VERDADE | ABBAGNANO, Nicola

| domingo, 18 de abril de 2010
O conceito de V. como correspondência
é o mais antigo e divulgado. Pressuposto por
muitas das escolas pré-socráticas, o primeiro a
formulá-lo explicitamente foi Platão, na definição
do discurso verdadeiro feita em Crãtüa "Verdadeiro
é o discurso que diz as coisas como são;
falso é aquele que as diz como não são"











(gr. áW)0eia; lat. Ventas; in.
Truth; fr. Vérité, ai. Wahrheit; it. Venta). Validade
ou eficácia dos procedimentos cognoscitivos.
Em geral, entende-se por V. a qualidade em
virtude da qual um procedimento cognoscitivo
qualquer torna-se eficaz ou obtém êxito. Essa
caracterização pode ser aplicada tanto às concepções
segundo as quais o conhecimento é
um processo mental quanto às que o consideram
um processo lingüístico ou semiótico. Ademais,
tem a vantagem de prescindir da distinção
entre definição de V. e critério de V. Essa distinção
nem sempre é feita, nem é freqüente;
quando feita, representa apenas a admissão de
duas definições de V. P. ex., quando se faz a distinçào
entre teoria da correspondência e critério
de V., este é definido como evidência recorrendo-
se ao conceito de V. como revelação, e a
teoria da V. como conformidade a uma regra,
apresentada por Kant como critério formal ao
lado do conceito de V. como correspondência,
torna-se então uma definição da própria V.
É possível distingtiir cinco conceitos fundamentais
de V.: 1B a V. como correspondência;
2- a V. como revelação; 3Q a V. como conformidade
a uma regra; 4- a V. como coerência; 5-Q a V.
como utilidade. Essas concepções têm importâncias
diferentes na história da filosofia: as duas
primeiras, em especial a primeira, sem dúvida
são as mais difundidas. Não são nem mesmo
alternativas entre si: é possível encontrar mais
de uma no mesmo filósofo, embora usadas
com propósito diferente. No entanto, por serem
díspares e mutuamente irredutíveis, devem
ser consideradas distintas.
le O conceito de V. como correspondência
é o mais antigo e divulgado. Pressuposto por
muitas das escolas pré-socráticas, o primeiro a
formulá-lo explicitamente foi Platão, na definição
do discurso verdadeiro feita em Crãtüa "Verdadeiro
é o discurso que diz as coisas como são;
falso é aquele que as diz como não são" (Crat.,
385 b; v. Sof., 262 e; Fil, 37 c). Por sua vez,
Aristóteles dizia: "Negar aquilo que é e afirmar
aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que
é e negar o quevnão é, é a verdade" (Met., IV,
7. 1011 b 26 ss.; v. V, 29, 1024 b 25). Aristóteles
enunciava também as duas teses fundamentais
dessa concepção de verdade. A primeira é que
a V. está no pensamento ou na linguagem, não
no ser ou na coisa (Met,, VI, 4, 1027 b 25). O segundo
é que a medida da V. é o ser ou a coisa,
não o pensamento ou o discurso: de modo que
uma coisa não é branca porque se afirme com
V. que ela assim é, mas afirma-se com V. que
ela é branca porque é (Met., IX, 10, 1051 b 5).
Nas doutrinas anteriores a definição de V. e
o critério de V. coincidem. Em outras doutrinas,
mesmo mantendo-se fixa a definição de V., o
critério de V. é considerado diferente; é o que
acontece no estoicismo e no epicurismo. Estóicos
e epicuristas continuam admitindo que a V.
é a correspondência entre o conhecimento e a
coisa (SEXTO EMPÍRICO, Adv. math., VIII, 38; II, 9),
VERDADE 995 VERDADE
mas julgam que o critério da V. é diferente, porque
para os estóicos ele está na representação
catalépticaiv.), que é a manifestação do objeto
para o homem, enquanto para os epicuristas
ele está na sensação, que é o próprio manifestar-
se da coisa (DIÓG. L, X, 31 )• Nesses casos,
a distinção entre V. e critério eqüivale a reconhecer
dois conceitos de V., considerados compatíveis
(ou não incompatíveis).
