SONHOS E OCULTISMO | S. FREUD

| quinta-feira, 4 de março de 2010
Toda uma série de afirmações ocultistas têm o mesmo tipo de efeito que a hipótese da geléia, de modo que nos consideramos justificados ao rejeitá-las à primeira vista, sem outras investigações. Ainda assim, a situação não é tão simples. Uma comparação como a que escolhi, nada prova, ou prova tão pouco quanto as comparações em geral. Permanece duvidoso se ela é procedente, e é claro que sua escolha já foi determinada por nossa atitude de rejeição desdenhosa. Os preconceitos, às vezes, são convenientes e justificados; mas, às vezes, são errôneos e prejudiciais, e jamais se pode dizer quando são uma coisa ou outra.












SENHORAS E SENHORES:

Hoje, prosseguimos através de um caminho estreito, mas que nos pode conduzir a uma perspectiva ampla.
Dificilmente ficarão surpresos com a notícia de que vou falar-lhes sobre a relação entre sonhos e ocultismo. Os sonhos, na verdade, freqüentemente têm sido considerados como o portão de entrada para o mundo do misticismo, e, mesmo hoje em dia, são vistos por muitas pessoas como fenômeno oculto. Até nós próprios, que os transformamos em tema de estudo científico, não impugnamos o fato de que um ou mais fios os vinculam a essas matérias obscuras. Misticismo, ocultismo — que significam essas palavras? Os senhores não devem esperar que eu faça alguma tentativa de abarcar essa mal-circunscrita região com definições. Todos nós sabemos, de um modo genérico e indefinido, o que essas palavras significam para nós. Referem-se a alguma espécie de ‘outro mundo’, situado além deste mundo visível, governado por leis imutáveis, construído para nós pela ciência.
O ocultismo afirma que existem, de fato, ‘mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia’. Pois bem, não precisamos nos sentir amarrados pela estreiteza de vistas da filosofia acadêmica; estamos prontos a acreditar naquilo que nos é demonstrado de forma a merecer crédito.
Propomos lidar com essas coisas da mesma forma como o fazemos com qualquer outro material científico: antes de mais nada, estabelecer se se pode realmente demonstrar que tais eventos acontecem, e então, e somente então, quando sua natureza factual não pode ser posta em dúvida, dedicar-nos à sua explicação. Não se pode negar, entretanto, que mesmo o colocar em ação essa decisão se faz difícil para nós, devido a fatores intelectuais, psicológicos e históricos. O caso não é o mesmo quando abordamos outras investigações.
Em primeiro lugar, a dificuldade intelectual. Permitam-me que lhes dê uma explicação chã e óbvia do que tenho em mente. Suponhamos que a questão em referência seja a constituição do interior da Terra. Conforme os senhores estão cientes, não temos um conhecimento certo a respeito dele. Suspeitamos que consiste de metais pesados em estado incandescente. Imaginemos, pois, que alguém nos apresenta a assertiva de que o interior da Terra consiste de água saturada de ácido carbônico — ou seja, uma espécie de água de soda. Sem dúvida, diremos que isto é muito improvável, que contradiz todas as nossas expectativas e que não concede nenhuma atenção aos fatos conhecidos que nos levaram a adotar a hipótese dos metais. Ainda assim, não é inconcebível; se alguém viesse a nos mostrar uma forma de testar a hipótese da água de soda, nós a seguiríamos sem objeção. Mas suponham agora que vem uma outra pessoa e afirma com seriedade que o miolo da Terra consiste de geléia. Nossa reação a isto será bastante diferente. Diremos a nós mesmos que a geléia não ocorre na natureza, que ela é um produto da culinária do homem e que, ademais, a existência desse material pressupõe a existência de árvores frutíferas e de seus frutos, e que não podemos ver como localizar vegetação e culinária humana no interior da Terra. O resultado dessas objeções intelectuais será uma mudança em nosso interesse: em vez de começar a investigar se o centro da Terra de fato é feito de geléia, haveremos de nos perguntar que espécie de pessoa deve ser essa que consegue chegar a uma tal idéia, ou, quando muito, perguntar-lhe-emos de onde tirou essa idéia. O infeliz autor da teoria da geléia sentir-se-á muito insultado e se queixará de que nós nos recusamos a fazer uma investigação objetiva de sua afirmação com base num pretenso preconceito científico. Isto, porém, de nada lhe servirá. Percebemos que nem sempre se deve reprovar os preconceitos, mas que, às vezes, eles se justificam e têm utilidade de vez que nos poupam trabalho inútil. De fato, eles são apenas conclusões baseadas em uma analogia com outros juízos bem fundamentados.
Toda uma série de afirmações ocultistas têm o mesmo tipo de efeito que a hipótese da geléia, de modo que nos consideramos justificados ao rejeitá-las à primeira vista, sem outras investigações. Ainda assim, a situação não é tão simples. Uma comparação como a que escolhi, nada prova, ou prova tão pouco quanto as comparações em geral. Permanece duvidoso se ela é procedente, e é claro que sua escolha já foi determinada por nossa atitude de rejeição desdenhosa. Os preconceitos, às vezes, são convenientes e justificados; mas, às vezes, são errôneos e prejudiciais, e jamais se pode dizer quando são uma coisa ou outra. A própria história da ciência oferece abundantes exemplos que são uma advertência contra a condenação prematura. Durante muito tempo considerou-se absurda a hipótese que aventava que as pedras,que agora chamamos de meteoritos, pudessem ter chegado à Terra vindas do espaço exterior, ou que as rochas que formam as montanhas, nas quais estão incrustados os remanescentes de conchas, pudessem, em alguma época, ter formado o leito do mar. Aliás, coisa muito semelhante aconteceu com a nossa psicanálise, quando apresentou sua conclusão da existência de um inconsciente. Assim, nós, analistas, temos motivos especiais para sermos cautelosos no uso das considerações intelectuais para rejeitar hipóteses novas, e devemos admitir que elas não nos isentam de sentimentos de antipatia, dúvida e incerteza.
Falei do segundo fator [que complica nossa abordagem do tema] como sendo o fator psicológico. Com isto quero significar a tendência geral da humanidade à credulidade e à crença no miraculoso. Desde o início, quando a vida nos submete à sua rígida disciplina, dentro de nós se levanta uma resistência contra a inflexibilidade e monotonia das leis do pensamento e contra as exigências do teste de realidade. A razão se torna o inimigo que nos priva de tantas possibilidades de prazer. Descobrimos quanto prazer nos dá retrair-nos dela, temporariamente ao menos, e nos entregar aos atrativos do absurdo. Os escolares deliciam-se com deturpar palavras; quando um congresso científico termina, os especialistas se divertem com suas próprias atividades; até mesmo homens de mentalidade séria apreciam uma anedota. Uma hostilidade mais séria à ‘Razão e Ciência, o mais elevado poder que o homem possui’ aguarda sua oportunidade; apressa-se a preferir ao médico habilitado o médico milagroso ou praticante de curas pela natureza; é favorável às afirmações do ocultismo na medida em que esses pretensos fatos podem ser tomados como rupturas de leis e de regras; faz adormecerem as dúvidas, falsifica as percepções e força confirmações e concordâncias que não podem ser justificadas. Se se leva em conta essa tendência do homem, há toda razão em descontar muita coisa das informações apresentadas na literatura ocultista.
