DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO | Augusto Comte

| terça-feira, 3 de novembro de 2009
O casamento foi sempre tumultuado por motivos financeiros, uma vez que
Comte não conseguia uma posição com salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas particulares e alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para o Producteur, um jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a morte do mestre.
Depois de se afastar de Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas teorias, decidiu oferecer um










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Autor: Augusto Comte
Tradução: Renato Barboza Rodrigues Pereira
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)
DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO
POSITIVO
Augusto Comte
ÍNDICE
BIOGRAFIA DO AUTOR
DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO
OBJETO DESTE DISCURSO
PARTE I SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO
Discurso preliminar sobre o espírito positivo
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Capítulo I – Lei da Evolução Intelectual da Humanidade ou Lei dos Três Estados.
Capítulo II – Destino do Espírito Positivo.
Capítulo III – Atributos Correlatos do Espírito Positivo e do Bom Senso
PARTE II SUPERIORIDADE SOCIAL DO ESPÍRITO POSITIVO
Capítulo I –Organização da Revolução
Capítulo II – Sistematização da Moral Humana
Capítulo III – Surto do Sentimento Social
PARTE III CONDIÇÕES DO ADVENTO DA ESCOLA POSITIVA
(Aliança dos Proletários e dos Filósofos)
Capítulo I – Instituição de um Ensino Popular Superior
Capítulo II – Instituição de uma Política Especialmente Popular
Capítulo III – Ordem Necessária dos Estudos Positivos
CONCLUSÃO – APLICAÇÃO AO ENSINO DA ASTRONOMIA
NOTAS
BIOGRAFIA DO AUTOR
Comte, cujo nome completo era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro
de 1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris. Filósofo e auto-proclamado
líder religioso, deu à ciência da Sociologia seu nome e estabeleceu a nova disciplina em uma forma
sistemática.
Foi aluno da célebre École Polytechnique, uma escola em Paris fundada em 1794 onde se ensinava a
ciência e o pensamento mais avançados da época. De família pobre, sustentou seus estudos com o ensino
ocasional da matemática e oportunidades no jornalismo.
Um de seus primeiros empregos foi o de secretário do Conde Henri de Saint-Simon, o primeiro filósofo a
ver claramente a importância da organização econômica na sociedade moderna, e cujas idéias Comte
absorveu, sistematizou com um estilo pessoal e difundiu.
Comte foi apresentado ao filósofo, então diretor do periódico Industrie, no verão de 1817. Saint-Simon,
um homem de fértil, mas tumultuada e desordenada criatividade, então quase sessenta anos mais velho
que Comte, foi atraído pelo jovem brilhante que possuia a capacidade treinada e metódica para o trabalho
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que lhe faltava. Comte tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na preparação de seus últimos
trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas financeiros, Comte permaneceu sem pagamento
tanto por razões intelectuais como pela esperanças da recompensa futura.
Os esboços e os ensaios que Comte escreveu durante os anos da associação próxima com Saint-Simon,
especialmente entre 1819 e 1824, mostram inequivocamente a influência do mestre. Esses primeiros
trabalhos já contêm o núcleo de todas suas idéias principais, mesmo as mais tardias. Em 1824 Comte
desentendeu-se com Saint-Simon por questões de autoria legítima de ensaios que Comte devia publicar.
A solução, que Comte considerou injusta, foi que cem cópias do trabalho saíram sob o nome de Comte,
enquanto mil cópias, intituladas Catechisme des industriels indicavam a autoria de Henri de Saint-Simon.
Outra causa do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a idéia de um paradigma religioso no
projeto de Saint Simon, ele, Comte, que depois haveria de adotar essa idéia proclamando a si mesmo
como sumo sacerdote da Humanidade.
Em fevereiro 1825 Comte se casou com Caroline Massin, proprietária de uma pequena livraria, uma
moça que ele já conhecia. Comte a achava forte e inteligente, mas depois taxou-a de ambiciosa e
desprovida de afetividade. O casamento foi sempre tumultuado por motivos financeiros, uma vez que
Comte não conseguia uma posição com salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas
particulares e alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para o Producteur,
um jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a morte do mestre.
Depois de se afastar de Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua
filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas teorias, decidiu oferecer um
curso particular que os interessados subscreveriam adiantado, e onde divulgaria sua Summa do
conhecimento positivo. O curso abriu em abril, 1826, com a presença de alguns curiosos ilustres como
Alexander von Humboldt, diversos membros da academia das ciências, o economista Charles Dunoyer, o
duque Napoleon de Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do organizador dos exércitos revolucionários e
irmão do cientista Sadi Carnot, e vários estudantes da École Polytechnique.
Comte deu apenas três aulas e foi obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso. Seu mal
foi diagnosticado como " mania " no hospital do famoso Dr. Esquirol, autor de um tratado sobre a
doença. Ele próprio submeteu Comte a um tratamento com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não
receber alta, Comte foi levado para casa por Caroline
Após o retorno para casa, Comte caiu em um estado melancólico profundo, e tentou mesmo o suicidio
jogando-se no rio Sena. Somente em agosto 1828 logrou sair de sua letargia. O curso das conferências foi
recomeçado em 1829, e Comte ficou satisfeito outra vez por encontrar na audiência diversos nomes de
grandes das ciências e das letras.
Durante os anos 1830-1842, quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive, Comte
continuou a viver miseravelmente à margem do mundo acadêmico. Todas as tentativas de ser apontado
de para uma cadeira no École Polytechnique ou para uma posição na Academia das ciências ou na
faculdade de França foram infrutíferas. Controlou somente em 1832 a ser apontado assistente de "analyse
et de mecanique" no École; cinco anos mais tarde foi dado também as posições do examinador externo
para a mesma escola. A primeira posição trouxe valiosos dois mil francos e o segundo um pouco mais.
Mas era pouco para as despesas que tinha com a esposa e por isso continuou com as aulas particulares
para escapar da faixa de pobreza.
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Durante os anos da concentração intensa quando escreveu o Cours, Comte foi incomodado não somente
por dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego acadêmico. Também sofreu críticas do
mundo científico por parte de importantes figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter
ao seu sistema todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de higiene
cerebral", decidiu-se, em 1838, a não ler mais uma linha de qualquer trabalho científico, limitando-se à
leitura de ficção e poesia. Em seus últimos anos o único livro que haveria de ler repetidamente seria o
"Imitação de Cristo". Sua vida matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se desfez. Comte teve
várias separações de Caroline, que não suportava os seus fracassos e terminou por deixá-lo
definitivamente em 1842.
Só e isolado, continuou a atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo. Queixou-se de seus
inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e atormentou a paciência de seus
poucos restantes amigos. Criando demasiado inimigos na École Polytechnique, sua nomeação como o
examinador não foi renovada em 1844. Perdeu com isto a metade de sua renda. (iria perder também a
posição de assistente na École em 1851.)
Contudo apesar de todos estas adversidades, Comte começou lentamente a adquirir discípulos. E mais
importante para ele foi que, além de encontrar alguns discípulos franceses notáveis, tais como o eminente
intelectual Emile Littre, era o fato de que sua doutrina positiva havia atravessado o Canal e recebera
considerável atenção na Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do
Edinburgh Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John Stuart Mill transformou-se em seu
admirador, citando-o em seu System of Logic (1843) como um dos principais pensadores europeus.
Comte e Mill se corresponderam regularmente, e serviu a Comte não somente para refinar seus
pensamentos como também para desabafar com o filósofo inglês as tribulações de sua vida conjugal e as
dificuldades de sua existência material. Mill arrecadou entre admiradores britânicos de Comte uma soma
considerável em dinheiro e lhe enviou como socorro para suas dificuldades financeiras.
No mesmo ano de 1844, Comte conheceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma mulher
de trinta anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo escalão, que havia fugido do
país depois de se apropriar de fundos do governo. Um irmão de Clotilde que havia sido aluno de Comte
na Escola Politécnica, e o convidou a ir à casa de seus pais, onde lhe apresentou a irmã.
Comte ficou inteiramente seduzido por ela. Sua paixão teve, porém, um desdobramento inusitado.
Clotilde estva impedida pela lei de casar-se achando-se o seu marido foragido. Auguste Comte tinha
então quarenta e sete anos, e havia se separado três anos antes de sua mulher. Acabara de concluir seu
monumental Cours de philosophie positive, e se preparava para escrever o que pretendia que seria sua
principal obra, o Système de politique positive, da qual ele considerava o Cours de philosophie como
apenas uma introdução. Entusiasmado com a própria paixão, Auguste Comte afirma que nada pode ser
mais eficaz para o bem pensar que o bem querer, e se tornou um abrasado feminista. Afirmava que a
mulher encarnava o sentimento e portanto, em última análise, a própria Humanidade. Buscou então
seriamente associar o sexo feminino, na pessoa de Clotilde, à obra de renovação social e moral que se
impôs completar. Clotilde tentou colaborar, através de um romance filosófico, Wilhelmine, que ela se
pôs febrilmente a escrever. Mas adoeceu de tuberculose e veio a falecer em 1846.
Comte devotou o resto de sua vida à memória do "seu anjo". O Système de politique positive, que tinha
começado a esboçar em 1844 e no qual completou sua formulação da sociologia, iria transformar-se em
um memorial a sua amada. Cinco anos mais tarde, em 1851, ao publicar essa obra, dedicou-a a Clotilde,
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dizendo esperar que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao dela.
No Système de politique positive, Comte, voltando-se contra a doutrina do mestre Saint-Simon, defendeu
a primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a racionalidade; e proclamou repetidamente
o poder curativo do calor feminino para a humanidade dominada por tempo demasiado pela aspereza do
intelecto masculino. Por outro lado, maquiou a proposta de disciplina eclesiástica de Saint-Simon criando
a Religião da Humanidade.
Quando o Système apareceu entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos seguidores
racionalistas que ele havia conquistado com tanta dificuldade nos últimos quinze anos. John Stuart Mill e
Emile Littre não aceitaram que o amor universal fosse a solução para todas as dificuldades da época. Tão
pouco aceitariam a Religião da Humanidade da qual Comte se proclamou agora o sumo sacerdote. A
observação dos rituais múltiplos segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia indicavam
que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas do estágio teológico. Comte passou a
assinar suas circulares - aos novos discípulos que conseguiu reunir - como "fundador da religião
universal e sumo sacerdote da humanidade". Tentou converter o Superior Geral dos Jesuítas à nova fé e
comparou suas circulares aos discípulos com as epístolas de São Paulo. Fundou a Societé Positiviste, que
se transformou no centro principal de seu ensino. Os membros se cotizaram para assegurar a subsistência
do mestre e fizeram os votos de espalhar sua mensagem. As missões se instalaram, na Espanha,
Inglaterra, Estados Unidos, e na Holanda. Cada noite, das sete às nove, exceto nas quartas-feiras quando
a Societé Positiviste tinha sua reunião regular, Comte recebia seus discípulos em sua casa em Paris:
políticos, intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração. Comte estava longe do
entusiasmo republicano e libertário de sua juventude. O moto da Igreja Positiva era amor, ordem e
progresso. O jovem estudante de passeata agora pregava as virtudes do amor, da submissão e a
necessidade da ordem para o progresso social.
Em 1857, Comte, após alguns meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo pequeno de
discípulos, de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere Lachaise. Seu túmulo
transformou-se no centro de um pequeno cemitério positivista onde estão sepultados, perto do mestre,
seus discípulos mais fiéis.
Pensamento. A contribuição principal de Comte à filosofia do positivismo foi sua adoção do método
científico como base para a organização política da sociedade industrial moderna, de modo mais rigoroso
que na abordagem de Saint Simon. Em sua Lei dos três estados ou estágios do desenvolvimento
intelectual, Comte teorizou que o desenvolvimento intelectual humano havia passado historicamente
primeiro por um estágio teológico, em que o mundo e a humanidade foram explicados nos termos dos
deuses e dos espíritos; depois através de um estágio metafísico transitório, em que as explanações
estavam nos termos das essências, de causas finais, e de outras abstrações; e finalmente para o estágio
positivo moderno. Este último estágio se distinguia por uma consciência das limitações do conhecimento
humano. As explanações absolutas consequentemente foram abandonadas, buscando-se a descoberta das
leis baseadas nas relações sensíveis observáveis entre os fenômenos naturais.
Comte tentou também uma classificação das ciências; baseada na hipótese que as ciências tinham
desenvolvido da compreensão de princípios simples e abstratos à compreensão de fenômenos complexos
e concretos. Assim as ciências haviam se desenvolvido a partir da matemática, da astronomia, da física, e
da química para a biologia e finalmente a sociologia. De acordo com Comte, esta última disciplina não
somente fechava a série mas também reduziria os fatos sociais às leis científicas e sintetizaria todo o
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conhecimento humano.
Embora não fosse de Comte o conceito de sociologia ou da sua área de estudo, ele ampliou seu campo e
sistematizou seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos principais: Estática social, ou o estudo
das forças que mantêm unida a sociedade; e Dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças
sociais.
Dando nova roupagem às idéias de Hobbes e Adam Smith, afirmou que os princípios subjacentes da
sociedade são o egoísmo individual, que é incentivado pela divisão de trabalho, e a coesão social se
mantém por meio de um governo e um estado fortes.
Como Saint Simon, queria a administração real do governo e da economia nas mãos dos homens de
negócios e dos banqueiros, porém deu um toque pessoal seu, com origem em sua paixão por Clotilde,
dizendo que a manutenção da moralidade privada seria competência das mulheres como esposas e mães.
Dando ênfase à hierarquia e obediência, rejeitou a democracia, sustentando que o governo ideal seria
constituído por uma elite intelectual. Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu Système de
politique positive ("Sistema de Política Positiva").
Como Saint-Simon, ele veio a adotar a idéia de que a organização da igreja católica romana, divorciada
da teologia cristã, podia fornecer um modelo estrutural e simbólico para a sociedade nova, idéia que, no
entanto, fora uma das causas alegadas para seu rompimento com o mestre. Comte substituiu a adoração a
Deus por uma "religião da humanidade"; um sacerdócio espiritual de sociólogos seculares guiaria a
sociedade e controlaria a instrução e a moralidade pública. Comte viveu para ver sua obra comentada
extensamente em toda a Europa. Muitos intelectuais ingleses foram influenciados por ele, e traduziram e
promulgaram seu trabalho. Seus devotos franceses tinham aumentado também, e mantinha uma
correspondência volumosa com sociedades positivistas em todo o mundo.
A habilidade particular de Comte era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais diversas.
Tomou idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVIII. De Saint-Simon e outros
reformadores franceses menores Comte tomou a noção de uma estrutura hipotética para a organização
social que imitaria a hierarquia e a disciplina existente na igreja católica romana. De vários filósofos do
Iluminismo adotou a noção do progresso histórico e particularmente de David Hume e Immanuel Kant
tomou sua concepção de positivismo, ou seja, a teoria de que o Teologia e a Metafísica são modalidades
primárias imperfeitas do conhecimento e que o conhecimento positivo é baseado em fenômenos naturais
e suas propriedades e relações como verificado pelas ciências empíricas, tese Kantiana por excelência.
O mais importante realmente provém de Saint-Simon, que havia enfatizado originalmente a importância
crescente da ciência moderna e o potencial da aplicação de métodos científicos ao estudo e à melhoria da
sociedade.
De Saint-Simon é originalmente a idéia de que a finalidade da análise científica nova da sociedade deve
ser amelhorativa e que o resultado final de toda a inovação e sistematização na nova ciência deve ser a
orientação do planeamento social. Comte também pensou que era necessário implantar uma ordem
espiritual nova e secularizada a fim de suplantar o sobrenaturalismo ultrapassado da teologia cristã.
Comte seguiu Saint-Simon quando considerou a necessidade de uma ciência social básica e unificadora
que explicasse as organizações sociais existentes e guiasse o planeamento social para um futuro melhor.
Na sua hábil sistematização Comte chamou esta nova ciência "Sociologia", pela primeira vez.
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Temerariamente, porém, foi mais adiante que seu mestre quando afirmou que os fenômenos sociais
poderiam ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos celestes haviam sido
explicadas pela teoria gravitacional quase trezentos anos antes.
DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO
OBJETO DESTE DISCURSO
1. O conjunto dos conhecimentos astronômicos não deve mais ser considerado isoladamente, como até
aqui, mas constituir de ora avante apenas um dos elementos indispensáveis do novo sistema indivisível
de filosofia geral que hoje atingiu finalmente sua verdadeira maturidade abstrata, depois de ter sido
gradualmente preparado pelo concurso espontâneo dos grandes trabalhos científicos dos três últimos
séculos. Em virtude desta íntima conexidade, ainda pouco compreendida, a natureza e o destino deste
Tratado não poderão ser devidamente apreciados se este preâmbulo imprescindível não for consagrado
sobretudo à definição conveniente do verdadeiro e fundamental espírito desta filosofia, cuja instalação
universal deve ser, no fundo, o objetivo precípuo de semelhante ensino. Como ela se distingue
principalmente pela continua preponderância, a um tempo lógica e científica, do ponto de vista histórico
ou social, devo antes de tudo, para melhor caracterizá-la, lembrar de modo sumário a grande lei que
estabeleci, em meu Sistema de Filosofia Positiva, sobre a evolução total da Humanidade, lei à qual os
nossos estudos astronômicos hão de recorrer com freqüência.
I PARTE
SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO
CAPÍTULO I
LEI DA EVOLUÇÃO INTELECTUAL DA HUMANIDADE OU LEI DOS TRÊS ESTADOS
2. De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente sujeitas,
assim no indivíduo como na espécie, a passar por três estados teóricos diferentes e sucessivos, que
podem ser qualificados pelas denominações habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos
para aqueles que tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado, embora
seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser concebido sempre, de ora em diante, como
puramente provisório e preparatório; o segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do
anterior, não comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao terceiro;
é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os. gêneros, o regime definitivo da razão
humana.
I. Estado teológico ou fictício
3. No seu primeiro surto, necessariamente teológico, todas nossas especulações manifestam de modo
espontâneo uma predileção característica pelas mais insolúveis questões, pelos assuntos mais
radicalmente inacessíveis a qualquer investigação decisiva. O espírito humano, numa época em que está
ainda abaixo dos mais simples problemas científicos, por um contraste, que em nossos dias deve
parecer-nos à primeira vista inexplicável, mas que, no fundo, se acha então em plena harmonia com a
verdadeira situação inicial da nossa inteligência, procura avidamente, e de maneira quase exclusiva, a
origem de todas as coisas, as causas essenciais, quer primárias, quer finais, dos diversos fenômenos que o
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impressionam, e seu modo fundamental de produção, em uma palavra, os conhecimentos absolutos. Esta
necessidade primitiva se acha naturalmente satisfeita tanto quanto o exige tal situação é mesmo, de fato,
tanto quanto o possa jamais ser, por nossa tendência inicial a transportar por toda a parte o tipo humano,
assimilando quaisquer fenômenos aos que nós mesmos produzimos, os quais, por esta razão, começam a
parecer-nos bastante conhecidos, em virtude da intuição imediata que os acompanha. Para compreender
bem o espírito puramente teológico, proveniente do desenvolvimento, cada vez mais sistemático, deste
estado primordial, cumpre não nos limitarmos a considerá-lo na sua última fase que se consuma, à nossa
vista, nas populações mais adiantadas, mas que está longe de ser a mais característica: torna-se
indispensável lançarmos uma vista de olhos verdadeiramente filosófica sobre o conjunto de sua marcha
natural, a fim de apreciarmos sua identidade fundamental sob as três formas principais que lhe são
sucessivamente próprias.
4. A mais imediata e a mais pronunciada destas formas constitui o fetichismo propriamente dito, que
consiste sobretudo em atribuir a todos os corpos exteriores uma vida essencialmente análoga à nossa,
quase sempre, porém mais enérgica, em virtude de sua ação, de ordinário, mais poderosa. A adoração dos
astros caracteriza o grau mais elevado desta primeira fase teológica que, no começo, quase não difere do
estado mental a que atingem os animais superiores. Ainda que esta primeira forma de filosofia teológica
se manifeste com evidência na história intelectual de todas as nossas sociedades, ela já não domina
diretamente hoje senão na menos numerosa das três grandes raças que compõem a nossa espécie.
5. Na sua segunda fase essencial, que constitui o verdadeiro politeísmo, muitas vezes confundido pelos
modernos com o estado precedente, o espírito teológico representa claramente o livre predomínio
especulativo da imaginação, ao passo que até então o instinto e o sentimento tinham sobretudo
prevalecido nas teorias humanas. A filosofia inicial sofre nessa época a mais profunda transformação,
que o conjunto do seu destino real pode comportar, por isso que nela a vida é enfim retirada dos objetos
materiais, para ser misteriosamente transportada a diversos seres fictícios, habitualmente invisíveis, cuja
intervenção ativa e contínua se torna daí por diante a origem direta de todos os fenômenos exteriores e
mesmo em seguida dos fenômenos humanos. E durante esta fase característica, mal apreciada hoje, que
convém principalmente estudar o espírito teológico, que nele se desenvolve com uma plenitude e uma
homogeneidade impossível ulteriormente: esta época é, a todos os respeitos, a do seu maior ascendente,
ao mesmo tempo mental e social. A maioria de nossa espécie não saiu ainda de semelhante estado, que
persiste hoje na mais numerosa das três raças humanas, no escol da raça negra e na parte menos avançada
da branca.
6. Na terceira fase teológica, o monoteísmo propriamente dito dá começo ao inevitável declínio da
filosofia inicial. Esta, embora conserve por dilatado tempo grande influência social, contudo mais
aparente ainda do que real, sofre desde então rápido decréscimo intelectual, como conseqüência
espontânea desta simplificação característica pela qual a razão, unificando os deuses, restringe cada vez
mais o domínio anterior da imaginação e permite desenvolver gradualmente o sentimento universal,
ainda quase insignificante, da sujeição forçosa de todos os fenômenos naturais a leis invariáveis. Sob
formas mui diversas e até radicalmente inconciliáveis, esta fase extrema do regime preliminar persiste
ainda, com energia muito desigual, na imensa maioria da raça branca; mas ainda que seja assim mais
fácil de ser observada, as próprias preocupações pessoais acarretam hoje um obstáculo muito freqüente à
sua judiciosa observação, por falta de uma comparação suficientemente racional e justa com as duas
fases precedentes.
7. Por mais imperfeita que possa parecer agora semelhante maneira de filosofar, muito importa ligar de
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modo indissolúvel o estado atual do espírito humano ao conjunto dos seus estados anteriores,
reconhecendo convenientemente que ela devia ter sido, por muito tempo, tão indispensável como
inevitável. Limitando-nos aqui à simples apreciação intelectual, seria por certo supérfluo insistir sobre a
tendência involuntária que, mesmo hoje, nos arrasta todos às explicações de pura essência teológica, logo
que queremos penetrar diretamente o mistério inacessível do modo fundamental de produção dos
fenômenos, sobretudo daqueles cujas leis reais ainda ignoramos. Os mais eminentes pensadores podem
então verificar a sua própria disposição natural para o mais ingênuo fetichismo, quando esta ignorância
se acha combinada momentaneamente com alguma paixão pronunciada. Se, pois, todas as explicações
teológicas, experimentaram crescente e decisivo desuso entre os modernos ocidentais, isto aconteceu
porque as investigações misteriosas que elas visavam foram cada vez mais afastadas como radicalmente
inacessíveis à nossa inteligência, que se habituou pouco a pouco a substitui-las de modo irrevogável por
estudos mais eficazes e mais em harmonia com as nossas verdadeiras necessidades. Mesmo na época em
que o verdadeiro espírito filosófico já tinha prevalecido em relação aos mais simples fenômenos e em
assunto tão fácil como a teoria elementar do choque, o memorável exemplo de Malebranche lembrará
sempre a necessidade de se recorrer à intervenção direta e constante dos agentes sobrenaturais, todas as
vezes que se procure remontar à causa primeira de qualquer acontecimento. Ora, por outro lado, tais
tentativas, por mais pueris que pareçam justamente hoje, constituíam sem dúvida o início meio primitivo
de provocar as especulações humanas e determinar o seu progresso contínuo, libertando de modo
espontâneo nossa inteligência do círculo vicioso em que a princípio se acha necessariamente envolvida
pela oposição radical de duas condições por igual imperiosas. Se, de fato, os modernos tiveram de
proclamar a impossibilidade de fundar qualquer teoria sólida a não ser sobre um concurso suficiente de
observações adequadas, não é menos incontestável que o espírito humano não poderia jamais combinar,
nem mesmo recolher, esses materiais indispensáveis, sem ser continuamente dirigido por algumas idéias
especulativas previamente estabelecidas. Assim estas concepções primordiais só podiam, é claro, resultar
de uma filosofia que prescindisse, por sua natureza, de qualquer preparo prolongado, sendo capaz, em
uma palavra, de surgir espontaneamente, sob o impulso único de um instinto direto, por mais quiméricas
que devessem ser, além disso, especulações tão desprovidas de todo fundamento real. Tal é o feliz
privilégio dos princípios teológicos, sem os quais podemos assegurar que a nossa inteligência não
poderia nunca sair do seu torpor inicial; a eles permitiram, dirigindo sua atividade especulativa, preparar
gradualmente um regime lógico melhor. Esta aptidão fundamental foi, além disto, poderosamente
secundada pela primitiva predileção do espírito humano pelas questões insolúveis, que atraíam sobretudo
essa filosofia primitiva. Não podíamos avaliar nossas forças mentais, e, por conseguinte, circunscrever
judiciosamente o seu destino, senão depois de exercitá-las suficientemente. Ora, este exercício
indispensável não podia ser desde logo determinado, sobretudo nas mais débeis faculdades da nossa
natureza, sem o enérgico estímulo inerente a tais estudos, nos quais tantas inteligências mal cultivadas
ainda persistem em procurar a mais pronta e a mais completa solução das questões diretamente usuais.
Para vencer suficientemente nossa inércia nativa, foi mesmo preciso durante muito tempo recorrer às
poderosas ilusões que tal filosofia suscitava espontaneamente sobre o poder quase indefinido do homem
para modificar ao seu sabor um mundo então concebido como feito para seu uso e que nenhuma grande
lei podia ainda subtrair à arbitrária supremacia das influências sobrenaturais. Há apenas três séculos que,
no escol da Humanidade, as esperanças astrológicas e alquímicas, último vestígio científico desse
espírito primitivo, deixaram na realidade de servir para o acúmulo diário das observações
correspondentes, como o indicaram respectivamente Kepler e Berthollet.
