Rei Lear | Shakespeare W.

| quinta-feira, 15 de julho de 2010
LEAR - Sai, por favor!
EDGAR - É Kent, o vosso amigo.
LEAR - A peste sobre vós, traidores todos! Sois todos
assassinos! Poderia tê-la salvo, mas foi-se para
sempre. Ó Cordélia! Cordélia! Espera um pouco! Ah!
Que disseste? A voz tinha sempre branda, agradável
e baixa, predicado na mulher de valor inestimável.
Matei o escravo, quando te enforcava. ECLESIASTES
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Nélson Jahr Garcia.
REI LEAR
William Shakespeare
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REI LEAR
William Shakespeare
Apresentação
SHAKESPEARE: A ARTE DA PERSUASÃO.
Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do
que sonha a tua filosofia ( There are more
things in heaven and earth, Horatio, that are
dreamt of than in your philosophy)
Muito já se discutiu e se escreveu sobre persuasão.
J.A.C. Brown, psicólogo, escreveu “Técnicas de
Persuasão”. William Sargant, psiquiatra, produziu a
obra “Battle for the Mind”. sobre conversão religiosa
e lavagem cerebral. Serguei Tchakhotine escreveu
“Le viol des foules par la propagande politique.”
Os estudiosos da Escola de Frankfurt produziram
várias obras que envolviam o assunto, principalmente
Max Horkheimer, Theodor Adorno e Jürgen
Habermas. Infelizmente nenhuma dessas obras
trouxe uma explicação satisfatória sobre o processo
da comunicação persuasiva.
É que às vezes as respostas não se encontram em
cientistas, pesquisadores e doutores, mas com
literatos, poetas, dramaturgos; aqueles que
observam, sentem e escrevem. Interessante,
percebem as coisas da vida sem utilizar metodologias
científicas e que tais. Aprende-se Psicologia com
Machado de Assis, melhor que em Freud; Sociologia,
com Gilberto Freire, se conhece melhor do que em
Durkheim.
William Shakespeare produziu uma teoria sobre a
persuasão que cientista nenhum desvendou, basta ler
com atenção devida.
Iago, com argumentos e artimanhas, convenceu
Otelo de que sua esposa, Desdêmona, era infiel. Lady
Macbeth persuadiu Lorde Macbeth a matar o rei para
tomar-lhe o trono. Próspero, dominou espíritos para
que o ajudassem em sua vingança. Cássio convenceu
Bruto a matar Júlio César. O fantasma do rei da
Dinamarca convenceu Hamlet, o filho, a vingar sua
morte. Romeu seduziu Julieta e foi seduzido por ela,
a ponto de se suicidarem ambos. Petrucchio domou a
megera Catarina, transformando-a em mulher dócil e
submissa. Em todas essas obras, e em outras que
não mencionei, há uma idéia recorrente: a
comunicação persuasiva, para ser eficiente,
pressupõe um fator: as fraquezas humanas. As
pessoas são mais facilmente persuadidas quando se
apela para o egoísmo, ambições, invejas, ciúmes,
paixões, dores, arrependimentos.
Esse foi um dos legados que William Shakespeare
nos deixou, há quatrocentos anos. Entender o ser
humano em suas fraquezas, suas forças, suas
felicidades, seus gozos e angústias. Mas não se trata
apenas de entender o outro, a nós mesmos também.
Somos todos guerreiros, às vezes, políticos, no
sentido grego, constantemente. Também somos
incapazes. Romeu não conseguiu ser bem sucedido
com Julieta, não lhe deram tempo nem oportunidade.
Macbeth não pode obter as vantagens do trono,
sanguinariamente conquistado.
Quanto ao ser humano, Shakespeare nos ensina algo
importante, senão fundamental: o homem não é bom
ou mau, apenas homem. Um famoso humorista
contestava a história do Chapeuzinho Vermelho.
Perguntava: “por que lobo mau, acaso existe lobo
congregado mariano ou coroinha de igreja? Lobo é
lobo, nem mau nem bom, só lobo”. Pois é, o homem
é homem, nem bom nem mau, apenas homem.
Shakespeare percebeu, o que os chineses já sabiam
há séculos e Marx viria a descobrir mais tarde: o
homem é uma unidade de contradições, maldade e
bondade as carrega no peito, ao mesmo tempo e em
todas as horas.
Frei Lourenço (Romeu e Julieta) em um breve
monólogo disse o seguinte: “A terra é a mãe e a
tumba da natura; ministra a morte e, assim, apresta
a cura. Filhos de vária espécie, no seu seio a mamar
encontramos, sem receio; uns por por várias
virtudes, excelentes; cada um com a sua, todos
diferentes. Oh! é admirável a potente graça que há
nas ervas, na flora, na pedra crassa, pois até mesmo
o que há de vil na terra algo de bom, influência dela,
encerra; nem nada bom existe, que, torcido do uso
normal, não se revele infiel à própria natureza e
nascimento. Até mesmo a alta virtude, num
momento mal aplicada, em vício se transforma, e
este, por vezes, ao dever dá a norma. Na corola
infantil desta florzinha veneno mora que dá morte
asinha, Cheirado, ao corpo todo dá alegria; mas pára
o coração no mesmo dia, quando dado a beber. Dois
reis potentes nas plantas e nos homens oponentes
acampamento têm: a atroz cobiça e a graça
benfazeja. Se insubmissa se mostra a pior, então
vem logo o verme da morte e rói essa plantinha
inerme.”
O arrependimento é de constante frequência na obra
do dramaturgo, os personagens perpetram as piores
crueldades imagináveis, mas acabam sofrendo dores
de consciência. Macbeth mandou matar o rei para
obter a coroa, mas passou a sofrer amarguras
internas. Hamlet estava decidido a vingar o pai
assassinado, mas era angustiado pela dúvida: “ser ou
não ser, eis a questão”.
Os chefes das famílias rivais, Capuleto e Montecchio,
após a morte dos filhos, concluem: “CAPULETO: Dá-
me tua mão irmão Montecchio; é o dote de minha
filha. Mais pedir não posso. MONTECCHIO: Mas eu
posso dar mais, pois hei de a estátua dela fazer do
mais puro ouro. Enquanto for Verona conhecida,
nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e
mui veraz Julieta. CAPULETO: Romeu fama também
dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.”
Próspero (A Tempestade) depois de dominar espíritos
para que o auxiliassem em sua vingança, termina
concluindo: “Restou-me o temor escuro; por isso, o
auxílio procuro, de vossa prece que assalta até
mesmo a Graça mais alta, apagando facilmente as
faltas de toda gente. Como quereis ser perdoados de
todos vossos pecados, permiti que sem violência me
solte vossa indulgência.”
Voltemos à teoria da persuasão. A credibilidade de
quem assegura a veracidade da afirmação é
importante.. Como duvidar da palavra de uma
feiticeira. Macbeth ouviu, não de uma, mas de três
feiticeiras: “Primeira bruxa: Viva, viva Macbeth! Nós
te saudamos, thane de Glamis. Segunda bruxa: Viva,
viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Cawdor.
Terceira bruxa: Viva Macbeth, que há de ser rei mais
tarde!” . Realmente Macbeth se tornou thane de
Glamis, depois de Cawdor e afinal rei. Tornou-se
thane por merecimento, mas foi induzido pela
ambição, que Lady Macbeth soube explorar, a ponto
de convencê-lo a matar o rei para tomar-lhe o trono.
A força de um bom argumento, preferencialmente
mesclado com sentimento, é decisivo para a
persuasão. Julieta, na cena em que está na sacada
(antigamente se dizia balcão), pronunciou uma das
frases mais célebres da literatura universal: “Meu
inimigo é apenas o teu nome. Continuaria sendo o
que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é
Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou
rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê
outro nome. Que há num simples nome? O que
chamamos rosa, sob uma outra designação teria
igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome
de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que
dele é sem esse título. Romeu risca teu nome e, em
troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica
comigo inteiro.”
A argumentação, acompanhada de um fato adrede
preparado, por menor que seja, tem um incrível
poder persuasivo, principalmente quando se explora
uma fraqueza como o ciúme. Iago furtou a
Desdêmona, um lenço que lhe havia dado Otelo e o
deixou às mãos de Cássio. Daí o seguinte diálogo:
“IAGO - Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem
possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o
seguinte: não vistes porventura nas mãos de vossa
esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de
morangos? OTELO - Dei-lhe um assim; foi meu
primeiro mimo. IAGO - Ignorava esse fato; porém
tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar
na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa.
OTELO - Se era o mesmo... IAGO - O mesmo, ou
outro qualquer dos lenços dela, é prova muito forte,
ao lado de outras.”
Incrível, o patriotismo, o amor à cidade onde se vive
podem gerar susceptibilidade à persuasão, Vejam em
Júlio César; Bruto orientado pelo patriotismo, e um
pouco de ambição, aceita a influência de Cássio; e
diz: “Preciso é que ele morra. Eu, por meu lado,
razão pessoal não tenho para odiá-lo, afora a do bem
público.” Matou Júlio César. Fator importante de
convencimento é a cobrança por um favor prestado.
Próspero (A Tempestade) libertou Ariel do domínio da
bruxa Sicorax e, em troca, exigiu apoio para seu
desejo de vingança. O diálogo é assim: “PRÓSPERO:
Quê! Zangado? Que podes desejar? ARIEL: Lembrate
que te prestei serviços importantes nunca menti,
nem descuidei de nada, nem me mostrei queixoso ou
rabugento. Prometeste abater-me um ano inteiro.
PRÓSPERO: Pareces esquecido do tormento de que te
libertei.”
O cansaço e o desgaste físico, geralmente, são
fatores que aumentam a sugestionabildade em
muitas pessoas. Nas forças armadas a leitura da
ordem do dia é realizada depois que os soldados
foram submetidos a pesados exercícios e longas
marchas. Nas academias de artes marciais, os
princípios morais e filosóficos são discutidos ao final
do treinamento, quando os alunos já se encontram
exauridos. Petrucchio (A megera domada) forçou
Catarina, imediatamente após o casamento, a viajar
sob um inverno rigoroso, ocasião em que ela caiu do
cavalo sobre a lama. Já em casa, ralhando com o
empregado, alegou que a comida estava ruim
jogando-a fora. Com isso deixou Catarina faminta por
logo tempo, levando-a quase ao desespero. Não a
deixava dormir à noite, fazendo muito barulho e
gritando com os empregados. Não a deixava fazer
nenhuma afirmação sem contestá-la. Ao cabo de
algum tempo a megera hostil transformou-se em
mulher gentil, delicada e obediente.
Recurso persuasivo muito utilizado, o apelo à
indignação e ao sentimento de revolta, foi
empregado por Marx, Lenin, Hitler e tantos outros.
Cláudio envenenou seu irmão, rei da Dinamarca,
tomou o trono e casou-se com a rainha. O fantasma
do rei assassinado apareceu perante seu filho,
Hamlet, convencendo-o a vingar-lhe a morte. Seu
apelo dizia o seguinte: “Sou a alma de teu pai, por
algum tempo condenada a vagar durante a noite, e
de dia a jejuar na chama ardente, até que as culpas
todas praticadas em meus dias mortais sejam nas
chamas, ao fim, purificadas. Se eu pudesse revelarte
os segredos do meu cárcere, as menores palavras
dessa história te rasgariam a alma; tornar-te-iam,
gelado o sangue juvenil; das órbitas fariam que
saltassem, como estrelas, teus olhos; o penteado
desfar-te-iam, pondo eriçados, hirtos os cabelos,
como cerdas de iroso porco-espinho. Mas essa
descrição da eternidade para ouvidos não é de carne
e sangue. Escuta, Hamlet. Se algum dia amaste teu
carinhoso pai... Vinga o seu assassínio estranho e
torpe.
A Shakespare não passou despercebido que os seres
humanos muitas vezes, tentam convencer não
outros, mas a si próprios, especialmente quando
precisam justicar suas atitudes e ações. Edmundo
(Rei Lear) registra bem esse aspecto: “Essa é a
maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não
nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos
próprios excessos - pomos a culpa de nossos
desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se
fôssemos celerados por necessidade, tolos por
compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo
predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e
adúlteros, pela obediência forçosa a influências
planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à
influência divina... Ótima escapatória para o homem,
esse mestre da devassidão, responsabilizar as
estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou
a minha mãe sob a cauda do Dragão e minha
natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se
segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé
de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais
virginal estrela do firmamento houvesse piscado por
ocasião de minha bastardização.”
As citações mostram que Shakespeare, sem
pesquisas e fundamentos científicos, mas com
intuição e sensibilidade, percebeu como é frágil a
mente humana. Alguns recursos de comunicação
podem induzir pessoas a agirem de maneira que elas
não fariam em outras condições.
Desconheço o que ocorre no céu, mas na terra há
fatos e atos humanos que, com nossos
conhecimentos e concepções filosóficas, mal
sonhamos explicar.
Nélson Jahr Garcia
REI LEAR
William Shakespeare
Personagens
LEAR, rei da Bretanha.
O rei da França.
O duque de Burgúndia.
O duque de Cornualha.
O duque de Albânia.
O conde de Kent.
O conde de Gloster.
EDGAR, filho de Gloster.
EDMUNDO, filho bastardo de Gloster.
CURAN, um cortesão.
OSVALDO, intendente de Goneril.
Um velho, caseiro de Gloster.
Um médico.
O bobo.
Um oficial, empregado por Edmundo.
Um gentil-homem, ligado a Cordélia.
Um arauto.
Criados de Cornualha.
GONERIL, filha de Lear
REGANE, filha de Lear
CORDÉLIA, filha de Lear
Cavaleiros do séqüito de Lear, oficiais, mensageiros,
soldados e criados.
ATO I
Cena I
Salão nobre do palácio do Rei Lear. Entram Kent,
Gloster e Edmundo.
KENT - Sempre pensei que o rei fosse mais afeiçoado
ao duque de Albânia do que ao de Cornualha.
GLOSTER - Era o que também me parecia; mas
agora, na divisão do reino, não se pode saber qual
dos dois duques ele aprecia mais, porque as partes
foram pesadas com tal eqüidade, que a mais
impertinente curiosidade não saberá decidir-se por
nenhuma delas.
KENT - Este rapaz é vosso filho, milorde?
GLOSTER - Sua educação, senhor, esteve a meu
cargo. Tantas vezes corei de confessá-lo, que
presentemente já me encontro calejado.
KENT - Não posso compreender-vos.
GLOSTER - Mas a mãe deste mancebo o compreendia
perfeitamente, senhor; tanto assim, que ficou com o
ventre arredondado com um filho que arranjou para
seu berço, antes de conseguir um marido para o seu
leito. Percebeis alguma falta nisso?
KENT - Não posso desejar que a falta não houvesse
sido cometida, à vista da graça de suas
conseqüências.
GLOSTER - Mas possuo um filho legítimo, senhor,
coisa de um ano mais velho do que este, que nem
por isso tenho em mais alta estima. É verdade que
este peralta veio ao mundo com certo descoco, antes
de ser chamado; mas também é verdade que sua
mãe era muito linda. Foi gerado na folia, sendo me
agora preciso reconhecer o bastardo. Conheceis este
gentil-homem, Edmundo?
EDMUNDO - Não, milorde.
GLOSTER - É o milorde de Kent; de agora em diante
lembra-te dele como de honrado amigo meu.
EDMUNDO - Ao dispor de Vossa Senhoria.
KENT - Desejo amar-vos e peço que me ensejeis
oportunidades de conhecer-vos mais de perto.
EDMUNDO - Esforçar-me-ei por merecê-lo, senhor.
GLOSTER - Esteve fora nove anos e precisará sair de
novo. O rei vem vindo.
(Fanfarra. Entram Lear, Cornualha, Albânia, Goneril,
Regane, Cordélia e séqüito.)
LEAR - Gloster, fazei entrar na sala os nobres da
França e da Burgúndia.
GLOSTER - Neste instante, meu soberano.
(Saem Gloster e Edmundo.)
LEAR - Enquanto isso, mostrar pretendo nossos
desígnios mais recônditos. Um mapa! Ficai sabendo,
assim, que dividimos nosso reino em três partes,
sendo nossa firme intenção livrar-nos, na velhice, dos
cuidados, bem como dos negócios, para confiá-los a
mais jovens forças, e, assim, nos arrastarmos para a
morte, de qualquer fardo isento. Nosso filho de
Cornualha, assim como vós, Albânia, filho também
não menos caro, temos o propósito certo, neste
instante, de declarar publicamente o dote de nossas
filhas, para que a discórdia futura fique obviada
desde agora. Os príncipes da França e da Burgúndia,
grandes rivais no amor de nossa filha mais nova, em
nossa corte já fizeram sua parada longa e
apaixonada. Ora aguardam resposta. Minhas filhas -
já que neste momento nos despimos do governo, não
só, dos territórios e cuidados do Estado - ora dizeime
qual de vós mais amor nos tem deveras, porque
alargar possamos nossa dádiva onde contende a
natureza e o mérito. Fale primeiro Goneril, a nossa
filha mais velha.
GONERIL - Senhor, amo-vos mais do que as palavras
poderão exprimir, mais ternamente do que a visão, o
espaço, a liberdade, muito mais do que tudo que é
prezado, raro ou valioso, tanto quanto a vida com
saúde, beleza, honras e graça, como jamais amou
filha nenhuma ou pai se viu amado; é amor que
torna pobre o alento e o discurso balbuciante. Amovos
para além de todo extremo.
CORDÉLIA (à parte) - Cordélia que fará? Ama e se
cala.
LEAR - Todo este trecho aqui, de uma a outra linha,
com suas matas e campinas ricas, com rios
caudalosos e seus prados de larga bordadura, te
pertencem. De tua prole e de Albânia, como posse
perpétua vai ficar. Que diz agora nossa segunda filha,
a queridíssima Regane, esposa de Cornualha? Fala.
REGANE - De igual metal que minha irmã sou feita e
pelo preço dela me avalio. No imo peito descubro que
ela soube dar expressão ao meu amor sincero. Mas
ficou muito aquém, pois inimiga me declaro de
quantas alegrias se contenham na mui preciosa
esfera dos sentidos tão-só. Achei minha única
felicidade na afeição de Vossa mui querida Grandeza.
CORDÉLIA (à parte) - Então, coitada de Cordélia!
Contudo, nem por isso, pois estou certa de que meu
afeto mais rico é do que a língua.
LEAR - Que para ti e os teus fique de herança
permanente este terço avantajado do nosso belo
reino, em rendas, graças e extensão não menor em
nenhum ponto do que o que em sorte coube a
Goneril. Nossa alegria, agora, conquanto a última,
não a menor, e cujo afeto jovem os vinhedos da
França e o branco leite da Burgúndia disputam: que
podeis dizer-nos para um terço mais opimo virdes a
obter do que os das vossas manas? Falai.
CORDÉLIA - Meu senhor, nada.
LEAR - Nada?
CORDÉLIA - Nada.
LEAR - De nada sairá nada. Novamente dizei alguma
coisa.
CORDÉLIA - Oh desditosa! Trazer não posso o
coração à boca. Amo a Vossa Grandeza como o dever
me impõe, nem mais nem menos.
LEAR - Que é isso, Cordélia? Concertai um pouco
vossas palavras, para não deitardes a perder vossa
dita.
CORDÉLIA - Meu bondoso senhor, vós me gerastes,
educastes e me amastes, pagando eu todos esses
benefícios qual fora de justiça: com obediência e
amor vos honro sempre extremamente. Por que têm
maridos minhas irmãs, se dizem que vos amam sobre
todas as coisas? Se algum dia vier a casar, há de
seguir o dono do meu dever apenas a metade de
meu amor, metade dos cuidados e das obrigações.
Certeza é nunca vir a casar-me como as duas manas,
para amar a meu pai por esse modo. LEAR - Do
coração te veio o que disseste?
CORDÉLIA - Sim, meu senhor.
LEAR - Tão jovem e tão áspera?
CORDÉLIA - Tão jovem, meu senhor, e verdadeira.
LEAR - Então vai ser teu dote só a tua veracidade.
Pois pela sagrada irradiação do sol, pelos mistérios
de Hécate e, assim, da noite, pelas grandes
operações dos orbes que nos fazem viver e definhar:
desde este instante me desligo dos laços
consanguíneos, preocupações de pai e parentesco,
passando a te considerar como uma pessoa estranha
a mim e a meu afeto, de agora para sempre. O cita
bárbaro ou selvagem que faz da prole pábulo para o
apetite, há de ser mais vizinho do meu seio, acolhido
e consolado, do que tu, que não és já filha minha.
KENT - Meu senhor...
LEAR - Kent, silêncio; não te metas entre o dragão e
sua grande cólera. Predileção lhe tinha e pensei
sempre que haveria de achar grato repouso em seus
carinhos. Foge-me da vista! Tão certo como eu ter
paz no sepulcro, o coração de pai lhe tiro agora.
Chamai França! Que é que ainda se mexe? Chamai
Burgúndia aqui! Cornualha e Albânia, acrescentai
mais este dote aos outros de minhas duas filhas. Que
se case com ela o orgulho, a que franqueza chama.
Juntamente comigo vos invisto no meu poder, minhas
prerrogativas e em todas as extensas dignidades que
à majestade se unem. Nós, seguindo nisso o curso
mensal e reservando cem cavaleiros, cujo encargo
fica por vossa conta, nossa casa havemos de na
vossa fazer por modo alterno. De rei, o nome apenas
reteremos, com suas dignidades; mas o mando, a
execução das leis, as rendas, tudo, caros filhos, é
vosso. E como certo penhor do que ora afirmo, esta
coroa dividirei entre ambos.
KENT - Real Lear, a quem como meu rei acatei
sempre, amei como a meu pai, acompanhei como a
senhor e a quem nas minhas preces tinha como
padroeiro...
LEAR - O arco está armado; sai da frente da seta!
KENT - Não; dispara-a, embora a farpa o coração me
atinja. Descortês será Kent, se é louco Lear. Que
estás fazendo, velho? Acaso pensas que o dever
tenha medo de falar, quando o poder se abaixa até à
lisonja? A honra obriga à franqueza, quando tomba
na loucura, assim tanto, a majestade. Anula o teu
decreto, e recorrendo aos teus mais ponderosos
argumentos, reprime logo essa medonha pressa.
Minha vida em penhor do que te afirmo; afeição
inferior não te dedica tua terceira filha, nem
tampouco sentirão menos as pessoas cuja voz grave
não ressoa no vazio.
LEAR - Por tua vida, Kent, nem mais um pio!
KENT - Penhor a vida me foi sempre, para contra os
teus inimigos arriscá-la. Perdê-la não receio, quando
o exige tua própria salvação.
LEAR - Fora da minha vista!
KENT - Vê melhor, Lear, e ora consente que a mira de
teus olhos eu me torne.
LEAR - Agora, por Apolo...
KENT - Por Apolo, agora em vão juraste por teus
deuses.
LEAR - Oh vassalo! Insolente!
(Leva a mão à espada.)
ALBÂNIA E CORNUALHA - Não; detende-vos, caro
senhor.
KENT - Manda matar teu médico e à impura doença
entrega os honorários! Revoga o teu decreto; do
contrário, enquanto alento me restar no peito, direi
que estás errado.
LEAR - Ouve-me, biltre! Por teu dever de
vassalagem, ouve-me! Já que tentaste provocar a
quebra de nosso voto - o que jamais fizemos - e com
teimoso orgulho te meteste entre nossa sentença e
nosso trono - o que não pode suportar a nossa
natureza, nem menos nosso posto - de pé nosso
poder, toma tua paga: cinco dias te damos, porque
possas contra os males do mundo premunir-te; ao
sexto voltarás o dorso odioso a todo o nosso reino; e
se no décimo esse corpo banido for achado dentro de
nossas terras, esse instante será tua morte. Já daqui!
Por Júpiter, não haverá revogação agora.
KENT - Adeus, rei. Declarar quero a verdade: o exílio
é aqui, e longe, a liberdade.
(A Cordélia.)
Possam os deuses te amparar, menina, cujo pensar
com o bom discurso afina.
(A Regane e Goneríl.)
Que por bons atos sejam confirmados vossos largos
discursos e empolados. - Kent, assim, se despede
dos presentes e a novas terras leva os pés dolentes.
(Sai.)
(Fanfarra. Volta Gloster com França, Burgúndia e
pessoas do séqüito.)
GLOSTER - Senhor, França e Burgúndia estão
presentes.
LEAR - Milorde de Burgúndia, primeiramente a vós
nos dirigimos, que sois rival, com este soberano, na
corte à nossa filha. Qual o mínimo que exigis como
dote e em cuja falta desistis do pedido?
BURGÚNDIA - Muito nobre majestade, não peço nada
acima do que já ofereceu Vossa Grandeza, que
menos não dará.
LEAR - Nobre Burgúndia, quando cara nos era, nós a
tínhamos nesse preço; mas ora baixou muito.
Senhor, ali está ela. Se algum traço dessa coisinha de
nenhum realce ou até mesmo ela toda, redobrada de
nosso desfavor, sem mais acréscimo, pode do agrado
ser de Vossa Graça: ela aqui está; pertence-vos.
BURGÚNDIA - Ignoro que responder.
LEAR - Quereis, com as faltas todas que lhe são
próprias, sem nenhum amigo, adotada por nosso
recente ódio, com toda nossa maldição por dote,
expulsada por nosso juramento, levá-la ou recusá-la?
BURGÚNDIA - Real senhor, perdão; mas nessas
condições, é claro, ninguém faz uma escolha.
