As Dores do mundo | SCHOPENHAUER

| domingo, 30 de maio de 2010
Querer é essencialmente sofrer, e como o viver é querer, toda a existência é essencialmente dor. Quanto mais elevado é o ser, mais sofre... A vida do homem não é mais do que uma luta pela
existência com a certeza de ser vencido...
SCHOPENHAUER
DORES DO MUNDO
O Amor — A Morte — A Arte — A Moral — A Religião — A Política — O Homem e a Sociedade
EDICÖES DE OURO
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INDICE
Introdução
Dores do mundo
O amor
I — Metafísica do amor
II — Esboço acerca das mulheres
A Morte
A Arte
A Moral
I — O egoísmo
II — A piedade
III — Resignação, renúncia, ascetismo e libertação
Pensamentos diversos
A religião
A política
O Homem e a sociedade
INTRODUÇÃO
Schopenhauer nasceu em Dantzig, no dia 22 de fevereiro de 1788. Seu pai era um negociante
conhecido por sua habilidade, gênio forte, independência de caráter e amor à liberdade. Mudou-se
para Hamburgo quando Artur tinha cinco anos, porque Dantzig perdera sua liberdade na anexação
da Polônia em 1793. O jovem Schopenhauer, conseqüentemente, cresceu num ambiente de negócios e
finanças e apesar de cedo ter abandonado a carreira mercantil para o qual seu pai o empurrara ela
deixou nele sua marca nos modos um tanto bruscos, na atitude mental realista e no conhecimento do
mundo e dos homens; ela fez dele o antípoda daquele tipo de filósofo acadêmico de quatro paredes a
quem ele tanto desprezava. O pai morreu, aparentemente por suas próprias mãos, em 1805. A avó
por parte de pai morrera louca.
“O caráter ou vontade”, diz Schopenhauer, "é herdado do pai; o intelecto da mãe”.(1) A mãe
possuía inteligência — tornou-se uma das mais populares escritoras de seu tempo — mas tinha
também muito temperamento e mau gênio. Tivera uma vida infeliz com seu prosaico marido e quando
ele morreu entregou-se ao amor livre e mudou-se para Weimar por ser um ambiente mais apropriado
para este tipo de vida. Artur Schopenhauer reagiu contra isso como Hamlet contra o segundo
casamento de sua mãe; e suas brigas com sua mãe ensinaram-lhe uma grande parte daquelas meiasverdades
sobre as mulheres com as quais iria permear sua filosofia. Uma das cartas dela ao filho
revela o estado de coisas entre os dois: "Você é insuportável e opressivo e muito difícil de se conviver;
todas suas boas qualidades são obscurecidas por seu convencimento e tornadas inúteis para o
mundo porque você não vode conter sua tendência de criticar as outras pessoas”(2). Então decidiram
morar separados; ele deveria ir vê-la apenas nos dias em que estava em casa para receber os amigos
e ser uma visita entre outras; dessa forma podiam se mostrar polidos um com o outro como estranhos
em vez de se detestarem como parentes. Goethe, que gostava de Madame Schopenhauer porque ela o
deixava trazer consigo sua Cristiane, tornou pior a situação ao dizer à mãe que o filho se tornaria um
homem muito famoso; a mãe nunca ouvira falar em dois gênios na mesma família. Finalmente, numa
briga mais séria, a mãe empurrou escada abaixo o filho e rival, sendo que diante daquilo nosso
filósofo cheio de amargor informou-a que a posteridade a conheceria somente através dele.
Schopenhauer deixou Weimar pouco depois e apesar de sua mãe ter vivido mais vinte e quatro anos,
ele nunca mais a viu. Byron, nascido também em 1788, parece ter passado por situação semelhante
com sua mãe. Esses homens foram destinados ao pessimismo quase que pelas circunstâncias: um
homem aue não conheceu o amor da mãe e o que é ainda pior, sofreu o ódio de sua mãe, não tem
motivos para ficar encantado com o mundo.
Enquanto isso Schopenhauer passara pelo ginásio e pela universidade e aprendera mais do
que o oferecido pelos currículos. Saiu de lá com uma infecção venérea que afetou seu caráter e sua
filosofia.(3) Tornou-se sombrio, cínico e desconfiado; era obcecado por temores e visões sinistras;
mantinha os cachimbos trancados a cadeado, nunca entregou o pescoço à navalha de um barbeiro e
dormia com pistolas carregadas ao lado da cama — presumivelmente para conveniência do
assaltante. Não suportava barulho: "Tenho de há muito a opinião", escreve ele, "que a quantidade de
ruído que alguém pode suportar sem se perturbar está na proporção inversa de sua capacidade
mental e conseqüentemente pode ser tomada como medida razoavelmente justa da mesma... O ruído é
uma torturava para todas pessoas intelectuais... Essa superabundante demonstração de vitalidade
1 O Mundo Como Vontade e Representação; Londres, 1883; iii. 300.
2 Em Wallace: Vida de Schopenhauer; Londres, sem data, p. 59.
3 Vide Wallace, 92
que toma a forma de bater as coisas, dar marteladas e atirar objetos de um lado para outro, tem sido
para mim um tormento diário durante toda minha vida"(1). Ele possuía um sentido quase que
paranóico de grandeza não reconhecida; não alcançando a fama e o sucesso, voltou-se para dentro
de si mesmo e roía sua própria alma.
Não tinha mãe, nem esposa, nem filhos, nem país. “Estava inteiramente sozinho, sem um
único amigo e entre um só e nenhum há uma distância infinita(2)”. Mais ainda do que Goethe era ele
imune as febres nacionalistas de sua época. Em 1813 ficou tão dominado pela influência do
entusiasmo de Fichte por uma guerra de liberação contra Napoleão que pensou em se apresentar
como voluntário e até comprou armas. Mas a prudência o apanhou a tempo; argumentou que
"Napoleão afinal de contas apenas dava livre expansão àquela auto-afirmação e àquele apetite de
vida intensa que os mortais comuns sentem mas por força de circunstâncias são obrigados a
disfarçar”(3). Em vez de partir para a guerra foi para o campo e escreveu uma tese de doutorado de
Filosofia.
Após essa dissertação sobre A quadrupla razão do princípio de razão suficiente (1813),(4)
Schopenhauer dedicou todo seu tempo e devotou todas suas forças ao livro que seria sua obra-prima
— O Mundo Como Vontade e Representação. Enviou o manuscrito ao editor com os maiores elogios;
ali, dizia ele, não estava uma simples reformulação de idéias velhas, mas sim uma altamente coerente
estrutura de pensamento original, "claramente inteligível, vigorosa e não sem beleza"; um livro "que
dali em diante seria a fonte e motivo para uma centena de outros livros".(5) Sendo que tudo que disse
era atrozmente egoísta e inteiramente verdadeiro. Muitos anos depois Schopenhauer estava tão certo
de ter dado solução aos problemas principais da Filosofia que pensou em mandar cinzelar em seu
anel de sinete uma imagem da Esfinge atirando-se ao abismo como prometera fazer quando seus
enigmas fossem solucionados. No entanto, o livro quase não atraiu atenção; o mundo estava pobre e
exausto demais para ler o que se dizia sobre sua pobreza e exaustão. Dezesseis anos após sua
publicação, Schopenhauer foi informado de que a maior parte da edição fora vendida como papel
velho. Em seu ensaio sobre a Fama, na "Sabedoria da Vida", ele cita, numa evidente alusão à sua
obra-prima, dois comentários de Lichtenberger: “Trabalhos como esse são como um espelho: se um
burro se mirar nele não se pode esperar que a imagem refletida seja a de um anjo"; e "Quando uma
cabeça e um livro têm uma colisão e um deles ressoa como oco, será que é sempre o livro"?
Schopenhauer prossegue num tom de vaidade ferida: "Quanto mais um homem pertence à
posteridade — em outras palavras, à humanidade em geral — tanto mais estranho é ele aos seus
contemporâneos; pois não se destinando o livro a eles por essa condição como tal, mas apenas por
fazerem parte da humanidade em geral, não é encontrado em seus trabalhos nem um pouco daquele
colorido local familiar que lhes serviria de atrativo." E depois tornar-se tão eloqüente como a raposa
da fábula: "Sentiria-se envaidecido um músico com os aplausos calorosos de uma platéia se soubessem
que eram quase todos surdos e que para ocultar sua enfermidade vira uma ou duas pessoas
aplaudindo? E o que diria ele se descobrisse que essas uma ou duas pessoas haviam freqüentemente
aceito subornos para garantir aplausos os mais calorosos para o pior artista?". Em alguns homens o
egotismo é uma compensação para a ausência de fama; em outros, o egotismo presta uma generosa
cooperação à sua presença.
Schopenhauer colocou-se tão completamente neste livro que suas obras posteriores não são senão
1 O Mundo Como Vondade e Representação, II, 199; Ensaios "Do Ruído".
2 Nietzsche: Schopenhauer como Educador; Londres, 1910; p. 122.
3 Wallace: Artigo "Schopenhauer" na Enciclopédia Britânica.
4 Schopenhauer insiste, sem motivo suficiente para tanto e quase que a ponto de técnica de venda,
em que esse livro tem que ser lido para que se possa compreender O Mundo como Vontade e
Representação. O leitor no entanto poderá se contentar em ficar sabendo que "o princípio da razão
suficiente" é a "lei da causa e efeito" de quatro formas: 1 - Lógica, como a determinação da
conclusão pelas premissas; 2 - Física, como a determinação do efeito pela causa; 3 - Matemática,
como a determinação da estrutura pelas leis da matemática e da mecânica; e 4 - Moral, como a
determinação da contuta pelo caráter.
5 Em Wallace. Vida de Schopenhauer, p. 107.
comentários do mesmo; tornou-se talmudista de seu próprio Torah, exegeta de suas próprias
Jeremiadas. Em 1836 publicou um ensaio, Da Vontade na Natureza, que até certo ponto foi
incorporado à edição aumentada de O Mundo Como Vontade e Representação que surgiu em 1844.
Em 1841 veio o trabalho Os Dois Problemas Básicos da Ética e em 1851 apareceram dois
substanciais volumes Parerga et Paralipomena — literalmente "Acessórios e Remanescentes" que
foram traduzidos para o inglês como "Essays". Por esse último, que é a sua obra de mais fácil leitura
e que é repleta de sabedoria e espírito, Schopenhauer recebeu, como remuneração total, dez
exemplares grátis. O otimismo fica um tanto difícil nessas circunstâncias.
Apenas uma aventura perturbou a monotonia de sua laboriosa reclusão depois de haver deixado
Weimar. Ele tinha a esperança de ter uma oportunidade de apresentar sua filosofia em uma das
grandes universidades da Alemanha; essa oportunidade apareceu em 1822, quando foi convidado a ir
para Berlim como docente (privat-docent). Ele de propósito escolheu para suas conferências as horas
exatas em que o então todo-poderoso Hegel dava suas aulas. Schopenhauer confiava em que os
estudantes encarariam a ele e a Hegel com os olhos da posteridade. Mas os estudantes não podiam se
antecipar tanto e Schopenhauer viu-se falando diante de cadeiras vazias. Pediu então demissão e
vingou-se com amargas diatribes contra Hegel que prejudicam as últimas edições de sua obra-prima.
Em 1831 espalhou-se em Berlim uma epidemia de cólera; tanto Hegel como Schopenhauer fugiram,
porém Hegel voltou prematuramente, apanhou a infecção e morreu em poucos dias. Schopenhauer
não se deteve até chegar a Frankfurt, onde passou o restante de seus setenta e dois anos.
Sendo um pessimista sensato, ele evitou aquela armadilha de otimistas — a tentativa de ganhar a
vida escrevendo. Ele havia herdado uma participação na firma de seu pai e vivia, com um conforto
razoável, da renda que isso lhe dava. Investiu seu dinheiro com um tino que não ficava muito bem
num filósofo. Quando uma companhia da qual possuía ações faliu e os outros credores concordaram
com um acerto de 70%, Schopenhauer lutou para conseguir pagamento integral e saiu vencedor. Ele
tinha o suficiente para alugar dois aposentos numa pensão e lá viveu os últimos trinta anos de sua
vida, tendo por companheiro apenas um cachorro. Ele chamava o pequeno popdle de Atma (o termo
bramânico para a Alma do Mundo), mas os brincalhões da cidade o chamavam de “o jovem
Schopenhauer”. Fazia suas refeições, normalmente, no Hotel Inglês. Antes do início de cada refeição
colocava sempre uma moeda de ouro na mesa, diante dele, e ao fim guardava-a de volta no bolso. Foi
certamente algum garção indignado que por fim lhe perguntou o significado daquele invariável
cerimonial. Schopenhauer respondeu que era uma aposta silenciosa que fazia consigo mesmo,
comprometendo-se ele a depositar a moeda na caixa dos pobres no primeiro dia que os oficiais
ingleses, também fregueses de lá, falassem de alguma coisa que não fosse cavalos, mulheres ou
cachorros.(1)
As universidades ignoravam a ele e a seus livros, como que para comprovar que todos
progressos em Filosofia são feitos fora dos muros acadêmicos. "Nada", diz Nietzsche, "ofendia tanto
aos sábios alemães como Schopenhauer ser tão dissemelhante a eles. "Mas ele aprendera a ter
paciência; estava certo de que, ainda que tardio, viria o reconhecimento. E por fim, lentamente, ele
veio. Homens da classe média — advogados, médicos, negociantes — encontraram nele uma filosofia
que lhes oferecia não um mero jargão de irrealidades metafísicas, mas sim um estudo inteligível dos
fenômenos da vida real. Uma Europa desiludida com os ideais e esforços de 1848, voltou-se quase
que com aclamações para essa filosofia que interpretara o desespero de 1815. O ataque da ciência
sobre a teologia, a denúncia socialista da pobreza e da guerra, a tensão biológica na luta pela
sobrevivência, — todos esses fatores foram de auxílio para que Schopenhauer atingisse finalmente a
fama.
Ainda não estava velho demais para gozar essa popularidade: lia com avidez todos artigos
que apareciam sobre ele; pedia a seus amigos que lhe enviassem qualquer comentário impresso que
encontrassem — ele mesmo pagaria o porte. Em 1854, Wagner lhe mandou uma cópia do Der Ring
des Nibelungen, com uma palavra de apreciação favorável à filosofia da música de Schopenhauer. E
assim o grande pessimista tornou-se quase um otimista em sua velhice; tocava assiduamente a flauta
após o jantar e agradecia ao Tempo por tê-lo libertado dos ardores da mocidade. Vinha gente do
1 Wallace, 171.
mundo todo para vê-lo e no seu septuagésimo aniversário, em 1858, choveram sobre ele congratulações
de toda parte e de todos os continentes.
O que sucedeu veio bem a tempo pois teve apenas mais dois anos de vida. Em 21 de setembro
de 1860, sentou-se sozinho à mesa do café, aparentemente bem. Uma hora depois a dona da casa
encontrou-o ainda sentado diante da mesa, já morto.
DORES DO MUNDO
Só a dor é positiva — Tormentos da existência — O nada preferível à vida — O fim da Filosofia não
é consolar — O otimismo insustentável de Leionitz — Pecado original — O mundo, um lugar de
penitência.
Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode dizer-se que não tem razão alguma
de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim, que nasce da miséria inerente à vida e
enche o mundo, seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é
certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.
***
Assim como um regato corre sem ímpetos, enquanto não encontra obstáculos, do mesmo modo
na natureza humana, como na natureza animal, a vida corre incosciente e descuidosa, quando coisa
alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu
algum choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste,
isto é, tudo que há de desagradável e de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não
atentamos na saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta; não
apreciamos o conjunto próspero dos nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que
nos desgosta. — O bem-estar e a felicidade são portanto negativos, só a dor é positiva.
Não conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas metafísicos, que explicam o
mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir... O bem, a
felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um
desgosto.
Acrescente-se a isto que em geral achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo
que as dores a excedem grandemente.
Se quereis num momento esclarecer-vos a este respeito, e saber se o prazer é superior ao
desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a impressão do animal que devora outro, com a
impressão do que é devorado.
***
A mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para
aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos.
Mas que resulta daí para o conjunto?
Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz a sua
escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara
precisamente a essa hora — doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc.
Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer.
Na vida dos povos, a História só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos
intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E da mesma maneira a vida do homem é um combate
perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros
homens. Em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com
as armas na mão.
***
Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que nos
não deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia dos forçados de chicote em
punho. — Poupa apenas aqueles que entregou ao aborrecimento.
***
Portanto, assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse sujeito à pressão da atmosfera, do
mesmo modo se o peso da miséria, do desgosto, dos reveses e dos vãos esforços fosse banido da vida
do homem, o excesso da sua arrogância seria tão desmedido, que o faria em bocados ou pelo menos o
conduziria à insânia mais desordenada e até à loucura furiosa. — Em todo o tempo, cada um precisa
ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o navio carece de
lastro para se manter em equilíbrio e andar direito.
Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de
quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados,
com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se esta raça num país
de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de
todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente
possível — ver-se-ia então os homens morrerem de tédio, ou enforcarem-se, outros disputarem,
matarem-se, e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe. —
Assim para semelhante raça nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam.
***
Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós,
como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que
vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que
sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à
vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença. — Nem por isso todos deixam de
ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo:
"Hoje é mau, e cada dia o será mais — até que chegue o pior de todos."
***
Quando se representa, tanto quanto é possível fazê-lo de uma maneira aproximada, a soma de
miséria, de dor e de sofrimentos de todas as espécies que o Sol ilumina no seu curso, deve-se
concordar que valeria muito mais que esse astro tivesse o mesmo poder na Terra para fazer surgir o
fenômeno da vida que tem na Lua, e seria preferível que a superfície da Terra como a da Lua se
mantivesse ainda no estado de cristal.
Pode ainda considerar-se a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude
e o repouso do nada. Seja como for, aquele para quem a existência é quase suportável, à medida que
avança em idade, tem uma consciência cada vez mais clara de que ela é em todas as coisas um
disappointment, nay, a cheat, em outros termos que ela possui o caráter de uma grande mistificação,
para não dizer de um logro...
Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de
espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas
repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação
e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade.
Perder-se-ia a cabeça, se se observasse a prodigalidade das disposições tomadas, essas estrelas
fixas que brilham inumeráveis no espaço infinito, e não têm outro fim senão iluminar mundos, teatros
da miséria e dos gemidos, mundos que, no mais feliz dos casos, só produzem o tédio: — pelo menos a
apreciarmos a amostra que nos é conhecida.
Ninguém é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são para lastimar!
A vida é uma tarefa que devemos desempenhar laboriosamente; e neste sentido, a palavra
defunctus é uma bela expressão.
Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma
voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não
sentiriam todos bastante piedade pela geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo
menos, não hesitariam em impor-lha a sangue-frio?
O mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em
diabos atormentadores.
Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação — e isso
simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem
tudo quanto fez. Ide à igreja e deixai os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles ajustem as
suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os indigentes e os filosofastros: a esses podem-se
encomendar doutrinas ao gosto de cada um. Perturbar o otimismo obrigado dos professores de
Filosofia é tão fácil como agradável.
Brama produz o mundo por uma espécie de pecado ou desvario, e permanece ele próprio no
mundo para expiar esse pecado até estar redimido. — Muito bem! — No Budismo, o mundo nasce em
seguida a uma perturbação inexplicável, que se produz após um longo repouso nessa claridade do céu,
nessa beatitude serena, chamada Nirvana, que será reconquistada pela penitência; é como que uma
espécie de fatalidade que se deve compreender no fundo de um sentido moral, ainda que essa
explicação tenha uma analogia e uma imagem exatamente correspondente na natureza pela formação
inexplicável do mundo primitivo, vasta nebulosa donde surgirá um sol. Mas os erros morais tornam
mesmo o mundo físico gradualmente pior e sempre pior, até ter tomado a sua triste forma atual.
Para os gregos o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade insondável. Esta
explicação é suportável, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd vive em guerra com Ahriman:
— isto ainda se pode admitir. — Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu bel-prazer
e muito voluntariamente produz este mundo de miséria e de lamentações, e que ainda se felicita e se
aplaude, é que é demasiado forte! Consideremos, portanto, nesse ponto de vista, a religião dos judeus
como a última entre as doutrinas religiosas dos povos civilizados; o que concorda perfeitamente com o
fato de ser ela também a única que não tem absolutamente nenhum vestígio de imortalidade.
Ainda mesmo que a demonstração de Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre
os mundos possíveis este é sempre o melhor, essa demonstração não daria ainda nenhuma teocidéia.
Porque o criador não só criou o mundo, mas também a própria possibilidade; portanto, devia ter
tornado possível um mundo melhor.
A miséria, que alastra por este mundo, protesta demasiado alto contra a hipótese de uma obra
perfeita devida a um ser absolutamente sábio, absolutamente bom, e também todo-poderoso; e, de
outra parte, a imperfeição evidente e mesmo a burlesca caricatura do mais acabado dos fenômenos da
criação, o homem, são de uma evidência demasiado sensível. Há aí uma dissonância que se não pode
resolver. As dores e as misérias são, pelo contrário, outras tantas provas em apoio, quando
consideramos o mundo como a obra da nossa própria culpa, e portanto como uma coisa que não podia
ser melhor. Ao passo que na primeira hipótese, a miséria do mundo se torna uma acusação amarga
contra o criador e dá margem aos sarcasmos, no segundo caso aparece como uma acusação contra o
nosso ser e a nossa vontade, bem própria para nos humilhar.
Conduz-nos a este profundo pensamento que viemos ao mundo já viciados como os filhos de
pais gastos pelos desregramentos, e que se a nossa existência é de tal modo miserável, e tem por
desenlace a morte, é porque temos continuamente essa culpa a expiar. De um modo geral não há nada
mais certo: é a pesada culpa do mundo que causa os grandes e inúmeros sofrimentos a que somos
votados; e entendemos esta relação no sentido metafísico e não no físico e empírico. Assim a história
do pecado original reconcilia-me com o antigo testamento; é mesmo a meus olhos a única verdade
metafísica do livro, embora aí se apresente sob o véu da alegoria. Porque a nossa existência
assemelha-se perfeitamente à conseqüência de uma falta e de um desejo culpado...
Quereis ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos orientar na vida e de a
encarar incessantemente sob o seu verdadeiro prisma, habituai-vos a considerar este mundo como um
lugar de penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já os mais antigos filósofos
(Clem. Alex. Strom. L. III, c. 3, p. 399) e alguns padres da Igreja. (Augustin. De civit. Dei, L. XI, 23.)
A sabedoria de todos os tempos, o Branamismo, o Budismo, Empédocles e Pitágoras
confirmaram este modo de ver; Cicero (Fragmenta de philosophia, vol. 12, p. 316, ed. Bip.) conta que
os sábios antigos na iniciação dos mistérios ensinavam: nos ob aliqua scelera sucepta in vita
superiore, poenarum luendarum causa natos esse. Vanini, que acharam mais cômodo queimar que
refutar, exprime essa idéia da maneira mais enérgica, quando diz: Tot, tantisque homo repletus
miseriis, ut si Christianæ religioni non repugnaret: dicere auderem, si dcemones dantur, ipsi, in
hominum corpora transmigrantes, sceleris pænas luunt. (De admirandis naturse arcanis, dial. L. p.
353.) Mas, mesmo no puro Cristianismo bem compreendido, a nossa existência é considerada como a
conseqüência de uma falta, de uma queda. Se nos familiarizarmos com esta idéia, não esperaremos da
vida senão o que ela pode dar e longe de considerarmos as suas contradições, sofrimentos, tormentos,
misérias grandes ou pequenas, como uma coisa inesperada, contrária às regras, achá-los-emos
perfeitamente naturais, sabendo bem que na Terra cada um sofre a pena da sua existência, e cada um a
seu modo. Entre os males de um estabelecimento penitenciário, o menor não é a sociedade que nele se
encontra. O que a sociedade dos homens vale, sabem-no aqueles que mereceriam outra melhor, sem
que seja necessário que eu o diga. Uma bela alma, um gênio, podem por vezes experimentar aí os
sentimentos de um nobre prisioneiro do Estado que se encontra nas galés rodeado de celerados
vulgares; e como ele procuram isolar-se. Em geral, porém, esta idéia sobre o mundo torna-nos aptos a
ver sem surpresa, e ainda mais, sem indignação, o que se chama as imperfeições, isto é, a miserável
constituição intelectual e moral da maior parte dos homens que a sua própria fisionomia nos revela...
A convicção de que o mundo e por conseguinte o homem são tais que não deveriam existir, é
de molde que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; que se pode esperar, de fato, de uma
tal espécie de seres? — Penso às vezes que a maneira mais convincente dos homens se cumprimentarem
em vez de ser Senhor, Sir etc, poderia ser: “companheiro de sofrimentos, socî malorum,
companheiro de misérias, my fellow-sufferer”. Por muito original que isto pareça, a expressão é
contudo fundada, lança sobre o próximo a luz mais verdadeira, e lembra a necessidade da tolerância,
da paciência, da indulgência, do amor do próximo, sem o que ninguém pode passar, e de que,
portanto, todos são devedores.
II
Desilusões — Vãs promessas de felicidade — Dores sem tréguas e sem descanso, metamorfoses do
sofrimento: a miséria e o tédio — A vida é um espetáculo tragicômico, sob o reino do acaso e do erro
— O Inferno de Dante e o inferno do mundo — Último alvo e último naufrágio.
Enquanto a primeira metade da vida é apenas uma infatigável aspiração de felicidade, a
segunda metade, pelo contrário, é dominada por um sentimento doloroso de receio, porque se acaba
por perceber mais ou menos claramente que toda a felicidade não passa de quimera, que só o
sofrimento é real. Por isso os espíritos sensatos visam menos aos prazeres do que a uma ausência de
desgostos, a um estado de algum modo invulnerável.— Nos meus anos de mocida-de, uma
campainhada à porta causava-me alegria porque pensava: "Bom! é qualquer coisa que sucede." Mais
tarde, experimentado pela vida, esse mesmo ruído despertava-me um sentimento vizinho do medo;
dizia de mim para mim: "Que sucederá?"
***
Na velhice as paixões e os desejos extinguem-se uns após outros, à medida que os objetos
dessas paixões se tornam indiferentes; a sensibilidade diminui, a força da imaginação torna-se sempre
mais fraca, as imagens empalidecem, as impressões já não aderem, passam sem deixar vestígios, os
dias decorrem cada vez mais rápidos, os acontecimentos perdem a sua importância, tudo se descolora.
O homem acabrunhado pela idade passeia cambaleando ou repousa a um canto, não sendo mais do
que a sombra, o fantasma do seu ser passado. Vem a morte, que lhe resta para destruir? Um dia a
sonolência muda-se em último sono e os seus sonhos... já inquietavam Hamlet no célebre monólogo.
Creio que desde esse momento sonhamos.
***
Todo o homem que despertou dos primeiros sonhos da mocidade, que tem em consideração a
sua própria experiência e a dos outros, que estudou a história do passado e a da sua época, se
quaisquer preconceitos demasiado arraigados não lhe perturbam o espírito, acabará por chegar à
conclusão de que este mundo dos homens é o reino do acaso e do erro, que o dominam e o governam a
seu modo sem piedade alguma, auxiliados pela loucura e pela maldade, que não cessam de brandir o
chicote. Por isso o que há de melhor entre os homens só aparece após grandes esforços; qualquer
inspiração nobre e sensata dificilmente encontra ocasião de se mostrar, de proceder, de se fazer ouvir,
ao passo que o absurdo e a falsidade no domínio das idéias, a banalidade e a vulgaridade nas regiões
da arte, a malícia e a velhacaria na vida prática, reinam sem partilha, e quase sem interrupção; não há
pensamento, obra excelente que não seja uma exceção, um caso imprevisto, singular, incrível,
perfeitamente isolado, como um aerólito produzido por uma ordem de coisas diferente daquela que
nos governa. — Com respeito a cada um em particular, a história de uma existência é sempre a
história de um sofrimento, porque toda a carreira percorrida é uma série ininterrupta de reveses e de
desgraças, que cada um procura ocultar porque sabe que longe de inspirar aos outros simpatia ou
piedade, dá-lhes enorme satisfação, de tal modo se comprazem em pensar nos desgostos alheios a que
escapam naquele momento; — é raro que um homem no fim da vida, sendo ao mesmo tempo sincero
e ponderado, deseje recomeçar o caminho, e não prefira infinitamente o nada absoluto.
