Entre Quatro Paredes | SARTRE, J. P.

| quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Pois bem, é agora! O bronze aí está, eu o contemplo e compreendo que estou no inferno.
Digo a vocês que tudo estava previsto. Eles previram que eu haveria de parar em frente
deste bronze, tocando-o com minhas mãos, com todos esses olhares sobre mim. Todos
esses olhares que me comem! (Volta-se bruscamente). Ah, vocês são só duas? Pensei que
fossem muitas, muitas mais! (Ri). Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei... Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha... Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno... O inferno são os outros!







Jean Paul Sartre
(Tradução de Guilherme de Almeida)
Personagens: Inês
Estelle
Garcin
O criado
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
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Cena 1
Garcin, o criado do andar. Um salão em estilo Segundo Império. Um
bronze sobre a lareira.
Garcin (que entra e olha em torno) - Pois é...
Criado - Pois é.
G - Então é assim...
C - É assim.
G - Acho que com o tempo a gente se acostuma com os móveis.
C - Isso depende das pessoas.
G - Será que todos os quartos são iguais?
C - Que idéia! Recebemos chineses, hindus... Que quer que eles façam com uma poltrona
Segundo Império?
G - E eu? Que quer que eu faça? Sabe quem era eu? Ora! Isso não tem importância. O que
é fato é que sempre vivi no meio dos móveis, de que não gostava, e de situações falsas.
Achava isso adorável. Que tal; uma situação falsa numa sala de jantar a Luis Felipe?
C - Vai ver: também não ficará mal num salão Segundo Império.
G - Ah! Bom, bom, bom... (Olha em torno): Em todo caso, por essa eu não esperava... Mas
não me diga que não sabe o que se diz por lá!
C - Sobre o quê?
G - Quer dizer... (Num gesto vago e largo): Sobre isso tudo.
C – Acredita nessas tolices? Gente que nunca pôs os pés aqui. Se ao menos já tivessem
estado por aqui...
G – É mesmo. (Ambos riem. Garcin fica sério de repente) – Onde estão as estacas?
C – O quê?
G – As estacas, as grelhas, os funis de couro...
C – Está brincando?
G (Silêncio) - Como? Ah... bem... Não, não estava brincando. (Silêncio. Anda um pouco):
Nem espelhos, nem janelas, naturalmente. Nada que seja frágil. (Com súbita violência): E
por que me tomaram a escova de dentes?
C – Aí está a dignidade humana que volta. É formidável.
G – (Batendo com raiva na poltrona) – Nada de formalidades comigo. Reconheço minha
posição, mas não admito que...
C – (Cortando) – Está bem, desculpe. Mas, o que quer? Todos os fregueses fazem a mesma
pergunta. Mal chegam e querem saber: “Onde estão as estacas”? Garanto que nesse
instante nem estão pensando em fazer sua toilette. Depois, ficam mais calmos, e aí vem a
escova de dentes. Mas, pelo amor de Deus, pense um pouco. Afinal de contas, permita
que eu lhe pergunte: por que escovar os dentes?
G – (Calmo e sossegado) – É mesmo. Por quê? (Olha em torno) – E por que olhar nos
espelhos? Ao passo que esse bronze, felizmente.... Creio que há certos momentos em que
seria capaz de olhar firme. De olhar firme, hein? Ora, ora! Não há nada que ocultar: digalhe
que conheço bem minha situação. Quer que lhe conte como essas coisas se passam? O
sujeito sufoca, mergulha, afoga, fica apenas com os olhos fora d’água, e o que é que vê?
Um bronze de Barbedienne. Que pesadelo! Com certeza proibiram você de me
responder? Não insisto. Mas não se esqueça de que ninguém me pilha assim à toa. Não
vá se gabar de me haver surpreendido. Não sei encarar a situação de frente. (Continua a
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andar): Então, nada de escovas de dente. Nada de cama também. Porque não se dorme
nunca, não é isso?
C – Ora essa!
G – Eu era capaz de apostar. Por que essa gente havia de dormir? O sono ataca por trás
das orelhas. Sente-se olhos se fechar, mas por que dormir? A gente se senta no sofá e
psssst... Adeus sono! Então, esfrega os olhos, levanta-se e tudo recomeça.
C - Como o senhor é romanesco!
G – Cale-se! Não vou gritar, nem gemer, mas quero encarar a situação de frente. Não
quero que ela se atire sobre mim por trás, sem que eu possa reconhecê-la. Romanesco?
Então é que não se tem mesmo necessidade de sono. Por que dormir, se não se tem sono?
Ótimo. Espera, espera aí. Por que é que há de ser doloroso, por que é que há de ser
forçosamente doloroso? Já sei: é a vida sem interrupção.
C – Que interrupção?
G – (Remedando-o): Que interrupção? (Desconfiado): Olhe bem para mim! Eu sabia. Aí está
o que explica a indiscrição grosseira e insustentável do seu olhar. De fato, estão
atrofiadas.
C – Do quê o senhor está falando?
G – De suas pálpebras. Nós... nós batíamos as pálpebras. Chamava-se a isso piscar. Um
pequeno relâmpago negro, uma cortina que cai e se ergue: deu-se a interrupção. Os
olhos se umedecem, o mundo se aniquila. Não pode imaginar como era refrescante!
Quatro mil repousos por hora. Quatro mil pequenas evasões. Quatro mil, digo eu...
Como é? Então, vou viver sem pálpebras? Não se faça de bobo. Sem pálpebras, sem
sono, é a mesma coisa. Nunca mais hei de dormir... Como poderei me tolerar? Trate de
responder, faça um esforço! Tenho um caráter implicante, como vê, e tenho o costume de
implicar comigo mesmo. Mas... mas, não posso estar implicando sem parar. Por lá, havia
as noites. Eu dormia. Tinha o sono leve. Em compensação, sonhava coisas simples. Havia
uma campina. Uma campina, nada mais. Eu sonhava que estava passeando por ela. É de
dia?
C – Como vê, as lâmpadas estão acesas.
G – De fato. É esse o dia de vocês. E lá fora?
C – (Estupefato): Lá fora?
G – Lá fora, do outro lado dessas paredes...
C – Há um corredor.
G – E no fim do corredor?
C – Há outros quartos, outros corredores e escadas.
G – E que mais?
C – Nada mais.
G – Você naturalmente tem um dia de folga. Aonde costuma ir?
C – Em casa de meu tio, que é chefe dos criados, no terceiro andar.
G – Eu devia ter desconfiado. Onde está o interruptor da luz?
C – Não existe.
G – Como é? Não se pode apagar?
C – A gerência pode cortar a corrente elétrica. Mas não me lembro se já aconteceu isso
neste andar. Temos eletricidade à vontade.
G – Muito bem. Quer dizer que a gente tem de viver de olhos abertos?
C – (Irônico): Viver...
G – Não vá me aborrecer agora por uma questão de vocabulário. De olhos abertos. Para
sempre. Será pleno dia em meus olhos. E nada na minha cabeça. (Pausa). E se eu atirasse
esse bronze contra a lâmpada elétrica? Será que ela se apagaria?
C – É muito pesado.
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G – (Tomando o bronze entre as mãos e tentando erguê-lo): Tem razão... É muito pesado!
(Silêncio).
C – Se não precisa mais de mim, vou me retirar.
G – (Sobressaltado): Vai-se embora? Até logo. (O criado chega até à porta): Espere! (O criado
se volta): É uma campainha isso aí? (O criado faz sinal que sim): Posso tocar quando quiser
e você tem obrigação de atender?
C – Em princípio, sim. Mas a campainha é caprichosa. Há qualquer coisa errada com o
mecanismo.
G – (Vai até à campainha, aperta o botão. Ouve-se o tocar). Funciona!
C – (Espantado): Funciona! (Toca também): Mas não se entusiasme muito. Isso não dura.
Então, às suas ordens!
G – (Num gesto para detê-lo): Eu...
C – O que há?
G – Não, não é nada. (Caminha pela sala): Isso... O que é?
C – Não está vendo? Um corta-papel.
G – Há livros por aqui?
C – Não!
G – Então, para quê isso? (O criado dá de ombros): Está bem. Pode se retirar. (O criado sai).
Cena 2
Garcin está só. Vai até o bronze e o apalpa. Senta-se. Levanta-se. Vai
até à campainha e aperta o botão. Ela não toca. Experimenta dois ou três vezes, em vão.
Dirige-se à porta e tenta abri-la. Não consegue. Ele chama: “Criado, criado...” Nenhuma
resposta. Esmurra a porta, chamando o criado. Acalma-se, subitamente. Nesse instante,
abre-se a porta e entra INÊS, acompanhada do criado.
Cena 3
C – (A Garcin): O senhor chamou?
G – Não!
C – (Dirigindo-se a Inês): Está em sua casa, minha senhora. (Silêncio): Se tiver alguma
pergunta a fazer... (Inês não fala. O criado está desapontado). Os fregueses geralmente
gostam de pedir informações... Não importa... Além do mais, quanto à escova de dentes,
a campainha e o bronze de Barbedienne, este senhor está a par de tudo e poderá
informar tão bem quanto eu. (Sai. Silêncio. Garcin não olha para Inês. Inês observa em redor e
dirige-se bruscamente a Garcin):
I – Onde está Florence? (Silêncio de Garcin). Pergunto-lhe: Onde está Florence?
G – Não sei de nada.