Ademais, a coexistência de dois conceitos
de V. não é rara. Muitas vezes a teoria da correspondência
é acompanhada pela teoria da V.
como manifestação ou revelação. S. Agostinho,
por um lado, define a verdade como "aquilo
que é como aparece" (Solíl, II, 5) e por outro
considera como V. "aquilo que revela o que é,
ou que se manifesta a si mesmo"; nesse sentido,
identifica a V. com o Verbum ou Logos, que
é a primeira manifestação imediata e perfeita
do ser, ou seja, de Deus (De vera rei, 36). Por
sua vez, S. Tomás, retomando uma definição
de Isaac Ben Salomon, do século IX, define a
V. como ''adequação entre o intelecto e a coisa"
(S. 'lh., I, cj. 16, a. 2; Contra Gent., I, 59; De ver.,
q. I, a. I), mas, ao mesmo tempo em que mantém,
com relação ao homem, a tese aristotélica
de que as coisas — e não o intelecto — são a
medida da V. inverte essa tese no que diz respeito
a Deus: "O intelecto divino é mensurante,
e não mensurado; a coisa natural é mensurante e
mensurada, mas o nosso intelecto é mensurado,
e não mensurante, em relação às coisas
naturais; é mensurante só em relação às coisas
artificias" {De ver, q. I, a. 2). Portanto, existe
também uma V. das coisas, que é aquilo em
virtude do que as coisas se assemelham ao seu
princípio, que é Deus; nesse sentido Deus é a
primeira e suprema V. (S. Th., I, q. 16, a. 5). Esses
conceitos são freqüentes na filosofia medieval.
O conceito de V. como correspondência é amplamente
empregado. Pedro Hispano (Summ.
log., 3.34), Herveus Natalis (Quodl, III, I), Antônio
Andréa {Super artem veterem, ed. 1508, f.
45rA) mantêm a teoria da V. como conformidade
entre intelecto e coisa, embora polemizando
sobre o modo de ser da coisa, ou mais exatamente
dos objetos aos qviais o intelecto deve
conformar-se. Em geral, na Escolástica da segunda
metade do séc. XIII e na do XIV. especifica-
se que a "coisa" à qual o intelecto deve
conformar-se é a "res íntellecta", isto é, a coisa
como é apreendida pelo intelecto, não exterior
ao próprio intelecto (v. Também DURAND DK
SAINT-POURÇAIN, In Senl., I, d. 19, q. 5). O conceito
de adequação ou conformidade, porém,
perde alcance metafísico e teológico para assumir
significado estritamente lógico ou, como
hoje se diria, semântico. A identificação polêmica,
defendida por Ockham, entre "V." e "proposição
verdadeira" eqüivale propriamente à negação
do valor metafísico da palavra V. (Summa
log., I, 43; Quodl., V. q. 24). Os platônicos de
Cambridge mantêm, por motivos óbvios, o
caráter metafísico e teológico da noção de correspondência,
falando de conformidade da coisa
consigo mesma ou com a sua essência contida
rio intelecto divino (v. HERBHRT DE CHERBURY, De
Veritate, 1656, pp. 4 ss.), mas Hobbes insiste no
ponto de vista nominalista da V. como simples
atributo das proposições (De corp., 3. § 7); isso
também foi feito por Locke (Ensaio, II, 32.
3-19) e até por Leibniz, que rejeita a noção
metafísica de V. como "atributo do ser" e limita-
se a ver na V. "a correspondência das proposições,
que estão no espírito, com as coisas das
quais se trata" (Nouv. ess., IV, 5. 11). Wolff unia
O conceito de V. como "concordância do nosso
juízo com o objeto, ou seja, com a coisa representada"
(Log., § 505) — que ele chamava de
definição nominal da V. — com a noção lógica
da V. como "determinabilidade do predicado
por meio da noção do sujeito" — que ele chamava
de definição reaKLbid., § 513). Baumgarten
retornava à noção de V. metafísica como "orclem
da multiplicidade na unidade" (Met., § 89),
enquanto Kant declarava pressupor simplesmente
a "definição nominal da V." como "acordo
do conhecimento com o seu objeto", e propunha
o problema de encontrar um critério
para a V. Excluindo a possibilidade de um critério
geral, válido para qualquer conhecimento, ele
se detinha no critério formal da V., que é a conformidade
do conhecimento com as suas regras
(Crít. R. Pura, Lógica, Intr., III; v. adiante).