***
Não há nada fixo na vida fugitiva: nem dor infinita, nem alegria eterna, nem impressão
permanente, nem entusiasmo duradouro, nem resolução elevada que possa durar toda a vida! Tudo se
dissolve na torrente dos anos. Os minutos, os inumeráveis átomos de pequenas coisas, fragmentos de
cada uma das nossas ações, são os vermes roedores que devastam tudo quanto é grande e ousado...
Nada se toma a sério na vida humana; o pó não vale esse trabalho.
***
Devemos considerar a vida como uma mentira contínua, tanto nas coisas pequenas como nas
grandes. Prometeu? não cumpre a promessa, a não ser, para mostrar quanto o desejo era pouco
desejável: tão depressa é a esperança que nos ilude, como a coisa com que contávamos. — Se nos deu,
foi só para nos tornar a tirar. A magia da distância apresenta-nos paraísos, que desaparecem como
visões, logo que nos deixamos seduzir.
A felicidade, portanto, está sempre no futuro ou no passado, e o presente é como uma pequena
nuvem sombria que o vento impele sobre a planície cheia de sol; diante dela, atrás dela, tudo é
luminoso, só ela projeta sempre uma sombra.
***
O homem só vive no presente, que foge irresistivelmente para o passado, e afunda-se na morte:
salvo as conseqüências que podem refletir-se no presente, e que são a obra dos seus atos e da sua
vontade, a sua vida de ontem acha-se completamente morta, extinta: deveria portanto ser-lhe indiferente
à razão que esse passado fosse feito de gozos ou de tristezas. O presente foge-lhe, e transformase
incessantemente no passado; o futuro é absolutamente incerto e sem duração... E assim como sob o
ponto de vista físico o andar não é mais do que uma queda sempre evitada, da mesma maneira a vida
do corpo é a morte sempre suspensa, uma morte adiada, e a atividade do nosso espírito um tédio
sempre combatido... É preciso enfim que a morte triunfe, pois lhe pertencemos pelo próprio fato do
nosso nascimento e ela não faz senão brincar com a presa antes de a devorar. É deste modo que
seguimos o curso da nossa existência, com um interesse extraordinário, com mil cuidados, mil
precauções, durante todo o tempo possível, como se sopra uma bola de sabão, aplicando-nos a enchêla
o mais que podemos e durante muito tempo, não obstante a certeza que temos de que ela acabará
por rebentar.
***
A vida não se apresenta de modo algum como um mimo que nos é dado gozar, mas antes
como um dever, uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho; daí resulta, tanto nas grandes
como nas pequenas coisas, uma miséria geral, um trabalho sem descanso, uma concorrência sem
tréguas, um combate sem fim, uma atividade imposta com uma tensão extrema de todas as forças do
corpo e do espírito. Milhões de homens, reunidos em nações, concorrem para o bem público,
procedendo assim cada indivíduo em seu próprio interesse; caem, porém, milhares de vítimas para a
salvação comum. Umas vezes são preconceitos insensatos, outras uma política sutil que excitam os
povos à guerra; urge que o suor e o sangue da grande massa corram em abundância para levar a bom
fim as fantasias de alguns, ou para expiar as suas faltas. Em tempo de paz, a indústria e o comércio
prosperam, as invenções operam maravilhas, os navios sulcam os mares e transportam coisas
deliciosas de todas as partes do mundo, as ondas tragam milhares de homens. Tudo está em
movimento, uns meditam, outros procedem, o tumulto é indescritível.
Mas qual é o alvo de tantos esforços? Manter durante um curto espaço de tempo entes
efêmeros e atormentados, mantê-los no caso mais favorável em uma miséria suportável e uma
ausência de dor relativa que o tédio logo aproveita; depois a reprodução dessa raça e a renovação do
seu curso habitual.
***
Os esforços sem tréguas para banir o sofrimento só têm o resultado de o fazer mudar de figura.
Na origem aparece sob a forma da necessidade, do cuidado pelas coisas materiais da vida.
Conseguindo-se, à custa de penas, expulsar a dor sob esse aspecto, logo se transforma e toma mil
formas diferentes, segundo as idades e as circunstâncias; é o instinto sexual, o amor apaixonado, o
ciúme, a inveja, o ódio, a ambição, o medo, a avareza, a doença, etc., etc. Se não encontra outro
acesso livre, toma o manto triste e pardo do tédio e da sociedade, e então, para a combater, é preciso
forjar armas. Logrando-se expulsá-la, não sem combate, volta às suas antigas metamorfoses, e a dança
recomeça...
***
O que ocupa todos os vivos e os conserva em contínua atividade, é a necessidade de assegurar
a existência. Mas feito isto, não sabem que mais hão de fazer. Assim o segundo esforço dos homens é
aliviar o peso da vida, torná-lo insensível, matar o tempo, isto é, fugir ao aborrecimento. Vemo-los,
logo que se livram de toda a miséria material e moral, logo que sacudiram dos ombros todos os fardos,
tomarem sobre eles mesmos o peso da existência, e considerarem como um ganho toda a hora que têm
conseguido passar, ainda que no fundo ela seja tirada dessa existência, que se esforçam por prolongar
com tanto zelo. O aborrecimento não é um mal para desdenhar: que desespero faz transparecer no
rosto! Faz com que os homens, que se amam tão pouco uns aos outros, se procurem com todo o
entusiasmo; é a origem do instinto social. O Estado considera-o como uma calamidade pública, e por
prudência toma medidas para o combater.
Este flagelo, que não é menor que o seu extremo oposto, a fome, pode impelir os homens a
todos os desvarios; o povo precisa panem et circenses. O rude sistema penitenciário de Filadélfia,
fundado sobre o isolamento e a inatividade, faz do aborrecimento um instrumento de suplício tão
terrível, que mais de um condenado tem recorrido ao suicídio para lhe fugir. Se a miséria é o aguilhão
perpétuo para o povo, o tédio é-o igualmente para os ricos. Na vida civil, o domingo representa o
aborrecimento, e os seis dias da semana a miséria.
***
A vida do homem oscila, como uma pêndula, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus
dois últimos elementos. Os homens tiveram que exprimir esta idéia de um modo singular; depois de
haverem feito do inferno o lugar de todos os tormentos e de todos os sofrimentos, que ficou para o
céu? justamente o aborrecimento.
***
O homem é o mais necessitado de todos os seres: não tem mais do que vontade, desejos
encarnados, um composto de mil necessidades. E assim vive na Terra, abandonado a si próprio,
incerto de tudo que não seja a miséria e a necessidade que o oprime. Através as exigências imperiosas,
todos os dias renovadas, o cuidado da existência preenche a vida humana. Ao mesmo tempo
atormenta-o um segundo instinto, o de perpetuar a sua raça. Ameaçado por todos os lados pelos
perigos mais diversos, tem que usar de uma prudência sempre vigilante para lhes escapar. Com passo
inquieto, lançando em volta olhares cheios de angústia, segue o seu caminho lutando com os acasos e
com os inimigos sem número. Assim como caminharia através os desertos selvagens, assim segue em
plena vida civilizada; para ele, não existe a segurança:
Qualibus in tenebris vitæ, quantisque periclis
Degitur hocc’ævi, quodcunque est!
(Lucr, II, 15.)
A vida é um mar cheio de escolhos e de turbilhões que o homem só evita à força de prudência
e de cuidados, embora saiba que mesmo que consiga escapar-lhes com perícia e esforços, não pode
contudo, à medida que avança, retardar o grande, o total, o inevitável naufrágio, a morte que parece
correr-lhe ao encontro: é esse o fim supremo de tão laboriosa navegação, para ele infinitamente pior
que todos os escolhos a que escapou.
Sentimos a dor, mas não a ausência da dor; sentimos a inquietação, mas não a ausência da
inquietação; o temor, mas não a segurança. Sentimos o desejo e o anelo, como sentimos a fome e a
sede; mas apenas satisfeitos, tudo acaba, assim como o bocado que, uma vez engolido, deixa de existir
para a nossa sensação. Enquanto possuímos os três maiores bens da vida, saúde, mocidade e liberdade,
não temos consciência deles, e só os apreciamos depois de os havermos perdido, porque esses também
são bens negativos. Só notamos os dias felizes da nossa vida passada depois de darem lugar aos dias
de tristeza... — À medida que os nossos prazeres aumentam, tornam-nos cada vez mais insensíveis; o
hábito não é já um prazer. Por isso mesmo a nossa faculdade de sofrer é mais viva; todo o hábito
suprimido causa um sentimento doloroso. As horas correm tanto mais rápidas quanto mais agradáveis
são, tanto mais demoradas quanto mais tristes, porque o gozo não é positivo, mas sim a dor, cuja
presença .se faz sentir. O aborrecimento dá-nos a noção do tempo, a distração tira-a. O que prova que
a nossa existência é tanto mais feliz quanto menos a sentimos: de onde se segue que mais vale ver-nos
livres dela. Não se poderia absolutamente imaginar uma grande e viva alegria, se esta não sucedesse a
uma grande miséria porque nada há que possa atingir um estado de alegria serena e durável; o mais
que se consegue é distrair, satisfazer a vaidade. É por este motivo que todos os poetas sâo obrigados a
colocar os seus heróis em situações cheias de ansiedades e de tormentos, a fim de os livrarem delas:
drama e poesia épica só nos mostram homens que lutam, que sofrem mil torturas, e cada romance
oferece-nos em espetáculo os espasmos e as convulsões do pobre coração humano. Voltaire, o feliz
Voltaire, que tão favorecido foi pela natureza, pensa como eu, quando diz: "A felicidade não passa de
um sonho, só a dor é real"; e acrescenta: "Há oitenta anos que o experimento. Não sei fazer outra coisa
senão resignar-me, e dizer a mim mesmo que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas,
e os homens para serem devorados pelos pesares."
***
A vida de cada homem, vista de longe e de alto, no seu conjunto e nas fases mais salientes,
apresenta-nos sempre um espetáculo trágico; mas se a analisarmos nas suas minúcias, tem o caráter de
uma comédia o decurso e o tormento do dia, a incessante inquietação do momento, os desejos e os
receios da semana, as desgraças de cada hora, sob a ação do acaso que procura sempre mistificar-nos,
são outras tantas cenas de comédia. Mas as aspirações iludidas, os esforços baldados, as esperanças
que o destino esmaga implacavelmente, os erros funestos da vida inteira, com os sofrimentos que se
acumulam e a morte no último ato, eis a eterna tragédia. Parece que o destino quis juntar a irrisão ao
desespero da nossa existência, quando encheu a nossa vida com todos os infortúnios da tragédia, sem
que possamos sequer sustentar a dignidade das personagens trágicas. Longe disso, na ampla
particularidade da vida, representamos inevitavelmente o mesquinho papel de cômicos.
É verdadeiramente incrível como a existência da maior parte dos homens é insignificante e
destituída de interesse vista exteriormente, e como é surda e obscura sentida interiormente. Consta
apenas de tormentos, aspirações impossíveis, é o andar cambaleante de um homem que sonha através
as quatro épocas da vida até à morte, com um cortejo de pensamentos triviais. Os homens
assemelham-se relógios a que se dá corda e trabalham sem saber por que; e sempre que vem um
homem a este mundo, o relógio da vida humana recebe corda de novo para repetir mais uma vez o
velho e gasto estribilho da eterna caixa de música, frase por frase, compasso por compasso, com
variações quase insensíveis.
Cada indivíduo, cada rosto humano e cada existência humana são um sonho, um sonho
efêmero do espírito infinito da natureza, da vontade de viver persistente e teimosa, são uma imagem
fugitiva que desenha na página infinita do espaço e do tempo, que deixa subsistir alguns instantes de
uma rapidez vertiginosa, e que logo apaga para dar lugar a outras. Contudo, e é esse o lado da vida
que faz pensar e refletir, urge que a vontade de viver, violenta e impetuosa, pague cada uma dessas
imagens fugitivas, cada uma dessas fantasias vãs ao preço de dores profundas e sem número, e de uma
morte amarga por muito tempo temida e que afinal chega. Eis por que o aspecto de um cadáver nos
torna subitamente sérios.
***
Onde iria Dante procurar o modelo e assunto do seu inferno senão no nosso mundo real? E
contudo, é um perfeito inferno que ele nos pinta. Ao contrário, quando ele tratou de descobrir o céu e
os seus gozos, encontrou-se em frente de uma dificuldade invencível, justamente porque o nosso
mundo nada oferece de análogo. Em lugar das alegrias do Paraíso, viu-se reduzido a dar-nos parte das
instruções que lhe deram os seus antepassados, a sua Beatriz e diversos santos. Daqui se deduz
claramente que espécie de mundo é o nosso.
***
O inferno do mundo excede o Inferno de Dante, no ponto em que cada um é o diabo do seu
vizinho; há também um arquidiabo superior a todos os outros, é o conquistador que dispõe milhares de
homens em frente uns dos outros e lhes brada: "Sofrer, morrer, é o vosso destino; portanto fuzilem-se,
canhoneiem-se mutuamente!'' e eles assim procedem.
***
Se se pudesse pôr diante dos olhos de cada um as dores e os espantosos tormentos aos quais a
sua vida se encontra incessantemente exposta, um tal aspecto enchê-lo-ia de medo; e se se quisesse
conduzir o otimista mais endurecido aos hospitais, aos lazaretos e aposentos de torturas cirúrgicas, às
prisões, aos lugares de suplícios, às pocilgas dos escravos, aos campos de batalha e aos tribunais
criminais, se se lhe abrissem todos os antros sombrios onde a miséria se acolhe para fugir aos olhares
de uma curiosidade fria, e se por fim o deixassem ver a torre de Ugolino, então, com certeza, também
ele acabaria por reconhecer de que espécie é este melhor dos mundos possíveis.
***
Este mundo, campo de carnificina onde entes ansiosos e atormentados vivem devorando-se
uns aos outros, onde todo o animal carnívoro se torna o túmulo vivo de tantos outros, e passa a vida
numa longa série de martírios, onde a capacidade de sofrer aumenta na proporção da inteligência, e
atinge portanto no homem o mais elevado grau; este mundo, quiseram os otimistas adaptá-lo ao seu
sistema, e apresentá-lo a priori como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo é evidente. —
Dizem-me para abrir os olhos e fitá-los na beleza do mundo que o Sol ilumina, admirar-lhe as montanhas,
os vales, as torrentes, as plantas, os animais, que sei eu! Então o mundo é uma lanterna mágica?
Certamente que o espetáculo é esplêndido à vista, mas representar aí um papel, é outra coisa. — Após
o otimista surge o homem das causas finais; esse exalta a sábia ordem que preserva os planetas de se
chocarem no seu percurso, que impede a terra e o mar de se confundirem e os mantém devidamente
separados, que faz com que o resto não se conserve num gelo eterno, ou seja consumido pelo calor,
que, devido à inclinação da eclíptica, não permite à primavera ser eterna e deixa amadurecer os frutos,
etc... Mas tudo isso são simples conditiones sine quibus non. Porque se deve existir um mundo, se os
seus planetas devem durar, embora, um período igual àquele que o raio de uma estrela fixa e afastada
leva para chegar até eles, e se não desapareceu como o filho de Lessing logo após o nascimento, era
preciso que as coisas estivessem mal arquitetadas, para que a base fundamental ameaçasse já ruína.
Cheguemos agora aos resultados dessa obra tão exaltada, consideremos os atos que se movem nesta
cena tão solidamente formada: vemos a dor aparecer ao mesmo temoo que a sensibilidade, e aumentar
à medida aue esta se torna inteligente, vemos o desejo e o sofrimento caminhando par a par,
desenvolver-se sem limites, até que por fim a vida humana apenas oferece assunto de tragédias, ter-seá
pouca disposição para entoar a Aleluia dos otimistas.
***
Se um Deus fez este mundo, eu não gostaria de ser esse Deus: a miséria do mundo esfacelarme-
ia o coração.
***
Imaginando-se um demônio criador, ter-se-ia portanto o direito de lhe gritar mostrando-lhe a
sua obra: "Como ousaste interromper o repouso sagrado do nada, para fazer surgir uma tal massa de
desgraça e de angústias?"
***
Considerando a vida sob o aspecto do seu valor objetivo, é pelo menos duvidoso que ela seja
preferível ao nada; e eu diria até que se a experiência e a reflexão se pudessem fazer elevariam a voz
em favor do nada. Se batêssemos nas pedras dos túmulos para perguntar aos mortos se querem
ressuscitar, eles abanariam a cabeça. É também esta a opinião de Sócrates na apologia de Platão, e até
o amável e alegre Voltaire não pôde deixar de dizer: "Aprecia-se a vida; mas o nada também tem o
seu lado bom"; e ainda: "Não sei o que é a vida eterna, esta, porém, é um mau gracejo."
***
Querer é essencialmente sofrer, e como o viver é querer, toda a existência é essencialmente
dor. Quanto mais elevado é o ser, mais sofre... A vida do homem não é mais do que uma luta pela
existência com a certeza de ser vencido... A vida é uma caçada incessante onde, ora como caçadores,
ora como caça, os entes disputam entre si os restos de uma horrível carnificina; uma história natural da
dor que se resume assim: querer sem motivo, sofrer sempre, lutar sempre, depois morrer e assim
sucessivamente pelos séculos dos séculos, até que o nosso planeta se faça em bocados.
O AMOR
I
METAFÍSICA DO AMOR
O amor, assunto até agora reservado aos romancistas e aos poetas — Insuficiência dos
filósofos que têm tratado do assunto — Deve-se estudar o amor na vida real — O seu papel, a sua
importância, o interesse universal que ele inspira — Todo o amor vulgar ou etéreo tem origem no
instinto sexual — O seu fim é a procriação de uma determinada criança: fixa desse modo a geração
futura — A natureza do instinto é proceder no interesse da espécie em detrimento do indivíduo — O
instinto oferece ao ser egoísta uma ilusão falaz para chegar aos seus fins — Ele guia, no amor, a
escolha do homem e da mulher para as qualidades físicas e morais mais aptas para assegurarem a
reprodução, a conservação, a superioridade do tipo integral da espécie humana, sem consideração
alguma pela félicidade das pessoas — Deste conflito entre o gênio da espécie e os gênios protetores
dos indivíduos nascem o sublime e o patético do amor — Resultado trágico do amor infeliz,
decepções do amor sofisticado — Os amantes são traidores que perpetuando a vida perpetuam a dor
— Dafnis e Cloé, diálogo — Seriedade da volúpia.
Ó vós, sábios, cuja ciência é elevada e profunda, que meditastes e que sabeis onde,
quando e como, tudo se une na natureza, para que são todos esses amores, esses
beijos; vós, sublimes sábios, dizei-mo! Torturai o vosso espírito sutil e dizei-me
onde, quando e como, me sucedeu amar, por que me foi dado amar?
Bürger.
Está-se geralmente habituado a ver os poetas ocupados em pintar o amor. A pintura do amor é
o assunto principal de todas as obras dramáticas, trágicas ou cômicas, românticas ou clássicas, tanto
nas índias como na Europa: é igualmente o mais fecundo de todos os assuntos tanto para a poesia
lírica como para a poesia épica, sem falar da grande quantidade de romances, que, há séculos, se
produzem todos os anos nos países civilizados da Europa tão regularmente como os frutos das
estações. Todas essas obras no fundo são descrições variadas e mais ou menos desenvolvidas dessa
paixão. As pinturas mais perfeitas, Romeu e Julieta, a nova Heloísa, Werther, adquiriram glória
imortal. Dizer como La Rochefoucauld que o amor apaixonado é como os espectros de que todos
falam, mas que ninguém viu; ou então contestar como Lichtenberger, no seu Ensaio sobre o poder do
amor, a realidade dessa paixão e negar que seja conforme à natureza, é um grande erro. Porque é
impossível conceber como um sentimento estranho ou contrário à natureza humana, como uma pura
fantasia o que o gênio dos poetas não se cansa de pintar, nem a humanidade de colher com inabalável
simpatia; visto que sem verdade, não há arte completa.
Nada é tão belo como a verdade; só a verdade é agradável.
Boileau.
Ademais a experiência geral, embora não se renove todos os dias prova que uma inclinação
viva e ainda suscetível de ser governada, pode, sob o império de certas circunstâncias, aumentar e
exceder pela sua violência todas as outras paixões, desviar todas as considerações, vencer todos os
obstáculos com uma força e uma perseverança incríveis, ao ponto de se arriscar sem hesitação a vida
para satisfazer o desejo, e perdê-la até, se esse desejo é sem esperança. Não é só nos romances que
existem Werther e Jacopo Ortis; todos os anos, a Europa poderia apresentar pelo menos uma meia
dúzia: sed ignotis perierunt mortibus illi. São mortos desconhecidos, cujos sofrimentos têm apenas
como cronista o empregado que registra os óbitos, e como anais as notícias diversas da imprensa. As
pessoas que lêem os jornais franceses e ingleses podem atestar a exatidão do que afirmo. Mas maior
ainda é o número daqueles a quem essa paixão conduz ao manicômio. Enfim verificam-se todos os
anos diversos casos de duplo suicídio, quando dois amantes desesperados se tornam vítimas das
circunstâncias exteriores que os separam; quanto a mim, nunca compreendi como é que dois entes que
se amam, e julgam encontrar nesse amor a suprema felicidade, não preferem romper violentamente
com todas as convenções sociais e sofrer toda a espécie de vergonha, a abandonar a vida renunciando
a uma felicidade além da qual nada podem imaginar, — Quanto aos graus inferiores, aos ligeiros
ataques dessa paixão, todos os têm diariamente sob os olhos, e, por menos jovem que seja, também a
maior parte do tempo no coração.
Não é portanto permitido duvidar da realidade do amor, nem da sua importância. Em vez de
causar admiração que um filósofo procure também apoderar-se deste assunto, tema eterno de todos os
poetas, deve antes surpreender que uma questão que representa na vida humana um papel tão
importante tenha sido, até agora, descurado pelos filósofos, e se encontre diante de nós como uma
matéria nova. De todos os filósofos, foi ainda Platão que mais se ocupou do amor, principalmente no
Banquete e no Phedra. O que ele diz sobre o assunto entra no domínio dos mitos, das fábulas e dos
ditos equívocos e sobretudo diz respeito ao amor grego. O pouco que sobre isso diz Rousseau no
Discours sur l’inégalité, é falso e insuficiente; Kant, na terceira parte do Traité sur le sentiment du
beau et du sublime, trata um tal assunto de um modo demasiado superficial e por vezes inexato como
quem não entende nada do caso. Platner, na sua antropologia, apenas nos oferece idéias medíocres e
vulgares.
A definição de Spinoza merece ser citada pela sua extrema simplicidade: Amor est titillatio,
concomitante idea causæ externæ (Eth. IV, prop. 44, dem.). Não tenho, portanto, que me servir dos
meus predecessores, nem que os refutar. Não foi pelos livros, foi pela observação da vida exterior que
este assunto se me impôs, e tomou lugar no conjunto das minhas considerações sobre o mundo. —
Não espero a aprovação nem o elogio dos amorosos que procuram naturalmente exprimir com as
imagens mais sublimes e etéreas a intensidade dos seus sentimentos: a esses, o meu ponto de vista há
de parecer demasiado físico, demasiado material, por muito metafísico e transcendente que ele seja no
fundo. Possam eles notar, antes de me julgarem, que objeto do seu amor, que hoje exaltam em
madrigais e sonetos, mal lhes teria obtido um olhar, se tivesse aparecido dezoito anos antes.
Qualquer inclinação terna, seja qual for a atitude etérea que afete, tem, na realidade, todas as
suas raízes no instinto natural dos sexos; e não é mesmo outra coisa senão esse instinto especial,
determinado, e perfeitamente individualizado. Posto isto, se observarmos o papel importante que o
amor representa em todos os graus e em todas as suas fases, não só nas comédias e nos romances, mas
também no mundo real, onde é, com o amor pela vida, a mais poderosa e a mais ativa de todas as
molas; se pensarmos que ocupa continuamente as forças da parte mais jovem da humanidade, que é o
último fim de quase todo o esforço humano, que tem uma influência perturbadora nos negócios mais
importantes, que interrompe a todo o momento as ocupações mais sérias, que por vezes altera os
maiores espíritos, que não tem escrúpulo em lançar as suas frivolidades nas negociações diplomáticas
e nos trabalhos dos sábios, que chega até a introduzir as suas cartas meigas e as suas madeixazinhas de
cabelo nas pastas dos ministros e nos manuscritos dos filósofos, o que o náo impede de ser todos os
dias o promotor dos piores e mais intrincados negócios — que rompe as mais preciosas relações,
quebra os mais sólidos laços, torna vítimas ou ja vida ou a saúde, a riqueza, a situação e a felicidade,
faz do homem honesto um homem sem honra, do fiel um traidor, que parece ser qual demônio
malfazejo que se esforça por alterar, transtornar e destruir tudo; — sentir-nos-emos então prontos a
bradar: Para que é tanto ruído? para que são esse esforços, essas violências, essas ansiedades e essa
miséria? Contudo trata-se apenas de uma coisa bem simples, que cada João encontra a sua Joana (1).
Por que é que semelhante bagatela representa um papel tão importante e leva incessantemente a
perturbação e a discórdia à vida bem regrada dos homens? — Mas, para o pensador sério, o espírito da
verdade desvenda a pouco e pouco esta resposta: não se trata de uma ninharia: longe disso, a
importância do assunto é igual à seriedade e à violência com que é tratado.
O fim definitivo de todo o empreendimento amoroso, quer descambe no trágico ou no cômico,
é realmente, entre os diversos fins da vida humana, o mais grave e o mais importante e merece a
1 Não posso empregar aqui o termo próprio, o leitor pode, porém, traduzir esta frase na linguagem de
Aristófanes.
profunda seriedade com que todos se lhe dedicam.
De fato, esta questão é nada menos que a combinação da próxima geração. Os dramatis
personæ, os atores que hão de entrar em cena, quando dela sairmos, encontrar-se-ão assim
determinados na sua existência e na sua natureza por essa paixão tão frívola.
Assim como o ser, a Existentia dessas pessoas futuras tem, como condição absoluta, o instinto
do amor em geral; a própria natureza do seu caráter, a sua Essentia, depende absolutamente da escolha
individual do amor dos sexos e encontra-se assim irrevogavelmente fixada a todos os respeitos. Eis a
chave do problema: conhecê-la-emos melhor quando tivermos percorrido todos os graus do amor
desde a mais fugitiva inclinação até à paixão mais veemente: reconheceremos então que a sua
diversidade nasce do grau da individualização na escolha.
Todas as paixões amorosas da geração presente não são, portanto, para a humanidade inteira,
senão a séria meditatio compositionis generationis futuræ, e quã iterum pendent innumeræ
generationis. De fato, não se trata, como nas outras paixões humanas, de uma desgraça, ou de uma
vantagem individual, mas da existência e da constituição especial da humanidade futura: a vontade
individual atinge, neste caso, o seu maior poder, transforma-se em vontade da espécie. — É sobre este
grande interesse que repousam o patético e o sublime do amor, os seus transportes, as suas dores
infinitas que os poetas há muitos séculos não se cansam de representar em exemplos sem número. Que
outro assunto seria superior em interesse àquela que trata do bem ou do mal da espécie? porque o indivíduo
é para a espécie o que a superfície dos corpos é para os próprios corpos. É por este fato que se
torna tão difícil despertar interesse num drama onde se não introduza uma intriga amorosa; e, contudo,
não obstante o uso diário que se lhe dá, o assunto nunca se esgota.
Quando o instinto dos sexos se manifesta na consciência de cada indivíduo de uma maneira
vaga, geral e sem determinação precisa, é a vontade de viver absoluta, fora de todo o fenômeno, que
surge. Quando num ser consciente o instinto do amor se especializa num determinado indivíduo, é
essa mesma vontade que aspira a viver num ente novo e distinto, exatamente determinado. E, neste
caso, o instinto do amor todo subjetivo dá ilusão à consciência, e sabe muito bem cobrir-se com a
máscara de uma admiração objetiva, porque a natureza carece deste estratagema para atingir os seus
fins. Por muito desinteressada e ideal que possa parecer a admiração por uma pessoa amada, o alvo
final é na realidade a criação de um novo ser, determinado na sua natureza: prova-o o fato do amor
não se contentar com um sentimento recíproco, mas exigir a posse, o essencial, isto é, o gozo físico. A
certeza de ser amado não poderia consolar a privação daquela que se ama; e, em semelhante caso,
mais de um amante tem dado um tiro nos miolos. Sucede ao contrário que há pessoas muito
apaixonadas que, não conseguindo ser correspondidas, se contentam com a posse, isto é, com o gozo
físico.
