LAVOURA ARCAICA | RADUAN NASSAR

| quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Pondo folhas vermelhas em desassossego, centenas de feiticeiros desceram em caravana do alto dos galhos, viajando com o vento, chocalhando amuletos nas suas crinas, urdindo planos escusos com urtigas auditivas, ostentando um arsenal de espinhos venenosos em conluio aberto com a natureza tida por maligna; povoaram a atmosfera de resinas e de ungüentos, carregando nossos cheiros primitivos, esfregando nossos narizes obscenos com o pó dos nossos polens e o odor dos nossos sebos clandestinos, cavando nossos corpos de um apetite mórbido e funesto; sentindo duas mãos enormes debaixo dos meus passos, me recolhi na casa velha da fazenda, fiz dela o meu refúgio, o esconderijo lúdico da minha insônia e suas dores,








3ª edição revista pelo autor 10ª reimpressão
1999
COMPANHIA DAS LETRAS
Copyright 1975, 1982, 1989 by Raduan Nasser
Revisão: Vera Lúcia de Freitas – Eliana Antonioli
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Nassar, Raduan, 1935-
Lavoura arcaica / Raduan Nassar. - 3. ed rev. pelo autor -São Paulo:
Companhia das Letras, 1989.
ISBN 85-7164-033-5
1. Romance brasileiro i. Titulo.
89-0064 CDD-869.935
índices para catálogo sistemático:
1. Romances : Século 20 : Literatura brasileira 869.935
2. Século 20 : Romances : Literatura brasileira 869.935
Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72
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Lavoura arcaica é um texto onde se entrelaçam o novelesco e o lírico,
através de um narrador em primeira pessoa, André, o filho encarregado de
revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da
imagem da família.
Lavoura arcaica é sobretudo uma aventura com a linguagem: além
de fundar a narrativa, a linguagem é também o instrumento que, com seu
rigor, desorganiza um outro rigor, o das verdades pensadas como
irremovíveis.
Lançado em dezembro de 1975, Lavoura arcaica imediatamente foi
considerado um clássico, "uma revelação, dessas que marcam a história da
nossa prosa narrativa", segundo o professor e crítico Alfredo Bosi.
Raduan Nassar é paulista de Pindorama, onde passou a
infância. Adolescente, veio com a família para São Paulo, onde cursou
direito e filosofia na USP. Exerceu diversas atividades, estreando na
literatura em 1975 com o romance Lavoura arcaica. Em 1978 publica
a novela Um copo de cólera (escrita em 70). Em 1997 aparece Menina
a caminho, reunindo contos dos anos 60 e 70. Raduan Nassar deixou
de escrever logo depois de sua estréia na literatura.
"Novela trágica, (...) numa atmosfera bem brasileira, mas
dominada por um sopro universal da tradição clássica mediterrânea.
Drama tenebroso, em estilo incisivo, nunca palavroso ou
decorativo, da eterna luta entre a liberdade e a tradição, sob a égide do
tempo.
Livro impressionante, magistral."
Alceu Amoroso Lima
A PARTIDA
"Que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu
viço e constância?"
(Jorge de Lima)
1 Os olhos no teto, a
nudez dentro do quarto; róseo, azul ou
violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo,
quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um
áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre
os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;
eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão
interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha
mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a
pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias
de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha
cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em
grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces
contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a
imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta
vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina
insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes
adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me
perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso
e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a
maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina
como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro
no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em
sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto
leve e silencioso, me pus de pé, me curvando pra pegar a toalha
estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei
em seguida a cabeça pra agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada
na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns
passos e abri uma das folhas me recuando atrás dela: era meu irmão
mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de
frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra
seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era
uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que
ele estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus
ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias
nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se
molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o
peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e
eu disse "não te esperava" foi o que eu disse confuso com o desajeito
do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava
com o que eu fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti "não te esperava"
foi isso o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da
família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele
dizia "nós te amamos muito, nós te amamos muito'^ era tudo o que ele
dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido,
mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o
lenço do bolso ele disse "abotoe a camisa, André".
2
Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá do
bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família; amainava a
febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e,
deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma
vergada ao peso de um botão vermelho; não eram duendes aqueles
troncos todos ao meu redor, velando em silêncio e cheios de paciência
meu sono adolescente? que urnas tão antigas eram essas liberando as
vozes protetoras que me chamavam da varanda? de que adiantavam
aqueles gritos, se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam
melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? (meu sono,
quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se
colhe um pomo).
3
E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os
olhos são a candeia do corpo, e que se eles eram bons é porque o
corpo tinha luz, e se os olhos não eram limpos é que eles revelavam
um corpo tenebroso, e eu ali, diante de meu irmão, respirando um
cheiro exaltado de vinho, sabia que meus olhos eram dois caroços
repulsivos, mas nem liguei que fossem assim, eu estava era confuso, e
até perdido, e me vi de repente fazendo coisas, mexendo as mãos,
correndo o quarto, como se o meu embaraço viesse da desordem que
existia a meu lado: arrumei as coisas em cima da mesa, passei um
pano na superfície, esvaziei o cinzeiro no cesto, dei uma alisada no
lençol da cama, dobrei a toalha na cabeceira, e já tinha voltado à mesa
para encher dois copos quando escorreguei e quase perguntei por Ana,
mas isso só foi um súbito ímpeto cheio de atropelos, eu poderia isto
sim era perguntar como ele pôde chegar até minha pensão, me
descobrindo no casario antigo, ou ainda, de um jeito ingênuo, procurar
conhecer o motivo da sua vinda, mas eu nem sequer estava pensando
nessas coisas, eu estava era escuro por dentro, não conseguia sair da
carne dos meus sentimentos, e ali junto da mesa eu só estava certo era
de ter os olhos exasperados em cima do vinho rosado que eu
entornava nos copos; "as venezianas" ele disse "por que as venezianas
estão fechadas? " ele disse da cadeira do canto onde se sentava e eu
não pensei duas vezes e corri abrir a janela e fora tinha um fim de
tarde tenro e quase frio, feito de um sol fibroso e alaranjado que tingiu
amplamente o poço de penumbra do meu quarto, e eu ainda encaixava
as folhas das venezianas nas carrancas quando, ligeira, me percorreu
uma primeira crise, mas nem fiz caso dela, foi passageira, por isso eu
só pensei em concluir minha tarefa e fui logo depois, generoso e com
algum escárnio, pôr também entre suas mãos um soberbo copo de
vinho; e enquanto uma brisa impertinente estufava as cortinas de
renda grossa, que desenhava na meia altura dois anjos galgando
nuvens, soprando tranqüilos clarins de bochechas infladas, me larguei
na beira da cama, os olhos baixos, dois bagaços, e foram seus olhos
plenos de luz em cima de mim, não tenho dúvida, que me fizeram
envenenado, e foi uma onda curta e quieta que me ameaçou de perto,
me levando impulsivo quase a incitá-lo num grito "não se constranja,
meu irmão, encontre logo a voz solene que você procura, uma voz
potente de reprimenda, pergunte sem demora o que acontece comigo
desde sempre, componha gestos, me desconforme depressa a cara, me
quebre contra os olhos a velha louça lá de casa", mas me contive,
achando que exortá-lo, além de inútil, seria uma tolice, e, sem dar por
isso, caí pensando nos seus olhos, nos olhos de minha mãe nas horas
mais silenciosas da tarde, ali onde o carinho e as apreensões de uma
família inteira se escondiam por trás, e pensei quando se abria em
vago instante a porta do meu quarto ressurgindo um vulto maternal e
quase aflito "não fique assim na cama, coração, não deixe sua mãe
sofrer, fale comigo" e surpreso, e assustado, senti que a qualquer
momento eu poderia também explodir em choro, me ocorrendo que
seria bom aproveitar um resto de embriaguez que não se deixara
espantar com sua chegada para confessar, quem sabe piedosamente, "é
o meu delírio, Pedro, é o meu delírio, se você quer saber", mas isso só
foi um passar pela cabeça um tanto tumultuado que me fez virar o
copo em dois goles rápidos, e eu que achava inútil dizer fosse o que
fosse passei a ouvir (ele cumpria a sublime missão de devolver o filho
tresmalhado ao seio da família) a voz de meu irmão, calma e serena
como convinha, era uma oração que ele dizia quando começou a falar
(era o meu pai) da cal e das pedras da nossa catedral.
4
Sudanesa (ou Schuda) era assim: farta; debaixo de uma cobertura
de duas águas, de sapé grosso e dourado, ela vivia dentro de um
quadro de estacas bem plantadas, uma ao lado da outra, que eu nos
primeiros tempos mal ousava espiar através das frinchas; era numa
vasilha de barro fresca e renovada todas as manhãs que ela lavava a
língua e sorvia a água, era numa cama bem fenada, cheirosa e fofa,
que ela deitava o corpo e descansava a cabeça quando o sol lá fora já
estava a pino; tinha um cocho sempre limpo com milho granado de
debulho e um capim verde bem apanhado onde eu esfregava a salsa
para apurar-lhe o apetite; a primeira vez que vi Sudanesa com meus
olhos enfermiços foi num fim de tarde em que eu a trouxe para fora,
ali entre os arbustos floridos que circundavam seu quarto agreste de
cor tesa: eu a conduzi com cuidados de amante extremoso, ela que me
seguia dócil pisando suas patas de salto, jogando e gingando o corpo
ancho suspenso nas colunas bem delineadas das pernas; era do seu
corpo que passei a cuidar no entardecer, minhas mãos humosas
mergulhando nas bacias de ungüentos de cheiros vários,
desaparecendo logo em seguida no pêlo franjado e macio dela; mas
não era uma cabra lasciva, era uma cabra de menino, um contorno de
tetas gordas e intumescidas, expondo com seus trejeitos as partes
escuras mais pudendas, toda sensível quando o pente corria o pêlo
gostoso e abaulado do corpo; era uma cabra faceira, era uma cabra de
brincos, tinha um rabo pequeno que era um pedaço de mola revestido
de boa cerda, tão reflexivo ao toque leve, tão sensitivo ao carinho sutil
e mais suave de um dedo; se esculturava o corpo inteiro quando uma
haste verde — atravessada na boca paciente — era mastigada não com
os dentes mas com o tempo; e era então uma cabra de pedra, tinha nos
olhos bem imprimidos dois traços de tristeza, cílios longos e negros,
era nessa postura mística uma cabra predestinada; Sudanesa foi trazida
à fazenda para misturar seu sangue, veio porém coberta, veio pedindo
cuidados especiais, e, nesse tempo, adolescente tímido, dei os
primeiros passos fora do meu recolhimento: saí da minha vadiagem e,
sacrílego, me nomeei seu pastor lírico: aprimorei suas formas, dei
brilho ao pêlo, dei-lhe colares de flores, enrolei no seu pescoço longos
metros de cipó-de-são-caetano, com seus frutos berrantes e pendentes
como se fossem sinos; Schuda, paciente, mais generosa, quando uma
haste mais túmida, misteriosa e lúbrica, buscava no intercurso o
concurso do seu corpo.
5
O amor, a união e o trabalho de todos nós junto ao pai era uma
mensagem de pureza austera guardada em nossos santuários,
comungada solenemente em cada dia, fazendo o nosso desjejum
matinal e o nosso livro crepuscular; sem perder de vista a claridade
piedosa desta máxima, meu irmão prosseguia na sua prece, sugerindo
a cada passo, e discretamente, a minha imaturidade na vida, falando
dos tropeços a que cada um de nós estava sujeito, e que era normal
que isso pudesse ter acontecido, mas que era importante não esquecer
também as peculiaridades afetivas e espirituais que nos uniam, não
nos deixando sucumbir às tentações, pondo-nos de guarda contra a
queda (não importava de que natureza), era este o cuidado, era esta
pelo menos a parte que cabia a cada membro, o quinhão a que cada
um estava obrigado, pois bastava que um de nós pisasse em falso para
que toda a família caísse atrás; e ele falou que estando a casa de pé,
cada um de nós estaria também de pé, e que para manter a casa
erguida era preciso fortalecer o sentimento do dever, venerando os
nossos laços de sangue, não nos afastando da nossa porta,
respondendo ao pai quando ele perguntasse, não escondendo nossos
olhos ao irmão que necessitasse deles, participando do trabalho da
família, trazendo os frutos para casa, ajudando a prover a mesa
comum, e que dentro da austeridade do nosso modo de vida sempre
haveria lugar para muitas alegrias, a começar pelo cumprimento das
tarefas que nos fossem atribuídas, pois se condenava a um fardo
terrível aquele que se subtraísse às exigências sagradas do dever; ele
falou ainda dos anseios isolados de cada um em casa, mas que era
preciso refrear os maus impulsos, moderar prucientemente os bons,
não perder de vista o equilíbrio, cultivando o autodomínio,
precavendo-se contra o egoísmo e as paixões perigosas que o
acompanham, procurando encontrar a solução para nossos problemas
individuais sem criar problemas mais graves para os que eram de
nossa estima, e que para ponderar em cada caso tinha sempre existido
o mesmo tronco, a mão leal, a palavra de amor e a sabedoria dos
nossos princípios, sem contar que o horizonte da vida não era largo
como parecia, não passando de ilusão, no meu caso, a felicidade que
eu pudesse ter vislumbrado para além das divisas do pai; evitando
conhecer os motivos ímpios da minha fuga (embora sugerindo
discretamente que meus passos fossem um mau exemplo pro Lula, o
caçula, cujos olhos sempre estiveram mais perto de mim), meu irmão
pôs um sopro quente na sua prece pra me lembrar que havia mais
força no perdão do que na ofensa e mais força no reparo do que no
erro, deixando claro que deveriam ser estes o anverso e o reverso
sublimes do bom caráter, cabendo, por ocasião de minha volta, o
primeiro à família, e o reparo do meu erro cabendo a mim, o filho
desgarrado; "você não sabe o que todos nós temos passado esse tempo
da tua ausência, te causaria espanto o rosto acabado da família; é duro
eu te dizer, irmão, mas a mãe já não consegue esconder de ninguém os
seus gemidos" ele disse misturando na sua reprimenda um certo e cada
vez mais tenso sentimento de ternura, ele que vinha caminhando
sereno e seguro, um tanto solene (como meu pai), enquanto eu me
largava numa rápida vertigem, pensando nas provisões dessa pobre
família nossa já desprovida da sua antiga força, e foi talvez, na minha
escuridão, um instante de lucidez eu suspeitar que na carência do seu
alimento espiritual se cozinhava num prosaico quarto de pensão, em
fogo-fátuo, a última reserva de sementes de um plantio; "ela não
contou pra ninguém da tua partida; naquele dia, na hora do almoço,
cada um de nós sentiu mais que o outro, na mesa, o peso da tua
cadeira vazia; mas ficamos quietos e de olhos baixos, a mãe fazendo
os nossos pratos, nenhum de nós ousando perguntar pelo teu
paradeiro; e foi uma tarde arrastada a nossa tarde de trabalho com o
pai, o pensamento ocupado com nossas irmãs em casa, perdidas entre
os afazeres na cozinha e os bordados na varanda, na máquina de
costura ou pondo ordem na despensa; não importava onde estivessem,
elas já não seriam as mesmas nesse dia, enchendo como sempre a casa
de alegria, elas haveriam de estar no abandono e desconforto que
sentiam; era preciso que você estivesse lá, André, era preciso isso; e
era preciso ver o pai trancado no seu silêncio: assim que terminou o
jantar, deixou a mesa e foi pra varanda; ninguém viu o pai se recolher,
ficou ali junto da balaustrada, de pé, olhando não se sabe o que na
noite escura; só na hora de deitar, quando entrei no teu quarto e abri o
guarda-roupa e puxei as gavetas vazias, só então é que compreendi,
como irmão mais velho, o alcance do que se passava: tinha começado
a desunião da família" ele disse e parou, e eu sabia por que ele tinha
parado, era só olhar o seu rosto, mas não olhei, eu também tinha
coisas pra ver dentro de mim, eu poderia era dizer "a nossa desunião
começou muito mais cedo do que você pensa, foi no tempo em que a
fé me crescia virulenta na infância e em que eu era mais fervoroso que
qualquer outro em casa" eu poderia dizer com segurança, mas não era
a hora de especular sobre os serviços obscuros da fé, levantar suas
partes devassas, o consumo sacramentai da carne e do sangue,
investigando a volúpia e os tremores da devoção, mesmo assim eu
passei pensando na minha fita de congregado mariano que eu, menino
pio, deixava ao lado da cama antes de me deitar e pensando também
em como Deus me acordava às cinco todos os dias pr'eu comungar na
primeira missa e em como eu ficava acordado na cama vendo de um
jeito triste meus irmãos nas outras camas, eles que dormindo não
gozavam da minha bem-aventurança, e me distraindo na penumbra
que brotava da aurora, e redescobrindo a cada lance da claridade do
dia, ressurgindo através das frinchas, a fantasia mágica das pequenas
figuras pintadas no alto da parede como cercadura, e só esperando que
ela entrasse no quarto e me dissesse muitas vezes "acorda, coração" e
me tocasse muitas vezes suavemente o corpo até que eu, que fingia
dormir, agarrasse suas mãos num estremecimento, e era então um jogo
sutil que nossas mãos compunham debaixo do lençol, e eu ria e ela
cheia de amor me asseverava num cicio "não acorda teus irmãos,
coração", e ela depois erguia minha cabeça contra a almofada quente
do seu ventre e, curvando o corpo grosso, beijava muitas vezes meus
cabelos, e assim que eu me levantava Deus estava do meu lado em
cima do criado-mudo, e era um deus que eu podia pegar com as mãos
e que eu punha no pescoço e me enchia o peito e eu menino entrava na
igreja feito balão, era boa a luz doméstica da nossa infância, o pão
caseiro sobre a mesa, o café com leite e a manteigueira, essa claridade
luminosa da nossa casa e que parecia sempre mais clara quando a
gente vinha de volta lá da vila, essa claridade que mais tarde passou a
me perturbar, me pondo estranho e mudo, me prostrando desde a
puberdade na cama como um convalescente, "essas coisas nunca
suspeitadas nos limites da nossa casa" eu quase deixei escapar, mas
ainda uma vez achei que teria sido inútil dizer qualquer coisa, na
verdade eu me sentia incapaz de dizer fosse o que fosse, e erguendo
meus olhos vi que meu irmão tinha os olhos mergulhados no seu copo,
e, sem se mexer, como se respondesse ao aceno do meu olhar, ele
disse: "quanto mais estruturada, mais violento o baque, a força e a
alegria de uma família assim podem desaparecer com um único golpe"
foi o que ele disse com um súbito luto no rosto, e parou, e num jorro
instantâneo renasceram na minha imaginação os dias claros de
domingo daqueles tempos em que nossos parentes da cidade se
transferiam para o campo acompanhados dos mais amigos, e era no
bosque atrás da casa, debaixo das árvores mais altas que compunham
com o sol o jogo alegre e suave de sombra e luz, depois que o cheiro
da carne assada já tinha se perdido entre as muitas folhas das árvores
mais copadas, era então que se recolhia a toalha antes estendida por
cima da relva calma, e eu podia acompanhar assim recolhido junto a
um tronco mais distante os preparativos agitados para a dança, os
movimentos irrequietos daquele bando de moços e moças, entre eles
minhas irmãs com seu jeito de camponesas, nos seus vestidos claros e
leves, cheias de promessas de amor suspensas na pureza de um amor
maior, correndo com graça, cobrindo o bosque de risos, deslocando as
cestas de frutas para o lugar onde antes se estendia a toalha, os melões
e as melancias partidas aos gritos da alegria, as uvas e as laranjas
colhidas dos pomares e nessas cestas com todo o viço bem dispostas
sugerindo no centro do espaço o mote para a dança, e era sublime essa
alegria com o sol descendo espremido entre as folhas e os galhos, se
derramando às vezes na sombra calma através de um facho poroso de
luz divina que reverberava intensamente naqueles rostos úmidos, e era
então a roda dos homens se formando primeiro, meu pai de mangas
arregaçadas arrebanhando os mais jovens, todos eles se dando rijo os
braços, cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro,
compondo ao redor das frutas o contorno sólido de um círculo como
se fosse o contorno destacado e forte da roda de um carro de boi, e
logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância,
puxava do bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e
se punha então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se
inflando como as bochechas de uma criança, e elas inflavam tanto,
tanto, e ele sangüíneo dava a impressão de que faria jorrar pelas
orelhas, feito torneiras, todo o seu vinho, e ao som da flauta a roda
começava, quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro
num sentido, depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força
num vaivém duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos
virilmente contra o chão, até que a flauta voava de repente, cortando
encantada o bosque, correndo na floração do capim e varando os
pastos, e a roda então vibrante acelerava o movimento
circunscrevendo todo o círculo, e já não era mais a roda de um carro
de boi, antes a roda grande de um moinho girando célere num sentido
e ao toque da flauta que reapanhava desvoltando sobre seu eixo, e os
mais velhos que presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua
vez, todos eles batiam palmas reforçando o novo ritmo, e não tardava
Ana, impaciente, impetuosa, o corpo de campônia, a flor vermelha
feito um coalho de sangue prendendo de lado os cabelos negros e
soltos, essa minha irmã que, como eu, mais que qualquer outro em
casa, trazia a peste no corpo, ela varava então o círculo que dançava e
logo eu podia adivinhar seus passos precisos de cigana se deslocando
no meio da roda, desenvolvendo com destreza gestos curvos entre as
frutas e as flores dos cestos, só tocando a terra na ponta dos pés
descalços, os braços erguidos acima da cabeça serpenteando
lentamente ao trinado da flauta mais lento, mais ondulante, as mãos
graciosas girando no alto, toda ela cheia de uma selvagem elegância,
seus dedos canoros estalando como se fossem, estava ali a origem das
castanholas, e em torno dela a roda girava cada vez mais veloz, mais
delirante, as palmas de fora mais quentes e mais fortes, e mais
intempestiva, e magnetizando a todos, ela roubava de repente o lenço
branco do bolso de um dos moços, desfraldando-o com a mão erguida
acima da cabeça enquanto serpenteava o corpo, ela sabia fazer as
coisas, essa minha irmã, esconder primeiro bem escondido sob a
língua a sua peçonha e logo morder o cacho de uva que pendia em
bagos túmidos de saliva enquanto dançava no centro de todos, fazendo
a vida mais turbulenta, tumultuando dores, arrancando gritos de
exaltação, e logo entoados em língua estranha começavam a se elevar
os versos simples, quase um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um
primo menor e mais gaiato, levado na corrente, pegava duas tampas de
panelas fazendo os pratos estridentes, e ao som contagiante parecia
que as garças e os marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a
todos ali no bosque, e eu podia imaginar, depois que o vinho tinha
umedecido sua solenidade, a alegria nos olhos do meu pai mais certo
então de que nem tudo em um navio se deteriora no porão, e eu
sentado onde estava sobre uma raiz exposta num canto do bosque
mais sombrio, eu deixava que o vento leve que corria entre as árvores
me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha fronte eu
sentia a carícia livre dos meus cabelos, e eu nessa postura
aparentemente descontraída ficava imaginando de longe a pele fresca
do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de
meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares
não se continham, eu desamarrava os sapatos, tirava as meias e com os
pés brancos e limpos ia afastando as folhas secas e alcançando abaixo
delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida era de
cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à
superfície e me cobrir inteiro de terra úmida, e eu nessa senda oculta
não percebia quando ela se afastava do grupo buscando por todos os
lados com olhos amplos e aflitos, e seus passos, que se aproximavam,
se confundiam de início com o ruído tímido e súbito dos pequenos
bichos que se mexiam num aceno afetuoso ao meu redor, e eu só dava
pela sua presença quando ela já estava por perto, e eu então abaixava a
cabeça e ficava atento para os seus passos que de repente perdiam a
pressa e se tornavam lentos e pesados, amassando distintamente as
folhas secas sob os pés e me amassando confusamente por dentro, e eu
de cabeça baixa sentia num momento sua mão quente e aplicada
colhendo antes o cisco e logo apanhando e alisando meus cabelos, e
sua voz que nascia das calcificações do útero desabrochava de repente
profunda nesse recanto mais fechado onde eu estava, e era como se
viesse do interior de um templo erguido só em pedras mas cheio de
uma luz porosa vazada por vitrais, "vem, coração, vem brincar com
teus irmãos", e eu ali, todo quieto e encolhido, eu só dizia "me deixe,
mãe, eu estou me divertindo" mas meus olhos cheios de amargura não
desgrudavam de minha irmã que tinha as plantas dos pés em fogo
imprimindo marcas que queimavam dentro de mim...; que poeira
clara, vendo então as costas daquele tempo decorrido, o mesmo tempo
que eu um dia, os pés acorrentados, abaixava os olhos para não ver-lhe
a cara; e que peso o dessa mochila presa nos meus ombros quando saí
de casa; colada no meu dorso, caminhamos como gêmeos com as
mesmas costas, as gemas de um mesmo ovo, com olhos voltados pra
frente e olhos voltados pra trás; e eu ali, vendo meu irmão, via muitas
coisas distantes, e ia tomando naquele fim de tarde a resolução
desesperada de me jogar no ventre mole daquela hora; quem sabe eu
de repente terno ainda pedisse a meu irmão que fosse embora:
"lembranças pra família", e fecharia a porta; e quando estivesse só na
minha escuridão, me enrolaria no tenro pano de sol estendido numa
das. paredes do quarto, entregando-me depois, protegido nessa manta,
ao vinho e à minha sorte.
