o diabo e outras histórias | Liev Tolstói

| sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Liza era alta, esbelta, longilínea. Tudo nela era alongado :
o rosto, o nariz, que não se proj etava para a frente mas ao longo
do rosto, os dedos e os pés eram longos. Tinha a tez muito
suave, branca, amarelada, de um corado leve, os cabelos longos,
macios, castanhos claros e anelados, os olhos bonitos, também
claros, doces e confiantes . Foram esses olhos, particularmente,
que impressionaram levguiêni. Quando pensava em Liza, via
diante de si aqueles olhos claros, doces e confiantes.
Assim era ela no aspecto fisico, porque do espiritual ele
não sabia nada; enxergava apenas aqueles olhos. E estes pareciam
dizer-lhe tudo o que precisava saber.











Liev Tolstói
o diabo e outras histórias
(
.. )
o diabo e ol/tras histórias reúne cinco pequenas
obras-primas de Liev Tolstói (1828-
1910). Mais conhecido como autor de vastos
romances como Guerra e Paz e Anna
Kariênina, o conde russo praticou também,
ao longo de toda vida, a forma breve do
conto. Nesta antologia, que inaugura a coleção
Prosa do Mundo, o leitor reencontrará
todos os temas caros ao grande autor
- a natureza, o amor, a consciência moral,
a injustiça e a morte -, tratados com mestria
compositiva e grande versatilidade
estilística. Desmentindo a rigidez moralista
que por vezes lhe é atribuída, Tolstói
revela a amplitude de seu campo de visão:
sabe ser cronista das mazelas burguesas e
aristocráticas, mas transita pelos ambientes
mais plebeus; recria os falares mais diversos,
mas também escuta e assume a voz
dos animais; empenha-se em conceber o
panorama mais completo da sociedade
russa do século XIX, ao mesmo tempo
que é capaz de virar-lhe as costas e mergulhar
no âmago do mundo natural. Um
espírito ímpar, que segue merecendo
atenção e leitura.

Tradllção
Beatriz Morabito
Beatriz Ricci
Maira Pinto
Seleção e apreselltação
Paulo Bezerra
(osac & Ndlfy
Liev To!stói
o diabo e outras histórias
© Cosac & NaifY Edições, 2000
"Parallels in Tolstoy" [Os paralelos em Tolstóij
© Victor Chklóvski
Coleção Prosa do Mundo
Coordenação: Samuel T itan Jr.
Conselho editorial: Augusto Massi e Davi Arrigucci Jr.
Traduçào: Beatriz Morabito, Beatriz Ricci,
Maira Pinto e André Pinto Pacheco
Preparação: Paulo Bezerra e Samuel T itan Jr.
Revisão: Betina Bischof e Luiz Sérgio Repa
Capa e projeto gráfico: Fábio Miguez
Editoração eletrônica: Estúdio o.L.M.
Catalogação na Fonte do Departamento Nacional do Livro
(Fundação Biblioteca Nacional)
Tolstói, Liev
Liev Tolstói: O diabo e outras histórias
São Paulo: Cosac & NaifY Edições, 2000
Coleção Prosa do Mundo
p.283
ISBN: 85-7503-035-3
1. Literatura russa
2. LievTolstói 1828-1910
COSAC & NAIFY EDIÇÔES
Rua General Jardim, 770 - 2° andar
01223-0 1 0 São Paulo - SP
Fone 0_11 255-8808
Fax 0_11 255-3364
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CDD 891.7
o diabo e outras histórias

APRESENTAÇÃO
Tolstói contista por Paulo Bezerra, 7
o DIAllO E OUTRAS HISTÓRIAS
Três mortes, 27
Kholstomér, 49
O diabo, 101
Falso cupom, 165
Depois do baile, 255
ApÊNDICE
Os paralelos em Tolstói por Victor Chklóvski, 273
Sugestões de leitura, 281

Tolstói contista por Paulo Bezerra
Os contos que compõem esta edição ilustram aspectos fundamentais
da obra tolstoiana . Três Mortes foi escrito em 1858 ,
momento em que Tolstói mal chegava a Yásnaia Poliana após
dar baixa no exército em 185 6 . Na sua fazenda-laboratório ele
entrará em contato direto com a vida dos camponeses, o que
o levará a mudar radicalmente as suas concepções anteriores
sobre o campesinato russo e abrirá caminho para a sua futura
utopia sobre esse segmento social. No contato direto com a
realidade camponesa ele irá compreender que o estatuto servil
a que está suj eito o camponês é uma iniqüidade a ser abolida,
pois não só motiva o ódio do camponês ao latifundiáriosenhor
como justifica qualquer ato de vingança contra este,
inclusive o assassinato. Esse contato direto, aliado a leituras anteriores
de Rousseau e outros pensadores, irá forj ar as suas
concepções sociais . A essa altura já está publicada a sua trilogia
Itifâncía, A dolescência e Juventude, bem como seus contos sobre
a vida militar ambientados em Sebastópol, ao passo que a
aldeia russa j á fora obj eto de representação literária na obra
7
concebida inicialmente como Romance de um fazendeiro russo e
depois publicada em 1856 como A manhã de um fazendeiro
(Utro pomiéschika) . Essa obra está perfeitamente sintonizada
com a crise que envolve a sociedade russa e que culminará na
abolição do estatuto servil em 186 1 , e também com o espírito
de um época em que o interesse geral se volta para o campesinato.
Niekhliúdov, personagem central e fazendeiro, é um
homem dotado de grande inteligência, pensa de forma equilibrada
e não teme a verdade mesmo que esta não sej a favorável
à sua classe social. Entretanto seu conhecimento da vida
camponesa é superficial e periférico, e seu programa destinado
a melhorar a vida dos camponeses não passa de tímida filantropia,
bem ao gosto da ideologia liberal da nobreza .
No início de 1857 Tolstói sai da Rússia e passa cerca de
meio ano na Alemanha, na Suíça, na França, principalmente
em Paris . A vida burguesa do Ocidente, a despeito de todas as
suas limitações e precariedades, permite-lhe penetrar mais fundo
no conhecimento da realidade russa, perceber e entender
melhor o sentido do capitalismo. O retorno à Rússia e o reencontro
com sua realidade deixam-no pessimista e sombrio, a
ponto de declarar que na Rússia tudo é detestável, que em toda
a parte reinam a barbaridade patriarcal, a roubalheira e o arbítrio.
Mas se a viagem ao Ocidente lhe permite observar um
capitalismo bastante avançado, ainda mais se comparado à
Rússia patriarcal e servil, permite-lhe igualmente perceber as
contradições e mazelas do capitalismo e não alimentar ilusões
em relação a ele. Portanto, ao escrever o conto Três mortes,
Tolstói já tem uma concepção mais ou menos formada sobre
a vida camponesa e o capitalismo, o que irá igualmente ecoar
em Kholstomér.
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Em Três mortes há um narrador exuberante que - num
clima de impressionante beleza poética ditada pela natureza -
conta a história de três mortes : de uma senhora nobre, de um
cocheiro e de uma árvore. Três seres que nunca se conheceram,
entre os quais nunca houve um único contato, mas que estão
estruturalmente ligados pelos fios da trama narrativa, formando
uma totalidade na qual se manifesta uma concepção de morte
traduzida na finitude de tudo o que é vivo. São três mortes estruturalmente
interligadas, mas cada uma particular na sua especificidade.
A senhora morre com a pompa com que sempre
vivera, cercada de formalidades e também de muita hipocrisia,
ocupando oito das onze páginas da história, um espaço proporcional
àquele que sua classe social ocupa na sociedade, portanto,
repetindo na narrativa a mesma distribuição inj usta de espaço
que caracteriza a sociedade de castas . Às outras duas mortes
- do cocheiro e da árvore - restam apenas três páginas . Entretanto,
se a morte da senhora é cercada de formalidades e muito
artificialismo, a morte do cocheiro se dá em um clima de
plena naturalidade e muita solidariedade entre os cocheiros e
os que os cercam, mostrando que as simpatias do narrador estão
claramente com a gente simples e os camponeses . Há uma
espécie de contrato social implícito entre a gente simples, permitindo
que os poucos frutos individuais do seu trabalho permaneçam
no mesmo espaço para assegurar a continuidade de
suas vidas, todas elas intimamente ligadas à natureza: o cocheiro
Khviédor morre deixando as botas para outro cocheiro, a árvore
morre para que dela se faça a cruz a ser colocada na cova
de Khviédor. Povo e natureza representam para Tolstói um duplo
refúgio; o povo o faz sentir-se livre da presença dos seus pares
nobres, a natureza, longe da realidade absurda, da mediocri-
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dade do mundo urbano. "A natureza é quem mais nos dá esse
prazer supremo da vida, esse esquecimento de nossa própria
pessoa insuportável" . O binômio povo-natureza, marca fortíssima
e muito recorrente em sua obra, traz ecos inequívocos da
teoria de Rousseau. Como o homem natural de Rousseau, o
campesinato em Tolstói vive uma espécie de " estado natural"
em que os indivíduos são puros, livres e iguais, daí a sua relação
organicamente íntima com a natureza. É nessa perspectiva
que Tolstói descreve seu plano de Três mortes em carta dirigida
a A. A. Tolstói em 1858: "Minha idéia foi a seguinte: morrem
três seres - uma senhora nobre, um mujique e uma árvore. A
senhora é desprezível e torp e porque passou a vida inteira
mentindo e mente diante da morte. O Cristianismo, na compreensão
dela, não lhe resolve a questão da vida e da morte. Por
que morrer quando se quer viver? Nos bens que o Cristianismo
promete para o futuro ela acredita com imaginação e inteligência,
mas todo o seu ser se rebela e ela não tem outro consolo,
exceto um falso Cristianismo . . . Ela é torpe e desprezível.
O mujique morre tranqüilo, j ustamente porque não é cristão.
Sua religião é outra, embora por tradição ele tenha praticado
rituais cristãos; sua religião é a natureza com a qual viveu. Ele
mesmo derrubou árvores, semeou e ceifou o centeio, matou
carneiros, e em seus domínios carneiros nasceram, crianças nasceram,
os velhos morreram, ele conhece solidamente essa lei e
nunca lhe deu as costas, como o faz o fidalgo, mas a encara de
maneira direta . . . A árvore morre de forma tranqüila, honesta e
bela. Bela porque não mente, não se dilacera, não tem medo,
não se queixa" .
O enfoque da religião em Três mortes antecipa a concepção
desse tema que Tolstói irá desenvolver da maturidade até
o fim dos seus dias . Para ele, os dogmas a que a Igrej a reduziu
a essência do Cristianismo contrariam as leis mais simples da
lógica e da razão. Ele considera que nos primórdios do Cristianismo
a doutrina ética foi a sua parte principal, mas no processo
de sua evolução o centro da gravidade transferiu-se do
ético para o filosófico ou metafisico. Daí a crítica à Igrej a de
sua época: considera que sua prática se estriba na hipocrisia, as
suas doutrinas atuais estão em divergência ampla e profunda
com a doutrina ética do Cristianismo em seus primórdios, seu
pecado capital está na participação em uma ordem política,
econômica e social fundada na violência e na opressão, na tentativa
de transformar a religião em j ustificativa do mal social
vigente. Isto impede que os indivíduos integrantes desse sistema
vivam com autenticidade e morram com naturalidade, é isso
que torna tão dificil e sofrida a morte da senhora nobre (seu
Cristianismo era falso, ela passara a vida mentindo), ao contrário
da morte natural e tranqüila do mujique, integrante de outra
religião e outro sistema de valores, e da árvore, elemento
imune a qualquer sistema de valores .
E m Três mortes o realismo d e Tolstói vai-se consolidando.
Além da representação bastante fiel da vida da gente simples,
ele incorpora ao processo literário a recriação da linguagem
popular, tornando as falas muito próximas da vida real, e essa
solução estilística se constituirá em elemento composicional
das suas obras futuras .
Kholstomér, escrito entre 1860 e 1863 (receberá nova redação
em 1885) , é obra-prima que mostra a profunda capacidade
do autor para observar tudo o que está ocorrendo ao seu
redor. Iniciado em 1860, portanto um ano antes da reforma
que aboliu o estatuto servil e preparou as condições de que o
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capitalismo necessitava para se desenvolver na Rússia, o conto
discute questões como a propriedade privada e a posse daí decorrente
sobre pessoas e obj etos , além da alienação e da própria
sobrevivência da nobreza na nova sociedade que, por necessidade
e pelo dinamismo que a caracteriza, inviabiliza a
existência dessa casta no seu sentido tradicional.
Em Kholstomér saltam à vista dois aspectos essenciais : o
profundo conhecimento que o autor tem de cavalos e a sua
sensibilidade igualmente profunda para captar e antecipar aspectos
da vida e da história ainda em formação.
O primeiro aspecto está ligado à experiência direta do
autor com cavalos. Em sua biografia do escritor, que recebeu
o título de Liév Tolstói, Viktor Chklóvski enfatiza o convívio
íntimo que o autor de Guerra e paz sempre manteve com cavalos,
em cuj o lombo passou cerca de sete anos, segundo palavras
do próprio Tolstói . É essa intimidade que torna muito naturais
as comparações, tão freqüentes em sua obra, entre a vida
humana e a vida dos cavalos. Há muito de biográfico em
Kholstomér. Como observa Chklóvski, Tolstói amargurou longos
fracassos, tinha uma orgulhosa consciência da sua força,
enfrentou a solidão em Yásnaia Poliána, teve desentendimentos
com os vizinhos nobres que detestavam aquele conde esquisitão
que tomara o partido dos camponeses. E, comparando
o autor ao cavalo Kholstomér, Chklóvski conclui: "Liév
Nikoláievitch foi um homem de raça, um homem genial, mas
foi um malhado na vida e na literatura; tinha uma pelagem específica,
uma posição específica no mundo, mas sua especificidade
não era reconhecida" . 1
1 V.Chklóvski, Liév ToIstói (Moscou: Molodáya Gvárdiya, 1 967) , p. 274.
1 2
A naturalidade da história de Kholstomér é tamanha que
Turguiêniev, após ouvir do próprio Tolstói o enredo do conto
ainda não escrito, observou entre risos : "Liév Nikoláievitch, algum
dia você já foi cavalo."
Kholstomér é um cavalo puro-sangue, só que malhado,
razão pela qual seu dono manda castrá-lo para que não venha
a estragar a raça. Por ser malhado, isto é, não ter nascido com
a cor característica dos puros-sangues, ele é alvo do desprezo e
da chacota dos outros cavalos, que o tratam com crueldade,
movidos por um sentimento aristocrático. Haveria alguma relação
entre um cavalo de raça nobre porém malhado e a situação
em que então se acha a nobreza russa?
A meu ver, a história desse puro-sangue malhado soa
como alegoria da nobreza russa dos anos sessenta. À medida
que o capitalismo vai penetrando fundo na vida russa (a reforma
de 186 1 é mero reflexo desse processo), a nobreza, antes
puro-sangue racial, social e cultural, começa a inserir-se no
processo, muitos dos seus representantes tradicionais passam a
desenvolver atividades capitalistas, a misturar a arraigada tradição
do ó cio com novas atividades até então incompatíveis
com a condição nobre, vão-se mesclando, misturando seu sangue
" azul" com outros sangues de origem comercial, industrial
etc . , em suma, começam a tornar-se socialmente malhados
e estéreis como o capão Kholstomér. Sierpukhóvskoi,
antigo nobre, principal dono do cavalo, levara uma vida inteiramente
estéril e morre na mais profunda decadência, numa
espécie de antecipação sombria do destino que ronda a nobreza.
Como Turguiêniev anteviu o tipo do futuro revolucionário
na figura do búlgaro lnsárov no romance Na véspera
(Nakanúnie, 1859) , Tolstói parece antecipar o destino da no-
1 3
breza no tom malhado do cavalo e na decadência de Nikita
Sierpukhóvskoi, seu dono.
Um segundo aspecto do conto está vinculado à ideologia
burguesa que, àquela altura , j á domina as relações humanas
na sociedade russa: a ideologia da posse e da propriedade .
Kholstomér reflete sobre a estranha espécie de animais a que
os cavalos estão intimamente ligados e chamam de homens .
Porque são os homens que provocam nele um grande estranhamento
: ele não entende o sentido da palavra meu, seu, não
pode entender por que o chamam de propriedade do homem.
A palavra meu cavalo, aplicada a ele, soa-lhe tão estranha como
as palavras minha terra, meu ar, minha água. À medida que vai refletindo
sobre o conceito de posse, sua crítica à essência da sociedade
burguesa se amplia a outros aspectos como o discurso,
porque finalmente acaba entendendo o sentido que as pessoas
atribuem àquelas estranhas palavras: os homens não se orientam
em suas vidas pelos atos mas pelas palavras , não gostam tanto
de fazer ou deixar de fazer alguma coisa quanto de usar para
diferentes obj etos palavras que eles convencionaram para designar
meu, minha, aplicando tais palavras aos obj etos e seres
mais diversos como terra, gente, cavalo. Logo, o discurso da
posse é meio de usar a palavra para escamotear a essência da
ação. Quem tem posse tem poder, quem tem poder tem discurso
e o ostenta diante dos outros que agem, trabalham e fazem
por ele e para ele. A inutilidade do existir é completada
pela afirmação "isso é meu " , que substitui a necessidade do fazer.
O convencionalismo do discurso burguês estabelece uma
relação inequívoca entre o ter e o ser, da qual decorre imediatamente
o conceito burguês de felicidade. D entro desse convencionalismo
do discurso, aquele que pode aplicar a palavra
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meu ao maior número possível de obj etos é considerado o mais
feliz dos homens . Daí o estranhamento do cavalo.
Kholstomér passa das observações em torno do discurso
da posse ao questionamento do direito de posse e propriedade.
Constata que muitas daquelas pessoas que o chamavam de meu
cavalo nunca o montaram, nunca o alimentaram, nunca lhe fizeram
um único bem: outras pessoas bem diferentes lhe fizeram
tudo isso. Logo, na sua ótica, o direito de propriedade é totalmente
inútil: o conceito de meu não passa de um instinto
baixo e animal que os homens chamam de sentimento ou direito
de propriedade. O homem diz "minha casa", mas não
mora nela, diz "minha terra", mas nunca a viu ou passou por
ela. Há pessoas que chamam de minhas outras pessoas mas nunca
as viram, e sua única relação com elas consiste em lhes fazer
o mal. O que move as pessoas em suas vidas é a aspiração a aplicar
o conceito de meu ao maior número possível de obj etos . E
daí conclui Kholstomér: por não estar dominada pelo sentimento
de propriedade, por não justificar a existência através das
palavras mas dos atos, a espécie eqüina é superior à humana. Os
eqüinos j ustificam sua existência pela utilidade, ao passo que o
direito de posse não só é inútil como inúteis são as vidas daqueles
que o praticam e fazem dele o obj etivo principal de sua
existência. As mortes de Kholstomér e Sierpukhóvskoi no final
do conto são uma confirmação cabal dessa reflexão : os restos
mortais de Sierpukhóvskoi não serviram para nada, ao passo
que Kholstomér morto serviu de repasto a cães e filhotes de lobo,
prolongando-lhes a existência, além de ter seu couro e seus
ossos aproveitados. Kholstomér teve uma vida socialmente útil
e uma morte magnificente, Sierpukhóvskoi levou uma existência
inútil, apenas esbanj ando, e teve uma morte melancólica. O
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final do conto soa como um acorde funesto para o destino da
nobreza russa.
Como podemos observar, o capitalismo russo ainda está
dando os primeiros passos como sistema orgânico, e Tolstói
já levanta uma questão essencial do sistema: a alienação como
decorrência das relações de posse e propriedade. À medida que
o sistema avança, o romancista sente a necessidade de aprofundar
a discussão desse assunto, e por isso volta a Kholstomér e faz
algumas alterações no texto em 1885, aprimorando alguns dos
aspectos da primeira redação que considerou necessário atualizar
em face do aprofundamento daquele processo iniciado
em 186 1 . Esse retorno a Kholstomér é profundamente sintomático
tendo em vista o momento : os anos oitenta. A essa altura
já foi escrito o romance Guerra c paz, e A nna Kariénina está em
fase de conclusão. O autor mergulhara fundo na história e nos
destinos da Rússia, na questão conj ugal (espinho que se lhe
cravara na alma para o resto da vida) e sua reflexão se volta cada
vez mais para temas político-sociais, psicológicos e filosóficos,
destacando-se a alienação do homem na sociedade burguesa
como preo cupação constante. É nesse clima que o
motivo da alienação já trabalhado em Kholstomér retoma em
1886 em A morte de Ivan Ilitch, outra obra-prima do seu gênio
criador. Nela, Tolstói é absolutamente implacável com a sociedade
burguesa e mostra que a ascensão do indivíduo e sua
conseqüente inserção no sistema oficial de valores redunda na
sua plena identificação com a sua função, função essa que lhe
dá a sensação de poder, de onde lhe vem o prazer de sentir-se
na posse de outras pessoas cuj os destinos pode decidir com a
mesma facilidade com que os donos de Kholstomér denominavam
meu ou minha esse ou aquele obj eto ou pessoa; em suma,
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a absorção da função burocrática e de seus condicionamentos
psicológicos e ideológicos por parte de Ivan Ilitch apaga a diferença
que separa indivíduo e função burocrática e redunda
para ele na perda da sua personalidade e da própria condição
humana. Fiel à sua concepção poética bem aristotélica ("Fala
da tua aldeia que estarás falando do universo! ") da relação entre
particular e universal, Tolstói toma o caso particular do burocrata
Ivan Ilitch e faz dele uma representação universal do
processo de alienação e suas conseqüências para a vida humana.
Como Sierpukhóvskoi, nobre decadente que levara uma
vida inútil mas dela nunca tomara consciência, Ivan Ilitch, alto
funcionário do sistema j urídico, levara uma vida que imaginava
utilíssima mas que descobrirá inútil ante a constatação da fatalidade
da morte.
O conto Falso cupom (1904) apresenta vários elementos
das utopias sociais e religiosas de Tolstói. O escritor já havia
desenvolvido a famosa teoria da não-resistência ao mal e do
perdão universal. Já se rebelara contra a Igrej a ortodoxa russa
e seus representantes mais elevados, que qualificava de hipócritas
, vazios, interesseiros, egoístas e pouquíssimo ilustrados.
Logo, não estavam em condição de salvar ninguém de coisa
nenhuma. Diante disso, Tolstói pensa em um novo cristianismo,
em um D eus j usto e sem os arroubos mercantilistas com
que o apresenta a Igrej a ortodoxa. Vê a própria Igrej a como
algo perfeitamente dispensável, além de nociva como instituição.
Sua concepção religiosa reduz a religião a uma ética do
amor e da não-violência. A Igrej a devotada ao poder e aos poderosos
em detrimento do povo é uma aberração e uma deturpação
dos princípios fundamentais do Cristianismo. Não
há como aceitar uma Igrej a que não tenha como prioridade
1 7
absoluta o povo. Entre este e ela não há nada em comum e
por essa razão ele não mais a reconhece e deve procurar seu
próprio caminho. Em Falso cupom, vemos assassinos sanguinários
regenerados após a leitura dos Evangelhos, tomados de
amor ao próximo e entregues à prática do bem, e ao mesmo
tempo reconquistando aquela condição rousseauniana da inocência
e da bondade naturais, agora lib ertos das influências
degradantes da religião pregada pela Igrej a e da civilização
burguesa. Não poderia faltar no conto a condenação explícita
da instituição j urídica e do Estado, do vazio e da falta de caráter
e seriedade dos seus representantes .
Em termos compositivos, o narrador incorpora ao conto
a tradição hagiográfica, e graças a ela assassinos se regeneram
sob o efeito da leitura dos Evangelhos e passam a pregar o amor
ao próximo, caminhando claramente no sentido da beatificação.
No conjunto da obra tolstoiana, Falso cupom se constitui
em um grande paradoxo. Mas, como dizia Púchkin, o gênio é
amigo dos paradoxos, e Tolstói não só é amigo como também
cultor. Há momentos em suas obras , e freqüentes, em que o paradoxo
aparece como elemento imediatamente composicional,
enfeixando concepções humanistas com outras bastante reacionárias,
instalando um movimento contraditório que dinamiza o
pensamento e dramatiza a enunciação ou a ação. Assim, Falso
cupom apresenta-se como um quadro bastante policrômico onde
se expõem as contradições em que o autor sempre se debateu
e que se intensificaram nos seus últimos anos de vida.
O diabo (ele começa a escrevê-lo em 1889) é um conto
de forte condimento autobiográfico, baseado na história do
amor real de Tolstói por uma camponesa chamada Aksínia,
moradora de Y ásnaia Poliána. À sua história pessoal o autor in-
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corpora a história real de Nikolai Nikoláiev Friederiks, j uiz de
instrução na cidade de Tula, que tivera um caso com a camponesa
Stiepanida Munítsina. D ep ois do casamento, a mulher
passou a atormentá-lo com cenas de ciúme com Stiepanida, e
Friederiks acabou matando a amante com um tiro de revólver
na barriga quando ela debulhava milho com outras camponesas
. Friederiks foi j ulgado e considerado anormal, mas pouco
depois o encontraram sobre os trilhos de uma ferrovia esmagado
por um trem (Cf. Chklóvski, op.cit., p. 26 1).
Sófia Andrêievna, mulher de Tolstói, sabia da história
amorosa do marido e conheceu p essoalmente Aksínia nas mesmas
circunstâncias em que Irtiêniev reencontra Stiepanida depois
de casado, durante a faxina que Liza manda fazer na casa
da fazenda.
Na primeira versão, o conto chamava-se A história de
Friederiks, e só mais tarde Tolstói lhe deu redação final com o
título O diabo, sob o qual foi publicado postumamente.
O enredo do conto gira em torno de uma alucinação
amorosa. levguiêni Irtiéniev assume a fazenda que recebera
como herança do pai e nela se embrenha movido pela necessidade
de fazer funcionar uma propriedade abandonada há vários
anos. Envolvido com os trabalhos de recuperação da fazenda,
distante do meio urbano, sente os apelos do sexo e,
vencendo o acanhamento, acaba recorrendo à mediação de
Danila, antigo empregado da fazenda, e por ele é levado à
camponesa Stiepanida. Ele repete várias vezes que sua intenção
é meramente profilática: quer fazer sexo apenas para resguardar
a saúde. Entretanto acaba se envolvendo, apaixonandose
e amando de verdade Stiepanida, que ele não consegue
esquecer com o casamento.
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À primeira vista, uma história banal como muitas outras.
Entretanto nas mãos do verdadeiro artista o banal pode
tornar-se sublime ou trágico. O mergulho psicológico profundo
na alma de Irtiêniev, que em certo sentido é um mergulho
de Tolstói em sua própria alma, arrasta o leitor para dentro da
obra como uma força invisível a puxá-lo pelos cabelos . O movimento
de tração e retração que se estabelece entre a paixão
alucinatória de Irtiêniev e sua tentativa de resistir à sedução
avassaladora que Stiepanida exerce sobre ele dramatiza ao máximo
a narrativa e lhe imprime um grau de tensão muito próximo
dos melhores exemplares da tradição trágica. Um traço
essencial do trágico consiste em que ele não admite conciliação
do conflito ou sua solução em alguma esfera superior, pois
se isso acontecesse o trágico transbordaria no cômico. lrtiêniev
se debate entre o imperativo moral de fidelidade à esposa e a
voragem da paixão que experimenta por Stiepanida, está consciente
de que entregar-se à paixão significa destruir-se como
ser ético, e como seu conflito não permite conciliação ele acaba
optando pela erradicação da causa. Uma vez que, segundo
o próprio Tolstói, "não se pode viver sem um ideal" e o ideal
de levguiêni sucumbiu à paixão por Stiepanida, não lhe resta
outra saída senão erradicar o " mal " .
A representação d a angústia d e Irtiêniev mostra a força
e a profundidade da análise psicológica de Tolstói, a sua dialética
da alma; o processo psicológico se desencadeia como luta
entre princípios diversos e contraditórios, os sentimentos se
movimentam com a intensidade e a força da gravidade de um
remoinho que arrasta a personagem para o fundo do precipício,
criando uma tensão que só se desfaz na catarse do ato final.
"A arte" - escreveu Tolstói - "é a habilidade de represen-
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tar aquilo que deve ser, aquilo a que as pessoas devem aspirar,
aquilo que faz mais bem às p essoas . E representar tudo isso só
é possível através de imagens."
Ao mesmo tempo, ao insistir na constante reformulação
de O diabo, Tolstói reproduz o paradoxo a que nos referimos :
anos a fi o rej eitou explicitamente o amor sensual, enquanto
recalcava no recôndito da alma a paixão por Aksínia que o incendiara
na j uventude e o acompanhou pelo resto da vida. Em
1909, portanto um ano antes de morrer, ele ainda anotava no
diário que tinha visto Aksínia descalça, lamentava por não lhe
ter pedido p erdão p elo filho que ela tivera dele e se autocensurava
por censurar os outros. O paradoxo de Tolstói o impede
de chegar a uma solução unívoca do conflito em grande
medida p essoal; representar uma idéia como a da luta entre
D eus e o diabo transfigurada em luta entre o espírito e a carne
requer imagens convincentes, e como a paixão por Aksínia
foi uma ferida aberta na alma que o próprio Tolstói j amais
conseguiu fazer cicatrizar, ele não conseguiu uma imagem
unívoca para o fechamento de O diabo e o conto acabou tendo
dois finais .
Em O diabo manifesta-se ainda a famosa censura de
Tolstói à ciência e particularmente à medicina. O narrador
aproveita a visita do médico a Liza, esposa de Irtiêniev, para caricaturar
o médico e, na pessoa dele, toda a medicina. A fala do
médico, empolada e sem qualquer sentido, parece mais um
qüiproquó, um discurso abstruso à maneira do teatro do absurdo
: " O médico chegou na hora do almoço e, naturalmente,
disse que, embora casos reincidentes pudessem inspirar cuidados,
propriamente falando não havia indicação positiva mas ,
como também não havia contra-indicação, por um lado se po-
2 1
dia supor, assim como, por outro lado, também se podia supor.
. ." . Em termos de representação do nível de linguagem este
é sem dúvida um trecho excepcional p ela habilidade do autor
no trato do discurso.
Depois do baile, de 1 903, é uma história bem característica
da fase tardia em que Tolstói está plenamente definido em
termos políticos, religiosos e morais . É uma espécie de contotese
do qual o autor lança mão para discutir a teoria segundo
a qual o meio determina tudo. E o faz de maneira muito engenhosa,
dividindo a história em dois pólos bem definidos: o
do discurso e o da ação ou dos "fatos" . De um lado está Ivan
Vassílievitch, personagem central que abre a narração contestando
essa tese e afirmando que "tudo é uma questão do acaso
" ; do outro lado está o coronel Piotr Vladislávitch, cuj a ação
Ivan Vassílievitch irá presenciar por obra e graça do acaso. Entre
os dois está o narrador, cuj a participação na história é parcimoniosa,
mas suficiente para delinear o p erfil ideológico de
todo o conto. Começa qualificando Ivan Vassílievitch como
"respeitado por todos" , dado que em si j á antecipa o tipo de
recepção do discurso dessa personagem, marcado p ela confiabilidade
desses "todos " . D epois, com a narração já avançando
quase pela metade da história, esboça em rápidas pinceladas o
perfil do coronel Piotr Vladislávitch, pai de Várienka. Paralelamente
a atributos como beleza, elegância, idade, o "sorriso carinhoso
e alegre como o da filha" , "peito marcial, ombros fortes
" , etc. , o narrador acrescenta dois detalhes nada secundários
em termos psicológicos: "bigodes brancos retorcidos para cima,
à la Nicolas f', " chefe militar, o tipo do antigo servidor de
Nicolai " . Portanto, a comparação com Nicolai 1( 1 796- 1 855) ,
o tristemente famoso Nicolai Pálkin (Porrete) significa identi-
22
ficação com a tradição maIS repressiva e violenta da Rússia.
Aliás o coronel é todo tradição e impressiona Ivan Vassílievitch
especialmente por usar botas " com presilhas fortes [ . . .] de couro
de bezerro, não de bico fino como era moda, mas à antiga,
quadradas e sem saltos [ . . . ] fora de moda" . Considerando o
momento em que o conto foi escrito - 1903 , época de grande
efervescência revolucionária que culminaria na revolução
de 1905 - , esse "à antiga" , "fora de moda" soa como um profundo
anacronismo e dado revelador da persistência da tradição
de violência e repressão, antecipando o desfecho sinistro
que o acaso levará Ivan Vassílievitch a assistir. Por outro lado -
e isso é muito marcante em toda a obra de Tolstói -, o comportamento
do coronel Vladislávitch em sociedade é um dado
altamente revela dor do divórcio profundo entre aristocracia e
povo : ela dança, se desfaz em rapapés, em meras formalidades,
ostenta fumaça de civilização quando está em seu próprio habitat
público, mas de volta à caserna espanca um ser humano
com a barbaridade do pior selvagem.
A técnica do retardamento da ação é usada com extremo
virtuosismo nesse conto. Entre as palavras da abertura
( " vocês dizem que o homem não pode compreender por si só
o que é bom e o que é mau") e a cena de tortura pública do
soldado desertor, desenvolve-se toda uma história de paixão.
Ivan Vassílievitch narra a história da sua paixão avassaladora -
" o amor mais forte que eu j á sentira" - por Várienka, filha do
coronel Vladislávitch, e encanta os seus ouvintes com detalhes
da sua amada e do baile em que dançara com ela. Como em
literatura o elemento autobiográfico sempre se faz presente, de
forma velada ou explícita, nessa história de uma paixão criada
por Tolstói não poderiam faltar as concepções de amor desen-
23
volvidas p elo autor. A essa altura Tolstói já prega a abstinência
sexual ( embora a saudade erótica de Aksínia-Stiepanida ainda
lhe queime a alma!) , e nesse sentido faz de Ivan Vassílievitch
um duplo seu, pondo-lhe nos lábios afirmações como essas :
" Quanto mais eu me apaixonava, mais incorpórea ela se tornava
para mim . . . o obj eto do meu amor esteve sempre vestido
de bronze" . A essa mostra da ascese tolstoiana acrescenta-se
uma variante da sua concepção do amor como força que apazigua
o universo e torna o homem bom, j usto - " estava feliz,
abençoado, me sentia bom . . . ignorante do mal e capaz de fazer
apenas o bem" - e solidário. No entanto, o amor profundo
que sente porVárienka e tudo que a cerca, a ponto de querer
envolver pai e filha " em um só sentimento de ternura e
comoção " , não priva Ivan Vassílievitch do seu humanismo e
daquela p erspectiva crítica diante da vida que leva o homem a
reagir diante das imposições do meio, negando a tese segundo
a qual o meio determina tudo. Depois de assistir à cena de tortura
do soldado ele ainda procurou justificar a atitude do coronel:
" Com certeza ele sabe alguma coisa que eu não sei . . . Se
eu soubesse o que ele sabe, entenderia o que vi e isso não me
atormentaria" . Mas ele não aceita o fato, não ingressa no serviço
militar, como queria antes e, pior, não consegue mais
olhar para V árienka sem se lembrar da imagem do pai comandando
uma sessão pública de tortura e espancando o soldado.
O coronel é produto do meio, e de um meio cuj as raízes remontam
aos tempos de Nicolai I, age segundo fórmulas acabadas
e estereótipos atrás dos quais esconde-se o poder autoritário
da sociedade. Ivan Vassílievitch, a despeito do seu amor
por Várienka, está afinado com a sensibilidade da época, compreende
"o que é bom e o que é mal", não se deixa " devorar"
24
p elo meio a que ela pertence e acaba perdendo o amor mas
mantendo a feição humana e a personalidade acima das inj unções
do meio. Perde o amor mas desmente a tese da prevalência
do meio sobre o indivíduo.
Há em Depois do baile um inconfundível sabor tchekhoviana.
Além da repulsa natural à violência, o conto é, em termos
formais, um exemplo de economia do espaço narrativo - coisa
ímpar em Tolstói, cuj os contos, exceto os folclóricos, costumam
ser bastante longos. Sua arquitetônica é condensada, a história é
narrada de dentro por Ivan Vassílievitch, que dela participou e
por isso lhe confere alto grau de verossimilhança, o narrador só
interfere nos casos de extrema necessidade, nada é supérfluo, todos
os elementos funcionais estão em sua posição específica. Tudo
lembra a célebre definição de Tchékhov: "se em um conto
aparece uma espingarda, ela tem que disparar" .
***
Os contos aqui incluídos foram traduzidos diretamente
do russo por três alunas minhas do curso de graduação em língua
e literatura russas na USp, no p eríodo em que fui professor
dessa universidade. Três mortes, Kholstomér e Depois do baile
foram traduzidos sob minha orientação direta, supervisão e
correção de originais durante os meus plantões destinados ao
atendimento de alunos. No processo da tradução discuti com
minhas alunas cada palavra, cada nuança, os meandros da tradução
como recriação, os equivalentes lingüístico-culturais nas
duas línguas, o estilo do autor e sua recriação, com o maior
grau de fidelidade possível, na língua portuguesa. Várias vezes
25
as alunas leram em voz alta o texto em português para que pudessem
sentir quando a linguagem fluía naturalmente ou revelava
alguma coisa forçada e artificial no texto traduzido. Tratava-
se de um proj eto pessoal de criar um laboratório vivo de
tradução e investir nos alunos de melhor destaque no curso de
língua e literatura, estimular a criatividade e aproveitar o potencial
de cada um.Visava eu, ainda, lançar as bases para a criação
de uma equip e que, no futuro, pudesse preencher a carência
de bons tradutores de russo no mercado brasileiro, carência
essa não preenchida pelos poucos cursos de russo existentes no
Brasil nem por aqueles oferecidos por universidades russas.
Ao término do trabalho, percebi que os textos poderiam
ser aproveitados numa seleta para publicação, contanto que eu
me debruçasse sobre cada um e procedesse a uma cuidadosa
revisão suplementar, primeiro cotejando os textos traduzidos
com os originais russos, depois procedendo a uma nova revisão
da linguagem. Assim, os textos que a editora Cosac & Nairy
põe agora ao alcance do leitor brasileiro passaram por nova revisão
: primeiro minha, a partir de um novo cotej o com originais
russos, e depois em conjunto com Samuel TitanJr., j á com
vistas ao máximo aprimoramento possível da linguagem
26
Três mortes

Era outono. Pela estrada real duas carruagens seguiam a trote
rápido. Na da frente viaj avam duas mulheres . Uma, a senhora,
magra e pálida. A outra, a criada, gorda e de um corado lustroso.
Seus cabelos curtos e ressecados brotavam por baixo do
chapéu desbotado, e a mão avermelhada, coberta por uma luva
poída, aj eitava-os com gestos bruscos. O busto volumoso,
envolto num lenço rústico, transpirava saúde; os olhos negros
e vivazes ora espiavam pela j anela os campos fugidios, ora observavam
timidamente a senhora, ora lançavam olhares inquietos
para os cantos da carruagem. A criada tinha bem ao nariz
o chapéu da senhora pendurado no bagageiro, um cãozinho
deitado nos j o elhos, os p és acima dos bauzinhos dispostos no
chão, tamborilando sobre eles , em sons quase abafados pelo
ruído dos solavancos das molas e do tilintar dos vidros.
De mãos cruzadas sobre os joelhos e de olhos fechados,
a senhora balouçava levemente nas almofadas que lhe serviam
de apoio e, com um leve franzir de cenho, dava tossidelas fundas
. Tinha na cabeça uma touquinha branca de dormir e um
29
lencinho azul celeste envolto no pescoço pálido e delicado.
Uma risca brotava abaixo da touquinha e repartia os cabelos
ruços, excessivamente lisos e empastados; havia qualquer coisa
de seco e mortiço na brancura do couro daquela vasta risca. A
p ele murcha, um tanto amarelada, mal conseguia modelar suas
feições belas e esguias, que ganhavam um tom vermelho nas
maçãs do rosto. Os lábios secos mexiam-se intranqüilos, as ralas
pestanas não se encrespavam, e o sobretudo de viagem formava
rugas entre os seios encovados . Mesmo de olhos fechados,
o rosto da senhora expressava cansaço, irritação e um
sofrimento que lhe era familiar.
Recostado em seu banco, o criado cochilava na boléia;
o postilhão gritava animado e fustigava a possante quadriga
suada; vez por outra espreitava o outro cocheiro, que gritava de
trás, da caleça. As marcas paralelas e largas das rodas se estendiam
nítidas e iguais pelo calcário lamacento da estrada. O céu
estava cinzento e frio; a bruma úmida espalhava-se p elos campos
e p ela estrada. A carruagem estava abafada e recendia poeira
e água-de-colônia. A doente inclinou a cabeça para trás e
abriu devagar os olhos, grandes, brilhantes, de uma bela tonalidade
escura.
"Outra vez! " - disse ela, repelindo nervosamente com a
mão bonita e magra a ponta da saia da criada, que lhe roçava
de leve a perna, e torceu a boca de dor. Matriocha 1 recolheu a
saia com ambas as mãos, soergueu as p ernas robustas e sentouse
mais afastada. Um corado vivo cobriu-lhe o rosto viçoso. Os
belos olhos escuros da doente fitavam ansiosos os movimentos
da criada. A senhora apoiou as mãos no banco e quis também
1 Diminutivo de Matriona (N. T.) .
30
soerguer-se para se sentar mais alto, mas faltaram-lhe forças . A
boca se contorceu e todo o rosto ficou desfigurado por uma
expressão de ironia impotente e malévola. "Pelo menos você
devia me ajudar . . . Ah, não é preciso ! Eu mesma faço, só que não
ponha atrás de mim essas suas sacolas, faça o favor! . . . É melhor
mesmo que não me toque, j á que não leva j eito." A senhora fe-
,
chou os olhos e mais uma vez ergueu as pálpebras, observando
a criada. Matriocha mordia o lábio inferior avermelhado,
olhando para ela. O peito da doente exalou um suspiro fundo
que, antes de terminar, transformou-se em tosse. Ela se virou,
encolheu-se e agarrou-se ao peito com ambas as mãos. Quando
a tosse passou, tornou a fechar os olhos e permaneceu sentada
sem se mexer. A carruagem e a caleça chegaram à aldeia.
Matriocha tirou a mão roliça do lenço e se benzeu .
- O que é isso ? - perguntou a senhora.
- A estação de posta, senhora.
- E por que você está se benzendo?
- Tem uma igreja, senhora.
A doente voltou-se para a j anela e começou a se benzer
lentamente, com os olhos bem graúdos fitos numa grande
igrej a de madeira que a carruagem contornava.
Os dois veículos pararam em frente à estação. O marido
da doente e o médico desceram da caleça e se aproximaram da
carruagenl.
- Como a senhora se sente? - perguntou o médico, tomando-
lhe o pulso.
- E então, como está, minha cara, não está cansada? -
perguntou o marido em francês. - Não quer descer?
Matriocha j untou as trouxas e encolheu-se num canto
para não atrapalhar a conversa.
3 1
- Mais ou menos . . . na mesma - respondeu a doente. -
Não vou descer.
O marido foi para a estação, depois de ficar um pouco
com a mulher. Matriocha desceu do carro e correu pela lama
para a entrada do edificio, nas pontas dos pés.
- Se eu estou mal, isto não é razão para o senhor não
tomar o seu café - disse a senhora, com um leve sorriso, ao
médico postado à janela .
- Nenhum deles se importa comIgo - disse COnsIgO
mesma, maIo médico se afastou devagarinho e subiu correndo
a escada da estação. - Eles estão b em, o resto não tem importância.
Oh, meu Deus !
- E então, Edvard Ivánovitch? - disse o marido ao encontrar
o médico, esfregando as mãos com um sorriso j ovial. -
Ordenei que trouxessem alguma provisão, o que o senhor acha?
- Pode ser.
- E ela, como está? - perguntou suspiros o o marido,
baixando a voz e levantando as sobrancelhas .
- Eu disse : ela não vai conseguir chegar, e não só até a
Itália: queira D eus que chegue a Moscou. Ainda mais com esse
tempo.
- E o que é que nós vamos fazer? Ah, meu Deus ! Meu
D eus ! - o marido tapou os olhos com as mãos . - Traga aqui -
acrescentou ele para o homem que carregava as provisões.
- Ela deveria ter ficado - respondeu o médico, dando de
ombros.
- Agora me diga, o que é que eu podia fazer? - obj etou
o marido. - Ora, eu fiz de tudo para detê-la, falei dos recursos,
das crianças que nós teríamos de deixar, e dos meus negócios;
ela não quer dar ouvidos a nada. Fica fazendo planos de vida
32
no estrangeiro como se estivesse com saúde. E fosse eu falar do
seu estado . . . seria o mesmo que matá-la.
- Mas ela já está morta, o senhor precisa saber disso, Vassili
DilÚtritch. Uma pessoa não pode viver quando não tem pulmões,
e os pulmões não tornam a crescer. É triste, duro, mas o que se vai
fazer? O meu e o seu problema é fazer com que o fim dela seja
o mais tranqüilo possível. Nós precisamos é de um confessor.
- Ai meu D eus ! Mas o senhor entenda a minha situação
na hora de lembrar a ela esta sua última vontade. Aconteça o
que acontecer, isso eu não vou dizer a ela. O senhor bem sabe
como ela é bondosa . . .
- Mesmo assim tente convencê-la a ficar até o final do
inverno, - disse o médico, meneando a cabeça com ar expressivo
- senão pode acontecer o pior na viagem . . .
- Aksiucha! Ei, Aksiucha !2 - grunhiu a filha do chefe da
estação, j ogando um lenço sobre a cabeça e pisando no alpendre
enlameado nos fundos da casa. -Vamos espiar a senhora de
Chirkin, dizem que está doente do peito e que estão levando
para o estrangeiro. Eu nunca vi como é uma tísica.
Aksiucha correu para a soleira da porta e ambas precipitaram-
se portão afora de mãos dadas . Encurtando a marcha,
passaram diante da carruagem e espiaram através da j anela
aberta. A doente voltou o rosto para elas mas, percebendo-lhes
a curiosidade, franziu o cenho e virou-se para o outro lado.
- Mm-ãe-zinha! - disse a filha do chefe da posta, voltando
rapidamente a cabeça. - Que encanto de beleza deve ter
sido ; agora vej am o que sobrou dela! Dá até nledo. Viu, viu,
Aksiucha?
2 Diminutivo de Aksínia (N. T.).
33
- Sim, como está mal! - Aksiucha fez coro com a moça.
-Vamos dar mais uma olhada, a gente faz que está indo para
o poço.Você p ercebeu? Ela deu as costas , mas eu vi . Que dó,
Macha.
- É, e que lama! - respondeu Macha, e as duas correram
para o portão.
- Pelo visto, estou com uma aparência horrível - p ensou
a doente. - Eu só preciso chegar mais rápido, mais rápido
ao estrangeiro, lá eu me curo.
- E então, minha cara, como está? - disse o marido, ao
se aproximar da carruagem mastigando.
- A mesma p ergunta de sempre. E comendo ! - pensou
ela. - Mais ou menos . . . - falou entre dentes .
- Sabe de uma coisa, minha cara, receio que, com esse
tempo, você piore no caminho ; Edvard Ivanitch também acha.
Não seria o caso de voltar?
Ela calava, emburrada.
- Pode ser que o tempo melhore, que a estrada fique
boa e que você se recupere ; e aí poderíamos ir j untos.
- Desculpe, mas se por muito tempo não tivesse lhe dado
ouvidos, eu estaria agora em Berlim e totalmente curada.
- Mas o que eu podia fazer, meu anj o ? Era impossível,
você sabe. Mas agora, se ficasse por um mês , ao menos, iria se
recuperar prontamente; eu terminaria meus negócios, levaríamos
as CrIanças . . .
- As crianças estão com saúde, eu não.
- Vej a se entende, minha cara, com um temp o desses, se
você piorar na viagem . . . p elo menos você estaria em casa.
- Em casa, o quê? Pra morrer? - respondeu a doente irritada.
Mas a palavra "morrer" pelo visto a assustou, e ela olhou
34
para o marido com ar de súplica e interrogação. Ele baixou o
olhar e calou . De repente, a doente fez um beicinho infantil, e
lágrimas lhe saltaram dos olhos. O marido cobriu o rosto com
o lenço e afastou-se da carruagem.
"Não, eu vou" - disse a doente, levantando os olhos para
o céu, j untando as mãos e murmurando palavras desconexas
. "Meu D eus ! Por quê?" - dizia ela, e as lágrimas corriam
ainda mais intensas . Rezou por muito tempo com ardor, mas
no peito, a mesma dor e opressão, no céu, nos campos e na estrada,
o mesmo tom cinzento e sombrio, e a mesma bruma de
outono, nem mais nem menos rarefeita, derramando-se do
mesmo j eito sobre a lama da estrada, os telhados, a carruagem
e os tulups3 dos cocheiros, que discutiam em voz alta, alegres,
enquanto lubrificavam e preparavam a carruagem . . .
II
A carruagem estava atrelada, mas o cocheiro fazia hora. Ele
havia passado pela isbá dos cocheiros. A isbá estava quente, abafada,
escura, com um ar pesado, um cheiro de lugar habitado, de
pão assado, repolho e pele de carneiro. Havia alguns cocheiros no
cômodo, uma cozinheira ocupava-se no forno e, em cima deste,
um doente estava deitado, coberto por uma pele de carneiro.
- Tio Khviédor! Ô, tio Khviédod - disse o j ovem cocheiro
vestido de tulup, com um chicote no cinto, entrando no
cômodo e dirigindo-se ao doente.
- O que é que tu vai querer com o Fiédka,4 seu vadio?
3 Espécie de casaco (N. T.) .
4 Diminutivo de Fiódor (N. T.) .
35
- perguntou um dos cocheiros. - alha só, tão te esperando na
carruagem . . .
- Quero pedir as botas dele; as minhas s e acabaram -
respondeu o rapaz, j ogando os cabelos para trás e aj eitando as
luvas no cinto.
- Que que é? - do forno ouviu-se uma voz fraca, e um
rosto magro, de barba ruiva, espiou. A mão larga, descarnada e
branca, coberta de pêlos, enfiava uma samarra nos ombros ossudos,
cobertos por um camisolão suj o. - Me dá alguma coisa
pra beber, irmão ; o que que é?
a rapaz lhe serviu uma caneca de água.
- Sabe o que é, Fédia, - disse ele, indeciso - pelo visto
tu não vai precisar das botas novas agora; dá pra mim, p elo visto
tu não vai andar.
a doente tombou a cabeça cansada sobre a caneca reluzente,
molhou os bigodes ralos e caídos na água escura e bebeu
sem forças . A barba emaranhada estava suja; os olhos fundos,
embotados, levantaram-se com dificuldade para o rosto do rapaz.
Depois de beber, ele afastou a água e quis levantar as mãos
para enxugar os lábios úmidos, mas não conseguiu e enxugouas
na manga da samarra. Calado e respirando com dificuldade
pelo nariz, olhava o rapaz direto nos olhos, reunindo forças .
- Pode ser que tu j á tenha prometido a alguém - disse
o rapaz. - a problema é que lá fora está úmido, e como eu tenho
que ir pro trabalho, p ensei com meus botões: eu pego e
peço as botas do Fiédka; pelo j eito ele não vai precisar. Agora,
se tu precisar, então tu diz . . .
No p eito do doente alguma coisa começou a vibrar e
roncar; ele inclinou-se e uma interminável tosse de garganta o
sufocou.
3 6
- Pra que vai precisar? - trovej ou de repente por toda a
isbá a voz da cozinheira zangada. - Faz uns dois meses que ele
não sai do forno. Tá vendo, tá se arrebentando, até as entranhas
dele doem, escuta só . Como é que ele vai precisar das botas?
Ninguém vai enterrá-lo com botas novas . Já não é sem tempo,
Deus que me p erdoe. Tá vendo, tá se arrebentando. Ou então
que alguém leve ele daqui pra outra isbá ou pra outro lugar!
Diz que na cidade tem esse tipo de hospital; isso é coisa
que se faça, ocupar o canto todo . . . chega! Não se tem espaço
pra nada. E ainda por cima, ficam me cobrando limpeza.
- Ei, Serioga,5 vá para a carruagem, os senhores estão esperando
- gritou da porta o chefe da estação.
Serioga queria ir sem esperar resposta, mas o doente,
tossindo, deu-lhe a entender com os olhos que queria dizer alguma
COIsa.
- Pega as botas, Serioga - disse ele, contendo a tosse e
descansando um pouco. - Só que tu me compra uma campa,
porque eu tô morrendo . . . - acrescentou roncando.
- Obrigado, tio, então eu levo ; e a campa, tá, tá, eu
compro !
- Bem, meninos, vocês ouviram - ainda conseguiu dizer
o doente, e tornou a se curvar sufocado.
- Tá bem, ouvimos - respondeu um dos cocheiros. -Vai,
Serioga, vai pra carruagem, senão o chefe vem te chamar outra
vez. A senhora de Chirkin tá lá doente.
Serioga tirou depressa as imensas botas furadas e j ogou-as
debaixo de um banco. As botas novas do tio Fiódor eram precisamente
o seu número, e ele foi para a carruagem, admirando-as.
5 Diminutivo de Sierguiêi (N. T.) .
37
- Êta b eleza de botas ! D eixa eu engraxar - disse um cocheiro
com graxa na mão, enquanto Serioga subia na boléia e
tomava as rédeas . - Deu de graça?
- Ah, invejoso! - respondeu Serioga, aprumando-se e
j untando as pontas do casaco j unto aos p és . - Eia, vamos, belezas
! - gritou para os cavalos, agitando o chicote; carruagem
e caleça, com seus passageiros, malas e bagagens, saíram em disparada
p ela estrada molhada, sumindo na bruma cinzenta de
outono.
O cocheiro doente permaneceu sobre o forno da isbá
abafada e, sem conseguir escarrar, virou-se a muito custo para
o outro lado e ficou quieto.
Até o cair da tarde, gente chegava, comia, saía da isbá; e
não se ouvia sinal do doente. Ao anoitecer, a cozinheira subiu
no forno e puxou a samarra por cima das p ernas dele.
- Não fica zangada comigo, N astácia, - disse o doente -
logo vou deixar este teu canto.
- Tá bem, tá bem, deixa pra lá - murmurou Nastácia. -
Onde é que dói, tio? Me diz.
- Uma dor insuportável por dentro. Só D eus sabe.
- Na certa a garganta também dói, tu tosse tanto !
- Dói tudo. Minha hora chegou, é isso. Oh, oh, oh! -
gemeu o doente.
- Cobre as pernas assim - disse Nastácia, aj eitando a samarra
sobre ele, ao descer do forno.
À noite, uma lamparina iluminava fracamente a isbá.
Nastácia e uns dez cocheiros roncavam alto p elo chão e p elos
bancos. Só o doente gemia fraquinho, tossia e revirava-se no
forno. Ao amanhecer, aquietou-se de vez.
- Estranho o que eu vi esta noite em sonho - disse a co-
38
zinheira, espreguiçando-se na penumbra da manhã seguinte. -
Vej o como se o tio Khviédor tivesse descendo do forno e saindo
pra rachar lenha. "Nástia"6, diz ele, " deixa eu te ajudar" ; e
eu pra ele : " Como é que tu vai rachar lenha? " , mas ele agarra
o machado e tome de rachar lenha com tanta vontade, e era só
lasca voando. E eu: "Como é que pode, tu não tava doente? " .
" Nada", diz ele, " eu estou bem" . E sacode o machado d e um
j eito que me dá medo ; aí eu comecei a gritar e acordei. Será
que ele já não morreu?
- Tio Khviédor! Ô, tio !
Fiódor não respondia.
- É mesmo, será que ele já não morreu?Vamos ver - disse
um dos cocheiros, que havia acordado.
Um braço magro, frio e céreo, coberto de pêlos ruivos,
pendia do forno.
- Vamos falar com o chefe da estação, parece que tá
morto - continuou o cocheiro.
Fiódor não tinha parentes . Viera de longe. No dia seguinte,
foi enterrado no cemitério novo, atrás do bosque, e
Nastácia passou vários dias contando a todo mundo o sonho
que tivera e como tinha sido a primeira a p erceber a morte do
tio Fiódor.
III
Chegou a primavera. Nas ruas úmidas da cidade rumorej avam
regatos velozes entre o gelo suj o de esterco; as cores dos trajes
6 Diminutivo de Nastácia (N. T.).
3 9
e o som das vozes dos transeuntes distinguiam-se nitidamente.
Nos j ardins, atrás das sebes, as árvores inchavam de botões e
mal se notava o balançar dos ramos ao sopro da brisa fresca.
Por todo lado gotinhas transparentes pingavam . . . Pardais desaj
eitados piavam e adej avam com suas asinhas . Nos lados ensolarados,
nas sebes, nas casas e nas árvores, tudo se movia e brilhava.
Reinava a alegria e o viço tanto no céu e na terra como
no coração dos homens .
Em uma das ruas principais , palha fresca se estendia no
chão diante de uma grande casa senhorial; na casa estava aquela
mesma doente moribunda que tinha pressa em chegar ao
exterior.
À porta fechada do quarto, o marido da doente e uma
senhora idosa. Num divã, um sacerdote, vista baixa, segurando
alguma coisa enrolada na estola de seus paramentos . A um canto,
uma velha, mãe da doente, chorava com amargura numa
poltrona Voltaire. A seu lado, uma criada segurava um lenço, esperando
que a velha o pedisse; outra lhe friccionava alguma
coisa nas têmporas e soprava por baixo da touquinha a cabeça
grisalha.
- Vá com Cristo, minha amiga, - disse o marido à mulher
idosa ao seu lado - ela confia tanto na senhora . . . a senhora
é tão j eitosa com ela, procure convencê-la direitinho, minha
querida; vá, vá. - Ele já queria abrir a porta, mas a prima o deteve,
passou o lenço algumas vezes nos olhos e sacudiu a cabeça.
- Agora não parece mais que chorei - disse ela, e abriu
a porta, entrando no quarto.
O marido estava agitadíssimo e parecia completamente
perdido. Ia caminhando em direção à velha, mal deu alguns
passos, voltou-se, andou p ela sala e aproximou-se do sacerdo-
40
te. Este olhou para ele, levantou os olhos para o céu e suspirou
. A barba cerrada, tingida de fios grisalhos, também se ergueu
e baixou .
- M e u Deus, meu Deus ! - disse o marido.
- O que é que se vai fazer? - retrucou SUSpIroS O o
padre, e mais uma vez sobrancelhas e barba se ergueram e baixaram.
- E a mãe dela está aqui! - disse o marido quase em desespero.
- Ela não vai suportar isso tudo. Porque amar como
ela a ama . . . não sei, não. Reverendo, se pelo menos o senhor
tentasse tranqüilizá-la e fazer com que ela saísse daqui . . .
O sacerdote levantou-se e aproximou-se da velha.
- É isso, ninguém pode avaliar um coração de mae, -
disse ele - mas D eus é misericordioso.
De repente o rosto da velha começou a se contrair cada
vez mais e um soluço histérico a sacudiu .
- Deus é misericordioso - continuou o sacerdote, quando
ela se acalmou um pouco. - Em minha paróquia havia um
doente muito mais grave que Mária Dmítrievna; e vej a o que
aconteceu, foi completamente curado com ervas por um homem
simples, em pouco tempo. E além do mais, esse mesmo
homem está agora em Moscou. Eu disse a Vassili Dmítrievitch
que dava para se tentar. Ao menos serviria de consolo para a
doente. A D eus nada é impossível.
- Não, ela não tem mais j eito, - pronunciou a velha -
em vez de me levar, é a ela que D eus leva. - E os soluços histéricos
tornaram-se tão fortes que ela perdeu os sentidos .
O marido d a enferma cobriu o rosto c o m a s mãos e
correu para fora do quarto.
No corredor, a primeira pessoa que encontrou foi um
4 1
memno de seIS anos, que tentava alcançar a todo custo uma
menIna menor.
- E as crianças, não permite que eu as leve para perto
da mãe? - perguntou a babá.
- Não, ela não quer vê-las . Isto a deixaria transtornada.
O menino parou um minutinho e examinou atento o
rosto do pai; mas, num repente, deu um chute no ar e, com um
grito de alegria, continuou a correr.
- Faz de conta que ela é o cavalo murzelo, papai! - berrou
o garoto, apontando para a irmã.
Enquanto isso, no outro quarto, a prima sentava-se ao
lado da doente e conduzia habilmente a conversa, tentando
prepará-la para a idéia da morte. Na outra j anela, o médico
mexia a tisana.
Metida num roupão branco, cercada de almofadas na cama,
a doente olhava calada para a prima.
- Ah, minha amiga, - disse, interrompendo-a inesperadamente
- não precisa me preparar. Não me trate como criança.
Eu sou cristã. Eu sei de tudo. Eu sei que minha vida está
por um fio; eu sei que se meu marido tivesse me escutado antes,
eu estaria na Itália agora e, quem sabe, podia até ser verdade,
eu estaria curada. Todos lhe diziam isso. Mas o que se há de
fazer? Pelo visto, foi assim que Deus quis . Todos nós temos
muitos pecados, eu sei disso ; mas espero a graça de D eus, que
a tudo perdoa, a tudo perdoa. Eu me esforço para entender,
mas tenho muitos pecados, querida. Por outro lado, j á sofri
bastante. Esforcei-me para suportar com paciência meu sofrimento
. . .
- Chamo então o padre, querida? Você vai s e sentir mais
leve comungando - disse a prima.
42
A doente baixou a cabeça em sinal de consentimento.
- Deus, perdoa essa pecadora! - sussurrou. A prima saiu
e fez sinal para o padre.
- É um anj o ! - disse ela ao marido, com lágrimas nos
olhos.
o marido começou a chorar; o sacerdote entrou na sala;
a velha permanecia desacordada; no quarto principal reinava
um silêncio absoluto. Uns cinco minutos depois , o padre
saiu do quarto da doente, tirou a estola e aj eitou os cabelos.
- Graças a Deus, está mais calma agora - disse ele. -
Quer vê-los.
A prima e o marido entraram. A doente fitava um ícone
e chorava baixinho.
- Eu a felicito, minha amiga - disse o marido.
- D eus sej a louvado ! Como me sinto bem, agora; uma
doçura inexplicável - disse a doente, e um leve sorriso brincou
em seus lábios finos. - Como Deus é misericordioso ! Não
é verdade que ele é misericordioso e onipotente? - E mais
uma vez olhou para o ícone com olhos marej ados e ávida
súplica.
D e repente, pareceu lembrar-se de algo. Fez um sinal
para que o marido se aproximasse.
-Você nunca faz o que eu peço - disse ela com uma voz
fraca e descontente.
O marido esticava o pescoço e escutava-a submisso.
- O que foi, minha querida?
- Quantas vezes eu disse que esses médicos não sabem
de nada; existem remédios caseiros que curam tudo . . . Escuta o
que o padre disse . . . o homem simples . . . Mande buscá-lo.
- Pra quê, minha querida?
43
- Meu D eus, ninguém quer entender! . . . - E a doente
franziu o cenho e fechou os olhos .
O médico chegou-se a ela e tomou-lhe o pulso. Batia
cada vez mais fraco. Ele lançou um olhar para o marido. A senhora
p ercebeu o gesto e olhou à volta assustada. A prima deulhe
as costas e começou a chorar.
- Não chore, não aflij a a você e a mim - disse a doente.
- Assim você tira este meu último sossego.
- Você é um anj o ! - disse a prima, beij ando-lhe a mão.
- Não, beij e aqui, só se beij a a mão dos mortos. Meu
D eus, meu D eus !
Na mesma noite, a doente era só corpo, e este corpo j azia
no caixão, na sala do casarão. No cômodo espaçoso, a portas
fechadas, um sacristão lia salmos de Davi com voz fanhosa
e ritmada. A luz viva das velas caía dos altos candelabros de
prata sobre a fronte cérea da morta, suas pesadas mãos de cera,
sobre as pregas da coberta que delineavam espantosamente os
j o elhos e os dedos dos pés. Sem entender o que dizia, o sacristão
lia de maneira compassada e, no silêncio da sala, as palavras
ecoavam estranhas e morriam. De quando em quando, de algum
quarto distante chegavam vozes infantis e o barulho do
sapateado das crianças .
"Se ocultas o rosto, eles se perturbam" - anunciou o livro
dos Salmos. "Se lhes cortas a respiração, morrem e voltam
ao seu p ó . Envias o teu Espírito, eles são criados e, assim, renovas
a face da terra. A glória do Senhor sej a para sempre ! "
O rosto da morta estava severo, calmo, maj estoso. Nada
se movia, nem na fronte limpa e fria, nem nos lábios cerrados
e enrij ecidos. Ela era toda atenção. E será que ao menos agora
ela compreendia essas grandes palavras?
44
IV
Um mês depois engm-se um j aZIgO de pedra sobre a
sepultura da morta. Sobre a do cocheiro ainda não havia nenhuma
campa, apenas uma relva verde-clara brotava do montículo
de terra, único vestígio de um homem que havia passado
pela existência.
- Serioga, tu vai cometer um pecado se não comprar a
campa para o Khviédor - disse a cozinheira da estação de posta.
- Tu dizia assim: é inverno, é inverno. Mas agora, por que
não mantém a palavra? Foi na minha frente que tu prometeu .
Ele já veio pedir uma vez, e se tu não compra, ele volta e dessa
vez é pra te estrangular.
- Que nada! Por acaso eu estou recusando? ! - respondeu
Serioga. - Eu vou comprar a campa;já disse que vou comprar;
vou comprar por um rublo e meio. Não me esqueci, mas
é que precisa trazer. É só ir na cidade que eu compro.
- Devia pelo menos colocar uma cruz lá, é isso que você
tinha que fazer, - retrucou um velho cocheiro - senão isso
vai é acabar mal. As botas tu tá usando, né?
- E essa cruz, onde é que se vai arranj ar? Não dá pra fazer
de lenha, né?
- Isso lá é coisa que se diga? Claro que de lenha não dá
pra fazer; tu pega o machado e vai mais cedo pro bosque, e então
tu faz. Tu pega e corta um freixo. Ou então tu vai ter que
dar vodca ao guarda florestal. Pra toda essa canalha não há bebida
que chegue. Faz pouco eu quebrei a trave da carruagem
e cortei uma senhora tora e ninguém deu um pio.
45
De manhã bem cedo, mal começou a clarear, Serioga
pegou o machado e foi para o bosque.
Por toda parte estendia-se um manto de orvalho frio e
fosco que caía insistente e que o sol não iluminava. O nascente
mal começava a clarear, fazendo sua frágil luz refletir no firmamento
encoberto por nuvens ralas . Não se mexia um só talo
de capim e uma única folha nas copas . Só de quando em
quando uns ruídos de asas entre as árvores compactas ou um
leve farfalhar pelo chão quebravam o silêncio da mata. De repente,
um som estranho, desconhecido da natureza, espalhouse
e congelou na orla do bosque. E de novo ouviu-se o mesmo
som que passou a se repetir de forma regular, embaixo,
j unto ao tronco de uma árvore imóvel. A copa de uma árvore
estremeceu de forma incomum; suas folhas viçosas sussurraram
algo ; uma toutinegra pousada em um galho esvoaçou duas vezes,
piando, e pousou em outra árvore, remexendo a caudinha.
Embaixo, o machado ressoava cada vez mais e mais surdo;
as lascas brancas e molhadas de seiva voavam sobre o capim
orvalhado, ouvindo-se um leve rangido após os golpes. A árvore
estremeceu por inteiro, inclinou-se e aprumou-se rapidamente,
vacilando assustada sobre sua raiz. Por um instante, tudo ficou
em silêncio; mas a árvore tornou a se inclinar e ouviu-se mais
uma vez o rangido de seu tronco; e ela despencou de copa na
terra úmida, quebrando e soltando os ramos . Cessaram os sons
do machado e dos passos. A toutinegra piou e voou para mais
alto. O ramo em que ela roçou suas asas balançou por algum
tempo e estacou, como os outros, com todas as suas folhas .
As árvores , ainda mais alegres, pavoneavam seus galhos
imóveis no espaço aberto há pouco.
Os primeiros raios de sol infiltraram-se por entre as nu-
46
vens, brilharam lá no alto e correram a terra e o céu. A neblina
derramou-se em ondas pelos vales; o orvalho começou a
brincar na relva; nuvenzinhas brancas e transparentes dispersavam-
se apressadas pelo firmamento azulado. Os pássaros revoavam
sobre a mata espessa e, sem rumo, gorj eavam felizes; folhas
viçosas sussurravam radiantes e tranqüilas nas copas , e os ramos
das árvores vivas mexeram-se lentos, maj estosos, sobre a árvore
tombada e morta.
Tradução de Beatriz Morabito e Beatriz P Ricci
47