A terceira dúvida, denominei-a dúvida histórica; e com isto tenho a intenção de assinalar que, de fato, não há nada de novo no mundo do ocultismo. Nele emergem, mais uma vez, todos os sinais, milagres, profecias e aparições que nos foram relatados desde tempos antigos e em antigos livros,e que pensávamos terem sido, há muito tempo, colocados de lado como produto de imaginação desenfreada ou de fraude tendenciosa, ou produto de uma era na qual a ignorância do homem era muito grande e o espírito científico estava ainda no seu berço. Se aceitamos a verdade daquilo que, segundo as informações dos ocultistas, ainda acontece hoje em dia, também devemos acreditar na autenticidade dos relatos que nos foram transmitidos pela tradição desde épocas antigas. E então devemos raciocinar que a tradição e os livros sagrados de todos os povos estão repletos de semelhantes lendas maravilhosas justamente sobre tais acontecimentos miraculosos, e neles encontrar provas da atuação de poderes sobre-humanos. Sendo assim, ser-nos-á difícil evitar a suspeita de que o interesse pelo ocultismo é, de fato, um interesse religioso e que um dos motivos secretos do movimento ocultista é vir em auxílio da religião, ameaçada, como ela está, pelo avanço do pensamento científico. E, com a descoberta desse motivo, nossa desconfiança deve crescer e nossa aversão para nos dedicar ao exame desses supostos fenômenos ocultos deve aumentar.
Mais cedo ou mais tarde, porém, essa aversão deve ser superada. Defrontamo-nos com uma questão de fato: o que nos dizem os ocultistas é verdadeiro ou não? Deve ser possível, afinal de contas, esclarecer esse ponto. No fundo, temos motivos para sermos gratos aos ocultistas. As histórias miraculosas de épocas antigas estão além do alcance de nossas provas. Se, em nossa opinião, não podem ser comprovadas, devemos admitir que, estritamente falando, não podem ser refutadas. Mas, quanto a acontecimentos contemporâneos, aos quais podemos estar presentes, deve ser-nos possível chegar a um julgamento definido. Se chegamos à convicção de que tais milagres não ocorrem hoje em dia, não precisamos temer o contra-argumento de que, mesmo assim, eles podem ter acontecido em tempos antigos; nesse caso, outras explicações serão mais plausíveis. Assim, delineamos nossas dúvidas e estamos prontos para tomar parte em uma investigação dos fenômenos ocultos.
Infelizmente, porém, aqui deparamos com circunstâncias que são por demais desfavoráveis para nossas honestas intenções. As observações, das quais se supõe dependa o nosso julgamento, realizam-se sob condições que tornam incertas as nossas percepções sensoriais e que turvam a nossa capacidade de atenção; ocorrem na escuridão, ou sob luz vermelha mortiça, após longos períodos de vã expectativa. É-nos dito que, de fato, nossa atitude descrente — ou seja, nossa atitude crítica — pode evitar que os fenômenos esperados aconteçam. A situação assim criada não é senão uma caricatura das circunstâncias em que geralmente estamos acostumados a realizar pesquisas científicas. As observações são feitas no que se chama de ‘médiuns’ — indivíduos aos quais se atribuem faculdades especialmente ‘sensíveis’, mas que de modo algum se distinguem por qualidades excepcionais de inteligência ou de caráter, e que não são, como os fazedores de milagres do passado, inspirados por qualquer idéia grandiosa ou propósito sério. Pelo contrário, são considerados, até mesmo por aqueles que acreditam em seus poderes secretos, como particularmente indignos de confiança; a maior parte deles já foi desmascarada como sendo constituída de trapaceiros, e com razão podemos esperar que o mesmo destino aguarda os restantes. Suas práticas dão a impressão de travessuras maliciosas de crianças ou de truques de prestidigitação.1 Até hoje, nunca surgiu nada de importante das séances com esses médiuns — a revelação de uma nova fonte de poder, por exemplo. É verdade que não esperamos receber indicações sobre criação de pombos do mago que, através de mágica, faz sair pombos de sua cartola vazia. Facilmente posso me colocar no lugar de uma pessoa que tenta satisfazer as exigências de uma atitude objetiva e assim toma parte em séances ocultas, mas que se cansa logo após e se afasta, desgostosa com aquilo que dela é esperado, e volta sem ter esclarecidos os seus preconceitos anteriores. A uma tal pessoa pode ser feita a censura de que não é esta a maneira correta de se conduzir: que não se deve antecipadamente formular quais serão os fenômenos que se está procurando estudar e em que circunstâncias eles aparecerão. Ao contrário, deve-se perseverar e conferir importância às medidas acauteladoras e fiscalizadoras, pelas quais recentemente dispenderam-se esforços, para precaver-se contra a deslealdade dos médiuns. Infelizmente, essa moderna técnica de proteção acaba com a fácil acessibilidade das observações do oculto. O estudo do ocultismo torna-se uma profissão especializada e difícil — uma atividade que não se pode praticar paralelamente aos demais interesses que se tem. E até que aqueles que se dedicam a essas investigações tenham chegado às suas conclusões, nós ficamos com nossas dúvidas e com nossas conjecturas.
Dentre essas conjecturas, sem dúvida a mais provável é aquela segundo a qual existe um fundamento real nos fatos do ocultismo, até hoje não reconhecido e ao redor do qual o embuste e a fantasia teceram um véu que é difícil descerrar. Como, porém, haveremos de nos aproximar desse fundamento? Em que ponto podemos atacar o problema? Penso que aqui os sonhospodem vir em nosso auxílio, dando-nos uma indicação de que, de dentro desse caos, podemos tirar o tema da telepatia.

O que denominamos ‘telepatia’ é, conforme sabem, o fato suposto de que um evento, que ocorre em um determinado tempo, aproximadamente no mesmo momento chega à consciência de alguém distante no espaço, desprezando as vias de comunicação conhecidas. Pressupõe-se implicitamente que tal evento interessa a essa pessoa, por quem a outra pessoa (o recebedor da informação) tem um intenso interesse afetivo. Por exemplo, a Pessoa A pode ser vítima de um acidente, ou pode morrer, e a Pessoa B, que lhe tem uma ligação estreita — sua mãe, ou filha, ou noiva — sabe do fato, quase ao mesmo tempo, através de uma percepção visual ou auditiva. Nesse último caso, portanto, é como se tivesse sido informada por telefone, embora não seja este o caso; é um tipo de equivalente psíquico da telegrafia sem fio. Não preciso insistir com os senhores sobre a improbabilidade de tais fatos, e há bons motivos para desprezar a maior parte desses relatos. Restam alguns que não podem ser eliminados assim tão facilmente. Permitam-me, agora, em razão do propósito daquilo que tenho para dizer-lhes, que eu omita a cautelosa palavrinha ‘suposto’ e continue como se eu acreditasse na realidade objetiva do fenômeno da telepatia. Mas tenham claro em mente que não é este o caso e que não aderi a nenhuma convicção.
Tenho, realmente, pouco para contar-lhes — apenas um fato modesto. Também de pronto reduzirei ainda mais as suas expectativas dizendo que, no fundo, os sonhos têm escassa relação com a telepatia. A telepatia não lança nenhuma nova luz sobre a natureza dos sonhos, e nem recebem os sonhos qualquer evidência direta da realidade da telepatia. Ademais, o fenômeno da telepatia não está de modo algum vinculado aos sonhos; pode ocorrer também durante o estado de vigília. O único motivo pra discutir a relação entre sonhos e telepatia é que o estado de sono parece particularmente adequado para a recepção de mensagens telepáticas. Em tais casos, a pessoa tem o que se chama sonho telepático, e, quando analisado, adquire-se a convicção de que a notícia telepática desempenhou o mesmo papel que qualquer outra parte dos resíduos diurnos, e que foi modificada da mesma maneira pela elaboração onírica e transformada para servir ao propósito desta.