6
Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência
o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me
distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse "para
onde estamos indo?" — não importava que eu, erguendo os olhos,
alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não
importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez
mais afastadas,
pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido,
era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida:
"estamos indo sempre para casa".
7
"Quando contei que vinha pra te buscar de volta, ela ficou parada,
os olhos cheios d'água, era medo nos olhos dela, que é isso, mãe, eu
disse pra ela, vê se fica um pouco alegre, a senhora devia era rir, eu
disse brincando nos cabelos dela, não fique assim desse jeito e nem se
preocupe, eu garanto que não vai ter zanga nenhuma com aquele
fujão, a senhora vai ver que filho mais contente, a senhora vai ver só,
eu disse pra ela, a senhora vai ver como as coisas vão voltar a ser o
que eram, tudo vai ser de novo como era antes, eu disse e ela me
abraçou e enquanto me abraçava ela só dizia traga ele de volta, Pedro,
traga ele de volta e não diga nada pro teu irmão e nem pras tuas irmãs
que você vai, mas traga ele de volta, e enquanto eu dizia deixe disso,
mãe, deixe disso, ela ainda pôde dizer eu vou agora amassar o pão
doce que ele gostava tanto, ela disse me apertando como se te
apertasse, André" e meu irmão sorria, os olhos lavados, cheios de luz,
e tinha a ternura mais limpa do mundo no seu jeito de me olhar, mas
isso não me tocava propriamente, continuei calado, e com a memória
molhada só lembrei dela me arrancando da cama "vem, coração, vem
comigo" e me arrastando com ela pra cozinha e me segurando pela
mão junto da mesa e comprimindo as pontas dos dedos da outra mão
contra o fundo de uma travessa, não era no garfo, era entre as pontas
dos dedos grossos que ela apanhava o bocado de comida pra me levar
à boca "é assim que se alimenta um cordeiro" ela me dizia sempre, e
ouvindo meu irmão dizer de repente recolhido "a mãe envelheceu
muito", eu continuei pensando nela noutra direção e pude vê-la
sentada na cadeira de balanço, absolutamente só e perdida nos seus
devaneios cinzentos, destecendo desde cedo a renda trabalhada a vida
inteira em torno do amor e da união da família, e vendo o pente de
cabeça em sua majestosa simplicidade no apanhado do seu coque eu
senti num momento que ele valia por um livro de história, e senti
também, pensando nela, que estava por romper-se o fruto que me
crescia na garganta, e não era um fruto qualquer, era um figo pingando
em grossas gotas o mel que me entupia os pulmões e já me subia
soberbamente aos olhos, mas num esforço maior, abaixando as
pálpebras, fechei todos os meus poros, embora tudo isso fosse inútil,
pois nada mais detinha meu irmão na sua incansável lavoura: "mas
ninguém em casa mudou tanto como Ana" ele disse "foi só você partir
e ela se fechou em preces na capela, quando não anda perdida num
canto mais recolhido do bosque ou meio escondida, de um jeito
estranho, lá pelos lados da casa velha; ninguém em casa consegue tirar
nossa irmã do seu piedoso mutismo; trazendo a cabeça sempre coberta
por uma mantilha, é assim que Ana, pés descalços, feito sonâmbula,
passa o dia vagueando pela fazenda; ninguém lá em casa nos preocupa
tanto" ele disse e eu vi que meu quarto de repente ficou escuro, e só eu
conhecia aquela escuridão, era uma escuridão a que eu de medo
fechava sempre os olhos, por isso é que me levantei, reagindo contra a
vertigem que eu pressentia, e, a pretexto de encher de novo nossos
copos, fui num passo torto até a mesa trazendo dali outra garrafa, mas
assim que esbocei entornar mais vinho foi a mão de meu pai que eu vi
levantar-se no seu gesto "eu não bebo mais" ele disse grave, resoluto,
estranhamente mudado, "e nem você deve beber mais, não vem deste
vinho a sabedoria das lições do pai" ele disse com um súbito traço de
cólera no cenho, desistindo na certa de quebrar com seu afeto o meu
silêncio, e deixando claro que eu passaria dali pra frente por uma
áspera descompostura, "não é o espírito deste vinho que vai reparar
tanto estrago em nossa casa" ele continuou cortante, "guarde esta
garrafa, previna-se contra o deboche, estamos falando da família" ele
ainda disse impiedoso, francamente hostil, me fazendo sentir de
repente que me escapava da corrente o cão sempre estirado na sombra
sonolenta dos beirais, e me fazendo sentir que a contenção e a
sobriedade mereciam ali o meu escárnio mais sarcástico, e me fazendo
sentir, num clarão de luz, que era uma dádiva generosa e abundante eu
poder me desabar do teto, foi tudo isso e muito mais o que senti com a
tremedeira que me sacudia inteiro num caudaloso espasmo "não faz
mal a gente beber" eu berrei transfigurado, essa transfiguração que há
muito devia ter-se dado em casa "eu sou um epilético" fui explodindo,
convulsionado mais do que nunca pelo fluxo violento que me corria o
sangue "um epilético" eu berrava e soluçava dentro de mim, sabendo
que atirava numa suprema aventura ao chão, descarnando as palmas, o
jarro da minha velha identidade elaborado com o barro das minhas
próprias mãos, e me lançando nesse chão de cacos, caído de boca num
acesso louco eu fui gritando "você tem um irmão epilético, fique
sabendo, volte agora pra casa e faça essa revelação, volte agora e você
verá que as portas e janelas lá de casa hão de bater com essa ventania
ao se fecharem e que vocês, homens da família, carregando a pesada
caixa de ferramentas do pai, circundarão por fora a casa encapuçados,
martelando e pregando com violência as tábuas em cruz contra as
folhas das janelas, e que nossas irmãs de temperamento mediterrâneo
e vestidas de negro hão de correr esvoaçantes pela casa em luto e será
um coro de uivos, soluços e suspiros nessa dança familiar trancafiada
e uma revoada de lenços pra cobrir os rostos e chorando e exaustas
elas hão de amontoar-se num só canto e você grite cada vez mais alto
'nosso irmão é um epilético, um convulso, um possesso' e conte
também que escolhi um quarto de pensão prós meus acessos e diga
sempre 'nós convivemos com ele e não sabíamos, sequer suspeitamos
alguma vez' e vocês podem gritar num tempo só 'ele nos enganou' 'ele
nos enganou' e gritem quanto quiserem, fartem-se nessa redescoberta,
ainda que vocês não dêem conta da trama canhota que me enredou, e
você pode como irmão mais velho lamentar num grito de desespero 'é
triste que ele tenha o nosso sangue' grite, grite sempre 'uma peste
maldita tomou conta dele' e grite ainda 'que desgraça se abateu sobre a
nossa casa' e pergunte em furor mas como quem puxa um terço 'o que
faz dele um diferente?' e você ouvirá, comprimido assim num canto, o
coro sombrio e rouco que essa massa amorfa te fará 'traz o demônio
no corpo' e vá em frente e vá dizendo 'ele tem os olhos tenebrosos' e
você há de ouvir 'traz o demônio no corpo' e continue engrolando as
pedras desse bueiro e diga num assombro de susto e pavor 'que crime
hediondo ele cometeu!' 'traz o demônio no corpo' e diga ainda 'ele
enxovalhou a família, nos condenou às chamas do vexame' e você
ouvirá sempre o mesmo som cavernoso e oco 'traz o demônio no
corpo', 'traz o demônio no corpo' e em clamor, e como quem blasfema,
levantem os braços, ergam numa só voz aos céus 'Ele nos abandonou,
Ele nos abandonou' e depois, cansado de tanta lamúria, de tanto pranto
e ranger de dentes, e ostentando os pêlos do peito e os pêlos dos
braços, vá depois disso direto ao roupeiro, corra ligeiro suas portas e
procure os velhos lençóis de linho ali guardados com tanta aplicação,
e fique atento, fique atento, você verá então que esses lençóis, até eles,
como tudo em nossa casa, até esses panos tão bem lavados, alvos e
dobrados, tudo, Pedro, tudo em nossa casa é morbidamente
impregnado da palavra do pai; era ele, Pedro, era o pai que dizia
sempre é preciso começar pela verdade e terminar do mesmo modo,
era ele sempre dizendo coisas assim, eram pesados aqueles sermões de
família, mas era assim que ele os começava sempre, era essa a sua
palavra angular, era essa a pedra em que tropeçávamos quando
crianças, essa a pedra que nos esfolava a cada instante, vinham daí as
nossas surras e as nossas marcas no corpo, veja, Pedro, veja nos meus
braços, mas era ele também, era ele que dizia provavelmente sem
saber o que estava dizendo e sem saber com certeza o uso que um de
nós poderia fazer um dia, era ele descuidado num desvio, olha o vigor
da árvore que cresce isolada e a sombra que ela dá ao rebanho, os
cochos, os longos cochos que se erguem isolados na imensidão dos
pastos, tão lisos por tantas línguas, ali onde o gado vem buscar o sal
que se ministra com o fim de purificar-lhe a carne e a pele, era ele
sempre dizendo coisas assim na sua sintaxe própria, dura e enrijecida
pelo sol e pela chuva, era esse lavrador fibroso catando da terra a
pedra amorfa que ele não sabia tão modelável nas mãos de cada um;
era assim, Pedro, tinha corredores confusos a nossa casa, mas era
assim que ele queria as coisas, ferir as mãos da família com pedras
rústicas, raspar nosso sangue como se raspa uma rocha de calcário,
mas alguma vez te ocorreu? alguma vez te passou pela cabeça, um
instante curto que fosse, suspender o tampo do cesto de roupas no
banheiro? alguma vez te ocorreu afundar as mãos precárias e trazer
com cuidado cada peça ali jogada? era o pedaço de cada um que eu
trazia nelas quando afundava minhas mãos no cesto, ninguém ouviu
melhor o grito de cada um, eu te asseguro, as coisas exasperadas da
família deitadas no silêncio recatado das peças íntimas ali largadas,
mas bastava ver, bastava suspender o tampo e afundar as mãos,
bastava afundar as mãos pra conhecer a ambivalência do uso, os
lenços dos homens antes estendidos como salvas pra resguardar a
pureza dos lençóis, bastava afundar as mãos pra colher o sono
amarrotado das camisolas e dos pijamas e descobrir nas suas dobras,
ali perdido, a energia encaracolada e reprimida do mais meigo cabelo
do púbis, e nem era preciso revolver muito para encontrar as manchas
periódicas de nogueira no fundilho dos panos leves das mulheres ou
escutar o soluço mudo que subia do escroto engomando o algodão
branco e macio das cuecas, era preciso conhecer o corpo da família
inteira, ter nas mãos as toalhas higiênicas cobertas de um pó vermelho
como se fossem as toalhas de um assassino, conhecer os humores
todos da família mofando com cheiro avinagrado e podre de varizes
nas paredes frias de um cesto de roupa suja; ninguém afundou mais as
mãos ali, Pedro, ninguém sentiu mais as manchas de solidão, muitas
delas abortadas com a graxa da imaginação, era preciso surpreender
nosso ossuário quando a casa ressonava, deixar a cama, incursionar
através dos corredores, ouvir em todas as portas as pulsações, os
gemidos e a volúpia mole dos nossos projetos de homicídio, ninguém
ouviu melhor cada um em casa, Pedro, ninguém amou mais, ninguém
conheceu melhor o caminho da nossa união sempre conduzida pela
figura do nosso avô, esse velho esguio talhado com a madeira dos
móveis da família; era ele, Pedro, era ele na verdade nosso veio
ancestral, ele naquele seu terno preto de sempre, grande demais pra
carcaça magra do corpo, carregando de torpeza a brancura seca do seu
rosto, era ele na verdade que nos conduzia, era ele sempre apertado
num colete, a corrente do relógio de bolso desenhando no peito escuro
um brilhante e enorme anzol de ouro; era esse velho asceta, esse
lavrador fenado de longa estirpe que na modorra das tardes antigas
guardava seu sono desidratado nas canastras e nas gavetas tão bem
forradas das nossas cômodas, ele que não se permitia mais que o
mistério suave e lírico, nas noites mais quentes, mais úmidas, de
trazer, preso à lapela, um jasmim rememorado e onírico, era ele a
direção dos nossos passos em conjunto, sempre ele, Pedro, sempre ele
naquele silêncio de cristaleiras, naquela perdição de corredores, nos
fazendo esconder os medos de meninos detrás das portas, ele não nos
permitindo, senão em haustos contidos, sorver o perfume mortuário
das nossas dores que exalava das suas solenes andanças pela casa
velha; era ele o guia moldado em gesso, não tinha olhos esse nosso
avô, Pedro, nada existia nas duas cavidades fundas, ocas e sombrias
do seu rosto, nada, Pedro, nada naquele talo de osso brilhava além da
corrente do seu terrível e oriental anzol de ouro" eu disse aos berros,
me agitando, e vendo em meu irmão surpresa, susto, medo e muito
branco na sua cara, eu, que podia ainda gritar "tape os ouvidos, enfie
os dedos no buraco", eu, que antes, num desarvoro demoníaco, tinha
me deslocado de um canto para o outro, eu de repente me pus de
joelhos, me sentando sobre os calcanhares, e vendo sua mão trêmula,
ele próprio decidindo encher de novo nossos copos, eu, tomado de
dubiedades, já não sabia se devia esmurrá-lo no rosto ou beijá-lo nas
faces; e por instantes caímos num arrumado silêncio para que nada
perturbasse a corrente do meu transe; entre pesados goles de vinho,
contemplando ora o teto do meu quarto, ora, no meu irmão, as coisas
escuras que eu via em sua boca, pude notar o cuidado que ele punha
em compor um olhar e uma postura que me exortassem a continuar; eu
quis dizer "não se preocupe, meu irmão, não se preocupe que sei como
retomar o meu acesso", afinal, que importância tinha ainda dizer as
coisas? o mundo pra mim já estava desvestido, bastava tão só puxar o
fôlego do fundo dos pulmões, o vinho do fundo das garrafas, e banhar
as palavras nesse doce entorpecimento, sentindo com a língua
profunda cada gota, cada bago esmagado pelos pés deste vinho, deste
espírito divino; "é o meu delírio, Pedro" eu disse numa onda morna, "é
o meu delírio" eu tornei a dizer, me ocorrendo que eu já pudesse estar
em comunhão com a saliva oleosa desse verbo, mas eram na verdade
só as primeiras ressonâncias do meu sangue tinto que eu sentia salso e
grosso, e refluindo na cabeça, e intumescendo ali a flor antes inerme, e
fazendo daquele amontoado de vermes, despojada de galões, a
almofada sacra pr'eu deitar meu pensamento; só eu sabia naquele
instante de espumas em que águas, em que ondas eu próprio
navegava, só eu sabia que vertigem de sal me fazia oscilar, "é o meu
delírio" eu disse ainda numa onda mais escura, cansado de idéias
repousadas, olhos afetivos, macias contorções, que tudo fosse
queimado, meus pés, os espinhos dos meus braços, as folhas que me
cobriam a madeira do corpo, minha testa, meus lábios, contanto que
ao mesmo tempo me fosse preservada a língua inútil; o resto, depois,
pouco importava depois que fosse tudo entre lamentos, soluços e
gemidos familiares; "Pedro, meu irmão, eram inconsistentes os
sermões do pai" eu disse de repente com a frivolidade de quem se
rebela, sentindo por um instante, ainda que fugaz, sua mão ensaiando
com aspe-reza o gesto de reprimenda, mas logo se retraindo calada e
pressurosa, era a mão assustada da família saída da mesa dos sermões;
que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta
daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas,
cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos
distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas.
8
Onde eu tinha a cabeça? que feno era esse que fazia a cama, mais
macio, mais cheiroso, mais tranqüilo, me deitando no dorso profundo
dos estábulos e dos currais? que feno era esse que me guardava em
repouso, entorpecido pela língua larga de uma vaca extremosa, me
ruminando carícias na pele adormecida? que feno era esse que me
esvaía em calmos sonhos, sobrevoando a queimadura das urtigas e me
embalando com o vento no lençol imenso da floração dos pastos? que
sono era esse tão frugal, tão imberbe, só sugando nos mamilos o caldo
mais fino dos pomares? que frutos tão conclusos assim moles
resistentes quando mordidos e repuxados no sono dos meus dentes?
que grãos mais brancos e seráficos, debulhando sorrisos plácidos, se a
varejeira do meu sonho verde me saía pelos lábios? que semente mais
escondida, mais paciente! que hibernação mais demorada! que sol
mais esquecido, que rês mais adolescente, que sono mais abandonado
entre mourões, entre mugidos! onde eu tinha a cabeça? não tenho
outra pergunta nessas madrugadas inteiras em claro em que abro a
janela e tenho ímpetos de acender círios em fileiras sobre as asas
úmidas e silenciosas de uma brisa azul que feito um cachecol alado
corre sempre na mesma hora a atmosfera; não era o meu sono, como
um antigo pomo, todo feito de horas maduras? que resinas se
dissolviam na danação do espaço, me fustigando sorrateiras a relva
delicada das narinas? que sopro súbito e quente me ergueu os cílios de
repente? que salto, que potro inopinado e sem sossego correu com
meu corpo em galope levitado? essas as perguntas que vou
perguntando em ordem e sem saber a quem pergunto, escavando a
terra sob a luz precoce da minha janela, feito um madrugador
enlouquecido que na temperatura mais caída da manhã se desfaz das
cobertas do leito uterino e se põe descalço e em jejum a arrumar
blocos de pedra numa prateleira; não era de feno, era numa cama bem
curtida de composto, era de estrume meu travesseiro, ali onde germina
a planta mais improvável, certo cogumelo, certa flor venenosa, que
brota com virulência rompendo o musgo dos textos dos mais velhos;
este pó primevo, a gema nuclear, engendrado nos canais subterrâneos
e irrompendo numa terra fofa e imaginosa: "que tormento, mas -que
tormento, mas que tormento!" fui confessando e recolhendo nas
palavras o licor inútil que eu filtrava, mas que doce amargura dizer as
coisas, traçando num quadro de silêncio a simetria dos canteiros, a
sinuosidade dos caminhos de pedra no meio da relva, fincando as
estacas de eucalipto dos viveiros, abrindo com mãos cavas a boca das
olarias, erguendo em prumo as paredes úmidas das esterqueiras, e
nesse silêncio esquadrinhado em harmonia, cheirando a vinho,
cheirando a estrume, compor aí o tempo, pacientemente.
