vem aqui com ouvidos grosseiros e ávidos, mas não
traz a consciência da arte de escutar. Pelo caminho, você jogou
fora sua mais sutil boa fé! É assim que você corrompe a arte e os
artistas! Sempre que aplaude e aclama, você tem entre as mãos a
consciência dos artistas — e infelizes deles se perceberem que
você não sabe distinguir entre música inocente e música culpada!
Não quero realmente falar de “boa” e de “má” música — há de uma
e de outra nas duas espécies! Mas chamo música inocente aquela
que pensa exclusivamente em si, acredita apenas em si e que, por
causa dela mesma, esqueceu o mundo — a ressonância
espontânea da mais profunda solidão que fala de si mesma para si
mesma e que não sabe mais que há lá fora ouvintes à escuta,
efeitos, mal-entendidos e insucessos. — Em resumo: a música que
acabamos de ouvir é precisamente dessa espécie nobre e rara e
tudo o que disse dela era mentira — desculpe minha maldade, se
quiser!
B — Ah! Você gosta então desta música? Então muitos
pecados lhe serão perdoados!
256. FELICIDADE DOS MAUS
Esses homens silenciosos, sombrios e maus possuem
alguma coisa que não podem disputar com eles, um prazer raro e
singular no dolce farniente9, uma tranqüilidade de crepúsculo e de
sol se pondo, como só o conhece um coração que foi muitas vezes
devorado, dilacerado, e envenenado pelas paixões.
257. PALAVRAS PRESENTES EM NOSSO ESPÍRITO
Só sabemos exprimir nossos pensamentos com as palavras
que temos à mão. Ou melhor, para exprimir todas as minhas
suspeitas: a cada instante temos somente o pensamento para o
qual temos presentes na memória as palavras que podem exprimilo
aproximativamente.
258. ACARICIAR O CÃO
Basta acariciar uma vez o pêlo do cão: logo ele se põe a
vibrar e a lançar faíscas como faria qualquer outro bajulador — e
é espiritual à sua maneira. Por que não haveríamos de suportá-lo?
259. O ANTIGO ELOGIADOR
“Ele se cala por minha causa, embora saiba agora a verdade
e que poderia dizê-la. Mas soaria como uma vingança — e ele
estima tanto a verdade, esse homem tão digno de estima!”
260. AMULETO DOS HOMENS DEPENDENTES
Aquele que depende inevitavelmente de um mestre deve
possuir alguma coisa que inspira o medo e mantém o mestre com
rédeas curtas, por exemplo, a probidade ou a franqueza ou ainda
a má língua.
261. POR QUE TÃO SUBLIME!
Ai! vocês conhecem essa espécie animal! É verdade que gosta
mais de si quando avança erguida sobre duas pernas “como um
deus” — mas quando recai sobre suas quatro patas, é a mim que
agrada mais: isso lhe é incomparavelmente mais natural!
262. O DEMÔNIO DO PODER
Não é a necessidade, não é o desejo — não, é o amor ao
poder que é o demônio dos homens. Ainda que se lhes dê tudo,
saúde, alimento, alojamento, distrações — eles continuam
infelizes e caprichosos, pois o demônio espera e espera sempre, ele
quer ser satisfeito. Tiremos tudo aos homens e satisfaçamos o
demônio, e eles ficarão quase felizes — tão felizes quanto o podem
ser homens e demônios. Mas por que eu repetiria isso? Lutero já o
disse, e melhor que eu, nos versos: “Se nos tirarem o corpo e bens,
honra, mulher e filhos: deixem-nos fazer isso — o Reino restarnos-
á de qualquer modo!” Sim, sim! o “Reino”!
263. A CONTRADIÇÃO TORNADA CORPO E ALMA
Naquilo que se chama gênio há uma contradição fisiológica:
o gênio possui, por um lado, muito movimento selvagem,
desordenado, involuntário e, por outro lado, uma grande
finalidade superior nesse movimento — com isso tem como
próprio um espelho que mostra os dois movimentos, um ao lado
do outro, entrelaçados, mas com muita freqüência também
opostos, um contra o outro. A conseqüência desse aspecto é que o
gênio é muitas vezes infeliz e, se ele se sente mais feliz na criação,
é porque esquece que justamente então, em sua atividade
superior, faz alguma coisa de imaginário e de não razoável (toda
arte é assim) — e é necessário que o faça.
264. QUERER ENGANAR-SE
Os homens invejosos que têm um faro sutil não procuram
conhecer de perto seu rival, a fim de poder se sentir superiores a
ele.
265. O TEATRO TEM SEU TEMPO
Quando a imaginação de um povo declina, nasce nele o
gosto de representar no palco suas lendas, suportando a partir de
então os grosseiros substitutos da imaginação — mas para a
época à qual pertence a rapsódia, o teatro e o ator disfarçado em
herói são um entrave em vez de uma asa da imaginação: muito
próximos, muito definidos, muito pesados, muito pouco sonho e
vôo de pássaro.
266. SEM GRAÇA
Ele não tem graça e sabe: Oh! como se dedica a mascarar
isso! Com uma severa virtude, com o olhar sombrio, com uma
desconfiança adquirida em relação aos homens e à existência, com
gestos grosseiros, com o desprezo de um modo de vida refinado,
com o pathos e as exigências, com uma filosofia cínica — sim,
soube mesmo tornar-se um caráter na consciência contínua do
que lhe faltava.
267. POR QUE TÃO ALTIVO?
Um caráter nobre se distingue de um caráter vulgar porque
não tem a seu alcance, como este, certo número de hábitos e de
pontos de vista: o acaso quis que não os tivesse conseguido nem
por herança nem por educação.
268. CARIBDE E CILA10 DO ORADOR
Como era difícil em Atenas falar de maneira a ganhar os
ouvintes para uma causa, sem rechaçá-los pela forma ou sem
afastá-los da causa com a forma! Como é difícil ainda na França
escrever da mesma maneira!
269. OS DOENTES E A ARTE
Contra toda espécie de tristeza e de miséria da alma, é
necessário antes de tudo tentar uma mudança de regime e um
duro trabalho físico. Mas os homens estão habituados nesse caso
a recorrer a meios que provocam embriaguez: por exemplo, à arte
— para sua infelicidade e também para aquela da arte! Não
reparam que, se vocês recorrem à arte, enquanto doentes, tornam
a arte doente?
270. TOLERÂNCIA APARENTE
Aí estão boas palavras, benevolentes e compreensíveis, sobre
a ciência e em favor da ciência, mas! mas! eu olho atrás de sua
tolerância para com a ciência! Num canto do coração vocês
pensam, apesar de tudo, que ela não lhes é necessária, que é por
pura generosidade de sua parte admiti-la e ser até mesmo
advogado dela, tanto mais que a ciência não tem, de sua parte,
essa magnanimidade a respeito da opinião de vocês! Sabem que
vocês não têm nenhum direito a exercer essa tolerância? Que esse
gesto de condescendência é um ultraje mais grosseiro à honra da
ciência do que o franco desdém que se permite a respeito dela
algum padre ou algum artista impetuoso? Falta-lhes essa
consciência rigorosa para o que é verdadeiro e real; vocês não se
sentem atormentados nem martirizados por ver a ciência em
contradição com seus sentimentos, vocês ignoram o desejo ávido
do conhecimento que os governaria como uma lei, não sentem um
dever na necessidade de estar presentes com os olhos em toda
parte onde se “conhece”, para não deixar escapar nada daquilo
que é “conhecido”. Vocês ignoram o que tratam com tanta
benevolência! E é somente porque o ignoram que conseguem
assumir uma aparência tão benevolente! Vocês, exatamente vocês,
teriam um olhar de ódio e de fanatismo se a ciência quisesse um
dia iluminar a fisionomia de seus olhos! — Que nos importa, pois,
que sejam tolerantes — para com um fantasma! E de modo algum
a nosso respeito! — E que isso importa para nós!
271. A DISPOSIÇÃO DE FESTA
É justamente para esses homens que aspiram mais
impetuosamente ao poder que é infinitamente agradável sentir-se
subjugados! Afundar-se subitamente no fundo de um sentimento
como num turbilhão! Deixar arrancar as rédeas das mãos e ser
espectador de um movimento que vai levar não se sabe onde! Seja
quem for, seja o que for que nos preste esse serviço — presta-nos
um grande serviço: estamos tão felizes e estafados e sentimos em
torno de nós um silêncio excepcional, como no mais profundo
centro da terra. Estar uma vez inteiramente sem poder! Joguete de
forças primordiais! Há um repouso nessa felicidade, um alívio do
grande fardo, uma descida sem fadiga, como que entregues a um
peso cego. É o sonho do homem que escala as montanhas e que,
tendo fixado o topo como objetivo, adormece um instante pelo
caminho, cheio de fadiga e sonha a felicidade contrária — de rolar
sem dificuldade montanha abaixo. Descrevo a felicidade como a
imagino em nossa sociedade atual da Europa e da América, ao
mesmo tempo extenuada e sedenta de poder. Por aqui e por lá os
homens querem recair na impotência — as guerras, as artes, as
religiões, os gênios lhes oferecem também esse prazer. Quando
nos abandonamos a uma impressão momentânea que devora e
aniquila tudo — essa é a disposição da festa moderna! Voltamos a
tornar-nos mais livres, mais leves, mais frios, mais severos e
aspiramos então, sem repouso, a alcançar o contrário: o poder.
272. A PURIFICAÇÃO DA RAÇA
Não há provavelmente raças puras, mas somente raças
depuradas e estas são extremamente raras. O que há de mais
difundido são as raças mistas, nas quais, ao lado dos defeitos de
harmonia nas formas corporais (por exemplo, quando os olhos e a
boca não combinam) se encontra necessariamente forçosamente
defeitos de harmonia nos hábitos e nos juízos de valor.
(Livingstone11 ouviu uma vez dizer: “Deus criou os brancos e os
negros, mas o diabo criou os mestiços.”) As raças mistas
produzem sempre, ao mesmo tempo que culturas mistas,
moralidades mistas: são geralmente mais maldosas, mais cruéis,
mais instáveis. A pureza é o resultado final de inumeráveis
assimilações, absorções e eliminações, e o progresso em direção à
pureza se manifesta no fato que a força presente numa raça se
restringe, cada vez mais, a algumas funções escolhidas, enquanto
antes tinha de realizar, com muita freqüência, muitas coisas
contraditórias: semelhante restrição terá sempre aparências de
empobrecimento e não se deve julgá-la senão com prudência e
moderação. Mas finalmente, quando o processo de purificação
obteve êxito, todas as forças que outrora se perdiam na luta entre
as qualidades sem harmonia, se encontram agora à disposição do
conjunto do organismo: é por isso que as raças depuradas se
tornaram sempre mais fortes e mais belas. — Os gregos nos
oferecem o modelo de uma raça e de uma cultura assim
depuradas: devemos esperar que a criação de uma raça e de uma
cultura européias puras tenha igualmente êxito um dia.
273. OS ELOGIOS
Percebes que alguém quer te elogiar: mordes os lábios, teu
coração se aperta, ai! que esse cálice se afaste de ti! Mas não se
afasta, se aproxima! Bebamos, pois, a doce impertinência do
bajulador, vençamos o desgosto e o profundo desprezo que nos
inspira o essencial de seus elogios, enruguemos o rosto numa
expressão de alegria reconhecida! — Ele queria ser agradável! E
agora que está feito, sabemos que se sente muito exaltado, obteve
uma vitória sobre nós — e também sobre ele próprio, o cão! —
pois, não lhe foi fácil extorquir de si esses elogios.
274. DIREITO E PRIVILÉGIO DO HOMEM
Nós, homens, somos a única criatura que, quando não tem
êxito, pode se auto-suprimir, como uma frase mal elaborada —
agimos assim, seja pela honra da humanidade ou por compaixão
para com ela, seja ainda por aversão contra nós mesmos.
275. O HOMEM TRANSFORMADO
Agora se torna virtuoso, unicamente para ferir os outros.
Não olhem tanto para seu lado!
276. FREQÜENTE! MAS INESPERADO!
Quantos homens casados viram despontar a manhã em que
percebiam que sua jovem mulher estava aborrecida, mas ela
aparentava o contrário! Para não falar dessas mulheres cuja carne
está pronta, mas o espírito é fraco!
277. VIRTUDES ARDENTES E FRIAS
A coragem, como decisão fria e inabalável, e a coragem,
como bravura fogosa e semi-cega — para essas duas coragens há
uma só palavra! Como são diferentes, no entanto, as virtudes frias
das virtudes ardentes! E louco seria quem imaginasse que a
“qualidade” da virtude só é aumentada pelo ardor, mais louco
ainda quem a atribuísse exclusivamente à frieza! Para dizer a
verdade, a humanidade julgou muito útil a coragem de sangue-frio
ou fogosa e, além do mais, muito pouco freqüente para não fazê-la
brilhar entre suas jóias sob duas cores diferentes.
278. A MEMÓRIA COMPLACENTE
Aquele que ocupa uma posição elevada fará bem ao adquirir
para si uma memória complacente, isto é, reter nas pessoas todo o
bem possível e em seguida fechar a conta: assim as mantém numa
agradável dependência. O homem pode também proceder da
mesma forma consigo mesmo: tenha ou não uma memória
complacente, é o ponto decisivo para julgar sua atitude para
consigo mesmo, sua nobreza, sua bondade ou desconfiança na
observação de suas tendências e de suas intenções e finalmente a
própria qualidade de suas tendências e de suas intenções.
279. EM QUE NOS TORNAMOS ARTISTAS
Aquele que faz de alguém seu ídolo tenta se justificar diante
de si mesmo, elevando-o no ideal; ele se faz artista, na pessoa de
seu ídolo, para ter boa consciência. Se sofre, não sofre por sua
ignorância, mas por causa da mentira que se conta a si mesmo,
simulando ignorância. — A miséria e a alegria interiores de
semelhante homem — e todos aqueles que amam com paixão são
feitos assim — não podem se esgotar com baldes de dimensão
normal.
280. INFANTIL
Aquele que vive como as crianças — aquele, portanto, que
não luta para ganhar seu pão e não acredita que suas ações
tenham uma significação definitiva — esse permanece infantil.
281. O “EU” QUER POSSUIR TUDO
Parece que o homem age em geral apenas para possuir: pelo
menos as línguas que não consideram toda ação passada como
confluindo para uma posse permitem essa suposição (“falei, lutei,
venci”, isso quer dizer: agora estou de posse de minha palavra, de
minha luta, de minha vitória). Como o homem se mostra ávido!
Nem o passado quer deixar escapar, deseja tê-lo ainda, até ele!
282. PERIGO NA BELEZA
Esta mulher é bela e inteligente; ai! como se teria tornado
mais inteligente se não fosse bela!
283. PAZ DA CASA E PAZ DA ALMA
Nosso estado de espírito habitual depende do estado de
espírito em que sabemos manter nossas companhias.
284. APRESENTAR UMA NOVA NOTÍCIA COMO SE FOSSE ANTIGA
Muitos parecem ficar irritados quando se lhes conta uma
novidade; são sensíveis à preponderância que a notícia confere
àquele que a sabe por primeiro.
285. ONDE TERMINA O “EU”?
A maioria das pessoas toma sob sua proteção uma coisa que
sabem, como se sabê-la fosse suficiente para definir sua
propriedade. O desejo de apropriação do sentimento do eu não
tem limites: os grandes homens falam como se tivessem atrás
deles todas as idades do tempo e eles fossem a cabeça desse
imenso corpo, e as queridas mulheres tomam sobre si o mérito da
beleza dos filhos, de seu vestuário, de seu cão, de seu médico, de
sua cidade, mas elas não ousam dizer: “Eu sou tudo isso”. — Chi
non ha, non è12 — como se diz na Itália.
286. ANIMAIS DOMÉSTICOS E DE APARTAMENTO
Há coisa mais repugnante do que a sentimentalidade em
relação às plantas e aos animais por parte de seres que, desde a
origem, procederam a devastações no meio deles, como se fossem
seus inimigos mais ferozes e que acabam por querer demonstrar
até mesmo sentimentos ternos para com suas vítimas
enfraquecidas e mutiladas? Diante dessa espécie de “natureza”,
importa que o homem seja antes de tudo sério, se for um homem
que pensa.
287. DOIS AMIGOS
Eles eram amigos, mas deixaram de sê-lo e romperam
simultaneamente de parte e de outra, um porque se julgava
desprezado demais, o outro porque se julgava considerado demais
— e nisso ambos se enganaram! — pois, nenhum deles se
conhecia suficientemente a si próprio.
288. COMÉDIA DOS HOMENS NOBRES
Aqueles que fracassam na familiaridade nobre e cordial
tentam deixar adivinhar a nobreza de sua natureza pela reserva,
pela severidade e por certo desprezo da familiaridade: como se o
sentimento violento de sua confiança tivesse vergonha de se
mostrar.
289. ONDE NADA SE PODE DIZER CONTRA UMA VIRTUDE
Entre covardes é de mau gosto dizer alguma coisa contra a
bravura; isso suscita o desprezo; e os homens sem consideração
se mostram irritados quando se diz alguma coisa contra a
compaixão.
290. UM DESPERDÍCIO
Nas naturezas irritadiças e impulsivas, as primeiras palavras
e os primeiros atos não significam geralmente nada quanto a seu
verdadeiro caráter (são inspirados pelas circunstâncias e são, de
alguma forma, imitações do espírito de circunstância), mas uma
vez que essas palavras foram ditas e esses atos foram executados,
as palavras e os atos que se seguem, e verdadeiramente conformes
com o caráter, são muitas vezes sacrificados para atenuar e fazer
esquecer os primeiros.
291. PRESUNÇÃO
A presunção é uma altivez representada e fingida; mas é
precisamente próprio da altivez não poder nem querer representar,
simular ou fingir — nesse sentido a presunção é a hipocrisia da
incapacidade de fingir, alguma coisa de muito difícil que é quase
sempre mal sucedida. Supondo, porém, que, como acontece
geralmente, o presunçoso se trai em sua representação, um triplo
desgosto o espera: queremos-lhe mal porque procura enganar-nos,
queremos-lhe mal porque quis mostrar-se superior a nós — e,
finalmente, rimos dele porque falhou nos dois casos. Não
podemos, portanto, desaconselhar de modo suficiente a
presunção!
292. UMA ESPÉCIE DE DESCONHECIMENTO
Quando ouvimos alguém falar, basta às vezes o som de uma
só consoante (por exemplo, de um r) para nos inspirar dúvidas
sobre a lealdade de seus sentimentos: não estamos habituados a
esse som e seríamos obrigados a prestar atenção para reproduzi-lo
— parece-nos “artificial”. Esse é o domínio do mais grosseiro
desconhecimento: ocorre o mesmo com o estilo de um escritor
cujos hábitos não são os de todos. Só ele pode sentir seu “natural”
como tal, e é justamente com o que ele próprio considera como
“artificial” — porque nisso uma vez cedeu à moda e ao “bom gosto”
— que talvez possa agradar e despertar a confiança.
293. RECONHECIMENTO
Um nada de reconhecimento e de compaixão em demasia: —
e sofremos disso como de um vício, apesar de toda sua
independência e sua vontade, sucumbimos à má consciência.
294. SANTOS
São os homens mais sensuais que fogem diante das
mulheres e são obrigados a torturar o corpo.
295. SERVIR COM SUTILEZA
Na grande arte de servir, uma das tarefas mais sutis consiste
em servir um ambicioso desenfreado que, embora sendo em todas
as coisas o egoísta mais incorrigível, não quer ter sob hipótese
alguma passar por isso (essa é precisamente parte de sua
ambição), que exige que tudo seja feito segundo sua vontade e
seus caprichos e, no entanto, sempre de maneira a dar a
impressão de que se sacrifica e que raramente quer alguma coisa
para si.
296. O DUELO
Considero uma vantagem, dizia alguém, poder provocar um
duelo, quando tenho imperiosa necessidade disso, pois há sempre
bravos camaradas em torno de mim. O duelo é o único meio de
suicídio absolutamente honroso que nos resta, infelizmente é um
caminho indireto e ainda não é totalmente seguro.
297. NEFASTO
A maneira mais segura de estragar um jovem é incitá-lo a
estimar mais quem pensa como ele do que quem pensa
diversamente.
298. O CULTO DOS HERÓIS E SEUS FANÁTICOS
O fanático de um ideal feito de carne e de sangue tem
geralmente razão enquanto nega — e, em sua negação, é terrível:
conhece o que nega tão bem como a si mesmo, pela razão
elementar de que ficou reduzido a isso, que se sente bem assim e
que sempre receia secretamente ser obrigado a voltar a isso; quer
se tornar o retorno impossível pela maneira como nega. Mas desde
o momento em que afirma, cerra pela metade os olhos e começa a
idealizar (muitas vezes com o fim de causar dano aos que ficaram
na casa que abandonou); talvez se poderá chamar artística a
forma de sua afirmação — muito bem, mas ela tem também algo
de desleal. Aquele que idealiza uma pessoa situa essa pessoa tão
longe dele que não pode mais vê-la de forma distinta e depois
interpreta como “belo” o que ainda pode perceber, isto é, considera
disso a simetria, as linhas indefinidas, a falta de precisão. Como, a
partir de então, vai querer adorar esse ideal que plana na
distância e nas alturas, deve construir para ele, a fim de protegêlo
contra o profanum vulgus13, um templo para sua adoração. Leva
para o local todos os objetos veneráveis e santificados que ainda
possui, para que seu ideal se beneficie de sua magia e que esse
alimento o faça crescer e tornar-se sempre mais divino. No final de
tudo, conseguiu verdadeiramente aperfeiçoar seu deus, mas,
infeliz dele! há alguém que sabe como tudo isso se passou — é sua
consciência intelectual — e há também alguém que, totalmente
inconsciente, começa a protestar — é o próprio divinizado que, sob
o efeito do culto, dos louvores e do incenso, se torna agora
completamente insuportável e trai, da maneira mais evidente e
mais horrível, sua não-divindade e suas qualidades
demasiadamente humanas. Então não resta para nosso fanático
senão uma saída: ele se deixa pacientemente maltratar, a si e a
seus semelhantes, e se põe a interpretar todo esse infortúnio,
ainda in majorem dei gloriam14, por meio de uma nova espécie de
engano e de nobre mentira; toma partido contra si próprio e
experimenta, assim maltratado e como intérprete desses maus
tratos, algo como um mártir — dessa maneira atinge o topo de sua
presunção. — Homens dessa espécie viviam, por exemplo, nos
círculos de Napoleão: sim, talvez tenha sido precisamente ele
quem suscitou no espírito deste século essa prostração romanesca
diante do “gênio” e do “herói”, tão estranha ao espírito racionalista
do último século, ele, diante de quem um Byron não tinha
vergonha de dizer que “era um verme ao lado de tal ser”. (As
fórmulas de semelhante prostração foram encontradas por
Thomas Carlyle15, esse velho ranzinza confuso e pretensioso, que
gastou toda a sua longa existência para tornar romântica a razão
de seus ingleses: em vão!).
299. APARÊNCIA DE HEROÍSMO
Lançar-se no meio dos inimigos pode ser um sinal de
covardia.
300. BENEVOLENTE PARA COM O LISONJEADOR
A última palavra de astúcia dos ambiciosos insaciáveis é não
deixar ver o desprezo dos homens que o aspecto dos lisonjeadores
lhes inspira: mas parecer benevolentes mesmo para com eles,
como um deus que não pudesse ser senão benevolente.
301. “CHEIO DE CARÁTER”
“O que disse uma vez, eu o faço” — essa maneira de pensar
parece cheia de caráter. Quantas ações realizamos, não porque as
escolhemos por serem mais razoáveis, mas porque, no momento
em que tivemos a idéia, suscitaram, de uma maneira ou de outra,
a ambição e a vaidade, de modo que nos detemos para realizá-las
cegamente! Assim elas aumentam em nós a fé em nosso caráter e
em nossa boa consciência, portanto, em resumo, em nossa força:
enquanto que a escolha da ação mais razoável mantêm certo
ceticismo em relação a nós mesmos e, na mesma medida, um
sentimento de fraqueza.
302. UMA, DUAS, TRÊS VEZES VERDADEIRO
Os homens mentem com indizível freqüência, mas logo
depois não pensam mais nisso e em geral não acreditam nisso.
303. PASSATEMPO DO CONHECEDOR DE HOMENS
Ele julga me conhecer e se julga sutil e importante quando
age desta ou daquela maneira em suas relações comigo: eu me
abstenho de desenganá-lo. De fato, ele me faria pagar caro isso,
enquanto agora me quer bem, porque lhe proporciono um
sentimento de superioridade consciente. — Há outro que receia
que eu não me interesse em conhecê-lo e isso o leva a
experimentar um sentimento de inferioridade. É por isso que se
comporta comigo de maneira brusca e inconseqüente e procura
me afastar dele — para se elevar novamente acima de mim.
304. OS DESTRUIDORES DO MUNDO
Aquele que é incapaz de realizar certa coisa, acaba por
exclamar cheio de revolta: “Que o mundo inteiro pereça!” Este
sentimento odioso é o cúmulo da inveja que gostaria de deduzir:
uma vez que não posso ter uma coisa, o mundo inteiro não deve
ter nada! O mundo inteiro deve não ser!
305. AVAREZA
Nossa avareza, quando fazemos uma compra, aumenta com
o preço baixo do objeto — por quê? Será porque são as
mesquinhas diferenças de Preço que suscitam o olhar mesquinho
da avareza?
306. IDEAL GREGO
O que os gregos admiravam em Ulisses? Antes de tudo a
faculdade de mentir e de responder por represálias astutas e
terríveis; depois, estar à altura das circunstâncias, parecer, se isso
for necessário, mais nobre que o mais nobre; saber ser tudo o que
se quer, a tenacidade heróica; a arte de utilizar todos os meios; ter
espírito — o espírito de Ulisses causa a admiração dos deuses que
sorriam quando pensavam nisso: — tudo isso constitui o ideal
grego! O mais curioso nisso tudo é que não se sente em absoluto a
contradição entre ser e parecer e que, por conseguinte, não se
confere a isso nenhum valor moral. Houve alguma vez
comediantes tão completos?