Durante a análise de um desses sonhos telepáticos, ocorreu algo que me parece ser de interesse suficiente, apesar de sua banalidade, para servir como ponto de partida para esta conferência. Quando, em 1922, dei minha primeira descrição desse assunto, tinha à minha disposição somente uma única observação. Desde então, fiz numerosas observações semelhantes, mas manterei o primeiro exemplo, porque é o mais fácil de descrever, e eu os levarei em seguida in medias res.

Um homem obviamente inteligente, que, por sua própria descrição, pelo menos, não era ‘inclinado ao ocultismo’, escreveu-me acerca de um sonho que tinha tido, e que lhe parecia digno de nota. Começou por informar-me que sua filha casada, distante dele, estava esperando seu primeiro parto para meados de dezembro. Essa filha significava muito para ele e ele também sabia que ela lhe era muito afeiçoada. Durante a noite de 16 para 17 de novembro, então, ele sonhou que sua mulher havia dado à luz gêmeos. Seguiam-se diversos detalhes, que aqui posso omitir, e nenhum destes realmente jamais foi explicado. A mulher, que no sonho se havia tornado mãe de gêmeos, era sua segunda esposa, madrasta de sua filha. Ele não desejava ter filhos dessa sua segunda esposa, que, dizia ele, não tinha aptidão para criar filhos sensatamente; além disso, à época do sonho, ele, há longo tempo, havia cessado de ter relações sexuais com ela. O que o levara a escrever-me fora, não a dúvida a respeito da teoria dos sonhos, já que o conteúdo manifesto de seu sonho a teria justificado, mas por que o sonho, em completa contradição com seus desejos, fez sua esposa dar à luz? E, segundo ele, não havia qualquer motivo para temer a ocorrência desse indesejado evento. O que o induziu a relatar-me esse sonho foi a circunstância de que, na manhã de 18 de novembro, recebeu um telegrama anunciando que sua filha havia dado à luz gêmeos. O telegrama havia sido expedido no dia anterior, e o nascimento havia ocorrido durante a noite de 16 para 17 de novembro, quase na mesma hora em que ele tinha tido o sonho do nascimento de gêmeos de sua esposa. Esse homem que teve o sonho perguntava-me se eu pensava ser acidental a coincidência entre o sonho e o ocorrido. Ele não se arriscou a chamar o sonho de telepático, de vez que a diferença entre seu conteúdo e o evento afetava justamente o que lhe parecia essencial no sonho — a identidade da pessoa que deu à luz as crianças. Um dos seus comentários, contudo, mostra que ele não se teria surpreendido com um sonho telepático real; acreditava que sua filha certamente teria ‘pensado especialmente nele’ durante o trabalho de parto.
Senhoras e senhores, estou certo de que já conseguiram explicar esse sonho e compreender, também, por que o contei para os senhores. Era esse um homem insatisfeito com sua segunda esposa, que preferiria que sua esposa fosse como a filha de seu primeiro casamento. Esse ‘como’ desapareceu, naturalmente, no que se referia ao inconsciente. E agora a mensagem telepática chegada durante a noite, para dizer que sua filha havia tido gêmeos. A elaboração onírica assumiu o controle da notícia, permitiu que o desejo inconsciente operasse sobre ela — o desejo de ele poder colocar a filha no lugar da segunda esposa — e assim surgiu o enigmático sonho manifesto, que disfarçou o desejo e deformou a mensagem. Devemos admitir que é só a interpretação do sonho que nos mostrou que era um sonho telepático: a psicanálise revelou um evento telepático que de outra forma não haveríamos de descobrir.
Mas, por favor, não se deixem equivocar! Apesar de tudo isso, a interpretação de sonhos não nos disse nada acerca da realidade objetiva do evento telepático. Pode ser igualmente uma ilusão explicável de outra maneira. Os pensamentos oníricos latentes do homem podem ter sido assim: ‘Hoje é o dia em que o parto se realizaria se minha filha estivesse mesmo enganada em seus cálculos em um mês, conforme suspeito. E quando a vi pela última vez, ela parecia justamente como se estivesse para ter gêmeos. Como se teria alegrado com gêmeos a minha falecida mulher, que tanto gostava de crianças!’ (Baseio esse último dado em algumas associações tidas por esse sonhador, as quais não mencionei.) Nesse caso, a origem do sonho teriam sido suspeitas bem fundamentadas, por parte do sonhador, e não uma mensagem telepática; mas o resultado teria sido o mesmo. Os senhores vêem, pois, que mesmo a interpretação desse sonho nada nos disse acerca da questão de saber se devemos admitir realidade objetiva à telepatia. Isto só poderia ser decidido por esmerada investigação de todas as circunstâncias do caso — o que, infelizmente, não foi mais possível nesse exemplo do que em qualquer outro de minha experiência. Posto que a hipótese da telepatia oferece, sem dúvida, a explicação mais simples, ainda assim não nos auxilia muito. A explicação mais simples nem sempre é a correta; a verdade, com freqüência, não é uma questão fácil, e antes de nos decidirmos a favor de uma hipótese de tão grande alcance, devemos preferentemente ter tomado todo cuidado.

Podemos agora abandonar o assunto dos sonhos e da telepatia: sobre isto, nada mais tenho a dizer-lhes. Mas observem cuidadosamente que aquilo que nos pareceu ensinar-nos algo a respeito da telepatia, não foi o sonho, mas a interpretação do sonho, a sua elaboração psicanalítica. Por conseguinte, nessas coisas que se seguem, podemos deixar inteiramente de lado os sonhos e podemos manter a expectativa de que o emprego da psicanálise possa clarear um pouco outros eventos descritos como ocultos. Existe, por exemplo, o fenômeno da transmissão de pensamento, que tem tão estreitas relações com a telepatia e pode, na verdade, sem deturpação demasiada, ser considerado a mesma coisa. Afirma que os processos mentais numa pessoa — idéias, estados emocionais, impulsos conativos — podem ser transferidos para uma outra pessoa através do espaço vazio, sem o emprego dos métodos conhecidos de comunicação que usam palavras e sinais. Os senhores perceberão quão notável, e talvez mesmo de que importância prática, isto seria, se algo desse teor realmente acontecesse. Pode-se notar aliás que, de maneira muito estranha, justamente esse fenômeno é mencionado muito menos freqüentemente nas histórias miraculosas do passado.