I – Foi só isso que conseguiu descobrir? A tortura pela ausência? Pois falhou. Florence
era uma bobinha e não me faz falta.
G – Queira perdoar-me. Quem está pensando que eu sou?
I – O senhor ? O senhor é o carrasco.
G – (Sobressalta-se e põe-se a rir): É um equívoco engraçadíssimo. O carrasco! É boa! A
senhora entrou, olhou para mim e pensou: é o carrasco. Que extravagância! O criado é
ridículo: deveria ter-nos apresentado. O carrasco! Eu sou Joseph Garcin, publicitário e
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homem de letras. O fato é que estamos hospedados no mesmo estabelecimento,
senhora...
I – (Secamente): Inês Serrano. Senhorita.
G – Muito bem. Perfeito. Derreteu-se o gelo. Quer dizer que me acha com cara de
carrasco? Quer fazer o favor de me explicar como se reconhecem os carrascos?
I – Têm cara de quem tem medo.
G - Medo? É esquisitíssimo! Medo de quem? De suas vítimas?
I – Ora! Sei bem o que estou dizendo. Espelho não me falta.
G - Espelho? (Olha em volta): Que maçada! Tiraram daqui tudo quanto pudesse se parecer
com um espelho. (Pausa). Em todo caso, posso lhe garantir que não tenho medo. Não
considero levianamente a situação, e estou perfeitamente cônscio de sua gravidade. Mas
não tenho medo.
I – (Dando de ombros): Isso é com o senhor. Será que o senhor sai de vez em quando para
um passeio?
G – A porta está trancada.
I – É pena.
G – Compreendo muito bem que minha presença a aborrece. E se dependesse de mim,
preferiria estar só. Tenho que pôr a vida em ordem e preciso de sossego. Mas tenho
certeza de que nos acostumaremos um com o outro. Não falo, quase não me movo, e faço
pouco barulho. Apenas, se me atrevo a dar um conselho, será bom conservarmos entre
nós uma extrema polidez. Será nossa melhor defesa.
I – Não sou bem educada.
G – Eu o serei por nós dois. (Um silêncio. Garcin está sentado no sofá. Inês, andando de um
lado para outro).
I – (Olhando-o): Essa boca.
G – (Voltando a si): Como é?
I – Não é capaz de fazer parar sua boca? Ela gira como um pião debaixo do nariz.
G – Desculpe. Não tinha percebido.
I – É justamente o que estou censurando. (A boca é o tique de Garcin). De novo! Pretende
ser bem educado e deixa sua cara assim, à toa? O senhor não está sozinho e não tem o
direito de me impor o espetáculo do seu medo.
G – (Ergue-se e se dirige a ela): E a senhora? Não tem medo?
I – Para quê? O medo era bem antes, quando tínhamos esperança.
G – (Com doçura): Não há mais esperança, mas estamos sempre antes. Ainda não
começamos a sofrer.
I – Bem sei. (Um tempo): Então, o que é que vai acontecer?
G – Não sei. Estou esperando.
(Silêncio. Garcin vai se sentar de novo. Inês continua a andar. Garcin torce a boca e, ao olhar para
Inês, esconde o rosto nas mãos. Entra Estelle e o criado).
Cena 4
E – (Olha para Garcin, que não ergueu a cabeça, e a ele se dirige): Não! Não, não erga a cabeça!
Eu sei que está escondendo a cabeça nas mãos. Sei que não tem cara! (Garcin tira as mãos
do rosto): Ah... (Um tempo. Surpreendida): Não conheço o senhor!
G – Não sou carrasco, minha senhora.
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E – Não pensei que fosse o carrasco. Eu... eu pensei que alguém quisesse me pregar uma
peça. (ao criado): Quem mais está esperando?
C – Ninguém mais.
E – (Aliviada): Ah! Então vamos ficar só nós três... O senhor, a senhora, e eu? (Põe-se a rir).
G – (Secamente): Não vejo razão para rir.
E – (Ainda rindo): E esses sofás... são medonhos! E vejam como estão colocados! Parece
que é dia de Ano Novo e que eu estou visitando minha tia Marie. Cada qual tem o seu,
imagino. É este o meu? (Para o criado): Eu nunca seria capaz de sentar-me nele: é uma
catástrofe. Não combina absolutamente com minha roupa! (Ela está de azul, o sofá é verde).
I – Quer ficar com o meu?
E – O sofá “Bordeaux”? A senhora é muito amável, mas isso de pouco adiantaria. Não. O
que fazer? Cada qual com o que é seu. Coube-me o verde: fico com ele. (Um tempo): O
único que combinaria é o desse senhor. (Um silêncio).
I – Está ouvindo, Garcin?
G – (Sobressaltado): O... sofá. Oh, perdão! (Levanta-se): É seu, minha senhora.
E – Obrigada. (Tira o “manteau” e o deixa sobre o sofá. Um tempo). Já que temos de morar
juntos, vamos nos apresentar. Chamo-me Estelle Rigault. (Garcin se inclina e vai se
apresentar, quando Inês se interpõe):
I – Inês Serrano. Prazer em conhecê-la.
G – (Inclina-se de novo): Joseph Garcin.
C – Precisam ainda de mim?
E – Não. Pode ir. Se precisar, chamarei. (O criado sai).
Cena 5
I – A senhora é muito bonita. Eu queria Ter flores para lhe desejar boas-vindas.
E - Flores? É mesmo. Gostava muito de flores. Aqui, elas murchariam. Faz tanto calor!
Ora, o principal, não acha?, é conservar o bom humor. A senhora está...?
I – Sim, a semana passada. E a senhora?
E - Eu? Ontem. A cerimônia ainda não acabou. (Fala com muita naturalidade, como se
estivesse vendo o que descreve): O vento desmancha o véu de minha irmã. Ela faz o que
pode para chorar. Vamos, vamos! Mais um esforço. Aí está: duas lágrimas, duas lágrimas
pequenas, brilhando sobre o crepe. Olga Jardet... está muito feia essa manhã. Sustem
minha irmã pelo braço. Não chora por causa do rimmel. e devo confessar que eu, no seu
lugar... era minha melhor amiga.
I – A senhora sofreu muito?
E – Não. Estava embrutecida.
I – O que foi que...?
E – Uma pneumonia. Pronto. Acabou-se. Vão-se embora todos. Bom dia. Bom dia.
Quantos apertos de mão! Meu marido ficou em casa: está doente de pesar. (A Inês): E a
senhora?
I – Gás.
E – E o senhor aí?
G – Doze balas no peito. (Gesto espantado de Estelle): Desculpe-me. Não sou um morto de
boa sociedade.
E – Oh! Meu senhor, se quisesse deixar de empregar palavras tão cruas assim! É... é
chocante. Afinal de contas, o que significa isto? Quem sabe se nunca estivemos tão vivos
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quanto agora? Quando for, preciso referir-me a este estado de coisas, proponho que nos
chamemos ausentes, será mais correto. O senhor: há quanto tempo está ausente?
G – Há um mês, mais ou menos.
E – De onde é o sr.?
G – De Rien.
E – Eu, de Paris. Ainda tem alguém por lá?
G – (Cabisbaixo): Minha mulher. Ela veio ao quartel, como todos os dias, não a deixaram
entrar. Olha entre as barras das grades. Ainda não sabe que estou ausente, mas desconfia.
Vai-se embora agora. Está toda de preto. Tanto melhor: não precisará mudar de roupa.
Ela não chora. Não chorou nunca. O sol está lindo e ela está toda de preto na rua deserta,
com aqueles seus grandes olhos de vítima. Ah, ela me irrita!
I – (Silêncio. Garcin vai se sentar no sofá do meio e esconde a cabeça entre as mãos. Inês fala):
Estelle!
E – Senhor, senhor Garcin.
G – Senhora!...
E – O sr. se sentou no meu sofá.
G – Perdão. (Levanta-se).
E – Parece distraído.
G – Estou pondo minha vida em ordem. (Inês começa a rir): Os que riem fariam melhor se
me imitassem.
I – Minha vida está em ordem. Perfeitamente em ordem. Ela mesmo se pôs em ordem
por lá! Não tenho que me preocupar com isso.
G - Verdade? E a senhora acha isso tão simples? (Passa a mão pela testa): Que calor! Dãome
licença? (Faz menção de tirar o paletó).
E – Ah, não! (Com mais doçura): Isso não. Tenho horror a homens em mangas de camisa.
G – (Vestindo de novo o paletó): Está bem... Passava as noites na sala da redação. Fazia
sempre um calor de esterco. Faz um calor de esterco. É noite.
E – É verdade! Já é de noite. Olga se despe. Como o tempo passa depressa na terra!
I - É de noite. Lacraram a porta do meu quarto. E o quarto está vazio, no escuro.
G – Eles puseram os paletós no encosto das cadeiras e enrolaram as mangas da camisa
acima dos cotovelos. Há um cheiro de homem e de tabaco. (Silêncio). Eu gostava de
viver no meio de homens em mangas de camisa.
E – (Seriamente): Pois é, não temos o mesmo gosto. É tudo o que isso quer dizer. (A Inês):
E a sra? Gosta disso? De homens em mangas de camisa?
I – Em mangas de camisa, ou não... não gosto de homens.
E – (Com espanto, olha para os dois): Mas, por que... por que nos puseram juntos?
I – (Num grito abafado): Que está dizendo?
E – Olho para os dois, e penso que temos de morar juntos... Eu esperava encontrar aqui
amigos, família...