8. O concurso decisivo destes diversos motivos intelectuais seria além disso poderosamente fortalecido,
se a natureza deste Tratado me permitisse assinalar aqui suficientemente a influência irresistível das altas
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necessidades sociais, que apreciei como convinha na obra fundamental mencionada no início deste
Discurso. Pode-se assim, desde logo, demonstrar em toda a sua plenitude como o espírito teológico foi
por muito tempo indispensável à constante combinação das idéias morais e políticas, ainda mais
especialmente do que a de todas as outras, não só em virtude de sua complicação superior, mas também
porque os fenômenos correspondentes, primitivamente muito pouco pronunciados, só podiam adquirir
um desenvolvimento característico após o avanço muito prolongado da civilização humana. É uma
estranha inconseqüência, apenas desculpável pela tendência cegamente crítica do nosso tempo,
reconhecer a impossibilidade em que se achavam os antigos de filosofar sobre os assuntos mais simples a
não ser de maneira teológica e, não obstante, desconhecer a insuperável necessidade que tinham
sobretudo os politeístas de adotar um regime análogo para as especulações sociais Mas é preciso
compreender, além disso, ainda que eu não o possa demonstrar aqui, que esta filosofia inicial não foi
menos indispensável ao desenvolvimento preliminar de nossa sociabilidade do que ao de nossa
inteligência, quer para constituir primitivamente algumas doutrinas comuns, sem as quais o laço social
não teria podido adquirir nem extensão, nem consistência quer para suscitar espontaneamente a única
autoridade espiritual que poderia então surgir.
II. Estado metafísico ou abstrato
9. Por mais sumárias que tenham sido aqui estas explicações gerais sobre a natureza provisória e o
destino preparatório da única filosofia que convinha realmente à infância da Humanidade, elas permitem
contudo perceber sem dificuldade que o regime teológico difere muito profundamente, sob todos os
aspectos, do que veremos mais adiante corresponder à sua virilidade mental. Para que passagem gradual
de um a outro pudesse operar-se originariamente, assim no indivíduo, como na espécie tornou-se
indispensável o auxílio crescente de uma espécie de filosofia intermediária essencialmente limitada a este
ofício transitório. Tal é a participação especial do espírito metafísico propriamente dito na evolução
fundamental da nossa inteligência, que, antipática a toda mudança repentina, pode elevar-se assim, quase
insensivelmente, do estado puramente teológico ao francamente positivo, se bem que, no fundo, esta
situação equívoca se aproxime muito mais do primeiro do que do último. As especulações dominantes
conservaram no estado metafísico o mesmo caráter essencial de tendência ordinária para os
conhecimentos absolutos: apenas a solução sofreu nele notável transformação, própria a tornar mais fácil
o surto das concepções positivas. Como a Teologia, a Metafísica tenta de fato explicar sobretudo a
natureza íntima dos seres, a origem e o destino de todas as coisas, o modo essencial de produção dos
fenômenos: mas, em vez de empregar para isso os agentes sobrenaturais propriamente ditos, substitui-os
cada vez mais por entidades ou abstrações personificadas, cujo uso, verdadeiramente característico,
amiúde permitiu designá-la sob a denominação de Ontologia. É facílimo observar hoje tal maneira de
filosofar que, preponderante ainda em relação aos fenômenos mais complicados, oferece freqüentemente,
mesmo nas teorias mais simples e menos atrasadas, tantos traços apreciáveis de seu longo domínio.(1) A
eficácia histórica destas entidades resulta diretamente do seu caráter equívoco; porque, em cada um
desses seres metafísicos, inerentes ao corpo correspondente, sem se confundir com ele, o espírito pode, à
vontade, conforme esteja mais próximo ao estado teológico ou do positivo, ver uma verdadeira emanação
do poder sobrenatural ou uma simples denominação abstrata da fenômeno considerado. Não é mais então
a pura imaginação que domina e não é ainda a verdadeira observação; mas o raciocínio adquire nessa
fase grande extensão e prepara-se confusamente para o verdadeiro exercício científico Deve-se aliás
notar que sua parte especulativa se acha, a princípio, muito exagerada, em virtude desta obstinada
tendência a argumentar em vez de observar que, em todos os gêneros, caracteriza habitualmente o
espírito metafísico, mesmo em seus mais eminentes órgãos. Uma ordem de concepções tão flexível, que
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não comporta absolutamente a consistência por tão longo tempo peculiar ao sistema teológico, deve,
além disso, atingir muito mais rapidamente a unidade correspondente, pela subordinação gradual das
diversas entidades particulares a uma única entidade geral, a Natureza, destinada a representar o fraco
equivalente metafísico da vaga ligação universal dos fenômenos operada pelo monoteísmo.
10. Para compreendermos melhor, sobretudo em nossos dias, a eficácia histórica de semelhante aparelho
filosófico, importa reconhecer que, por sua natureza, ele não é suscetível espontaneamente senão de uma
simples atividade crítica ou dissolvente, mesmo mental, e com mais forte razão social, sem poder jamais
organizar nada que lhe seja próprio. Radicalmente inconseqüente, este espírito equívoco conserva todos
os princípios fundamentais do sistema teológico, tirando-lhe, porém, cada vez mais o vigor e a fixidez
indispensáveis à sua autoridade efetiva; é nesta alteração que consiste, de fato e a todos os respeitos, sua
principal utilidade passageira, que se manifesta quando o regime antigo, por muito tempo progressivo,
para o conjunto da evolução humana, atinge inevitavelmente aquele grau de prolongamento abusivo que
tende a perpetuar de modo indefinido o estado de infância que ele dirigira antes com tanta felicidade. A
Metafísica é, pois, realmente, em essência, apenas uma espécie de teologia enervada pouco e pouco por
simplificações dissolventes, que lhe tiram espontaneamente o poder direto de impedir o desenvolvimento
das concepções positivas, conservando-lhe, contudo, a aptidão provisória para entreter um certo exercido
indispensável do espírito de generalização, até que este possa enfim receber melhor alimento. Em virtude
de seu caráter contraditório, o regime metafísico ou ontológico acha-se sempre na inevitável alternativa
de tender para uma vã restauração do estado teológico a fim de satisfazer às condições de ordem, ou de
impelir a uma situação puramente negativa para escapar ao império opressivo da Teologia. Esta oscilação
necessária, que só se observa agora em relação às teorias mais difíceis, existiu igualmente outrora a
respeito mesmo das mais simples, enquanto durou sua idade metafísica, em virtude da impotência
orgânica sempre peculiar a semelhante maneira de filosofar. Devemos sem temor assegurar que, se a
razão pública não a tivesse afastado desde muito tempo, no que concerne a certas noções fundamentais,
as dúvidas insensatas que ela suscitou, há vinte séculos, sobre a existência dos corpos exteriores,
subsistiriam ainda essencialmente, porque na verdade ela nunca as dissipou por nenhum argumento
decisivo. O estado metafísico pode, pois, ser afinal encarado como uma espécie de doença crônica
naturalmente peculiar à nossa evolução mental, individual ou coletiva, entre a infância e a virilidade.
11. Não remontando as especulações históricas quase nunca, entre os modernos, além dos tempos
politéicos o espírito metafísico deve parecer nelas quase tão antigo como o próprio espírito teológico,
pois que ele presidiu necessariamente, ainda que de modo implícito, à transformação primitiva do
fetichismo em politeísmo, a fim de substituir desde logo a atividade puramente sobrenatural, a qual,
retirada assim de cada corpo particular, devia deixar ai, de modo espontâneo, alguma entidade
correspondente. Como, todavia, esta primeira evolução teológica não pôde dar então lugar a nenhuma
discussão real, a interferência contínua do espírito ontológico só começou a tornar-se plenamente
característica na revolução seguinte, que operou a transformação do politeísmo em monoteísmo, da qual
ele foi o órgão natural. Sua influência crescente devia parecer orgânica a princípio, enquanto se achava
subordinada ao impulso teológico, mas sua natureza essencialmente dissolvente manifestou-se cada vez
mais, quando tentou estender gradualmente a simplificação da Teologia além mesmo do monoteísmo
vulgar, que constituía, sem nenhuma dúvida, a fase extrema realmente possível da filosofia inicial. Foi
assim que, durante os últimos cinco séculos, o espírito metafísico secundou negativamente o. surto
fundamental de nossa civilização moderna, decompondo pouco a pouco o sistema teológico, que se
tornara enfim retrógrado ao terminar a Idade Média, em virtude de achar-se essencialmente esgotada a
eficácia social do regime monotéico. Infelizmente depois de ter realizado, em cada gênero, esse oficio
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indispensável, mas passageiro, a ação demasiado prolongada das concepções ontológicas tendeu sempre
a impedir igualmente qualquer outra organização real do sistema especulativo; de sorte que o mais
perigoso obstáculo à instalação final da genuína filosofia, resulta, com efeito, hoje desse mesmo espírito
que ainda se atribui muitas vezes o privilégio quase excluso das meditações filosóficas.
III. Estado positivo ou real
1o.- Seu principal caráter: a lei da subordinação constante da imaginação à observação
12. Esta longa sucessão de preâmbulos necessários conduz enfim nossa inteligência, gradualmente
emancipada, ao seu estado definitivo de positividade racional, que deve ser caracterizado aqui de um
modo mais especial do que os dois estados preliminares. Tendo tais exercidos preparatórios mostrado
espontaneamente a inanidade radical das explicações vagas e arbitrárias próprias à filosofia inicial, quer
teológica, quer metafísica, o espírito humano renuncia de ora em diante às pesquisas absolutas, que só
convinham à sua infância, e circunscreve os seus esforços ao domínio desde então rapidamente
progressivo, da verdadeira observação, única base possível dos conhecimentos realmente acessíveis,
criteriosamente adaptados às nossas necessidades efetivas. A lógica especulativa tinha até então
consistido em raciocinar, de modo mais ou menos sutil, segundo princípios confusos, que, não
comportando nenhuma prova suficiente, suscitavam sempre debates sem resultado. Ela reconhece de ora
em diante, como regra fundamental, que toda proposição que não é estritamente redutível à simples
enunciação de um fato, particular ou geral, não nos pode oferecer nenhum sentido real e inteligível. Os
princípios que ela emprega não passam em si mesmos de verdadeiros fatos, apenas mais gerais e mais
abstratos do que aqueles cuja ligação devem formar. Qualquer que seja, aliás, o modo racional ou
experimental, de os descobrir, é sempre da sua conformidade, direta ou indireta, com os fenômenos
observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica. A pura imaginação perde então de modo
irrevogável a sua antiga supremacia mental e subordina-se necessariamente à observação, de maneira a
constituir um estado lógico plenamente normal, sem deixar contudo de exercer, nas especulações
positivas, um papel tão capital como inesgotável, para criar ou aperfeiçoar os meios de ligação, quer
definitiva, quer provisória. Em uma palavra, a revolução fundamental que caracteriza o estado viril de
nossa inteligência consiste em substituir por toda a parte a inacessível determinação das causas
propriamente ditas, pela simples pesquisa das leis, isto é, das relações constantes que existem entre os
fenômenos observados. Quer se trate dos menores ou dos mais sublimes efeitos, do choque e da
gravidade, quer do pensamento e da moralidade, deles não podemos conhecer realmente senão as
diversas ligações mútuas próprias à sua realização, sem nunca penetrar o mistério da sua produção.
2o. – Natureza relativa do espírito positivo
13. Nossas especulações positivas devem não só confinar-se essencialmente, sob todos os aspectos, à
apreciação sistemática dos fatos existentes, renunciando a descobrir sua primeira origem e o seu destino
final, mas importa também ainda compreender que este estudo dos fenômenos não deve tornar-se de
qualquer modo absoluto, mas permanecer sempre relativo à nossa organização e à nossa situação.
Reconhecendo sob este duplo aspecto, como são imperfeitos os nossos meios especulativos, vemos que,
longe de podermos estudar completamente qualquer existência efetiva, não poderemos sequer garantir a
possibilidade de conhecer, mesmo de modo muito superficial, todas as existências reais, das quais a
maior parte talvez nos deva escapar totalmente. Se a perda de um sentido importante basta para nos
ocultar uma ordem inteira de fenômenos naturais, é perfeitamente razoável pensar-se, reciprocamente,
que a aquisição de um novo sentido nos descobriria uma classe de fatos dos quais não temos agora
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nenhuma idéia, a não ser que acreditemos que a acuidade dos sentidos, tão diferente entre os principais
tipos de animalidade, se acha elevada em nosso organismo no mais alto grau que possa exigir a
exploração total do mundo exterior, hipótese evidentemente gratuita e quase ridícula. Nenhuma ciência
pode manifestar melhor do que a Astronomia a natureza necessariamente relativa de todos os nossos
conhecimentos reais, pois não podendo realizar-se nela a investigação dos fenômenos senão através de
um único sentido, muito fácil é serem aí apreciadas as conseqüências especulativas de sua supressão ou
de sua simples alteração. Nenhuma astronomia poderia existir numa espécie cega, por mais inteligente
que a supuséssemos, nem mesmo se somente a atmosfera através da qual observamos os corpos celestes
permanecesse sempre e por toda a parte nebulosa. Todo este Tratado há de oferecer-nos freqüentes
ocasiões de apreciarmos espontaneamente, da maneira menos equívoca, esta íntima dependência em que
o conjunto de nossas condições próprias, tanto interiores, quanto externas, mantém inevitavelmente cada
um dos nossos estudos positivos.
14. Para bem caracterizar a natureza necessariamente relativa de todos os nossos conhecimentos reais,
importa reconhecer, além disso, do ponto de vista mais filosófico, que, se quaisquer de nossas
concepções devem ser consideradas como outros tantos fenômenos humanos, tais fenômenos não são
simplesmente individuais, mas também e sobretudo, sociais, pois resultam, com efeito, de uma evolução
coletiva e contínua, cujos elementos e fases essencialmente se entrelaçam. Se, pois, sob o primeiro
aspecto, reconhecemos que nossas especulações devem depender sempre das diversas condições
essenciais de nossa existência individual, cumpre igualmente admitir, sob o segundo, que não se acham
menos subordinadas ao conjunto da progressão social de modo a não poderem comportar jamais a fixidez
absoluta que os metafísicos supuseram. Ora, a lei geral do movimento fundamental da Humanidade
consiste, a este respeito, em que nossas teorias tendem cada vez mais a representar exatamente os objetos
exteriores de nossas constantes investigações, sem que, contudo, a verdadeira constituição de cada um
deles possa, em caso algum, ser plenamente apreciada, pois a perfeição científica deve restringir-se a
aproximar-se desse limite ideal, tanto quanto o exijam nossas diversas necessidades reais. Este segundo
gênero de dependência, peculiar às especulações positivas, manifesta-se tão claramente como o primeiro
em todo o curso dos estudos astronômicos, quando consideramos, por exemplo, a série de noções cada
vez mais satisfatórias, obtidas desde a origem da geometria celeste, sobre a figura da Terra, sobre a forma
das órbitas planetárias, etc. Assim, posto que, de um lado, as doutrinas científicas sejam necessariamente
de natureza bastante móvel de modo a evitar qualquer pretensão ao absoluto, suas variações graduais não
apresentam, por outro lado, nenhum caráter arbitrário que possa motivar um ceticismo ainda mais
perigoso. Cada mudança sucessiva conserva, aliás, espontaneamente, nas teorias correspondentes, uma
aptidão indefinida para representar os fenômenos que lhes serviram de base, pelo menos enquanto não
haja necessidade de nelas ultrapassar o grau primitivo de precisão real.
3o. – Destino das leis positivas: previsão racional
15. Depois que se reconheceu unanimemente que a primeira condição fundamental de toda especulação
científica consiste em subordinar constantemente a imaginação à observação, uma viciosa interpretação
induziu amiúde a exagerado abuso desse grande princípio lógico, para fazer a ciência real degenerar em
uma espécie de acúmulo estéril de fatos incoerentes, sem oferecer essencialmente outro mérito senão o
da exatidão parcial. Importa, pois, bem compreender que o genuíno espírito positivo se acha tão afastado,
no fundo, do empirismo como do misticismo; é entre estas duas aberrações, igualmente funestas, que ele
deve caminhar: a necessidade de semelhante reserva contínua, tão difícil como importante, bastaria, além
disso, para verificar, de acordo com as nossas explicações iniciais, quanto a verdadeira positividade deve
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ser maduramente preparada, e não pode, de forma alguma, convir ao estado nascente da Humanidade. É
nas leis dos fenômenos que consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, por mais
exatos e numerosos que sejam, só fornecem os materiais indispensáveis. Ora, considerando o destino
constante dessas leis, podemos dizer, sem nenhum exagero, que a verdadeira ciência, muito longe de ser
formada por simples observações, tende sempre a dispensar, tanto quanto possível, a exploração direta,
substituindo-a pela previsão racional, que constitui, a todos os respeitos, o principal caráter do espírito
positivo, como o conjunto dos estudos astronômicos no-lo mostrará claramente semelhante previsão,
conseqüência necessária das relações constantes descobertas entre os fenômenos, jamais permitirá
confundir a ciência real com a vã erudição que acumula maquinalmente fatos sem aspirar a deduzi-los
uns dos outros. Este grande atributo de todas as nossas sãs especulações importa tanto à sua utilidade
efetiva como à sua própria dignidade; porque a exploração direta dos fenômenos ocorridos não seria
suficiente para permitir-nos modificar-lhes a realização, se não nos conduzisse a convenientemente
prevê-la. Assim, o genuíno espírito positivo consiste em ver para prever, em estudar o que é, a fim de
concluir o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais. (2)
4o. – Extensão universal do dogma fundamental da invariabilidade das leis naturais.
16. Este princípio fundamental de toda a filosofia positiva, que ainda está longe de ser suficientemente
estendido ao conjunto dos fenômenos, vai-se tornando, felizmente, desde três séculos, por tal forma
familiar, que, em virtude de hábitos absolutos anteriormente enraizados, se tem quase sempre
desconhecido até aqui a sua verdadeira origem, tentando-se pelo emprego de uma vã e confusa
argumentação metafísica representá-lo como uma espécie de noção inata, ou pelo menos primitiva,
quando certamente resultou de gradual e lenta indução, ao mesmo tempo coletiva e individual. Nenhum
motivo racional, independente de qualquer exploração exterior, nos sugere de antemão a invariabilidade
das relações físicas; pelo contrário, é incontestável que o espírito humano experimenta, durante sua longa
infância, um pendor muito vivo para desconhecê-la, mesmo nos seres onde uma observação imparcial
haveria de manifestá-la, se ele não fosse então arrastado por sua tendência necessária a referir todos os
acontecimentos, especialmente os mais importantes, a vontades arbitrárias. Existem, sem dúvida, em
cada ordem de fenômenos, alguns bastante simples e bastante familiares para que a sua observação
espontânea tenha sugerido sempre o sentimento confuso e incoerente de uma certa regularidade
secundária de sorte que o ponto de vista teológico não pôde nunca ser rigorosamente universal. Mas esta
convicção parcial e precária limita-se por muito tempo aos fenômenos menos numerosos e mais
subalternos, que ela não pode mesmo, de nenhum modo, preservar então das freqüentes perturbações
atribuídas à interferência preponderante dos agentes sobrenaturais. O princípio da invariabilidade das leis
naturais só começou realmente a adquirir certa consistência filosófica quando os primeiros trabalhos
verdadeiramente científicos puderam manifestar a sua exatidão essencial relativamente a uma ordem
inteira de grandes fenômenos, o que não podia resultar, de maneira satisfatória, senão da fundação da
astronomia matemática, durante os últimos séculos do politeísmo. Em virtude desta introdução
sistemática, este dogma fundamental tendeu, sem dúvida, a estender-se, por analogia, a fenômenos mais
complicados, antes mesmo de poderem suas leis próprias ser de qualquer modo conhecidas. Mas, além da
sua esterilidade efetiva, esta vaga antecipação lógica tinha então muito pouca energia para resistir
convenientemente à ativa supremacia mental que as ilusões teológico-metafísicas ainda conservavam.
Um primeiro esboço especial do estabelecimento das leis naturais em relação a cada ordem principal de
fenômenos tornou-se em seguida indispensável para proporcionar a semelhante noção a força inabalável
que começa a apresentar nas ciências mais avançadas. Esta convicção não poderia tornar-se mesmo
bastante firme, enquanto tal elaboração não fosse de fato estendida a todas as especulações fundamentais,
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pois a incerteza deixada pelas mais complexas devia afetar, então, mais ou menos, cada uma das outras.
Não se pode desconhecer esta tenebrosa reação, mesmo hoje, quando, em virtude da ignorância ainda
habitual relativa às leis sociológicas, o princípio da invariabilidade das relações físicas se acha algumas
vezes sujeito a graves aliterações até nos estudos puramente matemáticos, nos quais vemos, por exemplo,
preconizar-se diariamente um pretenso cálculo das probabilidades, que supõe implicitamente a ausência
de toda lei real a respeito de certos acontecimentos, sobretudo quando o homem neles intervém. Mas,
quando essa universal extensão se acha convenientemente esboçada, condição agora preenchida pelos
espíritos mais avançados, este grande principio filosófico adquire logo uma plenitude decisiva, ainda que
as leis efetivas da maior parte dos casos particulares devam ficar sempre ignoradas; porque uma
irresistível analogia aplica então previamente a todos os fenômenos de cada ordem o que não foi
verificado senão para alguns dentre eles, contanto que tenham uma importância conveniente.
CAPÍTULO II
DESTINO DO ESPÍRITO POSITIVO
17. Depois de haver considerado o espírito positivo relativamente aos objetos exteriores de nossas
especulações, cumpre acabar de caracterizá-lo, apreciando também seu destino interior, para a satisfação
contínua de nossas próprias necessidades, quer sejam concernentes à vida contemplativa, quer à vida
ativa.
I. Constituição completa e estável da harmonia mental, individual e coletiva: sendo tudo referido à
Humanidade
18. Ainda que as necessidades puramente mentais sejam, sem dúvida, as menos enérgicas de todas as
inerentes à nossa natureza, sua existência direta e permanente é contudo incontestável em todas as
inteligências: elas constituem o primeiro estimulo indispensável aos nossos diversos esforços filosóficos,
muitas vezes atribuídos especialmente aos impulsos práticos, que, na verdade, os desenvolvem muito,
mas não os poderiam fazer surgir Estas exigências intelectuais, relativas, como todas as outras, ao
exercício regular das funções correspondentes, reclamam sempre uma feliz combinação de estabilidade e
de atividade, de onde resultam as necessidades simultâneas de ordem e de progresso, ou de ligação e
extensão. Durante a longa infância da Humanidade, só as concepções teológico-metafísicas podiam,
conforme nossas explicações anteriores, satisfazer provisoriamente a esta dupla condição fundamental,
ainda que de modo extremamente imperfeito. Mas quando a razão humana se acha bastante amadurecida
para renunciar francamente às especulações inacessíveis e circunscrever com sabedoria sua atividade ao
domínio verdadeiramente apreciável por nossas faculdades, a filosofia positiva proporciona-lhe, por
certo, uma satisfação muito mais completa, a todos os respeitos, e também mais real, destas duas
necessidades elementares. Tal é evidentemente, com efeito, sob este novo aspecto, o destino direto das
leis que ela descobre sobre os diversos fenômenos e da previsão racional delas inseparável. Em relação a
cada ordem de fenômenos, tais leis devem, a este respeito, ser distinguidas em duas modalidades,
conforme ligam por semelhança os que coexistem, ou por filiação os que se sucedem. Esta indispensável
distinção corresponde essencialmente, para o mundo exterior, à, que ele sempre nos oferece
espontaneamente entre os dois estados correlatos de existência e de movimento; donde resulta, em toda
ciência real, uma diferença fundamental entre a apreciação estática e a apreciação dinâmica de qualquer
assunto. Os dois gêneros de relações contribuem igualmente para explicar os fenômenos, e conduzem de
modo semelhante a prevê-los, ainda que às leis de harmonia pareçam a princípio destinadas sobretudo à
explicação e as leis de sucessão à previsão. Quer se trate, com efeito, de explicar ou de prever, tudo se
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reduz sempre a ligar: toda ligação real, estática ou dinâmica, descoberta entre dois fenômenos quaisquer,
permite ao mesmo tempo explicá-las e prever um pelo outro, porque a previsão científica, convém
evidentemente ao presente, e mesmo ao passado, assim como ao futuro, pois consiste sempre em
conhecer um fato independentemente de sua exploração direta, em virtude de suas relações com outros já
conhecidos. Assim, por exemplo, a assimilação demonstrada, entre a gravitação celeste e a gravidade
terrestre conduziu, em virtude das variações pronunciadas da primeira, a prever as fracas variações da
segunda, que a observação imediata não podia descobrir suficientemente, ainda que as tenha em seguida
confirmado; assim também em sentido inverso, a correspondência observada antigamente entre o período
elementar das marés e o dia lunar ficou explicada logo que se reconheceu ser em cada ponto a elevação
das águas resultante da passagem da lua pelo meridiano local. As nossas verdadeiras necessidades
lógicas convergem, pois, essencialmente para este comum destino: consolidar, tanto quanto possível, por
nossas especulações sistemáticas, a unidade espontânea do nosso entendimento, estabelecendo a
continuidade e a homogeneidade de nossas diversas concepções e fazendo-nos achar de novo a
constância no meio da variedade, de modo a satisfazer igualmente às exigências simultâneas da ordem e
do progresso. Ora, é evidente que, sob este aspecto fundamental, a filosofia positiva possui
necessariamente, para os espíritos bem preparados, uma aptidão muito superior à que jamais pôde
oferecer a filosofia teológico-metafísica. Considerando esta mesmo nos tempos do seu maior ascendente,
tanto mental como social, isto é, no estado politéico, a unidade intelectual achava-se então certamente
constituída de maneira muito menos completa e menos estável do que há de permitir em breve a
universal preponderância do espírito positivo, quando for habitualmente estendido às mais eminentes
especulações. Então, com efeito, reinará por toda a parte, sob diversos modos e em diferentes graus, esta
admirável constituição lógica, da qual só os estudos mais simples nos podem dar hoje justa idéia, em que
a ligação e a extensão, ambas plenamente garantidas, se acham, ademais, espontaneamente solidárias.
Este grande resultado filosófico não exige, aliás, outra condição necessária a não ser a obrigação
permanente de restringir todas as nossas especulações aos casos verdadeiramente acessíveis,
considerando estas relações reais, quer de semelhança, quer de sucessão, como capazes apenas de
constituir, para nós simples fatos gerais, que cumpre procurar reduzir ao menor número possível, sem
que o mistério de sua produção jamais possa ser penetrado de modo algum, conforme o caráter
fundamental do espírito positivo. Mas se somente esta constância efetiva das ligações naturais é, na
realidade, apreciável por nós, também só ela basta plenamente às nossas verdadeiras necessidades, quer
de contemplação, quer de direção.