No decorrer do tratamento psicanalítico de pacientes, formei a concepção de que as atividades dos adivinhos profissionais escondem uma oportunidade de fazer observações especialmente irrefutáveis sobre transmissão de pensamento. Esses indivíduos são pessoas insignificantes, e mesmo inferiores, que se aprofundam em determinado tipo de representação — pôr as cartas, estudar a escrita ou as linhas da palma da mão, ou fazer cálculos astrológicos — e, ao mesmo tempo, após haverem-se mostrado conhecedores de partes do passado ou das circunstâncias presentes do visitante, continuam profetizando seu futuro. Via de regra, seus clientes mostram grande satisfação com esses efeitos e não sentem qualquer ressentimento se, depois, essas profecias não se cumprem. Encontrei diversos casos assim e pude estudá-los analiticamente; em seguida, contar-lhes-ei o mais notável desses exemplos. Sua força de convicção, infelizmente, é prejudicada por numerosas reticências a que sou compelido pela obrigação do segredo médico. No entanto, evitei rigorosamente distorções. Ouçam, pois, a história de uma de minhas pacientes, que teve uma experiência desse tipo com um adivinho.{#V22_P48} Ela era a mais velha de uma família numerosa e havia crescido com uma ligação extremamente intensa com seu pai. Tinha casado ainda jovem e encontrara inteira satisfação em seu casamento. Só uma coisa estava faltando em sua felicidade: havia permanecido sem filhos, não podendo, assim, colocar seu amado esposo inteiramente no lugar de seu pai. Quando, após longos anos de desapontamento, decidiu submeter-se a uma operação ginecológica, seu marido revelou-lhe que a culpa era dele: uma doença, anterior ao casamento, o incapacitara para procriar filhos. Ela suportou mal essa desilusão, tornou-se neurótica e sofreu muito com temores de ser tentada [a ser infiel ao marido]. Para alegrá-la, ele a levou consigo a Paris, em viagem de negócios. Certo dia, lá estavam eles sentados no saguão do seu hotel, quando ela percebeu alguma agitação entre os empregados do hotel. Perguntou o que é que estava acontecendo, e disseram-lhe que Monsieur le Professeur havia chegado e estava dando consultas numa salinha ali perto. Expressou o desejo de fazer uma tentativa. O marido rejeitou a idéia, mas enquanto ele não estava observando, ela se esgueirou para dentro da sala de consultas e encontrou-se à frente do adivinho. Ela estava com 27 anos, mas parecia muito mais jovem, e havia tirado sua aliança de casada. Monsieur le Professeur fê-la pousar a mão numa bandeja cheia de cinzas e estudou atentamente a marca deixada pela mão; então ele lhe disse todos os tipos de coisas a respeito de árduas lutas que a esperavam, e terminou com a confortadora promessa de que, apesar de tudo, ela ainda haveria de casar-se e ter dois filhos quando chegasse à idade de 32 anos. Quando me contou esta história, ela estava com 43 anos, estava gravemente doente e sem qualquer perspectiva de algum dia ter um filho. Assim, a profecia não se realizara; contudo, falou disso sem qualquer tipo de amargura, com uma inconfundível expressão de satisfação, como se estivesse recordando um ditoso evento. Foi fácil estabelecer que ela não tinha a mais leve noção do que poderiam significar os dois números na profecia [2 e 32] ou se eles, de algum modo, significavam alguma coisa.
Os senhores dirão que esta é uma história estúpida e incompreensível e perguntarão por que a contei aos senhores. Eu deveria ser inteiramente da opinião dos senhores — e este é o ponto saliente —, se a análise não tivesse tornado possível chegar a uma interpretação da profecia, que é convincente precisamente a partir da explicação, que ela permite, dos detalhes. Pois os dois números encontram seu lugar na vida da mãe de minha paciente. Elahavia casado tardiamente — não antes de ter mais de trinta anos, e na família haviam freqüentemente insistido no êxito com que ela se havia apressado para compensar o tempo perdido. Seus dois primeiros filhos (sendo nossa paciente a mais velha) haviam nascido com o mais curto intervalo possível entre si, em um só período de um ano; e tinha, de fato, dois filhos, ao chegar aos 32 anos de idade. Portanto, o que Monsieur le Professeur dissera à minha paciente significava: ‘Console-se com o fato de ser tão jovem. Terá o mesmo destino que sua mãe, que também teve de esperar longo tempo pelos filhos, e terá dois filhos quando tiver 32 anos.’ Ter o mesmo destino que sua mãe, colocar-se no lugar de sua mãe, tomar o lugar dela junto ao pai — fora este, contudo, o mais intenso desejo de sua mocidade, e precisamente em virtude da não-realização desse desejo é que ela estava começando a adoecer. A profecia prometia-lhe que o desejo ainda se cumpriria, apesar de tudo; como poderia ela deixar de sentir simpatia pelo profeta? Entretanto, consideram os senhores possível que Monsieur le Professeur fosse sabedor dos fatos da história íntima da família de sua cliente casual? Absolutamente não! Como, então, chegou ele ao conhecimento que lhe possibilitou expressar o desejo mais intenso e mais secreto de minha paciente incluindo os dois números em sua profecia? Posso ver apenas duas explicações possíveis. Ou a história, tal como me foi contada, é inverídica, e os fatos ocorreram de modo diverso, ou a transmissão de pensamento existe como fenômeno real. Pode-se supor, indubitavelmente, que, após um intervalo de 16 anos, a paciente houvesse introduzido os dois números em questão em sua lembrança, vindos do inconsciente. Não tenho base para essa suspeita, mas não posso excluí-la; e imagino que os senhores estarão mais prontos a acreditar numa solução dessa espécie, do que na realidade da transmissão de pensamento. Se os senhores se decidem mesmo pela segunda alternativa, não se esqueçam de que foi somente a análise que criou o fato oculto — descobriu-o quando estava distorcido a ponto de ser irreconhecível.

Se se tratasse apenas de um caso, como o dessa minha paciente, não se lhe daria maior importância. Ninguém sonharia erigir sobre uma única observação uma crença que implica tomar uma direção tão decisiva. Mas os senhores devem dar-me crédito quando lhes asseguro que este não é o único caso em minha experiência. Coligi toda uma série de tais profecias, e de todas elas ficou-me a impressão de que o adivinho simplesmente havia dado expressão aos pensamentos, e, mais especialmente, aos desejos secretos daqueles que vinham consultá-lo, e que, portanto, estávamos autorizados a analisar essas profecias como sendo produções subjetivas, fantasias ousonhos das pessoas em questão. Naturalmente, nem todo caso é igualmente convincente, e não é, em todos os casos, igualmente possível excluir explicações mais racionais; contudo, tomando esses casos em conjunto, permanece um forte saldo de probabilidades a favor da transmissão de pensamento como um fato. A importância do tema justificaria que eu relatasse aos senhores todos os meus casos; mas não posso fazê-lo, devido à prolixidade da descrição que se faria necessária e à inevitável quebra do dever do sigilo. Na medida do possível, tentarei tranqüilizar minha consciência dando-lhes mais alguns exemplos.
Um dia, procurou-me um homem jovem, muito inteligente, um estudante que se preparava para seus exames finais de doutorado, mas incapaz de fazê-los, de vez que, conforme se queixou, havia perdido todo o interesse e capacidade de concentração e até mesmo toda a faculdade de memorizar regularmente. A história prévia dessa condição de quase paralisia logo foi revelada: havia adoecido após ter realizado um grande ato de autodisciplina. Tinha uma irmã, a quem estava ligado por uma afeição intensa, porém sempre refreada, e o mesmo se passava nela, em relação a ele. ‘Que pena nós não podermos casar!’, diziam freqüentemente um ao outro. Um senhor respeitável apaixonou-se pela irmã; ela correspondeu a essa paixão, mas seus pais não consentiram na união. Em sua dificuldade, o jovem casal voltou-se para o irmão dela, e este não recusou sua ajuda. Fez o possível para que mantivessem correspondência, e sua influência finalmente persuadiu os pais a consentirem. No decorrer do noivado, entretanto, ocorreu um incidente cujo significado era fácil deduzir. Em companhia de seu futuro cunhado, ele empreendeu uma difícil escalada de montanha, sem guia; perderam o caminho e estiveram em perigo de não regressar sãos e salvos. Logo após o casamento de sua irmã, ele caiu nesse estado de exaustão mental.
A influência da psicanálise restaurou sua capacidade de trabalho, e ele deixou-me para prestar seus exames; mas após tê-los efetuado com êxito, voltou a mim por um curto período, no outono do mesmo ano. Foi então que me referiu uma experiência singular que tivera antes do verão. Na cidade de sua universidade, vivia uma adivinha que gozava de grande popularidade. Até mesmo os príncipes da Casa Real costumavam ir fazer-lhe consultas antes de empreendimentos importantes. O modo de trabalhar dela era muito simples. Pedia que lhe dissessem a data do nascimento da pessoa interessada; não exigia saber nada mais sobre a pessoa, nem sequer seu nome. Então elapassava a consultar seus livros de astrologia, fazia longos cálculos e, finalmente, formulava uma profecia referente à pessoa em questão. Meu paciente decidiu recorrer às artes místicas dessa mulher, com referência a seu cunhado. Foi visitá-la e disse-lhe a data pertinente. Depois de efetuar seus cálculos, ela fez sua profecia: ‘A pessoa em questão morrerá em julho ou agosto deste ano, de intoxicação causada por lagosta ou ostra.’ Meu paciente terminou sua história com as palavras: ‘Foi simplesmente maravilhoso!’