307. FACTA! SIM, FACTA FICTA16!
O historiador não tem que se ocupar dos acontecimentos
como se passaram na realidade, mas somente como se supõe que
tenham ocorrido: de fato, é assim que produziram seu efeito. De
igual modo, só tem que se ocupar dos supostos heróis. Seu objeto,
o que se chama história universal: o que é, senão opiniões
supostas sobre ações supostas que, por sua vez, deram lugar a
opiniões e ações cuja realidade, contudo, se evaporou
imediatamente e não age mais senão como um vapor — é um
contínuo parto de fantasmas sobre as profundas nuvens da
impenetrável realidade. Todos os historiadores contam coisas que
nunca existiram, salvo na representação.
308. É NOBRE NÃO SE DEDICAR AO COMÉRCIO
Não vender a própria virtude senão pelo preço mais alto ou
mesmo se entregar à usura com ela, como professor, funcionário
ou artista — é o que faz do talento e do gênio um negócio de
merceeiro. Deve-se vigiar para não querer ser hábil com a própria
sabedoria!
309. TEMOR E AMOR
O temor fez progredir o conhecimento geral dos homens mais
que o amor, pois o temor quer descobrir quem é o outro, o que
sabe, o que quer: enganando-se se criaria um perigo ou um
prejuízo. Inversamente, o amor é levado secretamente a ver no
outro coisas tão belas quanto possível ou também elevar o outro
tanto quando puder: seria para ele uma alegria e uma vantagem
enganar-se a respeito — é por isso que o faz.
310. OS INDULGENTES
Os indulgentes adquiriram sua característica pelo temor
perpétuo que as invasões estrangeiras inspiravam a seus
antepassados — eles atenuavam, tranqüilizavam, imploravam,
preveniam, distraíam, lisonjeavam, se humilhavam, dissimulavam
a dor e o despeito, disfarçavam os traços do rosto — e finalmente
todo esse mecanismo, delicado e bem conformado, foi transmitido
a seus filhos e descendentes. Um destino mais clemente não expõe
estes a um temor perpétuo: mas não tocam menos continuamente
seu instrumento.
311. O QUE SE CHAMA ALMA
A soma dos movimentos interiores que são fáceis para o
homem e que, por conseguinte, executa de boa vontade e com
graça, essa soma se chama alma; — o homem passa por estar
desprovido de alma quando deixa transparecer que seus
movimentos interiores lhe são penosos e duros.
312. OS ESQUECIDOS
Nas explosões da paixão e nos delírios do sonho e da
loucura, o homem redescobre sua história primitiva e aquela da
humanidade: a animalidade e seus gestos selvagens; então sua
memória retorna bastante longe para trás, enquanto, pelo
contrário, seu estado civilizado se havia desenvolvido graças ao
esquecimento dessas experiências originais, isto é, ao
enfraquecimento dessa memória. Aquele que, homem esquecido
de espécie superior, sempre ficou muito longe dessas coisas, não
compreende os homens — mas é uma vantagem se, de tempos em
tempos, há indivíduos que “não os compreendem”, indivíduos
gerados de alguma forma pela semente divina e colocados no
mundo pela razão.
313. O AMIGO QUE NÃO SE DESEJA MAIS
Preferimos ter por inimigo o amigo cujas esperanças não
podemos satisfazer.
314. EM COMPANHIA DE PENSADORES
No meio do oceano do devir, despertamos numa ilhota não
maior que uma barca, nós aventureiros e aves migrantes, e lá
olhamos um instante em torno de nós: com tanta pressa e
curiosidade quanto possível, pois um vento pode a qualquer
momento nos levar ou uma onda nos varrer da ilhota, de tal modo
que nada mais restaria de nós! Mas aqui, nesse pequeno espaço,
encontramos outras aves migrantes e ouvimos falar de aves mais
antigas ainda — e assim temos um minuto delicioso de
conhecimento e de descoberta, chilreando juntos e batendo
alegremente as asas, enquanto nosso espírito vagueia sobre o
oceano, não menos altivo que o próprio oceano!
315. DESPOJAR-SE
Abandonar parte de sua propriedade, renunciar a seu direito
— isso dá prazer quando é o indício de grandes riquezas. A
generosidade é dessa ordem.
316. SEITAS FRACAS
As seitas que sentem que se manterão fracas em número vão
à caça para descobrir alguns discípulos inteligentes e tentam
suprir pela qualidade o que lhes falta em quantidade. Há nisso,
para a inteligência, um perigo que não se deveria negligenciar.
317. O JUÍZO DA TARDE
Aquele que reflete sobre sua obra do dia ou da vida, quando
chegou ao fim e está cansado, se entrega geralmente a
considerações melancólicas: mas não se deve dar importância ao
dia nem à vida, mas ao cansaço. — Em plena atividade criadora
não tomamos geralmente tempo para julgar a vida e a existência e
menos ainda em pleno prazer: mas se acaso nos detemos um dia,
deixamos de dar razão àquele que esperou o sétimo dia e o
repouso para achar muito bom tudo o que existe — ele deixou
passar o momento melhor.
318. CUIDADO COM OS SISTEMÁTICOS!
Há uma comédia dos sistemáticos: querendo preencher um
sistema e arredondando o horizonte totalmente em torno deste,
devem tentar apresentar suas fracas qualidades no mesmo estilo
que suas qualidades fortes — querem aparecer como naturezas
completa e unidamente fortes.
319. HOSPITALIDADE
O sentido que se deve conferir aos usos da hospitalidade é
de paralisar no estranho a inimizade; desde que, nele, não se
pressinta mais, antes de tudo, o inimigo, a hospitalidade regride;
ela floresce à medida que florescem as más suposições.
320. DO BOM E DO MAU TEMPO
Um tempo muito excepcional e incerto torna também os
homens desconfiados uns para com os outros; tornam-se ávidos
de inovações, pois é preciso que mudem seus hábitos. É por isso
que os déspotas gostam de todas as regiões onde o tempo é moral.
321. PERIGO NA INOCÊNCIA
Os inocentes são eternas vitimas, pois sua inocência os
impede de distinguir entre a medida e o exagero, de se mostrarem
a tempo prudentes diante de si mesmos. É assim que as jovens
inocentes, isto é, ignorantes, se habituam a prazeres afrodisíacos
freqüentes e, mais tarde, esses prazeres lhes fazem cruelmente
falta quando os maridos adoecem ou envelhecem antes da idade; é
justamente porque, cândidas e confiantes, imaginam que as
relações freqüentes são a regra e um direito que elas são levadas a
uma necessidade que as expõe mais tarde às tentações mais
violentas e pior ainda. Mas, para se situar num ponto de vista
mais geral e mais elevado: aquele que ama um ser humano ou
uma coisa, sem conhecê-lo, torna-se presa de qualquer coisa de
que não gostaria se pudesse vê-la. Por toda a parte onde a
experiência, as precauções, os movimentos prudentes são
necessários, o inocente sofre mais cruelmente, pois deve beber
cegamente a borra e o veneno mais secreto de uma coisa.
Consideremos as práticas de todos os príncipes, das igrejas, das
seitas, dos partidos, das corporações: não se emprega sempre o
inocente como isca preferida nos casos mais difíceis e mais
desacreditados? — Como Ulisses utiliza o inocente Neoptolemo
para roubar o arco e as setas do velho eremita doente de Lemnos.
— O cristianismo, com seu desprezo do mundo, fez da ignorância
uma virtude, talvez porque o resultado mais freqüente dessa
inocência Parece ser, como o indiquei, a falta, o sentimento da
falta, o desespero, portanto, uma virtude que leva ao céu pelo
desvio do inferno: pois, somente então as sombras do portal da
salvação cristã podem se abrir, somente então a promessa de uma
segunda inocência póstuma se torna eficaz: — é uma das mais
belas invenções do cristianismo!
322. VIVER SE POSSÍVEL SEM MÉDICO
Parece-me que um doente vive mais levianamente quando
tem um médico do que quando ele próprio cuida de sua saúde. No
primeiro caso, basta ser severo para com tudo o que lhe é
prescrito; no segundo, observamos com mais consciência aquilo a
que se dirigem essas prescrições, quero dizer, à nossa saúde,
notamos mais coisas, nos ordenamos e nos proibimos mais do que
faria a intervenção do médico. — Todas as regras têm esse efeito:
desviam do objetivo que se escondem atrás da regra e suscitam
mais descuido. — Mas o descuido da humanidade se teria elevado
até o desencadeamento e à destruição, se tivesse uma vez
abandonado tudo, completa e lealmente, nos braços da divindade
seu médico, segundo a fórmula “se Deus quiser”!
323. OBSCURECIMENTO DO CÉU
Vocês conhecem a vingança dos seres tímidos que se
comportam em sociedade como se tivessem roubado seus
membros? A vingança das almas humildes, à moda cristã que, por
toda a parte na terra, não fazem senão deslizar furtivamente? A
vingança daqueles que julgam sempre imediatamente e que
sempre imediatamente recebem um desmentido? A vingança dos
bêbados de todo tipo, para quem a aurora é o momento mais
nefasto do dia? De igual modo aquela dos doentes de todo tipo,
doentios e deprimidos que não têm mais coragem de se curar? O
número desses pequenos seres ávidos de vingança e, com maior
razão, o número de seus pequenos atos de vingança, é
incalculável; todo o ar vibra sem cessar com o silvo das setas e
setinhas disparadas por sua maldade, de modo que o céu e o sol
da vida ficam obscurecidos por elas — não somente para eles, mas
também para nós, para os outros: o que é mais grave do que se
nos arranhassem a pele e o coração. Não negamos algumas vezes
o sol e o céu, simplesmente porque faz muito tempo que não os
vemos? — Portanto: solidão! Por causa disso também, solidão!
324. FILOSOFIA DOS ATORES
Uma ilusão que faz a felicidade dos grandes atores é a de
crer que os personagens históricos que interpretam estavam
verdadeiramente no mesmo estado de espírito que aquele em que
se encontram durante sua interpretação; — mas nisso se
enganam redondamente: seu poder de imitação e de adivinhação
que gostariam de ver passar como um poder extra-lúcido penetra
de forma suficientemente distante para explicar os gestos, as
entonações, os olhares e, em geral, tudo o que é exterior: o que
quer dizer que eles captam a sombra de um grande herói, de um
homem de Estado, de um guerreiro, de um ambicioso, de um
ciumento, de um desesperado, penetram até muito perto da alma,
mas não até quase o espírito de sua individualidade. Essa seria
verdadeiramente uma bela descoberta, se bastasse ser ator
clarividente, em vez de pensador, conhecedor, especialista, para
esclarecer a própria essência de um estado moral qualquer! Não
esqueçamos, pois, nunca, cada vez que semelhantes pretensões se
apresentam que o ator é apenas um macaco ideal, e de tal modo
macaco que nem sequer é capaz de acreditar na “essência” e no
“essencial”: tudo para ele se torna representação, entonação,
gesto, cena, bastidores e público.
325. VIVER E ACREDITAR NO AFASTAMENTO
O meio de se tornar o profeta e o taumaturgo de sua época é
hoje o mesmo ainda de outrora: é preciso viver afastado, com
poucos conhecimentos, algumas idéias e muita presunção —
acabamos então por imaginar que a humanidade não pode
prescindir de nós, porque é absolutamente claro que nós podemos
prescindir dela. Desde que estejamos convictos dessa crença,
encontramos também crédito. E para acabar, um conselho a quem
o quiser seguir (foi dado a Wesley17 por Böhler, seu mestre
espiritual): “Prega a fé até que a tenhas encontrado, então a
pregarás porque a tens!”
326. CONHECER AS PRÓPRIAS CIRCUNSTANCIAS
Podemos avaliar nossas forças, mas não nossa força. Não
são somente as circunstâncias que a mostram a nós e a ocultam
alternadamente, mas ainda as próprias circunstâncias a
engrandecem ou a diminuem. É preciso considerá-la como uma
grandeza variável, cuja capacidade produtiva pode, em
circunstancias favoráveis, atingir o que há de mais elevado: é
preciso, pois, refletir sobre as circunstâncias e não poupar
sacrifícios para observá-las.
327. UMA FÁBULA
O Don Juan do conhecimento: nenhum filósofo, nenhum
poeta ainda o descobriu. Ele não tem amor pelas coisas que
descobre, mas tem espírito e volúpia e sente prazer na caça e nas
intrigas do conhecimento — que persegue até as mais altas e
distantes estrelas! — até que finalmente não lhe resta mais nada
para caçar, a não ser o que há de absolutamente doloroso no
conhecimento, como o beberrão que acaba bebendo absinto e
aguardente. É por isso que acaba por desejar o inferno — é o
último conhecimento que o seduz. Talvez ele também o desaponte
como tudo o que lhe é conhecido! Então deveria se deter por toda
a eternidade, pregado na decepção e transformado ele próprio em
conviva de pedra, aspirando a um jantar do conhecimento que
nunca lhe será servido! — De fato, o mundo inteiro das coisas não
vai mais encontrar um bocado para esse esfomeado.
328. O QUE AS TEORIAS IDEALISTAS DEIXAM ADIVINHAR
Encontramos as teorias idealistas mais certamente nos
homens resolutamente práticos, pois estes têm necessidade do
brilho dessas teorias para sua reputação. Eles se apoderam delas
instintivamente e sem experimentar o menor sentimento de
hipocrisia: precisamente tão pouco como um inglês se sente
hipócrita com seu cristianismo e seu domingo santificado.
Inversamente: as naturezas contemplativas, que devem se cuidar
contra toda espécie de improvisação e que temem a reputação de
exaltação, se satisfazem unicamente com as duras teorias
realistas: elas se apoderam delas com a mesma necessidade
instintiva e sem perder com isso sua honestidade.
329. OS CALUNIADORES DA ALEGRIA
Os homens profundamente feridos pela vida colocaram sob
suspeita toda alegria, como se ela fosse sempre infantil e pueril e
se revelasse uma desrazão cujo aspecto não poderia provocar
senão compaixão e enternecimento, como o sentimento que se
experimenta quando uma criança, às portas da morte, acaricia
ainda os brinquedos em sua cama. Tais homens vêem, sob todas
as rosas dos túmulos escondidos e dissimulados; as alegrias, a
algazarra, a música alegre parecem-lhes semelhantes às ilusões
voluntárias de um homem gravemente doente que quer ainda
saborear, por um momento, a embriaguez da vida. Mas esse juízo
sobre a alegria não é outra coisa senão a refração desta sobre o
fundo obscuro do cansaço e da doença: ele próprio é algo de
tocante, de irrazoável que incita à compaixão, algo de infantil, até
de pueril, mas que provém dessa segunda infância que se segue à
velhice e que precede a morte.
330. NÃO É O BASTANTE AINDA!
Não basta provar uma coisa, é preciso ainda induzir a isso
os homens ou a elevá-los até ela. É por isso que o iniciado deve
aprender a dizer sua sabedoria: e muitas vezes de maneira que
soe como uma loucura!
331. DIREITO E LIMITE
O ascetismo é a maneira de pensar para aqueles que devem
exterminar seus instintos carnais, porque esses instintos são
animais ferozes. Mas somente esses!
332. O ESTILO REDUNDANTE
Um artista que não consegue colocar seus sentimentos
sublimes numa obra, para aliviar-se deles dessa maneira, mas
que pretende, pelo contrário, comunicar seu sentimento de
elevação, se torna inchado e seu estilo, redundante.
333. “HUMANIDADE”
Não consideramos os animais como seres morais. Mas vocês
pensam, pois, que os animais nos consideram seres morais? —
Um animal que sabia falar, disse: “A humanidade é um
preconceito de que nós, animais, pelo menos não sofremos”.
334. O HOMEM CARIDOSO
O homem caridoso satisfaz uma necessidade de sua alma
quando faz o bem. Quanto mais violenta for essa necessidade,
menos ele se põe no lugar daquele que ajuda e que lhe serve para
satisfazer sua necessidade; ele se torna arrogante e mesmo
injurioso em certos casos. (A benevolência e a caridade judaicas
têm esta reputação: sabe-se que elas são um pouco mais violentas
que aquelas dos outros povos).
335. PARA QUE O AMOR SEJA CONSIDERADO COMO AMOR
Temos necessidade de sermos francos para conosco mesmos
e de nos conhecermos para poder exercer com relação aos outros
essa simulação benevolente que costumamos chamar amor e
bondade.
336. DE QUE SOMOS CAPAZES?
Alguém tinha sido atormentado o dia inteiro pelo filho mau e
indisciplinado, a ponto que o matou na tarde seguinte e disse ao
resto da família, dando um suspiro de alívio: “Finalmente vamos
poder dormir tranqüilamente!” — Sabemos até onde as
circunstâncias podem nos impelir?
337. “NATURAL”
Ser natural pelo menos nos próprios defeitos — é talvez o
último elogio que se possa fazer a um artista artificial, comediante
e arte de qualquer outra espécie. É por isso que tal ser dará
sempre descaradamente livre curso a seus defeitos.
338. CONSCIÊNCIA DE TROCA
Certo homem pode ser a consciência de um outro e isso é
particularmente importante quando o outro não tem nenhuma.
339. TRANSFORMAÇÃO DOS DEVERES
Quando os deveres deixam de ser um cumprimento difícil,
quando se transformam, depois de longo exercício, em gostos
agradáveis e em necessidades, os direitos dos outros a que se
referem nossos deveres, e agora nossos gostos, se tornam outra
coisa: quero dizer que se tornam a ocasião de sentimentos
agradáveis para nós. Desde então, o “outro”, graças a seus
direitos, se torna digno de ser amado (em lugar de ser somente
venerável e terrível como antes). Procuramos nosso prazer quando
reconhecemos e sustentamos agora o domínio de seu poder.
Quando os quietistas não sentiram mais o peso de seu
cristianismo e não encontraram em Deus mais que prazer,
adotaram por divisa: “Tudo para a glória de Deus!” Seja o que for
que fizessem nesse sentido, não era mais um sacrifício; isso se
tornava a mesma coisa que dizer: “Tudo para nosso prazer!” Exigir
que o dever seja sempre um pouco incômodo, como o faz Kant18, é
exigir que nunca faça parte dos hábito e dos costumes: nessa
exigência, há ainda um pequeno resto de crueldade ascética.
340. A EVIDÊNCIA É CONTRA O HISTORIADOR
É coisa mais do que provada que os homens saem do ventre
da mãe: apesar disso, os filhos quando grandes e estando de pé ao
lado da mãe fazem parecer totalmente absurda essa hipótese: ela é
a evidencia contra si.
341. VANTAGEM DO DESCONHECIMENTO
Dizia alguém que em sua infância havia um tal desprezo
pelos caprichos e pelos trejeitos do temperamento melancólico que
ignorou até a metade de sua vida qual era seu temperamento: era
justamente o temperamento melancólico. Ele declarava que essa
era a melhor de todas as ignorâncias possíveis.
342. NÃO CONFUNDIR
Sim! Ele examina a coisa de todos os lados e vocês pensam
que esse é um verdadeiro pesquisador do conhecimento. Mas ele
quer apenas fazer baixar o preço — quer comprá-la!
343. PRETENSAMENTE MORAL
Vocês nunca querem estar descontentes com vocês mesmos,
nunca sofrer por sua causa — e chamam a isso sua tendência
moral! Pois bem! outro diria que essa é sua covardia. Mas uma
coisa é certa: nunca farão a viagem em volta do mundo (que são
vocês mesmos) e ficarão em vocês mesmos, um acaso, um lote de
terra preso a um lote de terra. Pensam, portanto, que nós, que
somos de outro parecer, nos exporíamos por pura loucura à
viagem através de nossos próprios desertos, de nossos charcos e
de nossos cumes de gelo, que escolhemos voluntariamente as
dores e o desgosto como os anacoretas estilitas?
344. SUTILEZA NO EQUÍVOCO
Se Homero19, como se diz, adormecia às vezes, era mais
sábio do que todos os artistas da ambição insone. Deve-se deixar
retomar fôlego aos admiradores, transformando-os de tempos em
tempos em censores; pois, ninguém suporta uma bondade
ininterrupta, brilhante e desperta; e em vez de ser benévolo, um
mestre desse tipo se torna um carrasco que odiamos enquanto
caminha diante de nós.
345. NOSSA FELICIDADE NÃO É UM ARGUMENTO PRÓ OU CONTRA
Muitos homens não são capazes senão de uma felicidade
mínima: não é um argumento contra sua sabedoria se esta não
pode lhes dar mais felicidade, tão pouco como é um argumento
contra a medicina se certos homens são incuráveis e outros
sempre doentios. Que cada um possa ter a sorte de encontrar a
concepção de vida que lhe permita realizar seu máximo de
felicidade: isso não poderia impedir sua vida de se manter
miserável e pouco invejável.
346. INIMIGOS DAS MULHERES
“A mulher é nossa inimiga” — aquele que, como homem, fala
assim a outros homens, esse faz falar o instinto indomado que não
somente se odeia a si próprio, mas também odeia seus meios.
347. A ESCOLA DO ORADOR
Quando nos calamos durante um ano, desaprendemos a
conversa fútil e aprendemos a palavra. Os pitagóricos eram os
melhores homens de Estado de seu tempo.
348. SENTIMENTO DE PODER
Distingamos bem: aquele que quer adquirir o sentimento de
poder se apodera de todos os meios e não despreza nada daquilo
que possa nutrir esse sentimento. Mas aquele que o possui se
tornou muito difícil e nobre em seu gosto; é raro que alguma coisa
o satisfaça ainda.
349. NÃO TÃO IMPORTANTE
Quando assistimos a um falecimento, surge regularmente
um pensamento que reprimimos imediatamente por meio de um
falso sentimento de conveniência: pensamos que o ato de morrer é
menos importante do que o pretende o consenso universal e que o
moribundo provavelmente perdeu durante a vida coisas mais
essenciais do que aquelas que está prestes a perder nesse
momento. O fim, aqui, não é certamente o objetivo.
350. COMO SE PROMETE O MELHOR
Quando fazemos uma promessa, não é a palavra que
promete, mas o que há de inexpresso por trás da palavra. As
palavras enfraquecem até mesmo uma promessa, liberando e
dissipando uma força que é parte dessa força que promete.
Tentem, portanto, levantar a mão e colocar um dedo sobre a boca
— é assim que são feitos os votos mais seguros.
351. GERALMENTE MENOSPREZADO
Na conversa, notamos que um se aplica a preparar uma
armadilha na qual o outro cai, não por maldade, como se poderia
pensar, mas pelo prazer que lhe dá sua própria malícia: outros
preparam também um gracejo para que o terceiro o diga e
dispõem a argola para que, puxando-a, dê o nó: não por
benevolência, como se poderia pensar, mas por maldade e por da
inteligência grosseira.
352. CENTRO
Este sentimento “Eu sou o centro do mundo!” se manifesta
com muita intensidade quando estamos repentinamente cheios de
vergonha; ficamos então como aturdidos no meio dos recifes e nos
sentimos como cegados por um só olho enorme que olha de todos
os lados, em nós e no fundo de nós mesmos.
353. LIBERDADE DE PALAVRA
“A verdade deve ser dita, ainda que o mundo se parta em mil
pedaços!” — assim exclama com sua voz potente o grande
Fichte20! — Concorde-se, mas seria necessário ainda possuir essa
verdade! — Mas ele pensa que cada um deveria dar sua opinião,
mesmo sob o risco de confundir completamente todo o sentido.
Isso me parece pelo menos discutível.
354. CORAGEM DE SOFRER
Tal como somos feitos hoje, somos capazes de suportar certa
dose de desprazer e nosso estômago está habituado a esses
alimentos indigestos. Sem eles, talvez achássemos insípido o
banquete da vida: e sem a boa vontade de sofrer seríamos
obrigados a deixar escapar muitas alegrias!
355. ADMIRADOR
Aquele que admira a ponto de crucificar aquele que não
admira é contado entre os carrascos de seu partido — evitamos
até de lhe estender a mão, mesmo se somos de seu partido.
356. EFEITO DA FELICIDADE
O primeiro efeito da felicidade é o sentimento de poder: este
efeito quer se manifestar, seja diante de nós mesmos, seja diante
dos outros homens, seja ainda diante de representações ou seres
imaginários. As maneiras mais correntes de se manifestar são: dar
presentes, zombar, destruir — as três decorrem de um comum
instinto fundamental.
357. MOSCÕES MORAIS
Esses moralistas desprovidos de amor ao conhecimento e
que só conhecem a alegria de fazer mal — esses moralistas têm o
espírito e o aborrecimento provincianos; seu prazer, tão cruel
como lamentável, consiste em observar os dedos do vizinho e lhe
presentear inopinadamente uma agulha para que se pique.
Guardaram alguma coisa da maldade dos meninos que não podem
se divertir sem perseguir e maltratar qualquer ser, vivo ou morto.
358. AS RAZÕES E SUA FALTA DE RAZÃO
Sentes aversão a seu respeito e apresentas abundantes
razões para essa aversão — mas acredito apenas em tua aversão e
não em tuas razões! Embelezas as coisas a teus próprios olhos,
apresentando-te e apresentando-me como uma dedução lógica o
que se faz instintivamente.
359. APROVAR ALGUMA COISA
Aprovamos o casamento, primeiro porque ainda não o
conhecemos, depois porque estamos habituados a ele e, em
terceiro lugar, porque já o contraímos — quer dizer que é assim
em quase todos os casos. E, no entanto, nada fica assim
comprovado acerca do valor do casamento em geral.
360. DE MODO ALGUM UTILITARISTAS
“O poder de que falamos muito mal vale mais que a
impotência, à qual só acontece coisa boa” — este era o sentimento
dos gregos. O que quer dizer que entre eles o sentimento do poder
era estimado como superior a toda espécie de utilidade ou de boa
reputação.
