Dom Quixote de La Mancha | Miguel De Cervantes PARTE 1

| terça-feira, 27 de outubro de 2009
Desocupado leitor: Não preciso de prestar aqui um juramento
para que creias que com toda a minha vontade quisera que este
livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o
mais galhardo e discreto que se pudesse imaginar: porém, não
esteve na minha mão contravir à ordem da Natureza, na qual
cada coisa gera outra que lhe seja semelhante; que podia
portanto o meu engenho, estéril e mal cultivado, produzir






D. Quixote de La Mancha
Volume I
Tradução de
Viscondes de Castilho e de Azevedo
EDITORES
© da tradução: Viscondes de Castilho e de Azevedo
© da presente edição: Editores Reunidos, Lda., 1994 e R.B.A.
Editores, S.A.
ISBN: 972-747-176-5
Depósito legal: 80088/94
Depósito legal: M. 32.160-1995
Revisão gráfica: Carla Ferreira
Fotocomposição: Maria Fernanda P. Lopes, Lisboa
Impressão e encadernação: Mateu Cromo Artes Gráficas, S.A.,
(Pinto) Madrid
Printed in Spain - Impresso em Espanha
PRIMEIRA PARTE
PRÓLOGO
Desocupado leitor: Não preciso de prestar aqui um juramento
para que creias que com toda a minha vontade quisera que este
livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o
mais galhardo e discreto que se pudesse imaginar: porém, não
esteve na minha mão contravir à ordem da Natureza, na qual
cada coisa gera outra que lhe seja semelhante; que podia
portanto o meu engenho, estéril e mal cultivado, produzir
neste mundo, senão a história de um filho magro, seco e
enrugado, caprichoso, e cheio de pensamentos vários, e nunca
imaginados de outra alguma pessoa? Bem como quem foi gerado
num cárcere onde toda a incomodidade tem seu assento, e onde
todo o triste ruído faz a sua habitação! O descanso, o lugar
aprazível, a amenidade dos campos, a serenidade dos céus, o
murmurar das fontes e a tranquilidade do espírito entram
sempre em grande parte, quando as musas estéreis se mostram
fecundas, e oferecem ao mundo partos, que o enchem de
admiraço e de contentamento.
Acontece muitas vezes ter um pai um filho feio e extremamente
desengraçado, mas o amor paternal lhe põe uma peneira nos
olhos para que não veja estas enormidades, antes as julga
como discrições e lindezas, e está sempre a contá-las aos
seus amigos, como agudezas e donaires.
MIGUEL DE CERVANTES
Porém eu, que, ainda que pareço pai, não sou contudo senão
padrasto de D. Quixote, não quero deixar-me ir com a corrente
do uso, nem pedir-te, quase com as lágrimas nos olhos, como
por aí fazem muitos, que tu, leitor caríssimo, me perdoes ou
desculpes as faltas que encontrares e descobrires neste meu
filho; e porque não és seu parente nem seu amigo, e tens a
tua alma no teu corpo, e a tua liberdade de julgar muito à
larga e a teu gosto, e estás em tua casa, onde és senhor dela
como el-rei das suas alcavalas, e sabes o que comummente se
diz que debaixo do meu manto ao rei mato (o que tudo te
isenta de todo o respeito e obrigação) podes do mesmo modo
dizer desta história tudo quanto te lembrar sem teres medo de
que te caluniem pelo mal, nem te premeiem pelo bem que dela
disseres.
O que eu somente muito desejava era dar-ta mondada e despida,
sem os ornatos de prólogo nem do inumerável catálogo dos
costumados sonetos, epigramas e elogios, que no princípio dos
livros por aí é uso pôr-se; pois não tenho remédio senão
dizer-te que, apesar de me haver custado algum trabalho a
composição desta história, foi contudo o maior de todos fazer
esta prefação, que vais agora lendo.
Muitas vezes peguei na pena para escrevê-la, e muitas a
tornei a largar por não saber o que escreveria; e, estando
numa das ditas vezes suspenso, com o papel diante de num, a
pena engastada na orelha, o cotovelo sobre a banca, e a mão
debaixo do queixo, pensando no que diria, entrou por acaso um
meu amigo, homem bem entendido, e espirituoso, o qual, vendome
to imaginativo, me perguntou a causa, e eu, não lha
encobrindo, lhe disse que estava pensando no prólogo que
havia de fazer para a história do D. Quixote, e que me via
tão atrapalhado e aflito com este empenho, que nem queria
fazer tal prólogo, nem dar à luz as façanhas de um tão nobre
cavaleiro: Porque como quereis vós que me não encha de
confusão o antigo legislador, chamado Vulgo, quando ele vir
que, no cabo de tantos anos, como há que durmo no silêncio do
esquecimento, me saio agora, tendo já tão grande carga de
anos às costas, com uma legenda seca como as palhas, falta de
invenção, minguada de estilo, pobre de conceitos, e alheia a
toda a erudição e doutrina,
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
sem notas às margens, nem comentários no fim do livro, como
vejo que estão por aí muitos outros livros (ainda que sejam
fabulosos e profanos) tão cheios de sentenças de Aristóteles,
de Platão, e de toda a caterva de filósofos que levam a
admiração ao ânimo dos leitores, e fazem que estes julguem os
autores dos tais livros como homens lidos, eruditos e
eloquentes? Pois que, quando citam a Divina Escritura, se
dirá que são uns Santos Tomases, e outros doutores da Igreja,
guardando nisto um decoro tão engenhoso, que numa linha
pintam um namorado distraído, e noutra fazem um sermãozinho
tão cristão, que é mesmo um regalo lê-lo ou ouvi-lo.
De tudo isto há-de carecer o meu livro, porque nem tenho que
notar nele à margem, nem que comentar no fim, e ainda menos
sei os autores que sigo nele para pô-los num catálogo pelas
letras do alfabeto, como se usa, começando em Aristóteles, e
acabando em Xenofonte, em Zoilo ou em Zêuxis, ainda que foi
maldizente um destes e pintor o outro.
Também há-de o meu livro carecer de sonetos no princípio,
pelo menos de sonetos cujos autores sejam duques, marqueses,
condes, bispos, damas, ou poetas celebérrimos, bem que se eu
os pedisse a dois ou três amigos meus que entendem da
matéria, sei que mós dariam tais, que não os igualassem os
daqueles que têm mais nome na nossa Espanha. Enfim, meu bom e
querido amigo, continuei eu, tenho assentado comigo em que o
Sr. D. Quixote continue a jazer sepultado nos arquivos da
Mancha até que o Céu lhe depare pessoa competente que o
adorne de todas estas coisas que lhe faltam, porque eu me
sinto incapaz de remediá-las em razão das minhas poucas
letras e natural insuficiência, e, ainda demais a mais,
porque sou muito preguiçoso e custa-me muito a andar
procurando autores que me digam aquilo que eu muito bem me
sei dizer sem eles. Daqui nasce o embaraço e suspensão em que
me achastes submerso: bastante causa me parece ser esta que
tendes ouvido para produzir em num os efeitos que
presenciais.
Quando o meu amigo acabou de ouvir tudo o que eu lhe disse,
deu uma grande palmada na testa, e, em seguida, depois de uma
longa e estrondosa gargalhada, me respondeu:
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MIGUEL DE CERVANTES
«Por Deus, meu amigo, que ainda agora acabo de sair de um
engano em que tenho estado desde todo o muito tempo em que
vos hei conhecido, no qual sempre vos julguei homem discreto
e prudente em todas as vossas acções; agora, porém, conheço o
erro em que caí e o quanto estais longe de serdes o que eu
pensava, que me parece ser maior a distância do que é do Céu
à Terra. Como?! Pois é possível que coisas, de tão
insignificante importância e tão fáceis de remediar, possam
ter força de confundir e suspender um engenho tão maduro como
o vosso, e tão afeito a romper e passar triunfantemente por
cima de outras dificuldades muito maiores? À fé que isto não
vem de falta de habilidade, mas sim de sobejo de preguiça e
penúria de reflexão. Quereis convencer-vos da verdade que vos
digo? Estai atento ao que vou dizer-vos, e, num abrir e
fechar de olhos, achareis desfeitas e destruídas todas as
vossas dificuldades, e remediadas todas as faltas que vos
assustam e acobardam para deixardes de apresentar à luz do
mundo a história do vosso famoso D. Quixote, espelho e brilho
de toda a cavalaria andante.»
Aqui lhe atalhei eu com a seguinte pergunta:
«Dizei-me: qual é o modo por que pensais que hei-de encher o
vazio do meu temor, e trazer a lúcida claridade ao escuro
caos da minha confusão?»
A isto me replicou ele:
«O reparo que fazeis sobre os tais sonetos, epigramas e
elogios que faltam para o princípio do vosso livro, e que
sejam de personagens graves e de Título, se pode remediar,
uma vez que vós mesmo queirais ter o trabalho de os compor, e
depois baptizá-los, pondo-lhes o nome da pessoa que for mais
do vosso agrado, podendo mesmo atribuí-los ao Prestes João
das Índias, ou ao imperador de Trapizonda, dos quais eu por
notícias certas sei que foram famosos poetas; mas, ainda
quando isto seja patranha e não o tenham sido, e apareçam
porventura alguns pedantes palradores, que vos mordam por
detrás, e murmurem desta peta, não se vos dê dez réis de mel
coado desses falatórios, porque, ainda quando averiguem a
vossa velhacaria a respeito da paternidade dos tais versos,
nem por isso vos hão-de cortar a mão com que os escrevestes.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Quanto ao negócio de citar nas margens do livro os nomes dos
autores, dos quais vos aproveitardes para inserirdes na vossa
história os seus ditos e sentenças, não tendes mais que
arranjar-vos de maneira que venham a ponto algumas dessas
sentenças, as quais vós saibais de memória, ou pelo menos que
vos dê o procurá-las muito pouco trabalho, como será,
tratando por exemplo de liberdade e escravidão, citar a
seguinte:
Non bene pró totó libertas venditur auro,
e logo à margem citar Horácio, ou quem foi que o disse. Se
tratardes do poder da morte, acudi logo com:
Pailida mors aequo pulsa pede pauperum tabernas Regumque
turres.
Se da amizade e amor que Deus manda ter para com os inimigos,
entrai-vos logo sem demora pela Escritura Divina, o que
podeis fazer com uma pouca de curiosidade, e dizer depois as
palavras pelo menos do próprio Deus: Ego autem dico vobis:
Diligite mmicos vostros. Se tratardes de maus pensamentos,
vinde com o Evangelho, quando este diz: De corde exeunt
cogitationes malae; se da instabilidade dos amigos, aí está
Catão que vos dará o seu dístico:
Donec eris felix, muitos numerabis aics;
Têmpora sifuerínt nubila, solus eris.
Com estes latins, e com outros que tais, vos terão sequer por
gramático, que já o sê-lo não é pouco honroso, e às vezes
também proveitoso nos tempos de agora.
elo que toca a fazer anotações ou comentários no fim do
livro, podeis fazê-los com segurança da maneira seguinte: Se
nomeardes no vosso livro algum gigante, não vos esqueçais de
que este seja o gigante Golias e somente com este nome, que
vos custará muito pouco a escrever, tendes já um grande
comentário a fazer, porque podeis dizer, pouco mais ou menos,
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MIGUEL DE CERVANTES
isto: «O gigante Golias, ou Goliath, foi um filisteu, a quem
o pastor David matou com uma grande pedrada que lhe deu no
vale de Terebinto, segundo se conta no Livro dos Reis, no
capítulo onde achardes que esta história se acha escrita.» Em
seguida a esta anotação, para mostrar-vos homem erudito em
letras humanas e ao mesmo tempo um bom cosmógrafo, fazei de
modo que no livro se comemore o rio Tejo, e vireis logo com
um magnífico comentário, dizendo: «O rio Tejo foi assim
chamado em memória de um antigo rei das Espanhas; tem o seu
nascimento em tal lugar e vai morrer no mar Oceano, beijando
os muros da famosa cidade de Lisboa, e é opinião de muita
gente que traz areias de ouro, etc.» Se tratardes de ladrões,
dar-vos-ei a história de Caco, a qual eu sei de cor; se de
mulheres namoradeiras, aí está o bispo de Mondonedo que vos
emprestará Landa, Las e Flora, cujo comentário vos granjeará
grande crédito; se de mulheres cruéis, Ovídio porá Medeia à
vossa disposição; se de feiticeiras encantadoras, lá tendes
Calipso em Homero, e Circe e Virgílio; se de capitães
valorosos, Júlio César se vos dá a si próprio nos seus
Comentários, e Plutarco vos dará mil Alexandres; se vos
meterdes em negócios de amores, com uma casca de alhos que
saibais da língua toscana topareis em Leão Hebreu, que vos
encherá as medidas: e se não quereis viajar por terras
estranhas, em vossa casa achareis Fonseca e seu Amor de Deus,
no qual se cifra tudo quanto vós e qualquer dos mais
engenhosos escritores possa acertar a dizer em tal matéria.
Em conclusão, nada mais há senão que vós procureis meter no
livro estes nomes, ou tocar nele estas histórias, que vos
apontei, depois deixai ao meu cuidado o pôr as notas
marginais, e as anotações e comentários finais, e vos dou a
minha palavra de honra de vos atestar as margens de notas, e
de apensar ao fim do livro uma resma de papel toda cheia de
comentários.
Vamos agora à citação dos autores que por aí costumam trazer
os outros livros, mas que faltam no vosso. O remédio desta
míngua é muito fácil, porque nada mais tendes a fazer do que
pegar num catálogo, que contenha todos os autores conhecidos
por ordem alfabética, como há pouco dissestes; depois
pegareis nesse mesmo catálogo e o inserireis no vosso livro,
porque,
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
apesar de ficar a mentira totalmente calva por no terdes
necessidade de incomodar a tanta gente, isso pouco importa, e
porventura encontrareis leitores tão bons e tão ingénuos que
acreditem na verdade do vosso catálogo, e se persuadam de que
a vossa história, tão simples e tão singela, todavia
precisava muito daquelas imensas citações: e quando não sirva
isto de outra coisa, servirá contudo por certo de dar ao
vosso livro uma grande autoridade; além de que ninguém
quererá dar-se ao trabalho de averiguar se todos aqueles
autores foram consultados e seguidos por vós, ou não o foram
porque daí não tira proveito algum, e, demais a mais, se me
não iludo, este vosso livro não carece de alguma dessas
coisas que dizeis lhe falta, pois todo ele é uma invectiva
contra os livros de cavalarias, dos quais nunca se lembrou
Aristóteles nem vieram à ideia de Cícero, e mesmo S. Basílio
guardou profundo silêncio a respeito deles. O livro que
escreveis há-de conter disparates fabulosos, com os quais
nada têm que ver as pontualidades da verdade, nem as
observações da astrologia, nem lhe servem de coisa alguma as
medidas geométricas, nem a confutação dos argumentos usados
pela retórica, nem tem necessidade de fazer sermões aos
leitores misturando o humano com o divino, mistura esta que
não deve sair de algum cristão entendimento. No vosso livro o
que muito convém é uma feliz imitação dos bons modelos, a
qual, quanto mais perfeita for, tanto melhor será o que se
escrever: e pois que a vossa escritura tem por único fim
desfazer a autoridade que por esse mundo e entre o vulgo
ganharam os livros de cavalarias, não careceis de andar
mendigando sentenças de filósofos, conselhos da Divina
Escritura, fábulas de poetas, orações de retóricos, e
milagres de santos; o de que precisais é de procurar que a
vossa história se apresente em público escrita em estilo
significativo, com palavras honestas e bem colocadas, sonoras
e festivas em grande abastança, pintando em tudo quanto for
possível a vossa intenção, fazendo entender os vossos
conceitos sem os tornar intrincados, nem obscuros. Procurai
também que, quando ler o vosso livro, o melancólico se alegre
e solte uma risada, que o risonho quase endoideça de praer, o
simples se não enfade, o discreto se admire da vossa
invenção,
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MIGUEL DE CERVANTES
o grave a não despreze, nem o prudente deixe de gabá-la.
Finalmente, tende sempre posta a mira em derribar a mal
fundada máquina destes cavaleirescos livros aborrecidos de
muita gente, e louvados e queridos de muita mais. Se
conseguirdes fazer quanto vos digo, não tereis feito pouco.»
Com grande silêncio estive eu escutando o que o meu amigo me
dizia, e com tal força se imprimiram em mim as suas razões,
que sem mais discussão alguma as aprovei por boas, e delas
mesmas quis compor este prólogo: aqui verás, leitor suave, a
discrição do meu amigo, a minha boa ventura de encontrar um
tal conselheiro em tempo de tão apertada necessidade, e a tua
consolação em poderes ler a história tão sincera e tão
verdadeira do famoso D. Quixote de Ia Mancha, do qual a
opinião mais geral dos habitantes do Campo de Montiel é haver
sido o mais casto enamorado, e o mais valente cavaleiro que
desde muitos anos a esta parte apareceu por aqueles sítios.
Não quero encarecer-te o serviço que te presto em dar-te a
conhecer tão honrado e notável cavaleiro; mas sempre quero
que me agradeças o conhecimento que virás a ter do grande
Sancho Pança, seu escudeiro, no qual, segundo o meu parecer,
te dou enfeixadas todas as graças escudeirais que pela
caterva dos livros ocos de cavalarias se encontram espalhadas
e dispersas. E com isto Deus te dê saúde, e se não esqueça de
mim.
Vale
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LIVRO PRIMEIRO
CAPITULO I f
i
QUE TRATA DA CONDIÇÃO E EXERCÍCIO DO FAMOSO FIDALGO |
D. QUIXOTE DE LA MANCHA :
Num lugar da Mancha, de cujo nome no quero lembrar-me, vivia,
não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga
antiga, rocim fraco, e galgo corredor.
Passadio, olha seu tanto mais de vaca do que de carneiro, as
mais das ceias restos da carne picados com sua cebola e
vinagre, aos sábados outros sobejos ainda somenos, lentilhas
às sextas-feiras, algum pombito de crescença aos domingos,
consumiam três quartos do seu haver. O remanescente, levavamno
saio de belarte, calças de veludo para as festas, com seus
pantufos do mesmo; e para os dias de semana o seu bellorí do
mais fino.
Tinha em casa uma ama que passava dos quarenta, uma sobrinha
que no chegava aos vinte, e um moço da pousada e de porta a
fora, tanto para o trato do rocim, como para o da fazenda.
Orçava na idade o nosso fidalgo pêlos cinquenta anos. Era
rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto,
madrugador, e amigo da caça.
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MIGUEL DE CERVANTES
Querem dizer que tinha o sobrenome de Quijada ou Quesada (que
nisto discrepam algum tanto os autores que tratam da
matéria), ainda que por conjecturas verosímeis se deixa
entender que se chamava Quijana. Isto, porém, pouco faz para
a nossa história; basta que, no que tivermos de contar, não
nos desviemos da verdade nem um til.
É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de
ócio (que eram os mais do ano), se dava a ler livros de
cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase
de todo do exercício da caça, e até da administração dos seus
bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste
ponto, que vendeu muitas courelas de semeadura para comprar
livros de cavalarias que ler; com o que juntou em casa
quantos pôde apanhar daquele género.
Dentre todos eles, nenhuns lhe pareciam tão bem como os
compostos pelo famoso Feliciano da Silva, porque a clareza da
sua prosa e aquelas intrincadas razões suas lhe pareciam de
pérolas; e mais, quando chegava a ler aqueles requebros e
cartas de desafio, onde em muitas partes achava escrito: a
raão da sem-razào que à minha razão se faz, de tal maneira a
minha raão enfraquece, que com razão me queixo da vossa
formosura; e também quando lia: os altos céus que de vossa
divindade divinamente com as estrelas vos fortificam, e vos
fazem merecedora do merecimento que merece a vossa randeza.
Com estas razões perdia o pobre cavaleiro o juízo; e
desvelava-se por entendê-las, e desentranhar-lhes o sentido,
que nem o próprio Aristóteles o lograria, ainda que só para
isso ressuscitara. Não se entendia lá muito bem com as
feridas que D. Belianis dava e recebia, por imaginar que, por
grandes facultativos que o tivessem curado, não deixaria de
ter o rosto e todo o corpo cheio de cicatrizes e costuras.
Porém, contudo louvava no autor aquele acabar o seu livro com
a promessa daquela inacabável aventura; e muitas vezes lhe
veio desejo de pegar na pena e finalizar ele a coisa ao pé da
letra, como ali se promete; e sem dúvida alguma o fizera, e
até o sacara à luz, se outros maiores e contínuos pensamentos
lho não estorvaram.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Teve muitas vezes testilhas com o cura do seu lugar que era
homem douto, graduado em Siguença, sobre qual tinha sido
melhor cavaleiro, se Palmeirim de Inglaterra ou Amadis de
Gaula. Mestre Nicolau, barbeiro do mesmo povo, dizia que
nenhum chegava ao «Cavaleiro do Febo»; e que, se algum se lhe
podia comparar, era D. Galaor, irmão do Amadis de Gaula, o
qual era para tudo, e não cavaleiro melindroso, nem tão
chorão como seu irmão e que em pontos de valentia lhe não
ficava atrás.
Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que as noites
se lhe passavam a ler desde o sol-posto até à alvorada, e os
dias, desde o amanhecer até ao fim da tarde. E assim, do
pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de
maneira que chegou a perder o juízo.
Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim
de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios,
feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates
impossíveis;
e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação o ser verdade
toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para
ele não havia história mais certa no mundo.
Dizia ele que Cid Rui Dias fora muito bom cavaleiro; porém
que não tinha que ver com o Cavaleiro da Ardente Espada, que
de um só revés tinha partido pelo meio a dois feros e
descomunais gigantes.
Melhor estava com Bernardo dei Cárpio, porque em Roncesvales
havia morto a Roldão o encantado, valendo-se da indústria de
Hércules quando afogou entre os braços a Anteu, filho da
Terra.
Dizia muito bem do gigante Morgante porque, com ser daquela
geração dos gigantes, que todos são soberbos e descomedidos,
só ele afável e bem-criado.
Porém sobre todos estava bem com Reinaldo de Montalvão,
especialmente quando o via sair do seu castelo, e roubar
quantos topava, e quando em Allende se apossou daquele ídolo
de Mafoma, que era de ouro maciço, segundo refere a sua
história.
Para poder pregar um bom par de pontapés no traidor Galalão,
dera ele a ama, e de crescenças a sobrinha.
19
MIGUEL DE CERVANTES
Afinal, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho
pensamento em que nunca jamais caiu louco algum do mundo;
e foi: parecer-lhe convinhável e necessário, assim para
aumento de sua honra própria, como para proveito da
república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o
mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e
exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da
andante cavalaria, desfazendo todo o género de agravos, e
pondo-se em ocasiões e perigos, de onde, levando-os a cabo,
cobrasse perpétuo nome e fama.
Já o coitado se imaginava coroado pelo valor do seu braço,
pelo menos com o império de Trapizonda; e assim, com estes
pensamentos de tanto gosto, levado do enlevo que neles
trazia, se deu pressa a pôr por obra o que desejava; e a
primeira coisa que fez foi limpar umas armas que tinham sido
dos seus bisavós, e que, desgastadas de ferrugem, jaziam para
um canto esquecidas havia séculos. Limpou-as e consertou-as o
melhor que pôde; porém viu que tinham uma grande falta, que
era não terem celada de encaixe, senão só morrião simples. A
isto porém remediou a sua habilidade: arranjou com papelões
uma espécie de meia celada, que encaixava com o morrião,
representando celada inteira.
Verdade é que, para experimentar se lhe saíra forte e poderia
com uma cutilada, sacou da espada e lhe atirou duas. Com a
primeira para logo desfez o que lhe tinha levado uma semana a
arranjar; não deixou de parecer-lhe mal a facilidade com que
dera cabo dela. Para forrar-se a outra que tal, tornou a
corregê-la, metendo-lhe por dentro umas barras de ferro, por
modo que se deu por satisfeito com a sua fortaleza; e, sem
querer aventurar-se a mais experiências, a despachou e teve
por celada de encaixe das mais finas.
Foi-se logo a ver o seu rocim; e dado tivesse mais quartos
que um real, e mais tachas que o próprio cavalo de Gonela,
que tantum peilis et ossafuit, pareceu-lhe que nem o Bucéfalo
de Alexandre nem o Babieca do Cid tinham que ver com ele.
Quatro dias levou a cismar que nome lhe poria, porque
(segundo ele a si próprio se dizia) não era razão que um
cavalo de tão famoso cavaleiro, e ele mesmo de si tão bom,
ficasse sem
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
nome aparatoso. Barafustava por lhe dar um, que declarasse o
que fora antes de pertencer a cavaleiro andante; pois era
coisa muito de razão, que, mudando o seu senhor de estado,
mudasse ele também de nome, e o cobrasse famoso e de
estrondo, como convinha à nova ordem e ao exercício que já
professava; e assim, depois de escrever, riscar, e trocar
muitos nomes, ajuntou, desfez, e refez na própria lembrança
outros, até que acertou em o apelidar Rocinante, nome (em seu
conceito) alto, sonoro, e significativo do que havia sido
quando não passava de rocim, antes do que ao presente era,
como quem dissera que era o primeiro de todos os rocins do
mundo.
Posto a seu cavalo nome tanto a contento, quis também
arranjar outro para si; nisso gastou mais oito dias; e ao
cabo deparou em chamar-se D. Quixote; do que (segundo dito
fica) tomaram ocasião alguns autores desta verdadeira
história para assentarem que se devia chamar Quijada e não
Quesada, como outros quiseram dizer.
Recordando-se, porém, de que o valoroso Amadis, não contente
em chamar-se Amadis sem mais nada, acrescentou o nome com o
do seu reino e pátria, para a tomar famosa, e se nomeou
Amadis de Gaula, assim quis também ele, como bom cavaleiro,
acrescentar ao seu nome o da sua terra, e chamar-se D.
Quixote de Ia Mancha; com o que (a seu parecer) declarava
muito ao vivo sua linhagem e pátria, a quem dava honra em
tomar dela o sobrenome.
Assim, limpas as suas armas, feita do morrião celada, posto o
nome ao rocim, e confirmando-se a si próprio, julgou-se
inteirado de que nada mais lhe faltava senão buscar uma dama
de quem se enamorar; que andante cavaleiro sem amores era
árvore sem folhas nem frutos, e corpo sem alma.
Dizia ele entre si:
- Demos que, por mal dos meus pecados (ou por minha boa
sorte), me encontro por aí com algum gigante como de
ordinário acontece aos cavaleiros andantes, e o derribo de um
recontro, ou o parto em dois, ou, finalmente, o venço e
rendo;
não será bem ter a quem mandá-lo apresentar, para que ele
entre, e se lance de joelhos aos pés da minha preciosa
senhora e lhe
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MIGUEL DE CERVANTES
diga com voz humilde e rendida: «Eu, Senhora, sou o gigante
Caraculiambro, senhor da ilha Malindrânia, a quem venceu em
singular batalha o jamais dignamente louvado cavaleiro D.
Quixote de Ia Mancha, o qual me ordenou me apresentasse
perante Vossa Mercê, para que a vossa grandeza disponha de
mim como for servida?»
Como se alegrou o nosso bom cavaleiro de ter engenhado este
discurso, especialmente quando atinou com quem pudesse chamar
a sua dama\
Foi o caso, conforme se crê, que, num lugar perto d seu,
havia certa moça lavradora de muito bom parecer, de quem ele
em tempos andara enamorado, ainda que (segundo se entende)
ela nunca o soube, nem de tal desconfiou. Chamava-se Aldonça
Lourenço; a esta é que a ele pareceu bem dar o título de
senhora dos seus pensamentos; e buscando-lhe nome que não
desdissesse muito do que ela tinha, e ao mesmo tempo desse
seus ares de princesa e grã-senhora, veio a chamá-la
Dulcineia dei Toboso, por ser Toboso a aldeia da sua
naturalidade; nome este (em seu entender) músico, peregrino,
e significativo, como todos os mais que a si e às suas coisas
já havia posto.
CAPÍTULO II
QUE TRATA DA PRIMEIRA SAÍDA QUE DE SUA TERRA FEZ O ENGENHOSO
D. QUIXOTE
Concluídos, pois, todos estes arranjos, não quis retardar
mais o pôr em efeito o seu pensamento, estimulando-o a
lembrança da falta que estava já fazendo ao mundo a sua
tardança, segundo eram os agravos que pensava desfazer, semrazões
que endireitar, injustiças que reprimir, abusos que
melhorar, e dívidas que satisfazer.
E assim, sem a ninguém dar parte da sua intenção e sem que
ninguém o visse, uma manhã antes do dia, que era um dos
encalmados de Julho, apercebeu-se de todas as suas armas,
montou-se no Rocinante, posta a sua celada feita à pressa,
embraçou
22
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
a sua adarga, empunhou a lança e pela porta furtada de um
pátio se lançou ao campo com grandíssimo contentamento e
alvoroço, de ver com que felicidade dava princípio ao seu bom
desejo.
Mas, apenas se viu no campo, quando o assaltou um terrível
pensamento, e tal, que por pouco o não fez desistir da
começada empresa: lembrou-lhe não ter sido ainda armado
cavaleiro, e que, segundo a lei da cavalaria, não podia nem
devia tomar armas com algum cavaleiro; e ainda que as tomara,
havia de levá-las brancas, como cavaleiro donzel, sem empresa
no escudo enquanto por seu esforço a não ganhasse.
Estes pensamentos não deixaram de lhe abalar os propósitos;
mas, podendo nele mais a loucura do que outra qualquer razão,
assentou em que se faria armar cavaleiro por algum que
topasse, à imitação de muitos que também assim o fizeram,
segundo ele tinha lido nos livros do seu uso; e, quanto a
armas brancas, limparia as suas por modo, logo que para isso
tivesse lugar, que nem um arminho lhes ganhasse.
Com isto serenou, e seguiu jornada por onde ao cavalo
apetecia por acreditar que nisso consistia a melhor venida
para as aventuras.
Indo, pois, caminhando o nosso flamante aventureiro,
conversava consigo mesmo e dizia:
- Quem duvida de que lá para o futuro, quando sair à luz a
verdadeira história dos meus famosos feitos, o sábio que os
escrever há-de pôr, quando chegar à narração desta minha
primeira aventura to de madrugada, as seguintes frases:
«Apenas tinha o rubicundo Apoio estendido pela face da ampla
e espaçosa Terra as douradas melanias dos seus formosos
cabelos, e apenas os pequenos e pintados passarinhos, com as
suas farpadas línguas, tinham saudado, com doce e melíHua
harmonia, a vinda da rosada aurora, que, deixando a branda
cama do zeloso marido, pelas portas e varandas do horizonte
manchego aos mortais se mostrava; quando o famoso cavaleiro
D. Quixote de Ia Mancha, deixando as ociosas penas, se montou
no seu famoso cavalo Rocinante, e começou a caminhar pelo
antigo e conhecido campo de Montiel (e era verdade, que por
esse mesmo campo é que ele ia)»; e continuou dizendo: «Ditosa
idade e
23
MIGUEL DE CERVANTES
século ditoso, aquele em que hão-de sair à luz as minhas
famigeradas façanhas dignas de gravar-se em brome, esculpirse
em mármores, e pintar-se em painéis para lembrança de
todas as idades!» Ó tu, sábio encantador (quem quer que
sejas), a quem há-de tocar ser o cronista desta história,
peco-te que te não esqueças do meu bom Rocinante, meu eterno
companheiro em todos os caminhos e carreiras.
E logo passava a dizer, como se verdadeiramente fora
enamorado:
- Ó princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração, muito
agravo me fizestes em despedir-me, e vedar-me com tão cruel
rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos, Senhora,
lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas
mágoas padece por amor de vós.
E com estes ia tecendo outros disparates, todos pelo teor dos
que havia aprendido nos seus livros, imitando, conforme
podia, o próprio falar deles; e com isto caminhava tão
vagaroso, e o sol caía tão rijo, que de todo lhe derretera os
miolos, se alguns tivera.
Caminhou quase todo o dia sem lhe acontecer coisa merecedora
de ser contada; com o que ele se amofinava, pois era todo o
seu empenho topar logo onde provar o valor do seu forte
braço.
Dizem alguns autores que a sua primeira aventura foi a do
porto Lápice; outros, que foi a dos moinhos de vento. Mas o
que eu pude averiguar, e o que achei escrito nos anais da
Mancha, é que ele andou todo aquele dia, e, ao anoitecer, ele
com o seu rocim se achava estafado e morto de fome; e que,
olhando para todas as partes, a ver se se lhe descobriria
algum castelo, ou alguma barraca de pastores, onde se
recolher, e remediar sua muita necessidade, viu no longe do
caminho uma venda, que foi como aparecer-lhe uma estrela que
o encaminhava, seno ao alcácer, pelo menos aos portais da sua
redenção.
Deu-se pressa em caminhar, e chegou a tempo, que já a noite
se ia cerrando.
Achavam-se acaso à porta duas mulheres moças, destas que
chamam de boa avença, as quais se iam a Sevilha com uns
arrieiros, que nessa noite acertaram de pousar na estalagem.
24
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
E como ao nosso aventureiro tudo quanto pensava, via, ou
imaginava, lhe parecia real, e conforme ao que tinha lido,
logo que viu a locanda se lhe representou ser um castelo com
suas quatro torres, e coruchéus feitos de luzente prata, sem
lhe faltar sua ponte levadiça e cava profunda, e mais
acessórios que em semelhantes castelos se debuxam.
Foi-se chegando à pousada (ou castelo, pelo que se lhe
representava); e a pequena distância colheu as rédeas a
Rocinante, esperando que algum ano surdiria entre as ameias a
dar sinal de trombeta por ter chegado cavaleiro ao castelo.
Vendo porém que tardava, e que Rocinante mostrava pressa de
chegar à estrebaria, achegou-se à porta da venda e avistou as
duas divertidas moças que ali estavam, que a ele lhe
pareceram duas formosas donzelas, ou duas graciosas damas,
que diante das portas do castelo se espaireciam.
Sucedeu acaso que um porqueiro, que andava recolhendo de uns
restolhos a sua vara de porcos (que este, sem faltar à
cortesia, é que é o nome deles), tocou uma buzina a recolher.
No mesmo instante se figurou a D. Quixote o que desejava; a
saber: que lá estava algum anão dando sinal da sua vinda. E
assim, com estranho contentamento, chegou à venda e às damas.
Elas, vendo acercar-se um homem daquele feitio, e com lanca e
adarga, cheias de susto já se iam acolhendo à venda, quan- .
do D. Quixote, conhecendo o medo que as tomara, levantando '
a viseira de papelo, e descobrindo o semblante seco e l
empoeirado, com o tom mais ameno e voz mais repousada lhes
disse:
- Não fujam Suas Mercês, nem temam desaguisado algum,
porquanto a Ordem de cavalaria que professo a ninguém permite
que ofendamos, quanto mais a tão altas donzelas, como se está
vendo que ambas sois.
Miravam-no as moças, e andavam-lhe com os olhos procurando o
rosto, que a desastrada viseira em par lhe encobria; mas,
como se ouviram chamar donzelas, coisa tão alheia ao seu modo
de vida, não puderam conter o riso; e foi tanto, que D.
Quixote chegou a envergonhar-se e dizer-lhes:
25
MIGUEL DE CERVANTES
- Comedimento é azul sobre o ouro da formosura, e demais, o
rir sem causa grave denuncia sandice. Não vos digo isto para
que vos estomagueis, que a minha vontade outra não é senão
servir-vos.
A linguagem que as tais fidalgas não entendiam, e o
desajeitado do nosso cavaleiro, ainda acrescentavam nelas as
risadas, e estas nele o enjoo; e adiante passara, se a ponto
não saísse o vendeiro, sujeito que por muito gordo era muito
pacíco de génio. Este, vendo aquela despropositada figura,
com arranjos tão disparatados como eram os aparelhos, as
armas, lança, adarga e corsolete, esteve para fazer coro com
as donzelas nas mostras de hilaridade. Mas, reparando melhor
naquela quantia de petrechos, teve mão em si, assentou em lhe
falar comedidamente, e disse-lhe desta maneira:
- Se Vossa Mercê, Senhor Cavaleiro, busca pousada exceptuando
o leito (porque nesta venda nenhum há) tudo mais achará nela
de sobejo.
Vendo D. Quixote a humildade do «alcaide da fortaleza»,
respondeu:
- Para mim Senhor Castelão, qualquer coisa basta porque
«minhas pompas são as armas, meu descanso o pelejar», etc.
Figurou-se ao locandeiro que o nome de castelão seria troca
de castelhano (ainda que ele era andaluz, e dos da praia de
Saniúcar, que em tunantes não lhe ficam atrás, e são mais
ladrões que o próprio Caco, e burles como estudante ou
pajem);
e assim lhe respondeu:
- Segundo isso (como também lá reza a trova),
«colches lhe serão as penhas, e o dormir sempre velar. »
E, sendo assim, pode muito bem apear-se, com a certeza de
achar nesta choça ocasião e ocasiões para não dormir em todo
um ano, quanto mais uma noite.
26
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
E, dito isto, foi segurar no estribo a D. Quixote, o qual se
apeou com muita dificuldade e trabalho, como homem que em
todo o dia nem migalha tinha provado.
Disse logo ao hospedeiro que tivesse muito cuidado naquele
cavalo, porque era a melhor peça de quantas consumiam páo
neste mundo.
Reparou nele o vendeiro, e nem por isso lhe pareceu tão bom
como D. Quixote lhe dizia, e nem metade. Acomodou-o na
cavalariça, e voltou a saber o que o seu hóspede mandava;
achou-o já às boas com as donzelas, que o estavam desarmando.
Do peito de armas e couraça bem o tinham elas desquitado; mas
o que nunca puderam foi desencaixar-lhe a gola, nem tirar-lhe
a composta celada, que trazia atada com umas fitas verdes,
com tão cegos nós, que só cortando-as; no que ele de modo
nenhum consentiu.
E assim passou a noite com a celada posta, que era a mais
extravagante e graciosa figura que se podia imaginar.
Enquanto o estiveram desarmando, ele, que imaginava serem
damas e senhoras, das principais do castelo, aquelas duas
safadas firmas, com muito donaire lhes repetia:
- Nunca fora cavaleiro
de damas tão bem servido, como ao vir de sua aldeia D.
Quixote o esclarecido:
donzelas tratavam dele, princesas do seu rocim,
ou Rocinante, que este é o nome do meu cavalo Senhoras
minhas, e D. Quixote de Ia Mancha o meu. Não quisera eu
descobrir-me, até que as façanhas, obradas em vosso serviço e
prol, por si me proclamassem: mas a necessidade de acomodar
ao lance presente este romance antigo de Lançarote ocasionou
que viésseis a saber o meu nome antes de tempo. Dia porém
virá em que Vossas Senhorias me intimem suas ordens, e eu
lhas
27
MIGUEL DE CERVANTES
cumpra, mostrando com o valor do meu braço o meu grande
desejo de servir-vos.
As moças, que no andavam correntes em semelhantes retóricas,
no respondiam palavra; unicamente lhe perguntaram se queria
comer alguma coisa.
- Da melhor vontade, e seja o que for - respondeu D. Quixote
- porque, segundo entendo, bom prol me faria.
Quis logo a mofina que fosse aquele dia uma sexta-feira, não
havendo na locanda seno umas postas de um pescado, que em
Castela se chama àbadejo, e em Andaluzia bacalhau, noutras
partes curadiïlo, e noutras truchuela.
Perguntaram-lhe se porventura comeria Sua Mercê truchuela,
atendendo a no haver por então outro conduto.
- Muitas truchuelas - respondeu D. Quixote -, que são
diminutivos, somarão uma truta; tanto me vale que me dêem
oito reais pegados, como em miúdos. E quem sabe se as tais
truchuelas não serão como a vitela, que é melhor do que a
vaca, como o cabrito é mais saboroso que o bode? Seja porém o
que for, venha logo, que o trabalho e peso das armas não se
pode levar sem o governo das tripas.
Puseram-lhe a mesa à porta da venda para estar mais à fresca,
e trouxe-lhe o hospedeiro uma porção do mal remolhado e pior
cozido bacalhau, e um pão tão negro e de tão má cara, como as
armas de D. Quixote.
Pratinho para boa risota era vê-lo comer; porque, como tinha
posta a celada e a viseira erguida, não podia meter nada para
a boca por suas próprias mãos; e por isso uma daquelas
senhoras o ajudava em tal serviço. Agora o dar-lhe de beber é
que não foi possível, nem jamais o seria, se o vendeiro não
furara os nós de uma cana, e, metendo-lhe na boca uma das
extremidades dela, lhe não vazasse pela outra o vinho. Com
tudo aquilo se conformava o sofrido fidalgo, só por se lhe
não cortarem os atilhos da celada.
Nisto estavam, quando à venda chegou um capador de porcos e
deu sinal de si correndo a sua gaita de canas quatro ou cinco
vezes; com o que se acabou de capacitar D. Quixote de que
estava em algum famoso castelo, e o serviam com música,
28
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
e que o abadejo eram trutas, o pão candial, as duas
mulherinhas damas, e o vendeiro castelâo do castelo; e com
isto dava por bem empregada a sua determinação e saída.
O que porém sobretudo o desassossegava era não se ver ainda
armado cavaleiro, por lhe parecer que antes disso não lhe era
dado entrar por justos cabais em aventura alguma.
CAPÍTULO III
NO QUAL SE CONTA A GRACIOSA MANEIRA QUE TEVE D. QUIXOTE EM
ARMAR-SE CAVALEIRO
Ixalado com este pensamento, apressou D. Quixote a sua parca
ceia, e ao cabo dela chamou a sós o vendeiro, e, fechando-se
com ele na cavalariça, se lhe ajoelhou diante, dizendo-lhe:
- Nunca de onde estou me levantarei, valoroso cavaleiro,
enquanto Vossa Cortesia me não outorgar um dom que lhe peço,
o qual redundará em vosso louvor, e proveito do género
humano.
O vendeiro, que viu o hóspede aos seus pés, e ouviu
semelhantes razões, estava enleado a olhar para ele, sem
atinar no que fizesse ou lhe respondesse, e teimava com ele
que se levantasse. Não havia convencê-lo, enquanto, por fim
lhe não disse que lhe outorgava o que pedia.
- Não esperava eu menos da vossa grande magnificência, Senhor
meu - respondeu D. Quixote -, e assim vos digo que a mercê
que vos hei pedido, e que a vossa liberalidade me afiança, é
que amanh mesmo me hajais de armar cavaleiro. Esta noite na
capela deste vosso castelo velarei as armas, e amanhã, como
digo, se cumprirá o que tanto desejo, para poder, como se
deve, ir por todas as quatro partes do mundo buscar aventuras
em proveito dos necessitados, como incumbe à cavalaria e aos
cavaleiros andantes, qual eu sou, por inclinação de minha
índole.
O vendeiro, que era, como já se disse, folgazão, e já tinha
seus barruntos da falta de juízo do hóspede, acabou de o
reconhecer quando tal lhe ouviu; e, para levar a noite de
risota,
29
MIGUEL DE CERVANTES
determinou fazer-lhe a vontade; pelo que lhe disse que andava
muito acertado no que desejava, e que tal deliberação era
própria de senhor tão principal como ele lhe parecia ser, e
como sua galharda presença o inculcava; e que também ele que
lhe falava, quando ainda mancebo se havia dado àquele honroso
exercício, andando por diversas partes do mundo à busca de
suas aventuras sem lhe escapar recanto nos arrabaldes de
Malaga, ilhas de Riarán, Compasso de Sevilha, Mercados de
Segovia, Oliveira de Valença, Praça de Granada, praia de
Saniúcar, Porto de Córdova, Vendas de Toledo, e outras
diversas partes, onde tinha provado a ligeireza dos pés, a
subtileza das mãos, fazendo muitos desmandos, requestando a
muitas viúvas, enxovalhando algumas donzelas, enganando
menores, e, finalmente, dando-se a conhecer por quantos
auditórios e tribunais há, por quase toda a Espanha. Por
derradeiro, tinha vindo recolher-se àquele seu castelo, onde
vivia dos seus teres e dos alheios, recebendo nele a todos os
cavaleiros andantes, de qualquer qualidade e condição que
fossem, só pela muita afeiço que lhes tinha, e para que
repartissem com ele os seus haveres, a troco dos seus bons
desejos.
Disse-lhe também, que naquele seu castelo não havia capela em
que pudesse velar as armas, porque a tinham demolido para a
reconstrução; porém, que ele sabia poderem-se as armas velar
onde quer que fosse, em caso de necessidade; e que naquela
noite as velaria num pátio do castelo, e pela manhã, prazendo
a Nosso Senhor, se fariam as devidas cerimónias, de maneira
que ficasse armado cavaleiro, e tão cavaleiro como os mais
cavaleiros do mundo.
Perguntou-lhe se trazia dinheiros. Respondeu-lhe D. Quixote
que nem branca, porque nunca tinha lido nas histórias dos
cavaleiros andantes que nenhum os tivesse trazido.
A isto disse o vendeiro que se enganava; que, posto nas
histórias se não achasse tal menção, por terem entendido os
autores delas não ser necessário especificar uma coisa tão
clara e indispensável, como eram o dinheiro e camisas
lavadas, nem por isso se havia de acreditar que não
trouxessem tal; e assim tivesse por certo e averiguado, que
todos os cavaleiros andan-
30
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
tes, de que tantos livros andam cheios e rasos, levavam bem
petrechadas as bolsas para o que desse e viesse, e que
igualmente levavam camisas, e uma caixinha pequena cheia de
unguentos, para se guarecerem das feridas que apanhassem,
porque nem sempre se lhes depararia quem os curasse nos
campos e desertos onde combatessem, e de onde saíssem
escalavrados; a não ser que tivessem por si algum sábio
encantador, que para logo os socorresse, trazendo-lhes pelo
ar nalguma nuvem alguma donzela ou anão, com redoma de água
de tal virtude, que em provando dela uma só gota sarassem
logo de qualquer lanho ou chaga, como se nada fora. Que os
passados cavaleiros sempre tiveram por bom acerto que os seus
escudeiros fossem prevenidos de dinheiro e outras coisas
necessárias, como fios e unguentos. E, quando acontecia não
terem escudeiros, o que era raríssimo, eles próprios em
pessoa levavam tudo aquilo ao disfarce nuns alforges,
figurando ser coisa de mais tomo; porque, a não ser por
semelhante motivo, isso de levar alforges não era muito
admitido entre os cavaleiros andantes. Por isso lhe dava de
conselho (ainda que por enquanto bem lho pudera ordenar como
a afilhado, que brevemente o seria) que daí em diante não
tomasse a caminhar assim, espúrio de cum uibus e mais
adminículos necessários; e, quando menos o pensasse, lá veria
quanto lhe aproveitavam.
Prometeu D. Quixote executar com toda a pontualidade o bom
conselho.
Deu-se logo ordem a serem veladas as armas num pátio grande
pegado com a venda; e, juntando todas as suas, D. Quixote as
empilhou para cima de uma pia ao pé de um poço. Embraçando a
sua adarga, empunhou a lança, e com gentil donaire começou a
passear diante da pia, quando já de todo se acabava de cerrar
a noite.
Contou o vendeiro a todos, que na venda estavam, a mania do
seu hóspede, a vela das armas, e a cerimónia que se preparava
para lhas vestir. Admirados de tão estranho desatino, foram
todos espreitar de longe, e viram o homem andar umas vezes
com sossegada compostura passeando, outras parar arrimado à
sua lança, de olhos fitos nas armas.
31
MIGUEL DE CERVANTES
Com ser noite bem fechada, tão clara era a Lua, que podia
competir com o próprio astro que lhe emprestava a luz; por
maneira que tudo quanto o novel cavaleiro fazia, era de todos
desfrutado.
Lembrou-se neste comenos um dos arrieiros, que na pousada se
achavam, de ir dar de beber às suas cavalgaduras; para o que
lhe foi necessário tirar de cima da pia as armas de D.
Quixote. Este, vendo-o acercar-se, lhe disse em voz alta:
- Ó tu, quem quer que sejas, atrevido cavaleiro, que vens
tocar nas armas do mais valoroso andante que jamais cingiu
espada, olha o que fazes, e não lhes toques, se não queres
deixar a vida em paga do teu atrevimento.
Não curou destas bravatas o arrieiro (e antes curara delas,
que fora curar-se em saúde); lançou mão daquelas trapalhadas,
e arremessou-as para longe.
Vendo aquilo, D. Quixote levantou os olhos aos céus; e posto
o pensamento (como se deixa entender) em sua Sr. Dulcineia,
disse:
- Assisti-me, Senhora minha, na primeira afronta que a este
vosso avassalado peito se apresenta! Não me falte neste
primeiro transe o vosso amparo!
E, dizendo estas e outras semelhantes razões, largando a
adarga alçou a lança às mãos ambas e com ela descarregou
tamanho golpe na cabeça ao arrieiro, que o derrubou no chão
tão maltratado, que, a pregar-lhe segundo, não houvera que
chamar cirurgião para o despenar; feito o que, apanhou e
repôs no seu lugar as suas armas, e tornou-se ao passeio com
a mesma serenidade do princípio.
Dali a pouco, sem se saber o que era passado, porque o
arrieiro estava ainda sem acordo, chegou outro com igual
intenção de dar água aos seus machos, e tanto como buliu nas
armas para desempachar a pia, D. Quixote, sem dizer palavra,
e sem pedir auxílio a ninguém, largou outra vez a adarga, e
alçou de novo a lança, e, sem fazê-la pedaços, escangalhou em
mais de três a cabeça deste segundo arrieiro, porque lha
abriu em quatro.
32
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Ao ruído, acudiu toda a gente, e o próprio vendeiro. Vendo
isto, D. Quixote embraçou a sua adarga, e, metendo a mão à
espada, disse:
- Ó Senhora da formosura, esforço e vigor do meu debilitado
coração, lance é este para pordes os olhos da vossa grandeza
neste cativo cavaleiro que a tamanha aventura é chegado!
Com isto recobrou, a seu parecer, tanto ânimo, que nem que o
acometessem todos os arrieiros do mundo, fizera pé atrás.
Os companheiros dos feridos, vendo-os naquele estado,
começaram de longe a chover pedras sobre D. Quixote o qual, o
melhor que podia, se ia delas anteparando com a sua adarga, e
não ousava apartar-se da pia, para no desamparar as suas
armas.
Vozeava o vendeiro para que deixassem o homem porque já lhes
tinha dito que era doido, e por doido se livraria, ainda que
os matasse a todos.
Mais alto porém bradava D. Quixote, chamando-lhe aleivosos e
traidores, e acrescentava que o senhor do castelo era um
cobarde, e mainascido cavaleiro, por consentir que assim se
tratassem cavaleiros andantes; e que a ter já recebido a
ordem de cavalaria, ele o ensinara.
- De vós outros, canzoada baixa e soez, nenhum caso faço.
Atirai-me, chegai, vinde e ofendei-me enquanto puderdes, que
vereis o pago que levais da sandice e demasia.
Dizia aquilo com tanto brio e denodo, que infundiu pavor nos
que o acometiam, e tanto por isto, como pelas persuasões do
locandeiro, deixaram de o apedrejar, e ele deu azo para
levarem os feridos, e continuou na vela da armas com a mesma
quietação e sossego que a princípio.
Não pareceram bem ao dono da casa os brincos do hóspede, e
determinou abreviar, e dar-lhe a negregada ordem de
cavalaria, sem perda de tempo, antes que mais alguma desgraça
sucedesse; e assim, aproximando-se-lhe, se lhe desculpou da
insolência daquela gente baixa, sem ele saber de tal, mas que
bem castigados ficavam do seu atrevimento.
Repetiu-lhe o que já lhe tinha dito, que naquele castelo não
havia capela, e para o poucochito que faltava bem podia isso
33
MIGUEL DE CERVANTES
dispensar-se; que o essencial para ficar armado cavaleiro
consistia no pescoção e na espadeirada, segundo ele sabia
pelo cerimonial da ordem, e que isto até no meio de um campo
se podia fazer; que pelo que tocava ao velar as armas, já o
tinha cumprido, sendo bastante duas horas de vela, e tendo
ele estado nisso mais de quatro.
Tudo lhe acreditou D. Quixote, e respondeu que estava ali
pronto para lhe obedecer, e que finalizasse com a maior
brevidade que pudesse, porque, se tornasse a ser acometido,
depois de armado cavaleiro, não deixaria pessoa viva no
castelo, excepto as que o Senhor Castelão lhe mandasse, que a
essas, por seu respeito, perdoaria.
Avisado e medroso, o castelâo trouxe logo um livro, em que
assentava a palha e cevada que dava aos arrieiros, e com um
coto de vela de sebo que um muchacho lhe trouxe aceso, e, com
as duas sobreditas donzelas, voltou para ao pé de D. Quixote,
mandou-o pôr de joelhos, e, lendo no seu manual em tom de
quem recitava alguma oração devota, no meio da leitura
levantou a mão, e lhe descarregou no cachaço um bom pescoção,
e logo depois com a sua mesma espada uma pranchada, sempre
rosnando entre dentes, como quem rezava. Feito isto, mandou a
uma das donzelas que lhe cingisse a espada, o que ela fez com
muito desembaraço e discrição (e não era necessária pouca
para não rebentar de riso em cada circunstância da
cerimónia); porém as proezas que já tinham visto do novo
cavaleiro lhes davam mate à hilaridade.
Ao cingir-lhe a espada, disse-lhe a boa senhora:
- Deus faça a Vossa Mercê muito bom cavaleiro, e lhe dê
ventura em lides.
Perguntou-lhe D. Quixote como se chamava, para ele saber dali
avante a quem ficava devedor pela mercê recebida, porque era
sua tenção repartir com ela da honra que viesse a alcançar
pelo valor do seu braço.
Respondeu ela com muita humildade que se chamava Tolosa, e
que era a filha de um remendão natural de Toledo, que vivia
nas lojitas de Sancho Bienaya, e onde quer que ela estivesse
o serviria como a seu senhor.
34
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
D. Quixote lhe replicou que, por amor dele, lhe zesse mercê
daí em diante de se tratar por Dom, e se chamasse Dona
Tolosa, o que ela lhe prometeu.
A outra calçou-lhe a espora, e com esta se passou quase o
mesmo colóquio. Perguntou-lhe ele o nome; a que ela lhe
respondeu que se chamava a Moleira, e que era filha de um
honrado moleiro de Antiquera. A esta também D. Quixote pediu
que usasse Dom, e se chamasse Dona Moleira, oferecendo-lhe
novos serviços e mercês.
Feitas, pois, a galope as (até ali nunca vistas) cerimónias,
já tardava a D. Quixote a hora de se ver encavalgado e sair,
farejando aventuras. Aparelhando sem mais detença o seu
Rocinante, montou-se nele, e, abraçando o seu hospedeiro, lhe
disse coisas to arrevesadas, em agradecimento a havê-lo
armado cavaleiro, que não há quem acerte referi-las.
O vendeiro, para o ver já fora da venda, respondeu às suas
palavras com outras não menos retóricas, porém muito mais
breves; e, sem lhe pedir a paga da pousada o deixou ir nas
boas horas.
CAPÍTULO IV
DO QUE SUCEDEU AO NOSSO CAVALEIRO SAINDO DA VENDA
(ueria já amanhecer, quando D. Quixote saiu da venda, tão
contente e bizarro, e com tanto alvoroço por se ver armado
cavaleiro, que a alegria lhe rebentava até pelas cilhas do
cavalo.
Mas, recordando-se do conselho do hospedeiro acerca das
prevençes tão necessárias que devia levar consigo,
especialmente no artigo dinheiro e camisas, determinou voltar
a casa, para se prover de tudo aquilo, e de um escudeiro,
deitando logo o sentido à pessoa de um lavrador seu vizinho,
que era pobre e com filhos, mas de molde para o ofício de
escudeiro de cavalaria.
Com este pensamento, dirigiu o Rocinante para a sua aldeia. O
animal, como se adivinhara a vontade do dono, começou a
35
MIGUEL DE CERVANTES
caminhar com tamanha ânsia, que nem quase assentava os pés no
chão.
Pouco tinham andado, quando ao cavaleiro se figurou, que, à
mão direita do caminho, e de dentro de um bosque, saíam umas
vozes delicadas, como de pessoa que se lastimava; e, apenas
as ouviu, disse:
- Graças rendo ao Céu pela mercê que me faz, pois tão
depressa me põe diante ocasião de eu cumprir o que devo à
minha profissão, e realizar os meus bons desejos.
Estas vozes solta-as (sem dúvida) algum ou alguma, que está
carecendo do meu favor e ajuda.
E, torcendo as rédeas, encaminhou o Rocinante para de onde
vinham os gritos.
Aos primeiros passos que deu no bosque, viu uma égua presa a
uma azinheira, e atado a outra um rapazito nu da cinta para
cima, e de seus quinze anos; era o que se lastimava, e não
sem causa, porque o estava com uma correia açoitando um
lavrador de estatura alentada, acompanhando cada açoite com
uma repreensão e conselho, dizendo:
- Boca fechada, e olho vivo! Ao que o rapaz respondia:
-Não tomarei mais meu amo, pelas Chagas de Cristo. Prometo
não tornar! Prometo daqui em diante tomar mais sentido no
gado!
Vendo D. Quixote aquilo, exclamava furioso:
- Descortês cavaleiro, mal parece haverdes-vos com quem vos
não pode resistir; subi ao vosso cavalo e tomai a vossa lança
(que arrumada à azinheira estava de feito uma);
eu vos farei conhecer, que isso que estais praticando é de
cobarde.
O lavrador, que viu iminente aquela figura carregada de
armas, brandindo-lhe a lança ao rosto, deu-se por morto, e
com reverentes palavras lhe respondeu:
- Senhor Cavaleiro, este rapaz que estou castigando é meu
criado; serve-me de guardar um rebanho de ovelhas, que trago
por estes contornos; mas é tão descuidado, que de dia a dia
me falta uma; e, por eu castigar o seu descuido ou
velhacaria, diz
36
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
que o faço por forreta, para lhe não pagar por inteiro a
soldada;
por Deus, e em minha consciência, que mente.
- Mente na minha presença, vilão ruim?! - disse D. Quixote. -
Voto ao Sol que nos alumia, que estou, vai-não-vai, para
atravessar-vos com esta lança; pagai-lhe logo sem mais
réplica; quando não, por Deus que nos governa, como neste
próprio instante dou cabo de vós; desatai-o de repente.
O lavrador abaixou a cabeça, e sem dizer mais palavra desatou
o ovelheiro.