Dá-se este caso em todos os casamentos obrigados, nos amores venais ou nos que se obtêm
pela violência. Que uma criança seja gerada, é esse o alvo único, verdadeiro, de todo o romance de
amor, embora os namorados não dêem por isso: a intriga que conduz ao desenlace é coisa acessória. -
As almas nobres, sentimentais, ternamente apaixonadas, podem protestar contra o áspero realismo da
minha doutrina; os seus protestos não têm razão de ser. Não é a constituição e o caráter preciso e
determinado da geração futura, um alvo infinitamente mais elevado, infinitamente mais nobre que os
seus sentimentos impossíveis e as suas quimeras ideais? E então! entre todos os fins que tem a vida
humana, pode haver um mais considerável? Só este explica os profundos ardores do amor, a gravidade
do papel que ele representa, a importância que comunica aos mais ligeiros incidentes. Não se deve
perder de vista este fim real, se quisermos explicar tantas manobras, tantos rodeios, tantos esforços, e
esses tormentos infinitos para se obter o ente amado, quando, à primeira vista, parecem tão
desproporcionados. É a geração futura na sua determinação absolutamente individual, que caminha
para a existência através essas dores e esses esforços.
Sim, é ela própria que se agita já na escolha circunspecta, determinada, teimosa, procurando
satisfazer esse instinto que se chama o amor; é já a vontade de viver do novo indivíduo, que os
amantes podem e desejam gerar; que digo eu? já, na troca dos olhares cheios de desejos, se ilumina
uma vida nova, se anuncia um ente futuro, criação completa, harmoniosa. Aspiram a uma união
verdadeira, a uma fusão num único ser; esse ente que vão gerar será como que o prolongamento da
sua existência, será a plenitude; nele as qualidades hereditárias dos pais, reunidas, continuam a viver.
Ao contrário, uma antipatia recíproca e obstinada entre um homem e uma donzela, é sinal de que não
podiam gerar senão um ente mal constituído, sem harmonia e desgraçado. É portanto com um
profundo sentido que Calderon representa a cruel Semíramis a quem chama uma filha do ar, como o
fruto de uma violação, seguida pelo assassínio do esposo.
Esta força soberana que atrai exclusivamente um para o outro dois indivíduos de sexo
diferente, é a vontade de viver manifesta em toda a espécie: procura realizar-se segundo os seus fins
na criança que deve nascer deles; terá do pai a vontade ou o caráter; da mãe, a inteligência, de ambos a
constituição física; entretanto as feições reproduzirão mais vezes as do pai, a figura semelhar-se-á
mais freqüentemente à da mãe...
Se é difícil explicar o caráter muito especial e exclusivamente individual de cada homem, não
é menos difícil compreender o sentimento igualmente particular e exclusivo que impele duas pessoas
uma para a outra; no fundo, estas duas coisas formam uma apenas. A paixão é implicitamente, o que a
individualidade é explicitamente. O primeiro passo para a existência, o verdadeiro punctum saliens da
vida, é na realidade o momento em que os nossos pais começam a amar-se — to fancy each other,
segundo uma admirável expressão inglesa, e, como dissemos já, é do encontro e da atração dos seus
olhares ardentes que nasce o primeiro gérmen do novo ente, gérmen frágil, pronto a desaparecer como
todos os gérmenes. Esse novo indivíduo é de algum modo uma nova idéia platônica: e como todos as
idéias empregam um esforço violento para chegarem a manifestar-se no mundo dos fenômenos,
ávidos de se apoderarem da matéria favorável que a lei da causalidade lhes dá em partilha, assim essa
idéia particular de uma individualidade humana tende com uma violência, um ardor extremo a
realizar-se num fenômeno. Essa energia, essa impetuosidade, é justamente a paixão que os futuros
pais experimentam um pelo outro. Tem graus infinitos cujos dois extremos poderiam ser designados
sob o nome de amor vulgar, e de amor divino: — mas quanto à essência do amor, é em toda a parte e
sempre a mesma. Nos seus diversos graus é tanto mais poderosa quanto é mais individualizada, em
outros termos, é tanto mais forte quanto a pessoa amada, pelas suas qualidades e pelas suas maneiras
de ser, é mais capaz, com exclusão de todas as pessoas, de responder ao desejo particular e à
necessidade determinada que fez nascer naquele que a ama.
O amor, por essência e ao primeiro movimento, é impelido para a saúde, para a força, para a
beleza, para a mocidade que é sua expressão, porque a vontade deseja, antes de tudo, criar entes
capazes de viver com o caráter integral da espécie humana; o amor vulgar não vai mais longe. Depois
sucedem-se outras exigências mais especiais, que aumentam e fortificam a paixão. O amor forte só
pode existir na perfeita conformidade de dois entes... E como não existem dois indivíduos
absolutamente semelhantes, todo o homem deve encontrar numa determinada mulher as qualidades
que correspondam melhor às suas próprias qualidades, sempre sob o ponto de vista das crianças que
hão de nascer. Quanto mais raro é esse encontro, mais raro é também o amor verdadeiramente
apaixonado. É precisamente porque cada um de nós tem em si esse grande amor, que compreendemos
a descrição que o gênio dos poetas nos faz desse sentimento. Dado o caso dessa paixão ao amor visar
exclusivamente o ente futuro e as qualidades que devem adorná-lo, pode suceder que entre um rapaz e
uma rapariga, aliás agradáveis e bem conformados, nasça uma simpatia de sentimento, de caráter e de
espírito que dê origem a uma amizade estranha ao amor; pode mesmo suceder que, sobre este último
ponto, haja entre eles uma certa antipatia. O resultado seria faltar às crianças que nascessem deles a
harmonia intelectual ou física, e, numa palavra, a sua existência e a sua constituição não
corresponderiam aos planos que se propõe a vontade de viver no interesse da espécie. Pode suceder,
pelo contrário, que a despeito da dessemelhança dos sentimentos, do caráter e do espírito, a despeito
da repugnância e mesmo da aversão que daí resultem, o amor contudo nasça e subsista, porque é cego
sobre essas incompatibilidades. Se daí resultar um casamento, esse enlace será necessariamente muito
infeliz.
Profundemos agora o assunto. — O egoísmo tem em cada homem raízes tão fundas que os
motivos egoístas são os únicos com que se pode contar com segurança para excitar a atividade de um
ser individual. A espécie, é certo, tem sobre o indivíduo um direito anterior, mais imediato e mais
considerável que a individualidade efêmera. Todavia, quando urge que o indivíduo proceda e se
sacrifique pela manutenção e pelo desenvolvimento da espécie, a sua inteligência completamente
dirigida para as aspirações individuais, apenas compreende a necessidade desse sacrifício, submete-selhe
logo. Para atingir o seu fim, é portanto necessário que a natureza engane o indivíduo com alguma
ilusão, em virtude da qual ele veja a própria felicidade no que não é, realmente, senão a bem da
espécie; o indivíduo torna-se assim o escravo inconsciente da natureza, no momento em que julga
obedecer apenas aos seus desejos. Uma pura quimera, logo desfeita, paira-lhe diante dos olhos e faz
com que proceda.
Esta ilusão não é mais do que o instinto. É ele que, na maioria dos casos, representa o sentido
da espécie, os interesses da espécie ante a vontade. Mas como aqui a vontade se torna individual, deve
ser enganada de modo que conceba pelo sentido do indivíduo os desígnios que o sentido da espécie
tem sobre ela; assim, julga trabalhar em proveito do indivíduo, quando na realidade apenas trabalha
para a espécie, no sentido mais especial. É no animal que o instinto representa o maior papel e que a
sua manifestação exterior pode observar-se melhor; mas quanto aos caminhos secretos do instinto,
como para tudo que é interior, não podemos aprender a conhecê-los senão em nós mesmos. Imaginase,
é verdade, que o instinto tem pouco império no homem, ou pelo menos que só se manifesta no
recém-nascido, procurando apoderar-se do seio da mãe.
Mas na realidade, há um instinto muito determinado, muito manifesto e principalmente muito
complicado, que nos guia na escolha tão fina, tão séria, tão particular da pessoa que se ama e cuja
posse se deseja.
Se apenas se ocultasse sob o prazer dos sentidos a satisfação de uma necessidade imperiosa, a
beleza ou a fealdade do outro indivíduo seria indiferente. A procura apaixonada da beleza, o apreço
que se lhe dá, a escolha a que se procede, não dizem, pois, respeito ao interesse pessoal daquele que
escolhe, embora assim o imagine, mas evidentemente ao interesse do futuro ente, no qual importa
manter o mais possível integral e puro o tipo da espécie. De fato, mil acidentes físicos e mil desgraças
morais podem causar um defeito no rosto humano: portanto, o verdadeiro tipo humano, em todo o seu
conjunto, é sempre novamente restabelecido, graças a esse sentimento da beleza que sempre domina e
dirige o instinto dos sexos, sem o que o amor não passaria de uma necessidade revoltante.
Não há, pois, homem nenhum que primeiro não deseje ardentemente e não prefira as criaturas
mais belas, porque realizam o tipo mais puro da espécie; depois há de procurar principalmente as
qualidades que lhe faltam, ou as imperfeições opostas àquelas que ele próprio tem e achá-las-á belas:
daí vem, por exemplo, que as mulheres altas agradam aos homens baixos, e que os loiros gostam das
morenas, etc. O entusiasmo vertiginoso que se apodera do homem à vista de uma mulher cuja beleza
responde ao seu ideal, e faz brilhar aos seus olhos a miragem da felicidade suprema se conseguir unirse-
lhe, não é outra coisa senão o sentido da espécie que reconhece o seu cunho claro e brilhante, e que
por ela gostaria de se perpetuar...
Estas considerações derramam uma luz viva sobre a natureza íntima de todo o instinto; como
se depreende delas, o seu papel consiste quase sempre em fazer com que o indivíduo proceda para
bem da espécie. Porque, evidentemente, a solicitude de um inseto em encontrar uma certa flor, um
determinado fruto, um excremento ou um bocado de carne, ou então, como o icnêumon, a larva de
outro inseto para depor aí os ovos, e a indiferença com que arrosta o trabalho e o perigo quando se
trata de o conseguir, são muito análogas à preferência exclusiva do homem por uma certa mulher,
aquela cuja natureza individual corresponde à sua: procura-a com tão apaixonado zelo que, a despeito
da razão, é mais fácil sacrificar a felicidade da sua vida do que errar o seu alvo; não recua ante um
casamento insensato, nem ante ligações ruinosas, nem ante a desonra, nem ante atos criminosos, como
o adultério e a violação, e isto apenas para servir os fins da espécie, sob a lei soberana da natureza, em
detrimento do próprio indivíduo. Em toda a parte, o instinto parece dirigido por uma intenção
individual, embora lhe seja completamente estranha.
Todas as vezes que o indivíduo, entregue a si próprio, seja incapaz de compreender os
desígnios da natureza, ou impelido a resistir-lhe, ela faz surgir o instinto; eis por que este foi dado aos
animais e mormente aos animais inferiores mais destituídos de inteligência; porém, o homem não se
lhe submete senão no caso especial de que nos ocupamos. Não é porque o homem fosse incapaz de
compreender o fim da natureza, mas não o levaria a cabo com todo o necessário zelo, mesmo à custa
da sua felicidade particular. Assim, neste instinto, como em todos os outros, a verdade reveste-se de
ilusão para atuar sobre a vontade. É uma ilusão de voluptuosidade que faz cintilar aos olhos do
homem a imagem enganadora de uma felicidade soberana nos braços da formosura que a seu ver
nenhuma outra criatura humana iguala; outra ilusão ainda, quando imagina que á posse de um único
ente no mundo lhe assegura uma felicidade sem medida e sem limites. Julga sacrificar ao seu mero
gozo a dificuldade e os esforços, enquanto na realidade só trabalha para a manutenção do tipo integral
da espécie, para a procriação de um certo indivíduo perfeitamente determinado que carece dessa união
para se realizar e entrar na existência. É tanto assim o caráter do instinto — proceder em vista de um
fim de que, contudo, não tem a idéia — que o homem, levado pela ilusão que o empolga, sente
algumas vezes horror pelo fim a que é conduzido, que é a procriação dos seres; desejaria mesmo oporse-
lhe; é o caso que se dá em quase todas as ligações fora do casamento. Satisfeita a paixão, todo o
amante experimenta uma decepção estranha; admira-se de que o objeto de tantos desejos apaixonados
só lhe proporciona um prazer efêmero, seguido de um rápido desencanto. Esse desejo é de fato, em
comparação com outros desejos que agitam o coração do homem, como a espécie é para o indivíduo,
como o infinito é para o finito. Só a espécie, pelo contrário, aproveita da satisfação desse desejo, mas
o indivíduo não tem a consciência disso; todos os sacrifícios que se impôs, impelido pelo gênio da
espécie, serviram para um fim que não era o seu. Também todo o amante, depois de realizada a grande
obra da natureza, se encontra enganado; porque a ilusão que o tornara vítima da espécie, desfez-se.
Platão disse muito bem: Voluptas omnium maxime vaniloqua.
Estas considerações lançam nova luz sobre os instintos e o sentido estético dos animais.
Também estes são escravos dessa espécie de ilusão que lhes oferece a miragem enganadora do próprio
gozo, enquanto trabalham tão assiduamente para a espécie e com tão absoluto desinteresse: é deste
modo que o pássaro constrói o ninho, o inseto procura o local adequado para depor os ovos, ou se
entrega à caça de uma presa de que ele náo gozará, que deve servir de alimento às larvas futuras e que
colocará ao lado dos ovos; é assim também que a abelha, a vespa, a formiga trabalham nas suas
construções futuras e tomam as mais complicadas disposições. O que dirige todos estes animais, é
evidentemente uma ilusão que põe ao serviço da espécie a máscara de um interesse egoísta. É esta a
única explicação verossímil do fenômeno interno e subjetivo que dirige as manifestações do instinto.
Mas vendo as coisas pelo exterior, notamos nos animais mais escravos do instinto, principalmente nos
insetos, uma predominância do sistema ganglionar, isto é, do sistema nervoso subjetivo sobre o sistema
cerebral ou objetivo; donde se conclui que os animais são impelidos não tanto por uma
inteligência objetiva e exata como por meio de representações subjetivas excitando desejos que
provêm da ação do sistema ganglionar sobre o cérebro, o que prova bem que se encontram sob o
domínio de uma espécie de ilusão: e essa será a marcha fisiológica de todo o instinto. — Como
esclarecimento, mencionarei ainda outro exemplo, menos característico, é certo, do instinto no
homem: é o apetite caprichoso das mulheres grávidas, que parece originar-se no fato do alimento do
embrião exigir por vezes uma modificação particular ou determinada do sangue que a ele aflui: então
o alimento mais favorável apresenta-se ato contínuo ao espírito da mulher grávida como objeto de
vivo desejo, o que é ainda uma ilusão. A mulher teria portanto mais um instinto do que o homem. O
sistema ganglionar é também muito mais desenvolvido na mulher. — A excessiva predominância do
cérebro explica por que o homem tem menos instinto que os animais e por que é que os seus instintos
podem algumas vezes desviar-se da regra. Assim, por exemplo, o sentido da beleza que dirige a
escolha na procura do amor, perde-se quando este degenera em vício contra a natureza; deste modo
uma certa mosca (musca vomitoria) em vez de dispor os ovos, segundo o seu instinto, sobre a carne
em decomposição, depõe-os sobre a flor do arum dracunculus enganada pelo cheiro cadavérico dessa
planta.
O amor tem, portanto, sempre por fundamento um instinto dirigido para a reprodução da
espécie: esta verdade parecer-nos-á clara até à evidência, se examinarmos o caso detidamente, como
vamos fazer.
Em primeiro lugar, deve-se consider que o homem é por temperamento sujeito à inconstância
no amor, a mulher à felicidade. O amor do homem declina de um modo sensível, desde o momento
que foi satisfeito: dir-se-ia que todas as outras mulheres lhe oferecem mais atrativos do que a que
possui; aspira à mudança. O amor da mulher, pelo contrário, aumenta a partir desse momento. É essa
uma conseqüência do fim da natureza que é dirigido para a manutenção e por conseguinte para o
aumento o mais considerável possível da espécie. O homem, de fato, pode facilmente gerar mais de
cem crianças num ano, se tiver outras tantas mulheres à sua disposição; a mulher, embora tivesse o
mesmo número de maridos, não podia dar à luz mais do que uma criança por ano, excetuando gêmeos.
Por isso o homem anda sempre em procura de outras mulheres, enquanto a mulher permanece
fielmente dedicada a um só homem, porque a natureza a impele instintivamente e sem reflexão a
conservar junto de si aquele que deve alimentar e proteger a pequena família futura. Daí resulta que a
fidelidade no casamento é artificial para o homem e natural para a mulher, e portanto o adultério da
mulher, devido às conseqüências que acarreta, e porque é contra a natureza, é muito mais imperdoável
que o do homem.
Quero profundar a questão até ao âmago para convencer e provar que o gosto pelas mulheres,
por muito objetivo que possa parecer, não é senão um instinto disfarçado, isto é, o sentido da espécie
que se esforça por lhe manter o tipo. Devemos procurar mais de perto e examinar mais especialmente
as considerações que nos dirigem na perseguição desse prazer, embora façam uma figura singular
numa obra filosófica as particularidades que passamos a indicar. Estas considerações dividem-se assim:
há primeiro as que dizem respeito diretamente ao tipo da espécie, isto é, a beleza; há as que
visam as qualidades psíquicas, e por último as considerações puramente relativas, a necessidade de
corrigir e de neutralizar umas pelas outras as disposições particulares e anormais dos dois indivíduos.
Examinemos separadamente cada uma destas divisões.
A primeira consideração que dirige a nossa inclinação e a nossa escolha, é a idade. Em geral a
mulher que escolhemos encontra-se na idade compreendida entre o começo e o fim dos mênstruos;
damos todavia uma preferência decisiva ao período que decorre dos dezoito aos vinte e oito anos.
Nenhuma mulher nos atrai não estando nas condições precedentes. Uma mulher idosa, isto é, uma
mulher incapaz de ter filhos, só nos inspira um sentimento de aversão. A mocidade sem beleza sempre
tem atrativo; a beleza sem mocidade não tem nenhum. — Evidentemente a intenção inconsciente que
nos dirige não é outra senão a possibilidade geral de ter filhos; portanto qualquer indivíduo perde em
atrativo para o outro sexo, segundo se encontra mais ou menos afastado do período próprio para a
geração ou para a concepção. — A segunda consideração é a saúde: as doenças agudas só perturbam
as nossas inclinações dum modo passageiro; as doenças crônicas, as caquexias, pelo contrário,
assustam ou afastam, porque se transmitem à criança. — A terceira consideração, é o esqueleto, porque
é a base do tipo da espécie. Depois da idade e da doença, o que sobretudo nos afasta é uma
conformação defeituosa: o mais lindo rosto não pode compensar um corpo deformado; mas um rosto
feio num corpo direito será sempre preferido. O que se nota mais é um defeito do esqueleto, por
exemplo, a estatura baixa numa pessoa gorda; as pernas demasiado curtas, ou ainda o andar cambaio,
quando não é conseqüência dum acidente exterior. Pelo contrário um corpo notavelmente belo compensa
muitos defeitos, encanta-nos. A extrema importância que todos atribuímos aos pés pequenos
também se relaciona com estas considerações; são de fato um caráter essencial da espécie, pois
nenhum outro animal tem o tarso e o metatarso reunidos tão pequenos como o homem, o que lhe torna
o andar vertical; é um plantígrado. Jesus Sirach diz a este respeito (26, 23, segundo a tradução correta
de Kraus): "uma mulher bem-feita e com bonitos pés é comparável a colunas de ouro sobre socos de
prata".
A importância dos dentes não é menor porque servem para a alimentação e são muito
especialmente hereditários. — A quarta consideração é uma certa abundância de carnes, isto é, a
predominância da faculdade vegetativa, da plasticidade, porque promete ao feto um alimento rico: é
por isso que uma mulher alta e magra desagrada ao homem dum modo surpreendente. Os seios bem
redondos e bem conformados exercem uma fascinação notável sobre os homens; pois encontrando-se
em relação direta com as funções da geração da mulher, prometem ao recém-nascido uma boa
alimentação. As mulheres nutridas em excesso provocam a nossa repugnância, porque esse estado
mórbido é sinal de atrofia do útero, e portanto uma marca de esterilidade; não é a inteligência que o
sabe, é o instinto.
A beleza do rosto só se toma em consideração em último lugar. Também neste ponto é a parte
óssea que se nota antes de tudo; procura-se principalmente um nariz bem-feito, enquanto um nariz
pequeno, arrebitado, prejudica tudo. Uma leve inclinação no nariz, na parte superior ou inferior, tem
decidido a sorte duma infinidade de raparigas, e com razão, pois se trata de manter o tipo da espécie.
Uma boca pequena, formada de pequenos ossos maxilares é muito essencial, como caráter específico
do rosto humano, em oposição à goela dos animais. Um queixo fugitivo e por assim dizer amputado, é
particularmente desagradável, visto que um queixo proeminente, mentum prominulum, é um traço de
caráter da nossa espécie. Considera-se em ultimo lugar os olhos belos e a fonte, que se ligam às
qualidades psíquicas, principalmente às qualidades intelectuais, que fazem parte da herança da mãe.
Não podemos naturalmente enumerar com tanta exatidão as considerações inconscientes às
quais se liga a inclinação das mulheres. Eis o que se pode afirmar dum modo geral. É a idade de trinta
a trinta e cinco anos que elas preferem a qualquer outra, mesmo à dos jovens, que contudo representam
a flor da beleza masculina. A causa é serem dirigidas não pelo gosto, mas pelo instinto, que
reconhece nesses anos o apogeu da força geradora. Em geral, dão pouca importância à beleza,
principalmente à do rosto: como se elas só se encarregassem de a transmitir à clllriança. É acima de
tudo a coragem e a força do homem que lhes conquista o coração, porque essas qualidades são penhor
de uma geração de crianças robustas, e parecem assegurar-lhes no futuro um protetor corajoso.
Qualquer defeito físico do homem, qualquer desvio do tipo, pode a mulher suprimi-los na criança
durante a geração, se as partes correspondentes da sua constituição, defeituosas no homem, são nela
irrepreensíveis, ou ainda exageradas em sentido inverso. É preciso excetuar apenas as qualidades do
homem particulares ao seu sexo, e que à mãe portanto não pode dar à criança; por exemplo, a estrutura
masculina do esqueleto, ombros largos, ancas estreitas, pernas direitas, força dos músculos, coragem,
barba, etc. Daqui procede que as mulheres amam muitas vezes homens feios, mas nunca homens
efeminados, porque não podem neutralizar semelhante defeito.
A segunda ordem de constituição importante no amor, diz respeito às qualidades psíquicas.
Encontraremos aqui o que são as qualidades de coração ou de caráter do homem que atraem a mulher,
porque a criança recebe esses predicados do pai. É antes de tudo uma vontade firme, a decisão, a
coragem e talvez ainda a retidão e a bondade do coração que conquistam a mulher. As qualidades
intelectuais, pelo contrário, não exercem sobre ela nenhuma ação direta e instintiva, justamente porque
o pai as não transmite aos filhos. A estupidez não prejudica os homens junto das mulheres: um espírito
superior, ou mesmo o gênio pela sua desproporção têm muitas vezes um efeito deplorável. Vê-se
freqüentemente um homem feio, estúpido e grosseiro suplantar junto das mulheres um outro bemfeito,
espirituoso, delicado. Observam-se igualmente casamentos de inclinação entre pessoas tão
diferentes quanto é possível sob o ponto de vista do espírito: ele, por exemplo, brutal, robusto e estúpido;
ela, meiga, impressionável, pensando delicadamente, instruída, artista, etc; ou então ele, muito
sábio, cheio de talento; ela, uma pateta:
Sic visum Veneri; cui placet impares
Formas atque ânimos sub juga aénea
Saevo mittere cum joco.
A razão é que as considerações que predominam aqui nada têm de intelectual e dizem respeito
ao instinto. No casamento o que se tem em vista não é um colóquio cheio de espírito, é a procriação
das crianças; o casamento é uma união de corações e não de cabeças. Quando uma mulher afirma que
está enamorada do espírito de um homem, é uma pretensão vã e ridícula, ou a exaltação de um ente
degenerado. — Os homens, pelo contrário, no amor instintivo, não são determinados pelas qualidades
de caráter da mulher é por essa razão que tantos Sócrates encontraram as suas Xantipas, por exemplo
Shakespeare, Albert Dürer, Byron, etc. Todavia as qualidades intelectuais têm aqui uma grande
influência, porque são transmitidas pela mãe, mas a sua influência é facilmente excedida pela da
beleza física que atua mais diretamente em pontos mais essenciais. Sucede contudo que muitas mães,
instruídas pela experiência dessa influência intelectual, mandam ensinar às filhas as belas-artes, as
línguas, etc, a fim de as tornar atraentes aos futuros maridos; procuram deste modo ajudar a
inteligência por meios artificiais, assim como, em caso de necessidade, procuram desenvolver as ancas
e o peito. Notemos bem que neste caso apenas se trata de atração instintiva e imediata, que só dá
origem à verdadeira paixão do amor. Que uma mulher inteligente e instruída aprecie a inteligência e o
espírito num homem, que um homem razoável e refletido experimente o caráter da noiva, e o tenha
em consideração, isso nada influi neste caso: procede assim a razão no casamento quando é ela que
escolhe, mas não o amor apaixonado de que nos ocupamos exclusivamente.
Até agora apenas tenho tratado das considerações absolutas, isto é, daquelas que são de um
efeito geral; passo em seguida às considerações relativas, que são individuais, porque nelas o fim é
retificar o tipo da espécie, já alterado, corrigir os defeitos do tipo que a própria pessoa que escolhe tem
em si, e voltar dessa maneira a uma pura representação desse tipo.
A escolha individual, que se funda nessas considerações puramente relativas, é mais
determinada, mais decidida e mais exclusiva que a escolha que se baseia nas considerações absolutas;
é dessas considerações relativas que nasce de ordinário o amor apaixonado, enquanto os amores comuns
e passageiros só são guiados por considerações absolutas. Nem sempre é a beleza regular e
perfeita que origina as grandes paixões. Para uma inclinação verdadeiramente apaixonada é mister
uma condição que só nos é dado exprimir por uma metáfora tirada à química. As duas pessoas devem
neutralizar-se, como um ácido e um álcali formam um sal neutro.
Toda a constituição sexual é uma constituição incompleta; a imperfeição varia com os
indivíduos. Num e noutro sexo cada ser é uma parte do todo incompleta e imperfeita. Essa parte,
porém, pode ser mais ou menos considerável, segundo os temperamentos. Por isso cada indivíduo
encontra o seu complemento natural num determinado indivíduo do sexo diferente que representa de
algum modo a fração indispensável ao tipo completo, que o acaba e lhe neutraliza os defeitos, e
produz um tipo perfeito da humanidade no novo indivíduo que deve nascer; porque é sempre à
constituição desse futuro ser que tudo incessantemente converge.
Os fisiologistas sabem que a sexualidade tanto no homem como na mulher tem inúmeros
graus; a virilidade pode descer até ao horrível ginandro, até à hipospadia, assim como há entre as
mulheres graciosos andróginos; os dois sexos podem atingir o hermafroditismo completo, e esses
indivíduos, que conservam o justo meio entre os dois sexos e não pertencem a nenhum, são incapazes
de se reproduzir. — Para a neutralização de duas individualidades uma pela outra, é necessário que o
grau determinado de sexualidade num certo homem corresponda exatamente ao grau de sexualidade
numa certa mulher, a fim de que essas duas disposições parciais se compensem justamente.