19. Importa, contudo, reconhecer, em principio, que, sob o regime positivo, a harmonia de nossas
concepções se acha necessariamente limitada, até certo ponto, pela obrigação fundamental de sua
realidade, isto é, de uma suficiente conformidade com tipos independentes de nós. Em seu cego instinto
de ligação, nossa inteligência aspira a poder quase sempre ligar entre si dois fenômenos quaisquer,
simultâneos ou sucessivos; mas o estudo do mundo exterior demonstra, ao contrário, que muitas dessas
associações seriam puramente quiméricas, e que uma multidão de acontecimentos se realiza
continuamente sem nenhuma real dependência mútua; de sorte que este pendor indispensável precisa,
como nenhum outro, ser regulado por sã apreciação geral. Habituado, durante muito tempo, a uma
espécie de unidade de doutrina, por mais vaga e ilusória que devesse ser, sob o império das ficções
teológicas e das entidades metafísicas, o espírito humano, passando para o estado positivo, tentou logo
reduzir as diversas ordens de fenômenos a uma lei comum. Mas todos os ensaios realizados durante os
dois últimos séculos, para obter unia explicação universal da natureza, apenas conseguiram desacreditar
radicalmente tal empreendimento, de ora em diante abandonado às inteligências mal cultivadas. Uma
judiciosa explicação do mundo exterior o representou como sendo muito menos ligado do que o supõe e
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o deseja o nosso entendimento, predisposto, por sua própria fraqueza, a multiplicar relações favoráveis e
à sua marcha, e, sobretudo, ao seu repouso. Não somente as seis categorias fundamentais que
distinguiremos mais adiante entre os fenômenos naturais, não poderiam ser todas certamente submetidas
a uma única lei universal, como também podemos assegurar agora que a unidade de expl1cação, ainda
procurada por tantos espíritos sérios em relação a cada uma delas, tomada à parte, nos é finalmente
interdita, mesmo neste domínio muito mais restrito. A Astronomia fez nascer, sob este aspecto,
esperanças demasiado empíricas, que nunca se poderiam realizar para os fenômenos mais complicados,
nem mesmo quanto à Física propriamente dita, cujos cinco ramos principais ficarão sempre distintos
entre si, apesar de suas incontestáveis relações. Freqüentemente nos achamos dispostos a exagerar muitos
inconvenientes lógicos dessa dispersão necessária, porque apreciamos mal as vantagens reais que
apresenta a transformação das induções em deduções. Todavia cumpre reconhecer francamente esta
impossibilidade direta de reduzir tudo a uma única lei positiva como grave imperfeição, conseqüência
inevitável da condição humana, que nos força a aplicar uma inteligência muito fraca a um universo
complicadíssimo.
20. Mas esta incontestável necessidade, que importa reconhecer, a fim de evitar vão desperdício de forças
mentais, não impede de modo algum a ciência real de comportar, sob outro aspecto, suficiente unidade
filosófica, equivalente às que a Teologia ou Metafísica constituíram passageiramente, e, aliás, muito
superior, tanto em estabilidade como em plenitude. Para perceber-lhe a possibilidade e apreciar-lhe a
natureza, é preciso recorrer, em primeiro lugar, à luminosa distinção geral esboçada por Kant entre os
dois pontos de vista objetivo e subjetivo, peculiares a qualquer estudo. Considerada sob o primeiro
aspecto, isto é, quanto ao destino exterior das nossas teorias, como exata representação do mundo real,
nossa ciência não é, certamente, suscetível de plena sistematização, em virtude da inevitável diversidade
entre os fenômenos fundamentais. Neste sentido não devemos procurar outra unidade senão a do método
positivo encarado em seu conjunto, sem pretender verdadeira unidade científica, mas somente a
homogeneidade e a convergência das diversas doutrinas. O mesmo não acontece sob o outro aspecto, isto
é, quanto à origem interior das teorias humanas, encaradas como resultados naturais de nossa evolução
mental, ao mesmo tempo individual e coletiva, destinadas à satisfação normal de nossas próprias
necessidades, sejam físicas, intelectuais ou morais. Referidos assim, não ao universo, mas ao homem, ou
antes à Humanidade, nossos conhecimentos reais tendem, ao revés, com evidente espontaneidade, para
uma completa sistematização, tanto científica como lógica. Não devemos mais então conceber, no fundo,
senão uma única ciência, a ciência humana, ou mais exatamente, social, da qual nossa existência
constitui ao mesmo tempo o princípio e o fim, e na qual vem naturalmente fundir-se o estudo racional do
mundo exterior, sob o duplo titulo de elemento necessário e de preâmbulo fundamental, igualmente
indispensável quanto ao método e quanto à doutrina, como explicarei mais adiante. É só assim que os
nossos conhecimentos positivos podem formar um verdadeiro sistema, de modo a oferecerem um caráter
plenamente satisfatório. A própria Astronomia, ainda que objetivamente mais perfeita do que os outros
ramos da filosofia natural, em razão da sua simplicidade superior, não é verdadeiramente tal senão sob
este aspecto humano, porque o conjunto deste Tratado fará sentir com clareza que ela deveria, pelo
contrário, ser julgada muito imperfeita se a referíssemos ao universo e não ao homem; pois todos os
nossos estudos reais são ai por força limitados ao nosso mundo, que, entretanto, constitui apenas um
elemento mínimo do universo, cuja exploração nos é essencialmente interdita, Tal é, pois, a disposição
geral que deve enfim. prevalecer na genuína filosofia positiva, não só quanto às teorias diretamente
relativas ao homem e à sociedade, mas também em relação às que concernem aos mais simples
fenômenos, os mais afastados, em aparência desta comum apreciação: conceber todas as nossas
especulações como produtos de nossa inteligência, destinados a satisfazer às nossas diversas
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necessidades essenciais, sem se afastarem nunca do homem senão para melhor voltarem a ele, depois de
haver sido feito o estudo dos outros fenômenos na medida em que o seu conhecimento se torna
indispensável, quer para desenvolver nossas forças, quer para apreciar nossa natureza e nossa condição.
Pode-se desde então perceber como a noção preponderante da Humanidade deve necessariamente
constituir, no estado positivo, uma plena sistematização mental, pelo menos equivalente à que afinal
comportará a idade teológica com a grande concepção de Deus, tão fracamente substituída em seguida, a
este respeito, durante a transição metafísica, pelo vago pensamento da Natureza.
21. Depois de haver caracterizado a aptidão espontânea do espírito positivo para estabelecer a unidade
final do nosso entendimento, torna-se fácil completar esta explicação fundamental, estendendo-a do
indivíduo à espécie. Esta indispensável extensão era, até agora, essencialmente impossível aos filósofos
modernos, que, não tendo podido libertar-se assaz do estado metafísico, nunca se colocaram no ponto de
vista social, único suscetível contudo de uma plena realidade, tanto científica como lógica, pois o homem
não se desenvolve isoladamente, mas coletivamente. Afastando, como radicalmente estéril, ou antes
muitíssimo prejudicial, esta viciosa abstração de nossos psicólogos ou ideólogos, a tendência sistemática
que acabamos de apreciar no espírito positivo adquire enfim toda a sua importância, porque mostra nele
o verdadeiro fundamento filosófico da sociabilidade humana, tanto pelo menos quanto esta depende da
inteligência, cuja capital influência, ainda que de nenhum modo exclusiva, não poderia ser ai constatada.
É, de fato, o mesmo problema humano, com diversos graus de dificuldade, quer se trate de constituir a
unidade lógica de cada entendimento isolado ou de estabelecer uma convergência duradoura entre
entendimentos distintos, cujo número não poderia essencialmente influir senão sobre a rapidez da
operação. Também, em qualquer tempo, aquele que pôde tornar-se bastante conseqüente adquiriu, por
isso mesmo, a faculdade de reunir gradualmente os outros, em virtude da semelhança fundamental de
nossa espécie. A filosofia teológica não foi, durante a infância da Humanidade, a única própria para
sistematizar a sociedade senão por ser então a fonte exclusiva de certa harmonia mental. Se, pois, ao
espírito positivo passou irrevogavelmente, de ora avante, o privilégio da coerência lógica, o que não
pode, a sério, ser contestado, cumpre desde então nele reconhecer também o único princípio efetivo desta
grande comunhão intelectual que se torna a base necessária de toda verdadeira associação humana,
quando convenientemente ligada às duas outras condições fundamentais uma suficiente conformidade de
sentimentos e uma certa convergência de interesses. A deplorável situação filosófica do escol da
Humanidade bastaria hoje para dispensar, a este respeito, qualquer discussão, pois nele não se observa
mais verdadeira comunidade de opiniões senão sobre assuntos já reduzidos a teorias positivas, os quais,
infelizmente, não são, antes muito pelo contrário, os mais importantes. Uma apreciação direta e especial,
que seria deslocada aqui, faz, aliás, perceber facilmente que só a filosofia positiva pode realizar a pouco e
pouco este nobre projeto de associação universal, que o catolicismo esboçou prematuramente na Idade
Média, mas que era, no fundo, necessariamente incompatível, como a experiência plenamente o
demonstra, com a natureza teológica da sua filosofia, a qual instituía uma coerência lógica muito fraca de
modo a comportar semelhante eficácia social.
II. Harmonia entre a ciência e a arte, entre a teoria positiva e a prática.
22. Achando-se assaz e definitivamente caracterizada a aptidão fundamental do espírito positivo em
relação à vida especulativa, só nos resta apreciá-la também em relação à vida ativa, que, sem poder
mostrar nele nenhuma propriedade verdadeiramente nova, manifesta, de maneira muito mais completa e
sobretudo mais decisiva, o conjunto dos atributos que lhe temos reconhecido. Ainda que as concepções
teológicas tenham sido, mesmo sob este aspecto, por muito tempo necessárias a fim de despertar e
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sustentar o ardor do homem pela esperança indireta de uma espécie de império ilimitado, foi, entretanto,
a este respeito que o espírito humano testemunhou primeiro sua predileção final pelos conhecimentos
reais. E, com efeito, sobretudo como base racional da ação da Humanidade sobre o mundo exterior que o
estudo positivo da natureza começa hoje a ser universalmente estimado, Nada é mais criterioso, no
fundo, do que este julgamento vulgar e espontâneo; porque tal destino, quando convenientemente
apreciado, lembra necessariamente, num resumo muito feliz, todos os grandes caracteres do verdadeiro
espírito filosófico, não só quanto à racionalidade, mas também quanto à positividade. A ordem natural
que resulta, em cada prático, do conjunto das leis dos fenômenos correspondentes, deve evidentemente
ser-nos primeiro bem conhecida para que possamos ou modificá-la para nossa vantagem, ou, pelo menos,
adaptar-lhe nossa conduta, se for de todo impossível intervirmos nela, como se dá em relação aos
acontecimentos celestes. Tal aplicação é especialmente própria para tornar familiarmente apreciável a
previsão racional que vimos constituir, sob todos os aspectos, o principal caráter da verdadeira ciência,
porque a pura erudição, onde os conhecimentos, reais mas incoerentes, consistem em fatos e não em leis,
não podia evidentemente, bastar para dirigir nossa atividade: seria supérfluo insistir aqui sobre uma
explicação tão pouco contestável. É verdade que a exorbitante preponderância concedida agora aos
interesses materiais conduziu demasiadas vezes o homem a compreender esta ligação necessária de modo
a comprometer gravemente o futuro da ciência, pois tendeu a reduzir as especulações positivas somente
às pesquisas de utilidade imediata. Mas esta cega disposição resulta apenas da maneira falsa e estreita de
conceber a grande relação entre a ciência e a arte, por não terem uma e outra sido apreciadas com
bastante profundeza. O estudo da Astronomia é o mais próprio de todos para corrigir semelhante
tendência, seja porque sua simplicidade superior permite perceber melhor seu conjunto, seja em virtude
da espontaneidade mais íntima das aplicações correspondentes que, há vinte séculos, se acham aí
evidentemente ligadas às mais sublimes especulações, como este Tratado o fará claramente compreender.
Mas importa sobretudo reconhecer bem, a este respeito, que a relação fundamental entre a ciência e a arte
não pôde até agora ser convenientemente concebida, mesmo pelos melhores espíritos, o que é uma
conseqüência necessária da extensão insuficiente da filosofia natural, que permanece ainda estranha às
pesquisas mais importantes e mais difíceis, as que concernem diretamente à sociedade humana. Com
efeito, a concepção racional da ação do homem sobre a natureza ficou assim essencialmente limitada ao
mundo inorgânico, de onde resultaria uma excitação científica demasiado imperfeita. Quando esta
imensa lacuna tiver sido suficientemente preenchida, como começa a sê-lo hoje, poder-se-á sentir a
importância fundamental deste grande destino prático para estimular habitualmente, e muitas vezes
mesmo para dirigir melhor as mais eminentes especulações, sob a única condição normal de uma
constante positividade. E, de fato, a arte não será mais então unicamente geométrica, mecânica ou
química, etc., mas também, e sobretudo, política e moral, devendo a principal ação exercida pela
Humanidade consistir, sob todos os aspectos, no melhoramento contínuo da sua própria natureza,
individual ou coletiva, entre os limites que o conjunto das leis reais indica, como em qualquer outro caso.
Quando esta solidariedade espontânea da ciência com a arte puder ser assim convenientemente
organizada, não se pode duvidar que, muito longe de tender a restringir de qualquer modo as sãs
especulações filosóficas, ela lhes designará, ao contrário, um destino final muito superior ao seu alcance
efetivo, se se não tivesse reconhecido previamente, como princípio geral, a impossibilidade de jamais
tornar a arte puramente racional, isto é, de elevar nossas previsões teóricas ao verdadeiro nível de nossas
necessidades práticas. Mesmo nas artes mais simples e mais perfeitas, torna-se constantemente
indispensável um desenvolvimento direto e espontâneo, sem que as indicações científicas o possam, em
caso algum, substituir completamente. Por mais satisfatórias, por exemplo, que se tenham tornado nossas
previsões astronômicas, sua previsão é ainda, e será provavelmente sempre, inferior às nossas justas
exigências práticas, como terei amiúde ocasião de indicar.
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23. Esta tendência espontânea para constituir diretamente uma inteira harmonia entre a vida ativa e a
especulativa deve ser considerada finalmente como o privilégio mais feliz do espirito positivo, pois
nenhuma outra das suas propriedades pode manifestar-lhe tão bem o verdadeiro caráter e facilitar-lhe o
ascendente real. Nosso ardor especulativo acha-se assim sustentado, e mesmo dirigido, por poderoso
estímulo contínuo, sem o qual a inércia natural de nossa inteligência a disporia muitas vezes a satisfazer
suas fracas necessidades teóricas por explicações fáceis, mas insuficientes, ao passo que o pensamento da
ação final lembra sempre a condição de conveniente previsão. Ao mesmo tempo este grande destino
prático completa e circunscreve, em cada caso, o preceito fundamental relativo ao descobrimento das leis
naturais, tendendo a determinar, de acordo com as exigências da aplicação, o grau de precisão e de
extensão de nossa previdência racional, cuja exata medida não poderia, em geral, ser fixada de outro
modo. Se, por um lado, a perfeição científica não pode ultrapassar esse limite, abaixo do qual, ao
contrário, há de realmente ficar sempre, por outro lado, se o transpusesse, cairia logo numa apreciação
demasiado minuciosa, não menos quimérica do que estéril, que finalmente comprometeria mesmo todos
os fundamentos da verdadeira ciência, pois nossas leis não podem nunca representar os fenômenos senão
com uma certa aproximação, além da qual seria tão perigoso como inútil levar nossas pesquisas. Quando
esta relação fundamental da ciência com a arte for convenientemente sistematizada, ela tenderá algumas
vezes, sem dúvida, a desacreditar tentativas teóricas cuja esterilidade radical seria incontestável; mas,
longe de oferecer qualquer inconveniente real, essa inevitável disposição se tomará desde então muito
favorável aos nossos verdadeiros interesses especulativos, impedindo o vão desperdício de nossas fracas
forças mentais que resulta muito freqüentemente hoje de cega especialização. Em sua evolução
preliminar o espírito positivo teve de apegar-se por toda a parte a quaisquer questões que se lhe tornavam
acessíveis, sem indagar muito de sua importância final, que resultava de sua relação própria com um
conjunto que, a princípio, não podia ser percebido. Mas este instinto provisório sem o qual teria faltado
muitas vezes o alimento conveniente à ciência, deve acabar por subordinar-se habitualmente a uma justa
apreciação sistemática, logo que a plena madureza do estado positivo tiver permitido perceber as
verdadeiras relações de cada parte com o todo, de modo a oferecer constantemente um largo destino às
mais eminentes pesquisas, evitando, entretanto, toda especulação pueril.
24. A propósito desta íntima harmonia entre a ciência e a arte, importa enfim notar especialmente a feliz
tendência que dela resulta para desenvolver e consolidar o ascendente social da sã filosofia, como
conseqüência espontânea da preponderância crescente que a vida industrial obtém evidentemente na
civilização moderna. A filosofia teológica só podia realmente convir a essa fase necessária de
sociabilidade preliminar, em que a atividade humana deve ser essencialmente militar, a fim de preparar
gradualmente uma associação normal e completa, a princípio impossível, conforme a teoria histórica que
alhures estabeleci. O politeísmo adaptava-se especialmente ao sistema de conquista da antigüidade e o
monoteísmo à organização defensiva da Idade Média. Fazendo prevalecer cada vez mais a vida
industrial, a sociabilidade moderna deve, pois, secundar poderosamente a grande evolução mental que
eleva hoje definitivamente nossa inteligência do regime teológico ao positivo. Esta tendência diária e
ativa ao melhoramento prático da condição humana é necessariamente pouco compatível com as
preocupações religiosas, sempre relativas, sobretudo no monoteísmo, a um destino muito diferente; mas,
além disso, semelhante atividade é de natureza a suscitar finalmente uma oposição universal, tão
profunda como espontânea, a toda filosofia teológica. Por um lado, com efeito, a vida industrial é, no
fundo, diretamente contrária a todo otimismo providencial, pois supõe necessariamente que a ordem
natural é tão imperfeita, que exige sempre a contínua intervenção humana, ao passo que a Teologia não
admite logicamente outro meio de modificá-la a não ser apelando para o apoio sobrenatural. Em segundo
lugar, esta oposição, inerente ao conjunto de nossas concepções industriais, se reproduz, continuamente,
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sob formas muito variadas, na realização especial de nossas operações, nas quais devemos encarar o
mundo exterior, não como dirigido por quaisquer vontades, mas como submetido a leis, suscetíveis de
nos permitir uma suficiente previsão, sem a qual nossa atividade prática não comportaria nenhuma base
racional. Assim, a mesma correlação básica, que torna a vida industrial tão favorável ao ascendente
filosófico do espírito positivo, lhe imprime, sob outro aspecto, uma tendência antiteológica, mais ou
menos pronunciada, mas cedo ou tarde inevitável, quaisquer que tenham sido os esforços contínuos da
sabedoria do sacerdócio para conter ou temperar o caráter antiindustrial da primitiva filosofia, com a qual
a vida guerreira era a única suficientemente conciliável. Tal é a íntima solidariedade que faz todos os
espíritos modernos, mesmo os mais grosseiros e os mais rebeldes, participarem involuntariamente, desde
muito tempo, da substituição gradativa da antiga filosofia teológica por uma filosofia plenamente
positiva, única suscetível, de ora em diante, de verdadeiro ascendente social.
III. Incompatibilidade final da ciência com a Teologia
25. Somos assim conduzidos a completar enfim a apreciação direta do genuíno espírito filosófico por
uma última explicação que,. embora sendo sobretudo negativa, se torna, na realidade, indispensável hoje
para acabar de caracterizar suficientemente a natureza e as condições da grande renovação mental agora
necessária ao escol da Humanidade, manifestando diretamente a incompatibilidade final das concepções
positivas com quaisquer opiniões teológicas, tanto monotéicas como politéicas ou fetíchicas. As diversas
considerações indicadas neste Discurso já demonstraram implicitamente a impossibilidade de qualquer
conciliação duradoura entre as duas filosofias, seja quanto ao método ou quanto à doutrina;, de modo que
toda incerteza a este respeito pode ser, aqui facilmente dissipada. Sem dúvida a ciência e a Teologia não
se acham a princípio em oposição aberta, pois se não propõem as mesmas questões; e foi isto que
permitiu durante muito tempo o desenvolvimento parcial do espírito positivo, apesar do ascendente geral
do espírito teológico, e, mesmo, a muitos respeitos, sob a sua tutela preliminar. Mas quando a
positividade racional, limitada a princípio, às humildes pesquisas ,matemáticas, que a Teologia tinha
desdenhado especialmente empreender, começou a estender-se ao estudo direto da natureza, sobretudo
pelas teorias astronômicas a colisão tornou-se inevitável, ainda que latente, em virtude do contraste
fundamental, ao mesmo tempo científico e lógico, desde então progressivamente desenvolvido entre as
duas ordens de idéias. Os motivos lógicos em virtude dos quais a ciência se interdiz de modo radical os
misteriosos problemas de que se ocupa essencialmente a Teologia, são de natureza a desacreditar cedo ou
tarde, entre os bons espíritos, especulações que não se evitam senão por serem necessariamente
inacessíveis à razão humana. Além disso, a prudente reserva com que o espírito positivo procede,
estudando pouco a pouco assuntos muito fáceis, deve fazer apreciar indiretamente a louca temeridade do
espírito teológico a respeito das mais difíceis questões. Todavia é especialmente pelas doutrinas que a.
incompatibilidade das duas filosofias deve manifestar-se na maior parte das inteligências, muito pouco
interessadas, de ordinário, nas simples dissidências de método, ainda que estas sejam, no fundo, as mais
graves, por serem a fonte necessária de todas as outras. Ora, sob este novo aspecto, não se pode deixar de
reconhecer a oposição radical das duas ordens de concepções, onde os mesmos fenômenos são ora
atribuídos a vontades diretoras, ora reduzidos a leis invariáveis. A imobilidade irregular, naturalmente
própria a toda idéia de vontade, não pode de modo algum concordar com a constância das relações reais.
Também à medida que as leis físicas foram conhecidas, o império das vontades sobrenaturais achou-se
cada vez mais restringido, sendo sempre consagrado sobretudo aos fenômenos cujas leis permaneciam
ignoradas. Tal incompatibilidade torna-se diretamente evidente, quando se opõe a previsão racional, que
constitui o principal caráter da verdadeira ciência, à adivinhação por meio da revelação especial, que a
Teologia deve representar como o único meio legítimo de conhecer o futuro. É verdade que o espírito
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positivo, chegado à sua completa madureza, tende também a subordinar a própria vontade a verdadeiras
leis, cuja existência é, com efeito, tacitamente suposta pela razão vulgar, pois os esforços práticos para
modificar e prever as vontades humanas não poderiam ter sem isto nenhum fundamento razoável. Mas
semelhante noção não conduz de modo algum a conciliar as duas maneiras opostas segundo as quais a
ciência e a Teologia concebem necessariamente a direção efetiva dos diversos fenômenos. Tal previsão e
a conduta que dela resulta exigem, de fato, evidentemente um profundo conhecimento real do ser no seio
do qual as vontades se produzem. Ora, este fundamento preliminar só poderia provir de um ser pelo
menos igual, julgando assim por semelhança; não o podemos conceber da parte de um inferior, e a
contradição aumenta com a desigualdade de natureza. Também a Teologia sempre repeliu a pretensão de
penetrar de qualquer modo os desígnios da Providência, assim como seria absurdo supor aos animais
inferiores a faculdade de prever as vontades do homem ou dos outros animais superiores. É, contudo, a
esta louca hipótese que seríamos necessariamente conduzidos para afinal conciliar o espírito teológico
com o positivo.
26. Historicamente considerada, a oposição radical destes dois espíritos, existente em todas as fases
essenciais da filosofia inicial, é em geral há muito admitida relativamente àquelas fases que as
populações mais avançadas transpuseram completamente. É mesmo certo que, a respeito delas, se
exagera muito tal incompatibilidade em conseqüência do desdém absoluto que nossos hábitos
monotéicos inspiram de modo cego para com os dois estados anteriores do regime teológico. A sã
filosofia, sempre obrigada a apreciar a maneira necessária segundo a qual cada uma das grandes fases
sucessivas da Humanidade efetivamente concorreu para a nossa evolução fundamental, há de retificar
cuidadosamente estes injustos preconceitos, que dificultam toda verdadeira teoria histórica. Mas, embora
o politeísmo e mesmo o fetichismo, hajam, a princípio, secundado realmente o surto espontâneo do
espírito de observação, deve-se, entretanto, reconhecer que não podiam ser verdadeiramente compatíveis
com o sentimento gradual da invariabilidade das relações físicas, logo que tal sentimento pôde adquirir
certa consistência sistemática. Devemos assim conceber essa inevitável oposição como a principal fonte
secreta das diversas transformações que sucessivamente decompuseram a filosofia teológica, reduzindo-a
cada vez mais. É aqui o lugar de completar, a este propósito, a indispensável explicação indicada no
começo deste Discurso, onde essa dissolução gradual foi especialmente atribuída ao espírito metafísico
propriamente dito, que, no fundo, não podia ser senão o simples órgão de tal dissolução e nunca o seu
verdadeiro agente. Cumpre, com efeito, notar que o espírito positivo, em virtude da falta de generalidade
que devia caracterizar-lhe a lenta evolução parcial, não podia formular convenientemente suas próprias
tendências filosóficas, que apenas se tornaram sensíveis durante nossos últimos séculos. Dai resultou a
necessidade especial da intervenção metafísica, única que podia sistematizar convenientemente a
oposição espontânea da ciência nascente à antiga Teologia. Mas, ainda que tal ofício tenha feito exagerar
muito a importância efetiva deste espírito transitório, é, contudo, fácil reconhecer que só o progresso
natural dos conhecimentos reais dava séria consistência à sua ruidosa atividade. Esse progresso contínuo
que, no fundo, tinha determinado, antes, a transformação do fetichismo em politeísmo, constituiu, em
seguida, sobretudo a fonte essencial da redução do politeísmo ao monoteísmo. Como a colisão se operou
principalmente pelas teorias astronômicas, este Tratado me fornecerá a oportunidade de caracterizar o
grau preciso de seu desenvolvimento, ao qual cumpre atribuir, na realidade, a irrevogável decadência
mental do regime politéico, que havemos de reconhecer então ser logicamente incompatível com a
fundação decisiva da Astronomia Matemática pela escola de Tales.