Kholstomér
A história de um c avalo

À memória de M. A . Stakhóvitch1
I
o céu se abria cada vez mais alto, a aurora avançava na amplidão,
o matiz de prata baça do orvalho começava a branquejar,
o crescente ficava mortiço, a floresta mais sonora, as pessoas levantavam-
se, e na estrebaria senhorial mais e mais se ouviam o
bufo, a algazarra na palha e o relincho estridente e raivoso dos
cavalos apinhados, brigando por alguma coisa.
- Ô ! Calma! Estão com fome! - disse o velho peão ao
abrir a cancela rangente. - Aonde pensa que vai? - gritou,
ameaçando a egüinha que se enfiava pelo portão.
O peão Niéster vestia uma camisa curta à maneira cossaca
sob um cinturão adornado, levava o chicote enrolado no
ombro e o pão embrulhado numa toalha, preso à cintura. Nas
mãos, a sela e o freio.
Os cavalos não se assustaram nem um pouco e muito
menos se ofenderam com o tom zombeteiro do peão, fingiram
1 O enredo desta história foi criado por M. A. Stakhóvitch, autor de Notchnói
(Noturno) e Naiêzdniki ( Os cavaleiros) , e transmitido a mim pelo próprio
Stakhóvitch (Nota de L. Tolstói) .
5 1
que não era com eles e se afastaram calmamente do portão ; e
só uma velha égua baia de crinas largas baixou as orelhas e voltou-
lhe as ancas rapidamente. Com isso, a potranca que estava
logo atrás e nada tinha a ver com aquilo guinchou e escoiceou
o cavalo mais próximo.
- Ô, ô! - gritou o peão, ainda mais alto e ameaçador, e
caminhou para o canto do curral.
Dentre os cavalos que comiam (perto de uma centena) ,
o mais paciente era um capão malhado que, sozinho num canto
sob o alpendre, lambia de olhos cerrados uma viga de carvalho
do galpão. Não se sabe que gosto encontrava aí o capão malhado,
mas sua expressão era grave e pensativa enquanto lambia.
- Mimado, hein! - disse o peão, novamente no mesmo
tom, ao aproximar-se, pondo sobre o esterco a seu lado a sela
e o suadouro sebento.
O capão malhado parou de lamber e, sem se mexer, ficou
muito tempo olhando Niéster. Não sorriu, não se zangou
e nem ficou carrancudo, limitou-se a inflar a barriga, deu um
suspiro bem pesado e virou-se. O peão abraçou-lhe o pescoço
e pôs o freio.
- Que suspiros são esses? - disse Niéster.
O capão abanou a cauda como quem diz: "Não é nada,
não, Niéster" . Niéster colocou-lhe o suadouro e a sela, e o malhado
murchou as orelhas, demonstrando talvez o seu descontentamento;
por conta disso, o peão xingou-o e começou a apertar
a barrigueira. O malhado respirou fundo, mas levou um dedo na
boca e uma joelhada na barriga, de sorte que teve de soltar o ar.
Apesar disso, quando os dentes apertaram o freio, mais uma vez
murchou as orelhas e até olhou para trás. Mesmo sabendo que de
nada adiantava, ainda assim achou necessário expressar que aquilo
não o agradava e que sempre iria demonstrá-lo. Quando já estava
selado, afastou a perna direita machucada e começou a mastigar
o freio, sabe-se lá por qual razão, afinal já era tempo de saber
que no freio não poderia haver gosto nenhum.
Niéster montou no capão pelo estribo curto, desenrolou
o chicote, puxou a camisa cossaca acima do joelho, sentou
na sela, com aquele estilo próprio dos cocheiros, caçadores e
peões, e puxou as rédeas . O capão levantou a cabeça, revelando
disposição de partir para onde mandassem, mas não se mexeu
. Sabia que, antes de sair montado nele, Niéster tinha ainda
muito que gritar, dar ordens ao peão Vaska2 e aos cavalos.
Realmente, ele começou a gritar: "Vaska! Ô , Vaska! Você soltou
as éguas? Onde se meteu esse diabo? Ô ! Seu bêbado. Vai
ver que tá dormindo. Abra, pras éguas saírem primeiro" etc.
O portão rangeu, e Vaska apareceu ao lado, zangado e
sonolento, segurando um cavalo pelas rédeas e deixando os
outros passarem. Os cavalos começaram a sair uns depois dos
outros, pisando cuidadosamente a palha e cheirando-a; as potrancas,
os potrinhos, as crias e as éguas pesadonas passaram uma
de cada vez pelo portão, carregando o ventre cautelosamente.
As potrancas comprimiam-se às vezes em duas ou três, as cabeças
no lombo umas das outras e, apressadas em sair pelo portão,
recebiam insultos dos peões . As crias se lançavam às pernas de
éguas às vezes estranhas e relinchavam alto, respondendo aos relinchos
curtos das fêmeas . Mal atravessou o portão, uma potranca
travessa baixou a cabeça e olhou de lado, voltando as ancas
e guinchando; mas, em todo caso, não se atreveu a passar à frente
da velha égua cinza, a grega premiada ]uldiba, que balançava
2 Diminutivo de Vassili (N. T.) .
53
a barriga com o andar pesado e pachorrento, num passo medido,
como sempre, à frente de todos os cavalos.
Aquele lugar, tão animado e cheio, em alguns minutos
ficou vazio e melancólico; sobressaíam tristes as colunas do alpendre
vazio, via-se apenas a palha amassada coberta de estrume.
Por mais habitual que fosse para o cavalo malhado aquela
paisagem deserta, pelo visto ela o entristecia. Como se fizesse
um cumprimento, baixou e ergueu a cabeça lentamente, suspirou
o quanto lhe permitia a sobrecincha apertada e saiu
mancando atrás dos cavalos, as pernas bem abertas em arco,
carregando em suas costas descarnadas o velho Niéster.
"Já sei: agora é só a gente sair a caminho, que ele vai
acender e começar a fumar o seu cachimbo de madeira com
aro de cobre" - pensou o capão. " Sinto-me feliz porque de manhã
bem cedo, com o orvalho, gosto desse cheiro que traz muitas
lembranças agradáveis; o único inconveniente é que, com o
cachimbo entre os dentes, o velho sempre apronta, imagina coisas
sobre si mesmo, sentado de lado, obrigatoriamente de lado ;
e do lado que me machuca. Bem, deixa pra lá, para mim não é
novidade sofrer pelo prazer dos outros. Eu já passei a achar nisso
algum prazer de cavalo. Que fique com suas fanfarronices,
coitado. Arrota valentia sozinho, quando ninguém o vê. Pois que
fique sentado de lado " - refletia o capão, enquanto movia cuidadosamente
as pernas tortas, andando pelo meio da estrada.
II
D epois de levar a manada para o rio, perto de onde os
cavalos deviam pastar, Niéster apeou e desselou o animal. En-
54
quanto isso, a manada se dispersava lentamente pelo prado ainda
não pisoteado, coberto de orvalho e de um vapor que subia
do chão e do rio que o contornava. Ao retirar-lhe o arreio,
Niéster coçou o pescoço do capão malhado, que respondeu
fechando os olhos, em sinal de reconhecimento e prazer. "Você
gosta, não é, cão velho ! " - resmungou. O cavalo não gostava
nem um pouco que o coçassem, só por delicadeza fingia
gostar, e balançou a cabeça, concordando. Mas de repente, para
surpresa total e sem qualquer motivo, talvez por supor que
uma intimidade exagerada desse uma idéia falsa da importância
do animal, Niéster afastou a cabeça do capão, levantou o
arreio e bateu com a fivela da rédea em suas pernas mirradas,
provocando uma dor forte, e sem dizer palavra subiu até um
tronco, j unto ao qual costumava sentar-se.
Embora essa atitude o tivesse amargurado, o capão malhado
nada deixou transparecer; agitando devagar o rabo caÍdo,
começou a farej ar alguma coisa no chão e a mordiscar o
capim, só para se distrair, enquanto descia para o rio. Sem prestar
nenhuma atenção às potrancas, aos potros e aos potrilhos
que se alegravam com a manhã e aprontavam das suas bem ali
à volta, e sabendo que o mais saudável, ainda mais na sua idade,
era beber primeiro bastante água em j ej um e só depois comer,
resolveu escolher perto da margem um cantinho mais espaçoso
e afastado, afundou as patas na beira enlameada, meteu
o focinho na água e começou a sorvê-la, os beiços entreabertos,
as ancas largas j ogadas de um lado para o outro, agitando
prazeroso o sabugo pelado de cauda malhada.
Uma egüinha baia, implicante, que não perdia a oportunidade
de provocar e aborrecer o velho capão, foi-se aproximando
pelo rio, como se precisasse de alguma coisa por ali,
5 5
mas querendo só mesmo turvar a água diante do focinho dele.
Como já havia matado a sede, o capão malhado fingiu não
atinar com a intenção da potranca; uma a uma, retirou tranqüilamente
as patas atascadas, sacudiu a cabeça e afastou-se dos
potros, pondo-se a comer. Mudava continuamente a posição
das patas, evitando pisar o capim além do necessário, e comeu
durante três horas exatas , quase sem levantar o pescoço.
Empanturrado de tal forma que a barriga pendia-lhe
feito um saco sob as costelas magras e afiladas, ele se firmou
nas quatro patas doentes, para que não doessem tanto - sobretudo
a dianteira direita, a mais fraca -, e adormeceu.
Existe a velhice maj estosa, a velhice asquerosa, a velhice
deplorável. E existe a velhice ao mesmo tempo maj estosa e asquerosa.
A do capão malhado era j ustamente desse tipo.
O cavalo era alto - não menos que dois archín3 e três verchok
4. A pelagem, de um malhado morado. Ou assim fora, mas
agora as pintas moradas pareciam de um pardo manchado. O
malhado era formado por três manchas: na cabeça, uma de pêlos
ralos, que contornava o focinho e ia até o pescoço ; pintas
brancas e pardacentas tingiam a crina longa. A outra tomava o
flanco direito até o meio do ventre. A terceira, na garupa, avançava
do meio das coxas até a parte superior da cauda esbranquiçada,
matizada. A cabeçorra ossuda, com cavidades fundas
acima dos olhos e o beiço negro caído e fendido, pendia pesada
e baixa, arqueada de tão magra, como se fosse de madeira.
Por trás do beiço caído apareciam a língua pretej ada, mordida
de um lado, e os dentes inferiores amarelados, carcomidos. As
3 Medida russa de comprimento igual a 7 1 cm (N. T. ) .
4 Medida russa d e comprimento igual a 4,4 c m (N. T. ) .
5 6
orelhas, numa das quais havia um corte, caíam baixo de ambos
os lados e, vez por outra, mexiam-se preguiçosas para espantar
algumas moscas pegajosas . Uma mecha mais comprida do topete
caía por trás de uma orelha; a testa funda estava pelada e
enrugada, formando bolsões de pele. No pescoço e na cabeça,
as veias se proj etavam como novelos, que estremeciam e saltavam
ao contato com as moscas . A cara traduzia uma expressão
de paciência austera, concentração e sofrimento. As patas dianteiras
formavam um arco; tinham inchaços nos cascos e, perto
do joelho da pata malhada, um tumor grande, do tamanho de
um punho cerrado. As traseiras, embora mais fortes, exibiam
velhas pisaduras nas coxas, e os pêlos já não as cobriam. As pernas
pareciam de um comprimento desproporcional devido à
magreza do talhe. Apesar de proeminentes, as costelas eram tão
abertas e afiladas que o couro parecia aderido às fendas entre
elas . Tinha a cernelha e o dorso salpicados das marcas de antigos
espancamentos; às costas, havia uma chaga ainda fresca, inchada
e purulenta; o sabugo negro da cauda, comprido e quase
pelado, pendia destacando as vértebras . No lombo pardo, perto
da cauda, uma ferida coberta de pêlos brancos do tamanho da
palma da mão, parecida a uma mordida, e uma outra cicatriz de
corte na pá. Os joelhos traseiros e a cauda viviam sujos devido
a constantes desarranj os intestinais. Embora curtos, os p êlos estavam
eriçados por todo o corpo. Mas apesar da velhice repulsiva
desse cavalo, quem o visse de relance pensaria involuntariamente
que outrora ele fora um cavalo bom, admirável.
Um perito diria até mesmo que, na Rússia, havia ap enas
uma raça de ossos tão largos, fêmures tão imensos, tamanhos
cascos , p ernas e ossos tão delgados, pescoço tão bem
postado e - o principal - uma cabeça com tal ossatura, olhos
57
tão negros e cheios de brilho, semelhantes nódulos do pescoço
para cima, revelando a raça, couro e p êlos tão finos. D e fato,
havia algo de maj estoso na figura desse cavalo, na terrível
mescla de repugnantes traços de decrepitude, pelagem vivamente
pintalgada e maneiras confiantes e serenas , advindas da
consciência de sua beleza e força .
Como ruína viva, ele permanecia sozinho no prado orvalhado,
e não longe dali ouviam-se o tropel, o bufido, os relinchos
j ovens e os guinchos da manada dispersa.
III
o sol j á havia emergido acima do arvoredo e brilhava
vivamente na relva e nas sinuosidades do rio. O orvalho secara
e formara gotas; perto do charco e sobre o bosque dissipava-
se como fumaça o derradeiro vapor da manhã. As nuvens
anelavam-se, embora ainda não ventasse. Na outra margem do
rio, o centeio proj etava as suas cerdas verdes , enroscava-se formando
canudos, e recendia um cheiro de mato fresco e florido.
O cuco cuculava rouco lá do bosque, e Niéster, deitado de
costas, contava quantos anos ainda viveria. As cotovias esvoaçavam
sobre o centeio e o prado. Uma lebre tardia foi parar no
meio da cavalhada e, depois de ganhar distância, sentou-se ao
lado de um arbusto, atenta . Vaska dormitou com a cabeça
mergulhada na relva, as éguas o contornaram, afastaram-se e
dispersaram-se pelo campo. Resfolegando, as mais velhas deixavam
pegadas claras pelo orvalho e escolhiam obstinadas um
lugar onde ninguém pudesse incomodá-las, porém já não comiam,
limitando-se a lambiscar as ervas saborosas . Toda a cava-
5 8
lhada movia-se furtivamente numa única direção. E outra vez
a velha Juldiba caminhava grave à frente dos outros, mostrando
a possibilidade de ir mais adiante. A murzela Muchka, égua
j ovem, que dera a primeira cria, grasnava sem parar, ergueu o
rabo e bufou sobre a cria que, tirante a lilás, manquej ava ao lado
com os j o elhos trêmulos . Lástotchka, baio castrado, pêlo liso
e brilhante como cetim, baixara a cabeça de modo que a
franj a negra e sedosa lhe encobria a testa e os olhos, e brincava
com o capim - ora o tosava, ora o lançava longe, ora o golpeava
com a pata orvalhada e felpuda como escova. Um dos
potros mais velhos, parece que imaginando alguma travessura,
levantava pela vigésima-sexta vez o pequeno rabo de pêlos
anelados em forma de penacho, galopando ao redor da mãe,
que beliscava tranqüilamente o capim, j á acostumada ao caráter
do filho, e só vez por outra o espiava de esguelha com seus
grandes olhos negros. Um dos potros menores, negro e cabeçudo,
com o topete sobressaindo de forma admirável entre as
orelhas e o rabo ainda enviesado como na barriga da mãe, retesou
as orelhas e fixou os olhos apáticos, sem sair do lugar,
olhando atentamente um potro que saltava e recuava, e não se
sabe se observava ou reprovava os motivos do outro. As crias
que mamavam dando narigadas nas tetas corriam em trote
miúdo e desaj eitado na direção contrária, apesar do chamado
das mães, como se procurassem algo, e depois , não se sabe para
quê, paravam e davam relinchos estridentes e desesperados;
e deitavam-se de lado, amontoadas, e aprendiam a comer capim,
e coçavam a orelha com a pata traseira. Duas éguas prenhes
andavam à parte e continuavam a comer, movendo-se devagar.
Via-se que o estado delas era respeitado pelos outros, e a
nenhum dos mais novos era permitido aproximar-se e inco-
59
modá-Ias . Se algum dos pequenos travessos inventasse de encostar
nelas, um simples movimento das orelhas e da cauda seria
suficiente para mostrar-lhe todo o inconveniente do seu
comportamento. As potrinhas de um ano fingiam-se de grandes
e sérias e raramemte saltitavam com as turmas alegres. Andavam
solenes p ela relva, curvando seus tosquiados pescocinhos
de cisne, e agitavam seus ramalhetes como se também
tivessem cauda. Como as grandes, algumas se deitavam, se espoj
avam ou se coçavam umas nas outras . A turma mais alegre
era formada por potrancas solteiras de dois e três anos. Elas andavam
quase todas juntas , formando um bando separado de
éguas j ovens e alegres. Entre elas ouviam-se o tropel, os guinchos,
os relinchos, o escoicear. Juntavam-se, botavam as cabeças
sobre as espáduas umas das outras , cheiravam-se, davam saltos
e, às vezes, após emitirem roncos, levantavam os rabos em
forma de tubo e saíam correndo a meio trote, altaneiras e coquetes
diante das companheiras . A maior beldade, que liderava
todas aquelas j ovens , era a travessa potranca baia. Tudo o que
inventava era repetido pelas outras; para onde ia, lá ia todo o
belo bando atrás. A travessa estava de espírito especialmente
brincalhão naquela manhã. Deu-lhe a louca do mesmo j eito
que acontece com as pessoas. Ainda no bebedouro, depois de
zombar do velho cavalo, começou a correr pela margem, simulando
ter-se assustado com algo, bufou e disparou a toda
pelo campo, tanto que Vaska precisou galopar atrás dela e de
suas seguidoras. Após lambiscar, ela se espoj ou, depois passou a
andar à frente das mais velhas , irritando-as, em seguida apartou
um potrinho e saiu correndo atrás dele como se quisesse mordê-
lo. A mãe assustou-se e parou de comer, o potrinho gritou
com uma voz de dar pena, mas a travessa sequer o tocou, ape-
60
nas o assustou e proporcionou um espetáculo às companheiras
que observavam com simpatia suas travessuras . D epois achou
de voltar-se na direção de um cavalo ruço, que puxava pelo
centeio um arado conduzido por um mujique, lá longe, na outra
margem do rio. O cavalo parou, orgulhoso, um pouco de
lado, ergueu a cabeça, animou-se e relinchou com uma voz
doce, terna e arrastada. E aquele relincho expressava travessura,
sentimento, e certa tristeza. Nele havia o desej o, e a promessa
de amor, e alguma nostalgia: "Lá está a codorniz, no espesso
j uncal, correndo de um lado para o outro e chamando
apaixonadamente o companheiro : lá estão o cuco e a codorniz
macho cantando o amor, as flores mandando pelo vento
seu pólen perfumado."
"E eu sou j ovem, e bonita, e forte" - respondia o relincho
da travessa - "e até agora não me foi dado provar a doçura
desse sentimento, e não só não me foi dado prová-lo como
nenhum, nenhum amante me notou ainda."
E aquele relincho muito significativo ecoou em tom
triste e j ovial pela baixada e pelo campo, chegando até o cavalo
ruço. Ele levantou as orelhas e parou. O mujique bateu-lhe
com sua alpargata, mas o cavalo ruço estava encantado pelo som
metálico daquele relincho longínquo, e tornou a relinchar. O
mujique zangou-se, deu um puxão nas rédeas e meteu-lhe tal
chute na barriga que ele nem pôde terminar seu relincho, e seguiu
adiante. Mas o ruço sentia doçura e tristeza, e do centeal
distante ainda chegaram por muito tempo até a manada os sons
daquele relincho apaixonado e da voz zangada do mujique.
Se o simples som daquela voz podia deixar o cavalo ruço
aturdido a ponto de esquecer sua obrigação, o que não aconteceria
se visse toda a beleza da travessa, como ficara atenta, as ven-
6 1
tas abertas aspirando o ar, com ímpetos de partir, e todo o seu
corpo j ovem e belo tomado de arrepios a chamar por ele?
Mas a travessa não permaneceu muito tempo sob o efeito
dessas impressões. Quando a voz do ruço calou-se, deu mais
um relincho zombeteiro, baixou a cabeça, começou a escavar
a terra com a pata e depois foi acordar e provocar o capão malhado.
O capão malhado era o eterno mártir e palhaço das
brincadeiras daquelas j ovens felizes. Sofria mais com elas do
que com as pessoas . Não fazia mal nem a uns nem aos outros.
As pessoas precisavam dele ; por que então os cavalos j ovens o
atormentavam?
IV
Ele era velho, eles j ovens, ele era magro, eles bem alimentados,
ele era triste, eles alegres . Logo, era uma criatura
bem diferente, totalmente estranha, forasteira, e não era preciso
ter pena dele. Os cavalos só têm pena de si mesmos e, de
vez em quando, daqueles em cuj a pele podem se colocar. Ora,
por acaso o malhado tinha culpa de ser velho, magro e feio? . . .
Parecia que não. Mas , ao modo dos cavalos, ele era culpado ; só
estavam certos os fortes, j ovens e felizes, aqueles que tinham
tudo p ela frente, aqueles que vibravam cada músculo em um
esforço inútil e eriçavam a cauda, rij a feito estaca. Talvez o
próprio cavalo malhado compreendesse e, em momentos de
serenidade, se achasse realmente culpado por j á ter gasto sua
vida, j ulgando que devia pagar por isso ; mas, de um mo do ou
de outro, ele era um cavalo e não podia refrear sentimentos
como a humilhação, a tristeza e a indignação ao olhar para to-
62
dos aqueles j ovens que o condenavam por algo a que todos teriam
de se suj eitar no final de suas vidas . O motivo da crueldade
dos cavalos devia-se também a um sentimento aristocrático.
D esc endiam todos , por parte de pai ou de mãe, do
famoso Smietanka, e o cavalo malhado, por sua vez, tinha origem
desconhecida; era um cavalo forasteiro, comprado numa
feira por oitenta rublos, três anos antes.
A egüinha baia, que fingia andar à toa, chegou-se ao focinho
do malhado e o empurrou. Já sabendo o que isso queria
dizer, ele levantou as orelhas e arreganhou os dentes, de
olhos fechados. A potranca virou-se de costas e ameaçou coiceá-
lo. O capão abriu os olhos e afastou-se; já não tinha mais
vontade de dormir e começou a comer. A egüinha travessa
aproximou-se novamente do cavalo malhado, desta vez acompanhada
de suas amigas. Aproximou-se também uma potranca
lisa, muito boba, que passava o tempo todo imitando e seguindo
a egüinha baia; como sempre fazem os imitadores, começou
a exagerar na imitação. Geralmente, a égua baia chegava
como quem não quer nada e passava diante do focinho do malhado
sem olhar para ele, deixando-o sem saber se deveria ficar
irritado ou não, e aquilo era de fato engraçado. Era o que
ela fazia também agora, mas a potranca que ia atrás dela, numa
efusão de contentamento, deu um encontrão em cheio no velho.
Mais uma vez, ele arreganhou os dentes, guinchou e, com
uma agilidade que não se podia esperar dele, lançou-se contra
ela, mordendo-lhe a coxa . A egüinha lisa usou as duas patas traseiras
e deu um p esado coice nas costelas magras e peladas . O
velho chegou a roncar, quis ainda avançar, mas depois mudou
de idéia e afastou-se, suspirando pesado. É provável que todos
os j ovens da manada tenham tomado como ofensa pessoal o
63
atrevimento que o malhado se permitiu contra a potranca, razão
pela qual ficaram o resto do dia sem lhe dar decididamente
um minuto de sossego, sequer para comer, de tal maneira
que o peão teve de contê-los várias vezes, sem entender nada
do que estava acontecendo. O cavalo ficou tão ofendido que
caminhou sozinho para Niéster quando este j untava a manada,
sentindo-se feliz e tranqüilo ao ser selado e montado.
Sabe lá D eus o que passava pela cabeça do cavalo ao levar
o velho Niéster no lombo. Talvez pensasse com amargura
na juventude impertinente e cruel ou perdoasse seus ofensores,
com aquele orgulho discreto e desdenhoso, peculiar aos
velhos - mas não deixou transparecer um pensamento sequer
até chegarem em casa.
Naquela noite, Niéster recebia a visita de compadres e,
ao tanger a manada diante das isbás dos servos, notou uma telega
com um cavalo amarrado ao alpendre da casa. Recolheu
a manada com tanta pressa que acabou soltando o cavalo no
pátio sem nem mesmo tirar-lhe a sela, gritando que Vaska o fizesse;
depois , fechou o portão e foi ao encontro dos amigos.
Talvez por que aquela porcaria de lazarento, sem pai nem mãe,
comprado numa estrebaria, havia cometido a ofensa à potranca,
bisneta de Smietanka, mexendo assim com o sentimento
aristocrático de toda a cavalariça, ou talvez em conseqüência
do espetáculo fantástico e inusitado que apresentava aos cavalos
a figura do capão preso a uma sela alta sem cavaleiro, o fato
é que naquela noite algo de incomum teve lugar no estábulo.
Todos os cavalos, j ovens e velhos, correram atrás do
malhado com os dentes arreganhados, enxotando-o para o pátio,
e ouviram-se as pancadas dos cascos batendo contra o costado
magro e os roncos ofegantes do velho. Ele não conseguia
64
mais suportar nem evitar todos aqueles golpes. Ficou parado
no meio do pátio, primeiro com uma expressão de raiva repugnante
e débil de velhice impotente, depois, em desespero.
Aguçou o ouvido e, de repente, fez uma coisa que deixou
todos os outros calados. A velha égua Viazopurikha aproximou-
se do cavalo, cheirou-o e deu um suspiro. Ele também
SUSpIroU.
v
No meio do pátio enluarado estava a figura alta e magra
do capão sob a sela alta, da qual sobressaía a maçaneta. Os
cavalos o rodeavam imóveis e em profundo silêncio, como à
espera de algo novo e inusitado. E, de fato, ficaram sabendo de
algo novo e inesperado.
Eis o que ouviram dele.
PRIMEIRA NOITE
- Sim, eu sou filho de Liubiézni I e Baba. Me chamo por
linhagem Mujique I , e Kholstomér é um apelido que vem da
rua, dado pelo povaréu por causa do meu passo comprido e
largo, que não tinha igual na Rússia. Não há no mundo cavalo
de sangue mais nobre do que o meu . Nunca lhes diria isso. Para
quê? Vocês nunca me reconheceriam. Como não me reconheceu
Viazopurikha, que esteve j unto comigo em Khrenovo
e só agora me reconhece. Nem hoj e vocês acreditariam em
mim, não fosse o testemunho de Viazopurikha. Nunca lhes di-
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ria isso. Não preciso da compaixão dos cavalos. Mas vocês o
quiseram. Sim, eu sou aquele Kholstomér que os caçadores andam
procurando e não encontram, aquele Kholstomér que conheceu
o próprio conde e que foi vendido por vencer Liébied,
seu cavalo favorito.
Quando nasci, não sabia o que significava malhado, pensava
que eu era um cavalo. A primeira observação sobre meu
pêlo, recordo-me, impressionou profundamente a mim e à minha
mãe. Nasci provavelmente à noite, e ao amanhecer estava
de pé, j á lambido pela minha mãe. Eu me lembro de que estava
querendo muito alguma coisa e de que tudo me parecia estranho
demais e ao mesmo tempo simples demais . As nossas
baias ficavam num corredor comprido e quente, com portões
gradeados , por onde se via tudo. Minha mãe encostou-me suas
tetas, mas eu ainda era tão ingênuo que ora enfiava o nariz no
meio de suas patas dianteiras ora debaixo da gamela. De repente
minha mãe voltou-se, olhou para o portão gradeado e, passando
as pernas por cima de mim, afastou-se. O cavalariço de
serviço nos olhava através das grades.
- Vej am só, a Baba está de cria - disse ele e começou a
abrir o ferrolho; entrou pisando a palha fresca e me abraçou. -
Dá uma olhadinha aqui, Tarás, - gritou - olha que malhado,
p arece uma pega . - D esvencilhei-me dele e tropecei nos
j o elhos.
- Vej a, que diabinho - pronunciou ele.
Minha mãe inquietou-se, mas não me defendeu, apenas
suspirou bem fundo e afastou-se um pouco. Chegaram os outros
cavalariços e ficaram a me olhar. Um deles apressou-se a
anunciar ao chefe. Todos riam, olhando minhas manchas , e davam-
me nomes diferentes e estranhos .
66
Nem eu nem minha mãe compreendíamos o significado
daquelas palavras .
Até então j amais houvera um malhado entre nós e entre
todos os meus parentes . Não pensávamos que naquilo houvesse
algo de mal. Naquela ocasião, todos elogiaram a minha
constituição e a minha força.
- Vej a que esp erto, - disse o cavalariço - ninguém
segura.
Algum tempo depois o chefe dos cavalariços chegou, ficou
surpreso com a minha cor e pareceu até mesmo contrariado.
- A quem puxou esse monstro? - disse ele. - O general
não vai deixá-lo ficar no haras . É, Baba, você me passou para
trás - dirigiu-se também à minha mãe. - Antes tivesse parido
um sem pêlo nenhum do que esse todo malhado.
Minha mãe não respondeu nada e tornou a suspirar, como
sempre acontecia nesses casos.
- A que diabo terá puxado ? Parece um mujique, - continuou
- no haras não dá pra ficar, é uma vergonha, mas é bonitinho,
muito bonitinho mesmo - dizia ele, e diziam todos ,
olhando para mim. D epois de alguns dias o próprio general
veio me ver, e novamente todos se horrorizaram com algo e
xingaram a mim e a minha mãe pela cor do meu p êlo. "Mas é
bonitinho, muito bonitinho" - repetiam todos que me viam.
Até a primavera vivemos uns separados dos outros, cada
qual com sua mãe na baia, e só vez por outra, quando a neve
no telhado do estábulo já estava derretendo, deixavam que nós
e nossas mães saíssemos para o vasto pátio forrado de palha
fresca. Ali conheci pela primeira vez todos os meus parentes
próximos e distantes . Ali eu via saírem por portas diferentes to-
67
das as éguas famosas daquele tempo com suas crias . Lá estava a
velha Golanka, Muchka - filha de Smietanka -, Krasnukha, a
égua de sela, D obrokhótikha, todas as éguas famosas naquele
tempo ali se reuniam com as suas crias , passeando sob o sol, espojando-
se na palha fresca e farej ando-se como simples éguas .
Até hoj e não posso esquecer a vista daquela estrebaria repleta
das beldades daquele tempo. Para vocês é estranho pensar e
acreditar que eu também j á fui j ovem e esperto ; fui mesmo. Lá
estava a própria Viazopurikha, então apenas uma potranca de
um ano - uma égua encantadora, viva e travessa; apesar de ela
ser de sangue, considerada uma raridade entre vocês, não será
ofensa se eu disser que naquela época ela era uma das piores
crias do rebanho. Ela mesma pode lhes confirmar isso.
Minha cor malhada, que tanto desagradava às pessoas,
agradava demais a todos os cavalos; todos me rodeavam, admirando-
se e entretendo-se comigo. Já estava começando a esquecer
os comentários das pessoas sobre a minha cor e me
sentia feliz. Mas logo conheci o primeiro desgosto da minha
vida, e a causa foi minha mãe. Quando já principiava o degelo,
os pardais chilreavam sob o alpendre e no ar a primavera
começava a se fazer sentir mais intensamente, minha mãe começou
a mudar o j eito de me tratar. Todo seu temperamento
mudou; ora começava a brincar de repente sem nenhuma razão,
correndo pelo pátio, o que não ficava nada bem na sua respeitável
idade; ora ficava meditabunda e punha-se a relinchar;
ora mordia e escoiceava suas irmãs éguas; ora começava a me
cheirar e bufava descontente ; ora, saindo ao sol, deitava a cabeça
nos ombros de sua prima-irmã Kuptchikha, ficava muito
tempo a lhe coçar as costas, sonhadora, e empurrava-me de
suas tetas . Um dia chegou o chefe dos cavalariços, ordenou
68
que lhe pusessem o cabresto, e a levaram da baia. Ela se pôs a
relinchar, eu respondi e me lancei atrás dela; mas nem olhou
para mim. O cavalariço Tarás me agarrou de uma braçada enquanto
fechavam a porteira atrás de minha mãe.
Disparei e derrubei o cavalariço na palha, mas o portão
estava trancado, e eu apenas ouvi o relincho cada vez mais distante
de minha mãe. E naquele relincho eu já não ouvia um
chamado, mas uma outra expressão. À voz dela respondia de
longe a voz potente de D óbri I que, como eu soube depois,
seguia ladeado por dois cavalariços ao encontro de minha mãe.
Não me lembro de como Tarás saiu da minha estrebaria: eu estava
triste demais . Sentia que tinha perdido para sempre o
amor de minha mãe. E tudo porque eu era malhado, pensava,
recordando os comentários das pessoas sobre o meu p êlo, e me
deu tanta raiva que comecei a bater a cabeça e os j o elhos na
parede da baia - e só parei de bater quando caí esgotado, empapado
de suor.
Algum tempo depois minha mãe voltou para mim. Eu
a ouvi trotando e chegando à nossa baia pelo corredor num
passo inusitado. Abriram-lhe a porteira, e eu nem a reconheci:
como estava rej uvenescida e bonita. Ela me cheirou, bufou e
começou a guinchar. Em toda a sua expressão eu via que não
me amava. Contou-me sobre a beleza de D obri e seu amor
por ele. Aqueles encontros continuaram, e o tratamento entre
nós foi ficando cada vez mais frio.
Pouco depois nos soltaram no pasto. Naquela época eu
experimentei novas alegrias, que substituíram a perda do amor
de minha mãe. Tinha amigos e amigas, juntos nós aprendemos
a comer capim, relinchar como os adultos e galopar em círculos
em volta de nossas mães, de rabos levantados. Foi uma épo-
69
ca feliz. Tudo me era perdoado, todos me amavam, admiravamme
e mostravam condescendência com tudo o que eu fazia.
Isso durou pouco. Logo depois aconteceu algo terrível comigo.
O capão deu um suspiro p esado, pesado e saiu de perto
dos cavalos .
H á muito tempo despontara a aurora. Os portões rangeram,
Niéster entrou. Os cavalos separaram-se. O cavalariço
aj ustou a sela no capão e enxotou o rebanho.
VI
SEGUNDA NOITE
Tão logo foram recolhidos, os cavalos apinharam-se
mais uma vez ao redor do malhado.
- Em agosto fomos separados de nossas mães, - continuou
ele - mas eu não sentia grande tristeza. Já havia percebido
que minha mãe carregava no ventre meu irmão mais novo,
o célebre Ussan, e eu não era mais o mesmo de antes. Não
tinha ciúmes, mas sentia que estava me tornando cada vez mais
frio para com ela. Além do mais, sabia que, com o afastamento
de minha mãe, eu iria para o compartimento dos potros,
que ficavam instalados em grupos de dois ou três, e de onde a
manada de potrinhos saía todos os dias para o ar livre. Eu dividia
uma baia com Mili, um cavalo de sela; tempos depois ele
foi montado pelo imperador e retratado em quadros e esculturas.
Mas, naquela época, Mili ainda era uma simples cria de
pêlos lustrosos e delicados, pescoço de cisne e pernas finas,
uniformes , feito cordas de violão. Era alegre, bondoso e amável,
sempre disposto a brincar, a lamber-se e a zombar de ca-
70
valos e homens . Vivendo j untos, nós fizemos amizade involuntariamente,
e essa amizade durou todo o tempo de nossa j uventude.
Era alegre e leviano. Já começava a conhecer o amor,
namoricava as potrancas e ria-se de minha virgindade. E, por
amor próprio, comecei a imitá-lo, para minha desgraça; muito
em breve deixei-me envolver pelo amor. Essa minha tenra
afeição foi o motivo da maior transformação do meu destino.
Aconteceu que me apaixonei.
Viazopurikha era um ano mais velha que eu e tínhamos
uma amizade especial; mas no fim do outono percebi: ela começou
a me evitar. .. Ora, eu não vou me ater a contar toda essa
história infeliz do meu primeiro amor, ela mesma se lembra
da paixão insensata que terminou com a mudança mais importante
da minha vida. Os peões correram a afastá-la e me espancaram.
À noite levaram-me para uma baia separada; relinchei
a noite toda, como se estivesse pressentindo o que ia
acontecer no dia seguinte.
Pela manhã, o general, o chefe da cavalariça, os cavalariços
e os peões vieram ao corredor de minha baia e armou-se
uma gritaria terrível. O general berrava com o chefe, este se
defendia dizendo que não havia mandado ninguém me soltar
e que os cavalariços tinham feito aquilo por conta própria. O
general ameaçou açoitar todo mundo e disse que não poderia
conservar todos os potros. O chefe prometeu cumprir as ordens
. Eles se calaram e saíram. Eu não entendi nada, mas senti
que alguma coisa havia sido tramada contra mim.
N o dia seguinte, depois daquilo, nunca mais relinchei e
me transformei nisso que sou hoj e. O mundo inteiro mudou
diante dos meus olhos. Não via mais encanto em nada e dei
de cismar, cair em meditação. No começo, tudo me era abo-
7 1
minável. D eixei até de comer, de beber, de andar, e não pensava
nem mesmo em brincar. Às vezes vinha-me à cabeça a
idéia de corcovear, dar uns galopes, relinchar, mas aí surgia a
terrível pergunta: "para quê? " , "por quê ? " . E minhas últimas
forças me deixavam.
Certa vez, levaram-me para passear à tardinha, bem na
hora em que traziam a manada do pasto. Ainda avistei de longe
uma nuvem de poeira, onde se proj etavam os contornos vagos
e conhecidos de nossas fêmeas . Ouvia os relinchos alegres e o
tropel. Embora a corda do cabresto com que o cavalariço me
segurava me cortasse a nuca, parei e fiquei a olhar a manada que
se aproximava, como se fita toda a felicidade perdida para sempre,
irrecuperavelmente. Elas se aproximavam e eu distinguia
uma a uma todas aquelas figuras conhecidas, belas, maj estosas,
saudáveis, bem alimentadas. Algumas delas também me lançaram
olhares. Não senti a dor dos puxões que o cavalariço dava
no cabresto. Estava enlevado e, movido por uma lembrança antiga,
comecei involuntariamente a relinchar e corri a trote; mas
meu relincho soava triste, ridículo, absurdo. A manada não se
ria, mas eu pude perceber que muitas delas me voltaram as costas
de vergonha. Pelo visto, elas achavam aquilo abj eto, deplorável,
vergonhoso e principalmente ridículo. Achavam ridículo
meu pescoço fino e inexpressivo, a cabeça grande (eu tinha
emagrecido) , as pernas compridas e desaj eitadas, o trote aparvalhado
ao redor do cavalariço - um costume antigo. Ninguém
respondia ao meu relincho, todos me viravam as costas . De repente,
compreendi tudo, compreendi o quanto eu havia me distanciado
de todos eles, para sempre, e nem mesmo me lembro
de como cheguei em casa atrás do cavalariço.
J á antes eu havia revelado uma inclinação para a serie-
72
dade e a meditação, mas agora se operava em mim uma mudança
decisiva. O meu malhado, que despertava um desprezo
tão estranho entre as pessoas, a minha infelicidade incomum e
repentina e, ainda, minha situação um tanto peculiar no haras,
que eu pressentia mas de forma alguma conseguia explicar, fizeram
de mim um cavalo ensimesmado. Eu meditava sobre a
inj ustiça das pessoas que me condenavam por ser malhado, sobre
a inconstância do amor materno e do amor feminino de
um modo geral, sua dependência de condições nsicas, e meditava
principalmente sobre as qualidades daquela estranha espécie
de animais, a quem estamos tão estreitamente ligados e que
chamamos de gente, meditava sobre aquelas qualidades das
quais decorria minha situação no haras, que eu intuía mas não
conseguia compreender. O significado dessa peculiaridade e
das qualidades humanas em que ela se fundava revelou-se para
mim no incidente seguinte.
Era inverno, época das festas . Não me deram nem de
comer nem de beber durante o dia inteiro. Fiquei sabendo depois
que aquilo acontecera porque o cavalariço estava bêbado.
Naquele mesmo dia, o chefe veio à minha baia, deu pela falta
de ração e foi-se embora xingando com os piores nomes o cavalariço
que não estava ali. No dia seguinte, acompanhado de
um peão, o cavalariço trouxe feno à nossa baia; notei que ele
estava especialmente pálido, abatido, tinha nas costas longas algo
significativo que despertava piedade. Ele atirou o feno por
cima da grade, com raiva; eu ia metendo a cabeça em seu ombro,
mas ele deu um murro tão dolorido no meu focinho, que
me fez saltar para trás . E ainda por cima chutou-me a barriga
com a bota.
- Não fosse esse lazarento, nada disso tinha acontecido.
73
Mas o que aconteceu? - perguntou o outro cavalariço.
- Os potros do conde ele nao mspeclOna, mas este ele
examina duas vezes por dia.
- Será que deram o malhado mesmo pra ele?
- Se deram ou se venderam, só o diabo sabe. O certo é
que você pode até matar de fome todos os cavalos do conde,
e nada acontece, mas você se atreva a deixar o potro dele sem
ração . . . "D eita aí" , diz ele, e tome chicotada. Não tem senso
cristão. Tem mais pena de animal do que de homem; logo se
vê que não usa cruz no pescoço . . . ele mesmo contou as chicotadas
que me deu, o bárbaro. O general não bate assim, ele
deixou as minhas costas em carne viva . . . pelo visto, não tem alma
de cristão.
Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e
o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro
para mim o significado das palavras "meu " , "meu potro " , palavras
através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam
uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos.
Não conseguia entender de j eito nenhum em que consistia esse
vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me sep
araram dos outros caval o s . Mas, naquele momento, não
houve j eito de entender o que significava me chamarem de
propriedade de um homem. As palavras " meu cavalo " , referidas
a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto
as palavras "minha terra " , "meu ar" , "minha água" .
No entanto, estas palavras exerciam uma enorme lllfluência
sobre mim. Eu não parava de pensar nisso e só muito
depois de ter as mais diversas relações com as pessoas compreendi
finalmente o sentido que atribuíam àquelas estranhas
74
palavras. Era o seguinte : os homens não orientam suas vidas
por atos, mas por palavras . Eles não gostam tanto da possibilidade
de fazer ou não fazer alguma coisa quanto da possibilidade
de falar de diferentes obj etos utilizando-se de palavras que
convencionam entre si. Dessas , as que mais consideram são
"meu" e "minha" , que aplicam a várias coisas, seres e obj etos,
inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre
si que, para cada coisa, apenas um deles diria "meu " . E
aquele que diz "meu" para o maior número de coisas é considerado
o mais feliz, segundo esse j ogo. Para quê isso, não sei,
mas é assim. Antes eu ficava horas a fio procurando alguma
vantagem imediata nisso, mas não dei com nada.