361. PARECER FEIO
A temperança se vê a si mesma como bela; nada pode fazer
se, aos olhos dos intemperantes, ela parece grosseira e insípida,
por conseguinte, feia.
362. DIFERENTES NO ÓDIO
Alguns só começam a odiar quando se sentem fracos e
fatigados; de outro modo, são eqüitativos e superiores. Outros só
começam a odiar quando entrevêem a possibilidade da vingança:
de outro modo, evitam toda cólera, refreada ou pública, e desviam
quando se apresenta a ocasião.
363. HOMENS DO ACASO
Em toda invenção, a maior parte cabe ao acaso, mas a
maioria dos homens não consegue encontrar esse acaso.
364. ESCOLHA DO CÍRCULO DE CONVIVÊNCIA
Livremo-nos de viver num círculo em que não podemos nos
calar dignamente nem dar a conhecer nossas idéias superiores, de
modo que não nos resta outra coisa a comunicar senão nossas
queixas, nossas necessidades e toda a história de nossas misérias.
Tornamo-nos assim descontentes conosco mesmos e descontentes
com esse círculo “e o despeito de sentir que nos queixamos
permanentemente, aumenta ainda a infelicidade que nos levava a
nos queixarmos. Devemos viver, ao contrário, onde temos
vergonha de falar de nós e onde não temos essa necessidade. —
Mas quem pensa em semelhantes coisas, numa escolha em
semelhantes coisas! Falamos de nosso “destino”, enchemos o peito
e suspiramos: “Que infeliz Atlas sou21!”
365. VAIDADE
A vaidade é o receio de parecer original; é, portanto, uma
falta de altivez, mas não necessariamente uma falta de
originalidade.
366. MISÉRIA DO CRIMINOSO
O criminoso que foi descoberto não sofre por seu crime, mas
pela vergonha ou pelo despeito que lhe causa uma asneira
cometida ou pela privação de seu elemento habitual, e é preciso
ter uma rara sutileza para saber discernir nesse caso. Todos
aqueles que freqüentaram muito as prisões e as casas de correção
se surpreendem como raramente nelas se encontra um “remorso”
inequívoco: mas muito mais freqüentemente a nostalgia do
querido velho crime, mau e adorado.
367. PARECER SEMPRE FELIZ
Quando a filosofia era assunto de competição pública, na
Grécia do século III, havia certo número de filósofos que tornava
feliz a segunda intenção do despeito que devia excitar sua
felicidade naqueles que viviam segundo outros princípios e aí
encontravam seu tormento: pensavam refutar a estes com a
felicidade, melhor do que com qualquer outra coisa e acreditavam
que, para alcançar esse objetivo, lhes bastava parecer sempre
felizes; mas essa atitude devia, a longo prazo, torná-los
verdadeiramente felizes! Essa foi, por exemplo, a sorte dos cínicos.
368. A RAZÃO QUE MUITAS VEZES NOS LEVA A DESCONHECER
A moralidade da força nervosa em aumento é alegre e
agitada; a moralidade da força nervosa em declínio, à tarde ou nas
pessoas doentes e nos anciãos, impele à passividade, à calma, à
espera e à melancolia, às vezes, às idéias sombrias. Conforme
possuímos uma ou outra dessas moralidades, não
compreendemos aquela que nos falta e a interpretamos nos outros
como imoralidade ou fraqueza.
369. PARA SE ELEVAR ACIMA DA PRÓPRIA NULIDADE
Aí estão altivos indivíduos que, para estabelecer o
sentimento de sua dignidade e de sua importância, têm sempre
necessidade de outros homens que possam maltratar e violentar:
daqueles cuja impotência e covardia permitem que alguém tome
impunemente, diante deles, atitudes sublimes e furiosas! — É
preciso que seu círculo de convivência seja miserável para que
possam se elevar um momento acima de sua nulidade! — Há
aqueles que para isso têm necessidade de um cão, outros de um
amigo, outros ainda de uma mulher ou de um partido e,
finalmente, em casos muito raros, de uma época inteira.
370. EM QUE MEDIDA O PENSADOR AMA SEU INIMIGO
Nunca te reprimas nem te cales diante de ti mesmo daquilo
que se poderia opor a teus pensamentos! Jura-o! Isso faz parte da
lealdade fundamental. Deves fazer cada dia campanha contra ti
mesmo. Uma vitória ou a tomada de um reduto não são mais de
tua conta, mas dizem respeito à verdade — entretanto, a derrota
também não é mais de tua conta!
371. A MALDADE DA FORÇA
É necessário compreender a violência resultante da paixão,
por exemplo da cólera, do ponto de vista fisiológico, como uma
tentativa para evitar um acesso de sufocamento que ameaça.
Inumeráveis atos de uma arrogância que se desencadeia sobre
outras pessoas foram os derivativos de congestões súbitas, por
meio de uma violenta ação muscular: e talvez se deva considerar
sob esse ponto de vista toda a “maldade da força”. (A maldade da
força fere os outros, sem que se repare nisso — é necessário que
ela apareça; a maldade da fraqueza quer fazer mal e contemplar as
marcas do sofrimento).
372. EM HONRA DOS CONHECEDORES
Desde que alguém, sem ser conhecedor, faz, contudo, o
papel do juiz, é preciso protestar imediatamente, seja esse alguém
homem ou mulher. O entusiasmo ou o arrebatamento, diante de
uma coisa ou de um homem, não são argumentos: a aversão e o
ódio tampouco.
373. RECRIMINAÇÃO REVELADORA
“Ele não conhece os homens” — isso quer dizer na boca de
alguns: “Ele não conhece a baixeza”; e na boca de outros: “Ele não
conhece o que é excepcional e conhece demais a baixeza.”
374. VALOR DO SACRIFÍCIO
Quanto mais contestamos aos Estados e aos príncipes o
direito de sacrificar o indivíduo (na maneira de fazer justiça, de
recrutar os exércitos, etc.), mais aumentará o valor do sacrifício de
si.
375. FALAR MUITO CLARAMENTE
Há várias razões para articular claramente ao falar: por um
lado, a desconfiança em relação a si mesmo no uso de uma língua
nova e pouco familiar e, por outro lado, a desconfiança em relação
aos outros por causa de sua estupidez ou de sua lenta
compreensão. E ocorre o mesmo com coisas espirituais: nossa
comunicação é por vezes demasiado clara, demasiado meticulosa,
porque, se fosse de outro modo, aqueles a quem nos dirigimos não
nos entenderiam. Por conseguinte, o estilo perfeito e leve só é
permitido diante de um auditório perfeito.
376. DORMIR MUITO
Que fazer para se estimular quando se está fatigado e
desgostoso consigo mesmo? Um recomenda a mesa de jogo, outro
o cristianismo, um terceiro a agitação. Mas o que há de melhor,
meu caro melancólico, ainda é dormir muito, no sentido próprio e
no figurado! É assim que se acabará por reencontrar a própria
manhã! A habilidade da arte de viver é saber intercalar no
momento oportuno o sono sob todas as suas formas.
377. O QUE SE DEVE CONCLUIR DE UM IDELA FANTASIOSO
Lá onde se encontram nossas lacunas é que nossas
exaltações vão se perder. O princípio fantasioso “amem seus
inimigos!” deve ter sido inventado por judeus, os melhores
odiadores que jamais houve, e a mais bela glorificação da
castidade foi escrita por aqueles que, em sua juventude, levaram a
vida mais libertina e mais abominável.
378. MÃO PRÓPRIA E MURO PRÓPRIO
Não se deve pintar no muro nem Deus nem o diabo. Assim
se estragaria o próprio muro e a própria vizinhança.
379. VEROSSÍMIL E INVEROSSÍMIL
Uma mulher amava secretamente um homem, o elevava
muito acima dela e dizia para si mesma cem vezes em segredo: “Se
semelhante homem me amasse seria uma graça diante da qual me
deveria prostrar até o chão!” E o mesmo ocorria com o homem,
justamente em relação à mesma mulher e à parte, no segredo de
seu ser, repetia para si palavras semelhantes. Quando finalmente
as línguas dos dois se soltaram e puderam confessar o que ambos
guardavam no coração, profundamente secreto, houve um silêncio
e certa hesitação. Depois a mulher abre a boca com uma voz fria:
“Então é perfeitamente claro que não somos, nem um nem outro,
o que amamos! Se tu és o que dizes e nada mais, eu me rebaixei
em vão para te amar: o demônio me seduziu precisamente como a
ti.” — Esta história muito verossímil não acontece nunca — por
quê?
380. CONSELHO EXPERIMENTADO
De todos os meios de consolação, nenhum faz tão bem
àquele que tem necessidade dela que a afirmação de que em seu
caso não existe consolação. Ele encontra nisso uma tal distinção
que, sem tardar, endireita a cabeça.
381. CONHECER SUA “PARTICULARIDADE”
Esquecemos com demasiada freqüência que, aos olhos dos
estranhos que nos vêem pela primeira vez, somos uma coisa
inteiramente diferente daquilo que nós mesmos pensamos ser: não
vemos geralmente outra coisa senão uma particularidade que
salta aos olhos e que determina a impressão. É assim que o mais
pacífico dos homens e o mais razoável, caso tivesse um grande
bigode, poderia de algum modo sentar-se à sombra desse bigode e
ficar totalmente tranqüilo — os olhos comuns vêem nele o
acessório de um grande bigode, isto é, um caráter militar que se
exalta facilmente e pode chegar até a violência — e diante dele nos
comportamos de acordo.
382. JARDINEIRO E JARDIM
Nos dias úmidos e sombrios, na solidão, as palavras sem
amor que nos são dirigidas geram conclusões semelhantes a
cogumelos: nós as vemos aparecer diante de nós, numa manhã,
sem que saibamos de onde vêm e nos olham, cinzentas e morosas.
Infeliz o pensador que não é o jardineiro, mas somente o terreno
de suas plantas!
383. A COMÉDIA DA COMPAIXÃO
Seja qual for a parte que tomamos na sorte de um infeliz, em
sua presença sempre fazemos um pouco de comédia, não dizemos
muitas que pensamos e como as pensamos, com a circunspecção
de um médico na cabeceira de um enfermo em perigo de morte.
384. HOMENS ESTRANHOS
Há pessoas pusilânimes que não dão nenhuma importância
ao que há de melhor em sua atividade e que não conseguem
transmitir qual o alcance dela: mas, por uma espécie de vingança,
tampouco se interessam pela simpatia dos outros e até mesmo
não acreditam na simpatia; têm vergonha de parecer muito
contentes consigo mesmos e parecem se comprazer, com
obstinação, em tornar-se ridículos. — Esses estados de alma se
encontram nos artistas melancólicos.
385. OS VAIDOSOS
Somos como vitrines de lojas, onde passamos nosso tempo a
arrumar, a esconder, a colocar em evidência as pretensas
qualidades que os outros nos concedem — para nos enganarmos a
nós mesmos.
386. OS PATÉTICOS E OS INGÊNUOS
É talvez um hábito sem nobreza não deixar passar nenhuma
ocasião de se mostrar patético: pelo prazer de imaginar o
espectador que bate no peito e se sente ele próprio pequeno e
desprezível. Por conseguinte, é talvez também um sinal de nobreza
brincar com as situações patéticas e comportar-se nelas sem
dignidade. A velha nobreza guerreira da França possuía este
gênero de distinção e de sutileza.
387. COMO REFLETIR ANTES DO CASAMENTO
Supondo que ela me ama, como vai me importunar com o
tempo! E supondo que não me ama, haverá razões maiores para
que com o tempo me importune ainda mais! — Trata-se somente
de duas espécies de incômodo — casemo-nos pois!
388. A VIGARICE COM BOA CONSCIÊNCIA
É extremamente desagradável ser enganado nas pequenas
compras, por exemplo, no Tirol22, porque, além do mau negócio, é
preciso suportar ainda a má figura e a cobiça brutal do
comerciante trapaceiro, bem como má consciência e grosseira
intimidade que se manifesta no comerciante em relação a nós. Em
Veneza, pelo contrário, o vigarista se alegra imensamente pelo
golpe que aplicou com sucesso e não se dá de forma alguma à
zombaria, mas está mesmo completamente disposto a demonstrar
amabilidades ao logrado e sobretudo a rir com ele, caso estivesse
também disposto a isso. — Em resumo: é preciso ter espírito e boa
consciência para ser trapaceiro: isso praticamente reconcilia o
enganado pela trapaça.
389. UM TANTO PESADO DEMAIS
Pessoas muito corajosas, que são um pouco pesadas para
ser polidas e amáveis, procuram responder imediatamente a uma
gentileza prestando um serviço sério ou levando o apoio de sua
força. É tocante observar a timidez com que oferecem suas peças
de ouro quando outro lhes ofereceu suas moedas de ouro.
390. ESCONDER O ESPÍRITO
Quando surpreendemos alguém escondendo diante de nós
seu espírito, nós o tratamos como mau: com maior razão se
suspeitamos que foi impelido a isso pela amabilidade e pela
benevolência.
391. O MAU MOMENTO
As naturezas vivas não mentem senão num momento:
mentiram então a si mesmas e permanecem convictas e honestas.
392. CONDIÇÕES DA POLIDEZ
A polidez é uma boa coisa e realmente uma das quatro
virtudes cardeais (embora seja a última): mas para que não nos
importunemos uns aos outros com ela, é necessário que aquele
com quem tenho negócios tenha um grau de polidez a mais ou a
menos que eu — de outra forma acabaremos por tomar raízes,
pois o bálsamo não somente embalsama, mas nos cola também no
local.
393. VIRTUDES PERIGOSAS
“Ele não esquece nada, mas perdoa tudo.” — Então será
duplamente odiado, pois envergonha duplamente, com sua
memória e com sua generosidade.
394. SEM VAIDADE
Os homens apaixonados pensam pouco no que os outros
pensam, seu estado os eleva acima da vaidade.
395. A CONTEMPLAÇÃO
Neste pensador o estado contemplativo próprio dos
pensadores segue sempre o estado de medo, naquele outro,
sempre o estado de desejo. No primeiro, a contemplação se alia,
portanto, ao sentimento de segurança; no segundo, ao sentimento
de saciedade — o que quer dizer que aquele experimenta um
sentimento de coragem e este, de desgosto e de neutralidade.
396. À CAÇA
Este vai à caça para apanhar verdades agradáveis, aquele —
verdades desagradáveis. Por isso o primeiro tem mais prazer na
caça do que no espólio.
397. EDUCAÇÃO
A educação é uma continuação da procriação e muitas vezes
uma espécie de paliativo ulterior desta.
398. COMO SE RECONHECE O MAIS FOGOSO
De duas pessoas que lutam juntas ou que se amam ou se
admiram, a mais fogosa assume sempre a posição menos
confortável. Ocorre o mesmo com dois povos.
399. DEFENDER-SE
Certos homens têm pleno direito de agir desta ou daquela
maneira; mas quando querem defender sua conduta, não
acreditamos mais que seja assim — e não temos razão.
400. RELAXAMENTO MORAL
Há naturezas morais ternas que têm vergonha de cada um
de seus sucessos e dos remorsos de cada insucesso.
401. ESQUECIMENTO PERIGOSO
Começamos por desaprender a amar os outros e acabamos
por não encontrar em nós mesmos nada que seja digno de ser
amado.
402. UMA TOLERÂNCIA COMO OUTRA
“Ficar um minuto a mais sobre brasas ardentes e queimar-se
um pouco — isso não faz mal nem aos homens nem às castanhas!
Essa pequena amargura e essa pequena dureza permitem sentir
enfim como o coração é doce e macio.” — Sim! É assim que vocês
julgam, vocês, gozadores! Sublimes antropófagos!
403. ALTIVEZ DIFERENTE
São as mulheres que empalidecem com a idéia de que seu
amado poderia não ser digno delas; são os homens que
empalidecem com a idéia de que poderiam não ser dignos de sua
amada. Trata-se aqui de mulheres completas, de homens
completos. Daqueles homens que possuem, em tempos normais, a
confiança em si e o sentimento do poder, sentem, em estado de
paixão, uma espécie de timidez e uma espécie de dúvida a respeito
de si mesmos; daquelas mulheres que, pelo contrário, se
consideram sempre como seres fracos, prontas ao abandono, mas
na exceção sublime da paixão, encontram sua altivez e seu
sentimento de poder — muitos perguntam então: quem, pois, é
digno de mim?
404. A QUEM RARAMENTE SE FAZ JUSTIÇA
Certos homens não podem se entusiasmar com qualquer
coisa de bom e de grande sem cometer, de um lado e de outro,
uma grave injustiça: é seu tipo de moralidade.
405. Luxo
O gosto do luxo está arraigado nas profundezas de um
homem: ele revela que é nas ondas da abundância e do supérfluo
que sua alma nada mais à vontade.
406. TORNAR IMORTAL
Que aquele que quer matar seu adversário considere se essa
não seria uma forma de eternizá-lo em si mesmo.
407. CONTRA NOSSO CARÁTER
Quando a verdade que temos a dizer vai contra nosso caráter
— como isso ocorre muitas vezes — nós nos comportamos, ao
dizê-la, como se não soubéssemos mentir e despertamos a
desconfiança.
408. ONDE É NECESSÁRIA MUITA DOÇURA
Certas naturezas não têm outra escolha senão de serem
malfeitores públicos ou secretos carregadores de cruz.
409. DOENÇA
Por doença é preciso entender: a aproximação de uma
velhice precoce, da feiúra e dos juízos pessimistas: três coisas que
caminham junto.
410. OS SERES TEMEROSOS
São precisamente os seres desajeitados e temerosos que se
tornam facilmente criminosos: não se contentam com a defesa ou
a vingança proporcional a seu objetivo; por falta de espírito e de
presença de espírito, seu ódio não conhece outra saída senão o
aniquilamento.
411. SEM ÓDIO
Queres te despedir de tua paixão! Podes fazê-lo, mas sem
ódio contra ela! Senão te sobrevirá uma segunda paixão. — A alma
do cristão que se libertou do pecado se arruína geralmente de
imediato pelo ódio ao pecado. Contempla os rostos dos grandes
cristãos! São rostos cheios de grande ódio.
412. ESPIRITUAL E LIMITADO
Ele não sabe apreciar nada fora de si mesmo; e quando quer
estimar outras pessoas, tem sempre de começar por transformálas
em si mesmo. Mas para fazer isso, é espiritual.
413. OS ACUSADORES PRIVADOS E PÚBLICOS
Olha de perto todo o homem que acusa e interroga — ele
revela nisso seu caráter: ora, não é raro que esse caráter seja pior
que aquele da vítima cujo crime investiga. O acusador imagina
inocentemente que o inimigo do crime e do malfeitor deve
forçosamente ter, por natureza, um bom caráter ou pelo menos
passar por bom — de tal modo que ele se deixa levar, ou melhor:
se enfurece.
414. OS CEGOS VOLUNTÁRIOS
Há uma espécie de dedicação exaltada, levada ao extremo,
por uma pessoa ou por um partido, que denuncia que nos
sentimos secretamente superiores a essa pessoa ou a esse partido
e que, por causa disso, guardamos certo rancor. Nós nos cegamos
de certo modo voluntariamente para punir nossos olhos por terem
visto demais.
415. REMEDIUM AMORIS23
Na maior parte dos casos, o que há ainda de mais eficaz
contra o amor é o velho remédio radical: o amor partilhado.
416. ONDE ESTÁ O PIOR INIMIGO?
Aquele que sabe defender bem sua causa e que tem
consciência disso, manifesta geralmente um espírito conciliador
em relação aos adversários. Mas acreditar que lutamos pela boa
causa e saber que não somos hábeis para defendê-la — isso é que
leva vocês a perseguir seus adversários com um ódio secreto e
implacável. — Que cada um calcule, a partir disso, onde deve
procurar seus piores inimigos!
417. LIMITES DE TODA HUMILDADE
Mais que um já chegou à humildade que diz: credo quia
absurdum est24, e que oferece sua razão em holocausto: mas
ninguém, pelo menos que eu saiba, chegou ainda a essa
humildade que, no entanto, não está muito distante da primeira e
que diz: credo quia absurdus sum25.
418. COMÉDIA DO VERDADEIRO
Há aqueles que são sinceros — não porque detestem simular
sentimentos, mas porque não conseguiriam simular de maneira
convincente. Em resumo, não têm confiança em seu talento de
comediantes e preferem a sinceridade, a “comédia do verdadeiro”.
419. CORAGEM NA RESOLUÇÃO
As pobres ovelhas dizem a seu condutor: “Vai sempre em
frente, e nós nunca deixaremos de ter coragem para te seguir.”
Mas o pobre condutor pensa consigo mesmo: “Sigam-me sempre e
eu nunca deixarei de ter coragem de conduzi-las.”
420. ASTÚCIA DA VÍTIMA
É uma triste astúcia querer se iludir com alguém por quem
nos sacrificamos, dando-lhe ocasião em que ele possa parecer tal
como gostaríamos que fosse.
421. ATRAVÉS DE OUTROS
Há homens que não querem de maneira nenhuma ser vistos
de outra forma que projetando seus raios através de outros. É
marca de grande sabedoria.
422. DAR PRAZER AOS OUTROS
Por que dar prazer é superior a todos os outros prazeres? —
Porque dessa forma se pode dar prazer de uma só vez a cinqüenta
de seus próprios instintos. E podem ser talvez algumas alegrias
muito pequenas: mas se forem reunidas todas numa só mão, terse-
á a mão mais cheia que nunca — e o coração também.
1 Ludwig Van Beethoven (1770-1827), compositor alemão (NT).
2 Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), compositor austríaco (NT).
3 Richard Wagner (1813-1883), compositor alemão; Nietzsche e Wagner eram
grandes amigos, mas depois romperam relações de forma radical e
irrevogável, fato que Nietzsche descreve em seu opúsculo O caso Wagner
(NT).
4 William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo e poeta inglês; Macbeth é o
título e o personagem principal de uma de suas peças teatrais (NT).
5 Lenda celta da Idade Média, Tristão e Isolda, teve muitas versões em prosa e
verso; a lenda narra a paixão proibida e fatal entre Tristão e Isolda; aqui
Nietzsche se refere à lenda em si, mas talvez relembre o drama musical em
três atos com este título e de autoria de Richard Wagner (NT).
6 Sófocles (496-406 a.C), poeta trágico grego; entre parêntesis são citadas três
obras dele (NT).
7 Pensamento extraído da obra Retórica (II, 15) de Aristóteles (384-322 a.C),
filósofo grego (NT).
8 George Gordon, Lord Byron (1788-1824), poeta inglês (NT).
9 Na realidade, dolce far niente, expressão italiana que significa literalmente
“doce fazer nada”, com o sentido geral de o belo ócio, a vida fácil sem
problemas e preocupações, sem trabalho algum (NT).
10 Monstros marinhos da mitologia grega, guardiões do estreito de Messina
(localizado entre a ilha da Sicília e a Itália continental). Na realidade, são os
designativos de um sorvedouro e de um rochedo, muito temidos pelos
marinheiros. Os navegadores que conseguiam escapar de um, geralmente
não se safavam do outro. Dessa lenda e dessa realidade se conservaram as
expressões escapar de Cila e cair em Caribde, estar entre Cila e Caribde (NT).
11 David Livingstone (1813-1873), missionário e explorador inglês; atravessou
o centro da África do oeste para leste e, entre as suas muitas descobertas,
está a das cataratas de Vitória (NT).
12 “Quem não tem, não é” ou “quem não possui, não existe” (NT).
13 Expressão latina que significa “vulgo, povo profano” (NT).
14 Expressão latina que significa “para a maior glória de Deus” (NT).
15 Thomas Carlyle (1795-1881), historiador, crítico e escritor escocês; entre
suas obras destaca-se Sobre os heróis, o culto dos heróis e o heróico na
história (NT).
16 Expressão latina que significa “fatos, fatos fictícios” (NT).
17 John Wesley (1703-1791), teólogo inglês, filho de pastor anglicano; rompeu
com a Igreja e passou-se para o protestantismo, onde fundou a Igreja
metodista (designativo originado do caráter rigoroso, disciplinado e ordeiro
dessa corrente cristã), desenvolvendo um trabalho profícuo de pregação e de
evangelização (NT).
18 Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão; dentre suas obras, A religião
nos limites da simples razão e Critica da razão prática já foram publicadas
nesta coleção da Editora Escala (NT).
19 Homero (séc. IX a.C), poeta épico grego, autor das obras-primas Ilíada e
Odisséia; a informação de que adormecia com freqüência se encontra na
obra Ars poetica (verso 359) de Quintus Horatius Flaccus (65-8 a.C), poeta
latino (NT).
20 Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), filósofo alemão (NT).
21 Segundo a mitologia grega, Atlas era um gigante que se aliou aos Titãs na
luta contra os deuses. Como castigo, Zeus o condenou a sustentar o mundo
sobre os ombros (NT).
22 Região do sul da Áustria e do extremo norte da Itália; era totalmente
austríaca até 1919, data em que, ao término da primeira Guerra Mundial,
parte dela foi anexada ao território italiano (NT).