I – Um excelente amigo com um buraco no meio da cara.
E – Esse também. Dançava tango como um profissional. Mas nós... nós... porque foi que
nos juntaram?
G – (Inês ri): Ora, por acaso. Eles vão arrumando a gente onde podem, por ordem de
chegada. (A Inês): Por que está rindo?
I – Porque o sr. me diverte com essa história de acaso. Será que o sr. tem assim tanta
necessidade de apurar as coisas? Eles não fazem nada por acaso.
E – (Com timidez): Mas, quem sabe se já nos encontramos antes?
I – Nunca. Eu não a teria esquecido.
E – Então, quem sabe, temos relações comuns? Não conhece os Dubois-Seymour?
I – Acho que não.
E – Recebem todo mundo.
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I – E o que fazem?
E – (Com surpresa): Nada... Têm um castelo em Corrèze, e...
I – Eu... eu era empregada dos correios.
E – (Um pequeno recuo de corpo): Ah? Então, explique-me... E o senhor, senhor Garcin?
G – Nunca saí de Rien.
E – Nesse caso o sr. tem toda a razão: foi o acaso que nos juntou.
I – O acaso?Então é por acaso que estes móveis estão aqui? É por acaso que o sofá da
direita é verde e o da esquerda é “bordeaux”? Por acaso, não é? Pois experimente trocá-los
de lugar e verão o que acontece. E este broze, também é um acaso? E este calor? (Silêncio);
O que lhe digo é que tudo isso foi preparado com carinho, nos mínimos pormenores.
Este aposento estava à nossa espera.
E – Mas, como assim? Tudo aqui é tão feio, tão duro, tão anguloso! Eu tinha horror aos
ângulos.
I – (Erguendo os ombros): Pensa, então, que eu vivia num salão Segundo Império?
E – (Um tempo e silêncio): Então... é tudo previsto?
I – Tudo. E nós combinamos com isso tudo.
E – Não ser por um acaso que a sra. está à minha frente? Que é que eles esperam?
I – Não sei, mas esperam.
E – Não posso tolerar que esperem qualquer coisa de mim. Isso me dá logo vontade de
fazer o contrário.
I – Pois então faça. Faça! Nem ao menos sabe o que querem!
E – (Batendo o pe). É insuportável. E por causa de vocês dois, qualquer coisa tem de me
acontecer! (Olha-os): Por causa de vocês dois. Havia rostos que falavam logo. Os seus não
dizem nada.
G – (Bruscamente, a Inês): Vamos! Por que é, então, que estamos juntos? Já disse muita
coisa: vá até o fim!
I – (Surpresa): Não sei de nada disso. Não sei absolutamente nada.
G – Precisa saber! (reflete).
I – Se um de nós tivesse ao menos a coragem de dizer...
G - ...o quê?
I – Estelle!
E – Que é?
I – O que foi que a senhora fez? Por que a mandaram para cá?
E – (Com vivacidade): Mas eu não sei! Não sei absolutamente nada. Pergunto-me mesmo
se isto tudo não será um equívoco. (A Inês): Nada de risadas. Penso só na quantidade de
pessoas que... que se ausentam cada dia. Chegam aqui aos milhares e têm de tratar com
subalternos, com empregados sem instrução. Como quer que não haja equívoco? Não dê
risadas, não. (A Garcin): E o senhor? Diga alguma coisa. Se se enganaram no meu caso,
também podiam ter-se enganado no seu. (A Inês): E no seu também. Não será melhor
pensar que estamos aqui por equívoco?
I – É tudo que nos tem a dizer?
E – Que mais quer saber? Não tenho o que esconder. Eu era órfã e pobre e educava meu
irmão mais moço. Um velho amigo de meu pai me pediu em casamento. Era rico e bom.
Aceitei. Que faria a sra. no meu lugar? Meu irmão era doente e sua saúde reclamava os
maiores cuidados. Seis anos vivi com meu marido, sem o menor contratempo. Há dois
anos, encontrei aquele que eu devia amar. Reconhecemo-nos imediatamente. Ele queria
fugir comigo e recusei. Depois, tive minha pneumonia. É tudo. Invocando certos
princípios, talvez, haja quem possa me culpar de ter sacrificado a um velho a minha
mocidade. (A Garcin): Acha que isso seja um crime?
G – Claro que não... E a sra., acha que seja um crime viver segundo seus princípios?
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I – Quem poderia censurá-lo por isso?
G – Eu dirigia um jornal pacifista. Rebentou a guerra. Que fazer? Todos os olhos estavam
grudados em mim. “Vamos ver se ele terá coragem!” Pois tive coragem: cruzei os braços e
eles me fuzilaram. Que crime há nisso? Que crime?
E – (Pousando-lhe a mão no ombro): Não há crime. O senhor é...
I – (Concluindo com ironia): Um herói. E sua mulher, Garcin?
G – Que é que tem? Tirei-a da sarjeta.
E – (A Inês): Está vendo? Está vendo?
I – Estou vendo... Para quem está representando esta comédia, se estamos entre nós?
E – (Com insolência): Entre nós?
I – Entre assassinos. Estamos no inferno, minha filha, e aqui não pode haver erros, e não
se condena ninguém à toa.
G – Cale-se!
I – No inferno! Condenados! Condenados!
E – Cale-se! Faça o favor de calar-se. Proíbo-a de empregar expressões grosseiras!
I – Condenada, a santinha. Condenado, o herói sem mácula. Tivemos nosso momentos
de prazer, não é verdade? Houve pessoas que sofreram por nós até à morte, e isso nos
divertia bastante. Agora temos de pagar.
G – (Erguendo a mão): Vai calar-se ou não?
I – (Encarando-o sem medo, mas com enorme surpresa): Ah! (Um tempo). Esperem aí! Agora
compreendo porquê nos puseram juntos...
G – Tome cuidado com o que vai dizer.
I – Vão ver como é tolo. Tolo como tudo. Não. Não existe tortura física, não é mesmo? E,
no entanto, estamos no inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos de ficar
juntos, sozinhos, até o fim. Não é isso? Quer dizer que há alguma coisa que faz falta aqui:
o carrasco!
G – (A meia voz): ...bem sei...
I – Pois é, fizeram uma economia de pessoal. Só isso. São os próprios fregueses que se
servem, como nos restaurantes cooperativos.
E – Que quer dizer?
I – Cada um de nós é o carrasco para os outros dois. (Um tempo. Eles ruminam a idéia).
G – (Com voz doce): Não serei o carrasco de ninguém. Não lhes desejo mal e nada tenho a
ver com as senhoras. Nada. É muito simples. Vejam só: cada qual no seu canto: esse é
que é o jogo. A senhora aqui, a senhora ali, eu lá. E silêncio. Nem um pio. Não é difícil,
não é mesmo? Cada um de nós tem muito que se incomodar consigo mesmo. Acho que
eu seria capaz de passar dez mil anos sem falar.
E – É preciso que eu me cale?
G – É, sim. E... e estaremos salvos. Calar-se. Olhar em si mesmo, jamais erguer a cabeça.
Estão de acordo?
I – De acordo.
E – (Hesita um pouco). ...de acordo!
G – Então, adeus! (Dirige-se ao seu sofá e põe a cabeça entre as mãos. Silêncio. Inês põe-se a
cantar para si mesma).
I – Na rua das capas-brancas
Eles plantaram palancas
E ergueram com alavancas
A força feita de trancas
Na rua das capas-brancas...
(Nesse meio tempo Estelle empoa o rosto e pinta os lábios. Ao se empoar, procura por todos os
lados, inquietamente. Remexe para um lado e outro sua bolsa. Volta-se para Garcin):
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E – O sr. terá um espelho? (Garcin não responde). Um espelho, um espelhinho de bolso,
não importa. (Não responde). Se me deixam sozinha, pelo menos arranjem-me um
espelho. (Garcin continua com a cabeça entre as mãos. Não responde).
I - (Com solicitude): Tenho um espelho em minha bolsa. (Procura-o na bolsa com raiva): Não
está mais. Devem Ter ficado com ele no depósito.
E – Que aborrecimento!... (Um tempo. Ela fecha os olhos e cambaleia. Inês corre para amparála).
I – Que tem?
E – (Abre os olhos). Sinto uma coisa esquisita. (Ri e se apalpa). Com a sra. não é assim
também? Quando não me vejo, por mais que me apalpe, fico na dúvida se existo mesmo
de verdade.
I – Tem sorte. Eu sempre me sinto interiormente.
E – Ah, sim, interiormente... Tudo o que se passa nas cabeças é tão vago que me dá sono.
(Tempo). Meu quarto tem seis espelhos grandes. Estou vendo todos. Estou vendo. Mas
eles não me vêem. Eles refletem a penteadeira, o tapete, as janelas... Como é vazio um
espelho em que não estou! Quando eu falava, sempre dava um jeito para que houvesse
um espelho em que eu pudesse me ver. Eu falava e me via falar. Eu me via como os
outros me viam. Por isso, ficava acordada. (Com desespero): Meu rouge! Tenho certeza de
que pintei mal. Mas não posso ficar sem espelho por toda a eternidade!
I – Quer que eu lhe sirva de espelho? Venha, convido-a a vir à minha casa. Sente-se aí no
meu sofá.
E – (Mostrando Garcin): Mas...
I – Façamos de conta que ele não existe.
E – Nós vamos nos fazer mal. Foi a senhora quem disse.
I – Acha que eu posso querer o seu mal?
