GRADIVA Uma fantasia pompeiana | Wilhelm Jensen

| quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Publicado originalmente em 1903, Gradiva — uma fantasia pompeiana, romance do escritor alemão Wilhelm Jensen (1837—1911), tornou-se célebre a partir do estudo que Freud lhe consagrou em 1907, Delírios e Sonhos na "Gradiva" de Jensen.

Segundo Lacan, Freud era ávido de literatura, pois ela "lhe servira para franquear a via desta idéia do inconsciente" e, com efeito, diante do romance de Jensen, ele se encontra face a uma obra que lhe permite estabelecer, mais uma vez, um paralelismo, que lhe era tão caro, entre o procedimento arqueológico e o método psicanalítico: Gradiva narra a estória de um jovem arqueólogo e de seu tortuoso reencontro com uma musa de sua infância.





Tradução: Ângela Melim


Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro



Copyright © 1987 da tradução: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031 Rio de Janeiro, RJ

Todos os direitos reservados.
A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988).

Produção editorial
Revisão: Cláudio Estrella (copy); Andréa Rodrigues, Nair Dametto, Nanei Ribeiro (tip.);
Diagramação: Celso Bivar;
Composição e Arte-final: Linolivro
Composições Gráficas Ltda.;
Arte-final de capa: António Sampaio;
Impressão: Gráfica Pertinho Cavalcanti Ltda.
ISBN: 85-85061-80-4


COLEÇÃO: TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE
Diretores: Marco António Coutinho Jorge Octavio de Souza

Psicanálise - uma ciência?
Questão desde sempre respondida pela afirmativa, encontra sua problematização no ensino de Jacques Lacan. Se a transmissibilidade na ciência pode ser formulada através de indicações técnicas intersubjetivamente testáveis, o particular do caso a caso da clínica psicanalítica derroga de saída a viabilidade do projeto.
Um transmissível que considere a perda de verdade inerente à instalação do saber é o que requer do psicanalista a reinvenção perene da própria psicanálise.
Prática de enunciação, cuja teoria - produzida a partir da ignorância que aflige o ser falante face às questões cruciais da morte, do sexo, do nascimento e da loucura, ganha cidadania junto aos enunciados científicos.
É o testemunho desta intrusão virulenta do sujeito nos pressupostos objetivantes da ciência que a coleção Transmissão da Psicanálise quer trazer ao leitor.




GRADIVA
uma fantasia pompeiana

Publicado originalmente em 1903, Gradiva — uma fantasia pompeiana, romance do escritor alemão Wilhelm Jensen (1837—1911), tornou-se célebre a partir do estudo que Freud lhe consagrou em 1907, Delírios e Sonhos na "Gradiva" de Jensen.

Segundo Lacan, Freud era ávido de literatura, pois ela "lhe servira para franquear a via desta idéia do inconsciente" e, com efeito, diante do romance de Jensen, ele se encontra face a uma obra que lhe permite estabelecer, mais uma vez, um paralelismo, que lhe era tão caro, entre o procedimento arqueológico e o método psicanalítico: Gradiva narra a estória de um jovem arqueólogo e de seu tortuoso reencontro com uma musa de sua infância.

A figura de Gradiva tornou-se, além disso, uma espécie de musa dos surrealistas (sempre atentos aos trabalhos de Freud), que em sua imagem mítica aglutinaram as imagens da mulher enquanto ideal. Foi pintada por Salvador Dali (que chamava sua mulher de Gala Gradiva), por André Masson, e tornou-se o nome de uma galeria surrealista inaugurada por André Breton em Paris, em 1937. Em seu ensaio Gradiva, Breton atribuiu a ela o epíteto "aquela que avança", originalmente adscrito ao deus da guerra Mars Gradivus.



PRÓLOGO A Prática Freudiana
Marco António Coutinho Jorge
Psicanalista Membro do Colégio Freudiano do Rio de janeiro


Publica-se aqui pela primeira vez em nossa língua o romance Gradiva — uma fantasia pompeiana do escritor alemão Wilhelm Jensen (1837-1911). Publicado originalmente em 1903, Gradiva tornou-se célebre a partir do estudo que Freud lhe consagrou em 1907, Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen. (1)

Sendo a primeira análise sistemática de uma obra literária que empreendeu — a outra é seu estudo sobre as Memórias de um doente dos nervos, (2) de Daniel Paul Schreber —, o trabalho de Freud sobre Gradiva ocupa um lugar particular em sua obra, o qual se tentará aqui apenas indicar.

A importância que Freud atribuía à literatura é salientada por Lacan que observa, numa entrevista com estudantes da Universidade de Yale, que Freud era ávido de literatura, pois ela “lhe servira para franquear a via desta idéia do inconsciente”. (3) Para exemplificar a legitimidade de tal avidez, basta simplesmente que se reconheça o lugar nuclear do mito edipiano, tomado emprestado à tragédia de Sófocles, na elaboração freudiana.

Considerando-se que a obra monumental de Freud se encadeia através de passos exercidos em múltiplas direções, para situar Gradiva no conjunto de seus escritos cabe a pergunta: qual o passo que

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Freud dá com esse texto? A resposta para tal questão, e sobretudo em se tratando de Freud, não é certamente unívoca, e variadas foram as tentativas de situar Gradiva em sua obra.

James Strachey, editor inglês da Edição Standard das Obras Completas de Freud, ressalta o fascínio sempre exercido sobre este pela arqueologia, em geral, e por Pompéia, em particular, fascínio exercido pela "analogia existente entre o destino histórico de Pompéia (o soterramento e a posterior escavação) e os eventos mentais que lhe eram tão familiares: o soterramento pelo recalcamento e a escavação pela análise".(4)

Com efeito, em muitas passagens, Freud estabelece um verdadeiro paralelismo existente entre o procedimento do arqueólogo e o método psicanalítico. Assim é que num dos derradeiros ensaios que escreveu, Construções em análise, Freud se vale dessa comparação. Afirma ele aí que o trabalho de construção do analista, "ou, se se preferir, de reconstrução, assemelha-se muito à escavação, feita por um arqueólogo, de alguma morada que foi destruída e soterrada, ou de algum antigo edifício".(5)

No entanto, se os dois processos são idênticos, Freud ressalta uma diferença fundamental que os distingue, o fato de que aquilo com que o analista trabalha "não é algo destruído, mas algo que ainda está vivo".(6) Se por um lado o analista "trabalha em condições mais favoráveis do que o arqueólogo, já que dispõe de material que não pode ter correspondente nas escavações, tal como as repetições de reações que datam da tenra infância e tudo o que é indicado pela transferência em conexão com essas repetições",(7) isso significa que ele se defronta "regularmente com uma situação que, com o objeto arqueológico, ocorre apenas em circunstâncias raras, tais como as de Pompéia

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ou da tumba de Tutancâmon. Todos os elementos essenciais estão preservados; mesmo coisas que parecem completamente esquecidas estão presentes, de alguma maneira e em algum lugar, e simplesmente foram enterradas e tornadas inacessíveis ao indivíduo. Na verdade, como sabemos, é possível duvidar de que alguma estrutura psíquica possa realmente ser vítima da destruição total. Depende exclusivamente do trabalho analítico obtermos sucesso em trazer à luz o que está completamente oculto".(8)

O fato decisivo, revelado pela experiência psicanalítica, de que nada é destruído no psiquismo — tudo nele sendo preservado, e o esquecimento não implicando de modo algum no total desaparecimento, mas sendo, antes disso, efeito da ação do recalcamento que a análise visa suplantar — é o que impõe, pois, a Freud, os limites desta comparação entre a arqueologia e a psicanálise.

Freud já tematizara este problema amplamente em O mal-estar na civilização, onde ele afirma: "No domínio da mente, por sua vez, o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado, ao lado da versão transformada que dele surgiu, que se faz desnecessário fornecer exemplos como prova".(9) Procedendo ainda aí a uma comparação com os achados arqueológicos, e partindo da questão sobre o que teria restado na Roma atual da Roma Antiga para abordar o esquecimento de que se trata no processo do recalcamento, Freud postula que "só na mente é possível a preservação de todas as etapas anteriores, lado a lado com a forma final (...)".(10)

Vê-se, assim, o relevo dado por Freud à analogia da psicanálise com a arqueologia. E, ao ter, segundo Ernest Jones, sua atenção chamada por Jung para a obra de Jensen, Freud vai se deparar precisamente

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com a história de um arqueólogo cujo "esquecimento das mulheres", por assim dizer, obterá sua cura exatamente em Pompéia!

Voltemos, então, à pergunta que formulamos de início, para dizer que com seu trabalho sobre Gradiva Freud dá mais um lance em seu projeto de dimensionar amplamente o espectro de ação de sua teoria do inconsciente, a qual ele quis, desde seus primórdios — veja-se apenas, a esse respeito, sua Psicopatologia da vida cotidiana, obra cujo título é um violento escândalo para a tradicional oposição clínica entre o normal e o patológico —, situar mais além do contexto restrito da prática clínica com neuróticos.

Trata-se nesse ponto precisamente da extensão da intervenção da psicanálise, de que falará Lacan em sua Proposição de 9 de outubro de 1967", referência que tem sido retomada entre nós de modo mais vigoroso pelo ensino de M. D. Magno, ao tratar do que denomina de prática freudiana: "A prática freudiana transcende os limites da chamada relação analítica. A prática freudiana inclui não apenas a prática analítica enquanto tal, como também a incidência e a interferência do discurso psicanalítico nos mais diversos campos do saber".(12)

Ao considerar Gradiva como "um estudo psiquiátrico",(13) Freud afirma que se trata nesta obra de "um caso clínico e [da] história de uma cura que parecem concebidos para ressaltar determinadas teorias fundamentais da psicologia médica".(14) Ê nessa medida que Lacan afirma que Freud via "na arte uma espécie de testemunho do inconsciente" (15) em seu trabalho sobre Gradiva, Freud se encontra precisamente diante da possibilidade de demonstrar sua teoria do inconsciente ilustrando-a com a limpidez da qual é capaz uma narrativa poética. Tratava-se aqui

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para Freud, mais uma vez, de recolher os achados do escritor e do poeta, achados cuja emergência na obra é tornada possível pela especial aptidão do artista para se deixar perpassar pelos elementos que, estruturados como uma linguagem — como sabemos a partir de Lacan —, apontam para o inconsciente, para a Outra Cena.

São tais elementos que desejamos com esta publicação trazer ao leitor brasileiro, em geral, e ao psicanalista, em particular.

Rio de Janeiro, novembro de 1986

NOTAS:

1. .Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Rio, Imago, 1976, vol IX, pp. 13-98.
2. Schreber, D. P., Memórias de um doente dos nervos, Rio, Graal, 1985.
3. Lacan, J., "Conférences et entretiens dans dês universités nord-américaines", Scilicet 6/7, Paris, Seuil, 1976, p. 33.
4. Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, op. cit., Nota do editor inglês, pp. 14-15.
5. Freud, S., Construções em análise, Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Rio, Imago, 1975, vol. XXIII, p. 293.
6. Freud, S., Construções em análise, op. cit., p. 293.
7. Freud, S., Construções em análise, op. cit., pp. 293-294.
8. Freud, S., Construções em análise, op. cit., p. 294.
9. Freud, S., O mal-estar na civilização, Edição Standard Brasi¬leira das Obras Completas, Rio, Imago, 1974, vol. XXI, p. 86.
10. Freud, S., O mal-estar na civilização, op. cit., p. 89.
íl. Lacan, J., "Proposition du 9 octobre 1967 sur lê psychanaliste
de 1'École", Scilicet l, Paris, Seuil, 1968, pp. 14-30.
12. Magno, M. D., "Alguns apontamentos sobre a garantia e o passe", Revisão l, Rio, Aoutra, p. 161.
13. Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, op. cit., p. 48.
14. Freud, S., Delírios e sonhos na "Gradiva" de Jensen, op. cit., p. 50.
15. Lacan, J., "Conférences et entretiens dans dês universités nord-américaines", op. cit., p. 21.



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Ao visitar uma das grandes coleções romanas de antiguidades, Norbert Hanold descobrira um baixo-relevo que o impressionara excepcionalmente. Alegrou-se de poder encontrar, na volta à Alemanha, uma excelente cópia dele. Alguns anos depois, esta se encontrava em lugar privilegiado em seu gabinete de trabalho, cujas paredes estavam quase que inteiramente revestidas de prateleiras cobertas de livros; a luz caía diretamente sobre o relevo, e o sol poente o iluminava durante alguns instantes. A escultura representava, de pé, uma mulher caminhando, mais ou menos num terço do seu tamanho natural. Ela era jovem, não criança e, evidentemente, ainda não mulher, porém uma virgem romana de cerca de vinte anos. Em nada lembrava os baixos-relevos tão freqüentes de Vênus, de Diana, ou de alguma outra divindade do Olimpo, nem Psique ou outra Ninfa. Havia nela alguma coisa da humanidade contemporânea — expressão que não é tomada num sentido desfavorável — atual, de algum modo, como se o artista, ao invés de lançar, como teria feito hoje, um croquis sobre uma folha de papel, tivesse esboçado um modelo de argila, na rua, passando rapidamente ao lado da própria vida. O corpo era grande e esbelto, os cabelos frouxamente ondulados e quase que




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completamente cobertos por um xale. O rosto, um pouco pequeno, não tinha fascínio especial, mas era evidente que não buscava tal efeito. Seus traços finos exprimiam uma tranqüila indiferença em relação aos acontecimentos externos, o olho, que olhava reto para frente, testemunhava uma visão excelente e intacta, e de um voltar-se pacífico dos pensamentos para si mesmo. Essa jovem mulher, que não atraía pela beleza de suas formas, possuía, no entanto, uma coisa rara nas esculturas da antiguidade, o encanto simples e natural de uma moça, encanto que parecia ser a inspiração de sua própria vida. Ele se devia, sem dúvida, à postura em que ela era representada. Com a cabeça ligeiramente inclinada, tinha recolhida na mão esquerda uma parte do vestido extraordinariamente pregueado, que lhe caía da nuca aos calcanhares, e descobria assim seus pés nas sandálias. O pé esquerdo estava à frente, e o direito, disposto a segui-lo, só tocava o chão com a ponta dos artelhos, enquanto que a planta e o calcanhar elevavam-se quase verticalmente. Esse movimento exprimia ao mesmo tempo a leveza ágil de uma jovem caminhando e um repouso seguro de si, o que lhe dava, ao combinar uma espécie de vôo suspenso com um andar firme, aquele encanto particular.

De onde ela vinha? Para onde ia? O doutor Norbert Hanold, professor de arqueologia, não encontrava, na verdade, do ponto de vista da ciência que ensinava, nada de particularmente notável naquele baixo-relevo. Não era uma escultura da época áurea, mas antes um tableau de genre ao gosto romano, e ele não conseguia explicar a si mesmo o que é que tinha chamado tanto a sua atenção; mas alguma coisa o havia atraído e ele ficou, desde o primeiro momento, com aquela impressão. Para designar a escultura, lhe tinha dado o nome, para si

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mesmo, de Gradiva, aquela que avança. Esse prenome, que os poetas antigos reservam para Mars Gradivus, para o deus da guerra que vai à batalha, parecia a Norbert, entretanto, o mais característico do movimento da jovem, ou, empregando uma expressão contemporânea, da jovem dama, pois ela evidentemente não era de origem da classe inferior, mas filha de um nobre, pelo menos de um honesto loco ortus. Talvez, como sua aparência o sugerisse involuntariamente, fosse filha de um magistrado patrício que desempenhava suas funções sob os auspícios de Ceres, e ia-se ela, para uma atividade qualquer, rumo ao templo da Deusa.

Mas o jovem arqueólogo não conseguia imaginá-la no contexto de Roma, aquela grande cidade cheia de barulho. Aquela postura, aquele andamento calmo e plácido, pareciam-lhe pertencer não àquela agitação múltipla onde ninguém presta atenção no outro, mas a uma pequena aldeia, onde todos a conheceriam, onde todos parariam para dizer ao acompanhante: é Gradiva (não conseguia pôr aqui seu verdadeiro nome), a filha de... Ela tem o andar mais bonito entre todas as moças da nossa cidade.

Estas palavras se tinham fixado em seu espírito, como se de fato as tivesse escutado e tinham transformado uma hipótese numa quase convicção. Na ocasião de sua viagem à Itália, ele ficou algumas semanas em Pompéia, para estudar as ruínas e, de volta à Alemanha, de repente lhe pareceu, um dia, que a mulher representada no baixo-relevo caminhava sobre as lajes que foram descobertas, e que estavam dispostas especialmente para os pedestres. Elas permitiam que se atravessasse a rua com os pés secos, em tempo de chuva, ainda assim deixando um intervalo para as rodas dos carros. Ele a via passando um dos pés por sobre o intervalo que separa duas pe-

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dras, enquanto que o outro se dispunha a segui-lo. Ao mesmo tempo em que ele contemplava a menina andando, tudo aquilo que o cercava, perto ou longe, se projetava na realidade diante de sua imaginação. Graças a seu conhecimento de antiguidades, aquela mulher fazia nascer nele a visão de uma rua comprida, estendendo-se entre duas fileiras de casas a que se misturavam os numerosos edifícios dos templos e dos pórticos. O comércio e a indústria mostravam tabernae offidnae cauponae, butiques, ateliês e tavernas. Os padeiros exibiam seus pães, as ânforas de argila afundadas em mesas de mármore ofereciam todo o tipo de coisa útil para o lar e a cozinha; num canto de rua, uma mulher sentada oferecia aos compradores legumes e frutas em cestos. Tinha tirado a casca de meia dúzia de grandes nozes para atrair os fregueses, mostrando que o interior de seus frutos era irrepreensível e fresco. Em toda parte onde a vista pousava, descobria cores vivas: as muralhas alegremente coloridas, as colunas com capitéis vermelhos e amarelos, tons deslumbrantes e resplandecentes sob o esplendor do sol de meio-dia. Mais adiante, sobre um pedestal elevado, erguia-se uma estátua de uma brancura gritante que, através das brumas de calor que faziam tremer o ar, parecia contemplar o Vesúvio, que ainda não tinha a forma de cone acastanhado e solitário que tem hoje, mas estava recoberto, até o pico rude e despojado, por uma vegetação de um verde ofuscante. Pela rua não passava ninguém além de jovens que procuravam sombra. O calor estival do meio-dia paralisava o tráfego em outras horas tão intenso. No meio de tudo isso, Gradiva caminhava pelas lajes espaçadas, fazendo fugir um lagarto verde e ouro.

Era assim que aquilo tudo revivia diante dos olhos de Norbert Hanold; entretanto, a contempla-

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cão diária daquele rosto havia feito nascer nele uma outra hipótese. O ar geral de seus traços lhe parecia ser, cada vez mais, não de raça latina ou romana, mas grega. E pouco a pouco ele adquiria a certeza dessa origem helênica. A antiga colonização do sul da Itália pela Grécia lhe fornecia uma série de motivos suficientes, e ele daí deduzia uma nova série de agradáveis suposições. A jovem domina talvez tivesse falado grego em casa e fosse educada, nutrida, pela educação grega. E seu rosto, bem examinado, o confirmava, pois sob a sua modéstia se ocultava, sem dúvida, prudência e uma inteligência fina e cheia de espírito.

Essas suposições e essas descobertas não podiam, no entanto, bastar para motivar um real interesse arqueológico por aquela pequena escultura, e Norbert reconhecia que era outra coisa completamente diferente, à margem da ciência que ele ensinava, que o levava a se ocupar dela com tanta freqüência. Tratava-se, para ele, de chegar a um juízo crítico: o andar de Gradiva, tal como o havia reproduzido o artista, estava de acordo com a vida real?

Mas não conseguia tirar a limpo essa questão, e sua rica coleção de obras de arte da antiguidade, nesse assunto, não lhe trazia auxílio algum. A posição quase vertical do pé direito lhe parecia exagerada. Toda vez que ele próprio fazia essa experiência, o pé que ficava atrás durante seu movimento encontrava-se sempre em posição menos vertical; formulando matematicamente, durante o breve instante em que o pé permanecia no lugar, o seu só fazia, em relação ao chão, um semi-ângulo reto, o que lhe parecia ao mesmo tempo mais natural e mais apropriado ao mecanismo do andar. Ele chegou a se aproveitar, uma vez, da presença de um jovem anatomista amigo seu, para lhe colocar a questão, mas este também foi

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incapaz de resolvê-la definitivamente, porque nunca tinha feito observações sobre o tema. Repetida a experiência, o amigo chegou ao mesmo resultado, mas acrescentou que não saberia dizer se o andar feminino se distinguia do masculino, e a questão não foi solucionada.