LEAR - Então deixai-a, senhor; porque vos assevero,
em nome do poder que me criou, que toda a sua
fortuna é o que vos disse. (A França.) Vós, potente
soberano, de vosso amor não quero tão longe me
afastar, que almeje ver-vos unido a quem odeio.
Assim, suplico-vos desviar vossa afeição para um
objeto mais digno do que a mísera criatura que a
natureza quase se envergonha de declarar por sua.
FRANÇA - É muito estranho que aquela que, até há
pouco, era a mais rara jóia de vosso afeto, o tema
excelso de vossos elogios, vosso bálsamo na velhice,
a melhor, a mais querida, pudesse cometer assim, de
pronto, um crime tão monstruoso que desmanche
tantas pregas da graça. Com certeza mui contrário à
natura foi seu crime, e muito a deturpou, se vosso
afeto tão notório não é o que antes era. Acreditar tal
coisa a seu respeito, só com o auxílio da fé, pois, sem
milagre, a isso a razão jamais me levaria.
CORDÉLIA - Suplico entanto a Vossa Majestade - pois
careço dessa arte lisa e untuosa de falar em contrário
ao próprio intento, pois o que fazer quero já realizo,
mesmo antes de falar - que deixeis claro não ter sido
nenhum vício infamante, velhacaria alguma, ato
impudico, nem qualquer passo menos decoroso que
de vosso favor e vossa graça me privou neste
instante, mas apenas a carência daquilo que me
deixa mais rica ainda: o olhar adulador e língua que
não ter muito me alegra muito embora essa falta seja
a causa de me fazer perder vossa amizade.
LEAR - Melhor te fora nunca ter nascido, do que
deixares de agradar-me agora.
FRANÇA - Então, foi isso apenas? Uma certa lentidão
natural, que, muitas vezes, deixa de relatar a própria
história do que fazer pretende? Que dizeis, milorde
de Burgúndia, desta noiva? O amor não é amor,
quando se mescla de considerações que muito
aberram da meta principal. Ficais com ela?
BURGÚNDIA - Dai-lhe, real Lear, unicamente a parte
que havíeis prometido, e, neste instante, tomo
Cordélia pela mão e a faço Duqueza de Burgúndia.
LEAR - Nada; sou firme; fiz um juramento.
BURGÚNDIA - Muito me pesa, então, que após
haverdes perdido o pai, também percais o esposo.
CORDÉLIA - Seja a paz com Burgúndia! Já que havia
em seu amor intuitos de riquezas, não serei sua
esposa.
FRANÇA - Linda Cordélia, pobre, ainda és mais rica;
mais procurada, ainda, no abandono, e mais amada,
quando desprezada: de ti, dessas virtudes, apoderome
neste momento. Seja, assim, legítimo apanhar o
que foi jogado fora. Que estranho, ó deuses! que um
glacial desprezo o respeito me inflame e deixe preso!
Deserdando tua filha, ó rei! deste ansa para rainha
eu a fazer da França. Nenhum dos duques da
Burgúndia aquosa a noiva minha levará preciosa.
Cordélia, adeus lhes dize, cruéis embora; perdes
aqui, para ganhar lá fora.
LEAR - França, leva-a contigo; é tua; nós tal filha já
não temos, não, e após o que houve ela perdeu, por
mais que faça, nosso amor, nossa bênção, nossa
graça. Vamos, nobre Burgúndia.
(Fanfarras. Saem Lear, Burgúndia, Cornualha,
Albânia, Gloster e séqüito.)
FRANÇA - Dizei adeus agora a vossas manas.
CORDÉLIA - Jóias de nosso pai, com olhos úmidos
Cordélia ora vos deixa. Eu vos conheço, mas como
irmã não quero dar o nome verdadeiro de vossas
faltas todas. Cuidai de nosso pai; entrego-o a vossos
peitos que os próprios méritos proclamam. No
entanto, ai! se em sua graça eu me encontrasse,
talvez melhor asilo lhe mostrasse. Assim, adeus para
ambas.
REGANE - Não queirais ensinar nossos deveres.
GONERIL - Procurai agradar vosso marido que como
esmola vos pegou da sorte. Revelastes caráter
obstinado; digna, portanto, sois do vosso fado.
CORDÉLIA - O tempo há de mostrar quem tem
malícia, que a vergonha é o castigo da estultícia.
Passai bem.
FRANÇA - Vamos, linda Cordélia.
(Saem França e Cordélia.)
GONERIL - Mana, não é pouco o que tenho a dizer
sobre um assunto que nos toca muito de perto. Creio
que nosso pai vai partir esta noite.
REGANE - Isso é certeza, e em vossa companhia. No
próximo mês ficará conosco.
GONERIL - Vistes como sua velhice é caprichosa; não
é das menos valiosas a observação que tivemos
oportunidade de fazer; sempre revelou muito mais
afeição para nossa irmã, transparecendo agora
claramente a falta de senso com que acaba de
expulsá-la.
REGANE - E a fraqueza da idade, sendo certo que ele
sempre se conheceu mal.
GONERIL - Até mesmo na melhor idade e de mais
vigor, costumava revelar precipitação. Por isso,
preparemo-nos para receber de sua velhice não
somente os defeitos enraizados de longa data, como
também as rabugices inconvenientes que trazem
consigo os anos achacosos e irritáveis. REGANE -
Teremos de assistir ainda a muitas explosões súbitas,
como essa de que resultou o banimento de Kent.
GONERIL - Ainda terão de realizar-se as cerimônias
complementares da despedida entre ele e França.
Unamo-nos, é o que vos peço; se nosso pai
conservar o poder com semelhante disposição, essa
última abdicação de sua vontade só nos poderá ser
prejudicial.
REGANE - Havemos de refletir melhor sobre isso.
GONERIL - Precisaremos fazer qualquer coisa,
enquanto o assunto está quente.
(Saem.)
Cena II
Sala no castelo do conde de Gloster. Entra Edmundo
com uma carta.
EDMUNDO - Sê minha deusa agora, natureza! A tuas
leis empenho meus serviços. Porque terei de me
curvar à peste do costume e deixar que a
impertinência das nações me despoje, tão-somente
porque nasci algumas doze luas, ou catorze, depois
de qualquer mano? Por que bastardo? Por que mal
nascido, se minhas proporções são tão bem feitas, a
alma tão franca e a compostura toda tão certa como
a de qualquer rebento de uma senhora honesta? Por
que causa, pois, nos estigmatizam de baixeza,
bastardo, baixo, baixo?... Por que baixos todos nós
que no furto deleitoso da natureza recebemos partes
mais ajustadas e mais alto espírito do que acontece
nos cansados leitos, antiquados e insípidos, só feitos
para criar uma chusma de casquilhos, entre o sono e
a vigília concebidos? Assim, Edgar legítimo, preciso
ficar com vossas terras. Tem o afeto de nosso pai não
só o bastardo Edmundo, como o filho legítimo.
“Legítimo!” bela expressão! Espero, meu legítimo,
que se esta carta for bem despachada e meu plano
der certo, o baixo Edmundo vai passar o legítimo.
Prospero... Cresço... Amparai, ó deuses! os
bastardos.
(Entra Gloster.)
GLOSTER - Banido Kent assim! França, colérico, se
despediu, e o rei partiu à noite! Resignou ao poder,
tendo ficado com pensão reduzida! E tanta coisa em
menos de um segundo! Olá, Edmundo, que
novidades há?
EDMUNDO (escondendo a carta) - Não há novidades,
se não for do desagrado de Vossa Senhoria.
GLOSTER - Por que escondeis com tanta precipitação
essa carta?
EDMUNDO - Não sei de nenhuma novidade, senhor.
GLOSTER - Que papel estáveis lendo?
EDMUNDO - Nada, milorde.
GLOSTER - Nada? Que necessidade havia, então, de
enfiá-lo tão depressa no bolso? O que em si mesmo é
nada, não tem necessidade de ser escondido desse
modo. Deixai-me ver! Vamos! Se for mesmo nada,
não precisarei de óculos.
EDMUNDO - Peço-vos, senhor, que me perdoeis; é
uma carta de meu irmão, que eu ainda não li até ao
fim; mas pelo que pude ver assim por cima, penso
que seu conteúdo é impróprio para vossa vista.
GLOSTER - Dai-me essa carta, senhor!
EDMUNDO - Farei mal tanto em recusá-la com em
dar-vo-la. Seu conteúdo, pelo que pude alcançar, é
censurável.
GLOSTER - Quero vê-la; quero vê-la.
EDMUNDO - Quero crer, como justificativa de meu
irmão, que ele escreveu apenas com o intuito de
provar ou confirmar minha virtude.
GLOSTER - “Nossas instituições e o respeito à velhice
tornam o mundo amargo para os nossos melhores
anos, privam-nos dos bens até que nossa caduquice
não se possa aproveitar deles. Começo a ver uma
escravidão inútil e presunçosa na opressão da tirania
envelhecida, que governa não porque tenha poder,
mas por ser tolerada. Procurai-me, para que eu
possa expandir-me a esse respeito. Se nosso pai
dormisse até que eu o despertasse, gozaríeis para
sempre da metade das rendas dele e seríeis o bemamado
de vosso irmão Edgar.” - Hum! Conspiração!
“Se dormisse até que eu o despertasse, gozaríeis da
metade das rendas dele.” - Meu filho Edgar teve mão
para escrever isto? coração e cérebro para concebê-
lo? Como te veio isto ter às mãos? Quem te trouxe
esta carta?
EDMUNDO - Não foi trazida, senhor, e nisso é que
consiste toda a treta; foi jogada pela janela de meu
quarto.
GLOSTER - Reconheceis a letra de vosso irmão?
EDMUNDO - Se o assunto fosse bom, milorde, eu iria
jurar que a letra é dele; mas quando o considero
mais de perto, quero crer que não seja.
GLOSTER - É dele, sim.
EDMUNDO - A mão é dele, milorde; mas espero que
o coração não esteja no conteúdo.
GLOSTER - Antes, ele nunca vos sondou a esse
respeito?
EDMUNDO - Nunca, milorde; mas por várias vezes já
o ouvi asseverar que quando os filhos atingem a
idade adulta e os pais começam a declinar, o pai
deveria tornar-se como que pupilo do filho, ficando
seus bens sob a direção deste.
GLOSTER - Oh celerado! celerado! A mesma coisa
que ele diz na carta! Celerado execrável! Celerado
desnaturado, odioso, bestial! Pior do que bestial! Vai
buscá-lo imediatamente. Vou prendê-lo. Abominável
celerado! Onde está ele?
EDMUNDO - Ao certo não sei, milorde. Se
concordardes em sustar vossa indignação contra meu
irmão, até que possais tirar dele melhores
testemunhos de suas intenções, seguireis por um
caminho certo; ao passo que se procederdes com
violência e vos enganardes quanto aos seus planos,
abrireis em vossa honra uma grande brecha e
destruireis o próprio coração de sua obediência.
Atrevo-me a apostar a vida em como ele escreveu
isso tudo apenas para pôr à prova a afeição que eu
voto a Vossa Honra, sem qualquer intenção maldosa.
GLOSTER - Pensais desse modo?
EDMUNDO - Se Vossa Honra concordar, eu vos
colocarei em um lugar de onde possais ouvir-nos
conversar a esse respeito, vindo desta arte a
convencer-vos pelo próprio testemunho dos ouvidos,
e isso sem delongas, ainda esta tarde.
GLOSTER - Não é possível que ele seja tão
monstruoso...
EDMUNDO - De forma alguma; tenho certeza.
GLOSTER - ... com relação a seu próprio pai, que lhe
dedica amor tão terno e desinteressado... Céu e
terra! Edmundo, ide procurá-lo; sondai-o, por
obséquio; arranjai tudo de acordo com vossa
sabedoria. Daria todos os meus haveres para poder
alcançar plena certeza a esse respeito.
EDMUNDO - Vou procurá-lo, senhor, neste momento;
farei tudo do melhor modo possível e vos porei a par
do que houver.
GLOSTER - Esses últimos eclipses do sol e da lua não
nos anunciam nada bom. Muito embora a ciência da
natureza possa explicá-los desta ou daquela maneira,
a própria natureza se sente chicoteada pelos efeitos
que se lhes seguem. O amor esfria, a amizade
desaparece, os irmãos se desavêm; nas cidades,
tumultos; nos campos, discórdias; nos palácios,
traições, rompendo-se os laços entre filhos e pais.
Esse meu filho desnaturado confirma aqueles sinais:
é filho contra pai. O rei se afasta da trilha da
natureza: é pai contra filho. Já vimos o melhor de
nosso tempo: maquinações, imposturas, traições e
toda sorte de desordens ruinosas nos acompanham
sem sossego até à sepultura. Vai buscar-me esse
celerado, Edmundo; nada terás a perder. Procede
com cautela. E o nobre e magnânimo Kent, banido!
Seu crime, a honestidade! É muito estranho!
(Sai.)
EDMUNDO - Essa é a maravilhosa tolice do mundo:
quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes
por culpa de nossos próprios excessos - pomos a
culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas
estrelas, como se fôssemos celerados por
necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos,
ladrões e traidores pelo predomínio das esferas;
bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência
forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa
ruindade atribuída a influência divina... Ótima
escapatória para o homem, esse mestre da
devassidão, responsabilizar as estrelas por sua
natureza de bode. Meu pai se juntou a minha mãe
sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu
sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho
de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria
sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do
firmamento houvesse piscado por ocasião de minha
bastardização. Edgar...
(Entra Edgar.)
Pronto! Ei-lo que chega, tal qual a catástrofe na velha
comédia. Minha deixa é “Melancolia pérfida”, com um
suspiro como os de Tom de Bedlam. Oh! Esses
eclipses pressagiam as desordens que vemos. Fá,
sol, lá, mi!
EDGAR - Olá, mano Edmundo! Que graves
meditações são essas?
EDMUNDO - Estava pensando, mano, numa predição
que li num dia destes, sobre o que há de seguir-se a
estes eclipses.
EDGAR - Preocupai-vos com essas coisas?
EDMUNDO - Posso afirmar-vos que por infelicidade se
realizam os efeitos anunciados, tal como:
sentimentos contra as leis da natureza entre pais e
filhos; mortes, fome, dissolução de amizades antigas,
divisões no Estado, ameaças e maldições contra os
reis e os nobres, suspeitas injustificadas, proscrição
de amigos, dispersão de coortes, infrações conjugais
e não sei o que mais.
EDGAR - Há quanto tempo sois sectário da
astronomia?
EDMUNDO - Vamos, vamos... Quando vistes meu pai
pela última vez?
EDGAR - Ontem à noite.
EDMUNDO - Falastes-lhe?
EDGAR - Sim; duas horas seguidas.
EDMUNDO - Despedistes-vos em bons termos? Não
observastes nele nenhum sinal de descontentamento,
quer na fisionomia, quer nas expressões?
EDGAR - Absolutamente nenhum.
EDMUNDO - Refleti melhor sobre o que poderíeis ter
feito para ofendê-lo, e fazei-me neste ponto a
vontade, evitando sua presença, até que o tempo se
incumba de esfriar o ardor de seu desagrado, que
neste momento de tal modo se mostra revolto, que
dificilmente poderia acalmar-se com maltratar vossa
pessoa.
EDGAR - Algum celerado me fez isso.
EDMUNDO - É o que eu receio. Peço que o eviteis
com paciência, até que se torne mais vagaroso o
ímpeto de sua cólera. E, como disse, retirai-vos para
os meus aposentos, onde disporei as coisas de modo
que possais ouvir milorde conversar. Ide logo, por
obséquio. Se vos arriscardes a sair, que seja armado.
EDGAR - Armado, irmão?
EDMUNDO - Mano, eu vos aconselho para vosso
bem; saí armado. Não quero ser homem de bem, se
em tudo isso houver algo de bom para vós. Conteivos
o que vi e ouvi, mas muito por cima, sem vos
apresentar a imagem horrorosa da coisa. Peço-vos,
ide logo.
EDGAR - Terei logo notícias vossas?
EDMUNDO - Neste negócio estarei a vosso inteiro
dispor.
(Sai Edgar.)
Um pai simplório e um mano em tudo nobre, que,
pela própria condição, tão longe se acha de qualquer
mal, que nem suspeitas sobre isso pode ter e em
cuja tola probidade montar vai facilmente minha
velhacaria. A coisa é clara: terras vou ter, ganhandoas
com finura; falhando o berço, o espírito as segura.
(Sai.)
Cena III
Um quarto no palácio do duque de Albânia. Entram
Goneril e seu intendente Osvaldo.
GONERIL - Meu pai bateu no gentil-homem, por ter
este ralhado com o bobo dele?
OSVALDO - Sim, minha senhora.
GONERIL - Dia e noite me ofende. Não se passa
nenhuma hora sem que ele não fuzile com qualquer
grosseria, que a nós todos traz somente discórdia.
Não o suporto; turbulentos estão seus cavaleiros e a
censurar-nos ele próprio vive por dá cá aquela palha.
Não pretendo falar com ele, quando vier da caça.
Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa
negligência algum serviço, estará bem; responderei
por tudo.
OSVALDO - Ei-lo, senhora; ouço o barulho, dele.
(Ouve-se toque de trompa.)
GONERIL - Mostrai a negligência que quiserdes, vós e
os outros de casa, pois desejo que me venha falar a
esse respeito. Se não gostar, então que se transfira
para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou
certa, está de acordo com o meu, em não querer ser
governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre
o que já doou! Por minha vida, os velhos tontos são
de novo crianças; com ralhos, só, precisam ser
tratados. Lembrai-vos do que eu disse.
OSVALDO - Sim, senhora.
GONERIL - E lançai frio olhar para seus homens.
Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar
nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais
delongas, escreverei à mana, para que ela faça como
eu. Prepara logo a ceia.
(Saem.)
Cena IV
Uma sala no mesmo. Entra Kent disfarçado.
KENT - Se eu puder conseguir uma outra fala que
torne a minha estranha, é bem possível que minha
boa empresa a alcançar venha o êxito pleno pelo qual
as próprias feições desfigurei. Banido Kent, se ora
servir puderes lá mesmo de onde há pouco foste
expulso, pode se dar que o mestre a que tanto amas
te encontre serviçal.
(Toque de trompa. Entram Lear, cavaleiros e
séqüito.)
LEAR - Não me façam esperar nem um segundo pelo
jantar. Vai logo aprontá-lo.
(Sai o criado.) Então, quem és tu?
KENT - Um homem, senhor.
LEAR - Qual é a tua profissão? Que pretendes de
nós?
KENT - Minha profissão é não ser menos do que
pareço; servir fielmente a quem confiar em mim;
amar quem for honesto; conversar com quem for
sábio e falar pouco; temer a justiça; brigar quando
não houver outro jeito, e não comer peixe.
LEAR - Quem és tu?
KENT - Um tipo de coração honesto e tão pobre
quanto o rei.
LEAR - Se como súdito és tão pobre quanto ele como
rei, és, realmente, paupérrimo. Que desejas?
KENT - Serviço.
LEAR - A quem queres servir?
KENT - A vós.
LEAR - Conheces-me, companheiro?
KENT - Não, senhor; mas revelais algo em vossa
postura, que me leva a vos chamar de mestre.
LEAR - E que coisa é essa?
KENT - Autoridade.
LEAR - Que serviços podes prestar?
KENT - Sei guardar um segredo honesto, montar a
cavalo, correr, estropiar uma história interessante,
dizer grosseiramente uma mensagem fácil. Tudo o
que um homem ordinário pode fazer, eu também
posso, sendo o melhor em mim a diligência.
LEAR - Que idade tens?
KENT - Não sou tão jovem, senhor, para amar uma
mulher por causa de seu canto, nem tão velho para
me apaixonar por ela sem motivo: tenho quarenta e
oito anos na carcunda.
LEAR - Segue-me; irás servir-me. Se depois do
jantar não me pareceres pior, não nos separaremos
muito logo. O jantar, olá! Onde está o meu rapaz? O
meu bobo? - Vós, aí: ide chamar o meu bobo.
(Sai um criado.)
(Entra Osvaldo.)
Vós aí, maroto: onde está minha filha?
OSVALDO - Se o permitis...
(Sai.)
LEAR - Que foi que disse aquele tipo? Chamai-me
aqui esse rústico.
(Sai um cavaleiro.)
Onde está o meu bobo, eh! Só parece que o mundo
está dormindo. Então, onde está esse mastim?
(Volta o cavaleiro.)
CAVALEIRO - Ele disse, milorde, que vossa filha não
está passando bem.
LEAR - Por que motivo aquele escravo não voltou,
quando o chamei?
CAVALEIRO - Senhor, ele me respondeu
redondamente que não queria voltar.
LEAR - Não queria?
CAVALEIRO - Senhor, não sei o que acontece, mas, a
meu ver, Vossa Alteza não é tratado com a afeição
cerimoniosa a que estáveis acostumado. Observa-se
sensível quebra de carinho, não só com relação à
conduta da criadagem, como com a do próprio duque
e a de vossa filha.
LEAR - Ah! És dessa opinião?
CAVALEIRO - Suplico-vos, milorde, que me perdoeis,
se eu estiver enganado, mas o meu zelo não pode
ficar calado, quando penso que Vossa Alteza está
sendo prejudicado.
LEAR - Fazes-me lembrado de minha própria
percepção; ultimamente tenho notado um certo quê
de negligência, que eu atribuía mais à minha própria
natureza desconfiada do que a qualquer intenção real
e ao propósito de descortesia. Vou examinar isso de
mais perto. Mas onde está o meu bobo? Há dois dias
que não o vejo.
CAVALEIRO - Desde que a minha jovem senhora
partiu para a França, senhor, o bobo definhou
bastante.
LEAR - Sobre isso, basta; já o havia notado muito
bem. - Vós aí! Ide dizer a minha filha que desejo
falar-lhe.
(Sai o criado.)
E vós, ide chamar o meu bobo!
(Sai outro criado.)
(Entra Osvaldo.)
Oh! Vós, Senhor! Vinde cá, senhor! Quem sou eu,
senhor?
OSVALDO - O pai da senhora.
LEAR - “O pai da senhora”? O criado do senhor, cão!
Bastardo, escravo, maroto!
OSVALDO - Com vossa permissão, milorde, mas não
sou nada disso.
LEAR - Atreves-te a fitar-me desse modo, biltre?
(Bate-lhe.)
OSVALDO - Não consinto que me batam, milorde.
KENT - Nem que te dêem um pontapé, meu jogador
de futebol?
(Dá-lhe um pontapé.)
LEAR - Agradeço-te, companheiro; tu me serves, e
eu passarei a estimar-te.
KENT - Vamos, senhor, levantai-vos! Fora daqui! Vou
ensinar-vos a distinguir as pessoas. Fora! Fora! Se
quiserdes medir outra vez vosso comprimento de
labrego, é só continuardes aqui. Caso contrário, fora!
Vamos! Não tendes senso? Assim!
(Empurra Osvaldo para fora.)
LEAR - Muito obrigado, amigo servidor; aqui está
pelo teu serviço.
(Dá dinheiro a Kent.)
(Entra o bobo.)
BOBO - Eu também desejo recompensá-lo; aqui está
o meu barrete.
(Oferece o gorro a Kent.)
LEAR - Então, meu belo peralta, que estás fazendo?
BOBO - Amigo, farias bem em aceitar o meu gorro.
KENT - Por quê, bobo?
BOBO - Por teres tomado o partido de quem já caiu
no desagrado. É assim; se não puderes sorrir do lado
do vento, em pouco tempo apanharás resfriado.
Toma; fica como meu gorro. Ora vê, este sujeito
baniu duas de suas filhas e fez um grande favor à
terceira, contra a própria vontade dela. Se vais seguilo,
precisarás usar o meu gorro. Então, meu tio?
Quisera ter dois gorros e duas filhas.
LEAR - Por quê, menino?
BOBO - Se eu chegasse a lhes dar todos os meus
haveres, me reservaria os gorros. Este aqui me
pertence; pede outro a tuas filhas.
LEAR - Toma cuidado com a chibata, maroto!
BOBO - A verdade é um cachorro que se mete na
casinha e precisa ser chibateada para sair, enquanto
a senhora galga pode ficar a feder junto do fogo.
LEAR - Pestilência amarga para mim!
BOBO (a Kent) - Amigo, vou ensinar-te um discurso.
LEAR - Ouçamo-lo.
BOBO - Toma nota, tio: Não esbanjes teu estado;
embora o saibas, calado; não andes, sejas levado; no
aprender, muito cuidado; guarda sempre o mor
bocado; deixa as mulheres e o vinho; não te metas
com o vizinho, porque em uma e outra dezena terás
mais uma vintena.
KENT - Isso tudo e nada é a mesma coisa, bobo.
BOBO - Então é como discurso de advogado sem
salário. Destes-me nada por ele. Tio, poderíeis fazer
algum uso de nada?
LEAR - Não, menino; nada pode ser feito de nada.
BOBO - (a Kent) - Por obséquio, dize-lhe a quanto
monta a renda de suas terras; ele não acredita num
bobo.
LEAR - Um bobo amargo.
BOBO - Saberás dizer, meu rapaz, que diferença há
entre um bobo amargo e um bobo doce?
LEAR - Não, menino; ensina-ma.
BOBO - Quem o conselho te deu de doar todas as
tuas terras põe aqui ao lado meu, e o dele toma; não
erras: verás logo, lado a lado, o doce bobo e o
amargoso; um aqui, sarapintado, o outro aí mesmo,
achacoso.
LEAR - Com isso queres dizer que eu sou bobo,
menino?
BOBO - Já abriste mão de todos os outros títulos;
esse é o único que te veio do berço.
