Sobrevivente | PALAHNIUK C.

| sábado, 17 de julho de 2010
Aqui estou eu. É hora da revanche. Eu te desafio.
Venha me pegar.
Quero ser perseguido por zumbis comedores de gente.
Quero passar por uma tampa de mármore que cobre uma catacumba e ouvir algo
arranhando e se debatendo lá dentro. À noite, encosto meu ouvido no mármore frio e espero. Sobrevivente
CHUCK PALAHNIUK
Testando, testando. Um, dois, três.
Testando, testando. Um, dois, três.
Talvez isto esteja funcionando. Não sei. Não sei nem se você consegue me ouvir.
Mas se você consegue me ouvir, preste atenção. E se estiver prestando atenção, então o
que você encontrou é a história de tudo o que deu errado. Este é o chamado gravador de dados
de vôo pertencente ao vôo 2039. A caixa-preta, como as pessoas chamam, embora ela seja cor
de laranja, e dentro dela há um monte de fios que é o registro permanente de tudo o que restou.
O que você encontrou é a história do que aconteceu
Vá em frente.
Você pode aquecer esses fios até eles ficarem incandescentes, e ele: ainda assim te
contarão a mesma história.
Testando, testando. Um, dois, três.
E se você estiver ouvindo, saiba logo de cara que os passageiros estão em casa, a salvo.
Eles fizeram o que se chama de retirada de vôo nas Ilha: Novas Hébridas. Depois, quando
estávamos só eu e o piloto de novo no ar ele pulou de pára-quedas em algum lugar. Num mar
qualquer. O que chamam de oceano.
Vou continuar insistindo, mas é verdade. Não sou um assassino.
Estou sozinho aqui em cima.
O Holandês Voador.
E se você estiver ouvindo isto aqui, saiba que estou sozinho na cabine de comando do vôo
2039 com um monte dessas garrafinhas em miniatura de vodca e gim alinhadas no lugar onde
você se senta olhando para a janela frontal, o painel de instrumentos. Na cabine, as bandejinhas
com as entradas do frango à Kiev e do estrogonofe de carne de todo mundo estão pela metade,
com o ar-condicionado limpando o cheiro dos restos de comida. Revistas ainda estão abertas
nas páginas que as pessoas estavam lendo. Com todas as poltronas vazias, você pode fazer de
conta que todo mundo simplesmente foi ao banheiro. Dos fones de ouvido de plástico dá para
ouvir o zunido de música pré-gravada.
Aqui, acima das nuvens, estou só eu numa cápsula do tempo de um Boeing 747-400 com
duzentos restos de bolo de chocolate de sobremesa e um barzinho no andar de cima, que posso
alcançar pela escada espiral e preparar mais um drinque pra mim.
Deus me livre entediar você com todos os detalhes, mas estou no piloto automático até
ficarmos sem combustível. Pane, o piloto chama. Um motor de cada vez, todos eles vão entrar
em pane, ele disse. Ele queria que eu soubesse exatamente o que esperar. Depois inventou de
me aborrecer com um monte de detalhes sobre motores a jato, o efeito Venturi, elevar a força
de sustentação aumentando a inclinação dos flapes, e como após os quatro motores entrarem em
pane o avião iria se transformar num planador de 202 toneladas. Aí, como o piloto automático
está ajustado para voar em linha reta, o planador começaria o que o piloto chama de descida
controlada.
Esse tipo de descida, eu disse a ele, seria bom, para variar. Você não sabe o que passei
neste último ano.
Já vestido com o pára-quedas, o piloto ainda estava com seu uniforme nada especial, de
cor sem graça, que parecia ter sido desenhado por um engenheiro. Fora isso, ele foi bastante
prestativo. Mais do que eu seria com uma pessoa apontando um revólver para a minha cabeça,
perguntando quanto combustível restava e até aonde ele nos levaria. Ele me ensinou a
______________
*Os capítulos são numerados em ordem decrescente no original. (N. do E.)
levar o avião de volta à altitude de cruzeiro depois que ele tivesse pulado de pára-quedas no
oceano. E me ensinou tudo sobre o gravador de vôo.
Os quatro motores são numerados de um a quatro, da esquerda para a direita.
A última parte da descida controlada será um mergulho no solo. A isso ele chama de fase
terminal da descida, quando você vai a 9,7 metros por segundo direto para o chão. A isso ele
chama de velocidade terminal, na qual objetos de mesma massa movem-se na mesma
velocidade. Depois ele se demora com um monte de detalhes sobre física newtoniana e a Torre
de Pisa.
Ele diz: "Não vá me citar nessas coisas. Já faz muito tempo que fui testado".
Ele diz que o APU, o Auxüiary Power Unit, continuará gerando eletcidade até o momento
em que o avião atingir o solo.
Você terá ar-condicionado e música estéreo, ele diz, até o último instante em que sentir
alguma coisa.
A última vez que senti alguma coisa, digo a ele, foi há muito tempo. Há mais ou menos
um ano. Minha prioridade máxima é tirar o piloto deste avião para que eu possa finalmente
largar minha arma.
Estou apertando esta arma há tanto tempo que já não sinto mais nada.
O que você esquece quando está planejando um seqüestro é que, em algum momento, terá
que se descuidar dos reféns pra poder usar o banheiro.
Antes de aterrissarmos em Port Vila, fiquei, correndo pra cima e pra baixo na cabine de
passageiros com a minha arma, tentando alimentá-los e à tripulação. Eles queriam refrigerante?
Quem pediu um travesseiro? Qual eles preferiam, eu perguntava a todos, o frango ou o bife? O
café era descafeínado ou normal?
Servir comida é a única coisa em que realmente sou bom. O problema é que eu tinha que
servir e fazer tudo com uma mão só, claro, porque precisava segurar a arma.
Quando estávamos no solo e os passageiros e a tripulação estavam descendo, fiquei na
porta da cabine e disse, sinto muito. Peço desculpas pelo inconveniente. Por favor, façam uma
boa viagem e obrigado por viajarem pela companhia bla-blá.
Quando sobramos só eu e o piloto a bordo, decolamos de novo.
O piloto, antes de pular, me diz que quando cada motor falhar um alarme anunciará Pane
no Motor Número Um ou Três e assim por diante, um por um. Depois de todos os motores
pifarem, a única forma de continuar voando é manter o avião subindo. Basta puxar o volante
para trás. Manche, eles chamam. Para mover o que eles chamam de ailerons da cauda. Você
perde velocidade, mas mantém altitude. É como se você tivesse uma escolha entre velocidade e
altura, mas de uma forma ou de outra você vai mergulhar no chão.
Chega, eu digo a ele. Não estou querendo tirar breve de piloto. Só preciso usar o banheiro
à vontade. Só quero que ele saia por aquela porta.
Então diminuímos para 175 nós. Sem querer te aborrecer com detalhes, descemos a menos
de dez mil pés de altitude e abrimos a porta da cabine dianteira. Aí o piloto pula, e antes que eu
feche a porta, fico de pé na pontinha e dou uma mijada na direção dele.
Nada na minha vida foi tão prazeroso.
Se o Sir Isaac Newton estiver certo, isso não será problema para o piloto na hora da
descida.
Então agora estou voando a oeste no piloto automático em mach 0,83, ou seja, a 455
milhas por hora, a velocidade de vôo exata, e nessa velocidade e altitude o sol fica parado num
lugar só o tempo todo. O tempo parou. Estou voando acima das nuvens numa altitude de
cruzeiro de 39 mil pés sobre o Oceano Pacífico, voando rumo ao desastre, rumo à Austrália,
rumo ao fim da minha vida, em linha reta a oeste até que os quatro motores entrem em pane.
Testando, testando. Um, dois, três.
Mais uma vez, você está ouvindo o registro do vôo 2039.
Nesta altitude, preste atenção, e nesta velocidade, com o avião vazio, o piloto diz que
restam seis ou sete horas de combustível.
Então tentarei ser rápido.
O gravador de vôo gravará cada palavra minha na cabine. E minha história não virará
zilhões de estilhaços nem queimará com mil toneladas de ferro incinerado. E depois que o avião
cair, as pessoas vão procurar o gravador de vôo. E minha história sobreviverá.
Testando, testando. Um, dois, três.
Foi pouco antes de o piloto pular, com a porta da cabine aberta e os navios militares nos
seguindo, com o radar invisível nos procurando, a porta aberta com as turbinas zunindo e o ar
uivando, que ele se aprumou em seu pára-quedas e gritou: "Por que você quer tanto morrer?".
E eu gritei para ele que tivesse certeza de que ouviria a gravação.
"Então lembre-se", ele gritou. "Você só tem algumas horas. E lembre-se também", ele
continuou berrando, "você não sabe exatamente quando o combustível vai acabar. É possível
que você morra no meio da história da sua vida."
Então eu gritei de volta: "E lá isso é novidade?".
É, nem me fale.
E o piloto pulou. Dei uma mijada e empurrei a porta até fechá-la. Na cabine, empurro o
manete e puxo o manche até atingir a altura certa. Depois basta apertar o botão que o piloto
automático assume o comando Isso nos traz de volta a este ponto.
Então, se você está ouvindo isto aqui, a indestrutível caixa-preta de vôo 2039, vá olhar
onde este avião caiu e o que restou dele. Você saberá que não sou piloto quando vir os
destroços e a cratera. Se você está ouvindo isto aqui, sabe que estou morto.
E tenho algumas horas para contar minha história aqui.
Então acho que vai dar para contá-la direito.
Testando, testando. Um, dois, três.
O céu está azul e virtuoso em todas as direções. O sol está forte e arde bem à minha
frente. Estamos acima das nuvens, e este é um belo dia para sempre.
Então vamos começar. Vou começar do início.
Vôo 2039, eis o que aconteceu. Tomada um.
E.
Só para constar, neste momento eu me sinto ótimo.
E.
Já desperdicei dez minutos.
E.
Ação.
46
Com a vida que levo, já é difícil empanar uma costeleta de vitela. Em algumas noites, é
diferente; é peixe ou frango. Mas no minuto em que estou com uma mão coberta de ovo cru e a
outra segurando a carne, alguém vai me ligar em apuros.
Isso agora acontece na minha vida quase todas as noites.
Hoje, uma garota liga de dentro de uma boate barulhenta. A única palavra dela que
entendo é "traseiro".
Ela diz, "cuzão".
Ela fala algo que poderia ser "cada" ou "nada". O fato é que não dá pra ficar tentando
entender, estou na cozinha, sozinho e berrando pra ser ouvido com aquela música dançante de
fundo. Ela parece jovem e cansada, então pergunto se ela confia em mim. Ela está cansada de
sofrimento? Eu pergunto: se houver apenas uma forma de acabar com a dor, ela o fará?
O meu peixe dourado está todo excitado, nadando em círculos dentro do aquário na
geladeira, então estico o braço e jogo um Valium na água dele.
Estou gritando com a garota: ela está farta?
Estou gritando: não vou ficar aqui ouvindo as reclamações dela.
Ficar aqui tentando consertar a vida dela é uma grande perda de tempo. As pessoas não
querem consertar suas vidas. Ninguém quer solucionar seus problemas. Seus dramas. Suas
distrações. Resolver suas histórias. Organizar suas confusões. Porque, caso contrário, o que
restaria? Só o grande e assustador desconhecido.
A maioria das pessoas que me ligam já sabe o que quer. Algumas querem morrer mas
desejam antes a minha permissão. Um empurrãozinho. Uma pessoa disposta a cometer suicídio
não tem muito senso de humor. Uma palavra errada e ela estará no obituário da próxima
semana. Na maioria das ligações que recebo, eu mal ouço mesmo. Na maioria das vezes, decido
quem vive e quem morre só pelo tom da voz das pessoas.
Não estou chegando a lugar nenhum com a garota da boate, então digo a ela, se mate.
Ela diz: "O quê?".
Se mate.
Ela diz: "O quê?".
Experimente barbitúricos e álcool com sua cabeça dentro de um saco de lavagem a seco.
Ela diz: "O quê?".
Não dá para empanar uma costeleta de vitela e fazer um bom trabalho só com uma mão,
então digo a ela, é agora ou nunca. Puxe o gatilho ou desista. Estou falando com ela agora. Ela
não vai morrer sozinha, mas não tenho a noite inteira.
O que parece parte da música na verdade é ela, chorando feito louca. Então eu desligo.
Além de empanar uma costeleta de vitela, essas pessoas querem que eu resolva a vida
delas.
Com o telefone numa mão, estou tentando grudar a farinha de rosca na carne. É a coisa
mais difícil. Você joga a vitela no ovo cru. Depois tira o excesso e joga na farinha. O problema
com a costeleta é que não consigo acertar na quantidade de farinha. Em algumas partes, a
costeleta fica descoberta. E a farinha é tão grossa em outras partes que não dá para saber o que
tem embaixo.
Antigamente, era bem divertido. As pessoas te ligam à beira do suicídio. Mulheres ligam.
Aqui estou eu, sozinho com meu peixe dourado, sozinho na minha cozinha suja, empanando
uma costeleta de porco ou outra coisa qualquer, só de cueca, ouvindo alguém rezar.
Distribuindo sabedoria e castigo.
Um cara vai ligar. Depois que estou dormindo profundamente, acontece. As ligações
continuam a noite toda se eu não tirar o telefone da tomada. Algum fracassado vai ligar hoje à
noite depois que os bares fecharem pra dizer que está sentado de pernas cruzadas no chão do
seu apartamento. Ele não consegue dormir sem ter pesadelos terríveis. Em seus sonhos, ele vê
aviões cheios de pessoas caírem. É muito real, e ninguém quer ajudá-lo. Ele não consegue
dormir. Não consegue ajuda. Ele me diz que está com um rifle encostado no queixo e quer que
eu lhe dê uma boa razão pra não puxar o gatilho.
Ele não consegue viver conhecendo o futuro, sem poder salvar ninguém.
Essas vítimas, eles chamam. Esses sofredores crônicos, eles chamam. Eles quebram o meu
próprio tédio. É melhor que assistir à televisão.
Eu digo a ele, vá em frente. Não estou totalmente acordado. São três da madrugada, e
preciso trabalhar amanhã. Eu digo a ele, vá logo antes que eu caia no sono, puxe o gatilho.
Eu digo a ele que este mundo não é tão bonito assim para ele ficar e sofrer. Nem podemos
chamar isto de mundo.
Eu trabalho, na maior parte do tempo, numa empresa de limpeza. Burro de carga período
integral. Adeus meio período.
Experiências passadas me ensinaram a segurar o telefone longe do ouvido quando ouço o
clique do gatilho. Vem o estampido, só uma explosão estática, e do outro lado o telefone bate
no chão. Sou a última pessoa a falar com ele, e já estou dormindo de novo antes do zunido no
meu ouvido começar a diminuir.
Tem o obituário para ler na semana seguinte, pequenas colunas sobre nada importante.
Você precisa do obituário, senão não saberá se aconteceu de verdade ou se foi só um sonho.
Não espero que você entenda.
É um tipo diferente de diversão. Dá um barato ter esse tipo de controle. Segundo o
obituário, o cara do rifle se chamava Trevor Hollis, e descobrir que ele era uma pessoa de
verdade é uma sensação maravilhosa. É assassinato, mas não é, depende de quanto crédito você
leva. Nem posso dizer que auxiliar pessoas em crise tenha sido idéia minha.
A verdade é que este mundo é terrível, e acabei com o sofrimento dele.
A idéia me veio por acidente, quando um jornal fez uma matéria sobre um telefone de
auxílio de verdade. Só que o número que saiu no jornal foi o meu, por engano. Erro tipográfico.
Ninguém leu a errata que eles publicaram no dia seguinte, e as pessoas começaram a me ligar
dia e noite para falar sobre seus problemas.
Por favor, não pense que estou aqui para salvar vidas. Ser ou não ser __ nem me dou ao
trabalho de decidir. E não pense que me sinto superior falando com mulheres assim. Mulheres
vulneráveis. Aleijadas emocionais.
O McDonald's quase me contratou uma vez, e só me candidatei ao emprego para conhecer
garotas mais jovens. Garotas negras, latinas, brancas e chinesas. Na própria ficha de inscrição
está escrito que o McDonald's contrata raças e etnias diferentes. Garotas, garotas, garotas, estilo
bufê. Também na ficha do McDonald's diz que se você tem alguma dessas doenças:
Hepatite A
Salmonela
Shigela
Stafilococo
Giardia
ou Campilobactéria, então você não pode trabalhar lá. Isso é mais garantido do que
conhecer uma garota na rua. É sempre bom ter cuidado. Pelo menos no McDonald's ela
declarou estar limpa. Além disso, há uma boa probabilidade de ela ser jovem. Jovem com
espinhas. Jovem que dá risadinhas. Uma jovem tola e tão estúpida quanto eu.
Garotas de dezoito, dezenove, vinte anos, só quero conversar com essas. Garotas de
escolas públicas. Terminando o segundo grau. Menores emancipadas.
E a mesma coisa com essas garotas suicidas me ligando. A maioria é muito jovem.
Chorando com o cabelo molhado da chuva, num telefone público, elas pedem meu socorro.
Enroscadas na cama, sozinhas, durante dias, elas me ligam. Messias. Elas me chamam.
Salvador. Elas fungam, soluçam e me contam o que pergunto em detalhes.
É tão perfeito algumas noites ouvi-las no escuro. A garota confia em mim. Com o telefone
numa das mãos, imagino que minha outra mão é ela.
Não que eu queira me casar. Admiro caras que conseguem assumir uma tatuagem.
Depois que o jornal publicou o telefone certo, as ligações começaram a diminuir. Todas as
pessoas que me ligaram no começo ou estão mortas ou se encheram de mim. Não há gente nova
ligando. Ninguém quis me contratar no McDonald's, então fiz um monte de adesivos enormes.
Os adesivos precisavam se destacar. É preciso que eles sejam fáceis de ler à noite por
alguém chorando, drogado ou bêbado. Os adesivos que uso são preto e branco, com as letras
pretas:
Dê a você, à sua vida, mais uma chance. Ligue e receba a minha ajuda. E o número do
meu telefone.
Minha segunda opção era:
Se você é uma garota sexualmente irresponsável e com problemas de bebida, tenha a
ajuda de que precisa. Ligue. E o número do meu telefone.
Vá por mim. Não faça esse segundo adesivo. Com um adesivo assim, alguém da polícia
vai te fazer uma visita. Só pelo número do seu telefone, eles podem usar um diretório reverso e
colocar o seu nome numa lista de prováveis criminosos. Depois disso, você vai ouvir aquele
clique... clique... clique... do grampo ao fundo de todas as suas ligações telefônicas.
Vá por mim.
Se você usa a primeira opção de adesivo, as pessoas vão te ligar para confessar os pecados
delas, fazer reclamações, pedir conselhos, pedir aprovação.
As garotas que você conhece nunca estão muito longe daqueles casos perdidos. Um harém
de mulheres vai agarrar o telefone desesperada-mente e pedir que você ligue, por favor, ligue.
Por favor.
Pode me chamar de predador sexual, mas quando penso em predadores, penso em leões,
tigres, felinos grandes, tubarões. Aqui não se trata de uma relação predador e presa. Não se trata
de um urubu comedor de carniça ou de uma hiena risonha diante de uma carcaça. Não se trata
de um parasita no corpo de um hospedeiro.
Somos todos infelizes juntos.
É o oposto de um crime sem vítimas.
O mais importante é colar os adesivos em telefones públicos. Experimente colá-los dentro
de cabines telefônicas perto de pontes sobre águas profundas. Cole-os perto de bares de onde
pessoas sem destino são expulsas na hora de fechar.
Quando você menos espera, já está no negócio.
Você precisará de um desses telefones que pegam todo o som ambiente. Aí as pessoas vão
ligar no meio de uma crise e ouvir você dar descarga. Elas vão ouvir o barulho do liqüidificador
e ver que você não está nem aí.
No momento, o que preciso é de um desses telefones sem fio que você encaixa na cabeça.
Uma espécie de walkman da desgraça humana. Viva ou morra. Sexo ou morte. Assim, você
pode tomar decisões sobre a vida e a morte de mãos livres, a qualquer hora que as pessoas
ligarem para falar dos crimes terríveis que cometeram. Você distribui penitências. Você
condena as pessoas. Você dá a caras aflitos o número de telefone de garotas na mesma situação.
Como na maioria das orações, o grosso do que você ouve são reclamações e exigências.
Me ajude. Me ouça. Me oriente. Me perdoe.
O telefone já está tocando de novo. Não consigo fazer direito a fina camada de farinha na
costeleta de vitela, e no telefone há uma nova garota, chorando. Pergunto de cara se ela confia
em mim. Pergunto se ela vai me contar tudo.
Eu e meu peixe dourado estamos aqui, nadando no mesmo lugar.
A costeleta parece que foi escavada de uma caixa de gato.
Para acalmar a garota, para fazê-la me ouvir, eu conto a ela a história do meu peixe. Este é
o peixe número seiscentos e quarenta e um de uma vida inteira de peixes dourados. Os meus
pais me compraram o primeiro para me ensinar a amar e a cuidar de outra criaturazinha viva de
Deus. Seiscentos e quarenta peixes depois, a única coisa que sei é que tudo que você ama
morrerá. Quando você encontra aquela pessoa especial, pode contar que um dia ela vai estar
morta e enterrada.
45
Na noite antes de eu sair de casa, meu irmão mais velho me ensinou tudo que ele sabia do
mundo lá fora. No mundo lá fora, ele disse, as mulheres têm o poder de mudar a cor do cabelo.
E dos olhos. E dos lábios.
A gente estava no terraço dos fundos, iluminados apenas pela luz da janela da cozinha. O
meu irmão, Adam, estava cortando meu cabelo da mesma forma que cortava trigo, com uma
navalha, juntando um chumaço e cortando mais ou menos pela metade. Ele agarrava meu
queixo com o dedão e o indicador e me forçava a olhar para ele, seus olhos castanhos pulando
de um lado para o outro entre minhas costeletas.
Para deixar minhas costeletas simétricas, ele cortava uma, depois a outra, e de novo a
primeira, várias vezes até as duas costeletas sumirem.
Meus sete irmãos menores estavam sentados em fileira no terraço, fitando a escuridão de
todos os males que Adam descrevia.
No mundo lá fora, ele dizia, as pessoas prendiam pássaros dentro de suas casas. Ele já
tinha visto.
Adam havia saído da colônia do distrito da igreja só uma vez, quando ele e a esposa
tiveram de registrar o casamento para torná-lo legal perante o governo.
No mundo lá fora, ele disse, as pessoas eram visitadas em suas casas por espíritos que elas
chamavam de televisão.
Os espíritos falavam com as pessoas através do que elas chamavam de rádio.
As pessoas usavam um negócio chamado telefone porque odiavam estar perto umas das
outras, e porque morriam de medo de ficar sozinhas.
Ele continuava cortando meu cabelo sem muito estilo, porque ia podando como podava as
árvores. Ao nosso redor, nas tábuas do terraço, o cabelo ia se amontoando, mais ceifado que
cortado.
Na colônia do distrito da igreja, a gente pendurava sacos com o cabelo cortado no pomar
para afugentar os veados. Adam disse que a regra de não desperdiçar nada era uma das bênçãos
das quais você abria mão ao sair da colônia da igreja. A bênção mais difícil de abandonar era o
silêncio.
No mundo lá fora, ele me disse, não existe o silêncio de verdade. Não o silêncio falso que
você tem quando tapa os ouvidos e não ouve nada além do seu coração, mas o verdadeiro
silêncio ao ar livre.
Na semana em que ele casou, ele e Biddy Gleason saíram de ônibus da colônia,
acompanhados de um ancião da igreja. Durante toda a viagem, teve barulho dentro do ônibus.
Os carros na estrada passavam zunindo. As pessoas no mundo lá fora diziam bobagens cada vez
que abriam a boca, e quando não falavam seus rádios preenchiam a lacuna com vozes gravadas
cantando as mesmas músicas sem parar.
Adam disse que a outra bênção que você precisa abandonar no mundo lá fora é a
escuridão. Você pode fechar os olhos e se sentar dentro do armário, mas não é a mesma coisa.
A escuridão à noite na colônia do distrito da igreja é total. As estrelas crescem sobre nós nesse
tipo de escuridão. Você consegue ver como a lua é acidentada com cordilheiras, entalhada com
rios e dividida por mares.
Numa noite sem lua ou estrelas você não vê nada, mas pode imaginar tudo.
Pelo menos é assim que eu lembro.
Minha mãe estava lá na cozinha, passando e dobrando as roupas que tive permissão de
levar. Meu pai estava sei lá onde. Nunca mais vi nenhum dos dois.
É engraçado, mas as pessoas sempre perguntam se ela estava chorando. Perguntam se meu
pai chorou e me abraçou antes de eu ir embora. E as pessoas sempre ficam pasmadas quando eu
digo que não. Ninguém chorou nem me abraçou.
Ninguém chorava ou se abraçava quando a gente vendia um porco também. Ninguém
chorava ou se abraçava antes de matar uma galinha ou colher uma maçã.
Ninguém passava a noite acordado imaginando se o trigo plantado estava feliz e realizado
por estar sendo transformado em pão.
Meu irmão só estava cortando meu cabelo. Minha mãe havia acabado de passar a roupa e
havia se sentado para costurar. Ela estava grávida. Eu me lembro de que ela estava sempre
grávida, e minhas irmãs estavam sentadas ao redor dela com suas saias esparramadas nos
bancos da cozinha ou no chão, todas costurando.
As pessoas sempre me perguntam se eu estava com medo ou excitado ou sei lá o quê.
De acordo com a doutrina da igreja, só o primogênito, Adam, poderia se casar e viver no
distrito da igreja. Quando o restante de nós fizesse dezessete anos, eu e meus sete irmãos e
minhas cinco irmãs, todos iríamos embora para arrumar trabalho. Meu pai mora aqui porque ele
foi o primogênito da família dele. Minha mãe mora aqui porque os anciãos da igreja a
escolheram para o meu pai.
As pessoas sempre ficam decepcionadas quando eu lhes conto a verdade — que nenhum
de nós se sentia oprimido. Nenhum de nós tinha algum tipo de ressentimento em relação à
igreja. A gente só vivia. Nenhum de nós era muito torturado por sentimentos.
Era essa a profundidade da nossa fé. Pode chamar de rasa ou de profunda. Não havia nada
que nos amedrontasse. Era nisso que as pessoas criadas na colônia do distrito da igreja
acreditavam. Tudo o que acontecia no mundo era decreto de Deus. Uma tarefa a ser cumprida.
Choro ou alegria só atrapalhavam o trabalho. Qualquer emoção era decadente. Expectativa ou
arrependimento eram uma tolice extra. Um capricho.
Era essa a definição da nossa fé. Nada era para ser conhecido. Tudo era para ser esperado.
No mundo lá fora, Adam disse que era um pacto com o diabo que fazia os carros andarem
e os aviões voarem no céu. O mal fluía através dos fios elétricos para deixar as pessoas
preguiçosas. As pessoas colocavam a louça suja no armário, e o armário lavava tudo. A água
nos canos levava embora o lixo e a merda para os outros resolverem o problema. Adam
agarrava o meu queixo com o dedão e o indicador e se abaixava para me olhar na cara, e dizia
que no mundo lá fora as pessoas olhavam para espelhos.
Bem na frente dele, no ônibus, as pessoas pegavam espelhos e todos ficavam se fitando.
Era uma vergonha.
Eu me lembro de que aquele foi o último corte de cabelo que tive durante um longo
tempo, mas não me lembro bem o porquê. Minha cabeça ficou parecendo um monte de palha
eriçada com os poucos cabelos que restaram.
No mundo lá fora, Adam disse, todas as contas eram feitas dentro de máquinas.
E a comida era trazida para as pessoas por garçonetes.
Na única vez em que ele saiu da colônia, meu irmão, sua esposa e o ancião da igreja que
os acompanhou pernoitaram num hotel no centro de Robinsville, Nebraska. Nenhum deles
conseguiu dormir. No dia seguinte, o ônibus os trouxe de volta para casa, para o resto de suas
vidas.
Hotel, ele me disse, era uma casa grande onde muitas pessoas moravam, comiam e
dormiam, mas ninguém se conhecia. Ele disse que isso descrevia a maioria das famílias no
mundo lá fora.
As igrejas no mundo lá fora, meu irmão disse, eram apenas lojas locais que vendiam
mentiras feitas nas fábricas distantes das grandes religiões.
Ele disse muito mais coisas de que não me lembro.
Esse corte de cabelo foi há dezesseis anos.
Meu pai já havia gerado a mim, ao Adam e a todos os seus quatorze filhos quando tinha a
idade que tenho agora.
Eu fiz dezessete anos na noite em que fui embora.
A cara que meu pai tinha quando eu o vi pela última vez é a cara que eu tenho agora.
Olhar para Adam era como olhar para um espelho. Ele era mais velho que eu apenas três
minutos e trinta segundos, mas no distrito da Igreja do Credo não existia essa coisa de gêmeos.
Da última vez que vi Adam Branson, lembro-me de pensar que meu irmão mais velho era
um homem muito bondoso e muito sábio.
Eu era mesmo burro.
44
Parte do meu trabalho é verificar o menu de um jantar hoje à noite. Isso significa pegar
um ônibus da casa onde eu trabalho e ir a outro casarão para perguntar a um cozinheiro
estranho o que ele dará para todos comerem. As pessoas para quem trabalho não gostam de
surpresas, então parte do meu trabalho é dizer aos meus patrões de antemão se hoje à noite eles
terão que comer algo difícil, tipo lagosta ou alcachofra. Se houver algo ameaçador no menu,
terei que ensiná-los a comer da forma correta.
É esse o meu ganha-pão.
Na casa que eu cuido, o homem e a mulher que moram nela nunca estão. É por causa do
trabalho deles. Os únicos detalhes que sei sobre os dois descubro limpando seus pertences.
Tudo que sei é das coisas que vou pegando do chão. Limpando a bagunça deles, dia após dia.
Rebobinando suas fitas de vídeo:
Acompanhantes Anais Completas
Os peitos gigantes da Letha Weapons. As aventuras da pequena Sinderella*.
Quando meu ônibus me despeja aqui, as pessoas para quem trabalho já saíram para
trabalhar no centro da cidade. Quando eles voltam para casa, já estou de volta ao centro da
cidade, no meu apartamento-estúdio, que antes foi um quarto de hotel minúsculo até alguém
enfiar um fogão e uma geladeira nele para aumentar o aluguel. O banheiro ainda fica lá fora, no
corredor.
Só falo com meus patrões pelo interfone. É uma caixa de plástico que fica no balcão da
cozinha berrando para eu fazer mais coisas.
Ezequiel, capítulo 19, versículo 7:
"E ele conheceu seus palácios desolados..." e tal, tal, tal. Não dá para você guardar a
Bíblia inteira na cabeça. Não sobraria espaço para você lembrar do seu nome.
A casa que eu cuido há seis anos é como você imagina, grande, e fica num bairro chique
da cidade. Isso comparado a onde eu moro. Todos os apartamentos no meu bairro são como um
assento de privada quentinho. Alguém esteve lá segundos antes de você e alguém vai estar lá
assim que você for embora.
No bairro aonde vou trabalhar todas as manhãs, há quadros nas paredes. Atrás das portas
da frente, há aposentos e aposentos onde ninguém jamais entra. Cozinhas onde ninguém
cozinha. Banheiros que nunca ficam sujos. O dinheiro que eles deixam para me testar, para ver
se eu pego, nunca é menos que uma nota de cinqüenta dólares, deixada atrás da penteadeira
como se tivesse caído por acidente. As roupas que eles possuem parecem ter sido desenhadas
por um arquiteto.
Ao lado do interfone há uma agenda gorda, que eles mantêm cheia de coisas que devo
fazer. Eles querem que eu planeje meus próximos dez anos, tarefa por tarefa. Para eles, tudo na
vida se transforma num item de uma lista. Algo a ser executado. Você vê como sua vida fica
achatada.
A menor distância entre dois pontos é uma linha reta, uma programação, um gráfico do
seu tempo, o itinerário para o restante da sua vida.
Nada te mostra a linha reta daqui até a morte como uma lista.
"Quero dar uma olhada na sua agenda", o interfone grita comigo, "e saber exatamente
onde posso encontrar você às quatro da tarde deste dia daqui a cinco anos. Quero que você me
diga exatamente."
Ao ver o preto no branco, você sempre fica decepcionado com sua expectativa de vida.
Quão pouco você fará realmente. O resumo do seu futuro.
São duas da tarde de sábado e, de acordo com minha agenda, preciso cozinhar cinco
lagostas para eles comerem como treinamento. Eles ganham bastante dinheiro.
Só consigo comer vitela quando levo escondido para casa de ônibus, no colo.
O segredo de cozinhar lagosta é simples. Primeiro você enche uma panela com água fria e
uma pitada de sal. Você pode usar partes iguais de água e vermute, ou vodca. Pode adicionar
algas marinhas à água para dar um sabor mais forte. São coisas básicas que eles ensinam em
Economia Doméstica.
Quase tudo o mais que sei vem da sujeira que essas pessoas deixam Para trás.
Pergunte-me como tirar manchas de sangue de um casaco de pele.
_______________
*"Sinderella": trocadilho entre sin ("pecado", em inglês) e Cinderella. (N. do T.)
Não, sério, vai fundo
Pode perguntar.
O segredo é passar fubá e escovar a pele no sentido contrário. A Parte mais difícil é ficar
de boca fechada. Para limpar sangue de teclas de piano, esfregue com talco ou leite em pó.
Não é a habilidade profissional mais rentável, mas para tirar manchas de sangue de papel
de parede faça uma pasta com amido de milho e água fria. Isso também funciona para limpar
sangue de um colchão ou de um sofá. O segredo é esquecer quão rápido essas coisas
acontecem. Suicídios. Acidentes. Crimes passionais.
Apenas se concentre na mancha até sua memória apagar completamente. A prática leva
mesmo à perfeição. Se é que o termo é esse.
Mesmo após dezesseis anos limpando a casa das pessoas, quero pensar que o mundo está
cada vez melhor, mas sei que não está. Você quer que haja alguma melhora nas pessoas, mas
não há. E você quer achar que pode fazer alguma coisa.
Limpando esta mesma casa todos os dias, tudo que melhora é minha habilidade de negar o
que está errado.
Deus me livre de um dia eu encontrar meus patrões pessoalmente.
Por favor, não vá pensar que não gosto deles. A assistente social já me arrumou empregos
bem piores. Eu não os odeio. Não os amo, mas não os odeio. Já trabalhei pra gente bem pior.
Me pergunte como tirar manchas de urina de cortinas e toalhas de mesa.
Me pergunte a forma mais rápida de tapar buracos de bala na parede da sala. A resposta é
pasta de dente. Para calibres maiores, faça uma pasta com partes iguais de amido e sal.
Eu sou a voz da experiência.
Cinco lagostas, imagino ser o suficiente para eles aprenderem o segredo de abrir a casca.
A carapaça, assim chamam. Lá dentro tem o cérebro ou o coração que você deve procurar. O
segredo é colocar a lagosta na água e depois aumentar o fogo. A manha é ir devagar. Espere
pelo menos trinta minutos até a água atingir cem graus. Assim, as lagostas terão uma morte
indolor.
Minha agenda me deixa ocupado, polindo o cobre da melhor forma, com metade de um
limão mergulhado no sal.
Essas lagostas com as quais vamos treinar são chamadas de Jumbo porque têm cerca de
um quilo cada. Lagostas com menos de meio quilo são chamadas de Galinhas. Lagostas sem
uma pata são chamadas de Refugos. Essas que eu tiro da geladeira embrulhadas em algas
úmidas precisarão ferver durante meia hora. Isso também é coisa que você aprende em
Economia Doméstica.
Das duas grandes patas dianteiras, a pata maior, alinhada com o que parecem molares, é
chamada de Esmagadora. A pata menor, alinhada com os incisivos, é chamada de Cortadora. As
pernas laterais menores são chamadas de Pernas de Andar. Embaixo do rabo há cinco fileiras de
pequenas barbatanas chamadas de Nadadeiras. Mais Economia Doméstica. Se a fileira frontal
das nadadeiras for macia e coberta de plumas, a lagosta é fêmea. Se a fileira frontal for dura e
áspera, é macho.
Se a lagosta for fêmea, procure por uma cavidade ossuda em forma de coração entre as
duas patas de trás. É onde a fêmea estará levando esperma vivo se ela fez sexo nos últimos dois
anos.
O interfone toca enquanto estou preparando as lagostas, três machos e duas fêmeas, sem
esperma, na caçarola sobre o fogão.
O interfone toca quando estou aumentando o fogo mais um nível.
O interfone toca quando estou lavando as mãos.
O interfone toca quando vou fazer uma xícara de café e misturar com creme ou açúcar.
O interfone toca quando encho a mão com as algas que vieram com as lagostas e jogo em
cima delas dentro da caçarola. Uma lagosta levanta uma pata esmagadora para pedir clemência.
Patas esmagadoras ou cortadoras, estão todas amarradas.
O interfone toca quando vou lavar e secar minhas mãos de novo.
O interfone toca, e eu atendo.
Casa dos Gaston, eu digo.
"Residência dos Gaston!", o interfone berra comigo. "Repita, Residência dos Gaston! Fale
como te ensinamos!"
O que eles te ensinam em Economia Doméstica é que só é correto chamar uma casa de
residência quando é impresso ou gravado. Vimos isso um milhão de vezes.
Bebo um cafezinho e mexo no fogo sob as lagostas. O interfone continua a berrar: "Tem
alguém aí? Alô? Não está funcionando?".
Esse casal para quem trabalho, eles foram os únicos convidados num jantar que não
sabiam levantar o descanso da lavanda. Desde então, ficaram obcecados por aprender etiqueta.
Eles ainda dizem que é supérfluo, frívo-lo, mas morrem de medo de não conhecer cada pequeno
ritual.
O interfone continua a berrar: "Me responda! Droga! Me fale do jantar de hoje à noite!
Que tipo de comida vamos encontrar? Passamos o dia inteiro preocupados!".
Procuro no armário sobre o fogão os utensílios para lagosta, os quebra-nozes, as facas e os
babadores.
Graças às minhas lições, essa gente conhece todas as três formas aceitáveis de deixar o
talher de sobremesa. É mérito meu eles saberem beber chá gelado da forma certa, com a colher
longa ainda dentro do copo. É difícil, mas você precisa segurar o cabo da colher entre os dedos
indicador e médio, na borda do copo oposta à sua boca. Cuidado para não furar o olho. Poucas
pessoas sabem disso. Você vê as pessoas tirando a colher molhada e procurando um lugar para
largá-la sem sujar a toalha de mesa. Ou pior: elas largam em qualquer lugar e deixam uma
mancha úmida de chá.
Quando o interfone fica mudo, aí então, e só então, eu começo.
Eu pergunto ao interfone, você está ouvindo?
Eu digo ao interfone, imagine um prato.
Hoje à noite, eu digo, o suflê de espinafre estará no canto superior direito do prato. A
coisa de beterraba estará no canto inferior. A carne com lascas de amêndoas estará do lado
oposto do prato, no meio. Para comê-la, os convidados terão que usar uma faca. E a carne terá
ossos.
Este é o melhor emprego que já tive, não tem crianças, não tem gatos, não tem chão para
encerar, então não quero fazer mal feito. Se eu não estivesse nem aí, diria para meus patrões
fazerem qualquer loucura que me viesse à cabeça. Tipo: vocês podem tomar o sorvete
lambendo direto da tigela, tipo cachorro.
Ou: prendam a costeleta de carneiro nos dentes e balancem a cabeça vigorosamente para
os lados.
E o que é terrível é que eles provavelmente fariam isso. Como eu nunca lhes passei uma
informação errada, eles confiam em mim.
Fora ensinar-lhes etiqueta, meu maior desafio é me rebaixar às expectativas deles.
Pergunte-me como consertar buracos de facadas em camisolas, smokings e chapéus. Meu
segredo é um pouquinho de esmalte para unhas do lado de dentro do furo.
Ninguém te ensina tudo de que você precisa saber para o serviço em Economia
Doméstica, mas com o tempo você vai descobrindo. No distrito da igreja onde fui criado, eles
ensinam que para evitar que a vela pingue é só mergulhá-la em água salgada. Guarde as velas
no congelador até o momento de usá-las. É esse tipo de conselhos do lar que eles dão. Acenda
velas com um fio de macarrão cru. Há dezessete anos cuido da casa das pessoas, e ninguém
jamais me pediu para sair por aí com um macarrão em chamas na mão.
Não importa o que eles enfatizam em Economia Doméstica, simplesmente não é
prioridade no mundo aqui fora.
Por exemplo, ninguém te ensina que creme hidratante de coloração verde ajuda a esconder
a pele avermelhada de um bofetão. E todos os cavalheiros que foram estapeados por uma dama
com seu anel de diamante deveriam saber que um lápis estíptico faz parar o sangramento. Feche
o corte com um pouco de Super Cola e você poderá ser fotografado na pré-estréia de um filme,
sorridente e sem sinais ou cicatrizes.
Sempre mantenha um pano de chão vermelho para enxugar sangue à mão e você jamais
terá uma mancha para pré-lavar.
Minha agenda me diz que preciso afiar um facão.
Sobre o jantar de hoje à noite, continuo a dizer aos meus patrões o que eles devem
esperar.
O importante é não entrar em pânico. Sim, haverá uma lagosta que eles terão que
enfrentar.
Haverá apenas um saleiro. Uma carne de caça será servida após o assado. A caça será
borracho. É um tipo de pássaro, e se há algo mais complicado para comer que lagosta é
borracho. Todos aqueles ossinhos que você precisa tirar, todo mundo arrumado para a
dissecação. Outro vinho virá após o aperitivo, o xerez com a sopa, o vinho branco com a
lagosta, o vinho tinto com o assado, outro tinto com a tortura gordurosa do borracho. A essa
altura, a mesa estará manchada com arquipélagos de temperos e de molhos e de vinho
salpicados por toda a toalha branca.
O meu trabalho é assim. Mesmo num bom emprego, ninguém quer saber onde o
convidado de honra deve se sentar.
Aqueles jantares refinados de que seus professores de Economia Doméstica falavam, a
pausa com flores frescas e cafezinhos após um dia perfeito de uma vida equilibrada e elegante,
bem, está todo mundo cagando para isso.
Hoje à noite, em algum momento entre a sopa e o assado, todos à mesa vão mutilar uma
grande lagosta morta. Trinta e quatro capitães de indústria, trinta e quatro monstros bemsucedidos,
trinta e quatro selvagens aclamados, de black-tie, vão fingir que sabem comer.
E depois da lagosta, os lacaios vão trazer lavandas quentes com lascas de limão flutuando,
e essas trinta e quatro autópsias mal feitas vão terminar com alho e manteiga até o cotovelo de
cada manga e cada rosto sorridente e engordurado vai se erguer e sugar a carne de uma
cavidade torácica.
Após dezessete anos trabalhando em casas particulares todos os dias, as coisas que mais
conheço são caras esbofeteadas, creme de milho, olhos roxos, ombros deslocados, ovos
mexidos, pernas chutadas, córneas arranhadas, cebola picada, mordidas de toda espécie,
manchas de nicotina, lubrificantes sexuais, dentes arrancados, lábios cortados, creme batido,
braços torcidos, corrimentos vaginais, presunto condimentado, queimaduras de cigarro, abacaxi
espremido, hérnias, gravidez interrompida, sujeiras de animais de estimação, coco ralado, olhos
arrancados, distensões e marcas.
Depois que as senhoras para quem você trabalha tiverem chorado horas a fio, faça com
que elas passem um delineador azul ou roxo para que seus olhos vermelhos pareçam brancos.
Da próxima vez que alguém arrancar a socos um dente do marido, guarde o dente num copo de
leite até ele poder ir ao dentista. Enquanto isso, misture oxido de zinco e óleo de cravo com
uma pasta branca. Lave a cavidade e a preencha com a pasta, que é uma obturação rápida e fácil
e que endurece rapidamente.
Para manchas de lágrimas na fronha, trate da mesma forma que as manchas de suor.
Dissolva cinco aspirinas na água e emplastre a mancha até ela sumir. Mesmo que tenha uma
mancha de maquiagem, o problema está resolvido.
Se é que você pode chamar de resolvido.
Quer você limpe uma mancha, um peixe ou uma casa, você sempre acha que está tornando
o mundo um lugar melhor, quando na verdade só está deixando as coisas piorarem. Você acha
que, talvez, se trabalhar mais duro e mais rápido, conseguirá evitar o caos, mas aí, um dia, você
está no quintal, trocando uma lâmpada que tem uma vida útil de cinco anos, e percebe que só
trocará essa lâmpada mais umas dez vezes antes de morrer.
O tempo está acabando. Você não tem mais aquela energia de antes.
Você começa a ir mais devagar.
Você começa a ceder.
Neste ano, há cabelo nas minhas costas, e meu nariz não pára de crescer. Meu rosto no
espelho a cada manhã fica mais e mais parecido com uma careta.
Após trabalhar nessas casas ricas, sei que a melhor maneira de limpar sangue do portamalas
de um carro é não fazer perguntas.
O interfone está dizendo: "Alô?".
A melhor maneira de manter um bom trabalho é fazer o que eles querem.
O interfone está dizendo: "Alô?".
Para tirar batom de um colarinho, esfregue um pouco de vinagre branco.
Para manchas teimosas com base de proteína, tipo sêmen, tente enxaguar com água fria e
sal, e depois lave normalmente.
Isto aqui é um valioso treinamento em ação. Fique à vontade para tomar notas.
Para catar vidro quebrado daquela janela do quarto arrombada ou daquele copo de uísque
que foi parar no chão, você pode eliminar os cacos mais minúsculos com uma fatia de pão.
Mande que eu pare se você já sabe disso tudo.
O interfone está dizendo: "Alô?".
Eu sei. Já passei por isso. Outra coisa que eles te ensinam em Economia Doméstica é a
forma correta de responder a um convite de casamento. Como se dirigir ao Papa. A forma
correta de fazer um monograma em prata. Na escola da Igreja do Credo, eles ensinam que o
mundo pode ser uma peça de teatro perfeita e elegante, com maneiras perfeitas, onde você é o
diretor. Os professores criam a imagem de jantares onde todos já sabem comer uma lagosta.
Só que não é assim.
Aí só te resta se perder em meio aos detalhes insignificantes do cotidiano, fazendo as
mesmas tarefas de sempre.
Tem a lareira para limpar.
Tem a grama para cortar.
Virar todas as garrafas na adega.
Tem a grama para cortar, de novo.
Tem a prata para polir.
Repita.
Mesmo assim, pelo menos uma vez, eu gostaria de provar que sei fazer coisa melhor. Sei
fazer mais que simplesmente tapear. O mundo pode ser muito melhor que aquilo com que nos
contentamos. Basta você perguntar.
Não, sério, vai fundo. Pergunte-me.
Como você come alcachofra?
Como você come aspargo?
Pergunte-me.
Como você come lagosta?
As lagostas na panela parecem bem mortas, então eu levanto uma. Digo pelo interfone,
primeiro, arranque cada uma das patas grandes da frente.
As outras lagostas eu colocarei na geladeira para que eles treinem a parte de arrancar as
patas. Ao interfone eu digo, tomem nota.
Eu arranco as patas e como a carne que tem dentro.
Depois, incline a lagosta para trás até que a cauda se desprenda do corpo. Quebre a ponta
da cauda, o telso, e use o garfo para puxar a carne lá de dentro. Remova a veia intestinal que
perpassa a extensão da cauda. Se a veia está clara, a lagosta não comeu nada há um bom tempo.
Uma veia grossa e escura está fresca e ainda cheia de excrementos.
Eu como a carne da cauda.
O garfo da lagosta, digo ao interfone com a boca cheia, o garfo da lagosta é o garfo
menorzinho de três dentes.
Em seguida, você retira a concha dorsal, a carapaça, do corpo, e come a glândula digestiva
esverdeada. Coma o sangue cor de cobre que se cristaliza numa meleca branca. Coma a massa
de ovos não desenvolvidos cor de coral.
Eu como tudo.
Lagostas têm o chamado sistema circulatório "aberto", no qual o sangue simplesmente é
borrifado dentro das cavidades, banhando todos os órgãos.
Os pulmões são esponjosos e duros, mas dá para comer, eu digo ao interfone, lambendo os
dedos. O estômago é o saco duro com os negócios que parecem dentes, bem atrás da cabeça.
Não coma o estômago.
Remexo dentro do corpo. Chupo a carne de dentro de cada pata. Arranco com os dentes as
guelras minúsculas. Contorno o gânglio do cérebro.
Paro.
Descobri algo impossível.
O interfone está berrando: "Tudo bem, e agora? Só isso? O que restou para comer?".
Isso não pode estar acontecendo porque, de acordo com minha agenda, já são quase três
horas. Eu devia estar lá fora cuidando do jardim. Às quatro, vou reorganizar os canteiros. Às
cinco e meia, vou arrancar as sálvias e substituir por íris, bocas-de-leão, rosas, samambaias e
terra.
O interfone está berrando: "O que está acontecendo aí? Me responda! Qual é o
problema?".
Verifico minha programação e ela diz que sou feliz. Sou produtivo. Trabalho duro. Está
tudo escrito aqui, preto no branco. Eu faço as coisas.
O interfone grita: "O que fazemos em seguida?".
Hoje é um daqueles dias em que o sol sai para te humilhar.
O interfone grita: "O que mais temos para fazer?".
Ignoro o interfone porque não há mais nada a fazer. Não restou quase nada.
E talvez tenha sido um golpe de luz, mas eu já tinha comido quase a lagosta inteira
quando notei o coração bater.
43
De acordo com minha agenda, estou tentando cumprir minhas tarefas. Estou no topo de
uma escada com as mãos cheias de flores falsas: rosas, margaridas, delfínios, alelis. Estou
tentando não cair, meus dedos dobrados dentro dos sapatos. Estou pegando outro buquê de
poliéster com um obituário da semana passada dobrado dentro do bolso da minha camisa.
O homem que matei semana passada está aqui, em algum lugar. O que restou dele. Aquele
da espingarda encostada no queixo, sentado sozinho no apartamento vazio, me pedindo ao
telefone que lhe desse só uma boa razão para não puxar o gatilho, com certeza vou encontrá-lo.
Trevor Hollis.
Finado mas não esquecido.
Descansando em paz.
Chamado desta vida.
Ou ele vai me encontrar. É o que sempre espero.
No topo da escada, devo estar a uns 7, 8, 9 metros do chão do salão, enquanto finjo
catalogar outra flor artificial, com meus óculos beliscando a ponta do nariz. Minha caneta deixa
palavras no caderno de anotações. O Espécime número 786, estou escrevendo, é uma rosa
vermelha com cerca de cem anos.
O que espero é que todos os outros aqui estejam mortos.
Parte do meu serviço é colocar flores frescas pela casa onde trabalho. Tenho de colher
flores do jardim que preciso cultivar.
Saiba que não sou ladrão de túmulos.
As pétalas e o cálice (sépalas) da rosa são de celulóide vermelho. Criado em 1863, o
celulóide é a forma mais antiga e menos sólida de plástico. Estou escrevendo no meu caderno,
as folhas da rosa são de celulóide pintado de verde.
Paro de escrever e olho por cima dos meus óculos. No canto do salão, e tão longe que
parece um perfil escuro e minúsculo contra um imenso vitral, tem uma pessoa. O vitral é a
imagem de um lugar, Sodoma, Jerico ou o Templo de Salomão, sendo destruído pelo fogo no
Velho Testamento, silencioso e flamejante. Labaredas retorcidas de chamas cor de laranja e
vermelhas dançam ao redor de blocos de pedra, pilares e estátuas caídas, e do meio disso vem
andando uma figura num pequeno vestido preto, ficando cada vez maior conforme ela se
aproxima.
Espero que ela esteja morta. Meu desejo secreto agora é ter um caso com essa garota
morta. Uma garota morta. Qualquer garota morta. Não sou um cara exigente.
A mentira que conto às pessoas é que estou pesquisando a evolução das flores artificiais
durante a Revolução Industrial. Tudo isso é para a minha tese sobre Natureza e Design 456. Por
causa da minha idade, já estou fazendo doutorado.
A garota tem cabelo ruivo e comprido, desses que uma mulher só tem hoje em dia se for
de alguma religião ortodoxa. De cima da minha escada, os bracinhos e as perninhas fininhas da
garota me fazem olhar sem parar e me perguntar se um dia poderei me tornar um pedófilo.
Embora não seja o espécime mais antigo do meu estudo, esta rosa que finjo examinar é a
mais frágil. O órgão sexual feminino, o pistilo, composto de estigma, estilete e ovário, é feito de
azeviche. O órgão sexual masculino, o estame, tem filamento de arame com uma minúscula
antera de vidro.
Parte do meu trabalho é cultivar plantas frescas no jardim, mas não consigo. Não sei
plantar nada.
A mentira que conto a mim mesmo é que estou aqui para colher flores, flores frescas, para
o interior da casa. Eu roubo as flores falsas para enfiá-las no jardim. As pessoas para quem
trabalho só olham para o jardim de dentro da casa, então encho a terra de plantas falsas,
samambaias ou heras feitas à mão, e depois coloco as flores sazonais falsas. O jardim é lindo,
desde que você não olhe de perto.
As flores parecem tão reais. Tão naturais. Tão serenas.
O melhor lugar para encontrar bulbos para a falsificação é no depósito de lixo atrás do
mausoléu. Lá eles jogam vasos plásticos de bulbos dormentes, jacintos e tulipas, tigrídias e
lírios, narcisos e açafrões, prontos para serem levados para casa e voltarem à vida.
O Espécime número 786, escrevo, surgiu no vaso da Catacumba 2387, na fileira mais alta
das Catacumbas, na galeria ao sul, no sétimo andar da ala Serenidade. Esta localização, escrevo,
a 9 metros do chão do salão, explica o estado quase perfeito desta rosa, encontrada numa das
catacumbas mais antigas numa das alas originais do Mausoléu de Coiumbia.
Aí eu roubo a rosa.
O que digo às pessoas que me vêem aqui é outra história.
Minha versão oficial é que este mausoléu fornece os melhores exemplos de flores
artificiais desde a metade do século XIX. Cada uma das alas principais, a ala Serenidade, a ala
Contentamento, as alas Eternidade, Tranqüilidade, Harmonia e Nova Esperança, tem de cinco a
dezoito andares de altura. Todas as aberturas no concreto das paredes têm três metros de
comprimento, então podem acomodar mesmo os maiores caixões se enfiados de comprido. O ar
não circula nos quilômetros de galerias. Raramente há visitantes. A visita típica é curta. A
temperatura e a umidade médias durante o ano são baixas e constantes.
Os espécimes mais antigos derivam da cultura vitoriana e de sua linguagem. De acordo
com o clássico de 1840, Le langage desfleurs, de Madame de la Tour, lilases roxos
significavam morte. Lilases brancos, do gênero Syringa, significavam a descoberta do amor.
O gerânio significava nobreza.
Os botões-de-ouro, infantilidade.
Como a maioria das flores artificiais foi feita para decorar chapéus, um mausoléu fornece
os melhores espécimes que ainda existem.
É o que eu conto às pessoas. Minha versão oficial da verdade.
Durante o dia, se as pessoas me vêem com meu caderno e minha caneta, na maior parte
das vezes estou no topo da escada arrancando um ramo de violetas tricolores deixadas numa
catacumba lá em cima. É para um trabalho da faculdade, eu sussurro para elas lá embaixo, com
as mãos em concha ao redor da boca.