Apesar disso, essa discussão não foi infrutífera, na verdade levou Norbert Hanold a uma coisa que ainda não lhe tinha ocorrido: decidir fazer ele próprio observações junto à natureza, a fim de esclarecer o caso. Mas isso o obrigava a uma ação que lhe era totalmente estranha. O sexo feminino não existia até aqui para ele, a não ser nas espécies do bronze ou do mármore, e ele nunca tinha dado a menor atenção a suas representantes contemporâneas. Mas seu desejo de conhecer lhe inspirava um tal ardor científico que ele se entregou a essa observação específica, reconhecida como indispensável. Numerosas dificuldades se interpunham na multidão da grande cidade e não o faziam esperar resultado, a não ser indo às ruas pouco freqüentadas. Aí também, na maior parte dos casos, os vestidos longos tornavam o empreendimento completamente impossível, ainda mais porque somente as domésticas tinham saias curtas e os sapatos grosseiros que elas usavam, na maioria, não permitiam que entrassem em consideração para a solução do problema. Entretanto, ele continuou com perseverança suas observações, em tempo seco assim como em tempo úmido. Percebeu que este último lhe era mais propício, pois obrigava as damas a levantar a barra das saias. O modo como ele examinava os pés delas devia inevitavelmente desagradar algumas mulheres; às vezes, a fisionomia contrariada de uma das que ele assim olhava mostrava que se tomava o seu comportamento como uma audácia ou uma grosseria; às vezes também, sendo Norbert um moço

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de aspecto bastante sedutor, uma espécie de encorajamento se lia em alguns olhos; mas ele não compreendia o sentido desses olhares. Pouco a pouco, sua perseverança ia sendo recompensada. Colecionava um número considerável de observações e encontrava entre elas numerosas diferenças. A maioria das mulheres deixava escorregar a planta do pé quase sobre o chão, e havia poucas que a erguiam obliquamente numa posição mais graciosa. Mas nenhuma delas tinha o andar de Gradiva, o que o satisfez bastante: ele não se tinha enganado em seu exame do baixo-relevo, do ponto de vista arqueológico. Mas, suas observações o contrariaram, porque ele achava bonita a posição vertical do pé suspenso e lamentava que ela apenas tivesse sido obra da imaginação e da vontade do escultor e não correspondesse à realidade.

Pouco tempo depois de suas observações do pé feminino o terem levado a essa conclusão, ele teve, uma noite, um sonho horroroso e aterrador. Estava na antiga Pompéia, precisamente no dia 24 de agosto de 79, o ano da terrível erupção do Vesúvio. O céu envolvia a cidade, destinada à destruição, com um sombrio manto de fumaça. As chamas ardentes da cratera apenas permitiam que se percebesse qualquer objeto numa luz vermelho-sangue; todos os habitantes, presas de um terror desconhecido, apavorados, buscavam salvação na fuga, sozinhos ou em grupos confusos. Os lapilli e a chuva de cinza se abatiam em torno de Norbert, mas como acontece milagrosamente nos sonhos, ele não era atingido e, do mesmo modo, sentia no ar a fumaça mortal do enxofre, sem ser por isso impedido de respirar. Ele se encontrava na orla do Fórum, perto do templo de Júpiter, quando de repente percebe Gradiva à sua frente, a pouca distância. Até esse momento, o pensamento de que

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ela pudesse estar presente nem sequer lhe tinha aflorado, agora, essa idéia surgia e lhe parecia completamente natural! Gradiva era pompeiana, morava em sua cidade natal e, com toda certeza, na mesma época que ele. Ele a reconhecia ao primeiro olhar, a visão que tinha dela era perfeitamente exata, até o mínimo detalhe, mesmo o seu andar, que ele designava com a expressão lente festinans. Ela atravessava assim, com o seu andar macio e tranqüilo, o lajeado do Fórum e se dirigia ao templo de Apolo, em tranqüila indiferença para com tudo o que a cercava, indiferença que lhe era característica. Parecia que ela não se apercebia do destino que se abatia sobre a cidade, absorvida unicamente em seus pensamentos; ele o esquecia também, pelo menos por alguns momentos, o terrível acontecimento, e procurava, ao pensamento de que a viva realidade da moça fosse desaparecer em breve, gravar o mais profundamente possível a sua imagem na memória. Mas a todo momento lhe vinha à mente que se ela não fugisse rapidamente, tornar-se-ia vítima da catástrofe geral, e um terror violento arrancou dele um grito de aviso. Ela o ouviu, pois voltou a cabeça em sua direção, de tal modo que ele viu o rosto um tanto de lado, mas expressando uma incompreensão total; sem mais prestar atenção, ela retomou o caminho no mesmo rumo anterior. Seu rosto descoloriu-se como se ela se tivesse transformado em mármore; ela continuou ainda seu caminho até o pórtico do templo, mas, aí chegando, sentou-se entre as colunas, sobre um degrau onde lentamente encostou a cabeça. Agora, os lapilli caíam em tal número que se pareciam com uma cortina completamente opaca. Apressando-se na direção dela, ele encontrou o caminho do local onde ela havia desaparecido de sua vista, e lá estava ela deitada, sobre o grande degrau, protegida pela sa-

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liência do telhado. Parecia dormir, estendida, mas não respirava mais; os vapores do enxofre evidentemente a tinham sufocado.

Vindo do Vesúvio, um reflexo vermelho pairava sobre seu rosto que, as pálpebras fechadas, em tudo se assemelhava ao de uma bela escultura. Seus traços não eram perturbados nem pelo medo, nem por qualquer contorção: exprimiam uma calma sobrenatural que se resignava com tranqüilidade com o irreversível. Mas eles logo tornaram-se mais indistintos, porque agora o vento ali levava a chuva de cinza, que se estendia sobre eles como um véu de gaze cinzenta para em seguida fazer desaparecerem os últimos vestígios do rosto, e que terminava, como uma tempestade de neve nas regiões do norte, por cobrir todo o corpo com um manto uniforme. De ambos os lados erguiam-se as colunas do templo de Apolo, mas a chuva de cinza que rapidamente se acumulava perto delas logo as envolveu até à metade.

Quando o doutor Norbert Hanold despertou, ainda tinha nos ouvidos os gritos perturbados dos habitantes de Pompéia e o zunido surdo das vagas do mar agitado se despedaçando. Em seguida, retomou a consciência; o sol lançava sobre sua cama uma brilhante faixa dourada. Era uma manhã de abril e o barulho múltiplo da cidade grande, os gritos dos comerciantes e o ruído dos carros subiam até o andar em que ele morava. Apesar de tudo, o quadro do sonho, com todos os detalhes, ainda se encontrava diante de seus olhos abertos, e da forma mais nítida. Foi preciso algum tempo para que pudesse libertar os sentidos de um semitorpor e se desse conta de que, na realidade, não tinha participado na noite anterior da catástrofe ocorrida cerca de dois mil anos antes no golfo de Nápoles. Um pouco antes de se vestir, ele havia se livrado mais ou menos da obses-

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são, mas não conseguia, fazendo uso da razão, evitar a idéia de que Gradiva tinha vivido em Pompéia e lá fora sepultada no ano de 79. Sua primeira hipótese se transformava, ao contrário, em convicção, e esta se unia aos precedentes. Ele olhava melancolicamente, na parede do quarto, o antigo baixo-relevo, que tinha ganhado para ele uma nova importância. Era, em certa medida, um monumento funerário, no qual o artista havia conservado para a posteridade a imagem da mulher que tinha deixado a existência numa idade tão jovem. Mas quando a olhava com o espírito bem desperto, a expressão de toda sua atitude não deixava nenhuma dúvida: de fato ela tinha se deitado, na noite fatal, para morrer, com uma calma semelhante à que demonstrara no sonho. De acordo com o antigo provérbio, os favoritos dos deuses são aqueles que eles fazem com que deixem a terra na flor da idade.

Norbert, vestido ainda com o roupão leve da manhã, de chinelos, estava de pé diante da janela aberta e olhava para fora. A primavera, afinal chegada às regiões do norte, estendia-se lá fora, não se manifestando, na grande cidade de pedra, a não ser pela leveza do ar e o azul do céu, mas um prenúncio avisava os sentidos, despertava a necessidade de lonjuras radiantes, de verdura, de folhas, de perfume do campo e de canto de passarinhos. O reflexo dela chegava até aqui. As mulheres do mercado, na rua, tinham enfeitado suas cestas com flores do prado e, numa janela entreaberta, um canário fazia ressoar seus cantos. O pobre rapaz se emocionara; ele adivinhava por trás dos gritos claros do pássaro, apesar de seu tom de triunfo, o desejo ardente da liberdade, do ar puro e das distâncias.

Mas os pensamentos do jovem arqueólogo não estacionaram aí senão por um pequeno espaço de

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tempo: outra coisa os solicitava. Ele percebia agora apenas que não tinha notado, em particular, se Gradiva, viva, andava assim como a representava o baixo-relevo e, pelo menos, se andava de modo diferente das mulheres de hoje. Isso era bem surpreendente, já que era a origem do interesse científico que ele tinha pelo baixo-relevo, mas se explicava, por outro lado, pela emoção que sentira diante do perigo de morte que a ameaçava.

Nesse momento, alguma coisa o tocou bruscamente e, na hora, ele não pôde discernir de onde vinha o choque. Mas logo reconheceu a origem. Embaixo, na rua, de costas para ele, andava num passo largo uma mulher, uma jovem dama, a julgar por seu aspecto e vestuário. Na mão esquerda segurava a saia ligeiramente suspensa, que só lhe chegava aos calcanhares, e ele teve de repente a impressão de que, durante o caminhar, a planta daquele pé fino que havia ficado para trás erguia-se verticalmente durante um breve instante, a ponta roçando a superfície do solo; parecia, pelo menos, que era assim, pois a olhando de tão alto e de uma tal distância, não podia ter certeza.

De repente, Norbert Hanold se encontrava na rua, sem saber bem como chegara ali. Tinha se precipitado como um menino desliza pelo corrimão para descer a escada, e corria entre as charretes, os carros e os passantes. Estes últimos o olhavam com espanto e alguns deixavam escapar exclamações meio debochadas, meio engraçadas. Ele nem procurava saber que era com ele que falavam, buscava a jovem com o olhar e pensou distinguir o vestido dela a algumas dúzias de passos, mas não pôde perceber que a parte superior, a metade inferior e os pés estavam ocultos pela multidão apressada na calçada. Nesse momento, uma velha vendedora de legumes,

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obesa, puxou-o pela manga e, fazendo-o parar, disse-lhe, meio rindo:

— Diga, filhinho, encheu a cara esta noite e agora está procurando a cama na rua. Faria melhor se voltasse para casa e se olhasse no espelho.

O riso que estourou à sua volta lhe confirmou que não estava em trajes dignos de se apresentar em público e o convenceu de que tinha se dirigido para fora do quarto sem considerações. Isso o atemorizou, porque se preocupava com a aparência e, abandonando seus projetos, voltou rapidamente para o apartamento. Os sentidos perturbados pelo sonho eram ainda, evidentemente, joguete de falsas aparências, pois a última coisa que ele notou foi que os risos e gritos por um instante fizeram a jovem voltar a cabeça e ele jurava ter visto, não um rosto desconhecido, mas aquele mesmo que Gradiva mostrara quando o tinha olhado no sonho.




O doutor Norbert Hanold encontrava-se na agradável situação de, estando à frente de uma fortuna considerável, ser dono soberano de seus feitos e gestos, e se algum gosto se revelava nele, não tinha necessidade de que fosse aprovado por nenhuma outra autoridade além de si mesmo. Nisso se distinguia muito favoravelmente do canário, que só podia exprimir em vão, através de seus gritos, sua necessidade natural de deixar a gaiola pelas alturas ensolaradas; no entanto, não deixava de compartilhar semelhanças com

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o pássaro. Com efeito, o jovem arqueólogo não tinha nascido na liberdade da natureza nem tinha sido criado nela, mas ao contrário, desde seu nascimento tinha sido fechado pelas grades da gaiola com a qual o cercara a tradição familiar, a boa educação e as disposições elaboradas pelos outros em relação a ele. Desde a tenra infância, não havia dúvida, na casa de seus pais, enquanto filho único de um professor de universidade que tinha feito descobertas relativas à antiguidade, tinha sido destinado a conservar, e se possível aumentar, o lustro do nome de seu pai, seguindo o mesmo caminho, e via a sucessão nessa carreira como tarefa evidente para o seu futuro. Tendo ficado só após a morte dos pais, ateve-se fielmente a essa idéia; fez a viagem obrigatória à Itália depois de passar por excelentes exames de filologia e abundantemente contemplar os originais das obras-primas da escultura antiga, das quais até então tinha visto apenas reproduções. Em nenhum outro lugar poderia encontrar algo mais instrutivo que as coleções de Roma, Nápoles e Florença, e podia felicitar-se por ter utilizado o tempo de sua estada tirando o maior proveito para a sua ciência. Voltou ao seu país inteiramente satisfeito, para mergulhar nos estudos com as novas aquisições. Não lhe ocorria senão vagamente que afora os objetos que testemunhavam um passado longínquo, pudesse existir um presente em torno dele. O mármore e o bronze não eram para ele matérias mortas, mas a única coisa realmente viva, a que exprimia o valor e a razão de ser da existência humana. Assim ele se mantinha entre suas paredes cobertas de livros e de quadros, sem necessidade de qualquer relacionamento com os outros homens, pelo contrário, evitando-os, como se constituíssem uma pura perda de tempo, resignando-se, no máximo, contra a sua vontade, ao tributo inevi-

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tável de algumas obrigações mundanas, às quais era constrangido pelas antigas relações de sua família. Mas se sabia que ele freqüentava esse tipo de reunião sem ver e sem ouvir o que se passava à sua volta, que ele ia embora a qualquer pretexto, logo depois do almoço ou do jantar, se fosse possível, e que jamais cumprimentava na rua uma pessoa que tivesse estado à mesma mesa com ele. Tudo isso não permitia que ele fosse visto sob prisma muito favorável, sobretudo pelas jovens mulheres, pois se acontecia de encontrar-se com uma delas, mesmo que, por exceção, tivesse trocado com ela algumas palavras, ele a olhava como uma estranha figura desconhecida e não a cumprimentava.

Sendo a própria arqueologia uma ciência um tanto bizarra, ao aliar-se com o comportamento de Norbert Hanold produzira uma curiosa mistura e não lhe granjeou grande simpatia da parte dos outros, coisa que em nada lhe havia ajudado a usufruir da existência, hábito tão próprio da juventude. Mas, por uma espécie de vigilante atenção, a natureza lhe tinha posto no sangue, como uma compensação e como, de certa forma, um corretivo de tipo completamente oposto à ciência, uma imaginação muito viva, e que se expressava nele não só em sonho, mas muitas vezes em estado de vigília, o que, na realidade, não predestinava particularmente o seu espírito a um método grave e severo de meditação. Esse dom era outro ponto de semelhança em relação ao canário. Aquele canário, na realidade, se encontrava no cativeiro e jamais tinha conhecido outra coisa além da gaiola que o aprisionava, mas levava consigo, apesar disso, o sentimento de que alguma coisa lhe faltava e exprimia essa necessidade do desconhecido por meio da garganta. Também Norbert Hanold compreendia aquele pássaro e, de volta a seu quarto, outra vez se

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condoía dele, acudindo de novo à janela. Era ao mesmo tempo afetado pelo sentimento de que também a ele faltava qualquer coisa, sem que pudesse dizer com certeza o que era: meditar sobre este último ponto de nada lhe servia; o ar leve da primavera, os raios do sol, o espaço perfumado lhe punham no espírito um sentimento vago e o conduziam à comparação — também ele se encontrava entre as grades de uma gaiola. Mas logo lhe veio à mente uma idéia que o consolou, que sua situação era infinitamente melhor que a do canário, pois possuía asas que nada impedia de voarem rumo à liberdade quando tivesse vontade.

Poder-se-ia, entretanto, meditar mais tempo sobre essa idéia. Norbert se dedicava a ela por instantes, mas não ia além do tempo necessário a se decidir a fazer uma viagem naquela primavera. Intenção que pôs em execução no mesmo dia. Fez uma mala pequena e, no início da noite, deitava um último olhar de pena sobre a Gradiva que, iluminada pelos últimos raios do sol, parecia andar mais levemente que nunca sobre as lajes invisíveis. Tomou o trem noturno para o Midi. Embora tivesse sido empurrado para essa viagem por um sentimento indefinível, a reflexão posterior lhe sugeriu que o deslocamento devia servir a fins científicos. Notou que tinha esquecido de decifrar importantes questões relativas a estátuas preservadas em Roma, e foi para lá que rumou diretamente, sem parar no caminho, fazendo uma viagem de um dia e meio.



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Pouca gente tem a experiência de, sendo jovem, rica e independente, ir da Alemanha à Itália, pois as pessoas que possuem esses três privilégios nem sempre têm acesso ao sentimento de tal beleza. Principalmente porque tais pessoas, e infelizmente é o que ocorre na maioria dos casos, fazem essa viagem a dois durante os dias e as semanas que se seguem a seus casamentos; elas não permitem que nada passe por seus olhos sem expressar seu contentamento através de inúmeros epítetos superlativos, mas, no final das contas, nada trazem de volta além do que poderiam ter descoberto, sentido e saboreado se tivessem ficado em casa. Esses casais têm o hábito de voar por sobre os Alpes na direção contrária à dos pássaros migradores.

Norbert Hanold foi, durante a viagem, cercado de adejos e arrulhos, como se se encontrasse num pombal ambulante, e foi assim, pela primeira vez na vida, obrigado a prestar atenção, com o olho e o ouvido, nas criaturas humanas que o cercavam. Embora essas pessoas fossem em sua maioria, a julgar pela língua que falavam, alemães, compatriotas seus, ele não sentia nenhum orgulho pelo fato de eles pertencerem à sua raça, mas experimentava, antes, o sentimento contrário pois, com razão, até aqui ele não tinha tentado pensar no Homo Sapiens — segundo a classificação de Lineu — a não ser o mínimo possível. Levou em consideração, em primeiro lugar, a parte feminina dessa espécie zoológica. Era, aliás, a primeira vez que ele via de tão perto criaturas como aquelas associadas pelo instinto da aproximação e era incapaz de imaginar o que é que poderia ocasionar aquela proximidade recíproca. A razão pela qual as mulheres podiam ter escolhido homens como aqueles lhe parecia incompreensível, mas o motivo por que os homens tinham feito sua opção por mulheres

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como aquelas lhe parecia ainda mais misterioso. Cada vez que erguia a cabeça era obrigado a deixar seu olhar cair sobre o rosto de uma delas e não encontrava nenhum detalhe que desse prazer ao olho por sua forma agradável ou que exprimisse uma alma terna ou espirituosa. Com certeza lhe faltava algum padrão para avaliá-los, pois não se pode comparar o sexo feminino contemporâneo com a sublime beleza das obras antigas, mas ele tinha a vaga sensação de que não era responsável pela injustiça desse método e de que esses rostos não possuíam algo que ele tinha o direito de exigir no dia-a-dia. Também refletiu durante algumas horas acerca da atitude extraordinária dos homens e chegou à conclusão de que, se dentre todas as loucuras humanas, o primeiro lugar cabe sempre ao casamento, como a maior e a mais inconcebível, conviria, no entanto, reservar o cetro da loucura a essas absurdas viagens de lua-de-mel à Itália.

Mais uma vez se recordou do canário que tinha deixado na prisão, pois ele estava também numa gaiola, e em torno dele passavam apressados os rostos dos jovens casais, tão felizes quanto vazios de expressão, e entre eles somente de quando em quando conseguia olhar pela janela. Aquilo que desfilava no exterior, diante de seus olhos, lhe provocava uma impressão completamente diferente da que recebera alguns anos antes, o que podia muito bem se explicar pela situação na qual se encontrava. A folhagem das oliveiras o deslumbrava com maior esplendor, os ciprestes e os pinheiros isolados que se recortavam aqui e ali no céu lhe mostravam contornos ao mesmo tempo mais belos e mais curiosos, as aldeias inclinadas pelas montanhas lhe pareciam mais encantadoras e cada uma delas, como uma pessoa, parecia ter uma fisionomia diferente. Ele viu no lago Trasi-

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mene um azul úmido que nunca tinha notado na superfície de água nenhuma. Veio-lhe à mente que a estrada estava cercada dos dois lados por uma natureza que lhe era estranha, como se tivesse sido obrigado a atravessá-la na luz de um crepúsculo perpétuo ou durante uma chuva cinzenta e a visse pela primeira vez sob cores opulentas douradas pelo sol. Às vezes, se surpreendia com um desejo do qual não havia suspeitado até então; o de descer e poder encontrar o caminho que deveria fazer a pé, para tal ou tal lugar, porque lhe parecia que alguma coisa particular e de certa forma misteriosa ali se ocultava. Mas não se deixava seduzir por sugestões tão loucas, o direitíssimo o conduzia direto a Roma, onde o acolheu, mesmo antes de sua chegada, todo o mundo antigo, com as ruínas do templo da Minerva Medica. Tendo deixado a gaiola cheia de obstáculos e atingido a liberdade, estabeleceu-se primeiramente num hotel que já conhecia, a fim de poder procurar sem pressa um apartamento particular a seu gosto.