KENT - Milorde, o que ele disse não é inteiramente
destituído de senso. BOBO - Não, por minha fé; os
senhores e os grandes não permitirão que eu fique
sozinho; se eu obtiver o monopólio, eles hão de
querer sua parte, e as senhoras também; não
deixarão que toda a loucura fique comigo; virão
arrebatar-me um pedaço. Tio, dá-me um ovo, que te
darei duas coroas.
LEAR - Que espécie de coroas?
BOBO - Ora, depois de haver cortado o ovo em duas
partes e comido o seu conteúdo, as duas coroas do
ovo. Quando partiste pelo meio a tua coroa e deste
as duas metades, carregas-te o burro às costas
através do atoleiro. Não tinhas espírito em tua coroa
calva, quando fizeste presente da de ouro. Se eu
falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o
primeiro que me compreender. Nunca os lobos
passaram tanto apuro. O sábio é tolo e fraco; a
mente não podendo usar no escuro, vive como
macaco.
LEAR - Desde quando ficaste tão amigo de canções,
maroto?
BOBO - Ora, tio, desde que de tuas filhas fizeste tuas
mães. Porque desde que lhes entregaste a vergasta e
desceste os calções, elas choram de alegria; de
tristeza eu rio e canto, por ver um rei na folia mas na
cabeça, nem tanto. Tio, por obséquio, arranja um
mestre-escola que ensine teu bobo a mentir.
Desejara muito aprender a mentir.
LEAR - Se mentires, maroto, serás açoitado.
BOBO - Não posso compreender que tu e tuas filhas
sejais aparentados; elas me açoitam por eu dizer a
verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no
caso de eu mentir, sem contarmos que algumas
vezes tenho sido açoitado por estar quieto. Quisera
ser tudo neste mundo, menos bobo, mas não desejo
ser o que és, tio; dos dois lados raspaste o espírito,
sem deixar nada no meio. Aí vem vindo uma das
raspadoras.
(Entra Goneril.)
LEAR - Então, filha? Por que esse diadema
carrancudo? Ultimamente só parece que andais
sempre de sobrecenho fechado.
BOBO - Tu eras um belo tipo, quando não precisavas
preocupar-te com as suas carrancas; agora és um
zero sem número. Presentemente, sou mais do que
tu; sou um bobo, ao passo que tu és nada.
(A Goneril.)
Pois não, pois não! Vou segurar a língua, que é o que
vossa fisionomia me está ordenando, muito embora
nada houvésseis dito. Mum, mum! Quem não
guardou mel nenhum, tem de viver em jejum. Ali
está uma ervilha sem grão.
(Apontando para Lear.)
GONERIL - Não somente, senhor, o vosso bobo, que
se permite muitas liberdades, como outros cavaleiros
insolentes de vosso séqüito, a cada hora brigam e
suscitam questões, fazendo arruaças de todo
intoleráveis. Pois, senhor, pensei que, pondo-vos a
par do fato, acharia remédio; mas começo,
realmente, a me temer, pelo que há pouco dissestes
e fizestes, que esse abuso apoio encontra em vós,
tomando alento em vossa tolerância. Se for isso, não
deixará de ser punida a falta nem de velar os meios
de defesa que, ao bem-estar de todos só visando,
poderá ofender-vos por maneira que, em outras
conexões, fora aprobriosa, mas que a necessidade o
nome empresta de conduta discreta.
BOBO - Porque, como sabeis, tio, tanto ao pardal o
cuco deu bom milho, que a cabeça esmagou-lhe o
próprio filho. E assim a luz se apagou e nós ficamos
no escuro.
LEAR - Sois nossa filha?
GONERIL - Desejara que usásseis o bom senso de
que vos sei provido e que pusésseis de lado essas
disposições recentes que a tal ponto vos tem mudado
a essência.
BOBO - Não saberá um asno, quando a carroça puxa
o cavalo? “Toca, Jug! Eu te amo!”
LEAR - Conhece-me ainda alguém? Não, não é Lear.
Andava Lear assim? Falava assim? Onde terá os
olhos? Há de fraca ter a razão e rombos os sentidos.
Estarei acordado? Não. Quem pode vir-me contar
quem em verdade eu seja?
BOBO - A sombra de Lear.
LEAR - Desejaria aprender isso, porque pelos
atributos da soberania, do conhecimento e da razão,
eu seria levado a crer que tive filhas.
BOBO - Que fariam de vós um pai obediente.
LEAR - Como vos chamais, bela senhora?
GONERIL - Esse espanto, senhor, é mui do gosto de
vossa nova telha. Desejara que compreendêsseis
bem minha intenção. Por velho e venerável, deveríeis
ser sensato também. Uma centena de cavaleiros e
escudeiros tendes para servir-vos, gente de tal modo
desordeira, atrevida e depravada, que nossa corte,
corrompida pelas práticas deles todos, se assemelha
a taberna em motim. O epicurismo e a torpeza
fizeram-na tornar-se mais taberna e bordel do que
palácio cheio de tradições. O próprio pejo está a
exigir uma medida urgente. Deixai-vos, pois, rogar
por quem, sem isso, vos tomara o que pede, isto é,
de um pouco reduzir vosso séqüito, devendo ser o
restante, apenas, destinado a vos cuidar da idade e,
sobretudo, ter consciência de vós e dessa gente.
LEAR - Demônio e inferno! Tragam meu cavalo! Reuni
logo meu séqüito! Bastarda degenerada, não desejo
ser-te pesado em nada. Resta-me outra filha.
GONERIL - Bateis na minha gente, e essa canalha
desordenada trata os superiores como se fossem
criados.
(Entra Albânia.)
LEAR - Ai de quem se arrepende tardiamente! (A
Albânia.) Ó senhor, vós aqui? São ordens vossas?
Falai, senhor! - Olá! Mandai trazer-me o meu cavalo!
- Ingratidão, demônio de coração de mármore, mais
feio, quando numa criança se revela, do que o
monstro marinho.
ALBÂNIA - Por obséquio, senhor, ficai mais calmo.
LEAR (a Goneril) - Detestável harpia, estás mentindo!
Minha gente toda é escolhida e de costumes limpos;
conhecedores são de seus deveres e com muito
cuidado mantêm sempre a honra do próprio nome. Ó
faltazinha, como em Cordélia apareceste feia! Tu,
como banco de tormento, as traves de minha
natureza deslocaste de seu estado fixo e todo o afeto
me chupaste do peito, transformando-o no fel mais
amargoso. Ó Lear! Ó Lear!
(Batendo na testa.)
Bate agora a esta porta, que a loucura deixou entrar
e o teu tão caro juízo permitiu que saísse. Vamos,
vamos, minha gente!
ALBÂNIA - Senhor, sou inocente, como não sei
também qual o motivo que vos deixou colérico.
LEAR - É possível, meu senhor. Natureza, agora me
ouve! Deusa querida, atende-me! Suspende teus
desígnios, se acaso pretendias deixar fecunda agora
esta criatura; ao ventre lança-lhe a esterilidade,
ressequidos lhe deixa os órgãos todos da procriação,
não permitindo nunca que lhe nasça do corpo
desprezível uma criança que a possa honrar um dia.
Se tiver de procriar, que tenha um filho feito só de
malícia, porque viva para um desnaturado e
pervertido tormento lhe ser sempre. Que lhe faça
muitas rugas nascer na fronte jovem e, com ardentes
lágrimas, profundos sulcos lhe abra nas faces; que
compense com chacotas e riso os sofrimentos e
cuidados maternos, para que ela possa ver como dói
mais fundamente que o dente da serpente a filha
ingrata. Fora daqui! Partamos!
ALBÂNIA - Deuses do alto, que adoramos, que é que
houve?
GONERIL - Não vos seja preocupação saberdes o
motivo. Que seus caprichos tenham livre o campo
que sua caduquice lhes confere.
(Volta Lear.)
LEAR - Como! Cinqüenta dos meus homens, postos
de lado, de uma vez, em quinze dias?
ALBÂNIA - Que aconteceu, senhor?
LEAR - Já vou contar-te.
(A Goneril.)
Vida e morte! Envergonha-me que tenhas poder para
abalar dessa maneira minha virilidade e que estas
lágrimas escaldantes, que à força se me escapam, te
façam parecer condigna delas. Caiam em ti nevoeiros
e rajadas. Que as feridas profundas da paterna
maldição os sentidos te corroam. Velhos olhos e
tontos, se chorardes novamente essa causa, hei de
arrancar-vos para ao barro atirar-vos e, com as gotas
que estiverdes perdendo, amolecê-lo. Chegamos a
este ponto? Pois que seja! Outra filha me resta,
estando eu certo de que ela é para mim bondosa e
afável. Quando vier a saber o que fizeste, há de com
as próprias unhas arranhar-te essas feições de lobo.
Então, a forma me verás reassumir que ora presumes
perdida para sempre. É o que te digo.
(Saem Lear, Kent e o séqüito.)
GONERIL - Ouvistes tudo?
ALBÂNIA - Goneril, não posso ser tão parcial, embora
vos estime...
GONERIL - Por obséquio, é o bastante. Olá! Osvaldo!
(Ao bobo.) Vós, senhor, mais velhaco do que bobo,
segui vosso patrão.
BOBO - Tio Lear! Tio Lear! Espera aí e leva o bobo
contigo! Se uma raposa eu pegasse com sua filha
repace e o couro dela tirasse... De gorro assim sobre
a face, seria o bobo da classe.
(Sai.)
GONERIL - Esse homem tem razão: cem cavaleiros!
Fora boa política, em verdade, deixá-lo com cem
homens que, por nada, qualquer queixa, capricho ou
fantasia, armas à caduquice lhe dariam, ficando
dependendo nossas vidas só de sua mercê. Olá,
Osvaldo!
ALBÂNIA - Vosso medo é excessivo.
GONERIL - É mais seguro do que confiar demais. E
preferível o obstáculo afastar de que me temo, a
temer ser pegada de surpresa. Conheço-o muito
bem; já por escrito comuniquei à mana o que ele
disse. Se ela o aceitar com todos os seus homens
depois de eu ter mostrado...
(Entra Osvaldo.)
Então, Osvaldo, já escrevestes a carta para a mana?
OSVALDO - Sim, escrevi, senhora.
GONERIL - Levai convosco alguns dos nossos homens
e parti a cavalo. Dai-lhe plenas informações de tudo
o que receio, acrescentando o que quiserdes, para
reforçar o recado. Parti logo, e, assim, voltai
depressa.
(Sai Osvaldo.)
Não, milorde, essa brandura que mostrais, leitosa,
conquanto eu não censure, permiti-me que vos diga,
porém: mais censurado sois por falta de senso do
que mesmo louvado por bondoso em demasia.
ALBÂNIA - Não sei até onde vosso olhar alcança, mas
temo que estragueis a boa usança.
GONERIL - Então...
ALBÂNIA - Bem, bem; os fatos o dirão. (Saem.)
Cena V
Pátio diante do mesmo. Entram Lear, Kent e o bobo.
LEAR - Parti na frente, para Gloster, com estas
cartas. Não conteis a minha filha do que sabeis senão
o que ela vos perguntar com relação ao assunto da
carta. Se não fordes muito diligente no recado,
chegarei lá primeiro.
KENT - Não dormirei, senhor, enquanto não tiver
entregue vossa carta.
(Sai.)
BOBO - Se o homem tivesse o cérebro no calcanhar,
não correria o risco de apanhar frieira?
LEAR - Correria, pequeno. BOBO - Então peço-te que
fiques alegre, porque o teu espírito não irá andar de
chinelas.
LEAR - Ah, ah, ah!
BOBO - Vais ver como tua outra filha te trata bem,
porque embora ela se pareça tanto com esta aqui
como uma maçã silvestre com uma maçã comum,
posso dizer o que posso dizer.
LEAR - Que é que podes dizer, pequeno? BOBO - Que
ela te vai ser de gosto tão idêntico ao gosto desta
como o de duas maçãs silvestres. Saberás dar-me a
razão de termos o nariz no meio do rosto?
LEAR - Não.
BOBO - Ora, é para ficarmos com um olho de cada
lado do nariz, a fim de espiarmos o que não
pudermos cheirar.
LEAR - Fui injusto com ela...
BOBO - Sabes como é que a ostra fabrica a valva?
LEAR - Não.
BOBO - Nem eu; mas poderei dizer-te porque o
caracol tem casa.
LEAR - Por que é?
BOBO - Ora, é para guardar a cabeça e não a dar às
filha ficando, assim, sem ter onde guardar os cornos.
LEAR - Quero esquecer minha natureza. Um pai tão
carinhoso! Estão prontos os cavalos?
BOBO - Teus asnos foram procurá-los. A razão por
que sete estrelas não são mais de sete é muito
interessante.
LEAR - Não é por não serem oito?
BOBO - Justamente. Darias um excelente bobo.
LEAR - Retomá-lo pela força! Ingratidão monstruosa!
BOBO - Se tu fosses o meu bobo, tio, eu te daria uma
sova por teres ficado velho antes do tempo.
LEAR - Como assim?
BOBO - Não devias ter envelhecido antes de ficares
sábio.
LEAR - Não quero ficar louco, céu bondoso! Mantémme
o juízo; tudo menos louco!
(Entra um gentil-homem.)
Então, estão prontos os cavalos?
GENTIL-HOMEM - Estão prontos, senhor.
LEAR - Vamos, pequeno.
BOBO - A donzela que rir de mim neste momento,
donzela não será, se é certo o que ora avento.
(Saem.)
ATO II
Cena I
Pátio diante do castelo do duque de Gloster. Entram
Edmundo e Curan, que se encontram.
EDMUNDO - Deus te guarde, Curan.
CURAN - E a vós também, senhor. Estive com vosso
pai e lhe dei a notícia de que o duque de Cornualha e
Regane sua duquesa chegarão aqui esta noite.
EDMUNDO - E por que isso?
CURAN - Ignoro-o. Não ouvistes as notícias que
correm por aí? Refiro-me apenas às que são
cochichadas e que não são mais do que assuntos
soprados aos ouvidos.
EDMUNDO - Eu? Não. Por obséquio, quais são elas?
CURAN - Não ouvistes dizer que é muito provável
uma guerra entre os duques de Cornualha e de
Albânia?
EDMUNDO - Nem uma palavra.
CURAN - Então ainda haveis de ouvir algo a esse
respeite. Passai bem, senhor.
(Sai.)
EDMUNDO - O duque aqui esta noite? Melhor...
Ótimo! Isso cai mesmo certo no meu plano. Meu pai
pôs gente em busca de meu mano e um negócio
nauseoso ainda me resta para ser posto em prática.
Mãos à obra. Celeridade e sorte! Mano, mano! Uma
palavra! Vinde! Estou chamando!
(Entra Edgar.)
Meu pai está de espreita. Oh! Fugi logo; deixai o
esconderijo, que este ponto já se tornou sabido. E
conveniente aproveitar a noite. Por acaso não vos
manifestastes em prejuízo do duque de Cornualha?
Ele vem vindo para aqui, apressado, em plena noite,
e Regane com ele. Não dissestes a favor dele nada,
contra o duque de Albânia? Pensai bem.
EDGAR - Não disse nada, tenho certeza.
EDMUNDO - Ouço meu pai que chega. Perdoai-me,
mas por fingimento, apenas, tirai também a espada e
defendei-vos, só por simulação. Parti, agora. -
Rendei-vos! Vamos ante nosso pai! Luz, aqui! - Fugi,
mano! - Tochas! Tochas! - Assim. Adeus, adeus.
(Sai Edgar.)
Agora um pouco de sangue há de fazer nascer a idéia
de um combate mais sério.
(Fere-se no braço.)
Já vi bêbedos fazer por brincadeira mais do que isso.
Pai! Pai! Prendei! Prendei! Ninguém me ajuda?
(Entram Gloster e criados, com tochas.)
GLOSTER - Edmundo, onde está o biltre?
EDMUNDO - Aqui se achava, no escuro, espada em
punho, depravados conjuros resmungando e, como a
dama auspiciosa, a invocar a própria lua.
GLOSTER - Mas onde está?
EDMUNDO - Senhor, estou sangrando.
GLOSTER - Mas onde está esse vilão, Edmundo?
EDMUNDO - Fugiu por lá, senhor, quando viu que era
de todo inútil...
GLOSTER - Lá? Ide atrás dele!
(Saem alguns criados.)
”De todo inútil...” Quê?
EDMUNDO - Sim, persuadir-me a vos tirar a vida.
Respondi-lhe que os deuses vingadores desferiam
seus duros raios contra os parricidas; lembrei-lhe os
laços múltiplos e fortes que aos pais os filhos
prendem. Em resumo, senhor: vendo o desgosto que
eu opunha a suas intenções desnaturadas,
enraivecido, espada em punho, ataca-me o corpo
exposto e o braço aqui me fere. Mas ao ver que os
espíritos eu tinha bem despertos e que pela justeza
da causa a combatê-lo se atreviam, ou por eu ter
muito barulho feito, de repente, fugiu.
GLOSTER - Pode esconder-se onde quiser, que neste
território encontrado há de ser. E, uma vez preso...
liquidado. Meu mestre, o nobre duque, meu mui
digno patrono e amado príncipe chega esta noite.
Assim, proclamarei, com sua autoridade, que há de
nossa graça alcançar quem quer que encontre o biltre
e o covarde assassino entregue ao cepo. E se alguém
o esconder, morra igualmente!
EDMUNDO - E quando procurava dissuadi-lo de
semelhante intento, achando-o cada vez mais
determinado em realizá-lo, e ameacei denunciá-lo,
respondeu-me: “Bastardo sem haveres, então pensas
que, se acareados fôssemos, alguma confiança em
teu valor, virtude ou mérito reforçar poderia o que
dissesses? Não; pois o que eu negasse - e hei de
fazê-lo, embora apresentasses cartas minhas -
atribuiria tudo a teus conselhos, traça e manobras
pérfidas. Preciso fora deixares tolo o mundo inteiro,
para que ninguém visse quanto o lucro de minha
morte te seria estímulo para que a procurasses”.
GLOSTER - Celerado teimoso e endurecido! Negaria
sua própria carta? Não, não é meu filho.
(Fanfarras.)
Atenção! As trombetas são do duque. Não sei por que
motivo nos visita. Os portos fecharei, para que o
biltre não nos possa escapar. O duque me há de
permitir isso. Espalharei por toda parte o retrato
dele; assim, o reino conhecerá seus traços. Minhas
terras, rapaz fiel e natural, recursos hei de arranjar
para que a herdá-las venhas.
(Entram Cornualha, Regane e séqüito.)
CORNUALHA - Então, meu nobre amigo? Desde o
instante que aqui cheguei - e foi neste momento -
soube coisas mui raras.
REGANE - Confirmadas, toda vingança ainda não
bastara para ir sobre o ofensor. Então, milorde?
GLOSTER - Ó senhora, senhora! Espedaçado ficou-me
o coração. Espedaçado!
REGANE - Como! O afilhado de meu pai tentou contra
vossa existência? Aquele mesmo em que meu pai pôs
nome? Vosso Edgar?
GLOSTER - O senhora! A vergonha ora me manda
ficar calado.
REGANE - Acaso ele não era companheiro dos
homens turbulentos que servem a meu pai?
GLOSTER - Não sei, senhora Oh! É terrível tudo!
EDMUNDO - Sim, senhora; pertencia a esse bando.
REGANE - Se assim é, não admira que mostrasse
sentimentos tão baixos. Partiu deles a idéia de matar
o velho, para desbaratarem logo seus haveres. De
minha irmã recebi hoje cedo boas informações sobre
essa gente, com tantas advertências, que, se acaso
quiserem ir parar em minha casa, não me encontrarei
lá.
CORNUALHA - Nem eu, Regane. Edmundo, soube
agora que prestastes a vosso pai serviços de bom
filho.
EDMUNDO - Só fiz o meu dever.
GLOSTER - Fez frustrar a manobra do outro, tendo
recebido a ferida que aqui vedes, quando tentou
prendê-lo.
CORNUALHA - Seguiu gente no encalço dele?
GLOSTER - Sim, meu bom senhor.
CORNUALHA - Sendo apanhado, havemos de deixá-lo
em condições de nunca mais receio vir a causar a
alguém. Tomai vós mesmo todas as providências e
disponde do meu poder como vos for do agrado. E
vós, Edmundo, tão recompensado neste momento,
assim pela obediência como pela virtude, sereis
nosso. Pessoas de lealdade tão provada são muito
necessárias. Começamos, assim, por nos apoderar de
vós.
EDMUNDO - Embora mais não faça, hei de lealmente
servir a meu senhor.
GLOSTER - Muito agradeço por ele a Vossa Graça.
CORNUALHA - Com certeza não sabeis a razão desta
visita...
REGANE - . . .assim fora de tempo, abrindo nosso
caminho pela noite de olhos negros. Motivos, nobre
Gloster, de algum peso tornam vossos conselhos
necessários. Nosso pai nos escreve, e nossa mana,
sobre certos dissídios, parecendo-me mais acertado
responder a todos longe de nossa casa. Os
mensageiros estão aqui à espera da resposta. Velho e
bondoso amigo, deixai calmo, de todo, o coração, e
em nosso auxílio vinde com bons conselhos sobre
assunto que exige muita urgência.
GLOSTER - Ao vosso inteiro dispor, senhor, me
encontro. Vossas Graças são bem-vindas aqui.
(Saem.)
Cena II
Diante do castelo de Gloster. Entram Kent e Osvaldo,
por lados diferentes.
OSVALDO - Boa manhã para ti, amigo; és desta
casa?
KENT - Sou.
OSVALDO - Onde poderemos pôr os cavalos?
KENT - No charco.
OSVALDO - Informa-me, por obséquio, se me tens
amizade.
KENT - Não te tenho amizade nenhuma.
OSVALDO - Nesse caso não me preocuparei contigo.
KENT - Se eu te pegasse no curral de Lipsbury,
obrigar-te-ia a te preocupares comigo.
OSVALDO - Por que me tratas desse modo? Não te
conheço.
KENT - Mas eu te conheço, traste.
OSVALDO - Por quem me tomas tu?
KENT - Por um biltre, um canalha, devorador de
restos; um biltre ignóbil, atrevido, oco, indigente, de
três librés, massabruta, imundo, de meias
estragadas; um biltre com fígado de lírio, um
chicanista; nascido na sarjeta, namorador do
espelho, espinha mole, petimetre; um lacaio que só
herdou uma roupa, um tipo que servirá de
alcoviteiro, à guisa de bons serviços, mas que não
passa de um misto de velhaco, mendigo, covarde,
alcoviteiro e herdeiro de uma cadela bastarda; um
tipo em que darei uma coça de arrancar rugidos, no
caso de contestares a menor sílaba de todos estes
teus títulos honoríficos.
OSVALDO - Ora, que sujeito monstruoso és tu, para
deblaterares contra uma pessoa que nem te conhece
nem é conhecida por ti?
KENT - Que tipo de cara de bronze és tu, para dizeres
que não me conheces, se há dois dias eu te dei um
pontapé na frente do rei? Saca a tua espada, pulha;
ser noite não importa, visto que há luar; vou fazer de
ti uma sopa à luz da lua.
(Sacando da espada.)
Vamos, desembainha também a tua espada, maroto,
coisa à toa, peralvilho! Vamos, desembainha!
OSVALDO - Retira-te daqui! Não tenho nada que ver
contigo.
KENT - Desembainha, maroto! Trouxestes cartas
contra o rei e tomais o partido da boneca vaidosa,
contra a realeza do pai dela. Saca a espada, biltre; se
não retalho-te as canelas. Saca da espada, biltre!
Toma posição!
OSVALDO - Socorro! Olá! Assassino! Socorro!
KENT - Ataca, escravo! Defende-te, patife! Defendete!
Vamos, ataca, lacaio!
(Bate-lhe.)
(Entra Edmundo, de florete na mão.)
EDMUNDO - Então, que aconteceu?
KENT - E convosco, se vos aprouver, meu rapazinho.
Vinde, meu jovem mestre, que desejo dar-vos uma
lição.
(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.)
GLOSTER - Espadas! Armas! Que se passa aqui?
CORNUALHA - Por vossa vida, paz! Morre quem
prosseguir. Que é que se passa?
REGANE - Os mensageiros são do rei e da mana.
CORNUALHA - Qual o motivo dessa briga? Vamos!
OSVALDO - Quase não posso respirar, milorde.
KENT - Não admira, pois forçaste demais a valentia.
Pulha covarde! A natureza te renega; foste feito por
algum alfaiate.
CORNUALHA - Es um tipo curioso; um alfaiate fazer
um homem?
KENT - Sim, um alfaiate, senhor; um escultor ou um
pintor não o teriam feito tão mal, ainda que só
trabalhassem duas horas.
CORNUALHA - Falai vós agora: que foi que originou
essa briga?
OSVALDO - Este velho desordeiro, senhor, cuja vida
eu poupei só por causa daquelas barbas brancas...
KENT - Z amaldiçoado! Letra inútil! Milorde, se o
permitirdes, amassarei num pilão esse vilão
grosseiro, para enlambuzar com ele as paredes da
latrina. Então poupastes-me as barbas brancas, meu
ranheta?
CORNUALHA - Silêncio, biltre! Grosseirão,
desconheces o respeito?
KENT - Conheço, sim senhor; mas é que a cólera
também tem privilégios.
CORNUALHA - Por que causa ficastes tão colérico?