E – Sabe-se lá!
I – Você é quem vai me fazer mal. Mas, que importa? Já que é preciso sofrer, que seja por
você. Sente-se. Chegue mais perto. Mais. Olha nos meus olhos: está se vendo neles?
E – Estou tão pequenininha. Vejo-me muito mal. Muito mal!
I – Mas eu vejo você inteirinha. Faça-me perguntas. Nenhum espelho será mais fiel!
(Estelle, entediada, volta-se para Garcin, como para pedir auxílio).
E – Senhor, por favor, não estamos incomodando com nossa tagarelice? (Garcin não
responde).
I – Deixe-o em paz. Com ele não se conta mais, estamos sozinhas. Faça-me perguntas.
E – Pintei bem meus lábios?
I – Deixe-me ver... Não. Não muito bem.
E – Bem que eu desconfiava. Felizmente (lança um olhar a Garcin) ninguém me viu. Vou
pintar de novo.
I – É melhor. Não. Acompanhe o desenho dos lábios. Deixe que eu ajude. Assim, assim.
Está bem.
E – Tão bem como eu estava quando cheguei?
I – Melhor. Mais pesado, mais cruel. Essa boca de inferno...
E – Está bem, mesmo? Como é desagradável não poder julgar-me por mim mesma. A
senhora jura que está bem mesmo?
I – Não quer me tratar por “você”?
E – Você jura que estou bem?
I – Você é linda!
E – Mas será que a sra. tem bom gosto? O meu gosto? Como é desagradável, como é
desagradável!
I – Tenho, sim, o seu gosto, porque você me agrada. Olhe bem para mim. Sorria. Eu
também não sou feia. Será que não valho mais do que um espelho?
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
11
E – Não sei. A sra. me intimida. Minha imagem, nos espelho, era domesticada. Eu a
conhecia tão bem!... Eu vou sorrir; meu sorriso irá até o fundo das suas pupilas, e Deus
sabe o que será dele!
I – E quem impede você de me domesticar? (Olham-se. Estelle sorri meio fascinada): Não
quer mesmo me tratar por “você”?
E – Custa-me tratar as mulheres por “você”.
I – E particularmente as empregadas dos correios, imagino... Que é que você tem aí no
rosto, embaixo? Essa mancha vermelha...
E – (Num sobressalto): Mancha vermelha? Que horror! Onde?
I – Aqui. Aqui. Eu sou o espelho que atrai as cotovias, minha pequena cotovia, pilhei-a!
Não há vermelhidão alguma! Nem sinal, hein? Que tal se o espelho começasse a mentir?
Ou se fechasse os olhos, se não quisesse olhar, que faria você de toda essa beleza? Não
tenha medo! Preciso olhar para você. Meus olhos ficarão sempre abertos... sempre
abertos... e eu serei boazinha. Mas tem de dizer “você”.
E – (Um tempo): ...você gosta de mim?
I – Muito!
E – (Um tempo. Designa Garcin com a cabeça): Eu queria que ele também olhasse para mim.
I – Sim! Porque é homem! (A Garcin): O sr. ganhou. (Garcin não responde). Olhe para ela
de uma vez! (Não responde). Basta de comédia. O sr. não perdeu uma palavra do que
dizíamos.
G – (Erguendo bruscamente a cabeça): Diz bem! Nem uma palavra. Por mais que enterrasse
os dedos nos ouvidos, as senhoras falavam dentro de minha cabeça. Quer me deixar em
paz, agora? Não tenho nada com a senhora!
I – E com essa pequena, tem alguma coisa? Percebi sua manobra; foi para interessá-la
que o senhor tomou esses ares de importância!
G – Já disse que me deixe. Alguém no jornal está falando de mim. Quero ouvir. Essa
pequena não me interessa, pode ficar tranqüila.
E – Obrigada.
G –Eu não pretendia ser grosseiro...
E – Grosseirão! (Um tempo. Estão de pé, uns diante dos outros).
G – Está aí! Eu tinha pedido que se calassem!
E – Foi ela quem começou. Veio me oferecer o espelho, sem que eu tivesse pedido nada.
I – Nada. Apenas se esfregava nele e fazia tudo para ele olhasse para você.
E – E daí?
G – Estão loucas? Não estão vendo onde vamos parar? Calem-se de uma vez! (Um
tempo). Vamos nos sentar de novo, calmamente, fechar os olhos e cada qual procurará
esquecer a presença do outro! (Um tempo. Ele se senta de novo. Elas voltam, hesitantes, para
seus lugares).
I – (Volta-se bruscamente): Ah, esquecer! Que infantilidade! Eu o sinto até nos meus olhos.
Seu silêncio grita em minhas orelhas. Pode soldar a boca, pode cortar a língua. Será que
por isso o sr. deixaria de existir? Faria parar esse seu pensamento que estou ouvindo,
que faz tic-tac como um despertador? E sei que o sr. ouve o meu. É inútil s encolher todo
no sofá. O sr. está por toda parte, os sons me chegam sujos, porque o sr. os ouvir quando
passavam. O sr. roubou meu próprio rosto, até. O sr. conhece meu rosto e eu não. E ela?
Ela! O sr. a roubou de mim! Se estivéssemos sozinhas, pensa que ela me trataria como me
trata? Não, não! Tire essas mãos da cara. É cômodo, não é? Mas eu não deixo! O sr.
ficaria aí, insensível, mergulhado em si mesmo, como um Buda. Eu, de olhos fechados,
sentindo que ela lhe dedica todos os ruídos de sua vida, até mesmo o farfalhar do seu
vestido, e lhe manda sorrisos que o sr. não vê... Nada disso! Quero escolher meu inferno:
olhar para o sr. sem assombro e lutar de rosto nu!
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
12
G – Está bem. Estou vendo que era preciso chegar a esse ponto. Eles manobram conosco,
como se fôssemos criancinhas. Se me tivessem alojado entre os homens... os homens
sabem se calar. Mas não se deve exigir muito. (Aproxima-se de Estelle e lhe acaricia o
queixo). Então, menina, sou do seu gosto? Dizem que você estava de olho em mim...
E – Não me toque!
G – Ora! Vamos ficar à vontade. Eu gostava muito de mulheres, sabe? E elas de mim,
muito. Não temos nada mais a perder. Polidez, por que? À vontade! Daqui a pouco,
estaremos nus!
E – Deixe-me!
G – Nus. Ah, eu avisei em tempo. Não lhes pedi nada, nada mais do que paz e um pouco
de silêncio. Enterrei os dedos nos ouvidos... Gomes falava, de pé entre as mesas, e todos
os camaradas do jornal ouviam... em mangas de camisa. Eu queria entender o que
diziam, era difícil: os acontecimentos da terra passam tão depressa. Vocês querem ou não
calar-se? Agora acabou-se. Ele já não está falando o que pensa de mim, entrou de novo
na sua cabeça. Pois bem, temos de ir até o fim. E nus. Preciso saber com quem estou
lidando.
I – Já sabe. Agora já sabe.
G – Enquanto cada um de nós não confessar porque foi condenado, nada saberemos.
Você aí, a loira, comece! Por que foi? Diga o porquê. Sua fraqueza pode evitar
catástrofes. Quando conhecermos nossas sujeitas todas... Vamos, por que foi?
E – Digo que ignoro tudo. Eles não quiseram me contar.
G – Eu sei. A mim também não quiseram responder. Mas eu me conheço. Tem medo de
ser a primeira a falar? Pois bem, eu começo. (Silêncio). Eu não sou boa coisa...
I – Está certo. Sabe-se que o sr. desertou.
G – Deixe disso. Não fale isso nunca. Estou aqui porque torturei minha mulher. Apenas
isso. Durante cinco anos. Naturalmente, ela ainda está sofrendo. Lá está ela: assim que
falo dela, começo a vê-la. É Gomes que me interessa e é ela que vejo. Onde está Gomes?
Durante cinco anos, sabem? Eles lhe entregaram minhas roupas; ela está sentada perto
da janela e pôs meu paletó sobre os joelhos. O paletó dos doze buracos! O sangue parece
ferrugem. As bordas dos orifícios estão chamuscados. Ah! É uma peça de museu, um
paletó histórico. E dizer que eu usei aquilo! Você vai chorar? Vai acabar por chorar? Eu
entrava em casa bêbado como uma cabra, com cheiro de vinho e de mulher. Ela me havia
esperado a noite toda, e não chorava. Nem uma palavra de censura, naturalmente.
Apenas seus olhos. Seus grandes olhos!... Não me arrependo de nada! Pagarei, mas não
me arrependo. Cai neve lá fora, mas você vai chorar, afinal? É uma mulher que tem
vocação para mártir.
I – (Quase com doçura): Por que a fez sofrer?
G – Porque era fácil. Uma palavra bastava para fazê-la mudar de cor. Era uma sensitiva.
Ah, nem uma censura! Sou muito implicante. Esperava, esperava sempre, mas nada.
Nem um choro, nem uma censura. Eu a tinha tirado da sarjeta, compreendem? Ela passa
a mão pelo paletó sem olhar. Seus dedos procuram os buracos, às cegas. Que é que você
aguarda? Que é que você espera? Digo-lhe que não me arrependo de nada. Enfim, ela
me admirava demais. Compreendem isso?
I – Não. A mim, ninguém admirava.