23 Expressão latina que significa “remédio do amor” (NT).
24 Expressão latina que significa “creio porque é absurdo” (NT).
25 Expressão latina que significa “creio porque sou absurdo” (NT).
LIVRO QUINTO
423. NO GRANDE SILÊNICO
Aí está o mar, aqui podemos esquecer a cidade. É verdade
que tocam ainda a Ave Maria — é esse ruído fúnebre e insensato,
mas suave, na encruzilhada do dia e da noite — esperem um
momento ainda! Agora tudo se cala! O mar se estende pálido e
cintilante, mas não pode falar. O céu joga com cores vermelhas,
amarelas e verdes seu eterno e mudo jogo do crepúsculo, não pode
falar. Os pequenos escolhos e os recifes que correm no mar, como
para encontrar o local mais solitário, todos não podem falar. Esse
enorme mutismo que de repente nos surpreende, como é belo e
cruel para dilatar a alma! — Ai! que duplicidade há nessa muda
beleza! Como poderia falar bem, e mal também, se o quisesse! Sua
língua presa e a felicidade sofredora marcam seu rosto, tudo isso
não passa de malícia para zombar de tua compaixão! — Que
importa! Não me envergonho de atrair o riso de semelhantes
forças. Mas tenho dó de ti, natureza, pois tens de te calar, mesmo
que fosse somente tua malícia que te prende a língua: sim, tenho
dó de ti, por causa de tua malícia! — Ai! o silêncio aumenta mais
ainda e meu coração se dilata de novo: espanta-se com uma nova
verdade, ele também não pode falar, se põe de acordo com a
natureza desafiar, quando a boca quer lançar palavras no meio
dessa beleza, ele próprio goza da doce malícia do silêncio. A
palavra, o próprio pensamento se tornam odiosos para mim: não
será que ouço, por trás de cada palavra, rir e não escuto o erro, a
imaginação e o espírito de ilusão? Não devo zombar de minha
compaixão? Que eu zombe de minha zombaria? — Ó mar! Ó tarde!
Vocês são mestres maliciosos! Ensinam o homem a deixar de ser
homem! Ele deve se abandonar a vocês? Deve tornar-se como
vocês são agora, pálidos, cintilantes, mudos, imensos, repousando
em si mesmos? Deve elevar-se acima de si mesmo?
424. PARA QUEM A VERDADE?
Até o presente, os erros foram as forças mais ricas em
consolação: agora se espera os mesmos serviços das verdades
reconhecidas, mas elas se fazem esperar um pouco demais. Como,
as verdades não seriam talvez as mais apropriadas para consolar?
— Esse seria, pois, um argumento contra as verdades? Que têm
elas de comum com o estado doentio dos homens sofredores e
degenerados, para que se possa exigir delas que lhes sejam úteis?
Não se prova nada contra a verdade de uma planta ao constatar
que ela não contribui de alguma maneira para a cura dos homens
doentes. Mas outrora havia a convicção de que o homem era o
objetivo da natureza, a ponto de admitir sem cerimônia que o
conhecimento não podia revelar nada que não fosse salutar e útil
ao homem e, mais ainda, que não poderia, a nenhum preço, haver
outra coisa no mundo. — Talvez de tudo isso se poderia concluir
que a verdade, como entidade e conjunto, só existe para as almas
contemporaneamente poderosos e desinteressadas, alegres e
pacíficas (como era a de Aristóteles), e que essas almas seriam as
únicas a procurá-la realmente: pois os outros procuram remédios
para seu uso, qualquer que seja, aliás, o orgulho que têm para
vangloriar-se de seu intelecto e da liberdade desse intelecto — eles
não procuram a verdade. Aí está porque a ciência proporciona tão
pouca alegria verdadeira a esses homens que a recriminam por
sua frieza, por sua aridez e por sua desumanidade: esse é o juízo
dos doentes sobre a disposição daqueles que são saudáveis. — Os
deuses da Grécia também não tinham grande tino para consolar;
quando o povo grego acabou por cair doente, ele também foi uma
das razões por que semelhantes deuses pereceram.
425. NÓS, DEUSES NO EXÍLIO!
Por erros sobre sua origem, sua situação única, seu destino
e por exigências fundadas nesses erros, a humanidade se elevou
muito alto e ela se “ultrapassou-se a si mesma” sem cessar: mas,
por esses mesmos erros, sofrimentos indizíveis, perseguições,
suspeitas e desconhecimentos recíprocos e um maior número
ainda de misérias do indivíduo, em si e cobre si, entrou no
mundo. Os homens se tornaram criaturas sofredoras por causa de
suas morais: o que obtiveram foi, em resumo, o sentimento de que
eram fundamentalmente demasiado bons e demasiado
importantes para a terra, onde só estavam de passagem. “O
orgulhoso que sofre” está ainda lá, provisoriamente, o tipo
superior da humanidade.
426. CEGUEIRA DOS PENSADORES EM RELAÇÃO ÀS CORES
Os gregos viam a natureza de maneira diferente da nossa,
pois, devemos admitir que seu olho era cego para o azul e para o
verde e que viam, em vez do azul, um castanho mais carregado,
em vez de verde, um amarelo (designavam, pois, com a mesma
palavra, a cor de uma cabeleira escura, aquela do mirtilo e aquela
do mares meridionais, e ainda, pela mesma palavra, a cor das
plantas verdes e da pele humana, do mel e das resinas amarelas:
de modo que seus maiores pintores, como foi demonstrado, não
puderam reproduzir o mundo que os cercava senão pelo preto,
pelo branco, pelo vermelho e pelo amarelo). — Como lhes devia
parecer diferente a natureza e mais próxima do homem, pois a
seus olhos as cores do homem predominavam igualmente na
natureza e esta, por assim dizer, se banhava no éter colorido da
humanidade! (O azul e o verde despojam a natureza de sua
humanidade mais que qualquer outra cor). Foi por esse defeito
que se desenvolveu a facilidade infantil, peculiar dos gregos, de
considerar os fenômenos da natureza como deuses e semi-deuses,
isto é, de vê-los sob forma humana. — Mas que isso sirva de
símbolo a outra hipótese. Todo pensador pinta seu mundo
particular dele e as coisas que o cercam com menos cores do que
as que existem, e é cego a algumas. Não é apenas um defeito.
Graças a essa aproximação e a essa simplificação, ele empresta às
coisas harmonias de cores extremamente que têm um grande
encanto e que podem produzir um enriquecimento da natureza.
Talvez seja mesmo por essa via somente que a humanidade
aprendeu a usufruir do espetáculo da vida: graças ao fato de que a
existência lhe foi inicialmente apresentada com uma ou duas
tonalidades e, por conseguinte, de uma forma mais harmoniosa:
ela se habituou, por assim dizer, com esses tons simples, antes de
passar a nuances mais variadas. Ainda hoje, certos indivíduos se
esforçam para sair de uma cegueira parcial para chegar a uma
vida mais rica e a uma diferenciação maior; fazendo isso, não
encontram somente novos prazeres, mas são forçados também a
abandonar e perder alguns antigos.
427. O EMBELEZAMENTO DA CIÊNCIA
Da mesma forma que a arte dos jardins rococó nasceu do
sentimento: “a natureza é feia, selvagem, aborrecida — pois bem!
vamos embelezá-la!” — igualmente nasceu do sentimento: “a
ciência é feia, árida, desesperada, difícil, aborrecia — pois bem!
vamos embelezá-la!” — provoca sempre e de novo alguma coisa
que se chama filosofia. Esta quer o que querem todas as artes e
todas as obras poéticas: divertir, antes de qualquer outra coisa,
Mas ela quer isso em conformidade com um orgulho hereditário,
de uma maneira superior e mais sublime, diante dos espíritos de
elite. Criar para ela uma arte dos jardins, cujo encanto principal
seria, como para os espíritos “mais vulgares”, criar uma ilusão
visual (por meio de templos, de perspectivas, de grutas, de
labirintos, de cascatas, para utilizar metáforas), apresentar a
ciência em resumo com todas as espécies de luzes maravilhosas e
repentinas, incorporar nisso algo de bastante vago, de desrazão e
de sonho, para que possamos ali passear “como na natureza
selvagem”, mas sem custo e sem aborrecimento — esta não é uma
ambição modesta: aquele que está possuído por ela, sonha mesmo
em tornar supérflua a religião, religião que, para os homens de
outrora, apresentava a forma suprema da arte do divertimento. —
Doravante isso segue seu curso para atingir um dia seu ponto
culminante: já hoje começam a ser ouvidas vozes hostis à filosofia,
vozes que gritam: “Retorno à ciência, à natureza e ao natural da
ciência!” — anunciando talvez uma época que vai descobrir a
beleza mais poderosa, justamente nas partes “selvagens e feias” da
ciência, da mesma maneira que só depois de Rousseau1 nós
descobrimos o sentido da beleza do alto das montanhas e dos
desertos.
428. DUAS ESPÉCIES DE MORALISTAS
Ver e ver completamente, pela primeira vez, uma lei da
natureza, isto é, demonstrar essa lei (por exemplo, aquela da
queda dos corpos, da reflexão da luz e do som), isso é coisa
totalmente diferente do que explicá-la e também assunto de
espíritos bem diferentes. É assim que se distinguem também esses
moralistas que vêem e comentam as leis e os hábitos humanos —
moralistas notáveis pelo ouvido, nariz e olhos sutis — daqueles
que explicam o que observaram. Estes últimos devem ser
sobretudo inventivos e possuir uma imaginação isenta pela
sagacidade e pelo saber.
429. A NOVA PAIXÃO
Por que tememos e detestamos a possibilidade de um
retorno à barbárie? Seria talvez porque a barbárie tornaria os
homens mais infelizes do são? De modo algum! Os bárbaros de
todas as épocas foram mais felizes: não nos iludamos! — Mas
nosso instinto de conhecimento é muito desenvolvido para que
possamos ainda apreciar a felicidade sem conhecimento ou a
felicidade de uma ilusão sólida e vigorosa; só sofremos com a
simples idéia de semelhante estado de coisas! A inquietação da
descoberta e da solução encontrada tornou-se para nós tão
sedutora e tão indispensável como, para o amante, seu amor
infeliz: por nenhum preço gostaria de trocá-lo por um estado de
indiferença; — sim, talvez também nos sejamos amantes infelizes!
O conhecimento se transformou em nós em paixão que não teme
nenhum sacrifício e não tem no fundo senão um único receio, o de
se extinguir a si própria; acreditamos sinceramente que toda a
humanidade, acabrunhada sob o peso dessa paixão, deve sentirse
mais nobre e mais confiante do que antes, quando não tinha
ainda ultrapassado a satisfação mais grosseira que acompanha a
barbárie. A paixão do conhecimento talvez leve mesmo a
humanidade a perecer! — este pensamento também é desprovido
de qualquer poder sobre nós! O cristianismo se assustou alguma
vez com idéias semelhantes? A paixão e a morte não são irmãs?
Sim, odiamos a barbárie — todos preferimos ver a destruição de
toda a humanidade antes que ver o conhecimento regredir sobre
seus passos! E, afinal de contas: se a paixão não leva a
humanidade a perecer, ela vai perecer de fraqueza: que
preferimos? Esta é a questão essencial. Desejamos que a
humanidade acabe no fogo e na luz ou na areia?
430. ISSO TAMBÉM É HERÓICO
Fazer as coisas mais malcheirosas de que nem sequer se
ousa falar, mas que são úteis e necessárias — isso também é
heróico. Os gregos não tiveram vergonha de incluir nos grandes
trabalhos de Hércules a limpeza de uma estrebaria.
431. AS OPINIÕES DOS ADVERSÁRIOS
Para avaliar como se mostram naturalmente sutis e fracos os
cérebros, mesmo os mais inteligentes, é preciso observar a
maneira pela qual concebem e reproduzem as opiniões de seus
adversários: nisso se revela a medida natural de todo intelecto. —
O sábio perfeito eleva, sem querer, seu adversário a uma altura
ideal onde desembaraça suas objeções de todos os defeitos e de
todas as contingências: só quando o adversário se tornou um deus
de armas brilhantes inicia o combate com ele.
432. PESQUISADOR E EXPERIMENTADOR
Nenhum método cientifico é o único a poder dar acesso ao
conhecimento! Devemos proceder com as coisas por tentativas,
sejamos ora bons ora maus em relação a elas, agindo cada uma
por sua vez com justiça, paixão e frieza. Um se envolve com as
coisas como policial, outro como confessor, um terceiro como
viajante e como curioso. Poder-se-á chegar a arrancar uma
parcela delas, seja pela simpatia, seja pela violência; um é
impelido para frente, impelido a ver claro pela veneração que lhe
inspiram seus segredos, outro, pelo contrário, pela indiscrição e
pela malícia na interpretação dos mistérios. Nós, pesquisadores,
como todos os conquistadores, todos os navegadores, todos os
aventureiros, somos de uma moralidade audaciosa e devemos
estar preparados para passar, no fim de tudo, por maus.
433. VER COM OLHOS NOVOS
Admitindo que por beleza na arte se entende sempre a
configuração do homem feliz — e eu acho que é verdade — segundo
a idéia que uma época, um povo, um grande indivíduo que fixa
suas leis por si mesmo, têm de um homem feliz: que indicações a
arte dos artistas atuais, chamada realismo, vai dar sobre a
felicidade do nosso tempo? É certo que esse é o gênero de beleza
que captamos agora mais facilmente e que mais apreciamos. Por
conseguinte, é preciso admitir que a felicidade atual, essa
felicidade que nos é própria, encontra sua realização no realismo,
com sentidos tão penetrantes quanto possível e uma concepção
tão fiel quanto possível do que é real, portanto, de modo algum na
realidade, mas no saber da realidade. Os resultados da ciência já
atingiram tal profundidade e tal amplitude que os artistas deste
século se tornaram, sem querer, os glorificadores da “suprema
felicidade” científica!
434. INTERCEDER
As regiões sem pretensões estão lá para os grandes
paisagistas, as regiões singulares e raras para os pequenos
pintores. Isso significa que as grandes coisas da natureza e da
humanidade devem interceder em favor daqueles que, entre seus
admiradores, são pequenos, medíocres e vaidosos — enquanto o
grande artista intercede um favor das coisas simples.
435. NÃO PERECER IMPERCEPTIVELMENTE
Não é numa única vez, mas sem cessar que nossa
capacidade e nossa grandeza se esgotam; a vegetação minúscula
que cresce em toda parte, que se introduz entre as coisas e chega
a espalhar-se arruína o que há de grande em nós — a mesquinhez
de nosso círculo de convivência, o que temos sob os olhos todos os
dias e a toda hora, as mil raízes minúsculas de tal sentimento
mesquinho que crescem em torno de nós em nossas funções, em
nossas relações, em nosso emprego do tempo. Se não prestarmos
atenção a essa pequena erva daninha, ela nos levará a perecer
imperceptivelmente! — E se quiserem absolutamente perecer,
então que seja de um só golpe e subitamente: talvez subsistam do
que vocês foram, ruínas altaneiras! E não, como se receia hoje,
montes de detritos! Com relva e ervas daninhas crescendo sobre
eles, vencedores minúsculos, tão humildes como aqueles recentes
e mesmo demasiado mesquinhos para triunfar.
436. CASUÍSTICA
Há uma alternativa amarga que a bravura e o caráter não
permitem a todo o homem enfrentar: descobrir, como passageiro
de um navio, que o capitão e o piloto cometem erros perigosos e
que somos superiores a eles em conhecimentos náuticos — e
perguntar-nos então: Com os diabos! Se liderasses um motim
contra eles e os fizesses prisioneiros? Tua superioridade não faz
disso um dever? E do lado deles, não terão o direito de te prender
porquanto minas a obediência? — Este é um símbolo para
situações mais importantes e mais difíceis: e, afinal de contas,
uma pergunta permanece sempre aberta, isto é, quem garante, em
semelhantes casos, nossa superioridade, nossa autoconfiança? O
sucesso? Mas então é preciso justamente realizar imediatamente a
ação que encerra todos os perigos — e não somente perigos para
nós, mas também para o navio.
437. PRIVILÉGIOS
Aquele que se possui verdadeiramente, isto é, aquele que se
conquistou definitivamente, passa a considerar como privilégio seu
punir-se, perdoar-se, apiedar-se de si mesmo: ele não tem
necessidade de transferir isso a ninguém, mas pode também
livremente recorrer a outro, por exemplo, a um amigo — ele sabe,
contudo, que está assim outorgando um direito e que só a posse
do poder permite outorgar direitos.
438. O HOMEM E AS COISAS
Por que o homem não vê as coisas? E que ele próprio impede
o caminho: ele esconde as coisas.
439. SINAIS DISTINTIVOS DA FELICIDADE
Todas as sensações de felicidade têm duas coisas em
comum, a plenitude do sentimento e a petulância que dele resulta;
de modo que nos sentimos em nosso elemento como um peixe na
água e que nele nos agitamos. Bons cristãos compreenderão o que
é a exuberância cristã.
440. NÃO ABDICAR!
Renunciar ao mundo sem conhecê-lo, como uma freira — é
terminar numa solidão estéril, talvez melancólica. Isso nada tem
em comum com a solidão da vida contemplativa do pensador:
quando ele escolhe essa solidão não quer de modo nenhum
renunciar; seria para ele, pelo contrário, abandono, melancolia,
destruição de si próprio dever persistir na vida prática — ele
renuncia a esta, porque a conhece, porque se conhece. É assim
que dá um mergulho em sua água, é assim que conquista sua
serenidade.
441. POR QUE O PRÓXIMO SE TORNA PARA NÓS CADA VEZ MAIS
DISTANTE
Quanto mais pensamos sobre tudo o que foi e tudo o que
será, mais nos parece atenuado o que fortuitamente se encontra
no presente. Se vivemos com mortos e morrermos da morte deles,
o que são então para nós os “próximos”? Nós nos tornamos mais
solitários — e isso porque a onda inteira da humanidade ressoa
em torno de nós. O ardor que queima em nós por tudo o que é
humano aumenta sem cessar — é por isso que olhamos tudo o que
nos cerca como se se tivesse tornado mais indiferente, mais
semelhante a um fantasma. — Mas a frieza de nosso olhar ofende!
442. A REGRA
“Para mim, a regra é sempre mais interessante que a
exceção” — aquele que pensa assim está mais avançado no
conhecimento e faz parte dos iniciados.
443. PARA A EDUCAÇÃO
Pouco a pouco fui vendo mais claramente o defeito mais
difundido de nossa maneira de ensinar e de educar. Ninguém
aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — a suportar a solidão.
444. A SURPRESAM QUE A RESISTÊNCIA CAUSA
Porque uma coisa acabou por nos parecer transparente,
imaginamos que daí em diante ela não poderá nos oferecer
resistência — e ficamos surpresos então porque podemos ver
através dela, mas não podemos atravessá-la! É a mesma loucura e
a mesma surpresa que se apodera de uma mosca diante de uma
vidraça.
445. EM QUE OS MAIS NOBRES SE ENGANAM
Acabamos por dar a alguém o que temos de melhor, nosso
tesouro — e agora o amor não tem mais nada para dar: mas
aquele que aceita isso não encontra ali o que ele tem, ele próprio,
de melhor e, por conseguinte, falta-lhe esse pleno e derradeiro
reconhecimento, sobre o qual conta aquele que dá.
446. CLASSIFICAÇÃO
Há, em primeiro lugar, pensadores superficiais; em segundo
lugar, pensadores profundos — daqueles que descem nas
profundezas das coisas; — em terceiro lugar, pensadores radicais
que querem descer até o último vestígio de uma coisa — o que tem
muito mais valor do que simplesmente descer em sua profundeza!
— Finalmente, há pensadores que mergulham a cabeça no
lamaçal: o que não deveria ser sinal nem de profundidade nem de
pensamento profundo! São nossos queridos pensadores do
subsolo.
447. MESTRE E ALUNO
Um mestre deve colocar seus discípulos em alerta contra ele
próprio; isso faz parte de sua humanidade.
448. HONRAR A REALIDADE
Como podemos contemplar essa multidão de povo em júbilo
sem lágrimas e sem aplausos! Outrora pensávamos com desprezo
no objeto de sua alegria e seria ainda assim se não tivéssemos
vivido nós mesmos essas alegrias! A que os acontecimentos
podem, portanto, nos arrastar! A que opiniões nos fazem chegar!
Para não nos perdermos, para não perdermos a razão, devemos
fugir diante das experiências. Foi assim que Platão fugiu diante da
realidade e não quis mais contemplar coisas, a não ser as pálidas
imagens ideais; ele era cheio de sensibilidade e sabia quão
facilmente as ondas da sensibilidade rebentavam em sua razão. O
sábio deveria, por conseguinte, dizer a si mesmo: “Quero honrar a
realidade, mas virando-lhe as costas, porque a conheço e a temo?”
— deveria agir como certas tribos africanas diante de seu
soberano: não se aproximando dele senão de costas e sabendo
testemunhar sua veneração ao mesmo tempo que seu temor?
449. ONDE ESTÃO OS INDIGENTES DE ESPÍRITO?
Ah! Como me repugna impor a outro meus próprios
pensamentos! Quero me regozijar com cada pensamento que me
vem, com cada retorno secreto que ocorre em mim, onde as idéias
dos outros passam a ter valor em detrimento das minhas! Mas, de
tempos em tempos, sobrevém uma festa maior ainda, quando é
expandir o próprio bem espiritual, semelhante ao confessor
sentado num canto, ansioso por ver chegar alguém que tenha
necessidade de consolo, que fala da miséria de seus pensamentos,
a fim de lhe encher de novo o coração e as mãos e aliviar sua alma
inquieta! Não somente o confessor não quer ter glória com isso: ele
gostaria até de se furtar ao reconhecimento, pois, é indiscreto e
sem pudor diante da solidão e do silêncio. Mas viver sem nome
sem nome ou exposto a leve troça, muito obscuramente para
despertar a inveja ou a inimizade, armado de um cérebro sem
febre, de um punhado de conhecimentos e de uma bolsa cheio de
experiências, ser para o espírito uma espécie de médico dos
pobres e ajudar um e outro quando sua cabeça está perturbada
por opiniões, sem que perceba com certeza a quem ajudou! Não
procurar ter razão diante dele e celebrar uma vitória, mas falar-lhe
de maneira que, após uma pequena indicação imperceptível ou
uma objeção, ele encontre por si mesmo o que é verdadeiro e que
se vá orgulhosamente por causa disso! Ser como uma humilde
estalagem que não recusa ninguém que precise, mas que depois é
logo esquecida e ridicularizada! Não ter vantagem em nada, nem
melhor alimentação, nem ar mais puro, nem espírito mais alegre
— mas sempre oferecer, restituir, comunicar, tornar-se mais
pobre! Saber ser pequeno para ser acessível a muita gente e não
humilhar ninguém! Tomar sobre si muitas injustiças e ter
rastejado como vermes por toda espécie de erros, para poder
penetrar, em caminhos secretos, em muitas almas escondidas!
Sempre numa mesma espécie de amor e sempre num mesmo
egoísmo e numa mesma alegria de si! Possuir autoridade, mas
manter-se ao mesmo tempo oculto, renunciador! Manter-se
constantemente estendido ao sol da amenidade e da graça, mas
saber que o acesso do sublime está ao alcance da mão! — Aí está o
que seria uma vida! Aí está uma razão para viver muito tempo!
450. A SEDUÇÃO DO CONHECIMENTO
Nos espíritos apaixonados, um olhar lançado pela porta da
ciência, age como a sedução das seduções; é de se prever que
esses espíritos se tornarão assim sonhadores e, no caso mais
favorável, poetas: tamanho é seu desejo da felicidade do
conhecimento. Não nos toma por todos os sentidos — esse tom de
doce sedução que a ciência assume para anunciar sua boa nova,
com cem palavras e mais maravilhosamente com a centésima
primeira: “Libertem-se da ilusão e o “infeliz de mim!” desaparecerá
ao mesmo tempo; e com o “infeliz de mim!” vai embora também a
dor” (Marco Aurélio).
451. AQUELES QUE TÊM NECESSIDADE DE UM BOBO DA CORTE
Os seres muito belos, muito bons, muito poderosos quase
nunca captam a verdade completa e comum, seja qual for o
assunto — pois, em sua presença, mente-se involuntariamente
um pouco, porque se está sob sua impressão e, conforme essa
impressão, se apresenta o que se poderia dizer de verdade sob
forma de adaptação (falsifica-se, portanto, a cor e o grau dos fatos
e suprime-se o que não se deixa adaptar). Se pessoas dessa
espécie querem, apesar de tudo, ouvir a qualquer preço a verdade,
precisam arranjar um bobo da corte — um ser que possua o
privilegio da loucura de não poder se adaptar.
452. IMPACIÊNCIA
Há um grau de impaciência nos homens de pensamento e de
ação que, ao menor insucesso, os faz passar em seguida ao campo
contrário, os impele a apaixonar-se e lançar-se aí em novas
empresas — até que, também ali, sejam apanhados por uma
hesitação do sucesso: é assim que vagueiam, aventureiros e
violentos, através da prática de muitos reinos e de naturezas
variadas e pode ocorrer que finalmente se tornem, graças ao
conhecimento universal dos homens e das coisas que deixa neles
a prodigiosa experiência de suas aventuras e, atenuando um
pouco seu instinto — homens práticos poderosos. É assim que
uma fraqueza de caráter se torna uma escola de gênio.
453. INTERREGNO MORAL
Quem seria capaz de descrever já agora o que um dia vai
substituir os sentimentos e os juízos morais? — embora possamos
ver com certeza que estes se baseiam em fundamentos
inteiramente defeituosos e que seu edifício é irreparável: seu
caráter imperativo diminui forçosamente dia após dia, à medida
que o caráter imperativo da razão não diminui! Reconstruir as leis
da vida e da ação — para realizar essa tarefa, nossas ciências da
fisiologia, da medicina, da sociedade e da solidão não estão ainda
muito seguras de si: entretanto, é somente delas que podemos
tirar as pedras fundamentais de um novo ideal (se não for esse
próprio ideal). Vivemos, portanto, de uma existência preliminar ou
retardatária, segundo nossos gostos e nossos talentos, e o que
podemos fazer de melhor, nesse interregno, é sermos, tanto
quanto possível, nossos próprios reis e fundarmos pequenos
Estados experimentais. Somos experiências: vamos sê-lo de bom
grado.
454. INTERRUPÇÃO
Um livro como este não é feito para ser lido apressadamente
de ponta a ponta, nem para ser lido em voz alta; deve ser aberto
muitas vezes, especialmente durante um passeio ou uma viagem;
é preciso poder mergulhar nele, depois olhar para os lados e não
encontrar mais nada de usual em torno de si.