27. O estudo racional de semelhante oposição demonstra claramente que ela não podia limitar-se à
Teologia antiga e que teve de estender-se depois ao próprio monoteísmo, embora a sua energia devesse
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decrescer com a sua necessidade, à medida que o espírito teológico continuava a decair em virtude do
progresso espontâneo da ciência. Sem dúvida esta fase extrema da filosofia inicial era muito menos
contrária do que as precedentes ao surto dos conhecimentos reais, que nela não encontravam mais, a cada
passo, a perigosa concorrência de uma explicação sobrenatural especialmente formu1ada. Assim foi
especialmente sob este regime monotéico que se realizou a evolução preliminar do espírito positivo. Mas,
por ser menos explícita e mais tardia; não era a incompatibilidade finalmente menos inevitável, mesmo
antes da época em que a nova filosofia se tornaria bastante geral para tomar um caráter verdadeiramente
orgânico e substituir, de modo irrevogável, a Teologia no seu ofício social, assim como no seu destino
mental. Como o conflito se deve operar ainda sobretudo pela Astronomia, demonstrarei aqui, com
precisão, qual foi a evolução mais avançada que estendeu necessariamente sua oposição radical, antes
limitada ao politeísmo propriamente dito, até o mais simples monoteísmo: reconhecer-se-á então que essa
inevitável influência resultou do descobrimento do duplo movimento da Terra, logo seguido da fundação
da mecânica celeste. No estado presente da razão humana, podemos, assegurar que o regime monotéico,
por muito tempo favorável, aos primeiros progressos dos conhecimentos reais, entrava profundamente a
marcha sistemática que devem seguir de ora avante, impedindo adquira enfim a crença fundamental na
invariabilidade das leis físicas sua indispensável plenitude filosófica. O pensamento contínuo de súbita e
arbitrária perturbação na economia natural deve, na realidade, ficar sempre inseparável, pelo menos
virtualmente, de toda Teologia qualquer, mesmo atenuada tanto quanto possível. Sem tal obstáculo, que
não pode de fato desaparecer senão pelo completo desuso do espírito teológico, o espetáculo diário da
ordem real já teria determinado uma adesão universal ao espírito fundamental da filosofia positiva.
28. Vários séculos antes do desenvolvimento científico permitir apreciar diretamente esta oposição
radical, a transição metafísica havia tentado, sob seu secreto impulso, restringir, no próprio seio do
monoteísmo, o ascendente da Teologia, fazendo abstratamente prevalecer, no último período da Idade
Média, a célebre doutrina escolástica que sujeitou a ação efetiva do motor supremo a leis invariáveis, que
ele teria a princípio instituído, interdizendo-se jamais mudá-las. Mas, esta espécie de transação
espontânea entre o princípio teológico e o princípio positivo só comportava evidentemente uma
existência passageira, própria a facilitar mais o declínio contínuo de um e o triunfo gradual do outro. Seu
império estava mesmo limitado, em essência, aos espíritos cultos; porque, enquanto a fé realmente
subsistiu, o espírito popular teve de repelir sempre com energia uma concepção que, no fundo, tendia a
anular o poder providencial, condenando-o a uma sublime inércia, que deixava toda a atividade habitual
à grande entidade metafísica – a Natureza, associada, assim, regularmente ao governo universal a título
de ministro obrigado e responsável, ao qual se devia dirigir dai por diante a maior parte das queixas e dos
votos. Vê-se que, sob todos os aspectos essenciais, esta concepção se parece muito com a que a situação
moderna fez cada vez mais prevalecer relativamente à realeza constitucional; e esta analogia não é de
modo algum fortuita, pois o tipo teológico de fato forneceu a base racional do tipo político. Esta doutrina
contraditória, que arruína a eficácia social do princípio teológico, sem consagrar o ascendente
fundamental do princípio positivo, não poderia corresponder a nenhum estado verdadeiramente normal e
duradouro: constitui somente o mais poderoso dos meios de transição próprios à última tarefa necessária
do espírito metafísico.
29. Enfim a inevitável incompatibilidade da ciência com a Teologia teve de manifestar-se também sob
outra forma geral, especialmente adaptada ao estado monotéico, fazendo cada vez mais sobressair a
profunda imperfeição da ordem real, oposta assim ao imprescindível otimismo da providência. Este
otimismo deveu, sem dúvida, permanecer por muito tempo conciliável com o inicio espontâneo dos
conhecimentos positivos, porque uma primeira análise da natureza tinha de inspirar então, por toda a
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parte, ingênua admiração pelo modo por que se realizavam os principais fenômenos constitutivos da
ordem real. Mas essa disposição inicial tende em seguida a desaparecer, não menos necessariamente, à
medida que o espírito positivo, adquirindo um caráter cada vez mais sistemático, substitui, pouco a
pouco, o dogma das causas finais pelo princípio das condições de existência, que oferece num grau mais
alto, todas as propriedades lógicas desse dogma, sem apresentar nenhum dos seus graves perigos
científicos. Deixam, então, os homens de admirar que a constituição dos seres naturais se ache, em cada
caso, disposta de maneira a permitir a realização de seus fenômenos efetivos. Ao estudar, com cuidado,
essa inevitável harmonia, com o único desígnio de a conhecer melhor, são logo notadas as profundas
imperfeições que apresenta, a todos os respeitos, a ordem real, quase sempre inferior em sabedoria à
economia artificial que a nossa fraca intervenção humana estabelece em seu limitado campo. Como estes
vícios naturais devem ser tanto maiores quanto mais complicados são os fenômenos considerados, as
indicações irrecusáveis que o conjunto da Astronomia nos há de oferecer, sob este aspecto, bastarão para
fazer pressentir aqui como semelhante apreciação deve estender-se, com uma nova energia filosófica, a
todas as outras partes essenciais da verdadeira ciência. Mas importa sobretudo compreender, em geral, a
respeito de semelhante crítica, que ela não tem apenas um destino passageiro, a título de meio
antiteológico. Ela liga-se, de maneira mais íntima e mais durável, ao espírito fundamental da filosofia
positiva, na relação geral entre a especulação e a ação. Se, por um lado, nossa intervenção ativa e
permanente repousa, antes de tudo, sobre o exato conhecimento da economia natural, da qual nossa
economia artificial deve constituir apenas, sob todos os aspectos, o melhoramento progressivo, não é
menos certo, por outro lado, que supomos assim a imperfeição necessária dessa ordem espontânea, cuja
modificação gradual constitui o fim de todos os nossos esforços diários, individuais ou coletivos.
Abstraindo-se de qualquer crítica passageira, a justa apreciação dos diversos inconvenientes próprios à
constituição efetiva do mundo real deve, pois, ser concebida de ora avante como inerente ao conjunto da
filosofia positiva, mesmo em relação aos casos inacessíveis aos nossos fracos meios de aperfeiçoamento,
a fim de conhecer melhor, quer nossa condição fundamental, quer o destino essencial de nossa continua
atividade.
CAPÍTULO III
ATRIBUTOS CORRELATOS DO ESPÍRITO POSITIVO E DO BOM-SENSO
I. Da palavra positivo: suas diversas acepções resumem os atributos do verdadeiro espírito filosófico
30. O concurso espontâneo das diversas considerações gerais indicadas neste Discurso basta para
caracterizar aqui, sob todos os aspectos principais, o verdadeiro espírito filosófico, que, após lenta
evolução preliminar, atinge hoje o seu estado sistemático. Tendo em vista a evidente obrigação em que
nos colocamos de qualificá-lo habitualmente, daqui por diante, por uma denominação curta e especial,
tive de preferir aquela a que esta universal preparação atribuiu cada vez mais, durante os três últimos
séculos, a preciosa propriedade de resumir o melhor possível o conjunto dos seus atributos fundamentais.
Como todos os termos vulgares elevados assim gradualmente à dignidade filosófica, a palavra positivo
oferece, em nossas línguas ocidentais, várias acepções distintas, mesmo que se afaste o sentido grosseiro
que lhe dão os espíritos mal cultivados. Importa, porém, notar aqui que todos esses diversos significados
convêm igualmente à nova filosofia geral, cujas diferentes qualidades características indicam
alternadamente: assim essa aparente, ambigüidade não oferecerá de agora em diante nenhum
inconveniente real. Convirá ver nisso, ao contrário, um dos principais exemplos dessa admirável
condensação de fórmulas que, nas populações avançadas, reuniu, sob uma única expressão usual, vários
atributos distintos, quando a razão pública chegou a reconhecer sua ligação permanente.
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31. Considerada, em primeiro lugar, em sua acepção mais antiga e mais comum, a palavra positivo
designa o real em oposição ao quimérico: neste sentido, convém plenamente ao novo espírito filosófico,
que fica assim caracterizado pela sua constante consagração às indagações verdadeiramente acessíveis à
nossa inteligência, com a exclusão efetiva dos impenetráveis mistérios com que se ocupava sobretudo a
sua infância. Num segundo sentido muito próximo do precedente, mas, entretanto, distinto, este termo
fundamental indica o contraste entre o útil e o ocioso: lembra então, em Filosofia, que o destino
necessário de todas as nossas sãs especulações é o melhoramento contínuo de nossa verdadeira condição
individual e coletiva, e não a vã satisfação de uma curiosidade estéril. Conforme um terceiro significado
usual, esta feliz expressão é empregada freqüentemente para qualificar a oposição entre a certeza e a
indecisão: ela indica, assim, a capacidade característica de semelhante filosofia para constituir
espontaneamente a harmonia lógica no indivíduo e a comunhão espiritual na espécie inteira, em lugar
dessas dúvidas indefinidas e desses debates intermináveis que o antigo regime mental devia suscitar.
Uma quarta acepção ordinária, demasiadas vezes confundida com a precedente, consiste em opor o
preciso ao vago: este sentido lembra a tendência constante do verdadeiro espírito filosófico para obter em
toda a parte o grau de precisão compatível com a natureza dos fenômenos e conforme à exigência de
nossas reais necessidades; ao passo que a antiga maneira de filosofar conduzia necessariamente a
opiniões vagas, por não comportar a indispensável disciplina senão em virtude de contínua compressão,
apoiada na autoridade sobrenatural.
32. Cumpre enfim notar especialmente uma quinta aplicação menos usada do que as outras, embora
igualmente universal, quando se emprega o vocábulo positivo como o contrário de negativo. Sob este
aspecto ele indica uma das mais eminentes propriedades da genuína filosofia moderna, mostrando-a
destinada, sobretudo por sua natureza, não a destruir, mas a organizar. Os quatro caracteres gerais acima
lembrados distinguem-na, ao mesmo tempo, de todos os modos possíveis, quer teológicos, quer
metafísicos, peculiares à filosofia inicial. Esta última significação, que indica, além disso, a tendência
contínua do novo espírito filosófico, oferece hoje especial importância por caracterizar diretamente uma
das suas principais diferenças, não mais do espírito teológico que foi durante muito tempo orgânico, mas
do espírito metafísico propriamente dito, que nunca pôde deixar de ser crítico. Qualquer que haja sido,
com efeito, a ação dissolvente da ciência real, esta influência foi sempre nela puramente indireta e
secundária: sua própria falta de sistematização impedia até aqui que fosse de outro modo, e o grande
ofício orgânico, que agora lhe cabe, se oporia, daqui por diante, a essa atribuição acessória, que ele tende,
aliás, a tornar supérflua. A sã filosofia afasta radicalmente, é verdade, todas as questões necessariamente
insolúveis; mas, motivando-lhes a rejeição, evita negar qualquer coisa a seu respeito, o que seria
contraditório ao desuso sistemático pelo qual devem extinguir-se todas as opiniões que não são
verdadeiramente suscetíveis de discussão. Sendo igualmente indiferente a todas elas, e, por conseguinte,
mais imparcial e tolerante em relação a cada uma do que os seus opostos partidários, a sã filosofia
aplica-se a apreciar-lhes historicamente a influência respectiva, as condições de sua duração e os motivos
de sua decadência, sem jamais pronunciar qualquer negação absoluta, mesmo quando se trata das
doutrinas mais antipáticas ao estado presente da razão humana entre as populações de escol. É assim que
presta escrupulosa justiça, não somente aos diversos sistemas de monoteísmo diferentes do que expira
hoje entre nós, mas também às crenças politéicas, ou mesmo fetíchicas, referindo-as sempre às fases
correspondentes da evolução fundamental. Sob o aspecto dogmático, ela professa além disso que as
concepções de nossa imaginação, quando sua natureza as torna necessariamente inacessíveis a toda
observação, não são mais desde então suscetíveis de negativa ou de afirmação verdadeiramente
decisivas. Ninguém, sem dúvida, jamais demonstrou logicamente a inexistência de Apolo, de Minerva,
etc., nem a das fadas orientais ou das várias criações poéticas; o que de nenhum modo impediu o espírito
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humano de abandonar irrevogavelmente os dogmas antigos, quando deixaram enfim de convir ao
conjunto de sua situação.
33. O único caráter essencial do novo espírito filosófico que ainda não é indicado pela palavra positivo
consiste na sua tendência necessária a substituir por toda a parte o absoluto pelo relativo. Mas este grande
atributo, a um tempo científico e lógico, é por tal forma inerente à natureza fundamental dos
conhecimentos reais, que sua consideração geral não tardará a ligar-se intimamente aos diversos aspectos
que essa fórmula já combina, quando o moderno regime intelectual, até aqui parcial e empírico, passar
comumente ao estado sistemático. A quinta acepção, que acabamos de apreciar, é especialmente própria
para determinar esta última condensação da nova linguagem filosófica, desde então plenamente
constituída, conforme a afinidade evidente das duas propriedades. Concebe-se, com efeito, que a
natureza absoluta das antigas doutrinas, quer teológicas, quer metafísicas, determinasse necessariamente
cada uma delas a tornar-se negativa em relação a todas as outras, sob pena de degenerar em ecletismo
absurdo. É, pelo contrário, em virtude de seu gênio relativo que a nova filosofia pode apreciar sempre o
valor próprio das teorias que lhes são mais opostas, sem todavia fazer nunca qualquer vã concessão,
suscetível de alterar a nitidez de suas vistas ou a firmeza de suas decisões. Há, pois, na verdade, motivo
para presumir-se, de acordo com o conjunto de semelhante apreciação especial, que a fórmula empregada
aqui para qualificar habitualmente esta filosofia definitiva lembrará de ora em diante, a todos os bons
espíritos, a inteira combinação efetiva de suas diversas propriedades características.
II. Correlação espontânea, e depois sistemática, entre o espírito positivo e o bom senso universal
34. Quando se procura a origem fundamental de semelhante maneira de filosofar, não se tarda a
reconhecer que sua espontaneidade elementar coincide realmente com os primeiros exercícios práticos da
razão humana, porque o conjunto das explicações dadas neste Discurso demonstra claramente que todos
os seus atributos principais são, no fundo, os mesmos que os do bom senso universal. Apesar do
ascendente mental da mais grosseira Teologia, a conduta diária da vida ativa suscitou sempre, em relação
a cada ordem de fenômenos, certo esboço das leis naturais e das previsões correspondentes, em alguns
casos particulares, que pareciam então apenas secundários ou excepcionais; ora, tais são, com efeito, os
germes necessários da positividade, que devia por muito tempo permanecer empírica antes de poder
tornar-se racional. Muito importa compreender que, sob todos os aspectos essenciais, o verdadeiro
espírito filosófico consiste sobretudo na extensão sistemática do simples bom senso a todas as
especulações verdadeiramente acessíveis. Seu domínio é radicalmente idêntico, pois as maiores questões
da sã filosofia se referem por toda a parte aos fenômenos mais vulgares, em relação aos quais os casos
artificiais constituem apenas uma preparação mais ou menos indispensável. São, de um e outro lado, o
mesmo ponto de partida experimental, o mesmo objetivo de ligar e prever, a mesma preocupação
contínua de realidade, a mesma intenção final de utilidade. Toda sua diferença essencial consiste na
generalidade sistemática de um, resultante de sua abstração necessária, oposta à incoerente especialidade
do outro, sempre ocupado com o concreto.
35. Encarada sob o aspecto dogmático, esta conexidade fundamental representa a ciência propriamente
dita como um simples prolongamento metódico da sabedoria universal. Assim, muito longe de jamais pôr
em dúvida o que esta verdadeiramente decidiu, as sãs especulações filosóficas devem sempre tomar de
empréstimo à razão comum suas noções iniciais para fazê-las adquirir, por uma elaboração sistemática,
um grau de generalidade e de consistência que não podiam espontaneamente obter. Durante o curso de
uma tal elaboração o controle permanente da sabedoria vulgar conserva, além disso, alta importância a
fim de evitar, tanto quanto possível, as diversas aberrações, por negligência ou por ilusão, que muitas
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vezes suscita o estado contínuo de abstração indispensável à atividade filosófica. Apesar da sua afinidade
necessária, o bom senso propriamente dito deve preocupar-se sobretudo com a realidade e a utilidade, ao
passo que o espírito filosófico tende a apreciar mais a generalidade e a ligação, de modo que sua dupla
reação diária se torna por igual favorável a ambos, consolidando em cada um as qualidades fundamentais
que nele se alterariam naturalmente. Semelhante relação indica logo como são necessariamente ocas e
estéreis as indagações especulativas, dirigidas, em qualquer assunto, para os primeiros princípios, que,
devendo sempre emanar da sabedoria vulgar, não pertencem nunca ao verdadeiro domínio da ciência, da
qual constituem, ao revés, os fundamentos espontâneos e desde então indiscutíveis, o que corta pela raiz
uma imensidade de controvérsias ociosas ou perigosas, deixadas pelo antigo regime. Pode-se igualmente
sentir assim a profunda inanidade final de todos os estudos preliminares relativos à lógica abstrata, onde
se trata de apreciar o verdadeiro método filosófico, sem nenhuma aplicação a qualquer ordem de
fenômenos. E, de fato, os únicos princípios realmente gerais que, a este respeito, possamos estabelecer,
se reduzem necessariamente, como é fácil verificar nos mais célebres desses aforismos, a algumas
máximas incontestáveis, mas evidentes, tiradas da razão comum e que verdadeiramente nada de essencial
acrescentam às indicações que resultam, em todos os bons espíritos, de simples exercício espontâneo.
Quanto à maneira de adaptar essas regras universais às diversas ordens de nossas especulações positivas,
o que constituiria a verdadeira dificuldade e a utilidade real de tais preceitos lógicos, ela não poderia
comportar sólida apreciação senão após uma análise especial dos estudos correspondentes, de
conformidade com a natureza própria dos fenômenos considerados. A sã filosofia não separa, portanto,
nunca a Lógica da ciência, pois o método e a doutrina não podem ser bem julgados, em cada caso, senão
de acordo com as suas verdadeiras relações mútuas: não é mais possível, no fundo, dar à Lógica, assim
como à ciência, um caráter universal através de concepções puramente abstratas, independentes de todos
os fenômenos determinados; as tentativas deste gênero indicam ainda a secreta influência dó espírito
absoluto inerente ao regime teológico-metafísico.
36. Considerada agora sob o aspecto histórico, esta íntima solidariedade natural entre o gênio próprio da
verdadeira filosofia e o simples bom senso universal mostra a origem espontânea do espírito positivo,
que por toda a parte resultou, com efeito, de uma reação especial da razão prática sobre a razão teórica,
cujo caráter inicial foi sendo assim aos poucos modificado. Mas não era possível se operasse essa
transformação gradual simultaneamente, sobretudo com igual velocidade, nas diversas classes de
especulações abstratas, todas primitivamente teológicas, como já o reconhecemos. Este constante
impulso concreto não podia fazer o espírito positivo penetrar nelas a não ser segundo uma ordem
determinada de acordo com a complicação crescente dos fenômenos, como será diretamente explicado
mais adiante A positividade abstrata, necessariamente surgida nos mais simples estudos matemáticos, e
propagada em seguida por via de afinidade espontânea ou de imitação instintiva, não podia, pois,
oferecer a principio senão um caráter especial, e, mesmo, a muitos respeitos, empírico, que devia por
muito tempo dissimular, à maior parte dos seus promotores, quer sua incompatibilidade inevitável com a
filosofia inicial, quer, sobretudo, sua tendência radical para fundar novo regime lógico. Seus progressos
contínuos, sob o impulso crescente da razão vulgar, não podiam então determinar diretamente senão o
triunfo preliminar do espírito metafísico, destinado, por sua generalidade espontânea, a servir-lhe de
órgão filosófico durante os séculos decorridos entre a preparação mental do monoteísmo e sua plena
instalação social, após a qual, tendo o regime ontológico obtido todo o ascendente que sua natureza
comportava, logo se tornou opressivo ao progresso científico, que ele havia até então secundado.
Também o espírito positivo só pôde suficientemente manifestar sua própria tendência filosófica quando
foi enfim conduzido, por essa opressão, a lutar especialmente contra o espírito metafísico, com o qual
deverá parecer confundido durante muito tempo. Por esta razão a primeira fundação sistemática da
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filosofia positiva não poderia remontar à época anterior à memorável crise na qual o conjunto do regime
ontológico começou a sucumbir em todo o ocidente europeu, sob o concurso espontâneo de dois
admiráveis impulsos mentais, um, científico, emanado de Kepler e Galileu, e outro, filosófico, devido a
Bacon e Descartes. A imperfeita unidade metafísica constituída no fim da Idade Média foi desde então
irrevogavelmente dissolvida, como a ontologia grega já destruíra para sempre a grande unidade
teológica, correspondente ao politeísmo. Depois desta crise verdadeiramente decisiva, o espírito positivo,
crescendo mais em dois séculos, do que lhe fora possível durante toda a sua longa carreira anterior, não
permitiu mais outra unidade mental a não ser a que resultava do seu próprio ascendente universal, pois
cada novo domínio sucessivamente por ele adquirido jamais podia retornar à Teologia ou à Metafísica,
em virtude da consagracão definitiva que essas aquisições crescentes achavam mais e mais na razão
vulgar. E só por tal sistematização que a sabedoria teórica concederá verdadeiramente à sabedoria prática
digno equivalente, em generalidade e em consistência, do serviço fundamental que dela recebeu, em
realidade e em eficácia, durante sua lenta iniciação gradual; porque as noções positivas obtidas nos dois
últimos séculos são, a falar verdade, muito mais preciosas como materiais ulteriores de uma nova
filosofia geral do que por seu valor direto e especial, pois a maior parte delas ainda não pôde adquirir seu
caráter definitivo, nem científico, nem mesmo lógico.
37. O conjunto da nossa evolução mental, e sobretudo o grande movimento realizado no ocidente
europeu, desde Descartes, e Bacon, não deixam, pois, de ora avante, outra saída possível senão a de
constituir enfim, após tantos preâmbulos necessários, o estado verdadeiramente normal da razão humana,
proporcionando ao espírito positivo a plenitude e a racionalidade que ainda lhe faltam, de maneira a
estabelecer, entre o gênio filosófico e o bom senso universal, uma harmonia que até aqui não havia
podido suficientemente existir. Ora, estudando estas duas condições simultâneas, de complemento e de
sistematização, que a ciência real deve hoje preencher para elevar-se à dignidade de verdadeira filosofia,
não se tarda em reconhecer que finalmente coincidem. De um lado, com efeito, a grande crise inicial da
positividade moderna só deixou fora do movimento científico propriamente dito as teorias morais e
sociais, que ficaram desde então em irracional insulamento, sob o estéril domínio do espírito
teológico-metafísico; era, pois, em trazê-las ao estado positivo que devia consistir, sobretudo em nossos
dias, a última prova do verdadeiro espírito filosófico, cuja extensão sucessiva a todos os outros
fenômenos fundamentais já se achava bastante esboçada. Mas, por outro lado, esta última expansão da
filosofia natural tendia espontaneamente a logo sistematizá-la, constituindo o único ponto de vista, quer
científico, quer lógico, que possa dominar o conjunto de nossas especulações reais, sempre
necessariamente redutíveis ao aspecto humano, isto é, social, único suscetível de ativa universalidade.
Tal é o duplo objetivo filosófico da elaboração fundamental, ao mesmo tempo especial e geral, que ousei
empreender na grande obra indicada no começo deste Discurso: os mais eminentes pensadores
contemporâneos julgam-na assim assaz realizada para já ter assentado as verdadeiras bases diretas da
completa renovação mental projetada por Bacon e Descartes, mas cuja execução decisiva estava
reservada ao nosso século.
II PARTE
SUPERIORIDADE SOCIAL DO ESPÍRITO POSITIVO
CAPÍTULO I
ORGANIZAÇÃO DA REVOLUÇÃO
38. Para que esta sistematização final das concepções, humanas seja hoje suficientemente caracterizada,
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não basta apreciar seu destino teórico, como acabamos de fazer; é preciso também considerar aqui, de um
modo distinto, embora sumário, sua aptidão necessária para constituir a única saída intelectual que possa
comportar a imensa crise social desenvolvida, há um século, no conjunto do ocidente europeu, e
especialmente em França.
I. Impotência das escolas atuais
39. Enquanto se realizava gradualmente, durante os últimos séculos, a irrevogável dissolução da filosofia
teológica, o sistema político, que a tinha por base mental, sofria cada vez mais uma decomposição não
menos radical, igualmente presidida pelo espírito metafísico. Este duplo movimento negativo tinha como
órgãos essenciais e solidários, de um lado, as universidades a princípio emanadas, mas logo rivais, do
poder sacerdotal; de outro lado as diversas corporações de legistas, gradualmente hostis aos poderes
feudais: apenas, à medida que a ação crítica se disseminava, seus agentes, sem mudar de natureza,
tornavam-se mais numerosos e mais subalternos; de sorte que, no século XVIII, a atividade
revolucionária teve de passar, na ordem filosófica, dos doutores propriamente ditos aos simples literatos,
e, em seguida, na ordem política, dos juizes aos advogados. A Grande Crise final necessariamente
começou quando esta comum decadência, primeiro espontânea, depois sistemática, para a qual, aliás,
todas as classes da sociedade moderna haviam concorrido de modo direto, chegou a ponto de tornar
universalmente irrecusável a impossibilidade de conservar o regime antigo e a necessidade crescente de
uma ordem nova. Desde sua origem, esta crise tendeu sempre a transformar em vasto movimento
orgânico o movimento crítico dos cinco séculos anteriores, apresentando-se como destinado sobretudo a
operar diretamente a regeneração social, cujos preâmbulos negativos se achavam todos então
suficientemente realizados. Mas esta decisiva transformação, embora cada vez mais urgente, permaneceu
até aqui essencialmente impossível por falta de uma filosofia capaz de fornecer-lhe indispensável base
intelectual. Na própria época em que o conveniente remate da decomposição preliminar exigia o desuso
das doutrinas puramente negativas que a tinham dirigido, fatal ilusão, então inevitável, conduziu, pelo
contrário, a conceder de modo espontâneo ao espírito metafísico, único ativo durante esse longo
preâmbulo, a presidência geral do movimento de reorganização. Quando uma experiência plenamente
decisiva (3) evidenciou para sempre, aos olhos de todos, a completa impotência orgânica de semelhante
filosofia, a ausência de qualquer outra teoria não permitiu satisfazer logo às necessidades de ordem, que
já prevaleciam, senão por uma espécie de restauração passageira (4) deste mesmo sistema, mental e
social, cuja irreparável decadência havia ocasionado a crise. Enfim o desenvolvimento dessa reação
retrógrada determinou, em seguida, memorável manifestação que nossas lacunas filosóficas tornavam tão
indispensável quanto inevitável, a fim de demonstrar irrevogavelmente constituir o progresso, tanto como
a ordem, uma das condições fundamentais da civilização moderna.