É por esta razão que o homem mais viril procurará a mulher por excelência, e vice-versa. Os
amantes medem por instinto esta parte proporcional necessária a cada um deles, e esse cálculo
inconsciente encontra-se com outras considerações no fundo de todas as grandes paixões. Portanto,
quando os enamorados falam num tom patético da harmonia das suas almas, deve-se compreender a
maior parte das vezes a harmonia das qualidades físicas próprias de cada sexo, e de molde que dêem
origem a um ente perfeito; essa harmonia importa bem mais do que o acordo das suas almas, que, após
a cerimônia, se torna freqüentemente num atroz desacordo. A isto acrescentam-se as considerações
relativas mais afastadas que repousam sobre o fato de que cada um procura neutralizar pela outra
pessoa as suas fraquezas, imperfeições, e todos os defeitos do tipo normal, com receio que se
perpetuem na criança futura, ou se exagerem e se tornem deformidades. Quanto mais fraco é o homem
sob o ponto de vista da força muscular, mais há de procurar mulheres fortes; e a mulher procederá da
mesma forma. Como é todavia, uma lei da natureza ter a mulher uma força muscular mais fraca, é
igualmente natural que as mulheres prefiram os homens robustos. — A estatura é também uma
consideração importante. Os homens baixos têm uma tendência decidida pelas mulheres altas e
reciprocamente... A aversão de uma mulher alta pelos homens altos é, no fundo dos desígnios da
natureza, para evitar uma raça gigantesca, quando a força transmitida pela mãe fosse assaz fraca para
assegurar uma longa duração a essa raça excepcional. Se uma mulher alta escolhe um marido alto,
entre outros motivos para fazer melhor figura na sociedade, são os decendentes que hão de expiar essa
loucura... Até mesmo nas diversas partes do corpo cada um procura um corretivo aos próprios
defeitos, e tanto maior é o cuidado quanto a parte é mais importante. Assim aqueles que têm o nariz
chato contemplam com inexplicável prazer um nariz aquilino, um perfil de papagaio; e assim com
tudo o mais. Os homens magros e altos, admiram uma criaturinha demasiado cheia e pequena. Assim
sucede com o temperamento; cada um prefere o que é oposto ao seu e essa preferência é sempre
proporcionada à energia do seu temperamento. Não quer isto dizer que uma pessoa perfeita num ponto
qualquer goste das imperfeições contrárias; contudo suporta-as mais facilmente do que outros as suportariam
porque as crianças encontram nessas qualidades uma garantia contra uma imperfeição
maior. Por exemplo, uma pessoa muito branca não sentirá repugnância por uma tez cor de azeitona;
mas aos olhos de qualquer pessoa bastante morena um rosto extremamente branco parece divinamente
belo. – Há casos excepcionais em que um homem se pode apaixonar por uma mulher decididamente
feia: e isto dá-se de acordo com a lei da concordância dos sexos, quando o conjunto dos defeitos e das
irregularidades físicas da mulher são a perfeita antítese e por conseguinte corretivo dos do homem.
Neste caso a paixão atinge geralmente um grau extraordinário.
O indivíduo obedece em tudo isto, sem que o saiba, a uma ordem superior, à da espécie: daí a
importância que liga a certas coisas que, de outro modo, poderiam e deveriam ser-lhe indiferentes. —
Não há nada mais singular que a seriedade profunda, inconsciente, com que dois jovens de sexo diferente,
que se vêem pela primeira vez, se observam mutuamente; o olhar inquisitorial e penetrante
que lança um ao outro; a minuciosa inspeção que a todos os respeitos as suas respectivas pessoas têm
de sofrer.
Essa curiosidade, esse exame, é a meditação do gênio da espécie sobre a criança que eles
poderiam procriar, e a combinação dos seus elementos constitutivos. O resultado desta meditação há
de determinar o grau da simpatia que os atrai e os recíprocos desejos. Depois de haver atingido um
certo grau, esse primeiro movimento pode estacar subitamente, pela descoberta de alguma minúcia
que até ali passara despercebida. — Assim o gênio da espécie medita a geração futura; e a grande obra
de Cupido, que especula, pensa e procede incessantemente, é preparar-lhe a constituição. Em face dos
grandes interesses e toda a espécie, presente e futura, a vantagem dos indivíduos efêmeros tem pouca
importância: o deus está sempre pronto a sacrificá-los sem piedade. Porque o gênio da espécie é,
relativamente aos indivíduos, como um imortal para os mortais, e os seus interesses sáo para com os
dois homens o que o infinito é para o finito. Sabendo pois que administra negócios superiores a todos
aqueles que só dizem respeito a um bem ou a um mal individual, dirige-os com suprema impassibilidade,
no meio do tumulto da guerra, na agitação dos negócios, através dos horrores de uma parte,
persegue-os até no retiro do claustro.
Vimos acima que a intensidade do amor aumenta à medida que se individualiza. Provamo-lo: a
constituição física de dois indivíduos pode ser tal que, para melhorar o tipo da espécie e torná-lo
absolutamente perfeito, um desses indivíduos deva ser o complemento do outro. Atrai-os então um
desejo mútuo e exclusivo; e pelo único fato de se fixar sobre um só objeto, e por representar ao
mesmo tempo uma missão especial da espécie, esse desejo toma logo um caráter nobre e elevado. Pela
razão oposta, o puro instinto sexual é um instinto vulgar, porque não se dirige a um indivíduo único,
mas a todos, e procura conservar a espécie apenas pelo número sem se importar com a qualidade.
Quando o amor se dedica a um único ente, atinge então uma tal intensidade, um tal grau de
paixão, que se não puder ser satisfeito, todos os bens do mundo, e a própria vida perdem o seu valor. É
uma paixão de uma violência que nada iguala, que não recua ante sacrifício algum, e que pode
conduzir à loucura ou ao suicídio. As causas inconscientes de uma paixão tão excessiva devem diferir
das que discutimos acima, e são menos aparentes. Temos de admitir que não se trata aqui apenas de
adaptação física, mas que, mais ainda, a vontade do homem e a inteligência da mulher têm entre si
uma concordância especial que faz com que só eles possam gerar um certo ente completamente
determinado: é a existência desse ente que o gênio da espécie tem em vista neste caso, por motivos
ocultos na essência do fato em si mesmo e que nos não são acessíveis. Por outros termos: a vontade de
viver deseja aqui objetivar-se num indivíduo exatamente determinado, que só pode ser gerado por esse
pai unido a essa mãe. Este desejo metafísico da vontade em si não tem de começo outra esfera de ação
na série dos seres, senão os corações dos futuros pais; levados por este impulso, imaginam desejar
para eles mesmos o que só tem um fim puramente metafísico, isto é, fora do círculo das coisas
verdadeiramente existentes. Portanto, da fonte originária de todos os entes brota essa aspiração de um
futuro, que encontra a sua ocasião única de entrar na vida; e essa aspiração manifesta-se na realidade
das coisas pela paixão elevada e exclusiva dos pais futuros um pelo outro; no íntimo, ilusão sem igual
que leva um enamorado a sacrificar todos os bens da Terra para se unir a essa mulher — que afinal
não lhe pode dar mais do que qualquer outra. É este o único fim que se persegue e prova-o o fato
dessa sublime paixão, assim como todas as outras, se extinguir no gozo, com grande espanto dos
interesses. — Extingue-se igualmente quando a mulher é estéril (o que, segundo Hufeland, pode
resultar de dezenove vícios acidentais de constituição), e o fim metafísico desaparece: assim
desaparecem diariamente milhões de gérmenes, nos quais contudo também o mesmo princípio da vida
aspira ao ser. Para isto só há a consolação de que a vontade de viver dispõe do infinito no espaço, no
tempo e na matéria, e que uma ocasião inesgotável de repetição lhe é facultada.
O desejo de amor, que os poetas de todos os tempos se esmeram em exprimir sob mil formas
sem nunca esgotar o assunto nem sequer o igualar, esse desejo que liga à posse de uma determinada
mulher a idéia de uma felicidade infinita, e uma dor inexplicável ao pensamento de não poder obtê-la
— esse desejo e essa dor não podem ter por princípio as necessidades de um indivíduo efêmero; esse
desejo é o suspiro do gênio da espécie que, para realizar os seus desígnios, vê aqui uma ocasião única
a aproveitar ou a perder e que solta profundos gemidos. Só a espécie tem uma vida sem fim e só ela é
capaz de satisfações e de dores infinitas. Mas estas encontram-se encerradas no acanhado peito de um
mortal: o que tem pois de extraordinário que esse peito pareça rebentar e não encontre expressões para
descrever o pressentimento da voluptuosidade ou da dor infinita que o invade?
É bem esse o assunto de todas as poesias eróticas de gênero elevado, dessas metáforas
transcendentes que pairam muito acima das coisas terrestres. É o que inspirava Petrarca, o que agitava
os Saint-Preux, os Werther e os Jacopo Ortis; sem isso, seriam incompreensíveis e inexplicáveis. Esse
valor infinito que os amantes ligam um ao outro não podem basear-se sobre raras qualidades
intelectuais, sobre qualidades objetivas ou reais; simplesmente porque os amantes não se conhecem
bastante; era este o caso de Petrarca. Só o espirito da espécie pode abranger com um único olhar o
valor que os amantes têm para ele, e como podem servi-lo para os seus fins. Por isso as grandes
paixões nascem em geral do primeiro olhar.
Who ever lov'd, that lov'd not at first sight?
SHAKESPEARE.
...Se a perda da bem-amada, pelo fato de surgir um rival, ou pela morte, causa ao amante
apaixonado uma dor que excede todas as outras, é justamente porque essa dor é de natureza
transcendente e não o atinge apenas como indivíduo, mas fere-o na sua essentia æterna, na vida da
espécie cuja vontade especial está encarregado de realizar. Por isso o ciúme é tão cheio de tormentos e
tão feroz; e a renúncia à mulher amada o maior de todos os sacrifícios. — Um herói coraria de romper
em queixumes banais, mas não em queixumes de amor; porque neste caso não é ele que se lamenta, é
a espécie. Na grande Zenóbia, de Calderon, há uma cena no segundo ato entre Zenóbia e Decius, em
que este lhe diz:
Cielos, luego tu me quieres?
Perdiera cien mil victorias,
Volvierame, etc. —
Aqui, portanto, a honra, que até aquele momento suplantava qualquer outro interesse, foi
vencida e posta em fuga, logo que o amor, isto é, o interesse da espécie, entrou em cena e procurou
obter a vantagem decisiva... Perante este interesse cedem a honra, o dever e a fidelidade, depois de
haverem resistido a todas as outras tentações, mesmo à ameaça de morte. — Do mesmo modo na vida
particular não há ponto onde a probidade escrupulosa seja mais rara: as pessoas mais honestas e mais
retas mesmo, põem-na de parte neste ponto, e cometem o adultério a despeito de tudo, quando o amor
apaixonado, isto é, o interesse da espécie, se apodera delas. Dir-se-ia até que julgam ter consciência de
um tal privilégio superior que os interesses individuais nunca concederiam; justamente porque
procedem no interesse da espécie. Sob este ponto de vista o pensamento de Chamfort é digno de nota:
“Quando um homem e uma mulher sentem um pelo outro uma paixão violenta julgo sempre que,
sejam quais forem os obstáculos que os separem, um marido, os pais, etc., os dois amantes são um do
outro pela natureza, pertencem-se pelo direito divino, não obstante as leis e as convenções humanas.”
Se rompessem protestos contra esta teoria, bastaria lembrar a espantosa indulgência com que o
Salvador no Evangelho trata a mulher adúltera, quando presume a mesma culpa em todos os
assistentes. — A maior parte do Decameron parece ser, sob este mesmo ponto de vista, uma pura
zombaria, um puro sarcasmo do gênio da espécie sobre os direitos e os interesses dos indivíduos que
calca aos pés. — O gênio da espécie afasta e aniquila sem esforços todas as diferenças de categoria,
todos os obstáculos, todas as barreiras sociais. Dissipa como uma leve palha todas as instituições
humanas, tendo apenas em consideração as gerações futuras. É sob o império de um interesse de amor
que desaparece todo o perigo e que até o ente mais pusilânime encontra coragem.
E na comédia e no romance com que prazer, com que simpatia seguimos os jovens que
defendem o seu amor, isto é, o interesse da espécie, e que triunfam da hostilidade dos pais unicamente
preocupados com os interesses individuais. Porque quanto mais a espécie é superior ao indivíduo,
tanto mais a paixão excede em importância, em elevação e em justiça tudo o que a contraria.
O assunto fundamental de quase todas as comédias, é a entrada em cena do gênio da espécie
com as suas aspirações e os seus projetos, ameaçando os interesses das outras personagens da peça e
procurando destruir-lhes a felicidade. Geralmente consegue-o e o desenlace, em harmonia com a
justiça poética, satisfaz o espectador, porque sente que os desígnios da espécie são superiores aos dos
indivíduos; terminada a peça retira-se muito consolado, deixando os enamorados entregues à sua
vitória, associando-se à ilusão de que eles fundaram a própria felicidade, quando realmente só a deram
em sacrifício ao bem da espécie a despeito da previdência e da oposição dos pais. Em certas comédias,
tentou-se representar o contrário, e realizar a felicidade dos indivíduos, com detrimento dos fins da
espécie: mas neste caso o espectador experimenta o mesmo pesar que o gênio da espécie, e a segura
vantagem dos indivíduos não logra consolá-lo. Como exemplo, acodem-me à lembrança algumas
peças muito conhecidas: La Reine de Seize Ans, Le Mariage de Raison. Nas tragédias em que se trata
de amor, os amantes sucumbem quase sempre; não conseguiram fazer triunfar os fins da espécie de
que eles eram apenas o instrumento: como Romeu e Julieta, Tancredo, Don Carlos, Wallenstein, A
Noiva de Messine e tantas outras.
Um apaixonado pode cair no cômico tão bem como no trágico, porque, em ambos os casos,
está nas mãos do gênio da espécie, que o domina ao ponto de o arrancar a si próprio; os seus atos não
estão em proporção com o seu caráter.
Daí procede, nos graus superiores da paixão, essa cor tão poética e sublime de que se lhe
revestem os pensamentos, essa elevação transcendente e sobrenatural, que parece fazer-lhe perder
completamente de vista o fim todo físico do seu amor. É porque o animam então o gênio da espécie e
os seus interesses superiores. Recebeu a missão de fundar uma série indefinida de gerações dotadas de
uma determinada constituição e formadas de certos elementos que só se podem encontrar num único
pai e numa única mãe; só essa união pode dar existência à geração determinada que a vontade de viver
exige expressamente. O sentimento que o amante tem de proceder em circunstâncias de uma
importância tão transcendente, transporta-o a uma tal altura acima das coisas terrestres e mesmo acima
de si próprio, e reveste-lhe os desejos materiais de uma aparência de tal modo imaterial, que o amor é
um episódio poético, mesmo na existência do homem mais prosaico, o que o torna por vezes ridículo.
— Essa missão, que a vontade cuidadosa dos interesses da espécie impõe ao amante, apresenta-se sob
a máscara de uma felicidade infinita que ele espera encontrar na posse da mulher que ama. Nos graus
supremos da paixão esta quimera é tão brilhante que, não se podendo atingir, a própria vida perde todo
o encanto, e torna-se tão falta de alegria, tão sensaborona e insípida, que o tédio que ela causa excede
mesmo o medo da morte; o desgraçado abrevia às vezes voluntariamente os seus dias. Neste caso, a
vontade do homem entrou no turbilhão da vontade da espécie, ou antes esta última vence de tal modo
a vontade individual, que se o amante não pode proceder na qualidade de representante dessa vontade
da espécie, desdenha proceder em nome da sua vontade própria. O indivíduo é um vaso demasiado
frágil para conter a aspiração infinita da vontade da espécie concentrada num objeto determinado. Não
tem pois outro desfecho além do suicídio, às vezes até o duplo suicídio dos dois amantes; a não ser
que a natureza, para salvar a existência, deixe surgir a loucura que cobre com o seu véu a consciência
de uma situação desesperada. — Todos os anos vários casos análogos confirmam esta verdade.
Mas não é só a paixão que tem por vezes um desenlace trágico: o amor satisfeito também
conduz mais freqüentemente à infelicidade do que à felicidade, porque as exigências do amor, em
conflito com o bem-estar pessoal do amante, são de tal modo incompatíveis com as outras
circunstâncias da sua vida e os seus planos de futuro que minam todo o edifício dos seus projetos, das
suas esperanças e dos seus sonhos. O amor não está só em contradição com as relações sociais, mas
também o está muitas vezes com o temperamento íntimo do indivíduo, quando se fixa sobre pessoas
que, fora das relações sexuais, seriam odiadas pelo amante, desprezadas e mesmo aborrecidas. Mas a
vontade da espécie tem um tal poder sobre o indivíduo, que o amante cala as suas repugnancias e
fecha os olhos ao que ama: passa ligeiramente sobre tudo, desconhece tudo, e une-se para sempre ao
objeto do seu amor, de tal modo o fascina essa ilusão, que se desvanece logo que a vontade da espécie
se encontra satisfeita e deixa atrás de si uma companheira detestada para toda a vida. Só deste modo
se explica como homens sensatos e mesmo distintos, se unem a harpias e desposam megeras, e não
compreendem como puderam fazer semelhante escolha. Eis por que os antigos representavam o amor
de olhos vendados.
Pode até dar-se o caso de um enamorado reconhecer claramente os vícios intoleráveis de
temperamento e de caráter da noiva, que lhe pressagiam uma existência atormentada, pode mesmo
sofrer cruelmente, sem que tenha a coragem de renunciar a ela:
I ask not, I care not,
If guilt's in thy heart;
I know that I love thee,
Watever thou art.
Porque, no íntimo, não busca o seu próprio interesse, embora o imagine, mas o de um terceiro
indivíduo, que deve nascer desse amor. Esse desinteresse, que é em tudo o cunho da grandeza, dá aqui
ao amor apaixonado essa aparência sublime, e torna-o um digno objeto de poesia. Enfim, sucede que o
amor se concilia com o ódio mais violento pelo ente amado; por isso Platão o comparou com o amor
dos lobos pelas ovelhas. Este caso apresenta-se quando um apaixonado, a despeito de todos os
esforços e de todos os rogos, não consegue por preço algum fazer-se ouvir.
I love and hate her.
Shakespeare, Cymb., III, 5.
O ódio contra a mulher amada exalta-o e leva-o a matar a amante, matando-se em seguida. Há
freqüentemente destes exemplos, que os jornais inserem. Quanta verdade nestes versos de Goethe:
Par tout amour méprisé! par les éléments infernaux!
Je voudrais connaître une imprécation encore plus atroce!
Não é realmente uma hipérbole quando um enamorado chama crueldade à frieza da sua amada,
ou ao prazer que ela encontra em fazê-lo sofrer. Acha-se, de fato, sob a influência de uma inclinação
que, análoga ao instinto dos insetos, o obriga, a despeito da razão, a seguir absolutamente o seu fim e
a descurar o resto. Mais de um Petrarca teve que arrastar o seu amor durante a vida inteira, sem
esperança, como uma corrente, como uma grilheta ao pé, e exalar os seus suspiros na solidão das
florestas; mas só houve um Petrarca dotado ao mesmo tempo do dom da poesia; a ele se aplica o lindo
verso de Goethe:
Et quand l'homme dans sa douleur se tait,
Un dieu m'a donné d'exprimer com-
O gênio da espécie está sempre em guerra com os gênios protetores dos indivíduos, é o seu
perseguidor e inimigo, sempre pronto a destruir sem piedade a felicidade pessoal, para chegar aos seus
fins; e tem-se visto a salvação de nações inteiras depender por vezes dos seus caprichos; Shakespeare
dá-nos um exemplo no Henri VI, P. 3, act. 3, sc. 2 e 3. De fato, a espécie na qual o nosso ser toma
raiz, tem sobre nós um direito anterior e mais imediato que o indivíduo: os seus interesses estão antes
dos nossos. Os antigos bem o sentiram, quando personificaram o gênio da espécie em Cupido, deus
hostil, deus cruel, não obstante a sua aparência infantil, deus justamente depreciado, demônio
caprichoso, despótico, e contudo mestre dos deuses e dos homens:
Tu, deorum hominumque tyranne. Amor!
Os seus atributos são flechas mortíferas, uma venda e asas. As asas provam a inconstância,
conseqüência usual da decepção que acompanha o desejo satisfeito.
Como, realmente, a paixão se baseava sobre a ilusão de uma felicidade pessoal, em proveito da
espécie, desde o momento que se paga o tributo à espécie, a ilusão deve dissipar-se. O gênio da
espécie que tomara posse do indivíduo, abandona-o de novo à liberdade. Deste modo, recai nos
acanhados limites da sua pobreza, e admira-se por ver que após tantos esforços sublimes, heróicos e
infinitos, nada lhe resta senão uma satisfação vulgar dos sentidos: contra toda a expectativa, não se encontra
mais feliz do que antes. Compreende que foi ludibriado pela vontade da espécie. É portanto
regra geral. Teseu uma vez feliz abandona Ariadna. Se a paixão de Petrarca houvesse sido satisfeita, o
seu canto teria cessado, como o do pássaro logo que os ovos se encontram dispostos no ninho.
Notemos, de passagem, que a minha metafísica do amor desagradará com certeza aos
enamorados que caíram na armadilha. Se fossem acessíveis à razão, a verdade fundamental que
descobri torná-los-ia, mais do que qualquer outra, capazes de vencer o seu amor. Mas deve-se ter em
consideração a sentença do velho poeta cômico: Quæ res in se neque consilium, neque modum habet
ullum, eam consilio regere non potes.
Os casamentos de amor são concluídos no interesse da espécie e não em proveito do indivíduo.
Estes imaginam, é certo, que trabalham para a própria felicidade: mas o verdadeiro fim é-lhes
estranho, visto que não é outro senão a procriação dum ser que só é possível por meio deles.
Obedecendo ambos ao mesmo impulso, devem naturalmente procurar entender-se o melhor possível.
Muitas vezes, porém, graças a essa ilusão instintiva que é a essência do amor, o par assim formado
acha-se no mais completo desacordo em tudo o mais. Vê-se perfeitamente logo que a ilusão se
dissipou. Sucede então que os casamentos de amor são regularmente infelizes, porque asseguram a
felicidade da geração futura, mas com detrimento da geração presente. Quien se casa por amores, ha
de vivir con dolores, diz provérbio espanhol. Sucede o contrário nos casamentos de conveniência,
concluídos na maior parte segundo a escolha dos pais. As considerações que determinam esta espécie
de casamentos, sejam de que natureza forem, têm pelo menos uma realidade e não podem desaparecer
por si mesmas. Essas considerações são de molde que asseguram a felicidade dos esposos, mas com
prejuízo das crianças que hão de nascer deles, e ainda essa felicidade permanece problemática. O
homem que, casando, se preocupa mais ainda do dinheiro que da sua inclinação, vive mais no
indivíduo do que na espécie o que é absolutamente oposto à verdade, à natureza, e merece um certo
desprezo.
Uma menina que, a despeito dos conselhos dos pais, recusa a mão de um homem rico e ainda
novo, e repele todas as considerações de conveniências, para escolher segundo o seu gosto instintivo,
faz à espécie o sacrifício da sua felicidade individual. E justamente por esse motivo, não se lhe deve
recusar uma certa aprovação, porque preferiu o que importa mais que tudo, procede no sentido da
natureza (ou mais exatamente da espécie), enquanto os pais a aconselhavam no sentido do egoísmo
individual. — Parece, portanto, que na conclusão de um casamento se devem sacrificar os interesses
da espécie ou os do indivíduo. Quase sempre assim sucede, pois é raro ver as conveniências e a paixão
caminharem de mãos dadas.
A miserável constituição física, moral ou intelectual da maioria dos homens provém sem
dúvida em parte de se concluírem usualmente os casamentos não por escolha ou pura inclinação, mas
por considerações exteriores de toda a espécie e segundo circunstâncias acidentais. Quando,
juntamente com as conveniências, a inclinação é respeitada até um certo ponto, é como que uma
transação que se faz com o gênio da espécie. Os casamentos felizes são, como se sabe, muito raros,
porque é da essência do casamento ter como fim principal não a atual geração mas o futuro. Todavia
acrescentemos ainda para consolação dos entes ternos e apaixonados que o amor ardente se associa
por vezes a um sentimento de origem muito diversa, quero dizer a amizade, fundada sobre o acordo
dos caracteres; mas só se declara depois do amor se extinguir no gozo. O acordo das qualidades
complementares, morais, intelectuais e físicas, necessário sob o ponto de vista da geração futura para
originar o amor, pode também, sob o ponto de vista dos próprios indivíduos, por uma espécie de
oposição concordante de temperamento e de caráter, produzir a amizade.
Toda esta metafísica do amor que acabo de tratar, se liga estreitamente à minha metafísica em
geral, dando-lhe uma nova luz, e eis como:
Vê-se que, no amor dos sexos, a escolha atenta, elevando-se a pouco e pouco até ao amor
apaixonado, tem por base o interesse tão alto e tão sério que o homem toma pela constituição especial
e pessoal da raça futura. Esta simpatia extremamente notável confirma duas verdades apresentadas nas
páginas precedentes.
A primeira é a indestrutibilidade do ente em si que sobrevive para o homem, nessas gerações
futuras. Essa simpatia, tão viva e tão ativa, que nasce não de reflexão e da intenção, mas das
aspirações e das tendências mais íntimas do nosso ser, não poderia existir de um modo tão indestrutível
e exercer sobre o homem tão grande poder, se este fosse absolutamente efêmero, e se as gerações
se sucedessem perfeitamente distintas umas das outras, não tendo outro laço senão o da continuidade
do tempo.
A segunda verdade, é que o ser em si reside mais na espécie do que no indivíduo. Porque esse
interesse pela constituição particular da espécie, que se encontra na origem de todo o assunto de amor,
desde o mais leve capricho até à paixão mais séria, é verdadeiramente pára todos o negócio principal,
isto é, aquele cujo sucesso ou insucesso o interessa da maneira mais sensível; de onde lhe vem por
excelência o nome de negócio de coração. Por isso, quando esse interesse se pronunciou de um modo
decisivo, qualquer outro que só diz respeito ao indivíduo é lhe subordinado e, sendo necessário,
sacrificado.
O homem prova assim que a espécie lhe importa mais que o indivíduo, e que vive mais
diretamente naquela do que neste. — Por que é então que o enamorado se entrega com absoluto
abandono àquela que escolheu? Por que está pronto a fazer por ela todos os sacrifícios? Porque é a
parte imortal do seu ser que suspira por ela; enquanto todos os seus outros desejos só têm por alvo o
seu ser fugitivo e mortal. Essa aspiração viva, fervorosa, dirigida a uma determinada mulher, é pois
um penhor da indestrutibilidade da essência do nosso ser e da sua continuidade na espécie. Considerar
essa continuidade como insuficiente e insignificante, é um erro que nasce do fato de que, pela
continuidade da vida da espécie, só se entende a existência futura de entes que nos serão semelhantes,
mas de modo nenhum idênticos, e isso porque, partindo de um conhecimento dirigido para as coisas
exteriores, só se considera a figura exterior da espécie, tal como a concebemos por intuição, e não na
sua essência íntima. Essa essência oculta é justamente o que se encontra no fundo da nossa
consciência e lhe forma o ponto central, o que é mesmo mais imediato que essa consciência: e, mais
do que qualquer outra coisa, livre, do principium individuationis, essa essência encontra-se
absolutamente idêntica em todos os indivíduos, quer existam nesse momento quer se sucedam. É o
que eu chamo, em outros termos, vontade de viver, isto é, essa aspiração instante para a vida e para a
longevidade.
É justamente essa força que a morte poupa e deixa intacta, força imutável que não pode
conduzir a uma situação melhor. Para todo o ser vivo, o sofrimento e a morte são tão certos como a
existência. Podem livrar-se, todavia, dos sofrimentos e da morte pela negação da vontade de viver,
que tem por efeito desligar a vontade do indivíduo do ramo da espécie, e de suprimir a existência na
espécie. Não temos contudo idéia do que então se torna essa vontade e faltam-nos todos os dados
acerca desse assunto. Só podemos designar um tal estado como tendo a liberdade de ser ou não vontade
de viver. Neste último caso, é o que o Budismo denomina Nirvana; é precisamente o ponto que
pela sua própria natureza permanece para sempre inacessível a todo o conhecimento humano.