9
Que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta
daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas,
cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos
distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas: "O tempo é
o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível,
o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o
tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não
tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo
entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está
em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu
primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de
anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura
trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas
cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes
da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente
que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na
massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que
nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo
que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no
amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e
braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e
humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura,
não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu
curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo,
brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a
sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem
supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de
espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar
por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa
casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais
largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa
iniciativa; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à
frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar
a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém
ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar
as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para
erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no
uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e
ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do
tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem
esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre
da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de
uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos
pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a
exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção
ágil ao mais sutil desnível; são sábias as mãos rudes do peixeiro
pesando sua pesca de cheiro forte: firmes, controladas, arrancam de
dois pratos pendentes, através do cálculo conciso, o repouso absoluto,
a imobilidade e sua perfeição; só chega a este raro resultado aquele
que não deixa que um tremor maligno tome conta de suas mãos, e nem
que esse tremor suba corrompendo a santa força dos braços, e nem
circule e se estenda pelas áreas limpas do corpo, e nem intumesça de
pestilências a cabeça, cobrindo os olhos de alvoroço e muitas trevas;
não é na bigorna que calçamos os estribos, nem é inflamável a fibra
com que tecemos as trancas de nossas rédeas, pode responder a que
parte vai quem monta, por que é célere, um potro xucro? o mundo das
paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar
o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um
crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e
pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que
cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e
nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há
de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair
jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta
dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a
substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra
ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai
daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se
deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai
daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos
os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne
viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por
seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as
mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir
de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um
branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta
intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba
por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que
quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva
que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam
turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo
peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o
corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as
trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que
força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e
ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua
poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das
paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos
sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva
daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe
a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços
quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há
de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer; caprichoso
como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo,
bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade,
abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só
agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o
tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto,
é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a
tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos
que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se
lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o
relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o
repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas
secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a
fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda
de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas
as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei
inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo,
não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência
que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar,
encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo
religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso
desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo
contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos,
construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se
formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um
reino penoso de expectativas e suas dores; na doçura da velhice está a
sabedoria, e, nesta mesa, na cadeira vazia da outra cabeceira, está o
exemplo: é na memória do avô que dormem nossas raízes, no ancião
que se alimentava de água e sal para nos prover de um verbo limpo,
no ancião cujo asseio mineral do pensamento não se perturbava nunca
com as convulsões da natureza; nenhum entre nós há de apagar da
memória a formosa senilidade dos seus traços; nenhum entre nós há
de apagar da memória sua descarnada discrição ao ruminar o tempo
em suas andanças pela casa; nenhum entre nós há de apagar da
memória suas delicadas botinas de pelica, o ranger das tábuas nos
corredores, menos ainda os passos compassados, vagarosos, que só se
detinham quando o avô, com dois dedos no bolso do colete, puxava
suavemente o relógio até a palma, deitando, como quem ergue uma
prece, o olhar calmo sobre as horas; cultivada com zelo pelos nossos
ancestrais, a paciência há de ser a primeira lei desta casa, a viga
austera que faz o suporte das nossas adversidades e o suporte das
nossas esperas, por isso é que digo que não há lugar para a blasfêmia
em nossa casa, nem pelo dia feliz que custa a vir, nem pelo dia funesto
que súbito se precipita, nem pelas chuvas que tardam mas sempre
vêm, nem pelas secas bravas que incendeiam nossas colheitas; não
haverá blasfêmia por ocasião de outros reveses, se as crias não
vingam, se a rês definha, se os ovos goram, se os frutos mirram, se a
terra lerda, se a semente não germina, se as espigas não embucham, se
o cacho tomba, se o milho não grana, se os grãos caruncham, se a
lavoura pragueja, se se fazem pecas as plantações, se desabam sobre
os campos as nuvens vorazes dos gafanhotos, se raiva a tempestade
devastadora sobre o trabalho da família; e quando acontece um dia de
um sopro pestilento, vazando nossos limites tão bem vedados, chegar
até as cercanias da moradia, insinuando-se sorrateiramente pelas
frestas das nossas portas e janelas, alcançando um membro
desprevenido da família, mão alguma em nossa casa há de fechar-se
em punho contra o irmão acometido: os olhos de cada um, mais doces
do que alguma vez já foram, serão para o irmão exasperado, e a mão
benigna de cada um será para este irmão que necessita dela, e o olfato
de cada um será para respirar, deste irmão, seu cheiro virulento, e a
brandura do coração de cada um, para ungir sua ferida, e os lábios
para beijar ternamente seus cabelos transtornados, que o amor na
família é a suprema forma da paciência; o pai e a mãe, os pais e os
filhos, o irmão e a irmã: na união da família está o acabamento dos
nossos princípios; e, circunstancialmente, entre posturas mais
urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no
chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na
altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos
assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos
olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o
tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando
jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam
nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos,
traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao cocho, o gado
sempre vai ao poço; hão de ser esses, no seu fundamento, os modos da
família: baldrames bem travados, paredes bem amarradas, um teto bem
suportado; a paciência é a virtude das virtudes, não é sábio quem se
desespera, é insensato quem não se submete." E o pai à cabeceira fez a pausa
de costume, curta, densa, para que medíssemos em silêncio a majestade
rústica da sua postura: o peito de madeira debaixo de um algodão grosso e
limpo, o pescoço sólido sustentando uma cabeça grave, e as mãos de dorso
largo prendendo firmes a quina da mesa como se prendessem a barra de um
púlpito; e aproximando depois o bico de luz que deitava um lastro de cobre
mais intenso em sua testa, e abrindo com os dedos maciços a velha
brochura, onde ele, numa caligrafia grande, angulosa, dura, trazia
textos compilados, o pai, ao ler, não perdia nunca a solenidade: "Era
uma vez um faminto."
10
(Fundindo os vidros e os metais da minha córnea, e atirando um
punhado de areia pra cegar a atmosfera, incursiono às vezes num sono
já dormido, enxergando através daquele filtro fosco um pó rudimentar,
uma pedra de moenda, um pilão, um socador provecto, e uns varais
extensos, e umas gamelas ulceradas, carcomidas, de tanto esforço em
suas lidas, e uma caneca amassada, e uma moringa sempre à sombra
machucada na sua bica, e um torrador de café, cilíndrico, fumacento,
enegrecido, lamentoso, pachorrento, girando ainda à manivela na
memória; e vou extraindo deste poço as panelas de barro, e uma
cumbuca no parapeito fazendo de saleiro, e um Ia tão de leite sempre
assíduo na soleira, e um ferro de passar saindo ao vento pra recuperar
a sua febre, e um bule de ágata, e um fogão a lenha, e um tacho
imenso, e uma chaleira de ferro, soturna, chocando dia e noite sobre a
chapa; e poderia retirar do mesmo saco um couro de cabrito ao pé da
cama, e uma louça ingênua adornando a sala, e uma Santa Ceia na
parede, e as capas brancas escondendo o encosto das cadeiras de
palhinha, e um cabide de chapéu feito de curvas, e um antigo portaretrato,
e uma fotografia castanha, nupcial, trazendo como fundo um
cenário irreal, e puxaria ainda muitos outros fragmentos, miúdos,
poderosos, que conservo no mesmo fosso como guardião zeloso das
coisas da família.)
11
"Não tinha ainda abandonado a nossa casa, Pedro, mas os olhos da
mãe já suspeitavam minha partida" eu disse ao meu irmão, passado o
primeiro alvoroço que sua presença tinha provocado naquele quarto de
pensão; "quando fui procurar por ela, eu quis dizer a senhora se
despede de mim agora sem me conhecer, e me ocorreu que eu pudesse
também dizer não aconteceu mais do que eu ter sido aninhado na
palha do teu útero por nove meses e ter recebido por muitos anos o
toque doce das tuas mãos e da tua boca; eu quis dizer é por isso que
deixo a casa, por isso é que parto, quantas coisas, Pedro, eu não
poderia dizer pra mãe, mas meus olhos naquele momento não podiam
recusar as palmas prudentes de velhos artesãos, me apontando pedras,
me apontando paisagens esquisitas, calcinadas, me modelando calos,
modelando solas nos meus pés de barro; claro que eu poderia dizer
muitas coisas pra mãe, mas achei inútil dizer qualquer coisa, não faz
sentido, eu pensei, largar nestas pobres mãos cobertas de farinha a
haste de um cravo exasperado, não faz sentido, eu pensei duas vezes,
manchar seu avental, cortar o cordão esquartejando um sol sangüíneo
de meio-dia, não faz sentido, eu pensei três vezes, rasgar lençóis e
pétalas, queimar cabelos e outras folhas, encher minha boca
drasticamente construída com cinzas devassadas da família, por isso
em vez de dizer a senhora não me conhece, achei melhor, sem me
desviar do traço de calcário, mesmo sem água, de boca seca e salgada,
achei melhor me guardar trancado diante dela, como alguém que não
tivesse nada, e na verdade eu não tinha nada pra dizer a ela; e ela
queria dizer alguma coisa, e eu pensei a mãe tem alguma coisa pra
dizer que vou talvez escutar, alguma coisa pra dizer que deve quem
sabe ser guardada com cuidado, mas tudo o que pude ouvir, sem que
ela dissesse nada, foram as trincas na louça antiga do seu ventre, ouvi
dos seus olhos um dilacerado grito de mãe no parto, senti seu fruto
secando com meu hálito quente, mas eu não podia fazer nada, eu
podia quem sabe dizer alguma coisa, meus olhos estavam escuros,
mesmo assim não era impossível eu dizer, por exemplo, eu e a senhora
começamos a demolir a casa, seria agora o momento de atirar com
todos os pratos e moscas pela janela o nosso velho guarda-comida,
raspar a madeira, agitar os alicerces, pôr em vibração as paredes
nervosas, fazendo tombar com nosso vento as telhas e as nossas penas
em alvoroço como se caíssem folhas; não era impossível eu dizer pra
ela vamos aparar, mãe, com nossas mãos terníssimas, os laivos de
sangue das nossas pedras, vamos pôr grito neste rito, não basta o
lamento quebrado da matraca lá na capela; não era impossível, mas eu
já te disse, Pedro, meus olhos estavam mais escuros do que jamais
alguma vez estiveram, como podia eu empunhar o martelo e o serrote
e reconstruir o silêncio da casa e seus corredores? mas entenda, Pedro,
com meus olhos sempre noturnos, eu, o filho arredio, provocando as
suspeitas e os temores na família inteira, não era com estradas que eu
sonhava, jamais me passava pela cabeça abandonar a casa, jamais
tinha pensado antes correr longas distâncias em busca de festas prós
meus sentidos; entenda, Pedro, eu já sabia desde a mais tenra
puberdade quanta decepção me esperava fora dos limites da nossa
casa" eu disse quase afogado nessa certeza, procurando me recompor
com um bom respiro no espírito do vinho, e foi entre sorvos sôfregos
que eu fui depois, num passo trôpego, na direção de um móvel alto e
circunspecto, retirando dali a caixa que logo transferi para junto dos
pés do meu irmão que ia se perdendo na estufa do meu quarto,
deixando já cair no chão a pala castanha do seu olhar contemplativo, e
quando surpreendi, ao abrir a caixa, o gesto que nele se esboçava, me
ocorreu dizer cheio de febre "Pedro, Pedro, é do teu silêncio que eu
preciso agora, levante as viseiras, passeie os olhos, solte-lhes as
rédeas, mas contenha a força e o recato da família, e o ímpeto áspero
da tua língua, pois só no teu silêncio úmido, só nesse concerto esquivo
é que reconstituo, por isso molhe os lábios, molhe a boca, molhe os
teus dentes cariados, e a sonda que desce para o estômago, encha essa
bolsa de couro apertada pelo teu cinto, deixe que o vinho vaze pelos
teus poros, só assim é que se cultua o obsceno" foi o que eu quis dizer
com a volúpia de um colecionador de ligas de mulheres, mas acabei
não dizendo nada, nem ele disse qualquer coisa, logo recolhendo o
aceno vago do seu gesto, e quando vi que meu irmão quase esvaziava
num só gole o copo cheio, me ocorreu ainda dizer enternecido "ah,
meu irmão, começamos a nos entender, pois já vejo tua boca
descongestionada, e nos teus olhos a doce ação do vinho fazendo
correr o leite azul que te espirra agora das pupilas, o mesmo leite
envenenado que irrigou um dia a tumescência em úberes cancerosos",
mas já não era o caso de exortá-lo, naquele meu quarto decaído,
estávamos os dois já quase encharcados, as uvas no forro, e nossos
olhos molhados, nossas contas de vidro, presos com afinco na caixa
que eu virava de boca, virando com ela o tempo, me remetendo às
noites sorrateiras em que minha sanha se esgueirava incendiada da
fazenda, trocando a cama macia lá de casa por um duro chão de
estrada que me levava até a vila, sem receio das crendices noctívagas
que povoavam aquele curto trajeto, assustando com meu fogo a cruz
calada à beira do caminho, assim como as histórias assombradas mal
escondidas pelos ferros do portão do cemitério por onde eu passava,
conduzido e sempre fortalecido por minhas reflexões profanas de
adolescente; "pegue, Pedro, pegue na mão e pese este objeto ínfimo"
eu disse erguendo uma fita estreita de veludo roxo, esquiva, uma
gargantilha de pescoço; "este trapo não é mais que o desdobramento, é
o sutil prolongamento das unhas sulferinas da primeira prostituta que
me deu, as mesmas unhas que me riscaram as costas exaltando minha
pele branda, patas mais doces quando corriam minhas partes mais
pudendas, é uma doida pena ver esse menino trêmulo com tanta
pureza no rosto e tanta limpeza no corpo, ela me disse, é uma doida
pena um menino de penugens como você, de peito liso sem
acabamento, se queimando na cama feito graveto; toma o que você me
pede, guarda essa fitinha imunda com você e volta agora pro teu
nicho, meu santinho, ela me disse com carinho, com rameirices, com
gargalhadas, mas era lá, Pedro, era lá que eu, escapulindo da fazenda
nas noites mais quentes, e banhado em fé insolente, comungava quase
estremunhado, me ocultando da freqüência de senhores, assim como
da desenvoltura de muitos moços, desajeitado no aconchego viscoso
daquelas casas, escondendo de vergonha meus pés brancos, minhas
unhas limpas, meus dentes de giz, o asseio da minha roupa, minha
cara imberbe de criança; ah, meu irmão, não me deitei nesse chão de
tangerinas incendiadas, nesse reino de drosófilas, não me entreguei
feito menino na orgia de amoras assassinas? não era acaso uma paz
precária essa paz que sobrevinha, ter meu corpo estirado num colchão
de erva daninha? não era acaso um sono provisório esse outro sono,
ter minhas unhas sujas, meus pés entorpecidos, piolhos me abrindo
trilhas nos cabelos, minhas axilas visitadas por formigas? não era
acaso um sono provisório esse segundo sono, ter minha cabeça
coroada de borboletas, larvas gordas me saindo pelo umbigo, minha
testa fria coberta de insetos, minha boca inerte beijando escaravelhos?
quanta sonolência, quanto torpor, quanto pesadelo nessa adolescência!
afinal, que pedra é essa que vai pesando sobre meu corpo? há uma
frieza misteriosa nesse fogo, para onde estou sendo levado um dia?
que lousa branca, que pó anêmico, que campo calado, que copos-deleite,
que ciprestes mais altos, que lamentos mais longos, que elegias
mais múltiplas plangendo meu corpo adolescente! muitas vezes,
Pedro, eu dizia muitas vezes existe um silêncio fúnebre em tudo que
corre, vai uma alquimia virtuosa nessa mistura insólita, como é
possível tanto repouso nesse movimento? eu pensava muitas vezes
que eu não devia pensar, que nessa história de pensar eu tinha já o
meu contento, me estrebuchando na santa bruxaria do infinito, por isso
eu pensava muitas vezes que o meu caminho não era de eu pensar, e
que não devia ser esse o meu vezo na correnteza, eu devia, isto sim, eu
devia quando muito era apoiar a nuca num travesseiro de espumas,
deitar o dorso numa esteira de folhas, fechar os olhos, e, largado na
corrente, minhas mãos ativas que se deixassem roçar em abandono por
colônias de algas, pelos dejetos à tona e o lodo espesso, mas eu me
permitia uma e outra vez sair frivolamente desse meu sono e me
perguntar para onde estou sendo levado um dia? Pedro, meu irmão,
engorde os olhos nessa memória escusa, nesses mistérios roxos, na
coleção mais lúdica desse escuro poço: no pano murcho dessas flores,
nesta orquídea amarrotada, neste par de ligas cor-de-rosa, nesta
pulseira, neste berloque, nessas quinquilharias todas que eu sempre
pagava com moedas roubadas ao pai; entre um pouco nessas coisas
que me dormiam e que eu só guardava para um dia espalhar, e que eu
só ia enterrando nesta caixa para um dia desenterrar e espalhar na terra
e pensar com estes meus olhos de agora foi uma longa, foi uma longa,
foi uma longa adolescência! Pedro, Pedro, era a peta dos meus olhos
me guiando pra casas tão pejadas, era refocilando ali que eu largava
minha peçonha, esse visgo tão recôndito, essa gema de sopro ázimo de
tão sorvido, mas jamais vislumbrei pelas portas e janelas, espiando
com afinco através das cortinas de pingentes e da luz vermelha dos
abajures, o sal, a hóstia, o amor da nossa Catedral! carregue com você,
Pedro" eu disse num grito "carregue essas miudezas todas pra casa e
conte entre olhares de assombro como foi se erguendo a história do
filho e a história do irmão; encomende depois uma noite bem quente
ou simplesmente uma lua bem prenhe; espalhe aromas pelo pátio,
invente nardos afrodisíacos; convoque então nossas irmãs, faça vestilas
com musselinas cavas, faça calçá-las com sandálias de tiras;
pincele de carmesim as faces plácidas e de verde a sombra dos olhos e
de um carvão mais denso suas pestanas; adorne a alba dos seus braços
e os pescoços despojados e seus dedos tão piedosos, ponha um pouco
dessas pedrarias fáceis naquelas peças de marfim; faça ainda que
brincos muito sutis mordisquem o lóbulo das orelhas e que suportes
bem concebidos açulem os mamilos; e não esqueça os gestos, elabore
posturas langorosas, escancarando a fresta dos seios, expondo pedaços
de coxas, imaginando um fetiche funesto para os tornozelos;
revolucione a mecânica do organismo, provoque naqueles lábios então
vermelhos, debochados, o escorrimento grosso de humores
pestilentos; carregue esses presentes com você e lá chegando anuncie
em voz solene 'são do irmão amado para as irmãs' e diga, é
importante: 'cuidado, muito cuidado em retirá-los deste saco, em paga
aos sermões do pai, o filho tresmalhado também manda, entre os
presentes, um pesado riso de escárnio'; vamos, Pedro, ponha no saco"
eu berrei numa fúria contente vendo a súbita mudança que eu
provocava em meu irmão, um ímpeto ruivo faiscou nos seus olhos,
sua mão desenhou garranchos no ar, assustadores, essa mesma mão
que já ensaiava com segurança a sucessão da mão do pai, mas tudo se
apagou num instante, senti seus olhos de repente dilacerados, meu
irmão chorava minha demência, discretamente, longe de suspeitar que
percebido assim eu acabava de receber mais uma graça: liberado na
loucura, eu que só estava a meio caminho dessa lúcida escuridão; eu
quis dizer pra ele "tempere nesta mão a voz potente, a ternura contida,
a palavra certa, corra com ela meus cabelos, afague-os, proteja minha
nuca, em circunstâncias como esta, assim faria a mão do pai, severa";
e me ocorreu também que eu poderia exortá-lo de forma correta
enquanto enchia de novo os nossos copos, dizendo, por exemplo,
"dilate as pupilas, esbugalhe os olhos, aperte tua mão na minha, irmão,
e vamos".
12
(...e é enxergando os utensílios, e mais o vestuário da família, que
escuto vozes difusas perdidas naquele fosso, sem me surpreender
contudo com a água transparente que ainda brota lá do fundo; e recuo
em nossas fadigas, e recuo em tanta luta exausta, e vou puxando desse
feixe de rotinas, um a um, os ossos sublimes do nosso código de
conduta: o excesso proibido, o zelo uma exigência, e, condenado
como vício, a prédica constante contra o desperdício, apontado sempre
como ofensa grave ao trabalho; e reencontro a mensagem morna de
cenhos e sobrolhos, e as nossas vergonhas mais escondidas nos
traindo no rubor das faces, e a angústia ácida de um pito vindo a
propósito, e uma disciplina às vezes descarnada, e também uma escola
de meninos-artesãos, defendendo de adquirir fora o que pudesse ser
feito por nossas próprias mãos, e uma lei ainda mais rígida, dispondo
que era lá mesmo na fazenda que devia ser amassado o nosso pão:
nunca tivemos outro em nossa mesa que não fosse o pão-de-casa, e era
na hora de reparti-lo que concluíamos, três vezes ao dia, o nosso ritual
de austeridade, sendo que era também na mesa, mais que em qualquer
outro lugar, onde fazíamos de olhos baixos o nosso aprendizado da
justiça.)
13
Era uma vez um faminto. Passando um dia diante de uma morada
singularmente grande, ele se dirigiu às pessoas que se aglomeravam
nos degraus da escadaria, perguntando a quem pertencia aquele
palácio. "A um rei dos povos, o mais poderoso do Universo"
responderam. O faminto foi então até os guardiães postados no
pórtico de entrada e pediu uma esmola em nome de Deus. "Donde
vens tu?" perguntaram os guardiães, "então não sabes que basta te
apresentares ao nosso amo e senhor para teres tudo quanto desejas?"