Estou fazendo um estudo.
Às vezes estou aqui tarde da noite. Depois que todos já foram embora Aí começo a andar
por aí depois da meia-noite e meu sonho é que qualquer noite dessas vou virar e encontrar uma
catacumba aberta e, ao lado dela, vai ter um cadáver dessecado, a pele seca no rosto e sua roupa
endurecida e manchada dos fluidos que pingam e vazam de seu corpo. Vou topar com esse
esqueleto numa galeria escura, onde só se ouve o zunido de uma lâmpada fluorescente piscando
num clarão segundos antes de me deixar no escuro, para sempre, com esse monstro morto.
Os olhos do cadáver devem estar soltos dentro da cavidade, e quero que ele saia
tropeçando cegamente e agarrando as paredes frias de mármore deixando uma gosma podre que
expõe os ossos dentro de cada mão. Sua boca cansada entreaberta, o nariz inexistente é feito
apenas de dois buracos escuros, a camisa velha pendendo das clavículas expostas.
Vou procurar nomes que li no obituário. Gravados aqui para sempre estão os nomes de
pessoas que aceitaram meus conselhos.
Vá em frente. Se mate.
Filho amado. Filha bondosa. Amigo fiel.
Puxe o gatilho.
Alma elevada.
Aqui estou eu. É hora da revanche. Eu te desafio.
Venha me pegar.
Quero ser perseguido por zumbis comedores de gente.
Quero passar por uma tampa de mármore que cobre uma catacumba e ouvir algo
arranhando e se debatendo lá dentro. À noite, encosto meu ouvido no mármore frio e espero. É
por isso que estou aqui.
O Espécime número 786, escrevo no meu caderno, possui um caule Principal de arame
calibre 30 coberto de algodão verde. O caule das fohas parece ser calibre 20.
Não que eu seja maluco ou coisa parecida, só quero alguma prova de que a morte não é o
fim. Mesmo que zumbis enlouquecidos me agarras-sem num corredor escuro uma noite dessas,
mesmo que eles me trucidas-sem, pelo menos não seria o fim absoluto. Haveria algum conforto
nisso.
Isso provaria que há uma forma de vida após a morte, e eu morreria feliz. Então espero.
Então observo. Escuto. Encosto meu ouvido em cada catacumba fria. Escrevo, nenhuma
atividade dentro da Catacumba 7896.
Nenhuma atividade dentro da Catacumba 7897.
Nenhuma atividade dentro da Catacumba 7898.
Escrevo, o Espécime número 45 é uma rosa de baqueiita branca. O plástico sintético mais
antigo, a baqueiita, foi inventada em 1907 quando um químico aqueceu uma mistura de fenol
com formaldeído. Na linguagem da cultura floral vitoriana, a rosa branca significa silêncio.
O dia em que encontro essa garota é o melhor dia para documentar novas flores. É o dia
seguinte ao fim de semana do Dia da Lembrança*, quando as multidões se vão até o ano
seguinte. É depois que todo mundo vai embora que vejo pela primeira vez essa garota que
espero estar morta.
No dia seguinte ao Dia da Lembrança, o zelador vem rolando um latão de lixo e cata todas
as flores frescas. A categoria mais inferior de flores é a que os floristas chamam de "Categoria
Funeral".
O zelador e eu já nos cruzamos, mas jamais trocamos uma única palavra. Ele, vestido em
seu macacão azul, já me pegou uma vez com o ouvido encostado numa catacumba. Com o
círculo de sua lanterna a me iluminar lá, mesmo nesse dia ele apenas virou a cara. Com o salto
de um dos meus sapatos na mão, eu estava batendo e dizendo, alô. Em código morse eu
perguntava, alguém pode me ouvir?
______________
* “Dia da Lembrança”: “Memorial Day”, dia em que os norte-americanos homenageiam a memória dos soldados mortos em combate.
O problema com as flores Categoria Funeral é que elas ficam bonitas só por um dia. No
dia seguinte, começam a apodrecer. Aí, com as flores enfiadas nos vasos de bronze colados a
cada catacumba, encurvadas lá, escuras e murchas, pingando sua água fedorenta no chão de
mármore e cheias de bolor, fica fácil imaginar o que está acontecendo com a pessoa amada
trancada lá dentro
No dia seguinte ao Dia da Lembrança, o zelador as joga fora. As flores murchas.
Para trás fica uma nova produção de peônias falsas, cor vermelho-escuro e cheias de
corante para que a seda fique quase preta. Este ano há orquídeas de plástico com perfume
artificial. As parreiras compridas de seda com ipoméias enormes azuis e brancas valem a pena
roubar.
Os espécimes mais antigos incluem flores feitas de chiffon, organza, veludo, georgette,
crepe-da-china e fitas largas de cetim. Amontoadas em meus braços tem bocas-de-leão,
ervilhas-de-cheiro e sálvias. Malvas-rosas, maravilhas e não-me-olvides. Falsas e belas, porém
rígidas e ásperas, este ano as novas flores vêm salpicadas com gotas de orvalho feitas de
poliestireno.
Este ano, essa garota chega um dia atrasada com um sortimento nada especial de tulipas e
anêmonas de poliéster, as flores vitorianas clássicas da tristeza e da morte, da doença e do
abandono, e observando-a da minha escada, do fundo da galeria a oeste, no sexto andar do
Contentamento, tomando notas no meu pequeno guia, estou eu.
A flor diante de mim é o Espécime 237, um crisântemo de raiom do pós-guerra. Pósguerra
porque não havia seda, raiom ou arame suficientes para fazer flores durante a Segunda
Guerra Mundial. As flores na época da guerra eram de papel crepom ou papel de arroz, e
mesmo nos dez graus secos e constantes do Mausoléu de Columbia, todas essas flores viraram
pó.
À minha frente está a Catacumba número 678, Trevor Hollis, vinte e quatro anos de idade,
que deixou mãe, pai e uma irmã. Muito amado. Filho querido. Na lembrança carinhosa. Minha
vítima mais recente. Eu o encontrei.
A Catacumba número 678 fica numa fileira alta na parede da galeria. O único jeito de
olhar de perto é com uma escada ou uma empilhadeira, e mesmo do topo da escada, dois
degraus acima do que é considerado seguro, consigo ver que tem algo diferente na garota. Algo
europeu. Algo a ver com desnutrição. Não é a quantidade diária recomendada de comida e luz
do sol que possa te deixar bonito pelos padrões norte-americanos. Há um aspecto de cera em
seus braços e suas pernas saindo do vestido, ossudos e brancos. Você pode imaginá-la vivendo
atrás do arame farpado. E crescendo em mim há a esperança obstinada de que talvez ela esteja
morta. É assim que me sinto assistindo a filmes antigos em casa, onde vampiros e zumbis
voltam dos túmulos, famintos por carne humana. Dentro de mim há a mesma esperança
obstinada que tenho assistindo aos mortos-vivos esfomeados e pensando, ah, por favor, por
favor, por favor.
O desejo dentro de mim é de ser agarrado por uma garota morta. Encostar meu ouvido em
seu peito e não ouvir nada. Mesmo ser mastigado por zumbis é melhor que pensar que sou
apenas carne e sangue, pele e osso. Demônio, anjo ou espírito do mal, só preciso de algo que se
mostre. Diabólico, fantasmagórico ou uma besta de pernas compridas, só quero que segurem
minha mão.
Daqui de cima, da sexta fileira de catacumbas, o vestido preto dela parece ter sido passado
a ferro até brilhar. Os bracinhos e perninhas finos e brancos parecem ter sido recobertos por um
novo tipo de pele humana de baixa qualidade. Mesmo daqui de cima seu rosto parece produzido
em massa.
Cânticos de Salomão, capítulo 7, versículo 1:
"Que formosos são os teus passos dados de sandálias, ó filha do príncipe! Os meneios dos
teus quadris são como colares..."
Mesmo com o sol esquentando tudo lá fora, tudo aqui dentro continua frio ao toque. A luz
entra pelo vitral. O cheiro é de chuva absorvida pelas paredes feitas de cimento. A impressão de
tudo é a do mármore polido. O som vem de algum lugar, os pingos da chuva antiga deslizando
pelas vigas de aço, os pingos da chuva pela clarabóia rachada, os pingos da chuva dentro de
catacumbas não vendidas.
Partículas de poeira, sujeira e cabelo formam cotões que passeiam pelo chão. Cocô de
fantasma, as pessoas chamam.
A garota olha para cima e tem que me ver, e depois se aproxima em silêncio, com seus
sapatos pretos tipo feltro cruzando o chão de mármore.
É fácil se perder aqui dentro. Corredores vão dar em corredores em ângulos estranhos.
Para achar uma catacumba é preciso um mapa. Galerias abrem-se em galerias em imagens
telescópicas tão amplas que o sofá esculpido ou a estátua de mármore lá no fundo poderiam ser
algo que você jamais imaginaria. Os tons pastéis do mármore em toda a parte são de tal forma
que, quando você se perde, você não se desespera.
A garota vem até a escada e fico encurralado na parte de cima, entre ela, aos meus pés, e o
céu de anjos pintado no teto. A parede de mármore polido das catacumbas reflete minha
imagem por inteiro no meio dos epitáfios.
Esta pedra erguida em sua homenagem.
Erguida neste local.
Erguida num tributo carinhoso.
Sou todas as alternativas acima.
Meus dedos frios estão petrificados ao redor da minha caneta. O Espécime número 98 é
uma camélia de seda lingerie. A cor-de-rosa absoluta prova que a seda produzida foi fervida em
água com sabão para remover toda a sericina. O caule principal é um arame coberto por
polipropileno verde, típico dos arbustos do período. A camélia significa excelência sem igual.
A cara redonda tipo máscara da garota olha para mim do pé da escada. Como distinguir se
ela está viva ou se é um fantasma eu não sei. O vestido que ela usa é grosso demais para que eu
veja se o peito dela está subindo e descendo. O ar é abafado demais para a respiração dela
aparecer.
Cânticos de Salomão, capítulo 7, versículo 2:
"O teu umbigo é taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre é monte de trigo,
cercado de lírios."
A Bíblia fala demais em sexo e comida.
Aqui, com o Espécime número 136, as pequenas conchas pintadas de cor-de-rosa para
parecerem pétalas, e o Espécime número 78, o narciso de baquelita, quero ser abraçado pelos
seus braços frios e mortos, e ouvir que a vida não tem um fim absoluto. Minha vida não é um
adubo Categoria Funeral que vai apodrecer amanhã e que viverá menos que o meu nome num
obituário.
A sensação que temos entre esses quilômetros de paredes de mármore com gente fechada
dentro delas é a de que estamos num prédio abarrotado de pessoas, mas, ao mesmo tempo,
temos a sensação de estarmos sozinhos. Um ano poderia se passar entre ela me fazer uma
pergunta e eu responder.
Minha respiração embaça as datas gravadas no mármore que compreendem a curta vida de
Trevor Hollis. No epitáfio se lê:
Para o mundo ele foi um fracassado,
Mas para mim ele foi o mundo.
Trevor Hollis, mostre seu pior lado. Eu te desafio, venha e vingue-se.
Com a cabeça jogada para trás, a garota sorri para mim aqui em cima. Contra o cinza das
pedras, seu cabelo ruivo brilha, e para mim ela diz-"Você trouxe flores".
Meus braços se movem e algumas flores, violas, margaridas e dálias, caem flutuando ao
seu redor.
Ela pega uma hortênsia e diz: "Ninguém mais veio aqui fazer visitas desde o enterro".
Cânticos de Salomão, capítulo 7, versículo 3:
"Os teus dois seios são como duas crias, gêmeas de uma gazela."
A sua boca, de lábios finos e vermelhos demais, parece ter sido aberta com uma faca. Ela
diz: "Oi. Meu nome é Fertility".
Ela levanta as flores e as segura no ar como se eu não estivesse fora de seu alcance e
pergunta: "Então, como você conheceu o meu irmão, o Trevor?".
42
O nome dela era Fertility Hollis. Esse é o nome completo dela, sem brincadeira*, e é sobre
ela que eu quero conversar no dia seguinte com minha assistente social.
Como parte do meu contrato, preciso encontrar minha assistente social durante uma hora,
uma vez por semana. Em troca, continuo a receber o auxílio. O programa me dá direito a uma
cesta básica. Queijo, leite em pó, mel e manteiga do governo, grátis. Colocação profissional
gratuita. São esses os bônus que você recebe no Programa Federal de Apoio aos Sobreviventes.
Meu apartamentozinho e meu queijo extra. Meu empregozinho com toda a carne de vitela que
eu conseguir levar para casa no ônibus. Dá para o gasto.
Você não consegue nenhum privilégio, não consegue estacionar em vagas para
deficientes, mas, uma vez por semana e durante uma hora, você tem o auxílio de uma assistente
social. Toda terça-feira, a minha vai até a casa onde estou trabalhando dirigindo seu carro de
cor ordinária cedido pelo governo, com sua compaixão profissional, com suas pastas e seu
diário de quilometragem, no qual ela marca os quilômetros percorridos entre cada uma das
visitas do dia. Nesta semana, ele tem vinte e quatro clientes. Na semana passada, teve vinte e
seis.
Toda terça-feira ela vem me ouvir.
Toda semana eu pergunto a ela quantos sobreviventes restam no país todo.
Ela está na cozinha, se enchendo de daiquiris e de batatinhas fritas. Ela tirou os sapatos e a
bolsa de lona cheia de arquivos dos clientes está em cima da mesa da cozinha, entre nós,
enquanto ela pega uma prancheta e coloca a minha ficha na frente das demais. Ela passa o dedo
por uma coluna de números e diz: "Cento e cinqüenta e sete sobreviventes. No país todo".
__________
* "Fertility Hollis": o autor se refere a uma possível leitura do nome, algo como "azevinhos da fertilidade". (N. doT.)
Ela começa a escrever a data e olha o relógio para anotar a hora no meu relatório semanal.
Ela vira a prancheta para que eu leia e depois assine no canto inferior. Isso é para provar que ela
esteve aqui. Depois nós conversamos. Dividimos experiências. Ela me passou uma caneta. Nós
abrimos nossos corações. Me ouça, me cure, me salve, acredite em mim. Não é culpa dela se,
depois que ela sair, eu resolver cortar minha garganta.
Enquanto estou assinando o relatório, ela pergunta: "Você conhecia a mulher aí da rua que
trabalhava no casarão branco e marrom?".
Não. Sim, claro, sei de quem ela está falando.
"Grandona. Cabelo loiro, comprido, de trança. Parecia uma alemã", a assistente social diz.
"Bem, ela bateu as botas duas noites atrás. Se enforcou com um fio de extensão." A assistente
social olha para as unhas, primeiro com os dedos dobrados, dentro da palma, depois com os
dedos esticados. Ela volta a remexer na bolsa de lona e retira um esmalte vermelho vivo.
"Bom", ela diz, "já vai tarde. Nunca gostei dela."
Devolvo a prancheta e pergunto, alguém mais? "Um jardineiro", ela responde. E começa a
sacudir o vidrinho vermelho com uma tampa comprida e branca próximo à orelha. Com a outra
mão, ela procura uma ficha entre as folhas. Ela segura a prancheta para que eu veja que o
relatório desta semana do Cliente número 134 leva um carimbo grande e vermelho com a
palavra LIBERADO. E a data.
O carimbo era usado num programa de pacientes de hospitais. Nesse programa,
LIBERADO significava que o cliente tivera alta. Agora significa que o cliente está morto.
Ninguém quis fazer uma requisição para um carimbo com a palavra MORTO. A assistente
social me disse isso há alguns anos, quando os índices de suicídio começaram a subir de novo.
Da terra à terra. Do pó ao pó. É assim que as coisas são recicladas.
"O cara bebeu um tipo de herbicida", ela comenta. Suas mãos torcem o vidrinho entre
elas. Torcem. Torcem até seus dedos ficarem brancos. Ela diz: "Essa gente faz qualquer coisa
para me fazer parecer incompetente". Ela bate com o vidrinho na ponta da mesa e tenta abri-lo
de novo. "Toma", ela diz e me passa o esmalte. "Pode abrir pra mim?"
Eu abro o vidrinho sem problemas e devolvo a ela.
"Você conhecia esses dois?", ela pergunta.
Bem, não. Eu não os conhecia. Sei quem são, mas não os conhecia anteriormente. Não
cresci com eles, mas nos últimos anos eu os via na vizinhança. Eles ainda usavam as velhas
roupas exigidas pela igreja. O homem usava suspensórios, calças largas, camisa de manga longa
abotoada até o pescoço, mesmo nos dias quentes de verão. A mulher usava o vestido desbotado
de pregas que, me recordo, as mulheres da igreja eram obrigadas a usar. Ela ainda usava um
gorro. O homem sempre usava um chapéu de abas largas, palha no verão, feltro preto no
inverno. É. Verdade. Eu os via por aí. Era impossível ignorá-los. "Quando você os via", a
assistente social diz ao deslizar o pequeno pincel, vermelho sobre vermelho, pela extensão de
cada unha, "você ficava chateado? Ver pessoas da sua antiga igreja te deixava triste? Você
chorava? Ver pessoas que se vestiam como você quando fazia parte da igreja, isso te deixava
com raiva?".
O interfone toca.
"Isso te faz lembrar de seus pais?"
O interfone toca.
"Isso te deixa revoltado com o que aconteceu com a sua família?"
O interfone toca.
"Você lembra de como era antes dos suicídios?"
O interfone toca.
A assistente social diz: "Você não vai atender?"
Num minuto. Primeiro preciso checar minha agenda. Eu levanto o caderno grosso de
modo que ela veja a lista de todas as coisas que tenho que fazer hoje. As pessoas para quem
trabalho ligam para me pegar. Deus me livre eu estar aqui dentro e atender o interfone se nesse
exato instante eu deveria estar lá fora limpando a piscina.
O interfone toca.
De acordo com minha agenda, eu deveria estar vaporizando as cortinas do quarto de
hóspedes azul. O que quer que isso signifique.
A assistente social está mastigando batatinhas fritas, então aceno para que ela faça
silêncio.
O interfone toca, eu atendo.
O interfone berra: "O que você pode nos dizer sobre o banquete de hoje à noite?".
Relaxe, eu digo. É moleza. Salmão, sem espinhas. Uma espécie de cenoura pequena.
Chicória cozida.
"O que é isso?"
É uma folha crestada, eu digo. Você come com o último garfinho à esquerda. Com os
dentes para baixo. Você já conhece chicória cozida. Eu sei que você conhece chicória cozida.
Você comeu ano passado numa ceia de Natal. Você adora chicória cozida. Coma só três
garfadas, digo ao interfone. Prometo que você vai adorar.
O interfone pergunta: "Você pode tirar as manchas da prateleira da lareira?".
De acordo com minha agenda, só devo fazer isso amanhã.
"Ah", o interfone diz. "Nós esquecemos."
É. Falou. Vocês esqueceram.
Sacanas.
Você poderia me chamar de cavalheiro, mas estaria redondamente enganado.
"Algo mais que devemos saber?"
É Dia das Mães.
"Ah, merda. Porra. Droga!", o interfone diz. "Você se lembrou e mandou alguma coisa?
Estamos em dia?"
É claro. Mandei para as mães deles um lindo arranjo de flores, e o florista vai mandar a
conta.
"O que você escreveu no cartão?" Escrevi:
Para a minha querida mãe, a quem amo e sempre lembro. Nenhum(a) filho (a) jamais teve
uma mãe tão amorosa. Do fundo do meu coração. E depois a assinatura.
E um RS.: Uma flor seca é tão bonita quanto uma flor fresca. "Ficou bom. Isso vai lhes
servir por mais um ano", o interfone diz. "Lembre-se de regar todas as plantas do solário. Está
escrito na agenda." Aí eles desligam. Eles não precisam me lembrar de fazer nada. Eles só
precisam dar a palavra final. Eu nem esquento.
A assistente social está soprando e balançando as unhas vermelhas na frente da boca.
Entre longos sopros ela pergunta: "Sua família?". Ela sopra as unhas. Ela pergunta: "Sua
própria mãe?". Ela sopra as unhas. "Você se lembra da sua mãe?" Ela sopra as unhas. "Acha
que ela sentiu alguma coisa?" Ela sopra as unhas. "Quer dizer, quando ela se matou?"
Mateus, capítulo 24, versículo 13:
"Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo."
De acordo com minha agenda, eu devia estar limpando o filtro do ar-condicionado.
Tirando o pó do quarto de hóspedes verde. Tem as maçanetas de bronze para polir. Tem todos
os jornais velhos para reciclar.
A hora quase acabou e não consegui falar de Fertility Hollis. De como nos encontramos
no mausoléu. Caminhamos durante uma hora e ela me falou de diferentes movimentos artísticos
do século XX, e de como eles mostravam Jesus crucificado. Na ala mais antiga do mausoléu,
chamada Contentamento, Jesus é magro e romântico, com grandes olhos chorosos e cílios
longos, como os de uma mulher. Na ala construída nos anos 30, Jesus é um Realista Social,
com músculos enormes de um herói. Nos anos 40, na ala Serenidade, Jesus se torna uma
montagem abstrata de planos e cubos. O Jesus dos anos 50 é em madeira polida, um esqueleto
dinamarquês moderno. O Jesus dos anos 60 foi montado com pedaços de madeira.
Não há ala dos anos 70, e na dos anos 80 não tem Jesus, só o mesmo mármore verde,
polido e secular, e o bronze, que mais parece uma loja de departamentos.
Fertility falou sobre arte e atravessamos o Contentamento, a Serenidade, a Paz, a Alegria,
a Salvação, o Êxtase e o Encantamento.
Ela me disse que seu nome era Fertility Hollis.
Eu lhe disse que me chamasse de Tender Branson. É o mais próximo que possuo de um
nome de verdade.
Toda semana, a partir de agora, ela visitará a catacumba do irmão. É onde ela prometeu
estar na quarta-feira que vem.
A assistente social pergunta: "Já se passaram dez anos. Por que você não quer se abrir e
falar sobre sua finada família?".
Sinto muito, digo a ela, mas preciso voltar ao trabalho. Digo à assistente social que nossa
hora acabou.
41
Antes que seja tarde demais, antes que meu avião se aproxime demais da queda, preciso
explicar meu nome. Tender Branson. Não é exatamente um nome. É mais uma hierarquia. É o
mesmo que uma pessoa, numa outra cultura, chamar uma criança de Tenente Smith ou Bispo
Jones. Ou Governador Brown. Ou Doutor Moore. Xerife Peterson.
Os únicos nomes na cultura do Credo eram os sobrenomes. O sobrenome vinha do
marido. O sobrenome era a forma de reivindicar propriedade. O sobrenome era um rótulo.
Meu sobrenome é Branson.
Meu posto é Tender Branson. É o posto mais baixo.
A assistente social me perguntou uma vez se o sobrenome não era uma forma de endosso
ou maldição quando os filhos e filhas eram contratados para trabalhar no mundo aqui fora.
Desde os suicídios, as pessoas do mundo aqui fora fazem a mesma imagem
sensacionalista da cultura do Credo que meu irmão, Adam, fazia da cultura delas.
No mundo lá fora, meu irmão me dizia, as pessoas eram impulsivas como animais e
fornicavam na rua.
Hoje, as pessoas aqui fora me perguntam se determinados sobrenomes conseguiam preços
mais altos. Alguns sobrenomes determinavam contratos de trabalho mais baratos?
Essas pessoas geralmente me perguntam se alguns pais da Igreja do Credo engravidavam
as filhas para aumentar o fluxo de capital. Elas perguntam se as crianças da Igreja do Credo que
não tinham permissão para casar eram castradas, ou seja, se eu era. Perguntavam se os filhos da
Igreja do Credo se masturbavam, copulavam com animais da fazenda ou sodomizavam uns aos
outros, ou seja, se eu o fazia. Se eu fazia, se eu era.
Estranhos perguntam, na minha cara, se sou virgem. Sei lá. Esqueci. Ou, esse assunto não
é da sua conta. Só para constar, meu irmão Adam Branson era mais velho que eu em três
minutos e trinta segundos, mas, pelos padrões da Igreja do Credo, a diferença poderia ter sido
de anos.
Isso porque a doutrina do Credo não reconhecia os que chegavam em segundo lugar.
Em todas as famílias, o primogênito era chamado de Adam, e seria Adam Branson quem
herdaria nossa terra na colônia do distrito da igreja.
Todos os filhos após Adam eram chamados de Tender. Na família Branson, sou um dos
últimos dos oito Tender Bransons que meus pais soltaram no mundo para ser missionários.
Todas as filhas, da primeira à última, eram chamadas de Biddy.
Os Tenders tomam conta do rebanho*.
Às Biddies, dêem seus lances*.
Talvez ambas as palavras sejam gíria, apelidos para nomes mais tradicionais e compridos,
mas não sei quais.
Só sei que se os anciãos da igreja escolhessem uma Biddy Branson para se casar com um
Adam de outra família, o nome dela, seu posto na verdade, mudaria para Author.
Ao se casar com Adam Maxton, Biddy Branson se tornaria Author Maxton.
Os pais desse Adam Maxton também eram chamados de Adam e Author Maxton, até que
seu filho recém-casado e sua esposa tivessem um filho. Depois disso, você deveria chamar os
dois membros mais velhos da família de Elder Maxton.
Na maioria dos casais, quando o primogênito tinha seu primeiro filho, a Elder Maxton já
estaria morta em razão de ter tido filho após filho após filho.
Quase todos os anciãos da igreja eram homens. O homem podia se tornar um ancião da
igreja ao trinta e cinco anos de idade, se ele fosse rápido.
Não era complicado.
Não era nada comparado com o mundo aqui fora e seu sistema hierárquico de pais, avós,
bisavós, tias e tios, sobrinhas e sobrinhos, cada qual com seu próprio nome.
Na cultura do Credo, seu nome mostrava a todos a quem você pertencia. Tender ou Biddy.
Adam ou Author. Ou Elder. Seu nome determinava como seria sua vida.
As pessoas me perguntam se eu tinha raiva por ter perdido o direito a ter propriedades e
uma família só porque meu irmão nasceu três minutos e meio na minha frente. Aprendi a
responder que sim. É isso que as pessoas no mundo aqui fora querem ouvir. Mas não é verdade.
Nunca tive raiva.
Seria o mesmo que ficar com raiva de pensar que, se você tivesse nascido com dedos mais
compridos, poderia ter sido violinista.
É o mesmo que desejar que seus pais fossem mais altos, mais magros, mais fortes, mais
felizes. São detalhes do passado sobre os quais você não tem nenhum controle.
A verdade é que Adam nasceu primeiro. E talvez Adam me invejasse porque eu iria sair e
ver o mundo. Enquanto eu fazia minha mala para ir embora, Adam estava se casando com uma
Biddy Gleason que ele mal conhecia.
____________________
“Tender”: em inglês, "aquele que toma conta de, que cuida". Em várias passagens bíblicas há a expressão "to tend the flock", "tomar conta do
rebanho". (N. do T.)
“Biddy”: em inglês, "to bid" significa dar um lance, oferecer um preço. (N. do T.)
Era o corpo de anciãos da igreja que fazia os gráficos elaborados de quem se casaria com
qual Biddy de qual família para que aqueles chamados no mundo lá fora de "primos" nunca se
casassem. A cada geração, quando os Adams começavam a fazer dezessete anos, os anciãos se
reuniam para escolher suas esposas o mais distante de suas árvores genealógicas possível.
Havia quase quarenta famílias na colônia do distrito da igreja, e a cada geração quase todas as
famílias tinham casamentos e festas. Para um Tender ou uma Biddy, a temporada de
casamentos era algo que você observava de longe.
Se você fosse uma Biddy, podia sonhar que um dia isso poderia acontecer com você.
Se você fosse um Tender, você não sonhava.
40
Hoje à noite, as ligações chegam como em todas as noites. Lá fora é lua cheia. As pessoas
estão prontas para morrer por causa das notas baixas na escola. Por causa das preocupações
com a família. Dos problemas com o namorado. Dos seus empreguinhos vagabundos. Isso
enquanto tento preparar um par de costeletas de carneiro que roubei.
As pessoas fazem interurbanos, com a telefonista perguntando se aceito um pedido de
atenção a cobrar de fulano de tal.
Hoje estou experimentando uma forma nova de comer salmão en croûte, uma forma nova
e sensual de virar o pulso, um pequeno charme para as pessoas para quem trabalho se
mostrarem para os outros convidados no próximo jantar. Um pequeno truque de salão. É o
equivalente em etiqueta à dança de salão. Estou trabalhando numa forma nova e pomposa de
levar cebolas encremadas à boca. Acabo de aperfeiçoar uma técnica infalível de enxugar o
creme de ervas excedente quando o telefone toca, de novo.
Um cara está ligando para dizer que vai ser reprovado em Álgebra II.
Só para manter a prática, eu digo, se mate.
Uma mulher liga e diz que seus filhos não se comportam.
Sem hesitar, digo a ela, se mate.
Um homem liga para dizer que seu carro não quer pegar.
Se mate.
Uma mulher liga para perguntar a que horas o filme da madrugada começa.
Se mate.
Ela pergunta: "Aí não é 555-1327? Não é o CinePlex Moorehouse?".
Eu digo, se mate. Se mate. Se mate.
Uma garota liga e pergunta: "Dói muito morrer?".
Bem, querida, eu digo a ela, dói muito mais continuar vivendo.
"Eu estava pensando", ela diz. "Semana passada, meu irmão se matou."
Só podia ser Fertility Hollis. Eu pergunto qual era a idade do seu irmão. Faço uma voz
mais grave, diferente, na esperança de que ela não me reconheça.
"Vinte e quatro", ela responde, sem chorar nem nada. Ela nem parece tão triste assim.
Sua voz me faz pensar em sua boca, me faz pensar em sua respiração, me faz pensar em
seus seios.
1 Coríntios, capítulo 6, versículo 18:
“Fugi da impureza... aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo.”
Na minha voz nova, mais grave, peço que ela fale sobre seus sentimentos.
"Na questão da hora", ela diz, "não posso decidir. O trimestre está quase terminando, e
estou odiando meu emprego. O contrato do aluguel do meu apartamento está quase chegando
ao fim. O licenciamento do meu carro vence semana que vem. Se é para fazer, agora seria uma
boa hora de me matar."
Há muitas boas razões para viver, digo a ela, e espero que ela não peça uma lista.
Pergunto se não há ninguém que também esteja sofrendo com a morte do irmão dela. Talvez
um velho amigo do irmão que possa apoiá-la nessa tragédia.
"Na verdade, não."
Pergunto se ninguém mais vai ao túmulo do irmão dela.
"Não."
Pergunto, ninguém? Ninguém mais coloca flores no caixão? Nem mesmo um amigo?
"Não."
Ficou claro que deixei uma boa impressão.
"Não", ela diz. "Espere. Tem um cara meio estranho."
Ótimo. Eu sou estranho.
Pergunto, como assim, estranho?
"Lembra daquelas pessoas, daquele culto, que se mataram todas?", ela comenta. "Faz uns
sete, oito anos. A cidade inteira, eles foram para a igreja e beberam veneno, e o FBI encontrou
todos de mãos dadas, no chão, mortos. Esse cara me fez lembrar deles. Nem tanto pela roupa
ridícula, mas pelo cabelo, que era como se ele mesmo tivesse cortado de olhos fechados."
Foi há dez anos, e só tenho vontade de desligar.
2 Crônicas, capítulo 21, versículo 19:
"... saíram-lhe as entranhas..."
"Alô," ela diz. "Você ainda está aí?"
Estou, respondo. Algo mais?
"Nada mais" ela diz. "Ele só estava na catacumba do meu irmão com um ramalhete de
flores."
Veja, eu digo a ela. É de uma pessoa bondosa assim que precisa procurar nesta crise.
"Acho que não", ela retruca.
Pergunto se é casada.
"Não."
Está saindo com alguém?
"Não."
Então conheça melhor esse cara, digo a ela. Deixe que a perda que vocês dois sofreram os
una. Isso poderia ser um novo romance para ela.
"Acho que não", ela diz. "Para começar, você não viu esse cara. Puxa, sempre me
perguntei se meu irmão era homossexual, e esse cara esquisito com flores na mão só confirma
minhas suspeitas. Além disso, ele não era lá muito atraente."
Lamentações, capítulo 2, versículo 11:
"... turbada está a minha alma, o meu coração se derramou de angústia..."
Eu digo, talvez se ele fizer um novo corte de cabelo, você poderia ajudá-lo. Dar um banho
de loja nele.
"Acho que não", ela fala. "Esse cara é feio demais. Ele tem um cabelo horroroso, com
costeletas que chegam quase até a boca. Não é como os caras que usam barba para esconder um
queixo duplo ou porque não têm as maçãs do rosto. Esse cara não tem nada que se salve. E
ainda por cima é bicha."
1 Coríntios, capítulo 11, versículo 14:
"Ou não vos ensina a própria natureza ser desonroso para o homem usar cabelo
comprido?"
Eu digo, você não tem provas de que ele seja sodomita.
"De que prova você precisa?"
Eu digo, pergunte a ele. Você não vai vê-lo de novo?
"Bem", ela responde, "eu disse a ele que o encontraria na catacumba semana que vem,
mas sei lá, falei por falar. Só disse isso para me ver livre dele. Ele foi tão pegajoso e patético.
Me seguiu pelo mausoléu durante uma hora."
Mas ainda assim você precisa encontrá-lo, eu digo. Você prometeu. Pense no pobre
Trevor, seu irmão. O que o Trevor pensaria se você der o fora no único amigo que ele tinha?
Ela pergunta: "Como você sabe o nome dele?"
O nome de quem?
"Do meu irmão, Trevor. Você disse o nome dele."
Você deve ter mencionado antes, eu digo. Há um minuto você o mencionou. Trevor. Vinte
e quatro anos. Se matou semana passada. Homossexual. Talvez. Tinha um amante secreto que
precisa desesperada-mente de um ombro para chorar.
"Você guardou tudo isso? Você é um bom ouvinte", ela diz. "Estou impressionada. Como
você é?"
Feio, eu digo. Horrível. Cabelo feio. Passado feio. Você não gostaria nada da minha
aparência.
Pergunto do amigo do irmão dela, talvez amante, viúvo, vai encontrá-lo semana que vem
como prometeu?
"Não sei", ela responde. "Talvez. Eu me encontro com o babaca semana que vem se você
fizer uma coisa para mim agora."
Lembre-se, digo a ela. Você tem a chance de tirar uma pessoa da solidão. É uma chance
perfeita para levar amor e uma mão amiga para um homem que precisa desesperadamente de
seu amor.
"Foda-se o amor", ela fala, com a voz mais grave para combinar com a minha. "Fala
alguma coisa para eu gozar."
Não entendi o que você quis dizer.
"Você entendeu sim", ela diz.
Gênesis, capítulo 3, versículo 12:
"... a mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi."
Escute, eu digo. Não estou sozinho. Estou rodeado de voluntários caridosos que estão aqui
doando seu tempo.
"Vai", ela diz. "Lambe os meus peitos."
Digo que ela está tirando vantagem da minha natureza caridosa. Digo que terei que
desligar.
Ela fala: "Me chupa inteira".
Eu digo, vou desligar agora.
"Mais", ela diz. "Me chupa mais. Ah, mais, me chupa mais", ela ri e diz: "Me lambe. Me
lambe. Me lambe. Me lambe".
Eu digo, agora vou desligar. Mas não desligo.
Fertility está dizendo: "Você sabe que me quer. Me diz o que você quer que eu faça. Você
sabe que quer. Me faz fazer uma besteira".
E antes que eu consiga fazer qualquer coisa, Fertility Hollis solta um grito orgástico e
retumbante de deusa pornô.
E eu desligo.
1 Timóteo, capítulo 5, versículo 15:
"Pois já algumas se desviaram, seguindo a Satanás."
Sinto-me desprezível e usado, sujo e humilhado. Sujo, enganado e jogado fora.
Aí o telefone toca. É ela. Só pode ser ela, então não atendo.
Durante a noite toda o telefone toca, e fico aqui sentado, me sentindo trapaceado, e não
ouso atender.
39
Há cerca de dez anos tive minha primeira sessão particular com minha assistente social,
que é uma pessoa de verdade, com nome e escritório, mas não quero encrencá-la. Ela tem seus
próprios problemas. É formada em Serviço Social. Tem trinta e cinco anos e não consegue
manter um namorado. Há dez anos ela tinha vinte e cinco, havia acabado de sair da faculdade e
estava ocupada contatando os clientes designados a ela como parte do novo Programa de Apoio
aos Sobreviventes do governo federal.
Um policial veio à porta da casa onde eu trabalhava na época. Há dez anos, eu tinha vinte
e três anos, e ainda estava no meu primeiro emprego, Porque trabalhava duro. Eu não sabia de
nada. O terreno ao redor da casa estava sempre verde e úmido, e aparado de forma tão lisa e
perfeita que parecia um casaco de pele verde. Quando você tem vinte e três anos, acha que pode
manter esse nível de desempenho para o resto da vida.
Um pouco atrás do policial à porta da frente estavam mais dois policiais e a assistente
social, em pé na calçada, próximos ao carro da polícia
Você não imagina como eu gostava do meu trabalho até o momento em que abri aquela
porta. Minha vida inteira eu havia trabalhado por aquilo, para me batizar e conseguir um
emprego limpando casas no mundo malvado aqui de fora.
Quando as pessoas para quem eu trabalhava enviaram para a igreja uma doação pelo meu
primeiro mês de trabalho, fiquei todo alegre. Eu achava mesmo que estava ajudando a criar o
Paraíso na Terra.
Não importava quanto as pessoas ficassem me encarando, eu usava as roupas obrigatórias
da igreja todos os dias, o chapéu, as calças largas sem bolso. A camisa branca de manga longa.
Mesmo no calor, eu usava o casaco marrom em público, não importava as tolices que as
pessoas me diziam.
"Como você pode usar camisa com botões?", uma pessoa quis saber na loja de
ferramentas.
Porque não sou amish.
"Você precisa usar roupas de baixo especiais?"
Acho que ela estava falando dos mórmons.
"Não é contra a sua religião viver fora da sua colônia?"
Isso parece mais coisa dos menonitas.
"Eu nunca tinha visto um hutterista."
Continua sem ter visto.
Era uma sensação boa se destacar do mundo, misterioso e devoto. Você não era uma
lâmpada embaixo de uma cesta. Você se escancarava, como um dedo machucado. Você era o
único homem que podia evitar que Deus destruísse toda a Sodoma e Gomorra fervilhando ao
seu redor no Valley Plaza Shopping Center.
Você era o salvador de todos, quer eles soubessem quer não. Num dia sufocante, em sua
roupa de lã desbotada, você era um mártir queimando na estaca.
Era ainda mais maravilhoso encontrar alguém vestido como você. De calças marrons ou
vestido marrom, todos usavam os mesmos sapatos marrons vagabundos. Vocês dois travariam
uma pequena e serena conversa. Havia poucas coisas que tínhamos permissão de dizer uns aos
outros o mundo aqui fora. Você só podia dizer umas três ou quatro coisas, então era melhor
começar devagar e não se apressar. Você só tinha permissão de sair em público para fazer
compras, e isso se lhe fosse confiado dinheiro.
Se você encontrasse alguém da colônia do distrito da igreja, você podia dizer:
Que tu cumpras tua tarefa em tua existência.
Você podia dizer:
Louvado seja o Senhor por este dia em que labutamos.
Você podia dizer:
Que teus esforços levem todos ao nosso redor ao Paraíso.
E você podia dizer:
Que tu descanses com teu trabalho terminado.
Esse era o limite.
Quando você via alguém honrado e passando calor em sua roupa da igreja, você já
repassava essas frases na cabeça. Aí vocês se aproximavam, mas não podiam se tocar. Nada de
abraços. Nada de apertos de mão. Você dizia uma frase permitida. O outro dizia outra. Vocês
iam alternando, até cada um ter dito duas frases. Vocês mantinham as cabeças abaixadas e
depois voltavam aos seus afazeres.
Isso era uma parte ínfima das muitas regras que era preciso observar. Ao crescer dentro da
colônia do distrito da igreja, metade dos estudos era sobre as doutrinas e regras da igreja.
Metade era de serviços. Os serviços incluíam jardinagem, etiqueta, tratamento de tecidos,
limpeza, carpintaria, costura, animais, aritmética, remoção de manchas e tolerância.
As regras para o mundo aqui fora incluíam cartas semanais de confissão que você tinha
que escrever para os anciãos da colônia da igreja. Era Preciso privar-se de comer doces. Beber e
fumar eram proibidos. Apresentar uma aparência limpa e arrumada o tempo todo. Você não
podia ouvir rádio nem ver televisão. Não podia ter relações sexuais.
Lucas, capítulo 20, versículo 25:
"Mas os que são havidos por dignos... não casam, nem se dão em casamento."
Os anciãos da Igreja do Credo faziam com que o celibato soasse tão fácil quanto escolher
não jogar beisebol.
Basta dizer não.
As outras regras não tinham fim. Deus te livre de dançar. Ou comer açúcar refinado. Ou
cantar. Mas a regra mais importante a ser lembrada era sempre:
Se os membros da colônia da igreja fossem chamados por Deus, regozije-se. Quando o
Apocalipse for iminente, celebre, e todos os membros da Igreja do Credo devem entregar-se a
Deus, amém.
E você tinha que fazer igual.
E não importava a distância. Não importava há quanto tempo você estava trabalhando fora
da colônia. Como o acesso à comunicação radiofônica era proibido, poderia levar anos até que
todos os membros da igreja soubessem da Libertação. A doutrina da igreja a chamava assim. A
Libertação. A fuga para o Egito. A fuga do Egito. As pessoas estão o tempo todo correndo de
um lado para o outro na Bíblia.
Você podia não ficar sabendo durante anos, mas no momento em que soubesse tinha que
arrumar um revólver, beber veneno, se afogar, se enforcar, cortar os pulsos ou pular de algum
lugar.
Você tinha que se entregar ao Paraíso.
Foi por isso que os três policiais e a assistente social vieram me visitar.
O policial disse: "Não vai ser fácil para você ouvir isso", e eu soube que havia sido
deixado para trás.
Era o Apocalipse, a Libertação, e apesar de todo o meu trabalho e de todo o dinheiro que
ganhei para nosso plano, o Paraíso na Terra não ia acontecer.
Antes que eu pudesse pensar, a assistente social se aproximou e disse: "Sabemos o que
você foi programado para fazer neste ponto. Estamos preparados para mantê-lo em observação
para evitar que isso aconteça".
Na época em que a colônia da igreja decretou a Libertação, havia mil e quinhentos
membros espalhados por todo o país, trabalhando. Uma semana depois, havia seiscentos. Um
ano depois, quatrocentos.
Desde então, até mesmo umas duas assistentes sociais se mataram.
O governo encontrou a mim e aos outros sobreviventes através das cartas de confissão que
enviávamos à colônia da igreja todo mês. Não sabíamos que estávamos escrevendo e enviando
nossos salários para anciãos da igreja que já estavam mortos e no Paraíso. Não poderíamos
saber que assistentes sociais estavam lendo nossas declarações mensais de quantas vezes
havíamos falado palavrões ou tido pensamentos impuros. Agora não havia nada que eu pudesse
dizer à assistente social que ela já não soubesse.
Dez anos se passaram e você nunca vê membros sobreviventes da igreja juntos. Para os
sobreviventes que vemos agora, não resta nada senão embaraço e desgosto. Nós falhamos em
nosso maior sacramento. Nossa vergonha é para conosco. Nosso desgosto é para com o outro.
Os sobreviventes que ainda usam as roupas da igreja o fazem para alardear sua dor. Hábitos
fúnebres e cinzas. Eles não conseguiram se salvar. Foram fracos. As regras acabaram e agora
não importa mais. Vão nos entregar por encomenda direto no Inferno.
E eu fui fraco.
Então fui até a delegacia no banco de trás do carro da polícia e, sentada ao meu lado, a
assistente social disse: "Você foi uma vítima inocente de um culto terrível e opressor, mas
estamos aqui para te ajudar a voltar à vida normal".
Os minutos já estavam me levando cada vez mais para longe do que eu deveria ter feito.
A assistente social falou: "Sei que você tem um problema com a masturbação. Gostaria de
falar a respeito?".
A cada minuto ficava mais difícil fazer o que eu havia prometido no meu batismo. Atirar,
cortar, sufocar, sangrar ou pular.
O mundo estava passando tão rápido do lado de fora do carro que meus olhos ficaram
desnorteados.
A assistente social disse: "Sua vida foi um pesadelo deprimente até agora, mas você vai
ficar bem. Você está me ouvindo? Seja paciente que você vai ficar ótimo".
Isso foi há quase dez anos, e ainda estou esperando.
A parte fácil foi dar a ela o benefício da dúvida.
Pule dez anos e pouca coisa mudou. Dez anos de terapia e ainda estou praticamente no
mesmo lugar. Isso provavelmente não é algo para ser comemorado.
Ainda estamos juntos. Hoje é a nossa sessão número quinhentos e qualquer coisa, e hoje
estamos no banheiro do quarto de hóspedes azul. Ele é diferente dos banheiros dos quartos de
hóspedes verde, branco amarelo e cor de alfazema. Essa gente ganha mesmo dinheiro. A
assistente social está sentada na beirada da banheira com os pés descalços enfiados na água
morna. Seus sapatos estão sobre a tampa fechada da privada, com sua taça de martíni com
groselha, gelo, açúcar e rum. A cada par de perguntas, ela se inclina para a frente com a caneta
esferográfica ainda na mão e pega a haste da taça, segurando a caneta e a taça como se fossem
pauzinhos chineses.
Seu último namorado deu-lhe o fora, ela me diz.
Deus me livre de ela se oferecer para ajudar a limpar.
Ela toma um trago. Coloca a taça de volta enquanto eu respondo. Ela escreve no seu bloco
de papel oficial amarelo apoiado nos joelhos, faz outra pergunta, toma outro trago. Seu rosto
está revestido por uma camada de maquiagem.
Larry, Barry, Jerry, Terry, Gary, todos os seus namorados perdidos correm juntos. Ela diz
que suas listas de clientes perdidos e de namorados perdidos correm lado a lado.
Esta semana, ela diz, atingimos outro recorde negativo, cento e trinta e dois sobreviventes
no país todo, mas a taxa de suicídio está diminuindo. De acordo com minha agenda, preciso
limpar o rejuntamento dos pequenos ladrilhos hexagonais azuis do chão. Isso dá mais que um
trilhão de quilômetros de rejuntamento. Se fossem perfilados, só os rejuntamentos deste
banheiro chegariam à lua e voltariam dez vezes, e todos eles estão cheios de mofo escuro. O
amoníaco em que mergulho a escova para esfregar o chão e, o cheiro dele misturado ao cheiro
do cigarro da assistente social me deixam exausto e com o coração batendo forte.
E talvez eu esteja delirando um pouco. O amoníaco. A fumaça. Fertility Hollis continua a
me ligar em casa. Não ouso atender o telefone, mas tenho certeza de que é ela.
"Algum estranho se aproximou de você recentemente?", a assistente social pergunta.
Ela pergunta também: "Recebeu algum telefonema que você descreveria como
ameaçador?".
A forma como a assistente social fica me fazendo perguntas com metade da boca
mordendo o cigarro parece a de um cachorro: lá sentado, bebendo pink martini e rangendo os
dentes. Um cigarro, um gole, uma pergunta; respirando, bebendo e perguntando, ela demonstra
todas as aplicações básicas da boca humana.
Ela não fumava antes, porém cada vez mais ela me diz não suportar a idéia de viver até a
velhice.
"Talvez, se pelo menos uma parte da minha vida estivesse dando certo", ela comenta, com
outro cigarro na mão, antes de acendê-lo. Aí uma coisa invisível, em algum lugar, começa a
bipar, bipar, bipar, até que ela aperta o relógio e o bipe pára. A assistente social se curva para
vasculhar sua bolsa de lona que está no chão, ao lado da privada, e pega um recipiente plástico.
"Imipramina", ela diz. "Desculpe, mas não posso te oferecer."
Tempos atrás, o programa de apoio tentou ajudar todos os sobreviventes dando-lhes
medicação, Xanax, Prozac, Valium, imipramina. O plano não deu certo porque muitos tentaram
guardar suas receitas semanais durante três semanas, seis semanas, oito semanas, dependendo
de seu peso corporal, e depois engoliam tudo com uísque.
Mesmo que a medicação não tenha funcionado com os clientes, ela foi ótima para as
assistentes sociais.
"Você notou alguém seguindo você?", a assistente social pergunta, "alguém com um
revólver ou uma faca, à noite ou quando você caminha Para casa do ponto de ônibus?".
Esfrego as fendas entre os ladrilhos até elas passarem de preto para Marrom e depois para
branco, e pergunto por que ela está me perguntando essas coisas.
"Por nada", ela responde.
Não, eu digo, ninguém me ameaçou.
"Tentei te ligar esta semana e você não atendeu", ela fala. "O que houve?"
Eu digo a ela que não houve nada.
A verdade é que não estou atendendo o telefone porque não quero falar com Fertility
Hollis até eu vê-la pessoalmente. No telefonema ela pareceu tão excitada sexualmente que não
posso arriscar. Aqui estou competindo comigo mesmo. Não quero que ela se apaixone por mim
como uma voz no telefone, enquanto, ao mesmo tempo, ela me dá o fora em carne e osso. E
melhor que ela nunca mais fale comigo ao telefone. O eu verdadeiro, esquisito e feio, não está à
altura da fantasia dela, então elaborei um plano, um plano terrível, de fazer com que ela me
odeie e ao mesmo tempo se apaixone por mim. O plano é de des-seduzi-la. Des-atraí-la.
"Quando você não está no seu apartamento", a assistente social pergunta mais uma vez,
"alguém mais tem acesso à comida que você come?".
Amanhã é minha próxima tarde com Fertility Hollis no necrotério, se ela aparecer. Aí a
primeira parte do meu plano será posta em prática.
A assistente social pergunta: "Você recebeu alguma correspondência ameaçadora ou
estranha?".
Ela pergunta: "Você está prestando atenção?".
Eu pergunto, para que todas essas perguntas? Digo que vou beber o conteúdo do vidro de
amoníaco se ela não me disser o que está acontecendo.
A assistente social checa seu relógio de pulso. Ela bate com a ponta da caneta no bloco de
papel e me faz esperar até dar uma tragada no cigarro e soltar a fumaça.
Se ela quer mesmo me ajudar, digo a ela e mostro a escova, então ela precisa começar a
esfregar.
A assistente social deixa o drinque de lado e pega a escova. Ela esfrega para a frente e
para trás num pedaço de rejuntamento do ladrilho da parede ao lado dela. Ela pára e olha, e
esfrega mais. Ela olha de novo.
"Nossa", ela diz. "Está funcionando. Olha como ficou limpo embaixo." Com os pés ainda
imersos na água, a assistente social se vira para alcançar melhor a parede e esfrega mais. "Deus,
eu havia esquecido como é bom ver um trabalho feito."
Ela não nota, mas eu parei. Eu me sento sobre os calcanhares e a observo atacar o mofo
com vontade.
"Escute", ela diz, esfregando em direções diferentes para seguir o rejuntamento ao redor
de cada ladrilho azul.
"Nada disso pode ser verdade", ela comenta, "mas é para o seu próprio bem. As coisas
podem estar um pouco perigosas para vocês."
Ela não devia me dizer, mas alguns dos suicidas sobreviventes parecem meio suspeitos. A
maioria dos suicidas está bem. A maior parte é de suicidas ordinários de todo dia, ela diz, mas
no meio há alguns casos estranhos. Num desses casos, um homem destro deu um tiro na cabeça
usando a mão esquerda. Em outro, uma mulher se enforcou com o nó do roupão, mas um de
seus braços estava deslocado e seus pulsos estavam machucados.
"Não foram os únicos casos", a assistente social diz, ainda esfregando, "mas há um
padrão."
A princípio, ninguém no programa deu muita atenção, ela fala. Suicídios são apenas
suicídios, principalmente em meio a esta população. O suicídio de clientes vem em ondas,
como um estouro de boiada. Um ou dois suicídios podem instigar vinte. Lemingues.
O bloco de papel amarelo escorrega do seu colo e cai no chão, e ela diz: "O suicídio é
muito contagioso".
O padrão desses novos falsos suicídios mostra que eles acontecem mais quando uma onda
de suicídios naturais chega ao fim.
Eu pergunto, como assim, falsos suicídios?
Eu roubo o martíni dela, e ele tem um gosto estranho de desinfetante bucal.
"Assassinatos", a assistente social diz. "Alguém pode estar matando os sobreviventes e
fazendo com que pareça suicídio."
Quando uma onda de suicídios de verdade diminui, os assassinatos Parecem acontecer
para que a bola volte a rolar. Após dois ou três assassinatos que parecem suicídios, o suicídio
volta a parecer novo e atraente e mais uma dúzia de sobreviventes é levado pela moda e diz
adeus.
"É fácil imaginar um assassino, só uma pessoa ou um grupo de matadores composto por
membros remanescentes da igreja, trabalhando para que todos vocês vão para o Paraíso juntos",
a assistente social diz. "Isso soa imbecil e paranóico, mas faz sentido.
A Libertação.
E por que ela está me fazendo todas essas perguntas?
"Porque cada vez menos sobreviventes estão se matando atualmente", ela responde. "A
onda natural de suicídios normais está diminuindo Quem está fazendo isso vai matar de novo
para fazer a taxa de suicídios voltar a subir. O padrão dos assassinatos é o mesmo no país todo",
ela continua. E esfrega a parede com a escova. Ela a mergulha no amoníaco Com o cigarro
soltando fumaça numa das mãos, ela esfrega mais. E diz: "Exceto pela época em que
acontecem, não há um padrão de verdade. Pode ser homem. Mulher. Jovem. Velho. Tenha
cuidado porque você pode ser o próximo".
A única pessoa nova que conheci nos últimos meses foi Fertility Hollis.
Eu pergunto à assistente social, como ela é mulher e tal, de que maneira as mulheres
gostam que um homem seja na aparência? O que ela procura num parceiro sexual?
Ela está deixando para trás uma trilha de rejuntamento branco e limpo.
"A outra coisa a lembrar", a assistente social diz, "é que tudo isso pode ter uma explicação
natural. Pode ser que ninguém vá te matar. Você pode não ter absolutamente nada o que temer."
38
Parte do meu trabalho é de jardinagem, então pulverizo tudo com o dobro do veneno
recomendado, tanto as ervas quanto as plantas. Aí arrumo o canteiro de sálvias e malvas-rosas
artificiais. A aparência que estou querendo nesta estação é a de um jardim de chalé falso. Ano
passado, fiz um parterre francês artificial. Antes disso foi um jardim japonês feito todo de
plantas de plástico. Basta eu arrancar todas as flores. Eu as separo, depois enfio de volta no
chão num novo padrão. A manutenção é moleza. Flores sem vida são retocadas com tinta spray
vermelha ou amarela.
Uma borrifada de laquê incolor ou de spray para cabelo evita que as flores de seda
desfiem nas extremidades.
Você precisa tirar a poeira das mil-folhas falsas e dos nastúrcios de olástico com a
mangueira. As rosas de plástico amarradas com arame aos esqueletos envenenados dos arbustos
de rosa originais precisam de uma borrifada de essência.