Muitas das pessoas que me chamavam, por exemplo, de
"meu cavalo" nunca me montavam; as que o faziam eram outras
, completamente diferentes . Também eram bem outras as
que me alimentavam. As que cuidavam de mim, mais uma vez,
não eram as mesmas que me chamavam "meu cavalo " , mas os
cocheiros, os tratadores, estranhos de modo geral. Mais tarde,
depois que ampliei o círculo das minhas observações, convenci-
me de que, não só em relação a nós, cavalos, o conceito de
"meu" não tem nenhum outro fundamento senão o do instinto
vil e animalesco dos homens, que eles chamam de sentimento
ou direito de propriedade. O homem diz: " minha casa",
mas nunca mora nela, preocupa-se apenas em construí-la
e mantê-la. O comerciante diz: "meu bazar", "meu bazar de
lãs " , por exemplo, mas não tem roupa feita das melhores lãs que
há em seu bazar. Existem pessoas que chamam a terra de "minha",
mas nunca a viram nem andaram por ela. Existem outras
que chamam de "meus" outros seres hununos, mas nenhuma
vez sequer botaram os olhos sobre eles, e toda a sua relação
75
com essas pessoas consiste em lhes causar mal. Existem homens
que chamam de "minhas" as suas mulheres ou esposas, mas essas
mulheres vivem com outros homens . As pessoas não aspiram
a fazer na vida o que consideram bom, mas a chamar de
"minhas" o maior número de coisas . Agora estou convencido
de que é nisso que consiste a diferença essencial entre nós e os
homens . É por isso que, sem falar das outras vantagens que temos
sobre eles , j á podemos dizer sem vacilar que, na escada dos
seres vivos, estamos acima das pessoas : a vida das pessoas - pelo
menos daquelas com as quais convivi - traduz-se em palavras;
a nossa, em atos. E eis que foi o chefe dos estábulos que
recebeu o direito de me chamar de "meu cavalo " ; por isso,
açoitou o cavalariço. Essa descoberta me deixou profundamente
impressionado e, j unto aos pensamentos e j uízos que minha
pele malhada despertava nos homens e à meditação em que me
mergulhou a mudança ocorrida em minha mãe, levou-me a
me tornar o malhado ensimesmado e sério que eu sou.
Eu me sentia três vezes infeliz: era malhado, castrado e,
além disso, as pessoas não me imaginavam pertencente a D eus
ou a mim mesmo, como acontece com qualquer ser vivo, mas
ao chefe dos estábulos.
Disso decorreram muitas conseqüências . A primeira delas
era que me mantinham isolado, minha alimentação era melhor,
faziam-me correr preso a uma corda e me arrearam mais
cedo do que os outros. Isto aconteceu pela primeira vez quando
eu tinha três anos. Lembro-me de como aquele mesmo
chefe que me considerava seu começou a me arrear, acompanhado
de muitos outros peões, esperando gestos violentos ou
resistência de minha parte. Torceram-me os beiços. Amarraram-
me uma corda ao pescoço e me levaram para o timão;
7 6
meteram-me às costas uma cruz larga de couro e a prenderam
ao timão para que eu não desse coices, mas eu só esperava a
oportunidade de mostrar minha disposição e meu amor pelo
trabalho.
Surpreenderam-se porque eu me comportava como um
cavalo velho. Passaram a me montar e eu comecei a exercitar
passos de trote. Meu progresso fazia-se sentir mais e mais a cada
dia, tanto que, ao final de três meses, o próprio general e
muitos outros elogiaram minha andadura. Mas, coisa estranha:
j ustamente por imaginarem que eu não pertencia a mim mesmo,
mas ao chefe dos estábulos, minha andadura teve para eles
um significado bem diferente.
Montavam os potros, meus irmãos, nas corridas, mediam
a sua velocidade, saíam para vê-los, andavam em carruagens
douradas e cobriam os animais com mantas caras . Eu saía
na carruagem simplória do chefe dos estábulos, quando este
viaj ava para Tchesmenk e outros sítios a negócios . Isto acontecia
porque eu era malhado e principalmente porque, na opinião
deles, eu não era propriedade do conde, mas do chefe dos
estábulos.
Amanhã, se ainda estivermos vivos, vou lhes contar a
principal conseqüência que teve para mim esse direito de propriedade
que o chefe dos estábulos imaginou ter.
Durante esse dia, os cavalos dirigiram-se respeitosos a
Kholstomér. Mas o tratamento de Niéster permaneceu grosseiro
como sempre. O potrinho ruço do muj ique começou a
relinchar, j á se aproximando da manada, e a egüinha baia mais
uma vez pôs-se a coquetear.
77
VII
TERCEIRA NOITE
A lua surgiu e o seu esguio desenho em forma de foice
derramou-se sobre Kholstomér, que estava no meio do pátio,
ladeado pelo rebanho.
- O fato de eu não pertencer nem ao conde, nem a
D eus, mas ao chefe dos estábulos - continuou o malhado - teve
como conseqüência principal e surpreendente a minha expulsão,
motivada por nosso maior mérito, a velocidade. Galopavam
com Liébied na pista de corridas, quando cheguei de
Tchesmenk com o chefe montado em mim. Liébied passou ao
nosso lado. Tinha um bom galope, mas era um pouco exibido,
não tinha aquela rapidez que eu havia cultivado para que,
quando uma pata tocasse no chão, a outra se erguesse sem perder
o menor esforço e qualquer movimento me impulsionasse
para a frente. Liébied passou ao nosso lado. Eu dei uma arrancada
para a pista e o chefe não me reteve.
" O ra, tá querendo experimentar o meu malhado? " -
gritou ele, e quando Liébied nos alcançou mais uma vez, ele
me soltou. O potro já havia tomado velocidade, por isso fiquei
para trás na primeira volta, mas na segunda fui ganhando velocidade,
encostando na carruagem, me emparelhando, começando
a ultrapassar e ultrapassando. Tentaram uma segunda vez
- deu no mesmo. Eu era mais veloz. Isso deixou todos horrorizados.
Decidiram então me vender o mais rápido possível,
quanto mais longe melhor, para que a notícia não se espalhasse.
"Se o conde sabe disso, é uma desgraça! " , diziam eles. E me
venderam para um negociante de cavalos. Fiquei pouco tempo
com ele. Comprou-me um hussardo que apareceu por lá
78
atrás de algum conserto. Foi tudo tão injusto, tão cruel que eu
fiquei contente quando me levaram de Khrenova, afastandome
para sempre de tudo o que me era familiar e querido. Eu
sofria demais entre eles . Esperavam-lhes o amor, as honras , a liberdade,
e a mim o trabalho e a humilhação, a humilhação e o
trabalho, até o fim da minha vida! Para quê? Por quê? Eu era
malhado e, por causa disso, precisava ser de alguém.
Naquela noite, Kholstomér não pôde continuar seu relato.
Aconteceu algo na cavalariça que pôs em alvoroço toda
a manada.
Kuptchikha, uma égua prenhe que se demorava em dar
a luz e que desde o início tinha escutado a história, virou-se
de repente e se afastou devagar para debaixo do galpão, começando
a gemer tão alto que todos os cavalos voltaram a atenção
para lá; depois deitou-se, tornou a se levantar e outra vez
deitou-se. As éguas velhas entenderam o que se passava com
ela, mas as j ovens ficaram agitadas e rodearam a doente, deixando
o malhado. Na manhã seguinte um novo potrinho
cambaleava em suas perninhas finas . Niéster chamou o chefe
dos estábulos e os dois levaram a égua e o potrinho para o estábulo,
conduzindo a manada sem ela.
VIII
QUARTA NOITE
À noite, quando fecharam o portão e tudo silenciou, o
malhado continuou assim:
- Tive oportunidade de muito observar as pessoas e os
cavalos durante todos os períodos em que estive passando de
79
mão em mão. Fiquei mais tempo com dois dos meus donos:
um príncipe, oficial hussardo, e depois uma velhinha que morava
em Nikola lavlieni.
Com o oficial hussardo passei a melhor época da minha
vida. Embora tenha sido ele a causa da minha ruína, embora
ele não gostasse de nada nem ninguém, j ustamente por isso eu
gostava e ainda gosto dele.
Ele me agradava precisamente porque era bonito, alegre,
rico e não gostava de ninguém. Vocês entendem esse nosso
elevado sentimento eqüino. A frieza, a dureza dele, a minha
dependência em relação a ele, davam uma força especial ao
meu afeto. "Me mata, me esfalfa, que assim eu serei mais feliz " ,
e u chegava a pensar e m nossos bons tempos.
Comprou-me do negociante, a quem o cavalariço me
vendera por oitocentos rublos. Comprou-me porque ninguém
tinha cavalos malhados por lá. Foi minha melhor época. Ele tinha
uma amante. Sabia disso porque todo dia levava-o à casa
dela e às vezes carregava-os j untos. A amante dele era bela, ele
era belo, o cocheiro deles era belo. E eu gostava de todos eles
por isso. Eu me sentia bem em viver. Minha vida corria assim:
de manhã o cavalariço vinha me limpar, não era o cocheiro
que vinha, mas o cavalariço. Era um suj eito j ovem, escolhido
entre os mujiques . Ele abria a porta, deixando escapar o vapor
emanado dos cavalos, j ogava fora o esterco, retirava as mantas
e começava a eriçar-me o corpo com a escova, formando estrias
brancas no couro com a almofaça. Por brincadeira, mordiscava-
lhe a manga da camisa e batia as patas no chão.
Depois, levavam-nos um após o outro para a tina de
água fria, e o rapaz ficava admirando minha pelagem malhada
e lisa, as pernas retas como flechas, os cascos largos, as ancas e
80
o dorso lustrosos, onde dava até para dormir. Enfiavam o feno
pelas grades altas e despej avam aveia nas manjedouras de carvalho.
Chegava Feofan, o cocheiro mais antigo.
Meu dono e o cocheiro eram parecidos. Nenhum dos
dois temia coisa nenhuma, não gostavam de ninguém além de
si mesmos, por isso todos gostavam deles. Feofan andava com
uma camisa vermelha, calças de feltro e podiovka 5 . Eu gostava
quando ele aparecia de podiovka nos feriados, cheio de brilhantina,
e passava pela cocheira gritando : "Esqueceu, né, bichão
! " , cutucava minhas coxas com o cabo da forquilha para
brincar, sem j amais causar dor. Eu entendia a brincadeira e, no
mesmo instante, levantava as orelhas e rangia os dentes . Vivia
conosco um garanhão morado que fazia parelha comigo. À
noite atrelavam-me com ele. Seu nome era Polkan; ele não
entendia as brincadeiras e era ruim como o diabo. Ficávamos
um ao lado do outro na baia e às vezes brigávamos para valer.
Feofan não tinha medo dele. Vez por outra achegava-se, dava
um grito, parecia querer matá-lo ; mas não, passava de lado e
Feofan metia-lhe o laço. Certa vez descemos os dois em disparada
por Kuznietski. Nem meu dono nem o cocheiro se assustaram,
ambos sorriam, gritavam para as pessoas, seguravam
as rédeas e mudavam a direção, de sorte que não atropelamos
ninguém. A serviço deles eu perdi minhas melhores qualidades
e metade da minha vida. Ali me esfolaram e me deixaram
em pandarecos. Mas , apesar disso, foi minha melhor época.
Chegavam ao meio dia, atrelavam-me, untavam-me os cascos,
umedeciam-me o topete e me colocavam no timão.
Os trenós eram de j unco cobertos de veludo, o arreio,
5 Casaca pregueada na cintura (N. T.) .
8 1
com pequenas fivelas prateadas , e as rédeas, revestidas de seda.
A atrelagem era tal que, quando todas as rédeas e correias haviam
sido aj ustadas e afiveladas, não era possível distinguir onde
findava a atrelagem e começava o cavalo. Terminavam de
me atrelar no galpão. Feofan aparecia, traseiro mais largo que
os ombros, um cinturão vermelho que chegava até quase o sovaco,
examinava os arreios, montava, colocava o cafetã, enfiava
o pé no estribo, fazia sempre uma piada qualquer, levantava o
chicote - com o qual quase nunca me fustigava, a não ser para
pôr ordem - e dizia: "Eia! " . E eu saía pelo portão, brincando
a cada passo; ao sair para deitar fora a água suja, a cozinheira
detinha-se na soleira da porta; ao trazer a lenha para o pátio,
os mujiques arregalavam os olhos. Eu saía, dava uma volta e parava.
Os criados apareciam, chegavam-se ao cocheiro e começavam
a conversar. E haj a espera, às vezes a gente ficava até três
horas postados j unto à entrada, de vez em quando dávamos
uma voltinha e voltávamos para o mesmo lugar.
Finalmente, rumores à porta e Tíkhon, grisalho e barrigudo,
saía correndo em sua casaca: "Vamos lá" . Naquela época não
havia esse j eito estúpido de falar: "Adiante" , como se eu não soubesse
que não se anda para trás e sim para a frente. Feofan estalava
a língua. Como se não notasse nada de extraordinário, nem
nos trenós, nem nos cavalos, nem em Feofan, que dobrava as costas
e estendia os braços de um j eito tal que parecia impossível
mantê-los naquela posição por muito tempo, o príncipe chegava
desajeitado e com pressa em sua barretina, com um capote de pele
de castor prateado cobrindo-lhe o rosto corado, de sobrancelhas
negras, que ele nunca deveria cobrir; saía tilintando o sabre,
as esporas, pisando o tapete com o salto de cobre das galochas como
se estivesse com pressa, sem prestar atenção em mim ou em
82
Feofan, nós, de quem todos gostavam e admiravam, menos ele.
Feofan estalava a língua, eu arrastava as rédeas com dignidade e,
num passo, chegávamos e parávamos; eu espiava o príncipe e sacudia
a cabeça puro-sangue de crinas delicadas. Quando estava
de bom humor, o príncipe pilheriava com Feofan, que respondia
virando levemente a bela cabeça e fazia um movimento quase
imperceptível e claro com as rédeas, sem baixar as mãos, e eu
partia num galope cada vez mais largo, vibrando cada músculo e
atirando neve e lama sob as engrenagens do trenó.
Também naquela época não havia esse j eito moderno e
estúpido de gritar: "Oôô ! " , como se o cocheiro estivesse com
dores, e sim um incompreensível "Vê se te cuida! " . - "Vê se te
cuida ! " - gritava Feofan e o povo abria caminho, parava e entortava
o pescoço para mirar o belo malhado, o belo cocheiro
e o belo senhor.
Eu gostava de ultrapassar um trotador. Quando acontecia
de eu e Feofan avistarmos lá longe uma parelha digna de
nosso esforço, saíamos feito tufão atrás dela e pouco a pouco
íamos nos aproximando, perto e mais perto, e eu j á atirando lama
no encosto do trenó , emparelhava com o cavaleira e bufava-
lhe por cima da cabeça, emparelhava com o cilhão, com o
arco, e aí já não o via mais , apenas escutava às minhas costas seu
barulho, cada vez mais distante. E o príncipe, Feofan e eu - todos
calados, fazendo de conta que simplesmente íamos tratar
de negócio, que não notávamos quem cruzava o nosso caminho
montando p éssimos cavalos . Eu gostava de ultrapassar os
outras, mas gostava também de um bom tratador; um instante,
um ruído, um olhar e já nos afastávamos , j á voávamos sozinhos,
cada um para o seu lado.
O portão rangeu e ressoaram as vozes de Niéster e Vaska.
83
QUINTA NOITE
o temp o começava a mudar. Amanhecera nublado e
não havia orvalho, mas estava morno e os mosquitos grudavam.
Mal foram recolhidos, os cavalos se j untaram ao redor do
malhado, e ele terminou sua história:
- Minha boa vida acabou logo. Eu vivi assim por dois
anos apenas . Ao fim do segundo inverno, aconteceu-me a coisa
mais feliz de minha vida, e depois minha maior desgraça. Era
carnaval; eu havia levado o príncipe às corridas . D elas participavam
Átlasni e Bitchok. Eu não sei o que ele estava fazendo
ali no caramanchão, só sei que desceu e ordenou a Feofan que
fosse para a pista. Lembro que me levaram para lá, que me puseram
na posição de largada, com Átlasni ao lado. Ele puxava
um coche leve, e eu um trenó de cidade, do j eito que estava.
D eixei-o para trás na curva e fui saudado com gargalhadas e
brados de admiração.
Quando dei a volta da vitória, a multidão me seguiu . E
umas cinco p essoas ofereceram milhares de rublos ao príncipe.
Ele apenas riu, mostrando os dentes brancos.
- Não, - disse ele - ele não é um cavalo, é um amigo, e
eu não o vendo nem por uma montanha de ouro. Até a vista,
senhores - e acomodou-se no assento.
- Para Stoj inka. - Era o apartamento de sua amante. E
nós voamos para lá. Foi nosso último dia feliz.
Chegamos à casa dela. Ele dizia que ela era dele. Mas ela
se apaixonou por outro e o deixou . Ele soube disso lá, no apartamento.
Eram cinco horas e ele foi atrás dela sem me desatrelar.
Coisa que nunca tinha acontecido : açoitaram-me com o chi-
84
cote e me fizeram galopar. Pela primeira vez perdi o passo, fiquei
com vergonha e quis acertar, mas, de repente, ouvi o
príncip e gritar feito possesso:
"Anda! " Fustigou-me com o chicote, senti a pontada e saí
a galope batendo as patas no j ogo dianteiro do coche. Nós a alcançamos
vinte e cinco verstas adiante. Eu o levei até lá, mas
passei a noite toda tremendo, nem comer eu consegui. De manhã
deram-me água. Bebi, mas para o resto da vida deixei de ser
o cavalo que era. Fiquei doente, atormentaram-me e me mutilaram
- curaram-me, como dizem os homens . Meus cascos se
soltaram, se esfarelaram, minhas pernas arquearam, o peito sumiu,
a fraqueza e o abatimento tomaram conta de mim.Venderam-
me a um negociante de cavalos. Ele me alimentou com cenouras
e outras coisas mais e fez de mim um cavalo bem
diferente do que eu era, mas que podia enganar um leigo. Eu já
estava sem forças e imprestável para cavalgar. Além disso, o negociante
me atormentava, e logo que apareciam compradores
ele entrava no estábulo e começava a me fustigar com o doloroso
chicote e a me meter medo até me enlouquecer. Depois
disfarçava os vergões e me levava para fora. Uma velhinha comprou-
me dele. Ela ia sempre para Nikola lavlieni e açoitava o
cocheiro. Ele vinha chorar na minha baia. E ali eu soube que as
lágrimas têm um agradável gosto salgado. D epois a velhinha
morreu. O capataz levou-me à aldeia e me vendeu a um mercador,
comi muito trigo e fiquei ainda mais doente. Venderamme
a um mujique. Lá eu lavrava a terra, não comia quase nada
e feriram-me a perna com a relha. Fiquei doente de novo. Um
cigano trocou alguma coisa por mim. Ele me fez sofrer terrivelmente
e, por fim, vendeu-me a um capataz daqui. E aqui estou.
Todos calaram. Começou a chuviscar.
8 5
IX
Ao voltar do pasto na noite seguinte a manada encontrou
o dono com visita. Aproximando-se da casa, ju1diba olhou
de esguelha para as duas figuras masculinas : um era o j ovem senhor,
metido num chapéu de palha, o outro, um militar alto,
corpulento e obeso. A velha égua olhou de esguelha os dois,
reconheceu-os e passou encolhida ao largo ; os outros, j ovens,
ficaram agitados, vacilantes, principalmente quando o dono e
seu convidado meteram-se de propósito no meio deles, conversando
e apontando alguma coisa um para o outro.
- Este tordi1ho aqui, eu comprei em Voieikova - disse o
dono.
- E essa potranca negra de patinhas brancas, de onde é?
Bonita! - disse a visita. Eles exallÚnaram muitos cavalos, ora
apressando-se, ora detendo-se. Notaram também a egüinha baia.
- Esta é uma cria que me ficou da raça dos cavalos de
sela de Khrenova - disse o dono.
Não conseguiam examinar de passagem todos os cavalos.
O dono gritou para Niéster, que num gesto apressado deu
com o salto das botas no flanco do malhado e o tocou para a
frente. O cavalo mancou, coxeando numa das pernas, mas correu
de modo a deixar claro que, enquanto tivesse forças , não se
queixaria, de maneira nenhuma, ainda que o mandassem até o
fim do mundo. Estava mesmo disposto a soltar o galope e chegou
inclusive a tentar pela perna direita.
- Não existe c avalo melhor do que essa égua em toda a
Rússia, isso eu me atrevo a afirmar! - disse o dono e apontou
para uma das éguas . A visita elogiou. O dono andava e corria
agitado para lá e para cá, mostrando seus cavalos e contando
86
sobre a história e a raça de cada um deles . A visita estava visivelmente
chateada com a conversa do patrão, e inventava perguntas
para dar a impressão de que também estava interessada.
- É, é - falava ele distraído.
- Olhe só, - dizia o dono absorto - olhe que patas . . .
Custou uma fortuna, mas j á está na terceira cria e continua a
cavalgar.
- Cavalga bem? - perguntou o visitante.
E assim examinaram quase todos os cavalos, e nada mais
havia para mostrar. Calaram-se.
- E então, vamos?
- Vamos - saíram em direção ao portão. O visitante estava
feliz com o fim da exibição e por entrar na casa, onde poderia
comer, beber, fumar, e ficou visivelmente animado. Ao
passar diante de Niéster, que esperava por mais ordens montado
no malhado, deu um tapinha com a mão roliça na garupa
do cavalo.
- Que malhas ! - disse ele. - Eu tinha um cavalo igual a
esse, lembra, eu lhe contei .
Ao perceber que não falavam mais de seus cavalos, o dono
nem prestou atenção e continuou a apreciar a manada.
De repente, bem aos seus ouvidos, ressoou um relincho
ridículo, fraco e senil. Era o malhado que havia relinchado, parando
em seguida, sem conseguir terminar, como se estivesse
envergonhado. Nem o convidado, nem o dono deram atenção
a esse relincho e dirigiram-se para a casa. Naquele velho obeso,
Kholstomér reconheceu o seu dono amado, o outrora brilhante,
rico e belo Sierpukhóvskoi.
87
x
Continuava a chuviscar. A estrebaria estava escura, bem
ao contrário do que ocorria na casa do senhor. Servia-se ali
um magnífico chá da tarde no salão luxuoso. À mesa estavam
o senhor, a senhora e o visitante recém-chegado.
A senhora, sentada diante do samovar, estava grávida, o
que era bastante visível pelo ventre crescido, a postura reta, a
gordura e em particular pelos olhos, uns olhos graúdos que penetravam
com doçura e altivez.
O senhor segurava nas mãos uma caixa de charutos esp
eciais de dez anos, ímpares, segundo ele, e dispunha-se a se
gabar deles diante do visitante. O senhor era um belo j ovem
de 25 anos, viçoso, bem tratado e penteado. Em casa vestia um
elegante traj e largo de tecido grosso, feito em Londres. Usava
uma corrente em berloques grandes e caros, grandes abotoaduras
na camisa, também de ouro maciço, incrustadas com turquesa.
Barba à la Napoleão I H , em cachos besuntados de brilhantina
que pendiam de um j eito que só se via em Paris . A
senhora vestia uma roupa de musselina sedosa com estampas
largas e policromadas, uns grandes grampos de ouro nos espessos
cabelos castanho-claros, belos, mesmo não sendo naturais .
Usava vários braceletes e anéis, todos caros. O samovar era de
prata e o serviço, fino. O criado, magnífico no seu fraque, de
colete branco e gravata, postara-se como uma estátua j unto à
porta, aguardando as ordens . A mobília, encurvada, sinuosa e
brilhante; o papel de parede, escuro, com flores grandes . Perto
da mesa tilintava a coleira de prata da cadela levrette, extraordinariamente
delgada, com um nome inglês dificílimo, que ambos
pronunciavam mal por não saberem inglês . No canto, en-
88
tre as flores, havia um piano íncrusté. Tudo transpirava novidade,
luxo e raridade. Tudo estava muito bem, mas em todas as
coisas havia a marca peculiar do excesso, da riqueza e ausência
de interesse intelectual.
O senhor era um adepto da caça, rapagão rosado, daqueles
que nunca se deixam perder de vista, andam de casaco de
pele de marta, lançam flores caras às atrizes, bebem o vinho
mais caro, das marcas mais novas, nos hotéis mais caros, dão
prêmios com o seu nome e mantêm a amante mais dispendiosa.
O recém-chegado, Nikita Sierpukhóvskoi, era um homem
de mais de quarenta anos, alto, gordo, calvo, de grande
bigode e suíças . Devia ter sido muito bonito. Pelo visto, estava
em decadência fisica, moral e financeira.
Estava tão sufocado de dívidas que tivera de trabalhar
para não ser metido num calabouço. Agora ia para o centro
provincial como chefe de haras . Alguns parentes importantes
tinham-lhe conseguido essa colocação. Vestia uma túnica militar
sobre calças azuis . A túnica e as calças eram de um modelo
que ninguém poderia ostentar, exceto um ricaço, o mesmo
acontecia com a roupa íntima, e o relógio também era inglês .
As botas eram de um solado especial, de um dedo de espessura.
Nikita Sierpukhóvskoi esbanj ara pela vida afora uma
fortuna de milhões e ainda ficara devendo cento e vinte mil.
Desse quinhão sempre sobra largueza de vida, que assegura
crédito e possibilidade ainda de viver por uns dez anos quase
com luxo. Esses quase dez anos se passaram, a largueza finou,
e a vida ficou triste para Nikita. Ele j á começava a beber, isto
é, a embriagar-se de vinho, o que antes não acontecia.
B eber mesmo, ele j amais começava nem terminava .
89
Notava-se a decadência sobretudo na intranqüilidade dos seus
olhares (seus olhos começavam a correr) , e na insegurança das
entonações e dos movimentos .
Esse desassossego impressionava porque parecia coisa recente,
era visível que estivera toda a vida habituado a não temer
nada nem ninguém, e só agora, há pouco tempo, chegara
por grandes sofrimentos a esse pavor, tão estranho à sua natureza.
O senhor e a esposa percebiam isso, entreolhavam-se e,
compreendendo um ao outro, reservavam apenas para o leito
um exame detalhado daquele tema, por ora suportando o pobre
Nikita e chegando mesmo a cobri-lo de atenções. A aparência
feliz do j ovem senhor humilhava Nikita e o forçava a
uma invej a dolorosa, recordando-lhe seu passado irrecuperável.
- O charuto não a incomoda, Maria? - disse ele, dirigindo-
se à dama naquele tom singular, imperceptível, que se adquire
somente com a experiência, um tom cortês, amigável, mas
não inteiramente respeitoso, usado com concubinas e não com
esposas por pessoas que conhecem a sociedade. Não que ele quisesse
insultá-la, ao contrário, estava antes querendo familiarizarse
com ela e o marido, ainda que não o reconhecesse para si
mesmo de maneira nenhuma. Mas ele já se habituara a falar assim
com tais mulheres . E sabia que ela se surpreenderia e até
mesmo se ofenderia se ele a tratasse como uma dama. Ao mesmo
tempo, era necessário preservar o conhecido matiz de tom
respeitoso para a esposa legítima de um seu igual. Ele sempre tratava
aquelas damas com respeito, não porque partilhasse das convicções
pregadas pelas revistas (ele nunca lia aquelas porcarias)
sobre o respeito à individualidade de cada pessoa, a insignificância
do matrimônio etc., mas porque todas as pessoas decentes assim
procediam, e ele era um homem decente, ainda que falido.
90
Ele pegou o charuto. Mas o anfitrião pegou, embaraçado,
um punhado de charutos e os ofereceu ao visitante.
- Pegue, você verá como são ótimos.
Nikita afastou o charuto com a mão e em seus olhos apareceu,
quase imperceptível, um esboço de ofensa e vergonha.
- Obrigado. - Ele tirou a cigarreira. - Experimente os
meus .
A senhora era sensível. Percebeu o que ocorrera e apressou-
se a conversar com ele :
- Eu gosto muito d e charutos. Eu mesma fumaria, se j á
não fumassem todos a o meu redor.
E ela sorriu com o seu sorriso belo e bondoso. Ele retribuiu
com um sorriso inseguro. Estava sem dois dentes.
- Não, você pega este, - continuou o senhor insensível.
- Os outros são mais fracos. Fritz, bringen Sie noch "eine " Kasten,
- disse ele - dort zwei. 6
O criado alemão trouxe outra caixa .
- De que você mais gosta? De fortes? Estes são ótimos .
Pegue todos - continuou a impingir. Pelo visto estava contente
por ter diante de quem se gabar de suas raridades, e nada
notava.
Sierpukhóvskoi acendeu o charuto e apressou-se em
continuar a conversa.
- E então, quanto lhe custou o Átlasni? - perguntou.
- Custou caro, não menos de cinco mil, mas pelo menos
estou recompensado. E eu lhe digo : que crias !
- Correm? - perguntou Sierpukhóvskoi.
6 Em alemão estropiado no texto original: "Traga mais um caixa, lá tem dois"
(N. T.) .
9 1
- Correm bem. Há pouco um de seus filhos ganhou três
prêmios: em Tula, Moscou e Petersburgo correu com o Vorôni
de Voieikov. Um pulha dum cavaleiro botou quatro saltos de
vantagem, senão ele o teria deixado para trás .
- Ele está um pouco cru . Tem muito de holandês, estou
lhe dizendo - disse Sierpukhóvskoi.
- E quer saber que temeas? Amanhã eu lhe mostro. D ei
três mil por D obrínia. D ois mil por Láskovaia.
E o anfitrião recomeçou a enumerar sua riqueza. A anfitriã
notou que aquilo era penoso para Sierpukhóvskoi e que
este fingia escutar.
- Vai tomar mais chá? - perguntou ela.
- Não - respondeu o anfitrião, e continuou a narrar. Ela
se levantou, o anfitrião a deteve, abraçou-a e beij ou-a.
Sierpukhóvskoi ia começando a sorrir, olhando para os
dois com um sorriso artificial, mas o anfitrião se levantou e foi
até o reposteiro abraçado com ela, e o rosto de Nikita mudou
de repente, ele deu um suspiro pesado e seu rosto obeso exprimiu
um súbito desespero. Até raiva se notava nele.
XI
o senhor voltou e sentou-se sorridente em frente de
Nikita.
Calaram um pouco.
- Ah, você disse que havia comprado de Voieikov - disse
Sierpukhóvskoi, num tom de aparente desdém.
- Sim, foi Átlasni que eu disse. Eu sempre quis comprar
éguas de Dubovitski. Só restou porcaria.
92
- Ele faliu - disse Sierpukhóvskoi, parando de repente
e olhando ao redor. Lembrou-se de que devia vinte mil àquele
falido. E se ele aplicava a alguém o termo "falido " , com c erteza
andavam fazendo o mesmo com ele. Calou-se.
Os dois ficaram muito tempo calados . O senhor revolvia
na cabeça alguma coisa do que se gabar. Sierpukhóvskoi
tentava idear algo para mostrar que não se considerava falido.
Mas os dois pensavam devagar, embora tentassem se animar
com charutos. "Afinal, quando é que vamos beber? " - pensava
Sierpukhóvskoi. "É preciso beber sem falta, do contrário
morrerei de tédio na companhia dele " - pensava o anfitrião.
- E então, você ficará muito tempo por aqui? - perguntou
Sierpukhóvskoi.
- Um mês . Que tal se j antássemos agora? Fritz, está
pronto?
Foram para a sala de j antar. Lá, à luz de candeeiro, havia
uma mesa coberta de velas e das coisas mais singulares: sifões,
bonequinhas de cortiça, um vinho fora do comum, salgadinhos
raros, vodcas . Eles beberam, comeram, tornaram a beber,
tornaram a comer, e a conversa engrenou. Sierpukhóvskoi ficou
vermelho e começou a falar sem acanhamento.
Falaram de mulheres. De quem tinha quem: uma cigana,
uma dançarina, uma francesa.
- E então, você deixou Mateau? - perguntou o senhor.
Era a amante que havia arruinado Sierpukhóvskoi.
- Eu não, ela me deixou. Ah, irmão, quando a gente se
lembra do que dissipou na vida! Agora estou contente quando
aparecem mil rublos, contente mesmo, por me livrar de todos.
Em Moscou não posso. Ah, pra que falar!
93
o anfitrião entediado escutava o hóspede. Sua vontade
era de falar de si mesmo - gabar-se. Mas Sierpukhóvskoi queria
falar de si - de seu passado brilhante. O anfitrião lhe serviu
vinho e ficou aguardando que terminasse para falar de si mesmo,
de sua fábrica montada de um j eito que ninguém havia
construído antes . De que sua Mary não gostava dele apenas pelo
dinheiro, mas de coração.
- Eu queria lhe dizer que no meu haras . . . - ia começar.
Mas Sierpukhóvskoi o interrompeu.
- Posso dizer que houve um tempo - começou ele -
em que eu gostava de viver e sabia viver.Você fala de cavalgada,
mas agora me diga, qual é o seu cavalo mais veloz?
O anfitrião alegrou-se com a oportunidade de falar mais
sobre o haras, e ia começar, mas Sierpukhóvskoi novamente o
interromp eu.
- Sei, sei! Vocês donos de haras se metem no negócio
apenas por vaidade e não por uma questão de prazer e de vida.
Mas comigo não era assim. Como eu vinha lhe dizendo, eu
tinha um cavalo de corrida, malhado, com malhas iguaizinhas
às daquele que o seu cavalariço monta.
Aquilo é que era cavalo ! Você não podia saber; aquilo
aconteceu no ano de 42, eu acabara de chegar a Moscou; vou
ao revendedor e vej o um capão malhado. De bons modos. Gostei.
Preço? Mil rublos. Me agradou, peguei-o e montei e saí cavalgando.
Nunca tivera e nem você tem e nem terá um cavalo
como aquele. Eu não conheci cavalo melhor no andar, na força
e na beleza. Naquele tempo você era criança, pode não conhecê-
lo, mas ouviu falar, imagino. Toda Moscou o conhecia.
- Sim , j á ouvi falar, - disse o senhor a contragosto - mas
eu queria lhe falar sobre os meus . . .
94
- Então você j á sabe. Eu o comprei assim, sem raça, sem
atestado, só depois fiquei sabendo. Eu e Voieikov conseguimos
tomar conhecimento. Era o filho de Liubiézni I, Kholstomér.
Por causa de suas malhas , deram-no ao cavalariço do haras
Khrenovski, que o castrou e o vendeu a um negociante. Cavalos
como aquele não existem, amigo ! Ai, que temp o ! Ai, a mocidade
! - cantarolou uma canção cigana. Começava a embriagar-
se. - Êta tempo bom! Eu tinha vinte e cinco anos, uma
renda anual de oitenta mil rublos de prata, nenhum cabelo
branco, todos os dentes como p érolas . Fizesse o que fizesse, tudo
dava certo ; e tudo acabou.
- Mas naquele tempo não havia tanta velocidade - disse
o anfitrião, aproveitando o intervalo. - E lhe digo que os
meus primeiros cavalos começaram a correr sem . . .
- O s seus cavalos! Sim, naquela época eram maIS
velozes .
- Como mais velozes?
- Mais . Lembro-me como se fosse hoje, uma vez em
Moscou, quando fui a uma corrida com Kholstomér. Os meus
cavalos não corriam. Eu não gostava dos trotadores, tinha cavalos
de raça, General, Chole, Maomé . E fui montando o malhado.
Meu cocheiro era um moço excelente, eu o adorava. Também
se afogou na bebida. E lá cheguei eu. " Sierpukhóvskoi,
quando é que você vai arranj ar trotadores?" - perguntaram.
" Os seus mujiques, que o diabo os carregue, vão ser todos deixados
para trás pelo malhado da minha carruagem." "Taí, não
vão." "Mil rublos de aposta." Arrancaram, deram a largada. Deu
a volta em cinco segundos, ganhei mil rublos . Foi assim mesmo.
Com cavalos de raça na tróica, fiz cem verstas em três horas
. Toda Moscou sabe.
95
E Sierpukhóvskoi começou a mentir tão bem e continuamente
que o senhor não pôde pronunciar uma palavra sequer
e com uma expressão desalentada continuou sentado em
frente a ele, servindo vinho aos dois nos copos para se distrair.
Já começava a clarear. Mas eles continuavam sentados. O
anfitrião estava terrivelmente enfadado. Levantou-se.
- Já que se tem de dormir - disse Sierpukhóvskoi, levantando-
se cambaleante, e passou resfolegando ao quarto que
lhe haviam destinado.
O anfitrião estava deitado com a esposa.
- Não, ele é insuportável. Embebedou-se e está mentindo
sem parar.
- E me cortej ando.
- Temo que me peça dinheiro.
Sierpukhóvskoi deitara-se na cama sem tirar a roupa e
resfolegava.
"Parece que eu menti muito " - pensou ele. "Mas tanto
faz . O vinho era bom, mas ele é um grande porco. Um negociante
qualquer. E eu sou um grande porco" - disse para si
mesmo e gargalhou. "Ora eu sustentava alguém, ora me sustentavam.
É, ele sustenta Vinklerch e eu pego dinheiro com
ela. É isso que ele merece, é isso que ele merece! Só que preciso
despir-me, mas não consigo tirar as botas ."
- Ei, ei! - gritou, mas o criado à sua disposição tinha ido
dormir há muito tempo.
Sentou-se, tirou a túnica, o colete e as calças aos trancos
e barrancos, mas ficou muito tempo sem conseguir tirar as botas
, a barriga mole o atrapalhava. Deu um j eito de tirar uma
bota, depois a outra - debatia-se, debatia-se, ofegava e se can-
96
sou . E assim, com um pé no cano da bota, desabou e começou
a roncar, enchendo o quarto todo com cheiro de tabaco, vinho
e velhice imunda.
XII
Se Kholstomér ainda se lembrou de alguma COIsa naquela
noite, Vaska o distraiu. Colocou-lhe uma gualdrapa e
saiu galopando, deixou-o até de manhã à porta de uma taberna
j unto com os cavalos dos mujiques .
Eles se lambiam. Pela manhã, Kholstomér j untou-se à
manada e não parou de se coçar.
- Tem alguma coisa coçando e doendo - pensou ele.
Cinco dias se passaram. Chamaram o curandeiro de cavalos.
Ele disse com alegria:
- É crosta. Permita vender aos ciganos .
- Para quê? Mate-o, e que suma daqui hoj e mesmo.
A manhã estava tranqüila, clara. A manada foi para o
campo. Kholstomér ficou. Chegou um homem terrível, magro,
escuro, suj o, de cafetã salpicado de alguma coisa escura. Era
o esfolador. Ele pegou as rédeas e o cabresto sem olhar para o
cavalo, meteu-os nele e o levou.
Kholstomér foi calmamente, sem olhar para trás, como
sempre arrastando as pernas e prendendo as traseiras na palha.
Ao atravessar o portão, ele se arrastou em direção ao poço, mas
o esfolador o impediu e disse:
- Não é preciso.
O esfolador e Vaska chegaram a uma clareira atrás de um
galpão de tij olos e, como se houvesse algo extraordinário na-
97
quele lugar tão comum, pararam, o esfolador passou as rédeas
a Vaska, tirou o cafetã, arregaçou as mangas, tirou do cano da
bota uma faca e uma pedra e começou a afiá-la. O capão esticou
o pescoço em direção à rédea, queria mascá-la por tédio,
mas ela estava longe, ele suspirou e fechou os olhos. Seu beiço
pendia, descobrindo os dentes gastos e amarelos; começou a
dormitar com o ruído da faca na pedra. Só a perna doente
com o tumor estremecia. De repente, sentiu que o colocavam
num pequeno trenó e erguiam-lhe a cabeça. Abriu os olhos.
Dois cães estavam à sua frente. Um deles farej ava na direção do
esfolador, o outro estava sentado, olhando para o capão, como
se esperasse algo j ustamente dele.
O capão olhou para eles . Olhou e começou a esfregar o
zigoma contra a pata que o sustentava. " Com certeza estão
querendo tratar de mim" - pensou. " Que tratem! " .
Com efeito, sentiu que haviam feito algo com sua garganta.
Sentiu dor, estremeceu, bateu com a pata, mas se conteve
e esperou o que viria. Depois aconteceu que uma coisa líquida
j orrou num grande j ato pelo pescoço e p elo peito.
Suspirou a plenos pulmões. Sentiu-se muito mais leve. Aliviouse
de todo peso de sua vida. Fechou os olhos e começou a inclinar
a cabeça - ninguém o segurou. Depois inclinou o pescoço,
depois as pernas começaram a tremer, todo o corpo
cambaleou. Ele não se assustou tanto quanto se surpreendeu.
Tudo ficou tão novo. Admirou-se, arrancou para a frente e para
cima. Mas em vez disso as pernas, depois de se mexerem do
lugar, bambearam, ele começou a tombar de lado, ainda desej
ando dar um passo, pendeu para a frente e caiu sobre o lado
esquerdo. O esfolador esperou até que a convulsão terminasse,
enxotou os càes que tinham chegado mais perto e, depois de
98
pegar o capão por uma pata, virá-lo de costas e mandar Vaska
segurá-lo pela outra pata, começou a esfolá-lo.
- Isso sim era cavalo - disse Vaska.
- Se fosse melhor alimentado, teria dado um bom couro
- disse o esfolador.
À noite a manada regressou pela colina, e os que vinham
do lado esquerdo puderam avistar lá embaixo uma coisa
avermelhada, j unto à qual circulavam cães atarefados e esvoaçavam
gralhas e falcões . Com as patas grudadas na carniça,
um cão sacudia a cabeça e arrancava com estalos o que havia
agarrado. A égua parda parou, espichou o pescoço e ficou muito
tempo aspirando o ar. Só à força conseguiram enxotá-la.
Ao amanhecer, lobinhos c abeçudos uivavam alegres
num barranco do velho bosque, na parte inferior de uma clareira
cheia de moitas . Eram cinco : quatro quase iguais, e um
pequeno, de cabeça maior que o tronco. Uma loba velha, magra
e trocando de pêlo, saiu de uma moita arrastando pelo
chão a barriga cheia, com as tetas caídas, e sentou-se diante dos
lobinhos . Estes formaram um semicírculo à sua frente. Ela se
chegou ao menor, baixou o rabo, inclinou o focinho para baixo,
empreendeu alguns movimentos convulsos e, abrindo a
boca dentada, fez esforço e vomitou um grande pedaço de carne
de cavalo. Os lobinhos chegaram-se mais, porém ela avançou
contra eles num movimento ameaçador, deixando tudo
para o menor. O pequeno, como se estivesse zangado, agarrou
a carne rosnando, meteu-a sob o corpo e pôs-se a devorá-la. A
loba lançou um pedaço para um outro, para um terceiro, para
todos os cinco, e deitou-se diante deles, descansando.
99
Uma semana depois, apenas um grande crânio e dois ossos
graúdos rolavam ao lado do galpão de tij olos, todo o restante
fora levado. No verão, um catador de ossos levou-os todos
mais o crânio e os transformou em obj etos úteis .
Depois de muito andar pelo mundo, comer e beber, o
corpo morto de Sierpukhóvskoi foi recolhido à terra. Nem a
pele, nem a carne, nem os ossos serviram para nada. E como
há vinte anos seu corpo morto vinha andando pelo mundo
como um grande estorvo para todos, o seu recolhimento à terra
foi apenas uma dificuldade a mais para as pessoas .
Há muito ninguém precisava dele, há muito era um peso
para todos, e ainda assim os mortos em vida lhe deram sepultura,
acharam por bem vestir aquele corpo inchado, em
imediata decomposição, num bom uniforme, calçar-lhe boas
botas, colocá-lo num caixão bom e novo, com alças novas nos
quatro cantos, depois meter aquele caixão novo noutro de
chumbo, levá-lo para Moscou, lá desenterrar velhos ossos humanos
e justamente ali esconder o corpo apodrecido, cheio de
vermes, com seu uniforme novo, suas botas engraxadas, e cobri-
lo todo com terra.
Tradução de Beatriz Morabito e Maira Pinto
1 00
o diabo