Animado pela resposta, o faminto, embora um tanto ressabiado,
transpôs o pórtico, atravessou o pátio espaçoso que se seguia à
entrada, assim como o jardim sombreado de vigorosas árvores, e logo
alcançou o interior do palácio, passando de aposento em aposento,
todos grandes, de paredes muito altas, mas despojados de qualquer
mobília; sem se deixar perder no labirinto daquela estranha moradia,
ele acabou por chegar a uma ampla sala revestida de azulejos
decorados com desenhos de flores e folhagens que compunham
agradavelmente com a enorme taça de alabastro plantada no meio da
peça, de onde jorrava água fresca e docemente rumorejante; um tapete
de veludo bordado com arabescos cobria parte desta sala, onde,
recostado em almofadas, estava sentado um ancião de suaves barbas
brancas, a face iluminada por um sorriso benigno. O faminto avançou
para o ancião de barbas formosas, saudando-o: "Que a paz esteja
contigo!" "E contigo a paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus!"
respondeu o ancião inclinando ligeiramente a fronte. "Que desejas,
pobre homem?" "Ó meu senhor e amo, peço-te uma esmola em nome
de Deus, pois estou tão necessitado a ponto de cair de fome." "Por
Deus!" exclamou o ancião "é possível que eu esteja numa cidade onde
um ser humano tenha fome como dizes? É intolerável!" "Que Deus te
abençoe e abençoada seja tua santa mãe" disse o faminto em
reconhecimento aos sentimentos do ancião. "Fica aqui, pobre homem,
quero repartir contigo o pão e que te sirvas do sal da minha mesa." E
logo o ancião bateu palmas e ao jovem serviçal que se apresentou
ordenou que trouxesse o gomil com a bacia. E disse pouco depois para
o faminto: "Hóspede amigo, chega-te mais perto e lava as mãos." E o
próprio ancião levantou-se, dobrou o corpo para a frente, e fez com
nobreza o gesto de esfregar as mãos debaixo da água que era
supostamente derramada de um gomil invisível. O faminto ficou sem
saber o que pensar da encenação que seus olhos viam e, como o
ancião insistisse, ele deu dois passos e fez também de conta que
lavava as mãos. "Ponham a toalha. Depressa!" ordenou o ancião aos
servidores "e não demorem em trazer-nos o que comer, que este pobre
homem está quase a desfalecer de fome." Vários servos começaram a
ir e vir, como se pusessem a mesa e a cobrissem com numerosos
pratos. O faminto, dobrando-se de dor, pensou com seus botões que os
pobres deviam mostrar muita paciência diante dos caprichos dos
poderosos, abstendo-se por isso de dar mostras de irritação. "Senta-te
a meu lado" disse o ancião "e trata de honrar a minha mesa." "Ouço e
obedeço" disse o faminto sentando-se no tapete ao lado do ancião,
frente à mesa imaginária. "Senhor meu hóspede, minha casa é a tua
casa e minha mesa é a tua mesa. Não faças cerimônia, come enquanto
estiveres no apetite." E como o ancião o estimulasse a acompanhá-lo,
o faminto não se fez esperar, logo simulando também tocar nos
supostos pratos, espetar bons nacos, e, movendo o queixo, mastigar e
engolir a comida inexistente. "Que me dizes deste pão?" perguntou o
ancião. "Este pão é bem alvo e muito bom, nunca na vida comi outro
que mais me soubesse" respondeu prontamente o faminto, sem forçar
sua gentileza. "Que prazer tu me dás, ó senhor meu hóspede! Mas
penso que não mereço esses elogios, senão que dirás tu das iguarias
que estão à tua esquerda, este assado com recheio de arroz e
amêndoas, este peixe em molho de gergelim, ou estas costelas de
carneiro! E que dirás do aroma?" "O aroma é embriagador tanto
quanto o aspecto e o paladar divinos." "Não posso deixar de
reconhecer que o senhor meu hóspede está animado da maior
indulgência para com a minha mesa, por isso mesmo vais provar agora
da minha própria mão um bocado incomparável" disse o ancião,
simulando tirar entre as pontas dos dedos um bocado da travessa e
chegá-lo aos lábios do faminto, dizendo: "Deves mastigar bem!" O
faminto estendeu os lábios para que o bocado lhe fosse introduzido na
boca, mastigando-o bastante em seguida, fechando até os olhos de
deleite para dar maior realidade à sua representação: "Excelente!"
exclamou em acabamento. "Ó meu hóspede amigo, pelo modo como
falas bem se vê que és pessoa de gosto, habituado a comer à mesa de
príncipes e de grandes; come mais, e que te faça bom proveito."
"Estou satisfeito, já provei de todos os pratos, não posso mais" disse o
faminto sorrindo em agradecimento, e mal contendo as dores da sua
terrível fome. O ancião então bateu palmas e quando vieram os servos
disse: "Podem trazer a sobremesa." Os jovens servos romperam numa
azáfama, agitando os braços em gestos variados e com certo ritmo,
depois de tantos outros rápidos e precisos que significavam levantar
uma toalha e pôr outra, embora nada fosse mudado. Finalmente o
ancião ergueu a mão e eles se retiraram. "Dulcifiquemo-nos" disse o
ancião com algum preciosismo "vamos aos doces: esta torta empolada
de nozes e romãs, com certo ar épico, parece muito capaz de nos
tentar. Prova um bocado, hóspede amigo, é em tua honra que ela há de
ser partida. Tens aqui a calda almiscarada, talvez queiras mesmo
polvilhá-la... Come, come, não faças cerimônia." E o ancião dava o
exemplo, imolando colherada sobre colherada, com apetite e requinte,
numa encenação tão perfeita, como se saboreasse uma torta de
verdade. E o faminto o imitava com arte, embora a fome mais do que
nunca lhe contraísse o estômago. "Geléias? Frutas? Tens aqui tâmaras
secas, tâmaras em licor, passas... De que é que mais gostas? Por mim
prefiro a fruta seca à fruta preparada pelo confeiteiro, não se perdeu o
sabor nativo. Tens de provar também esses figos acabados de colher
da árvore. Não? E os pêssegos? Talvez prefiras ameixas... Tens aqui,
come, come, Deus é clemente com os humanos!" O faminto, que à
força de mastigar em falso tinha a boca e a língua e os maxilares
cansados, ao passo que o estômago lhe gritava cada vez mais alto,
respondeu à insistência continuada do ancião: "Estou satisfeito,
senhor, não quero mais nada!" "É estranho! Pela fome que te trouxe
até aqui, hóspede amigo, admira que te saciasses tão depressa; de
qualquer forma, foi uma honra dividir minha mesa contigo. Mas ainda
não bebemos..." disse o ancião com um leve traço de zomba lhe
percorrendo os lábios, e logo bateu palmas e a esse sinal acorreram
adolescentes de braços graciosos em suas túnicas claras, e simularam
levantar a toalha, pôr outra, e plantar em cima taças e copos de toda a
ordem. E o anfitrião, encenando sempre, encheu as taças, oferecendo
uma ao faminto que a recebeu com vênia amável, levando-a em
seguida aos lábios: "Que vinho sublime!" exclamou ele fechando de
novo os olhos e estalando a língua. E mais vinho foi derramado nas
taças, e outros supostos vinhos foram trazidos, de muitas espécies e
sabores. Um e outro entremeavam a consumação, entregando-se ao
jogo instável dos embriagados, pendulando lentamente a cabeça e o
meio-corpo, além de muitos outros trejeitos, até que todas as garrafas
fossem provadas. E depois de ter deitado tanto vinho nos copos, o
ancião interrompeu subitamente a falsa bebedeira, e, assumindo sua
antiga simplicidade, a fisionomia de repente austera, falou com
sobriedade ao faminto com quem dividira imaginariamente sua mesa:
"Finalmente, à força de procurar muito pelo mundo todo, acabei por
encontrar um homem que tem o espírito forte, o caráter firme, e que,
sobretudo, revelou possuir a maior das virtudes de que um homem é
capaz: a paciência. Por tuas qualidades raras, passas doravante a morar
nesta casa tão grande e tão despojada de habitantes, e está certo de que
alimento não te há de faltar à mesa." E naquele mesmo instante
trouxeram pão, um pão robusto e verdadeiro, e o faminto, graças à sua
paciência, nunca mais soube o que era fome.
(Como podia o homem que tem o pão na mesa, o sal para salgar, a
carne e o vinho, contar a história de um faminto? como podia o pai,
Pedro, ter omitido tanto nas tantas vezes que contou aquela história
oriental? terminava confusamente o encontro entre o ancião e o
faminto, mas era com essa confusão terapêutica que o pai deveria ter
narrado a história que ele mais contou nos seus sermões; o soberano
mais poderoso do Universo confessava de fato que acabara de
encontrar, à custa de muito procurar, o homem de espírito forte,
caráter firme e que, sobretudo, tinha revelado possuir a virtude mais
rara de que um ser humano é capaz: a paciência; antes porém que esse
elogio fosse proferido, o faminto — com a força surpreendente e
descomunal da sua fome, desfechara um murro violento contra o
ancião de barbas brancas e formosas, explicando-se diante de sua
indignação: "Senhor meu e louro da minha fronte, bem sabes que sou
o teu escravo, o teu escravo submisso, o homem que recebeste à tua
mesa e a quem banqueteaste com iguarias dignas do maior rei, e a
quem por fim mataste a sede com numerosos vinhos velhos. Que
queres, senhor, o espírito do vinho subiu-me à cabeça e não posso
responder pelo que fiz quando ergui a mão contra o meu benfeitor.")
14
Saltei num instante para cima da laje que pesava sobre meu corpo,
meus olhos de início foram de espanto, redondos e parados, olhos de
lagarto que abandonando a água imensa tivesse deslizado a barriga
numa rocha firme; fechei minhas pálpebras de couro para proteger-me
da luz que me queimava, e meu verbo foi um princípio de mundo:
musgo, charcos e lodo; e meu primeiro pensamento foi em relação ao
espaço, e minha primeira saliva revestiu-se do emprego do tempo;
todo espaço existe para um passeio, passei a dizer, e a dizer o que
nunca havia sequer suspeitado antes, nenhum espaço existe se não for
fecundado, como quem entra na mata virgem e se aloja no interior,
como quem penetra num círculo de pessoas em vez de circundá-lo
timidamente de longe; e na claridade ingênua e cheia de febre logo me
apercebi, espiando entre folhagens suculentas, do vôo célere de um
pássaro branco, ocupando em cada instante um espaço novo; pela
primeira vez senti o fluxo da vida, seu cheiro forte de peixe, e o
pássaro que voava traçava em meu pensamento uma linha branca e
arrojada, da inércia para o eterno movimento; e mal saindo da água do
meu sono, mas já sentindo as patas de um animal forte galopando no
meu peito, eu disse cegado por tanta luz tenho dezessete anos e minha
saúde é perfeita e sobre esta pedra fundarei minha igreja particular, a
igreja para o meu uso, a igreja que freqüentarei de pés descalços e
corpo desnudo, despido como vim ao mundo, e muita coisa estava
acontecendo comigo pois me senti num momento profeta da minha
própria história, não aquele que alça os olhos pro alto, antes o profeta
que tomba o olhar com segurança sobre os frutos da terra, e eu pensei
e disse sobre esta pedra me acontece de repente querer, e eu posso!
vendo o sol se enchendo com seu sangue antigo, retesando os
músculos perfeitos, lançando na atmosfera seus dardos de cobre
sempre seguidos de um vento quente zunindo nos meus ouvidos, me
rondando o sono quieto de planta, despenteando o silêncio do meu
ninho, me espicaçando o couro nas pontas da sua luz metálica, me
atirando numa súbita insônia ardente, que bolhas nos meus poros, que
correntes nos meus pêlos enquanto perseguia fremente uma corça
esguia, cada palavra era uma folha seca e eu nessa carreira pisoteando
as páginas de muitos livros, colhendo entre gravetos este alimento
ácido e virulento, quantas mulheres, quantos varões, quantos
ancestrais, quanta peste acumulada, que caldo mais grosso neste fruto
da família! eu tinha simplesmente forjado o punho, erguido a mão e
decretado a hora: a impaciência também tem os seus direitos!
15
(Em memória do avô, faço este registro: ao sol e às chuvas e aos
ventos, assim como a outras s manifestações da natureza que faziam
vingar ou destruir nossa lavoura, o avô, ao contrário dos
discernimentos promíscuos do pai — em que apareciam enxertos de
várias geografias, respondia sempre com um arroto tosco que valia por
todas as ciências, por todas as igrejas e por todos os sermões do pai:
"Maktub."1)
1 "Está escrito."
16
Pondo folhas vermelhas em desassossego, centenas de feiticeiros
desceram em caravana do alto dos galhos, viajando com o vento,
chocalhando amuletos nas suas crinas, urdindo planos escusos com
urtigas auditivas, ostentando um arsenal de espinhos venenosos em
conluio aberto com a natureza tida por maligna; povoaram a atmosfera
de resinas e de ungüentos, carregando nossos cheiros primitivos,
esfregando nossos narizes obscenos com o pó dos nossos polens e o
odor dos nossos sebos clandestinos, cavando nossos corpos de um
apetite mórbido e funesto; sentindo duas mãos enormes debaixo dos
meus passos, me recolhi na casa velha da fazenda, fiz dela o meu
refúgio, o esconderijo lúdico da minha insônia e suas dores, tranquei
ali, entre as páginas de um missal, minha libido mais escura;
devolvendo às origens as raízes dos meus pés, me desloquei entre
ratos cinzentos, explorei o silêncio dos corredores, percorri a madeira
que gemia, as rachas nas paredes, janelas arriadas, o negrume da
cozinha, e, inflando minhas narinas para absorver a atmosfera mais
remota da família, ia revivendo os suspiros esquálidos pendendo dos
caibros com as teias de aranha, a história tranqüila debruçada nos
para-peitos, uma história mais forte nas suas vigas; marcando o
silêncio úmido daquele poço, só existia um braço de sol passando
sorrateiro por uma fresta do telhado, acendendo um pequeno lume,
poroso e frio, no chão do assoalho; incidindo em cada canto meu
tormento sacro e profano, ia enchendo os cômodos em abandono com
minhas preces, iluminando com meu fogo e minha fé as sombras
esotéricas que fizeram a fama assustada da casa velha; e enquanto me
subiam os gemidos subterrâneos através das tábuas, eu fui dizendo,
como quem ora, ainda incendeio essa madeira, esses tijolos, essa
argamassa, logo fazendo do quarto maior da casa o celeiro dos meus
testículos (que terra mais fecunda, que vagidos, que rebento mais
inquieto irrompendo destas sementes!), vertendo todo meu sangue
nesta senda atávica, descansando em palha o meu feto renascido,
embalando-o na palma, espalhando as pétalas prematuras de uma rosa
branca, eu já corria na minha espera, eu disparava na embriaguez (que
vinho mais lúcido no verso destas minhas pálpebras!), me pondo a
espiar pelas frinchas feito bicho, acenando com minha presença dentro
da casa velha através do espelho dos meus olhos, o mesmo aço
intermitente e espicaçante com que no bosque, ou nos pastos,
transmitíamos à distância os nossos códigos proibidos: que paixão
mais pressentida, que pestilências, que gritos!
17
O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo
brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um
tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era
um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos,
confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos
imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais
áspero, eu estou louco! e que saliva mais corrosiva a desse verbo, me
lambendo de fantasias desesperadas, compondo máscaras terríveis na
minha cara, me atirando, às vezes mais doce, em preâmbulos afetivos
de uma orgia religiosa: que potro enjaezado corria o pasto, esfolando
as farpas sangüíneas das nossas cercas, me guiando até a gruta
encantada dos pomares! que polpa mais exasperada, guardada entre
folhas de prata, tingindo meus dentes, inflamando minha língua,
cobrindo minha pele adolescente com suas manchas! o tempo, o
tempo, o tempo me pesquisava na sua calma, o tempo me castigava,
ouvi clara e distintamente os passos na pequena escada de entrada:
que súbito espanto, que atropelos, vendo o coração me surgir assim de
repente feito um pássaro ferido, gritando aos saltos na minha palma!
disparei na direção da porta: ninguém estava lá; investiguei os
arbustos destruídos no abandono do jardim em frente, mas nada ali se
mexia, era um vento parado, cheio de silêncio, nem mesmo uma
tímida palpitação corria o mato, a imaginação tem limites eu ainda
pude pensar, existia também um tempo que não falha! voltando ao
quarto onde eu ficava, mal entrei voei para a janela, espiando através
da fresta (Deus!): ela estava lá, não longe da casa, debaixo do telheiro
selado que cobria a antiga tábua de lavar, meio escondida pelas ramas
da velha primavera, assustadiça no recuo depois de um ousado
avanço, olhando ainda com desconfiança pra minha janela, o corpo de
campônia, os pés descalços, a roupa em desleixo cheia de graça,
branco branco o rosto branco e eu me lembrei das pombas, as pombas
da minha infância, me vendo também assim, espreitando atrás da
veneziana, como espreitava do canto do paiol quando criança a pomba
ressabiada e arisca que media com desconfiança os seus avanços, o
bico minucioso e preciso bicando e recuando ponto por ponto, mas
avançando sempre no caminho tramado dos grãos de milho, e eu
espreitava e aguardava, porque existe o tempo de aguardar e o tempo
de ser ágil (foi essa uma ciência que aprendi na infância e esqueci
depois) e acompanhava e ia lendo na imaginação as cruzetas
deformadas e graciosas, impressas nos seus recuos e nos seus avanços
pelos pés macios no chão de terra; e existia o tempo de ser ágil, e era
então um farfalhar quase instantâneo de asas quando a peneira lhe caía
sorrateira em cima, e minhas mãos já eram um ninho, e era ; então um
estremecimento que eu apertava entre idéias enquanto corria pelo
quintal em alvoroço gritando é minha é minha e me detendo pra
conhecer melhor seus olhos pequenos e redondos, matreiros mas agora
em puro espanto, e arrancava-lhe com decisão as penas das asas,
cortando temporariamente seus largos vôos, o tempo de surgirem
novas penas e novas asas, e também uma afeição nova, e era esse o
doce aprisionamento que a aguardava já quando de novo em
condições de pleno vôo; e as pombas do meu quintal eram livres de
voar, partiam para longos passeios mas voltavam sempre, pois não era
mais do que amor o que eu tinha e o que eu queria delas, e voavam
para bem longe e eu as reconhecia nos telhados das casas mais
distantes entre o bando de pombas desafetas que eu acreditava um dia
trazer também pro meu quintal imenso; ela estava lá, branco branco o
rosto branco e eu podia sentir toda dubiedade, o tumulto e suas dores,
e pude pensar cheio de fé eu não me engano neste incêndio, nesta
paixão, neste delírio, e fiquei imaginando que para atraí-la de um jeito
correto eu deveria ter tramado com grãos de uva uma trilha sinuosa até
o pé da escada, pendurado pencas de romãs frescas nas janelas da
fachada e ter feito uma guirlanda de flores, em cores vivas, correr na
velha balaustrada do varandão que circundava a casa; existia o tempo
de aguardar, mas eu já tropeçava, voltando impaciente da janela,
chutei com violência a palha que eu, no bico, dia-a-dia, tinha
amontoado no meio do quarto, e foi uma ventania de cisco na cabeça,
por um instante me perdi naquele redemoinho, contemplando confuso
a agitação do meu próprio ninho: era a vida dentro do quarto! voltei a
espreitar pela fresta, e ela já não estava debaixo do telheiro e eu já não
estava dentro de mim, tinha voado pra porta de entrada: o tempo, o
tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio
absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e
sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e
erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento
preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que
marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem
para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de
vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia
para ser vida nos subterrâneos da memória; ela estava agora diante de
mim, de pé ali na entrada, branco branco o rosto branco filtrando as
cores antigas de emoções tão diferentes, compondo com a moldura da
porta o quadro que ainda não sei onde penduro, se no corre-corre da
vida, se na corrente da morte; e ficamos assim um de frente para o
outro, sem nos mexermos, mudos, um nó cego nas nossas mentes, mas
bastava que ela transpusesse a soleira, era uma ciência de menino, mas
já era uma ciência feita de instantes, a linha numa das mãos, o coração
na outra, não se podia ser ágil tendo-se pela frente instantes de
paciência, do contrário seria um desabar prematuro ferindo a ave, que
levantaria um vôo machucado em alvoroço; grão por grão, instante
por instante, mais manhosa era a pomba quanto mais próxima da
peneira, bicando o chão com firmeza, mas tremendo antes o pescoço,
como o braço de um monjolo sempre indeciso a meio caminho do seu
destino; e a cada bico e a cada ponto, tremendo depois as asas,
ameaçando as penas em recuo, até que, transpondo o arco da peneira,
um doce alimento faria esquecer, projetada na terra, a grade da sua
tela; era uma ciência de menino, mas era uma ciência complicada,
nenhum grão de mais, nenhum instante de menos, para que a ave não
encontrasse o desânimo na carência nem na fartura, existia a medida
sagaz, precisa, capaz de reter a pomba confiante no centro da
armadilha; numa das mãos um coração em chamas, na outra a linha
destra que haveria de retesar-se com geometria, riscando um traço
súbito na areia que antes encobria o cálculo e a indústria; nenhum
arroubo, nenhum solavanco na hora de puxar a linha, nenhum instante
de mais no peso do braço tenso.