Perguntou-lhe D. Quixote quanto seu amo lhe devia; respondeu
ele que nove meses, à razão de sete réis cada mês.
Fez D. Quixote a conta, e viu que somava sessenta e três
réis, e disse ao lavrador que lhos contasse logo logo, se não
queria pagar com a vida.
Respondeu o camponês, aterrado em tão estreito lance que já
lhe havia jurado (e não tinha ainda jurado coisa alguma) que
não eram tantos, porque havia para abater três pares de
sapatos que lhe havia mercado, e mais um real de duas
sangrias que lhe tinham dado estando enfermo.
- Tudo isso está muito bem - respondeu D. Quixote -;
mas os sapatos e as sangrias fiquem em desconto dos açoites
que sem culpa lhe destes; porquanto, se ele rompeu o couro
dos sapatos que vós pagastes, vós rompestes-lhe o do seu
corpo; e, se o barbeiro lhe tirou sangue, estando doente,
também vós lho tirastes estando ele são; portanto, nesse
particular não há mais que ver, estamos com as contas justas.
- Pior é Senhor Cavaleiro, que não tenho aqui dinheiro
comigo; acompanha-me tu a casa, André, que eu lá te pagarei
de contado.
- Eu ir com ele? - disse o rapaz outra vez. - Mau pesar
viesse por mim! Não, senhor; nem pensar em tal. Se se
tornasse a ver comigo a sós, esfolava-me que nem um S.
Bartolomeu.
- Tal não fará - respondeu D. Quixote -; basta que eu mande,
para ele me catar respeito. Jure-mo ele pela lei da cavalaria
que recebeu, deixá-lo-ei ir livre, e dou-te o pagamento por
seguro.
37
MIGUEL DE CERVANTES
- Veja Vossa Mercê, Senhor, o que diz - replicou o rapazito -
; que este meu amo não é cavaleiro, nem recebeu ordem nenhuma
de cavalarias; é João Haldudo, o rico, vizinho de Quintanar.
- Pouco importa isso - obtemperou D. Quixote - que em
Haldudos também pode haver cavaleiros; e, demais, cada um é
filho das suas obras.
- Isso é verdade - acudiu André -; mas este meu amo, de que
obras há-de ser filho, pois me nega a paga do meu suor e
trabalhos?
- Não nego tal, meu rico André - respondeu o lavrador -; dáme
o gosto de vir comigo, que eu juro por quantas castas de
cavalarias haja no mundo, de pagar, como tenho dito, até à
última, e em moedinha defumada.
- Dos defumados vos dispenso eu - disse D. Quixote
-; dai-lhe os réis, sejam como forem, e sou contente; e olhai
lá se o cumpris, segundo jurastes; quando não, pelo mesmo
juramento vos rejuro eu que voltarei a buscar-vos e castigar-
vos, e que de força vos hei-de achar, ainda que vos
escondais mais fundo que uma lagartixa; e se quereis saber
quem isto vos intima, para ficardes mais deveras obrigado a
cumprir, sabei que sou o valoroso D. Quixote de Ia Mancha, o
desfazedor de agravos e sem-razões. Ficai-vos com Deus, e não
esqueçais o prometido e jurado, sob pena do que já vos disse.
Com o que, meteu esporas ao Rocinante, e, em breve espaço, se
apartou deles.
Seguiu-o com os olhos o lavrador, e, quando o viu já fora do
bosque, e do alcance, voltou-se para o seu criado André, e
lhe disse:
- Vinde cá, meu filho, que vos quero pagar o que vos devo,
como aquele desfazedor de agravos me ordenou.
- Juro - respondeu André - que muito bem fará Vossa Mercê em
cumprir o mandamento daquele bom cavaleiro, que mil anos
viva, que, segundo é valoroso e bom juiz, assim Deus me dê
saúde, como se me não paga, voltará, e há-de executar o que
disse.
38
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Também eu o juro - disse o lavrador -; mas, pelo muito que
te quero, vou primeiramente acrescentar a dívida, para ficar
sendo maior a paga.
E, travando-lhe do braço, o tomou a atar na azinheira, onde
lhe deu tantos açoites, que o deixou por morto.
- Chamai agora, Sr. André, pelo desfazedor de agravos - dizia
o lavrador -; e vereis como não desfaz este, ainda que,
segundo entendo, por enquanto ainda ele não está acabado de
fazer, porque me estão vindo ondas de te esfolar vivo, como
tu receavas.
Mas afinal desatou-o, e lhe deu licença para ir buscar o seu
juiz, que lhe executasse a sentença que dera.
Partiu André algum tanto trombudo; prometendo que se ia à
busca do valoroso D. Quixote de Ia Mancha, para lhe contar
ponto por ponto o que era passado, e dizendo que o amo desta
vez lhe havia de pagar sete por um.
Assim mesmo porém foi-se a chorar, e o amo se ficou a rir.
Ora aqui está como desfez aquele agravo o valoroso D.
Quixote, o qual, contentíssimo do sucedido, por lhe parecer
que dera alto e felicíssimo começo às suas cavalarias, ia
todo cheio de si, caminhando para a sua aldeia e dizendo a
meia voz:
- Bem te podes aclamar ditosa sobre quantas hoje existem na
Terra, ó das belas belíssima Dulcineia dei Toboso, pois te
coube em sorte haveres sujeito e rendido ao teu querer tão
valente e nomeado cavaleiro, qual é e será D. Quixote de Ia
Mancha, o qual, segundo sabe todo o mundo, ontem recebeu a
ordem de cavalaria, e já hoje desfez a maior violência e o
pior agravo que a sem-razão formou, e a crueldade cometeu!
Sim, hoje tirou das mãos o tagante àquele desapiedado
inimigo, que tanto sem causa estava açoitando um melindroso
infante.
Nisto, chegou a um caminho em cruz, e para logo lhe vieram à
lembrança as encruzilhadas em que os cavaleiros andantes se
detinham a pensar por onde tomariam.
Para os imitar, se conservou quieto por algum espaço, e,
depois de ter muito bem cogitado, deixou-o à escolha do
Rocinante, o qual seguiu o seu primeiro intuito, que foi
correr para a cavalariça.
39
MIGUEL DE CERVANTES
Como houve andado obra de duas milhas, descobriu D. Quixote
um grande tropel de gente, que eram (como depois se veio a
saber) uns mercadores de Toledo, que se iam a Múrcia à compra
de seda.
Seis eram eles, e vinham com seus guarda-sóis, com mais
quatro criados a cavalo, e três moços de mulas a pé.
Apenas D. Quixote avistou todo aquele gentio, teve logo para
si ser coisa de aventura nova; e, para imitar em tudo que lhe
parecia possível os passos que lera, entendeu vir de molde
para o caso uma coisa que lhe veio à ideia; e assim com
gentil portamento de denodo, firmando-se bem nos estribos,
apertou a lança, conchegou a adarga ao peito, e posto no meio
do caminho se deteve à espera de que chegassem aqueles
cavaleiros andantes que já por tais os julgava. Quando
chegaram a distância de se poderem ver e ouvir, alçou a voz,
e com gesto arrogante disse:
- Todo o mundo se detenha, se todo o mundo não confessa, que
não há no mundo todo donzela mais formosa que a imperatriz da
Mancha, a sem par Dulcineia dei Toboso.
Estacaram os mercadores, ouvindo aquelas vozes, e mais, vendo
a estranha figura que as proferia; e por uma e outra causa
logo entenderam estarem metidos com um orate; mas sempre
quiseram ver mais devagar em que pararia aquela intimação. Um
deles, que era seu tanto brincalhão, e discreto que farte,
respondeu:
- Senhor Cavaleiro, nós outros não conhecemos quem seja essa
boa senhora que dizeis; deixai-no-la ver, que a ser ela de
tanta formosura como encarecestes, de boa vontade e sem
recompensa alguma confessaremos a verdade que exigis de nós.
- Se a vísseis - replicou D. Quixote - que avaria fora
confessardes evidência tão notória? O que importa é que sem a
ver o acrediteis, confesseis, afirmeis, jureis e defendais;
quando não, entrareis comigo em batalha gente descomunal e
soberba;
que, ou venhais um por cada vez, como pede a ordem de
cavalaria, ou todos de rondão, como é costume nos da vossa
ralé, aqui vos aguardo, confiado na razão que por num tenho.
40
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Senhor Cavaleiro - respondeu o mercador -, suplico a Vossa
Mercê, em nome de todos estes príncipes que presentes somos,
que, para no encarregarmos as consciências, confessando uma
coisa que nunca vimos nem ouvimos, e mais, sendo tanto em
menoscabo de todas as imperatrizes e rainhas da Alcarria e
Extremadura, que seja Vossa Mercê servido de nos mostrar
algum retrato dessa senhora, ainda que no seja maior do que
um grão de trigo; que pelo dedo se conhece o gigante, e só
com isso ficaremos satisfeitos e seguros, e Sua Mercê
obedecido e contente. E até creio que já vamos estando tanto
em favor dela, que, ainda que o seu retrato nos mostre ser
torta de um olho, e do outro distilar vermelhão e enxofre,
apesar disso, por comprazermos a Vossa Mercê, diremos em seu
abono quanto se quiser.
- Não distila, canalha infame, isso que dizeis - respondeu D.
Quixote aceso em cólera-; distila âmbar e algália entre
algodões, e não é torta nem corcovada, senão mais direita que
um fuso de Guadarrama. Vós outros ides pagar a grande
blasfémia que proferistes contra tamanha beldade, como é a
minha senhora.
E nisto arremeteu logo com a lança em riste contra o que lhe
falara; e com tanta fúria de enojado, que, se a boa sorte não
permitira que no meio do caminho esbarrasse e caísse o
Rocinante, mal passaria o atrevido mercador.
Com o estender-se do cavalo, foi D. Quixote rodando um bom
pedaço pelo campo, sem lograr levantar-se, por mais que
fizesse, tanto era o empacho da lança, adarga, esporas, e
celada, e o peso da armadura velha. Enquanto barafustava para
se erguer sem o conseguir, dizia:
- Não fujais, gente cobarde, gente refece! Reparai, que, se
estou aqui estendido, não é por culpa minha, senão do meu
cavalo.
Um moço de mulas, dos que ali vinham, e que não devia ser dos
mais bem-intencionados, ouvindo ao pobre estirado tantas
arrogâncias, não o pôde levar à paciência sem lhe apresentar
o troco pelas costelas; e, chegando-se a ele, tomou a lança,
desfê-la em pedaços, e, com um dos troços dela, começou a dar
ao
41
MIGUEL DE CERVANTES
nosso D. Quixote pancadaria tão basta, que, a despeito e
pesar de suas armas, o moeu como bagaço.
Bradavam-lhe os amos que lhe não desse tanto e o deixasse.
Mas o moço, que estava já fora de si, não quis acomodar-se
antes de desafogar de todo a sua ira; e, agarrando nos mais
troços da lança, os acabou de desfazer sobre o miserável
caído, que, debaixo daquele temporal de pancadaria, não
deixava de vociferar ameaças contra céu e terra, e os que lhe
pareciam malandrins.
Cansou-se o moço, e os mercadores seguiram sua jornada,
levando para toda ela matéria de comentários à custa do pobre
acabrunhado. Este, depois que se viu só, tornou a fazer
diligências para se erguer; mas se, quando são e bom, o não
tinha podido, como o poderia agora, moído e quase desfeito? E
ainda se tinha por ditoso, imaginando que enfim era desgraça
própria de cavaleiros andantes, e toda a atribuía a faltas do
seu cavalo. Em suma, nem mover-se podia, de derreado que
estava de todo o corpo.
CAPÍTULO V
EM QUE SE PROSSEGUE A NARRATIVA DA DESGRAÇA
DO NOSSO CAVALEIRO
Vendo-se naquele estado, lembrou-se de recorrer ao seu
ordinário remédio, que era pensar em algum passo dos seus
livros; e trouxe-lhe a sua loucura à lembrança o caso de
Baldovinos e do marquês de Mântua quando Carloto o deixou
ferido no monte (história sabida das crianças, não ignorada
dos moços, celebrada e até crida dos velhos, e nem por isso
mais verdadeira que os milagres de Mafoma). Esta, pois, lhe
pareceu a ele que vinha de molde para a conjuntura presente;
e assim, com mostras de grande sentimento, começou a
rebolcar-se pela terra, e a dizer, com debilitado alento, o
mesmo que segundo se refere, dizia o ferido cavaleiro do
bosque:
42
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Onde estás Senhora minha, que te não dói o meu mal? Ou não
no sabes Senhora, ou és falsa e desleal.
E desta maneira foi enfiando o romance, até àqueles versos
que dizem:
O nobre marquês de Mântua, meu tio e senhor carnal.
Quis o acaso, que, quando chegou a este verso, acertou de
passar por ali um lavrador do seu mesmo lugar, e vizinho seu,
que vinha de levar uma carga de trigo ao moinho, o qual,
vendo aquele homem ali estendido, se achegou dele, e lhe
perguntou quem era, e que mal sentia, que to tristemente se
queixava.
D. Quixote julgou sem dúvida ser aquele o marquês de Mântua,
seu tio, e assim a resposta que deu foi prosseguir o seu
romance, em que lhe dava conta do seu desastre, e dos amores
do filho do imperador com sua esposa, tudo pontualmente como
no romance vem contado.
Estava o lavrador pasmado de ouvir todos aqueles disparates,
e, tirando-lhe a viseira, que já estava espedaçada das
bordoadas, limpou-lhe o rosto da poeira que lho enchia.
Apenas lho teve limpado, quando o reconheceu, e lhe disse:
- Senhor Quixada (que assim se devia chamar quando estava em
seu juízo, e não tinha passado de fidalgo sossegado a
cavaleiro andante), quem o pôs a Vossa Mercê nesta lástima?
D. Quixote teimava com o seu romance a todas as perguntas.
Vendo isto, o bom do homem lhe tirou, o melhor que pôde, o
peito e o espaldar, para examinar se tinha alguma ferida;
porém não viu sangue nem sinal algum. Procurou levantá-lo do
chão, e, com trabalho grande, o pôs para cima do seu jumento,
por lhe parecer cavalaria mais sossegada. Recolheu as armas,
e até os troços da lança e amarrou tudo às costas de
Rocinante, tomou-o pela rédea, e ao asno pelo cabresto, e
marchou para o seu povo, cismando bastante nas tontarias que
D. Quixote dizia.
43
MIGUEL DE CERVANTES
Não menos pensativo ia este, que, de puro moído e
quebrantado, se não podia suster sobre o burrico, e de quando
em quando dava uns suspiros, que chegavam ao céu; tanto, que
obrigou o lavrador a perguntar-lhe de novo o que sentia.
Parecia que o Demónio lhe não trazia à memória senão os
contos acomodáveis aos seus sucessos, porque, deslembrandose
então de Baldovinos, se recordou do mouro Abindarrais, quando
o alcaide de Antequera Rodrigo de Narvais o prendeu, e preso
o levou a sua alcaidaria. E assim, quando o lavrador lhe
tomou a perguntar como estava e o que sentia, lhe respondeu
as mesmas palavras e razões, que o albencerrage cativo
respondia a Rodrigo de Narvais, do mesmo modo por que ele
tinha lido a história na Diana de Jorge de Montemaior (ou de
Montemor) onde ela vem descrita;
aproveitando-se dela tão a propósito, que o lavrador se ia
dando ao Diabo de ouvir tamanha barafunda de sandices; por
onde acabou de conhecer que o vizinho estava doido e
apressava-se em chegar ao povo para se forrar ao enfado que
D. Quixote lhe dava com a sua comprida arenga. Rematou-a ele
nestas palavras:
- Saiba Vossa Mercê, Sr. D. Rodrigo de Narvais, que esta
formosa xarifa que digo é agora a linda Dulcineia dei Toboso,
por quem eu tenho feito, faço e hei-de fazer as mais famosas
façanhas de cavalaria que jamais se viram, vêem, ou hão-de
ver no mundo.
A isto respondeu o lavrador:
- Pecados meus! Olhe Vossa Mercê, Senhor, que não sou D.
Rodrigo de Narvais, nem o marquês de Mantua; sou Pedro
Alonso, seu vizinho; nem Vossa Mercê é Baldovinos, nem
Abindarrais, mas um honrado fidalgo, o Senhor Quixada.
Respondeu D. Quixote:
- Quem eu sou, sei eu; e sei que posso ser não só os que já
disse, senão todos os Doze Pares de França, e até todos os
nove de fama, pois a todas as façanhas que eles por junto
fizeram e cada um por si se avantajarão as minhas.
Com estas e outras semelhantes práticas, chegaram ao lugar,
quando já anoitecia; porém o lavrador aguardou que fosse mais
escuro, para que não vissem ao moído fidalgo tão mal
encavalgado.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Quando lhe pareceu que era já tempo, entrou no povoado, e em
casa de D. Quixote. Acharam-na toda em rebuliço, estando lá o
cura e o barbeiro do lugar, que eram grandes amigos de D.
Quixote, aos quais a ama estava dizendo em altas vozes:
- Que lhe parece a Vossa Mercê, Senhor Licenciado Pedro eres
(que assim se chamava o cura), a desgraça de meu amo? Há já
seis dias que não aparecem, nem ele, nem o rocim, nem a
adarga, nem a lança, nem as armas. Desgraçada de mim, que já
vou desconfiando (e há-de ser certo, tão certo como ter eu de
morrer) que estes malditos livros de cavalarias que ele tem,
e que anda a ler tão continuado, lhe viraram o juízo! E agora
me recordo de ter-lhe ouvido muitas vezes, falando entre si,
que se havia de fazer cavaleiro andante, e ir-se buscar
aventuras por esses mundos. Satanás e Barrabás que levem
consigo toda essa livraria, que assim deitaram a perder o
mais subtil entendimento que havia em toda a Mancha!
A sobrinha dizia o mesmo, e ainda passava adiante:
- Saiba, Senhor Mestre Nicolau (era o nome do barbeiro), que
muitas vezes sucedeu o Senhor meu Tio estar lendo nestes
desalmados livros de desaventuras, dois dias com duas noites
a fio, até que por fim arrojava o livro, metia a mão à
espada, e andava às cutiladas com as paredes; e, quando
estava estafado, dizia que tinha morto a quatro gigantes como
quatro torres; e o suor que lhe escorria do cansaço dizia que
era sangue das feridas que recebera na batalha; e emborcava
logo um grande jarro de água fria, e ficava são e sossegado,
dizendo que aquela água era uma preciosíssima bebida, que lhe
tinha trazido o sábio Esquife, grande encantador e amigo seu.
Mas quem tem a culpa toda sou eu, que não avisei com tempo a
Suas Mercês dos disparates do Senhor meu Tio, para acudirem
com remédio antes de as coisas chegarem ao que chegaram, e
queimarem todos estes excomungados alfarrábios, que tem
muitos que bem merecem ser abrasados como se fossem os
hereges.
- Isso também eu digo - acudiu o Cura -;eàfé que não há-de
passar de amanhã, sem que deles se faça auto-de-fé, e sejam
condenados ao fogo, para não tornarem a dar ocasião a quem os
ler, de fazer o que o meu bom amigo terá feito.
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MIGUEL DE CERVANTES
Tudo aquilo estavam ouvindo da parte de fora o lavrador e D.
Quixote; com o que acabou de entender a enfermidade do
vizinho, e começou a dizer em altas vozes:
- Abram Vossas Mercês ao Sr. Baldovinos e ao Senhor Marquês
de Mântua, que vem malferido, e ao Senhor Mouro Abindarrais,
que traz cativo o valoroso Rodrigo de Narvais, alcaide de
Antequera.
A estas vozes acorreram todos; e, como conheceram, uns o
amigo, as outras o tio e o amo, que ainda se não tinha apeado
do jumento por não poder, se lançaram a ele aos abraços.
- Parem todos - disse ele - que venho malferido por culpa do
meu cavalo, levem-me para a cama, e chame-se, podendo ser, a
sábia Urganda, que me procure as feridas e as cure.
- Olhai, má hora! - disse neste ponto a ama. - Se me no dizia
bem o coração de que pé coxeava meu amo! Suba Vossa Mercê em
boa hora, que mesmo sem a tal Urganda nós cá o curaremos como
soubermos. Malditos sejam outra vez, e cem vezes, estes
livros das cavalarias, que tal o puseram a Vossa Mercê.
Levaram-no logo à cama, e, procurando-lhe as feridas, nenhuma
lhe acharam. Disse ele então, que todo o seu mal era
moedeira, por ter dado uma grande queda com o seu cavalo
Rocinante, combatendo-se com dez gigantes, os mais
desaforados e atrevidos de quantos consta que no mundo haja.
- Bom, bom - disse o cura -, entram gigantes na dança! Pelo
sinal da Santa Cruz juro que amanhã hão-de ser queimados,
antes que chegue a noite.
Fizeram a D. Quixote mil perguntas, sem que ele respondesse a
nenhuma, senão que lhe dessem de comer, e o deixassem dormir,
que era o que mais lhe importava.
Assim se fez. O cura então inquiriu muito detidamente do
lavrador sobre o modo como encontrara a D. Quixote. Contoulhe
ele tudo, miudeando-lhe os disparates que ouvira quando
dera com ele, e quando o trazia. Tudo isto foi aumentar no
Licenciado o desejo de fazer o que de feito executou no dia
seguinte, que foi chamar o seu amigo barbeiro mestre Nicolau,
com o qual voltou à pousada de D. Quixote.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
CAPÍTULO VI
DA CUROSA E GRANDE ESCOLHA QUE O PADRE CURA E O BARBEIRO
FIZERAM NA LIVRARIA DO NOSSO ENGENHOSO FIDALGO
Dormia ainda D. Quixote, quando o cura pediu à sobrinha a
chave do quarto em que estavam os livros ocasionadores do
prejuízo; e ela que a deu de muito boa vontade. Entraram
todos, e com eles a ama; e acharam mais de cem grossos e
grandes volumes, bem encadernados, e outros pequenos.
A ama, assim que deu com os olhos neles, saiu muito à pressa
do aposento, e voltou logo com uma tigela de água benta e um
hissope, e disse:
- Tome Vossa Mercê, Senhor Licenciado, regue esta casa toda
com água benta, não ande por aí algum encantador, dos muitos
que moram por estes livros, e nos encante a nós, em troca do
que nós lhes queremos fazer a eles desterrando-os do mundo.
Riu-se da simplicidade da ama o Licenciado, e disse para o
barbeiro, que lhe fosse dando os livros a um e um, para ver
de que tratavam, pois alguns poderia haver, não merecessem
castigo de fogo.
- Nada, nada - disse a sobrinha -; não se deve perdoar a
nenhum; todos concorreram para o mal. O melhor será atirá-los
todos juntos pelas janelas ao pátio, empilhá-los em meda, e
pegar-lhes fogo; e senão, carregaremos com eles para mais
longito da casa, para nos não vir molestar o fumo apstado.
Outro tanto disse a ama; tal era a gana com que ambas estavam
aos pobres alfarrábios; mas o cura é que não esteve pêlos
autos, sem primeiro ler os títulos.
O que mestre Nicolau primeiro lhe pôs nas mãos foram os
quatro de Amais de Gaula.
- Parece coisa de mistério esta! - disse o cura. - Porque,
segundo tenho ouvido dizer, este livro foi o primeiro de
cavalarias que em Espanha se imprimiu, e dele procederam
todos os mais; por isso entendo, que, por dogmatizador de tão
má seita, sem remissão o devemos condenar ao fogo.
47
MIGUEL DE CERVANTES
- Não, senhor - disse o barbeiro -, também eu tenho ouvido
dizer que é o melhor de quantos livros neste género se têm
composto; e por isso, por ser único em sua arte, se lhe deve
perdoar.
- Verdade é - disse o cura -; por essa razão deixemo-lo viver
por enquanto. Vejamos esse outro que está ao pé dele.
- É - disse o barbeiro - as Sergas (ou Façanhas) de
Esplandião, filho legítimo de Amadis de Gaula.
- Pois é verdade - disse o cura - que não há-de valer ao
filho a bondade do pai. Tomai, senhora ama, abri essa janela,
e atirai-o ao pátio; dê princípio ao monte para a fogueira
que se há-de fazer.
Ao que a ama obedeceu toda alegre, e lá se foi o bom do
Esplandião voando para o pátio, esperando com toda a
paciência as chamas que o ameaçavam.
- Adiante - disse o cura.
- Este que se segue - disse o barbeiro - é Amadis de Grécia,
e todos os deste lado, segundo julgo, são da mesma raça de
Amadis.
- Pois ao pátio com todos eles - disse o cura - que só por
queimar a rainha Pintiquiniestra, e o pastor Darinel, e as
suas égiogas, e as endiabradas e confusas razões do autor,
queimara juntamente ao pai que me gerou, se andasse em figura
de cavaleiro andante.
- Também assim o entendo - replicou o barbeiro.
- Também eu - acrescentou a sobrinha.
- Pois venham, e pátio com eles - acudiu a ama. Deram-lhos,
que eram muitos, e ela, para não descer a escada, baldeou-os
da janela abaixo.
- Quem é agora esse tonel? - perguntou o cura.
- Este é - respondeu o mestre - D. Olivante de Laura.
- O autor desse livro - disse o cura - foi o que também
compôs o Jardim de lores; e em verdade que não sei determinar
qual das duas obras é mais verdadeira, ou (por melhor dizer)
menos mentirosa. O que sei é que esta há-de ir já ao pátio
por disparatada e arrogante.
- Este que segue é Florismarte de Hircânia - disse o
barbeiro.
48
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Oh! temos aí o Sr. Florismarte? - replicou o cura. - Pois à
fé que há-de ir já ao pátio, apesar do seu estranho
nascimento, e sonhadas aventuras; não merece outra coisa pela
dureza e secura do estilo. Ao pátio com ele, e mais com este,
senhora ama.
- Belo! - respondeu ela, que executava as ordens com grande
alegria.
- Este é o Cavaleiro Platir - disse o barbeiro.
- Antigo livro é esse - disse o cura - e não acho nele coisa
por onde mereça perdão. Acompanhe aos demais sem réplica.
E assim se fez.
Abriu-se outro, e viram-lhe o título: Cavaleiro da Cruz.
- Por ter nome tão santo, lá se poderia perdoar a este livro
a sua ignorância; mas também se costuma dizer que por trás da
cruz está o Diabo. Vá para o fogo.
Tomando o barbeiro outro livro, disse:
- Este é Espelho de Cavalarias.
- Já conheço a Sua Mercê - disse o cura. - Aí anda o Sr.
Reinaldo de Montalvão com os seus amigos e companheiros, mais
ladrões que Caco, e os Doze Pares com o verídico historiador
Turpin. A falar a verdade, estou em os condenar, pelo menos a
desterro perpétuo, por terem parte na invenção do famoso
Mateus Boiardo, de onde também teceu a sua teia o cristão
poeta Ludovico Ariosto. Este, se por aqui o apanho a falar-me
língua que não seja a sua, não lhe hei-de guardar respeito
algum; falando porém no seu próprio idioma, colocá-lo-ei
sobre a cabeça.
- Em italiano tenho-o eu - disse o barbeiro - mas não o
entendo.
- Nem era preciso que o entendêsseis - respondeu o cura -; de
boa vontade perdoáramos ao Senhor Capitão que se tivesse
deixado de o trazer a Espanha, pois lhe tirou muito de sua
valia original; e o mesmo sucederá a todos quantos quiserem
traduzir para os seus idiomas livros de versos, que, por
muito cuidado que nisso ponham e por mais habilidade que
mostrem, nunca hão-de igualar ao que eles valem no original.
49
MIGUEL DE CERVANTES
O que eu digo é que este livro, e todos os mais que se
acharem tratando destas coisas de França se lancem e guardem
num poço seco, até que mais repousadamente se veja o que se
há-de fazer deles, exceptuando a um Bernardo dei Carpi que
por aí anda, e a outro chamado Roncesvales, que esses, em me
chegando às mãos, vão direitos para as da ama, e delas para o
fogo, sem remissão.
Tudo o barbeiro confirmou, e teve por coisa muito acertada,
por entender que o padre, por tão bom cristão que era, e tão
amigo da verdade, não faltaria a ela por quanto houvesse no
mundo.
Abrindo outro livro, viu que era Palmeirim de Oliva; e ao pé
dele estava outro, que se chamava Palmeirim de Inglaterra.
Tanto que os viu, disse o Licenciado:
- De semelhante oliva, ou oliveira, façam-se logo achas, e se
queimem, que nem cinzas delas fiquem, e essa palma de
Inglaterra se guarde e conserve como coisa única, e se faça
para ela outro cofre, como o que achou Alexandre nos despojos
de Dario, que o destinou para nele se guardarem as obras do
poeta Homero. Este livro Senhor Compadre, tem autoridade por
duas coisas: primeiro, porque é de si muito bom; segundo, por
ter sido seu autor um discreto rei de Portugal. Todas as
aventuras do Castelo Miraguarda são boníssimas, e de grande
artifício; as razões, cortess e claras, conformes sempre ao
decoro de quem fala; tudo com muita propriedade e
entendimento. Digo pois (salvo o vosso bom juízo, mestre
Nicolau) que este e Amadis de Gaula fiquem salvos da queima;
e todos os restantes, sem mais pesquisas nem reparos,
pereçam.
- Alto, Senhor Compadre - replicou o barbeiro -, que este que
tenho aqui é o afamado D. Belianis.
- Pois esse - respondeu o cura -, com a segunda, terceira, e
quarta partes, tem necessidade de um pouco de ruibarbo, para
purgar a sua demasiada cólera; e é preciso tirar-lhes tudo
aquilo do Castelo da Fama e outras impertinências de mais
fundamento, para o que se lhes concede termo ultramarino; e,
segundo se emendarem, assim se usará com eles de misericórdia
ou justiça; e daqui até lá tende-os vós em vossa casa,
compadre, mas não os deixeis ler a ninguém.
50
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Sou contente - respondeu o barbeiro.
E, sem querer cansar-se mais em ler livros de cavalarias,
mandou à ama que tomasse todos os grandes, e arrumasse com
eles para o pátio.
Não o disse a nenhuma tonta nem surda, que mais vontade tinha
ela própria de os ver queimados que de botar ao tear uma
teia, por grande e fina que fosse; e, abraçando alguns oito
de uma vez, os lançou pela janela fora.
Como eram muitos, caiu-lhe um aos pés do barbeiro. Este teve
apetite de ver o que seria, e viu que dizia: História do
Famoso Cavaleiro Tirante el Blanco.
- Valha-nos Deus! - disse o cura em voz alta. - Pois temos
aqui Tirante el Blanco7 Dai-mo cá Senhor Compadre, que faço
de conta que nele achei um tesouro de contentamento, e mina
para passatempos. Aqui está D. Quirielêison de Montalvão,
valoroso cavaleiro, e seu irmão Tomás Montalvão, e o
cavaleiro Fonseca, e a batalha que o valoroso Detriante fez
com o alano, e as agudezas da donzela Prazer-de-minha-vida,
com os amores e embustes da viúva Repousada, e a Senhora
Imperatriz enamorada de Hipólito seu escudeiro. A verdade vos
digo Senhor Compadre, que em razão de estilo não há no mundo
livro melhor. Aqui comem e dormem os cavaleiros, morrem nas
suas camas, e antes de morrer fazem testamento, com outras
coisas mais que faltam nos livros deste género. Com tudo isto
vos digo, que o ladrão que o fez, que tantos destemperos
juntou sem necessidade, merecia ser metido nas galés por toda
a vida. Levai-o para casa, e lá vereis se não é certo o que
vos digo.
- Assim será - respondeu o barbeiro -, mas que se há-de fazer
destes livrecos pequenos que ainda aqui estão?
- Estes - disse o cura - não hão-de ser de cavalarias, mas
sim de poesia.
E, abrindo um, viu que era a Diana de Jorge Montemaior; e
disse (crendo que todos os mais eram do mesmo género):
- Estes não merecem ser queimados como todos os mais, porque
não fazem, nem farão, os danos que os de cavalarias têm
feito; são obras de entretenimento, sem prejuízo de terceiro.
51
MIGUEL DE CERVANTES
- Ai Senhor! - disse a sobrinha - bem os pode Vossa Mercê
mandar queimar como aos outros, porque não admiraria que,
depois de curado o Senhor meu Tio da mania dos cavaleiros,
lendo agora estes se lhe metesse em cabeça fazer-se pastor, e
andar-se pêlos bosques e prados, cantando e tangendo; e pior
fora ainda o perigo de se fazer poeta, que, segundo dizem, é
enfermidade incurável e pegadiça.
- E certo o que diz esta donzela - observou o cura - e bom
será tirarmos diante do nosso amigo este tropeço e azo.
Começamos pela Diana de Montemaior. Esta sou de parecer que
se não queime, bastando tirar-se-lhe tudo que trata da sábia
Felicia, e da água encantada, e quase todos os versos
maiores, e fique-lhe muito em paz a prosa, e a honra de ser
primeiro em semelhantes livros.
- Este que segue - disse o barbeiro - é a Diana - chamada
segunda do Salmantino, e estoutro que tem o mesmo nome, cujo
autor é Gil Pólo.
- Pois a do Salmantino - respondeu o cura - acompanhe e
acrescente o número dos condenados ao pátio; e a de Gil Pólo
guarde-se como se fora do mesmo Apoio; e passe adiante Senhor
Compadre; aviemo-nos, que se vai fazendo tarde.
- Esta obra é - disse o barbeiro, abrindo outra - Os De
Livros de Fortuna de Amor, compostos por António de Lofraso,
poeta sardo.
- Pelas ordens que recebi - disse o cura - desde que Apoio
foi Apoio, as Musas Musas, e os poetas poetas, tão gracioso
nem tão disparatado livro como esse jamais se compôs. Pelo
seu andamento, é o melhor e o mais fénix de quantos têm saído
à luz do mundo. Quem nunca o leu pode fazer de conta que
nunca leu coisa de gosto. Passai-mo para cá depressa,
compadre, que mais estimo tê-lo achado, que se me dessem uma
sotaina de raja de Florença.
Pô-lo de parte com grande gosto e o barbeiro prosseguiu:
- Estes agora são: O Pastor da Ibéria, Ninfas de Henares, e
Desengano de Zelos.
52
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Pois é entregá-los sem mais nada ao braço secular da ama
- disse o padre - e não se me pergunte o porquê; seria no
acabar nunca.
- Este é o Pastor de Fílida.
- Esse não é pastor - disse o cura - senão cortesão muito
discreto; guarde-se como jóia preciosa.
- Este grande que vem agora - disse o mestre - intitula-
-se Tesouro de Várias Poesias.
- Se não fossem tantas - disse o cura - mais estimadas
seriam. E mister que este livro se descarte de algumas
baixezas que tem à mistura com as suas grandiosidades; e
guarde-se, porque o autor é meu amigo, e em atenção a outras
obras que fez mais heróicas e alevantadas.
- Este é - prosseguiu o barbeiro - o Cancioneiro de Lopez de
Maldonado.
- Também o autor desse livro - replicou o cura - é grande
amigo meu, e os seus versos, recitados por ele, admiram a
quem os ouve, e tal é a suavidade da voz com que os canta,
que encanta. Nas égiogas é algum tanto extenso, mas o bom
nunca é demasiado. Guarde-se com os escolhidos. Porém que
livro é esse que está ao pé dele?
- A Galateia de Miguel Cervantes - disse o barbeiro.
- Muitos anos há que esse Miguel Cervantes é meu amigo;
e sei que é mais versado em desdita que em versos. O seu
livro alguma coisa tem de boa invenção; alguma coisa promete,
mas nada conclui; é necessário esperar pela segunda parte que
ele já nos anunciou. Talvez com a emenda alcance em cheio a
misericórdia que se lhe nega; daqui até lá tende-mo fechado
em casa, Senhor Compadre.
- Com muito gosto - respondeu o barbeiro - e aqui vêm mais
três de cambulhada: A Araucânia de João Alonso de Ercilia, a
Austríada de João Rufo, jurado de Córdova, e o Monserrate de
Cristóvão de Virués, poeta valenciano.
- Todos estes três livros - disse o cura - são os melhores
que em verso heróico de língua castelhana se têm escrito, e
podem competir com os mais famosos de Itália; guardem-se como
as mais ricas prendas de poesia que possui Espanha.
53
MIGUEL DE CERVANTES
Cansou-se o cura de ver mais livros; e assim, à carga
cerrada, quis que todos os mais se queimassem; mas o barbeiro
já tinha um aberto; chamava-se As Lágrimas de Angélica.
- Chorava-as eu ouvindo esse nome - disse o cura - se tal
livro houvera mandado queimar, porque o seu autor foi um dos
famosos poetas do mundo, não só de Espanha; e foi felicíssimo
na tradução de algumas fábulas de Ovídio.
CAPÍTULO VII
DA SEGUNDA SAÍDA DO NOSSO BOM CAVALEIRO
D. QUIXOTE DE LA MANCHA
Naquilo se estava, quando principiou a dar brados D. Quixote,
dizendo:
- Aqui, aqui, valorosos cavaleiros! Aqui é mister mostrar a
possança dos vossos valorosos braços, que os cortesãos levam
a melhoria no torneio!
Para acudir àqueles gritos, não se passou adiante com o exame
dos livros que ainda faltavam; e assim se crê que não
deixariam de ir ao lume, sem serem vistos nem ouvidos, a
Caroleia e Leão de Espanha, com os feitos do imperador,
compostos por D. Luís de Ávila, que sem dúvida deviam de
estar entre os remanescentes; e talvez, se o cura os visse,
não padecessem tão rigorosa sentença.
Quando chegaram a D. Quixote, já ele estava levantado da
cama, e prosseguia nas vozes e desatinos, dando cutiladas e
reveses para todas as partes, estando táo acordado, como se
nunca tivera dormido.
Arcaram com ele, e à força o deitaram no leito; e, depois que
serenou um tanto mais, tomando-se a falar com o cura, lhe
disse:
- Senhor Arcebispo Turpin, não há dúvida que é grande desar,
para os que nós chamamos Doze Pares, deixarmos sem mais nem
mais levar a vitória deste torneio aos cavaleiros cortesãos,
tendo nós outros, os aventureiros, ganhado o prémio dos três
dias antes.
54
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Cale Vossa Mercê a boca Senhor Compadre - disse o cura -
que Deus há-de ser servido de que a sorte se mude, e o que
hoje se perde amanhã se ganhe. Por agora o que importa é
tratar da saúde, que, segundo me parece, deve estar
muitíssimo cansado, a não ser que esteja até malferido.
- Ferido não - interrompeu D. Quixote -; porém moído e
quebrantado, sem dúvida que o estou, porque aquele filho da
mãe de D. Roldão me moeu à bordoada com o tronco de uma
azinheira; e tudo por inveja: por ver que eu só à minha banda
contrapeso todas as suas valentias. Mas Reinaldo de Montalvão
me não tome eu a chamar, se em me levantando deste leito mo
não pagar, a despeito de todos os seus encantamentos; e por
agora tragam-me de jantar, que sei que é o mais preciso, e o
vingar me fica a meu cuidado.
Assim se fez. Deram-lhe de comer, e recaiu no sono, deixando
a todos admirados de tamanho desorientamento.
Naquela noite incendiou e destruiu a ama quantos livros havia
no pátio e em toda a casa; e alguns arderiam que merecessem
ser guardados em perpétuos arquivos. Mas não o quis assim a
mofina e a pressa do selector; cumpriu-se o rifão que diz:
que às vezes paga o justo pelo pecador.
Um dos remédios que o barbeiro e o cura por então idearam foi
que se condenasse e emparedasse a sala dos livros, para que
ao levantar-se o amigo não pudesse dar com ela (tirada a
causa, talvez cessasse o efeito). Dir-lhe-iam que um
encantador os tinha levado com o aposento e tudo, e assim se
executou com a maior presteza.
A dois dias andados, ergueu-se D. Quixote, e o que primeiro
fez foi ir-se ver os seus livros, e, como não achava o quarto
em que os tinha deixado, corria de uma parte para outra a
procurá-k.
Chegava onde costumava estar a porta, e tenteava-a às
apalpadelas, e volvia e revolvia os olhos por todos os cabos,
sem proferir palavra. Porém, depois de um grande espaço,
perguntou à ama a que parte ficava o aposento dos seus
livros.
A ama, que já estava bem precavida do que havia de responder,
lhe disse:
55
MIGUEL DE CERVANTES
- Que aposento ou que história busca Vossa Mercê? Já não há
aposento nem livros nesta casa, carregou com tudo o mesmo
Diabo.
- Não era Diabo - acudiu a sobrinha -; era um encantador que
veio numa nuvem, numa noite depois daquele dia em que Vossa
Mercê se abalou daqui, e, apeando-se de uma serpe em que
vinha encavalgado, entrou no aposento. Não sei o que fez lá
dentro; ao cabo de um breve espaço, saiu voando pelo telhado,
deixando a casa cheia de fumarada, e, quando tomámos em nós,
e fomos ver o que tinha feito, não vimos nem livros, nem
aposento algum. Só nos lembra muito bem a mim e à ama, que,
ao tempo de partir-se, aquele malvado velho proferiu em altas
vozes, que, por inimizade secreta, que tinha com o dono
daquela livraria e estância, deixava feito o dano que depois
se veria. Disse também que se chamava o sábio Munhatão.
- Frestão é que havia de dizer - acudiu D. Quixote.
- Não sei - interrompeu a ama - se era Frestão ou Fritão;
só sei que o nome acabava em tão.
- Isso mesmo - disse D. Quixote -, é esse um sábio encantador
grande inimigo meu, e que me tem osga, porque sabe por suas
artes e letras, que, pelo andar dos tempos, tenho de pelejar
em singular batalha com um cavaleiro a quem ele favorece, e o
hei-de vencer sem que ele mo possa estorvar; por isso procura
fazer-me quantas sensaborias pode, e eu digo-lhe que mal
poderá ele evitar o que do Céu nos está determinado.
- Disso ninguém duvida - disse a sobrinha - mas quem o mete
Senhor Tio, a Vossa Mercê nessas pendências? Não será melhor
estar-se manso e pacífico em sua casa em vez de se ir pelo
mundo procurar pão que o Diabo amassou, sem se lembrar de que
muitos vão buscar lã e vêm tosquiados?
- Ai sobrinha, sobrinha! - respondeu D. Quixote. - Como andas
fora da conta! Primeiro que a mim me tosquiem, terei peladas
e arrancadas as barbas a quantos imaginarem tocar-me na ponta
de um só cabelo.
Não quiseram as duas replicar-lhe mais nada, vendo que o
agastamento lhe queria ir a mais.
56
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
O caso é que teve o nosso herói de passar em casa quinze dias
muito quedo, sem dar mostras de querer recair nos seus
devaneios; quinze dias em que passou graciosíssimos contos
com os seus dois compadres, o cura e o barbeiro.
Era sempre a sua teima, que de nada precisava tanto o mundo,
como de cavaleiros andantes; e oxalá essa cavalaria andante
cá ressuscitará!
O cura algumas vezes o contradizia, e outras ia com ele,
porque sem essa velhacaria, como se haviam de entender?
Neste meio tempo, solicitou D. Quixote a um lavrador seu
vizinho, homem de bem (se tal título se pode dar a um pobre),
e de pouco sal na moleira; tanto em suma lhe disse, tanto lhe
martelou, que o pobre rústico se determinou em sair com ele,
servindo-lhe de escudeiro.
Dizia-lhe entre outras coisas D. Quixote, que se dispusesse a
acompanhá-lo de boa vontade, porque bem podia dar o acaso que
do pé para a mão ganhasse alguma ilha, e o deixasse por
governador dela.
Com estas promessas e outras quejandas, Sancho Pança (que
assim se chamava o lavrador) deixou mulher e filhos, e se
assoldadou por escudeiro do fidalgo.
Deu logo ordem D. Quixote a buscar dinheiros; e, vendendo
umas coisas, empenhando outras, e malbaratando-as todas,
juntou uma quantia razoável. Apetrechou-se com uma rodela,
que pediu emprestada a um amigo; e, consertando a sua celada,
o melhor que pôde, notificou ao seu escudeiro Sancho o dia e
a hora em que tencionava porem-se a caminho, para que ele se
arranjasse do que lhe fosse mais preciso;
sobretudo lhe recomendou que levasse alforges. Respondeu ele
que os levaria, e que também pensava em levar um asno que
tinha muito bom, porque não estava costumado a andar muito a
pé.
Naquilo do asno é que D. Quixote não deixou de reflectir o
seu tanto, cismando se lhe lembraria que algum cavaleiro
andante teria trazido escudeiro montado asnalmente; mas
nenhum lhe veio à memória. Apesar disso, decidiu que podia
levar o burro, com o propósito de lhe arranjar cavalgadura de
maior
57
MIGUEL DE CERVANTES
foro apenas se lhe deparasse ocasião, que seria tirar o
cavalo ao primeiro cavaleiro descortês que topasse.
Preveniu-se de camisas, e das mais coisas que pôde, conforme
o conselho que o vendeiro lhe havia dado.
Feito e cumprido tudo, sem se despedir Pança dos filhos e
mulher, nem D. Quixote da ama e da sobrinha, saíram uma noite
do lugar sem os ver vivalma, e to de levada se foram, que ao
amanhecer já se iam seguros de que os não encontrariam, por
mais que os rastejassem.
Ia Sancho Pança sobre o seu jumento como um patriarca, com os
seus alforges e a sua borracha, e com muita ânsia de se ver
já governador da ilha que o amo lhe havia prometido.
Acertou D. Quixote de seguir a mesma direcção que levara na
primeira jornada, que foi pelo campo de Montiel, por onde
caminhava mais satisfeito que da primeira vez, por ser ainda
de manhã e dar-lhes de escape o Sol, o que sempre importunava
menos.
Disse então Sancho Pança a seu amo:
- Olhe, Vossa Mercê, Senhor Cavaleiro Andante, não se esqueça
do que me prometeu a respeito da ilha, que lá o governá-la
bem, por grande que seja, fica por minha conta.
- Hás-de saber, amigo Sancho Pança - disse D. Quixote -, que
foi costume muito usado dos antigos cavaleiros andantes
fazerem governadores aos seus escudeiros das ilhas ou reinos
que ganhavam; e eu tenho assentado em que, por minha parte,
se não dê quebra a esta usança de agradecido, antes nela me
desejo avantajar; porque os outros, algumas vezes, e as mais
delas, estavam à espera de que os seus escudeiros chegassem a
velhos, e já depois de fartos de servir, e de levar maus dias
e piores noites, é que lhes davam algum título de conde, ou
pelo menos de marquês de algum vale ou província de pouco
mais ou menos; e tu, se viveres e mais eu, bem poderá ser que
antes de seis dias andados eu ganhe um reino com outros seus
dependentes, que venham mesmo ao pintar para eu te coroar a
ti por seu rei. E não te admires do que te digo, pois coisas
e casos acontecem aos tais cavaleiros, por modos tão nunca
vistos e pensados, que facilmente eu te poderia dar até mais
do que te prometo.
58
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Desse modo - respondeu Sancho Pança - se eu fosse rei por
algum milagre dos que Vossa Mercê diz, pelo menos Joana
Gutierres, meu conchego, chegaria a ser rainha, e os meus
filhos infantes.
- Quem o duvida? - respondeu D. Quixote.
- Duvido eu - replicou Sancho Pança - porque tenho para mini,
que, ainda que Deus chovera reinos sobre a Terra, nenhum
assentaria bem na Maria Gutierres. Saiba, Senhor meu, que ela
para rainha não vale dois maravedis; lá condessa muito melhor
acertara, e assim mesmo com a ajuda de Deus.
- A Nosso Senhor encomenda tu, meu Sancho, o negócio, que Ele
lhe dará o que mais lhe acerte; mas não apouques tanto os
teus espíritos, que venhas a contentar-te com menos que ser
adiantado.
- Esteja descansado Senhor meu - respondeu Sancho -, tenho
ânimo, tenho, e mais servindo a um amo tão principal como é
Vossa Mercê, que me há-de saber dar tudo que me esteja bem, e
me couber nas forças.
CAPÍTULO VIII
DO BOM SUCESSO QUE TEVE O VALOROSO D. QUIXOTE NA ESPANTOSA
E JAMAIS IMAGINADA AVENTURA DOS MOINHOS DE VENTO, COM OUTROS
SUCESSOS DIGNOS DE FELIZ RECORDAÇão
Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de
vento, que há naquele campo. Assim que D. Quixote os viu,
disse para o escudeiro:
- A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do
que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança,
onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com
quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e
com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa
guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da
face da Terra.
- Quais gigantes? - disse Sancho Pança.
59
MIGUEL DE CERVANTES
- Aqueles que ali vês - respondeu o amo - de braços tão
compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
- Olhe bem Vossa Mercê - disse o escudeiro - que aquilo não
são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços
não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar
as mós.
- Bem se vê - respondeu D. Quixote - que não andas corrente
nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo,
tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com
eles em fera e desigual batalha.
Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender
aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida
alguma moinhos de vento, e não gigantes, os que ia acometer.
Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as
vozes de Sancho nem reconhecia, com o estar já muito perto, o
que era; antes ia dizendo a brado:
- Não fujais, cobardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o
que vos investe.
Levantou-se neste comenos um pouco de vento, e começaram as
velas a mover-se; vendo isto, D. Quixote disse:
- Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu,
heis-de-mo pagar.
E, dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua Sr.
Dulcineia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse,
bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a
todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro
moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o
vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços,
levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando
miseravelmente pelo campo fora.
Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu
asno; e, quando chegou ao amo, reconheceu que não se podia
menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo.
- Valha-me Deus! - exclamou Sancho. - Não lhe disse eu a
Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão
moinhos de vento, o que só o podia desconhecer quem dentro da
cabeça tivesse outros?
60
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Cala a boca, amigo Sancho - respondeu D. Quixote -;
as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas
mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que
aquele sábio Frestão, que me roubou o aposento e os livros,
transformou estes gigantes em moinhos, para me falsear a
glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem; mas,
ao cabo das contas, pouco lhe hão-de valer as suas más artes
contra a bondade da minha espada.
- Valha-o Deus, que o pode! - respondeu Pança. E, ajudando-o
a levantar, o tornou a subir para cima do Rocinante, que
estava também meio desasado.
Conversando no passado sucesso, continuaram caminho para
Porto Lápice, porque por ali (dizia D. Quixote) não era
possível que se não achassem muitas e diversas aventuras, por
ser sítio de grande passagem. Que pesar o ver-se então sem
lança (como ele dizia ao escudeiro)! Mas dizia-lhe também
logo:
- Recordo-me ter lido que outro cavaleiro espanhol, por nome
Diogo Peres de Vargas, tendo-se-lhe numa batalha quebrado a
espada, esgalhou de uma azinheira uma pesada arranca, e só
com ela fez tais coisas naquele dia, e a tantos mouros
machucou, que lhe ficou de apelido «o Machuca»; e assim ele
como os seus descendentes se ficaram nomeando desde aquele
dia Vargas e Machuca. Refiro-te isto, porque a primeira
azinheira ou carvalho que se me depare, tenciono sacar-lhe
outro pau tão bom como aquele, e fazer com ele tais façanhas,
que te julgues bem afortunado por teres chegado a presenciálas,
e poderes ser testemunha de coisas tão convizinhas do
impossível.
- Por Deus, Sr. D. Quixote - disse Sancho -, creio tudo que
Vossa Mercê me diz; mas olhe se se endireita um poucochinho,
que parece ir descaindo para a banda; há-de ser do trambolhão
que apanhou.
- E é verdade - respondeu D. Quixote -; e se me não queixo
com a dor, é porque aos cavaleiros andantes não é dado
lastimarem-se de feridas, ainda que por elas lhes saiam as
tripas.
- Sendo assim, já estou calado - respondeu Sancho -; mas sabe
Deus se eu não achava melhor que Sua Mercê se queixara
61
MIGUEL DE CERVANTES
quando lhe doesse alguma coisa. De mim sei eu, que, em me
doendo seja o que for, hei-de por força berrar, se é que a
tal regra, de não dar mostras de sentir, não chega também aos
escudeiros da cavalaria andante.
Não deixou de se rir D. Quixote da simpleza do seu pajem;
e declarou-lhe que podia queixar-se quantas vezes quisesse,
com vontade ou sem ela, que até àquela data nunca lera
proibição disso nos livros de cavalaria.
Advertiu-lhe Sancho que reparasse em que eram horas de comer.
Respondeu-lhe o amo, que por enquanto lhe não era necessário;
que embora comesse ele, se lhe parecia.
Com esta licença, ajeitou-se Pança o melhor que pôde sobre o
seu jumento, e, tirando dos alforges o que para eles tinha
metido, ia caminhando e comendo atrás do amo com todo o seu
descanso; e de quando em quando empinava a borracha com tanto
gosto, que faria inveja ao mais refestelado bodegueiro de
Malaga. E, enquanto ia assim amiudando os tragos, não se
lembrava de nenhuma promessa que o amo lhe tivesse feito; nem
tinha por trabalho, antes por vida muito regalada, o andar
buscando as aventuras, por perigosas que fossem.
Em suma, aquela noite passaram-na entre umas árvores; de uma
delas desgalhou D. Quixote uma das pernadas secas, que lhe
podia pouco mais ou menos suprir a lança, e nela pôs o ferro
da que se lhe tinha quebrado.
Em toda a noite não pregou olho, pensando na sua Sr.
Dulcineia, para se conformar com o que tinha lido nos seus
livros, quando os cavaleiros passavam sem dormir muitas
noites nas florestas e despovoados, enlevados na lembrança de
suas amadas.
Já Sancho Pança a não passou do mesmo modo; como levava a
barriga cheia (e no de água de chicória), levou-a toda de um
sono; e, se o amo o não chamara, não bastariam para acordá-lo
os raios do Sol que lhe vieram dar na cara, nem as cantorias
das aves, que em grande número saudavam com alvoroço a vinda
do novo dia.
Ao erguer-se, deu mais um beijo na borracha, e achou-a seu
tanto mais chata que a noite de antes; com o que se lhe
apertou
62
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
o coraço, pensando em que não levavam caminho de se remediar
tão depressa aquela falta.
Não quis D. Quixote desjjuar-se, porque, segundo já dissemos,
lhe deu em sustentar-se de saborosas memórias. Prosseguiram
no seu começado caminho de Porto Lápice, e pela volta das
três do dia deram vista dele.
- Aqui - disse D. Quixote - podemos, Sancho Pança amigo,
meter os braços até aos cotovelos no que chamam aventuras;
mas adverte, que, ainda que me vejas nos maiores perigos do
mundo, não hás-de meter mão à espada para me defender, salvo
se vires que os que me agravam são canalha e gente baixa, que
nesse caso podes ajudar-me; porém, se forem cavaleiros, de
modo
nenhum te é lícito, nem concedido nas leis da cavalaria, que
me ;
socorras, enquanto não fores armado cavaleiro. ;
- Decerto - respondeu Sancho - que nessa parte há-de Sua
Mercê ser pontualmente obedecido, e mais, que eu sou de meu
natural pacífico, e inimigo de intrometer-me em arruídos e
pendências. É verdade, que, no que tocar em defender cá a
pessoa, não hei-de fazer muito caso dessas leis, porque as
divinas e humanas permitem defender-se cada um de quem lhe
queira mal.
- Não digo menos disso - respondeu D. Quixote -, porém no
ajudar-me contra cavaleiros hás-de ter mão nos teus ímpetos
naturais. !
- Afirmo-lhe que assim o farei - respondeu Sancho -; esse
preceito hei-de-o guardar como os dias santos e os domingos j
Estando nestas práticas, viram vir pelo caminho dois frades
da Ordem de S. Bento, cavalgando sobre dois dromedários (que
não eram mais pequenas as mulas em que vinham). Traziam seus
óculos de jornada, e seus guarda-sóis.
Atrás seguia um coche com quatro ou cinco homens de cavalo,
que o acompanhavam, e dois moços de mulas a pé. Vinha no
coche, como depois se veio a saber, uma senhora biscainha,
que ia a Sevilha, onde estava seu marido, que passava às
Índias com um muito honroso cargo. Não vinham os frades com
ela, ainda que traziam o mesmo caminho; mas apenas D. Quixote
os divisou, quando disse para o escudeiro:
63
MIGUEL DE CERVANTES
- Ou me engano, ou esta tem de ser a mais afamada aventura
que nunca se viu, porque aqueles vultos negros, que ali
aparecem, devem ser alguns encantadores, que levam naquele
coche alguma princesa raptada; e é forçoso, que, a todo o
poder que eu possa, desfaça esta violência.
- Pior será esta, que a dos moinhos de vento - disse Sancho
-; repare, meu amo, que são frades de S. Bento, e o coche
deve ser de alguma gente de passagem; veja, veja bem o que
faz, não seja o Diabo que o engane.
- Já te disse, Sancho - respondeu D. Quixote -, que sabes
pouco das maranhas que muitas vezes se dão nas aventuras. O
que eu digo é verdade, e agora o verás.
Dizendo isto, adiantou-se e pôs-se no meio do caminho por
onde vinham os frades; e, chegando a distância que a ele lhe
pareceu o poderiam ouvir, disse em voz alta:
- Gente endiabrada e descomunal, deixai logo no mesmo
instante as altas princesas que nesse coche levais furtadas;
quando não, aparelhai-vos para receber depressa a morte, por
justo castigo das vossas malfeitorias.
Detiveram os frades as rédeas, admirados, tanto da figura
como dos ditos de D. Quixote, e responderam:
- Senhor Cavaleiro, nós outros não somos nem endiabrados nem
descomunais; somos dois religiosos beneditinos, que vamos em
nossa jornada; e não sabemos se nesse coche vêm, ou não,
algumas princesas violentadas.
- Falas mansas cá para mim não pegam - disse D. Quixote
- que já vos conheço, fementida canalha.
E, sem aguardar mais resposta, picou o Rocinante, e de lança
baixa arremeteu com o primeiro frade com tanta fúria e
denodo, que, se o frade se não deixasse cair da mula, ele o
faria ir a terra contra vontade, e até malferido, senão
morto.
O segundo religioso, que viu o que se tinha feito ao
companheiro, meteu pernas à sua acastelada mula, e desatou a
correr por aquele campo, mais ligeiro que o próprio vento.