Eu vos digo, porém, que qualquer que olhar para uma mulher com cobiça,
já em seu coração cometeu adultério com ela . Portanto, se teu olho direito
te escandalizar, arral1ca-o e atira-o para longe de ti
pois que é melhor que se perca um dos teus membros
do que todo o teu corpo seja lançado 110 Inferno.
(Mateus 5, 28-30)
I
Uma carreira brilhante aguardava Ievguiêni Irtiêniev. Tudo o
propiciava. Uma excelente educação de berço, um magnífico
final de curso de direito na Universidade de Petersburgo, as relações
que herdara do pai recém-falecido com os mais altos
círculos da sociedade e até mesmo a sua nomeação para um
ministério, pelas mãos do próprio ministro. Tinha fortuna,
grande fortuna, se bem que duvidosa. Seu pai vivera no exterior
e em Petersburgo e enviava mil rublos anuais aos filhos -
Ievguiêni e Andriêi, o mais velho, oficial dos Cavaleiros da
Guarda. Residira a maior parte do tempo com a esposa e, durante
o verão, passava dois meses no campo, sem se ocupar da
administração, deixando tudo a cargo de um capataz vindo de
fora, que tampouco se ocupava da fazenda mas no qual tinha
total confiança.
D epois da morte do pai, quando os irmãos iniciaram a
partilha dos bens, verificou-se que as dívidas eram tantas que
o advogado da família chegou a aconselhar que os irmãos renunciassem
à herança e ficassem com a fazenda da avó , ava-
1 03
liada em cem mil rublos. Contudo, um fazendeiro vizinho,
que tinha promissórias a cobrar do velho Irtiêniev e que fora
a Petersburgo tratar desse assunto, disse que ap esar das dívidas
era possível resolver a situação e ainda conservar muitos bens .
Tudo o que tinham a fazer era vender a madeira e alguns lotes
de terra inculta e ficar com a mina de ouro - a Semiônova,
com suas quatro mil deciátínas de terra negra, a usina de açúcar
e duzentas decíátinas de várzea -, desde que se dedicassem ao
negócio, mudassem para a fazenda e a administrassem com inteligência
e parcimônia.
Foi então que Ievguiêni, depois de visitar a fazenda na
primavera (o pai morrera durante a quaresma) e vistoriar tudo,
resolveu demitir-se do cargo, mudar-se com a mãe para lá
e dedicar-se à sua administração, a fim de preservar o principal.
Quanto ao irmão, a quem nunca fora muito ligado, fez o
seguinte: assumiu o compromisso de lhe dar quatro mil rublos
por ano, ou oitenta mil de uma só vez, com a condição de que
ele renunciasse à sua parte da herança.
Isso feito, instalou-se com a mãe na sede da Semiônova
e pôs mãos à obra com afã e prudência.
Costuma-se pensar que os velhos são mais conservadores
e os j ovens, inovadores . Isso não é de todo verdadeiro. As
pessoas mais conservadoras em geral são os j ovens, que desej
am viver, mas que não pensam nem têm tempo para pensar
como se deve viver e por isso tomam como modelo a vida já
conhecida.
Era o caso de Ievguiêni. Instalado agora no campo, seu
sonho e seu ideal eram retomar não a forma de vida do tempo
do pai - mau administrador -, mas a do tempo de seu avô . E
agora, em casa, no pomar ou na fazenda, empenhava-se em res-
1 04
suscitar, naturalmente com mudanças próprias à época, o espírito
essencial da vida de seu avô : tudo em grande escala, com
abundância, bem-estar e muita ordem. Mas esse estilo de vida
pedia trabalho árduo: atender às exigências dos credores e dos
bancos, para o que precisava vender terras, adiar pagamentos, arranj
ar dinheiro para manter funcionando, com trabalho assalariado,
a imensa Semiônova, suas quatro mil deciátinas de terras
negras e a usina de açúcar; precisava cuidar da casa e dos j ardins,
para que não dessem a impressão de abandono e decadência.
Havia muito a ser feito, e quanto a força, levguiêni tinha
muita - fisica e intelectual .Vinte e seis anos, porte médio,
compleição robusta, músculos bem formados à custa de exercícios,
tipo sangüíneo, de faces muito coradas, dentes brilhantes,
lábios de tonalidade viva e cabelos meio ralos, macios e ondulados
. Seu único defeito fisico era a miopia, que ele mesmo
agravara com o uso constante de óculos , dos quais não mais
podia prescindir e que lhe deixavam marcas no nariz ligeiramente
aquilino. Quanto a sua personalidade, podia-se dizer
que quanto mais se conhecia, mais se gostava dele. A mãe sempre
o amara mais que aos outros e agora, morto o marido, concentrava
nele não só todo o seu afeto como também toda a sua
vida. Mas a mãe não era a única a amá-lo assim. Seus colegas
de ginásio e da universidade o estimavam e respeitavam. Ele
sempre causara a mesma boa impressão nos estranhos . Diante
daquele rosto e principalmente daquele olhar franco e honesto
não se podia deixar de acreditar no que ele dizia, era impossível
suspeitar de impostura, de inverdade.
De um modo geral, sua personalidade muito o ajudava
na vida prática. Um credor que negasse crédito a outro qualquer
acabava confiando nele. O capataz, o administrador e o
1 05
mujique que fizessem canalhices e enganassem os outros deixavam
de lado o embuste sob a impressão agradável do convívio
com um homem bom, simples e, sobretudo, franco como ele.
Era final de maio. Ievguiêni dera um j eito de levantar na
cidade a hipoteca sobre as terras incultas, a fim de vendê-las a
um comerciante, e conseguiu desse mesmo comerciante um
novo empréstimo para renovar seu patrimônio de cavalos, bois
e carroças. E , o mais importante, para iniciar com urgência a
construção da granja. As coisas se ajustavam. Trouxeram a madeira,
os carpinteiros já trabalhavam, oitenta carroças transportavam
adubo, mas tudo ainda estava por um fio.
II
Em meio a essas preocupações, aconteceu algo que, mesmo
não sendo importante, deixou Ievguiêni atormentado. Ele
vivia sua juventude como fazem todos os jovens saudáveis e solteiros,
isto é, tinha relações com todo tipo de mulher. Não era
um libertino, mas tampouco era um monge, como ele mesmo
costumava formular. Entregava-se a isso apenas o quanto achava
necessário à sua saúde fisica e à sua liberdade de espírito, por
assim dizer. Essas experiências começaram aos dezesseis anos e,
desde então, tudo correra bem. Isso porque não se entregara à
depravação, não se envolvera nenhuma vez e nenhuma vez pegara
doença. No começo tivera uma costureira de Petersburgo,
que logo adoeceu - e ele procurou outra saída. Esse aspecto de
sua vida era tão satisfatório que não o perturbava.
Mas acontece que já estava há dois meses no campo e
decididamente não sabia o que fazer. Uma abstinência forçada
1 06
começou a lhe fazer mal. Será que terei de ir à cidade por causa
disso? E aonde? Como? Isso era a única coisa a inquietar
Ievguiêni Ivánovitch, e como ele estava certo de que aquilo
era indispensável e ele estava precisando, a coisa se tornou efetivamente
necessária e ele, contra a vontade, seguia com os
olhos cada mulher j ovem que cruzava seu caminho.
Achava que não seria direito ter relações com mulheres
ou moças da sua fazenda. Pelo que contavam, sabia que tanto
seu pai quanto seu avô haviam sempre se comportado de modo
bem diferente dos outros latifundiários de seus tempos, j amais
tiveram nenhum namorico com suas servas, e ele resolveu
que também não o faria; no entanto, começou a sentir-se
cada vez mais constrangido e horrorizado só de imaginar o
que lhe poderia acontecer naquela aldeota e, considerando que
não havia mais servidão, concluiu que podia se arranj ar por ali
mesmo. Só que teria de fazê-lo de modo que ninguém percebesse,
e não por depravação, mas apenas por uma questão de
saúde, como repetia para si mesmo. E quando se resolveu, ficou
ainda mais inquieto ; em conversa com o administrador,
com os mujiques, com o marceneiro, levava involuntariamente
o assunto para as mulheres e, se o assunto já era esse, procurava
prolongá-lo. E fixava cada vez mais o olhar nas mulheres.
III
Entretanto, resolver o problema COnsIgO mesmo era
uma coisa, outra era colocá-lo em prática. Tomar a iniciativa de
abordar mulheres era impossível. Qual? Onde? Teria de ser por
intermédio de alguém. Mas de quem?
1 07
Certa vez, aconteceu-lhe de entrar na casa do guarda
florestal para tomar um copo d' água. O guarda era um velho
caçador do tempo de seu pai. Começaram a conversar e o
guarda pôs-se a contar antigas histórias sobre farras nas caçadas
. Ocorreu a levguiêni Ivánovitch que seria bom resolver o
seu problema por lá mesmo, acomodando-se na casa do guarda
ou no bosque. Ele só não sabia como tocar no assunto e se
o velho Danila se encarregaria ou não do seu caso. "A proposta
pode escandalizá-lo e aí eu morreria de vergonha, mas também
pode ser que ele aceite muito simplesmente" . Isso ele
pensava ao escutar as histórias de Danila. Danila contava como,
certa vez, num distante campo de caça, na casa da mulher do
diácono, ele arrumara uma mulher para o Prianítchnikov.
"Posso tentar" , pensou levguiêni.
- Vosso pai, que D eus o tenha, nunca fez esse tipo de
bobagens .
" Não, não posso " - pensou, mas disse para sondar o
terreno :
- E você se prestava a esse papel?
- O que é que tem de mal nisso? Ela ficava contente e
o meu Fiódor Zakháritch muito, muito satisfeito. E eu ganhava
um rublo. De que outro j eito ele iria se arranj ar? Estava vivo
e vivendo a vida.
"Posso tentar" - pensou então e, no mesmo instante, disse:
- Você sabe, - sentiu seu rosto avermelhar-se - você sabe,
Danila, estou passando por maus bocados. - Danila sorriu.
- Apesar de tudo, não sou um monge, estava acostumado . . .
Sentiu o ridículo de tudo aquilo, do que tinha dito, mas
ficou feliz em ver que Danila fazia um gesto de aprovação.
- Ora, era só o senhor ter falado há mais tempo. Isso se
1 08
resolve - disse ele. - É só o senhor dizer quem quer.
- Bem, na verdade, para mim é indiferente. D esde que
não sej a horrorosa e nem doente.
- Entendi ! - interrompeu Danila. Ficou um instante
pensativo. - Ah! , tem uma coisinha bonita - disse. levguiêni
corou novamente. - Coisinha bonita. O senhor precisa ver, casaram-
na no outono. - Danila começou a cochichar - mas o
marido não pode fazer nada. Ela é pra quem quiser.
levguiêni chegou a franzir o cenho de vergonha.
- Não, não - disfarçou. - Não é de nada disso que estou
precisando. Ao contrário, - o que seria o contrário? - ao
contrário, preciso que sej a apenas saudável e que não me traga
maiores problemas - pode ser uma mulher de soldado ou
qualquer coisa assim . . .
- Sei. É de Stiepanida que o senhor precisa. O marido
está na cidade, é como se fosse mulher de soldado. É uma mulherzinha
bonita, asseada. O senhor vai ficar contente. É só eu
dizer "vá lá! " , e ela . . .
- Está bem, mas quando?
- Pode ser amanhã mesmo. Tenho que ir à tabacaria e
dou uma chegada até lá. Na hora do almoço venha para cá ou
para a casa de banho, atrás da horta. Não vai ter ninguém por
perto. Todo mundo tira uma soneca depois do almoço.
- Então está bem.
Uma estranha agitação apossou-se de l evguiêni a caminho
de casa. "O que será que vem por aí? Que tipo de camponesa
será? E se for uma coisa horrível, de espantar? Não, elas
são bonitas" - disse para si mesmo, lembrando-se daquelas que
vivia seguindo com os olhos . "Mas o que é que eu vou dizer,
o que vou fazer? "
1 09
Passou todo aquele dia em desespero. No dia seguinte,
ao meio-dia, foi até a cabana do guarda florestal. Danila estava
ao portão e, calado, fez um sinal expressivo com a cabeça na
direção do bosque. Ievguiêni sentiu o sangue gelar nas veias,
mas tomou a direção da horta. Ninguém. Foi até a casa de banho.
Ninguém. Deu uma espiada por lá, saiu e, de repente, escutou
um estalido de galho quebrado.voltou-se, e lá estava ela,
meio encoberta pela vegetação do barranco. Ievguiêni precipitou-
se para lá passando pelo barranco. Havia urtigas por ali,
mas ele nem se deu conta. Arranhou-se, deixou cair o pincenê
e correu para o outeiro oposto. De avental branco bordado,
saia de lã caseira, com listras vermelhas e marrons, a cabeça
coberta por um lenço vermelho vivo, pés descalços, fresca,
fixa, bonita, lá estava ela, sorrindo acanhada.
- O senhor podia ter contornado por uma picada - disse
ela. - Estou aqui há um tempão. Há séculos.
Ele se chegou a ela, examinou-a, tocou-a de leve.
Quinze minutos mais tarde, os dois se separaram, ele
achou o pincenê e foi até Danila. Em resposta à pergunta " Satisfeito,
senhor?" , deu-lhe um rublo e foi para casa.
Estava satisfeito. Só no começo a vergonha o incomodou
. D epois, passou . Estava tudo bem. Especialmente porque
agora se sentia leve, calmo, animado. Quanto a ela, não lhe
prestara muita atenção. Lembrava-se de que era asseada, fresca,
bonita e simples, sem trej eitos. " Como é mesmo o seu nome?"
- perguntava-se. "Ele terá dito Piétchnikova? D e que família
será essa Piétchnikova? Existem duas com esse nome. D eve ser
a nora do velho Mikhail. É, sem dúvida. Ele tem um filho que
mora em Moscou. Vou perguntar a Danila."
Doravante estava afastado o antigo incômodo da vida
1 1 0
no campo - a abstinência involuntária. A liberdade de pensamento
de levguiêni já não era afetada e ele podia dedicar-se
livremente aos seus afazeres.
O compromisso que levguiêni assumira não era nada facil:
às vezes parecia que não daria conta dele e acabaria, apesar de
tudo, tendo de vender a fazenda, que todo o seu trabalho seria
inútil e, principalmente, que havia falhado, que não soubera concluir
o que começara. Isso era o que mais o afligia. Mal conseguia
tapar a duras penas um buraco, e outro já aparecia, inesperado.
Durante todo esse tempo vinham à tona dívidas e mais
dívidas do pai, antes desconhecidas . Era evidente que nos últimos
tempos ele fizera empréstimos a torto e a direito. Em
maio, quando fora feita a partilha, levguiêni acreditara que finalmente
estava a par de tudo, mas de repente, j á em pleno verão,
recebeu uma carta pela qual soube que ainda devia doze
mil rublos a uma certa viúva lessíp ova. Não havia promissórias
, mas um simples recibo que, segundo seu advogado, poderia
ser contestado. Entretanto, não podia sequer ocorrer-lhe a
idéia de se recusar a saldar uma dívida real de seu pai. Precisava
apenas saber com certeza se ela era mesmo real ou não.
- Mamãe ! Quem é essa tal de lessípova, essa Kaléria
Vladímirovna? - perguntou à mãe, quando se reuniram para o
almoço como de costume.
- lessípova? Era uma pupila do seu avô . Por quê?
levguiêni falou da carta .
- Me admira ela não se envergonhar disso. Seu pai legou
a ela o bastante.
- E nós, devemos a ela ou não?
- Bem, como explicar? Não há dívida. Seu pai, na sua
infinita bondade . . .
1 1 1
- Sim, mas papai considerava isso uma dívida?
- Não sei dizer. Não sei. Só sei que você já tem problemas
demais.
levguiêni viu que Mária Pávlovna não sabia o que dizer
e parecia sondá-lo
- O que percebo é que temos que pagar - disse o filho.
- Amanhã vou procurá-la para conversarmos e saber se é possível
um adiamento.
- Ah! Como sinto por voc ê . Mas, sabe de uma coisa, é
melhor assim. Diga-lhe que ela deve esperar mais um pouco -
disse Mária Pávlovna, com evidente alívio, orgulhosa pela determinação
do filho.
A situação de levguiêni ainda ficava particularmente dificil
porque a mãe, morando com ele, não conseguia entendê-
10 de maneira nenhuma. Acostumada sempre com tanta fartura,
ela não conseguia nem calcular a situação do filho, nem
entender que cedo ou tarde as coisas poderiam chegar ao ponto
de ficarem sem nada e o filho ter de vender tudo e sustentá-
la com um emprego que, na condição dele, renderia quando
muito dois mil rublos . Ela não entendia que, para sair
daquela situação, era necessário um corte geral de despesas ,
não podia entender por que levguiêni fazia contenção de ninharias,
de gastos com j ardineiros, cocheiros, criadagem e até
com alimentação. Além de tudo isso, como a maioria das viúvas,
nutria pela memória do falecido um sentimento de veneração
nem de longe parecido àquele que lhe devotara quando
vivo, e agora não admitia a idéia de que o que ele fizera estivesse
errado ou precisasse ser modificado.
levguiêni mantinha com muita dificuldade o j ardim, a
estufa, seus dois j ardineiros, a estrebaria e seus dois cocheiros.
1 1 2
Já Mária Pávlovna pensava que, não se queixando dos pratos
que o velho cozinheiro preparava, das aléias do j ardim nem
sempre bem varridas e dos criados substituídos por um menino,
ela estava fazendo tudo o que podia fazer uma mãe disposta
a se sacrificar pelo filho. D e igual maneira, na nova dívida,
que para levguiêni era quase um golpe capaz de arruinar toda
a sua empreitada, ela via apenas um incidente que demonstrava
a nobreza do filho. Mária Pávlovna não se preocupava muito
com a situação material de levguiêni, ainda mais porque estava
convicta de que ele encontraria um excelente partido, que
iria restaurar tudo. Ele podia mesmo arranj ar um excelente
partido. Ela conhecia dezenas de famílias que ficariam felizes
em verem suas filhas casadas com ele. E desej ava aj eitar tudo o
mais rápido possível.
IV
o próprio levguiêni sonhava com o casamento, só que
não como sua mãe : achava abominável a idéia de fazer do casamento
um meio de resolver seus problemas . Queria casar-se
honestamente, por amor. Olhava as moças que encontrava e
conhecia, tentava imaginar-se casado com elas ; mas seu destino
não se resolvia. Enquanto isso, para sua própria surpresa,
suas relações com Stiepanida continuavam e chegavam a ganhar
ares de uma coisa estável. levguiêni estava tão longe de
ser um devasso, achava tão duro fazer aquilo, aquela coisa feia
às escondidas - era o que sentia -, que não se conformava e
nutria a esperança de que cada encontro fosse também o último
; contudo, passado algum tempo, voltava o desassossego,
1 1 3
raiz do problema . O desassossego agora não era mais indefinido,
mostrava-se bem concreto : aqueles olhos negros, aquela
voz gutural a dizer "Há séculos" , aquele perfume - uma coisa
fresca e forte - e aqueles seios altos que estufavam o avental,
tudo em meio às nogueiras e bordos banhados da luz viva
do sol. Apesar da vergonha que sentia, foi de novo até Danila.
Um outro encontro foi marcado, ao meio-dia, no bosque.
D esta vez levguiêni a observou melhor e tudo nela lhe pareceu
atraente. Tentou conversar com ela, perguntou do marido.
Era mesmo o filho de Mikhail, que trabalhava de cocheiro em
Moscou .
- Então como é que você . . . - levguiêni queria perguntar
por que ela o traía.
- Como é o quê? - perguntou ela. Pelo visto era inteligente
e sagaz.
- Ora, como é que você vem se encontrar comigo?
- Vej a, - retrucou ela com alegria - vai ver que se vira
por lá. Por que eu não posso?
Era evidente que ela se fazia de desembaraçada e valente.
levguiêni achou isso encantador, mas ainda assim ele mesmo
não marcou outro encontro. E quando ela sugeriu que se encontrassem
sem a mediação de Danila, a quem se referiu com
hostilidade, ele recusou . Esperava que aquele fosse o último encontro.
Gostava dela. Achava que precisava daquela relação e
que nada havia de errado naquilo; mas tinha um j uiz mais severo
no fundo da alma, que não aprovava aquilo e esperava que
fosse a última vez ou, se não esperava, ao menos não desej ava
fazer parte do arranjo nem tinha planos para repeti-lo.
Assim 􀍌ranscorreu todo o verão, durante o qual eles se encontraram
umas dez vezes e sempre por intermédio de Danila.
1 1 4
Numa ocasião ela não pôde ir, porque o marido tinha voltado,
e Danila sugeriu outra. levguiêni recusou com repugnância.
Depois o marido partiu e os encontros continuaram como
antes , de início através de Danila; depois , este apenas marcava
um horário e ela vinha, acompanhada de uma camponesa chamada
Prókhorova, pois uma mulher não podia andar sozinha.
Certa vez, na hora marcada para um encontro, chegou à casa
de Mária Pávlovna a familia cuj a filha ela pensava casar com
levguiêni, e ele não encontrou meios de escapulir. Tão logo
pôde sair, dando a desculpa de ir até a eira coberta, seguiu pela
trilha que rodeava o bosque ao lugar combinado para o encontro.
Ela não estava lá, mas no lugar em que costumava ficar,
tudo o que a mão podia alcançar estava em pedaços: a
cerej eira, a nogueira, até mesmo o bordo novinho, da grossura
de uma estaca. Era ela que havia esperado e, inquieta, zangada,
deixara-lhe um lembrete por brincadeira. Ele se deixou ficar,
esperou, e foi pedir a Danila que mandasse chamá-la para o dia
seguinte. Ela foi, e parecia a mesma de sempre.
Assim terminou o verão. Viam-se no bosque, e só uma
vez, quase outono, encontraram-se na eira coberta, nos fundos
da casa dela. Não passava pela cabeça de levguiêni que essa relação
tivesse qualquer importância para ele. Não tinha planos
para Stiepanida. Dava-lhe dinheiro e isso era tudo. Não sabia,
nem suspeitava, de que todos na aldeia já sabiam do caso e invej
avam a moça, de que a família recebia dinheiro dela e a incentivava,
de que a noção que ela fazia de pecado tinha sido
inteiramente destruída sob a influência do dinheiro e dos familiares.
Ela achava que, se todos a invejavam, era porque fazia
o que era direito.
"Só preciso disso para a minha saúde " - pensava. "Sei
1 1 5
que não estou agindo corretamente e, mesmo que ninguém
comente, sei que todos ou muitos estão sabendo. A mulher
com quem ela anda sabe. Sabendo, com certeza contou para os
outros. Mas o que fazer? Estou agindo mal" - pensava - "mas
o que fazer? Além do mais, isso é por pouco tempo."
O que mais perturbava levguiêni era o marido. Por alguma
razão, no começo achava que devia ser feio e isto j ustificaria
em parte o seu comportamento. Mas um dia o viu e se
surpreendeu . Era um homem belo, j ovem, bem vestido, com
aparência em nada pior que a sua, provavelmente melhor. No
encontro seguinte, contou a ela que lhe vira o marido e que
ficara admirado com sua aparência.
- Não existe igual na aldeia - disse ela, com orgulho.
levguiêni ficou surpreso. D esde então a lembrança do
marido passou a incomodá-lo ainda mais. Aconteceu um dia
que, estando na casa de Danila, este lhe falou enquanto conversavam:
- Outro dia Mikhail me perguntou se era verdade que
o patrão estava tendo um caso com a nora dele. Eu disse que
não sabia. Ora, eu disse que era melhor que fosse com o senhor
do que com um mujique
- Bem, mas e ele?
- Ele disse: "Não é por nada, ela que espere, vou tirar isso
a limpo e aí ela vai ter" .
" Ora, se o marido voltasse, eu a deixaria" - levguiêni
pensou . Mas o marido morava na cidade, e tudo continuava
como antes . " Quando for preciso, eu rompo e não sobrará nada"
- pensava ele. E isso lhe parecia fora de dúvida, porque durante
o verão muitas coisas importantes o ocupariam: a organização
da nova granj a , a colheita, as c onstruções e, maIS
1 1 6
importante, o pagamento da dívida e a venda das terras incultas
. Eram coisas que o absorviam por completo, nas quais ele
pensava da hora em que se levantava à hora em que ia dormir.
Tudo isso era vida de verdade. Sua relação - ele nem ousava
chamar de caso - com Stiepanida era coisa de pouca importância.
É verdade que, quando o desej o de vê-la chegava, vinha
com tal força que ele não conseguia pensar em outra coisa,
mas isso durava pouco, vinha um novo encontro e outra vez
ele a esquecia por uma semana, às vezes por um mês.
Durante o outono, levguiêni foi várias vezes à cidade e
lá estreitou relações com a família Ánienski. Os Ánienski tinham
uma filha que acabara de concluir os estudos. Então, para
grande tristeza de Mária Pávlovna, que dizia que seu filho
tinha se vendido barato, l evguiêni apaixonou-se por Liza 1
Ánienskaia e pediu sua mão em casamento.
Desde então cessaram as relações com Stiepanida.
v
É impossível explicar por que levguiêni escolheu Liza
Ánienskaia, como nunca se pode explicar por que um homem
escolhe essa ou aquela mulher. Havia nisso uma infinidade de
causas, negativas e positivas . Entre elas , o fato de que Liza não
era a noiva riquíssima que a mãe tentara arranj ar para ele ; além
disso, era ingênua no trato com a própria mãe e ainda não era
uma beldade que chamasse a atenção - mas tampouco era feia.
O mais importante mesmo era que levguiêni a conhecera
1 Diminutivo de Ielizavieta (N. T. ) .
1 1 7
numa época em que estava pronto para o casamento. Apaixonou-
se porque sabia que devia casar-se.
D e início Liza Ánienskaia apenas agradou a levguiêni,
mas quando este decidiu que aquela seria sua mulher, experimentou
por ela um sentimento bem mais forte, sentiu que estava
apaixonado.
Liza era alta, esbelta, longilínea. Tudo nela era alongado :
o rosto, o nariz, que não se proj etava para a frente mas ao longo
do rosto, os dedos e os pés eram longos. Tinha a tez muito
suave, branca, amarelada, de um corado leve, os cabelos longos,
macios, castanhos claros e anelados, os olhos bonitos, também
claros, doces e confiantes . Foram esses olhos, particularmente,
que impressionaram levguiêni. Quando pensava em Liza, via
diante de si aqueles olhos claros, doces e confiantes.
Assim era ela no aspecto fisico, porque do espiritual ele
não sabia nada; enxergava apenas aqueles olhos. E estes pareciam
dizer-lhe tudo o que precisava saber. O sentido que
aqueles olhos traduziam era o seguinte.
Aos quinze anos, ainda na escola, Liza se apaixonava
constantemente por todos os homens atraentes, e só se sentia
animada e feliz quando estava apaixonada. D epois de terminar
o Instituto, continuou se apaixonando por todos os homens
j ovens que encontrava e, naturalmente, caiu de amores por
levguiêni assim que o conheceu . Era essa paixão que dava a
seus olhos aquela expressão especial que tanto o cativava.
Naquele mesmo inverno, ela estivera apaixonada por
dois j ovens ao mesmo tempo e enrubescia e se emocionava
não só quando os via entrando, mas à simples menção de seus
nomes . Depois, quando a mãe insinuou que Irtiêniev parecia
ter intenções sérias, sua paixão por ele cresceu tanto que se
1 1 8
tornou quase indiferente aos outros dois , e quando Irtiêniev
começou a freqüentar a casa, as reuniões, quando nos bailes
dançava mais com ela do que com as outras moças, e quando
quis saber se ela o amava, aí sua paixão passou a ser doentia.
Sonhava com ele de olhos abertos, na penumbra de seu quarto,
e todos os outros desapareceram para ela. D epois, quando
ele a pediu em casamento e os dois foram abençoados, quando
se beij aram e ela se tornou sua noiva, passou a não ter pensamentos
senão para ele, a não ter outro desej o senão o de estar
com ele, de amá-lo e ser amada por ele. Orgulhava-se dele,
comovia-se com ele, consigo mesma e com o seu amor, enlanguescia
e consumia-se de amor. Quanto mais ele a conhecia,
mais ela retribuía esse amor. Nunca esperara encontrar semelhante
amor, e isso intensificava ainda mais seus sentimentos .
VI
Ao chegar a primavera, Ievguiêni foi vistoriar a Semiônova,
dar instruções sobre a fazenda e principalmente sobre a
casa, que estava sendo preparada para o casamento. Mária
Pávlovna estava descontente com a escolha de seu filho, porque
não era o casamento maravilhoso que ela queria que fosse
e porque Varvára Alieksiêievna, a futura sogra do filho, não
a agradava. Se era boa ou má, isso ela não sabia, mas que não
era uma mulher decente nem comme il Jau t, nem uma lady, como
Mária Pávlovna dizia de si para si, era coisa que ela havia
notado ao conhecê-la e que a amargurava. Amargurava porque
sempre, por uma questão de hábito, dera muita importância a
essa decência, sabia que Ievguiêni era muito sensível a isso e
1 1 9
previa para ele muitos dissabores . Da moça ela gostava, principalmente
porque Ievguiêni gostava dela. Tinha que gostar.
Mária Pávlovna estava preparada para isso e era plenamente
SIncera.
Ievguiêni encontrou sua mãe contente, satisfeita. Estava
arrumando a casa e pretendia partir assim que ele chegasse
com sua j ovem esposa. Ele tentou convencê-la a ficar. A solução
do impasse foi adiada . À noite, depois do chá, Mária
Pávlovna costumava j ogar paciência . Ievguiêni sentava-se ao
lado, acompanhando o j ogo. Era o momento em que conversavam
mais intimamente. Entre o término de uma partida e o
começo de outra, Mária Pávlovna olhou para o filho e disse,
um pouco hesitante :
- Quero falar contigo, ]ênia. 2 É verdade que eu não entendo
muito dessas coisas, mas acho que antes do casamento tu
deves resolver teus casos de solteiro, para que nada mais possa
perturbar a ti e nem, D eus me perdoe, a tua mulher. Estás me
entendendo?
D e fato, Ievguiêni compreendeu imediatamente que
Mária Pávlovna aludia ao seu caso com Stiepanida, que terminara
no outono e ao qual, como sempre acontece com as mulheres
solitárias, ela atribuía uma importância bem maior do
que tinha. Ievguiêni corou, não tanto de vergonha quanto de
contrariedade por ver que a bondosa Mária Pávlovna, ainda
que movida por amor, metia-se em coisas que não lhe diziam
respeito, que não entendia nem podia entender. Ele disse que
não tinha nada a esconder e agira sempre exatamente de forma
que não atrapalhasse o casamento.
1 Diminutivo de Ievguiêni (N.T. ) .
1 20
- Magnífico, meu caro. Não te zangues comigo, Jênia -
disse ela sem j eito.
Mas levguiêni notava que ela não havia terminado nem
dito o que queria. Foi o que aconteceu. Passados alguns instantes,
ela começou a contar que, na ausência dele, haviam lhe
pedido para fazer um batismo na casa dos . . . Ptchélnikov.
D esta vez l evguiêni não corou de contrariedade ou de
vergonha, mas de uma estranha sensação da importância daquilo
que iria ouvir, de um reconhecimento involuntário que
nada tinha a ver com a sua maneira habitual de pensar as
coisas . Aconteceu exatamente o que ele esp erava. Como se
não tivesse nenhuma outra intenção a não ser a de conversar
à toa, Mária Pávlovna contou que naquele ano só nasceriam
meninos e que isso era sinal de guerra. As j ovens mães, tanto
a dos Vássin como a dos Ptchélnikov, tinham tido meninos .
Mária Pávlovna pretendia parecer natural, mas ficou acanhada
quando viu o sangue subir às faces do filho e o modo nervoso
como ele tirou, agitou e repôs o pincenê e acendeu
apressadamente um cigarro. E ela se calou. Ele tamb ém permaneceu
calado, incapaz de p ensar em algo que romp esse
aquele silêncio. Estava claro para ambos que um tinha compreendido
muito bem o outro.
- É, o principal é que no campo se precisa de justiça, para
que não haja favoritos como acontecia nos tempos de seu avô .
- Mãezinha, - disse levguiêni d e repente - sei muito bem
o que a senhora está tentando me dizer. A senhora se preocupa
à toa. Para mim, meu casamento é sagrado e eu não faria nada
que interferisse nele. O que aconteceu na minha vida de solteiro
está definitivamente terminado. Eu nunca tive nenhum caso
e ninguém tem o direito de me cobrar coisa alguma.
1 2 1
- B em, fico feliz, - disse a mãe - conheço tua maneira
nobre de pensar.
levguiêni sentiu nas palavras da mãe o respeito que ela
lhe devotava e calou-se.
Na manhã seguinte, foi à cidade pensando na noiva, em
tudo no mundo, menos em Stiepanida. Mas, como de propósito
para lhe refrescar a memória, ao se aproximar da igrej a encontrou
um grupo de pessoas que saíam de lá, algumas a pé,
outras em carroças . Encontrou o velho Matviêi com seu filho
Semion, crianças , mocinhas e duas mulheres - uma mais velha
e outra bem vestida, de lenço de um vermelho vivo na cabeça
e qualquer coisa de conhecido. Esta caminhava com leveza,
alegre, com uma criança nos braços. Ao passarem por ele, a
mais velha lhe fez uma reverência à moda antiga, enquanto a
j ovem que levava a criança mal inclinou a cabeça, e por baixo
do lenço brilharam uns olhos conhecidos, alegres e risonhos.
"É ela sim, mas tudo acabou, e nada de olhar para ela. A
criança pode ser minha" - passou-lhe pela cabeça. "Não, isso é
um absurdo. O marido andou por aí e ela dormiu com ele."
Não fez cálculos . Tinha resolvido que fizera aquilo para preservar
a saúde, que pagara a ela e que nada mais lhe devia; entre
eles não havia, não houvera nada e não poderia nem deveria
haver nenhuma relação. Não se tratava de calar a voz da
consciência. Simplesmente sua consciência nada tinha a lhe dizer.
Não se lembrara dela nem mais uma vez depois da conversa
com sua a mãe e desse encontro. Nunca mais tornara a
encontrá-la.
Na semana seguinte casou-se na cidade e foi diretamente
para o campo com sua j ovem esposa. A casa estava pronta,
decorada como de hábito para recém-casados. Mária Pávlovna
1 2 2
quis partir mas cedeu aos pedidos de levguiêni e principalmente
de Liza, que insistiu para que ela ficasse. Assim, em vez
de ir embora, instalou-se na ala dos fundos da casa.
Assim começou para levguiêni uma nova vida.
VII
o primeiro ano de casado foi dificil para levguiêni. Dificil
porque os negócios, que ele de algum modo adiara durante
o noivado, de uma hora para outra desabavam sobre sua cabeça.
Livrar-se das dívidas parecia-lhe impossível. Tinha vendido
a datcha e saldado os débitos mais prementes, mas ainda restavam
dívidas e não havia dinheiro. A fazenda tinha dado uma
boa renda naquele ano, mas era preciso mandar o dinheiro do
irmão, e as despesas com o casamento tinham sido grandes; sem
dinheiro, a usina deixara de produzir e era necessário desativála.
A única saída seria usar o dinheiro da mulher. Liza, quando
entendeu as atribulações do marido, foi a primeira a exigir esse
procedimento. levguiêni concordou, com a condição de que
ela recebesse uma apólice no valor da metade da propriedade.
Assim foi feito. Naturalmente não por causa de Liza, que se
sentia ofendida com essa saída, mas por causa da sogra.
Esses problemas e suas alternâncias, que acarretavam ora
sucesso, ora insucesso, eram o que envenenava a vida de levguiêni
nesse primeiro ano. A outra foi a saúde da mulher. No
outono desse ano, sete meses após o casamento, Liza sofreu um
acidente. Saíra de cabriolé ao encontro do marido, que voltava
da cidade, quando o cavalo manso começou a corcovear.
Ela teve medo e saltou do carro. O salto foi relativamente bem
1 23
sucedido - ela podia ter ficado presa às rodas -, mas ela j á estava
grávida e, naquela noite, começou a sentir dores e abortou.
Levou muito tempo para recuperar a saúde depois do
aborto. A perda do filho esperado, a doença da mulher, o transtorno
que tudo isso causou em sua vida e sobretudo a presença
da sogra, que viera tão logo Liza adoecera - tudo isso fez
daquele um ano ainda mais dificil para Ievguiêni .
Apesar dessas circunstâncias dificeis , Ievguiêni sentia-se
muito bem ao final do ano. Em primeiro lugar, porque a idéia
íntima de resgatar a fortuna decadente, restaurar a vida do
tempo de seu avô em novas formas estava sendo posta em prática,
ainda que lentamente e com dificuldade. Agora já não se
falava em vender toda a fazenda para saldar as dívidas . A fazenda
principal, apesar de ter passado para o nome da mulher, estava
salva, e bastava que a beterraba desse boa safra e atingisse
bom preço para que no ano seguinte a situação de carência e
tensão fosse substituída por uma prosperidade completa. Isso
era uma COIsa.
A outra consistia em que, por maior que fosse a sua expectativa
em relação à sua mulher, nunca imaginara encontrar
nela o que havia encontrado. Não era o que ele esperava, era
ainda bem melhor. Cenas de ternura, de encantamento apaixonado,
embora ele tentasse desencadeá-las, não aconteciam
ou lhe saíam muito fracas : entretanto acontecia uma coisa bem
diferente, de sorte que a vida se tornou não só mais alegre,
mais agradável, como também mais leve. Ele não sabia por que
isso acontecia, mas acontecia.
E acontecia porque, logo depois do casamento, ela havia
resolvido que Ievguiêni Irtiêniev era superior, o mais inteligente,
o mais puro, o mais nobre de todos os seres do mundo,
1 24
e por isso todas as pessoas tinham a obrigação de servir-lhe e
agradá-lo. Mas, como era impossível conseguir isso dos outros,
ela impôs a si mesma essa tarefa. E assim procedia. Todas as forças
da sua alma estavam empenhadas em descobrir, em adivinhar
as coisas de que ele gostava e realizá-las a despeito do que
fossem e das dificuldades que pudessem acarretar.
Havia nela aquilo que constitui o encanto principal do
convívio com uma mulher amorosa, havia nela, graças ao amor
devotado ao marido, a perspicácia para lhe sondar a alma. Pressentia
- freqüentemente mais que o próprio marido, como ele
mesmo achava - qualquer estado de espírito nele, qualquer
nuança de humor, e em conformidade com esse postulado
nunca ofendia seus sentimentos, e sempre atenuava suas sensações
angustiantes e reforçava as alegres. Entretanto não eram só
os sentimentos e pensamentos que ela captava. Captava imediatamente
os assuntos mais estranhos a ela, relacionados à agricultura,
à usina, à avaliação do pessoal, e não só podia ser uma
interlocutora para o marido mas, freqüentemente, como o próprio
Ievguiêni afirmava, era uma conselheira útil e insubstituível
. Via tudo e todos somente pelos olhos dele. Amava a mãe,
mas ao perceber que Ievguiêni não gostava das intromissões da
sogra em suas vidas tomava logo o partido do marido, e com
tal determinação que ele próprio tinha de contê-la.
Além de tudo isso, havia em Liza a exuberância do bom
gosto, do tato e principalmente do silêncio. Não se notava nada
do que fazia, notavam-se apenas os resultados, ou seja, em
toda a parte reinavam sempre a limpeza, a ordem e a elegância.
Logo compreendeu qual era o ideal de vida do marido,
empenhou-se por ele e acabou conseguindo a arrumação e a
ordem que ele queria. Faltavam-lhes os filhos, mas nisso tam-
1 25
bém havia esperança. No inverno foram a Petersburgo consultar
um obstetra, que afirmou que ela era saudável e podia
engravidar.
E o desej o se realizou . No fim do ano ela estava grávida.
Uma coisa que, se não chegava a envenenar, pelo menos
ameaçava a felicidade dos dois, era o ciúme dela, ciúme contido,
escondido, mas que lhe causava freqüentes sofrimentos .
Não apenas levguiêni não podia amar nenhuma outra, pois
não havia mulher na face da terra que fosse digna dele (ela não
se perguntava se ela mesma era digna dele) , mas também mulher
nenhuma podia ter a ousadia de amá-lo.
VIII
Assim era o dia-a-dia deles : levguiêni sempre se levantava
cedo e saía para os afazeres da lavoura, ia à usina, onde
havia trabalhos em andamento, às vezes ia ao campo. Retornava
para o café por volta das dez. Tomava o café da manhã
no terraço, com Mária Pávlovna, um tio que morava com eles
e Liza. D epois de conversas freqüentemente animadas à mesa,
separavam-se até a hora do almoço. Às duas almoçavam. Após
o almoço davam um passeio a p é ou de carro. À noite, quando
ele voltava do escritório, tomavam chá bem tarde, às vezes
ele lia em voz alta, ela fazia algum trabalho, ouviam música ou
conversavam quando tinham visitas . Quando ele viajava a negócios,
correspondiam-se todos os dias . Em algumas o casiões
ela o acompanhava, e isso era uma alegria especial . Nos dias
dos santos dele e dela, recebiam visitas e ele achava agradável
ver como Liza organizava tudo com uma habilidade que dei-
1 26
xava todos à vontade. Via e ouvia que todos ficavam maravilhados
com a anfitriã j ovem e encantadora, e amava-a ainda
mais por isso. Tudo ia às mil maravilhas . Ela levava a gravidez
com tranqüilidade e os dois , embora com timidez, começavam
a conj eturar sobre como iriam educar o filho. A forma e
as providências para a educação eram sempre resolvidas por
l evguiêni , e ela apenas desej ava cumprir docilmente a vontade
dele. Já levguiêni fartava-se de ler livros de medicina e tinha
intenção de criar o filho seguindo todas as regras da ciência.
Ela, é óbvio, concordava com tudo e p reparava-se,
tricotava coletinhos para o frio e para o calor e arrumava o
bercinho que embalaria o beb ê . Assim começou o segundo
ano do casamento e a segunda primavera.
IX
Estavam na véspera da festa da Santíssima Trindade. Liza
chegara ao quinto mês de gravidez e, embora se resguardando,
andava sempre alegre e ativa. Ambas as mães, a dele e a dela,
moravam na casa e, a pretexto de observá-la e protegê-la, só a
inquietavam com a troca de alfinetadas . levguiêni ocupava-se
com especial entusiasmo da fazenda e do novo cultivo de grandes
áreas de beterraba.
Naquele vésp era da Trindade, Liza resolveu que era
preciso fazer uma grande faxina na casa, como não se fazia
desde a Páscoa e, para aj udar a criadagem, chamou duas mulheres
que trabalhavam como diaristas para lavar os assoalhos ,
as j anelas , tirar o pó dos móveis e dos tapetes e pôr as espaldeiras
. De manhã bem cedo, as mulheres chegaram, esquenta-
1 27
ram baldes de água e começaram a trabalhar. Uma das mulheres
era Stiepanida, que acabara de desmamar seu filhinho e
conseguira ser chamada para a limp eza da casa por intermédio
do empregado do escritório, seu atual amante. Queria ver
de perto a nova senhora. Como antes , vivia sem o marido, e
tinha casos como tivera com Danila - que um dia a pegara
roubando lenha -, depois com levguiêni e agora com o j ovem
empregado do escritório. Já não pensava no senhor: " agora ele
tem esposa - mas bem que seria divertido dar uma olhada na
senhora, na casa dela, dizem que é bem arrumada" .
Desde que a encontrara com o filho, levguiêni não tornara
a vê-la. Ela trabalhava de diarista por conta do filho recém-
nascido, e ele raramente ia à aldeia. Naquela manhã, véspera
da Trindade, levguiêni acordou cedo, às cinco da manhã,
e foi ao campo, onde o barbecho deveria receber uma aplicação
de fosforita para a semeadura, e saiu de casa antes que as
mulheres chegassem, enquanto ainda aqueciam a água.
Alegre, contente e faminto, voltou para o café da manhã
. Apeou do cavalo j unto ao portão, entregou-o a um j ardineiro
que passava e, dando chicotadas na grama alta e repetindo
sempre a mesma frase, caminhou para casa. A frase que
rep etia era: "As fosforitas compensam" . Por que e a quem
comp ensam, isso ele não sabia nem atinava.
Alguém batia um tapete sobre a relva . A mobília tinha
sido trazida para fora.
"'Nossa mãe ! Que limpeza Liza está fazendo. As fosforitas
compensam. Isso é que é patroa. Patroinha! " - disse de si
para si, imaginando-a de roupão, o rosto radiante de felicidade,
como estava quase sempre que ele olhava para ela. "É preciso
trocar de botas, senão as fosforitas vão compensar, quer di-
1 28
zer, vão exalar cheiro de esterco, e a patroinha nesse estado. Por
que nesse estado? Ora, tem um pequeno Irtiêniev dentro dela"
- pensava ele. " Sim, as fosforitas ." E, sorrindo de seus pensamentos,
girou a maçaneta da porta de seu quarto.
Mas antes que ele tivesse tempo de empurrar a porta, esta
se abriu e ele se viu cara a cara com uma mulher que vinha
carregando um balde, descalça, com a saia arrepanhada, mangas
arregaçadas até o alto, recompondo com a mão úmida o
lenço que escorregava da cabeça. Ele se afastou para lhe dar
passagem e ela também se afastou.
- Passe, pode passar, eu não vou se você . . . - ia dizendo
levguiêni e de repente parou, reconhecendo-a .
Ela olhou contente para ele, com olhos risonhos, e saiu
do quarto repuxando as saias .
" Que absurdo é esse? O que é isso? Não pode ser" -
disse consigo levguiêni, sacudindo a cabeça como quem se livra
de uma mosca, aborrecido por tê-la encontrado. Estava
chateado por tê-la visto e também porque não podia despregar
os olhos daquele corpo que os passos ágeis e firmes dos pés
descalços faziam bambolear, daqueles braços, daqueles ombros,
da bonita blusa de pregas, das saias vermelhas arregaçadas acima
das panturrilhas brancas .
" Ora, por que cargas d'água estou olhando? " - disse
consigo, desviando o olhar. "Preciso pegar as outras botas e subir."
Deu meia volta para entrar no quarto, mas não chegou a
dar cinco passos e, sem saber como e por ordem de quem, j á
tornava a se voltar para dar mais uma olhada. Ela, que j á i a virando
para outro corredor, voltou-se e olhou para ele.
"Ah, o que é que estou fazendo ! " - clamou do fundo da
alma. "Ela pode pensar. . . Vai ver até que já pensou" .
1 29
Entrou no seu quarto molhado. Ali havia outra mulher,
velha, magra, ainda lavando o chão. Na ponta dos pés, ele pulou
as poças d'água suja, foi até o armário onde estavam as botas e
ia saindo quando a mulher que ainda estava ali também saiu.
"Essa aí sai e vai entrar a outra, Stiepanida, e sozinha" -
súbito alguém começou a raciocinar dentro dele.
"Meu D eus! Que pensamentos são esses , o que estou fazendo
! " Agarrou as botas e correu com elas para o vestíbulo,
calçou-as , aprumou-se e saiu para o terraço, onde já estavam as
duas mamães tomando café . Liza, que pelo visto o esperava,
saiu por outra porta e foi a seu encontro.
"Ai, meu Deus, se ela, que me julga tão honesto, tão puro
e ingênuo, se ela soubesse ! " - pensou ele.
Liza, com o rosto sempre radiante, chegou-se a ele. Mas
naquele momento ela lhe par􀍎ceu particularmente pálida,
amarela, comprida e fraca.
x
Durante o café, como acontecia com freqüência, a conversa
decorreu naquele tom tão feminino, desprovida de qualquer
nexo lógico, mas de alguma forma concatenada, uma vez
que seguia ininterrupta.
As duas senhoras se alfinetavam e Liza se interpunha
com tato entre elas .
- Fiquei tão aborrecida por seu quarto não ter ficado
pronto antes da sua chegada - disse ao marido. - Eu queria
tanto que estivesse tudo arrumado.
- E você, dormiu depois da minha saída?
1 3 0
- Dormi, sim, estou bem.
- Como pode estar bem uma mulher no seu estado,
com este calor insuportável, com as j anelas dando para o sol -
disse Varvára Alieksiêievna, mãe de Liza. - E sem venezianas
nem toldos. Em minha casa sempre houve toldos.
- Mas aqui temos sombra desde as dez horas da manhã
- disse Mária Pávlovna.
- É daí que vem a febre. D a umidade - continuou a
falar Varvára Alieksiêievna, sem perceber que estava se desdizendo
completamente. - Meu médico dizia que nunca é possível
definir a doença sem se conhecer o caráter do doente.
E ele sabe muito bem o que diz, porque é um médico de primeira,
e nos c obra c em rublos . Meu falecido marido não ligava
para médicos, mas comigo não media desp esas .
- E como pode um homem regatear quando estão em
j ogo as vidas de sua mulher e do filho, quem sabe . . .
- Ora, quando a mulher tem recursos, ela pode ser independente
do marido. A boa esposa obedece ao marido, -
disse Varvára Alieksiêievna - mas Liza ainda está fraca demais
depois da doença.
- O que é isso, mamãe ! Estou me sentindo ótima. Ainda
não serviram o creme fervido?
- Para mim não é preciso. Pode ser cru mesmo.
- Eu ofereci a Varvára Alieksiêievna. Ela não quis - disse
Mária Pávlovna, como que se j ustificando.
- Não é preciso, agora não quero. - E como se quisesse
pôr fim a um assunto desagradável, cedendo generosamente,
Varvára Alieksiêievna se dirigiu a levguiêni: - E então, aplicaram
as fosforitas?
Liza saiu apressada em busca do creme.
1 3 1
- Não, eu não quero, não quero mesmo.
- Liza, Liza! Calma! - disse Mária Pávlovna. - Esses movimentos
bruscos fazem mal a ela.
- Nada faz mal quando se tem paz de espírito - disse
Varvára Alieksiêievna, como se insinuasse alguma coisa, mesmo
sabendo que essas palavras não podiam insinuar nada.
Liza voltou com o creme. Ievguiêni tomava café e ouvia,
taciturno. Estava acostumado a essas conversas, mas agora
sua falta de sentido o irritava sobremaneira. Queria refletir sobre
o que lhe havia acontecido e aquela tagarelice o impedia.
Terminado o café,Varvára Alieksiêievna se retirou de mau humor.
Liza, Ievguiêni e Mária Pávlovna ficaram a sós e a conversa
transcorreu simples e agradavelmente. Entretanto, levada
pela intuição amorosa, Liza percebeu que algo atormentava
Ievguiêni e perguntou-lhe se não teria acontecido alguma coisa
desagradável. Ele não estava preparado para essa pergunta e,
titubeando ligeiramente, respondeu que não. Tal resposta deixou
Liza ainda mais pensativa. Que alguma coisa o preocupava,
e muito, era tão evidente como uma mosca que caísse no
leite, mas ele não dizia o que estava acontecendo.
XI
D epois do café, todos se separaram. Ievguiêni, como de
costume, foi para seu escritório. Não se pôs a ler nem a escrever
cartas, mas ficou sentado, fumando um cigarro atrás do outro,
p ensando. Estava terrivelmente surpreso e amargurado
com aquele sentimento detestável que nele se manifestava
inesperadamente, do qual se considerava livre desde o casa-
1 3 2
mento. Desde então nunca experimentara aquele sentimento,
nem por ela, por aquela mulher, nem por qualquer outra, exceto
por sua esposa. Muitas vezes em seu íntimo se alegrava
por essa libertação, e eis que de repente aquele acaso, que parecia
insignificante, vinha lhe revelar que não estava livre. Atormentava-
se nesse momento não pelo fato de estar outra vez
subordinado àquele sentimento, de desej á-la - nem queria