Desde o início, eu escutava com irritação. Depois dessa exclamação sua, cheguei a perguntar: ‘Que é que o senhor está vendo de tão maravilhoso nessa profecia? Agora estamos no fim do outono, e o seu cunhado não está morto, ou o senhor me teria contado isto há muito tempo. Então a profecia não se realizou.’ ‘Sem dúvida, é isto’, replicou, ‘mas é isto que é maravilhoso. Meu cunhado tem paixão por lagosta e ostras, e, no verão anterior — isto é, antes de minha visita à adivinha — ele teve um ataque de intoxicação por ostra do qual quase morreu.’ Que é que eu iria dizer em face disto? Apenas pude sentir-me aborrecido por esse homem altamente instruído (que, ademais, havia passado por uma análise bem-sucedida) não conseguir ter uma visão mais clara de sua situação. Quanto a mim, a acreditar que é possível calcular o início de um ataque de intoxicação por lagosta ou ostras, com base em tabelas astrológicas, prefiro supor que meu paciente ainda não vencera o ódio que sentia por seu rival, cuja repressão, anteriormente, o levara a adoecer, e que a adivinha simplesmente estava expressando a expectativa dele mesmo: ‘um gosto desse tipo, não é de se desistir, e um dia, de qualquer modo, vai chegar o fim dele.’ Devo admitir que não consigo pensar em nenhuma outra explicação para este caso, a não ser que, talvez, meu paciente estivesse fazendo uma brincadeira comigo. No entanto, nem naquela ocasião, nem em época posterior, ele me deu motivos para semelhante suspeita, e pareceu estar levando a sério o que disse.
Aqui está outro caso. Um senhor jovem, que ocupava uma posição de destaque, foi envolvido numa liaison com uma demi-mondaine, a qual se caracterizava por uma compulsão curiosa. De tempos em tempos, ele era obrigado a provocá-la com comentários irônicos e insultuosos até ela se sentir em completo desespero. Quando ele a levava até esse ponto, aliviava-se, reconciliava-se com ela e dava-lhe um presente. Mas, agora, queria ver-se livre da mulher: a compulsão parecia-lhe uma coisa muito estranha. Percebeu que a liaison estava prejudicando sua reputação; queria ter sua esposa e constituir sua família. Entretanto, como não podia livrar-se da demi-mondaine por suas próprias forças, procurou o auxílio da análise. Depois de uma dessas cenas injuriosas, quando a análise já havia iniciado, ele a fez escrever algo num pedaço de papel, a fim de mostrá-lo a um grafólogo. O informe que recebeu deste dizia que a escrita era de alguém em extremo desespero, que certamente cometeria suicídio nos próximos dias. É verdade que isto não ocorreu, e a mulher coninuou viva; mas a análise conseguiu afrouxar os laços dessa ligação. Abandonou a mulher e voltou-se para uma moça jovem, esperando poder vir a fazer dela uma boa esposa. Logo depois, surgiu um sonho que só podia insinuar uma incipiente dúvida quanto ao valor da moça. Conseguiu uma amostra de sua escrita, também, levou-a ao mesmo grafólogo e recebeu um veredicto da escrita dela que confirmava suas apreensões. Com isso, abandonou a idéia de tomá-la como esposa.
A fim de formar uma opinião a respeito dos informes do grafólogo, especialmente do primeiro, devemos conhecer algo da história de nosso personagem. No início de sua mocidade, ele (de acordo com sua natureza impetuosa) se apaixonara arrebatadamente por uma mulher casada, ainda jovem, mas mesmo assim mais velha do que ele. Quando ela o rejeitou, ele fez uma tentativa de suicídio que, não pode haver dúvidas, foi empreendida a sério. Foi apenas por um fio que escapou da morte, e só se recuperou depois de longo período de convalescença. Essa ação tresloucada, porém, causou profunda impressão na mulher que amava; ela lhe concedeu seus favores, ele se tornou amante dela e daí por diante permaneceu secretamente ligado a ela, servindo-a com dedicação verdadeiramente cavalheiresca. Mais de vinte anos depois, quando ambos haviam-se tornado mais velhos — mas a mulher, naturalmente, envelhecera mais do que ele —, despertou nele a necessidade de se desligar dela, de tornar-se livre, de levar a sua própria vida, de montar casa e constituir família. E ao lado dessa sensação de saciedade, surgiu nele a profunda ânsia, há muito tempo reprimida, de vingar-se de sua amante. Assim como uma vez ele havia tentado matar-se porque ela o desprezara, também desejava ele, agora, ter a satisfação de ela buscar a morte porque ele a abandonava. O amor que ele tinha, porém, era ainda muito forte para possibilitar que esse desejo se tornasse consciente nele; e não estava em condições de causar a ela dano suficiente para levá-la à morte. Dentro desse esquema mental, fez da demi-mondaine uma espécie de bode expiatório para satisfazer a sua sede de vingança in corpore vili; e ele passou a infligir-lhe todos os tormentos que podia esperar causassem nela o resultado que ele queria produzir em sua amante. Que a vingança se aplicava a esta revelava-se no fato de ele fazer desta, da amante, uma confidente e conselheira de sualiaison, em vez de ocultar dela a sua deserção. A desventurada senhora, que há muito tempo havia deixado de dar para receber favores, provavelmente sofreu muito mais com essas confidências do que a demi-mondaine com as brutalidades dele. A compulsão em relação a essa figura substitutiva, de que se queixava e que o levou à análise, naturalmente havia sido transferida a ela a partir de sua antiga amante; era dela que queria livrar-se, mas não podia. Não sou autoridade em assuntos de escrita e não tenho em alto conceito a arte de adivinhar o caráter a partir da escrita; tampouco acredito na possibilidade de assim predizer o futuro do autor da letra. Os senhores podem ver, no entanto, seja o que for que se pense do valor da grafologia, não haver engano no fato de o perito, quando prometeu que o autor da letra da amostra que lhe era apresentada, cometeria suicídio nos próximos dias, havia, mais uma vez, tão-somente manifestado um poderoso desejo secreto da pessoa que lhe vinha fazer a consulta. Algo do mesmo teor aconteceu posteriormente, no caso do segundo relato. Ali, o que estava em questão, porém, não era um desejo inconsciente; era a dúvida crescente e a apreensão do consulente que encontravam uma clara expressão na boca do grafólogo. Aliás, meu paciente conseguiu, com o auxílio da análise, encontrar um objeto para seu amor, fora do círculo mágico em que tinha sido enfeitiçado.
