Dom Quixote de La Mancha | Miguel De Cervantes parte 2

| terça-feira, 27 de outubro de 2009
Porém eu, que, ainda que pareço pai, não sou contudo senão
padrasto de D. Quixote, não quero deixar-me ir com a corrente
do uso, nem pedir-te, quase com as lágrimas nos olhos, como
por aí fazem muitos, que tu, leitor caríssimo, me perdoes ou
desculpes as faltas que encontrares e descobrires neste meu
filho; e porque não és seu parente nem seu amigo, e tens a
tua alma no teu corpo, e a tua liberdade de julgar muito à
larga e a teu gosto, e estás em tua casa, onde és senhor dela
como el-rei das suas alcavalas, e sabes o que comummente se
diz que debaixo do meu manto ao rei mato (o que tudo te
isenta de todo o respeito e obrigação) podes do mesmo modo
dizer desta história tudo quanto te lembrar sem teres medo de
que te caluniem pelo mal, nem te premeiem pelo bem que dela
disseres.






CAPÍTULO XXVI
ONDE SE PROSSEGUEM AS FINEZAS QUE DE ENAMORADO FEZ D. QUIXOTE
EM SERRA MORENA
Voltando a contar o que fez o da Triste Figura depois que se
viu só, diz a história que tanto como D. Quixote acabou de
dar as cambalhotas nu da cinta para baixo, e da cinta para
cima vestido, e reparou em que Sancho se tinha abalado sem
querer esperar, a ver mais sandices, subiu à ponta de uma
alta penha, e ali tomou a discorrer sobre o que já outras
muitas vezes havia cismado, sem nunca ter podido assentar em
coisa certa; a saber:
que seria melhor e mais cabido, se imitar a Roldão nas
loucuras desaforadas que fez, ou a Amadis nas melancólicas?
Discursando entre si, dizia:
- Se Roldão foi tão valente e tão bom cavaleiro como todos
dizem, que admira? Se ele por último era encantado, e ninguém
o podia matar, salvo metendo-lhe um alfinete grosso pela sola
do pé, para o que já trazia à cautela sapatos com sete solas
de ferro, se bem que essas tretas não lhe valeram com
Bernardo dei Cárpio, que lhas entendeu, e o afogou entre os
braços em
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MIGUEL DE CERVANTES
Roncesvales. Mas, deixando nele de parte o que pertence a
valentia, venhamos ao ponto de perder o juízo, pois é certo
que o perdeu pêlos sinais que na fonte achou, e pelas novas
que lhe deu o pastor, de ter Angélica dormido mais de duas
sestas com Medoro, um mourinho de cabelo encarapinhado, e
pajem de Agramante; e, se ele acreditou ser aquilo verdade, e
que a sua dama lhe tinha a ele feito agravo, não fez nada de
mais em endoidecer; mas eu como é que nas loucuras o posso
imitar, se para elas no tenho iguais motivos? Porque a minha
Dulcineia dei Toboso, atrevo-me a jurar que nunca em dias de
sua vida viu mouro algum em seu traje natural, e que se
conserva ainda hoje como a mãe a deu à luz; pelo que lhe
faria agravo manifesto, se, imaginando o contrário a seu
respeito, me tomasse louco daquele género de loucura de
Roldão, o furioso. Por outra parte, vejo que Amadis de Gaula,
sem perder o juízo nem fazer loucuras, alcançou tamanha fama
de enamorado como os que maior a tiveram, porque o que fez
(conforme na sua história se refere) não foi mais do que por
ver-se desdenhado da sua Sr. Oriana, que lhe tinha mandado
não aparecesse na sua presença enquanto ela não quisesse;
retirou-se então à Penha Pobre em companhia de um ermitão, e
ali se fartou de chorar, até que o céu lhe acudiu no meio da
sua maior tristeza e desamparo. Ora, se isto é verdade, como
é, para que quero eu ter agora o trabalho de despir-me de
todo, nem fazer ofensa a estas árvores que nenhum mal me
fizeram? Nem tenho razão para enturvar a água clara destes
arroios que me hão-de dar de beber quando tiver sede. Viva a
memória de Amadis! E imite-o D. Quixote de Ia Mancha em tudo
que puder. Deste se dirá o que de outro se disse: que, se não
perfez grandes coisas para acometê-las, morreu; e, se eu não
sou despedido nem desdenhado da minha Dulcineia, basta-me,
como já está dito, o estar-me ausente dela. Eia pois! mãos à
obra! Acudi-me à lembrança coisas de Amadis, e ensinai-me por
onde devo começar a imitá-lo; já sei que rezar foi o que ele
mais praticou; assim o farei eu também.
A D. Quixote serviram-lhe de ramal de rosário uns bugalhos
grandes de sobreiro enfiados de dez em dez mais pequenos, à
guisa de padre-nossos.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
O que muito o desassossegava era não achar por ali outro
ermitão que o confessasse e o consolasse e assim se
entretinha passeando pelo pradozinho, gravando pelas cortiças
do arvoredo, e escrevendo na areia muitos versos, todos
apropriados à sua tristeza, e alguns em honra e louvor de
Dulcineia; mas os que se puderam achar inteiros e que se
pudessem ler depois que ali o encontraram, não foram senão
estes, que em seguimento vão copiados:
Árvores, ervas, e plantas, que neste lugar estais, tão altas,
verdes, e tantas, se co meu mal não folgais, ouvi minhas
queixas santas. Tal dor não vos alvorote, embora de terror
cheia, pois, por pagar-vos o escote, aqui chorou D. Quixote
ausências de Dulcineia dei Toboso.
É aqui o lugar onde
o adorador mais leal
da sua amada se esconde;
chegou a tamanho mal sem saber como ou por onde. Trá-lo amor
ao estricote pela sua má raleia, e até encher um pipote aqui
chorou D. Quixote ausência de Dulcineia dei Toboso.
Procurando as aventuras
entre as desabridas penhas, maldizendo entranhas duras, que
entre fragas e entre brenhas
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MIGUEL DE CERVANTES
acha o triste desventuras. Deu-lhe amor com seu chicote da
mais áspera correia;
tal lhe foi o esfuziote, que aqui chorou D. Quixote ausências
de Dulcineia dei Toboso.
Fez rir muito aos que tais versos ouviram o rabo-leva dei
Toboso posto ao nome de Dulcineia, porque imaginaria D.
Quixote que, se nomeando a Dulcineia, não dissesse também dei
Toboso, deixaria a copla ininteligível, e essa foi realmente
a razão que ele para isso teve, segundo ao depois confessou.
Muito mais trovas escreveu; porém, como já se disse, não se
puderam tirar a limpo, nem inteiras, senão só estas três
coplas.
Nisto, em suspirar, em chamar pêlos Faunos e Silvanos
daqueles bosques, pelas Ninfas dos rios, pela dolorosa e
húmida Eco, que o escutassem, lhe respondessem, e o
consolassem, se entretinha, e em procurar algumas ervas com
que se sustentar enquanto não vinha Sancho, que, se assim
como tardou três dias, tarda três semanas, a tal desfiguração
chegara o cavaleiro da Triste Figura, que nem a sua própria
mãe, por mais que escancarasse os olhos, o conhecera.
Será bem deixarmo-lo por agora emaranhado em seus suspiros e
versos, para contarmos o que a Sancho Pança aconteceu na sua
embaixada. Foi o seguinte:
Saindo à estrada real, pôs-se à cata do caminho para Toboso.
No dia seguinte, chegou à venda em que lhe sucedera a
desgraça da manta. Bispá-la, e imaginar-se outra vez pêlos
ares aos boléus foi tudo um. Não quis entrar, posto serem
horas de o poder e dever fazer, por serem as de jantar, e
trazer desejo de provar coisa quente, pois muitos dias havia,
que só comia frio.
Esta necessidade o obrigou a aproximar-se da taberna,
indeciso contudo se entraria ou não. Estando naquilo, saíram
de lá dois indivíduos, que logo o conheceram, e disse um para
o outro:
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- Diga-me, Senhor Licenciado, aquele de cavalo não é Sancho
Pança, que disse a ama do nosso aventureiro ter saído por
escudeiro com o seu senhor?
- É decerto - disse o licenciado - e aquele é o cavalo do
nosso D. Quixote.
Pudera não os conhecerem, se os dois eram nem mais nem menos
o cura e o barbeiro do próprio lugar, os que fizeram a
escolha e o auto-de-fé da livraria! Estes assim que de todo
se certificaram de ser Sancho Pança e Rocinante, desejosos de
saber de D. Quixote, se foram a ele, e o cura o chamou pelo
seu nome dizendo-lhe:
- Amigo Sancho Pança, onde fica o vosso amo? Conheceu-os
imediatamente Sancho, mas determinou encobrir-lhes o lugar
onde o amo ficava, e de que modo; e assim lhes respondeu que
seu amo ficava ocupado em certa parte e com certa coisa de
muito interesse, que ele nem pêlos dois olhos da cara
descobriria.
- Deixe-se disso, Sancho Pança - disse o barbeiro -; se nos
não diz onde ficou, cuidaremos, como já vamos cuidando, que o
matastes e roubastes; e tanto mais que vindes montado no seu
cavalo; ou nos haveis de apresentar o dono do rocim, ou com a
justiça vos heis-de haver.
- Para mim - respondeu Sancho - vêm erradas as ameaças, que
eu não sou homem que roube nem mate a ninguém; a cada um que
o mate a sua má estrela, ou Nosso Senhor que o criou. Meu amo
ficou a fazer penitência no meio desta montanha, muito por
sua vontade.
E logo correntemente e sem detença lhes contou como o
deixara, as aventuras que lhe haviam sucedido, e como levava
a carta à Sr. Dulcineia dei Toboso, que era a filha de
Lourenço Gorchuelo, de quem o amo estava enamorado até aos
fígados.
Admirados ficaram os dois do que a Sancho Pança ouviram;
e, ainda que já sabiam a loucura de D. Quixote, e o género
dela, sempre que a ouviam se maravilhavam como de coisa nova.
Pediram a Sancho que lhes mostrasse a carta que levava para a
Sr. Dulcineia dei Toboso.
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Respondeu ele que ia escrita num livro de lembranças, e que
era ordem de seu amo que a mandasse trasladar em papel no
primeiro lugar aonde chegasse. Ao que volveu o cura que lha
mostrasse e ele mesmo a trasladaria com muito boa letra.
Meteu Sancho Pança a máo no bolso à procura do livrinho, mas
não o achou nem o poderia achar, ainda que o buscasse até
agora, porque tinha ficado em poder de D. Quixote, que se
tinha esquecido de lho entregar, como ele também se não
lembrara de lho pedir. Quando Sancho se inteirou de que não
achava o livro, entrou-se a fazer amarelo como um defunto, e,
tomando a apalpar todo o corpo muito à pressa, tomou a
averiguar que não achava tal; e, sem mais nem mais, se foi
com ambas as mos às barbas, e depenou metade delas; e logo à
pressa, e sem intervalo, deu no rosto e nariz meia dúzia de
punhadas, que foi o mesmo que abrir uma cascata de sangueira.
Vendo aquilo, o cura e o barbeiro perguntaram-lhe que
desgraça tamanha lhe acontecera para se pôr naquele miserável
estado.
- Que desgraça me sucedeu? - respondeu Sancho. - Sucedeu-me,
que perdi, do pé para a mão, num instante, três burrinhos que
era cada um como um castelo.
- Como foi isso? - exclamou o barbeiro.
- Perdi o livro de lembranças - respondeu Sancho - em que
vinha a carta para Dulcineia, e uma cédula assinada por meu
amo, em que mandava, que a sobrinha me desse três burricos,
de quatro ou cinco que estavam em casa.
E com isto lhes contou a perda do ruço.
Consolou-o o cura, e lhe disse que, achando o fidalgo, ele
lhe faria renovar a ordem; que tornasse a fazer a lembrança
em papel, como era uso e costume, porque as que se faziam em
livros de lembranças nunca se aceitavam nem cumpriam. Com
isto se confortou Sancho, e disse que pouca freima lhe dava a
ele a perda da carta para Dulcineia, porque a sabia quase de
memória, pelo que se poderia copiar aonde e quando se
quisesse.
- Vá lá, Sancho, dizei-a - acudiu o barbeiro -, a cópia
depois se fará.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Esteve por um pouco Sancho Pança a coçar a cabeça para puxar
à lembrança a carta; ora se punha sobre um pé, ora sobre
outro, ora olhava para o chão, ora para o céu, e, depois de
ter roído metade da unha de um dedo, estando suspensos os
ouvintes, disse após estiradíssima demora:
- Valha-me Deus, Senhor Licenciado; se me lembra algum ponto
da carta, o Diabo que o leve já. Só me lembra, que no
princípio dizia: Alta e soterraria Senhora
- Não havia de ser soterraria - disse o barbeiro -, havia de
dizer sobre-humana, ou soberana senhora.
- Tal qual - disse Sancho. - Depois, se bem me lembra -
prosseguia - se bem me lembra: O chagado e falto de sono, e o
ferido, beija a Vossa Mercê as mãos, ingrata e muito
desconhecida formosa; e não sei, que dizia de saúde e de
enfermidade, que lhe enviava; e por aqui ia escorrendo, até
que acabava, em Vosso até à morte, o Cavaleiro da Triste
igura.
Não gostaram pouco os dois de verem a boa memória que tinha
Sancho Pança, e louvaram-lhe muito, e pediram-lhe que
repetisse a carta mais duas vezes, para que eles igualmente
de memória a tomassem, para a seu tempo se copiar.
Mais três vezes a repetiu Sancho, e outras tantas tomou a
enfiar outros três mil disparates.
Da carta passou a relatar igualmente as coisas do amo; mas
nem palavra que se referisse ao manteamento acontecido
naquela venda em que recusava entrar. Disse também que o seu
senhor, em ele lhe levando, como lhe havia de levar, boa
resposta da sua Sr. Dulcineia dei Toboso, se havia de pôr a
caminho à procura de como se faria imperador, ou pelo menos
monarca, que assim se tinha combinado entre ambos, e era
coisa muito fácil, atendendo ao valor da sua pessoa e força
do seu braço e, chegando isso, o havia de casar a ele, que já
a esse tempo seria viúvo com toda a certeza, e lhe havia de
dar por mulher uma donzela da imperatriz, herdeira de um rico
e grande Estado de terra firme sem ilhas nem ilhos, que já
disso não queria nada.
Tamanha era a serenidade com que Sancho engranzava tudo
aquilo, limpando de quando em quando o nariz, e com tão pouco
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MIGUEL DE CERVANTES
juízo, que os dois não cessavam de se admirar, considerando
quão veemente fora o ataque de loucura de D. Quixote, pois
tinha arrastado também consigo o juízo deste pobre homem. Não
se quiseram cansar a tirá-lo do erro em que estava, por lhes
parecer que, não indo nisso perigo para a consciência, melhor
era deixarem-no lá na sua, e para eles também mais divertido
ir-lhe desfrutando as tonterias. Disseram-lhe, pois, que
rogasse a Deus pela saúde do fidalgo, pois era em realidade
coisa muito fácil chegar pelo decurso do tempo a ser
imperador, ou pelo menos arcebispo, ou outra dignidade
equivalente. Ao que Sancho respondeu:
- Senhores, se as coisas corressem por modo que a meu amo se
perdesse a vontade de ser imperador, e antes quisesse a
dignidade de arcebispo, desejava eu agora saber, que é o que
costumam dar os arcebispos andantes aos seus escudeiros.
- Costumam-lhes dar - respondeu o cura - algum benefício
simples, ou de cura de almas, ou alguma sacristania de boa
renda (afora o pé-de-altar, que se costuma avaliar no dobro).
- Para isso há-de ser preciso - replicou Sancho - que o
escudeiro não seja casado, e que saiba pelo menos ajudar à
missa. Sendo assim, mal de mim, que sou casado, e não sei a
primeira letra do A B C ! Que será de mim, se ao meu amo der
na veneta ser arcebispo e não imperador, como é uso e costume
dos cavaleiros andantes?
- Não vos mortifiqueis, amigo Sancho - disse o barbeiro -,
que nós cá rogaremos ao vosso amo, e lhe aconselharemos,
chegando até a pôr-lho em caso de consciência, que seja
imperador e não arcebispo, porque até lhe é mais fácil, em
razão de ser ele mais esforçado que estudante.
- Assim me tem parecido a mim - respondeu Sancho - mas posso
dizer, sem mentir, que para tudo tem habilidade. O que eu por
minha parte hei-de fazer, é rogar a Nosso Senhor, que o
incline para a parte em que ele se aproveite mais a si, e a
mim me faça melhores mercês.
- Falais como discreto - disse o cura - e obrareis como bom
cristão; mas o que ao presente se deve fazer é diligenciar
pôr vosso amo fora daquela escusada penitência em que nos
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
dissestes o deixastes; e para combinarmos o que se há-de pôr
em obra, e também para comermos, que já são horas, bom será
que entremos na venda.
Respondeu Sancho que entrassem, que ele esperaria ali fora, e
depois lhes diria a causa por que não entrava nem lhe
convinha entrar lá; mas que lhes pedia lhe mandassem vir para
ali alguma coisa quente, e também cevada para o Rocinante.
Entraram eles e o deixaram. Dali a pouco, trouxe-lhe de comer
o barbeiro.
Depois, tendo os dois ajustado bem o modo como haviam de
conseguir o que desejavam, acudiu ao cura um pensamento muito
conforme ao gosto de D. Quixote e ao que eles queriam. Disse
ao barbeiro que a sua ideia era que ele se vestiria em traje
de donzela andante, e o barbeiro o melhor que pudesse em
hábitos de seu escudeiro; e assim iriam aonde D. Quixote
estava, fingindo ser ela uma donzela afligida e necessitada,
e lhe pediria um dom que ele lhe não poderia recusar, como
valoroso cavaleiro andante que era; e que o dom que
tencionava pedir -lhe era que viesse com ela aonde o levasse,
a reparar-lhe um agravo, que um descortês cavaleiro lhe havia
feito; e igualmente lhe suplicava, que lhe não mandasse tirar
a máscara, nem lhe perguntasse nada dos seus particulares,
antes de a ter vingado daquele mau cavaleiro; que tivesse por
sem dúvida que D. Quixote estaria por tudo quanto nestes
termos a donzela lhe pedisse, e deste modo o tirariam dali, e
o levariam ao seu lugar, e lá se veria que remédio se poderia
dar à sua estranha loucura.
CAPITULO XXVII
DE COMO SE HOUVERAM O CURA E O BARBEIRO, COM OUTRAS COISAS
DIGNAS DE SER CONTADAS NESTA GRANDE HISTÓRIA
JN ao pareceu mal ao barbeiro a maranha do cura; e tanto, que
para logo a puseram por obra.
Pediram à vendeira uma saia e umas toucas, deixando-lhe em
penhor uma sotaina nova do cura. O barbeiro fez umas gran-
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MIGUEL DE CERVANTES
dês barbas de um rabo de boi ruço ou ruivo, em que o
taberneiro costumava espetar o pente.
Perguntou-lhes a vendeira para que eram aquelas coisas. O
cura contou-lhe em poucas palavras a loucura de D. Quixote, e
como era conveniente aquele disfarce para o arrancar da
montanha onde então estava. O vendeiro e a vendeira
entenderam logo ser o doido o seu hospedado, o do bálsamo, e
o amo do manteado escudeiro, e contaram ao cura tudo que com
ele haviam passado sem omitirem o que Sancho tanto calava.
Em suma, a vendeira entrajou ao cura de modo que não havia
mais que pedir. Pôs-lhe uma saia de pano cheia de faixas de
veludo preto largas de palmo, todas golpeadas, e umas
roupinhas de veludo verde, com seus vivos de cetim branco;
roupinhas e saia, que deviam remontar-se ao tempo de el-rei
Vamba.
Não consentiu o cura em que o toucassem, mas pôs na cabeça um
barretinho de linho estofado, que trazia para dormir de
noite, e apertou-o na testa com uma fita de tafetá preto, e
com outra fita prendeu por cima do rosto uma máscara feita à
pressa, com que cobriu muito bem as barbas e o semblante.
Encaixou na cabeça o sombreiro, de abas tão largas, que lhe
podia servir de guarda-sol, e, pondo aos ombros o seu
ferragoulo, sentou-se na sua mula à moda das mulheres, o
barbeiro montou igualmente na sua, com a sua barba que lhe
chegava à cintura, entre ruiva e branca, por ser, como se
disse, da cauda de um boi malhado.
Despediram-se de todos, e da boa Maritornes, que prometeu
rezar um rosário, ainda que pecadora, para que Deus lhes
desse boa fortuna em tão trabalhoso e tão cristão negócio,
como era o que empreendiam.
Mas, apenas da venda saiu o cura, quando se sentiu entrado de
um escrúpulo; não lhe pareceu bem o ter-se posto daquela
maneira, por ser coisa indecente para um sacerdote aquele
traje, embora muito apropriado à ocasião. Assim o disse ao
barbeiro, rogando-lhe que trocassem entre si o disfarce, pois
era melhor que o mestre representasse a donzela necessitada,
e que e!e, o padre, lhe serviria de escudeiro, pois desse
modo se pro-
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fanava menos a sua dignidade; e se não estava por isso,
decidiu não passar adiante ainda que o Diabo levasse a D.
Quixote.
Neste ponto chegou Sancho, que, vendo os dois naquela
mascarada, não pôde conter o riso.
Com efeito, o barbeiro conveio na lembrança do cura, e,
enquanto se trocavam de parte a parte os hábitos, foi-lhe o
cura ensinando o papel que haviam de representar, e as
palavras que se haviam de dizer a D. Quixote para o obrigar a
vir com eles, e deixar o covil que tinha escolhido para a sua
escusada penitência.
Respondeu o barbeiro que aceitava a lição, e pontualmente a
poria por obra. Dispensou vestir-se antes de chegarem perto
de onde D. Quixote estava, e dobrou o fato. O cura
experimentou como lhe assentava a barba, e seguiram caminho,
conduzidos por Sancho Pança, que os foi entretendo a contarlhes
o que lhes tinha acontecido na serra com o encontro do
louco, mas sem boquejar, já se sabe, no achado da maleta, e
do que nela havia; apesar de lerdo, o sujeitinho não deixava
de ser fino.
Ao seguinte dia, chegaram aonde Sancho havia deixado postos
os sinais das giestas; apenas as reconheceu, disse aos
companheiros ser por ali a entrada, e que bem se podiam já
vestir, supondo ser isso necessário para a liberdade do amo,
porque eles lhe haviam já dito, que o irem assim, e vestiremse
daquele modo, era importantíssimo para livrarem a D.
Quixote da má vida a que se tinha posto, e que lhe
recomendavam todo o cuidado de lhe não dizer quem eles eram,
nem que os conhecia; e que se ele lhe perguntasse (como
decerto havia de perguntar) se tinha entregado a carta a
Dulcineia, dissesse que sim e que, por não saber ler, ela lhe
respondera vocalmente, dizendo-lhe que lhe mandava sob pena
de lhe descair da graça, que viesse logo logo ter com ela,
para coisas que muito lhe importava, porque com isto, e com o
mais que eles tencionavam dizer-lhe, tinham toda a esperança
de o trazer a melhor modo de vida, convencendo-o a pôr-se
logo em via para se ir fazer imperador ou monarca; e lá de
ser arcebispo nada temesse.
Tudo aquilo ouviu Sancho muito atento, e foi registando
pontualmente na memória, agradecendo-lhes a tenção de acon-
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MIGUEL DE CERVANTES
selhar ao fidalgo que fosse imperador e no arcebispo, pois
estava persuadidíssimo de que para fazerem mercês aos seus
escudeiros mais podiam imperadores que arcebispos andantes.
Disse-lhes também, que seria bom ir ele adiante para lhe dar
primeiro a resposta da sua senhora, o que só por si bastaria
para se ele dali desencovilar, sem eles terem para isso mais
trabalho.
Toou-lhes o conselho de Sancho, pelo que determinaram ficar à
sua espera, até que ele voltasse com a notícia de ter
encontrado o fidalgo.
Entranhou-se o escudeiro por aquelas quebradas da serra,
deixando-os ambos numa delas, por onde manava um pequeno e
manso regato, sombreado fresca e agradavelmente de outras
penhas e árvores, que por ali abundavam.
Era aquele um dos calmosos dias de Agosto, que por essas
partes costumava ser as zinas do Verão; a hora, as três da
tarde;
o que tudo concorria para tornar o sítio mais aprazível e
convidativo para nele esperarem como de feito fizeram.
Estando assim ambos remansados e à sombra, chegou-lhes aos
ouvidos uma voz que, desacompanhada de instrumento algum,
soava doce e regaladamente, do que náo pouco se admiraram,
por lhes parecer que não era lugar aquele onde se esperar
quem tão bem cantasse, porque deixar dizer que pêlos bosques
e campos se acham pastores de vozes peregrinas mais são isso
encarecimentos de poetas, que verdades. A mais subiu ainda a
maravilha, quando repararam serem versos o que ouviam cantar,
não de estilo de pegureiros rústicos, mas de cortesãos
discretos; no que os foi confirmando cada vez mais o teor das
letras, que dizia assim:
Quem menoscaba meus bens?
desdéns. Quem mais ceva meus queixumes?
ciúmes. Quem me apura a paciência?
a ausência.
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
De meu fado na inclemência, nenhum remédio se alcança, pois
me dão morte: esperança, desdéns, ciúmes, e ausência.
Quem me causa tanta dor?
amor.
Quem me as glórias arruina?
mofina. Quem às dores me há votado?
o fado.
Receio me é pois fundado morrer deste mal tirano, pois
conspiram em meu dano o amor, a mofina, e o fado.
Quem pode emendar-me a sorte?
a morte.
O bem de amor quem no alcança?
mudança. E seus males quem os cura?
loucura. Então em vo se procura remédio algum a tais chagas,
sendo-lhe únicas triagas morte, mudança, loucura.
A hora, a conjuntura, a soledade, a voz, e a perícia do
cantor, causaram maravilha e contentamento nos dois ouvintes,
que ficaram imóveis, aguardando continuação; como porém o
silêncio se prolongasse, determinaram sair à procura de tão
esmerado músico.
Iam já efectuá-lo, quando a mesma voz os tomou a deter com
este
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SONETO
Santa amizade, que habitar imitas neste baixo, fingido, e
térreo assento, mas que tens por morada o firmamento côas
essências angélicas benditas.
De lá, por dó das térreas desditas, sonhos nos dás de alegre
fingimento, imitações do Céu por um momento, fugaz consolo às
regiões proscritas.
Volta, volta dos Céus, pura amizade, ou proíbe que a amável
aparência te usurpe a desleal perversidade.
Confundida côa nobre e infame essência, breve reverte o mundo
à prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.
Acabou-se a cantilena num suspiro do íntimo, ficando ainda os
dois atentos à espera de mais. Vendo, porém, que a música se
tinha desfeito em soluços e ais lastimados, desejaram saber
quem seria aquele triste, tão eminente na toada, como
dolorido no gemer.
Não andaram muito, quando, ao voltar da ponta de uma penha,
viram um homem exactamente do mesmo talhe e figura, como
Sancho Pança lhes havia pintado quando lhes referiu a
narrativa de Cardénio.
Quando o homem os viu, em vez de mostrar sobressalto,
conservou-se como estava de cabeça pendida para o peito, com
ar de meditabundo, sem levantar para eles os olhos, mais que
no primeiro momento, quando inesperadamente ali chegaram. O
cura, que era bem falante (e já tinha notícia daquela
desgraça, porque pêlos sinais facilmente o reconhecera),
achegou-se para ele, e com poucas palavras muito discretas
lhe rogou que
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
se deixasse daquela to miserável existência, para que a não
viesse ali a perder, que seria essa de todas as desditas a
maior.
Estava naquela conjuntura Cardénio em aberta de perfeito
juízo, livre daquele furioso acidente, que tão repetidas
vezes o alheava de si; e assim, vendo os dois em traje tão
desacostumado dos que por aquelas solidões se deparavam, não
deixou de l admirar-se algum tanto e mais, quando ouviu, que
lhe tinham l falado do seu caso como de coisa sabida; os
ditos do cura assim . lho tinham dado a entender; pelo que
respondeu deste modo:
- Bem vejo eu Senhores, quem quer que sejais, que o Céu, i
que tem cuidado de acudir aos bons, e muitas vezes até aos
maus, me envia, sem o eu merecer, a estes lugares tão longes
e apartados do trato comum da gente, algumas pessoas, que,
pondo-me diante dos olhos com vivas e variadas razões quão
sem ela ando em levar a vida que levo, têm procurado passar -
-me deste sítio para algum outro melhor. Porém, como não
sabem o que eu sei, que, tirando-me deste mal, hei-de cair em
algum maior, talvez me devem ter por homem de fraco discurso,
e até (o que pior seria) por de nenhum juízo; e não fora
maravilha, que assim fosse, porque a mim mesmo se me
entreluz, que a imaginação das minhas desgraças é tão forte,
e pode tanto para a minha perdição, que, sem eu poder coibila,
venho a ficar como pedra falto de todo o bom sentido e
conhecimento. Desta verdade mais me capacito, quando algumas
pessoas me dizem e mostram sinais de coisas que fiz enquanto
me senhoreou aquele acesso. Então nada mais sei que
arrepender-me sem fruto, e maldizer escusadamente a minha
desgraça, e por desculpa das minhas loucuras contar a causa
delas a quantos ma querem ouvir. Os cordatos à vista da causa
não poderão estranhar os efeitos; e se me não derem remédio,
pelo menos hão-de desculpar-me. O aborrecimento das minhas
desenvolturas converte-
-se logo em lástima da minha miséria. Se é que vós Senhores,
vindes com as mesmas tenções com que outros já têm vindo,
antes de passardes adiante nas vossas discretas persuases,
vos rogo ouçais a relação infinda das minhas desventuras.
Talvez, depois de me ouvirdes, vos dispenseis do trabalho que
tomaríeis, procurando consolar o que não admite consolaçes.
|.
241
MIGUEL DE CERVANTES
Os dois, que nada mais desejavam, que ouvir-lhe da própria
boca a verdadeira explicação de tamanha infelicidade,
instaram com ele para que lha expusesse, prontificando-se a
não fazerem senão o que ele quisesse, para seu remédio, ou
alívio pelo menos.
Com isto começou o triste cavaleiro a sua lastimável
história, quase pelas mesmas palavras e passos contados como
a havia relatado a D. Quixote e ao cabreiro poucos dias
atrás, quando a propósito do mestre Elisabat, e pela
pontualidade de D. Quixote em guardar o decoro da cavalaria,
o conto ficou truncado, como em seu lugar se disse.
Desta vez, porém, permitiu a boa sorte que o intervalo da
loucura fosse mais prolongado, e desse ensanchas para se
concluir a história. Chegando, pois, ao passo do bilhete
achado por D. Fernando, disse Cardénio, que o tinha bem de
cor, e que rezava assim:
LUCINDA E CARDÉNIO
«Cada dia descubro em vós valias novas, que me obrigam a mais
vos estimar. Assim se me quiserdes tirar desta dívida sem
prejudicar-me na honra, muito bem o podereis fazer. Meu pai,
que vos conhece, quer-vos bem; sem forçar a minha vontade,
há-de cumprir a que vós por boa justiça igualmente deveis
ter, sendo verdade, que me estimais como dizeis, e eu devo
acreditar.»