Se agora, colocando-nos sob o ponto de vista destas últimas considerações, mergulhamos os
olhares no tumulto da vida, vemos-lhe a miséria e os tormentos preocupando todos os homens; vemolos
reunir todos os esforços para satisfazerem necessidades sem fim e preservarem-se da miséria sob
mil faces, sem contudo ousarem esperar outra coisa senão a conservação, durante um curto espaço de
tempo, dessa mesma existência individual tão atormentada. E eis que em plena refrega, notamos dois
enamorados cujos olhares se cruzam cheios de desejos. — Mas por que é tanto mistério, por que são
esses namoros tímidos e dissimulados? — Porque esses enamorados são traidores, que trabalham em
segredo para perpetuar toda a miséria e todos os tormentos que, sem eles, teriam um fim próximo, esse
fim que eles não permitem que se realize, como fizeram outros antes deles.
* * *
Se o espírito da espécie que dirige dois amantes, sem eles o saberem, pudesse falar pela sua
boca e exprimir idéias claras, em vez de se manifestar por sentimentos instintivos, a alta poesia deste
diálogo amoroso, que na linguagem atual só fala por imagens romanescas e parábolas ideais de aspirações
infinitas, de pressentimentos de uma voluptuosidade sem limites, de inefável felicidade, de
fidelidade eterna, etc, traduzir-se-ia assim:
Dafnis. — Gostaria de fazer presente de um indivíduo à geração futura, e creio que lhe poderias dar o
que me falta.
Cloé. — Tenho a mesma intenção, e parece-me que te seria fácil dar-lhe o que eu não tenho. Vamos a
ver!
Dafnis. — Dou-lhe estatura elevada e força muscular: não tens nem uma nem outra destas coisas.
Cloé. — Dar-lhe-ei lindas formas e pés muito pequenos: não possuis nada disto.
Dafnis. — Dou-lhe uma pele fina e branca que tu não tens.
Cloé. — Dou-lhe cabelo e olhos pretos: tu és louro.
Dafnis. — Dou-lhe o nariz aquilino.
Cloé. — E eu a boca pequena.
Dafnis. — Dou-lhe coragem e bondade que não poderiam emanar de ti.
Cloé. — Dou-lhe uma bela fronte, espírito e inteligência, que não poderias dar-lhe.
Dafnis. — Estatura elegante, belos dentes, saúde robusta, eis o que receberá de nós: realmente, entre
ambos podemos dotar na perfeição o futuro indivíduo; por isso te desejo mais do que qualquer outra
mulher.
Cloé. — Também eu te desejo. 1
Sterne diz no Tristam Shandy: there is no passion so serious as lust. — De fato, a
voluptuosidade é muito séria. Representa-se o par mais lindo, mais encantador, como se atrai e se
repele, se deseja e se foge com graça num belo jogo de amor. Chega o momento da voluptuosidade, a
brincadeira, a graciosa e suave alegria desapareceram subitamente. O par tornou-se sério. Por quê? É
que a voluptuosidade é bestial e a bestialidade não ri. As forças da natureza atuam em toda a parte
seriamente. — A voluptuosidade dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal.
O entusiasmo e a voluptuosidade são graves e não admitem a brincadeira.
II
ESBOÇO ACERCA DAS MULHERES
O seu destino — Beleza passageira — Precocidade, limites da sua inteligência — Vivem mais
do que os homens no presente, inclinam-se mais para a piedade do que para a justiça; a mentira élhes
defesa natural para a fraqueza — As paixões das mulheres servem o interesse da espécie — A
rivalidade vem-lhes da sua vocação única — No íntimo esse feio sexo não tem o sentimento do belo.
Se afetam gostar das artes, é unicamente pelo desejo de agradar — A "dama" do Ocidente — O
casamento, uma armadilha, uma escravidão — A honra das mulheres.
...O simples aspecto da mulher revela que não é destinada nem aos grandes trabalhos
intelectuais, nem aos grandes trabalhos materiais. Paga a sua dívida à vida não pela ação mas pelo
sofrimento, as dores da maternidade, os cuidados inquietadores da infância; deve obedecer ao homem,
1 Se levarmos em conta a imutabilidade absoluta do caráter e da inteligência de cada homem, é preciso admitir
que para enobrecer a espécie humana, nada se poderia tentar exteriormente; esse resultado só Poderia ser obtido
pela via da geração. É a idéia de Platão quando, no quinto livro da sua República, expõe este extraordinário
plano de desenvolvimento e perfeiçoamento da casta dos guerreiros. Se se pudesse fazer de todos os patifes
eunucos, encerrar todas as mulheres estúpidas e desengraçadas em conventos, procurar aos homens de caráter
um harém completo, e fornecer homens, verdadeiros homens, a todas as raparigas inteligentes e espirituosas,
ver-se-ia bem depressa nascer uma geração que nos daria um século superior ainda ao de Péricles.
Sem nos entregarmos a planos quiméricos, era assunto para pensar, que se se estabelecesse abaixo da
pena de morte, a castração como o maior castigo, livrar-se-ia a sociedade de gerações inteiras de patifes, e com
tanta maior segurança, que, como se sabe, a maior parte dos crimes são cometidos por indivíduos de 20 a 30
anos.
(Nota de Schopenhauer.)
ser uma companheira paciente que lhe torne a existência calma. Não é feita nem para os grandes
esforços, nem para dores ou prazeres excessivos; a vida para ela pode decorrer mais silenciosa, mais
insignificante, mais serena que a do homem, sem que ela seja, por temperamento, melhor ou pior.
O que torna as mulheres particularmente aptas para cuidar, para dirigir a nossa primeira
infância, é o fato delas mesmas se conservarem pueris, frívolas e de inteligência acanhada;
conservam-se toda a vida umas crianças grandes, uma espécie de intermediárias entre a criança e o homem.
Observa-se uma jovem divertindo-se um dia inteiro com uma criança, dançando e cantando com
ela, e imagine-se o que um homem, com a melhor das vontades faria em seu lugar.
A natureza parece ter querido fazer com as jovens o que se chama em estilo dramático um
lance teatral; durante alguns anos adorna-as de uma beleza, de uma graça e de uma perfeição
extraordinárias, com detrimento do resto da sua vida, a fim de que durante esses rápidos anos de
brilho possam apoderar-se fortemente da imaginação de um homem e levá-lo a encarregar-se
lealmente delas de uma maneira qualquer.
Para levar a cabo semelhante empreendimento a pura reflexão e a razão não dariam suficiente
garantia. Por isso a natureza deu à mulher armas e instrumentos necessários para lhe assegurar a
existência e só durante o tempo indispensável, porque a natureza neste caso procedeu com a sua usual
economia: assim como a formiga fêmea, depois da sua união com o macho, perde as asas que lhe
seriam inúteis e até perigosas no período de incubação, assim a maior parte das mulheres, depois de
dois ou três partos perde a beleza, naturalmente pela mesma razão. Donde resulta as jovens considerarem
geralmente as ocupações domésticas ou os deveres do seu estado como coisas acessórias e puras
bagatelas, enquanto reconhecem a sua verdadeira vocação no amor, nas conquistas e tudo que daí depende
a toilette, a dança, etc.
Quanto mais nobre e perfeita é uma coisa, tanto mais lenta e tardiamente se desenvolve. A
razão e a inteligência do ho-mem só atingem completo desenvolvimento aos vinte e oito anos; na
mulher, a maturidade do espírito dá-se aos dezoito anos. Por isso só tem uma razão de dezoito anos estritamente
medida. É esse o motivo por que as mulheres são toda a vida verdadeiras crianças. Só vêem
o que têm diante dos olhos, só pensam no presente, tomando a aparência pela realidade e preferindo as
ninharias às coisas mais importantes. O que distingue o homem do animal é a razão; chegado ao
presente, lembra-se do passado e pensa no futuro: daí a sua prudência, os seus cuidados, as suas
freqüentes apreensões. A razão débil da mulher não participa nem dessas vantagens nem desses
inconvenientes; sofre de uma miopia intelectual que lhe permite, por uma espécie de intuição, ver de
uma maneira penetrante as coisas próximas; o seu horizonte, porém, é limitado, escapa-lhe o que está
distante.
Daí resulta que tudo quanto não é imediato, o passado e o futuro, atuam mais fracamente na
mulher do que em nós: é também daí que parte a tendência muito freqüente para a prodigalidade, e
que por vezes chega a ser demência. No fundo do coração as mulheres imaginam que os homens são
feitos para ganhar dinheiro e as mulheres para o gastar; se o não podem fazer durante a vida do
marido, desforram-se depois da sua morte. E o que contribui para lhes confirmar esta convicção, é o
marido dar-lhes dinheiro e encarregá-las de dirigir a casa. — Tantos pontos defeituosos são as vezes
compensados por uma vantagem: a mulher mais absorta no momento presente, por menos suportável
que este seja, goza-o mais do que nós; deste fato resulta essa jovialidade, que lhe é própria e a torna
apta para distrair e por vezes consolar o homem acabrunhado de cuidados e de inquietações.
Em circunstâncias difíceis é preciso não desdenhar recorrer, como outrora os germanos, aos
conselhos das mulheres; porque elas têm uma maneira de conceber as coisas totalmente diferente da
nossa. Vão ao fim pelo caminho mais curto, porque fixam geralmente os olhares, no que têm mais
próximo. Nós, pelo contrário, não vemos o que nos salta aos olhos, e vamos procurar muito mais
longe; precisamos .que nos levem a uma maneira de ver mais simples e mais rápida. Acrescente-se
ainda que as mulheres têm decididamente um espírito mais ponderado, e não vêem as coisas senão tal
qual elas são; ao passo que nós, impelidos pelas paixões excitadas, aumentamos os objetos, e
aperfeiçoamos quimeras.
As próprias aptidões naturais explicam a piedade, a humanidade, a simpatia que as mulheres
testemunham aos desgraçados, ao passo que são inferiores aos homens no que diz respeito à eqüidade,
à retidão e à escrupulosa probidade. Devido à fraqueza da sua razão, tudo o que é presente, visível, e
imediato, exerce sobre elas um império contra o qual não conseguiriam prevalecer nem as abstrações,
nem as máximas estabelecidas, nem as resoluções enérgicas, nem consideração alguma do passado ou
do futuro, do que se acha afastado ou ausente. Possuem da virtude as primeiras e principais qualidades,
mas faltam-lhes as secundárias e as acessórias...
É, portanto, a injustiça o defeito capital dos temperamentos femininos. Isto resulta da falta de
bom senso e de reflexão que já frisamos, e o que agrava ainda este defeito, é que a natureza,
recusando-lhes a força, deu-lhes a astúcia, para lhes proteger a fraqueza: donde resulta a instintiva
velhacaria e a invencível tendência para a mentira. O leão tem os dentes e as garras; o elefante e o
javali as presas, o touro os chifres, a siba a tinta, que lhe serve para turvar a água em volta dela; a
natureza deu à mulher para se defender apenas a dissimulação; esta faculdade supre a força que o
homem tira do vigor dos membros e da razão. A dissimulação é inata na mulher, tanto na mais esperta
como na mais tola. É-lhe tão natural usá-la em todas as ocasiões como a um animal atacado defenderse
com as suas armas naturais; e procedendo deste modo, tem até um certo ponto consciência dos seus
direitos; o que torna quase impossível encontrar uma mulher absolutamente verdadeira e sincera. É
justamente por este motivo que ela compreende tão facilmente a dissimulação nos outros e que não é
prudente usá-la com ela. — Desse defeito fundamental e das suas conseqüências nascem a falsidade, a
infidelidade, a traição, a ingratidão, etc. Também as mulheres juram falso perante a justiça mais
freqüentemente do que os homens, e seria um caso para tratar, saber se se deve admiti-las a prestar juramento.
— Sucede de tempos a tempos, certas senhoras, a quem não falta coisa nenhuma, serem
surpreendidas nos estabelecimentos em flagrante delito de roubo.
Os homens novos, belos e robustos, são destinados pela natureza a propagar a espécie humana,
para que esta não degenere. Tal é a vontade firme que a natureza exprime pelas paixões das mulheres.
É certamente de todas as leis a mais antiga e a mais poderosa. Desgraçados, pois, dos interesses e dos
direitos que lhes opuserem obstáculos. Serão, no momento oportuno, suceda o que suceder,
implacavelmente esmagados, porque a moral secreta, inconfessável e mesmo inconsciente, mas inata
nas mulheres, é esta: "Fundamo-nos no direito de enganar aqueles que imaginam que podem, pelo fato
de proverem economicamente a nossa subsistência, confiscar em seu proveito os direitos da espécie. É
a nós que foram confiados, é de nós que dependem a constituição e a salvação da espécie, a criação da
geração futura; é a nós que compete realizá-la com toda a consciência." As mulheres, porém, não se
interessam absolutamente nada por este princípio superior in abstracto, compreendem-no apenas in
concreto, e quando a ocasião se apresenta, não têm outro modo de o exprimir senão pela maneira de
proceder; e sobre este assunto a consciência deixa-as muito mais em sossego do que se poderia crer,
porque no íntimo do coração, sentem vagamente que traindo os seus deveres para com o indivíduo,
cumprem-no ainda melhor para com a espécie que tem direitos infinitamente superiores.
Como as mulheres são criadas unicamente para a propagação da espécie e como toda a sua
vocação se concentra nesse ponto, vivem mais para a espécie que para os indivíduos, e tomam mais a
peito os interesses da espécie que os dos indivíduos. E o que dá a todo o seu ser e ao seu procedimento
uma certa leviandade e opiniões opostas às dos homens: donde procede essa desunião tão freqüente no
casamento, que já se tornou quase normal.
Os homens entre si são naturalmente indiferentes, as mulheres são, por índole, inimigas. Isto
provém talvez de que l’odium figulinum, a rivalidade que se restringe no homem aos que exercem a
mesma profissão, abrange nas mulheres toda a espécie, porque todas elas só têm uma mesma profissão,
um mesmo fim. Na rua, basta que se encontrem para trocarem olhares de Guelfos e de
Gibelinos. Salta aos olhos que num primeiro encontro duas mulheres têm mais embaraço,
dissimulação e reserva que teriam dois homens em caso idêntico. Pela mesma razão os cumprimentos
entre mulheres parecem mais ridículos do que entre homens. Note-se ainda que o homem em geral
fala com uma certa consideração e humanidade aos mais ínfimos dos seus subordinados, mas torna-se
insuportável ver com que altivez uma senhora da sociedade se dirige a uma mulher de classe inferior,
que não esteja ao seu serviço. A causa é talvez que entre mulheres as diferenças de classe são muito
mais precárias que entre os homens e que essas diferenças podem facilmente ser modificadas ou
suprimidas; a situação que um homem ocupa depende de mil considerações; com respeito às mulheres
uma só decide tudo: o homem a quem souberam agradar. A sua única atribuição coloca-as numa certa
igualdade bem mais marcada, e por isso procuram criar entre elas diferenças de situação.
Foi necessário que a inteligência do homem se achasse obscurecida pelo amor para que
chamasse belo a esse sexo de pequena estatura, — ombros estreitos, ancas largas e pernas curtas; toda
a sua beleza de fato reside no instinto do amor. Em lugar de o denominar belo, teria sido mais justo
denominando-o inestético. As mulheres não têm nem o sentimento nem a inteligência da música, mais
do que o da poesia, ou o das artes plásticas; fingem-no por pura imitação, puro pretexto, para afetação
explorada pelo desejo de agradarem. São incapazes de tomar uma parte desinteressada seja em que for
e pela seguinte razão: O homem em todas as coisas esforça-se por dominar diretamente ou pela
inteligência, ou pela força; a mulher, pelo contrário, acha-se sempre e nem toda a parte reduzida a um
domínio absolutamente indireto, isto é, o seu poder vem-lhe do homem, e é sobre ele só que ela exerce
uma influência imediata. Portanto, a natureza leva as mulheres a procurar em todas as coisas um meio
de conquistar o homem, e o interesse que parecem tomar pelas coisas exteriores é sempre um
fingimento, uma sutileza, isto é, pura garridice e pura imitação. Disse-o Rousseau: "As mulheres em
geral não apreciam arte alguma, não as conhecem e não têm talento nenhum."
Aqueles que não se fiam nas aparências já certamente o notaram. Basta observar o que as
ocupa e lhes atrai a atenção num concerto, na ópera ou na comédia, notar a sem-cerimônia com que,
nas mais belas passagens das maiores obras-primas, continuam a sua tagarelice. Se é verdade os gregos
não admitirem mulheres nos espetáculos, tinham muita razão; nos seus teatros podia-se pelo
menos ouvir alguma coisa. No nosso tempo, seria bom acrescentar ao mulier taceat in ecclesia, um
taceat mulier in theatro, ou senão substituir um preceito pelo outro, e suspender este último em letras
grandes no pano da cena. — Mas que melhor se pode esperar da parte das mulheres, se refletirmos que
no mundo inteiro, esse sexo não pode produzir um único espírito verdadeiramente grande, nem uma
obra completa e original nas belas-artes, nem, fosse no que fosse, uma única obra de valor durável?
Este fato é empolgante na pintura; todavia elas são tão aptas como nós para lhe compreender o lado
técnico e cultivam assiduamente esta arte, sem conseguirem produzir uma só obra-prima, porque lhes
falta justamente essa objetividade de espírito que é sobretudo necessária na pintura. As mulheres
banais nem mesmo são capazes de lhe compreender as belezas, porque natura non facit saltus. Huarte,
na sua célebre obra Examen de ingenios para las sciencias, que data de trezentos anos, recusa às
mulheres toda a capacidade superior. Exceções isoladas e parciais não alteram este estado de coisas;
as mulheres são, e permanecerão, tomadas no conjunto, os Filisteus mais completos e incuráveis. Devido
à nossa organização social, absurda no último grau, que as faz partilhar o título e a situação do
homem por muito elevados que eles sejam, excitam-lhe com encarniçamento as ambições menos
nobres, e por uma conseqüência natural desse absurdo, o seu domínio, o tom que impõem, corrompem
a sociedade moderna. Dever-se-ia tomar como regra esta sentença de Napoleão I: “As mulheres não
têm categoria.” Chamfort diz também com muito acerto: "São feitas para negociarem com as nossas
fraquezas, com a nossa loucura, mas não com a nossa razão. Existe entre elas e os homens simpatias
de epiderme, e muito poucas simpatias de espírito, de alma e de caráter." As mulheres são o sexus
sequior, o sexo segundo a todos os respeitos, feito para se conservar à parte e no segundo plano.
Certamente, deve-se-lhe poupar a fraqueza, mas é ridículo prestar-lhe homenagem, o que até nos evita
aos seus olhos. A natureza, separando a espécie humana em duas categorias, não fez as partes iguais...
— Foi o que muito bem pensaram em todos os tempos os antigos e os povos do Oriente;
compreendiam melhor o papel que convém às mulheres, do que nós fazemos com a nossa galantaria à
antiga moda francesa e a nossa estúpida veneração, que é na verdade a ostentação mais completa da
tolice germano-cristã. Isto só serviu para as tornar arrogantes e impertinentes: por vezes fazem-me
pensar nos macacos sagrados de Benarés, que têm uma tão grande consciência da sua dignidade
sacrossanta e da sua inviolabilidade, que julgam que tudo lhes é permitido.
A mulher no Ocidente, o que chamam a dama, encontra-se numa posição absolutamente falsa,
porque a mulher, o sexus sequior dos antigos, não tem nada para inspirar veneração e receber
homenagens, nem para levantar mais a cabeça que o homem, nem para ter direitos iguais aos dele. As
conseqüências dessa falsa situação são demasiado evidentes. Seria para desejar que na Europa se
colocasse no seu lugar natural esse número dois da espécie humana e se suprimisse a dama, alvo das
zombarias da Ásia inteira, de quem Roma e a Grécia também se riram.
Esta reforma seria um verdadeiro benefício sob o ponto de vista político e social. O princípio
da lei sálica é tão evidente, tão indiscutível, que parece inútil formular. O que se chama
verdadeiramente a dama européia é uma espécie de ser que não deveria existir. Só devia haver no
mundo mulheres retiradas, aplicando-se aos trabalhos domésticos, e raparigas aspirando ao mesmo
fim e que se educariam sem arrogância, para o trabalho e para a submissão. É precisamente por haver
damas na Europa que as mulheres de classe inferior, isto é, a maior parte, são muito mais para lastimar
do que no Oriente.
As leis que regem o casamento na Europa supõem a mulher igual ao homem, e têm assim um
ponto de partida falso. No nosso hemisfério monógamo, casar, é perder metade dos direitos e duplicar
os deveres. Em todo o caso, visto que as leis concederam às mulheres os mesmos direitos dos homens,
também lhes deveriam ter conferido uma razão viril. Quanto mais as leis conferem às mulheres
direitos e honras superiores ao seu merecimento, mais restringem o número daquelas que têm
realmente parte nesses favores, e tiram às outras os seus direitos naturais, na mesma proporção em que
deram direitos excepcionais a algumas privilegiadas. A vantagem que a monogamia e as leis que daí
resultam concedem à mulher, proclamando-a igual ao homem, o que ela não é sob ponto nenhum de
vista, produz esta conseqüência que os homens sensatos e prudentes hesitam muitas vezes em se
deixarem arrastar a um tão grande sacrifício, a um pacto tão desigual. Entre os povos polígamos, cada
mulher encontra quem se encarregue dela, entre nós pelo contrário o número de mulheres casadas é
bem restrito e há um número infinito de mulheres destituídas de proteção, solteironas vegetando
tristemente nas classes elevadas da sociedade, pobres criaturas destinadas a trabalhos rudes e difíceis
nas classes inferiores. Ou senão tornam-se miseráveis prostitutas, arrastando uma existência
vergonhosa e impelidas pela força das circunstâncias a formar uma espécie de classe pública e
reconhecida, cujo fim especial é preservar dos perigos da sedução as mulheres felizes que
encontrassem marido ou que ainda esperam encontrá-lo.
Só na cidade de Londres há 80.000 mulheres públicas: verdadeiras vítimas da monogamia,
cruelmente imoladas no altar do casamento. Todas essas desgraças são a compensação inevitável da
dama européia, com a sua arrogância e pretensões. Por isso a poligamia é um verdadeiro benefício
para as mulheres consideradas no seu conjunto.
Demais, sob o ponto de vista racional, não se compreende o motivo por que, se uma mulher
sofre de algum mal crônico, ou se não tem filhos, ou se está demasiado idosa, o marido não possa ter
uma segunda. O que fez o sucesso dos Mórmons, foi justamente a supressão desta monstruosa monogamia.
Concedendo à mulher direitos acima da natureza, impuseram-lhe igualmente deveres
semelhantes, donde lhe provém uma infinidade de desgraças. Essas exigências de classe e de fortuna
são de fato de um tão grande peso que o homem que se casa comete uma imprudência se não contrair
um casamento brilhante; se deseja encontrar uma mulher que lhe agrade completamente, procura-la-á
fora do matrimônio, e contentar-se-á em assegurar a situação da amante e dos filhos. Se pode fazê-lo
de uma maneira justa, razoável, suficiente e a mulher cede, sem exigir rigorosamente os direitos
exagerados que só o casamento lhe concede, perde então a honra, porque o casamento é a base da
sociedade civil, e prepara-se uma triste existência, porque é feitio do homem preocupar-se
desmedidamente com a opinião dos mais. Se, pelo contrário, a mulher resiste, ocorre o risco de
desposar um marido que lhe desagrada, ou ficar solteira; porque tem poucos anos para se decidir. É
sob este ponto de vista da monogamia que é útil ler o tratado sábio e profundo de Thomasius De
concubinatu. Vê-se aí que, entre os povos civilizados de todos os tempos, até à Reforma, o
concubinato foi uma instituição admitida, até certo ponto legalmente reconhecida e de forma alguma
desonrosa. Foi a reforma luterana que a rebaixou, porque encontrava nela uma justificação do
casamento dos padres, e a Igreja Católica não podia ficar para trás.
É ocioso disputar acerca da poligamia, visto que ela de fato existe em toda a parte e apenas se
trata de a organizar. Onde é que se encontram verdadeiros monógamos? Todos, pelo menos durante
algum tempo, e a maior parte quase sempre, vivemos na poligamia. Se todo o homem carece de várias
mulheres, é perfeitamente justo que se encontre livre, e mesmo que seja obrigado a encarregar-se de
umas poucas mulheres; estas voltarão assim ao seu verdadeiro papel, que é o de um ente subordinado,
e ver-se-á desaparecer deste mundo a dama, esse monstrum da civilização européia e da tolice
germano-cristã, com as suas ridículas pretensões ao respeito e à honra; acaba-se com as damas, mas
acaba-se também com essas desgraçadas que enchem agora a Europa!
...É evidente que a mulher por temperamento é destinada a obedecer. E a prova é que aquela
que se acha neste estado de independência absoluta contrária ao seu temperamento se liga
imediatamente a qualquer homem por quem se deixa dirigir e dominar, porque carece de um senhor.
Se é nova, arranja um amante; se é velha, um confessor.
* * *
O casamento é uma armadilha que a natureza nos prepara.
* * *
A honra das mulheres, assim como a honra dos homens, é um “espírito de corpo” bem
entendido. A primeira é a mais importante das duas; porque na vida das mulheres as relações sexuais
são a coisa principal. — A honra para uma rapariga consiste na confiança que a sua inocência inspira,
e para uma mulher na sua fidelidade ao marido. As mulheres esperam e exigem dos homens tudo
quanto lhes é necessário e tudo quanto desejam. O homem só exige uma coisa da mulher. As mulheres
têm portanto que proceder de modo que os homens não possam obter delas essa coisa única senão em
troca da proteção que eles prometem dar a elas e aos futuros filhos: dessa combinação depende a
felicidade de todas as mulheres. Para a obter, é indispensável que se auxiliem mutuamente e dêem
prova do espírito de corpo. Por isso caminham como uma só mulher e em filas unidas ao encontro dos
homens que, devido ao predomínio físico e intelectual, possuem todos os bens terrestres; é esse o
inimigo que se trata de vencer e conquistar, para chegar por meio dessa vitória a possuir os bens da
Terra. A primeira máxima da honra feminina _tem sido, pois, que se deve recusar implacavelmente ao
homem todas as relações ilegítimas, a fim de o obrigar a uma espécie de capitulação por meio do casamento,
único modo do elemento feminino obter proteção. Para atingir este resultado, a máxima
precedente deve ser rigorosamente respeitada; todas as mulheres com verdadeiro espírito de corpo
velam pela sua execução. Uma jovem que se deixa seduzir torna-se culpada de traição para com todo
o seu sexo, porque se esse ato se generalizasse, comprometer-se-ia o interesse comum; expulsam-na
da comunidade, acabrunham-na de vergonha; perdeu por esse fato a honra. Todas as mulheres devem
fugir dela como de uma pestífera. A mesma sorte espera a mulher adúltera porque faltou a um dos
termos da capitulação consentida pelo marido. O seu exemplo seria de molde a desviar os homens de
assinarem semelhantes tratado, de que depende a salvação de todas as mulheres. Além da honra
peculiar ao seu sexo, a mulher adúltera perde igualmente a honra civil, porque o seu ato constitui um
engano, uma falta grosseira à fé jurada. Pode dizer-se com certa indulgência "uma jovem enganada",
não se diz "uma mulher enganada". O sedutor pode bem pelo casamento restituir a honra à primeira,
não pode restituí-la à segunda, nem mesmo após o divórcio. — Vendo claramente os fatos, reconhecese,
portanto, que num espírito de corpo útil, indispensável, mas bem calculado e fundado no interesse,
é o princípio da honra das mulheres: não se pode negar a sua extrema importância no destino da
mulher, mas não se lhe deve atribuir um valor absoluto, além da vida e dos fins da vida, e merecendo
que se lhe sacrifique a própria existência...
O que provaria de um modo geral que a honra das mulheres não tem uma origem
verdadeiramente conforme à natureza, é o número de vítimas que lhe são oferecidas, infanticídios,
suicídios das mães. Se uma rapariga pelo fato de ter um amante comete uma verdadeira traição para
com o seu sexo, não esqueçamos que o pacto feminino havia sido aceito tacitamente sem compromisso
formal da sua parte. E como na maioria dos casos é ela a primeira vítima, a loucura nela é
infinitamente maior que a depravação.