Senhoras e senhores, ouviram agora como a interpretação dos sonhos e a psicanálise em geral elucidam o ocultismo. Mostrei-lhes com exemplos que, por sua aplicação, têm sido trazido à luz fatos ocultos que de outro modo teriam permanecido desconhecidos. A psicanálise não pode dar uma resposta direta à pergunta que, sem dúvida, mais lhes interessa — se haveremos de acreditar na realidade objetiva desses achados. O material revelado com sua ajuda, contudo, produz uma impressão que, sob todos os aspectos, é favorável a uma resposta afirmativa. O interesse dos senhores não se deterá neste ponto, entretanto. Desejarão saber que conclusões se justificam pelo material incomparavelmente mais rico no qual a psicanálise não tem qualquer ingerência. Mas nisso não posso acompanhá-los; situa-se fora de meus domínios. A única coisa adicional que poderia fazer, seria relatar-lhes observações que pelo menos têm tanta relação com a psicanálise, por terem sido feitas durante tratamento psicanalítico e, até mesmo, talvez, se tornaram possíveis por influências desta. Contar-lhes-ei um desses exemplos — o exemplo que deixou em mim a impressão mais profunda. Relata-lo-ei extensamente e solicitarei a atenção dos senhores para um grande número de detalhes, embora, ainda assim, tenha de suprimir muita coisa que em muito haveria de aumentar a força de convicção da observação. É um exemplo no qual o fato veio claramente à luz e não necessitou ser desenvolvido pela análise. Aodiscuti-lo, entretanto, não poderemos prescindir da ajuda da análise. Contudo lhes direi antecipadamente que também este exemplo de aparente transmissão de pensamento na situação analítica não está isento de toda dúvida e não nos permite assumir uma posição de irrestrito apoio à realidade dos fenômenos ocultos.

Ouçam, pois: Num dia do outono do ano de 1919, cerca das 10h.45m. da manhã, o Dr. David Forsyth, que, havia pouco, chegara de Londres, enviou-me seu cartão de visita enquanto eu estava tendo uma sessão com um paciente. (Meu prezado colega da Universidade de Londres, estou certo, não considerará indiscrição se, dessa maneira, revelo o fato de que passou alguns meses sendo iniciado por mim na arte da técnica psicanalítica.) Apenas tive tempo de saudá-lo e marcar um encontro para vê-lo mais tarde. O Dr. Forsyth tinha direito ao meu interesse particular; foi o primeiro estrangeiro a vir ter comigo, após eu haver sido interrompido em minhas atividades pelos anos de guerra, e a trazer uma promessa de dias melhores. Logo depois, às onze horas, chegou Herr P., um dos meus pacientes, um homem inteligente e agradável, entre quarenta e cinqüenta anos de idade, que, inicialmente, me havia procurado por causa de dificuldades com mulheres. Seu caso não prometia qualquer êxito terapêutico; muito tempo antes, eu havia proposto que parássemos o tratamento, mas ele quisera continuá-lo, evidentemente porque se sentia à vontade em uma transferência paterna bem temperada em relação a mim. Nessa época, o dinheiro não tinha qualquer papel de importância: havia muito pouco em circulação. As sesões que eu tinha com ele eram estimulantes e também reconfortantes, e, por conseguinte, passando por cima de estritas regras da clínica médica, o trabalho analítico estava sendo levado adiante, até um limite de tempo previsto.
Aquele dia, P. retornava a seus intentos de ter relações eróticas com mulheres e, mais uma vez, mencionava uma jovem linda, provocante e muito pobre, com quem ele sentia que poderia ter êxito, se o fato de ela ser virgemnão amedrontasse alguma tentativa séria por parte dele. Freqüentemente, havia falado nela, antes; contudo, nesse dia, pela primeira vez, embora naturalmente ele não tivesse noção dos verdadeiros motivos do impedimento dele, disse-me que ela costumava chamá-lo ‘Herr von Vorsicht’ Sr. Cuidado. Surpreendi-me com essa informação; o cartão de visita do Dr. Forsyth estava junto a mim e mostrei-lho.
Estes são os fatos do caso. Suponho que aos senhores eles parecerão insignificantes; ouçam, porém, um pouco mais, há mais coisas por trás deles.
Quando era jovem, P. havia passado alguns anos na Inglaterra e desde então conservara um permanente interesse pela literatura inglesa. Possuía uma rica biblioteca inglesa e costumava trazer-me livros dela. Devo a ele um conhecimento de autores tais como Bennett e Galsworthy, dos quais até então havia lido pouca coisa. Um dia, emprestou-me um romance de Galsworthy intitulado The Man of Property, cuja ação se passa no seio de uma família, inventada pelo autor, de nome ‘Forsyte’. O próprio Galsworthy estava evidentemente fascinado com essa criação sua, pois, em livros subseqüentes, repetidamente retornou aos membros dessa família e, por fim, coletou todas as histórias referentes a eles sob o título The Forsyte Saga. Apenas alguns dias antes da ocorrência de que estou falando, ele me trouxera um volume recente dessa série. O nome ‘Forsyte’, e tudo o que de típico o autor havia procurado incorporar nele, tinha desempenhado um papel, também, em minhas conversações com P. e se tornara parte da linguagem secreta que tão facilmente se desenvolve entre duas pessoas que se vêem muito. Ora, o nome ‘Forsyte’ desses romances difere pouco do de meu visitante ‘Forsyth’ e, conforme é pronunciado por um alemão, os dois dificilmente podem ser distinguidos; e há uma palavra inglesa com uma significação — ‘foresight’ — que também teremos de pronunciar da mesma maneira e que seria traduzida como ‘Voraussicht’ ou ‘Vorsicht’. Assim, P. realmente selecionara de suas preocupações pessoais exatamente o nome que, ao mesmo tempo ocupava meus pensamentos, como resultado de uma ocorrência da qual ele não tinha conhecimento.
Isto parece tomar rumos melhores, concordarão os senhores. Mas penso que ficaremos mais impressionados com o surpreendente fenômeno e até mesmo obteremos uma compreensão interna (insight) dos seus fatores determinantes se lançarmos a luz da análise sobre duas outras associações apresentadas por P. durante a mesma sessão.Primeira associação: Um dia, na semana anterior, eu ficara esperando em vão por Herr P., às onze horas, e então saí para visitar o Dr. Anton von Freund em sua pension. Surpreendi-me ao verificar que Herr P. morava num outro andar do mesmo prédio em que se localizava a pension. Com relação a isso, mais tarde, eu disse a P. que, em certo sentido, eu lhe havia feito uma visita a sua casa; mas sei claramente que não lhe disse o nome da pessoa que visitei na pension. E agora, logo depois de mencionar ‘Herr von Vorsicht’, ele me perguntou se talvez a Freud-Ottorego, que estava dando um ciclo de conferências sobre inglês na Volksuniversität, era minha filha. E, pela primeira vez durante nosso longo período de relacionamento, ele dava a meu nome a forma distorcida, a que realmente eu me acostumei devido a autoridades, funcionários e tipógrafos: em vez de ‘Freud’ ele disse ‘Freund’.
Segunda associação: No fim da mesma sessão, contou-me um sonho do qual acordara com pavor — um verdadeiro ‘Alptraum’, disse ele. Acrescentou que, havia não muito tempo, tinha esquecido a palavra inglesa que significa isso, e quando alguém lhe perguntara, disse que a palavra inglesa para ‘Alptraum’ era ‘a mare’s nest.’ Isto era absurdo, naturalmente, prosseguia ele; ‘a mare’s nest’ significava algo incrível, um conto policial: a tradução de Alptraum era ‘nightmare’. O único elemento comum a essa associação e à anterior parecia ser o elemento ‘inglês’. Porém, eu me lembrava de um pequeno incidente, ocorrido cerca de um mês antes. P. estava sentado junto a mim, na sala, quando outro visitante, um querido amigo proveniente de Londres, o Dr. Ernest Jones, chegou inesperadamente, depois de uma longa separação. Fiz a este um sinal para que entrasse na sala contígua, enquanto eu terminava a entrevista com P. Este, porém, o reconhecera imediatamente, por causa de sua fotografia na sala de espera, e até expressara o desejo de ser-lhe apresentado. Ora, Jones é o autor de uma monografia sobre o Alptraum — o pesadelo. Eu não sabia que P. o conhecia; ele evitava ler literatura analítica. [Cf. Jones, 1912.]