pensar nisso -, mas porque o sentimento ainda estava vivo
dentro dele, porque era preciso estar em alerta. No íntimo, não
havia nem sombra de dúvida de que acabaria por vencê-lo.
Tinha que responder a uma carta e preencher um documento.
Sentou-se à escrivaninha e pôs-se a trabalhar. Quando
terminou, esquecido do que o inquietava, deixou o escritório
para ir à estrebaria. Outra vez, como por azar, não se sabe
se por uma coincidência infeliz ou de caso pensado, mal descera
à varanda fechada quando surgiu de um canto uma saia
vermelha, um lenço vermelho e ela passou por ele, balançando
os braços e se requebrando. Como se não bastasse ter passado,
deu uma corridinha, evitando-o como numa brincadeira,
e alcançou a companheira.
Outra vez aquele meio-dia, as urtigas, os fundos da cabana
de Danila, o rosto sorridente à sombra dos bordos e a folhagem
urticante ressurgiram na imaginação dele.
"Não, não posso deixar isso assim" - disse consigo e, depois
de esperar que as mulheres sumissem de sua vista, dirigiuse
ao escritório. Já era hora do almoço, mas ele esperava encontrar
ali o administrador. Foi o que aconteceu . Este acabara
de acordar. Estava lá, espreguiçando-se, bocej ando, olhando para
um vaqueiro que lhe falava.
- Vassili Nicoláievitch!
1 3 3
- Pois não.
- Preciso falar com você.
- Às suas ordens .
- Termine primeiro ' "
- Será que não dá pra trazer? - disse Vassili Nicoláievitch
ao peão.
- É dificil,Vassili Nicoláievitch.
- Trazer o quê? - perguntou levguiêni.
- Uma vaca que se apartou do rebanho. Então está
combinado. Agora mesmo vou mandar atrelar um cavalo.
Mande Nicolai Lizukh atrelar, ainda que sej a a uma carroça.
O vaqueiro saiu .
-Vej a só - levguiêni começou a falar, corando e sentindo
que corava. - Olhe,Vassili Nicoláievitch. No meu tempo de
solteiro, cometi alguns pecados . . . é provável que você tenha
ouvido falar . . .
Vassili Nicoláievitch sorria com o s olhos e , p elo visto
com dó do patrão, disse :
- O senhor está falando de Stiepachka?
- Isso mesmo. Escute, por favor, não a mande mais para
minha casa. Você entende, para mim é muito desagradável.
- Parece que foi o Vânia do escritório que a contratou .
- Então, p o r favor . . . Sim, e aquele resto, j á aplicaram? -
continuou levguiêni a fim de disfarçar sua confusão.
- Vou agora mesmo verificar isso.
E com isso encerrou-se o assunto. levguiêni acalmou-se,
com esperança de que, assim como passara um ano sem vê-la,
do mesmo modo seria dali em diante. "Ademais,Vassili dirá isso
ao Ivan do escritório, Ivan falará com ela, e ela vai entender
que eu não quero nada" - pensava ele e alegrava-se pela cora-
1 34
- gem de falar com Vassili sobre um assunto tào dificil. " Tudo,
tudo é melhor do que essa dúvida, essa vergonha." Estremeceu
à simples lembrança daquele crime imaginário.
XII
o esforço moral que fizera para superar a vergonha de
falar com Vassili Nicoláievitch deixou Ievguiêni tranqüilo. Parecia-
lhe que agora tudo estava terminado. Liza percebeu no
mesmo instante que ele estava totalmente sereno e até mais
alegre que de costume. " Com certeza estava desgostoso com as
alfinetadas trocadas entre nossas mães. É mesmo duro ter de
ouvir essas indiretas hostis e de mau tom, principalmente para
ele, sensível e nobre como é" - pensava Liza.
O dia seguinte era o da Trindade. O tempo estava lindo,
e as mulheres , como de costume, depois de entrelaçar grinaldas
nos bosques, aproximaram-se da casa senhorial e começaram
a cantar e a dançar. Mária Pávlovna e Varvára Alieksiêivna
apareceram na varanda, em traj es de gala e de sombrinha, e
aproximaram-se da roda de dança. Com elas , metido numa sobrecasaca
chinesa, estava também o tio, obeso, devasso e beberrão,
que passava aquele verão com Ievguiêni.
Como de hábito, formou-se no centro um círculo multicor
de mulheres j ovens e mocinhas , enfeitadas com flores
claras , em volta do qual acorriam os demais, como planetas e
satélites desgarrados e rodopiantes : aqui, meninas de màos dadas
rodando seus sarafans3 de chita, farfalhantes de novos; ali,
3 Espécie de vestido sem mangas (N.T.) .
1 35
meninos pequenos correndo para todos os lados, uns atrás dos
outros; acolá, os mais crescidinhos, em podiovkas azuis e pretas,
quepes e camisas vermelhas, o tempo todo mascando e cuspindo
sementes de girassol; mais além, os criados da casa ou de fora,
que observavam de longe a ciranda. As duas senhoras aproximaram-
se da roda, seguidas de perto por Liza, que usava um
vestido azul e fitas da mesma cor nos cabelos, com mangas bufantes
que deixavam descobertos seu braços brancos e longos,
de cotovelos angulosos .
levguiêni estava sem vontade d e sair d e casa, mas não tinha
cabimento esconder-se. Chegou à varanda fumando um
cigarro. Cumprimentou com um aceno de cabeça alguns rapazes
e mujiques . Enquanto isso, as camponesas continuavam
cantando a plenos pulmões a música de dança, estalavam os
dedos e batiam palmas .
- A patroa está chamando - disse um rapazinho aproximando-
se de levguiêni, que não ouvira o chamado da mulher.
Liza queria que ele observasse a dança e chamou-lhe a atenção
para uma das dançarinas que a agradava em particular. Era
Stiepanida. Vestia um sarcifan amarelo, um colete de veludo e
lenço de seda - lá estava ela, os quadris largos, cheia de energia,
corada, alegre. Devia dançar bem. Ele não enxergava nada.
- É, é mesmo - disse ele, tirando e tornando a pôr o
pincenê . - É, é sim - repetia. "Logo, não posso me livrar dela"
- pensava .
Ele não a olhava com medo do seu fascínio, mas justamente
por isso, por olhá-la furtivamente, ela lhe pareceu mais atraente
do que nunca. Percebeu-lhe pelo brilho dos olhos que ela o
notava e via que ele estava inebriado. Ele permaneceu ali o tempo
necessário para manter as aparências e, vendo que Varvára
1 3 6
Alieksiêievna chamava-a e de forma desaj eitada e afetada tratava-
a com carinho, chamando-a de queridinha, deu meia-volta
e voltou para casa. Mastou-se para não vê-la mas, subindo ao
andar superior, sem saber como nem por quê, foi até a j anela e,
durante todo o tempo em que as mulheres estiveram j unto ao
terraço de entrada, ficou ali, olhando para ela, inebriado.
Sem que ninguém percebesse seus movimentos , desceu
rápido e em silêncio até a varanda, acendeu um cigarro e, como
se estivesse passeando, foi para o j ardim na direção que ela
havia tomado. Não dera dois passos pela aléia quando vislumbrou
por trás das árvores o colete aveludado sobre o sarcifa n rosa
e o lenço vermelho. Lá ia ela com outra mulher. "Para onde
estarão indo? "
E d e súbito sentiu-se incendiado p o r u m desej o ardente
que o agarrava pelo coração. Como se obedecesse a uma
vontade alheia, olhou ao redor e encaminhou-se para ela.
- levguiêni Ivánitch, levguiêni Ivánitch! Queria pedir
um favor ao senhor - falou alguém às suas costas , e levguiêni,
vendo o velho Samókhin, que estava cavando um poço para
ele, recobrou a consciência e voltou-se rapidamente, dirigindo-
se a ele. Conversando com o velho, olhou de lado e viu
que as mulheres desciam evidentemente na direção do poço
ou tomando o poço como pretexto, e algum tempo depois
corriam para a roda de dança.
XIII
Depois de falar com Samókhin, levguiêni voltou para
casa, abatido como quem cometeu um crime. Em primeiro
1 37
lugar, ela o entendera bem, percebera que ele queria vê-la, e
ela também desej ava isso. Em segundo lugar, aquela mulher -
Ana Prókhorova - com certeza sabia de tudo.
O grave era sentir que estava vencido, sem vontade própria,
que havia nele uma força que o impelia; sabia que só um
golpe de sorte o salvara naquele dia e que, se nada acontecera
hoje, então amanhã ou depois ele acabaria sucumbindo àquela
força.
"É, vou sucumbir" - não via a questão de outro modo.
" Trair a esposa j ovem e apaixonada, na aldeia, com uma camponesa,
à vista de todos, não é mesmo sucumbir, sucumbir terrivelmente,
depois do que não terei mais como viver? Não, eu
preciso, eu preciso fazer alguma coisa."
"Meu Deus, meu Deus ! O que é que eu faço? Será que
vou acabar mesmo sucumbindo?" - dizia a si mesmo. " Não
posso tomar alguma medida? Ora, eu preciso fazer alguma
coisa. Não, preciso agir com determinação. Não pensar nela ! "
- ordenava-se a s i mesmo. " Não pensar! " - e d e repente começava
a pensar, enxergava-a diante de si, via-a à sombra dos
bordos.
Lembrou-se de uma história que lera sobre um velho
monge que, para fugir à tentação de uma mulher sobre a qual
devia pousar a mão para curá-la, colocou a outra mão num
braseiro e queimou os dedos . Refletiu . "É, estou melhor preparado
para queimar os dedos do que para sucumbir." E, certificando-
se de que não havia ninguém por perto, acendeu um
fósforo e pôs um dedo na chama. "Vamos, pense nela agora " ,
disse c o m ironia. Sentiu dor, afastou bruscamente o dedo chamuscado
e j ogou fora o fósforo, rindo de si mesmo. " Que absurdo
! Não é assim que se resolve o problema. Tenho é que
1 3 8
tomar providências para não vê-la mais, ir embora daqui ou
afastá-la. Sim, afastá-la! Oferecer dinheiro ao marido para que
se mudem para outra cidade ou outro povoado. Vão ficar sabendo,
vão falar. Mas e daí? Qualquer coisa é melhor que esse
perigo. É, isso precisa ser feito " , dizia consigo. Porém, no
mesmo momento procurava-a com os olhos . "Aonde será que
ela foi?" - perguntou-se. Com certeza ela o vira na j anela e,
depois de olhar para ele, dera o braço a alguma mulher e saíra
pelo j ardim, agitando animadamente o braço. E lá se foi ele
para o escritório, sem saber por quê , com que fim, só para acalentar
os seus pensamentos .
Vassili Nicoláievitch, d e sobrecasaca elegante, cheio de
brilhantina, tomava chá com a esposa e uma outra mulher metida
num xale de pano de tapete.
- Será que eu poderia dar uma palavrinha com você,
Vassili Nicoláievitch?
- Pois não. À vontade. Já acabamos.
- Não, prefiro que venha comigo um instante.
- Num instante; vou só pegar o quepe. Tânia, tampe o
samovar - disse Vassili Nicoláievitch, saindo bem humorado.
levguiêni achou que ele estava meio embriagado, mas
paciência! Quem sabe assim não seria melhor e Vassili se colocaria
com mais simpatia na situação dele !
- Quero lhe falar, Vassili Nicoláievitch. Outra vez sobre
aquilo, sobre aquela mulher.
- O que aconteceu? Já ordenei que não a chamassem
maIs .
- Não, não é isso. Vej a em que se resume a minha idéia
e qual a sugestão que quero de você. Não seria possível tirálos
daqui, toda a família?
1 39
- Mandá-los para onde? - replicou Vassili, num tom que
a levguiêni pareceu descontente e malicioso.
- Bem, p ensei em lhes dar dinheiro, ou até mesmo
umas terras em Koltovsk, contanto que ela não ficasse mais
aqUI .
- Sim, mas como vamos mandá-los embora? Eles têm
raízes aqui . E o que é que isso vai lhe adiantar? No que é que
ela está atrapalhando o senhor?
- Ah! Vassili Nicoláievitch, procure entender que para
minha mulher seria horrível saber disso.
- E quem iria lhe contar?
- Como é que se pode viver com esse receio? Além do
mais , isso é angustiante.
- Ora, mas por que essa preocupação? Se o passado condena,
fica-se longe dele. E quem não pecou aos olhos de Deus
não é culpado perante o czar.
- Mesmo assim, seria melhor afastá-los . Você não poderia
falar com o marido?
- Não há o que conversar. Ora, levguiêni Ivánovitch,
por que tudo isso? O que passou passou . Essas coisas acontecem.
E, além do mais, quem hoj e falaria mal do senhor? O senhor
é uma pessoa de destaque.
- Sej a como for, fale.
- Está bem, vou falar.
Mesmo sabendo de antemão que isso não daria em nada,
levguiêni se acalmou um pouco com aquela conversa. Principalmente
porque percebeu que o nervosismo o fizera exagerar
o nsco.
Por acaso tinha ido ao encontro dela? Impossível. Ele
apenas passava pelo j ardim quando, por acaso, ela correu para lá.
1 40
XIV
N aquele mesmo dia da Santíssima Trindade, depois do
almoço, Liza passeava pelo j ardim e, ao tomar a direção do prado,
para onde o marido a conduzia a fim de lhe mostrar um
trevo, tropeçou e caiu ao passar sobre uma valeta. Caiu de lado,
suavemente, mas deu um gritinho e em seu rosto o marido
viu não apenas o susto mas também a dor. Quis levantá-la,
mas ela lhe afastou a mão.
- Não, espere um pouco, Ievguiêni - disse ela, com um
riso tímido e olhando do chão para ele, com um ar que lhe pareceu
de culpa. - Eu apenas torci o p é .
- É p o r isso que e u sempre digo - começou Varvára
Alieksiêievna. - Onde já se viu saltar valeta nesse estado !
- Ora, mamãe, não foi nada. Já vou me levantar.
Levantou-se com a aj uda do marido mas , no mesmo
instante, empalideceu e fez uma expressão de susto.
- É mesmo, não estou bem - e cochichou algo para a mãe.
- Ai, meu D eus ! Que foi que fizeram! Eu bem que falei
para não saírem - gritou Varvára Alieksiêievna. - Esperem,
eu vou chamar alguém. Ela não deve caminhar. Precisa ser carregada.
- Você não está com medo, não é, Liza? Eu vou carregá-
la - disse Ievguiêni, enlaçando-lhe o pescoço com o braço
esquerdo. - Ponha os braços em volta do meu pescoço, assim.
Inclinou-se, passou-lhe o braço direito por baixo das
pernas e ergueu-a. Nunca mais poderia esquecer a expressão
de seu rosto, misto de sofrimento e felicidade.
- É muito peso para você, querido - disse ela, sorrindo.
- Olhe lá a mamãe correndo, fale com ela.
1 4 1
Inclinou-se para ele e deu-lhe um beij o. Pelo visto queria
que a mãe o visse carregando-a.
Ievguiêni gritou para que Varvára Alieksiêievna não se
apressasse, que ele a levaria para casa. Varvára Alieksiêievna parou
e começou a gritar ainda mais .
- Você vai deixá-la cair, com certeza vai deixá-la caIr.
Você quer matá-la. Você não tem consciência.
- Mas eu a estou carregando muito bem.
- Eu não quero, não posso ver como você está acabando
com a minha filha. - E correu para um canto da aléia.
- Isso não é nada, vai passar - disse Liza sorrindo.
- Tomara que não aconteça como da outra vez.
- Não, não é disso que estou falando. Isso não me preocupa.
É sobre mamãe. Você está cansado, descanse um pouco.
Embora sentisse o peso, Ievguiêni carregou-a com orgulhosa
alegria até a casa e não quis entregá-la à arrumadeira
e ao cozinheiro que Varvára Alieksiêievna mandara para aj událo.
Levou-a até o quarto e a pôs na cama.
- Vá, pode ir - disse ela e, puxando-lhe a mão, beij oua.
- Eu me arranj arei com Ániuchka.
Mária Pávlovna também apareceu correndo dos fundos
da casa. Despiram Liza e acomodaram-na no leito. Ievguiêni foi
sentar-se na sala, com um livro nas mãos, esperando. Varvára
Alieksiêievna passou por ele com um ar de censura tão soturno
que o deixou apavorado.
- E então? - perguntou .
- O quê? Você ainda pergunta? Aconteceu o que você
provavelmente queria, obrigando-a a saltar aquela valeta.
- Varvára Alieksiêievna! - gritou Ievguiêni. - Isto é intolerável.
Se a senhora quer atormentar e envenenar a vida dos
1 42
outros . . . - quis dizer: " então vá para algum lugar, vá para outro
lugar", mas se conteve. - Não sente nem pena de nós?
- Agora é tarde.
E ela saiu da sala, sacudindo a touca num gesto vitorioso.
A queda tinha sido feia mesmo. Liza torcera desaj eitadamente
o pé e corria o risco de outro aborto. Todos sabiam que
nada podia ser feito, que ela precisava apenas repousar tranqüilamente,
mas ainda assim resolveram chamar o médico.
" Caríssimo Nicolai Semiónovitch," - escreveu levguiêni
ao médico - "o senhor tem sido sempre tão gentil conosco que,
espero, não se recusará a vir socorrer minha mulher. Ela está . . ." ,
etc. Escrita a carta, foi até a cocheira para dar ordens sobre o s cavalos
e a carruagem. Era preciso deixar uma parelha de cavalos
preparada para ir buscar o médico e outra para levá-lo de volta.
Quando uma fazenda não anda bem, essas coisas não são fáceis
de se arrumar, têm que ser planej adas . Depois de tudo providenciado,
despachado o cocheiro, levguiêni voltou para casa, por
volta das dez horas . Liza estava deitada e disse que se sentia maravilhosamente
bem e sem dor; mas Varvára Alieksiêievna estava
ao pé do abajur,junto ao qual umas partituras protegiam Liza da
luz, e tricotava uma grande manta vermelha com uma expressão
no rosto a dizer claramente que, depois do que tinha acontecido,
não poderiam mais viver em paz: "Façam os outros o que
quiserem, eu pelo menos cumpri meu dever" .
levguiêni percebeu tudo, mas para fingir que não notava
procurou assumir um tom bem-humorado e descontraído,
contando como preparara os cavalos e como a égua Kavuchka
formara muito bem no lado esquerdo da parelha.
- Pois é, naturalmente este é o momento certo para adestrar
cavalos, quando se precisa de socorro. É bem provável que
1 43
atirem também o doutor na vala - disse Varvára Alieksiêievna,
olhando por baixo do pincenê para o tricô e aproximando-o
bem do abaj ur.
- Sim, mas era preciso mandar alguém. Eu fiz o melhor
que pude.
- É, eu me lembro muito bem de como os seus cavalos
quase me atiraram para baixo do trem.
Essa era uma antiga invencionice dela; dessa vez, porém,
levguiêni teve a imprudência de dizer que não era bem aquilo
que havia ocorrido.
- Não é por acaso que eu sempre digo, e quantas vezes
disse ao príncipe, que o mais duro é conviver com gente insincera
e falsa; posso tolerar tudo, menos isso.
- Pois se há alguém para quem isso é ainda mais duro,
sem dúvida esse alguém sou eu - disse levguiêni.
- É , logo se vê.
- O quê?
- Nada, estou contando os pontos .
levguiêni estava junto à cama; Liza olhava para ele e,
com a mão úmida que estava sobre o cobertor, segurou a dele
e apertou-a. "Suporte-a por mim. Ela não impede o nosso
amor" - diziam seus olhos .
- Não digo mais nada - murmurou ele, e beijou-lhe a
mão úmida e longa, depois os olhos bonitos, que se fecharam
ao contato de seus lábios.
- Será que vai ser como da outra vez? - disse ele. - Como
se sente?
- Dá medo de dizer, dá medo de estar enganada, mas
sinto que ele está vivo, que vai viver - disse ela, olhando para
a barriga.
1 44
- Dá medo, dá medo só de pensar.
Apesar de Liza insistir para que fosse dormir, levguiêni
passou a noite com ela, cochilando, mas sempre atento a qualquer
movimento seu, pronto para aj udá-la. Ela, porém, passou
bem a noite e, se não houvessem chamado o médico, talvez tivesse
se levantado.
O médico chegou na hora do almoço e, naturalmente,
disse que, embora casos reincidentes pudessem inspirar cuidados,
propriamente falando não havia indicação positiva mas,
como também não havia contra-indicação, por um lado se podia
supor, assim como, por outro lado, também se podia supor.
. . Por essa razão, disse que era necessário repouso e, mesmo
sem gostar de receitar remédios, ainda assim era preciso
tomá-los e repousar. Além disso, deu a Varvára Alieksiêievna
uma aula de anatomia da mulher, que ela acompanhou com
expressivos meneios de cabeça. D epois de receber os honorários
com a ponta dos dedos, como era hábito seu, o doutor
partiu e a doente permaneceu acamada por uma semana.
xv
levguiêni passava a maior parte do tempo ao pé do leito
da mulher, cuidando dela, conversando com ela, lendo para
ela e, o que lhe era mais dificil, suportando sem queixas os ataques
de Varvára Alieksiêievna, conseguindo até caçoar deles .
Mas ele não conseguia permanecer o tempo todo em
casa. Em primeiro lugar porque sua mulher o mandava sair, dizendo
que ele ficaria doente se passasse o dia inteiro com ela
e, em segundo, porque a fazenda continuava exigindo a cada
1 45
instante sua presença. Não conseguia parar em casa e, estivesse
no campo ou no bosque, no j ardim ou na eira coberta, não só
o pensamento mas a imagem viva de Stiepanida o perseguia de
tal forma que só raramente ele a esquecia. Mas isso ainda não
era nada; talvez pudesse superar esse sentimento, mas o pior era
que antes ele passava meses sem vê-la e agora a via a cada instante.
Ela, óbvio, entendia que ele desej ava reatar as antigas relações
e tratava de aparecer diante dele. Nem ele nem ela diziam
uma única palavra, e por isso nenhum dos dois ia
diretamente ao encontro do outro, procurando apenas deixar
que a coisa acontecesse.
O lugar em que podiam se ver era o bosque, onde as
camponesas iam encher sacos de capim para o gado. levguiêni
sabia disso e todos os dias passava por lá . To do dia ele se prometia
não ir, e todo dia acabava tomando o rumo do bosque
; quando ouvia barulho de vozes, rec olhia-se por trás de
algum arbusto, tomado de ansiedade, espreitando para ver se
não seria ela .
Para quê saber se seria ela ou não? Não sabia. Se fosse
ela e estivesse sozinha, não iria até ela - pensava ele -, fugiria;
mas precisava vê-la. Uma vez ele a encontrou: chegava ao bosque
no momento em que ela vinha de lá com duas mulheres,
carregando um pesado saco de capim às costas . Um minuto
antes, e ele teria dado de encontro com ela. Agora, na presença
das outras , seria impossível para ela voltar e ter com ele.
Mesmo sabendo dessa imp ossibilidade, ele ficou ali muito
tempo, escondido atrás dos arbustos, correndo o risco de chamar
a atenção das outras mulheres . Naturalmente ela não voltou,
mas ele permaneceu lá por um bom tempo. Ai, Deus, com
que fascínios sua imaginação a desenhava! E isso se repetiu não
1 46
uma, mas cinco, seis vezes. E quanto mais a desenhava maior
era o fascínio. Ela nunca lhe parecera tão sedutora.
Sentia que ia perdendo a vontade própria, que estava a
ponto de enlouquecer. A severidade consigo mesmo não enfraquecera
um mínimo ; ao contrário, percebia toda a vileza de
seus desejos, de suas ações, porque esperá-la no bosque era
uma ação. Sabia que bastaria deparar-se com ela em qualquer
lugar, no escuro, e quem sabe tocá-la, para se render ao sentimento.
Sabia que só a vergonha perante os outros, perante ela
e perante si mesmo o continha. E sabia também que buscava
circunstâncias que escondessem essa vergonha - o escuro e
aquele toque, no qual essa vergonha seria abafada pela paixão
animal. E por saber que era um criminoso vil, desprezava-se e
odiava-se com todas as forças da alma. Detestava-se porque
ainda não se entregara. Rezava a Deus todos os dias pedindo
que lhe desse forças , que o salvasse da perdição, todos os dias
decidia não dar nem mais um passo, não a olhar mais, esquecê-
la. Todos os dias imaginava meios de livrar-se dessa alucinação,
e os punha em prática.
Mas tudo em vão.
Um dos meios era ocupar-se continuamente; outro, desenvolver
um intenso trabalho fisico e j ej uar; um terceiro, a
noção clara que se fazia da vergonha que desabaria sobre sua
cabeça quando todos - sua mulher, a sogra, os outros - soubessem.
Fazia tudo isso e parecia-lhe que iria vencer, mas chegava
o momento, o meio-dia, a hora dos antigos encontros, o
instante em que dava com ela a apanhar capim, e lá ia ele para
o bosque.
Assim se passaram cmco dias de tortura. Ele apenas a
avistou de longe e não se encontrou com ela uma única vez .
1 47
XVI
Liza se restabelecia pouco a pouco, começava a andar e
se preocupava com a mudança que notava no marido e que
não conseguia entender.
Varvára Alieksiêievna tinha vi;u ado por uns tempos e,
das visitas, só o tio permanecia com eles . Mária Pávlovna continuava
na casa, como sempre.
Ievguiêni estava nesse estado de semi-insanidade quando,
como acontece com freqüência depois das tempestades de junho,
vieram dois dias de chuvas torrenciais . As chuvas deixaram
todos sem trabalho. Nem o esterco pôde ser recolhido, por causa
da lama e da umidade. As pessoas se fechavam em casa. Os
peões a muito custo conseguiam tanger os rebanhos para os currais.
As vacas e ovelhas iam para o campo e espalhavam-se pelos
pastos. As mulheres, descalças, embrulhadas em xales, chapinhando
na lama, lançavam-se à procura das vacas desgarradas . As enxurradas
cobriam os caminhos, toda a forragem, todo o capinzal
estavam alagados, das calhas desciam cascatas infindáveis para
as poças borbulhantes. Ievguiêni ficava em casa com a mulher,
que andava particularmente importuna. Ela lhe perguntou várias
vezes sobre sua insatisfação, mas ele respondeu agastado que
não era nada. Ela parou de perguntar, mas ficou amargurada.
Passaram a manhã na sala de visitas . O tio contava pela
centésima vez suas invencionices sobre amigos aristocratas .
Liza tricotava um casaquinho e suspirava, queixando-se do
tempo e de dores nos rins . O tio aconselhou que se deitasse
e pediu vinho. D entro de casa, I evguiêni ficava horrivelmente
entediado. Tudo era tão medíocre, tão tedioso. Fumava e lia
um livro, sem entender nada.
1 48
- Preciso ver os trituradores que chegaram ontem - disse.
Levantou-se e saiu .
- Leve o guarda-chuva.
- Não preciso, vou de casaco de couro.Vou só até a usina.
Calçou as botas, vestiu o casaco e saiu para a usina; mas
levguiêni não deu vinte passos e lá vinha ela em sua direção,
saia arrepanhada bem alto, deixando as panturrilhas brancas à
mostra. Caminhava segurando o xale, cobrindo a cabeça e os
ombro s .
- O que você está fazendo? - perguntou ele, s e m a reconhecer
logo. Quando a reconheceu, já era tarde. Ela parou e
ficou um bom tempo olhando para ele, sorrindo.
- Estou pro curando um bezerrinho. Aonde o senhor vai
com este tempo horrível? - perguntou ela, com um j eito de
quem o via todos os dias .
- Vamos até a cabana - disse ele de repente, sem saber
como. Era como se um outro houvesse pronunciado essas palavras
de dentro dele.
Ela mordiscou o xale, fez um sinal com o olhar e saiu
correndo na direção de onde vinha antes - na direção do j ardim
e da cabana, enquanto ele prosseguiu seu caminho, pretendendo
contornar uma touceira de lilases e tomar o mesmo
caminho que ela tomara.
- Patrão ! - ouviu-se uma voz às suas costas . - A patroa
pediu que o senhor fosse até lá.
Era seu criado Micha. 4
"Meu D eus, t u m e salvas pela segunda vez" - pensou
levguiêni, e voltou imediatamente. Liza lembrou-lhe de que
4 Diminutivo de Mikhail (N. T.) .
1 49
ele havia prometido levar um remédio para uma mulher doente
na hora do almoço, de sorte que pedia que o levasse agora.
Até apanharem o remédio, cinco minutos se passaram.
D epois, saindo com o remédio, decidiu não ir direto para a
cabana, temendo que o vissem da casa. Quando não podia
mais ser visto, mudou de rumo e foi para lá. Em sua imaginação,
j á a via no meio da cabana, sorrindo contente ; mas ela
não estava, na cabana não havia nada que indicasse que ela tivesse
estado lá. Chegou a achar que ela não viera porque não
tinha ouvido ou entendido o que ele dissera. Falara entre
dentes, como se temesse que ela o escutasse. " Ou será que
nem quis ouvir? Por que devo acreditar que ela estava louca
para se j ogar em meus braços? Tem lá o seu marido ; só mesmo
eu sou tão canalha, tendo uma mulher tão boa e correndo
atrás da mulher de outro." Assim pensava ele, sentado na
cabana molhada por uma goteira que pingava do teto de palha.
"Ah, que felicidade se ela tivesse vindo. Sozinhos aqui,
com esta chuva! Tornar a abraçá-la ao menos mais uma vez,
e depois fosse lá o que fosse. Ah ! sim," - lembrou-se - "pelas
pegadas posso saber se esteve aqui ." Procurou no chão pela
picada que levava à cabana e viu pegadas de pés descalços,
bem marcadas e recentes . "É, ela esteve aqui . Agora é o fim.
Vou atrás dela onde quer que a aviste. À noite vou à casa dela
." Ficou muito tempo na cabana e saiu de lá extenuado e
abatido. Levou o remédio, voltou para casa e deitou-se em seu
quarto, à esp era do almoço.
1 50
XVII
Antes do almoço Liza foi ao quarto dele e, sempre tentando
descobrir a causa de sua insatisfação, começou a dizer
que temia que ele não gostasse da idéia de levá-la para dar à
luz em Moscou e que ela havia decidido permanecer em casa.
E não iria para Moscou de j eito nenhum. Ele sabia o quanto
ela temia o parto e a possibilidade de não ter um filho normal
e por isso não pôde evitar a comoção ao ver com que
facilidade ela sacrificava tudo por amor a ele. Tudo em sua casa
era tão bom, alegre e puro, mas sua alma era suja, vil e horrível.
levguiêni passou a noite angustiado por saber que, apesar
do noj o sincero que sentia por sua fraqueza, apesar da firme
intenção de romper com Stiepanida, no dia seguinte aconte-
. .
cena a lneSlna COlsa.
" Não, impossível" - disse consigo, andando de um lado
para o outro no quarto. " Tem que haver alguma coisa que eu
possa fazer contra isso. Meu Deus ! O que fazer? "
Alguém bateu à porta com um toque estranho. Ele sabia
que era o tio.
- Entre - disse.
O tio vinha como embaixador voluntário de Liza.
- Saiba você ou não, - disse ele - tenho realmente notado
que você anda mudado e compreendo como isso atormenta
Liza . Compreendo que para você é dificil largar toda
essa obra excelente que vem realizando aqui , mas o que você
quer, que veux tu? Eu aconselharia uma viagem. Você e ela ficariam
mais tranqüilos. Sabe, sugiro a Criméia. O clima é magnífico,
lá existe um ótimo obstetra, e vocês chegariam lá em
plena época das uvas .
1 5 1
- Tio, - falou de repente levguiêni - o senhor pode
guardar um segredo meu, um segredo terrível para mim, um
segredo vergonhoso?
- Ora, será que você não confia em mim?
- Tio ! O senhor pode me aj udar. Não só me aj udar, me
salvar - disse levguiêni . E a idéia de abrir-se com o tio, de
quem não gostava, a idéia de mostrar-se a ele em seu aspecto
mais desfavorável, de humilhar-se perante ele, dava-lhe prazer.
Sentia-se vil, culpado, e queria punir-se.
- Fale, meu amigo. Você sabe como eu gosto de você -
sussurrou o tio, pelo visto satisfeito por existir um segredo, e
ainda mais um segredo vergonhoso, do qual seria confidente e
que lhe poderia ser útil.
- Antes de mais nada, eu quero dizer que sou um crápula,
um canalha, um verdadeiro canalha.
- Ei, o que é isso? - interrompeu o tio, enfunando-se.
- Como não ser crápula, se eu, marido de Liza, de Liza . . .
porque é preciso conhecer sua pureza, seu amor . . . s e eu, seu
marido, estou querendo traí-la com uma camponesa?
- Espere aí, você diz que está querendo? Ainda não a
traiu?
- Não, ou melhor, é como se tivesse traído. Se não aconteceu
ainda não foi porque eu não quisesse. Estive prestes a fazê-
lo. Alguém me atrapalhou, senão eu agora . . . senão agora . . .
eu não sei o que teria feito.
- Espere, me explique.
- Então escute. Quando eu era solteiro, fiz a bobagem
de ter relações com uma mulher daqui, da nossa aldeia. Ou
melhor, eu me encontrava com ela no bosque, no campo . . .
- E ela, é bonitinha? - perguntou o tio.
1 52
A essa pergunta levguiêni franziu o cenho, mas precisava
tanto da aj uda de alguém que fingiu não ter ouvido e
continuou:
- Bem, eu pensava que era só romper e tudo estaria acabado.
Rompi antes do casamento e passei quase um ano sem
vê-la nem pensar nela, - ao próprio levguiêni era estranho ouvir
a si mesmo, ouvir-se descrevendo seu estado - e depois , de
repente, não sei por quê . . . às vezes a gente até chega a crer em
feitiçaria . . . eu a vi, e um verme se enfiou em meu coração e
está me corroendo. Eu me censuro, compreendo todo o horror
do meu ato, quero dizer, do que a cada minuto estou prestes
a cometer, eu mesmo crio as situações, e se ainda não fiz
nada foi porque D eus me salvou. Ontem eu estava indo me
encontrar com ela, quando Liza mandou me chamar.
- Como? Com aquela chuva?
- Pois é, estou arrasado, tio, e resolvi me abrir com o senhor
e pedir-lhe aj uda.
- É, naturalmente isso não fica bem, sendo na sua fazenda.
Vão acabar descobrindo. Eu entendo, Liza esta fraca, é preçiso
poupá-la. Mas por que aqui na fazenda?
De novo levguiêni fingiu não ouvir o que o tio dizia e
recomeçou, indo diretamente à essência da questão.
- Por favor, salve-me de mim mesmo. Eu lhe peço só isso.
Ontem fui impedido, mas não vão me impedir amanhã, noutra
ocasião. Agora ela está sabendo. Não me deixe sair sozinho.
- Está bem, então - disse o tio. - Mas será que você está
assim tão apaixonado?
- Ah! não é nada disso. Não é isso, é uma força qualquer
que me agarrou e me domina. Não sei o que fazer. Quem sabe
eu recobre as forças, e aÍ . . .
1 53
- Pois era o que eu estava dizendo - disse o tio. -Vamos
para a Criméia.
- Sim, sim, vamos, mas por enquanto ficarei ao seu lado,
vamos conversando.
XVIII
o fato de ter confiado ao tio o seu segredo e, principalmente,
a tortura da culpa e da vergonha que sofreu depois
daquele dia de chuva devolveram-lhe a lucidez. A viagem a
Yalta foi marcada para dentro de uma semana. Nesse intervalo,
levguiêni foi à cidade retirar dinheiro para a viagem, tomou
providências administrativas e de novo sentiu-se alegre,
ap egado à mulher e renascendo moralmente.
Assim, não viu Stiepanida uma única vez depois daquele
dia de chuva. Partiu com a mulher para a Criméia. Passaram
lá dois meses maravilhosos . Eram tantas as impressões novas
para levguiêni que todo o passado lhe parecia inteiramente
apagado da memória. Na Criméia encontraram antigos conhecidos
e estreitaram a amizade com eles; além disso, conheceram
outras pessoas . A vida para levguiêni era uma festa contínua,
ao mesmo tempo instrutiva e útil. Fizeram amizade com
um antigo dirigente da província deles, homem inteligente e
liberal, que gostou de levguiêni, doutrinou-o e conquistou-o
para suas posições. No final de agosto Liza teve uma menina,
bonita e saudável, num parto inesperadamente muito fácil.
Em setembro, os Irtiêniev voltaram para casa, quatro
agora, com a menina e a ama, pois Liza não podia amamentar.
Completamente liberado dos antigos temores, l evguiêni
1 54
voltou um homem inteiramente novo e feliz. Tendo vivido
tudo o que os maridos costumam experimentar na hora do
parto, amava sua mulher com mais intensidade ainda. O que
sentia quando tomava a filha nos braços era algo divertido, novo,
muito agradável, algo assim como cócegas . Além das questões
administrativas , uma novidade surgiu em sua vida graças
à amizade com Dúmtchin (o ex-dirigente de província) - um
novo interesse pelo zíêmstvoS , em parte ambição pessoal, em
parte consciência do dever. Em outubro se realizaria uma assembléia
extraordinária, na qual ele deveria ser eleito. D epois
do regresso, saiu uma vez para ir à cidade, outra, para visitar
Dúmtchin.
Esquecera-se de pensar nos tormentos da tentação e na
luta contra ela, e só a muito custo conseguiu trazê-los de volta
à imaginação. Tudo aquilo lhe parecia algo como um acesso
de loucura, do qual estava curado.
Agora sentia-se livre a tal ponto que ousou perguntar a
respeito daquele caso ao administrador, numa ocasião em que
o encontrou sozinho. Como já haviam conversado sobre aquilo,
não sentiu vergonha em perguntar.
- E, então, Sídor Ptchélnikov continua fora de casa?
- Continua na cidade.
- E a mulher dele?
- Ah, aquilo não vale nada. Agora está andando com o
Zinóviev. Essa não tem mais j eito.
"Mas que ótimo" - pensou Ievguiêni . "É extraordinário
como eu mudei ."
5 Conselho administrativo regional dos proprietários de terra (N. T. ) .
1 5 5
XIX
Tudo saíra como Ievguiêni queria. A fazenda ficara com
ele, a usina passara a funcionar, a colheita de beterraba fora ótima,
e esperavam-se grandes lucros; a esposa tivera um parto feliz,
a sogra tinha ido embora e ele fora eleito por unanimidade.
Ievguiêni voltava para casa depois da eleição. Recebia
congratulações e cabia agradecer. Num almoço bebeu cinco
taças de champanhe. Planos de vida completamente novos
agora se apresentavam a ele. Voltava para casa pensando neles .
Estavam n o veranico d o outono. Fazia uma viagem excelente
e o sol brilhava. Já chegando em casa, Ievguiêni refletia que,
em conseqüência dessa eleição, ocuparia j unto ao povo precisamente
aquela posição com que sempre sonhara, isto é, aquela
que lhe daria condição de servi-lo não só com produção,
com empregos, mas exercendo uma influência direta sobre ele.
Imaginava como os seus e os outros camponeses iriam j ulgálo
dali a três anos. "Como aqueles, por exemplo " - pensou, ao
atravessar a aldeia e ver um mujique e uma camponesa que lhe
cruzavam o caminho carregando uma tina de água. O casal parou,
abrindo caminho para a carruagem. O mujique era o velho
Ptchélnikov e a mulher, Stiepanida. Ievguiêni olhou para
ela, reconheceu-a e sentiu com alegria que ficara absolutamente
impassível. Estava graciosa como sempre, mas isso não
o tocou em nada. Chegou em casa. Sua mulher foi a seu encontro
na varanda. Fazia uma bela tarde.
- Então, podemos parabenizá-lo? - perguntou o tio.
- Podem, fui eleito.
- Isso é ótimo ! Precisamos comemorar.
Na manhã seguinte, Ievguiêni saiu a cavalo pela fazenda,
1 5 6
que relegara ao abandono. Na eira da granja, a nova debulhadora
estava funcionando. Observando atentamente o trabalho,
levguiêni circulava entre as camponesas , fingindo não as notar;
no entanto, por mais que fingisse, percebeu umas duas vezes os
olhos negros e o lenço vermelho de Stiepanida, que carregava
palha. Duas vezes passou perto dela e sentiu qualquer coisa,
mas não soube definir o quê . Só no dia seguinte, quando voltou
à eira da granj a e passou lá duas horas absolutamente desnecessárias,
observando a debulhadora, sem parar acariciando
com os olhos o vulto conhecido e belo da j ovem, é que sentiu
que estava perdido, irremediavelmente perdido. De novo aquela
tortura, de novo o medo e o horror. Sem salvação.
Acabou acontecendo aquilo que ele esperava. Na tarde
do dia seguinte, sem saber como, achou-se atrás da casa dela,
diante do galpão de feno onde se haviam encontrado uma vez
no outono. Como se estivesse andando a esmo, parou ali e
acendeu um cigarro. Uma vizinha o avistou e ele, ao voltar-se
para sair dali, ouviu-a falando a alguém:
- Vai ! ele está te esperando, é ele mesmo. Vai, sua boba!
Viu quando uma mulher - era ela - correu para o galpão,
mas ele já não podia voltar porque havia cruzado com um
mujique, e foi para casa.
xx
Quando entrou na sala de visitas, tudo lhe pareceu absurdo
e artificia1. Ao levantar-se naquela manhã, sentira-se bem disposto
e decidido a tomar uma atitude, a esquecer, a proibir-se
qualquer pensamento. Mas, sem se dar conta, passou a manhã
1 57
não só sem se interessar pelo que fazia como ainda procurou se
livrar dos afazeres. O que antes lhe importava e interessava era
agora insignificante. Procurou inconscientemente livrar-se das
obrigações. Parecia-lhe que precisava de tempo livre para pensar
e ponderar. Largou tudo e isolou-se. Mal se viu sozinho, porém,
saiu a perambular pelo j ardim e pelo bosque. Todos aqueles
lugares estavam saturados de recordações, de lembranças que
o absorviam. E percebeu que caminhava pelo j ardim dizendose
que ponderava alguma coisa, mas não ponderava nada e a esperava
desvairado, irracionalmente, esperava que, por algum milagre,
ela entendesse como ele a desej ava, e que viesse logo até
ali ou a outro lugar qualquer onde ninguém os visse, ou então
que, numa noite sem lua, quando ninguém, nem ela mesma o
enxergasse, ela viesse e ele lhe tocasse o corpo . . .
"Pois é , e eu pensava que romperia quando quisesse" -
disse de si para si. "E foi apenas por minha saúde que me meti
com uma mulher limpa, sadia . . . Não, está visto que não posso
brincar com ela assim. Eu achava que a possuía, mas foi ela
que se apossou de mim, se apossou e não me largou . E eu ainda
achava que era livre, mas não era. Nunca mais soube o que
é a liberdade. Eu estava me enganando quando casei. Foi tudo
um absurdo, um engano. Desde que comecei a vê-la, experimentei
um novo sentimento, o verdadeiro sentimento de varão.
Eu devia era ter morado com ela."
"É, duas vidas seriam possíveis para mim. Uma, a que
comecei com Liza: o serviço, a fazenda, a criança, a estima dos
outros. Nesta não haveria lugar para Stiepanida. Seria preciso
mandá-la embora, como eu já disse, ou eliminá-la, para que
ela não existisse mais . A outra vida seria vivida aqui mesmo.
Tirá-la do marido, dar dinheiro a ele, esquecer a vergonha e a
1 5 8
desonra e viver com ela. Mas nesta vida não haveria lugar para
Liza nem para Mimi, para a criança. Não, o que é isso ! A menina
não atrapalha, mas é preciso que Liza suma, que vá embora.
Que descubra tudo, me amaldiçoe e vá embora. Que
descubra como eu a troquei por uma camponesa, como sou
um traidor, um patife. Não, isso seria terrível demais ! Isso é
impossível. Sim, mas isso também pode acontecer," - continuava
ele a p ensar - " também pode acontecer. Liza adoece e
morre. Morre e no mesmo dia tudo será excelente."
"Excelente ! Ah, patife ! Não, se alguém tem que morrer,
que sej a ela. Se ela, se Stiepanida morresse, que bom seria ! "
"É assim que se envenenam ou se matam a s esposas e as
amantes . É pegar o revólver e ir chamá-la, mas em vez de abraços,
um tiro no peito. E tudo terminado."
" Ora, ela é o diabo. O verdadeiro diabo. Apoderou-se de
mim contra a minha vontade. Matar? Sim. Só há duas saídas :
matar minha mulher ou matá-la. Porque não há como viver
assim. Não há . . . É preciso ponderar e prever tudo. Se as coisas
ficarem como estão, o que vai acontecer? "
"Vai acontecer que mais uma vez vou dizer a mim mesmo
que não quero, que vou deixá-la, mas eu só vou dizer, porque
à tarde vou estar nos fundos da casa dela, e ela vai saber e
vai se chegar. Outras pessoas vão saber e contar à minha mulher,
ou eu mesmo vou lhe contar, simplesmente porque não
posso mentir, não posso viver assim. Vão ficar sabendo. Todos .
Paracha, o ferreiro, todos . Ora, p o r acaso se pode viver assim? "
" Impossível. Só tenho duas saídas : matar minha mulher
ou matá-la. Mas ainda . . ."
"Ah, sim, existe uma terceira: matar-me" - pronunciou
baixinho, e de repente um frio lhe percorreu a pele. "É isso.
1 59
Matando-me, não preciso matá-las ." Sentiu pavor j ustamente
porque sentiu que essa era a única saída possível. "O revólver
eu tenho. Quer dizer que eu vou me matar? Eis aí uma coisa
que eu nunca havia pensado. Como isso vai ser terrível! "
Voltou a o seu quarto e n o mesmo instante abriu o armário
onde estava o revólver. Porém mal o abriu e sua mulher
entrou.
XXI
Jogou um j ornal em cima do revólver.
- De novo?
- De novo o quê?
- A mesma expressão horrível de antes, quando você
não quis me contar. Jênia, querido, fale pra mim. Estou vendo
que você está atormentado. Fale pra mim. Você ficará mais leve.
Qualquer coisa é melhor do que esse sofrimento. Ora, eu
sei que não há nada de mau .
- Sabe mesmo? Até j á .
- Conte, conte, conte. Não vou deixar você sair.
Ele deu um sorriso triste.
" Contar? Não, isso não é possível. E aliás não há o que
contar" .
Talvez lhe contasse, mas nesse momento entrou a ama,
perguntando se podia ir passear. Liza saiu para vestir a menina.
- Você vai me contar. Volto logo.
- Está bem, pode ser . . .
Ela j amais conseguiria esquecer o sorriso atormentado
com que ele disse isso. Saiu .
1 60
Com movimentos apressados e sorrateiros, como os de
um bandido, ele agarrou o revólver, tirou-o do coldre. "Está
carregado, sim, mas faz tempo, e está faltando uma cápsula.
Bem, que sej a ."
Levou-o à têmpora, quis titubear, mas tão logo se lembrou
de Stiepanida, da decisão de não tornar a vê-la, da luta,
da tentação, da degradação e outra vez da luta, ele estremeceu
de horror. " Não, é melhor isso." E apertou o gatilho.
Quando Liza entrou correndo no quarto - acabara de
subir do terraço - ele j azia de bruços no chão, o sangue escuro
e quente j orrava do ferimento e o corpo ainda estremecia.
Houve inquérito. Ninguém podia entender e explicar a
causa do suicídio. Ao tio nem chegou a passar pela cabeça que
a causa tivesse alguma coisa a ver com aquela confissão que
levguiêni lhe fizera dois meses antes.
Varvára Alieksiêievna assegurava que sempre previra isso.
Era evidente quando ele discutia! Liza e Mária Pávlovna
não conseguiam entender de maneira nenhuma por quê aquilo
tinha acontecido, e apesar de tudo não acreditavam na afirmação
dos médicos, que diziam que ele era um doente mental.
Não podiam concordar de maneira nenhuma com isso,
porque sabiam que ele era mais sensato do que centenas de
pessoas que conheciam.
De fato, se levguiêni era um doente mental, então todas
as pessoas são igualmente doentes mentais, e mais ainda aquelas
que enxergam nos outros os sintomas de loucura que não
enxerganl em SI mesmas .
1 6 1
[Variante do final de O diabo]
. . . disse consigo mesmo, chegando-se à escrivaninha; tirou
da gaveta um revólver, examinou-o - faltava uma cápsula -,
meteu-o no bolso da calça.
- Meu Deus! O que estou fazendo? - gritou de repente
e, juntando as mãos, começou a rezar. Senhor, ajuda-me, livrame.
Sabes que eu não quero o mal, mas sozinho eu não consigo
. . . Ajuda-me ! - disse, persignando-se diante de uma imagem.
" Ora, eu posso me dominar.Vou dar uma volta e refletir."
Foi à sala de estar, vestiu uma peliça curta, calçou galochas
e saiu para a varanda. Sem que ele o percebesse, seus passos contornaram
o j ardim, tomando a estrada do campo que dava na
granja. Na granja a debulhadora continuava zunindo, e ouviamse
os berros dos meninos boiadeiros. Entrou na eira. Ela estava
lá. Viu-a tão logo entrou. Amontoava espigas e, ao vê-lo, olhos
risonhos, ágil e alegre, saiu a correr por entre espigas espalhadas,
desviando-se delas com habilidade. levguiêni queria, mas não
conseguia tirar os olhos dela. Só se recobrou quando a perdeu
de vista. O administrador informou que estavam debulhando as
espigas prensadas, que estavam tomando muito tempo e rendendo
pouco. levguiêni chegou-se ao tambor, que batia levemente
deixando passar as espigas mal preparadas, e perguntou ao administrador
se ainda havia muitas espigas prensadas.
- Umas cinco carroças.
- Então, vej a . . . - começou levguiêni, e não terminou a
frase. Ela se chegou até o tambor, varrendo as espigas espalhadas
pelo chão, e o incendiou com seu olhar sorridente.
Aquele olhar falava do amor alegre e despreocupado que
havia entre eles, de como ela sabia que ele a desej ava, de como
1 62
tinha ido ao galpão por ela e de como ela sempre estava pronta
para viver e se divertir com ele, sem pensar em nenhuma
condição nem nas conseqüências . Ievguiêni sentiu-se sob seu
poder, mas não queria entregar-se.
Lembrou-se de sua oração e tentou repeti-la. Começou
a dizê-la consigo, mas logo percebeu que era inútil.
Agora um só pensamento o consumia completamente:
como marcar um encontro com ela sem que os outros notassem?
- Se a gente terminar hoj e o senhor dá ordem de começar
uma nova meda ou deixa para amanhã? - perguntou o
administrador.
- Pode ser, pode ser. . . - repetia Ievguiêni, olhando involuntariamente
na direção da pilha de espigas que ela e outra
mulher j untavam.
" S erá possível que eu não consigo me controlar? " -
pensava. "Será mesmo que estou perdido? Meu Deus ! Ora, não
existe Deus nenhum. Existe o diabo! E é ela. Ele se apossou de
mim. Mas eu não quero, não quero. É o diabo, sim, o diabo."
Chegou bem perto dela, sacou do bolso o revólver e
uma, duas, três vezes disparou, atingindo-a nas costas . Ela correu
e caiu sobre uma pilha
- Meu Deus! Gente, o que foi isso? - gritaram as mulheres.
- Não, não foi sem querer. Matei-a de propósito, - gritou
Ievguiêni - mandem chamar o stanovói.6
Chegou em casa e, sem dizer nada à mulher, entrou no
seu escritório e trancou-se.
- Não venha me procurar - disse à mulher através da
porta. - Você vai saber de tudo mais tarde.
6 Chefe de polícia distrital (N. T.) .
1 63
Uma hora depois, tocou a campainha e disse ao criado
que o atendeu:
- Vai te informar se Stiepanida está viva.
a criado já sabia de tudo e disse que ela estava morta há
uma hora.
- Ótimo, melhor assim. Agora deixa-me. Quando chegar
o stanovóí ou o j uiz de instrução, vem me avisar.
a stanovói e o j uiz chegaram na manhã seguinte; dep
ois de abraçar a mulher e a filha, l evguiêni foi levado para a
prisão.
Foi j ulgado. Eram os primeiros tempos do tribunal do
júri. Foi considerado doente mental temporário e condenado
apenas à penitência eclesiástica.
Passou nove meses no cárcere e um mês num mosteiro.
Começou a beber na prisão, continuou no mosteiro e
voltou para casa um alcoólatra debilitado e irresponsável.
Varvára Alieksiêievna assegurava que sempre previra isso.
Era evidente quando ele discutia! Liza e Mária Pávlovna
não conseguiam entender de maneira nenhuma por quê aquilo
tinha acontecido, e apesar de tudo não acreditavam na afirmação
dos médicos, que diziam que ele era um doente mental.
Não podiam concordar de maneira nenhuma com isso,
porque sabiam que ele era mais sensato do que centenas de
pessoas que conheciam.
De fato, se levguiêni era um doente mental, então todas
as pessoas são igualmente doentes mentais, e mais ainda aquelas
que enxergam nos outros os sintomas de loucura que não
enxergam em SI mesmas .
Tradução de Beatriz Ricci
1 64
Falso cupom