Sancho Pança, que viu por terra o frade, apeou-se do burro
com a maior pressa, arremeteu a ele, e começou-lhe a tirar os
hábitos. Acudiram dois moços dos frades e perguntaram-lhe por
64
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
que o despia. Respondeu-lhes Sancho Pança que a fatiota lhe
pertencia a ele legitimamente, como despojos da batalha, que
seu amo D. Quixote havia ganhado. Os moços, que não entendiam
de chácaras, nem percebiam aquilo de despojos e batalhas,
vendo já afastado dali D. Quixote em conversação com as damas
do coche, investiram com Sancho, e deram com ele em terra,
arrancaram-lhe as barbas, moeram-no a couces, e o deixaram
estendido como coisa morta.
O frade caído no se demorou um instante; todo temeroso e
acobardado, ergueu-se, montou, e, logo que se viu a cavalo,
picou atrás do companheiro, que a bom pedaço dali estava
esperando em que pararia aquele ataque.
Não quiseram esperar mais pelo desfecho, e seguiram o seu
caminho, fazendo mais cruzes, que se levassem o Diabo atrás
de si.
Estava D. Quixote, como já se disse, falando com a senhora do
coche, dizendo-lhe:
- A Vossa formosura Senhora minha, pode fazer da sua pessoa o
que mais lhe apeteça, porque já a soberba vossos roubadores
jaz derribada em terra por este meu forte braço;
e para que vos não raleis de não saber o nome do vosso
libertador, chamo-me D. Quixote de Ia Mancha, cavaleiro
andante, e cativo da sem par em formosura D. Dulcineia dei
Toboso; e, em paga do benefício que de mim haveis recebido,
nada mais quero senão que volteis a Toboso, e que da minha
parte vos apresenteis a ela e lhe digais o que fiz para vos
libertar.
Tudo que D. Quixote dizia, estava-o escutando um escudeiro
dos que acompanhavam o coche, e que era biscainho, o qual,
vendo que o cavaleiro não queria deixar ir o coche para
diante, mas teimava que havia de desandar logo para Toboso,
fez frente a D. Quixote, e, agarrando-lhe na lança, lhe disse
em mau castelhano e pior biscainho o que pouco mais ou menos
vinha a parar nisto:
- Anda, cavaleiro, que mal andas; pelo Deus que me criou,
que, se não deixas o coche, morres tão certo como ser eu
biscainho.
65
MIGUEL DE CERVANTES
Entendeu-o muito bem D. Quixote, e co muito sossego lhe
respondeu:
- Se foras cavaleiro, assim como o não és, já eu teria
castigado a tua sandice e atrevimento, criatura reles.
Ao que respondeu o biscainho lá pelo seu dialecto;
- Eu não sou cavaleiro? Juro a Deus que mentes, tão certo
como ser eu cristão; se arrojas lança ou arrancas espada,
verás como te vai tudo pelo pó do gato; biscainho por terra,
fidalgo por mar, fidalgo com os diabos; e, se o negares,
mentiste.
- Agora o veremos, como dizia Agrages - respondeu D. Quixote.
E, atirando a lança ao chão, desembainhou a espada, embraçou
a rodela, e arremeteu ao biscainho, de estômago feito para
lhe arrancar a vida. O biscainho, que assim o viu sobrevirlhe,
ainda que se quisesse apear da mula, que, por ser das de
aluguer, não era das boas, nem havia que fiar nela, o mais
que pôde foi sacar da espada; e foi-lhe dita achar-se junto
ao coche, de onde pôde tomar uma almofada que lhe serviu de
escudo; e logo se foram um para o outro como dois mortais
inimigos.
A demais gente bem quisera pô-los em paz, mas não pôde,
porque dizia o biscainho nas suas descosidas razões, que, se
o não deixassem acabar a batalha, ele próprio mataria a sua
ama e a quantos lho estorvassem.
A senhora do coche, pasmada e temerosa do que via, disse ao
cocheiro, que se desviasse algum tanto dali, e se pôs de
longe a admirar a pavorosa contenda.
No decurso dela, deu o biscainho uma grande cutilada a D.
Quixote, acima de um ombro por sobre a rodela que, a dar-lha
sem defesa, o abrira até à cintura. D. Quixote, que sentiu o
peso daquele desaforado golpe, deu um grande berro, dizendo:
- Ó Senhora da minha alma, Dulcineia, flor da formosura,
socorrei a este vosso cavaleiro, que, para satisfazer a vossa
muita bondade, se acha em tão rigoroso transe.
O dizer isto, apertar a espada, cobrir-se bem com a rodela, e
arremeter ao biscainho, foi tudo um, indo determinado de
aventurar tudo num só golpe. O biscainho, vendo-o vir assim
contra ele, bem entendeu por aquele denodo a coragem do
inimigo, e
66
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
determinou fazer o mesmo que ele; pelo que se deteve a
esperá-lo bem coberto com a almofada, sem poder rodear a
mula, nem a uma nem outra parte, que já de puro cansada, e
não afeita a semelhantes brinquedos, não podia dar um passo.
Vinha, pois, como dito é, D. Quixote contra o acautelado
biscainho, com a espada em alto, determinado a abri-lo em
dois;
e o biscainho o aguardava assim mesmo, com a espada erguida,
e escudado com a sua almofada.
Todos os circunstantes estavam temerosos e transidos à espera
do que se poderia seguir de golpes tamanhos, com que de parte
a parte se ameaçavam. A senhora do coche e as suas criadas
faziam mil votos e promessas a todas as imagens e igrejas de
Espanha, para que Deus livrasse ao seu escudeiro e a elas
daquele tão grande perigo.
O pior que tudo é que, neste ponto exactamente, interrompe o
autor da história esta batalha, dando por desculpa não ter
achado mais notícias desta façanha de D. Quixote, além das já
referidas.
Verdade é que o segundo autor desta obra não quis crer que
tão curiosa história estivesse enterrada no esquecimento, nem
que houvessem sido tão pouco curiosos os engenhos da Mancha,
que não tivessem em seus arquivos ou escritórios alguns
papéis que deste famoso cavaleiro tratassem; e assim, com
esta persuasão, não perdeu a esperança de vir a achar o final
desta aprazível narrativa, o qual por favor do Céu se lhe
deparou como adiante se contará.
67
LIVRO SEGUNDO
CAPITULO IX
EM QUE SE CONCLUI A ESTUPENDA BATALHA QUE O GALHARDO
BISCAINHO E O VALENTE MANCHEGO TIVERAM
Deixámos no capítulo antecedente o valente biscainho e o
famoso D. Quixote co as espadas altas e nuas, ameaçando
descarregar dois furibundos fendentes, e tais, que, se em
cheio acertassem, pelo menos os rachariam de alto a baixo
como duas romãs. Naquele ponto tão duvidoso parou, ficandonos
truncada tão saborida história, sem nos dar notícia o
autor de onde se poderia achar o que nela faltava.
Causou-me isto grande pena, porque o gosto de ter lido aquele
pouco se me devolvia em desgosto, pensando no mau caminho que
se oferecia para se achar o muito que em meu entender faltava
ainda a tão saboroso conto.
Parecia-me coisa impossível, e fora de todo o bom costume,
que a tão bom cavaleiro tivesse faltado algum sábio, que
tomasse a cargo o escrever as suas nunca vistas façanhas;
coisa que não mingou a nenhum dos cavaleiros andantes, dos
que as gentes dizem que se vão às suas aventuras, pois cada
um deles tinha um ou dois sábios, que pareciam talhados para
isso mesmo, os quais não somente escreviam os seus feitos,
senão que pintavam até os seus mínimos pensamentos e
ninharias, por mais ocultas que fossem. Como havia de ser tão
desditado um cavaleiro tão excelente, que a ele lhe faltasse
o que sobrou a Platir e outros que tais?
68
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Assim não podia inclinar-me a crer que tão galharda história
tivesse ficado manca, e já atirava a culpa à malignidade do
tempo devorador e consumidor de todas as coisas, que ou tinha
aquilo oculto, ou o desbaratara e perdera.
Por outra parte me parecia, que, pois entre os seus livros se
tinham achado alguns to modernos como Desengano de Zelos, e
Ninfas e Pastores de Henares, também a sua história devia de
ser moderna, e, se não estivesse escrita, estaria na memória
da gente da sua aldeia, e das aldeias circunvizinhas.
Estas fantasias me traziam confuso e desejoso de saber real e
verdadeiramente toda a vida e milagres do nosso famigerado
espanhol D. Quixote de Ia Mancha, luz e espelho da cavalaria
manchega, e o primeiro, que, em nossa idade e nestes tão
calamitosos tempos, se pôs ao trabalho e exercício das
andantes armas, e ao de desfazer agravos, socorrer viúvas,
amparar donzelas, daquelas que andavam de açoite em punho,
montadas em seus palafréns, e com toda a sua virgindade à sua
conta, de monte em monte, e de vale em vale, que (a não ser
forçá-las algum valdevinos, ou algum vilão de machada e
morrião, ou algum descomunal gigante) donzela houve nos
passados tempos, que, ao cabo de oitenta anos, sem ter
dormido uma só vez debaixo de telha, se foi tão inteira a
sepultura, como a mãe a parira.
Digo, pois, que, por estes e outros muitos respeitos, é
merecedor o nosso galhardo D. Quixote de contínuos e
memoráveis louvores; a mim não se devem eles negar pelo
trabalho e diligência que pus em buscar o fim desta agradável
história, ainda que sei bem, que, se o Céu, o acaso, e a
fortuna, me não ajudassem, o mundo ficaria falto do
passatempo e gosto que poderá ter por quase duas horas a
pessoa que atentamente a ler. O modo da achada foi o
seguinte:
Estando eu um dia no Alcana de Toledo, apareceu ali um
muchacho a vender uns alfarrábios e papéis velhos, a um
mercador de sedas. Como eu sou amigo de ler até os papéis
esfarrapados das ruas, levado da inclinaço natural, tomei um
daqueles cartapácios, e pela escrita reconheci ser árabe
(posto o não soubesse decifrar).
69
MIGUEL DE CERVANTES
Espalhei os olhos à procura de algum mourisco algaraviado,
que mo deletreasse. Depressa me apareceu intérprete, pois de
melhor e mais antiga língua que eu o necessitasse, facilmente
por ali se me depararia. Enfim atinei com um, que, ouvindo o
que eu desejava, pegando no livro o abriu pelo meio, e, lendo
nele um pouco, se começou a rir.
Perguntei-lhe de que se ria, e respondeu-me de uma coisa que
ali vinha escrita na margem como anotação.
Pedi-lhe que ma decifrasse, e ele, sem interromper o riso,
continuou:
- O que se lê aqui nesta margem, ao pé da letra, é o
seguinte: Esta Dulcineia dei Toboso, tantas vees mencionada
na presente crnica, diem que para a salga dos porcos era a
primeira mão de toda a Mancha.
Quando eu ouvi falar de Dulcineia dei Toboso, fiquei atónito
e suspenso, porque logo se me representou que no alfarrábio
se conteria a história de D. Quixote. Neste pressuposto,
roguei-lhe que me lesse o princípio do livro em linguagem
cristã, o que ele fez traduzindo de repente o título arábico
em castelhano deste modo: História de D. Quixote de Ia
Mancha, Escrita por Cid Hamete Benengeli, Historiador
Arábigo.
Muita prudência me foi mister para dissimular o contentamento
que me tomou, quando semelhante título me chegou aos ouvidos;
e, antes que o rapaz apresentasse o livro ao homem das sedas,
lhe comprei toda a papelada e os alfarrábios por uns reles
cobres, que, se ele fora mais previsto, e soubesse a grande
melgueira que me trazia ali, bem podia ter feito comigo
veniaga para mais de seis réis.
Retirei-me logo com o mourisco para o claustro da igreja
maior, e lhe pedi me trocasse em vulgar todos aqueles
alfarrábios, que tratavam de D. Quixote, sem omitir nem
acrescentar nada, oferecendo-lhe a paga que ele quisesse.
Contentou-se com duas arrobas de passas, e duas angas de
trigo, e prometeu traduzi-los bem e fielmente com muita
brevidade. Mas eu, para facilitar mais o negócio, e não
largar da mão tão bom achado, o trouxe para minha casa, onde
em pouco mais de mês e meio traduziu tudo exactamente como
aqui se refere.
70
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Estava no primeiro cartapácio debuxada muito ao natural a
batalha de D. Quixote co o biscainho, na mesma postura em que
os descreve a história, de espadas altas, um coberto da sua
rodela, o outro da almofada, e a mula do biscainho tão ao
vivo, que a distância de tiro de besta se conhecia ser de
aluguer. Tinha o biscainho por baixo uma inscriço que dizia:
D. Sancho de Azpeytia, que sem dúvida devia ser o seu nome, e
aos pés do Rocinante estava outra que dizia: D. Quixote.
Vinha o Rocinante maravilhosamente pintado, tão delgado e
comprido, tão descamado e fraco, com arcabouço tão ressaído,
e tão desenganado ético, que bem mostrava quanto à própria se
lhe tinha posto o nome de Rocinante.
Ao pé dele estava Sancho Pança com o burro pelo cabresto, com
outro letreiro que dizia: Sancho Zancas, o que havia de ser,
pelo que a pintura mostrava, por ter a barriga bojuda, a
estatura baixa, e as ancas largas, do que lhe viria o nome de
Pança e Zancas, que por ambas estas alcunhas o designa
algumas vezes a história.
Algumas outras miudezas se poderiam notar, mas são todas de
pouca importância, e não fazem ao caso para a verdade da
narrativa, que no ser verdadeira é que cifra a sua bondade.
Se aqui se pode pôr alguma dúvida por parte da veracidade,
será só o ter sido o autor arábico, por ser muito próprio dos
daquela nação serem mentirosos, ainda que, por outra parte,
em razão de serem tão nossos inimigos, antes se pode entender
que mais seriam apoucados que sobejos nos louvores de um
cavaleiro baptizado. A mim assim me parece, pois, podendo
deixar correr à larga a pena no encarecer os merecimentos de
tão bom fidalgo, parece que de propósito os remete ao escuro;
coisa mal feita e piormente pensada, por deverem ser os
historiadores muito pontuais, verdadeiros, e nada
apaixonados, sem que nem interesse, nem temor, nem ódio, nem
afeição, os desviem do caminho direito da verdade, que é a
filha legítima de quem historia, emula do tempo, depósito dos
feitos, testemunha do passado, exemplo e conselho do
presente, e ensino do futuro.
71
MIGUEL DE CERVANTES
Nesta sei eu que se achará tudo que porventura se deseje na
mais aprazível; e se alguma coisa boa lhe falecer, para mim
tenho que foi culpa do perro do autor, antes que por míngua
da matéria.
Enfim, a sua segunda parte, prosseguindo na tradução,
começava desta maneira:
Postas e levantadas em alto as cortadoras espadas dos dois
valorosos e enojados combatentes, não parecia senão que
estavam ameaçando Céu, Terra, e Abismo; tal era o seu denodo
e aspecto!
O primeiro que descarregou o golpe foi o colérico biscainho;
e com tal força e fúria o descarregou, que, a não se voltar
nos ares o ferro, bastara aquela cutilada para dar fim à sua
rigorosa contenda, e a todas as aventuras do nosso cavaleiro.
Mas a boa sorte, que para maiores coisas o guardava, torceu a
espada do inimigo, por modo, que, posto lhe acertasse no
ombro esquerdo, lhe não fez outro dano senão desarmá-lo
daquela banda, levando-lhe de caminho grande parte da celada,
com a metade da orelha, que tudo aquilo veio a terra com
espantosa ruína, deixando-o muito maltratado.
Valha-me Deus! Quem haverá aí que bem possa contar agora a
raiva que entrou no coração do nosso manchego, vendo-se posto
naquela miséria? Bastará dizer que se aprumou de novo nos
estribos; e, apertando mais a espada nas mãos, com tamanho
ímpeto descarregou sobre o biscainho, acertando-a em cheio na
almofada e cabeça, que, não lhe valendo tão seguro reparo,
foi como se lhe caíra em cima uma montanha; começou logo a
deitar sangue pêlos narizes, pela boca, e pêlos ouvidos, e a
dar mostras de cair da mula abaixo; e sem falta cairia, a se
não abraçar ao pescoço do animal. Mas, apesar de tudo,
desentralhou os pés dos estribos, soltou os braços, e a mula,
espantada com o tremendo golpe, deu a correr pelo campo; e a
poucos corcovos pregou com o seu dono em terra.
Contemplava D. Quixote tudo com muito sossego; e, logo que o
viu caído, saltou do seu cavalo, e com muita ligeireza se
chegou; e, metendo-lhe aos olhos a ponta da espada, lhe disse
que se rendesse, ou lhe cortaria a cabeça.
72
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Estava o biscainho tão fora de si, que não podia responder
palavra; e mal passaria à vista da cegueira de D. Quixote, se
as damas do coche, que até então tinham com grande desacordo
presenciado a pendência, não corressem para onde ele estava,
pedindo-lhe com as maiores instâncias lhes fizesse a infinita
mercê de perdoar a morte àquele seu escudeiro; ao que D.
Quixote respondeu com o maior entono e gravidade:
- À fé, formosas senhoras, que sou muito contente de fazer o
que me pedis; mas há-de ser com uma condição; a saber: que
este cavaleiro me há-de prometer, que irá ao lugar de Toboso,
e se há-de apresentar da minha parte à sem par D. Dulcineia,
para que faça dele o que for mais de sua vontade.
As medrosas e desconsoladas, sem entrar em explicações do que
D. Quixote exigia, e sem perguntarem quem vinha a ser D.
Dulcineia, lhe prometeram que o escudeiro executaria quanto
de sua parte lhe fosse mandado.
- Pois, fiado nessa promessa, não lhe farei mais prejuízo,
ainda que bem o tinha merecido.
CAPITULO X
GRACIOSAS PRÁTICAS ENTRE D. QUIXOTE E SEU ESCUDEIRO SANCHO
PANÇA
J á então se havia levantado Sancho Pança, algum tanto
maltratado pêlos moços dos frades, e tinha assistido atento à
batalha de seu amo D. Quixote, rogando no coraço a Deus fosse
servido de lhe dar vitória, e com ela o ganho de alguma ilha,
e que o fizesse governador, segundo o prometido.
Vendo, pois, concluída já a pendência, e que seu amo tornava
a encavalgar-se no Rocinante, chegou-se a pegar-lhe no
estribo, e, antes que ele subisse, se pôs de joelhos diante
dele, pegou-lhe na mão, beijou-a, e disse-lhe:
- Seja Vossa Mercê servido, meu Sr. D. Quixote da minha alma,
de me dar o governo da ilha que nesta rigorosa pendência
ganhou, que, por grande que ela seja, sinto-me com forças
73
MIGUEL DE CERVANTES
de a saber governar, tal e tão bem como qualquer que tenha
governado ilhas neste mundo.
- Adverti, Sancho amigo - respondeu D. Quixote -, que esta
aventura, e outras semelhantes a esta, no são aventuras de
ilhas, senão só encruzilhadas, em que se não ganha outra
coisa senão cabeça quebrada, ou orelha de menos. Tende
paciência; não vos hão-de faltar aventuras, em que não
somente eu vos possa fazer governador, mas alguma coisa mais.
Agradeceu-lhe muito Sancho; e, beijando-lhe outra vez a mão e
a orla da cota de armas, o ajudou a subir para o Rocinante.
Escarranchou-se no seu asno, e começou a apajear o fidalgo,
que, a passo largo, sem se despedir das do coche, nem lhes
dizer mais nada, se meteu por um bosque perto dali.
Seguia-o Sancho a todo o trote do burro; mas tão levado na
carreira ia Rocinante, que, vendo-se ir ficando para trás,
não teve remédio senão gritar ao amo que esperasse por ele.
Assim o fez D. Quixote, colhendo as rédeas a Rocinante, até
que se acercasse o seu cansado escudeiro, que, apenas chegou,
lhe disse:
- Parece-me, Senhor, que seria acertado refugiarmo-nos
nalguma igreja, porque, à vista do estado em que pusestes
aquele inimigo, não admirará, que, chegando a coisa ao
conhecimento da Santa Irmandade, nos mandem prender; e à f é
que se o fazem, não sairemos da cadeia sem primeiro nos suar
o topete.
- Cala-te aí - respondeu D. Quixote -; onde viste ou leste
jamais que algum cavaleiro andante fosse posto em juízo, por
mais homicídios que fizesse?
- De homicídios nada entendo - respondeu Sancho - nem me
intrometi em nenhum em dias de vida; o que sei é que a Santa
Irmandade tem lá suas contas que ajustar com os que pelejam
em campo; no mais não me meto.
- Não tenhas cuidado, amigo - respondeu D. Quixote -;
das mãos dos Caldeus te livraria eu, quanto mais da
Irmandade. Mas diz-me, por vida tua: viste nunca mais
valoroso cavaleiro que eu em todo o mundo descoberto? Lê-se
em histórias algum que tenha ou haja tido mais brio em
acometer, mais alento no perseverar, mais destreza no ferir,
nem mais arte em dar com o inimigo em terra?
74
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Valha a verdade - respondeu Sancho - eu nunca li histórias,
porque não sei ler nem escrever; mas o que me atrevo a
apostar é, que mais atrevido amo do que é Vossa Mercê, nunca
eu o servi em dias de minha vida; e queira Deus que estes
atrevimentos se não venham a pagar onde já disse. O que a
Vossa Mercê peço é que se cure dessa orelha, que se lhe vai
esvaindo em sangue; eu trago aqui nos alforges os, e um pouco
de unguento branco.
- Bem escusado fora tudo isso - respondeu D. Quixote - se eu
me tivesse lembrado de preparar uma redoma de bálsamo de
Ferrabrás, que uma só gota dele nos pouparia mais tempo e
curativos.
- Que redoma e que bálsamo vem a ser esse? - disse Sancho
Pança.
- É um bálsamo - respondeu D. Quixote - de que eu tenho a
receita na memória, com o qual ninguém pode ter medo da
morte, nem se morre de ferida alguma; e assim, quando eu o
tiver feito e to entregar, não tens mais nada que fazer: em
vendo que nalguma batalha me partem por meio corpo, como
muitas vezes acontece, a parte do corpo que tiver caído no
chão tomá-la-ás com muito jeito e com muita subtileza, e,
antes que o sangue se gele, a porás sobre a outra metade que
tiver ficado na sela, por modo que acerte bem à justa; e darme-
ás a beber basta dois tragos do dito bálsamo, e ver-me-ás
ficar mais são que um pêro.
- Sendo isso verdadeiro - disse Pança -, já daqui dispenso o
governo da prometida ilha, e nada mais quero em paga dos meus
muitos e bons serviços, senão que Sua Mercê me dê a receita
dessa milagrosa bebida, que tenho para mim se poderá vender a
olhos fechados cada onça dela por mais de quatro vinténs. Não
preciso mais para passar o resto da vida honradamente e com
todo o descanso. O que falta saber é se não será muito
custoso arranjá-la.
- Com menos de três réis se pode fazer canada e meia -
respondeu D. Quixote.
- Valha-me Deus! - replicou Sancho. - Porque tarda Vossa
Mercê em fazer isso, e em ensinar-me a receita?
75
MIGUEL DE CERVANTES
- Cala-te, amigo - respondeu o cavaleiro -, que maiores
segredos tenciono eu ensinar-te, e fazer-te mercês ainda
maiores; e por agora curemo-nos, porque a orelha me está
doendo mais do que eu quisera.
Tirou Sancho dos alforges os fios e o unguento; mas, quando
D. Quixote reparou no estrago da celada, pensou endoidecer;
e, posta a mão na espada, e levantando os olhos ao céu,
disse:
- Faço juramento ao Criador de todas as coisas, e aos quatro
Santos Evangelhos, onde mais por extenso eles estejam
escritos, de fazer a vida que fez o grande marquês de Mântua,
quando jurou de vingar a morte de seu sobrinho Baldovinos,
que foi de não comer pão em toalha, nem com sua mulher
folgar, e outras coisas, que, ainda que me não lembram, as
dou aqui por expressadas, enquanto não tomar inteira vingança
de quem tal descortesia me fez.
Ouvindo aquilo, Sancho lhe respondeu:
- Advirta Vossa Mercê, Sr. D. Quixote, que, se o cavaleiro
cumpriu o que lhe foi ordenado, de ir-se apresentar à minha
Sr. Dulcineia dei Toboso, já terá cumprido com o que devia, e
não merece mais castigo, se não cometer novo delito.
- Falaste e recordaste muito bem - respondeu D. Quixote
- e portanto anulo o juramento na parte que toca a tomar dele
nova vingança; mas reitero e confirmo e voto de levar a vida
que já disse, até que tire a algum cavaleiro outra celada tal
e táo boa como esta era; e não cuides tu, Sancho, que faço
isto assim a lume de palhas, pois não me faltam bons exemplos
a quem imite neste particular, que outro tanto ao pé da letra
se passou sobre o elmo de Mambrino, que tão caro custou a
Sacripanta.
- Dê Vossa Mercê ao Diabo tais juramentos Senhor meu
- replicou Sancho -, que redundam em grave dano para a saúde,
e prejuízo para a consciência. Quando não, que me diga:
se por acaso em muitos dias não encontrarmos homem armado com
celada, que havemos de fazer? Há-de-se cumprir o juramento a
despeito de tantas desconveniências e incomodidades, como são
o dormir vestido e sempre fora de povoado, e outras mil
penitências, como continha o voto daquele doido velho
76
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
marquês de Mantua, a quem Vossa Mercê agora pretende imitar?
Olhe Vossa Mercê bem, que por todos estes caminhos não andam
homens armados, senão só arrieiros e carreiros, que não só
não trazem celadas, mas talvez nunca em dias de vida ouvissem
falar delas.
- Enganas-te nisso - disse D. Quixote -; nem duas horas se
nos hão-de passar por estas encruzilhadas, sem vermos mais
homens armados, que os que foram sobre Aibraca para a
conquista de Angélica, a formosa.
- Basta, seja assim - disse Sancho - e a Deus praza que nos
suceda bem, e que chegue já o tempo de se ganhar essa ilha
que to cara me custa, e embora eu morra logo.
-Já te disse, Sancho, que te não dê isso cuidado algum;
quando falte ilha, aí estão o reino de Dinamarca ou o de
Sobradisa, que te servirão como anel em dedo; e mais deves tu
folgar com estes, por serem em terra firme. Mas deixemos isto
para quando for tempo; e vê se trazes aí nos alforges coisa
que se coma, para irmos logo em busca de algum castelo, em
que nos alojemos esta noite, e onde faça o bálsamo que te
disse, porque te juro que a orelha me vai já doendo, que não
posso parar.
- O que nos alforges trago - respondeu Sancho - é uma cebola,
um pedaço de queijo, e não sei quantos motrecos de pão;
mas isto não são manjares próprios para tão valente cavaleiro
como é Vossa Mercê.
- Como pensas mal! - respondeu D. Quixote. - Faço-te saber,
Sancho, que é timbre dos cavaleiros andantes não comerem um
mês a fio, ou comerem só do que se acha mais à mão; o que tu
já saberias, se tiveras lido tantas histórias como eu; li
muitíssimas, e em nenhuma achei terem cavaleiros andantes
comido nem migalha, salvo por casualidade, ou em alguns
sumptuosos banquetes que lhes davam; e os mais dias os
passavam com o cheiro das flores. E posto se deva entender
que não podiam passar sem comer, e satisfazer a outras
necessidades corporais, porque realmente eram gente como nós
somos, deve-se entender também, que, andando o mais de sua
vida pelas florestas e despovoados, e sem cozinheiro, a sua
comida mais usual seriam alimentos rústicos, tais como esses
que aí me
77
MIGUEL DE CERVANTES
trazes. Portanto, amigo Sancho, não te mortifiques com o que
a mim me dá gosto, nem queiras fazer mundo novo, nem tirar a
cavalaria andante dos seus eixos.
- Desculpe-me Vossa Mercê - lhe disse Sancho -, como eu não
sei ler nem escrever, segundo já lhe disse, não sei nem ando
visto nas regras da profissão cavaleiresca; e daqui em diante
eu proverei os alforges de toda a casta de frutas secas, para
Vossa Mercê, que é cavaleiro; e para mim, que o não sou,
petrechá-los-ei de outras coisas que voam, e de mais
substâncias.
- Eu não te digo, Sancho - replicou D. Quixote -, que seja
forçoso aos cavaleiros andantes não comer outra coisa seno
essas frutas secas que dizes; afirmo só que o seu passadio
mais ordinário devia ser delas, e de algumas ervas que
achavam pelo campo, que eles conheciam, e que eu também
conheço.
- Bom é - respondeu Sancho - conhecer essas ervas, que,
segundo eu vou examinando, algum dia será necessário usar
desse conhecimento.
Nisto, desenfardelando o que tinha dito que trazia, comeram
ambos juntos em boa paz.
Desejosos de buscar onde pernoitassem, acabaram à pressa a
sua pobre e seca refeição, montaram imediatamente a cavalo, e
se deram pressa para chegar ao povoado antes de anoitecer;
mas junto a umas choças de cabreiros pôs-se-lhes o Sol, e
perderam a esperança de realizar o seu desejo; pelo que
determinaram passar ali a noite.
A Sancho pesou-lhe ter de dormir fora da povoação; mas para o
amo foi regalo o ter de levar aquelas horas ao ar livre, por
lhe parecer que, sempre que assim lhe sucedia, fazia um acto
possessivo, que facilitava a prova da sua cavalaria.
CAPITULO XI
DO QUE A D. QUIXOTE SUCEDEU COM UNS CABREIROS
Lom boa sombra foi dos cabreiros recolhido o nosso cavaleiro.
Sancho acomodou, o melhor que pôde, a Rocinante e ao
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
jumento, e deixou-se ir atrás do cheiro que despediam de si
certos tassalhos de cabra, que estavam numa caldeira a ferver
ao lume. Ainda que o seu gosto seria logo ali sem mais
detença ver se estavam prontos para se trasladarem da vasilha
ao estômago, absteve-se de o fazer, porque os cabreiros os
tiraram da lareira, e, estendendo na terra uns velos de
ovelha, aparelharam azafamados a sua mesa rústica, e
convidaram aos dois com mostras de muito boa vontade para o
que ali havia.
Seis sentaram-se à roda das peles, que era quantos se
contavam na malhada, depois de haverem com grosseiras
cerimónias rogado a D. Quixote que se sentasse numa gamela
que lhe puseram com o fundo para cima. Sentou-se D. Quixote,
ficando Sancho de pé para lhe ir servindo o copo, que era
feito de pau do ar. O amo, reparando-lhe na postura, disselhe:
- Para que vejas, Sancho, o bem que encerra andante
cavalaria, e quão a pique estão os que em qualquer ministério
dela se exercitam, de virem em pouco tempo a ser nobilitados
e estimados do mundo, quero que te sentes aqui ao meu lado e
em companhia desta boa gente, e que estejas tal qual como eu,
que sou teu amo e natural senhor, que comas no meu prato, e
bebas por onde eu beber, porque da cavalaria se pode dizer o
mesmo que se diz do amor: todas as condições iguala.
- Viva muitos anos - respondeu Sancho - mas sou por dizer a
Vossa Mercê, que, tendo eu bem de comer, tão bem e melhor o
comeria em pé e sozinho, como sentado à ilharga de um
imperador; e até (se hei-de dizer toda a verdade) muito
melhor me sabe comer no meu cantinho, sem cerimónias, nem
respeitos, ainda que não seja senão pão e cebola, que os
perus de outras mesas com a obrigação de mastigar devagar,
beber pouco, limpar-me a miúdo, não espirrar nem tossir
quando me for preciso, nem fazer outras coisas, que a solidão
e liberdade trazem consigo. E, portanto Senhor meu, essas
honras que Vossa Mercê me quer dar, por eu ser ministro e
aderente da cavalaria andante, como escudeiro que sou de
Vossa Mercê, troque-as noutras coisas que me sejam mais
cómodas e de melhor proveito; que estas agradeço-lhas, mas
dispenso-as desde já até ao fim do mundo.
79
MIGUEL DE CERVANTES
- Apesar disso hás-de-te sentar, porque quem mais se humilha
mais se exalta.
E, puxando-lhe pelo braço, o obrigou a sentar-se-lhe a par.
No entendiam os cabreiros aquele palavriado de escudeiros e
cavaleiros andantes, e não faziam senão comer e calar e olhar
para os hóspedes, que, com muito garbo e gana, iam embutindo
para baixo tassalhos como punhos. Acabado o serviço da carne,
estenderam sobre as peles cruas grande quantidade de bolotas
aveladas, e meio queijo mais duro como se fosse de argamassa.
Não estava entretanto ocioso o copo; andava em roda tão a
miúdo, já cheio, já vazio como alcatruz de nora, que depressa
se despejou uma quartola, de duas que presentes eram.
Depois que D. Quixote se deu por bem repleto, tomou um
punhado das bolotas, e, considerando-as atentamente, soltou a
voz dizendo:
- Ditosa idade e afortunados séculos aqueles, a que os
Antigos puseram o nome de dourados, não porque nesses tempos
o ouro (que nesta idade de ferro tanto se estima!) se
alcançasse sem fadiga alguma, mas sim porque então se
ignoravam as palavras teu e meu\ Tudo era comum naquela santa
idade; a ninguém era necessário, para alcançar o seu
ordinário sustento, mais trabalho que levantar a mão e
apanhá-lo das robustas azinheiras, que liberalmente estavam
oferecendo o seu doce e sazoado fruto. As claras nascentes e
correntes rios ofereciam a todos, com magnífica abundância,
as saborosas e transparentes águas. Nas abertas das penhas, e
no côncavo dos troncos, formavam as suas repúblicas as
solícitas e discretas abelhas, oferecendo a qualquer, sem
interesse algum, a abundosa colheita do seu dulcíssimo
trabalho. Os valentes sobreiros despegavam de si, sem mais
artifícios que a sua natural cortesia, as suas amplas e leves
cortiças, com que se começaram a cobrir casas sobre rústicas
estacas, sustentadas só para reparo contra as inclemências do
Céu. Tudo então era paz, tudo amizade, tudo concórdia. Ainda
se não tinha atrevido a pesada relha do curvo arado a abrir e
visitar as entranhas piedosas da nossa primeira mãe, que ela,
sem a obrigarem, oferecia por todas as partes do
80
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
seu fértil e espaçoso seio o que pudesse fartar, sustentar, e
deleitar, aos filhos que ento a possuíam. Ento sim, que
andavam as símplices e formosas pastorinhas de vale em vale,
e de outeiro em outeiro, com singelas tranças ou em cabelo,
sem mais vestidos que os necessários para encobrirem
honestamente o que a honestidade quer, e quis sempre, que se
encubra. No eram seus adornos, como os que ao presente se
usam, exagerados com a púrpura de Tiro, e com a por tantos
modos martirizada seda;
eram folhagens de verde bardana e hera entretecidas; com o
que talvez andavam tão garridas e enfeitadas como agora andam
as nossas damas de corte com as raras e peregrinas invenções
que a indústria ociosa lhes tem ensinado. Então expressavamse
os conceitos amorosos da alma simples, tão singelamente
como ela os dava, sem se procurarem artificiosos rodeios de
fraseado para os encarecer. Com a verdade e lhaneza não se
tinha ainda misturado a fraude, o engano, e a malícia. A
justiça continha-se nos seus limites próprios, sem que
ousassem turbá-la nem ofendê-la o favor e interesse, que
tanto hoje a enxovalham, perturbam e perseguem. Ainda se não
tinha metido em cabeça a juiz o julgar por arbítrio, porque
ainda no havia nem julgadores, nem pessoas para serem
julgadas. As donzelas e a honestidade andavam, como já disse,
por toda a parte desguardadas e seguras, sem medo de que a
alheia desenvoltura e atrevimentos lascivos as desacatassem;
se se perdiam era por seu gosto e própria vontade. E agora,
nestes nossos detestáveis séculos, nenhuma está segura, ainda
que a encerre e esconda outro labirinto de Creta, porque lá
mesmo, pelas fendas ou pelo ar, com o zelo do maldito cuidado
lhes entra o amoroso contágio e as faz dar com todo o seu
recato à costa. Para segurança delas, com o andar dos tempos,
e crescendo mais a malícia, se instituiu a ordem dos
cavaleiros andantes, defensora das donzelas, amparadora das
viúvas, e socorredora dos órfãos e necessitados.
Desta ordem sou eu, irmãos cabreiros, a quem agradeço o bom
agasalho e trato que me dais a mim e ao meu escudeiro;
pois, ainda que por lei natural todos os viventes estão
obrigados a favorecer aos cavaleiros andantes, contudo sei
que vós outros, ignorando esta obrigação, me acolhestes e
obsequias-
81
MIGUEL DE CERVANTES
tes; e razo é que eu vos agradeça quanto posso a vossa boa
vontade.
Toda esta larga arenga (que se pudera muito bem dispensar)
improvisou-a o nosso cavaleiro, em razão de lhe ter vindo à
lembrança, a propósito das bolotas que lhe deram, a idade de
ouro; por isso lhe pareceu fazer todo aquele inútil arrazoado
aos cabreiros, que, sem lhe responderem palavra, apatetados e
suspensos, o estiveram escutando.
Sancho também não falava, e ia comendo bolotas, e visitando
muito a miúdo a segunda quartola, que tinham pendurada num
carvalho para ter o vinho mais fresco.
Mais durou a parlanda de D. Quixote do que a ceia. Depois
dela, disse um dos cabreiros:
- Para com mais verdade poder Vossa Mercê dizer Senhor
Cavaleiro Andante, que o agasalhamos de boa mente, queremos
regalá-lo dando-lhe a ouvir um companheiro nosso que está
para chegar. Isso é que é pastor entendido e enamorado; até
sabe ler e escrever, e toca arrabil, que não há mais que
desejar.
Mal acabava o cabreiro, quando se ouviu com efeito um
arrabil, e pouco depois se viu entrar o arrabileiro, que era
um moço dos seus vinte e dois anos, e aprazível presença.
Perguntaram-lhe os companheiros se tinha ceado; e,
respondendo ele que sim, tornou-lhe o que havia feito os
oferecimentos:
- Visto isso, António, poderás dar-nos gosto cantando um
pouco, para que este Senhor Hóspede veja que também cá pêlos
montes e matas há quem saiba de música. Já lhe dissemos as
tuas boas habilidades; desejamos que tu agora lhas mostres e
nos não deixes mentirosos. Por vida tua te rogo, que te
assentes, e cantes o romance dos teus amores, como to compôs
o Beneficiado teu tio, e que muito bem pareceu no povo.
- De boa vontade - respondeu o moço.
E, sem fazer-se mais rogado, sentou-se num cepo de azinheira;
e, temperando o arrabil, dali a pouco começou a cantar com
muita boa graça desta maneira:
82
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
ANTÓNO
Sei Olaia, que me adoras, sem nunca mo teres dito, nem cos
olhos, línguas mudas, que entendem os amorios.
Sei-o sim, porque és discreta;
por isso em tal me confirmo;
todo o amor alcança paga, salvo se é desconhecido.
Verdade é que tenho Olaia, em ti descoberto indícios de teres
a alma de bronze, e o peito de gelo frio.
Mas, através das repulsas e honestíssimos desvios, talvez se
enxergue da espranca um vislumbre fugitivo.
O meu amor se abalança a esperar, sem ter podido nem minguar
por enjeitado, nem crescer por escolhido.
Se amores têm cortesia,
da que tu mostras colijo
que o fim das minhas esp'ranças
há-de ser qual imagino.
E se o bem servir consegue tornar um peito benigno, já tenho
em que funde a crença de obter os bens a que aspiro;
MIGUEL DE CERVANTES
porque, se nisso reparas, às vezes me terás visto vestido à
segunda-feira com as galas do domingo.
As louçainhas e amores seguem o mesmo caminho;
e eu sempre quis aos teus olhos apresentar-me polido.
Por teu respeito não bailo;
as músicas não te cito, que a desoras, e acordando os galos,
terás ouvido.
Não te encareço os louvores com que os teus dotes sublime,
que, se bem que verdadeiros, me fazem de outras malquisto.
Teresa do Barrocal já, louvando-te eu, me há dito:
- Há quem pense adorar anjos, estando a adorar bugios;
milagres dos arrebiques mais dos cabelos postiços, hipócritas
formosuras, que enganam até Cupido.
Desmenti-a; ela enfadou-se;
pôs-se por ela seu primo;
desafiou-me, e bem sabes qual saiu do desafio.
Nem por demais te cortejo, nem para mal te cobiço:
a melhor fim se endereçam minhas atenções contigo.
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Na igreja há prisões de seda para os casais bem unidos mete o
pescoço na canga, que eu sigo o mesmo caminho.
Quando no, desde aqui juro, pelo santo mais bendito, não
sairei destas serras senão para capuchinho.
Com isto deu o cabreiro remate ao seu cantar; e, ainda que D.
Quixote lhe pediu cantasse mais alguma coisa, opôs-se Pança,
que estava mais para dormir, que para ouvir cantorias; e
assim disse ao amo:
- Bem pode Vossa Mercê arranjar-se logo, e já onde tem de
ficar esta noite, que o trabalho, em que estes bons homens
levam o dia todo, não consente noitadas de cantarola.
- Bem percebo, Sancho - respondeu D. Quixote -, as visitas à
quartola pedem mais paga de cama que de músicas.
- A todos sabe ela bem, louvado seja Deus! - respondeu
Sancho.
- Não digo menos - replicou D. Quixote -, mas acomoda-te lá
tu onde quiseres, que os da minha profissão melhor parecem
velando, que dormindo. Mas, apesar de tudo, bom seria,
Sancho, que me tornasses a curar esta orelha, que me está
doendo mais do que era preciso.
Fez Sancho o que se lhe mandava. Um dos cabreiros, vendo a
ferida, lhe disse, que não tivesse cuidado, que ele lhe poria
um remédio, com que breve sararia; e, tomando algumas pontas
de rosmaninho, que por ali era muito basto, as mastigou,
misturou-as com um pouco de sal, e aplicando-as à orelha, a
ligou muito bem, certificando-lhe que não havia precisão de
mais nenhum curativo; e o caso é que assim sucedeu.
85
MIGUEL DE CERVANTES
CAPÍTULO XII
DO QUE REFERIU UM CABREIRO AOS QUE ESTAVAM COM D. QUIXOTE
Quando estavam nisto, chegou outro moço dos que lhes traziam
da aldeia os provimentos, e disse:
- Sabeis o que vai no lugar, companheiros?
- Como havemos de sabê-lo? - respondeu um deles.
- Pois sabei - prosseguiu o moço - que morreu esta manhã
aquele famoso pastor estudante, chamado Crisóstomo; e rosnam
que morreu de amores por aquela endiabrada moça Marcela, a
filha de Guilherme, o rico, a que anda em trajo de pastora
por esses andurriais.
- Por Marcela?! - disse um.
- Por essa mesma - respondeu o cabreiro - e o bonito é que
determinou no testamento que o enterrassem no campo, como se
fora algum mouro, e que seja ao pé da penha, onde está a
fonte do carvalho, porque, segundo é fama (e dizem que ele
mesmo o declarou), ali é que ele a viu pela primeira vez, e
também mandou outras coisas de tal feitio, que os padres do
lugar dizem não se poderem cumprir, nem é bem que cumpram,
porque parecem de gentios. A tudo responde aquele seu grande
amigo Ambrósio, o estudante, que também assim como ele se
vestiu de pastor, que se há-de cumprir tudo sem faltar nada,
como o determinou Crisóstomo. Anda com isto o povo todo
alvorotado;
mas, pelo que se diz, sempre afinal se há-de fazer como
Ambrósio e todos os pastores seus amigos querem, e amanhã o
hão-de ir enterrar com grande pompa onde já disse. Para mim
tenho que há-de ser coisa muito de ver; pelo menos eu no heide
lá faltar, ainda que soubesse no tomar amanhã ao povo.
- O mesmo faremos nós todos - responderam à uma os cabreiros
- e deitaremos sortes, a ver quem há-de ficar guardando as
cabradas todas juntas.
- Dizes bem, Pedro - disse um deles -, mas não é preciso
isso; eu ofereço-me a ficar por todos, e não o atribuas a
virtude, nem a menos curiosidade minha: é porque não posso
andar com o graveto que noutro dia meti neste pé.
86
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Mesmo assim, agradecemos-to - disse Pedro. Pediu D. Quixote
ao mesmo Pedro, lhe declarasse que morto era aquele, e que
pastora a tal, de que se falava.
Respondeu Pedro que o que sabia era só que o morto era um
fidalgo rico, morador num lugar naquelas serras, o qual tinha
sido estudante muitos anos em Salamanca, e ao cabo deles se
recolhera ao seu povo, com fama de muito sábio e lido.
Principalmente dizia que sabia a ciência das estrelas, e do
que fazem lá pelo céu o Sol e a Lua, porque pontualmente
declarava as crises do Sol e da Lua.
- Eclipse se chama, e não cris o escurecerem-se esses dois
luminares maiores - disse D. Quixote.
Pedro, sem fazer caso de ninharias, prosseguiu o seu conto,
dizendo:
- Até adivinhava se o ano havia de ser sáfaro ou estil.
- Estéril quereis dizer, amigo - acudiu D. Quixote.
- Estéril ou estil tudo vem a dar na mesma - respondeu Pedro
- e digo que por aquelas coisas que ele entendia se fizeram
seu pai, e seus amigos, que nele se fiavam, muito ricos,
porque executavam os seus conselhos, dizendo-lhes: este ano
semeai cevada e não trigo; neste podeis semear grãos-de-bico
e não cevada; o que vem será de óleo de linhaça, e nos três
seguintes não haverá nem gota.
- Ciência é essa que se chama Astrologia - disse D. Quixote.
- Como se chama não sei - replicou Pedro -, o que sei é que
tudo isto sabia ele, e muito mais ainda. Finalmente, não
passaram muitos meses depois de vir de Salamanca, sem o verem
um dia aparecer vestido de pastor com o seu cajado e pelico,
sem a roupeta que dantes envergava como estudante. Outro,
chamado Ambrósio, seu grande amigo, também juntamente se
vestiu de zagal, assim como dantes havia sido seu companheiro
dos estudos. Já me ia esquecendo dizer que o defunto, o
Crisóstomo, foi grande homem em compor coplas; tanto assim
que era ele quem fazia os vilancicos para a noite de Natal, e
os autos para a festa do Corpo de Deus, que os representavam
os rapazes do nosso povo, e todos diziam que não havia mais
que desejar. Admirados ficaram os do lugar, vendo tão a
súbitas
87
MIGUEL DE CERVANTES
vestidos de pastores os dois estudantes; e não podiam
adivinhar a causa de tão estranha mudança. Já a esse tempo se
era finado o pai do nosso Crisóstomo, deixando-lhe um poderio
de fazenda, tanto em móveis, como em bens de raiz, e
quantidade não pequena de gado miúdo e grosso, e dinheiro que
farte; do que tudo ficou o moço senhor absoluto; e verdade,
verdade, que tudo isso merecia ele, que era muito bom
companheiro, caritativo e amigo dos bons, e tinha uma cara de
abençoado. Depois é que se veio a alcançar, que a mudança do
trajo nenhuma outra razão tinha tido, senão o andar-se por
estes despovoados atrás daquela pastora Marcela, que o nosso
pegureiro já nomeou, e da qual se tinha namorado o pobre
defunto do Crisóstomo. E agora vos quero dizer, porque é bem
que o saibais, quem seja esta cachopa; coisa semelhante,
nunca talvez em dias de vida a ouvísseis, nem ouvireis, ainda
que vivais mais anos que Sarna.
- Dizei Sara - replicou D. Quixote, não podendo sofrer ao
cabreiro a troca de palavras.
- A sarna vive por desespero - respondeu Pedro -; se me
haveis de andar remordendo a cada passo as palavras, nem num
ano concluiremos.
- Perdoai, amigo - disse D. Quixote -, mas tão diferentes
coisas são sarna e Sara, que por isso vos fui à mão; mas vós
respondestes muito bem, porque mais vive no mundo a sarna do
que viveu Sara. E prossegui a vossa história, que vos não
tomarei a atalhar em coisa alguma.
- Digo, pois Senhor meu da minha alma - continuou o cabreiro
-, que houve em nossa aldeia um lavrador ainda mais rico do
que o pai de Crisóstomo, e que se chamava Guilherme, e a quem
Deus, ainda por cima das muitas e grandes riquezas, concedeu
uma filha, que logo ao nascedouro ficou sem a mãe, que fora a
mais honrada mulher que houve por todos estes arredores.
Parece-me que ainda a estou vendo, com aquela cara, que de
uma banda tinha o Sol, e da outra a Lua; e, além de tudo
mais, grande arranjadeira, e ao mesmo tempo muito amiguinha
dos pobres; pelo que entendo que a estas horas deve estar a
sua alma a goar-se de Deus no outro mundo. Com pesar da morte
de tão boa mulher, morreu o marido Guilherme, deixan-
88
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
do a filha Marcela, pequena e rica, em poder de um tio
sacerdote, Beneficiado no nosso lugar. Cresceu a menina tanto
em formosura, que nos fazia lembrar da de sua mãe, que também
nisso se extremara; e já se futurava que a herdeira a
excederia. E assim sucedeu que aos catorze ou quinze anos,
ninguém a via que não desse graças a Deus de ter criado
tamanha lindeza. Quase todos ficavam enamorados e perdidos
por ela. Guardava-a seu tio com muito recato e recolhimento;
mas, apesar disso, a fama da sua muita beleza se estendeu de
maneira que, assim por ela como por suas muitas riquezas, não
somente pêlos do nosso povo, senão até pêlos de muitas léguas
em redondo, e dos melhores dentre eles, era rogado,
solicitado, e importunado o tio para lha dar em casamento.
Ele, porém, que era bom cristão às direitas, ainda que
desejava casá-la cedo, não queria efectuá-lo sem
consentimento dela, vendo-a na idade de acertar na escolha.
Ele, por si, nenhum caso fazia dos interesses que poderia
dar-lhe o administrar os haveres da sobrinha enquanto
solteira;
e à f é que assim se dizia muitas vezes em louvor do bom
sacerdote nos serões da aldeia (que há-de saber Senhor
Andante, que nisto dos lugarejos pequenos, de tudo se trata,
e de tudo se murmura; e fazei de conta, como eu, que
muitíssimo bom devia de ser o clérigo, que assim obrigava os
fregueses a dizerem bem dele em trrinhas como estas).
- Isso é verdade - disse D. Quixote - e prossegui a
narrativa, que vai muito bem; e vós, bom Pedro, que a fazeis
com muita graça.
- Não me falte a de Nosso Senhor, que é o que mais importa.
Pelo que toca ao sucesso, heis-de saber que, ainda que o tio
propunha à sobrinha, e lhe dizia as qualidades de cada um dos
muitos que por mulher a pediam, para ela escolher a seu
gosto, nunca ela lhe respondeu senão que por então não queria
casar-se, e que, por ser ainda tão nova, se não sentia com
forças para a carga do matrimónio. Ouvindo estas desculpas
que dava, ao parecer tão atendíveis, já o tio deixava de
importuná-la, e ia esperando que fosse entrando mais em
idade, para bem escolher companhia do seu gosto; porque dizia
ele (e dizia muito bem) que os pais não deviam dar estado aos
filhos contra von-
89
MIGUEL DE CERVANTES
tade. Mas eis que um dia, quando ninguém de tal se precatava,
aparece feita pastora a mimosa Marcela; e, sem vénia do tio,
nem aprovação de pessoa alguma do lugar, deu em ir-se ao
campo com as mais guardadoras de gado, pastoreando também o
seu. Tanto como ela saiu a público daquela maneira, e se viu
a descoberto a sua formosura, não vos posso dizer à justa
quantos ricos mancebos, fidalgos e lavradores, tomaram o
trajo de Crisóstomo, e a andam requebrando por esses campos.
Um deles, como já se disse, foi o nosso defunto, de quem
diziam que não lhe queria, senão que a adorava. E não se
cuide, que, por ela se ter posto naquela liberdade, e vida
tão solta, e de tão pouco ou de nenhum recolhimento, dava
indícios (nem por sombras) de coisa que desdissesse da sua
honestidade e recato;
antes é tanta a vigilância com que olha por sua honra, que de
quantos a servem e solicitam nenhum ainda se gabou, nem com
verdade se poderá jamais gabar, de haver dela obtido alguma
pequena esperança de lograr os seus desejos. Não é que fuja
nem se esquive da companhia e convivência dos pastores, senão
que os trata cortês e amigavelmente; mas, em qualquer deles
chegando a descobrir-lhe a sua intenção, ainda que seja tão
justa e santa como a do matrimónio, afugenta-o que nem
trabuco. Com estes procederes, faz mais dano nesta terra do
que se por ela entrara a peste, porque a sua afabilidade e
formosura atrai os corações dos que tratam com ela a que se
lhe rendam e a amem; e o seu desdém e desengano os conduzem a
termos de desesperação; e assim não sabem que lhe dizer,
senão chamá-la a vozes cruel e desagradecida, com outros
títulos semelhantes a estes, que bem manifestam qual seja a
sua condição. Se aqui estivésseis algum dia, ouvieis ressoar
estas serras e estes vales com os lamentos dos desprezados
que a seguem. Não está muito longe daqui um sítio, onde há
quase duas dúzias de faias altas, e nenhuma que deixe de ter
gravado na casca o nome de Marcela, e nalgumas uma coroa
gravada por cima do nome, como se expressamente assim
declarara o amante, que Marcela a merece e a alcança de toda
a formosura humana. Aqui suspira um pastor; ali se queixa
outro; acolá se ouvem amorosas canções; para outra parte
desesperadas endechas. Tal há, que passa
90
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
todas as horas da noite sentado ao pé de alguma azinheira ou
penha; e ali, sem pregar os chorosos olhos, embevecido e
transportado em seus pensamentos, o acha de manhã o Sol. E
tal há também, que, sem dar vaga nem trégua aos seus
suspiros, no meio do ardor da mais enfadosa sesta do Verão,
estendido sobre a ardente areia, envia suas queixas ao
piedoso Céu. Destes e daqueles, e daqueles e destes, livre e
desenfadadamente vai triunfando a formosa Marcela. Todos nós
outros, que a conhecemos, estamos à espera de ver em que virá
a parar sua altiveza, e quem será o ditoso que domine ao cabo
condição tão rigorosa, e se goze de lindeza tão perfeita. Por
ser tudo que deixo contado verdade tão averiguada, entendo
que também o é o que o nosso zagal ouviu que se dizia da
causa da morte de Crisóstomo. E assim vos aconselho Senhor,
não deixeis de assistir amanhã ao enterro, que há-de ser
muito para ver, porque os amigos de Crisóstomo são muitos, e
daqui ao lugar onde ele mandou que o enterrassem não dista
meia légua.
- Não me hei-de descuidar - disse D. Quixote - e agradeço-vos
o gosto que me haveis dado com a narração de tão saboroso
conto.
- E ainda eu não sei a metade dos casos sucedidos aos amantes
de Marcela - replicou o cabreiro - mas não era impossível
encontrarmos amanhã pelo caminho algum pastor que no-los
dissesse. E por agora, bem será que vos vades dormir debaixo
de telha, porque o sereno vos poderia fazer mal à ferida,
posto que o meu remédio é tal, que não tendes muito de que
vos recear.
Sancho Pança, que já dava ao Diabo o tão estirado falar do
cabreiro, fez por sua parte diligência para que o amo fosse
pernoitar na choça de Pedro. Assim o fez D. Quixote; e o mais
da noite o levou em memórias de sua Sr. Dulcineia, à imitação
dos namorados de Marcela.
Sancho Pança lá se acomodou entre Rocinante e o seu jumento,
e dormiu, não como amante desfavorecido, senão como homem
moído a couces.
91
MIGUEL DE CERVANTES
CAPÍTULO XIII
EM QUE SE DÁ FIM AO CASO DA PASTORA MARCELA,
COM OUTROS SUCESSOS
Mal que o dia começou a aparecer nas varandas do Oriente,
quando dos seis cabreiros cinco se levantaram, e foram
despertar a D. Quixote, e perguntar-lhe se estava ainda
resolvido a ir ver o famoso enterro de Crisóstomo, que, sendo
assim, eles lhe fariam companhia.
D. Quixote, que outra coisa não desejava, levantou-se, e
ordenou a Sancho que aparelhasse o Rocinante e albardasse o
burro com presteza, o que ele fez; e assim se puseram logo
todos a caminho.
Não tinham andado um quarto de légua, quando, ao atravessarem
uma senda, viram vir para eles obra de seis pastores vestidos
com pelicos negros, e as cabeças coroadas com grinaldas de
cipreste e amargoso eloendro; e empunhava cada um sua vara
grossa, vindo no mesmo rancho dois fidalgos a cavalo, para de
jornada muito bem vestidos, e com três moços, que a pé os
acompanhavam.
Logo que chegaram uns aos outros, saudaram-se cortesmente de
parte a parte, e, perguntando-se mutuamente para onde iam,
souberam que todos eles iam para o lugar do enterro; e assim,
deram em caminhar de parceria. Um dos de cavalo disse para o
companheiro:
- Parece-me, Sr. Vivaldo, que havemos de dar por bem
empregada a demora que tivermos em ver este famoso
enterramento, que bem famoso não pode ele deixar de ser,
segundo as estranhezas que estes pastores nos têm contado,
tanto do morto, como da pastora sua homicida.
- Ainda acho eu também - respondeu Vivaldo -; não só um dia
gastara eu, senão até quatro, pelo interesse de presenciar
esta novidade.
Perguntou-lhe D. Quixote o que era que tinham ouvido de
Marcela e Crisóstomo. Respondeu-lhe um dos caminhantes, que
de madrugada se tinham encontrado com aqueles pastores, e,
92
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
pêlos terem visto em concerto de tanto desconsolo, lhes
tinham perguntado a razo por que iam daquela maneira.
Contara-lha um deles, encarecendo-lhes a estranha condição e
formosura de uma pastora chamada Marcela, os amores de muitos
que a requestavam, e a morte daquele Crisóstomo, a cujo
saimento iam. Finalmente, confirmou sem discrepância o mesmo
que já o Pedro havia contado a D. Quixote.
Desta prática passou-se a outra, perguntando o que se chamava
Vivaldo ao nosso fidalgo, por que motivo andava armado
daquela maneira, por terra tão pacífica.
- O exercido que professo - respondeu D. Quixote - no me
deixa jomadear de outra maneira. O bom passadio, o regalo e o
descanso inventaram-se para os cortesãos mimosos; mas o
trabalho, o desassossego e as armas fizeram-se para aqueles
que o mundo chama cavaleiros andantes, dos quais eu, ainda
que indigno, sou um, e o mínimo de todos.
Apenas tal lhe ouviram, ficaram-no desde logo tendo por
desconcertado do juízo; e, para examiná-lo melhor, e
reconhecer que género de desvario era o seu, tornou Vivaldo a
perguntar-lhe, que vinham a ser cavaleiros andantes.