Não encontrou um que lhe conviesse durante todo o dia seguinte e teve de voltar a seu albergo e deitar-se, cansado que estava do ar italiano, ao qual não estava acostumado, da vivacidade do sol, da longa caminhada e do barulho da rua. Já começava a perder a consciência e dormir quando a entrada no quarto vizinho de dois viajantes que o tinham alugado naquela mesma manhã o tirou do sono. O quarto se comunicava com o de Norbert através de uma porta, protegida por um armário. As vozes que atravessavam a parede fina eram as de um homem e uma mulher, que evidentemente pertenciam à classe dos pássaros migradores da primavera, os alemães com os quais viajara na véspera desde Florença. A disposição dos dois parecia dar um aval muito favorável à cozinha do hotel e era sem dúvida à boa qualidade

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do vinho castelli romani que deviam, muito nitidamente, a troca de sentimentos em alemão do norte.
— Meu adorável Augusto!
— Minha adorável Greta!
— Outra vez um para o outro!
— Sim, enfim sós!
_ Ainda devemos nos preocupar com amanhã? _ Veremos no Baedeker à hora do café da manhã o que nos falta fazer.
— Meu Augusto querido, você me agrada mais que o Apolo do Belvedere.
— Eu pensei a mesma coisa, minha doce Greta, você é muito mais linda que a Vênus Capitolina.
_ O vulcão que vamos escalar fica perto daqui?
_ Não, para chegar lá, acho que teremos de fazer uma viagem de trem de algumas horas.
— Se ele começasse a entrar em erupção exatamente no momento em que nós estivéssemos no meio, o que você faria?
_ Não teria outra idéia senão a salvar e tomaria você nos braços, assim.
— Não se fira com um alfinete!
_ Mas eu não posso imaginar coisa mais doce que derramar sangue por você.
— Meu querido Augusto!
— Minha adorável Greta!

Assim terminou, no momento, a conversa. Norbert ainda ouviu um barulho vago e o arrastar de cadeiras, depois voltou a mergulhar em seu meio-sono. Este o conduziu a Pompéia no momento da erupção do Vesúvio. Uma agitação preocupada reinava em torno dele, homens em fuga apressavam-se dos seus lados e de repente ele percebeu o Apolo do Belvedere levando a Vênus Capitolina. Pegava-a e a colocava numa sombra obscura que dissimulava um ob-

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jeto qualquer. Devia ser um carro ou carroça no qual a iria levar, pois dali provinha um rangido. Esse evento mitológico não surpreendia muito o jovem arqueólogo, mas o que lhe parecia digno de atenção era o fato de o casal não empregar o grego, mas o alemão, e de ele os ouvir dizer um tempo depois, quase retomando consciência:

— Minha adorável Greta!
— Meu querido Augusto!

As imagens oníricas em seguida se transformavam completamente. Em torno do sonhador agora reinava um pesado silêncio no lugar dos barulhos agitados e a fumaça e o brilho das chamas foram substituídos pela luz quente e clara do sol que iluminava as ruínas da cidade soterrada. Esta se transformava aos poucos e se tornava um leito de lençóis brancos iluminados por raios dourados que aos poucos subiam até os olhos do adormecido. Norbert Hanold despertou no meio do esplendor cintilante de uma jovem manhã romana.

Alguma coisa, com efeito, havia mudado nele, sem que ele pudesse dizer o quê, pois de novo era presa daquele sentimento particularmente angustiante de que estava preso em uma gaiola que, desta vez, chamava-se Roma. Quando abriu a janela, dúzias de mercadores lançaram a seu ouvido gritos ainda mais agudos que em sua Alemanha natal. Ele nada tinha feito além de vir de uma massa de pedras cheia de barulho a outra, e uma apreensão inquietante e misteriosa o afastava das coleções de antiguidades, onde desejava reencontrar-se com o Apolo do Belvedere e a Vênus Capitolina. Do mesmo modo, depois de uma breve deliberação, abandonou seu projeto de procurar para si um apartamento, fez rapidamente a mala e tomou o trem para ir adiante, mais para o sul. Fez essa viagem, para evitar os casais insepará-

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veis, na terceira classe, esperando, por outro lado, ter a companhia daqueles tipos do povo italiano que antigamente serviram de modelo às obras de arte, coisa de que tiraria proveito para a ciência que estudava. Mas não viu nada além da sujeira popular, o fedor assustador dos charutos da região, uns homenzinhos tortos gesticulando braços e pernas e umas mulheres perto das quais aquelas que viu emparelhadas com seus compatriotas lhe pareciam, quando as revia na memória, deusas do Olimpo.



Dois dias depois, Norbert Hanold estava vivendo num quarto meio duvidoso, balizado de camera no Hotel Diomedes, na frente do Ingresso, escavações de Pompéia guardadas por eucaliptos. Tivera a intenção de passar um bom tempo em Nápoles para aí estudar de novo com cuidado os afrescos e as esculturas do Museo Nazionale, mas lhe ocorreu a mesma coisa que em Roma. Na sala onde se reúnem os utensílios do lar de Pompéia, viu-se no meio de uma nuvem de vestidos femininos de viagem da última moda que, sem dúvida, sucederam imediatamente a virginal auréola dos vestidos de noiva em cetim, seda ou gaze. Cada uma das mulheres que os vestia estava presa ao braço de um companheiro mais jovem ou mais idoso que ela, de roupa igualmente impecável, e o discernimento recentemente adquirido por Norbert, numa espécie de ciência que ele havia até então ignorado, tornou-se tal que ao primeiro olhar reco-

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nheceu que todos eram Augusto e que todas eram Greta. Mas, em pleno dia, o clima geral de sua conversa tinha se modificado. A presença de ouvintes fazia-os acalmarem-se e baixar o tom.

— Oh! Veja este aqui. Eram pessoas práticas; devíamos comprar um escaldador como este.
— Sim, mas para a comida que a minha mulher vai fazer, deveriam ser de prata!
— Será que o que vou preparar para você vai lhe agradar tanto?

A pergunta vinha acompanhada de um olhar malicioso, mas um dardo brilhante respondia à cintilação desse olhar:

— O que você servir, para mim só poderá ser delicioso.
— Mas olhe! Um dedal! Aquela gente já usava agulha.
— É o que parece. Mas não serviria para você. Ë grande demais pro seu dedo.
— Você acha mesmo? E você prefere dedos finos aos grossos?
— Nem preciso ver os seus. Eu os descobriria na maior escuridão, no meio de todos os dedos do mundo.
— Tudo isto é mesmo muito interessante. Precisamos mesmo ir a Pompéia?
— Não, não vale a pena. Não tem nada lá além de um monte de pedra velha. Tudo o que tinha valor, diz o Baedeker, foi retirado. Além disso, temo que o sol lá seja forte demais para a sua pele delicada, e isso eu não poderia me perdoar.
— E se de repente você tivesse uma mulher negra?
— Felizmente, a minha imaginação não vai tão longe assim, mas uma mancha vermelha no seu narizinho já me deixaria muito aborrecido. Se você qui-

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ser, poderemos ir amanhã a Capri, meu amor. Dizem que é tudo uma beleza, e na admirável luz da caverna azul enfim eu conseguiria ver toda a perfeição do grande prêmio que tirei na loteria da sorte.
— Olha, se alguém nos ouve, me dá vergonha. Mas onde você me levar tudo estará bem e será sempre assim posto que você estará do meu lado.

Perto de Augusto e Greta, um tanto sérios e moderados porque eram ouvidos e vistos, Norbert Hanold tinha a impressão de que haviam espalhado mel à sua volta e de que era obrigado a engoli-lo gole por gole. Aquilo lhe fez mal e ele saiu do Museo Nazionale para beber um copo de vermute na mais próxima osteria. Dez vezes se perguntou: por que essas pessoas unidas em pares, multiplicadas às centenas, enchem os museus de Nápoles, Roma e Florença, ao invés de se preocuparem um com o outro no seio da pátria alemã?

Mas uma parte dessas conversas e diálogos carinhosos lhe ensinou, pelo menos, que a maioria desses casais de rolinhas não ia se aninhar nas ruínas de Pompéia, porém considerava mais conveniente voar para Capri. Isso fez com que se decidisse rapidamente a fazer aquilo que eles não faziam. Isso lhe dava, comparativamente, maior oportunidade de se evadir do pelotão de frente daquela tropa de galinholas e de encontrar aquilo que buscava sem sucesso naquele jardim das Hespérides. Era também um casal, não um casal de jovens noivos, mas um casal fraternal que não ficava arrulhando sem parar, o Silêncio e o Saber, dois irmãos calmos, junto aos quais se podia ter certeza de sempre encontrar um refúgio de satisfação. O desejo que sentia por eles era algo que lhe tinha sido até então desconhecido; poder-se-ia dar, a essa vontade, se isso não constituísse um contra-senso, o epíteto de "apaixonada" Uma hora mais tarde já

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estava ele instalado em uma carozella que o levava rapidamente através de Portici e Resina! Viajava por uma estrada que parecia tão magnificamente ornada como a de um conquistador da antiga Roma: à direita e à esquerda, em quase toda casa, estendiam-se como que uns tapetes amarelos. Era, suspensa, pasta da Napoli em abundância, chamada de macaroni, vermicelli, spaghetti, canelloni e fidelini, conforme a grossura, a iguaria nacional à qual a fumaça gordurosa das tascas, as nuvens de poeira misturadas às moscas e pulgas, as escamas de peixe que voavam no ar, o fumo das chaminés e os outros fatores diurnos e noturnos davam todo o sabor de seu gosto especial.

O cone do Vesúvio, bem próximo, dominava campos de lava. À direita se estendia o golfo, de um azul cintilante e como que mesclado de malaquita líquida ou lápis-lazúli. A pequena casca de noz montada sobre rodas voava como se estivesse sendo empurrada por uma terrível tempestade e cada um de seus instantes, sobre o calçamento desigual de Torre dei Greco, parecia ser o último. Ela fez tremer o de Torre dell'Annunziata, e chegando ao casal de Dioscuros que parecem ser o Hotel Suíço e o Hotel Diomedes, medindo numa luta incessante e furiosa seus respectivos poderes de atração, parou diante deste último, cujo nome, tirado da antiguidade, havia já ditado a escolha do jovem arqueólogo, na ocasião de sua primeira estada.

O moderno concorrente suíço olhava, entretanto, esse acontecimento da porta, com a mais evidente tranqüilidade. Tinha certeza de que, nas panelas do concorrente com nome tirado da antiguidade, não se cozinhava com água diferente da sua, e de que as maravilhosas antiguidades expostas na frente não tinham, mais do que as suas, vindo à luz do dia de

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pois de terem, permanecido dois mil anos numa mortalha de cinzas.

Assim, Norbert Hanold havia se transportado em poucos dias, inesperadamente e sem nenhuma intenção, do norte da Alemanha a Pompéia. Não encontrou o Diomedes muito repleto de seres humanos, mas já abundantemente povoado pela mosca comum, a musca domestica communis. Ele jamais soubera se sua sensibilidade era capaz de emoções ardorosas, mas a mais fervilhante raiva se apossou dele contra esses voadores... Considerava-os a pior invenção da natureza em sua maldade; eram o motivo por que ele preferia o inverno ao verão, como sendo a única estação que convinha à dignidade humana e achava que as moscas eram uma prova irrefutável da inexistência de uma harmonia racional no mundo. Elas o acolhiam aqui e ele só seria jogado como presa a essa infâmia alguns meses mais tarde na Alemanha. Elas se lançaram imediatamente sobre ele às dúzias, como sobre uma vítima esperada, voavam pelos seus olhos, zumbiam nos ouvidos, prendiam-se nos cabelos e corriam-lhe pelo nariz, a testa e as mãos, fazendo cócegas. Algumas lhe lembravam os casais em viagem de núpcias, e deviam dizer-se provavelmente em sua língua: Meu querido Augusto! e Minha adorável Greta! Assim atormentado, ele desejava doentemente um scacciamosche, uma espécie de palheta excelente para matar moscas, semelhante à que havia visto no museu etrusco de Bolonha e que tinha sido descoberta numa sepultura. Dessa forma, aquela criatura imunda havia sido, desde a antiguidade, o flagelo da humanidade, uma criatura mais irritante e impiedosa que os escorpiões, as serpentes venenosas, os tigres e os tubarões, que pelo menos não têm outro objetivo senão ferir, rasgar e devorar o corpo humano e que são animais em relação aos quais é possível se

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proteger através de uma atitude prudente. Mas, contra a mosca comum, não havia nenhum meio de proteção e ela aborrecia, ela paralisava, ela acabava, enfim, no homem, com a inteligência, a capacidade de trabalho e de pensamento, todos os impulsos superiores e todos os sentimentos sublimes. Não era a necessidade de saciar sua fome, nem a sede da chacina que a possuíam, mas apenas o desejo diabólico de atormentar. Era a coisa em si na qual o mal absoluto havia encontrado sua expressão e realização. Como o scacciamosche etrusco — um tubo de madeira ao qual estava preso um feixe de finas correias de couro — comprovava, elas haviam já expelido da cabeça de Ésquilo os pensamentos poéticos mais sublimes, haviam induzido Fídias a dar um golpe de martelo mal dirigido e irreparável, haviam trotado sobre a fronte de Zeus, sobre o peito de Afrodite e percorrido todos os deuses e todas as deusas do Olimpo, da cabeça aos pés. Norbert pensou, no mais profundo do seu ser, que era preciso, antes de tudo, avaliar o mérito de um homem pelo número de moscas que ele tivesse podido, ao longo de sua vida, a título de vingador da raça humana desde os tempos mais remotos, aniquilar, transpassar, queimar, e extinguir em hecatombes cotidianas.

Mas aqui, para conquistar essa glória, a arma necessária lhe faltava, e da mesma forma como o maior herói da antiguidade, vendo-se só, não teria podido fazer outra coisa senão fugir diante das vulgares adversárias, que lhe eram cem vezes superiores em número, assim Norbert fugia, ou melhor, deixava o seu quarto. Uma vez fora dele, se deu conta de que o que havia se passado hoje aconteceria em maior escala amanhã. Pompéia não era, ademais, o lugar tranqüilizante e reconfortante que ele desejava. Além disso, a essa idéia se associava vagamente uma

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outra, a de que o seu descontentamento não era apenas provocado pelo que o cercava, mas vinha também um pouco dele mesmo. Os tormentos que as moscas lhe causavam sempre lhe tinham sido insuportáveis, mas não o haviam deixado, até então, num tal estado de furor. A viagem o havia, incontestavelmente, excitado e deixado com os nervos à flor da pele, estado cuja origem era, sem dúvida, devido à estafa e à atmosfera fechada do inverno. Sentia-se de mau humor, faltava-lhe algo que não podia compreender. E esse mau humor ele o levava consigo aonde fosse. Os jovens casais e as moscas que o haviam rodeado em massa não eram, nem uns, nem outras, feitos para tornar a vida de ninguém agradável. Todavia, se não queria se deixar envolver por uma nuvem espessa de fatuidade, não podia dissimular a si próprio que se conduzia como eles, sem quê nem porquê, surdo e cego, a torto e a direito pela Itália, com uma faculdade de se distrair muito menor. Sua companheira de viagem, a ciência, tinha muito, na verdade, de uma velha trapista, não abria a boca senão quando se dirigia a ela, e ele parecia estar bem perto de esquecer com que língua havia podido comunicar-se com ela.

O dia já ia muito avançado para que ele pudesse entrar em Pompéia pelo Ingresso. Norbert se lembrou de que a cidade era rodeada por velhas fortificações e se pôs a procurar o caminho por entre moitas e espinheiros. Caminhava assim um pouco acima da cidade-túmulo. Ela se estendia à sua direita, sem um movimento, sem um ruído. Parecia um campo de escombros morto, de que a sombra recobria já grande parte. O sol poente não estava mais quase nada afastado do mar tirreno mas por todos os lados distribuía ainda, sobre os montes e as planícies, o mágico esplendor da vida. Dourava o penacho de fuma-

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ca que se elevava da cratera do Vesúvio e revestia de púrpura os cumes e os recortes do monte Sant'Ângelo. Soberbo e solitário, o monte Epomeo se erguia por cima do mar azul e cintilante onde faiscavam fagulhas de luz e de onde surgia, como uma misteriosa construção titânica, a silhueta sombria do cabo Misene. Onde quer que o olhar pousasse, descobria um quadro maravilhoso em que o sublime se aliava à graça, o passado distante ao alegre presente. Norbert Hanold tinha acreditado aí encontrar aquele desconhecido para o qual o impelia um desejo indistinto, mas não se encontrava com a disposição de espírito que esperava. Não havia, no entanto, sobre essas muralhas abandonadas, nem jovens casais, nem moscas, para importuná-lo, mas a natureza mesma não estava em condições de oferecer-lhe o que lhe faltava, quer dentro dele quer fora. Passeou seus olhos com uma calma próxima da apatia por sobre aquela profusão de beleza e não lamentou nem um pouco quando o pôr do sol a fez empalidecer e se apagar. Voltou ao Diomedes tão descontente como daí havia partido.





Mas como tivesse sido, invita Minerva, aí levado pela sua falta de reflexão, tomou a decisão, durante a noite, de ao menos tirar algum proveito científico, ainda que por um dia, da bobagem que tinha feito, e cedo, tão logo se abriu o Ingresso, tomou o caminho obrigatório que leva a Pompéia. À sua frente

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e atrás dele, os hóspedes eventuais dos dois hotéis avançavam em pequenos grupos sob as ordens do inevitável guia, munidos do Baedeker ou de suas imitações estrangeiras, ávidos de meterem-se em escavações clandestinas. Tagarelices em inglês ou anglo-saxônicas ressoavam no ar ainda puro da manhã quase que exclusivamente. Os jovens casais alemães, lá longe, por trás o monte Sant'Ângelo, se haviam sentado à mesa para almoçar no seu quartel-general de Pagano, e se faziam mutuamente felizes com uma doçura e um entusiasmo bem alemães. Norbert sabia, por experiência própria, graças a algumas palavras bem escolhidas e a uma gorjeta (de uma manda), como se desembaraçar do guia, aquele pesadelo, a fim de poder seguir livremente com suas intenções. Comprazia-se com o fato de ter uma memória infalível; onde quer que seu olhar caísse, encontrava um lugar exatamente semelhante àquele cuja lembrança guardava, como se o tivesse gravado na véspera em sua memória, depois de ampla contemplação. Essa observação, que não cessava de fazer, o levava a pensar que bem podia dispensar a ida a esses lugares; e assim, uma notável apatia tomou sua vista e seu espírito, como já lhe havia acontecido na tarde que havia passado sobre as muralhas. Ainda que percebesse várias vezes, ao levantar os olhos, o cone do Vesúvio e seu penacho de fumo se destacando sobre o céu azul, não lhe veio sequer uma vez ao espírito, o que não deixa de ser bastante singular, o sonho que ele havia tido pouco tempo antes e no qual havia testemunhado o sepultamento de Pompéia na erupção de 79. Depois de ter caminhado durante horas, sentiu-se fatigado e meio sonolento, mas não teve a impressão de se encontrar em um cenário de sonho. Tinha ao seu redor apenas velhos pórticos, muros e colunas do maior interesse arqueológico mas sem ne-

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nhum sentido esotérico propriamente dito; não passavam de um grande conjunto de ruínas devidamente mantidas, mas por isso mesmo bastante insípidas. E embora a ciência e a fantasia sejam normalmente bem antagônicas, hoje pareciam se ter combinado para, de alguma maneira, privar Norbert Hanold de sua ajuda, abandonando-o completamente ao curso de sua ociosa caminhada.

Ele havia assim percorrido o caminho do Fórum ao anfiteatro, da Porta di Stabia à Porta do Vesúvio, pela rua dos túmulos e suas inumeráveis vias e, durante esse tempo, o sol havia terminado o percurso que habitualmente faz todas as manhãs e estava no ponto em que, chegado ao máximo de sua trajetória, costuma abandonar sua ascensão por uma descida mais confortável, do lado do mar. Indicava, assim, aos americanos e aos ingleses dos dois sexos que aí haviam sido conduzidos pela obrigação da viagem, que era tempo de consagrar seus pensamentos ao grande prazer de estarem confortavelmente sentados às mesas da sala de jantar de um dos dois hotéis gêmeos, para grande satisfação dos guias, que não haviam sido compreendidos, apesar de terem falado até o enrouquecimento. Aliás, esses turistas tinham visto com seus próprios olhos tudo o que é necessário conhecer para se manter uma conversação do outro lado do oceano ou da Mancha. Esses grupos empapados de antiguidade batiam pois em retirada, de comum acordo, pela Via Marina, para não correrem o risco de serem mal colocados nas mesas contemporâneas — e que não se poderia chamar de luculianas sem eufemismo — do Diomedes e do Suíço. Sem dúvida era essa, de longe, a mais inteligente solução, se se considerasse as circunstâncias interiores e exteriores, pois se o sol de meio-dia tinha qualquer simpatia pelos lagartos e pelas borboletas, pelos habitantes

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alados ou rastejantes das. ruínas, ele exercia todo o seu ardor vertical com menos amabilidade sobre a tez ocidental das Misses e das Mistresses. E é preciso mesmo acreditar nessa relação de causa e efeito pois durante a hora que acabava de se passar, os Charming haviam diminuído consideravelmente, os Shocking, aumentado igualmente, e os Oh! masculinos, provenientes de duas carreiras de dentes ainda mais divergentes do que anteriormente, se aproximavam de maneira inquietante do bocejo.