455. A PRIMEIRA NATUREZA
Da maneira como nos criam hoje, começamos por receber
uma segunda natureza: e nós a possuímos quando o mundo nos
declara que chegamos à maturidade, emancipados, utilizáveis. Só
um reduzido número é suficientemente serpente para se despojar
dessa pele, no momento em que, sob esse invólucro, sua primeira
natureza chegou à maturidade. Mas na maioria das pessoas o
germe foi sufocado.
456. UMA VIRTUDE EM DEVIR
Afirmações e promessas como aquelas do filósofo antigo
sobre a harmonia entre a virtude e a beatitude ou aquelas que nos
faz o cristianismo, dizendo: “Procurem antes de tudo o reino de
Deus e todo o resto lhes será dado em acréscimo2!” — nunca
foram formuladas com uma sinceridade absoluta, mas sempre
sem má consciência: essas proposições, que se desejava ter por
verdadeiras, eram apresentadas audaciosamente como se fossem
a própria verdade, embora estivessem em oposição com a
aparência, e isso sem ter remorso de consciência religioso ou
moral — pois, in honorem majorem3 da virtude ou de Deus a
verdade havia sido transgredida, sem a menor intenção egoísta!
Muitas pessoas honestas ainda se agarram a esse grau de
veracidade: quando se sentem desinteressadas, se julgam
autorizadas a tomar a verdade com mais leveza. Notemos que,
nem entre as virtudes cristãs nem entre as virtudes socráticas, a
lealdade está presente; esta é uma das virtudes mais recentes,
ainda pouco madura, muitas vezes confundida e desconhecida;
apenas consciente de si mesma, ela é uma coisa que se
desenvolve, que podemos acelerar ou refrear, segundo as
tendências de nosso espírito.
457. ÚLTIMA DISCRIÇÃO
Há homens a quem ocorre a aventura dos caçadores de
tesouros: descobrem por acaso numa alma estranha as coisas
guardadas em segredo e delas extraem um saber que muitas vezes
é difícil de carregar! Em certas circunstâncias, podemos conhecer
os vivos e os mortos, ter a revelação da alma deles a ponto que se
torna penoso explicar-nos diante dos outros: cada palavra nos
deixa receosos de sermos indiscretos. — Eu poderia imaginar
facilmente o historiador mais sábio tornando-se mudo de repente.
458. A SORTE GRANDE
Existe uma coisa de excessivamente raro e que nos deixa
arrebatados: quero me referir ao homem de espírito
admiravelmente formado que possui também o caráter, as
inclinações e faz em sua vida as experiências pessoais que
correspondem a isso.
459. A GENEROSIDADE DO PENSADOR
Rousseau e Schopenhauer — ambos foram suficientemente
orgulhosos para escolher como divisa de sua existência: vitam
impendere vero4. E como devem ter sofrido ambos em seu orgulho
por não terem conseguido verum impendere vitae5! — Verum, tal
como o entendia cada um deles — ver sua vida correr ao lado de
seu conhecimento, como uma nota baixa caprichosa que não quer
se harmonizar com a melodia! — Mas o conhecimento estaria em
triste situação se não fosse talhada para o pensador como se
adapta a seu corpo! E o pensador estaria em triste situação, se
sua vaidade fosse tão grande que tal ajuste fosse o único que
pudesse suportar! É nisso especialmente que brilha a mais bela
virtude do grande pensador: a generosidade que o dispõe a
oferecer-se a si mesmo, a oferecer sua própria vida em sacrifício,
quando procura o conhecimento, muitas vezes humilhado, muitas
vezes com uma suprema ironia e — sorrindo.
460. UTILIZAR AS HORAS PERIGOSAS
Aprendemos a conhecer de um modo totalmente diferente
um homem e uma situação quando cada movimento põe em
perigo, para nós e para os nossos próximos, a honra, a vida ou a
morte: assim Tibério6, por exemplo, deve ter refletido mais
profundamente e ter sabido mais coisas sobre a natureza íntima
do imperador Augusto7 e de seu governo do que teria sido possível
ao mais sábio historiador. Ora, nós vivemos todos,
comparativamente, num estado de segurança muito maior para
podermos nos tornar bons conhecedores da alma humana: um
conhece por diletantismo, outro por aborrecimento, o terceiro por
hábito, mas jamais dizem: “Conhece ou perece!” Enquanto as
verdades não se gravam em nossa carne a golpes de faca,
conservamos diante delas, certa reserva que se assemelha ao
desprezo: parecem-nos ainda muito semelhantes a “sonhos
emplumados”, como se pudéssemos alcançá-las ou não, a nosso
bel-prazer — como se pudéssemos nos despertar dessas verdades
da mesma maneira que de um sonho!
461. HIC RHODUS, HIC SALTA8
Nossa música que pode tomar todas as formas e que deve se
transformar, porque, como o demônio do mar, em si não tem
característica própria: essa música freqüentou outrora o espírito
do erudito cristão, traduzindo em harmonias o ideal deste: porque
ela não poderia finalmente encontrar essas harmonias mais
claras, mais alegres, mais universais, que correspondem ao
pensador ideal? — uma música que poderia finalmente se instalar
familiarmente sob as vastas abóbadas flutuantes de sua alma? —
Nossa música foi até o presente tão grande, tão boa: com ela, nada
era impossível. Que mostre, pois, que é possível sentir ao mesmo
tempo estas três coisas: grandeza, luz profunda e quente, e alegria
da suprema lógica.
462. CURAS LENTAS
As doenças crônicas do corpo se formam, como aquelas da
alma, muito raramente em conseqüência de uma única falha
grosseira da razão do corpo e da alma, mas geralmente por causa
de inumeráveis pequenas negligências imperceptíveis. — Aquele
que, por exemplo, dia após dia, num grau insignificante, respira
de modo muito fraco e aspira muito pouco ar para os pulmões, de
modo que, em seu conjunto, ele não lhes exige um esforço
suficiente e não os exercita bastante, acaba por contrair uma
pneumonia crônica: num caso desse gênero, a cura não pode ser
alcançada de outro modo que corrigindo, insensivelmente, os
maus hábitos por hábitos contrários e pequenos exercícios,
estabelecendo, por exemplo, como regra aspirar uma vez a cada
quarto de hora, forte e profundamente (se possível, deitado de
costas no chão; seria necessário então dispor de um relógio que
marque os segundos e que toque os quartos de hora). Todas essas
curas são lentas e minuciosas; e aquele que quiser curar sua alma
deve, ele próprio, pensar em modificar seus menores hábitos.
Alguém dirige dez vezes por dia uma palavra fria e desagradável
aos que o cercam e pouco se preocupa com isso, não pensando
sobretudo que ao final de alguns anos criou, sem dar-se conta,
uma lei do hábito que o obriga, a partir daí, a indispor dez vezes
por dia aqueles que o cercam. Mas pode também habituar-se a
fazer o bem a eles dez vezes por dia!
463. O SÉTIMO DIA
“Elogiam isso como criação minha? Eu me limitei a expulsar
de mim o que me incomodava! Minha alma está acima da vaidade
dos criadores. — Elogiam isso como minha resignação? Eu me
limitei a expulsar de mim o que me incomodava! Minha alma está
acima da vaidade dos resignados.”
464. PUDOR DAQUELE QUE DÁ
Há uma tal falta de generosidade no fato de representar
incessantemente o papel daquele que dá e difunde seus benefícios,
mostrando-se em toda parte! Mas dar e derramar benefícios,
ocultando tanto o nome como o favo! Ou não ter nome algum,
como a natureza cega que nos reconforta antes de tudo porque
não encontramos mais nela, enfim!, alguém que dê e derrame seus
benefícios, alguém de “rosto benevolente”! — É verdade que vocês
nos estragam também esse reconforto porque colocaram um deus
nessa natureza — e eis que tudo volta a ser sem liberdade e cheio
de opressão! Como? Não ter jamais o direito de estar só consigo
mesmo? Sempre vigiado, observado, tutelado, gratificado? Se há
sempre um outro em torno de nós, a melhor coragem do mundo e
a melhor bondade se tornam impossíveis no mundo. Não seríamos
tentados a ir para os diabos diante dessa indiscrição do céu,
diante desse inevitável vizinho sobrenatural? — Mas é inútil, foi só
um sonho! Despertemos, portanto!
465. ENCONTRO
A — Para onde olhas? Há já muito tempo que te vejo imóvel.
B — É sempre a mesma coisa, sempre nova para mim! O
interesse que uma coisa suscita me leva a persegui-la tão longe
que acabo por chegar ao fundo e perceber que ela não valia todo o
trabalho que me dou. No fim de todas essas experiências, resta
uma espécie de tristeza e de estupor. Isto me acontece três vezes
por dia com relação à menor das coisas.
466. PERDA NA CELEBRIDADE
Qual a vantagem de poder falar aos homens como
desconhecido! Os deuses nos tiram “a metade de nossas virtudes”
quando nos tiram do incógnito e nos tornam célebres.
467. DUPLA PACIÊNCIA!
“Tu causas assim sofrimento a muita gente.” — Eu sei e sei
também que devo sofrer duplamente, primeiro por causa da
compaixão que seu sofrimento me inspira e depois por causa de
sua vingança contra mim. Mas, apesar disso, é necessário agir
assim.
468. O IMPÉRIO DA BELEZA É MAIOR
Do mesmo modo que passeamos na natureza, sutis e
contentes, para descobrir em todas as coisas sua beleza própria,
como em flagrante delito, do mesmo modo que, ora ao sol, ora sob
um céu tempestuoso, fazemos um esforço para ver tal espaço da
costa com seus rochedos, com suas cercas, suas oliveiras e seus
pinheiros, sob um aspecto de perfeição e de domínio: assim
também deveríamos passear entre os homens, como exploradores
e pesquisadores, tratando-os bem e mal para que se manifeste a
beleza que lhes é própria, ensolarada neste, tempestuosa naquele,
sem desabrochar num terceiro a não ser ao meio-dia e sob um céu
chuvoso. É, portanto, proibido usufruir do homem mau como de
uma paisagem selvagem com suas linhas audaciosas e seus
efeitos de luz, enquanto esse mesmo homem, quando finge ser
bom e observante da lei, parece a nosso olhar como um erro de
desenho e uma caricatura que nos aflige como uma mancha na
natureza? — Certamente, isso é proibido: até hoje só era permitido
procurar a beleza naquilo que é moralmente bom — razão
suficiente para que se tenha encontrado tão pouca beleza e que se
tenha sido até agora constrangido a recorrer a belezas
imaginárias, sem carne nem osso! — Assim como existem
seguramente cem espécies de felicidade entre os maus, do que os
virtuosos não duvidam, assim também existem entre eles cem
espécies de beleza: e muitas delas ainda não foram descobertas.
469. A DESUMANIDADE DO SÁBIO
Ao lado do pesado andar do sábio que quebra tudo e que,
como diz o hino budista, “caminha solitário como o rinoceronte —
é necessária, de tempos em tempos, a marca de uma humanidade
conciliadora e adocicada; e não apenas com esses passos
acelerados, com esses jeitos de espírito familiares, não somente
com essas saídas e com certa ironia de si próprio, mas também de
certa contradição, de um retorno ocasional aos absurdos
dominantes. Para não se assemelhar ao rolo compressor que
avança como o destino, é necessário que o sábio que quer ensinar
utilize seus defeitos para se embelezar a si mesmo e, ao dizer
“desprezem-me!”, implora o favor de ser o defensor de uma
verdade usurpada. Ele quer levá-los às montanhas, talvez ponha a
vida de vocês em perigo: é por isso que os autoriza
voluntariamente a vingarem-se, antes ou depois, de semelhante
guia — a esse preço se reserva o prazer de caminhar na frente dos
outros, como chefe da fila. — Lembram-se do que lhes veio ao
espírito quando um dia ele os conduzia numa caverna escura por
uma trilha escorregadia? O coração de vocês batia e se dizia com
humor: “Este guia poderia ter feito melhor que rastejar por aqui!
Pertence a um tipo de preguiçosos cheios de curiosidade: — não
lhe damos muita honra, parecendo reconhecer seu valor, pelo
simples fato de segui-lo?”
470. NO BANQUETE DA MULTIDÃO
Como ficamos felizes quando estamos bem alimentados,
como os pássaros pela mão de um só homem que lhes joga os
grãos sem examiná-los de perto, sem saber exatamente se são
dignos dessa comida! Viver como um pássaro que vem e voa
embora e que não tem nome em seu bico! É minha alegria saciarme
assim no banquete da multidão.
471. OUTRO AMOR AO PRÓXIMO
O andar agitado, ruidoso, desigual, nervoso, é o oposto da
grande paixão: esta, instalada no fundo do homem como um
braseiro silencioso e sombrio, acumulando aí todo o calor e toda a
impetuosidade, permite ao homem contemplar o mundo exterior
com frieza e indiferença e imprime aos traços certa
impassibilidade. Homens assim são bem capazes de manifestar
ocasionalmente amor ao próximo — mas esse amor é de outra
natureza que aquele das pessoas sociáveis e desejosas de agradar:
ele se afirma numa doce benevolência, contemplativa e calma.
Esses homens olham de algum modo do alto de sua torre, que é
sua fortaleza e, por isso mesmo, sua prisão: — como lhes faz bem
lançar o olhar para fora, para o que é estranho e outro!
472. NÃO SE JUSTIFICAR
A — Mas por que não te queres justificar?
B — Poderia fazê-lo nisso e em mil outras coisas, mas
desprezo o prazer que há na justificação: pois tudo isso pouco me
importa e prefiro trazer manchas em mim do que proporcionar a
esses mesquinhos o pérfido prazer de dizer: “Ele dá muita
importância a essas coisas!” É isso justamente que não é verdade!
Talvez fosse necessário que eu desse mais importância a mim
mesmo para ter o dever de retificar as idéias falsas que me dizem
respeito; — sou demasiado indiferente e demasiado indolente em
relação a mim e, por conseguinte, também ao que é provocado por
mim.
473. ONDE SE DEVE CONSTRUIR A PRÓPRIA CASA
Se te sentes grande e fecundo na solidão, a sociedade dos
homens te diminuirá e te tornará estéril: e inversamente. Uma
poderosa doçura como aquela de um pai: — onde esse sentimento
se apoderar de ti, é lá que deverás edificar tua morada — quer seja
no tumulto ou no silêncio. Ubi pater sum, ibi patria9.
474. OS ÚNICOS CAMINHOS
“A dialética é o único caminho para chegar a ser divino, para
chegar atrás do véu das aparências” — é o que Platão pretendia
com tanta solenidade e paixão como Schopenhauer o pretendia,
ao contrário, da dialética — e ambos estavam errados. De fato,
aquilo cujo caminho querem indicar não existe de forma alguma.
E todas as grandes paixões da humanidade não foram até hoje,
como esta, paixões por um nada? E todas as suas solenidades —
solenidades por um nada?
475. TORNAR-SE PESADO
Vocês não o conhecem: ele pode carregar muitos pesos com
ele, ele os leva todos, contudo, para as alturas. E vocês julgam,
com seus pequenos vôos, que ele quer ficar embaixo porque
carrega esses pesos com ele.
476. A FESTA DA COLHEITA DO ESPÍRITO
Isso aumenta e se acumula dia após dia, experiências,
acontecimentos da vida, reflexões sobre eles, sonhos que
provocam essas reflexões — uma riqueza incomensurável e
exaltante! O aspecto dessa riqueza dá vertigens; não compreendo
mais como podem ser chamados felizes os pobres de espírito! —
Mas eu os invejo às vezes, quando estou cansado: pois a
administração de semelhante riqueza é uma coisa difícil e não raro
sua dificuldade esmaga toda espécie de felicidade. — Ah! se fosse
possível se contentar em contemplar a própria riqueza! Se
fôssemos somente avaros do próprio conhecimento!
477. LIVRE DE CETICISMO
A — “Outros saem de um ceticismo moral universal
aborrecidos e fracos, roídos e corroídos, e mesmo quase devorados
pela metade — mas eu saio mais corajoso e mais sadio que nunca,
com instintos reconquistados. Quando a brisa é cortante, o mar
alto, quando não há pequenos perigos a sobrepujar, começo a me
sentir à vontade. Não me tornei um verme, embora muitas vezes
tenha tido que trabalhar e roer como um verme.”
B — “É que deixaste de ser cético, pois, negas!”
A — “E com isso reaprendi a dizer sim”.
478. VAMOS ADIANTE!
Administrem-no! Deixem-no em sua solidão! Querem
destruí-lo completamente? Ele se fendeu como um copo em que
despejamos um líquido muito quente — e era um copo de uma
matéria tão preciosa!
479. AMOR E VERACIDADE
Nós nos tornamos, por amor, perigosos criminosos para com
a verdade, receptadores e ladrões inveterados que proclamam
mais verdades do que admitem — é por isso que é necessário que
o pensador ponha em fuga, de tempos em tempos, as pessoas que
ama (não são exatamente aquelas que o amam), a fim de que elas
mostrem seu aguilhão e sua maldade e deixem de seduzi-lo. É por
isso que a bondade do pensador terá sua lua de quarto crescente
e de quarto minguante.
480. INEVITÁVEL
Que lhes aconteça o que vocês quiserem: aquele que não
lhes quer bem verá naquilo que lhes acontece um pretexto para
diminuí-los! Suportem as mais profundas reviravoltas do espírito e
do conhecimento e cheguem, finalmente, como um convalescente,
com um sorriso doloroso, à liberdade e à luz silenciosa: — haverá
sempre alguém para dizer: “Este toma sua doença como
argumento, sua impotência como prova da impotência de todos; é
bastante vaidoso para cair doente, a fim de sentir a proeminência
daquele que sofre.” — E, supondo que alguém rompa seus laços,
ferindo-se gravemente, outro fará alusão a isso por gracejo e dirá.
“Quão grande é sua imperícia; isso vai acontecer sempre com um
homem acostumado a seus laços e bastante louco para rompêlos!”
481. DOIS ALEMÃES
Se compararmos Kant e Schopenhauer, com Platão, Spinoza,
Pascal, Rousseau, Goethe no que diz respeito à alma e não ao
espírito, os dois primeiros pensadores estão em posição
desvantajosa: suas idéias não representam a história apaixonante
de uma alma, não há aí romance, crises, catástrofes e horas de
angústia, seu pensamento não é ao mesmo tempo a biografia
involuntária de uma alma, mas no caso de Kant, a de um cérebro,
no caso de Schopenhauer, a descrição e o reflexo de um caráter
(“do imutável!”) e a alegria obtida no próprio “espelho”, isto é, num
intelecto excepcional. Kant se apresenta, quando transparece em
suas idéias, corajoso e honrado no melhor sentido do termo, mas
insignificante: falta-lhe envergadura e força: ele não viveu assim e
sua maneira de trabalhar lhe tira o tempo de viver seja o que for —
penso evidentemente não nos grosseiros “acontecimentos”
exteriores, mas nos destinos e sobressaltos a que está submetida
a vida mais solitária e mais silenciosa, se tem tempo e se se
consome na paixão de pensar. Schopenhauer tem uma vantagem
sobre ele: possui, pelo menos, certa feiúra violenta da natureza, no
ódio, nos desejos, na vaidade, na desconfiança, tem disposições
um pouco mais ferozes e, de sua parte, tinha o tempo e a
inclinação para essa ferocidade. Mas faltava-lhe a “evolução”,
precisamente como ela fazia falta a seu horizonte intelectual; ele
não tinha “história”.
482. ESCOLHER A CONVIVÊNCIA
Será exigir demais querer conviver com homens que se
tornaram doces, saborosos e nutritivos como castanhas que foram
colocadas no forno a tempo e retiradas do fogo no momento exato?
Quem espera pouco da vida e prefere recebê-la de presente que
merecê-la, como se os pássaros e as abelhas a tivesse trazido a
ele? Quem é suficientemente orgulhoso para nunca se sentir
recompensado? E muito sério em sua paixão do conhecimento e
da retidão para ter ainda tempo e disposição para a glória? —
Homens como esses, nós os chamamos filósofos: mas eles
encontrarão sempre para eles um nome mais modesto.
483. ESTAR FARTO DO HOMEM
A — Procura o conhecimento! Sim! Mas sempre como
homem! O quê? Ser sempre espectador da mesma comédia,
representar sempre um papel na mesma comédia? Não poder
contemplar jamais as coisas com outros olhos senão estes? E
quantos inumeráveis seres deve haver, cujos órgãos são mais
próprios para o conhecimento! O que a humanidade terá chegado
a conhecer no fim de todo o seu conhecimento? — seus órgãos! E
isso significa talvez: impossibilidade de conhecimento! Miséria e
desgosto!
B — És vítima de um ataque maligno — é a razão que te
ataca! Mas amanhã recuperarás plenamente teu conhecimento e,
por isso mesmo, plenamente também a desrazão, quero dizer, a
alegria que te causa tudo o que é humano. Vamos para o mar!
484. NOSSO CAMINHO
Quando damos o passo decisivo e nos comprometemos no
caminho que é “nosso caminho”, então um segredo se revela
repentinamente a nós: todos aqueles que eram nossos amigos e
familiares — todos se haviam até então arrogado superioridade
sobre nós e de repente se sentem ofendidos. Os melhores dentre
eles são indulgentes e esperam pacientemente que reencontremos
o “caminho certo” — que eles conhecem tão bem! Os outros
zombam e fingem acreditar num acesso de loucura passageira ou
denunciam amargamente um sedutor. Os piores ns declaram
essencialmente loucos e procuram incriminar os motivos de nossa
conduta; o pior de todos vê em nós seu pior inimigo, que uma
longa dependência alimentou a vingança — e ele tem medo de nós.
— Que fazer então? Isso: inaugurar nosso reino assegurando de
antemão por um ano anistia plena a nossos amigos por toda
espécie de pecados.
485. PERSPECTIVAS DISTANTES
A — Mas por que essa solidão?
B — Não estou zangado com ninguém. Quando estou só, no
entanto, parece-me que vejo meus amigos sob uma luz mais
favorável do que quando estou com eles; e quando gostava mais
da música, quando a compreendia mais exatamente, eu vivia
longe dela. Parece que tenho necessidade de perspectivas
distantes para ter boa opinião das coisas.
486. OURO E FOME
Aqui e acolá encontra-se um homem que transforma em
ouro tudo o que toca. Um belo dia acabará por descobrir que esse
jogo o fará morrer de fome. Tudo o que o cerca é brilhante,
magnífico, ideal e inacessível, e agora aspira a encontrar coisas
que lhe seria totalmente impossível transformar em ouro — e como
aspira a elas! Como um faminto aspira por alimento! — Que
poderá apanhar?
487. VERGONHA
Aí está um belo corcel que bate com os cascos e relincha,
está impaciente pela corrida e gosta daquele que habitualmente o
monta — mas, ó vergonha! o cavaleiro não chega a montar, está
cansado. — Tal é a vergonha do pensador, cansado diante de sua
própria filosofia.
488. CONTRA A PRODIGALIDADE NO AMOR
Não coramos quando nos surpreendemos em fragrante delito
de aversão violenta? Mas deveríamos corar igualmente de nossas
simpatias violentas, por causa da injustiça que elas encerram.
Mais ainda: há pessoas cujo coração se fecha e que se sentem
como oprimidas quando alguém não lhe demonstra sua simpatia
senão retirando uma parte dela aos outros. Quando descobrem
pelo tom de voz que é a eles que se escolhe, que se prefere, ah! não
sou reconhecido por esse tipo de escolha, percebo que recebo com
frieza aquele que me quer distinguir assim: ele não deve gostar de
mim à custa dos outros! E muitas vezes tenho o coração
transbordante e motivos de exuberância — a quem possui isso
não se deve oferecer o que os outros têm necessidade, cruelmente
necessidade!
489. AMIGOS NA DESGRAÇA
Às vezes nos acontece observar que um de nossos amigos
está mais ligado com outro do que conosco, que sua delicadeza se
atormenta por essa escolha e que seu egoísmo não está à altura
dessa decisão: então é preciso facilitar-lhe a separação e ofendê-lo
por se afastar de nós. — Isso é igualmente necessário quando
passamos a uma maneira de pensar que lhe seria funesta: nossa
afeição por ele deve nos impelir, por uma injustiça de que nos
responsabilizamos, a dar-lhe boa consciência para romper
conosco.
490. AS PEQUENAS VERDADES
“Vocês conhecem tudo isso, mas nunca o viveram — não
aceito seu testemunho. Essas “pequenas verdades”! — parecemlhes
pequenas porque não as pagaram com seu sangue!” — “Mas
seriam, pois, grandes pelo motivo de terem sido pagas por alto
preço? E o sangue é sempre alto preço!” — “Acham?... Como vocês
são avaros de seu sangue!”
491. POR CAUSA DISSO TAMBÉM, SOLIDÃO!
A — Queres então voltar para teu deserto?
B — Não sou ágil, tenho de me esperar a mim mesmo — fica
cada vez mais tarde até que a água do poço de meu eu suba até a
luz e, muitas vezes, tenho que passar fome por mais tempo que
minha paciência suporta. E por isso que vou para a solidão —
para não beber das cisternas que estão dispostas para todos. No
meio da multidão vivo como a multidão e não penso como penso;
depois de certo tempo, tenho sempre a impressão de que querem
me exilar de mim mesmo e roubar-me a alma — passo a me tornar
mau para todos e a temer a todos. Tenho então necessidade do
deserto para voltar a ser bom.
492. SOB OS VENTOS DO SUL
A — Não me entendo mais! Ainda ontem, eu sentia em mim
a tempestade, alguma coisa de quente e de ensolarado,
extremamente claro. E hoje tudo é tranqüilo, vasto, melancólico e
sombrio, como a laguna de Veneza: — não quero nada e não solto
um suspiro de alivio e, contudo, estou secretamente indignado
com esse “não querer nada”: — assim as ondas vão e vêm aqui e
acolá no lago de minha melancolia.