Gostaria de, inicialmente, investigar com os senhores que compreensão analítica se obteve com os antecedentes das associações de P. e com os seus motivos. Em relação ao nome ‘Forsyte’ ou ‘Forsyth’, P. e eu nos situávamos de modo semelhante; para ele, o nome significava a mesma coisa, e era inteiramente a ele, P., que eu devia o conhecimento do nome. O fato digno de nota era que ele trouxe para a análise esse nome sem anunciá-lo, somentepouco tempo depois de ter-se tornado importante para mim, num outro sentido, devido a um evento novo, a chegada do médico de Londres. Mas a maneira pela qual o nome emergiu em sua sessão analítica é, talvez, não menos interessante do que o fato em si. Ele não disse, por exemplo: ‘O nome “Forsyte”, dos romances que o senhor conhece, acaba de me vir à mente.’ Ele conseguiu, sem qualquer relação consciente com essa fonte, a partir daí, juntar esse nome às suas próprias experiências e expressá-lo — coisa que poderia ter acontecido muito tempo antes, mas não acontecera até então. O que ele disse mesmo foi, pois: ‘Também eu sou um Forsyth: é como a namorada me chama!’ É difícil deixar de perceber a mistura de exigência ciumenta e de autodesvalorização melancólica que encontra expressão no seu comentário. Não haveremos de errar o rumo se o complementarmos de uma forma como esta: ‘Para mim é doloroso que os pensamentos do senhor se ocupem tão intensamente com essa nova chegada. Volte para mim; afinal, eu também sou um Forsyth — embora, é verdade, eu seja apenas um Herr von Vorsicht [cavalheiro do cuidado], conforme diz a namorada’. E, com isso, sua cadeia de pensamentos, passando pelas linhas associativas do elemento ‘inglês’, voltava a fatos anteriores, capazes de fazer despertar os mesmos sentimentos de ciúme. ‘Uns dias atrás o senhor fez uma visita a minha casa — que pena, não a mim, mas a Herr von Freund.’ Esse pensamento fê-lo distorcer o nome ‘Freud’ em ‘Freund’. O nome ‘Freud-Ottorego’, tirado do roteiro de conferências, deve entrar aqui porque, tratando-se de professora de inglês, proporcionou a associação manifesta. E agora veio a lembrança de um outro visitante, umas semanas antes, do qual, sem dúvida, estava com ciúmes, mas com este sentia que não podia competir, pois o Dr. Jones era capaz de escrever uma monografia sobre o pesadelo, ao passo que ele, quando muito, conseguia apenas ter tais sonhos. Sua menção do erro a respeito do significado de ‘a mare’s nest’ vem a se encaixar aqui, pois só pode querer dizer: ‘Afinal, não sou um verdadeiro inglês, assim como não sou um verdadeiro Forsyth.’
Não posso descrever agora seus sentimentos de ciúmes nem como estando fora de lugar, nem como ininteligíveis. Ele havia sido avisado de que sua análise, e ao mesmo tempo nossos contatos, terminariam tão logo os discípulos e os pacientes estrangeiros retornassem a Viena; e foi realmente isto o que aconteceu, pouco depois. O que realizamos, no entanto, foi determinada quantidade de trabalho analítico — a explicação das três associações apresentadas por ele na mesma sessão e originadas do mesmo motivo; e isto não tem muita relação com a outra questão, isto é, se essas associações podiam ter sido feitas sem transmissão de pensamento. Essa questão aplica-sea cada uma das três associações e, portanto, divide-se em três questões separadas: Poderia P. ter sabido que o Dr. Forsyth acabava de me fazer sua primeira visita? Poderia ele saber o nome da pessoa que eu havia visitado em sua casa? Sabia ele que o Dr. Jones escrevera uma monografia sobre o pesadelo? Ou foi apenas o meu conhecimento acerca dessas coisas que se revelou em suas associações? Dependerá da resposta a essas três diferentes questões a eventualidade de minha observação permitir uma conclusão favorável à transmissão de pensamento.
Deixemos de lado, por um momento, a primeira questão; as outras duas podem ser elaboradas mais facilmente. O caso de minha visita à sua pension causa uma impressão particularmente convincente, à primeira vista. Estou certo de que, em minha breve e jocosa referência à minha visita à sua casa, não mencionei qualquer nome. Penso ser muito improvável que P. tivesse feito perguntas na pension quanto ao nome da pessoa em referência; preferentemente acredito que a existência dessa pessoa tenha permanecido inteiramente desconhecida para ele. O valor probatório desse caso é, porém, totalmente desfeito por uma circunstância casual. O homem a quem fizera uma visita na pension não só se chamava ‘Freund’; era um verdadeiro amigo de todos nós. Era o Dr. Anton von Freund, cuja doação havia possibilitado a fundação de nossa casa editora. Sua morte prematura, junto com a de nosso colega Karl Abraham, alguns anos antes, são os mais graves infortúnios que atingiram o desenvolvimento da psicanálise. É possível, pois, que eu tivesse dito a P.: ‘Visitei um amigo [Freund] na sua casa’ e, com essa possibilidade, desaparece o interesse oculto de sua segunda associação.
A impressão causada pela terceira associação também se desfaz rapidamente. Podia P. saber que Jones publicara uma monografia sobre pesadelo, se ele nunca lia literatura analítica? Sim, podia. Possuía livros de nossa editora e poderia, de algum modo, ter visto os títulos das novas publicações anunciados nas capas. Isto não pode ser provado, mas também não pode ser refutado. Por essa via, portanto, não podemos chegar a conclusão alguma. Para infelicidade minha, essa observação que fiz padece da mesma debilidade de tantas outras: foi escrita muito depois e foi discutida numa época em que não estava mais em contato com Herr P., e não pude fazer-lhe mais perguntas.
Voltemos ao primeiro evento, que, mesmo tomado de per si, apóia o fato aparente de transmissão de pensamento. Poderia P. saber que o Dr. Forsyth estivera comigo um quarto de hora antes dele? Poderia ele ter absolutamentealgum conhecimento de sua existência ou de sua presença em Viena? Não devemos ceder à tendência a repelir sem exame ambas as perguntas. Posso entrever um caminho que leva a uma resposta parcialmente afirmativa. Afinal, eu podia ter dito a Herr P. que eu estava esperando um médico, vindo da Inglaterra, que vinha receber formação em análise, como uma primeira pomba após o dilúvio. Isto poderia ter acontecido no verão de 1919, pois o Dr. Forsyth havia mantido entendimentos comigo, por carta, alguns meses antes de sua chegada. Posso até mesmo haver mencionado seu nome, embora isto me pareça muito improvável. Em vista da outra conexão que o nome evocava a nós dois, uma discussão a respeito inevitavelmente deve ter tido lugar, e dela teria ficado algo em minha memória. Não obstante, tal discussão pode ter-se dado e posso tê-la esquecido totalmente, depois, de modo que isto possibilitou à emergência de ‘Herr von Vorsicht’, na sessão analítica, surpreender-me como se fosse milagre. Se alguém se considera um cético, é bom ter dúvidas, às vezes, também acerca do ceticismo próprio. Pode ser que também eu tenha uma secreta inclinação ao miraculoso, o que seria meio caminho andado para ir ao encontro da criação de fatos ocultos.