18
Foi este o instante: ela transpôs a soleira, me contornando pelo
lado como se contornasse um lenho erguido à sua frente, impassível,
seco, altamente inflamável; não me mexi, continuei o madeiro tenso,
sentindo contudo seus passos dementes atrás de mim, adivinhando
uma pasta escura turvando seus olhos, mas a sombra indecisa foi aos
poucos descrevendo movimentos desenvoltos, perdendo-se logo no
túnel do corredor: fechei a porta, tinha puxado a linha, sabendo que
ela, em algum lugar da casa, imóvel, de asas arriadas, se encontraria
esmagada sob o peso de um destino forte; ali mesmo, junto da porta,
tirei sapatos e meias, e sentindo meus pés descalços na umidade do
assoalho senti também meu corpo de repente obsceno, surgiu,
virulento, um osso da minha carne, eu tinha esporas nos meus
calcanhares, que crista mais sangüínea, que paixão desassombrada,
que espasmos pressupostos! afundei no corredor pisando numa
passadeira de perigo, um tremor benigno me sacudia inteiro, mas
nenhum ruído nos meus passos, nenhum estilhaço, nenhum gemido no
assoalho, logo me detendo onde tinha de me deter, estava escrito: ela
estava lá, deitada na palha, os braços largados ao longo do corpo,
podendo alcançar o céu pela janela, mas seus olhos estavam fechados
como os olhos fechados de um morto, e eu ainda me pergunto agora
como montei minha força no galope daquele risco, eu tinha meus
pêlos ruivos e um monte de palha enxuta à minha frente, mas não se
questiona na aresta de .; um instante o destino dos nossos passos,
bastava 'que eu soubesse que o instante que passa, passa
definitivamente, e foi numa vertigem que me estirei queimando ao
lado dela, me joguei inteiro j numa só flecha, tinha veneno na ponta
desta haste, e embalando nos braços a decisão de não mais adiar a
vida, agarrei-lhe a mão num ímpeto ousado, mas a mão que eu
amassava dentro da minha estava em repouso, não tinha verbo naquela
palma, nenhuma inquietação, não tinha alma aquela asa, era um
pássaro morto que eu apertava na mão, e me vendo assim perdido de
repente, sem saber em que atalho eu, e em que outro atalho a minha
fé, nós dois que até ali éramos um só, vi com espanto que meu
continente se bifurcava, que precariedade nesta separação, quanta
incerteza, quantas mãos, que punhados de cabelos, acabei gritando
minha parte alucinada, levantei nos lábios esquisitos uma prece alta,
cheia de febre, que jamais eu tinha feito um dia, um milagre, um
milagre, meu Deus, eu pedia, um milagre e eu na minha descrença Te
devolvo a existência, me concede viver esta paixão singular fui
suplicando enquanto a polpa feroz dos meus dedos tentava revitalizar
a polpa fria dos dedos dela, que esta mão respire como a minha, ó
Deus, e eu em paga deste sopro voarei me deitando ternamente sobre
Teu corpo, e com meus dedos aplicados removerei o anzol de ouro
que Te fisgou um dia a boca, limpando depois com rigor Teu rosto
machucado, afastando com cuidado as teias de aranha que cobriram a
luz antiga dos Teus olhos; não me esquecerei das Tuas sublimes
narinas, deixando-as tão livres para que venhas a respirar sem saber
que respiras; removerei também o pó corrupto que sufocou Tua
cabeleira telúrica, catando zelosamente os piolhos que riscaram trilhas
no Teu couro; limparei Tuas unhas escuras nas minhas unhas,
colherei, uma a uma, as libélulas que desovam no Teu púbis, lavarei
Teus pés em água azul recendendo a alfazema, e, com meus olhos
afetivos, sem me tardar, irei remendando a carne aberta no meio dos
Teus dedos; Te insuflarei ainda o ar quente dos meus pulmões e,
quando o vaso mais delgado vier a correr, Tu verás então Tua pele
rota e chupada encher-se de açúcar e Tua boca dura e escancarada
transformar-se num pomo maduro; e uma penugem macia ressurgirá
com graça no lugar dos antigos pêlos do Teu corpo, e também no
lugar das Tuas velhas axilas de cheiro exuberante, e caracóis
incipientes e meigos na planície do Teu púbis, e uma penugem de
criança há de crescer junto ao halo doce do Teu ânus sempre túmido
de vinho; e tudo isso ressurgirá em Ti num corpo adolescente do
mesmo milagre que as '. penas lisas e sedosas dos pássaros depois da
muda ' e a brotação das folhas novas e cintilantes das árvores na
primavera; e logo um vento brando há I de devolver o gesto soberano
dos Teus cabelos, havendo júbilo e louçania nesta expansão; Te
vestirei então de cetim branco com largas palas guarnecidas de galões
dourados, ajustando nos Teus dedos anéis cujas pedras guardam os
olhares de todos os profetas, e braceletes de ferro para Teus punhos e
um ramo de oliveira para Tua nobre fronte; resinas silvestres
escorrerão pelo Teu corpo fresco e limpo, punhados de estrelas
cobrirão Tua cabeça de menino como se estivesses sobre um andor de
chão de lírios; e alimentos tenros Te serão servidos em folhas de
parreira, e uvas e laranjas e romãs frescas, e, de pomares mais
distantes, colhidas da memória dos meus genitores, as frutas secas, os
figos e o mel das tâmaras, e a Tua glória então nunca terá sido maior
em toda a Tua história! que dubiedade, que ambigüidade já sinto nesta
mão, alguma alma quem sabe pulsa neste gesso enfermo, algum
fôlego, alguma cicatriz vindoura já rememora sua dor de agora; um
milagre, meu Deus, e eu Te devolvo a vida e em Teu nome sacrificarei
uma ovelha do rebanho do meu pai, entre as que estiverem pascendo
na madrugada azulada, uma nova e orvalhada, de corpo rijo e ágil e
muito agreste; arregaçarei os braços, reúno faca e cordas, amarro, duas
a duas, suas tenras patas, imobilizando a rês assustada debaixo dos
meus pés; minha mão esquerda se prenderá aos botões que despontam
no lugar dos cornos, torcendo suavemente a cabeça para cima até
descobrir a área pura do pescoço, e com a direita, grave, desfecho o
golpe, abrindo-lhe a garganta, liberando balidos, liberando num jorro
escuro e violento o sangue grosso; tomarei a ovelha ainda fremente
nos meus braços, faço-a pendente de borco de uma verga, deixando ao
chão a seiva substanciosa que corre dos tubos decepados; entrarei na
sua pele um caniço resoluto que comporte, duro e resistente, um sopro
forte, aplicando nele meus lábios e soprando como meu velho tio
soprava a flauta, enchendo-a de uma antiga canção desesperada,
estufando seu tamanho como só a morte de três dias estufa os animais;
e esfolada, e rasgado o seu ventre de cima até embaixo, haverá uma
intimidade de mãos e vísceras, de sangues e virtudes, visgos e
preceitos, de velas exasperadas carpindo óleos sacros e muitas outras
águas, para que a Tua fome obscena seja também revitalizada; um
milagre, um milagre, eu ainda suplicava em fogo quando senti assim
de repente que a mão anêmica que eu apertava era um súbito coração
de pássaro, pequeno e morno, um verbo vermelho e insano já se
agitando na minha palma! cheio de tremuras, cegado de muros tão
caiados, esmaguei a água dos meus olhos e disse sempre em febre
Deus existe e em Teu nome imolarei um animal para nos provermos
de carne assada, e decantaremos numerosos vinhos capitosos, e nos
embriagaremos depois como dois meninos, e subiremos escarpas de
pés descalços (que tropel de anjos, que acordes de cítaras, já ouço
cascos repicando sinos!) e, de mãos dadas, iremos juntos incendiar o
mundo!
19
"Era Ana, era Ana, Pedro, era Ana a minha fome" explodi de
repente num momento alto, expelindo num só jato violento meu
carnegão maduro e pestilento, "era Ana a minha enfermidade, ela a
minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu
sopro, o assédio impertinente dos meus testículos" gritei de boca
escancarada, expondo a textura da minha língua exuberante,
indiferente ao guardião escondido entre meus dentes, espargindo
coágulos de sangue, liberando a palavra de nojo trancada sempre em
silêncio, "era eu o irmão acometido, eu, o irmão exasperado, eu, o
irmão de cheiro virulento, eu, que tinha na pele a gosma de tantas
lesmas, a baba derramada do demo, e ácaros nos meus poros, e
confusas formigas nas minhas axilas, e profusas drosófilas festejando
meu corpo imundo; me traga logo, Pedro, me traga logo a bacia dos
nossos banhos de meninos, a água morna, o sabão de cinza, a bucha
crespa, a toalha branca e felpuda, me enrole nela, me enrole nos teus
braços, enxugue meus cabelos transtornados, corra depois com tua
mão grave a minha nuca, componha depressa este ritual de ternura, é
isso o que te compete, a você, Pedro, a você que abriu primeiro a mãe,
a você que foi brindado com a santidade da primogenitura" eu disse
espumando e dolorido, me escorregando na lascívia de uma saliva
escusa, e embora caído numa sanha de possesso vi que meu irmão,
assombrado pelo impacto do meu vento, cobria o rosto com as mãos,
era impossível adivinhar que ríctus lhe trincava o tijolo requeimado da
cara, que faísca de pedra lhe partia quem sabe os olhos, estava claro
que ele tateava à procura de um bordão, buscava com certeza a terra
sólida e dura, eu podia até escutar seus gemidos gritando por socorro,
mas vendo-lhe a postura profundamente súbita e quieta (era o meu
pai) me ocorreu também que era talvez num exercício de paciência
que ele se recolhia, consultando no escuro os textos dos mais velhos, a
página nobre e ancestral, a palma chamando à calma, mas na corrente
do meu transe já não contava a sua dor misturada ao respeito pela letra
dos antigos, eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais
sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais
conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram
jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina
(a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e
que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e
só o meu ponto de vista, e que era um requinte de saciados testar a
virtude da paciência com a fome de terceiros, e dizer tudo isso num
acesso verbal, espasmódico, obsessivo, virando a mesa dos sermões
num revertério, destruindo travas, ferrolhos e amarras, tirando não
obstante o nível, atento ao prumo, erguendo um outro equilíbrio, e
pondo força, subindo sempre em altura, retesando sobretudo meus
músculos clandestinos, redescobrindo sem demora em mim todo o
animal, cascos, mandíbulas e esporas, deixando que um sebo oleoso
cobrisse minha escultura enquanto eu cavalgasse fazendo minhas
crinas voarem como se fossem plumas, amassando com minhas patas
sagitárias o ventre mole deste mundo, consumindo neste pasto um
grão de trigo e uma gorda fatia de cólera embebida em vinho, eu, o
epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala
convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de
tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado da irmã, o
nome pervertido de Ana, retirando da fímbria das palavras ternas o
sumo do meu punhal, me exaltando de carne estremecida na volúpia
urgente de uma confissão (que tremores, quantos sóis, que estertores!)
até que meu corpo lasso num momento tombasse docemente de
exaustão.
20
Deitado na palha, nu como vim ao mundo, eu conheci a paz; o
quarto estava escuro, era talvez a hora em que as mães embalam os
filhos, soprando-lhes ternas fantasias; mas lá fora ainda era dia, era
um fim de tarde cheio de brandura, era um céu tenro todo feito de um
rosa dúbio e vagaroso; caí pensando nessa hora tranqüila em que os
rebanhos procuram o poço e os pássaros derradeiros buscam o seu
pouso; e pensei também que eu poderia, se me debruçasse na janela,
ver as nuvens esgarçadas se deslocando pacientemente como as barbas
de um ancião, até que no céu uma suave concha escura apagasse o dia,
cobrindo-se aos poucos de muitas mamas, pra nutrir na madrugada
meninos de pijama; e eu pressentia, na hora de acordar, as duas mãos
enormes debaixo dos meus passos, a natureza logo fazendo de mim
seu filho, abrindo seus gordos braços, me borrifando com o frescor do
seu sereno, me enrolando num lençol de relva, me tomando feito
menino no seu regaço; cuidaria cheia de zelo dos meus medos,
acendendo depressa a luz da aurora, desmanchando pela manhã a
fumaça ainda remota, ventos profusos me enxugariam os pés nos seus
cabelos, me deixando os cílios orvalhados de colírio; e um toque vago
e tão vasto me correria ainda o corpo calmo, me fazendo cócegas
benignas, eriçando com doçura minha penugem, polvilhando minha
carne tenra com pó de talco, me passando um cordão vermelho no
pescoço, pendurando aí, contra quebrantos, uma encantada figa de
osso; num ledo sítio lá do bosque, debaixo das árvores de copas altas,
o chão brincando com seu jogo de sombra e luz, teria águas de fontes
e arrulhos de regatos a meu lado, folhas novas me adornando a fronte,
o mato nos meus dentes me fazendo o hálito, mel e romãs à minha
espera, pombas sem idade nos meus ombros e uma bola amarela
boiando no seio imenso da atmosfera, provocando um afago doido nos
meus lábios; e era, Ana a meu lado, tão certo, tão necessário que assim
fosse, que eu pensei, na hora fosca que anoitecia, descer ao jardim
abandonado da casa velha, vergar o ramo flexível de um arbusto e
colher uma flor antiga para os seus joelhos; em vez disso, com mão
pesada de camponês, assustando dois cordeiros medrosos escondidos
nas suas coxas, corri sem pressa seu ventre humoso, tombei a terra,
tracei canteiros, sulquei o chão, semeei petúnias no seu umbigo; e
pensei também na minha uretra desapertada como um caule de
crisântemo, e fiquei pensando que muitas vezes, feito meninos,
haveríamos os dois de rir ruidosamente, espargindo a urina de um
contra o corpo do outro, e nos molhando como há pouco, e trocando
sempre através das nossas línguas laboriosas a saliva de um com a
saliva do outro, colando nossos rostos molhados pelos nossos olhos, o
rosto de um contra o rosto do outro, e só pensando que nós éramos de
terra, e que tudo o que havia em nós só germinaria em um com a água
que viesse fio outro, o suor de um pelo suor do outro; e neste repouso
de terras e tantas águas, alguém baixou com suavidade minhas
pálpebras, me levando, desprevenido, a consentir num sono ligeiro, eu
que não sabia que o amor requer vigília: não há paz que não tenha um
fim, supremo bem, um termo, nem taça que não tenha um fundo de
veneno; era uma sabedoria corrente, mas que frivolidade a minha,
alguém mais forte do que eu é que puxava a linha e, menino esperto e
sagaz, eu tinha caído na propalada armadilha do destino: enfiou seu
longo braço nos frutos do meu saco, pinçou nos finos dedos o fundo,
e, súbito, num fechar d'olhos, virou meu doce mundo pelo avesso;
houve medo e susto quando tateei a palha, abri os olhos, eram duas
brasas, e meu corpo, eu não tinha dúvida, fora talhado sob medida pra
receber o demo: uma sanha de tinhoso me tomou de assalto assim que
dei pela falta dela, e me vi de repente, com alguma cautela, no
corredor escuro, e perguntei com palavras claras "se você está na casa,
me responda, Ana", e foi uma pergunta equilibrada, quase branda, eu
procurava, embora me queimando, aliciar a casa velha, seu silêncio de
morcegos, os seus fantasmas, trazê-los todos, como aliados, para o
meu lado, e repeti "me responda, Ana" e de novo minha voz
repercutiu em ondas, e aguardei (eu tinha de provar minha paciência),
mas ficando sem resposta eu passei, num ranger de tábuas e num furor
crescente, a vasculhar todos os cômodos, peça por peça, canto por
canto, sombra por sombra, e não encontrando vestígio dela corri então
para a varanda, gelando minha medula o recolhimento dessa noite
escura: os arbustos do antigo jardim, destroçados pelas trepadeiras
bravas que os cobriam, tinham se transformado em blocos
fantasmagóricos num reino ruidoso de insetos; de encontro à
balaustrada, olhei em todas as direções, e lá prós lados dos campos de
pastagem, parados debaixo da velha aroeira, os bois, alguns ainda de
pé, compunham silhuetas, dormindo; arrebentei com meus pulmões,
berrei o nome de Ana com todos os meus foles, mas foi inútil, os
destroços do jardim em frente não se mexiam no seu sono e os bois
naquela hora eram todos de granito, que indiferença, que natureza
imunda, nenhum aceno prós meus apelos, que sentimento de
impotência! convencido da sua fuga, pensei em arranhar o rosto,
cravar-me as próprias unhas, sangrar meu corpo, que desamparo! e foi
a toda que me evadi da casa velha, os pés descalços, e no vôo das
minhas pernas abriu-se de repente um outro sítio e vi, nem sei se com
espanto, lá onde era a capela, em arco, sua porta estreita aberta,
alguém no seu interior acabava de acender velas; estanquei meu vôo,
foi só um instante, não tinha por que parar, eu não tinha o que pensar,
por isso retomei minha corrida e, quando próximo, refreei minhas
passadas atropeladas, eu não queria, esbaforido, alvoroçar sua prece:
Ana estava lá, diante do pequeno oratório, de joelhos, e pude
reconhecer a toalha da mesa do altar cobrindo os seus cabelos; tinha o
terço entre os dedos, corria as primeiras contas, os olhos presos na
imagem do alto iluminada entre duas velas; vendo seu perfil piedoso,
os lábios num tenso formigamento, caí numa vertigem passageira, mas
logo me encontrava dentro da capela que longe estava de ser a mesma
dos tempos claros da nossa infância; eu tinha entrado numa câmara de
bronze, apertada, onde se comprimiam, a postos, simulados nas muitas
sombras, todos os meus demônios, que encenações as do destino
usando o tempo (confundia-se com ele!), revestindo-o de cálculo e de
indústria, não ia direto ao desfecho: antes de puxar a linha, acendia
velas, punha Ana de joelhos, e, generoso e liberal lá na capela, deixou
à minha escolha, de um lado, os barros santos, de outro, legiões do
demo; também eu, ainda menino, deixava à ingênua pomba uma
escolha igual: de um lado, uma areia desprovida de alimento, de outro,
promessas de abundância debaixo da peneira; desde menino, eu não
era mais que uma sombra feita à imagem do destino, também eu
complicava os momentos de um trajeto: construía uma sinuosa trilha
com grãos de milho até a peneira, embora a linha que decidisse,
escondida sob a areia, corresse esticada numa só reta; por que então
esses caprichos, tantas cenas, empanturrar-nos de expectativas, se já
estava decidida a minha sina? assim que entrei, fui me pôr atrás dela,
passando eu mesmo, num murmúrio denso, a engrolar meu terço, era a
corda do meu poço que eu puxava, caroço por caroço, "te amo, Ana"
"te amo, Ana" "te amo, Ana" eu fui dizendo num incêndio alucinado,
como quem ora, cheio de sentimentos dúbios, e que gozo intenso
açular-lhe a espinha, riscar suas vértebras, espicaçar-lhe a nuca com a
mornidão da minha língua; mas era inútil a minha prece, nenhuma
vibração, sequer um movimento lhe sacudia o dorso, onde corria, na
altura dos ombros, um pouco abaixo, a renda grossa que guarnecia a
toalha feito mantilha; mesmo assim eu fui em frente, caroço por
caroço, "Ana, me escute, é só o que te peço" eu disse forjando alguma
calma, eu tinha de provar minha paciência, falar-lhe com a razão, usar
sua versatilidade, era preciso ali também aliciar os barros santos, as
pedras lúcidas, as partes iluminadas daquela câmara, fazer como tentei
na casa velha, aliciar e trazer para o meu lado toda a capela: "foi um
milagre o que aconteceu entre nós, querida irmã, o mesmo tronco, o
mesmo teto, nenhuma traição, nenhuma deslealdade, e a certeza
supérflua e tão fundamental de um contar sempre com o outro no
instante de alegria e nas horas de adversidade; foi um milagre, querida
irmã, descobrirmos que somos tão conformes em nossos corpos, e que
vamos com nossa união continuar a infância comum, sem mágoa para
nossos brinquedos, sem corte em nossas memórias, sem trauma para a
nossa história; foi um milagre descobrirmos acima de tudo que nos
bastamos dentro dos limites da nossa própria casa, confirmando a
palavra do pai de que a felicidade só pode ser encontrada no seio da
família; foi um milagre, querida irmã, e eu não vou permitir que este
arranjo do destino se desencante, pois eu quero ser feliz, eu, o filho
torto, a ovelha negra que ninguém confessa, o vagabundo irremediável
da família, mas que ama a nossa casa, e ama esta terra, e ama também
o trabalho, ao contrário do que se pensa; foi um milagre, querida irmã,
foi um milagre, eu te repito, e foi um milagre que não pode reverter:
as coisas vão mudar daqui pra frente, vou madrugar com nossos
irmãos, seguir o pai para o trabalho, arar a terra e semear, acompanhar
a brotação e o crescimento, participar das apreensões da nossa
lavoura, vou pedir a chuva e o sol quando escassear a água ou a luz
sobre as plantações, contemplar os cachos que amadurecem, estando
presente com justiça na hora da colheita, trazendo para casa os frutos,
provando com tudo isso que eu também posso ser útil; tenho mãos
abençoadas para plantar, querida irmã, não descuido o rebento de cada
semente, e nem o viço em cada transplante, sei ouvir os apelos da terra
em cada momento, sei apaziguá-los quando possível, sei como dar a
ela o vigor pra qualquer cultura, e embora respeitando o seu descanso,
vou fazer como diz o pai que cada palmo de chão aqui produza; sei
muito sobre a cultura nos campos, e serei também exemplar no trato
dos nossos animais, eu que sei me aproximar deles, conquistar-lhes a
confiança e a doçura do olhar, nutri-los como se deve, preparando o
farelo segundo meu apetite, ministrando no cocho os sais que forjam a
força dos músculos, arrancando a erva daninha que emagrece nossos
pastos, ceifando o capim na boa altura, vindo-o ao calor e à umidade
da atmosfera, fenando-o em feixes ou em fardos quando preciso, que
sou destro no manejo da foice e do forcado; sei ordenhar as vacas,
sendo extremoso com os bezerros e muito gentil com suas mães
quando os separo, limpando o melado dos ubres sem que o leite
precoce vaze entre meus dedos, ficando atento para que na limpeza
não se elimine deles o cheiro gordo dos estábulos e dos currais; tenho
reservas enormes de afeto para todo o rebanho, um olho clínico para a
novilha que vai gerar um dia, sei extrair os vermes purulentos que lhe
furam o couro, lembrando-lhe nessa cirurgia a evitar o sonho furta-cor
das varejeiras, devolvendo aplicadamente ao pêlo a lisura, a maciez e
o brilho antigo da textura; sei ainda proteger nosso rebanho contra
outras picadas, abrigá-lo dos ventos ásperos, conduzi-lo à sombra das
árvores quando o sol já está a prumo, ou debaixo dos telhados para
escapá-lo das intempéries mais pesadas, conhecendo, entre todos os
poços da fazenda, a melhor água pra apagar a veemência da sua sede;
amo nossas cabras e nossas ovelhas, sei aconchegar nos braços o
cordeiro tímido dum mês, tenho um carinho especial para a rês
assustada, vou misturar no meu pastoreio a flauta rústica, a floração
do capim e a brisa que corre o pasto; tenho alma de pastor, querida
irmã, sei fazer que cada espécie se conheça, sendo mestre até das
cruzas mais suspeitas, sei como multiplicar as cabeças do rebanho do
pai; e ajuntarei a essa riqueza o cuidado com todas as aves, nossas
galinhas tão gregárias, os gaios exuberantes, o contorno gracioso dos
marrecos de andar trôpego, os patos achatados do bico aos pés, os
perus estufados, assim como as angolas ariscas e de vôos tão
aventureiros que trazem na cabeça um caroço mórbido à guisa de
crista; sei colher ovos nos ninhos, fazer que uma choca bem quente se
deite eternamente sobre ovos alheios, e, no paiol, não causo alvoroço
às botadeiras assustadiças que põem seus ovos pudicos no fundo dos
balaios ou em ninhos suspensos perigosamente do travejamento das
vigas; sei ainda cuidar dos bebedouros, guardar o barro sempre à
sombra com água fresca e transparente, não deixando que se
contamine, sei variar nas gamelas o milho debulhado, o verde e o grão