B — Descreves com isso uma leve doença agradável. O
próximo vento do nordeste vai te livrar dela!
A — Por que, pois?
493. SOBRE SUA PRÓPRIA ÁRVORE
A — “Nenhuma idéia de um pensador me dá tanto prazer
como as minhas: é verdade que isso não prova nada em seu favor,
mas seria loucura de minha parte querer descartar frutos
saborosos para mim, sob o pretexto de que eles por acaso em
minha árvore! — E outrora cometi essa loucura.”
B — “Para outros, é o contrário que acontece: e isso não
prova nada quanto ao valor de suas idéias nem especialmente
contra seu valor.”
494. ÚLTIMO ARGUMENTO DO CORAJOSO
“Nesses arbustos há serpentes.” — Bom, vou penetrar no
meio desses arbustos e matá-las. — “Mas talvez sejas tu vítima
delas e não elas as tuas! — Que importância tenho eu!”
495. NOSSOS MESTRES
Durante nossa juventude, escolhemos nossos mestres e
nossos guias no presente e nos meios que por acaso
freqüentamos: temos a irrefletida convicção de que o presente deve
possuir os mestres que podem nos servir mais que qualquer outro
e que precisamos encontrá-los sem procurar muito. Mais tarde
pagaremos caro essa infantilidade: teremos que expiar os mestres
em nós mesmos. Então percorreremos talvez o mundo inteiro,
presente e passado, à procura de verdadeiros guias — mas talvez
seja tarde demais. E, no pior dos casos, descobrimos que eles
viveram quando éramos jovens — e que então nos enganamos.
496. O PRINCÍPIO MAU
Platão10 mostrou de modo maravilhoso como o pensador
filosófico, em toda sociedade constituída, será forçosamente
considerado como o protótipo de toda perversidade: pois,
enquanto critico dos costumes, é o oposto do homem moral, e se
não chega a ser o legislador de novos costumes, sua lembrança
permanece na memória dos homens sob o designativo de
“princípio mau”. Podemos deduzir disso como a cidade de Atenas,
bastante liberal e inovadora, procurou manchar em vida a
reputação de Platão: qual a surpresa se este — que, como ele
próprio dizia, tinha o “instinto político” no sangue — fez três
tentativas de reforma na Sicília, onde parecia então se organizar
justamente um Estado mediterrâneo pan-helênico? Nesse Estado,
e graças a ele, Platão pensava fazer para os gregos o que fez mais
tarde Maomé11 para os árabes: fixar os grandes e pequenos
costumes e sobretudo o modo de vida cotidiano de cada um. A
realização de suas idéias era possível como o foi aquela de Maomé:
não demonstrou que idéias muito mais incríveis, como as do
cristianismo, eram realizáveis? — Alguns acasos a menos, alguns
acasos a mais — e o mundo teria assistido à platonização do sul
da Europa: e, supondo que esse estado de coisas durasse mais, é
provável que hoje veneraríamos em Platão “o princípio bom”. Mas
faltou-lhe o sucesso: e foi assim que conservou a reputação de
sonhador e utopista — os epítetos mais duros desapareceram com
a antiga Atenas.
497. O OLHAR PURIFICADOR
Seria necessário de preferência falar de “gênio” a propósito
de homens como Platão, Spinoza, Goethe12, nos quais o espírito
parece não se ligar senão de maneira muito relapsa ao caráter e ao
temperamento, como um ser alado que se separa facilmente deles
e que pode então elevar-se muito acima deles. Pelo contrário,
aqueles que assumiram com mais insistência seu “gênio” são
precisamente aqueles que nunca chegaram a se agarrar a seu
temperamento e pretenderam lhe emprestar a expressão mais
espiritualizada, mais vasta e mais geral, uma expressão cósmica,
mesmo em certas circunstâncias (por exemplo, Schopenhauer).
Esses gênios não puderam voar além de si mesmos, mas julgaram
encontrar-se, reencontrar-se por toda a parte para onde dirigiam
seu vôo — essa é sua “grandeza”, se isso pode ser uma grandeza!
— Os outros, a quem se atribui mais exatamente esse nome,
possuem o olhar puro, purificante, que não parece provir de seu
temperamento e de seu caráter, mas que, livre destes e com mais
freqüência numa doce contradição com eles, contempla o mundo
como se fosse um deus, e um deus que ele amasse. Também a
eles esse olhar não é dado de uma só vez. Há uma preparação e
uma aprendizagem na arte de ver e aquele que tem
verdadeiramente sorte encontra também a tempo um mestre do
olhar puro!
498. NÃO EXIGIR!
Vocês não o conhecem! É verdade que ele se submete fácil e
livremente aos homens e às coisas e que é bom para ambos —
tudo o que pede é que o deixem em paz — mas somente enquanto
os homens e as coisas não exigem submissão. Toda exigência o
torna arrogante, desconfiado e belicoso.
499. O MAU
“Todo solitário é mau”, exclamava Diderot13: e logo Rousseau
se sentiu visado e se sentiu mortalmente ferido. O que prova que
admitiu que Diderot tinha razão. É verdade que todo mau instinto
é forçado a impor, na sociedade e nas relações sociais, semelhante
coação, é forçado a esconder-se atrás de tantas máscaras, a
deitar-se tantas vezes no leito do Procusto14 da virtude que, com
razão, se poderia falar de um martírio do homem mau. Na solidão,
tudo isso desaparece. Aquele que é mau, o é mais na solidão: e
também melhor — por conseguinte, para aquele cujos não vêem
em toda parte senão espetáculo, é ali também que o é com maior
perfeição.
500. EM SENTIDO CONTRÁRIO
Um pensador pode se obrigar durante anos a pensar em
sentido contrário: quero dizer, não seguir os pensamentos que se
apresentam a ele, vindos de seu interior, mas aqueles que
parecem obrigá-lo a um emprego, um horário prescrito, uma
forma arbitrária de se aplicar. Mas acaba por cair doente: pois
essa aparente coação moral destrói sua força nervosa tão
radicalmente que poderia fazer dele uma perversão, da qual se
teria feito uma regra.
501. ALMAS MORTAIS!
Sob o aspecto do conhecimento, a conquista mais útil que
possa ter sido feita é ter renunciado à crença na alma imortal.
Agora a humanidade pode esperar, agora não tem necessidade de
se precipitar e aceitar idéias mal examinadas, como devia fazer
outrora. De fato, então a salvação da pobre “alma imortal”
dependia de seus conhecimentos durante a curta vida, tinha de
decidir-se de um dia para outro — o “conhecimento” tinha uma
importância espantosa! — Reconquistamos a coragem de errar, de
tentar, de aceitar provisoriamente — tudo isso tem menos
importância! — e é justamente por isso que indivíduos e gerações
inteiras podem conceber tarefas tão grandiosas que outrora teriam
parecido loucura e desafio com o céu e o inferno. Temos o direito
de fazer experiências conosco mesmos! A humanidade inteira tem
o mesmo direito! Os maiores sacrifícios ainda não foram oferecidos
ao conhecimento — sim, o simples fato de suspeitar de
pensamentos semelhantes aos que hoje precedem nossos atos, já
teria constituído outrora um sacrilégio e uma renúncia à salvação
eterna.
502. UMA SÓ PALAVRA PARA TRÊS ESTADOS DIFERENTES
Neste, a paixão faz irromper o animal selvagem, horrível e
intolerável; aquele, graças ao animal, se eleva a uma altura, a
uma grandeza e a um esplendor de atitude que fazem parecer
mesquinha sua existência habitual. Um terceiro, essencialmente
nobre, permanece nobre em sua impetuosidade e representa,
nesse estado, a natureza selvagem e bela, encontrando-se somente
um grau abaixo que a grande natureza tranqüila e bela que ele
representa habitualmente: mas os homens o compreendem melhor
na paixão e o veneram mais por causa desses momentos — ele se
encontra então um passo mais próximo deles e se assemelha mais
a eles. Sentem um arrebatamento e um espanto diante de
semelhante aspecto e o designam nesse instante preciso: divino.
503. AMIZADE
Essa objeção à vida filosófica segundo a qual o indivíduo se
torna inútil a seus amigos nunca teria passado pela cabeça de um
homem moderno: é uma objeção antiga. A antiguidade viveu
profunda e fortemente a noção da amizade, levando-a quase para
o túmulo. É sua vantagem sobre nós: nós podemos lhe opor o
amor sexual idealizado. Todas as grandes coisas realizadas pela
humanidade antiga encontravam sua força no fato de que o
homem apoiava o homem e que nenhuma mulher podia ter a
pretensão de ser para o homem o objeto do amor mais próximo e
mais elevado ou mesmo o objeto único — como o ensina a paixão.
Talvez nossas árvores não cresçam tanto devido à hera e à vinha
que a elas se agarram.
504. CONCILIAR!
Deveria ser tarefa da filosofia conciliar aquilo que a criança
aprendeu com aquilo que o homem reconheceu? A filosofia seria
ser então a tarefa dos jovens, que estão a meio caminho entre a
criança e o homem e têm necessidades medianas? Pareceria quase
que fosse assim, se consideramos a que idade os filósofos têm hoje
o costume de formar suas concepções: quando é tarde demais
para crer e cedo demais para saber.
505. AS PESSOAS PRÁTICAS
Cabe a nós, pensadores, o direito de fixar o bom gosto de
todas as coisas e de decretá-lo de acordo com a necessidade. As
pessoas práticas recebem-no de nós e sua independência de nós é
incrivelmente grande; esse é o espetáculo mais ridículo que se
possa ver, embora queiram ignorar essa dependência e gostem de
nos tratar com altivez como pessoas desprovidas de senso prático:
chegariam mesmo a desprezar sua vida prática se nós
quiséssemos desprezá-la: ao que um leve desejo de vingança
poderia de tempos em tempos nos incitar.
506. O NECESSÁRIO DESSECAMENTO DE TUDO O QUE É BOM
O quê? Seria necessário compreender uma obra exatamente
como a época que a produziu? Mas temos mais prazer, mais
admiração, transmite-nos mais ensinamentos se justamente não
considerarmos assim! Não repararam que qualquer obra nova e
bela possui seu valor mais baixo quando está exposta à atmosfera
úmida de seu tempo, precisamente porque ainda guarda sobre ela
a tal ponto o odor da praça pública, da polêmica, das opiniões
recentes e de todo o efêmero que perece entre hoje e amanhã?
Mais tarde ela desseca sua “atualidade”, se dissipa e então toma
seu brilho profundo, seu perfume e, se for destinada a isso, seu
calmo olhar de eternidade.
507. CONTRA A TIRANIA DO VERDADEIRO
Mesmo que fôssemos bastante insensatos para considerar
como verdadeiras todas as nossas opiniões, não desejaríamos,
contudo, que fossem as únicas a existir: — não sei porque seria
necessário desejar a onipotência e a tirania da verdade: basta-me
saber que a verdade possui um grande poder. Mas é preciso que
ela possa lutar e que tenha uma oposição, que se possa de tempos
em tempos descansar dela no não-verdadeiro — senão se tornaria
para nós aborrecida, sem gosto e sem força, e nos tornaria assim
também.
508. NÃO ASSUMIR UM TOM PATÉTICO
O que fazemos em nosso interesse não deve nos render
elogios morais, nem da parte dos outros nem da nossa; tal como o
que fazemos para nos alegrar. Recusar nesses casos as a tomar as
coisas num tom patético e abster-se a si mesmo de todo patético, é
de bom tom em todos os homens superiores: e aquele que se
habituou a isso reencontra o dom da ingenuidade.
509. O TERCEIRO OLHO
O quê? Ainda tens necessidade do teatro? És ainda tão
jovem? Sê razoável e procura a tragédia e a comédia onde são
mais bem representadas! No local onde isso se passa de maneira
mais interessante e mais interessada! Certamente, não é fácil
permanecer ali como espectador somente — mas aprende-o! E em
quase todas as situações que te parecerem difíceis e penosas,
encontrarás uma saída para a alegria e um refúgio, mesmo
quando fores assaltado por tuas próprias paixões. Abre teu olho
teatral, o grande terceiro olho que olha o mundo através dos dois
outros!
510. ESCAPAR DE SUAS VIRTUDES
Que vale um pensador que não sabe na ocasião oportuna
escapar de suas próprias virtudes? De fato, ele não dever ser
“somente um ser moral”!
511. A TENTADORA
A honestidade é a grande tentadora de todos os fanáticos.
Aquilo que parecia se aproximar de Lutero sob a forma do diabo
ou de uma bela mulher, e dos quais se defendeu de uma maneira
tão grosseira, devia ser realmente a honestidade e talvez até
mesmo, em casos mais raros, a verdade.
512. CORAJOSO DIANTE DAS COISAS
Aquele que, de acordo com sua natureza, é cheio de atenções
e de temor diante das pessoas, mas que possui imensa coragem
diante das coisas, receia as relações novas e as novas intimidades
e restringe as antigas, para que seu incógnito e seu radicalismo na
verdade se confundam.
513. LIMITAÇÃO E BELEZA
Procuras homens de bela cultura? Deves aceitar então, como
quando procuras belas regiões, pontos de vista e perspectivas
limitadas. — Certamente, há também homens panorâmicos, são
instrutivos e surpreendentes: mas desprovidos de beleza.
514. AOS MAIS FORTES
Espíritos fortes e orgulhosos, não lhes pedimos senão uma
coisa: não nos imponham nova carga, mas tomem sobre suas
costas parte de nosso fardo, vocês que são os mais fortes! Mas
gostam tanto de fazer o contrário: pois, vocês querem levantar seu
vôo e é por isso que devemos acrescentar seu fardo ao nosso: quer
dizer, nós temos que rastejar!
515. AUMENTO DE BELEZA
Por que a beleza aumenta com a civilização? Porque nos
homens civilizados, os três motivos de feiúra se tornam cada vez
mais raros: primeiro, as paixões em suas explosões mais
selvagens; segundo, o esforço físico levado ao extremo; terceiro, a
necessidade de inspirar o medo por seu aspecto, essa necessidade
que, nos estágios inferiores e mal estabelecidos da cultura, é tão
grande e tão freqüente que chega a fixar as atitudes e as
cerimônias e faz da feiúra um dever.
516. NÃO FAZER ENTRAR SEU DEMÔNIO NO PRÓXIMO
Mantenhamo-nos sempre nesta época fiéis à opinião de que
a benevolência e os benefícios constituem o homem bom; mas não
deixemos de acrescentar: “com a condição de que comece a
utilizar sua benevolência e seus benefícios em proveito próprio!”
Pois, de outro modo — se foge diante de si mesmo, se se detesta e
se se prejudica — não será certamente um homem bom. E então
não fará outra coisa que salvar-se a si mesmo nos outros: que os
outros cuidem de si para que não lhes aconteça nada de mal,
apesar de todo o bem que ele parece lhes querer! — Mas é
exatamente isso: fugir e odiar seu eu, viver em e para os outros e
para os outros — que se chama até hoje, com tanta desrazão como
segurança, “altruísta” e, por conseguinte, “bom”!
517. INDUZIR AO AMOR
Devemos temer aquele que se odeia a si mesmo, pois
seremos as vítimas de sua ira e de sua vingança. Procuremos,
pois, induzi-lo ao amor de si próprio!
518. RESIGNAÇÃO
O que é a resignação? É a posição mais confortável para um
doente que, durante muito tempo, se agitou em seus sofrimentos
para encontrá-la e que, tendo-se assim fatigado — então a
encontrou!
519. SER INGÊNUO
A partir do momento em que queres agir, deves fechar as
portas à dúvida — dizia um homem de ação. — E não temes,
dessa maneira, ser ingênuo! — respondeu um contemplativo.
520. A ETERNA CERIMÔNIA FÚNEBRE
Ao escutar a história inteira, poderíamos crer que ouvimos
uma ininterrupta oração fúnebre: sempre enterramos e
continuamos a enterrar ainda o que temos de mais caro,
pensamentos e esperanças, recebemos e continuamos a receber
em troca orgulho, gloria mundi15, isto é, a pompa da oração
fúnebre. Considera-se que isso repara tudo! E aquele que
pronuncia a oração fúnebre permanece sempre o maior benfeitor
público!
521. VAIDADE DE EXCEÇÃO
Este homem possui uma grande qualidade que serve para
seu próprio consolo; seu olhar passa com desprezo sobre o resto
de seu ser — e quase tudo faz parte desse resto! Mas ele se
repousa de si mesmo quando se aproxima dessa maneira de seu
santuário; o caminho que o leva até lá já lhe parece como uma
escada de degraus largos e doces: — e, cruéis que vocês são!,
gostariam de chamá-lo vaidoso por causa disso.
522. A SABEDORIA SEM ORELHAS
Ouvir diariamente o que se diz de nós ou mesmo tentar
descobrir o que se pensa de nós — isso acaba por aniquilar o
homem mais forte. E por isso que os outros nos deixam viver, para
ter cada dia razão contra nós! Não suportariam se tivéssemos
razão contra eles e, menos ainda, se quiséssemos ter razão! Numa
palavra, façamos este sacrifício para o bom entendimento geral,
não escutemos quando falam de nós, quando nos elogiam ou nos
recriminam, quando expressam desejos e esperanças a nosso
respeito, nem sequer pensemos nisso!
523. PERGUNTAS INSIDIOSAS
A propósito de tudo o que um homem deixa transparecer,
podemos perguntar: que é que ele quer esconder? De que quer
desviar a atenção? Que preconceito quer evocar? E ainda: até
onde vai a sutileza dessa dissimulação? E até que ponto comete
um equívoco?
524. CIÚME DOS SOLITÁRIOS
Entre as naturezas sociáveis e as naturezas solitárias, há
esta diferença (admitindo que ambas tenham espírito): as
primeiras ficam satisfeitas ou quase com uma coisa, qualquer que
seja, a partir do momento em que descobriram em seu espírito
uma nuance feliz e comunicável a respeito — isso as reconcilia
com o próprio diabo! As naturezas solitárias, pelo contrário,
encontram em qualquer coisa um prazer silencioso ou ela lhes
causa uma dor silenciosa, detestam a exposição espiritual e
brilhante de seus problemas íntimos, bem como detestam para
sua bem-amada uma maquiagem muito rebuscada: olham-na
então de maneira melancólica como se suspeitassem que quisesse
agradar a outros! Esse é o ciúme que todos os pensadores
solitários, que todos os sonhadores apaixonados conservam
perante o espírito.
525. O EFEITO DOS ELOGIOS
Um grande elogio torna alguns envergonhados, outros,
impertinentes.
526. NÃO QUERER SERVIR DE SÍMBOLO
Eu lastimo os príncipes: não lhes é permitido se anularem de
tempos em tempos na sociedade e assim não aprendem a
conhecer os homens a não ser numa posição desconfortável e
numa constante dissimulação; a contínua obrigação de significar
alguma coisa acaba por transformá-los efetivamente em solenes
nulidades. — E assim vai acontecer a todos aqueles que têm o
dever de ser símbolos.
527. OS HOMENS ESCONDIDOS
Vocês nunca encontraram desses homens que retêm e
comprimem o entusiasmo de seu coração e preferem tornar-se
mudos que perder o pudor da medida? — E esses homens
incômodos e muitas vezes tão bonachões não os encontraram
ainda, esses homens que não querem ser reconhecidos e que
apagam sempre suas pegadas na areia, que chegam até a se
enganar, eles e os outros, para permanecer escondidos?
528. RARÍSSIMA ABSTINÊNCIA
É muitas vezes um sinal de humanidade, que não é sem
importância, não querer julgar alguém e recusar-se a pensar seja
o que for a seu respeito.
529. COMO BRILHAM OS HOMENS E OS POVOS
Quantas ações essencialmente individuais ficam em
suspenso somente porque antes de executá-las constatamos que
seriam mal interpretadas ou receamos que o sejam realmente! —
são as ações, portanto, que justamente têm um valor verdadeiro
para o bem e para o mal. Por conseguinte, quanto mais uma
época, um povo, estimam os indivíduos, mais direito e
preponderância lhes são concedidos, mais ações desse gênero
ousaremos um dia fazer — e assim uma espécie de clarão de
honestidade, de franqueza, no bem e no mal, acaba por se
difundir nas épocas, em povos inteiros, de modo que, como
ocorreu com os gregos, continuam, semelhantes a certas estrelas,
a projetar seus raios ainda, durante milhares de anos após seu
desaparecimento.
530. DESVIOS DO PENSADOR
Em alguns homens, a marcha do pensamento inteiro é
rigorosa e inflexivelmente audaciosa, chegando mesmo, em certos
casos, a ser até cruel consigo mesma, mas nos detalhes esses
homens são doces e maleáveis; dão dez voltas em torno de uma
coisa com uma hesitação benevolente, mas acabam por continuar
seu rigoroso caminho. São rios com numerosos meandros e com
eremitérios isolados; há locais de seus cursos onde as águas
jogam de esconde-esconde consigo mesmas e se permitem, ao
passar, breves idílios com ilhotas, com árvores, grutas e cascatas:
depois retomam seu curso, acariciando os rochedos e abrindo
passagem entre as rochas mais duras.
531. SENTIR A ARTE DE MANEIRA DIFERENTE
Desde que se vive como eremita, devorador e devorado, com
a única companhia de pensamentos profundos e fecundos, não se
quer mais saber absolutamente nada de arte ou se exige dela
outra coisa totalmente diversa de antigamente — isto é, muda-se
de gosto. De fato, outrora, por meio da arte, todos queríamos
penetrar por um momento no elemento em que hoje vivemos
permanentemente; então evocávamos em sonho o encanto de uma
posse e agora possuímos. Pelo contrário, lançar longe de si o que
se tem agora e sonhar que se é pobre, mendigo e louco — isso
pode agora nos agradar ocasionalmente.
532. “O AMOR TORNA IGUAIS”
O amor quer poupar aquele ao qual se vota todo sentimento
de estranheza, por conseguinte, é cheio de dissimulação e de
assimilação, engana constantemente e representa uma igualdade
que não existe na realidade. E isso acontece tão instintivamente
que mulheres amadas negam essa dissimulação e esse doce e
contínuo engano e pretendem audaciosamente que o amor torna
iguais (o que significa que faz um milagre!). — Esse fenômeno é
simples quando uma pessoa se deixa amar e não julga necessário
fingir, deixando isso à outra pessoa amada: mas não existe
comédia mais enredada e mais inextricável do que quando ambos
estão em plena paixão recíproca e que, por conseguinte, cada um
renuncia a si mesmo e tenta igualar-se ao outro, identificar-se
com ele em tudo: então nenhum dos dois sabe o que deve imitar, o
que deve fingir, a que deve se entregar. A bela loucura desse
espetáculo é muito linda para este mundo e muito sutil para os
olhos humanos.
533. NÓS, OS ESTREANTES
Quantas coisas descobre e vê um ator quando vê outro
representar! Ele sabe quando num gesto um músculo se recusa a
trabalhar, isola esses pequenos detalhes artificiais que foram
exercidos separadamente e de sangue-frio diante do espelho e que
não conseguem se fundir no conjunto; sente quando o ator fica
surpreso em cena por sua própria invenção e que, em sua
surpresa, estraga o efeito dela. — Como um pintor olha de forma
diferente um homem que se posiciona diante dele! Vê sobretudo
muitas coisas que não existem na realidade, para poder completar
o que está em sua presença e levá-lo a lhe conferir seu pleno
efeito; tenta mentalmente várias iluminações do mesmo objeto,
divide o efeito de conjunto por um contraste acrescentado. — Se
somente tivéssemos o olho desse ator e desse pintor em todo o
reino da alma humana!
534. AS PEQUENAS DOSES
Se uma transformação deve se processar tanto quanto
possível em profundidade, é preciso administrar o remédio em
pequenas doses, mas sem interrupção, por um longo período de
tempo! O que podemos criar de grande numa só vez? Evitaremos,
pois, trocar, precipitadamente e com violência, as condições
morais às quais estamos habituados, por uma nova avaliação das
coisas — pelo contrário, queremos continuar ainda a viver muito
tempo nessas condições — até que, provavelmente muito tarde,
percebamos que a nova avaliação se tornou preponderante em nós
e que as pequenas doses às quais, a partir de agora, devemos nos
habituar, produziram em nós uma nova natureza. — Começamos
também a dar-nos conta que a última tentativa de grande
modificação nas avaliações — aquelas que se referem às coisas
políticas — quero dizer, a “grande Revolução” — não foi nada mais
que um patético e sangrento charlatanismo que, por meio de crises
súbitas, soube inculcar à crédula Europa a esperança de uma
cura repentina — tornando assim até nossos dias todos os doentes
políticos impacientes e perigosos.
535. A VERDADE TEM NECESSIDADE DO PODER
Em si, a verdade não é de forma alguma um poder — seja o
que for que digam geralmente os ridículos racionalistas! — Pelo
contrário, ela deve atrair o poder para seu lado ou deverá colocarse
do lado do poder, de outra forma perecerá sempre de novo! Isso
foi demonstrado à saciedade!
536. AS ALGEMAS
Acabamos por ficar revoltados ao ver com que crueldade
cada um incessantemente faz pagar suas poucas virtudes
pessoais aos outros que, por acaso, são desprovidos delas; ao ver
como os atormenta e os tortura com essas virtudes. Sejamos,
portanto, humanos também nós, com o “senso de honestidade”,
qualquer que seja nossa certeza de possuir nele algemas próprias
para torturar até o sangue todos esses egoístas grandiosos que
agora ainda querem impor seu crença ao mundo inteiro: — nós já
experimentamos essas algemas em nós mesmos!
537. DOMÍNIO
O domínio é alcançado quando, na execução, não nos
enganamos, nem hesitamos.