- Nunca leram Vossas Mercês - respondeu D. Quixote - os anais
e histórias de Inglaterra, que tratam das famosas façanhas do
rei Artur, a quem geralmente em nosso romance castelhano
chamamos o Rei Artus, e de quem é tradição, antiga e comum em
todo aquele reino da Grã-Bretanha, que não morreu, mas sim
que por arte de encantamento se converteu em corvo, e que,
andando os tempos, há-de outra vez reinar, recobrando o seu
reino e ceptro, sendo por esta razão que ninguém é capaz de
provar que desde então até hoje inglês nenhum tenha morto
corvo? Pois bem; em tempo daquele bom rei, foi instituída
aquela famosa Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda, e
ocorreram (como pontualmente ali se conta) os amores de D.
Lançarote do Lago com a rainha Ginevra, sendo neles
medianeira e sabedora aquela tão honrada D. Quintanhona, de
onde procedeu aquele tão sabido romance, e tão decantado em
nossa Espanha, de:
93
MIGUEL DE CERVANTES
Nunca fora cavaleiro de damas tão bem servido como fora
Lançarote de Bretanha arribadiço;
com toda a mais série, tão doce e suave, das suas amorosas e
fortes façanhas. Pois desde então se foi de mão em mão
dilatando aquela ordem de cavalaria, por muitas e diversas
partes do mundo. Nela foram famosos, e conhecidos por seus
feitos o valente Amadis de Gaula, com todos os seus filhos e
netos até à quinta geração, o valoroso Felismarte de
Hircânia; o nunca assaz louvado Tirante-el-Blanco; e quase já
em nossos dias vimos, ouvimos, e tratámos, ao invencível e
generoso cavaleiro D. Belianis da Grécia. Ora aqui está, meus
Senhores, o que é ser cavaleiro andante; e o que referido
tenho é a ordem da sua cavalaria, na qual (como também já
disse) eu, ainda que pecador, fiz profissão; e o mesmo que
professaram os cavaleiros mencionados professo eu também; por
isso ando por estas solidôes e descampados buscando as
aventuras, com ânimo deliberado de oferecer o meu braço e a
minha pessoa à mais perigosa que a sorte me deparar, em ajuda
dos fracos e necessitados.
Por tudo isto, acabaram os ouvintes de se inteirar da falta
de juízo de D. Quixote, e da espécie de loucura que o
dominava; do que os tomou a mesma admiração, que a todos os
que pela primeira vez a presenciavam.
Vivaldo, que era sujeito muito discreto e de génio alegre,
para suavizar o fastio do pouco espaço que diziam lhes
restava ainda para andar até à serra da sepultura, quis darlhe
ocasião para que levasse por diante os seus desatinos, e
disse-lhe:
- Parece-me, Senhor Cavaleiro, que a profissão de Sua Mercê é
das mais apertadas que há no mundo; e persuado-me de que nem
a dos frades cartuxos é tão rigorosa.
- Tão rigorosa talvez que o seja - respondeu o nosso D.
Quixote -, porém, táo necessária, duvido muito; porque, se se
há-de dizer toda a verdade, não faz menos o soldado que
executa o que lhe manda o capitão, do que o próprio capitão,
que lho ordena. Venho a dizer que os religiosos, com toda a
paz e
94
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
sossego, pedem ao Céu o bem da Terra; e nós, os soldados e
cavaleiros, executamos o que eles só requerem, porque a
defendemos com o valor do nosso braço, e ao fio da nossa
espada, não debaixo de tecto, mas em campo descoberto,
oferecidos em alvo aos insofridos raios do Sol do Verão, e
aos arrepiados gelos do Inverno. Deste modo, somos ministros
de Deus na Terra, e braço pelo qual se executa no mundo a Sua
justiça. E como as coisas da guerra, e as concernentes a
elas, não se podem pôr em execução senão suando, cansando e
trabalhando excessivamente, segue-se que os que a professam
têm sem dúvida maior trabalho que os outros, que em sossegada
paz estão pedindo a Deus que favoreça aos que podem pouco.
Não quero eu dizer (nem pelo pensamento me passa) que é tão
bom estado o de cavaleiro andante, como o de religioso na sua
clausura; só quero inferir que isto que eu padeço é sem
comparação mais trabalhoso e aperreado, mais faminto e
sedento, miserável, roto, e bichoso, pois é certíssimo que os
cavaleiros andantes passados contavam muitas aventuras ruins
no decurso de suas vidas, e, se alguns chegavam a ser
imperadores, pelo esforço do seu braço, à fé que bastante
suor e sangue lhes custou; e se àqueles, que a tais graus
subiram, houvessem faltado encantadores e sábios para os
ajudarem, bem defraudados teriam ficado de suas esperanças.
- Desse parecer também eu sou - disse o caminhante - mas há
uma coisa, entre outras muitas, que me destoa da boa razão
nos cavaleiros andantes; e é, que, vendo-se em ocasião de
cometerem uma grande e perigosa aventura, em que a vida lhes
vai num fio, nunca nesses apurados lances se lembram de
encomendar-se a Deus, como qualquer outro cristão; a que se
encomendam é às suas damas, com tanta ânsia e devoção, como
se o Deus fossem elas; o que para mini cheira o seu tanto a
coisas de pagão.
- Senhor meu - disse D. Quixote -, isso é que por maneira
nenhuma pode deixar de ser assim; e mal iria ao cavaleiro
andante que outra coisa fizesse. Isto é já uso autorizado, e
posse velha na cavalaria andantesca; a saber: que, se o
cavaleiro andante, ao acometer algum grande feito de armas,
tivesse a sua senhora diante, poria nela os olhos branda e
amorosamen-
95
MIGEL DE CERVANTES
te, como pedindo-lhe que o favorecesse no duvidoso transe em
que se ia empenhar; e, ainda que ninguém o ouvisse, estaria
obrigado a proferir palavras entre dentes, com as quais de
todo o coração se lhe encomendasse; do que vemos inumeráveis
exemplos nas histórias. No se há-de entender por isto que
hão-de deixar de encomendar-se a Deus, que tempo e lugar lhes
ficam para o fazerem no decurso do conflito.
- Seja assim - respondeu o outro - mas ainda me fica um
escrúpulo. Muitas vezes tenho lido que se travam ditos entre
dois andantes cavaleiros, que de palavra em palavra se lhes
chega a acender a cólera, voltam os cavalos, tomam o campo, e
para logo, sem mais nem menos, a todo o poder deles, tomam a
encontrar-se, e no meio da corrida se encomendam às suas
damas. O que do recontro costuma resultar é que um cai pelas
ancas do cavalo, passado de parte com a lança do outro; e ao
outro sucede também, que, a não se agarrar às crinas do seu,
não pudera deixar de vir também a terra. Não sei como o morto
poderia ter azo para se recomendar a Deus no decurso de tão
acelerado feito. Melhor fora, que as palavras, que na
carreira gastou em se encomendar à sua cortejada, as
empregasse no que estava obrigado como cristão. E demais, eu
tenho para mim, que nem todos os cavaleiros andantes hão-de
ter damas a quem se encomendem, porque nem todos serão
enamorados.
- Nisso é que vai o erro - respondeu D. Quixote -; digo que
não pode existir cavaleiro andante sem dama, porque tão
próprio e natural assenta nos que o são serem enamorados,
como no céu o ter estrelas; e onde com efeito se viu nunca
história de cavaleiro andante sem amores? Se os não tivesse,
não fora tido por legítimo cavaleiro, senão por bastardo, e
que entrou na fortaleza da dita cavalaria não pela porta, mas
por alguma fresta como ladrão.
- Apesar de tudo - replicou o caminheiro - parece-me (se bem
me lembra) ter lido que D. Galaor, irmão do valoroso Amadis
de Gaula, nunca teve dama em particular a quem pudesse
encomendar-se; e nem por isso foi tido em menos conta, e foi
muito valente e famoso cavaleiro.
Ao que respondeu o nosso D. Quixote:
96
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Senhor meu, uma andorinha só não faz Primavera; quanto
mais, que eu sei que esse cavaleiro estava secretamente
enamorado, e muito enamorado; e, demais, aquilo de querer bem
a todas quantas lhe pareciam bem a ele era génio seu, e não
lhe podia resistir. Mas, afinal de contas, averiguado está já
que tinha só uma a quem fizera senhora do seu alvedrio, e a
quem se encomendava a miúdo e muito secretamente, porque
timbrava de sisudo cavaleiro.
- Visto isso, sendo essencial que todo o cavaleiro há-de ser
por força enamorado - disse o outro - também o é, por ser da
profissão; e a não ser que Vossa Mercê capriche em ser tão de
segredo como D. Galaor, com o maior empenho lhe rogo, em nome
de toda a companhia, e no meu próprio, nos diga o nome,
pátria, qualidade, e formosura da sua dama; ditosa se
julgaria ela de que o mundo todo soubera que é amada e
servida por um tal cavaleiro como Vossa Mercê parece.
Aqui soltou D. Quixote um grande suspiro, e disse:
- Não poderei afirmar se a minha doce inimiga gosta, ou não,
de que o mundo saiba que eu a sirvo. Só posso dizer, em
resposta ao que tão respeitosamente se me pede, que o seu
nome é Dulcineia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a
sua qualidade há-de ser, pelo menos, princesa, pois é rainha
e Senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se
realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de
formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são
ouro; a sua testa campos elísios; suas sobrancelhas arcos
celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios
corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore
o seu peito; marfim as suas mãos; sua brancura neve; e as
partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são
tais (segundo eu conjecturo) que só a discreta consideração
pode encarecê-las, sem poder compará-las.
- Estimaríamos saber a sua linhagem, prosápia e nobreza -
replicou Vivaldo.
Ao que D. Quixote respondeu:
- Não é dos antigos Cúrcios, Gaios e Cipiões romanos; nem dos
modernos Colonas e Ursinos; nem dos Mneadas e Requesenes, de
Catalunha; nem dos Rebelas e Vilanovas, de
97
MIGUEL DE CERVANTES
Valencia; Palafozes, Nuzas, Rocabertis, Coreias, Limas,
Alagões, Urreas, Fozes e Gurrêas, de Aragão; Cerdas,
Manriques, Mendonças e Gusmões, de Castela; Alencastres,
Palhas e Meneses, de Portugal; porém descende dos de Toboso
da Mancha, linhagem, se bem que moderna, tal, que pode dar
generosa raiz às mais ilustres famílias dos vindouros
séculos. E não me repliquem a isto, a não ser com as
condições que pôs Cervino ao pé do trofeu das armas de
Orlando, que dizia:
....... Ninguém as mova
que entrar não possa com Roldão em prova.
- Se bem que o meu sangue é dos ínclitos Cachopins de Laredo
- respondeu o caminhante -, não me atreverei a confrontá-lo
com o dos de Toboso da Mancha, ainda que, para dizer toda a
verdade, semelhante apelido ainda até hoje não tenha chegado
aos meus ouvidos.
- Apelido semelhante a este, bem o podereis dizer - replicou
o cavaleiro D. Quixote.
Com grande atenção iam escutando todos os mais o diálogo dos
dois; e até os mesmos cabreiros e pastores conheceram a
excessiva falta de juízo de D. Quixote. Somente Sancho é que
pensava ser verdade tudo que o amo dizia, aliás quem ele era,
e tendo-o conhecido de nascença; em que punha alguma dúvida
era crer naquilo da linda Dulcineia dei Toboso, porque nunca
tal nome nem tal princesa lhe havia chegado a notícia, em ser
Toboso tão à beira da terra dele.
Nestas práticas iam, quando viram que na quebrada de dois
montes altos vinham uns vinte pastores, todos com pelicos de
lã preta e coroados de grinaldas, que (pelo que depois se
reconheceu) eram umas de teixo, outras de cipreste.
Entre seis deles traziam umas andas cobertas de muita
diversidade de flores e ramos.
Vendo aquilo um dos cabreiros, disse:
- Os que ali vêm são os que trazem o corpo de Crisóstomo;
e ao pé daquela montanha é o lugar onde ele ordenou que o
sepultassem.
98
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Deram-se portanto pressa em chegar; e foi a tempo, que já os
que vinham tinham posto as andas em terra e quatro deles
estavam cavando a sepultura ao lado de uma penha.
Receberam-se uns aos outros cortesmente; e logo D. Quixote e
os que vinham com ele se puseram a considerar as andas, e
nelas descobriram, amantilhado com flores, um defunto vestido
de pastor, de idade (ao parecer) de trinta anos, que, apesar
da morte, mostrava que em vida havia sido de rosto formoso e
disposição galharda. À roda de si tinha nas mesmas andas
alguns livros e papéis, uns abertos e outros fechados; e
tanto os que aquilo contemplavam, como os que abriam a cova e
todos os mais que ali eram, guardavam um maravilhoso
silêncio; até que um dos que trouxeram o morto disse para
outro:
- Repara bem, Ambrósio, se será aqui o lugar que disse
Crisóstomo, pois quereis que tão pontualmente se cumpra o que
determinou.
- E este mesmo - respondeu Ambrósio -, que muitas vezes aqui
me contou o meu desditoso amigo a história da sua desgraça.
Aqui me disse ele, que viu pela primeira vez aquela inimiga
mortal da raça humana; e foi também aqui, que pela primeira
vez lhe declarou seu pensamento tão honesto como enamorado; e
aqui, finalmente, foi a última vez que Marcela o acabou de
desenganar do seu desdém, de modo que terminou a tragédia da
sua vida miserável. Por isso aqui foi, em memória de tantas
desditas, que ele determinou que o depositassem nas entranhas
do eterno esquecimento.
Voltando-se para D. Quixote e para os assistentes,
prosseguiu, dizendo:
- Este corpo Senhores, que estais vendo com olhos piedosos,
foi depositário de uma alma em que o Céu encerrou infinita
parte das suas riquezas. Esse é o corpo de Crisóstomo, que
foi único em engenho, único em cortesia, extremo em
gentileza, fénix na amizade, magnífico sem senão, grave sem
presunção, alegre sem baixeza, e, finalmente, primeiro em
tudo que é ser bom, e sem segundo em tudo que é ser
desafortunado. Quis bem, foi aborrecido; adorou, foi
desprezado; rogou a uma fera, importunou a um mármore, correu
atrás do vento, deu brados
99
MIGUEL DE CERVANTES
à solidão, serviu ao desagradecimento, e alcançou por prémio
ser despojo da morte no meio da carreira da sua vida, à qual
deu fim uma pastora, a quem ele procurava eternizar para que
vivesse na memória das gentes; o que bem poderiam mostrar
esses papéis que estais vendo, se ele me no tivesse
recomendado que os entregasse ao fogo logo que o seu corpo
tivesse sido dado à terra.
- Maior rigor e crueldade usareis vós com eles - disse
Vivaldo - que o seu mesmo dono, pois não é justo nem acertado
se cumpra a vontade de quem ordena o que é tão fora de todo o
discorrer assisado; e errado andaria Augusto César, se
consentisse em que se executasse o que o divino Mantuano
tinha recomendado no seu testamento. Portanto, Sr. Ambrósio,
já que dais o corpo do vosso amigo à terra, não queirais dar
também os seus escritos ao esquecimento. Ele ordenou, como
agravado, o que não é bem que vós cumprais por indiscrição.
Fazei antes, dando a vida a estes papéis, que fiquem para
todo sempre lembrando a crueldade de Marcela, para exemplo
aos que vierem, que se apartem e fujam de cair em semelhantes
despenhadeiros. Eu e quantos aqui somos já sabemos a história
deste vosso enamorado e atribulado amigo, assim como sabemos
a vossa lealdade, a ocasião da sua morte e a sua última
vontade. De toda esta lamentável história se pode concluir
quanta não foi a crueza de Marcela, o amor a sua vítima, o
extremo do vosso bem querer, e o fim a que vão dar os que à
rédea solta correm pela senda que o amor desvairado lhes abre
diante dos olhos. Ontem à noite soubemos a catástrofe de
Crisóstomo, e que neste lugar havia de ser enterrado; e
assim, por curiosidade e lástima, deixámos o caminho em que
íamos, e assentámos em vir ver por nossos olhos o que tanto
nos tinha consternado quando o ouvimos; e em paga desta
paixão e do desejo que em nós outros nasceu de remediarmos o
que pudéssemos, te rogamos, ó discreto Ambrósio (ao menos eu
to suplico da minha parte), que, deixando de abrasar estes
papéis, me consintas levar alguns deles.
Sem esperar resposta do pastor, estendeu a mão, e tomou
alguns dos que mais perto lhe estavam.
100
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Vendo aquilo, Ambrósio, disse:
- Por cortesia, senhor meu, consentirei que fiqueis com os
que tomastes; mas cuidardes que hão-de deixar de arder os que
restam é pensamento vo.
Vivaldo, que desejava ver o que os papéis rezavam, abriu logo
um deles e viu que tinha por título: Canção Desesperada.
Ouviu Ambrósio, e disse:
- Esse é o último papel que o sem-ventura escreveu; e para
que vejais, Senhor, o extremo em que o tinham as suas
desgraças, lede-o de modo que sejais ouvido; bem vos dará
tempo a demora de se abrir a sepultura.
- Da melhor vontade o farei - respondeu Vivaldo. E como todos
os circunstantes tinham o mesmo desejo, puseram-se-lhe em
derredor, e ele, lendo em voz clara, viu que falava assim:
CAPITULO XIV
ONDE SE PÕEM OS VERSOS DESESPERADOS DO PASTOR DEFUNTO,
COM OUTROS IMPREVISTOS SUCESSOS
Pois desejas, cruel, que se publique
de boca em boca, e vá de gente em gente,
do teu rigor a nunca vista força;
farei que o mesmo inferno comunique a este peito aflito um
som veemente e à minha voz o usual estilo torça.
E a par do meu desejo, que se esforça a contar minha dor e
tuas façanhas, da voz tervel brotará o acento;
e nele envoltos por maior tormento pedaços destas míseras
entranhas.
101
MIGEL DE CERVANTES
Escuta, pois, e presta atento ouvido, não a aprazíveis sons,
sim ao ruído, que desde o abismo do meu triste peito,
obrigado de indómito delírio, sai para meu martírio e teu
despeito.
O rugir do leão; do lobo fero
o ulular temeroso; o silvo horrendo
da escamosa serpente; o formidável
som de algum negro monstro; o grasno austero da gralha, ave
de agouro; o mar fervendo em luta cum tufão incontrastável;
de já vencido touro o inamansável bramido; os ais da lúgubre
rolinha na viuvez; o consternado canto do aborrecido mocho, a
par co pranto do inferno todo, soem na dor minha,
e saia com esta alma exasperada uma explosão de música
aterrada, de confusão para os sentidos todos;
pois a pena cruel que em mim padeço pede co seu excesso
estranhos modos.
De confusão tamanha ecos sentidos pelas praias do Tejo não
ressoem;
nem do Bétis nos ledos olivedos;
por ali meus queixumes esparzidos
por cavernas e penhas não ecoem
para o mundo os terveis meus segredos;
vão por escuros vales, por degredos de ermas praias a humano
trato alheias, ou por onde jamais se enxergue dia, ou pela
seca Líbia, onde se cria venenosa ralé de pragas feias;
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
que inda que nesses paramos sem termo ninguém me escute os
ais do peito enfermo, nem ouça o teu rigor tão sem segundo,
por privilégio de meus curtos fados serão levados aos confins
do mundo.
São veneno os desdéns; uma suspeita, ou verdadeira ou falsa,
desespera;
e os zelos matam com rigor mais forte.
Ausência larga à morte nos sujeita;
contra um temer olvido não se espera remédio no esperar
ditosa sorte.
No fundo disso tudo há certa a morte;
mas eu (milagre nunca visto!) vivo zeloso, ausente,
desdenhado, e certo das suspeitas a que anda o peito aberto,
e do olvido em que o fogo em dobro avivo.
E entre tanto tormento, ao meu desejo nem uma luz de alívio
ao longe vejo, nem já sequer fingi-la em mim procuro;
antes, para requinte de querela, estar sem ela eternamente
juro.
Pode-se juntamente, porventura,
esperar e temer? E onde os temores
têm mais razão que a esp'ranca, há-de esperar-se?
Debalde os olhos furto à sina escura;
pelas feridas dalma os seus negrores não cessam um momento de
mostrar-se.
Quem pode à desconfiança recusar-se, quando tão claramente se
estão vendo os desdéns e os motivos de suspeitas? Ai verdades
em fábulas desfeitas! ai câmbio infausto, lastimoso,
horrendo!
MIGEL DE CERVANTES
Ó do reino de amor eros tiranos zelos! dai-me um punhal;
desdéns insanos, um baraço! um baraço! sorte crua celebras
tua última vitória;
não há memória atroz igual à tua.
Eu enfim morro e porque nunca espere que a morte me ressarça
o mal da vida, persistirei na minha fantasia.
Direi que anda acertado quem prefere a tudo o bem-querer, que
a mais rendida alma é a que de mais livre se gloria.
Direi que a minha algoz não acho ímpia senão que de alma,
qual de corpo, é bela;
que eu tenho a culpa, eu só, de sua fereza;
que os males que nos causa com certeza não se opem ao tão
justo império dela.
Com esta crença e um rigoroso laço, da morte acelerando o
extremo passo, a que me hão seus desprezs condenado, darei
pendente ao vento corpo e alma sem louro ou palma de outro e
melhor fado.
Com tantas sem-razões, puseste clara a causa por que odeio e
enjeito a vida, e pelas próprias mãos a lanço fora.
De tudo hoje razão se te depara;
profunda e peçonhenta era a ferida;
de não mais a sofrer me eximo agora.
Se por dita conheces nesta hora
que o claro céu dos olhos teus formosos
não é razão que eu turbe, evita o pranto;
tudo que por ti dei não vale tanto que mo pagues com olhos
lacrimosos.
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Antes a rir na ocasião funesta mostra que este meu fim é tua
festa. Louco é quem aclarar-to assim se atreve sabendo ser-te
a ânsia mais querida que a negra vida me termine em breve.
Vinde, sedes de Tântalo; penedo de Sísifo; ave atroz que róis
a Tício;
vem, roda de Égio com giro eterno;
Vinde a mim, vinde a rnim; não é já cedo tartáreo horror do
mais cruel suplício, urnas de ímpias irms, cansado Inferno.
Quantos sofrem tormento mais interno, vejam que igual cá
dentro me trabalha;
e se a suicida exéquias são devidas, cantem-nas em voz baixa,
e bem sentidas, ao morto, a quem faltou até mortalha.
E o porteiro infernal dos três semblantes, cos outros
monstros mil extravagantes, soltem-me o De profundis, pois
entendo ser esta a pompa única devida do amante suicida ao
caso horrendo.
Canção desesperada, não te queixes quando a chorar na solidão
me deixes;
se a glória dela no meu mal consiste, e o perdimento meu lhe
traz ventura, já minha sepultura é menos triste.
Bem pareceu aos ouvintes a canção de Crisóstomo, ainda que o
leitor disse, que a achava dissonante do que tinha ouvido do
recato e bondade de Marcela, porque nos versos o autor se
queixava de zelos, suspeitas, e de ausência, tudo em
menoscabo do bom crédito e fama de Marcela. Ao que Ambrósio
respon-
105
MIGUEL DE CERVANTES
deu como quem era sabedor dos mais escondidos pensamentos do
amigo:
- Senhor, para satisfação dessa dúvida, haveis de saber que,
ao tempo em que o infeliz isto escreveu, estava ausente de
Marcela, de quem se tinha apartado por vontade, a ver se a
ausência usaria com ele o que tem por costume; e porque ao
namorado ausente não há coisa que o não desassossegue, nem
temor que lhe não chegue, assim a Crisóstomo o ralavam os
zelos imaginados, e as suspeitas, como se foram verdades. E
com isto já fica ileso o crédito que a fama pregoa da bondade
de Marcela, a quem nem a mesma inveja pode pôr pecha alguma,
à excepção de ser cruel, um pouco arrogante, e muito
desdenhosa.
- É verdade - respondeu Vivaldo.
E, querendo ler outro papel dos que havia salvado do fogo,
veio atalhá-lo uma visão maravilhosa (que tal se
representava) a qual apareceu ali inopinadamente.
Por cima da penha, a cujo sopé se cavava a sepultura,
apareceu a pastora Marcela, tão formosa, que até a sua fama
escurecia. Os que ainda a não tinham visto encaravam nela com
admiração e silêncio; e os que já estavam acostumados a vê-la
não ficavam menos atónitos que os outros. Ambrósio, tanto
como a avistou, disse num ímpeto de indignação:
- Vens experimentar, fero basilisco destes montes, se com a
tua presença verterão ainda sangue as feridas deste
miserável, a quem a tua crueldade tirou a vida? Ou vens
vangloriar-te, contemplando as cruéis façanhas da tua índole?
Ou desejas observar dessa altura, como Nero o incêndio de
Roma, os efeitos da tua barbaridade? Ou pisar arrogante este
desastrado cadáver, como a ingrata filha fez ao de Sérvio
Túlio? Diz já a que vens, ou o que é que mais te agrada, que
por eu saber que os pensamentos de Crisóstomo nunca em vida
deixaram de te obedecer, farei que, ainda depois da sua
morte, por ele te obedeçam os que se chamaram, e foram seus
amigos.
- Não venho, Ambrósio, a nada disso que dizes - respondeu
Marcela -; venho só a defender-me, e mostrar quão fora de
razão andam todos os que me culpam do que penam, e da morte
de Crisóstomo. Por isso, rogo a quantos aqui sois me
106
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
atendais, que não será necessário muito tempo, nem muitas
palavras, para persuadir de tão clara verdade os assisados.
Fez-
-me o Céu formosa, segundo vós outros encareceis; e tanto,
que não está em vossa mão o resistirdes-me; e, pelo amor que
me mostrais, dizeis (e até supondes) que esteja eu obrigada a
corresponder-vos. Com o natural entendimento que Deus me deu,
conheço que toda a formosura é amável; mas não entendo, que
em razão de ser amada seja obrigada a amar, podendo até dar-
-se que seja feio o namorado da formosura. Ora sendo o feio
aborrecível, fica muito impróprio o dizer-se: «quero-te por
formosa; e tu, ainda que eu o não seja, deves também amarme.
» Mas, ainda supondo que as formosuras sejam de partes
iguais, nem por isso hão-de correr iguais os desejos, porque
nem todas as formosuras cativam; algumas alegram a vista, sem
renderem as vontades. Se todas as belezas enamorassem e
rendessem, seria um andarem as vontades confusas e
desencaminhadas, sem saberem em que haviam de parar; porque,
sendo infinitos os objectos formosos, infinitos haviam de ser
os desejos; e, segundo eu tenho ouvido dizer, o verdadeiro
amor não se divide e deve ser voluntário e não forçado. Sendo
isto assim, como julgo que é, porque exigis, que renda a
minha vontade por força, obrigada só por dizerdes que me
quereis bem? Dizei-me: se, assim como o Céu me fez formosa,
me fizera feia, seria justo queixar-me eu de vós por me não
amardes? E demais, deveis considerar que eu não escolhi a
formosura que tenho; que, tal qual é, o Céu ma deu
gratuitamente, sem eu a pedir nem a escolher; assim como a
víbora não há-de ser culpada da peçonha que tem, posto matar
com ela, em razão de lhe ter sido dada pela Natureza, tãopouco
mereço eu ser repreendida por ser formosa, que a
formosura na mulher honesta é como o fogo apartado, ou como a
espada aguda, que nem ele queima, nem ela corta a quem se
lhes não aproxima. A honra e as virtudes são adornos da alma,
sem os quais o corpo não deve parecer formoso, ainda que o
seja. Pois se a honestidade é uma das virtudes que ao corpo e
alma mais adornam e aformosentam, porque há-de perdê-la a que
é amada por formosa, para corresponder à intenção de quem, só
por seu gosto, com todas
107
MIGUEL DE CERVANTES
as suas forças e indústrias, aspira a que a perca? Eu nasci
livre;
e para poder viver livre escolhi as soledades dos campos; as
árvores desta montanha são a minha companhia; as claras águas
destes arroios, meus espelhos; com as árvores e as águas
comunico meus pensamentos e formosura. Sou fogo, mas
apartado;
espada, mas posta longe. Aos que tenho namorado com a vista,
tenho-os com as palavras desenganado; e se os desejos se
mantêm com as esperanças, não tendo eu dado nenhuma a
Crisóstomo, bem se pode dizer que o matou a sua teima, e não
a minha crueldade; e se se me objecta, que eram honestos os
seus pensamentos, e que por isso estava obrigada a
corresponder-lhes, digo, que, quando, neste mesmo lugar, onde
agora se cava a sua sepultura, me descobriu a bondade dos
seus intentos, eu lhe respondi e declarei, que os meus eram
viver em perpétua soledade, e que só a terra gozasse o fruto
do meu recolhimento, e os despojos da minha formosura; e se
ele, com todo este desengano, quis aporfiar contra a
esperança, e navegar contra o vento, que muito que se
afogasse no meio do golfão do seu desatino!? Se eu o
entretivera, seria falsa; se o contentara, desmentiria a
melhor intenção e propósito. Desenganado, teimou, desesperou
sem ser aborrecido. Vede agora se é razão que da sua culpa se
me lance a mim a pena. Queixe-se o enganado, desespere-se
aquele a quem faltaram esperanças que tanto lhe prometiam. O
que eu chamar, confie-se; o que eu admitir, ufane-se; porém
náo me chame cruel nem homicida aquele a quem eu não prometo,
nem engano, nem chamo, nem admito. O Céu por ora não tem
querido, que eu ame por destino; e o pensar que hei-de amar
por eleição é escusado. Este desengano geral sirva a cada um
dos que me solicitam para seu particular proveito; e fique-se
entendendo daqui avante, que, se algum morrer por mim, não
morre de zeloso, nem desditado, porque quem a ninguém quer, a
ninguém deve dar ciúmes; desenganos náo se devem tomar por
desdéns. O que me chama fera e basilisco, deixe-me como coisa
prejudicial e ruim; o que me chama ingrata, não me sirva;
quem me julga desconhecida, que me não conheça; quem
desumana, que me não siga. Esta fera, este basilisco, esta
ingrata, esta cruel, e esta desconhecida, nem
108
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
os há-de buscar, nem servir, nem conhecer, nem seguir de modo
algum. Se a Crisóstomo o matou a sua impaciência e arrojado
desejo, porque se me há-de culpar o meu honesto proceder e
recato? Se eu conservo a minha pureza na companhia das
árvores, porque hão-de querer que eu a perca na companhia dos
homens? Tenho riquezas próprias, como sabeis, e não cobiço as
alheias; tenho livre condiço, e não gosto de sujeitar-me; não
quero nem tenho ódio a pessoa alguma; não engano a este, nem
solicito a aquele; não me divirto com um, nem com outro me
entretenho. A conversação honesta das zagaias destas aldeias
e o trato das minhas cabras me entretém, os meus desejos têm
por limites estas montanhas; e, se para fora se estendem, é
para contemplarem a formosura do céu. São estes os passos
contados, por onde a alma caminha para a sua morada primeira.
E, dito isto, sem querer ouvir resposta alguma, voltou as
costas, e se meteu pelo mais cerrado de um monte que lhe
ficava perto, deixando a todos admirados, tanto da sua
discrição, como da sua lindeza.
Alguns dos feridos com as setas dos seus belos olhos
pareceram querer segui-la, sem os deter o formal desengano
que tinham ouvido.
Visto aquilo por D. Quixote, entendendo que para ali acertava
bem a sua cavalaria, socorrendo as donzelas necessitadas,
posta a mão no punho da espada, em voz alta e inteligível,
disse:
- Nenhuma pessoa, de qualquer estado e condição que seja, se
atreva a seguir a gentil Marcela, sob pena de cair na fúria
da minha indignação. Já ela mostrou, com razões claras, a
pouca ou nenhuma culpa que teve na morte de Crisóstomo, e
quão alheia vive de condescender com os desejos de nenhum dos
seus arrojados: e por isso é justo que, em vez de ser seguida
e perseguida, seja honrada e estimada de todos os bons do
mundo, pois mostra que em todo ele é só ela quem vive com
tenção tão honesta.
Ou fosse pelas ameaças de D. Quixote, ou porque Ambrósio lhes
disse que concluíssem o que deviam ao seu amigo, nenhum dos
pastores se apartou nem moveu dali, até que, ultimado o
109
MIGUEL DE CERVANTES
sepulcro e queimados os papéis de Crisóstomo, puseram o corpo
na terra, não sem muitas lágrimas dos circunstantes. Taparam
a sepultura com uma tosca lousa, à espera de que se
terminasse uma campa, que Ambrósio disse tencionava mandar
fazer com um epitáfio que havia de dizer assim:
Aqui jaz de um amador o pobre corpo gelado;
foi ele um pastor de gado, perdido por desamor.
Morreu às mãos do rigor de uma esquiva e linda ingrata, com
quem seu reino dilata o tirano deus Amor.
Espargiram logo por cima da sepultura muitas flores e ramos,
e, dando todos os pêsames ao amigo, se despediram dele. O
mesmo fizeram Vivaldo e o seu companheiro, e D. Quixote
despediu-se dos seus hospedeiros e dos caminhantes, os quais
lhe rogaram fosse com eles a Sevilha, por ser lugar tão azado
para aventuras, que em cada rua e a cada esquina se oferecem
mais que noutra alguma parte.
Agradeceu-lhes o cavaleiro a recomendação, e o ânimo que
naquilo mostravam de lhe dar gosto; e disse que por então não
queria nem devia ir a Sevilha, enquanto não tivesse limpado
aquelas serras de roubadores malandrins, de que era fama
andarem todas inçadas.
Vendo-lhe a boa determinação, não quiseram os caminhantes
importuná-lo mais; antes, despedindo-se de novo, o deixaram,
e prosseguiram seu caminho, em que lhes não faltou assunto
para conversação, tanto na história de Marcela e Crisóstomo,
como nos tresvarios de D. Quixote.
O cavaleiro determinou ir ter com a pastora Marcela, e
oferecer-lhe tudo quanto podia para a servir; mas não lhe
aconteceu como fantasiava, segundo se contará no decurso
desta verídica história.
110
LIVRO TERCEIRO
CAPÍTULO XV
EM QUE SE CONTA A DESGRAÇADA AVENTURA, QUE A D. QUIXOTE
OCORREU COM UNS DESALMADOS IANGUESES
Conta o sábio Cid Hamete Benengeli, que assim que D. Quixote
se despediu dos seus hospedeiros, e de todos os que se
acharam ao enterro do pastor Crisóstomo, ele e o seu
escudeiro se entranharam no mesmo bosque onde tinham visto
desaparecer a pastora Marcela; e, havendo andado por ele
passante de duas horas a procurá-la por todos os sítios, sem
poderem dar com ela, chegaram a um prado cheio de viçosa
erva, por onde corria um arroio fresco e deleitoso; tanto,
que incitou e obrigou a passarem ali a hora da sesta, que já
principiava de apertar.
Apearam-se; e, deixando o jumento e Rocinante à vontade
pastar da muita verdura que por ali crescia, foram-se aos
alforges, e, sem cerimónia alguma, em boa paz e sociedade,
amo e servo comeram do que neles acharam.
Não tratara Sancho de pear o Rocinante, em razão de o
conhecer por tão manso e pouco rinchão, que todas as éguas da
devesa de Córdova o não fariam desmandar-se. Ordenou, pois, a
sorte, e o Diabo (que nem sempre dorme), que andasse então
por aquele vale pascendo uma manada de poldras galizianas de
uns arrieiros iangueses, os quais têm por costume tomarem com
suas recovas a sombra no Verão em sítios mimosos de erva e
água; e aquele onde acertou de estar D. Quixote era um
desses.
Ill
MIGUEL DE CERVANTES
Sucedeu que ao Rocinante apeteceu refocilar-se com as
senhoras fracas; e, saindo, apenas as farejou, do seu natural
passo e costume, sem pedir licença ao dono, deu o seu
trotezinho algum tanto picadete, e foi declarar a elas a sua
necessidade. Elas porém, que pelas mostras deviam ter mais
vontade de pastar que de outra coisa, receberam-no com as
ferraduras e à dentada, de modo que em breves audiências lhe
rebentaram as cilhas, e o deixaram sem ela e em pêlo. O que
porém mais o deveu magoar foi, que, vendo os arrieiros que se
lhes iam forçar as éguas, acudiram com arrochos; e tanta
lambada lhe deram, que o estenderam no chão numa lástima.
Já neste comenos D. Quixote e Sancho, que tinham visto a
tunda de Rocinante, chegavam esbaforidos; e disse D. Quixote
para Sancho:
- Pelo que vejo, amigo Sancho, estes não são cavaleiros;
são gente soez e de baixa ralé. Digo-to, porque desta feita
podes ajudar-me a tomar devida vingança do agravo, que diante
dos nossos olhos se há feito a Rocinante.
- Que diabo de vingança havemos de tomar - respondeu Sancho -
se eles são mais de vinte, e nós só dois, e bem pode ser que
só um e meio?
- Eu valho por cem - respondeu D. Quixote.
E, metendo logo máo à espada, arremeteu aos iangueses, e o
mesmo fez Sancho Pança, influído do exemplo do amo. Logo no
primeiro rompante deu D. Quixote uma cutilada num, que lhe
abriu um saio de couro que trazia vestido, e boa parte do
ombro.
Os iangueses, que se viram investidos de dois homens sós,
sendo eles tantos, tornaram-se aos bordes, e, metendo aos
dois no meio, começaram a malhar neles com grande afinco e
veemência. A verdade é que logo à segunda lambada, deram com
Sancho em baixo, e o mesmo aconteceu a D. Quixote, sem lhe
valer sua destreza e bom ânimo; e quis a sua sorte que viesse
a cair aos pés de Rocinante, que ainda se não tinha erguido;
por onde se vê a fúria, com que maçam bordões postos em mãos
rústicas e enraivecidas.
Vendo, pois, os iangueses a má obra que tinham feito,
tornaram a carregar a recova, e seguiram jornada, deixando
aos
112
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA l
dois aventureiros em pouco bom estado, e de estômago ainda h
pior.
O primeiro que deu sinal de si foi Sancho Pança, que, vendo
perto o amo, lhe disse com tom de enfermo e lastimado:
- Sr. D. Quixote! ah! Sr. D. Quixote!...
- Que tens, Sancho mano? - respondeu D. Quixote co o mesmo
tom afeminado e dorido de Sancho.
- Queria, se pudesse ser - respondeu este -, que Vossa Mercê
me desse dois golos daquela bebida do feio Brás, se a tem aí
à mão; talvez seja tão boa para os ossos quebrados como para
as feridas.
- Pois se eu aqui a tivesse, pobre de num! que mais nos era
preciso? - respondeu D. Quixote. - Mas eu te juro, Sancho,
palavra de cavaleiro andante, que, antes de passarem dois
dias, se a fortuna não ordenar o contrário, ou a hei-de ter
em meu poder, ou ruins mãos serão as minhas.
- E em quantos dias lhe parece a Vossa Mercê que poderemos
mover os pés? - replicou Sancho Pança.
- De mim sei eu dizer - respondeu o moído cavaleiro D.
Quixote - que não saberei acertar agora esse cômputo de dias.
Mas a culpa de tudo isto tenho-a eu, que meti mão à espada
contra homens que não eram armados cavaleiros como eu; pelo
que entendo que, em pena de ter infringido as leis da
cavalaria, é que o deus das batalhas permitiu que se me desse
este castigo. Por isso, irmão Sancho, deves ter sempre bem
presente o que te vou dizer, por interessar muito à saúde de
ambos nós:
em vendo que semelhante canalha nos faz algum agravo não
esperes até eu pôr mão à espada contra eles, porque o não
farei de sorte alguma; mas desembainha tu logo a tua e
regala-te de os castigar. Se em sua ajuda e defesa acudirem
cavaleiros, então eu te saberei defender e ofendê-los com
todo o meu poder, que já tens visto por mil sinais e
experiências até onde chega o valor deste meu forte braço.
Tal ficara de arrogante o pobre fidalgo depois da vitória do
valente biscainho!
Mas a Sancho é que não pareceu tão bem o conselho do amo, que
deixasse de lhe replicar, dizendo:
113
MIGUEL DE CERVANTES
- Senhor, eu sou homem pacífico, manso e sossegado, e sei
disfarçar qualquer injúria, porque tenho mulher e filhos que
manter e criar; e portanto fique a Vossa Mercê também de
advertência, pois mando não pode ser, que de modo nenhum
meterei mão à espada, nem contra vilão nem contra cavaleiro;
e que daqui em diante Deus perdoe quantos agravos se me têm
feito e se me hão-de fazer, embora mós tenha feito, faça, ou
haja de fazer pessoa alta ou baixa, rico ou pobre, fidalgo ou
mecânico, sem exceptuar nenhum estado nem condição.
Ouvindo o amo aquilo, respondeu:
- Quisera ter forças para poder falar com algum descanso, e
que a dor que tenho nestas costelas se me aplacasse, para te
eu dar a entender Pança, o erro em que estás. Vem cá,
pecador;
se o vento da fortuna, tão contrário até aqui, vira de rumo
para nos favorecer, enchendo-nos as velas do desejo, para que
seguramente, e sem contraste algum, aportemos em algumas das
ilhas que já te prometi, que seria de ti se, ganhando-a, eu
te fizesse senhor dela? Pois hás-de tu mesmo impossibilitarme
de o realizar, por não seres armado cavaleiro nem quereres
sê-lo, nem teres valor nem tenção de vingar as tuas injúrias,
e defender os teus domínios?! Porque hás-de saber que, nos
reinos e províncias recém-conquistadas, nunca os ânimos dos
seus naturais estão sossegados, nem tão favoráveis ao novo
senhor, que se não tema alguma novidade para se alterarem de
novo as coisas, e se tornar, como dizem, a tentar de novo
fortuna; e, portanto, é necessário que o novo possessor tenha
entendimento para se saber governar, e valor para ofender e
defender-se em qualquer contingência.
- Nisto que agora nos aconteceu - tomou Sancho - quisera eu
ter tido esse entendimento e esse valor que Vossa Mercê diz;
mas eu lhe juro, à fé de pobre homem, que mais estou eu para
emplastros, que para arrazoados. Olhe Vossa Mercê se se pode
levantar, e ajudaremos ao Rocinante a pôr-se em pé (ainda que
bem pouco o merece por ter sido o causador desse barulho).
Nunca tal esperei de Rocinante; tinha-o por pessoa casta, e
tão pacífica de si como eu próprio. Enfim, bem dizem lá, que
é preciso muito tempo para se acabar de conhecer os
indivíduos,
114
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA j l
e que não há coisa segura nesta vida. Quem havia de dizer que
atrás daquelas tão grandes cutiladas, como as que Vossa Mercê
deu naquele desgraçado cavaleiro andante, nos havia de vir
pela porta, e no alcance, este temporal tamanho de pauladas
que nos desabou nos espinhaços?
- Ainda o teu, Sancho - replicou D. Quixote -, deve estar
acostumado a borrascas destas; porém o meu, criado entre
esguiôes e olandas finas, claro está que há-de sentir mais a
dor desta desgraça; e se não fosse por imaginar (que digo?
Imaginar!) por saber, que todos estes descómodos andam muito
anexos ao exercício das armas, aqui me deixara morrer de pura
vergonha.
Respondeu o escudeiro:
- Senhor meu, já que estas desgraças são fruta da cavalaria,
diga-me Vossa Mercê se costuma haver muitas safaras delas, ou
se têm suas estaçes fora das quais se não apanham;
porque a mim me parece que, depois de duas colheitas assim,
já nos podemos dar por dispensados para terceira, se Deus com
Sua infinita misericórdia nos não socorre.
- Sabe, amigo Sancho - respondeu D. Quixote -, que a vida dos
cavaleiros andantes está sujeita a mil perigos e desventuras,
assim como, nem mais nem menos, estão eles também sempre em
contingências muito próximas de subirem a reis e imperadores,
como a experiência o tem mostrado em diversos e muitos
cavaleiros, de cujas histórias eu tenho inteira notícia.
Pudera contar-te agora, se a dor me desse vaga, de alguns,
que, só pelo valor do seu braço, têm subido aos altos estados
que te disse; e esses mesmos se viram, antes e depois, em
diversas calamidades e misérias; porque o valoroso Amadis de
Gaula caiu em poder do seu mortal inimigo Arcalau o
encantador, a respeito do qual se tem por averiguado que,
tendo-o preso e atado numa coluna de um pátio, lhe deu para
cima de duzentos açoites com as rédeas do seu cavalo; e até
há um autor secreto de não pequeno crédito, que diz, que,
tendo o cavaleiro dei Febo topado em certo alçapão que se lhe
abriu debaixo dos pés em certo castelo, ao cair se achou numa
profunda cova subterrânea atado de pés e mãos; e ali lhe
deram um destes clisteres
115
MIGUEL DE CERVANTES
que chamam de água de neve e areia, que o deixou nas últimas;
e se não fora socorrido naquela grande tribulação por um
grande sábio seu amigo, muito mal iria ao pobre cavaleiro.
Portanto, Sancho, por onde tanta gente boa tem passado, bem
posso passar eu também. Maiores foram os impropérios por eles
curtidos, que estes nossos agora. Hás-de saber, Sancho, que
as feridas que afrontam no são as que se fazem com os
instrumentos que se acham à mão; o que se contém na lei dos
duelos escrita por estes próprios termos: que, se o sapateiro
dá noutrem com a forma que na mão tem, posto que ela seja
realmente de pau, nem por isso se dirá que levou paulada
aquele em quem deu. Digo isto para que não cuides que, se bem
saímos desta pendência moídos, ficamos por isso afrontados;
porque as armas que traziam aqueles homens, e com que nos
machucaram, não eram outras senão os seus bordões; e nenhum
deles (se bem me lembra) continha estoque, espada, nem
punhal.
- A mim não me deram vagar - respondeu Sancho - para reparar
nisso, porque apenas meti mão à minha tisna, quando logo me
benzeram os lombos com os paus, por modo que se me foi o lume
dos olhos, e a força dos pés, pregando comigo onde agora
jazo; e pouco me importa saber se foram afronta, ou não, as
bordoadas; o que me importa são as dores delas, que hão-de
ficar tão impressas na memória, como no espinhaço.
- Com tudo isso, sabe, irmão Pança - replicou D. Quixote
-, que não há lembrança que se não gaste com o tempo, nem dor
que por morte não desapareça.
- E, pois, que desgraça pode haver maior - replicou Sancho
-, que a que só o tempo cura, e só a morte acaba? Se este
nosso contratempo fora daqueles que se curam com um par de
emplastros, ainda não fora tão mau, mas já vou vendo que nem
todos os emplastros de um hospital hão-de bastar para nos pôr
sequer a bom caminho.
- Deixa-te disso e faz das fraquezas forças, Sancho -
respondeu D. Quixote -, que assim farei eu também; e vejamos
como está o Rocinante, que, ao que me parece, o coitado não
apanhou menor quinhão que nós outros.
116
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Não admira - respondeu Sancho -, por isso é também andante;
o que a mim me espanta é que o meu jumento escapasse com as
costas inteiras, de onde nós outros trouxemos quebradas as
costelas.
- Nas desgraças - respondeu D. Quixote - sempre a ventura
deixa uma porta aberta para remédio; e digo assim, porque
esta bestiaga nos poderá agora suprir a falta de Rocinante,
levando-me daqui para algum castelo, onde seja curado das
feridas; e nem por isso haverei por desonra tal cavalgadura,
porque me lembro de ter lido que aquele bom velho de Sileno,
aio e pedagogo do alegre deus da folgança, quando entrou na
cidade das cem portas, ia muito a seu gosto escarranchado num
formosíssimo asno.
- Iria escarranchado como Vossa Mercê diz - respondeu Sancho
-, porém é muito diferente ir escarranchado, de ir
atravessado como uma sacada de trapos velhos.
Ao que D. Quixote respondeu:
- As feridas que nas batalhas se recebem antes dão honra do
que a tiram; e assim Pança amigo, não me repliques mais; e,
segundo já te disse, levanta-te como puderes, e põe-me do
modo que melhor te parecer em cima do teu jumento. Vamo-nos
daqui antes que a noite chegue e nos apanhe neste despovoado.
- Pois eu não ouvi dizer a Vossa Mercê - disse Pança - que
era muito próprio de cavaleiros andantes o dormirem nos
andurriais e desertos o mais do ano, e que eles o reputavam
por grande ventura?
- Isso é - disse D. Quixote - quando de outro modo se não
pode, ou quando estão enamorados; e é tão verdade isto, que
tem havido cavaleiro, que esteve sobre uma penha ao sol, à
sombra, e às inclemências do tempo, dois anos, sem que o
soubesse sua Senhora; e um deles foi Amadis, quando,
chamando-se Beltenebrós, se alojou na Penha-Pobre não sei se
oito anos, ou oito meses (da conta é que não estou bem
certo); basta que esteve ali fazendo penitência por não sei
que desgosto que lhe deu a Sr. Oriana. Mas deixemos já isto,
Sancho, e conclui, antes que suceda ao jumento alguma outra
desgraça como a de Rocinante.
117
MIGUEL DE CERVANTES
- Essa fora do Diabo - disse Sancho.
E, despedindo trinta ais, sessenta suspiros, e cento e vinte
«más horas» e «tarrenegos» contra quem ali o trouxera, lá se
foi levantando derreado e curvo como arco turquesco, sem
poder acabar de endireitar-se; e com todo este trabalho
aparelhou o seu asno, que também tinha andado seu tanto
distraído com a demasiada liberdade daquele dia.
Depois levantou a Rocinante, o qual, se tivera língua com que
se queixar, à fé que nem Sancho nem seu amo seriam capazes de
lhe tapar a boca.
Em conclusão: Sancho acomodou ao fidalgo sobre o asno, e,
prendendo-lhe o Rocinante pela arreata e levando o asno pelo
cabresto, se dirigiu por onde pouco mais ou menos lhe pareceu
que devia ir a estrada real. A sorte, que as suas coisas ia
encaminhando de bem a melhor, ainda não tinham andado uma
pequena légua, quando lhes deparou o caminho; nele
descobriram uma venda, que, a pesar seu, e a contento de D.
Quixote, devia ser um castelo.
Sancho porfiava que era venda e seu amo que não, porém
castelo; e tanto durou a teima que, antes de se acabar, lhes
deu tempo de chegarem lá. Entrou Sancho, sem mais
averiguação, com toda a sua recua.
CAPITULO XVI
DO QUE SUCEDEU AO ENGENHOSO FIDALGO NA VENDA
QUE ELE IMAGINAVA SER CASTELO
ü vendeiro, que viu D. Quixote atravessado no asno, perguntou
a Sancho que mal trazia. Respondeu-lhe este que nada era, que
tinha dado uma queda de um penedo abaixo, e que trazia algum
tanto amigadas as costelas.
Tinha o vendeiro por mulher uma, não da condição costumada
nas de semelhante trato, porque naturalmente era caritativa,
e se condoía das calamidades do próximo. Acudiu esta logo
118
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
a curar a D. Quixote, e fez com que uma sua filha donzela,
rapariga, e de bem bom parecer, a ajudasse a tratar do
hóspede.
Servia também na venda uma moça asturiana, larga de cara,
cabeça chata por detrás, nariz rombo, torta de um olho, e do
outro pouco sã. Verdade é que a galhardia do corpo lhe
descontava as outras faltas; não tinha sete palmos dos pés à
cabeça; e os ombros, que algum tanto lhe cargavam, a faziam
olhar para o chão mais do que ela quisera.
Esta gentil moça, pois, ajudou a donzela, e entre ambas
engenharam uma cama suficientemente má para D. Quixote, num
sótão, que dava visíveis mostras de ter noutro tempo servido
de palheiro muitos anos, no qual se alojava também um
arrieiro, que tinha a sua cama feita um pouco adiante da do
nosso D. Quixote, e ainda que era das enxergas e mantas dos
machos, levava ainda assim muita vantagem à do cavaleiro, que
só se compunha de quatro tábuas mal acepilhadas, sobre dois
bancos desiguais, e de um colchão que em delgado mais parecia
colcha, recheado de godelhões, que, se não mostrassem por
alguns buracos serem de lã, ao toque e pela dureza pareciam
calhaus, dois lençóis como de couro de adarga, e um cobertor
cujos fios se podiam contar sem escapar um único.
Nesta amaldiçoada cama se deitou D. Quixote, e logo a
vendeira e sua filha o emplastraram de alto a baixo,
alumiando-lhes Maritornes (que assim se chamava a asturiana);
e vendo a vendeira o corpo de D. Quixote tão pisado em muitas
partes, disse que mais pareciam aquilo pancadas, que só
queda.
- Não foram pancadas - acudiu Sancho -, é que o penedo tinha
muitos bicos, e cada um deles lhe fez sua pisadura. E ajuntou
logo:
- Olhe, Senhora, se faz isso de modo que sobejem algumas
estopas, que não faltará quem delas precise, que também a mim
me doem um pouco os lombos.
- Pelo que vejo - disse a vendeira - também vós caístes?
- Não caí - respondeu Sancho -, mas do susto que tive de ver
cair a meu amo de tal modo me dói o corpo, que é como se me
tivessem dado mil bordoadas.
119
MIGUEL DE CERVANTES
- Podia muito bem ser isso - disse a donzela - que a mim
muitas vezes me tem acontecido sonhar que caía de uma torre
abaixo, e náo acabava nunca de chegar ao chão; e, quando
despertava do sonho, achava-me tão moída e quebrantada, como
se tivera caído deveras.
- Assim mesmo é que é Senhora - respondeu Sancho Pança -;
também eu, sem sonhar nada, e estando mais acordado do que
estou agora, acho-me com pouco menos pisaduras que meu amo e
Sr. D. Quixote.
- Como se chama este cavaleiro? - perguntou a asturiana
Maritornes.
- D. Quixote de Ia Mancha - respondeu Sancho - é cavaleiro de
aventuras, e dos melhores e mais fortes que de longo tempo
para cá se têm visto neste mundo.
- Que vem a ser cavaleiro de aventuras? - replicou a serva.
- Tão novata sois no mundo, que o ignorais? - respondeu
Sancho -; pois sabei, irmã, que cavaleiro de aventuras vem a
ser um sujeito, que em duas palhetadas se vê desancado, e
imperador. Hoje está a mais desditada criatura do mundo, e a
mais necessitada, e amanhã terá duas ou três coroas reais
para as dar ao seu escudeiro.
- Então como é que vós, pertencendo a tão bom senhor -
perguntou a vendeira -, não tendes, ao que parece, pelo menos
algum condado?
- Ainda é cedo - respondeu Sancho - porque não há senão um
mês que andamos buscando as aventuras, e por enquanto ainda
não topámos com alguma que o fosse em bem; muitas vezes se
busca uma coisa, e se acha outra. Verdade é que se o meu amo
e Senhor D. Quixote sara desta queda ou destas feridas, e eu
não ficar estropiado, não troco as minhas esperanças pelo
melhor título de Espanha.
Todas estas práticas estava D. Quixote escutando muito
atento; e, sentando-se na cama conforme pôde, pegando na mão
da vendeira, lhe disse:
- Crede, formosa Senhora, que vos podeis chamar feliz por
terdes albergado neste vosso castelo a minha pessoa, que é
tal,
120
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
que, se eu a no louvo, é, pelo que se costuma dizer, que o
louvor em boca própria é vitupério; porém o meu escudeiro vos
dirá quem sou. Só vos digo que hei-de conservar eternamente
na memória o serviço que me haveis feito para o agradecer
enquanto a vida me durar; e prouvera aos Céus que o amor me
não tivesse tão rendido e sujeito às suas leis, e aos olhos
daquela formosa ingrata, que digo pela boca pequena que os
desta formosa senhora se tomariam senhores do meu alvedrio.
Confusas estavam a bodegueira, a filha, e a boa de Maritomes,
ouvindo os ditos do cavaleiro andante, que elas entendiam
como se fossem em grego, ainda que bem percebiam endereçaremse
todos a oferecimentos e requebros; e, por não acostumadas
com semelhante linguagem, olhavam para ele, e admiravam-se,
parecendo-lhes no ser homem como os outros;
e, agradecendo-lhe em estilo tabernático, o deixaram. A
asturiana Maritomes curou a Sancho, que o não precisava menos
que o amo.
Tinha o arrieiro conchavado com ela, que naquela noite se
haviam de refocilar juntos, dando-lhe ela a sua palavra de
que, em estando sossegados os hóspedes, e os amos
adormecidos, iria ter com ele, e satisfazer-lhe o gosto
enquanto mandasse.
Conta-se desta moça, que nunca jamais promessas daquela casta
as deixava por cumprir, ainda que as desse num monte e sem
testemunhas, pois timbrava muito de fidalga, e não tinha por
afronta estar naquele serviço de moça de locanda, porque
dizia ela que desgraças e maus sucessos a haviam reduzido a
tal estado.
O duro, estreito, apoucado e fingido leito de D. Quixote
ficava logo à entrada daquele estrelado sótão; e ao pé tinha
Sancho arranjado a sua jazida, que só constava de uma esteira
de junco, e de uma manta que mais parecia de estopa tosada,
que de lã.
A estes dois leitos seguia-se o do arrieiro, engenhado, como
dito fica, das enxergas e mais composturas dos dois melhores
machos que trazia, os quais ao todo eram doze, luzidios,
anafados e famosos, porque era um dos arrieiros ricos de
Arevalo, segundo diz o autor desta história, que dele faz
particular menção, pelo ter muito bem conhecido; e até querem
dizer, que era
121
MIGUEL DE CERVANTES
algum tanto seu parente; além do que Cide Hamete Benengeli
foi historiador muito curioso e muito pontual em todas as
coisas; e bem se vê que sim, pois nas que ficam referidas
(com serem mínimas e rasteiras) não as quis deixar no escuro;
de que poderão tomar exemplo os historiadores graves, que nos
contam as acçes tão acanhadas e sucintamente, que mal se lhes
toma o gosto, deixando no tinteiro por descuido, malícia, ou
ignorância, o mais substancial.
Bem haja mil vezes o autor de Tablante de Ricamnte, e o do
outro livro, onde se contam os feitos do conde de Tomilhs; e
com que pontualidade se descreve tudo!
Digo, pois, que, tanto como o arrieiro visitou a sua recova e
lhe deu a segunda ração, se estendeu nas enxergas e ficou à
espera da sua pontualíssima Maritomes.
Já estava Sancho emplastrado e deitado; e, ainda que
procurava dormir, não lho consentia a dor das costelas; e D.