Alguns pássaros azuis estão andando pelo gramado como se estivessem procurando uma
lente de contato perdida.
Para as rosas, retiro o veneno do borrifador e encho com três galões de água e metade de
um frasco de Eternity da Calvin Klein. Borrifo as margaridas falsas com baunilha diluída, que
pego na cozinha. Nas ásteres artificiais passo White Shoulders. Para a maioria das outras
plantas uso latas de spray de perfumadores de ambiente no aroma floral. No timo artificial,
borrifo lustra-móveis Lemon Pledge.
Parte da minha estratégia para seduzir Fertility Hollis é ficar feio de propósito, e começo
ficando sujo. Meio grosseiro nas pontas. É difícil se sujar plantando quando você nem ao
menos toca na terra, mas minhas roupas fedem a veneno, e meu nariz está meio queimado do
sol. Com o caule de arame de um copo-de-leite de plástico, corto um punhado de adubo
endurecido e esfrego no cabelo. Enfio a terra embaixo das unhas.
Deus me livre de tentar mostrar uma boa aparência para Fertility Hollis. A pior estratégia
seria tentar me melhorar. Seria um grande erro eu me arrumar todo, me esforçar ao máximo,
pentear o cabelo, talvez até pegar emprestado umas roupas elegantes do homem para quem
trabalho, algo 100% algodão, uma camisa em tom pastel, escovar os dentes, passar o que eles
chamam de desodorante e adentrar o Mausoléu de Columbia para meu segundo encontro ainda
feio, mas mostrando sinais de que tentei de tudo para ficar bonito.
Então aqui estou eu. Melhor que isso é impossível. É pegar ou largar.
Como se eu não estivesse nem aí para o que ela pensa.
Ficar bonito não faz parte do grande plano. Meu plano é parecer que tenho um potencial
não explorado. A aparência que quero é de algo natural. Verdadeiro. A aparência que procuro é
a de material bruto. Não desesperado e carente, mas cheio de potencial. Não faminto. Claro,
quero mostrar que valho o esforço. Lavado mas não passado. Limpo mas não polido. Confiante
mas humilde.
Sincero é como quero parecer. A verdade não brilha nem reluz.
Isto aqui é uma agressão passiva em ação.
Minha idéia é fazer com que a feiúra trabalhe a meu favor. Estabelecer um padrão baixo
para contrastar com o que mostrarei mais tarde. Antes e depois. O sapo e o príncipe.
São duas da tarde da quarta-feira. De acordo com minha agenda preciso girar o tapete
oriental na sala de visitas cor-de-rosa para que ele não fique desgastado só de um lado. Você
precisa levar todos os móveis para a outra sala, incluindo o piano. Enrolar o tapete. Enrolar o
carpete. Aspirar. Passar um pano no chão. O tapete tem três metros e meio por cinco. Depois
virar o carpete e desenrolar. Virar e desenrolar o tapete. Arrastar todos os móveis de volta.
De acordo com minha agenda, isso não deve levar mais que meia hora.
Em vez disso, eu só levanto as fibras pisoteadas no tapete e desato o nó na franja que as
pessoas para quem trabalho fazem. Faço outro nó na franja do lado oposto do tapete, para que
ele pareça ter sido girado. Afasto um pouco todos os móveis e coloco gelo nas marquinhas
deixadas no carpete. Conforme o gelo derrete, elas vão ficando felpudas de novo.
Tiro o brilho dos meus sapatos. Na penteadeira da mulher para quem trabalho, enfio a
maquiagem dela dentro das narinas até que o pêlo do meu nariz fique grosso e cheio. Aí pego
um ônibus.
Outra parte do Programa de Apoio aos Sobreviventes é que você ganha um passe livre de
ônibus todo mês. Carimbado no verso do passe está escrito: Propriedade do Departamento de
Recursos Humanos.
Não transferível.
Durante todo o trajeto até o mausoléu, digo a mim mesmo que estou pouco me fodendo se
Fertility vai aparecer ou não.
Muitas rezas moribundas lá da igreja latejam na minha cabeça, se tornou uma mistura de
antigas rezas e de responsos.
Que eu seja completamente útil.
Fazei com que a minha tarefa seja a minha graça.
Em cada trabalho meu está a minha salvação.
Não deixeis que o meu esforço seja em vão.
Que através das minhas obras eu possa salvar o mundo.
Mas no fundo estou pensando, por favor, por favor, por favor, esteja lá esta tarde, Fertility
Hollis.
Lá dentro do mausoléu tem as versões vagabundas de sempre de músicas bem bonitas
para que você não se sinta tão sozinho. São as mesmas dez músicas, só a parte instrumental,
sem a voz. Eles só tocam em determinados dias. Em algumas das galerias antigas das alas
Sinceridade e Nova Esperança nunca tem música. Você não a ouve em lugar nenhum, só se
ficar em absoluto silêncio e prestar muita atenção.
É música como papel de parede, utilitária, música como Prozac ou Xanax, para controlar
seus sentimentos. Música como spray aromatizador de ambientes.
Caminho pela ala Serenidade e não vejo Fertility. Passo pela Fé, Alegria e Tranqüilidade,
mas ela não está. Arranco umas rosas de plástico da catacumba de algum morto para não
aparecer de mãos vazias.
Passo pelo ódio, pela raiva, pelo medo e pela resignação, e lá, em pé, ao lado da
Catacumba 678 no Contentamento, está Fertility Hollis com seu cabelo ruivo. Ela espera que eu
caminhe até ela durante duzentos e quarenta segundos antes de se virar e dizer oi.
Ela não pode ser a mesma pessoa que teve um orgasmo retumbante comigo ao telefone.
Eu digo, oi.
Nas mãos dela há um ramalhete de flores de laranjeira falsas, bonita mas nada que eu me
desse ao trabalho de roubar. O vestido dela tem o mesmo brocado que usam em cortinas, com o
relevo branco sobre fundo branco. Parece duro e resistente ao fogo. Não mancha. Não amassa.
Simples como a mãe da noiva com sua saia de pregas e mangas longas. Ela pergunta: "Você
também sente falta dele?".
Tudo nela parece à prova de mártires.
Eu pergunto, falta de quem?
"Do Trevor", ela responde. Fertility está de pés descalços sobre chão de pedra.
Ah, sim, o Trevor, digo a mim mesmo. O meu amante sodomita secreto. Eu tinha
esquecido.
Eu digo, sim. Também sinto falta dele.
O cabelo dela parece que foi colhido num campo e empilhado na cabeça dela para secar.
"Ele chegou a te contar do cruzeiro em que ele me levou?"
Não.
"Foi totalmente ilegal."
Ela olha da Catacumba número 678 para o teto, de onde vem a música, dos pequenos altofalantes
ao lado das nuvens e dos anjos pintados.
"Primeiro, ele me fez ter aulas de dança com ele. Aprendemos todas as danças de salão, o
chá-chá-chá, o fox-trote. A rumba, o swing. A valsa. A valsa foi fácil."
Os anjos tocam sua música acima de nós durante um minuto, dizendo algo a ela, e Fertility
Hollis ouve.
"Me dá", ela diz, virando-se para mim. Então ela pega as minhas flores e as dela e as
coloca encostadas na parede. Ela pergunta: "Você sabe dançar valsa, certo?".
Errado.
"Não acredito que você conheceu o Trevor e não sabe dançar valsa", ela diz e balança a
cabeça.
Na cabeça dela ela tem a imagem do Trevor e eu dançando juntos. Rindo juntos. Fazendo
sexo anal. Estou com essa desvantagem, isso e a idéia de que matei o irmão dela.
Ela diz: "Abra os braços".
Eu abro.
Ela fica bem diante de mim e coloca uma mão atrás do meu pescoço. Sua outra mão
segura a minha mão e ela estica o braço, à nossa lateral. Ela fala: "Pegue sua outra mão e
coloque em cima do meu sutiã". Eu obedeço.
"Nas minhas costas!", ela diz, e se desvencilha de mim. "Coloque a sua mão sobre o meu
sutiã onde ele cruza a minha espinha dorsal."
Eu obedeço.
Para nossos pés, ela me mostra como dar um passo adiante com meu pé esquerdo, depois
com o direito, e depois colocar os dois pés juntos enquanto ela faz o mesmo na direção
contrária.
"Esse é o chamado Box Step", ela ensina. "Agora preste atenção na música."
Ela conta: "Um, dois, três".
A música vai. Um. Dois. Três.
Contamos várias vezes, dando um passo a cada vez que contamos, e estamos dançando.
As flores em todas as catacumbas por todas as paredes se curvam sobre nós. O mármore corre
liso sob nossos pés. Estamos dançando. A luz entra pelos vitrais. As estátuas estão esculpidas
em seus nichos. A música sai fraca dos alto-falantes e ecoa pelas pedras até que começa a ir e
vir em ventos e correntes, em notas e acordes ao nosso redor. E nós estamos dançando.
"O que eu me lembro do cruzeiro", Fertility comenta, e seu braço está curvado de modo a
descansar sobre toda a extensão do meu, "é dos rostos dos últimos passageiros quando seus
botes salva-vidas foram baixados, passando pela janela do salão de baile. Seus coletes salvavidas
cor de laranja emolduravam suas cabeças, de forma que parecia que elas haviam sido
cortadas e colocadas sobre travesseiros cor de laranja, e eles fitaram, com olhos enormes e
arregalados de peixe, a Trevor e a mim ainda dentro do salão de baile do navio, enquanto o
navio começava a afundar."
Ela estava num barco afundando?
"Um navio", Fertility corrige. "O nome dele era Ocean Excursion. Tente dizer isso três
vezes bem rápido."
E ele estava afundando?
"Foi lindo", ela diz. "A agente de viagens disse para não irmos atrás dela chorando. Era
um navio antigo da French Line, a agente nos avisou, só que ele havia sido vendido para um
grupo sul-americano. Ele era bem art déco. Estava detonado. Era um edifício da Chrysler
flutuando no oceano e cruzando para cima e para baixo a costa atlântica da América do Sul,
cheio de argentinos de classe média baixa com suas esposas e filhos. Argentinos. Todos os
ornamentos de luz nas paredes eram de vidro cor-de-rosa em formato de diamantes ovais
gigantes. Tudo no navio era banhado por essa luz cor-de-rosa, e os carpetes tinham manchas
enormes e estavam todos desgastados.
Estamos dançando no mesmo lugar, e aí começamos a girar.
O um-dois-três do Box Step. O avançar e a recuar do passo hesitante No levantar do
calcanhar de um perfeito um-dois-três cubano, eu giro com Fertility Hollis nos meus braços.
Nós giramos de novo, e mais uma vez. Giramos de novo, e de novo.
E Fertility diz que os botes salva-vidas haviam acabado. Sem mais nenhum bote para ser
baixado ao mar, o navio arrastava o cordame vazio onde antes estavam os botes pela tranqüila
noite caribenha. Os botes remavam em direção ao pôr-do-sol, a multidão em seus coletes cor de
laranja começando a lamentar por suas jóias e receitas médicas. As pessoas faziam aquele sinal
da cruz.
Fertility e eu um, dois, três; valse, um, dois, três, pela galeria de mármore.
Em sua história, Fertility e Trevor valsaram pelo assoalho de mogno inclinado, o Salão de
Baile Versailles inclinando conforme a proa afundava e a popa expunha os trevos de cada
hélice ao ar da noite. Uma porção de cadeiras douradas do salão passou por eles e se amontoou
ao redor de uma estátua daquela deusa grega da lua, Diana. As cortinas de brocado douradas
pendiam, retorcidas, em cada janela. Eles eram os últimos passageiros do SS Ocean Excursion.
O navio ainda tinha energia, porque os candelabros cor-de-rosa — "como qualquer
candelabro normal", Fertility diz, "mas num transatlântico eles são rígidos como sincelos" —,
os candelabros no Salão de Baile Versailles soltaram faíscas, e os alto-falantes encheram o
navio com uma música crepitante, uma valsa de elevador após a outra se fundindo, enquanto
Trevor e Fertility giravam, giravam, giravam.
Da mesma forma que Fertility e eu giramos, giramos e paramos, e depois deslizamos, pé
com pé, pelo chão do mausoléu.
Abaixo do convés, o Mar do Caribe subia pelo Salão de Jantar Trianon, fazendo flutuar as
pontas de cem toalhas de mesa de linho.
O navio estava afundando com todos os motores parados.
A água azul e morna se espalhava calma até o horizonte, em todas as direções.
Mesmo sob pouca água, o chão quadriculado do parquete de mogno e nogueira parecia
perdido e longínquo. Era um último olhar em direção continente de Atlântida, com a água
salgada subindo ao redor das estátuas e dos pilares de mármore, enquanto Trevor e Fertility
valsavam pela lenda da civilização perdida, pelas esculturas pintadas de ouro e pelas mesas
entalhadas de palácios franceses. O nível do mar subiu diagonalmente, contra pinturas em
tamanho natural de rainhas e de suas coroas, enquanto o navio inclinava e vasos derramavam
flores: rosas e orquídeas e caules de gengibre submergindo onde garrafas de champanhe
flutuavam e Trevor e Fertility passavam chapinando.
O esqueleto de metal do navio, os tabiques atrás do revestimento dos painéis e das
tapeçarias, estremecidos e vergados.
Eu pergunto, ela ia morrer afogada?
"Não seja burro", Fertility diz com a cabeça encostada no meu peito, respirando o veneno
que me impregnava. "Trevor nunca se enganava. Esse era o problema dele."
Nunca se enganava com o quê?
Trevor Hollis tinha sonhos, ela me disse. Ele sonhava que um avião iria cair. Trevor
avisava a companhia aérea e ninguém acreditava nele. Aí o avião caía e o FBI o levava para ser
interrogado. Era mais fácil acreditar que ele era terrorista em vez de visionário. Os sonhos
chegaram a tal ponto que ele não conseguia dormir. Ele não queria mais ler jornal ou assistir à
televisão porque veria uma reportagem sobre duzentas pessoas mortas num acidente aéreo que
ele sabia que iria acontecer, mas que não pôde evitar.
Ele não pôde salvar ninguém.
"Nossa mãe se matou porque tinha o mesmo tipo de sonhos", Fertility diz. "O suicídio é
uma antiga tradição familiar para nós."
Ainda dançando, digo a mim mesmo, pelo menos temos alguma coisa em comum.
"Ele sabia que o navio só ia afundar até a metade. Uma válvula ou coisa parecida ia
apresentar defeito e a água iria encher a casa das máquinas e alguns dos salões nos conveses
inferiores", Fertility continua. "Ele sabia pelos sonhos que teríamos o navio inteiro só para nós
durante horas. Aquele monte de comida e vinho. Depois alguém apareceria para nos resgatar"
Ainda dançando, pergunto, foi por isso que ele se matou?
A música é minha única resposta durante um minuto.
"Você não imagina como foi lindo, os salões de baile inundados, com os pianos embaixo
d'água e todos os móveis esculpidos à mão flutuando ao nosso redor", Fertility fala com a
cabeça encostada no meu peito. "É a recordação mais bonita de toda a minha vida."
Nós dançamos diante de estátuas de santos da religião de outras pessoas. Para mim, são
apenas pedras transformadas em nulidades glorificadas. "A água do Atlântico é tão limpa. Ela
jorrava pela grande escadaria abaixo", ela diz. "Nós simplesmente tiramos os sapatos e
continuamos dançando."
Ainda dançando, contando de um a três, pergunto, você tem o mesmo tipo de sonhos?
"Um pouco", ela responde. "Não muito. Mais e mais o tempo todo. Mais do que eu
gostaria."
Pergunto, então você vai se matar, igual ao seu irmão?
"Não", Fertility diz. Ela levanta a cabeça e sorri para mim.
Nós dançamos, um, dois, três.
Ela diz: "De jeito nenhum vou dar um tiro na cabeça. Eu provavelmente tomarei pílulas".
Em casa tenho o meu suprimento fornecido pelo governo de antide-pressivos, hipnóticos,
tranqüilizantes, sedativos e inibidores MAO no pote de doces ao lado do meu peixe dourado,
sobre a geladeira.
Nós dançamos, um, dois, três.
Ela diz: "Estou brincando".
Nós dançamos.
Ela encosta a cabeça de novo no meu peito e diz: "Depende de quão terríveis os meus
sonhos fiquem".
37
É nessa noite que começo a atender o telefone de novo.
Isto é, depois de ficar tão excitado que preciso ir ao centro da cidade caçar algo para
roubar. É mais para me aliviar que pelo dinheiro. Tudo bem. A assistente social diz que tudo
bem. É um alívio sexual, ela me diz. É perfeitamente natural. Você encontra o que quer. Você
persegue. Você pega e leva embora. Depois que consegue, joga fora.
Foi ela mesmo quem me iniciou no furto a lojas.
A assistente social me chamou de exemplo clássico de cleptomania. Citou estudos. Os
meus furtos, ela disse, eram para impedir que outros roubassem o meu pênis (Fenichel, 1945).
Furtar era um impulso que eu não conseguia controlar (Goldman, 1991). Eu furtava por causa
de um distúrbio do humor (McElroy et ai, 1991). Não importava o objeto: sapatos, fita adesiva,
raquete de tênis.
O problema é que agora nem mesmo furtar me dá aquela velha sensação de alívio.
Talvez seja porque conheci Fertility.
Ou talvez eu tenha conhecido Fertility porque estou ficando entediado com minha vida
sexual de crimes.
Ultimamente, nem estou furtando lojas, não no sentido clássico, oficial. Em vez de furtar
mercadorias, fico andando no centro da cidade até encontrar um recibo de compra que alguém
deixou cair.
Você pega o recibo e vai até a loja que o emitiu. Você finge estar comprando até encontrar
o item do recibo. Você carrega o item pela loja durante um tempo, depois usa o recibo para
devolver o item e pegar o dinheiro. Claro, funciona melhor em lojas grandes. Funciona melhor
com recibos detalhados. Não use recibos velhos ou sujos. Não use o mesmo recibo duas vezes.
Tente variar as lojas que você furta. Isso é para o furto a lojas o que a masturbação é para o
sexo.
E, claro, as lojas conhecem esse tipo de golpe.
Outro bom golpe é fazer compras com um copo grande de refrigerante, onde você possa
jogar pequenos objetos. Outra maneira é comprar uma lata de tinta barata, soltar a tampa e jogar
algo caro lá dentro. O metal da lata bloqueia os raios X do sistema de segurança.
Esta tarde, em vez de procurar um recibo, simplesmente fico andando, tentando imaginar
qual será o próximo passo do meu plano para conquistar Fertility. Possuí-la. Jogá-la fora,
talvez. Preciso tirar vantagem dos seus terríveis sonhos. O fato de termos dançado juntos deve
ser uma ferramenta que poderei usar.
Fertility e eu dançamos quase a tarde toda. Conforme a música mudava, ela me ensinou o
chá-chá-chá básico, o passo cruzado do chá-chá-chá, e o giro com a garota embaixo do braço.
Ela me ensinou o fox-trote básico.
Ela me disse que seu emprego era terrível. Era pior que qualquer coisa que eu pudesse
imaginar.
E aí perguntei, o quê?
Ela riu.
Caminhando pelo centro da cidade, encontro o recibo de compra de uma televisão em
cores. Isso poderia me dar a sensação de ter achado um bilhete de loteria premiado, mas jogo o
recibo numa lata de lixo.
Acho que o que mais gostei das danças foram as regras. Num mundo em que vale
qualquer coisa, aqui as regras são sólidas. O fox-trote são dois passos lentos e um rápido. O
chá-chá-chá são dois lentos e três rápidos. A coreografia, a disciplina, nada pode ser discutido.
São as boas regras tradicionais. A forma de dançar o Box Step não muda toda semana.
Para a assistente social, quando começamos, há dez anos, eu não era um ladrão.
Originalmente, eu tinha um distúrbio obsessivo-compulsivo. Ela havia acabado de se formar e
ainda tinha todos os seus livros para prová-lo. Obsessivo-compulsivos, ela me disse, ou ficam
checando as coisas ou as limpando (Rachman & Hodgson, 1980). De acordo com ela, eu era do
segundo tipo.
Verdade, eu gostava de limpar, mas a vida inteira fui treinado para obedecer. Tudo que fiz
foi tentar fazer com que o diagnóstico vagabundo dela parecesse certo. A assistente social me
explicou os sintomas, e eu me esforcei ao máximo para manifestá-los e depois deixá-la me
curar.
Depois de ser obsessivo-compulsivo, tive um transtorno de estresse pós-traumático.
Depois tive agorafobia.
Tive síndrome do pânico.
Meus pés deslizam pela calçada nos passos um-lento-dois-rápidos da valsa. Minha cabeça
conta um, dois, três. Para onde quer que você olhe entre os pombos há recibos de compras
caídos pela calçada. Andando pelo centro da cidade, pego outro recibo. Este aqui vale cento e
setenta e três dólares em dinheiro. Aí eu o jogo fora.
Durante cerca de três meses após eu conhecer a assistente social, tive um distúrbio de
identidade dissociativa porque não queria contar a ela sobre a minha infância.
Depois tive um distúrbio de personalidade esquizóide porque não quis me juntar ao seu
grupo de terapia semanal.
Mais tarde um pouco, porque ela achou que eu daria um bom estudo de caso, tive a
síndrome de Koro, na qual você imagina que seu pênis está ficando cada vez menor até o ponto
em que ele irá desaparecer, e aí você morrerá (Fabian, 1991; Tseng et ai, 1992).
Depois ela mudou e disse que eu tinha síndrome de Dhat, na qual você entra em crise
porque acredita que vai perder todo o seu esperma quando tem sonhos eróticos ou quando dá
uma mijada (Chadda & Ahuja, 1990). Isso é fundamentado numa antiga crença hindu de que
são necessárias quarenta gotas de sangue para criar uma gota de medula óssea e quarenta gotas
de medula para criar uma gota de esperma (Akhtar, 1988). Ela disse que era por isso que eu me
sentia tão cansado o tempo todo.
Esperma me faz pensar em sexo, que me faz pensar em castigo, que me faz pensar em
morte, que me faz pensar em Fertility Hollis. Nós fizemos o que a assistente social chama de
Livre Associação.
A cada sessão que tínhamos, ela me diagnosticava com um outro problema que ela
imaginava que eu tivesse, e me dava um livro para que eu estudasse os sintomas. Na semana
seguinte, eu já tinha o problema.
Numa semana, piromania. Na outra, distúrbio de identidade de gênero
Ela me disse que eu era exibicionista, então, na semana seguinte mostrei minha bunda
para ela.
Ela me disse que eu tinha deficiência de atenção, então eu ficava mudando de assunto. Eu
era claustrófobo, então tivemos de nos encontrar lá fora, no quintal.
Caminhando pelo centro da cidade, meus pés mudam para os passos dois-lentos-trêsrápidos-
dois-lentos do chá-chá-chá. Na minha cabeça, há as mesmas dez músicas que ouvimos
a tarde toda. Encontro outro recibo tão valioso quanto uma nota de cinco dólares na calçada, e
passo dançando por ele.
O livro que a assistente social me deu se chamava Manual de Diagnósticos e Estatísticas
dos Distúrbios Mentais. Nós o chamávamos na forma abreviada, MDE. Ela me deu vários de
seus livros para ler, e dentro deles havia fotografias coloridas de modelos que foram pagos para
parecer felizes segurando bebês pelados acima da cabeça ou andando de mãos dadas numa
praia ao pôr-do-sol. Para as fotos de sofrimento, os modelos foram pagos para enfiar agulhas
nos braços ou sentar à mesa de um bar, sozinhos e sorumbáticos, com um drinque nas mãos.
Chegou a um ponto em que a assistente social podia jogar o MDE no chão e, na página em que
ele abrisse, seria como eu tentaria me sentir durante a semana.
Fomos felizes assim. Durante um tempo. Ela achava que estava fazendo progressos a cada
semana. Ela tinha um roteiro para me dizer como agir. Não era tedioso, e ela me dava
problemas fictícios o suficiente para que eu não me preocupasse com nada real. A cada terçafeira,
a assistente social me dava o seu diagnóstico, e era essa a minha nova tarefa.
No nosso primeiro ano juntos, eu não tinha tempo livre para pensar em suicídio.
Nós fizemos o Stanford-Binet para descobrir a idade do meu cérebro. Fizemos o
Wechsler. Fizemos o Inventário Multifásico de Personalidade de Minnesota. O Inventário
Multiaxial Clínico de Millon. O Inventário de Depressão de Beck.
A assistente social descobriu tudo sobre mim, menos a verdade.
Eu simplesmente não queria ser tratado.
Qualquer que fosse o meu problema, eu não queria que ele fosse curado. Nenhum dos
pequenos segredos dentro de mim queria ser encontrado e explicado. Pelos mitos. Pela minha
infância. Pela química. Meu medo era: o que restaria? Então nenhum dos meus ressentimentos
e temores verdadeiros veio à luz. Eu não queria solucionar nenhuma angústia. Jamais quis falar
da minha família morta. Expressar a minha dor, ela chaava. Resolvê-la. Deixá-la para trás.
A assistente social me curou de centenas de síndromes, nenhuma delas verdadeira, e
depois me declarou são. Ficou toda feliz e orgulhosa. Ela me libertou para a luz do dia, curado.
Vá em frente. Avance. Caminhe. Um milagre da psicologia moderna.
Acorde.
A dra. Frankenstein e seu monstro.
Foi um negócio bem inteligente para quem tinha vinte e cinco anos de idade.
O único efeito colateral é que agora tenho tendência a furtar. Minha introdução à
cleptomania foi boa demais para ser deixada para trás. Até hoje.
Caminhando pelo centro da cidade hoje, dez anos depois, pego outro recibo. Jogo fora.
Após dez anos escondendo meus problemas para que a assistente social não metesse o bedelho
neles, bastou que eu dançasse o chá-chá-chá com uma garota e mesmo minha cleptomania
crônica sumiu. Minha única psicose verdadeira, que neguei à assistente social, foi curada por
uma estranha.
Tudo que fizemos foi dançar. Fertility falou do irmão e de como o FBI grampeou o
telefone dele, e toda vez que eles conversavam ela ouvia o clique... clique... clique... de um
gravador do governo ao fundo. Mesmo antes Trevor se matar, ela já sabia que ele o faria.
Estava no seu primeiro sonho premonitório. Fertility e eu dançamos mais. Aí ela teve que ir
embora, mas prometeu que, semana que vem, na próxima terça-feira, na mesma hora, no
mesmo local, ela estaria lá.
Esta noite, de poste em poste, eu danço o fox-trote. Na minha cabeça ouço valsa. A
lembrança de Fertility Hollis está em meus braços e contra o meu peito. É assim que chego em
casa. Lá em cima, o telefone já está tocando, fora do gancho. Talvez sejam esquizofrênicos,
paranóico pedófilos.
Já passei por isso, quero dizer a eles. Eu conheço.
Talvez seja Fertility Hollis querendo dizer que dançou comigo hoje. Pronta para me dar
sua segunda impressão de mim.
Talvez ela me diga em segredo o que ela faz de tão terrível para ganhar a vida.
Assim que as portas do elevador se abrem, saio correndo para atender o telefonema.
Alô.
A porta do apartamento atrás de mim ainda está aberta. Preciso dar comida para o peixe.
As cortinas ainda estão abertas, e está quase escuro lá fora. Qualquer um pode ver aqui dentro.
Um homem do outro lado da linha diz: "Que tu cumpras tua tarefa em tua existência".
Sem pensar eu respondo, Louvado seja o Senhor por este dia em que labutamos.
Ele diz: "Que teus esforços levem todos ao nosso redor ao Paraíso".
Eu pergunto, quem fala?
E ele diz: "Que tu descanses com teu trabalho terminado".
E desliga.
36
Há uma forma de polir aço cromado com água com gás. Para limpar os cabos de marfim
de talheres, esfregue com suco de limão e sal. Para tirar o lustro de um terno, umedeça o tecido
com uma mistura fraca de água e amoníaco, depois passe a ferro com um pano úmido.
O segredo de fazer um boeuf Bourguignon perfeito é adicionar algumas cascas de laranja.
Para remover manchas de cereja, esfregue com um tomate maduro e lave normalmente.
O segredo é não entrar em pânico.
Para fazer com que as calças mantenham um vinco preciso, vire-as do avesso e esfregue
com uma barra de sabão do lado de dentro do vinco. Vire-as de novo e passe normalmente.
O truque é manter-se ocupado.
Apesar do fato de o assassino ter ligado, estou fazendo tudo como sempre fiz.
O segredo é não se deixar levar pela imaginação.
A noite toda fico limpando. Não consigo dormir. Para limpar o forno, fervo uma panela de
amoníaco. Outra forma de fazer um vinco durável nas calças é umedecer um pano com água e
vinagre. Limpo a sujeira de hoje debaixo de cada unha. Se eu não abrir uma janela, vou morrer
sufocado com o cheiro do amoníaco fervendo.
Chega, preciso botar para fora.
A assistente social sumiu. A cada dez minutos, ligo para o escritório dela e só ouço a
mensagem da secretária eletrônica. É a primeira vez em dez anos que eu ligo para ela, e isso é
tudo que ouço: "Por favor, deixe seu recado após o bipe".
Eu digo, aquele psicopata de quem você me falou, bem, ele me ligou.
A noite toda eu ligo para o escritório dela, a cada dez minutos.
Por favor, deixe seu recado após o bipe.
Ela precisa me arrumar uma proteção.
E a secretária eletrônica fica me cortando. Então ligo de novo.
Por favor, deixe seu recado.
Preciso de proteção policial armada vinte e quatro horas por dia.
Por favor, deixe seu recado.
Alguém pode estar no corredor e preciso usar o banheiro.
Por favor, deixe seu recado.
O assassino de quem você me falou sabe quem eu sou. Ele me ligou. Ele sabe onde eu
moro. Ele sabe o número do meu telefone.
Por favor, deixe seu recado.
Me ligue. Me ligue. Me ligue.
Por favor, deixe seu recado.
Se eu aparecer "suicidado" de manhã, foi assassinato.
Por favor, deixe seu recado.
Se eu acabar morto porque um assassino enfiou minha cabeça no forno é porque você
nunca ouve meus recados.
Por favor, deixe seu recado.
Escute aqui, eu digo à secretária eletrônica. Isso aqui é para valer Não é uma ilusão
paranóica. Você me curou disso, lembra?
Por favor, deixe seu recado.
Não se trata de uma fantasia esquizóide. Não estou tendo alucinações. Pode acreditar.
Por favor, deixe seu recado. Aí a fita da secretária acaba.
A noite toda fico acordado e escutando, com a geladeira colocada na frente da porta do
apartamento. Preciso usar o banheiro, mas não cheguei ao ponto de arriscar minha vida. Pessoas
passam pelo corredor, mas ninguém pára. Ninguém toca na minha maçaneta a noite toda. O
telefone não pára de tocar e tenho que atender caso seja a assistente social, mas nunca é ela. É
só o desfile de sempre da tristeza humana. Solteiras grávidas. Sofredores crônicos. Dependentes
químicos. Eles precisam despejar suas confissões bem rápido antes que eu desligue. Preciso
manter a linha desocupada.
Cada telefonema que atendo me enche de alegria e pavor porque pode ser tanto a
assistente social quanto o assassino.
Aproximação ou evitamento.
Reforço positivo e negativo para atender o telefone.
No meio do meu pânico, Fertility liga para dizer: "Oi, sou eu de novo. Pensei em você a
semana toda. Queria saber se é contra as regras nos encontrarmos. Eu gostaria muito de te
conhecer".
Ainda tentando ouvir passos, esperando que uma sombra apareça na fenda de luz sob a
porta, levanto a cortina para ver se tem alguém na escada de incêndio. Pergunto a ela, e o seu
amigo? Você não ia se encontrar com ele de novo hoje?
"Ah, ele", Fertility diz. "Sim, eu o encontrei hoje."
E?
"Ele tem cheiro de perfume de mulher e de spray para cabelo", Fertility responde. "Não
sei o que o meu irmão viu nele."
O perfume e o spray para cabelo foram para borrifar as rosas do jardim dos meus patrões,
mas não posso dizer isso a ela.
"Outra coisa é que ele tinha pedaços de esmalte vermelho nas unhas."
Era tinta spray vermelha que grudou nas minhas unhas enquanto eu manipulava as rosas.
"E ele é um péssimo dançarino."
Neste momento, eu ser assassinado seria redundante.
"E os dentes dele são estranhos, não podres, mas tortos e pequenos."
Você poderia enfiar uma faca bem no meio do meu coração e teria chegado tarde demais.
"E ele tem umas mãos pequenas e nojentas de macaco."
Neste momento, ser assassinado seria um sopro de ar fresco.
"Isso deve significar que ele tem um pintinho pequeno."
Se a Fertility continuar a falar, minha assistente social terá um cliente a menos pela
manhã.
"E ele é obeso", Fertility comenta. "Não é uma baleia, mas é gordo demais para mim."
Caso tenha um atirador lá fora, eu abro as cortinas e mostro o meu corpo obeso e nojento
pela janela. Por favor, quem tiver um rifle e uma mira atire em mim bem aqui. Bem no meu
coração gordo. Bem no meu pinto pequeno.
"Ele não é como você", Fertility diz.
Ah, acho que ela ficaria surpresa ao ver como somos parecidos.
"Você é tão misterioso."
Eu pergunto, se você pudesse mudar uma coisa nesse cara do mausoléu o que mudaria?
"Só para ele parar de me aporrinhar", ela diz, "eu o mataria."
"Bom, ela não está sozinha aqui. Fique à vontade. Pegue um número e entre na fila.
Esqueça esse cara", ela pede, e sua voz está ficando mais grave na garganta. "Eu liguei
porque quero que você goze. Me diz o que você quer que eu faça. Me manda fazer uma
besteira."
A oportunidade bate à porta.
Esse é o próximo passo do meu grande plano.
Vou para o Inferno por isso, mas eu digo a ela, esse cara de você não gosta, quero que
você vá trepar feito uma louca com ele e me diga como foi.
Ela diz: "De jeito nenhum. De jeito nenhum".
Então vou desligar.
Ela diz: "Espere. E se eu te ligar e mentir? Eu poderia inventar tudo Você não saberia".
Não, eu digo, eu saberia. Eu descobriria.
"Não vou dormir com aquele babaca de jeito nenhum."
E se ela só desse um beijo nele?
Fertility responde: "Não".
E se ela só o levasse para passear? Eles podiam sair durante uma tarde. Tire-o do
necrotério e ele pode parecer melhor. Leve-o para um piquenique. Faça algo legal.
Fertility pergunta: "Aí você sai comigo?".
Com certeza.
35
O sol me acorda onde estou encolhido, ao lado do fogão, com um facão na mão. Da forma
como eu me sinto, a idéia de ser morto até que não é má. Minhas costas doem. Meus olhos
parecem ter sido abertos com uma lâmina. Visto-me e vou trabalhar.
Sento-me lá atrás no ônibus para que ninguém possa se sentar ao meu lado com uma faca,
um dardo envenenado, um garrote de corda de piano.
Na casa onde eu trabalho, o carro de sempre da assistente social está estacionado na
entrada. Alguns passarinhos normais, de cor vermelha, andam no gramado. O céu tem uma cor
azulada, como seria de esperar. Nada parece fora do normal.
Dentro da casa, a assistente social está de quatro, esfregando os ladrihos da cozinha com
água sanitária e amoníaco cujo cheiro forte enche o ar à sua volta de toxinas e fazem meus
olhos lacrimejar.
"Espero que você não se importe", ela diz, ainda esfregando. "Estava na sua agenda para
você fazer hoje. E eu cheguei cedo."
Água sanitária mais amoníaco é igual a gás clorídrico mortal.
Com lágrimas rolando pelas bochechas, eu pergunto, você pegou meus recados?
A assistente social respira a maior parte do tempo através do cigarro. Os vapores não
devem ser nada para ela.
"Não, liguei para o escritório dizendo que estava doente", ela diz. "Esse negócio de limpar
dá uma satisfação tão grande. Tem café e bolinhos que acabei de assar. Por que você não
relaxa?"
Eu pergunto, você não quer ouvir tudo sobre os meus problemas? Tomar notas? O
assassino me ligou ontem à noite. Passei a noite toda acordado. Ele me escolheu para matar.
Deus sabe que você deveria parar de esfregar o chão e ligar para a polícia vir me proteger.
"Não se preocupe", ela responde. E mergulha a escova no balde de água sanitária. "A taxa
de suicídios deu um salto ontem à noite. Por isso não consegui encarar o escritório hoje de
manhã."
Da forma como ela está esfregando o chão, ele jamais voltará a ficar limpo. Se você retirar
a película de esmalte de um piso de vinil com um oxidante tipo água sanitária, você está
ferrado. Quando ela terminar, o chão vai estar tão poroso que tudo vai manchar. Deus me livre
de dizer isso a ela. Ela acha que está fazendo um ótimo trabalho.
Eu pergunto, e como a alta na taxa de suicídios me manterá vivo?
"Você não entende? Perdemos mais onze clientes ontem à noite. Nove anteontem. Tratase
de um desmoronamento", ela diz.
E daí?
"Com números assim toda noite, se há um assassino, ele não precisa matar ninguém.
"E começa a cantar. Talvez o gás clorídrico mortal esteja fazendo efeito. Ela esfrega a
escova fazendo uma dancinha, para combinar com a musica. Ela diz: "Isso não soará
apropriado, mas parabéns".
Eu sou o último membro da Igreja do Credo.
"Você é quase o último sobrevivente."
Pergunto quantos mais há.
"Nesta cidade, um", ela me informa. "No país todo, apenas cinco "
Vamos jogar como nos velhos tempos, eu digo. Digo a ela, vamos pegar o velho Manual
de Diagnósticos e Estatísticas dos Distúrbios Mentais e escolher uma nova forma de eu
enlouquecer. Vamos lá. Em nome dos velhos tempos. Pegue o livro.
A assistente social suspira e olha para baixo, me vendo refletido com minha cara molhada
de lágrimas em sua poça de água suja no chão. "Escute", ela fala, "estou fazendo um trabalho
sério aqui. Além disso, o MDE se perdeu. Há dias que não o vejo."
Ela esfrega para a frente e para trás dizendo: "Não que ele faça falta".
Tudo bem, foram dez anos difíceis. Quase todos os clientes dela se foram. Ela está
estressada. Queimada. Não, incinerada. Cremada. Ela se acha um fracasso.
Está sofrendo com o que chamam de Desamparo Adquirido.
"Além disso", a assistente social continua, esfregando forte aqui e ali onde os últimos
pontos do vinil ainda estão intactos, "não posso segurar sua mão para sempre. Se você vai se
matar, não posso fazer nada, e não é culpa minha. De acordo com os meus registros, você está
perfeitamente feliz e ajustado. Temos os testes. Há evidências empíricas disso."
Os vapores aqui dentro são tão fortes que tenho de aspirar minhas lágrimas.
Ela diz: "Se mate ou não se mate, mas pare de me torturar. Estou tentando tocar a minha
vida".
Ela diz também: "Todos os dias neste país as pessoas se matam. O problema não piora só
porque você conhece a maioria delas".
Ela continua: "Você não acha que está na hora de andar com os próprios pés?".
34
Os boatos eram de que você tinha que esmagar uma rã com a mão até que ela morresse.
Você tinha que comer uma minhoca viva para provar que era obediente como Abraão quando
ele tentou matar o próprio filho para satisfazer a Deus. Você tinha que cortar o dedo mindinho
com um machado.
Esse eram os boatos.
Depois disso, você tinha que cortar o dedo mindinho de outra pessoa.
Você nunca mais via ninguém depois que era batizado, então não dava para saber se eles
ainda tinham o dedo mindinho. Você não podia perguntar se eles tiveram de esmagar a rã.
Assim que você era batizado, você subia num caminhão e deixava a colônia, que você
jamais veria novamente. O caminhão te levava para o mundo malvado lá fora, onde eles já
tinham arrumado seu primeiro emprego. O grande mundo lá fora, com seus novos pecados
maravilhosos, e quanto melhor você se saísse nos testes, melhor emprego você teria.
Você podia imaginar quais seriam alguns dos testes.
Os anciãos da igreja te diziam logo de cara se você estava magro ou gordo demais para a
sua altura. Eles te davam um ano inteiro antes de batismo para você entrar em forma. Você era
liberado das tarefas de casa para poder ter aulas especiais o dia inteiro. Aulas sobre a Bíblia.
Aulas de limpeza. Etiqueta, tratamento de tecidos, e você já sabe o resto. Se você estivesse
gordo, você comia para emagrecer, e se estivesse magro, apenas comia.
O ano inteiro antes do batismo, cada árvore, cada amigo, tudo que você via tinha aquela
aura de algo que você jamais veria de novo. Pelo que você estudava, você já sabia da maioria
dos testes que faria. Além desses, os boatos eram de que havia mais alguns que
desconhecíamos.
Já sabíamos, pelos boatos, que ficaríamos nus durante parte do batismo. As filhas eram
batizadas na primavera, com a presença apenas da mulheres da igreja. Os filhos eram batizados
no outono, com apenas o homens lá para te mandar subir na balança nu e ser pesado ou recitar
um capítulo e um versículo da Bíblia.
Jó, capítulo 14, versículo 5:
"Visto que os seus dias estão contados, contigo está o número dos seus meses; tu ao
homem puseste limites além dos quais não passará."
E você tinha que recitar isso pelado.
Salmo 101, salmos de Davi, verso 2:
"Atentarei sabiamente ao caminho da perfeição... Portas adentro, em minha casa, terei
coração sincero."
Você tinha que saber como fazer o melhor pano de pó (enxágüe um farrapo em terebintina
diluída, depois pendure para secar). Você tinha que saber quão profundo precisava enfiar no
chão um pilar de portão de um metro e oitenta para que ele suportasse um portão de um metro e
meio de largura. Um ancião da igreja iria vendar seus olhos e te dar tecidos para tocar, e você
teria que dizer qual era algodão, lã ou composto.
Você tinha que identificar plantas de estufa. Manchas. Insetos. Consertar ferramentas
pequenas. Fazer uma caligrafia bonita para convites.
Nós sabíamos dos testes pelo que tínhamos que estudar na escola. Outras coisas vinham
de filhos que não eram muito espertos. Às vezes o seu pai te dava informações confidenciais
para que você tivesse uma pontuação melhor e conseguisse um emprego melhor em vez de uma
vida de sofrimento. Então os seus amigos diziam aos outros e todo mundo ficava sabendo.
Ninguém queria decepcionar a família. E ninguém queria passar a vida removendo
asbesto.
Os anciãos da igreja te deixavam em pé num lugar e você tinha que ler um gráfico pregado
no fim de um corredor.
Os anciãos da igreja te davam agulha e linha e marcavam em quanto tempo você pregava
um botão.
Nós sabíamos que empregos iríamos encarar no mundo malvado lá fora pelo que os
anciãos diziam para nos assustar ou animar. Para nos fazer trabalhar mais, eles contavam de
empregos maravilhosos em jardins maiores do que poderíamos imaginar deste lado do Paraíso.
Alguns empregos eram em palácios tão imensos que você achava que estava ao ar livre. Esses
jardins eram chamados de parques de diversão. Os palácios, de hotéis.
Para nos fazer estudar mais, eles nos falavam de empregos em que você ficava anos
bombeando esgoto, incinerando lixo, borrifando veneno. Removendo asbesto. Havia empregos
tão terríveis que eles diziam que ficaríamos felizes em morrer mais cedo.
Havia empregos tão tediosos que você acharia um jeito de se tornar inválido só para não ir
trabalhar.
Então você memorizava cada minuto do seu último ano na colônia do distrito da igreja.
Eclesiastes, capítulo 10, versículo 18:
"Pela muita preguiça, desaba o teto, e pela frouxidão das mãos a casa goteja."
Lamentações, capítulo 5, versículo 5:
"Os nossos perseguidores estão sobre o nosso pescoço; estamos exaustos e não temos
descanso."
Para evitar que o bacon se enrole, resfrie-o alguns minutos no congelador antes de fritar.
Esfregue seu bolo de carne com um cubo de gelo e ele não vai rachar quando for assado.
Para que a renda continue encrespada, passe a ferro entre folhas de Papel encerado.
Nós ficávamos ocupados aprendendo. Tínhamos milhões de fatos para lembrar.
Memorizávamos metade do Velho Testamento.
Pensávamos que todos esses ensinamentos eram para nos deixar inteligentes.
Mas eles só nos deixavam burros.
Como todos os pequenos fatos que aprendíamos, não tínhamos tempo de pensar. Nenhum
de nós pensava em como seria a vida limpando a casa de um estranho todos os dias. Lavando
louças todos os dias. Alimentando o filho de um estranho. Cortando grama. O dia inteiro.
Pintando casas. Ano após ano. Passando lençóis.
Para todo o sempre.
Trabalhe sem parar.
Estávamos todos tão excitados em passar nos testes que nunca tenta vamos enxergar além
da noite do batismo.
Estávamos tão preocupados com nossos piores temores, esmagar rãs comer minhocas,
veneno, asbesto, que nunca pensávamos em como a vida seria tediosa mesmo se tivéssemos
sucesso e conseguíssemos um bom emprego.
Lavar pratos para sempre.
Polir a prataria para sempre.
Cortar a grama.
Repita.
Na noite antes do batismo, meu irmão Adam me levou para o terraço dos fundos da casa
de nossa família e cortou meu cabelo. Metade das famílias na colônia do distrito da igreja que
tinha um filho de dezessete anos estava fazendo o mesmíssimo corte de cabelo nele.
No mundo malvado lá fora, eles chamam a isso de produção em série.
Meu irmão me disse para não sorrir, mas ficar ereto e responder a qualquer pergunta com
uma voz clara.
No mundo lá fora, eles chamam a isso de marketing.
Minha mãe estava colocando minhas roupas numa sacola para que eu as levasse. Todos
nós estávamos fingindo dormir naquela noite.
No mundo malvado lá fora, meu irmão me disse, havia pecados que a igreja não conhecia
o suficiente para proibir. Eu mal podia esperar.
Na noite seguinte foi o batismo, e fizemos tudo que esperavam de nós. E nada mais.
Quando você estava pronto para decepar seu dedo mindinho e o do seu amigo ao lado, nada
acontecia. Depois que eles nos apalparam e tocaram e pesaram e perguntaram sobre a Bíblia e o
trabalho doméstico, mandaram que nos vestíssemos.
Você pegava a sacola com suas roupas, saía da casa de culto e se dirigia ao caminhão que
estava esperando lá fora.
O caminhão saía noite adentro, em direção ao mundo malvado lá e nenhuma das pessoas
que você conhecia jamais veria você de novo.
Você nunca ficava sabendo da sua pontuação.
Mesmo que você soubesse que se saíra bem, a sensação boa não durava muito.
Já havia um emprego esperando por você.
Deus te livrasse de ficar entediado e desejar mais.
A doutrina da igreja determinava que, pelo restante da sua vida, seria mesmo tipo de
trabalho. A mesma solidão. Nada mudaria. Todos os dias. Isso era sucesso. Esse era o prêmio.
Cortar a grama.
E cortar a grama.
E cortar a grama.
Repita.
33
No ônibus, a caminho do nosso terceiro encontro, Fertility e eu estamos sentados na frente
de um cara quando ouvimos a piada.
A temperatura está uns trinta graus, quente demais para junho, e as janelas do ônibus estão
abertas, com o cheiro do ar poluído me deixando meio enjoado. Os bancos de vinil estão
quentes, do jeito que tudo deve ser no Inferno, quente. Ir de ônibus ao centro da cidade foi idéia
de Fertility. Para passearmos, ela me disse. No centro da cidade. Estamos indo à tarde, à tarde,
então só gente sem emprego ou com emprego noturno ou gente maluca com síndrome de
Tourette vai estar lá.
E lá que ela vai me levar para passear, já que não vai dormir comigo nem me beijar, de
jeito nenhum, nunca.
Quem está sentado atrás de mim não faço idéia. Ninguém especial para ser notado, só um
cara de camisa. Loiro. Se você me pressionasse, eu teria que dizer feio. Não lembro. O ônibus
passa no mausoléu a cada quinze minutos, e nós simplesmente entramos. Nos encontramos
Catacumba 678, como sempre.
Eu lembro da piada. É uma piada velha. As casas da cidade passa pelo ônibus, atrás dos
carros estacionados ao longo do meio-fio e entre cercas que marcam o limite das propriedades,
e o piadista inclina a cabeça entre Fertility e eu e sussurra: "O que é mais difícil que fazer um
camelo passar pelo buraco de uma agulha?".
Essas piadas estão em toda a parte. Não importa quão infames elas sejam, é impossível
não ouvi-las.
Nem Fertility nem eu respondemos.
E o piadista sussurra: "Comprar um seguro de vida para um membro da Igreja do Credo".
A verdade é que ninguém ri dessas piadas fora eu, e eu só rio para ser sociavel. Eu rio
para evitar não ser. A coisa que mais me preocupa em público é as pessoas descobrirem que sou
um sobrevivente. As roupas da igreja eu joguei fora há anos. Deus me livre de parecer com uma
daquelas pessoas burras e malucas do meio-oeste que se mataram porque acharam que seu Deus
estava lhes chamando de volta.
Minha mãe, meu pai, meu irmão Adam, minhas irmãs e meus outros irmãos estão todos
mortos e embaixo da terra, sendo zombados, mas eu estou vivo. Eu ainda preciso viver neste
mundo e me entender com as pessoas.
Então eu rio.
Como tenho que fazer algo, fazer algum barulho, gritar, berrar, chorar, xingar, uivar, eu
rio. São todas apenas formas diferentes de descarregar.
As piadas não param esta manhã, e você precisa fazer algo para não começar a chorar
todas as vezes que as escuta. Ninguém ri mais alto que eu.
O piadista sussurra: "Por que o membro da Igreja do Credo atravessou a rua?".
Talvez ele nem esteja falando com Fertility ou comigo.
"Porque nenhum carro quis passar por cima dele."
Lá atrás está o rugido do ônibus, impulsionado rua abaixo pelo motor na traseira,
despejando uma fumaça preta e fedorenta.
Hoje, as piadas são por causa do jornal. De onde estou sentado, consigo ler a manchete
abaixo da dobra da primeira página de cinco pessoas escondidas atrás da edição de hoje. Está
escrito:
"Sobreviventes do Culto Diminuem."
O artigo diz que a cortina está quase fechada no que diz respeito à tragédia do suicídio em
massa dos membros da Igreja do Credo acontecida há dez anos. O artigo explica que os últimos
sobreviventes dessa igreja, o culto existente na região central do Nebraska, que cometeram
suicídio em massa para não se submeterem a uma investigação do FBI e terem a atenção do
país voltada para suas vidas, bem, o jornal diz que apenas seis membros dessa igreja ainda estão
vivos. Eles não citam os nomes, mas eu devo ser parte dessa meia dúzia restante.
O restante da história continua na página A9, mas já deu para pegar a idéia. Quando você
lê nas entrelinhas, elas dizem, já vão tarde.
Eles não escrevem nada sobre as mortes suspeitas, que parecem ter sido assassinato. Não
há nada sobre a possibilidade de um assassino estar perseguindo esses seis últimos
sobreviventes da igreja.
Atrás de mim, o piadista sussurra: "Como se chama um membro da Igreja do Credo
loiro?".
Na minha cabeça, eu digo a ele, morto. Já conheço todas essas piadas.
"Como se chama um membro da Igreja do Credo ruivo?"
Morto.
"E moreno?"
Morto.
O cara sussurra: "Qual a diferença entre um membro da Igreja do Credo e um cadáver?".
Só uma questão de horas.
O cara sussurra: "O que o membro da Igreja do Credo gritou quando o caixão passou?".
Táxi!
O cara sussurra: "Como você descobre um membro da Igreja do Credo num ônibus
lotado?".
Alguém puxa a corda pedindo parada e soa a campainha.
E Fertility se vira e diz para o homem: "Cale a boca". Ela fala alto suficiente para as
pessoas olharem por cima do jornal, e continua: "Você está brincando com o suicídio, com
pessoas amadas que estão mortas. É melhor calar a boca".
Ela diz isso bem alto. Da forma como seus olhos brilham, cinzento mas parecendo cor de
prata, fico imaginando se Fertility não é da Igreja do Credo ou se ainda está chateada com a
morte do irmão. Ela está tendo uma reação exagerada.
O ônibus encosta no meio-fio e o piadista se levanta e começa a sair. Como em uma
igreja, estamos sentados nos bancos com o corredor passando no meio do ônibus. O cara está
esperando em fila para descer, e suas calças são folgadas e de lã marrom, do tipo que só um
sobrevivente usaria neste calor. Os suspensórios da igreja estão entrelaçados nas suas costas. O
casaco de lã marrom está dobrado em seu braço. Ele sai arrastando os pés pelo corredor do
ônibus, pára um minuto esperando outras pessoas descerem, se vira e toca a aba do seu chapéu
de palha. Ele não me é estranho, mas já faz tanto tempo. Seu cheiro é uma mistura de suor, de lã
e da palha da fazenda.
De onde eu o conheço não me lembro. Da voz dele eu me lembro. Da voz dele, apenas da
voz, sobre o meu ombro, no meu telefone.
Que tu descanses com teu trabalho terminado.
O rosto dele é o rosto que vejo no espelho.
Sem nem mesmo pensar, digo o nome dele.
Adam. Adam Branson.
O piadista diz: "Eu te conheço de algum lugar?".
E eu digo, não.
A fila avança alguns passos, levando-o para mais longe, e ele diz: "Nós não crescemos
juntos?".
E eu digo, não.
De pé, à porta do ônibus, ele grita: "Você não é meu irmão?".
E eu grito, não.
E ele se vai.
Lucas, capítulo 22, versículo 34:
"... três vezes tu negarás que me conheces."
O ônibus começa a voltar a trafegar.
A única palavra para descrever esse cara é feio. Esquisito. Um pouco gordo. Um
fracassado. Patético, no máximo. Uma vítima. Meu irmão mais velho em três minutos. Um
membro da Igreja do Credo.
A julgar pela sua linguagem corporal, os livros de psicologia diriam que Fertility está puta
comigo por eu ter dado risada. Suas pernas estão cruzadas à altura do joelho e do tornozelo. Ela
olha pela janela como se importasse onde estamos.
De acordo com minha agenda, neste exato momento eu deveria estar encerando o chão da
sala de jantar. Tem a sarjeta para limpar. Tem uma mancha para tirar na entrada de carros da
casa onde eu trabalho. Eu deveria estar descascando os aspargos para o jantar de hoje.
Eu não deveria estar passeando com uma adorável e brava Fertility Hollis mesmo que eu
tenha matado o irmão dela e ela tenha um tesão secreto pela minha voz ao telefone à noite,
apesar de não me suportar em pessoa.
A verdade é que não importa o que eu deveria fazer. O que qualquer sobrevivente deveria
fazer. De acordo com tudo que crescemos acreditando, somos corrompidos, malvados e sujos.
O ar do centro da cidade que entra no ônibus é quente e carregado, misturado com a luz
do sol e com o cheiro de gasolina queimada. Flores passam, plantadas no solo, rosas que
deveriam ter um cheiro, vermelhas, amarelas, cor de laranja, todas abertas mas sem efeito. As
seis faixas do tráfego avançam sem descanso, como uma esteira transportadora.
Tudo que fizermos estará errado enquanto estivermos vivos.
O sentimento é de não ter controle. O sentimento é de que seremos libertados.