Esse conceito de V. como correspondência nunca
esteve ausente, nem na filosofia mais recente,
pela qual às vezes é assumido como simples
pressuposto, às vezes explicitamente defendido.
Isso aconteceu especialmente nas correntes
realistas (v., p. ex., BOL7.ANO, Wissenschaftslehre,
I, § 25; A. MEINONG, Über Annabmen,
pp. 125 ss.). Exatamente no espírito do realismo,
N. Hartmann defendeu a concepção da V.
como "coincidência com um objeto que deve
ser entendido como tal" (Systematische Philosophie,
§ 9). Hartman estende o conhecimento
VERDADE 996 VERDADE
como "reflexão do ser sobre si mesmo" (Metaphysik
der Erkenntnis, 1921, cap. 27, b).
Os lógicos contemporâneos também recorrem
à doutrina da correspondência, procurando
formulá-la de tal modo que ela seja independente
de qualquer hipótese metafísica. Deste
ponto de vista, quem melhor formulou essa
teoria foi Alfred Tarski, que retomou explicitamente,
além da definição aristotélica acima,
também algumas definições análogas ou dependentes
delas, como aquela segundo a qual
"um enunciado é verdadeiro quando designa um
estado de coisa existente" (B. RUSSELL, An Inquiry
ínto Meaning and Truth, 1940, pp. 362 ss.).
Tarski partiu de uma equivalência do seguinte
gênero: "O enunciado 'a neve é branca' é verdadeiro
se, e somente se, a neve for branca",
para generalizá-la na fórmula: "X é verdadeiro
se, e somente se, p". Utilizando a noção semântica
de satisfação entendida como a relação
entre objetos arbitrários e determinadas expressões
chamadas de "funções enunciativas"
do tipo "xé branco", "xé maior que y", etc,
Tarski chegou à seguinte definição de V.: " Um
enunciado será verdadeiro se for satisfeito por
todos os objetos; caso contrário, será falso".
Tarski salientou o fato de que a noção semântica
de V. (como ele a chamou e como habitualmente
se chama) nada implica quanto às
condições nas quais um enunciado como "a
neve é branca" pode ser asseverado. Indica só
que, sempre que afirmamos ou rejeitamos esse
enunciado, deveremos estar prontos a afirmar
ou rejeitar o enunciado correlativo "O enunciado
'a neve é branca' é verdadeiro". Desse modo,
ele considera que o conceito semântico de V.
pode conciliar-se com qualquer atitude epistemológica,
sendo neutro em relação a qualquer
concepção realista ou idealista, empirista
ou metafísica do conhecimento (The Semantic
Conception of Truth", 1944, em Readings in
Phüosophical Analysís, 1949, pp. 52-84; a concepção
de Tarski foi exposta pela primeira vez
num texto polonês de 1933. traduzido para o
alemão em Studia philosopbica, de 1935. pp.
261-405). Carnap aceitava essa concepção-da
verdade, mas ressaltava que ela diferia fundamentalmente
dos conceitos de crença, verificação,
confirmação, etc. (Intmductiori to Semantics,
§ 7). M Black enfatizou a insignificância filosófica
dela (Language and Philosophy, IV, § 8).
2" A segunda concepção fundamental de V.
considera-a como revelação ou manifestação.
Tem duas formas fundamentais: uma empirista
e outra metafísica ou teológica. A forma empirista
consiste em admitir que a V. é o que se revela
imediatamente ao homem, sendo, portanto,
sensação, intuição ou fenômeno. A forma metafísica
ou teológica afirma que a V. se revela em
modos de conhecimento excepcionais ou privilegiados,
por meio dos quais se torna evidente
a essência das coisas, seu ser ou o seu princípio
(Deus). A característica fundamental dessa
concepção é a ênfase dada à evidência, assumida
ao mesmo tempo como definição e critério
da verdade. Mas a evidência, obviamente,
nada mais é que revelação ou manifestação.