KENT - Por ver de espada um pulha destituído de
honestidade. Os biltres sorridentes como este aqui,
tal qual os ratos, roem os laços sacrossantos que, por
fortes, não podem desmanchar; adulam todas as
paixões que refervam no imo peito de seus amos; no
fogo põem mais óleo; mais neve, nos humores, de si
frios; afirmam, negam, viram seus pescoços de
alcião, de acordo com as menores brisas e variações
dos amos, ignorando, como os cães, tudo o mais,
senão seguir. A peste nessa cara de epiléptico! Do
meu discurso ris como de um tolo? Ganso, se eu te
apanhasse na planície de Sarnum, tocar-te-ia a
Camelot, fazendo-te grasnar.
CORNUALHA - Que é isso, velho? Ficastes louco?
GLOSTER - Qual a razão disso? Vamos, falai.
KENT - Não pode haver contrários que revelem maior
antipatia do que eu e esse patife.
CORNUALHA - Por que causa o chamas de patife?
Que te fez?
KENT - Não vou com a cara dele.
CORNUALHA - Nem com a minha não é assim? E a
deste aqui, e a dela?... KENT - Senhor, tenho por
hábito ser franco: em minha vida toda já vi rostos
mais agradáveis do que quantos posso discernir
sobre os ombros dos presentes.
CORNUALHA - E algum sujeito que por já ter sido
louvado de franqueza, usa linguagem rude e
insolente, contra as próprias vestes de sua natureza.
É- lhe impossível adular. Não! Caráter reto e honesto.
Só diz o que é a verdade; os mais que a aceitem, se
puderem; se não, falou sincero. Conheço muito bem
esses bargantes, cuja franqueza abriga mais enganos
e corruptos intentos do que vinte desses coitados
cheios de zumbaias que cumprem belamente seus
deveres.
KENT - Por minha alma, senhor, pela verdade, com a
permissão de vosso augusto aspecto, cujo poder é
como a auréola rútila da cabeça de Febo
coruscante...
CORNUALHA - Que pretendeis com isso?
KENT - Deixando de lado meu estilo, que tanto
desaprovais, senhor, sei perfeitamente que não sou
bajulador. Quem vos enganou com fraseado polido
não passava de um velhaco, o que, de minha parte,
não pretendo ser, ainda que disso me adviesse
conquistar o vosso desagrado.
CORNUALHA - Que ofensa lhe fizestes?
OSVALDO - Eu? Nenhuma. Por um mal-entendido,
não faz muito, aprouve ao rei, seu mestre, castigarme.
Para adular-lhe a cólera, atirou-se-me este aqui
por detrás e derrubou-me, sobre insultar-me, por me
ver caído, remoques atirando-me e estadeando tanta
virilidade, como se algo, de fato, fosse, e encômios
ganhou logo do rei, porque atacara quem já estava
vencido por si mesmo. E ora, animado pelo êxito de
tão grandioso feito, me atacou novamente. KENT -
Todos esses covardes e mandriões fazem de bobo ao
próprio Ajaz.
CORNUALHA - Tragam-me logo o cepo! Maroto
pertinaz, encanecido fanfarrão, haveremos de
ensinar-vos...
KENT - Senhor, para aprender sou muito velho. Para
mim não mandeis trazer o cepo. Pertenço ao rei, e foi
por seu mandado que vos vim procurar. Revelaríeis
pouco respeito e excesso de arrogância contra a
pessoa e a graça de meu amo, pondo no cepo o
mensageiro dele.
CORNUALHA - Trazei-me o cepo! Por minha alma e
honra, há de ficar aí até ao meio-dia.
REGANE - Meio-dia? Até à noite, meu senhor; a noite
toda, aliás.
KENT - Como, senhora! Se eu fosse o cão de vosso
pai, decerto não me daríeis esse tratamento.
REGANE - Mas dou-vo-lo, por serdes seu criado
. CORNUALHA - Este tipo é da cor dos que nos fala
nossa irmã. Vamos; tragam logo o cepo!
(O cepo é trazido.)
GLOSTER - Deixai-me suplicar a Vossa Graça que não
façais tal coisa. Sua falta foi grande; mas o rei, seu
bondoso amo, saberá castigá-lo. A pena baixa que
ora lhe destinais só é aplicável aos mais vis
transgressores, por delitos ordinários ou crimes de
pilhagem. O rei há de achar mal ver-se tratado com
tão pouco respeito no emissário que aqui vai ficar
preso.
CORNUALHA - Isso é comigo; responderei por tudo.
REGANE - Pior ainda há de achar minha irmã que
houvesse sido agredido e insultado o gentil-homem
da parte dela. - Assim; prendei-lhe os pés. Caro
senhor, partamos.
(Kent é posto no cepo.)
(Saem todos, com exceção de Gloster e Kent.)
GLOSTER - Amigo, dás-me pena; mas o duque foi
que o determinou, sabendo todos que seu
temperamento não suporta ser friccionado em nada
ou posto em xeque. Hei de pedir por ti.
KENT - Não, por obséquio, senhor; não dormi nada e
andei bastante. Parte do tempo dormirei; o resto
passarei assobiando. Pode dar-se que pelos
calcanhares cresça a sorte de um homem de valor.
Dou-vos bom dia.
GLOSTER - Está errado o duque. Isto vai mal.
(Sai.)
KENT - Bom rei, confirmas o brocardo antigo: deixas
as bênçãos de um céu calmo e límpido pelo sol
escaldante. Vem para perto, luz do mundo baixo,
porque eu consiga ler esta missiva sob os teus raios
brandos. Quase nunca vemos milagres, se não for
apenas quando infelizes. Veio-me esta carta, sei-o
bem, de Cordélia, que, por sorte, ficou sabendo de
meu curso obscuro e há de achar ocasião, nesta
nossa época desordenada, para dar remédio ao que
estiver doente. Tão cansados por contínuas vigílias,
alegrai-vos, olhos pesados, por não conseguirdes ver
bem neste aposento vergonhoso. Fortuna, passa
bem; sorri de novo e faze andar mais uma vez a
roda.
(Adormece.)
Cena III
Uma parte da charneca. Entra Edgar.
EDGAR - Eu próprio ouvi o pregão em que diziam que
me acho foragido, tendo à caça conseguido escapar
no oco de uma árvore. Não há porto algum livre,
nenhum ponto 59 em que não haja guarda e rigorosa
vigilância, no intuito de apanhar-me. Salvo estarei
enquanto fugir deles, pretendendo assumir a mais
abjeta, mais humilde aparência com que nunca, no
seu desprezo aos homens, a miséria dos animais se
houvesse aproximado. Lama no rosto hei de passar,
nos lombos porei qualquer coberta, desmanchados
trarei sempre os cabelos, e, com minha nudez
patente, hei de enfrentar a fúria dos ventos e do céu.
Tenho modelos e precedentes aqui mesmo, nesses
mendigos tresloucados que, com urros, nos braços
nus e entorpecidos cravam alfinetes, espinhos,
pregos, ramos de rosmaninho e, assim, de aspecto
horrível, nas cabanas, nas vilas miseráveis, nos
apriscos de ovelhas, nos moinhos, com imprecações
de loucos ou com rezas a caridade forçam. Pobre
Tom! Pobre Turlu! Já sou alguma coisa; mas, como
Edgar, serei coisa nenhuma.
(Sai.)
Cena IV
Diante do castelo de Gloster. Kent no cepo. Entram
Lear, o bobo e um gentil-homem.
LEAR - É estranho que de casa se partissem sem me
terem reenviado o mensageiro.
GENTIL-HOMEM - Pelo que saber pude, até esta noite
tenção não tinham de sair de casa.
KENT - Salve, meu nobre mestre!
LEAR - Como! Fazes da vergonha recreio?
KENT - Não, milorde.
BOBO - Ah! ah! Usa ligas muito duras. Os cavalos são
amarrados pela cabeça; cachorros e ursos, pelo
pescoço; os macacos, pela cintura, e os homens
pelas pernas. Quando alguém tem as pernas muito
desenvoltas, calça meias de pau.
LEAR - Quem errou a tal ponto com teu posto, para
te pôr aí?
KENT - Foi ele e ela; o filho e a filha vossa.
LEAR- Não!
KENT - É certo.
LEAR - Não, repito.
KENT - O contrário eu também digo.
LEAR - Não fariam tal coisa.
KENT - Pois fizeram.
LEAR - Juro por Júpiter que não.
KENT - Por Juno, torno a jurar que sim.
LEAR - Não o ousariam, não poderiam tê-lo feito. For
a pior do que um assassínio tal ultraje ao respeito
infligir. Com a mais decente pressa agora me conta
de que modo pudeste merecer, ou antes, eles infligirte
essa pena, se aqui vieste de nossa parte como
mensageiro.
KENT - No instante em que, senhor, na casa deles a
missiva entreguei de Vossa Alteza, sem que tivesse
tido tempo ainda de alçar-me do lugar em que se
achava meu dever ajoelhado, fumegante chegou um
correio, em água todo esfeito de tanta pressa, o
fôlego cortado, a arquejar cumprimentos de sua ama,
Goneril. Entregou-lhes uma carta - sem se importar
com meu recado em curso - que lida fui de pronto, e
a cujo assunto os homens logo reúnem, vão diretos
para os cavalos, dizem-me que os siga e o vagar da
resposta aqui esperasse, dirigindo-me sempre
olhares frios. Tendo o outro mensageiro aqui
encontrado, cuja chegada, vira-o bem, a minha havia
envenenado - e que era o mesmo velhaco que se
comportara contra Vossa Alteza com tanto
atrevimento - mostrando-me mais homem do que
sábio, saquei da espada, enquanto ele alarmava toda
a casa com berros de covarde. Acharam, vosso filho e
vossa filha, essa infração bastante grave, para o
opróbrio merecer por que ora passo.
BOBO - O inverno ainda não passou, no caso de
voarem nesta direção os patos selvagens. Quando os
pais só vestem trapos, os filhos nem querem vê-los;
quando são ricos e guapos, são para eles só
desvelos. A Fortuna marafona sempre os pobres
abandona. Mas apesar de tudo, tuas filhas te
proporcionarão mais dólares do que possas contar
em um ano.
LEAR - Oh! Como ao peito esta paixão me sobe!
Desce, “histerica passio”, dor que sobe! E em baixo
teu lugar. E onde está a filha?
KENT - Senhor, com o conde, aí dentro.
LEAR - Não me sigas; espera aqui.
(Sai.)
GENTIL-HOMEM - Nenhuma ofensa, acaso, fizestes, a
não ser a que contastes?
KENT - Nenhuma. Mas por que traz o rei tão pouca
gente?
BOBO - Se tivesses sido posto no tronco por essa
pergunta, fora bem merecido.
KENT - Por quê, bobo?
BOBO - Vamos pôr-te a aprender com uma formiga,
que te ensinará que no inverno não há trabalho.
Todas as pessoas que seguem o nariz são levadas
pelos olhos, com exceção dos cegos, não havendo
um só nariz, entre vinte, que não perceba quem está
fedendo. Solta a roda grande, quando ela começar a
rolar colina abaixo, se não quiseres quebrar o
pescoço; mas quando a roda grande subir a colina,
bem: que te arraste atrás dela. Quando um sábio te
der melhor conselho, dá-lhe o meu de retorno.
Quisera que só fosse seguido pelos velhos, por ser
conselho de bobo. Quem a outrem serve e lucro tem
em mira, e tudo o mais desleixa, se chove, apronta a
trouxa e se retira, e no pegão o deixa. Mas eu não
fugirei; o bobo fica; seja o sábio fujão. Bobo se torna
um biltre, quando estica; mas biltre o bobo, não.
KENT - Onde aprendeste isso, bobo?
BOBO - Não foi no cepo, bobo.
(Volta Lear, com Gloster.)
LEAR - Recusam-se a falar-me? Estão doentes?
Fatigados? Viajaram toda a noite? Meras tretas;
imagens, tão-somente, de revolta e abandono.
Arranja-me outra resposta mais razoável.
GLOSTER - Meu querido senhor, conheceis bem a
natureza colérica do duque e como sempre
persistente se mostra e irredutível em quanto
determina.
LEAR - Vingança! Peste! Morte! Confusão! Colérica?
Que natureza? Ó Gloster, escuta: falar quero, neste
instante, com o Duque de Cornualha e sua esposa.
GLOSTER - Pois não, senhor; já lhes mandei recado.
LEAR - “Já lhes mandei recado!” Entendes-me,
homem?
GLOSTER - Entendo, bom senhor.
LEAR - O rei deseja conversar com Cornualha, o pai
querido deseja conversar com a própria filha; quer
ser obedecido. Já lhes deram semelhante “recado”?
Sangue e vida! Colérico! O duque é mui colérico!
Dizei ao duque ardente... Não; é cedo. Pode ser que
se encontre doente mesmo. A descuidar nos levam
sempre as doenças dos deveres que impõe, sempre,
a saúde. Já não somos nós mesmos, quando,
opressa, ordena a natureza ao próprio espírito que
padeça com o corpo. Esperar devo; combater quero
este pendor violento que me leva a tomar o acesso
mórbido pelo homem são. Que morra o meu
prestígio!
(Olhando para Kent.)
Por que razão ele se encontra ali? Esse ato me
persuade de que a ausência do duque e da duquesa é
fingimento. Ponham logo meu criado em liberdade!
Ide dizer ao duque e sua esposa que desejo falarlhes
neste instante; agora mesmo! Saiam para ouvirme;
se não, em frente aos aposentos deles irei tocar
tambor de dar a morte ao sono com o barulho.
GLOSTER - Quem me dera que entre vós tudo viesse
a concertar-se!
(Sai.)
LEAR - Ai de mim! Sinto o coração subir. Para baixo,
de novo!
BOBO - Grita com ele, tio, como fazia a cozinheira
com as enguias, ao pô-las vivas na frigideira. Batialhes
na cabeça com uma vara e gritava-lhes: “Para
baixo, mal-educadas! Para baixo!” No entanto, tinha
um irmão que, por pura bondade, passava manteiga
no feno do cavalo.
(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.)
LEAR - Bom dia aos dois.
CORNUALHA - E salve Vossa Graça.
(Kent é posto em liberdade.)
REGANE - Fico alegre por ver Vossa Grandeza.
LEAR - Sim, Regane, sei disso; como as causas
também de pensar dessa maneira. Se o não ficasses,
eu me divorciara da tumba de tua mãe como da de
uma mulher adúltera. (A Kent.) Então, liberto?
Depois falamos nisso. Minha cara Regane, ah! tua
irmã não vale nada. Ó Regane! a maldade corroedora
ela amarrou aqui, como um abutre.
(Indica o coração.)
Mal te posso falar. Não poderias conceber a maneira
desumana... Ah, Regane!
REGANE - Por obséquio, senhor, tende paciência.
Penso que estais tão longe de apreciar-lhe todo o
mérito, como de esquecer-se ela de seus deveres.
LEAR - De que modo?
REGANE - Não posso crer que minha irmã se tenha
descuidado no mínimo de suas obrigações. Se acaso,
meu senhor, procurou restringir a turbulência de
vossos seguidores, deu-se tudo com bases tais e tão
recomendáveis intenções, que de toda pecha a
expungem.
LEAR - Lanço-lhe a maldição!
REGANE - O senhor, já estais velho! A natureza
chegou em vós ao seu confim postremo. Devereis ser
guiado e governado por alguém que, melhor do que
vós mesmo, vossas necessidades compreendesse.
Assim, vos peço, retornai para ela, senhor, e
confessai que injusto fostes.
LEAR - Eu, pedir-lhe perdão? Vede como isso vai bem
com nossa casa: Amada filha, confesso que sou
velho, sendo certo que a velhice é trambolho. Assim,
de joelhos,
(Ajoelha-se.)
peço-vos conceder-me cama, roupa e um pouco de
alimento.
REGANE - Meu bondoso senhor, não prossigais. São
descabidas essas momices. Retornai para ela.
LEAR (levantando-se) - Jamais, Regane; ela cortoume
o séqüito de metade dos homens, dirigiu-me
olhares carrancudos, alcançando-me o coração com a
língua viperina. Que em sua fronte ingrata caiam
todas as vinganças que o céu guardado tenha.
Insuflai-lhe nos ossos jovens, ares pestilenciais,
humores deformantes! CORNUALHA - Ora, senhor,
que coisa!
LEAR - Lançai-lhe, raios ágeis, vossas flamas
ofuscantes nos olhos desdenhosos! Infectai-lhe a
beleza, brumas densas aspiradas dos charcos e
engendradas pelo potente sol, para que venha a
abater-se-lhe o orgulho e encarquilhar-se. REGANE -
Oh deuses abençoados! Iguais votos me fareis,
quando vosso humor violento tomar conta de vós.
LEAR - Jamais, Regane; jamais terás a minha
maldição. Teu ser mui delicado não te leva a
nenhuma aspereza. Os olhos dela são ferozes; os
teus, porém, confortam, não causam queimaduras.
Não se casa com tua natureza rogar praga contra
minhas vontades, reduzir-me o séqüito, lançar-me
termos ásperos, limitar-me a pensão e, finalmente,
ferrolhos antepor à minha entrada. Não; mais do que
ela sabes os deveres da natureza, obrigações dos
filhos, o que a delicadeza impõe a todos e à gratidão
devemos. Esquecida não estás da metade do meu
reino, que te entreguei por dote.
REGANE - Retornemos ao assunto, senhor. LEAR -
Quem pôs meu homem no cepo?
(Ouve-se toque de trombeta.)
CORNUALHA - Que trombeta será essa?
REGANE - Conheço o toque; é minha irmã. Sua carta
fica assim confirmada com a notícia de que viria aqui.
Chegou a senhora?
(Entra Osvaldo.)
LEAR - Eis um escravo, cujo orgulho fácil e barato
repousa nos favores instáveis da senhora a que ele
serve. Fora da minha vista, sacripanta!
CORNUALHA - Que quer dizer com isso Vossa Graça?
LEAR - Quem ao cepo prendeu este meu criado?
Regane, espero que não saibas disto. Mas quem vem
lá?
(Entra Goneril.)
Ó céus, se amais os velhos, se com a obediência
vosso cetro brando se compadece, se também sois
velho, tomai o meu partido e vinde pôr-vos ao meu
lado.
(A Goneril.) Não tens vergonha, acaso, de olhar para
estas barbas? Ó Regane! tomá-la pelas mãos?
GONERIL - Por que não há de fazê-lo, meu senhor?
Qual foi meu erro? Nem tudo é ofensa que a tolice
julga e a loucura nomeia.
LEAR - Ó flancos! duros sois por demais! Resistireis
ainda? Por que no cepo foi parar meu homem?
CORNUALHA - Fui eu que o pus aí, senhor; mas suas
desordens não faziam jus a tanta promoção.
LEAR - Como assim! Fostes vós mesmo?
REGANE - Por obséquio, meu pai; já que sois fraco,
comportai-vos de acordo. Se até ao prazo final de
vosso mês vos conformardes em voltar para a mana,
e lá ficardes, despedindo metade desse séquito,
vinde, então, para mim. Agora me acho fora de casa,
sem dispor dos meios necessários a vosso
tratamento.
LEAR - Procurá-la de novo? Cinqüenta homens
despedidos? Jamais! Preferiria abjurar todo abrigo e
expor-me à própria inimizade do ar, em companheiro
transformar-me do lobo e da coruja, sob a dura
pressão da adversidade. Voltar para ela? Esse
ardoroso França, que recebeu sem dote minha filha
mais nova, para mim fora mais fácil diante do trono
dele ir ajoelhar-me e, tal qual escudeiro, mendigarlhe
pensão mesquinha que esta vida abjeta permita
sustentar. Voltar para ela! Antes tornar-me escravo
ou ser azêmola deste palafreneiro detestável.
(Mostrando Osvaldo.)
GONERIL - Senhor, à vossa escolha.
LEAR - Filha, peço-te que não me deixes louco. Não
desejo, menina, incomodar-te por mais tempo.
Adeus. Não nos veremos nunca mais; nunca mais
voltaremos a encontrar-nos. Mas és meu sangue,
minha carne: filha. Ou melhor: uma doença em
minha carne, a que forçado sou a chamar minha; és
um inchaço, uma úlcera pestosa, um carbúnculo
podre e tumefeito no meu sangue corrupto. Contudo,
não quero repreender-te. Que a vergonha venha
quando quiser; não vou chamá-la. Não pedirei ao
portador de raios que troveje, nem nada a teu
respeito direi de mal a Jove, o juiz supremo. Se
puderes, emenda-te; melhora quando quiseres.
Posso ser paciente. Posso ficar em casa de Regane
com meus cem cavaleiros.
REGANE - Mais cuidado! Não contava convosco, nem
me encontro preparada para vos dar condigno
acolhimento. Ouvi, senhor, a mana. Quem põe razão
nesses acessos vossos facilmente conclui que já
estais velho. Logo... Ela sabe o que convém ao caso.
LEAR - Isso foi bem falado?
REGANE - Quero crê-lo, senhor. Como! Cinqüenta
seguidores? Não vos bastam? Quereis mais gente
ainda? Precisareis de tantos? Sim, que os próprios
perigos e as despesas esse número desaconselham.
Como poderia haver paz numa casa entre tão grande
número de homens sob comando duplo? É difícil se
não quase impossível.
GONERIL - Por que não poderíeis ser servido pela
gente da mana ou pela minha? REGANE - Por que
não, meu senhor? Se qualquer deles de vós se
descuidasse, fora fácil repreendê-los por isso. Se
quiserdes, assim, morar comigo - e agora vejo que
tal coisa é arriscada - pediria que trouxésseis apenas
vinte e cinco. Para mais não terei lugar nem mesmo
disposição.
LEAR - Fui eu que vos dei tudo...
REGANE - E em tempo certo o destes.
LEAR - Instituí-vos minhas depositárias e tutoras,
reservando-me apenas uma escolta desse número.
Como! Deveria procurar-vos, então, com vinte e
cinco? Regane, assim falastes?
REGANE - E repito-o; nem mais um, meu senhor.
LEAR - Certas criaturas boa aparência apresentar
conseguem, quando outras em maldade as
sobrepujam. Não sendo as piores, cabem-lhe elogios.
Contigo ficarei; os teus cinqüenta o dobro são dos
vinte e cinco dela, e o seu amor tu vales duas vezes.
GONERIL - Senhor, ouvi-me. Que necessidade tendes
de vinte e cinco, dez, ou cinco pessoas para vos
servir, em casa que dispõe até mais do dobro disso
para tratar de vós?
REGANE - E por que de uma?
LEAR - Oh! não faleis sobre a necessidade. Nossos
mendigos mais necessitados muita coisa supérflua
ainda possuem. À natureza concedei apenas o que
ela própria exige, e a vida humana tão barata será
como a das feras. És uma dama. Se já fosse luxo
andarmos aquecidos, não teria necessidade alguma a
natureza dessas vestes luxuosas que em matéria de
aquecimento em nada te protegem. Mas a
necessidade verdadeira... Ó céus, dai-me paciência!
É de paciência que necessito agora. Ó deuses! vedes
aqui um pobre velho, tão pesado de anos que de
cuidados, duplamente desgraçado! Se acaso
levantastes o coração das filhas contra os pais, não
me deixeis tão parvo que suporte tudo isso
humildemente; nobre cólera fazei que em mim
desperte, sem deixardes que as armas da mulher, as
gotas de água, as faces varonis manchar me
venham. Não, bruxas desumanas! Tal vingança hei de
tomar de vós, que o mundo inteiro... Farei tais coisas
- quais, ainda o ignoro - que hão de ser o terror de
toda a terra. Pensais talvez que vou derramar
lágrimas? Não, não hei de chorar. Tenho causas
sobejas para tanto; mas antes de fazê-lo, há de
partir-se-me o coração em vinte mil pedaços. Bobo,
vou ficar louco!
(Saem Lear, Gloster, Kent e o bobo.)
CORNUALHA - Recolhamo-nos; vai haver
tempestade.
(Ouve-se a tempestade a distância.)
REGANE - É mui pequena a casa para comportar o
velho e mais seus seguidores.
GONERIL - É só dele toda a culpa. Privou-se do
conforto, tendo, assim, de provar da própria insânia.
REGANE - De grado o acolheria; mas só ele, sem
nenhum de seus homens.
GONERIL - É o que eu penso, também. Mas onde
está milorde Gloster? CORNUALHA - Acompanhou o
velho. Ei-lo de volta.
(Volta Gloster.)
GLOSTER - Está furioso o rei.
CORNUALHA - Para onde foi?
GLOSTER - Pede cavalos; mas não sei para onde
tenciona dirigir-se.
CORNUALHA - Pois deixemo-lo; saberá conduzir-se.
GONERIL - Não insteis, senhor, de jeito algum para
que fique.
GLOSTER - Oh céus! A noite vem baixando, e os
ventos penetrantes já sopram com veemência. Em
muitas milhas em redor não se acha facilmente um
arbusto.
REGANE - Ora, senhor! os teimosos aprendem com
os incômodos que a si mesmos procuram. Fechai logo
vossas portas; os homens que o acompanham são
capazes de tudo. O que eles podem induzi-lo a fazer
- sendo de ouvidos tão fáceis de enganar - manda a
prudência que com razão temamos.
CORNUALHA - Fechai logo vossas portas, senhor.
Minha Regane vos dá um bom conselho. A noite é
horrível; saí da tempestade. Recolhamo-nos.
(Saem.)
ATO III
Cena I
Uma charneca. Tempestade, com trovões e
relâmpagos. Entram Kent e um gentil-homem, que se
encontram.
KENT - Além do tempo mau, quem está aí?
GENTIL-HOMEM - Alguém inquieto como o próprio
tempo.
KENT - Conheço-vos. E o rei, que faz agora?