40. O concurso natural destas duas experiências irrecusáveis, cujo renovamento se tornou agora tão
impossível como inútil, nos conduziu hoje a esta estranha situação em que nada de verdadeiramente
grande pode ser empreendido, em benefício da ordem ou do progresso, por falta de uma filosofia
realmente adaptada ao conjunto de nossas necessidades. Todo esforço sério de reorganização logo se
detém diante dos temores de retrogradação que deve naturalmente inspirar, numa época em que as idéias
de ordem ainda emanam, em essência, do tipo antigo, que se tornou justamente antipático às populações
atuais: da mesma forma as tentativas de aceleração direta da progressão política não tardam a ser
radicalmente entravadas pelas inquietações mui legítimas que devem suscitar sobre a iminência da
anarquia, enquanto as idéias de progresso permanecem sobretudo negativas. Como antes da crise, a luta
aparente acha-se, pois, empenhada entre o espírito teológico, reconhecido incompatível com o progresso,
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que ele foi conduzido a negar dogmaticamente, e o espírito metafísico, o qual, depois de terminar, em
Filosofia, na dúvida universal, não pôde tender, em política, senão a constituir a desordem, ou um estado
equivalente de não-governo. Mas, de acordo com o sentimento unânime de sua comum insuficiência,
nem um, nem outro pode inspirar mais, de ora avante, aos governantes ou governados, profundas
convicções ativas. Seu antagonismo continua, pois, a alimentá-los mutuamente, sem que nenhum deles
possa comportar mais verdadeiro desuso, nem decisivo triunfo, porque nossa situação intelectual os torna
ainda indispensáveis para representar de algum modo as condições simultâneas, de um lado, da ordem, e,
de outro, do progresso, até que uma única filosofia as possa satisfazer igualmente, de modo a tornar
enfim tão inútil a escola retrógrada como a negativa, cada uma das quais é sobretudo destinada hoje a
impedir a completa preponderância da outra. Todavia, as inquietudes opostas, relativas a estes dois
domínios contrários, deverão naturalmente persistir ao mesmo tempo, enquanto durar este interregno
mental, como conseqüência inevitável da irracional cisão entre as duas faces inseparáveis do grande
problema social. Com efeito, cada uma das duas escolas, em virtude de sua exclusiva preocupação, não é
nem mesmo capaz de conter suficientemente, de ora em diante, as aberrações inversas de sua antagonista.
Apesar de sua tendência antianárquica, a escola teológica mostrou-se, em nossos dias, radicalmente
impotente para impedir o surto das opiniões subversivas, que, depois de se terem desenvolvido
especialmente durante sua principal restauração, amiúde são por ela propagadas, em conseqüência de
frívolos cálculos dinásticos. Assim também, qualquer que seja o instinto anti-retrógrado da escola
metafísica, ela não tem hoje mais toda a força lógica que o seu simples ofício revolucionário exigiria,
porque sua inconseqüência característica a obriga a admitir os princípios essenciais deste sistema, cujas
verdadeiras condições de existência ela incessantemente ataca.
41. Este deplorável oscilar entre duas filosofias opostas, que se tornaram igualmente vãs e não podem
extinguir-se senão ao mesmo tempo, devia suscitar uma espécie de escola intermediária, essencialmente
estacionária, destinada sobretudo a lembrar de modo direto o conjunto da questão social, proclamando
enfim como igualmente necessárias as condições fundamentais que insulavam as duas opiniões ativas.
Mas por falta de uma filosofia própria para realizar esta grande combinação do espírito de ordem com o
de progresso, este terceiro impulso permanece logicamente ainda mais impotente do que os dois outros,
porque sistematiza a inconseqüência, consagrando simultaneamente os princípios retrógrados e as
máximas negativas, a fim de poder mutuamente neutralizá-los. Longe de tender a terminar a crise, tal
disposição só poderia conseguir eternizá-la, opondo-se diretamente a toda verdadeira preponderância de
um sistema qualquer, se não fosse limitada a simples destino passageiro, para empiricamente satisfazer às
mais graves exigências de nossa situação revolucionária, até o advento decisivo das únicas doutrinas que
possam de ora avante convir ao conjunto de nossas necessidades. Mas assim concebido, este expediente
provisório se torna hoje tão indispensável como inevitável. Seu rápido ascendente prático, implicitamente
reconhecido pelos dois partidos ativos, torna patente cada vez mais, nas populações atuais, o
amortecimento simultâneo das convicções e das paixões anteriores, tanto retrógradas como críticas,
gradualmente substituídas por um sentimento universal, verdadeiro, embora confuso, da necessidade e
mesmo da possibilidade da conciliação contínua entre o espírito de conservação e o de melhoramento
igualmente peculiares ao estado normal da Humanidade. A tendência correspondente dos homens de
Estado a impedir hoje, tanto quanto possível, todo grande movimento político, acha-se além disso
conforme às exigências fundamentais de uma situação que, na realidade, só comportará instituições
provisórias, enquanto uma verdadeira filosofia geral não tiver suficientemente congregado as
inteligências. Sem que os poderes atuais o percebam, esta resistência instintiva concorre para facilitar a
verdadeira solução, incitando a transformar estéril agitação política em ativa progressão filosófica, de
modo a seguir enfim a marcha prescrita pela natureza própria da reorganização final, que se deve operar
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primeiro nas idéias, para passar em seguida aos costumes e, por fim, às instituições. Tal transformação,
que já tende a prevalecer em França, deve naturalmente desenvolver-se cada vez mais por toda a parte,
visto a necessidade crescente em que se acham agora colocados nossos governos ocidentais de manter, a
grande custo, a ordem material no meio da desordem intelectual e moral, necessidade que deve a pouco e
pouco essencialmente absorver-lhes esforços diários, e conduzi-los a renunciar implicitamente a toda
séria presidência da reorganização espiritual, entregue assim, de ora avante, à livre atividade dos
filósofos que se mostrarem dignos de dirigi-la. Esta disposição natural dos poderes atuais está em
harmonia com a tendência espontânea das populações a uma aparente indiferença política, motivada pela
impotência radical das diversas doutrinas em voga, disposição que deve sempre persistir, enquanto os
debates políticos, por falta de impulso conveniente, continuarem a degenerar em vãs lutas pessoais, cada
vez mais miseráveis. Tal é a feliz eficácia prática que o conjunto da nossa situação revolucionária
proporciona de modo momentâneo a uma escola essencialmente empírica, que, sob o aspecto teórico, não
pode jamais produzir senão um sistema radicalmente contraditório, não menos absurdo e não menos
perigoso, em política, do que o é, em Filosofia, o ecletismo correspondente, inspirado também pela vã
intenção de conciliar, sem princípios próprios, opiniões incompatíveis.
II. Conciliação positiva da ordem e do progresso
42. De acordo com este sentimento, cada vez mais desenvolvido, da igual insuficiência social, que de ora
em diante oferecem o espírito teológico e o metafísico, únicos que até aqui ativamente disputaram o
império, deve a razão pública achar-se implicitamente disposta a acolher hoje o espírito positivo como a
única base possível de verdadeira resolução da profunda anarquia intelectual e moral que sobretudo
caracteriza a grande crise moderna. A escola positiva, que ficara ainda estranha a tais questões,
preparou-se gradualmente para resolvê-las, constituindo, tanto quanto possível, durante a luta
revolucionária dos três últimos séculos, o verdadeiro estado normal de todas as categorias mais simples
de nossas especulações reais. Fortalecida por tais antecedentes científicos e lógicos, isenta, além disso,
das diversas aberrações contemporâneas, apresenta-se hoje como tendo enfim adquirido a inteira
generalidade filosófica que até aqui lhe faltava; desde então ousa empreender, por sua vez, a solução,
ainda intacta, do grande problema, transportando convenientemente para os estudos finais a mesma
regeneração que sucessivamente já operou nos diversos estudos preliminares.
43. Não se pode, à. primeira vista, desconhecer a aptidão espontânea de semelhante filosofia para
estabelecer, de modo direto, a conciliação fundamental, ainda tão vãmente procurada, entre as exigências
simultâneas da ordem e do progresso, pois lhe basta, para tal, estender até os fenômenos sociais uma
tendência plenamente conforme à sua natureza, e que ela tornou hoje muito familiar em todos os outros
casos essenciais. Em qualquer assunto o espírito positivo conduz sempre a estabelecer uma exata
harmonia elementar entre as idéias de existência e as de movimento, donde resulta mais especialmente,
para com os corpos vivos, a correlação permanente das idéias de organização e de vida, e, em seguida,
por uma última especialização peculiar ao organismo social, a solidariedade contínua das idéias de ordem
com as de progresso. Para a nova filosofia, a ordem constitui sempre a condição fundamental do
progresso; e, reciprocamente, o progresso é o objetivo necessário da ordem: como na mecânica animal,
são mutuamente indispensáveis o equilíbrio e a progressão, um como fundamento e a outra como
destino.
44. Considerado, em seguida, especialmente quanto à ordem, o espírito positivo apresenta-lhe hoje, em
sua extensão social, fortes garantias diretas, não só científicas mas também lógicas, que poderão logo ser
julgadas muito superiores às vãs pretensões de uma teologia retrógrada, que, desde vários séculos,
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degenerou cada vez mais em elemento ativo de discórdias, individuais ou nacionais, e tornou-se incapaz
de conter daqui por diante as divagações subversivas dos seus próprios adeptos. Atacando a desordem
atual na sua verdadeira fonte, necessariamente mental, o espírito positivo constitui, tão profundamente
quanto possível, a harmonia lógica, regenerando primeiro os métodos, depois as doutrinas, por uma
tríplice conversão simultânea da natureza das questões dominantes, da maneira de tratá-las e das
condições preliminares da sua elaboração. De um lado, com efeito, ele demonstra que as principais
dificuldades sociais não são hoje essencialmente políticas, mas sobretudo morais, de sorte que sua
solução possível depende realmente muito mais das opiniões e dos costumes do que das instituições; o
que tende a extinguir uma atividade perturbadora, transformando a agitação política em movimento
filosófico. Sob o segundo aspecto ele encara sempre o estado presente como um resultado necessário do
conjunto da evolução anterior, de modo a fazer constantemente prevalecer a apreciação racional do
passado no exame atual dos negócios humanos; o que afasta logo as tendências puramente críticas,
incompatíveis com toda sã concepção histórica. Enfim, em lugar de deixar a ciência social no vago e
estéril insulamento em que ainda a colocam a Teologia e a Metafísica, ele a liga irrevogavelmente a todas
as outras ciências fundamentais, que constituem gradualmente, em relação a este estudo final, outros
tantos preâmbulos indispensáveis, onde a nossa inteligência adquire ao mesmo tempo os hábitos e as
noções sem as quais não podem ser utilmente tratadas as mais eminentes especulações positivas. Esta
circunstância já institui uma verdadeira disciplina mental, própria a melhorar de modo radical tais
discussões, desde então racionalmente interditas a grande número de entendimentos mal organizados ou
mal preparados. Estas grandes garantias lógicas são, aliás, em seguida plenamente confirmadas e
desenvolvidas pela apreciação científica propriamente dita, que, em relação aos fenômenos sociais assim
como a todos os outros, representa sempre nossa ordem artificial como devendo consistir sobretudo no
simples prolongamento judicioso, primeiro espontâneo, depois sistemático, da ordem natural que resulta,
em cada caso, do conjunto das leis reais, cuja ação efetiva é ordinariamente modificável por nossa
criteriosa intervenção, entre limites determinados, tanto mais distantes entre si quanto de ordem mais
elevada são os fenômenos. O sentimento elementar da ordem é, em uma palavra, naturalmente
inseparável de todas as especulações positivas, constantemente dirigidas para o descobrimento dos meios
de ligação entre observações cujo principal valor resulta da sua sistematização.
45. O mesmo se dá, e ainda mais evidentemente, quanto ao progresso, que, apesar das vás pretensões
ontológicas, acha hoje, no conjunto dos estudos científicos, sua mais incontestável manifestação. Em
virtude de sua natureza absoluta e por conseguinte essencialmente imóvel, a Metafísica e a Teologia não
poderiam comportar, com pouca diferença uma da outra, um verdadeiro progresso, isto é, uma verdadeira
progressão contínua para determinado fim. Suas transformações históricas consistem sobretudo, ao revés,
num desuso crescente, assim mental como social, sem que as questões agitadas hajam podido jamais dar
qualquer passo real, em virtude mesmo de sua radical insolubilidade. É fácil reconhecer que as
discussões ontológicas das escolas gregas se reproduziram essencialmente, sob outras formas, entre os
escolásticos da Idade Média, e encontramos hoje o equivalente delas entre os nossos psicólogos ou
ideólogos, pois nenhuma das doutrinas controvertidas pôde, durante estes vinte séculos de estéreis
debates, chegar a demonstrações decisivas, nem mesmo no que concerne à existência dos corpos
exteriores, ainda tão problemática para os argumentadores modernos como para os seus mais antigos
predecessores. Foi evidentemente o avanço contínuo dos conhecimentos positivos que inspirou, há dois
séculos, na célebre fórmula filosófica de Pascal, a primeira noção racional de progresso humano,
necessariamente estranha a toda a filosofia antiga. Estendida em seguida à evolução industrial e mesmo
estética, mas tendo ficado muito confusa em relação ao movimento social, ela tende hoje de modo vago
para uma sistematização decisiva, que só pode emanar do espírito positivo, enfim convenientemente
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generalizado. Em suas especulações diárias ele reproduz espontaneamente seu ativo sentimento
elementar, representando sempre a extensão e o aperfeiçoamento de nossos conhecimentos reais como o
objetivo essencial de nossos diversos esforços teóricos. Sob um aspecto mais sistemático, a nova filosofia
aponta, diretamente, como destino necessário a toda nossa existência, a um tempo pessoal e social, o
melhoramento contínuo, não somente de nossa condição, mas também e sobretudo de nossa natureza,
tanto quanto o comporta, a todos os respeitos, o conjunto das leis reais exteriores e interiores. Erigindo,
assim, a noção de progresso em dogma verdadeiramente fundamental da sabedoria humana, quer prática,
quer teórica, ela lhe imprime o mais nobre e também o mais completo caráter, representando sempre o
segundo gênero de aperfeiçoamento como superior ao primeiro. Dependendo, com efeito, de um lado, a
ação da Humanidade sobre o mundo exterior especialmente das disposições do agente, a sua melhoria
deve constituir nosso principal recurso: sendo, por outro lado, os fenômenos humanos, individuais ou
coletivos, os mais modificáveis de todos, é em relação a eles que nossa intervenção racional comporta
naturalmente a mais alta eficácia. O dogma do progresso não pode, pois, tornar-se suficientemente
filosófico senão mediante uma exata apreciação geral do que constitui sobretudo esse melhoramento
contínuo de nossa própria natureza, principal objeto da progressão humana. Ora, a este respeito, o
conjunto da filosofia positiva demonstra plenamente, como se pode ver na obra indicada no começo deste
Discurso que tal aperfeiçoamento consiste essencialmente, assim para o indivíduo como para a espécie,
em fazer prevalecer cada vez mais os eminentes atributos que mais distinguem nossa humanidade da
simples animalidade, isto é, de uma parte a inteligência, de outra parte a sociabilidade, faculdades
naturalmente solidárias, que se servem mutuamente de meio e de fim. Embora o curso espontâneo da
evolução humana, pessoal ou social, desenvolva sempre sua comum influência, seu ascendente
combinado não poderia, entretanto, chegar ao ponto de impedir proceda habitualmente nossa principal
atividade dos instintos inferiores, que nossa constituição real torna, por força, muito mais enérgicos.
Assim esta ideal preponderância de nossa humanidade sobre nossa animalidade preenche naturalmente as
condições essenciais de um verdadeiro tipo filosófico, caracterizando determinado limite, do qual todos
os nossos esforços devem aproximar-nos constantemente sem, todavia, conseguirem jamais atingi-lo.
46. Esta dupla indicação da aptidão fundamental do espírito positivo para sistematizar espontaneamente
as sãs noções simultâneas de ordem e de progresso basta aqui para assinalar sumariamente a alta eficácia
social peculiar à nova filosofia. Seu valor, a este respeito, depende sobretudo de sua plena realidade
científica, isto é, da exata harmonia que estabelece sempre, tanto quanto possível, entre os princípios e os
fatos, não só em relação aos fenômenos sociais, como também a todos os outros. A reorganização
completa, única que pode terminar a grande crise moderna, consiste, com efeito, sob o aspecto mental,
que deve prevalecer em primeiro lugar, em constituir uma teoria sociológica própria para
convenientemente explicar o conjunto do passado humano: tal é o modo mais racional de pôr a questão
essencial, a fim de afastar dela mais facilmente qualquer paixão perturbadora. Ora, é assim que a
superioridade necessária da escola positiva sobre as diversas escolas atuais pode também ser mais
nitidamente apreciada. Sendo o espírito teológico e o metafísico levados, por sua natureza absoluta, a não
considerar senão o período do passado em que cada um deles dominou especialmente: o que precede e o
que se segue não oferece mais do que tenebrosa confusão e inexplicável desordem, cuja ligação com essa
estreita porção do grande espetáculo histórico não pode, aos seus olhos, resultar senão de milagrosa
interferência. Por exemplo, o catolicismo sempre mostrou, a respeito do politeísmo antigo, uma
tendência cegamente crítica, como a que ele hoje justamente increpa, em relação a si mesmo, ao espírito
revolucionário propriamente dito. Uma verdadeira explicação do conjunto do passado, de conformidade
com as leis constantes de nossa natureza, individual ou coletiva, é, pois, necessariamente impossível às
diversas escolas absolutas que ainda dominam, e, na realidade, nenhuma delas tentou dá-la de modo
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satisfatório. Só o espírito positivo, em virtude de sua natureza eminentemente relativa, pode representar
de modo conveniente todas as grandes épocas históricas como outras tantas fases determinadas de uma
única evolução fundamental, onde cada uma resulta da precedente e prepara a seguinte segundo leis
invariáveis, que fixam sua participação especial na progressão comum, de modo a permitir sempre, sem
inconseqüência nem parcialidade, render exata justiça filosófica a quaisquer cooperações. Embora este
incontestável privilégio da positividade racional deva, a princípio, parecer puramente especulativo, os
verdadeiros pensadores nele reconhecerão logo a primeira fonte necessária do ativo ascendente social
reservado enfim à, nova filosofia. Podemos, na verdade, assegurar hoje que a doutrina que houver
suficientemente explicado o conjunto do passado obterá de modo inevitável, em virtude desta única
prova, a presidência mental do futuro.
CAPÍTULO II
SISTEMATIZAÇÃO DA MORAL HUMANA
47. Semelhante indicação das altas propriedades sociais que caracterizam o espírito positivo não seria
ainda assaz decisiva se lhe não ajuntássemos uma apreciação sumária de sua aptidão espontânea para
sistematizar enfim a moral humana, o que constituirá sempre a principal aplicação de toda verdadeira
teoria da Humanidade.
I. Evolução da moral positiva
48. No organismo político da antigüidade, a Moral, radicalmente subordinada à Política, não podia
jamais adquirir a dignidade nem a universalidade conveniente à sua natureza. Sua independência
fundamental e mesmo o seu ascendente normal resultaram enfim, tanto quanto era então possível, do
regime monotéico peculiar à Idade Média: este imenso serviço, devido sobretudo ao catolicismo,
constituirá sempre o seu principal título ao eterno reconhecimento do gênero humano. Foi somente
depois dessa indispensável separação, sancionada e completada pela divisão necessária dos dois poderes,
que a moral humana pôde realmente começar a tomar um caráter sistemático, estabelecendo, ao abrigo
dos impulsos passageiros, regras verdadeiramente gerais para o conjunto de nossa existência pessoal,
doméstica e social. Mas as profundas imperfeições da filosofia monoteica, que presidia então a essa
grande operação, alteraram muito a sua eficácia e comprometeram mesmo gravemente a sua estabilidade,
suscitando logo fatal conflito entre a expansão intelectual e o desenvolvimento moral. Assim ligada a
uma doutrina que não podia manter-se progressiva por muito tempo, a Moral devia em seguida ser cada
vez mais afetada pelo descrédito crescente que ia necessariamente sofrer uma teologia que, sendo daí por
diante retrógrada, se tornaria enfim radicalmente antipática à razão moderna. Exposta desde então à ação
dissolvente da Metafísica, a moral teórica recebeu, com efeito, durante os últimos cinco séculos, em cada
uma das suas três partes essenciais, ataques crescentemente perigosos, que a retidão e a moralidade
naturais do homem não puderam, pela prática, reparar sempre suficientemente, apesar do feliz
desenvolvimento contínuo que lhes devia proporcionar então a marcha espontânea da nossa civilização.
Se o ascendente necessário do espírito positivo não viesse enfim pôr termo a essas anárquicas
divagações, elas certamente imprimiriam uma flutuação mortal a todas as noções um pouco delicadas da
moral comum não somente social, mas também doméstica e até mesmo pessoal, não deixando subsistir
por toda parte senão as regras relativas aos casos mais grosseiros que a apreciação vulgar pudesse
diretamente garantir.
49. Em semelhante situação, deve parecer estranho que a única filosofia capaz efetivamente de
consolidar hoje a Moral se veja, ao revés, tachada, a este respeito, de incompetência radical, pelas
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diversas escolas atuais desde os genuínos católicos até os simples deístas, que, no meio de seus vãos
debates, se põem de acordo especialmente para lhe interdizer essencialmente o acesso destas questões
fundamentais, pelo único motivo de que o seu gênio, demasiado parcial, se limitara até aqui aos assuntos
mais simples. O espírito metafísico que tendeu tantas vezes a dissolver a Moral, e o espírito teológico,
que, há muito, perdeu a força de preservá-la, persistem contudo em fazer dela uma espécie de apanágio
eterno e exclusivo, sem que a razão pública tenha ainda julgado convenientemente essas pretensões
empíricas. Cumpre, é verdade, reconhecer que, em geral, a introdução de qualquer regra moral devia
operar-se por toda a parte primeiramente sob as inspirações teológicas, então incorporadas
profundamente ao sistema inteiro de nossas idéias, inspirações que eram também as únicas suscetíveis de
constituir opiniões suficientemente comuns. Mas o conjunto do passado demonstra igualmente que esta
solidariedade primitiva decresceu sempre com o ascendente da Teologia; os preceitos morais, assim
como todos os outros, foram cada vez mais reduzidos a uma consagração puramente racional, à medida
que o vulgo se tornou mais capaz de apreciar a influência real de cada conduta sobre a existência
humana, individual ou social. Separando de modo irrevogável a Moral da Política o catolicismo devia
desenvolver em alto grau essa tendência continua, pois a intervenção sobrenatural se achou assim
diretamente reduzida a formar regras gerais, cuja aplicação particular ficava desde então confiada à
sabedoria humana. Dirigindo-se a populações mais adiantadas, ele entregou à razão pública uma série de
preceitos especiais que os sábios antigos acreditavam não poder dispensar nunca as injunções religiosas,
como o pensam ainda os doutores politeístas da Índia, por exemplo, quanto à maior parte das práticas
higiênicas. Podem-se também observar, decorridos mais de três séculos depois de São Paulo, as sinistras
predições de vários filósofos ou magistrados pagãos sobre a iminente imoralidade que a próxima
revolução teológica ia necessariamente acarretar. Tampouco as declamações atuais das diversas escolas
monoteicas impedirão o espírito positivo de completar hoje, sob condições convenientes, a conquista
prática e teórica do domínio moral, já entregue espontaneamente, e, cada vez mais, à razão humana, cujas
inspirações particulares só nos resta enfim sistematizar especialmente. A Humanidade não poderia, sem
dúvida, ficar indefinidamente condenada a não poder fundar suas regras de proceder senão sobre motivos
quiméricos, de maneira a eternizar uma desastrosa oposição, até aqui passageira, entre as necessidades
intelectuais e as morais.
II. Necessidade de tornar a Moral independente da Teologia e da Metafísica
50. A experiência demonstra que a assistência teológica, bem longe de ser eternamente indispensável aos
preceitos morais, lhes tem sido, ao revés, entre os modernos, cada vez mais prejudicial, fazendo-os
participar inevitavelmente, em virtude dessa funesta aderência, da decomposição crescente do regime
monotéico, sobretudo durante os três últimos séculos. Antes de mais nada, essa fatal solidariedade, à
medida que se extinguia a fé, devia diretamente enfraquecer a única base sobre a qual repousavam regras
que, amiúde expostas a graves conflitos com os nossos mais enérgicos impulsos, precisam ser
cuidadosamente preservadas de toda hesitação. A antipatia crescente que o espírito teológico justamente
inspirava à razão moderna, afetou de modo grave importantíssimas noções morais, não só relativas às
grandes relações sociais, mas ainda atinentes à simples vida doméstica e mesmo à existência pessoal.
Além disto um cego ardor de emancipação mental arrastou, de modo excessivo, a erigir algumas vezes o
desdém passageiro por essas máximas salutares em uma espécie de louco protesto contra a filosofia
retrógrada, de onde pareciam exclusivamente emanar. Até entre aqueles que conservavam a fé
dogmática, essa funesta influência se fazia sentir indiretamente, porque a autoridade sacerdotal, depois de
haver perdido sua independência política, via também decrescer cada vez mais o ascendente social
indispensável à sua eficácia moral. Além desta impotência crescente para proteger as regras morais, o
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espírito teológico muitas vezes as prejudicou, de modo ativo, pelas divagações que suscitou, desde que
não foi mais suscetível de suficiente disciplina, sob o inevitável surto do livre exame individual.