Não é como se estivéssemos viajando. Estamos sendo processados. É como se
estivéssemos esperando. É só uma questão de tempo.
Não há nada que eu possa fazer que seja certo, e o meu irmão está lá fora para me matar.
Os edifícios do centro começam a se amontoar pelas calçadas. O trânsito fica lento.
Fertility levanta um braço para puxar a corda, ding, e o ônibus pára e nos despeja na frente de
uma loja de departamentos. Homens e mulheres artificiais estão posando nas vitrines usando
roupas. Sorrindo. Gargalhando. Fingindo se divertir. Sei exatamente como eles se sente
As roupas que estou usando são apenas uma calça e uma camisa xadrez, mas elas são do
homem para quem eu trabalho. A manhã inteira fiquei lá em cima experimentando diferentes
combinações de roupas descendo até onde a assistente social estava aspirando os abajures para
perguntar o que ela achava.
Há um relógio enorme sobre as portas da loja, e Fertility olha para cima. Ela me diz:
"Rápido, temos que chegar lá às duas horas".
Ela pega a minha mão com sua mão incrivelmente fria, fria e seca mesmo no calor, e
passamos através das portas para o ar condicionado do primeiro andar, com pilhas de coisas
para comprar em tabuleiros e em invólucros de vidro, trancadas.
"Precisamos chegar ao quinto andar", Fertility diz, com sua mão apertando e puxando a
minha. Subimos pelas escadas rolantes. Segundo andar, artigos masculinos. Terceiro andar,
artigos infantis. Quarto andar, artigos para adolescentes. Quinto andar, artigos femininos.
Aquela música gravada sai dos ventiladores de teto. É chá-chá-chá. Dois passos lentos e
três rápidos. Há um passo cruzado e um giro com a mulher embaixo do braço. Fertility me
ensinou.
Esse encontro foi menos do que eu esperava. Roupas em prateleiras, penduradas em
cabides. Vendedoras caminhando ao nosso redor muito bem vestidas e perguntando se podem
nos ajudar. Nada disso é algo que eu já não conheça.
Eu pergunto, você quer dançar, aqui?
"Espere um pouco", Fertility diz. "Espere."
O que acontece primeiro é o cheiro de fumaça.
"Aqui", Fertility diz, me levando para uma floresta de vestidos longos em promoção.
Aí o que acontece é que uma sirene toca e as pessoas vão para as escadas rolantes,
descendo-as como desceriam numa escada normal porque elas estão paradas. As pessoas estão
descendo pela escada rolante que sobe, e isso parece tão errado quanto infringir uma lei. Uma
vendedor esvazia sua caixa registradora numa sacola com zíper e olha para alguma pessoas do
outro lado, perto dos elevadores, em pé, olhando para números do elevador, segurando grandes
sacolas reluzentes de compras com alças e coisas dobradas dentro.
A sirene ainda está tocando. A fumaça é tão espessa que dá para vê-la passando pelas
lâmpadas no teto.
"Não usem os elevadores", a vendedora grita. "Num incêndio, os elevadores não
funcionam. Vocês terão que usar as escadas."
Ela corre em direção a eles através do labirinto de roupas nos cabides, com a sacola de
dinheiro enfiada embaixo do braço, tipo um zagueiro de futebol americano, e os leva por uma
porta onde se lê SAÍDA.
Aí ficamos só Fertility e eu, e as luzes piscam e se apagam.
No escuro, com a fumaça e o toque do cetim ao nosso redor, o atrito do veludo, a frieza da
seda, a maciez do algodão, a sirene tocando, todos os vestidos, a aspereza da lã e a frieza da
mão de Fertility na minha, ela diz: "Não se preocupe".
Os pequenos avisos em verde brilham para nós no escuro, dizendo SAÍDA.
A sirene tocando.
"Fique calmo", Fertility diz.
A sirene tocando.
"A qualquer minuto agora", Fertility diz.
Chamas cor de laranja brilham do outro lado do piso, transformando tudo em formas
estranhas de laranja contra o fundo negro. Os vestidos e as calças daqui até lá pendem de
sombras escuras de pessoas com pernas e braços consumindo-se em chamas.
As formas de mil pessoas queimando e caindo à nossa frente. A sirene toca tão alto que
você a sente no corpo, e apenas a mão fria de Fertility está me segurando aqui.
"Será a qualquer segundo agora", ela fala.
O calor está tão perto que dá para sentir. A fumaça é tão espessa que dá para sentir o
gosto. A menos de cinco metros, as figuras de espantalho e mulheres feitas das roupas nos
cabides começam a arder e a tombar no chão. Fica difícil respirar, e não consigo manter os
olhos abertos.
E a sirene toca.
Parece que minhas roupas foram passadas no meu corpo. O fogo está mesmo perto.
Fertility diz: "Não é o máximo? Você não está adorando?". Eu levanto minha mão para
proteger meu rosto do raiom queimando perto de nós.
É assim que se descobre o conteúdo dos tecidos. Puxe alguns fios de uma roupa e coloque
em cima de uma chama. Se não queimar, é lã. Se queimar devagar, é algodão. Se incendiar
como as calças perto de nós é tecido sintético. Poliéster. Raiom. Náilon.
Fertility diz: "É agora".
Aí fica frio antes que eu possa descobrir a razão. Molhado. A água jorra. A luz cor de
laranja tremula, mais fraca, mais fraca, e apaga. A fumaça some do ar.
Uma a uma, as luzes piscam para mostrar o que restou em grandes sombras de preto e
escuro. A sirene pára. A música gravada volta.
"Eu vi isso acontecendo em um sonho", Fertility comenta. "Não corremos perigo
nenhum."
Foi a mesma coisa que ela e Trevor no transatlântico que só afundou pela metade.
"Semana que vem", Fertility diz, "tem uma padaria que vai explodir. Você quer ir olhar?
Eu vejo pelo menos três ou quatro pessoas mortas."
O meu cabelo, o cabelo dela, as minhas roupas, as roupas dela, não há um sinal de
queimadura em nós.
Daniel, capítulo 3, versículo 27:
"... o fogo não teve poder algum, nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem
os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles."
Já passei por isso, estou pensando. Sei como é.
"Rápido", ela diz. "Os bombeiros vão chegar em alguns minutos." Ela toma a minha mão
na sua e fala: “Não vamos desperdiçar esse chá-chá-chá”.
Um, dois, chá-chá-chá. Nós dançamos, três, quatro, chá-chá-chá.
As ruínas, os braços e pernas queimados das roupas amontoadas no chão à nossa volta, o
teto caindo, a água ainda jorrando, tudo ensopado, e nós dançando um, dois, chá-chá-chá.
E foi assim que eles nos encontraram.
32
Tem um posto de gasolina que vai explodir semana que vem. Tem uma loja de animais de
onde todos os canários, todo o estoque deles de centenas de canários, vão fugir. Fertility previu
tudo isso em sonho após sonho. Tem um hotel em que um cano d'água está vazando neste exato
momento. Há semanas a água está pingando dentro das paredes, dissolvendo a argamassa,
apodrecendo a madeira, enferrujando o metal, e às 3hO4 da tarde da próxima terça-feira, o
candelabro de cristal gigante que fica no meio do teto do saguão vai cair.
No sonho dela, aquelas coisinhas de cristal vão chacoalhar, depois a poeira do reboco vai
salpicar. A cabeça de um parafuso enferrujado vai ser arremessada longe. No sonho de Fertility,
a cabeça do parafuso cai, plop, no carpete perto de um velho com sua mala. Ele o pega e
analisa, na palma da mão, olhando a ferrugem e o aço brilhante do lado de dentro da racha-dura
causada pela tensão.
Uma mulher puxando a mala de rodinhas pára ao lado do homem e pergunta se ele está
esperando na fila.
O velho responde: "Não".
A mulher diz: "Obrigada".
Um recepcionista toca o sininho e diz: "Recepção, por favor!".
Um mensageiro aparece. a .,
Nesse momento o candelabro cai.
Os sonhos de Fertility são exatos assim, e em cada sonho ela descobre um novo detalhe. A
mulher está vestindo um tailleur vermelho com um cinto dourado Christian Dior. O velho tem
olhos azuis. Sua mão que segura a cabeça do parafuso tem uma aliança. O mensageiro tem a
orelha furada, mas está sem o brinco.
Atrás do recepcionista, Fertility narra, há um intrincado relógio estilo barroco francês
dentro de uma armação dourada bem fru-fru, com conchás e golfinhos sustentando o mostrador
do relógio. A hora, 3hO4 tarde. a
Fertility me contou isso tudo com os olhos fechados. Se estava lembrando ou inventando,
não sei dizer.
1 Tessalonicenses, capítulo 5, versículo 20:
"Não desprezeis as profecias."
O candelabro vai apagar um segundo antes de cair, então todos que estão embaixo dele
vão olhar para cima. O que acontece depois disso ela não sabe, pois sempre acorda. O sonho
sempre acaba aí, no momento em que o candelabro cai ou o avião bate. Ou o trem descarrila. O
raio. O terremoto.
Ela começou a manter um calendário dos próximos desastres. Ela me mostra. Eu mostro a
ela a agenda que as pessoas para quem trabalho mantêm. Para a semana que vem, ela tem a
explosão da padaria, os canários fugitivos, o incêndio no posto de gasolina, o candelabro do
hotel. Fertility me manda escolher. Nós vamos levar comida e passar o dia juntos.
Para a semana que vem, preciso cortar a grama duas vezes. Polir as ferramentas de bronze
da lareira. Checar as datas de tudo que está no congelador. Girar as comidas enlatadas na
despensa. Comprar para as pessoas para quem trabalho presentes de casamento para que elas
dêem uma à outra.
Eu digo, claro. O que ela quiser.
Isso foi bem depois que os bombeiros nos encontraram dançando o chá-chá-chá dentro do
quinto andar incendiado de roupas femininas, sem uma marca sequer em nós. Depois que eles
pegaram nossos testemunhos e nos mandaram assinar os formulários do seguro livrando-os de
responsabilidade, eles nos acompanharam até a rua. Quando chegamos lá fora, eu perguntei a
Fertility, por quê?
Por que ela não liga para alguém e o avisa sobre o desastre?
"Porque ninguém quer más notícias", ela diz, encolhendo os ombros. "Trevor contava às
pessoas toda vez que tinha um sonho, e isso só lhe trazia problemas."
Ninguém queria acreditar num dom tão incrível, ela disse. As pessoas acusavam Trevor de
ser terrorista ou incendiário.
Um piromaníaco, de acordo com o Manual de Diagnósticos e Estatísticas dos Distúrbios
Mentais.
Em outro século, as pessoas o acusariam de ser bruxo.
Então o Trevor se matou.
Com uma pequena ajuda deste que vos fala.
"Por isso não conto mais às pessoas", Fertility afirma. "Talvez se fosse um orfanato que
fosse incendiar, talvez eu contasse, mas essas pessoas mataram meu irmão, por que eu faria um
favor a elas?"
A forma de eu salvar a humanidade aqui é contar a verdade a Fertility, que eu matei o
irmão dela, mas não conto. Ficamos sentados no ponto do ônibus sem conversar até que o
ônibus dela aparece. Ela escreve o seu número de telefone num recibo de compra que pega do
chão. Ele vale mais de trezentos dólares se eu o levar de volta à loja e dar o meu golpe. Fertility
me manda escolher um desastre e ligar para ela. O ônibus a leva embora para não sei onde, para
o trabalho, para jantar, para sonhar.
De acordo com minha agenda, preciso tirar o pó dos rodapés. Estou podando as sebes
agora. Estou cortando a grama. Estou lavando os carros. Eu deveria estar passando roupas, mas
sei que a assistente social está fazendo o meu trabalho.
De acordo com o Manual de Diagnósticos e Estatísticas dos Distúrbios Mentais, eu
deveria entrar numa loja e furtar. Eu deveria descarregar minha energia sexual reprimida.
De acordo com Fertility, eu deveria levar comida para comer enquanto vejo estranhos
morrerem. Posso nos imaginar sentados num sofá de veludo no saguão do hotel, tomando chá
numa tarde de terça-feira, na nossa cadeira na primeira fila.
De acordo com a Bíblia, eu deveria estar, sei lá o quê.
De acordo com a doutrina da Igreja do Credo, eu deveria estar morto.
Nenhuma das alternativas entretém a minha imaginação, então eu simplesmente saio
andando pelo centro da cidade. Tem cheiro de pão do lado de fora da padaria que, daqui a cinco
dias, segundo Fertility, bum. Nos fundos da loja de animais, centenas de canários voam de um
lado para outro dentro de suas gaiolas cheias e fedorentas. Semana que vem, estarão todos
livres. E depois? Eu queria dizer a eles, fiquem na gaiola. Há coisas melhores que a liberdade.
Há coisas piores que viver uma vida longa e tediosa na casa de um estranho e depois morrer e ir
para o paraíso dos canário
E no posto de gasolina que Fertility diz que vai explodir, os frentistas trabalham nas
bombas, até felizes, não infelizes, jovens, sem saber que semana que vem estarão mortos ou
desempregados, dependendo de quem estará trabalhando naquele turno.
Escurece bem depressa.
Do lado de fora do hotel, pelas grandes janelas de vidro laminado do saguão, vejo o
candelabro avultar-se sobre vítima após vítima. Uma mulher com um buldogue anão na coleira.
Uma família: mãe, pai, três crianças. O relógio atrás da recepção diz que ainda falta muito para
as 3hO4 da tarde de terça-feira. Seria seguro ficar lá durante dias e dias, mas não um segundo a
mais.
Você poderia passar pelos porteiros em seus galões dourados e dizer ao gerente que o
candelabro ia cair.
Todos que ele ama vão morrer.
Mesmo ele vai morrer, um dia.
Deus voltará para nos julgar.
Todos os seus pecados vão persegui-lo até o Inferno.
Você pode contar a verdade às pessoas, mas elas não vão acreditar até que aconteça.
Somente quando for tarde demais. Antes disso, a verdade só vai deixá-los putos e te meter em
muita encrenca.
Então você simplesmente vai embora.
Tenho de preparar o jantar. Tenho uma camisa para passar para amanhã. Sapatos para
engraxar. Louça para lavar. Novas receitas para aprender.
Tem uma receita chamada Sopa de Casamento que leva três quilos de tutano no preparo.
Carne de órgãos estão na moda este ano. As pessoas para quem eu trabalho querem comer o que
há de mais radical. Rim. Fígado. Bexiga inchada de porco. O estômago intermediário da vaca
rei cheado com agrião e erva-doce, estilo bolo alimentar. Eles querem animais recheados com
outros animais improváveis, tipo frango recheado com coelho. Carpa recheada com pernil. Pato
recheado com salmão.
Há muita coisa que preciso praticar em casa.
Uma forma de preparar o bife é cobrindo-o com tiras de gordura de um outro animal, para
protegê-lo enquanto ele cozinha. É isso que estou fazendo quando o telefone toca.
Claro, é Fertility.
"Você tinha razão sobre aquele cara esquisito", ela diz.
Eu pergunto, sobre o quê?
"Aquele cara, o namorado do Trevor", ela continua. "Ele precisa mesmo de alguém. Eu o
levei para passear, como você pediu, e tinha um cara daquele culto no nosso ônibus. Eles só
podem ser irmãos gêmeos. Eles eram idênticos."
Eu digo, talvez você esteja enganada. A maioria das pessoas daquele culto está morta.
Elas eram malucas e burras e quase todas estão mortas. Está no jornal. Tudo que eles
acreditavam era uma mentira.
"O cara no ônibus perguntou se eles não eram parentes, e o namorado do Trevor disse que
não."
Então eles não são parentes, eu digo. Você reconheceria o próprio irmão.
Fertility diz: "Essa é a parte triste. Ele reconheceu o cara. Ele até disse um nome, Brad ou
Tim ou algo assim".
Adam.
Eu digo, e por que isso é triste?
"Porque foi uma negação tão óbvia, tão patética", ela fala. "É óbvio que ele está tentando
se passar por uma pessoa normal, feliz. Achei tão triste que até dei meu número de telefone
para ele. Senti pena dele. Eu queria ajudá-lo a aceitar o seu passado. Além disso", ela continua,
"tenho um pressentimento de que vai acontecer alguma merda com ele."
Que tipo de merda, eu pergunto. Como assim, merda?
"Sofrimento", ela diz. "Ainda é muito vago. Desastres. Dor. Assassinato em massa. Não
me pergunte como eu sei. É uma longa história."
Os sonhos dela. O posto de gasolina, os canários, o candelabro do hotel e agora eu.
“Escute”, ela diz. “Ainda precisamos conversar sobre nos encontrar, mas não agora.”
Por quê?
"O meu emprego perverso anda meio pesado, então se um cara chamado dr. Ambrose
ligar e perguntar se você conhece a Gwen, diga que não me conhece. Diga a ele que nunca nos
encontramos, certo?"
Gwen?
Eu pergunto, quem é o dr. Ambrose?
"O nome dele é esse", Fertility diz. Gwen diz. "Ele não é médico de verdade, acho que
não. Ele é tipo meu agente. Não é o que eu queria estar fazendo, mas tenho um contrato com
ele."
Eu pergunto, o que você faz por contrato?
"Não é nada ilegal. Tenho tudo sob controle. Mais ou menos."
O quê?
E ela me diz, e os alarmes e as sirenes começam a tocar.
Estou me sentindo cada vez menor.
Os alarmes, as luzes e as sirenes estão ao meu redor.
Estou me sentindo cada vez menor.
Aqui, na cabine do vôo 2039, o primeiro dos quatro motores entrou em pane. Neste
momento estamos no começo do fim.
31
Parte do trabalho de auxílio aos suicidas da minha assistente social é me preparar outro
gim-tônica. Isso enquanto atendo telefonemas interurbanos. Um produtor do Dawn Williams
Show está aguardando na linha dois. Todas as linhas estão piscando, piscando. Uma pessoa do
programa da Barbara Walters está aguardando na linha três. Minha prioridade é conseguir
alguém para cuidar desse bafafá. A louça do café da manha está empilhada na pia, sem se lavar
sozinha.
Minha prioridade é arranjar um bom agente.
Lá em cima, as camas ainda estão desarrumadas.
O jardim precisa ser repintado.
Ao telefone, tem um agente perguntando se eu não seria o último sobrevivente. Só pode
ser, é o que estou dizendo. Se a assistente social , veio tomar gim-tônica no café da manhã é
porque houve outro suicídio ontem. Aqui na mesa da cozinha eu espalhei, à minha frente, todas
as outras fichas dos pacientes.
O Programa de Apoio aos Sobreviventes do governo é o que você poderia chamar de
fracasso total. É a assistente social me preparando um gim-tônica quem precisa de apoio para
não se suicidar.
Para que eu não me mate, a assistente social fica de olho em mim. Para fazê-la me deixar
em paz, peço que ela corte um limão. Traga-me um cigarro. Prepare-me um drinque, eu peço,
senão vou me matar. Vou entrar no banheiro e cortar todas as minhas veias com uma lâmina de
barbear.
A assistente social me traz o gim-tônica para onde estamos sentados, à mesa da cozinha, e
pergunta se quero ajudá-la a identificar alguns corpos. Isso deve ser para me ajudar a superar o
trauma. Afinal, ela diz, era o meu povo, sangue do meu sangue. Meus parentes.
Ela começa a espalhar sobre a mesa as mesmas fotos de dez anos atrás tiradas por
funcionários do governo. Olhando para mim há centenas de pessoas mortas deitadas ombro a
ombro no chão. Suas peles estão todas escurecidas pelo cianeto. Estão tão inchadas que as
roupas escuras feitas em casa estão apertadas nelas. Da terra à terra. Do pó ao pó. O processo
todo de reciclagem devia ser rápido e fácil, mas não é. Os corpos lá deitados, endurecidos e
grosseiros. Isso é a assistente social tentando fazer minhas emoções pegarem no tranco. Eu
estou reprimindo a minha dor, ela diz.
Será que eu não queria lutar e fazer o que você chama de identificação dessas pessoas?
Se há um assassino à solta, ela diz, eu posso ajudá-la a encontrar a pessoa que deveria
estar nessas fotos mas não está.
Obrigado, eu digo. Não, obrigado. Sem nem mesmo olhar, já sei que Adam Branson não
está morto em nenhuma das fotos dela.
Enquanto a assistente social vai se sentar, pergunto se ela se importaria de fechar as
cortinas. Tem uma van de uma rede de televisão lá fora, mandando imagens via satélite através
da janela da cozinha. Com a louça suja do café da manhã empilhada ao fundo, é assim que
quero aparece noticiário hoje à noite. A louça suja na pia, eu e a assistente social sentados à
mesa da cozinha com o telefone e suas pastas de papel manilha espalhadas pela toalha de mesa
quadriculada de amarelo e branco gim-tônica na mão às dez da manhã.
A voz em off do locutor estará explicando como o único sobrevivem do último culto de
morte dos Estados Unidos, a Igreja do Credo, está sendo observado após a trágica onda de
suicídios que tirou a vida de cada um dos últimos sobreviventes.
Depois, corta para o comercial.
A assistente social olha as pastas dos seus últimos clientes. Brannon falecido. Walker,
falecido. Phillips, falecido. Todo mundo falecido. Todo mundo, exceto eu.
A garota de ontem à noite, a outra única sobrevivente da Igreja do Credo, comeu terra.
Tem até um nome para isso. Eles chamam de geofagia. Isso era comum entre os africanos
trazidos para os Estados Unidos como escravos. Popularmente, não deve ser essa a palavra.
Ela se ajoelhou no quintal da casa onde havia trabalhado durante onze anos, colheu a terra
de um canteiro de rosas e enfiou na boca. Está tudo no relatório da assistente social. Depois
houve um negócio chamado de ruptura esofágica, depois uma peritonite, aí por volta do nascer
do sol ela estava morta.
A Libertação.
É, e todos os que não foram libertados e entregues ao Senhor entre os primeiros devem
segui-los o quanto antes.
Então, durante os últimos dez anos, um após outro, homens e mulheres, empregadas,
jardineiros e operários do país todo se entregaram. Apesar do Programa de Apoio aos
Sobreviventes.
Exceto eu.
Eu pergunto à assistente social, você se importaria de arrumar camas? Se eu tiver que
fazer mais uma dobradura de hospital, eu juro, vou enfiar minha cabeça no multiprocessador.
Se você concordar, prometo estar vivo quando voltar.
Ela sobe as escadas. Eu digo, obrigado.
Depois que a assistente social me contou que todos lá na colônia da igreja do Credo
estavam mortos e tal, a primeira coisa que fiz foi começar a fumar. Na verdade, a melhor coisa
que fiz foi começar a fumar. Quando a assistente social chegou para me acordar, dizendo que a
outra única sobrevivente da Igreja do Credo havia se matado ontem à noite, eu me sentei na
cozinha e iniciei meu processo de suicídio com um bom e forte trago.
A doutrina da igreja diz que eu devo me matar. Ela não diz que precisa ser uma morte
rápida, instantânea.
O jornal ainda está lá fora, na soleira da porta. A louça do café da manhã, suja. As pessoas
para quem eu trabalho viajaram, para fugir dos holofotes. Isso anos depois de eu rebobinar suas
fitas pornôs alugadas e lavar suas roupas manchadas. Ele trabalha em banco. Ela trabalha em
banco. Eles têm carros. Eles possuem esta linda casa. Eles me têm para arrumar sua cama e
cortar a grama. A verdade mesmo, eles provavelmente viajaram para não chegar em casa uma
noite e me encontrar morto no chão da cozinha.
As quatro linhas de telefone deles estão cheias. O Dawn Williams Show. Barbara Walters.
O agente me diz para pegar um espelho de mão e treinar um olhar sincero e inocente.
Uma das pastas de papel manilha tem o meu nome na etiqueta. A primeira folha dentro da
pasta traz as informações básicas das pessoas que sobreviveram à tragédia da colônia da Igreja
do Credo.
O agente está dizendo: propaganda de produtos.
O agente está dizendo: o meu próprio programa religioso.
Está documentado na pasta como, durante mais de duzentos anos, os norte-americanos
consideraram os membros da Igreja do Credo as pessoas mais devotas, trabalhadoras, decentes
e sensíveis da Terra.
O agente está dizendo: um adiantamento de um milhão de dólares pela minha história
publicada em livro.
A folha de trás diz que, há dez anos, um xerife local entregou aos anciãos da Igreja do
Credo um mandado de busca. Havia acusações de abuso de crianças. Era uma alegação
anônima e maluca de que as famílias da colônia da igreja tinham filhos e filhos e mais filhos. E
nenhuma dessas crianças era registrada, não havia certidões de nascimento, registro seguro
social, nada. Todas essas crianças freqüentavam as escolas do distrito da igreja. Nenhuma delas
teria permissão para casar ou ter filho Quando faziam dezessete anos, eram batizadas como
membros adultos da igreja e enviadas para o mundo.
Isso tudo havia se tornado de conhecimento público.
O agente está dizendo: o meu próprio vídeo de exercícios.
O agente está dizendo: uma exclusiva de capa para a revista People.
Alguém vazou esses boatos malucos para algum peão do juizado de menores e logo em
seguida o xerife e mais dois carros cheios de delegados foram despachados para o distrito da
igreja no município de Bolster, Nebraska, a fim de fazer a contagem e tornar tudo oficial. Foi o
xerife quem chamou o FBI.
O agente ao telefone está dizendo: o circuito dos talk shows. O FBI ficou sabendo que os
jovens enviados para o mundo eram considerados missionários trabalhando para a Igreja do
Credo. A investigação do governo chamou de escravidão branca. Apresentadores de televisão
chamaram de Culto das Crianças Escravas.
Esses jovens eram empregados ao fazerem dezessete anos por inspetores da Igreja do
Credo no mundo exterior, que lhes arrumavam empregos como trabalhadores manuais e
domésticos, pagos em dinheiro vivo. Empregos temporários que poderiam durar anos.
Os jornais chamaram de Igreja do Trabalho Escravo.
O distrito da igreja embolsava a grana e o mundo exterior ganhava um exército de
empregadas, jardineiros, lavadores de pratos e pintores de parede cristãos e honestos, que
haviam sido criados acreditando que a única forma de salvar a alma era trabalhar até morrer por
nada além de cama e comida.
O agente está dizendo: uma coluna no jornal.
Quando o FBI chegou para fazer as prisões, eles encontraram toda a população da colônia
trancada na casa de culto. Talvez a mesma pessoa que inventou essa história maluca de crianças
escravizadas por dinheiro tenha avisado a colônia de que o governo faria uma invasão. Toda as
fazendas do município de Bolster estavam desertas. Depois descobriu-se que todas as vacas,
porcos, galinhas, pombos, gatos e cães estavam mortos. Mesmo os peixes dourados foram
envenenados em seus aquários. Todas das as fazendinhas dos membros da Igreja do Credo, com
suas casinhas brancas e seus estábulos vermelhos, estavam em silêncio quando a Guarda
Nacional passou. Todas as plantações de batata estavam silenciosas e vazias, sob um céu azul
de poucas nuvens.
O agente está dizendo: o meu próprio Especial de Natal.
De acordo com o relatório, aqui com a pasta de papel manilha, a mesa da cozinha, a
assistente social fazendo as camas lá em cima e o calor do isqueiro conforme acendo outro
cigarro, essa prática de enviar missionários para trabalhar acontecia havia mais de cem anos. A
Igreja do Credo ficou mais rica, comprou mais terras e teve mais filhos. Mais crianças sumiam
do vale todos os anos. As garotas eram despachadas na primavera; os rapazes, no outono.
O agente está dizendo: o meu próprio perfume.
O agente está dizendo: minha própria linha de Bíblias autografadas.
Os missionários eram invisíveis no mundo exterior. A igreja não se preocupava em pagar
impostos. De acordo com a doutrina da igreja, a coisa mais nobre que você podia fazer era
simplesmente cumprir seu trabalho e esperar viver o suficiente para dar ao distrito um grande
lucro. O restante da sua vida era para ser um fardo, fazendo a cama de outras pessoas. Cuidando
do filho de outras pessoas. Cozinhando para outras pessoas.
Para todo o sempre.
Trabalhar sem parar.
O plano era, aos poucos, criar um paraíso do Credo adquirindo o mundo todo um hectare
por vez.
Até que as vans do FBI pararam aos cem metros oficiais da porta da casa de culto da
igreja. O ar estava parado, de acordo com a investigação oficial do massacre. Nenhum som
vinha da igreja.
O agente está dizendo: fitas de auto-ajuda.
O agente está dizendo: Caesars Palace.
Foi aí que o mundo inteiro começou a chamar a Igreja do Credo de o Culto de Morte do
Velho Testamento.
A fumaça do cigarro passa pela minha garganta e se aloja, pesada meu peito. As pastas da
assistente social documentam os errantes, Clientes do Programa de Apoio aos Sobreviventes
número Sessenta e Três Bidd Patterson, idade aproximada, vinte e nove anos, se matou
ingerindo solvem de limpeza três dias após o incidente da colônia do distrito.
Cliente do Programa de Apoio Tender Smithson, quarenta e cinco anos, se matou pulando
da janela do edifício onde trabalhava com zelador.
O agente está dizendo: a minha própria linha de salvação disque 0-300.
A fumaça quente e densa dentro de mim causa uma sensação que eu teria se tivesse uma
alma.
O agente está dizendo: o meu próprio infomercial.
As pessoas escurecidas e inchadas em sua entrega. Filas longas de pessoas que o FBI
retirou, mortas, da casa de orações, estão lá deitadas e escurecidas com o cianeto de sua última
comunhão. São essas as pessoas que eles preferiram matar a encontrar, o que quer que eles
tenham imaginado que elas seriam.
Eles morreram juntos, numa só massa, segurando uns aos outros pela mão com tanta força
que o FBI teve que quebrar os dedos de todos eles para separá-los.
O agente está dizendo: celebridade, astro.
A doutrina da igreja determina que neste momento, enquanto a assistente social está
longe, eu pegue uma faca no meio da louça na pia e corte a minha traquéia. Eu deveria espalhar
as minhas entranhas pelo chão da cozinha.
O agente diz que vai cuidar do assédio do Dawn Williams Show e da Barbara Walters.
Entre os falecidos há uma pasta de papel manilha com o meu nome. Nela, eu escrevo:
O Cliente do Programa de Apoio aos Sobreviventes número Oitenta Quatro perdeu todos
a quem amava e tudo que dava significado à sua vida. Ele está cansado e dorme quase o tempo
todo. Começou a beber e a fumar. Não tem apetite. Raramente toma banho e não faz a barba há
semanas.
Há dez anos, ele era o sal trabalhador da Terra. Tudo que ele queria ir para o Paraíso.
Sentado aqui, hoje, tudo aquilo para o qual ele trabalhou está perdido. Todas as suas regras e
controles desapareceram.
Não há Inferno. Não há Paraíso.
Ainda assim, cresce nele a idéia de que agora qualquer coisa é possível.
Agora ele quer tudo.
Fecho a pasta e coloco-a de volta na pilha.
Só entre nós dois, o agente pergunta, há alguma possibilidade de eu me matar em breve?
Olhando para cima através do meu gim-tônica, os rostos sulcados de todas as pessoas do
meu passado estão mortos nas fotos do governo sob o meu drinque. Após momentos como este,
sua vida vira moleza.
Encho meu copo.
Acendo outro cigarro.
Sério, minha vida não tem mais sentido. Estou livre. Isso e ainda vou herdar oito mil
hectares no Nebraska.
A sensação é a mesma de dez anos atrás, quando fui com a polícia até a delegacia. E, mais
uma vez, sou fraco. E a cada minuto que passa, eu me distancio da minha salvação e avanço no
futuro.
Matar-me?
Obrigado, eu digo. Não, obrigado.
Ninguém aqui precisa ter pressa.
30
O que passei a manhã toda dizendo à polícia é que deixei a assistente social ainda viva e
esfregando os tijolos ao redor da lareira no gabinete. O problema é que o cano da chaminé não
abre direito e a fumaça sai pela frente. As pessoas para quem eu trabalho queimam madeira. O
que eu digo à polícia é que sou inocente.
Não matei ninguém.
De acordo com minha agenda, eu devia ter limpado os tijolos ontem
Meu dia está mesmo atribulado.
Primeiro a polícia fica me perguntando por que eu matei minha assistente social. Depois o
agente liga para me prometer o mundo. Fertility Fertility, Fertility está longe daqui. Digamos
que estou meio preocupado com o trabalho dela. Além disso, eu preferiria não saber da tristeza
que seria o meu futuro.
Então me tranco no banheiro para tentar entender o que está acontecendo. O banheiro
verde do andar de baixo.
Meu depoimento para a polícia foi de que a assistente social estava morta, de rosto para
baixo, sob os tijolos na frente da lareira do gabinete, ainda com sua calça capri preta toda
amassada na bunda pela forma como caiu. Sua camisa branca estava para fora da calça, com as
mangas enroladas até acima dos cotovelos. O ambiente estava repleto de gás clorídrico mortal,
e a esponja ainda estava apertada dentro da sua mão branca e morta.
Antes disso, subi pela janela do porão que deixamos aberta para poder ir e vir sem que as
pessoas da televisão ficassem me seguindo com suas câmeras, seu café em copinhos de papel e
sua preocupação profissional, como se eles recebessem dinheiro suficiente para se importar.
Como se não tivessem histórias assim para cobrir a cada dois dias. Têm.
Então estou trancado no banheiro e agora a polícia está do lado de fora da porta para
perguntar se estou vomitando e dizer que o homem para quem eu trabalho está no interfone
perguntando como se come uma salada.
A polícia está me perguntando, você e a assistente social brigaram?
Olhem a minha agenda de ontem, digo a eles. Não tivemos tempo.
Do início do dia até as oito da manhã, eu devia ter calafetado as janelas. A agenda está
aberta no balcão da cozinha, ao lado do interfone. Eu devia estar pintando os aros.
Das oito até as dez, eu estava limpando as manchas de óleo da entra da da garagem. Das
dez até o almoço, era para eu podar as sebes. Do almoço até as três era para varrer as varandas.
Das três as cinco era para trocar a água de todos os arranjos de flores. Das cinco às sete era para
esfregar os tijolos da lareira.
Cada minuto da minha vida era predeterminado, e estou farto disso.
Parece que sou apenas mais uma tarefa na agenda de Deus: a Renascença Italiana marcada
para logo após a Idade Média.
Para tudo há um tempo.
Para cada moda, mania, fase. Gira, gira, gira.
Eclesiastes, capítulo 3, versículo de tal a tal.
A Era da Informação é marcada para imediatamente após a Revolução Industrial. Depois a
Era Pós-Moderna, depois os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Fome. Visto. Peste. Visto.
Guerra. Visto. Morte. Visto. E entre os grandes eventos, os terremotos e as tempestades. Deus
me enfiou como figurante. Depois, talvez em trinta anos, ou quem sabe no ano que vem, a
agenda de Deus determinará que eu morra.
Pela porta do banheiro a polícia está me perguntando, você bateu nela? A assistente
social? Você roubou os arquivos dela e o MDE que ela possuía? Todos os arquivos dela
sumiram.
Ela bebeu, é o que eu digo a eles. Ela tomava remédios psicotrópicos. Ela misturava água
sanitária com amoníaco em áreas fechadas e sem ventilação. Não sei o que ela fazia em seu
tempo livre, mas ela dizia que namorava uma grande variedade de canalhas.
E ela estava com esses arquivos ontem.
A última coisa que eu disse a ela é que não dá para limpar tijolos sem usar jato de areia,
mas ela achava que ácido muriático resolveria. Um de seus namorados jurava que sim.
Quando subi pela janela do porão hoje de manhã, ela estava morta no chão, com o gás
clorídrico e o ácido muriático espalhados pela parede de tijolos, que continuava suja, só que
agora ela fazia parte da sujeira.
Entre sua calça capri preta e suas meias brancas e sapatos vermelhos, os músculos de sua
panturrilha parecem macios e brancos, e tudo nela que antes era vermelho agora está azul, os
lábios, as cutículas, a borda dos olhos.
A verdade é que não matei a assistente social, mas fico feliz que alguém o tenha feito. Ela
era minha única ligação com os últimos dez anos. Ela era a última coisa que me prendia ao meu
passado.
A verdade é que você pode ficar órfão várias vezes.
A verdade é que você ficará.
E o segredo é que isso machuca cada vez menos, até o ponto em que você não sente mais
nada.
Vá por mim.
Vendo-a caída lá, morta, após nossos dez anos de conversas francas semanais, a primeira
coisa que me veio à cabeça foi que eu tinha mais uma coisa para limpar.
A polícia está me perguntando pela porta do banheiro, por que você preparou vários
daiquiris de morango antes de ligar para eles?
Porque as framboesas acabaram.
Por que, eles não vêm? Não importa. O tempo não faria diferença.
Pense nisso como um treinamento valioso. Pense na sua vida como uma piada maldosa.
Como se chama uma assistente social que odeia o seu trabalho e perde todos os clientes?
Morta.
Como se chama a polícia fechando-a dentro de um grande saco preto? Morta.
Como se chama a repórter de televisão na frente da sua casa? Morta.
Não importa. A piada é que todos terminamos do mesmo jeito.
O agente está aguardando na linha um com o que parece ser um futuro novo a me
oferecer.
O homem para quem eu trabalho está gritando no interfone que ele está num almoço de
negócios num restaurante e está ligando do celular do banheiro porque não sabe como comer a
salada de corações de palma.
Ei, eu grito de volta. Eu também.
Estou escondido no banheiro, quero dizer.
Há uma certa alegria sombria quando a única pessoa que conhece todos os seus segredos
finalmente morre. Os seus pais. O seu médico. sua terapeuta. A sua assistente social. O sol está
entrando pela janela do banheiro, tentando nos mostrar que estamos todos sendo idiotas. Basta
olhar em volta.
O que eles te ensinam na colônia do distrito da igreja é não desejar nada. Mantenha um
semblante sereno e calmo. Preserve uma postura e comportamento humildes. Fale num tom
simples e tranqüilo.
E vejam só no que deu a filosofia deles.
Todos mortos. Eu vivo. A assistente social morta. Todos mortos.
Nada mais a declarar.
Aqui no banheiro tem lâminas. Tem iodo para beber. Tem pílulas para dormir. Você tem
uma escolha. Viver ou morrer.
Cada respiração é uma escolha.
Cada minuto é uma escolha.
Ser ou não ser.
Cada vez que você não se joga escadaria abaixo é uma escolha. Cada vez que você não
bate o carro, você se alista de novo.
Se eu deixasse o agente me tornar famoso, isso não traria nada de importante.
Como se chama um membro da Igreja do Credo que tem seu próprio talk show?
Morto.
Como se chama um membro da Igreja do Credo que anda de limusine e come carne?
Morto.
Em qualquer direção que eu vá, não tenho nada a perder.
De acordo com minha agenda, eu devia queimar zinco na lareira para limpar a fuligem da
chaminé.
Do lado de fora da janela do banheiro, o sol observa os policiais com a assistente social
enfiada dentro de um saco de borracha amarrado a uma maca, que eles levam pela calçada até a
ambulância com as luzes apagadas.
Durante um longo tempo após eu encontrá-la, fiquei de pé ao lado do corpo, bebendo o
meu daiquiri de morango e observando-a lá caída, azulada e de rosto para baixo. Não era
preciso ser uma Fertility Hollis para saber que isso aconteceria. O seu cabelo preto saía da
bandana vermelha ao redor da cabeça. Uma baba havia escorrido do canto de sua boca e caído
sobre os tijolos. Seu corpo inteiro parecia coberto por pele morta
O tempo todo dava para adivinhar que isso aconteceria. Um dia isso vai acontecer com
todos nós.
Comportar-me não ia adiantar mais. Era hora de arrumar confusão.
Então preparei outro liqüidificador cheio de daiquiri e liguei para a policia, e disse a eles
para não se apressarem, ninguém aqui iria a lugar nenhum.
Depois liguei para o agente. A verdade é que sempre houve alguém para me dizer o que
fazer. A igreja. As pessoas para quem eu trabalho A assistente social. E eu não suporto a idéia
de ficar sozinho. Não suporto imaginar que estou livre.
O agente me mandou esperar e dar o meu depoimento à polícia. Assim que eu pudesse
sair, ele mandaria um carro. Uma limusine.
Os meus adesivos em preto e branco ainda estão por toda a cidade dizendo às pessoas:
Dê a você, à sua vida, mais uma chance. Ligue e receba a minha ajuda. E o número do
meu telefone.
Bem, todas essas pessoas desesperadas estavam sozinhas.
A limusine me levará até o aeroporto, o agente disse. O avião me levará até Nova York. Já
tinha uma equipe de pessoas que eu nunca vi, pessoas em Nova York que não sabiam nada
sobre mim, escrevendo minha biografia. O agente disse que os seis primeiros capítulos seriam
enviados por fax para mim na limusine para eu lembrar da minha infância antes de dar qualquer
entrevista.
Eu disse ao agente que já sabia da minha infância.
Ao telefone, ele comentou: "A versão escrita ficou melhor".
Versão?
"Teremos uma versão ainda mais quente para o filme." O agente diz: "Quem você quer
que seja você?".
Eu quero ser eu.
"No filme, quero dizer."
Peço a ele para aguardar, por favor. Ser famoso já estava me trazendo menos liberdade e
mais decisões a tomar, e tarefa após tarefa. O sentimento não é tão legal, mas é familiar.
Aí a polícia chegou e entrou no gabinete onde estava a assistente social morta, tirando
fotos dela de ângulos diferentes e pedindo que eu largasse meu drinque para que eles pudessem
me perguntar sobre a noite anterior.
Foi exatamente aí que me tranquei no banheiro e tive o que os livros de psicologia
chamariam de uma breve crise existencial.
O homem para quem eu trabalho liga do banheiro de um restaurante perguntando da
salada de corações de palma, e o meu dia fica mais ou menos completo.
Viver ou morrer?
Saio do banheiro, passo pelos policiais e vou direto para o telefone. Para o homem para
quem trabalho, digo que use o garfo de salada. Espete cada um dos corações. Dentes para
baixo. Leve-os à boca e chupe o caldo. Depois, coloque o coração de palma no bolso da jaqueta
do seu terno listrado da Brooks Brothers.
Ele diz: "Entendi". E o meu emprego nesta casa já era.
Com uma mão eu seguro o telefone, e com a outra aceno para o policial colocar mais rum
na próxima rodada de daiquiris.
O agente me diz para não levar malas. Já tem um estilista em Nova York montando um
guarda-roupa de peças religiosas esportivas de aniagem de algodão que eles querem que eu
promova.
Mala me faz lembrar de hotel, que me faz lembrar de candelabros, que me fazem lembrar
de desastres, que me fazem lembrar de Fertility Hollis. Ela é a única coisa que estou deixando
para trás. Só a Fertility sabe algo sobre mim, mesmo que não saiba muito. Talvez ela conheça
meu futuro, mas não conhece meu passado. Ninguém conhece meu passado.
Exceto, talvez, pelo Adam.
Entre os dois, eles sabem mais sobre a minha vida do que eu.
De acordo com meu itinerário, o agente diz, o carro estará aqui em cinco minutos.
E hora de continuar vivendo.
E hora de se alistar de novo.
Na limusine deve ter óculos escuros. Quero passar incógnito, claro. Quero assentos de
couro preto e vidros fume. Digo ao agente que quero uma multidão no aeroporto gritando meu
nome. Quero mais drinques de liqüidificador. Quero um personal trainer. Quero perder sete
quilos. Quero meu cabelo mais cheio. Quero meu nariz menor. Jaquetas nos dentes. Um furinho
no queixo. Maçãs do rosto mais salientes. Quero uma manicure e bronzeamento artificial.
Tento lembrar do que mais a Fertility não gosta na minha aparência.
29
Estou mais ou menos sobrevoando o Estado de Nebraska quando lembro de que esqueci
meu peixe.
E ele deve estar com fome.
É parte da tradição da Igreja do Credo que mesmo os missionários tenham algo, um gato,
um cachorro ou um peixe para cuidar. Na maioria das vezes era um peixe. Alguma coisa que
precisasse de você em casa, à noite. Algo que te impedisse de viver sozinho.
O peixe era para me manter assentado num lugar. De acordo com a doutrina da colônia da
igreja, é por isso que os homens casam-se com mulheres e estas têm filhos. É para você
construir a sua vida ao redor deles.
É louco, mas você investe todas as suas emoções num peixinho dourado mesmo depois de
seiscentos e quarenta peixes dourados, e você não consegue simplesmente deixar o bichinho
morrer de inanição.
Digo à aeromoça, preciso voltar, enquanto ela se desvencilha da minha mão segurando-a
pelo cotovelo.
Um avião são várias fileiras de pessoas sentadas e todas indo na mesma direção, bem
acima do chão. Ir para Nova York é muito parecido com o que eu imaginei que seria ir para o
Paraíso.
Tarde demais, a aeromoça diz. Senhor. Não há paradas. Senhor. Talvez, depois de
aterrissarmos, ela diz, eu possa ligar para alguém. Senhor.
Mas não há ninguém.
Ninguém atenderá.
Não o síndico do prédio.
Não a polícia.
A aeromoça puxa o cotovelo. Ela me olha brava e se afasta pelo corredor.
Todas as pessoas para quem eu poderia ligar estão mortas.
Então eu ligo para a única pessoa que pode ajudar. Ligo para a última pesssoa com quem
eu queria falar, e ela atende no primeiro toque.
Uma telefonista pergunta se ela aceita a ligação a cobrar, e em algum lugar, a centenas de
quilômetros atrás de mim, Fertility diz que sim.
Eu digo oi, ela diz oi. Ela não parece surpresa.
Ela pergunta: "Por que você não foi à catacumba do Trevor hoje? Nós tínhamos um
encontro".
Esqueci, eu disse. Minha vida inteira passei esquecendo. É a minha habilidade
profissional mais valiosa.
É o meu peixe, eu digo. Ele vai morrer se ninguém o alimentar. Talvez não pareça
importante para você, mas esse peixe significa o mundo para mim. Neste momento, o peixe é a
única coisa que eu amo, e Fertility precisa ir lá dar comida para ele, ou melhor, levá-lo para
viver com ela.
"Tá", ela diz. "Claro. O seu peixe."
E. E ele precisa ser alimentado todos os dias. Tem o tipo de ração que ele gosta perto do
aquário, em cima da minha geladeira, e dou meu endereço a ela.
Ela diz: "Aproveite a viagem para se tornar um grande líder espiritual internacional".
Estamos conversando cada vez mais distantes um do outro, enquanto o avião me leva para
o leste. As provas dos capítulos da minha biografia estão no assento ao lado do meu, e o que
está escrito nelas é inacreditável.
Eu pergunto, como você soube?
Ela diz: "Eu sei muito mais do que você imagina".
Tipo o quê, por exemplo? Eu pergunto, o que mais ela sabe?
Fertility diz: "Do que você tem medo que eu saiba?".
A aeromoça passa para o outro lado da cortina e diz: "Ele está preocupado com um peixe
dourado". Umas mulheres atrás da cortina riem e uma delas pergunta: "Ele é retardado?".
Tanto para as aeromoças quanto para Fertility, eu digo, o que acontece é que sou o último
sobrevivente de um culto religioso quase extinto.
Fertility diz: "Sorte sua".
Eu digo, e jamais poderei vê-la de novo.
"Sim, sim, sim."
Eu digo, eles me querem em Nova York amanhã. Eles estão planeja do algo grande.
E Fertility comenta: "Claro que estão".
Eu digo, sinto muito, mas não vou mais poder dançar com você
E Fertility diz: "Vai, sim".
Já que ela sabe tanto, pergunto a ela, qual o nome do meu peixe?
"Número seis, quatro, um."
E, milagre dos milagres, ela está certa.
"Não tente esconder seus segredos", ela diz. "Com todos os sonhos que ando tendo todas
as noites, nada mais me surpreende."
28
Após os primeiros cinqüenta degraus da escada, não consigo mais manter o fôlego. Meus
pés flutuam atrás de mim. Meu coração bate contra as minhas costelas, pulando dentro do meu
peito. Minha boca e minha língua estão pesadas e ressecadas.
Estou numa dessas máquinas de step que o agente mandou instalar.
Você sobe e sobe sem parar e não sai do chão. Você está trancado num quarto de hotel. É
a experiência mística ritualística do nosso tempo, a única visão indiana que podemos encaixar
na nossa agenda.
A nossa StairMaster para o Céu.
Por volta do sexagésimo andar, o suor rola da minha camisa até os joelhos. Meus pulmões
parecem uma meia de náilon esticada e prestes a rasgar. Por dentro. Uma ruptura. Parecendo
um pneu antes de estourar, é assim que meus pulmões estão. O cheiro que você sente quando o
aquecedor elétrico ou o secador de cabelo queima, é assim que a minha orelha está quente.
Estou fazendo isso porque o agente disse que preciso perder treze quilos para que ele me
torne famoso.
Se o seu corpo é o seu templo, você não pode deixar de fazer a manutenção. Se o corpo é
um templo, o meu estava em ruínas.
De alguma forma, eu devia ter previsto isso.
Do mesmo modo que toda geração reinventa Cristo, o agente me faz uma recauchutagem.
O agente diz que ninguém vai cultuar uma pessoa que tem pneuzinhos. Hoje, as pessoas não
vão lotar estádios para ouvir a pregação de alguém que não seja bonito.
Por isso estou indo a parte alguma na velocidade de setecentas calorias por hora.
Por volta do octogésimo andar, minha bexiga parece um ovo alojado na minha bacia.
Quando você retira o invólucro de plástico de um alimento aquecido no microondas e o vapor
queima os seus dedos, é assim que rainha respiração está quente.
Você sobe e sobe e sobe e não chega a lugar nenhum. É a ilusão do progresso. Você pensa
na sua salvação.
O que as pessoas esquecem é que uma jornada rumo ao vazio começa com um simples
passo também.
Não é que o grande espírito do coiote se apodere de você, mas por volta do octogésimo
primeiro andar, esses pensamentos soltos saídos do ozônio tomam a sua cabeça. As tolices que
o agente te disse agora fazem sentido. O que você sente quando está esfregando com o vapor
puro do amoníaco, exatamente quando você está esfregando a pele de frango da grelha da
churrasqueira, cada tolice desse mundo, café descafeínado, cerveja sem álcool, StairMasters,
tudo faz sentido, não porque você fica mais inteligente, mas porque a parte pensante do seu
cérebro está de férias. É uma espécie de sabedoria falha. Uma espécie de inspiração de comida
chinesa, que você sabe que, dez minutos após sua mente clarear, você já esqueceu tudo.
Aqueles saquinhos de plástico com amendoins torrados que te vem no avião em vez de
comida de verdade, os meus pulmões estão como eles. Após oitenta e cinco andares, o ar fica
escasso. Seus braços balançam, seus pés batem pesado a cada passo. Nesse ponto, todos os se
pensamentos são muito profundos.
Da mesma forma como bolhas se formam na panela de água antes da fervura, essas visões
simplesmente aparecem.
Por volta do nonagésimo andar, qualquer pensamento é uma epifania
Paradigmas dissolvem-se por todos os lados.
Tudo que é comum torna-se uma metáfora poderosa.
O significado mais profundo de todas as coisas está bem na sua cara
E é tudo tão significativo!
É tudo tão profundo!
Tão real!
Tudo que o agente me disse faz sentido. Por exemplo, se Jesus Cristo tivesse morrido
numa prisão, sem ninguém o observando, sem ninguém para lamentar ou torturá-lo, Ele teria
sido salvo?
Com todo o respeito.
De acordo com o agente, o fator mais importante para você virar um santo é a quantidade
de espaço que você tem na imprensa.
Por volta do centésimo andar, tudo se torna claro. O universo inteiro, e não são só as
endorfinas falando. Passando do centésimo andar, você entra num estado místico.
Da mesma forma que uma árvore cai na floresta e ninguém está la para ouvir, você se dá
conta de que, se ninguém estivesse lá para testemunhar a agonia de Cristo, será que Ele teria
sido salvo?
A chave para a salvação é a quantidade de atenção que você recebe. Se você é uma
personalidade. Se tem audiência. Se tem exposição. Se seu nome é reconhecido. Se a imprensa
fala de você.
A fofoca.
Por volta do centésimo andar, o suor encharca seu cabelo. Os mecanismos tediosos de
funcionamento do seu corpo estão ativados, seus pulmões sugam o ar e o mandam para o
sangue, o coração bombeia o sangue para os seus músculos, os seus tendões se contraem,
apertando-se para elevar suas pernas, seus quadríceps contraem-se para elevar seus joelhos. O
sangue fornece o ar e o alimento para serem queimados dentro da mito-sei-lá-o-quê existente no
centro de cada célula dos seus músculos.
O esqueleto é só uma forma de manter o tecido em pé. O seu suor é só uma maneira de
resfriar o corpo.
As revelações vêm até você de todas as direções.
Por volta do centésimo quinto andar, você não acredita como pode ser escravo desse
corpo, desse bebezão. Você precisa alimentá-lo, colocá-lo na cama e levá-lo ao banheiro. Você
acha incrível não termos inventado algo melhor. Algo menos dependente. Que não consuma
tanto tempo.
Você percebe que as pessoas tomam drogas porque é a única aventura pessoal de verdade
que resta nesse mundo sem tempo, de lei e ordem, delimitado por propriedades.
Somente nas drogas e na morte nós vemos algo novo, e a morte é controladora demais.
Você percebe que não há razão para fazer nada se não tem ninguém observando.
Você se pergunta, se não tivesse aparecido quase ninguém na crucificação, será que eles
teriam adiado?
Você se dá conta de que o agente estava certo. Você nunca viu um crucifixo com um
Jesus que não estivesse quase nu. Você nunca viu um Jesus gordo. Ou um Jesus com pêlos no
corpo. Em todos os crucifixos que você já viu, Jesus parece um modelo num comercial de jeans
ou de perfume masculino.
Á vida é exatamente como o agente disse. Você compreende que, se não tem ninguém
vendo, é melhor ficar em casa. Masturbe-se. Assista à televisão.
E por volta do centésimo décimo andar que você percebe que se não esta no vídeo, ou
melhor, ao vivo, via satélite, diante de todo o mundo, você não existe.
Você é aquela árvore caindo na floresta para a qual todos estão pouco se fodendo.
Não importa se você fez algo. Se ninguém viu, sua vida se torna um zero. Um nada.
Falsas ou não, são grandes verdades como essas que fervilham dentro de você.
Você percebe que a nossa desconfiança em relação ao futuro torna difícil abandonar o
passado. Não podemos abandonar nosso conceito de quem éramos. Todos aqueles adultos
brincando de arqueólogos nos bazares, procurando objetos da infância, joguinhos, CandyLand,
Twister, ele estão apavorados. Porcarias tornam-se relíquias sagradas. Namorado Secreto.
Bambolê. Sentimos saudade daquilo que jogamos no lixo porque temos medo de evoluir.
Crescer, mudar, perder peso, nos reinventar. Adaptar-nos.
É isso que o agente me diz ao lado da StairMaster. Ele está gritando para mim: "Adaptese!".
Tudo está acelerado exceto eu e o meu corpo suado, com seus movimentos intestinais e
cheio de pêlos. Minhas verrugas e unhas do pé amareladas. E percebo que estou preso no meu
corpo, e ele já está caindo aos pedaços. Minha espinha dorsal parece que está sendo martelada
com ferro quente. Meus braços balançam, finos e molhados, de cada lado do meu corpo.