Quixote, com o dolorido das suas, tinha os olhos abertos, que
nem lebre.
Toda a venda era em silêncio, não havendo em toda ela outra
luz senão a de uma lanterna pendurada ao meio do portal.
Esta maravilhosa quietação, e os pensamentos que o nosso
cavaleiro sempre trazia dos sucessos que a cada passo se
contam nos livros ocasionadores de sua desgraça, trouxe-lhe à
imaginação uma das estranhas loucuras que bem se podem
figurar, e foi julgar-se ele chegado a um famoso castelo
(que, segundo já dissemos, castelos eram em seu entender
todas as vendas em que pernoitava), e que a filha do vendeiro
era a filha do casteIão, a qual, vencida da sua gentileza, se
havia dele enamorado, prometendo-lhe, que, naquela noite, às
escondidas dos pais, havia de vir passar com ele um bom
pedaço; e, tendo por firme e verdadeira toda esta quimera por
ele próprio fabricada, entrou a afligir-se, e a pensar no
perigoso transe em que a sua honestidade se ia ver; propondo
porém em seu coração não cometer falsidade à sua Sr.
Dulcineia dei Toboso, ainda que diante se lhe pusesse a
rainha Genebra com a sua camareira Quintanhona.
Pensando, pois, nestes disparates, chegou o tempo e a hora
(que para ele foi minguada) de vir a asturiana, a qual em
cami-
122
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
sã e descalça, com os cabelos metidos numa coifa de algodão,
a passo atento e subtil, entrou à procura do arrieiro no
aposento onde os três jaziam.
Mal era chegada à porta, quando D. Quixote a sentiu; e,
sentando-se na cama, apesar dos emplastros, e com dores das
costelas, estendeu os braços para receber a sua formosa
donzela, a asturiana, que toda encolhida e calada ia com as
mãos adiante procurando o seu querido. Topou ela com os
braços de D. Quixote, o qual lhe travou rijamente da mão, e,
puxando-a para si, sem que ela ousasse proferir palavra, a
fez sentar-se sobre a cama.
Apalpou-lhe logo a camisa; e, ainda que ela era de
serapilheira, a ele lhe pareceu de delgado e finíssimo
bragal. Trazia a moça nos pulsos umas contas de vidro, que a
ele se representavam preciosas pérolas orientais. Os cabelos,
que algum tanto atiravam para crinas, pareciam-lhe fios de
luzentíssimo ouro da Arábia, cujo esplendor ao do próprio Sol
escurecia; e o bafo, que sem dúvida alguma cheirava a alguns
restos de carne da véspera, representou-se-lhe um hálito
suave e aromático. Finalmente, na fantasia a ideou tal qual
como tinha lido em seus livros acerca da outra princesa, que
veio ver o malferido cavaleiro, vencido dos seus amores, com
todos os adornos que se aqui declaram.
Tamanha era a cegueira do pobre fidalgo, que nem o tacto, nem
o cheiro, nem outras coisas, que em si trazia a boa donzela,
o desenganavam, com serem tais, que fariam vomitar a quem
quer que não fosse arrieiro; antes lhe parecia que tinha nos
braços a deusa da formosura. Estreitando-a neles, com voz
amorosa e baixa lhe disse:
- Quisera achar-me em termos, formosa e alta senhora, de
poder pagar tamanha mercê como esta que me haveis feito com a
vista da vossa grande formosura. Porém a fortuna, que se não
cansa de perseguir aos bons, quis prostrar-me neste leito,
onde me acho tão moído e quebrantado, que, por maior vontade
que eu tivesse de vos satisfazer, de modo nenhum o poderia. A
esta impossibilidade acresce outra maior; e é a f é que tenho
prometido guardar à sem igual Dulcineia dei Toboso, única
senhora
123
MIGUEL DE CERVANTES
dos meus mais ocultos pensamentos. A não se me pôr isto
diante, não seria eu cavaleiro tão sandeu, que deixasse fugir
a venturosa ocasião que a vossa grande bondade me faculta.
Maritornes estava aflitíssima, e, tressuando de ver-se tão
apertada por D. Quixote, e sem perceber nem atender ao que
ele dizia, procurava, sem dizer chus nem bus, desenlear-se da
prisão. O bom do arrieiro, que estava bem desperto com os
seus danados desejos, desde o instante em que a moça entrou a
porta a sentiu, e esteve atentamente escutando quanto D.
Quixote dizia; e, cioso de que a asturiana o tivesse com
outro falseado, foi-se achegando mais à cama de D. Quixote, e
esteve muito quedo à espera de ver em que parariam aqueles
palavreados que ele não podia entender; porém como viu que a
moça forcejava para se ver solta, e D. Quixote trabalhava
para a reter, pareceu-lhe mal a história, levantou o braço ao
alto, e desfechou tão terrível murro nos estreitos queixos do
enamorado cavaleiro, que lhe deixou a boca toda a escorrer em
sangue; e, não contente com isto, saltou-lhe sobre as
costelas, e com os pés lhas palmilhou à sua vontade, e mais
que a trote. O leito, que era um pouco fraco, e de
fundamentos mal seguros, não podendo sofrer o contrapeso do
arrieiro, deu consigo em terra.
Aquele ruído despertou o vendeiro, e logo imaginou que haviam
de ser pendências de Maritornes, porque, tendo bradado por
ela, não lhe respondia. Com esta suspeita ergueu-se, e,
acendendo uma candeia, se foi para onde tinha sentido a
balbúrdia.
A moça, vendo que o amo vinha, e que não era homem para
graças, toda medrosa e alvorotada, fugiu para a cama de
Sancho Pança, que estava afinal adormecido, e ali se encolheu
novelando-se toda.
O vendeiro entrou dizendo:
- Onde estás, traste? Isto são por força coisas tuas.
Despertou Sancho; e, sentindo aquele vulto quase em cima de
si, pensou estar com um pesadelo, e começou a atirar punhadas
para uma e outra banda, apanhando não sei quantas a
Maritornes. Ela, com a dor, embaraçando-se pouco de decên-
124
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA |
cias, retribuiu a Sancho com tantas, que sem vontade lhe
espan- i.. taram de todo o sono. Vendo-se tratado daquele
feitio, e sem ':
saber por quem, levantou-se como pôde, abraçou-se com a rã- r
pariga, e entre os dois se travou a mais renhida e engraçada
escaramuça do mundo.
O arrieiro, reconhecendo à luz da candeia do bodegão como
a sua dama andava, largou a D. Quixote para acudir por ela. i
Outro tanto fez o dono da casa, mas com propósito diferente,
porque o seu foi de castigar a moça, por crer sem dúvida que
ela só era a ocasionadora de todo aquele concerto; e assim
como se costuma dizer: o gato ao rato, o rato à corda, a
corda ao pau, o arrieiro dava em Sancho, Sancho na moça, a
moça em Sancho, o vendeiro na moça; e todos com tamanha
azáfama, que nem fôlego tomavam.
O bonito foi quando a candeia se apagou. Na escurido batiam
tão sem dó todos para o monte, que, onde quer que acertavam a
mão, não deixavam coisa sã.
Jazia acaso na venda aquela noite um quadrilheiro, dos que
chamam da Santa Irmandade velha de Toledo, o qual, ouvindo o
desconforme barulho da peleja, agarrou da sua varinha, e da
caixa de lata dos seus títulos, e entrou às escuras no
aposento, bradando:
- Parem da parte da Justiça! Parem da parte da Santa
Irmandade!
O primeiro com quem topou foi o esmurrado de D. Quixote que
estava no seu leito derribado, de boca para o ar e sem
sentidos; e, lançando-lhe às apalpadelas a mão às barbas, não
cessava de clamar:
- Acudam à Justiça!
Vendo, porém, que o vulto se não bulia, supôs que estava
morto, e que os mais que na casa eram deviam ser os
matadores. Com esta suspeita reforçou a voz, dizendo:
- Feche-se a porta da venda. Sentido que não saia vivalma,
que mataram aqui um homem.
Este brado sobressaltou a todos, e cada um deixou a desavença
instantaneamente. Retirou-se o vendeiro para o seu quarto, o
arrieiro para as suas enxergas, e a moça para o seu rancho.
125
MIGUEL DE CERVANTES
Só os mal-aventurados D. Quixote e Sancho é que se não
puderam mover de onde jaziam.
Largou então o quadrilheiro a barba de D. Quixote, e saiu a
buscar luz, para ver e prender os delinquentes; mas não a
achou, porque o vendeiro de propósito havia apagado a
lâmpada, quando se retirou para o seu cubículo, e foi-lhe
forçoso recorrer à chaminé, onde, com muito trabalho e tempo,
o quadrilheiro acendeu outra luz.
CAPITULO XVII
EM QUE SE PROSSEGUEM OS INUMERÁVEIS TRABALHOS, QUE O BRAVO D.
QUIXOTE E SEU ESCUDEIRO SANCHO PANÇA
PASSARAM NA VENDA, QUE O FIDALGO POR SEU MAL
CUIDARA SER CASTELO
A este tempo já tinha D. Quixote tomado em si do letargo, e
com o mesmo tom de voz com que na véspera chamara pelo
escudeiro quando estava estendido no vale de bordões, começou
a chamar por ele dizendo:
- Sancho amigo, dormes? Dormes, amigo Sancho?
- Qual dormir, pobre de mim! - respondeu Sancho farto de
quesflia e desgosto. - Parece que todos os Diabos andaram
comigo esta noite.
- E bem o podes crer - respondeu D. Quixote - porque ou eu
leio de cor, ou este castelo é encantado; porque saberás...
mas isto que te quero agora dizer hás-de-me jurar não o
repetir a ninguém, enquanto eu for vivo.
- Juro - respondeu Sancho.
- Exigi-o, porque sou muito contrário a que se tire a honra a
ninguém.
- Pois digo-lhe que sim; juro - replicou Sancho - que o não
direi enquanto Vossa Mercê viver; e praza a Deus que o possa
descobrir já amanhã.
- Tanto mal te faço eu, Sancho, que me desejes tão depressa
acabado?
126
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Não é por isso - respondeu Sancho -, é porque sou pouco
amigo de guardar as coisas muito tempo; tenho medo de que me
apodreçam.
- Seja pelo que for - volveu D. Quixote -, fio na tua amizade
e cortesia; e assim hás-de saber, que me aconteceu esta noite
uma das mais estranhas aventuras que te posso encarecer; e
para ta contar em breve, saberás, que há pouco veio ter
comigo a filha do senhor deste castelo, que é a mais airosa e
linda donzela de quantas em quase todo o mundo se podem
achar. Que te poderei dizer do adorno de sua pessoa! do seu
galhardo entendimento! e de outras excelências secretas que
deixarei em silêncio, para não quebrar a fé que devo inteira
à minha Sr.8 Dulcineia dei Toboso! Só te quero dizer que foi
invejoso o Céu de tamanho bem como o que a ventura me tinha
posto nas mãos; ou talvez (e isto é o mais certo) este
castelo é encantado, como te digo: ao tempo que eu estava com
ela em dulcíssimos e amorosíssimos colóquios, veio (sem eu
ver nem saber de onde) a mão de algum descomunal gigante, e
presenteou-me nas queixadas um tal murro, que mas deixou
todas em sangue, e depois me moeu de tal sorte, que estou
pior que ontem, quando os arrieiros (por excessos de
Rocinante) nos fizeram o agravo que tu sabes; pelo que eu
conjecturo que o tesouro da formosura desta donzela deve
estar sob a guarda de algum encantado mouro, e não há-de ser
para mim.
- Nem para mim tão-pouco - respondeu Sancho - porque mais de
quatrocentos mouros caíram sobre mim, e de tal modo me
moeram, que a tosa dos bordões em comparação foi pão com mel.
Mas diga-me Senhor, como chama boa e rara esta aventura,
tendo ficado dela como nós ficámos? Ainda para Vossa Mercê
foi meio mal, pois teve consigo a incomparável formosura que
diz; porém eu, que apanhei os maiores cachações que espero
receber em toda a minha vida!... Mal haja eu, e a mãe que me
engendrou, que nem sou cavaleiro andante, nem o hei-de ser
nunca, e sempre a pior parte destas andanças é para mim.
- Visto isso, também tu estás sovado? - respondeu D. Quixote.
127
MIGUEL DE CERVANTES
- Não lhe disse já que sim? Pesar da minha raça! - disse
Sancho.
- Não tenhas pena, amigo - disse D. Quixote -, que eu vou
fazer o bálsamo precioso, com que sararemos num abrir e
fechar de olhos.
Acabou neste meio tempo de acender a luz o quadrilheiro, e
entrou para ver o seu suposto defunto. Sancho, vendo-o entrar
em camisa, lenço amarrado na cabeça, candeia na mão, e de
muito má catadura, disse para o amo:
- Senhor, será este porventura o mouro encantado, que venha
outra vez desancar-nos, por lhe ter ainda ficado alguma coisa
no tinteiro?
- Não pode ser o mouro - respondeu D. Quixote - porque os
encantados não se deixam ver de ninguém.
- Se não se deixam ver, deixam-se sentir - disse Sancho
-, senão, que o diga o meu costado.
- Também o meu o poderia dizer - respondeu D. Quixote
- mas não é indício suficiente isto, para se crer que o que
se está vendo seja o encantado mouro.
Chegou o quadrilheiro; e, achando-os a palestrar tão mão por
mão, ficou suspenso. Verdade é que ainda D. Quixote estava de
costas, sem se poder mover de moído e de emplastrado.
Acercou-se o quadrilheiro, e disse-lhe:
- Então como vai isso, bom homem?
- Se eu fosse a vós - respondeu D. Quixote - havia de falar
mais bem-criado. É moda cá na terra tratarem-se assim os
cavaleiros andantes, pedaço de madraço?
O quadrilheiro, que se viu tratar tão mal por uma figura que
tão pouco inculcava, não o pôde levar à paciência; e,
levantando a candeia com todo o seu azeite, pregou com ela na
cabeça a D. Quixote; de sorte que lha deixou muito bem
escalavrada; e, como tudo ficou outra vez às escuras, saiu
imediatamente.
Disse o escudeiro então:
- Sem dúvida Senhor meu, é este o mouro encantado; o tesouro
tem-no ele guardado para outrem; para nós são só as murraças
e as candiladas.
128
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA |
- Assim é - respondeu D. Quixote - e não há que fazer | caso
destas coisas de encantamentos, nem há por que tomar raivas
nem enfados com elas, que, por serem invisíveis e fan- F
tásticas, não nos deixam ver de quem vingar-nos, por mais ;
que o procuremos. Levanta-te, Sancho, se podes; chama o
alcaide desta fortaleza, e faz que me tragam um pouco de
azeite, vinho, sal, e rosmaninho, para o salutífero bálsamo,
'
que em verdade me está parecendo que bem necessário me é
agora, porque me corre muito sangue da ferida que me fez o
fantasma.
Levantou-se Sancho com grande dor dos ossos, e foi às escuras
para onde o vendeiro era; e encontrando-se com o
quadrilheiro, que estava de orelha alerta, a ver se pescava
que demónio viria a ser o seu inimigo, lhe disse:
- Senhor, quem quer que sejais, fazei-nos favor de nos dar um
pouco de rosmaninho, azeite, sal, e vinho, que é preciso para
curar um dos melhores cavaleiros andantes que há no mundo, e
que jaz naquela cama malferido por mão do mouro encantado que
se acha aqui.
Quando o quadrilheiro tal ouviu, teve-o por homem falto de
siso; e, porque já começava a amanhecer, abriu a porta da
taberna, e, chamando pelo dono da pousada, lhe disse o que
aquele bom homem queria. r
Arranjou-lhe tudo o vendeiro, e Sancho o levou a D. Quixote,
que estava de mãos na cabeça queixando-se da dor da
candilada, que todavia lhe não tinha feito senão dois galos
algum tanto crescidos; e o que ele cuidava ser sangue era
unicamente suor, que lhe escorria, pela aflição da passada
tormenta. Em suma, D. Quixote recebeu os ingredientes, e
deles misturados fez uma composição cozendo-os por um espaço
bom, até que entendeu acharem-se na conta.
Pediu algum vidro para deitar a mistela; e, não o havendo na
venda, lançou-a numa almotolia de folha, que servia para
azeite, e de que o hospedeiro lhe fez presente. Sobre a
almotolia rosnou o fidalgo mais de oitenta padre-nossos, e
outras tantas ave-marias, salve-rainhas, e credos; e a cada
palavra ia uma cruz a modo de bênção. A tudo aquilo assistiam
Sancho, o vendeiro,
129
MIGUEL DE CERVANTES
e o quadrilheiro; o arrieiro, esse já andava trastejando no
serviço dos seus machos.
Feito isto, quis D. Quixote experimentar a virtude que ele
imaginava no seu bálsamo precioso; e pôs-se a beber o sobejo
que tinha ficado da almotolia; daquilo ainda havia na panela,
em que se fizera o cozimento, quase meia canada. Tanto como a
acabou de beber, começou a vomitar, de maneira que nada do
que tinha no estômago lhe ficou dentro; e, com as ânsias e
aflições do lançar, veio-lhe um suor copiosíssimo, que o
obrigou a pedir que o embrulhassem e o deixassem só.
Assim lho fizeram, e adormeceu para mais de três horas, ao
cabo das quais despertou, e se sentiu aliviadíssimo do corpo,
e a tal ponto melhor do seu quebrantamento, que se julgou
são;
pelo que ficou inteiramente convencido de que havia atinado
com o bálsamo de Ferrabrás, e podia dali em diante meter-se
em quaisquer rixas, pendências, e batalhas, sem medo nenhum,
por mais perigosas que fossem.
Sancho Pança, que também teve por milagrosa a melhoria do
amo, pediu-lhe que lhe desse a ele o que sobrava da panela,
que no era pequena quantidade. Concedeu-lha D. Quixote; e
ele, pegando-lhe com as mãos ambas, com toda a f é e boa
vontade, arrumou-a ao peito, e emborcou tanto quase como o
fidalgo.
O caso é que o estômago do pobre Sancho não seria tão
melindroso como o do cavaleiro; e assim, primeiro que
vomitasse, tantas ânsias e vascas lhe deram, tantos suores e
desmaios, que pensou deveras ter-lhe chegado a última hora.
Vendo-se tão aflito, amaldiçoou o bálsamo, e o ladrão que lho
tinha dado. Vendo-o assim, D. Quixote disse-lhe:
- Eu creio, Sancho, que todo esse mal te vem de não teres
sido armado cavaleiro, porque tenho para mim que este remédio
não há-de aproveitar aos que o não são.
- Se Vossa Mercê sabia isso - replicou Sancho -, mal haja eu
e toda a minha parentela! Para que consentiu que eu o
provasse?
A este tempo entrou a bebida a fazer o seu efeito, e começou
o escudeiro a desaguar-se por ambos os canais com tanta
pressa, que a esteira de junco, em que de novo se tinha
deitado,
130
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
e a manta, nunca mais serviram. Suava e tressuava com tais
paroxismos e acidentes, que não só ele mas todos pensaram ser
aquela a última da sua vida.
Durou-lhe a tormenta quase duas horas, acabadas as quais não
ficou como seu amo, mas tão moído e quebrantado, que mal se
podia ter; D. Quixote, que, segundo se disse, se sentia
aliviado e são, quis imediatamente partir-se a buscar
aventuras, por lhe parecer que todo o tempo que ali se
demorava era roubado ao mundo, e aos necessitados do seu
amparo; e mais, com a confiança que lhe dava agora o seu
bálsamo.
Forçado deste desejo, aparelhou ele mesmo ao Rocinante,
albardou o jumento do escudeiro, e ajudou-o a vestir-se e
montar. Pôs-se a cavalo, e, chegando a um canto da venda,
apoderou-se de uma chuçazita que ali estava para lhe servir
de lança.
Olhavam para ele todos quantos se achavam na venda, que
passavam de vinte pessoas; considerava-o não menos a filha do
vendeiro, e ele também não tirava dela os olhos; de quando em
quando, arrojava um suspiro, que parecia ser arrancado do
fundo das entranhas, supondo todos, que seria da dor que
sentia nas costelas; pelo menos assim o cuidavam aqueles que
o tinham visto emplastrar a noite dantes.
Logo que estiveram a cavalo, posto D. Quixote à porta da
venda, chamou pelo dono da casa, e com voz muito repousada e
grave lhe disse:
- Muitas e muito grandes Senhor Alcaide, são as mercês que
neste vosso castelo hei recebido; e declaro-me em grande
obrigação de agradecido para todos os dias de minha vida. Se
vos posso pagar, vingando-vos de algum soberbo que vos tenha
feito agravo, sabei, que o meu ofício outro não é senão valer
aos que pouco podem, vingar os que recebem tortos, e castigar
aleivosias. Fazei exame de consciência: e se achais alguma
coisa deste jaez que me encomendar, não tendes mais que dizêla,
que eu vos prometo, pela ordem de cavaleiro que recebi,
satisfazer-vos e pagar-vos a vosso contento.
A isto respondeu com igual sossego o vendeiro:
- Senhor Cavaleiro, eu não tenho necessidade de que Vossa
Mercê me vingue de nenhum agravo, porque eu bem sei to-
131
MIGEL DE CERVANTES
mar por mim mesmo a desforra que me parece, quando alguém mós
faz; o que me é preciso só é que Vossa Mercê me pague o gasto
que esta noite fez na venda, tanto da palha e cevada das duas
bestas, como da ceia e camas.
- Então isto é venda? - replicou D. Quixote.
- E muito honrada - respondeu o vendeiro.
- Pois Senhor, tinha vivido enganado até aqui - respondeu D.
Quixote - julgando isto castelo, e no dos piores; mas sendo
que não é castelo, mas venda, o que por agora se poderá fazer
é dispensardes a paga, pois eu por mim não posso descumprir a
ordem dos cavaleiros andantes, dos quais sei ao certo (sem
que até ao dia de hoje tenha havido exemplo em contrário) que
jamais pagaram pousada nem coisa alguma em venda onde
estivessem, porque todo o bom acolhimento que se lhes faz, ou
possa fazer, de direito e foro se lhes deve, a troco do
incomportável trabalho que padecem buscando as aventuras de
noite e de dia, de Inverno e Verão, a pé e a cavalo, em sede
e fome, com frio e calma, sujeitos a todas as inclemências do
Céu, e a todos os descómodos da Terra.
- Lá nessas coisas não me intrometo eu - respondeu o vendeiro
-; pague-se o que se me deve, e deixemo-nos de contos, mais
de cavalarias; o que só me importa é receber o que me
pertence.
- O que vós sois - respondeu D. Quixote - é um sandeu e
desastrado hospedeiro; e, metendo pernas ao Rocinante,
terçando a chucita, saiu da venda sem lho estorvar ninguém;
e, sem reparar se o escudeiro o seguia ou não, adiantou-se um
bom espaço.
O vendeiro, que o viu ir-se embora sem lhe pagar, tornou-se
pelo pagamento a Sancho Pança, que lhe respondeu, que, visto
o seu senhor não querer pagar, também ele não pagaria,
porque, sendo ele, como era, escudeiro de cavaleiro andante,
a mesma regra e razão lhe assistia a ele que o seu amo, que
era não pagar coisa alguma em poisadas e tabernas.
Com aquilo é que se agastou muito o vendeiro, e o ameaçou que
se lhe não pagasse logo para ali à boamente, ele o faria
pagar de modo que lhe pesasse. Ao que Sancho respondeu, que,
pela
132
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
lei da cavalaria recebida por seu amo, não pagaria nem um
cornado, ainda que o matassem, porque não estava para perder
por tão pouco a boa e antiga usança dos cavaleiros andantes,
nem queria que dele se queixassem os escudeiros dos tais que
para adiante viessem ao mundo, increpando-lhe a quebra de tão
justo foral.
Quis a má sorte do pobre Sancho, que, entre a gente que era
na venda, se achassem quatro tosadores de Segovia, três
fabricantes de agulhas de Potro de Córdova, e dois vizinhos
da feira de Sevilha; gente alegre, bem-intencionada,
maliciosa e brincalhona, os quais, como senhoreados do mesmo
espírito, se chegaram a Sancho, e, apeando-se do jumento, um
deles entrou a buscar a manta da cama do hóspede, e,
estatelando-o sobre ela, levantaram os olhos, e viram que o
tecto era algum tanto baixo mais do que lhes era preciso para
o que tencionavam; pelo que determinaram sair para o pátio,
que tinha por tecto o céu e ali, posto Sancho no meio da
manta, começaram a atirá-lo ao alto, e a divertir-se com ele
como com um cão por festa de Entrudo.
As vozes que dava o mísero manteado foram tantas, que
chegaram aos ouvidos do amo, o qual, detendo-se a escutá-las,
supôs que alguma grande aventura lhe vinha, até que
reconheceu claramente ser o seu escudeiro quem gritava; e,
voltando as rédeas, arrancando a custo um galope, tornou para
a venda. Achando-a fechada, rodeou-a à procura de alguma
entrada.
Mal era chegado às paredes do pátio, que pouco altas eram,
quando viu o desalmado divertimento que ao seu escudeiro se
estava fazendo. Viu-o subir e descer pêlos ares com tanta
graça e presteza, que para mim tenho desataria a rir, se a
raiva lho consentira. Fez quanto pôde para subir do cavalo ao
espigão do muro; mas tão moído e quebrado estava, que nem
apear-se pôde;
e assim, de cima do cavalo começou a vomitar tantos doestos e
impropérios aos que lhe manteavam o Sancho, que não é
possível acertar a escrevê-los; mas nem por isso eles
interrompiam as risadas e a obra, nem o voador Sancho cessava
das suas queixas, mescladas ora com ameaças, ora com
súplicas; mas tudo era por de mais; nem lhe aproveitou
enquanto de puro cansaço o não deixaram.
133
MIGUEL DE CERVANTES
Trouxeram-lhe o burro; e, subindo-o para cima dele, o
embrulharam com o gabão. A compassiva de Maritornes, vendo-o
tão estafado, pareceu-lhe ser bem socorrê-lo com uma caneca
de água, e trouxe-lha do poço por ser mais fresca. Recebeulha
Sancho, e, levando-a à boca, deteve-se aos gritos que o
amo lhe dava, dizendo:
- Filho Sancho, não bebas água, filho, não bebas, olha que
morres; aqui está o santíssimo bálsamo; vês (e mostrava-lhe a
almotolia), com duas gotas que bebas disto, pões-te bom sem
falta nenhuma.
A estes brados volveu Sancho a vista de revés, e disse com
outros ainda maiores:
- Já porventura se esqueceu Vossa Mercê de que não sou
cavaleiro? Ou quer que me acabem de sair as entranhas que me
ficaram desta noite? Guarde o seu remédio com todos os
diabos, e deixe-me cá.
O acabar de dizer isto, e o começar a beber foi tudo um;
mas, como ao primeiro trago conheceu que era água, não quis
passar adiante, e rogou a Maritornes que lhe trouxesse antes
vinho, o que ela lhe fez de muito boa vontade, e pagou-o da
sua algibeira, porque bem se dizia a seu respeito, que, ainda
que andava naquele trato, tinha umas sombras e longes de
cristã.
Assim que Sancho bebeu, bateu calcanhares ao seu asno, e pela
porta da venda, aberta de par em par, saiu dela muito
contente de não ter pago nada, e ter levado a sua avante,
ainda que foi à custa dos seus costumados adores, que eram os
lombos.
Verdade é que o vendeiro lhe ficou com os alforges em
desconto do que se lhe devia; mas Sancho, pela perturbação
que levava, não deu pela falta.
Quis o vendeiro trancar bem a porta assim que o viu fora, mas
não lho consentiram os manteadores, que eram tal gente, que,
ainda que D. Quixote fosse realmente dos cavaleiros andantes
da Távola Redonda, tanto caso fariam dele, como de dois
cominhos.
134
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA H
CAPÍTULO XVIII ?-
ONDE SE CONTAM AS RAZÕES QUE PASSOU SANCHO PANÇA l COM SEU
SENHOR D. QUIXOTE COM OUTRAS AVENTURAS
DIGNAS DE SER CONTADAS
hegou Sancho murcho e desmaiado ao pé do amo; tanto, que nem
podia fazer andar o burro. Quando D. Quixote assim o viu,
disse-lhe:
- Agora, bom Sancho, é que eu acabo de crer que aquele
castelo ou venda é encantado sem dúvida, porque aqueles que
tão atrozmente se divertiram contigo, que poderiam ser senão
fantasmas, e gente do outro mundo? E nisto me certifico, por
ver que, estando pelo espigão do muro do quintal a presenciar
actos da tua triste tragédia, não pude, por mais que fiz,
subir-me acima, nem sequer apear-me do Rocinante; decerto
porque me tinham encantado; porque te juro, à fé de quem sou,
que, se pudera subir ou apear-me, eu te houvera vingado de
maneira, que aqueles foles de vento, aqueles malandrinos, se
ficassem lembrando da brincadeira para sempre, ainda que
nisso soubera descumprir as leis da cavalaria, que, segundo
já muitas vezes me ouviste, não consentem a cavaleiro pôr mão
em quem o não seja, salvo sendo em defesa da sua própria vida
e pessoa, em caso de urgente e grande necessidade.
- Também eu me vingava se pudesse - disse o outro -, quer
fosse armado cavaleiro, quer não; mas não pude, ainda que
tenho para mim, que os que se divertiram à minha custa não
eram fantasmas, nem homens encantados, como Vossa Mercê diz:
eram homens de carne e osso como nós; e todos (segundo lhes
ouvi enquanto me estavam volteando) tinham os seus nomes: um
chamava-se Pedro Martins, outro Tenório Fernandes; e o
vendeiro ouvi que se chamava João Palomeque, o surdo; e por
isso Senhor meu, o Vossa Mercê não ter podido saltar o muro,
nem apear-se do cavalo, por outra causa foi, que não por
encantamentos. O que eu tiro a limpo de tudo isto é que estas
aventuras, que andamos buscando, afinal de contas nos hão-de
meter em tantas desaventuras, que não saibamos
135
MIGUEL DE CERVANTES
qual é a nossa mão direita. O que seria melhor e mais
acertado, segundo o meu fraco entender, seria tornarmo-nos
para o nosso lugar, agora que é tempo das aceifas, e de
cuidar da fazenda, deixando-nos de andar de Ceca em Meca, e
de Herodes para Pilatos, como dizem.
- Que pouco sabes, Sancho - respondeu D. Quixote -, dos
achaques da cavalaria! Cala e tem paciência, que lá virá dia
em que vejas por teus olhos que honrosa coisa é andar neste
exercício! Senão, diz-me: que maior contentamento pode haver
neste mundo, ou que satisfação pode comparar-se à de vencer
uma batalha, e triunfar do inimigo? Sem dúvida que nada chega
a isso.
- Assim deve ser - respondeu Sancho - posto que eu por mim
não sei; só sei, que, depois que somos cavaleiros andantes,
ou (por melhor dizer) depois que Vossa Mercê o é (que eu, à
minha parte, não há por que me entre em tão honroso rol),
nunca jamais temos vencido batalha alguma, salvo a do
biscainho, e ainda dessa saiu Vossa Mercê com meia orelha, e
meia celada de menos; de então para cá tudo tem sido bordoada
e mais bordoada, murros e mais murros; e eu, ainda por cima
de tudo, manteado, e por pessoas encantadas, de quem me não
posso vingar para saber até onde chega o gosto de vencer
inimigos, como Vossa Mercê diz.
- Essa é que é a minha pena, e a que tu deves também sentir,
Sancho - respondeu D. Quixote -; porém, daqui em diante, eu
procurarei haver às mãos alguma espada feita com tal mestria,
que ao que a tiver consigo se não possa fazer nenhum género
de encantamentos. Até não era impossível, que a ventura me
deparasse a de Amadis, quando se chamava «O Cavaleiro da
Ardente Espada»; foi a melhor que teve cavaleiro algum do
mundo, porque, além de ter a virtude referida, cortava como
uma navalha, e não havia armadura, por forte e encantada que
fosse, que lhe resistisse.
- Eu são tão venturoso - disse Sancho - que, ainda que isso
fosse, e Vossa Mercê viesse a achar espada semelhante, só
viria a servir e aproveitar aos armados cavaleiros, assim
como o bálsamo; e aos escudeiros, que os papem os lobos.
136
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Náo tenhas medo, Sancho - disse D. Quixote -, melhor se
haverá Deus contigo.
Nestes colóquios se estavam D. Quixote e o escudeiro, quando
o fidalgo reparou que pelo caminho se adiantava para ali uma
grande poeirada. Voltou-se então para Sancho, e disse-lhe:
- É este o dia, Sancho, em que se há-de ver o bem que a "
minha sorte me tinha reservado; é o dia, repito, em que se
há- " -de mostrar mais que nunca o valor do meu braço, e em
que ! hei-de fazer obras que fiquem registadas no livro da
fama por todos os vindouros séculos. Vês aquela poeirada que
ali se ergue, Sancho? Pois é levantada por um copiosíssimo
exército de diversos e inumeráveis povos que por ali vêm
marchando.
- Por essas contas - disse Sancho - dois devem eles ser,
porque desta parte contrária também sobe outra poeirada
semelhante.
Voltou-se para ali D. Quixote e viu que era verdade; e,
alegrando-se sobremodo, assentou que eram, sem dúvida alguma,
dois exércitos que vinham a travar-se e combater no meio
daquela espaçosa planície, porque não se passava hora que não
tivesse a fantasia cheia daquelas batalhas, encantamentos,
sucessos, desatinos, amores, e desafios, que nos livros de
cavalaria se relatam. Quanto dizia, pensava, ou fazia, ia
sempre bater em coisas dessas.
A poeirada, que havia visto, levantavam-na dois grandes
rebanhos de ovelhas e carneiros, que por aquele mesmo caminho
vinham de diferentes partes; os quais, em razão do pó, se não
deixaram perceber enquanto se não avizinharam. Com tamanho
afinco afirmava D. Quixote que eram exércitos, que Sancho
chegou a acreditar e a dizer:
- Pois Senhor, que havemos então de faze7
- Que havemos de fazer! - disse D. Quixote. - Havemos de
favorecer e ajudar aos necessitados e desvalidos. Hás-de
saber, Sancho, que este, que vem pela nossa frente, o
capitaneia o grande imperador Alifanfarrão, senhor da grande
Taprobana; e estoutro, que marcha por trás das minhas costas,
é o do seu inimigo el-rei dos garamantes Pentapolim de
arremangado braço, porque sempre entra nas batalhas com o
braço direito nu.
137
MIGUEL DE CERVANTES
- E porque se querem tão mal esses dois senhores? - perguntou
Sancho.
- Querem-se mal - respondeu D. Quixote - porque este
Alifanfarrão é um pagão furibundo, e está namorado da filha
de Pentapolim, que é uma formosíssima, e ainda por cima muito
engraçada senhora, e cristã. Seu pai não quer dá-la ao rei
pagão, sem ele primeiro renegar a lei do seu falso profeta
Mafoma, e se converter à sua.
- Voto por estas barbas - disse Sancho - que faz muito bem o
Pentapolim, e hei-de ajudá-lo enquanto puder.
- Nisso farás o que deves, Sancho - disse o fidalgo -, porque
para entrar em batalhas semelhantes não se requer ter sido
armado cavaleiro.
- Até aí bem percebo eu - respondeu Sancho -; mas onde
poremos nós este asno, para termos a certeza de o acharmos
depois da refrega? Porque o entrar nela com semelhante
cavalgadura, creio que ainda até agora se não viu.
- É certo - disse D. Quixote -; o que melhormente podes fazer
dele é deixá-lo às suas aventuras, quer se perca, quer não;
porque tantos hão-de ser os cavalos com que havemos de ficar
depois da vitória, que até o Rocinante corre seu risco de eu
o trocar por outro. Mas está atento e repara, que te quero
dar conta dos cavaleiros mais principais que vêm nestes dois
exércitos; e para que melhor os notes, retiremo-nos para
aquela alturinha que ali se levanta, de onde se devem
descobrir os exércitos ambos.
Fizeram-no assim, colocando-se numa lomba, de onde se
avistavam bem os dois rebanhos, que a D. Quixote se
representavam exércitos. As nuvens de pó que levantavam lhe
tinham turvada e cega a vista. Apesar de tudo, porém, vendo
na imaginação o que lhe não mostravam os olhos, nem havia, em
voz alta começou a dizer:
- Aquele cavaleiro que ali vês, de armas amarelas, que traz
no escudo um leão coroado rendido aos pés de uma donzela, é o
valoroso Laurcalco, senhor da ponte de prata. O outro, das
armas com flores de ouro, que traz no escudo três coroas de
prata em campo azul, é o temido Micocolembo, grão-duque da
138
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Quirócia. O outro, de membros agigantados, que à sua mão
direita vem, é o nunca amedrontado Brandabarbarrão de Boli- |
che, senhor das três Arábias, que vem armado com aquela |
pele de serpente, e tem por escudo uma porta, que (segundo ?
é fama) é uma das do templo derribado por Sansão, quando se
vingou dos seus inimigos, matando-se. Mas vira agora os |
olhos para a outra parte, e verás adiante, e na frente
destou- j tro exército, ao sempre vencedor, e nunca jamais
vencido Timonel de Carcajona, príncipe da Nova Biscaia, que
vem :
armado com armas esquarteladas de azul, verde, branco e ?
amarelo, e traz no escudo um gato de ouro em campo '
aleonado, com uma letra que diz «Miau», que é o princípio do
nome da sua dama, que (segundo se diz) é a sem-par Miaulina,
filha do duque Alfenhique do Algarve. O outro, que oprime e
assoberba os lombos daquela possante égua, e traz as armas
brancas de neve, é um cavaleiro novel, de nação francesa,
chamado Pierre Papin, senhor das baronias de Utreque. O
outro, que bate com os ferrados talões os ilhais daquela
pintada e ligeira zebra e traz o escudo veirado de azul, é o
poderoso duque de Nérvia, Espartafilardo do Bosque. Traz por
empresa no escudo um espargal, com uma letra em castelhano,
que diz assim: Rastrea mi suerte.
E assim foi D. Quixote por diante, nomeando muitos cavaleiros
de um e de outro campo, como a ele se antolhavam, dando a
todos as suas armas, cores, empresas, e letras, que
improvisava levado das imaginativas da sua loucura nunca
vista; e sem se deter prosseguiu, dizendo:
- Este esquadrão formam-no gentes de diversas naçes. Aqui
estão os que bebem as doces águas do famoso Xanto; os
montanheses que pisam os campos Massílicos; os que joeiram o
finíssimo e miúdo ouro da Feliz Arábia; os que gozam das
famosas e frescas ribeiras do claro Termodonte; os que
sangram por muitas e diversas vias o rico Pactolo; os númidas
incertos no cumprir a palavra; os Persas afamados em arcos e
frechas;
os Partos e Medas, que pelejam fugindo; os Árabes de vivendas
mudáveis; os Citas tão cruéis como alvos; os Etíopes de
lábios furados; e outras infinitas nações, cujos rostos estou
vendo e
139
MIGUEL DE CERVANTES
conhecendo, ainda que os nomes não me lembram. Nestoutro
esquadrão vem os que bebem as correntes cristalinas do
olivífero Bétis; os que lavam o rosto nas águas do sempre
rico e dourado Tejo; os que desfrutam as proveitosas águas do
divino Xemil;
os que pisam os Tartésios campos de pastos abundantes; os que
folgam nos elísios prados do Xerez; os manchegos, ricos e
coroados de louras espigas; os de ferro vestidos, restos
antigos do sangue godo; os que se banham no Pisuerga, famoso
pela mansidão da corrente; os que apascentam os seus gados
nas extensas devesas do tortuoso Guadiana, celebrado pelo seu
escondido curso; os que tremem com o frio dos selváticos
Pirenéus, e com as brancas neves do alteroso Apenino;
finalmente, quantos se contêm na Europa toda.
Valha-me Deus! e quantas mais províncias não disse! Quantas
naçes não nomeou, dando a cada uma, e com maravilhosa
presteza, os atributos que lhe pertenciam, todo absorto e
repassado do que tinha lido nos seus livros mentirosos!
Embasbacado estava Sancho Pança com tanto palavrório sem
dizer nem pio; de quando em quando, voltava a cabeça para ver
se avistava os cavaleiros e gigantes que o amo nomeava; e,
como não descobria nem meio, lhe disse:
- Senhor meu, leve o Diabo tudo isso, que não vejo por todo
este descampado homem, nem gigante, nem cavaleiro nenhum dos
que menciona. Eu ao menos não percebo tal. Talvez seja tudo
encantamento como as avejões desta noite.
- Como! Pois não ouves o rinchar dos cavalos? O toque dos
clarins, e o trovejar dos tambores?
- O que eu ouço - respondeu Sancho - são muitos balidos de
carneiros e ovelhas; mais nada.
E era verdade, porque os dois rebanhos já vinham muito perto.
- O medo que tens - disse D. Quixote - é que faz, Sancho, que
nem vejas, nem ouças às direitas, porque um dos efeitos do
medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas
outras do que são. Se tão medroso és, retira-te para onde
quiseres, e deixa-me só, que basto eu para dar a vitória à
parcialidade a quem ajude.
140
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
E, falando assim, cravou as esporas em Rocinante; e, posta a
lança em riste, baixou da lomba como um raio. Dava-lhe vozes
Sancho, dizendo;
- Volte para trás, Sr. D. Quixote, que voto a Deus, que isso
que vai investir so carneiros e ovelhas. Volte para trás. Mal
haja o pai que me gerou. Forte loucura! Repare bem, que não
há gigante, nem cavaleiro, nem gatos, nem escudos partidos
nem inteiros, nem veiros azuis, nem endiabrados. Que faz?
Pecados meus!
Nem com tudo aquilo se refreava D. Quixote, antes em altas
vozes ia clamando:
- Eia, cavaleiros, que seguis e militais debaixo das
bandeiras do valoroso imperador Pentapolim de arremangado
braço, segui-me todos, vereis quão facilmente lhe dou
vingança do seu inimigo Alifanfarrão de Taprobana.
Com estas palavras se entranhou pelo tropel das ovelhas, e
começou a alancear nelas, tão denodado como se desse em
verdadeiros inimigos mortais. Bradavam-lhe os pastores, que
tivesse mão; porém, vendo que era tempo perdido, levaram de
suas fundas, e começaram a cumprimentar-lhe as orelhas com
pedradas como punhos. D. Quixote, sem fazer caso das pedras,
campeava para todas as partes, dizendo:
- Onde estás, soberbo Alifanfarrão? Vem para mim, que sou um
só cavaleiro, e desejo a sós por sós provar as tuas forças, e
tirar-te a vida em castigo das penas que dás ao valoroso
Pentapolim Garamante.
Nisto, acertou-lhe um seixo dos do rio, que lhe meteu duas
costelas dentro.
Vendo-se tão maltratado, deu, por sem dúvida, que estava
morto, ou muito gravemente ferido, e, lembrando-se do seu
específico, puxou da almotolia, pô-la à boca, e principiou a
engolir; mas, antes de ter esvaziado quanto lhe pareceu
suficiente, veio outra amêndoa tão certeira contra a mão e a
almotolia, que a amigou toda, levando juntamente a D. Quixote
três ou quatro dentes queixais, e pisando-lhe fortemente dois
dedos.
Tal foi o primeiro golpe e o segundo, que ao pobre cavaleiro
forçado foi deixar-se cair do cavalo.
141
MIGUEL DE CERVANTES
Chegaram-se a ele os pastores, e, supondo terem-no morto,
recolheram o gado a toda a pressa, levaram as reses mortas,
que passavam de sete, e sem mais averiguações se lançaram a
fugir.
Todo aquele tempo o levou Sancho na lomba, a observar as
loucuras que seu amo fazia, e a arrancar as barbas, e a
amaldiçoar a hora e o instante em que a desgraça lho tinha
feito conhecer. Vendo-o caído, e os pastores já
desaparecidos, desceu da lomba, chegou-se a ele, e achou-o
naquela lástima, mas ainda em si; e disse-lhe:
- Não lhe pregava eu, Sr. D. Quixote, que se tomasse atrás, e
que os que ia acometer não eram exércitos, senão cameiradas?
- Aí tens tu como aquele ladrão do sábio meu inimigo faz
aparecer e desaparecer as coisas - disse D. Quixote -; podes
crer, Sancho, que aos tais é fácil figurarem-nos tudo que
lhes lembra; e este maligno que me persegue, invejoso da
glória que viu me adviria desta batalha, transformou os
esquadrões dos inimigos em fatos de ovelhas; quando não, por
vida minha! Faz uma coisa, Sancho, para te desenganares da
verdade: monta no teu asno, segue-os de longe, e verás como,
em se afastando um pouco daqui, tomam ao seu primeiro ser,
deixam de ser carneiros e se fazem homens, tão feitos e
perfeitos como eu tos pintei. Mas não vás por ora, que tenho
precisão de que me ajudes; primeiro, chega-te cá, e vê bem
quantos queixais me faltam; parece-me que são todos.
Chegou-se-lhe tão perto o Sancho, que lhe metia quase os
olhos pela boca, e foi a tempo que já o bálsamo tinha
produzido o seu efeito no estômago de D. Quixote. Nesse
momento, pois, desfechou sobre as barbas do compassivo
escudeiro, que nem tiro de escopeta, tudo que havia dentro.
- Nossa Senhora! - exclamou Sancho. - Que é isto? Sem dúvida
este pecante está ferido mortalmente: vomita sangue.
Reparando, porém, um pouco mais, conheceu pela cor, sabor e
cheiro, que tal sangue não era, mas sim o bálsamo da
almotolia, que ele lhe vira engolir. Tamanho foi o seu nojo,
que, revolvendo-se-lhe o interior, vomitou as tripas mesmo
por cima do amo; ficaram ambos como umas pérolas.
142
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Correu Sancho ao seu burro, para tirar dos alforges com que
se limpar a si, e curar ao patrão; não os achou. Esteve a
pique de perder o juízo; disse outra vez mal à sua vida, e
resolveu de si para si deixar tal cargo, e tomar-se para a
terra, ainda que perdesse a soldada já merecida, e as
esperanças da prometida ilha.
Levantou-se neste comenos D. Quixote, e, com a mão esquerda
na boca, para lhe não acabarem de sair os dentes, colheu com
a direita as rédeas de Rocinante, o qual não tinha ainda
arredado pé (tanta era a sua lealdade e boa condição), e foise
para onde o escudeiro estava de peito sobre o asno, com a
mão na face, como excessivamente pensativo.
Vendo-o assim, e tão triste, disse-lhe:
- Sabe, Sancho, que só quem faz mais que outrem é que é mais
que outrem. Todas estas inclemências que nos acontecem sinais
são de que breve se nos há-de o tempo abonançar, e as coisas
correr-nos melhormente, porque não é possível, que nem o mal,
nem o bem, sejam perduráveis; por isso, tendo o mal aturado
já tanto, já o bem nos deve estar chegando; pelo tanto, não
tens por que anojar-te pelas desgraças que a mim me sucedem,
porque não tens nelas quinhão.
- Não tenho quinhão? - soltou Sancho. - Então o que ontem
mantearam não era o filho de meu pai? E os alforges, que me
faltam agora, com tudo o que eu tinha dentro deles, eram do
vizinho; não?
- Perdeste os alforges, Sancho? - disse D. Quixote.
- Não sei; não os acho - respondeu ele.
- Desse modo, não há que se coma hoje! - replicou D. Quixote.
- Não haveria decerto - tornou Sancho - se faltassem por
estes prados as ervas que Vossa Mercê conhece, segundo diz,
das quais se costumam valer para remédio em semelhantes
faltas os tão mal-aventurados cavaleiros andantes como Vossa
Mercê.
- Mesmo assim - respondeu D. Quixote - mais quisera eu agora
um quarto de pão, e até uma bola de suborralho, com duas
cabeças de sardinhas de espicha, que todas quantas ervas
descreve Dioscórides, nem que fosse o ilustrado pelo Dr.
Lagu-
143
MIGUEL DE CERVANTES
na. Seja como for, monta, bom Sancho, no teu jumento, e vem
atrás de mim, que Deus, que por tudo olha, não nos há-de
faltar, e mais andando nós tanto em serviço dEle como
andamos, Ele, que nem falta aos mosquitos do ar, nem aos
bichinhos da terra, nem aos filhos das rs nos charcos, e é
tão piedoso que faz nascer o Sol sobre os bons e os maus, e
chove sobre os injustos e os justos.
- Mais talhado estava Vossa Mercê - disse Sancho - para
pregador, que para cavaleiro andante.
- De tudo sabiam e devem saber os cavaleiros andantes - disse
D. Quixote -, pois cavaleiro andante houve nos passados
séculos, que se detinha a fazer um sermão ou prática no meio
de uma estrada real, como se fora graduado pela Universidade
de Paris; de onde se infere que, nem a lança dana à pena, nem
a pena à lança.
- Ora bem; seja assim como Vossa Mercê diz - respondeu Sancho
- mas vamo-nos já daqui, e procuremos onde se há-de ficar
esta noite. Permita Deus que seja em parte onde não haja
mantas, nem manteadores, nem mouros encantados, que, se os
houver, dou ao Diabo a cartada.
- Pede-o tu a Deus, filho - disse D. Quixote -, e vamos para
onde tu quiseres, que desta vez quero deixar à tua escolha o
albergar-nos. Mas chega cá a mão, e apalpa-me com o dedo;
vê bem quantos queixais me faltam deste lado direito no
queixo de cima; ali é que me dói.
Meteu Sancho os dedos, e, estando a apalpar, lhe disse:
- Quantos queixais costumava Vossa Mercê ter deste lado?
- Quatro - respondeu D. Quixote - afora a presa; todos
inteiros e muito sãos.
- Olhe Vossa Mercê bem o que diz Senhor - respondeu Sancho.
- Digo quatro, se não eram cinco - respondeu D. Quixote -,
porque em toda a minha vida nunca me tiraram dente da boca,
nem me caiu nenhum, nem me apodreceu.
- Pois nesta parte de baixo - tornou Sancho - não tem Vossa
Mercê senão dois queixais e meio; e da parte de cima nem
meio, nem nenhum; está tudo raso como a palma da mão.
144
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Desventurado de mim! - disse D. Quixote, ouvindo as tristes
novas que o seu escudeiro lhe dava. - Antes quisera que me
tivessem deitado abaixo um braço (uma vez que não fosse o da
espada); porque te digo, Sancho, que boca sem queixais é como
moinho sem mós; e muito mais se há-de estimar um dente, que
um diamante. Mas a tudo isto andamos sujeitos os que
professamos a apertada ordem da cavalaria. Monta, amigo, e
vai guiando, que eu te sigo na andadura que te parecer.
Assim o fez Sancho, e se encaminhou para onde entendeu
poderia achar acolhida sem sair da estrada real, que por ali
ia muito trilhada; e, caminhando devagarinho porque as dores
dos queixos de D. Quixote não o deixavam sossegar nem
apressar-se, quis Sancho i-lo entretendo e divertindo em
dizer-lhe alguma coisa; e, entre as que lhe disse, foi o que
se agora referirá no seguinte capítulo.
CAPITULO XIX
DAS DISCRETAS RAZÕES QUE SANCHO PASSAVA COM O AMO
E DA AVENTURA QUE LHES SUCEDEU COM UM DEFUNTO, E OUTROS
ACONTECIMENTOS FAMOSOS
- O que me está parecendo Senhor meu, é que as desventuras,
que estes dias me têm sucedido, têm sido, sem nenhuma dúvida,
todas castigo do pecado cometido por Vossa Mercê contra a
ordem da sua cavalaria, por não ter desempenhado o juramento
que fez de:
não comer pão em toalha nem côa rainha folgar,
com o mais que a trova reza, e que Vossa Mercê jurou de
cumprir, até que não tirasse para si o elmete de Malandrino,
ou como se chama o tal mouro (que o nome não me lembra muito
bem).
145
MIGUEL DE CERVANTES
- Tens muita razão, Sancho - disse D. Quixote -, mas, para te
dizer a verdade, tinha-me esquecido; e podes também ter por
certo, que, pela culpa de tu mo não teres lembrado a tempo, é
que te sucedeu a ti aquilo da manta; porém eu farei a emenda,
que para tudo há modos de composição na ordem da cavalaria.
- Pois eu jurei porventura alguma coisa? - respondeu Sancho.
- Embora não jurasses - tomou D. Quixote - entendo que de
participante não estás livre; e, pelo sim pelo não, bom será
provermo-nos de remédio.
- Se assim é - disse Sancho - olhe Vossa Mercê não se esqueça
também disto como do juramento, que talvez aos fantasmas lhes
tornasse a gana de se divertirem comigo, e até com Vossa
Mercê, se o virem tão sem emenda.
Nestas e noutras práticas os tomou a noite no meio do
caminho, sem terem, nem descobrirem, onde pernoitar; o que
nisso nada tinha de bom é que iam mortos à fome, pois com o
sumiço dos alforges se lhes tinha ido embora despensa e
matalotagem; e, para complemento de tamanha desgraça,
sucedeu-lhes uma coisa, que, sem ser de propósito, bem o
parecia; e foi, que a noite se fechou assaz de escura. Iam
não obstante caminhando, que, visto ser aquela a estrada
real, por boa razão a uma ou duas léguas se encontraria nela
alguma venda.
Indo, pois, desta maneira, a noite escura, o escudeiro
esfaimado, e o amo com boa vontade de comer, viram, que, pelo
caminho mesmo que levavam, se dirigia para eles grande
multidão de luzes, que não pareciam senão estrelas errantes.
Pasmou Sancho quando as avistou, e D. Quixote não deixou de
as estranhar.
Sofreou um pelo cabresto ao asno, e o outro pelas rédeas ao
rocim, e ficaram parados à espera do que surdiria. Viram que
as luzes se lhes iam aproximando, e, quanto mais se
aproximavam, maiores pareciam. Àquela vista, Sancho pôs-se a
tremer como um azougado, e ao próprio D. Quixote se
arrepiaram os cabelos. Este, porém, animando-se um tanto,
disse:
146
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Esta é, que sem dúvida, Sancho, deve ser grandíssima e
perigosíssima aventura, e será necessário mostrar eu nela
todo o meu valor e esforço.
- Malfadado de mim! - respondeu Sancho. - Se acaso esta
aventura for de fantasmas, segundo me vai parecendo, onde
haverá costelas que lhes bastem?
- Por mais fantasmas que venham - respondeu D. Quixote
- não consentirei que te ponham mão nem num pelinho do fato.
Se da outra vez zombaram contigo, foi porque não pude saltar
as paredes do pátio; mas agora estamos em terreno raso, onde
posso à vontade esgrimir a espada.
- E se o encantam e o tolhem, como da outra vez fizeram
- disse Sancho -, que valerá estar ou não em terreno raso?
- Apesar disso tudo - replicou D. Quixote - peco-te, Sancho,
que tenhas ânimo; verás o meu.
- Hei-de ter, se Deus quiser - respondeu Sancho. E,
apartando-se ambos para a orla do caminho, tornaram a olhar
atentamente no que poderia ser aquilo, e as luzes que lá
vinham. Dentro em pouco, descobriram muitos encamisados.
Aquela fantasmagoria pavorosa de todo o ponto deu mate ao
ânimo de Sancho, que entrou a bater os dentes como em frio de
quarta; mais ainda cresceu nele o bater dos dentes, quando
distintamente se viu o que era, porque descobriram uns vinte
encamisados, todos a cavalo, com suas tochas acesas nas mãos,
após eles uma liteira coberta de luto, seguida de outros seis
a cavalo, enlutados até aos pés das mulas, que bem se via que
o eram, e não cavalos, pelo sossego com que andavam.
Iam os encamisados sussurando em voz baixa e lastimosa. Tão
estranha vista, e tão a desoras, e num despovoado, era
bastante para pôr medo no coração de Sancho, e até no de seu
amo. Assim sucedeu a D. Quixote, o qual, a despeito de todas
as suas valentias, já tinha virado de avesso todo o esforço
de Sancho; mas ao amo, pelo contrário, naquele ponto se
representou ao vivo na imaginaço ser aquela uma das aventuras
dos seus livros.
Figurou-se-lhe que a liteira era umas andas em que devia vir
algum malferido ou morto cavaleiro, cuja vingança lhe esta-
147
MIGUEL DE CERVANTES
vá só a ele reservada; e, sem fazer mais discurso, enristou a
sua chuça, firmou-se bem na sela, e com gentil brio e garbo
se atravessou no meio do caminho, por onde os encamisados
forçosamente haviam de passar; e, quando os viu ao pé,
levantou a voz e disse:
- Parai, cavaleiros, quem quer que sejais, e dai-me conta de
quem sois, de onde vindes, onde ides, e que levais nas andas,
que, segundo as mostras, ou vós outros haveis feito, ou vos
hão feito a vós, algum desaguisado, e convém, e é mister, que
eu o saiba, ou para vos castigar do mal que perpetrastes, ou
para vos vingar da sem-razão que vos fizeram a vós.
- Vamos com pressa - respondeu um dos encamisados -, que fica
ainda longe a venda, e não nos podemos dilatar a dar tantas
respostas como nos pedis - e, picando a mula, passou para
diante.
Sentiu-se grandemente D. Quixote desta resposta, e, travandolhe
do freio, disse-lhe:
- Detende-vos, e sede mais bem-criado, e dai-me conta do que
vos eu perguntei, quando não, tendes de vos haver todos
comigo em batalha.
Era a mula espantadiça; e, ao toarem-lhe o freio, de tal
maneira se sobressaltou, que, levantado-se nos dois pés
traseiros, despejou pelas ancas o dono para o chão.
Um moço, que ia a pé, vendo caído o encarnisado, começou a
injuriar D. Quixote, o qual, já encolerizado, e sem mais
esperas, enristando a sua chuça, arremeteu a um dos
enlutados, e deu com ele em terra malferido; voltando-se para
os demais, era para ver como os acoetia, e desbaratava, que
não parecia senão que naquele momento haviam nascido asas a
Rocinante, segundo campeava ligeiro e orgulhoso.
Eram todos os encamisados gente timorata e sem armas; e
assim, com facilidade, num instante deixaram a refrega, e
começaram a correr por aquele campo com as tochas acesas, que
não pareciam senão mascarados a revolver em noite de festa e
regozijo.
Os enlutados, revoltos e envoltos nas suas lobas e opas
compridas, mal se podiam mover; pelo que, muito a seu salvo,
D.
148
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Quixote os foi a todos apaleando, e os fez deixar o sítio a
seu mau grado, por se lhes representar não ser aquilo homem,
senão o próprio Diabo do Inferno, que lhes saía a tirar-lhes
o defunto que ia na liteira.