Era curioso constatar como tudo o que havia sido outrora a vila de Pompéia tomava um outro aspecto, ao mesmo tempo em que se operava esse êxodo. Não era, certamente, uma cidade viva, mas nesse momento parecia se petrificar numa rigidez cadavérica. No entanto, daí emanava qualquer coisa que dava a impressão de que a morte se punha a falar, embora não de uma maneira perceptível aos ouvidos humanos. Ê verdade que aqui e ali ressoava uma espécie de murmúrio, que parecia sair das pedras, só revelado pelo doce sussurro do vento do sul, o antigo Atabulus, que dois mil anos antes tinha assim zunido em volta do templo, dos mercados e das casas, e que agora brincava levemente com as ervas verdes e brilhantes que cresciam sobre as ruínas baixas das muralhas. Às vezes esse vento, vindo da costa da África, se precipitava aqui lançando a plenos pulmões um assovio louco. Ele hoje não estava assim, e abanava com doçura seus velhos amigos de volta à luz, mas continuava um filho do deserto e seu hálito queimava, mesmo se soprava com extrema doçura, tudo o que encontrava no caminho. O sol, seu pai, eternamente jovem, o ajudava nessa tarefa, reforçando seu sopro ardente, o supria nos lugares que ele não podia atingir, e derramava sobre todas as coisas seu esplendor resplandecente, ofus-

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cante e fremente. Ele havia retirado com uma lâmina de ouro a pouca sombra desatada que subsistia rente às casas dos semitae e dos crepidines via-rum — assim se chamavam antigamente as calçadas. Jogava em profusão feixes de raios em todos os vestibula, atria, peristyla e tablina, e lá onde um telhado saliente impedia seu acesso, encontrava um jeito de jogar por baixo dele raios esparsos. Mal conseguia algum canto para proteger-se da onda de luz e obter uma penumbra prateada. Cada rua se estendia entre as antigas paredes como se aí tivessem posto para secar grandes peças de fazenda de brancura resplendente E, sem exceção, tudo estava mudo e calmo: os viajantes fanhosos e barulhentos enviados pela América e pela Inglaterra desapareceram todos, até o último, e mesmo o arremedo de vida que haviam emprestado até este instante os lagartos e as borboletas, se dissipou. Pareciam ter abandonado o silencioso campo das ruínas, o que em realidade não havia, sem dúvida, acontecido, mas o olho não via mais um só movimento. Assim também, antigamente, há milhares de anos, acontecia com os animais seus ancestrais, os das montanhas e os dos rochedos, era um costume, enquanto o grande Pan repousava, eles também, para não incomodá-lo, se estendiam sem moverem-se ou pousavam aqui e ali, fechando as asas. E era como se se submetessem aqui, mais rigorosamente ainda, à lei da calma tórrida e sagrada do meio-dia, desta hora de espectros, quando a vida devia calar-se e esconder-se porque os mortos, a esta hora, despertavam e começavam a conversar na língua muda dos fantasmas. Não era tanto a visão que ficava chocada com este novo aspecto das coisas, mas o sentimento, ou um sexto sentido sem nome, contudo este ficava tão fortemente impressionado e de uma maneira tão decisiva, que a pessoa que o possuísse não poderia

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se subtrair ao efeito que ele causava. Na verdade, era pouco provável que algum, ou alguma, dos honestos turistas, que já se ocupavam em mergulhar na sopa a colher, no interior de um dos dois hotéis situados perto do Ingresso, fosse dotado desse sentimento, mas isso pouco importava, pois a natureza havia sido pródiga em tal dom para Norbert Hanold, destinado a sofrer seus efeitos. Sem dúvida, não o exercia por sua própria vontade, pois não desejava senão uma coisa: poder estar tranquilamente sentado no seu gabinete de trabalho, um bom livro nas mãos, em vez de estar metido, sem razão, nessa viagem de primavera. Entretanto, mal havia tido tempo de penetrar no coração da cidade, ao voltar da porta de Hércules pela Via dos Túmulos, tendo acabado de tomar, sem pensar, um estreito vicolo à esquerda da Casa de Salusto, quando aquele sexto sentido se manifestou nele. Ou melhor, não foi bem assim, ele acabava de ser transportado, em função desse sentido, a um estado de espírito estranhamente sonhador, intermediário entre a consciência lúcida e a inconsciência. O silêncio morto e inundado de luz estendia-se à volta dele, como se o mistério se escondesse por toda parte sem um sopro, a tal ponto que seu próprio peito não ousava respirar. Encontrava-se no cruzamento do Vicolo di Mercúrio com a Strada di Mercúrio. Essa avenida bastante larga que corta a ruela se estendia a perder de vista à sua direita e à sua esquerda. Pelo patronato do deus dos mercados, esse lugar deveria ter sido outrora o local do comércio e da indústria, como testemunham as esquinas mudas. Em diversos pontos, pelos lados, se abriam tabernas, lojas guarnecidas de mesas cobertas com mármore quebrado; aqui, a arrumação indicava uma padaria, ali, muitos potes grandes, barrigudos, indicavam comércio de óleo e farinha. Mais adiante, graciosas ânforas pre-

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gadas às prateleiras de uma mesa indicavam que havia funcionado uma venda de vinho na peça vizinha. Toda noite os escravos e servidores das vizinhanças sem dúvida vinham ali buscar a caupona, em suas bilhas, o vinho de seus senhores. Via-se, com efeito, que uma multidão de passos havia gasto a inscrição de pedrinhas de mosaicos incrustados na semita diante da loja, tornando-a ilegível. Ela, sem dúvida, teria cantado aos passantes o louvor de vini praecellentis. Sobre a parede em frente, à altura da metade de um homem apenas, um graffito, com certeza um rabisco de criança, com a unha ou um prego, comentava esse anúncio, talvez ironicamente, dizendo que o vinho do restaurante devia sua qualidade incomparável à diluição em água, que não era mínima.

Aos olhos de Norbert Hanold, a palavra caupo parecia se destacar da garatuja, mas talvez fosse ilusão, pois não poderia afirmá-lo com certeza. Ele sabia decifrar com muita habilidade esses graffiti tão difíceis de se ler, e tinha tido nesse ramo um sucesso gloriosamente reconhecido, mas naquele momento, sua destreza lhe recusava totalmente os serviços. Mais ainda, levava consigo o sentimento de que não sabia uma palavra de latim e de que era contra qualquer bom senso decifrar aquilo que, dois mil anos antes, tinha rabiscado numa parede um aluno de primário de Pompéia. Não só a sua ciência o tinha abandonado, como ele tinha também perdido todo o desejo de reencontrá-la; só se lembrava dela como uma coisa muito longínqua e, em seu sentimento, ela tinha sido uma tia velha, seca e aborrecida, em suma, a criatura mais árida e mais supérflua da Terra. Tudo o que pudessem dizer seus lábios enrugados, .num tom completamente pedante e apresentando-se como sabedoria, tudo aquilo não passava de vã inutilidade, algo que nada mostrava além da casca ressecada dos

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da árvore da ciência, sem nada dar a perceber da essência e de seu verdadeiro conteúdo, sem dar o prazer de sua íntima compreensão. O que a ciência professava era uma visão arqueológica sem sentido e o que ela falava, uma língua morta para uso dos filólogos. Ela não permitia apreender com a alma, sentimento, o coração, pouco importa o nome. Ao contrário, aquele que aspirava a essa compreensão sofria, único ser vivo no silêncio abrasado do meio-dia por permanecer aqui entre os restos do passado, para não mais ver com os olhos do corpo, para não mais ouvir com os ouvidos carnais. Nesse momento, de repente parte disso surgia, sem fazer, porém, um movimento, e começava a falar sem emitir um único som. Nesse momento, o sol tirava de seu entorpecimento sobre as pedras velhas, um arrepio abrasado as perseguia, os mortos despertavam e Pompéia recomeçava viver.

Norbert Hanold não tinha em mente pensamento de blasfêmia, mas era com um vago sentimento de que merecia inteiramente essa qualificação que ele olhava, sem fazer qualquer movimento, a Strada di Mercúrio, na direção das muralhas.

Os blocos de lava rochosa que a pavimentam, arrumados, como no momento de seu sepultamento, eram, tomados isoladamente, de cor cinza clara, mas uma claridade tão radiosa caía sobre eles, que se estendiam como uma cortina branca de prata no espaço ardente entre as ruínas mudas das muralhas e os fragmentos de coluna.

Nesse momento, de repente...

Ele mantinha os olhos abertos e olhava a rua em toda sua extensão, mas lhe parecia que sonhava. Diante dele, repentinamente, alguma coisa acabava de sair da casa de Castor e Pólux, e sobre as lajes

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que se estendiam dessa casa ao outro lado da Strada di Mercúrio avançava, no seu passo leve, Gradiva.

Sem dúvida nenhuma, era. ela mesma, e embora os raios de sol cercassem sua forma numa espécie de véu de ouro, ele a via, porém, distintamente, e ela se apresentava de perfil, exatamente como no baixo-relevo. Ela inclinava ligeiramente a cabeça para a frente, coberta por um pano que lhe caía sobre a nuca, segurava na mão esquerda a saia extraordinariamente plissada e que não ia abaixo dos calcanhares. Só se deixou reconhecer claramente caminhando: o pé que ficava para trás erguia-se por um instante sobre a ponta, o calcanhar quase que vertical. Mas não se tratava de um ser de pedra monótono e sem cor. O vestido era feito de um tecido extremamente mole e macio que não tinha a branca frieza do mármore, mas um tom quente, puxando para o amarelo. Os cabelos frouxamente ondulados sobre o xale valorizavam, pelo brilho de seu castanho dourado, o alabastro do rosto. Ao mesmo tempo em que a percebeu, Norbert reencontrou num canto da memória a imagem já vista ali mesmo, à noite, em sonho, quando ela se deitou lá, perto do Fórum; sobre os degraus do templo de Apolo, tão tranquilamente como se fosse dormir. E juntamente com essa lembrança, um outro pensamento surgiu pela primeira vez em sua consciência: sem compreender ele próprio o seu impulso íntimo, tinha partido para a Itália, a tinha atravessado até Pompéia, sem mesmo parar em Roma e Nápoles, para ver se poderia voltar a encontrar ali o rastro de Gradiva. E isto no sentido literal, tendo seu passo tão particular deixado, com certeza, na cinza, uma pegada distinta de todas as outras, na qual se leria a pressão de seus artelhos. Era, de novo, uma figura de sonho em pleno meio-dia que se movia diante dele e, no entanto, era

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realidade. Isso se viu pelo efeito que fez ao se aproximar da última laje, sobre a qual estava estendido, na luz quente do sol, um grande lagarto, cujo corpo de ouro e malaquita resplendia distintamente nos olhos de Norbert Hanold. Quando os passos de Gradiva aproximaram-se do animal, ele se precipitou de um só golpe para baixo da pedra e fugiu num movimento ondulado e macio por entre o pavimento cintilante da rua. Gradiva, após ter atravessado as lajes com tranqüila agilidade, continuou o seu caminho. Norbert agora a via de costas — na calçada da frente. Ela parecia se dirigir à casa de Adónis, que se encontrava diante dela, mas, depois de uma breve parada, continuou a caminhar, tendo sem dúvida mudado de idéia, pela Strada di Mercúrio. Não havia mais, nessa direção, outra residência célebre, a não ser, à esquerda, a Casa di Apollo, assim chamada devido às numerosas figuras de Apolo aí descobertas, e logo voltou à mente de Norbert, que a observava, que ela já tinha elegido o pórtico do templo de Apolo para abrigar seu sono eterno. Era, portanto, provável, que um laço qualquer a unisse ao culto do deus do sol e que ia à casa que lhe era consagrada. No entanto, ela logo parou outra vez. Também aí as lajes iam de um lado a outro da rua e ela passou de novo para a direita. Mostrou assim a Norbert a outra face de seu perfil e lhe deu nesse momento uma impressão diferente. Agora, escondia a mão esquerda, que segurava o vestido, e mostrava o braço direito que, ao invés de dobrar-se, pendia reto. Mas a essa distância pouco maior, a faísca dos raios de sol a envolvia num véu mais denso, não permitindo que se distinguisse onde ela poderia ter desaparecido subitamente, ao passar diante da casa de Meleagro.

Norbert Hanold ficou parado no lugar, sem poder se mexer. Mas tinha nos olhos, nos do corpo

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desta vez, a visão de sua imagem que se distanciava. Retomou profundamente a respiração pela primeira vez, pois até esse momento seu peito esteve quase que paralisado. Entretanto, ao mesmo tempo, seu sexto sentido, em detrimento de todos os outros, o dominou completamente. Acabava de ver diante de si uma criatura real ou um produto da imaginação? Não sabia se sonhava ou se estava acordado, e em vão tentava descobrir. Nesse momento um arrepio muito peculiar lhe percorreu bruscamente a espinha. Não via nada, não entendia nada, mas havia nele qualquer coisa misteriosa que o fazia sentir que Pompéia em volta dele começava a reviver naquela hora espectral do meio-dia e que Gradiva, ressuscitada acabava de entrar na casa em que vivia antes daquele dia fatal em agosto de 79.

Ele conhecia a Casa di Meleagro de uma viagem anterior, mas desta vez ainda não a havia visitado. Tinha se contentado em parar um tempo no Museo Nazionale de Nápoles diante do afresco que representava Meleagro e sua companhia de caça, a árcade Atalanta, afresco que deu o nome à casa da Via di Mercúrio, onde foi descoberto. Mas quando se pôs novamente em condições de se mover, dirigiu-se àquela casa, duvidando de que seu nome viesse do assassino do javali caledônio. Lembrou-se de repente de um poeta grego chamado Meleagro que, na realidade, havia vivido mais ou menos um século antes da destruição de Pompéia. Mas era possível que um de seus descendentes tivesse emigrado e construído uma casa! A idéia, ou melhor, a certeza que ele tinha da origem grega de Gradiva, e da qual se lembrava agora, ligou-se a essa hipótese no momento em que a descrição de Atalanta que Ovídio faz em suas Metamorfoses lhe vinha à memória.

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O colchete polido fecha com o alfinete o alto de sua túnica.
Seus cabelos estão presos sem arte num único nó.

Não conseguia lembrar-se literalmente desses versos, mas seu conteúdo e fundo estavam presentes para ele ao mesmo tempo em que sua ciência lhe lembrava que a jovem esposa de Meleagro, filha de Eneus, se chamava Cleópatra. Portanto, não era dele que se tratava, segundo toda verossimilhança, mas do poeta grego Meleagro. Era assim que, no calor solar do campo napolitano, a mitologia, a literatura, a história e a arqueologia se misturavam em sua cabeça.

Depois de ter passado pela casa de Castor e Pólux, e pela do Centauro, ele se encontrava agora diante da Casa di Meleagro, no pórtico da qual o acolhia, inscrita num mosaico ainda legível, a saudação Have. Sobre as paredes do vestíbulo, Mercúrio dava a Fortuna um saco de dinheiro, o que provavelmente significava votos alegóricos de riqueza e outras felicidades aos habitantes de outrora. Atrás se abria o átrio cujo centro era ocupado por uma mesa de mármore apoiada sobre três grifos.

O local em que acabara de penetrar estava vazio e silencioso, lhe parecia completamente estranho e ele não se lembrava de jamais o ter visitado. A memória lhe voltou, porém, porque o interior dessa casa oferecia uma anomalia que não se encontrava em nenhum dos outros edifícios descobertos na cidade. O peristilo não estava localizado atrás do átrio, do outro lado do tablinum, como de hábito, mas à esquerda, o que provocava uma amplidão maior e uma disposição mais magnificente que nos outros lugares de Pompéia. Um pórtico o enquadrava, apoiado por duas dúzias de colunas, vermelhas em suas metades inferiores e brancas nas superiores. Elas davam àquela

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sala grande e silenciosa algo de solene. Via-se no centro uma piscina em forma de fonte, rodeada de um belo cenário. A julgar, por todos esses detalhes, a casa devia ter sido domicílio de um homem conhecido, de boa educação e apreciador das belas-artes.

Norbert percorreu a moradia com os olhos e pôs de prontidão o ouvido. Mas nada se mexia em lugar nenhum e ele não escutava o menor barulho. Não havia mais, entre aquelas pedras frias, respiração viva; se Gradiva tinha entrado na casa de Meleagro, já se havia fundido com o nada.

Ao lado, atrás do peristilo, havia ainda uma sala, um oecus, a antiga sala de festas, também cheia de colunas pintadas de amarelo que, de longe, na luz viva, brilhavam como se fossem de ouro. Mas ao pé dessas colunas se percebia uma cor vermelha ainda mais violenta que a das muralhas e que não se devia a nenhum pincel antigo, mas à jovem natureza de hoje, revestida pelo sol. O piso de mosaico interior estava completamente destruído e arruinado, e todo florido. Era o mês de maio, que exercia ainda uma vez sua antiga força e que cobria todo o oecus, como nessa época a maior parte das casas da cidade morta, de papoulas vermelhas que o vento trouxera e que se desenvolveram na cinza. Dir-se-ia uma maré espessa e movediça de flores, embora na realidade permanecessem imóveis, pois o Atabulus não soprava tão baixo e se contentava com murmurar lentamente no cimo das muralhas. Mas o sol projetava ali uma tal cintilação de esplendor que se tinha a impressão de que ondas vermelhas balançavam, como num tanque.

Norbert Hanold já tinha visto, sem prestar atenção, outras casas em estado semelhante, mas este espetáculo provocava nele um estranho arrepio. As flores do Sonho tinham crescido nas margens do Lethé, e Hipnos se estendia no meio delas, distri-

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buindo os sucos colhidos à noite em seus cálices vermelhos e que provocavam nos espíritos um sonho crepuscular. Esse antigo conquistador dos deuses e dos homens parecia ter tocado Norbert com a sua varinha invisível que dá sono. Ele acabava de penetrar no oecus pelo pórtico do peristilo e entrou não num pesado torpor, mas num sonho leve e amável que envolvia vagamente a consciência. Permaneceu, no entanto, senhor de seus passos. Andava ao longo das muralhas da antiga sala de festas onde o olhavam velhos afrescos representando Páris dando a maçã e um sátiro que, com uma víbora na mão, assustava uma jovem bacante.

Mas o imprevisto surgiu outra vez diante de Norbert, bruscamente. A cinco passos, no máximo, na sombra estreita que projetava o único fragmento da arquitrave ainda conservado do pórtico da sala, entre duas colunas amarelas, sentada sobre degraus baixos, encontrava-se uma figura feminina vestida de cores claras que, nesse momento, levantava ligeiramente a cabeça. Com esse movimento, apresentava seu rosto de frente a Norbert, que deve ter se aproximado sem ter sido percebido e que, pelo barulho de seus passos, deve ter sido notado naquele mesmo instante. O aspecto daquela fisionomia despertava nele um sentimento ambíguo, pois ela lhe parecia ao mesmo tempo estranha e conhecida, já vivida, tal como ele a havia imaginado. Mas ao estrangular-se a sua respiração, ao cessar de bater seu coração, reconheceu sem erro a quem pertencia aquele rosto. Tinha descoberto aquilo que procurava, aquilo que o havia levado a Pompéia sem que ele soubesse: Gradiva continuava a viver a sua vida aparente ao meio-dia, hora dos fantasmas, e encontrava-se sentada diante dele como ele a havia visto em sonho sentar-se sobre os degraus do Templo de Apolo. Ela tinha

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sobre os joelhos qualquer coisa branca que ele era incapaz de distinguir, mas que lhe parecia ser uma folha de papiro, onde se destacava o luar vermelho de uma papoula.

O rosto de Gradiva exprimia surpresa; sob a fronte de alabastro e os esplêndidos cabelos castanhos, os olhos, que brilhavam com o esplendor extraordinário das estrelas, olhavam Norbert com uma surpresa cheia de interrogação. A ele, no entanto, bastaram alguns instantes para reconhecer naqueles traços os mesmos que tinha visto de perfil. Deviam ser assim, de frente, e era por isso que nunca lhe foram verdadeiramente estranhos, mesmo no primeiro olhar. De perto, na roupa de Gradiva realçava ainda mais o amarelo, sendo as cores mais quentes ainda. Era feita, evidentemente, de um tecido de algodão muito fino e muito leve, o que permitia aquelas pregas extremamente numerosas. O xale que lhe cobria a cabeça era do mesmo tecido e deixava aparecer, na nuca, uma parte dos cabelos brilhantes presos sem arte num único nó. No pescoço, bem abaixo do queixo gracioso, um pequeno colchete de ouro fechava o vestido.

Tudo isso apareceu a Norbert Hanold numa semi-inconsciência. Ele pegou mecanicamente o chapéu-panamá, tirou-o, e se pôs a dizer, em grego:

— És Atalanta, filha de Jasão, ou és da família do poeta Meleagro?

Quando assim dirigiu a palavra a Gradiva, ela o olhou sem responder, sem mudar a expressão calma e prudente dos olhos. Dois pensamentos vieram ao mesmo tempo à mente de Norbert. Ou ela não podia falar como ressuscitada ou então não era de origem grega e ignorava a língua. Mudou então de idioma e lhe perguntou em latim:

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— Teu pai é um nobre cidadão de Pompéia, e de origem latina?

Ela também não respondeu, mas um movimento fugidio passou por seus lábios delicadamente desenhados, como se tentassem reprimir uma vontade de rir. O terror o tomou nesse momento. Aquela que se encontrava diante dele como uma imagem muda era, portanto, evidentemente, um fantasma, incapaz de falar. Os traços de Norbert exprimiram claramente o medo que essa idéia lhe deu.