Como a mudança é constante, você se pergunta se as pessoas desejam a morte porque é a
única forma de terminar alguma coisa.
O agente está gritando que não importa quão bonito você seja, seu corpo é apenas algo
que você usa para ir receber o seu prêmio da Academia.
Sua mão só serve para você segurar o prêmio Nobel.
Seus lábios só existem para você mandar um beijinho para o apresentador do talk show.
E é bom que você esteja em forma.
É por volta do centésimo vigésimo andar que você precisa rir. Você vai perder mesmo. O
seu corpo. Você já o está perdendo. É hora de apostar tudo.
Por isso, quando o agente chega para você com esteróides anabolizantes, você diz sim.
Você diz sim para as sessões de bronzeamento artifiial. Eletrólise? Sim. Jaqueta nos dentes?
Sim. Dermabrasão? Sim. Peelimg químico? Sim. De acordo com o agente, o segredo para se
tornar famoso e continuar dizendo sim.
27
É dentro do carro, a caminho do aeroporto, que o agente me mostra me a sua cura para o
câncer. Ela se chama ChemoSolv. Dissolve o tumor, ele diz, e abre sua pasta para retirar um
frasco marrom com cápsulas escuras dentro.
Estou voltando um pouco no tempo, para antes da máquina de step, quando encontrei pela
primeira vez o agente, no dia em que ele foi me buscar no aeroporto de Nova York. Antes de
ele ter me dito que ainda estou gordo demais para ser famoso. Antes que eu vire um produto a
ser lançado. Já está escuro quando meu avião pousa em Nova York. Não é nada espetacular. É
noite, com a mesma lua que temos na nossa cidade, e o agente é um cara normal, me esperando
na saída do avião, usando óculos e com o cabelo castanho repartido de lado.
Nós apertamos as mãos. Um carro encosta no meio-fio lá fora e entramos no banco de
trás. Ele levanta as pernas das calças segurando-as nos vincos ao entrar no carro. Ele parece ter
sido feito por encomenda.
O agente parece eterno e durável. Só de encontrá-lo sinto a mesma culpa de quando
compro algo impossível de ser reciclado.
"Nossa outra cura para o câncer chama-se Oncologic", ele diz, e me passa outro frasco
marrom, sentado comigo no banco de trás. É um carro bacana, com bancos de couro preto e
todo acolchoado por dentro. A viagem é mais suave que a que fiz de avião.
Dentro do segundo frasco há mais cápsulas escuras, e colado nele está um rótulo de
farmácia desses comuns. O agente retira da pasta outro frasco.
"Este é uma de nossas curas para a AIDS", ele anuncia. "É o nosso produto mais
vendido." Ele continua retirando frasco após frasco de dentro da pasta. "Aqui temos nossa cura
para a tuberculose resistente a antibióticos. Este é para cirrose hepática. Este é para o mal de
Alzheimer. Neurite múltipla. Mieloma múltiplo. Esclerose múltipla. Rinovírus", ele continua,
balançando cada um dos frascos para que as pílulas lá de chacoalhem, e depois os passa para
mim.
ViralSept, está escrito num frasco.
MaligNon, noutro.
CerebralSave.
Kohlercaine.
Palavras sem sentido.
São frascos marrons todos do mesmo tamanho, com tampinhas de segurança brancas e
rótulos da mesma farmácia.
O agente chegou empacotado num terno de lã cinza tamanho médio trazendo apenas sua
pasta. Ele tem dois olhos castanhos atrás dos óculos. Uma boca. Unhas limpas. Nada é
excepcional nele, exceto o que ele está me contando.
"Fale qualquer doença", ele diz, "e temos uma cura pronta para ela." Ele retira mais duas
mãos cheias de frascos marrons da pasta e os chacoalha. "Eu trouxe isto tudo para te provar."
A cada segundo, o carro em que estamos desliza mais e mais na escuridão em direção a
Nova York. Ao nosso redor, outros carros marcam passo. Digo que fico surpreso que todas
essas doenças ainda existam no mundo.
"É uma pena", o agente comenta, "o fato de a tecnologia médica ainda estar tão atrasada
em relação ao marketing. Puxa, fazemos nossas promoções de vendas há anos, as canecas de
presente para os médicos, os anúncios em revistas, o lançamento dos produtos, mas é a mesma
cantilena de sempre. As pesquisas estão atrasadas em anos. Os macacos de laboratório ainda
morrem feito moscas."
Suas duas fileiras de dentes perfeitos parecem ter sido encaixadas em sua boca por um
joalheiro.
As pílulas para AIDS parecem iguais às pílulas para câncer, iguais as pílulas para diabete.
Eu pergunto, então essas coisas ainda não foram inventadas?
"Não vamos usar essa palavra, 'inventadas'", o agente diz. "Faz tudo parecer travado
demais."
Mas elas não são de verdade?
"Claro que são de verdade", ele contesta, e arranca os dois frascos da minha mão. "São
registradas. Temos quase mil e quinhentos nomes registrados de produtos que ainda estão em
fase de desenvolvimento", ele me informa. "E isso inclui você."
Ele diz: "É exatamente disso que eu falo".
Ele está desenvolvendo a cura para o câncer?
"Somos uma organização de relações públicas barra marketing total", ele diz. "Nosso
trabalho é criar o conceito. Você patenteia um medicamento. Você registra o nome. Assim que
alguém desenvolve o produto, ele vem até nós. Às vezes por escolha, às vezes não."
Eu pergunto ao agente, por que às vezes não?
"O negócio é que registramos todas as combinações de palavras imagináveis, palavras em
grego, latim, inglês, o que for. Ganhamos o direito legal sobre qualquer palavra imaginável que
as indústrias farmacêuticas possam usar num produto. Só para diabete, temos uma lista de cento
e quarenta nomes", ele me informa, e me passa várias folhas grampeadas que retira da pasta em
seu colo.
GlucoCure, eu leio.
InsulinEase.
PacreAid. Hemazine. Glucodan. Growdenase. Viro a página e frascos escorregam do meu
colo e caem no assoalho do carro, com as pílulas chacoalhando.
"Se a fábrica de remédios que criar a cura para diabete quiser usar qualquer combinação
de palavras mesmo remotamente relacionadas à doença, ela terá que as comprar de nós."
Então essas pílulas aqui, eu digo, são placebos. Abro um frasco e jogo um comprimido,
vermelho escuro brilhante, na palma da minha mão. Dou uma lambida e descubro que é uma
pastilha de chocolate. Outras são cápsulas de gelatina com açúcar dentro.
"Modelos", ele diz. "Protótipos."
O agente continua: "O que eu quero dizer é que cada passo da sua carreira conosco já está
planejado, e estamos profetizando sua chegada há mais de quinze anos".Ele diz: "Estou te
dizendo isso para você relaxar".
Mas a tragédia da Igreja do Credo foi há apenas dez anos.
E jogo uma pílula, um Geriamazone cor de laranja, na boca.
"Nós estávamos seguindo seus passos", ele diz. "Assim que os sobreviventes da Igreja do
Credo desceram para menos de cem, demos início à campanha. Essa coisa da mídia fazer a
contagem regressiva nos último seis meses, isso foi coisa nossa. Mas precisamos de alguns
ajustes. Não era nada específico a princípio, o material todo já está pronto, é só substituir o
nome, preencher os espaços em branco, essas coisas, mas estava tudo preparado. Tudo que
precisávamos era de um corpo quente e o nome do sobrevivente. E aí que você entra."
De outro frasco, retiro uma dúzia de Inazans e coloco debaixo da língua até a camada dura
se dissolver. O chocolate derrete.
O agente retira mais algumas folhas de papel e passa para mim.
Ford Merit, eu leio.
Mercury Rapture.
Dodge Vignette.
Ele diz: "Temos nomes registrados de carros que nem foram projetados, programas de
computador que nunca foram criados, curas milagrosas de epidemias que ainda estão no
horizonte, todos produtos cuja invenção possamos antecipar".
Meus dentes molares mastigam uma overdose doce de Donnadons azuis.
O agente me olha e dá um suspiro. "Já chega de calorias vazias", ele diz. "Nossa primeira
grande tarefa é modificá-lo para que você se encaixe na campanha." Ele pergunta: "Essa é a cor
do seu cabelo mesmo?".
Eu jogo um milhão de miligramas de Jodazones na boca.
"Não me leve a mal", o agente diz, "mas você está com uns treze quilos a mais do que
precisamos".
As pílulas falsas eu posso entender. O que não entendo é como eles podem começar a
criar uma campanha a partir de um evento que ainda não aconteceu. Eles não poderiam ter
planejado uma campanha antes da Libertação.
O agente retira os óculos e os dobra. Ele os guarda e toma as listas de produtos milagrosos
futuros, medicamentos e carros, e as coloca dentro de um pasta. Num cabo-de-guerra, ele retira
os frascos das minhas mãos, todos silenciosos e vazios.
"A verdade é", ele comenta, "nada de novo acontece."
Ele diz: "Nós já vimos tudo isso".
Ele diz: "Preste atenção".
Em 1653, ele diz, a Igreja Ortodoxa russa modificou alguns rituais antigos. Apenas
algumas mudanças na liturgia. Apenas palavras. A linguagem. Em russo, para piorar. Um tal de
Bispo Nikon introduziu as mudanças bem como os hábitos ocidentais que estavam se tornando
populares na corte da Rússia na época, e assim o bispo começou a excomungar aqueles que se
rebelavam contra essas mudanças.
Vasculhando no escuro, ao lado do meu pé, ele pega os outros frascos.
De acordo com o agente, os monges que não queriam modificar a forma de adoração
fugiram para mosteiros afastados. As autoridades russas os caçaram e perseguiram. Por volta de
1655, pequenos grupos de monges começaram a se matar ateando fogo ao próprio corpo. Esses
suicídios em grupo no norte europeu e na Sibéria continuaram durante a década de 1670. Em
1687, dois mil e setecentos monges tomaram um mosteiro, se trancaram lá dentro e tocaram
fogo em tudo. Em 1688, mais mil e quinhentos "Crentes Antigos" atearam fogo no próprio
corpo trancados num mosteiro. No fim do século XVII, estima-se que vinte mil monges haviam
se matado para não se submeterem ao governo.
Ele fecha a pasta e inclina-se para a frente.
"Esses monges russos continuaram a se matar até 1897", ele continua. "Isso soa familiar?"
Você tem Sansão no Velho Testamento, o agente diz. Tem os soldados Judeus que se
mataram no Masada. Tem o seppuku entre os japoneses. O sati entre os hindus. O endura entre
os catari durante o século XII no sul da França. Ele enumerava grupo após grupo na ponta dos
dedos. Teve os estóicos. Os epicureus. Teve as tribos de índios na Guiana que se mataram para
renascer como homens brancos.
"Mais próximo daqui e mais recente, o suicídio em massa no Templo do povo em 1978
deixou novecentos e doze mortos."
A tragédia do Ramo Davidiano em 1993 deixou setenta e seis mortos.
O suicídio em massa e os assassinatos na Ordem do Templo Solar e 1994 mataram
cinqüenta e três pessoas.
Os suicídios no Portal do Céu em 1997 mataram trinta e nove. "A coisa da Igreja do Credo
foi só mais um exemplo", ele afirma. "Foi apenas mais um previsível suicídio em massa num
mundo cheio de grupos dissidentes que vão se arrastando até serem confrontados. Pode ser que
o líder esteja para morrer, como foi o caso do grupo Portal do Céu, ou pode ser que eles estejam
sendo pressionados pelo governo, como aconteceu com os monges russos, o Templo do Povo
ou a Igreja do Credo."
O agente continua: "Na verdade, é um negócio bem maçante. Antecipar o futuro com base
no passado. Nós poderíamos ser uma empresa de seguros; no entanto, nosso trabalho é fazer
com que os suicídios nos cultos pareçam novos e excitantes a cada vez que acontecem".
Depois de ter conhecido Fertility, eu me pergunto se sou a última pessoa no mundo que
ainda é pega de surpresa. Fertility com seus sonhos premonitórios, esse cara com sua barba feita
e seu conhecimento histórico, eles são duas ervilhas na mesma vagem enfadonha.
"A realidade significa que você vive até morrer", o agente continua. "A verdade é que
ninguém quer a realidade."
O agente fecha os olhos e aperta a palma da mão contra a testa. "A verdade é que a Igreja
do Credo não era nada especial", ele diz. "Ela foi fundada por um grupo dissidente dos
Moleiros em 1860 durante o Grande Despertar, numa época em que apenas na Califórnia
grupos religiosos dissidentes fundaram mais de cinqüenta comunidades utópicas."
Ele abre um olho e aponta um dedo para mim. "Você tem um animal de estimação, um
pássaro ou um peixe."
Eu pergunto como ele sabe disso, do meu peixe.
"Não é necessariamente verdadeiro, mas é provável", ele responde. "A Igreja do Credo
deu aos missionários o que ficou conhecido como Privilégio do Mascote, ou seja, o direito de
possuir um animal de estimação, em 1939. Foi o ano em que uma Biddy roubou uma criança de
uma família para a qual ela trabalhava. Ter um animal de estimação serviria para sublimar a
necessidade de criar um dependente."
Uma Biddy roubou o bebê de alguém.
"Em Birmingham, no Alabama", o agente confirma. "Claro, ela se matou no minuto em
que foi descoberta."
Pergunto o que mais ele sabe.
"Você tem um problema com a masturbação."
Essa é fácil, eu digo. Ele leu isso na minha ficha do Programa de Apoio aos
Sobreviventes.
"Não", ele diz. "Para a sua sorte, todas as fichas de clientes da sua assistente social
sumiram. Nada do que dissermos sobre você será contestado. E antes que eu me esqueça, nós
tiramos seis anos da sua vida. Se alguém perguntar, você tem vinte e sete anos."
Então como você sabe sobre a minha vida, sobre mim?
"A sua masturbação?"
Os meus crimes de Onã.
"Parece que todos os missionários tinham problemas com a masturbação."
Se ele soubesse. Em algum lugar na minha ficha desaparecida está o registro do meu
exibicionismo, da minha síndrome bipolar, da minha misofobia, do meu furto a lojas etc. Em
algum lugar na noite atrás de nós, a assistente social está levando os meus segredos para o
túmulo. Em algum lugar deste mundo está o meu irmão.
Já que ele é um especialista no caso, pergunto-lhe se houve o assassinato de pessoas que
deviam ter se matado mas não o fizeram. Nessas religiões mais antigas, alguém saiu por aí
matando os sobreviventes?
"Com o Templo do Povo houve uma série de mortes inexplicáveis de sobreviventes", ele
diz. "E na Ordem do Templo Solar. Foi o problema que o governo do Canadá teve com o
Templo Solar que levou nosso governo a criar o Programa de Apoio aos Sobreviventes. Com o
Templo Solar, pequenos grupos de seguidores franceses e canadenses continuaram se suiciando
e matando uns aos outros durante anos após a tragédia original. Eles chamavam as mortes de
'Despedida'."
O agente continua: "Os membros do Temple Solaire se imolaram com gasolina e
provocaram explosões de gás propano que, segundo eles, os levariam à vida eterna na estrela
Sírius", e ele aponta para o céu noturno.`Comparado a isso, o estrago da Igreja do Credo foi
infinitamente menor."
Eu pergunto, você chegou a prever algo sobre um membro da Igreja do Credo perseguindo
e matando os últimos sobreviventes?
"Um membro sobrevivente da igreja além de você?", o agente pergunta
Sim.
"Matando pessoas, você diz?"
Sim.
Olhando lá fora para as luzes de Nova York passando, o agente diz: "Um assassino da
Igreja do Credo? Deus do céu, espero que não".
Olhando para as mesmas luzes por trás do vidro fume, para a estrela Sírius, olhando para o
meu reflexo com chocolate ao redor da boca, eu digo, é, eu também.
"Toda a nossa campanha é baseada no fato de que você é o último sobrevivente", ele diz.
"Se houver outro membro da Igreja do Credo no mundo, você está me fazendo perder meu
tempo. A campanha inteira já era. Se você não for o único membro da Igreja do Credo no
mundo, você não vale nada para nós."
Ele abre sua pasta e retira um frasco marrom. "Aqui", ele diz, "tome dois Serenadons. É o
melhor remédio contra ansiedade já inventado."
Só que ele não existe ainda.
"Basta fingir", ele retruca, "para o placebo fazer efeito." E ele joga dois comprimidos na
minha mão.
26
As pessoas vão dizer que foram os esteróides que me fizeram enlouquecer.
O Durateston 250. i^. ;
As pílulas do aborto Mifepristone da França.
O Plenastril da Suíça.
O Masterone de Portugal.
Esses são esteróides de verdade, não apenas nomes registrados de medicamentos futuros.
São os injetáveis, os comprimidos, os emplastros.
As pessoas terão certeza de que os esteróides me levaram a fazer isso, esse seqüestro
maluco do avião, eu aqui voando pelo mundo até morrer. Como se as pessoas soubessem como
é ser um líder espiritual famoso. Como se essas pessoas já não estivessem procurando um novo
guru para dar um sentido às suas vidas tediosas enquanto assistem ao noticiário na televisão e
me julgam. As pessoas estão todas procurando isso, uma mão para segurar. Segurança. A
promessa de que tudo vai ficar bem. Era tudo que elas queriam de mim. O astro aqui,
estressado, desesperado. Pressionado. Nenhuma dessas pessoas sabe como é ser um modelo de
vida famoso, glamouroso, carismático.
Quando você chega ao andar número cento e trinta você começa a delirar, a falar besteira,
a dizer coisas sem sentido.
Não que outra pessoa além de Fertility saiba o esforço diário que eu fiz para chegar a esse
ponto.
Imagine se sua vida inteira se transformasse num emprego que você não suporta.
Não, todo mundo acha que a vida deve ser pelo menos tão prazerosa quanto a
masturbação.
Eu gostaria de ver essas pessoas tentarem viver em quartos de hotéis e comer comida de
baixa caloria e fazer um trabalho convincente de fingir sentir uma grande paz interior e estar
sempre em harmonia com Deus.
Quando você fica famoso, as refeições não são mais comida; são um combustível
composto de quinhentos gramas de proteína, duzentos gramas de carboidrato, sem sal, sem
gordura, sem açúcar. Uma refeição a cada duas horas, seis vezes ao dia. Comer não é mais
simplesmente comer, é uma assimilação de proteínas.
São cremes de rejuvenescimento celular. O banho torna-se uma esfoliação. O que era
respirar vira aspirar e expirar.
Eu seria o primeiro a parabenizar quem fizesse um trabalho melhor de fingir uma beleza
sem falhas e dar mensagens vagas e inspiradoras: Relaxem. Todos vocês, respirem fundo.
Ávida é boa. Sejam justos e bondosos. Sejam o amor.
Falou.
Na maioria dos eventos, essas mensagens profundas de fé eram passadas a mim pela
equipe de redação trinta segundos antes de eu subir no palco. Era para isso que eu fazia uma
oração silenciosa na abertura. Era para dar a mim mesmo um minuto para que eu pudesse
abaixar a cabeça no palanque e ler meu script.
Cinco minutos se passam. Dez minutos. Os quatrocentos gramas de Deca-Durabolin e de
cipionato de testosterona que você tomou nos bastidores ainda são só uma pequena
protuberância arredondada na sua nádega. Os quinze mil fiéis pagantes estão de joelhos à sua
frente, com as cabeças abaixadas. Como quando uma ambulância passa zunindo numa rua
silenciosa, é assim que essas substâncias químicas entram na sua corrente sangüínea.
Comecei a usar mantos litúrgicos no palco porque com tanto Equipoise no organismo, eu
ficava metade do tempo de pau duro.
Quinze minutos se passam com todas as pessoas de joelhos.
Quando você acha que está pronto, basta dizê-la, a palavra mágica.
Amém.
E o show começa.
"Vocês são os filhos da paz num universo de vida eterna e abundância ilimitada de amor e
bem-estar, blá-blá-blá. Vão em paz."
De onde a equipe de redação tira essas coisas eu não sei.
Nem vamos falar dos milagres que eu fiz em rede nacional. O pequeno milagre que fiz no
intervalo do Super Bowl*. Todas as tragédias que eu previ, as vidas que salvei.
Você conhece o velho ditado: não é o que você conhece.
E quem você conhece.
Todos acham que é simples ser eu e aparecer na frente das pessoas num estádio, guiá-las
numa oração e depois entrar num jatinho e ir para próximo estádio num intervalo de uma hora,
o tempo todo mostrando uma aparência vibrante e saudável. Não, mas essas pessoas ainda
assim vão dizer que você enlouqueceu por ter seqüestrado um avião. As pessoas não sabem
nada sobre vibração saudável e dinamismo.
_____________________
*Super Bowl: campeonato de futebol americano dos Estados Unidos. (N. do T.)
Deixe que elas tentem encontrar o suficiente de mim para uma autópsia. Não é da conta de
ninguém se o funcionamento do meu fígado foi prejudicado. Ou se meu baço e minha vesícula
biliar estejam enormes por causa do efeito dos hormônios do crescimento. Como se elas
realmente se recusariam a injetar algo retirado das glândulas pituitárias de cadáveres se
soubessem que ficariam tão bonitas quanto eu na televisão.
Lembre-se: seu coração só bate para que você seja um convidado contumaz de jantares na
Casa Branca.
O seu sistema nervoso central só existe para que você fale na Assembléia Geral da ONU.
A anfetamina é a droga mais norte-americana. Você consegue fazer tanta coisa! Sua
aparência fica ótima e seu nome do meio vira Realização.
"O seu corpo", o agente está gritando, "ele serve de modelo para a linha de roupas
esportivas que leva a sua assinatura!"
Sua tireóide corta a produção natural de tiroxina.
Mas você continua com uma ótima aparência. E você é o Sonho Americano. Você é a
economia em constante crescimento.
De acordo com o agente, as pessoas que procuram líderes querem vibração. Elas querem
força. Querem dinamismo. Ninguém quer um deus pequeno e magrinho. Elas querem que sua
cintura tenha setenta centímetros a menos que o tórax. Peitorais grandes. Pernas compridas.
Furinho no queixo. Panturrilhas grandes.
Elas querem algo além do humano.
Elas querem algo maior que a vida.
Ninguém quer algo apenas anatomicamente correto.
As pessoas querem um aprimoramento anatômico. Aumentado cirurgicamente. Novo e
aperfeiçoado. Implantado com silicone. Injetado com colágeno.
Só para constar, após meu primeiro ciclo trimestral de Deca-Durabolin, eu não conseguia
amarrar os meus sapatos; os meus braços estavam enormes. Não tem problema, o agente diz,
vou contratar uma pessoa para os sapatos para você.
Após eu tomar o Matahapoctehosich fabricado na Rússia duram dezessete semanas, o meu
cabelo caiu todo, e o agente me comprou um peruca.
"Você vai concordar comigo", o agente me diz. "Ninguém quer adorar um Deus que
amarre os próprios sapatos."
Ninguém vai te cultuar se você tem os mesmos problemas, o mesmo mau hálito, cabelo e
unhas ruins, de uma pessoa normal. Você precisa ser tudo que uma pessoa normal não é. Onde
elas falham, você precisa ir até o fim. Seja o que as pessoas temem ser. Torne-se quem elas
admiram.
As pessoas que vão comprar um messias querem qualidade. Ninguém vai seguir um
fracassado. Quando se trata de escolher um salvador, elas não aceitam apenas um ser humano.
"Para você, uma peruca é melhor", o agente afirma. "Ela tem a perfeição consistente em
que podemos confiar. Saindo de helicópteros, sob os holofotes, o tempo todo em público, você
não consegue controlar a aparência de um cabelo de verdade."
O agente explicou isso para mim da seguinte forma: nosso público-alvo não era o mais
inteligente do mundo, era só o maior.
Ele disse: "Pense em você de agora em diante como um refrigerante díet".
Ele disse: "Pense nas pessoas jovens do mundo se debatendo com religiões ultrapassadas,
ou sem religião, pense nessas pessoas como o seu alvo de mercado".
As pessoas estão atrás de uma forma de unir todas as coisas. Elas precisam de uma teoria
unificada que combine glamour e santidade, moda e espiritualidade. As pessoas precisam
reconciliar o estar bem com o estar bonitas.
Após dias e dias sem comida sólida, dormindo pouco, subindo milhares de andares, e o
agente berrando suas idéias para mim sem parar, tudo isso fez sentido.
A equipe musical começou a compor hinos antes mesmo de eu ser contratado. O pessoal
da redação já tinha minha biografia quase pronta, equipe de mídia fazia comunicados à
imprensa, redigia contratos licenciamento de produtos e agendava shows de patinação: "A
Tragédia Morte na Igreja do Credo no Gelo", bem como transmissões via satélite e sessões de
bronzeamento artificial. A equipe de redação tem o controle de cada palavra que sai da minha
boca.
Para cobrir a acne que apareceu depois de eu tomar tanto Laurabolin, comecei a usar
maquiagem. Para curar a acne, alguém da equipe de apoio arrumou uma receita de Retin-A.
Para a queda de cabelo, a equipe de apoio borrifava minha cabeça com Rogaine.
Tudo que fizemos para me consertar tinha efeitos colaterais que precisávamos consertar.
Aí o conserto tinha efeitos colaterais para ser consertados e aí por diante, num ciclo sem fim.
Imagine uma história de Cinderela em que o herói se olha no espelho e vê uma pessoa
totalmente estranha. Cada palavra que ele diz é escrita para ele por uma equipe de profissionais.
Tudo que ele veste é escolhido ou desenhado por um grupo de estilistas.
Cada minuto do seu dia é planejado pelo assessor.
Talvez agora você esteja começando a entender.
Além disso, seu herói está se entupindo de drogas que você só consegue comprar na
Suécia ou no México; além disso, não consegue enxergar o próprio corpo abaixo do peito
inchado. Ele está bronzeado, barbeado, de peruca e com a agenda cheia porque pessoas em
Tucson, Seattle, Chicago ou Baton Rouge não querem um avatar com as costas cabeludas.
E por volta do andar número duzentos que você atinge o estado mais elevado.
Você chegou ao ponto anaeróbico, está queimando músculo em vez de gordura, mas sua
mente está cristalina.
A verdade é que tudo isso foi apenas parte do processo de suicídio. Porque bronzeamento
artificial e ingestão de esteróides são apenas um problema se você planeja ter uma vida longa.
Porque a única diferença entre suicídio e martírio é a quantidade de cobertura na
imprensa.
Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para ouvir, ela não fica lá simplesmente lá
apodrecendo?
E se Cristo tivesse morrido de uma overdose de barbitúricos, sozinho no chão do
banheiro, Ele teria ido para o Céu?
A questão não era se eu ia ou não me matar. Isso tudo, o esforço dinheiro e o tempo, a
equipe de redação, os medicamentos, a dieta, o agente, os degraus da escada para lugar
nenhum, tudo isso foi para que eu me despedisse daqui tendo a atenção de todos.
25
Desta vez, o agente me perguntou onde eu me via daqui a cinco anos.
Morto, eu disse a ele. Vejo-me morto e apodrecendo. Ou cinzas, eu me vejo transformado
em cinzas.
Eu tinha uma arma carregada no bolso, eu lembro. Só estávamos nós dois atrás do teatro
lotado, escuro. Lembro de que era a noite da minha primeira aparição em público.
Vejo-me morto e no Inferno, eu disse.
Lembro-me de que estava planejando me matar naquela noite.
Eu disse ao agente, acho que eu passaria os meus primeiros mil anos no Inferno, numa
espécie de posição primária, mas depois eu ia querer subir à gerência. Ser um jogador de equipe
de verdade. O Inferno verá um enorme crescimento da sua fatia de mercado no próximo
milênio. Eu queria fazer parte da nata.
O agente disse que eu estava sendo bem realista.
Estávamos fumando cigarro, eu me recordo. Lá no palco, um pregador local estava
fazendo o show de abertura. Parte do seu trabalho de aquecimento era deixar a platéia
hiperventilada. Cantar bem alto era suficiente. Ou salmodiar. De acordo com o agente, quando
as pessoas gritam assim ou cantam "Preciosa Graça" a plenos pulmões, elas respiram forte
demais. O sangue das pessoas é ácido. Quando elas hiperventilam,cai o nível de dióxido de
carbono no sangue, e o sangue se torna alcalino.
"Alcalose respiratória", ele diz.
As pessoas ficam tontas. Caem no chão com os ouvidos zunindo, os dedos das mãos e dos
pés ficam dormentes, elas têm dores no peito, suam. É uma espécie de arrebatamento. As
pessoas batem no chão com as mãos retesadas como se fossem garras.
Isso passa por um êxtase.
"O pessoal do ramo religioso chama isso de 'virar lagosta"', o agente diz. "Eles chamam de
'enrolar a língua'."
Movimentos repetitivos aumentam o efeito, e o show de abertura lá no palco faz os
exercícios rotineiros. A platéia bate palmas em uníssono. Fileiras de pessoas se dão as mãos e
balançam juntas, em meio ao delírio. As pessoas fazem aquelas "mãos de arco-íris".
Quem quer que tenha inventado essa coreografia, o agente me diz, deve ser o mandachuva
no Inferno.
Lembro-me de que o patrocinador era a Limonada Instantânea Tradicional SummerTime.
A minha deixa é quando o cara da abertura me chama ao palco, e a minha parte do show é
enfeitiçar todo mundo.
"Um estado de transe naturalista", o agente diz.
O agente retira um frasco marrom do bolso do blazer. Ele recomenda: "Tome dois
comprimidos de Endorphinol se sentir alguma emoção chegando".
Peço-lhe que encha minha mão.
Para o show de hoje à noite, os auxiliares foram visitar as pessoas, do local para dar
entradas gratuitas. O agente está me contando isso pela centésima vez. Os auxiliares pedem
para usar o banheiro durante a visita e anotam tudo que encontram no armário de remédios. De
acordo com o agente, o reverendo Jim Jones fazia isso e conseguia milagres no Templo do
Povo.
Milagre talvez não seja a palavra certa.
Lá no púlpito há uma lista de pessoas que eu nunca encontrei e suas respectivas doenças.
Sra. Steven Brandon, eu tenho que chamar. Venha aqui e tenha seus rins doentes tocados
por Deus.
Sr. William Doxy, venha aqui e coloque seu coração fraco nas mãos de Deus.
Parte do meu treinamento foi aprender a pressionar meu dedo bem rápido nos olhos das
pessoas, para que o nervo ótico registrasse uma breve luz branca.
"Luz divina", o agente diz.
Parte do meu treinamento foi aprender a pressionar minhas mãos nas orelhas das pessoas,
para que elas ouvissem um zunido que eu diria ser o Om eterno.
"Entre", o agente diz.
Perdi minha deixa.
Lá no palco, o pregador da abertura está gritando Tender Branson ao microfone. Ele, o
único, o último sobrevivente, o grande Tender Branson.
O agente me diz: "Espere". Ele arranca o cigarro da minha boca e me empurra pelo
corredor. "Agora vá", ele ordena.
Todas as mãos se esticam no corredor para me tocar. O holofote brilha no palco diante de
mim. Na escuridão à minha volta, há os sorrisos de mil pessoas delirantes que acham que me
amam. Tudo que preciso fazer é caminhar até o holofote.
Isso é o mesmo que morrer sem o problema de ter coragem.
A arma é pesada e bate na minha coxa, dentro do bolso da calça.
Isso é o mesmo que ter uma família sem ser familiar. É ter relações sem se relacionar.
No palco, o holofote é morno.
Isso é o mesmo que ser amado sem o risco de amar alguém.
Lembro-me de que esse era o momento perfeito para morrer.
Não era o Paraíso, mas era o mais perto que eu chegaria dele.
Levantei os braços e as pessoas gritaram. Abaixei os braços e elas se calaram. O roteiro
estava lá no palanque para eu ler. A lista datilografada me dizia quem ali sofria do quê.
O sangue de todos estava alcalino. O coração deles todos estava a disposição. Era a
mesma sensação de furtar lojas. Era a mesma sensação de ouvir confissões ao telefone. Era
como eu imaginava o sexo.
Com Fertility na minha cabeça, comecei a ler o roteiro:
Todos nós somos o produto divino da Criação.
Cada um de nós é um fragmento de algo completo e bonito.
Toda vez que eu pausava, as pessoas prendiam a respiração.
O dom da vida, li no roteiro, é precioso.
Coloco a mão sobre a arma carregada de balas no meu bolso.
O dom precioso da vida era para ser preservado, não importava quão doloroso e sem
sentido parecesse. A paz, eu disse a eles, é um dom tão perfeito que apenas Deus poderia
concedê-lo. Eu disse às pessoas, só o filho mais egoísta de Deus roubaria o maior dom divino,
Seu único dom maior do que a vida. O dom da morte.
Essa lição é para o assassino, eu disse. É para o suicida. Para o médico que faz abortos. É
para os sofredores e os enfermos.
Apenas Deus tem o direito de surpreender Seus filhos com a morte.
Eu não fazia idéia do que eu iria dizer até que foi tarde demais. E talvez tenha sido
coincidência, ou talvez o agente soubesse o que eu tinha em mente quando pedi a ele que me
arrumasse balas e uma arma, mas o que aconteceu foi que o roteiro estragou todo o meu plano.
Era impossível eu ler isso e me matar. Seria totalmente idiota.
Então eu não me matei.
O restante da noite transcorreu como o planejado. As pessoas foram para casa achando
que estavam salvas, e eu disse a mim mesmo que me mataria numa outra hora. Não era o
momento certo. Eu adiei, e timing era tudo.
Além disso.
A eternidade seria tipo para sempre.
Com a multidão sorrindo para mim na escuridão, eu que passei a vida inteira limpando
banheiros e cortando grama, disse a mim mesmo, por que a pressa?
Eu já dei para trás uma vez, posso fazer de novo. A prática leva à Perfeição.
Se é que podemos chamar assim.
Eu pensei, alguns pecados a mais ajudariam a completar meu currículo.
Esse é o lado bom de já estar amaldiçoado para a eternidade.
Eu pensei, o Inferno pode esperar.
24
Antes que esse avião caia, antes que a fita do gravador de vôo acabe, uma das coisas pelas
quais quero me desculpar é pelo Livro das Orações Muito Comuns.
As pessoas precisam saber que o Livro das Orações Muito Comuns não foi idéia minha.
Sim, ele vendeu duzentos milhões de cópias no mundo todo. Vendeu. Sim, eu deixei que eles
colocassem meu nome nele, mas o livro foi invenção do agente. Antes disso, o livro era idéia de
algum zé-ninguém da equipe de redação. Um redator tentando se dar bem, não me lembro.
O que importa é que o livro não foi idéia minha.
O que aconteceu foi que, certo dia, o agente me veio com aquele brilho nos olhos
castanhos que significava um acordo. Segundo minha assessora, eu vendo bem livros. Isso foi
depois de lançarmos aquela linha de Bíblias que eu autografava em livrarias. Ganhamos um
milhão além de mais espaço garantido nas prateleiras das livrarias, e eu estava fazendo uma
turnê.
"Não espere que a turnê de um livro seja algo agradável", o agente me diz.
A coisa de autografar, o agente fala, é igualzinho ao seu último dia no ginásio quando
todos pedem que você escreva algo no anuário escolar, só que a turnê de um livro pode durar o
resto da sua vida.
De acordo com meu itinerário, estou numa loja em Denver, autografando a mercadoria,
quando o agente me fala da sua idéia para um livrinho de meditação que as pessoas possam usar
no dia-a-dia. Ele imagina um livro em brochura de poemas em prosa. Cinqüenta páginas, no
máximo. Pequenas exaltações à natureza, às crianças, coisas seguras. Mães. Panda. Assuntos
que não incomodam ninguém. Problemas comuns. Colocamos meu nome na lombada, dizemos
que eu escrevi, colocamos o produto em destaque.
As pessoas também precisam saber que eu só vi o livro terminado depois da segunda
edição, depois que ele já havia vendido mais de cinqüenta mil cópias. As pessoas já estavam
putas, mas a discussão só aumentou as vendas.
O que aconteceu é que um dia eu estava em um camarim, esperando para aparecer num
programa vespertino de televisão. Estou me adiantando bastante, depois da minha turnê
autografando a Bíblia. A idéia era que, se eu aparecesse no programa e a audiência subisse, eu
teria meu próprio programa. Então estou no camarim trocando segredos sem importância com
uma pessoa, a atriz Wendi Daniels, acho, e ela me pede que eu autografe sua cópia do livro. O
Livro das Orações Muito Comuns. Foi a primeira vez que vi uma cópia do livro, eu juro. Juro
sobre uma pilha de minhas próprias Bíblias autografadas.
De acordo com Wendi Daniels, eu posso suavizar o inchaço sob meus olhos esfregando
um pouco de creme para hemorróidas.
Aí ela me entregou o Livro das Orações Muito Comuns, e o meu nome estava lá na
lombada. Eu, eu, eu. Aqui estou eu.
Lá dentro tinha as orações que as pessoas pensavam que eu havia escrito:
A Oração para Prolongar o Orgasmo.
A Oração para Perder Peso.
O sentimento, a sensação que os animais de laboratório têm quando são moídos para fazer
salsicha, eu me senti assim.
A Oração para Parar de Fumar.
Nosso Pai Divino,
Tirai-me da escolha que Vós me destes.
Assumi o controle de meus desejos e hábitos.
Retirai de mim o poder sobre meu próprio comportamento.
Que Vós decidais sobre meus atos.
Que seja por Vossas mãos as minhas fraquezas.
Portanto, se eu ainda fumar, que eu aceite que essa é
A Vossa vontade.
Amém.
A Oração para Remover Manchas de Mofo.
A Oração para Evitar a Queda de Cabelo.
Deus da mais elevada prenda doméstica,
Pastor de Vosso rebanho,
Como Vós aliviais os Vossos menores fardos,
Como Vós salvais o mais perdido de Vossas ovelhas,
Restaurai-me à extensão total da minha glória.
Preservai-me a lembrança da minha juventude.
Toda a Criação cabe a Vós prover.
Toda a Criação cabe a Vós manter.
Deus de bondade infinita,
Levai em conta o meu sofrimento.
Amém.
A Oração para Induzir a Ereção.
A Oração para Manter a Ereção.
A Oração para Silenciar Cães que Latem.
A Oração para Silenciar Alarmes de Carro.
Pela forma como eu me senti, fiquei com uma aparência péssima na televisão. O meu
próprio programa, bem, tive que dizer adeus a ele. Um minuto após eu sair do ar, fiz um
interurbano para o agente em Nova York. Do lado de cá do telefone, eu estava furioso.
Ele só se importava com o dinheiro.
"O que é uma oração?", ele pergunta. "É um encantamento", ele mesmo responde, e
começa a gritar comigo pelo telefone. "É uma forma de as pessoas focarem suas energias numa
necessidade específica. As pessoas precisam se concentrar numa intenção e efetuá-la."
A Oração para Evitar Multas.
A Oração para Deter Vazamentos.
"As pessoas rezam para resolver problemas, e esses são os problemas mais reais que elas
têm", o agente berra para mim.
A Oração para a Hipersensibilidade Vaginal.
"Uma oração serve para lubrificar uma roda emperrada", ele continua. Ele é mesmo muito
sensível. "Você reza para que suas necessidades sejam conhecidas."
A Oração para Parar o Ruído do Eixo do Carro.
A Oração para uma Vaga no Estacionamento.
Ó Deus divino e piedoso,
Ninguém na História jamais Vos adorará como eu
Se Vós me derdes hoje um local para estacionar.
Pois Vós sois o provedor.
E Vós sois a origem.
De Vós todo o bem é concedido.
Em Vós tudo é encontrado.
Em Vosso cuidado eu encontro descanso.
Em Vossa direção eu encontro paz.
Para parar, descansar, vadiar, estacionar.
Vós podeis me conceder. Por isso eu peço.
Amém.
Já que estou prestes a morrer aqui, as pessoas precisam saber que a minha verdadeira
intenção o tempo todo foi servir à glória de Deus. Mais ou menos. Não que você venha a ver
isso no relatório da nossa empresa, mas esse era meu plano geral. Eu queria ao menos fazer um
esforço. Esse livro novo não parecia lá muito religioso. Nem um pouco ortodoxo.
A Oração contra a Transpiração Axilar Excessiva.
A Oração para uma Segunda Entrevista.
A Oração para Encontrar uma Lente de Contato Perdida.
Ainda assim, Fertility diz que estou tendo uma reação exagerada em relação ao livro.
Fertility queria um segundo volume.
Foi ela quem disse que, em alguns estádios, quando estou lá na frente glorificando a Deus,
é a mesma coisa que pessoas usando roupas com estampas do Mickey ou da Coca-Cola. Puxa, é
tão fácil. Nem é uma escolha de fato. Não tem como errar. Fertility diz que glorificar a Deus é
algo muito seguro. Você nem precisa usar a cabeça.
"Sede fecundo e multiplicai", Fertility me diz. "Glória a Deus. Não há risco nenhum. Nós
fomos programados para isso."
O que salvou o Livro das Orações Muito Comuns foi que as pessoas começaram a usar
todas as orações. Algumas se irritaram, na maior parte pessoas religiosas que não gostaram da
competição, mas nessa altura nosso fluxo de capital havia caído. Nosso volume de vendas
estava estagnado. Culpa da saturação de mercado. As pessoas já tinham as orações decoradas.
Pessoas presas no trânsito ficavam recitando a Oração para Fazer o Trânsito Andar. Homens
recitavam a Oração para Prolongar o Orgasmo, e funcionava tão bem quanto a tabuada de
multiplicação. A melhor coisa a fazer era eu simplesmente ficar de boca fechada e sorrir.
Além disso, a quantidade de público estava diminuindo nas minhas apresentações, e isso
parecia o começo do fim. Minha capa na revista People saíra três meses antes.
E não existe algo tipo Recolocação de Celebridades.
Você não vê astros do cinema ultrapassados voltando para a escola para ser reciclados. O
único campo que me restou foi fazer o circuito dos game shows, e não sou lá muito esperto para
isso.
Eu tinha chegado ao topo, e em relação ao timing, parecia a oportunidade certa para eu me
suicidar, e eu quase me suicidei. As pílulas estavam na minha mão. Cheguei bem perto. Eu
planejava uma overdose de meta-testosterona.
O agente me telefona, berrando, berrando muito, como um milhão de cristãos gritando
meu nome em Kansas City, a voz dele mostrava muita excitação.
Ao telefone, no meu quarto de hotel, o agente me fala do melhor contrato da minha
carreira. Será semana que vem. Uma inserção de trinta segundos entre um comercial de tênis e
um de uma rede nacional de restaurantes mexicanos, em horário nobre.
Incrível pensar que os comprimidos estavam quase na minha boca.
Agora não está mais tão tedioso.
Televisão em rede nacional, bilhões de pessoas assistindo, seria a hora perfeita, minha
última chance de dar um tiro na cabeça com audiência decente.
Seria um martírio totalmente impossível de ser ignorado.
"Um gancho", o agente me diz ao telefone. Ele berra: "O gancho é que eu disse a eles que
você faria um milagre".
Um milagre.
"Nada grandioso. Você não precisa dividir o Mar Vermelho nem nada do gênero", ele diz.
"Transformar água em vinho seria o suficiente, mas lembre-se, sem milagre eles não colocam
no ar."
23
Fertility Hollis entra de novo em minha vida em Spokane, Washing-ton, onde estou
comendo torta e bebendo café, incógnito num restaurante Shari, quando ela entra pela porta e
vem direto à minha mesa. Fertility não é exatamente uma fada madrinha, mas você pode ficar
surpreso quando ela aparece.
Mas, na maioria das vezes, você não fica.
Fertility com seus olhos cinzas desbotados, tão enfastiados quanto o oceano.
Fertility com um suspiro de cansaço a cada respiração.
Ela é o olho blasé do furacão, é nesse mundo que ela vive.
Fertility com seus braços e rosto pendendo frouxos tal qual uma sobrevivente cansada,
alguém imortal, uma vampira egípcia após assistir durante milhões de anos a reprises
televisivas, às quais chamamos de historia. Ela se joga na cadeira à minha frente e fico feliz
com isso, pois preciso dela para um milagre.
Isso era quando eu ainda podia dar ordens ao meu entourage. Eu ainda não era um
ninguém, mas estava quase lá. Graças à minha queda na mídia. Ao meu esgotamento
publicitário.
Pela forma como Fertility se senta com os cotovelos na mesa, com a cabeça apoiada nas
mãos, e os cabelos sem vida emoldurando o rosto, você pensaria que ela chegou de algum
planeta sem a gravidade da Terra. Como se só por estar ali, mesmo magra como ela é, ela
pesasse 300 quilos.
Ela está vestida de forma desleixada, calça e top, sapatos, carregando uma bolsa de lona.
O ar-condicionado está ligado, e dá para sentir o cheiro de seu amaciante de roupas, doce e
artificial.
Sua aparência é de algo diluído em água.
Sua aparência é de algo sumindo.
Sua aparência é de algo apagado.
"Não se preocupe", ela diz. "Isto aqui sou eu sem usar maquiagem. Estou aqui a trabalho."
O trabalho dela.
"Exato", ela diz. "O meu trabalho perverso."
Eu pergunto, como vai meu peixe?
Ela diz: "Bem".
Não é possível nosso encontro ser uma coincidência. Ela só podia estar me seguindo.
"Não esqueça que eu sei de tudo", Fertility diz. E pergunta: "Que horas são?".
Eu digo a ela, uma e cinqüenta e três da tarde.
"Em onze minutos a garçonete vai te trazer outro pedaço de torta. Um merengue de limão,
desta vez. Depois, só umas sessenta pessoas vão comparecer à sua apresentação hoje à noite.
Depois, amanhã de manhã, um negócio chamado Ponte do Rio Walker vai cair em Shreveport.
Onde quer que isso seja."
Eu digo que ela está dando palpites.
"E", ela diz com um sorriso afetado, "você precisa de um milagre. Você precisa
desesperadamente de um milagre."
Talvez eu precise, eu digo. Atualmente, quem não precisa de um milagre? Como ela sabe
tanto?
"Da mesma forma que eu sei", ela diz e acena em direção ao outro extremo do restaurante,
"que aquela garçonete ali tem câncer. Sei também que a torta que você está comendo vai te dar
dor de estômago. Um cinema na China vai pegar fogo daqui a alguns minutos, não importa a
hora que seja na Ásia. Agora mesmo, na Finlândia, em esquiador está provocando uma
avalanche que soterrará uma dúzia de pessoas." Fertility acena e a garçonete com câncer está
vindo. Fertility se inclina sobre a mesa e diz: "Eu sei dessas coisas porque eu sei de tudo".
A garçonete é jovem e tem cabelo, dente e tudo, nada nela parece errado ou doente, e
Fertility pede um frango com salada e gergelim. Ela pergunta, ele vem com arroz?
Spokane ainda está do lado de fora da janela. Os prédios. O rio Spokane. O sol que todos
temos que dividir. Um estacionamento. Pontas de cigarro.
Eu pergunto, então por que você não avisa a garçonete?
"Como você reagiria se um estranho te desse uma notícia dessas? Isso só estragaria o dia
dela", Fertility retruca. "E o drama pessoal dela só acabaria atrasando o meu pedido."
É a torta de cereja que estou comendo que vai me dar dor de estômago. O poder da
sugestão.
"Basta você prestar atenção nos padrões", Fertility diz. "Depois que você vê todos os
padrões, pode deduzir o futuro."
De acordo com Fertility Hollis, não existe o caos.
Há apenas padrões, padrões acima de padrões, padrões que afetam outros padrões.
Padrões escondidos por padrões. Padrões dentro de padrões.
Se você observar bem, a história não faz nada além de se repetir.
O que chamamos de caos são apenas padrões que ainda não reconhecemos. O que
chamamos de casual são apenas padrões que não conseguidos decifrar. O que não conseguimos
entender chamamos de tolice. O que não conseguimos interpretar chamamos de disparate.
Não existe o livre-arbítrio.
Não existem variáveis.
"Só há o inevitável", Fertility diz. "Só há um futuro. Você não tem escolha."
A má notícia é que não temos controle nenhum. .
A boa notícia é que você não erra.
A garçonete lá do outro lado do salão tem uma aparência bonita e condenada.
"Eu presto atenção nos padrões", Fertility diz.
Ela diz que não consegue não prestar atenção.
"Eles estão nos meus sonhos cada vez mais a cada noite", ela comenta. "Tudo. É como ler
um livro de história sobre o futuro todas as noites"
Então ela sabe de tudo.
"Por isso eu sei que você precisa de um milagre para fazer na televisão"
O que eu preciso é de uma boa previsão.
"Por isso estou aqui", ela diz, e retira uma agenda grossa da bolsa. Dê-me uma hora. Dême
uma data para a sua previsão."
Eu digo a ela, qualquer hora daqui a duas semanas.
"Que tal um acidente com vários carros?", ela diz, lendo na agenda.
Eu pergunto, quantos carros?
"Dezesseis carros", ela responde. "Dez mortos. Oito feridos."
Ela tem algo mais excitante?
"Tem um incêndio num cassino em Las Vegas", ela comenta. "Bailarinas de topless com
plumas incendiando na cabeça, coisas assim."
Algum morto?
"Não. Poucos ferimentos. Mas haverá muitos danos."
Algo maior.
"A explosão de um salão de bronzeamento."
Algo fascinante.
"Hidrofobia num parque nacional."
Tedioso.
"Colisão de trens de metrô."
Ela vai me fazer dormir.
“Um ativista contra peles de animais amarrado a bombas em Paris.”
Pula.
"Um tanque de petróleo vira."
Quem se importa com isso?
"Estrela do cinema aborta."
Ótimo, eu digo. Meu público vai me achar um monstro quando se realizar.
Fertility passa as páginas da sua agenda.
"Puxa, é verão", ela comenta. "Não temos muitas opções de tragédias."
Peço-lhe que continue procurando.
"Semana que vem Ho Ho, o panda gigante que o Zoológico Nacional está tentando cruzar,
vai pegar uma doença venérea de um panda visitante."
Nem ferrando vou dizer isso na televisão.
"Que tal um surto de tuberculose?"
Bocejo.
"Atirador na rodovia?"
Bocejo.
"Ataque de tubarão?"
Ela deve estar raspando mesmo o tacho.
"Um cavalo de corrida quebrando a perna?"
"Um quadro rasgado no Louvre?"
"Um primeiro-ministro afastado?"
"Um meteorito em queda?"
"Perus congelados infectados?"
"Incêndio na floresta?"
Não, eu digo a ela.
Triste demais.
Bobinho demais.
Político demais.
Esotérico demais.
Nojento demais.
Sem apelo.
"Lava escorrendo de um vulcão?", Fertility pergunta.
Muito lento. Não é um drama real. Só causa danos a propriedades.
O problema é que os filmes de desastre deixaram as pessoas esperando demais da
natureza.
A garçonete traz o frango e o meu merengue de limão e enche nossas xícaras de café.
Depois sorri e se afasta para morrer.
Fertility procura entre as páginas da sua agenda.
No meu intestino, a torta de cereja está causando uma revolução. Spokane esttá lá fora. O
ar-condicionado está aqui dentro. Nada parece um padrão.
Fertility Hollis diz: "Que tal abelhas assassinas?".
Eu pergunto, onde? "Chegando em Dallas, Texas."
Quando?
"Domingo que vem, às oito e dez da manhã."
Poucas? Um enxame? Quantas?
"Zilhões."
Digo a ela, perfeito.
Fertility solta um suspiro e remexe no seu frango. "Merda", ela diz "eu sabia o tempo todo
que você escolheria esta".
22
Então um zilhão de abelhas assassinas chegam em Dallas, Texas, às oito e dez da manhã
de um domingo, bem na hora. Isso apesar de eu só ter parcos quinze por cento de fatia no ibope
durante a minha entrada.
Na semana seguinte, a rede me coloca durante um minuto inteiro, e alguns anunciantes
grandes, as indústrias de remédios, os fabricantes de carros, os conglomerados de petróleo e
tabaco estão na fila como possíveis patrocinadores se eu fizer um milagre ainda maior.
Pelas razões erradas, as empresas de seguros estão muito interessadas.
Entre hoje e semana que vem, estou na estrada fazendo apresentações noturnas na Flórida.
É o circuito Jacksonville-Tampa-Orlando-Miami. E a Cruzada de Milagres de Tender Branson.
Um por noite.
O meu Minuto do Milagre, é assim que o agente e a rede de televisão querem chamar,
gasta-se zero para produzir. Basta apontarem a câmera para você, com seu cabelo penteado e
uma gravata no pescoço, e você faz um ar grave e diz direto para a câmera:
O farol de Ipswich Point tombará amanhã.
Na semana seguinte, a geleira Mannington, no Alasca, vai ruir e tombar um cruzeiro que
passa perto demais.
Na outra semana, ratos com um vírus mortal aparecerão em Chicago, Tacoma e Green
Bay.
É exatamente como ser um âncora de telejornal, só que antes dos fatos.
A forma como vejo o processo todo é simplesmente pedir a Fertility que me dê umas duas
dúzias de milagres por vez, e eu gravo uma temporada inteira de Minuto do Milagre. Com um
ano de programas gravados, estarei livre para me apresentar em público, fazer campanhas de
produtos autografar livros. Talvez até dar consultoria. Fazer participações especiais no cinema e
na televisão.
Não me pergunte quando, porque não me lembro, mas em algum momento no meio disso
tudo eu me esqueci de cometer suicídio.
Se a assessora colocasse o meu suicídio na minha agenda eu estaria morto. Sete horas da
noite, quinta-feira, beber limpa fossa. Sem problema. Mas com as abelhas assassinas e todas as
exigências do trabalho, fico preocupado em não conseguir encontrar Fertility de novo. Isso e o
meu séquito comigo o tempo todo. A equipe está sempre no meu pé, a assessora, os
planejadores, o personal trainer, o ortodontista, o dermatologista, o nutricionista.
As abelhas assassinas fizeram menos estrago que o esperado. Elas não mataram ninguém,
mas chamaram bastante atenção. Agora preciso de um bis.
Um estádio desmoronando.
Uma mina soterrada.
Um descarrilamento de trem.
O único momento em que fico sozinho é quando me sento na privada, e mesmo assim
estou rodeado.
Fertility não está em parte nenhuma.
Em quase todos os banheiros públicos masculinos há um buraco feito nas divisórias entre
uma privada e outra. Ele é aberto na madeira sólida de uns dois centímetros e meio por alguém
usando apenas os dedos. Ele é feito durante dias ou meses. Você também vê buracos feitos no
mármore, no aço. Como se fosse alguém tentando fugir da cadeia. O buraco só dá para espiar,
ou conversar. Ou enfiar um dedo, a língua ou o pênis, e escapar assim, um pedacinho por vez.
As pessoas chamam essas aberturas de "buracos da glória".
E como se você encontrasse um filão de ouro.
Onde você encontra a glória.
Estou num banheiro do aeroporto de Miami e na altura do meu coto velo há um buraco na
divisória entre as privadas, e ao redor do buraco há mensagens deixadas por homens que se
sentaram lá antes de mim.
John M. esteve aqui, 14/3/64.
Carl B. esteve aqui, 8 de janeiro de 1976.
Epitáfíos.
Algumas são inscrições recentes. Algumas foram recobertas, mas os sulcos são tão
profundos que ainda podem ser lidas após décadas de pintura.