No sentido empirista, a V. era considerada
como revelação pelos cirenaicos, que viam nas
sensações a própria evidência das coisas (SEXTO
EMPÍRICO, Adv. math., VII, 199-200), pelos
epicuristas, que consideravam a sensação como
o critério da V. (DIÓG. L, X, 31-32), e pelos
estóicos, para os quais esse critério estaria na
representação cataféptica (v.) (DiÓG. L, VII,
54). Em Ockham, a noção de conhecimento
intuitivo é a noção de manifestação imediata
das coisas para o homem (das coisas em seus
caracteres e nas suas relações) (In Sent., Prol.,
q. I, Z). No mesmo espírito, Telésio dizia que as
coisas "retamente observadas manifestam por
si mesmas a grandeza que cada uma tem, bem
como sua capacidade, suas forças, sua natureza";
para ele, a sensação era essa revelação imediata
das coisas (Derer. nat., I, Proem.). Em geral
todas as doutrinas que confiam à sensibilidade
o conhecimento das coisas tendem a discernir
na sensibilidade a revelação da natureza das
coisas e identificam com tal revelação a própria
verdade ou o critério de verdade.
Por outro lado, da própria interpretação metafísica
ou teológica da V. como correspondência
nasce o conceito de V. como manifestação do
ser ou do princípio supremo. Plotino dizia: "A
verdade verdadeira não está de acordo com
outra coisa, mas de acordo consigo mesma: ela
não enuncia nada fora de si, mas enuncia o que
ela mesma é" (Enn., V, 5, 2). Nesse sentido,
a V. é hipostasiacla: não é o caráter formal de
certos procedimentos cognoscitivos, mas princípio
metafísico ou teológico que tem a mesma
substancialidade e a mesma dignidade do princípio
que nela se manifesta, ou seja. Deus. Esse
conceito é tema de numerosas especulações na
filosofia patrística e escolástica. S. Agostinho afirma
dever existir uma natureza que esteja tão
VERDADE 997 VERDADE
próxima da unidade que a reproduz em tudo e
é una com ela; essa natureza é a V. ou Verbo
de Deus (De vera rei, 36). É comum na Escolástica
a doutrina de que a verdade é o próprio intelecto
ou Verbo de Deus (ANSELMO, De Veritate,
14; S. TOMÁS, De ver., q. I, a. 4).
Mais tarde, o mesmo conceito de V. como
revelação levou a reconhecer, com base no critério
de evidência, a existência de V. eternas.
Descartes viu no cogito(y) a evidência originária,
pela qual a existência do sujeito pensante se
revela ao próprio sujeito pensante, e considerou
que deveria ser considerado como verdadeiro
tudo o que se manifesta de modo evidente.
No âmbito do que se manifesta desse modo,
Descartes pôs as V. eternas, estabelecidas
e garantidas pela imutabilidade de um decreto
de Deus (Méd., IV; Princ.phil., I, 49). Segundo
Descartes, as V. eternas são garantidas e
reveladas diretamente por Deus, e por isso
sào eternas (Repouses, IV, 4). Assim também
pensava Malebranche, embora para ele, ao contrário
de Descartes, elas não seriam postas, mas
simplesmente reconhecidas e validadas por Deus
(Recbercbe de Ia véríté, X éclairissement). Mas
o conceito da V. como revelação foi muito prezada
pelo Romantismo, que, em seu aspecto
essencial, poderia ser classificado como filosofia
da revelação (v. ROMANTISMO). Hegel dizia:
"A idéia é a V.: porque a V. é a correspondência
entre a objetividade e o conceito. Não no sentido
de que se as coisas externas correspondem
às minhas representações: estas sào, nesse caso,
apenas representações exatas que eu tenho
como indivíduo. Mas no sentido cie que todo
o real, enquanto verdadeiro, é a idéia e só tem V.
por meio da idéia e nas formas da idéia" (Ene,
§ 213). Em outros termos, a Idéia é "a objetividade
do conceito", a racionalidade do real,
mas à medida que se manifesta à consciência
na sua necessidade, ou seja, como saber ou ciência
(System der Phüosophie, ed. Glockner, I, p.
423: Wissenschaft der Logik, ed. Glockner, II,
p. 275): e o saber e a ciência sào a automanifestaçào
da Idéia, vale dizer, sua autêntica e completa
revelação.