Mas os lábios da mulher não puderam mais resistir à sua vontade de rir e um verdadeiro sorriso apareceu neles, enquanto diziam:
— Se o senhor quiser conversar comigo, tem que falar alemão.

Era muito curioso ouvi-lo de uma jovem pompeiana morta há mais de dois mil anos, ou melhor, teria sido, para alguém que a tivesse escutado em outro estado. Mas para Norbert, essa bizarrice se eclipsava por dois sentimentos que se entrecruzavam nele:, um, devido ao fato de Gradiva poder falar, e outro emanado da impressão que sua voz tinha deixado na alma dele. A voz de Gradiva era tão clara quanto o seu olhar. Era bastante baixa e lembrava o timbre de um sino. Ela ressoou pelo silêncio ensolarado sobre o campo de papoulas. O jovem arqueólogo tomou consciência bruscamente de que a tinha escutado nele mesmo, na sua própria imaginação e disse involuntariamente em voz alta:
— Eu sabia que era esse o som de tua voz.

O rosto da jovem mostrava que ela procurava compreender alguma coisa e não conseguia. Respondeu a esse último comentário:
— Como é que o senhor sabe? Nós nunca nos falamos.

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Já não lhe parecia nada curioso que ela falasse alemão e que pronunciasse as vogais segundo o costume moderno. Como agira dessa maneira ele estava persuadido de que não podia ser de outro modo e respondeu rapidamente:
— Não, não nos falamos, mas eu te chamei quando te deitavas para dormir, e fiquei perto de ti. Teu rosto estava calmo e belo como o mármore. Oh! Peço-te, pousa-o outra vez no degrau como então.

Enquanto ele falava, uma coisa curiosa aconteceu. Uma borboleta dourada, ligeiramente pincelada de vermelho na parte interna das asas de baixo, saiu das papoulas e voejou em torno das colunas. Deu diversas voltas ao redor da cabeça de Gradiva, depois pousou sobre seus cabelos castanhos frouxamente ondulados, bem acima da testa. Mas nesse mesmo momento ela endireitou o corpo flexível e esguio e levantou-se num movimento calmo e rápido, lançando a Norbert Hanold, sem nada dizer, um breve olhar que parecia expressar que ela o tomava por um insensato. Em seguida, avançando o pé, andou ao longo das colunas do velho pórtico, com seu andar peculiar. Ainda ficou visível por um curto instante, depois pareceu fundir-se no sol. Ele permaneceu ali, sem poder respirar, como que loucamente, mas tinha confusamente compreendido o que acabava de acontecer aos seus olhos. Meio-dia, hora dos fantasmas, era agora passado, e sob a forma de borboleta vinda dos campos de asfódelos do Hades, tinha chegado um mensageiro alado encarregado de lembrar à morta que devia voltar. A isso se associava, ainda que indistintamente e de um modo confuso, uma outra idéia. Ele sabia que chamavam aquela bela borboleta de Cleópatra e que esse era o nome da jovem esposa de Meleagro de Calidon, aquela cuja dor ao receber a notícia da morte

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do esposo foi tamanha que ela própria se imolou aos deuses subterrâneos.

No momento em que Gradiva se ia, um grito saiu da boca de Norbert:

— Voltarás aqui amanhã ao meio-dia?

Mas ela não se voltou, não respondeu e desapareceu alguns instantes depois por trás das colunas do canto do oecus. Ele sentiu em seu ser como que um golpe e se pôs a segui-la rapidamente. Mas não viu em parte alguma seu vestido claro, a Casa di Meleagro se espalhava sozinha em torno dele, sob os raios do sol ardente, sem que um movimento ou ruído a animassem. Sozinha, voejava a cleópatra de asas cintilantes vermelho e ouro, lentamente descrevendo círculos acima da massa espessa de papoulas.

Norbert Hanold jamais se lembrou em que momento e de que maneira voltou ao Ingresso. Lembrava-se apenas de que seu estômago exigiu imperiosamente que fosse servido, numa hora muito tardia, de qualquer coisa no Diomedes, e de que em seguida caminhou sem destino e sem caminho. Terminou chegando a uma praia no golfo, no norte de Castellamare; sentou-se num bloco de lava e aí ficou enquanto o vento do mar lhe soprava o rosto até o momento em que o sol se pôs, mais ou menos a uma distância igual do monte Sant'Angelo, abaixo de Sorrento, e do monte Epomeo, que domina Ischia. Mas não tirou nenhum benefício dessa estada à beira da água, que

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tinha durado pelo menos algumas horas, e a frescura do ar não teve nenhum efeito sobre o seu estado de espírito e seus sentidos. Voltou ao hotel quase no mesmo estado em que o deixou. Encontrou os outros hóspedes ocupados com a cena, fez-se servir num canto de sua sala de jantar um fiaschetto de vinho do Vesúvio e se pôs a observar o rosto dos comensais e a ouvir suas conversas. Parecia indiscutível, de acordo com a mímica e com a conversa deles, que nenhum tinha encontrado uma pompeiana morta, ressuscitada ao meio-dia por um instante, nem falado com ela. Aliás isso se poderia supor de imediato pois, nesse momento, todos se encontravam no seu pranzo. Pouco depois, sem motivo e sem saber por que, Norbert foi ao concorrente do Diomedes, o Hotel Suíço, sentou-se do mesmo modo num canto, e depois de ter pedido meia garrafa de Vesúvio, porque era preciso pedir alguma coisa, entregou-se às mesmas observações, ouvindo e observando. Elas lhe deram o mesmo resultado, mas fizeram ao mesmo tempo com que conhecesse de vista todos os turistas atualmente hospedados em Pompéia. Aí estava um aumento dos seus conhecimentos que ele, absolutamente, não podia considerar como enriquecimento, mas tirava certa satisfação do fato de que não havia mais nenhum hóspede dos dois hotéis com quem não tivesse tido uma relação pessoal, ainda que unilateral, vendo e ouvindo. Bem entendido, não lhe tinha vindo ao espírito a hipótese absurda de que poderia muito bem ter encontrado Gradiva num dos hotéis, mas ele podia jurar que nenhuma das pessoas ali hospedadas tinha com ela a mínima parecença, por mais longínqua que fosse. Enquanto fazia essas observações, entornava de quando em quando o conteúdo de seu fiaschetto no copo, bebendo aos golinhos. Quando a garrafa por fim se esvaziou, levantou-se para voltar para o Dio-

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medes. O céu estava agora semeado de uma infinidade de estrelas cintilantes e deslumbrantes. Elas não estavam ordenadas imovelmente, como de hábito; parecia a Norbert Hanold que Perseu, Cassiopeu, Andrômeda e todos os vizinhos e vizinhas se inclinavam ligeiramente aqui e ali, dançavam lentamente em círculo. Do mesmo modo, no chão, lhe parecia que as silhuetas negras dos cumes das árvores e dos edifícios não ficavam completamente retas. Esse fenômeno, é verdade, não tinha nada de assustador nessa região sempre abalada desde as épocas mais remotas, pois o fogo subterrâneo que espera por todos os lados com impaciência para fazer erupções encontra uma saída pelas parreiras e pelos cachos de uvas com que fazem o- Vesúvio, esse Vesúvio que não era uma das bebidas habituais de Norbert Hanold todas as noites. Mas ele se lembrava de que, ainda que atribuindo ao vinho um pouco do torvelinho dos objetos em volta, tudo havia já girado em torno dele ao meio-dia, e de que não era um fenômeno novo para ele, mas a sequência natural do que havia acontecido anteriormente. Subiu à sua camera e aí descansou algum tempo, diante da janela aberta, a contemplar o cone do Vesúvio, sobre o qual não se via, naquele momento, o penacho de fumaça, mas que envolvia uma espécie de manto de púrpura escura que parecia se agitar de um lado para outro. Depois o jovem arqueólogo se despiu sem acender a luz e procurou sua cama às apalpadelas. Mas quando aí se estendeu, não era mais a cama do Diomedes, mas um campo vermelho de papoulas que se fechava sobre ele como uma almofada fofa e aquecida pelo sol. A Musca domestica communis, sua adversária, chegava ao número de meia centena sobre a muralha, por cima de sua cabeça, mas elas estavam domadas pela obscuridade que as mergulhava numa letargia embotada. Uma só dentre

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elas, tirada da sonolência pela necessidade de atormentar, se pôs a zumbir em volta do seu nariz. Mas ele não a identificou com o mal absoluto, com o flagelo eterno que aflige a humanidade há milénios, ele a tomou, os olhos fechados, por uma cleópatra vermelha e dourada ocupada em adejar à volta dele.

Quando de manhã o sol, com a ajuda ativa das moscas, o despertou, ele não se lembrava das miraculosas metamorfoses dignas de Ovídio que se haviam desenrolado ao redor da sua cama. Mas, sem dúvida, algum ser místico havia passado toda a noite ao seu lado, tecendo sonhos, pois sentiu a cabeça pesada e vaga, como se tudo o que sabia aí estivesse aprisionado sem poder sair, a não ser a única coisa da qual tinha consciência: que devia estar outra vez ao meio-dia na casa de Meleagro. Teve medo de que os guardas, se o olhassem no rosto, não o deixassem entrar; em todo caso, não era preciso que se expusesse ao julgamento desses homens. Para quem conhecia Pompéia, havia meios de evitá-los. Eram ilícitos, mas Norbert não estava em condições de considerar a ordem estabelecida para decidir sobre a conduta a seguir. Subiu, como no dia de sua chegada, aos velhos muros da cidade, depois, havendo descrito um grande semicírculo em volta das ruínas, atingiu a Porta ai Nola, que não era vigiada. Daí não era difícil descer ao interior, o que ele fez, sem muito preocupar a consciência pelo fato de que sua intrusão privava a amministrazione de duas liras, que ele poderia, aliás, lhe restituir de um modo ou de outro. Assim chegou sem ser notado a um quarteirão da cidade sem interesse e que ninguém frequentava, a maior parte das casas estavam ainda enterradas. Sentou-se à sombra, numa espécie de esconderijo, e deixou passar o tempo, consultando de vez em quando o relógio. Percebeu de repente a alguma distância, nas ruínas, uma

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forma de um branco prateado brilhante, que sua vista, bastante baixa, não permitia distinguir claramente. Mas ele se dirigiu involuntariamente até o objeto e descobriu uma haste de asfódelo inteiramente coberta de campânulas brancas. O vento havia trazido a semente do exterior. Era a flor do mundo subterrâneo e ele pensou que ela havia brotado num tal lugar especialmente para ele. Colheu a elegante haste e voltou ao lugar onde estava sentado. O sol de maio estava cada vez mais ardente, se aproximava enfim do meio-dia. Tomou então a longa Strada di Nola. Esta se estendia vazia num silêncio de morte, como quase todas as outras. Lá embaixo, na direção do oeste, todos os visitantes da manhã se apressavam já para a Porta Marina e os pratos de sopa. O ar em movimento vibrava e no seu esplendor, Norbert Hanold, seu galho de asfódelo na mão, parecia a solitária aparição do Hermes Psicopompos, vestido com uma roupa moderna e pronto para acompanhar ao Hades a alma de um defunto.

Sem tomar consciência disso, obedecendo ao instinto, achou o caminho da rua de Mercúrio, à qual seguiu pela Strada delia fortuna, e chegou, virando à direita, à Casa di Meleagro. O vestíbulo, o átrio e o peristilo, pouco animados como na véspera, o acolheram. Entre as colunas deste último se podia ver, flamejantes, as papoulas do oecus. Teria sido impossível ao recém-chegado dizer se fora na véspera, ou dois mil anos antes, que viera pedir ao proprietário da casa uma informação, o que teria o mais alto interesse do ponto de vista arqueológico. Ele não julgava esse interesse, e além disso, pouco lhe importava, pois, ao contrário, a ciência da antiguidade era para ele a coisa mais inútil e a mais indiferente do mundo. Não compreendia que um homem pudesse se ocupar dela, porque para ele existia apenas uma coisa, para

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a qual convergiam todos os pensamentos e todas as reflexões: qual a essência da aparição corporal de um ser como Gr adiva, ao mesmo tempo morta e viva, embora ela só se revestisse desse último estado ao meio-dia, à hora dos fantasmas, ou quem sabe somente ontem, ou ainda uma vez a cada século ou a cada mil anos. De repente, sentiu-se certo de que sua visita de hoje era inútil. Não encontraria aquela que procurava porque não se permitiria a ela regressar senão em uma época em que ele também não pertenceria mais ao mundo dos vivos e estaria, depois de muito tempo, morto, enterrado e esquecido. Mas quando caminhava ao longo da muralha onde estava pintado Páris no momento de dar a maçã, percebeu Gradiva à sua frente, com o mesmo vestido da véspera, sentada sobre o mesmo degrau, entre as mesmas duas colunas amarelas. Ele não se deixaria enganar por uma fantasia de sua imaginação, sabia bem que era objeto de uma alucinação que compunha outra vez como uma ilusão, diante dos seus olhos, o que ontem ele havia visto na realidade. Mas não pôde se negar a abandonar-se à vã aparência saída da imaginação. Ficou pregado no lugar e gritou, sem mesmo se dar conta, num tom queixoso:

— Oh! Tu não existes, tu não és viva!

Sua voz se extinguiu e o silêncio, que nem um sopro perturbava, cobriu de novo as ruínas da antiga sala de festas. Mas uma outra voz rompeu o silêncio vazio e lhe disse:

— Não queres sentar-te? Tens um ar fatigado.

O coração de Norbert Hanold parou uma vez mais. Juntou na sua cabeça toda a razão que pôde: uma visão não podia falar, mas talvez uma alucinação auditiva abusasse dele. Apolou-se com uma das mãos a uma coluna, olhando-a fixamente.
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A voz o questionava de novo, e era a voz que só Gradiva possuía.
— Tu me trazes uma flor branca?

Uma tonteira tomou-o. Sentiu que seus pés não o sustentavam mais. Teve que sentar-se e deixou-se escorregar frente a ela, contra uma coluna, sobre o degrau de mármore. Ela fixava no rosto dele seus olhos claros, mas a expressão desse olhar era completamente diferente da que tinha na véspera, quando se levantou bruscamente para partir. Qualquer vestígio da possível expressão de aborrecimento ou recusa havia desaparecido, como se ela houvesse mudado de opinião e como se a curiosidade e o desejo de saber a tivessem conduzido àquele lugar. Ela parecia também ter percebido que tratá-lo cerimoniosamente não convinha nem à sua pessoa nem às circunstâncias. Havia usado o "tu" que, para dizer a verdade, vinha aos seus lábios como coisa muito natural. Mas como ele havia ficado mudo, sem responder sua última pergunta, ela tomou a palavra e disse:
— Tu me dizias ontem que me havias chamado quando eu me dispunha a dormir e que havias ficado perto de mim e que meu rosto se havia tornado parecido ao mármore. Quando é que tudo isso se passou? Não consigo lembrar-me disso e queria que me explicasses mais claramente.

Norbert, naquele momento, já tinha se recuperado o bastante para poder dizer:
— Foi na noite em que tu te sentaste no Fórum, sobre os degraus do templo de Apolo e a queda das cinzas do Vesúvio te cobriu.
— Ah, sim, é isso. Justamente, eu não me lembrava mais. Porém deveria ter pensado que se tratava de alguma coisa assim. Quando me falaste ontem, foi verdadeiramente muito imprevisto e eu não estava preparada. Mas isso se passou, se me recordo

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bem, mais ou menos há dois mil anos. Tu vivias já nessa época? Tu me pareces mais jovem.

Ela falava muito seriamente, mas ao fim do discurso um sorriso leve e gracioso apareceu no canto dos lábios. Ele se sentiu indeciso e embaraçado e respondeu gaguejando um pouco:
— Não, na realidade creio que eu não estava vivo ainda no ano 79. Talvez seja... sim, talvez seja essa disposição de espírito que se chama sonho que me transportou ao tempo da destruição de Pompéia... Mas te reconheci no primeiro olhar...

Sobre os traços da jovem mulher, que se encontrava apenas a alguns passos de Norbert, apareceu uma viva surpresa e ela repetiu com ar espantado:
— Tu me reconheceste em sonho? E como?
— Primeiramente pela tua maneira de andar, toda tua.
— Foi isso que te impressionou? Eu ando mesmo de uma maneira diferente?

Sua surpresa parecia ainda maior e ele respondeu:
— Sim, tu o ignoras... Tens o caminhar mais gracioso que o de qualquer outra, pelo menos que o de todas as que vivem hoje. Mas outra coisa ainda me permitiu reconhecer-te: teu corpo e teu rosto, tua postura e tua roupa, que correspondem em tudo à maneira como estás representada no baixo-relevo de Roma.
— Ah, sim — replicou ela, da mesma maneira adotada antes —, no meu baixo-relevo de Roma. Sim, não havia pensado nisso, e mesmo agora, não compreendo... Como é ele? Tu o viste?

Ele contou então como esse baixo-relevo o havia fascinado, como havia ficado encantado de poder encontrar na Alemanha uma cópia, que estava há anos pendurada na parede de seu quarto. Ele a olhava todos os dias até que lhe surgiu a idéia de que devia

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representar uma jovem pompeiana caminhando pela sua cidade natal, sobre as pedras de uma rua, e seu sonho confirmara essa idéia. Sabia agora que era esse sonho que o havia incitado a vir de novo à cidade morta para explorá-la e incumbir-se de descobrir seus rastros. E ontem quando parara na esquina da rua de Mercúrio, ela caminhava precisamente como uma imagem bruscamente aparecida diante dele, sobre as lajes. Parecia encaminhar-se à casa de Apolo. Mas refez seu caminho e desapareceu em frente à casa de Meleagro.

Ela sacudiu a cabeça e disse:
— Sim, eu tinha intenção de visitar a casa de Apolo, mas fiquei aqui. Ele prosseguiu:
— Foi por essa razão que me veio à memória o poeta grego Meleagro, e pensei que fosses uma de suas descendentes, voltando, quando te é permitido, à casa de teu pai. Mas quando te falei em grego, não me compreendeste.
— Era grego? Não sabia, ou melhor, o havia esquecido... Mas ao voltar hoje tu disseste algo que compreendi muito bem: desejavas que alguém estivesse aqui e vivesse ainda. Mas não compreendi de quem se tratava.

A estas palavras, Norbert respondeu que acreditara, ao vê-la, que ela não estava verdadeiramente ali, que sua imaginação abusava dele mostrando-lhe a imagem dela onde ele a havia encontrado na véspera. Ela riu e retrucou:
— Realmente me parece que devias tomar cuidado com a tua imaginação demasiado fértil, embora essa minha opinião não provenha dos nossos encontros. — Interrompeu-se e acrescentou: — O que é essa coisa diferente na minha maneira de caminhar de que me falaste há pouco?

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Era visível que o interesse dela a levava a esse ponto e ele se pôs a dizer:
— Eu te peço, se tu queres...

Mas ele parou nesse instante, pois se lembrou com medo, de repente, de que na véspera ela tinha se levantado bruscamente para partir quando ele pediu que se deitasse sobre a laje para dormir, como outrora fizera no templo de Apolo; e ele vagamente associou, em seu espírito, essa lembrança com o olhar que ela lhe havia lançado ao partir. Mas agora seus olhos guardavam a mesma expressão calma e doce e ela disse, como ele não acrescentasse mais nada:
— Foi gentil de tua parte dizer que teu desejo de que alguém fosse vivo se aplicava a mim... E tu podes, por isso, me pedir o que quiseres, eu o farei com prazer.

Essas palavras acalmaram os temores de Norbert e ele respondeu:
— Eu ficaria feliz de te ver caminhar de muito perto, como no teu retrato.

Ela se levantou sem dizer nada, pronta para realizar esse desejo, e percorreu uma pequena distância entre a muralha e as colunas. Tinha mesmo aquele passo calmo e flexível que ele tinha gravado no espírito, em que a planta do pé se elevava quase verticalmente, mas ele verificou pela primeira vez que ela não tinha sandálias sob o vestido, que deixava ver seus pés, mas finos calçados claros, cor de areia. Quando ela retornou e se sentou sem dizer uma palavra, ele involuntariamente levou a conversação para a diferença que existia entre os sapatos que ela calçava e aqueles do baixo-relevo. Ela respondeu:

— Tudo muda com o tempo e, para a época atual, as sandálias não são cômodas. Ponho estes sapatos que protegem melhor contra a poeira e a chuva.

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Mas por que me pediste para caminhar diante de ti? Há qualquer coisa de diferente no meu caminhar? Esse desejo de saber isso, desejo que ela manifestava de novo, mostrava que não era desprovida de curiosidade feminina. Ele respondeu então que se tratava da posição particularmente vertical de seu pé, que se demorava atrás, enquanto ela caminhava, e acrescentou que havia tentado observar, na sua cidade natal, a maneira de caminhar de suas contemporâneas durante várias semanas. Mas suas observações haviam sido frustrantes, exceto talvez uma só ocasião em que ele havia acreditado perceber a mesma maneira de caminhar. Ele se havia, sem dúvida, deixado levar, na confusão da multidão, vítima de uma ilusão, pois havia pensado que os traços dessa mulher se pareciam um pouco aos de Gradiva.