Aqui estão as sombras que restaram de milhares de momentos, milhares de sentimentos,
de necessidades marcadas na parede por homens que já se foram. Esse é o registro de que eles
estiveram aqui. De sua visita. De sua passagem. É o que a assistente social chamaria de
documento de fonte primária.
Uma história do inaceitável.
Esteja aqui hoje à noite para uma chupeta. Sábado, 18 de junho de 1973.
Tudo isso está inscrito na parede.
Aqui estão palavras sem imagens. Sexo sem nomes. Imagens sem palavras. Alguém
rabiscou uma mulher com pernas enormes e abertas, seios redondos a nos fitar, cabelos longos e
ondulados e sem rosto.
Esguichando lágrimas enormes em direção à vagina peluda dela tem um pênis cortado, do
tamanho de um homem.
O Paraíso, dizem as palavras, é um bufê de buceta onde você se serve à vontade.
O Paraíso é dar o eu.
Vá para o Inferno seu bicha.
Sei como é.
Vá comer merda.
Já passei por isso.
Essas eram algumas das vozes ao meu redor quando uma voz de verdade, uma voz
feminina, sussurrou: “Você precisa de outra tragédia, nao e?”.
A voz vem através do buraco, mas quando eu olho, tudo que consigo são dois lábios com
batom. Lábios vermelhos, dentes brancos, uma lingua úmida que diz: "Eu sabia que você estaria
aqui. Eu sei de tudo".
Fertility.
No buraco agora há um olho cinzento aumentado com sombra azul e delineador, e cílios
piscando com uma maquiagem pesada. A pupila pulsa, grande, depois pequena. Aí a boca
aparece e diz: "Não se preocupe. Seu avião vai atrasar mais umas duas horas".
Na parede ao lado da boca está escrito, eu chupo e engulo.
Ao lado disso está escrito, eu só queria amá-la, se ela me desse a oportunidade.
Há o começo de um poema, quente dentro de você há o amor... O resto do poema foi
lavado da parede por ejaculações.
A boca diz: "Estou aqui a trabalho".
Deve ser o emprego perverso dela.
"É o meu emprego perverso", ela diz. "É o calor."
Não é algo sobre o qual ela queira falar.
Ela diz: "Não quero falar sobre isso".
Parabéns, eu sussurro. Pelas abelhas assassinas.
Inscrito na parede tem, como se chama uma garota da Igreja do Credo que faz chupeta?
Morta.
Como se chama um bicha da Igreja do Credo que dá o cu?
A boca diz: "Você precisa de outra tragédia, não é?".
Preciso de umas quinze ou vinte, eu sussurro.
"Não", a boca diz. "Você está ficando como todos os caras em quem já confiei", ela
reclama. "Você está ficando ganancioso."
Eu só quero salvar as pessoas.
"Você é um porco ganancioso."
Quero salvar pessoas de desastres.
“Você é apenas um cão fazendo uma artimanha.”
Isso é só para que eu possa me matar.
Eu nao quero que você morra."
Por quê?
"Por que o quê?"
Por que você me quer vivo? Por que você gosta de mim?
"Não", a boca diz. "Eu não te odeio, mas preciso de você."
Mas você não gosta de mim?
A boca diz: "Você tem idéia de como é tedioso ser eu? Saber de tudo? Ver tudo
acontecendo a milhas de distância? Está se tornando insuportável. E não sou só eu".
A boca diz: "Estamos todos entediados".
A parede diz, eu comi a Sandy Moore.
Ao redor da frase dez outros escreveram, eu também.
Um outro cara escreveu. Alguém aqui não comeu a Sandy Moore?
Ao lado está escrito, eu não comi.
Ao lado está escrito, bicha.
"Todos nós vemos os mesmos programas de televisão", a boca continua. "Todos nós
ouvimos as mesmas coisas no rádio, todos nós repetimos as mesmas conversas uns com os
outros. Não há mais surpresa. Só a mesma coisa de sempre. Reprises."
Dentro do buraco, os lábios vermelhos dizem: "Todos nós crescemos com os mesmos
programas de televisão. É como se todos tivéssemos o mesmo implante de memória artificial.
Não lembramos de quase nada da nossa infância real, mas nos lembramos de tudo que
aconteceu nas famílias dos seriados. Todos nós temos os mesmos objetivos básicos. Todos nós
temos os mesmos temores".
Os lábios dizem: "O futuro não é promissor".
"Em breve, todos teremos os mesmos pensamentos ao mesmo tempo. Estaremos em
uníssono perfeito. Sincronizados. Unidos. Iguais. Exatos. Como as formigas. Insetos.
Rebanho."
Tudo é tão derivante.
Uma referência de uma referência de uma referência.
"A grande pergunta que as pessoas fazem não é “qual a razão da existência?'", a boca
comenta. "A grande pergunta que as pessoas fazem é de onde é isso?'."
Eu ouvi o buraco da mesma forma que ouvia as pessoas confessarem ao telefone, da
mesma forma como eu tentava ouvir sinais de vida vindo das catacumbas. E perguntei, por que
você precisa de mim?
"Porque você foi criado num mundo diferente", a boca diz.
"Porque se alguém vai me surpreender, será você. Você não faz parte da cultura de massa,
ainda não. Você é a minha única esperança de ver algo novo. Você é o príncipe mágico que
pode quebrar esse feitiço de tédio. Esse transe de mesmice cotidiana. Sei como é. Já passei por
isso. Você é um grupo de controle de um só."
Mas eu não sou, eu sussurro, tão diferente assim.
"Você é, sim", a boca sussurra de volta. "E o fato de você continuar diferente é a minha
única esperança."
Então me dê algumas previsões.
"Não."
Por que não?
"Porque eu nunca mais vou te ver. O mundo de pessoas vai te comer vivo, e vou te perder.
De agora em diante, vou te dar uma previsão por semana."
Como?
"Assim", a boca diz. "Exatamente como agora. Não se preocupe. Eu te acho."
21
De acordo com meu itinerário, estou num estúdio escuro de televisão, sentado num sofá
marrom, recoberto com tecido 40% de algodão, pelo que posso sentir, de trama larga, tratado
para resistir a manchas, apesar de desbotado, localizado no meio de uma dúzia de holofotes.
Meu cabelo estilizado. Minhas roupas de grife. Minhas jóias emprestadas.
Minha biografia diz que jamais estive tão feliz e realizado em minha vida vivendo o
máximo de cada dia. O press release afirma que vou fazer um novo programa de televisão,
meia hora todas as noites, onde atenderei a telefonemas de pessoas que precisam de conselhos.
Eu oferecerei novas perspectivas. De acordo com o press release, de vez em quando o
programa incluirá novas previsões. Um desastre, um maremoto, uma chuva de gafanhotos pode
estar no seu caminho, então é melhor ligar a TV e assistir ao programa, nunca se sabe.
É uma espécie de noticiário noturno antes dos fatos. O press release chama o novo
programa de Mente em Paz.
Se é que você pode chamar assim.
Foi Fertility quem disse que eu seria famoso um dia. Ela disse que eu contaria ao mundo
todo sobre ela, então é melhor eu me preparar.
Fertility mandou que, depois que eu tivesse me tornado famoso, eu a descrevesse como
felina. Seu cabelo, ela disse, era tempestuoso. Foi o termo que ela usou. É, e seus lábios eram
de um vermelho vivo.
Ela disse que seus braços eram tão macios quanto um peito de frango sem pele.
Segundo Fertility, seu andar era envolvente.
"Depois que você for famoso", ela me disse, "não me faça parecer um monstro ou uma
vítima." Fertility comentou: "Você vai vender sua religião e tudo aquilo em que acredita, então
não minta sobre mim. Tudo bem? Por favor".
Então parte da minha fama é fazer um programa semanal onde uma famosa jornalista me
apresenta. Ela chama os comerciais. Depois, me passa as pessoas ligando com perguntas. O
teleprompter me dá as respostas. As pessoas fazem a ligação gratuitamente. Ajude-me. Cureme.
Alimente-me. Ouça-me. Era o que eu fazia no meu apartamento minúsculo, só que agora
em rede nacional.
Messias. Salvador. Não nos deixeis cair. Livrai-nos.
As confissões que eu ouvia no meu apartamento, as confissões que ouço em rede nacional,
são a mesma coisa que a minha história aqui no gravador de vôo. O meu confessionário.
Com os medicamentos que eu estava tomando naquele ponto da minha carreira, se você
quer dormir à noite, é melhor não ler a bula. Os efeitos colaterais não incluíam nada que você
pudesse fazer em rede nacional de televisão.
Vômito, flatulência, diarréia.
Os efeitos colaterais incluíam: dor de cabeça, febre, tontura, erupão, suor.
Eu poderia assinalar todos eles:
Dispepsia.
Constipação.
Indisposição.
Sonolência.
Distorção do paladar.
Segundo meu personal trainer, é o Primabolin que faz minha cabeça zunir. Minhas mãos
tremerem. O suor encharca minha nuca. Pode ser uma interação do medicamento.
Segundo meu personal trainer, isso é bom. Só de ficar aqui sentado estou perdendo peso.
Segundo meu personal trainer, a melhor forma de conseguir esteróides ilegais é encontrar
um gato com leucemia e levar a um veterinário, que vai receitar ampolas de esteróide animal
equivalente aos melhores esteróides para uso humano. Ele disse que se o gato viver bastante
você consegue fazer estoque para um ano.
Quando perguntei o que acontecia ao gato, ele retrucou, que me importa?
A jornalista fica sentada à minha frente. Suas pernas, comparadas ao restante do corpo,
não parecem muito compridas. Ela só deixa um pedaço das orelhas de fora para colocar os
brincos. Todos os seus problemas estão escondidos por dentro. Todas as suas falhas estão por
baixo. O único cheiro que ela tem, mesmo o seu hálito, é de spray para cabelo. Da forma como
está dobrada na cadeira, as pernas cruzadas à altura do joelho, as mãos cruzadas sobre o colo,
parece a postura de um origami de carne e osso.
De acordo com o roteiro, estou sentado num sofá, ilhado por luzes quentes, cercado por
câmeras e cabos de televisão, com técnicos silenciosos fazendo seu trabalho ao meu redor, no
escuro. O agente está lá nas sombras, de braços cruzados e olhando no seu relógio. O agente se
vira para os redatores, que fazem revisões de última hora no texto antes que ele apareça no
teleprompter.
Numa mesinha ao lado do sofá tem um copo de água com gelo e se eu pegá-lo minha mão
treme tanto que os cubos de gelo tilintam até que o agente acena a cabeça para mim, sua boca
fazendo um não silencioso
Estamos no ar.
Segundo a jornalista, ela conhece a minha dor. Ela leu minha biografia. Ela sabe tudo
sobre a minha humilhação. Ela leu tudo sobre a difícil experiência que deve ter sido ficar nu e
ser vendido como escravo, nu. Eu com apenas dezessete ou dezoito anos, e todas aquelas
pessoas, todos do culto, me vendo lá, nu. Um escravo nu, ela diz, escravizado. Nu.
O agente está à minha vista, por trás do ombro da jornalista, com os redatores ao seu
redor, no escuro, vestidos.
Ao lado do agente, o teleprompter me diz: EU ME SENTI VIOLADO SENDO
LEILOADO NU COMO UM ESCRAVO.
Segundo o teleprompter. EU ME SENTI PROFUNDAMENTE HUMILHADO.
Segundo o teleprompter: EU ME SENTI USADO E SUJO... MOLESTADO.
A equipe de redatores se amontoa ao lado do teleprompter e repetem as palavras conforme
eu as leio em voz alta.
Enquanto eu leio isso em voz alta com as câmeras me observando, a jornalista olha para o
diretor na escuridão e toca no pulso. O diretor levanta dois dedos, depois oito dedos. Um
técnico entra sob a luz e arruma o cabelo sobre a orelha da jornalista.
O teleprompter me diz: EU FUI ABUSADO SEXUALMENTE. O ABUSO SEXUAL
ERA COMUM ENTRE OS MEMBROS DA IGREJA DO CREDO. O INCESTO ERA
PARTE DO COTIDIANO DA VIDA FAMILIAR. ASSIM COMO O SEXO COM TODO
TIPO DE ANIMAL. A ADORAÇÃO A SATANÁS ERA POPULAR. A IGREJA DO CREDO
SACRIFICAVA CRIANÇAS A SATANÁS O TEMPO TODO, MAS NÃO SEM ANTES
MOLESTA-LAS VÁRIAS VEZES. DEPOIS, OS ANCIÃOS DA IGREJA AS MATAVAM.
BEBIAM O SEU SANGUE. ERAM CRIANÇAS COM AS QUAIS EU ME SENTAVA NA
ESCOLA TODOS OS DIAS. OS ANCIÃOS DA IGREJA AS COMIAM. QUANDO ERA
LUA CHEIA, OS ANCIÃOS DA IGREJA DANÇAVAM NUS, VESTINDO APENAS AS
PELES DAS CRIANÇAS MORTA:
É eu disse, foi muito, muito estressante.
O teleprompter diz: VOCÊ PODE ENCONTRAR A DESCRIÇÃO EM DETALHES
DOS CRIMES SEXUAIS DA IGREJA DO CREDO NO MEU LIVRO. ELE SE CHAMA
SALVO DA SALVAÇÃO, E ESTÁ EM TODAS AS LIVRARIAS.
No escuro, o agente e os redatores se cumprimentam em silêncio. O agente me mostra o
polegar para cima.
Minhas mãos estão dormentes. Não consigo sentir meu rosto. Minha língua parece ser de
outra pessoa. Meus lábios estão mortos, com parestesia circum oral.
Efeitos colaterais.
A parestesia periférica tira toda a sensação dos meus pés. Meu corpo inteiro parece estar
tão distante e separado de mim quanto a imagem que vejo de mim de terno preto sentado num
sofá marrom no monitor do estúdio. Creio que esta deve ser a mesma sensação quando sua alma
vai para o Céu e observa o restante de você, sua carne e seu sangue, morrer.
O diretor está acenando para mim, um dedo numa mão, e quatro na outra. O que ele está
querendo me dizer eu não sei.
A maior parte do que está no teleprompter foi tirada da minha biografia que eu não
escrevi. A infância terrível que eu não tive. De acordo com o teleprompter, os membros da
Igreja do Credo estão todos queimando no Inferno.
O teleprompter me diz: EU JAMAIS SUPERAREI A DOR DA HUMILHAÇÃO, NÃO
IMPORTA QUÃO RICO EU FIQUE QUANDO EU HERDAR AS TERRAS DO DISTRITO
DA IGREJA DO CREDO.
Segundo o teleprompter: MEU MAIS RECENTE LIVRO, O LIVRO DAS ORAÇÕES
MUITO COMUNS, É UMA FERRAMENTA IMPORTANTE PARA PODERMOS LIDAR
COM OS ESTRESSES QUE TODOS NÓS SENTIMOS. ELE SE CHAMA O LIVRO DAS
ORAÇÕES MUITO COMUNS E ESTÁ EM TODAS AS LIVRARIAS.
Segundo a jornalista olhando o diretor olhando o agente me olhando olhar o teleprompter,
segundo ela eu me sinto muito feliz e realizado agora que estou livre do Culto de Morte da
Igreja do Credo. Depois dos comerciais, ela diz às câmeras, vamos atender aos telefonemas das
pessoas em casa.
A jornalista chama os comerciais.
Durante os comerciais, ela me pergunta se a minha infância foi mesmo terrível assim. O
agente entra no meio e diz que sim. Foi Foi aterrorizante. Um técnico puxando os fios que
passam pela sua cintura e sua cabeça chega e pergunta se eu preciso de água. O agente diz que
não. O diretor pergunta se eu preciso usar o banheiro, e o agente diz que estou bem. Ele diz que
eu não gosto de lidar com uma multidão de estranhos fazendo perguntas. Eu evoluí para além
das necessidades físicas. Aí os técnicos do estúdio viram os olhos, e o diretor e a jornalista se
entreolham e dão de ombros, como se fosse eu quem os tivesse enxotado.
Aí o diretor diz que estamos no ar, e a jornalista diz que a primeira pessoa está na linha.
"Se eu estou num restaurante cheio", é a voz de uma mulher que sai dos alto-falantes do
estúdio, "é um restaurante muito caro, e alguém comendo na mesa ao lado solta gases, não só
uma vez, mas várias vezes, e é horrível, o que eu devo fazer?"
A jornalista cobre o rosto com uma mão. O diretor vira de costas. O agente olha para os
redatores escrevendo a minha resposta no teleprompter.
Para ganhar tempo, a jornalista pergunta o que a telespectadora estava comendo.
"Alguma coisa com carne de porco", a mulher diz. "Não importa. O cheiro era tão ruim
que não consegui comer mais nada."
O teleprompter diz: O SENHOR NOS DEU MUITOS SENTIDOS.
O teleprompter está ganhando tempo também.
ENTRE ELES ESTÁ O SENTIDO DO OLFATO E O SENTIDO DO PALADAR.
Conforme as linhas do texto aparecem no teleprompter, eu simplesmente vou lendo em
voz alta.
MAS APENAS OS HOMENS JULGAM QUAIS SENTIDOS SÃO BONS OU RUINS.
PARA DEUS, O CHEIRO DE VÍSCERAS É IGUAL AO CHEIRO DE CARNE DE PORCO
OU VINHO CARO.
Não faço idéia de onde eles estão querendo chegar com isso.
NÃO SOFRA NEM SE REGOZIJE. NÃO SE SINTA LISONJEADO NEM OFENDIDO
POR TAIS DONS. NÃO JULGUE PARA NÃO SER JULGADO.
O diretor murmura as palavras Burma Shave*. A jornalista diz, telespectador número dois,
você está no ar.
A segunda pessoa pergunta o que eu acho do biquíni fio dental.
O teleprompter diz: UMA ABOMINAÇÃO.
Eu digo, após anos lavando as roupas de gente rica, acho que as pessoas que fabricam
biquínis e calcinhas assim deviam fazer a parte do fio dental preta, para começo de conversa.
A jornalista diz, telespectador número três, você está no ar.
"Tem um cara de quem eu gosto, mas ele está me evitando."
É Fertility, é a voz dela, saindo dos alto-falantes, falando comigo, falando sobre mim para
todo o país. Será que ela vai criar caso aqui na televisão? Meus pensamentos se ramificam num
fluxograma das mentiras que eu contei e das minhas possíveis respostas para o que ela pode
dizer.
Será que ela vai expor a mim e às minhas previsões de tragédias?
Será que ela refletiu e chegou à conclusão de que eu levei o irmão dela a cometer
suicídio? Ou será que ela sempre soube? E se ela sabe que eu matei o irmão dela, o que
acontece?
"Esse cara que não quer me ligar, eu contei a ele sobre o meu trabalho", ela continua. "O
meu emprego. E ele desaprova, mas finge que não se importa."
A jornalista pergunta qual é exatamente o emprego de Fertility.
_______________________
“Burma Shave”: nos Estados Unidos, é uma marca tradicional de loção após barba, famosa por seus slogans em forma de aforismos. (N. do T.)
O teleprompter está em branco.
Aí o país inteiro está prestes a conhecer um grande segredo entre mim e Fertility. Seu
emprego perverso. Minha linha de telefone assassina. Seus sonhos premonitórios. Minhas
previsões emprestadas.
"Eu tenho um agente chamado dr. Ambrose", Fertility diz, "só que ele não é médico de
verdade."
Fertility me disse certa vez que todos no mundo, mesmo lixeiros e lavadores de prato,
terão contrato com um agente um dia. O dr. Ambrose encontra casais com dinheiro que
procuram alguém para gerar o bebê deles. Uma mãe de aluguel. Dr. Ambrose chama isso de
procedimento. Ele é conduzido in utero com o pai verdadeiro na cama com Fertility e esposa
esperando do lado de fora.
"A esposa fica no corredor, tricotando ou ouvindo nomes de bebês" Fertility diz, "e o
marido cuidadosamente esvazia o conteúdo microscópico de seus testículos dentro de mim."
A primeira vez em que ela me contou de seu emprego, quando eu era um zé-ninguém
atendendo as pessoas em crise na minha casa, ela me disse que Fertility Hollis era seu nome
artístico. Disse também que seu nome verdadeiro era Gwen, mas que ela o odiava.
"Eu me deitar com o pai do bebê é próprio da naturopatia, diz o dr. Ambrose. É o que ele
diz aos casais desesperados. Não é adultério. É holístico."
Não é golpe nem prostituição, ela me disse.
"Está na Bíblia", Fertility diz.
Custa cinco mil dólares.
"Você sabe, Gênesis, capítulo 30, Raquel e Bila, Lia e Zilpa."
Bila não usava contraceptivos, tenho vontade de dizer a ela. Zilpa não ganhou cinco paus,
livre de impostos. Elas eram escravas de verdade. Elas não viajavam pelo país sendo
contratadas por futuros pais loucos para ter um herdeiro.
Fertility passa até uma semana inteira com um casal, mas cada vez que eles conduzem o
procedimento, são mais cinco mil. Com alguns homens, chega a ganhar quinze mil numa única
noite. Além disso, o casal paga as passagens aéreas dela.
"O dr. Ambrose é só uma voz ao telefone que faz os acordos", Fertility continua. "Ele nem
parece uma pessoa de verdade. O casal paga a ele e ele me envia metade da quantia em
dinheiro. Nunca há o endereço do remetente. Ele é um covarde."
Eu sei como é.
O teleprompter diz: VAGABUNDA.
"Tudo que preciso fazer é não conceber, e tenho muito sucesso.
E a vocação dela, ela me contou, ser infecunda.
O teleprompter diz: MERETRIZ.
Nos alto-falantes ela diz: "Eu sou estéril".
O teleprompter diz: PROSTITUTA.
É sua única habilidade comerciável. É sua missão.
É o trabalho para o qual ela nasceu.
Ela não paga impostos. Adora viajar. Vive na estrada em lugares chiques e os horários são
flexíveis. Ela me disse que em certas noites ela adormece durante o procedimento. Com alguns
futuros pais, ela sonha com incêndios, pontes caindo e desabamentos.
"Não acho que eu esteja fazendo nada de errado", ela diz. "Acho que estou transformando
limões numa limonada."
O teleprompter diz: QUEIME NO FOGO ETERNO DO INFERNO SUA VADIA PAGA.
Fertility pergunta: "Então, o que você acha?".
A jornalista está olhando para mim tão concentrada que nem nota que uma mecha de
cabelo caiu sobre sua testa. O diretor está olhando para mim. O agente está olhando. A
jornalista engole em seco. Os redatores estão jogando os textos no teleprompter.
REZE PARA MORRER SUA PUTA ADÚLTERA.
O país inteiro está assistindo.
VOCÊ NÃO MERECE O PERDÃO SUA CAPETA MALIGNA.
Diz a voz de Fertility: "O que você acha?".
RAMEIRA.
O agente aponta para mim, aponta para a tela do teleprompter, aponta para mim, repetidas
vezes, rápido.
DEVASSA.
"Você não vai me passar um sermão, vai?"
JEZEBEL.
Só há o silêncio sendo transmitido para o satélite. Alguém precisa dlzer alguma coisa.
Com minha boca dormente, eu leio as palavras no teleprompter. Sem sentir os lábios,
apenas digo o que eles me mandam dizer.
A jornalista diz, participante número três? Você ainda está aí?
O diretor mostra os dedos para nós, cinco, quatro, três, dois, um. Depois ele passa o dedo
indicador pela garganta.
20
Outra coisa que as pessoas precisam saber antes que o avião caia é que não foi minha a
idéia do Lixão Pornô.
O agente está sempre colocando papéis na minha frente e dizendo assine isto aqui.
Ele me diz, assine aqui.
E aqui.
Aqui.
E aqui.
O agente me diz para só dar um visto ao lado de cada parágrafo. Ele me diz, não precisa
ler isso aqui, você não vai entender.
Foi assim que o Lixão Pornô surgiu.
Não foi idéia minha pegar todos os oito mil hectares do distrito da Igreja do Credo e
transformá-los num depósito da pornografia datada do país. Revistas. Cartas de baralho. Fitas
de vídeo. CDs. Vibradores usados. Bonecas infláveis furadas. Vaginas artificiais. As
escavadeiras estão lá vinte e quatro horas por dia empilhando montes dessas coisas. São oito
mil hectares. Oito-zero-zero-zero. Cada metro quadrado das propriedades da Igreja do Credo. A
vida selvagem foi expulsa. A água está contaminada.
Está sendo comparado ao Love Canal, mas não é culpa minha.
Antes que a fita do gravador de vôo termine, as pessoas precisam saber de quem é a culpa.
É do agente. O Livro das Orações Muito Comuns. O programa de televisão Mente em Paz. A
Indústria de Processamento de Lixo Pornô. A Campanha do Gênesis. A estatueta para painel de
carro do Tender Branson. Mesmo meu programa especial no intervalo do Super Bowl, que foi
um fracasso, foi tudo idéia do agente.
E todos eles ganharam montanhas de dinheiro.
Mas o que importa é que nada disso foi idéia minha.
Sobre o Lixão Pornô, o agente me informou num dia em Dallas ou em Memphis. Minha
vida àquela altura era uma sucessão de estádios e quartos de hotel separados por horas de vôo
em vez de distâncias reais. O mundo eram padrões de carpete passando sob meus pés. Florais
de náilon baixo-relevo ou logotipos num campo azul-escuro ou cinza, sem queimaduras de
cigarro ou sujeira.
O mundo eram banheiros públicos com Fertility na privada ao lado, sussurrando:
"Um navio vai bater num iceberg amanhã à noite."
Sussurrando: "Às duas da madrugada, hora local, a onça parda da Bolívia vai se tornar
extinta".
O agente está dizendo, o maior problema para a maioria dos norte-americanos é se livrar
de materiais pornográficos de uma forma segura e discreta. Por todo o país, ele diz, há vastas
coleções de revistas Playboy ou Screw que não excitam mais ninguém. Há prateleiras e estantes
cheias de vídeos com gente de costeleta e sombra azul nos olhos trepando ao som de música
ruim pirateada. O país precisa, ele diz, é de um lugar para despachar essa putaria passada, onde
ela se decomponha longe dos olhos das crianças e dos puritanos.
O agente me comunicou após já ter feito um estudo de viabilidade sobre o depósito de
papel, plástico, elástico, látex, borracha, couro, zíper de aço, anel cromado, velcro, vinil,
lubrificantes à base de petróleo e água, e náilon.
A idéia dele era montar postos de coleta onde as pessoas pudessem se desfazer de material
pornográfico sem que ninguém fizesse perguntas. De lá, os franqueados locais enviariam o
material pornô naqueles contêineres especiais usados para transportar materiais infectados. Aí
ele seria rebocado até o antigo distrito da Igreja do Credo em Nebraska, onde seria separado. As
três categorias seriam:
Erótico.
Explícito.
E Infantil.
A primeira categoria poderia apodrecer na superfície do solo. A segunda categoria seria
enterrada no solo. A terceira só seria manipulada por pessoas desinteressadas vestindo
macacões especiais, incluindo luvas e botas de borracha e respirando através de máscaras, que
trancariam o pornô infantil em cofres embaixo da terra, onde ficariam por toda a eternidade
Segundo o agente, precisamos deixar as pessoas com pânico da ameaça pornô.
Vamos pressionar para que o governo torne obrigatória a remoção de materiais
pornográficos de uma forma segura e limpa. Da nossa forma. Da mesma forma que com
motores e amianto usados, se as pessoas quiserem jogar fora, terão que pagar.
Mostraremos o material pornô que as pessoas jogam nas ruas, corrompendo crianças,
inspirando crimes sexuais.
Cobraremos por tonelada para aceitar a carga. Os franqueados locais passarão o custo para
os clientes, mais uma margem de lucro. Nós faremos dinheiro. Os franqueados locais farão
dinheiro. O tarado ficará livre para comprar produtos pornográficos novinhos em folha. A
indústria pornô ficará rica.
Tudo bem, o agente me disse. Mais rica.
Segundo o agente, era um negócio que só daria lucro.
Só que não deu.
O agente já estava planejando a aprovação de uma lei federal que exigiria do cidadão que
ele pagasse um depósito sobre qualquer material pornográfico. Esse depósito seria repassado
para o governo para pagar a remoção de materiais pornográficos abandonados. O dinheiro desse
imposto pornô seria destinado à regularização dos depósitos ilegais. Parte do imposto seria
usado para reabilitar viciados em sexo, mas não muito.
Antes mesmo que eu ouvisse uma palavra sobre o Lixão Pornô, o relatório sobre o
impacto ambiental já tinha sido calado.
Os testes haviam sido fraudados.
A assessora mandava faxes para os grupos religiosos dia e noite, testando o terreno. Os
lobistas estavam pressionando discretamente.
Havia os oito mil hectares do distrito da Igreja do Credo com se fantasmas que ninguém
queria comprar. E havia milhões de materiais pornográficos pessoais que ninguém queria. Fazia
sentido para todo mundo, menos para mim.
Não foi uma decisão minha. Pensei em algumas alternativas. Fiz a Oração para Criar
Espaço Extra de Armazenamento. Engoli quatro mil miligramas do protótipo de chocolate do
Gamacease. Achei que isso resolveria o problema do país. Fiz a Oração para Reciclar Jornais
Acumulados, mas não era a mesma coisa. Fiz a Oração para Procrastinar, mas o agente
simplesmente não esquecia o assunto.
Segundo o jornal, certa manhã, o Projeto de Lei para o Enterro de Materiais Sensíveis
havia passado no Senado, e o presidente iria aprová-lo.
O agente continuava me dizendo, assine isto aqui.
Dê um visto aqui. E aqui. E aqui.
Fiz a Oração para Assinar Documentos Importantes que Você não Lê.
Segundo Fertility, foi o Lixão Pornô que tirou meu irmão Adam do esconderijo onde ele
se mantivera até aquele momento.
Minha única participação no projeto foi assinar alguns papéis.
Desde então, todo mundo no país acha que é culpa minha eles terem que pagar dois
dólares a mais de depósito quando compram uma revista de sacanagem.
Depois disso, Adam saiu de seu esconderijo e encostou uma arma na cabeça entediada da
Fertility para forçá-la a dizer onde eu estava.
Como se ela não soubesse que isso aconteceria.
Fertility sabia de tudo.
Fertility mandou que eu descrevesse a ameaça de morte do meu irmão como bemintencionada.
Mais tarde, quando foi minha vez de segurar a mesma arma contra a cabeça do piloto
neste avião, foi aí que entendi como essas coisas acontecem rápido.
Mesmo assim, é a mim que as pessoas odeiam.
Eu, eu sou o irmão responsável pelo Depósito Sanitário Nacional de Materiais Sensíveis
Tender Branson.
Da última vez Fertility viu o novo eu inchado, bronzeado e barbeado em pessoa, ela disse
que eu havia melhorado tanto que estava irreconhecivel. Ela perguntou: "Você precisa de uma
tragédia?".
Ela mesma responde: "Olhe no espelho".
Adam ainda estava lá fora, atrás de mim. Adam é o irmão a quem Fertility me mandou
descrever como "um santo".
19
Antes que este avião caia ou que a fita do gravador de vôo acabe, quero esclarecer outros
erros, incluindo os seguintes:
O programa de televisão Mente em Paz.
A estatueta para painéis de carro Tender Branson.
O jogo Trivialidades da Bíblia. Como se algo que Deus tenha dito fosse trivial.
O segredo, segundo o agente, era ter muitas cartas na manga. Assim, quando uma coisa
dava errado, você ainda tinha esperança.
Então havia:
A Dieta da Bíblia.
O livro Segredos da Bíblia para Ganhar Dinheiro.
O livro Segredos Sexuais da Bíblia.
O Livro da Bíblia para Reformar Cozinhas e Banheiros.
Havia o Aromatizante de Ambiente Tender Branson.
Havia a Campanha do Gênesis.
Havia o Livro das Orações Muito Comuns Volume 2, mas as orações estavam ficando
meio pesadas:
Por exemplo, a Oração para Fazer Alguém te Amar.
Ou a Oração para Cegar seu Inimigo.
Tudo isso foi inventado pela boa gente das Empresas Tender Branson. Nada disso foi
idéia minha.
Principalmente a Campanha do Gênesis não foi idéia minha. Lutei contra ela com unhas e
dentes. O problema era que tinha gente perguntando se eu era virgem. Gente inteligente estava
perguntando se eu era meio demente, sendo virgem na minha idade.
As pessoas perguntavam qual era meu problema com o sexo.
O que havia de errado comigo?
A Campanha do Gênesis foi uma solução do agente. Cada vez mais tudo na minha vida
era para solucionar uma solução anterior de uma solução anterior, até que eu já não me
lembrava mais do problema original. O problema no caso era que você não pode ser um virgem
de meia-idade nos Estados Unidos sem que haja algo de errado com você. As pessoas não
conseguem aceitar uma virtude em outra pessoa se elas mesmas não a têm Em vez de acreditar
que você é mais forte, é mais fácil imaginar que você é mais fraco, que você é viciado em
masturbação, que você é mentiroso. As pessoas sempre estão dispostas a acreditar no oposto do
que você diz.
Você não pode simplesmente ter esse autocontrole.
Você foi castrado quando era criança.
A Campanha do Gênesis foi um evento de mídia bastante duvidoso.
A solução do agente foi me casar.
O agente me contou isso na limusine certo dia.
No carro conosco, o personal trainer me diz que as agulhas minúsculas de insulina são as
melhores porque não esbarram no interior da veia. A assessora também está lá, e ela e o agente
olham para fora do vidro fume quando o treinador amola uma agulha numa caixa de fósforos e
me injeta 50 miligramas de Laurabolin.
Isso não dói, usando agulhas de insulina.
A coisa do sexo, o agente me diz, é que não importa quanto você o deseje, você consegue
esquecer. Quando era adolescente, o agente desenvolveu uma alergia a leite. Ele adorava leite,
mas não podia beber. Anos depois, desenvolveram um leite sem lactose que ele podia beber,
mas aí ele já odiava o gosto de leite.
Quando ele parou de beber álcool por causa de um problema nos rins, ele achou que fosse
enlouquecer. Agora ele nem pensa mais em bebida.
Para evitar que eu enrugasse a pele do rosto, o dermatologista da equipe injetou Botox nos
músculos ao redor da minha boca e dos meus olhos. É a toxina botulínica para paralisar esses
músculos durante seis meses.
Com a parestesia periférica colateral de todas as interações dos remedios que eu tomo, mal
consigo sentir minhas mãos e meus pés. Com as injeções de Botox, mal consigo mexer o rosto.
Consigo falar e sorrir de maneira limitada.
Esta limusine nos levará ao avião que nos levará ao próximo estádio, só Deus sabe onde.
Segundo o agente, Seattle é apenas a área geográfica ao redor do estádio Kingdome. Em Detroit
estão as pessoas que mora perto do estádio Silverdome. Nós nunca estamos indo para Houston
mas para o Astrodome. O Superdome. O Mile High Stadium. O RFK Stadium O Jack Murphy
Stadium. Jacobs Field. Shea Stadium. Wrigley Field. Todos esses lugares são cidades, mas isso
não importa.
O coordenador de eventos também está conosco, e me passa uma lista de nomes,
candidatas, mulheres que querem se casar comigo, e o agente me dá uma lista de perguntas a
memorizar. No topo da página, a primeira pergunta é:
"Qual mulher no Velho Testamento Deus transformou num condimento?"
O coordenador de eventos está planejando uma cerimônia de casamento bem romântica,
na linha das cinqüenta jardas, durante o intervalo do Super Bowl. As cores da cerimônia vão
depender de quais times chegarem à final. A religião vai depender do resultado da disputa, uma
disputa secreta que está acontecendo para ver se eu viro católico, judeu ou protestante, agora
que a Igreja do Credo já era.
A segunda pergunta da lista é:
"Qual mulher no Velho Testamento foi comida por cães?"
Outra opção que o agente considera é evitarmos os atravessadores e fundarmos nossa
própria religião. Estabelecermos nossa própria marca de produto. Vendermos direto para o
consumidor.
A terceira pergunta na lista é:
"Será que a felicidade eterna no Jardim do Éden ficou tão maçante que comer a maçã
tenha sido justificável?"
Dentro da limusine, nós seis ou sete estamos sentados uns na frente dos outros nos dois
bancos, com os joelhos misturados.
De acordo com a assessora, o casamento já está acertado. O comitê escolheu uma boa
noiva sem religião, então as perguntas que eu farei serão uma armação. O comitê está na
limusine conosco. As pessoas estão preparando drinques no bar e passando para os outros. A
noiva será a mulher recém-contratada como assistente de coordenação de eventos. Ela está na
limusine conosco, sentada no banco à minha frente, e se inclina para mim.
Oi, ela diz. E ela tem certeza de que seremos muito felizes juntos.
O agente diz, precisamos de um grande milagre para fazer no casamento.
A assessora diz, o maior.
O agente diz que preciso arrumar o maior milagre da minha carreira.
Com Fertility puta comigo, com meu irmão ainda à solta, com a seringa de Laurabolin no
meu organismo, o esquema da escolha do receptáculo sagrado, o Projeto Gênesis, a estranha
aqui para se casar comigo e me desvirginar, e a pressão para que eu me suicide, eu sei lá.
O subsecretário do coordenador de mídia diz que a vodca acabou. Ele também está na
limusine conosco. Acabou o vinho também. Temos um monte de água tônica.
Todo mundo olha para mim.
Não importa o que eu faça, eles querem sempre mais, melhor, mais rápido, diferente,
novo, maior. Fertility tinha razão.
E agora o agente está me dizendo que eu preciso fazer o maior milagre da minha carreira.
Ele diz: "Você precisa conseguir isso".
Amém, eu digo a ele. Sério.
18
As pessoas estão sempre me perguntando se eu sei usar uma torradeira.
Eu sei o que faz um cortador de grama?
Eu sei para que serve condicionador de cabelo?
As pessoas não querem que eu seja mundano. Elas querem que eu tenha uma inocência
tipo Jardim do Éden antes da maçã. Uma espécie de ingenuidade de menino Jesus. As pessoas
perguntam se eu sei como funciona uma televisão.
Não, eu não sei, mas a maioria das pessoas não sabe.
Para começo de conversa, a verdade é que eu nunca fui um cientista e a cada dia que passa
eu fico mais ignorante. Não sou burro, mas estou chegando lá. Você não consegue viver no
mundo exterior sem pegar manha das coisas. Eu sei usar um abridor de latas.
A parte mais difícil de ser um líder religioso famoso é ter que me rebaixar às expectativas
das pessoas.
Todos perguntam se eu sei para que serve um secador de cabelos.
Segundo o agente, o segredo para se manter no topo é não ameaçar ninguém. Ser um nada.
Ser um espaço em branco que as pessoas possam preencher. Ser um espelho. Eu sou a versão
religiosa de um vencedor da loteria. O país está cheio de gente rica e famosa, mas eu sou uma
combinação rara: celebrado e burro, famoso e humilde, inocente e rico. Basta você viver sua
vida humilde, as pessoas pensam, o seu cotidiano de Joana D'Arc, o seu lavar de pratos tipo
Virgem Maria, e um dia você vai tirar a sorte grande.
As pessoas perguntam se eu sei o que é um quiroprático.
As pessoas pensam que a santidade é apenas algo que acontece com você. O processo
todo é fácil assim. Como se você pudesse ser a Lana Turner na drogaria Schwab's quando você
fosse descoberto. Talvez no século XI você pudesse ser assim passivo. Hoje, eles removem a
laser aquelas linhas ao redor da sua boca antes de você gravar seu especial de Natal para a
televisão. Hoje nós temos o peeling químico. Dermabrasão. Para a Joana D'Arc, foi moleza.
As pessoas me perguntam se eu sei passar um cheque.
Elas me perguntam o tempo todo por que não sou casado. Eu tenho pensamentos impuros?
Eu acredito em Deus? Eu me masturbo?
Eu sei para que serve um picador de papel?
Não sei. Não sei. Tenho minhas dúvidas. Não posso dizer. E tenho agente para me ensinar
tudo sobre picadores de papel.
A essa altura da história, uma cópia do Manual de Diagnósticos e Estatísticas dos
Distúrbios Mentais aparece no meio da correspondencia Um funcionário da equipe de
correspondência o despacha para um assistente de mídia, que o passa para um subassessor, que
o despacha para um organizador de agenda, que o coloca na minha bandeja de café da manhã
no quarto de hotel. Com minha ração de 430 gramas de complexo de carboidratos e 600 gramas
de albumina de ovo, lá estava o MDE da assistente social morta.
A correspondência chega em dez sacolas por vez. Eu tenho meu próprio código postal.
Ajude-me. Cure-me. Salve-me. Alimente-me, as cartas dizem.
Messias. Salvador. Líder, eles me chamam.
Herege. Blasfemo. Anti-Cristo. Demônio, eles me chamam.
Então estou sentado na cama com a bandeja de café da manhã sobre o colo, e estou lendo
o manual. Não tem o endereço do remetente na caixa de onde ele veio, mas do lado de dentro
da capa tem a assinatura da assistente social. É estranho como o nome sobrevive à pessoa, o
significante ao significado, o símbolo ao simbolizado. Da mesma forma que os nomes inscritos
na pedra de cada catacumba no Mausoléu de Columbia, só o nome da assistente social restou.
Nós nos sentimos tão superiores aos mortos!
Por exemplo, se Michelangelo era tão esperto, por que ele morreu?
A forma como eu me sinto lendo o MDE é: talvez eu seja um imbecil gordo, mas ainda
estou vivo.
A assistente social ainda está morta, e há provas de que tudo que ela estudou e acreditou
em toda a vida dela já esteja errado. No fim desta edição do MDE, há as revisões da última
edição. As regras já foram mudadas.
Aqui estão as definições do que é aceito, do que é normal, do que é são.
Orgasmo Masculino Inibido agora é Distúrbio do Orgasmo Masculino.
O que era Amnésia Psicogênica agora é Amnésia Dissociativa.
Distúrbio da Ansiedade do Sono agora é Distúrbio do Pesadelo.
De uma edição para outra, os sintomas mudam. Pessoas sãs agora são loucas pelos novos
padrões. Pessoas que eram chamadas de loucas agora são a imagem da saúde mental.
Sem nem mesmo bater, o agente entra com os jornais da manhã e me pega na cama, lendo.
Eu digo a ele, olha o que chegou pelo correio, e ele arranca o livro das minhas mãos e pergunta
se eu sei o que é uma prova incriminadora. O agente lê o nome da assistente social do lado de
dentro da capa e pergunta: "Você sabe o que é assassinato em primeiro grau?" o agente está
segurando o livro com uma mão e batendo nele com a outra "Você sabe o que é se sentar na
cadeira elétrica?"
E bate.
"Você não percebe o que uma condenação por homicídio faria com a venda dos ingressos
das suas próximas apresentações?"
E bate.
"Você já ouviu o termo 'principal prova da acusação'?"
Não sei do que ele está falando.
O som dos aspiradores de pó no corredor me deixa sonolento. Já é quase meio-dia e ainda
estou na cama.
"Estou falando disto aqui", o agente segura o livro com as duas mãos bem diante do meu
rosto. "Este livro", ele diz, "é o que a polícia chamaria de lembrança do crime."
O agente diz que os detetives de polícia pedem para falar comigo todos os dias sobre a
morte da assistente social. O FBI pergunta todos os dias ao agente o que aconteceu com o MDE
e com as fichas dos sobreviventes que sumiram uma semana antes de ela morrer sufocada com
gás clorídrico. O governo não gostou de eu ter dado o fora de lá. O agente me pergunta: "Você
faz idéia de como está perto de receber um mandado de prisão?".
"Você sabe o que significa um suspeito principal de um crime?"
"Você sabe o que vão pensar ao vê-lo com este livro?"
Estou sentado na cama comendo torradas sem manteiga e aveia sem açúcar mascavo.
Estou me espreguiçando e dizendo, esqueça. Relaxe. O livro veio pelo correio.
O agente me pergunta se isso não parece conveniente demais.
A questão é que eu poderia ter enviado o livro para mim mesmo. MDE me faz lembrar da
minha vida anterior. Mesmo com a vida dura levo agora, com os medicamentos, a agenda
apertada e zero de integridade pessoal, ainda assim é melhor que limpar banheiro todos os dias.
Não que eu nunca tenha roubado nada. Outra boa forma de furtar lojas é pegar um objeto e
retirar a etiqueta de preço. Isso funciona melhor em lojas grandes, onde há departamentos e
funcionários demais para que alguém perceba. Pegue um chapéu, um par de luvas ou um
guarda-chuva, retire a etiqueta de preço e deixe na seção de Achados e Perdidos. Você nem
precisa sair da loja com o objeto.
Se a loja descobrir que o objeto é do estoque, ele simplesmente volta para as prateleiras.
Na maioria das vezes, o objeto fica no Achados e Perdidos, e se ninguém for retirá-lo em
trinta dias, ele é seu.
E, como ninguém o perdeu, ninguém vai retirá-lo.
Nenhuma loja de departamentos coloca um gênio para ser o encarregado da seção de
Achados e Perdidos.
O agente pergunta: "Você sabe o que é lavagem de dinheiro?".
Pode ser o mesmo golpe. Como se eu tivesse matado a assistente social e depois enviado o
livro para mim mesmo. Lavado, digamos. Como se eu o tivesse enviado a mim mesmo para eu
poder bancar o inocente aqui deitado sobre meus travesseiros de algodão egípcio, orgulhoso do
meu crime, tomando café da manhã ao meio-dia.
A idéia de lavar qualquer coisa me dá saudades do som das roupas com zíper girando na
secadora.
Aqui, no meu quarto de hotel, você não precisa olhar muito longe para encontrar um
motivo. A ficha que a assistente social fez de mim tem todos os registros de como ela me curou.
Eu, o exibicionista, eu, o pedófilo, eu, o ladrão de lojas.
O agente pergunta se eu sei como é um interrogatório do FBI.
Ele pergunta se eu acho que a polícia é burra.
"Digamos que você não seja o assassino", o agente afirma, "você sabe quem enviou o
livro? Quem pode estar querendo armar para você?"
Talvez. Provavelmente, sim, eu sei.
O agente está pensando que é alguém de uma religião inimiga, um católico, um batista,
um taoísta, um judeu, um anglicano invejoso.
Foi meu irmão, digo a ele. Tenho um irmão mais velho que ainda pode estar vivo, e é fácil
imaginar Adam Branson matando os sobreviventes para que a polícia pense que foi suicídio. A
assistente social estava fazendo o meu trabalho por mim. É fácil imaginá-la caindo numa cilada
armada para mim, uma garrafa de amoníaco misturado com água sanitá esperando que eu
abrisse a tampa e caísse morto com o cheiro.
O livro cai da mão do agente e fica lá, aberto, no carpete. O agente passa a outra mão
pelos cabelos. "Mãe de Deus", ele diz. E continua: "Não me diga que você tem um irmão ainda
vivo".
Talvez, eu digo. Provavelmente, talvez, sim, eu tenho. Eu o vi num ônibus uma vez. Foi
umas duas semanas antes de a assistente social morrer O agente olha fixamente para mim na
cama, coberto de migalhas de torrada, e fala: "Não, você não viu. Você não viu ninguém".
O nome dele é Adam Branson.
O agente sacode a cabeça: "Não, não é".
Adam me telefonou em casa e ameaçou me matar.
O agente diz: "Ninguém ameaçou te matar".
Ele ameaçou, sim. Adam Branson está vagando pelo país, matando os sobreviventes para
nos levar todos para o Céu, ou para mostrar ao mundo a união da Igreja do Credo, ou para se
vingar de quem desacreditou do movimento dos missionários, sei lá.
O agente pergunta: "Você entende o termo rejeição pública?".
O agente pergunta: "Você sabe o que vai valer a sua carreira se as pessoas descobrirem
que você não é o único sobrevivente do lendário e maligno Culto de Morte da Igreja do
Credo?".
O agente pergunta: "E se esse seu irmão for preso e contar a verdade sobre o culto? Ele
vai estragar tudo que a equipe de redatores vem dizendo ao mundo sobre a sua infância".
O agente pergunta: "E depois?".
Sei lá.
"Você não será nada", ele diz.
"Você será apenas mais um mentiroso famoso", ele diz.
Ele está berrando: "Você sabe quantos anos de cadeia dá enganar o público? Dar
informações falsas? Fazer propaganda enganosa? Difamar.
Aí ele chega bem perto e sussurra: "Eu preciso te dizer que a cadeia faz Sodoma e
Gomorra parecerem Minneapolis e St. Paul por comparação.
Ele vai me dizer o que eu sei, o agente diz. Ele pega o MDE do chão e embrulha no jornal
de hoje. Ele diz que eu não tenho um irmão. Ele diz que eu não vi o MDE. Eu não vi o meu
irmão. Eu lamento a morte da assistente social. Eu sinto falta da minha família morta. Eu
adorava a assistente social. Eu serei grato para sempre pela sua ajuda e orientação, e rezo cada
minuto para que minha família não esteja queimando no Inferno. Ele diz que eu acho que a
polícia fica sempre me atacando porque tem preguiça de ir atrás do verdadeiro assassino da
assistente social. Ele diz que eu só quero que essa morte triste e trágica seja solucionada. Ele
diz que eu só quero tocar a minha vida.
Ele diz que eu confio e aprecio a orientação que recebo todos os dias do meu agente
maravilhoso. Ele me diz que eu sou profundamente grato.
Pouco antes que a camareira entre para limpar o quarto, o agente diz que vai levar o MDE
para o picotador de papel.
Ele diz: "Agora tira essa bunda da cama, seu preguiçoso de merda, e lembre-se de tudo
que eu acabei de te dizer, porque em breve você terá que repetir tudo para a polícia".
17
Das privadas de ambos os lados da minha vêm gemidos e respiração.
Sexo ou movimentos intestinais. Não sei a diferença. A privada onde estou tem buracos
nas duas divisórias, mas não consigo olhar.
Se Fertility já está aqui eu não sei.
Se Fertility está sentada aqui ao lado, em silêncio até ficarmos a sós, suplicarei pelo meu
grande milagre.
Do lado do buraco à minha direita está escrito, bem aqui eu me sentei, tentei cagar mas só
peidei.
Ao lado disso está escrito, é a história da minha vida.
Ao lado do buraco à minha esquerda está escrito, enfia que eu te bato uma punheta.
Ao lado disso está escrito, vai tomar no cu.
Ao lado disso está escrito, com prazer.
Este é o aeroporto de Nova Orleans, que é o aeroporto mais perto do Superdome, onde
amanhã terá o Super Bowl, quando, no intervalo eu casarei.
E o tempo está passando.
Lá fora, no corredor, meu séquito e minha noiva estão me esperando há mais de duas
horas, e estou sentado aqui há tanto tempo que minhas tripas estão quase saindo pelo cu.
Minhas calças estão amarrotadas ao redor dos tornozelos. O protetor de papel do assento está
absorvendo a água do vaso sanitário e molhando minha pele. O cheiro dos negócios das pessoas
entra pelo nariz a cada vez que eu respiro.
As descargas vêm sucessivamente, mas cada vez que um homem sai, outro chega.
Na parede está escrito, você sabe como terminam a vida e os filmes pornôs. A única
diferença é que a vida começa com o orgasmo.
Ao lado disso está escrito, chegar perto do fim é que é a parte excitante.
Ao lado está escrito, que tântrico!
Ao lado está escrito, aqui cheira a merda.
Ouço a última descarga. O último homem lava as mãos. Os últimos passos saem pela
porta.
Pelo buraco à minha esquerda eu sussurro, Fertility? Você está aí?
Pelo buraco à minha direita eu sussurro, Fertility? É você?
Só há o meu temor de que outro homem entrará para ler o seu jornal e descarregar suas
seis últimas refeições.
Aí eu ouço pelo buraco à minha direita: "Odiei ser chamada de prostituta na televisão".
Sussurro de volta, me desculpe. Eu só li o roteiro que eles me passaram.
"Eu sei disso."
Eu sei que você sabe.
A boca vermelha dentro do buraco diz: "Liguei sabendo que você me trairia. Não teve
nada a ver com livre-arbítrio. Foi uma coisa tipo Jesus e Judas. Você foi só um joguete".
Obrigado, eu digo.
Ouço passos dentro do banheiro, e o homem se senta na privada à minha esquerda.
Através do buraco à direita, eu sussurro, não podemos conversar agora. Entrou uma
pessoa.
"Tudo bem", a boca vermelha diz. "É só o grande irmão."
O grande irmão?
A boca diz: "O seu irmão, Adam Branson".
E através do buraco à esquerda aparece o cano de um revólver.
E uma voz, uma voz de homem, diz: "Olá, irmãozinho".
A arma enfiada no buraco mira para todo lado, às cegas, aponta para os meus pés, para o
meu peito, para a minha cabeça, a porta, a privada.
Na parede ao lado do cano da arma está inscrito, chupa aqui.
"Não se desespere", Fertility diz. "Ele não vai te matar. Sei que não vai."
"Eu não consigo te ver", Adam diz, "mas tenho seis balas, e uma delas vai te acertar".
"Você não vai matar ninguém", a boca vermelha diz ao revólver negro, e os dois começam
a dialogar por cima do meu colo branquelo e nu. "Ele esteve no meu apartamento ontem à noite,
encostando esse revólver na minha cabeça, e tudo que fez foi desarrumar meu cabelo."
"Cala a boca", o revólver diz.
A boca diz: "Ele não tem bala nenhuma".
O revólver diz: "Cala a boca!".
A boca diz: "Sonhei com você de novo ontem à noite. Eu sei o que fizeram com você
quando criança. Sei que o que aconteceu com você foi terrível. Entendo por que você tem tanto
medo de sexo".
Eu sussurro, não aconteceu nada comigo.
O revólver diz: "Eu tentei evitar, mas só de pensar no que os anciãos faziam com vocês,
crianças, eu ficava enojado".
Eu sussurro, não foi tão ruim.
"No meu sonho", a boca diz, "você estava chorando. Você era só um menininho na
primeira vez, e você não fazia idéia do que iria acontecer".
Eu sussurro, já deixei tudo isso para trás. Sou um líder religioso famoso agora.
O revólver diz: "Não deixou, não".
Deixei, sim.
"Então por que você ainda é virgem?", a boca pergunta.
Vou me casar amanhã.
A boca diz: "Mas você não fará sexo com ela".
Eu digo, ela é uma garota adorável e charmosa.
A boca diz: "Mas você não fará sexo com ela. Você não consumará o casamento".
O revólver diz à boca: "Era assim que a igreja fazia com todos os Tenders e Biddies para
que eles nunca quisessem sexo no mundo exterior"
A boca diz ao revólver: "Bem, esse costume era simplesmente sádico"
Falando em casamentos, eu digo, preciso do maior milagre que você tiver.
"Você precisa muito mais que isso", a boca diz. "Amanhã de manhã, enquanto você
estiver se casando, seu agente vai cair morto. Você vai precisar de um bom milagre e de um
bom advogado."
A idéia do meu agente morrendo não é má.
"A polícia", a boca diz, "vai suspeitar de você."
Mas por quê?
"Haverá um frasco daquele seu novo perfume, Verdade, a Fragrância", a boca diz, "e ele
morrerá sufocado ao inalar o aroma."
"Na verdade, terá água sanitária misturada com amoníaco", o revólver diz.
Eu pergunto, igual à assistente social?
"Por isso a polícia virá atrás de você", a boca diz.
Mas o meu irmão matou a assistente social, eu digo.
"Culpado das acusações", o revólver diz. "E eu roubei o MDE e as suas fichas."