PRIMEIRA PARTE
Fiódor Mikháilovitch Smokóvnikov, presidente da Casa da
Moeda, homem de probidade incorruptível e orgulhoso disso,
liberal obscuro e não só livre-pensador como ainda tomado de
oj eriza a quaisquer manifestações religiosas, por considerá-las
um remanescente de superstições, retornava do trabalho de
p éssimo humor. O governador escrevera um memorando sumamente
idiota, que permitia insinuar procedimentos desonestos
da parte de Smokóvnikov. Furioso, ele respondera o documento
sem pestanej ar, em linguagem firme e mordaz.
Eram cinco para as cinco. Em casa tudo lhe parecia ir
contra ele. Achava que o j antar seria servido assim que chegasse,
mas este ainda não estava pronto. Bateu a porta e foi para o
quarto. Alguém veio chamá-lo. " Quem diabo será?" - p ensou,
gritando :
- Quem é?
1 67
Entrou o filho de quinze anos, ginasiano da quinta série.
- O que você quer?
- Hoj e é dia primeiro.
- O quê? O dinheiro?
Era praxe que o pai desse ao filho uma mesada de três rublos
a cada primeiro dia do mês . Fiódor Mikháilovitch franziu
a testa, tirou a carteira do bolso, remexeu-a, puxou um cupom
de dois rublos e meio, depois tirou o moedeiro e, deste, algumas
moedinhas de prata, somando mais cinqüenta copeques .
Quieto, o menino não pegou o dinheiro.
- Por favor, papai, dê-me um adiantamento.
- O quê?
- Eu não ia pedir, mas é que fiz um empréstimo, dei minha
palavra de honra, prometi . . . E como sou uma pessoa honesta,
não posso . . . eu preciso de mais três rublos, verdade, não
vou pedir . . . não é que não vá pedir outra vez, mas é que . . . por
favor, papai .
- Eu j á lhe disse . . .
- Mas, papai, é s ó desta vez !
- Você recebe uma mesada d e três rublos e sempre acha
pouco. Na sua idade, eu não recebia nem 50 copeques !
- Mas agora todos os meus colegas ganham mais . Pietrov
e Ivanitski ganham 50 rublos .
- E e u digo que se você continuar agindo assim, vai acabar
trapaceiro. Eu já falei!
- Mas falou o quê? O senhor nunca se coloca na minha
situação, e eu devo virar trapaceiro. Para o senhor é fácil!
- Já pra fora, vadio. Fora !
Fiódor Mikháilovitch levantou-se de um salto e investiu
contra o filho.
1 68
- Fora! Você merece uma sova!
O menino ficou assustado e enfurecido, mais enfurecido,
porém, que assustado, e rumou cabisbaixo para a porta a
passos rápidos. Smokóvnikov não tinha intenção de bater no
menino, mas , satisfeito com a própria ira, ainda ficou um bom
tempo praguej ando em altos brados atrás do filho.
Quando a criada chegou anunciando o j antar, Fiódor
Mikháilovitch levantou-se.
- Até que enfim. Eu até perdi a fome!
E foi j antar, carrancudo.
À mesa a mulher puxou assunto, mas ele só resmungou
uma resposta lacônica com uma cara tão feia que ela se calou .
O filho, igualmente calado, não ergueu os olhos do prato. Comeram
em silêncio e em silêncio deixaram a mesa.
Depois do jantar, o ginasiano foi para o quarto, tirou o cupom
e as moedinhas do bolso, jogou-as sobre a mesa, depois tirou
o uniforme e vestiu uma jaqueta. Primeiro abriu uma surrada
gramática latina, depois fechou a porta com um gancho,
varreu o dinheiro da mesa com a mão e o meteu na gaveta, tirou
dela alguns cartuchinhos de papel, encheu um deles com tabaco,
fechou uma das pontas com algodão e começou a fumar.
Passou umas duas horas estudando a gramática e os cadernos
sem entender nada, em seguida levantou-se e pôs-se a
andar de um lado para o outro, pisando duro e remoendo tudo
o que conversara com o pai. Lembrava-se de todas as palavras
ofensivas do pai, principalmente da cara zangada, como se
o estivesse vendo e ouvindo : "Vadio ! Você merece uma sova! " .
Quanto mais s e lembrava, mais s e zangava com o pai . Recordava
sua expressão quando dissera: "Pelo que vej o, você vai dar
para trapaceiro. Fique sabendo ! E se você continuar agindo as-
1 69
sim, vai acabar trapaceiro." - Pra ele é ficil. Ele j á se esqueceu
de que foi moço. Afinal de contas , qual foi o crime que eu cometi?
Eu só fui ao teatro, não tinha como pagar, e o Piétia1
Gruchetski me emprestou dinheiro. O que há de mal nisso?
Fosse outro, sentia pena, perguntava, mas esse aí só faz xingar
e pensar em si mesmo. É só lhe faltar alguma coisa que sai gritando
pela casa toda, e ainda me sobra essa de trapaceiro. Não,
ele pode ser meu pai, mas eu não gosto dele. Não sei se todos
os pais são assim, só sei que não gosto dele."
A criada bateu à porta. Trazia um bilhete.
- Querem resposta sem falta.
No bilhete, lia-se:
"É a terceira vez que peço de volta os seis rublos que lhe emprestei,
mas você vive fugindo. Gente honesta não age assim. Peço enviar o
dinheiro sem demora por este mensageiro. Preciso dele de qualquer
j eito. Será possível que você não pode consegui-lo? Quer você devolva
ou não o dinheiro, seu colega que o despreza ou estima,
Gruchetski"
"Vej am só, que porco. Não pode esperar! Vou tentar outra
vez." Mítia2 foi procurar a mãe. Era sua última esperança. Ela
era bondosa, não sabia negar e talvez até ajudasse, mas no momento
estava preocupada com a doença do menorzinho Piétia,
de dois anos . A mãe ficou brava com Mítia pelo modo estabanado
como entrou no quarto e foi logo recusando seu pedido.
Mítia resmungou algo inarticulado e saiu do quarto. A
mãe teve pena e chamou-o de volta.
1 Diminutivo de Piótr (N. T.) .
2 Diminutivo d e Drnítri (N. T.) .
1 70
- Espere, Mítia. Agora eu não tenho, mas amanhã eu
COnsIgO.
Mítia, porém, ainda espumava de raiva do pai.
- Por que amanhã se é hoj e que eu preciso do dinheiro?
Fique sabendo que eu vou pedir para um colega meu .
E saiu batendo a porta.
"Não há mais nada a fazer, ele vai me ensinar onde é
que eu posso empenhar meu relógio " - pensou, apalpando o
relógio no bolso.
Mítia tirou da gaveta o cupom, uns trocados, vestiu o casaco
e dirigiu-se à casa de Mákhin.
11
Mákhin era um ginasiano bigodudo. Jogava cartas, conhecia
mulheres e sempre tinha dinheiro. Morava com a tia.
Mítia sabia que Mákhin não era um bom rapaz, mas em companhia
dele submetia-se involuntariamente à sua vontade. O
rapaz estava em casa, preparando-se para ir ao teatro : o quarto
suj o recendia a sabonete e água-de-colônia.
- Esta é a última coisa a ser feita, meu irmão - disse
Mákhin, dep ois de Mítia c ontar-lhe a desgraça, mostrar o
cupom e os 5 0 cop eques , e dizer que precisava de nove rublo
s . - Pode-se emp enhar o relógio, mas p o de-se fazer ainda
melhor - prosseguiu Mákhin, piscando um olho.
- Melhor como ?
- Muito simples - Mákhin pegou o cupom. - Colocamos
o número um na frente do dois e meio e o que obtemos?
Doze rublos e meio !
1 7 1
- E por acaso existem cupons nesse valor?
- Como não ! Existem até os bônus de 1 . 000 rublos . Eu
mesmo já passei um desses .
- Não é possível.
- E então, vamos lá? - disse Mákhin, tomando da pena
e desenrugando o cupom com a mão esquerda.
- Mas isso não está certo.
- Ih, que bobagem!
"É mesmo " - pensou Mítia, e mais uma vez lhe vieram
à lembrança as ofensas do pai: "trapaceiro ! ". "Pois vou virar trapaceiro."
Fitou o rosto de Mákhin, que o olhava com um sorriso
tranqüilo.
- Então, vamos lá?
- Vamos.
Mákhin traçou com cuidado o número um.
- Aí está. Agora vamos a uma loja. Tem uma ali naquela
esquina: a de artigos fotográficos . A propósito, preciso de uma
moldura para esta pessoa aqui.
Puxou a fotografia de uma garota de olhos grandes, vasta
cabeleira e busto exuberante.
- Que coisinha, hein?
- É, é. Mas como é que . . .
- Muito simples . Vamos.
Mákhin acabou de se vestir e os dois saíram.
III
A sineta tocou à porta de entrada da loj a de artigos fotográficos
. Os ginasianos entraram e foram logo examinando a
1 72
loj a deserta, as prateleiras de equipamentos , as vitrinas dos balcões.
Da porta dos fundos saiu uma mulher feia, de rosto bondoso,
que detrás do balcão perguntou-lhes o que desej avam.
- Uma moldurinha bem bonitinha, madame.
- Até quanto? - perguntou a dama, enquanto as mãos
em meias-luvas , rápidas e j eitosas, separavam com seus dedos
roliços as molduras de formatos variados . - Estas custam 50
copeques, e estas são mais caras. Vej am esta, que delicadeza . . . é
novidade . . . um rublo e vinte.
- Bem, vamos levar esta. Mas a senhora não poderia dar
um desconto? Deixe por um rublo.
- Nunca damos desconto ! - disse a dama com dignidade.
- Ah, deixa pra lá! - disse Mákhin, colocando o cupom
sobre o balcão.
- Vej a a moldurinha e o troco, e rápido. Não queremos
chegar atrasados ao teatro.
- Vão chegar a temp o ! - disse a dama, fixando os olhos
míopes no cupom.
- Ela vai ficar linda nesta moldurinha, hein? - comentou
Mákhin, voltando-se para Mítia.
- O senhor não teria outro tipo de dinheiro?
- Aí é que está o azar, não tenho. Foi meu pai quem me
deu esse cupom, e eu preciso trocá-lo.
- Mas será que o senhor não tem um rublo e vinte?
- Tenho só 5 0 copeques . O que a senhora está temendo,
que a estamos enganando com dinheiro falso?
- Não, não é por nada.
- Então devolva. Vamos trocá-lo.
- Bem, quanto lhe devo de troco?
- Onze e uns quebrados .
1 73
A vendedora agitou o ábaco, abriu a secretária, retirou
uma nota de 1 0 rublos e remexeu os trocados, j untando seis
moedas de vinte copeques e duas de cinco.
- Poderia dar-se o trabalho de embrulhar, por favor? -
disse Mákhin, pegando sem pressa o troco.
- Num instante.
A vendedora fez o embrulho e passou-lhe um barbante.
Mítia só recobrou o fôlego quando a sineta da porta de
entrada soou às suas costas e eles saíram para a rua.
- Bem, fica com esses dez rublos, o trocado fica comigo.
Depois eu devolvo.
Mákhin foi ao teatro e Mítia à casa de Gruchetski para
acertar as contas .
IV
Uma hora depois da saída dos ginasianos, o dono da loja
chegou em casa e pôs-se a contabilizar a féria.
- Ah, tola desastrada! Que imbecil! - esbravej ou com a
mulher ao examinar o cupom, percebendo de imediato a falsificação.
E por que raios você anda aceitando esses cupons?
- Mas Jênia,3 se eu mesma j á vi você aceitando esses cupons
de 12 rublos - respondeu a mulher embaraçada, magoada
a ponto de chorar. - Nem eu mesma sei como aqueles ginasianos
conseguiram me tapear desse j eito - dizia ela. - O
belo rapaz me pareceu tão comilfôt . . . 4
3 Diminutivo de Ievguiêni (N. T.) .
4 Corruptela russa do francês comme ilfaut - conveniente, aj eitado (N. T. ) .
1 7 4
- Sua comilfôt imbecil! - continuou a praguejar o marido,
enquanto fazia o caixa. - Pego o cupom e assim que boto o olho
nele percebo a falsificação. Mas pelo j eito, depois de velha você
só consegue mesmo enxergar o focinho desses ginasianos.
A mulher não conseguia mais suportar aquilo e explodiu
.
- Que homem verdadeiro ! Só sabe acusar os outros, mas
ele mesmo perde 54 rublos no j ogo, e isso não conta nada!
- Isso é outra coisa.
- Não quero conversa com você - disse a mulher, e saiu
para o quarto, começando a lembrar-se de como a sua família
havia tentado impedir aquele casamento por considerar o rapaz
de nível bem inferior, de como ela insistira no casamento ;
lembrou-se de seu bebê morto, da indiferença do marido
diante daquela perda, e tomou-se de tanto ódio dele que ficou
a imaginar como seria bom se ele morresse. Mas só de pensar
nisso teve medo dos seus sentimentos e apressou-se em vestirse
e sair. Quando o marido retornou ao apartamento, a mulher
já não estava. Sem esperá-lo, vestira-se e fora à casa de um professor
de francês conhecido, que a convidara para um sarau .
v
o professor de francês, um polonês russo, serviu aos
convidados um requintado chá, acompanhado de biscoitos doces,
e em seguida todos se acomodaram ao redor de algumas
mesas para o vint. 5
5 Jogo de cartas semelhante ao bridge (N. T. ) .
1 7 5
A mulher do vendedor de artigos fotográficos sentou-se
com o anfitrião, um oficial e uma senhora velha, surda, de peruca,
viúva do proprietário de uma loj a de artigos musicais e
grande apreciadora e mestra dos j ogos de cartas . A sorte estava
com a mulher do vendedor de artigos fotográficos. Por duas
vezes ela bateu. Ao seu lado havia um pratinho com uvas e pêras,
e ela estava de espírito alegre.
- Por que levguiêni Mikháilovitch não aparece? - perguntou
o anfitrião, de outra mesa. - Ele seria o quinto parceiro.
- Na certa, deixou-se levar pelas contas - disse a mulher
de Mikháilovitch. - Hoj e é dia de pagamento das provisões e
da lenha.
E franziu o cenho ao lembrar-se da cena com o marido
; as mãos em meias-luvas tremeram de raiva.
- Este não morre mais ! - disse o anfitrião, virando-se à
chegada de levguiêni Mikháilovitch. - Por que se atrasou?
- Muitos afazeres - respondeu ele num tom alegre, esfregando
as mãos . E , para espanto da mulher, aproximou-se dizendo
:
- Sabe, passei adiante aquele tal cupom.
- Verdade?
- É, e para o homem da lenha.
E, com grande indignação, levguiêni Mikháilovitch contou
a todos como os ginasianos desonestos haviam tapeado sua
mulher, que ia acrescentando detalhes ao relato do marido.
- Bem, mas agora vamos ao que interessa - disse ele,
sentando-se à mesa e, ao chegar sua vez, embaralhando as
cartas.
1 76
VI
De fato, levguiêni Mikháilovitch se desfizera do cupom
ao pagar a lenha que lhe vendera o camponês Ivan Mirónov.
Ivan Mirónov negociava comprando lenha a braça em
depósitos e revendendo-a por toda a cidade, e a arrumava de
tal forma que uma braça dava cinco feixes iguais, que ele vendia
pelo preço de um quarto no depósito. Naquele dia fatídico,
Ivan Mirónov levou para a cidade de manhã bem cedo um
feixe de lenha e, após vendê-lo depressa, arrumou outro na esp
erança de vendê-lo, mas ficou carregando o feixe até à noitinha
sem conseguir comprador. D eparava-se a todo momento
com citadinos exp erientes que conheciam os velhos truques
dos mujiques vendedores de lenha e não acreditavam, como
ele queria fazer crer, que a lenha vinha do campo. Estava com
fome e sentia frio sob a curta p eliça surrada e a samarra em
farrapos; ao anoitecer, o frio atingira 20 graus negativos; o rocim,
do qual não sentia pena alguma, pois tinha a intenção de
vendê-lo aos esfoladores, empacara de vez. Por essas e outras ,
Ivan Mirónov estava disposto a desfazer-se da lenha até com
prejuízo, quando deparou com levguiêni Mikháilovitch, que
saíra para comprar tabaco e estava voltando para casa.
- Leve, patrão, faço bem baratinho, o rocim empacou .
- E de onde está vindo?
- Do campo. Minha lenha é da boa, sequinha.
- Eu te conheço. Bem, quanto quer?
Ivan Mirónov começou p edindo um preço alto, mas foi
baixando, baixando, até deixar tudo elas por elas .
- Mas é só para o senhor, patrão, porque mora p erto.
levguiêni Mikháilovitch não regateou muito, contente
1 7 7
com a idéia de passar o cupom. Arrastando de qualquer j eito a
carreta para o pátio, Ivan Mirónov descarregou a lenha no galpão.
O zelador não estava. A princípio relutou em pegar o cupom,
mas levguiêni Mikháilovitch foi tão convincente e pareceu
um senhor tão respeitável que o camponês acabou
aceitando.
Ao entrar pelos fundos, Ivan Mirónov fez o sinal da
cruz, deixou que o caramelo de neve derretesse da barba, dobrou
o cafetã, puxou um moedeiro de couro, retirou dele oito
rublos e cinqüenta copeques, devolveu o troco, enrolou o
cupom num papelzinho e colocou-o no moedeiro.
D epois de agradecer ao senhor como de praxe, o camponês
fustigou, já não com o chicote mas com o cabo, o rocim
coberto de escarcha, condenado à morte, que a muito custo
arrastava uma pata atrás da outra, e açoitou-o, j á sem a carga,
em direção a uma estalagem.
Lá chegando, Ivan Mirónov pediu oito copeques de vinho
e chá e, depois de aquecido, até suado, pegou a conversar
no mais alegre estado de espírito com o zelador sentado à mesma
mesa. Soltou a língua com ele, contou-lhe todas as circunstâncias
da sua vida. Contou que era da aldeia de Vassílievski e
que esta ficava a doze verstas da cidade, que vivera separado do
pai e dos irmãos e que agora morava com a mulher e dois filhos,
dos quais o mais velho mal começara a freqüentar a escola
e ainda não ajudava em nada. Contou que ia dormir na estalagem
e que, no dia seguinte, ia ao haras vender o rocim, dar
uma espiada e, se fosse o caso, comprar um cavalo. Contou que
tinha j untado dinheiro, que agora faltava um rublo para somar
vinte e cinco e que metade do que possuía estava no cupom.
Tirou o cupom do bolso e mostrou-o ao zelador. Embora
1 78
analfabeto, este lhe disse que costumava trocar daqueles cupons
para os inquilinos, que era dinheiro bom, mas que vez por outra
aparecia um falso, razão pela qual o aconselhava a passá-lo
ali mesmo no balcão, por garantia. Ivan Mirónov entregou o
cupom ao criado do balcão, pediu o troco, mas o criado não o
trouxe, e em vez dele apareceu o balconista careca, de cara luzente,
com o cupom em sua mão gorducha.
- Seu dinheiro não serve - disse este, mostrando o cupom
a Mirónov, mas sem devolvê-lo.
- O dinheiro é bom, foi um senhor que me deu .
- Está na cara que não é bom, é falso.
- Se é falso, então devolva.
- Não, irmão, o irmão precisa é de uma lição. Você e
seus trapaceiros falsificaram o cupom.
- Devolva o dinheiro, que direito você pensa que tem?
- Sídor! Chama aqui a polícia - disse o balconista ao
empregado.
Ivan Mirónov estava bêbado. Nessas horas, perdia a cabeça.
Agarrou o balconista pela gola da camisa e começou a gritar:
- D evolva! Eu vou à casa daquele senhor. Eu sei onde
ele mora!
O balconista soltou-se de Ivan Mirónov e sua camisa
rasgou-se.
- Ah, então é assim. Segure o homem.
O criado agarrou Ivan Mirónov no exato instante em
que aparecia um policial. Depois de escutar o ocorrido, decidiu-
se de imediato.
- Pra delegacia!
O policial colocou o cupom em seu porta-moedas e levou
Ivan Mirónov mais o cavalo para a delegacia.
1 7 9
VII
Ivan Mirónov passou a noite na delegacia entre bêbados
e ladrões. Já era quase meio-dia quando o levaram à presença
do chefe de polícia. Depois de interrogá-lo, este o mandou
com um policial à casa do dono da loj a de artigos fotográficos .
Ivan Mirónov se lembrava da rua e do prédio.
Quando o policial chamou o senhor e lhe apresentou o
cupom e Ivan Mirónov, que confirmava ser aquele mesmo o
tal senhor, Ievguiêni Mikháilovitch fingiu surpresa e assumiu
unl ar austero.
- Que história é esta, pelo visto perdeu o j uízo? É a primeira
vez que vej o este homem!
- Senhor, isso é pecado . . . todos nós vamos morrer . . . -
disse Ivan Mirónov.
- O que aconteceu com ele? Você deve ter sonhado.
Vendeu sua lenha para um outro suj eito qualquer - afirmou
Ievguiêni Mikháilovitch. - A propósito, espere um pouco, vou
perguntar à minha mulher se ela comprou lenha ontem.
Ievguiêni Mikháilovitch saiu e, sem demora, chamou o
zelador Vassili, rapaz alegre, j anota, formoso, astuto, de força
ímpar, dizendo-lhe, caso perguntassem de onde viera a última
remessa de lenha, que afirmasse ter vindo do depósito e que
ali nào se comprava lenha de mujiques .
- Há um muj ique aí dizendo que eu passei um cupom
falso. Um muj ique estúpido, sabe Deus o que estará dizendo,
mas você é homem inteligente. Vá lá e diga que nós só compramos
lenha do depósito. Há tempo que eu venho pensando
em lhe dar um casaco - acrescentou Ievguiêni Mikháilovitch,
e deu cinco rublos ao zelador.
1 80
Vassili p egou o dinheiro, passou os olhos na nota, no
rosto do patrão, e esboçou um sorriso, sacudindo a cabeleira.
- É verdade, gente estúpida, ignorante. Não se preocupe.
Já sei o que eu vou dizer.
Por mais que Ivan Mirónov suplicasse choroso para
que Ievguiêni Mikháilovitch reconhecesse o cupom e o zelador
confirmasse suas palavras, tanto um quanto outro fincavam
p é : j amais compravam lenha de carroceiro s . E o policial
levou de volta à delegacia Ivan Mirónov, acusado de
falsificar o cupom.
Livrou-se da cadeia só depois de dar cinco rublos ao
chefe de polícia, aconselhado por um escrivão b êbado sentado
a seu lado, e foi embora sem o cupom e com sete rublos
em lugar dos vinte e cinco que tinha até o dia anterior. Ivan
Mirónov gastou três rublos em bebida e chegou em casa de
cara quebrada e caindo de porre.
A mulher estava nos últimos dias de gravidez, e doente.
Pôs-se a destratar o marido, ele lhe deu um empurrão e ela começou
a bater nele. Ao invés de revidar, ele se deitou de bruços
na tarimba e começou a soluçar.
Só na manhã seguinte a mulher entendeu o que acontecera,
acreditou na história do marido e ficou muito tempo
amaldiçoando o tal senhor trapaceiro que enganara seu Ivan. E
Ivan, j á sóbrio, lembrou-se do que lhe aconselhara um artesão
com quem havia bebido no dia anterior e resolveu se queixar
a um advogado.
1 8 1
VIII
o advogado aceitou o caso não tanto pelos honorários
que viria a re ceber, mas porque acreditou em Ivan e ficou indignado
com a maneira desonesta pela qual haviam enganado
o mUJlque.
Ambas as partes compareceram ao tribunal; o zelador
Vassili serviu de testemunha. A cena se repetiu: Ivan Mirónov
invocava D eus e dizia que um dia todos iriam morrer. Mesmo
atormentado pela consciência da patifaria que praticara e do
risco que corria, Ievguiêni Mikháilovitch não podia mais alterar
seu depoimento e continuou negando tudo, mantendo o
semblante em aparente calma.
O zelador Vassili recebeu mais dez rublos e, com um
sorriso tranqüilo, confirmou nunca ter visto Ivan Mirónov.
Quando o fizeram prestar j uramento, mesmo interiormente
acovardado, repetiu, com aparente calma, sobre a cruz e o santo
Evangelho, as palavras proferidas por um padre velhinho, jurando
dizer toda a verdade.
O j uiz negou a demanda a Ivan Mirónov, imputando-lhe
custas judiciais de cinco rublos, generosamente perdoadas por
Ievguiêni Mikháilovitch. Ao absolver Ivan Mirónov, o j uiz pregou-
lhe um sermão, prevenindo-o para que fosse mais cuidadoso
e contido ao acusar pessoas respeitáveis e agradecesse por
ter sido perdoado das custas e por ter-se livrado de um processo
por calúnia, pelo qual pegaria uns três meses de cadeia.
- Fico muito grato - disse Ivan Mirónov, e deixou a sala
balançando a cabeça entre suspiros.
Tudo parecia acabar bem para Ievguiêni Mikháilovitch
e o zelador Vassili. Mas era só o que parecia.
1 82
Ocorreu algo que ninguém viu, mas que foi mais importante
do que tudo o que as pessoas tinham visto.
Vassili deixara sua aldeia havia já três anos e morava na cidade.
Ano após ano, reduzia a contribuição enviada ao pai e não
mandava vir a mulher, que não lhe fazia falta. Mulheres na cidade,
ele podia ter as que bem quisesse, e diferentes da desmazelada
da sua mulher. A cada ano, esquecia mais e mais as leis da aldeia
e assimilava os costumes da cidade. Lá, tudo era grosseiro,
incivilizado, pobre, desordenado; aqui, tudo refinado, bom, limpo,
abundante, tudo em ordem. E cada vez mais se convencia de que
os aldeões viviam na ignorância feito animais selvagens, enquanto
a gente da cidade era gente de verdadeVassili lia livros de bons
autores, romances, ia a espetáculos na Casa do Povo, coisa que na
aldeia nem em sonhos imaginara poder fazer. Na aldeia os velhos
diziam: viva na lei com a esposa, trabalhe, não coma demais, não
ostente, mas na cidade as pessoas eram inteligentes, estudadas, logo
conheciam as verdadeiras leis, viviam com prazer. E tudo ia
bem. Até o incidente com o cupom, não acreditava que os senhores
não tivessem leis sobre as quais basear suas vidas. Achava
que não conhecia essas leis, mas que as leis existiam. Mas o último
incidente com o cupom, principalmente seu falso testemunho,
que não dera em nada de ruim para ele, a despeito do seu
pavor, e ainda lhe rendera mais dez rublos, convenceram-no plenamente
de que não existia lei alguma e de que precisava viver
para o prazer. Assim, continuou a viver como antes. No início, fazia
mão baixa somente nas compras dos inquilinos, mas isso era
pouco face a todas as suas despesas, e quando e onde podia punha-
se a surrupiar dinheiro e obj etos valiosos dos apartamentos,
e acabou roubando o porta-moedas de Ievguiêni Mikháilovitch,
que o pegou em flagrante e o demitiu, mas sem dar queixa.
1 83
Vassili não queria voltar para casa e continuou a morar
em Moscou com a amante, saindo em busca de emprego. Encontrou
um, insignificante, de zelador, numa pequena venda.
Começou a trabalhar, mas logo no segundo mês de trabalho
foi pego roubando sacos. O patrão não deu queixa, mas espancou
Vassili e mandou-o embora. Depois desse incidente, não
conseguiu mais emprego nenhum, gastou o que tinha e suas
roupas foram se puindo, restando, por fim, apenas um paletó
rasgado, uma calça e um par de sapatos velhos. A amante o deixou.
Vassili, porém, não perdeu o espírito alegre e disposto e
rumou a pé para casa com a chegada da primavera.
IX
Piotr Nicoláievitch Svientitski, homenzinho atarracado
que usava óculos escuros - era doente da vista, sob risco de cegueira
total -, levantou-se ao amanhecer como de costume e,
após beber um copo de chá, vestiu a peliça de pele de cordeiro
e rumou para suas terras .
Funcionário da al:fandega, lá conseguira economizar dezoito
mil rublos. Aposentara-se havia doze anos, não bem por
vontade própria, e comprara uma pequena propriedade de um
j ovem arruinado. Casara-se ainda em serviço. A mulher, pobre
órfã de antiga família nobre, alta, roliça, bonita, não lhe dera filhos.
Em tudo e por tudo, Piotr Nicoláitch6 era um homem
ponderado, perseverante. Sem nada entender do funcionamento
de uma propriedade rural (era filho de um pequeno nobre
6 Variação do patronímico Nicoláievitch (N. T.) .
1 84
polonês) , administrara tão bem sua fazenda que no decorrer de
dez anos as terras arruinadas de trezentos hectares tornaram-se
um modelo. Todas as construções, da casa ao celeiro e ao alpendre
para os equipamentos de incêndio, eram sólidas, bem
alicerçadas, revestidas de ferro e pintadas na hora certa. No galpão
das ferramentas, dispunham-se em ordem telegas , charruas,
arados, grades. Os arreios estavam sempre lubrificados . Os
cavalos , de porte médio, quase todos de criação própria, eram
baios, bem alimentados, robustos, parecidos entre si. A debulhadora
funcionava sobre a eira coberta, a forragem era armazenada
em galpão especial, o esterco líquido escorria para um
fosso calçado. Também de criação própria, as vacas davam muito
leite, apesar do porte médio. Os porcos eram de raça inglesa.
Possuía um aviário e raças especiais de galinhas . O p omar
era cuidadosamente regado e cultivado. Por toda a parte havia
sinais de boa administração, solidez, limpeza, conservação. Piotr
Nicoláitch sentia-se feliz em suas terras e orgulhava-se do fato
de ter alcançado tudo aquilo sem oprimir os camponeses ,
mas , ao contrário, praticando uma rigorosa j ustiça para com
eles. Mesmo entre os nobres era ele que sustentava opiniões
intermediárias, antes liberais que conservadoras , e diante de
um defensor da servidão sempre defendia o povo. Que fossem
bons para com eles e eles seriam bons . É verdade que não fazia
vista grossa às falhas dos trabalhadores, instigava-os por vezes
e exigia trabalho, mas em compensação a moradia e a alimentação
estavam entre as melhores, o ordenado era pago em
dia e nos feriados havia distribuição de vodca.
Pisando com cuidado a neve semiderretida - era fevereiro
-, Piotr Nicoláitch rumou em direção às isbás de seus empregados,
próximas à cavalariça. Ainda estava escuro e a neblina in-
1 85
tensificava a escuridão, mas se via luz nas j anelas. Os empregados
se levantavam. Pretendia botar-lhes pressa: eles tinham de sair
com seis cavalos à cata do resto de lenha no bosque.
- O que é isso ? - pensou ele, ao ver a porta da cavalariça
entreaberta. - Ei, quem está aí?
Ninguém respondeu . Piotr Nicoláitch entrou.
- Ei, quem está aí?
Ninguém respondia. Estava escuro, o chão sob os pés
mole e cheirando a estrume. Logo à direita da porta costumava
ficar um par de potros baios. Piotr Nicoláitch estendeu o
braço - nada. Esticou a perna. Estariam deitados? O pé nada
encontrou. "Para onde os terão levado? " - p ensou ele. "Atrelar,
não atrelaram, os trenós ainda estão lá fora" . Svientitski saiu
e gritou :
- Ô, Stiepan!
Stiepan, um velho empregado, saiu da isbá.
- Caramba! - respondeu alegre Stiepan. - É o senhor,
Piotr Nicoláitch? Os rapazes já vêm vindo.
- Por que a cavalariça está aberta?
- A cavalariça? Não sei dizer, não, senhor. Ô, Prochka,7
traz o lampião.
Ele o trouxe. Entraram na cavalariça. Stiepan compreendeu
de pronto.
- Foram ladrõ e s , Piotr Nicoláitch . Quebraram o
cadeado.
- Está mentindo?
- Os bandidos levaram. Machka8 sumiu, Iástrieb9 tam-
7 Diminutivo de Prókhorov (N. T ) .
8 Forma popular d e Mária (N. T ) .
9 "Açor", e m russo (N. T ) .
1 86
bém . . . não, Iástrieb tá ali, foi Piostri10 que sumiu. Krassávtchik1 1
também sumiu.
Faltavam três cavalos . Piotr Nicoláitch não disse palavra.
Franziu a testa e respirou fundo.
- Ah, se eu pego . . . Quem estava de vigia?
- Pietka . 1 2 Dormiu demais.
Piotr Nicoláitch apresentou queixa à polícia, ao stanovói,
ao chefe do ziêmstvo, colocou seus homens à caça dos bandidos
. Os cavalos não foram encontrados .
- Gentalha! - dizia Piotr Nicoláitch. - O que acharam
de fazer? Como se eu não lhes tivesse feito o bem. Pois esperem
e verão. Ladrões, são todos ladrões.Vocês vão ver só como
serão as coisas daqui por diante.
x
Mas os cavalos, três baios, j á haviam chegado ao seu
destino. Machka foi vendida a um cigano por dezoito rublos,
Piostr foi trocado por outro com um muj ique quarenta verstas
adiante, esfalfaram e mataram Krassávtchik. A pele foi vendida
por três rublos. Todos esses acontecimentos deram-se
por obra de Ivan Mirónov. Estivera trabalhando para Piotr
Nicoláitch, conhecia-lhe os hábitos e decidiu reaver seu dinheirinho.
Assim, planej ou tudo.
Depois da desgraça com o cupom falso, Ivan Mirónov
andou muito tempo a beber e teria vendido tudo, não fosse a
10 "Malhado" , "pintado " , em russo (N. T. ) .
1 1 D erivado d e krassávietz, "belo " (N. T.) .
12 Outra forma diminutiva de Piótr (N. T.) .
1 87
mulher ter escondido as peças de arreio, as roupas e tudo o que
pudesse ser vendido. À época das bebedeiras , Ivan Mirónov
não parava de pensar no seu ofensor e em todos os senhores e
senhoras respeitáveis, que só vivem para extorquir seus irmãos .
Certa feita, Ivan Mirónov bebia c o m mujiques dos arredores
de Podolsk. No caminho de volta, os muj iques, embriagados,
contaram-lhe como haviam tomado cavalos de um muj ique.
" Isso é pecado," - dizia ele - " cavalinho de muj ique é o mesmo
que um irmão, se você o toma, tira-lhe o sustento. Se querem
roubar, que roubem dos senhores. Esses cachorros bem
que merecem" . Prosseguiram a conversa, e os mujiques de
Podolsk diziam que era complicado tomar cavalos dos senhores
. Era preciso conhecer o lugar, e sem gente do bando no
local era impossível. Foi então que Ivan Mirónov lembrou-se
de Svientitski, para quem já trabalhara, lembrou-se de que ele
havia descontado de seu ordenado um rublo e meio por uma
cravij a quebrada e lembrou-se dos cavalos baios com os quais
fazia o trabalho.
Ivan Mirónov voltou à casa de Svientitski fingindo estar
à pro cura de serviço, mas com o único fim de observar e
inteirar-se de tudo. Ao descobrir tudo, que não havia guardas,
que os cavalos ficavam nas baias da cavalariça, j untou-se aos ladrões
e executou seu plano. D epois de repartir o produto do
roubo com os mujiques de Podolsk, Ivan Mirónov voltou para
casa com cinco rublos no bolso. Em casa, não tinha o que
fazer: não possuía cavalos . D esde então, Ivan Mirónov passou a
andar com ciganos e ladrões de cavalos.
1 88
XI
Piotr Nicoláitch Svientitski fazia todos os esforços para
encontrar o ladrão. Sabia que sem alguém de dentro da propriedade
não teria sido possível executar o serviço. Por isso,
passou a suspeitar de seus homens e, inquirindo os trabalhadores
sobre quem não havia dormido em casa na noite do roubo,
chegou a Prochka Nicoláiev - rapazinho bonito, astuto,
que acabara de chegar do serviço militar como soldado e havia
sido empregado por Piotr Nicoláitch para fazer as vezes de
cocheiro nas carruagens . O stanovói era amigo de Svientitski,
que conhecia também o isprávnik, 13 o chefe do ziêmstvo e o
j uiz de instrução. Todas essas personalidades freqüentavam sua
casa nas festividades do dia do santo que levava seu nome e conheciam
seus saborosos licores de frutas e os cogumelos em
conservas - agáricos, boletos, gruzdi. 14 Estavam todos com pena
e queriam aj udá-lo.
- É nisso o que dá, proteger esses mujiques - disse o stanovói.
- É verdade, eu já lhe disse : são piores que animais . Chicote
e cacete são os únicos remédios. Bem, o senhor estava falando
de Prochka, seu cocheiro?
- É, ele mesmo.
- Traga-o aqui .
Chamaram Prochka e começaram a interrogá-lo.
- Onde você esteve?
Prochka sacudiu a cabeleira, os olhos brilhando.
- Em casa.
13 Chefe de polícia distrital na Rússia czarista (N. T. ) .
14 Variedade d e cogumelo (N. T. ) .
1 89
- Como assim, em casa, se todos os empregados testemunharam
que você não dormiu aqui?
- Como o senhor quiser.
- Ora, não se trata de querer. Onde é que você esteve?
- Em casa.
- Pois bem. Sotskí, 1 5 ponha-o a ferros.
- Como o senhor quiser.
E Prochka acabou mesmo sem dizer aonde fora, pois
naquela noite estivera na casa de sua namoradinha, Parachka, 1 6
e prometera não traí-la, o que realmente não fez . Mas Piotr
Nicoláitch tinha certeza de que tudo fora planej ado por ele e
passou a odiá-lo. Certo dia, Svientitski fez Prokofi de cocheiro
e mandou-o comprar ração para os cavalos . Como sempre
fazia no armazém, Prochka pediu duas medidas de aveia. Aos
cavalos deu uma medida e meia, trocando o restante por bebida.
Piotr Nicoláitch descobriu tudo e levou o caso a um j uiz
de paz. Este condenou Prokofi a três meses de prisão. Prochka
era todo amor-próprio. Achava-se superior aos outros, era orgulhoso.
A prisão foi uma humilhação para ele. Não tinha mais
do que se orgulhar diante das pessoas e não tardou a esmorecer
de vez .
Voltou da prisão exaltado não tanto com Piotr Nicoláitch
quanto com o mundo todo.
Como todo mundo dizia, depois da prisão Prokofi degradou-
se, amoleceu o corpo no serviço, começou a beber e
logo foi pego roubando roupas de uma mulher da cidade, o
que o fez voltar à cadeia.
1 5 Estaroste eleito em unidade militar na Rússia czarista (N. T. ) .
1 6 Diminutivo d e Praskóvia (N. T. ) .
1 90
Dos cavalos, a única notícia que Piotr Nicoláievitch recebeu
foi a descoberta da pele de um capão baio, que reconheceu
como sendo de Krassávtchik. A impunidade dos ladrões irritouo
ainda mais . Ele não podia mais encarar os mujiques e falar deles
sem rancor, e sempre que podia procurava oprimi-los.
XII
Embora l evguiêni Mikháilovitch tivesse esquecido o
episódio tão logo passara adiante o cupom, sua mulher, Mária
Vassílievna, não conseguia perdoar nem a si mesma, por ter-se
deixado enganar, nem ao marido, pelas palavras cruéis dirigidas
a ela, e muito menos aos dois patifezinhos que a haviam
enganado com tamanha habilidade.
Desde aquele dia, passara a observar todos os ginasianos .
Certa vez encontrou Mákhin, mas não o reconheceu porque,
ao vê-la, o rapaz fez tamanha careta que modificou inteiramente
o rosto. Mas ao dar de éara com Mítia Smokóvnikov
numa calçada cerca de duas semanas depois do fato, reconheceu-
o de imediato. Deixou que ele passasse e o seguiu . Indo
até o prédio onde morava o rapaz e informada sobre quem era
seu pai, foi no dia seguinte ao ginásio e encontrou à entrada o
professor de catecismo MikhailVvedienski. Este lhe perguntou
o que desej ava. Ela queria ver o diretor.
- O diretor não se encontra no momento, não vai bem
de saúde; talvez eu possa substituí-lo ou, quem sabe, transmitir
algum recado.
Mária Vassílievna resolveu contar tudo ao professor.
Vvedienski era viúvo, acadêmico de teologia e homem
1 9 1
cheio de amor-próprio. Ainda no ano anterior encontrara-se
com o pai de Mítia numa reunião social; discutiram sobre fé
religiosa e, depois de o derrotar em todos os pontos, ridicularizando-
o, Vvedienski resolveu prestar especial atenção no filho,
encontrando neste a mesma indiferença demonstrada pelo
pai ateu com relação à lei divina, e decidindo persegui-lo a
ponto de reprová-lo no exame.
Quando tomou conhecimento do que fizera o j ovem
Smokóvnikov através de Mária Vassílievna,Vvedienski não pôde
deixar de sentir prazer, tomando o fato como comprovação
de suas suposições sobre a amoralidade das pessoas privadas da
orientação da Igreja, e resolveu tirar proveito da situação, com
o obj etivo - como ele mesmo procurou se convencer - de demonstrar
os perigos que ameaçavam todos aqueles que se afastavam
da Igrej a - mas, no fundo, no fundo, para vingar-se daquele
ateu presunçoso, cheio de orgulho.
- É muito, muito triste - dizia Mikhail Vvedienski , acariciando
com os dedos as bordas lisas do crucifixo que usava
ao redor do pescoço. - Fico muito satisfeito por ter a senhora
transmitido o caso a mim; como servo da Igreja, vou me
empenhar para que o rapaz não fique sem um conselho, vou
inclusive me esforçar para que o sermão sej a o mais brando
possível.
"É, arranj arei as coisas como se deve a um homem da
minha condição " - disse a si mesmo o padre Mikhail, pensando
que, uma vez esquecida a hostilidade do pai para com ele,
tinha em vista apenas o bem e a salvação do filho.
No dia seguinte, na aula de catecismo, o padre Mikhail
contou aos alunos todo o episódio do cupom falso, acrescentando
ter sido um ginasiano o autor de tal feito.
1 92
- Uma conduta má, vergonhosa, - disse ele - mas negar-
se a assumi-la é ainda pior. Se o culpado for um de vocês ,
o que eu não acredito, será melhor que confesse em vez de ficar
se escondendo.
Dizendo isso, o padre Mikhail encarou Mítia. Acompanhando
o gesto do professor, os ginasianos cravaram os olhos
no colega. Vermelho, suando, Mítia acabou chorando e saiu
correndo da classe.
Ao ser informada do ocorrido, a mãe de Mítia arrancou
toda a verdade do filho e correu à loj a de artigos fotográficos.
Pagou os doze rublos e meio à proprietária e a convenceu a
calar o nome do estudante. Pediu ao filho que desmentisse tudo
e que por nada nesse mundo dissesse a verdade ao pai .
De fato, quando soube o que acontecera n a escola e
quando o filho, chamado à sua presença, negou tudo, Fiódor
Mikháilovitch foi ao ginásio para conversar com o diretor e,
depois de relatar toda a história, disse que o procedimento do
professor de catecismo havia sido altamente reprovável e que
ele não deixaria o caso assim. O diretor convidou o sacerdote
à sala e entre ele e Fiódor Mikháilovitch teve lugar uma acalorada
discussão.
- Uma mulher estúpida vem caluniar meu filho, depois
nega o que disse antes e o senhor não encontra nada melhor
do que difamar um menino sincero, um menino franco !
- Eu não difamei ninguém, e nem permito que o senhor
fale comigo nesse tom. O senhor respeite meu hábito.
- Pois pouco me importa o seu hábito.
- Suas opiniões deturpadas são conhecidas de toda a cidade
- disse o professor, o queixo tremendo de maneira a fazer
a barbicha rala tremelicar toda.
1 93
- Senhores, reverendo . . . - dizia o diretor, procurando
em vão botar panos quentes. Mas era impossível acalmá-los.
- Por dever de meu hábito devo cuidar da formação
moral-religiosa.
- Basta de fingimento ! Como se eu não soubesse que o
senhor não passa de um santo de pau oco!
- Considero indigno da minha pessoa ficar aqui discutindo
com o senhor - proferiu o padre, ofendido com as últimas
palavras de Smokóvnikov, principalmente porque sabia
que ele estava certo. O padre Mikhail havia freqüentado todo
o curso de teologia, portanto havia muito que não acreditava
nas próprias confissões e pregações, e acreditava apenas que todas
as pessoas deviam obrigar-se a acreditar no que ele mesmo
se obrigava a acreditar.
Smokóvnikov ficou menos indignado com o comportamento
do professor de catecismo do que com o fato de ver
nele uma boa ilustração da influência clerical que começava a
se impor à sociedade, e contava a todos o ocorrido.
Por sua vez, vendo no incidente a manifestação do niilismo
e do ateísmo que se afirmavam não só na nova como
também na velha geração, o padre Vvedienski se convencia cada
vez mais da necessidade de lutar contra isso. Quanto mais
condenava o ateísmo de Smokóvnikov e seus semelhantes,
mais ele se convencia de que sua fé era sólida e inabalável, e
menos sentia necessidade de pô-la à prova ou aj ustá-la à sua
própria vida. Sua fé, que supunha reconhecida por todo o
mundo ao seu redor, era o principal instrumento de luta contra
quem a renegava.
Esses pensamentos, que lhe haviam brotado do confronto
com Smokóvnikov, aliados aos aborrecimentos que no gi-
1 94
násio decorreram de tal confronto - a bem dizer, a censura e
a repreensão recebidas do diretor -, fizeram-no aceitar algo
que há muito tempo, desde a morte da mulher, vinha seduzindo-
o : dedicar-se à vida monástica e escolher a mesma carreira
seguida por alguns de seus companheiros da Academia Teológica,
um dos quais já era prelado e outro, arquimandrita à espera
de vaga de bispo.
No final do ano letivo,Vvedienski abandonou o ginásio
e tomou o hábito de monge sob o nome de Missail, logo conquistando
a vaga de reitor no Seminário de uma cidade às
margens do Volga.
XIII
Enquanto isso, Vassili, o zelador, seguia na estrada real
para o sul.
De dia viaj ava, e algum dessiátski1 7 indicava-lhe um albergue
para passar a noite. Por toda parte lhe davam pão, e vez
por outra era convidado à mesa para j antar. Numa aldeia da
província de Orlovski, onde passava a noite, disseram-lhe que
um comerciante, que arrendara o pomar de um proprietário
de terras, procurava vigias j ovens . Cansado de mendigar e sem
vontade de voltar para casa, Vassili rumou para lá, arrumando
emprego de vigia por cinco rublos ao mês .
Achou muito agradável a vida que levava em sua tenda,
especialmente quando as maçãs tenras e doces começavam a
17 Funcionário eleito, oriundo do meio camponês, que exercia funções policiais
na Rússia czarista (N. T. ) .
1 95
amadurecer, e VIgIaS traziam do telheiro senhorial enormes
feixes de palha fresca que tiravam debaixo das debulhadoras .
Passava ali o dia inteiro, deitado naquela palha fresca e cheirosa,
ao lado de montes de maçãs ainda mais cheirosas, derrubadas
pelo vento na primavera e no inverno, ficava de olho para
ver se não apareciam meninos querendo apanhar maçãs, assobiava
e cantarolava. E que mestre do canto ! Tinha boa voz . Da
aldeia, apareciam mulheres e mocinhas que vinham atrás das
maçãs . Vassili esbanj ava gracejos, dependendo de como essa ou
aquela lhe agradasse, trocava mais ou menos maçãs por ovos ou
alguns copeques, e lá ia ele outra vez estirar-se sobre a palha:
era só sair para o desj ej um, o almoço, o j antar.
Tinha uma só camisa, de chita cor-de-rosa, toda furada,
nada para calçar, mas o corpo era forte, saudável e, quando retiravam
do fogo a panela com mingau, comia por três, para admiração
de um velho vigia. À noite, Vassili não dormia, ora se
punha a assobiar, ora a gritar, e via longe feito gato na escuridão.
Certa vez, uns meninos crescidos vieram da aldeia para sacudir
as macieiras . Vassili aproximou-se de mansinho e se atirou
sobre os garotos; estes tentaram escapar, mas, depois de
distribuir socos e pontapés a torto e a direito, o vigia agarrou
um deles, levou-o à sua tenda e o entregou ao patrão.
A primeira tenda de Vassili ficava no pomar distante, mas
a segunda, para a qual se mudara à época da colheita, ficava a
quarenta passos da casa senhorial. E nessa nova tenda Vassili estava
ainda mais alegre. Passava o dia todo assistindo ao patrão e
à mulher que se divertiam, saíam para esquiar, para caminhadas,
à tardinha e à noite tocavam piano, violino, cantavam, dançavam.
Via os patrões sentados à j anela com os filhos estudantes,
trocando carinhos e depois saindo sozinhos a passear sob as
1 96
aléias de tílias escuras, onde o luar penetrava apenas em nesgas
e réstias . Via os criados correndo para lá e para cá com comes e
bebes, e cozinheiros, lavadeiras, feitores, j ardineiros, cocheiro,
todos trabalhando com o único obj etivo de alimentar, saciar e
divertir os patrões . Às vezes, j ovens senhores passavam para vêlo
em sua tenda e Vassili escolhia a dedo as maçãs, oferecendolhes
as melhores, as mais vermelhas e as mais suculentas que encontrava,
e as j ovens damas as mordiam ali mesmo estalando a
língua e tecendo elogios, falando algumas palavras em francês -
Vassili entendia que falavam dele -, e o obrigavam a cantar.
Vassili adorava aquele tipo de vida, lembrava-se da vida
que levava em Moscou, e a idéia de que tudo se resumia a dinheiro,
cravava-se cada vez mais em sua cabeça.
E Vassili não parava de pensar no que fazer para logo botar
as mãos em mais dinheiro. Começou a lembrar-se do que
fazia antes e resolveu que não devia agir daquela forma, que
não devia, como antes, apoderar-se do que estava mal guardado,
mas planej ar de antemão, achar e fazer um serviço limpo,
para não deixar nenhuma pista. Às vésperas do Natal, foram
colhidas as últimas maçãs antônovka. 18 O patrão tirou bom proveito,
pagou e agradeceu a todos , a Vassili também.
Vassili vestiu-se - o j ovem senhor lhe dera de presente
uma jaqueta e um chapéu - mas não rumou para casa, sentia nojo
só em pensar na vida rude de mujique que o aguardava, voltou
para Moscou com alguns soldados beberrões, que também
haviam vigiado o pomar. Lá chegando, resolveu arrombar à noite
e assaltar a mesma loj a na qual trabalhara e morara e cuj o
dono o havia espancado e mandado embora sem pagamento.
1 8 Maçã de sabor ácido e adocicado (N. T.) .
1 97
Conhecia todas as entradas e saídas e sabia onde o dinheiro ficava
guardado, deixou um soldadinho de guarda do lado de fora,
arrombou a j anela do pátio, penetrou na loj a e pegou todo
o dinheiro. A coisa foi feita com arte, nenhuma pista foi encontrada.
Eram trezentos e setenta rublos.Vassili entregou cem para
o comparsa e o restante levou consigo para uma outra cidade,
onde caiu na farra j unto aos companheiros e companheiras .
XIV
Entrementes , Ivan Mirónov tornara-se um ladrão de cavalos
astuto, audacioso e bem sucedido. Se antes Afimia, sua
mulher, censurava-o pelas más ações, como ela mesma costumava
dizer, agora vivia satisfeita, com orgulho do marido, que
andava de sobrecasaca de pele forrada e dera a ela um grande
lenço floreado e um casaco de pele novo.
Da aldeia ao distrito, todos sabiam que qualquer roubo
de cavalo levava a marca de Ivan Mirónov, mas tinham medo
de provar sua culpa e, quando acontecia de suspeitarem, ele saía
sempre inocentado, limpo. Sua última façanha se dera no pasto
noturno de Kolotovka. Sempre que podia, Ivan escolhia suas
vítimas , dando preferência a latifundiários e comerciantes .
Contudo, era mais dificil roubar dessa gente. Por esse motivo,
quando não tinha como roubar desses, roubava camponeses
mesmo. E foi o que aconteceu em Kolotovka, no pasto noturno,
de onde levou os cavalos que encontrou pela frente. Quem
fez o serviço não foi ele próprio mas Guerássim, um rapazinho
esperto com quem fechara um trato. Os mujiques só deram pela
falta dos cavalos na manhã seguinte bem cedo, e saíram pela
1 9 8
estrada a procurá-los . Mas os cavalos haviam sido escondidos
num barranco de um bosque do Estado. Ivan Mirónov pretendia
mantê-los ali até a noite seguinte, e depois levá-los à casa
de um zelador conhecido, quarenta verstas adiante. Passou pelo
bosque para ver Guerássim e levar-lhe pastelão e vodca, retornando
por um atalho, onde não esperava encontrar ninguém.
Para azar dele, deparou com um soldado de guarda.
- Procurando cogumelos? - perguntou o soldado.
- Só que agora não tem nada - respondeu Ivan Mirónov,
mostrando o cesto que, por via das dúvidas, levava consigo.
- É, o verão está ruim pra cogumelos - retrucou o soldado
e continuou andando.
O soldado percebeu que tinha coisa ali . Não havia nenhum
motivo para Ivan Mirónov andar pelo bosque público
àquela hora da manhã. O guarda voltou para o local da conversa
e ficou por ali, vasculhando. Perto do barranco, escutou
o bufo de um cavalo e foi andando de mansinho na direção de
onde partira o som. O barranco estava pisoteado e coberto
com esterco de cavalo. Mais adiante estavam Guerássim, sentado,
comendo alguma coisa, e dois cavalos amarrados a uma
árvore.
O guarda correu para a aldeia e trouxe o estaroste, o 50t5-
ki e duas testemunhas . Cercando o local por três lados, aproximaram-
se do rapaz e o surpreenderam. Gueraska19 nem se deu
ao trabalho de negar o roubo, bêbado que estava, confessando
tintim por tintim. Contou que Ivan Mirónov o enchera de bebida,
convencera-o a fazer o serviço e prometera voltar ao bosque
naquele mesmo dia para buscar os cavalos. Os muj iques
19 Diminutivo de Guerássim (N. T. ) .
1 99
armaram uma cilada e, deixando os cavalos e Guerássim onde
estavam, ficaram à espera de Mirónov. Ao cair da noite, ouviuse
um assobio. Guerássim respondeu. Mal Ivan Mirónov começou
a descer o barranco, os homens atiraram-se sobre ele e
o levaram para a aldeia. Na manhã seguinte, uma multidão
reunia-se ao redor da isbá do estaroste. Levaram Ivan para fora
e puseram-se a interrogá-lo. Stiepan Pielaguiêiuchkin, mujique
alto, encurvado, braços compridos, nariz aquilino e rosto
sombrio, foi o primeiro. Mujique solitário, Stiepan fizera o serviço
militar obrigatório havia pouco, mudara-se da casa do pai
e começara a levar vida própria, e aí roubaram o seu cavalo.
D epois trabalhou um ano nas minas e comprou mais dois cavalos
. Eles também foram roubados .
- Diz onde estão meus cavalos! - pôs-se a interrogar
Stiepan, sombrio, pálido de raiva, fitando ora a terra, ora o rosto
de Ivan.
Ivan Mirónov não abria a boca. Stiepan deu-lhe um bofetão
na cara e quebrou-lhe o nariz, de onde o sangue escorreu.
- Vai falando, senão te mato !
Ivan Mirónov inclinava a cabeça, calado. Stiepan bateulhe
com a mão comprida uma vez e outras mais . Ivan permanecia
calado, limitando-se a virar a cabeça ora para um lado,
ora para outro.
- Que batam todos! - gritou o estaroste.
E foi o que fizeram. Ivan caiu e por fim gritou:
- Bárbaros, demônios, podem me bater até matar. Eu
não tenho medo de vocês.
Foi então que Stiepan agarrou uma pedra de uma pilha
a seu lado e quebrou-lhe a cabeça.
200
xv
Os assassinos de Ivan Mirónov foram j ulgados. Stiepan
Pielaguiêiuchkin estava entre eles . Sua pena foi mais severa
que a dos outros, depois que todas as testemunhas confirmaram
ter sido ele a quebrar a cabeça do ladrão de cavalos. Sem
nada esconder, Stiepan explicou que, depois que levaram sua
última parelha, ele dera parte à p olícia do distrito, que podia
ter descoberto as pistas através dos ciganos , mas o stanovói não
quis nem recebê-lo e muito menos dar-se ao trabalho de procurá-
los .
- O que é que a gente faz com um tipo desses? Ele nos
arruInou.
- E por que foi logo o senhor a bater e não os outros?
- retrucou o promotor.
- Isso não é verdade, foi todo mundo, foi o mir20 que resolveu
acabar com ele. Eu só acabei de matar. Pra que torturar
o homem sem necessidade?
O j uiz surpreendeu-se com a expressão de absoluta
tranqüilidade de Stiepan ao relatar o ato, como haviam espancado
Mirónov e como ele mesmo acabara de matá-lo.
De fato, Stiepan não vira nada de espantoso no assassinato.
Durante o serviço militar fora obrigado a fuzilar um soldado,
e tanto naquela ocasião quanto no assassinato de Ivan
Mirónov nada viu de espantoso. Matou, está morto. Hoj e foi a
vez dele, amanhã pode ser a minha.
D eram-lhe uma pena leve, um ano de prisão. No depósito
da prisão para a qual Stiepan foi levado, fizeram-no tirar as
20 Comunidade rural (N. T.) .
20 1
roupas de mujique, deram-lhe um número, roupão e calçados
de prisioneiro.
Ele já não tinha o menor respeito por autoridades , e
agora estava plenamente convencido de que todas as autoridades,
todos aqueles senhores respeitáveis - todos, exceto o czar,
que era o único a ter pena do povo e a ser j usto para com este
- eram bandidos que só faziam sugar o sangue das pessoas
simples. Os casos narrados por deportados e galés, com os
quais convivia na prisão, consolidaram essa convicção. Um deles
fora enviado a trabalhos forçados porque denunciara uma
autoridade por roubo, outro, porque batera em uma autoridade
quando esta embargava ilegalmente os bens de um camponês,
um terceiro, porque falsificara uma nota promissória. Os
senhores, os comerciantes, por mais que fizessem, sempre saíam
ilesos, enquanto os pobres dos muj iques por qualquer coisinha
eram j ogados nas prisões para serem comidos pelas pulgas .
A mulher o visitava na prisão. Já ia mal com ele foragido,
agora estava pior ainda e totalmente arruinada, tinha de sair
com as crianças para pedir esmolas . A infelicidade da mulher
deixava Stiepan ainda mais enfurecido. Vivia com raiva de todo
mundo na prisão, e certa vez por um triz não matou a machadadas
o cozinheiro, pelo que teve sua pena elevada em mais
um ano. No decorrer deste último soube que a mulher morrera
e que sua casa não existia mais . . .
Ao final da pena, Stiepan foi chamado ao depósito, onde
retiraram de um pau as roupas de mujique que ele vestia ao
chegar e as devolveram.
- E pra onde é que eu vou agora? - dizia ele ao quarteleiro.
- Não tenho mais casa. Vou ter de pegar a estrada, saquear
as pessoas.
202
- Se fizer isso, volta pra cá.
- É, pode ser.
E Stiepan foi-se embora. Apesar de tudo, rumou para
casa. Não tinha mesmo para onde ir.
No caminho, resolveu pernoitar numa hospedaria e botequim
de um conhecido.
Cuidava do lugar um pequeno-burguês gorducho da cidade
de Vladímir, conhecido de Stiepan. Sabia que ele fora
preso por desgraça e o deixou passar a noite em sua casa. O
pequeno-burguês era homem abastado, raptara a mulher de
um mujique das vizinhanças e a mantinha como esposa e empregada.
Stiepan conhecia toda a história: como o estalajadeiro
ofendera o mujique e como aquela sirigaita indecente havia
deixado o marido e agora estava ali, gorda e suada, tomando
chá e servindo Stiepan por caridade. Estavam sem hóspedes .
Deixaram-no dormir na cozinha. Matriona aj eitou tudo e foi
para o quarto. Stiepan deitou-se no forno, mas não conseguiu
dormir, os cavacos de carvão estalavam ao menor movimento.
A pança avantaj ada do estalaj adeiro, pendendo-lhe da cintura,
coberta por uma camisa de chita que de tanto lavar estava toda
desbotada, não saía da cabeça de Stiepan. O tempo todo
imaginava-se metendo a faca naquela pança e botando-lhe as
tripas para fora. O mesmo acontecia ao pensar na sirigaita. Ora
dizia a si mesmo "Ao diabo com eles , vou-me embora amanhã
mesmo " , ora se lembrava de Ivan Mirónov e voltava-lhe à cabeça
a pança do estalajadeiro e a garganta branca, suada, de
Matriona. Se é para matar, que sej am logo os dois . O galo cantou
pela segunda vez. Se é para fazer, que sej a agora, antes que
amanheça. Na noite anterior, havia reparado onde estavam
203
guardadas a faca e a machadinha. Deslizou do forno, muniu-se
da machadinha, da faca, e deixou a cozinha. No exato instante
em que passava para o outro cômodo, ouviu um estalido no
ferrolho da porta do outro lado. O estalaj adeiro saía do quarto.
Não fez como planej ara. D esistiu da faca e empunhou a
machadinha, partindo-lhe a cabeça. O pequeno-burguês desabou
sobre a soleira e no chão.
Stiepan entrou no quarto. Matriona ergueu-se num pulo
e permaneceu de camisola j unto à cama. Stiepan a matou
com a mesma machadinha. D epois acendeu uma vela, retirou
o dinheiro da escrivaninha e saiu.
XVI
Na cidade provincial, distante de outras edificações, vivia
um velho b êbado, antigo funcionário, com duas filhas e
um genro. A filha casada também bebia e levava uma vida
ruim, e a mais velha, Mária Semiónovna, viúva, beirando os
cinqüenta, magra e cheia de rugas, sustentava a todos sozinha
com sua pensão de duzentos e cinqüenta rublos . Com esse dinheiro
alimentava a família inteira. Fazia todo o serviço da casa.
Cuidava do velho pai doente, fraco e beberrão, do filhinho
da irmã, cozinhava e lavava. Como sempre acontece nesses casos,
tudo recaía sobre ela, os três a xingavam e o genro chegava
até a bater-lhe quando estava bêbado. Suportava tudo calada,
submissa e, como também sempre acontece, quanto mais
tarefas tinha a executar, mais tempo arrumava . Ainda se privava
para ajudar os pobres, distribuía suas roupas e ajudava a cuidar
de doentes .
204
Certa feita, contratou os serviços de um alfaiate de aldeia,
perneta. Este reformou uma podiovka do velho e forrou
uma peliça curta de lã que serviria para Mária Semiónovna ir
ao mercado no inverno.
O alfaiate coxo era um homem inteligente e observador,
que, devido à profissão, vivia em contato com pessoas as
mais variadas e, pelo fato de ser coxo, passava a maior parte do
tempo sentado, adquirindo pendor para a reflexão. Convivendo
uma semana sob o mesmo teto com Mária Serniónovna,
não cansava de admirar a vida que esta levava. Certo dia ela foi
lavar algumas toalhas na cozinha onde ele costumava, e os dois
puseram-se a conversar sobre a vida dele, como o irmão o
ofendia e como ele se separara dele.
- Eu achei que ia ser melhor, mas é tudo a mesma coisa,
é a necessidade.
- Melhor mesmo é não mudar, viver do j eito que se vive.
- O que mais me admira em você, Mária Serniónovna,
é o j eito como você está sempre dando conta de tudo e de todos
sozinha. Mas retribuição que é bom . . .
Mária Serniónovna permaneceu calada.
-Você deve ter lido nos livr􀍍s que a recompensa está no
outro mundo.
- Isso não se sabe, - disse Mária Serniónovna - só se sabe
que é melhor viver assim.
- É isso o que os livros dizem?
- É isso o que os livros dizem - confirmou ela, lendo
para ele, em seguida, o Sermão da Montanha do Evangelho. O
alfaiate coxo ficou pensativo. D epois que acertou as contas e
voltou para casa, continuou a pensar no que vira na casa de
Mária Serniónovna e no que ela lhe dissera e lera.
2 0 5
XVII
Piotr Nicoláitch mudou de atitude com os mujiques e
os mujiques mudaram de atitude com ele. Em menos de um
ano, derrubaram vinte e sete carvalhos e reduziram a cinzas
um telheiro p ouco seguro e a eira recoberta da propriedade.
Piotr Nicoláitch decidiu que era impraticável a convivência
com os mujiques locais .
Por essa época, os Livientsov estavam à procura de um
administrador para suas terras, e o chefe do ziêmstvo recomendou-
lhes Piotr Nicoláitch como o melhor da região. As fazendas
dos Livientsov, imensas , não lhes rendiam nada, e os
camponeses se aproveitavam de tudo. Piotr Nicoláitch encarregou-
se de deixar tudo em ordem, arrendou sua fazenda e mudou-
se com a mulher para uma distante província do Volga.
Piotr Nicoláievitch sempre apreciara a ordem e a observância
das leis, e agora é que não podia admitir que aquela
gente rude e selvagem desrespeitasse a lei e se apropriasse de
bens que não lhe pertenciam. Sentiu-se feliz com a possibilidade
de ensinar aquela gente e lançou-se com todo o rigor à
tarefa. Levou um camponês à prisão por furto de madeira, espancou
um outro com as próprias mãos porque este não lhe
dera passagem nem lhe tirara o chap éu na estrada. Quanto aos
prados em litígio, dos quais os camponeses j ulgavam ter a posse,
Piotr Nicoláitch declarou que, se soltassem seus animais ali,
seriam todos confiscados.
A primavera chegou e, como sempre faziam nos anos
anteriores, os camponeses soltaram o gado nos prados senhoriais.
Piotr Nicoláitch reuniu seus empregados e ordenou-lhes
que tocassem o gado para o curral senhorial. Os mujiques es-
206
tavam na lavoura e, apesar dos gritos de protesto das mulheres,
os empregados encurralaram o gado. Ao retornarem do trabalho,
os camponeses dirigiram-se em bando ao curral para reclamar
o gado. Piotr Nicoláitch caminhou até eles com a espingarda
pendurada no ombro (acabara de voltar da ronda) e
declarou que só iria devolver o gado mediante o pagamento
de cinqüenta copeques pelos bois e dez pelas ovelhas . Os mujiques
começaram a gritar que o prado lhes pertencia, que antes
pertencera a seus avós e a seus pais e que não existia esse
direito de se apossar do gado alheio.
- Devolva o gado senão a coisa vai ficar ruim - disse um
velho, investindo contra Svientitski .
- E o que é que vai acontecer de ruim? - berrou o administrador,
pálido, avançando para o velho.
- Devolva, pra evitar desgraça. Vigarista!
- O quê? - esbravejou Piotr Nicoláitch, esbofeteando o
mUJlque.
- Você não vai se atrever a brigar. Meninos, peguem o
gado no muque.
A multidão avançou. Piotr Nicoláitch queria escapar,
mas foi impedido. Tentou abrir caminho. A espingarda disparou,
matando um dos camponeses . Seguiu-se uma briga violenta.
Aniquilaram Piotr Nicoláitch. Cinco minutos depois,
carregaram o corpo deformado para uma ravina.
Levaram os assassinos à corte marcial, e dois deles foram
condenados à forca.
207
XVIII
No povoado onde morava o alfaiate, cinco camponeses
abastados arrendaram de um latifundiário, por trezentos rublos,
cento e cinco hectares de uma terra fértil, negra como breu, e
os lotearam para os mujiques, a uns por dezoito, a outros por
quinze rublos . Nenhum lote saiu por menos de doze rublos . De
sorte que o lucro foi bom. Os próprios arrendatários tomaram
para si cinco hectares, que nada lhes custaram. Com a morte de
um deles, propuseram sociedade ao alfaiate coxo.
Quando os arrendatários começaram a partilha, o alfaiate
não aceitou a vodca que lhe ofereciam e, na hora de discutir
quem ficaria com quanta terra, sugeriu que tudo deveria ser
dividido em partes iguais, ninguém deveria ficar com mais do
que lhe era devido.
- Como assim?
- Então não somos cristãos? Isso pode dar certo lá entre
os poderosos, mas nós somos camponeses . D evemos seguir
a palavra de D eus. Assim é a lei de Cristo.
- E onde estão esses ensinamentos?
- Ora, no livro, no Evangelho. No próximo domingo,
venham à minha casa, eu leio para vocês e aí conversaremos .
No domingo não foram todos, mas apenas três à casa do
alfaiate, que leu para eles cinco capítulos de Mateus . Em seguida,
puseram-se a interpretá-los . Todos escutavam, mas apenas
um, Ivan T chúiev, acolheu aquelas palavras . Tanto acolheu, que
seguiu os ensinamentos à risca. Da mesma forma procedeu sua
família. T chúiev abdicou da terra excedente, ficando apenas
com o lote que lhe cabia.
E as pessoas passaram a freqüentar a casa do alfaiate e de
208
Ivan, e começaram a compreender, e compreenderam, e abandonaram
o fumo, a bebida, deixaram desse destratar com palavras
inj uriosas, ajudavam-se uns aos outros. E pararam de ir à
igrej a e devolveram os Ícones aos popes . E dezessete casas foram
erguidas . Sessenta e cinco almas ao todo. E o sacerdote local
ficou apavorado e informou o prelado. O prelado pensou
no que fazer e decidiu enviar ao povoado o arquimandrita
Missáil, que ensinara catecismo no ginásio.
XIX
O prelado fez Missail sentar-se e o colocou a par das
novidades que estavam ocorrendo em sua eparquia.
- Tudo vem da fraqueza de espírito e da ignorância. Tu
és um homem estudado. Confio em ti . Vai lá, convoca o rebanho
e esclarece-o.
- Com a bênção do Monsenhor, não pouparei esforços
- disse o padre Missail. Estava feliz com a incumbência. Alegrava-
se sempre que surgia uma oportunidade de demonstrar
sua fé . Ao converter os outros, mais se convencia desta fé .
- Não poupa esforços, ando sofrendo muito com o meu
rebanho - disse o prelado, ao receber sem pressa, com as mãos
brancas e gorduchas, a xícara de chá oferecida pelo acólito.
- Como, só um tipo de geléia? Traga outro ! - o prelado
dirigiu-se ao acólito. - Para mim é muito doloroso - continuando
sua preleção ao padre.
Missail estava feliz em poder mostrar serviço. Mas como
não era pessoa abastada, solicitou uma verba para as despesas de
viagem, além de ordens do governador para que, em caso de
209
necessidade, a polícia local lhe prestasse assistência, pois receava
a resistência daquela gente rude.
O prelado arranj ou tudo, e Missail, com a aj uda do acólito
e da cozinheira, encaixotou bebidas e mantimentos - provisões
indispensáveis em viagens para um lugar ermo - e rumou
para o local designado. Ao partir para sua missão, o padre
experimentou a agradável sensação de importância que seu
culto iria desempenhar e, mais do que isso, do fim de quaisquer
dúvidas quanto a sua fé - ao contrário, experimentou a
total certeza de sua autenticidade.
Seus pensamentos não estavam voltados para a essência
da fé - que ele considerava um axioma -, mas para a refutação
das obj eções que se faziam às suas formas externas .
xx
No povoado, o sacerdote e a mulher receberam Missail
com grandes honras, e no dia seguinte reuniram o povo na
igreja. De batina nova, de seda, uma cruz sobre o peito e os cabelos
bem penteados, Missail subiu ao altar, ao seu lado postou-
se o sacerdote, a distância ficaram os sacristãos e coristas , e
os soldados nas portas laterais. Os sectários chegaram em seguida,
em suas peliças curtas , grosseiras , imundas . Após o Te
Deum, Missail leu a prédica, exortando aqueles que se afastavam
a retornarem ao seio da Madre Igreja, ameaçando-os com
o fogo do inferno e prometendo inteiro perdão aos que se arrependessem.
Os sectários permaneciam calados. Mas ao serem questionados,
responderam. À pergunta sobre o porquê de se terem
2 1 0
afastado da igreja, responderam que lá se reverenciavam deuses
de madeira criados pelo homem, ao passo que nas escrituras