— Que pena — disse ela —, pois uma tal constatação teria sido, sem dúvida, de grande interesse científico e, se tu a tivesses efetuado, terias poupado essa longa viagem até aqui. Mas quem é a pessoa de que falas, quem é essa Gradiva?
— Foi .assim que eu chamei a tua imagem, pois que ignorava até agora teu verdadeiro nome.

Ele acrescentou estas últimas palavras hesitando um pouco, e a jovem mulher hesitou também antes de responder à pergunta indireta que continha a última frase:
— Eu me chamo Zoe.

Ele exclamou num tom doloroso:
— Esse nome combina muito contigo, mas soa aos meus ouvidos como uma amarga ironia, pois Zoe quer dizer a vida.
— Ë preciso se resignar com o que não se pode mudar — respondeu ela — e há muito tempo já me habituei a estar morta. Mas agora meu tempo já se

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esgotou. Tu me trouxeste a flor dos túmulos para que ela me mostre o caminho. Dá-ma, portanto.

Ao levantar-se, ela estendeu a mão e ele lhe entregou o ramo de asfodelo, tomando cuidado para não lhe roçar os dedos.

Aceitando-o, ela disse:
— Eu te agradeço. A outras, mais privilegiadas, as rosas da primavera; a mim, vinda de tua mão, só convém a flor do esquecimento. Tenho permissão para vir aqui amanhã à mesma hora. Se o teu caminho te conduzir uma vez mais à casa de Meleagro, poderemos sentar-nos de novo à beira do campo de papoulas. Sobre o umbral está gravada a palavra Have, eu te digo, então, Have.

Ela se afastou e desapareceu, como na véspera, no canto do pórtico parecendo se entranhar no chão. Tudo ficou de novo vazio e mudo e, súbito, a pequena distância, retiniu um som breve e claro, muito parecido com o grito ridente de um pássaro que atravessou a cidade em ruínas. Norbert, sozinho, contemplava os degraus, assento abandonado, em cuja parte mais baixa percebeu alguma coisa branca e brilhante. Era a folha de papiro que, na véspera, Gradiva tinha sobre os joelhos e que hoje esquecera de levar. Ele estendeu a mão, medrosamente, para colhê-lo e encontrou um pequeno caderno com alguns esboços a lápis de diferentes casas pompeianas. Sobre a penúltima página se via a mesa enfeitada com os grifos do átrio da Casa di Meleagro, por trás da qual havia começado a desenhar a fileira das colunas do peristilo e as papoulas do oecus. O fato da morta desenhar num álbum esboços de tipo totalmente moderno não era menos surpreendente do que ela exprimir seus pensamentos em alemão. Mas essas não passavam de pequenas coisas acrescidas ao grande milagre da ressurreição e ela aproveitava, evidentemente, ao meio-dia, de sua hora de lazer para guardar, com extraor-

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dinário talento artístico, a lembrança do ambiente em que ela havia outrora vivido. Seus desenhos testemunhavam um grande sentido de observação finamente desenvolvido, assim como cada palavra sua mostrava capacidade de raciocínio e idéias inteligentes. Ela deveria ter se sentado frequentemente perto da mesa adornada com os grifos e essa era, sem dúvida, para ela, uma recordação particularmente preciosa. Norbert, segurando o caderno, atravessou mecanicamente o pórtico e descobriu, no momento em que ia virar-se, uma estreita abertura na muralha, suficientemente larga, no entanto, para deixar passar um corpo de uma esbelteza fora do normal para dentro do edifício contíguo, e, de lá, para o Vicolo dei Fauno, do outro lado da casa. Parecia-lhe, ao mesmo tempo, muita insensatez sua acreditar que Zoé-Gradiva se entranhasse pelo solo. Não podia compreender como ele havia acreditado nisso. Ela tomava o caminho que a levava a sua tumba. Esta devia encontrar-se na rua dos Túmulos. Precipitou-se e seguiu apressado a rua de Mercúrio até à porta de Hércules. Mas quando chegou aí, era já muito tarde. A grande Stirada dei Sepolcri se estendia vazia, inundada de luz. O máximo que se podia distinguir, na sua extremidade, por trás da cortina resplandecente dos raios do sol, era uma sombra ligeira que parecia passar vagamente diante da casa de Diomedes.






Norbert teve, durante toda a segunda metade desse dia, a sensação de que Pompéia estava toda enco-



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berta, ou se encontrava, pelo menos, numa nuvem brumosa. Esta não era, como habitualmente, cinza, morna e melancólica, mas, para dizer a verdade, era mais uma nuvem alegre, particularmente mesclada de azul, de vermelho, de marrom, e sobretudo de um branco amarelado e de um branco de alabastro, onde os raios do sol misturavam fios de ouro. A nuvem tampouco diminuía a capacidade ótica do olho, ou a capacidade auditiva do ouvido. Somente o pensamento não conseguia atravessá-la, e era, no entanto, uma muralha de nuvens cujo efeito podia ser comparado ao da mais densa bruma. Ao jovem arqueólogo parecia que lhe administravam todas as horas de uma maneira invisível e, ademais, mal perceptível, que um fiaschetto di Vesuvio girava incansavelmente no seu cérebro. Procurava libertar-se disso aplicando a si mesmo o antídoto, bebendo muita água e fazendo caminhadas tão longas quanto possível. Seus conhecimentos médicos não eram muito extensos, mas o faziam diagnosticar que seu estado estranho se devia a um afluxo de sangue muito forte à cabeça, o que estaria relacionado talvez com uma aceleração da atividade do coração, pois sentia, por outro lado, algo até aqui totalmente desconhecido: um choque rápido, de tempos em tempos, contra a parede do peito. Além disso, seus pensamentos, se não podiam se exteriorizar, não ficavam inativos no seu interior, ou, mais exatamente, não havia no seu espírito senão um pensamento, seu dono exclusivo, e cuja atividade era tal que, mesmo sendo perpétuo, se tornava vão. Girava em torno da questão de saber que invólucro físico tinha Zoé-Gradiva, durante sua estada na casa de Meleagro, ou se, ao contrário, ela não era senão a enganadora ilusão do que havia sido anteriormente. O fato de que dispusesse de órgãos para falar, de que pudesse manter um lápis entre os

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dedos, parecia testemunhar em favor da primeira hipótese dos pontos de vista da física, da fisiologia e da anatomia. Mas a idéia dominante em Norbert era a de que, se ele a tocasse, se ele tentasse pôr sua mão sobre a dela, não encontraria senão o vazio. Um estranho instinto o impelia a procurar uma certificação, enquanto uma não menor timidez o impedia, em imaginação, pois ele sentia que a confirmação de qualquer dessas duas possibilidades tinha alguma coisa de assustador. A existência física dessa mão o teria amedrontado e a ausência dessa existência lhe daria um grande desgosto. Esterilmente absorvido por esse problema, que continuaria sem solução pelo menos até que uma experiência científica fosse instituída, Norbert foi conduzido pelo seu longo passeio até à montanha que se eleva acima de Pompéia e que é o primeiro contraforte da alta cadeia do monte Sant'Angelo. Aí encontrou, de maneira bastante imprevista, um velho senhor de barba grisalha que, a se julgar pelos apetrechos de toda sorte com que estava munido, devia ser um zoólogo ou um botânico ocupado em pesquisar sobre uma encosta ardentemente ensolarada. Virou a cabeça para Norbert, no momento mesmo em que este quase o tocava, olhou-o por um momento com surpresa e lhe disse:

— O senhor também se interessa pelo Faraglio-nensis? Eu mal podia acreditar, mas me parece provável que ele não se encontre somente no Faraglione, perto de Capri, mas também aqui sobre terra firme, se se tiver paciência de procurá-lo. O procedimento indicado por meu colega Fimer é verdadeiramente bom e eu já o tenho aplicado várias vezes com pleno sucesso. Por favor, não se mexa.

Parou de falar e depois de subir com prudência um pouco mais alto, deitou-se no chão, e sem um movimento colocou uma pequena alça, feita

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com um talo de erva comprido, diante de uma estreita fresta de rochedo onde se via a cabeça brilhante de um lagarto a espiar. O zoólogo permaneceu assim, sem se mexer. Norbert passou por trás dele sem fazer ruído e retomou o caminho pelo qual tinha vindo. Parecia lembrar-se vagamente de já ter visto a figura do caçador de lagartos, provavelmente num dos dois hotéis, e a acolhida que ele lhe dera parecia confirmar isso. O mínimo que se poderia dizer dos motivos que levavam as pessoas a demorar em Pompéia é que eram extremamente curiosas e incríveis. Feliz por ter podido se desembaraçar rapidamente do armador de laços e voltar a pensar no problema da existência ou da não-existência corporal, sentiu-se no dever de retornar. Mas um atalho o levou na direção errada, conduzindo-o à extremidade leste das muralhas da cidade e não a oeste aonde deveria ir. Absorvido pelos pensamentos, só percebeu seu erro quando chegou perto de um edifício que não era nem o Diomedes nem o Hotel Suíço. Entretanto, a construção tinha as indicações de um hotel. Notou, na vizinhança, as ruínas do grande anfiteatro de Pompéia e lhe veio à lembrança que existia perto do teatro um outro hotel, o Albergo dei Sole, que por ser afastado da estação não conseguia senão um número restrito de hóspedes e, que por essa mesma razão, era pouco conhecido. Tinha sentido calor durante o trajeto e sua cabeça não se havia liberado das nuvens que a rodeavam. Entrou então pela porta aberta e pediu o remédio que acreditava seria bom contra a congestão, uma garrafa de água mineral. A peça estava vazia, não se levando em conta as moscas, que se amontoavam em grande número, e o proprietário, que não tendo o que fazer, aproveitou a ocasião para puxar conversa e recomendar-lhe sua casa e as maravilhas, retiradas das escavações, que

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continha. Fez alusões bem pouco veladas às pessoas em casa de quem não havia um só objeto autêntico entre os que punham à venda, mas apenas falsos. Ele, que se contentava com uma coleção menor, pelo menos não oferecia aos seus clientes senão peças absolutamente autênticas. Não comprava jamais objetos provenientes de escavações às quais não tivesse ele mesmo assistido e, em seguida, de seu discurso se depreendeu que ele estava presente quando se descobriu, nos arredores do Fórum, um jovem casal de amantes que, na expectativa da inevitável catástrofe, se havia estreitamente enlaçado para esperar a morte. Norbert já havia ouvido essa história antes, mas havia dado de ombros, considerando-a uma fábula saída da imaginação particularmente fértil de um contador de histórias. Fez de novo essa observação, mas o proprietário lhe trouxe um broche de metal coberto de patina que teria sido encontrado, sob os seus olhos, na cinza, ao lado da jovem. Quando o hóspede do Albergo dei Sole teve a jóia em suas mãos, sua imaginação dominou-o de tal forma que a comprou ali mesmo, abandonando todo senso crítico, pelo preço para inglês que lhe pediam, e deixou logo em seguida o hotel com a sua compra. Ao virar-se para trás viu, à janela de um dos andares, uma haste de flores brancas de asfódelos suspensa, mergulhada num copo de água. Sem que nada de lógico houvesse nisso tudo, a vista dessa flor dos túmulos lhe pareceu uma confirmação da autenticidade de sua nova aquisição. Tomou então o caminho que segue ao longo das muralhas da cidade até a Porta Marina, olhando a jóia com atenção e timidez, tomado por um duplo sentimento. Não era, portanto, uma fábula; um casal de amantes fora exumado perto do Fórum e tinha sido perto do templo de Apolo que ele vira Gradiva se deitar para dormir o sono da morte. Mas ele a


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tinha visto em sonho e estava certo agora de que, na realidade, ela podia ter avançado alguns passos no Fórum e aí haver encontrado com o homem com quem havia morrido.

Segurando aquele broche esverdeado entre os dedos, estava possuído do sentimento de que pertencera a Zoé-Gradiva, e de que havia fechado seu vestido na altura do pescoço. E ela tinha sido a amante, a noiva, ou talvez a mulher daquele com quem quisera morrer.

Norbert Hanold teve vontade de jogar fora o broche. Queimava-lhe os dedos como se fosse de fogo. Ou melhor, lhe causava a mesma dor que sentiria em sua imaginação, se quisesse colher a mão de Gradiva na sua, e não encontrasse senão o vazio.

Mas a razão ainda era a dona do seu espírito e não deixava reinar sem controle a imaginação. Faltava-lhe, de qualquer maneira, uma prova irrefutável de que o broche pertencera a Gradiva e de que fosse mesmo ela que houvessem encontrado nos braços do jovem. Essa convicção teve para ele a força de um sopro liberador e, quando chegou ao Diomedes, com o crepúsculo que caía, seu passeio de algumas horas e sua boa saúde lhe haviam proporcionado também a necessidade de se alimentar. Comeu com bastante apetite a refeição espartana que o Diomedes estava acostumado a servir, apesar de sua origem ariana, e reparou em dois clientes novos chegados naquela tarde. Pela postura, pela língua, via-se que eram alemães. Eram um homem e uma mulher, tinham os dois umas caras jovens, simpáticas e espirituosas. Não se podia adivinhar que laços os uniam, mas Norbert deduziu por uma certa semelhança que encontrou entre eles que deviam ser irmão e irmã. No entanto, os cabelos louros do rapaz se distinguiam da nuance castanho-clara dos de sua companheira. Ela trazia no

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peito uma rosa vermelha de Sorrento, cujo aspecto recordava qualquer coisa àquele que a observava de um canto da sala, sem que ele pudesse se lembrar o que era. Era o primeiro casal que encontrava na viagem que lhe causava uma impressão simpática. Eles se entretinham diante de um fiaschetto e falavam num tom nem alto nem confidencial, sem dúvida de coisas tanto sérias quanto alegres pois, de vez em quando, um ligeiro sorriso lhes subia, nos dois ao mesmo tempo, aos lábios, tornando-os gentis e dando vontade de tomar parte na conversa deles ou, pelo menos, a Norbert veio esse desejo, se ele os tivesse encontrado dois dias antes numa sala povoada de ingleses e de americanos. Mas ele sentia que o que tinha na cabeça estava em grande contradição com a atitude natural e alegre do jovem casal que, evidentemente, não estava envolvido em nenhuma nuvem, que não meditava, certamente não, sobre a substância de que é feita uma mulher morta há dois mil anos e que usufruía do momento presente e da vida, sem se deixar perturbar por um problema repleto de enigmas. Não correspondendo seu estado ao deles, ele achou que não saberiam ser uns para os outros de nenhuma valia e, além disso, tinha bastante medo de travar conhecimento com aquelas pessoas naquelas condições, porque sentia um vago pressentimento de que seus olhos claros poderiam penetrar sua fronte, seus pensamentos e mostrar, pela sua expressão, que eles pensavam não estar ele em toda a sua razão. Meteu-se então no quarto e ficou, como na véspera, algum tempo frente à janela, a contemplar o manto de púrpura que, à noite, revestia o Vesúvio, depois se estirou para dormir. Muito fatigado, adormeceu logo e teve um sonho estranhamente absurdo: em algum lugar, sob o sol, Gradiva estava sentada e fez de um talo de erva um nó escorregadio para prender

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um lagarto dizendo: "Eu te peço, não te movas, minha colega tem razão, o procedimento é verdadeiramente bom, e ela o tem aplicado com pleno sucesso". No sonho, tudo isso pareceu absolutamente louco a Norbert Hanold, e ele se agitou, dormindo, a fim de libertar-se do seu sonho. E conseguiu, com efeito, graças ao socorro de um pássaro que, soltando um grito breve, semelhante a uma gargalhada, voou levando o lagarto no bico. Então, tudo desapareceu.


Ao despertar, Norbert se lembrou de que durante a noite uma voz lhe havia dito que as roseiras dão flor na primavera, ou foram os olhos que o recordaram disso quando seu olhar, pela janela, caiu sobre um arbusto coberto de deslumbrantes flores vermelhas. Eram da mesma espécie da que tinha ao peito a jovem mulher. Assim que chegou embaixo, Norbert colheu algumas rosas e cheirou-as. As rosas de Sorrento deviam, com efeito, ter qualquer coisa de peculiar, pois seu odor não lhe pareceu apenas maravilhoso, mas também estranho e novo. Parecia ter sobre o seu espírito um poder dissolvente. Pelo menos, elas o fizeram perder o medo que ontem tivera dos guardas do Ingresso e foi por esta via lícita que entrou em Pompéia, pagando o dobro do preço da entrada sob o primeiro pretexto que encontrou. Tomou rapidamente um caminho onde se misturou à multidão dos visitantes. Havia trazido o caderno de esboços da Casa di Meleagro, o broche esverdeado e as rosas

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vermelhas. Estas últimas o haviam feito esquecer de tomar o café da manhã, e seus pensamentos não apontavam a hora presente, mas o meio-dia. Como tinha ainda muito que esperar até lá, devia encontrar como empregar o tempo e, com essa intenção, penetrou numa casa, depois numa outra, onde lhe parecia possível que, outrora, Gradiva tivesse entrado com frequência, e que ela devesse, de tempos em tempos, visitar. A opinião de que ela só podia sair ao meio-dia lhe pareceu menos correta. Podia ser que lhe fosse permitido sair em outras horas do dia e durante a noite, ao luar. As rosas confirmavam miraculosamente essa opinião quando as tinha sob o nariz e as cheirava. E a reflexão ela própria lhe vinha confirmar essa maneira de ver. Ele podia, com efeito, se orgulhar de não manter uma suposição a priori e, ao contrário, deixar o campo livre a todas as hipóteses plausíveis e sua última hipótese não só lhe parecia lógica, como ainda desejável. Mas então colocou a questão de saber se os outros homens eram também capazes de perceber o invólucro corporal de Gradiva ou se era o único a possuir esse poder. Não pôde repelir a primeira destas hipóteses que chegou a tomar, a seus olhos, alguma verossimilhança, ainda que ele desejasse que fosse o contrário, e ela o pôr num estado de instabilidade e aborrecimento. O pensamento de que outros pudessem falar com Gradiva e sentar-se perto dela para a entreter o chocava. Era um direito que não pertencia senão a ele ou, pelo menos, tinha direito a um tratamento mais favorável, pois fora ele quem a havia reencontrado, a esta Gradiva, em quem ninguém pensava. Ele a havia contemplado diariamente, ele a tinha presa nele mesmo, ele tinha infundido nela, por assim dizer, sua própria força vital, e lhe parecia, por isso, haver dado a ela uma vida que ela não mais teria possuído sem ele.

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Por tudo isso, segundo o seu sentimento, tinha adquirido um direito ao qual podia pretender sozinho, e que podia recusar dividir com quem quer que fosse.

O dia estava ainda mais quente que os dois precedentes, o sol parecia alcançar um extraordinário recorde e fazia lamentar, não só do ponto de vista arqueológico, mas ainda do ponto de vista prático, que o aqueduto de Pompéia se encontrasse interrompido e ressecado há dois mil anos. As fontes das ruas guardavam aqui e ali uma lembrança e testemunhavam o fato de que antigamente os passantes sedentos as haviam utilizado sem cerimônia. Para se aproximarem de seus bocais, agora desaparecidos, eles pousavam uma das mãos sobre as bordas de mármore, e terminavam, da mesma maneira que a água gasta a pedra, gota a gota, por aí deixar uma marca funda. Norbert observava isso na esquina da Strada delia Fortuna e lhe vinha também à idéia que a mão de Zoé-Gradiva outrora teria igualmente se apoiado nesse lugar. Involuntariamente, pôs a mão na pequena mossa mas abandonou em seguida essa hipótese e chegou a ficar contrariado pelo fato de tal idéia lhe ter vindo ao espírito. Não combinava com os modos e o comportamento de uma jovem pompeiana de boa família. Havia qualquer coisa de degradante na idéia de ela se inclinar e pôr os lábios no bocal onde bebia a boca rude da plebe. Ele nunca havia visto nada mais nobre ou distinto que os gestos e a atitude de Gradiva. Aterrorizava-o que ela percebesse que ele tivera essa idéia incrivelmente absurda. Com efeito, os olhos dela tinham qualquer coisa de extraordinariamente penetrante e às vezes aflorava nele o pensamento de que, durante os encontros, eles procuravam saber o que se passava em sua mente e a penetravam com sua sonda de aço claro. Por isso precisava ter muito cui-

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dado para que eles não descobrissem nada de estúpido entre os seus pensamentos.

Faltava ainda uma hora para chegar o meio-dia e, para passar esta hora, atravessou a rua e entrou na Casa dei Fauno, a maior e mais magnificente casa ali descoberta. À diferença de todas as outras, possuía um átrio duplo, exibindo no centro do implúvio o pedestal sobre o qual se encontrara a famosa estátua do fauno dançando, que lhe havia dado o nome.

Norbert Hanold, no entanto, não sentiu o menor desgosto pelo fato de essa obra de arte, tão estimada pelos sábios, ter sido, juntamente com o mosaico da batalha de Alexandre, transportada para o Museo Nazionale de Nápoles e não se encontrar mais ali. Não tinha outra intenção ou desejo que passar o tempo e, com esse propósito, passeava ao acaso pelo grande edifício. Por trás do peristilo se abria uma peça espaçosa, cercada de numerosas colunas, repetição do peristilo ou jardim do prazer — Xisto — que a isso se parecia, pois estava, como o oecus da Casa di Meleagro, inteiramente recoberto de papoulas em flor. O visitante, com o pensamento ausente, andava pelo espaço desolado e silencioso.