- Por este bilhete me determinei a pedir Lucinda por esposa
como já vos contei; e foi também por ele que Lucinda ficou
tida no conceito de D. Fernando por uma das mais discretas e
ajuizadas mulheres do seu tempo; e foi, por derradeiro, esta
carta a que lhe acendeu o desejo de me perder antes que o meu
se realizasse. Contei eu a D. Fernando o reparo do pai de
Lucinda a saber: que havia de ser meu pai quem para mim a
pedisse; o que eu a ele no ousava dizer-lhe com receio de que
mo recusasse, não porque não estivesse convencido da nobreza,
bondade, virtude, e formosura de Lucinda, em suma, de que
tinha méritos bastantes para enobrecer qualquer outra
linhagem de
242
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Espanha, mas sim porque tinha para mim, que o seu desejo era
que eu me não casasse tão depressa, antes de ver o que o
duque ! Ricardo faria da minha pessoa. Em conclusão, disselhe
que me , não aventurava a fazer semelhante súplica a meu
pai, tanto por ! aquele inconveniente, como por outros muitos
que me j acobardavam, sem bem saber quais eram. Parecia-me
que desejos meus nunca haveriam de chegar a efectuar-se. A
tudo isto ;
me respondeu D. Fernando, que tomava a si o falar a meu pai,
e resolvê-lo a entender-se com Lucinda! Oh Mário ambicioso! l
oh Catüina cruel! oh facinoroso Sila! oh Galalão embusteiro!
oh Belido traidor! oh Julião vingativo! oh Judas cobiçoso! oh
traidor, cruel, vingativo, e embusteiro! Que mal te havia
feito este triste, que tão sincero te descobriu os segredos e
contentamento da sua alma? Que ofensas te fiz? Que palavras
te disse ou conselhos te dei, que não fossem inteiramente
encaminhados a acrescentar o teu decoro e proveito? Mas de
que me queixo, desgraçado de mim, pois é coisa infalível, que
em as estrelas nos influindo o infortúnio, como são mandatos
de cima, despenhados com furor e violência, não há força na
Terra que os detenha, nem indústria humana que os possa
precaver? Quem havia de imaginar, que D. Fernando, cavaleiro
ilustre, discreto, obrigado de meus serviços, com posses para
alcançar o que os seus apetites amorosos lhe pedissem, onde
quer que pusesse a mira, se havia de empenhar, como se
costuma dizer, em me furtar a mim uma só ovelha que eu nem
ainda possuía? Mas deixemo-nos destas considerações
escusadas, que já nada aproveitam, e atemos o quebrado fio da
minha história. Parecendo a D. Fernando que a minha presença
lhe era inconveniente para a execução do seu desígnio mau e
pérfido determinou enviar -me ao seu irmão mais velho, com o
pretexto de lhe pedir uns dinheiros para pagar seis cavalos,
que no mesmo dia de propósito havia comprado, só com o fim de
me afastar para melhor se lhe lograr o seu danado intento.
Comprou-os no dia mesmo em que se oferecera para falar a meu
pai, e quis que eu viesse pelo dinheiro. Podia eu prevenir
esta traição? Podia eu sequer imaginá-la? Por certo que não,
antes com grandíssimo gosto me ofereci a partir logo,
contente da boa compra concluída. Naquela
5
243 !
MIGUEL DE CERVANTES
noite, falei com Lucinda, e lhe disse o que ficava combinado
com D. Fernando, e que tivesse firme esperança no efeito dos
nossos legítimos desejos. Ela, tão crente como eu na
sinceridade de D. Fernando, disse-me que procurasse tomar-me
depressa, pois tinha fé que para logo seriam os nossos votos
preenchidos, apenas meu pai falasse com o dela. Acabando de
dizer isto, arrasaram-se-lhe os olhos de água, não sei
porquê, e pôs-se-lhe na garganta um nó, que não lhe deixava
proferir palavra, posto que eu bem via, que muitas outras
quisera pronunciar. Fiquei admirado daquele acidente que
nunca ainda lhe vira, pois sempre quantas vezes a fortuna e a
minha diligência nos proporcionavam falarmo-nos, era tudo
entre nós regozijo e contentamento, sem a mínima mistura de
lágrimas, suspiros, zelos, suspeitas, ou temores; era tudo
engrandecer eu a minha ventura, por ma ter o Céu dado por
senhora. Exagerava a sua beleza: maravilhava-me do seu valor
e entendimento; pagava-me ela na mesma moeda, elogiando em
mim o que na sua qualidade de namorada se lhe figurava digno
de elogio. Com isto nos contávamos de parte a parte mil
ninharias e acontecimentos dos nossos vizinhos e conhecidos;
e o mais a que se atrevia a minha desenvoltura era toar-lhe
quase à força uma das suas belas e brancas mãos, e chegá-la à
boca, segundo no-lo consentia o apertado de uma grade baixa
que nos separava. Naquela véspera, porém, da minha partida,
ela chorou, gemeu, suspirou, e foi-se, deixando-me cheio de
confusão e sobressalto, espantado de ter visto tão novas e
tão tristes mostras de dor e sentimento em Lucinda; mas eu,
para não aniquilar as minhas esperanças, atribuí tudo à força
do amor que ela me tinha, e à dor que a ausência costuma
causar nos que be se querem. Enfim, parti-me triste e
pensativo, com a alma cheia de imaginações e suspeitas, sem
saber o que suspeitava ou imaginava;
claros indícios que me prognosticavam já o triste sucesso e
desventura que me aguardavam. Cheguei ao lugar onde era
enviado, dei as cartas ao irmão de D. Fernando, fui bem
recebido, mas bem despachado não, porque me deu ordem de
esperar oito dias, com grande desgosto meu, recomendando-me
que o duque seu pai me não avistasse, porque a quantia que o
irmão
244
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
pedia lhe mandasse era a ocultas dele. Tudo armadilhas do
falso D. Fernando, pois o irmão tinha dinheiro de sobejo para
poder imediatamente aviar-me. Aquela ordem e recomendação
puseram-me em balanços de desobedecer, por me parecer
impossível que me durasse tantos dias a vida ausente de
Lucinda, e mais tendo-a deixado com a tristeza que já contei.
Entretanto, obedeci como servo fiel, sabendo bem ser à custa
da saúde. Ao quarto dia, chegou a procurar-me um homem com
uma carta, que, pela letra do sobrescrito, de repente conheci
vir de Lucinda. Abri-a sobressaltado, entendendo que não
podia deixar de ser coisa grande a que a obrigava a escreverme,
estando ausente, porque presente poucas vezes o fazia.
Antes de lê-la, perguntei ao portador quem lha havia dado, e
que tempo gastara no caminho. Respondeu-me que, passando
casualmente por uma rua da cidade, à hora do meio-dia, uma
senhora muito formosa o chamara de uma janela, com os olhs
cheios de lágrimas, dizendo-lhe a toda a pressa: «Irmão, se
sois cristão, como pareceis, pelo amor de Deus vos peço que
leveis logo logo esta carta ao lugar e à pessoa que aí vai no
sobrescrito, e que é bem conhecida; nisso fareis um grande
serviço a Nosso Senhor, e para mais comodamente o poderdes
fazer, tomai o que vai neste lenço.» E, dizendo aquilo, me
atirou da janela abaixo um lenço, onde vinham atados cem
réis, e este anel de ouro, juntamente com essa carta. Sem me
esperar resposta, fugiu logo da janela, mas tendo-me primeiro
visto apanhar a carta e o lenço. Respondi-lhe, por sinais,
que lhe obedeceria. Por isso, vendo-me tão bem pago do
trabalho que ia fazer, e conhecendo, pelo sobrescrito, que o
recado era para vós, porque eu muito bem vos conheço, Senhor,
e ainda por cima obrigado das lágrimas daquela formosa
senhora, não quis fiar-me de outra pessoa, e vim eu prprio
fazer-lhe a entrega; e em dezasseis horas, que tantas há que
recebi o recado, palmilhei o caminho que sabeis, que é de
dezoito léguas.
Enquanto o agradecido e novo correio me relatava aquilo tudo,
estava eu sobressaltado da novidade, e tremendo-me as pernas,
que mal me podia ter em pé. Abri a carta e li o seguinte:
245
MIGUEL DE CERVANTES
«A palavra que D. Fernando vos deu de que falaria a vosso pai
para ele falar ao meu, cumpriu-a muito mais a seu gosto do
que em proveito vosso. Sabei, Senhor, que ele me pediu por
esposa para si; e meu pai, seduzido da vantagem que em seu
entender vos leva D. Fernando, tão deveras lhe conveio na
rogativa, que em dois dias se há-de celebrar o desposório tão
secretamente e a sós, que as únicas testemunhas sero o Céu, e
algumas pessoas da casa. Imaginai como estarei; vede se me
não deveis acudir; e se vos amo ou não, o êxito de tudo vo-lo
dará a conhecer. Praza a Deus que esta carta vos seja
entregue, antes de eu o ser a quem tão mal sabe guardar a fé
prometida.»
Foi isto a substância da carta, que me fez pôr logo a
caminho, sem esperar por mais respostas nem dinheiros, que
bem claramente via já, que não era a compra dos cavalos,
senão só a ânsia de preencher o seu gosto o que obrigava D.
Fernando a enviar-me a seu irmão. O despeito que se me
acendeu contra o falso amigo, e o temor de perder o tesouro
granjeado à custa de tantos anos de desejos e serviços,
deram-me asas, pois foi quase voando que ao seguinte dia
cheguei ao meu lugar, à hora justamente mais própria para
falar com Lucinda. Entrei furtivamen te, deixando a mula em
casa do bom homem que me levara a mensagem, e tão a propósito
cheguei que logo vi a Lucinda posta às grades testemunhas dos
nossos amores. Conheceu-me ela tão de repente, como eu a ela;
mas quão diversos um e outro! Quem há no mundo que se possa
gabar de ter penetrado o confuso pensamento e mudável
condição de uma mulher? Ninguém decerto. Assim que Lucinda me
viu, disse-me: - «Cardénio, achas-me vestida de noiva, já me
estão esperando na sala D. Fernando, o tredo, meu pai, o
ambicioso, e outras testemunhas que mais depressa o hão-de
ser da minha morte, que de semelhante enlace. Não te
perturbes, querido, mas procura achar-te presente a este
sacrifício; se eu o no puder impedir com as minhas razões,
uma adaga levo oculta, que triunfará das violências mais
resolutas, dando fim à minha vida, e evidenciará a firmeza
que te guardei, e conservo até ao fim.» Respondi-lhe confuso
e à pressa, por temer me faltasse o tempo para lhe responder:
Senhora, façam vossas obras sair verdadeiras essas
246
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
palavras; se levas adaga para teu crédito, espada levo eu
também para com ela te defender, ou para me arrancar a vida,
se a sorte contra mim se declarar.» Creio que ela não chegou
a ouvir-me tudo, porque send que a chamavam à pressa, porque
o noivo estava esperando. Com isto se fechou a noite da minha
tristeza, tramontou o sol da minha felicidade, perdi o lume
dos olhos e do entendimento. Não acertava para entrar em casa
dela, nem mover-me podia. Considerando, porém, quanto a minha
presença era necessária para o que no caso poderia suceder,
animei-me o mais que pude, e penetrei. Como conhecia bem
todas as entradas e saídas, com o alvoroto que lá por dentro
ia, ninguém reparou em mim, e tive modo de me colocar no vão
de uma janela da mesma sala, cortinada de tapeçarias, por
entre as quais podia, sem ser visto, descobrir quanto se
passasse. Quem poderia agora dizer os sobressaltos deste
coração enquanto ali me conservei? Os pensamentos que me
ocorreram? As considerações que fiz, que foram tantas e tais,
que nem se podem referir nem é bem que se refiram? Basta, que
saibais, que o noivo entrou na sala sem mais compostura que o
seu traje do costume. Vinha-lhe por padrinho um primo coirmão
de Lucinda, e em toda a sala não havia pessoa de fora, senão
os criados da casa. Dentro em pouco, saiu de uma câmara
Lucinda, acompanhada da mãe, e de duas donzelas suas, tão bem
adereçada e composta, como à sua qualidade e formosura
competia, sendo ela o extremo da gala e bizarria cortesã. O
meu enlevo no me deixou notar o que trazia vestido; só pude
ver que as cores eram encarnado e branco, reluzindo a
pedraria e jóias do toucado e de todo o vestuário, e
realçando por cima de tudo a beleza singular dos seus louros
cabelos; tais brilhavam eles em competência com as pedras
preciosas, e com as luzes de quatro tochas que na sala
estavam, que ainda se lhes avantajavam. Ah! memória mortal,
perturbadora do meu descanso! Para que serve estares-me
lembrando agora a incomparável lindeza daquela adorada
inimiga? Não será melhor que me representes, ó memória cruel,
o que ela então fez, para que, incitado de tão manifesto
agravo, procure, já que não pode ser a vingança, ao menos o
morrer? Não vos canseis Senhores, de me ouvir estas digres-
247
MIGUEL DE CERVANTES
soes, pois não é a minha pena das que podem e devem contar-se
sucintamente; cada circunstância dela me parece digna de um
largo discurso.
A isto lhe respondeu o cura que não só se não cansavam de
ouvi-lo, senão que muito sabor achavam naquelas mesmas
minudências, por serem tais, que não mereciam ser deixadas em
silêncio, sendo tão dignas de atenção como o principal da
narrativa.
- Digo pois - prosseguiu Cardénio - que, estando todos na
sala, entrou o cura da freguesia, e, tomando aos dois pela
mão, para fazer o que em tal acto se requer, ao dizer:
«Quereis, Sr.8 Lucinda, ao Sr. D. Fernando aqui presente,
para vosso legítimo esposo, como manda a Santa Madre Igreja?»
Eu lancei a cabeça e pescoço para fora das cortinas, e com
atentíssimos ouvidos e alma perturbada me pus a escutar o que
Luanda responderia. Uma palavra dela ia ser a sentença da
minha vida ou morte. Oh! quem se atrevera então a bradar:
«Ah! Lucinda, Lucinda! Olha que fazes; considera o que deves;
olha que és minha, e não podes ser de outro; repara que em
dizendo sim mataste-me de repente. Ah! traidor D. Fernando,
roubador da minha glória, meu assassino! Que queres? Que
pretendes? Consdera que não podes cristãmente chegar a cabo
dos teus desejos, porque Lucinda é minha esposa, e eu sou seu
marido.» Ah! louco de mim! Agora que estou ausente e longe do
perigo, é que digo o que devia fazer e não fiz; agora, depois
de deixar roubar a minha cara prenda, é que maldigo ao
roubador, de quem me pudera ter vingado, se para isso tivesse
coração, como o tenho para me queixar. Enfim, já que então
fui cobarde e néscio, não é muito que morra agora corrido,
arrependido e louco. Estava o cura esperando a resposta de
Lucinda, que se deteve um bom espaço em dá-la; e, quando eu
pensei, que arrancava a adaga para seu crédito, ou soltava a
língua para proferir alguma verdade ou desengano, que em meu
proveito redundasse, ouço-lhe dizer com voz desmaiada e
fraca: «Sim; quero.» O mesmo disse D. Fernando; e, dando-lhe
o anel, ficaram ligados em laço indissolúvel. Chegou o
desposado a abraçar a sua esposa; e ela, pondo a mão sobre o
coração, caiu desmaiada nos
248
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
braços da mãe. Resta agora dizer qual eu fiquei, vendo com
aquele sim desfeitas as minhas esperanças, falseadas as
palavras e promessas de Lucinda, desamparado, em meu
entender, de todo o favor celeste. Alvorotaram-se todos com o
delíquio de Lucinda; e, desapertando-lhe a mãe o seio, para
lhe dar ar, nele se descobriu um papel fechado, que D.
Fernando tomou logo, e se pôs a ler à luz de uma das tochas.
Acabada a leitura, sentou-se numa cadeira, com a mão na face,
com mostras de homem muito pensativo, sem acudir aos
remédios, que à sua esposa se faziam, para que se recobrasse
do desmaio. Eu, vendo alvorotada toda a gente de casa,
aventurei-me a sair, quer fosse visto quer não, determinado,
no caso de me verem, a fazer um desatino tal, que todos
chegassem a entender a minha justa indignação no castigo do
falso D. Fernando, e também da inconstância da traidora.
Porém a minha sorte, que para maiores males se os há, me
devia reservar, ordenou, que naquele ponto me sobrasse o
entendimento, que de então para cá me tem faltado; e assim,
sem querer tomar vingança dos meus maiores inimigos (que, por
estar tão fora de acordo, fácil me fora toma-la), quis
executar em mim a pena que eles mereciam, e porventura que
com maior rigor do que com eles usara, se então os matasse. A
morte que se recebe repentina depressa acaba as penas; mas a
que se dilata com tormentos está matando, sem acabar a
existência. Enfim, saí de casa, e tornei-me à do homem onde
tinha deixado a mula. Mandei-a aparelhar, montei-a sem me
despedir, e saí da cidade sem ousar, como outro Loth olhar
para trás. Quando me vi no campo, sozinho, encoberto pelo
escuro da noite, e convidado pelo seu silêncio a queixar-me,
sem respeito ou medo de ser escutado nem conhecido, soltei a
voz em tantas maldições a Lucinda e D. Fernando, como se com
elas satisfizesse o agravo que me haviam feito. Dei-lhe
apodos de cruel, ingrata, falsa e desagradecida, e sobretudo
de ambiciosa, pois a riqueza do meu inimigo lhe tinha fechado
os olhos, para se me roubar, e entregar-se àquele com quem
mais liberal e franca a fortuna se havia mostrado. No meio
das torrentes daquelas maldições e vitupérios, desculpava-a
ainda assim, dizendo que não era muito, que uma donzela
sempre
249
MIGUEL DE CERVANTES
recolhida em casa de seus pais, acostumada a obedecer-lhes,
tivesse querido condescender com o seu gosto, pois lhe davam
por esposo um cavaleiro tão principal, tão rico, e tão
gentil-homem; que, se o não quisesse receber, se deveria
pensar dela ou que não tinha juízo, ou que tinha noutra parte
cativo o coração;
o que tudo redundaria em menoscabo da sua fama. Disto saltava
logo para outra ideia, dizendo: que ainda que ela tivera
dito, para se ressalvar, ser eu já seu esposo, os seus não
lhe achariam a eleição tão má, que não merecesse desculpa,
pois antes de se apresentar D. Fernando, não poderiam eles
próprios desejar racionalmente melhor esposo do que eu para
sua filha, e que assim bem pudera ela, antes de vir à
extremidade de entregar a sua mão, dizer, que era já minha,
porque em lance tal não seria eu quem lhe desmentisse essa
invenção. Por derradeiro concluí, que pouco amor, pouco
juízo, muita ambição, e desejo de grandezas, a tinham feito
esquecer das palavras com que me enganara para as minhas
esperanças e honestos desejos. Nestas lamentações e
incertezas, caminhei o resto da noite, e achei-me ao
amanhecer às abas desta serra, por onde me adiantei mais três
dias por descaminhos sempre a mais, até que cheguei a uns
prados, não sei para que lado destas montanhas, onde
perguntei a uns guardadores para onde era o mais bravio
destas serras. Disseram-me que para esta banda. Para ela me
dirigi logo, com tenção feita de não acabar noutra parte a
minha vida metido por estas asperezas. A mula em que eu vinha
caiu de cansaço e de fome, ou (o que mais creio) por se
apartar de tão inútil carga como lhe eu era. Fiquei a pé,
sucumbido à Natureza, consumido de fome, sem ter, nem me
ocorrer procurar quem me socorresse. Assim permaneci não sei
quanto tempo estendido por terra. Ao cabo, levantei-me sem
fome, e achei junto a mim alguns cabreiros, que foram sem
dúvida os que me remediaram na minha miséria. Deles é que eu
ouvi o estado em que deram comigo, a dizer tantos disparates,
que bem mostrava trazer o juízo a monte. De então para cá,
sinto eu próprio em mim, que nem sempre regulo certo, senão
que ando tão desmedrado e somenos, que faço mil
despropósitos, rasgo o fato, vozei por estas soledades,
amaldiçoo a minha sorte, e repito em vão o
250
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
nome sempre adorado da minha inimiga, sem me lembrar então
mais que fazer por acabar a vida naquela vozeria. Quando tomo
em mim, acho-me tão cansado e moído, que mal me posso mover.
A minha morada, mais sabida, é o oco de um sobreiro,
suficiente agasalho deste corpo miserável. Os vaqueiros e
cabreiros que andam por estas serranias me sustentam por
caridade, pondo-me a comida pêlos caminhos, e pelas penhas
por onde entendem, que poderei acaso transitar e dar com ela.
Falta-me, é verdade, o juízo para a conhecer; mas a
necessidade natural me diz ser mantimento, e me aviva desejo
de apetecê-lo, e vontade para o tomar. Outras vezes, segundo
eles me contam, quando me tomam com juízo, salto-lhes ao
caminho e os roubo à força, ainda que eles mo queiram dar de
boa vontade, que já para isso mo traziam do lugar às
malhadas. Desta maneira vou passando os restos da miserável
existência até que o Céu seja servido conduzi-la ao descanso
último, ou de mo chamar à lembrança, para que a ela me não
tomem a formosura e traição de Luanda, e o agravo de D.
Fernando. Se Deus tal me concede sem me tirar a vida, eu
aplicarei o pensamento a discursos de mais proveito. A não
ser assim, não há senão rogar à Providência que tenha dó da
minha alma, que eu em mim não sinto valor nem força para
tirar o corpo desta estreiteza, em que por meu gosto o quis
pôr. Aqui está, ó Senhores meus, a amarga história da minha
desgraça. Dizei-me agora se a achais tal, que se possa
recordar com menos sentimento que o meu; não vos canseis em
aconselhar-me o que a razão vos mostrar por bom para meu
remédio, porque tanto há-de aproveitar comigo, como aproveita
o curativo receitado por um médico de fama ao enfermo que
recuse recebê-lo. Não quero saúde sem Lucinda; e como ela
gosta de ser de outro, sendo, ou devendo ser minha, deixem-me
gostar a mim de ser da desventura, podendo ser da felicidade.
Ela quis com a sua mudança tornar estável a minha perdição;
eu quererei, em procurar perder-me, satisfazer a sua vontade.
Aprenderão os vindouros, que a mim só faltou o que a todos os
desditados sobra: a eles costuma ser consolação a certeza de
não poderem alcançá-la; e em mim é causa de novos sentimentos
e males, porque até penso, que nem com a morte se me hão-de
acabar.
251
MIGUEL DE CERVANTES
Aqui terminou Cardénio a sua estiraçada fala; história tão
amorosa, como desastrada; e ao tempo em que já o cura se
estava preparando para lhe propor algumas palavras de
conforto, veio-lhe ao ouvido uma voz que o atalhou, a qual
dizia o que adiante se contará.
252
LIVRO QUARTO
CAPÍTULO XXVIII
QUE TRATA DA NOVA E AGRADÁVEL AVENTURA SUCEDIDA
NA MESMA SERRA AO CURA E AO BARBEIRO
Ditosos e felicíssimos tempos, em que ao mundo veio o tão
audaz cavaleiro D. Quixote de Ia Mancha pela sua muito
honrada determinação de restituir ao mundo a já quase
esquecida ordem de cavalaria andante! Saboreamos nós agora,
nesta idade tão falta de passatempos alegres, a doçura de
estarmos lendo a sua verdadeira história, e os contos que
nela se travam como episódios; estes em boa parte não são
menos agradáveis, artificiosos, e verdadeiros, que a mesma
história.
Conta ela, prosseguindo o seu tortuoso fio, que tanto como o
cura começava de preparar-se para consolar a Cardénio, o
atalhou uma voz, que lhe chegou aos ouvidos, e que em tons
magoados se lastimava assim:
- Ai, Deus! Será possível ter eu já achado lugar, em que
sepulte a ocultas este corpo, que tão sobreposse vou
arrastando? Espero que sim, se me não mente a soledade que
estas serras me afiançam. Ai desditosa! Quão mais agradável
companhia não farão estas penhas e moitas ao meu sentimento,
pois me proporcionarão comunicar estas queixas com o Céu, e
não a criaturas humanas! Na Terra já não há com quem se possa
tomar conselho nas incertezas, alívio nos queixumes, nem
remédio na desgraça.
Tudo ist ouviram distintamente o cura e os mais que ali eram;
e por lhes parecer, que perto dali estava a pessoa que tais
253
MIGUEL DE CERVANTES
queixas proferia, se levantaram para ir ter com ela. Não
tinham andado vinte passos, quando de trás de um penhasco
viram sentado ao pé de um freixo um mancebo entrajado à
lavradora, ao qual, por estar com a cabeça baixa, a lavar os
pés num regatinho, não puderam imediatamente divisar o rosto.
Aproximaram-se-lhe to calados, que não foram dele
pressentidos, de atento que estava na sua lavagem dos pés; e
tais eram eles, que não pareciam senão dois pedaços de puro
cristal entre as outras pedras da corrente. Maravilhou-os a
alvura e lindeza daquelas plantas, que não pareciam feitas a
pisar torrões, nem a seguir arados e bois, como inculcava o
vestuário do dono. Assim, vendo que não tinham sido por ora
sentidos, o cura, que ia adiante, fez sinal aos outros dois
para que se agachassem e escondessem por trás de uns pedaços
de penha que ali havia. Assim o executaram todos, reparando
com atenção para o que o moço fazia.
Trazia este um roupãozinho pardo de duas abas, muito bem
cingido ao corpo com uma toalha branca. Trazia uns calções e
polainas de pano pardo, e na cabeça uma gorra também parda.
As polainas tinha-as levantadas até meia perna, que na alvura
lembrava alabastro.
Acabados de lavar os formosos pés, enxugou-os com um lenço da
cabeça, o qual tirou da gorra; e, quando já ia para retirarse,
ergueu o rosto; com o que tiveram lugar os que o estavam
olhando de descobrir uma formosura incomparável, e tal, que
Cardénio disse baixinho para o cura:
- Esta, como não é Lucinda, não é criatura humana; deve ser
por força divindade.
O moço tirou a gorra, e, sacudindo a cabeça para uma e outra
parte, começou a espalhar os cabelos, que bem puderam aos do
Sol fazer inveja. Conheceram então, que o suposto rústico não
era senão mulher, e mimosíssima; pelo menos, a mais formosa
que ambos eles com seus olhos jamais tinham visto. Outro
tanto encareceria Cardénio, se não conhecera Lucinda, cuja
lindeza, como ele depois declarou, era a única para se
comparar àquela. Os cabelos compridos e louros não só lhe
cobriam as costas, mas toda em derredor a velavam; tanto que,
afora os pés, nada de
254
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
todo o corpo lhe aparecia. Para os alisar serviram de pente
mãos, que em brancura ainda aos pés se avantajavam.
Todo aquele conjunto acrescentava ainda nos três espectadores
a admiração e o desejo de saberem quem fosse. Por isso se
deliberaram a aparecer.
Ao movimento que fizeram para se erguer, alçou a gentil moça
a cabeça, e, arredando dos olhos os cabelos com as mãos
ambas, procurou ver de onde o ruído provinha. Tanto que os
descobriu pôs-se em pé; e, sem se deter a calçar-se, ou
recolher os cabelos, apanhou muito à pressa um volume como de
roupa, que junto lhe estava, e quis pôr-se em fugida, cheia
de perturbação e sobressalto. Mas seis passos não teria ainda
dado, quando, não lhe podendo mais os delicados pés com a
aspereza das pedras, se deixou cair. Correram para ela os
três, sendo o cura o primeiro que lhe falou, dizendo:
- Detende-vos, Senhora, quem quer que sejais. Os que vedes
aqui só ambicionam servir-vos. Não há porque vos fujais;
nem vós podeis correr assim descalça, nem nós outros
consentir-vo-lo.
A nada disto ela respondia palavra, a poder de atónita e
confusa.
Chegados pois, a ela, o cura, travando-lhe da mão,
prosseguiu:
- Os vossos cabelos Senhora, bem estão desmentindo o vosso
traje. Do pouco tomo não devem ser as causas de se ter a
vossa lindeza disfarçado em vestuário tão indigno, e em tão
funda soledade como esta. Dita foi que vos achássemos; senão
para darmos remédio aos vossos males, ao menos para vos
ajudar com algum bom conselho. Não há desventura tão cansada,
nem tão posta no cabo, enquanto não degenera em morte, que
deva esquivar-se a um alvitre oferecido com bom ânimo.
Portanto, Senhora, ou Senhor, ou o que mais quiserdes ser,
tornai a vós do sobressalto que a nossa presença vos causou,
e contai-me o vosso caso, seja qual for. Todos e cada um de
nós vos acompanharemos, ao menos no sentimento dos vossos
trabalhos.
Enquanto o cura assim discorria, estava ela como fora de si,
olhando para todos sem boquejar. Dava por longe a lembrar
255
MIGUEL DE CERVANTES
um sáfaro aldeo, a quem de repente se mostram coisas raras,
que ele nunca viu; mas, recomeçando o cura mais razes ao
mesmo propósito encaminhadas, ela, dando um profundo suspiro,
quebrou o silêncio, e disse:
- Uma vez que o solitário destas serras não bastou para me
esconder, e estes meus cabelos desmentem enganos, por de mais
fora fingir eu por mais tempo o que vós só por cortesia
mostraríeis acreditar. Isto suposto, agradeço-vos Senhores,
os vossos oferecimentos; tanto, que por eles me julgo
obrigada a satisfazer-vos em tudo que me pedis, se bem que
temo, que a narração das minhas desditas vos cause, além da
compaixão, desconsolo não pequeno, porque afinal nem
atinareis remédio para o que padeço, nem consolações que mo
suavizem. Apesar de tudo isto, e para que lá por dentro dos
vossos juízos não ande estremecida a ideia da minha honra,
por saberdes já que sou mulher, moça, sozinha, e neste traje,
coisas todas (e bastava qualquer delas) para arrastar uma
reputação, devo enfim dizer-vos o que bem quisera calar-vos,
se me fora possível.
Tudo isto disse sem se interromper, com fala tão pronta e voz
tão suave, que não menos maravilhou por discreta, do que já
maravilhara por formosa. Iam reiterar prometimentos e
rogativas para que satisfizesse o prometido, quando ela, sem
se fazer mais rogar, calçando-se com toda a honestidade, e
apanhando as madeixas, se assentou numa pedra, ficando os
três em derredor; e, forcejando para reprimir lágrimas, que
aos olhos lhe acudiam, com voz serena e sonora começou desta
maneira a sua história:
- Há nesta Andaluzia um lugar, de onde toma nome um duque,
dos que chamam Grandes de Espanha. Tem ele dois filhos; o
mais velho, herdeiro do seu estado, e dos seus bons costumes
também (segundo parece), e o mais novo, herdeiro não sei de
quê, se não for das traições de Belido, e dos embustes de
Galalão. Deste duque são vassalos meus pais, humildes de
geração, porém tão ricos dos bens da fortuna, que, se o
nascimento lhos igualasse, nem eles teriam mais que desejar,
nem eu temeria nunca ver-me na desgraça em que me vejo.