GENTIL-HOMEM - Luta com os elementos agitados;
manda ao vento que ao mar atire a terra, ou eleve as
ondas crespas muito acima dos continentes, para que
se mudem todas as coisas, ou de vez acabem; puxa
os cabelos brancos que as rajadas impetuosas em
seu furor apanham com cega raiva, reduzindo a
nada; em seu mundo pequeno de homem, luta por
zombar do conflito sempre móvel dos ventos e da
chuva. Nesta noite, em que, depois de amamentar os
filhos, a ursa não se levanta, e o leão e o lobo
famintos sem molhar a pele ficam, cabeça descoberta
ele se agita, à destruição total jogando tudo.
KENT - E quem está com ele?
GENTIL-HOMEM - O bobo, apenas, que tenta
dissipar-lhe com gracejos a dor do coração tão
trabalhado.
KENT - Conheço-vos, senhor; por isso atrevo-me, sob
o penhor de tal conhecimento a vos contar um caso
muito grave. Há discórdia, conquanto ainda
encoberta se ache de parte a parte pela astúcia,
entre Albânia e Cornualha. Eles possuem - o mesmo
não se dá com todos quantos a grande estrela exalta
e põe num trono? - criados, ao parecer, mas que, de
fato, são espias de França e informadores, e que se
encontram sempre a par de tudo que aqui se passa:
as rixas e as conjuras dos dois duques e, após, o
modo altivo que contra o velho rei têm revelado, ou
algo porventura mais profundo de que seja tudo isso
mero apêndice: o certo é que um exército da França
penetrou neste reino dividido, o qual o pé firmou
muito em segredo, valendo-se de nossa negligência,
no nosso melhor porto, e ora se encontra no ponto de
mostrar os estandartes. Ora é convosco: se puderdes
algo construir sobre as minhas referências a ponto de
ir a Dover sem demora, encontrareis decerto ali
quem há de saber agradecer-vos, quando justo relato
lhe fizerdes das tristezas desnaturais e em tudo
abaladoras por que o rei tem passado. Por sangue e
educação sou gentil-homem; é com conhecimento,
pois, de causa, e confiança que disso vos incumbo.
GENTIL-HOMEM - Falaremos sobre isso mais de
espaço.
KENT - De forma alguma. Para convencer-vos de que
eu sou muito mais do que pareço, ficai com o
conteúdo desta bolsa. Se avistardes Cordélia - o que
há de dar-se, ficai bem certo disso - apresentai-lhe
este anel, que ela, então, vos dirá logo quem é o
camarada que nesta hora ainda não conheceis. Mas
que tormenta! Vou procurar o rei.
GENTIL-HOMEM - Dai-me a mão. Nada mais quereis
dizer-me?
KENT - Pouco; porém, de fato, mais que tudo:
Quando acharmos o rei - deveis, por isso, seguir por
este lado; eu, por aquele - quem primeiro o
encontrar grita para o outro.
(Saem por lados diferentes.)
Cena II
Outra parte da charneca. A tempestade continua.
Entram Lear e o bobo.
LEAR - Ventos, soprai de arrebentar as próprias
bochechas! Enraivai! Soprai com força! Trombas e
cataratas, derramai-vos até terdes coberto os
campanários e afogado seus galos! Sulfurosos raios,
velozes como o pensamento, vanguarda dos coriscos
que os carvalhos abrem de meio a meio, chamuscaime
a cabeleira branca! E tu, trovão de tudo abalador,
achata a espessa redondeza do mundo, quebra os
moldes da natureza e de uma vez desfaze todos os
germes geradores do homem sem gratidão.
BOBO - Ó tio, mais vale água benta no pátio de uma
casa seca, do que toda esta água de chuva ao ar
livre. Vai para dentro, bom tio, e pede a bênção de
tuas filhas. Uma noite como esta não se apiada nem
de sábios nem de bobos.
LEAR - Deixa o vento roncar! Escarra, fogo! Jorra,
chuva! Os trovões, o vento, o fogo, minhas filhas não
são. Não vos acuso de ingratos, elementos. Nunca
um reino vos dei, nem vos chamei sequer de filhos.
Não me deveis nenhuma obediência. Que caia, pois,
vosso prazer horrível. Aqui me encontro, vosso
escravo, um velho pobre, fraco, sem forças,
desprezado. No entretanto, declaro-vos ministros
servis, pois com duas filhas perniciosas, travais
vossas batalhas de alta origem contra uma fronte tão
encanecida e tão velha como esta. Oh! Que
vergonha! BOBO - Quem tem uma casa onde enfiar a
cabeça, dispõe de um bom chapéu. Quando a
braguilha quer casa, sem que o dono tenha abrigo
dos piolhos é a grande vasa, que isso é vida de
mendigo. Quem põe o dedão do pé onde tem o
coração, vive a gemer - a-la-fé! - por calos que
insônia dão, pois nunca ouve mulher bonita que não
fizesse caretas ao espelho.
(Entra Kent.)
LEAR - Quero ser um modelo de paciência; não direi
nada.
KENT - Quem está aí?
BOBO - Ora, uma majestade e uma braguilha, isto é,
um sábio e um bobo.
KENT - Oh senhor! Vós aqui? Nenhuma coisa que da
noite se agrada, se acomoda a uma noite como esta.
Os céus furiosos metem medo até mesmo nos
rondantes da escuridão, retendo-os em seus antros.
Desde que me fiz homem não me lembro de ter
presenciado tantas faixas de fogo, tanto estouro de
terríficos trovões, tantos lamentos e bramidos dos
ventos e da chuva. A natureza do homem não pode
suportar o medo e a aflição que vêm disso.
LEAR - Grandes deuses, que tanto estrondo sobre
nós retendes, agora procurai vossos imigos! Treme,
malvado, em quem se ocultam crimes pela justiça
ainda não punidos! Mão sanguinária, oculta-te!
Perjuro, tu também; como tu, falso virtuoso, que
praticas o incesto! Em estilhaços arrebenta,
bargante, que atentaste contra a vida de alguém sob
aparência tranqüila e sedutora! Atrocidades no fundo
ocultas, estourai as capas que vos escondem e
implorai as graças desses admoestadores pavorosos!
Quanto a mim, sou mais vítima de culpa, do que
mesmo culpado.
KENT - Oh! que tristeza! Cabeça descoberta! Meu
gracioso soberano, aqui perto há uma cabana, que
oferecer-vos pode algum abrigo contra o mau tempo.
Recolhei-vos a ela, enquanto eu volto àquela casa
dura - mais dura do que as pedras de que é feita, e
que, há momentos, quando eu pretendia saber
notícias vossas, me negou té mesmo a entrada - para
que lhes force a avara cortesia.
LEAR - Sinto o espírito girar em torno. Vamos, meu
pequeno! Como te sentes, caro? Muito frio? Eu
também. Companheiro, onde é que há palha? É por
demais estranha a arte dos pobres que faz preciosas
as mais baixas coisas. Vossa cabana... Seja! Pobre
bobo, tenho no coração um lugarzinho que se apiada
de ti. BOBO - Se não perdeste de todo a mente, com
hei com hô, com tamanha chuva, com a própria sorte
fica contente, embora chova todos os dias.
LEAR - É certo, meu pequeno; vamos, leva-nos para
essa tal cabana.
(Saem Lear e Kent.)
BOBO - Eis uma bela noite para deixar fria uma
cortesã. Mas antes de sair quero fazer uma profecia:
Quando por obras converter a Igreja e água puser o
dono na cerveja; quando o nobre for mestre do
alfaiate, e a fogueira não mais o herege mate, mas
apenas o amante apaixonado; quando só houver
processo bem julgado, dívidas não tiver o cavaleiro e
a calúnia poupar o mundo inteiro; quando evitar o
experto a turbamulta e a arca do avaro não ficar
oculta; quando as alcoviteiras eloqüentes construírem
templos caros e imponentes: cairá em confusão este
reino de Albião. Então verá quem vivo ainda estiver
que com os pés andam o homem e a mulher. Esta
profecia será feita por Merlino, porque eu vivo antes
do tempo dele.
(Sai.)
Cena III
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Gloster e
Edmundo.
GLOSTER - Ah, Edmundo, Edmundo! Não me agrada
esse procedimento desnaturado. Quando lhes pedi
permissão para apiedar-me dele, privaram-me do uso
de minha própria casa, proibindo-me, sob pena de
seu perpétuo descontentamento, de falar a respeito
dele, de interceder a seu favor ou de ir-lhe em auxílio
de qualquer maneira.
EDMUNDO - Por demais selvagem e contrário à
natureza.
GLOSTER - Acomoda-te; não digas nada. Há divisão
entre os duques, e pior do que isso. Esta noite recebi
uma carta. É perigoso falar nisso. Tranquei-a no meu
gabinete. Os sofrimentos por que o rei agora está
passando, serão oportunamente vingados. Parte do
exército já desembarcou; teremos de ficar do lado do
rei. Vou procurá-lo secretamente e ajudá-lo. Ide
conversar com o duque, para que não seja percebida
minha caridade. Se ele perguntar por mim, estou
doente e de cama. Ainda que eu venha a perder a
vida - que é o menos com que estou ameaçado - é
preciso que o rei, meu velho amo, seja socorrido. Há
alguma coisa muito estranha em perspectiva,
Edmundo. Aconselho-vos cautela.
(Sai.)
EDMUNDO - A caridade que te foi proibida será
comunicada logo ao duque, como a carta também, o
que parece serviço meritório que me rende quanto
meu pai perder, a saber: tudo. Exulta o moço, o
velho fica mudo.
(Sai.)
Cena IV
A charneca. Diante de uma choupana. Entram Lear,
Kent e o bobo.
KENT - É aqui, senhor. Meu bom senhor, entrai. É por
demais severa a tirania da noite descoberta, para as
forças de nossa natureza.
(A tempestade continua.)
LEAR - Não; afasta-te! Desejo ficar só.
KENT - Entrai aqui, senhor.
LEAR - Quereis partir-me o coração?
KENT - Primeiro partiria o meu. Bondoso senhor,
entrai.
LEAR - Estais fazendo grande cabedal desta chuva
revoltada, que nos molha até os ossos. É que a
sentes dessa maneira. Porém quando a doença maior
penetra, as outras não se sentem. Se corres do urso,
mas em tua fuga fores bater nas ondas rugidoras,
voltarás frente para a goela dele. Livre o espírito, o
corpo é delicado. A tempestade que na mente eu
trago nada me deixa perceber por meio dos sentidos,
afora o que ali bate: a ingratidão filial. Não fora o
mesmo, se a boca decepar quisesse a mão que até
ela se alça para alimentá-la? Mas saberei tomar cabal
vingança. Cessarei de chorar. Fechar-me a porta
numa noite como esta! Mais! Despeja, que hei de
agüentar! E numa noite assim! Ah Goneril! Regane!
Vosso velho pai, tão bondoso, que vos dera tudo com
franco coração! Oh! A loucura vem desse lado. Vamos
evitá-la. Sobre isso, basta.
KENT - Bem, milorde; entremos.
LEAR - Não; por favor, primeiro tu; procura tua
comodidade. Este aguaceiro me impede de cuidar de
muitas coisas que muito maior dor me causariam.
Mas vou entrar. (Ao bobo.) Menino, vai na frente.
Pobreza sem abrigo... Entra, entra logo. Rezo
primeiro; dormirei depois.
(O bobo entra na choupana.)
Onde quer que estejais, pobres sem roupa, que os
golpes suportais desta impiedosa tempestade, dizeime:
de que modo vossos flancos mirrados e as
cabeças desprotegidas, vossos trapos ricos em furos
e janelas hão de o corpo vos proteger numa estação
como esta? Oh! muito pouco me ocupei com isso!
Cura-te, fausto! Vai sentir o mesmo que os
miseráveis sentem, porque possas sobre eles
derramar o teu supérfluo e os céus mostrar mais
justos.
EDGAR (dentro) - Pobre Tom! Braça e meia! Braça e
meia!
(O bobo sai a correr da choupana.)
BOBO - Não entres aí, meu tio! Há um espírito lá
dentro. Socorro! Socorro!
KENT - Dá-me a mão. Quem está lá?
BOBO - Um espírito! Um espírito! Ele disse que se
chama o pobre Tom.
KENT - Quem és tu, que te pões a rosnar assim na
palha? Vem para fora!
(Entra Edgar, disfarçado de demente.)
EDGAR - Afastai-vos, que o imigo me acompanha.
Através do espinheiro sopra o vento; vê se te
aqueces em teu leito frio.
LEAR - Deste às tuas duas filhas tudo o que tinhas,
para ficares desse jeito?
EDGAR - Quem dá alguma coisa para o pobre Tom? O
maligno o levou através do fogo, através da flama,
através do vau e do redemoinho, através do lamaçal
e do charco; pôs facas embaixo de seu travesseiro e
corda em sua cama; armou ratoeira em sua sopa;
deixou-o orgulhoso por poder montar num cavalo
baio trotão, por cima das pontes de quatro
polegadas, em perseguição da própria sombra, como
um traidor. Que sejam abençoados os teus cinco
espíritos. Tom está com frio. Oh! do dê, do dê, do dê!
Que o céu te ampare contra os furacões, estrelas
funestas e malefícios. Fazei alguma caridade ao
pobre Tom, que o demônio impuro atormenta.
Poderia pegá-lo agora, e aqui, e ali outra vez, e
aqui...
LEAR - Como! Suas filhas o trouxeram a isso? Nada
te reservaste? Deste tudo?
BOBO - Não! Ele reservou para si um cobertor; caso
contrário, teríamos do que nos envergonharmos.
LEAR - Que caiam sobre tuas filhas todas as misérias
que impendem do ar e ameaçam os pecados dos
homens!
KENT - Senhor, ele não tem filhas.
LEAR - Morre, traidor! Pois nada poderia rebaixar de
tal modo a natureza, senão filhas ingratas. Será
moda que os pais, depois de despedidos, tenham tão
pouca pena de sua própria carne? Castigo judicioso,
que essa carne deu nascimento às filhas-pelicanas.
EDGAR - Pilicoc se achava empoleirado no monte
Pilicoc! Alô! Alô! Oh oh!
BOBO - Esta noite gelada vai acabar fazendo de nós
todos bobos ou loucos.
EDGAR - Acautela-te contra o maligno; obedece a
teus pais; mantém tua palavra; não jures; não
cometas adultério com a esposa legítima do teu
próximo; não enfeites tua morada com atavios vãos.
Tom está com frio.
LEAR - Que eras antes?
EDGAR - Um moço de servir, de coração e espírito
altivos, que frisava os cabelos, trazia luvas no
chapéu, satisfazia a luxúria da patroa, perpetrando
com ela o ato das trevas; fazia tantos juramentos
quantas palavras pronunciava, para violá-los ante a
doce face do céu; um tipo que adormecia com planos
de libertinagem e acordava para pô-los em prática.
Amava de coração o vinho, os dados, com a máxima
ternura; e com relação às mulheres, metia na massa
o próprio turco; coração falso, ouvídos levianos,
mãos sanguinárias. Porco, na preguiça; raposa, na
astúcia; lobo, na voracidade; cão, na raiva; leão, na
pilhagem. Não deixes que o ranger dos sapatos e o
ruído das sedas entregues às mulheres teu pobre
coração. Mantém os pés fora dos bordéis, as mãos
fora do colete, as pernas longe do livro do onzeneiro
e desafia o maligno. O vento frio ainda sopra através
do espinheiro, gritando zum, mum, ha hô, no ni! ...
Delfim, meu filho, meu filho! Cessa! Deixa-o trotar!
(A tempestade continua.)
LEAR - Estarias melhor na sepultura do que
enfrentando com o corpo descoberto estes extremos
da estação. Não é o homem mais do que isto?
Considerai-o bem. Ao verme não deves a seda, ao
animal o abrigo, ao carneiro a lã e ao gato de algalia
o perfume. Ah! Dos presentes, três somos
adulterados; tu és a coisa em si. O homem sem
atavios não passa de um pobre animal, nu e fendido
como tu. Fora, fora com todos estes empréstimos!
Vamos! Desabotoai-me aqui.
(Rasga as vestes.)
BOBO - Tio, por obséquio, fica quieto; a noite está
muito ruim para nadarmos. Neste momento, um
pequeno fogo em campo grande faria o efeito do
coração de um velho libertino: uma faiscazinha de
nada, e o resto do corpo, que nem gelo. Vê, aí vem
vindo um fogo ambulante.
(Entra Gloster com uma tocha.)
EDGAR - É o demônio impuro Flibbertigibbet; chega
com o toque de apagar fogo e ronda até ao primeiro
canto do galo; produz belidas e catarata, olho vesgo
e beiço-de-lebre; faz embolorar o trigo branco e
atormenta a pobre criatura terrestre. Três vezes São
Vital percorre os trilhos, e achando a mula-semcabe
ça e os filhos, mandou que ali parasse e preito
lhe prestasse. Sai logo, bruxa! Deixa limpa a estrada!
KENT - Como passa Vossa Graça?
LEAR - Quem é?
KENT - Quem está aí? A quem procurais?
GLOSTER - Quem Sois? Como vos chamais?
EDGAR - O pobre Tom que se alimenta de rãs
nadadoras, sapos, girinos, lagartixas e água; que na
fúria de seu coração, quando o inimigo imundo
esbraveja, devora estrume de vaca como se fosse
salada; engole ratos velhos e cachorro pirento; bebe
o manto verde do charco estagnado; que é
chibateado de paróquia em paróquia, posto no cepo
ou na prisão; que já teve três mudas para o dorso,
seis camisas para o corpo, cavalo para montar e
espada para carregar. Há sete anos que Tom só se
conserva com ratazanas, ratos e caterva. Tomai
cuidado com o meu perseguidor. Fica quieto,
Smulkin! Fica quieto, demônio!
GLOSTER - Como! Não tem Vossa Graça melhor
companhia?
EDGAR - O príncipe das trevas é um gentil-homem;
chama-se Modo e Mahu. GLOSTER - A tal ponto,
senhor, degenerados temos o sangue e a carne, que
a odiar chegam a quem vida lhes deu.
EDGAR - O pobre Tom está com frio.
GLOSTER - Senhor, vinde comigo. Não se dobra meu
dever às sentenças implacáveis de vossas filhas.
Muito embora tenham dado ordem para que eu
fechasse a porta, a esta noite terrível entregandovos,
ousei vir procurar-vos, porque possa levar-vos
onde há fogo e mesa pronta.
LEAR - Primeiro permiti que a este filósofo dirija
umas perguntas. Qual é a causa do trovão?
KENT - Aceitai, senhor, o invite que ele vos faz; à
casa recolhei-vos.
LEAR - Uma palavra a este tebano sábio: em que vos
aplicais?
EDGAR - Em fugir do demônio e matar piolho.
LEAR - Desejo vos pedir algo em segredo.
KENT - Insisti outra vez, senhor, com ele, para
abrigar-se. Já revela indícios de que não tem
bastante firme o espírito.
(A tempestade continua.)
GLOSTER - Poderás censurá-lo? Suas filhas querem a
morte dele. Ah! o bom Kent! Disse que tudo a dar
viria nisto. Pobre exilado! Asseveraste há pouco que
o rei está ficando louco. Digo-te, que eu também
estou quase nesse ponto. Tive um filho, que se acha
desde pouco banido do meu sangue. Contra a minha
vida tentou - agora mesmo, agora! - Amava-o como
pai tão ternamente jamais ao filho amou. Para ser
franco contigo, a dor me perturbou o espírito.
(A tempestade continua.)
Que noite! Peço, instante, a Vossa Graça...
LEAR - Peço perdão, senhor. Nobre filósofo, fazei-nos
companhia.
EDGAR - Tom está com frio.
GLOSTER - Amigo, vem para a cabana; aquece-te.
LEAR - Entremos todos.
KENT - Por aqui, milorde.
LEAR - Junto com ele; quero ficar sempre perto do
meu filósofo.
KENT - Fazei-lhe nisso a vontade, bom senhor,
deixando-o levar esse homem.
GLOSTER - Bem; cuidai vós dele.
KENT - Vamos, amigo; vem também conosco.
LEAR - Vamos, bom ateniense.
GLOSTER - Quietos! Vamos!
EDGAR - O cavaleiro Rolão chegou perto do bastião
dizendo fim, fu e fão! Sinto cheiro de bretão.
(Saem.)
Cena V
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha e
Edmundo.
CORNUALHA - Hei de vingar-me antes de deixar a
casa dele.
EDMUNDO - As censuras, milorde, de que eu poderei
ser alvo, por permitir que a natureza ceda a tal ponto
à lealdade, deixam-me bastante apreensivo.
CORNUALHA - Percebo agora que não foram
absolutamente as más inclinações de vosso irmão
que o levaram a procurar a morte dele, senão o
meritório impulso que se viu estimulado pela
ruindade condenável dele próprio.
EDMUNDO - Como é pérfido o meu destino, que me
leva a arrepender-me de ser justo! Aqui está a carta
de que ele falou; traz a prova de que é partidário dos
interesses da França. Oh céus! Quem me dera que
não houvesse semelhante traição, ou que não fosse
eu o delator!
CORNUALHA - Vem comigo procurar a duquesa.
EDMUNDO - Se for verdadeiro o conteúdo dessa
folha, tendes em mãos um negócio muito sério.
CORNUALHA - Verdadeiro ou falso, ele te fez conde
de Gloster. Descobre onde está teu pai, para que eu
providencie logo sua prisão. EDMUNDO (à parte) - Se
eu o encontrar confortando o rei, isso virá reforçar as
suspeitas do duque. - Hei de manter-me na trilha da
lealdade, por mais doloroso que seja o conflito entre
ela e meu sangue.
CORNUALHA - Depositarei em ti minha confiança; em
meu amor encontrarás um pai mais carinhoso.
(Saem.)
Cena VI
Uma cabana próxima do castelo. Entram Gloster,
Lear, Kent, o bobo e Edgar.
GLOSTER - Aqui é melhor do que ao ar livre; aceitai
de bom coração. Vou providenciar para o vosso
conforto como me for possível; não me demorarei.
KENT - Toda a força de seu espírito cedeu diante da
indignação. Que os deuses recompensem vossa
bondade.
(Sai Gloster.)
EDGAR - Frateretto me chama para dizer que Nero é
um pescador no lago das trevas. Reza, inocente, e
toma cuidado com o inimigo impuro.
BOBO - Tio, por obséquio, dize-me se um louco é
gentil-homem ou fazendeiro.
LEAR - Um rei! Um rei!
BOBO - Não; foi o fazendeiro que teve um filho
gentil-homem; porque é preciso ser fazendeiro louco,
para deixar que o filho se torne gentil-homem antes
dele.
LEAR - Oh! Se mil, a um só tempo, de espetos
rubros, se atirassem sobre elas, assobiando...
EDGAR - O demônio impuro está me mordendo as
costas.
BOBO - Louco é quem se fia na mansidão do lobo, na
saúde do cavalo, no amor de um rapaz e no
juramento de uma prostituta.
LEAR - Assim farei. Vou intimá-las já.
(A Edgar.)
Senta-te aqui, doutíssimo juiz. (Ao bobo.) E vós,
aqui, sábio senhor. E agora passemos às raposas.
EDGAR - Vede! está ele com os olhos fixos! Precisas
de olhos para o processo, madame? Vem para cá,
Bessy; pula o regato.
BOBO - O barco dela é furado; por isso ela tem
cuidado. Por que, então, não arrisca a vir por cima?
EDGAR - O demônio impuro persegue o pobre Tom
sob a voz de um rouxinol; Hopdance grita na barriga
de Tom por dois arenques brancos. Pára de coaxar,
anjo negro! Não tenho alimento para dar-te.
KENT - Como passais, senhor? Ficai mais calmo. Não
quereis repousar no travesseiro?
LEAR - Primeiro quero ver o julgamento. Trazei as
testemunhas. (A Edgar.) Juiz togado, senta-te logo.
(Ao bobo.) E tu, seu companheiro de jugo na Justiça,
ao lado dele. (A Kent.) Vós sois da comissão; sentaivos
aí!
EDDGAR - Procedamos com justiça. Dormes ou velas,
belo pastorzinho? teu anho está no trigo. Mas a um
grito de tua rósea boca, não correrá perigo. Prrr! O
gato é cinzento.
LEAR - Citei esta em primeiro lugar; é Goneril. Presto
juramento diante desta honrada assembléia em como
ela deu um pontapé no pobre rei seu pai.
EDGAR - Vinde mais para a frente, moça! Vosso
nome é Goneril?
LEAR - Não poderá negá-lo.
BOBO - Peço desculpas, mas tomei-vos por um
tamborete.
LEAR - Aqui está a outra, cujo olhar de esguelha
proclama o que no coração se abriga. Prendei-a logo!
Armas! espada, fogo! A corrupção campeia! Juiz
corrupto, por que deixaste que ela fosse embora?
EDGAR - Abençoados sejam teus cinco espíritos!
KENT - Oh! piedade, senhor! Onde pusestes a
paciência de que faláveis tanto, jurando conservá-la?
EDGAR (à parte) - Tanto as lágrimas ficam do lado
dele, que me ameaçam estragar todo o plano.
LEAR - Este cãozinho, vede, e os outros, Gracioso,
Fiel e Neve, se atiram contra mim.
EDGAR - Tom vai atirar-lhes sua própria cabeça. Fora
daqui, mastins! De goelas brancas ou pretas, dentes
sujos e caretas, mastim, galgo ou perdigueiro,
molosso tardo ou ligeiro, de pêlo curto ou lanzudo,
Tom vai dar cabo de tudo. Contra eles o coco atiro,
fazendo-os correr em giro. Do, de, de, de. Sessa!