Hesitou subitamente e parou. Não estava sozinho aí. Acabava de notar duas pessoas que, à primeira vista, lhe haviam dado a impressão de ser uma só, de tal maneira estavam agarradas uma à outra. Elas não o viam, não se ocupavam senão de si mesmas, e se acreditavam mesmo invisíveis a todos, dissimuladas como estavam, em um canto, escondidas pelas colunas. Estavam abraçadas, misturavam seus lábios, e o espectador imprevisto reconheceu, para sua grande surpresa, o rapaz e a moça que, na véspera, à tarde, haviam sido os primeiros a agradá-lo no curso de sua viagem. Mas, para um irmão e uma irmã, seu

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beijo e seu abraço pareciam realmente um pouco prolongados. Era, pois, um casal de enamorados, provavelmente recém-casados, uma Greta e um Augusto. Ê preciso notar que estes dois personagens não vieram, desta vez, ao espírito de Norbert e que este episódio não lhe pareceu de mau gosto ou ridículo, ao contrário, aumentou a simpatia que sentia pelo casal. Como o que faziam lhe parecia ao mesmo tempo natural e perfeitamente compreensível, demorou-se a olhar o espetáculo com seus dois olhos ainda mais abertos do que jamais haviam estado para a contemplação da obra de arte mais admirada da antiguidade e teria seguido nesta contemplação com prazer. Mas tinha o sentimento de que havia penetrado sem nenhum direito num recinto sagrado e de que estava perturbando as práticas secretas de um culto. Também a idéia de que poderia ser descoberto o encheu de terror e retirou-se apressado, caminhando sem fazer nenhum ruído, na ponta dos pés. Tão logo se viu a uma distância suficiente para não ser mais ouvido precipitou-se para fora correndo, pelo Vicolo dei Fauno, com o peito oprimido e o coração batendo.

Quando chegou diante da casa de Meleagro, não sabia se já era meio-dia e sequer pensou em consultar o relógio. Parou diante da porta, olhando com indecisão durante alguns instantes o Have que lá estava inscrito. Um medo o impedia de entrar e tinha, curio-

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samente, medo, ao mesmo tempo, de não encontrar Gradiva no interior da casa e de a encontrar aí, pois lhe havia vindo à cabeça, há alguns minutos que, no primeiro caso, ela estaria em algum outro lugar com um rapaz e que, no outro, este rapaz estaria com ela e lhe faria companhia, sentados os dois nos degraus entre as colunas. Tinha, contra este último, um ódio mais forte do que o que sentia por todas as moscas reunidas e não teria acreditado que fosse capaz de sentir uma emoção tão profunda e avassaladora. O duelo, que sempre lhe parecera um ato estúpido, surgia de repente sob essa luz como um direito natural e o único meio de um homem mortalmente ofendido exercer uma vingança que o satisfizesse ou deixar uma existência já então sem objetivo. Bruscamente dirigiu-se para a entrada. Queria provocar aquela selvagem, queria, e isso lhe vinha ainda com mais força, dizer àquela mulher que ele a havia considerado melhor, mais nobre e incapaz de tal comércio.

Estava a tal ponto transbordante nesses ensaios de revolta que as palavras lhe vinham à boca, embora não tivesse para isso nenhuma razão. Pois quando sua pressa o conduziu ao oecus, gritou com impetuosidade:
— Estás só? — mesmo não tendo nenhuma dúvida de que Gradiva, sentada nos degraus, estava tão sozinha como nas vezes precedentes.

Ela o olhou com surpresa e respondeu:
— Quem poderia estar ainda aqui depois do meio-dia? Todo mundo tem fome e está almoçando. Eu acho que a natureza fez as coisas muito bem assim.

A excitação transbordante de Norbert não podia se acalmar imediatamente e, apesar de sua consciência e vontade, era um campo aberto às desconfianças que o haviam invadido lá fora com a força

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de uma certeza. E apesar de toda a realidade, não conseguia chegar a pensar de outra forma. A mulher tinha os olhos fixos nele, esperando que retomasse a palavra. Depois bateu com o dedo na fronte e disse:
— Tu és... — Continuou: — Parece-me que já é bastante que eu não me ausente, apesar de ter que esperar tua chegada. Mas este lugar me agrada enormemente. Eu vejo que tu me trouxeste o caderno de esboços que esqueci ontem. Agradeço tua excelente intenção. Não queres mo dar?

Esta última pergunta se justificava pois Norbert não se propunha a fazê-lo e continuava pregado no mesmo lugar, sem um movimento. Vinha-lhe à mente que ele havia imaginado e forjado uma enorme estupidez e que havia dito outra. Para reparar isso tanto quanto possível, avançou rapidamente, estendeu o caderno a Gradiva, e sentou-se maquinalmente no degrau ao seu lado. Ela lançou um olhar sobre as mãos do jovem e disse:
— Parece que tu és amigo das rosas.

A estas palavras, o motivo que o havia levado a colhê-las e a trazê-las lhe voltou bruscamente e ele respondeu:
— Sim, mas elas não são para mim... Tu me disseste ontem... e esta noite alguém me repetiu, que devem ser oferecidas na primavera...

Ela refletiu um pouco, evidentemente, antes de responder:
— Ah! sim, me lembro! Disse que não se dava asfódelos às outras, mas rosas. Que gentil de tua parte. Parece-me que a opinião que tens de mim melhorou um pouco.

Ela adiantou a mão para segurar as flores vermelhas e ele deu-lhas dizendo:
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— Eu pensava, a princípio, que tu só podias estar aqui ao mejo-dia, mas creio agora que tu podes vir também a outras horas e estou feliz.
— E por que estás feliz?

O rosto da mulher exprimia incompreensão, mas seus lábios tremiam de maneira quase imperceptível. Ele respondeu sem jeito:
— Ê belo viver... eu nunca tinha me apercebido antes... Eu queria te perguntar...

Procurou no bolso do seu jaquetão e concluiu, retirando o objeto que havia, enfim, encontrado:
— Este broche te pertenceu outrora? Ela se aproximou ligeiramente, mas sacudiu a cabeça.
— Não, não posso me lembrar. Pela sua antiguidade, isso não me parece, contudo, impossível, pois ele provém, sem dúvida, desse tempo. O encontraste com certeza no Sol. Me parece já haver visto esta bela pátima verde.

Ele repetiu involuntariamente:
— No Sol, por que no Sol?
— Chama-se aqui o Sol ao que produz todas as coisas desta espécie. Não é possível que este broche tenha pertencido a uma jovem que morreu com um companheiro na região do Fórum, eu creio...
— Sim, ele a tinha em seus braços...
— Ah! sim...

Estas duas pequenas palavras saíram da boca de Gradiva evidentemente como uma exclamação favorável e ela parou um instante antes de continuar:
— Essa é a razão que te fez crer que eu o tinha usado e isso te havia talvez... como me dizias ainda há pouco... feito infeliz?
Via-se que ele se sentia extraordinariamente aliviado e assim demonstrou sua resposta:
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— Eu estou muito contente... O pensamento de que este broche te houvesse pertencido me havia causado uma espécie de... turbilhão na cabeça.
— Tua cabeça me parece propensa a isso. Esqueceste, talvez, de comer esta manhã? Isso favorece ainda mais tais acessos. Eu não sofro deles, mas trago provisões, porque gosto de estar aqui ao meio-dia. Se queres que te ajude a dissipar um pouco o estado de irritação em que te encontras, podemos reparti-las.

Tirou do bolso de seu vestido um pãozinho enrolado em papel de seda, pôs a metade na mão dele e começou a comer a outra metade com evidente apetite. Seus dentes, extraordinariamente graciosos e regulares, não se contentavam com aparecer entre os lábios e seduzir por seu esplendor, mas faziam ainda, ao morder a crosta do pão, um ruído ligeiramente crepitante que não dava absolutamente a impressão de que fossem aparências sem consistência, mas qualquer coisa de físico e de natural. Além disso, ela tinha razão ao comentar sobre o café da manhã perdido. Ele comia, também, maquinalmente e sentia um efeito favorável a esclarecer seus pensamentos. Assim não falaram os dois durante algum tempo. Entregaram-se à mesma ocupação útil, até o momento em que Gradiva disse:
— Parece-me que há dois mil anos nós já partilhamos igualmente o nosso pão. Não te lembras?

Ele não se lembrava, mas espantou-se por ela lhe falar de uma época indefinidamente distante, pois o reforço de solidez causado pela comida na sua cabeça havia tido como efeito uma mudança no estado do seu cérebro. A idéia de que ela pudesse ter se encontrado neste local de Pompéia há tão remoto tempo não lhe parecia enquadrar-se com o são racio-

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cínio. Tudo nela não lhe parecia agora ter mais que vinte anos. A forma e a cor do rosto, os cabelos castanhos ondulados de maneira particularmente encantadora, os dentes imaculados e o vestido claro, que nem a menor mancha mostrava, não podiam, sem flagrante contradição, ter estado enterrados durante inumeráveis anos sob a cinza. Norbert se pôs a duvidar de que estivesse verdadeiramente sentado ali, acordado, e pensou que era mais certo que estivesse em seu gabinete de trabalho e que, enquanto contemplava a imagem de Gradiva, o sono o tivesse tomado. Ele teria então sonhado que estava em Pompéia, que aí havia encontrado Gradiva ainda viva e continuava a sonhar que se encontrava sentado ao seu lado na Casa de Meleagro. Pois o fato de que ela ainda estivesse viva e rediviva não podia verdadeiramente acontecer senão em sonhos... As leis da natureza se opunham a isso.

O que ela acabava de dizer, no entanto, que já havia repartido seu pão, dois mil anos antes, com ele, parecia estranho. Ele nada sabia disso e, evidentemente, isso não podia lhe acontecer em sonhos.

Ela havia pousado os dedos finos da mão esquerda sobre o seu joelho, da mão que escondia a chave da revelação de um milagre insolúvel.

O oecus da Casa di Meleagro não estava abrigado da impertinência das moscas comuns. Norbert acabava de perceber uma, sobre uma das colunas amarelas, em frente a ele, que corria daqui para ali segundo o hábito idiota das moscas. Sem razão, agora ela zumbia em torno do seu nariz.

Ele devia ter respondido à pergunta e dito que não se lembrava de ter comido antigamente o pão com ela, mas involuntariamente as palavras seguintes lhe saíram bruscamente da boca:

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— As moscas eram então já tão diabólicas quanto agora e te atormentavam a ponto de te dar desgosto pela vida?

Ela o olhou com espanto e repetiu sem compreender:
— As moscas... Será que tens uma agora dentro da tua cabeça?

O monstro negro havia pousado nesse momento sobre sua mão e ela não exprimia senti-la sequer pelo menor movimento. À essa visão, dois poderosos impulsos concorreram para conduzir o jovem arqueólogo a um mesmo ato. Levantou bruscamente a mão e deu um golpe sem nenhuma doçura sobre a mosca e a mão da vizinha.

Tão logo o golpe foi dado, um grande embaraço tomou-o, ao mesmo tempo que um terror cheio de alegria. Ele não tinha golpeado no vazio, ele não tinha encontrado uma coisa fria e entorpecida mas, sem dúvida alguma, uma verdadeira mão humana, quente e viva, que ficou um instante sob a dele, sem movimento, evidentemente siderada. Depois foi vivamente retirada e a moça disse:
— Tu estás realmente louco, Norbert Hanold.

Este nome, que ele não havia dito a ninguém em Pompéia, lhe vinha com tanta certeza, com tal decisão e sem nenhuma hesitação, dos lábios de Gradiva, que aquele que o possuía levantou-se, ainda mais assustado, do degrau onde havia estado sentado. Nesse momento ressoaram passos entre as colunas, passos que se haviam aproximado sem serem notados e diante do olhar perturbado de Norbert Hanold apareceram os rostos do casal de amantes simpáticos da Casa dei Fauno. A jovem gritou, num tom da mais viva surpresa:

— Zoe, tu também aqui! E também em viagem de núpcias! Não me havias escrito nada!

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Norbert se viu do lado de fora da Casa de Meleagro, na Strada di Mercúrio. Não tinha a menor noção de que maneira havia chegado ali. Devia ter saído instintivamente ao perceber, num súbito clarão, que era tudo o que lhe restava fazer se não quisesse se encontrar na situação mais ridícula do mundo aos olhos do jovem casal, mais ainda aos olhos daquela que lhe havia chamado por seus dois nomes e que eles haviam saudado tão amigavelmente, e sobretudo aos seus próprios olhos. Pois embora não compreendesse nada do que lhe havia ocorrido, alguma coisa lhe parecia incontestável. Gradiva, com aquela mão que era humana, que não era sem consistência, que era morna e realmente viva, havia expressado esta incontestável verdade: ele havia se encontrado, nos dois últimos dias, num estado de completa loucura e não era um sonho estúpido, os olhos e os ouvidos que a natureza põe à disposição da razão humana tinham estado despertos. Não compreendia em absoluto — não mais, aliás, que todo o resto — como tudo aquilo pudera acontecer. Além disso, tinha o vago sentimento de que um sexto sentido teria tido um papel muito importante nesse caso, a ponto de tê-lo feito tomar uma coisa, preciosa talvez, pelo seu oposto. A fim de tirar algum proveito dessas reflexões, precisava de um lugar silencioso e solitário, distante, o que impulsionou Norbert Hanold a afastar-se o mais rápido possível de olhos, ouvidos e outros órgãos dos sentidos que utilizam seus talentos naturais, como convém, aos fins a que são destinados.

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Quanto à pessoa que possuía a mão morna, tinha ficado também surpreendida pela visita inopinada e particularmente imprevista ao meio-dia, e deduzindo-se da expressão inicial de sua fisionomia, a surpresa não fora exclusivamente agradável. Mas no instante seguinte não aparecia mais o menor traço disso sobre seu rosto circunspeto; levantou-se rapidamente, dirigiu-se à jovem mulher e lhe apertou a mão.

— É verdadeiramente um prazer, Gisa, o acaso tem mesmo de vez em quando uma idéia agradável. Então o senhor é seu marido há quinze dias? Estou encantada em conhecê-lo e não é necessário, pelo ar que vejo em vocês, transformar as felicitações em condolências. Casais que têm necessidade desse tipo de cumprimento costumam vir almoçar em Pompéia hoje em dia. Vocês devem estar hospedados perto do Ingresso. Irei ver vocês esta tarde. Não, eu não escrevi e peço que você não se zangue, pois, como você vê, minha mão não se regozija, como a sua, do direito de usar uma aliança. O ar aqui tem grande efeito sobre a imaginação, você é a prova disso, o que é melhor do que se ele deixasse vocês muito sóbrios. O rapaz que acaba de partir também está tecendo no cérebro uma teia estranha, me parece que ele imagina uma mosca zumbindo na cabeça; aliás, cada um não tem, mais ou menos, sua aranha no teto? Eu tenho alguns conhecimentos de entomologia; sou, portanto, de alguma utilidade em tais casos. Meu pai e eu moramos no Sole, ele teve, também, um súbito acesso e, com isso, a boa inspiração de trazer-me com ele sob a condição de que eu me distraia só em Pompéia e de que não o aborreça. Eu achava que mesmo sozinha acabaria desenterrando aqui qualquer coisa interessante. Mas sobre o meu achado — quero dizer, a oportunidade de encontrar você, Gisa — eu não tinha ousado pensar. Mas não paro de fa-

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lar, tagarelando como se faz com uma velha amiga. Nós não somos, na verdade, velhas. Meu pai, às duas horas, deixa o sol pela mesa dos hóspedes do Soleil e eu preciso ir fazer-lhe companhia e tenho que renunciar, por agora, à de vocês. Vocês podem, eu creio, admirar sem mim a Casa di Meleagro. Não tenho certeza, mas suponho que sim. Favorisca signor! A rivederci Gisetta! Já aprendi bastante italiano e não preciso saber mais. Aquilo de que se necessita, se inventa. Com licença, não, senza complimenti.

Este último pedido se dirigia ao jovem marido que, por polidez, parecia querer acompanhá-la. Ela havia se expressado com vivacidade, sem nenhum embaraço e de acordo com as circunstâncias de seu encontro imprevisto com uma de suas amigas íntimas. Mas havia falado excessivamente rápido, o que demonstrava que, como dizia, lhe era mesmo impossível ficar. Também só saiu da Casa de Meleagro para a Strada di Mercúrio alguns minutos depois da partida precipitada de Norbert Hanold. A rua, como de costume àquela hora do dia, não continha nada de vivo, a não ser aqui e ali um lagarto que remexia a cauda. Parou à soleira da porta, refletiu alguns instantes, depois tomou o caminho mais curto até a porta de Hércules, seguindo as lajes da encruzilhada do Vicolo di Mercúrio e da Strada di Lallustio com seu macio andar de Gradiva. Chegou, assim, rapidamente, às bases das ruínas das muralhas da Porta Ercolanese. Por trás desta se estendia a longa Via dos Túmulos, mas esta não tinha então o branco resplendente que a havia revestido e feito toda faiscante de raios, vinte e quatro horas antes, quando o jovem arqueólogo aí buscava a moça com os olhos. O sol parecia convencido de que já havia ultrapassado suas medidas pela manhã. Dissimulava-se atrás de uma nuvem cinzenta, aparentemente trabalhando ainda através de sua den-

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sidade, e os ciprestes, de um lado e de outro da Strada dei Sepolcri se erguiam, aqui e ali, em negro escuro sobre o céu. Era um quadro muito diverso do da véspera. A claridade que tornava todas as cores misteriosamente radiosas havia desaparecido. Via-se com morna precisão a rua, que parecia haver tomado um aspecto de acordo com sua denominação. Essa impressão não se desmentia, mas aumentava devido a alguma coisa que se via mover-se no outro extremo da rua, nas proximidades da villa de Diomedes e que se assemelhavam a uma sombra tentando encontrar sua tumba para desaparecer dentro dela. Não era o caminho mais curto para ir da Casa de Meleagro ao Albergo dei Sole, melhor dizendo, era a direção oposta, no entanto, Zoé-Gradiva devia ter-se lembrado, de repente, de que o tempo não a pressionava tanto para ir almoçar, pois, em seguida, após uma pequena parada perto da porta de Hércules, afastou-se de costas, levantando quase verticalmente a sola dos pés sobre as lajes de lava da Rua dos Túmulos.


A villa de Diomedes era assim denominada gratuitamente pelos homens modernos porque um certo Líbertus Marcus Arrius Diomedes, elevado ao cargo de chefe do bairro que outrora se erguia nesse lugar, aí havia construído um túmulo, primeiro para sua esposa e depois para si próprio e para os filhos. Essa villa era um vasto edifício e oferecia um testemunho autêntico e aterrador da história da destruição de

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Pompéia. Todo prédio superior estava agora reduzido a um grande amontoado de ruínas. Um pouco mais abaixo se encontrava um jardim de dimensões excepcionalmente extensas, inteiramente cercado por um pórtico cujos pilares estavam bem conservados. No centro do jardim se encontravam os magros resíduos de uma fonte e de um pequeno templo. Um pouco mais abaixo ainda, duas escadas conduziam a um subterrâneo abobadado que circundava o jardim e era iluminado por uma claridade obscura e crepuscular. A cinza do Vesúvio havia penetrado também aí, onde foram descobertos os esqueletos de dezoito mulheres e crianças. Haviam se refugiado com algumas provisões colhidas às pressas nessa peça meio subterrânea e esse pretenso refúgio se havia transformado em túmulo para todos os que nele se haviam abrigado. Em outro local se encontrara o suposto dono da casa que fora do mesmo modo asfixiado e jazia sobre o solo. Havia querido fugir pela porta do jardim, da qual tinha ainda a chave na mão. Ao seu lado encontrava-se outro esqueleto contorcido, sem dúvida o de um de seus serviçais, que trazia com ele considerável número de peças de ouro e prata. A cinza endurecida conservara a forma dos corpos que enterrara e assim se tirara moldes deles; no Museo Nazionale de Nápoles se encontra, sob um vidro, o modelado exato do pescoço, dos ombros e do belo busto de uma jovem vestida num fino vestido de gaze.