esse tipo de reverência não só não existia, como se pregava o
oposto nas profecias . Quando Missail perguntou a Tchúiev se
era verdade que haviam chamado os santos ícones de tábuas,
este respondeu: "É só tu virares qualquer ícone ao contrário, e
verás ." Quando lhes perguntaram por que não reconheciam o
sacerdócio, responderam que nas escrituras lia-se: "De graça
recebes, de graça retribuís " , mas os popes só distribuíam a
bem-aventurança por dinheiro. Todas as tentativas de Missail
de apoiar-se nas escrituras sagradas, o alfaiate e Tchúiev refutavam-
nas com serenidade e firmeza, referindo-se às mesmas
escrituras , que conheciam solidamente. Missail se irritou e os
ameaçou com os poderes seculares. A isto os sectantes responderam
com o que estava escrito : "Perseguiram-me, e vós também
sereis perseguidos ."
Nada aconteceria e tudo correria bem, mas na missa do
dia seguinte Missail fez o sermão sobre o mal representado pelos
corruptores, dizendo que mereciam toda a sorte de castigos,
e as pessoas que saíam da igrej a começaram a discutir como poderiam
dar uma lição aos ateus, para que não tentassem sublevar
o povo. E, nesse mesmo dia, enquanto Missail beliscava salmão
e trutas em companhia do pároco e de um inspetor que
viera da cidade, no povoado armava-se um tumulto. Ortodoxos
apinhavam-se frente à isbá de Tchúiev e esperavam que os sectários
saíssem para espancá-los . Os sectários eram uns vinte, entre
homens e mulheres. O sermão de Missail, somado à multidão
e seu vozerio ameaçador, provocavam nos sectários um
sentimento de raiva que antes não existia. Caiu a tarde, hora em
que as camponesas costumavam ordenhar as vacas, mas os or-
2 1 1
todoxos ainda estavam lá fora esperando, espancaram um j ovem
que ia sair, mandando-o de volta à isbá. Os sectários conversavam
sobre o que fazer, mas não entravam em acordo.
O alfaiate dizia: "Temos de suportar, não devemos resistir"
. Tchúiev, por outro lado, retrucava que se suportassem tudo,
seriam todos massacrados, e muniu-se de um atiçador para
deixar a isbá. Os ortodoxos atiraram-se sobre ele.
- Então é isso o que querem? Que se cumpram as leis
de Moisés! - gritou ele e começou a bater com o atiçador nos
ortodoxos, vazando o olho de um deles, e os demais se precipitaram
da isbá para suas casas .
Tchúiev foi j ulgado por corrupção e blasremia, e condenado
ao exílio.
Já o padre Missail recebeu recompensa e foi nomeado
arquimandrita.
XXI
D ois anos antes do incidente, chegara a Petersburgo para
prosseguir os estudos a bela Turtchanínova, moça saudável,
de traços orientais, das terras do Exército do Don. Lá conheceu
o estudante Tiúrin, filho de um chefe de zíêmstvo da província
de Simbirski, e sentiu amor por ele, mas não o amou
com o amor comum às mulheres, expresso no desej o de ser esposa
e mãe dos filhos dele, mas com um amor de companheira
alimentado sobretudo por uma mesma revolta e ódio tanto
à ordem social estabelecida como às pessoas que a representavam,
e pela consciência da superioridade intelectual, cultural e
moral que detinham sobre essas pessoas.
2 1 2
Exímia nos estudo s , Turtchanínova gravava as lições
num piscar de olhos, passava nos exames, além de devorar os
livros mais recentes em grande quantidade. Estava certa de que
sua vocação não era dar à luz e educar filhos - via isso até com
noj o e desprezo -, mas destruir aquela ordem estabelecida que
tolhia as melhores potencialidades do povo, e mostrar às pessoas
o novo caminho para a vida que os mais modernos escritores
europeus lhe indicavam. Corpo roliço, pele alva, corada,
bonita, olhos negros brilhantes e enormes tranças igualmente
negras, despertava nos homens sentimentos que não desej ava
e nem mesmo poderia partilhar, absorvida que estava pelo trabalho
de agitar e discutir. No entanto, achava agradável provocar
tais sentimentos, e por isso, mesmo não se enfeitando,
não descuidava da aparência. Agradava-lhe o fato de gostarem
dela, mas para efeitos práticos queria mostrar como desprezava
o que outras mulheres valorizavam. Em suas concepções
sobre os meios de luta contra a ordem estabelecida ia mais
longe que seus companheiros e seu amigo Tiúrin e, admitia
que, na luta, são bons e aplicáveis todos os meios, até mesmo
o assassinato. Entretanto, essa mesma revolucionária, Kátia
Turtchanínova, era uma mulher abnegada, de bom coração,
sempre preferia claramente o prazer, o bem-estar e a vantagem
dos outros ao próprio prazer, ao próprio bem-estar, à própria
vantagem, sempre nutria alegria autêntica com a possibilidade
de fazer alguma coisa agradável a algum vivente : criança, velho
ou animal.
Turtchanínova passava o verão em casa de uma amiga,
professora rural, numa cidadezinha de concelho no Volga. No
mesmo concelho estava Tiúrin passando férias na casa do pai. Os
três se reuniam freqüentemente com o médico local, trocavam
2 1 3
livros, discutiam e enchiam-se de revolta. A fazenda dos Tiúrin
ficava ao lado da dos Livientsov, onde Piotr Nicoláitch havia-se
empregado como administrador. Mal chegou, Svientitski começou
a pôr ordem em tudo e o j ovem Tiúrin, identificando nos
camponeses dos Livientsov o espírito independente e a firme
intenção de defender seus direitos, tomou-se de interesse e passou
a ir com freqüência à aldeia conversar com os mujiques, fomentando
entre eles a teoria socialista em geral e a idéia da nacionalização
da terra em particular.
Quando ocorreu o assassinato de Piotr Nicoláitch e instalou-
se o tribunal, o círculo revolucionário do concelho obteve
um sólido pretexto para indignar-se com o j ulgamento e
manifestar sua revolta de maneira audaciosa. As idas de Tiúrin
à aldeia para conversar com os camponeses foram levadas ao
tribunal. Fizeram uma busca na casa do rapaz, apreenderam algumas
brochuras de conteúdo revolucionário, prenderam-no e
o enviaram a Petersburgo.
Turtchanínova viaj ou para Petersburgo logo em seguida
e tentou visitá-lo na prisão, mas não permitiram sua entrada
em dia comum, mas tão-somente no dia de visitas coletivas
, quando pôde vê-lo ap enas por trás das grade s . Isso
aumentou sua revolta. Mas o que levou essa revolta ao limite
mais extremo foi a conversa que teve com um belo oficial
gendarme, que parecia disposto a ser condescendente se ela
aceitasse uma proposta dele. O ódio e a indignação com todos
os representantes do p o der chegaram ao limite máximo.
Queixou-se ao chefe de polícia. Este lhe disse o mesmo que
lhe dissera o gendarme, que eles nada podiam fazer e que para
o caso havia uma deliberação do ministro. Turtchanínova
apresentou uma petição ao ministro, solicitando uma entrevis-
2 1 4
ta, que lhe foi negada. D ecidiu-se, então, por um gesto desesperado
e comprou um revólver.
XXII
o ministro recebia em seu gabinete, no horário habitual.
Esquivara-se de três peticionários, conversara com o governador e
aproximou-se de uma bela jovem em traje preto, olhos negros, em
pé com um papel na mão esquerda. Uma chama de volúpia e ternura
ardeu nos olhos do ministro ante a visão da bela peticionária,
mas assumiu um ar de seriedade ao lembrar-se da sua condição.
- Em que posso servi-la? - disse, aproximando-se dela.
Sem responder, ela rapidamente livrou da pelerine a
mao que segurava o revólver, mirou-lhe o peito e disparou,
mas errou o alvo.
O ministro quis segurar-lhe mão, ela recuou e disparou
uma vez mais . Ele saiu correndo. Agarraram-na. Ela tremia, não
conseguia falar. De repente, soltou uma gargalhada histérica. O
ministro não sofreu um arranhão.
Era TurtchanÍnova. Foi levada para a casa de detenção,
em prisão preventiva. Enquanto isso, o ministro - obj eto de
congratulações e condolências das mais altas autoridades e inclusive
do próprio soberano - nomeava uma comissão para investigar
a conspiração que redundara no atentado.
A conspiração, bem entendido, não existia; mas tanto os
oficiais da polícia secreta como os da não secreta se esmeravam
na busca da mais Ínfima pista da conspiração inexistente e faziam
j us honestamente aos ordenados e soldos: já em pé de
manhã cedo, ainda escuro, davam busca após busca, transcre-
2 1 5
viam documentos, livros, liam diários, cartas pessoais, tiravam
extratos destes em excelente papel e caligrafias perfeitas, interrogavam
Turtchanínova a todo momento e faziam acareações,
com o obj etivo de arrancar dela seus cúmplices.
O ministro era no fundo um homem bondoso, e tinha
muita p ena daquela cossaca saudável e bela, porém dizia a si
mesmo que em suas costas pesavam os deveres de Estado, que
cumpria por dificeis que fossem. E quando se encontrou num
baile da corte com um antigo colega, um camarista conhecido
dos Tiúrin, e este intercedeu por Tiúrin e Turtchanínova, o
ministro deu de ombros de tal forma que enrugou a faixa vermelha
sobre o colete branco, e disse:
- Je ne demanderais pas mieux que de Iâcher cette pauvre filIette,
mais vaus savez - Ie deva ir. 2 1
Enquanto isso, Turtchanínova estava em prisão preventiva
e ora comunicava-se tranqüilamente com seus companheiros
por meio de sinais " telegráficos" e lia livros que lhe davam,
ora caía de repente em desespero e fúria, debatia-se contra a
parede, gania e gargalhava.
XXIII
Um dia, ao voltar para casa após ter ido receber a pensão
do tesouro público, Mária Semiónovna encontrou-se com
um professor conhecido.
- E então, Mária Semiónovna, recebeu a pensão ? - gritou
ele do outro lado da rua.
21 Em francês no texto original: "Eu ficaria muito feliz em soltar essa pobre
mocinha, mas o senhor sabe - é o dever" (N. T. ) .
2 1 6
- É , recebi. Mas só dá para tapar buracos.
- Quê ! O dinheiro é muito, você vai tapar os buracos e
ainda ficar com sobra! - disse o professor, despedindo-se.
- Até logo - respondeu Mária Semiónovna e, com os
olhos ainda fixos no professor, chocou-se com um homem alto,
de braços muito compridos e semblante austero.
Ao se aproximar de casa, porém, ela se surpreendeu ao
reencontrar aquele mesmo homem de braços compridos. Depois
de vê-la entrar em casa, o homem permaneceu em pé, virou-
se e foi embora.
A princípio Mária Semiónovna sentiu pavor, depois
tristeza. Mas quando entrou deu docinhos ao velho e ao pequeno
Fédia 22 - doente de escrófula -, fez festas a Trezork, que
gania de alegria, voltou a sentir-se bem, deu dinheiro ao pai e
pegou no trabalho, que nunca lhe faltava.
O homem com quem ela se chocara era Stiepan .
D epois de matar o estalaj adeiro, ele não voltara à cidade.
E, fato surpreendente, para Stiepan a lembrança daquele assassinato
não só não era desagradável como ele ainda recordava
a chacina várias vezes ao dia. Agradava-lhe pensar que podia
fazer a coisa tão bem feita, com tanta habilidade que ninguém
descobriria nem lhe impediria de repeti-la com outras pessoas .
Sentado à mesa de uma taberna e tomando chá e vodca, observava
os transeuntes com um só pensamento : de que maneira
matá-los . Passara pela casa de um conterrâneo, carroceiro,
para pernoitar. Ele havia saído. Disse que ia esperar e sentouse,
conversando com uma mulher. Quando ela voltou para o
fogão, ocorreu a Stiepan a idéia de matá-la. Surpreendeu-se,
22 Diminutivo de Fiódor (N. T. ) .
2 1 7
balançou a cabeça de si para si, tirou a faca do cano da bota,
derrubou a mulher no chão e cortou-lhe a garganta. As crianças
começaram a gritar, ele as matou e foi embora, sem pernoitar
na cidade. Entrou na taberna de uma aldeia nos arredores
da cidade e dormiu por ali mesmo.
N o dia seguinte, voltou à cidade do concelho e ouviu
na rua a conversa entre Mária Semiónovna e o professor. O
olhar da mulher o amedrontou, mas mesmo assim resolveu
entrar na casa e roubar o dinheiro que ela havia recebido. À
noite, forçou a fechadura da porta e penetrou num dos cômodos
. A primeira a ouvi-lo foi a filha mais nova, casada. Esta começou
a gritar. Stiepan a degolou sem piscar. O marido acordou
e ambos se atracaram. O homem agarrou Stiepan pelo
pescoço e eles passaram um bom temp o lutando, mas Stiepan
era mais forte. Deu cabo do marido e, exaltado, excitado com
a luta, passou para o outro lado do tabique. Lá estava Mária
Semiónovna deitada na cama. Ela soergueu-se e fitou Stiepan
com olhos assustados e submissos, fazendo o sinal da cruz.
Aquele olhar o amedrontou uma vez mais. Stiepan baixou a
cabeça.
- Cadê o dinheiro? - disse ele, sem levantar os olhos .
Ela permanecia calada.
- Cadê o dinheiro? - tornou a perguntar, apontandolhe
a faca ensangüentada.
- O que é isso, como pode? - disse ela.
- Pois posso !
Stiepan aproximou-se, pronto para segurá-la pelos braços
de modo que ela não o atrapalhasse, mas ela não levantou
os braços, não resistiu, limitou-se a apertá-los contra o peito,
dizendo ofegante :
2 1 8
- Oh, que grande pecado. O que é isso? Tenha pena de
si mesmo. Você arruína outras almas, e arruína ainda mais a
sua . . . o-oh! - gemeu ela.
Stiepan não conseguiu agüentar nem mais um minuto
aquela voz, aquele olhar, e passou-lhe a faca p ela garganta.
" Conversar com a senhora! " . Ela caiu sobre o travesseiro e resfolegou,
empapando-o de sangue. Stiepan deu-lhe as costas e
andou pelo cômodo, recolhendo obj etos . Depois de roubar o
que precisava, acendeu um cigarro, sentou-se um momento,
limpou a roupa e foi embora. Acreditava que essa chacina teria
para ele o mesmo efeito das anteriores, mas antes de chegar
à pousada sentiu de repente tamanho cansaço que não
conseguiu mover nem mais um membro do corpo. D eitou-se
num fosso e ficou estirado por lá mesmo p elo resto daquela
noite, mais o dia e a noite seguintes .
SEGUNDA PARTE
Estirado no fosso, Stiepan não cessava de ver diante de
si o rosto magro, assustado, dócil, de Mária Semiónovna, e de
ouvir-lhe as palavras: " Como pode ? " , dizia a voz única, ciciante,
queixosa. Stiepan revivia tudo o que fizera a ela. Ficou apavorado,
e fechou os olhos, e sacudiu a cabeça cabeluda tentando
expulsar tais p ensamentos e re cordações. Por instantes
livrava-se deles, mas em seu lugar lhe apareciam, primeiro, um
2 1 9
demônio, depois outro, e mais outros demônios de olhos vermelhos,
e faziam caretas, e diziam a uma só voz : "Você acabou
com ela, agora acabe com você ou não lhe daremos sossego " .
Abria o s olhos e mais uma vez via e escutava a mulher e sentia
pena dela, e noj o, e pavor de si mesmo. De novo fechava os
olhos e de novo surgiam os demônios .
Ao cair da noite seguinte, levantou-se e foi para a taberna.
A muito custo arrastou-se até lá e começou a beber. E por
mais que bebesse não conseguia embriagar-se. Estava à mesa em
silêncio, bebendo um copo atrás do outro. Entrou um policial.
- Quem é você? - perguntou-lhe este.
- Sou aquele que degolou todos ontem na casa dos
D obrotvórov. 23
Stiepan foi amarrado e enviado a uma cidade da província,
depois de o terem mantido um dia na casa do stanovóí. O
diretor da prisão reconheceu nele seu antigo preso turbulento,
agora perigoso facínora, e recebeu-o com severidade.
- Cuidado, não quero baderna aqui. À menor deixa, eu
te açoito até a morte. De mim tu não escapas - rouquejou o
diretor, franzindo o cenho e proj etando a mandíbula.
- Por que eu iria fugir? Fui eu mesmo que me entreguei
. . . - respondeu Stiepan, os olhos baixos .
- B e m , comigo não t e m conversa. E olha d e frente
quando falar com uma autoridade - gritou o diretor, e deulhe
um murro no queixo.
Naquele momento, surgiu outra vez diante de Stiepan a
figura da mulher, e ele ouviu sua voz. Não escutava o que o
diretor dizia.
23 Sobrenome derivado de dóbri, "bom" , e tvórtchestvo. " obra " , " criação" etc,
significando "praticante de boas ações" (N. T. ) .
220
- o quê? - perguntou, voltando a si ao sentir o murro
no rosto.
- Bem, vamos andando. E nada de simulações .
O diretor esperava violência, conspirações com outros
presos, tentativas de fuga. Mas nada disso aconteceu. Todas as
vezes que o guarda ou o próprio diretor espiavam pela j anelinha
da cela, Stiepan estava sentado sobre um saco cheio de
palha, a cabeça apoiada nas mãos, murmurando alguma coisa
de si para si. Nos interrogatórios do j uiz de instrução ele tampouco
se assemelhava aos outros presos: ficava distraído, não
ouvia as perguntas, e quando as entendia era tão sincero que
o j uiz, acostumado a usar da esperteza e da astúcia nas lutas
com os réus, agora experimentava algo semelhante ao que se
sente quando, no final de uma escada, levanta-se a perna no
escuro para um degrau inexistente. Testa franzida, Stiepan
contava a todos a matança da qual fora o autor, os olhos fixos
num ponto, no tom mais natural e prático, esforçando-se por
lembrar todos os detalhes . "Ele saiu descalço e parou na soleira
da porta, então eu dei o golpe e ele soltou um grunhido, aí
eu fui atrás da mulher. . ." , dizia Stiepan sobre a primeira matança
etc. Durante a visita do promotor público às celas da
prisão, perguntaram a Stiepan se ele não tinha queixas a fazer
ou se precisava de alguma coisa. Respondeu que não precisava
de nada e que não o maltratavam. Depois de dar alguns
passos pelo corredor fétido, o promotor deteve-se e perguntou
ao diretor, que o acomp anhava, como se c omp ortava
aquele detento.
- Fico admirado, - respondeu o diretor, satisfeito porque
Stiepan elogiara o tratamento que lhe estavam dando. - É
seu segundo mês conosco, conduta exemplar. Temo apenas que
22 1
ele estej a maquinando alguma COIsa. O homem é valente e
tem uma força sobre-humana.
II
No primeiro mes de prisão, Stiepan foi atormentado
sem tréguas pelas mesmas coisas : via a parede cinzenta da cela,
ouvia os sons do cárcere - um ruído surdo sob seus pés vindo
da cela coletiva, os passos do guarda pelo corredor, o tiquetaque
dos relógios, e ao mesmo tempo via a mulher - o olhar
dócil que triunfara sobre ele desde o encontro na rua, o pescoço
magro, coberto de rugas , degolado, escutava a voz meiga,
ciciando, queixosa: "Você arruína outras almas, e arruína
ainda mais a sua. Como pode? " . D epois a voz se calava e surgiam
aqueles três: os demônios negros. Surgiam de qualquer
j eito, abrisse ou fechasse os olhos . E se tornavam ainda mais nítidos
com os olhos fechados. Stiepan os abria, os demônios se
confundiam com a porta, com as paredes e sumiam pouco a
pouco para depois avançarem de três direções, fazendo caretas ,
sentenciando : "Mata-te, mata-te. Podes fazer um nó , começar
um incêndio " . Stiepan sentia um calafrio e punha-se a dizer
em voz alta as orações que conhecia: Ave Maria, Pai-Nosso, e
a princípio isso parecia acalmá-lo. Ao fazer as orações, recordava
sua vida: lembrava-se do pai, da mãe, da aldeia, do cao
Lobo, do avô trepado no forno, dos bancos de madeira nos
quais brincava com outras crianças, depois se lembrava das
moças e suas canções, e depois dos cavalos, de como haviam
sido roubados, de como capturaram o ladrão, de como ele acabou
de matá-lo com uma pedra. Lembrou-se da primeira pri-
222
são, de como saiu de lá, do estalaj adeiro gordo, da mulher do
carroceiro, das crianças, e outra vez lembrou-se dela. Sentiu
calor, deixou cair o roupão dos ombros, levantou-se da tarimba
num salto e, como animal enj aulado, começou a andar a
passos largos de um lado para o outro da cela minúscula, voltando-
se bruscamente ao atingir as paredes suadas e úmidas .
De novo fazia as orações, mas as orações já não aj udavam.
Numa das longas noites de outono, quando o vento branua
e silvava nas chaminés, Stiepan sentou-se na tarimba j á
cansado d e correr pela cela e sentiu que não podia mais lutar,
os demônios haviam vencido, rendia-se a eles. Há tempos ele
vinha observando o respiradouro da estufa. Se fizesse um laço
com um barbante fino ou uma tira de pano estreita, este não
escorregaria. Mas era preciso engenho nos arranj os . Pôs mãos
à obra e, em dois dias, preparou as tiras de pano que arrancou
do saco no qual dormia (quando entrava o guarda, Stiepan cobria
a tarimba com o roupão) . As tiras, amarrou-as com um nó
duplo para que elas suportassem o peso do corpo e não se rasgassem.
Enquanto fazia os preparativos, não se atormentava.
D epois de tudo pronto, fez o laço mortal, passou-o pelo pescoço,
subiu na cama e se enforcou. Mas no j usto momento em
que sua língua se punha de fora, as tiras se rasgaram e ele caiu.
O barulho trouxe o guarda à cela. Chamaram o enfermeiro e
o levaram ao hospital. No dia seguinte, completamente recuperado,
ao invés de voltar para a cela individual, Stiepan foi enviado
à coletiva.
Na cela coletiva ele passou a viver em companhia de
vinte homens , mas era como se estivesse sozinho, não via ninguém,
não falava com ninguém e se atormentava do mesmo
j eito. A coisa ficava sobretudo diflcil à hora em que todos dor-
223
miam e ele não conseguia conciliar o sono e continuava a ver
a mulher, a ouvir-lhe a voz; depois reapareciam os demônios
negros de olhos medonhos, a provocá-lo.
De novo, ele fazia as orações como antes, e como antes
elas não o ajudavam.
Certa vez, ela tornou a aparecer após as orações. Stiepan
pôs-se a rogar à sua alma, pedindo para deixá-lo em paz, perdoá-
lo. E quando, ao amanhec er, desp encou sobre o saco
amarrotado, adormecendo profundamente, ela lhe apareceu
em sonho, o pescoço magro, enrugado, degolado.
- Então você me perdoa?
Ela o fitou com o olhar dócil e nada respondeu .
- Perdoa?
Por três vezes ele fez a mesma pergunta. E mesmo assim
ela nada respondeu . E ele acordou . D esde então começou a se
sentir mais leve e, como se despertasse, olhou ao redor e pela
primeira vez chegou-se aos companheiros de cela e começou
a conversar.
III
Na mesma cela encontrava-se Vassili, preso outra vez por
roubo e condenado ao exílio, e Tchúiev, também condenado à
deportação. Vassili passava o tempo todo cantando canções
com uma voz magnífica ou contando suas aventuras aos companheiros.
Já Tchúiev trabalhava, fazia alguma costura de peças
do vestuário ou lia o Evangelho e os salmos.
À pergunta de Stiepan sobre o motivo da deportação,
Tchúiev explicou que estava sendo deportado por sua fé ver-
224
dadeira em Cristo e que os popes, embusteiros do espírito, não
podiam ouvir os que viviam segundo o Evangelho e os desmascaravam.
E quando Stiepan lhe perguntou em que consistiam
as leis do Evangelho,Tchúiev lhe explicou que consistiam
em reverenciar o espírito e a verdade e não orar a deuses criados
pelos homens . E contou que ele e os amigos haviam descoberto
essa fé verdadeira por intermédio de um alfaiate coxo,
durante uma partilha de terras .
- Bem, e o que acontece a quem pratica más ações? -
perguntou Stiepan.
- Tudo está dito.
E Tchúiev leu para ele :
- " Quando o filho do Homem vier na sua glória, acompanhado
de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso.
Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele
separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas
dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à
sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
'Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam
como herança o reino que meu pai lhes preparou desde a criação
do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de
comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro,
e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me
vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão,
e vocês foram me visitar.' Então os justos lhe perguntarão :
' Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer;
com sede, e te demos de beber? Quando foi que te vimos
como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos?
Quando foi que te vimos doente, ou preso e fomos te
visitar?' Então o Rei lhes responderá: 'Eu garanto a vocês: todas
225
as vezes em que vocês fizeram isso a um dos menores dos meus
irmãos, foi a mim que o fizeram' . Depois o Rei dirá aos que
estiverem à sua esquerda: 'Afastem-se de mim, malditos .vão para
o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque
eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava
com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e
vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não
me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram
visitar' . Também estes responderão : ' Senhor, quando foi
que te vimos com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou
sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?' Então o Rei
responderá a estes: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês
não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não
o fizeram. Portanto, estes irão' para o castigo eterno, enquanto
os justos irão para a vida eterna' " (Mateus 25 : 3 1 -46) .
Acocorado diante de Tchúiev e atento à leitura, Vassili
acenou com a bela cabeça, concordando.
- Certo ! - disse, resoluto. -Vós que nunca deram de comer
a ninguém, mas que se fartaram a si mesmos, vão, malditos,
para o suplício eterno. É assim que deve ser. Dê-me aqui,
vou ler um pouco, - acrescentou ele, querendo gabar-se de sua
leitura.
- É, mas será que nao vai haver perdão? - perguntou
Stiepan, baixando a cabeça cabeluda em silêncio.
- Espere, fique calado um momento - disse T chúiev a
Vassili, que não cessava de condenar os ricos que não davam de
comer aos peregrinos nem visitavam as masmorras . - Será que
você pode esperar? - repetiu T chúiev, folheando o Evangelho.
Ao encontrar o que procurava, desenrugou as páginas com a
mão grande, forte, embranquecida pelo tempo de prisão.
226
"Levavam também outros dois criminosos, j unto com
ele, para serem mortos" - começou Tchúiev. "E, depois que
chegaram ao chamado 'lugar da Caveira' , aí crucificaram Jesus
e os criminosos, um à sua direita e outro à sua esquerda. E
Jesus dizia: 'Pai, perdoa-lhes ! Eles não sabem o que estão fazendo.'
O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém
zombavam de Jesus, dizendo : 'A outros ele salvo u . Que salve
a si mesmo, se de fato é o Messias de Deus, escolhido ! ' Os
soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se e ofereciam-
lhe vinagre, e diziam: ' S e tu és o rei dos Judeus, salvate
a ti mesmo.' Acima dele havia um letreiro, escrito em grego,
latim e hebrai c o : 'Este é o rei dos j udeus .' Um dos
criminosos crucificados o insultava, dizendo : ' Não és tu o
Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.' Mas Jesus o repreendeu,
dizendo : 'Não temes a Deus, sofrendo a mesma
condenação? Para nós ela é j usta, porque estamos recebendo o
que merecemos; mas ele não fez nada de mal.' E dizia a Jesus:
Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E
acrescentou: 'Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu
reino.' Jesus respondeu : 'Eu lhe garanto : hoj e mesmo você estará
comigo no paraíso ' " (Lucas 2 3 , 32 - 43) .
Stiepan não disse uma palavra e permaneceu sentado e
pensativo, como se ouvisse o que lia Tchúiev, mas j á sem escutar
mais nada.
"Então a verdadeira fé é isso" - pensou ele. "Salvam-se
apenas os que dão de comer e beber aos pobres e visitam os
prisioneiros, e os que não fazem isso vão para o inferno. Mas
apesar de tudo o ladrão só se arrependeu na cruz, e mesmo
assim foi para o paraíso." Ele não viu aí nenhuma contradição,
ao contrário, uma coisa confirmava a outra: indo os miseri-
227
cordiosos para o céu e os incapazes de misericórdia, para o inferno,
isso significava que todos deveriam ser misericordiosos,
e que Cristo p erdoara o ladrão porque Cristo também era
misericordioso. Todas essas coisas eram inteiramente novas a
Stiepan; surpreendia-se apenas pelo fato de que até então isso
lhe havia sido oculto. E passava todo o tempo livre com
Tchúiev, fazendo-lhe perguntas e ouvindo-o. E , ao ouvir, entendia.
D esvendou-se para ele o sentido geral de toda doutrina
no ensinamento de que os homens são irmãos e devem se
amar e ter compaixão uns pelos outros, e desse modo tudo irá
bem. E, ao ouvir, assimilava, como algo esquecido e familiar,
tudo aquilo que confirmava o sentido geral dessa doutrina,
sem dar ouvidos ao que não o confirmava, atribuindo o fato
à sua incompreensão.
E desde então Stiepan tornou-se outro homem.
IV
Stiepan Pielaguiêiuchkin já antes era homem resignado,
mas nos últimos tempos ele vinha surpreendendo tanto o diretor
quanto os guardas e mesmo os companheiros, devido à
mudança nele operada. Sem que lhe ordenassem e sem ser sua
vez, fazia todos os trabalhos mais pesados, inclusive a limpeza
dos cabungos. Mas , apesar da resignação, os colegas o respeitavam
e o temiam por conhecer-lhe a firmeza e a grande força
fisica, sobretudo depois do acontecido a dois vagabundos que
o atacaram e foram rechaçados, um deles saindo de braço quebrado.
Esses vagabundos resolveram ganhar no j ogo de um j ovem
preso abastado e tomaram tudo o que o rapaz possuía.
228
Stiepan intercedeu em seu favor e tomou o dinheiro que ganharam.
Eles começaram a xingar Stiepan e depois a bater, mas
ele dominou os dois . E quando o diretor quis saber o motivo
da briga, os vagabundos afirmaram que Pielaguiêiuchkin os tinha
espancado. Stiepan não se defendeu e, submisso, aceitou o
castigo que consistia em três dias na solitária e transferência
para uma cela individual.
Para ele, a cela era penosa porque o separava de T chúiev
e do Evangelho, e além disso temia que as visões da mulher e
dos demônios voltassem. Mas as visões não voltaram. Toda a
sua alma estava plena de um novo e radiante sentido. Ele ficaria
feliz na solidão se tivesse e pudesse ler o Evangelho. O
Evangelho ele podia conseguir, mas não sabia ler.
Em menino, começara a ler e escrever à moda antiga:
asa, bola, casa, mas por ser incapaz de compreender não passou
do abecê e, como na época não houve meio de conseguir entender
as combinações de letras, permaneceu analfabeto. Agora,
porém, Stiepan havia decidido aprender a ler e pediu o
Evangelho ao guarda. O guarda trouxe o Evangelho e ele se
pôs ao trabalho. As letras ele reconhecia, mas não conseguia
combiná-las . Por mais que quebrasse a cabeça para entender
como as letras formavam palavras , não conseguia nada. Não
dormia à noite, só vivia pensando, não sentia fome, e a melancolia
se apoderou dele como um parasita, a tal ponto que ele
não tinha forças para se livrar dela.
- Como é , ainda não conseguiu? - perguntou-lhe certa
vez o guarda.
- Não.
- E o "Pai Nosso " , você sabe?
- Sei.
229
- Vej a aqui, leia. Aqui está - e o guarda mostrou-lhe o
"Pai Nosso" no Evangelho.
Stiepan iniciou a leitura, comparando as letras com os
sons conhecidos. E , de súbito, foi-lhe revelado o mistério da
formação das palavras: ele começou a ler. Foi uma grande alegria.
D esde então passou a dedicar-se à leitura, e o sentido que,
aos poucos, iam assumindo as palavras formadas com dificuldade
adquiria para ele um significado ainda maior.
A solidão não era mais um peso e sim uma alegria para
Stiepan. Estava completamente envolvido com seus afazeres e
não ficou contente quando o transferiram de volta para a cela
coletiva a fim de desocupar lugares para presos políticos recém-
chegados.
V
Agora j á não era Tchúiev, mas Stiepan quem lia o Evangelho
na cela, e enquanto alguns presos cantavam músicas obscenas,
outros ouviam a leitura de Stiepan e seus comentários
sobre o que era lido. D ois deles sempre ouviam Stiepan calados
e atentos : Makhórkin, um carrasco, homicida condenado a
trabalhos forçados, e Vassili, preso por roubo, que se encontrava
naquela prisão aguardando j ulgamento. Por duas vezes desde
a época de sua detenção Makhórkin desempenhara as funções
de carrasco, ambas as vezes tendo de viaj ar, pois não se
encontrava gente para executar as sentenças dos tribunais. Os
camponeses que mataram Piotr Nicoláitch haviam sido julgados
por um tribunal militar, e dois deles foram condenados à
morte por enforcamento.
230
Makhórkin foi requisitado à cidade de Pienza para
cumprir a função de carrasco. Antes, em ocasiões semelhantes,
ele escrevia de imediato um documento ao governador - era
instruído a tanto -, no qual declarava estar sendo enviado em
missão a Pienza para cumprir suas funções e, por essa razão, solicitava
ao chefe do governo uma verba para alimentação ; mas
agora, para surpresa do chefe da prisão, ele declarava que não
iria e que não mais executaria as funções de carrasco.
- E dos açoites, você se esqueceu? - gritou o chefe da
prisão.
- E daí, que venham os açoites, mas matar é contra a lei.
- O que é isso agora, pegou do Pielaguiêiuchkin? Achamos
um profeta na prisão ! Cuide-se !
VI
Enquanto isso, Mákhin, o ginasiano que havia aprendido
a falsificar cupons, acabara o ginásio e o curso universitário
na Faculdade de Direito. Graças ao sucesso com as mulheres,
entre as quais a antiga amante de um velho confrade do ministro,
Mákhin foi nomeado, ainda muito j ovem, j uiz de instrução.
Homem de não honrar dívidas, sedutor de mulheres,
j ogador inveterado, era porém sagaz, inteligente, de boa memória,
e sabia conduzir muito bem suas causas .
Mákhin era o j uiz de instrução no distrito onde Stiepan
Pielaguiêiuchkin estava sendo j ulgado. No primeiro interrogatório,
Stiepan já o havia surpreendido com suas respostas simples,
sinceras e tranqüilas . Sentia inconscientemente que o homem
algemado e de cabeça raspada bem à sua frente, que dois
23 1
soldados haviam trazido, vigiavam e levariam de volta para trás
das grades, sentia que aquele era um homem inteiramente livre
e moralmente superior, num nível inacessível. Por isso, ao
interrogá-lo, não cessava de se encoraj ar e estimular de modo
a não se desorientar ou confundir. Ficou pasmo com a maneira
pela qual Stiepan falava de seus atos, como de algo que se
passara havia muito tempo, não com ele, absolutamente, mas
com uma outra p essoa qualquer.
- E você não sente p ena deles? - perguntou Mákhin.
- Não, naquela época eu não compreendia.
- B em, e agora?
Stiepan sorriu tristonho.
- Agora nem que me ateassem fogo eu faria aquilo.
- Por que não?
- Porque compreendi que todos os homens são irmãos .
- Como assim, e u também s o u seu irmão?
- E como não haveria de ser? !
- Como posso ser seu irmão, se o estou condenando a
trabalhos forçados?
- Por não compreender.
- E por que é que eu não compreendo?
- Se o senhor está condenando, então não compreende.
- Bem, continuemos . D epois você foi para onde?
Mákhin ficou ainda mais pasmo quando soube pelo diretor
da ascendência de Pielaguiêiuchkin sobre o carrasc o
Makhórkin, que se recusou a cumprir com a s obrigações, arriscando-
se a ser punido.
232
VII
No sarau dos I erópkin, onde estavam presentes duas ricas
moças em idade de casar, ambas cortej adas por Mákhin,
após os cantos das romanças, nos quais o j ovem j uiz se distinguia
particularmente pela grande musicalidade - além de fazer
uma segunda voz magnífica, também fazia o acompanhamento
-, Mákhin p assou a c o ntar com muito detalhe ,
minúcia - tinha uma memória fantástica - e absoluta indiferença
o caso do estranho criminoso que convertera um carrasco.
Mákhin memorizava tão bem e era capaz de narrar
tudo porque sempre nutria absoluta indiferença p elas p essoas
com quem lidava. Ele não p enetrava nem sabia como penetrar
no estado de espírito de outras p essoas, e por isso mesmo
podia lembrar-se tão bem de tudo quanto acontecia a
elas , o que faziam, o que diziam. Entretanto, Pielaguiêiuchkin
despertara-lhe o interesse. Embora não penetrasse na alma de
Stiepan, fazia-se involuntariamente uma pergunta: o que se
passava na alma daquele homem? E sem obter resposta, mas
sentindo que havia algo de interessante, contou o caso todo
no sarau : a conversão do carrasco, os relatos do diretor acerca
do comportamento estranho de Pielaguiêiuchkin, das leituras
do Evangelho e da grande influência que exercia sobre
os companheiro s .
A história d e Mákhin deixou todos interessados, e mais
que todos Liza, filha mais nova dos Ierópkin, dezoito anos, recém-
saída da escola superior, que despertava da obscuridade e
estreiteza das condições de vida em que havia sido criada, como
se irrompesse das águas e sorvesse com paixão o hálito
fresco da vida. Ela começou a indagar de Mákhin os detalhes
233
e o porquê daquela mudança, e Mákhin contou o que ouvira
de Stiepan sobre seu último assassinato, de como a doçura, a
resignação e o destemor à morte daquela mulher muito bondosa,
sua última vítima, acabaram por vencê-lo, abriram-lhe os
olhos, e de como a leitura do Evangelho incumbira-se do
restante.
Naquela noite, Liza Ierópkina custou muito a conciliar
o sono. Já fazia alguns meses que vinha travando uma luta interior
entre a vida mundana, para a qual a arrastava a irmã, e a
paixão por Mákhin, mesclada ao desej o de corrigi-lo. Mas agora
esta última predominava. Já ouvira falar antes da mulher assassinada.
Depois daquela morte horrível, relatada por Mákhin
com as próprias palavras de Pielaguiêiuchkin, ela conheceu em
detalhes a história de Mária Semiónovna e ficou impressionada
com tudo o que ouviu.
Liza foi tomada pelo ardente desej o de ser como Mária
Semiónovna. Ela era rica e temia que Mákhin a cortej asse por
dinheiro. E decidiu repartir sua fazenda, contando o fato ao j oVem
j Ulz.
Este se alegrou diante da oportunidade de manifestar
desinteresse, dizendo-lhe que não gostava dela pelo dinheiro e
que aquela decisão generosa deixara-o profundamente tocado.
Entretanto, teve início uma luta entre Liza e a mãe, contrária à
partilha da fazenda (que pertencia ao pai) . E Mákhin ajudoua.
E quanto mais a ajudava, mais compreendia aquele mundo
de aspirações espirituais completamente diversas que vislumbrara
em Liza, até então estranhas a ele.
234
VIII
A cela era toda silêncio. Stiepan estava estirado em seu
canto na tarimba e ainda não dormia. Vassili aproximou-se e,
puxando-o pelo pé, fez sinal com os olhos para ele se levantar
e segui-lo. Stiepan deslizou da tarimba e chegou-se a Vassili.
- Bom, irmão, - disse Vassili - vej a se você pode me fazer
um favor.
- E que favor é esse?
- É que eu quero fugir.
E Vassili revelou a Stiepan ter tudo preparado para a
fuga.
- Amanhã eu vou perturbá-los - disse, apontando para
os que estavam deitados. - Vão botar a culpa em mim. Aí me
transferem para cima e, estando lá, já sei o que fazer. Só que
você terá de me soltar a armela da porta do necrotério.
- Isso eu posso fazer. E depois, para onde você vai?
-Vou sair por aí sem rumo. E por acaso esse mundo não
anda cheio de gente ruim?
- Assim é, irmão, só que nao somos nós que vamos
j ulgá-los .
- E por acaso e u s o u u m facínora? Eu não matei ninguém,
e roubar, o que é roubar? O que há de mal nisso? Por
acaso eles não esfolam nossos irmãos?
- O problema é deles. Eles vão responder por isso.
- E por acaso a gente vai ter de ficar assistindo a isso calado?
Olha, eu roubei uma igrej a . Quem se prej udicou com isso?
Mas agora o que eu quero fazer não é roubar uma lojinha,
mas me apoderar do tesouro e distribuí-lo. Distribuí-lo entre
as pessoas de bem.
235
Um preso soergueu-se na tarimba e se pôs a escutar a
conversa. Stiepan e Vassili separaram-se.
No dia seguinte, Vassili executou seu plano. Começou a
reclamar que o pão estava cru, incitou todos os presos a chamarem
o diretor à cela e darem queixa. O diretor veio, xingou
todo mundo e, ao saber que fora Vassili o instigador da sublevação,
ordenou que o metessem na solitária do andar superior.
Era tudo de que Vassili precisava.
IX
Vassili conhecia a cela do andar superior onde estava
preso. Conhecia o soalho e, assim que chegou, começou a destruí-
lo. Quando pôde passar pelo buraco que abrira, arrancou
o forro sob os pés e saltou para o andar de baixo, para o necrotério.
Naquele dia havia um cadáver deitado sobre uma mesa.
Lá ficavam armazenados os sacos para a confecção de colchões .
Vassili sabia e contava com aquilo. A armela estava solta, puxada
para dentro. Ele saiu em direção a uma latrina em construção
no final do corredor. Ali, uma cavidade ligava o terceiro
andar à latrina do porão. Depois de procurar a porta às apalpadelas
, Vassili voltou ao necrotério, retirou o pano que cobria o
cadáver frio como o gelo (roçou os braços do morto ao despilo)
, em seguida pegou os sacos, atou-os uns aos outros com
nós, de maneira a fazer uma corda, e levou-a à latrina; lá chegando,
amarrou a corda numa viga e começou a descer. Ela não
alcançava o chão. Não sabia se faltava muito ou pouco, mas, como
nada houvesse a fazer, dep endurou-se na ponta da corda e
saltou. Machucou as pernas, mas conseguia andar. No porão,
236
havia duas j anelas . Era possível passar através delas, não fossem
as grades de ferro. Precisava forçá-las . Com quê? Vassili pôs-se
a vasculhar. Pedaços de tábua estavam esparramados pelo porão.
Encontrou um, pontiagudo, e começou a cavoucar os tij olos
que fixavam as grades. Trabalhou durante longo tempo. Os
galos j á haviam cantado duas vezes e as grades continuavam firmes
. Por fim, um dos lados cedeu. Vassili enfiou o pedaço de
tábua sob a fenda aberta e forçou-o para baixo. O gradeado cedeu
por inteiro, mas um tij olo caiu fazendo barulho. As sentinelas
poderiam ter ouvido. Vassili ficou imóvel. Tudo silêncio.
Meteu-se pela j anela e saiu . Para escapar, precisava pular o muro.
Numa das extremidades do pátio havia um anexo. Teria de
escalá-lo e pular dali. Precisaria levar consigo o pedaço de tábua,
sem o qual não conseguiria escalar o anexo. Vassili pulou
a j anela, voltou com a tábua e ficou imóvel, espreitando a sentinela.
Como calculara, esta caminhava pelo outro quadrado do
pátio. Ele se aproximou do anexo, apoiou-se na tábua e começou
a subir. A tábua deslizou e ele caiu. Como estivesse de
meias , Vassili tirou-as p ara melhor firmar os p é s ; de novo,
apoiou-se na tábua, erguendo-se e agarrando a calha. "Paizinho,
não pode quebrar, tem de agüentar." Firma-se na calha e
o j o elho toca o telhado. A sentinela se aproxima. Ele se deita,
imóvel. Ela não o vê e segue adiante. Num pulo, Vassili se levanta.
A chapa de ferro estala sob seus pés. Mais um, dois passos
e está diante do muro. É fácil alcançá-lo com a mão. Um
braço, depois outro, estica-se todo e está em cima do muro.
Precisa apenas cuidar para não se machucar ao saltá-lo. Vira-se,
pendura-se no muro, estica o corpo, solta uma das mãos, outra:
"Abençoa-me, senhor! " . Está em terra. Uma terra macia. As
pernas estão inteiras, ele sai correndo.
237
No subúrbio, Malánia abre-lhe a porta, e ele se mete sob
o quente cobertor de retalhos, impregnado do cheiro de suor.
x
Alta, bela, sempre serena, sem filhos, roliça feito vaca estéril,
a mulher de Piotr Nicoláitch viu da j anela como mataram
o marido e o arrastaram para algum lugar no campo. A
sensação de horror provocada pela visão da carnificina que
Natália Ivánovna (assim se chamava a viúva) presenciara foi,
como sempre acontece, tão violenta que sufocou nela todos
os outros sentimentos . Mas quando a multidão desapareceu
atrás da sebe do pomar, fazendo cessar o ruído surdo das vozes,
e Malânia, descalça - ela lhes servia de criada - chegou
correndo com a novidade, os olhos arregalados, como se o fato
de Piotr Nicoláitch ter sido morto e atirado no barranco
fosse coisa alegre, então, por trás do primeiro sentimento de
horror sobreveio o de contentamento por estar livre do désp
ota de olhos cobertos por óculos escuros, que há dezenove
anos a mantinha como escrava. Aterrorizava-a esse sentimento,
que não confessava a si própria, muito menos a outras pessoas.
Quando banharam, vestiram e colocaram no caixão o
corpo disforme, amarelado e cheio de p êlos, ela ficou aterrorizada,
chorou e soluçou. Quando o j uiz de instrução encarregado
de casos importantes chegou ao gabinete e tomou seu
depoimento como testemunha ocular, ela viu de imediato os
dois camponeses algemados reconhecidos como os principais
culpados. Um, já de idade, barba longa e encaracolada, rosto
bonito, expressão serena e austera; o outro, de compleição ci-
238
gana, ainda moço, olhos negros brilhantes e cabelos crespos
eriçados. Ela declarou conhecê-los, reconheceu neles os mesmos
homens que primeiro agarraram Piotr Nicoláitch pelo
braço e, mesmo quando o mujique aciganado fitou-a com os
olhos brilhantes por baixo das sobrancelhas agitadas e disse
em tom de censura: "É pecado, senhora! Oh, nós vamos morrer!
" - mesmo então ela não teve a mínima compaixão. Ao
contrário, durante o inquérito foi tomada por um sentimento
hostil e pelo desej o de vingar-se dos assassinos do marido.
Mas um mês depois, quando a causa, entregue a um tribunal
militar, foi decidida com a condenação de oito pessoas a
trabalhos forçados e dois à forca - o velho de barba branca e
o cigano moreno, como o chamavam -, ela foi tomada de uma
sensação um tanto desagradável. Contudo, sob influência da
solenidade do tribunal, essa dúvida desagradável logo passou.
Se a mais alta das autoridades reconhecera que assim devia ser,
então estava bem.
A execução deveria realizar-se na aldeia. E domingo, ao
voltar da missa de vestido e sapatos novos, Malânia informou
à senhora que haviam levantado uma forca, que esperavam para
quarta-feira um carrasco de Moscou e que as famílias choravam
a altos brados, ouvidos por toda a aldeia.
Natália Ivánovna recusou-se a sair de casa para não ter de
dar com os olhos na forca e nas pessoas, desej ando uma única
coisa: o que tivesse de ser feito, que o fosse sem demora. Ela só
pensava em si mesma e não nos condenados ou em suas famílias .
239
XI
Na terça-feira, passou pela casa de Natália Ivánovna o
stanovói, seu conhecido. A viúva serviu-lhe vodca e cogumelos
em conserva preparados por ela. Bebendo e lambiscando, o stanovói
lhe informou que o enforcamento não mais se daria no
dia seguinte.
- Como? Por quê?
- Uma história surpreendente. Não se conseguIU encontrar
um carrasco. Havia um em Moscou, mas esse, meu filho
me contou, andou se empanturrando de Evangelho e está
dizendo que não pode matar. O próprio foi condenado a trabalhos
forçados por assassinato, mas agora pega e diz de repente
que não pode matar mesmo tendo a lei a seu favor. Disseram
que iriam retalhá-lo de de tanto açoitar. " Que açoitem" -
disse - " mas matar eu não posso."
De rep ente, Natália Ivánovna corou, chegando mesmo
a transpirar, devido aos pensamentos que lhe ocorreram.
- E não se pode perdoá-los agora?
- Como perdoar, quando já foram j ulgados? Só o czar
pode perdoá-los.
- Mas como o czar ficaria sabendo?
- Eles têm direito ao pedido de indulto.
- Mas eles estão sendo enforcados por minha causa -
disse a tola Natália Ivánovna. - E eu os perdôo.
O stanovói começou a rir.
- Pois então perdoe.
- Eu posso?
- Decerto que pode.
- Mas ainda vai dar tempo?
240
- Você pode enviar um telegrama.
- Ao czar?
- Decerto ! Também ao czar se pode enviar telegramas .
A notícia de que o carrasco se negara a cumprir ordens,
preferindo sofrer a matar, provocou súbita mudança no interior
de Natália Ivánovna, e o sentimento de compaixão e horror,
que algumas vezes ameaçara aflorar, irrompeu e se apossou
dela.
- Meu caro Filip Vassilievitch, escreva o telegrama para
mim. Eu quero pedir o indulto ao czar.
O stanov6i balançou a cabeça.
- Espero que não nos punam por iss o !
- Mas eu s o u a responsável. Não vou citar o senhor.
- Êta mulher bondosa, - pensou o stanov6i - boa mulher.
Se a minha fosse assim, seria o paraíso, não o que é agora.
E escreveu o telegrama ao czar: "A Vossa Maj estade Imperial,
Soberano Imperador. Esta súdita fiel da Vossa Maj estade
Imperial, viúva de Piotr Nicoláitch Svientitski, assessor de colégio,
assassinado por camponeses, prostrando-se aos sagrados
pés de Vossa Maj estade Imperial:' - este ponto do telegrama
agradava particularmente ao stanov6i - "suplica-vos o indulto
aos seguintes camponeses condenados à morte, do concelho
tal, povoado tal, província tal " .
O telegrama foi enviado pelo stanov6i e m pessoa, e a alma
de Natália Ivánovna era pura alegria e bem-estar. Parecialhe
que, se ela, a viúva do homem assassinado, perdoava e pedia
o indulto aos camponeses, o czar não teria como negar-se
ao pedido.
241
XII
Liza Ierópkina vivia em constante estado de exaltação.
Quanto mais longe avançava no caminho da vida cristã que a
ela se revelava, mais estava certa de ser aquele o verdadeiro caminho,
e mais radiante se sentia.
Tinha agora duas metas mais imediatas : primeiro, converter
Mákhin ou, antes, como dizia consigo, fazer CO'lll que
ele voltasse a si mesmo, à sua natureza bondosa, magnífica.
Amava-o, e à luz desse amor se revelava a ela o aspecto divino
da alma de Mákhin, comum a todas as pessoas; entretanto, via
nesse princípio de vida comum a todos uma bondade, uma
ternura e uma elevação peculiares a ele. A outra meta era deixar
de ser rica. Queria livrar-se dos bens para testar Mákhin,
mas também por si mesma, p ela própria alma - queria fazê-lo
para seguir as palavras do Evangelho. Começaria repartindo os
bens, mas o pai a impediu, e mais ainda que o pai, uma enxurrada
de pedidos pessoais e por carta. Então Liza decidiu dirigir-
se a um estaroste famoso por sua vida santa, com o intuito
de fazê-lo ficar com o dinheiro e proceder como bem entendesse.
Ao saber disso, o pai ficou uma fúria e numa conversa
acalorada chamou-a de louca, psicopata, dizendo que ia tomar
medidas para defendê-la da própria loucura.
Magoou-se com o tom severo, irritado do pai, e Liza,
descontrolada, verteu um choro rancoroso, dirigindo a ele palavras
grosseiras, chamando-o de déspota e até de ambicioso.
Ela pediu perdão ao pai e este lhe respondeu dizendo
que não ficara zangado, mas ela perceb eu que ele estava ofendido
e no fundo da alma não a havia perdoado. Não queria falar
disso a Mákhin. A irmã, que lhe tinha ciúmes por causa de
242
Mákhin, afastara-se dela completamente. Não tinha com quem
compartilhar seus sentimentos nem a quem se confessar.
"É preciso confessar-me a D eus" - disse a si mesma e,
como estavam na quaresma, resolveu j ejuar para a confissão e
a comunhão, dizer tudo ao confessor e pedir-lhe que a aconselhasse
dali em diante.
Não muito distante da cidade havia um mosteiro, onde
vivia o estaroste famoso pela vida santificada, os ensinamentos,
as profecias e as curas que lhe atribuíam.
O estaroste recebera uma carta do velho Ierópkin, que
o prevenia da chegada da filha, de seu estado de anormalidade
e excitação, e expressava a confiança de que o estaroste iria
apontar à filha o caminho da verdade - a aurea medíocritas, a vida
de bondade cristã, sem perturbação das condições vigentes.
Cansado das visitas , o estaroste recebeu Liza procurando
incutir-lhe em tom sereno a moderação, a resignação às condições
vigentes e aos pais . Liza guardava silêncio, c orava e
transpirava, mas quando ele terminou, pôs-se a falar, de início
com timidez, lágrimas brotando dos olhos, sobre o que Cristo
havia dito : "Abandona pai e mãe e me segue", depois, mais e
mais animada, expressou tudo o que a sua compreensão do
cristianismo podia abarcar. O estaroste primeiro esboçou um
sorriso e retrucou com os ensinamento usuais, mas depois se
calou e ficou repetindo entre suspiros: " Oh, Senhorl " .
- Pois bem, venha s e confessar amanhã - disse ele, e
abençoou-a com a mão enrugada.
No dia seguinte ele a recebeu em confissão, mas não
reatou a conversa anterior, deixando-a ir embora com a peremptória
recusa a deixá-la dispor dos seus bens .
A pureza, a absoluta dedicação à vontade de D eus e a
243
impetuosidade da j ovem deixaram pasmo o estaroste. Havia
muito tempo que vinha querendo renunciar ao mundo, mas o
mosteiro exigia que continuasse em suas atividades , das quais
o mosteiro auferia recursos. E ele anuía, embora sentisse de
modo vago toda a falsidade de sua situação. Faziam dele um
santo, um milagreiro, mas era um homem fraco, que se deixara
levar p elos êxitos . Mas ao se revelar a ele, a alma daquela j ovem
também lhe revelou a sua. E compreendeu como estava
distante do que queria ser e do que lhe preenchia o coração.
Logo após a visita de Liza, o estaroste entrou em retiro,
do qual só saiu três semanas depois para ir à igrej a e c elebrar
uma missa, ao término da qual pregou um sermão, censurou a
si mesmo, apontou os pecados do mundo e o conclamou ao
arrependimento.
Pregava um sermão a cada duas semanas . E a esses sermões
acorria cada vez mais gente. E sua fama como pregador
espalhava-se cada vez mais . Havia algo de extraordinário, ousado,
sincero em suas prédicas . Por isso produziam efeito tão
forte nas pessoas.
XIII
Enquanto isso,Vassili fazia tudo como planej ara. À noite,
penetrou com alguns comp arsas na c asa do tal ricaço
Krasnopúzov. 24 Sabia que o homem era avaro e devasso, meteu-
se p elo escritório e tomou-lhe trinta mil em dinheiro. E
fez como planej ara. D eixou até de beber e começou a dar di-
24 Literalmente, "pança vermelha" ou "barriga vermelha" (N. T. ) .
244
nheiro a noivas pobres . Fazia casamentos , resgatava dívidas,
mas sem aparecer. Sua única preocupação era repartir bem o
dinheiro. D ava-o até à polícia . E não o importunavam.
Seu coração pulava de alegria. E quando, apesar de tudo,
foi preso, ria e se gabava durante o j ulgamento, dizendo
que o dinheiro do barrigudo era mal empregado, que o homem
nem sabia quanto tinha, mas não ele, ele colocara o dinheiro
em circulação e ajudara muita gente boa.
Sua defesa foi tão bem humorada e cheia de bondade
que os j urados por pouco não o absolveram. Foi condenado à
deportação.
Ele agradeceu e disse de antemão que iria escapar.
XIV
o telegrama da viúva de Svientitski ao czar não surtiu
efeito algum. A comissão de petições decidira primeiro não o
transmitir ao czar, mas depois, quando se começou a falar do
caso Svientitski durante o almoço no palácio, o diretor da comissão,
que almoçava com o soberano, informou-lhe sobre o
telegrama enviado pela mulher do homem assassinado.
- e'est tres gentil de sa part 25 - disse uma das damas pertencentes
à família imperial.
O soberano suspirou, deu de ombros sob as drago nas e
disse : "É a lei" - oferecendo a taça para o criado servir o mosela
espumante. Todos fingiram admiração diante das palavras
sábias do soberano. Não se falou mais sobre o telegrama. E os
25 Em francês no texto original: "É muito gentil de sua parte" (N. T.) .
245
dois mujiques - o velho e o moço - foram enforcados com a
ajuda de um carrasco tártaro, assassino cruel e com tara por
animais, mandado de Kazan.
A velha queria vestir o corpo de seu velho com uma camisa
branca, polainas brancas e botas , mas não lhe permitiram,
e ambos os corpos foram enterrados numa cova atrás do muro
do cemitério.
- A princesa Sófia Vladímirovna me disse que ele é um
pregador admirável, - disse certa vez ao filho a mãe do soberano,
a velha imperatriz: - Faites-Ie venir. Il peut prêcher à la cathédrale.
26
- Não. Melhor que sej a aqui - respondeu o soberano e
deu ordens para convidarem o estaroste Isidor.
Todos os generais estavam reunidos na capela do palácio.
Era um acontecimento a vinda de um pregador novo e
original.
Um velhinho magricela de cabelos grisalhos saiu da sacristia,
lançou um olhar sobre todos na capela: "Em nome do
Pai, do Filho, e do Espírito Santo " , e iniciou a missa.
A princípio tudo ia bem, mas à medida que avançava a
prédica as coisas pioravam. "Il devenait de plus en plus agressif'27
- como disse mais tarde a imperatriz. Ele criticou a todos com
violência. Falou sobre as execuções. E atribuiu a necessidade
de execuções ao mau governo. Por acaso era possível a um país
cristão matar pessoas?
Todos os presentes se entreolhavam, e a todos preocupava
unicamente a inconveniência do pregador e o quanto
aquilo era desagradável para o soberano, mas ninguém exter-
26 Em francês no texto original: "Faça-o vir. Ele pode pregar na catedral" (N. T.) .
27 Em francês no texto original: "Ele se tornava mais e mais agressivo" (N. T.).
246
nou tal preocupação. Quando Isidor disse "Amém " , o metropolita
aproximou-se dele, pedindo que o acompanhasse.
D epois da conversa com o metropolita e o procuradorgeral
do Sínodo, o velhinho foi enviado imediatamente de
volta ao mosteiro, não ao seu, mas ao de Súzdal, onde o padre
Mikhail era abade e administrador.
xv
Todos fingiam que o sermão de Isidor não causara nada
de desagradável e ninguém o mencionava. Ao próprio czar pareceu
que as palavras do estaroste não lhe haviam deixado
marca alguma, mas durante o dia ele se lembrou umas duas vezes
do enforcamento dos camponeses e do indulto solicitado
pelo telegrama da viúva de Svientitski. Naquele dia houve parada
militar, passeio, recepção de ministros, j antar e, à noite,
teatro. Como era de hábito, o czar pegou no sono assim que
encostou a cabeça no travesseiro. À noite, um sonho terrível o
despertou: um campo repleto de forcas , e nelas cadáveres balançando,
e nos cadáveres línguas estiradas , e línguas se estirando
mais e mais . E alguém gritava: "É obra tua, é obra tua" . O
czar acordou suado e ficou pensativo. Pela primeira vez pensou
na responsabilidade que pesava sobre seus ombros, e todas
as palavras do estaroste vieram-lhe à mente . . .
Mas só de longe via em si um homem, e não podia render-
se às simples exigências de homem devido às exigências
que de todas as partes se faziam ao czar; não tinha forças para
reconhecer que as exigências de homem eram mais importantes
que as de um czar.
247
XVI
D epois de cumprir a segunda pena de prisão, Prokofi,
aquele rapaz destemido, j anota cheio de amor próprio, saiu de
lá homem totalmente acabado. Quando estava sóbrio, ficava
sentado sem mexer uma palha e, por mais que o pai o censurasse,
ele só comia, não arrumava emprego, pior, tratava de surrupiar
qualquer coisa para beber no botequim. Vivia sentado,
tossia, escarrava e cuspia. O médico que consultou auscultoulhe
o peito e balançou a cabeça.
- É, irmão, você precisa daquilo que não tem.
- Disso eu sei, é sempre assim.
- Tome leite e não fume.
- Ora, estamos na quaresma, e além disso nao tenho
vaca.
Uma vez, na primavera, passou a noite toda sem dormir,
melancólico, seco por um gole. Em casa não havia nada de que
pudesse lançar mão. Pôs o gorro e saiu. Caminhou pela rua até
à casa dos popes. O ancinho do sacristão estava encostado na
cerca. Prokofi chegou-se a ele e colocou-o às costas com o intento
de levá-lo à hospedaria na Pietrovna. "Vai ver que vale
uma garrafinha" . Nem bem se afastara, o sacristão saiu ao terraço.
Já era dia claro e ele pôde ver Prokofi carregando o ancinho.
- Ei você, o que está fazendo?
Pessoas acorreram, agarraram Prokofi, meteram-no num
calabouço. O j uiz de paz o condenou a onze meses de prisão.
Era outono. Prokofi foi levado ao hospital. Tossia, o peito
em frangalhos. Não conseguia aquecer-se. Os mais doentes
pelo menos não tremiam. Mas Prokofi tremia dia e noite. Por
248
medida de economia, o encarregado guardava a lenha e até novembro
não havia aquecido o hospital. Prokofi padecia de dores
pelo corpo todo, mas pior de tudo era a dor na alma. A tudo
sentia aversão, a todos odiava: ao sacristão, ao encarregado
que não o aquecia, ao guarda, ao vizinho de leito de lábio vermelho
e inchado. Tomou-se de ódio também pelo novo forçado
que tinham acabado de trazer para perto dele. Era Stiepan,
que pegara erisipela na cabeça e fora hospitalizado e colocado
ao lado de Prokofi. No começo, este se enchera de ódio por
Stiepan, mas depois se afeiçoou tanto que contava os minutos
para conversar com ele. E somente depois de conversarem aliviava-
se a melancolia em seu coração. Stiepan vivia contando a
todos seu último assassinato e o efeito que este lhe causara.
- Era o caso de gritar ou fazer qualquer coisa,- dizia ele,
- mas ela: "Tá, pode me esfaquear. Tenha piedade de si mesmo,
não de mim."
- É, a gente sabe que é terrível matar alguém, uma vez
eu tive que abater um carneiro e não foi nada divertido. Eu
mesmo não tirei a vida de ninguém, e por que esses miseráveis
me destruíram? Eu não fiz mal pra ninguém . . .
- Bem, tudo isso vai ser considerado a seu favor.
- E onde?
- Como onde? E Deus?
- Esse a gente não vê por aí; eu não acredito, irmão.
Acho que a gente morre e a grama cresce. E isso é tudo.
- Que j eito de pensar é esse ? ! Quanta gente eu não matei,
e ela, que coração, só fazia aj udar as pessoas . Então você
acha que eu e ela vamos pro mesmo lugar? Não, espere aí. . .
- E você acredita que a gente morre e a alma fica?
- E como não haveria de ser? Isso é verdade.
249
Foi difícil a morte de Prokofi, estava sufocando. Mas de
repente, no último instante, sentiu-se aliviado. Chamou Stiepan.
- B em, irmão, adeus. Pelo j eito minha hora chegou. Tive
medo, mas agora não. Que ela venha logo.
E Prokofi morreu no hospital .
XVII
Enquanto isso, os negócios de levguiêni Mikháilovitch
iam de mal a pior. A loj a fora hipotecada. As vendas estavam
paradas . Uma outra loj a igual à sua havia sido aberta na cidade,
e exigiam dele o pagamento dos j uros . Precisava de novos
empréstimos a j uros . E , por fim, loj a e mercadorias foram postas
à venda. levguiêni Mikháilovitch e a mulher precipitaramse
por toda a cidade, mas em nenhum lugar conseguiram os
quatrocentos rublos de que necessitavam para salvar o negócio.
Conservavam um resto de esperança no comerciante
Krasnopúzov, cuj a amante era uma conhecida da mulher de
levguiêni Mikháilovitch. Mas àquela altura todos na cidade j á
sabiam d a enorme quantia roubada d a casa d e Krasnopúzov.
Falavam de meio milhão de rublos .
- E sabe quem roubou? - contava a mulher d e levguiêni
Mikháilovitch. -Vassili, nosso antigo zelador. Dizem que ele agora
anda atirando dinheiro aos quatro ventos, suborna policiais.
- Era · um patife - afirmou levguiêni Mikháilovitch. -
Precisava vê-lo prestando falso testemunho, a maior cara de
pau . Eu nunca podia imaginar.
- Dizem que passou pelo nosso pátio. A cozinheira diz
que era ele. Diz que ele casou catorze noivas pobres .
250
- Quê ! Invencionices .
Naquele momento entrou na loj a um estranho já idoso,
vestindo uma j aqueta de lã.
- O que deseja?
- Carta para o senhor.
- De onde?
- Está escrito aí.
- Ei, e a resposta? Espere um momento.
- Não posso.
Depois de entregar o envelope, o estranho saiu apressado.
- Que esquisito !
Ievguiêni Mikháilovitch examinou o polpudo envelope
e não acreditou no que viam seus olhos : notas de cem rublos .
Quatro. O que é isso? Acompanhava o dinheiro uma carta
cheia de erros dirigida a Ievguiêni Mikháilovitch: "O evangelho
diz, faz o bem em vez do mal. O sinhor mi reis muito mal
pra mim com o cupom e eu fui obrigado prej udicar o pobre
do mujique, mas eu tenho pena do sinhor.Vai, pega essas quatro
notas e lembra do teu zelador Vassili " .
- Não, é surpreendente! - dizia Ievguiêni Mikháilovitch
à mulher e a si mesmo. E quando lembrava ou falava do assunto
com a mulher, as lágrimas brotavam de seus olhos e a alegria
invadia sua alma.
XVIII
Na prisão de Súzdal havia catorze clérigos, quase todos
por desvio da ortodoxia; para lá também fora encaminhado
Isidor. O padre Mikhail internou-o com base nos documen-
2 5 1
tos e, sem ao menos tê-lo entrevistado, ordenou que o instalassem
numa cela separada, como a um criminoso importante.
Na terceira semana da chegada de Isidor, o padre Mikhail visitou
os internos . Quando entrou na cela de Isidor, perguntou :
não estaria ele precisando d e nada?
- Preciso de muita coisa, não posso falar diante de outros.
D ê-me a oportunidade de falar-lhe a sós.
Entreolharam-se, e Mikhail compreendeu que nada tinha
a temer. Ordenou que trouxessem Isidor à sua cela e,
quando ficaram a sós, disse :
- Bem, pode falar.
Isidor caiu de j o elhos .
- Irmão ! - disse Isidor - O que está fazendo? Tenha pena
de si mesmo ! Pois não há canalha pior do que você, você
blasfemou contra tudo o que há de sagrado . . .
Um mês depois, Mikhail deu entrada com o s pap éis solicitando
a libertação, por arrependimento, não só de Isidor
como também de sete outros, e pedindo licença para se recolher
ao mosteiro em retiro.
XIX
Passaram-se dez anos.
Mítia Smokóvnikov terminara o curso na escola técnica
e era engenheiro nas minas de ouro da Sib éria, recebendo
ótimo salário. Certa vez precisou visitar um setor. O diretor
das minas lhe propôs levar consigo o forçado Stiepan
Pielaguiêiuchkin.
- Como, um forçado? Não é perigoso?
252
- Com ele não há perigo. É um santo homem. Pergunte
a quem quiser.
- E por que ele?
O diretor sorriu .
- Matou seis pessoas, mas é um santo homem. Eu lhe
asseguro.
E Mítia recebeu Stiepan, homem calvo, magro, queimado
de sol, e partiu com ele.
No caminho, Stiepan seguia atrás de Smokóvnikov, cuidando
dele como fazia com todos , onde podia, como se fosse
seu próprio filho, contando-lhe toda a sua história . Contavalhe
como, por que e para que vivia agora.
E , fato surpreendente, Mítia Smokóvnikov, que até então
vivera apenas para beber, comer, j ogar, para as mulheres e o vinho,
pela primeira vez começou a refletir sobre a vida. E esses
pensamentos não o deixaram, mas desenvolveram cada vez mais
sua alma. Ofereceram-lhe um posto bastante vantaj oso. Recusou-
o e decidiu que, com o que economizara, iria comprar uma
fazenda, casar e, dentro das suas possibilidades, servir o povo.
xx
E assim fez. Mas antes visitou o pai, com quem andava
estremecido por conta da nova família que este constituíra.
Agora resolvera aproximar-se dele. E assim o fez. O pai ficou
surpreso, debochou de Mítia, mas desistiu da ofensa e lembrouse
das inúmeras vezes em que fora culpado perante o filho.
Tradução de Beatriz Morabito
253