Vamos, marchai para as festas de igreja, feiras e
mercados. Pobre Tom, teu chifre está vazio.
LEAR - Agora dissequem Regane, para ver o que
brota de junto do coração dela. Há alguma causa
natural que torne endurecidos esses corações? (A
Edgar.) Vós, senhor, considero-vos um dos meus cem
homens; apenas não me agrada o corte de vossas
vestes. Ireis dizer-me que foram feitas à moda persa.
Contudo, será conveniente mudá-las.
KENT - Agora, meu bom senhor, ide deitar-vos um
pouco, para repousar.
LEAR - Nada de barulho, nada de barulho... Correi a
cortina... Assim, assim, assim... Pela manhã
cearemos. Assim, assim, assim...
BOBO - E ao meio-dia irei deitar-me.
(Volta Gloster.)
GLOSTER - Aproxima-te, amigo. Onde está o rei,
meu mestre?
KENT - Aqui, senhor; mas não o perturbeis; perdeu a
razão.
GLOSTER - Carrega-o, caro amigo, por obséquio. Há
uma conjura contra a vida dele. Aqui perto há uma
maca; deita-o nela e corre, amigo, para Dover, onde
irás achar boa acolhida e amparo. Levanta teu
senhor; se demorares meia hora que seja, a vida
dele, como a luta e a de todos os que o seguem,
correm para uma perda inevitável. Levante-o com
bem jeito e vem comigo, que vou prover-te com
bastante urgência do que for necessário.
KENT - A natureza cansada adormeceu. Este repouso
poderia deitar-te um linimento nos nervos torturados,
que, na falta de boas condições, dificilmente
chegarão a sarar. (Ao bobo.) Vamos, ajuda-me a
carregar teu mestre. Tu não podes, também, ficar
aqui.
GLOSTER - Vamos logo, (Saem Kent, Gloster e o
bobo, carregando Lear.)
EDGAR - Ao veres teu senhor sofrer teus males,
convences-te de que de nada vales. Quem sofre só,
padece em pensamento, por na dita passada estar
atento. O espírito não fica em desalinho, quando
consegue a dor algum vizinho. Quão leve me parece
o fardo ingente que me deixa encurvado e o rei
gemente! Fez-me meu pai o que para ele as filhas.
Tom, cuidado com as vozes! Tu te humilhas somente
enquanto a falsidade dura te conservar desviado da
ventura. Venha o que vier, contento que o rei fuja.
Atenção! Atenção!
(Sai.)
Cena VII
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha,
Regane, Goneril, Edmundo e criados.
CORNUALHA - Parti com toda pressa para onde está
milorde vosso marido e mostrai-lhe esta carta. O
exército da França desembarcou. - Procurai o traidor
Gloster.
REGANE - Enforcai-o imediatamente.
GONERIL - Arrancai-lhe os olhos.
CORNUALHA - Deixai-o aos cuidados do meu
desprazer. Edmundo, fazei companhia a nossa irmã;
as vinganças que vamos ser forçados a tomar de
vosso pai traidor não são adequadas para vossa
vista. Avisai o duque, para a casa de quem vos
dirigis, que se prepare com a maior urgência
possível, porque faremos o mesmo. Nossos correios
não se pouparão, para manter entre nós o
entendimento preciso. Adeus, querida irmã; adeus,
milorde de Gloster.
(Entra Osvaldo.)
Então! Onde está o rei?
OSVALDO - Levou-o para longe lorde Gloster. Cerca
de trinta e cinco ou trinta e seis de seus homens,
sequiosos de encontrá-lo, o esperaram à porta, e em
companhia de outros homens do lorde se fizeram no
caminho de Dover, onde todos se jactam de possuir
sócios armados.
CORNUALHA - Prepara a condução para a senhora.
GONERIL - Adeus, doce senhor; adeus, irmã.
CORNUALHA - Adeus, Edmundo.
(Saem Goneril, Edmundo e Osvaldo.)
Ide e trazei-me Gloster, esse traidor; os braços
algemai-lhe como a um ladrão e em nossa frente o
ponde.
(Saem outros criados.)
Embora não possamos pronunciar-nos, sem as
formas legais, contra sua vida, poderá nossa força
cortesia fazer a nossa cólera, o que os homens talvez
censurem, mas obstar não podem. Quem vem lá! Ó
traidor?
(Voltam os criados, com Gloster.)
REGANE - Raposa ingrata! É ele mesmo.
CORNUALHA - Amarrai-lhe os braços leves.
GLOSTER - Que intendem Vossas Graças? Bons
amigos, considerai que sois aqui meus hóspedes. Não
me trateis, amigos, com desprezo.
CORNUALHA - Amarrai-o, já disse!
(Os criados amarram Gloster.)
REGANE - Com mais força! Traidor infecto!
GLOSTER - Dama sem piedade, não sou o que dizeis.
CORNUALHA - Nesta cadeira; amarrai-o! Vilão, vais
ver agora...
(Regane puxa a barba de Gloster.)
GLOSTER - Pelos deuses bondosos, é ignomínia
puxar-me pela barba.
REGANE - Tão branco e tão traidor!
GLOSTER - Perversa dama, os fios que do queixo ora
me arrancas, hão de ficar de pé para acusar-te. Meus
hóspedes sois todos; não devíeis com mãos rapaces
machucar-me os traços de dono desta casa. Que
quereis?
CORNUALHA - Vamos, senhor; dizei-me: que notícias
recebestes de França?
REGANE - Sede breve no que disserdes, pois
sabemos tudo.
CORNUALHA - E que pacto firmastes com os traidores
que saltaram há pouco em nosso reino?
REGANE - A que mãos entregastes o rei louco? Falai!
GLOSTER - Às mãos me veio uma missiva baseada
em conjeturas de pessoa neutra e imparcial, não de
qualquer imigo.
CORNUALHA - Astuciosa.
REGANE - Traidora.
CORNUALHA - E o rei, para onde o enviaste?
GLOSTER - Para Dover.
REGANE - Por que Dover? Avisado não foras, sob o
risco...
CORNUALHA - Por que Dover? Primeiro responde a
isso.
GLOSTER - Estou atado ao poste; é-me impossível
fugir destes assaltos.
REGANE - Por que Dover?
GLOSTER - Porque essas unhas cruéis não lhe
arrancassem os pobres olhos, velhos e cansados,
nem tua irmã selvagem lhe enterasse no corpo
ungido as presas de javardo. O mar em tempestade
como a que ele suportou na cabeça descoberta nesta
noite infernal, se empolaria para apagar o fogo das
estrelas. E o pobre coração, tão velho, a chuva do
céu fez aumentar! Se os próprios lobos, com um
tempo destes, ululado houvessem diante de tuas
portas, certamente terias dito: “Bom porteiro, vira
depressa a chave!” Todas as crueldades ficariam
riscadas. Mas ainda hei de ver a vingança de asas
fortes cair sobre tais filhos.
CORNUALHA - Veres? Nunca! Segurai a cadeira com
firmeza. Vou pôr os pés em cima de teus olhos.
GLOSTER - Quem espera viver até à velhice, venha
ajudar-me agora. Oh monstro! Oh deuses!
(É arrancado um dos olhos de Gloster.)
REGANE - O outro também, para não rir daquele.
CORNUALHA - Se virdes a vingança...
PRIMEIRO CRIADO - Suspendei, milorde, a mão.
Servi-vos desde criança; mas nunca vos prestei tão
bom serviço, como ao pedir agora que parásseis.
REGANE - Como, cachorro?
PRIMEIRO CRIADO - Se trouxésseis barba no queixo
eu a arrancara nesta briga. Que pretendeis?
CORNUALHA - Um dos meus criados? Como!
(Saca da espada.)
PRIMEIRO CRIADO - Avançai, pois, e vos medi com a
cólera.
(Desembainha a espada; lutam.)
(Cornualha é ferido.)
REGANE - Empresta-me tua espada. Rebelar-se um
rústico a este ponto!
(Toma da espada e fere o criado pelas costas.)
PRIMEIRO CRIADO - Oh! Estou morto! Ainda vos
resta um olho, milorde, para vê-lo desgraçado.
(Morre.)
CORNUALHA - Porque não posso ver, façamos isto:
fora, geléia vil! Qual é teu brilho neste momento?
GLOSTER - Escuro em toda parte, desolação total.
Onde se encontra meu filho Edmundo? Edmundo,
acende as chispas da natureza e vinga este ato
horrível!
REGANE - Vilão traidor, invocas quem te odeia. Foi
ele próprio quem nos deu notícia de tua falsidade, ele
em pessoa. E bom demais para de ti ter pena.
GLOSTER - Oh! Que tolo que fui! Então Edgar foi
caluniado! Deuses bons, perdoai-me, e que ele possa
prosperar.
REGANE - Jogai-o fora da porta e que procure a
estrada de Dover pelo cheiro.
(Sai um criado conduzindo Gloster.)
Então, milorde, como estais?
CORNUALHA - Recebi uma ferida. Senhora,
acompanhai-me. Jogai fora esse vilão sem olhos; no
monturo atirai esse escravo. Estou sangrando
demais, Regane; veio-me este golpe muito fora de
tempo. Dai-me o braço.
(Sai Cornualha apoiado em Regane.)
SEGUNDO CRIADO - Não quero ter preocupação
alguma com qualquer vilania, se este tipo vier ainda
a acabar bem.
TERCEIRO CRIADO - Se vida longa ela tiver e, ao fim,
achar o curso comum da morte, todas as mulheres
virarão monstros.
SEGUNDO CRIADO - Vamos à procura do velho
conde, para que levado seja pelo maníaco para onde
ele o determinar. Suas manias de vagante se prestam
para tudo.
TERCEIRO CRIADO - Vai; enquanto isso, arranjarei
um pouco de linho e clara de ovo, para pôr-lhe no
rosto ensanguentado. O céu que o ajude!
(Saem por lados diferentes.)
ATO IV
Cena I
A charneca. Entra Edgar.
EDGAR - Melhor assim: saber que é desprezado do
que sê-lo sob capa de lisonja. O mais ínfimo ser, com
mais desprezo tratado pela sorte, ainda conserva
certa esperança e vive sem temores. Só muda para
pior o que é perfeito; o pior volta à alegria. Sê bemvindo,
portanto, ar impalpável que respiro! O infeliz
que jogaste tão por baixo a essas tuas rajadas nada
deve. Mas quem vem vindo aí?
(Entra Gloster, conduzido por um velho.)
Como! Meu pai, trazido por um pobre? Ó mundo!
mundo! Sem tuas mutações inesperadas que nos
levam a odiar-te, nunca a vida chegara até à velhice.
O VELHO - Ó bom senhor, de vosso pai e vosso fui
rendeiro por volta de oitenta anos.
GLOSTER - Bem; retira-te, bondoso amigo. Vai-te.
Teus consolos bem algum me farão, mas poderiam
prejudicar-te.
O VELHO - Não vereis a estrada.
GLOSTER - Não tenho estrada; não preciso de olhos.
Tropecei, quando via. Muitas vezes já se tem visto o
bem-estar deixar-nos preocupados e a necessidade
redundar em proveito. Ó meu querido filho Edgar,
alimento da iludida cólera de teu pai, se eu tiver vida
para te ver ainda, pelo tato, direi que achei os olhos
O VELHO - Quem vem lá?
EDGAR (à parte) - Oh deuses! Quem diria: “Não é
possível chegar a pior estado!” Nunca estive em
piores condições.
O VELHO - É Tom, o louco.
EDGAR (à parte) - E mais ainda poderei descer.
Nunca sofremos o pior, enquanto dizer podemos:
“Isto é o pior de tudo”.
O VELHO - Para onde vais, amigo?
GLOSTER - É algum pedinte?
O VELHO - Pedinte, a um tempo, e louco.
GLOSTER - Um pouco de razão ainda conserva, sem
o que mendigar não poderia. Na noite que passou, da
tempestade, vi um sujeito assim, que ao pensamento
me trouxe que o homem não é mais que um verme.
Lembrei-me de meu filho, muito embora dificilmente,
então, amigo dele meu espírito fosse. Depois disso
aprendi muito. O que para os garotos são as moscas,
nós somos para os deuses: matam-nos por
brinquedo.
EDGAR (à parte) - Que é que importa tudo isso?
Triste é a profissão que obriga a zombar da desgraça,
para incômodo de si próprio e dos outros. (A
Gloster.) Salve, mestre!
GLOSTER - É o tal mendigo nu?
O VELHO - Ele, milorde.
GLOSTER - Por favor, então deixa-me. Se acaso
quiseres, por amor de mim, buscar-nos daqui a uma
milha ou duas, no caminho de Dover, faze-o por
antigo afeto, e traze roupa para esta alma nua, a
quem vou explicar que me conduza.
O VELHO - Oh senhor! Ele é louco!
GLOSTER - Esse é o castigo do tempo, conduzir ao
cego o louco. Faze o que eu disse, ou faze o que
quiseres; mas, sobretudo, vai-te.
O VELHO - Vou dar-lhe a minha melhor roupa,
venha-me disso seja o que for. (Sai.)
GLOSTER - Eh! Homem nu! EDGAR - O pobre Tom
tem frio. (À parte.) É-me impossível fingir mais
tempo.
GLOSTER - Vem aqui, amigo.
EDGAR (à parte) - Mas é preciso. - Abençoados
sejam teus doces olhos, pois estão sangrando.
GLOSTER - Conheces o caminho para Dover?
EDGAR - Cancelas e porteiras, caminhos de cavalo e
de pé. Espantaram o espírito do pobre Tom. Filho do
homem pio. Deus te preserve do demônio impuro.
Cinco demônios entraram a um só tempo no pobre
Tom: Obidicut, o demônio da luxúria; Obbididance,
príncipe do mutismo; Mahu, do roubo; Modo, do
homicídio; e Flibbertigibbet, das caretas e
contorções, que desde então deixou possessas as
criadas e governantes. Salve, portanto, mestre!
GLOSTER - Fica com esta bolsa, ó tu, que as pragas
do céu aos golpes todos humilharam. Minha desgraça
mais feliz te deixa. Procedei sempre assim, ó céus!
Que o homem saturado de bens e de prazeres que
deixa subservientes vossas máximas e nada vê
porque não sente nada, sinta depressa toda vossa
força. A divisão, assim, destrói o excesso, tocando a
todo o mundo alguma coisa. Conheces Dover?
EDGAR - Sim, conheço, mestre.
GLOSTER - Lá se encontra um penhasco de cabeça
alta e inclinada, que olha com receio para o abismo
horroroso. Vamos; leva-me até ao rebordo dele, que
hei de a tua miséria remediar com algum objeto de
valor que ora trago. Daí em diante dispensarei teus
passos.
EDGAR - Dá-me o braço; o pobre Tom vai te servir de
guia.
(Saem.)
Cena II
Diante do palácio do Duque de Albânia. Entram
Goneril e Edmundo.
GONERIL - Sois bem-vindo, senhor. Estranho muito
que o nosso brando esposo não nos tenha saído a
receber.
(Entra Osvaldo.)
Que é de vosso amo?
OSVALDO - Senhora, está lá dentro; porém nunca
homem nenhum mudou, como ele, tanto. Contei-lhe
que desembarcaram forças. Sorriu à nova. Disse-lhe
que vínheis para cá; respondeu: “Tanto pior”. Ao lhe
falar da alta traição de Gloster e da lealdade de seu
filho Edmundo, chamou-me de papalvo, declarandome
que eu havia tomado o pior partido. Tudo quanto
ele detestar devia, lhe ensejava prazer. GONERIL (a
Edmundo) - Não é preciso, portanto, irdes mais
longe. E seu espírito covarde e aterrorado que não
ousa decidir-se por nada. Não deseja sentir o ultraje
que à resposta o force. Os votos que fizemos em
caminho talvez se efetuarão. Voltai, Edmundo, para o
mano; reuni seus homens logo e o comando assumi
de seu exército. Terei de me aprestar com nossas
armas e pôr na mão de meu marido a roca. Este fiel
servidor irá servir-nos de intermediário. Dentro de
pouquinho - se algo arriscardes para vosso ganho -
ordens recebereis de vossa dama. Usai isto.
(Dá-lhe uma prenda.)
Poupai qualquer discurso. Abaixai a cabeça. Ora, este
beijo se a falar se atrevesse, exalçaria teu espírito às
nuvens. Vai; compreende e passa bem.
EDMUNDO - Confesso-me por vosso nas fileiras da
morte.
GONERIL - Meu caríssimo Gloster!
(Sai Edmundo.)
Oh! Que distância vai de um homem para outro! Bem
mereces os serviços de uma mulher. Meu bobo é que
me usurpa presentemente o leito.
OSVALDO - Aí vem meu amo.
(Sai.)
(Entra Albânia.)
GONERIL - Antes eu merecia um assobio.
ALBÂNIA - Ó Goneril, digna não sois da poeira que
vos atira ao rosto o vento rude. Inspira-me pavor
vosso caráter. Quando renega um ser a própria
origem, em si mesmo contido não prossegue. Quem
se arranca a si próprio e se desgalha da seiva
substancial, é inevitável que a secar venha e pela
morte caia.
GONERIL - Basta; o texto é cretino.
ALBÂNIA - Para o baixo o saber e a bondade são
mesquinhos. Só a si mesma aprecia a sujidade. Que
perpetrastes? Tigres, sim, não filhas: que fizestes?
Um pai, um velho afável, cuja figura régia até mesmo
um urso preso à corda afagara, por vós duas -
degeneradas! bárbaras! - lançado foi à loucura. Como
se compreende que meu bondoso irmão o permitisse,
um nobre, um homem que por ele próprio fora
beneficiado a mãos repletas? Se o céu não enviar
logo seus espíritos visíveis para que aqui em baixo
venham reprimir essas vis atrocidades, será fatal:
vão devorar-se os homens uns aos outros, como os
monstros do abismo. GONERIL - O sujeito de fígado
de leite, com rosto para receber pancada e fronte
para insultos! Não tens olhos que possam distinguir a
honra do insulto. Desconheces que são somente os
tolos que mostram compaixão do celerado, quando a
pena recebe, antes de tempo ter de fazer o mal.
Onde se encontra teu tambor? Já desfralda os
estandartes a França em nossa terra silenciosa. Teu
matador, com elmo empenachado, te ameaça, e tu,
meu tolo moralista, permaneces sentado e
choramingas: “Ah! Por que fez ele isso?”
ALBÂNIA - Olha em ti própria, demônia! A original
deformidade não é tão repelente nos demônios, como
numa mulher.
GONERIL - Oh tolo tímido!
ALBÂNIA - Cria vergonha, criatura falsa, que de ti
própria retiraste a máscara, e cessa de animalizar os
traços! Se me ficasse bem deixar que ao sangue as
mãos obedecessem, mui capazes seriam de quebrarte
os ossos todos e lacerar-te as carnes. Mas embora
sejas o próprio diabo, ora te ampara a forma de
mulher.
GONERIL - Como valente se tornou num instante!
(Entra um mensageiro.)
ALBÂNIA - Que há de novo?
MENSAGEIRO - Senhor, morreu o duque de
Cornualha. Matou-o um criado, quando pretendia
arrancar o segundo olho de Gloster.
ALBÂNIA - Como! Os olhos de Gloster?
MENSAGEIRO - Um dos próprios servidores, por ele
mesmo criado, se opôs ao ato, a espada então
sacando contra seu grande mestre, o qual, colérico
contra ele se lançou e o prostrou morto, não, porém,
sem aquele fatal golpe que depois o matou.
ALBÂNIA - Isso demonstra que morais aí em cima, ó
Justiceiros! para punirdes com tamanha pressa os
crimes cá de baixo. Mas é certo que perdeu o outro
olho o pobre Gloster?
MENSAGEIRO - Ambos, senhor. Resposta urgente
exige, senhora, esta missiva. Vem da parte de vossa
irmã.
GONERIL (à parte) - Agrada-me isso a meias. Mas
estando viúva e ao lado dela meu Gloster se
encontrando, é bem possível que os castelos de
minha fantasia esmagar venham minha vida odiosa.
Porém por outro lado essa notícia não me parece má.
(Ao mensageiro.)
Vou lê-la e logo responderei.
(Sai.)
ALBÂNIA - E onde se achava o filho, no momento em
que os olhos lhe arrancaram?
MENSAGEIRO - Para cá tinha vindo com a senhora.
ALBÂNIA - Mas aqui não se encontra.
MENSAGEIRO - Não, milorde; encontrei-o de volta
novamente.
ALBÂNIA - Soube ele dessa infâmia?
MENSAGEIRO - Sim, bondoso senhor; o delator foi
ele próprio, tendo saído para que o castigo tivesse
livre curso.
ALBÂNIA - Gloster, vivo para te dar os
agradecimentos pelo amor que mostraste ao rei e
para vingar teus olhos. Vem aqui, amigo; conta o
mais que souberes.‘
(Saem.)
Cena III
O acampamento francês, perto de Dover. Entram
Kent e um gentil-homem.
KENT - Por que o rei da França retornou com tanta
pressa? Sabeis a razão?
GENTIL-HOMEM - Deixou em suspenso algum
assunto de Estado, que o preocupa desde que de lá
partiu e que, importando para o reino muito temor e
perigo, impôs como necessidade urgente a volta do
rei.
KENT - Quem deixou ele atrás como general?
GENTIL-HOMEM - O Marechal de França, Monsieur La
Far.
KENT - Vossas cartas arrancaram da rainha alguma
demonstração de tristeza?
GENTIL-HOMEM - Pois não, senhor; tomou-as e na
minha presença as leu. De quando em quando
lágrimas as faces delicadas lhe sulcavam. Parecia a
rainha da tristeza que, tal como os rebeldes,
procurava dominá-la de vez.
KENT - Oh! comoveu-se!
GENTIL-HOMEM - Mas sem ficar colérica; a paciência
e a dor lutavam para apresentá-la sob o mais grato
aspecto. Com certeza já vistes sol e chuva ao mesmo
tempo; pois nela mais encantadores ainda eram o
riso e o choro. Os sorrisinhos graciosos que na boca
lhe brincavam, pareciam não ter conhecimento dos
hóspedes dos olhos, que deixavam a grata
hospedaria como pérolas que caem de diamantes.
Em resumo: a tristeza seria raridade muito querida,
se ficasse em todas as pessoas tão bem.
KENT - Não fez perguntas?
GENTIL-HOMEM - Sim, suspirou por uma ou duas
vezes o nome “pai”, gemendo, dolorida, como se o
coração ele abafasse. Clamava: “Irmãs! Vergonha
das mulheres! Irmãs! Kent! Meu pai! Como! De
noite? Na tempestade? A compaixão é um mito!” A
água benta, depois, cair deixando dos olhos
celestiais, que lhe os queixumes umedeciam, súbito
partiu-se para lutar sozinha com sua mágoa.
KENT - São os astros, os astros lá de cima, que
determinam nossas condições; se não, o mesmo par
não poderia filhos gerar assim tão diferentes.
Falastes-lhe depois?
GENTIL-HOMEM - Não.
KENT - E isso tudo se deu antes da volta do
monarca?
GENTIL-HOMEM - Não; depois.
KENT - Muito bem, senhor; o pobre e inditoso Lear se
acha na cidade. Por vezes, quando está mais bem
disposto, ocorre-lhe a razão de nossa vinda. Porém
de modo algum quer ver a filha.
GENTIL-HOMEM- Por quê, meu bom senhor?
KENT - Vergonha extrema tanto o deprime - a
rispidez com que ele privou da bênção sua própria
filha, entregando-a a acidentes estrangeiros e
transferindo a bela herança dela para as irmãs de
coração canino - tudo isso o coração de tal maneira
com dardo venenoso lhe transpassa, que uma
vergonha abrasadora longe de Cordélia o detém.
GENTIL-HOMEM - Ah! pobre rei!
KENT - E nada ouvistes sobre os dois exércitos, de
Cornualha e de Albânia?
GENTIL-HOMEM - Estão em marcha.
KENT - Pois muito bem, senhor; vou conduzir-vos a
nosso mestre Lear, lá vos deixando para tratardes
dele. Alguns negócios de importância a ficar me
obrigam ainda mais algum tempo oculto. Porém logo
que eu revelar quem sou, não tereis causa de vos
arrepender desta amizade. Por obséquio, segui-me.
(Saem.)
Cena IV
O mesmo. Uma tenda. Entram com toque de tambor
e bandeiras desfraldadas Cordélia, o médico e
soldados.
CORDÉLIA - É ele mesmo, ai de mim! Neste
momento foi visto, tão furioso como o oceano
revoltado, a cantar alto e sozinho, coroado de áspera
fumária, urtiga, cicuta, cardamina, pegamassa, joio,
cizânia e quanta erva daninha viceja em nosso trigo
alimentício. Mandai cem homens; que examinem
jeira por jeira da lavoura já crescida, e a nossa vista
o tragam.
(Sai um oficial.)
Com que meios conta a sabedoria humana, para
restituir-lhe a razão? Quanto possuo ficará sendo de
quem quer que o cure.
O MEDICO - Há recursos, senhora. A ama de nossa
natureza é o repouso, justamente o de que ele
carece, o que é possível nele obter pela ação de
muitos simples que baixarão a pálpebra da angústia.
CORDÉLIA - Surgi com minhas lágrimas, segredos
abençoados, virtudes ainda ocultas da natureza!
Vinde em nosso auxílio, remediando a desgraça do
bom velho! Procurai-o depressa! Procurai-o, antes
que seu furor desordenado lhe dissolva a existência
carecente de eficaz direção.
(Entra um mensageiro.)
MENSAGEIRO - Novas, senhora! As forças da
Bretanha se aproximam.