A MORTE
O amor e a morte — É à humanidade, e não a individualidades insignificantes e miseráveis, que se
pode assegurar a duração — O que o sono é para o indivíduo, é a morte para a espécie — Só a
vontade é indestrutível — Eternidade da matéria — Suprema indiferença da natureza perante a ruína
dos seres que, pela morte, recaem no seu seio.
A morte é o gênio inspirador, a musa da Filosofia... Sem ela ter-se-ia dificilmente filosofado.
* * *
Nascimento e morte pertencem igualmente à vida, e formam contrapeso; um é a condição da
outra; são as duas extremidades, os dois pólos de todas as manifestações da vida. É o que a mitologia
dos hindus, a mais sábia de todas as mitologias, exprime por um símbolo, dando como atributo a
Schiva, o Deus da destruição, um colar de caveiras, e o Lingam, órgão símbolo da geração; porque o
amor é a compensação da morte, o seu correlativo essencial; neutralizam-se, suprimem-se um ao
outro. — Por isso os gregos e os romanos adornavam esses preciosos sarcófagos que ainda hoje se
vêem, com baixos relevos figurando festas, danças, casamentos, caçadas, combates de animais,
bacanais, numa palavra imagens da vida mais alegre, mais animada, mais intensa, até mesmo grupos
voluptuosos, sátiros unidos a cabras. O seu fim tendia evidentemente a preocupar o espírito da
maneira mais sensível, com o contraste da morte do homem que se chora, encerrando no túmulo, e da
vida imortal da natureza.
* * *
A morte é a solução dolorosa do laço formado pela geração com voluptuosidade, é a destruição
violenta do erro fundamental do nosso ser; o grande desengano.
* * *
A individualidade da maioria dos homens é tão miserável e tão insignificante que nada perde
com a morte: o que neles pode ter ainda algum valor, isto é, os traços gerais da humanidade —
subsiste nos outros homens. É à humanidade e não ao indivíduo que se pode assegurar a duração.
Se se concedesse ao homem uma vida eterna, a rígida imutabilidade do seu caráter e os
acanhados limites da sua inteligência parecer-lhe-iam com o tempo tão monótonos e inspirar-lhe-iam
um tão grande aborrecimento que, para se livrar deles, acabaria por preferir o nada. Exigir a
imortabilidade do indivíduo, é querer perpetuar um erro. Porque toda a individualidade é um erro
especial, um engano, qualquer coisa que não deveria existir; e o verdadeiro fim da vida é livrarmo-nos
dela. Prova-o bem o fato de que a maioria dos homens, pode dizer-se todos os homens, são constituídos
de tal modo que não poderiam ser felizes fosse qual fosse o mundo onde sonhassem encontrarse.
Se este mundo fosse isento de miséria e de dor, tornar-se-iam a presa do tédio, e na medida que
pudessem fugir a este mal, recairiam nas misérias, nos tormentos, nos sofrimentos. Não bastaria,
portanto, para conduzir o homem a um estado melhor, colocá-lo num mundo também melhor; seria
necessário transformá-lo inteiramente, proceder de modo que deixasse de ser o que é e se tornasse no
que não é. Deve, pois, necessariamente, cessar de ser o que é; esta condição preliminar é a morte que a
realiza, e sob este ponto de vista concebe-se-lhe a necessidade moral. Ser colocado num outro mundo,
e mudar totalmente de ser, é no fundo uma só e mesma coisa. Mas desde o momento que a morte pôs
termo a uma consciência individual, seria para desejar que esta mesma consciência fosse de novo
reanimada para durar uma eternidade? O que é que ela contém, a maior parte do tempo? nada mais do
que uma torrente de pensamentos insignificantes, acanhados, terrestres, cuidados sem fim. Deixá-los,
pois, uma vez por todas repousar em paz.
Parece que o fim de toda a atividade vital é um maravilhoso alívio para a força, que a mantém:
é o que explica talvez essa expressão de doce serenidade espalhada sobre o rosto da maioria dos
mortos.
* * *
Quão longa é a noite do tempo sem limites comparada com o curto sonho da vida!
* * *
Quando no outro outono se observa o pequeno mundo dos insetos, e se nota que um prepara
um leito para dormir o pesado e longo sono do inverno, que outro prepara o casulo para passar o
inverno no estado de crisálida e renascer num dia de primavera com toda a mocidade e em plena
perfeição, e que enfim, esses insetos, na maior parte, pensando em repousar nos braços da morte, se
contentam em colocar cautelosamente o ovo no sítio favorável, para renascerem um dia
rejuvenescidos, num novo ser — que é isto senão a doutrina da imortalidade ensinada pela natureza?
Ela desejaria fazer-nos compreender que entre o sono e a morte não há uma diferença radical,
que nem um nem outro põe a existência em perigo. O cuidado com que o inseto prepara a célula, o
buraco, o ninho assim como o alimento para a larva que deve nascer na seguinte primavera, e feito
isto, morre tranqüilo — assemelha-se perfeitamente ao cuidado com que o homem arruma, à noite, o
fato e prepara o almoço para o dia seguinte indo depois dormir em sossego.
E este caso não se daria se o inseto que deve morrer no outono, considerado em si mesmo e na
sua verdadeira essência, não fosse idêntico ao que se deve desenvolver na primavera, assim como o
homem que se deita, é o mesmo que se levanta.
* * *
Observe o seu cão: como está sossegado e bem disposto. Milhares de cães morreram antes que
este nascesse. Mas o seu desaparecimento não perturbou absolutamente nada a idéia do cão: esta idéia
não foi de modo nenhum obscurecida pela morte. Eis o motivo por que o seu cão se encontra tão
fresco, tão cheio de força como se fosse este o seu primeiro dia, e como se não devesse ter fim; através
dos seus olhos brilha o princípio indestrutível que está nele, o archoeus.
Que foi, pois, que a morte destruiu em tantos milhares de anos? Não foi o cão, ele está aí sem
ter sofrido dano algum; foi a sua sombra, a sua figura, que a fraqueza do nosso entendimento não pode
discernir senão no tempo.
* * *
A matéria pela sua persistência absoluta assegura-nos uma indestrutibilidade em virtude da
qual aquele que fosse incapaz de conceber uma outra, poderia consolar-se com a idéia de uma certa
imortalidade. "O quê?, dir-se-á, a persistência de um mero pó, de uma matéria bruta, seria a
continuidade do nosso ser?"
Conhecem então esse pó, sabem o que ele é e o que pode? Antes de o desprezarem aprendam a
conhecê-lo. Essa matéria que não é mais que pó e cinza, dentro em pouco dissolvida na água, vai
tornar-se num cristal, brilhar como os metais, lançar faíscas elétricas, manifestar o seu ptoder magnético...
moldar-se em plantas e em animais, e do seu seio misterioso desenvolver enfim essa vida cuja
perda lhes atormenta a tal ponto o espírito acanhado. Não é, pois, nada, durar sob a forma dessa
matéria?
* * *
Não conhecemos maior jogo de dados que o jogo do nascimento e da morte; preocupados,
interessados, ansiosos ao último ponto, assistimos a cada partida, porque a nossos olhos tudo se
resume nisso. A natureza, pelo contrário, que não mente nunca, a natureza, sempre franca e aberta, exprime-
se a este respeito de um modo muito diverso: diz ela que a vida ou a morte do indivíduo nada
lhe importa; é o que exprime entregando a vida do animal e também a do homem a todos os acasos,
sem empregar o mínimo esforço para os salvar. Observem o inseto no nosso caminho: o mais pequeno
desvio involuntário do nosso pé decide da sua vida ou da sua morte. Veja-se a lesma dos bosques,
destituída de qualquer meio de fugir, de se defender, de enganar, de se ocultar, presa, exposta a todos
os perigos; veja-se o peixe saltitar sem inquietação na rede ainda aberta; a rã cuja moleza a impede de
fugir e de se escapar; a ave, sob o olhar do falcão que paira por cima dela e que esta não vê; a ovelha
que o lobo espreita oculto no arvoredo; todas essas vítimas fracas, desarmadas, imprudentes,
vagueiam, no meio de perigos ignorados, que a todo o momento as ameaçam. A natureza
abandonando assim sem resistência os seus organismos, obras de uma arte infinita, não só à avidez do
mais forte, mas ao mais cego dos acasos, à fantasia do primeiro imbecil que passa, à maldade da
criança — a natureza exprime dessa maneira, no seu estilo lacônico, oracular, que o aniquilamento
desses seres lhe é indiferente, que a não pode prejudicar, que nada significa, e que em casos idênticos
a causa é tão indiferente como o efeito...
Portanto, quando essa mãe soberana, universal, expõe sem escrúpulo algum os filhos a mil
perigos iminentes, sabe que quando sucumbem, é para voltarem ao seu seio onde os conserva ocultos;
a sua morte não passa de uma brincadeira. Sucede com o homem o mesmo que com os animais. O
oráculo da natureza estende-se a nós; a nossa vida ou a nossa morte não a comove, e não deveria
comover-nos, porque também fazemos parte da natureza.
* * *
Estas considerações reconduzem-nos à nossa própria espécie, e se olharmos para um futuro
muito distante e procurarmos representar-nos as gerações futuras com os seus milhões de indivíduos
humanos, diferentes de nós pelos seus usos e costumes, dirigimos esta pergunta a nós mesmos: donde
virão todos? onde estão agora? — onde se acha o ubérrimo seio do nada, produtor do mundo, que
oculta ainda as gerações futuras?
Mas a esta pergunta, deve-se sorrir e responder: onde poderia ser senão onde toda a realidade é
e será, no presente e no que ele contém, em ti, portanto, insensato perguntador, que desconheces a tua
própria essência, e assemelhas-te à folha na árvore, que, quando chega o outono, murchando e
pensando que vai cair, se lamenta pela sua queda e não busca consolação à vista da fresca verdura que
na primavera há de adornar a árvore. Ela diz e geme: "já não sou eu, serão outras folhas". — Oh! folha
insensata! onde queres tu ir, e donde poderiam vir as outras folhas? Onde está esse nada cujo abismo
temes? — Reconhece, pois, o teu próprio ser nessa força íntima, oculta, sempre ativa da árvore, que
através de todas as suas gerações de folhas não é atingida pelo nascimento nem pela morte. Não
sucede com as gerações dos homens o mesmo que com as duas folhas?
A ARTE
A arte é uma redenção — Ela livra da vontade e portanto da dor — Torna as imagens da vida cheias
de encanto — A sua missão é reproduzir-lhe todas as cambiantes, todos os aspectos — Poesia lírica
— Tragédia, comédia — Pintura — Música; a ação do gênio é aí mais sensível do que noutra arte.
Todo o desejo nasce de uma necessidade, de uma privação, de um sofrimento. Satisfazendo-o
acalma-se; mas embora se satisfaça um, quantos permanecem insaciados! Demais, o desejo dura
muito tempo, as exigências são infinitas, o gozo é curto e avaramente medido. E mesmo esse prazer
uma vez obtido é apenas aparente: sucede-lhe outro, o primeiro é uma ilusão dissipada, o segundo
uma ilusão que dura ainda. Nada há no mundo capaz de apaziguar a vontadç, nem fixá-la de um modo
duradouro: o mais que se pode obter do destino parece sempre uma esmola, que se lança aos pés do
mendigo, que só conserva a vida hoje para prolongar o seu tormento amanhã. Assim, enquanto
estamos sob o domínio dos desejos, sob o império da vontade, enquanto nos abandonamos às
esperanças que nos acometem, aos temores que nos perseguem, ele não é para nós nem repouso nem
felicidade amável. Quer nos encarnicemos em qualquer perseguição ou fujamos ante qualquer ameaça,
agitados pela expectativa ou pela apreensão, no fundo é a mesma coisa: os cuidados que nos causam
as exigências da vontade sob todas as formas, não cessam de nos perturbar e atormentar a existência.
Assim o homem, escravo da vontade, está continuamente preso à roda de íxion, enche sempre o tonel
das Danaides, é o Tântalo devorado de eterna sede.
Mas quando uma circunstância estranha, ou a nossa harmonia interior nos arrebata por um
momento à torrente infinita do desejo, nos livra o espírito da opressão da vontade, nos desvia a
atenção de tudo que a solicita, e as coisas nos aparecem desligadas de todos os prestígios da
esperança, de todo o interesse próprio, como objetos de contemplação desinteressada e não de cobiça;
é então que esse repouso, procurado baldadamente nos caminhos abertos do desejo mas que sempre
nos fugiu, se apresenta e nos dá o sentimento da paz em toda a sua plenitude. É esse o estado livre de -
todos os bens, como a felicidade dos deuses; porque nos vemos por um momento livres da pesada
pressão da vontade, celebramos o Sabat depois dos trabalhos forçados da vontade, a roda de íxion
pára... Que importa então que se goze o pôr do Sol da janela de um palácio, ou através das grades de
uma prisão!
Acordo íntimo, predomínio do puro pensamento jiobre a vontade pode produzir-se em todo o
lugar. São testemunhas esses admiráveis pintores holandeses, que souberam ver de um modo tão
objetivo coisas tão pequenas, e que nos deixaram uma prova tão duradoura de desinteresse e de
placidez de espírito nas cenas íntimas. O espectador não pode observá-las sem se comover, sem se
representar o estado de espírito do artista, tranqüilo, sereno, com o maior sossego, tal como era
necessário para fixar a atenção sobre objetos insignificantes, indiferentes, e reproduzi-los com tanta
solicitude; e a impressão é ainda mais forte porque observando-se a nós mesmos, admi-ramo-nos do
contraste dessas pinturas tão calmas com os nossos sentimentos sempre obscurecidos, sempre agitados
pelas inquietações e pelos desejos.
Basta lançar um olhar desinteressado sobre qualquer homem, qualquer cena da vida, e
reproduzi-los com a pena ou o pincel para que logo pareçam cheios de interesse e de encanto, e
verdadeiramente dignos de inveja; mas se tomamos parte nessa situação, se somos esse homem, oh!
então, como muitas vezes se diz, só o diabo a poderia sustentar. É o pensamento de Goethe:
De tout ce qui nous chagrine dans la vie
La peinture nous plaît...
Quando eu era novo, houve um tempo em que me esforçava incessantemente para me
representar todos os meus atos, como se se tratasse de uma outra pessoa — provavelmente para
melhor os gozar.
As coisas só têm atrativo enquanto nos não tocam. A vida nunca é bela, só os quadros da vida
são belos, quando o espelho da poesia os ilumina e os reflete, principalmente na mocidade quando
ignoramos ainda o que é viver.
* * *
Apoderar-se da inspiração no seu vôo e dar-lhe um corpo nos versos, tal é a obra da poesia
lírica. E é contudo a humanidade inteira, nos seus íntimos arcanos que reflete o verdadeiro poeta
lírico; e todos os sentimentos que milhões de gerações passadas, presentes e futuras experimentaram e
hão de experimentar as mesmas experiências que se reproduzirão sempre, encontram na poesia a
expressão viva e fiel... O poeta é homem universal: tudo o que agitou o coração de um homem, tudo o
que a natureza humana, em todas as circunstâncias, pôde experimentar e produzir, tudo que reside e
fermenta num ser mortal — é esse o seu domínio que se estende a toda a natureza. Por isso o poeta
pode contar tão bem a voluptuosidade como o misticismo, ser Angelus Silésius ou Anacreonte,
escrever tragédias ou comédias, representar sentimentos nobres ou vulgares, segundo a fantasia ou a
vocação. Ninguém poderia prescrever ao poeta ser nobre, elevado, moral, piedoso e cristão, ser ou não
ser isto ou aquilo, porque ele é o espelho da humanidade e apresenta-lhe a imagem clara e fiel do que
ela sente.
* * *
É um fato deveras notável e realmente digno de atenção, que o objeto de toda a alta poesia seja
a representação do lado medonho da natureza humana, a dor sem nome, os tormentos dos homens, o
triunfo da maldade, o domínio irônico do acaso, a queda irremediável do justo e do inocente: é este
um sinal notável da constituição do mundo e da existência... Não vemos nós na tragédia os entes mais
nobres, após longos combates e prolongados sofrimentos, renunciarem para sempre aos desígnios que
até ali perseguiam com violência, ou desviarem-se de todos os gozos da vida voluntariamente e com
prazer: como o príncipe de Calderon; Gretchen no Fausto, Hamlet a quem o fiel Horácio seguiria da
melhor vontade, mas que lhe promete ficar e viver ainda algum tempo num mundo tão cruel, tão cheio
de dores, para contar o destino de Hamlet e purificar-lhe a memória; assim também Joana d'Arc, e a
noiva de Messine: todos morrem purificados pelos sofrimentos, isto é, depois de se extinguir neles a
vontade de viver...
O verdadeiro sentido da tragédia é essa observação profunda, que as faltas expiadas pelo herói
não são as deles, mas as faltas hereditárias, isto é, o próprio crime de existir:
Pues el delito mayor
Del hombre es haber nacido.
A tendência e o último objeto da tragédia é inclinar-nos à resignação, à negação da vontade de
viver; a comédia, pelo contrário, excita-nos a viver e anima-nos. A comédia, é certo, como toda a
representação da vida humana, coloca-nos inevitavelmente diante dos olhos os sofrimentos e os lados
repugnantes, mas mostra-os como males passageiros, que acabam por desaparecer numa alegria final,
como um misto de sucessos, de vitórias e de esperanças que triunfam por fim; e além disso faz sobressair
o que há de constantemente alegre, risível, até nas mil e uma contrariedades da vida, a fim de nos
conservar de bom humor seja em que circunstâncias forem. Afirma portanto, como último resultado,
que a vida considerada no seu conjunto é muito boa, sobretudo agradável e muito divertida. É preciso,
bem entendido, deixar cair o pano depressa sobre o alegre desenlace, para que se não possa ver o que
sucede em seguida; enquanto em geral a tragédia acaba de tal modo que não pode suceder mais nada.
* * *
O poeta épico ou dramático não deve ignorar que ele é o destino e que deve ser implacável
como este — ele é ao mesmo tempo o espelho da humanidade e tem de apresentar na cena caracteres
maus e por vezes infames, loucos, tolos, espíritos acanhados, de vez em quando uma personagem
razoável ou prudente, ou bom, ou honesto, e muito raramente, com a mais singular das exceções, um
caráter generoso. — Em todo Homero, não há, me parece, um caráter verdadeiramente generoso,
embora se encontrem muitos bons e honestos; em Shakespeare, acha-se um ou dois, e ainda assim, na
sua nobreza nada há de sobre-humano, é Cordélia, Coriolano; seria difícil enumerar mais algum,
enquanto os outros se cruzam aí em quantidade... Na Minna de Barnhelm, de Lessing, há excesso de
escrúpulo e de nobre generosidade de todos os lados. De todos os heróis de Goethe combinados e
reunidos, dificilmente se formaria um caráter de uma generosidade táo quimérica como o Marquês de
Posa.
* * *
Não há um só homem nem uma só ação que não tenha a sua importância; em todos e através
de tudo, se desenvolve mais ou menos a idéia da humanidade. Não há circunstância na existência
humana que seja indigna de ser reproduzida pela pintura. Por isso se mostram injustos para com os
admiráveis pintores da escola holandesa, quando se limitam a louvar-lhes a habilidade técnica; com
respeito ao resto olham-nos de cima, com desdém, porque representam a maior parte das vezes fatos
da vida comum e só se liga importância aos assuntos históricos ou religiosos. Dever-se-ia primeiro
pensar que o interesse de uma ação não tem relação alguma com a sua importância exterior, e que há
por vezes entre os dois uma grande diferença.
A importância exterior de uma ação avalia-se pelas suas conseqüências para o mundo real e no
mundo real. A sua importância interior, é a vista profunda que ela nos oferece da própria essência da
humanidade colocando em plena luz certos lados dessa natureza muitas vezes despercebidos,
escolhendo certas circunstâncias favoráveis em que as particularidades se exprimem e se
desenvolvem.
A importância interior só tem valor para a arte, a exterior para a história. Uma e outra são
absolutamente independentes, e tanto podem encontrar-se separadas como reunidas. Um ato capital na
história pode, considerado em si mesmo, ser da última banalidade, da última insignificância: e reciprocamente,
uma cena da vida quotidiana, uma cena íntima, pode ter um grande interesse ideal, se
coloca em plena e brilhante luz seres humanos, atos e desejos humanos até aos mais ocultos
recônditos. Sejam quais forem a importância do fim que se prossegue e as conseqüências do ato, o
traço da natureza pode ser o mesmo: assim, por exemplo, quer sejam ministros inclinados sobre um
mapa disputando-se territórios e povos, quer sejam os camponeses numa taberna discutindo por causa
de um jogo de cartas ou dados, não importa absolutamente nada; assim como é indiferente jogar o
xadrez com peões de ouro ou com figuras de madeira.
A música não exprime nunca o fenômeno, mas unicamente a essência íntima de todo o
fenômeno, numa palavra a própria vontade. Portanto não exprime uma alegria especial ou definida,
certas tristezas, certa dor, certo medo, certo transporte, certo prazer, certa serenidade de espírito, mas a
própria alegria, a tristeza, a dor, o medo, os transportes, o prazer, a serenidade do espírito; exprimelhes
a essência abstrata e geral, fora de qualquer motivo ou circunstância. E todavia nessa quintaessência
abstrata, sabemos compreendê-la perfeitamente.
A invenção da melodia, a descoberta de todos os segredos mais íntimos da vontade e da
sensibilidade humana, é a obra do gênio. A sua ação é aí mais visível que em qualquer outro assunto,
mais irrefletida, mais livre de toda a intenção consciente, é uma verdadeira inspiração. A idéia, isto é,
o conhecimento preconcebido das coisas abstratas e positivas é neste ponto, como em toda a arte,
absolutamente estéril: o compositor revela a essência mais íntima do mundo e exprime a sabedoria
mais profunda, numa linguagem que a sua razão não sonâmbula dá respostas claríssimas sobre assuntos,
de que, desperta, não tem conhecimento algum.
O que há de íntimo e inexplicável em toda a música, o que nos procura a visão rápida e
passageira de um paraíso familiar e inacessível ao mesmo tempo, que compreendemos e que contudo
não lograríamos explicar, é ela dar uma voz às profundas e surdas agitações do nosso ser, fora de toda
a realidade, e por conseguinte sem sofrimento.
* * *
Assim como há em nós duas disposições essenciais do sentimento, a alegria ou pelo menos o
bom humor, a aflição ou pelo menos a melancolia, assim a música tem duas tonalidades gerais
correspondentes, o sustenido e o bemol, e conserva-se quase sempre numa ou noutra. Mas na verdade
não é extraordinário que haja um sinal — o bemol — exprimindo a dor, que não seja doloroso nem
fisicamente nem sequer por convenção, e contudo tão expressivo que ninguém se possa enganar? Por
este fato se pode avaliar a que ponto a música entra na natureza íntima do homem e das coisas. Entre
os povos do norte, cuja existência é submetida a tão rudes provas, mormente entre os russos, é o
bemol que domina, mesmo na música de igreja.
O allegro em bemol é muito freqüente na música francesa, e muito característico: é como se
alguém fosse dançar com sapatos que o incomodassem.
As frases curtas e claras da música de dança de andamento rápido, só parecem exprimir uma
felicidade comum, fácil de atingir; o allegro maestoso com as suas grandes frases, exprime um
esforço grande e nobre, para um fim distante que se acaba por atingir. O adágio fala-nos dos sofrimentos
de um grande e nobre esforço, que despreza toda a alegria mesquinha. O que é, porém, mais
surpreendente, é o efeito do bemol e do sustenido. Não é admirável que a mudança de um meio-tom, a
introdução de uma terça menor em lugar de uma maior, dê imediatamente uma sensação inevitável de
dor e de inquietação, de que o sustenido logo nos livra? O adágio em bemol eleva-se até à expressão
da dor suprema, torna-se um queixume dilacerante. A música de dança em bemol exprime a decepção
de uma felicidade medíocre, que se deveria desdenhar, dir-se-ia que nos descreve a perseguição de
algum fim inferior obtido finalmente depois de muitos esforços e aborrecimentos.
***
Uma sinfonia de Beethoven descobre-nos uma ordem maravilhosa sob a desordem aparente; é
como um combate encarniçado, que passado um momento se resolve num belo acordo: é o rerum
concordia discors — uma imagem fiel e perfeita da essência deste mundo, que gira através do espaço
sem pressa e sem repouso, num tumulto indescritível de formas sem número, que se dissipam
incessantemente. Mas ao mesmo tempo através desta sinfonia falam todas as paixões, todas as
comoções humanas; alegria, tristeza, amor, ódio, medo, esperanças, com infinitos cambiantes, e contudo
perfeitamente abstratas, sem coisa alguma que as distinga nitidamente umas das outras. É uma
forma sem matéria, como um mundo de espíritos aéreos.
Depois de haver meditado longamente sobre a essência da música, recomendo o gozo dessa
arte como a mais deliciosa de todas. Não há outra que atue mais diretamente, mais profundamente,
porque também não há outra que revele mais diretamente e mais profundamente a verdadeira natureza
do mundo. Ouvir longas e belas harmonias, é como um banho de espírito: purifica de toda a mancha,
de tudo que é mau, mesquinho; eleva o homem e sugere-lhe os pensamentos mais nobres que lhe seja
dado ter, e ele então sente claramente tudo o que vale, ou antes quanto poderia valer.
* * *
Quando ouço música, a minha imaginação compraz-se muitas vezes com o pensamento de que
a vida de todos os homens e a minha própria vida não são mais do que sonhos de um espírito eterno,
bons e maus sonhos, de que cada morte é o despertar.
A MORAL
Três graus, o egoísmo, a piedade, o ascetismo — O egoísmo não tem limites; foi para o dissimular
que os homens inventaram a delicadeza, foi para o regularizar e coagir que instituíram o Estado — A
piedade, único fundamento da moral, nasce do sentimento da identidade de todos os homens e de
todos os seres, e deve estender-se aos animais — O ascetismo eleva-se até à renúncia voluntária
absoluta, até à negação de querer viver. A arte é apenas uma libertação passageira; o ascetismo, é a
libertação definitiva; oferece a paz durável. Acordo entre os ascetas de todas as religiões e de todos
os tempos.
A virtude, assim como o gênio, não se ensina; a idéia que se faz da virtude é estéril, e só pode
servir de instrumento, como as coisas técnicas em matéria de arte. Esperar que os nossos sistemas de
moral e as nossas éticas possam tornar os homens virtuosos, nobres e santos, é táo insensato como
imaginar que os nossos tratados sobre estética possam produzir poetas, escultores, pintores e músicos.
Não há senão três causas fundamentais das ações humanas, e nada se faz sem elas. Temos
primeiro: a) o egoísmo, que quer o seu próprio bem (não tem limites); b) a maldade, que deseja o mal
de outrem (vai até à extrema crueldade); c) a piedade, que quer o bem de outrem (vai até à generosidade,
à grandeza de alma). Toda a ação humana depende de uma destas três causas ou mesmo de duas.
I
O EGOÍSMO
O egoísmo inspira um tal horror que inventamos a delicadeza para o ocultar como uma parte
vergonhosa; mas ele rasga todos os véus, e trai-se em todo o encontro em que nos esforçamos
instintivamente por utilizar cada novo conhecimento a fim de servir alguns dos nossos inúmeros
projetos. O nosso primeiro pensamento é sempre saber se tal homem nos pode ser útil para alguma
coisa. Se nos não pode servir, não tem já valor algum... Suspeitamos a tal ponto este sentimento nos
nossos semelhantes, que, se nos suceder pedir-lhes um conselho ou um esclarecimento, perdemos toda
a confiança no que nos disserem, se supusermos por um momento que têm aí um interesse qualquer;
porque pensamos imediatamente que o nosso conselheiro quer servir-se de nós como de um instrumento;
e atribuímos o seu parecer não à prudência da sua razão, mas às suas intenções secretas, por
muito grande que seja a primeira, por muito fracas e distantes que sejam as segundas.
* * *
O egoísmo, por natureza, não tem limites; o homem só tem um desejo absoluto, conservar a
existência, eximir-se a qualquer dor, a qualquer privação; o que quer é a maior soma possível de bemestar,
é a posse de todos os gozos que é capaz de imaginar, e que se esforça por variar e desenvolver
incessantemente. Qualquer obstáculo que surja entre o seu egoísmo e as suas cobiças excita-lhe a
raiva, a cólera, o ódio: é um inimigo que é preciso esmagar. Desejaria tanto quanto possível gozar
tudo, possuir tudo; não o podendo, quereria pelo menos dominar tudo: "Tudo para mim, nada para os
outros", é a sua divisa. O egoísmo é colossal, o universo não pode contê-lo. Porque se dessem a cada
um a escolha entre o aniquilamento do universo e a sua própria perda, é ocioso dizer qual seria a
resposta.