Talvez que a minha pouca ventura só nascesse da que também
lhes faltou
256
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
a eles por não nascerem ilustres. Verdade é que não são tão
humildes, que se devam envergonhar do seu estado, nem também
tão altos, que me tirem a cisma em que estou de ser a minha
desgraça efeito da sua humildade. Em suma: são lavradores,
gente chã sem nódoas na geração, e (como se costuma dizer)
cristãos-velhos e rançosos, mas não tão rançosos, que a sua
riqueza e magnífico trato lhes não vá a pouco e pouco
adquirindo nome de fidalgos e cavalheiros, ainda que a maior
riqueza e E nobreza de que eles se prezavam era terem-me por
filha. Por r não terem outro nem outra que deles herdasse,
como porque r eram pais, e pais extremosíssimos, era eu uma
das mais regala- r das filhas que jamais houve. Eu o espelho
em que se reviam, o bordão da sua velhice, e o alvo de todas
as suas ambições, que se levantavam até ao Céu. Dessas
ambições, por tão santas que
eram, não discrepavam as minhas nem um til; tão senhora era
eu dos seus corações, como dos seus haveres; por mim se
recebiam e despediam os criados; a conta das sementeiras e
colheitas corria toda por minha mão; das moendas de azeite,
das lagaradas de vinho, do gado maior e menor, dos colmeais,
finalmente, de tudo aquilo que um lavrador opulento, como meu
pai, deve ter, e tem, a administração fazia-a eu. Era a
mordoma e senhora, com tanto desvelo meu, e tão a seu
contento, como não posso encarecer. Os pedaços que no dia me
sobravam destes lavores, depois de ter dado a devida atenção
aos maiorais ou capatazes, e a outros jornaleiros,
entretinha-os em exercícios, que às donzelas são tão lícitos
como necessários, tais como os de agulha e de almofada, e a
roca muitas vezes; e quando, para espairecer, interrompia
estes exercícios, recorria ao entretenimento de ler algum
livro devoto, ou a tocar uma harpa, porque a experiência me
tinha ensinado ser a música uma suavizadora dos ânimos
alterados, e um alívio para os trabalhos do espírito. Tal era
a vida que eu levava em casa de meus pais. Se tão por miúdo a
contei, não foi por ostentação, nem por alardo de riquezas,
mas só para que se reconheça quanto sem culpa caí daquele bom
estado neste em que hoje me vejo. É o caso que, passando eu a
vida em tantas ocupaçes, e num tal recato, que se podia
comparar ao de um mosteiro, sem ser vista
257
MIGUEL DE CERVANTES
(supunha eu) de pessoa alguma, afora os criados de casa
(porque os dias em que ia à missa era tão de manhãzinha, tão
acompanhada de minha mãe e de criadas, e toda eu tão coberta
e recatada, que apenas via por onde punha os pés); apesar de
tudo aquilo, os olhos do amor, ou da ociosidade, por melhor
dizer, que são mais que olhos de lince, descobriram-me entre
as outras cortejadas de D. Fernando que assim se chama o
filho mais novo do duque de quem já vos falei.
Ao nome, apenas proferido, de D. Fernando, mudou-se a
Cardénio a cor do rosto, e começou a suar, com tão grande
alteração, que, reparando nele o cura e o barbeiro, temeram
ser-lhe chegado algum daqueles ataques de loucura, de que já
tinham notícia. Mas Cardénio o que só fez foi continuar a
tressuar, porém quieto, com os olhos fitos na lavradora,
imaginando quem ela era.
Esta, sem reparar, prosseguiu a sua história, dizendo:
- Apenas me tinha avistado, quando (segundo ele depois
contou) ficou tão possuído de amores meus, quanto as suas
obras o deram a entender. Mas, para abreviar o sem-fim das
minhas desditas, quero passar em silêncio as diligências que
D. Fernando fez para me declarar a sua vontade. Subornou toda
a gente da minha casa; deu e ofereceu dádivas e mercês a meus
parentes; todos os dias eram de festa e regozijo na minha
rua;
de noite, ninguém podia pegar no sono, com as músicas; os
bilhetes que me vinham à mão, sem eu saber como, eram
infinitos, cheios de namoradas frases e oferecimentos, com
menos letras que promessas e juras. Tudo aquilo não só me não
abrandava, mas até me endurecia de maneira, como se proviera
de inimigo mortal. Tudo que ele fazia para me reduzir à sua
vontade redundava-lhe sempre no efeito contrário; não era por
me desagradar a gentileza de D. Fernando, nem por achar
demasiadas as suas finezas, porque em verdade me dava não sei
que contentamento ver-me tão querida e estimada de cavaleiro
tão principal; e não me descontentava do que ele escrevia em
meu louvor (que neste particular, por feias que sejamos,
tenho para mim que todas as mulheres nos lisonjeamos quando
nos ouvimos celebrar de bonitas). A tudo, porém, resistia a
minha ho-
258
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
nestidade, e os conselhos incessantes de meus pais, já então
conhecedores e certos das pretensões de D. Fernando; que
admira se ele próprio já se não importava de que todo o mundo
lhas soubesse! Repetiam-me meus pais, que a honra deles
permanecia confiada toda na minha virtude, e que me lembrasse
da distância que ia de mim a D. Fernando, prova clara de que
os seus desejos, por mais que os ele disfarçasse, mais se
encaminhavam ao seu gosto, que a meu proveito, e que, se eu
quisesse pôr de algum modo estorvo, que o descorçoasse
daquela imperdoável teima, eles me casariam sem dilação com
quem eu mais levasse em gosto, ou fosse do nosso lugar, ou
dos circunvizinhos, que para tudo lhes davam confiança o seu
cabedal e a minha fama. Com estas promessas e com a verdade
que as acompanhava, me ia eu fortalecendo para resistir;
nunca jamais respondi a D. Fernando palavra, que lhe
mostrasse, nem por sombras, esperança de me alcançar. Todos
estes recatos meus, que a ele se deviam figurar desdéns,
creio que ainda avivaram mais o seu apetite desonesto, que
outra coisa no era o afecto que me ele encarecia. A ter sido
verdadeiro, não vos estaria eu agora contando isto, nem
haveria de que me queixar. Soube afinal D. Fernando, que meus
pais andavam em diligências de me casar, para lhe tirarem a
ele toda a esperança de me possuir, ou, pelo menos, para eu
ter mais quem me guardasse. Que faria com tal novidade D.
Fernando? Ides sabê-lo. Uma noite, estando eu no meu aposento
com a companhia única de uma donzela do meu serviço, com as
portas bem fechadas para acautelar qualquer perigo, não sei
nem imagino como, no meio destes resguardos, e na solidão de
tamanho encerro, vejo-o diante de mim. Tal foi a minha
perturbação, que me fugiu a vista e a fala; não podia gritar
por socorro, nem ele, creio eu, mo consentiria. Chegou-se
logo a mim, e, tomando-me entre os braços (como havia eu de
me defender na turbação daquele repente?) começou a dizer-me
tais coisas, que não sei como é possível, que se inventem;
com as lágrimas e suspiros do traidor se acreditavam os seus
dizeres. Eu pobrezinha! Eu entre os meus desamparada,
inexperiente de semelhantes apuros, comecei, não sei como, a
ter por sinceras todas aquelas falsidades, mas não
259
MIGUEL DE CERVANTES
tanto, ainda assim, que me abalassem a compadecer-me
repreensivelmente de tantos extremos de lágrimas e gemidos.
Passado o primeiro sobressalto, recobrei algum tanto o
espírito amortecido, e, com mais ânimo do que eu própria
pensei que tivesse, lhe disse: «Se eu estivera, como estou,
senhor, nos vossos braços, nos de um leão feroz, e me
certificassem de que lhes escaparia em dizer ou fazer fosse o
que fosse em prejuízo da minha honestidade, to impossível me
fora isso, como me foi impossível deixar de me portar como me
portei. Tendes o meu corpo cativo entre os vossos braços, e
eu tenho a minha alma segura com os meus bons propósitos; são
eles tão outros dos vossos, como vereis, se, teimando,
quiserdes violentar-me. Sou vossa vassala, mas não vossa
escrava; a nobreza do vosso sangue não tem nem deve ter
licença para desonrar a humildade do meu. Sou vilã e
lavradora, mas nem por isso me aprecio em menos do que vós
vos estimais por senhor e cavalheiro. Comigo não hão-de
aproveitar as vossas forças, nem valer as vossas opulências,
nem as vossas palavras hão-de lograr seduzir-me, nem suspiros
e lágrimas entemecer-me. Se alguma destas coisas que digo a
visse num esposo escolhido por meus pais, à sua vontade seria
dócil a minha, como ficava com honra, ainda que sem gosto, de
grado entregaria o que vós, senhor, agora com tanto esforço
ambicionais. Digo tudo isto, porque não há cuidar, que de mim
alcance coisa alguma quem não for meu legítimo esposo.» - «Se
nisso está a tua dificuldade, belíssima Doroteia - (assim se
chama esta desditada) - disse o desleal cavaleiro - desde
aqui te dou com esta mão a certeza de o ser teu; tomo por
testemunhas os Céus, a que nada se esconde, e esta imagem de
Nossa Senhora que tens aqui.»
Quando Cardénio lhe ouviu, que se chamava Doroteia, tornou de
novo aos seus sobressaltos, e acabou de se confirmar no que
já supusera; mas não quis interromper a narrativa, desejoso
de saber em que parava o que ele já quase sabia; só disse:
- Quê, Senhora! Doroteia é o vosso nome? De uma Doroteia já
eu ouvi falar, que talvez em pontos de desgraça vos não fique
atrás. Prosseguiu; tempo virá, em que vos diga coisas, que
hão-de assombrar tanto como lastimar-vos.
260
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Fez Doroteia reparo nas palavras de Cardénio, e em seu trajar
extravagante e miserável, e lhe rogou, que, se por acaso
sabia alguma coisa tocante a ela, lha dissesse logo, porque,
se alguma coisa boa lhe tinha ficado na desgraça, era o ânimo
para sofrer qualquer novo infortúnio, pela persuasão de que
nenhum podia já chegar aos actuais, quanto mais acrescentálos.
- No perderei eu tempo Senhora - respondeu Cardénio -, em
dizer-vos o que penso, se o que penso não é errado; mas não
nos faltará oportunidade, nem isto vos releva muito.
- Seja o que for - respondeu Doroteia - prossigo a minha
história. Tomando uma devota imagem, que no aposento se
achava, invocou-a como testemunha do nosso desposório, e com
frases eficacíssimas, e extraordinários juramentos, me deu
palavra de ser meu marido, apesar de que, antes de finalizada
a sua jura, eu lhe pedi que reparasse bem no que fazia, e
ponderasse no desgosto que o Senhor Duque seu pai sentiria de
o ver casado com uma vilã sua vassala; que se não cegasse com
a minha formosura, tal qual era, pois não era suficiente para
desculpa do seu desatino; e que, se algum bem me queria
fazer, pelo amor que me tinha, fosse deixar correr a minha
sorte por onde convinha à minha qualidade, pois casamentos
desiguais nem se gozam, nem aturam muito no gosto com que
principiam. Todas estas razões lhe ponderei, com outras
muitas, que nem já me lembram; mas todas foram para ele
escusadas. Quem não tendona satisfazer não regateia condições
no contratar. Aqui fiz dentro em mim este rápido discurso:
«Não serei eu a primeira, que por via de matrimónio haja
subido a grandezas; nem D. Fernando também será o primeiro, a
quem formosura ou cegueira de afeição, que é o mais natural,
tenha feito procurar companheira inferior. Se eu não posso
mudar o mundo, nem introduzir nele costumes novos, convém-me
aproveitar esta honra que a sorte me depara, ainda que neste
o fervor presente só dure enquanto o desejo se lhe não sacia.
Ao menos perante Deus serei sua esposa. Se com desprezs o
despedisse no aperto em que me vejo, em lugar de cumprir o
que deve abusará da força, e ficarei irremediavelmente
desonrada, e sem desculpa aos olhos de quem não souber quão
inocentemente sucumbi.
261
MIGUEL DE CERVANTES
Como poderão convencer-se meus pais, e as outras pessoas, de
que este fidalgo entrou no meu aposento sem anuência minha?»
- Todas estas dúvidas e certezas me tumultuaram
instantaneamente no espírito, e começaram a inclinar-me ao
que se tornou, sem o eu cuidar, a minha perdiço. Eram os
juramentos de D. Fernando; eram os testemunhos que invocava,
as lágrimas que o imundavam, e, por último, o seu garbo e a
sua gentileza, que, reforçando-se com tantas e tamanhas
mostras de verdadeiro amor, sobrariam a render a qualquer
outro coração tão livre e recatado como era o meu. Chamei
pela minha criada, para ter também na Terra uma testemunha,
além das do outro mundo, que depusesse em meu favor. Reiterou
e confirmou de novo D. Fernando os seus juramentos, juntou
novos Santos por testemunhas, imprecou sobre si mil castigos
para o caso de não cumprir o que me prometa, tornou a chorar,
suspirar e gemer, apertou-me mais entre os braços, de onde
ainda me não tinha soltado; e com isto, e em sair do aposento
a minha donzela, deixei eu de o ser, e ele consumou o seu
feito de traidor. O dia seguinte à noite da minha desgraça
não alvoreceu tão depressa como D. Fernando desejaria,
segundo penso, porque, saciado um apetite brutal, ouço que o
maior gosto para um desalmado é fugir de onde o extorquiu. D.
Fernando apressou-se, com efeito, em se apartar de num; e,
auxiliado pela minha serva, que era a própria que para ali mo
introduzira, antes de amanhecer estava já na rua. Na
despedida, ainda me disse que tivesse fé nas suas promessas,
mas já então com menos intimativa. Para mais confirmação da
sua palavra, passou do seu para o meu dedo um rico anel. Com
efeito partiu, deixando-me não sei se triste, se contente;
confusa e pensativa, sei eu que sim, e quase fora de mim com
a minha transformação. Não tive ânimo nem lembrança de ralhar
à minha aia pela traição que me fizera, encerrando a D.
Fernando no meu próprio aposento, porque nem ainda atinava se
realmente era bem, ou mal, o que me havia acontecido. No
momento de se partir D. Fernando, disse-
-lhe eu, que, pelo mesmo modo como entrara naquela noite,
podia vir todas as mais que desejasse, visto ser eu já sua,
faltando só publicar-se o sucesso, o que seria quando ele
quisesse.
262
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Voltou ainda na seguinte noite, mas foi ento pela última vez;
nem eu o tornei a avistar nem na rua nem na igreja, no
decurso de um mês, por mais que me cansasse em solicitá-lo
(ainda que soube, que estava na cidade, e que ia quase
diariamente à caça, seu exercício de predilecção). Todo este
comprido prazo foi para mim de horas minguadas e amargas, bem
o posso dizer. Entraram-me a crescer dúvidas; principiei a
descrer da verdade de D. Fernando, e a minha aia começou a
ouvir-me as justas repreensões, que eu dantes lhe poupava.
Foi-me necessário resguardar as minhas lágrimas, e disfarçar
as mostras do semblante, para não dar azo a que meus pais me
perguntassem de que andava eu pesarosa, obrigando-me com isso
a idear mentiras para os satisfazer. Mas tudo isto se acabou
de repente; chegou um lance em que se atropelaram respeitos,
e os discursos honrados deram fim; perdeu-se-me a paciência,
e saíram a público os meus segredos. Toda esta resolução
rebentou por se ter espalhado a cabo de alguns dias no povo
do lugar, que numa cidade perto se havia casado D. Fernando
com uma donzela em todo o extremo formosíssima, e de muito
esclarecida ascendência, posto que não tão rica, que em razão
do dote pudesse aspirar a to nobre casamento. Disse-se que se
chamava Lucinda com outras coisas, que naquele desposório
ocorreram, dignas de admiração.
Cardénio, ao nome de Lucinda, o que só fez foi encolher os
ombros, morder os lábios, franzir as sobrancelhas, e, passado
pouco deixar correr dos olhos duas fontes de lágrimas.
Doroteia nem por isso deixou de seguir a sua fala, dizendo:
- Chegou-me aos ouvidos esta nova tervel; e, em lugar de se
me gelar o coração, tamanha foi a raiva que nele se me
acendeu, que pouco faltou para eu não sair pelas ruas dando
vozes, e publicando a aleivosia que se me tinha feito; mas
aquietei por então o excesso da fúria, com a ideia de pôr
essa mesma noite porobra o que realmente pus, que foi
entrajar-me neste hábito que me deu um dos chamados
pegureiros nas casas de lavoura, que era servo de meu pai, ao
qual descobri toda a minha desventura, rogando-lhe me
acompanhasse até à cidade em que assentei encontrar o meu
inimigo. O pastor, depois de ter
263
MIGUEL DE CERVANTES
repreendido a minha ousadia, e encarecido a fealdade da minha
determinação, vendo-me inabalável no meu propósito,
prontificou-se a acompanhar-me até ao cabo do mundo que
fosse. No mesmo instante, atei numa trouxinha de pano de
linho um vestido de mulher, e algumas jóias e dinheiros, para
o que pudesse suceder; e, pela calada da noite, sem nada
dizer à minha traidora donzela, saí de casa acompanhada do
meu criado, e entregue a muitas diversas fantasias, e me pus
a caminho para a cidade a pé, voando, não tanto pelo desejo
de chegar, pois não podia estorvar o que tinha por consumado,
como para perguntar a D. Fernando como tivera valor para
acumular tantas perfídias. Em dois dias e meio cheguei à
cidade, e perguntei pela rua dos pais de D. Lucinda. O
primeiro a quem me dirigi respondeu-me mais do que eu
desejara ouvir; mostrou-me a casa, e me referiu quanto no
desposório sucedera, coisa tão falada, que por toda a parte
se faziam conventículos, em que se não tratava de outra
coisa. Disse-me que na noite do casamento de D. Fernando com
D. Lucinda, depois de ela ter proferido o sim, lhe tinha dado
um rijo desmaio, e que, chegando o marido a desatacar-lhe o
peito para lhe dar o ar, lhe achou um papel escrito do
próprio punho dela, em que declarava que não podia ser esposa
de D. Fernando, porque já o era de Cardénio, que, segundo o
homem me disse, era um cavaleiro muito principal da mesma
cidade, e que se havia dado o sim a D. Fernando, fora por
sujeição a seus pais. Em suma, tais razões disse conterem-se
no papel, que bem se entendia que a intenção dela tinha sido
de matar-se logo após o acto do desposório, e ali mesmo dava
os porquês do seu suicídio. Dizem que a verdade de tudo
aquilo se confirmou por lhe terem achado uma adaga oculta no
vestido, não sei onde. Presenciado tudo aquilo por D.
Fernando, este, por entender que Lucinda o havia burlado e
escarnecido, arremeteu a ela ainda desmaiada, e com a mesma
adaga que lhe acharam a quis atravessar; e fá-lo-ia, se os
pais e mais pessoas presentes o não estorvassem. Mais
disseram, que D. Fernando desaparecera logo dali, e que D.
Lucinda não tornara em si até ao outro dia, e que então
contara a seus pais, que era verdadeira esposa do sobredito
Cardénio. Soube, além disto, que
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
ele, o Cardénio, assistira, segundo se dizia, àquele tremendo
desposório, e, vendo-a casada (o que ele nunca imaginara),
saiu da cidade desesperado deixando-lhe uma carta em que
explicava a Lucinda o agravo que lhe havia feito, e que ele
se ia para onde nunca mais alguém o visse. Tudo isto era
público e notório. Ninguém falava de outra coisa, e mais
vieram a falar ainda, quando se espalhou que Lucinda tinha
desaparecido da casa paterna e da povoação, pois em parte
nenhuma deram com ela, coisa de que seus pais andavam loucos,
sem saberem que fizessem para a recobrarem. Estas novas que
recebi afugentaram de todo as minhas esperanças, e tive por
melhor o não haver achado a D. Fernando, que se o achasse
casado, por me parecer, que assim não era de todo impossível
a minha reparação. Chegou-se-me a figurar que talvez o Céu
tivesse posto aquele impedimento ao segundo matrimónio, para
lhe dar ocasião de conhecer o que ao primeiro devia, e a cair
na conta de que era cristão, e que mais devia à sua alma, que
aos respeitos humanos. Tudo isto revolvia eu na fantasia,
supondo em vão consolar-me com umas esperanças remotas e
desmaiadas para alimento da vida que já aborreço. Ora,
conservando-me eu ainda na cidade sem saber que fizesse, pois
não achava a D. Fernando, chegou aos meus ouvidos um pregão
público, prometendo um grande prémio a quem me achasse, dando
os sinais da minha idade e do meu trajar; e ouvi que se dizia
ter-me tirado de casa de meus pais o moço que me acompanhara,
coisa que me feriu no íntimo, por ver quão decaído me andava
já o crédito. Não bastava a minha fuga, faltava-me para
raptor um homem tão baixo, e tão pouco merecedor das minhas
atenções. Logo que tal pregão ouvi, pus-me fora da cidade com
o meu servo, que já principiava a dar mostras de titubear na
lealdade prometida, e nessa mesma noite entrámos pela
espessura deste monte para não sermos achados. Mas bem dizem,
que um mal nunca vem só, e que o fim de uma desgraça é
princípio de outra maior. Assim me sucedeu a mim, porque o
bom do meu criado, homem até então fiel e seguro, assim que
me viu naquela solidão, mais incitado da sua velhacaria que
da minha formosura, quis aproveitar a oportunidade que ao seu
parecer lhe deparavam estes
265
MIGUEL DE CERVANTES
ermos; e, sem resguardo de vergonha, nem temor de Deus, nem
respeito à minha pessoa, me requestou. Desenganado com as
minhas respostas injuriosas e justas aos seus desavergonhados
projectos, deixou-se das rogativas por onde havia começado, e
passou a empregar a força. O Céu, porém, que poucas vezes
deixa de ajudar o que é justo, olhou por mim, de modo que eu,
débil e sem grande trabalho, dei com ele de um precipício
abaixo, onde o deixei não sei se morto se vivo; e logo, com
mais presteza do que se pudera esperar da minha canseira e de
tamanho sobressalto, me entranhei por estes sítios
montesinos, sem outro intuito senão homiziar-me às pesquisas
de meus pais, e da gente que por ordem sua me andava
rastreando. Aqui me embosquei há não sei já quantos meses;
achei um maioral, que me levou por seu criado a um lugar no
coraço destes montes. De pastor lhe tenho servido todo este
tempo, procurando sempre os descampados para encobrir estes
cabelos que tão inesperadamente agora me revelaram. Nada me
valeram porém tantas cautelas; veio meu amo a saber, que eu
não era varão, e entrou na mesma danada tentação do servo; e,
como nem sempre a fortuna põe a par dos males os remédios,
não achei precipício nem barranco onde despenhar e despenar
ao amo, como ao outro havia feito, e assim tive por melhor
fugir-lhe, e esconder-me de novo entre estas asperezas, que
experimentar com ele as minhas forças, desculpas, ou
rogativas. Tornei, pois, a embrenhar-me onde sem impedimento
pudesse com suspiros e lágrimas suplicar ao Céu se condoesse
das minhas desventuras, e me concedesse modo como sair delas,
ou deixar a vida entre estas soledades, sem que fique
lembrança desta triste, que tão sem culpa sua deu causa a que
se fale dela, e a desabonem na terra do seu nascimento e nas
alheias.
266
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
CAPITULO XXIX
QUE TRATA DO GRACIOSO ARTIFCIO E ORDEM QUE SE TEVE
EM TIRAR O NOSSO NAMORADO CAVALEIRO DA MUITO
ÁSPERA PENITNCIA EM QUE SE HAVIA POSTO
Esta é Senhores, a verdadeira história da minha tragédia.
Julgai agora se os suspiros e palavras que ouviste e as
minhas lágrimas não eram ainda menos do que deveram. Pesando
bem a minha desgraça, reconhecereis que por de mais vos fora
o tentar-lhe consolações; é mal já agora sem remédio. O que
só vos peço, e com facilidade me podereis fazer, é
aconselhardes-me onde poderei passar a vida, antes que de mim
dê cabo o temor de ser achada pêlos que me andam procurando.
Eu sei, verdade seja, que o muito amor que meus pais me têm
me afiançava da sua parte muito bom acolhimento; mas tamanha
é a vergonha que de mim se apossa, ao pensar que lhes hei-de
aparecer tão diferente do que eles esperavam, que por melhor
tenho desterrar-me para sempre da sua vista, que torná-los a
ver, lembrando-me que eles ao encarar-me estão sofrendo no
interior pensamentos tão alheios da honestidade que de minha
parte deviam esperar.
Calou-se aqui, e se lhe cobriu o rosto de uma cor, que bem
claramente mostrava o sentimento e quebranto do seu ânimo.
Tanta lástima excitou nos ouvintes, como admiração por tão
porfiosa desgraça.
O cura quis logo tentar-lhe consolações e conselhos, mas
antecipou-se-lhe Cardénio, dizendo:
- Com que Senhora, sois então vós a formosa Doroteia, a filha
única do rico Clenardo?
Admirada ficou Doroteia quando ouviu o nome de seu pai, e
reparou no somenos que era quem lho proferia (já está sabido
o maltrapilho que ele andava) e disse-lhe:
- E vós quem sois, irmão, que assim sabeis o nome de meu pai?
Porque eu até agora, se bem me lembro, nunca na minha
narrativa o nomeei.
267
MIGUEL DE CERVANTES
- Sou - respondeu Cardénio - aquele sem-ventura, que, segundo
vós Senhora, aí dissestes, Lucinda declarou ser seu esposo;
sou o desditado Cardénio, a quem a perfídia do mesmo de quem
também sois vítima reduziu a este estado que vedes roto, nu,
falto de todo o conforto humano, e, o que é ainda pior, falto
de juízo, pois só o tenho quando nalguns breves intervalos o
Céu se lembra de mo emprestar. Sou, sou eu, Doroteia, aquele
que se achou presente às infâmias de D. Fernando, e se deteve
aguardando o sim de Luanda; sou o que não teve ânimo para
esperar o desfecho do desmaio dela, e aguardar o que
resultaria do papel que lhe acharam no seio. Faltou-me valor
para tanto padecimento junto; fugi da casa descorçoado,
deixei a um hospedeiro meu uma carta a Lucinda para lhe ser
entregue, e corri para estas soledades determinado em acabar
nelas a existência; que desde aquele instante fiquei
aborrecendo como inimiga mortal. No aprouve, porém, à sorte
livrar-me dela;
contentou-se em tirar-me o juízo; foi talvez a sua ideia que
eu sobrevivesse para a boa ventura que hoje tive em dar
convosco, pois, sendo verdade, como acredito, o que nos
haveis contado, ainda não era impossível, que a ambos nós nos
reservasse Deus melhor êxito nos nossos desastres, do que nós
supomos; porquanto, não podendo Lucinda casar com D. Fernando
por ser minha, nem D. Fernando com ela por ser vosso, tendo
ela manifestado tão solenemente a verdade, bem podemos
esperar, que a Providência nos restitua ainda o que nos
pertence por direito incontroverso. Uma vez que temos esta
luz no futuro, e esta esperança não remota, nem fundada em
quimeras, suplico-vos, Senhora, que mais acertadamente se
encaminhem os vossos honrados pensamentos; outro tanto farei
eu da minha parte;
sujeito-me a esperar por melhor fortuna. À fé de cavaleiro e
cristão, vos juro não vos desamparar enquanto vos não veja em
poder de D. Fernando; juro mais que, se com razões o não
puder trazer ao conhecimento do que vos deve, usarei então da
licença que me dá o ser cavalheiro, e poder com justo motivo
desafiá-lo pela sem-razão que vos faz, sem me lembrar então
dos meus agravos particulares, cuja vingança deixarei por
conta do Céu; na Terra só os vossos me importam.
268
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Com o que a Cardénio ouviu, acabou Doroteia de se maravilhar,
e por não atinar em agradecer tamanhos oferecimentos, quis
beijar-lhe os pés, no que ele não consentiu.
Respondeu entre ambos o licenciado, e aprovou a boa resolução
de Cardénio; sobretudo lhes rogou, aconselhou, e persuadiu
que se fossem com ele à sua aldeia, onde se poderiam refazer
de todo o necessário, e depois se entenderia no procurar a D.
Fernando, ou no levar-se Doroteia a seus pais, ou no que mais
conveniente parecesse. Agradeceram-lhe Cardénio e Doroteia, e
lhe aceitaram o prometido favor.
O barbeiro, que a tudo tinha estado suspenso e silencioso,
fez também a sua boa prática, e se ofereceu, com tão boa
vontade como o cura, para tudo em que os pudesse servir.
Contou em breves termos a causa que os ali trouxera, e bem
assim a estranha loucura de D. Quixote, acrescentando que
estavam esperando pelo escudeiro, que tinha ido à sua
procura.
Deslizou na memória a Cardénio, como por sonhos, a pendência
que entre ele e D. Quixote houvera, e contou-a aos
circunstantes; mas o que não atinou a explicar foi o peguilho
da desavença.
Nisto ouviram vozes, e conheceram serem de Sancho Pança, o
qual, por não ter achado o cura e o barbeiro onde os deixara,
vinha dando aqueles apupos de chamamento. Saíram-lhe ao
encontro; e, perguntando-lhe por D. Quixote, Sancho lhes
disse como o encontrara em fralda de camisa, fraco, amarelo,
morto de fome, e suspirando pela sua Sr.8 Dulcineia; e,
apesar de ele Sancho ter dito, que lhe mandava ela, que
saísse de onde estava, e se fosse a Toboso, onde ela o ficava
esperando, a sua resposta fora, que estava firme em não
aparecer perante a sua formosura, sem primeiro ter feito
façanhas que o tornassem merecedor da sua graça; que, se tal
cisma fosse por diante, corria perigo de não chegar a
imperador, como estava obrigado, nem sequer a arcebispo, que
era o menos que poderia ser; e, portanto, vissem o que se
podia fazer para o desencovarem dali.
Respondeu-lhe o licenciado que se não afligisse, que eles,
bom ou mau grado, o fariam sair. Contou logo a Cardénio e a
MIGUEL DE CERVANTES
Doroteia o que haviam ideado para remédio de D. Quixote, pelo
menos para o restituírem a sua casa.
Doroteia acudiu logo, dizendo que ela representaria a donzela
necessitada melhor que o barbeiro, até porque tinha ali
vestidos para fazer esse papel muito ao natural, e deixassem
por sua conta o representar a contento tudo que fosse predso
para se levar avante o empenho, pois ela era muito lida em
livros de cavalarias, e sabia perfeitamente o falar das
donzelas penadas, quando suplicavam dons aos andantes
cavaleiros.
- Belo! Nada mais é predso - disse o cura -; é pormos já isso
em obra. No há dúvida, tenho por mim a sorte, pois, quando
menos o pensávamos, se vos começa a abrir caminho para vosso
remédio, meus Senhores, e a nós também para se efectuar o
nosso empenho.
Doroteia tirou logo da troixa uma saia inteira de telilha
rica, e uma mantilha de outra vistosa fazenda verde; e de um
cofrezinho um colar e outras jóias; com o que repentinamente
se adornou, por modo que não pareria senão uma grande e
opulenta dama. Disse que tudo aquilo tinha ela trazido de sua
casa para o que desse e viesse, e que nunca até ali se lhe
tinha oferecido necessidade de o empregar.
A todos encantou a sua muita graça, donaire, e gentileza,
inteirados unanimemente da falta de gosto de D. Fernando, que
tantos primores desprezava; mas quem mais se admirou foi
Sancho Pança, por lhe parecer (o que era verdade), que nunca
em dias de vida tinha visto perfeição igual, e perguntou ao
cura quem vinha a ser aquela tão garbosa senhora, e que
andaria ela buscando por aqueles andurriais.
- Esta formosa senhora - respondeu o cura - é, Sancho irmão,
sem tirar nem pôr, a herdeira por linha recta de varão do
grande reino de Micomicão, a qual vem à procura de vosso amo
para lhe pedir um dom, que vem a ser: desfazer-lhe um torto e
agravo que um malvado gigante lhe fez; e, em consequênda da
fama de bom cavaleiro que vosso amo já ganhou por todo o
mundo, veio de Guiné com o empenho de o achar.
- Ditosa busca, e ditoso achado! - exclamou Sancho Pança. -
Principalmente se meu amo houver a boa sorte de desfa-
270
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
zer esse tal agravo, e endireitar esse torto matando o
excomungado gigante que Vossa Mercê diz, que à fé que o há-de
matar, se o encontra, salvo se for fantasma, que lá contra
fantasmas no tem meu amo poder algum. Mas uma coisa, além de
outras, quero eu agora suplicar a Vossa Mercê, Senhor
Licenciado; e vem a ser, que empregue quantos meios puder
para que a meu amo se não encaixe na cabeça o ser arcebispo,
que é de que eu tenho medo, e por isso lhe aconselhe casar-se
logo com esta princesa; assim fica impossibilitado de receber
ordens arcebispais, e com facilidade chegará a imperador e eu
ao cabo do meu empenho. Já tenho meditado isto com a devida
atenção, e cá pelas minhas contas não me convém, que meu amo
seja arcebispo, porque eu para a igreja não sirvo;
sou casado; e andar agora a diligenciar dispensas para poder
receber rendas eclesiásticas, tendo, como tenho, mulher e
filhos, seria um nunca acabar; e, portanto Senhor, o fino é
que meu amo se receba o mais depressa que se possa com esta
Senhora, da qual por ora não sei a sua graça, pelo que a não
chamo pelo
seu nome.