G – Tanto melhor. Tanto melhor para a sra. Tudo isso pode parecer abstrato. Pois bem,
eis um caso pitoresco. Eu tinha instalado em casa uma mulher. Que noites! Minha
mulher, que dormia no primeiro andar, de certo ouvia tudo. Era a primeira a se levantar,
e como nós ficávamos deitados até tarde, ela nos trazia café com leite na cama.
I – Cafajeste!
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
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G – Pois é, pois é: o cafajeste bem-amado. (Parece distraído). Não é nada. É o Gomes. Mas
não está falando de mim. Um cafajeste, a sra. estava dizendo? Claro! Se não, que estaria
eu fazendo aqui? E a senhora?
I – Bem... eu era o que eles chamam por lá de “uma mulher condenada”. Jà condenada,
não é verdade? Por isso, não houve grandes surpresas.
G – E é só?
I – Não. Há também aquele caso da Florence. Mas é uma história de mortos. Três mortos.
Primeiro ele, depois ela e eu. Não sobrou ninguém. Estou tranqüila, apenas o quarto. De
tempos em tempos, vejo o quarto. Vazio, de janelas fechadas. Arre! Afinal tiraram os
lacres. “Aluga-se”... Está para alugar. Tem um letreiro pregado na porta. É... é irrisório.
G - Três? A senhora disse três?
I – Três.
G – Um homem e duas mulheres?
I – Sim!
G - Como? (Silêncio). Ele se matou?
I - Ele? Seria incapaz disso. E não é que não tivesse sofrido. Não. Ficou debaixo de um
bonde, esmagado. Que brincadeira: eu morava na casa deles, ele era meu primo.
G – Florence era loira?
I - Loira? (Olha para Estelle). Sabe de uma coisa? Não me arrependo de nada, mas não me
agrada contar essa história.
G – Vamos, vamos! Foi ficando com nojo dele?
I – Pouco a pouco. Uma palavra aqui, outra ali... Por exemplo: fazia barulho quando
bebia; soprava pelo nariz dentro do copo. Coisinhas. Oh, era um coitado, vulnerável. Por
que está rindo?
G – Porque eu não... eu não sou vulnerável.
I – Isso não se sabe. Eu me interessei por ela. Ela viu isso por meus olhos. Enfim, tive de
ficar com ela. Tomamos um quarto no outro extremo da cidade.
G – E então?
I – Então, aconteceu aquele bonde... Eu dizia sempre: está vendo, meu bem? Nós o
matamos. (Silêncio). Eu sou má.
G –E eu também.
I – Não. O senhor... o senhor não é mau. É outra coisa.
G – O quê?
I – Mais tarde eu lhe direi. Eu, sim, sou má. Quer dizer, preciso do sofrimento dos outros
para existir. Uma tocha. Uma tocha nos corações. Quando estou sozinha, me apago.
Durante seis meses, eu ardi no coração dela: queimei tudo. Uma noite ela se levantou, foi
abrir a torneira de gás, sem que eu percebesse. Depois voltou e se deitou ao meu lado. É
tudo!
G – Hum!
I – Que há?
G – Nada. Isso não está direito.
I – Pois é, não está direito. E daí?
G – Oh, tem razão. (Para Estelle): Você, agora. O que foi que você fez?
E – Já disse que não estou sabendo de nada. Por mais que eu me pergunte...
G – Bem, então vamos ajudá-la. Aquele sujeito de cara arrebentada, quem era?
E – Que sujeito?
G – Aquele de quem você tinha medo, quando chegou aqui. Você sabe muito bem.
E – Era um amigo.
G – Por que tinha medo dele?
E – O sr. não tem o direito de me interrogar.
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
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I – Foi por sua culpa que ele se matou?
E – Que absurdo! A senhora está louca!
G – Então por que é que ele me metia medo? Deu um tiro na cara, hein? Foi isso que lhe
arrancou a cabeça?
E – Calem-se! Calem-se!
G – Por sua causa! Por sua causa!
I – Um tiro por sua causa!
E – Deixem-me em paz. Tenho medo de vocês. Quero ir embora. Quero ir embora! (Ela se
precipita para a porta e a sacode).
G – Pode ir. Não quero outra coisa. Mas o diabo é que a porta está fechada por fora.
(Estelle aperta o botão da campainha: não toca. Inês e Garcin riem. Encostada na porta, Estelle se
vira para eles).
E – (De voz lenta): Vocês são ignóbeis!
I – Perfeitamente ignóbeis. E daí? Então o tal sujeito se matou por sua causa. Era seu
amante?
G – É claro que era seu amante. E queria você só para ele. Não é isso?
I – Dançava tango como um profissional, mas era pobre, imagino!
G – (Antes, um silêncio): ...estamos perguntando se ele era pobre!
E – Sim, era pobre.
G – Além disso, você tinha de zelar pela sua reputação. Um dia ele chegou, suplicou e
você fez troça!
I – Hein, hein, hein? Você fez troça? Foi por isso que ele se matou?
E – Era com esses olhos que você olhava para Florence?
I – Era! (Um tempo. Estelle começa a rir).
E – Estão completamente errados. (Ela se apruma e os enccara, encostada sempre na porta.
Num tom e provocante): Ele queria que eu tivesse um filho. Pronto! Estão contentes?
G – E você, você não queria.
E – Não queria, mas a criança veio assim mesmo. Fui passar cinco meses na Suíça.
Ninguém soube de nada. Era uma menina. Roger estava ao meu lado quando ela nasceu.
Achava interessante ter uma filha. Eu, não!
G – E depois?
E – Havia um balcão sobre o lado. Arranjei uma pedra grande. Ele gritava: “Estelle, por
favor, eu suplico!” Eu o detestava. Ele viu tudo. Debruçou-se no balcão e viu os círculos
concêntricos na água do lago.
G - Depois?
E – Nada mais. Voltei a Paris e ele fez o que bem entendeu.
G – Estourou os miolos?
E – Isso mesmo. Mas não era preciso fazer isso. Meu marido não desconfiava de nada.
(Um tempo). Tenho ódio de vocês. (Tem uma crise de soluços secos).
G – É inútil. Aqui, as lágrimas não correm.
E – Que covarde que eu sou! Que covarde! (Um tempo). Se soubessem como tenho ódio
de vocês!
I – (Corre para tomá-la nos braços): Coitadinha! (A Garcin): Acabou-se o inquérito. Não
adianta ficar com essa cara de carrasco.
G – De carrasco... (Olhando em torno): Daria tudo para me ver num espelho! (Um tempo).
Que calor! (Maquinalmente tira o paletó): Ah, desculpe! (Veste-o de novo).
E – Pode ficar em mangas de camisa, agora.
G – Está bem. (Atira o paletó sobre seu sofá). Não me queira mal, Estelle.
E – Não lhe quero mal.
I – E a mim? Você quer mal?
E - ...sim... (Silêncio).
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
15
I – (Afasta-se). Pois é, Garcin, estamos nus. Está enxergando melhor agora?
G – Não sei. Talvez um pouquinho melhor... (Com timidez): Será que a gente não poderia
experimentar ajudar-se uns aos outros?
I – Não preciso que me ajude.
G –Inês, eles emaranharam todo o fio. Se você fizer o menor gesto, se erguer as mãos
para se abanar, Estelle e eu sentiremos o abalo. Nenhum de nós pode se salvar sozinho.
Temos de nos perder juntos, ou nos desembaraçar juntos. Escolha. (Um tempo). Que tal?
I – Já alugaram. As janelas estão escancaradas. Há um homem sentado na minha cama. Já
alugaram. Já alugaram! Entre, entre! Não faça cerimônia. É uma mulher. Ela se dirige a
ele e pousa as mãos nos seus ombros. Que é que estão esperando para acender a luz?
Não se enxerga mais nada. Será que vão se beijar? Esse quarto é meu, é meu! Por que não
acendem a luz? Já não posso vê-los. Que é que estão cochichando? Será que ele vai
acariciá-la em minha cama? Ela lhe diz que é meio-dia e que o sol está forte. Será que
estou ficando cega? Pronto, acabou-se. Não vejo e não escuto mais. Pois é. Acho que com
a Terra está tudo acabado. Nada de álibi. (Estremece): Sinto-me me vazia. Agora estou
morta de verdade, completamente aqui. Que estava dizendo? Falava em me ajudar, não
é?
G – É.
I – A quê?
G – A estragar o joguinho deles.
I – A troco de quê?
G – Você me ajudará. É preciso muito pouco. Apenas um pouquinho de boa vontade.
I – Boa vontade? Onde é que vou achar isso? Estou podre.
G – E eu? (Tempo). Mas e se experimentássemos assim mesmo?
I – Estou ressequida. Não posso receber nem dar. Como quer que eu o ajude? Um galho
morto: o fogo o devora. (Tempo. Olha Estelle, que tinha posto a cabeça entre as mãos).
Florence era loira.
G – Sabe você, por acaso, que essa pequena vai ser seu carrasco?
I – É possível que já tenha desconfiado disso.
G – Com ela é que eles vão pegar você. Quanto a mim... eu... eu... ela não me interessa.
Ao passo que com você...
I – O quê?
G – É uma armadilha. Eles estão à espreita, para ver se você sai na esparrela.
I – Bem sei. E você... você é outra armadilha. Pensa que eles não previram todas as suas
palavras? E que debaixo delas não há alçapões que nós não vemos? Tudo é armadilha.
Mas o que importa? Eu também sou uma armadilha. Uma armadilha para ela. Quem
sabe se sou eu quem vai pegá-la?