Cada um considera-se o centro do mundo, açambarca tudo; até as próprias agitações dos
impérios, se consideram primeiro sob o ponto de vista do interesse de cada um, por muito ínfimo e
distante que possa estar. Haverá contraste mais surpreendente? de um lado, esse interesse superior,
exclusivo, que cada um tem por si mesmo, e do outro, esse olhar indiferente que lança a todos os
homens. Chega a ser uma coisa cômica, essa convicção de tanta gente procedendo como se só eles
tivessem uma existência real, e os seus semelhantes fossem meras sombras, puros fantasmas.
Para pintar de um traço a enormidade do egoísmo numa hipérbole empolgante, cheguei a isto:
"Muita gente seria capaz de matar um homem para se apoderar da gordura do morto e untar com ela as
botas." Só me resta um escrúpulo: será realmente uma hipérbole?
* * *
O Estado, essa obra-prima de egoísmo inteligente e raciocinado, esse total de todos os
egoísmos individuais, colocou os direitos de cada um nas mãos de um poder infinitamente superior ao
poder do indivíduo, e que o obriga a respeitar os direitos dos outros. É assim que são lançados na
sombra o egoísmo desmedido de quase todos, a maldade de muitos, a ferocidade de alguns: a sujeição
mantém-nos acorrentados, daí resulta uma aparência enganadora. Mas o poder protetor do Estado
encontra-se, como às vezes sucede, sofismado ou paralisado, vê-se surgir à luz do dia os apetites
insaciáveis, a sórdida avareza, a secreta falsidade, a maldade, a perfídia dos homens, e então,
recuamos, gritamos, como se esbarrássemos com um monstro ainda desconhecido; contudo sema
sujeição das leis, sem a necessidade que há da honra e da consideração, todas essas paixões triunfariam
constantemente.
É necessário ler as causas célebres, a história dos tempos da anarquia para saber o que há no
íntimo do homem, o que vale a sua moralidade! Esses milhares de entes que temos à vista, obrigandose
mutuamente a respeitar a paz, são outros tantos tigres e lobos, que um forte açamo impede de
morder. Suponha-se a força pública suprimida, o açamo tirado, recuar-se-ia de medo ante o espetáculo
que se teria à vista, e que todos imaginam facilmente; não é isto confessar quão pouco os homens se
fundam na religião, na consciência, na moral, seja qual for a sua base? Todavia, é então que, em face
dos sentimentos egoístas, antimorais, entregues a eles mesmos, se veria igualmente o verdadeiro
instinto moral do homem revelar-se, desenvolver o seu poder, e mostrar o que pode fazer; e ver-se-ia
que há tanta variedade nos caracteres morais como há variedades de inteligência, o que não é dizer
pouco.
* * *
Tem a consciência origem na natureza? Pode-se duvidar. Pelo menos, há também uma
consciência bastarda, conscientia spuria, que se confunde freqüentemente com verdadeira. A angústia
e o arrependimento causados pelos nossos atos não são muita vezes outra coisa senão o receio das
consqüências. A violação de certas regras exteriores, arbitrárias e mesmo ridículas desperta escrúpulos
perfeitamente análogos aos remorsos de consciência. É por este motivo que certos judeus ficarão
obsediado com a idéia de terem fumado o cachimbo em sua casa ao sábado, contrariamente a preceito
de Moisés, capítulo XXXV, parágrafo 3: "não se acenderá o lume no dia de sábado em vossas casas".
Certo fidalgo, certo oficial não se consola por haver faltado numa ocasião qualquer às regras desse
código dos loucos, que se chama ponto de honra, de tal modo que mais de um não lhe sendo possível
manter a sua palavra ou sa tisfazer as exigências do código da honra deu um tiro nos miolos.
(Conheço exemplos.) Todavia, esse mesmo homem, violará todos os dias, com a maior facilidade, a
sua palavra contanto que não tenha acrescentado este termo fatídico, este Schiboleth: pela honra.
Em geral uma inconsequência, uma imprevidência, qualquer ato contrário aos nossos projetos,
aos nossos princípios, às nossas convenções seja de que natureza forem, e mesmo qualquer
indiscrição, qualquer imperícia, qualquer grosseria, deixam após elas um verme que nos rói em
silêncio, um espinho enterrado no coração. Muita gente se espantaria, se visse os elementos de que se
compõe essa consciência, de que formam uma idéia tão grandiosa: cerca de 1/5 de medo dos homens;
1/5 de temores religiosos; 1/5 de preconceitos; 1/5 de vaidade; 1/5 de hábito; tanto valeria como o
inglês: Não sou assaz rico para ter o luxo de uma consciência: I cannot afford to keep a conscience.
* * *
Embora os princípios e a razão abstrata não sejam de modo algum a origem primitiva ou o
primeiro fundamento da moralidade, são contudo indispensáveis à vida moral; é como um reservatório
alimentado pela fonte de toda a moralidade, mas que não corre a todo instante, que se conserva, e no
momento útil pode espalhar-se onde se torna necessário... Sem princípios firmes, os instintos
antimorais, uma vez postos em movimento pelas expressões exteriores, dominar-nos-iam
imperiosamente. Manter a firmeza dos princípios, segui-los a despeito dos motivos opostos que nos
solicitam, é o que se chama ser senhor de si.
* * *
Os atos e o procedimento de um indivíduo e de um povo podem ser modificados pelos dogmas, pelo
exemplo, e pelo hábito: mas os atos considerados em si próprios são imagens vãs, é a disposição do
espírito que impele a praticá-los, que lhes dá uma importância moral. Esta pode conservar-se
absolutamente a mesma, embora tenha manifestações exteriores completamente diferentes. Com um
grau igual de maldade, um pode morrer no cadafalso, e outro acabar o mais sossegadamente possível
no meio dos seus. Pode o mesmo grau de maldade exprimir-se num povo por meio de atos grosseiros,
mortes, selvageria, num outro, suavemente e em miniatura por intrigas da corte, opressões e
velhacarias sutis de toda a espécie; o fundo das coisas é o mesmo. Poder-se-ia imaginar um Estado
perfeito, ou mesmo, talvez um dogma inspirando uma fé absoluta nas recompensas e nos castigos
depois da morte, que lograsse evitar todos os crimes: politicamente seria muito, moralmente não se
ganharia coisa alguma, só os atos seriam acorrentados e não a vontade. Os atos poderiam ser corretos,
a vontade permaneceria pervertida.
II
A PIEDADE
A piedade é esse fato admirável, misterioso, pelo qual vemos a linha de demarcação, que aos
olhos da razão separa totalmente um ser do outro, desaparecer e o não eu tornar-se de algum modo o
eu.
Só a piedade é o princípio de toda a justiça livre e de toda a caridade verdadeira. A piedade é
um fato incontestável da consciência do homem; é-lhe essencialmente própria e não depende de
noções anteriores, de idéias a priori, religiões, dogmas, mitos, educação e cultura; é o produto
espontâneo, imediato, inalienável da natureza, resiste a todas as provas, e mostra-se em todos os
tempos e em todos os países; em toda a parte é invocada com confiança, tão grande é a certeza de que
ela existe em todos os homens, e nunca é contada entre os "deuses estranhos". O ente que não conhece
a piedade está fora da humanidade, e essa mesma palavra humanidade é muitas vezes tomada como
sinônimo de piedade.
* * *
Pode-se objetar a toda a boa ação que nasce unicamente das convicções religiosas, que não é
desinteressada, que procede do pensamento de uma recompensa ou de um castigo que se espera, enfim
que não é puramente moral. — Considerando-se o móbil moral da piedade, quem ousaria contestar
que em todas as épocas, em todos-os povos, em todas as situações da vida, em plena anarquia, no
meio dos horrores das revoluções e das guerras, nas grandes como nas pequenas coisas, todos os dias,
a todas as horas, a piedade não prodigaliza os seus efeitos benéficos e verdadeiramente maravilhosos,
não impede muitas injustiças, não provoca de improviso mais de uma boa ação sem esperança de
recompensa, e que em toda a parte onde atua só, reconhecemos nela, com admiração e comoção, o
puro valor moral sem mistura?
* * *
Inveja e piedade, todos têm em si esses dois sentimentos diametralmente opostos; origina-os a
comparação involuntária, inevitável da nossa própria situação com a dos outros; segundo essa
comparação reage sobre cada caráter individual, um ou outro desses sentimentos torna-se uma
disposição fundamental e a origem dos nossos atos. A inveja só faz elevar, engrossar, consolidar o
muro que se erguia entre tu e eu; a piedade, pelo contrário, torna-o delgado e transparente, por vezes
derruba-o completamente, dissipa-se deste modo toda a diferença entre eu e os outros homens.
* * *
Quando travamos conhecimento com um homem, não tratamos de lhe pesar a inteligência, o
valor moral, o que nos levaria a reconhecer-lhe a maldade das intenções, a escassez da razão, a
falsidade dos raciocínios, e só nos despertaria desprezo e aversão: consideremos antes os seus
sofrimentos, misérias, angústias, dores e assim sentiremos quanto ele nos toca de perto; é então que
despertará a nossa simpatia e que em lugar de ódio e de desprezo, experimentaremos por ele essa
piedade, que é o único ágape a que o Evangelho nos convida.
* * *
Se considerarmos a perversidade humana e nos dermos pressa em nos indignar com ela, é
preciso imediatamente lançar os olhos sobre a miséria da existência humana e reciprocamente se a
miséria nos assusta, considerar a perversidade: achar-se-á então que se equilibram uma à outra, e
reconhecer-se-á a justiça eterna; ver-se-á que o próprio mundo é o julgamento do mundo.
* * *
A cólera, embora deveras legítima, acalma-se logo perante a idéia que aquele que nos ofendeu
é um desgraçado. O que a chuva é para o fogo, é a piedade para a cólera. Aconselho àquele que não
deseja preparar-se remorsos, que quando pense em vingar cruelmente uma injúria, imagine sob as
mais vivas cores a sua vingança já realizada, represente-se a sua vítima presa de sofrimentos físicos e
morais, em luta com a miséria e a necessidade e diga a si próprio: eis a minha obra. Se há alguma
coisa no mundo que possa extinguir a cólera, é com certeza este pensamento.
***
O que faz com que os pais tenham geralmente maior predileção pelos filhos doentes, é que a
sua aparência solicita incessantemente a piedade.
* * *
A piedade, princípio de toda a moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao
passo que nos outros sistemas de moral européia, têm para com ele pouquíssima responsabilidade e
solicitude. A suposta ausência de direitos dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento
para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais,
é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do Ocidente, cuja origem está no Judaísmo...
É preciso recordar, a esses desprezado-res dos animais, a esses ocidentais judaizados, que
assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que o amamentou.
A piedade com os animais está tão intimamente ligada com a bondade de caráter, que se pode
afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.
* * *
Uma piedade sem limites para com todos os seres vivos, é o penhor mais firme e seguro do
procedimento moral; isto não exige nenhuma casuística. Pode-se ter a certeza que aquele que a possui
nunca ofenderá ninguém, nem lhe causará dano nos seus direitos ou na sua pessoa: pelo contrário, será
indulgente para todos, perdoará a todos, prestará socorro ao seu semelhante na medida das suas forças,
e todos os seus atos terão o cunho da justiça e do amor pelo próximo. Tentem alguma vez dizer: "Este
homem é virtuoso, mas desconhece inteiramente a piedade", ou então: "É um homem injusto e mau,
contudo é muito sensível aos males alheios"; a contradição neste caso torna-se frisante. — Nem todos
têm os mesmos gostos; mas não conheço melhor súplica, do que aquela com que terminam as peças
antigas do teatro hindu, (como outrora as peças inglesas concluíam com estas palavras: "pelo rei").
É este o sentido:
"Que todos os seres vivos se conservem isentos de dores!"
II
RESIGNAÇÃO, RENÚNCIA, ASCETISMO E LIBERTAÇÃO
Quando a ponta do véu de Maia (a ilusão da vida individual) se ergue ante os olhos de um
homem, de tal modo que não faz já diferença egoísta entre a sua pessoa e os restantes homens, e toma
tanto interesse pelos sofrimentos estranhos como pelos seus próprios, tornando-se assim caritativo até
à dedicação, pronto a sacrificar-se pela salvação dos seus semelhantes — esse homem, chegado ao
ponto de se reconhecer a si mesmo em todos os seres, considera como seus os sofrimentos infinitos de
tudo quanto vive, e apodera-se desta maneira da dor do mundo. Nenhuma miséria lhe é indiferente.
Todos os tormentos que vê e tão raramente lhe é dado suavizar, todas as angústias de que ouve falar,
mesmo aquelas que lhe é possível conceber, perturbam-lhe o espírito como se fosse ele a vítima.
Insensível às alternativas de bens e de males que se sucedem no seu destino, livre de todo o
egoísmo, penetra os véus da ilusão individual; tudo quanto vive, tudo quanto sofre, está igualmente
junto do seu coração. Imagina o conjunto das coisas, a sua essência, a sua eterna passagem, os esforços
vãos, as lutas íntimas e os sofrimentos sem fim; para qualquer lado que se volte, vê o homem
que sofre, o animal que sofre, e um mundo que se desvanece eternamente. E une-se tão estreitamente
às dores do mundo como o egoísta à sua pessoa. Como poderia ele, com tão grande conhecimento do
mundo, afirmar com desejos incessantes a sua vontade de viver, prender-se cada vez mais
estreitamente à vida?
O homem seduzido pela ilusão da vida individual, escravo do egoísmo, só vê as coisas que o
tocam pessoalmente, e encontra aí motivos incessantemente renovados para desejar e querer; pelo
contrário, aquele que penetra a essência das coisas, que domina o conjunto, chega ao repouso de todo
o desejo e de todo o querer. Daí em diante a sua vontade desvia-se da vida, repele com susto os gozos
que a perpetuam. O homem chega então ao estado da renúncia voluntária, da resignação, da
tranqüilidade verdadeira, e da ausência absoluta de vontade.
Enquanto o mau, entregue pela violência da vontade e dos desejos a tormentos íntimos,
contínuos e devoradores, se vê reduzindo, quando se lhe esgota o manancial de todos os gozos, a
saciar a sede ardente dos desejos no espetáculo das desgraças alheias, o homem penetrado da idéia da
renúncia absoluta, seja qual for o seu desenlace, embora privado exteriormente de toda a alegria e de
todo o bem, goza contudo uma ventura completa e um repouso verdadeiramente celeste. Para ele, não
existe já o ardor febril, a alegria exuberante, essa alegria percebida e seguida de tantos desgostos,
condição inevitável da existência para o homem que tem gosto pela vida; o que ele experimenta, é
uma paz inabalável, um repouso profundo, uma serenidade íntima, um estado que não podemos ver ou
imaginar sem o desejarmos com ardor porque se nos assemelha o único, justo, infinitamente superior a
qualquer outro, um estado para o qual nos convidam e nos chamam o que há de melhor em nós e essa
voz íntima que nos brada: sapere aude. Sentimos então que todo o desejo realizado, toda a felicidade
arrancada à miséria do mundo, são como a esmola que hoje sustenta o mendigo, para que amanhã
morra de fome, enquanto a resignação é como um bem que se herdou, que coloca para sempre o feliz
possuidor ao abrigo dos cuidados.
* * *
Sabemos que os momentos em que a contemplação das obras de arte nos livra dos desejos
ávidos, como se pairássemos acima da atmosfera pesada da Terra, são ao mesmo tempo os mais
felizes que conhecemos.
Por aqui podemos deduzir a felicidade que deve experimentar o homem cuja vontade se acha
apaziguada, não por alguns instantes como no gozo desinteressado do belo, mas para sempre, e se
extingue mesmo inteiramente, de modo que só resta a última centelha de luz vacilante, que anima o
corpo e se extinguirá com ele. Quando esse homem, após muitos e rudes combates contra o seu
próprio temperamento, acaba por triunfar completamente, apenas existe como um ser puramente intelectual,
como um espelho do mundo que coisa alguma perturba. Daí em diante nada há que possa
causar-lhe angústia, que consiga agitá-lo; porque os mil laços do querer que nos mantêm acorrentados
ao mundo e nos atormentam em todos os sentidos com incessantes dores sob a forma de desejo, receio,
inveja, cólera, esses mil laços quebra-os ele. Lança um olhar para trás, tranqüilo e risonho, às
imagens ilusórias deste mundo que puderam um dia agitá-lo e torturar-lhe o coração; olha para elas
com tanta indiferença como para o xadrez, depois de finda a partida ou para as máscaras de carnaval
que se largaram de manhã e cujas figuras lograram irritar-nos ou perturbar-nos na noite de terça-feira
gorda. A vida e todas as formas passam-lhe diante dos olhos como aparição passageira, como um
ligeiro sonho matutino para o homem meio desperto, um sonho que a verdade trespassa já com os seus
raios e que nos não consegue iludir; e assim como um sonho a vida também por fim se desvanece, sem
transição brusca.
* * *
Se refletirmos como a miséria e os infortúnios são geralmente para a nossa libertação,
reconheceremos que deveríamos invejar menos a felicidade do que a desgraça dos nossos
semelhantes. É por esta razão que o estoicismo, que afronta o destino, é na verdade para a alma uma
espessa couraça contra as dores da existência e ajuda a suportar melhor o presente; mas opõe-se à
verdadeira salvação porque torna o coração endurecido. E como poderia o estóico tornar-se melhor
pelo sofrimento, se é insensível a ele sob a camada de pedra com que se cobre? — Até um certo grau,
este estoicismo não é muito raro. Muitas vezes não passa de uma pura afetação, de um modo de
dissimular o enfado; e quando é real, provém quase sempre da pura insensibilidade, da falta de
energia, de vivacidade, de sentimento e de imaginação, necessária para sentir uma dor.
Quem se mata quer a vida, só se queixa das condições sob as quais ela se lhe oferece. Náo
renuncia portanto à vontade de viver, mas unicamente à vida, de que destrói na sua pessoa um dos
fenômenos passageiros... É precisamente porque não pode cessar de querer que cessa de viver, e é
suprimindo em si o fenômeno da vida que afirma o seu desejo de viver. Porque era justamente a dor a
que se subtrai, que poderia, como mortificação da vontade, conduzi-lo à renúncia e à libertação.
Sucede àquele que se mata o mesmo que um doente- que, não tendo a energia precisa para deixar
terminar uma operação dolorosa mas salutar, preferisse continuar doente. O sofrimento suportado com
coragem permitir-lhe-ia suprimir a vontade; mas subtrai-se ao sofrimento, destruindo no corpo essa
manifestação da vontade, de tal modo que ela subsiste sem obstáculos.
* * *
Poucos homens, pelo simples conhecimento refletido das coisas, conseguem penetrar a ilusão
do príncipium individuationis, poucos homens possuidores de uma perfeita bondade de alma, de
caridade universal, chegam por fim a reconhecer todas as dores do mundo como as suas próprias, para
obterem a negação da vontade. Mesmo no que mais se aproxima deste grau superior, as
comodidades pessoais, o encanto fascinador do momento, a visão da esperança, os desejos
incessantemente renovados são um eterno obstáculo à renúncia, um eterno incentivo à vontade; donde
resulta que personificaram nos demônios infinidade de seduções que nos tentam e atraem.
Tem portanto a nossa vontade que ser quebrada por um imenso sofrimento, antes que chegue à
renúncia de si própria. Quando ela percorreu os graus da angústia, quando após uma suprema
resistência toca o abismo do desespero, o homem volta subitamente a si, conhece-se, conhece o mundo,
transforma-se-lhe a alma, eleva-se acima de si mesmo e de todo o sofrimento; então purificado,
santificado de algum modo num repouso, numa felicidade inabalável, numa elevação inacessível,
renuncia a todos os objetos dos seus apaixonados desejos, e recebe a morte com alegria. Como um
pálido clarão, a negação da vontade de viver, isto é, a libertação, jorra subitamente da chama
purificadora da dor.
Os próprios criminosos podem-se purificar por uma enorme dor; transformam-se inteiramente.
Os crimes passados deixam de lhes oprimir a consciência; contudo, estão prontos a expiá-los pela
morte e vêem de bom grado extinguir-se com eles esse fenômeno passageiro da vontade, que se lhes
tem tornado estranho e como um objeto de horror. No tocante episódio de Gretchen, Goethe ofereceunos
uma pintura incomparável e brilhante dessa negação da vontade causada por um imenso infortúnio
e pelo desespero. É um modelo perfeito dessa segunda maneira de atingir a renúncia, a negação da
vontade, não pelo puro conhecimento das dores do mundo inteiro às quais nos identificamos
voluntariamente, mas por uma dor esmagadora que nos acabrunhou.
* * *
Uma grande dor, uma grande desgraça podem obrigar-nos a conhecer as contradições da
vontade de viver consigo mesmo, e mostrar-nos nitidamente a inutilidade de todos os esforços. É por
este motivo que se têm visto muitas vezes alguns homens, depois de uma existência agitada de
paixões tumultuosas, reis, heróis, aventureiros mudarem subitamente, resignarem-se, arrependerem-se,
fazerem-se frades ou anacoretas. É este o assunto de todas as histórias de conversões autênticas, por
exemplo a de Raimundo Lúlio: um dia uma mulher que ele amava havia muito marcou-lhe enfim uma
entrevista em sua casa; ele entra no quarto, louco de alegria, mas a bela entreabrindo o vestido,
mostra-lhe um seio corroído por um medonho cancro. Desde esse momento, como se tivesse
entrevisto o inferno, converteu-se, abandonou a corte do rei de Maiorca, retirou-se para um deserto,
fez penitência.
A conversão de Rancé assemelha-se muito à de Raimundo Lúlio. Consagrara a mocidade a
todos os prazeres, e vivia por fim com uma dama de Monbazon. Uma noite, à hora da entrevista,
encontra o quarto vazio, escuro, em desordem: tropeça em qualquer coisa, era a cabeça da amante que
haviam separado do tronco; morrera subitamente, e não haviam conseguido meter o cadáver no caixão
de chumbo colocado ali perto. — Torturado por uma angústia sem limites, Rance tornou-se em 1663 o
Reformador da Ordem dos Trapistas, então completamente degenerada da sua antiga disciplina; em
pouco tempo elevou-a a essa grandeza de renúncia que ainda hoje vemos, a essa negação da vontade,
conduzida metodicamente através das mais duras privações, a essa vida de austeridade, de trabalhos
incríveis que penetra o estrangeiro de um santo horror, quando, entrando no convento, observa ato
contínuo a humildade desses verdadeiros frades que, extenuados de jejuns, de vigílias, de orações, de
trabalhos, se ajoelham diante dele, filho do mundo e pecador, pedindo-lhe a bênção. É entre o povo
mais alegre, mais divertido, mais sensual e mais leviano — será preciso nomear a França? — que essa
ordem, única entre todas, se manteve intacta através de todas as revoluções, e deve-se atribuir a sua
duração à seriedade profunda que não se pode deixar de reconhecer no espírito que anima, e que
exclui qualquer consideração secundária. A decadência da religião não a atingiu; porque as raízes
dessa ordem encontram-se nas profundidades da natureza humana bem mais do que num qualquer
dogma positivo.
* * *
Desviemos os olhos da nossa própria insuficiência, da mesquinhez dos nossos sentimentos e
preconceitos, para os erguermos para aqueles que venceram o mundo, para aqueles em que a vontade,
levada ao pleno conhecimento de si própria, se encontrou em todas as coisas e se negou livremente e
que esperam que os últimos clarões se apaguem com o corpo que os anima; vemos então, em lugar
dessas paixões irresistíveis, dessa atividade sem repouso, em vez dessa passagem incessante do desejo
ao receio e da alegria à dor, em vez da esperança que coisa alguma satisfaz e que nunca se sacia e se
dissipa, e de que é feito o sonho da vida para o homem subjugado pela vontade — vemos a paz,
superior a toda a razão, esse grande mar calmo do sentimento, esse sossego profundo, essa segurança
inabalável, essa serenidade, cujo único reflexo no rosto, tais como Rafael e Correggio no-lo pintaram,
é um completo evangelho no qual nos podemos fiar: só resta o conhecimento; a vontade desapareceu.
* * *
O espírito íntimo e o sentido da vida verdadeira e pura do claustro e do ascetismo em geral, é
sentirmo-nos dignos e capazes de uma existência melhor do que a nossa, e querermos fortificar e
manter esta convicção pelo desprezo de todos os vãos gozos deste mundo. Espera-se com segurança e
calma o fim desta vida, livre das ilusões enganadoras, para saudar um dia a hora da morte como a da
libertação.
* * *
Quietismo, isto é, renúncia a todo o desejo, ascetismo, isto é, imolação refletida da vontade
egoísta, e misticismo, isto é, consciência da identidade do seu ser com o conjunto das causas e o
princípio do universo, — três disposições da alma que se ligam estreitamente; quem fizer profissão de
uma é atraído para a outra, malgrado seu. — Não há nada mais surpreendente do que ver o acordo de
todos aqueles que nos pregaram estas doutrinas, através da extrema variedade dos tempos, dos países
e das religiões, e nada mais curioso do que a segurança inabalável como o rochedo, a certeza interior,
com que nos apresentam o resultado da sua experiência íntima.
* * *
Não é na verdade o Judaísmo com a sua máxima: “Deus viu todas as coisas que havia feito, e
estavam muito boas” (Moisés, 1, 31), mas o Bramanismo e o Budismo que pelo espírito e pela
tendência moral se aproximam do Cristianismo. O espírito e a tendência moral são o que há de
essencial numa religião, e não os mitos com que ela os envolve.
Essa máxima do Antigo Testamento é realmente estranha ao puro Cristianismo; porque em
todo o Novo Testamento trata-se do mundo como de uma coisa a que se não pertence, que se não ama,
de uma coisa que está sob o poder do diabo. Isto concorda com o espírito de ascetismo, de renúncia e
de vitória sobre o mundo, esse espírito que, junto ao amor do próximo e ao perdão das injúrias, marca
o traço fundamental e a estreita afinidade que unem o Cristianismo, o Bramanismo e o Budismo. É no
Cristianismo principalmente que é necessário sondar bem a fundo as coisas e não se contentar com as
aparências.
* * *
O Protestantismo eliminando o Ascetismo e o celibato, que é o seu ponto capital, atingiu a
própria essência do Cristianismo, e sob este ponto de vista pode ser considerado como uma apostasia.
Viu-se bem nos nossos dias quanto o Protestantismo degenerou a pouco e pouco num vulgar
racionalismo, espécie de pelagianismo moderno, que se resume na doutrina de um bom pai criando o
mundo para que aí se divirtam muito (no que se teria redondamente enganado); esse bom pai, sob
certas condições, promete também procurar mais tarde aos seus servos fiéis um mundo muito mais
belo, cujo único inconveniente é ter uma entrada tão funesta. Isto pode ser certamente uma boa
religião para padres protestantes casados e esclarecidos: mas não é esse o Cristianismo. O
Cristianismo é a doutrina que afirma que o homem é profundamente culpado pelo único fato de ter
nascido, e ensina ao mesmo tempo que o coração deve aspirar à libertação que só se pode obter à custa
de grandes sacrifícios, pela renúncia, pelo aniquilamento de si próprio, isto é, por uma transformação
total da natureza humana.
* * *
O otimismo não é mais do que uma forma de louvores que a vontade de viver, única e primeira
causa do mundo, concede sem razão a si mesma, quando se revê com gosto na sua obra: não é só uma
doutrina falsa, é uma doutrina corruptora, porque nos apresenta a vida como um estado desejável, e
dá-lhe como fim a felicidade do homem. Em vista disto, cada um imagina que possui os mais
justificados direitos à felicidade e ao gozo: se contudo esses bens, como sucede freqüentemente, lhe
não são dados em partilha, julga-se vítima de uma injustiça — não lhe falhou o fim da sua existência
— ao passo que é bem mais justo considerar o trabalho, a privação, a miséria e o sofrimento coroado
pela morte como o único alvo da nossa vida (assim fazem o Bramanismo, o Budismo e também o verdadeiro
Cristianismo), porque todos estes males conduzem à negação da vontade de viver. No Novo
Testamento, o mundo é representado como um vale de lágrimas, a vida como um meio de purificar a
alma, e o símbolo do Cristianismo é um instrumento de martírio.