- Chama-se - respondeu o cura - a princesa Micomicadela,
porque, chamando-se o seu reino Micomicão, claro está que ela
se deve chamar assim.
- Está visto - respondeu Sancho. - De muitos sei eu, que têm
tomado o apelido e alcunha do lugar onde nasceram; por
exemplo: Pedro de Alcalá, João de Ubeda, e Diogo de
Valhadolid; também se deve usar lá em Guiné as rainhas
tomarem o nome dos seus reinos.
- Por força - disse o cura - e, em quanto ao casar-se o vosso
amo, eu farei tudo que puder.
Do que Sancho ficou tão contente, como o cura pasmado da
simpleza dele, e de ver como tinha embutidos nos cascos não
menores despautérios que o patrão, pois nenhuma dúvida punha
em que viria a ser imperador.
Já Doroteia estava sentada na mula do cura, o barbeiro com a
barba de rabo de boi; e disseram a Sancho que os encaminhasse
para onde seu amo se achava, recomendando-lhe que não
deixasse onhecer a D. Quixote nem o licenciado nem o
271
MIGUEL DE CERVANTES
barbeiro, porque em os no conhecer ele é que estava o busüis
de vir o fidalgo a ser imperador.
Nem o cura nem Cardénio quiseram acompanhar o rancho, para
que D. Quixote se não recordasse das testilhas que tivera com
o desvairado moço; a presença do cura também não era
necessária. Deixaram, pois, ir adiante as principais figuras,
e os dois foram seguindo a pé e com o seu vagar.
Ao apartarem-se ali, recordando o cura a Doroteia o que havia
de fazer, respondeu-lhe ela, que disso perdesse todo o
cuidado, que tudo faria, ponto por ponto, como o pediam e
pintavam os livros de cavalaria.
Três quartos de légua teriam andado, quando descobriram a D.
Quixote entre umas intrincadas penhas, já vestido, mas ainda
não armado. Assim que Doroteia o avistou, e soube de Sancho
ser o próprio, fustigou com o chicote o seu palafrém,
seguindo-a o bem barbado barbeiro. Ao chegarem ao pé, atirouse
o improvisado escudeiro abaixo da mula, e foi para tomar
nos braços a Doroteia, a qual, apeando-se com grande
desembaraço, se foi lançar de joelhos às plantas de D.
Quixote. Forcejava ele para erguê-la; ela porém, sem
consentir em levantar-se lhe falou desta maneira:
- No me levantarei daqui, ó valoroso cavaleiro, até que a
vossa cortesia me não tenha outorgado um dom, que redundará
em crédito de vossa pessoa, e em proveito da mais
desconsolada donzela que o Sol nunca viu. Se o valor do vosso
forte braço se iguala à vossa imortal fama, obrigação vos
corre de favorecer à sem-ventura, que de tão longes terras
vem, ao cheiro do vosso famoso nome, buscar-vos para reparo
das suas desditas.
- Não vos responderei palavra, formosa Senhora - replicou D.
Quixote -, nem ouvirei mais nada da vossa pretensão, sem que
primeiro vos levanteis.
- Não me levantarei Senhor - respondeu a afligida donzela -,
antes que a vossa cortesia me outorgue o favor pedido.
- Eu vo-lo outorgo e concedo - respondeu D. Quixote -
contanto que se não haja de cumprir em detrimento e ofensa do
272
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA S
l meu rei, da minha pátria, e daquela que do meu coração e
li- j
erdade tem as chaves. [
- Não será em prejuízo dos que dizeis, meu bom Senhor - '
replicou a dolorida donzela.
Quando nisto iam, chegou-se Sancho ao ouvido de seu amo, e
lhe disse em voz sumida: {
- Bem pode Vossa Mercê, Senhor meu, conceder-lhe o fa- j vor
que ela pede, que é uma coisita de nonada; é só matar a um \
mandrião de um gigante; e a que lhe pede é a alta princesa
Micomicadela, rainha do grande reino Micomicão da Etiópia.
- Seja quem for - respondeu D. Quixote - cumprirei o que sou
obrigado, e o que me dita a consciência, segundo o que
professado tenho.
E, tornando-se à donzela, continuou:
- Levante-se a vossa grande formosura, que eu já daqui lhe
concedo o que lhe aprouver pedir-me.
- O que peço é - disse a donzela - que a vossa magnânima
pessoa venha logo comigo onde eu o levar, e me prometa não se
intrometer noutra aventura nem requesta alguma antes de me
dar vingança de um traidor que, contra todo o direito divino
e humano, me tem usurpado o reino que era meu.
- Outorgado - respondeu D. Quixote - e assim podeis, Senhora,
perder de hoje para sempre a melancolia que vos fatiga, e
fazer que a vossa esmorecida esperança recobre novos brios e
força, que, com a ajuda de Deus, e a do meu braço, cedo vos
vereis restituída ao vosso reino, e sentada no trono do vosso
vasto e antigo estado, apesar e despeito de quantos velhacos
, vos pretenderem empecer; e mãos à obra, que bem se diz que
no tardar costuma estar o perigo.
A necessitada donzela forcejou quanto pôde por lhe beijar as
mãos; mas D. Quixote que em tudo era comedido e cortês
cavaleiro, de sorte nenhuma o consentiu, antes a fez
levantar, e abraçou com muita cortesia e acatamento, e
ordenou a Sancho que aparelhasse Rocinante, e o armasse logo
num repente.
Sancho despendurou as armas, que se achavam como trofeu,
pendentes de uma árvore, e, encilhando o cavalo, num volver
de olhos pôs o amo prestes. Este, vendo-se pronto, disse: i
273 ?
MIGUEL DE CERVANTES
- Vamo-nos daqui em nome de Deus a favorecer esta grande
Senhora.
De jelhos estava ainda o barbeiro, tendo grande conta em
disfarçar o riso e em que lhe não caísse a barba, que se lhe
cai talvez se lhe malograsse tudo; mas, vendo já conseguido e
seguro o bom despacho, e a diligência de D. Quixote para o ir
pôr em obra, levantou-se, tomou a mão da sua Senhora, e,
ajudado do cavaleiro, a subiu para a mula. D. Quixote montou
logo no Rocinante, o barbeiro na sua cavalgadura, ficando
Sancho a pé, renovando-se-lhe as saudades do seu ruço, pela
falta que lhe fazia. Entretanto, levava tudo com gosto, por
lhe parecer que o amo estava em caminho, e muito em vésperas
de ser imperador, porque já dava por infalível, que breve o
veria matrimoniado com aquela princesa, e, pelo menos, rei de
Micomicão. O que só lhe pesava era pensar que o reino de
Micomicão era em terra de negros, e que os seus vassalos
haviam de ser todos pretaria. Para isso imaginou logo um bom
remédio, e disse com os seus botões:
- Que se me dá a mim, que os meus vassalos sejam pretos? Não
há mais que embarcá-los, trazê-los a Espanha, e vendê-los com
paga à vista; com esse dinheiro posso comprar algum título ou
algum ofício para passar descansado o resto da vida. A gente
não há-de ser tola; e para conveniência própria no pode ser
proibido vender trinta ou dez mil vassalos sem mais nem menos
e enquanto o diabo esfrega um olho. Voto a Deus, que os heide
encampar todos à rasa, pequenos e grandes, ou o melhor que
eu puder, e, por mais pretos que sejam, os saberei
transformar em brancos ou amarelos. Venham eles e verão como
os avio.
Com isto andava tão activo e contente, que nem já lhe
lembrava, que ia a pé.
Tudo aquilo observavam entre as sombras de umas moitas
Cardénio e o cura, e não sabiam que fazer para se agregarem
ao rancho. Porém o cura, que as armava no ar, ideou logo
expediente. Com uma tesoura, que trazia num estojo, cortou
logo as barbas a Cardénio, emprestou-lhe o seu capotinho
pardo e um ferragoulo preto, ficando ele em calças e gibão;
com o que tão
274
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
transfigurado saiu o nosso Cardénio, que nem vendo-se a um
espelho se reconheceria.
Concluído este preparo, tendo os outros passado já para
diante enquanto eles se disfarçavam, com facilidade saíram
primeiro que eles à estrada real, porque o mau piso e as
agruras daqueles lugares não deixavam apressar-se tanto os
cavaleiros como os peões.
De feito, estes últimos chegaram à planície no sopé da serra,
por modo que, ao sair dela D. Quixote e os seus companheiros,
o cura se pôs a encarar nele muito atento, dando sinais de
que o estava reconhecendo, e, depois de estar assim irresolut
por um bom espaço, correu para ele de braços abertos, dizendo
a brados:
- Bem aparecido seja o espelho da cavalaria, o meu bom
compatriota D. Quixote de Ia Mancha, a flor e a nata da
gentileza, o amparo e remédio dos necessitados, a quintaessência
dos cavaleiros andantes!
E, dizendo isto, o abraçava pelo joelho esquerdo. D. Quixote,
espantado do que via e ouvia àquele homem, encarou nele com
atenção, conheceu-o enfim, e ficou a modo maravilhado do
encontro, fazendo grande diligência por se apear. Não lho
consentiu o cura. D. Quixote teimava, dizendo:
- Deixe-me Vossa Mercê, Senhor Licenciado, que não é justo
estar eu a cavalo, e uma tão reverenda pessoa como Vossa
Mercê a pé.
- Não consinto de modo algum - disse o cura -; esteja Vossa
Grandeza a cavalo, pois a cavalo é que ultima as maiores
façanhas e aventuras que nesta idade se têm visto, que a mim,
posto que indigno sacerdote, bastar-me-á montar na anca de
uma destas mulas destes Senhores, que vêm na companhia de
Vossa Mercê, se mo não levam a mal; até farei de conta que
vou encavalgando no Pégaso, ou sobre a zebra ou alfana em que
montava aquele famoso mouro Musaraque, que ainda até hoje jaz
encantado na grande costa Zulema, pouco distante da grande
Compluto.
- Lembra bem Senhor Licenciado, e nem tal coisa me ocorria -
respondeu D. Quixote -; mas eu sei que a minha Senho-
275
MIGUEL DE CERVANTES
rã Princesa será servida, por amor de mim mandar ao seu
escudeiro que ceda a Vossa Mercê a sela da sua mula; e ele lá
se arranjará nas ancas, se ela as dá.
- Dá, dá, penso que sim - disse a princesa - e penso também
que não é preciso mandar eu tal ao Senhor meu escudeiro, que
ele é tão polido e cortesão, que não há-de consentir que uma
pessoa eclesiástica vá a pé podendo ir a cavalo.
- Assim é - respondeu o barbeiro.
E, apeando-se logo, ofereceu ao cura a sela, que ele aceitou
sem se fazer muito rogado. O mau foi que, ao subir o barbeiro
para as ancas, a mula, que era de alquiler (para encarecer
que era má não é preciso mais), alçou um pouco os quartos
traseiros, e deu dois couces no ar, que a dá-los no peito do
mestre Nicolau, ou na cabeça, ao Diabo dera ele o ter saído
de sua casa por via de D. Quixote. Tão forte lhe foi contudo
o sobressalto, que se estatelou no chão com tão pouco cuidado
nas barbas, que lhe caíram. Vendo-se sem elas, não teve outro
remédio senão acudir a tapar o rosto com as mãos ambas, e a
vozear, que lhe tinham deitado fora os queixais.
D. Quixote, reparando naquele molho de barbas sem a
respectiva queixada e sem sangue, desquitadas do rosto do
dono caído, disse:
- A fé que temos milagre de marca maior! Barbas tiradas como
por mão!
O cura, que viu a sua invenção em perigo de ser descoberta,
agarrou nas barbas, e as trouxe ao mestre, que estava ainda
aos gritos; e, toando-lhe de repente a cabeça, e encostando-a
ao peito, lhas repôs, urmurando-lhe em cima umas palavras,
que disse serem de virtude para pegar barbas, como se ia ver.
Logo que teve a operação finda, apartou-se, deixando o
escudeiro tão bem barbado e tão são como dantes; do que D.
Quixote sobremaneira se admirou, e pediu ao cura, que, em
tendo lugar, lhe ensinasse aquele curativo, porque
provavelmente não havia de servir só para pegar barbas. A
razão era clara:
de onde as barbas se arrancavam havia de ficar a carne numa
lástima, e que, tendo ficado ali tudo são, é porque o remédio
sarava tudo.
276
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- E sara - disse o cura - e prometo ensinar-lho na primeira
ocasião.
Combinaram em que por então montasse o padre, e que dali até
à venda se fossem os três revezando; era caminho de duas
léguas.
Postos os três a cavalo, a saber D. Quixote, a princesa e o
cura, seguindo os três a pé, Cardénio, o barbeiro, e Sancho
Pança, disse D. Quixote para a donzela:
- Vossa Grandeza, Senhora minha, que nos encaminhe por onde
mais lhe apetecer.
Adiantou-se com a resposta o licenciado, dizendo:
- Para que reino quer Vossa Senhoria que tomemos? Será para o
de Micomicáo? É natural, que sim, ou pouco sei de reinos.
Ela, que estava por tudo, respondeu:
- Sim, senhor; para esse reino é que é o meu caminho.
- Portanto - disse o cura - temos de passar por dentro do meu
povo, e dali tomará Vossa Mercê a derrota de Cartagena, onde
com favor de Deus se poderá embarcar. Se o vento for de
feição, o mar sossegado e sem temporais, em pouco menos de
nove anos se poderá estar à vista da grande lagoa Meona, digo
Meótis, que fica um pouco mais de cem jornadas para cá do
reino de Vossa Grandeza.
- Vossa Mercê está enganado Senhor meu - disse ela -, porque
não há dois anos que eu de lá parti; e em verdade que nunca
tive bom tempo, e contudo isso já cheguei a ver quem tanto
desejava, que é o Sr. D. Quixote de Ia Mancha, cujas novas me
encheram os ouvidos logo que pus pés em Espanha; e foram elas
as que me decidiram a procurá-lo para me encomendar à sua
cortesia, e fiar a minha justiça do valor do seu invencível
braço.
- Basta de louvores - disse D. Quixote -; sou inimigo de todo
o género de adulações; e ainda que esta agora o não seja,
sempre ofendem os meus ouvidos semelhantes práticas. O que eu
sei dizer-vos Senhora minha, é que, tenha eu valor ou não, o
que tiver, ou não tiver, todo o hei-de empregar em vosso
serviço até perder a vida; e assim, deixando isso para seu
tempo,
277
MIGUEL DE CERVANTES
rogo ao Senhor Licenciado me diga: que o obrigou a vir a
estas terras, tão só, sem criados, e tanto à ligeira, que me
causa admiração?
- Em poucas palavras o satisfarei a Vossa Mercê - respondeu o
cura. - Eu e o mestre Nicolau, nosso amigo e nosso barbeiro,
íamos a Sevilha, a cobrarmos certo dinheiro remetido por um
parente meu, que se passou às índias há já anos (e não tão
pouco que náo excedesse de mil pesos e tocadinhos, que vale o
dobro). Passando ontem por estes lugares, saíram-nos ao
encontro quatro salteadores, e nos tiraram até as barbas. Foi
tanto, que até o barbeiro não teve remédio senão pôr umas
postiças; e até a este mancebo que vem connosco (apontando
Cardénio) o puseram como se nunca as tivesse tido. O bonito é
que por todos estes contornos é fama pública serem os tais
ladrões uns forçados das galés, que, segundo se diz, foram
libertados quase neste mesmo sítio por um homem tão valente,
que a despeito do comissário e dos guardas os soltou a todos.
Não há dúvida, que era doido, ou então tão patife como eles,
homem sem alma nem consciência. Pois aquilo no foi soltar o
lobo entre as ovelhas? A raposa entre as galinhas? A mosca no
mel? Quis defraudar a justiça, ir contra o seu rei e senhor
natural, pois foi contra os seus justos preceitos. Quis tirar
às galés os pés com que elas andam, pôr em rebuliço a Santa
Irmandade, que havia muitos anos estava em descanso; quis,
finalmente, consumar um feito, por onde a sua alma se perde,
e o corpo se lhe não ganha.
Sancho é que tinha contado ao cura e ao barbeiro a aventura
dos galeotes, que o amo levara a cabo com tanta glória; e por
isso o cura ao recontá-la lhe carregava tanto a mão, para ver
o que faria ou diria D. Quixote, a quem, a cada palavra, se
mudavam as cores, sem se atrever a dizer que fora ele próprio
o libertador daquela boa gente.
- Ora aqui tem Vossa Mercê quem nos roubou - disse o cura. -
Deus por sua misericórdia não tome contas a quem os não
deixou levar o devido castigo!
278
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
CAPÍTULO XXX
QUE TRATA DA DISCRIÇO DA ORMOSA DOROTEIA,
COM OUTRAS COISAS DE MUITO SABOR E PASSATEMPO
Mal tinha acabado o cura, quando Sancho disse:
- Pois afirmo-lhe eu Senhor Licenciado, que o fazedor dessa
façanha foi meu amo; e olhe que no foi por lhe eu não dizer a
tempo, que reparasse no que fazia, e que era pecado soltálos,
porque todos iam ali por grandíssimos tratantes.
- Ó idiota! - exclamou aqui D. Quixote. - Aos cavaleiros
andantes não pertence averiguar se os afligidos,
acorrentados, e opressos, que se encontram pelas estradas,
vão daquela maneira por suas culpas, ou por serem
desgraçados; só lhes toca ajudá-los como necessitados que
são, considerando-lhes as penas, e não as tratantadas.
Encontro uma enfiada, um rosário de gente mofina; fiz nela o
que a minha religião pedia, e saísse o que saísse; e a quem o
desaprova (sem faltar ao respeito que devo ao Senhor
Licenciado e à sua honrada pessoa) digo que sabe pouco dos
contratempos da cavalaria, e que mente como um biltre e
malcriado, e eu lho farei conhecer com a minha espada, mais
comprida e inteiramente.
Estas palavras já as proferiu firmando-se nos estribos, e
ajustando o morrião, porque a bacia de barbeiro, que pelas
suas contas era o elmo de Mambrino, levava-a pendurada do
arção dianteiro, para a mandar correger do mau tratamento que
lhe deram os galeotes.
Doroteia, que era discreta e lépida, sabedora já da aduela de
menos de D. Quixote, e de que todos, afora Sancho Pança,
judiavam com ele, não quis ficar atrás, e, vendo-o tão
enojado, lhe disse:
- Senhor Cavaleiro, recorde-se do que me prometeu; olhe que
não pode intrometer-se em aventura nenhuma, por urgente que
seja; serene-se, que, se ao Senhor Licenciado soubera, que o
libertador dos galeotes fora esse braço invencível, daria
três pontos na boca, e até mordera três vezes a língua, antes
de ter dito palavra que redundasse em desdoiro de Vossa
Mercê.
279
MIGEL DE CERVANTES
- Posso-lho jurar - disse o cura - era mais fácil deixar
cortar o bigode.
- Já me calo Senhora minha - disse D. Quixote -, e reprimo a
justa cólera que me ia abrasando e irei no meu sossego, até
ter cumprido o que vos prometi. Agora em paga suplico-vos eu
me digais, se vos não dá incómodo, qual é a vossa mágoa, e
quantas, quem, e quais são as pessoas de quem vos hei-de dar
devida e inteira vingança.
- De muita boa vontade - respondeu Doroteia - se porventura
vos não enfada ouvir lamentos e desgraças.
- Não enfada - respondeu D. Quixote -, não enfada Senhora
minha.
- Sendo assim - disse Doroteia - estejam Vossas Mercês
atentos.
A estas palavras, logo Cardénio e o barbeiro se lhe puseram
ao lado, cobiçosos de ver como da sua história se saía a
espertíssima donzela; e o mesmo fez Sancho, que não ia ali
menos enganado que o amo. E ela, depois de se ter muito bem
ajeitado na sela, preparando-se com tossir, e outras
semelhantes cerimónias, com muito chiste encetou assim a sua
narrativa:
- Primeiramente quero que Vossas Mercês saibam Senhores meus,
que a mim me chamam...
Aqui deteve-se um pouco, por se lhe ter varrido o nome que
lhe pusera o cura. Este porém lhe acudiu no encalhe, dizendo:
- Não é maravilha Senhora minha, que Vossa Grandeza se
perturbe no referir as suas desventuras; é próprio delas o
tirarem muitas vezes a memória a quem as padece, a ponto de
nem dos seus próprios nomes se lembrarem; é o que neste
instante sucedeu a Vossa Grã-Senhoria, pois não lhe lembra,
que se chama a Senhora Princesa Micomicadela, herdeira
legítima do grande reino Micomicão. Agora que já lhe fica
apontado o caminho, pode Vossa Grandeza seguir sem empacho o
que lhe aprouver dizer-nos.
- Sim, senhor - disse a donzela -, creio que daqui em diante
já não será necessário recordar-me nada; espero chegar a
porto de salvamento com a minha verdadeira história. Ora
pois:
El-rei, meu pai, que se chamava Tinácrio, o Sábio, foi muito
280
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
douto nisto que chamam arte mágica, e alcançou pela sua
ciência, que minha mãe, que se chamava a rainha Charamela,
havia de morrer primeiro que ele, mas que ele também dali a
pouco tempo havia de passar desta a melhor vida, ficando eu
órfã de pai e mãe. Dizia ele, porém, que menos o consumia
isso, do que o atormentava saber por coisa muito certa, que
um descomunal gigante, senhor de uma grande ilha, que quase
confronta com o nosso reino, chamado Pandafilando da Vista
Fusca (porque há toda a certeza de que, apesar de ter os
olhos no seu lugar, e direitos, sempre olha de revés como se
fora vesgo, o que ele faz por mau, e para meter medo e
espanto à gente)... Sim; repito, que meu pai soube, que o tal
gigante, logo que lhe constasse a minha orfandade, havia de
passar com grande quantia de gente sobre o meu reino, e
tirar-mo todo, sem me deixar nem uma aldeia para me eu
recolher, porém que todas estas inclemências se poderiam
evitar, prontificando-me eu a casar com ele; mas que, segundo
ele meu pai entendia, nunca eu estaria por tão desigual
casamento. Neste particular foi bem profeta, porque nunca
jamais pela ideia me passou casar-me com o tal gigante, nem
com outro qualquer, fosse quem fosse. Mais disse meu pai e
senhor, que, se depois da sua morte eu visse que Pandafilando
começava a entrar pelo meu reino, não perdesse tempo em
preparos para me defender, que seria arruinar-me de todo, mas
que espontaneamente lhe despejasse a terra, se queria escapar
à morte, e à destruição total dos meus bens e fiéis vassalos,
porque não havia de ser possível defender-me da endiabrada
força do gigante, mas que tomasse logo com alguns dos meus
caminhos de Espanha, onde acharia remédio a meus males na
pessoa de um cavaleiro andante, cuja fama a esse tempo
encheria já todo o reino, e o qual se havia de chamar (se bem
me lembra) D. Azote, ou D. Gigote...
- Talvez dissesse D. Quixote - interrompeu Sancho Pança - ou
por outro nome, o Cavaleiro da Triste Figura.
- É verdade - disse Doroteia - e ajuntou que esse tal
cavaleiro seria alto de corpo, seco de rosto, e que, no lado
direito, debaixo do ombro esquerdo, ou por ali perto, havia
de ter um sinal pardo com certos cabelos à maneira de sedas
de porco.
281
MIGEL DE CERVANTES
Ouvindo aquilo, disse D. Quixote ao escudeiro:
- Sancho, fílho, acode cá; ajuda-me a despir, que preciso ver
se náo sou o cavaleiro que aquele tão sábio monarca deixou
profetizado.
- Para que se quer Vossa Mercê despir? - disse Doroteia.
- Para ver se tenho o sinal indicado por vosso pai -
respondeu D. Quixote.
- Não é preciso que se dispa - acudiu Sancho -, que eu sei,
que Vossa Mercê tem um sinal assim tal qual no meio do
espinhaço, prova de ser homem esforçado.
- Então basta isso - disse Doroteia -; com os amigos não se
cortam as unhas rentes; que seja no ombro, ou que seja no
espinhaço, vem a dar na mesma. O caso é que haja o sinal,
esteja onde estiver, pois é tudo a mesma carne. Meu pai
acertou em tudo, e eu também acertei em me encomendar ao Sr.
D. Quixote, que este é o que meu pai disse. Os sinais do
rosto concordam com os da boa fama que este cavaleiro tem,
não só em Espanha, mas até em toda a Mancha; tanto assim, que
apenas eu desembarquei em Ossuna, logo ouvi contar dele
tantas façanhas, que me deu o coração uma pancada de que era
o mesmo que eu vinha a buscar.
- Como desembarcou Vossa Mercê em Ossuna, Senhora minha -
perguntou D. Quixote -, se não é porto de mar? Apressou-se o
cura antes que Doroteia respondesse, e disse:
- Naturalmente quererá dizer a Senhora Princesa, que, depois
que desembarcou em Malaga, a primeira parte em que achou
novas de Vossa Mercê foi em Ossuna.
- É isso mesmo - disse Doroteia.
- E diz muito bem - acrescentou logo o cura - mas queira
Vossa Majestade prosseguir.
- Prosseguir o quê? - replicou ela. - Não há mais nada para
diante. Tão boa foi a minha sorte em achar ao Sr. D. Quixote,
que já me conto por soberana senhora de todo o meu reino
depois que ele, por sua cortesia e magnificência, me prometeu
a mercê de vir comigo aonde quer que eu o leve, que não será
a outra parte senão a pô-lo diante de Pandafilando da Vista
Fusca, para dar cabo dele, e restituir-me o que tão contra-
282
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
-razão me tem usurpado. Tudo isto se há-de realizar tal qual
que assim o deixou prognosticado Tinácrio, o Sábio, meu bom
pai, o qual também deixou dito em letras caldaicas ou gregas
(que eu por mim não as sei ler) que se este cavaleiro da
profecia, depois de ter degolado o gigante, quisesse casar
comigo, eu me entregasse logo sem réplica alguma por sua
legítima esposa, e lhe desse no mesmo acto a posse do meu
reino e da minha pessoa.
- Que te parece, Sancho amigo? - disse a este ponto D.
Quixote. - Não ouves isto? Não to dizia eu? Vê se temos ou
não temos já, reino que governar, e rainha com quem casar?
- Isso juro eu - respondeu Sancho -; só algum tolo é que não
iria logo cortar o gasganete ao Sr. Pandafilado para casar
muito depressa com a Senhora Princesa. Olha que peste! Assim
fossem as pulgas da minha cama.
Com estas palavras deu dois pinchos no ar em demonstração de
gáudio, passou logo a tomar as rédeas à mula de Doroteia,
fazendo-lha parar, lançou-se de joelhos perante ela,
suplicando-lhe que lhe desse as mãos para lhas beijar, em
sinal de que a recebia por soberana e senhora sua. Quem
haveria ali que pudesse ficar sério diante da loucura do amo,
e da simpleza do servo?
Deu-lhe com efeito as mãos Doroteia, e lhe prometeu fazê-
-lo grande do seu reino, logo que o Céu lhe fosse tão
propício, que lho deixasse recobrar e gozar.
Agradeceu-lhe Sancho tudo aquilo em termos tais, que em todos
renovou a gargalhada.
- Aqui está, meus Senhores - prosseguiu Doroteia -, a minha
história; só me falta dizer-vos que de toda quanta gente do
meu reino trouxe não me ficou vivo senão unicamente este
barbadão escudeiro; tudo o mais se afogou num grande temporal
que tivemos à vista do porto; ele e eu viemos em duas tábuas
a terra como por milagre, que milagre de grande mistério tem
sido o decurso de minha vida, como já tereis notado; e se
nalgum ponto andei sobeja ou curta de mais na minha
narrativa, queixai-vos do que logo ao princípio da minha fala
ponderou o Senhor Licenciado: que os trabalhos contínuos e
extraordinários desarranjam as ideias a quem os padece.
283
MIGUEL DE CERVANTES
- Tal me não há-de suceder a mim, alta e valorosa senhora -
disse D. Quixote -, por maiores trabalhos que eu passe em vos
servir. Confirmo, pois, o que já vos prometi, e juro
acompanhar-vos ao cabo do mundo, até me ver com o vosso cruel
inimigo, a quem tenciono, com ajuda de Deus e do meu braço,
decepar a cabeça soberba com os fios desta... não, quero
dizer boa espada, graças a Ginez de Passa-Monte que me levou
a minha (isto remordeu-o entre os dentes) - e prosseguiu -:
depois de lha ter decepado, e ter-vos sentado a vs na
pacífica posse dos vossos estados, ficará a vosso arbítrio
fazer da vossa pessoa o que mais vos apeteça, pois, enquanto
eu tiver ocupado a memória, cativa a vontade, e perdido o
entendimento por aquela... e não digo mais, não é possível
que eu nem por pensamentos me arroste com a ideia de
matrimoniar-me, nem que fosse com a ave Fénix.
Este encarecimento de não querer casar se destoou tanto a
Sancho, como despropósito, que levantou de agastado a voz
dizendo:
- Juro e rejuro, por vida minha, que não tem Vossa Mercê Sr.
D. Quixote, o juízo inteiro. Pois como é possível pôr Vossa
Mercê em dúvida casar-se com tão alta princesa como esta?
Pensa que a fortuna lhe há-de oferecer a cada canto uns
acertos como este? É porventura mais formosa a minha Sr.
Dulcineia? Está na tinta; nem para lá caminha; estou até em
dizer que nem chega aos calcanhares da que presente se acha.
Assim lá se me vai pêlos ares o meu condado, se Vossa Mercê
ateima a esperar hortaliça de sequeiro, ou apojadura de cabra
velha. Case, case logo, ou que o leve o Diabo, e aceite esse
reino que por si se lhe está metendo nas mãos; e, em sendo
rei, faça-me a mim marquês ou adiantado; tudo mais que o leve
o Diabo, se quiser.
D. Quixote, que tais blasfémias ouviu proferir contra a sua
Sr.8 Dulcineia, não o pôde levar à paciência; e, levantando a
chuça, sem proferir chuz nem luz, nem «guarda de baixo»,
apresentou duas bordoadas em Sancho que pregou com ele em
terra; e, se não fora o começar Doroteia a gritar que lhe não
desse mas, sem dúvida lhe acabaria ali a vida.
284
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Pensais, vilão ruim - lhe disse passado pouco -, que hei-de
estar sempre para vos aturar, e que tudo há-de ser tu a
despropositares, e eu a perdoar-te? Pois não o cuides, maroto
excomungado, que o és sem dúvida nenhuma, pois te atreveste a
pôr língua na sem par Dulcineia. Não sabeis vós, mariola,
biltre, que, se não fosse pelo valor que ela infunde no meu
braço, eu por mim nem matava uma pulga? Dizei-me, socarrão de
língua viperina, quem julgais que foi o conquistador deste
reino, e o que decepou a cabeça deste gigante, e vos fe a vs
marquês (que tudo sto o dou eu já como feito e processo
findo), se não é o valor de Dulcineia, fazendo de meu braço
instrumento de suas façanhas? Ela peleja em mim, e vence em
mim;
eu vivo e respiro nela; nela tenho vida e ser. Filho da mãe,
grande velhaco, como sois desagradecido que vos vedes
levantado do pó da terra, até senhor de um título, e a tão
boa obra correspondeis em dizer mal de quem vo-la fez!