socado, e, sem ameaça pra nossas hortaliças, vou largar a todas as
nossas aves um chão fértil pra ser ciscado; e em muitas outras coisas
posso ser útil, preparando mourões, consertando porteiras, sou
rigoroso na meia-esquadria, tenho um veio sisudo de marceneiro, amo
do mesmo jeito a árvore que virou madeira, distingo cada uma delas
só pelo cheiro, sabendo pra que serve o cedro, o pinho, a peroba, o
ipê, a sucupira; vou me encarregar das ferramentas do pai, aumentar o
número delas, fazer uma limpeza minuciosa depois de cada emprego,
vasculhando as orelhas dos martelos, o olho do nível e os dentes do
serrote, vou conservá-las contra a ferrugem em graxa magra, sempre
muito corretas para um novo uso, pois não ignoro que sem a lâmina
ninguém corta, e que os instrumentos, além de forjarem a forma
acabada das coisas, forjam muitas vezes, para o trabalho, o
acabamento da nossa própria vontade; e cuidarei também das nossas
construções, corrigindo a umidade que vaza sobre a colheita
armazenada, substituindo o caibro que selou, trocando trame-las e
ferrolhos, caiando o que for preciso, levantando um novo galpão,
atento ao espaço na hora de erguer uma parede, guardando a harmonia
entre os panos dos telhados, não esquecendo às andorinhas o desvão
largo sob os beirais; sou versátil, querida irmã, me presto pra qualquer
serviço, quero fazer coisas, tenho os braços esperando, quero ser
chamado no que for preciso, não me contenho de tanta energia, não há
tarefa na fazenda que não possa me ocupar à luz do dia; e nos
momentos de folga, usando as sobras do bom estéreo, revolverei com
ele os canteiros do jardim, espalharei no mesmo sítio punhados de
farelo, grãos de milho e tricas de quirera, e tudo isso fará aumentar as
flores em volta da casa, os pássaros nas árvores, as pombas em nossos
telhados, e os frutos dos nossos pomares; e a cada tarde, depois de um
trabalho de sol a sol, voltarei pra casa, lavarei o santo suor do corpo,
vestirei roupa grossa e limpa, e, na hora do jantar, quando todos
estiverem reunidos, o pão assado sobre a toalha, vou participar do
sentimento sublime de que ajudei também com minhas próprias mãos
a prover a mesa da família; ao contrário do que se pensa, sei muito
sobre rebanhos e plantações, mas guardo só comigo toda essa ciência
primordial, que, se aplicada, não serviria tanto a mim quanto à família,
enfrentando o desdém dos que me olham, não revelando jamais a
natureza da minha vadiagem, mas estou cansado, querida irmã, quero
fazer parte e estar com todos, não permita que eu reste à margem, e
nem permita o desperdício do meu talento, que todos perdem; mais do
que já sei, aprenderei ainda muitas outras tarefas, e serei sempre
zeloso no cumprimento de todas elas, sou dedicado e caprichoso no
que faço, e farei tudo com alegria, mas pra isso devo ter um bom
motivo, quero uma recompensa para o meu trabalho, preciso estar
certo de poder apaziguar a minha fome neste pasto exótico, preciso do
teu amor, querida irmã, e sei que não exorbito, é justo o que te peço, é
a parte que me compete, o quinhão que me cabe, a ração a que tenho
direito", e, fazendo uma pausa no fluxo da minha prece, aguardei
perdido em confusos sonhos, meus olhos caídos no dorso dela, meu
pensamento caído numa paragem inquieta, mas tinha sido tudo inútil,
Ana não se mexia, continuava de joelhos, tinha o corpo de madeira,
nem sei se respirava; "Ana, me escute, é só o que te peço" eu retornei
com a mesma calma, já disse que tinha de provar minha paciência,
falar-lhe com a razão (que despudor na sua versatilidade!), sensibilizar
com o bom senso todos os santos, conservar à minha retaguarda toda a
capela: "Ana, me escute, já disse uma vez, mas torno a repetir: estou
cansado, quero fazer parte e estar com todos, eu, o filho arredio, o
eterno convalescente, o filho sobre o qual pesa na família a suspeita de
ser um fruto diferente; saiba, querida irmã, que não é por princípio que
me rebelo, nem por vontade que carrego a carranca de sempre, e a
raiva que faz os seus traços ásperos, e nem é por escolha que me
escondo, ou que vivo sonhando pesadelos como dizem: quero
resgatar, querida irmã, o barro turvo desta máscara, eliminando dos
olhos a faísca de demência que os incendeia, removendo as olheiras
torpes do meu rosto adolescente, limpando para sempre a marca que
trago na testa, essa cicatriz sombria que não existe mas que todos
pressentem; tudo vai mudar, querida irmã, vou amaciar as minhas
faces, abandonar meu isolamento, minha mudez, o meu silêncio, vou
estar bem com cada irmão, misturar minha vida à vida de todos eles,
hei de estar sempre presente na mesa clara onde a família se alimenta;
vou falar sobre coisas simples como todos falam, dizer para o vizinho
da campina, por exemplo, que as safras do ano prometem, ou que
podemos lhe ceder do sangue novo introduzido em nosso plantei, vou
tomar-lhe de empréstimo um verbo túrgido e dizer ainda que as
últimas chuvas realmente engravidaram as plantações; na estrada, vou
cumprimentar aqueles com quem cruzo, erguendo a mão como eles
até a aba do chapéu, e, na vila, quando for comprar sal, arame ou
querosene, vou dar um dedo de prosa em cada venda, trocar um aperto
de mão, responder com um sorriso limpo aos que me olham; serei
bom e reto, solícito e prestativo, gosto de servir os outros, sou capaz
de ser afável, não falharei no gesto quando tiver amigos, não voltarei a
destilar veneno na fonte dos meus impulsos afetivos; e, numa noite
dessas, depois do jantar, quando as sombras já povoarem as cercanias
da casa, e a quietude escura tiver tomado conta da varanda, e o pai na
sua gravidade tiver perdido nos seus pensamentos, vou caminhar na
sua direção, puxar uma cadeira, me sentar bem perto dele, vou
assombrá-lo ainda mais quando puxar sem constrangimento a
conversa remota que nunca tivemos; e logo que eu diga 'pai', e antes
que eu prossiga tranqüilo e resoluto, vou pressentir no seu rosto o
júbilo mal contido vazando com a luz dos seus olhos úmidos, e a
alegria das suas idéias que se arrumam pressurosas para proclamar que
o filho pelo qual se temia já não causa mais temor, que aquele que
preocupava já não causa mais preocupação, e, porque fez uso do
verbo, aquele que tanto assustava já não causa mais susto algum; e
depois de ter escutado ponto por ponto tudo o que eu tiver para lhe
dizer, desfazendo pouco a pouco, através dele, as apreensões de uma
família inteira, posso desde agora prever como será nossa comunhão:
ele tomará primeiro meus ombros entre suas mãos, me erguerá da
cadeira como ele mesmo já se erguera, tomará em, seguida minha
cabeça entre suas palmas, olhará com firmeza no meu rosto para
redescobrir nos meus traços sua antiga imagem, e antes que eu lhe
peça de olhos baixos a bênção que eu sempre quis, vou sentir na testa
a carne áspera do seu beijo austero, bem no lugar onde ficava a minha
cicatriz; é assim que será, e mais tudo de bom que há de vir depois,
me ajude a me perder no amor da família com o teu amor, querida
irmã, sou incapaz de dar um passo nesta escuridão, quero sair das
minhas trevas, quero me livrar deste tormento, sempre ouvimos que o
sol nasce para todos, quero pois o meu pedaço de luz, quero a minha
porção deste calor, é tudo que necessito pra te dar no mesmo instante
minha alma lúcida, meu corpo luminoso e meus olhos cheios de um
brilho novo; só de pensar, Ana, minha taça já transborda, já sinto uma
força poderosa nos músculos, me arrebento de tanta alegria, já posso
sustentar na coluna do braço o universo; e num domingo de repouso,
depois do almoço, quando o vinho já estiver dizendo coisas mornas
em nossas cabeças, e o sol lá fora já estiver tombando para o outro
lado, eu e você sairemos de casa para fruir a plenitude de um passeio;
cortando o bosque, andando depois pela alameda de ciprestes, e
deixando logo para trás, em torno da capela, a elegia das casuarinas,
responderemos aos apelos das palmas dos coqueiros que nos chamam
para os pastos despojados, nos convidando com insistência a deitar no
ventre fofo das campinas; e, quando já tivermos, debaixo de um céu
arcaico, tingido nossos dentes com o sangue das amoras colhidas no
caminho, só então nos entregaremos ao silêncio, vasto e circunspecto,
habitado nessa hora por insetos misteriosos, pássaros de vôo alto e os
sinos distantes dos cincerros; me dê a tua mão, querida irmã, tantas
coisas nos esperam, me estenda a tua mão, é tudo o que te peço, deste
teu gesto dependem minhas atitudes, minha conduta, minhas virtudes:
bondade e generosidade serão as primeiras, e sempre me
acompanharão, eu te prometo de coração sincero, e nem será preciso
qualquer esforço, mas tudo, Ana, tudo começa no teu amor, ele é o
núcleo, ele é a semente, o teu amor pra mim é o princípio do mundo"
eu fui dizendo numa insistência obsessiva, me fazendo crédulo,
embora cansado dos meus gemidos, eu tinha os ossos perturbados!
"entenda, Ana, que a mãe não gerou só os filhos quando povoou a
casa, fomos embebidos no mais fino caldo dos nossos pomares,
enrolados em mel transparente de abelhas verdadeiras, e, entre tantos
aromas esfregados em nossas peles, fomos entorpecidos pelo mazar
suave das laranjeiras; que culpa temos nós dessa planta da infância, de
sua sedução, de seu viço e constância? que culpa temos nós se fomos
duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos? que
culpa temos nós se tantas folhas tenras escondiam a haste mórbida
desta rama? que culpa temos nós se fomos acertados para cair na
trama desta armadilha? temos os dedos, os nós dos joelhos, as mãos e
os pés, e os nós dos cotovelos enroscados na malha deste visgo,
entenda que, além de nossas unhas e de nossas penas, teríamos com a
separação nossos corpos mutilados; me ajude, portanto, querida irmã,
me ajude para que eu possa te ajudar, é a mesma ajuda a que eu posso
levar a você e aquela que você pode trazer a mim, entenda que quando
falo de mim é o mesmo que estar falando só de você, entenda ainda
que nossos dois corpos são habitados desde sempre por uma mesma
alma; me estenda a tua mão, Ana, me responda alguma coisa, me diga
uma palavra, uma única palavra, faça pelo menos um gesto reticente,
me basta um aceno leve da cabeça, um sinal na ponta dos teus ombros,
um movimento na sobra dos cabelos, ou, na sola dos teus pés, uma
ligeira contração em suas dobras" eu pedi suplicando, mas Ana não
me ouvia, estava clara a inutilidade de tudo o que eu dizia, estaca
claro também que eu esgotava todos os recursos com um propósito
suspeito: ficar com a alma leve, disponível, que ameaças, quantos
perigos! descalço, avancei três passos me pondo diante dela, me
encostando na parede do oratório, meu rosto ficou nas sombras, o seu
iluminado pela das velas, eu tinha, de pé, os olhos bem acesos quase
se chocando com os olhos levantados dela, mas não se acredita: sua
vontade era forte, Ana não me via, trabalhava zelosamente de joelhos
o seu rosário, era só fervor, água e cascalho nas suas faces, lavava a
sua carne, limpava a sua lepra, que banho de purificação! "tenha pena
de mim, Ana, tenha pena de mim enquanto é tempo" vazei então o
meu murmúrio num atalho mais profano "mas entenda o que quero
dizer quando te falo assim: não procuro provocar com a minha súplica
o teu desvelo, é antes um sinal, é a minha advertência, vai no meu
apelo, eu te asseguro, a clarividência de um presságio escuro: na
quebra desta paixão, não serei piedoso, não tenho a tua fé, não
reconheço os teus santos na adversidade" eu disse já ouvindo balidos
de uma ovelha tresmalhada correndo num prado vermelho, disparando
para o vale, e sabendo que em algum lugar se acendia um lume com
achas resinosas, e não era dia e nem era noite, era um tempo que se
situava a meio topo, era um tempo que se dissolvia entre cão e lobo:
"Ana, ainda é tempo, não me libere com a tua recusa, não deixe tanto
à minha escolha, não quero ser tão livre, não me obrigue a me perder
na dimensão amarga deste espaço imenso, não me empurre, não me
conduza, não me abandone na entrada franca desta senda larga, já
disse e repito ainda uma vez: estou cansado, quero com urgência o
meu lugar na mesa da família! estou implorando, Ana, e te lembro que
a família pode ser poupada; neste mundo de imperfeições, tão
precário, onde a melhor verdade não consegue transpor os limites da
confusão, contentemo-nos com as ferramentas espontâneas que podem
ser usadas para forjar nossa união: o segredo contumaz, mesclado pela
mentira sorrateira e pelos laivos de um sutil cinismo; afinal, o
equilíbrio, de que fala o pai, vale para tudo, nunca foi sabedoria
exceder-se na virtude; e depois, Ana, no esforço de fazer o melhor,
quem chega ao núcleo? não podemos esquecer que as estradas, como
qualquer caminho, só à flor da terra é que são rasgadas, e que todo
traço, mesmo a vida no subsolo, é sempre um movimento na
superfície ampla; a razão é pródiga, querida irmã, corta em qualquer
direção, consente qualquer atalho, bastando que sejamos hábeis no
manejo desta lâmina; para vivermos nossa paixão, despojemos nossos
olhos de artifícios, das lentes de aumento e das cores tormentosas de
outros vidros, só usando com simplicidade sua água lúcida !e
transparente: não há então como ver na singularidade do nosso amor
manifestação de egoísmo, conspurcação dos costumes ou ameaça à
espécie; nem nos preocupemos com tais nugas, querida Ana, é tudo
tão frágil que basta um gesto supérfluo para afastarmos de perto o
curador impertinente das virtudes coletivas; e que guardião da ordem é
este? aprumado na postura, é fácil surpreendê-lo piscando o olho com
malícia, chamando nossa atenção não se sabe se pro porrete
desenvolto que vai na direita, ou se pra esquerda lasciva que vai no
bolso; ignoremos pois o edital empertigado deste fariseu, seria
fraqueza sermos arrolados por tão anacrônica hipocrisia, afinal, que
cama é mais limpa do que a palha enxuta do nosso ninho?" e eu
endurecia sem demora os músculos para abrir minha picada, a barra
dos meus braços e o ferro dos meus punhos, golpeando a mata
inóspita no gume do meu facão, riscando o chão na agulha da minha
espora, dispensando a velha trena mas fincando os pontaletes, afilando
meus nervos como se afilasse a ponta de um lápis, fazendo a
aritmética a partir dos meus próprios números, pouco me importando
que as quireras do meu raciocínio pudessem ser confrontadas com as
quireras de outro moinho: "é um fato corriqueiro, querida Ana, pelo
qual sempre passamos feito sonâmbulos, mas que, silencioso, é ainda
o maior e o mais antigo escândalo: a vida só se organiza se
desmentindo, o que é bom para uns é muitas vezes a morte para
outros, sendo que só os tolos, entre os que foram atirados com
displicência ao fundo, tomam de empréstimo aos que estão por cima a
régua que estes usam pra medir o mundo; como vítimas da ordem,
insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo
deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando
uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta
à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche,
passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam
nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não
alcançam a geometria barroca do destino; não podemos nos permitir a
pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma
situação precária por uma situação inexistente; de minha parte, abro
mão inclusive dos filhos que teríamos, mas, na casa velha, quero gozar
em dobro as delícias deste amor clandestino" eu disse já preparado pra
subir escarpas, eu que sabia escovar cavalos, selecionar um bom
arreio, imprimir-lhes o trote, a marcha lenta e o galope, sendo destro
na montaria, ágil no laço, disparando na carreira se fosse preciso, sem
contar que sabia também ousar os pequenos potros, comprovar-lhes
desde cedo a elegância, a linha tesa dos tendões, o aço dos cascos e a
chama das crinas: "como último recurso, querida Ana, te chamo ainda
à simplicidade, te incito agora a responder só por reflexo e não por
reflexão, te exorto a reconhecer comigo o fio atávico desta paixão: se
o pai, no seu gesto austero, quis fazer da casa um templo, a mãe,
transbordando no seu afeto, só conseguiu fazer dela uma casa de
perdição" eu disse erguendo minhas patas sagitárias, tocando com
meus cascos a estrutura do teto, sentindo de repente meu sangue
súbito e virulento, salivado prontamente pela volúpia do ímpio, eu
tinha gordura nos meus olhos, uma fuligem negra se misturava ao
azeite grosso, era uma pasta escura me cobrindo a vista, era a
imaginação mais lúbrica me subindo num só jorro, e minhas mãos
cheias de febre que desfaziam os botões violentos da camisa,
descendo logo pela braguilha, reencontravam altivamente sua vocação
primitiva, já eram as mãos remotas do assassino, revertendo com
segurança as regras de um jogo imundo, liberando-se para a doçura do
crime (que orgias!), vasculhando os oratórios em busca da carne e do
sangue, mergulhando a hóstia anêmica no cálice do meu vinho,
riscando com as unhas, nos vasos, a brandura dos lírios, imprimindo o
meu dígito na castidade deste pergaminho, perseguindo nos nichos a
lascívia dos santos (que recato nesta virgem com faces de carmim!
que bicadas no meu fígado!), me perdendo numa neblina de incenso
para celebrar o demônio que eu tinha diante de mim: "tenho sede,
Ana, quero beber" eu disse já coberto de queimaduras, eu era inteiro
um lastro em carne viva: "não tenho culpa desta chaga, deste cancro,
desta ferida, não tenho culpa deste espinho, não tenho culpa desta
intumescência, deste inchaço, desta purulência, não tenho culpa deste
osso túrgido, e nem da gosma que vaza pelos meus poros, e nem deste
visgo recôndito e maldito, não tenho culpa deste sol florido, desta
chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio: uma conta do teu
rosário para a minha paixão, duas contas para os meus testículos,
todas as contas deste cordão para os meus olhos, dez terços bem
rezados para o irmão acometido!" e fui largando minha baba com
fervor, eu que vinha correndo as mãos na minha pele exasperada,
devassando meu corpo adolescente, fazendo surgir da flora meiga do
púbis, num ímpeto cheio de caprichos e de engenhos, o meu falo
soberbo, resoluto, um pouco abaixo, entre a costura das virilhas,
penso, me enchendo a palma, o saco tosco do meu escroto que
protegia a fonte primordial de todos meus tormentos, enquanto ia
oferecendo religiosamente para a irmã o alimento denso do seu
avesso, mas Ana continuava impassível, tinha os olhos
definitivamente perdidos na santidade, ela era, debaixo da luz quente
das velas, uma fria imagem de gesso, e eu, que desde o início vinha
armando minha tempestade, caí por um momento numa surda cólera
cinzenta: "estou banhado em fel, Ana, mas sei como enfrentar tua
rejeição, já carrego no vento do temporal uma raiva perpétua, tenho o
fôlego obstinado, tenho requintes de alquimista, sei como alterar o
enxofre com a virtude das serpentes, e, na caldeira, sei como dar à
fumaça que sobe da borbulha a frieza da cerração nas madrugadas;
vou cultivar o meu olhar, plantar nele uma semente que não germina,
será uma terra que não fecunda, um chão capaz de necrosar como as
geadas as folhas das árvores, as pétalas das flores e a polpa dos nossos
frutos; não reprimirei os cantos dos lábios se a peste dizimar nossos
rebanhos, e nem se as pragas devorarem as plantações, vou cruzar os
braços quando todos se agitam ao meu redor, dar as costas aos que me
pedem por socorro, cobrindo os olhos para não ver suas chagas,
tapando as orelhas para não ouvir seus gritos, vou dar de ombros se
um dia a casa tomba: não tive o meu contento, o mundo não terá de
mim a misericórdia; amar e ser amado era tudo o que eu queria, mas
fui jogado à margem sem consulta, fui amputado, já faço parte da
escória, vou me entregar de corpo e alma à doce vertigem de quem se
considera, na primeira força da idade, um homem simplesmente
acabado, bastante ativo contudo para furar fundo com o indicador a
carne podre da carcaça, e, entre o polegar e o anular, com elegância,
fechar trópicos e outras linhas, atirando num ossário o esqueleto deste
mundo; pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos
enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem-sossego,
dos intranqüilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões
com cara de assassino que descendem de Caim (quem não ouve a
ancestralidade cavernosa dos meus gemidos?), dos que trazem um
sinal na testa, essa longínqua cicatriz de cinza dos marcados pela santa
inveja, dos sedentos de igualdade e de justiça, dos que cedo ou tarde
acabam se ajoelhando no altar escuso do Maligno, deitando antes em
sua mesa, piamente, as despojadas oferendas: uma posta de peixe alva
e fria, as uvas pretas de uma parreira na decrepitude, os algarismos
solitários das matemáticas, as cordas mudas de um alaúde, um
punhado de desespero, e um carvão solene para os seus dedos
criadores, a ele, o artífice do rabisco, o desenhista provecto do
garrancho, o artesão que trabalha em cima de restos de vida, puxando
no traço de sua linha a vontade extenuada de cada um, ele, o propulsor
das mudanças, nos impelindo com seus sussurros contra a corrente,
nos arranhando os tímpanos com seu sopro áspero e quente, nos
seduzindo contra a solidez precária da ordem, este edifício de pedra
cuja estrutura de ferro é sempre erguida, não importa a arquitetura,
sobre os ombros ulcerados dos que gemem, ele, o primeiro, o único, o
soberano, não passando o teu Deus bondoso (antes discriminador,
piolhento e vingativo) de um vassalo, de um subalterno, de um
promulgador de tábuas insuficiente, incapaz de perceber que suas leis
são a lenha resinosa que alimenta a constância do Fogo Eterno! não
basta o jato da minha cusparada, contenha este incêndio enquanto é
tempo, já me sobe uma nova onda, já me queima uma nova chama, já
sinto ímpetos de empalar teus santos, de varar teus anjos tenros, de dar
uma dentada no coração de Cristo!" e eu já corria embalado de novo
na carreira, me antecipando numa santa fúria, me cobrindo de bolhas
de torso a dorso, babando o caldo pardo das urtigas, sangrando a
suculência do meu cactus, afiando meus caninos pra sorver o licor
rosado dos meninos, profanando aos berros o tabernáculo da família
(que turbulência na cabeça, que confusão, quantos cacos, que
atropelos na minha língua!), mas fui bruscamente interrompido, Ana
ergueu-se num impulso violento, empurrando com a vibração da
atmosfera a chama indecisa das velas, fazendo cambaleante o
transtorno ruivo da capela: vi o pavor no seu rosto, era um susto
compacto cedendo aos poucos, e, logo depois, nos seus olhos, senti
profundamente a irmã amorosa temendo por mim, e sofrendo por
mim, e chorando por mim, e eu que mal acabava de me jogar no ritual
deste calor antigo, inscrito sempre em ouro na lombada dos livros
sacros, incorporei subitamente a tristeza calada do universo, inscrita
sempre em traços negros nos olhos de um cordeiro sacrificado, me
vendo deitado de repente numa campa larga, cerceado por silenciosos
copos-de-leite, eu já dormia numa paisagem com renques de ciprestes,
era uma geometria roxa guardando a densidade dos campos
desabitados, "estou morrendo, Ana", eu disse largado numa letargia
rouca, encoberto pela névoa fria que caía do teto, ouvindo a elegia das
casuarinas que gemiam com o vento, e ouvindo ao mesmo tempo um
coro de vozes esquisito, e um gemido puxado de uma trompa, e um
martelar ritmado de bigorna, e um arrastar de ferros, e surdas
gargalhadas, "estou morrendo" eu repeti, mas Ana já não estava mais
na capela.