G – Não vai pegar coisa alguma. Somos cavalinhos-de-pau, que correm um atrás do
outro, sem nunca alcançar o que perseguem. Acredite que eles prepararam tudo. Soltese,
Inês. Abra as mãos, largue a presa! Do contrário, você fará a infelicidade de nós três.
I – Será que tenho cara de quem larga a presa? Eu sei o que me espera. Vou arder, estou
ardendo e sei que isso não terá fim. Sei tudo. Pensa que largarei a presa? Hei de tê-la. Ela
há de ver você pelos meus olhos, como Florence via o outro. Que tem você de falar de
sua desgraça? Digo que sei tudo e nem sequer posso Ter pena de mim. Uma armadilha!
Ah, uma armadilha! Naturalmente, caí numa esparrela. E daí? Se eles estão contentes,
tanto melhor.
G – Eu posso ter pena de você. (Tomando-a nos ombros): Olha para mim: estamos nus. Nus
até os ossos, e conheço você até o fundo do coração. É um elo entre nós. Acredita que lhe
queria fazer mal? Não me arrependo de nada, não me queixo. Eu também estou
ressequido. Mas de você posso ter pena.
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
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I – (Que se abandonara enquanto ele falava, agora se desembaraça): Não me toque. Detesto que
me toquem. E fique com sua piedade. Vamos! Para você também, Garcin, há muitas
armadilhas neste quarto. Para você. Preparadas para você. É melhor se meter com sua
vida. Se você nos deixar, a essa pequena e a mim, completamente em paz, tratarei de não
prejudicar você em nada.
G – (Olhando-a um momento e dando de ombros): Está bem.
E – (Erguendo a cabeça): Socorro, Garcin!
G – Que quer de mim?
E – (Se levanta e se aproxima dele): A mim você pode ajudar!
G – Entenda-se com ela.
(Inês se aproxima de Estelle, coloca-se atrás dela, sem tocá-la. Durante as réplicas que se seguem,
ela lhe falará quase no ouvido. Estelle voltada para Garcin, que olha sem falar. Responde apenas a
ele, como se fosse ele que a interrogasse):
E – Por favor, o senhor me prometeu, o senhor me prometeu! Garcin, depressa, depressa.
Não quero ficar sozinha. Olga levou-o ao dancing.
I – Quem foi que ela levou?
E – Pierre. Estão dançando juntos.
I – Quem é Pierre?
E – Um bobinho. Ele me chamava de “sua água-viva”. Ele gostava de mim. Ela o levou
ao dancing.
I – Você gosta dele?
E – Sentam-se de novo. Ela está exausta. Por que é que ela dança? A não ser para
emagrecer. É claro que não. É claro que eu não gostava dele. Ele tem dezoito anos e não
sou nenhum bicho-papão!
I – Então deixe-os. Por que se incomodar com isso?
E – Ele era meu.
I – Nada mais é seu sobre a Terra.
E – Ele era meu.
I – Sim, era. Experimente tocá-lo, experimente tocá-lo. Olga, sim, pode tocá-lo, não é?
Não é? Pode pegar suas mãos, roçar nos seus joelhos.
E – Ela empurra contra ele o peito enorme. Ela respira no seu peito. Pequeno Polegar,
pobre Pequeno Polegar... O que está esperando para dar uma gargalhada? Ah! Bastava
um olhar meu, e ela não se atreveria nunca! Será que não sou mesmo mais nada?
I – Mais nada. E não há nada mais de você na terra: tudo quanto tem está aqui. Quer a
faca de cortar papel? O bronze de Barbedienne? O sofá azul é seu. E eu, meu bem, sou
sua para sempre.
E – Ah! Minha? Mas qual é de vocês que teria a coragem de me chamar de água-viva? A
vocês não se pode enganar. Vocês sabem que eu sou um lixo. Pense em mim, Pierre, só
em mim, defenda-se. Enquanto você pensar: “Minha água-viva, minha querida águaviva”,
eu não estarei aqui senão pela metade, não serei senão meio culpada, serei águaviva
aí, perto de você. Ela está vermelha como um tomate. Ora, isso é impossível: tantas
vezes nós nos rimos dela juntos.Que música é essa? Eu gostava tanto dela! Ah, é o
“Saint-Louis Blues”... Pois que dancem, que dancem! Garcin, você havia de se divertir se
pudesse vê-la. Ela nunca saberá que eu a estou vendo. Estou vendo você, estou vendo
você com esse penteado desmanchado, essa cara transtornada e pisando nos pés dele. É
de morrer de rir. Vamos, mais depressa, mais depressa! Ele me dizia “Você é tão leve!”
Ele a puxa... a empurra. É indecente! Vamos, vamos! (Começa a dançar enquanto fala):
Aviso você que estou vendo. Ela pouco se importa e dança através do meu olhar. “Nossa
querida Estelle!” Que nossa querida Estelle? Ah! Cale-se. Nem sequer chorou uma
lágrima durante o meu enterro! Ela disse a ele: “Nossa querida Estelle”. Tem a coragem
de lhe falar de mim! Vamos! Atenção ao compasso! Ela nunca seria capaz de dançar e
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falar ao mesmo tempo. Mas o que é que...? Não, não lhe conte nada! Fique com ele, leveo,
guarde-o e faça dele o que quiser, mas não lhe conte nada! (Pára de dançar). Bom. Pois
bem: agora pode ficar com ele. Garcin, ela contou tudo; Roger, a viagem à Suíça, a
criança, ela contou tudo! “Nossa querida Estelle não era...” Não, não. De fato, eu não
era... Ele sacode a cabeça com ar tristonho, mas não se pode dizer que a notícia o
transtornou. Fique com ele, agora! Não vou disputar com você aqueles longos cílios e
aquele ar de menina que ele tinha. Ah, ele me chamava sua água-viva, seu cristal. Pois o
cristal se quebrou em migalhas. “Minha querida Estelle”... Vamos! Atenção ao compasso.
Um, dois... (Dança). Daria tudo no mundo para voltar um instante à terra, um só instante,
para dançar. (Dança um tempo). Já não estou ouvindo bem. Apagaram-se as luzes, como
para um tango. Por que tocam na surdina? Mais alto! Como está longe! Eu não ouço mais
nada... (Pára de dançar): Nunca mais. A terra me abandonou. Garcin, olhe para mim! Me
abrace! (por trás de Estelle, Inês faz sinal a Garcin para que se afaste).
E – (Autoritária): Garcin!
G – (Recuando um passo e mostrando Inês a Estelle): Entenda-se com ela.
E – (Agarrando-o): Não fuja! Você não é homem? Vamos, olhe para mim, não desvie os
olhos... será tão difícil? Meus cabelos são de ouro e alguém se matou por mim! Eu lhe
peço. Você tem de olhar para qualquer coisa. Se não for para mim, será para o bronze,
para os sofás... Vale mais a pena olhar para mim, apesar de tudo.
G – (Repelindo-a a custo): Peço-lhe que se entenda com ela.
E – Ela não conta! É uma mulher!
I – Eu não conto? Mas, minha cotovia, há muito tempo que você está abrigada no meu
coração. Não tenha medo. Olharei para você sem parar, sem um estremecimento de
pálpebras. Você viverá no meu olhar como uma lantejoula num raio de sol.
E – Um raio de sol? Não me amole! Há pouco você quis que pregar uma peça e viu que
não deu certo.
I – Estelle, minha água-viva, meu cristal...
E – Seu cristal? É grotesco. A quem quer enganar? Todo mundo sabe que atirei a criança
pela janela. O cristal está em pedacinhos, no chão, e não me importo. Sou apenas uma
pele. É minha pele não é para você.
I – Venha. Você será o que quiser: água-viva, água-suja, será quem quiser ser.
E – Largue-me! Você não tem olhos! Que hei de fazer para que você me deixe? Tome...
(Cospe-lhe no rosto. Inês a solta).
I – Garcin, você me paga!
G – Então você quer mesmo um homem?
E – Um homem, não. Você.
G – Nada disso. Qualquer um serviria. Vim parar aqui, tem de ser comigo. Bom. (Toma-a
pelos ombros). Bem sabe que não tenho nada do que você gosta: não sou um bobinho e
não danço tango.
E – Aceito-o como você é. Talvez eu o transforme...
G – Duvido. Eu serei... distraído. Tenho outras coisas em que pensar.
E – Que coisas?
G – Para você não teriam interesse.
E – Vou me sentar no sofá... no seu sofá e esperar que se ocupe de mim.
I – (Numa gargalhada): Ah, cadela! Ele nem mesmo é bonito!
E – (A Garcin): Não ouça o que ela diz: ela não tem olhos, não tem ouvidos... ela não
existe.
G – Eu darei a você o que puder. Não é muito. Amor, não. Eu conheço você demais.
E – Você me deseja?
G – Sim!
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E – É quanto me basta.
G – Pois, então... (Inclina-se sobre ela).
I – Estelle, Garcin! Vocês perderam o juízo! Eu estou aqui!
G – Estou vendo. E daí?
I – Vocês não podem... diante de mim... vocês não... não podem!
E – Por que não? Sempre me despi diante de minha criada-de-quarto.
I –(Agarrando-se a Garcin): Deixe-a, deixe-a! Não a toque com essas mãos sujas de homem!
G – (Empurrando-a violentamente): Basta. Não sou nenhum cavalheiro e não me importo
de bater numa mulher!
I – Você me prometeu, Garcin, me prometeu! Por favor, você me prometeu!