Não estava Sancho tão mortal que não ouvisse o que o amo lhe
dizia; levantando-se com certa presteza, foi pôr-se por trás
do palafrém de Doroteia, e dali respondeu:
- Diga-me, Senhor; se Vossa Mercê está de pedra e cal em não
casar com esta grande princesa, claro está que o reino dela
não há-de ser seu; não o sendo, que mercês me pode então
fazer? Aqui está de que eu me queixo. Case-se Vossa Mercê aos
olhos fechados com esta rainha que para aí nos choveu do Céu,
depois, se quiser, pode-se amantilhar com a minha Sr.
Dulcineia;
reis amancebados não devem ter faltado neste mundo. Lá nisso
da formosura não me intrometo, que, a dizer a verdade, ambas
me parecem bem, ainda que eu a Sr. Dulcineia nunca a vi.
- Como nunca a viste, traidor blasfemo? - vociferou D.
Quixote. - Pois não acabas agora mesmo de me trazer um recado
da sua parte?
- O que eu digo é - respondeu Sancho - que a não vi tanto à
minha vontade, que pudesse afirmar-me bem na sua formosura,
ponto por ponto; mas assim no todo e em bruto, como diz o
outro, pareceu-me bem.
- Agora te desculpo; perdoa-me o enfado que te dei, que os
primeiros movimentos não estão na mão da gente.
285
MIGEL DE CERVANTES
- Bem sei - respondeu Sancho - e em mim a vontade de falar é
sempre o primeiro movimento; o que me vem à boca não posso
deixar de o dizer, ao menos uma vez.
- Com tudo isso, Sancho - disse D. Quixote -, repara bem como
falas, porque tantas vezes vai o cântaro à fonte... e no te
digo mais nada.
- Pois bem - respondeu Sancho. - Deus lá está em cima, e vê
as coisas; Ele é que sabe quem faz mal, se eu em não falar
bem, ou Vossa Mercê em o obrar ao revés.
- Basta já - disse Doroteia -; correi Sancho, e beijai a mão
a vosso amo, pedi-lhe perdão, e daqui para diante tende mais
tento em vossos louvores e vitupérios e não digais mal dessa
Sr. Tobosa, a quem eu não conheço senão para a servir, e
tende esperança em Deus que não nos há-de faltar um estado em
que vivais como um pncipe.
Sancho lá foi cabisbaixo pedir a mão ao amo, que lha deu com
serena gravidade, deitando-lhe, aps o beija-mão, a sua
bênção. Depois disse-lhe que se desviasse com ele um pouco,
porque tinham de tratar coisas de muita importância.
Adiantaram-se ambos, e disse o fidalgo:
- Desde que vieste, não tive ainda azo de te perguntar muitas
particularidades acerca da embaixada que levaste, e das
respostas que trouxeste; agora que a fortuna nos depara folga
não me negues o gosto que me podes causar com tão boas novas.
- Pergunte Vossa Mercê o que lhe parecer - respondeu Sancho -
; darei a tudo tão boa saída, como foi boa a entrada que
tive. O que lhe peço Senhor meu, é que daqui em diante não
seja tão vingativo.
- Porque dizes isso, Sancho? - perguntou D. Quixote.
- Digo isto - respondeu ele - porque estas bordoadas agora
foram mais pela pendência que entre os dois travou o Diabo na
outra noite, do que pelo que eu disse contra a minha Sr.8
Ducineia, a quem venero e amo como se fora relíquia, só em
razão de ela ser coisa de Vossa Mercê.
- Não tornes a essas coisas, por vida tua - disse D. Quixote
-, qe me afligem; da outra vez perdoei-to, e bem sabes o que
se costuma dizer: «pecado novo, penitência nova.»
286
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Nisto iam, quando viram pelo seu caminho vir para eles um
homem num jumento; aproximando-se mais, deu-lhes ares de
cigano. Porém Sancho Pança que onde quer que via asno se lhe
iam atrás dele os olhos e a alma, tanto como avistou o homem,
conheceu logo ser Ginez de Passa-Monte; e de ele o ser
inferiu logo que a cavalgadura era o seu ruço. Era com efeito
o ruço com o Passa-Monte às costas, o qual, para não ser
conhecido e vender o asno, vinha entrajado à cigana; o falar
a essa moda sabia ele, e muitas outras línguas, tão bem como
a sua própria. Mal que Sancho o reconheceu, começou a grandes
vozes:
- Ah! ladrão Ginezilho, larga a minha jóia, restitui-me a
minha vida, não te deites a perder com o meu alívio, larga o
meu burro, larga o meu consolo, põe-te a pé, sevandija,
retira-
-te, ladrão, e deixa o que te não pertence!
Nem tantas palavras e injúrias eram necessárias; logo à
primeira saltou Ginez, e, tomando um trote que mais parecia
carreira, num momento desapareceu. Saltou Sancho aos abraços
ao animal, dizendo:
- Como tens passado, meu bem, menina dos meus olhos, meu
ruço, meu companheiro fiel?
Beijava-o e acariciava-o como se fora gente. O asno deixava-
-se beijar e acarinhar, sem responder meia palavra.
Aproximaram-se todos, dando ao pobre homem os parabéns de ter
achado o seu ruço, especialmente D. Quixote. Este disse-lhe,
que nem por isso anulava a ordem dos três burricos, o que
Sancho muito agradeceu.
Enquanto os dois iam adiante nestas conversas, disse o cura a
Doroteia que tinha andado com grande tino, tanto na invenção
do conto, como na brevidade dele, e na semelhança que teve
com os dos livros de cavalaria. Ao que ela respondeu, que
muitas horas se havia entretido a lê-los; o que não sabia bem
era onde ficavam as províncias e portos de mar; por isso
tinha dito à toa que havia desembarcado em Ossuna.
- Bem percebi - volveu o cura - e por isso acudi logo a
deitar aquele remendo; com o que tudo ficou uma maravilha.
Mas não acha extraordinária a facilidade com que este
desventurado fidalgo acredita em toda aquela mentirada, só
MIGUEL DE CERVANTES
por se conformar no estilo e jeito com as tolices dos seus
alfarrábios?
- É verdade - disse Cardénio - e tão rara, senão única, que
eu por num não sei se, querendo inventá-la, teria talento
para tanto.
- Ora coisa tem ele - disse o cura - que não admira menos:
para fora das nescidades, que nunca se lhe acabam no tocante
à sua mania, se lhe falam noutras matérias discorre
perfeitamente, e mostra uma razão clara, que dá gosto. Não
lhe falem em cavalarias, que ninguém o terá senão por homem
de boa cabeça.
Enquanto iam nestas práticas, continuava também D. Quixote na
sua com Sancho, dizendo:
- Palavras e penas, Sancho amigo, o vento as leva. Conta-me
agora tu, sem medo a enfadamentos meus nem a rigor algum,
onde, como, e quando, achaste Dulcineia, que estava ela
fazendo, que lhe disseste, que te respondeu, com que cara leu
a minha carta, quem ta copiou, e tudo o mais que vires neste
caso ser digno de saber-se, sem acrescentares nem mentires
nada para me dares gosto, nem encurtares para comprazer-me.
- Pois, Senhor - respondeu Sancho -, verdade, verdade, a
carta ninguém ma copiou, porque eu tal carta não levei.
- E certo - acudiu D. Quixote - porque o livro de lembranças,
em que eu a escrevi, cá o achei em meu poder dois dias depois
da tua partida, o que me fez grandíssima pena, lembrando-me
como não ficarias às aranhas quando te visses sem ela; sempre
esperei que tomasses atrás logo que desses pela falta.
- Fazia-o decerto - respondeu Sancho - se não tivesse a carta
de memória, de quando Vossa Mercê ma leu; de maneira que a
disse a um sacristão, que ma trasladou do entendimento tão
pontualmente, que disse que em todos os dias da sua vida
(ainda que tinha lido muitas cartas de descomunhão) nunca
tinha lido uma lindeza como aquela.
- E ainda a tens de cor, Sancho? - perguntou D. Quixote.
- Não, senhor - respondeu Sancho -, porque, depois que a
entreguei, como vi que já não prestava para mais nada, dei em
me esquecer dela; e, se alguma coisa ainda me lembra, é só
288
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
aquele começo da Soterram, digo da Soberana Senhora, e o
final:
Vosso até à morte, o Cavaleiro da Triste Figura, e, entre
estas duas coisas do princípio e do fim, embuti-lhe mais de
trezentas vezes: minha alma, minha vida, e olhos meus.
CAPITULO XXXI
DAS SABOROSAS CONVERSAÇÕES QUE HOUVE ENTRE D. QUIXOTE
E O SEU ESCUDEIRO COM OUTROS SUCESSOS
- Nada disso me descontenta; podes continuar - disse D.
Quixote. - Chegaste, e que estava fazendo aquela rainha da
formosura? Aposto que a achaste a enfiar pérolas, ou bordando
alguma empresa com canotilho de ouro, para este seu cativo
cavaleiro.
- Qual! - respondeu Sancho. - Achei-a a joeirar duas fangas
de trigo num pátio da casa.
- Pois faz de conta - disse D. Quixote - que os gros desse
trigo eram aljôfares logo que ela lhes tocava. Reparaste,
amigo, se o trigo era candial ou tremês?
- Nada; era de umas alimpas - respondeu Sancho.
- Pois assevero-te - disse D. Quixote - que depois de
joeirado por ela havia de deitar farinha candial
infalivelmente. Mas passa adiante. Quando lhe deste a minha
carta beijou-a? Pô-la sobre a cabeça? Fez alguma cerimónia
digna de tal carta? Ou que fez?
- Quando eu lha ia entregar - respondeu Sancho - estava ela
na azáfama de aviar uma joeirada quase cheia; por isso,
disse-me: «Ponde meu amigo, a carta para riba daquele saco,
que não a posso ler enquanto não acabar de joeirar tudo o que
para aí está.»
- Que discreta senhora! - disse D. Quixote. - Havia de ser
para a ler com mais sossego e regalar-se. Adiante, Sancho. E,
enquanto estava nesse serviço, quais foram os seus colóquios
contigo? Que te perguntou de mim? E tu que lhe respondeste?
289
MIGUEL DE CERVANTES
Acaba, conta-me tudo, não te fique no tinteiro nem um
pontinho.
- Não me perguntou nada - disse Sancho -, eu é que lhe disse
como Vossa Mercê ficava para a servir, fazendo penitência, e
nu da cinta para cima, metido entre estas serras como um
selvagem, dormindo no chão, sem comer pão em toalhas, sem
pentear as barbas, chorando e maldizendo a sua fortuna.
- Lá nisso de eu maldizer a minha fortuna, enganaste-te -
disse D. Quixote -; antes a bendigo, e bendirei todos os dias
da minha vida, por me ter feito digno de merecer amar tão
alta senhora como é Dulcineia dei Toboso.
- Tão alta é - respondeu Sancho - que é verdade que tem de
altura um punho mais do que eu.
- Como é isso, Sancho? - disse D. Quixote. - Pois tu medistete
com ela?
- Medi, sim, senhor - respondeu Sancho -, quer saber como?
Acheguei-me para ajudá-la a pôr um saco de trigo sobre um
jumento; estávamos tão juntos, que reparei que me levava um
bom palmo.
- É bem verdade - replicou D. Quixote - e toda essa grandeza
é acompanhada com mil milhões de graças da alma. Uma coisa me
não podes tu negar, Sancho: quando chegaste ao pé dela, não
sentiste um cheiro sabeu, uma fragrância aromática, e um não
sei quê de bom, que não acerto em lhe dar nome, digo uma
baforada como se entraras na loja de um luveiro dos mais
esmerados?
- O que sei dizer - respondeu Sancho - é que senti um
cheirito assim... tirante a homem, provavelmente por estar
suando e esquentada da lida.
- Não havia de ser isso - respondeu D. Quixote -, é que
estarias endefluxado, ou então tomaste por cheiro dela o teu
próprio, que o cheiro que tem aquela rosa entre espinhos seio
eu muito bem, aquele lírio do campo, aquele âmbar
derretido.
- Pode muito bem ser - respondeu Sancho -, que muitas vezes
sai de mim aquele mesmo cheiro, que então me pareceu que saía
de Sua Mercê a Sr. Dulcineia. Não admira, que um diabo se
pareça com outro.
290
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Bem está - prosseguiu D. Quixote. - E, depois de joeirado
todo o trigo, e mandado para o moinho, que fez quando leu a
carta?
- A carta não a leu - respondeu Sancho - porque disse que não
sabia ler nem escrever; rasgou-a em migalhinhas, dizendo que
não a queria dar a ler a ninguém, para não se saberem no
lugar os seus segredos, e que bastava o que eu lhe tinha dito
de palavra acerca do amor que Vossa Mercê lhe tinha, e da
penitência extraordinária que ficava fazendo por seu
respeito;
finalmente, disse-me que lhe dissesse eu a Vossa Mercê que
ela lhe beijava as mãos, e que lá ficava com mais desejos de
vê-lo, que de escrever-lhe; e que assim lhe suplicava, e
mandava que, vista a presente, saísse daqueles matagais, e se
deixasse de fazer descocos e se pusesse logo logo a caminho
para Toboso, se não tivesse outra coisa de mais importância
que fazer, porque tinha grande desejo de o ver a Vossa Mercê.
Riu como uma perdida quando eu lhe disse o nome que Vossa
Mercê tinha de Cavaleiro da Triste igura. Perguntei-lhe se
tinha lá ido o biscainho do outro dia; disse-me que sim, e
que era um homem muito de bem. Também lhe perguntei pêlos
forçados, mas desses respondeu-me que ainda não tinha visto
nenhum.
- Tudo vai muito bem até agora - disse D. Quixote - mas dizme
cá: à despedida que prenda te deu pelas novas que de num
lhe levaste, pois é costume velho entre cavaleiros e damas
andantes darem aos escudeiros, donzelas ou anões, que lhes
levam recados de suas damas a eles, e a elas dos seus
cavaleiros, alguma rica jóia de alvíssaras em agradecimento
da mensagem?
- Assim seria - respondeu Sancho - bem bom costume que ele me
parece, mas isso havia de ser lá nos tempos passados; hoje
naturalmente não se costuma dar senão um pedaço de pão e
queijo; foi o que me deu a minha Sr. Dulcineia por cima do
espigão do muro do pátio, quando me despedi dela; e para mais
sinal, o queijo era de ovelha.
- É liberal em extremo - disse D. Quixote - e se te não deu
jóia de ouro, havia de ser sem dúvida pela não ter ali à mão;
mas o que se não faz em dia de Santa Maria far-se-á nou-
MIGUEL DE CERVANTES
tro dia; quando eu a vir, se arranjarão as contas. Sabes tu
de que eu estou maravilhado, Sancho? É de me parecer que
foste e vieste pêlos ares, porque pouco mais de três dias
gastaste em ir a Toboso e voltar, havendo de permeio o melhor
de trinta léguas; pelo que entendo que o sábio nigromante que
tem conta nas minhas coisas e é meu amigo (porque por força o
há, e deve haver, sob pena de não ser eu bom cavaleiro
andante), deve ter-te ajudado a caminhar sem tu o saberes,
pois há sábios destes que tomam a um cavaleiro andante na sua
cama, e, sem se saber como, o amanhecem ao outro dia a mais
de mil léguas de onde anoiteceu. Se assim não fosse, não
poderiam os cavaleiros andantes nos seus perigos acudir uns
pêlos outros, como a cada passo acodem. Sucede, por exemplo,
estar um pelejando nas serras de Arménia com algum gigante
anguípede, ou com outro cavaleiro; leva o pior da batalha, e
está já para morrer; e, quando mal se precata, assoma-lhe de
além, sobre uma nuvem ou um carro de fogo, outro cavaleiro
amigo seu, que pouco antes se achava em Inglaterra, que o
ajuda e o livra da morte, e à noite se acha em sua casa
ceando muito regaladamente, em haver entre aquelas partes
duas ou três mil léguas; e tudo isto se faz por indústria e
sabedoria destes sábios encantadores, que protegem estes
valorosos cavaleiros. Portanto, amigo Sancho, não me custa a
crer que em tão breve tempo fosses daqui a Toboso, e de
Toboso tornasses cá: algum sábio amigo te levou em bolandas
sem tu o sentires.
- Assim havia de ser - disse Sancho - porque à fé de quem sou
que andava Rocinante como se fora asno de cigano com azougue
nos ouvidos.
- Azougue, e uma legião de demónios, que isso é gente que
para andar e fazer andar quanto lhes parece não admite
companhia. Mas, deixando isto, que te parece a ti que eu devo
fazer agora, determinando-me a minha senhora que a vá ver?
Bem vejo que estou obrigado a cumprir o seu preceito; mas não
menos me corre obrigação de satisfazer ao que prometi à
princesa que aí vem connosco. A lei da cavalaria me obriga a
satisfazer à minha palavra, antes que ao meu gosto. Por uma
parte, estou morrendo por ver a minha senhora; pela outra,
está por
292
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
mim bradando a glória que hei-de alcançar nesta nova empresa
e a solene promessa que já fiz. O que tenciono fazer é
caminhar depressa, e chegar cedo onde está este gigante,
usurpador do reino de Micomicâo, cortar-lhe logo a cabeça, e
pôr a princesa pacificamente no seu trono; e sem perda de
tempo eu retrocederei para ir ver a luz que os meus sentidos
alumia. Tais desculpas lhe darei, que me há-de aprovar a
tardança, pois verá que tudo redunda em aumento da sua fama,
porque toda a que eu tenho alcançado, alcanço, e alcançarei
pelas armas em toda a vida, só me provém do favor que ela me
dá, e de eu lhe pertencer.
- Valha-me Deus! - disse Sancho. - Como Vossa Mercê está
aleijado desses cascos! Pois diga-me Senhor: pensa realmente
em fazer este caminho escusado, e deixar-se de aproveitar um
táo rico e esclarecido casamento como este, que lhe traz por
dote um reino, que em minha boa verdade já ouvi dizer que tem
mais de vinte mil léguas em redondo, que é abundantíssimo de
todas as coisas que são necessárias para a vida humana, e que
é maior que Portugal e Castela juntos? Cale-
-se, pelo amor de Deus, e tenha vergonha do que aí disse;
tome o meu conselho, e perdoe-me, e case-se logo no primeiro
lugar onde houver pároco; e, quando não, aí está o nosso
licenciado, que o fará como umas pratas. Repare Sua Mercê que
eu já tenho idade para dar conselhos, e que este que lhe
estou dando lhe vem ao pintar, e ao pedir por boca: mais vale
um pássaro na mão, que dois a voar; quem bem está e mal
escolhe, por mal que lhe venha não se anoje.
- Sancho, o conselho que me dás - respondeu D. Quixote
de que me case, bem percebo por que é: é para que eu seja rei
apenas matar o gigante, e possa fazer-te mercês, e dar-te o
prometido. Pois saberás que sem casar poderei cumprir-te os
desejos sem nenhuma dificuldade; antes de entrar à batalha,
hei-
-de pôr por cláusula que, saindo dela vencedor, ainda que me
eu não case, me hão-de dar uma parte do reino, podendo eu
cedê-la a quem muito bem quiser. Ora a quem queres tu que eu
a ceda, senão a ti?
- Isso está claro - respondeu Sancho -, mas olhe Vossa Mercê
se ma escolhe virada para o mar, porque assim... (supo-
293
MIGUEL DE CERVANTES
nhamos que a vivenda me não agrada) posso embarcar os meus
vassalos negros, para fazer deles o que já disse; e Vossa
Mercê não se lembre por agora de ir ver a minha Sr.
Dulcineia; vá primeiro matar o gigante, e tiremos daí o
sentido; este é que é negócio de muita honra, e proveito que
farte, segundo me bacoreja cá por dentro.
- Dizes muito bem, Sancho - obtemperou D. Quixote -, e sigo o
teu parecer: ir-me-ei com a princesa, primeiro que me veja
com Dulcineia. Cautela de não dizeres nada a ninguém, nem às
pessoas que vêm connosco; isto fica entre nós; Dulcineia é
tão recatada, que nem quer que lhe adivinhem os pensamentos.
Deus me livre de lhos eu descobrir, por num ou por outrem.
- Se isso é verdade - retorquiu Sancho -, para que determinou
Vossa Mercê a todos os seus vencidos, que se vão apre sentar
a ela? Tanto vale isso como assinar o seu nome com a
declaração de lhe querer bem, e de ser seu namorado; e, sendo
eles obrigados a fincar-se de joelhos na sua presença, e
dizer-
-lhe que vão da parte de Vossa Mercê a render-lhe obediência,
como se podem então encobrir os pensamentos de ambos?
- Que néscio e que simplório que és! - disse D. Quixote.
- Pois tu não vês que tudo isso redunda em sua maior
exaltação? Porque deves saber que, nestas nossas usanças de
cavalaria, é honra grande ter uma dama bastantes cavaleiros
andantes que a sirvam, sem que os pensamentos deles se
abalancem a mais do que unicamente servi-la só por ser ela
quem é, sem aguardarem outro prémo de seus muitos e bons
desejos senão o ela contentar-se de os aceitar por cavaleiros
seus.
- Essa coisa - disse Sancho - já eu ouvi em sermões: que se
há-de amar a Deus por si só, sem que nos mova a isso
esperança de glória, nem medo de castigo (ainda que eu O
quereria amar e servir por algum interesse, podendo ser).
- Valha-te o Diabo, meu rústico! - disse D. Quixote. - Fortes
discrições dizes tu às vezes! Pareces homem de estudos.
- Pois posso-lhe jurar que nem ler sei - respondeu Sancho.
Nisto, ouviram apupos de mestre Nicolau que os esperassem
porque desejavam deter-se um pouco a beber numa
294
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
fontainha que ali estava. Deteve-se D. Quixote co grande
satisfação de Sancho, que já estava cansado de enfiar
mentiras, e tinha medo de que o amo o apanhasse em algum
lapso, porque tudo o que ele sabia de Dulcineia era ser ela
uma lavradora de Toboso, mas nunca em dias de vida lhe pusera
os olhos.
Já então Cardénio tinha envergado o fato com que Doroteia
estava quando a princípio a encontraram; não era do melhor,
mas sempre era preferível aos andrajos. Apearam-se ao pé da
fonte, e, com o que o padre-cura trouxera da venda por
cautela, satisfizeram, ainda que não em cheio, a gana que
todos traziam. Enquanto manducavam acertou de passar por ali
um rapaz que ia de caminho, o qual, pondo-se a olhar com
muita atenção para todos os que estavam à beira da fonte,
assim como reconheceu D. Quixote, foi para ele, e, abraçandoo
pelas pernas, começou a fingir que chorava, dizendo:
- Ah, meu Senhor! Já Vossa Mercê me não conhece? Repare bem:
sou aquele rapaz André, que Vossa Mercê soltou da azinheira a
que estava preso.
Reconheceu-o D. Quixote, e, tomando-o pela mão, disse para
quantos ali eram:
- Para que Vossas Mercês vejam que importante coisa é haver
cavaleiros andantes no mundo, que desfaçam as injustiças e
agravos que nele fazem os insolentes e maus homens que por
ele se encontram, saibam que uns dias atrás, passando eu por
um bosque, ouvi uns gritos sentidíssimos, como de pessoa
afligida e necessitada. Acudi logo, levado da minha
obrigação, para a parte de onde se me figurou que vinham os
lamentos, e achei atado a uma azinheira este muchacho que aí
está; com o que muito folgo, pois me não deixará mentir.
Repito que estava atado ao tronco despido da cinta para cima,
e um vilão (que depois soube ser seu amo) a escalá-lo de
açoites com as rédeas de uma égua. Mal que o vi, pergunteilhe
a causa de tão cruel suplício. Respondeu-me o palerma que
o açoitava porque era seu criado, e que certos prejuízos que
lhe ocasionava mais provinham de ser rapinante do que tolo;
ao que este mesmo acudiu: «Não é verdade, açoita-me só por
lhe eu pedir a minha soldada.» O amo refilou não sei que
arengas e desculpas, que
295
MIGUEL DE CERVANTES
eu bem ouvi, mas que não admiti. Em suma: fiz que o soltasse,
e tomei juramento ao campónio de que o levaria consigo, e lhe
pagaria muito bem contado e recontado. Não é verdade tudo
isto, pequenito? Não notaste a autoridade com que lhe falei,
e com quanta humildade ele prometeu cumprir todas as minhas
ordens? Responde; não te atrapalhes nem tenhas medo; conta a
estes senhores tudo como foi para que se reconheça ser como
digo, proveitoso andarem pêlos caminhos cavaleiros andantes.
- Tudo que Vossa Mercê aí disse é muita verdade - respondeu o
muchacho -, mas o fim do negócio é que saiu às avessas do que
Vossa Mercê cuida.
- Como às avessas? - exclamou D. Quixote. - Então o vilanaz
não te pagou?
- No só me não pagou - respondeu o coitado - mas assim que
Vossa Mercê saiu do bosque e ficámos sós tornou a amarrar-me
na azinheira, e surrou-me outra vez com tantas correadas, que
fiquei um S. Bartolomeu esfolado, e a cada açoite que me dava
me dizia uma chufa para Vossa Mercê, com tanta graça, que, se
não fossem as dores, até eu me rira de o ouvir. A verdade é
que me pôs de modo que até agora tenho estado no hospital
curando-me do que então me fez o excomungado vilão. Toda a
culpa foi de Vossa Mercê, porque, se fosse seguindo o seu
caminho, e não se metesse onde não era chamado, e não se
importasse com coisas alheias, meu amo contentava-se com uma
ou duas dúzias de açoites, soltava-me logo, e pagava-me o que
me devia; mas, como Vossa Mercê o descompôs tão
desencabrestadamente, e lhe disse tantas brutalidades,
ferveu-lhe o sangue, e, como não pôde vingar-se em Vossa
Mercê, logo que nos viu sós descarregou em mim a trovoada de
modo que desconfio que já não tomo a ser gente em dias de
vida.
- O mau foi - disse D. Quixote - o cair eu em me ausentar
dali. Não me devia ir, enquanto te não visse pago; bem devia
eu saber, por longa experiência, que não há vilão que
desempenhe a palavra dada em não lhe fazendo conta. Mas não
te lembras, André, que eu lhe jurei (se te não pagasse)
tornar lá, e dar com ele, ainda que se escondesse na barriga
da baleia?
- É verdade - disse André -, mas não serviu de nada.
296
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Se não serviu, servirá! - disse D. Quixote. - E eu to vou
mostrar.
Levantou-se à pressa, e mandou a Sancho que enfreasse o
Rocinante, que estava pastando enquanto eles comiam.
Perguntou-lhe Doroteia que ia fazer. Respondeu ele que ir
buscar o vilão, castigá-lo, e fazê-lo pagar a André até ao
último maravedi, pesasse o que pesasse a quantos campnios
houvesse no universo. Ao que ela respondeu que tal não podia
fazer, conforme para com ela se obrigara; só depois de
acabada a sua empresa é que recobraria liberdade para
qualquer outra; que bem o sabia ele melhor que ninguém; que,
portanto, acalmasse o ímpeto até voltar do seu reino.
- Tem razão - respondeu D. Quixote. - André que tenha
paciência, e espere pela minha tornada, como vós Senhora,
dizeis, que outra vez lhe prometo e juro não descansar
enquanto o não vir vingado e pago.
- Bem caso faço eu dessas juras - disse André -; mais quisera
eu ter agora com que chegar a Sevilha, que todas as vinganças
do mundo. Dê-me, se aí tem, alguma coisita para comer e
levar, e fique-se com Deus Sua Mercê, e todos os cavaleiros
andantes; tão boas andanças tenham eles para si como a mim
mas deram.
Tirou Sancho de seu fardel um toco de pão e um pedaço de
queijo, e, dando-o ao rapaz, lhe disse:
- Toma, irmão André, a tua desgraça toca-nos a todos.
- A vós outros, como? - perguntou André.
- Este pão e queijo que vos dou Deus sabe se nos não há-de
fazer falta - respondeu Sancho. - Sabereis, amigo, que nós
outros, os escudeiros dos cavaleiros andantes, andamos
expostos a muitas omes, além de outras desgraças e coisas que
melhor se sentem do que se explicam.
O André agarrou no seu pão e queijo e, vendo que ninguém lhe
dava mais nada, abaixou a cabeça, e meteu pernas ao potro,
como se costuma dizer. Verdade é que ao partir sempre disse a
D. Quixote:
- Se me tornar a encontrar Senhor Cavaleiro Andante, ainda
que veja que me estão fazendo pedaços, por amor de Deus
297
MIGUEL DE CERVANTES
não me acuda, deixe-me com a minha desgraça, que nunca ela
será tanta, como a que poderia acarretar o socorro de Vossa
Mercê, a quem Nosso Senhor maldiga e a todos quantos
cavaleiros andantes tiverem nascido neste mundo.
Ia-se levantar D. Quixote para lhe dar ensino; mas ele
desatou a correr, de modo que ninguém se animou a segui-lo.
Com os ditos de André ficou D. Quixote corridíssimo; e, para
o não ficar de todo, necessário foi que os mais tivessem sumo
tento em se não rir.
CAPÍTULO XXXII
QUE TRATA DO QUE NA VENDA SUCEDEU A TODO O RANCHO DE D.
QUIXOTE
Concluída a bela refeição, encilharam logo, e, no dia
seguinte, sem lhes ter pelo caminho sucedido coisa digna de
contar-
-se, chegaram à venda, espanto e enguiço de Sancho Pança.
Este não queria nem à mão de Deus Padre pôr lá os pés, mas
não teve outro remédio.
A vendeira, o vendeiro, a filha, e Maritornes, que viram
chegar D. Quixote e Sancho, saíram a recebê-los com mostras
de muita alegria, mostras essas que o fidalgo recebeu com o
seu ar grave e majestoso, recomendando-lhes logo que lhe
arranjassem melhor cama que da vez passada; ao que a
hospedeira respondeu que, se lhe pagasse melhor que da outra
vez, ela lhe daria uma jazida, que nem de pncipe.
D. Quixote disse que assim o faria; pelo que lhe armaram um
sofrível leito no mesmo quarto que já conhecemos. Deitou-
-se logo o fidalgo, porque vinha muito moído, e morto de
sono. Mal se tinha encerrado, quando a vendeira arremeteu ao
barbeiro, e, agarrando-o pela barba, disse:
- Juro-lhe pela minha cruz benta que nunca mais se há-de
servir do meu rabo para lhe fazer de barba. Ponha-me para aí
já a rabada, que anda aí pelo chão o pente do meu homem, que
é uma vergonha, sem eu ter onde o costumava espetar.
298
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Não lha queria dar o barbeiro, por mais que ela lha puxasse,
mas pôs termo à porfia o licenciado, dizendo ao mestre que
entregasse a cauda, que já não era precisa, e se mostrasse no
seu verdadeiro ser; que dissesse a D. Quixote, que, quando os
ladrões das galés o tinham despojado, viera ele fugido para
aquela venda; e se ele perguntasse pelo escudeiro da
princesa, lhe responderiam tê-lo ela enviado adiante a dar
aviso à gente do seu reino, de que ela ia já a caminho,
levando consigo quem a todos os libertava.
Com estas explicações entregou o barbeiro de boa vontade à
vendeira o rabo de boi, e ao mesmo tempo lhe foram também
restituídos todos os mais adminículos que ela lhe havia
emprestado para o auto da libertação de D. Quixote. Todos os
da venda se maravilharam da formosura de Dona Doroteia, e não
menos da boa presença do pastor Cardénio. Mandou o cura que
lhes arranjassem para comer o que na venda houvesse; o
vendeiro, com a esperança de melhor paga, lhes aparelhou
aguçoso um repasto não de todo displicente. D. Quixote
continuava ainda a ressonar; entendeu-se geralmente que era
melhor não o acordarem, por lhe ser de mais proveito por
então descanso que alimento.