21
Prosternado à porta da capela, meu dorso curvo, o rosto colado na
terra, minha nuca debaixo de um céu escuro, pela primeira vez eu me
senti sozinho neste mundo; ah! Pedro, meu querido irmão, não
importa em que edifício das idades, em alturas só alcançadas pelas
setas de insetos raros, compondo cruzes em torno dessa torre, existe
sempre marcado no cimo, pelo olho perscrutador de uma coruja
paciente, a noite de concavidades que me espera; neste edifício
erguido sobre colunas atmosféricas escorridas de resinas esquisitas,
existe sempre nas janelas mais altas a suspensão de um gesto fúnebre;
e existe a última janela de abertura debruçada para brumas rarefeitas e
espectros incolores, ali onde instalo meus filamentos e minhas
antenas, meus radares e minhas dores, captando o espaço e o tempo na
sua visão mais calma, mais tranqüila, mais inteira; eu nunca duvidei
que existisse, com a mesma curvatura que rola, a mesma gravidade
que cai, a mesma precária arquitetura, um translúcido hálito azul, a
bolha derradeira, presente em cada folha amanhecida, em cada pena
antes do vôo, denso e pendente como orvalho; mas em vez de galgar
os degraus daquela torre, eu poderia simplesmente abandonar a casa, e
partir, deixando as terras da fazenda para trás; eram também coisas do
direito divino, coisas santas, os muros e as portas da cidade.
O RETORNO
"Vos são interditadas:
vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs,
.................................................................”
(Alcorão — Surata IV, 23)
22
"...e quanto mais engrossam a casca, mais se torturam com o peso
da carapaça, pensam que estão em segurança mas se consomem de
medo, escondem-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios
olhos, fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam,
trazem na mão a chave mas se esquecem que ela abre, e, obsessivos,
afligem-se com seus problemas pessoais sem chegar à cura, pois
recusam o remédio; a sabedoria está precisamente em não se fechar
nesse mundo menor: humilde, o homem abandona sua individualidade
para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua
grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar
sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de
sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um
em casa há de fruir as mais sublimes recompensas; nossa lei não é
retrair mas ir ao encontro, não é separar mas reunir, onde estiver um
há de estar o irmão também..." (Da mesa dos sermões.)
23
Pedro cumprira sua missão me devolvendo ao seio da família; foi
um longo percurso marcado por um duro recolhimento, os dois
permanecemos trancados durante toda a viagem que realizamos
juntos, e na qual, feito menino, me deixei conduzir por ele o tempo
inteiro; era já noite quando chegamos, a fazenda dormia num silêncio
recluso, a casa estava em luto, as luzes apagadas, salvo a clareira
pálida no pátio dos fundos que se devia à expansão da luz da copa,
pois a família se encontrava ainda em volta da mesa; entramos pela
varanda da frente, e assim que meu irmão abriu a porta, o ruído de um
garfo repousando no prato, seguido, embora abafado, de um murmúrio
intenso, precedeu a expectativa angustiante que se instalou na casa
inteira; me separei de Pedro ali mesmo na sala, entrando para o meu
antigo quarto, enquanto ele, fazendo vibrar a cristaleira sob os passos,
afundava no corredor em direção à copa, onde a família o aguardava;
largado na beira da minha velha cama, a bagagem jogada entre meus
pés, fui envolvido pelos cheiros caseiros que eu respirava, me
despertando imagens torpes, mutiladas, me fazendo cair logo em
confusos pensamentos; na sucessão de tantas idéias, me passava
também pela cabeça o esforço de Pedro para esconder de todos a sua
dor, disfarçada quem sabe pelo cansaço da viagem; ele não poderia
deixar transparecer, ao anunciar a minha volta, que era um possuído
que retornava com ele a casa; ele precisaria dissimular muito para não
estragar a alegria e o júbilo nos olhos de meu pai, que dali a pouco
haveria de proclamar para os que o cercavam que "aquele que tinha se
perdido tornou ao lar, aquele pelo qual chorávamos nos foi
devolvido".
Assustado com o ânimo quente que tomou os fundos da casa de
repente, se alastrando com rapidez pelos nervos das paredes, com
vozes, risos e soluços se misturando, me levantei atordoado para
encostar a porta, ao mesmo tempo que todo aquele surto de emoções
parecia ser contido pela palavra severa do chefe da família; e eu ainda
ouvia um silêncio carregado de vibrações e ressonâncias, quando a
porta foi aberta, e a luz do meu quarto acesa, surgindo, em toda a sua
majestade rústica, a figura de meu pai, caminhando, grave, na minha
direção; já de pé, e olhando para o chão, e sofrendo a densidade da sua
presença diante de mim, senti num momento suas mãos benignas
sobre minha cabeça, correndo meus cabelos até a nuca, descendo
vagarosas pelos meus ombros, e logo seus braços poderosos me
apertavam o peito contra o seu peito, me tomando depois o rosto entre
suas palmas para me beijar a testa; e eu tinha outra vez os olhos no
chão quando ele disse, úmido e solene:
— Abençoado o dia da tua volta! Nossa casa agonizava, meu filho,
mas agora já se enche de inovo de alegria!
E me olhando com ternura contida, e medindo longamente o
estado roto dos meus traços, e advertindo sobre a conversa que
teríamos um pouco mais tarde, quando tudo estivesse mais tranqüilo, e
me lembrando ainda que meu encontro com a mãe deveria ser
comedido, poupando-lhe sobretudo a memória dos dias da minha
ausência, meu pai ordenou que eu lavasse do corpo o pó da estrada
antes de sentar-me à mesa que a mãe me preparava. E mal ele tinha se
afastado, minhas irmãs irromperam ruidosamente pela porta, se
atirando ao meu encontro, se pendurando no meu pescoço, fazendo
festas nos meus cabelos, me beijando muitas vezes o rosto, me
alisando por cima da camisa o peito e as costas, e riam, e choravam, e
faziam tudo isso entre comentários atropelados, e até intempestivos,
me revelando bruscamente que Ana, tão piedosa desde que eu partira,
mal soube da notícia correra à capela para agradecer a minha volta,
que a casa também por isso já estava toda iluminada, daria gosto ver
tanta luz a quem passasse lá na estrada, e que dali a pouco
começariam de véspera os preparativos para celebrar a minha páscoa,
e que todos seriam convidados ainda aquela noite, nossos vizinhos
juntamente com os parentes e amigos lá da vila, e que aquela era pra
família a maior graça já recebida, pois meu retorno à casa trazia de
volta em dobro toda a alegria perdida, e cheias de calor e entusiasmo
elas me arrancaram ali do quarto me agarrando pelos braços, e eu,
todo sombrio, mal escondendo meus olhos repulsivos, eu deixei que
me conduzissem pela sala enquanto iam me soprando ternamente
alguns gracejos, e assim que entramos pelo corredor elas me
empurraram pela porta do banheiro, me sentando logo no caixote, e,
enquanto Rosa, atrás de mim, dobrada sobre meu dorso, atravessava
os braços por cima dos meus ombros pra me abrir a camisa, Zuleika e
Huda, de joelhos, dobradas sobre meus pés, se ocupavam de tirar
meus sapatos e minhas meias, e eu ali, entregue aos cuidados de tantas
mãos, fui dando conta do zelo que me cercava, já estava temperada a
água quente ali da lata, o canecão ao lado, a toalha de banho
dependurada, um sabão de essência raro em nossa casa, o surrado par
de chinelos, sem contar o pijama, limpo e passado, que eu, ao partir,
tinha esquecido sob o travesseiro, e eu já estava de peito nu e pés
descalços quando elas se retiraram com movimentos ligeiros, e
enquanto Rosa, a mais velha das mulheres, encostava por fora a porta,
fui alertado por ela de que eu não tinha mais que cinco minutos para
me mostrar de novo aos olhos da família, e que nesse meio tempo elas
iam preparar melhor a mãe para me ver.
Perturbado pelo turbilhão de afagos, embora um tanto refeito pela
água, deixei o banheiro minutos depois, sentindo a maciez do algodão
do meu pijama, meus pés soltos nos chinelos lassos, e a fragrância
discreta que o sabão tinha deixado no meu corpo. Rosa me aguardava
sozinha na sala, estava sentada, pensativa, pareceu não dar logo por
mim que saía para o corredor, mas assim que me viu veio ao meu
encontro, me saudando pelo banho, me puxando para a sala, o rosto
suavizado por um sorriso calmo, ela que era tão sensata: "Ouça bem
isto, Andrula: a mãe precisa de cuidados, ela não é a mesma desde que
você partiu; seja generoso, meu irmão, não fique trancado diante dela,
fale pelo menos com ela, mas não fale de coisas tristes, é tudo o que te
peço; e agora vá ver a mãe, ela está lá na copa te esperando, vá
depressa; enquanto isso, vou ajudar nos preparativos da tua festa de
amanhã, Zuleika e Huda já estão tomando as primeiras providências,
elas estão transtornadas de tanta alegria! Deus ouviu as nossas
preces!" ela disse e eu senti nas costas a pressão doce da sua mão me
animando a afundar no corredor em direção à copa, e eu já. estava a
meio caminho quando me ocorreu que, embora toda iluminada,
inclusive os quartos de dormir, a casa estava em silêncio, vazia por
dentro, a família atendia com certeza a uma recomendação de Pedro,
cuja palavra persuasiva beirava a autoridade do pai, gozando de
audiência: eu era um enfermo, necessitava de cuidados especiais, que
me poupassem nas primeiras horas, sem contar que todos tinham o
bom pretexto de preparar às pressas a minha festa.
Na entrada da copa, parei: cioso das mudanças, marcando o
silêncio com rigor, estava ali o nosso antigo relógio de parede
trabalhando criteriosamente cada instante; estava ali a velha mesa,
sólida, maciça, em torno da qual a família reunida consumia todos os
dias seu alimento; uma das cabeceiras, era só uma ponta, tinha sido
forrada por uma toalha branca, e, sobre ela, a refeição que me
esperava; ao lado da cabeceira, de pé, o corpo grosso sem se mexer,
estava a mãe, apertando contra os olhos um lenço desdobrado que ela
abaixou ao pressentir minha presença; e foi só então que eu pude ver,
apesar da luz que brilhava nos seus olhos, quanto estrago eu tinha
feito naquele rosto.
24
Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou na
hora dos sermões: o pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade,
vinha primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika, e Huda; à sua
esquerda, vinha a mãe, em seguida eu, Ana, e Lula, o caçula. O galho
da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as
raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a
mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma
anomalia, uma protuberância mórbida, um enxerto junto ao tronco
talvez funesto, pela carga de afeto; podia-se quem sabe dizer que a
distribuição dos lugares na mesa (eram caprichos do tempo) definia as
duas linhas da família.
O avô, enquanto viveu, ocupou a outra cabeceira; mesmo depois
da sua morte, que quase coincidiu com nossa mudança da casa velha
para a nova, seria exagero dizer que sua cadeira ficou vazia.
25
..........................................................................................................
— Meu coração está apertado de ver tantas marcas no teu rosto,
meu filho; essa é a colheita de quem abandona a casa por uma vida
pródiga.
— A prodigalidade também existia em nossa casa.
— Como, meu filho?
— A prodigalidade sempre existiu em nossa mesa.
— Nossa mesa é comedida, é austera, não existe desperdício nela,
salvo nos dias de festa.
— Mas comemos sempre com apetite.
— O apetite é permitido, não agrava nossa dignidade, desde que
seja moderado.
— Mas comemos até que ele desapareça; é assim que cada um em
casa sempre se levantou da mesa.
— É para satisfazer nosso apetite que a natureza é generosa, pondo
seus frutos ao nosso alcance, desde que trabalhemos por merecê-los.
Não fosse o apetite, não teríamos forças para buscar o alimento que
torna possível a sobrevivência. O apetite é sagrado, meu filho.
— Eu não disse o contrário, acontece que muitos trabalham,
gemem o tempo todo, esgotam suas forças, fazem tudo que é possível,
mas não conseguem apaziguar a fome.
— Você diz coisas estranhas, meu filho. Ninguém deve
desesperar-se, muitas vezes é só uma questão de paciência, não há
espera sem recompensa, quantas vezes eu não contei para vocês a
história do faminto?
— Eu também tenho uma história, pai, é também a história de um
faminto, que mourejava de sol a sol sem nunca conseguir aplacar sua
fome, e que de tanto se contorcer acabou por dobrar o corpo sobre si
mesmo alcançando com os dentes as pontas dos próprios pés;
sobrevivendo à custa de tantas chagas, ele só podia odiar o mundo.
— Você sempre teve aqui um teto, uma cama arrumada, roupa
limpa e passada, a mesa e o alimento, proteção e muito afeto. Nada te
faltava. Por tudo isso, ponha de lado essas histórias de famintos, que
nenhuma delas agora vem a propósito, tornando muito estranho tudo o
que você fala. Faça um esforço, meu filho, seja mais claro, não
dissimule, não esconda nada do teu pai, meu coração está apertado
também de ver tanta confusão na tua cabeça. Para que as pessoas se
entendam, é preciso que ponham ordem em suas idéias. Palavra com
palavra, meu filho.
— Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma
semente de obscuridade, não é por outro motivo que falo como falo.
Eu poderia ser claro e dizer, por exemplo, que nunca, até o instante em
que decidi o contrário, eu tinha pensado em deixar a casa; eu poderia
ser claro e dizer ainda que nunca, nem antes e nem depois de ter
partido, eu pensei que pudesse encontrar fora o que não me davam
aqui dentro.
— E o que é que não te davam aqui dentro?
— Queria o meu lugar na mesa da família.
— Foi então por isso que você nos abandonou: porque não te
dávamos um lugar na mesa da família?
— Jamais os abandonei, pai; tudo o que quis, ao deixar a casa, foi
poupar-lhes o olho torpe de me verem sobrevivendo à custa das
minhas próprias vísceras.
— O pão contudo sempre esteve à mesa, provendo igualmente a
necessidade de cada boca, e nunca te foi proibido sentar-se com a
família, ao contrário, era esse o desejo de todos, que você nunca
estivesse ausente na hora de repartir o pão.
— Não falo deste alimento, participar só da divisão deste pão pode
ser em certos casos simplesmente uma crueldade: seu consumo só
prestaria para alongar a minha fome; tivesse de sentar-me à mesa só
com esse fim, preferiria antes me servir de um pão acerbo que me
abreviasse a vida.
— Do que é que você está falando?
— Não importa.
— Você blasfemava.
— Não, pai, não blasfemava, pela primeira vez a vida eu falava
como um santo.
— Você está enfermo, meu filho, uns poucos dias de trabalho ao
lado de teus irmãos hão quebrar o orgulho da tua palavra, te
devolvendo depressa a saúde de que você precisa.
— Por ora não me interesso pela saúde de que o senhor fala, existe
nela uma semente de enfermidade, assim como na minha doença
existe uma poderosa semente de saúde.
— Não há proveito em atrapalhar nossas idéias, esqueça os teus
caprichos, meu filho, não afaste o teu pai da discussão dos teus
problemas.
— Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito
mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma
planta nunca enxerga a outra.
— Conversar é muito importante, meu filho, toda palavra, sim, é
uma semente; entre as coisas humanas que podem nos assombrar, vem
a força do verbo em primeiro lugar; precede o uso das mãos, está no
fundamento de toda prática, vinga, e se expande, e perpetua, desde
que seja justo.
— Admito que se pense o contrário, mas ainda que eu vivesse dez
vidas, os resultados de um diálogo pra mim seriam sempre frutos
tardios, quando colhidos.
— É egoísmo, próprio de imaturos, pensar só nos frutos, quando se
planta; a colheita não é a melhor recompensa para quem semeia; já
somos bastante gratificados pelo sentido de nossas vidas, quando
plantamos, já temos nosso galardão só em fruir o tempo largo da
gestação, já é um bem que transferimos, se transferimos a espera para
gerações futuras, pois há um gozo intenso na própria fé, assim como
há calor na quietude da ave que choca os ovos no seu ninho. E pode
haver tanta vida na semente, e tanta fé nas mãos do semeador, que é
um milagre sublime que grãos espalhados há milênios, embora sem
germinar, ainda não morreram.
— Ninguém vive só de semear, pai.
— Claro que não, meu filho; se outros hão de colher do que
semeamos hoje, estamos colhendo por outro lado do que semearam
antes de nós. É assim que o mundo caminha, é esta a corrente da vida.
— Isso já não me encanta, sei hoje do que é capaz esta corrente; os
que semeiam e não colhem, colhem contudo do que não plantaram;
deste legado, pai, não tive o meu bocado. Por que empurrar o mundo
para frente? Se já tenho as mãos atadas, não vou por minha iniciativa
atar meus pés também; por isso, pouco me importa o rumo que os
ventos tomem, eu já não vejo diferença, tanto faz que as coisas andem
para frente ou que elas andem para trás.
— Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho.
— Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade
na casa do carcereiro; da mesma forma, pai, de quem amputamos os
membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto; maior despropósito
que isso só mesmo a vileza do aleijão que, na falta das mãos, recorre
aos pés para aplaudir o seu algoz; age quem sabe com a paciência
proverbial do boi: além do peso da canga, pede que lhe apertem o
pescoço entre os canzis. Fica mais feio o feio que consente o belo...
— Continue.
— E fica também mais pobre o pobre que aplaude o rico, menor o
pequeno que aplaude o grande, mais baixo o baixo que aplaude o alto,
e assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que
me esmagam, acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros, e
nem entendo como se vê nobreza no arremedo dos desprovidos; a
vítima ruidosa que aprova seu opressor se faz duas vezes prisioneira, a
menos que faça essa pantomima atirada por seu cinismo.
— É muito estranho o que estou ouvindo.
— Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo; erguida
sobre acidentes, não há ordem que se sustente; não há nada mais
espúrio do que o mérito, e não fui eu que semeei esta semente.
— Não vejo como todas essas coisas se relacionam, vejo menos
ainda por que te preocupam tanto. Que é que você quer dizer com tudo
isso?
— Não quero dizer nada.
— Você está perturbado, meu filho.
— Não, pai, eu não estou perturbado.
— De quem você estava falando?
— De ninguém em particular; eu só estava pensando nos
desenganados sem remédio, nos que gritam de ardência, sede e
solidão, nos que não são supérfluos nos seus gemidos; era só neles que
eu pensava.
— Quero te entender, meu filho, mas já não entendo nada.
— Misturo coisas quando falo, não desconheço esses desvios, são
as palavras que me empurram, mas estou lúcido, pai, sei onde me
contradigo, piso quem sabe em falso, pode até parecer que exorbito, e
se há farelo nisso tudo, posso assegurar, pai, que tem também aí muito
grão inteiro. Mesmo confundindo, nunca me perco, distingo pro meu
uso os fios do que estou dizendo.
— Mas sonega clareza para o teu pai.
— Já disse que não acredito na discussão dos meus problemas,
estou convencido também de que é muito perigoso quebrar a
intimidade, a larva só me parece sábia enquanto se guarda no seu
núcleo, e não descubro de onde tira a sua força quando rompe a
resistência do casulo; contorce-se com certeza, passa por
metamorfoses, e tanto esforço só para expor ao mundo sua fragilidade.
— Corrija a displicência dos teus modos de ver: é forte quem
enfrenta a realidade; e depois, estamos em família, que só um insano
tomaria por ambiente hostil.
— Forte ou fraco, isso depende: a realidade não é a mesma para
todos, e o senhor não ignora, pai, que sempre gora o ovo que não é
galado; o tempo é farto e generoso, mas não devolve a vida aos que
não nasceram; aos derrotados de partida, ao fruto peco já na semente,
aos arruinados sem terem sido erguidos, não resta outra alternativa:
dar as costas para o mundo, ou alimentar a expectativa da destruição
de tudo; de minha parte, a única coisa que sei é que todo meio é hostil,
desde que negue direito à vida.
— Você me assusta, meu filho, sem te entender, entendo contudo
teus disparates: não há hostilidade nesta casa, ninguém te nega aqui o
direito à vida, não é sequer admissível que te passe esse absurdo pela
cabeça!
— É um ponto de vista.
— Refreie tua costumeira impulsividade, não responda desta
forma para não ferir o teu pai. Não é um ponto de vista! Todos nós
sabemos como se comporta cada um em casa: eu e tua mãe vivemos
sempre para vocês, o irmão para o irmão, nunca faltou, a quem
necessitasse, o apoio da família!
— O senhor não me entendeu, pai.
— Como posso te entender, meu filho? Existe obstinação na tua
recusa, e isto também eu não entendo. Onde você encontraria lugar
mais apropriado para discutir os problemas que te afligem?
— Em parte alguma, menos ainda na família; apesar de tudo, nossa
convivência sempre foi precária, nunca permitiu ultrapassar certos
limites; foi o senhor mesmo que disse há pouco que toda palavra é
uma semente: traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga
explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos.
— Não receba com suspeita e leviandade as palavras que te dirijo,
você sabe muito bem que conta nesta casa com nosso amor!
— O amor que aprendemos aqui, pai, só muito tarde fui descobrir
que ele não sabe o que quer; essa indecisão fez dele um valor
ambíguo, não passando hoje de uma pedra de tropeço; ao contrário do
que se supõe, o amor nem sempre aproxima, o amor também desune; e
não seria nenhum disparate eu concluir que o amor na família pode
não ter a grandeza que se imagina.
— Já basta de extravagâncias, não prossiga mais neste caminho,
não se aproveitam teus discernimentos, existe anarquia no teu
pensamento, ponha um ponto na tua arrogância, seja simples no uso
da palavra!
— Não acho que sejam extravagâncias, se bem que já não me faz
diferença que eu diga isto ou aquilo, mas como é assim que o senhor
percebe, de que me adiantaria agora ser simples como as pombas? Se
eu depositasse um ramo de oliveira sobre esta mesa, o senhor poderia
ver nele simplesmente um ramo de urtigas.
— Nesta mesa não há lugar para provocações, deixe de lado o teu
orgulho, domine a víbora debaixo da tua língua, não dê ouvidos ao
murmúrio do demônio, me responda como deve responder um filho,
seja sobretudo humilde na postura, seja claro como deve ser um
homem, acabe de uma vez com esta confusão!
— Se sou confuso, se evito ser mais claro, pai, é que não quero
criar mais confusão.