Estava Sancho a ver tudo maravilhado do desembaraço e
atrevimento do fidalgo; e dizia entre si:
- Sem dúvida que este meu amo é tão valente e esforçado como
ele diz.
Estava por terra uma tocha a arder junto ao primeiro que a
mula derrubara. D. Quixote, que o pôde ver àquela claridade,
chegou-se a ele, e, apontando-lhe ao rosto a chuça, lhe
intimou que se rendesse, quando náo o mataria; ao que o
derrubado respondeu:
- Rendido de mais estou eu, pois não me posso mover; tenho
uma perna quebrada. Suplico a Vossa Mercê, se é cavaleiro
cristão, me não mate, pois grande sacrilégio seria isso,
sendo eu, como sou, licenciado, e tendo as primeiras ordens,
como tenho.
- Pois quem diabo o trouxe aqui - instou D. Quixote - sendo
homem da Igreja?
- Quem, Senhor? - replicou o caído. - A minha desdita.
- Pois outra maior vos ameaça - disse D. Quixote - se me não
satisfazeis a tudo que ao princípio vos perguntei.
- Com facilidade será Vossa Mercê satisfeito - respondeu o
licenciado - e, portanto, saberá Vossa Mercê que, ainda que
primeiro lhe disse, que era licenciado, não sou senão
bacharel, e chamo-me Afonso Lopes; sou natural de Alcobendas;
venho da cidade de Baeça com outros onze sacerdotes, que são
os que fugiram com as tochas; vamos à cidade de Segovia
acompanhando um morto, que vai naquela liteira, que é um
cavaleiro que faleceu em Baeça, onde foi depositado; e agora,
como lhe digo, levamos os seus ossos ao seu sepulcro, que
está em Segovia, que é a sua naturalidade.
- E quem o matou? - perguntou D. Quixote.
- Matou-o Deus por meio de umas febres pestilenciais que lhe
deram - respondeu o bacharel.
149
MIGUEL DE CERVANTES
- Dessa maneira - disse D. Quixote - livrou-me Nosso Senhor
do trabalho que eu tomaria de vingar-lhe a morte, se outrem e
qualquer o tivera morto; mas, sendo quem foi o matador, não
há senão calar, e encolher os ombros, que é o mesmo que eu
havia de fazer se Ele me matara a mim; e quero que saiba
Vossa Reverência, que eu sou um cavaleiro da Mancha chamado
D. Quixote; e é o meu ofício e exercício andar pelo mundo
endireitando tortos, e desfazendo agravos.
- No sei como pode ser isso de endireitar tortos - disse o
bacharel - pois bem direito era eu, e vós agora é que me
entortastes, deixando-me uma perna quebrada, que nunca mais
em dias de vida me tornará a ser direita; e o agravo que a
mim me desfizestes foi deixardes-me agravado de maneira que
heide
ficar agravado para sempre; e desventura grande há sido
para mim encontrar-me convosco nesse buscar de aventuras.
- Nem todas as coisas - respondeu D. Quixote - sucedem do
mesmo modo; a desgraça foi, Sr. Bacharel Afonso Lopes, o
virdes, como viestes, de noite, vestidos com aquelas
sobrepelizes, com as tochas acesas, rezando, cobertos de
luto, que parecíeis tal qual coisas más e do outro mundo; por
isso é que não pude deixar de cumprir a minha obrigação
acometendo-vos; e à fé que vos acometeria, ainda que soubera
serdes os próprios Satanases do Inferno, que por tais vos
julguei e tive sempre.
- Já que assim o quis a minha desgraça - disse o bacharel
- suplico a Vossa Mercê, Senhor Cavaleiro Andante, que tão má
andança me há dado, me ajude a sair debaixo desta mula, que
me tem presa esta perna entre o estribo e a sela.
- Até amanhã ficaria eu a palestrar - redarguiu D. Quixote
-, mas para quando deixáveis o queixar-vos?
Nisto, entrou logo a bradar por Sancho que viesse; mas Sancho
é que não fez caso de acudir, porque andava ocupado em
aliviar uma azêmola carregada de vitualhas, que os bons dos
padres traziam. Engenhou Sancho do seu gabão uma espécie de
saco; e, recolhendo nele tudo o que pôde e lhe coube dentro,
o cargou para cima do seu jumento, e para logo acudiu aos
brados do amo, e ajudou a livrar o Sr. Bacharel da opressão
da mula; pô-lo para cima dela, e lhe deu a sua tocha, e D.
Quixote
150
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
lhe disse que seguisse na direcção dos companheiros, e que da
parte dele lhes pedisse perdão do agravo, que não tinha
estado em sua mão deixar de lhes fazer. A isto ajuntou ainda
Sancho:
- Se por acaso quiserem saber esses senhores quem há sido o
valoroso que tais os pôs, Vossa Mercê lhes dirá que foi o Sr.
D. Quixote de Ia Mancha, que por outro nome se chama «O
Cavaleiro da Triste Figura».
Com isto se foi o bacharel; e D. Quixote perguntou a Sancho
por que motivo lhe ocorrera chamar-lhe «Cavaleiro da Triste
Figura», naquela ocasião precisamente.
- Eu lhe digo - respondeu Sancho. - É porque o estive
considerando um pouco à luz da tocha que vai na mão do mal
andante cavaleiro, e deveras reconheci em Vossa Mercê, de
pouco para cá, a mais má figura que nunca vi; do que deve ter
sido causa ou o cansaço deste combate, ou talvez a falta dos
dentes queixais.
- Não é isso - respondeu D. Quixote -, é que ao sábio, a cujo
cargo deve estar o escrever a história das minhas façanhas,
haverá parecido bem que eu tome algum nome apelativo, como o
tomavam os cavaleiros passados, que um se chamava da ardente
espada, outro do unicórnio, aquele o das donzelas, este o da
ave Fénix, outro o cavaleiro do grifo, estoutro o da morte; e
por estes nomes e insígnias eram conhecidos por toda a
redondeza da Terra; e, assim, considero que o sobredito sábio
te haverá posto na língua e na ideia, que me chamasses agora
«Cavaleiro da Triste Figura», como tenciono ficar-me nomeando
doravante; e, para que melhor me acerte o nome, determino
mandar pintar no meu escudo, quando para isso houver
oportunidade, uma figura muito triste.
- Não é preciso gastar tempo nem dinheiro para se fazer essa
figura - disse Pança -; o mais acertado é que Vossa Mercê
descubra a sua própria cara aos que o olharem, que, sem mais
nem mais, e sem outro retrato nem escudo, todos o chamarão
logo «o da Triste Figura»; e olhe, que lhe digo a pura
verdade, porque lhe certifico a Vossa Mercê, Senhor meu
(embora tome por gracejo), que tão má cara está sendo a sua
com a fome, e a
151
MIGUEL DE CERVANTES
falta dos queixais, que muito bem se poderá dispensar, como
já lhe disse, a tal pintura triste.
Riu-se D. Quixote co o chiste do seu escudeiro; contudo,
assentou em chamar-se com aquele nome, logo que pudesse
conseguir que pintassem o seu escudo ou rodela, como
fantasiava. Disse-lhe depois:
- Entendo eu, Sancho, que fiquei excomungado por haver posto
as mãos em coisa sagrada, ]uxta illud; si quis suadente
diabolo, 6, ainda que estou bem certo de que não foram as
mãos que lhe eu pus, mas sim esta lancita; quanto mais, que
não pensei, que ofendia a sacerdote nem a coisas da Igreja, a
quem respeito e adoro, como católico e fiel cristão que sou,
senão a fantasmas e coisas do outro mundo; e, quando isso
assim fosse, em memória tenho o que sucedeu ao Cid Rui Dias,
quando quebrou diante do papa a cadeira do embaixador daquele
reino;
pelo que o mesmo papa o excomungou, e naquele dia andou o bom
Rodrigo de Bivar como muito honrado e valente cavaleiro.
Tendo partido o bacharel, como dito fica, sem responder mais
palavra, deu na vontade a D. Quixote ir ver se o corpo que
vinha na liteira era ossada ou não, mas não lho consentiu
Sancho, dizendo-lhe:
- Senhor, saiu-se Vossa Mercê desta aventura o mais a seu
salvo de todas quantas eu tenho visto; esta gente, ainda que
vencida e desbaratada, bem poderia ser que, afinal, reparasse
em que a tinha derrotado uma só pessoa, e, corridos e
envergonhados disto, voltassem a refazer-se e buscar-nos, e
nos dessem que fazer. O jumento prestes está; a montanha à
mão; e a fome aperta; não há mais que fazer senão retirarmonos
muito airosos, e, como dizem, o morto à cova, e o vivo à
fogaça.
E, tocando o jumento, pediu ao amo que o acompanhasse. Este,
achando razão a Sancho, sem mais resposta lhe foi no encalço.
A poucos passos, por entre dois outeiros, deram num espaçoso
e encoberto vale, em que se apearam. Sancho aliviou o
jumento, e, estendidos no ervaçal viçoso, com o tempero da
fome que traziam, almoçaram, jantaram, merendaram e cearam,
tudo junto, satisfazendo os estômagos com várias carnes
frias, que
152
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
os senhores clérigos de defunto (que poucas vezes se deixam
passar mal) traziam de prevenção às costas da azêmola.
Mas aqui lhes sucedeu outra desgraça, que a Sancho pareceu a
pior de todas; e foi não terem vinho que beber, e até nem
água para chegar à boca; e, perseguidos da sede, vendo Sancho
que o prado estava coberto de erva miúda e viçosa, disse o
que se ouvirá no seguinte capítulo.
CAPÍTULO XX
DA NUNCA VISTA NEM OUVIDA AVENTURA QUE AMAIS
CAVALEIRO ALGUM FAMOSO NO MUNDO ACABOU, E A CONCLUIU, QUASE
SEM PERIGO, D. QUIXOTE DE LA MANCHA
- Não é possível Senhor meu, que estas ervas deixem de nos
estar mostrando haver por aqui perto fonte ou arroio que lhes
alimenta o viço. Será logo razão passarmos um pouco adiante,
e acharemos com que mitigar esta desesperada sede que nos
mortifica, e sem dúvida é pior de sofrer do que a própria
fome.
Toou por bom o conselho a D. Quixote; e, tomando pela rédea a
Rocinante, e Sancho ao seu asno pelo cabresto, depois de lhe
ter posto em cima os sobejos da ceia, começaram a caminhar
pelo prado acima às apalpadelas, porque o escuro da noite não
deixava enxergar coisa alguma.
Ainda, porém, não tinham andado duzentos passos, quando aos
ouvidos lhes chegou um grande ruído de água como que a
despenhar-se de alguma levantada penedia.
Alegrou-os muitíssimo aquele estrondo; e, parando a escutar
de que parte vinha, ouviram naquele fora de horas outro
estrépito, que aguarentou o contentamento da água
especialmente a Sancho, que de seu natural era medroso e
pusilânime.
Ouviram uns golpes a compasso com um certo retinir como de
ferros e cadeias, que, juntos ao furioso estrondo da água,
que lhes fazia acompanhamento, poriam pavor a quem quer que
não fora D. Quixote.
153
MIGUEL DE CERVANTES
Era a noite, como já disse, escura; e eles acertaram de se
achar entre umas árvores altas, cujas folhas, movidas de um
vento brando, faziam um temeroso, ainda que frouxo ruído; por
modo, que a solidão, o lugar, o escuro, o cair da água, com o
sussurro das folhas, tudo infundia terror e espanto, mormente
reparando-se em que nem os golpes cessavam, nem o vento
adormecia, nem a manhã chegava; acrescentando-se a tudo isto
o não saberem em que lugar se achavam.
Porém D. Quixote, acompanhado do seu intrépido coração,
saltou sobre Rocinante, e, embraçando a rodela, terçou a
chuça, e disse:
- Sancho amigo, hás-de saber que eu nasci, por determinação
do Céu, nesta idade de ferro, para nela ressuscitar a de ouro
(ou dourada, como se costuma dizer). Sou eu aquele para quem
estão guardados os perigos, as grandes façanhas, e os
valorosos feitos. Sou, torno a dizer, quem há-de ressuscitar
os da Távola Redonda, os Doze Pares de França, e os nove da
Fama; o que há-de pôr em esquecimento os Platires, os
Tablantes, Olivantes, e Tirantes, os Febos e Belianizes, com
toda a caterva dos formosos cavaleiros dos passados tempos,
fazendo neste em que me acho tais grandiosidades, estranhezas
e feitos de armas, que escurecem os que eles fizeram mais
brilhantes. Bem estás vendo, escudeiro fiel e de lei, as
trevas desta noite, o seu estranho silêncio, o soturno e
confuso estrondo destas árvores, o temeroso fracasso daquela
água, em cuja busca vimos, que parece que se despenha e
derruba desde os altos montes da Lua, e aquele incessante
martelar que nos fere e importuna os ouvidos, as quais coisas
todas juntas, e cada uma só por si, são bastantes para
infundir medo, temor, e espanto, ao peito do mesmo Marte,
quanto mais a quem não está acostumado a semelhantes
estranhezas e aventuras. Pois tudo isto, que eu te pinto, são
incentivos e despertadores do meu ânimo, que já está fazendo
que o coração me rebente no peito, com a ânsia que tem de
acometer esta aventura, por temerosíssima que se mostra.
Aperta, pois, as cilhas ao Rocinante, fica-te com Deus, e
espera-me aqui até três dias, não mais. Se neles eu não
voltar, podes tu tornar-te para a nossa aldeia; e de lá, para
me obsequiares e fazeres
154
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
uma obra boa, irás a Toboso, onde dirás à minha incomparável
Sr. Dulcineia, que o seu cativo cavaleiro morreu, por tentar
coisas que o pudessem fazer digno de chamar-se dela.
Sancho, ouvindo estas palavras do amo, desatou a chorar com a
maior ternura do mundo, e a dizer-lhe:
- Senhor, não sei por que Vossa Mercê quer meter-se nessa
aventura tão medonha. Agora é noite; aqui ninguém nos vê; bem
podemos desandar o caminho, e desviar-nos do perigo, muito
embora não bebamos em três dias. Como não há quem nos veja,
também não há-de haver quem nos ponha mácula de cobardes;
quanto mais, que eu ouvi muitas vezes pregar ao cura do nosso
povo, que Vossa Mercê muito bem conhece, que quem busca o
perigo no perigo morre; e por isso não é bom tentar a Deus
acometendo tão desaforado feito, de onde se não pode escapar,
a não ser por algum milagre. Bem bastam os que o Céu já lhe
tem feito, em o livrar de ser manteado como eu fui, e em
tirá-lo vencedor, livre, e salvo, dentre tantos inimigos como
os que ao defunto acompanhavam. Quando nada disto abrande nem
mova esse duro coração, mova-o o pensar e crer por de fé, que
apenas Sua Mercê se houver apartado daqui, já eu de medo
entrego a alma a quem a quiser. Eu saí da minha terra, e
deixei filhos e mulher para vir ao serviço de Vossa Mercê,
com a fé de vir a ser mais, e não menos; porém, como a cobiça
rompe o saco, a mim já me tem estragado as minhas esperanças,
pois quando mais vivas as tinha de alcançar aquela negra e
malfadada ilha, que tantas vezes Vossa Mercê me tem
prometido, vejo que em paga e troca dela me quer agora deixar
em sítio tão apartado do trato humano. Por Deus, Senhor meu,
que me não faça semelhante desaguisado; e se de todo em todo
Vossa Mercê não desiste de arcar com este feito, ao menos
deixe-o para amanhã; isto daqui à alva, pela ciência que
aprendi quando era pastor, não podem já ir três horas, porque
a boca da buzina está por cima da cabeça, e faz meia-noite na
linha do braço esquerdo.
- Como podes tu, Sancho - disse D. Quixote -, ver onde está
essa linha, nem onde está essa boca, ou essa nuca de que
falas, se tamanho é o escuro, que nem estrelinha se descobre
em todo o céu?
155
MIGUEL DE CERVANTES
- Assim é - disse Sancho -, mas ao medo sobejam olhos;
vê as coisas debaixo da terra, quanto mais as do céu lá por
cima;
mas basta o bom discurso para se entender que daqui ao dia já
falta pouco.
- Falte o que faltar - respondeu D. Quixote - nem se há-de
dizer por mim agora, nem nunca, que lágrimas e rogos me
apartaram de fazer o que devia na qualidade de cavaleiro;
pelo que te rogo, Sancho, que te cales, que Deus, que me pôs
no coração acometer agora esta tão nunca vista e tão pavorosa
aventura, lá terá cuidado de olhar por meu salvamento, e de
consolar a tua tristeza. O que hás-de fazer é apertar as
cilhas a Rocinante, e ficar-te aqui, que eu depressa voltarei
vivo ou morto.
Vendo, pois, Sancho a resolução última do amo, e quão pouco
aproveitavam com ele as suas lágrimas, conselhos, e rogos,
determinou valer-se da sua indústria, e fazê-lo esperar até
ao dia, se pudesse; e assim, enquanto apertava as cilhas ao
cavalo, sorrateiramente, e sem ser sentido, prendeu com o
cabresto do seu asno ambas as mãos de Rocinante, por modo que
D. Quixote, quando quis partir, não o pôde, porque o cavalo
se não podia mover senão aos saltos.
Vendo Sancho Pança o bom êxito da sua maranha, disse:
- Vede, Senhor, como o Céu, comovido das minhas lágrimas e
orações, determinou não poder mover-se o Rocinante. Se
quereis teimar a esporeá-lo e bater-lhe, será ofender a
fortuna, e escoicinhar, como dizem, contra o aguilhão.
Desesperava-se com isto D. Quixote; e, por mais que metia as
pernas à cavalgadura, menos a fazia andar; e, sem acabar de
perceber o estorvo da peia, teve por bem sossegar, e esperar,
ou que amanhecesse, ou que o bruto desempatasse, crendo sem
dúvida, que de alguma outra causa provinha o empacho, e não
da habilidade do escudeiro; e falou-lhe assim:
- Como é inegável que o Rocinante se não pode menear,
contente sou de esperar até que ria a alva, ainda que chore
eu todo o tempo que ela tardar.
- Não tem que chorar - respondeu Sancho -, eu cá estou para
entreter Vossa Mercê, contando-lhe casos até ao amanhecer;
salvo se não acha melhor apear-se, e estender-se a dormir
156
r i
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA ;
um pouco sobre a verde erva, à moda dos cavaleiros andantes,
para se achar mais refeito quando chegar o dia e o instante
de acometer essa aventura táo sem igual, que o espera.
- Qual apear, nem qual dormir! - disse D. Quixote. - Sou eu
desses cavaleiros, que tomam descanso nos perigos? Dorme tu,
que para dormir nasceste, ou faz o que melhor te parecer, que
eu hei-de fazer o que vir que melhor condiz com a minha
pretensão.
- Não se enfade Sua Mercê - respondeu Sancho -, não foi para
isso que eu falei.
E, chegando-se para ele, pôs uma das mãos no arção dianteiro,
e a outra no outro; por modo que ficou abraçado com a coxa
esquerda do amo, sem se afoitar a apartar-se dele um dedo;
tal era o medo que tinha aos golpes que ainda teimavam em se
alternar.
Disse-lhe D. Quixote que referisse algum conto para o
entreter, como tinha prometido; ao que Sancho respondeu, que
de boa vontade o fizera, se o medo do que estava ouvindo lho
consentisse.
- Mas enfim - disse ele - seja como for, farei diligência
para contar uma história, que, se atino com ela, e me não
forem à mão, é a rainha das histórias. Dê-me Vossa Mercê toda
a atenção que já principio.
Era uma vez... o que era; se for bem, para todos seja; se
mal, para quem o buscar; e advirta Vossa Mercê, Senhor meu,
que o modo com que os Antigos começavam os seus contos não
era assim coisa ao acaso, pois foi uma sentença de Catão
Zonzorino romano, o qual disse: e o mal para quem o for
buscar; o que vem para aqui como anel ao dedo, para que Vossa
Mercê esteja acomodado e não vá procurar o mal a parte
nenhuma, senão que nos voltemos por outro caminho, pois
ninguém nos obriga a seguirmos este, de onde tantos medos nos
assaltam.
- Segue o teu conto, Sancho - disse D. Quixote -, e do
caminho que temos de seguir deixa-me a mim o cuidado.
- Digo pois - prosseguiu Sancho - que num lugar da
Extremadura havia um pastor cabreiro (quero dizer: um pastor
que guardava cabras), o qual pastor (ou cabreiro, como digo
no
157 ;
MIGUEL DE CERVANTES
meu conto) se chamava Lopo Domingues; e este Lopo Domingues
andava enamorado de uma pastora que se chamava Torralva; a
qual pastora chamada Torralva era filha de outro pastor rico;
e este pastor rico...
- Se continuas a contar por esse modo, Sancho - disse D.
Quixote -, repetindo duas vezes o que vais dizendo, teremos
conto para dois dias; conta seguido, e como homem de juízo;
ou, quando não, é melhor que te cales.
- Como eu o conto - respondeu Sancho - é que eu sempre ouvi
contar os contos na minha terra; de outro modo não sei, nem
Vossa Mercê me deve pedir que arme agora usos novos.
- Diz como quiseres - respondeu D. Quixote -; visto que a
sorte quer, que não possa deixar de ouvir-te, prossegue.
- Assim, pois Senhor meu da minha alma - continuou Sancho -,
este pastor, como já disse, andava enamorado de Torralva, que
era a tal pastora, cachopa roliça, despachadona, e tirando
seu tanto para machoa, porque até bigodes tinha; parece-me
que ainda a estou vendo.
- Visto isso conheceste-la? - disse D. Quixote.
- Eu não Senhor - respondeu Sancho -, mas quem me contou este
conto disse-me que era tão certo e verdadeiro que, se eu o
contasse a alguém, podia afirmar-lhe e jurar-lhe que eu
próprio tinha visto aquilo tudo com estes que a terra há-de
comer. E vamos adiante. Como atrás de tempos, tempos vêm, o
Diabo, que não dorme nunca, e que está sempre atrás da porta
para se intrometer em tudo, fez de modo, que o amor que o
pastor lhe tinha a ela se derrancasse em senreira e má
vontade;
e foram causa (segundo as más-línguas) uns certos ciumezinhos
que ela lhe deu a ele, e tais que já passavam dos limites, e
iam frisando no defeso. Foi tanto daí em diante o
aborrecimento do pastor, que, para nunca mais a enxergar, se
quis ausentar da terra, e ir-se para onde nunca mais a visse
com os dois olhos que tinha na cara. A Torralva, vendo-se
desprezada de Lopo, logo lhe quis bem, e muito mais que em
todo o tempo atrás.
- Natural condição de mulheres - disse D. Quixote - desdenhar
a quem lhes quer, e amar a quem as aborrece. Adiante, Sancho,
adiante.
158
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Sucedeu - disse Sancho - que o pastor pôs por obra o
determinado; e, tocando diante de si as suas cabras,
encaminhou-
-se pêlos campos da Extremadura direito a Portugal. A
Torralva, que o soube, partiu atrás dele, seguindo-o a pé e
descalça a distância, com o seu bordãozinho na mão, e uns
alforges ao pescoço, levando neles, segundo é fama, dois
pedaços, um de espelho, outro de pente, e um boiãozinho de
não sei que unturas para o carão (mas levasse o que levasse,
que nesses debuxos é que eu me não quero meter); só digo,
que, pelo que dizem, o pastor chegou com o seu rebanho à
beira do rio Guadiana, e naquela ocasião ia crescido e quase
por fora da madre. No sítio onde ele chegou, não havia barca
nem barco, nem quem o passasse a ele nem ao seu gado para
outra parte; com o que muito se ralou, por ver que a Torralva
já vinha muito perto, e, se o apanhasse, não pouca freima lhe
daria com os seus rogos e lágrimas; mas tanto mirou e
remirou, que sempre ao cabo viu um pescador, que tinha ao pé
de si um saveiro, mas tão pequeno, que nele só podiam caber
uma pessoa e uma cabra. Com tudo isso, falou-
-lhe e conchavou com ele, que o levaria, e as suas trezentas
cabras. Saltou o pescador para o barco, e levou uma cabra;
voltou, e levou outra; tornou a voltar, e tornou a passar
outra. Tome Vossa Mercê bem sentido na conta das cabras que o
pescador vai passando, porque, se se lhe perde uma da
memória, acaba-se o conto, e não será possível adiantar-se
nem mais palavra dele. Continuo pois, e digo que o
desembarcadouro da outra parte estava todo enlodaçado, e
resvaladio; e, em razão disso, o pescador despendia muito
tempo com as idas e venidas; apesar de tudo, voltou por outra
cabra, e outra, e outra.
- Bem; faz de conta que já as passou todas - disse D. Quixote
-; não andes para lá e para cá dessa maneira, que num ano não
acabarias de as passar.
- Quantas são as que já passaram? - disse Sancho.
- Eu que diabo sei? - respondeu D. Quixote.
- Aí está por que eu lhe disse que tomasse sentido na conta
acudiu Sancho -; pois juro-lhe que está a história acabada;
não se pode passar para diante.
159
MIGUEL DE CERVANTES
- Como pode isso ser? - respondeu D. Quixote. - Tão essencial
é para a história saber à justa das cabras que têm passado,
que, se se errar uma, já o conto não pode continuar?
- Não, senhor; por feitio nenhum - respondeu Sancho -;
quando eu perguntei a Vossa Mercê, que me dissesse quantas
cabras tinham passado, e Vossa Mercê me respondeu que não
sabia, naquele mesmo instante se me varreu a mim da memória o
mais que tinha ainda por dizer; pois à-lá-fé que faltava o
melhor e o mais saboroso.
- Visto isto - disse D. Quixote -, está já deveras acabada a
história?
- Tão acabada como minha mãe - disse Sancho.
- Em verdade te digo - respondeu D. Quixote - que hás aí
contado uma das mais originais histórias, anedotas, ou
contos, que ninguém no mundo poderia inventar. Modo tal de
contar e concluir, nunca o vi nem espero ver em toda a minha
vida. Mas também, que outra coisa poderia vir do teu
bestunto? Enfim: não me admiro; estes golpes, que não cessam,
natural é que te hajam turbado o entendimento.
- Tudo pode ser - respondeu Sancho -, mas o que eu sei é que
a respeito do meu conto não há mais que dizer; acabou-se ali,
onde começou o erro da contagem das cabras.
- Acabado seja ele onde quiseres, e em boa hora; e vejamos se
poderá já mover-se o Rocinante - disse D. Quixote.
Tornou a meter-lhe as pernas, e ele tornou a saltar, mas sem
adiantar passo; tão bem peado estava!
Mas, quer fosse pela friagem da manhã, que já começava, quer
por ter Sancho ceado alguma coisa laxante, quer fosse enfim
coisa natural (que é o que mais depressa se deve crer), veiolhe
a ele vontade de fazer o que mais ninguém poderia em seu
lugar; mas tamanho era o medo, que dele se tinha apossado,
que não se atrevia a apartar-se uma unha negra do amo.
Cuidar que não havia de fazer o que tão apertadamente lhe era
necessário, também não era possível. O que fez, para de algum
modo conciliar tudo, foi soltar a mão direita, que tinha
segura ao arção traseiro, e, com ela, à sorrelfa e sem rumor,
soltou a laçada corredia com que os calções se aguentavam sem
160
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
mais nada, e, soltando-a, caíram-lhes eles logo aos pés, que
lhe ficaram presos como em grilhões; depois levantou a camisa
o melhor que pôde, e pôs ao vento o pousadouro (que no era
pequeno).
Feito aquilo, que ele entendeu ser o essencial para sair do
terrível aperto, sobreveio-lhe logo segunda e pior angústia,
que foi o parecer-lhe que não podia aliviar-se sem fazer
estrondo; e entrou a rilhar os dentes e encolher os ombros,
tomando a si o fôlego quanto lhe era possível, mas, com todas
estas precauções, tal foi a sua desgraça que não deixou de
lhe escapar um pouco de ruído, bem diferente daquele que
tanto receava. Ouviu-o D. Quixote, e disse:
- Que rumor é esse, Sancho?
- Não sei Senhor - respondeu ele -, alguma novidade deve ser,
que as venturas e desventuras nunca principiam por pouco.
Tornou outra vez a tentar a fortuna, e com to boa sorte que,
sem mais ruído nem alboroto que da primeira vez, se achou
aliviado da carga, que tanto o havia apoquentado. Mas, como
D. Quixote não era menos fino de olfacto que de ouvido, e
Sancho estava tão cosido com ele, as exalações subiam quase
em linha recta para cima, e o cavaleiro não pôde escusar-se
de lhe chegarem aos narizes. Tanto como as percebeu, acudiu
com dois dedos ao nariz, apertando-o, e em tom algum tanto
fanhoso disse:
- Parece-me, Sancho, que estás realmente com muito medo.
- Oh! se estou! - respondeu Sancho. - Mas como é que Vossa
Mercê percebeu isso agora mais que dantes?
- É porque estás agora cheirando mais do que nunca, e não a
coisa boa - respondeu D. Quixote.
- Bem poderá ser - disse Sancho - mas a culpa não é minha, é
de Vossa Mercê, que me traz fora de horas por estes lugares
descostumados.
- Arreda-te de mim três ou quatro passos, amigo - disse D.
Quixote, sem tirar ainda os dedos do nariz -; daqui em diante
tem mais cautela contigo, e com o que deves à minha pessoa; a
demasiada conversação em que eu te admito é que é a causa de
tamanha descortesia.
161
MIGUEL DE CERVANTES
- Quero apostar - retrucou Sancho - que está Vossa Mercê
cuidando que eu fiz desta humanidade alguma coisa que não
devera.
- Pior é mexer-lhe, amigo Sancho - respondeu D. Quixote.
Nestes e noutros semelhantes colóquios passaram o resto da
noite, amo e moço; mas, vendo Sancho que vinha amanhecendo,
soltou com a maior subtileza as mãos a Rocinante, e atacou os
calções.
Quando Rocinante se viu livre, ainda que de seu natural nada
tinha de brioso, parece que se reanimou, e começou de
escarvar com as mãos; de curvetas, com sua licença, não há
por que falemos; a tanto não chegava ele.
Vendo o cavaleiro que já o bruto se movia, tomou-o por bom
sinal, como se nisso lhe significara que pusesse peito à
temerosa aventura.
Acabou neste comenos de se descobrir a alva, deixando ver
distintamente as coisas; e reconheceu D. Quixote achar-se
entre umas árvores altas, que eram castanheiros, que fazem
sombra muito escura. Notou que o golpear não descontinuava,
mas, sem se perceber a causa, e sem se deter, fez sentir as
esporas a Rocinante; e, tomando a despedir-se de Sancho, lhe
mandou o esperasse ali três dias quando muito, como já outra
vez lhe recomendara; e, se ao cabo deles não tivesse voltado,
desse por certo que Deus havia sido servido de lhe fazer
acabar a vida naquela perigosa aventura.
Tornou-lhe a repetir o recado e a embaixada que havia de
levar da sua parte à sua Sr. Dulcineia; e que, pelo que
tocava à paga do seu serviço, não tivesse pena, porque ele
tinha deixado feito o seu testamento antes de sair da aldeia,
no qual se acharia gratificado de tudo que tocava ao seu
salário, na proporção do tempo que o tivesse servido; porém,
se Deus o tirava daquele perigo são, salvo e escorreito,
podia ter por mais que certa a prometida ilha.
De novo desatou Sancho a chorar, ouvindo outra vez aqueles
piedosos ditos do seu bom senhor, e resolveu não o deixar até
à conclusão e remate último da empresa.
162
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
(Destas lágrimas e da determinação tão honrada de Sancho
Pança deduz o autor desta história que devia ele ser homem
bem-nascido, e pelo menos cristão-velho.)
Aquele sentimento de Sancho não deixou de enternecer ao amo,
não tanto porém que descobrisse fraqueza alguma; antes,
disfarçando o melhor que pôde, começou a caminhar para a
parte de onde lhe parecia vir o som da água e das pancadas.
Seguia-o Sancho a pé, levando, como tinha por costume, pelo
cabresto o seu jumento, companheiro constante de suas
fortunas, adversas ou prósperas.
Tendo andado um bom pedaço por entre aqueles castanheiros e
mais árvores sombrias, acertaram num pradozinho, ao sopé de
umas altas penhas, de onde se despenhava uma abundante
catarata de água. Achegadas aos penedos, estavam umas casas
mal feitas, que menos pareciam casas que ruínas; repararam em
que dali de dentro é que procedia o ruído daquele estrondoso
golpear, que ainda ia por diante.
Com o estrépito da água e das pancadas espantou-se Rocinante.
D. Quixote, aquietando-se, se foi a pouco e pouco chegando às
casas, encomendando-se de todo o coração à sua dama,
suplicando-lhe que naquela temerosa ornada e empresa o
favorecesse, e de caminho recomendava-se também a Deus, para
que o não desamparasse. Não se lhe tirava do lado Sancho,
estendendo quanto podia o pescoço e os olhos por entre as
pernas de Rocinante, a ver se perceberia enfim o que tão
amedrontado o trazia.
Cem passos mais teriam andado, quando, ao transporem uma
quina da rocha, apareceu patente a causa que se procurava, e
que era a única possível para aquele horrísono ruído, que
tanto os espantara, e que tão suspensos e medrosos os tivera
por toda a noite. A causa única, leitor meu (se não levas a
mal que to declare), eram seis maços de pisão que alternavam
os golpes com todo aquele estampido.
Logo que D. Quixote viu o que era, emudeceu, e ficou-se de
todo pasmado. Voltou-se para ele Sancho, e viu-o de cabeça
derrubada para os peitos, com mostras de envergonhadíssimo.
163
MIGEL DE CERVANTES
Olhou também D. Quixote para Sancho, e viu, que estava de
bochechas entufadas, e a boca cheia de riso, com evidentes
sinais de estar por um triz a arrebentar-lhe a gargalhada.
Não pôde tanto com o bom do cavaleiro a sua melancolia, que à
vista da cara de Sancho se pudesse conter que também não
risse. Sancho, vendo que o próprio amo lhe abria o exemplo,
rompeu a presa de maneira que teve de apertar as ilhargas com
as mãos ambas, para não rebentar a rir.
Quatro vezes serenou, e outras tantas voltou à mesma explosão
de hilaridade com a mesma força que a princípio.
Já de tanta galhofa se ia dando ao diabo D. Quixote, mormente
quando lhe ouviu dizer de chança:
- «Hás-de saber, Sancho amigo, que eu nasci por determinação
do Céu nesta idade de ferro para ressuscitar nela a de ouro
ou dourada. Eu sou aquele para quem estão guardados os
perigos, as grandes façanhas, os valorosos feitos.»
E por aqui foi enfiando todas as razões que ao amo ouvira,
quando começaram aqueles golpes medonhos.
Vendo, pois, D. Quixote que o seu escudeiro fazia mofa dele,
correu-se, e em tanta maneira se agastou, que alçou a chuça,
e lhe assentou duas bordoadas tais, que, se, assim como as
ele recebeu nas costas, o apanham pela cabeça, livravam o amo
de lhe pagar as soldadas, salvo se fosse aos seus herdeiros.
Sancho, conhecendo o mal que as suas graças lhe iam saindo,
e, receando que o ensino passasse a mais, com muita humildade
lhe disse:
- Tenha mão Vossa Mercê, Senhor meu, que tudo isto em mim é
graça.
- Pois se é graça em ti, em mim é que não o é - respondeu D.
Quixote -; vinde cá Senhor Dizedor; parece-vos a vós que, se
assim como nos saíram maços de pisão, nos surdisse realmente
uma aventura perigosa, não tinha eu já mostrado o ânimo
preciso para a empreender e levar a cabo? Estou obrigado,
porventura, sendo, como sou cavaleiro, a conhecer e
diferençar os sons, e saber quais são os de maço de pisoeiro,
e quais não? E demais, bem podia ser (e assim era realmente)
que eu nunca em dias de vida tal houvesse presenciado, como
vós outro, que
164
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
sois um rústico e um vilão ruim nado e criado entre eles. Ora
suponde vós, que estes seis maços se transformam em seis
gigantes; abarbem-nos comigo, a um a um ou todos de rondão;
e, quando eu vo-los não apresentar a todos de pernas ao ar,
dou-
-vos licença que façais de mim quanta chacota quiserdes.
- Basta já Senhor meu - replicou Sancho -, confesso que
passei de risonho; mas diga-me Vossa Mercê, agora que fizemos
as pazes (assim Deus o tire para o futuro de todas as
aventuras tão são e salvo como destas o livrou): não foi
coisa de rir, e não é para se contar, o grande medo que
tivemos? Pelo menos o que eu tive, que de Vossa Mercê já eu
sei que o não conhece, nem sabe o que venha a ser temor nem
espanto.
- Não nego - respondeu D. Quixote - que o sucesso não fosse
merecedor de riso; mas digno de contar-se é que não é, porque
nem todas as pessoas são tão discretas, que saibam pôr as
coisas no seu lugar.
- Vossa Mercê pelo menos - respondeu Sancho - soube pôr no
seu lugar a chuça, apontando-me à cabeça, e dando-me nas
costas (graças a Deus, e ao cuidado que eu pus em revirar-
-me a jeito). Mas vá lá, que tudo afinal há-de ser pelo
melhor, que sempre ouvi dizer: «quem bem ama bem castiga»; e
mais, que os senhores principais, em dizendo palavra má a um
criado, logo em desconto lhe dão para umas calças; o que eu
não sei bem é o que lhe costumam dar depois de lhe terem dado
bordoadas, se não é que depois das bordoadas os cavaleiros
andantes dão ilhas ou reinos em terra firme.
- Tal poderia correr o dado - disse D. Quixote - que isso que
dizes chegasse a ser verdade; e perdoa o passado, pois és
discreto, e sabes que os primeiros movimentos não estão na
mão do homem. Fica, porém, daqui para diante advertido de uma
coisa, para que te abstenhas e coíbas no falar demasiado
comigo: que em todos quantos livros de cavalarias tenho lido
(e que são inumeráveis) nunca achei escudeiro que pairasse
tanto com seu senhor como tu com o teu; e em verdade, que o
tenho por grande falta da tua e da minha parte; da tua,
porque nisso mostras respeitar-me pouco; e da minha, porque
me não deixo respeitar como devera. Gandalim, por exemplo,
escudeiro de
165
MIGUEL DE CERVANTES
Amadis de Gaula, foi conde da ilha Firme; e dele se lê que
sempre que falava ao seu senhor o fazia de gorra na mão,
inclinada a cabeça, e o corpo curvado more turquesco. Pois
que diremos de Gazabal, escudeiro de D. Galaor? Que foi tão
calado, que, para se nos declarar a excelência do seu
maravilhoso silêncio, só uma vez se profere o seu nome
naquela tão grande como verdadeira história. De tudo que te
digo hás-de inferir, Sancho, que é necessário fazer-se
diferença de amo a moço, de senhor a criado, e de cavaleiro a
escudeiro; portanto, doravante, devemo-nos tratar mais
respeitosamente, sem nunca nos confundirmos um com o outro,
porque, de qualquer modo que eu me enfade convosco, quebrado
afinal há-de ser sempre o cântaro. As mercês e benefícios,
que vos hei prometido, a seu tempo chegarão;
e, se não chegarem, o vosso salário pelo menos nunca o haveis
de perder, como já vos disse.
- Bem está quanto Vossa Mercê me diz - respondeu Sancho -,
porém gostava eu de saber (se por acaso não chegasse o tempo
das mercês, e se houvessem de contar os salários) quanto
ganhava um escudeiro de cavaleiro andante naqueles tempos; e
como eram os ajustes: se por meses, se por dias, como
serventes de pedreiros.
- Não creio eu - respondeu D. Quixote - que jamais os tais
escudeiros servissem por soldada justa; serviam confiados nas
mercês; e, se eu agora te falei a ti em salário, e no que a
este respeito deixei no meu testamento cerrado lá em casa,
foi pelas incertezas do futuro; por ora, ainda não sei como
corre nestes calamitosos tempos a cavalaria, e não queria,
por tão pequenas coisas, condenar a minha alma para o outro
mundo; porque faço-te saber, Sancho, que neste em que vivemos
não há estado mais perigoso que o dos aventureiros.
- Essa é a verdade - respondeu Sancho -, pois só o estrondo
de uns maços de pisão bastou para alborotar e desassossegar o
coração de tão valoroso cavaleiro andante como Vossa Mercê é;
mas pode ficar descansado que, daqui em diante, não torno a
abrir a boca para burlar sobre as coisas de Vossa Mercê,
salvo sendo para o honrar como a meu amo e Senhor natural que
é.
166
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Dessa maneira - respondeu D. Quixote - viverás longo tempo
sobre a superfície da Terra, porque abaixo dos pais se hão-de
os amos respeitar como se o foram.
CAPITULO XXI
QUE TRATA DA ALTA AVENTURA E PRECIOSA GANÂNCIA DO ELMO DE
MAMBRINO, COM OUTRAS COISAS SUCEDIDAS
AO NOSSO INVENCVEL CAVALEIRO
JNisto, começou a chover um pouco, e quisera Sancho que se
recolhessem no moinho do pisão; mas tamanho teiró lhe havia
tomado D. Quixote em razão do desencantamento passado, que
por modo nenhum lá quis entrar; e, torcendo o caminho para a
mão direita, deram noutro como o da véspera.
Dali a pouco descobriu D. Quixote um homem a cavalo, que
trazia na cabeça coisa que relampagueava como se fora de
ouro;
apenas o viu, voltou-se para Sancho, e lhe disse:
- Parece-me, Sancho, que não há rifão que não seja
verdadeiro, porque todos eles são sentenças tiradas da
própria experiência, mãe das ciências todas, e especialmente
aquele que diz:
«uma porta se fecha, outra se abre.» Digo isto, porque, se a
noite passada se nos fechou a porta da ventura que
buscávamos, enganando-nos com os pises, agora se nos abre
outra de par em par para melhor e mais certa aventura. Se eu
não acertar a entrar por ela, toda a culpa será minha, sem eu
a poder atribuir, nem a pisões, nem ao escuro da noite. Isto
digo, porque, se me não engano, aí vem caminhando para nós um
homem que traz na cabeça o elmo de Mambrino, sobre o qual me
ouviste o juramento que sabes.
- Olhe Vossa Mercê bem o que diz, e melhor o que faz -
respondeu Sancho. - Deus nos livrara de que fossem estes
agora outros pisões, que nos acabassem de apisoar, e
amofinar-nos o entendimento.
- Valha-te o Diabo, homem! - replicou D. Quixote. - Em que se
parece um elmo com um maço de pisoeiro?
167
MIGUEL DE CERVANTES
- Não sei - respondeu Sancho - mas afirmo-lhe que, se pudesse
agora falar tanto como era o meu costume, talvez desse tais
razões, que Vossa Mercê veria que se enganava no que diz.
- Como enganar-me no que digo, traiçoeiro escrupulizador?
- exclamou D. Quixote. - Diz-me: não vês aquele cavaleiro que
para nós vem sobre um cavalo ruço rodado, e traz na cabeça um
elmo de ouro?
- O que eu vejo - respondeu Sancho - não é senão um homem
escarranchado num asno pardo, cor do meu, e que traz na
cabeça uma coisa que reluz.
- Pois essa «coisa que reluz» é que é o elmo de Mambrino
- respondeu D. Quixote. - Arreda-te para um lado e deixame
só com ele; vais ver como eu, sem proferir palavra, por
não desperdiçar tempo, concluo esta aventura, e me aposso do
elmo que tanto desejava.
- O apartar-me eu por minha conta fica - replicou Sancho
-, mas queira Deus, torno a dizer, que este mato nos não saia
orégãos, em lugar de pisões.
- Já vos hei recomendado, irmão - disse D. Quixote -, que nem
por pensamentos me torneis a amentar isso dos pises, que
voto... (e não digo mais) apisoar-vos a alma.
Calou-se Sancho com medo de que o amo cumprisse logo o voto,
que era tão redondo e sem pegas como uma bola.
Era o caso, que o elmo, cavalo, e cavaleiro, que D. Quixote
via, nisto se cifravam: de dois lugares, que havia naquele
contorno, um era tão pequeno, que não tinha nem botica nem
barbeiro; o outro, que lhe ficava próximo, esse sim; e por
isso o barbeiro do maior era também afreguesado no outro. Deu
o caso, que um enfermo deste lugar menor necessitou de ser
sangrado, e outro da barba feita. Para esses dois serviços é
que o barbeiro vinha, e trazia a sua bacia de latão. Como no
caminho lhe começou a chover, receoso ele de que se lhe
estragasse o chapéu, que naturalmente seria novo, pôs-lhe por
cima a bacia, que, por estar areada de pouco tempo
resplandecia a meia légua de distância.
Vinha montado num asno pardo, como Sancho dissera e esse é
que ao fidalgo se figurou cavalo ruço rodado; o mestre, cava-
168
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
leiro; e a bacia, elmo de ouro. Tinha isso de si: quantas
coisas via, logo pelo ar as acomodava às suas desvairadas
cavalarias, e descaminhados sonhos. Quando viu que vinha já
perto o pobre cavaleiro, sem mais tir-te nem guar-te partiu
sobre ele a toda a velocidade do Rocinante, e com a chuça
enristada, decidido a passá-lo de banda a banda. Quase ao
alcançá-lo, mas sem abrandar a fúria da carreira, lhe disse:
- Defende-te, cativa criatura, ou entrega-me à boamente o que
por boa razão me pertence.
O barbeiro, que to descuidoso e pacífico viu crescer contra
si aquele fantasma, não teve remédio para se livrar da
balança, senão deixar-se cair do burro abaixo. Ainda bem não
tocara no chão, levantou-se mais leve que um gamo, e começou
a correr por aquela planície, que nem um furacão o
alcançaria.
Com a bacia, que na carreira lhe caíra, se deu D. Quixote por
satisfeito; e disse que o campónio andara discreto no imitar
ao castor, que, em se vendo acossado dos caçadores, corta com
os dentes aquilo que o instinto natural lhe diz ser a causa
de o perseguirem.
Mandou a Sancho que levantasse do chão o elmo. Sancho,
tomando-o nas mãos, disse:
- Sem dúvida que o pagão, para quem se fez por medida esta
famosa celada, tinha uma grandíssima cabeça; mas o pior é que
lhe falta metade.
Quando Sancho ouviu chamar à bacia celada, não pôde suster o
riso, mas reprimiu-o logo, lembrando-se das iras do patrão.
- De que te ris, Sancho? - disse D. Quixote.
- Rio-me - respondeu ele - de considerar na grande cabeça que
tinha aquele pagão dono desse elmete, que não parece senão
uma bacia de barbeiro escrita e escarrada.
- Sabes o que se me está figurando, Sancho? É que este famoso
elmo encantado, por algum estranho acidente cairia em poder
de quem não soube conhecer nem estimar a sua valia, e, sem
saber o que fazia, reparando em que era de ouro puríssimo,
fundiu a outra metade para seu proveito, e desta fez isto que
se parece com bacia de barbeiro, como tu dizes. Porém, seja o
que
MIGUEL DE CERVANTES
for, que para mim, que a conheço, esta transfiguraço nada faz
ao caso; eu a repararei no primeiro lugar em que haja
ferreiro, e de modo que lhe não leve vantagem, nem sequer lhe
chegue, a que foi forjada pelo deus das ferrarias para o deus
das batalhas, e daqui até lá trá-la-ei como puder, que melhor
é alguma coisa que nada; ao menos sempre será suficiente para
me defender de alguma pedrada.
- Poderá ser - disse Sancho - se não for a pedrada atirada de
funda, como as atiravam na peleja dos dois exércitos, quando
a Vossa Mercê lhe benzeram os queixais, e lhe escangalharam a
almotolia em que vinha aquela bendita bebida, que me fez
vomitar as fressuras.
- Não me faz grande pena o tê-la perdido - disse D. Quixote -
; bem sabes, Sancho, que eu tenho a receita de memória.
- Eu também - respondeu Sancho - mas, se a tornar a fazer,
nunca mais em minha vida a provarei, juro; nem tenciono
tornar a necessitar dela, porque voto guardar-me com todos os
meus cinco sentidos de ser ferido nem ferir a quem quer que
seja. Lá de ser outra vez manteado, não digo nada, que
desgraças dessas mal se podem prever, e, tendo elas de vir,
não há mais que fazer senão encolher os ombros, tomar a si o
fôlego, fechar os olhos, e deixar-se um homem ir por onde a
sorte e a manta o quiserem atirar.
- Mau cristão és tu - replicou D. Quixote - que nunca te
esqueces da injúria que uma vez te fizeram; pois sabe, que
não é de peitos nobres e generosos fazer caso de ninharias.
Ficou-te coxo algum pé? Quebrada alguma costela, ou a cabeça
aberta, para te ficar tão gravado na memória aquele brinco?
Porque, apuradas bem as contas, brinco foi e mero passatempo;
se eu o não entendera assim, já lá tinha tornado, e feito
para tua satisfação mais dano do que os Gregos fizeram em
Tróia pelo rapto de Helena, a qual, se existira neste nosso
tempo, ou a minha Dulcineia fora naquela antiguidade, podia
estar certa de que não tivera tanta fama de formosa, como
tem.
(E aqui soltou um suspiro que chegou às nuvens.)
Respondeu Sancho:
170
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Pois passe por brinco, visto que a vingança no pode ser a
valer; porém, eu é que sei a casta de que foram os brincos e
as veras, e também sei que nunca me háo-de passar da
lembrança, nem das costas. Porém, deixando isto de parte,
diga-me Vossa Mercê o que havemos de fazer deste cavalo ruço
rodado, que se parece com um burro pardo, que nos ficou para
aí desamparado pelo tal Martinho que Vossa Mercê derribou;
segundo ele pôs os pés em polvorosa, e tomou à carreira às de
vila-diogo, não leva jeito de nos tornar mais a aparecer; e
mais, por estas que Deus me pôs na cara, o ruço é bem bom.
- Não costumo eu - disse D. Quixote - despojar aos que venço,
nem é usança na cavalaria tirar cavalos, e deixar os
cavaleiros a pé, salvo se tiver o vencedor perdido na
pendência o seu próprio; só nesse caso é que lhe é lícito
tomar o do vencido, como tendo sido ganhado em boa guerra.
Assim, Sancho, deixa o cavalo, ou jumento, ou o que quiseres
que seja, que o dono, em nos vendo longe daqui, voltará a
procurá-lo.
- Sabe Deus - replicou Sancho - se eu o não levava de boa
vontade, ou pelo menos em troca deste meu, que me parece
menos bom. Realmente que bem apertadas são as leis da
cavalaria, pois não dão licença para se trocar um asno por
outro;
mas queria saber se poderia sequer trocar os aparelhos.
- Nisso não estou muito certo - respondeu D. Quixote - mas,
em caso de dúvida, e enquanto não tenho melhores informações,
digo-te que os troques, se estes são para ti de extrema
necessidade.
- Tão extrema é ela - acudiu logo Sancho - que, se fossem
para mim mesmo em pessoa, não me seriam mais precisos.
E para logo, autorizado com tal licença, fez mutationem
caparum, e pôs a sua cavalgadura baixa às mil maravilhas,
deixando-a a valer três ou cinco vezes mais.
Concluído este arranjo, almoçaram dos restos da comida que
também na azêmola se lhes depararam, beberam da água do
arroio dos pisões sem voltarem a cara para eles! (tal era o
aborrecimento em que os tinham pelo medo que lhes haviam
causado!), e, dando mate à cólera, e até à melancolia,
montaram, e, sem tomarem caminho determinado (por ser muito
de cavalei-
171
MIGUEL DE CERVANTES
ros andantes o não seguirem via certa), se deixaram ir por
onde ao Rocinante se antolhou; após ele, iam levadas à toa a
vontade do amo e a do asno, que sempre em boa união o
acompanhava por onde quer que fosse.
Com tudo isto tomaram à estrada real, e por ela seguiram à
ventura, sem outro algum roteiro.
Como assim iam caminhando, disse Sancho para o amo:
- Quer Vossa Mercê, Senhor meu, conceder-me vénia para eu
meter mão num tudo-nada de palestra com Vossa Mercê? Depois
que me pôs aquele custoso mandamento do silêncio, já me tem
apodrecido mais de quatro coisas no estômago; e uma, que eu
agora tenho na ponta da língua, não queria eu perdê-la.
- Di-la embora - disse D. Quixote - e sê breve no discorrer,
que para os ditos agradarem, requere-se que por difusos não
aborreçam.
- Digo, pois Senhor - respondeu Sancho -, que dias há que
ando considerando quão pouco se ganha em andar buscando estas
aventuras que Vossa Mercê espera por estes desertos e
encruzilhadas, aonde, ainda que se vençam e concluam em bem
as mais perigosas, não há quem presenceie ou alcance delas
notícias; e, portanto, hão-de forçosamente ficar em perpétuo
silêncio, com prejuízo do desejo de Vossa Mercê, e do que
elas merecem. Parece-me, portanto, que mais acertado fora
(salvo o mais avisado parecer de Vossa Mercê) irmo-nos a
servir a algum imperador, ou a outro pncipe grande, que tenha
alguma guerra em que Vossa Mercê melhor possa mostrar o seu
valor, as suas grandes forças, e claro entendimento.
Reconhecendo todas essas excelências, o tal senhor a quem
servirmos, por força nos há-de remunerar, a cada qual segundo
os seus merecimentos, não faltando lá por certo quem ponha em
escrito as façanhas de Vossa Mercê, para perpétua memória.
Das minhas nada digo, pois não hão-de sair dos limites
escudeiráticos, ainda que sei dizer que, se se usa na
cavalaria escrever façanhas de escudeiros, não me parece que
as minhas hajam de ficar entre borrões esquecidos.
- Não dizes mal, Sancho - respondeu D. Quixote -, mas, antes
de se chegar a esse extremo, é mister andar pelo mundo
172
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
buscando as aventuras como escola prática, para que, saindo
com alguns feitos em limpo, se cobre nome e fama tal que,
quando depois se chegar à corte de algum grande Monarca, já o
cavaleiro seja conhecido por suas obras, e que, apenas o
houverem visto entrar pelas portas da cidade, os rapazes da
rua o rodeiem e acompanhem, vozeando entre vivas: «Este é o
cavaleiro do Sol», ou «da Serpente», ou de outra qualquer
insígnia, debaixo da qual houver acabado grandes façanhas.
«Este é - diráo - o que venceu em singular batalha o
gigantaço Brocabruno da grande força; o que desencantou o
grande Mameluco da Pérsia do largo encantamento em que tinha
permanecido quase novecentos anos»; e assim de mão em mão
irão pregoando os seus feitos; e logo, com o alvoroto dos
rapazes da rua, e de todo o outro gentio, sairá às janelas do
seu real palácio o rei daquele reino; e assim que vir o
cavaleiro, conhecendo-o pelas armas, ou pela empresa do
escudo, forçosamente há-de dizer: «Eia! sus! saiam meus
cavaleiros, quantos em minha corte são, a receber a flor da
cavalaria que ali vem»; à qual ordem sairo todos, e ele
descerá meia escada, e o abraçará estreitissimamente, darlhe-
á a paz beijando-o no rosto, e logo o levará pela mão ao
aposento da Senhora Rainha, aonde o cavaleiro a achará com a
infanta sua filha, que há-de ser uma das mais formosas e
completas donzelas que em grande parte do mundo descoberto
com grande custo se puderam encontrar. Sucederá logo após
tudo isto pôr ela os olhos no cavaleiro, e ele nela os seus,
e cada um parecerá ao outro coisa mais divina que humana; e,
sem saberem como nem como não, hão-de ficar presos na
insolúvel rede amorosa, e com grande opressão de suas almas,
por não saberem como se hão-de falar e descobrir as suas
ânsias e sentimentos. Dali o levarão sem dúvida a algum
quarto do paço, custosamente adereçado, onde, despindo-lhe as
armas, lhe trarão uma capa rica de púrpura, com que se cubra;
e, se armado tão bem parece, melhor há-de ainda parecer assim
vestido. À noite, ceará com o rei, a rainha, e a infanta, sem
nunca tirar os olhos dela, mirando-a a furto dos
circunstantes; e outro tanto fará ela, e com igual disfarce,
porque, segundo já disse, é muito discreta donzela.
Levantadas as mesas, entrará a súbitas pela
173
MIGUEL DE CERVANTES
porta da sala um feio e pequeno ano, com uma formosa dama,
que entre dois gigantes vem atrás do ano com certo problema
engenhado por um antiquíssimo sábio, que todo o que for capaz
de o deslindar será tido pelo melhor cavaleiro do mundo.
Mandará logo o rei que todos os presentes provem naquilo a
sua habilidade; e nenhum atinará, salvo o hóspede, com
grandes aumentos para a sua fama; do que ficará contentíssima
a infanta, e se estimará feliz de ter posto a sua eleição
amorosa em sujeito de táo altos méritos. Para tudo correr ao
pintar, este rei, ou príncipe (ou o que quer que é) traz uma
guerra muito renhida com outro rei tão poderoso como ele. O
cavaleiro hóspede lhe pede, ao cabo de alguns dias de estada
na corte, licença para ir servi-lo naquela dita guerra; darlha-
á o rei de muito bom grado, e o cavaleiro lhe beijará
cortesmente as mãos pela mercê, que lhe concede; e nessa
noite se despedirá de sua Senhora a Infanta, pelas grades de
um jardim, para onde deita o aposento de dormir dela, grades
por onde já outras muitas vezes lhe tinha falado, sendo
medianeira de tudo uma donzela em que a infanta muito se
confia. Ele suspirará, ela desmaiará, a donzela trará água,
lamentar-se-á muito vendo que já está a amanhecer, e não
quisera que o descobrissem, por se não empanar a honra da sua
dama. Finalmente, a infanta tomará em si, e dará as suas
brancas mãos por entre as grades ao cavaleiro, o qual as
beijará mil e mil vezes, e as banhará de lágrimas. Ficará
conchavado entre os dois o modo como se hão-de um ao outro
comunicar os seus bons ou maus sucedimentos; e a princesa lhe
pedirá que se demore o menos que puder. Ele lho prometerá com
muitos juramentos; toma-lhe a beijar as mãos e despede-se com
tanto sentimento, que por pouco lhe não foge a vida. Vai dali
para o quarto, deita-se sobre o leito, não pode dormir com a
dor da partida, levanta-se antes da madrugada, vai-se
despedir do rei, da rainha e da infanta. Despedido já das
duas primeiras personagens, dizem-lhe que a Senhora Infanta
está mal disposta, e que não pode receber visitas. Pensa o
cavaleiro ser com pena da sua partida; rasga-se-lhe o
coração; e por um triz não dá indício manifesto do seu pesar.