CORDÉLIA - Disso conhecimento já tivemos, e à sua
espera estamos. É a tua causa, querido pai, que eu
sirvo. Esse o motivo de ter-se o grande França de
meu choro apiedado e de meu luto. A vazia ambição
não foi que o braço nos armou para a luta, mas
apenas o amor, o terno amor, bem como a causa de
nosso idoso pai. Pudesse eu vê-lo dentro de pouco e
ouvi-lo!
(Saem.)
Cena V
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Regane e
Osvaldo.
REGANE - Mas as forças do mano estão em campo?
OSVALDO - Sim, senhora.
REGANE - E ele próprio à frente delas?
OSVALDO - Com muita relutância; vossa mana é
melhor combatente.
REGANE - Lorde Edmundo não falou com vosso amo
em casa deste?
OSVALDO - Não, senhora.
REGANE - Qual pode ser o assunto da carta dela,
então?
OSVALDO - Não sei, senhora.
REGANE - É certeza ter sido enviado em muito séria
missão. Foi erro indesculpável deixar Gloster com
vida, após os olhos lhe termos arrancado. Onde
aparece levanta os corações, contra nós todos.
Edmundo, quero crer, compadecido de sua dor, foi
dar remate logo a sua vida enoitada e, ao mesmo
tempo, tentar saber das forças do inimigo.
OSVALDO - Preciso partir logo, para a carta, senhora,
lhe entregar.
REGANE - As nossas tropas partirão amanhã. Fica
conosco, pois não há segurança nas estradas.
OSVALDO - Senhora, não é possível; a patroa confia
em minha diligência nisso.
REGANE - Qual a necessidade que ela tinha de
escrever a Edmundo? Não podíeis transmitir
verbalmente seu recado? Talvez... Alguma coisa...
Como posso sabê-lo? Amar-te-ia imensamente se
permitisses que eu abrisse a carta.
OSVALDO - Preferira, senhora...
REGANE - Não ignoro que vossa ama não gosta do
marido. Tenho certeza disso. Quando da última vez
ela esteve aqui, lançou estranhos olhares, eloqüentes
sobremodo, para o nobre Edmundo. Confidente dela
sei bem que sois.
OSVALDO - Como! Eu, senhora?
REGANE - Sei o que estou dizendo: confidente, tenho
certeza disso. Mas sugiro-vos aceitar meu conselho.
Meu marido faleceu; eu e Edmundo já falamos a esse
respeito, sendo mais razoável, assim, que ele me
peça a mão, deixando de lado a mana. Deduzi o
resto. Se o encontrardes, dai-lhe isto, por obséquio.
E quando conversardes com vossa ama sobre este
assunto, peço concitarde-la a readquirir sua usual
prudência. Portanto, passai bem. Se vierdes a
encontrar o traidor cego, ganhará muito quem der
cabo dele.
OSVALDO - Oh! Quem dera que o visse! Assim,
mostrara de que lado me encontro.
REGANE - Passai bem.
(Saem.)
Cena VI
Região perto de Dover. Entram Gloster e Edgar
vestido como camponês.
GLOSTER - Quando estarei no cimo da colina?
EDGAR - Já estais subindo. Vede nosso esforço.
GLOSTER - Tenho a impressão de que o terreno é
plano.
EDGAR - Horrivelmente abrupto. Não ouvis o barulho
do mar?
GLOSTER - Não, em verdade.
EDGAR - E que os outros sentidos tendes fracos pelo
que os olhos sofrem.
GLOSTER - É possível. Parece-me que tens a voz
mudada e que com mais sentido agora falas e melhor
expressão.
EDGAR - É puro engano de vossa parte; em nada
estou mudado, se não for nestas vestes.
GLOSTER - Não; parece-me que te exprimes melhor.
EDGAR - Vamos, senhor; eis o lugar. Chegamos. Ficai
quieto. Como é terrível! É de dar vertigens olhar
nesta distância para baixo. Como os corvos e as
gralhas que transvoam o ar intermédio ficam
pequeninos como besouros! Vê-se à meia altura,
suspenso, um homem que procura funcho. Profissão
arriscada! A impressão tenho de que ele é do
tamanho da cabeça. Os pescadores que andam pela
praia parecem-se com ratos; a barcaça ali ancorada,
tão pequena se acha como o próprio escaler, e este
se encontra reduzido a uma bóia, pequenina demais
para ser vista. As marulhosas vagas que batem nos
inumeráveis e preguiçosos seixos não se fazem ouvir
de tanta altura. É-me impossível olhar mais tempo
assim, pois tenho medo de vir a ter vertigens,
atirando-me a vista de cabeça para baixo.
GLOSTER - Coloca-me no ponto em que te encontras.
EDGAR - Dai-me a mão; só um passo vos separa da
borda extrema. Por quanto há debaixo da lua, eu não
saltara dessa altura.
GLOSTER - Solta-me a mão; recebe esta outra bolsa;
dentro dela há uma jóia que merece ficar com algum
pobre. Os deuses todos e as fadas te protejam. Vaite
embora; dize adeus, pois desejo ouvir teus passos.
EDGAR - Passai bem, bom senhor.
GLOSTER - Agradecido de todo coração.
EDGAR (à parte) - A brincadeira que faço com a
desgraça dele, visa, tão-somente, curá-lo.
GLOSTER - Ó deuses grandes, renuncio a este mundo
e, em vossa vista, paciente, me despojo do meu
grande sofrimento! Pudesse eu suportá-lo por mais
tempo, sem luta abrir com vossa vontade irresistível,
este abjeto morrão da natureza se deixara consumir
até ao fim. Se ainda com vida estiver meu Edgar, oh!
abençoai-o! E agora, amigo, adeus.
(Cai para a frente.)
EDGAR - Adeus, senhor; já fui embora. (À parte.)
Conceber não posso como a imaginação roubar
consegue da vida a rara jóia, quando a própria vida
se presta ao roubo. Se se achasse onde pensava
estar, neste momento pensar já não pudera. Vivo ou
morto? (A Gloster.) Então, senhor! Amigo! Estais me
ouvindo? Poderia morrer... Mas não; revive. Que sois,
senhor? Dizei-me. GLOSTER - Vai-te embora e deixame
morrer.
EDGAR - Se algo mais fosses do que ar, teia de
aranha, leve pluma, caindo assim de tantas braças do
alto, partido já estarias como um ovo. Mas respiras,
possuis pesado corpo, não perdes sangue, estás
inteiro, filas. Dez mastros superpostos não bastaram
para medir a altura de onde caíste
perpendicularmente. Verdadeiro milagre é tua vida.
Vamos, fala!
GLOSTER - Mas eu caí ou não?
EDGAR - Sim, lá do pico desta penha calcária. Olha
para o alto; ver e ouvir não se pode a cotovia de
garganta estridente. Olha para o alto!
GLOSTER - Ai de mim! Não tenho olhos! É negada à
desgraça o benefício de pôr termo com a morte á
própria angústia. Era consolo para o sofrimento poder
lograr a raiva do tirano e frustrar seus intentos
orgulhosos.
EDGAR - Dai-me o braço. De pé! Então, e agora?
Sentis as pernas? Eis-vos levantado.
GLOSTER - Bem; muito bem.
EDGAR - Tudo isso é muito estranho. Que era que
estava no alto do penhasco e se apartou de vós?
GLOSTER - Um miserável. Um mendigo infeliz.
EDGAR - Daqui debaixo onde me achava, pareciam
duas luas os olhos dele. Dotado era de mil narizes,
cornos retorcidos e ondeados como os sulcos do mar
bravo. Decerto era um demônio. Por tudo isso,
lembra-te, feliz pai, que os deuses claros que da
importância dos mortais constroem toda sua glória, a
vida te salvaram.
GLOSTER - Agora penso nisso; de hoje em diante
pretendo suportar o sofrimento até que por si mesmo
ele me grite: “Basta! Basta!” e pereça. Por um
homem tomei a coisa a que vos referistes. Dizia
muitas vezes: “O demônio!” Foi ele que me pôs
naquela ponta.
EDGAR - Possas agora ter só pensamentos tranqüilos
e confiantes. Mas, que vejo! Quem vem aí
(Entra Lear, fantasticamente enfeitado com flores.)
Jamais a sã razão vestirá seu senhor dessa maneira.
LEAR - Não; não poderão pegar-me por cunhar
moedas; sou o rei.
EDGAR - Oh espetáculo de transpassar o coração!
LEAR - Nisto a natureza sobrepuja a arte. Eis vosso
soldo. Aquele sujeito maneja o arco como se fosse
um espantalho... Cortai-me uma jarda de pano.
Vede! Um rato! Paz! Paz! Este pedaço de queijo frio
resolverá o assunto. Eis minha luva; medir-me-ei
com um gigante. Trazei as alabardas escuras. Oh!
Bonito vôo, passarinho! No alvo! No alvo, hu! A
senha, vamos!
EDGAR - Doce mangerona.
LEAR - Passai.
GLOSTER - Conheço essa voz.
LEAR - Ah! Goneril de barba branca! Adularam-me
como um cão e me disseram que os pêlos brancos de
minha barba nasceram antes dos pretos. Responder
“sim” e “não” a tudo o que eu dizia! “Sim” e “não” ao
mesmo tempo não era boa teologia. No dia em que a
chuva veio para molhar-me e o vento para me fazer
bater o queixo, e em que o trovão se recusava a
obedecer-me, foi quando as encontrei; foi quando
lhes percebi o cheiro. Ide embora; não têm palavra.
Disseram-me que eu era tudo. É mentira! Não estou
à prova de febre.
GLOSTER - Lembro-me dessa voz perfeitamente. Não
é o rei?
LEAR - Rei da cabeça aos pés. Vede os vassalos como
tremem, quando fito neles os olhos. Ora apraz-me
perdoar a este homem. Qual o crime dele? Adultério?
Não morrerás! Morrer por adultério? Não; isso faz o
pintassilgo, e à minha vista a mosca dourada é
libertina. Porque o filho bastardo do bom Gloster foi
melhor para o pai que minhas filhas lealmente
geradas. A vontade, luxúria, em toda parte! Preciso
de soldados. Vede aquela senhora sorridente, cujo
rosto anuncia pura neve na união das coxas. Só
virtude mostra, sacudindo a cabeça sempre que ouve
o nome do prazer. O furão e o corcel arrebatado não
revelam mais lúbrico apetite. Abaixo da cintura são
centauros, muito embora mulheres para cima. Até à
cintura os deuses é que mandam; para baixo, os
demônios. Ali é o inferno, escuridão, abismo
sulfuroso, calor, fervura, cheiro de podridão... Xi! Xi!
Pá! Ó bondoso boticário, dá-me uma onça de
almíscar, para eu temperar a imaginação. Aqui tens
dinheiro. GLOSTER — Deixai-me beijar essa mão.
LEAR — Primeiro deixai que a limpe; cheira a
mortalidade.
GLOSTER — Ó arruinada peça da natura! O imenso
mundo há de gastar-se todo, reduzindo-se a nada.
Reconheces-me?
LEAR — Lembro-me perfeitamente de teus olhos.
Estás piscando para mim? Não, Cupido cego; por
mais que faças, não chegarei a amar-te. Lê este
desafio; observa bem o traço das letras.
GLOSTER — Se outros tantos sóis fossem, não as
vira.
EDGAR(à parte) — Se mo dissessem, não o
acreditara. No entanto é certo e o coração me parte.
LEAR — Lê!
GLOSTER — Como! Com as órbitas apenas?
LEAR — Oh! oh! Alcançastes-me nesse ponto? Nem
olhos na cabeça, nem dinheiro na bolsa? Tendes os
olhos pesados e a bolsa leve; no entanto, podeis ver
como vai o mundo.
GLOSTER — Vejo-o porque o sinto.
LEAR — Como! Estais louco! A gente pode ver sem
olhos como vai o mundo. Olha com as orelhas; vê
como aquele juiz invectiva contra um simples ladrão.
Escuta aqui, só uma palavrinha ao ouvido. Muda de
lugar... Um, dois, três! E ago ra: qual é o ladrão?
Qual é o juiz? Já viste um cachorro de fazendeiro
ladrar para um mendigo?
GLOSTER — Já, sim senhor.
LEAR — E a criatura fugir do mastim? Nisso poderás
contemplar a grande imagem da autoridade: um
cachorro no desempenho de suas funções é
obedecido. Oficial de justiça desonesto, suspende a
mão sangrenta! Por que açoitas essa pobre rameira?
Vira contra ti próprio essa chibata. Estás ardendo de
desejos de com ela realizares o ato por que a
castigas. O onzeneiro põe na forca o ladrão. As
faltazinhas se deixam ver nos furos dos andrajos;
mas as togas e as peles tudo encobrem. Forra de
ouro o pecado, e a forte lança da Justiça se quebra
sem feri-lo;
cobre-o de trapos, e uma simples palha vibrada por
pigmeu vai transpassá-lo. Ninguém comete falta, é o
que te afirmo; ninguém. A todos sirvo de fiador.
Podes acreditar-me, amigo; fala-te quem força tem
para fechar a boca da acusação. Arranja umas
lunetas e, como vil político, imagina ver coisas que
não vês. Bum, bum, bum, bum! Tirai-me as botas.
Força! Força!... Assim...
EDGAR (à parte) - Que mistura de senso e de
incoerência! A razão na loucura.
LEAR - Toma meus olhos, se chorar desejas minha
infelicidade. Sei de sobra quem és. Teu nome é
Gloster. Pois bem sabes: ao respirarmos pela vez
primeira, choramos e gememos. Vou fazer-te sobre
isso um bom sermão; sê, pois, atento.
GLOSTER - Oh dia triste!
LEAR - Mas nascemos, choramos por nos vermos
neste grande tablado de dementes. Que bela forma
de chapéu! Seria idéia mui sutil pôr ferraduras de
feltro nos cavalos de uma tropa. Vou tentá-lo; e, uma
vez caindo em cima de meus genros: matar, matar,
matar!
(Entra um gentil-homem, com criados.)
GENTIL-HOMEM - Oh, ei-lo aqui! Com jeito segurai-o.
Meu senhor, vossa filha muito amada...
LEAR - Não há socorro! Como! Prisioneiro? Sou
realmente joguete da fortuna. Tratei-me bem; pagarvos-
ei resgate. Trazei-me um cirurgião, pois tenho o
cérebro muito ofendido.
GENTIL-HOMEM - Haveis de ter de tudo.
LEAR - Ninguém vem ajudar-me? Estou sozinho? Isso
em homem de sal mudara um homem, para fazer de
irrigador os olhos, sim, e a poeira do outono deixar
úmida.
GENTIL-HOMEM - Meu bom senhor...
LEAR - Morrerei como bravo, como noivo... Como!
Jovial hei de mostrar-me. Vamos! Sou rei, meus
mestres; ignorais tal coisa?
GENTIL-HOMEM - É rei notável, a quem muito
amamos.
LEAR - Então ainda há vida. Se a alcançardes, há de
ser na carreira. Sá, sá, sá!...
(Sai; os criados o acompanham.)
GENTIL-HOMEM - Lastimoso já fora este espetáculo
no mais ínfimo ser e desgraçado. Num rei, não cabe
no discurso humano. Uma filha ainda tens que a
natureza limpa da maldição geral que as outras
fizeram vir sobre ela.
EDGAR - Salve, senhor.
GENTIL-HOMEM - Senhor, o céu vos guarde. Que
desejais?
EDGAR - Ouvistes, porventura, falar de uma batalha
a ser travada?
GENTIL-HOMEM - É certo e mui sabido. Todo o
mundo que sons distingue, ouviu falar sobre isso.
EDGAR - Mas, por obséquio: a que distância se acha
o outro exército?
GENTIL-HOMEM- Perto, e vem com pressa. A vista
surgirá dentro de uma hora; é o que se espera.
EDGAR - Agradecido. É tudo.
GENTIL-HOMEM - Muito embora a rainha aqui se
encontre por um motivo especial, o exército dela
avançou.
EDGAR - Bem; muito agradecido.
(Sai o gentil-homem.)
GLOSTER - Ó deuses sempre bons! tirai-me a vida,
não permitindo que meu mau espírito tentar me
venha novamente, para que à vossa revelia eu peça a
morte.
EDGAR - Pai, rezais muito bem.
GLOSTER - Quem sois, amigo?
EDGAR - Indivíduo mui pobre, que os reveses da
fortuna amansou e que pela arte das desgraças
alheias e das próprias à compaixão se revelou
sensível.
GLOSTER - Do imo peito agradeço. Que a bondade do
céu e sua bênção te acompanhem sempre e sempre.
(Entra Osvaldo.)
OSVALDO - Oh! Cabeça posta a prêmio! Encontro mui
feliz! Essa cabeça sem olhos só criou carne porque a
minha fortuna prosperasse. Miserável traidor,
concentra-te depressa, a espada que vai tirar-te a
vida está sacada.
GLOSTER - Então põe força em tua mão amiga.
(Edgar se interpõe.)
OSVALDO - Por que te atreves, rústico atrevido, a
amparar um traidor, publicamente como tal
proclamado? Vai-te embora; do contrário, a infecção
da sorte dele passará para ti. Larga-lhe o braço!
EDGAR - Não largo ele, seu moço; não há percisão
disso.
OSVALDO - Solta-o, escravo! Do contrário, morrerás.
EDGAR - Ide embora, seu moço; ide embora e deixai
os pobre viver. Se as ameaças pudessem tirar-me a
vida, esta teria sido encurtada de uma quinzena. Não
vos aproximeis do velho; ficai de longe, é o que eu
digo, ou então vamos tirar a prova para ver o que é
mais duro, se vosso coco ou este meu cacete. Gosto
de franqueza.
OSVALDO - Sai da frente, monturo!
EDGAR - Vou curar vossos dentes, seu moço. Vinde.
Vossos botes não me metem medo.
(Batem-se; Edgar o abate.)
OSVALDO - Oh! matas-te-me, escravo! Coisa à-toa,
fica com minha bolsa. Se desejas prosperar,
sepultura dá a meu corpo e entrega as cartas que
aqui trago a Edmundo, conde de Gloster. Morte
intempestiva!
(Morre.)
EDGAR - Sei quem és, um velhaco diligente; tão
dedicado aos vícios da patroa quanto a maldade
desejar pudera.
GLOSTER - Como! Morreu?
EDGAR - Pai, repousai; Sentai-vos. Revistemos-lhe os
bolsos. Essas cartas de que falou serão talvez
amigas. Morreu; só me aborrece não ter ele tido um
outro carrasco. Mas vejamos. Permiti mole cera; e
vós, costumes, não nos culpeis; porque saber
possamos as idéias de nossos inimigos os próprios
corações lhes abriríamos. Abrir cartas, assim é mais
legítimo. “Lembrai-vos de nossos juramentos
recíprocos. Tendes muitas oportunidades de suprimilo;
se vontade não vos faltar, oportunidade e lugar
haveis de ter de sobra. Nada se terá feito se ele
voltar como vencedor, porque ficarei como sua
prisioneira e o leito dele como minha prisão. Libertaime,
portanto, desse calor odioso, e, pelo vosso
trabalho, ficai com o lugar dele. Vossa - esposa é o
que eu desejara chamar-me - serva afetuosa Goneril.
“ Oh insondável campo da perfídia feminina! Uma
conjura contra a vida de um marido tão virtuoso,
para ser por meu mano substituído! Vou enterrar-te
aqui na areia mesmo, sacrilego correio de assassinos
luxuriosos, a fim de em tempo certo ferir a vista do
ameaçado duque com este papel fatal. E está com
sorte por eu poder contar-lhe de tua morte.
GLOSTER - O rei ficou insano; quão teimoso meu vil
juízo se mostra, permitindo-me ficar de pé e intacto
me deixando o sentido de minha dor imensa. Fora
melhor ficar de todo louco. Assim se apartariam das
tristezas os pensamentos, que as desgraças perdem
a autoconsciência, quando sob o império de errôneas
fantasias.
(Ruído de tambor ao longe.)
EDGAR - Dai-me a mão. Ouço ao longe um tambor,
se não me engano. Vamos, pai; vou confiar-vos a um
amigo.
(Saem.)
Cena VII
Uma tenda no acampamento francês. Entram
Cordélia, Kent, um médico e um gentil-homem.
CORDÉLIA - Ó meu bondoso Kent, de que maneira
posso viver e agir, para que a tua bondade
recompense? Minha vida será curta demais, sem que
eu disponha de medida adequada.
KENT - Já me sobram, senhora, os vossos
agradecimentos Vai de par meu relato com a mais
simples verdade, sem acréscimos nem falhas.
CORDÉLIA - Veste roupa melhor; essa roupagem faz
lembrados momentos muito tristes. Por favor, trocaa.
KENT - Não, cara senhora; perdoai-me; mas
prejudicara muito meus planos dar-me a conhecer
agora. Como graça vos peço continuardes sem me
reconhecer, até que o tempo e eu concordemos nisso.
CORDÉLIA - Pois que seja, meu bondoso senhor. (Ao
médico.) Que faz o rei?
O MÉDICO - Ainda dorme, senhora.
CORDÉLIA - Ó divindades piedosas, deixai boa a
grande brecha de sua natureza maltratada! Afinai os
sentidos em desordem e dissonantes deste pai que
em criança voltou a transformar-se.
O MEDICO - Vossa Alteza permitirá que o rei nós
despertemos? Já dormiu muito.
CORDÉLIA - Segui nisso apenas vossos
conhecimentos, procedendo como melhor julgardes.
Já o vestiram?
(Entra Lear numa cadeira, carregado por criados.)
GENTIL-HOMEM - Já sim, senhora, pois no mais
pesado do sono lhe trocamos toda a roupa.
O MÉDICO - Ficai junto, senhora, no momento de o
despertarmos, pois não tenho dúvidas quanto a suas
melhoras.
CORDÉLIA - Muito bem.
(Música.)
O MÉDICO - Aproximai-vos, por favor. A música, aí,
mais alto!
CORDÉLIA - Ó meu querido pai! Em meus lábios
suspende teus remédios, convalescença, e deixa que
este beijo repare a imensa dor que minhas manas
produziram em tua reverência.
KENT - Minha boa princesa e mui querida!
CORDÉLIA - Mesmo que pai não fosse delas duas.
estes cabelos brancos lhes teriam forçado à
compaixão. Uma cabeça como esta poderia ser
exposta à fúria das rajadas? defrontar-se com o
trovão pavoroso e o mais terrível ziguezaguear de
temerosos raios? Ficar de guarda - pobre sentinela! -
com este elmo tão fino? O próprio cão do meu
imigro, embora me tivesse mordido, houvera, numa
noite dessas, permanecido junto do meu fogo. E tu,
meu pobre pai, foste forçado a abrigar-te com porcos
e mendigos numa pouca de palha embolorada! Ai,
que dor. Maravilha é não haveres a um só tempo
perdido a vida e o espírito. Vai acordar; falai-lhe.
O MÉDICO - Vós, senhora; será melhor.
CORDÉLIA - Como se sente agora meu real senhor? E
Vossa Majestade como passa?
LEAR - Foi mal de vossa parte retirar-me do túmulo.
És uma alma da bem-aventurança; eu, porém, me
acho a uma roda de fogo sempre atado, que minhas
próprias lágrimas escaldam como chumbo fundido.
CORDÉLIA - Conheceis-me, senhor?
LEAR - És um espírito; conheço-te. Desde quando
morreste?
CORDÉLIA - Divagando sempre por muito longe.
O MÉDICO - Concedei-lhe mais algum tempo;
despertou há pouco.
LEAR - Onde estive? Onde estou? É dia claro? Oh!
Procederam muito mal comigo; morrer de compaixão
eu poderia, se visse alguém tratado desse modo. Não
sei o que dizer; jurar não quero que estas mãos
sejam minhas. Mas vejamos: sinto esta alfinetada.
Quem me dera saber quem sou, realmente.
CORDÉLIA - Senhor, olhai para o meu lado, e as
mãos estendei sobre mim, para abençoar-me. Não,
meu senhor! Não vos ponhais de joelhos!
LEAR - Ah! Não zombeis de mim, é o que vos peço.
Sou um velho imprestável e caduco, para cima de
oitenta, nem uma hora mais nem menos. E, para ser
sincero, receio ter o espírito avariado. Creio vos
conhecer e, assim, a este homem; mas em dúvida
me acho, pois ignoro de todo onde me encontro, sem
que possa lembrar-me destas vestes. De igual modo
não sei onde passei a última noite. Oh! não riais de
mim! Porque tão certo como eu ser homem, quer
afigurar-me que esta dama é Cordélia, minha filha.
CORDÉLIA - Sou ela mesma, meu senhor; sou ela.
LEAR - Tendes lágrimas úmidas? Realmente. Não
choreis, é o que peço. Se tiverdes veneno para darme,
hei de bebê-lo. Sei que amor não me tendes.
Vossas manas - tanto quanto me lembro -
procederam comigo muito mal. Mas tendes causa; ao
passo que nenhuma delas tinha.
CORDÉLIA - Nenhuma causa! Não; nenhuma causa!
LEAR - Estou na França?
KENT - Em vosso próprio reino, senhor.
LEAR - Não me enganeis.
O MÉDICO - Ficai tranqüila, boa senhora. Já está
morta nele, como estais vendo, a grande fúria. Agora
perigoso é fazê-lo novamente subir ao longo do
perdido tempo. Levai-o para dentro, sem cansá-lo
com perguntas, até que se refaça.
CORDÉLIA - Quererá Vossa Alteza andar um pouco?
LEAR - Precisareis comigo ter paciência. Esquecei e
perdoai-me, por obséquio. Estou velho e caduco.