Levantada a mesa, falou-se entre o vendeiro, a vendeira, a
filha, Maritomes, e todos os caminheiros, da esquisita
loucura de D. Quixote, e de como da outra vez lhe tinha ali
aparecido. Referiu a hospedeira o que passara com ele e com o
arrieiro, reparando se não andaria por ali perto Sancho; não
o vendo, contou por miúdo o caso do manteamento, o que para
todos foi sobremesa do maior apetite; e dizendo o cura que os
livros de cavalaria é que haviam transtornado o juízo a D.
Quixote, respondeu o vendeiro:
- Não sei como tal pudesse acontecer; em verdade que, segundo
eu entendo, leitura melhor não a pode haver no mundo. Para aí
tenho eu dois ou três livros desses com outros papéis, que me
têm regalado a vida; não só a mim como a outros muitos.
Quando é pelas aceifas, recolhem-se aqui nas sestas muitos
segadores, e sempre entre eles há algum que saiba ler;
agarra-se num destes livros, pomo-nos à roda dele
299
MIGEL DE CERVANTES
mais de trinta, e ouvimo-lo com tamanho gosto, que é como
lançarmos um milheiro de cãs fora. De mim ao menos sei eu
dizer que, em ouvindo contar aqueles furibundos e tremendos
golpes, descarregados pêlos cavaleiros, dão-me zinas de fazer
como eles. Não queria senão estar a ouvir aquilo a fio noites
e dias.
- Tal qual como eu - disse a vendeira -, porque são os únicos
bocadinhos bons que tenho nesta casa os em que estás a ouvir
ler estas coisas: ficas tão embasbacado, que nem de ralhar te
lembras.
- É a pura verdade - acudiu Maritomes -; assim Deus me ajude,
como eu gosto também de ouvir aquelas coisas; são muito
lindas, e mais quando contam que esta a outra senhora à
sombra de umas laranjeiras abraçada com o seu cavaleiro, e
uma velha a guardá-los, morta de inveja e toda sobressaltada;
digo que tudo aquilo para mim são favos de mel.
- E a vós que vos parece Senhora Donzela? - disse o cura
dirigindo-se à filha dos vendeiros.
- Não sei, meu senhor - respondeu ela-; eu também escuto com
atenção, e ainda que realmente não entendo bem, gosto de
ouvir, não os golpes com que meu pai se regala, mas aquelas
lamentações que fazem os cavaleiros quando estão apartados de
suas damas. A mim chegam-me às vezes a fazer chorar de pena
delas.
- Aposto que, se elas chorassem por vós Senhora Donzela -
disse Doroteia -, estimaríeis bem remediá-las.
- O que faria não sei - respondeu a moça -; o que sei é que
tão cruéis são algumas daquelas senhoras, que os seus
cavaleiros lhes chamam tigres, leões, e outras mil
imundícies. Valha-me Deus! Não sei que gente é aquela to
desalmada e falta de consciência, que, por não atenderem a um
homem honrado, o deixam morrer ou dar em doido; não sei para
que são tantos melindres; se o fazem por honradas, casem-se
com eles, que eles não desejam outra coisa.
- Cala a boca, menina - disse a vendeira -; quem te ouvir,
há-de-lhe parecer que sabes muito dessas coisas; a donzelas
não fica bem serem tão sabidas e falarem assim.
300
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Como este senhor me perguntou - respondeu ela -, não pude
deixar de lhe dizer o que entendia.
- Bem está - disse o cura -; agora Senhor Dono da Casa,
trazei-me esses livros que os desejo ver.
- Prontíssimo - respondeu ele.
E, entrando no seu quarto tirou dele uma bolsinha velha
fechada com uma cadeiazita; e, abrindo-a, sacou três livros
grandes, e uns papéis de muito boa letra de mão. O primeiro
livro que abriu viu que era D. Girongílio de Trácia; o outro
Felix Marte de Hircânia, e o outro a História do Grão-Capitão
Gonçalo Fernandes de Crdva, com a Vida de Diogo Garcia de
Paredes.
Apenas o cura leu os dois primeiros títulos, olhou para o
barbeiro, e disse:
- Fazem-nos agora aqui falta a ama e a sobrinha do meu amigo.
- Não fazem - respondeu o barbeiro -; cá estou eu para os
levar ao pátio ou à chaminé que está bem acesa.
- Então Vossa Mercê quer-me queimar os meus livros? - disse o
vendeiro.
- Só estes dois - disse o cura -, o de D. Girongílio, e o de
Felix Marte.
- Ora essa! - disse o vendeiro. - Pois os meus livros são
hereges, ou fleumáticos para os querer queimar?
- Cismáticos, meu amigo, é que vós quereis dizer - disse o
barbeiro - e não fleumáticos.
- É verdade - replicou o vendeiro -; mas, se quer queimar
algum, seja esse do Grão-Capitão, e desse Diogo Garcia;
antes eu deixara arder um filho meu, que nenhum desses
outros.
- Irmão - disse o cura -, estes dois livros são mentirosos, e
estão cheios de disparates e delírios; agora este do Grão-
Capitão é história verdadeira, e contém os feitos de Gonçalo
Fernandes de Córdova, o qual, por suas muitas e grandes
façanhas, mereceu ser chamado de todo o mundo o Grão-Capitão,
renome famoso que só ele mereceu; e este Diogo Garcia de
Paredes foi um principal cavaleiro natural da cidade de
Truxilo, na Extremadura, valentíssimo soldado, e de tantas
forças natu-
301
MIGUEL DE CERVANTES
rais, que detinha só com um dedo uma roda de moinho, no meio
da sua fúria; e, posto com um montante na entrada de uma
ponte, impediu a passagem a todo um exército inumerável, e
fez outras coisas tais, que, se, assim como ele as conta de
si mesmo com a modéstia de cavaleiro e cronista próprio, as
escrevera outro, livre e desapaixonado, poriam no escuro as
dos Heitores, Aquiles e Roldões.
- Meu pai que vos responda - replicou o vendeiro - que
grandes espantos esses de deter uma roda de moinho! Havia
Vossa Mercê de ler o que eu li de Felix Marte de Hircânia,
que (de uma vez só) partiu a cinco gigantes pela cintura,
como se foram bonecos de favas como os fradinhos das
crianças, e outra vez arremeteu com um grandíssimo e
poderosíssimo exército, rechaçando diante de si mais de um
milhão e seiscentos mil soldados, todos armados desde os pés
até à cabeça, e os desbaratou a todos como se foram manadas
de ovelhas. E que me dizem do bom de D. Girongflio de Trácia,
que foi to valente e animoso como se pode ver do livro, onde
se conta que, navegando por um rio, lhe saiu do meio da água
uma serpente de fogo? E ele, tanto como a viu, se arrojou
sobre ela, e se lhe encavalgou nas escamas do lombo, e lhe
apertou com ambas as mãos a garganta tão rijamente que, vendo
a serpe que a ia afogando, não teve outro remédio senão
deixar-se ir para o fundo do rio, levando consigo ao
cavaleiro, que nunca a soltou; e, quando chegaram lá abaixo,
se achou ele nuns palácios e jardins tão lindos, que era
maravilha; e logo a serpe se transformou num ancião, que lhe
disse tantíssimas coisas, que mais não podiam ser. Não tem
que teimar Senhor, que, se tal ouvisse, endoidecia de gosto.
Duas figas para o Grão-Capitão, e para esse Diogo Garcia, com
que nos veio.
Ouvindo isto Doroteia, disse em voz baixa para Cardénio:
- Pouco falta ao nosso hospedeiro para fazer a segunda parte
de D. Quixote.
- Também acho - respondeu Cardénio - porque, segundo mostra,
o homem tem por certo que tudo o que estes livros contam
sucedeu sem tirar nem pôr como lá se escreve, e nem todos os
frades descalços o convenceriam do contrário.
302
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Olhai, irmão caríssimo - tornou a dizer o cura -, que nunca
houve no mundo Felix Marte de Hircânia, nem D. Girongílio de
Trácia, nem outros que tais, de que rezam os livros de
cavalarias. Toda essa coisa são invençes e brincos de
engenhos ociosos, que os compuseram com o intuito, que vós
mesmos já dissestes, de matar tempo, pouco mais ou menos,
como fazem os vossos ceifeiros quando os ouvem ler, porque
realmente vos juro que nunca tais cavaleiros houve no mundo,
nem jamais nele se viram tais proezas e disparates.
- A outro cão com esse osso - respondeu o vendeiro -, como se
eu não soubera quantos fazem cinco, e onde me aperta o
sapato! Não cuide Vossa Mercê que me dá papinha a mim, porque
lhe juro que não estou tão em branco de miolos como isso. Tem
graça querer Vossa Mercê dar-me a entender que tudo que dizem
estes bons livros são disparates e mentiras, sendo impressos
com as licenças dos Senhores do Conselho Real; como se eles
fossem pessoas que deixassem imprimir tanta patranhada junta,
e tantas batalhas e encantamentos, que fazem perder o juízo à
gente.
- Já vos tenho dito, amigo - respondeu o cura -, que o fim
para que se isto faz é entreter os nossos pensamentos
ociosos; e assim como se permite nas repúblicas bem
concertadas que haja jogos de enxadrez, de péla, e de bilhar,
para entreter alguns que não querem, nem devem, nem podem
trabalhar, assim se permite, que se imprimam e se tenham
esses tais livros, por se crer, como é verdade, que não pode
haver indivíduo tão leigo e sáfaro que tenha por história
certa nenhuma dessas. Se me fosse lícito agora, e o auditório
o quisesse, coisas diria eu acerca do que devem conter os
livros de cavalarias para serem bons, que talvez fossem de
proveito, e até de agrado para alguém; mas espero, que lá
virá tempo em que eu me abra com quem possa prover a isto de
remédio. Daqui até lá, crede Senhor Vendeiro, no que vos
tenho dito: tomai os vossos livros, e lá vos avenhais com os
seus acertos ou desacertos; bom proveito vos faça, e permita
Deus que não venhais a coxear do mesmo pé de que o vosso
hóspede D. Quixote claudica.
303
MIGUEL DE CERVANTES
- Lá disso não tenho medo - respondeu o vendeiro -; não heide
ser tão doido que me faça cavaleiro andante; sei muito
bem, que já hoje em dia se não usa o que se faia naquele
tempo, em que se diz que andavam pelo mundo estes famosos
cavaleiros.
A metade desta prática se achou presente Sancho, e ficou
muito confuso e pensativo de ouvir dizer, que já se não
usavam cavaleiros andantes, e que todos os livros de
cavalarias eram tolices e falsidades; e assenta de si para
consigo esperar em que pararia aquela jornada de seu amo,
que, a não sair com a felicidade que ele pensava, determinava
deixá-lo, e tomar-se com sua mulher e seus filhos às lidas da
sua criação. Ia o vendeiro levando já a bolsa com os livros,
mas o cura lhe disse:
- Esperai, que desejo ver que papéis são esses, escritos com
tão boa letra.
Tirou-os o hospedeiro, e, dando-lhos a ler, viu coisa de uns
oito cadernos manuscritos, tendo no princípio um título
grande, que dizia: NOVELA DO CURIOSO IMPERTINENTE. Leu o cura
para si três ou quatro linhas, e disse:
- Decerto que me não parece mal o título desta novela; estou
com minha vontade de a ler toda. Ao que respondeu o vendeiro:
- Pode Sua Reverência lê-la à sua vontade, porque saberá que
outros hóspedes, que já aqui a leram, gostaram muito, e ma
pediram com muito empenho; eu é que não lha quis dar,
lembrando-me que poderia ter de a restituir a quem deixou
esta maleta, por esquecimento, com estes livros e papéis. Não
sei se o dono não tornará a passar por cá. Eu bem sei que os
livros me hão-de fazer falta; mas sempre pertencem a seu
dono; taberneiro sou, mas ainda assim sou também cristão.
- Tendes muita razão, amigo - disse o cura -, mas com tudo
isso, se a novela me satisfazer, heis-de-me dar licença para
a copiar.
- Da melhor vontade - disse o vendeiro.
Enquanto entre os dois se trocavam estas falas, havia
Cardénio pegado na novela, e começado a lê-la; e, parecendolhe
que não desmentiria o conceito do cura, rogou-lhe que a
lesse de modo que todos ouvissem.
304
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Fá-lo-ia - respondeu o padre - se não fora melhor gastar
este tempo em dormir do que em leituras.
- Bom repouso será para num - disse Doroteia - entreter o
tempo em ler algum conto; por ora, ainda no tenho tão
sossegado o espírito que me consinta dormir como se quisera.
- Pois então - disse o cura - quero lê-la sequer por
curiosidade; talvez nos saia alguma coisa aprazível.
Acudiu mestre Nicolau a pedir o mesmo, e Sancho também. À
vista daquilo tudo, o cura, entendendo que a todos recrearia,
e a si também, disse:
- Sendo assim, peço atenção; a novela começa desta maneira:
CAPITULO XXXIII l
ONDE SE CONTA A NOVELA DO CURIOSO IMPERTINENTE
Hm Florença, rica e famosa cidade de Itália, na província *
que chamam Toscana, viviam Anselmo e Lotário, cavalheiros I
ricos e principais, e tão amigos, que, por excelência e ij
antonomásia, «os dois amigos» lhes chamavam todos l
Eram solteiros, moços, de igual idade e dos mesmos costu- i
mês, o que tudo concorria para a recíproca amizade de entre :
ambos. Verdade é que Anselmo era algum tanto mais inclinado
aos passatempos amorosos que Lotário; e este se deixava ir de
"
melhor ânimo atrás dos recreios da caça. Quando, porém, acon-
?
tecia, deixava Anselmo de seguir os seus gostos próprios para
não faltar aos de Lotário; e Lotário deixava também os seus
para ï
acudir aos de Anselmo. Desta maneira, tão conformes andavam
entre ambos as vontades, que não havia relógio mais
infalível.
Andava Anselmo perdido de amores por uma donzela ilustre e
formosa da mesma cidade, filha de tão bons pais, e tão boa
ela mesma de sua pessoa, que assentou, com aprovação do seu
amigo Lotário (sem a qual nunca fazia coisa alguma), em pedila
por esposa aos pais; e assim fez. O mensageiro da embaixa-
?
da foi Lotário; e tão a gosto do amigo concluiu o negócio,
que |
?
305 l
MIGUEL DE CERVANTES
em breve tempo se viu o nosso namorado em posse do seu enlevo
e Camila tão contente de haver alcançado a Anselmo por
esposo, que não cessava de dar graças ao Céu, e a Lotário,
por cuja intervenção tamanho bem chegara a pertencer-lhe.
Os primeiros dias, que foram todos de folgança, segundo o
estilo das bodas, frequentou Lotário, conforme ao seu
costume, a casa do seu amigo Anselmo, procurando honrálo,
festejá-lo, e regozijá-lo em tudo que podia. Acabadas, porém,
as bodas, e acalmada já a frequência das visitas e parabéns,
começou Lotário a escassear já de indústria as idas a casa de
Anselmo, por lhe parecer, como é bem que pareça a todos os
discretos, que aos amigos casados já se não hão-de as casas
frequentar tanto, nem com tamanha intimidade, como enquanto
viviam solteiros, porque, se bem que a verdadeira amizade não
pode nem deve ser em coisa alguma suspeitosa, contudo tão
delicada é a honra de um casal, que parece se pode ofender
até dos próprios irmãos, quanto mais dos amigos.
Reparou Anselmo na menos frequência de Lotário, e queixou-se
grandemente, dizendo que, se adivinhara que do casamento lhe
havia de provir tal resfriamento, nunca ele o teria feito; e
que, se pela boa harmonia que entre os dois reinava enquanto
ele era solteiro, havia alcançado tão doce título como era o
serem chamados os dois amigos, não quisesse agora ele
Lotário, só para fazer de circunspecto, e sem outro nenhum
motivo, que tão famosa e agradável antonomásia se perdesse;
e, portanto, lhe suplicava, se o termo de suplicar podia
entre eles caber, que tornasse a ser senhor daquela casa,
entrando e saindo como dantes, assegurando-lhe ele que a sua
Camila se conformava em tudo, e sempre, com os desejos dele,
e que, por lhe constar com quantas veras os dois se amavam
entre si, andava até vexada de o ver agora tão erradio.
A todas estas e outras muitas razões de Anselmo respondeu
Lotário com tanta prudência e juízo, que lhe tapou a boca, e
concordaram que, dois dias por semana, e nos dias santos,
Lotário iria lá jantar; e, ainda que isto ficou estabelecido
entre os dois, propôs Lotário como regra geral não fazer
nunca senão que visse ser conveniente à honra do amigo, cujo
crédito ele
306
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
antepunha até ao seu próprio. Dizia ele e com razão que um
marido, a quem o Céu concedeu mulher formosa, tanto devia
reparar nos amigos que metia em casa, como ter tento nas
amigas com quem sua mulher se dava, porque muita coisa que se
não faz nem se ajusta nas praças, nem nas igrejas, nem nas
festas públicas, e ajuntamentos semelhantes, muitas vezes
concedíveis pêlos maridos a suas mulheres, muita coisa de
contrabando se conchava ou facilita em casa da amiga ou
parenta em que há mais confiança.
Mais dizia Lotário ser necessário aos casados ter cada um
deles algum amigo que lhe notasse os descuidos que no seu
proceder se pudessem dar, porque às vezes acontece, em razão
do muito amor do marido para com a mulher, ou não dar por
certas coisas, ou não lhas dizer (para não magoá-la) que as
faça ou as deixe de fazer, podendo umas e outras ser todavia
importantes para o crédito ou descrédito de ambos eles;
advertido assim pelo amigo, já o consorte poderia pôr cobro a
tempo a não poucos males.
Mas onde se achará amigo tão discreto e leal como Lotário
aqui o pinta? Eu por mim não sei; desse feitio não vejo outro
senão o próprio Lotário, quando tão cauteloso está atentando
pela honra do seu amigo, e procurando ainda dizimar,
aguarentar, e diminuir os dias aprazados para as visitas,
para não darem que falar aos ociosos e aos mirões vadios e
praguentos, tantas entradas de um moço rico, gentil-homem, de
claro nascimento, e de tantas prendas como ele entendia
possuir, na casa de uma dama tão formosa como Camila. Suposto
com a bondade e força própria pudesse Camila pôr freio a
todas as murmurações contudo não queria ele nem por sombras
pôr em dúvidas nem o seu crédito, nem o dela, nem o do amigo.
Por isso os mais dos dias da combinação os ocupava e
entretinha noutras coisas que dava a entender serem-lhe
impreteríveis, por modo que em suma, em queixas de um e
desculpas do outro se passavam por vezes horas de cada dia.
Uma vez, andando ambos a passear por um prado fora da cidade,
Anselmo disse a Lotário pouco mais ou menos o seguinte:
307
MIGUEL DE CERVANTES
- Bem deves entender amigo Lotário que às mercês que Deus me
há feito em dar-me tais pais como eu tive, e bens com mão
larga, tanto dos que chamam da Natureza, como dos da fortuna,
não possa eu corresponder com gratidão que baste;
ainda por cima de tudo, mais me favoreceu Deus em deparar-me
um amigo como tu, e uma esposa como Camila, duas jóias que eu
aprecio se não quanto devo ao menos quanto posso. Apesar de
tantas e tamanhas ditas, que seriam para o geral dos homens o
cúmulo da felicidade, vivo eu no maior desconsolo e
desesperação do mundo todo, porque de dias a esta parte
entrou comigo, e me atormenta, um desejo tão estranho e tão
raro, que ando até pasmado de mim mesmo; ralho comigo a sós,
e rigorosamente me invectivo, mas em vão; é tal que à minha
própria consciência o procuro encobrir. Agora, porém, já não
posso ter mão neste segredo; parece que desejo até fazê-lo de
todos conhecido; de ti, de ti, primeiro que ninguém. Confio
em que pelo esforço que hás-de fazer, como verdadeiro amigo,
para me acudir, depressa me poderás livrar da angústia de tão
longo silêncio; o meu contentamento atingirá, pela tua
solicitude, ao auge a que pela minha loucura tem já chegado a
minha impaciência.
Estava Lotário suspenso com todo este enigmático prólogo de
Anselmo, sem poder adivinhar onde iria aquilo dar consigo, e,
por mais que revolvesse na imaginação que desejo poderia ser
aquele tão tormentoso, feria sempre com as suas conjecturas
longe do alvo. Para sair sem mais demora da agonia de tamanha
incerteza, respondeu-lhe que era agravar manifestamente a sua
muita amizade o andar excogitando rodeios antes de lhe
declarar os seus ocultos pensamentos, tendo aliás certeza de
que nele havia de achar em todo o caso ou bons conselhos ou
remédios para cura, segundo o negócio fosse.
- Dizes muitíssimo bem - respondeu Anselmo -; confiado nisso
te declaro, amigo Lotário, que a incerteza que me rala é a de
andar cismando se porventura a minha Camila será em realidade
tão boa e completa como eu imagino. Desta incerteza me não
posso eu livrar se não for experimentando-a de maneira que a
prova manifeste os quilates da sua bondade, como no
308
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
fogo do crisol se apura a fineza do ouro, porque tenho para
mim, meu amigo, que uma mulher não é melhor nem pior que
outra, senão conforme a solicitam ou deixam de solicitar, e
que só é deveras forte a que não fraqueia às promessas, às
dádivas, às lágrimas, e às contínuas importunações dos
amantes obstinados. Pois que há que se agradeça - continuava
ele - em ser uma mulher boa, onde nada a induz a ser má? Que
admira, que viva recolhida e toda sobre si aquela que não tem
azo para soltar-se e que sabe que tem marido que em a
apanhando no primeiro desvio é homem para lhe tirar a vida?
Portanto a que é boa por medo, ou por falta de ocasião, não a
acho merecedora da estima em que terei a solicitada e
perseguida, que saiu da provação com a palma de vencedora.
Por todas estas razões, e por outras muitas que te pudera
referir em abono do meu pensar, desejo que a minha esposa
passe por estas dificuldades, e l se acrisole resistindo a
atrevimentos. Se ela sai, como espero, triunfante de tal
conflito, ficarei tendo a minha ventura por incomparável;
direi ter achado a mulher forte, de quem o sábio
perguntou: «Quem a achará?» No caso contrário, o gosto de ver
que não era errado o meu juízo compensará a pena de uma [
experiência tão custosa. Já sabes que por de mais seria
contraria- ;
res-me neste propósito; quero, pois, amigo Lotário, que sejas
tu l próprio o que me ajudes na provação em que me empenho;
eu j me encarrego de te proporcionar as facilidades; por mim,
nada , te há-de faltar de quanto seja necessário para
solicitar a uma mulher honesta, honrada, recolhida, e
desinteressada. Além de
outros motivos, que me obrigam a fiar de ti este cometimento,
i. tenho o de saber que, se Camila for por ti vencida, nunca
a sua rendição há-de chegar às últimas; pararás onde o dever
to de- l termine, e assim não haverei sido ofendido senão em
desejos, e a minha desonra ficará sepultada no teu virtuoso
silêncio, que tenho toda a certeza, que, no tocante a mim,
há-de ser eterno como o da morte. Se quiseres, pois, que eu
tenha vida, que tal nome mereça, hás-de entrar já nesta
campanha de amores, i não friamente nem por de mais, mas com
afinco, mas com verdadeira diligência, como eu desejo, e com
a confiança a que se i não pode faltar entre dois amigos como
nós. i
309 (
MIGUEL DE CERVANTES
Tais foram as ponderações que Anselmo explanou, e que Lotário
(a não ser o que acima se referiu ter ele dito) esteve
escutando com a maior atenção, sem descerrar os lábios até ao
fim. Como as viu concluídas, depois de estar encarando nele
por um bom espaço, como se jamais tivera visto objecto para
igual espanto, respondeu:
- Não me pode entrar na ideia, amigo Anselmo, que tudo isso
que para aí disseste não passe de gracejo; aliás, não te
houvera deixado prosseguir; se eu te não escutasse, poupavate
todo esse desperdício de palavras. Está-me parecendo que,
ou tu me não conheces, ou te não conheço a ti; engano-me; sei
que és Anselmo, e tu não ignoras que eu sou Lotário; o mau é
que já me não pareces o Anselmo de antes, assim como, segundo
vejo, já também te não pareço o mesmo Lotário que devia ser.
As coisas que me tens dito não são do Anselmo meu amgo, nem
as que tu me pedes se deviam pedir a Lotário teu conhecido,
porque os amigos verdadeiros hão-de provar os seus amigos e
valer-se deles, como disse um poeta, usque ad aras; isto é,
que não se devem valer da sua amizade em coisas que sejam
ofensa de Deus. Se um gento a respeito da amizade entendeu
isto, quanto mais o não deve sentir um cristão, sabendo que a
amizade de Deus por nenhuma da Terra se há-de perder! E
quando o amigo fosse tão imprudente que pospusesse os
interesses do outro mundo ao serviço do amigo, nunca por
coisas ligeiras o faria, senão só por aquelas em que a honra
e vida do amigo se empenhassem. Ora diz-me tu, Anselmo: qual
destas duas coisas, vida ou honra, se te acham em perigo,
para que eu me aventure a comprazer-te, praticando uma coisa
tão detestável como essa que me pedes? Decerto que nenhuma;
pelo contrário, pedes-me, segundo eu entendo, que forceje
para arrancar-te a honra e mais a vida ao mesmo tempo que a
num prprio, porque se hei-de procurar roubar-te a honra,
claro está, que te roubo também a vida, porque o homem sem
honra é por que um morto; e, sendo eu o instrumento, como tu
queres que o seja, de tamanho mal teu, venho eu a ficar
desonrado, e por isso mesmo também sem vida. Escuta, amigo
Anselmo, e tem paciência de não me responderes enquanto não
acabo de dizer o que me
310
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
ocorre acerca do que desejavas; não faltará tempo para que tu
depois me expliques e eu te ouça.
- Seja assim - disse Anselmo -, podes falar à tua vontade.
Lotário prosseguiu:
- Estás-me parecendo agora, meu Anselmo, uma espécie de
arremedo dos Mouros: aos Mouros não se pode mostrar o erro da
sua seita com as citações da Escritura, nem com razões que
assentem em especulação do entendimento, ou se fundem em
artigos de fé; não admitem senão exemplos palpáveis, fáceis
inteligíveis, demonstrativos, indubitáveis, com demonstrações
matemáticas das que se não podem negar, como quando se diz:
«Se de duas partes iguais tiramos partes iguais, as restantes
serão também iguais.» E quando nem isto mesmo entendam de
palavra, como de feito o não entendem, há-de-se-lhes mostrar
com as mãos, e meter-se-lhes pêlos olhos; e assim mesmo
ninguém consegue convencê-los das verdades da nossa Santa
Religião. No mesmo aperto me vejo eu contigo, porque esse teu
desejo é tão sem caminho, e tão fora de toda a racionalidade,
que me parece será tempo perdido o que se gastar para te
convencer da tua simpleza (que por enquanto lhe não quero dar
outro nome); e quase que estou em deixar-te lá com o teu
desatino, para castigo do teu mau desejo; mas vale-te a
amizade que te professo; ela é que me não consente que te
desampare em tão manifesto perigo de perdição. Para bem
compreenderes isto, di-me, Anselmo: não me confessaste que eu
tinha de solicitar a uma recatada? Persuadir a uma honesta?
Oferecer a uma desinteressada? Cortejar a uma prudente?
Disseste-mo, não há dúvida. ois, se tu sabes que tens mulher
recatada, honesta e prudente, que mais queres? E se entendes
que de todos os meus assaltos há-de sair vencedora, como sem
dúvida há-de sair, que melhores títulos esperas dar-lhe, que
os que já tem? Ou que ficará ela sendo mais do que já é? Ou
tu a não tens realmente pela que dizes, ou não sabes o que
pedes. Se a não tens pela que dizes, para que é experimentála?
Supõe que é má, e faz dela o que mais te agradar. Mas se
é tão boa como crês, impertinente coisa será fazer
experiência da verdade reconhecida,
311
MIGUEL DE CERVANTES
porque depois da experiência há-de ficar tão estimada como
dantes era. Regra certíssima: tentativas em coisas de que
antes nos pode vir prejuízo que proveito so de entendimento
boto e ânimo temerário, mormente quando para tais tentativas
não há necessidade nem obrigação, e logo desde todo o
princípio se conhece que se vai tentar uma loucura manifesta.
As coisas difíceis empreendem-se por Deus ou pelo mundo, ou
por ambos juntos. Por Deus as empreenderam os Santos,
propondo-se viver como Anjos em corpo de homens. As que têm
por alvo respeitos do mundo são as daqueles que passam tanta
infinidade de águas, tanta diversidade de climas, tanta
estranheza de gentes, para adquirir os chamados bens de
fortuna. E as que se cometem ao mesmo tempo por Deus e pelo
mundo são as dos soldados valorosos que, apenas divisam no
muro inimigo aberta uma pequena ruptura, como a pode faer uma
bala de artilharia, postergam temores, cerram olhos a toda a
consideração dos perigos iminentes, voam com o desejo de
acudir à sua fé, à sua nação, e ao seu rei, e se arrojam
intrépidos por meio de mil contrapostas mortes que os
aguardam. Estas coisas, sim, se costumam afrontar, porque é
honra, glória, e proveito, que se afrontem, ainda que cheias
de inconvenientes e perigos; mas isso com que tu queres
arrostar-te, nem te há-de alcançar glória de Deus, nem bens
de fortuna, nem fama entre os homens, porque, ainda que saias
afinal como desejas, nem por isso hás-de ficar nem mais
ufano, nem mais rico, nem mais acrescentado; e, se não sais
como estás almejando, cais na maior miséria que imaginar-se
pode, porque então nada te aproveitará o pensar, que ninguém
sabe a desgraça que te sucedeu, porque bastará para te
afligir e desfazer-te o sabê-la tu mesmo. Para confirmação
desta verdade, quero repetir-te uma estância que fez o famoso
poeta Luís Tansilo no fim da primeira parte das Lágrimas de
S. Pedro;
diz assim:
Cresce em Pedro o pesar, cresce a vergonha, quando vê que no
Oriente o dia é nado;
ninguém o vê, mas tem de si vergonha, pois em si sabe e sente
que há pecado.
312
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA r
Não é mister que o mundo se interponha testemunha de um crime
a peito honrado; ? ele próprio se acusa, aflige, e aterra,
bem que o vejam somente o Céu e a Terra.
Portanto, de não ser notória a tua dor não te provirá isen- '
cão dela; terás, pelo contrário, de chorar continuadamente,
se- i não lágrimas dos olhos, lágrimas de sangue do coração,
como as h derramava aquele simples doutor, de quem o nosso
poeta nos conta que fizera a prova do vaso, à qual se recusou
com melhor juízo o prudente Reinaldo; embora seja esta uma
fábula poética, encerra todavia, segredos morais merecedores
de reflexão e imitação. Repara bem no que te vou agora dizer,
e acabarás de convencer-te de quão errado é o teu intento.