Exercido assim, ele, na realidade, inspirou ou secundou muitas aberrações anti-sociais, que o bom senso,
entregue a si mesmo, teria espontaneamente evitado ou rejeitado. As utopias subversivas que vemos
ganhar crédito hoje, quer contra a propriedade, quer mesmo acerca da família, etc., não emanaram quase
nunca das inteligências plenamente emancipadas, nem foram por elas acolhidas, apesar das suas lacunas
fundamentais, mas antes, por certo, o foram pelas que buscam ativamente uma espécie de restauração
teológica, fundada sobre vago e estéril deísmo ou sobre um protestantismo equivalente. Enfim, essa
antiga aderência à Teologia tornou-se também necessariamente funesta à Moral, sob um terceiro aspecto
geral, opondo-se à sua sólida reconstrução sobre bases puramente humanas. Se este obstáculo consistisse
só nas cegas declamações mui freqüentemente emanadas das diversas escolas atuais, teológicas ou
metafísicas, contra o pretenso perigo de semelhante operação, os filósofos positivos poderiam limitar-se
a repelir odiosas insinuações pelo irrecusável exemplo da sua própria vida diária, pessoal, doméstica e
social. Mas esta oposição é infelizmente muito mais radical, porque resulta da irredutível
incompatibilidade necessária que evidentemente existe entre estas duas maneiras de sistematizar a Moral.
Devendo os motivos teológicos oferecer naturalmente, aos olhos do crente, uma intensidade muito
superior à de quaisquer outros, jamais poderiam transformar-se em simples auxiliares dos motivos
puramente humanos e não podem conservar nenhuma eficácia real logo que deixam de dominar. Não
existe, pois, nenhuma alternativa duradoura entre fundar enfim a moral no conhecimento positivo da
Humanidade e deixá-la repousar na determinação sobrenatural: as convicções racionais puderam
secundar as crenças teológicas, ou antes tomar gradualmente o seu lugar à medida que a fé se extinguiu;
mas a combinação inversa não constitui certamente senão uma utopia contraditória, na qual o principal
seria subordinado ao acessório.
51. Judiciosa observação do verdadeiro estado da sociedade moderna representa, pois, como cada vez
mais desmentida pelo conjunto dos fatos diários, a pretensa impossibilidade de ser dispensável de ora em
diante qualquer teologia para consolidar a Moral; porque essa perigosa ligação devia tornar-se desde o
fim da Idade Média triplicentemente funesta à Moral, quer enervando ou desacreditando suas bases
intelectuais, quer lhe suscitando perturbações diretas, quer impedindo sua melhor sistematização. Se,
apesar de ativos princípios de desordem, a moralidade prática realmente melhorou, este feliz resultado
não poderia ser atribuído ao espírito teológico, então degenerado, pelo contrário, em perigoso
dissolvente: ele é devido, no mais alto grau, à ação do espírito positivo, já eficaz sob sua forma
espontânea, que consiste no bom senso universal, cujas sábias inspirações secundaram o impulso natural
de nossa civilização progressiva para combater utilmente as diversas aberrações, sobretudo as que
emanavam das divagações religiosas. Quando, por exemplo, a teologia protestante tendia a alterar
gravemente a instituição do casamento, pela consagração formal do divórcio, a razão pública
neutralizava consideravelmente os seus funestos efeitos, impondo quase sempre o respeito prático dos
costumes anteriores, únicos conformes ao verdadeiro caráter da sociabilidade moderna. Irrecusáveis
experiências provaram, a1ém disso, ao mesmo tempo, em vasta escala, no seio das massas populares, que
o pretenso privilégio exclusivo das crenças religiosas de determinar grandes sacrifícios ou ativos
devotamentos podia, de igual modo, pertencer a opiniões diretamente opostas, e aplicava-se, em geral, a
toda convicção profunda, qualquer que seja a sua natureza. Os numerosos adversários do regime
teológico que, há meio século, garantiram com tanto heroísmo nossa independência nacional contra a
coligação retrógrada, não mostraram, sem dúvida, uma abnegação menos completa e menos constante do
que os bandos supersticiosos que, no seio da França, auxiliaram a agressão exterior.
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52. Para acabar de apreciar as atuais pretensões da filosofia teológico-metafísica de conservar a
sistematização exclusiva da moral comum, basta encarar diretamente a doutrina perigosa e contraditória
que o progresso inevitável da emancipação a forçou logo a estabelecer a esse respeito, consagrando por
toda a parte, sob formas mais ou menos explícitas, uma espécie de hipocrisia coletiva, análoga à que se
supõe, muito sem razão, ter sido habitual entre os antigos, embora ela só tenha comportado na
antigüidade um êxito precário e passageiro. Não podendo impedir o livre desenvolvimento da razão
moderna nos espíritos cultos, procurou-se, assim, obter deles, em vista do interesse público, o respeito
aparente das antigas crenças, para que estas mantivessem, sobre o vulgo, a autoridade julgada
indispensável. Esta transação sistemática não é por forma alguma peculiar aos jesuítas, ainda que
constitua o fundo essencial de sua tática. O espírito protestante imprimiu-lhe também, a seu modo, uma
consagração ainda mais intima, mais extensa e sobretudo mais dogmática; os metafísicos propriamente
ditos adotam-na tanto quanto os próprios teólogos; o maior dentre eles , embora sua alta moralidade fosse
na verdade digna de sua eminente inteligência, foi arrastado a sancioná-la essencialmente, estabelecendo,
de uma parte, que as opiniões teológicas não comportam nenhuma verdadeira demonstração, e, de outra
parte, que a necessidade social obriga a indefinidamente manter-lhes o império. Apesar de poder
semelhante doutrina tornar-se respeitável entre aqueles que lhe não acrescentam nenhuma ambição
pessoal, não tende menos a viciar todas as fontes da moralidade humana, fazendo-a necessariamente
repousar sobre um estado contínuo de falsidade, e mesmo de desprezo, dos superiores para com os
inferiores. Enquanto os que deviam participar dessa dissimulação sistemática foram pouco numerosos, a
sua prática foi possível, ainda que precária; mas tornou-se ainda mais ridícula do que odiosa quando a
emancipação se estendeu bastante para que essa espécie de conspiração piedosa pudesse hoje abranger,
como seria necessário, a maior parte dos espíritos ativos. Enfim, mesmo que se suponha realizada essa
quimérica extensão, esse pretenso sistema deixa subsistir completamente a dificu1dade a respeito das
inteligências emancipadas cuja moralidade própria fica assim abandonada à sua pura espontaneidade,. já
exatamente reconhecida insuficiente na classe submissa. Se é preciso admitir também a necessidade de
verdadeira sistematização moral para esses espíritos emancipados, ela só poderá repousar desde então
sobre bases positivas, que finalmente serão assim julgadas indispensáveis. Quando a limitar-lhe o destino
à classe ilustrada, além de semelhante restrição não poder mudar a natureza dessa grande construção
filosófica seria evidentemente ilusória numa época em que a cultura mental, que essa fácil libertação
supõe, já se tornou muito comum, ou antes quase universal, pelo menos em França. Assim, o expediente
empírico sugerido pelo vão desejo de manter, a todo custo, o antigo regime intelectual, só terá como
resultado deixar a maior parte dos espíritos ativos desprovida de toda doutrina moral, como mui
freqüentemente acontece hoje.
III. Necessidade de um poder espiritual positivo
53. É, portanto, sobretudo em nome da Moral que cumpre de ora avante trabalhar ardentemente para
constituir enfim o ascendente universal do espírito positivo, a fim de substituir um sistema decaído que,
ora impotente, ora perturbador, exigiria cada vez mais a compressão mental como condição permanente
da ordem moral. Só a nova filosofia pode estabelecer hoje, quanto aos nossos deveres, convicções
profundas e ativas, verdadeiramente suscetíveis de sustentar com energia o choque das paixões. De
acordo com a teoria positiva da Humanidade, irrecusáveis demonstrações, apoiadas sobre a imensa
experiência que agora a nossa espécie possui, determinarão exatamente a influência real, direta ou
indireta, privada e pública, peculiar a todo ato, a todo hábito e a todo pendor ou sentimento; donde
naturalmente resultarão, como outros tantos corolários inevitáveis, as regras de proceder, quer gerais,
quer especiais, mais conformes à ordem universal e que, por conseguinte, deverão ser ordinariamente
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mais favoráveis à felicidade individual. Apesar da dificuldade deste grande assunto, ouso assegurar que,
convenientemente tratado, comporta conclusões tão certas quanto as da própria Geometria. Não se pode,
sem dúvida, esperar jamais tornar algum dia suficientemente acessíveis a todas as inteligências estas
provas positivas de várias regras morais destinadas, entretanto, à vida comum; mas isso já acontece com
as diversas prescrições matemáticas que, todavia, são aplicadas sem hesitação nas mais graves ocasiões,
quando, por exemplo, nossos marinheiros arriscam diariamente sua existência, fiados em teorias
astronômicas que absolutamente não conhecem. Por que igual confiança não seria concedida também a
noções ainda mais importantes? É incontestável que a eficácia normal de semelhante regime exige, em
cada caso, além de poderoso impulso resultante naturalmente dos preconceitos públicos, a intervenção
sistemática, ora passiva, ora ativa, de uma autoridade espiritual, destinada a lembrar, com energia, as
máximas fundamentais e a dirigir-lhes criteriosamente a aplicação, como expliquei de modo especial na
obra já mencionada. Desempenhando, assim, a grande função social que o catolicismo não preenche
mais, este novo poder moral cuidadosamente utilizará a feliz aptidão da filosofia correspondente para
incorporar em si espontaneamente a sabedoria real dos diversos regimes anteriores, segundo a tendência
ordinária do espírito positivo em relação a qualquer assunto. Quando a astronomia moderna afastou de
modo irrevogável os princípios astrológicos, não deixou, contudo, de conservar preciosamente todas as
noções verdadeiras obtidas sob o domínio desses princípios; o mesmo se deu com a Química em reação à
alquimia.
CAPÍTULO III
SURTO DO SENTIMENTO SOCIAL
54. Sem poder empreender aqui a apreciação moral da filosofia positiva, cumpre, entretanto, assinalar a
tendência contínua que, de modo direto, resulta de sua própria constituição, tanto científica como lógica,
para estimular e consolidar o sentimento do dever, desenvolvendo sempre o espírito de conjunto que a
ele se acha naturalmente ligado. Este novo regime mental dissipa espontaneamente a fatal oposição que,
desde o fim da Idade Média, existe cada vez mais entre as necessidades intelectuais e as necessidades
morais. De ora em diante, ao contrário, todas as especulações reais, convenientemente sistematizadas,
concorrerão de modo contínuo para constituir, tanto quanto possível, a universal preponderância da
Moral, pois o ponto de vista social há de tornar-se nelas necessariamente o laço científico e o regulador
lógico de todos os outros aspectos positivos. É impossível que desenvolvendo familiarmente semelhante
coordenação as idéias de ordem e harmonia, sempre ligadas à Humanidade, não tenda a moralizar
profundamente, não só os espíritos de escol, como também a massa das inteligências, que deverão todas
participar mais ou menos desta grande iniciação, por via de um sistema conveniente de educação
universal.
1o. – O antigo regime moral é individual
55. Uma apreciação mais íntima e mais extensa, ao mesmo tempo prática e teórica, representa o espírito
positivo como sendo, por sua natureza, o único suscetível de desenvolver diretamente o sentimento
social, primeira base necessária de toda sã moral. O antigo regime mental não podia estimulá-la senão
com o auxílio de penosos sacrifícios indiretos, cujo êxito real devia ser muito imperfeito, em vista da
tendência essencialmente pessoal de semelhante filosofia, quando a sabedoria do sacerdócio não lhe
neutralizava a influência espontânea. Esta necessidade é agora reconhecida, pelo menos empiricamente,
quanto ao espírito metafísico propriamente dito, que não pôde nunca conduzir, em Moral, a nenhuma
outra teoria efetiva a não ser o desastroso sistema de egoísmo, tão usado hoje, apesar de muitas
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declamações contrárias; mesmo as seitas ontológicas que protestaram seriamente contra semelhante
aberração não a substituíram senão por vagas ou incoerentes noções, incapazes de eficácia prática. Uma
tendência tão deplorável, e, contudo, tão constante, deve ter raízes mais profundas do que comumente se
supõe. Ela resulta, com efeito, sobretudo da natureza necessariamente pessoal de semelhante filosofia
que, limitada sempre à consideração do indivíduo, na realidade nunca pôde abranger o estudo da espécie,
por uma conseqüência inevitável de seu vão princípio lógico, reduzido, em essência, à intuição
propriamente dita, que não comporta evidentemente nenhuma aplicação coletiva. Suas fórmulas
ordinárias apenas ingenuamente lhe traduzem o espírito fundamental; para cada um dos seus adeptos o
pensamento dominante é sempre o do eu: quaisquer outras existências, mesmo humanas, são
confusamente envolvidas em uma única concepção negativa e seu vago conjunto constitui o não-eu; a
noção de nós não poderia achar aí nenhum lugar direto e distinto. Mas, examinando este assunto ainda
mais profundamente, cumpre reconhecer que, a este respeito, como sob qualquer outro aspecto, a
Metafísica deriva, tanto dogmática, como historicamente, da própria Teologia, da qual não podia jamais
constituir senão uma modificação dissolvente. Com efeito, este caráter de personalidade constante
pertence sobretudo, com uma energia mais direta, ao pensamento teológico, sempre preocupado, em cada
crente, com interesses essencialmente individuais, cuja imensa preponderância absorve por força
qualquer outra consideração, sem que o mais sublime devotamento lhe possa inspirar a verdadeira
abnegação justamente considerada então como perigosa aberração. Somente a oposição freqüente desses
interesses quiméricos aos reais forneceu à sabedoria do sacerdócio poderoso meio de disciplina moral,
que pôde, amiúde, impor, em proveito da sociedade, admiráveis sacrifícios, que, entretanto, só o eram em
aparência, pois sempre se reduziam a prudente ponderação de interesses. Os sentimentos benévolos e
desinteressados, peculiares à natureza humana, deveram, sem dúvida, manifestar-se através de tal regime,
e mesmo, a certos respeitos, sob o seu impulso indireto; mas, embora a expansão desses sentimentos não
tenha podido ser assim comprimida, deve seu caráter ter dele recebido grave alteração, que
provavelmente ainda não nos permite conhecer-lhe plenamente a natureza e a intensidade, por falta de
exercício próprio e direto. Há toda razão de presumir-se, aliás, que esse hábito contínuo de cálculos
pessoais em relação aos mais caros interesses do crente desenvolveu no homem, mesmo a outros
respeitos, por via de afinidade gradual, um excesso de circunspecção, de previdência, e, finalmente, de
egoísmo, que sua organização fundamental não exigia, e por isto poderá um dia diminuir sob melhor
regime moral. Seja ou não verdadeira esta conjetura, é incontestável ser o pensamento teológico, por sua
natureza, essencialmente individual, e jamais diretamente coletivo. Aos olhos da fé teológica, sobretudo
monoteica, a vida social não existe por falta de um destino que lhe seja próprio. A sociedade humana não
pode então imediatamente oferecer senão uma simples aglomeração de indivíduos, cuja reunião é quase
tão fortuita quanto passageira, cada um dos quais, ocupado com a sua própria salvação, não concebe
participar na de outrem, a não ser como poderoso meio de merecer mais a sua, obedecendo às prescrições
supremas que lhe impuseram tal dever. Merecerá sempre nossa respeitosa admiração a prudência
sacerdotal que, sob o feliz impulso do instinto público, soube tirar, durante muito tempo, grande utilidade
prática de uma filosofia tão imperfeita. Mas este justo reconhecimento não pode ir até o ponto de
prolongar artificialmente o regime inicial além do seu destino provisório, quando chegou enfim a época
de uma economia mais conforme com o conjunto de nossa natureza intelectual e afetiva.
2o. – O Espírito positivo é diretamente social
56. O espírito positivo, ao contrário, é diretamente social, tanto quanto possível e sem nenhum esforço,
em virtude mesmo da sua realidade característica. Para ele o homem propriamente dito não existe, só
pode existir a Humanidade, pois todo nosso desenvolvimento é devido à sociedade, sob qualquer aspecto
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que o encaremos. Se a idéia de sociedade parece ainda uma abstração de nossa inteligência, é sobretudo
em virtude do antigo regime filosófico; porque, a dizer verdade, é à idéia de indivíduo que pertence
semelhante caráter, pelo menos em nossa espécie. O conjunto da nova filosofia tenderá sempre a fazer
sobressair, tanto na vida ativa como na especulativa, a ligação de cada um a todos, sob uma série de
aspectos diversos, de modo a tornar involuntariamente familiar o sentimento íntimo da solidariedade
social, convenientemente estendida a todos os tempos e a todos os lugares. Não somente a ativa
preocupação do bem público será sempre representada como a maneira mais conveniente de assegurar a
felicidade privada; mas, por uma influência, ao mesmo tempo mais direta e mais pura, enfim mais eficaz,
o exercício tão completo quanto possível dos pendores generosos se tornará a principal fonte da
felicidade pessoal, mesmo quando não deva excepcionalmente proporcionar outra recompensa além de
inevitável satisfação interior. Se, realmente, como não se poderia duvidar, a felicidade resulta sempre de
criteriosa atividade, deve ela depender principalmente dos instintos simpáticos, embora nossa
organização lhes não conceda ordinariamente preponderante energia. É claro que os sentimentos
benévolos são os únicos que podem desenvolver-se com inteira liberdade no estado social que,
abrindo-lhes um campo indefinido, os estimula cada vez mais, ao passo que exige necessariamente certa
compressão permanente dos impulsos pessoais, cujo surto espontâneo suscitaria conflitos contínuos.
Nesta vasta expansão social, todos encontrarão a satisfação normal do desejo de se eternizar, que não
podia antes ser satisfeito senão com o auxílio de ilusões de ora avante incompatíveis com a nossa
evolução mental. Não podendo mais prolongar-se senão pela espécie, o indivíduo será, assim, arrastado a
incorporar-se nela o mais completamente possível, ligando-se profundamente a toda a sua existência
coletiva, não só atual, mas também passada, e sobretudo futura, de modo a obter toda a intensidade de
vida que comporta, em cada caso, o conjunto das leis reais. Esta grande identificação poderá tornar-se
tanto mais íntima e mais bem sentida quanto a nova filosofia designa necessariamente para as duas sortes
de vida um mesmo destino fundamental e uma única lei de evolução, que consiste sempre, seja para o
indivíduo, seja para a espécie, na progressão contínua, cujo fim principal foi acima caracterizado, isto é,
a tendência a fazer prevalecer, de um e de outro lado, tanto quanto possível, o atributo humano, ou a
combinação da inteligência com a sociabilidade, sobre a animalidade propriamente dita. Não sendo
desenvolvíveis quaisquer de nossos sentimentos a não ser por um exercício direto e prolongado, tanto
mais indispensável quanto são menos enérgicos no princípio, seria supérfluo insistir mais aqui junto de
quem quer que possua, mesmo empiricamente, verdadeiro conhecimento do homem, para demonstrar a
superioridade necessária do espírito positivo sobre o antigo espírito teológico-metafísico, quanto ao
desenvolvimento próprio e ativo do instinto social. Esta preeminência é de uma natureza por tal forma
sensível que, sem dúvida, a razão pública as reconhecerá suficientemente, muito tempo antes de terem as
instituições correspondentes podido tornar efetivas, como convém, suas felizes propriedades.
III PARTE
CONDIÇÕES DO ADVENTO DA ESCOLA POSITIVA.
(Aliança dos proletários e dos filósofos)
CAPÍTULO I
INSTITUIÇÃO DE UM ENSINO POPULAR SUPERIOR
1o. – Correlações entre a propagação das noções positivas e as disposições do meio atual
57. De acordo com o conjunto das indicações precedentes, a superioridade espontânea da nova filosofia
sobre cada uma das que hoje disputam entre si o predomínio se acha agora tão plenamente caracterizada
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sob o aspecto social, como o era já sob o ponto de vista social, tanto pelo menos quanto o comporta este
Discurso, e salvo a faculdade indispensável de recorrer à obra citada. Terminando esta sumária
apreciação, importa notar aqui a feliz correlação que se estabelece naturalmente entre semelhante espírito
filosófico e as disposições, sábias mas empíricas, que a experiência contemporânea faz de ora avante
prevalecer, mais é mais, tanto entre os governados como entre os governantes. Substituindo diretamente
uma estéril agitação política por um imenso movimento mental, a escola positiva explica e sanciona, em
virtude de um exame sistemático, a indiferença ou a repugnância que, em plena concordância, a razão
pública e a prudência dos governos manifestam hoje por toda séria elaboração direta das instituições
propriamente ditas. Na época atual, por falta de uma base racional suficiente e enquanto durar a anarquia
intelectual, elas não podem ter uma existência eficaz senão com um caráter puramente provisório ou
transitório. Destinada a dissipar enfim esta desordem fundamental, pelas únicas vias que a possam
dominar, esta nova escola carece, antes de tudo, da manutenção contínua da ordem material, tanto interna
como externa, sem a qual nenhuma grave meditação social poderia ser convenientemente acolhida ou
mesmo suficientemente elaborada. Ela tende, pois, a justificar e secundar a preocupação mui legítima
que hoje inspira por toda a parte o único grande resultado político imediatamente compatível com a
situação atual, a qual, além disso, lhe proporciona um valor especial pelas graves dificuldades que lhe
suscita, pondo sempre o problema, insolúvel com o decorrer do tempo, de manter uma certa ordem
política no meio de profunda desordem moral. Além dos seus trabalhos para o futuro, a escola positiva
associa-se imediatamente a esta importante operação por sua tendência direta a desacreditar radicalmente
as diversas escolas atuais, preenchendo, desde já, melhor do que cada uma delas, os ofícios opostos que
ainda lhes restam, e que só ela combina espontaneamente de modo a mostrar-se dentro em breve mais
orgânica do que a escola teológica e mais progressiva do que a escola metafísica, sem jamais poder
comportar os perigos de retrogradação ou de anarquia que lhes são respectivamente peculiares. Desde
que os governos renunciaram, embora de modo implícito, a toda restauração séria do passado e as
populações a toda grave destruição das instituições, a nova filosofia não tem mais a pedir a ambos senão
as disposições habituais que todos estão, no fundo, preparados para lhe conceder (pelo menos em França,
onde se deve realizar, em primeiro lugar, a elaboração sistemática), isto é, liberdade e atenção. Sob estas
condições naturais, tende a escola positiva, por um lado, a consolidar todos os poderes atuais nas mãos de
seus possuidores, quaisquer que sejam, e, por outro, a impor-lhes obrigações morais cada vez mais
conformes às verdadeiras necessidades dos povos.
58. Estas disposições incontestáveis parecem a princípio não dever deixar hoje à nova filosofia outros
obstáculos essenciais a não ser os provenientes da incapacidade ou da incúria dos seus diversos
promotores. Mas uma apreciação mais amadurecida mostra, ao contrário, que deve encontrar enérgicas
resistências da parte de quase todos os espíritos agora ativos, em virtude mesmo da difícil renovação que
ela deles exigiria para associá-los diretamente à sua principal elaboração. Se esta inevitável oposição
devesse limitar-se aos espíritos essencialmente teológicos ou metafísicos, ofereceria pequena gravidade
real, porque lhe restaria o poderoso apoio daqueles que se acham especialmente entregues aos estudos
positivos e cujo número e influência crescem diariamente. Mas, por uma fatalidade facilmente
explicável, é destes mesmos que a nova escola deve talvez esperar menos assistência e mais embaraços:
uma filosofia diretamente emanada das ciências há de achar provavelmente seus mais perigosos inimigos
entre aqueles que as cultivam hoje. A principal origem deste deplorável conflito consiste na
especialização cega e dispersiva que caracteriza profundamente o espírito científico atual, em virtude de
sua formação necessariamente parcial, conforme a complicação crescente dos fenômenos estudados,
como adiante o indicarei de modo expresso. Esta marcha provisória, que uma perigosa rotina acadêmica
se esforça hoje por eternizar, sobretudo entre os geômetras, desenvolve a verdadeira positividade, em
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cada inteligência, somente em relação a uma pequena parte do sistema mental, e deixa todo o resto sob
um vago regime teológico-metafísico, ou o abandona a um empirismo ainda mais opressivo, de sorte que
o genuíno espírito positivo, que corresponde ao conjunto dos diversos trabalhos científicos, não pode, no
fundo, ser plenamente compreendido por nenhum daqueles que assim naturalmente o prepararam. Mais e
mais entregues a esta inevitável tendência, os cientistas propriamente ditos são ordinariamente
conduzidos em nosso século a uma invencível aversão a toda idéia geral e a uma completa
impossibilidade de realmente apreciar qualquer concepção filosófica. Sentir-se-á, aliás, melhor a
gravidade de semelhante oposição, observando que, oriunda dos hábitos mentais, estendeu-se em seguida
até os diversos interesses correspondentes, que nosso regime científico liga profundamente,
especialmente em França, a esta desastrosa especialidade, como o demonstrei com o maior cuidado na
obra citada. Assim, a nova filosofia, que exige diretamente o espírito de conjunto, e que faz prevalecer
para sempre a ciência nascente do desenvolvimento social sobre todos os estudos hoje constituídos, há de
encontrar profunda antipatia, a um tempo ativa e passiva, nos preconceitos e nas paixões da única classe
que lhe poderia oferecer diretamente um ponto de apoio especulativo e do qual não deve esperar durante
muito tempo senão simples adesões individuais, além de mais raras ai do que em qualquer outra parte.