* * *
A moral dos hindus tal como é apresentada do modo mais variado e mais enérgico nos Vedas,
nos Purana, pelos poetas, nos mitos e nas lendas dos santos, nas suas sentenças e regras de vida,
prescreve expressamente: o amor do próximo, com absoluto desprendimento de si mesmo, amor nao
so limitado aos homens mas a todos os seres vivos; a beneficência levada até ao abandono do salário
quotidiano obtido à custa de duro e pesado trabalho; uma bondade sem limites para com aquele que
nos ofende; o bem e o amor em troca do mal que nos façam por maior que seja; o perdão alegre e
espontâneo para todas as injúrias; a abstinência de todo o alimento animal; uma castidade absoluta e a
renúncia a todas as voluptuosidades para aquele que aspira à verdadeira santidade; o desprezo pelas
riquezas, o abandono da moradia, da propriedade; uma solidão profunda e absoluta, passada em muda
contemplação, junto a um arrependimento voluntário e sofrimentos lentos e horríveis para mortificar
absolutamente a vontade, a ponto de morrer de fome, entregar-se aos crocodilos, precipitar-se do cimo
de um rochedo de Himalaia, santificado por esse uso, enterrar-se vivo, lançar-se debaixo das rodas do
carro gigantesco, que passeia as imagens dos deuses, no meio de cantos, gritos de alegria e danças. E
estas prescrições, cuja origem data de mais de quatro mil anos, existem ainda no maior rigor entre esse
povo, por muito degenerado que se entempo entre tantos milhões de homens, uma prática que impõe
táo pesados sacrifícios, náo podem ser a invenção arbitrária de algum cérebro alucinado, devem ter
raízes profundas na própria essência da humanidade. — Acrescento que não se pode admirar assaz o
acordo, a perfeita unanimidade de sentimentos que se nota, se lermos a vida de um santo ou a de um
penitente cristão, e a de um hindu. Através da variedade, da oposição absoluta dos dogmas, dos
costumes, dos meios, do esforço, a vida íntima de um e de outro são idênticas.
Os cristãos místicos e os mestres da filosofia vedanta concordam ainda em considerarem como
supérfluas as obras exteriores e os exercícios religiosos para aquele que consegue atingir a perfeição.
Tão grande acordo entre povos tão diferentes, numa época muito remota, é uma prova evidente
de que se não trata aqui, como declaram os banais otimistas, de uma aberração, de um desequilíbrio do
espírito e dos sentidos; pelo contrário, é um lado essencial da natureza humana, um lado admirável,
que raramente se encontra e que se exprime neste ascetismo.
* * *
Assim considerando a vida dos santos, que sem dúvida raramente nos é dado encontrar e
conhecer por experiência própria, mas de quem a arte nos traça a história com uma verdade segura e
profunda, devemos dissipar a sombria impressão deste nada, que flutua com o último objetivo atrás de
toda a virtude e de toda a santidade, e que tememos, como a criança teme as trevas, em vez de
procurarmos escapar como os hindus, por meio de mitos e palavras destituídas de sentido, tais como a
ressorção no Brama, ou o Nirvana dos budistas. Reconhecemo-lo, o que resta após a supressão total da
vontade não é coisa alguma para todos aqueles que estão ainda cheios da vontade de viver, é o nada.
Mas também para aqueles nos quais a vontade chegou a desviar-se do seu fito, a negar-se a si mesma,
o nosso mundo que nos parece tão real como todos os seus sóis e as suas vias lácteas, o que é? Nada.
PENSAMENTOS DIVERSOS
A RELIGIÃO
A morte, mãe da religião — Necessidade metafísica — Necessidade de uma fé positiva —
insuficiência prática da moral religiosa — Catolicismo — Conflito da religião com a filosofia.
Não admite dúvida que é o conhecimento da morte a consideração do sofrimento e da matéria
da existência, que dão o impulso mais forte ao pensamento filosófico e às interpretações metafísicas
do mundo. Se a nossa existência fosse ilimitada e isenta de dores, talvez que nenhum homem tivesse
tido a idéia de perguntar a si próprio por que existe o mundo e se encontra constituído justamente
desta maneira; tudo se compreenderia por si mesmo. Também assim se explica o interesse que nos
inspiram os sistemas filosóficos e as religiões. Este poderoso interesse liga-se principalmente ao
dogma de uma duração qualquer após a morte; e se as religiões parecem cuidar acima de tudo da
existência dos seus deuses, e empregar todo o zelo a defendê-la, é unicamente porque ligam a essa
existência o dogma da imortalidade de que a consideram inseparável: só a imortalidade os preocupa.
Se fosse possível assegurar de outra maneira a vida eterna ao homem, o seu zelo ardente pelos deuses
esfriaria imediatamente, e daria até lugar a uma indiferença quase absoluta, desde que lhe fosse
mostrada com evidência a impossibilidade de uma vida futura... Por esse motivo os sistemas
completamente céticos ou materialistas nunca hão de exercer uma influência geral ou duradoura.
* * *
Templos e igrejas, pagodes e mesquitas, em todos os tempos, pela sua magnificência e
grandeza testemunham a necessidade metafísica do homem, que forte e indestrutível, segue passo a
passo a necessidade física. Poder-se-ia, é certo, querendo empregar o tom satírico, acrescentar que a
primeira necessidade é modesta e contenta-se com pouco. Fábulas grosseiras, contos para dormir em
pé, é quanto lhe basta muitas vezes: se as imprimirem bastante cedo no espírito do homem, essas
fábulas e essas lendas tornam-se as explicações suficientes da sua existência e os sustentáculos da sua
moralidade. Considere-se por exemplo o Alcorão: esse livro medíocre bastou para fundar uma religião
que, espalhada pelo mundo, satisfaz a necessidade metafísica de milhões de homens há mil e duzentos
anos, serve-lhes de fundamento à moral, inspira-lhes grande desprezo pela morte e entusiasmo pelas
guerras sangrentas e pelas vastas conquistas. Encontramos nesse livro a figura mais triste e miserável
do teísmo. Talvez tenha perdido muito com as traduções; mas não me foi possível descobrir aí um
único pensamento de algum valor. O que prova que a capacidade e a necessidade metafísica não
andam a par.
* * *
Não contente com os cuidados, as aflições e os embaraços que o mundo real lhe impõe, o
espírito humano crê ainda um mundo imaginário sob a forma de mil superstições diversas. Estas
ocupam-no de todas as maneiras; consagra-lhes o melhor do seu tempo e das suas forças, logo que o
mundo real lhe conceda um repouso que não é capaz de gozar. Pode verificar-se esse fato na sua
origem, entre os povos que, colocados sob um céu puro e num solo clemente, têm uma existência
fácil, tais como os hindus, depois os gregos, os romanos, mais tarde os italianos, os espanhóis, etc. —
O homem representa-se demônios, deuses e santos à sua imagem; exigem a todo o momento
sacrifícios, orações, ornamentos, promessas feitas e realizadas, peregrinações, prosternações, quadros,
adornos, etc. Ficção e realidade entremeiam-se ao seu serviço, e a ficção obscurece a realidade;
qualquer acontecimento da vida é aceito como uma manifestação do seu poder. Os colóquios místicos
com essas divindades preenchem metade dos dias, sustentam incessantemente a esperança; o encanto
da ilusão torna-os muitas vezes mais interessantes que a convivência dos seres reais. Que expressão e
que sintonia da miséria inata do homem, da urgente necessidade que ele tem de socorro e de
assistência, de ocupação e de passatempo! E, embora perca forças úteis e instantes preciosos em
súplicas e sacrifícios vãos em vez de se proteger a si mesmo, quando surgem perigos imprevistos, não
cessa contudo de se ocupar e distrair nesse exercício fantástico com um mundo de espíritos com que
sonha; é essa a vantagem das superstições, vantagem que não se deve desdenhar.
* * *
Para domar as almas bárbaras e desviá-las da injustiça e da crueldade, não é a verdade que se
torna útil, porque não lhes é dado concebê-la; é portanto o erro, um conto, uma parábola. Daí vem a
necessidade de ensinar uma fé positiva.
* * *
Quando se compara à prática dos fiéis a excelente moral que prega a religião cristã e mais ou
menos qualquer religião, e se representa o que seria dessa moral, se o braço secular não impedisse os
crimes, e o que teríamos que temer, se por um único dia se suprimissem todas as leis, há de confessarse
que a ação de todas as religiões sobre a moral é na realidade muito fraca. Certamente a culpa é da
fraqueza da fé. Teoricamente e enquanto se entregam às meditações pias, todos se julgam firmes na
sua fé. Mas o ato é a dura pedra de toque de todas as nossas convicções: quando se chega aos atos e se
torna necessário provar a fé por grandes renúncias e duros sacrifícios, é então que se vê surgir toda a
fraqueza. Quando um homem medita seriamente num delito, abre já uma brecha na moralidade pura.
A primeira consideração que em seguida o detém, é a da justiça e da polícia. Se passa adiante,
esperando subtrair-se-lhe, o segundo obstáculo que então se apresenta, é a questão de honra. Se o
transpõe, pode-se apostar que depois de haver triunfado dessas duas resistências poderosas, qualquer
dogma religioso não terá já a força precisa para o impedir de proceder. Porque se um perigo iminente,
seguro, não assusta, como se poderá recear um perigo distante e que só se funda na fé?
* * *
Na religião dos gregos a moral reduzia-se a bem pouco, tudo se limitava quase ao respeito pelo
juramento, não havia moral nem dogmas oficiais; contudo não vemos que a generalidade dos gregos
fosse moralmente inferior aos homens dos séculos cristãos. A moral do Cristianismo é infinitamente
superior a todas as outras religiões que jamais apareceram na- Europa, mas quem poderá crer que a
moralidade dos europeus melhorou na mesma proporção, ou seja atualmente superior à dos outros países;
isto constituiria um grande erro: porque se encontra entre os maometanos, os guebros, os hindus e
os budistas pelo menos tanta honestidade, fidelidade, tolerância, serenidade, benevolência,
generosidade, abnegação como entre os outros povos cristãos. Demais, seria longa a lista das bárbaras
crueldades que acompanharam o Cristianismo, cruzadas injustificáveis, exterminação de uma grande
parte dos habitantes primitivos da América e colonização dessa parte do mundo com escravos negros,
arrancados sem direito, sem a sombra de um direito, à pátria, à família, ao solo natal e condenados por
toda a vida a um trabalho de forçados, perseguição incansável dos heréticos, tribunais de inquisição
que bradam ao céu vingança, noite de S. Bartolomeu, execução de 18.000 holandeses pelo duque de
Alba, etc, etc...., outros tantos fatos pouco favoráveis que deixam na incerteza sobre a superioridade
do Cristianismo.
* * *
A religião católica é uma instrução para mendigar o céu, que seria muito incômodo merecer.
Os padres são intermediários dessa mendicidade.
* * *
A confissão foi um pensamento feliz; porque na verdade cada um de nós é um juiz moral
perfeito e competente, conhecendo exatamente o bem e o mal, e mesmo um santo, quando ama o bem,
detesta o mal. Isto é verdade com respeito a cada um de nós, contanto que o inquérito seja aos atos de
outrem e não aos nossos próprios, e que se trate apenas de aprovar e reprovar, e que os outros se
encarreguem da execução. Portanto qualquer um pode como confessor tomar absolutamente o lugar de
Deus.
* * *
As religiões são necessárias ao povo, e são para ele um benefício inapreciável. Mesmo quando
elas se querem opor ao progresso da humanidade no conhecimento do verdadeiro, é preciso desviá-las
com todas as atenções possíveis. Mas exigir que um grande espírito, um Goethe, uri) Shakespeare,
aceite convictamente impliciter, bona fide et sensu proprio, os dogmas de uma religião qualquer, é
exigir que um gigante calce o sapato de um anão.
* * *
Na realidade, qualquer religião positiva é a usurpadora do trono que pertence à Filosofia. Por
isso os filósofos hão de estar sempre em hostilidade com ela, embora tenham de a considerar como um
mal necessário, um amparo para a fraqueza mórbida do espírito da maior parte dos homens.
* * *
Deus, na nova filosofia, representa o papel dos últimos reis francos com os seus mordomosmores;
é apenas um nome que se conserva para maior proveito e comodidade, a fim de se assegurar
mais facilmente o caminho no mundo.
A POLÍTICA
O Estado, um acarno — O homem, um animal selvagem — Anarquia ou despotismo — O rei —
Impudência dos demagogos — Miséria inevitável — Bonaparte e Robespierre — Planos utopistas.
O Estado não é mais do que o açamo cujo fim é tornar inofensivo esse animal carnívoro, que é
o homem, e dar-lhe o aspecto de um herbívoro.
* * *
O homem no íntimo é um animal selvagem, uma fera. Só o conhecemos domesticado, domado,
nesse estado que se chama civilização: por isso recuamos assustados ante as explosões acidentais do
seu temperamento. Se caíssem os ferrolhos e as cadeias da ordem legal, se a anarquia rebentasse, verse-
ia então o que é o homem.
A organização da sociedade humana oscila como um pêndulo entre dois extremos, dois pólos,
dois males opostos: o despotismo e a anarquia. Quando mais se afasta de um, mais se aproxima do
outro. Surge então o pensamento que o justo meio seria o ponto conveniente: que erro! Esses dois
males não são igualmente nocivos e perigosos; o primeiro é muito menos para recear: em primeiro
lugar os golpes do despotismo só existem no estado de possibilidade, e, quando se traduzem em atos,
só atingem um homem entre milhões deles. Quanto à anarquia, possibilidade e realidade são
inseparáveis: os seus golpes ferem cada cidadão, o que sucede todos os dias. Por isso toda a
constituição se deve aproximar muito mais do despotismo que da anarquia: deve até conter uma
ligeira possibilidade de despotismo.
* * *
O rei em lugar do "Nós pela graça de Deus" poderia dizer mais justamente: "Nós de dois males
o menor." Porque sem rei as coisas não seguiriam bem; ele é a chave de abobada do edifício que sem
ele se desmoronaria.
***
Em toda a parte e em todo o tempo, tem havido grande descontentamento contra os governos,
as leis e as instituições públicas; é o resultado de estarem sempre dispostos a torná-los responsáveis da
miséria inseparável da existência humana, pois tem por origem, segundo o mito, a maldição que feriu
Adão e com ele toda a raça humana. Contudo nunca essa tendência injusta foi explorada de um modo
mais mentiroso e mais impudente do que pelos nossos demagogos contemporâneos. Estes, de fato, por
ódio ao Cristianismo, proclamam-se otimistas: aos seus olhos, o mundo não tem fim algum fora de si
mesmo, e, pela sua natureza, parece-lhes organizado na perfeição, uma verdadeira mansão de
felicidade. É aos governos somente que atribuem as misérias colossais do mundo que bradam contra
esta teoria; parece-lhes que, se os governos fizessem o seu dever, o céu existiria na Terra, isto é, todos
os homens poderiam sem trabalho e sem cuidados comer e beber à farta, propagar-se e morrer: porque
é isto o que eles entendem quando falam do progresso infinito da humanidade, de que fazem o fim da
vida e do mundo, e que não se cansam de anunciar em frases pomposas e enfáticas.
* * *
A raça humana é uma vez por todas e por natureza votada ao sofrimento e à ruína; embora
fosse possível com o auxílio do Estado e da história remediar a injustiça e a miséria ao ponto da Terra
se tornar uma espécie de país de Cocanha, os homens chegariam a disputar por aborrecimento,
precipitar-se-iam uns sobre os outros, ou então o excesso da população daria em resultado a fome e
esta destruí-los-ia.
* * *
É extremamente raro que um homem reconheça toda a sua horrorosa malícia no espelho das
usas ações. Demais, pensam realmente que Robespierre, Bonaparte, o imperador de Marrocos, os
assassinos que morrem no suplício, são os únicos maus entre todos? Não vêem que muitos fariam outro
tanto se pudessem?
Bonaparte, falando imparcialmente, não é pior que muitos homens, para não dizer a maior
parte dos homens. Apenas tem o egoísmo perfeitamente vulgar que consiste em procurar o seu bem à
custa dos outros. O que o distingue, é unicamente uma força superior para satisfazer essa vontade,
uma inteligência mais vasta, uma razão melhor, uma maior coragem, e o acaso deu-lhe além disso um
campo favorável. Graças a todas essas condições reunidas realizou para o seu egoísmo o que milhares
de outros bem gostariam, mas não lhes é dado fazer. Todo o garoto incorrigível que, pela maldade,
procura uma pequena vantagem em detrimento dos seus camaradas, embora seja insignificante o dano
que cause, é tão mau como Bonaparte.
* * *
Querem planos utopistas: a única solução do problema político e social seria o despotismo dos
sábios e dos nobres, de uma aristocracia pura e verdadeira, obtida por meio da geração, pela união dos
homens de sentimentos altamente generosos com as mulheres mais inteligentes e finas. Esta proposta
é a minha utopia e a minha república de Platão.
O HOMEM E A SOCIEDADE
O nosso mundo civilizado não passa de uma mascarada — Delicadeza — Amizade caricata — O cão,
único amigo do homem — Orgulho e vaidade — Isolamento do gênio.
As coisas passam-se no mundo como nas comédias de Gozzi em que aparecem sempre as
mesmas pessoas, com idênticas intenções e idêntico destino; o assunto e os fatos diferem sem dúvida
em cada intriga, mas o espírito dos acontecimentos é o mesmo, as personagens de uma peça também
nada sabem do que se passou na precedente, onde contudo também eram atores: por isso após toda a
experiência das comédias anteriores, Pantaleão não se tornou nem mais destro nem mais generoso,
nem Tartaglia mais honesto, nem Brighello mais corajoso, nem Colombina mais virtuosa.
* * *
O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada. Encontram-se aí cavaleiros,
frades, soldados, doutores, advogados, padres, filósofos, e que mais se encontra ainda? Não são,
porém, o que representam: são simples máscaras sob as quais se ocultam geralmente especuladores de
dinheiro (moneymakers). Um afivela a máscara da justiça e do direito com o auxílio de um advogado,
para ferir melhor o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a máscara do bem público e do
patriotismo; um terceiro o da religião, da fé imaculada. Para toda a espécie de desígnios secretos, mais
de um se ocultou sob a máscara da filosofia, como também da filantropia, etc. As mulheres têm menos
por onde escolher: servem-se a maior parte das vezes da máscara da virtude, do pudor, da
simplicidade, da modéstia. Há também máscaras gerais, sem caráter especial, como os dominós nos
bailes de máscaras e que se encontram em toda a parte: essas simulam a honestidade rígida, a
delicadeza, a simpatia sincera e a amizade caricata. Quase sempre, não há, como já disse, senão puros
industriais, comerciantes, especuladores debaixo de todas essas máscaras. Sob este ponto, de vista a
única classe honesta é a dos negociantes, porque se apresentam como são e passeiam de rosto
descoberto: por isso os colocaram no ponto inferior da escala.
* * *
O médico vê o homem em toda a sua fraqueza; o jurista vê-o em toda a sua maldade; o
teólogo, em toda a sua imbecilidade.
* * *
Assim como basta uma folha a um botânico para reconhecer toda a planta, assim como um
único osso era suficiente para Cuvier reconstruir todo o animal, assim um só ato característico da parte
de um homem pode fazer com que se chegue ao reconhecimento exato do seu caráter, e portanto
reconstituí-lo numa certa medida, embora se tratasse de uma coisa insignificante; nos casos
importantes, os homens acautelam-se, nas coisas pequenas, pelo contrário, seguem a sua índole sem
darem por isso. Se qualquer, a propósito de uma bagatela, mostra pelo seu procedimento egoísta, sem
a mínima consideração pelos outros, que o sentimento de jurista é estranho ao seu coração, ninguém
deve confiar-lhe o mais insignificante valor sem as necessárias garantias... Segundo o mesmo
princípio, é preciso romper imediatamente com essa gente que se intitula os bons amigos quando
traem, mesmo nas coisas mais fúteis, num caráter mau, falso ou vulgar, a fim de evitar quaisquer
partidas que possam pregar nos casos graves. Diria outro tanto dos criados: antes só que entre
traidores.
* * *
Deixar transparecer a cólera ou o ódio nas palavras ou no rosto é inútil, perigoso, imprudente,
ridículo, banal. Só se deve trair a cólera ou o ódio pelas ações. Os animais de sangue frio sáo os
únicos que têm peçonha.
* * *
Delicadeza é prudência, indelicadeza é estupidez: criar inimigos inutilmente e de peito feito é
loucura, é como quem deita fogo à própria casa. Porque a delicadeza é como os tentos do jogo, uma
moeda manifestamente falsa; ser econômico dessa moeda, é falta de espírito; ser pródigo, pelo contrário,
é dar prova de bom senso.
* * *
A nossa confiança nos homens não tem geralmente outras causas senão a preguiça, o egoísmo
e a vaidade: a preguiça, quando o aborrecimento de refletir, de vigiar, de proceder, nos leva a confiar
em alguém; o egoísmo, quando a necessidade de falar nos nossos negócios nos impele a fazer confidências;
a vaidade, quando temos qualquer coisa vantajosa a dizer a nosso respeito. Nem por isso
deixamos de exigir que honrem a nossa confiança.
* * *
É prudente dar a perceber algumas vezes a todos, homens e mulheres, que se pode muito bem
passar sem eles: este fato fortifica a amizade; e mesmo junto da maior parte dos homens, não é mau
mostrar de vez em quando na conversa um tal ou qual desdém a seu respeito; farão assim maior caso
da nossa amizade: chi non istima vien stimato, quem não estima é estimado, diz um provérbio italiano.
Se encontrarmos em alguém um grande valor real, devemos esconder-lhe a nossa descoberta como se
fosse um crime. Isto não é precisamente divertido; mas é assim mesmo. Os cães mal suportam a
grande amizade: menos ainda os homens podem fazê-lo.
* * *
O cão, o único amigo do homem, tem um privilégio sobre todos os outros animais, um traço
que o caracteriza, é esse movimento da cauda tão benévolo, tão expressivo e tão profundamente
honesto. Que contraste a favor dessa maneira de saudar que lhe deu a natureza, quando se compara
com as reverências e as horrorosas caretas que os homens trocam como sinal de delicadeza; essa prova
de terna amizade e de dedicação da parte do cão é mil vezes mais segura, pelo menos para o presente.
* * *
O que me torna tão agradável a companhia do meu cão, é a transparência do seu ser. — O meu
cão é transparente como o vidro. — Se não existissem cães, não gostaria de viver.
* * *
Não há nada que traduza melhor a ignorância do mundo do que alegar como uma prova dos
merecimentos e do valor de um homem o fato de ter muitos amigos: como se os homens concedessem
a amizade consoante o valor e o merecimento! como se não fossem antes semelhantes aos cães que
estimam aquele que os afaga ou lhes dá apenas ossos, sem maior solicitude. — Aquele que melhor
sabe afagar os homens, embora fossem os animais mais horrendos, é esse que tem muitos amigos.
* * *
"Nem amar, nem odiar", é metade da sabedoria humana: "nada dizer e nada crer" a outra
metade. Mas com que prazer se volta costas a um mundo que exige semelhante sabedoria.
* * *
Os amigos dizem-se sinceros; mas os inimigos é que o são: dever-se-ia portanto tomar-lhes a
crítica como um remédio amargo, e aprender com eles a conhecermo-nos melhor.
* * *
Pode suceder sentirmos a morte dos nossos inimigos e dos nossos adversários, mesmo passado
grande número de anos, quase tanto como a dos nossos amigos — é quando vemos que nos fazem
falta para serem testemunhas dos nossos brilhantes sucessos.
* * *
A diferença entre a vaidade e o orgulho consiste em que este é uma convicção bem firme da
nossa superioridade em todas as coisas; a vaidade pelo contrário é o desejo de despertar nos outros
esta persuasão, com a esperança secreta de chegar por fim a convencer-nos a nós mesmos.
* * *
O orgulho tem, pois, origem numa convicção interior e direta que se possui do próprio valor; a
vaidade procura apoio na opinião alheia para chegar à estima de si própria. A vaidade é faladora, o
orgulho silencioso. Mas o homem vaidoso deveria saber que a alta opinião dos outros, alvo dos seus
esforços, se obtém mais facilmente por um silêncio contínuo do que pela palavra, embora se tivessem
para dizer as coisas mais lindas. — Não é orgulhoso quem quer, o mais que se pode é simular o
orgulho, mas, como todo o papel de convenção, não logrará ser sustentado até ao fim. Porque é apenas
a convicção profunda, inabalável que se tem de possuir qualidades superiores e excepcionais, que dá o
verdadeiro orgulho. Esta convicção, embora seja errônea, ou fundada apenas em vantagens exteriores
e de convenção, em nada prejudica o orgulho, se é séria e sincera, porque o orgulho tem raízes na
nossa convicção, e não depende, assim como sucede com qualquer outro conhecimento, do nosso belprazer.
O seu pior inimigo, quero dizer o seu maior obstáculo, é a vaidade, que apenas solicita os
aplausos alheios para formar uma alta opinião de si mesma, enquanto o orgulho faz supor que esse
sentimento está já completamente arraigado entre nós. Há quem censure e critique o orgulho, esses
sem dúvida nada possuem de que se possam orgulhar.
* * *
A natureza é o que há de mais aristocrático no mundo: toda a diferença que a situação ou a
riqueza estabelece entre os homens na Europa e as castas na índia, é pequena em comparação com a
distância que sob o ponto de vista moral e intelectual a natureza marcou irrevogavelmente; e, na
aristocracia da natureza como nas outras aristocracias, há dez mil plebeus para um nobre e milhões
para um príncipe; a grande multidão é o todo, plebs, mob, rabble, a canalha.
Portanto, digamo-lo de passagem, os patrícios e os nobres da natureza deveriam como os dos
Estados misturar-se pouco com a plebe, e viver tanto mais afastados e inacessíveis quanto mais
elevados são.
* * *
A tolerância que muitas vezes se nota e se louva nos grandes homens é sempre resultado do
mais profundo desprezo pelo resto da humanidade: quando um grande espírito se compenetra deste
desprezo, deixa de considerar os homens como seus semelhantes, e de exigir deles o que se exige dos
semelhantes. Usa então para com eles a mesma tolerância que tem com os outros animais, aos quais
não temos que censurar a sem-razão nem a bestialidade.
* * *
Quem tem uma idéia da beleza quer física quer intelectual, não experimenta com a vista ou o
conhecimento novo desse ente que se chama o homem, outra impressão, cem vezes contra uma, a não
ser a de uma amostra completamente nova, verdadeiramente original e que nunca teria imaginado, de
um ente composto de fealdade, de insipidez, de vulgaridade, de perversão, de estupidez, de maldade.
Quando me encontro no meio de caras novas, recorda-me a tentação de Santo Antônio de Téniers e de
quadros análogos, onde a cada nova deformidade monstruosa que se me depara, admiro a novidade
das combinações imaginadas pelo pintor.
* * *
É a maldição do homem de gênio que, na própria medida em que ele parece aos outros grande
e admirável, estes lhe pareçam pequenos e mesquinhos. Contudo tem que calar toda a vida essa
opinião, como eles calam a sua. Entretanto é condenado a viver numa ilha deserta, onde não encontra
ninguém que se lhe assemelhe, e sem outros habitantes senão macacos e papagaios. E é ainda vítima
da ilusão, que lhe faz tomar de longe um macaco por um homem.
* * *
Devo confessá-lo sinceramente: a vista de qualquer animal regozija-me e satisfaz-me o
coração; principalmente os cães, e todos os animais em liberdade, pássaros, insetos, etc. Pelo
contrário, a presença dos homens excita quase sempre em mim uma pronunciada aversão; porque,
com poucas exceções, oferecem-me o espetáculo das deformidades mais horríveis e variadas: fealdade
física, expressão moral de paixões baixas e ambições desprezíveis, sintomas de loucura e de
perversidades de todas as espécies e grandezas; enfim uma corrupção sórdida, fruto e resultado de
costumes degradantes; desvio-me, portanto, deles e busco abrigo na natureza, feliz por encontrar aí os
animais.
*
* *

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