G – Foi você que faltou com a palavra. (Ela se afasta até o fundo do aposento);
I – Façam o que quiserem. Vocês são os mais fortes. Mas se lembrem: estou aqui,
olhando. Não tirarei os olhos de você, Garcin. Terá de beijá-la sob o meu olhar. Que ódio
tenho de vocês dois! Amem-se! Amem-se! Estamos no inferno e minha vez chegará!
(Durante a cena seguinte ela olhará sem nada dizer).
G – (Se volta para Estelle e a segura pelos ombros. Debruça-se sobre ela e se ergue bruscamente).
E – (Num gesto de despeito): Eu disse que não se importasse com ela!
G – Não se trata dela. Gomes está no jornal. Fecharam as janelas... quer dizer que é
inverno. Seis meses. Faz seis meses que ele me... Não lhe avisei que eu poderia ficar
distraído? Eles estão tremendo de frio; não tiraram os paletós... é esquisito que estejam
com tanto frio por lá, e eu aqui, com tanto calor. Dessa vez é de mim que ele está falando.
E – Será que isso vai demorar? Pelo menos, me conte o que ele está dizendo.
G – Nada. Não está dizendo nada. É apenas um safado. (Presta atenção). Um safado. Ora!
(Volta-se para Estelle): Vamos tratar de nós. Você gostará de mim?
E – (Sorrindo): Quem sabe?
G – Terá confiança em mim?
E – Que pergunta boba! Você não sairá dos meus olhos e não é com Inês que irá me
enganar.
G – É evidente. (Um tempo. Afasta Estelle). Eu me referia a uma outra confiança. (Escuta):
Vá, vá! Diga logo o que quiser. Não estou aí para me defender! (A Estelle): Estelle, preciso
que você tenha confiança me mim.
E – Que complicação! Mas você tem minha boca, meus braços, meu corpo inteiro. Seria
tudo tão simples... Minha confiança? Mas eu não tenho confiança para oferecer. É
horrível como você me constrange. Para exigir assim, minha confiança, deve ter feito
algo de muito ruim.
G – Eles me fuzilaram.
E – Já sei. Você se recusou a partir. E daí?
G – Não. Não me recusei propriamente. (Aos invisíveis): Ele fala bem, sabe atacar, mas
não diz o que se devia fazer. Então, eu havia de entrar pela casa do general e dizer “Meu
general, recuso-me a partir”? Que tolice! Estaria no xadrez. Eu queria poder manifestarme,
sim, manifestar-me! Não queria que abafassem minha voz. (A Estelle): E eu... eu
tomei o trem. Eles me prenderam na fronteira.
E – Queria ia para onde?
G – Para o México. Pensava em lançar ali um jornal pacifista. (Silêncio). Então? Diga
alguma coisa!
E – Que quer que eu diga? Você fez bem...já não queria combater. (Gesto contrariado de
Garcin). Ora, meu bem, não adivinha o que devo responder?
I – Você deve dizer que ele fugiu como um leão, meu bem. Porque ele fugiu, o seu
queridinho. E é isso que o atormenta.
G – Fugi, parti, diga como entender.
E – Era natural que fugisse. Se você tivesse ficado, eles o agarrariam.
ENTRE QUATRO PAREDES Jean Paul Sartre
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G – Claro. (Um tempo). Estelle, acha que sou um covarde?
E – Mas eu não sei, meu amor. Não estou na sua pele. Você é quem deve resolver.
G – (Num gesto cansado). Não sei resolver...
E – Afinal de contas, você deve se lembrar. Deve ter tido razões para fazer o que fez.
G – Sim.
E – E então?
G – Mas será que essas razões eram de fato razões?
E – (Desorientada): Como você é complicado!
G – Eu queria me manifestar. Eu... eu refleti maduramente... Será que minhas razões
eram de fato razões?
I – Ah! Esse é que é o caso. Será que as razões eram de fato razões? Você raciocinava, não
queria alistar-se levianamente. Mas o medo, o ódio, todas essas sujeiras que a gente
esconde, também são razões. Vamos! Procure! Pergunte a si mesmo!
G – Cale-se! Pensa que esperei seus conselhos? Eu andava na minha cela noite e dia, da
porta à janela, da janela à porta. Eu era o espião de mim mesmo. Fui seguindo meu
próprio rastro. Tenho a impressão que passei toda uma vida a me interrogar. Mas estava
tudo consumado. Eu tomei o trem, quanto a isso não há dúvida, mas por quê? Por quê?
Enfim, pensei: minha morte é que vai decidir. Se eu morrer limpo, terei provado que não
sou covarde.
E – Como foi a sua morte, Garcin?
G – Foi mal... (Inês começa a rir). Ora, apenas uma fraqueza corporal. Não me envergonho.
Mas o fato é que tudo ficou no ar, para sempre. (Para Estelle): Venha aqui, você. Olhe
bem para mim. Preciso de alguém que olhe para mim, enquanto estão falando de mim
na terra. Gosto de olhos verdes!
I – Olhos verdes? Essa é boa! E você, Estelle? Gosta de covardes?
E – Se soubesse como pouco me importo com isso! Covarde ou não, contanto que ele
saiba beijar!
G – (Absorto): Eles abanam a cabeça, fumando seus charutos. Estão chateados. Eles
pensam: Garcin é um covarde. Pensam por pensar, moles, fracos, sem convicção. Garcin
é um covarde: eis o que ficou decidido entre eles, os meus companheiros. Daqui a seis
meses começarão a dizer: “Covarde como o Garcin!” Vocês duas tem sorte; na terra
ninguém se preocupa com vocês. Para mim a vida é pior!
I – E sua mulher, Garcin?
G – Minha mulher? Que tem isso? Está morta.
I - Morta?
G – Esqueci de contar. Morreu há pouco. Há dois meses, mais ou menos.
I – De desgosto?
G – De desgosto, é claro! De que queria que morresse? Ora! Tudo vai bem! Acabou-se a
guerra, minha mulher morreu e eu passei às páginas da história! (Garcin tem um soluço
seco e passa as mãos pelo rosto. Estelle o abraça).
E – Meu bem, meu bem. Olhe para mim, querido! Toque em mim! (Toma-lhe a mão e a leva
ao seio). Toque-me! (Garcin faz um gesto se desembaraçando dela): Deixe sua mão em meu
seio, deixe! Não se mexa! Que importa o que pensam de você? Um a um, todos hão de
morrer. Esqueça-os, só eu existo.
G – (Retirando a mão e o corpo): Não, eles não me esquecem. Hão de morrer, mas outros
virão para repetir a estória. Deixei minha vida em suas mãos.
E – Ora, você pensa demais!
G – Que fazer? Antes eu agia... Ah, poder saltar entre eles, um dia só! Que golpe! Mas
estou fora do jogo. Dão o baralho sem contar comigo. E têm razão, pois estou morto.
Liquidado como um rato. (Ri). Caí no domínio público. (Um tempo).
E – (Com doçura): Garcin...
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G – E você? Pois bem, escute: você vai me fazer um favor. Não, não diga que não. Sei que
você há de achar esquisito que se possa pedir um favor a você, já que não está habituada
a isso. Mas, se quisesse, se fizesse um esforço, nós poderíamos nos amar de verdade.
Veja só: são mil a repetir que sou um covarde. Mas o que são mil? Se houvesse uma
alma, uma só, que afirmasse com todas as suas forças, que eu não fugi, que eu não posso
ter fugido, que eu tenho coragem, que sou um sujeito direito, tenho... tenho certeza de
que me salvaria. Acredite em mim. Eu ficaria gostando de você mais do que de mim
mesmo.
E – (Rindo): Idiota, meu querido idiota! Então você pensa que eu seria capaz de amar um
covarde?
G – Mas você dizia...
E – Estava brincando com você. Gosto de homens, Garcin, de homens de verdade, de
pele áspera e mãos fortes. Você não tem o queixo de um covarde, a boca de um covarde,
a voz de um covarde; seus cabelos não são os de um covarde. E é pela sua boca, pelos
seus cabelos que gosto de você.
G - Verdade? Verdade mesmo?
E – Quer que eu jure?
G – Agora, eu desafio a todos: aos que estão por lá e aos que estão por aqui. Estelle, nós
vamos sair do inferno. (Inês dá uma gargalhada. Ele a interrompe e a encara). O que há?
I – (Ainda rindo): Ela não acredita em nada do que está dizendo. Será que você é tão
ingênuo assim? “Estelle, acha que sou um covarde?” Se você soubesse como ela está
rindo de suas palavras!
E – Inês! (A Garcin): Não ouça o que ela diz. Se quer que eu confie em você, comece por
confiar em mim.
I – Pois sim, pois sim! Confie nela! Ela precisa de um homem, acredite, de um braço de
homem na sua cintura, de um cheiro de homem, de um desejo de homem em olhos de
homem... Quanto ao mais... Ah! Para lhe ser agradável, ela seria capaz de dizer que você
é o Padre Eterno!
G – Estelle! É verdade isso? Responda! É verdade?
E – Que quer que eu diga? Não entendo essas coisas. (Batendo o pé). Que irritante que é
tudo isso! Mesmo que você fosse covarde, eu gostaria de você. Pronto! Não basta isso?
(Um tempo).
G - (Às duas): Tenho nojo de vocês! (Dirige-se à porta).
E – Que vai fazer?
G – Vou-me embora.
I – (Atalhando rápido). Não irá muito longe; a porta está fechada.