Está diante a donzela medianeira, observa tudo, e vai contálo
à sua ama; esta recebe-
174
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
-a com lágrimas e diz-lhe que uma das maiores penas que lhe
assistem é não saber quem o seu cavaleiro seja, e se é ou
não, de linhagem real. A donzela dá-lhe por certo que não
pode caber tanta cortesia, gentileza, e denodo, como tem o
seu cavaleiro, senão em pessoa real. Com isto se conforta a
coitada, e procura consolar-se, por não dar aos pais algumas
ruins suspeitas; e, passados dois dias, aparece em público.
Já o cavaleiro é partido; está pelejando na guerra; vence ao
inimigo de el-rei, ganha muitas cidades, triunfa de muitas
batalhas, volta à corte, vê a sua dama por onde costumava,
obtém dela anuência para que a peça por mulher em paga dos
serviços que fez; el-rei, que não sabe quem ele é, não lha
quer dar; porém, apesar disso, ou roubada ou de qualquer
maneira que seja, a infanta casa com ele. O pai chega a
estimá-lo por grande ventura, porque se descobre, que o tal
cavaleiro é filho de um valoroso rei de não sei que reino
(porque assento que não virá no mapa). Morre o pai, a infanta
herda, e, em duas palavras, o cavaleiro sai rei. Aqui
principia logo por conceder mercês ao seu escudeiro, e a
todos que o ajudaram a subir a tão alto estado; ao seu
escudeiro casa-
-o com uma aia da infanta, que sem falta deve ser a mesma que
lhe serviu de terceira nos amores, a qual é filha de um duque
de primeira nobreza.
- Isso e o que eu peço Senhor meu - disse Sancho -, é tudo
um; joguinho liso e direito; com tudo isso conto, e tudo háde
sair ao pé da letra como Vossa Mercê o talha, e mais
chamando-se o Cavaleiro da Triste Figura.
- Não lhe ponhas dúvida, Sancho - replicou D. Quixote
, porque, do mesmo modo e pêlos mesmos passos com que te
encadeei estes sucessos, sobem e têm já subido cavaleiros a
ser reis e imperadores. O que só falta agora é saber que
monarca dos cristãos ou dos pagãos andará em guerra, e terá
filha de tão extremada formosura; mas não faltará tempo para
se pensar nisso, porque (já te disse), primeiro que se chegue
à corte, é necessário ter cobrado ânimo por outras partes.
Também falta ainda outra coisa: suposto se ache rei com
guerra, e com filha formosa, e concedendo que eu tenha
adquirido fama incrível por todo o mundo, não sei bem como se
poderia achar para a
175
MIGUEL DE CERVANTES
minha pessoa ascendência real, ou pelo menos de primo segundo
de imperador, porque o tal rei não há-de querer dar-me por
mulher a filha, sem previamente saber isso bem ao certo, por
mais que lho mereçam os meus feitos. Estou receando que, por
esta falta, venha a perder o que tão bem tinha já merecido o
meu forte pulso. Verdade é, que eu sou filho de algo de solar
conhecido, de posse e propriedade, e dos da tarifa de
quinhentos soldos; e bem poderia ser que o sábio, que
escrevesse a minha história, deslindasse de tal maneira a
minha parentela e descendência, que me achasse quinto ou
sexto neto de rei; porque te faço saber, Sancho, que há duas
espécies de linhagem: há a linhagem dos que derivam a sua
descendência de príncipes e monarcas, mas a quem a pouco e
pouco o tempo foi desgastando até acabar tudo em bico, à laia
de pirâmide; outra linhagem é a que principiou por gente
baixa, e foi trepando até chegar a grandes senhores. Toda a
diferença está em que uns foram e no so, e outros são, e não
eram. Ora eu poderia ser destes, que, bem averiguada a coisa,
se provasse haverem tido nome grande e famoso; com isso se
deve contentar o rei, que estiver destinado para meu sogro; e
se isso se não der, tanto me há-de querer a infanta que,
apesar do pai, e ainda que saiba perfeitamente que sou filho
de um aguadeiro, me há-de admitir por seu senhor e esposo;
aliás, é o caso de a raptar, e levá-la para onde for minha
vontade, porque o tempo, ou a morte, há-de acabar com a
oposição paterna.
- Para aí vem muito ao pedir - disse Sancho - o que alguns
desalmados dizem: «Não peças por favor o que podes haver por
força»; ainda que mais assisado é estoutro rifão: «Mais
consegue salteador, do que honrado rogador.» Digo isto,
porque se o Senhor Rei, sogro de Vossa Mercê, não se quiser
resolver a entregar-lhe a infanta, minha Senhora, não há
senão, como Vossa Mercê diz, roubá-la e pô-la em seguro; o
mau será, se, enquanto as pazes se não fazem, e se não goza
pacificamente do reino, o pobre escudeiro poderá estar
olhando ao sinal nessa coisa das mercês; salvo se a donzela
terceira, que há-de ser mulher dele, sair também com a
infanta, e ele a acompanhar nesses dias ruins, até que o Céu
lhes ponha ponto, porque bem
176
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
poderá, creio eu, o seu senhor dar-lha desde logo por
legítima esposa.
- Lá isso, é como quem o tem já fechado na mo - disse D.
Quixote.
- Pois, sendo assim - disse Sancho -, não há senáo pôr tudo
nas mãos de Deus, e deixar correr a sorte pelo seu caminho
direito.
- Faça Deus o que eu desejo, e tu, Sancho, necessitas
- disse D. Quixote - e ruim seja quem em ruim conta se tem.
- Seja por Deus - respondeu Sancho - que eu cristão-
-velho sou, e para ser conde isto me basta.
- E até sobeja - disse D. Quixote - e ainda que o não foras,
que importara isso para o caso? Sendo eu rei, bem te posso
dar nobreza sem que tu a compres nem me sirvas em nada;
porque eu a fazer-te conde, e tu a ficares logo cavaleiro; e
digam o que disserem: à fé que te hão-de tratar por Senhoria,
gostem ou não gostem.
- E não saberia eu autorizar o litado? - disse Sancho.
- Ditado deves dizer, e não litado - emendou o amo.
- Seja assim - continuou Sancho -, eu os obrigaria a não me
andarem fora do rego; afirmo-lhe que fui já há tempos andador
de uma Irmandade; e tão bem me assentava a vestimenta de
andador que todos diziam que bem apessoado era eu até para
servir de irmão maior da mesma Irmandade. Que será quando me
puserem uma capa de arminhos pelas costas, como a duque, ou
eu me vestir de ouro e pérolas, à moda de conde estrangeiro!
Tenho para mim, que de cem léguas hão-
-de vir curiosos para me verem.
- Decerto que hás-de parecer muito bem - disse D. Quixote
- mas será preciso que rapes as barbas a miúdo, que, segundo
as trazes ouriçadas e revoltas, não as rapando à navalha de
dois em dois dias, pelo menos, à distância de tiro de
escopeta serás conhecido pela pinta.
- Bom remédio - disse Sancho - é tomar um barbeiro, e tê-lo
em casa assoldadado, e até, se preciso for, farei que ande
atrás de mim como picador de grande.
177
MIGUEL DE CERVANTES
- De onde sabes tu - perguntou D. Quixote - que os grandes
levem atrás de si picadores?
- Eu lhe digo - respondeu Sancho -; um dos anos passados
estive coisa de um mês na corte, e ali vi, que, passando um
senhor muito pequeno, que diziam ser muito grande, atrás dele
o ia seguindo um homem a cavalo em quantas voltas dava, nem
que fora sua cauda. Perguntei como era, que aquele homem
nunca se unia ao outro, e lhe andava sempre no alcance;
responderam-me que era o seu picador, e que os grandes tinham
por uso levarem atrás de si aqueles estafermos. Desde então o
fiquei sabendo, que nunca mais me esqueceu.
- Com razão - disse D. Quixote - e, visto isso, podes também
tu acompanhar-te do teu barbeiro, que as modas não se
inventaram todas ao mesmo tempo, nem vieram ao mundo de
cambulhada; e, portanto, bem podes ser tu o primeiro conde
que leve após si o seu barbeiro; e depois, de maior suposição
é o escanhoar um homem que aparelhar uma besta.
- Isso do barbeiro deixe-o por minha conta - disse Sancho -,
à de Vossa Mercê fique o vir a ser rei, e fazer-me a mim
conde.
- Assim se fará - respondeu D. Quixote. E, levantando os
olhos, viu o que no seguinte capítulo se dirá.
CAPITULO XXII
DA LIBERDADE QUE D. QUIXOTE DEU A MUITOS DESAFORTUNADOS,
QUE IAM LEVADOS CONTRA SUA VONTADE ONDE ELES POR
SI NÀO QUERERIAM IR
(onta Cid Hamete Benengeli, autor arábico e manchego desta
gravíssima, altissonante, mínima, suave e imaginada história,
que, depois daquelas razes que houve entre o famoso D.
Quixote de Ia Mancha e Sancho Pança seu escudeiro (de que no
precedente capítulo XXI se deu conta) alçou D. Quixote os
olhos, e viu que pelo seu caminho vinham uns doze homens a
pé,
178
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
engranzados como contas numa grande cadeia de ferro pêlos
pescoços, e todos algemados. Vinham igualmente com eles dois
homens a cavalo, e outros dois a pé; os cavaleiros com
escopeta de roda, e os peões com dardos e espadas. Assim que
Sancho Pança os viu, disse:
- Esta é cadeia de galeotes, gente forçada da parte de elrei,
para ir servir nas galés.
- Como «gente forçada»? - perguntou D. Quixote. - É possível
que el-rei force a nenhuma gente?
- Não digo isso - respondeu Sancho -, digo que é gente que,
por delitos que fez, vai condenada a servir o rei nas galés
por força.
- Em conclusão - replicou D. Quixote -, como quer que seja,
esta gente, ainda que os levam, vai à força, e não por sua
vontade.
- E verdade - disse Sancho.
- Pois sendo assim - disse o amo - aqui está onde acerta à
própria o cumprimento do meu ofício; desfazer violências, e
dar socorro e auxílio a miseráveis.
- Advirta Vossa Mercê - disse Sancho - que a justiça, que é
el-rei em pessoa, não faz violência nem agravo a gente
semelhante, senão que os castiga dos seus delitos.
Nisto, chegou a cadeia dos galeotes, e D. Quixote co mui
corteses falas pediu aos que os iam guardando fossem servidos
de informá-lo, e dizer-lhe a causa, ou causas, por que
levavam aquela gente daquele modo.
Um dos guardas de cavalo respondeu que eram galeotes (gente
pertencente a Sua Majestade) que iam para as galés; e que não
havia que dizer, nem ele que perguntar.
- Apesar disso - replicou D. Quixote - queria saber de cada
um deles em particular a causa da sua desgraça.
A estes ditos, ajuntou mais outros tais e tão descomedidos
para resolvê-los a declararem-lhe o que desejava, que o outro
guarda montado lhe disse:
- Ainda que levamos aqui o registo e a f é das sentenças de
cada um destes desgraçados, não temos tempo que perder a
apresentar papéis e fazer leituras. Chegue Vossa Mercê a eles
e
179
MIGUEL DE CERVANTES
interrogue-os se quer; que eles, se for sua vontade, lho
diro;
pois é gente que põe gosto em fazer e assoalhar velhacarias.
Com esta licença, que D. Quixote por si tomaria, ainda que
lha não dessem, chegou-se à leva e perguntou ao primeiro por
que mau pecado ia ali daquela maneira tão desastrada.
Respondeu ele que por enamorado.
- Só por isso e mais nada? - replicou D. Quixote. - Se por
coisas de namoro se vai para as galés, há muito tempo que eu
as pudera andar remando.
- Não são namoros, como Vossa Mercê cuida - disse o forçado -
; o meu namoro foi com uma canastra de roupa branca, que a
abracei comigo tão fortemente que, se a justiça ma não tira
por força, ainda agora por vontade minha não a tinha largado.
Fui apanhado em flagrante, escusaram-se tratos, e, concluída
a causa, assentaram-me nas costas um cento de estouros, e por
crescenças três anos de gurapas; e acabou-se a obra.
- Que vem a ser gurapas7 - perguntou D. Quixote.
- Gurapas são galés - respondeu o forçado, que era um rapaz
que poderia contar os seus vinte e quatro anos e disse ser
natural de Piedrahita.
Igual pergunta fez D. Quixote ao segundo. Este não respondeu
palavra, segundo ia cheio de paixão e melancolia, mas
respondeu por ele o primeiro e disse:
- Este Senhor vai por canário; venho a dizer, que por músico
e cantor.
- Como é isso? - disse admirado D. Quixote. - Pois também por
ser músico e cantor se vai parar às galés?
- Sim, senhor - respondeu o galeote -, nem ele há pior coisa
do que é um homem cantar nas ânsias.
- Antes sempre ouvi - disse D. Quixote - que «quem canta seus
males espanta».
- Cá é às avessas - disse o forçado -, quem uma vez canta
toda a vida chora.
- Não entendo - disse D. Quixote. Mas um dos guardas lhe
disse:
- Senhor Cavaleiro, cantar nas ânsias se chama entre esta
gente non sancta confessar nos tratos o crime que se fez. A
este
180
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
pecador meteram-no a tormentos, e confessou ser ladrão de
bestas; pelo ter confessado, o condenaram a seis anos de
galés, além de duzentos açoites que já leva nos lombos. Vai
sempre pensativo e triste, porque os outros ladrões, uns, que
ainda por lá ficam, e os outros, que vão aqui, o enxovalham,
e mofam dele, porque caiu em confessar, e não teve ânimo para
dizer niques, porque dizem eles que tantas letras tem um não
como um sim. Que fortuna para um delinquente ter na língua à
sua escolha a vida e a morte, em vez de as ter à mercê de
testemunhas e provas! E para mim, tenho que não vão errados.
- Assim também o entendo - respondeu D. Quixote. Passando ao
terceiro, fez-lhe a mesma pergunta que aos dois precedentes.
O terceiro muito depressa e com muito desembaraço disse:
- Eu vou por cinco anos para as Senhoras Gurapas por me
haverem faltado dez ducados.
- Vinte darei eu de muito boa vontade - disse D. Quixote -
por vos livrar desse trabalho.
- Faz-me isso lembrar - replicou o forçado - um homem que tem
a algibeira quente, e está estalando de fome, por não ter
onde compre o que lhe faz míngua. Digo isto porque, se a
tempo eu tivesse tido esses vinte ducados que Vossa Mercê
agora me oferece, tivera untado com eles a pena do escrivão e
activado o procurador de maneira que hoje me veria no meio da
Praça de Zocodover de Toledo, e não nesta estrada atrelado
como galgo; mas Deus é grande; paciência, e basta.
Passou D. Quixote ao quarto, que era um sujeito de aspecto
venerando, com uma barba de neve que lhe chegava abaixo dos
peitos, o qual, perguntado sobre a causa por que ali ia,
começou a chorar, e não respondeu palavra; mas o quinto
condenado lhe serviu de língua e disse:
- Este honrado homem vai por quatro anos às galés, depois de
ter passeado pelas ruas do costume, vestido em pompa e a
cavalo.
- Vem a dizer na sua, segundo entendo - disse Sancho Pança -,
que saiu à vergonha do mundo.
181
MIGUEL DE CERVANTES
- Assim é - respondeu o acorrentado - e o seu crime foi ter
sido corretor de orelha, e ainda do corpo todo; quero dizer
que este cavalheiro vai por alcaiote, e também por ter seus
laivos de feiticeiro.
- Se não fossem esses laivos - disse D. Quixote - lá só por
ser alcaiote decente não merecia ir remar nas galés, antes
fora mais próprio para as governar e ser general delas,
porque o ofício de terceiro de amores não é coisa tão de
pouco mais ou menos; é um modo de vida de pessoas discretas,
e numa república bem ordenada muito necessário; não o
deveriam ter senão indivíduos muito bem-nascidos, e até devia
haver para eles vedor e examinador, como há para os demais
ofícios, com número certo e conhecido, como corretores de
praça. Desta maneira se atalhariam muitos males, que hoje
resultam de andar este ofício e exercício entre gente idiota
e de pouco entendimento, como são umas mulherzinhas de pouco
mais ou menos, pajenzinhos e truões de poucos anos e
pouquíssima experiência, que, nas ocasies mais importantes, e
sendo necessário dar alguma traça de maior tomo, dão em seco,
e não sabem qual é a sua mão direita. Adiante quisera eu
passar, dando as razões por que se devera fazer eleição dos
que na república deveriam exercer tão necessário ofício; mas
não é aqui lugar próprio. Algum dia o direi a quem possa
providenciar; por agora, só digo que a pena, que essas
honradas cãs e venerável semblante me têm causado, por vos
ver metido em tamanhos trabalhos por alcaiote, tirou-ma o
apenso de feiticeiro, ainda que sei muito bem não haver no
mundo feitiços que possam mover e forçar as vontades, como
cuidam alguns palermas; o alvedrio da pessoa é livre, e não
há erva nem encanto que o obrigue. O que algumas mulherzinhas
tolas e alguns velhacos embusteiros costumam fazer são certas
mistelas e venenos, com que tomam os homens doidos, dando a
entender que são específicos para bem querer, sendo, como
digo, coisa impossível forçar-se a vontade de ninguém.
- Tudo isso é assim - disse o bom do velho -; verdade, Senhor
meu, culpa de feitiços não a tive; de alcaiote sim, e não o
posso negar; porém nunca pensei que nisso fazia mal; o meu
182
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA l f í
empenho era que toda a gente folgasse e vivesse em paz e
quietação, sem pendências nem penas. Porém de nada me
serviram estes bons desejos, para deixar de me ir de onde não
espero mais voltar, segundo me carregam os anos, e um mal de
urinas que levo, que me não dá instante de descanso.
Aqui tornou ao seu pranto do princípio. Teve Sancho tanta
compaixão do triste, que tirou do peito uns cobrezitos e lhos
deu de esmola.
Passou adiante D. Quixote, e perguntou a outro o seu delito.
Este respondeu com muito mais presença de espírito que o
precedente: :
- Eu vou aqui por me ter divertido de mais com duas primas
minhas coirmãs, e com mais duas irmãs que me não eram nada;
finalmente, tanto me diverti com todas, que do divertimento
resultou aumentar-se a parentela tão intrincadamente, que não
há aí sumista que a deslinde. Provou-se-me tudo, faltaram-me
protecções, dinheiros não os tinha, vi-me a pique de me
estragarem o gasganete; sentenciaram-me a galés por seis
anos; sujeitei-me; foi castigo do que fiz. Rapaz sou; não
peço senão que a vida me dure; com ela tudo se alcança. Se
Vossa Mercê, Senhor Cavaleiro, leva aí alguma coisa com que
socorrer a estes pobretes Deus lho pagará no Céu, e nós
outros tere- | mós cá na Terra cuidado de rogar a Nosso
Senhor nas nossas orações pela vida e saúde de Vossa Mercê,
que seja tão dilatada ', e feliz, como a sua boa presença
merece.
Este ia em trajo de estudante, e disse um dos guardas, que
era grande falador, e latino de mão-cheia.
Atrás destes vinha um homem de muito bom parecer, de idade de
trinta anos, e que metia um olho pelo outro. O modo por que
vinha preso diferia algum tanto dos outros, porque trazia uma
cadeia ao pé, tão comprida, que lhe subia pelo corpo todo, e
ao pescoço duas argolas: uma em que se prendia a cadeia, e a
outra das que chamam guarda-amigo, ou pé-de-amigo, da qual
desciam dois ferros que chegavam até à cintura, a que ;
se prendiam duas algemas em que iam presas as mãos com um
grosso cadeado, de modo que nem com as mãos podia chegar à
boca, nem podia abaixar a cabeça até chegar a elas.
183
MIGUEL DE CERVANTES
Perguntou D. Quixote como ia aquele homem com tantas prises
mais que os outros. Respondeu-lhe o guarda que mais delitos
tinha aquele só que todos os da leva juntos, e que tão
atrevido e velhaco era que, ainda que o levavam daquela
maneira, não iam seguros dele, e temiam, ainda assim, que
lhes fugisse.
- Que delitos pode ele ter - disse D. Quixote - se o
condenaram só às galés?
- Vai por dez anos - replicou o guarda - que é como morte
civil. Não há mais que se encareça: este bom homem é o famoso
Ginez de Passa-Monte; por outro nome lhe chamam o Ginezinho
de Parapilha.
- Senhor Comissário - disse então o forçado -, não leve isso
de afogadilho, e não percamos agora tempo a destrinçar nomes
e sobrenomes; o que eu me chamo é Ginez, e não Ginezinho.
Passa-Monte é a minha alcunha, e não Parapilha como você
disse; e cada um que olhe por si, e não fará pouco.
- Não fale tão de ronca Senhor Ladrão de marca maior -
replicou o comissário -, se não quer que o faça calar contra
vontade.
- Parece - respondeu o forçado - que um homem vai por onde
Deus quer; mas não importa; alguém algum dia há-de saber se
me chamo Ginezinho de Parapilha, ou não.
- Pois não te chamam assim, embusteiro? - disse o guarda.
- Chamam, sim - respondeu Ginez -, mas eu farei que mo não
chamem; juro por estas; por enquanto, é falar só entre
dentes.
- Senhor Cavaleiro, se tem alguma coisa que nos dar, dê-o já,
e vá-se com Deus, que já aborrece com tanto querer saber
vidas alheias. Se quer saber a minha, sou Ginez de Passa-
Monte; a minha vida está escrita por estes cinco dedos.
- É verdade - disse o comissário -, a sua história escreveu-a
ele próprio; é obra a que nada falta. O livro lá lhe ficou
pela cadeia empenhado em duzentos réis.
- Tenho toda a tenção - acudiu Ginez - de o desempenhar, por
duzentos ducados que fosse.
- Pois tão bom é o livro? - disse D. Quixote.
184
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Tão bom é - respondeu Ginez - que há-de enterrar Lazarilho
de Tormes, e quantos se têm escrito ou se possam escrever
naquele género. O que sei dizer a você é que diz verdades to
curiosas e aprazíveis, que náo pode haver mentiras que lhe
cheguem.
- E como se intitula o livro? - perguntou D. Quixote.
- A vida de Ginez de Passa-Monte - respondeu ele em pessoa.
- E está acabado? - perguntou D. Quixote.
- Como pode estar acabado - disse ele - se ainda a vida se me
náo acabou? O que está escrito é desde o meu nascimento até
ao instante em que esta última vez me encaixaram nas galés.
- Visto isso, já lá estiveste mais de uma vez - disse D.
Quixote.
- Para servir a Deus e a el-rei já lá estive quatro anos e já
sei a que sabe a bolacha e mais o vergalho - respondeu Ginez
-; pouco se me dá tornar a elas; assim terei vagar para
concluir o meu livro, que ainda me faltam muitas coisas que
dizer, e nas galés de Espanha há sossego de sobra. Verdade é
que o que me falta escrever já não é muito, e tenho-o de cor.
- Esperto me pareces tu - disse D. Quixote.
- E desditado também - acrescentou Ginez - não admira; as
desventuras vêm sempre na cola do talento.
- Na cola dos velhacos - emendou o comissário.
- Já lhe disse Senhor Comissário - respondeu Ginez -, que
ande devagarinho, que aqueles senhores não lhe deram essa
vara para maltratar os pobrezinhos que aqui vamos; deram-lha
para nos guiar, e ir-nos pôr onde Sua Majestade manda, senão
por vida de... basta, não é impossível que algum dia depois
da barreia saiam as nódoas do que passou na venda. Cada um
que tape a sua boca, viva bem, e fale melhor; e toca a andar,
que de chalaça já basta.
Levantou a vara ao alto o comissário para dar a Passa-Monte o
troco das suas picuinhas; mas D. Quixote se lhe pôs diante, e
lhe pediu que não espancasse o homem, pois quem levava as
mãos tão presas não admirava tivesse na língua alguma
soltura; dirigindo-se a todos os da leva, disse:
185
MIGUEL DE CERVANTES
- De tudo que me haveis dito, caríssimos irmãos, tenho tirado
a limpo o seguinte: que, se bem vos castigaram por vossas
culpas, as penas que ides padecer nem por isso vos dão muito
gosto, e que ides para elas muito a vosso pesar e contra
vontade, e que bem poderia ser que o pouco ânimo daquele nos
tratos, a falta de dinheiro neste, os poucos padrinhos
daqueloutro, e, finalmente, que o juízo torto do magistrado,
fossem causa da vossa perdição, e de se vos não ter feito a
justiça que vos era devida. Tudo isto se me representa agora
no ânimo, de maneira que me está dizendo, persuadindo e até
forçando, que mostre em favor de vós outros e para que o Céu
me arrojou ao mundo, e me fez nele professar a ordem de
cavalaria que professo, e o voto que nela fiz de favorecer
aos necessitados, e aos oprimidos pêlos maiores que eles. Mas
como sei que uma das condições da prudência é que o que se
pode conseguir a bem se não leve a mal, quero rogar a estes
Senhores Guardas e Comissário façam favor de vos descorrentar
e deixar-vos ir em paz; não faltarão outros que sirvam a elrei
com maior razão; porque dura coisa me parece o fazerem-se
escravos indivíduos, que Deus e a Natureza fizeram livres;
quanto mais Senhores Guardas - acrescentou D. Quixote -, que
estes pobres nada fizeram contra vós outros; cada qual lá se
avenha com o seu pecado. Lá em cima está Deus, que se não
descuida de castigar ao mau e premiar ao bom; e não é bem que
os homens honrados se façam verdugos dos seus semelhantes,
demais sem proveito. Digo isto com tamanha mansidão e
sossego, para vos poder agradecer, caso me cumprais o pedido;
e, quando à boamente o não façais, esta lança e esta espada
com o valor do meu braço farão que por força o executeis.
- Graciosa pilhéria é essa - respondeu o comissário - e vem
muito a tempo. Forçados de el-rei quer que os soltemos, como
se para tal houvéssemos autoridade, ou ele a tivesse para nola
intimar! Vá-se Vossa Mercê, Senhor, nas boas horas; siga o
seu caminho, e endireite essa bacia que leva à cabeça, e não
queira tirar castanhas com a mão do gato.
- Gato, e rato, e velhaco, sois vós, patife - respondeu D.
Quixote.
186
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
E, dito e feito, arremeteu com ele tão a súbitas, que sem lhe
dar azo de se pôr em defesa, deu com ele em terra malferido
de uma lançada; e dita foi, que era aquele o da escopeta.
Os demais guardas ficaram atónitos e suspensos da novidade;
mas, recobrando logo o acordo, meteram mãos às espadas os de
cavalo, e os peões aos seus dardos, e arremeteram a D.
Quixote, que todo sossegado os aguardava.
Mal passara sem dúvida o fidalgo, se os forçados, vendo a
ocasião que lhes vinha para alcançarem a soltura, não a
aproveitassem forcejando por quebrar a cadeia em que vinham
acorrentados.
Tamanha foi a revolta, que os guardas, já para terem mão nos
galeotes, que se estavam soltando, já para se haverem com D.
Quixote, que os acometia a eles, não puderam fazer coisa que
proveitosa lhes fosse.
Sancho à sua parte ajudou a Ginez de Passa-Monte a soltar-
-se; e este foi o primeiro que saltou a campo livre e
desembaraçado; e, indo-se sobre o comissário estendido, lhe
tirou a espada e a escopeta, e, com esta, apontando ora a um,
ora a outro, sem nunca disparar, conseguiu que nem um só
guarda se detivesse em todo o campo, porque foram fugindo,
assim da escopeta de Passa-Monte, como das muitas pedradas
que os já soltos galeotes lhes atiravam.
Mas deste sucesso grande foi a tristeza que de Sancho se
apossou, por se lhe representar que os fugidos haviam de
passar notícia do caso à Santa Irmandade, a qual de campa
tangida sairia na pista dos delinquentes; e assim o
representou ao amo, rogando-lhe que se partissem logo dali, e
se emboscassem na serra próxima.
- Tudo isso é muito bom - disse D. Quixote - mas eu é que sei
o que mais convém fazer-se agora.
E, chamando a todos os galeotes que andavam levantados, e
haviam despojado ao comissário até o deixarem nu, se puseram
todos à roda a saber o que lhes mandava.
- De gentebem-nascida é próprio - lhes disse o cavaleiro
- agradecer os benefícios recebidos; e, um dos pecados que
mais ofendem o Altíssimo é a ingratidão. Isto digo Senhores
meus,
187
MIGUEL DE CERVANTES
porque já haveis visto com manifesta experiência o que de num
recebestes; em paga do que queria e é minha vontade que,
carregando com essa cadeia que dos vossos pescoços tirei, vos
ponhais para logo a caminho, e vades à cidade de Toboso, e
ali vos apresenteis perante a Sr. Dulcineia, e lhe digais que
o seu cavaleiro, o da Triste Figura, lhe manda muito saudar,
e lhe conteis ponto por ponto toda esta minha famosa
aventura, com que vos restituí à desejada liberdade. Feito
isso, podeis vós ir para onde vos aprouver, e boa fortuna vos
desejo.
Respondeu por todos Ginez de Passa-Monte, e disse:
- O que Vossa Mercê nos manda Senhor e libertador de todos
nós, é impossível de toda a impossibilidade cumprirmo-lo,
porque no podemos ir juntos por essas estradas, senão sós e
separados cada um de per si, procurando meter-se nas
entranhas da terra, para não dar com ele a Santa Irmandade,
que sem dúvida alguma há-de sair à nossa busca. O que Vossa
Mercê pode melhor fazer, e é justo que faça, é comutar esse
serviço e tributo à Sr.9 Dulcineia dei Toboso em algumas
quantidades de ave-marias e credos, que nós outros rezaremos
por tenção de Vossa Mercê. Coisa é esta que se poderá cumprir
de noite e de dia, fugindo ou repousando, em paz ou em
guerra; porém, pensar em nos tornarmos agora para as cebolas
do Egipto, quero dizer, a tomarmos a nossa cadeia, e a
marcharmos para Toboso, o mesmo é que pensar que é noite
agora que ainda não são dez da manhã. Pedir-nos a nós outros
isso, tanto monta como esperar pêras de olmeiros.
- Pelo Deus que me criou! - exclamou D. Quixote já posto em
cólera. - Dom filho de uma tinhosa Dom Ginezinho de
Paropilho, ou como quer que vos chamais, que haveis de ir
agora vós só com o rabo entre as pernas, com toda a cadeia às
costas.
Passa-Monte que nada tinha de sofrido, e já estava caído na
conta de que D. Quixote não tinha o juízo todo (pois tal
disparate havia cometido como era o de querer dar-lhes
liberdade), vendo-se maltratado, e daquela maneira, deu de
olho aos companheiros, e, retirando-se à parte, começaram a
chover tantas pedradas sobre D. Quixote, que poucas lhe eram
as mãos
188
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
para se cobrir com a rodela; e o pobre Rocinante já fazia
tanto caso da espora, como se fora de bronze.
Sancho, por trás do seu asno, com esse antemural lá se ia
defendendo da chuva de pedras que não cessava de lhe cair em
cima. Não se pôde anteparar tão bem D. Quixote, que lhe não
acertassem não sei quantos seixos no corpo, e com tanta
sustância, que pregaram com ele em terra.
Apenas caiu, veio sobre ele o estudante, tirou-lhe da cabeça
a bacia e bateu-lhe com ela três ou quatro baciadas nas
costas, e outras tantas no chão, com o que a fez quase em
pedaços.
Tiraram-lhe um roupão que trazia por cima das armas, e até as
meias-calças lhe queriam tirar, se as grevas lho não
estorvaram.
Ao Sancho, tiraram o gabão, deixando-o desmantelado, e,
repartindo entre si todos os despojos da batalha, tomou cada
um para a sua parte com mais cuidado de escapar à temível
Irmandade, que de se carregarem com a cadeia, e irem
apresentar-se à Sr. Dulcineia dei Toboso
Ficaram sós o jumento e Rocinante, Sancho e D. Quixote: o
jumento cabisbaixo e pensativo, sacudindo de quando em quando
as orelhas, por cuidar que ainda não teria acabado o temporal
das seixadas, que ainda lhe zuniam aos ouvidos; Rocinante,
estendido junto do amo, pois também o derrubara outra
pedrada; Sancho desenroupado, e temeroso da Santa Irmandade;
e D. Quixote raladíssimo, por se ver com semelhante pago
daqueles mesmos a quem tamanho benefício tinha feito.
CAPITULO XXIII
DO QUE AO FAMOSO D. QUIXOTE SUCEDEU EM SERRA MORENA,
QUE FOI UMA DAS MAIS RARAS AVENTURAS CONTADAS
NESTA VERDADEIRA HISTÓRIA
Vendo-se D. Quixote tão mal, disse para o escudeiro:
- Sempre, Sancho, ouvi dizer que fazer bem a vilões é deitar
água no mar. Se eu tivesse estado pelo que me disseste, evi-
189
MIGUEL DE CERVANTES
tava-se o presente desgosto; mas o que está feito, feito
está; já agora paciência; ficar-me-á de emenda para o futuro.
- Tanto se há-de Vossa Mercê emendar com esta, como é verdade
ser eu turco; mas, como diz, que, se tivesse estado pelo que
lhe eu preguei, se houvera forrado a este contratempo, creia-
-me agora, e evitará outro maior, porque lhe digo, que para a
Santa Irmandade escusadas são cavalarias. Quantos cavaleiros
andantes há, valem para ela tanto, como dois maravedis; e
saiba, que já até a modo que sinto zunir-me às orelhas as
setas dos suplícios em que lá metem a gente.
- Es cobarde de tua natureza, Sancho meu - disse D. Quixote -
, mas, para que não me chames teimoso nem digas que nunca
faço o que me aconselhas, desta vez quero comprazer-
te, apartando-me da fúria que tanto receias; mas com uma
condição: que jamais, enquanto eu vivo for, nem depois da
minha morte, confessarás, a quem quer que seja, que me
retirei e fugi deste perigo por medo, pois só o fiz para
condescender contigo;
que, se outra coisa disseres, serás um mentiroso, e desde
agora para então, e desde então para agora, te desminto, e
digo que mentes e mentirás todas as vezes que o proferires ou
o pensares; e não me repliques mais, que só em cuidar que me
esquivo a algum perigo, especialmente deste que parece que
leva um és-não-és de sombra de medonho, estou já quase para
não arredar pé, e para ficar sozinho à espera não só da Santa
Irmandade que dizes e receias, mas de todos os irmãos das
doze tribos de Israel, e de todos os sete Macabeus, e de
Castor e Pólux, e, ainda por cima, de todos os irmãos e
Irmandades que no mundo haja.
- Senhor meu - respondeu Sancho -, retirar-se não é fugir;
nem no esperar vai prova de sisudeza quando a coisa é mais
perigosa que bem figurada. Próprio dos sábios é o pouparem-
-se de hoje para amanhã; e saiba Sua Mercê que um ignorante e
rústico pode mesmo assim acertar uma vez por outra com o que
chamam regras de bem governar. Portanto, não lhe pese de
haver tomado o meu conselho; monte no Rocinante, se pode, ou
eu o ajudarei, e siga-me, que me diz uma voz cá dentro, que
mais úteis nos podem ser nesta ocasião os pés que as mãos.
190
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Montou D. Quixote sem mais réplica, e, indo adiante Sancho no
seu asno, se meteram à serra Morena, que era já próxima dali,
levando Sancho o fito em atravessá-la toda, para irem sair ao
Viso ou Almodôvar do Campo, e esconderem-se alguns dias por
aquelas brenhas, para não serem descobertos, se a Irmandade
lhes viesse no alcance.
Animou-se neste propósito, por ter visto, que na refrega das
galés se tinham salvado as vitualhas que sobre o asno vinham,
o que ele capitulou de milagre, à vista das tomadias e
procuras que os forçados tinham feito.
Nessa noite, deitaram até ao meio da serra Morena aonde a
Sancho pareceu conveniente que pernoitassem, e até alguns
dias mais, pelo menos todos os que durasse a matalotagem que
levava; pelo que se acomodaram para dormir entre duas penhas
no meio de uma grande espessura de sobreiros. Porém, a sorte
fatal que, segundo o cuido dos que se não alumiam de
verdadeira fé, tudo encaminha, risca, e dispõe a seu talante,
ordenou que Ginez de Passa-Monte, o afamado falsário e
ladrão, que da cadeia se tinha escapado pela doidice de D.
Quixote, acossado do medo da Santa Irmandade (e com razão),
se lembrou de homiziar-se também naquelas serranias; e
levaram-no o seu destino e o seu medo para a mesma parte em
que D. Quixote e Sancho tinham esperado achar valhacouto, a
tempo e horas que ainda os pôde conhecer.
Deixou-os pegar no sono; e, como os malvados são sempre
desagradecidos, e a necessidade persuade a fazer o que se não
deve, e um recurso à mão se não há-de enjeitar fiando nas
incertezas do futuro, Ginez, que não era nem agradecido nem
dos melhormente intencionados, resolveu furtar o asno a
Sancho Pança, não fazendo caso de Rocinante, em razão de ser
prenda tão fraca para empenhada como para vendida.
Dormindo, pois, Sancho, furtou-lhe a alimária, e, antes que
amanhecesse, já estava bem longe de o poderem achar.
Saiu a aurora alegrando a terra, e entristecendo a Sancho,
por achar de menos o seu ruço. Vendo-se sem ele, começou a
fazer o mais triste e dolorido pranto do mundo; e tanto, que
D. Quixote despertou com o alarido, e percebeu por entre ele
estas palavras:
191
MIGUEL DE CERVANTES
- Ó filho das minhas entranhas, nascido na minha mesma casa,
entretenimento de meus filhos, regalo de minha mulher, inveja
dos meus vizinhos, alívio dos meus trabalhos, e finalmente
meio mantenedor de minha pessoa, porque, com vinte e seis
maravedis que me ganhavas cada dia, segurava eu metade das
minhas despesas!
D. Quixote, que viu o pranto, e lhe soube a causa, consolou a
Sancho com as melhores razões que pôde, e lhe pediu que
tivesse paciência, prometendo-lhe uma ordem escrita para que
lhe dessem em sua casa três burricos, de cinco que lá tinha
deixado.
Respirou Sancho com a promessa, limpou as lágrimas, moderou
os soluços, e agradeceu a D. Quixote a mercê que lhe fazia.
O amo, como entrou por aquelas montanhas, alegrou-se-lhe o
coração, parecendo-lhe aqueles lugares acomodados para as
aventuras que buscava. Vinham-lhe à memória os maravilhosos
acontecimentos que em soledades e asperezas semelhantes
haviam ocorrido a cavaleiros andantes. Nestas coisas ia
pensando embevecido e alheado nelas, que nenhuma outra lhe
lembrava, nem Sancho levava outro cuidado (logo que lhe
pareceu ser seguro o sítio por onde caminhavam) senão o de
satisfazer o estômago com os restos que do despojo clerical
lhes tinham ficado, e em que o ladrão não atentara; e assim
ia atrás do amo carregado com tudo que o ruço havia de levar
e de que ele se ia aliviando em passá-lo de cima das costas
para dentro do ventre. Enquanto naquilo ia, não pensava
noutras aventuras.
Nisto, levantou os olhos e viu que o seu fidalgo estava
parado, procurando, com a ponta da chuça, levantar não sei
que volume que por terra jazia; pelo que se deu pressa em
chegar a ele para o ajudar, se preciso fosse. Chegando, viu-o
já a levantar com a chuça um coxim e uma maleta unida a ele,
meio podres, ou podres e inteiramente desfeitos; mas tanto
pesavam, que foi mister a força de Sancho para os erguer.
Mandou-lhe o amo que visse o que encerrava a maleta; com
muita presteza assim o fez Sancho; e, ainda que vinha fechada
com uma cadeia e seu cadeado, pêlos buracos da fazenda po-
192
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
dre viu o que dentro havia, que eram quatro camisas-deholanda
muito fina, e outras roupas de linho não menos
apuradas que limpas, e num lencinho achou uma boa maquia de
escudos de ouro. Assim como os bispou, disse:
- Bendito seja o Céu, que enfim nos depara uma aventura de
proveito.
Continuando a buscar, achou um livrinho de lembranças
ricamente arranjado. Pediu-lho D. Quixote, e mandou-lhe que o
dinheiro o guardasse ele para si. Beijou-lhe as mãos Sancho,
pela generosidade, e, desacando a maleta, pregou com todo o
seu conteúdo para o bendito alforge.
D. Quixote, que em tudo esteve reparando, disse:
- Parece-me, Sancho (nem outra coisa é possível), que algum
caminhante extraviado passaria por esta terra, e, assaltado
de malfeitores, fora talvez por eles morto, que por isso
trariam a enterrar nesta tão escondida parte.
- Não pode ser tal - disse Sancho -; se foram ladrões, não
lhe üveram deixado este dinheiro.
- Dizes bem - obtemperou D. Quixote -; então não adivinho o
que isto fosse. Mas espera: vamos ver se neste livrinho de
lembranças virá alguma coisa escrita para nos orientarmos no
enigma.
Abriu-o; e a primeira coisa que se lhe deparou escrita como
em borrão, ainda que de muito boa letra, foi um soneto. Pôsse
a lê-lo para que também Sancho o ouvisse; dizia assim:
Ou não cabe no amor entendimento, ou passa de cruel; e a
minha pena não iguala à razão que me condena ao género mais
duro de tormento.
Porém se Amor é Deus, conhecimento de tudo tem, e condição
amena. Qual pois o poder bárbaro que ordena a dor atroz que
adoro, e em vão lamento?
193
MIGUEL DE CERVANTES
Sê-lo-eis vós, Füis? inda desacerto;
um mal tamanho em tanto bem não cabe, nem de um Céu pode vir
tanta ruína.
Sinto, e sei que o meu fim já tenho perto, porque em mal cuja
causa se não sabe é milagre que acerte a medicina.
- Por essa trova - disse Sancho - não se pode saber nada,
salvo, se por essa pontinha do fio, que aí vem, se
desembrulhar o novelo.
-Que fio percebes tu aqui? - disse D. Quixote.
- Parece-me - disse Sancho - que Vossa Mercê falou aí de fio.
- Füis é que eu disse, e não fio - respondeu D. Quixote - e
Fflis deve ser por força a dama de quem se queixa o autor
deste soneto; e menos mau poeta que ele é, ou pouco entendo
eu da arte.
- Visto isso, também Vossa Mercê entende de trovas - disse
Sancho.
- E mais do que te parece - respondeu D. Quixote -; vê-loás
quando levares à minha Sr. Duldneia dei Toboso uma carta
minha escrita em verso do princípio até ao fim, porque hás-de
saber, Sancho, que todos ou quase todos os cavaleiros
andantes dos passados tempos eram grandes trovadores e
grandes músicos, que ambas estas habilidades ou graças
infusas (por melhor dizer) andam anexas aos namorados
andantes, se bem que as coplas dos cavaleiros antigos tinham
mais de estro, que de apuro.
- Leia para diante Vossa Mercê, que talvez dê com alguma
coisa que satisfaça.
Voltou D. Quixote a folha, e disse:
- Isto agora é prosa, e parece carta.
- Carta mandadeira Senhor? - perguntou Sancho.
- Pelo princípio não parece senão de amores - respondeu D.
Quixote.
- Pois leia Vossa Mercê alto - disse Sancho - que eu morro-me
por estas coisas de amores.
194
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Com todo o gosto - disse D. Quixote.
E, lendo-a alto como Sancho lhe pedia, viu que dizia desta
maneira:
«A tua falsa promessa e a minha certa desventura me levam a
sítios de onde antes chegaro aos teus ouvidos novas da minha
morte, do que as razões das minhas queixas. Deixaste-me, ó
ingrata, por quem tem mais; porém não vale mais do que eu;
mas, se a virtude fora riqueza que se estimasse, não invejara
eu ditas alheias, nem chorara desditas próprias. O que
levantou a tua formosura hão-no derribado as tuas obras. Por
ela entendi, que eras anjo, e por elas conheço, que és
mulher. Fica-te em paz, causadora da minha guerra, e o Céu
permita, que os enganos do teu esposo te fiquem sempre
encobertos, para que tu não fiques para sempre arrependida do
que fizeste, e eu não tome vingança do que não desejo.»
Concluída a leitura da carta, disse D. Quixote:
- Esta carta ainda menos nos dá a conhecer do que nos deram
os versos, e só sim que quem a escreveu era algum amante
desprezado.
E, folheando quase todo o livrinho, achou outros versos e
cartas de que pôde ler parte, e parte não; mas em geral eram
tudo queixas, lamentos, desconfianças, gostos e desgostos,
favores e desdéns, os favores festejados, e os desdéns
carpidos.
Enquanto D. Quixote revolvia o canhenho, revolvia Sancho a
maleta, sem deixar recantinho em toda ela, nem no coxim, que
não esquadrinhasse, nem costura que não descosesse, nem nó de
lã que não carpeasse, para lhe não escapar nada por falta de
diligência e cuidado; tal sofreguidão tinha nele despertado a
melgueira dos escudos, que passavam de cem; e, ainda que não
achou mais, já com isso deu por bem empregados os boléus da
manta, os vómitos do bálsamo, as bênçãos das estacas, as
punhadas do arrieiro, o desaparecimento dos alforges, o roubo
do gabão, e toda a fome, sede, e cansaço, que passara no
serviço do seu bom senhor, entendendo que estava pago e
repago, com a mercê de lhe entregar a rica veniaga.
Com grande desejo ficou o cavaleiro da Triste Figura de saber
quem seria o dono da maleta, conjecturando pelo soneto, e
car-
195
MIGUEL DE CERVANTES
ta, pelo dinheiro em ouro, e pelas boas camisas, que poderia
tudo pertencer a algum namorado de grande conta, a quem
desdéns e maus-tratos da sua dama teriam conduzido a algum
termo desesperado. Mas como por aquele sítio inabitável e
escabroso não aparecia vivalma com quem se pudesse informar,
não tratou de mais, que de seguir adiante, sem levar outro
caminho senão o que agradava a Rocinante, que era e por onde
ele melhor podia andar. Ia sempre com as fantasias infalíveis
de que por aqueles matos lhe não poderia faltar alguma
estranha aventura.
Indo, pois com aquela ideia, viu que, por cima de um pequeno
teso, que diante dos olhos se lhe oferecia, ia saltando um
homem de penha em penha, e de mata em mata, com estranha
ligeireza. Figurou-se-lhe que ia nu, a barba negra e espessa,
cabelos bastos e revoltos, pés descalços, e as pernas sem
cobertura alguma, senão só uns calçes, ao que parecia, de
veludo, de cor ruiva, mas tão esfarrapados, que por muitas
partes mostravam as carnes. Trazia a cabeça descoberta; e,
ainda que passou com a ligeireza que já se disse, todas estas
minudências viu e notou o cavaleiro da Triste Figura.
Quis segui-lo, mas não pôde, porque não era para a fraqueza
de Rocinante correr por aquelas fragosidades, mormente sendo
ele de seu natural muito tardo e fleumático.
Logo imaginou D. Quixote ser aquele o dono do coxim e da
maleta; e assentou consigo buscá-lo, ainda que tivesse de
andar um ano por aquelas montanhas até o alcançar. Assim,
mandou a Sancho atalhasse por uma parte da montanha, enquanto
ele iria pela outra, pois poderia ser que assim topassem com
aquele homem, que tão apressado se lhes tinha furtado à
vista.
- Isso é que eu não posso fazer - respondeu Sancho - porque,
em me apartando de Vossa Mercê, entra logo comigo o medo, com
toda a casta de sobressaltos e visões; e fique-lhe isto daqui
em diante de lembrança, para nunca me apartar de si nem uma
polegada.
- Assim será - disse o da Triste Figura -; muito estimo que
te queiras valer do meu ânimo, que nunca te há-de faltar,
ainda que a ti te falte a alma do corpo. Vem atrás de mim, a
pouco e pouco, ou como puderes, e faz dos olhos lanternas;
196
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
rodearemos toda esta pequena serra, e porventura toparemos
com o indivíduo que avistámos o qual, sem falta nenhuma, não
é outro senão o dono do nosso achado.
- Muito melhor seria não o buscar - disse Sancho - porque, se
o achamos, e der o acaso que seja ele o dono do dinheiro,
claro está que tenho de lho restituir; e assim o melhor será
desistirmos dessa inútil diligência, e ficá-lo eu possuindo
de boa fé, até que por alguma outra via menos curiosa, e sem
essas diligências, se nos depare o verdadeiro senhor; e
poderá ser isso quando o eu já tiver gasto; e então onde o
não há, el-rei o perde.
- Enganas-te, Sancho - respondeu D. Quixote -; já que
entrámos em suspeita, e quase certeza, de quem é o dono,
estamos obrigados a procurá-lo e a restituir; e, ainda que o
não buscássemos, a veemente suspeita, que temos de que ele o
seja, já nos põe em tamanha culpa, como se realmente o fosse.
Portanto, Sancho amigo, não te pese o rastrearmo-lo; maior
pena do que essa tua fora a minha, se o não acháramos.
E assim picou o Rocinante, seguindo-o Sancho a pé, e
carregado, graças ao Ginezinho de Passa-Monte.
Havendo rodeado parte da montanha, acharam num regato, caída,
morta e meio comida dos cães e picada dos corvos, uma mula
encilhada e enfreada, o que tudo os confirmou ainda mais nas
suspeitas de que o fugitivo era o dono da mula e do coxim.
Estando a olhar para ela, ouviram uns assobios, como de
pastor de gado, e inesperadamente avistaram à esquerda uma
boa quantidade de cabras, e, atrás delas, pelo alto do monte,
o cabreiro que as guardava, que era um homem ancião.
Bradou-lhe D. Quixote, rogando-lhe, que descesse de onde
estava. Respondeu ele a gritos, perguntando quem os havia
trazido àquele lugar, poucas vezes pisado, ou nunca senão de
pés de cabras, ou de lobos, ou outras feras, que por ali não
faltavam. Respondeu-lhe Sancho que descesse, que de tudo se
lhe daria conta.
Desceu o cabreiro; e, chegando onde D. Quixote estava, disse:
- Aposto que está reparando na mula de aluguer morta ali
naquele barranco; seis meses há que ela para ali jaz. Digamme:
toparam por aí o dono dela?
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MIGUEL DE CERVANTES
- Ninguém encontrámos - respondeu D. Quixote - senão só um
coxim e uma maletita que achámos náo longe daqui.
- Também eu a achei - respondeu o cabreiro - mas nunca me
atrevi a erguê-la, nem a chegar-lhe muito ao pé, receando não
fosse alguma entrega, e que me tomassem por ladrão, que o
Diabo é muito fino, e debaixo dos pés se levanta a um homem
coisa em que tropece e caia, sem saber como nem como não.
- Isso mesmo é o que eu digo - respondeu Sancho - que também
eu a achei, e não quis chegar a ela mais perto que um tiro de
pedra; deixei-a ficar como estava; não quero rabos-de-palha,
nem cão com guizo.
- Dizei-me cá, bom homem - disse D. Quixote -, sabeis vós
quem será o dono destas prendas?
- O que só posso dizer - respondeu o cabreiro - é que haverá
agora uns seis meses, pouco mais ou menos, que chegou a uma
malhada de pastores, tanto como três léguas daqui, um mancebo
de gentil presença e bom traje, montado nessa mula que para
aí está morta, e com o mesmo coxim que me dizeis ter achado,
e em que não pusestes mão. Perguntou-nos qual era desta
serrania a parte mais brava e escondida. Dissemos-lhe que era
esta onde agora estamos; e é verdade, porque, se entrardes
meia légua mais para dentro, bem pode ser que nunca mais
deslindeis saída. Admirado estou eu de terdes podido chegar
até aqui, porque para este lugar não há caminho nem atalho.
Ora, como tal ouviu o mancebo, voltou as rédeas, e se dirigiu
e tomou para o lugar que lhe assinalámos, deixando-nos a
todos contentes da sua bela presença, e admirados da sua
pergunta, e da pressa com que o vimos caminhar em direitura
às brenhas. Desde então, nunca mais lhe pusemos a vista em
cima. Alguns dias depois, saiu ao caminho a um dos nossos
pastores, e, sem lhe dizer palavra, saltou nele com muitas
punhadas e pontapés, e passou logo a uma jumentinha que lhe
levava o fardel, e lhe tirou quanto pão e queijo achou; e,
concluído aquilo, com estranha ligeireza se tornou a sumir na
serra. A esta notícia, alguns cabreiros de nós outros nos
pusemos a procurá-lo quase dois dias pelo mais cerrado do
monte, até que afinal demos com ele metido no oco de um
alentado sobreiro. Surdiu-nos dali e veio
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
para nós com muita mansidão, com o fato já roto, e o rosto
desfigurado e queimado do sol, tanto que mal se podia
conhecer pelo mesmo. Só os vestidos, ainda que esfarrapados,
mas conformes à notícia que dele tínhamos, é que nos deram a
entender que era o mesmo que buscávamos. Saudou-nos
cortesmente, e, em poucos e bons termos, nos disse que não
nos maravilhássemos de o ver andar daquela sorte, porque
assim lhe convinha para cumprir certa penitência, que por
seus muitos pecados lhe havia sido imposta. Pedimos-lhe que
nos dissesse quem era, mas não foi possível resolvermo-lo a
tal. Pedimos-lhe também que, em precisando de sustento, pois
não podia viver sem ele, nos dissesse aonde o acharíamos,
porque com muito amor e cuidado lho iríamos levar e que, se
também isto não fosse do seu gosto, pelo menos saísse a pedilo
aos pastores, em vez de lho tirar por força. Agradeceu o
nosso oferecimento, pediu perdão do passado, e prometeu daí
em diante obtê-lo pelo amor de Deus, sem incomodar a pessoa
alguma. Pelo que tocava à sua habitação, disse que não tinha
outra senão aquela que se lhe deparava onde quer que a noite
o colhia; e, acabando de falar, desatou num choro tão sentido
que, só se fôramos de pedra os que lho ouvimos, poderíamos
deixar de o acompanhar, por nos lembrar como o víramos da
primeira vez tão outro de agora, porque já lhes tenho dito
que era um moço muito gentil e engraçado, e em seu falar,
cortês e concertado, mostrava ser bem-nascido, e pessoa muito
de corte, que, ainda que éramos uns rústicos os que o
ouvíamos, tanto avultava o seu donaire, que até a rústicos se
dava a conhecer. Estando no melhor da sua prática, parou e
emudeceu, cravou os olhos no chão por um bom espaço, em que
todos estivemos quietos e suspensos, esperando em que pararia
aquele arroubamento que tanto nos lastimava, porque pelo que
lhe víamos fazer de abrir os olhos, tê-los fitos no chão e
sem pestanejar um grande pedaço, e outras vezes cerrá-los,
mordendo os lábios, e arqueando os sobrolhos, facilmente
percebemos que algum acesso de loucura o havia tomado.
Depressa nos mostrou que nos não enganávamos, porque se
levantou furioso do chão onde se tinha deitado, e arremeteu
com o primeiro que achou à mão, com tal denodo e raiva,
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MIGUEL DE CERVANTES
que, se lhe não acudíramos, o matara a murros e dentadas; e
tudo aquilo fazia dizendo ao mesmo tempo: «Ah! fementido
Fernando! Aqu, aqui me hás-de pagar as injustiças que me
fizeste; estas mãos te hão-de arrancar o coração, receptáculo
de quantas maldades há, e especialmente de traição e
enganos.» E a estas ajuntava outras razões todas encaminhadas
a dizer mal daquele tal Fernando, e a pô-lo por traidor e
fementido. Deixámo-lo não pouco pesaroso, e ele, sem dar mais
palavra, se partiu de entre nós e se emboscou à carreira por
estes matos e brenhas, por modo que não houve podermos seguilo.
Daqui entendemos, que a mania tinha intervalos, e que
algum chamado Fernando lhe fizera provavelmente alguma
tamanha malfeitoria, como se via pelo desfecho em que dera.
De então para cá se reconheceu, que assim era, pelas vezes
(que muitas têm sido) que ele tem saído ao caminho, umas a
pedir aos pastores, que lhe dêem do que levam para comer, e
outras a tirar-
-lho à força, porque, quando está com o ataque da loucura,
ainda que os pastores lho ofereçam de bom grado, não o
admite, e há-de por força toar-lho a mal; e, quando está com
siso, pede-
-o por amor de Deus, cortês e comedidamente, e dá muitos
agradecimentos, e bem regados de lágrimas. E em verdade vos
digo, Senhores meus - prosseguiu o cabreiro - que ontem
concertámos, eu e outros quatro pegureiros, os meus dois
criados, e dois amigos meus, de o buscarmos até darmos com
ele, e, depois de achado, levarmo-lo (por vontade ou por
força) à vila de Almodôvar, que fica a oito léguas daqui, e
lá se curará, se é que o seu mal tem cura, ou saberemos quem
é, quando estiver em seu juízo, e se tem parentes a quem se
dar parte da sua desgraça. Aqui está Senhores, o que sei
dizer-vos para satisfazer a vossa curiosidade; e entendei,
que o dono das prendas que achastes é o mesmo que vistes
passar tão ligeiro e descomposto (porque D. Quixote já lhe
tinha dito como era que aquele homem se levava aos saltos
pela serra).
Admirado ficou o cavaleiro com a relação do pastor; e
aumentou-se nele o desejo de saber quem era o desditado
louco, e assentou no que já lhe ocorrera, que era buscá-lo
por toda a montanha, sem deixar recanto nem cova por
explorar.
200
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Melhor, porém, o fez a sorte do que ele esperava, porque,
naquele mesmo instante, apareceu por uma quebrada da serra o
fugitivo mancebo, que vinha falando entre si coisas que não
podiam ser entendidas de perto, quanto mais de longe. O seu
traje era o que já se há descrito. Só quando se acercou um
pouco mais, percebeu D. Quixote que um colete dilacerado que
trazia era de âmbar; por onde acabou de entender que pessoa
de tais hábitos não devia ser de qualidade ínfima.
Chegando a eles o mancebo, saudou-os com uma voz desentoada e
rouca, porém com muita cortesia. D. Quixote correspondeu-lhe
à saudação com iguais termos, e, apeando-se do Rocinante, com
gentil porte e bom ar, se lançou a abraçá-lo, e o reteve por
um bom espaço estreitamente entre os braços, como se fora
conhecido seu já de bons tempos.