A boca diz: "E será ele quem armará para o seu agente morrer sufocado".
"Conte a ele a melhor parte", o revólver pede à boca.
"Cada vez mais nos meus sonhos", a boca diz, "a polícia suspeita de que você tenha
matado todos os sobreviventes da Igreja do Credo cujo suicídios pareceram forjados."
Todos os membros da Igreja do Credo que o Adam matou.
"Esses mesmos", o revólver concordou.
A boca diz: "A polícia acha que talvez você os tenha matado para se tornar famoso. Da
noite para o dia você passou de um servente feio e gordo para um líder religioso, e amanhã você
será acusado de ser o serial killer de maior sucesso no país".
O revólver diz: "De maior sucesso talvez não seja o termo certo".
Eu digo, eu não estava tão gordo assim.
"Quanto você pesava?", o revólver pergunta, "e seja sincero".
Na parede está escrito, Hoje é o Pior Dia do Resto da sua Vida.
A boca diz: "Você era gordo. Você é gordo".
Eu pergunto, então por que você não me mata agora? Por que não coloca algumas balas
no seu revólver e atira em mim?
"O revólver está carregado", o revólver diz, e o cano gira e aponta para a minha cara, os
meus joelhos, os meus pés, a boca da Fertility.
A boca diz: "Não, você não tem bala nenhuma".
"Eu tenho, sim", o revólver diz.
"Então prove", a boca diz. "Mate-o. Agora. Atire nele. Atire."
Eu digo, não me mate.
O revólver diz: "Não estou com vontade".
A boca diz: "Mentiroso".
"Bem, talvez eu quisesse matá-lo antes", o revólver diz, "mas agora, quanto mais famoso
ele ficar, melhor. Por isso eu matei a assistente social e destruí os registros de sua saúde mental.
Por isso coloquei aquele frasco falso com gás clorídrico para o agente cheirar".
Eu só me fingia de maluco e pervertido com a assistente social, eu digo.
Riscado na parede está, cague ou caia fora.
"Não importa quem matará o agente", a boca diz. "A polícia estará lá na linha das
cinqüenta jardas para te prender por assassinato em massa no minuto em que tirarem a câmera
de você."
"Mas não se preocupe", o revólver diz. "Nós estaremos lá para te resgatar."
Resgatar-me?
"Dê a eles esse milagre", a boca diz, "e haverá alguns minutos de caos para que você
consiga sair do estádio.
"Eu pergunto, caos?
O revólver diz: "Nos procure num carro".
A boca diz: "Um carro vermelho".
O revólver diz: "Como você sabe? Nós ainda não o roubamos".
"Eu sei de tudo", a boca diz. "Vamos roubar um carro vermelho com câmbio automático
porque não sei usar marcha."
"Tudo bem", o revólver diz. "Um carro vermelho."
"Tudo bem", a boca diz.
Eu não poderia estar mais excitado. Eu digo, dê-me logo o milagre.
E Fertility me dá o milagre. O maior milagre da minha carreira.
E ela tem razão.
E será um caos.
Será um pandemônio total.
16
Às onze horas da manhã seguinte, o agente ainda está vivo.
O agente está vivo às onze e dez e às onze e quinze.
O agente está vivo às onze e trinta e às onze e quarenta e cinco.
Às onze e cinqüenta, o coordenador de eventos me leva de carro do hotel ao estádio.
Com todo mundo sempre ao meu redor, coordenadores, representantes e gerentes, não
posso perguntar ao agente se ele trouxe um frasco de Verdade, a Fragrância, e quando ele
planeja dar uma cheirada. Não posso dizer a ele para não cheirar perfume nenhum hoje. Porque
é veneno. Porque o irmão que não tenho e que nunca vi abriu a maleta do agente e e colocou
uma armadilha. Toda vez que eu olho o agente, toda vez que ele sai e vai ao banheiro ou que eu
tenho que deixá-lo por um minuto, pode ser a última que eu o vejo.
Não que eu ame o agente. Eu posso facilmente me imaginar no enterro dele, o que eu
vestiria, o que eu diria para louvá-lo. Dando um sorriso amarelo. Posso me imaginar com
Fertility dançando tango argentino sobre o túmulo dele.
Só não quero ser julgado por assassinato em massa.
É o que a assistente social chamaria de uma situação conflitante.
O que quer que eu fale sobre o perfume a equipe repetirá para a polícia, se ele aparecer
morto por asfixia.
Às quatro e trinta, estamos nos camarins do estádio com as mesas dobráveis, a comida
industrializada e as roupas alugadas, os smokings e o vestido de noiva pendurados nos cabides,
e o agente ainda está vivo e me perguntando o que eu planejo dizer no meu grande milagre no
intervalo.
Não vou contar.
"Mas é grande?", o agente quer saber.
É grande.
É grande o suficiente para que cada homem neste estádio queira me encher de porrada.
O agente olha para mim, franzindo as sobrancelhas.
O milagre que tenho é tão grande que serão necessários todos os policiais desta cidade
para evitar que a multidão me mate. Não digo isso ao agente. Não digo que a idéia é essa. A
polícia ficará tão ocupada tentando me manter vivo que não conseguirá me prender por
assassinato. Essa parte eu não conto ao agente.
Às cinco horas, o agente ainda está vivo, e estão me enfiado num smoking branco com
gravata borboleta branca. O juiz de paz vem e me diz que está tudo sob controle. Tudo que eu
preciso fazer é deixar o ar entrar e sair.
A noiva vem com seu vestido de casamento, esfregando lubrificante no dedo do anel, e
me diz: "Meu nome é Laura".
Não é a garota que estava na limusine ontem.
"Aquela era a Trisha", a noiva diz. Trisha ficou tão doente que Laura a está substituindo.
Não tem problema. Vou me casar com a Trisha mesmo que ela não esteja aqui. O agente ainda
quer a Trisha.
Laura diz: "As câmeras não vão conseguir ver". Ela está usando um véu.
As pessoas estão comendo a comida trazida pelo fornecedor. Perto das portas de aço que
se abrem para as laterais do campo, os funcionários da floricultura estão prontos para empurrar
o altar até o meio dele. Os candelabros. Os aros cobertos com flores brancas de seda. Rosas e
peônias alelis e ervilhas-de-cheiro brancas, todas delicadas e cheias de spray de cabelo para que
fiquem firmes. O buquê que a noiva vai carregar é feito de gladíolos, dálias e tulipas de seda
enroladas com madressilvas brancas também de seda.
Tudo parece bonito e real se você olha de longe.
Os holofotes do campo são fortes, a maquiadora diz, e me faz uma boca enorme e
vermelha.
Às seis horas, o Super Bowl começa. É futebol. É o Cardinals contra o Colts.
Com cinco minutos no primeiro quarter, está Colts seis, Cardinals zero, e o agente ainda
está vivo.
Perto das paredes de aço que se abrem para o estádio estão os coroinhas e as damas de
honra vestidas como anjos, paquerando e fumando cigarros.
Com o Colts na linha de quarenta jardas, é o seu segundo down e mais seis pontos, e o
programador está me dizendo que eu passarei minha lua-de-mel numa turnê de dezessete
cidades para promover os livros, os jogos, a minha estatueta para painel de carro. Fundar a
minha própria religião mundial não está fora de cogitação. Uma turnê mundial está sendo
programada agora que a questão incômoda da minha virgindade esta resolvida. O plano inclui
visitas religiosas à Europa, ao Japão, à China, a Austrália, à Cingapura, à África do Sul, à
Argentina, às Ilhas Virgens e a Nova Guiné, e eu voltarei a tempo para os Estados Unidos para
ver meu primeiro filho nascer.
Para que não restem dúvidas a ninguém, o coordenador me diz que agente tomou certas
liberdades para que minha esposa tenha nosso primeiro filho no fim da minha turnê de nove
meses.
O planejamento a longo prazo é de que minha esposa tenha sei talvez sete filhos, uma
família-modelo da Igreja do Credo.
O coordenador de eventos diz que não precisarei levantar um dedo.
Será uma concepção imaculada, no que diz respeito a mim.
Os holofotes do campo estão fortes demais, a maquiadora diz, e deixa as minhas
bochechas vermelhas.
No fim do primeiro quarter, o agente vem me trazer uns papéis para eu assinar.
Documentos relativos à divisão de lucros, ele me diz. A parte denominada como Tender
Branson, doravante denominada A Vítima, concede à parte doravante denominada como O
Agente o poder de receber e distribuir todo o dinheiro pagável ao Sindicato de Mídia e
Comércio Tender Branson, incluindo mas não limitado à venda de livros, programas em rádio e
TV, trabalhos artísticos, apresentações ao vivo e cosméticos, a saber, perfumes masculinos.
"Assine aqui", o agente diz.
E aqui.
Aqui.
E aqui.
Tem uma pessoa prendendo uma rosa branca na minha lapela. Tem outra de joelhos,
engraxando meus sapatos. A maquiadora ainda está trabalhando.
O agente agora possui direitos autorais sobre a minha imagem. E sobre o meu nome.
Estamos no fim do primeiro quarter e o jogo está empatado em sete a sete, e o agente
ainda está vivo.
O personal trainer me injeta dez cc de adrenalina para fazer meus olhos brilharem.
O coordenador de eventos sênior diz que tudo que eu preciso fazer é caminhar pela linha
de cinqüenta jardas até onde está armada a cerimônia de casamento, no centro do estádio. A
noiva virá caminhando do lado oposto. Todos ficaremos em cima de uma plataforma de
madeira, com cinco mil pombas brancas escondidas na parte de baixo. O áudio da cerimônia já
foi todo gravado em estúdio, então é isso que as pessoas ouvirão. Não preciso dizer uma
palavra até fazer a minha previsão.
Quando eu pisar numa alavanca escondida perto do meu pé, ela soltarrá as pombas. Andar.
Falar. Pombas. Moleza.
O figurinista avisa que teremos que usar o espartilho para conseguir a silhueta ideal e me
manda ir rápido e tirar a roupa na frente de todos. Os anjos, a equipe, os fornecedores de
alimento, o pessoal da floricultura. O agente. Agora. Tudo, menos minhas cuecas e meias.
Agora. O figurinista está de pé com a tortura em forma de arames e borracha do espartilho
pronto para eu vestir, e ele diz que é minha última chance de fazer xixi pelas próximas três
horas.
"Você não teria que usar esse monstro", o agente me diz, "se conseguisse manter o peso."
Já estamos a quatro minutos do segundo quarter e ninguém consegue achar a aliança.
O agente culpa o coordenador de eventos, que culpa o figurinista que culpa o encarregado
dos acessórios, que culpa o joalheiro que tinha que ceder uma aliança em troca de um comercial
no balão dirigível que circula sobre o estádio. Lá fora, o balão passeia pelo céu mostrando o
nome do joalheiro. Aqui dentro, o agente está ameaçando processá-lo por quebra de contrato e
tentando se comunicar com o balão.
O coordenador de eventos me diz: "Finja que tem um anel".
Eles farão com que as câmeras só nos mostrem do pescoço para cima, eu e a noiva.
Simplesmente finja estar colocando uma aliança no dedo da Trisha.
A noiva diz que ela não é a Trisha.
"E lembre-se", o coordenador diz, "basta fingir que fala, está tudo pré-gravado."
Estamos a nove minutos do segundo quarter e o agente ainda esta vivo e berrando ao
telefone.
"Abata-o", ele está gritando. "Arranque a tomada. Dê-me uma arma que eu atiro", ele
grita. "Tire esse maldito balão do ar."
"Impossível", retruca o coordenador de eventos. No minuto em que a cerimônia de
casamento deixar o estádio, a equipe que está no balão vai despejar seis toneladas de arroz
sobre o estacionamento.
"Por favor, venha comigo", o organizador sênior diz. Está na hora de tomarmos nossas
posições.
O Colts e o Cardinals saem ruidosamente do campo, e o placar está a vinte a dezessete.
A multidão está gritando por mais futebol.
Os anjos e a equipe de acessórios correm com o altar e as flores de seda, os candelabros
acesos e a plataforma cheia de pombas.
O espartilho aperta todos os meus órgãos internos, que parecem subir pela minha
garganta.
O relógio marca os minutos que faltam para o início do segundo tempo, e o agente ainda
está vivo. Só consigo respirar um pouco de ar de cada vez.
O personal trainer chega perto de mim e diz: "Tome, isto vai colocar um pouco de cor nas
suas bochechas".
Ele encosta um pequeno frasco no meu nariz e manda que eu aspire com força.
A multidão bate os pés, o tempo passa, o placar está apertado, e eu aspiro.
"Agora a outra narina", o personal trainer diz.
E eu aspiro.
E tudo some. Exceto pelo zunido do meu sangue correndo pelas veias nos meus ouvidos e
pelo meu coração batendo contra o espartilho apertado, eu não tenho consciência de nada.
Não sinto nada. Não vejo nada. Não ouço nada. Não temo nada.
A distância, o coordenador acena para que eu pise na grama artificial. Ele aponta para a
linha branca do gramado, depois aponta para um grupo de pessoas sobre a plataforma da
cerimônia coberta de flores brancas no centro do campo.
O zunido do meu sangue some até que eu ouço uma música. Passo pelo coordenador e
entro no estádio, com milhares de pessoas gritando em suas cadeiras. A música retumba vinda
de lugar nenhum. O balão dirgível circula lá fora, mostrando:
Parabéns da linha de produtos de qualidade da família Philip Morris de Produtos.
A noiva, Laura, Trisha, sei lá, chega pelo lado oposto.
Sem abrir a boca, o juiz de paz diz:
VOCÊ, TENDER BRANSON, ACEITA TRISHA CONNERS COMO LEGÍTIMA
ESPOSA, PARA AMÁ-LA, RESPEITÁ-LA, E JUNTOS SEREM FECUNDOS E
MULTIPLICAREM O MAIOR NÚMERO DE VEZES POSSÍVEL ENQUANTO VOCÊS
VIVEREM?
Dá para sentir a reverberação de centenas de alto-falantes.
Sem abrir a boca, eu digo:
SIM.
Sem abrir a boca, o juiz de paz diz:
VOCÊ, TRISHA CONNERS, ACEITA TENDER BRANSON ENQUANTO VOCÊS
VIVEREM?
E Laura dubla:
SIM.
Com as câmeras de televisão em close, nós fingimos trocar as alianças.
Nós fingimos o beijo.
O véu nem sai do lugar. Laura permanece como Trisha. A distância, tudo parece perfeito.
Fora das câmeras, a polícia começa a entrar no campo. O agente deve estar morto. O
perfume. Gás clorídrico.
A polícia está na linha de dez jardas.
Peço ao juiz de paz o microfone para que eu possa fazer minha grande previsão, o meu
milagre.
A polícia está na linha de vinte jardas.
Pego o microfone mas está sem som.
A polícia está na linha de vinte e cinco jardas.
Eu estou dizendo, testando, testando, um, dois, três.
Testando, um, dois, três.
A polícia está na linha de trinta jardas, com as algemas abertas e prontas para se fechar em
meus pulsos.
O microfone é ligado e minha voz ecoa pelo sistema de som.
A polícia está na linha de quarenta jardas. Você tem o direito de permanecer em silêncio.
Se você abdicar desse direito, tudo que disser poderá e será usado contra você...
E eu abdico do meu direito.
E faço minha previsão.
A polícia está na linha de quarenta e cinco jardas.
Minha voz ecoa por todo o estádio e eu digo:
O PLACAR FINAL DA PARTIDA DE HOJE SERÁ COLTS VINTE E SETE
CARDINALS VINTE E QUATRO. O COLTS VAI VENCER O SUPER BOWL DE HOJE
POR TRÊS PONTOS.
E o mundo cai.
Pior que isso, o motor número dois acabou de entrar em pane. Sozinho aqui no vôo 2039,
só me restam duas turbinas.
15
Para fazer o serviço direito, pegue uma folha do papel colorido e dobre-a com uma folha
de papel branco. Coloque um cupom dentro das folhas dobradas. Segure uma folha de selos
com as folhas dobradas. Depois dobre uma folha de papel de carta em volta disso tudo e enfie
num envelope.
Cole o rótulo correspondente com o endereço no envelope e você ganhou três centavos.
Faça isso trinta e três vezes e você já ganhou quase um dólar.
O local onde estamos esta noite foi idéia de Adam Branson.
A carta que estou dobrando começa:
A água que entra na casa dos WILSON traz com ela parasitas perigosos?
Onde estamos é supostamente um local seguro.
O papel colorido dobrado com o branco, o cupom dentro, a folha de selos, o papel de
carta, tudo isso vai dentro do envelope, e eu estou três centavos mais perto da fuga.
A água que entra na casa dos CAMERON traz com ela parasitas perigosos?
Estamos os três, Adam, Fertility e eu, sentados à mesa da cozinha montando esses
envelopes. Às dez horas, a governanta tranca a porta da frente e ao voltar pára na cozinha para
perguntar se nossa filha está melhor. Os médicos conseguiram alguma melhora? Ela vai
sobreviver?
Fertility, ainda com arroz nos cabelos, diz: "Ainda não estamos fora de perigo".
Claro, não temos uma filha.
Nossa filha foi idéia de Adam Branson.
Ao nosso redor há três ou quatro famílias, crianças e pais falando de câncer e
quimioterapia, de queimaduras e implantes de pele. Infecções por estafilococo. A governanta
pergunta o nome da nossa garotinha.
Adam, Fertility e eu olhamos um para o outro, Fertility com a língua para fora para lamber
a borda de um envelope. Olhar para Adam é a mesma coisa que eu olhar para uma foto minha
antiga.
Juntos, nós dizemos três nomes diferentes.
Fertility diz: "Amanda".
Adam diz: "Patty".
Eu digo, Laura. Só que os três nomes se sobrepõem.
A governanta olha para mim, com meu smoking branco chamuscado, e pergunta por que
nossa filhinha está no hospital para se tratar.
Juntos, nós dizemos três doenças diferentes.
Fertility diz: "Escoliose".
Adam diz: "Pólio".
Eu digo, tuberculose.
A governanta nos observa dobrar a folha laranja na branca, o cupom, os selos, o papel de
carta, e vê a algema presa a um dos meus pulsos.
A água que entra na casa dos DIXON traz com ela parasitas perigosos?
Foi Adam quem nos trouxe aqui. Só por uma noite, ele diz. Aqui e seguro. Agora que eu
sou um assassino em massa, Adam sabe como podemos seguir em direção ao norte pela manhã,
até chegarmos ao Canada, mas por hoje precisávamos de um lugar para nos esconder.
Precisávamos de comida. Precisávamos ganhar um dinheirinho, então ele nos trouxe aqui.
Isso foi depois do estádio e depois que a multidão derrubou a barreira policial. Isso foi
depois do meu casamento simulado, quando o agente morreu e a polícia lutou para me manter
vivo para poder me executar por assassinato. O público inteiro do Super Bowl desceu para o
campo no minuto em que eu anunciei que o Colts venceria. Com uma metade da algema já ao
redor do meu pulso, o policial não pôde com a multidão de bêbados que correu para a nossa
direção pelas laterais.
A banda estava em algum lugar tocando o hino nacional.
De todas as direções, as pessoas caíam no campo vindas das arquibancadas. As pessoas
vinham em nossa direção pelo gramado com os punhos erguidos. De um lado estava o Arizona
Cardinals em seu uniforme. Do outro estava o Indianapolis Colts ainda no banco, dando
tapinhas nas bundas e nas mãos uns dos outros.
No momento em que a polícia chegou à beirada da plataforma da cerimônia de casamento,
eu pisei na alavanca e cinco mil pombas brancas voaram, formando uma parede sólida ao meu
redor.
As pombas fazem os policiais se afastarem o tempo suficiente para que a multidão de
torcedores chegue ao centro do campo.
A policia tenta segurá-los, e eu pego o buquê da noiva.
Sentado aqui, preparando envelopes, eu queria contar a todos como fiz minha grande fuga.
Como os cilindros de gás lacrimejante da polícia passaram voando para todo lado por cima das
cabeças. Como o urro da multidão ecoou pelo estádio. Como eu peguei o buquê de flores de
seda da noiva, com lágrimas em seus olhos. Como eu simplesmente toquei o buquê cheio de
spray de cabelo numa vela acesa e consegui uma tocha para afastar qualquer agressor.
Segurando a tocha de gladíolos e o açoite de fios quentes das madressilvas falsas à minha
frente, pulei da plataforma da cerimônia e saí correndo pelo campo. A linha de cinqüenta
jardas. A linha de quarenta jardas. Trinta jardas. Com meu smoking branco, saí correndo e
desviando de tudo como um zagueiro, disparando e girando o corpo. A linha de vinte jardas.
Para não ser derrubado, eu açoitava com as dálias em chamas em todas as direções. A linha de
dez jardas.
Dez mil zagueiros estão lá para me derrubar.
Alguns bêbados, alguns profissionais, nenhum deles turbinado pelas substâncias químicas
de qualidade que eu tomei.
Mãos seguram por trás o meu paletó branco.
Homens mergulham tentando agarrar meus pés.
Foram os esteróides que salvaram a minha vida.
Aí, touchdown.
Eu passo pela trave, em direção às portas de aço que me levarão para fora do campo.
Minha tocha já tinha se consumido e só restavam alguns trílios minúsculos de seda
quando eu a joguei por cima dos ombros. Eu passo pelas portas de aço e as tranco pelo lado de
dentro.
Com a multidão do Super Bowl esmurrando as portas fechadas, fico seguro aqui dentro
durante alguns minutos com a comida industrializada e com a maquiadora. O corpo do agente
está sob um lençol branco numa maça ao lado do bufê. No bufê só há sanduíches de peru e água
em garrafa. Frutas frescas. Salada de macarrão. Bolo de casamento.
A maquiadora está comendo um sanduíche. Ela acena com a cabeça para o agente morto e
diz: "Bom trabalho". Ela disse que também sempre o odiou.
Ela está usando o Rolex de ouro do agente.
A maquiadora pergunta: "Você quer um sanduíche?".
Eu pergunto, só tem de peru ou tem de outro tipo?
A maquiadora me passa uma garrafa de água mineral e diz que o meu smoking está
pegando fogo atrás.
Eu pergunto, onde fica a saída?
"Vá por aquela porta ali", a maquiadora diz.
As portas de aço atrás de mim estão ficando tortas.
"Passe pelo corredor comprido", a maquiadora diz.
"Vire à direita no final."
"Passe pela porta em que está escrito Saída."
Eu agradeço.
Ela diz que sobrou um sanduíche de carne moída, se eu quiser.
Com o sanduíche numa das mãos, passo pela porta que ela indicou, pego o corredor e saio
do estádio.
Do lado de fora, no estacionamento, tem um carro vermelho. Um carro vermelho com
câmbio automático, com Fertility ao volante e Adam sentado ao lado dela.
Entro no banco de trás e tranco a porta. Para Fertility, peço que ela feche seu vidro.
Fertility fica mexendo nos controles do rádio.
Atrás de mim, a multidão estoura pelas saídas, correndo para nos cercar.
Seus rostos estão tão perto que já sinto as cusparadas.
Aí vem do céu o maior milagre.
Começa a chover.
Uma chuva branca.
Um maná dos Céus. Eu juro.
Cai uma chuva tão espessa e pesada que a multidão cai, escorrega e cai, estirando-se no
chão. Grãos brancos de chuva estalam nos vidros do carro, caem no assoalho, no nosso cabelo.
Adam olha, maravilhado, para o milagre dessa chuva branca que nos ajudará a escapar.
Adam diz: "É um milagre".
Os pneus traseiros cantam, derrapam, e depois deixam uma mancha preta no chão quando
fugimos.
"Não", Fertility diz e acelera, "é arroz".
O balão dirigível que está sobrevoando o estádio diz PARABÉNS e FELIZ LUA-DEMEL.
"Eu preferiria que eles não fizessem isso", Fertility comenta. "Esse arroz mata os
pássaros."
Eu digo a ela que o arroz que mata os pássaros salvou nossas vidas.
Nós chegamos à rua. Depois pegamos a auto-estrada.
Adam se vira no banco da frente para me perguntar: "Você vai comer todo esse
sanduíche?"
Eu digo, é carne moída.
Precisamos de uma carona para o norte, Adam diz. Ele sabia de uma, mas a pessoa só iria
sair de Nova Orleans na manhã seguinte. Ele tinha dez anos de experiência nisso, viajar para
todos ao cantos do país sem dinheiro e em segredo.
Matando pessoas, eu digo.
"Entregando pessoas a Deus", ele retruca.
Fertility diz: "Cale a boca".
Precisamos de grana, Adam diz. Precisamos de um lugar para dormir. De comida. E ele
sabia onde poderíamos conseguir. Ele conhecia um lugar onde as pessoas tinham problemas
maiores que os nossos.
Nós só teríamos que mentir um pouco.
"De agora em diante", Adam diz, "vocês dois têm uma filha."
Não temos, não.
"A filha de vocês está muito doente", Adam diz.
Nossa filha não está, não.
"Vocês vieram a Nova Orleans para levá-la a um hospital", Adam diz. "Isso é tudo que
vocês precisam dizer."
Adam diz que cuidará do resto. Adam diz a Fertility: "Vire aqui".
Ele diz: "Agora vire aqui".
Ele continua: "Siga mais dois quarteirões e vire à esquerda".
Nesse lugar para onde ele está nos levando poderemos passar a noite de graça. Eles doarão
comida para nós comermos. Podemos fazer algum trabalho, colando documentos ou enchendo
envelopes para ganhar uns trocados. Podemos tomar banho. Podemos nos ver na televisão,
fazendo nossa fuga no noticiário noturno. Adam me diz que no meu estado ninguém vai me
reconhecer como um assassino em massa que estragou o Super Bowl. Nesse lugar para onde
estamos indo, ele diz, as pessoas terão problemas sérios demais para se preocuparem com outra
coisa.
Fertility pergunta: "Quantas pessoas você tem que matar para passar de serial killer a
assassino em massa?".
Adam nos diz: "Fiquem aqui sentados no carro que eu vou lá dentro preparar o terreno.
Lembrem-se, a filha de vocês está muito doente".
Aí ele diz: "Chegamos".
Fertility olha para a casa e depois para Adam e afirma: "Quem esta miuito doente é você".
Adam diz: "Eu sou o padrinho da pobre filha de vocês".
A placa na entrada diz: Casa Ronald McDonald.
14
Imagine viver numa casa que cada dia está numa cidade diferente.
Tínhamos três saídas de Nova Orleans que Adam conhecia. Ele nos levou para um posto
de caminhões na saída da cidade e nos mandou escolher. Os aeroportos estavam sendo
vigiados. As estações de trem e as rodoviárias estavam cercadas. Não podíamos sair os três
pedindo carona, e Fertility se recusava a dirigir até o Canadá.
"Eu não gosto de dirigir", Fertility diz. "Além disso, a forma de viajar do seu irmão é bem
mais divertida."
No dia seguinte à Casa Ronald McDonald, estamos os três diante do estacionamento de
cascalho de um restaurante para caminhoneiros quando Adam puxa um estilete e desliza a
lâmina para fora.
"Qual será, gente?", ele diz.
Ninguém aqui vai para o norte. Adam esteve lá dentro falando com todos os
caminhoneiros. O que temos para escolher é o seguinte, Adam diz, apontando para cada um.
Tem uma Westbury Estate indo para oeste pela Rodovia 10 até Houston.
Tem uma Plantation Manor indo para o nordeste pela Rodovia 55 até Jackson.
Tem uma Springhill Castle indo para noroeste para Bossier City pela Rodovia 49, com
paradas em Alexandria e Pineville, depois indo pela Rodovia 20 até Dallas.
Estacionadas ao nosso redor no cascalho há casas pré-fabricadas, casas de madeira,
trailers. Elas estão separadas ao meio ou em três partes e presas na traseira dos caminhões. O
lado aberto de cada módulo está fechado com plástico transparente e lá dentro dá para ver as
sombras dos sofás, das camas, dos carpetes enrolados. Eletrodomésticos. Jogos de sala de
jantar. Poltronas.
Enquanto Adam conversava com os motoristas, descobrindo para onde cada uma iria,
Fertility estava no banheiro do restaurante tingindo meu cabelo de loiro na pia e retirando o
bronzeador do meu rosto e das minha mãos. Preparamos envelopes suficientes para me comprar
umas roupa baratas e um saco de frango frito com guardanapos de papel e salada de repolho.
Nós três estamos parados no estacionamento, e Adam brande seu estilete em círculo e diz:
"Escolham. Os homens que entregam essas belas casas não ficarão a noite toda jantando".
A maioria dos motoristas de caminhão dirige a noite toda, Adam nos diz. Tem menos
tráfego. É mais fresco. Durante o dia, quando é quente e o tráfego é pesado, os motoristas
param e dormem no compartimento atrás da cabine do caminhão.
Fertility pergunta: "Que diferença faz o que escolhermos?".
"A diferença", Adam diz, "é o seu nível de conforto."
É assim que Adam tem cruzado o país de cabo a rabo nos últimos dez anos.
Uma casa da Westbury Estate tem uma sala de jantar formal e uma lareira embutida na
sala de estar.
A casa da Plantation Manor tem doseis e saleta para café.
A casa da Springhill Castle tem banheira de hidromassagem no banheiro glamour. Um
banheiro glamour tem duas pias e uma parede de espelhos. A sala de estar e o quarto principal
têm clarabóias. A saleta de jantar tem um armário de louças embutido com portas de vidro.
Isso depende de que parte você pega. De novo, são apenas partes de casas. Lares partidos.
Lares problemáticos.
A parte que você pega pode ser só de quartos ou só uma cozinha com sala de estar e sem
quartos. Pode ser três banheiros e nada mais, ou você pode não pegar banheiro nenhum.
Nenhuma das lâmpadas acende. Todas as torneiras são secas.
Não importa o luxo que você tenha, alguma coisa vai faltar. Não importa quão
cuidadosamente você escolha, você nunca ficará totalmente contente.
Nós escolhemos a Springhill Castle e Adam passa o estilete pela borda do plástico,
abrindo-o. Adam abre só uns setenta centímetros, o suficiente para passar a cabeça e os ombros.
O ar parado lá de dentro sai pela abertura, quente e seco.
Com Adam enfiado só até a cintura, sua bunda e suas pernas ainda do lado de fora
conosco, ele diz: "Esta aqui tem o interior azul-centáurea". Com sua voz saindo pelo plástico
transparente ele comenta: "Aqui teremos o pacote de móveis premium. Um jogo de sala de estar
modulado. Forno microondas embutido na cozinha. Candelabro de Plexiglass na sala de jantar".
Adam entra com todo o corpo, depois sua cabeça loira sai pela abertura no plástico e sorri
para nós. "Camas king-size estilo Califórnia. Bancadas com imitação de madeira. Cômoda estilo
europeu categoria inferior e janelas com persiana", ele continua. "Vocês fizeram uma ótima
escolha para a sua primeira casa."
Primeiro Fertility e depois eu passamos pelo plástico.
Da forma como o interior da casa, a silhueta dos móveis e as cores pareciam embaçadas e
vagas do lado de fora, é assim que o mundo exterior, o mundo real, parece desfocado e irreal de
dentro do plástico. As luzes de néon do restaurante estão acesas, fracas e desbotadas através do
plástico. O barulho da estrada chega fraco e abafado ao lado de dentro.
Adam se ajoelha com um rolo de fita adesiva transparente e fecha pelo lado de dentro a
abertura que ele fez.
"Não precisaremos mais disto", ele diz. "Quando chegarmos ao nosso destino, sairemos
pela frente ou pelos fundos como gente normal."
O carpete está enrolado num canto da parede, esperando o restante da casa antes de ser
instalado. Os móveis e os colchões estão pelos cantos, cobertos com plástico fino para protegêlos
do pó. Todos os armários da cozinha estão lacrados com fita adesiva.
Fertility tenta acender o lustre da sala de jantar. Não acontece nada.
"Também não use o banheiro", Adam diz, "ou teremos de conviver com suas coisas até
sairmos."
O néon do restaurante e os faróis na rodovia piscam através das portas francesas da sala
de jantar, enquanto estamos sentados à mesa de ladeira compensada comendo nosso frango
frito.
Esta parte do nosso lar partido tem um quarto, a sala de estar cozinha e sala de jantar, e
metade de um banheiro.
Se conseguirmos chegar a Dallas, Adam nos diz, podemos nos mudar para uma casa que
seguirá pela Interestadual 35 até Oklahoma. Depois podemos pegar uma casa da Interestadual
35 até Kansas. Depois para norte, na Interestadual 135 em Kansas indo a oeste pela
Interestadual 70 até Denver. No Colorado, pegaremos uma casa indo para o nordeste pela
Interestadual 76 até que ela vire a Interestadual 80 no Nebraska.
Nebraska?
Adam olha para mim e diz: "É. Nossa velha terra, sua e minha", ele confirma, com a boca
cheia de frango mastigado.
Por que Nebraska?
"Para chegar ao Canadá", Adam diz e olha para Fertility, que olha para os pés. "Nós
seguiremos pela Interestadual 80 até a Interestadual 29, margeando o estado em Iowa. Depois
basta irmos para o norte pela 29, passando por Dakota do Sul e Dakota do Norte, até chegarmos
ao Canadá."
"Direto para o Canadá", Fertility comenta e me dá um sorriso que parece falso, porque ela
na verdade nunca sorri.
Quando damos boa-noite, Fertility pega o colchão no quarto. Adam adormece numa parte
do sofá de veludo azul.
Com a cabeça sobre o travesseiro no veludo azul, ele parece morto num caixão.
Durante muito tempo, eu fico acordado na outra parte do sofá e lembro das vidas que
deixei para trás. O irmão de Fertility, Trevor. A assistente social. O agente. Minha família toda
morta. Quase toda morta.
Adam ronca, e lá fora o motor a díesel de um caminhão começa a rugir.
Penso sobre o Canadá, se é que fugir vai resolver alguma coisa. Deitado aqui na escuridão
do azul-centáurea, eu me pergunto se fugir não e mais uma solução de uma solução de uma
solução de um problema qual nem me lembro mais.
A casa inteira treme. O candelabro balança. As folhas das samambaias de seda nas cestas
de vime vibram. As janelas sacodem. Silêncio.
Lá fora do plástico, o mundo começa a se mover, deslizando, mais e mais rápido até ser
apagado. Até que eu caio no sono.
13
No nosso segundo dia na estrada, meus dentes estão dormentes e amarelos. Meus
músculos estão menos definidos. Não posso continuar vivendo como um moreno. Preciso de
uma chance, só um minuto, só trinta segundos sob um holofote.
Não importa quanto eu tente esconder, pouco a pouco começo a desmoronar.
Estamos em Dallas, pensando em pegar uma Vila Wilmington com balcão de ladrilho
falso e bidê no banheiro principal. Ela não tem quarto, mas tem uma lavanderia com espaço
para lavadora e secadora. Claro, não tem água, nem energia, muito menos telefone. Ela tem
eletrodomésticos cor de amêndoa na cozinha. Não tem lareira, mas a sala de jantar tem cortinas
que vão até o chão.
Isso foi depois de vermos mais casas do que posso me lembrar. Casas com lareiras a gás.
Casas com mobília rústica francesa, mesinhas de centro com tampo de vidro enormes, e
iluminação com spots.
Isso sob o sol vermelho e dourado no vasto horizonte do Texas, num Posto de
caminhoneiros em Dallas. Eu queria ficar com uma casa que tinha quartos separados para cada
um de nós, mas sem cozinha. Adam queria a casa que tinha só dois quartos e uma cozinha, mas
não tinha banheiro.
Nosso tempo estava quase acabando. O sol estava quase se pondo e os caminhoneiros
estavam prestes a iniciar suas viagens, que durariam a noite toda.
Minha pele estava fria e suada. Todo o meu corpo, até a raiz loira do cabelo, doía. Bem
ali, no estacionamento de cascalho, comecei a fazer apoios de frente. Aí fiquei de barriga para
cima e comecei a fazer abdominais com a intensidade de uma convulsão.
A gordura subcutânea estava começando a aumentar. Meus músculos abdominais estavam
sumindo. Meus peitorais estavam começando a cair. Eu precisava me bronzear. Eu precisava
marcar um horário na clínica de bronzeamento.
Só cinco minutos, implorei a Adam e a Fertility. Antes de pegarmos a estrada de novo, me
dêem cinco minutos numa câmara de bronzeamento
"Não vai dar, irmãozinho", Adam diz. "O FBI está vigiando todas as academias, salões de
bronzeamento e lojas de suplemento alimentar do meio-oeste."
Depois de dois dias, eu já estava farto daquela comida gordurosa e ruim que eles serviam
em restaurantes de caminhoneiro. Eu queria aipo. Eu queria feijão de soja. Eu queria fibras,
farelo de aveia, arroz integral e diuréticos.
"Aquilo que eu te falei", Fertility diz, olhando para Adam, "está começando. Precisamos
trancá-lo em algum lugar, imediatamente. Ele está começando a ter Déficit de Atenção."
Os dois me empurraram para uma Maison d'Elégance quando o motorista estava ligando o
caminhão. Eles me enfiaram num quarto com apenas um colchão e uma penteadeira
mediterrânea gigante, com um espelho enorme em cima. Do lado de fora do quarto, eu os ouvi
empilhar a mobília mediterrânea, sofás e mesinhas de canto, abajures feitos para parecerem
garrafas de vinho antigas, mesas e bancos contra a porta do quarto. Texas passa voando pela
janela do quarto. No crepúsculo, uma placa passa pela janela dizendo, Oklahoma a 402 km. O
quarto inteiro balança. As paredes são cobertas com florzinhas minúsculas que vibram tão
rápido que fico enjoado. Onde quer que eu vá neste quarto, posso me ver no espelho.
Minha pele volta ao branco natural sem a luz ultravioleta de que preciso. Talvez seja só
minha imaginação, mas uma das minhas jaquetas fica frouxa na boca. Tento não entrar em
pânico.
Tiro a camisa e analiso os danos em meu corpo. Fico de lado e contraio a barriga. Eu
precisaria de uma seringa de Durasteton neste momento. Ou Anavar. Ou Deca-Durabolin.
Minha nova cor de cabelo me deixa com uma aparência desbotada. Minha última cirurgia nas
pálpebras não pegou, e já estou com uma bolsa sob os olhos. Meus cabelos parecem estar
caindo. Eu me viro para ver no espelho se tem cabelo nascendo nas minhas costas.
Uma placa passa pela janela dizendo, Não Trafegue pelo Acostamento.
O que restou do meu bronzeamento está untado nos cantos dos olhos e nas rugas ao redor
da boca e na testa.
Tento dormir. Retiro a cobertura do colchão com as unhas.
Uma placa passa pela janela dizendo, Diminua a Velocidade, Mantenha a Direita.
Alguém bate à porta.
"Eu tenho um cheeseburger, se você quiser", Fertility diz através da porta e de toda a
mobília empilhada.
Eu não quero essa merda de cheeseburger gorduroso, eu grito de volta.
"Você precisa ingerir açúcar, gordura e sal até voltar ao normal",
Fertility diz. "É para o seu próprio bem."
Eu preciso passar cera pelo corpo todo. Preciso de mousse no cabelo.
Estou esmurrando a porta.
Preciso de duas horas numa boa academia. Preciso subir trezentos degraus numa máquina
de step.
Fertility diz, "Você só precisa de uma intervenção. Você vai ficar bem".
Ela está me matando.
"Estamos salvando a sua vida."
Eu estou retendo água. Estou perdendo a definição nos ombros. Minhas bolsas sob os
olhos precisam de maquiagem. Meus dentes estão se deslocando. Preciso que apertem o meu
aparelho. Preciso do meu nutricionista. Chamem o meu ortodontista. Minhas panturrilhas estão
definhando. Eu te dou o que você quiser. Eu te dou dinheiro.
Fertility diz, "Você não tem dinheiro".
Eu sou famoso.
"Você está sendo procurado por assassinato em massa."
Ela e Adam precisam me dar diuréticos.
"Na próxima parada", Fertility diz, "Vou te comprar um expresso duplo."
Não é o suficiente.
"É mais do que você conseguiria na cadeia."
Vamos analisar a situação, eu digo. Na cadeia, eu teria equipamentos de musculação. Eu
teria banhos de sol. Eles devem ter bancos para abdominais na cadeia. Eu talvez até conseguisse
Winstrol no mercado negro Eu digo, me deixe sair. Abra esta porta.
"Só quando você recobrar o juízo."
EU QUERO IR PARA A CADEIA!
"Na cadeia, eles têm cadeira elétrica."
Eu aceito o risco.
"Mas eles podem te matar."
Está ótimo. Eu só preciso ser o centro das atenções. Só mais uma vez.
"Ah, você vai para a cadeia e será o centro das atenções."
Eu preciso de creme hidratante. Preciso ser fotografado. Não sou como pessoas comuns,
para sobreviver eu preciso ser constantemente entrevistado. Preciso estar no meu hábitat, a
televisão. Preciso estar livre, autografando livros.
"Vou te deixar sozinho um pouco", Fertility diz através da porta. "Você precisa de tempo
pra pensar."
Eu odeio ser mortal.
"Pense nisso como My Fair Lady ou Pigmaleão, só que de trás para frente."
12
Na próxima vez em que eu acordo, estou delirando, e Fertility esta sentada no canto da
minha cama, massageando meu peito e meus braços com creme hidratante barato à base de
petróleo.
"Bem-vindo de volta", ela diz. "Quase achamos que você não sobreviveria."
Onde estou?
Fertility olha em volta. "Você está numa Maplewood Chateau com o pacote de mobílias
standard", ela responde. "Linóleo sem costura na cozinha, piso de vinil nos dois banheiros. Eles
têm folha de fibra de fácil limpeza nas paredes, em vez de Sheetrock, e este aqui é decorado
com o tema marinho em azul e verde."
Não, eu sussurro, onde no mundo?
Fertility diz: "Eu sei o que você quis dizer".
Uma placa passa pela janela dizendo, Retorno Adiante.
O quarto em que estamos é diferente do que eu me lembro. Uma faixa com elefantes
dançando decora o papel de parede próximo ao teto. A cama em que estou tem um dossel e
cortinas brancas de renda penduradas em volta e amarradas com fitas de cetim cor-de-rosa.
Persianas brancas ladeiam as janelas. O nosso reflexo é emoldurado pelo espelho em forma de
coração na parede.
Eu perguntei, o que houve com a Maison?
"Isso foi duas casas atrás", Fertility diz. "Estamos em Kansas agora, em metade de uma
Maplewood Chateau de quatro quartos. É o que há de melhor em casas pré-fabricadas."
Então ela é boa mesmo?
"Adam diz que é a melhor", Fertility responde, me cobrindo com o lençol. "Ela vem com a
roupa de cama em cores combinadas, e a louça nos armários da sala de jantar combina com o
roxo dos sofás de dois e três lugares na sala de estar. Tem até toalhas roxas no banheiro. Mas
não tem cozinha, pelo menos não nesta parte. Mas tenho certeza de que, onde quer que esteja,
ela é roxa."Eu pergunto, cadê o Adam?
"Dormindo."
Ele não ficou preocupado comigo?
"Eu disse a ele que vai dar tudo certo", Fertility diz. "Na verdade, ele está muito contente."
As cortinas da cama dançam e balançam com o movimento da casa.
Uma placa passa pela janela dizendo, Cuidado.
Eu odeio o fato de Fertility saber de tudo.
Fertility diz: "Eu sei que você odeia o fato de eu saber de tudo".
Eu pergunto se ela sabe que eu matei o irmão dela.
Assim, sem mais nem menos, a verdade vem à tona. Minha confissão de moribundo.
"Eu sei que você falou com ele na noite em que ele morreu", ela diz "mas o Trevor se
suicidou."
E eu não era o amante homossexual dele.
"Eu também já sabia disso."
E foi para mim, ao telefone, que ela falou aquelas sacanagens.
"Eu sei."
Ela espalha o creme hidratante nas palmas das mãos e passa nas minhas costas. "O Trevor
ligou para o seu telefone de auxílio falso porque ele queria ter uma surpresa. Eu estou atrás de
você pela mesma razão."
Com meus olhos fechados, pergunto se ela sabe como tudo isso vai acabar.
"A longo prazo ou a curto prazo?", ela pergunta.
Ambos.
"A longo prazo", ela diz, "todos nós vamos morrer. Aí nossos corpos vão apodrecer. Isso
não é surpresa nenhuma. A curto prazo, vamos viver felizes para sempre."
Sério?
"Sério", ela diz. "Então não esquenta."
Eu me vejo envelhecer no espelho em formato de coração.
Uma placa passa pela janela dizendo, Dirija com Cuidado.
Uma placa passa pela janela dizendo, Velocidade Controlada por Radar.
Uma placa passa pela janela dizendo, Luzes Acesas para a sua Segurança.
Fertility diz: “Você pode relaxar e deixar as coisas acontecerem?”
"E Alegria", ela diz, "e Serenidade, e Felicidade, e Contentamento". Ela diz todas as alas
do Mausoléu de Columbia. "Você não precisa ter controle sobre tudo", ela argumenta. "Você
não pode controlar tudo.
Mas você pode se preparar para o desastre.
Uma placa passa dizendo, Use o Cinto de Segurança.
"Se você se preocupa com desastres o tempo todo, é isso que vai acontecer", Fertility diz.
Uma placa passa dizendo, Área com Desmoronamento.
Uma placa passa dizendo, Curva Perigosa Adiante.
Uma placa passa dizendo, Pista Escorregadia.
Lá fora da janela, Nebraska está se aproximando a cada minuto.
O mundo inteiro é um desastre prestes a acontecer.
"Quero que você saiba que nem sempre estarei ao seu lado", Fertility diz, "mas eu sempre
te acharei."
Uma placa passa pela janela dizendo, Oklahoma a 40 km.
"Não importa o que aconteça", Fertility diz, "não importa o que você ou o seu irmão faça,
é a coisa certa a ser feita."
Ela diz: "Você precisa confiar em mim".
Eu pergunto, você pode me trazer manteiga de cacau? É para meus lábios. Eles estão
cortados.
Uma placa passa dizendo: Pare.
"Tudo bem", ela responde. "Eu perdoei os seus pecados. Se isso te ajuda a relaxar um
pouco, acho que posso te arrumar manteiga de cacau."
11
É claro, perdemos Fertility num posto de caminhoneiros em Denver, Colorado. Até eu
sabia que isso aconteceria. Ela sai de fininho para comprar manteiga de cacau enquanto o
caminhoneiro vai dar uma mijada. Adam e eu estamos dormindo quando a ouvimos gritar.
E, claro, ela planejou assim.
No escuro, com o luar entrando pelas janelas, eu saio tropeçando Pelos móveis até as
portas da frente, abertas pelo Adam.
Estamos nos afastando do posto, ganhando velocidade conforme o caminhoneiro troca as
marchas, com Fertility correndo em nossa direção. Uma de suas mãos está esticada, segurando
um batom de manteiga de cacau. O vento sopra seus cabelos ruivos. Seus sapatos batem contra
o pavimento.
Adam estica um braço para salvá-la. Com a outra mão, ele segura na armação da porta.
Com o balanço da casa, uma mesinha com tampo de mármore cai e sai rolando, passa pelo
Adam e sai pelas portas. Fertility se esquiva e a mesinha se espatifa na estrada.
Adam diz: "Segure minha mão. Você consegue".
Uma cadeira do conjunto de jantar sai rolando e se espatifa, quase acertando Fertility, e
ela diz: "Não".
Suas palavras quase somem em meio ao barulho do motor, e ela diz: "Pegue a manteiga de
cacau".
Adam diz: "Não, se eu não puder te puxar, vamos pular. Temos que ficar juntos".
"Não", Fertility diz. "Pegue a manteiga de cacau, ele precisa." Adam diz: "Ele precisa
mais de você".
As janelas que deixamos abertas sugam o ar para dentro, e o vão entre os móveis canaliza
a corrente de ar em direção às portas abertas. Almofadas bordadas se desprendem do sofá e
saem voando pela porta em volta do Adam. Elas voam em direção a Fertility, acertam seu rosto
e quase a derrubam. Arte decorativa emoldurada, reproduções de espécimes de plantas e de
cavalos de corrida se desprendem das paredes e saem voando para explodir em cacos de vidro e
em lascas de madeira e arte.
No estado em que estou, eu quero ajudar, mas estou fraco. Perdi atenção demais nos
últimos dias. Mal consigo ficar de pé. Meus níveis de açúcar no sangue estão completamente
malucos. Só consigo ficar olhando enquanto Fertility se afasta e Adam se arrisca ao se esticar
cada vez mais para alcançá-la.
Os arranjos de plantas de seda caem e rosas vermelhas, gerânios e íris de seda saem
voando pela porta e passam sacudindo por Fertility. O símbolo do esquecimento, as papoulas,
caem na estrada, e ela as pisoteia.
O vento joga laranjas falsas e ervilhas-de-cheiro, brancas e rosadas, cravos-de-amor e
orquídeas, brancas e roxas, aos pés de Fertility.
"Não pule", Fertility está dizendo.
Ela está dizendo: "Eu encontrarei vocês. Eu sei pra onde vocês estão indo".
Por um instante, ela quase consegue. Fertility quase alcança a mão do Adam, mas quando
ele tenta agarrá-la para puxá-la para dentro, suas mãos escapam.
Quase escapam. Adam abre a mão, e dentro dela está um batom de manteiga de cacau.
E Fertility some em meio à escuridão, distante de nós.
Fertility se foi. Devemos estar indo a uns noventa quilômetros por hora agora, e o Adam
se vira e joga o batom de manteiga de cacau com tanta força que ele ricocheteia entre duas
paredes. Adam rosna: "Espero que você fique feliz agora. Espero que seus lábios se
recuperem".
O armário de louças da sala de jantar se abre e pratos, saladeiras, sopeiras, travessas,
cálices e xícaras caem e saem rolando pelas portas da frente. E tudo se espatifa na estrada. Tudo
isso deixa uma trilha atrás de nós, cintilando ao luar.
Não tem ninguém correndo atrás da gente, e Adam agarra uma televisão em cores com
som surround e qualidade de imagem quase digital e a empurra em direção à porta. Com um
grito, ele a joga pela varanda. Depois ele empurra um sofá de veludo para fora. Depois joga o
piano de parede. Tudo explode ao bater na estrada.
Aí ele olha para mim.
Eu burro, fraco, desesperado. Estou agachado, no chão, tentando encontrar a manteiga de
cacau.
Com seus dentes à mostra, com os cabelos caídos sobre o rosto, Adam diz: "Eu devia te
jogar por essa porta".
Aí uma placa passa dizendo, Nebraska a 157 km.
E um sorriso, lento e assustador, toma o rosto de Adam. Ele caminha até as portas abertas
da frente, e com o vento da noite uivando ao redor ele grita.
"Fertility Hollis!", ele grita.
"Obrigado!", ele grita.
Para a escuridão atrás de nós, para toda a escuridão, as sucatas, os vidros e as ruínas atrás
de nós, Adam grita: "Eu não esquecerei tudo que você disse que acontecerá!".
10
Na noite antes de chegarmos em casa, conto ao meu irmão mais velho tudo que sei sobre o
distrito da Igreja do Credo.
No distrito da igreja, nós plantávamos, criávamos e cuidávamos de tudo que comíamos. O
trigo, os ovos, as ovelhas e o gado. Lembro-me de que cultivávamos pomares perfeitos e
pegávamos trutas cintilantes no rio.
Estamos nos fundos de uma Casa Castile indo a noventa quilômetros por hora na noite de
Nebraska, pela Interestadual 80. Uma Casa Castile tem candelabros de vidro lapidado em todas
as paredes e ornamentos folheados a ouro no banheiro, mas não tem eletricidade nem água.
Tudo é lindo, mas nada funciona.
"Sem eletricidade e sem água encanada", Adam diz. "Igual a quando éramos crianças."
Estamos sentados no terraço dos fundos, com nossas pernas balançando e o pavimento
passando sob nossos pés. O escapamento a diesel fedorento passa ao nosso redor.
No distrito da Igreja do Credo, conto a Adam, as pessoas levavam uma vida simples e
realizada. Éramos um povo leal e orgulhoso. Nosso ar e nossa água eram limpos. Nossos dias
eram úteis. Nossas noites eram puras. É disso que eu lembro.
Por isso não quero voltar.
Não haverá nada lá, além do Depósito Sanitário de Materiais Sensíveis Tender Branson. A
aparência dele, com as pilhas de anos de pornografia de todo o país enviadas aqui para
apodrecer, nem quero ver. O agente me mostrou os recibos. Toneladas de sacanagem,
caminhões basculantes cheios dela, caminhões de lixo e carros-baú cheios de pornografia
chegavam aqui todo mês, onde escavadeiras enterravam o material a um metro da superfície por
todos os oito mil hectares.
Não quero ver isso. Não quero que Adam veja isso, mas o Adam ainda está com o
revólver, e não tenho mais Fertility aqui para me dizer se está carregado ou não. Além disso, já
estou acostumado a obedecer ordens. Aonde ir. Como agir.
Meu novo emprego é seguir Adam.
Então estamos voltando ao distrito da igreja. Em Grand Island vamos roubar um carro,
Adam diz. Vamos chegar no vale por volta do nascer do sol, Adam imagina. É só uma questão
de horas. Vamos chegar em casa num domingo de manhã.
Estamos os dois fitando a escuridão atrás de nós e tudo que perdemos até agora, e Adam
diz: "Do que mais você se lembra?".
Tudo no distrito da igreja era sempre limpo. As ruas estavam sempre em bom estado. Os
verões eram longos e suaves, com chuva a cada dez dias. Lembro-me de que os invernos eram
calmos e serenos. Lembro-me de separar sementes que colhíamos de cravos e girassóis.
Lembro-me de cortar lenha.
Adam pergunta: "Você se lembra da minha esposa?".
Na verdade, não.
"Ela não era muito memorável", Adam comenta. O revólver está em sua mão, sobre o
colo, ou eu não estaria aqui. "Ela se chamava Biddy Gleason. Nós poderíamos ter sido muito
felizes juntos."
Até que alguém avisou o governo e as investigações começaram.
"Poderíamos ter tido uma dúzia de filhos e ganhado muito dinheiro", Adam diz.
Até que o xerife apareceu perguntando da documentação de cada criança.
"Nós teríamos uma velha fazenda, vivendo cada ano igualzinho ao ano anterior."
Até que o FBI iniciou a investigação.
"Nós dois seríamos anciãos da igreja um dia", Adam continua.
Até a Libertação.
"Até a Libertação."
Lembro-me de que a vida era tranqüila e pacífica no vale do distrito As vacas e as
galinhas andando livremente. As roupas penduradas no varal para secar. O cheiro de feno no
estábulo. Tortas de maçã esfriando em cada peitoril de janela. Lembro-me de que era uma vida
perfeita.
Adam olha para mim e balança a cabeça.
Ele diz: "Você é mesmo burro".
A aparência de Adam no escuro é a aparência que eu teria se esse caos não tivesse me
acontecido. Adam é o que Fertility chamaria de grupo de controle de mim. Se eu não tivesse
sido batizado e enviado para o mundo exterior, se eu não tivesse ficado famoso e sido
desfigurado, eu seria assim, com os humildes olhos azuis e com o cabelo loiro do Adam. Meus
ombros seriam quadrados e de tamanho natural. Minhas mãos manicuradas com esmalte
transparente nas unhas seriam as mesmas mãos fortes dele. Meus lábios cortados seriam como
os dele. Minhas costas seriam retas. Meu coração seria o coração dele.