538. ALIENAÇÃO MORAL DO GÊNIO
Pode-se observar numa certa categoria de grandes espíritos
um espetáculo penoso e às vezes assustador: seus momentos mais
fecundos, seus vôos para o alto e para longe não parecem estar
conformes ao conjunto de sua constituição e com isso a
ultrapassar de alguma forma ou de outra suas forças, de modo
que sempre permanece uma deficiência e que dela resulta, com o
tempo, um defeito da máquina, o qual, por sua vez, se traduz, em
naturezas de tão elevada intelectualidade, em todas as espécies de
sintomas morais e intelectuais, muito mais regularmente do que
em misérias físicas. Esses aspectos incompreensíveis de sua
natureza, o que têm de temeroso, de vaidoso, de odioso, de
invejoso, de constrangido e de constrangedor, e que se manifesta
de repente neles, todo o lado excessivamente pessoal e de coação
em naturezas como as de Rousseau e de Schopenhauer, poderia
muito bem ser a conseqüência de uma periódica doença do
coração: esta, contudo, sendo conseqüência de uma doença
nervosa e esta, por fim, conseqüência de... Enquanto o gênio
habita em nós, somos cheios de intrepidez, somos como loucos e
pouco ligamos à saúde, à vida e à honra; atravessamos o dia com
nosso vôo mais livres que uma águia e, na escuridão, nos
sentimos mais seguros que uma coruja. Mas de repente o gênio
nos abandona e logo um temor profundo nos invade: não nos
compreendemos mais a nós mesmos, sofremos com tudo o que
não vivemos, é como se estivéssemos no meio de rochedos nus
diante da tempestade e ao mesmo tempo somos como lamentáveis
almas de criança que se aterrorizam por qualquer ruído e sombra.
— Três quartos do mal cometido na terra acontecem por covardia:
e isso é, antes de tudo, um fenômeno fisiológico!
539. SABEM PELO MENOS O QUE QUEREM?
Nunca foram atormentados pela angústia de não serem
capazes de reconhecer tudo o que é verdadeiro? A angústia de que
seus sentidos estejam demasiado embotados e mesmo sua sutileza
visual muito grosseira? Se vocês pudessem notar uma só vez qual
vontade domina por trás de sua visão! Por exemplo, como ontem
queriam ver mais do que outro e hoje querem ver de maneira
diferente que esse outro ou como desde o princípio aspiram a ver a
confirmação ou o contrário do que até aí se julgava encontrar! Ó
vergonhosos desejos! Quantas vezes estão à espreita do que tem
poderosos efeitos ou ainda do que tranqüiliza — pois, vocês já
estão cansados! Sempre repletos de pressentimentos secretos
sobre o que deve ser a verdade para que vocês, justamente vocês,
possam aceitá-la! Ou acreditam que hoje, porque estão gelados e
secos como uma clara manhã de inverno e que nada preocupa seu
coração, acreditam que seus olhos são melhores? Não será
necessário calor e entusiasmo para fazer justiça a uma coisa do
pensamento? — e é precisamente a isso que se chama ver! Como
se fossem em geral capazes de ter com as coisas do pensamento
relações diferentes daquelas que vocês têm com os homens! Há
nessas relações a mesma moralidade, a mesma honradez, a
mesma segunda intenção, a mesma covardia, o mesmo temor —
todo o seu eu amável e detestável! Suas fraquezas físicas
conferirão às coisas cores enfraquecidas, sua febre fará delas
monstros! Sua manhã não ilumina as coisas diferentemente de
seu entardecer? Não receiam encontrar na caverna de todo
conhecimento seu próprio fantasma, véu em que se envolve a
verdade para se disfarçar diante de vocês? Não é uma comédia
assustadora em que vocês querem desempenhar, tão
levianamente, seu papel?
540. APRENDER
Michelangelo16 via em Rafael17 o estudo, em si mesmo via a
natureza: num a arte aprendeu, no outro, o dom natural. Isso,
porém, é pedantismo, seja dito sem querer faltar de respeito com o
grande pedante. O que é o dom, senão o nome que se dá a um
estudo anterior, a uma experiência, a um exercício, a uma
apropriação, a uma assimilação, estudo que remonta talvez aos
tempos de nossos pais ou mais longe ainda! Mais ainda: aquele
que aprende cria seus próprios dons — mas não é fácil aprender e
não somente uma questão de boa vontade: é preciso poder
aprender. Num artista, é a inveja que muitas vezes se opõe ou
essa altivez que, desde que aparece o sentimento do estranho, se
põe imediatamente em estado de defesa, em vez de se dispor em
estado receptivo. Rafael não tinha nem essa inveja nem essa
altivez, precisamente como Goethe, e é por isso que ambos foram
grandes aprendizes e não apenas os exploradores desses filões
devidos às forças telúricas e à história dos antepassados deles. A
nossos olhos Rafael desaparece no momento em que ainda está
aprendendo, ocupado como estava em assimilar o que seu grande
rival chamava sua “natureza”: esse nobre ladrão levava todos os
dias um pedaço; mas, antes de ter transportado todo o
Michelangelo para sua casa, morreu — e a última série de suas
obras, inicio de um novo plano de estudo, é menos perfeita e de
menor qualidade em termos absolutos: justamente porque o
grande aprendiz foi perturbado pela morte na realização de sua
tarefa mais difícil e levou com ele o último objetivo justificador que
tinha em vista.
541. COMO DEVEMOS NOS PETRIFICAR
Tornar-se duro, lentamente, lentamente, como uma pedra
preciosa — e finalmente ficar assim tranqüilamente, para alegria
da eternidade.
542. O FILÓSOFO E A VELHICE
Não é sábio deixar que a tarde julgue o dia: pois com muita
freqüência o cansaço se torna justiceiro da força, do sucesso e da
boa vontade. Igualmente a mais extrema prudência deveria ser
imposta à velhice e a seu julgamento sobre a vida, visto que a
velhice, precisamente como a tarde, gosta de manter as
aparências de uma nova e sedutora moralidade e sabe humilhar o
dia pelo vermelho de seu ocaso, seus crepúsculos, sua calma
pacífica ou nostálgica. O respeito que testemunhamos ao velho,
sobretudo se esse ancião é um velho pensador e um velho sábio,
nos torna facilmente cegos a respeito do envelhecimento de seu
espírito e é sempre necessário colocar à luz os sintomas de
semelhante envelhecimento e cansaço, isto é, mostrar o fenômeno
fisiológico que esconde atrás do juízo e do preconceito moral, a fim
de não nos tornarmos os tolos da piedade e de não prejudicar o
conhecimento. De fato, não é raro que a ilusão de uma grande
renovação moral e de uma regeneração se apodere do ancião e
que, a partir desse sentimento, este emita, sobre a obra e o
desenvolvimento de sua vida, juízos que poderiam levar a crer que
acaba de chegar precisamente à clarividência: entretanto, a
inspiradora desse bem-estar e desse juízo cheio de segurança não
é a sabedoria, mas o cansaço. O sinal mais perigoso dessa fadiga é
certamente a crença no gênio que geralmente não se apodera,
senão a partir dessa idade da vida, dos grandes e semi-grandes
homens do pensamento: a crença numa posição excepcional e em
direitos excepcionais. O pensador que possui esse gênio se
considera então livre para levar as coisas com superficialidade e
decretar mais do que demonstrar; mas é provável que seja
precisamente a necessidade dessa superficialidade que comprove
o cansaço do espírito, que é a principal fonte dessa crença, que a
precede no tempo, embora não pareça. Além disso, queremos
usufruir nesse momento resultados de nossos pensamentos, em
conformidade com a necessidade de fruição comum a todos os
cansados e a todos os anciãos; em lugar de examinar novamente
esses resultados e recomeçar a semeá-los, temos necessidade para
isso de prepará-los para um gosto novo, para torná-los
comestíveis e tirar-lhes a secura, a frieza e a falta de sabor: é o
que faz com que o velho pensador se eleve aparentemente acima
da obra de sua vida, enquanto na realidade ele a estraga pela
exaltação, pelas doçuras, pelos azedumes, pelo nevoeiro poético e
pelas luzes místicas que lhe mistura. O que aconteceu a Platão foi
o que acabou por acontecer a esse grande francês íntegro, ao lado
do qual os alemães e ingleses deste século não podem colocar
ninguém — ninguém como ele soube tomar e dominar as ciências
exatas — Augusto Comte18. Terceiro sintoma de cansaço: essa
ambição que agitava o peito do grande pensador quando era jovem
e que então não encontrava em parte alguma como satisfazer, essa
ambição também envelheceu; como alguém que não tem mais
nada a perder, ela se apodera dos meios de satisfação mais
grosseiros e mais imediatos, isto é, aqueles das naturezas ativas,
dominadoras, violentas, conquistadoras: a partir de então quer
fundar instituições que levem seu nome, em vez de fundar
edifícios de idéias. Que lhe importam agora as vitórias e as honras
etéreas no reino das demonstrações e das refutações! O que é para
ele uma imortalidade pelos livros, uma euforia tumultuosa na
alma de um leitor! Em compensação, a instituição é um templo —
ele bem o sabe, e um templo de pedra, construído para durar,
mantendo seu deus em vida muito mais seguramente que o
sacrifício de almas ternas e raras. Talvez encontre também, nessa
época, pela primeira vez esse amor que se dirige mais a um deus
que a um homem, então todo o seu ser se acalma e se amolece aos
raios desse sol, como um fruto no outono. Sim, ele se torna
também mais divino e mais belo, o grande ancião — e é, apesar de
tudo, a idade e a fadiga que lhe permitem amadurecer assim,
tornar-se silencioso e repousar na idolatria radiosa de uma
mulher. Agora conseguiu fazer de seu antigo desejo altaneiro
discípulos verdadeiros, desejo superior até mesmo a seu próprio
eu, discípulos que seriam o verdadeiro prolongamento de seu
pensamento, isto é, adversários: esse desejo tinha sua fonte numa
força intacta, na altivez consciente e na certeza de poder tornarse,
ele também, a todo momento, o adversário e o inimigo
irreconciliável de sua própria doutrina — agora necessita de
partidários resolutos, camaradas sem escrúpulos, arautos, um
cortejo pomposo. Agora não é mais capaz de suportar o isolamento
terrível em que vive todo o espírito que toma seu vôo sempre à
frente dos outros, cerca-se a partir de então de objetos de
veneração, de comunhão, de enternecimento e de amor, quer
finalmente gozar dos mesmos privilégios que todos os homens
religiosos e celebrar o que venera na comunidade; irá até o ponto
de inventar uma religião para ter essa comunidade. É assim que
vive o velho sábio e acaba por cair imperceptivelmente numa
vizinhança tão aflitiva dos excessos clericais e poéticos que mal se
ousa pensar em sua juventude sábia e severa, em sua rígida
moralidade cerebral de então, em seu horror viril pelas
iluminações súbitas e divagações. Outrora, quando se comparava
com outros pensadores mais velhos, era para medir seriamente
sua fraqueza em relação à força deles e para se tornar mais frio e
mais livre com relação a si próprio: agora não se entrega mais a
essa comparação a não ser para se embriagar com sua própria
ilusão. Outrora pensava com confiança nos pensadores do futuro
e via-se a si mesmo com deleite desaparecer um dia em sua luz
mais brilhante: agora está atormentado pela idéia de não poder
ser o último, pensa nos meios de impor aos homens, com a
herança que lhes lega, uma limitação de seu pensamento
soberano, receia e calunia a altivez e a sede de liberdade dos
espíritos individuais; — depois dele, mais ninguém deve dar livre
curso a seu intelecto; ele próprio quer ser para sempre o dique
onde batem sem cessar as ondas do pensamento — esses são seus
desejos muitas vezes secretos e nem sempre confessados! Mas a
dura realidade que se esconde por trás desses desejos é que ele
mesmo se deteve diante de sua doutrina, com ela traçou para si
um limite, um “até aqui e não mais longe”. Canonizando-se,
redigiu também sua sentença de morte: daí em diante seu espírito
não tem mais o direito de se desenvolver, seu tempo terminou, o
ponteiro parou. Quando um grande pensador quer fazer de si
mesmo uma instituição, cooptando a humanidade do futuro,
pode-se admitir com certeza que ele além do apogeu de sua força,
que está muito cansado e muito próximo de seu declínio.
543. NÃO FAZER DA PAIXÃO UM ARGUMENTO EM FAVOR DA VERDADE!
O fanáticos de bom caráter, fanáticos mesmo nobres, eu os
conheço! Querem ter razão diante de nós e, antes de tudo, diante
de vocês mesmos! — e uma má consciência sutil e irritadiça os
impele muitas vezes justamente contra seu fanatismo! Como ficam
então cheios de espírito para ludibriar e para adormecer essa
consciência! Como detestam as pessoas honestas, simples e
puras! Como evitam seus olhos inocentes! Essa certeza contrária
de que elas são representantes e da qual ouvem, em vocês
mesmos, a voz que duvida da crença de vocês — como procuram
torná-la suspeita sob o nome de mau hábito, de doença da época,
de negligência e de contaminação de sua própria saúde! Vocês
chegam até o ódio da critica, da ciência, da razão! Sentem-se
obrigados a falsificar a história para que ela testemunhe em seu
favor, sentem-se obrigados a negar virtudes para que elas não
rejeitem na sombra as virtudes de seus ídolos e de seu ideal!
Imagens coloridas justamente onde haveria necessidade das
razões da razão! O ardor e o poder da expressão! Nevoeiro
prateado! Noites de ambrosia! Vocês se empenham em iluminar e
em escurecer, escurecer com a luz! E, na verdade, quando sua
paixão se desencadeia, chega um momento em que vocês dizem:
agora conquistei uma boa consciência, agora sou magnânimo,
corajoso, desinteressado, grandioso, agora sou honesto! Como
vocês são ávidos desses momentos em que sua paixão lhes confere
um direito pleno e absoluto diante de vocês mesmos, lhes confere
de algum modo a inocência, desses momentos em que, na luta, a
embriaguez, a coragem, a esperança, estão fora de vocês mesmos
e acima de todas as dúvidas, onde vocês decretam: “Aquele que,
como nós, não está fora de si não pode de modo algum saber o
que é a verdade, onde está a verdade!” Como são ávidos por
encontrar homens de sua crença que estão nesse estado — o da
depravação do intelecto — e de atiçar seu fogo ao incêndio deles!
Maldição ao martírio de vocês! Maldição a sua vitória da mentira
santificada! Seria preciso causar tanto mal a vocês mesmos? —
Seria preciso?
544. COMO SE FAZ FILOSOFIA HOJE
Noto que nossos jovens, nossos artistas e nossas mulheres
que querem filosofar pedem hoje à filosofia de lhes dar
precisamente o contrário do que dela recebiam os gregos! Quem
não percebe júbilo constante que atravessa todas as proposições e
réplicas de um diálogo de Platão, o júbilo que causa a nova
descoberta do pensamento racional, que compreende afinal de
Platão, da filosofia antiga? Nesses tempos as almas se enchiam de
alegria quando se entregava ao jogo rigoroso e árido das idéias,
das generalizações, das refutações — com essa alegria que talvez
conheceram também os grandes mestres antigos do rigoroso e
árido contraponto. Nessa época, na Grécia se tinha ainda em
relação à língua esse outro gosto mais antigo e outrora todopoderoso:
e ao lado desse gosto, o gosto novo aparecia com tanto
encanto que se passava a cantar e a balbuciar a dialética, a “arte
divina”, como se se estivesse inebriado de amor. O gosto antigo era
o pensamento escravo da moralidade para a qual não existiam
senão juízos fixos, fatos determinados e nenhuma outra razão que
aquela da autoridade: de modo que pensar não era repetir e todo
prazer do discurso e do diálogo só podia residir na forma. (Em toda
a parte onde o conteúdo é considerado como eterno e verdadeiro
em sua generalidade, existe apenas uma grande magia: aquela da
forma mutável, isto é, da moda. Também nos poetas, desde a
época de Homero e mais tarde nos escultores, os gregos não
apreciavam a originalidade, mas seu contrário). Foi Sócrates quem
descobriu o encanto oposto, o da causa e do efeito, da razão e da
conseqüência: e nós, homens modernos, estamos de tal modo
habituados à necessidade da lógica e educados na idéia dessa
necessidade, que se apresenta a nós como o gosto normal e que,
como tal, desagrada forçosamente aos foliões e aos pretensiosos. O
que se diferencia do gosto normal os arrebata! Sua ambição mais
sutil se persuade que sua alma é excepcional, que eles não são
seres dialéticos e racionais, mas... por exemplo, “seres intuitivos”
dotados de um “sentido interior” ou de uma “intuição intelectual”.
Mas antes de tudo querem ser “naturezas artísticas”, tendo um
gênio na cabeça e um diabo no corpo e possuindo, por
conseguinte, também direitos excepcionais para esse mundo e
para o noutro, e sobretudo o divino privilégio de serem
incompreensíveis. — E tudo isso constitui hoje filosofia! Receio que
não percebam um dia que se enganaram — o que eles querem é
uma religião!
545. MAS NÓS NÃO ACREDITAMOS EM VOCÊS!
Vocês gostariam de se passar por conhecedores de homens,
mas não escapariam disso facilmente! Como não haveríamos de
notar que vocês se representam como os mais experientes, mais
profundos, mais perspicazes do que realmente são!? Exatamente
como sentimos que, nesse pintor, há presunção já na maneira
como maneja o pincel: tal como ouvimos, nesse músico, pela
maneira como introduz seu tema, que gostaria de fazer-nos crer
que esse tema é superior ao que é. Vocês viveram a história no
fundo de vocês mesmos, as comoções e os tremores, longas e
vastas tristezas, trovões de alegria? Foram loucos com grandes e
pequenos loucos? Suportastes realmente a ilusão e a dor dos
homens bons? E também a dor e o tipo de felicidade dos maus?
Falem-me então de moral, de outro modo, não!
546. ESCRAVO E IDEALISTA
O homem de Epicteto não agradaria certamente àqueles que
hoje aspiram ao ideal. A constante tensão de seu ser, o infatigável
olhar voltado para o interior, o que seus olhos têm de fechado,
prudente, reservado quando lhe acontece de se voltar para o
mundo exterior; e também seu silêncio e suas palavras lacônicas:
tudo isso são sinais da coragem mais rigorosa — que seriam para
nossos idealistas que são antes de tudo ávidos de expansão! Com
tudo isso, ele não é fanático, detesta a comicidade e a jactância de
nossos idealistas: seu orgulho, por maior que seja, não quer,
contudo, incomodar os outros; admite uma certa aproximação
benevolente e não quer estragar o bom humor de ninguém — ele
sabe até mesmo sorrir! Há muito de humanidade antiga nesse
ideal! Mas o mais belo é que lhe falta totalmente o temor de Deus,
acredita estritamente na razão e não exorta à penitência. Epicteto
era um escravo: seu homem ideal não pertence a qualquer classe e
é possível em todas as condições sociais, mas deveremos procurálo
sobretudo nas massas profundas e inferiores, onde será o
homem silencioso que se basta a si mesmo no meio de uma
servidão geral, incessantemente em situação de defesa contra o
exterior e mantendo-se na mais elevada atitude de coragem.
Distingue-se sobretudo do cristão na medida em que este vive na
esperança de “indizíveis felicidades”, aceita presentes, espera e
recebe o que há de melhor da graça e do amor divinos: enquanto
Epicteto não espera nada e não deixa que lhe ofereçam o que há
de melhor — já o possui, já o tem firme nas mãos e o defenderia
contra todos se quisessem tirá-lo dele. O cristianismo era feito
para outra espécie de escravos antigos, fracos de vontade e de
razão, portanto, a grande massa dos escravos.
547. OS TIRANOS DO ESPÍRITO
A marcha da ciência já não é contrariada, como o foi durante
muito tempo, pelo fato acidental de que o homem viva
aproximadamente setenta anos. Outrora se pretendia chegar ao
topo do conhecimento durante esse espaço de tempo e os métodos
de conhecimento eram apreciados em função desse desejo
universal. As pequenas questões e experiências especiais eram
consideradas desprezáveis, buscava-se o caminho mais curto,
acreditava-se, uma vez que todo esse mundo terreno parecia
organizado em função do homem, que a perceptibilidade das coisas
estava também adaptada a uma medida humana do tempo. Tudo
resolver de imediato e com uma só palavra — esse era o desejo
secreto: o problema era representado sob o aspecto do nó górdio
ou do ovo de Colombo; estava-se persuadido que era possível, no
domínio do conhecimento, atingir o objetivo, à maneira de
Alexandre ou de Colombo e elucidar todas as questões com uma
só resposta. “Há um enigma a resolver”: assim é que a vida se
apresentava aos olhos do filósofo; era preciso primeiro encontrar o
enigma e condensar o problema do mundo na fórmula mais
simples. A ambição sem limites e a alegria de ser o “decifrador do
mundo” preenchiam os sonhos do pensador; nada lhe parecia
valer a pena neste mundo se não fosse encontrar o meio de tudo
conduzir a bom termo para ele! A filosofia era assim uma espécie
de luta suprema pela tirania do espírito — ninguém duvidava que
esta não fosse reservada a alguém muito feliz, sutil, inventivo,
audacioso e poderoso — a um só! — e muitos, o último entre eles
Schopenhauer, imaginaram que eram esse só e único. — Disso
resulta que, em resumo, a ciência ficou até agora para trás em
conseqüência da estreiteza moral de seus discípulos e que
doravante é preciso entregar-se a ela com uma idéia diretriz mais
elevada e mais generosa. “Que importa eu!” — Isso é que se
encontra gravado sobre a porta dos pensadores futuros.
548. A VITÓRIA SOBRE A FORÇA
Se considerarmos tudo o que até agora foi venerado sob o
nome de “espírito sobre-humano”, de “gênio”, chegamos à triste
conclusão que, em seu conjunto, a intelectualidade humana deve
ter sido qualquer coisa de muito baixo e pobre: tão pouco espírito
era preciso até agora para se sentir consideravelmente superior a
ela! O que é a glória fácil do “gênio”! Com que rapidez seu trono foi
erguido! Sua adoração se tornou costume! Sempre adoramos de
joelhos a força — segundo o velho hábito dos escravos — e, no
entanto, quando se trata de determinar o grau de venerabilidade,
só o grau de razão na força é determinante: é necessário avaliar
em que medida a força foi ultrapassada por qualquer coisa de
superior, à qual obedece desde então como instrumento e como
meio! Mas para tais avaliações não há ainda olhos suficientes,
chega-se até mesmo a considerar como sacrilégio a avaliação do
gênio. Assim, o que há de mais belo se passa talvez sempre na
obscuridade e, apenas nascido, desmorona na noite eterna —
refiro-me ao espetáculo da força que um gênio aplica, não em
obras, mas para o desenvolvimento de si mesmo como obra, isto é,
para o domínio de si, para a purificação de sua imaginação, para a
ordenação e a escolha nas inspirações e nas tarefas que sobrevêm.
O grande homem se mantém sempre invisível como uma estrela
distante, no que há de maior, que exige admiração: sua vitória
sobre a força fica sem testemunhas e, por conseguinte, também
sem ser glorificado e cantado. A hierarquia na grandeza não foi
ainda estabelecida para toda a humanidade passada.
549. A FUGA DIANTE DE SI MESMO
Esses homens sujeitos às convulsões intelectuais,
impacientes com relação a si mesmos e sombrios, como Byron19
ou Alfred de Musset20 que, em tudo o que fazem, se assemelham a
cavalos espantados, esses homens que em sua própria obra não
encontram senão uma breve alegria e um ardor que quase faz
arrebentar as veias e, a seguir, a fria esterilidade e o desencanto:
— como esses homens suportariam eles próprios se aprofundar?
Eles têm sede de se aniquilar num “fora de si”; se, com tal sede,
somos cristãos, visaríamos a nos aniquilar em Deus, a nos
identificarmos com ele; se fôssemos Shakespeare, não nos
contentaríamos em aniquilar-nos nas imagens da vida
apaixonada; se fôssemos Byron, teríamos sede de ações porque
estas nos desviam de nós mesmos mais ainda que os
pensamentos, os sentimentos e as obras. A necessidade de ação
não seria então, no fundo, senão uma fuga diante de si mesmo? —
perguntaria Pascal21. E, com efeito, os representantes mais nobres
da necessidade de ação provariam essa asserção: bastaria
considerar com a ciência e a experiência de um psiquiatra, bem
entendido — que os quatro homens que, em todos os tempos,
foram os mais sedentos de ação eram epiléticos (citei Alexandre,
César, Maomé e Napoleão): exatamente como Byron que, também
ele, sofria desse mal.
550. CONHECIMENTO E BELEZA
Se os homens reservam sempre sua veneração e seu
sentimento de felicidade para as obras da imaginação e da idéia,
não é de espantar se, diante do oposto da imaginação e da idéia,
sintam frieza e desprazer. O arrebatamento que se manifesta ao
menor passo à frente, seguro e definitivo, que é feito no
conhecimento, no ponto em que ora estamos na ciência, é
freqüente e quase universal — mas suscita provisoriamente a
incredulidade de todos aqueles que se habituaram a não se
arrebatarem senão abandonando a realidade, mergulhando nas
profundezas da aparência. Acreditam que a realidade é feia: não
pensam que o conhecimento da realidade, mesmo a mais feia, é
bela e que aquele que conhece muito e freqüentemente acaba por
estar longe de achar feio o conjunto da realidade que lhe
proporcionou tanta felicidade. Haverá então algo de “belo em si”?
A felicidade daqueles que conhecem aumenta a beleza do mundo e
torna mais ensolarado tudo o que existe; o conhecimento não se
limita a envolver as coisas com sua beleza, mas a introduz, de
uma maneira duradoura, nas coisas; — possa a humanidade do
futuro testemunhar em favor desta afirmação! À espera disso,
lembremo-nos de uma velha experiência: dois homens tão
essencialmente diferentes como Platão e Aristóteles se puseram de
acordo sobre o que constitui a. felicidade suprema, não somente
para eles e para os homens, mas a felicidade em si mesma para os
deuses das últimas beatitudes: eles a encontraram no
conhecimento, na atividade de uma razão exercida que descobre e
que inventa (e de modo algum na “intuição”, como fizeram os
teólogos e os semi-teólogos alemães, de modo algum na visão,
como fizeram os místicos, e mesmo de modo algum no trabalho,
como fizeram todos os práticos). Descartes22 e Spinoza23 pensaram
o mesmo: como todos eles devem ter desfrutado o conhecimento! E
que risco havia para sua honestidade de se tornarem assim
louvadores das coisas!