Diz cá, Anselmo, se o Céu, ou um favor da fortuna, te houvera
feito possessor legíti- [ mo de um finíssimo diamante,
aprovado por quantos lapidários l o vissem, confessando todos
à uma que, em fineza, perfeição, e i quilates, era o mais que
a Natureza pudera ter feito naquele '???? género, e tu mesmo
assim o acreditasses por não teres prova ai- j guma do
contrário, seria justo que cedesses ao desejo de pegar
naquele diamante, metê-lo entre uma bigorna e um malho, e
ali, a poder de valentes marteladas, provar se era tão rijo e
perfeito como se dizia? Suponhamos agora que, cedendo a esse
desejo, o i punhas em execução; se por acaso a pedra
resistisse a tão néscia \ experiência, acrescentar-se-lhe-ia
por isso a valia ou a fama? E, . se se quebrasse, como
poderia acontecer, não se perdia tudo? \ Perdia-se por certo,
ficando o dono com a fama de orate no con- !* ceito de toda a
gente. Amigo Anselmo, supe que a tua Camila é aquele
diamante, assim no teu conceito como no dos outros; será | de
bom juízo pô-la em contingência de se quebrar, visto que a
permanecer na sua inteireza não pode subir a maior apreço do
que já tem? E, se não resistisse, e, finalmente, falhasse,
considera, enquanto é tempo, o que ela ficaria sendo, e com
quanta rãzão
te poderias queixar de ti mesmo, por teres sido o
causador voluntário da sua perdição e mais da tua. Olha que
não há jóia ;
no mundo, que em valia se compare com a mulher casta e hon- Í
rada, e que toda a honra das mulheres consiste na boa opinião
J
313 t
MIGUEL DE CERVANTES
em que são tidas. Já que a tua esposa é tal, que chega ao
extremo de bondade que sabes, para que hás-de tu pôr esta
verdade em dúvida? Olha, amigo, que a mulher é animal
imperfeito, e não se lhe devem pôr diante obstáculos em que
tropece e caia; pelo contrário, devem-se-lhe tirar todos, e
desempachar-lhe o caminho inteiramente, para que, isenta de
pesares, corra até ao fim o seu caminho da perfeição. Contam
os naturalistas que o arminho é um animalzinho de pêlo
alvíssimo, e que os caçadores, em querendo toma-lo, usam do
seguinte artifício: inteirados dos sítios por onde os
arminhos costumam passar e aparecer, atascam-nos de lodo,
depois acossam-nos naquela mesma direcção; o animalzinho,
tanto que percebe o lodo, estaca, e se deixa apanhar só pelo
medo e horror de se enxovalhar, porque a liberdade e a vida
valem para ele menos que a sua nativa candidez. A mulher
honesta e casta é arminho, e é mais pura que a branca neve.
Quem deseja que ela não perca a limpeza da castidade, mas a
guarde e conserve até ao fim, há-de usar de outro estilo
diverso do que se pratica na caçada dos arminhos; não se lhe
hão-de pôr diante os Iodos dos presentes, e serviços dos
namorados importunos, porque talvez (ou mesmo sem talvez) não
terá tanta virtude e força natural, que possa desajudada
atropelar e transpor a salvo semelhantes tentações; o que é
necessário é limpar-lhe o caminho, e pôr-lhe diante dos olhos
o imaculado da virtude e o resplendor da boa fama. A mulher
boa é na verdade como espelho de resplandecente cristal, que,
ainda que puro, está sujeito a empanar-se e ficar turvo com o
mais leve bafo. Com a mulher honesta há-de-se ter o melindre
que se tem com as relíquias, adorá-las sem lhes tocar; há-dese
guardar e estimar a mulher boa, como se guarda e estima um
formoso jardim, que está cheio de rosas e outras flores; o
dono não consente que ninguém por ali passeie nem colha;
basta que de longe, e por entre as gradarias, lhe gozem da
fragrância e lindeza. Finalmente, quero repetir-te uns
versos, que me estão lembrando, de uma comédia moderna que
ouvi, e que me parecem frisar com estas verdades que te
encareço. Estava um prudente ancião recomendando a outro, pai
de uma donzela, que a recolhesse, que a guardasse, e que a
encerrasse, e entre outras coisas disse-lhe isto:
314
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
É como o vidro a mulher;
mas não é mister provar se se pode ou no quebrar, porque tudo
pode ser.
E é mais fácil o quebrar-se;
loucura é logo arriscar a que se possa quebrar o que não pode
soldar-se.
Fiquem nisto, e ficam bem, Pois nisto o conselho fundo:
que se há Danaides no mundo, há chuvas de ouro também.
O que até aqui te levo dito, Anselmo, é só em referência a
ti;
agora justo é que me ouças também um pouco do que me
interessa a mim. Se me achares prolixo, desculpa-me; tudo é
preciso no labirinto em que te meteste, e de onde eu te devo
arrancar. Tens-me tu em conta de amigo, e queres tirar-me a
honra, coisa essa tão avessa da amizade! E não s pretendes
isto, mas até queres que também eu ta roube a ti. Que me
queres dela despojar, está claro, pois, em Camila vendo que
eu a requesto como pedes, certo está que me há-de ter por
homem sem honra nem consideração, pois intento e faço uma
coisa táo fora daquilo a que me obriga o ser eu quem sou, e a
amizade que te voto. De que tu queres constranger-me a tirarta
eu a ti, também não há dúvida, porque, vendo Camila que eu
a solicito, há-de, de si para consigo, entender que alguma
leviandade descobri eu nela, que me afoitou a apresentar-lhe
os meus ruins desejos; e, tendo-se ela por desonrada, e
pertencendo-te ela a ti, contigo fica também a sua desonra.
Daqui nasce o que tão geralmente se costuma, isto é que ao
marido da mulher adúltera, posto que ele não saiba que ela o
é, nem para tal haja dado ocasião, nem estivesse em seu poder
impedir a sua desgraça, contudo o tratam com título
ignominioso; e os que sabem ter a mulher caído já o ficam
olhando de certa maneira, com os olhos de desprezo,
315
MIGUEL DE CERVANTES
em vez de compaixão, apesar de verem que chegou àquela
desventura, não por culpa sua, mas só por gosto da sua
depravada companheira. Quero agora dizer-te em que se funda a
justa razão de ser desonrado o marido da mulher pecadora,
ainda que ele não saiba que ela o é, nem de tal tenha culpa,
nem haja sido participante, nem dado ocasião para ela o ser;
e não te importunes de me ouvir, que tudo é para teu
proveito. Quando Deus criou o nosso primeiro pai no paraíso
terreal, diz a Divina Escritura que infundiu um sono em Adão,
e que, estando este a dormir, lhe tirou uma costela do lado
esquerdo, de que formou a nossa mãe Eva; e, assim que Adão
acordou e a viu, disse: «Esta é a carne da minha carne; e o
osso dos meus ossos»; e Deus disse: «Por esta deixará o homem
pai e mãe, e serão dois numa só carne»; e então foi
instituído o Divino Sacramento do Matrimónio, com laços tais
que só a morte os pode desatar; e tamanha força e virtude tem
este milagroso sacramento, que faz de duas pessoas diferentes
uma mesma carne; e ainda faz mais nos bons casados, que,
ainda que têm duas almas, não têm mais de uma só vontade.
Daqui vem que, sendo a carne da esposa a mesma do esposo, as
nódoas que nela caem, ou os defeitos que se procuram,
redundam na carne do marido, ainda que ele não haja, como
dito fica, dado ocasião para aquele dano; porque, assim como
a dor de um pé ou de qualquer membro do corpo humano se sente
no corpo todo, por todo ele ser da mesma carne, e a cabeça
padece o incómodo do ínfimo dedo do pé, se bem que não foi
ela que o causou, assim o marido é participante da desonra da
mulher, por ser uma mesma coisa com ela, e como as honras e
desonras do mundo sejam todas, e procedam de carne e sangue,
e as da má mulher sejam deste género, forçoso é que ao marido
caiba parte delas, e seja tido por desonrado sem o saber.
Repara, portanto, Anselmo, no perigo em que te pes, querendo
perturbar o sossego em que a tua boa esposa vive; repara por
quão vã e impertinente curiosidade queres revolver os humores
que tão sossegados estão no peito da tua casta esposa;
adverte que o que te aventuras a ganhar é pouco, e o que
perderás será tanto, que nem o pondero, por não ter palavras
com que o encareça. Se, porém, tudo que tenho dito ainda
316
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA ?
não basta para te demover do teu mau projecto, procura outro
H
instrumento para a tua desonra e desgraça; eu não o posso
ser, embora perdesse por isso a tua amizade, que é o maior
prejuízo que posso imaginar. "
Dito isto, calou-se o virtuoso e prudente Lotário, deixando .
Anselmo to confuso e pensativo, que por um bom espaço não L
atinou palavra de resposta; ao cabo sempre lhe disse:
- Bem viste, amigo Lotário, com que atenção te escutei até j
ao fim; nos teus ditos, exemplos e comparações, reconheci a
tua ||1 muita discrição, e o extremo a que chega em amizade;
e confes- l só que, se não sigo o teu parecer, e vou atrás do
meu, vou fugindo do bem, e correndo em pós o mal. Nisto,
devo-te parecer como certas achacadas, que apetecem comer
terra, caliça, carvão, e coisas ainda piores, repugnando à
vista, quanto mais ao paladar; é logo necessário usar de
algum artifício para que eu sare. Ora isto era fácil,
começando tu, embora tibiamente e por fingimento, a cortejar
a Camila, porque não há-de ser ela tão tentadiça, que logo
aos primeiros abalos dê com a honra do avesso. Para me
contentar bastará isto; haverás cumprido o que deves à nossa
amizade; dás-me a vida, e convences-me de que tenho salva a
honra. Para te obrigar basta uma razão; e vem a ser que,
estando eu, como estou, determinado a realizar esta
experiência, não deves consentir em que eu vá dar
conhecimento a outrem do meu desatino; com o que se poria em
risco uma - honra que tu não queres se aventure. Suponhamos
que no juízo ? de Camila o teu conceito decai enquanto a
solicitares; que importa isso!? Logo que nela se reconhecer a
pureza que esperamós, confessar-lhe-ás toda a verdade da
nossa maquinação, e o teu crédito ficará inteiramente
saneado. Já vês que, arriscando tão pouco e podendo com isso
dar-me tão grande contentamento, deves fazê-lo sem reparar em
mais objecções, porque, segundo já te disse, basta que
principies, para eu te desobrigar logo de continuar.
Vendo Lotário a inabalável resolução de Anselmo, e não
sabendo já novos exemplos, nem mais razões, com que lhe
argumentar, e considerando ainda por cima na ameaça de ir
expor a outrem o seu danado desejo, determinou preferir o
menor ir
317 H
MIGUEL DE CERVANTES
mal, e satisfazer-lhe a vontade, esperando encaminhar as
coisas de modo que Anselmo, sem prejuízo dos sentimentos de
Camila, ficasse ao cabo satifeito. Respondeu-lhe, portanto,
não se abrisse com mais ninguém, e deixasse por sua conta o
negócio todo, e que dariam princípio logo que lhe agradasse.
Abraçou-o Anselmo carinhosamente, agradecendo-lhe a
condescendência que ele reputava mercê e das grandes.
Assentou-
-se entre os dois que logo no dia seguinte se instauraria a
campanha, dando o marido facilidades e abertas para o amigo
poder conversar a sós com a sua Camila, entregando-lhe, além
disso, dinheiros, e jóias para dar-lhe e oferecer-lhe.
Aconselhou-
-lhe que lhe levasse músicas, fizesse versos, elogiando-a, e
que, se o fazê-los lhe aborrecia, ele próprio estava pronto
para lhos armar.
Lotário esteve por tudo na aparência, mas lá por dentro
inabalável.
Com este acordo regressaram a casa de Anselmo, onde acharam
Camila a esperar ansiosa e já desassossegada pela tardança d
esposo, que nesse dia se demorara mais que de costume.
Foi-se Lotário para sua casa táo pensativo, por náo saber
como se haveria em tão impertinente negócio, como Anselmo
ficava na sua satisfeitíssimo por ver já o seu barquinho na
água. Levou o amigo a noite de vela, cismando no modo de
enganar a Anselmo sem ofender a Camila.
Ao outro dia, apareceu ao jantar, e foi bem recebido da
consorte, que sempre o acolhia e regalava com a melhor
vontade, por saber que outra tanta era a do seu esposo.
Findo o jantar e levantada a mesa, disse Anselmo a Lotário
que ficasse ali com a sua dona da casa, enquanto ele ia
tratar de um negócio de muita pressa, de que não poderia
voltar em menos de hora e meia. Camila rogou-lhe que se não
fosse, e Lotário ofereceu-se para o acompanhar; Anselmo,
porém, persistiu em que se deixasse estar, e o esperasse,
porque tinham de tratar juntos objecto de importância; e a
Camila recomendou que fizesse companhia ao amigo, até ele
regressar. Em suma, tão perfeitamente soube representar a
necessidade, ou nescidade de sair, que ninguém adivinharia
ser fingida.
318
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Ficaram sós à mesa, a inocente mulher e o enleado amigo,
porque a mais gente da casa se havia retirado para ir também
jantar. Estava Lotário chegado à estacada em que o desejava o
amigo, e tendo em frente o inimigo, formosura que só por si
pudera vencer a um esquadro de cavaleiros armados. Vede se
Lotário não devia temer. O que ele fez foi pousar o cotovelo
no braço da cadeira, com a mão aberta sobre a face;
desculpando-se da descortesia, pediu à dama licença para
repousar um pouco até que Anselmo voltasse. Respondeu-lhe ela
que para descansar melhor ficaria nos coxins do salão que na
cadeira, e lhe rogou que os preferisse. Recusou Lotário o
oferecimento, ficou onde estava, e adormeceu.
Anselmo, quando voltou, achando Camila no seu aposento e o
comensal pegado no sono, entendeu que, por haver sido a sua
demora excessiva, já os dois teriam tido tempo, não só de
conversar, mas até de dormir. Já lhe tardava a hora em que o
sonolento abrisse os olhos para saírem ambos de casa, e
receber dele notícias da sua sorte. Correu-lhe tudo como ele
queria. Lotário acordou, e logo saíram ambos juntos de casa.
Chegados à rua, perguntou alvoroçadamente o curioso o que
desejava. Respondeu o outro que não lhe tinha parecido
acertado descobrir tudo logo da primeira vez, e que por isso
o que só tinha feito fora louvar a Camila de formosa e
discreta, por lhe parecer este um bom exórdio para lhe ir
ganhando pouco a pouco a vontade, dispondo-a a escutá-lo
gostosa para a outra vez; que assim é que usava o Demónio,
quando queria tentar alguém muito acautelado: representa-se
anjo de luz, sendo-o ele de trevas, põe-lhe diante aparências
inocentes, e só por fim é que descobre quem é, e não logra os
seus intentos, senão se antes de tempo os não deixou
descobrir.
Com tudo aquilo ficou Anselmo contentíssimo, e disse que
todos os dias lhe proporcionaria iguais azos, mesmo sem sair
de casa, porque de portas adentro se podia entreter em coisas
insuspeitas.
Sucedeu, portanto, correrem muitos dias que Lotário, sem
dizer palavra a Camila, respondia a Anselmo, que lhe falava,
sem jamais poder alcançar dela uma pequena mostra sequer de
319
MIGUEL DE CERVANTES
que estaria por coisa que fosse má, nem sombra de esperança
disso; pelo contrário, ameaçava-o de que, se não se deixasse
daqueles ruins pensamentos faria queixa a seu marido.
- Muito bem; até aqui - disse Anselmo - tem resistido às
palavras; agora falta ver se também resiste a obras. Hei-dete
entregar amanhã dois mil escudos para lhos ofereceres, e
até dares; e outros tantos para comprares jóias, que em anzol
para as mulheres são ainda melhor isca; todas costumam ser
perdidas por louçainhas, principalmente as bonitas, embora
castas; regalam-se de se apresentar bem e estadear-se de
galãs. Se também a isto resistir, dou-me por satisfeito, e
não te importuno mais.
Respondeu Lotário que, uma vez que tinha começado a empresa,
desejava levá-la até ao fim, posto já ia vendo que o m seria
ficar exausto de forças e vencido.
No dia seguinte, recebeu os quatro mil escudos, e outras
tantas confusões, por já não poder inventar novas mentiras.
Mas com efeito sempre lhe disse que a mulher tão-pouco se
rendia às dádivas e promessas como às palavras; que não havia
mais que ver nem que lidar; era tudo tempo perdido.
Aconteceu, porém, que, tendo Anselmo deixado sós, como de
outras vezes costumava, Camila e Lotário, se encerrou num
aposento, e pelo buraco da fechadura esteve espreitando e
ouvindo o que entre eles se falava. Notou que por mais de uma
hora Lotário nem palavra deu, nem a daria em todo um século
que ali estivessem; de onde inferiu que tudo quanto o amigo
lhe relatara das esquivanças de Camila não passava de mera
falsidade. Para maior certeza saiu do quarto, e, chamando
Lotário à parte, lhe perguntou que novas havia, e de que
humor se ia achando a mulher.
- Nessa matéria - respondeu Lotário - já não torno a perder
tempo; dá-me sempre umas respostas tão ásperas e sacudidas
que já me não atrevo a dizer-lhe mais nada.
- Lotário, Lotário - disse Anselmo -, que mal correspondes ao
que me deves, e à confiança que em ti punha! Saberás que te
estive excogitando por onde se introduz esta chave;
nem meia palavra disseste a Camila; do que eu infiro que nem
sequer principiaste ainda. Sendo assim, como sem dúvida o é,
320
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA ?
para que me enganas, e me privas dos meios que eu podia ter
|B para realizar os meus desejos? ||
Mais não disse; mas bastou isso para deixar a Lotário vexado
e confuso por ter sido apanhado em flagrante entira; pelo fju
que jurou a Anselmo que, daquela hora em diante, ia tomar
tanto w a peito o satisfazer-lhe o empenho, como ele próprio
o reconhe- j';
ceria já que se divertia a espreitá-los; seria necessário
empre- |! gar grandes diligências para lhe desvanecer de uma
vez todas Mj as suspeitas. |i
Ficou-se naquelas palavras Anselmo; e, para o deixar mais à
sua vontade resolveu-se a ausentar-se de casa por oito dias,
que y1, iria passar em companhia de outro amigo seu, morador
numa 1 aldeia não longe da cidade. Este (por combinação entre
os dois) , lhe mandou pedir, com grande empenho, que o fosse
visitar; ||:
com o que justificada ficava a sua partida aos olhos de
Camila j
- Desgraçado e imprudente Anselmo, que é o que fazes? - disse
Lotário. - Que é o que projectas? Riscas a tua desonra, _
traças e ocasionas a tua perdição. Tua esposa é boa; possuila
quieta e sossegadamente; ninguém te dá sobressaltos; os
pensamentos dela não saem do secreto de sua casa; és tu o seu
céu na terra, o alvo dos seus desejos, a satisfação de todos
os seus gostos, e a regra de todas as suas ambições; a ti e
ao Céu é que ela unicamente almeja com prazer. Se nesta mina
de honra, formosura, honestidade, e recolhimento, achas sem
nenhum trabalho toda a riqueza que mais se pode desejar
porque te desassossegas a cavar a terra mais fundo em busca
de novas betas de tesouro novo e nunca visto, pondo-te em
perigo de te desabar tudo (porque enfim o tudo, afinal, só
assenta nos esteios da natureza frágil)? A quem busca o
impossível justo é que até o possível se lhe negue. Melhor do
que eu o disse um poeta nos seguintes versos:
Procuro na morte a vida;
saúde na enfermidade;
no cárcere, liberdade; " no encerramento, saída; v no traidor
fidelidade. JÉ
321 t
MIGUEL DE CERVANTES
Mas minha sorte, de quem já não posso esperar bem ajustou co
Céu terrível, que, pois lhe peço o impossível, nem o possível
me dêem.
No dia seguinte, lá se foi Anselmo para a aldeia, deixando
dito a Camila que, durante a sua ausência, viria Lotário
olhar por sua casa, e jantar com ela; que tivesse cuidado de
o tratar como a ele próprio. Com esta ordem do marido
afligiu-se a esposa, como honrada e prudente que era, e lhe
pediu que reflectsse em que durante a sua ausência não
parecia bem que pessoa alguma ocupasse o seu lugar; e que, se
o fazia por não ter certeza de ela saber governar-lhe a casa,
experimentasse por aquela vez, e reconheceria que até para
mais era a sua capacidade.
Anselmo replicou ser aquele o seu gosto, e que a ela só
competia abaixar a cabeça e obedecer-lhe. Camila prometeu,
que assim o faria, mas não por vontade sua.
Partiu Anselmo.
No outro dia, veo a casa Lotário; foi recebido pela dama com
amabilidade e todo o comedimento; nunca ela se pôs em parte
em que se pudesse ver com o hóspede; andava sempre rodeada de
seus criados e criadas, especialmente de uma aia sua chamada
Leonela, a quem muito queria, por se terem criado ambas
juntas desde meninas na casa paterna, de onde a trouxe
consigo quando se casou.
Nos três primeiros dias, nunca Lotário disse nada, ainda que
bem o podia quando se levantava a mesa, e os servos se iam
todos à pressa para jantar, porque assim lho tinha a ama
determinado; à sua Leonela recomendava que jantasse primeiro
que os senhores, e nunca lhe saísse de ao pé dela. Leonela,
porém, que trazia o pensamento em coisas mais do seu gosto, e
necessitava daquelas horas para os seus recreios, nem sempre
executava à letra a recomendação, antes muitas vezes deixava
sós os dois, como se as suas instruçes fossem essas
precisamente.
Não obstante estes azos todos, o portamento honesto de
Camila, a compostura do seu semblante eram tais que Lotário
322
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
emudecia. Mas se as virtudes de Camila tolhiam a voz do
comensal, por outra parte mais perigosas por isso mesmo se
tornavam para eles ambos; calavam, sim, a língua; mas o
pensamento lá ia por dentro discorrendo, e contemplando um
por um todos os extremos de bondade e formosura da vigiada.
Sentir-se-ia ali enamorado um colosso de mármore, quanto mais
um coração de carne!
O tempo em que lhe podia falar, emprègava-o em olhar para
ela, e reconhecia quanto era credora de mil amores.
A continuação destas mudas contemplações começou pouco a
pouco a enfraquecer os respeitos do amigo para com o ausente;
esteve muitas vezes para sair da cidade e ir-se para onde
nunca mais Anselmo o visse a ele, nem ele a Camila; já,
porém, o prendia o próprio deleite que sentia só em vê-la.
Forcejava e teimava consigo mesmo para atenuar e extinguir de
todo o encanto de olhar para Camila; culpava-se em
consciência de tamanho desatino, chamando-se mau amigo, e até
mau cristão. Se com Anselmo se comparava, o final era sempre
dizer que maior fora a loucura e confiança de Anselmo, do que
era a deslealdade dele próprio; e tão boa desculpa tivesse
ele para com Deus como a havia de ter para com os homens.
De feito, a lindeza e bondade de Camila, ajudadas das
facilidades que o ignorante marido lhe facultava, deram com a
lealdade de Lotário em terra e, sem já se lembrar de mais
coisa alguma senão do seu gosto, depois de três dias de
ausência de Anselmo, nos quais esteve em guerra aberta contra
os próprios desejos, começou de requebrar a dama, mas tão
perturbado, e com uns dizeres tão apaixonados, que a deixou
suspensa, e tão sobressaltada, que não fez outra coisa senão
levantar-se e recolher-se ao quarto sem uma única palavra de
resposta.
Com este desabrimento não esmoreceu em Lotário a esperança,
irmã gémea e sempre companheira do amor; a fugitiva tomou-se
ainda mais adorada. Ela, porém, por ter descoberto o que
nunca esperava, não sabia que fizesse; entendendo não ser
prudente nem bem feito dar ocasião a renovar-se o
atrevimento, determinou enviar naquela mesma noite um criado
seu com um bilhete a Anselmo, e assim o fez. O bilhete dizia
o seguinte:
323
MIGUEL DE CERVANTES
CAPÍTULO XXXIV
EM QUE SE PROSSEGUE A NOVELA DO CURIOSO IMPERTINENTE
«Tem-se por dizer, que nem exército sem general, nem castelo
sem castelão; e eu digo, que ainda há coisa pior que essas
duas; e é: mulher casada e moça sem o seu marido ao pé, salvo
havendo para isso justíssimas razões. Acho-me tão mal sem
vós, e tão fraca para resistir a esta ausência, que, se não
vindes depressa, ir-vos-ei esperar em casa de meus pais,
ainda que deixe esta vossa sem guarda. A que vós me
deixastes, se é que ficou com tal título, creio que olha mais
pêlos seus gostos, que pêlos vossos interesses. Como sois
discreto, não tenho mais que vos dizer, nem devo.»
Por esta carta entendeu Anselmo que Lotário tinha já começado
as operações, e Camila se houvera à medida dos seus desejos.
Sobremodo alegre de tal mensagem, mandou a Camila resposta de
palavra que de modo nenhum saísse de casa, porque ele com
muita brevidade tornaria.
Admirou-se Camila com tal resposta, e ficou à vista dela
ainda mais confusa do que já estava. Não se atrevia a
permanecer em sua casa, nem a ir-se para a de seus pais.
Ficando, arriscava a sua honestidade; indo-se, desobedecia ao
consorte. Afinal, resolveu o pior, que foi ficar, sem evitar
a presença de Lotário, para não dar suspeitas à criadagem;
arrependia-se de ter escrito daquele modo ao esposo, receando
dar-lhe ideias de que Lotário teria visto nela alguma
desenvoltura, que o animasse a faltar-lhe ao respeito.
Enfim, fiada na bondade própria, entregou-se nas mãos de
Deus, firme em resistir com o silêncio a quantas declarações
e instâncias lhe pudessem sobrevir; e, calando tudo ao
marido, para o forrar a alguns trabalhos, já andava até
procurando maneira com que desculpar Lotário perante Anselmo,
quando este lhe pedisse a explicação do bilhete.
Com estas ideias mais honradas que acertadas ou proveitosas,
esteve no outro dia escutando a Lotário, o qual tanto
carregou a mão nas instâncias, que a firmeza de Camila
principiou a
324
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
titubear, e bastante teve a sua honestidade que fazer para
proibir aos olhos alguns sinais de amorosa compaixão que no
peito lhe haviam despertado as lágrimas e súplicas do seu
idólatra. Tudo aquilo ia ele notando, e abrasando-se cada vez
mais.
Afinal, pareceu-lhe que era mister apertar o combate à
fortaleza, aproveitando o tempo que o marido para isso lhe
deixava. Acometeu-a pela presunço, exaltando-lhe a formosura
(não há coisa que mais depressa arrase as torres da vaidade
das formosas, que a adulação); e para abreviarmos: com tanta
habilidade soube minar aquela virtude, que, de bronze que a
dama fora, não tivera remédio senão cair. Chorou, rogou,
ofereceu, adulou, porfiou, e fingiu, com tantos afectos, e
tantas mostras de paixão, que lá se foi o recato de Camila;
logrou-se o mais suspirado e mais inesperado triunfo.
Rendeu-se Camila; sim, Camila rendeu-se. Mas que admira, se a
amizade de Lotáriojá também se tinha rendido? Claro exemplo
de que para se vencer a paixão amorosa não há outro remédio
senão fugir-lhe, e que ninguém se deve tomar a braços com tão
possante inimigo, porque só com forças divinas se venceriam
as suas, em serem humanas.
Só Leonela soube a fraqueza de Camila; e como lha haviam de
encobrir os dois namorados e desleais na amizade?
Não quis Lotário confessar a Camila qual fora o projecto de
Anselmo, nem que fora ele mesmo quem lhe abrira passo para
chegar àquele ponto, porque não queria que ela tivesse em
menos apreço o seu amor, e imaginasse que sem premeditação, e
só por uma fatalidade do acaso a havia perseguido.
Regressou Anselmo passados poucos dias, e não pôde perceber o
que naquela casa faltava, que era de tudo o que ele mais
estimava. Foi-se logo a visitar Lotário, encontrou-o,
abraçaram-
-se, e pediu-lhe novas da sua vida ou morte.
- As novas que te posso dar, amigo Anselmo - disse Lotário
-, são que tens uma mulher exemplar, o non plus ultra das
honradas. As palavras que lhe disse levou-as o vento; os
oferecimentos desprezaram-se; os presentes enjeitaram-se; e
de algumas lágrimas que fingi, fez-se zombaria
despropositada. Em suma:
assim como é o símbolo de todas as graças, é o santuário da
ho-
325
MIGUEL DE CERVANTES
CAPÍTULO XXXIV
EM QUE SE PROSSEGUE A NOVELA DO CURIOSO IMPERTINENTE
«I em-se por dizer, que nem exército sem general, nem castelo
sem castelão; e eu digo, que ainda há coisa pior que essas
duas; e é: mulher casada e moça sem o seu marido ao pé, salvo
havendo para isso justíssimas razões. Acho-me tão mal sem
vós, e tão fraca para resistir a esta ausência, que, se não
vindes depressa, ir-vos-ei esperar em casa de meus pais,
ainda que deixe esta vossa sem guarda. A que vós me
deixastes, se é que ficou com tal título, creio que olha mais
pêlos seus gostos, que pêlos vossos interesses. Como sois
discreto, não tenho mais que vos dizer, nem devo.»
Por esta carta entendeu Anselmo que Lotário tinha já começado
as operações, e Camila se houvera à medida dos seus desejos.
Sobremodo alegre de tal mensagem, mandou a Camila resposta de
palavra que de modo nenhum saísse de casa, porque ele com
muita brevidade tornaria.
Admirou-se Camila com tal resposta, e ficou à vista dela
ainda mais confusa do que já estava. No se atrevia a
permanecer em sua casa, nem a ir-se para a de seus pais.
Ficando, arriscava a sua honestidade; indo-se, desobedecia ao
consorte. Afinal, resolveu o pior, que foi ficar, sem evitar
a presença de Lotário, para não dar suspeitas à criadagem;
arrependia-se de ter escrito daquele modo ao esposo, receando
dar-lhe ideias de que Lotário teria visto nela alguma
desenvoltura, que o animasse a faltar-lhe ao respeito.
Enfim, fiada na bondade própria, entregou-se nas mãos de
Deus, rme em resistir com o silêncio a quantas declarações e
instâncias lhe pudessem sobrevir; e, calando tudo ao marido,
para o forrar a alguns trabalhos, já andava até procurando
maneira com que desculpar Lotário perante Anselmo, quando
este lhe pedisse a explicação do bilhete.
Com estas ideias mais honradas que acertadas ou proveitosas,
esteve no outro dia escutando a Lotário, o qual tanto
carregou a mão nas instâncias, que a firmeza de Camila
principiou a
324
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
titubear, e bastante teve a sua honestidade que fazer para
proibir aos olhos alguns sinais de amorosa compaixão que no
peito lhe haviam despertado as lágrimas e súplicas do seu
idólatra. Tudo aquilo ia ele notando, e abrasando-se cada vez
mais.
Afinal, pareceu-lhe que era mister apertar o combate à
fortaleza, aproveitando o tempo que o marido para isso lhe
deixava. Acometeu-a pela presunção, exaltando-lhe a formosura
(não há coisa que mais depressa arrase as torres da vaidade
das formosas que a adulação); e para abreviarmos: com tanta
habilidade soube minar aquela virtude, que, de bronze que a
dama fora, não tivera remédio senão cair. Chorou, rogou,
ofereceu, adulou, porfiou, e fingiu, com tantos afectos, e
tantas mostras de paixão, que lá se foi o recato de Camila;
logrou-se o mais suspirado e mais inesperado triunfo.
Rendeu-se Camila; sim Camila rendeu-se. Mas que admira, se a
amizade de Lotário já também se tinha rendido? Claro exemplo
de que para se vencer a paixão amorosa não há outro remédio
senão fugir-lhe, e que ninguém se deve tomar a braços com tão
possante inimigo, porque só com forças divinas se venceriam
as suas, em serem humanas.
Só Leonela soube a fraqueza de Camila; e como lha haviam de
encobrir os dois namorados e desleais na amizade?
Não quis Lotário confessar a Camila qual fora o projecto de
Anselmo, nem que fora ele mesmo quem lhe abrira passo para
chegar àquele ponto, porque não queria que ela tivesse em
menos apreço o seu amor, e imaginasse que sem premeditação, e
só por uma fatalidade do acaso a havia perseguido.
Regressou Anselmo passados poucos dias, e não pôde perceber o
que naquela casa faltava, que era de tudo o que ele mais
estimava. Foi-se logo a visitar Lotário, encontrou-o,
abraçaram-
-se, e pediu-lhe novas da sua vida ou morte.