A Villa de Diomedes era, pelo menos uma vez, o inevitável final de percurso para um visitante consciente de seu dever, mas naquele momento, ao meio-dia, se podia supor com certeza que, devido à localização afastada, não se encontrava ali nenhum curioso; assim, ela pareceu a Norbert Hanold o refúgio que melhor convinha à sua nova necessidade de reflexão. Esta exigia imperiosamente uma solidão de

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tumba, um silêncio sem sopro e uma tranquilidade sem movimento, mas uma inquietude poderosa crescia energicamente no sistema arterial de Hanold contrariando essa última pretensão. Tinha sido forçado a fazer entre as duas reivindicações um acordo; a mente tentaria manter a sua, permitindo, todavia, aos pés que contentassem seu desejo. Assim, desde a chegada, passeava em volta do pórtico, conseguindo manter o equilíbrio corporal e esforçando-se para normalizar o de sua mente. Mas a realização se mostrava mais difícil de atingir que a intenção; sem dúvida, Norbert via clara e incontestavelmente que havia sido totalmente insensato ao pensar que tinha se sentado ao lado de uma jovem pompeiana ressuscitada e mais ou menos reencarnada, e esta idéia, bem distinta da sua loucura, o levava incontestavelmente a um progresso considerável no caminho de volta à razão. Mas sua razão não retornara ainda ao estado normal, pois se lhe parecera que Gradiva não era mais que uma figura de pedra morta, estava da mesma forma fora de dúvida que ela vivia ainda. Tinha disso uma prova irrefutável, ele não tinha sido o único a vê-la, outros também o podiam fazer, sabiam que ela se chamava Zoe e lhe falavam como a uma pessoa de sua espécie. Por outro lado. Gradiva sabia o nome de Norbert Hanold e isso só poderia dever-se a uma faculdade sobrenatural do seu ser. Ora, essa dupla natureza continuava igualmente indecifrável à luz da razão que começava a lhe voltar. A essa contradição insolúvel se associava outra parecida, que estava nele, pois se tinha o vivo desejo de se enterrar com os outros na villa de Diomedes a fim de não correr o risco de reencontrar Gradiva, ao mesmo tempo o animava o sentimento extremamente alegre de que ela ainda estava na vida e conseqüentemente ele podia reencontrá-la outra vez. Isso girava na sua

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cabeça, empregando uma comparação vulgar, mas exata, como a roda de um moinho, e ele corria da mesma maneira ao redor do longo pórtico, o que não dissipava suas contradições. Muito ao contrário, tinha o vago sentimento de que tudo em volta dele obscurecia sem cessar.

Foi então que, de súbito, recuou, quando virava um dos quatro cantos da aléia bordejada de pilares. A alguns passos diante dele, bem alto, sobre um trecho de muralha em ruínas estava sentada uma jovem, uma das que foram encontradas mortas aqui mesmo sob as cinzas.

Não, aí estava um desses absurdos dos quais já havia liberado sua razão. Seus olhos, e qualquer coisa nele que não tem nome, o reconheceram. Era Gradiva, ela estava sentada sobre as pedras da ruína como antes sobre o degrau, mas como estivesse bem mais alto, mostrava, sob a bainha do vestido, os pés, até os graciosos tornozelos, pendendo livremente, calçados nos sapatos cor de areia.

O primeiro movimento instintivo de Norbert Hanold foi fugir correndo pelo jardim, entre dois pilares. Aquilo que mais temia no mundo, na última meia hora, acabava de acontecer num repente. Os olhos claros que o olhavam e os lábios abaixo deles iam, achava ele, explodir num riso irônico. Mas nada fizeram e uma voz conhecida ressoou tranquilamente: "Lá fora vais te molhar."

Percebeu agora, pela primeira vez, que chovia; era por isso que o tempo se havia tornado tão sombrio. Isso seria, sem dúvida, do melhor proveito para a vegetação de Pompéia e seus arredores, mas seria ridículo acreditar que um homem pudesse tirar qualquer vantagem daquela chuva e nesse momento Norbert Hanold temia muito mais o ridículo do que um perigo de morte.

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Foi esta a razão por que abandonou, a contragosto, seu desígnio, e ficou, todo sem graça, olhando os dois pés de Gradiva que, agora, como que tomados de impaciência, balançavam ligeiramente. E como isso não esclarecia precisamente os pensamentos que pudesse estar exprimindo, a proprietária dos pés graciosos tomou de novo a palavra:
— Nós fomos interrompidos... Querias dizer-me qualquer coisa sobre as moscas... creio que fazias observações científicas ou tinhas uma mosca dentro da cabeça... Conseguiste pegá-la sobre a minha mão e matá-la?

Dizendo essas últimas palavras um sorriso lhe passou pelos lábios, mas tão leve e gracioso que nada teve de terrível. Muito ao contrário, devolveu a Norbert o que ele buscava, a possibilidade de falar, mas com uma restrição: o jovem arqueólogo não sabia mais, de repente, em que pessoa dirigir sua resposta. Para escapar ao dilema, achou melhor não usar nenhuma e respondeu:
— Eu tinha, como se diz, o cérebro um pouco confuso e peço perdão de ter assim... essa mão... Não posso me explicar como pude ser tão insensato; mas não estou, tampouco, no estado de compreender como é que a dona dessa mão pode me censurar pelo meu desatino me chamando pelo meu nome.

Os pés de Gradiva pararam o movimento e ela retomou seu discurso na segunda pessoa do singular:
— Tua compreensão não está ainda bastante desenvolvida, Norbert Hanold. Isso, aliás, não poderia me surpreender, pois há muito tempo que estou acostumada com ela. Para renovar essa experiência não me teria sido necessário vir a Pompéia, poderias ter-me convencido, certamente, a uma centena de léguas daqui.

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— A cem léguas daqui — repetiu ele sem compreender e meio gaguejante —, onde isso?
— Em frente à tua casa, na diagonal, na casa da esquina, à minha janela há uma gaiola com um canário.

Esta última palavra tocou aquele que a ouvia como a recordação de um tempo longínquo, e ele repetiu:
— Um canário...

E acrescentou gaguejando ainda mais:
— Que... que canta?
— É o seu costume, sobretudo na primavera, quando o sol começa a brilhar e a esquentar. Nessa casa mora meu pai, Richard Bertgang, professor de zoologia.

Os olhos de Norbert Hanold se arregalaram tanto, a tal ponto, como jamais haviam conseguido arregalar-se antes. Repetiu uma vez mais:
— Bertgang... a senhorita é, então... a senhorita é a senhorita Zoe Bertgang? Mas essa me parecia outra pessoa.

Os dois pés suspensos começaram a balançar e a senhorita Zoe Bertgang disse:
— Se achas o tratamento cerimonioso mais conveniente entre nós eu posso também empregá-lo, mas chamar-te de tu me vinha mais naturalmente aos lábios. Eu não sei se no passado, quando brincávamos amigavelmente todos os dias, e de vez em quando trocávamos tapas e sopapos eu te aparecia sob outra luz. Mas, se nestes últimos anos o senhor se desse o trabalho de lançar os olhos sobre mim, as cascas talvez já tivessem caído, e o senhor teria percebido que há algum tempo sou assim. Não, agora chove muito, a cântaros, como se diz, o senhor não ficaria com um fio seco.

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Não apenas os pés da jovem testemunhavam uma nova onda de impaciência, mas também havia no tom da sua voz qualquer coisa que parecia demonstrar que ela estava zangada e de mau humor e Norbert tinha a impressão de desempenhar o papel de um escolar repreendido, que leva um tapa na boca. O que o fez procurar maquinalmente, mais uma vez, uma saída entre os pilares, e ao movimento que expressava esse desejo é que se referiam as últimas palavras que havia acrescentado a senhorita Zoe Bertgang. E, para dizer a verdade, eram incontestavelmente justas, pois para designar a chuva que caía por fora do teto protetor a expressão chove muito era bastante fraca. Uma tromba d'água tropical, de uma espécie que raramente se abate, para benzê-los, sobre os campos napolitanos, precipitava o mar Tirreno do alto do céu sobre a villa de Diomedes e se erguia como uma firme muralha composta de milhares de gotas da grossura de uma noz, resplandecentes como pérolas. Essa circunstância tornava, com efeito, impossível uma fuga ao ar livre e forçava Norbert Hanold a permanecer na sala de aula que constituía o pórtico. Sua jovem professora, de expressão fina e prudente, aproveitava o aprisionamento para continuar, após curta pausa, os esforços pedagógicos.
— Então, até essa idade em que, não sei bem por quê, nos tratam de "Backfisch", eu, na verdade estranhamente, me dediquei ao senhor, e acreditei jamais poder encontrar no mundo amigo mais encantador. Eu não tinha mãe, nem irmão, nem irmã, e quanto ao meu pai, a primeira cobra-de-vidro que aparece, conservada no álcool, lhe parece muito mais interessante do que eu; ora, é uma necessidade, necessidade da mais absoluta para quem quer que seja, mesmo para uma adolescente, ter com que ocupar seus pensamentos e tudo o que daí se segue. Esse quê era,

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então, o senhor, mas quando a ciência da antiguidade o submergiu, eu fiz essa descoberta que tu — desculpe-me, mas sua inovação protocolar parece tão insípida e pouco apropriada ao que eu quero exprimir — eu queria dizer, então, me pareceu que te havias transformado num homem insuportável que, para mim pelo menos, não tinha mais olhos na cara, língua na boca, lembranças no lugar em que eu conservava intacta toda a nossa amizade de infância. Por isso, sem dúvida, eu não tinha mais meu jeito de antes; pois quando nós nos encontrávamos aqui ou ali no mundo, no inverno passado ainda, tu não me vias, eu não ouvia o som da tua voz, o que não me parecia, aliás, especial, pois fazias o mesmo com todas as outras. Eu não era, para ti, senão o vento, e com esse topete louro, que antigamente tantas vezes eu despenteei, estavas também tão tedioso, seco e parco de palavras como uma cacatua empalhada e com isso inchado de importância como um arqueopterix (é bem o nome de pássaro monstro, fóssil antedilu-viano). Mas que a tua mente edificasse um fantasma assim tão monumental de me tomar aqui, em Pompéia, como uma coisa qualquer exumada e ressuscitada, eis o que eu não poderia ter esperado de ti e quando surgiste de imprevisto diante de mim, foi com grande esforço, primeiramente, que pude alcançar o que havia por trás da incrível teia tecida pela imaginação no teu cérebro. Depois comecei a me divertir e saboreei esse divertimento, apesar do seu bolor de casa de loucos. Pois, como te dizia, não esperava isso de tua parte.

Isso dizendo, a senhorita Zoe Bertgang havia terminado por adoçar um pouco o tom de sua voz e sua expressão. Enquanto fazia esse sermão severo, sem disfarce, circunstanciado e instrutivo, se parecia, de maneira verdadeiramente notável, ao baixo-relevo

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Gradiva, não apenas pelos traços de seu rosto, pelo tamanho, pela expressão séria dos olhos, os cabelos graciosamente ondulados, a postura que ela havia tantas vezes manifestado, mas ainda pelas vestes, o vestido e o xale de fina e macia casimira creme, com numerosas pregas, que completavam a extraordinária semelhança de toda a sua aparência.

Era loucura completa ter acreditado que uma pompeiana enterrada aqui há dois mil anos pelo Vesúvio, pudesse de vez em quando sair bem viva, falar, desenhar, comer pão. Mas como a fé traz a felicidade, ela faz aceitar de contrapeso uma quantidade de coisas inacreditáveis. Tudo bem considerado, assim era, salvo algumas circunstâncias atenuantes importantes, levando-se em conta o estado de espírito de Norbert Hanold e a loucura que o havia feito tomar Gradiva, durante dois dias, por uma Rediviva.

Embora ele estivesse bem no seco sob o telhado do pórtico, se podia compará-lo a um cão molhado, sobre o qual acabavam de derramar um balde cheio de água. Mas, para dizer a verdade, a ducha fria lhe havia feito bem. Sem que soubesse bem por quê, sentia o peito mais livre, a respiração mais fácil. Essa leveza poderia ter sido facilitada pela mudança de tom do fim do sermão — a pregadora estava, efetivamente, sentada como sobre uma cátedra — e durante o sermão havia surgido entre suas pálpebras o esplendor transfigurador que aparece nos olhos dos visitantes de igrejas, em quem a fé e a esperança despertam a perspectiva de um futuro bem-aventurado. Como a reprimenda estivesse terminada, sem que se pudesse temer que outra viesse a seguir, Norbert conseguiu dizer:
— Sim, eu te reconheço agora... Não, na verdade tu não mudaste... és Zoe..., minha boa camarada, alegre e ajuizada, é realmente muito estranho.

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— Que alguém tenha primeiro que morrer para encontrar a vida. Mas isso sem dúvida é necessário na arqueologia...
— Não, eu quero falar de teu nome...
— Porque ele é. estranho?

O jovem arqueólogo se mostrava não apenas versado nas línguas clássicas, mas também nos radicais germânicos, pois respondeu:
— Pois Bertgang e Gradiva têm o mesmo sentido e querem dizer aquela que resplandece ao andar.

Os dois sapatos, espécie de sandálias, da senhorita Zoe Bertgang pareciam naquele momento, pela sua mobilidade, uma alvéloa a se agitar com impaciência, como a esperar qualquer coisa, e aparentemente as meditações linguísticas eram o que menos interessava à dona daqueles pés que resplandeciam quando caminhavam. E, por sua expressão, ela aspirava um desenlace rápido. Mas de novo se atravessou uma observação de Norbert Hanold, que parecia moldada na mais profunda convicção:
— Mas que sorte que tu não és Gradiva, mas sim aquela moça tão simpática!

Estas palavras fizeram passar pelo rosto da moça uma espécie de espanto, que disse:
— Quem é, em quem tu pensas?
— Naquela que falava contigo na casa de Meleagro.
— Tu a conheces?
— Sim, já a tinha visto, é a primeira vez que uma mulher me agrada tanto.
— Ah! E onde a viste?
— Esta manhã, na casa do Fauno. Os dois estavam fazendo uma coisa extraordinária.
— O que estavam fazendo?
— Não estavam me vendo e se beijavam.

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— Ë bem natural. Por que outra razão estariam em Pompéia em viagem de núpcias?

A estas últimas palavras toda a perspectiva se transformou aos olhos de Norbert Hanold, pois o trecho de muro que Zoe havia escolhido para cátedra se encontrava vazio, a jovem havia descido. Ou melhor, ela tinha voado, se lançando no ar com a mobilidade oscilante da alvéloa e se encontrava já ereta sobre os pés de Gradiva antes que o olhar tivesse podido tomar consciência do seu vôo descendente.

Retomou imediatamente a conversação dizendo:
— A chuva agora passou. Os mestres severos demais não duram muito tempo. Tudo voltou à razão, eu não menos que os outros. Podes ir te encontrar com Gisa Hartleben, ou qualquer outro nome que ela tenha, a fim de lhe ser cientificamente útil durante sua estada em Pompéia. Eu preciso regressar ao Albergo dei Sole, onde meu pai deve estar me esperando para almoçar. Nós talvez nos reencontremos pelo mundo, na Alemanha ou na lua... Adeus. Zoe Bertgang falava no tom distinto, mas perfeitamente insignificante, de uma jovem da melhor sociedade e se preparava para ir embora, pousando, como era seu costume, o pé direito à frente, enquanto a planta do esquerdo se mantinha quase verticalmente. Como, além disso, dada a umidade do chão, ela levantasse ligeiramente o vestido com a ajuda da mão esquerda, a semelhança com Gradiva era perfeita e aquele que estava afastado dela apenas o dobro do comprimento de um braço, notou então pela primeira vez um detalhe na verdade ínfimo que distinguia a viva do baixo-relevo. Faltava a este último uma coisa que a outra possuía e que se mostrava muito nitidamente nesse momento: era uma pequena covinha na face, onde se passava qualquer coisa mínima e difícil de determinar. Ela se pregueou então

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um pouquinho, o que poderia bem exprimir tanto um desafio quanto um desejo de rir reprimido, talvez até as duas coisas juntas. Norbert Hanold olhava essa covinha e, ainda que fosse trazido à razão segundo o diploma que acabavam de conceder-lhe, seus olhos devem ter se confundido por um erro de ótica. Pois anunciou sua descoberta num tom particularmente triunfante:
— Eis a mosca outra vez!

Era de tal maneira estranho que a ouvinte, sem compreender estas palavras, não podendo verificar por si mesma, deixou involuntariamente escapar:
— A mosca, onde?
— Aí, no teu rosto.

E, em resposta, Norbert enlaçou subitamente o pescoço da jovem, tentando alcançar com os lábios o inseto que ele tanto detestava e que imaginava ver na covinha. Evidentemente não teve sucesso, pois exclamou logo em seguida:
— Não, ei-la agora sobre os teus lábios!

E nesse sentido dirigiu sua caçada com a rapidez do raio. Mas dessa vez demorou tanto tempo que não deixou nenhuma dúvida de que não vinha atrás do inseto. E, coisa extraordinária, a Gradiva viva agora não o contrariava em nada, e quando, por volta de um minuto mais tarde, foi obrigada a retomar a respiração, não lhe disse, apesar de a possibilidade de falar lhe ter sido restituída:
— És completamente louco, Norbert Hanold.

Mostrou, pelo contrário, com um sorriso encantador nos lábios bem mais vermelhos que antes, que agora estava perfeitamente convencida da total recuperação pelo companheiro, da saúde e do juízo.
A villa de Diomedes tinha sido, há dois mil anos, numa hora nefasta, testemunha de acontecimentos particularmente lúgubres, mas durante uma

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hora não viu acontecer nada capaz de provocar terror. Nesse momento, então, surgiu na senhorita Zoe uma reflexão sensata e ela disse, na verdade contra a vontade:
— Mas realmente preciso ir agora. Meu pai vai morrer de fome. Creio que por hoje podes renunciar à companhia de Gisa Hartleben no almoço e te contentares com o Albergo dei Sole, pois já não tens mais nada a aprender com a minha amiga.

Poder-se-ia concluir daí que durante a hora precedente se havia tratado de uma coisa como outra qualquer, pois essas propostas pareciam indicar que Norbert Hanold havia recebido da jovem dama acima citada úteis lições. Ele não deu atenção às palavras de exortação, mas pela primeira vez lhe veio à mente algo que exprimiu assim:
— Mas teu pai, o que é que ele vai... A senhorita Zoe o interrompeu sem manifestar qualquer inquietação:
— Oh! Nada, provavelmente. Eu não sou uma peça indispensável à coleção zoológica dele. Se fosse, talvez meu coração não se ligasse tão tolamente em ti. Aliás, já faz tempo que descobri que uma mulher vale somente na medida em que libera o homem das preocupações domésticas. Neste ponto, podes ficar tranquilo em relação ao futuro, sempre poupo disso o meu pai. Mas ele talvez tenha justamente nesse caso uma opinião diferente da minha, e então arranjaremos as coisas da maneira mais simples do mundo. Tu irás a Capri por alguns dias e lá apanharás com um laço de capim — podes treinar como se fez no meu dedinho — uma Lacerta Faraglionensis. Tu a deixas aqui e a capturas outra vez à vista dele. Depois, o fazes escolher entre o lagarto e eu. Sou eu que ele te concederá, tenho tanta certeza que quase lamento por ti. Sou muito ingrata, hoje sinto isso, para com seu co-

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lega Eimer, pois sem a invenção genial dele, relativa a lagartos, eu com certeza não viria à casa de Meleagro, o que teria sido uma pena, não só para ti mas também para mim.

Ela expressou essa opinião ao sair da villa de Diomedes, não havendo, infelizmente, testemunha que pudesse nos trazer as inflexões e o tom então presentes em sua voz. Embora combinassem com o resto de sua pessoa, as inflexões de sua voz tinham então, sem nenhuma dúvida, um encanto extraordinariamente bonito e travesso.

De todo modo, Norbert Hanold ficou tão enlevado que gritou, tomado por um impulso poético:
— Oh! Zoe, tu que és a vida amada e a presença amável, faremos nossa viagem de núpcias na Itália e em Pompéia?

Isso confirmava de forma decisiva o fato de que a transformação das circunstâncias traz também uma mudança na alma do homem ao mesmo tempo que um enfraquecimento da memória. Pois não lhe ocorria que ele e a companheira de viagem estariam arriscados a receber da parte dos companheiros de viagem misantropos e mal-humorados os apelidos de Augusto e Greta. Pensava nisso tão pouco quanto no fato de que iam juntos, de mãos dadas, pela rua dos Túmulos de Pompéia. A bem da verdade, ela não merecia esse nome no momento. Um céu deslumbrante e limpo sorria acima dela. O sol cobria com um tapete dourado as antigas placas de lava, o Vesúvio abria as asas de seu amplo penacho de fumaça e toda a cidade parecia coberta, não de cinzas e de pedras-pome, mas de pérolas e diamantes, graças ao efeito da chuva benfazeja. Com essas jóias rivalizava o brilho da lua que estava nos olhos da jovem filha do zoólogo, mas seus lábios prudentes respondiam à vontade de viajar que o amigo de infância demons-

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trava, ele próprio parecendo ter sido desenterrado de um longo sepultamento:
— Acho que não há necessidade de quebrar a cabeça com esse assunto hoje. Ê uma coisa que tem de ser seriamente pensada e à qual dedicaremos nosso pensamento no futuro. De minha parte, não me sinto ainda tão plenamente viva para tomar tal decisão geográfica.

Isso demonstrava uma grande modéstia da parte de alguém que julgava assim a própria capacidade de escrutinar coisas sobre as quais ainda não tinha refletido. Nesse momento tinham chegado à Porta de Hércules, naquele ponto em que, no início da Strada Consolare, estão as lajes, através da rua. Norbert Hanold parou diante das lajes e disse num tom de voz muito peculiar:
— Passe aqui, à frente, por favor.

Um sorriso alegre e entendido passou pelos lábios da companheira, e apanhando frouxamente o vestido com a mão esquerda, Gradiva-Rediviva-Zoé Bertgang, envolvida pelos olhares sonhadores de Norbert Hanold, no seu andar macio e tranquilo, em pleno sol, sobre as lajes, passou para o outro lado da rua.





FIM



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