(5)
2o. – Universalidade necessária deste ensino
59. Para vencer convenientemente este concurso espontâneo de resistências diversas que lhe apresenta
hoje a massa especulativa propriamente dita, a escola positiva não poderia achar outro recurso geral
senão organizar um apelo direto e contínuo ao bom-senso universal, esforçando-se daqui por diante em
propagar sistematicamente, na massa ativa, os principais estudos científicos próprios para aí constituírem
a base indispensável de sua grande elaboração filosófica. Estes estudos preliminares, naturalmente
dominados até aqui pelo espírito de especialidade empírica que preside às ciências correspondentes, são
sempre concebidos e dirigidos como se cada um deles devesse especialmente preparar para certa
profissão exclusiva, o que interdiz evidentemente a possibilidade, mesmo entre aqueles que tenham mais
lazer, de jamais abraçar vários deles, ou pelo menos tantos quantos o exija a formação ulterior de sãs
concepções gerais. Mas não pode mais ser assim, quando semelhante instrução é destinada de modo
direto à educação universal, que lhe muda necessariamente o caráter e a direção apesar de qualquer
tendência contrária. O público, com efeito, que não quer tornar-se nem geômetra, nem astrônomo, nem
químico, etc., experimenta continuamente a necessidade simultânea de todas as ciências fundamentais,
reduzidas, cada uma, às suas noções essenciais: ele precisa, segundo a expressão muito notável do nosso
grande Moliere, luzes acerca de tudo. Esta simultaneidade necessária não existe para o público apenas
quando considera esses estudos, em seu destino abstrato e geral, como única base racional do conjunto
das concepções humanas: ele a encontra ainda, embora menos diretamente, até nas diversas aplicações
concretas, cada uma das quais, no fundo, em vez de referir-se exclusivamente a determinado ramo da
filosofia natural, depende também, mais ou menos, de todos os outros. Assim, a universal propagação
dos principais estudos positivos não é somente destinada hoje a satisfazer uma necessidade já muito
pronunciada no público, que sente, mais e mais, não serem as ciências reservadas exclusivamente aos
sábios, existindo sobretudo para ele mesmo. Por uma feliz reação espontânea, semelhante destino,
quando for convenientemente desenvolvido, deverá melhorar por completo o espírito científico atual,
despojando-o de sua especialidade cega e dispersiva, para fazê-lo adquirir, pouco a pouco, o verdadeiro
caráter filosófico indispensável à sua principal missão. Este caminho é mesmo o único que possa, em
nossos dias, constituir gradualmente, fora da classe especulativa propriamente dita, um vasto tribunal
espontâneo, tão imparcial como irrecusável, formado pela massa dos homens sensatos, tribunal diante do
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qual virão extinguir-se, de modo irrevogável, muitas opiniões científicas falsas, que as vistas peculiares à
elaboração preliminar dos dois últimos séculos misturaram profundamente às doutrinas verdadeiramente
positivas, que serão por elas submetidas ao bom senso universal. Numa época em que não se deve
esperar eficácia imediata senão de medidas sempre provisórias, bem adaptadas à nossa situação
transitória, a organização necessária de semelhante ponto de apoio geral para o conjunto dos trabalhos
filosóficos, constitui, aos meus olhos, o principal resultado social que possa produzir agora a inteira
vulgarização dos conhecimentos reais: o público prestará, assim, à nova escola serviços plenamente
equivalentes aos que esta organização há de proporcionar-lhe.
60. Este grande resultado não poderia ser satisfatoriamente obtido se semelhante ensino ininterrupto
fosse destinado a uma única classe, embora muito extensa: é preciso ter-se nele sempre em vista, sob
pena de aborto, a completa universalidade das inteligências. No estado normal, que este movimento deve
preparar, todas experimentarão sempre, sem nenhuma exceção, nem distinção, a mesma necessidade
fundamental desta filosofia primeira, que resultou do conjunto das noções reais, e deve tornar-se então a
base sistemática da sabedoria humana, tanto ativa como especulativa, a fim de preencher mais
convenientemente a indispensável missão social que dependia outrora da instrução cristã universal. É,
pois, muito importante que, desde a sua origem, a nova escola filosófica desenvolva, tanto quanto
possível, este grande caráter elementar de universalidade social, que, finalmente relativo ao seu principal
destino, constituirá hoje sua maior força contra as diversas resistências que deve encontrar.
3o. – Destino essencialmente popular deste ensino
61. A fim de assinalar melhor esta tendência necessária, uma íntima convicção, a princípio intuitiva,
depois sistemática, me determinou, há muito, a representar sempre o ensino exposto neste Tratado como
sendo dirigido principalmente à classe mais numerosa, que nossa situação deixa desprovida de toda
instrução regular, em conseqüência do desuso crescente da instrução puramente teológica que,
substituída provisoriamente, só para os letrados, por uma certa instrução metafísica e literária, não pôde
receber, sobretudo em França, nenhum equivalente análogo para a massa popular. A importância e a
novidade de semelhante disposição constante, meu vivo desejo de que seja convenientemente apreciada,
e mesmo, se ouso dizê-lo, imitada, obriga-me a indicar aqui os principais motivos deste contato especial
que a nova escola filosófica deve, assim, instituir hoje com os proletários, sem que todavia o seu ensino
exclua jamais qualquer outra classe. É fácil reconhecer, em geral, que quaisquer que sejam os obstáculos
que a falta de zelo ou de elevação possa realmente acarretar, de um e de outro lado, a tal aproximação, a
parte da sociedade atual que corresponde ao povo propriamente dito deve ser, no fundo, entre todas as
outras, a mais bem disposta, pelas tendências e necessidades que resultam de sua ação característica, a
acolher favoravelmente a nova filosofia, que deve enfim nela achar seu principal apoio, tanto mental
como social.
62. Uma primeira consideração que importa aprofundar, embora sua natureza seja sobretudo negativa,
resulta, a este respeito, de uma judiciosa apreciação do que, à primeira vista, parece apresentar grave
dificuldade, isto é, a ausência atual de toda cultura especulativa. Sem dúvida é lamentável, por exemplo,
que este ensino popular de filosofia astronômica ainda não encontre entre todos aos quais especialmente
se destina, alguns conhecimentos matemáticos preliminares, que haviam de torná-lo ao mesmo tempo
mais eficaz e mais fácil e cuja existência sou mesmo forçado a supor. Mas a mesma lacuna se encontraria
também na maior parte das outras classes atuais, nesta época em que a instrução positiva se acha
limitada, em França, a certas profissões especiais que se ligam essencialmente à Escola Politécnica ou às
escolas de medicina. Não é, portanto, isso uma falha verdadeiramente peculiar aos nossos proletários.
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Quanto a lhes faltar habitualmente esta espécie de cultura regular que as classes letradas hoje recebem,
não temo cair em exagero filosófico, afirmando resultar daí, para os espíritos populares, notável
vantagem, em vez de real inconveniente. Sem voltar aqui a uma crítica infelizmente demasiado fácil,
assaz elaborada desde muito tempo e que experiência diária confirma, cada vez mais, aos olhos da maior
parte dos homens sensatos, seria difícil conceber agora uma preparação mais irracional e, no fundo, mais
perigosa à conduta ordinária da vida real, quer ativa, quer mesmo especulativa, do que a resultante desta
vã, instrução, composta primeiro de palavras, depois de entidades, onde se perdem ainda tantos anos
preciosos de nossa juventude. À maior parte daqueles que a recebem, ela não inspira, de ora avante,
senão um desgosto quase insuperável relativamente a qualquer trabalho intelectual, durante toda a
duração de sua carreira. Seus perigos tornam-se, porém, muito mais graves para aqueles que a ela se
entregam mais especialmente. A inaptidão para a vida real, o desdém pelas profissões vulgares, a
incapacidade de convenientemente apreciar qualquer concepção positiva, e a antipatia que daí logo
resulta, freqüentemente os dispõe hoje a secundar estéril agitação metafísica que inquietas pretensões
pessoais, desenvolvidas por essa desastrosa educação, não tardam a tornar politicamente perturbadora,
sob a influência direta de viciosa erudição histórica, que, fazendo prevalecer uma falsa noção do tipo
social peculiar à antigüidade, comumente impede compreender a sociabilidade moderna. Considerando
que quase todos os que, a diversos respeitos, dirigem os negócios humanos, foram para tal fim assim
preparados, não nos pode causar surpresa a vergonhosa ignorância que amiúde manifestam sobre os
assuntos mais insignificantes, mesmo materiais, nem sua freqüente disposição a desprezar o fundo pela
forma, colocando acima de tudo a arte de bem dizer, por mais contraditória ou perniciosa que se torne a
sua aplicação, nem também nos pode surpreender a tendência especial das nossas classes letradas a
acolher avidamente todas as aberrações que diariamente surjam de nossa anarquia mental. Semelhante
apreciação dispõe-nos, ao revés, a admirar que esses diversos desastres não sejam ordinariamente mais
extensos; conduz-nos também a admirar profundamente a retidão e a sabedoria naturais do homem, que
sob o feliz impulso peculiar ao conjunto de nossa civilização, neutraliza espontaneamente, em grande
parte, essas perigosas conseqüências de um absurdo sistema de educação geral. Tendo sido este sistema,
desde o fim da Idade Média, como o é ainda, o principal ponto de apoio social do espírito metafísico,
quer primeiro contra a Teologia, quer, em seguida, também contra a ciência, concebe-se facilmente que
as classes que não pôde envolver, devem achar-se por isto mesmo muito menos afetadas por essa
filosofia transitória e desde então mais bem dispostas ao estado positivo. Ora, tal é a importante
vantagem que a ausência de educação escolástica proporciona hoje aos nossos proletários e os torna, no
fundo, menos acessíveis do que a maior parte dos letrados aos diversos sofismas perturbadores, de
conformidade com a experiência diária, apesar de contínua excitação, sistematicamente dirigida às
paixões relativas à sua condição social. Eles deveriam ser outrora dominados a fundo pela teologia
especialmente católica; mas, durante sua emancipação mental (havendo a Metafísica apenas deslizado
sobre eles, por não ter neles encontrado a cultura especial sobre a qual ela repousa) só a filosofia positiva
poderá, de novo, deles apoderar-se radicalmente. As condições preliminares, tão recomendadas pelos
primeiros pais desta filosofia final, devem achar-se aí mais bem preenchidas do que em qualquer outra
parte: se a célebre tábua rasa de Bacon e de Descartes fosse jamais plenamente realizável, seria por certo
entre os proletários atuais que, principalmente em França, estão muito mais próximos do que qualquer
outra classe do tipo ideal dessa disposição preparatória para a positividade racional.
63. Examinando sob um aspecto mais íntimo e mais duradouro esta inclinação natural das inteligências
populares para a sã filosofia, reconhece-se facilmente que ela deve resultar da solidariedade fundamental
que, segundo as nossas explicações anteriores, liga diretamente o verdadeiro espírito filosófico ao bom
senso universal, sua primeira fonte necessária. Este bom senso, com efeito, tão justamente preconizado
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por Descartes e por Bacon, deve achar-se hoje mais puro e mais enérgico entre as classes inferiores, em
virtude mesmo desta feliz falta de cultura escolástica que as torna menos acessíveis aos hábitos vagos ou
sofísticos; mas a esta diferença passageira, que será gradualmente dissipada por melhor educação das
classes letradas, é preciso juntar uma outra, necessariamente permanente, relativa à influência mental das
diversas funções sociais peculiares às duas ordens de inteligências, conforme o caráter respectivo de seus
trabalhos habituais. Desde que a ação real da Humanidade sobre o mundo exterior começou a
organizar-se espontaneamente entre os modernos, exigiu a combinação contínua de duas classes distintas,
muito desiguais em número, mas igualmente indispensáveis: de um lado os empresários propriamente
ditos, sempre pouco numerosos que, possuindo os diversos materiais convenientes, entre os quais o
dinheiro e o crédito, dirigem o conjunto de cada operação, assumindo desde então a principal
responsabilidade de quaisquer resultados; de outro lado os operadores diretos, vivendo de um salário
periódico e formando a imensa maioria dos trabalhadores que executam, com uma espécie de intenção
abstrata, os diversos atos elementares, sem se preocuparem especialmente com o seu concurso final.
Estes últimos são os únicos a entrar em ação imediata sobre a natureza, ao passo que os primeiros lidam
principalmente com a sociedade. Como conseqüência necessária destas diversidades fundamentais, a
eficácia especulativa que reconhecemos inerente à vida industrial para desenvolver, de modo
involuntário o espírito positivo deve em geral fazer-se sentir melhor entre os operadores do que entre os
empresários; porque seus trabalhos próprios oferecem um caráter mais simples, um fim, mais
nitidamente determinado, resultados mais próximos e condições mais imperiosas. A escola positiva
deverá, pois, achar neles naturalmente um acesso mais fácil para o seu ensino universal e uma simpatia
mais viva pela sua renovação filosófica, quando puder convenientemente penetrar nesse vasto meio
social. Há de encontrar aí, ao mesmo tempo, afinidades morais não menos preciosas do que estas
harmonias mentais, em conseqüência do comum desinteresse material que espontaneamente aproxima
nossos proletários da verdadeira classe contemplativa, pelo menos quando esta houver adquirido enfim
os costumes correspondentes ao seu destino social. Esta feliz disposição, tão favorável à ordem universal
como à verdadeira felicidade pessoal, há de granjear um dia grande importância normal, em virtude da
sistematização das relações gerais que devem existir entre estes dois elementos extremos da sociedade
positiva. Mas desde já ela pode facilitar essencialmente sua união nascente, aproveitando a pouca folga
que as ocupações diárias deixam aos nossos proletários para sua instrução especulativa. Se, em alguns
casos excepcionais de extrema sobrecarga, esse contínuo obstáculo parece, com efeito, dever impedir
todo desenvolvimento mental, ele é ordinariamente compensado por este caráter de judiciosa
imprevidência que, em cada interrupção natural dos trabalhos obrigatórios, concede ao espírito uma
plena disponibilidade. O verdadeiro lazer não deve faltar habitualmente senão à classe que acredita
possuí-lo especialmente; porque, em razão mesmo de sua riqueza e de sua posição, ela se acha
comumente preocupada por ativas inquietações, que jamais comportam verdadeira calma intelectual e
moral. Este estado deve ser fácil, ao revés, quer aos pensadores, quer aos operários, em virtude de sua
comum isenção espontânea dos cuidados relativos ao emprego dos capitais, sem falar na regularidade
natural da sua vida diária.
64. É, pois, entre os proletários, logo que estas tendências mentais e morais tiverem convenientemente
atuado, que se há de realizar, com mais eficácia, a universal propagação do ensino positivo, condição
indispensável ao termo gradual da renovação filosófica. É também entre eles que o caráter contínuo de
semelhante estudo poderá tornar-se mais puramente especulativo, porque se achará aí mais isento das
vistas interessadas que lhe aplicam, mais ou menos diretamente, as classes superiores, quase sempre
preocupadas com cálculos ávidos ou ambiciosos. Depois de haver procurado neste estudo o fundamento
universal de toda a sabedoria humana, eles virão haurir ,nele, como nas belas-artes, agradável diversão
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habitual ao conjunto de suas fadigas diárias. Devendo sua inevitável condição social tornar-lhes muito
mais preciosa semelhante diversão, quer científica, quer estética, seria estranho que as classes dirigentes
quisessem ver nisso, ao revés, um motivo fundamental para os conservar privados dela, recusando-lhes
sistematicamente a única satisfação que possa ser concedida de modo indefinido àqueles mesmos que
devem renunciar criteriosamente aos gozos menos suscetíveis de uma participação comum. Para
justificar semelhante recusa, amiúde ditada pelo egoísmo e pela irreflexão, objeta-se algumas vezes, é
verdade, que esta vulgarização especulativa tenderia a agravar profundamente a desordem
contemporânea por desenvolver a funesta disposição, já muito pronunciada, à universal mudança de
classes. Mas este temor natural, única objeção séria que, a semelhante respeito, mereça uma verdadeira
discussão, resulta hoje, na maioria dos casos em que há boa-fé, de irracional confusão da instrução
positiva, a um tempo estética e científica, com a instrução metafísica e literária, única atualmente
organizada. Esta, que já reconhecemos exercer, de fato, uma ação social muito perturbadora sobre as
classes letradas, tornar-se-ia muito mais perigosa se a estendêssemos aos proletários, nos quais
desenvolveria, além do desgosto pelas ocupações materiais, exorbitantes ambições. Mas, felizmente, eles
em geral estão ainda menos dispostos a pedi-la do que as classes dirigentes a concedê-la. Os estudos
positivos, porém, sabiamente concebidos e convenientemente dirigidos, de maneira alguma comportam
semelhante influência: aliando-se e aplicando-se, por sua natureza, a todos os trabalhos práticos, tendem,
pelo contrário, a confirmar ou mesmo a inspirar o gosto por eles, seja enobrecendo-lhes o caráter
habitual, seja amenizando-lhes as penosas conseqüências. Conduzindo, além disto, a sã apreciação das
diversas posições sociais e das necessidades correspondentes, os estudos positivos dispõem a sentir que a
felicidade real é compatível com quaisquer condições, contanto que sejam honrosamente preenchidas e
razoavelmente aceitas. A filosofia geral que resulta desses estudos representa o homem, ou antes a
Humanidade, como o primeiro entre os seres conhecidos, destinado, pelo conjunto das leis reais, a
aperfeiçoar sempre, tanto quanto possível, e a todos os respeitos, a ordem natural, ao abrigo de toda
inquietação quimérica, o que tende a exaltar, em alto grau, o ativo sentimento universal da dignidade
humana. Ao mesmo tempo ela modera espontaneamente o orgulho demasiadamente exaltado que esse
sentimento poderia suscitar, mostrando, sob todos os aspectos, e com familiar evidência, quanto devemos
ficar continuamente abaixo do fim e do tipo assim caracterizados, quer na vida ativa, quer mesmo na vida
especulativa, onde se sente quase a cada passo que nossos mais sublimes esforços não podem nunca
vencer senão fraca porção das dificuldades fundamentais.
65. Apesar da alta importância dos diversos motivos precedentes, considerações ainda mais poderosas,
oriundas das necessidades coletivas peculiares à condição social dos proletários, hão de determinar as
inteligências populares, movidas pelo seu ardor contínuo relativo à universal propagação dos estudos
reais, a secundar hoje a ação filosófica da escola positiva. Semelhantes considerações podem ser assim
resumidas: não pôde até aqui existir uma política especialmente popular e só a nova filosofia pode
constituí-la.
CAPÍTULO. II
INSTITUIÇÃO DE UMA POLÍTICA ESPECIALMENTE POPULAR
1o. – A política popular, sempre social, deve tornar-se sobretudo moral
66. Desde o começo da grande crise moderna o povo não interveio ainda nas principais lutas políticas
senão como simples auxiliar, com a esperança, sem dúvida, de obter, assim, alguns melhoramentos de
sua situação geral, mas não segundo vistas e objetivos que lhe fossem realmente próprios. Todos os
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debates habituais ficaram essencialmente concentrados nas diversas classes superiores ou médias, porque
se referiam sobretudo à posse do poder. Ora, o povo não podia, durante muito tempo, interessar-se
diretamente por tais conflitos, pois a natureza de nossa civilização impede que os operários esperem e
mesmo desejem qualquer participação importante no poder político propriamente dito. Também, depois
de haverem essencialmente obtido todos os resultados sociais que podiam esperar da substituição
provisória dos metafísicos e dos legistas à antiga preponderância política das classes sacerdotais e
feudais, tornam-se eles hoje mais e mais indiferentes ao estéril prolongamento dessas lutas cada vez mais
miseráveis, de ora avante reduzidas a vãs rivalidades pessoais. Quaisquer que sejam os esforços diários
da agitação metafísica para fazê-los intervir nesses frívolos debates, pelo engodo dos chamados direitos
políticos, o instinto popular já compreendeu, especialmente em França, quanto seria ilusória ou pueril a
posse de semelhante privilégio, que, mesmo no seu grau atual de disseminação, não inspira
habitualmente nenhum interesse verdadeiro à maior parte daqueles que o gozam com exclusividade. O
povo não pode interessar-se essencialmente senão pelo emprego efetivo do poder, quaisquer que sejam as
mãos em que resida, e não pela sua conquista especial. Logo que as questões políticas, ou, antes, daqui
por diante, sociais, se referirem ordinariamente à maneira pela qual o poder deve ser exercido para atingir
melhor seu destino geral, sobretudo relativo, entre os modernos, à massa proletária, não se tardará a
reconhecer que o desdém atual não é de modo algum o resultado de uma perigosa indiferença: até lá a
opinião popular ficará estranha a esses debates, que aumentando, aos olhos dos bons espíritos, a
instabilidade de todos os poderes, tendem especialmente a retardar essa indispensável transformação. Em
uma palavra, o povo está, naturalmente disposto a desejar que a vã e tempestuosa discussão dos direitos
seja, enfim, substituída por fecunda e salutar apreciação dos diversos deveres essenciais, quer gerais,
quer especiais. Tal é o princípio espontâneo da íntima conexidade, que, sentida cedo ou tarde, há de
necessariamente ligar o instinto popular à ação social da filosofia positiva; porque esta grande
transformação, acima motivada pelas mais altas considerações especulativas, eqüivale evidentemente à
do movimento político em simples movimento filosófico, cujo primeiro e principal resultado social
consistirá, com efeito, em estabelecer solidamente uma ativa moral universal, que prescreva a cada
agente, individual ou coletivo, regras de proceder mais conformes à, harmonia fundamental. Quanto mais
se meditar sobre esta relação natural, mais se reconhecerá que essa mudança decisiva, que só podia
emanar do espírito positivo, não pode encontrar hoje sólido apoio senão no povo propriamente dito,
único disposto a bem compreendê-lo e por ele profundamente interessar-se. Os preconceitos e as paixões
peculiares às classes superiores ou médias impedem que elas sintam logo suficientemente tal
transformação, porque devem habitualmente preocupar-se mais com as vantagens peculiares à posse do
poder do que com os perigos resultantes do seu vicioso exercício. Se o povo é hoje e deve, de ora avante,
permanecer indiferente à posse direta do poder político, não pode nunca renunciar à sua indispensável
participação contínua no poder moral, que, único verdadeiramente acessível a todos, sem nenhum perigo
para a ordem universal, antes de grande vantagem quotidiana para ela, autoriza cada um a lembrar
convenientemente aos mais altos poderes o cumprimento de seus diversos deveres essenciais, em nome
de uma doutrina fundamental comum. Na verdade, os preconceitos inerentes ao estado transitório ou
revolucionário acharam também alguma acolhida entre os nossos proletários; entretêm neles, de fato,
ilusões prejudiciais sobre o alcance indefinido das medidas políticas propriamente ditas e impedem que
apreciem quanto a justa satisfação dos grandes interesses populares depende hoje mais das opiniões e dos
costumes do que das próprias instituições, cuja verdadeira regeneração, atualmente impossível, exige
antes de tudo a reorganização espiritual. Mas podemos assegurar que a escola positiva terá muito mais
facilidade em fazer penetrar este salutar ensino nos espíritos populares do que em quaisquer outros,. seja
porque .a metafísica negativa não pôde enraizar-se tanto neles, seja sobretudo pelo impulso constante das
necessidades sociais peculiares à sua situação necessária. Estas necessidades se referem essencialmente a
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duas condições fundamentais, uma espiritual, outra temporal, de natureza profundamente conexa:
trata-se, com efeito, de assegurar de modo conveniente, a todos, primeiro a educação normal, em seguida
o trabalho regular; tal é, no fundo, o verdadeiro programa social dos proletários. Não pode mais haver
verdadeira popularidade senão para a política que necessariamente tender para esse duplo destino. Ora,
tal é evidentemente o caráter espontâneo da doutrina social própria à nova escola filosófica; nossas
explicações anteriores devem dispensar aqui, a este respeito, qualquer outro esclarecimento, aliás
reservado ao trabalho tão freqüentemente indicado neste Discurso. Importa somente acrescentar, sobre
este assunto, que a concentração de nossos pensamentos e de nossa atividade sobre a vida real da
Humanidade, afastando toda vã ilusão, há de tender especialmente a tornar muito mais forte a adesão
moral e política do povo propriamente dito à verdadeira filosofia moderna. Com efeito o seu judicioso
instinto logo perceberá nesta um novo e poderoso motivo de dirigir sobretudo a prática social para o
criterioso e contínuo melhoramento da sua própria condição geral. Ao contrário, as quiméricas
esperanças inerentes à antiga filosofia teológica conduziram demasiadas vezes a desdenhar tais
progressos ou afastá-los por uma espécie de adiamento contínuo, em virtude da mínima importância
relativa que naturalmente devia deixar-lhes essa eterna perspectiva, imensa compensação espontânea de
quaisquer misérias.
2o. – Natureza da participação do governo na propagação das noções positivas
67. Esta, sumária apreciação basta agora para assinalar, sob os diversos aspectos essenciais, a afinidade
necessária das classes inferiores relativamente à filosofia positiva, a qual, logo que o contato puder
plenamente estabelecer-se, nelas achará seu principal apoio natural, a um tempo mental e social,
enquanto a filosofia teológica não convém mais senão às classes superiores, cuja preponderância política
ela tende a eternizar, assim como a filosofia metafísica se dirige sobretudo às classes médias, cuja ativa
ambição secunda. Todo espírito meditativo deve assim acabar por compreender a importância
verdadeiramente fundamental que apresenta hoje uma criteriosa divulgação sistemática dos estudos
positivos, destinada essencialmente aos proletários, a fim de preparar entre eles uma sã doutrina social.
Os diversos observadores que se podem libertar, mesmo momentaneamente, do turbilhão diário,
concordam agora em deplorar, e certamente com muita razão, a anárquica influência que os sofistas e
retóricos exercem em nossos dias. Mas essas justas queixas serão inevitavelmente vãs até que se sinta
melhor a necessidade de sair enfim de uma situação mental onde a educação oficial não pode terminar
ordinariamente senão por formar sofistas e retóricos, que tendem, em seguida, através do tríplice ensino
emanado dos jornais, dos romances e dos dramas, a propagar o mesmo espírito entre as classes inferiores,
que a nenhuma instrução regular garante do contágio metafísico, repelido somente pela sua razão natural.
Embora se deva esperar, a este título, que os governos atuais perceberão logo quanto a universal
propagação dos conhecimentos reais pode secundar cada vez mais seus esforços contínuos para a
manutenção da ordem indispensável, não devemos contudo esperar deles, nem mesmo desejar, uma
cooperação verdadeiramente ativa nesta grande preparação racional, que deve por muito tempo resultar
especialmente do zelo privado e livre, inspirado e sustentado por genuínas convicções filosóficas. A
imperfeita observação de uma grosseira harmonia política, sempre comprometida no meio de nossa
desordem mental e moral, mui justamente absorve sua solicitude diária e mantém os governos atuais num
ponto de vista demasiado inferior para que dignamente possam compreender a natureza e as condições de
semelhante trabalho, cuja importância devemos pedir apenas que entrevejam. Se, por um zelo
intempestivo, tentassem dirigi-lo hoje, sem o ligarem a uma filosofia bastante decisiva, só conseguiriam
alterá-los profundamente, comprometendo-lhe a eficácia e fazendo-o degenerar logo em incoerente
acúmulo de especialidades superficiais. Assim a escola positiva, que resultou de ativo e voluntário
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concurso dos espíritos verdadeiramente filosóficos, não terá durante muito tempo que pedir aos nossos
governos ocidentais, para convenientemente desempenhar a sua grande missão social, senão a plena
liberdade de exposição e de discussão, equivalente a de que já gozam a escola teológica e a metafísica.
