EXISTÊNCIA NÃO É PREDICADO | HEGEL

| quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Essa observação contém o mesmo argumento que constitui o momento capital da crítica kantiana da prova ontológica de Deus, acerca da qual todavia só se considera a diferença nela ocorrente entre o Ser e Nada em geral e de determinado Ser e não-Ser. É sabido que naquela aludida prova estava pressuposto o conceito de um Ser (Wesen) em que se encontram todas as realidades, bem como a existência, que também era considerada como uma das realidades.




G. W. F. Hegel. “Textos Dialéticos”. Selecionados e traduzidos, com Introdução e Notas, pelo professor DJACIR MENEZES. 1969, Zahar Editores RJ.



Essa observação contém o mesmo argumento que constitui o momento capital da crítica kantiana da prova ontológica de Deus, acerca da qual todavia só se considera a diferença nela ocorrente entre o Ser e Nada em geral e de determinado Ser e não-Ser. É sabido que naquela aludida prova estava pressuposto o conceito de um Ser (Wesen) em que se encontram todas as realidades, bem como a existência, que também era considerada como uma das realidades. A crítica kantiana insistia sobretudo nesse ponto, que a existência ou o ser (o que significa aqui a mesma coisa), não é de nenhum modo propriedade ou predicado real, quer dizer, não é conceito de algo que se possa agregar (hinzukommen) ao conceito de uma coisa. Com isso, Kant quer dizer o ser (existir) não é uma determinação de conteúdo. — Daí resulta, continua Kant, que o possível não contém nada mais que o real; cem táleres reais não contém nem um átomo mais do que cem táleres pos¬síveis; — a saber, aqueles não têm nenhuma outra determi-nação de conteúdo que estes. Para este conteúdo considerado isoladamente é indiferente, na verdade, existir ou não existir; nele não se encontra qualquer diferença entre o ser e o não-ser; esta diferença não o afeta em geral absolutamente; os cem táleres não diminuem de valor pelo fato de não existirem ou ganham maior valor se existem. Uma diferença pode originar-se somente de outra parte. — “Ao contrário”, recorda Kant, “há mais em meu patrimônio, com cem táleres reais do que com seu conceito puro ou com sua possibilidade. Pois, o objeto, em sua realidade, não está apenas contido analiticamente em meu conceito, mas se acrescenta sinteticamente em meu conceito (que é uma determinação de minha situação), sem que, pelo fato deste existir fora de meu conceito, estes mesmos cem táleres pensados se aumentem minimamente.”
Aqui se pressupõem duas situações diversas, para ficarmos no âmbito das expressões kantianas, que são um tanto confusas e pesadas: uma, a que Kant denomina conceito, sob que se compreenderá a representação, e outra, que é a situação patri¬monial. Tanto para uma como para outra, para o patrimônio como para a representação, cem táleres são uma determinação de conteúdo, ou diga-se com Kant, “eles se integram no con¬teúdo sinteticamente”. Eu, como possuidor de cem táleres ou como não possuidor deles, ou ainda eu como o que se representa cem táleres ou não, o conteúdo é, na verdade, distinto. Dito de forma mais geral: as abstrações do Ser e do Nada deixam ambas de ser abstrações quando adquirem um conteúdo deter¬minado: então o ser é uma realidade, o ser determinado de cem táleres; o nada é uma negação, o não-ser determinado deles. Esta determinação mesma do conteúdo, os cem táleres, ainda tomada de modo abstrato, é em um dos casos, sem variação, o mesmo que o outro. Porém, quando o ser é consi¬derado tomado como situação patrimonial, os cem táleres entram em relação com uma situação e para esta não é indife¬rente tal determinação, que eles exprimem; seu ser ou não-ser é apenas uma mudança; eles são transpostos para a esfera do Ser determinado. Quando, porém, contra a unidade do Ser e do Nada se insiste, entretanto, seja indiferente isso ou aquilo (os cem táleres) existam ou não existam, então há uma ilusão, pois reduzimos simplesmente a diferença do Ser e não-Ser, se tenho ou não tenho os cem táleres — uma ilusão baseada, corno mostramos, na abstração unilateral, que omite (weglässt) a existência determinada (besti’mnmt Dasein) que ocorre em tais exemplos, e estabelece simplesmente o Ser e o não-Ser, da mesma sorte que, inversamente, muda o abstrato Ser e Nada, que deve ser entendido, em um determinado Ser e Nada, isto é, em uma existência. Somente a existência (Dasein) contém a diferença real de Ser e Nada, a saber, um algo e um outro. — Essa diferença real se apresenta ante a representação em lugar do Ser abstrato e do Nada puro e de sua diferença somente pensada (nur gemeinten Unterschiede).