Se assim eliminarmos de nosso caminho uma das possibilidades miraculosas, há uma outra esperando-nos, e é de todas a mais difícil. Supondo que Herr P. soubesse que havia um Dr. Forsyth e que este era esperado em Viena no outono, como explicar que ele ficasse receptivo a sua presença justamente no dia de sua chegada e imediatamente após sua primeira visita? Poder-se-ia dizer que era uma casualidade — isto é, não há o que explicar. Mas foi justamente com a finalidade de excluir a casualidade que discuti as duas outras associações de P., a fim de mostrar-lhes que ele realmente estava ocupado com pensamentos ciumentos a respeito de pessoas que me visitavam. Ou se poderia, não desprezando a possibilidade mais extrema, aventar a hipótese de que P. havia observado um especial estado de excitação em mim (do que, para dizer a verdade, eu mesmo não sabia nada) e tirou sua conclusão a partir disto. Ou Herr P. (embora ele chegasse um quarto de hora depois de o inglês ter saído) encontrou-se com ele, no breve trecho de rua que tanto um como o outro tinham de percorrer, reconheceu-o por sua aparência caracteristicamente inglesa e, estando em permanente estado de expectativa ciumenta, pensou: ‘Ah, então é este o Dr. Forsyth, com cuja chegada minha análise vai chegar ao fim! E provavelmente ele acaba de vir agora mesmo do professor.’ Não posso levar mais adiante essas especulações de raciocínio. Mais uma vez, resta-nos um non liquet [não provado]; mas devo confessar que tenho a impressão de que também aqui os pratos da balança se inclinam a favor da transmissão de pensamento. Ademais, certamente não estou só ao ter-me decidido experimentar eventos ‘ocultos’ como este na situação analítica. Helene Deutsch publicou algumas observações semelhantes, em 1926, e estudou a questão de serem eles determinados pela relação transferencial entre paciente e analista.

Estou certo de que os senhores não se sentirão totalmente satisfeitos com minha atitude referente a esse problema — com o fato de eu não estar inteiramente convencido, mas predisposto a me convencer. Talvez os senhores possam dizer para si mesmos: ‘Está aí mais um caso de um homem que fez um trabalho honesto, como cientista, durante toda a vida, e, ao ficar idoso, tornou-se parvo, piedoso, ingênuo.’ Estou consciente de que alguns grandes nomes devem ser incluídos nessa categoria, mas não devem contar-me entre eles. Pelo menos piedoso não me tornei, e espero que ingênuo também não. Apenas o que acontece é que, se alguém, durante toda a vida, tratou de se abaixar a fim de evitar uma colisão dolorosa com os fatos, também na velhice ainda mantém as costas prontas a se dobrarem diante de novas realidades. Sem dúvida, os senhores gostariam que eu aderisse a um teísmo moderado e me mostrasse incansável em minha rejeição a tudo o que é oculto. Sou, contudo, incapaz de cortejar favores, e devo insistir em que tenham idéias mais gentis acerca da possibilidade objetiva da transmissão de pensamentos e, ao mesmo tempo, também da telepatia.
Os senhores não se esquecerão de que aqui estou apenas tratando esses problemas na medida em que é possível abordá-los do ponto de vista da psicanálise. Quando, pela primeira vez, eles ficaram ao alcance de minha visão, há mais de dez anos, também eu senti o receio de uma ameaça contra nossa Weltanschauung científica, que, eu temia, estava fadada a dar lugar ao espiritualismo e ao misticismo, se partes do ocultismo se comprovassem verdadeiras. Atualmente, penso de modo diverso. Em minha opinião, não mostra grande confiança na ciência quem não pensa ser possível assimilar e utilizar tudo aquilo que talvez venha a se revelar verdadeiro nas assertivas dos ocultistas. E especialmente no que diz respeito à transmissão de pensamento, ela parece realmente favorecer a extensão do modo científico — ou, como dizem nossos opositores, mecanicista — de pensamento aos fenômenos mentais que são tão difíceis de apreender. Supõe-se que o processo telepático consiste num ato mental que se realiza numa pessoa e que faz surgir o mesmo ato mental em uma outra pessoa. Aquilo que se situa entre essesdois atos mentais facilmente pode ser um processo físico, no qual o processo mental é transformado, em um dos extremos, e que é reconvertido, mais uma vez, no mesmo processo mental no outro extremo. A analogia com outras transformações, tal como ocorre no falar e no ouvir por telefone, seria então inequívoca. Imaginem só se alguém pudesse apreender esse equivalente físico do ato psíquico! A mim haveria de parecer que a psicanálise, ao inserir o inconsciente entre o que é físico e o que era previamente chamado ‘psíquico’, preparou o caminho para a hipótese de processos tais como a telepatia. Basta que a pessoa se habitue à idéia da telepatia, para que possa realizar muita coisa com ela — por enquanto, é verdade, apenas na imaginação. É um fato bastante conhecido que não sabemos como se realiza o propósito comum nas grandes comunidades de insetos: possivelmente se faz por meio de uma transmissão psíquica direta desse tipo. É-se levado à suspeita de que este é o método original, arcaico, de comunicação entre indivíduos e que, no decurso da evolução filogenética, foi substituído pelo método melhor de dar informações com o auxílio de sinais captados pelos órgãos dos sentidos. O método anterior, contudo, poderia ter persistido nos bastidores e ainda ser capaz de se pôr em ação sob determinadas condições — por exemplo, em multidões de pessoas apaixonadamente excitadas. Tudo isso ainda é incerto e pleno de enigmas não solucionados; não há, porém, razão para temê-lo.
Se existe telepatia como processo real, podemos suspeitar que, apesar de tão difícil de demonstrar, seja um fenômeno bastante comum. Ela concordaria com nossas expectativas se fôssemos capazes de demonstrá-la especialmente na vida mental das crianças. Aqui nos recordamos da freqüente ansiedade sentida pelas crianças ante a idéia de que seus pais conhecem todos os seus pensamentos, sem que estes tenham sido contados a eles — equivalente exato e talvez fonte da crença dos adultos na onisciência de Deus. Há pouco tempo, Dorothy Burlingham, uma testemunha fidedigna, em um artigo sobre a análise da criança e da mãe [1932], publicou algumas observações que, podendo ser confirmadas, viriam a terminar com as dúvidas remanescentes a respeito da realidade da transmissão de pensamento. Fez uso da situação, que já não é mais uma situação rara, em que uma mãe e seu filho estão simultaneamente em análise, e relatou alguns eventos notáveis, como o que se segue. Um dia, a mãe, durante sua sessão analítica, falou de uma moeda de ouro que tinha desempenhado um papel especial em uma das cenas de sua infância. Imediatamente depois, tendo retornado a casa, seu filhinho, de cerca de dez anos, veio até o quarto dela e lhe trouxe uma moeda de ouro e pediu-lhe que ela a guardasse para ele. Surpresa, ela lhe perguntou de ondeele a tinha obtido. Haviam-lhe dado a moeda no seu aniversário; mas o aniversário do menino tinha transcorrido diversos meses antes e não havia motivo para a criança dever lembrar-se da moeda de ouro justamente agora. A mãe referiu a ocorrência à analista do filho e pediu-lhe para descobrir junto à criança o motivo de sua ação. A análise da criança, contudo, não elucidou nada do assunto; a ação se havia intrometido, naquele dia, na vida da criança, como se fora um corpo estranho. Poucas semanas depois, a mãe estava sentada à sua escrivaninha, redigindo, como lhe havia sido dito que fizesse, um relato da experiência, quando entrou o menino e lhe pediu de volta a moeda de ouro, pois queria tê-la consigo para mostrar em sua sessão de análise. Mais uma vez, a análise da criança não pôde descobrir explicação alguma para esse desejo.
E isto nos faz retornar à psicanálise, que foi de onde partimos.











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