Como meio-termo entre a forma empírica e
a forma teológica dessa concepção de V., está
a concepção fenomenológica e existencialista.
A fenomenologia é, segundo conceito próprio,
um método que possibilita às essências manifestar-
se ou revelar-se como tais. A epochéiy.)
fenomenológica, ao pôr entre parênteses a atitude
naturalista que consiste em afirmar a realidade
das coisas no mundo, tende a possibilitar
que as próprias coisas manifetem sua essência.
Desse ponto de vista, a V. é a evidência com
que os objetos fenomenológicos se apresentam
quando a epoché é efetuada (Ideen, I,
§ 136). Portanto, segundo Husserí, V. e evidência
pertencem não só aos objetos teóricos, mas a
todos os objetos da consideração fenomenológica,
sejam eles valores, sentimentos, etc. (Ibid.,
§ 139). Por sua vez, Heidegger insistiu no caráter
de revelação ou de descobrimentoái V, recorrendo
inclusive à etimologia da palavra grega. Assim,
por um lado insistiu no nexo estreito entre o
modo de ser da V. e o modo de ser do homem,
ou ser-aí, porquanto só ao homem a V. pode
revelar-se e revela-se (Sein nnd Zeit, § 44). Por
outro lado, insistiu na tese de que o lugar da V.
não é o juízo, e que a V. não é uma revelação de
caráter predicativo, mas consiste no ser descoberto
do ser das coisas, ou das próprias coisas, e no ser
descobridor do homem (Ibid., § 44 b; v. Vom
Wesen cies Gntndes, I, trad. it., p. 20). Heidegger,
porém, também ressaltou o fato de que cada
descobrimento do ser, por ser parcial, também
é um cobrimento dele; esse tema é recorrente
sobretudo nos seus textos do segundo período.
"O ser subtrai-se, ao mesmo tempo em que se
revela, ao ente. Desse modo o ser, ao iluminar
o ente, desencaminha-o ao mesmo tempo para o
erro" ÍHolzwege, p. 310).
5" A terceira concepção considera a V. como
conformidade com uma regra ou um conceito. O
primeiro a enunciar essa noção foi Platão. "Ao
tomar como fundamento o conceito que considero
mais sólido, tudo o que me pareça estar de
acordo com ele será por mim posto como verdadeiro,
quer se trate de causas, quer se trate de
outras coisas existentes; o que não me pareça
de acordo com ele será por mim posto como
não verdadeiro" (Fed., 100 a). Essa concepção
reaparece esporadicamente na história da filosofia.
S. Agostinho afirmava que "acima da nossa
mente há uma lei chamada V." e que nós
podemos julgar todas as coisas em conformidade
com essa lei, que no entanto escapa a qualquer
juízo (De vera rei., 3O-3D. Na literatura
de inspiração agostiniana, esse tema retorna
com freqüência, porém a mais importante expressão
deste conceito de V. encontra-se em
Kant. Este, de fato, não se vale dessa noção para
a definição da V. (pois como dissemos, ele declara
pressupor a definição nominal da. V., que
VERDADE 998 VERDADE
é a da correpondência), mas como critério de
V. Segundo Kant, o critério pode referir-se só à
forma da V., ou seja, do pensamento em geral,
e consiste na conformidade com "as leis gerais
necessárias do intelecto". "O que contradiz essas
leis" — afirma Kant — "é falso, porque o
intelecto nesse caso contradiz suas próprias
leis, portanto a si mesmo." Todavia, esse critério
formal não basta para estabelecer a verdade
material, ou objetiva, do conhecimento; aliás, a
tentativa de transformar esse cânone de avaliação
formal em órgão de conhecimento efetivo
não passa de uso dialético, ou seja, ilusório da
razão (Cn?. R. Pura, Lógica, Intr., III; Logík, Intr.,
VII). Esse critério foi acolhido e acentuado
pelos neokantianos, sobretudo pelos da Escola
de Baden. Windelband considerava que o objeto
do conhecimento, aquele que mede e determina
a V. do conhecimento, não é uma realidade
externa (que como tal seria inalcançável e
incognoscível), mas a regra intrínseca do próprio
conhecimento (Prãhuiien, 1884, 4- ed., 1911,
passim). Rickert identificava o objeto do conhecimento
com a norma à qual o conhecimento
deve adequar-se para ser verdadeiro
(Der Gegenstad der Erkenntnis, 1892). Nesses
neokantianos, a conformidade com a regra —
que Kant propusera simplesmente como critério
formal de V. — torna-se a única definição
de V.