Depois do baile

- Pois bem, vocês dizem que o homem não pode compreender
por si só o que é bom, o que é mau, que tudo depende do
meio, que o meio devora tudo. Eu, porém, penso que tudo depende
do acaso. É de mim que estou falando.
Assim começou a falar Ivan Vassílievitch, respeitado por
todos, ao final de uma conversa que tivemos, quando dizíamos
que, para o aprimoramento pessoal, era antes necessário mudar
as condições de vida dos homens . Ninguém havia dito propriamente
que lhe era impossível compreender o que é bom
e o que é mau, mas Ivan Vassílievitch tinha aquele j eito peculiar
de reagir às idéias que lhe surgiam de uma conversa e tomá-
las como ensej o para contar episódios de sua vida. Era freqüente
esquecer por completo o motivo que o levara a narrar,
deixando-se arrebatar pela narração. Era o que acontecia naquele
momento.
- Eu falo de mim. Toda minha vida tem sido assim e não
de outro j eito, não decorreu do meio, mas de algo bem diferente.
- De que então ? - perguntamos nós.
257
- Essa é uma longa história. Para entendê-la é preciso
contar muita coisa.
- Pois então conte.
Ivan Vassílievitch ficou pensativo, meneou a cabeça.
- É . . . - disse ele. - Toda minha vida transformou-se em
uma noite, ou antes, em uma manhã.
- Mas o que foi que aconteceu?
- Aconteceu que eu estava muito apaixonado. Já estivera
apaixonado muitas vezes, mas aquele era o amor mais forte
que eu já sentira. Faz muito temp o. Ela já tem uma filha casada.
Era a B . . . Sim, a Várienka1 B . . . - Ivan Vassílievitch disse o
sobrenome. - Mesmo aos cinqüenta anos, era de uma beleza
notáveL Mas na mocidade, aos 1 8 anos, era encantadora: alta,
esbelta, graciosa e maj estosa, maj estosa é a palavra. Porte singularmente
ereto, sempre, como se não pudesse ser de outra
forma, cabeça levemente inclinada para trás, o que, com aquela
beleza e a estatura alta, apesar de ser magra e até ossuda, dava-
lhe certo ar de rainha, que afastaria as pessoas não fosse ela
afável, sempre com um sorriso alegre nos lábios, aqueles olhos
magníficos e brilhantes e todo o seu ser j ovem e encantador.
- Como Ivan Vassílievitch pinta o quadro !
- É, por mais que eu descreva não dá para pintar de forma
que vocês atinem como ela era. Mas o caso não é esse. O
que eu quero contar aconteceu nos anos quarenta. Naquela
época eu era estudante da universidade da província. Não sei se
isso é bom ou mau, mas o fato é que não havia na nossa universidade
nenhum círculo, nenhuma teoria, e nós éramos simplesmente
j ovens e vivíamos como é próprio da j uventude: es-
1 Diminutivo de Varvára (N. T. ) .
2 5 8
tudávamos e nos divertíamos. Eu era um rapaz esperto, alegre e
ainda por cima rico. Tinha um cavalo fogoso, de passo largo ;
descia os morros a galope em companhia das moças (os patins
ainda não estavam na moda) , farreava com os colegas (só bebíamos
champanhe e, quando o dinheiro acabava, não bebíamos
nada, nem vodca, como fazemos agora) . Meus maiores prazeres
eram as festas e os bailes. Eu dançava bem e não era feio.
- Ora, nada de modéstia! - interrompeu-o uma das senhoras
que o ouviam. - Nós conhecemos bem o seu retrato.
O senhor não era nada feio, era bem bonito.
- Vamos que fosse bonito, mas não vem ao caso. O fato
é que, no período daquele amor mais forte por ela, estava eu
no baile do último dia de carnaval, na casa do chefe da província,
velhinho bonachão, ricaço hospitaleiro e kammerherr. 2 Bonachona
como ele, sua mulher recebia os convidados vestida
em veludo marrom, na cabeça um diadema de brilhantes, os
ombros e o colo velhos, brancos e roliços, como um retrato de
Ielizavieta Pietrovna.3 O baile estava maravilhoso: o salão, lindo,
com coros e músicos - os então famosos conj untos de servos
dos senhores de terras aficcionados de música -, um bufê
esplêndido e um verdadeiro mar de champanhe. Apesar de ser
um grande consumidor de champanhe, eu não bebi, porque j á
estava bêbado - não d e vinho, mas d e amor; e m compensação,
dancei até cair - dancei quadrilha, valsa, polca, é evidente que,
na medida do possível, com Várienka. Ela estava de vestido
branco, cinto cor-de-rosa, luvas de pelica brancas que quase
lhe chegavam aos cotovelos magros, pontiagudos, e sapatinhos
2 Título superior ao de cadete na Rússia czarista (N. T. ) .
3 Filha d e Pedro, o Grande e czarina d a Rússia entre 1 74 1 e 1 762 (N. T. ) .
2 5 9
forrados de cetim branco. Tomaram-me a mazurca, j á estava
combinada de antemão com o noj entinho do engenheiro
Aníssimov, nunca o perdoei por isso : convidou-a logo que ela
chegou, enquanto eu corria ao barbeiro atrás de umas luvas e
me atrasava. De sorte que não dancei com ela a mazurca, mas
com uma alemãzinha que eu antes cortej ara um pouquinho.
Mas temo que nessa festa eu não tenha sido muito cortês com
ela - não conversei nem olhei para ela, só tinha olhos para a
silhueta alta e bem feita naquele vestido branco com cinto rosa,
para aquele rosto radiante e rosado com covinhas e aqueles
olhos carinhosos e encantadores. Todos, e não só eu, olhavam
para ela e se deliciavam, homens e mulheres deliciavam-se apesar
de ela ofuscar a todos. Era impossível não se deliciar.
Por causa da tal etiqueta social, perdi a mazurca, mas na
verdade passamos quase o tempo todo dançando j untos. Sem
se perturbar, ela atravessava a sala inteirinha em minha direção,
eu saltava, sem esperar o convite, e ela agradecia com um sorriso
a minha perspicácia. Quando os pares cruzavam e ela não
adivinhava o meu passo, ela encolhia os ombros magros, em sinal
de lástima e consolo, e sorria para mim. Quando a figura
da mazurca era a valsa, valsávamos longamente e ela, ofegante,
sorria e me dizia: " encore !" . 4 Eu rodopiava mais e mais e nem
sentia meu corpo.
- Ah! mas como não sentia? ! Claro que sentia quando
abraçava a cintura dela, sentia o seu corpo e, naturalmente, o
dela também - disse um dos convidados .
Ivan Vassílievitch corou subitamente e exclamou, quase
zangado :
4 "Mais! " - em francês, no texto original (N. T. ) .
260
- Vocês é que são assim, a j uventude de hoj e ! Vocês não
enxergam nada além do corpo. No nosso tempo era diferente.
Quanto mais eu me apaixonava, mais incorpórea ela se tornava
para mim.Vocês agora olham os pés, os tornozelos e mais alguma
coisa, desnudam as mulheres pelas quais se apaixonam;
para mim, porém, como dizia Alphonse Karr5 - bom escritor -,
o obj eto do meu amor esteve sempre vestido de bronze. Nós,
além de não despirmos, ainda procurávamos cobrir a nudez, como
o bom filho de Noé. Mas qual! Vocês não vão entender.
- Não lhe dê atenção. E depois? - disse alguém.
- O fato é que acabei dançando mais com ela e não percebi
o tempo passar. Os músicos, já em desespero de tão cansados
- vocês sabem como é no fim dos bailes -, agarravam-se
ao mesmo tema de mazurca; nas salas de estar os papais e as
mamães j á se levantavam das mesas de j ogo, aguardando o j antar,
os criados circulavam rapidamente aj eitando as coisas .
Eram mais ou menos três horas . Os últimos minutos precisavam
ser aproveitados. Mais uma vez a convidei, e pela centésima
vez percorremos o salão.
- Então, depois do j antar a quadrilha é minha? - disselhe,
conduzindo-a ao seu lugar.
- Naturalmente, se não me levarem - disse sorrindo.
- Não permitirei - disse eu.
- Dê-me o leque - disse ela.
- Lamento devolvê-lo - respondi, devolvendo-lhe o leque
branco e barato.
- Eu lhe dou isto, então, para você não ficar triste - disse
ela, arrancando uma pluma do leque e dando-a para mim.
5 Escritor francês (1 809- 1 890) (N. T. ) .
26 1
Peguei a pluma e só pude exprimir com o olhar todo o
meu êxtase, toda minha gratidão. Eu estava alegre e satisfeito,
estava feliz, abençoado, me sentia bem, eu não era eu, era um
ser qualquer de outro planeta, ignorante do mal e capaz de fazer
apenas o bem. Guardei a peninha dentro da luva e fiquei
ali parado, sem forças para me afastar dela.
- Olhe, estão convidando papai para dançar - disse-me,
apontando a figura alta e esbelta do pai, coronel de dragonas
prateadas , que estava junto à porta com a anfitriã e outras senhoras
.
- Várienka, venha cá - ouvimos a voz forte da anfitriã,
a do diadema de brilhantes e ombros ielisavietanos .
Várienka se encaminhou para a porta e e u a segui .
- Ma chere,6 convença seu pai a dançar com você. Ah!
por favor, Piotr Vladislávitch - voltou-se a anfitriã para o coronel.
O pai de Várienka era muito bonito, elegante, alto, de
meia-idade. Rosto corado, bigodes brancos retorcidos para cima,
à la Nicolas I,7 suíças também brancas, que se uniam aos bigodes,
o cabelo nas têmporas penteado para a frente e um sorriso
carinhoso e alegre como o da filha brilhando nos olhos e
nos lábios. Tinha belo porte, uma faixa larga e simples de condecorações
cruzava-lhe o peito marcial, ombros fortes e pernas
longas, bem proporcionadas . Era um chefe militar, o tipo
do antigo servidor de Nicolai .
Quando nos aproximamos da porta, o coronel se desculpava,
dizendo que havia desaprendido a dançar; mesmo as-
6 "Minha querida" - em francês, no texto original (N. T.) .
7 " À moda d e Nicolai I " - e m francês, n o texto original. O imperador Nicolai
I ( 1 779- 1 855) governou a Rússia a partir de 1 825 (N. T.) .
262
sim, sorriu, deixando-se levar, com a mão esquerda desembainhou
a espada, entregou-a para um empregado e, tirando com
dificuldade a luva da mão direita, disse rindo : " Tudo pelo deverl
" . Tomou a mão da filha e postou-se na expectativa do
tempo exato para começar a dançar.
Ao esperado início da mazurca, bateu com desenvoltura
um pé, dobrou a outra perna e sua figura alta e p esada moveu-
se pelo salão num sapateado ora vagaroso e calmo, ora
tempestuosamente barulhento. A silhueta graciosa de Várienka
flutuava ao seu lado com passos leves, às vezes longos, com seus
sapatinhos de cetim branco. Todo salão seguia cada movimento
do par. E eu, apaixonado, olhava para eles com enlevo e
emoção. Impressionavam-me especialmente as botas dele, com
presilhas fortes, belas botas de couro de bezerro, não de bico
fino como era moda, mas à antiga, quadradas e sem saltos . Pelo
visto, tinham sido feitas pelo sapateiro do batalhão. "Para poder
apresentar bem sua filha querida, com boas roupas, ele não
compra botas novas e usa as fora de moda" - pensei, e aquelas
botas quadradas me emocionaram ainda mais . Era evidente
que ele fora outrora um bom dançarino, mas agora estava pesado
e as pernas não tinham mais a elasticidade suficiente para
todos os passos floreados e rápidos que tentava fazer. Mesmo
assim, deu duas voltas no salão com habilidade. E quando
abriu e fechou depressa as pernas e, apesar de seu peso, caiu sobre
um j o elho, e ela, sorrindo e aj eitando a saia que se prendera
nele, circundou-o com leveza, todos aplaudiram. Levantando-
se com algum esforço, abraçou com ternura e
delicadeza a filha, deu-lhe um beij o na testa e conduziu-a para
mim, acreditando que a próxima dança era minha. Eu disse
que não era o seu par.
263
- Ah, não importa, agora dance o senhor com ela - disse
ele com um sorriso amigável, recolocando a espada na bainha.
Como sempre acontece depois que uma gota escorre de
uma garrafa e todo o seu conteúdo derrama-se aos borbotões,
assim o meu amor por Várienka libertou toda a capacidade de
amar que eu trazia escondida na alma. Eu abraçaria o mundo
todo com meu amor. Amava a anfitriã de diadema e busto ielisavietano,
e o seu marido, e os seus convidados, e os seus criados
e até o engenheiro Aníssimov, que fazia pouco caso de
mim. Pelo pai dela, com as botas de fabricação caseira, de sorriso
amável parecido com o dela, eu sentia naquele momento
uma espécie de sentimento misto de enlevo e ternura.
Terminada a mazurca, a anfitriã convidou os hóspedes
para o j antar, mas o c oronel B . . . recusou-se, dizendo que precisava
se levantar cedo no dia seguinte, e despediu-se dos anfitriões.
Tive medo de que ela fosse também, mas ficou com
a mae.
D epois do j antar, dancei com ela a quadrilha prometida
e, apesar de parecer infinita, minha felicidade crescia, crescia
mais a cada minuto. Nós nada falávamos de amor. Eu não lhe
perguntava, e nem a mim, se ela me amava. Para mim era bastante
que eu a amasse. Só temia que alguém pudesse atrapalhar
minha felicidade.
Quando cheguei em casa, despi-me e pensei em dormir,
mas vi que isso era absolutamente impossível. Tinha nas
mãos a pluma de seu leque e uma luva inteirinha que ela me
dera ao sair, quando eu a aj udava a subir com a mãe na carruagem.
Olhava para aquelas coisas e, de olhos abertos, eu a via à
minha frente a cada instante - quando, vacilando entre dois cavalheiros,
me escolhe, e ouço sua voz suave dizer "Orgulhoso,
264
não é?" e me dá sua mão alegremente ; ou quando, no j antar,
toma champanhe aos golezinhos e me espia de esguelha com
olhos afetuosos. Mais que tudo, porém, vej o-a dançando com
o pai, movendo-se leve à sua volta e olhando para os espectadores
enlevados , alegre e orgulhosa de si e dele. E involuntariamente
envolvo os dois em um único sentimento de ternura
e comoção.
Naquela época, eu vivia com um irmão muito sossegado.
De maneira geral, ele não gostava de vida social, não ia a
bailes, preparava-se para os exames de doutoramento e levava
a mais regular das vidas . Estava dormindo quando cheguei .
Olhei para a cabeça dele afundada no travesseiro, meio escondida
pelo cobertor de flanela. Senti uma piedade afetuosa por
ele, por não saber e não compartilhar da minha felicidade.
Nosso criado Pietrucha veio ao meu encontro com uma vela
acesa e quis me aj udar a trocar de roupa, mas eu o dispensei.
O seu rosto sonolento, de cabelos emaranhados, pareceu-me
de uma ternura tocante. Procurando não fazer barulho, fui para
meu quarto na ponta dos pés e sentei-me na cama. Não, estava
feliz demais e não podia dormir. Além disso, eu sentia calor
no quarto muito aquecido e, sem tirar o uniforme, vesti um
capote, abri a porta e fui para a rua.
Eu saíra do baile entre as quatro e as cinco horas, mais
duas haviam passado com minha ida para casa e o tempo que
lá fiquei, de sorte que já estava claro quando saí para a rua. Fazia
um tempo típico de carnaval, neblina, muita umidade, a neve
derretendo nos caminhos e gotej ando de todos os telhados.
Naquela época os B . . . moravam nos confins da cidade, j unto
do campo grande, onde havia uma alameda, ao lado de uma
escola para moças . Andei por uma travessa deserta e saí na rua
265
principal, onde cruzei com transeuntes e carroceiros carregando
lenha nos trenós que arranhavam os patins no calçamento.
E os cavalos, que balançavam sem parar as cabeças arqueadas,
lustrosas de umidade, e os cocheiros, cobertos por esteiras , que
arrastavam enormes botas ao lado das carroças, e as casas da
rua, que pareciam muito altas em meio à neblina - tudo assumia
para mim um encanto e um significado especial.
Quando cheguei ao lugar onde ficava sua casa, percebi
ao longe, na calçada à direita, alguma coisa grande e negra e
ouvi sons de flautas e tambores que vinham de lá. Em pensamentos,
eu cantava ainda os temas da mazurca e, algumas vezes,
chegava mesmo a ouvi-los. Aquela, no entanto, era música
diferente, cortante e desagradável.
" O que é isso?" - pensei, e pelo caminho escorregadio
que atravessava o campo segui na direção daquele som. D epois
de andar uns cem passos, comecei a distinguir, no meio da névoa,
muita gente vestida de preto. Eram soldados . "D evem estar
em treinamento " - pensei e, caminhando atrás de um ferreiro
de peliça imunda e avental, que carregava alguma coisa,
cheguei mais perto. Soldados de uniformes pretos formavam
duas colunas , uma à frente da outra, imóveis, com os fuzis junto
às pernas . Atrás deles estavam o flautista e os tamborileiros
que tocavam ininterruptamente a mesma melodia desagradável
e estridente.
- O que estão fazendo? - perguntei ao ferreiro que tinha
parado ao meu lado.
- Estão castigando um tártaro por deserção - disse o ferreiro,
zangado, olhando para a outra extremidade das fileiras de
homens .
Fiquei olhando também e notei entre as duas alas uma
266
coisa horrível, que vinha para o lado em que eu estava. Era um
homem de torso nu, amarrado aos fuzis de dois soldados que
o empurravam. Ao lado dele vinha um militar alto, de capote
e quepe, que me pareceu conhecido. Arrastando-se, cambaleando
na neve derretida sob os golpes que choviam sobre ele
de ambos os lados, o condenado avançava na minha direção,
ora caindo para trás, e então os sargentos que o levavam preso
aos fuzis empurravam-no para a frente, ora caindo para a frente,
e novos empurrões dos sargentos o puxavam de volta. Ao
lado, passos levemente vacilantes, caminhava o militar alto. Era
o pai dela, rosto corado, bigodes e suíças brancas .
A cada golpe que recebia, o castigado voltava o rosto enrugado
de sofrimento para o lado de onde vinha a pancada, como
que surpreso, e repetia a esmo sempre as mesmas palavras,
rangendo os dentes brancos . Só quando chegou mais perto de
mim pude distingui-las . Não falava, soluçava: " Irmãozinhos, tenham
dó . Irmãozinhos, tenham dó " . Mas os irmãozinhos não
se apiedavam e, quando o cortej o chegou bem perto, vi um
soldado à minha frente dar um decidido passo adiante, fazer o
cacete zunir no ar e desferi-lo com força nas costas do tártaro.
O tártaro tombou para frente, mas os sargentos o seguraram e
um novo golpe caiu sobre ele, e outro, e mais outro, de um lado,
do outro. O coronel acompanhava e vez por outra olhava
para baixo, para seus pés, ou então para o condenado, inspirava
o ar inflando as bochechas e o expirava vagarosamente através
dos lábios entreabertos. Quando o cortej o passou por onde eu
estava, vi rapidamente, por entre as fileiras, as costas do condenado.
Eram uma coisa colorida, úmida, vermelha, antinatural,
que me fez duvidar que aquilo fosse o corpo de um homem.
- Meu D eus ! - exclamou o ferreiro ao meu lado.
267
o cortej o se distanciava, os mesmos golpes caindo dos
dois lados sobre o homem cambaleante, encolhido, com a
mesma batida de tambores, o mesmo zunido de flauta e o mesmo
andar firme da figura alta e esbelta do coronel j unto ao
condenado. Súbito, o coronel pára, aproxima-se rápido de um
dos soldados.
- Vou lhe ensinar - ouvi sua voz raivosa. - Está fazendo
corpo mole? Está?
E vi quando a mão forte na luva de camurça esbofeteou
o rosto do soldado fraco e espantado, que não descera o cacete
nas costas vermelhas do tártaro com força suficiente.
- Dê uma vergastada pra valer! - gritou ele e, ao olhar
à sua volta, me viu. Fazendo de conta que não me conhecia,
franziu a testa numa careta raivosa e ameaçadora e virou-se rapidamente.
Fiquei de tal forma envergonhado que, sem saber
para onde olhar, como se fosse culpado de um comportamento
vergonhoso, desviei a vista e saí apressado pela rua. Em todo
o meu traj eto, nos meus ouvidos, aquele rufar de tambores,
o som da flauta, aquelas palavras - " Irmãozinhos, tenham dó "
- que eu ouvira, e aquela voz segura, zangada, do coronel gritando
: "Está fazendo corpo mole? Está? " Uma melancolia quase
tlsica me invadia o coração, beirando a náusea, tão intensa
que algumas vezes tive que parar, com vontade de vomitar, tal
era o horror que aquele espetáculo me causara. Não me lembro
como consegui chegar em casa e deitar. Mal adormeci, escutei
e vi tudo outra vez e levantei-me bruscamente.
" Com certeza ele sabe alguma coisa que eu não sei" -
pensava sobre o coronel. "Se eu soubesse o que ele sabe, entenderia
o que vi e isso não me atormentaria." Contudo, por
mais que pensasse sobre aquilo, menos compreendia o que o
268
coronel podia saber, e consegui dormir apenas à tarde; depois,
fui à casa de um amigo e bebi com ele até cair.
- Então, o que é que vocês acham, a que conclusão cheguei
sobre o que tinha visto. Que tinha sido uma coisa ruim?
De forma alguma. "Se isso foi feito com tanta convicção, e se
há uma j ustificativa que satisfaz a todos, isso é sinal de que sabem
alguma coisa que eu não sei" - eu pensava, e me esforçava
para assimilar aquilo. Mas , apesar de todos os esforços, não
consegui aceitar o fato. E não o aceitando, não fui capaz de ingressar
no serviço militar, como queria antes . Não servi o
exército, não servi em lugar nenhum e, como podem ver, não
servi para coisa alguma.
- Ora, sabemos muito bem como o senhor não serviu
para nada - disse alguém. - Se o senhor não foi útil, o que se
pode dizer dos outros?
- Ora, bobagem - disse Ivan Vassílievitch, sinceramente
encabulado.
- E, então, o que aconteceu com o amor? - perguntamos .
- O amor? A partir desse dia o amor começou a minguar.
Quando ela ficava pensativa, o que acontecia amiúde,
com um sorriso no rosto, no mesmo instante eu me lembrava
do coronel na praça e me sentia embaraçado e mal. Comecei
a vê-la menos . E assim o amor acabou em nada. É assim que
as coisas acontecem e transformam e dirigem toda a vida de
um homem. E vocês ainda dizem . . . - concluiu ele.
Tradução de Beatriz Ricci
269

Apêndice

Os paralelos em Tolstói por Victor Chklóvski 1
Para produzir um fato artístico a partir de um obj eto, deve-se
destacar este último dos fatos da vida. Para isso é necessário
sacudir as coisas do mesmo modo que Ivan, o Terrível, costumava
sacudir seu lacaio. É necessário extraí-las do contexto de
associações habituais, revolvê-las como lenha no fogo. O artista
é sempre o instigador de uma revolta das coisas . Com os
poetas , as coisas se amotinam, livram-se dos seus velhos nomes
e, ao assumir outros novos, adquirem um novo aspecto. O
p oeta usa imagens : tropas, símiles . Chama fogo de flor vermelha,
apõe novos epítetos a velhos nomes . Ele dirá até, como
Baudelaire, que o cadáver levantou as pernas como uma mulher
que convida a carícias obscenas . D esse modo, o poeta realiza
um " deslocamento semântico " . Ele retira uma noção do
plano semântico no qual é normalmente encontrada e, com a
aj uda de uma palavra (tropa) , transfere-a para um novo plano
1 Este ensaio foi publicado em Khod koniá [ O passo do cavalo) (Moscou e
Berlim, 1 923) , págs. 1 1 5-25 (N. T.) .
273
semântico. Somos abalados pela novidade produzida ao se dispor
o obj eto em um novo ambiente. Uma nova palavra aj usta-
se ao obj eto como um vestido novo. Esse é um dos modos
de converter um obj eto em algo palpável, algo capaz de se
tornar material de arte. Outro método é criar uma " construção
escalonada"2: um obj eto é desdobrado por intermédio de
reflexos e j ustaposições.
Essa estratégia é quase universal. Muitos procedimentos
estilísticos nela se baseiam, sobretudo o paralelismo : "Ó, maçãzinha,
para onde estás rolando? / Ó, mamãe, eu quero me casar" . 3
Às vezes, um obj eto pode dividir-se em dois ou ser reduzido
aos seus vários componentes . Em Alieksandr Blok uma
única palavra, "ferrovia" , divide-se em "tristeza do ferro, tristeza
da via"4.
Liev Tolstói emprega em suas obras, que são composições
tanto formais quanto musicais, o procedimento de " estranhamento"
(ao não chamar as coisas pelos seus nomes habituais)
, assim como de " construção escalonada " , dos quais
oferece alguns exemplos .
Tive ocasião d e escrever bastante sobre o " estranhamento"
em TolstóiS . Uma variante desse procedimento consiste em
2 A expressão stupientchátoie postroiénie (construção escalonada) foi cunhada
por Chklóvski e ocupa lugar central em sua Teoria da prosa, de 1 925 (N. T. ) .
3 Obviamente, o paralelismo é mais aparente n o original: 0, yáblotchko, kudi
kátisschsya ?; 0, mámotcha, zámuj khótchetsya (N. T. ) .
4 O adjetivo composto russo é jeliézno-dorójni, e o verso e m questão reza: toská
dorójnaya jeliéznaya (N. T. ) .
5 Chklóvski tem e m mente, sobretudo, s e u ensaio programático "Arte como
procedimento" ( 1 9 1 9) , no qual o conceito crucial de ostrani􀁊nie (estranhamento)
foi primeiramente esboçado (N. T. ) .
274
eleger, focalizar um certo detalhe de um quadro e, desse modo,
distorcer as proporções. Assim, em uma cena de batalha, Tolstói
elabora o motivo de uma boca, cheia d'água, mascando. Ao
atrair a atenção para esses detalhes, produz-se um deslocamento
peculiar. Em seu excelente livro sobre Tolstói, Konstantin
Leóntiev6 falha ao tentar apreender esse procedimento. Contudo,
a estratégia mais comum em Tolstói é a de se negar a reconhecer
um obj eto, descrevê-lo como se fosse visto pela primeira
vez. Assim, um cenário de teatro é chamado uma "peça de
papelão pintado" ( Guerra e paz) ; a hóstia, de "pãozinho " . E, por
conseguinte, afirma-se que os cristãos comem o seu Deus7 .
Creio que esse procedimento tolstoiano pode ser remetido
à literatura francesa, possivelmente a L 'Ingénu de Voltaire
ou à descrição da vida na corte francesa feita pelo selvagem de
Chateaubriand. De qualquer modo, Tolstói torna as obras de
Wagner " estranhas" , descrevendo-as como se vistas por um
camponês perspicaz, ou seja, alguém como o "selvagem" francês,
a quem faltam as associações de idéias habituais. Aliás, o
mesmo procedimento de descrever uma cidade como vista por
um homem rústico foi empregado no romance grego antigo
( cf. Vessi elovski 8) .
6 Um importante romancista e publicista do final do século dezenove
( 1 83 1 - 1 89 1 ) , cuj o longo ensaio Análise, estilo e atmosfera : sobre os romances do
conde L. N Tolstói foi um dos mais perspicazes comentários contemporâneos
à grande ficção de Tolstói (N. T ) .
7 A passagem d e Guerra e paz citada aqui aparece n a cena d a primeira visita
de Natasha Rostova à ópera. O exame do parágrafo é baseado na descrição
da liturgia no romance tardio de Tolstói Ressureição (N. T ) .
H A. N . Vessielovski ( 1 838-1 906) , principal autoridade russa e m literatura
comparada e folclore (N. T ) .
2 7 5
o outro procedimento, a " construção escalonada", tem
muitos usos interessantes . Não tentarei fazer nem o mais breve
esboço de como Tolstói empregou esse procedimento na
criação de sua poética toda particular; limitar-me-ei a alguns
poucos exemplos. O j ovem Tolstói usou o paralelismo de maneira
bastante simples. Assim, para elaborar o tema da morte,
para acioná-la, ele achou necessário justapor três motivos - a
morte de uma dama, a morte de um servo, a morte de uma árvore.
Estou falando do conto Três mortes. As várias partes da
narrativa estão interligadas por uma "motivação " precisa: o servo
é cocheiro da dama, a árvore é cortada para fazer um caixão
para o servo.
Em Kholstomér o paralelo entre homem e cavalo é bem
pronunciado : "Depois de muito andar pelo mundo, comer e
beber, o corpo morto de Sierpukhóvskoi foi recolhido à terra.
Nen1 a pele, nelll a carne, nem os ossos serviram para nada"
. Aqui o vínculo é dado pelo fato de Sierpukhóvskoi ter sido,
em determinado momento, dono do cavalo.
Em Dois hussardos, o paralelismo, j á anunciado no título
do conto, permeia os incidentes : casos de amor, j ogo de cartas,
amizades etc. O vínculo entre os dois termos do paralelo é dado
pelo parentesco dos protagonistas .
Ao se comparar a arte de Tolstói com a de Maupassant,
percebe-se que o mestre francês tende a omitir o segundo termo
do paralelo. Em um conto de Maupassant, esse elemento -
sej a o padrão tradicional do conto ou a perspectiva convencional
da burguesia francesa - está sempre implícito. Em muitos
dos seus contos, Maupassant descreve a morte de um camponês;
ele o faz com muita simplicidade, ainda que a torne " estranha":
a descrição literária convencional da morte de um habi-
276
tante de uma cidade funciona, por implicação, como fonte de
contraste, embora tal descrição não apareça, de fato, no conto.
Pode-se dizer que, desse ponto de vista, Tolstói é mais
grosseiro que Maupassant. Ele precisa de um paralelo explícito,
por exemplo, o contraste entre cozinha e sala de visitas em
Os frutos da ilustração [Plodí prosveschêniya] . Isso pode ser explicado
pela maior disponibilidade da tradição literária francesa.
O leitor francês é mais sensível a uma violação do cânon, ele
identifica os termos do paralelo mais prontamente do que o
nosso leitor, cuj a idéia de norma é mais nebulosa.
Diga-se de passagem que, quando falo de tradição literária,
não tenho em mente o que um autor toma emprestado
de outro. Vej o a tradição de um escritor como sua dependência
em relação a um conj unto de normas literárias pré-existentes,
assim como a tradição de um inventor é a soma total dos
recursos técnicos disponíveis em dado momento.
As j ustaposições de vários protagonistas ou de dois
grup os de protagonistas estão entre as instâncias de paralelismo
mais complexas presentes nos romances de Tolstói. Em
Guerra e paz, por exemplo, não é dificil discernir as seguintes
j ustaposições: Napoleão versus Kutúzov e Pierre Biezúkhov
versus Andriêi B olkónski, sendo que Nicolai Rostov serve
como ponto de referência externo para ambas as partes. Em
A nna Kariênina, o grupo de Ana-Vronski é contraposto ao
grupo de Liévin-Kitti . Sua co existência deles é " motivada"
pelo parentesco. Essa é a motivação habitual em Tolstói e, ao
que parece, entre os romancistas em geral. O próprio Tolstói
escreveu que tinha feito do "velho" B olkónski o pai de um
j ovem brilhante (Andriêi) "p orque é bem dificil lidar com
uma personagem que não sej a aparentada a mais ninguém no
277
romance"9. Um outro método, privilegiado p elos romancistas
ingleses, p elo qual um mesmo protagonista participa de
vários grupo s , foi escassamente utilizado por Tolstói . De fato,
ele apenas o utilizou no episódio Petruchka-Napoleão, no
qual foi empregado para fins de " estranhamento " . 1 0
A ligação existente entre os grupos j ustapostos em A nna
Kariênina é tão tênue que o vínculo só pode ser concebido como
motivado por necessidade artística.
No entanto, Tolstói usou o parentesco de um modo bastante
interessante : não para "motivar" um paralelo mas para
criar uma " construção escalonada" . Na família Rostov há dois
irmãos e uma irmã. Eles parecem representar desdobramentos
de um único tipo. Tolstói por vezes compara-os uns aos outros,
como na seção que precede a morte de Piétia. Nicolai Rostov
é uma versão simplificada, "tosca" , de N atasha. Do mesmo
modo, Stiva Oblónski revela um lado das inclinações íntimas
de Anna Kariênina. A expressão "um pouquinho de nada", que
ela fala com a entonação de Stiva, é um retorno à casa da in!a
ncia, compartilhada por ambos. Stiva está um degrau abaixo
de sua irmã. No caso, o vínculo entre as personagens não se
origina, de fato, do parentesco. Como vimos, Tolstói não se
opunha em transformar em parentes certas personagens concebidas
independentemente. O parentesco era utilizado com o
propósito de atingir uma " construção escalonada" . Que as
9 Carta à princesa L. L Volkonskaia, de maio de 1 86 5 , em L. Tolstói, Pólnoie
sobránie sotchinienii (Moscou, 1 95 8 ) , vol. 6 1 , pág. 80 (N. T. ) .
10 Chklóvski deve estar se referindo aqui a o breve encontro entre Napoleão
e um soldado russo prisioneiro, o astuto cossaco Lávruchka, descrito na
parte 1 0 de Guerra e paz (N. T. ) .
278
convenções literárias determinantes da representação de parentes
não requerem afinidade caracterológica é bem demonstrado
pelo procedimento tradicional de j ustapor um irmão
nobre a um mau .
Aqui, como sempre em arte, tudo é motivação do procedimento.
Tradução de André Pinto Pacheco
279

Sugestões de leitura
A melhor apresentação de Tolstói ao leitor brasileiro continua
sendo o estudo sinóptico Leào Tolstói (São Paulo : Brasiliense,
1 983) de B oris Schnaiderman. Há também o ensaio rememorativo
de Górki, Leào Tolstói (São Paulo : Perspectiva, 1 983) ,
num volume que traz ainda dois estudos importantes de Boris
Eichenbaum: "Sobre Leão Tolstói" e " Sobre as crises de Leão
Tolstói " . Encontra-se material biográfico em Wil1iam Shirer,
Amor e ódio. O casamento tumultuado de Sônia e Leon Tolstói (São
Paulo : Paz e Terra, 1 977) . O conde russo é personagem recorrente,
agora do ponto de vista da história das idéias, no livro
de Isaiah B erlin sobre os Pensadores russos (São Paulo : Companhia
das Letras, 1 988) . A visão formalista de Tolstói encontrase
esboçada num ensaio de Victor Chklóvski, "A arte como
procedimento " , in Dionísio Toledo (org.) , Teoria da literatura -
Formalistas Russos (Porto Alegre : Globo, 1 972) . A esta visão do
autor russo, o leitor pode comparar com proveito as anotações
de Lukács no capítulo final de sua Teoria do romance (São Paulo
: Editora 34, 2000) e no ensaio " Narrar ou D escrever" , in
Ensaios sobre literatura, org. de Leandro Konder (Rio de Janeiro
: Civilização Brasileira, 1 968) . O belo ensaio de Thomas
Mann, " Goethe e Tolstói" , pode ser lido na antologia organizada
por Anatol Rosenfeld, Ensaios (São Paulo : Perspectiva,
1 998) . Finalmente, uma análise interessante de Três mortes está
no famoso livro de Mikhail Bakhtin, Problemas da poética de
Dostoiévski (Rio de Janeiro : Forense Universitária, 1 997) -
mais especificamente no capítulo 2, "A personagem e seu enfoque
pelo autor na obra de D ostoiévski " .
28 1
Há bastante literatura secundária nas demais línguas
o cidentais . A antologia organizada por Michael Katz, ToIstoy 's
Short Fiction (Nova York/Londres : W W Norton, 1 99 1) , reúne
contos e cartas de Tolstói, seguidos de uma amostra generosa
da crítica hodierna. O italiano Pietro Citati dedicou-lhe um
volume, disponível em italiano - Tolstoj (Milão : Adelphi, várias
edições) - e em tradução francesa, To lstoi" (Paris : D enoel,
1 996) . Outro ensaio clássico é o de George Steiner, Tolstoy or
Dostoevsky: A n Essay in the Old Criticism (New Haven: Vale
University Press, 1 996) . Tolstói foi uma das obsessões críticas
do formalismo russo dos anos vinte: como grande nome da
tradição oitocentista, não podia deixar de ser alvo de admiração
e pedra de escândalo para todos aqueles j ovens críticos,
c omo se p o de ler em Russian Forma lism (Haia: Mouton ,
1 9 80) , d o erudito Victor Erlich. D a produção desses anos, p o de-
se ler e m italiano a Teoria della prosa d e Chklóvski (Turim:
Einaudi, 1 976 - com várias reedições) ou ainda, em inglês, a
trilogia crítico-biográfica de B oris Eichenbaum: The You ng
Tolstoy, ToIstoy in the Sixties, ToIstoy in the Seventies (publicados
há tempos pela editora norte-americana Ardis, que promete
relançá-Ios em breve) . Vladimir Nabokov também nutria algumas
strong opinions sobre Tolstói, recolhidas em suas Lectures
on Russian Literature (Nova York: Harcourt Brace, 1 9 8 1 ) . Mais
re c entemente, Gary S aul Morson tentou uma apreciação
bakhtiniana e positiva de Tolstói em: Hidden in plain view
(Stanford: Stanford University Press, 1 987) , que vale comparar
às declarações esparsas de Bakhtin. A leitura formalista de
Tolstói , exemplificada pelo texto de Chklóvski reproduzido
neste volume, é c omentada num brilhante ensaio histórico de
Carlo Ginzburg, " S traniamento. Preistoria di um procedi-
282
mento letterario " , in Occhíacci dí legno (Milão : Feltrinelli,
1 998) .
Finalmente, vale lembrar que o roteiro de L 'Argent
( 1 983) , do cineasta francês Robert Bresson, toma por base o
Falso cupom de Tolstói.
283
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