— Cale-se! Não vem desta fonte a nossa água, não vem destas
trevas a nossa luz, não é a tua palavra soberba que vai demolir agora o
que levou milênios para se construir; ninguém em nossa casa há de
falar com presumida profundidade, mudando o lugar das palavras,
embaralhando as idéias, desintegrando as coisas numa poeira, pois
aqueles que abrem demais os olhos acabam só por ficar com a própria
cegueira; ninguém em nossa casa há de padecer também de um
suposto e pretensioso excesso de luz, capaz como a escuridão de nos
cegar; ninguém ainda em nossa casa há de dar um curso novo ao que
não pode desviar, ninguém há de confundir nunca o que não pode ser
confundido, a árvore que cresce e frutifica com a árvore que não dá
frutos, a semente que tomba e multiplica com o grão que não germina,
a nossa simplicidade de todos os dias com um pensamento que não
produz; por isso, dobre a tua língua, eu já disse, nenhuma sabedoria
devassa há de contaminar os modos da família! Não foi o amor, como
eu pensava, mas o orgulho, o desprezo e o egoísmo que te trouxeram
de volta à casa!
Quanta amargura meu pai juntava à sua cólera! E que veleidade a
minha, expor-lhe a carcaça de um pensamento, ter triturado na mesa
imprópria uns fiapos de ossos, tão minguados diante da força poderosa
de sua figura à cabeceira. Encolhido, senti num momento a presença
da mãe às minhas costas, trazida à porta da cozinha pelo discurso
exasperado ali na copa, tentando com certeza interferir em meu favor;
mesmo sem me voltar, pude ler com clareza a angústia no rosto dela,
implorando com os olhos aflitos para o meu pai: "Chega, Iohána!
Poupe nosso filho!"
— Estou cansado, pai, me perdoe. Reconheço minha confusão,
reconheço que não me fiz entender, mas agora serei claro no que vou
dizer: não trago o coração cheio de orgulho como o senhor pensa,
volto para casa humilde e submisso, não tenho mais ilusões, já sei o
que é a solidão, já sei o que é a miséria, sei também agora, pai, que
não devia ter me afastado um passo sequer da nossa porta; daqui pra
frente, quero ser como meus irmãos, vou me entregar com disciplina
às tarefas que me forem atribuídas, chegarei aos campos de lavoura
antes que ali chegue a luz do dia, só os deixarei bem depois de o sol se
pôr; farei do trabalho a minha religião, farei do cansaço a minha
embriaguez, vou contribuir para preservar nossa união, quero merecer
de coração sincero, pai, todo o teu amor.
— Tuas palavras abrem meu coração, querido filho, sinto uma luz
nova sobre esta mesa, sinto meus olhos molhados de alegria, apagando
depressa a mágoa que você causou ao abandonar a casa, apagando
depressa o pesadelo que vivemos há pouco. Cheguei a pensar por um
instante que eu tinha outrora semeado em chão batido, em pedregulho,
ou ainda num campo de espinhos. Vamos festejar amanhã aquele que
estava cego e recuperou a vista! Agora vai descansar, meu filho, a
viagem foi longa, a emoção foi grande, vai descansar, querido filho.
E o meu suposto recuo na discussão com o pai logo recebia uma
segunda recompensa: minha cabeça foi de repente tomada pelas mãos
da mãe, que se encontrava já então atrás da minha cadeira; me
entreguei feito menino à pressão daqueles dedos grossos que me
apertavam uma das faces contra o repouso antigo do seu seio;
curvando-se, ela amassou depois seus olhos, o nariz e a boca,
enquanto cheirava ruidosamente meus cabelos, espalhando ali, em
língua estranha, as palavras ternas com que sempre me brindara desde
criança: "meus olhos" "meu coração" "meu cordeiro"; largado naquele
berço, vi que o pai saía para o pátio, grave, como se todo aquele
transbordamento de afeto se passasse à sua revelia; empunhava o
mesmo facão com que entrara pouco antes ali na copa, ia agora reunirse
de novo às minhas irmãs perdidas numa azáfama animada em torno
da mesa tosca, lá debaixo do telheiro dos fundos, onde preparavam as
carnes para a minha festa; e eu tinha os olhos nessa direção, e me
perguntava pelos motivos da minha volta, sem conseguir contudo
delinear os contornos suspeitos do meu retorno, quando notei, além do
pátio, um pouco adentrado no bosque escuro, o vulto de Pedro: andava
cabisbaixo entre os troncos das árvores, o passo lento, parecia
sombrio, taciturno.
26
Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem,
desenvolvendo seu espírito e aprimorando sua sensibilidade; ele dava
a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento
cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência
de um homem era inesgotável. Do meu lado, aprendi bem cedo que é
difícil determinar onde acaba nossa resistência, e também muito cedo
aprendi a ver nela o traço mais forte do homem; mas eu achava que, se
da corda de um alaúde — esticada até o limite — se podia tirar uma
nota afinadíssima (supondo-se que não fosse mais que um arranhado
melancólico e estridente), ninguém contudo conseguiria extrair nota
alguma se a mesma fosse distendida até o rompimento. Era isso pelo
menos o que eu pensava até a noite do meu retorno, sem jamais ter
suspeitado antes que se pudesse, de uma corda partida, arrancar ainda
uma nota diferente (o que só vinha confirmar a possível crença de meu
pai de que um homem, mesmo quebrado, não perdeu ainda sua
resistência, embora nada provasse que continuava ganhando em
sensibilidade).
27
Não tinha ainda visto Ana quando me recolhi (era fácil
compreender que ela tivesse se refugiado na capela ao saber do meu
retorno), e nem meu irmão caçula, pois não tinha ousado sair do meu
silêncio para perguntar por ele. Ao entrar no quarto, embora achando
um tanto estranho, não me surpreendi vendo Lula na cama, deitado de
lado contra a parede, coberto por um lençol branco da cabeça aos pés.
O quarto dormia numa penumbra tranqüila, a claridade em volta da
casa, diluída, chegava ali dentro ainda mais calma vazada pelas
frinchas da veneziana; não acendi a luz, sabendo que podia me
deslocar sem dificuldade, além do que, vestindo o pijama desde o
banho, eu tinha pouco que fazer: fechar a porta atrás de mim, remover
minha bagagem para um canto, soltar meus chinelos dos pés, e me
enfiar em seguida na cama: cansado de subir serras, tudo que eu
queria era uma relva plana, me entorpecer de sono, dormir todos os
meus sonhos, todos os meus pesadelos, acordando no dia seguinte
com os olhos claros, podendo quem sabe, como dizia o avô,
"distinguir já na aurora um fio branco de um fio negro".
Cuidando da bagagem, dei logo pela falta da caixa que
acompanhava a mala, mas não liguei importância a isso, ainda que a
caixa trouxesse coisas insólitas, as mesmas coisas que eu, em alta
tensão, tinha exposto aos olhos pejados de Pedro naquele remoto
quarto de pensão; a cinta de sisal estava jogada ali no assoalho,
chegando a me intrigar as mãos afoitas que arrancaram o cordão sem
desfazer o nó (não se fazia nunca isso em casa), subtraindo a caixa só
depois de conhecer às pressas seu conteúdo; sentado na cama, eu
recuperava mecanicamente o barbante, enrolando-o depois à maneira
de meu pai no carretel dos dedos, quando me ocorreu que tinha sido
talvez para satisfazer a gula púbere de Lula que aquele roubo fora
consumado; olhando sobre o ombro para a outra cama, notei num
momento que Lula não só fingia o seu sono, mas queria também,
através de movimentos um tanto desabusados, me deixar claro que
não dormia, e que era para demonstrar seu desprezo que ele, deitado
de lado contra a parede, me voltava ostensivamente as costas; fiquei
bem alguns minutos sondando sua graça ingênua e incansável,
desfechando pequenas patadas de espaço a espaço no lençol que o
cobria, até que me levantei e, contornando minha cama, fui me sentar
na beira da cama dele: o lençol já não se mexia, passando eu a ouvir
de repente o ruído de quem ressonava profundamente; um pouco
surpreso com a distração que tudo aquilo começava a me causar, levei
a mão ao seu ombro:
— Lula! Lula!
Lula demorou para descobrir a cabeça e me olhou sem virar o
corpo, rosnando qualquer coisa hostil como se tivesse sido despertado,
não conseguindo contudo esconder seu contentamento.
— Você dormia?
— Claro! Então você não viu que eu dormia?
— É que eu queria ter um dedo de conversa com você, foi só por
isso que te acordei.
— Conversar o quê?
— Acabo de voltar pra casa, Lula.
— E daí?
— Eu pensei que isso te deixasse contente.
— Contente por quê?
— Não sei, mas pensei isso.
— Pensou errado.
— Se for pra conversar assim, a gente pára por aqui, é melhor.
— Você nem devia ter começado, boa-noite — e Lula puxou de
novo o lençol sobre a cabeça, resguardando sua altivez, mas não
ressonava e nem se mexia, aguardava com certeza uma nova iniciativa
de minha parte, parecia ansioso em conversar comigo, ele, cujos olhos
sempre estiveram muito perto de mim (eu não sabia), e para quem
meus passos eram um mau exemplo, segundo Pedro.
— O que há com você, Lula? — eu disse num impulso de ternura.
— Quero te falar como amigo, é tudo.
— O que há... o que há... você ainda pergunta — ele disse sem
descobrir a cabeça — faz mais de uma hora que estou aqui te
esperando, se você quer saber. Uma hora! Agora vem você com essa
de amigo...
— Eu não sabia, Lula.
— Não sabia... não sabia... onde é que eu poderia estar, se você
não tinha me visto ainda? Não era no pasto, no meio dos carneiros...
— e ele tentava amenizar sua recusa, mas não cedia.
— Está bem, Lula, então boa-noite — eu disse, e nem sequer tinha
me erguido quando ele se virou intempestivo, atirando o lençol e
descobrindo o peito, sentando-se apoiado na cabeceira da cama,
precipitando-se com ardor numa insolente confidencia:
— Vou sair de casa, André, amanhã, no meio da tua festa, mas isso
eu só estou contando pra você.
— Fale baixo, Lula.
— Não agüento mais esta prisão, não agüento mais os sermões do
pai, nem o trabalho que me dão, e nem a vigilância do Pedro em cima
do que faço, quero ser dono dos meus próprios passos; não nasci pra
viver aqui, sinto nojo dos nossos rebanhos, não gosto de trabalhar na
terra, nem nos dias de sol, menos ainda nos dias de chuva, não
agüento mais a vida parada desta fazenda imunda...
— Fale baixo, eu já disse.
— Só foi você partir, André, e eu já vivia empoleirado lá na
porteira, sonhando com estradas, esticando os olhos até onde podia,
era só na tua aventura que eu pensava... Quero conhecer muitas
cidades, quero correr todo este mundo, vou trocar meu embornal por
uma mochila, vou me transformar num andarilho que vai de praça em
praça cruzando as ruas feito vagabundo; quero conhecer também os
lugares mais proibidos, desses lugares onde os ladrões se encontram,
onde se joga só a dinheiro, onde se bebe muito vinho, onde se
cometem todos os vícios, onde os criminosos tramam os seus crimes;
vou ter a companhia de mulheres, quero ser conhecido nos bordéis e
nos becos onde os mendigos dormem, quero fazer coisas diferentes,
ser generoso com meu próprio corpo, ter emoções que nunca tive; e
quando a intimidade da noite me cansar, vou caminhar a esmo pelas
ruas escuras, vou sentir o orvalho da madrugada em cima de mim, vou
ver o dia amanhecendo estirado num banco de jardim; quero viver
tudo isso, André, vou sair de casa para abraçar o mundo, vou partir
para nunca mais voltar, não vou ceder a nenhum apelo, tenho
coragem, André, não vou falhar como você...
Era uma água represada (que correnteza, quanto desassossego!)
que jorrava daquela imaginação adolescente ansiosa por dissipar sua
poesia e seu lirismo, era talvez a minha aprovação que ele queria
quando terminasse de descrever seu projeto de aventuras, e enquanto
eu escutava aquelas fantasias todas — infladas de distâncias inúteis—
ia pensando também em abaixar seus cílios alongados, dizendo-lhe
ternamente "dorme, menino"; mas não foi para fechar seus olhos que
estendi o braço, correndo logo a mão no seu peito liso: encontrei ali
uma pele branda, morna, tinha a textura de um lírio; e meu gesto
imponderável perdia aos poucos o comando naquele repouso quente,
já resvalava numa pesquisa insólita, levando Lula a interromper
bruscamente seu relato, enquanto suas pernas de potro compensavam
o silêncio, voltando a mexer desordenadas sob o lençol; subindo a
mão, alcancei com o dorso suas faces imberbes, as maçãs do rosto já
estavam em febre; nos seus olhos, ousadia e dissimulação se
misturavam, ora avançando, ora recuando, como nuns certos olhos
antigos, seus olhos eram, sem a menor sombra de dúvida, os
primitivos olhos de Ana!
— Que que você está fazendo, André? Aprisionado no velho
templo, os pés ainda cobertos de sal (que prenúncios de alvoroço!), eu
estendia a mão sobre o pássaro novo que pouco antes se debatia contra
o vi trai.
— Que que você está fazendo, André?
Não respondi ao protesto dúbio, sentindo cada vez mais confusa a
súbita neblina de incenso que invadia o quarto, compondo giros,
espiras e remoinhos, apagando ali as ressonâncias do trabalho
animado e ruidoso em torno da mesa lá no pátio, a que alguns vizinhos
acabavam de se juntar. Minha festa seria no dia seguinte, e, depois, eu
tinha transferido só para a aurora o meu discernimento, sem contar
que a madrugada haveria também de derramar o orvalho frio sobre os
belos cabelos de Lula, quando ele percorresse o caminho que levava
da casa para a capela.
28
A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste
ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo.
29
O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo
que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus
caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos
afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a
razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos
instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o
curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de
fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai
daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será
consumido por suas águas; ai daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre
a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas, que
toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que
insinuada; o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre cioso
da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do concerto
menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e
presente também, com seus instantes, em cada letra desta minha
história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa
manhã cheia de luz, armando desde cedo o cenário para celebrar a
minha páscoa, retocando, arteiro e lúdico, a paisagem rústica lá de
casa, perfumando nossas campinas ainda úmidas, carregando as cores
de nossas flores, traçando com engenho as linhas do seu teorema,
atraindo, debaixo de uma enorme peneira azul, muitas pombas em
revoada, trazendo desde as primeiras horas para a fazenda nossos
vizinhos e as famílias inteiras de nossos parentes e amigos lá da vila,
entre eles divertidos tagarelas e crianças muito traquinas, tecendo
agitações frívolas e ruídos muito propícios, Zuleika e Huda, ajudadas
por amigas, já transportavam contentes garrafões de vinho, correndo
sucessivas vezes todos os copos, despejando risonhas o sangue
decantado e generoso em todos os corpos, recebido sempre com
saudações efusivas que eram prenuncio de uma gorda alegria, e foi no
bosque atrás da casa, debaixo das árvores mais altas que compunham
com o sol o jogo alegre e suave de sombra e luz, depois que o cheiro
da carne assada já tinha se perdido entre as muitas folhas das árvores
mais copadas, foi então que se recolheu a toalha antes estendida por
cima da relva calma, e eu pude acompanhar assim recolhido junto a
um tronco mais distante os preparativos agitados para a dança, os
movimentos irrequietos daquele bando de moços e moças, entre eles
minhas irmãs com seu jeito de camponesas, nos seus vestidos claros e
leves, cheias de promessas de amor suspensas na pureza de um amor
maior, correndo com graça, cobrindo o bosque de risos, deslocando as
cestas de frutas para o lugar onde antes se estendia a toalha, os melões
e as melancias partidas aos gritos da alegria, as uvas e as laranjas
colhidas dos pomares e nessas cestas com todo o viço bem dispostas
sugerindo no centro do espaço o mote para a dança, e era sublime essa
alegria com o sol descendo espremido entre as folhas e os galhos, se
derramando às vezes na sombra calma através de um facho poroso de
luz divina que reverberava intensamente naqueles rostos úmidos, e foi
então a roda dos homens se formando primeiro, meu pai de mangas
arregaçadas arrebanhando os mais jovens, todos eles se dando rijo os
braços, cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro,
compondo ao redor das frutas o contorno sólido de um círculo como
se fosse o contorno destacado e forte da roda de um carro de boi, e
logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância,
puxou do bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e
se pôs então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se
inflando como as bochechas de uma criança, e elas inflavam tanto,
tanto, e ele sangüíneo dava a impressão de que faria jorrar pelas
orelhas, feito torneiras, todo o seu vinho, e ao som da flauta a roda
começou, quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro num
sentido, depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força num
vaivém duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos
virilmente contra o chão, até que a flauta voou de repente, cortando
encantada o bosque, correndo na floração do capim e varando os
pastos, e a roda então vibrante acelerou o movimento circunscrevendo
todo o círculo, e já não era mais a roda de um carro de boi, antes a
roda grande de um moinho girando célere num sentido e ao toque da
flauta que reapanhava desvoltando sobre seu eixo, e os mais velhos
que presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua vez, todos
eles batiam palmas reforçando o novo ritmo, e quando menos se
esperava, Ana (que todos julgavam sempre na capela) surgiu
impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas,
ligeiramente apanhados num dos lados por um coalho de sangue (que
assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um deboche
exuberante, uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de
carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o
pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos
seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos
tornozelos, foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias
mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando
com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com
segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os
olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os
gestos por um instante, mas dominando a todos com seu violento
ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar, apesar da graxa que me
escureceu subitamente os olhos, seus passos precisos de cigana se
deslocando no meio da roda, desenvolvendo com destreza gestos
curvos entre as frutas e as flores dos cestos, só tocando a terra na
ponta dos pés descalços, os braços erguidos acima da cabeça
serpenteando lentamente ao trinado da flauta mais lento, mais
ondulante, as mãos graciosas girando no alto, toda ela cheia de uma
selvagem elegância, seus dedos canoros estalando como se fossem,
estava ali a origem das castanholas, e em torno dela a roda passou a
girar cada vez mais veloz, mais delirante, as palmas de fora mais
quentes e mais fortes, e mais intempestiva, e magnetizando a todos,
ela roubou de repente o lenço branco do bolso de um dos moços,
desfraldando-o com a mão erguida acima da cabeça enquanto
serpenteava o corpo, ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã,
esconder primeiro bem escondido sob a língua sua peçonha e logo
morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva
enquanto dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta,
tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação, e logo entoados
em língua estranha começaram a se elevar os versos simples, quase
um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um primo menor e mais
gaiato, levado na corrente, pegou duas tampas de panelas fazendo os
pratos estridentes, e ao som contagiante parecia que as garças e os
marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a todos ali no
bosque, e Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo
lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais
versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando
sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado
retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a
voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era
a comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia
surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a
sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me
atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e
antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas
de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se
procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa
busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre
nos meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca,
de que era para mim, e só para mim, que ela dançava (que reviravoltas
o tempo dava! que osso, que espinho virulento, que glória para o meu
corpo!), e eu, sentado onde estava sobre uma raiz exposta, num canto
do bosque mais sombrio, eu deixei que o vento que corria entre as
árvores me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha
fronte eu sentia a carícia livre dos meus cabelos, e nessa postura
aparentemente descontraída fiquei imaginando de longe a pele fresca
do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de
meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares
não se continham, eu desamarrei os sapatos, tirei as meias e com os
pés brancos e limpos fui afastando as folhas secas e alcançando abaixo
delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida era de
cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à
superfície e me cobrir inteiro de terra úmida, e eu nessa senda oculta
mal percebi de início o que se passava, notei confusa-mente Pedro,
sempre taciturno até ali, buscando agora por todos os lados com os
olhos alucinados, descrevendo passos cegos entre o povo imantado
daquele mercado — a flauta desvairava freneticamente, a serpente
desvairava no próprio ventre, e eu de. pé vi meu irmão mais
tresloucado ainda ao descobrir o pai, disparando até ele, agarrando-lhe
o braço, puxando-o num arranco, sacudindo-o pelos ombros,
vociferando uma sombria revelação, semeando nas suas ouças uma
semente insana, era a ferida de tão doída, era o grito, era sua dor que
supurava (pobre irmão!), e, para cumprir-se a trama do seu concerto, o
tempo, jogando com requinte, travou os ponteiros: correntes corruptas
instalaram-se comodamente entre vários pontos, enxugando de
passagem a atmosfera, desfolhando as nossas árvores, estorricando
mais rasteiras o verde das campinas, tingindo de ferrugem nossas
pedras protuberantes, reservando espaços prematuros para logo
erguer, em majestosa solidão, as torres de muitos cactus: a testa nobre
de meu pai, ele próprio ainda úmido de vinho, brilhou um instante à
luz morna do sol enquanto o rosto inteiro se cobriu de um branco
súbito e tenebroso, e a partir daí todas as rédeas cederam,
desencadeando-se o raio numa velocidade fatal: o alfanje estava ao
alcance de sua mão, e, fendendo o grupo com a rajada de sua ira, meu
pai atingiu com um só golpe a dançarina oriental (que vermelho mais
pressuposto, que silêncio mais cavo, que frieza mais torpe nos meus
olhos!), não teria a mesma gravidade se uma ovelha se inflamasse, ou
se outro membro qualquer do rebanho caísse exasperado, mas era o
próprio patriarca, ferido nos seus preceitos, que fora possuído de
cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a tábua solene, era a lei que
se incendiava — essa matéria fibrosa, palpável, tão concreta, não era
descarnada como eu pensava, tinha substância, corria nela um vinho
tinto, era sangüínea, resinosa, reinava drasticamente as nossas dores
(pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!), e do
silêncio fúnebre que desabara atrás daquele gesto, surgiu primeiro,
como de um parto, um vagido primitivo
Pai!
e de outra voz, um uivo
cavernoso, cheio de desespero
Pai!
e de todos os lados, de
Rosa, de Zuleika e de Huda, o mesmo gemido desamparado
Pai!
eram balidos
estrangulados
Pai! Pai!
onde a nossa segurança? onde a nossa proteção?
Pai!
e de Pedro, prosternado
na terra
Pai!
e vi Lula, essa criança tão cedo
transtornada, rolando no chão
Pai! Pai!
onde a união da
família?
Pai!
e vi a mãe, perdida no seu juízo,
arrancando punhados de cabelo, descobrindo grotescamente as coxas,
expondo as cordas roxas das varizes, batendo a pedra do punho contra
o peito
Iohána! Iohána! Iohána! e foram inúteis
todos os socorros, e recusando qualquer consolo, andando entre
aqueles grupos comprimidos em murmúrio como se vagasse entre
escombros, a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um
lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo:
tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do
deserto.
30
(Em memória de meu pai, transcrevo suas palavras: "e,
circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve
sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a
espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do
queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir
ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos
olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas
que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não
questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como
não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas,
debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado
sempre vai ao poço.")









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