Adam olha para a escuridão e diz: "Eu os destruí".
Os sobreviventes da Igreja do Credo.
"Não", Adam diz. "Todos eles. A colônia inteira. Eu chamei a polícia. Eu saí do vale uma
noite e caminhei até encontrar um telefone."
Havia pássaros em cada árvore do distrito, eu me recordo. E pegávamos pitus amarrando
um pedaço de toucinho numa linha e jogando no riacho. Quando a gente puxava o toucinho, ele
vinha cheio de pitus.
"Devo ter apertado zero no telefone", Adam diz, "mas chamei o xerife. Contei à pessoa
que atendeu que somente uma a cada dez crianças da Igreja do Credo tinha certidão de
nascimento. Contei a eles que a Igreja do Credo escondia seus filhos do governo."
Os cavalos, eu me lembro. Tínhamos vários cavalos para arar e puxar carroças. E nós os
chamávamos pela cor, porque era pecado dar nome aos animais.
"Eu contei a eles que os membros da Igreja do Credo abusavam de seus filhos e não
pagavam a maioria dos impostos", Adam diz. "Contei a eles que os membros da Igreja do
Credo eram preguiçosos e ineficientes. Contei-lhes também que, para os pais da Igreja do
Credo, os filhos eram a fonte de renda. Os filhos eram os bens móveis."
O gelo pendendo das casas, eu me lembro. As abóboras. As fogueiras nas colheitas.
"Eu dei início à investigação", Adam diz.
Os cantos na igreja, eu me recordo. Os acolchoados. A construção dos estábulos.
"Abandonei a colônia naquela noite e jamais voltei", Adam confessa.
Ser estimado e amado, eu me recordo.
"Nós nunca tivemos cavalos. As poucas galinhas e porcos que tínhamos eram só de
fachada", Adam diz. "Você estava sempre na escola. Você lembra do que eles te disseram que
era a Igreja do Credo há uns cem anos. Porra, há cem anos todo mundo tinha cavalos."
Ser feliz e pertencer a um grupo, eu me recordo.
Adam diz: "Não havia membros negros. Os anciãos da Igreja do Credo eram um bando de
senhores de escravos racistas e machistas".
Eu me lembro de ter segurança.
Adam diz: "Tudo de que você se lembra está errado".
Ser valorizado e amado, eu me lembro.
"Você se lembra de uma mentira", Adam diz. "Você foi gerado, treinado e vendido."
E ele não foi.
Não, Adam Branson foi o primogênito. Três minutos, isso fez toda a diferença. Ele ficaria
com tudo. Os estábulos, as galinhas e as ovelhas. A paz e a segurança. Ele herdaria o futuro, e
eu seria um missionário, cortando grama e mais grama, trabalhando sem parar.
A escura noite do Nebraska passa rápida e morna ao nosso redor. Com um empurrão, eu
penso, eu poderia tirar Adam Branson da minha vida para sempre.
"Não havia quase nada que comíamos que não comprávamos do mundo exterior", Adam
diz. "Herdei uma fazenda para gerar e vender os meus filhos."
Adam comenta: "Nós nem mesmo reciclávamos lixo".
Então foi por isso que ele chamou o xerife?
"Não espero que você entenda", Adam diz. "Você ainda é o garotinho de oito anos
sentado no banco da escola, sentado na igreja, acreditando em tudo que te dizem. Você lembra
de figuras em livros. Eles planejaram a forma como você viveria a sua vida inteira. Você ainda
está adormecido "
E Adam Branson está acordado?
"Eu acordei na noite em que dei aquele telefonema. Naquela noite fiz algo que não
poderia ser desfeito", Adam diz.
E agora todos estão mortos.
"Todos, menos você e eu."
E a única coisa que me resta é me matar.
"Isso é o que você foi treinado para fazer", Adam diz. "Esse seria o ato final de um
escravo."
Então o que me resta fazer para tornar minha vida diferente?
"A única forma de encontrar sua identidade é fazer a coisa que os anciãos da Igreja do
Credo mais te treinaram para não fazer", Adam diz. "Cometa a maior transgressão de todas. O
maior pecado. Vire suas costas para a doutrina da igreja", Adam sugere.
"Mesmo o jardim do Éden era só uma grande prisão elegante", Adam diz. "Você será
escravo pelo restante da sua vida a menos que morda a maçã."
Eu já comi a maçã inteira. Fiz de tudo. Fui à televisão e denunciei a igreja. Blasfemei
diante de milhões de pessoas. Menti, furtei lojas e matei, se você contar Trevor Hollis. Poluí
meu corpo com drogas. Destruí o vale da Igreja do Credo. Trabalhei todos os domingos nos
últimos dez anos.
Adam diz: "Você ainda é virgem".
Com um pulo, eu penso, eu poderia resolver todos os meus problemas para sempre.
"Você sabe, a dança horizontal. Esconder o salame. A coisa boa. Molhar o biscoito. Ir até
o fim. Meter as duas bolas no gol. Se dar bem. Afogar o ganso. Cometer o crime", Adam diz.
"Pare de tentar consertar a sua vida. Resolva o seu grande problema , Adam aconselha.
"Meu irmãozinho", Adam diz, "você precisa trepar."
9
O distrito da Igreja do Credo são oito mil hectares, quase todo o vale no pontal do rio
Flemming, a noroeste de Grand Island, Nebraska. De Grand Island são quatro horas de carro.
Partindo ao sul de Sioux Falls, é uma viagem de nove horas. Isso eu sei que é verdade.
A forma como Adam explicou todo o resto, isso ainda estou refletindo. Adam disse que a
primeira coisa que a maioria das culturas faz para te tornar um escravo é te castrar. Eunucos,
eles são chamados. Em algumas culturas, eles fazem algo mais ou menos parecido: eles fazem
com que você não sinta prazer no sexo. Eles cortam partes. Partes do clitóris, Adam chama. Ou
do prepúcio. Sem essas partes sensíveis em você, as partes com as quais você sente mais prazer,
você sente cada vez menos. A idéia é exatamente essa, Adam diz.
Viajamos em direção a oeste pelo restante da noite, nos distanciando de onde o sol nasce,
tentando fugir dele, tentando não ver o que ele nos mostrará quando chegarmos em casa.
No painel do carro está colada uma estatueta de quinze centímetros de um homem vestido
com as roupas da Igreja do Credo, as calças folgadas, o casaco de lã, o chapéu. Seus olhos são
de plástico que reluz no escuro. Suas mãos estão unidas numa oração, erguidas tão alto e tão à
frente que parece que ele vai dar um mergulho no banco do passageiro.
Fertility mandou Adam procurar um Chevy verde último tipo em algum lugar a uma
distância de dois quarteirões do posto de caminhoneiros na entrada de Grand Island. Ela disse
que as chaves estariam no contato e que o tanque estaria cheio. Depois que saímos da Casa
Castile, levamos uns cinco minutos para achar o carro.
Olhando para a estatueta no painel diante dele, Adam diz: "Mas que diabos é isso?".
Isso aí sou eu.
"Não parece nada com você."
Era para ter uma aparência religiosa.
"Parece um demônio", Adam comenta.
Eu dirijo.
Adam fala.
Ele diz, as culturas que não te castram para te transformar num escravo acabam castrando
a sua mente. Elas tornam o sexo tão sujo, perverso e perigoso que não importa quanto seja
prazeroso ter relações sexuais, você não as tem.
É o que a maioria das religiões no mundo exterior faz, Adam diz. Foi o que a Igreja do
Credo fez.
Não estou a fim de ficar ouvindo isso, mas quando tento ligar o rádio, todos os botões de
sintonia estão programados para pegar estações religiosas. Corais. Pregadores evangélicos me
dizendo que sou mau e enganado. Numa das estações que encontro há uma voz familiar, a
Rádio Mensagem de Tender Branson. Está passando um dos milhares de programas de rádio
que eu gravei num estúdio que nem me lembro onde ficava.
O abuso dos anciãos da Igreja do Credo era indizível, estou dizendo no rádio.
Adam diz: "Você se lembra do que eles te fizeram?".
Pelo que estou dizendo no rádio, o abuso não tinha fim.
"Quando você era criança, quero dizer", Adam pergunta.
Lá fora, o sol estava nos alcançando, revelando formas na escuridão total.
No rádio, estou dizendo, da forma como nossas mentes eram controladas, nós não
tínhamos escolha. Nenhum de nós no mundo exterior jamais iria querer sexo. Jamais trairíamos
a igreja. Passávamos nossa vida inteira trabalhando.
"E se você nunca faz sexo", Adam está dizendo, "você nunca ganha um sentimento de
poder. Você não conquista uma voz ou uma identidade própria. O sexo é o ato que nos separa
de nossos pais. As crianças dos adultos. É através do sexo que os adolescentes se rebelam pela
primeira vez."
E, se você nunca faz sexo, Adam me diz, você não se desvencilha de tudo aquilo que seus
pais ensinaram. Se você não transgredir a regra contra o sexo, você não vai transgredir mais
regra nenhuma.
No rádio eu digo, é difícil para alguém no mundo exterior imaginar quanto éramos
treinados.
"A Guerra do Vietnã não causou todo aquele estrago nos anos 60", Adam diz. "As drogas
não causaram. Bem, uma só droga causou. Foi a pílula anticoncepcional. Pela primeira vez na
história, todo mundo podia fazer sexo à vontade. Todos podiam ter esse poder."
Através da história, os governantes mais poderosos foram maníacos sexuais. E ele
pergunta: o apetite sexual deles vem do poder ou essa vontade de poder vem do apetite sexual?
"E se você não deseja o sexo", ele continua, "você vai desejar o poder?"
Não, ele diz.
"E em vez de elegermos políticos decentes, tediosos e sexualmente reprimidos", Adam
diz, "talvez devêssemos encontrar o candidato mais tarado e talvez ele conseguisse fazer
alguma coisa de útil."
Um placa passa dizendo, Depósito Sanitário de Materiais Sensíveis Tender Branson, 16
km.
Adam pergunta: "Você entende aonde quero chegar?".
Nossa casa está a dez minutos de distância.
Adam diz: "Você precisa se lembrar do que aconteceu".
Não aconteceu nada.
No rádio, estou dizendo, é impossível descrever quão terrível foi o abuso.
Mais e mais pelo acostamento da estrada há pedaços de revistas pornográficas que caíram
de caminhões abertos. Fotos desbotadas de belas mulheres em nu frontal se acumulam em cada
tronco de árvore. Homens suados com ereções enormes e roxas pendem dos galhos. Os estojos
pretos das fitas de vídeo se espalham pelo cascalho ao lado da estrada. Uma mulher perfurada
feita de vinil cor-de-rosa está jogada nos arbustos, e o vento agita seus cabelos e suas mãos
quando passamos.
"O sexo não é uma coisa temível ou horrível", Adam diz.
No rádio eu digo, é melhor eu deixar o passado para trás e seguir com a minha vida.
Adiante, há um ponto em que as árvores margeando a estrada acabam, e não há mais nada.
O sol está subindo e nos alcançando, e lá da frente não há nada além de devastação.
Uma placa passa dizendo, Bem-Vindo ao Depósito Sanitário de Materiais Sensíveis
Tender Branson.
E chegamos em casa.
Atrás da placa o vale se estende no horizonte, desolado, sujo e cinzento, exceto pelo
amarelo vivo de algumas escavadeiras estacionadas e silenciosas, porque hoje é domingo.
Não há uma árvore.
Não há um pássaro.
O único ponto de referência está no centro do vale, uma torre de concreto, uma simples
coluna de concreto erguida no local onde era a casa de orações da Igreja do Credo, onde todos
foram encontrados mortos. Há dez anos. Pelo chão, por toda a parte, há fotos de homens com
mulheres, mulheres com mulheres, homens com homens, homens e mulheres com animais e
equipamentos.
Adam não diz uma palavra.
No rádio eu digo, minha vida é repleta de alegria e amor agora.
No rádio eu digo, anseio por me casar com a mulher escolhida para mim durante a
Campanha do Gênesis.
No rádio eu digo, com a ajuda dos meus seguidores, vou estancar o desejo sexual que
tomou conta do mundo.
A estrada é longa e sulcada da margem do vale em direção à torre de concreto no centro.
Dos dois lados, conforme avançamos, vibradores, revistas, vaginas de látex e anéis franceses se
amontoam em fogueiras, e a fumaça que sobe é levada num nevoeiro sufocante de cinzas
esbranquiçadas por toda a estrada.
A nossa frente, a torre fica cada vez maior, às vezes sumindo por trás da fumaça da
pornografia incinerada, reaparecendo depois, ameaçadora.
No rádio eu digo, minha vida está à venda numa livraria perto de você.
No rádio eu digo, com a ajuda de Deus, farei com que o mundo jamais queira sexo de
novo.
Adam desliga o rádio.
Adam diz: "Deixei o vale na noite em que descobri o que os anciãos faziam com vocês, os
Tenders e as Biddies".
A fumaça se espalha pela estrada. Ela entra no carro e nos nossos pulmões, ácida e
queimando nossos olhos.
Com lágrimas rolando pelo rosto eu digo, eles não fizeram nada.
Adam tosse: "Admita".
A torre reaparece, mais perto.
Não há nada para admitir.
A fumaça escurece tudo.
Aí Adam diz. Ele diz: "Eles te faziam olhar".
Não enxergo nada, mas continuo dirigindo.
"Na noite em que minha esposa teve nosso primeiro filho", Adam diz, com a fumaça
enegrecendo as lágrimas em seu rosto, "os anciãos pegaram todos os Tenders e as Biddies do
distrito e os fizeram olhar. Minha esposa gritava, como eles haviam lhes contado. Ela gritava, e
os anciãos pregavam e pranteavam dizendo que a conseqüência do sexo era a morte. Ela
gritava, e eles tornaram o nascimento o acontecimento mais doloroso possível. Ela gritava, e o
bebê morreu. O nosso filho. Ela gritou, depois morreu."
As duas primeiras vítimas da Libertação.
Foi a mesma noite em que Adam saiu do distrito da Igreja do Credo e fez seu telefonema.
"Os anciãos faziam vocês olharem toda vez que alguém no distrito da igreja tinha um
filho", Adam diz.
Nós estamos indo a apenas uns trinta ou quarenta quilômetros por hora, mas em algum
lugar à nossa frente está a torre gigante de concreto do monumento à igreja.
Não consigo dizer nada, mas continuo tentando respirar.
"É claro que você nunca quis sexo. Você jamais iria querer sexo porque toda vez que a
nossa mãe tinha outro filho", Adam continua, "eles te faziam sentar lá e ficar olhando. Porque
sexo para você é apenas dor, pecado, e a sua mãe estirada na cama, gritando."E foi assim que
ele me contou.
A fumaça é tão espessa que não consigo enxergar nem mesmo Adam.
Ele diz: "Agora, o sexo deve parecer apenas uma tortura para você"
Ele joga na minha cara, assim.
Verdade, a Fragrância.
E nesse instante a fumaça se dissipa.
E nós batemos de frente na torre de concreto.
8
No início, não há nada além de pó. Um pó branco e fino flutua dentro do carro, misturado
com fumaça.
O pó e a fumaça giram no ar.
O único som é o do motor do carro pingando alguma coisa, óleo, a água do refrigerador,
gasolina.
Até que Adam começa a gritar.
O pó veio dos air bags que nos protegeram no momento do impacto. Os air bags estão
murchos e vazios sobre o painel agora, e conforme a poeira baixa, Adam começa a gritar e a
agarrar o rosto. O sangue escorrendo entre seus dedos é negro, contra o pó branco que encobre
todo o resto. Com uma mão agarrando o rosto, com a outra ele abre a porta do passageiro e sai
cambaleando no meio da terra devastada.
Aí ele some no meio da poeira ao nosso redor, cambaleando sobre corpos nus, camadas de
pessoas fotografadas fornicando sem parar, e eu saio gritando atrás dele.
Estou gritando o nome dele.
Em que direção ele foi eu não sei.
Grito o nome dele.
Em todo lugar que piso, as revistas oferecem Gostosas com Tesão.
Amantes de Pau Grande.
Lábios, Peitos e Clitóris Gigantes.
Os gemidos vêm de todos os lados.
Eu grito, Adam Branson.
E tudo que vejo são Aventuras Anais Só com Homens.
E Garotas que Amam Garotas.
E Orgias Bissexuais.
E, atrás de mim, nosso carro batido explode.
A torre de concreto cinza, elevando-se sobre nós, está em meio a chamas de um dos lados,
e à luz de seu fogo eu vejo Adam, ajoelhado a alguns metros de mim, com as mãos cobrindo o
rosto, balançando para frente e para trás e gemendo.
O sangue corre entre suas mãos, corre pelo seu rosto, pela sua fronte coberta de pó branco,
e quando eu tento afastar suas mãos do rosto, ele grita: "Não!".
Adam grita: "Este é o meu castigo!".
Seu grito se transforma em gargalhada, e Adam abre as mãos para me mostrar.
O pé de plástico da estatueta de Tender Branson está saindo pelo orifício ensangüentado
onde ficava seu olho esquerdo.
Adam em parte ri, em parte grita: "Este é o meu castigo!".
O restante da estátua está enfiada, não sei até que profundidade.
O negócio, eu digo, é não entrar em pânico.
A forma de lidar com isso é chamar um médico.
A fumaça preta do nosso carro nos envolve. Sem um carro, os oito mil hectares à nossa
volta são vazios e vastos.
Adam cai de lado, depois deita de costas, olhando para o céu, cego de um olho pela
estátua e do outro pelo sangue. E diz: "Você não pode me deixar aqui".
Eu digo que não vou a parte alguma.
Adam diz: "Você não pode deixar que eles me prendam por assassinato em massa".
Eu digo que não mandei ninguém para o Céu.
Respirando fundo e rápido, Adam pede: "Você precisa me libertar".
Vou pedir ajuda.
"Você precisa me libertar!"
Vou chamar um médico para você, eu digo. Vou lhe arranjar um bom advogado. Vamos
alegar insanidade. Você foi treinado na igreja tanto quanto eu. Você só fez o que foi treinado a
vida inteira para fazer.
"Você sabe", Adam diz e engole com dificuldade, "você sabe o que acontece com homens
na cadeia? Você sabe o que acontece. Não deixe isso acontecer comigo".
Uma revista ao lado diz Orgia Anal.
Não vou mandá-lo para o Céu.
"Então destrua minha aparência", Adam pede. "Deixe-me tão monstruoso que ninguém
pense em me querer."
Uma revista diz, Fixação Anal.
E eu pergunto, como?
"Encontre uma pedra", Adam diz. "Debaixo de todo esse lixo, encontre algo sólido. Uma
pedra. Cave."
Ainda deitado de costas, Adam puxa com as duas mãos os pés de plástico da estatueta,
respirando fundo enquanto gira e puxa.
Com minhas duas mãos, eu cavo. Através de pessoas engalfinhadas virilha com virilha,
rosto com rosto, virilha com rosto, virilha com eu e eu com rosto, eu cavo um buraco.
Cavo um buraco do tamanho de um túmulo antes de atingir o chão, o pátio da igreja, solo
sagrado, e retiro uma pedra do tamanho do meu punho.
Em uma das mãos, Adam segura a estatueta suja de sangue, mais diabólica agora do que
nunca.
Com sua outra mão, Adam tateia o chão ao seu lado, agarra uma revista e cobre o seu
rosto mutilado. A revista mostra um homem e uma mulher copulando, e embaixo dela Adam
diz: "Quando você encontrar uma pedra, bata com ela no meu rosto quando eu te disser".
Não consigo.
"Não vou deixar que você me mate", Adam diz.
Não confio nele.
"Você vai me dar uma vida melhor. Você tem esse poder", Adam fala debaixo da revista.
"Se você quer salvar minha vida, faça isso comigo antes."
Adam diz: "Se você não fizer, quando você for chamar ajuda, vou me arrastar e me
esconder, e vou acabar morrendo aqui". Pego a pedra na minha mão. Eu pergunto, você me
avisa quando devo parar? "Eu te aviso quando for o suficiente."
Promete?
"Prometo."
Levanto a pedra até que sua sombra cubra as pessoas fazendo sexo na cara do Adam.
E então abaixo a mão.
A pedra afunda.
"De novo!", Adam diz. "Mais forte."
E eu bato com a pedra.
E a pedra afunda ainda mais.
"De novo!"
E eu bato.
"De novo!"
E eu bato com a pedra.
O sangue empapa as páginas da revista até deixar o casal trepando vermelho, e depois
roxo.
"De novo!", Adam diz, suas palavras distorcidas, sua boca e seu nariz já com outro
formato.
E eu bato com a pedra nos braços, nas pernas e no rosto do casal.
"De novo."
E eu bato com a pedra até ela ficar toda vermelha de sangue, até a revista afundar no
meio. Até a minha mão ficar toda vermelha.
Aí eu paro.
Eu pergunto, Adam?
Tento levantar a revista, mas ela se rasga. Está encharcada de sangue.
A mão do Adam segurando a estatueta afrouxa e a estatueta ensangüentada sai rolando e
cai na cova que fiz para encontrar algo sólido.
Eu pergunto, Adam?
O vento sopra a fumaça sobre nós dois.
Uma grande sombra surge da base da torre e vem em nossa direção. Num minuto ela
apenas toca o Adam. No minuto seguinte, a sombra já o encobriu.
Senhoras e senhores, aqui no vôo 2039, nossa terceira turbina entrou em pane.
Só nos resta uma turbina antes de começarmos nossa descida terminal.
7
A sombra fria do monumento à Igreja do Credo cai sobre mim durante toda a manhã
enquanto eu enterro Adam Branson. Sob camadas de obscenidade, sob os Cus Famintos, sob as
Travecas Deliciosas, eu cavo com as mãos a terra do pátio da igreja. Lápides grandes
entalhadas com ramos e esqueletos estão enterradas ao meu redor. Os epitáfios nelas são mais
ou menos o de sempre.
Jamais será esquecido.
Descansem no Céu com os seus erros.
Pai amado.
Mãe adorada.
Família confusa.
Que o Deus que eles encontrarem lhes dê perdão e paz.
Assistente social ineficiente.
Agente detestável.
Irmão desencaminhado.
Talvez seja a toxina botulínica do Botox injetada em mim, ou a interação dos
medicamentos, ou a falta de sono, ou os efeitos a longo prazo da Síndrome do Déficit de
Atenção, mas eu não sinto nada. Minha boca tem um gosto amargo. Aperto os nódulos
linfáticos no meu pescoço, mas só sinto desdém.
Talvez depois de todos morrerem à minha volta eu tenha desenvolvido uma habilidade
para perder as pessoas. Um talento natural. Uma bênção.
Da mesma forma que a esterilidade de Fertility a torna a mãe de aluguel perfeita, talvez eu
tenha desenvolvido uma útil falta de sentimento.
Da mesma forma que quando você olha para a sua perna decepada à altura do joelho e não
sente nada a princípio, pode ser só o choque.
Mas espero que não.
Não quero que isso passe.
Rezo para nunca mais sentir nada.
Porque, quando passar, vai doer muito. Isso vai doer para o resto da minha vida.
Você não vai aprender isso em nenhuma escola de etiqueta, mas para evitar que os
cachorros cavem o que você enterrou, borrife a cova com amoníaco. Para afastar as formigas,
borrife bórax.
Para baratas, use alume.
Azeite de hortelã deixa os ratos longe.
Para retirar manchas de sangue sob as unhas, enfie as unhas em metade de um limão e
mexa-as. Lave com água morna.
O carro está destruído e só restam os bancos queimando. Só uma faixa de fumaça preta
flutua pelo vale. Quando levanto o corpo do Adam, o revólver cai do bolso da sua jaqueta. O
único som vem de algumas moscas zunindo ao redor da pedra com a marca da minha mão
ensangüentada.
O que restou do rosto do Adam ainda está envolto na revista pegajosa e vermelha, e
enquanto eu enfio seus pés e depois seus ombros no buraco que cavei, um táxi amarelo surge no
horizonte e vem chacoalhando na minha direção.
O buraco só cabe o Adam curvado, de lado, e eu me agacho na beirada e começo a
empurrar a areia.
Quando acaba a areia, jogo pornografia desbotada, livros obscenos com a lombada
esgarçada, Traci Lords e John Holmes, Kayla Kleevage e Dick Rambone, vibradores com a
pilha gasta, cartas de baralho rasgadas, camisinhas vencidas, delicadas e frágeis, mas nunca
usadas.
Eu sei como é.
Camisinhas com nervuras para extra-sensibilidade. A última coisa de que preciso agora é
de sensibilidade.
Aqui está uma camisinha fabricada com um anestésico tópico para ação prolongada. Que
paradoxo. Você não sente nada, mas pode trepar durante horas.
Isso realmente não faz sentido.
Eu queria aplicar um anestésico tópico na minha vida.
O táxi amarelo passa chacoalhando pelas fossas, se aproximando. Tem uma pessoa
dirigindo. E outra no banco de trás.
Quem é, eu não sei, mas posso imaginar.
Pego o revólver e tento enfiar no bolso da minha jaqueta. O cano rasga o forro do bolso, e
aí o negócio fica escondido. Se tem balas dentro, eu não sei.
O táxi pára a alguns metros de mim.
Fertility sai e acena. Ela se inclina na janela do motorista e o vento me traz suas palavras:
"Espere, por favor. Só vou levar um minuto".
Aí ela vem com os braços levantados para se equilibrar, olhando para baixo a cada passo
em meio às camadas escorregadias e brilhosas de revistas usadas. Garotos da Orgia. Loucas por
Esperma.
"Achei que você estivesse precisando de companhia agora", ela me diz.
Procuro um lenço ou uma cueca com abertura na virilha para enxugar o sangue das
minhas mãos.
Olhando para cima, Fertility diz: "Uau, a forma como a sombra do monumento à Igreja do
Credo recai sobre o túmulo do Adam é muito simbólica".
As três horas em que fiquei enterrando o Adam é o tempo mais longo que já passei sem
emprego. Agora Fertility Hollis está aqui para me dizer o que fazer. Meu novo emprego é
segui-la.
Fertility se vira para fitar o horizonte e diz: "Isto aqui parece o Vale da Sombra da Morte".
Ela complementa: "Você escolheu mesmo o lugar certo para esmagar o crânio do seu irmão. E
tão Caim e Abel que não agüento".
Matei meu irmão.
Matei o irmão dela.
Adam Branson.
Trevor Hollis.
Não confie em mim perto do irmão de ninguém com um telefone ou uma pedra.
Fertility enfia a mão em sua mochila e diz: "Você quer uma bala de alcaçuz?".
Estico minha mão coberta de sangue seco.
Ela diz: "Acho que não".
Ela olha por trás dos ombros para o táxi, que a espera, e acena. Um braço sai pela janela
do motorista e acena de volta.
Ela me diz: "Vamos resumir essa história. Tanto o Adam quanto o Trevor na verdade se
suicidaram".
Ela me diz que o Trevor se matou porque sua vida não tinha mais surpresas, não tinha
mais aventura. Ele estava com uma doença terminal. Estava morrendo de tédio. O único
mistério que restava era a morte.
Adam quis se matar porque sabia que, da forma como foi treinado, ele jamais seria outra
coisa senão um membro da Igreja do Credo. Adam matou os sobreviventes da igreja porque
sabia que uma cultura antiga de escravos não poderia se tornar uma cultura nova de homens
livres. Tal qual Moisés guiando as tribos de Israel pelo deserto durante uma geração, Adam
queria que eu sobrevivesse, mas não a minha programação mental de escravo.
Fertility diz: "Você não matou meu irmão".
Fertility diz: "E você também não matou o seu irmão. O que você fez foi mais o que eles
chamam de suicídio assistido".
Da sua mochila ela tira flores, flores de verdade, um pequeno ramo de rosas e cravos
frescos. Rosas vermelhas e cravos brancos, amarrados juntos. "Olha só", ela diz e se agacha
para colocá-las sobre as revistas onde Adam está enterrado.
"Eis outro grande símbolo", ela comenta, ainda agachada e olhando para mim. "Essas
flores apodrecerão dentro de algumas horas. Os passarinhos vão cagar sobre elas. A fumaça
daqui vai fazê-la feder, e amanhã uma escavadeira provavelmente vai esmagá-las, mas neste
momento elas são lindas."
Ela é uma pessoa muito atenciosa e cativante.
"É", ela diz, "eu sei." Fertility fica de pé e me pega pela parte limpa do meu braço, uma
parte não encrostada com sangue seco, e começa a me levar em direção ao táxi.
"Podemos ser cínicos e cruéis mais tarde, quando não estiver me custando tanto dinheiro",
ela fala.
No caminho até o táxi ela me conta que o país inteiro não pára de falar em como eu
estraguei o Super Bowl. De jeito nenhum podemos pegar um avião ou um ônibus. Os jornais
estão me chamando de o Anti-cristo. O assassino em massa da Igreja do Credo. O valor das
mercadorias Tender Branson está nas alturas, mas pelas razões erradas. Todas as grandes
religiões do mundo, os católicos, os judeus, os batistas e todos os outros estão dizendo, nós
avisamos.
Antes de chegarmos ao táxi, escondo minhas mãos ensangüentadas nos bolsos. Meu dedo
gruda no gatilho do revólver.
Fertility abre uma das portas de trás do táxi e me deixa entrar. Depois ela dá a volta e
entra pelo outro lado.
Ela sorri para o motorista no espelho retrovisor e diz: "De volta a Grand Island, acho".
O taxímetro marca setecentos e oitenta dólares.
O taxista olha para mim pelo espelho retrovisor e diz: "Sua mamãe jogou fora sua revista
de punheta predileta?". Ele diz: "Este lugar não tem fim. Se você perdeu alguma coisa, não é
aqui que vai encontrar".
Fertility sussurra: "Não ligue para ele".
O taxista é um alcoólatra, ela sussurra. Ela planeja pagar com seu cartão de crédito porque
ele vai morrer daqui a dois dias num acidente. Não vai ter tempo de mandar a fatura.
É quase o sol de meio-dia, e a sombra da torre de concreto fica cada vez menor.
Eu pergunto, como vai o meu peixe?
"Puxa vida", ela diz. "O seu peixe."
O táxi sacoleja e avança em direção ao mundo exterior.
Nada pode me fazer sofrer agora, mas eu não queria ouvir isso.
"O seu peixe, sinto muito", Fertility diz. "Ele morreu."
O peixe número seiscentos e quarenta e um.
Eu pergunto, ele sentiu dor?
Fertility diz: "Acho que não".
Eu pergunto, você esqueceu de dar comida?
"Não."
Eu pergunto, então o que aconteceu?
Fertility diz: "Não sei. Um dia ele apareceu morto".
Sem nenhuma razão.
Não significava nada.
Não foi nenhum grande gesto político.
Ele simplesmente morreu.
Era só a porra de um peixe, mas era tudo que eu tinha.
Peixe amado.
E depois de tudo que aconteceu, isso devia ser fácil de ouvir.
Peixe adorado.
Mas sentado aqui, no banco de trás do táxi, com o revólver na mão, com as mãos nos
bolsos, eu começo a chorar.
6
Em Grand Island, inventamos um filho doente com lupo para podermos nos hospedar
alguns dias na Casa Ronald McDonald.
Depois, pegamos carona em metade de uma Mansão Parkwood que está indo para oeste.
Ela não tinha nada além de quatro quartos, e dormimos separados por dois deles vazios.
Em Denver, inventamos uma filhinha com pólio para podermos nos hospedar em outra
Casa Ronald McDonald, comer e não sentir o mundo passar sob nossos pés enquanto
dormíamos à noite. Na Casa Ronald McDonald, tivemos que dividir um quarto, mas ele tinha
duas camas.
Saindo de Denver, pegamos uma Topsail Estate Manor indo para Cheyenne. Estávamos
andando sem rumo. Não custava dinheiro nenhum.
Pegamos metade de uma Sutton Place Townhome indo para sei lá onde, e acabamos em
Billings, Montana.
Começamos a brincar de roleta de casas.
Não entrávamos nos restaurantes para caminhoneiros para perguntar para onde cada casa
ia. Fertility e eu simplesmente cortávamos o plástico, entrávamos e lacrávamos por dentro.
Rodamos três dias e três noites trancados numa Flamingo Lodge e só acordamos quando
eles a estavam montando num terreno em Hamilton, Montana. Saímos pela porta de trás na hora
em que a família feliz que a havia comprado estava entrando pela da frente.
Tudo que levávamos era a mochila de Fertility e o revólver do Adam.
Estávamos perdidos no deserto.
Em Missoula, Montana, pegamos um terço de uma Craftsman Manor indo para oeste pela
Interestadual 90.
Um placa passou dizendo, Spokane 482 km.
Passando Spokane, uma placa passou dizendo, Seattle 321 km.
Em Seattle, inventamos um menininho com um buraco no coração.
Em Tacoma, inventamos uma menininha com os braços e as pernas dormentes.
Dissemos às pessoas que os médicos não sabiam qual era o problema.
As pessoas nos disseram para esperar um milagre.
Pessoas com seus filhos de verdade mortos ou morrendo de câncer nos disseram que Deus
era bondoso.
Nós vivíamos juntos como se fôssemos casados, mas quase nunca conversávamos.
Indo a sul pela Interestadual 5, passando por Portland, Oregon, andamos em metade de
uma Holly Hills Estate.
Antes de estarmos prontos, estamos em casa, de volta à cidade onde nos conhecemos, de
pé na calçada. Nosso último lar está se distanciando, e nós o deixamos ir.
Ainda não contei a Fertility que o último desejo de Adam foi de que ela e eu fizéssemos
sexo juntos.
Como se ela já não soubesse.
Ela sabe. Naquelas noites em que fiquei apagado, foi só disso que Adam conversou com
ela. Fertility e eu precisamos fazer sexo. Para me libertar e me dar poder. Para provar a Fertility
que o sexo pode ser mais do que simplesmente um consultor de marketing rico e de meia-idade
esguichando o seu DNA dentro dela.
Mas agora não há mais lugar para nenhum de nós aqui. O apartamento dela e o meu
apartamento já foram alugados para outras pessoas. Fertility sabe disso.
"Sei de um lugar onde podemos passar a noite", ela comenta, "mas eu preciso ligar antes."
Na cabine telefônica tem um dos meus adesivos de milhões de anos atrás.
Dê a você, à sua vida, mais uma chance. Ligue e receba a minha ajuda. E o número do
meu antigo telefone.
Eu ligo, e uma gravação diz que o número foi desligado.
Assim que acaba a gravação, eu digo, nem me fale.
Fertility liga para o lugar onde ela acha que podemos pernoitar. Ao telefone ela diz: "Meu
nome é Fertility Hollis, e quem me indicou foi o dr. Webster Ambrose".
O trabalho perverso dela.
É a história se repetindo, como dizia o agente. O fato de Fertility ser onisciente está
parecendo fácil. Não acontece nada de novo.
"Sim, tenho o endereço", ela confirma. "Desculpe eu ligar em cima da hora, mas foi a
primeira brecha que eu tive. Não", ela diz, "isso não é dedutível do imposto de renda. Não", ela
continua, "isso é pela noite toda, mas há uma taxa separada para cada tentativa. Não", ela diz,
"não há desconto para pagamento avista".
Ela diz: "Podemos discutir os detalhes pessoalmente".
Ao telefone ela comenta: "Não, você não precisa me dar gorjeta".
Ela estala os dedos para mim e pede uma caneta. Aí sobre o adesivo do meu telefone de
ajuda ela escreve um endereço, repetindo a rua e o número para o telefone.
"Legal", ela diz. "Às sete horas, então. Até."
No céu acima de nossas cabeças, há o mesmo sol nos observando cometer os mesmos
erros sem parar. É o mesmo céu azul depois de tudo que passamos. Nada novo. Não há
surpresas aqui.
O lugar para onde ela vai me levar é a casa que eu limpava. O casal para o qual ela vai
servir de parideira hoje à noite são os meus empregadores do interfone.
5
O percurso até a cama de Fertility é marcado por janelas raiadas e pintura descascada.
Ladrilhos mofados e manchas de ferrugem. Por todo o caminho há canos entupidos e tapetes
desgastados. Cortinas frouxas e tapeçarias desfiadas. Todas as estações da via sacra.
Isso foi depois que o homem e a mulher para quem eu trabalhava ficaram lá em cima com
a Fertility fazendo Deus sabe o quê.
Isso foi depois que eu entrei pela janela do porão que Fertility sabia que estaria aberta.
Isso foi depois de eu ter me escondido entre as flores falsas do jardim, todas elas furtadas de
túmulos, e depois que Fertility apertou a campainha às sete horas em ponto.
O pó cobre tudo na cozinha. Pratos cheios de sobra de comida para microondas enchem a
pia. O interior do microondas está encrostado de comida explodida.
Criado e treinado para ser um bom escravo como sou, começo a limpar na hora. Pergunteme
como remover a crosta de um microondas.
Não, sério, vá em frente.
Pergunte-me.
O segredo é ferver um copo de água no microondas durante alguns minutos. Isso soltará a
crosta para você poder limpar.
Pergunte-me como tirar manchas de sangue das mãos.
O truque é esquecer como essas coisas acontecem rápido. Suicídios. Acidentes. Crimes
passionais.
Fertility lá em cima fazendo o seu trabalho. Simplesmente se concentre na mancha até a
sua memória estar completamente apagada. A prática realmente leva à perfeição. Se é que
podemos chamar assim.
Passo a noite toda limpando, e ainda me sinto sujo.
Fertility me disse que o procedimento acabaria antes da meia-noite. Eles a deixariam no
quarto verde com os pés apoiados em travesseiros. Depois que o casal estivesse dormindo em
seu próprio quarto, eu poderia entrar de fininho.
O relógio do microondas marca onze e trinta.
Eu me arrisco, e o percurso até a cama da Fertility é repleto de plantas murchas e
maçanetas sujas, nódoas de mosca e marcas de dedos manchados de jornal. Marcas de copos e
de queimaduras de cigarro maculam todos os móveis. Teias de aranha balançam em todos os
cantos.
Está escuro dentro do quarto verde e lá do meio da sombra Fertility diz: "Nós devíamos
fazer sexo agora".
Eu digo, acho que sim.
Ela diz: "Espero que não se importe de comer sobras".
Eu não. Quero dizer, é assim que o Adam iria querer.
Ela diz: "Você tem camisinha?".
Eu digo que pensava que ela não engravidasse.
"Claro, sou estéril", ela diz, "mas fiz sexo sem proteção com um milhão de caras. Posso
estar com alguma doença fatal."
Digo que isso só seria problema se eu quisesse viver muito.
Fertility diz: "É isso que eu penso sobre a minha dívida gigante com o cartão de crédito".
Então fazemos sexo.
Se é que podemos chamar assim.
Depois de ter esperado a vida inteira, eu penetro nela só um centímetro e acabou.
"Bem", Fertility diz e me empurra, "espero que isso tenha te dado muito poder."
Ela não me dá uma segunda chance para fazermos amor.
Se é que podemos chamar assim.
Durante um longo tempo após ela dormir, eu a observo e fico imaginando seus sonhos, se
ela está sonhando com algum terrível assassinato, suicídio ou desastre. E se eu estou nesse
sonho.
4
Na manhã seguinte, Fertility está sussurrando ao telefone com alguém. Eu me levanto e
ela está vestida, em pé, perguntando: "Você tem um vôo às oito horas para Sydney?".
Ela está dizendo: "Só de ida, por favor. Um assento na janela, se você tiver. Vocês
aceitam Visa?".
Quando ela nota que eu a observo, ela já desligou e está calçando os sapatos. Fertility faz
menção de colocar a agenda na mochila, mas a coloca de volta na penteadeira.
Pergunto para onde ela vai.
"Sydney."
Mas por quê?
"Não sei."
Eu digo, fale-me.
Ela já está arrastando a mochila em direção à porta do quarto. "Porque eu tive a minha
surpresa", ela retruca. "Tive a porra da surpresa que eu queria, e porra, eu não quero. Eu não
quero isso!"
O quê?
"Estou grávida."
Mas como ela sabe?
"Eu sei tudo!", ela grita para mim. "Bem, eu sabia tudo. Eu não sabia disso. Eu não sabia
que teria que trazer uma criança para este mundo infeliz, tedioso, terrível. Uma criança que
herdará o meu dom de ver o futuro e viver uma vida de tédio insuportável. Uma criança que
jamais terá surpresas. Isso eu não previ."
E agora?
"Agora estou indo para Sydney, na Austrália."
Mas por quê?
"Minha mãe se matou. Meu irmão se matou. Tire suas conclusões."
Mas por que a Austrália?
Ela já está do lado de fora do quarto, arrastando sua mochila para o topo da escadaria.
Tive vontade de ir atrás dela, mas estou nu.
"Pense nisso", ela grita para mim, "como uma operação de aborto muito radical."
Um homem sai pela porta do quarto principal, vestido num terno azul que eu passei mil
vezes. Com uma voz que ouvi em mil chamadas pelo interfone, ele me pergunta: "Você é o dr.
Ambrose?".
Quando consigo me vestir, Fertility já desceu as escadas e saiu pela porta da frente. Pela
janela do quarto eu a vejo cruzar o gramado para entrar num táxi.
No corredor, uma mulher vestida numa camisa de seda que lavei a mão mil vezes se junta
ao homem de terno azul. Os dois estão parados na frente da porta do quarto principal, e a
mulher para quem eu trabalhava grita: "É ele! Lembra? Ele trabalhava para nós! É o anti-
Cristo!".
Eu enfio a agenda de Fertility embaixo do braço e corro para a porta. Ainda correndo,
chego ao ponto de ônibus na rua, e levo mais um minuto para encontrar a data de hoje na
agenda, e lá está a resposta.
À 1h25 desta tarde, o vôo 2039, sem escalas para Sydney, será seqüestrado por um
maníaco e cairá em algum lugar do deserto australiano.
Senhoras e senhores, como a última pessoa a bordo do vôo 2039 sobrevoando o imenso
deserto australiano, é meu dever informar-lhes que nossa última turbina entrou em pane.
Por favor, apertem os cintos, pois começaremos nossa descida terminal em direção ao
esquecimento.
3
O aeroporto está cheio de agentes do FBI procurando Tender Branson,
Assassino em Massa. Tender Branson, Falso Profeta. Tender Branson, Estraga Prazeres
do Super Bowl. Tender Branson, que abandonou sua adorável esposa no altar.
Tender Branson, anti-Cristo.
Alcanço Fertility no balcão da companhia aérea.
Ela está dizendo: "Uma, por favor. Tenho reserva".
A tintura preta que usamos foi semanas atrás, e as minhas raízes loiras estão à mostra. A
comida oleosa da estrada me deixou gordo de novo. É só uma questão de um segurança olhar
para mim e apontar a arma.
O bolso da minha jaqueta está vazio quando eu olho. O revólver do Adam sumiu.
"Se está procurando o revólver do seu irmão, está comigo", Fertility abaixa a cabeça e me
diz. "Esse avião será seqüestrado mesmo que eu tenha de fazê-lo eu mesma."
Não tem balas, eu digo. Ela sabe disso.
"Tem sim", ela diz. "Eu menti para que você não ficasse preocupado."
Então o Adam poderia ter me matado no momento em que quisesse.
Da mochila, Fertility retira uma urna de latão brilhante. Para o funcionário da companhia,
ela diz: "Estou levando as cinzas do meu irmão no vôo. Algum problema?".
O funcionário diz que não, não tem problema. A urna não pode passar pelos raios X, mas
eles deixarão que ela a leve no avião.
Fertility paga a passagem e nos dirigimos aos portões de embarque. Ela me dá a mochila e
diz: "Estou arrastando isso há meia hora. Faça alguma coisa".
Os seguranças estão preocupados demais com a urna para prestar atenção em mim. Ela é
de metal e ninguém quer abri-la, muito menos enfiar a mão dentro.
Aqui e ali durante todo o percurso os seguranças parecem estar em pares, olhando para
nós e falando em walkie-talkies. A urna bate na minha perna dentro da mochila. Fertility olha
para sua passagem e para cada placa nos portões que passamos.
"Aqui", ela diz quando chegamos ao portão. "Dê-me minha mochila e caia fora daqui." Ao
nosso redor as pessoas formam uma fila, enquanto a companhia anuncia o embarque.
Passageiros com bilhete para as fileiras de cinqüenta a setenta e cinco, por favor,
embarquem agora.
Qual dessas pessoas é o seqüestrador terrorista enlouquecido eu não sei.
No salão atrás de nós, os pares de seguranças agora se juntaram em grupos de quatro e
seis.
"Dê-me a mochila", Fertility ordena. Ela agarra a alça perto da minha mão e puxa com
força.
Ela levar o Trevor junto não faz o menor sentido.
"Preciso da minha mochila."
Passageiros com bilhete para fileiras de trinta a quarenta e nove, por favor, embarquem
agora.
Os seguranças estão se aproximando, correndo pelo salão em nossa direção, com os
coldres abertos, com as mãos sobre os revólveres.
E aí eu entendo. Onde está o revólver do Adam.
Está na urna, eu digo, e tento arrancar a mochila de Fertility.
Passageiros com bilhete para fileiras de dez a vinte e nove, por favor, embarquem agora.
Uma das alças da mochila se parte e a urna cai sobre o chão acarpetado, e Fertility e eu
voamos em cima dela.
Fertility planeja seqüestrar o avião.
"Alguém precisa fazê-lo", ela diz. "É o destino."
Nós dois estamos agarrando a urna.
Passageiros com bilhete para fileiras de um a nove, por favor, embarquem agora.
Eu digo, ninguém precisa morrer aqui.
Esta é a última chamada para o vôo 2039.
"Esse avião vai cair na Austrália", Fertility diz. "Eu jamais me engano."
Um segurança grita: "Parados".
Repetindo, esta é a última chamada para o vôo 2039 para Sydney.
Os seguranças estão nos cercando quando a urna se abre. Os restos mortais de Trevor
Hollis se espalham pelo chão. Das cinzas às cinzas. Nos olhos de todos. Do pó ao pó. Nos seus
pulmões. As cinzas do Trevor formam uma nuvem ao nosso redor. O revólver do Adam cai
sobre o carpete.
Antes de Fertility, antes dos seguranças, antes que o avião feche as portas, eu agarro o
revólver e agarro Fertility. Tudo bem, tudo bem, tudo bem, vamos fazer do jeito dela, digo com
o revólver encostado na cabeça dela.
Vou caminhando com ela de costas, em direção ao portão de embarque. Eu grito, não se
mexam.
Eu paro para que a funcionária destaque o cartão de embarque, e aí eu aceno para a urna
aberta e para os restos de Trevor espalhados pelo carpete.
"Alguém poderia juntar isso aí e entregar para esta mulher?", eu peço. "É o irmão dela."
Todos os seguranças estão agachados com os revólveres apontados para a minha testa,
enquanto um funcionário da companhia junta o máximo que consegue do Trevor, coloca na
urna e devolve para Fertility.
"Obrigada", Fertility diz. "Isso é muito constrangedor."
Vamos entrar nesse avião, eu digo, e vamos decolar.
Vou caminhando de costas em direção ao avião, me perguntando quem a bordo seria o
verdadeiro seqüestrador maluco.
Quando pergunto a Fertility, ela ri.
Quando pergunto a razão, ela diz: "Isso é tão irônico. Você logo adivinhará quem é o
seqüestrador".
Eu digo, conte-me.
As pessoas dentro do avião estão todas amontoadas no fundo da aeronave, encolhidas e de
cabeça baixa. Chorando. No corredor, perto da cabine do piloto, elas fizeram uma pilha de
carteiras, relógios, laptops, celulares, gravadores, toca-CDs e alianças.
As pessoas são mesmo treinadas.
Como se isso tivesse algo a ver com elas.
Como se isso tivesse algo a ver com dinheiro.
Eu mando os comissários trancarem as portas da cabine. E que eu já estive em muitos
aviões, indo de estádio em estádio. Eu digo, prepare a cabine para a decolagem.
Sentado perto de nós está um cara gordo de terno, com cara de paquistanês. Dois
moleques brancos, com cara de universitários. Um outro com cara de chinês.
Eu pergunto a Fertility, qual deles? Quem é o verdadeiro seqüestrador?
Ela está de joelhos perto da pilha de oferendas, escolhendo, e embolsa um belo relógio
feminino e um colar de pérolas. "Descubra você mesmo, Sherlock", ela responde.
Ela diz: "Sou apenas uma refém inocente aqui", e coloca um bracelete de diamantes no
pulso.
Eu grito, todos vocês, por favor, fiquem calmos, mas saibam que há um terrorista perigoso
a bordo deste vôo e que ele pretende derrubá-lo.
Alguém grita.
Eu digo, cale-se, por favor.
Digo a todos, até eu descobrir quem é o terrorista, fiquem abaixados.
Fertility pega um anel com um diamante do meio das oferendas e enfia no dedo.
Eu digo, um de vocês é o seqüestrador. Não sei quem, mas alguém aqui planeja derrubar
este avião.
Fertility continua a dar risadas.
Tenho a terrível sensação de que não entendi uma grande piada.
Eu digo, todos vocês, fiquem calmos.
Mando o comissário de bordo ir lá na frente falar com o capitão. Não quero machucar
ninguém, mas preciso mesmo sair deste país. Precisamos decolar e depois pousar em algum
lugar seguro, em algum lugar entre aqui e a Austrália. Aí todos vão desembarcar.
Para a Fertility, que está rindo do meu lado, digo que até ela vai desembarcar.
Nós vamos completar essa viagem, eu digo, mas apenas eu e um só piloto. Assim que
estivermos no ar pela segunda vez, eu digo, deixarei o piloto pular de pára-quedas.
Eu pergunto, ficou claro?
E o comissário, com o revólver apontado para o seu rosto diz, sim.
O avião vai cair na Austrália, eu digo, e só uma pessoa vai morrer.
E aí começo a entender.
Talvez não haja outro seqüestrador de verdade.
Talvez eu seja o seqüestrador.
Ao nosso redor, as pessoas começaram a sussurrar. Elas me reconheceram. Sou o
assassino em massa da televisão. Sou o anti-Cristo.
Eu sou o seqüestrador.
E começo a rir.
E pergunto a Fertility, você armou para mim, não foi?
E ainda rindo ela diz: "Um pouco".
E ainda rindo eu pergunto se ela está mesmo grávida.
E ainda rindo ela diz: "Acho que sim, mas juro que eu não sabia. Foi um autêntico
milagre".
As portas das cabines são fechadas e o avião começa a se afastar do terminal.
"Veja", ela diz. "A sua vida inteira você precisou que as pessoas te dissessem o que fazer,
a sua família, a sua igreja, os seus patrões, a sua assistente social, o seu agente, o seu irmão..."
Ela diz: "Bem, ninguém pode te ajudar nesta situação".
Ela continua: "Tudo que sei é que você vai conseguir sair desta. Você encontrará um jeito
de deixar sua vida miserável para trás. Você morrerá para o mundo".
As turbinas do avião começam a ranger e Fertility me dá uma aliança de ouro masculina.
"E depois de você conseguir contar a história da sua vida e escapar", Fertility comenta,
"depois disso nós começaremos uma vida nova juntos e viveremos felizes para sempre."
2
Em algum lugar na rota para Porto Vila nas Novas Hébridas, na minha última refeição, eu
sirvo o almoço da forma como sempre sonhei. Quem for pego passando manteiga no pão antes
de parti-lo eu juro que mato.
Quem beber refrigerante com a comida ainda na boca também será morto.
Quem for pego movimentando a colher em direção a si próprio será morto.
Quem for pego sem o guardanapo no colo —
Quem for pego usando os dedos para mexer a comida —
Quem começar a comer antes de todos serem servidos —
Quem soprar na comida para esfriá-la —
Quem falar de boca cheia —
Quem beber vinho branco segurando a taça pelo vaso ou beber vinho tinto segurando a
taça pela haste —
Cada um de vocês levará uma bala na testa.
Estamos a trinta mil pés acima da terra, indo a 455 milhas por hora. Estamos no ápice da
realização humana, e vamos fazer essa refeição como seres humanos civilizados.
1
E esta foi a minha confissão.
Testando, testando, um, dois, três.
E, de acordo com Fertility, basta eu descobrir uma forma de escapar. Eu poderia escapar
aqui de cima. Eu poderia escapar da queda. Eu poderia escapar de ser Tender Branson. Eu
poderia escapar da polícia. Eu poderia escapar do meu passado, da minha torta, causticante,
infeliz e embaraçosa vida até agora.
Fertility disse que o truque seria simplesmente contar às pessoas a história de como
cheguei a este ponto que eu descobriria uma saída.
Se eu pudesse simplesmente deixar minha história de vida para trás.
Se eu sobrevivesse, ela disse, poderíamos tentar melhorar nosso sexo.
Poderíamos tentar construir uma vida juntos.
Poderíamos ter aulas de dança.
Ela me mandou contar minha história até o momento em que o avião batesse no chão. Aí o
mundo pensaria que eu morri. Ela me mandou começar do fim.
Testando, testando. Um, dois, três.
Testando, testando. Um, dois, três.
Talvez isto esteja funcionando. Não sei. Não sei nem mesmo se você consegue me ouvir.
Mas se você consegue me ouvir, preste atenção. E se você estiver prestando atenção,
então o que você encontrou é a história de tudo o que deu errado. Este é o chamado gravador de
dados de vôo pertencente ao vôo 2039. A caixa-preta, as pessoas chamam, embora ela seja cor
de laranja, e dentro dela há um monte de fios que é o registro permanente de tudo que restou. O
que você encontrou é a história do que aconteceu.
E vá em frente.
Você pode aquecer estes fios até eles ficarem incandescentes, e eles ainda assim te
contarão a mesma história.
Testando, testando, um, dois, três.
E se você estiver ouvindo, saiba que os passageiros foram retirados do avião em Porto
Vila, na República do Vanuatu, em troca de meia dúzia de pára-quedas e mais um tanto de
garrafinhas de gim.
E depois que estávamos de volta no ar, seguindo para a Austrália, o piloto pulou de páraquedas
para a liberdade.
Vou continuar dizendo, mas é verdade. Não sou assassino.
E estou sozinho aqui em cima.
As quatro turbinas entraram em pane, e estou na minha descida controlada, no meu
mergulho rumo ao chão. Esta é fase terminal da minha descida, quando vou a trinta e dois pés
por segundo direto para a Austrália, a minha velocidade terminal.
Testando, testando, um, dois, três.
Mais uma vez, você está ouvindo a gravador do vôo 2039.
E nessa altitude, veja bem, e nessa velocidade, com o avião vazio, essa é a minha história.
E a minha história não virará zilhões de estilhaços nem queimará com mil toneladas de ferro
incinerado. E depois que o avião cair, as pessoas vão procurar o gravador de vôo. E minha
história sobreviverá.
E eu continuarei vivendo, para sempre.
E se eu descobrisse o que Fertility quis dizer, eu poderia me salvar, mas não consigo. Sou
burro.
Testando, testando, um, dois, três.
Então esta foi a minha confissão.
Esta é a minha oração.
A minha história. O meu encantamento.
Ouça-me. Veja-me. Lembre-se de mim.
Otário amado.
Messias remendado.
Futuro amante. Entregue a Deus.
Este livro foi digitalizado por:
Raddunno
Links:
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Compartilhando.org – http://www.compartilhando.org
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“Acreditar num conhecimento que poder ser vendido e comprado
é uma forma sutil (e cruel) de perpetuar a ignorância. ”

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