4- A noção de V. como coerência aparece
no movimento idealista inglês da segunda metade
do séc. XIX e é compartilhada por todos
os que participaram desse movimento na Inglaterra
e nos Estados Unidos. Aparece pela primeira
vez em Lógica ou morfologia do conhecimento
(1888) de B. Bosanquet, mas sua difusão se
deve à obra de F. H. Bradley, Appearance and
Reality (1893)- A crítica de Bradley ao mundo
da experiência humana partia do princípio de
que aquilo que é contraditório não pode ser
real; isso o levava a admitir que V. ou realidade
é coerência perfeita. A coerência, porém, atribuída
à realidade última, ou seja, à Consciência
Infinita ou Absoluta, não é simples ausência de
contradição; é abolição de qualquer multiplicidade
relativa e forma de harmonia que não se
deixe entender nos termos do pensamento humano
(Appearance and Reality, 2a ed., 1902,
pp. 143 ss.). Segundo Bradley, os graus de verdade
que o pensamento humano alcança podem
ser julgados e classificados segundo o
grau de coerência que possuam, embora essa
coerência seja sempre aproximativa e imperfeita
(Ibid., p. 362). Esses conceitos aparecem em
grande número de pensadores da mesma tendência
(v. IDEALISMO), sem que a noção de coerência
seja por isso modificada ou esclarecida
(v. COERÊNCIA). OS precedentes dessa doutrina
não estão tanto em Hegel (a quem, todavia, os
idealistas ingleses se referiam com mais freqüência),
mas em Spinoza. Na realidade, não
passa de transcrição daquilo que Spinoza chamava
de "terceiro gênero de conhecimento" ou
"amor intelectual por Deus": conhecimento da
ordem total e necessária das coisas, que Spinoza
identificava com o Deus {Et., V, 25).
5Q A definição da V. como utilidade pertence
a algumas formas da filosofia da ação, especialmente
o pragmatismo. Mas o primeiro a
formulá-la foi Nietzsche: " Verdadeiro em geral
significa apenas o que é apropriado à conservação
da humanidade. O que me faz perecer
quando lhe dou fé não é verdade para mim: é
uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser
com as coisas externas" (.Wille zurMacht, ed.
Króner, 78, 507). Foi o pragmatismo que difundiu
essa noção, defendida primeiramente por
W. James. Este, porém, identificou utilidade e
V. só nos limites das crenças empiricamente
não verificáveis ou não demonstráveis, tais como
as morais e as religiosas (The Will to Believe,
1897). A equação entre utilidade e V. foi
estendida a toda a esfera do conhecimento por
E. C. S. Schiller (Humanism, 1903 e textos seguintes).
Desse ponto de vista, uma proposição,
qualquer que seja o campo a que pertença,
só é verdadeira pela sua efetiva utilidade,
ou seja, por ser útil para estender o conhecimento
ou para, por meio deste, estender o domínio
do homem sobre a natureza, ou então por
ser útil à solidariedade e à ordem do mundo
humano. Critério semelhante foi apresentado
por H. Vaihinger em Filosofia do comose(Philosophíe
des Ais, 1911) e divulgado por M. De
Unamuno em Vida de Don Quijote y Sancho
(1905) (v. PRAGMATISMO). Talvez se possa entrever
uma forma diferente dessa mesma concepção
na tese de Dewey, da instrumentalidade
dos procedimentos cognoscitivos e do conhecimento
em seu conjunto, com vistas ao aperfeiçoamento
da vida humana no mundo. Contudo,
em Dewey não se encontra a definição de
V. como utilidade, mas apenas a afirmação do
caráter instrumental — portanto válido, mas
não verdadeiro — das proposições (Logic, XV,
trad. it., p. 382-83) (v. VALIDADE).









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