G – Eles terão de abrir. (Aperta o botão. Não toca).
E – Garcin!
I – (A Estelle): Não se importe. A campainha está quebrada.
G – Pois garanto que eles hão de abrir. (Bate na porta com os nós dos dedos): Não agüento
mais vocês, não agüento mais! (Estelle corre para ele e ele a repele): Vá! Tenho ainda mais
nojo de você do que dela. Não quero apodrecer nos seus olhos. Você é perigosa, mole!
Você é um polvo, um pântano! (Bate na porta): Abrem ou não?
E – Garcin, por favor, não vá! Não falarei mais, deixarei você tranqüilo, mas não vá! Inês
mostrou as garras. Não quero ficar sozinha com ela!
G – Arranje-se! Não lhe pedi que viesse!
E – Covarde, covarde! Você é mesmo um covarde!
I – (Aproximando-se de Estelle): Então, minha cotovia, não está satisfeita? Para agradá-lo,
você me cuspiu no rosto, e brigamos por causa dele. Mas o desmancha-prazeres vai-se
embora, vai nos deixar entre mulheres;
E – Você não ganhará nada com isso. Se essa porta se abrir, eu também irei.
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I – Para onde?
E – Não importa. O mais longe possível de você!
G – (Não cessou de bater na porta): Abram! Vamos, abram! Aceitarei tudo: as tenazes, o
chumbo derretido, as pinças, os garrotes, tudo que queima, tudo o que dilacera. Quero
sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a esse sofrimento cerebral, esse
fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia, e que nunca dói o bastante. (Agarra o
trinco da porta e a sacode). Abrem ou não? (A porta se abre bruscamente. Ele quase cai. Um
longo silêncio).
I – Então, Garcin? Pode ir.
G – (Lentamente): Não compreendo porque essa porta se abriu...
I – Que está esperando? Vá, vá depressa!
G – Não, não vou.
I – E você, Estelle? (Estelle não se move. Inês dá uma gargalhada). Então, qual de nós? Qual
de nós três? O caminho está livre, quem é que nos prende? É de morrer de rir! Nós
somos inseparáveis!
E – (Estelle se atira sobre Inês pelas costas): Inseparáveis? Garcin, ajude-me! Depressa,
ajude-me! Vamos arrastá-la para fora e fechar a porta. Ela vai ver!
I – (Debatendo-se): Estelle, Estelle! Eu lhe peço: fique comigo! No corredor, não! Não me
atire no corredor!
G – Solte-a!
E – Está louco? Ela tem ódio de você.
G – Foi por causa dela que fiquei. (Estelle solta Inês, que olha assombrada para Garcin):
I – Por minha causa? (Um tempo). Bom! Então, fechem a porta. Faz dez vezes mais calor
depois que ela se abriu. (Garcin fecha a porta). Por minha causa?
G – Você sabe o que é um covarde?
I – Sei, sim.
G – Você sabe o que é o mal, a vergonha, o medo? Houve dias em que você se enxergou
até o fundo do coração, e isso a deixava moída. E no dia seguinte, não sabia o que
pensar, não conseguia decifrar a revelação da véspera. Sim, você sabe quanto custa o
mal. E quando diz que sou um covarde, é com conhecimento de causa, não é?
I – É.
G – É a você que eu devo convencer: você é da minha laia. Pensou, então, que eu me iria
embora? Eu não poderia deixar você aqui, triunfante, com todos esses pensamentos na
cabeça, esses pensamentos que me dizem respeito.
I – Quer mesmo convencer-me?
G – Não quero outra coisa. Já não os escuto mais, sabe? Decerto é porque já não em mais
nada a ver comigo. Acabou-se. Está arquivado o caso. Nada mais sou sobre a terra, nem
mesmo um covarde. Estamos sós, agora, Inês: só restam vocês duas para pensar em mim.
Ela não conta. Mas você... você me odeia. Se acreditar em mim, poderá salvar-me.
I – Não será fácil. Olhe para mim: tenho a cabeça dura.
G – Empregarei nisso todo o tempo que for necessário.
I – Você tem o tempo todo. O tempo todo!
G – (Tomando-o pelos ombros): Escute. Cada qual tem o seu alvo, não é mesmo? Nunca
liguei prá dinheiro, prá amor. Só queria ser um homem. Um forte. Apostei tudo numa só
cartada. Pode ser um covarde aquele que escolheu os caminhos mais perigosos? Pode-se
lá julgar toda uma vida por um só ato?
I – Por que não? Durante trinta anos você sonhou que tinha coragem, e se permitiu mil
pequenas fraquezas, porque aos heróis tudo é permitido. Que cômodo que era! Depois,
na hora do perigo, encostaram você na parede, e você tomou o trem para o México.
G – Não sonhei com esse heroísmo. Escolhi-o. A gente é o que a gente quer ser.
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I – Prove, então. Prove que não era um sonho. Só os atos decidem sobre o que a gente
quis.
G – Morri cedo demais. Não me deram tempo para praticar os meus atos.
I – Morre-se sempre cedo demais... ou tarde demais. No entanto, a vida aí está,
liqüidada. Já se deu o traço debaixo das parcelas, resta fazer a soma. Você nada mais é do
que sua vida.
G – Víbora! Tem sempre resposta para tudo!
I – Ora, vamos, não desanime! Deve ser fácil para você me persuadir. Procure
argumentos, faça um esforço. (Garcin sacode os ombros). Então, como é? Não disse que
você era vulnerável? Agora, vai pagar caro. Você é um covarde, Garcin, porque eu quero
que você seja um covarde. Eu quero, compreende? Eu quero! No entanto, veja que
fraquinha eu sou: um sopro. Sou apenas o olhar que está vendo você, o pensamento
incolor que está pensando em você. (Ele caminha para ela de mãos abertas). Ah, abrem-se
agora essas mãos grossas de homem. A troco de quê? Não se agarram pensamentos com
as mãos. Vamos, não tem o que escolher! Tem de me convencer. Pilhei-o!
E – Garcin!
G – O que é?
E – Vingue-se!
G - Como?
E – Beije-me! Ela vai ficar danada.
G – É verdade, Inês! Você me pilhou, mas a pilhei também. (Debruça-se sobre Estelle. Inês
dá um grito).
I – Covarde, covarde! Vá se fazer consolar por mulheres!
E – Dane-se, Inês! Dane-se!
I – Bonito par! Se você visse essa pata grossa achatada nas suas costas, machucando a
carne e o vestido. Ele tem mãos, está transpirando. Vai deixar no vestido u’a mancha
azul.
E – Dane-se, dane-se! Aperte-me mais contra você, Garcin. Ela vai estourar!
I – Isso mesmo, aperte-a bem forte. Aperte-a! Misturem bem os seus calores! Que bom
que é o amor, hein, Garcin? É morno e profundo como o sono, mas não deixarei você
dormir.
E – Não ouça o que ela diz. Tome a minha boca! Sou toda sua... sua!
I – Então, o que é que você está esperando? Façam o que mandam! Garcin: o covarde,
tem nos seus braços Estelle, a infanticida. Façam as apostas! Garcin, o covarde,
conseguirá beijá-la? E estou vendo vocês, vendo vocês! Eu sozinha sou toda u’a
multidão! A multidão, Garcin, compreende? A multidão... (Murmurando): Covarde,
covarde, covarde! É inútil fugir de mim. Não deixarei você. Que é que está procurando
nos lábios dela? O esquecimento? Mas eu... eu não esquecerei você. E é a mim que você
tem de convencer... a mim! Venha, venha! Espero por você. Veja, Estelle: ele já desaperta
o seu abraço. É obediente como um cachorro... Você não há de tê-la!
G – Não ficará escuro nunca?
I – Nunca.
G – Você me verá sempre?
I – Sempre!
G – (Deixa Estelle e faz alguns passos em cena. Aproxima-se do bronze). O bronze... (Apalpa-o).
Pois bem, é agora! O bronze aí está, eu o contemplo e compreendo que estou no inferno.
Digo a vocês que tudo estava previsto. Eles previram que eu haveria de parar em frente
deste bronze, tocando-o com minhas mãos, com todos esses olhares sobre mim. Todos
esses olhares que me comem! (Volta-se bruscamente). Ah, vocês são só duas? Pensei que
fossem muitas, muitas mais! (Ri). Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei... Não se
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lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha... Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno...
O inferno são os outros!
E – Meu amor...
(Repelindo-a, Garcin grita):
G – Deixe-me. Ela está entre nós dois. Não posso amar quando ela me vê!
E – Ah, é assim? Pois ela não nos verá mais! (Toma a faca de cortar papel, precipita-se sobre
Inês, desferindo-lhe vários golpes).
I – (Debatendo-se e rindo): Que é que você está fazendo? Que está fazendo? Ficou louca?
Bem sabe que já estou morta!
(Estelle deixa cair o cortador de papel. Um tempo. Inês a apanha e põe-se a golpear com raiva,
falando):
I – Morta, morta, morta! Nem a faca, nem o veneno, nem a forca! Está tudo acabado,
compreende? E estamos juntos para sempre! (Ri).
E – (Dando risadas). Para sempre, meu Deus! Que engraçado! Para sempre!
G – (Ri e olha para as duas). Para sempre!
(Os três caem sentados, cada qual sobre um sofá. Um longo silêncio. Deixam de rir e se
entreolham. Garcin se ergue).
G – Pois é. Vamos continuar?
- oOo –

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