Uma pode todos os dias, nas suas mil tribunas sagradas, preconizar, à sua vontade, a excelência absoluta
de sua eterna doutrina e votar todos os seus adversários a uma irrevogável danação; a outra, em suas
numerosas cátedras, que a munificência nacional lhe sustenta, pode diariamente desenvolver, diante de
imensos auditórios, a eficácia universal de suas concepções ontológicas e a preeminência indefinida de
seus estudos literários. Sem pretender tais vantagens, que só o tempo deve proporcionar, a escola positiva
pede apenas o simples direito de asilo regular nos edifícios municipais, para aí fazer diretamente apreciar
sua aptidão final a satisfazer simultaneamente todas as nossas grandes necessidades sociais, propagando,
com sabedoria, a única instrução sistemática que possa de ora em diante preparar uma verdadeira
reorganização, primeiro mental, depois moral, e enfim política. Contanto que este livre acesso lhe seja
sempre garantido, o zelo voluntário e gratuito de seus raros promotores será secundado pelo bom senso
universal, e, sob o impulso crescente da situação fundamental, jamais temerá sustentar, mesmo a partir
deste momento, uma ativa concorrência filosófica relativamente aos muitos e poderosos órgãos, mesmo
reunidos, das duas escolas antigas. Ora, não se deve temer mais que, de agora em diante, os homens de
Estado se afastem gravemente, neste sentido, da imparcial moderação inerente à sua própria indiferença
especulativa: a escola positiva tem mesmo razão para contar, sob este aspecto, com a benevolência
habitual dos mais inteligentes dentre eles, não somente em França, mas em todo o nosso Ocidente. A sua
contínua vigilância sobre este ensino livre e popular, se limitará logo a prescrever-lhe apenas a
permanente condição de uma genuína positividade, afastando dele, com inflexível severidade, a
introdução, demasiado iminente ainda, das especulações vagas ou sofísticas. Mas, a este respeito, as
necessidades eventuais da escola positiva estão diretamente de acordo com os deveres naturais dos
governos; porque, se estes devem repelir tal abuso em virtude de sua tendência anárquica, aquela, além
deste justo motivo, o julga plenamente contrário ao destino fundamental de semelhante ensino, por
alentar esse mesmo espírito metafísico, onde ela hoje enxerga o principal obstáculo ao advento da nova
filosofia. Sob este aspecto, como a qualquer outro titulo, os filósofos positivos se sentirão sempre quase
tão interessados quanto os poderes atuais, na dupla manutenção contínua da ordem interior e da paz
exterior, porque nela vêem a condição mais favorável à verdadeira renovação mental e moral: somente,
do ponto de vista que lhes é próprio, eles devem perceber de mais longe o que poderia comprometer ou
consolidar esse grande resultado político do conjunto de nossa situação transitória.
CAPÍTULO III
ORDEM NECESSÁRIA DOS ESTUDOS POSITIVOS
68. Caracterizamos agora suficientemente, a todos os respeitos, a importância capital que hoje apresenta
a universal propagação dos estudos positivos, sobretudo entre os proletários, para constituírem de ora
avante indispensável ponto de apoio, mental e social, à elaboração filosófica que gradualmente deve
determinar a reorganização espiritual das sociedades modernas. Semelhante apreciação ficaria, porém,
incompleta e mesmo insuficiente, se a parte final deste Discurso não fosse diretamente consagrada a
estabelecer a ordem fundamental que convém a essa série de estudos, de maneira a fixar a verdadeira
posição, que deve ocupar, em seu conjunto, aquele que será em seguida o objeto exclusivo deste Tratado.
Longe de ser este arranjo didático quase indiferente, como o nosso vicioso regime científico muitas vezes
o faz supor, podemos assegurar, pelo contrário, que é dele sobretudo que depende a principal eficácia,
intelectual ou social, desta grande preparação. Existe, além disto, íntima solidariedade entre a concepção
enciclopédica donde resulta esse estudo e a lei fundamental da evolução que serve de base à nova
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filosofia geral.
1o. – Lei da classificação
69. Semelhante ordem deve, por sua natureza, preencher duas condições essenciais, uma dogmática,
outra histórica, cuja convergência necessária cumpre desde logo reconhecer: a primeira consiste em
ordenar as ciências segundo sua dependência sucessiva, de sorte que cada uma repousa sobre a
precedente e prepara a seguinte; a segunda manda dispô-las de acordo com a marcha de sua formação
efetiva, passando sempre das mais antigas às mais recentes. Ora, a equivalência espontânea destas duas
vias enciclopédicas resulta, em geral, da identidade fundamental que existe inevitavelmente entre a
evolução individual e a evolução coletiva, as quais, tendo igual origem, destino semelhante e um mesmo
agente, devem sempre oferecer fases correspondentes, salvo as únicas diversidades de duração, de
intensidade e de velocidade, inerentes à desigualdade dos dois organismos. Tal concurso necessário
permite, pois, conceber estes dois modos como dois aspectos correlatos de um mesmo princípio
enciclopédico, de modo que se possa empregar habitualmente aquele que, em cada caso, melhor
manifestar as relações consideradas, e com a preciosa faculdade de poder constantemente verificar por
um o que tiver resultado do outro,
70. A lei fundamental dessa ordem comum, de dependência dogmática e de sucessão histórica, foi
completamente estabelecida na grande obra já citada e cujo plano geral ela determina. Consiste em
classificar as ciências de acordo com a natureza dos fenômenos estudados, segundo sua generalidade e
sua independência decrescentes, ou sua complicação crescente, donde resultam . especulações cada vez
mais abstratas e mais difíceis, mas também cada vez mais eminentes e completas, em virtude de sua
relação mais intima com o homem, ou antes com a Humanidade, objeto final de todo o sistema teórico.
Esta classificação tira o seu principal valor filosófico, tanto científico como lógico, da identidade
constante e necessária que existe entre todos estes diversos modos de comparação especulativa dos
fenômenos naturais, e donde resultam outros tantos teoremas enciclopédicos, cuja explicação e uso
pertencem à obra citada, que, além disto, sob o ponto de vista ativo, lhe acrescenta esta importante
relação geral: que os fenômenos, segundo a ordem de classificação, se tornam cada vez mais
modificáveis, e assim oferecem um campo gradativamente mais vasto à intervenção humana. Basta
indicar aqui de modo sumário a aplicação deste grande princípio à determinação racional da verdadeira
hierarquia dos estudos fundamentais, diretamente concebidos de ora avante como os diferentes elementos
essenciais de uma ciência única, a da Humanidade
2o. – Lei enciclopédica ou hierarquia das ciências
71. Este objeto final de todas as nossas especulações reais exige evidentemente, por sua natureza, ao
mesmo tempo científica e lógica, duplo preâmbulo indispensável, relativo, de um lado, ao homem
propriamente dito, de outro, ao mundo exterior. E, de fato, não poderiam os fenômenos, estáticos ou
dinâmicos, da sociabiidade ser estudados racionalmente se não fossem primeiro conhecidos o agente
especial que os opera e o meio geral onde se realizam. Daí resulta, pois, a divisão necessária da filosofia
natural, destinada a preparar a filosofia social, em dois grandes ramos, um orgânico, outro inorgânico.
Quanto à disposição relativa destes dois estudos igualmente fundamentais, todos os motivos essenciais,
quer científicos, quer lógicos, concorrem para prescrever, na educação individual e na evolução coletiva,
que se comece pelo segundo, cujos fenômenos mais simples e mais independentes, em razão de sua
generalidade superior, são os únicos a comportar desde logo uma apreciação verdadeiramente positiva,
enquanto suas leis, diretamente relativas à existência universal, exercem em seguida uma influência
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necessária sobre a existência especial dos corpos vivos. A Astronomia constitui necessariamente, a todos
os respeitos, o elemento mais decisivo desta teoria preliminar do mundo exterior, quer por ser mais
suscetível de plena positividade, quer na medida em que caracteriza o meio geral de quaisquer de nossos
fenômenos, e ainda por manifestar, sem nenhuma outra complicação, a simples existência matemática,
isto é, geométrica ou mecânica, comum a todos os seres reais. Mesmo, porém, quando condensássemos o
mais possível as verdadeiras concepções enciclopédicas, não poderíamos reduzir a filosofia inorgânica a
este elemento principal, porque ela ficaria então completamente isolada da filosofia orgânica. O seu laço
fundamental, científico e lógico, consiste sobretudo no ramo mais complexo da primeira: o estudo dos
fenômenos de composição e de decomposição, os mais eminentes daqueles que a existência universal
comporta e os mais próximos da ordem vital propriamente dita. É assim que a filosofia natural, encarada
como preâmbulo necessário da filosofia social, decompondo-se a princípio em dois estudos extremos e
um intermediário, compreende sucessivamente estas três grandes ciências, a Astronomia, a Química e a
Biologia, das quais a primeira se liga imediatamente à origem espontânea do verdadeiro espírito
científico e a última ao seu destino essencial. Seu surto inicial respectivo refere-se historicamente à
antigüidade grega, à Idade Média e à época moderna.
72. Semelhante apreciação enciclopédica não preenche ainda as condições indispensáveis de
continuidade e de espontaneidade peculiares a tal assunto: por um lado deixa uma lacuna capital entre a
Astronomia e a Química, cuja ligação não poderia ser direta; por outro não indica suficientemente a
verdadeira origem deste sistema especulativo, como simples prolongamento abstrato da razão comum,
cujo ponto de partida científico não podia ser diretamente astronômico. Para completar, porém, a fórmula
fundamental, basta nela inserir, em primeiro lugar, entre a Astronomia e a Química, a Física
propriamente dita, que só adquiriu existência distinta sob Galileu; em segundo lugar, colocar, no começo
deste vasto conjunto, a Ciência Matemática, único berço necessário da positividade racional, tanto para o
indivíduo como para a espécie. Se, por uma aplicação mais especial do nosso princípio enciclopédico, se
decompuser, por sua vez, esta ciência inicial em seus três grandes ramos, o Cálculo, a Geometria e a
Mecânica, determinar-se-á enfim, com a última precisão filosófica, a verdadeira origem de todo o
sistema científico, saído a princípio, com efeito, das especulações puramente numéricas, que, sendo as
mais gerais, as mais abstratas e as mais independentes de todas, quase se confundem com a irrupção
espontânea do espírito positivo nas inteligências mais vulgares, como o confirma ainda, sob os nossos
olhos, a observação, diária do desenvolvimento individual.
73. Chega-se, assim, de modo gradual, a descobrir a invariável hierarquia, a um tempo histórica e
dogmática, igualmente científica e lógica, das seis ciências fundamentais, a Matemática, a Astronomia, a
Física, a Química, a Biologia e a Sociologia, das quais a primeira constitui necessariamente o ponto de
partida exclusivo e a última o fim único e essencial de toda a filosofia positiva, encarada daqui por diante
como formando, por sua natureza, um sistema verdadeiramente indivisível, onde toda decomposição é
radicalmente artificial, sem ser, aliás, de nenhum modo, arbitrária, pois tudo nele se refere enfim à
Humanidade, única concepção plenamente universal. O conjunto desta fórmula enciclopédica,
exatamente conforme às verdadeiras afinidades dos estudos correspondentes, compreendendo, além
disso, sem nenhuma dúvida, todos os elementos de nossas especulações reais, permite enfim a cada
inteligência renovar à sua vontade a história geral do espírito positivo, ao passar, de modo quase
insensível, das mais insignificantes idéias matemáticas aos mais altos pensamentos sociais. É claro, com
efeito, que cada uma das quatro ciências intermediárias se confunde, por assim dizer, com a precedente
quanto aos seus fenômenos mais simples e com a seguinte quanto aos mais eminentes. Esta perfeita
continuidade espontânea se tornará sobretudo irrecusável a todos que reconhecerem, na obra acima
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indicada, que o mesmo princípio enciclopédico fornece também a classificação racional das diversas
partes constituintes de cada estudo fundamental, de sorte que os degraus dogmáticos e as fases históricas
se podem exprimir tanto quanto o exige a precisão das comparações ou a facilidade das transições.
74. No estado presente das inteligências, a aplicação lógica desta grande fórmula é ainda mais importante
do que o seu uso científico, por ser o método, em nossos dias, mais essencial do que a própria doutrina, e
além disso o único imediatamente suscetível de plena regeneração. Sua principal utilidade consiste, pois,
hoje, em determinar, com rigor, a marcha invariável de toda educação realmente positiva, no meio dos
preconceitos irracionais e dos viciosos hábitos peculiares ao desenvolvimento preliminar do sistema
científico, formado, assim, gradualmente de teorias parciais e incoerentes, cujas relações deviam até hoje
permanecer despercebidas de seus fundadores sucessivos. Todas as classes atuais de sábios violam agora,
com igual gravidade, ainda que a títulos diversos, esta obrigação fundamental. Limitando-nos aqui a
indicar os dois casos extremos: os geômetras, justamente orgulhosos de se acharem colocados na
verdadeira origem da positividade racional, se obstinam às cegas em reter o espírito humano neste grau
puramente inicial do verdadeiro desenvolvimento especulativo, sem jamais considerarem o seu único
destino necessário; ao revés, os biologistas, enaltecendo, com bom direito, a dignidade superior do seu
assunto, imediatamente vizinho deste grande destino, persistem em manter seus estudos em irracional
insulamento, libertando-se arbitrariamente da difícil preparação que a sua natureza exige. Estas
disposições opostas, mas por igual empíricas, conduzem freqüentemente hoje, uns, a vão desperdício de
esforços intelectuais, consumidos daqui por diante em pesquisas mais e mais pueris; outros, a uma
instabilidade contínua das diversas noções essenciais, por falta de marcha verdadeiramente positiva. Sob
este último aspecto, sobretudo, deve-se notar, com efeito, que os estudos sociais não são agora os únicos
a permanecerem ainda exteriores ao sistema plenamente positivo, sob o estéril domínio do espírito
teológico-metafísico; na realidade, os próprios estudos biológicos, sobretudo dinâmicos, embora estejam
academicamente constituídos, não alcançaram também até aqui, uma verdadeira positividade, pois
nenhuma doutrina capital se acha hoje neles esboçada no grau requerido, de sorte que o campo das
ilusões e das charlatanices ainda aí permanece quase indefinido. Ora, o deplorável prolongamento de
semelhante situação resulta essencialmente, em ambos os casos, do insuficiente preenchimento das
grandes condições lógicas determinadas por nossa lei enciclopédica; porque ninguém contesta mais, há
muito tempo, a necessidade de se adotar naqueles estudos a marcha positiva: mas todos lhe desconhecem
a natureza e as obrigações que só a genuína hierarquia positiva pode caracterizar. Que esperar, com
efeito, quer em relação aos fenômenos sociais, quer mesmo em relação ao estudo mais simples da vida
individual, de uma cultura que empreende diretamente especulações tão complexas, sem para tal se ter
dignamente preparado através de sã apreciação dos métodos e das doutrinas relativas aos diversos
fenômenos menos complicados e mais gerais, sem poder, portanto, suficientemente conhecer nem a
lógica indutiva, caracterizada principalmente, no estado rudimentar, pela Química, pela Física, e antes
pela Astronomia, nem mesmo a pura lógica dedutiva, ou a arte elementar do raciocínio decisivo, que só a
Matemática pode convenientemente desenvolver?
75. Para facilitar o uso habitual de nossa fórmula hierárquica, é muito conveniente, quando não se tem
necessidade de grande precisão enciclopédica, sejam os seus termos grupados dois a dois, reduzindo-a a
três pares, um inicial, matemático-astronômico, outro final, biológico-sociológico, separados e reunidos
pelo par intermediário, físico-químico. Esta feliz condensação resulta de irrecusável apreciação, pois
existe, de fato, maior afinidade natural, tanto científica como lógica, entre os dois elementos de cada par
do que entre os próprios pares consecutivos, como o confirma muitas vezes a dificuldade que se
experimenta em separar nitidamente a Matemática da Astronomia, e a Física da Química, em virtude dos
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hábitos vagos que ainda dominam todos os pensamentos de conjunto; a Biologia e a Sociologia,
sobretudo, continuam quase a ser confundidas pela maior parte dos pensadores atuais. Sem chegar nunca
até essas viciosas confusões, que alterariam radicalmente as transições enciclopédicas, será, as mais das
vezes, útil reduzir assim a hierarquia elementar das especulações reais aos três pares mencionados, cada
um dos quais poderá, aliás, ser designado brevemente pelo seu elemento mais especial, que é sempre, na
realidade, o mais característico e o mais próprio para definir as grandes fases da evolução positiva,
individual e coletiva.
3o. – Importância da lei enciclopédica
76. Esta apreciação sumária basta aqui para indicar o destino e assinalar a importância de semelhante lei
enciclopédica, onde reside, afinal, uma das duas idéias-mães, cuja íntima combinação espontânea
constitui necessariamente a base sistemática da nova filosofia geral. A terminação deste longo Discurso,
no qual o genuíno espírito positivo foi caracterizado sob todos os aspectos essenciais, aproxima-se,
assim, do seu começo, pois esta teoria da classificação deve ser encarada, em último lugar, como
naturalmente inseparável da teoria da evolução, ali exposta; de sorte que o Discurso atual forma, por si
mesmo, verdadeiro conjunto, imagem fiel, embora muito reduzida, de um vasto sistema. É fácil
compreender, com efeito, que a consideração habitual de semelhante hierarquia deve tornar-se
indispensável, quer para aplicar, de modo conveniente, nossa lei inicial dos três estados, quer para
dissipar suficientemente as únicas objeções sérias que possa comportar; porque a freqüente
simultaneidade histórica das três grandes fases mentais para com especulações diferentes, constituiria, de
qualquer outro modo, inexplicável anomalia que, ao contrário, nossa lei hierárquica, a qual se refere tanto
à sucessão quanto à dependência dos diversos estudos positivos, resolve espontaneamente. Concebe-se
igualmente em sentido inverso que a regra de classificação supõe a da evolução, pois todos os motivos
essenciais da ordem assim estabelecida resultam, no fundo, da desigual rapidez de semelhante
desenvolvimento entre as diferentes ciências fundamentais.
77. A combinação racional entre estas duas idéias-mães constitui a unidade necessária do sistema
científico, onde todas as partes concorrem cada vez mais para um mesmo fim, e assegura também, por
outro lado, a justa independência das diversas ciências principais, ainda amiúde muito alterada por
viciosas aproximações. O espírito positivo, no seu desenvolvimento preliminar, único até aqui realizado,
teve de estender-se gradualmente dos estudos inferiores aos superiores, de modo que estes ficaram
inevitavelmente expostos à opressiva invasão dos primeiros, contra o ascendente dos quais sua
indispensável originalidade não achava a princípio garantia senão no prolongamento exagerado da tutela
teológico-metafísica. Esta deplorável flutuação, muito sensível ainda na ciência dos corpos vivos,
caracteriza hoje o que contém de real, no fundo, as longas controvérsias, aliás tão vãs, sob qualquer outro
aspecto, entre o materialismo e o espiritualismo, representando, de modo provisório, sob formas
igualmente viciosas, as necessidades igualmente graves, embora infelizmente opostas até aqui da
realidade e da dignidade de quaisquer de nossas especulações. Havendo, doravante, atingido sua
madureza sistemática, o espírito positivo dissipa ao mesmo tempo essas duas ordens de aberrações,
terminando esses estéreis conflitos pela satisfação simultânea destas duas condições viciosamente
contrárias, como o indica logo nossa hierarquia científica combinada com a nossa lei da evolução, pois
cada ciência não pode atingir o verdadeiro estado positivo senão quando a originalidade do seu caráter
próprio se acha plenamente consolidada.
CONCLUSÃO
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APLICAÇÃO AO ENSINO DA ASTRONOMIA
78. Uma aplicação direta desta teoria enciclopédica, ao mesmo tempo científica e lógica, nos conduz
enfim a definir exatamente a natureza e o destino do ensino especial ao qual este Tratado é consagrado.
Resulta, com efeito, das explicações precedentes, que a principal eficácia, primeiro mental, depois social,
que devemos procurar hoje na criteriosa propagação universal dos estudos positivos depende
necessariamente da estrita observância didática da lei hierárquica. Para cada rápida iniciação individual,
como para a lenta iniciação coletiva, será sempre indispensável que, desenvolvendo seu regime, o
espírito positivo, à medida que expande seu domínio, se eleve aos poucos, do estado matemático inicial
ao estado sociológico final, percorrendo sucessivamente os quatro degraus intermediários, astronômico,
físico, químico e biológico. Nenhuma superioridade individual pode verdadeiramente dispensar desta
gradação fundamental, a respeito da qual temos sobejas ocasiões de verificar hoje, em altas inteligências,
uma irreparável lacuna, que por vezes tem neutralizado eminentes esforços filosóficos. Semelhante
marcha deve, pois, tornar-se ainda mais indispensável na educação universal, onde as especialidades têm
pouca importância, e cuja principal utilidade, mais lógica do que científica, exige essencialmente plena
racionalidade, sobretudo quando se trata de constituir enfim o verdadeiro regime mental. Assim, este
ensino popular deve referir-se principalmente ao primeiro par científico, até que se ache
convenientemente vulgarizado. É aí que todos devem, em primeiro lugar, haurir as verdadeiras noções
elementares da sua positividade geral, adquirindo os conhecimentos que servem de base a todas as outras
especulações reais. Embora esta estrita obrigação conduza forçosamente a colocar no começo os estudos
puramente matemáticos, cumpre, entretanto, considerar que não se trata ainda de estabelecer uma
sistematização direta e completa da instrução popular, mas apenas de imprimir convenientemente o
impulso filosófico que a ela deve conduzir. Desde então se reconhece com facilidade que semelhante
movimento deve depender sobretudo dos estudos astronômicos, que, por sua natureza, oferecem
necessariamente a plena manifestação do genuíno espírito matemático, do qual constituem, no fundo, o
principal destino. Há tanto menos inconvenientes atuais em caracterizar, assim, o par inicial pela
Astronomia só, quanto os conhecimentos matemáticos realmente indispensáveis à sua judiciosa
divulgação já estão bastante difundidos ou são bastante fáceis de adquirir, para que nos possamos limitar
hoje a supô-los provindos de uma preparação espontânea.
79. Esta preponderância necessária da ciência astronômica na primeira propagação sistemática da
iniciação positiva é plenamente conforme à influência histórica de tal estudo, principal motor até aqui das
grandes revoluções intelectuais. O sentimento fundamental da invariabilidade das leis naturais devia
desenvolver-se, com efeito, primeiramente em relação aos fenômenos mais simples e mais gerais, cuja
regularidade e grandeza superiores nos manifestam a única ordem real que seja por completo
independente de qualquer intervenção humana. Antes mesmo de comportar um caráter genuinamente
científico, esta classe de concepções determinou sobretudo a passagem decisiva do fetichismo ao
politeísmo, que resultou em toda parte do culto dos astros. Seu principal esboço matemático, nas escolas
de Tales e Pitágoras, constituiu em seguida a principal origem mental da decadência do politeísmo e do
ascendente do monoteísmo. Enfim o desenvolvimento sistemático da positividade moderna, que tende
abertamente para um novo regime filosófico, resultou essencialmente da grande renovação astronômica
começada por Copérnico, Kepler e Galileu. Não é, pois, muito de admirar que a universal iniciação
positiva, sobre a qual deve apoiar-se o advento direto da filosofia definitiva, dependa também
primeiramente de semelhante estudo, em virtude da conformidade necessária da educação do indivíduo
com a evolução coletiva. Este é, sem dúvida, o último ofício fundamental que lhe deva ser próprio no
desenvolvimento geral da razão humana, a qual, tendo uma vez atingido, entre todos, uma verdadeira
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positividade, deverá marchar em seguida sob um novo impulso filosófico diretamente emanado da
ciência final, desde então para sempre investida na sua presidência normal. Tal é a eminente utilidade,
não menos social do que mental, que se trata aqui de retirar enfim de judiciosa exposição popular do
sistema atual dos sãos estudos astronômicos.
NOTAS
(1) Quase todas as explicações habituais relativas aos fenômenos sociais, a maior parte das que
concernem ao homem intelectual e moral, uma grande parte de nossas teorias fisiológicas ou médicas, e
mesmo várias teorias químicas, etc., lembram ainda diretamente a estranha maneira de filosofar tão
jocosamente caracterizada por Moliere, sem nenhum grave exagero, a propósito, por exemplo, da virtude
dormitiva do ópio, de conformidade com o abalo decisivo que Descartes acabava de fazer experimentar a
todo o regime das entidades.
(2) Sobre esta apreciação geral do espírito e da marcha peculiares ao método positivo, pode-se estudar,
com muito fruto, a preciosa obra intitulada: A system of logic, rationative and inductive, recentemente
publicada em Londres (John Parker, West Strand, 1843), pelo meu eminente amigo John Stuart Mill, que
se associou assim plenamente, de ora avante, à fundação direta da nova filosofia. Os sete últimos
capítulos do tomo primeiro contêm uma admirável exposição dogmática, tão profunda quão luminosa, da
lógica indutiva, que não poderá nunca, ouso assegurá-lo, ser mais bem concebida, nem mais bem
caracterizada, desde que nos coloquemos no mesmo ponto de vista em que o autor se colocou.
(3) As constituições francesas de 1791 e 1795 (Beesly).
(4) A reação política e clerical efetuada por Bonaparte e continuada sob Luís XVIII e Carlos X (Beesly).
(5) Esta preponderância empírica do espírito de minúcia na maior parte dos cientistas atuais e sua cega
antipatia por toda e qualquer generalização acham-se muito agravadas, especialmente em França, por sua
reunião habitual em academias, onde os diversos preconceitos analíticos se fortificam mutuamente, e
onde, além disto, mui freqüentemente se desenvolvem interesses abusivos, aí se organizando uma espécie
de insurreição permanente contra o regime sintético que deve prevalecer de agora em diante. O instinto
de progresso que caracterizava, há cerca de meio século, o gênio revolucionário, havia confusamente
sentido estes perigos essenciais, de modo a determinar a supressão direta dessas companhias atrasadas,
que, convindo somente à elaboração preliminar do espírito positivo, se tornavam cada vez mais hostis à
sua sistematização final. Embora esta audaciosa medida, em geral tão mal julgada, fosse então prematura,
porque esses graves inconvenientes não podiam ainda ser assaz reconhecidos, é, contudo, certo que essas
corporações científicas já haviam realizado o principal ofício que sua natureza comportava: depois de
restaurada, sua influência real foi, no fundo, muito mais nociva do que útil à marcha atual da grande
evolução mental.
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