551. DAS VIRTUDES DO FUTURO
Por que razão, quanto mais compreensível se tornou o
mundo, mais foi diminuída toda espécie de solenidade? Teria sido
porque o medo foi tão freqüentemente o elemento fundamental
dessa veneração que se apoderava de nós diante de tudo o que
nos parecia desconhecido, misterioso, e nos levava a nos
prosternar e pedir graça diante do incompreensível? E pelo fato de
nos termos tornado menos receosos, não teria o mundo perdido
para nós seu encanto? Ao mesmo tempo nossa disposição ao
temor, nossa própria dignidade, nossa solenidade, nossa própria
aptidão a aterrorizar não teriam diminuído? Não estimaremos
talvez menos o mundo e a nós mesmos, desde que temos, a
respeito dele e ao nosso, pensamentos mais corajosos? Viria talvez
um momento, no futuro, em que essa coragem do pensador
tivesse crescido tanto que tivesse o supremo orgulho de se sentir
superior aos homens e às coisas — em que o sábio, sendo o mais
corajoso, seria aquele que se visse a si mesmo e a existência
completa abaixo dele? — Esse gênero de coragem que não se
afasta de uma excessiva generosidade tem até agora feito falta à
humanidade. Ah! os poetas não queiram tornar-se novamente o
que foram talvez outrora: visionários que nos dizem alguma coisa
daquilo que é possível! Hoje, que lhes retiramos das mãos e que é
necessário sempre mais lhes retirar de suas mãos o real e o
passado — pois já passou o tempo em que inocentemente se
cunhava moeda falsa! — deveriam nos dizer alguma coisa daquilo
que toca as virtudes do futuro! Ou das virtudes que não existirão
nunca na terra, embora possam existir em alguma parte do
mundo — as constelações purpúreas e as imensas vias lácteas do
belo! Onde estão vocês, astrônomos do ideal?
552. O EGOÍSMO IDEALISTA
Haveria um estado mais sagrado do que aquele da gravidez?
Fazer tudo o que fazemos com a convicção íntima de que, de uma
maneira ou de outra, isso deve servir ao que está em nós em
estado de devir! Que isso deve aumentar seu valor secreto, no qual
pensamos com arrebatamento do mistério que carregamos em
nós. É então que evitamos muitas coisas sem sermos forçados a
nos coagir duramente! Reprimimos uma palavra violenta,
estendemos a mão em tom conciliador: a criança deve nascer do
que há de melhor e mais doce. Nós nos assustamos com nossa
violência e com nossa rispidez, como se derramassem, para o caro
desconhecido, uma gota de infelicidade no copo de sua vida! Tudo
é velado, cheio de pressentimentos, não sabemos como isso
acontece, esperamos e procuramos estar preparados. Ao mesmo
tempo, um sentimento puro e purificador de profunda
irresponsabilidade reina em nós, um sentimento semelhante
àquele que experimenta o espectador diante de uma cortina
abaixada — isso cresce, isso vem à luz, não temos nada nas mãos
para determinar seu valor ou a hora de sua vinda. Estamos
inteiramente reduzidos às influências indiretas benfeitoras e
defensivas. “Há ali qualquer coisa que cresce, qualquer coisa
maior que nós” — essa é nossa mais secreta esperança:
preparamos tudo em vista de seu surgimento e de sua
prosperidade: não somente tudo o que é útil, mas também o
supérfluo, os reconfortos e as coroas de nossa alma. — É nessa
atmosfera sagrada que é preciso viver! Que possamos nela viver!
Quer estejamos à espera de um pensamento ou de uma ação —
diante de toda realização essencial não podemos nos comportar de
outra forma que diante de uma gravidez e deveríamos espalhar
aos quatro ventos as pretensiosas expressões que falam de
“querer” e de “criar”! É o verdadeiro egoísmo idealista sempre ter
cuidado de vigiar e de manter a alma em repouso para que nossa
fecundidade tenha pleno sucesso. Assim vigiamos e tomamos
cuidado, de uma forma indireta, para o bem de todos; e o estado
de espírito em que vivemos, esse estado de espírito altaneiro e
doce é um bálsamo que se difunde para longe em torno de nós,
mesmo nas almas inquietas. — Mas as mulheres grávidas são
estranhas! Sejamos, pois, estranhos nós também e não
recriminemos os outros por terem de sê-lo também! E mesmo se
isso não der certo e se tornar perigoso, em nossa veneração diante
de tudo o que nasce, não fiquemos atrás da justiça terrestre que
não permite a um juiz ou a um carrasco pôr as mãos numa
mulher grávida!
553. COM DESVIOS
Aonde quer chegar essa filosofia com todos os seus desvios?
Faria algo mais do que transpor na razão, de alguma forma, um
instinto constante e forte que requer um sol benéfico, uma
atmosfera luminosa e agitada, plantas meridionais, brisa do mar,
uma alimentação leve composta de carne, ovos e frutas, água
quente para beber, passeios silenciosos durante dias inteiros,
conversa pouco freqüente, poucas leituras e feitas com precaução,
uma habitação solitária, hábitos de limpeza simples e quase
militares, numa palavra, todas coisas que são precisamente mais
de meu gosto, que são para mim justamente mais salutares? Uma
filosofia que é, no fundo, o instinto de um regime pessoal? Um
instinto que procura minha atmosfera, minha atitude, minha
temperatura, a saúde de que necessito, por meio de um desvio de
meu espírito? Há muitas outras sublimidades da filosofia e
também muitas sublimidades mais altas ainda — e não todas
mais sombrias e mais exigentes que a minha — não serão talvez,
também todas elas, desvios intelectuais de semelhantes instintos
pessoais? — Enquanto reflito nisso, observo com um novo olhar o
vôo misterioso e solitário de uma borboleta, lá no alto, perto das
falésias do lago, onde crescem tantas belas plantas: voa de cá para
lá, sem se importar que sua vida não vai durar mais que um dia e
que a noite será muito fria para sua fragilidade alada. Poderíamos
facilmente encontrar também para ela uma filosofia, embora me
pareça difícil que seja a minha.
554. UM PASSO ADIANTE
Quando se elogia o progresso não se faz outra coisa do que
elogiar o movimento e aqueles que nos impedem de ficar no
mesmo lugar — e, em certos casos, já é muito, particularmente
quando se vive entre os egípcios. Na Europa agitada, contudo,
onde o movimento (como se diz) “vai por si” — ai! se pelo menos
nós entendêssemos alguma coisas disso! — aprovo o passo
adiante e aqueles que vão em frente, isto é, aqueles que se deixam
a si mesmos constantemente para trás e que de modo algum se
preocupam em saber se alguém pode segui-los. “Em toda parte
onde paro me encontro sozinho: parar para quê? O deserto é
grande!” — esse é o sentimento desses homens que realmente vão
em frente.
555. OS MAIS MEDÍOCRES SÃO SUFICIENTES
É preciso evitar os acontecimentos quando sabemos que os
mais medíocres deixam em nós uma marca bastante forte — e a
estes não podemos escapar. — O pensador deve ter nele um cânon
aproximativo de todas as coisas que quer ainda viver.
556. AS QUATRO VIRTUDES
Leais para conosco mesmos e para aquele que ainda é nosso
amigo; corajosos diante do inimigo; generosos para com o vencido;
civilizados — sempre: é assim que nos querem as quatro virtudes
cardeais.
557. NA FRENTE DO INIMIGO
Como a má música e as más razões soam bem quando
marchamos na frente do inimigo!
558. NÃO SE DEVE TAMPOUCO ESCONDER SUAS VIRTUDES!
Gosto dos homens que são como a água transparente e que,
para falar com Pope24, “deixam ver as impurezas no fundo de sua
corrente”. Mesmo para eles há ainda uma vaidade, sem dúvida de
natureza rara e sublime: alguns dentre eles querem que só
vejamos essas impurezas e que não levemos em conta a
transparência da água que permite essa visão. O próprio Buda
imaginou a vaidade desse reduzido número na fórmula: “Deixem
que todos vejam seus pecados e escondam suas virtudes!” — Mas
isso é oferecer ao mundo um espetáculo muito desagradável — é
uma falta de gosto.
559. “NADA DEMAIS!”
Quantas vezes aconselhamos o indivíduo a fixar para si um
objetivo que não pode atingir e que está acima de suas forças, a
fim de que atinja pelo menos aquilo que suas forças podem render
sob a mais alta tensão! Mas é isso realmente tão desejável? Os
melhores homens que vivem segundo esse princípio e os melhores
atos não tomam alguma coisa de exagerado e de excessivo,
justamente porque há neles tensão demais? Um sombrio véu de
insucesso não se estende sobre o mundo pelo fato de que vemos
sempre atletas em luta, gestos monstruosos e em parte alguma
um vencedor coroado e alegre com sua vitória?
560. O QUE NOS É PERMITIDO
Podemos usar os instintos como um jardineiro e, o que
poucas pessoas sabem, cultivar as sementes da cólera, da
piedade, da sutileza, da vaidade, de maneira a torná-las tão
fecundas e produtivas como os belos frutos de uma latada;
podemos fazê-lo com o bom ou mau gosto de um jardineiro e, por
assim dizer, no estilo francês, inglês, holandês, ou chinês;
podemos também deixar a natureza trabalhar e cuidar somente de
pôr aqui e acolá um pouco de limpeza e de asseio; podemos,
enfim, sem qualquer saber nem razão diretriz, deixar crescer as
plantas com suas vantagens e seus obstáculos naturais e
abandoná-las à luta que travam entre elas — podemos mesmo
encontrar prazer num tal caos e procurar precisamente esse
prazer, apesar do aborrecimento que se possa ter. Tudo isso nos é
permitido: mas quantos somos aqueles que o sabem? Quase todos
os homens não acreditam neles mesmos, como em fatos
realizados, chegados à sua maturidade! Grandes filósofos não
puseram sua marca nesse preconceito com sua doutrina da
imutabilidade do caráter?
561. FAZER BRILHAR SUA PRÓPRIA FELICIDADE
Do mesmo modo que os pintores que de maneira alguma
podem atingir o tom profundo e luminoso do céu, tal como existe
na natureza, são obrigados a tomar todas as cores de que têm
necessidade para sua paisagem, alguns tons mais baixos que
aqueles que a natureza lhes mostra: do mesmo modo que
conseguem atingir por esse artifício uma semelhança na
luminosidade e uma harmonia de tons que corresponde à
natureza: assim também é necessário que os poetas e os filósofos,
aos quais o brilho luminoso da felicidade é inacessível, saibam
usar de expedientes. Conferindo a todas as coisas um colorido de
alguns tons mais sombrios que os reais, a luz que conhecem dá
um efeito quase ensolarada e se assemelha à luz da plena
felicidade. — O pessimista, que confere a todas as coisas as cores
mais negras e mais sombrias, usa apenas chamas e clarões,
glórias celestes e tudo o que possui uma força luminosa muito
viva e que torna os olhos hesitantes; nele a claridade existe
simplesmente para aumentar o temor e deixar pressentir nas
coisas mais terror do que elas contêm na realidade.
562. OS SEDENTÁRIOS E OS HOMENS LIVRES
É somente nos infernos que nos é mostrada alguma coisa do
sombrio pano de fundo de toda essa felicidade de aventureiro que
envolve Ulisses e seus companheiros como de uma eterna
luminosidade — desse pano de fundo que nunca mais podemos
esquecer: a mãe de Ulisses morreu de desgosto e do desejo de
rever seu filho! Um é impelido de lugar para lugar e é isso que
parte o coração do outro, do ser terno e sedentário! A aflição parte
o coração daqueles que vêem seu ente mais querido abandonar as
idéias e a fé do passado — tudo isso faz parte da tragédia que os
espíritos livres criam — essa tragédia de que estes algumas vezes
têm conhecimento! Então deverá ocorrer de serem forçados, como
Ulisses, a descer entre os mortos para lhes aliviar seu desgosto e
tranqüilizar sua ternura.
563. A ILUSÃO DA ORDENAÇÃO MORAL DO MUNDO
Não há qualquer necessidade eterna que exija que toda a
falta seja expiada e paga — crer nessa necessidade era
precisamente uma terrível ilusão, apenas útil: — do mesmo modo
que é uma ilusão crer que tudo o que é considerado como falta é
na realidade uma. Não são as coisas que perturbaram de tal forma
os homens, mas as opiniões sobre coisas que não existem.
564. LOGO APÓS A EXPERIÊNCIA!
Mesmo os grandes espíritos não têm uma experiência mais
larga do que cinco dedos — logo depois cessa a reflexão e seu
vazio indefinido, suas asneiras, começam.
565. A PONDERAÇÃO ALIADA A IGNORANCIA
Por toda parte onde compreendemos, tornamo-nos gentis,
felizes, inventivos e por toda a parte onde aprendemos
suficientemente e onde educamos a vista e o ouvido, nosso
espírito se mostra cheio de desembaraço e de graça. Mas
compreendemos tão poucas coisas e somos tão miseravelmente
instruídos que raramente acontece que abracemos uma coisa e ao
mesmo tempo nos tornemos dignos de amor: antes, rígidos e
insensíveis, atravessamos a cidade, a natureza e a história e nos
orgulhamos dessa atitude e dessa frieza, como se elas fossem o
efeito da superioridade. Nossa ignorância e nossa medíocre sede
de saber se dispõem muito bem para assumir a máscara da
dignidade e do caráter.
566 — VIVER FACILMENTE
O melhor modo de viver de modo fácil e despreocupado é
aquele do pensador: pois, para dizer de improviso as coisas mais
importantes, tem sobretudo necessidade das coisas que os outros
desdenham e abandonam. — De resto, ele se alegra facilmente e
desconhece os custosos meios de acesso ao prazer; seu trabalho
não é duro, mas, de alguma forma, meridional; seus dias e suas
noites não são estragados pelo remorso; ele se move, come, bebe e
dorme, observando um comedimento que convém a seu espírito,
para que este se torne sempre mais tranqüilo, forte e lúcido; seu
corpo é para ele fonte de alegria e não tem nenhuma razão para
temê-lo; não tem necessidade de companhia, a não ser de tempos
em tempos, para em seguida abraçar com mais ternura ainda sua
solidão; os mortos têm para ele o lugar de vivos e até mesmo para
substituir seus amigos, evocando entre os mortos os melhores que
algum dia viveram. — Questionemos de uma vez, se não são os
desejos e os hábitos opostos que tornam custosa a vida dos
homens e, por conseguinte, penosa e muitas vezes insuportável. —
Em outro sentido, no entanto, a vida do pensador é a mais
custosa — nada é bom demais para ele; e ser privado
precisamente do melhor seria para ele uma privação insuportável.
567. EM CAMPANHA
“Devemos tomar as coisas mais alegremente do que
merecem; especialmente porque as levamos a sério mais tempo do
que o merecem”. — Assim falam os bravos soldados do
conhecimento.
568. POETA E PÁSSARO
A Fênix mostrou ao poeta um rolo inflamado que se reduzia
a cinzas. “Não te assustes, disse, é tua obra! Ela não tem o
espírito do tempo e ainda menos o espírito daqueles que vão
contra o tempo: por conseguinte, é necessário que seja queimada.
Mas é bom sinal: há muitas espécies de auroras.”
569. AOS SOLITÁRIOS
Se não poupamos a honra dos outros tanto em nossos
Solilóquios como em publico, somos desonestos.
570. PERDAS
Certas perdas comunicam à alma uma sublimidade que a
leva a se abster de toda queixa e caminhar em silêncio, como altos
ciprestes negros.
571. FARMÁCIA MILITAR DA ALMA
Qual é o remédio mais eficaz? — A vitória.
572. A VIDA DEVE NOS TRANQÜILIZAR
Se, como o pensador, vivemos habitualmente na grande
corrente das idéias e dos sentimentos e mesmo que nossos sonhos
durante a noite sigam essa corrente, pedimos à vida, calma e
silêncio — enquanto outros querem justamente descansar da vida
quando se entregam à meditação.
573. MUDAR DE PELE
A serpente que não pode mudar de pele, morre. De igual
modo os espíritos que impedimos de mudar de opinião deixam de
ser espíritos.
574. NÃO ESQUECER!
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos
daqueles que não sabem voar.
575. NÓS, AERONAUTAS DO ESPÍRITO
Todas essas ousadas aves que voam para espaços distantes,
sempre mais distantes — virá certamente um momento em que
não poderão ir mais longe e vão pousar sobre um mastro ou sobre
um árido recife — bem felizes ainda por encontrarem esse
miserável refúgio! Mas quem teria o direito de concluir disso que
diante delas não se abre uma imensa via livre e sem fim e que
voaram para tão longe quanto é possível voar? Entretanto, todos
os nossos grandes iniciadores e todos os nos precursores
acabaram por parar e o gesto da fadiga que pára não é das
atitudes mais nobres e mais graciosas: isso vai acontecer tanto
para mim como para ti! Mas que me importa e que te importa!
Outras aves voarão mais longe! Este pensamento, essa fé que nos
anima, toma seu impulso, rivaliza com elas, voa sempre mais
longe, mais alto, se lança diretamente para o ar, acima de nossa
cabeça e da impotência de nossa cabeça e do alto do céu vê na
imensidão do espaço, vê agrupamentos de aves bem mais
poderosas que nós e que se lançaram na direção para a qual nos
lançamos, onde tudo ainda é só mar, mar, e sempre mar! — Para
onde então queremos ir? Queremos ultrapassar o mar? Para onde
nos arrasta essa poderosa paixão que para nós conta mais que
qualquer outra paixão? Por que esse vôo perdido nessa direção,
para o ponto onde até agora todos os sóis declinaram e se
extinguiram? Dir-se-á talvez um dia que nós também, dirigindonos
sempre para o oeste, esperávamos atingir uma Índia
desconhecida — mas que era nosso destino encalhar diante do
infinito? Ou então, meus irmãos, Ou então?
1 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo e escritor suíço; entre suas
obras, O contrato social e A origem da desigualdade entre os homens já foram
publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
2 Evangelho de Mateus, VI, 33 (NT).
3 Expressão latina que significa “para a maior honra” (NT).
4 Expressão latina que significa “consagrar a vida à verdade” (NT).
5 Expressão latina que significa “consagrar a verdade à vida” (NT).
6 Tiberius Julius Caesar (42 a.C.-37 d.C), filho adotivo de Augusto, foi
imperador romano de 14 a 37 d.C. (NT).
7 Caius Julius Caesar Octavianus Augustus (63 a.C.-14 d.C), imperador
romano de 31 a.C. a 14 d.C, antecessor de Tibério (NT).
8 Expressão latina que significa “Aqui está Rodes, dança aqui!” (NT).
9 Expressão latina que significa “Onde sou pai, lá está minha pátria” (NT).
10 Platão (427-347 a.C), filósofo grego; dentre suas obras, A república já foi
publicada nesta coleção da Editora Escala (NT).
11 Maomé (570-632), religioso árabe, fundador do islamismo ou da religião
muçulmana (NT).
12 Baruch de Spinoza (1632-1677), filósofo holandês de origem portuguesa;
entre suas obras, Tratado para a reforma do entendimento já foi publicada
nesta coleção da Editora Escala; Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832),
escritor e erudito alemão (NT).
13 Denis Diderot (1713-1784), filósofo e literato francês; dentre suas obras, O
sobrinho de Rameau, Paradoxo sobre o comediante, Cartas sobre os cegos
endereçada àqueles que enxergam e Carta sobre os surdos e mudos
endereçada àqueles que ouvem e falam já foram publicadas nesta coleção da
Editora Escala (NT).
14 Lendário malfeitor grego que assaltava e seqüestrava suas vítimas,
submetendo-as todas a um suplício singular, ou seja, deitava-as num leito
de ferro e cortava-lhes as pernas ou lhes esticava o corpo para que se
ajustassem ao tamanho desse leito (NT).
15 Expressão latina que significa “glória do mundo” (NT).
16 Michelangelo Buonarroti (1475-1564), escultor, pintor e arquiteto italiano,
gênio da Renascença; entre suas obras mais célebres, cumpre relembrar, na
pintura: a Capela Sistina nos palácios do Vaticano; na escultura: a Pietà,
exposta dentro da basílica de São Pedro no Vaticano; Moisés, exposta na
igreja San Pietro in Vincoli, perto do Coliseu em Roma; Davi, estátua
conservada na cidade de Florença (NT).
17 Raffaello Sanzio (1483-1520), pintor e arquiteto italiano; seu trabalho
principal foi decorar salas e galerias dos palácios do Vaticano (NT).
18 Auguste Comte (1798-1857), filósofo francês, fundador do positivismo;
dentre suas obras, Reorganizar a sociedade e Discurso sobre o espírito
positivo já foram publicadas nesta coleção da Editora Escala (NT).
19 George Gordon, dito Lord Byron (1788-1824), poeta inglês (NT).
20 Alfred de Musset (1810-1847), romancista e dramaturgo francês, um dos
mais destacados representantes do Romantismo (NT).
21 Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico e filósofo francês; alguns de
seus textos filosóficos (sob o título Do espirito geométrico — Pensamentos)
foram publicados nesta coleção da Editora Escala (NT).
22 René Descartes (1596-1650), filósofo e matemático francês; entre suas
obras, Discurso do método e As paixões da alma já foram publicadas nesta
coleção da Editora Escala (NT).
23 Baruch de Spinoza (1632-1677), filósofo holandês de origem portuguesa;
entre suas obras, Tratado para a reforma do entendimento já foi publicada
nesta coleção da Editora Escala (NT).
24 Alexander Pope (1688-1744), poeta inglês (NT).
1
1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes
Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer
recebê-lo em nosso grupo.
COLEÇÃO GRANDES OBRAS DO PENSAMENTO UNIVERSAL
1 — Assim Falava Zaratustra — Nietzsche
2 — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado — Engels
3 — Elogio da Loucura — Erasmo de Rotterdam
4 — A República (parte I) — Platão
5 — A República (parte II) — Platão
6 — As Paixões da Alma — Descartes
7 — A Origem da Desigualdade entre os Homens — Rousseau
8 — A Arte da Guerra — Maquiavel
9 — Utopia — Thomas More
10 — Discurso do Método — Descartes 11 — Monarquia — Dante Alighieri
12 — O Príncipe — Maquiavel
13 — O Contrato Social — Rousseau
14 — Banquete — Dante Alighieri
15 — A Religião nos Limites da Simples Razão — Kant 16 — A Política — Aristóteles
17 — Cândido ou o Otimismo — O Ingênuo — Voltaire
18 — Reorganizar a Sociedade — Comte
19 — A Perfeita Mulher Casada — Luis de León
20 — A Genealogia da Moral — Nietzsche
21 — Reflexões sobre a Vaidade dos Homens — Mathias Aires
22 — De Pueris — A Civilidade Pueril — Erasmo de Rotterdam
23 — Caracteres — La Bruyère
24 — Tratado sobre a Tolerância — Voltaire
25 — Investigação sobre o Entendimento Humano — David Hume
26 — A Dignidade do Homem — Pico della Miràndola
27 — Os Sonhos — Quevedo
28 — Crepúsculo dos Ídolos — Nietzsche
29 — Zadig ou o Destino — Voltaire
30 — Discurso sobre o Espírito Positivo — Comte
31 — Além do Bem e do Ma! — Nietzsche
32 — A Princesa de Babilônia — Voltaire
33 — A Origem das Espécies (Tomo 1) — Darwin
34 — A Origem das Espécies (Tomo II) — Darwin
35 — A Origem das Espécies (Tomo III) — Darwin
36 — Solilóquios — Santo Agostinho
37 — Livro do Amigo e do Amado — Lúlio
38 — Fábulas — Fedro
39 — A Sujeição das Mulheres — Stuart Mill
40 — O Sobrinho de Rameau — Diderot
41 — O Diabo Coxo — Guevara
42 — Humano, Demasiado Humano — Nietzsche
43 — A Vida Feliz — Sêneca
44 — Ensaio sobre a Liberdade — Stuart Mill
45 — A Gaia Ciência — Nietzsche
46 — Cartas Persas I — Montesquieu
47 — Cartas Persas II — Montesquieu
48 — Princípios do Conhecimento Humano — Berkeley
49 — O Ateu e o Sábio — Voltaire
50 — Livro das Bestas — Lúlio
51 — A Hora de Todos — Quevedo
52 — O Anticristo — Nietzsche
53 — A Tranqüilidade da Alma — Sêneca
54 — Paradoxo sobre o Comediante — Diderot
55 — O Conde Lucanor — Juan Manuel
56 — O Governo Representativo — Stuart Mill
57 — Ecce Homo — Nietzsche
58 — Cartas Filosóficas — Voltaire
59 — Carta sobre os Cegos Endereçada àqueles que Enxergam — Diderot
60 — A Amizade — Cícero
61 — Do Espírito Geométrico — Pensamentos — Pascal
62 — Crítica da Razão Prática — Kant
63 — A Velhice Saudável — Cícero
64 — Dos Três Elementos — López Medel
65 — Tratado da Reforma do Entendimeno — Spinoza
66 — Aurora — Nietzsche
67 — Belfagor, o Arquidiabo — A Mandrágora — Maquiavel
FUTUROS LANÇAMENTOS:
— Dicionário Filosófico — Voltaire
— Filosofia da Miséria — Proudhon
— A Miséria da Filosofia — K. Marx
— Crítica da Razão Pura — I. Kant
— A Cidade do Sol — Campanella
— Dos Delitos e das Penas — Beccaria
— Utilitarismo — Stuart Mill
IMPRESSÃO E ACABAMENTO:
OCEANO IND. GRÁFICA — (11) 4446-6544
• 2007 •
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