O outro, a quem poderemos chamar o Roto da Má Figura, como a
D. Quixote o da Triste, depois de se ter deixado abraçar, o
apartou um pouco de si, e, postas as mãos sobre os ombros de
D. Quixote, o esteve encarando como quem procurava reconhecêlo,
não menos admirado talvez de ver a figura, o portamento,
e as armas do cavaleiro, do que D. Quixote o estava de o ver
a ele.
Em suma: o primeiro que depois do abraço rompeu o silêncio
foi o Roto, o qual disse o que adiante se vai saber.
CAPÍTULO XXIV
EM QUE SE PROSSEGUE A AVENTURA DA SERRA MORENA
Diz a história que era grandíssima a atenção com que D.
Quixote escutava o desgraçado cavaleiro da Serra, o qual
prosseguiu dizendo:
- Decerto, Senhor, que, sejais vós quem sejais (que eu por
mim não vos conheço), muito grato vos sou pela mostra de
cortesia com que me haveis tratado. Bem quisera eu achar-me
em termos de corresponder por obras à boa vontade que me
haveis
201
MIGUEL DE CERVANTES
mostrado neste bom acolhimento; mas não quer a minha sorte
dar-me para retribuir os favores que recebo seno bons
desejos.
- Os meus - disse D. Quixote - não são seno de servir-
-vos, tanto que já estava resolvido a não sair destas serras,
enquanto vos não achasse, e soubesse de vós, se para a dor
que mostrais no vosso estranho viver se não poderia dar algum
alívio; e (se fosse necessário buscá-lo) buscá-lo-ia com toda
a possível diligência; e, quando a vossa desventura fosse
daquelas que nem consolação admitem, tencionava ajudar-vos a
chorá-
-la, e suavizá-la o melhor que pudesse, que sempre é alívio
nas desgraças termos quem se nos doa delas. Agora, se estas
minhas benévolas intenções vos merecem por cortesia algum
agradecimento, suplico-vos Senhor, pela muita bondade que em
vós descubro, e vos conjuro por aquilo que nesta vida mais
tendes amado ou amais, que me digais quem sois e a causa que
vos trouxe a viver e a acabar nestas soledades como animal
bruto, pois morais entre eles tão alheado de vós mesmo, como
se vê no vosso traje e no todo da vossa pessoa; e juro -
acrescentou D. Quixote - pela ordem de cavalaria que recebi,
apesar de indigno e pecador, e pela profissão de cavaleiro
andante que, se nisto Senhor meu, me comprazeis, juro, digo,
servir-vos com as veras a que me obriga o ser eu quem sou, ou
remediando a vossa desgraça, se é remediável, ou aliás
ajudando-vos a chorá-
-la, como já vos prometi.
O cavaleiro do Bosue, ouvindo falar assim o da Triste Figura,
não fazia senão mirá-lo, remirá-lo, e toma-lo a mirar de cima
a baixo; e, depois de o mirar quanto quis, disse-lhe:
- Se têm coisa de comer que me dêem, dêem-ma por amor de
Deus, que, depois de ter comido, eu farei quanto se me
ordenar por agradecido a tão bons desejos como aqui se me tem
mostrado.
Para logo tiraram, Sancho, do costal, e o cabreiro, do
surrão, com que se fartar a fome do Roto, comendo este o que
lhe deram como pessoa estonteada, e tanto à pressa, que os
bocados não esperavam uns pêlos outros, pois antes os engolia
que tragava; e, enquanto comia, nem ele nem os que o
observavam proferiam palavra.
202
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Acabada a comida, fez sinal para que o seguissem, e os levou
atrás de si a um verde pradozinho, que à volta de uma penha
ficava muito perto dali. Estendeu-se no chão por cima da
erva, no que os mais o imitaram, sem que ninguém abrisse
boca. O Roto, depois de posto a seu cómodo, começou assim:
- Se quereis Senhores, que vos diga em resumo as minhas
imensas desventuras, haveis de me prometer primeiro não me
interromper com pergunta alguma, nem outra qualquer coisa, o
fio da minha triste história, porque, no mesmo instante em
que mo quebreis, corto logo o que estiver contando.
(Esta recomendação do esfarrapado trouxe à lembrança de D.
Quixote o conto do seu escudeiro, quando ele no atinou com o
número das cabras que tinham passado o rio, com o que a
história deu em seco.)
Tomemo-nos ao esfarrapado, que prosseguiu dizendo:
- Esta prevenção vos faço, porque desejo saltar depressa pela
narrativa das minhas desgraças, que o recordá-las não serve
senão para se lhes juntarem outras. Quanto menos me
perguntardes, mais depressa acabarei eu de referi-las;
contudo, não deixarei no escuro coisa alguma de importância,
para não frustrar o vosso empenho.
Prometeu-lho D. Quixote em nome de todos; com esta segurança
começou assim:
- O meu nome é Cardénio; minha terra uma das melhores cidades
desta Andaluzia; minha linhagem, nobre; meus pais, ricos; e a
minha desventura tanta, que muito a devem ter chorado os meus
progenitores, e sentido toda a minha parentela, por não a
poderem aliviar com toda a sua riqueza. Para desditas, que do
Céu vêm talhadas, pouco aproveitam de ordinário os remédios
do mundo. Vivia nesta mesma terra uma criatura celeste, em
quem se reunia tudo que eu mais pudera ambicionar; tal é a
formosura de Lucinda, donzela não menos nobre e rica do que
eu, porém mais do que eu venturosa e menos constante do que o
devera ser para com os meus honrados pensamentos. Amei-a,
quis-lhe, e adorei-a desde a minha idade mais tenra; e ela
igualmente a mim, com aquela candura e bom ânimo que bem
assentavam em idade tão verde. Sabiam nossos
203
MIGUEL DE CERVANTES
pais as nossas inclinações, e no no-las levavam a mal, que
bem viam, que, ainda que elas passassem a mais, não poderiam
ter outro intuito e desfecho, senão o casamento, coisa muito
bem cabida onde o sangue e os haveres de parte a parte se
irmanavam. Com os anos, foi-nos entre ambos crescendo o amor.
Pareceu ao pai de Lucinda ser cautela de boa prudência negarme
a frequência de sua casa, imitando nisto pouco mais ou
menos os pais daquela Tisbe tão decantada dos poetas. Com
estes resguardos mais se ateou em nós o fogo dos desejos,
porque, se às línguas nos puseram embargos, não no-los
puderam pôr à correspondência escrita. A pena é ainda mais
livre que a fala para bem expressar mistérios do coraço;
muitas vezes a presença do objecto amado perturba e deixa a
determinação mais decidida, e a voz mais resoluta. Ai Céus!
que de bilhetes lhe não escrevi! que mimosas e honestas
respostas não tive! quantas canções não compus, e quantos
namorados versos, em que a alma exprimia os seus sentimentos,
pintava o aceso dos seus desejos, atiçava as suas memórias, e
ia cevando cada vez mais a própria vontade! Chegando ao
último apuro, e não podendo já coibir em mim a impaciência de
a ver, resolvi pôr por obra e acabar de uma vez o que me
pareceu mais próprio para chegar ao desejado e merecido
prémio; o tudo era pedi-la decididamente ao pai por legítima
esposa; e assim o fiz. Respondeu-me ele que me agradecia a
boa vontade que eu mostrava de honrar a sua casa, escolhendo
nela uma jóia para meu lustre; que, porém, sendo meu pai
vivo, a ele tocava apresentar aquela proposta, porque, a não
ser muito por sua vontade, e a seu gosto, não era Lucinda
mulher para se tomar ou dar-se a furto. Agradeci-lhe a
resolução, que me pareceu muito arrazoada, e que a meu pai
quadraria, assim que lha eu declarasse. Acto contínuo passei
a abrir-me com meu pai. Ao entrar no seu aposento, encontreio
com uma carta aberta na mão; antes que lhe eu dissesse
palavra, entregou-ma e me disse: «Por essa carta verás,
Cardénio, a vontade com que está o duque Ricardo de te fazer
mercê.» Este duque Ricardo, como já vós outros Senhores,
deveis saber, é um grande de Espanha que tem o melhor dos
seus domínios nesta Andaluzia. Li a carta, que tão encarecida
204
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
vinha, que a mim mesmo me pareceu mal deixar meu pai de
cumprir o que nela se pedia, que vinha a ser o mandar-me logo
para onde ele estava, pois me queria para companheiro, e não
criado, de seu filho morgado, e que ele tomava à sua conta o
pôr-me em estado correspondente à estimação em que me tinha.
Li a carta e emudeci; e muito mais quando a meu pai ouvi
estas palavras: «Daqui a dois dias partirás, Cardénio, a
fazer a vontade ao duque; e dá graças a Deus, que assim
começa a abrir-
-te caminho por onde alcances o que eu sei que mereces.»
Chegou o prazo da minha partida; falei uma noite com Luanda;
disse-lhe tudo que era passado, e o mesmo fiz ao pai dela,
suplicando-lhe demorasse por alguns dias o dar estado à
filha, até que eu fosse saber o que o duque Ricardo me
queria; prometeu-mo ele, e ela da sua parte mo confirmou
também com murmuramentos e mil delíquios. Cheguei enfim onde
era o duque; fui dele tão bem recebido e tratado, que desde
logo começou a inveja a fazer o seu costume. Tinham-ma os
criados antigos, por lhes parecer, que as mostras que o duque
dava de me fazer mercê haviam de redundar em prejuízo deles.
Quem mais folgou com a minha entrada em casa foi um filho
segundo do duque chamado Fernando, moço galhardo, gentilhomem,
liberal, e enamorado, o qual dentro em pouco tanto
quis, que eu a ele me afeiçoasse, que a todos dava em que
falar; e ainda que o morgado me queria bem, e me fazia mercê,
não chegava, mesmo assim, ao extremo com que D. Fernando me
queria e tratava. É o caso que, não havendo entre amigos
segredos que se não comuniquem (e a privança, que eu com D.
Fernando tinha, já era verdadeira intimidade), todos os seus
pensamentos me declarava ele, especialmente um de enamorado,
que o trazia em grande desassossego. Queria ele a uma
lavradora, vassala do pai, mas filha de gente muito rica, e
tão formosa, recatada, discreta, e honesta, que ninguém de
entre os que a conheciam diria ao certo em qual destas
qualidades se avantajasse. Estes dotes da formosa lavradora,
a tal ponto levaram os desejos de D. Fernando, que se
determinou, para alcançá-la, e conquistar-
-lhe a inteireza, a dar-lhe palavra de casar com ela, porque
de outra maneira fora impossível possuí-la. Eu, obrigado da
ami-
205
MIGUEL DE CERVANTES
zade que lhe professava, forcejei por dissuadi-lo de tal
propósito com as melhores razões que soube e com os mais
frisantes exemplos que pude. Vendo que nada aproveitava,
determinei declarar o caso ao duque seu pai; mas D. Feando,
como astuto e discreto, temeu-se disto mesmo, por entender,
que era obrigaço minha, na qualidade de criado fiel, não
encobrir ao meu Senhor o Duque coisa em que tanto ia a sua
honra; e assim por me arredar de tal ideia, e enganar-me, me
disse que não achava melhor remédio para perder a lembrança
da formosura que tão sujeito o trazia, que o ausentar-se dela
por alguns meses. Desejava (me disse ele), que partíssemos
ambos para casa de meu pai, participando ele ao duque ser
para ir ver e enfeitar uns cavalos muito bons, que havia na
nossa terra, que é onde se criam os melhores do mundo. Apenas
tal lhe ouvi dizer, quando, movido da afeição que lhe tinha,
lhe aprovei a ideia; e menos boa que ela fora, lha aprovara
eu como uma das mais aceadas que se podiam imaginar,
conhecendo quão boa ocasião se me oferecia para tornar a ver
a minha Lucinda. Aprovei, pois, muito a sua lembrança, e
esforcei-o no seu propósito, dizendo-lhe que o pusesse por
obra com a possível brevidade, porque realmente a ausênca
fazia sempre o seu ofício até nos ânimos mais rmes. Quando
ele me veio dizer isto, já tinha gozado da lavradora com o
título de esposo, segundo depois se soube, e aguardava
oportunidade para se descobrir mais a seu salvo, por temer ao
presente os excessos em que o pai poderia romper sabendo do
seu disparate. Sucedeu o que é de costume;
nos moços, o amor quase nunca o é; é sim um apetite, que, por
se não endereçar senão ao deleite, apenas o obtêm, logo
diminui e acaba. São estes uns limites postos pela própria
Natureza aos falsos amores; os verdadeiros seguem outra
regra; estes duram sempre. Venho nisto a dizer que, tanto que
Fernando teve a posse da lavradora, aplacaram-se-lhe os
desejos, e se lhe resfriaram os excessos. Ao princípio,
fingia querer-se ausentar para lhes não sucumbir; agora
procurava deveras ir-se, por enfastiado. Concedeu-lhe o duque
licença, dando-me ordem de o acompanhar. Dirigimo-nos à minha
cidade; recebeu-o meu pai como a quem era; eu vi logo a
Lucinda, reviveram (se bem que
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
nunca tinham estado mortos nem adormentados) os meus desejos,
dos quais por desgraça minha, dei conta a D. Fernando por me
parecer que nada devia encobrir a quem tanto afecto me
mostrava. Exaltei-lhe a formosura a graça, e a discrição de
Lucinda; de tal maneira que, por estes meus elogios, nasceram
nele apetites de conhecer donzela tão extremada. Satisfizlhos
eu por desgraça minha mostrando-lha uma noite à luz de
um velador, por uma janela, por onde nos costumávamos falar
os dois. Viu-a em saio, e tal impressão lhe fez, que todas as
formosuras por ele presenciadas até àquela hora se lhe
apagaram da lembrança. Emudeceu, perdeu o tino, ficou
absorto, e tão enamorado em suma, como ides ver no seguimento
da minha desastrada narrativa; e para lhe incender mais a
cobiça, que a mim me ocultava, e que só segredava com o Céu
quis a desgraça que ele achasse um dia um bilhete dela a mim,
instando-me para que a pedisse eu a seu pai por esposa, em
termos tão discretos, honestos e enamorados, que, apenas o
leu, me disse, que só em Lucinda se encerravam todos os
requintes de formosura e de entendimento, que por todas as
outras mulheres só andavam repartidos. Verdade é (devo agora
confessá-lo), que, ainda que eu bem via com quanta justiça
Lucinda era exaltada por Fernando, não gostava cá por dentro
de lhe ouvir aqueles elogios. Comecei a temer-me, e não sem
causa a desconfiar dele. Não se passava momento que ele não
trouxesse Lucinda à prática, ainda que viesse trazida pêlos
cabelos; o que em mim despertava já uma espécie de ciúmes,
não porque eu tivesse desconfiança alguma da bondade e boa fé
da dama; porém, contudo isso, as seguranças que ela me dava
para serenar os meus temores já não eram bastantes. Procurava
sempre D. Fernando ler os escritos que eu a ela lhe enviava,
assim como as respostas dela, dando por motivo o muito que
lhe agradava a discrição dos dois. Ora aconteceu que tendo-me
Lucinda pedido uma vez um livro de cavalarias para ler, por
muito afeiçoada que era a semelhante leitura (era o Amadis de
Gaula)...
Ainda bem não estava nomeado o livro de cavalarias, quando D.
Quixote disse:
207
MIGUEL DE CERVANTES
- Se Vossa Mercê me declarasse logo no princípio da sua
história que Sua Mercê a Sr. Lucinda era afeiçoada a livros
de cavalaria, náo eram precisos mais encarecimentos para me
dar a entender a alteza dos seus espíritos, porque os não
tivera ela tão excelentes como vós Senhor, a haveis pintado,
se se não recreasse com uma leitura tão deliciosa. Portanto,
para mim já não é mister despender mais recomendações de
formosura, valor e entendimento; só por esta sua afeição já a
reconheço pela mais formosa e mais discreta mulher de todo o
mundo. Quisera eu, Senhor, que, juntamente com o Amadis de
Gaula, Vossa Mercê lhe tivesse mandado também o bom de D.
Rugel da Grécia, porque sei o muito que a Sr. Lucinda havia
de gostar de Daraida e Garaia, e das discrições do pastor
Darinel, e daqueles admiráveis versos das suas bucólicas,
cantadas e representadas por ele com todo o donaire, discriço
e desenvoltura. Porém, ainda virá talvez tempo de se emendar
essa falta, e não tardará ele mais que o necessário para
Vossa Mercê me fazer o favor de vir comigo à minha aldeia,
que lá lhe poderei dar mais de trezentos livros, que são o
regalo da minha alma, e o meu entretenimento de toda a vida,
ainda que me está parecendo que já não tenho nem meio, graças
à malícia de maus e invejosos encantadores. Perdoe-me Vossa
Mercê o ter infringido a promessa de não interrompermos a sua
prática, porque, em ouvindo coisas de cavalarias e cavaleiros
andantes, não está na minha mão abster-me de falar também; é
como se pedissem aos raios do Sol que não aquentassem, e aos
da Lua que não humedecessem. Portanto, perdoe-me, e siga por
diante, que é isso o que mais importa.
Enquanto D. Quixote dizia tudo isto, fora descaindo para o
peito a cabeça de Cardénio, dando mostras de profundamente
pensativo. Por duas vezes lhe repetiu D. Quixote que
prosseguisse a sua história, sem que ele erguesse a cabeça,
nem proferisse palavra. Passado um bom espaço, levantou-se e
disse:
- Não me pode sair do pensamento, nem haverá quem de tal me
desmagine, ou me dê a entender outra coisa, e só um bruto
poderá crer o contrário, senão que aquele grande velhaco do
mestre Elisabat estava amancebado com a rainha Madasima.
208
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Tal não há; voto a Deus - interrompeu com muita cólera D.
Quixote, já com os seus costumados gestos de ameaça -, isso é
uma chapada malícia, ou velhacaria, por melhor dizer. A
rainha Madasima foi dama muito principal; e não se há-de
acreditar, que tão alta princesa houvesse de amancebar-se com
um mata-sanos; e quem o contrário entender, mente como um
grande velhaco; e eu lho provarei, a pé ou a cavalo, armado
ou desarmado, de noite ou de dia, ou como for mais do seu
gosto.
Estava-o encarando Cardénio muito atentamente, havendo-
-lhe já começado um dos seus ataques de loucura; não estava
para continuar a história, nem tão-pouco D. Quixote lha
ouvira, segundo o tinha escandalizado o falso testemunho
levantado à rainha Madasima. Estranho caso! Saiu logo a
defendê-la, como se ela fora sua verdadeira e natural
senhora; tal o tinham posto os seus excomungados livros.
Digo, pois, que, estando o Cardénio já alienado, e ouvindo-
-se tratar de embusteiro e de velhaco, com outros doestos
semelhantes, pareceu-lhe mal a zombaria, levantou um calhau,
que achou a jeito, e deu com ele pêlos peitos a D. Quixote co
tanta força, que o virou de costas.
Sancho Pança, vendo ao amo tão malparado, arremeteu ao doido
de punho fechado; o Roto recebeu-o de modo, que o estendeu
logo em terra com a primeira punhada; saltou-lhe para cima, e
lhe amolgou sofrivelmente as costelas. O cabreiro, que o quis
defender, não correu perigo menor; e Cardénio, vendo-
-os a todos três estendidos e moídos, deixou-os, e se foi com
airoso sossego embrenhar na montanha. Levantou-se Sancho, e
com a raiva com que estava de ver-se tão sovado sem razão,
acudiu a vingar-se do cabreiro, dizendo-lhe que ele é que
tinha a culpa por não os ter avisado de que o homem tinha
ataques de fúria, pois, se o soubessem, teriam estado de
sobreaviso para se resguardarem.
Respondeu o cabreiro que já lho tinha dito, e se ele o não
tinha ouvido, não era culpa sua.
Replicou Sancho Pança; o cabreiro triplicou, e chegaram,
dize-tu-direi-eu, a agarrarem-se às barbas um do outro, e
soca-
209
MIGUEL DE CERVANTES
rem-se a ponto que, se D. Quixote, levantando-se, os não
apartara e pusera em paz, se fariam pedaços de parte a parte.
Dizia Sancho na luta com o cabreiro:
- Deixe-me Vossa Mercê, Senhor Cavaleiro da Triste Figura,
que neste, que é vilão, como eu, e não está armado cavaleiro,
posso eu muito a meu salvo satisfazer-me do agravo que me
fez, pelejando com ele à unha como homem honrado.
- Assim é - dizia D. Quixote - mas eu é que sei, que ele
nenhuma culpa tem do sucedido.
Com isto os aquietou; e D. Quixote tomou a perguntar ao
rústico se seria possível achar a Cardénio porque estava com
grandíssimo desejo de saber dele o fim da sua história.
Disse-lhe o cabreiro o que já lhe tinha dito: que não sabia
ao certo onde se homiziava; porém, se o procurasse muito bem
por aqueles contornos, não deixaria de encontrá-lo, com juízo
ou sem ele.
CAPÍTULO XXV
QUE TRATA DAS ESTRANHAS COISAS QUE EM SERRA MORENA
SUCEDERAM AO VALENTE CAVALEIRO DA MANCHA, E DA IMITAÇO QUE
FEZ DA PENITÊNCIA DE BELTENEBRÓS
Despediu-se D. Quixote do cabreiro, e, tornando a montar em
Rocinante, mandou a Sancho o acompanhasse, o que ele fez a
pé, de muito má vontade.
A pouco e pouco, iam já entrando mais pelo áspero da
montanha; e Sancho ia morto por pairar com o amo, mas
desejava que principiasse ele a conversação, para não
contravir ao preceito recebido; porém, cansado já de tão
aturado silêncio, disse:
- Sr. D. Quixote, deite-me Vossa Mercê a sua bênção, e dê-me
licença de me tornar já para minha casa, para minha mulher e
meus filhos, com quem ao menos poderei falar à vontade, e
departir tudo o que eu quiser, porque isso de querer Vossa
Mercê que eu ande em sua companhia por estas solidões, de dia
e de noite, sem lhe falar, em me apetecendo, é o mesmo que
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
enterrar-me em vida. Se ao menos a sorte permitisse que os
animais falassem, hoje em dia, como no tempo de Guisopete,
fora meio mal, porque então me entreteria com o meu jumento,
se ainda o tivera, quanto me desse na vontade, e com isso
disfarçaria a minha desgraça. Em verdade que é desabrida
coisa e mal se pode levar à paciência andar buscando
aventuras toda a vida, e não achar senão couces, manteações,
pedradas e murros; e ainda por cima um ponto na boca, sem se
ousar dizer o que um homem tem no coração, como se fora
mudo!...
- Bem te percebo, Sancho - respondeu D. Quixote -, estás
morrendo por que eu te levante o interdito que te pus na
língua; dá-o por levantado, e diz o que quiseres, com a
condição de que não há-de durar a licença senão enquanto
andarmos por estas serras.
- Seja assim - disse Sancho -; fale eu agora, que depois Deus
sabe o que será.
E, começando imediatamente a gozar do salvo-conduto, disse:
- Que lhe aproveita a Vossa Mercê pôr-se tanto em campo pela
tal rainha Magimasa, ou como se chama? Ou que lhe importava
que o abade dormisse com ela ou não? Se Vossa Mercê deixara
passar isso, que não era da sua alçada, estou certo de que o
louco iria seguindo a sua história, e ter-se-iam dispensado a
pedrada e os pontapés, e ainda por cima mais de meia dúzia de
amolgadelas nas minhas costas.
- À fé, Sancho - respondeu D. Quixote -, que se tu souberas,
como eu sei, quão honrada e principal senhora é a rainha
Madasima, havias de dizer, que muito sofrido fui eu, que não
esborrachei a boca de onde tamanhas blasfémias saíram. Onde
se viu jamais impropério tamanho como é dizer, e até pensar,
que uma rainha viva mal encaminhada com um cirurgião? A
verdade do caso é, que o tal mestre Elisabat, de quem o doido
falou, foi varão prudentíssimo, e de óptimo conselho, e
serviu de aio e médico à rainha; mas pensar, que fosse ela
amiga sua, é disparate merecedor do maior castigo; e, para
veres como o Cardénio não sabia o que disse, hás-de-te
recordar de que no momento em que o disse já estava
desvairado.
211
MIGUEL DE CERVANTES
- Isso também eu digo - atalhou Sancho - e portanto das
palavras de um louco ninguém devia fazer caso, porque, se a
boa fortuna o não ajudara a Vossa Mercê e lhe deixasse ir o
calhau à cabeça como lhe foi ao peito, ficávamos frescos, por
termos tomado no ar a palha pea tal minha Senhora que Deus
confunda; nem o próprio Cardénio por louco se livrara.
- Contra ajuizados e contra loucos - disse D. Quixote - está
obrigado qualquer cavaleiro andante a acudir pela honra das
mulheres, quem quer que elas sejam, quanto mais pelas rainhas
de tão alta jerarquia e veneração, como foi a rainha
Madasima, a quem eu tributo especial afeição, por suas boas
prendas, porque, além de ter sido formosa, foi também muito
prudente e muito sofrida em suas adversidades, que as teve em
grande número; e os conselhos e companhia do mestre Elisabat
de muito proveito lhe foram, para poder levar os seus
trabalhos com prudência e sofrimento, e foi disso que o vulgo
ignorante mal-intencionado tomou ocasião para dizer e
imaginar ser ela sua manceba; e mentem, repito, e outras
duzentas vezes mentirão todos os que tal pensarem e
proferirem.
- Eu cá não o profiro nem o penso - respondeu Sancho -, os
outros lá se avenham; e se maus caldos mexerem, tais os
bebam. Se foram amancebados ou não, contas são essas que já
dariam a Deus; venho da minha vida; não sei mais nada. Que me
importam vidas alheias? Quem compra e mente na bolsa o sente;
quanto mais, que nu vim ao mundo, e nu me vejo; nem perco nem
ganho. E também que o fossem, que me faz isso a mim? Muitas
vezes são mais as vozes que as nozes; mas quem pode ter mão
em línguas de praguentos, se nem Cristo se livrou delas?
- Valha-me Deus! - disse D. Quixote - que de tolices vais
enfiando, Sancho! Que tem que ver o nosso caso com os adágios
que estás arreatando? Por vida tua, homem, que te cales;
daqui em diante, ocupa-te em esporear o teu asno, quando o
tiveres, e não te metas no que te não importa, e entende, com
todos os teus cinco sentidos, que tudo quanto eu fiz, faço,
ou houver de fazer, é muito posto em razão e muito conforme
às regras de cavalaria, que as sei eu melhor que todos os
cavaleiros do mundo.
212
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Ora, Senhor meu - respondeu Sancho -, é porventura boa
regra de cavalaria andarmos nós outros perdidos por estas
montanhas, sem caminho nem carreira, à cata de um maníaco, o
qual, depois de achado, talvez lhe dê na tonta acabar o que
já principiou, não do seu conto, senão da cabeça de Vossa
Mercê e das minhas costelas, desfazendo-as inteiramente?
- Tomo-te a dizer que te cales, Sancho - disse D. Quixote -,
porque deves saber que não é só o desejo de atinar com o
doido que me traz por estas partes, como o que eu tenho de
perfazer nelas uma façanha, com que hei-de ganhar perpétua
fama, em todo o mundo conhecido; e tal será, que hei-de com
ela pôr o non plus ultra a tudo quanto pode tomar perfeito e
famoso um andante cavaleiro.
- E essa tal façanha será de grande perigo? - perguntou
Sancho Pança.
- Não - respondeu o da Triste Figura -, ainda que de tal
maneira poderia correr o dado, que nos saísse azar em lugar
de sorte; tudo depende da tua diligência.
- Da minha diligência? - replicou Sancho.
- Sim - disse D. Quixote -, porque, se voltares depressa de
onde te quero agora enviar, depressa acabará a minha pena, e
terá princípio a minha glorificaço; e como não há razão que
te dilate por mais tempo suspenso, à espera do fim a que se
encaminham as minhas razões, quero, Sancho, que saibas, que o
famoso Amadis de Gaula foi um dos mais perfeitos cavaleiros
andantes. Não disse bem/oí um; foi o único, o primeiro o mais
cabal, e o senhor de todos quantos em seu tempo no mundo
houve. Não venha cá D. Belianis, ou outro qualquer, dizer que
se lhe igualou, fosse no que fosse; porque se enganam; juro
em boa verdade. E é assim, sem dúvida nenhuma; e, quando não,
que me respondam: se quando qualquer pintor quer sair famoso
na sua arte, não procura imitar os originais dos melhores
pintores de que há notícia? Esta mesma regra se observa em
todos os mais ofícios ou exercícios de monta com que se
adornam as repúblicas. Assim o há-de fazer, e faz, quem
aspira a alcançar nomeada de prudente e sofrido, imitando a
Ulisses, em cuja pessoa e trabalhos nos pinta Homero um
retrato vivo de
213
MIGUEL DE CERVANTES
prudência e sofrimento, como também nos mostrou Virgílio na
pessoa de Eneias o valor de um filho piedoso, e a sagacidade
de um valente e entendido capitão, não pintando-os ou
descrevendo-os como eles foram, mas sim como deviam ser, para
deixar exemplos de suas virtudes aos homens da posteridade.
Deste mesmo modo, Amadis foi o norte, o luzeiro, e o sol dos
valentes e namorados cavaleiros, a quem devemos imitar, todos
os que debaixo da bandeira do amor e da cavalaria militamos.
Sendo, pois, isto assim, como é, acho eu, Sancho amigo, que o
cavaleiro andante, que melhor o imitar, mais perto estará de
alcançar a perfeição da cavalaria. Uma das coisas em que este
cavaleiro melhor mostrou a sua prudência, valor, valentia,
sofrimento, firmeza, e amor, foi quando se retirou,
desprezado pela Sr. Oriana, a fazer penitência na Penha
Pobre, trocando o seu nome pelo de Beltenebrós, nome por
certo significativo, e próprio para a vida que ele
voluntariamente havia escolhido. Ora mais fácil me é a num
imitá-lo nisto, que no fender gigantes, descabeçar serpentes,
matar dragões, desbaratar exércitos, fracassar armadas, e
desfazer encantamentos; e, como estes lugares so tão azados
para semelhantes efeitos, não se deve perder a boa ocasião,
que ao presente com tanta comodidade me oferece suas
guedelhas.
- Mas enfim - disse Sancho -, que é o que Vossa Mercê
pretende fazer em tão remotas brenhas?
- Não te disse já, Sancho - respondeu D. Quixote -, que
pretendo imitar a Amadis desempenhando-me aqui do papel de
desesperado, de sandeu, e de furioso, para imitar juntamente
ao valoroso D. Roldão, quando topou numa fonte os sinais de
ter Angélica, a bela, cometido vileza com Medoro, e de
consternado se tomou louco, arrancou as árvores, enturvou as
águas das claras fontes, matou pastores, destruiu gados,
abrasou choças, derribou casas, arrastou éguas, e fez outras
cem mil insolências dignas de eterno renome e escritura? E
posto que eu não penso imitar a Roldão, Orlando, ou Rotolando
(que todos estes três nomes unha ele) parte por parte em
todas as loucuras que fez, disse, e pensou, imitá-lo-ei o
melhor que puder nas que me parecerem mais essenciais, e
talvez também que me contentasse em imitar só a Amadis, que,
sem fazer loucuras prejudiciais,
214
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
senão só de choros e sentimentos, alcançou tanta fama como os
que maior a conseguiram.
- A mim me parece - disse Sancho - que os cavaleiros, que
isso fizeram, seriam primeiro provocados, e alguma causa
teriam para cometerem esses destemperos e penitências; porém
Vossa Mercê que razão tem para enlouquecer? Que dama o
desprezou? Ou que sinais achou para suspeitar, que a Sr.1
Dulcineia dei Toboso fizesse algumas tolices com mouro ou com
cristão?
- Aí bate o ponto - respondeu D. Quixote -, aí que está o
fino do meu caso; ensandecer um cavaleiro andante com causa
não é para admirar nem agradecer; o merecimento está em
destemperar sem motivo, e dar a entender à minha dama, que,
se em seco faço tanto, em molhado o que não faria? Quanto
mais, que razão não me falta com a larga ausência que tenho
feito da sempre Senhora minha Dulcineia dei Toboso. Bem
ouviste dizer àquele pastor que sabes, o Ambrósio: «Quem está
ausente, não há mal que não tenha e que não tema.» Portanto,
Sancho amigo, não gastes tempo em me aconselhar que deixe tão
rara, tão feliz e tão nunca vista imitação. Louco sou, e
louco hei-de ser até que me tomes com a resposta de uma carta
que por ti quero enviar à minha Sr.* Dulcineia; e, se ela
vier tal, como lho merece a minha lealdade, acabar-se-ão a
minha sandice e a minha penitência; e, se for ao contrário,
confirmar-me-ei louco deveras e assim não sentirei nada.
Portanto, de qualquer maneira que ela responda, sairei do
trabalhoso passo em que me houveres deixado, gozando ajuizado
do bem que me trouxeres, ou, se me trouxeres mal, deixando
por louco de o sentir. Mas diz-me cá, Sancho, trazes bem
guardado o elmo de Mambrino? Que eu bem vi que o levantaste
do chão quando aquele desagradecido o quis despedaçar, mas no
pôde, prova clara da fineza da sua têmpera.
A isto respondeu Sancho:
- Vive Deus, Senhor Cavaleiro da Triste Figura! Coisas diz
Vossa Mercê, que eu não posso levar à paciência; e por elas
chego a imaginar que tudo o que me tem dito de cavalarias, de
alcançar reinos e impérios, de dar ilhas, e fazer outras
mercês e gran-
215
MIGUEL DE CERVANTES
dezas, como é de uso de cavaleiros andantes, deve ser tudo
coisas de vento e mentira, e tudo pastranha, ou patranha, ou
como melhor se chama. Quem ouvir a Vossa Mercê dizer que uma
bacia de barbeiro é o elmo de Mambrino, sem sair de
semelhante despropósito por mais de quatro dias, que há-de
cuidar, senão que a pessoa que tal diz e afirma tem o miolo
furado? A bacia cá a levo eu no costal toda amigada; e levo-a
para a arranjar em minha casa, e fazer com ela a barba, se
Deus me fizer tanta mercê, que me tome ainda a ver com a
minha mulher e filhos.
- Olha, Sancho, pelo mesmo que tu me juraste há pouco te
rejuro eu - disse D. Quixote - que tens o mais curto
entendimento, que nunca teve, nem tem, escudeiro do mundo.
Pois é possível, que, andando comigo há tanto tempo, ainda
não tenhas reconhecido que todas as coisas dos cavaleiros
andantes parecem quimeras, tolices, e desatinos, e são ao
contrário realidades? E de onde vem este desconcerto? Vem de
andar sempre entre nós outros uma caterva de encantadores,
que todas as nossas coisas invertem, e as transformam,
segundo o seu gosto e a vontade que têm de nos favorecer ou
destruir-nos. Ora aí está como isso, que a ti te parece bacia
de barbeiro, é para mim elmo de Mambrino, e a outro se
figurará outra coisa; e foi rara providência do sábio, que me
favorece, fazer que pareça bada o que real e verdadeiramente
é elmo de Mambrino; e a causa vem a ser: porque, sendo ele
traste de tanto apreço, todo o mundo, se o conhecesse, me
perseguiria para mo tirar; como porém entendem que não passa
de bacia de barbeiro, não fazem caso de se matar por ele,
como bem o mostrou por sua parte o que diligenciou quebrá-lo,
e o deixou no chão em vez de o levar; conhecera-o ele, e
veríamos se o deixava assim! Guarda-o, guarda-o, amigo, que
por enquanto não me faz míngua, antes estou para largar todas
estas armas, e ficar nu como quando nasci, se é que me não
der na vontade imitar mais a Roldão do que a Amadis, no
tocante à penitência.
Com esta conversação chegaram ao pé de um alto monte, que
entre outros que o rodeavam se erguia solitário, como se fora
ali uma esguia rocha talhada por mão.
216
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Corria-lhe pela falda um manso arroio, e por todas as partes
à volta se lhe alastrava um prado tão verde e viçoso que era
alegria dos olhos. Havia por ali muitas árvores montesinas e
algumas plantas e flores que tornavam o lugar sobremodo
aprazível.
Foi este o sítio que para a sua penitência elegeu o Cavaleiro
da Triste Figura. Apenas o avistou rompeu em altas
exclamaçes, dizendo como fora de si:
- Este é o lugar, oh! Céus! que eu escolho para chorar a
desventura em que vs mesmos me haveis posto. Este é o sítio,
em que o tributo dos meus olhos há-de aumentar as águas
daquele arroio, e meus contínuos e profundos suspiros
estremecerão sem descanso as folhas destas árvores
selváticas, em testemunho da pena que o meu coração
perseguido padece. Ó vós outros, quem quer que sejais,
rústicos deuses, que nesta desconversável paragem habitais,
ouvi as queixas de tão desditoso amante, a quem uma longa
ausência e uns fantasiados zelos hão trazido a lamentar-se
nestas asperezas, e a queixar-se da dura condição daquela
ingrata e bela, fim e remate de toda a humana formosura! Ó
vós outras, Napeias e Dríades, que usais habitar no mais
cerrado dos montes, assim os ligeiros e lascivos Sátiros de
quem sois amadas, posto que em vão, não perturbem jamais o
vosso doce sossego; ajudai-me a deplorar a minha desventura,
ou pelo menos não vos canseis de ma ouvir! Ó Dulcineia dei
Toboso, dia da minha noite, glória da minha pena, norte dos
meus caminhos, estrela da minha ventura (assim o Céu ta
depare favorável em tudo que lhe pedires!) considera, te
peço, o lugar e o estado a que a tua ausência me conduziu, e
correspondas propícia ao que deves à minha fé! Ó solitárias
árvores, que de hoje em diante ficareis acompanhando a minha
solidão, dai mostras com o movimento das vossas ramarias de
que vos não anoja a minha presença! Ó tu, escudeiro meu,
agradável companheiro em meus sucessos prósperos e adversos,
toma bem na memória o que vou fazer à tua vista, para que
pontualmente o repitas à causadora única de tudo isto!
Dizendo assim, apeou-se do Rocinante, tirou-lhe de repente o
freio e as rilhas, e, dando-lhe uma palmada nas ancas, lhe
disse:
217
MIGUEL DE CERVANTES
- Liberdade te dá o que sem ela fica, ó cavalo tão estimado
por tuas obras, quão mísero por teu fado! Vai-te por onde
quiseres, que na frente levas escrito que não te igualou em
ligeireza o Hipogrifo de Astolfo, nem o famigerado Frontino,
que tão caro saiu a Bradamante.
Vendo aquilo, Sancho disse:
- Bem haja quem nos tirou agora o trabalho de desalbardar o
ruço, que à fé que não faltariam palmadinhas que dar-lhe, nem
coisas que dizer em seu louvor. Se ele aqui estivera, não
havia de eu consentir que ninguém o desalbardasse, nem para
tal havia razão, pois com ele não tinham que ver as
inquirições de enamorado nem de desesperado, pois nem uma nem
outra coisa estava seu amo, que era eu quando Deus queria.
Agora, Senhor Cavaleiro da Triste Figura, se a minha partida
e a loucura de Vossa Mercê são coisas deveras assentadas, bom
será tornar -se a aparelhar o Rocinante para me suprir a
falta do ruço, porque assim se encurtará a demora da minha
ida e tornada, que a pé não sei quando voltarei, porque eu
por mim sou fraco andarilho.
- Como quiseres, Sancho - disse D. Quixote -, não me parece
mal a tua lembrança; daqui a três dias partirás, pois quero
que neste meio tempo vejas o que por ela faço e digo, para
lho repetires como testemunha.
- Que mais tenho eu que ver do que já vi? - disse Sancho.
- Sim; bem inteirado estás - disse D. Quixote. - Agora só me
falta rasgar o fato, espalhar por aí as armas, e dar
cabriolas e cabeçadas por estas penhas, com outras coisas
deste jaez que te hão-de admirar.
- Pelo amor de Deus - disse Sancho -, olhe Vossa Mercê como
dá essas cabeçadas, que em tal penha poderia acertar, e em
tal parte, que logo à primeira se acabasse toda esta máquina
de penitência; seria eu de parecer que, visto Vossa Mercê
entender serem as cabeçadas necessárias para o caso, e não se
pode fazer sem elas esta obra, se contentasse, por ser tudo
isto fingido, e coisa a de arremedilho e comédia, se
contentasse, digo, em dar as cabeçadas na água, ou em alguma
outra coisa fofa, por exemplo em algodão; o mais deixe-o por
minha conta, que
218
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
eu direi à minha Senhora que Vossa Mercê as dava na quinta de
um penhasco mais agudo que um diamante.
- Agradeço-te a boa intenção, amigo Sancho - respondeu D.
Quixote -, mas quero que saibas que tudo isto que eu faço não
são comédias, mas realidades muito reais, porque o mais fora
contravir às ordens de cavalaria, que nos proíbem toda a
casta de mentira, sob pena de relapsos; o fazer uma coisa por
outra o mesmo é que mentir; portanto, as minhas cabeçadas
hão-
-de ser verdadeiras, firmes, e a valer, sem nada de sofístico
nem de fantástico; e necessário será, que me deixes alguns
fios para me curar, já que a desgraça quis que nos faltasse o
bálsamo, que não foi pequena perda.
- Pior foi a do asno - respondeu Sancho - pois com ele se
foram os fios, e tudo mais que trazia. Peco-lhe a Vossa Mercê
que nunca mais se tome a lembrar daquela maldita bebida, que
só de ouvir falar nela se me revolve a alma, quanto mais o
estômago. Mais lhe rogo, que faça de conta que são já
passados os três dias que me aprazou para eu ver as suas
loucuras; já as dou por vistas, revistas, e passadas em
julgado, e hei-de contar delas maravilhas à minha Senhora.
Escreva a carta e despache-
-me logo, pois estou com grande ânsia de vir breve hrá-lo
desse purgatório em que o deixo.
- Purgatório o chamas tu, Sancho? - disse D. Quixote. -
Inferno lhe puderas tu chamar mais apropriadamente, ou coisa
ainda pior, se a há.
- No Inferno nulia es reteho, segundo tenho ouvido dizer
replicou Sancho.
- No entendo o que vens a dizer com a tua retenho - disse D.
Quixote.
- Reteho é - respondeu Sancho - que quem está no Inferno
nunca mais de lá sai, nem pode; em Vossa Mercê poderá ser às
avessas, ou mau caminheiro serei eu, a não levar esporas com
que esperte o Rocinante. Ponha-me eu a meu salvo em Toboso, e
na presença da minha Sr. Dulcineia, que eu lhe direi tais
coisas das necedades e loucuras (que tanto monta uma coisa
como outra) que Vossa Mercê tem feito e fica fazendo, que a
porei mais macia que uma luva, ainda que a ache mais dura
219
MIGUEL DE CERVANTES
que um sobreiro. Com a sua resposta, que há-de ser doce como
um mel, voltarei por ares e ventos que nem bruxo, e o tirarei
a Vossa Mercê deste purgatório, que, se não é Inferno, bem o
parece, visto haver esperança de saída, a qual, como já
disse, não a têm os que estão no Inferno; tenho que Vossa
Mercê não dirá agora o contrário.
- É verdade - disse o da Triste Figura -, mas como faremos
para escrever a carta?
- A carta, e mais a cédula dos três burrinhos - acrescentou
Sancho.
- Tudo será mencionado - disse o cavaleiro. - Que bom não
seria, se, à falta de papel, a pudéramos escrever, como os
Antigos o faziam, em folhas de árvores, ou numas tabelas
enceradas! Mas tão dificultoso seria achar-se agora isso,
como papel. Mas em bem me lembra: onde se pode optimamente
escrever a carta é no livrinho de Memórias que foi de
Cardénio, e tu terás cuidado de a mandar copiar para papel,
com boa letra, no primeiro lugar que encontres onde haja
mestre de meninos de escola; ou, quando não, qualquer
sacristão ta copiará; lá de escrivão Deus nos livre, esses
amigos fazem letra de processo, que nem Satanás a decifra.
- E como há-de ser a assinatura? - disse Sancho.
- As cartas de Amadis nunca foram assinadas - respondeu D.
Quixote.
- Embora - replicou Sancho -; mas a ordem para os três
burricos por força que há-de ser assinada e, se essa
assinatura se copia, dirão que é falsa e ficaremos sem
burrinhos.
- Essa ordem no mesmo livrinho a assinarei, que, em minha
sobrinha a vendo, nenhum reparo porá em a cumprir; e pelo que
respeita à carta de amores, porás, em vez de assinatura:
Vosso até à morte, o Cavaleiro da Triste Figura. E o ir a
coisa escrita por mão de outrem pouco importa, porque, se bem
me lembra, a Dulcineia não sabe escrever nem ler, nem em toda
a sua vida viu nunca letra nem carta minha, porque os meus
amores e os dela têm sido sempre platónicos, sem se atreverem
a mais que a um olhar honesto; e ainda isso tão de longe em
longe, que me atreverei a jurar-te com verdade que, em doze
220
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
anos (que tantos há que eu lhe quero mais que à luz destes
olhos que a terra há-de comer), não a tenho visto quatro
vezes; e até poderá ser, que destas quatro vezes nem uma só
ela em tal reparasse; tamanho é o recato e encerro com que
seu pai Lourenço Corchuelo e sua mãe Aldonsa Nogales a
criaram.
- Tenha lá mão - disse Sancho -, pois a filha de Lourenço
Corchuelo é que é a Sr. Dulcineia dei Toboso, chamada por
outro nome Aldonça Lourenço?
- Essa é - disse D. Quixote -, é essa a que merece ser
senhora de todo o Universo.
- Bem a conheço - disse Sancho. - O que sei dizer é que atira
tão longe uma barra como o mais alentado pastor daquele povo.
Vive Deus, que é um raparigão de truz, direita e desempenada,
e de cabelinho na venta, e que pode tirar as barbas de
vergonha a qualquer cavaleiro andante ou por andar, que a
tiver por sua dama. Filha da mãe! que rija dos nós! que
vozeirão! O que posso dizer é que se pôs um dia no alto da
torre da aldeia a bradar por uns moços da casa, que andavam
longe numa courela do pai; e, ainda que estavam a mais de
meia légua, ouviram-na como se a torre estivesse ali ao pé; e
o melhor que tem é que não tem nada de nicas, porque é muito
levantada, com todos caçoa, e de tudo faz galhofa.
Agora é que eu digo Senhor Cavaleiro da Triste Figura, que
não só pode e deve fazer Vossa Mercê desatinos por ela, senão
que terá carradas de razão de se desesperar e até enforcarse.
Não há ninguém que em o sabendo não diga, que fez muito
bem, ainda que o leve o Diabo. Tomara-me já em caminho só por
vê-la, que a não vejo há já muitos dias, e deve a estas horas
estar muito demudada, porque o andar sempre ao ar e ao sol
estraga muito o carão das mulheres.
Uma verdade lhe confesso eu, Sr. D. Quixote, e é que tinha
vivido até aqui numa grande ignorância, porque entendia, e
era capaz de o jurar, que a Sr. Dulcineia devia ser alguma
princesa, de quem Vossa Mercê estava enamorado, ou alguma
pessoa tão de costa acima, que merecesse os ricos presentes
que Vossa Mercê lhe tem enviado, tais como o do biscainho, o
dos forçados das galés, e outros, que muitos devem ser,
segundo a quan-
221
MIGUEL DE CERVANTES
tia das vitórias que Vossa Mercê terá ganhado e ganhar, no
tempo em que eu não era ainda seu escudeiro.
Mas agora, considerando bem, que proveito dará à Sr. Aldonça
Lourenço (quero dizer, à Sr. Dulcineia dei Toboso) o irem-se
lançar de joelhos diante dela os vencidos que Vossa Mercê lhe
envia e há-de enviar? Porque poderia suceder que, na ocasião
de eles chegarem lá, estivesse ela tasquinhando linho ou
malhando na eira, e eles se envergonhassem de a ver, e ela se
risse e aborrecesse do presente.
- Já te tenho dito, e por muitas vezes, Sancho - disse D,
Quixote -, que és um grande falador; e, ainda que de bestunto
ronceiro, muitas vezes frisas em subtil; contudo, para te
convencer de quão rombo és tu, e eu discreto, quero que me
ouças um breve conto:
Certa viúva formosa, moça, livre, e rica, e ainda por cima
desenfadada, se enamorou de um rapaz tosquiado, roliço, e de
boa presença. O irmão mais velho dela, descobrindo aquela
inclinação, disse-lhe um dia a modo de advertência fraternal:
«Maravilhado estou Senhora, e com bastante razão, de que
mulher tão principal, tão formosa, e tão abastada, como Vossa
Mercê, se haja enamorado de um homem tão soez, tão baixo, e
tão idiota, como é Fulano, sendo esta casa frequentada por
tantos padres-mestres, apresentados e teólogos, por onde
Vossa Mercê poderia fazer melhor escolha, como em bandeja de
pêras, e dizer: Este serve-me; aquele não presta.»
Ao que ela respondeu com grande chiste e despejo:
«Vossa Mercê, Senhor meu, está muito enganado, e pensa muito
à antiga, se cuida que elegi mal em Fulano, por lhe parecer
idiota, porque para o que eu o quero tanta filosofia sabe
como Aristóteles, e até mais.»
Assim, Sancho, para o que eu quero a Dulcineia dei Toboso,
tanto vale ela como a mais alta princesa do mundo. Olha que
nem todos os poetas, que louvam damas debaixo de um nome que
eles arbitrariamente lhes põem, as têm na realidade. Pensas
tu que as Amarüis, as Fílis, as Silvias, as Dianas, as
Galateias,
222
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
e outras quejandas de que andam cheios os livros, os
romances, as lojas de barbeiros, os teatros das comédias,
foram realmente damas de carne e osso, e pertenceram àqueles
que as celebram e celebraram? Decerto que não. As mais delas
inventaram-nas eles para assunto dos seus versos, e para que
os tenham por enamorados, e homens de valia para o serem.
Segundo isso, baste-me também a mim pensar e crer que a boa
de Aldonça Lourenço é formosa e honesta. Lá a sua linhagem
importa pouco;
não hão-de ir tirar-lhe as inquirições para dar-lhe algum
hábito; para mim faço de conta que é a mais alta princesa do
mundo. Porque hás-de saber, Sancho, se o não sabes, que há
duas coisas só, que mais que todas as outras incitam a amar:
são a formosura e a boa fama; e ambas estas coisas são em
Dulcineia extremadas, porque em lindeza nenhuma a iguala, e
em boa nomeada poucas lhe chegam; e, para acabar com isto,
imagino eu, que tudo que te digo é assim, sem um til de mais
nem de menos; pinto-a na fantasia como a desejo, assim nas
graças como no respeito; nem Helena lhe deita água às mãos,
nem Lucrécia, nem outra alguma das famigeradas mulheres das
idades pretéritas, grega, bárbara, ou latina; digam o que
quiserem; se por isto me repreenderem os ignorantes, não me
condenarão os justiceiros.
- Confesso que em tudo tem Vossa Mercê razão - disse Sancho -
e que eu sou um asno. O que eu não sei é porque hei-de falar
em asno; não se deve lembrar baraço em casa de enforcado. Mas
venha a carta, e adeus que me mudo.
Puxou D. Quixote pelo livro de lembranças, e, retirando-se
para um canto, com muito sossego começou a escrever a carta.
Acabada ela, chamou a Sancho, e lhe disse, que lha queria ler
para ele a entregar à memória, para ficar esse remédio, caso
no caminho a perdesse, porque da sua desdita tudo se podia
recear.
A isto respondeu Sancho:
- Escreva-a Vossa Mercê duas ou três vezes aí no livro, e dêmo,
que eu o levarei bem guardado; porque pensar que eu possa
tomar isso de cor é disparate; sou tão falto de memória que
às vezes me chega a esquecer como me chamo. Mas diga-a
223
MGUEL DE CERVANTES
sempre, que estimo muito ouvi-la; há-de ser, que nem de letra
redonda.
- Ora escuta: reza assm - disse D. Quixote.
CARTA DE D. QUIXOTE A DULCINEIA DEL TOBOSO
«Soberana e alta Senhora!
O ferido do gume da ausência, e o chagado nas teias do
coração, dulcíssima Dulcineia dei Toboso, te envia saudar,
que a ele lhe falta,
Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e
se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não
obstante ser eu muito sorrido, mal poderei com estes pesares,
que, além de muito graves, já vão durando em demasia.
O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha
bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por
teu respeito. Se te parecer acudir-me, teu sou; e, senão, faz
o que mais te aprouver, pois em acabar a minha vida terei
satisfeito à tua crueldade e ao meu desejo.
Teu até à morte
O Caaleiro da Triste Figura.»
- Por vida de meu pai - disse Sancho acabada a leitura da
carta - que esta é a mais sublime coisa que nunca ouvi. Aí
diz Vossa Mercê tudo quanto quer; e como encaixa bem para
assinatura aquilo do Cavaleiro da Triste Figura Digo a
verdade, que Vossa Mercê é o próprio Diabo em carne e osso;
no há nada que não saiba.
- Tudo é necessário para o ofício que exerço - disse D.
Quixote.
- Ora pois - disse Sancho -, ponha Vossa Mercê agora nessa
outra página adiante a ordem dos três burricos, e assine-se
com muita clareza, para a conhecerem logo que a virem.
- Aí va - disse D. Quixote.
Depois de escrita releu-a, e dizia assim:
224
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- «Por esta minha de burrinhos mandará Vossa Mercê Senhora
Sobrinha, dar a Sancho Pança, meu escudeiro, três dos cinco
que deixei em casa, e que estão a cargo de Vossa Mercê, os
quais três burrinhos os mando entregar e pagar por outros
tantos aqui recebidos de contado, que com esta e com sua
carta de pago serão bem dados.
Feita nas entranhas da serra Morena aos vinte e dois de
Agosto deste ano.»
- Está muito boa - disse Sancho -, assine-a Vossa Mercê.
- Não é preciso assiná-la - disse D. Quixote -, basta pôr-
-lhe a minha rubrica, que vale o mesmo que assinatura; e para
três asnos, e trezentos que fossem, é quanto basta.
- Fio-me em Vossa Mercê - respondeu Sancho -; deixai-
-me ir aparelhar Rocinante, e prepare-se para me deitar sua
bênção, que eu abalo já sem ver as sandices que Vossa Mercê
quer fazer; eu lhe lá direi, que vi fazer tantas, que não
havia mais que pedir para fartar.
- Pelo menos quero, Sancho, porque assim é necessário - disse
D. Quixote -, que me vejas nu em pêlo, e fazer uma dúzia ou
duas de disparates; não me levarão nem meia hora; tendo-os tu
presenciado pêlos teus olhos, já podes jurar sem carrego de
consciência, todos os mais que te parecer acrescentar.
- Pelo amor de Deus, Senhor meu - disse Sancho -, não me
obrigue a ver a Vossa Mercê nu em pêlo; isso era para mim uma
grande aflição, e até me fazia chorar sem querer e tenho esta
cabeça em tal estado, do pranto que à noite fiz pelo ruço,
que não estou para novos choros. Se tem muito empenho em que
eu lhe assista a algumas loucuras faça-as vestido, e à
pressa, e as primeiras que lhe lembrem. Quanto mais, que para
mim nada disso era mister; o meu maior empenho é apressar
jornada, e não demorar a volta, que há-de ser com as notícias
que Vossa Mercê deseja e merece; e, quando não, prepare-se a
Sr. Dulcineia que, se não responde como deve, faço juramento
de alma que lhe hei-de sacar do bucho resposta apropositada a
poder de pontapés e bofetes. Pois como se há-de aturar, que
um cavaleiro andante tão famoso como Vossa Mercê, se mude em
doido sem quê nem para quê, por amor de uma...
225
MIGUEL DE CERVANTES
no me obrigue a dizer senhora; quando não, juro que
despropósito, dê por onde der; bom sou eu para essas; ainda
me náo conhece; pois olhe que, se me conhecesse, veria que
não sou para graças.
- Sabes o que me está parecendo, Sancho? - disse D. Quixote.
- É que não estás mais assisado do que eu.
- Tão doido não estou - respondeu Sancho - mas mais
enraivecido, sim. Mas, deixando-nos agora disto; que é o que
Vossa Mercê há-de comer enquanto não volto? Há-de sair aos
caminhos como Cardénio para rapinar aos pastores?
- Não te dê isso cuidado - respondeu D. Quixote - porque,
ainda que eu tivesse para aí ucharias, não comera outra coisa
senão as ervas e frutos que me oferecem este prado e estas
árvores; nisso está a maior substância do meu caso: não comer
e praticar outras inclemências.
- Sabe Vossa Mercê o que eu estou receando? - disse Sancho. -
E não atinar à volta com o sítio em que o deixo agora,
segundo é sonegado.
- Repara-lhe bem nos sinais, que eu procurarei não me apartar
destes contornos - respondeu D. Quixote -; demais, tomarei
cuidado de trepar por estes cabeços mais altos, para ver se
te avisto quando voltares. Mas o melhor será, para te não
perderes e para dares comigo, cortares algumas giestas das
muitas que por aqui há, e as vás deitando de onde em onde até
saíres a raso; assim já tens marcas para atinares comigo; é
uma imitação do fio de Teseu no labirinto.
- Farei isso - respondeu Sancho.
E, cortando algumas giestas, pediu a bênção ao amo e, sem
muitas lágrimas de parte a parte, se despediu dele; e,
montando no Rocinante, que D. Quixote muito lhe recomendou,
dizendo-lhe que olhasse por ele como por si mesmo, se
encaminhou para o plano, espalhando de distância em distância
os ramos de giesta, segundo a advertência do amo. E assim se
foi, se bem que até ao fim nunca D. Quixote deixou de o
importunar para que lhe visse fazer ao menos duas loucuras.
Não tinha, porém, andado ainda cem passos, quando se voltou,
e disse:
226
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Razo tinha Vossa Mercê em dizer que, para eu poder jurar,
sem encargo de consciência, que o tinha visto fazer loucuras,
seria bem ter-lhe presenciado ao menos uma, suposto que uma,
e bem grande, já lhe eu vi, que foi esta de se me ficar por
aí sozinho.
- Não te dizia eu? - disse D. Quixote. - Espera, Sancho, que
num credo as farei.
E, despindo com toda a pressa os calçes, ficou em carnes, com
poucas roupas menores, e logo, sem mais nem menos, deu duas
cabriolas no ar, e dois tombos de cabeça a baixo, descobrindo
coisas que, para não vê-las outra vez, voltou Sancho a rédea
a Rocinante, e se deu por habilitadíssimo para poder jurar
que o fidalgo ficava doido confirmado.
Deixemo-lo seguir o seu caminho, até à volta, que pouco
tardou.

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