Conforme se exprime Kant, penetra então “por meio da existência algo no contexto da experiência total”, “alcançamos por isso mais um objeto da percepção, porém nosso conceito do objeto não se acha enriquecido por tal meio”. — Isso quer dizer, como decorre dos esclarecimentos anteriores, que, graças à existência, essencialmente porque algo representa um Ser determinado, encontra-se este algo em conexão com outros e entre os outros também com um sujeito percipiente (mit einem Wahrnehmenden). — O conceito de cem táleres, diz Kant, não se acha aumentado por meio da percepção. O conceito signi¬fica aqui os já aludidos cem táleres, representados isoladamente. Nesse estado isolado, eles constituem um conteúdo empírico, porém recortados (abgeschnitten), sem conexão e determina¬ção diante de outro; a forma da identidade consigo mesmo lhes tira a referência a outro e fá-los indiferente ao fato de serem percebidos ou não. Porém, esse nomeado conceito dos cem táleres é um conceito falso; a forma da mera referência a si mesma não faz parte de tal conteúdo limitado, finito; é uma forma que lhe foi imposta e emprestada pelo entendimento subjetivo; cem táleres não são algo de imutável e encerrado em si próprio (nicht em sich auf sich Beziehendes), sim coisa variável e perecedoira.
O pensamento ou representação, não tendo por objeto senão um Ser determinado, uma existência, deve regredir ao men¬cionado começo da ciência, qual fez Parmênides, que esclareceu e elevou sua própria representação e a dos tempos seguin¬tes ao pensamento puro, ao Ser como tal e assim criou o ele¬mento da ciência. — O que é primeiro na ciência deve mos-trar-se historicamente como primeiro. Devemos considerar o Um ou o Ser dos eleatas como o primeiro da ciência do pensa¬mento. A água e outros princípios materiais semelhantes devem por certo ser considerados como universais, porém, enquanto materiais, não são pensamentos puros; os números nao repre¬sentam nem o pensamento primeiro simples, nem o que per¬manece em si (noch der hei sich bleiibende), mas o que é totalmente exterior a si próprio.
A remissão (Zuriickweisung) do ser finito particular para o Ser como tal em sua universalidade totalmente abstrata tem de ser encarada como exigência primaríssima tanto teórica quanto prática. Vale dizer que, quando se suprimam os cem táleres, supressão que produz em meu patrimônio uma dife¬rença, se os tenho ou não, e ainda mais se eu existo ou não, se outra coisa exista ou não — mesmo sem mencionar que pode haver patrimônio a que sejam indiferentes a tal posse dos cem táleres — então importa recordar que o homem tem que se elevar, em seu modo de pensar (in seiner Gesinnung), a essa universalidade abstrata, na qual lhe seja indiferente, de fato, que os cem táleres — qualquer que seja a relação quantitativa que possam ter com sua situação patrimonial — existam ou não existam, tanto quanto lhe seja também indiferente que ele próprio exista ou não, isto é, se ache ou não na vida finita (por tal circunstância se entenda um ser determinado, etc. —mesmo si fractus iliabatur orbis, impavidum ferient ruinae,* consoante disse um romano; e nessa indiferença ainda mais deve encontrar-se um cristão.
Importa ainda assinalar a imediata conexão em que con¬siste a elevação sobre os cem táleres e as coisas finitas em geral com a prova ontológica e a citada crítica kantiana à mesma. Tal crítica se tornou plausível em geral por causa de seu exemplo popular; quem não sabe que cem táleres reais são diferentes de cem táleres puramente possíveis? E que eles constituem uma diferença em meu patrimônio? E porque essa diferença para os cem táleres resulte evidente, então difere o conceito entre eles, isto é, entre a determinação do conteúdo como possibilidade vazia e o ser; logo, também o conceito de Deus difere do seu Ser e como não posso extrair da possibi¬lidade dos cem táleres sua realidade, do mesmo modo não posso “perquirir” (“herausklauben”) no conceito de Deus a sua exis¬tência; dessa “perquirição”, porém, da existência de Deus do seu conceito, deve consistir a prova ontológica. Se, pois, é verdadeiro que o conceito e o Ser são coisas completamente diferentes, mais verdadeiro ainda é que Deus difere quanto aos cem táleres e as outras coisas finitas. A definição das coisas finitas consiste em que, nelas, são diferentes o conceito e o Ser, em que conceito e realidade são separáveis, a alma e o corpo, e que, portanto, elas são transitórias e morais. Pelo contrário, a definição abstrata de Deus é precisamente esta: que seu con¬ceito e seu Ser são inseparados e inseparáveis. A verdadeira crítica das categorias e da razão consiste exatamente nisso: ins¬truir o conhecimento acerca dessa diferença e afastá-lo da apli¬cação das determinações e relações do finito a Deus.


(Ciência da Lógica)


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