(Saem Lear, Cordélia, o médico e os criados.)
GENTIL-HOMEM - Confirmou-se a notícia, senhor, de
que o duque de Cornualha foi morto?
KENT - Perfeitamente, senhor.
GENTIL-HOMEM - Quem está à testa de seus
homens?
KENT - Ao que dizem, o filho bastardo de Gloster.
GENTIL-HOMEM - Dizem que Edgar, seu filho exilado,
está na Alemanha com o conde de Kent.
KENT - Os boatos variam. É tempo de abrirmos os
olhos; as forças do reino se aproximam com
presteza.
GENTIL-HOMEM - A decisão promete ser sangrenta.
Passai bem, senhor.
(Sai.)
KENT - Ou boa ou má, a minha conclusão os golpes
de hoje à luz sair farão.
(Sai.)
ATO V
Cena I
O acampamento inglês, perto de Dover. Entram, com
tambores e bandeiras desfraldadas, Edmundo,
Regane, oficiais, soldados e outras pessoas.
EDMUNDO - Ide saber do duque se seu último
projeto está de pé, ou se por causas intercorrentes já
mudou de plano. Instável sempre se revela e cheio
de queixas de si próprio. Sua firme decisão me trazei.
REGANE - O mensageiro de minha mana se perdeu,
decerto.
EDMUNDO - E o que devemos recear, senhora.
REGANE - Já conheceis, meu caro lorde, quanto bem
vos quero. Dizei-me francamente uma verdade só:
amais à mana?
EDMUNDO - Sim, com amor honroso.
REGANE - Mas acaso nunca o caminho achastes de
meu mano, para o lugar proibido?
EDMUNDO - Tal idéia, senhora, vos ofende.
REGANE - Tenho medo de com ela ligado vos
achardes e de tal modo unido, que podíeis ser tido
como dela.
EDMUNDO - Por minha honra, senhora, o afirmo.
REGANE - Nunca o permitira. Não vos mostreis tão
familiar com ela, caro senhor.
EDMUNDO - Podeis ficar tranqüila. Ela aí vem, com o
duque, seu marido.
(Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas,
Albania, Goneril e soldados.)
GONERIL (à parte) - Preferira perder esta batalha a
perdê-lo por causa desta mana.
ALBÂNIA - Muito querida irmã, feliz encontro. Senhor,
soube que o rei se uniu à filha - com outros que o
rigor de nosso jogo a protestar forçou. - Onde não
posso mostrar-me honesto, nunca sou valente. Esta
campanha nos atinge apenas por haver França
entrado em nossas terras, não por ter ajudado o rei e
os outros que se levantam contra nós, receio, por
motivos mui justos e de peso.
EDMUNDO - Falastes nobremente.
REGANE - Qual a causa de discutirmos isso?
GONERIL - Dirijamos nossas forças conjuntas contra
o imigo; são fora de propósito essas tricas
particulares e questões domésticas.
ALBÂNIA - Estudemos então nossa estratégia com o
alferes da guerra.
EDMUNDO - A vossa própria tenda irei procurar-vos
neste instante.
REGANE - Vireis conosco, irmã?
GONERIL - Não.
REGANE - Seria conveniente. Por obséquio, vinde
também.
GONERIL (à parte) - Oh oh! Compreendo o enigma.
(Alto.)
Irei.
(Entra Edgar, disfarçado.)
EDGAR - Se em algum tempo Vossa Graça já
conversou com um pobre tão humilde, ouvi-me uma
palavra.
ALBÂNIA - Já vos ouço.
(Saem Edmundo, Regane, Goneril, oficiais, soldados
e criados.)
EDGAR - Antes da pugna, lede esta missiva. No caso
de vencerdes, que a trombeta chame seu portador.
Embora aspecto tão pobre eu apresente, tenho meios
de fazer vir um campeão que pode provar tudo o que
aí está afirmado. Se vierdes a perder, vossos
negócios mundanos chegarão também ao termo,
terminando as intrigas. Que a Fortuna vos
acompanhe.
ALBÂNIA - Ficai até que eu leia a carta.
EDGAR - Foi-me proibido fazer isso. Mas no tempo
preciso, bastará que o arauto chame, para que eu me
apresente.
ALBÂNIA - Então, adeus. Vou ler o teu papel.
(Sai Edgar.)
(Volta Edmundo.)
EDMUNDO - O inimigo está à vista. Ponde em linha
vossos soldados. Eis aqui o cômputo de seu poder
exato e de suas forças, segundo explorações bem
conduzidas. Mas o momento vos obriga à pressa.
ALBÂNIA - Saberemos saudar o tempo certo.
(Sai.)
EDMUNDO - Jurei amor às duas; uma da outra
desconfia, tal como da serpente, quem picado já foi.
Qual me reservo? Ambas? Uma? Nenhuma? Com
nenhuma me alegrarei, ficando vivas ambas. Ficar
com a viúva é exasperar a outra, Goneril; é deixá-la
como louca, não podendo eu ganhar minha partida,
se seu marido continuar com vida. Aproveitemo-nos
de seu prestígio para a batalha em curso. Uma vez
ganha, ela, então, que de grado o despachara, os
recursos mais aptos excogite de logo liquidá-lo. No
que tinge ao plano dele de a Cordélia e Lear conceder
o perdão, ganha a batalha e eles em nossa mão,
jamais tal graça chegará a alcançar. Impõe-me o
posto pouco falar e trabalhar com gosto.
(Sai.)
Cena II
Um campo entre os dois acampamentos. Alarma.
Com tambores e estandartes desfraldados, entram
Lear, Cordélia e suas tropas. Saem. Entram Edgar e
Gloster.
EDGAR - Acolhei-vos aqui, pai, a esta sombra de
árvore como a um hospedeiro grato. Rezai para que
vença a boa causa. Se algum dia eu voltar, será para
trazer-vos doce alívio.
GLOSTER - Possa a Graça, senhor, acompanhar-vos.
(Sai Edgar.)
(Alarma. Depois, retirada. Volta Edgar.)
EDGAR - Fujamos, velho! Dai-me a mão. Fujamos!
Perdeu rei Lear: presos, ele e a filha. Dai-me a mão;
vamos logo.
GLOSTER - Não, senhor; não darei nem mais um
passo. Pode-se apodrecer em qualquer parte.
EDGAR - Como! De novo pensamentos negros
Precisamos mostrar-nos conformados com a nossa
vinda ao mundo e ao nos partirmos. Estarmos
preparados é o que importa. Vamos daqui.
GLOSTER - Tudo isso é muito certo.
(Saem.)
Cena III
O acampamento inglês, perto de Dover. Entra
Edmundo, como vencedor, com tambores e
bandeiras; Lear e Cordélia, prisioneiros; oficiais,
soldados, etc.
EDMUNDO - Alguns oficiais os levem logo. Que
fiquem bem guardados, até que a alta vontade se
conheça das pessoas que terão de julgá-los.
CORDÉLIA - Os primeiros não somos a ficar sobre
braseiros com boas intenções. Rei oprimido, por ti,
somente, falta-me o sentido, que eu, por mim,
poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da
Fortuna. Tais irmãs e tais filhas não veremos?
LEAR - Não, não, não, não! Levai-nos para o cárcere.
Nós dois, sozinhos, cantaremos como pássaros na
gaiola. No momento de a benção me pedires, eu me
ajoelho e te imploro perdão. Dessa maneira
viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos
contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e
ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os
boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos
para dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem
se encontra no alto da escada ou em baixo,
discorrendo sobre os altos mistérios do universo
como se espiões de Deus, acaso, fôssemos.
Gastaremos, assim, no duro cárcere, os partidos e as
lutas dos graúdos que com a lua sobem sempre e
descem.
EDMUNDO - Levai-os!
LEAR - Sobre um sacrifício destes, minha boa
Cordélia, os próprios deuses jogam incenso. Tenho-te
bem presa? Quem quiser separar-nos há de um facho
trazer do céu, para tocar-nos, como a raposas.
Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste há
de comer-lhes antes de que eles a chorar nos forcem.
Primeiro morrerão de fome. Vamos!
(Saem Lear e Cordélia, escoltados.)
EDMUNDO - Capitão, vem aqui. Toma este escrito.
Ouve-me atento. Segue-os até o cárcere. Já te
beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta
ordem, o caminho terás franqueado da mais nobre
sorte. Reflete no seguinte: os homens mudam
conforme as épocas. Uma alma terna não se casa
com a espada. Este mandato não permite objeções:
ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios.
OFICIAL - Senhor, hei de cumpri-lo.
EDMUNDO - Cuida disso, e, feito isso, feliz te
considera. Ouve-me bem: sem perda de um
momento, e cumpre as minhas instruções à risca.
OFICIAL - Puxar carro não sei, nem comer feno; mas
se é trabalho de homem, já está feito.
(Sai.)
(Fanfarra. Entram Albânia, Goneril, Regane, oficiais e
criados.)
ALBÂNIA - Senhor, mostrastes vossa altiva raça e
bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros
que adversários nossos foram na luta deste dia. De
vós os requeremos, para dar-lhes tratamento
conforme o próprio mérito o exigir e, assim, nossa
segurança.
EDMUNDO - Pareceu-me, senhor, mais conveniente
mandar o velho e desgraçado rei para alguma prisão,
sob guarda certa, pois de grande feitiço se revela sua
diade e, ainda mais, o próprio título para arrastar o
coração do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos
as lanças que nós mesmos alistamos. Pelas mesmas
razões foi a rainha juntamente com ele. Ambos se
encontram prontos, amanhã cedo ou mais de espaço,
para comparecer onde quiserdes formar o tribunal.
De suor e sangue todo coberto ainda estou; o amigo
perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas são
amaldiçoadas pelos que o corte delas sentem. O
problema de Cordélia e do pai requer um sítio mais
conveniente.
ALBÂNIA - Não vos desagrade, senhor, mas nesta
guerra considero-vos súdito, não irmão.
REGANE - Irmão, lhe digo, o que me apraz dele fazer.
Parece-me que devia ter sido consultado nosso
prazer antes de tal discurso. Foi nosso general,
representante de mim própria e de minha dignidade,
intimidade que bem pode a fronte levantar para
vosso irmão chamar-se.
GONERIL - Por que tanto calor? Seu próprio mérito o
exalta mais que vossas distinções.
REGANE - Com meus direitos, minha investidura, aos
melhores se iguala.
GONERIL - Atingiria, decerto, o ápice, vindo a
desposar-vos.
REGANE - Por vezes os trocistas se revelam
verdadeiros profetas.
GONERIL - Olará! O olho que vos disse isso estava
vesgo.
REGANE - Não estou bem, senhora; não fora isso,
vos daria a resposta merecida. General, toma conta
dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres
todos. Dispõe deles, de mim; teu é este burgo. Seja
o universo testemunha em como te creio agora meu
senhor e mestre.
GONERIL - Pensais que já sois dele?
ALBÂNIA - Não depende de vós a permissão.
EDMUNDO - Oh! nem de ti!
ALBÂNIA - Depende, sim, tipo de meio sangue.
REGANE - Faze soar o tambor, e que este prove que
meu título é teu.
ALBÂNIA - Um momentinho; a razão escutai:
Edmundo, prendo-te por traição capital, e
juntamente contigo esta serpente cheia de ouro,
(Apontando para Goneril.)
porque, formosa irmã, me oponho a vossas
pretensões, no interesse, tão-somente, de minha
esposa, que ligada se acha a este senhor por um
formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me,
portanto, a esses vossos proclamas. Se quiserdes
casar, fazei-me a corte, que esta dama já está
comprometida.
GONERIL - Que comédia!
ALBÂNIA - Gloster, estás armado. Que a trombeta dê
logo o toque. Caso ninguém venha para ao rosto
lançar-te as tuas próprias traições odiosas, múltiplas
e claras, aqui está meu penhor.
(Atira a luva.)
Nessa cabeça demonstrarei antes de novamente
provar pão, que és tudo isso que ora afirmo.
REGANE - Oh! doente, muito doente!
GONERIL (à parte) - De outro modo não voltara a
confiar na medicina.
EDMUNDO - Eis meu penhor, também.
(Joga a luva.)
Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse
chamar-me, mente como um vilão. Soe a trombeta!
Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele,
contra vós, contra quem seja, firme defenderei a
honra e a lealdade.
ALBÂNIA - Eh! Um arauto!
EDMUNDO - Olá! O arauto! O arauto!
ALBÂNIA - Confia apenas na coragem própria; pois
teus soldados, alistados todos em meu nome, já
foram licenciados.
REGANE - Meus incômodos crescem!
ALBÂNIA - Não se encontra passando bem; levai-a
para a tenda.
(Sai Regane, amparada.)
Aproxima-te, arauto.
(Entra um arauto.) Que a trombeta soe logo e,
depois, proclama isto.
OFICIAL - Soe a trombeta!
(Ouve-se um toque de trombeta.)
ARAUTO - “Se houver nas fileiras do exército
qualquer homem de qualidade ou posição que queira
sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster,
que ele é muitas vezes traidor, apresente-se ao
terceiro toque da trombeta. Edmundo está decidido a
defender-se.”
EDMUNDO - Tocai!
(Primeiro toque.)
ARAUTO - Outra vez!
(Segundo toque.)
ARAUTO - Outra vez!
(Terceiro toque.)
(Uma trombeta responde dentro.)
(Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.)
ALBÂNIA - Interrogai-o sobre seus intuitos e porque
veio ao toque da trombeta.
ARAUTO - Quem sois vós? Vosso nome? Vosso
estado? Por que viestes aqui a esta chamada?
EDGAR - Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o
o dente da traição, deixando-o lacerado de todo. Mas
sou nobre tanto quanto o adversário que procuro.
ALBÂNIA - Quem é esse adversário?
EDGAR - Quem responde pelo conde de Gloster, por
Edmundo?
EDMUNDO - Ele próprio. Que tens para dizer-lhe?
EDGAR - Saca da espada, para que, no caso de um
nobre coração vir meu discurso magoar, justiça
obtenhas por teu braço. Eis aqui a minha, como
privilégio de minha qualidade, juramentos e
honrarias, que aqui venho afirmar-te, apesar de tua
força, mocidade, posição e alto estado; não obstante
tua sorte forjada há pouco tempo e a espada
vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que és
traidor, falso aos deuses, ao próprio irmão e ao pai,
conspirador contra este ilustre príncipe, e que do
ponto extremo da cabeça ao mais baixo do pé que
pisa a poeira, és um traidor manchado como o sapo.
Se “Não” disseres, esta espada, o braço, minha
melhor coragem vão provar-te no coração que
mentes.
EDMUNDO - A prudência me mandaria perguntar teu
nome. Mas visto teres um exterior tão belo, tão
marcial, e expressar os pensamentos tua língua com
nobreza, com desprezo ponho de lado todas as
delongas que as próprias regras da cavalaria sem
desdoiro nenhum me asseguraram. Essas traições,
em tua fronte as jogo, e o coração aperto-te na
própria calúnia odiosa como o duro inferno. De leve,
tão-somente, me tocaram. Por isso, minha espada
vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o
ponto em que repouso irão achar eterno. Falai,
trombetas!
(Alarma; batem-se; Edmundo cai.)
ALBÂNIA - Poupai-lhe a vida!
GONERIL - É uma cilada, Gloster! Segundo as leis
das armas, não devias aceitar luta com um
desconhecido. Vencido não caíste; foste vítima do
embuste e da traição.
ALBÂNIA - Fechai a boca, senhora; do contrário, eu
mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado,
senhor, pior do que os mais feios nomes; lê teu
próprio delito. Não, senhora! Não a rasgueis! Vejo
que a conheceis.
(Dá a carta a Edmundo.)
GONERIL - E se fosse esse o caso? A lei é minha, não
tua. Quem me chamará a juízo?
(Sai.)
ALBÂNIA - Oh! Monstruoso! Conheces essa carta?
EDMUNDO - Oh! não me pergunteis o que eu
conheço.
ALBÂNIA - Ide atrás dela; está desesperada. Vigiai-a
bem.
(Sai o oficial.)
EDMUNDO - Sim, perpetrei os crimes de que ora me
acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos
poucos há de revelá-las o tempo. Mas tudo isso já
passou, tal como eu. Mas quem és tu, que tal
vantagem sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu
perdão concedo-te.
EDGAR - Então reciproquemos caridade. Não é menor
que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for, maior
será tua culpa com relação a mim. Chamo-me Edgar;
sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre são, e
instrumentos de castigo fazem de nossos vícios
agradáveis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso onde
foste gerado.
EDMUNDO - Com acerto falaste; é verdadeiro o que
disseste. Estou aqui: ficou completo o círculo.
ALBÂNIA - Bem vi que tua forma revelava uma
nobreza real. Quero abraçar-te. Que a dor me parta o
coração, se acaso te tive ódio, ou a teu pai, em
qualquer tempo.
EDGAR - Sei disso, digno príncipe.
ALBÂNIA - Em que ponto vos escondestes? Como a
saber viestes das misérias de vosso pobre pai?
EDGAR - Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi
uma história curta, e logo que ela tiver sido contada,
oh! que me estale de dor o coração. Da sanguinária
proclamação porque escapar pudesse, que tão de
perto os passos me seguia - Ó doçura da vida, que
nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores
da morte a de uma vez morrer de todo! - precisei
disfarçar-me com os andrajos de um demente,
assumindo uma aparência que até mesmo os
cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu
pai, cujos anéis sangrentos as preciosas pedras
tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi
para ele esmola, por toda parte o conduzi, salvei-o
do desespero, sem que nunca - oh falta! - lhe
houvesse revelado quem eu era, senão há cerca de
meia hora, quando já me encontrava armado. Não
me achando seguro de vencer, pedi-lhe a bênção e
minha peregrinação contei-lhe, do começo até ao
fim. Mas seu rachado coração, ah! muito fraco porque
a luta pudesse suportar dos dois extremos da paixão,
alegria e sofrimento, sorrindo arrebentou.
EDMUNDO - Vosso discurso me comoveu, sendo
possível, mesmo, que produza algum bem. Mas
prossegui; parece que ainda não contastes tudo.
ALBÂNIA - Se houver outras misérias, ocultai-as,
porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o
que contastes.
EDGAR - Julgaria quem não amasse a dor que esse
relato já representa tudo. Porém se outro viesse
juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e
muito, ultrapassara decerto o ponto extremo. Quando
a clamar de dor eu me encontrava, chegou um
homem que me vira em minha ínfima condição e se
esquivara de minha companhia repelente, mas que,
ao notar, então, quem era o grande sofredor, em seus
braços vigorosos me apertou o pescoço, urrou a
ponto de arrebentar o céu, lançou-se em cima do
corpo de meu pai e a mais dorida história me contou
sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido
humano. Ao relatá-la, a dor o dominava, começando
a estalar-lhe as próprias cordas da vida. Mas nessa
hora duas vezes soou a trombeta e exânime o deixei.
ALBÂNIA - Mas quem é ele?
EDGAR - Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual
sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo lhe
prestado serviços nada próprios, ai! nem mesmo de
escravos.
(Entra um gentil-homem com uma faca
ensanguentada.)
GENTIL-HOMEM - Aqui, socorro! Socorro, aqui!
EDGAR - Socorro de que jeito?
ALBÂNIA - Fala, homem.
EDGAR - E essa faca ensangüentada?
GENTIL-HOMEM - Está quente; fumega; neste
instante saiu do coração dela... Oh! Morreu!
ALBÂNIA - Quem morreu, homem? Fala.
GENTIL-HOMEM - Vossa esposa, senhor, vossa
consorte, e a irmã por ela envenenada; confessou o
fato.
EDMUNDO - Fiquei noivo das duas; na mesma hora
casamo-nos os três.
EDGAR - Kent aí vem vindo.
ALBÂNIA - Trazei os corpos, mortos ou com vida.
Este juízo dos céus, que nos abala, não nos deixa,
por isso, enternecido.
(Sai o gentil-homem.)
(Entra Kent.)
Oh! É ele mesmo? Não permite o tempo saudá-lo
como a cortesia manda.
KENT - Só vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e
senhor. Não se acha aqui?
ALBÂNIA - Oh! Esquecemos do que mais importa!
Dize-nos, Edmundo, onde está o rei? Onde ficou
Cordélia? Kent, vês isto?
(São trazidos os corpos de Goneril e Regane.)
KENT - Oh! Como aconteceu?
EDMUNDO - No entanto, Edmundo foi amado! Uma
deu veneno à outra, por minha causa, e se matou
depois.
ALBÂNIA - Justamente; cobri-lhes ora o rosto.
EDMUNDO - A vida já me foge, mas quisera fazer
ainda algum bem, embora contra minha própria
feição. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo.
Meu escrito ameaça a vida de Cordélia e Lear. Não
percais tempo.
ALBÂNIA - Corre! Corre! Corre! EDGAR - Para onde,
meu senhor? Qual a pessoa que está disso
incumbida? É necessário enviares um penhor como
contra-ordem.
EDMUNDO - Foi bem pensado; toma minha espada e
a entrega ao capitão.
ALBÂNIA -Por tua vida, não percas tempo.
(Sai Edgar.)
EDMUNDO - A comissão tem ele de tua esposa morta
e minha, para na prisão a Cordélia dar a morte,
atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua
própria destruição.
ALBÂNIA - Que os deuses a protejam! Retirai-o.
(Entram Lear, com Cordélia nos braços, morta;
Edgar, oficiais e outras pessoas.)
LEAR - Uivai! Uivai! Ulvai! Sois empedrados! Se
vossas línguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal
modo, que faria rachar a abóbada celeste. Foi-se
para sempre! Conheço muito bem quando alguém
está morto ou quando vive. Morta está como terra.
Ide buscar-me um espelho; no caso de seu hálito
embaçar ou cobrir a superfície, então é que ela ainda
está com vida.
KENT - Este é o fim prometido?
EDGAR - Ou bem a imagem de tanto horror?
ALBÂNIA - Cai de uma vez e acaba.
LEAR - A pluma está a mexer! Ela está viva! Oh! se
for assim mesmo, é uma ventura que recompensa
todos os pesares por que tenho passado.
KENT (ajoelhando-se) - Oh meu bom mestre!
LEAR - Sai, por favor!
EDGAR - É Kent, o vosso amigo.
LEAR - A peste sobre vós, traidores todos! Sois todos
assassinos! Poderia tê-la salvo, mas foi-se para
sempre. Ó Cordélia! Cordélia! Espera um pouco! Ah!
Que disseste? A voz tinha sempre branda, agradável
e baixa, predicado na mulher de valor inestimável.
Matei o escravo, quando te enforcava.
OFICIAL - É certo, meu senhor; matou-o, de fato.
LEAR - Não é verdade, amigo? Já houve tempo em
que com minha espada de bom gume os fazia dançar.
Ora estou velho e estes trabalhos todos me
deprimem. Quem Sois? Não vejo bem. Vou já dizervos.
KENT - Se blasona a fortuna de a dois seres ao
mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles
aqui vemos.
LEAR - Tenho a vista um tanto baça. Acaso não sois
Kent?
KENT - O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se
encontra vosso criado Caius?
LEAR - Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe
bater nos outros com aprumo. Está morto e bem
podre.
KENT - Não, bondoso senhor; sou ele mesmo...
LEAR - Verei isso neste momento.
KENT - que desde o começo de vossos infortúnios e
declínio vos tem seguido os lastimosos passos.
LEAR - Sois bem-vindo.
KENT - Ninguém é aqui bem-vindo. Tudo é sem
alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se
mataram, morrendo em desespero.
LEAR - Oh! Acredito-o.
ALBÂNIA - Já não sabe o que diz; absurdo fora
tentarmos conversar com ele.
KENT - É inútil.
(Entra um oficial.)
OFICIAL - Edmundo faleceu, milorde.
ALBÂNIA - Nada significa isso agora. Vós, senhores e
meus caros amigos, comunico-vos minha intenção,
que é dar todo o conforto que com esta grande ruína
se coadune. Enquanto a nós, durante a vida desta
cândida majestade, conferimos-lhe todo o nosso
poder. (A Kent e Edgar). A vós, as vossas honrarias,
que vossos grandes préstimos mais do que
mereceram. Os amigos receberão a paga da virtude
provando todos nossos inimigos da copa do castigo.
Oh! Vede! vede! LEAR - Foi enforcada minha
bonequinha! Não, não! Vida nenhuma! Por que causa
terá vida um cavalo, um cão, um rato, e tu, fôlego
algum? Não voltarás, oh! nunca, nunca, nunca,
nunca, nunca! Por obséquio, soltai-me este botão.
Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela!
Vede os lábios dela! Olhai aqui! Olhai aqui!
(Morre.)
EDGAR - Desmaia! Senhor! Senhor!
KENT - Estala, coração! Estala, peço-te.
EDGAR - Senhor, olhai-me!
KENT - Não lhe molesteis a alma. Que se fine. Ódio
lhe tem quem desejar deitá-lo por mais tempo no
banco de tormentos deste mundo tão duro.
EDGAR - Já não vive, realmente.
KENT - O que é admirável é que tenha agüentado a
esse ponto. Sua vida já era usurpada.
ALBÂNIA - O corpo removei. Luto geral vai ser a
nossa ocupação precípua.
(A Kent e Edgar.)
Amigos d’alma, governai o Estado, que tão ferido se
acha e malfadado.
KENT - Para uma viagem longa vou partir. O mestre é
que me chama; tenho de ir.
ALBÂNIA - Do tempo triste somos os arrimos;
digamos tão-somente o que sentimos. Muito o velho
sofreu; mais desgraçada nossa velhice não será em
nada.
(Saem ao som de uma marcha fúnebre.)

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