- As novas que te posso dar, amigo Anselmo - disse Lotário
-, são que tens uma mulher exemplar, o non plus ultra das
honradas. As palavras que lhe disse levou-as o vento; os
oferecimentos desprezaram-se; os presentes enjeitaram-se; e
de algumas lágrimas que fingi, fez-se zombaria
despropositada. Em suma:
assim como é o símbolo de todas as graças, é o santuário da
ho-
325
MIGUEL DE CERVANTES
nestidade, do comedimento, do recato, e de todas as virtudes
feminis. Retoma os teus dinheiros, amigo, eles aqui estão;
não me foi necessário tocar-lhes; Camila não se rende a
coisas tão baixas. Alegra-te, Anselmo, e deixa-te de mais
experiências; uma vez que passaste a pé enxuto o mar das
suspeitas que se podem e devem ter a respeito das mulheres,
não tornes lá, nem tomes outro piloto para confirmar a
bondade e fortaleza do navio que o Céu te deu para
atravessares as ondas deste mundo; faz de conta que já estás
em porto seguro, deita a âncora, e deixa-te ficar até que te
venham obrigar pela dúvida que a ninguém se perdoa.
Certíssimo ficou Anselmo com estas ponderações de Lotário;
creu delas como se de um oráculo lhe viessem; contudo, sempre
o exortou a prosseguir na empresa, ainda que não fosse senão
por curiosidade e passatempo, embora as diligências daí
avante fossem menos afincadas; o que só lhe exigia é que
fizesse alguns versos em louvor dela com o nome de Clóris,
que ele tomava a si o persuadir a Camila andar ele enamorado
de certa dama, a quem disfarçara assim o verdadeiro nome,
para não faltar ao respeito que à sua honestidade se devia, e
que, se não queria tomar a si esse trabalho de fazer os
versos, ele Anselmo os escreveria por ele.
- Não é preciso - disse Lotário -, não me são as musas tão
inimigas, que algumas vezes por ano me não visitem. Diz tu a
Camila o mesmo que lhe disseste dos meus amores fingidos; que
os versos eu os farei; não serão dignos do objecto, mas hãode
ser os melhores que eu puder.
Assim caram conchavados o impertinente e o traidor. Entrando
em casa, perguntou Anselmo à sua mulher (o que ela se
admirava de ele lhe não ter ainda perguntado) o motivo por
que lhe tinha mandado o escrito.
Respondeu-lhe ela que se lhe havia figurado que Lotário
encarava nela um tanto mais descomedidamente que dantes,
enquanto ele estava em casa, mas que, ao presente, já estava
certa de que não fora senão cisma sua porque Lotário fugia de
vê-la e achar-se com ela a sós.
Respondeu-lhe Anselmo que lá por essa parte podia estar
descansada, porque ele sabia que Lotário andava doido por uma
326
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
donzela das principais da cidade, a quem celebrava debaixo do
nome de Clóris, e, ainda que o não soubera nada havia que
recear da verdade de Lotário, e da muita amizade que os unia.
Se Camila não soubera de Lotário mesmo serem imaginários
aqueles amores de Clóris e de propósito inventados por ele
para poder a seu salvo empregar alguns momentos vagos nos
louvores de Camila, sem dúvida estaria caída na desesperada
rede dos ciúmes; mas, por andar já advertida, livrou-se da
estranheza do sobressalto.
Outro dia, achando-se os três à sobremesa, rogou Anselmo a
Lotário que recitasse alguma coisa das que tinha composto à
sua dilecta Clóris, que, sendo, como era, desconhecida de
Camila, podia afoitamente falar dela quanto quisesse.
- Embora a conhecesse - respondeu Lotário - porque havia eu
de encobrir nada? Quando um amante louva a sua dama de
formosa, e ao mesmo tempo a censura de cruel, nem por sombras
a desdoira. Como quer que seja, o que sei dizer é que ainda
ontem fiz um soneto à ingratidão desta Clóris, o qual diz
assim:
SONETO
Da umbrosa noite no silêncio, quando meigo sono refaz os mais
viventes, só eu vou meus martírios inclementes aos Céus e à
minha Clóris numerando.
Quando o dia os seus raios vem mostrando de entre as rosas
d'aurora aurisplendentes com suspiros e lástimas ferventes
vou as teimosas queixas renovando.
Se doura o So a prumo o térreo assento, não me dissipa as
trevas da agonia;
dobra-me o pranto, aumenta-me os gemidos.
327
MIGUEL DE CERVANTES
Volve a noite, e eu com ela ao meu lamento.
Ai! que sorte! implorar de noite e dia,
ao Céu piedade, e à minha ingrata ouvidos.
Pareceu bem a Camila o soneto, e a Anselmo ainda melhor. Este
louvou-o, e disse que passava de cruel a dama que a tão
claras verdades não correspondia.
- Então - disse Camila - tudo que sai da boca a poetas
namorados se há-de logo ter por verdade?
- Como poetas não a dizem - respondeu Lotário - mas como
namorados, nunca a chegam a dizer inteira.
- Nisso não há dúvida - replicou Anselmo. Tudo para mais
acreditar os pensamentos de Lotário no conceito de Camila, to
desprecatada do artifício de Anselmo, como já apaixonada por
Lotário, e assim com o gosto do próspero andamento que as
suas coisas lhe estavam dando, e por saber que os desejos e
escritos do poeta a ela unicamente se referiam, por ser ela a
verdadeira Clóris, lhe pediu que, se tinha mais algum soneto
ou outros versos, os dissesse
- Tenho outro soneto, mas parece-me inferior ao primeiro;
estais a tempo de os comparar; é o seguinte:
Bem sei que morro, pois não sendo crido forçoso é que me
acabe o desconforto;
podes ver-me a teus pés, ingrata, morto, mas nunca de adorarte
arrependido.
Poderei ver nos paramos do olvido que a vida, a glória, o
bem, foi tudo aborto;
só teu semblante conquistando um porto no ardente coração
resta esculpido.
Vem comigo, relíquia, ao transe duro a que me há-de levar
esta porfia, que em seu próprio rigor se fortalece.
328
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Ai de quem voga à toa em pego escuro sem roteiro, sem
bússola, sem via! astro não vê, nem porto se lhe ofrece.
Louvou Anselmo também este segundo soneto; ia acrescentando a
elo e elo a cadeia da sua desonra pois quanto mais lhe
crescia a afronta, mais ele se tinha por glorificado. Quantos
degraus Camila descia para o ínfimo desprezo, tantos subia na
opinião do néscio marido para as eminências da virtude e da
boa fama.
Sucedeu que, achando-se uma vez, como outras muitas, Camila
com a sua aia lhe disse:
- Estou envergonhadíssima, minha amiga Leonela, de ver quão
pouco me tenho sabido respeitar, nem sequer fiz com que
Lotário só a poder de tempo alcançasse este completo
predomínio sobre a minha vontade. Estou receando que ele
chegue algum dia a desestimar a minha facilidade, a minha
leveza, esquecido já da violência com que me tornou
impossível o resistir-lhe.
- Ai minha Senhora - respondeu Leonela -, por coisas tão
poucas não se esteja agora penando; darmos depressa o que
temos de dar não tira nem pe nada ao valor da coisa, quando
ela de si o tem; até se costuma dizer que o dar depressa é
dar duas vezes.
- E também se costuma dizer - disse Camila - que o que pouco
custa pouco se estima.
- Isso não é regra - respondeu Leonela -; o amor, segundo já
ouvi dizer, umas vezes voa e outras anda; com este corre;
com aquele vai devagarinho; a uns entibia; a outros abrasa; a
uns fere, e a outros mata; no mesmo instante começa e acaba o
seu desejar. Pela manhã pôr cerco a uma fortaleza; e à noite
vê-la já vencida, porque não há força que lhe resista. Sendo
assim, porque se admira ou se intimida, se outro tanto deve
ter acontecido a Lotário? Se a ausência de meu amo foi afinal
de contas quem os rendeu a ambos? Nesses poucos dias, era
forçoso, que se concluísse tudo, em vez de se porem a dar
tempo ao tempo à espera de que o Sr. Anselmo voltasse,
deixando a obra imper-
329
MIGUEL DE CERVANTES
feita. Nisto de amores, quem perde a ocasião, perde a
ventura. São coisas que eu sei mais de experiência que de
ouvido; e algum dia lho contarei Senhora, porque eu também
sou de carne, e ainda também me ferve o sangue; e mais a
minha Senhora não se entregou tão de repente como isso; viu
primeiro nos olhos, nos suspiros, nas falas, nas promessas e
nos mimos de Lotário toda a sua alma, e quanto era merecedor
de se lhe querer bem. Sendo assim, desterre essas fantasias
de escrúpulos; tenha a certeza de que Lotário a estima tanto,
como a Senhora a ele, e anda todo ancho e satisfeito de a ver
caída no laço porque isso mesmo o exalta ainda mais no seu
próprio conceito; e não só tem os quatro S S S S, que dizem
ser precisos a todos os namorados, mas até o a b c inteiro.
Ora repare, e eu lho digo de cor;
e ele é, segundo eu vejo e me parece:
AGRADECIDO BOM - CAVALHEIRO DADIVOSO - ENAMORADO - IRME
GALANTE HONRADO - ILUSTRE LEAL
MOÇO - NOBRE - ÓPTIMO
PRINCIPAL - QUANTIOSO Rico
e os SSSS que dizem; e depois TÁCITO - VERDADEIRO o X é que
não lhe quadra por ser letra áspera;
o Y já lá fica no I; o Z
ZELADOR DA HONRA DA SUA DAMA.
Riu-se Camila do abecedário da sua aia, e teve-a por mais
prática em pontos de amor do que ela se inculcava. Ela,
porém, sem hesitações lho confessou, declarando-lhe que
entretinha amores com um mancebo grave da mesma cidade. Com
aquilo se turvou Camila, por temer que por al é que a sua
honra poderia vir a perigar. Apertou-a para saber se as suas
conversações não passavam adiante; ela com todo o desembaraço
lhe
330
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
respondeu que sim, passavam muito adiante. Isso é já coisa
velha e sabida que os descuidos das senhoras tiram a vergonha
às criadas, e que estas, vendo as suas amas escorregar, pouca
dúvida põem em coxear, e puco se lhes dá que o saibam.
Camila o mais que pôde foi pedir a Leonela, que não dissesse
nada a respeito dela ao que dizia ser seu rapaz, e tratasse
as coisas com segredo para não chegarem ao conhecimento de
Anselmo e de Lotário. A aia, porém, respondeu que assim o
faria; fê-lo porém de modo, que os receios da senhora se
realizaram; a desonesta e atrevida Leonela, vendo que o
procedimento da ama não era já o mesmo que dantes, atreveu-se
a receber dentro em casa o seu amante, porque, ainda que a
senhora o visse já se não atrevia a descobri-lo.
Consequências tristes dos desmanchos das senhoras, que se
fazem escravas das suas próprias servas e se obrigam a
encobrir-lhes as suas desonestidades e vilezas; e assim
aconteceu a Camila que, ainda que viu muitas vezes estar
Leonela num aposento de sua casa com o galã, não só se não
atrevia a ralhar-lhe, mas lhe dava lugar para que o recatasse
e a livrava por todos os modos de ser percebida do marido.
Apesar de todas as suas cautelas não pôde, contudo, evitar
que Lotário um dia, ao romper de alva, percebesse a saída do
contrabando. Não conhecendo quem era, pensou primeiro que
seria avejão; mas, notando-lhe o caminhar, o embuçar-se, e o
encobrir-se, trocou logo a sua ideia supersticiosa por outra,
que para todos se tornaria perdição, se Camila a não
remediara.
Entendeu Lotário que o homem, que tão antemanhã saía daquela
casa, não havia nela entrado para Leonela; nem pela ideia lhe
passou que tal Leonela existisse. Acreditou sim que, tendo
Camila sido fácil e leviana em proveito dele, também o podia
ser para algum outro. São estas umas crescenças que traz
consigo o mau comportamento de uma mulher que perde a boa
fama: aquele mesmo a quem se entregou, depois de muito rogada
e persuadida, crê que mais facilmente ainda se entregará a
outro; e qualquer suspeita se lhe afigura logo certeza. Nisto
parece haver falhado em Lotário de todo em todo o bom juízo.
Varreram-se-lhe da memória todos quantos resguardos até ali
331
MIGUEL DE CERVANTES
lhe aconselhava a prudência. Sem atinar em expediente algum,
que fosse, senão bom, pelo menos razoável, sem mais nem mais,
antes que Anselmo se levantasse, impaciente e cego da súbita
raiva que o tomara, morrendo por vingar-se de Camila naquele
caso inocente, foi-se ter com o marido e lhe disse:
- Saberás, meu Anselmo, que ando há muitos dias em guerra
comigo, para te não revelar o que já te não posso esconder
por mais tempo: sabe que a fortaleza de Camila está já
rendida e sujeita a quanto eu dela pretender. Se tardei em te
descobrir esta verdade, foi só para me certificar primeiro se
não seria aquilo nela mera leviandade passageira, ou talvez
propósito de reconhecer bem ao certo se eram ou não sinceros
os galanteios que lhe eu fazia, já se sabe por tua
autorizaço. Mas sempre me parecia, que o dever dela, se ela
fosse a que pensávamos, seria ter-te já dado conta das minhas
perseguições. Como tarda em fazê-lo, deixa-me crer que são
verdadeiras as promessas que me fez, de que, para a primeira
vez que te ausentes da tua casa, está pronta a ir falar
comigo na recamara dos teus móveis fora de uso (e era lá
realmente que ela lhe costumava falar). Não quero que te
precipites a vingar-te; por ora o pecado só existe no
pensamento; e poderia acontecer que, no que vai daí até à
realização, Camila caísse ainda em si e se arrependesse. Como
tu sempre, ou em todo ou em parte, tens aceitado os meus
pareceres, segue também este que te vou dizer, para que sem
engano nem temeridade só faças o que vires ser mais acertado.
Finge que te ausentas por dois ou três dias, como de outras
vezes, e esconde-te na tua recamara; é fácil com os panos da
colgadura e as mais coisas que por ali há; então verás pêlos
teus próprios olhos, e eu pêlos meus, quais são as
verdadeiras tenções dela. Se forem de mulher perdida, como é
de temer, tu em segredo, e com discrição, poderás vingar-te e
puni-la.
Ficou Anselmo absorto com a revelação de Lotário, quando mais
livre se cuidava já de semelhantes malefícios, porque tinha
já a mulher por desenganadamente vencedora das diligências do
amigo; fazia-se já nos alvoroços do triunfo. Esteve por largo
espaço taciturno olhando para o chão sem pestanejar; e por
fim disse:
332
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Fizeste, meu Lotário, o que eu esperava da tua lealdade;
em tudo seguirei o teu conselho; faz o que te aprouver, e
guarda o segredo que deves em caso tão imprevisto.
Prometeu-lho Lotário; e, apenas dele se apartou, arrependeuse
inteiramente de quanto lhe havia dito. Que néscio não
tinha sido expondo Camila a uma vingança, que ele por si
mesmo bem podia tomar com menor crueldade, e menos
ignominiosamente! Maldizia a sua doidice, culpava a sua
precipitação, e não sabia modo para desfazer o que havia
feito, ou sair de tamanho aperto por qualquer via razoável.
Por fim, resolveu informar de tudo a Camila; e como lhe não
faltava aberta para o efectuar, naquele mesmo dia a achou só.
Ela, vendo que lhe i podia falar, lhe disse:
- Sabereis, amigo Lotário, que tenho cá dentro uma paixão que
dá cabo de mim, e milagre será se o não consegue. A tal auge
é chegado o desavergonhamento de Leonela, que recebe nesta
casa todas as noites um namorado seu, passa com ele até ao
dia; isto tanto à custa do meu crédito, quanto assim se dão
azos para juízos temerários contra mim a quem vir tais saídas
desta casa a horas tão desusadas. O que me rala é não a poder
castigar nem ralhar-lhe, porque o ser ela confidente das
nossas intimidades me amordaça para eu calar as dela. Estou
já temendo que daqui se nos haja de originar alguma desgraça
grande.
Quando Camila começou a falar, Lotário imaginou seria aquilo
artifício para lhe persuadir a ele que o vulto que vira sair
pertencia à aia e não à ama; mas, vendo-a chorosa, afligida,
e a suplicar-lhe remédio, veio a crer na verdade e,
interrogando-a mais por miúdo, acabou de ficar enleado e
arrependido de tudo.
Contudo respondeu que não tivesse ela pena, que ele acha- a
ria modo para atalhar a insolência da serva. Disse-lhe também
! o mesmo que já a Anselmo havia dito, quando instigado de
seus | enraivecidos ciúmes; e que estava concertado que se
escondes- i. se na recamara para dali presenciar a pouca
lealdade que ela lhe guardava. Pediu-lhe perdão de tão louca
lembrança, e algum alvitre sobre o modo de a remediar e sair
a salvo de tão revolto labirinto, como o em que por sua má
cabeça se tinha envolvido.
333
MIGUEL DE CERVANTES
Com o que a Lotário ouviu ficou pasmada Camila, e cheia de
enfado, e com conceitos judiciosíssimos lhe estranhou passos
tão condenáveis, e tão repreensível comportamento. Mas, como
naturalmente as mulheres têm mais engenho que os homens,
tanto para o bem como para o mal (ainda que em se pondo de
propósito a discorrer já se lhes entra a secar a veia), logo
ali de repente inventou Camila modo de se remediar uma
desordem que tão sem conserto se mostrava. Disse, pois, a
Lotário, que diligenciasse para que Anselmo se escondesse
outro dia onde ele se tinha lembrado, e que ela saberia tirar
desse escondimento comodidade para ficarem daí avante os seus
tratos sem nenhum perigo; e sem lhe declarar a sua ideia toda
lhe advertiu que tivesse cuidado, em sabendo que Anselmo
estava escondido, de vir ele apenas Leonela o chamasse, e a
quanto ela lhe dissesse lhe respondesse como responderia
ainda que não soubesse que Anselmo era à escuta.
Teimou Lotário em desejar saber o resto da armadilha, porque
assim com mais segurança e acerto cumpriria ele da sua parte
tudo que fosse necessário.
- Nada mais é preciso - disse Camila - do que responder-me
pontualmente às minhas perguntas.
Não estava resolvida a dar-lhe conta antecipada do seu
projecto, por temer que ele reprovasse o que tão conveniente
lhe parecia a ela, e antepusesse outros de menos
probabilidades.
Não replicou e partiu Lotário; e, no dia seguinte, Anselmo,
com o pretexto de ir à aldeia do seu amigo abalou; mas,
tornando atrás sem demora, se foi homiziar no seu valhacouto,
o que lhe foi sobremodo fácil em razão do azo que para isso
mesmo lhe proporcionaram a ama e a criada.
Lá está, pois, alapado Anselmo com aquele sobressalto que bem
se pode imaginar em quem está para ver por seus olhos as
próprias entranhas da sua honra postas em escalpelos de
anatomia. Em poucos instantes se lhe podia ir a pique o sumo
bem que ele pensava ter na sua Camila.
Seguras e certas já de terem o caçador à espreita do coelho,
entraram' na recamara; mal pôs nela o primeiro pé, exclamou
com um grandíssimo suspiro Camila:
334
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Ai, Leonela amiga! Não seria melhor que antes de eu pôr em
execuço o que não quero que saibas para mo não estorvares,
pegasses na adaga de Anselmo que te pedi, e me atravessasses
com ela este peito infame? Mas não, não o faças; fora injusto
ser eu punida de um crime alheio. Antes de tudo, tomara saber
o que descobriram em mim os atrevidos e desonestos olhos de
Lotário, para se arrojar a patentear-me desejos tão perversos
em menoscabo do seu amigo, e em meu vilipêndio. Chega a essa
janela, rapariga, que ele deve por força estar já na rua à
espera; mas primeiro que ele cumpra o seu ímpio desejo,
cumprirei eu o meu, que é, sim, cruel, mas que para a honra
já se não pode dispensar.
- Ai, Senhora minha! - respondeu a esperta Leonela senhora do
seu papel. - Que deseja fazer com esta adaga? Quer-
-se matar? Ou quer matar a Lotário? Uma ou outra coisa só
servirá de a desacreditar. Acho melhor que dissimule a
injúria, e não consinta que o mau homem entre agora nesta
casa e nos ache sós; lembre-se Senhora, de que somos duas
fracas mulheres, e ele é homem, e atrevido. Como vem com
aquela má tenção, apaixonado e cego, talvez que a Senhora
execute o que medita, ultimará ele o que é mais de temer que
a própria morte. Mal haja meu amo, o Sr. Anselmo, que tantas
largas deu em casa àquele sem medo nem vergonha. Dou que o
mate, como desconfio será a sua resolução, que havemos de
fazer dele depois de morto?
- Que havemos de fazer? - respondeu Camila. - Deixá-
-lo-emos, e o meu marido que o enterre; deve-lhe ser
delicioso o trabalho de sepultar a sua própria infâmia.
Chama-o, chama-
-o, avia; quanta demora ponho em vingar-me, já me parece uma
quebra na minha lealdade de esposa.
Tudo isto escutava Anselmo; e a cada palavra de Camila sentia
irem-se-lhe os pensamentos transformando. Quando, porém,
ouviu que estava resolvida a matar o seu amigo, deu-
-lhe um ímpeto de sair e descobrir-se para evitar a
catástrofe;
mas teve-lhe mão o desejo de ver em que pararia tão galharda
e honesta resolução, com propósito de sair a tempo de lhe pôr
cobro.
335
MIGUEL DE CERVANTES
Nisto, caiu Camila com um terrível desmaio para cima de uma
cama que ali estava. Leonela começou a carpir-se, e a dizer:
- Ai desditada de mim! Se agora me expira nos braços a flor
da honestidade do mundo! A coroa das mulheres honradas! O
exemplo da castidade!
E como estas, outras exclamações, que todos os que lhas
ouvissem a teriam pela mais lastimada e mais leal de todas as
aias, e à ama por outra e perseguida Penelope.
Pouco tardou que esta volvesse em si do seu delíquio, e
entrasse logo a exclamar:
- Que te demoras, Leonela, em ir chamar ao mais desleal amigo
de quantos viu a Rosa divina, de quantos a noite nunca
favoreceu. Acaba, corre, avia, caminha, não deixes que se
esfrie com a tardança a raiva com que estou, e se esvaia em
ameaças e maldições a justa vingança que aguardo.
- Já o vou chamar Senhora minha - disse Leonela -, mas dê-me
primeiro essa adaga, tenho medo dessa cabeça quando se vir
só, que não faça algum desatino que se haja de chorar toda a
vida entre os que lhe queremos bem.
- Vai, não tenhas medo, minha Leonela, não hei-de fazer nada
- respondeu Camila - porque, ainda que sou temerária e párvoa
em teu conceito, em acudir por minha honra não o hei-de ser
tanto como aquela Lucrécia que se matou, segundo dizem, sem
ter cometido delito algum, e sem ter primeiro traspassado o
peito ao causador da sua desgraça. Se eu morrer, morro
vingada de quem me obrigou a vir a este sítio chorar os seus
atrevimentos nascidos tão sem culpa da minha parte.
Fez-se Leonela muito de rogar antes que saísse a chamar
Lotário; mas enfim sempre saiu. Enquanto se demorava, ficou
dizendo Camila, como quem falava entre si e sem testemunhas:
- Valha-me Deus! Não fora mais acertado ter despedido
Lotário, como tantas outras vezes o fiz, do que autorizá-lo
com este chamamento a ter-me por desonesta e má, pelo menos
enquanto não chego a desenganá-lo? Decerto que era melhor;
mas eu é que ficava sem me vingar, e a honra de meu marido
sem satisfação; não quero que saia tão às mãos lavadas e
seguro de si, como há-de para aqui entrar com as suas danadas
tenções;
336
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
os desejos do traidor só com a vida se podem pagar. Saiba o
mundo (se isto chega a transpirar) que a pobre Camila não só
zelou a fidelidade que ao seu esposo devia/ senão que até o
desagravou de quem se abalançava a querer ofendê-lo. Não sei,
não sei, se não seria melhor dar conta de tudo a Anselmo. Eu
já tinha começado a preveni-lo na carta que lhe escrevi para
a aldeia e imagino que o não ter ele acudido ao mal que eu
lhe apontava, ainda que por alto, só foi efeito do seu génio
leal e confiado; devia-lhe parecer impossível que um amigo
fosse jamais capaz de tamanha aleivosia; nem eu mesma também
o acreditei por muitos dias, nem o acreditaria nunca, se não
fora ter a sua insolência ultrapassado os limites. As
dádivas, as promessas, e as lágrimas contínuas ainda me não
pareciam provas bastantes. Mas que valem agora todas estas
reflexões? Uma resolução magnânima não carece de estímulos.
Fora, traidor! A mim, vingança! Entre o falso, venha, chegue,
morra, acabe, suceda o que suceder. Pura entrei para o poder
do que o Céu me destinou; pura hei-de sair dele; quando
muito, banhada no meu casto sangue, e no sangue peçonhento do
mais refalsado amigo de quantos nunca houve em todo o mundo.
Dizia isto passeando, girando pela sala com a adaga nua, e
com uns passos tão descompostos, e fazendo uns meneios e
gestos, que não parecia senão alienada. Ninguém dissera ser
dama fina; lembrava um rufião fora de si.
Tudo aquilo notava Anselmo detrás das armações, e de tudo se
admirava. Já lhe parecia que no que vira e ouvira havia
satisfação de sobra até para maiores suspeitas; já quisera
até que Lotário não viesse, para se evitar ali alguma
tragédia. Estava já para manifestar-se e abraçar a enganada
esposa, quando se deteve ao aparecer Leonela com Lotário pela
mão.
Mal pôs nele os olhos, Camila fez com a adaga um risco pelo
sobrado em frente de si, e exclamou:
- Lotário, repara bem no que te digo: se te atreveres a
passar esta raia, ou mesmo a chegar a ela, no mesmo instante
me atravesso com este ferro. Antes que abras os lábios,
escuta-me poucas palavras mais. Em primeiro lugar, quero que
me digas se conheces a Anselmo meu marido, e em que opinião o
tens; e,
337
MIGUEL DE CERVANTES
em segundo lugar, pergunto-te se me conheces a mim. Respondeme
a isto e não te perturbes, nem te demores a pensar: ambas
estas perguntas são fáceis.
No era Lotário tão lerdo que, desde que ela lhe dissera que
fizesse esconder Anselmo, não adivinhasse em cheio quais eram
as suas intenções; por isso representou logo a sua parte com
a maior naturalidade, e a mentirosa cena dos dois deixou a
perder de vista a mesma verdade.
- Não pensei eu, formosa Camila, que me chamáveis para me
fazer perguntas tão avessas aos intentos com que eu vinha. Se
o fazeis para me demorardes a prometida recompensa, podíeis
ter-me para isso preparado com mais antecipação. O bem que se
deseja degenera em tormento, quando inopinadamente se nos
afasta; mas para não parecer que tardo em responder-
-vos, digo que sim, conheço ao vosso esposo Anselmo;
conhecemo-nos os dois desde os nossos mais tenros anos; não
quero acrescentar a isto o que vós mesma sabeis deste mútuo
afecto; fora tornar-me testemunha eu mesmo do agravo que o
amor me está obrigando a fazer-lhe, o amor que até maiores
erros desculparia. A vós, Camila, também vos conheço, e
aprecio-vos como ele vos aprecia; a não ser assim, nunca eu
por méritos inferiores aos vossos iria contra o que devo a
mim mesmo e aos santos ditames da amizade, ditames ou leis
que neste momento estou violando forçado desta paixão
despótica.
- Se tudo isso confessas - respondeu Camila -, ó inimigo
mortal de quanto merece ser amado, como te atreves a aparecer
diante de quem sabes ser o espelho em que se mira aquele em
quem tu mesmo te deveras mirar, para reconheceres que és um
monstro quando pretendes agravá-lo? Agora me lembro triste de
mim! O que te faria faltar ao respeito de ti mesmo havia de
ser algum descuidado desalinho meu (que não quero chamar-
-lhe desonestidade); sim, alguma irreflectida falta de
compostura, que por acaso me enxergarias; daquelas que nós
outras as mulheres podemos inocentemente cometer quando
cuidamos não ser vistas. Senão, diz-me: quando jamais
correspondi eu, alma traidora, aos teus rogos com palavra ou
sinal que animasse os teus infames desejos? Quando é que eu
deixei de repelir
338
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
desabrida as tuas finezas? Quando cri nas tuas promessas ou
aceitei as tuas dádivas? Mas como entendo que ninguém pode
teimar em pretensões amorosas, sem que alguma esperança lhe
negaceie, quero imputar-me a mim mesma a origem da tua
impertinência. Por força algum descuido meu deve ter
alimentado por tanto tempo as tuas loucas esperanças; sendo
assim, quero-me castigar da tua culpa. Para veres que, sendo
eu tão rigorosa contra mim, não podia deixar de o ser
contigo, quis trazer-te a ser testemunha do sacrifício que
vou fazer para aplacar a honra do meu virtuosíssimo esposo
ultrajado por ti no mais alto ponto, e a minha também, por te
haver dado alguma ocasião (se é que ta dei) para alimentares
tal delírio. Torno-te a dizer que o que mais me aflige é
lembrar-me que todos esses desvairados pensamentos te
poderiam nascer de algum involuntário descuido meu; é esse o
que eu mais desejo castigar por minha própria mão. Se o meu
verdugo fosse outro, ficaria talvez mais patente a minha
culpa. Antes, porém, de cometido o acto irrevogável, quero
matar a quem me causou a morte, quero levar comigo quem me
sacie esta ânsia de vingança que já tenho segura, vendo lá,
nessas regies quaisquer, aonde eu for, a pena que dá a
justiça desinteressada e inflexível ao que me arrastou a esta
desesperação.
Proferidas estas palavras com uma volubilidade e força
extraordinária, arremeteu a Lotário com a adaga
desembainhada, com tais mostras de lha querer cravar no peito
que ele mesmo esteve quase em dúvida se aquilo seria fingido
ou verdadeiro, porque lhe foi forçoso valer-se de toda a sua
destreza e força para se livrar do golpe. Camila tão ao
natural representava todo aquele fingimento que, para lhe dar
mais cor de verdade, o quis rubricar com o seu próprio
sangue, porque, vendo que não podia alcançar a Lotário, ou
fingindo que o não podia, disse:
- Já que a sorte no deixa que o meu justo desejo se satisfaça
em cheio, pelo menos nunca há-de poder tanto, que me vede em
cheio satisfazê-lo.
E, forcejando para soltar a adaga, que Lotário lhe tinha
presa, arrancou-lha com efeito, e, dirigindo-lhe a ponta para
parte onde a ferida não viesse a ser muito perigosa, cravou-a
entre o
339
MIGUEL DE CERVANTES
peito e o sovaco esquerdo, deixando-se logo cair no pavimento
como desmaiada.
Estavam Leonela e Lotário pasmados do que viam, e todavia
duvidosos ainda entre crer e descrer, apesar de verem Camila
estendida em terra, e banhada no seu sangue. Acode Lotário
açodado e espavorido, e quase sem alento, a arrancar a adaga;
mas, reconhecendo a pequenez de ferida, respirou, ficando a
admirar cada vez mais a sagacidade, a prudência, e a
extraordinária discrição da sua Camila; e, para representar
também o seu papel, começou a fazer uma estirada lamentação
sobre o corpo da formosa, como se estivera defunta, soltando
muitas maldições não só contra si, mas também sobre quem a
havia obrigado àqueles extremos. Como sabia que o escutava o
amigo Anselmo, coisas dizia, que mais dó faziam dele próprio,
do que dela, ainda que a julgassem morta.
Leonela tomou-a nos braços, e a pôs no leito, rogando a
Lotário fosse buscar facultativo que viesse curar
secretamente a doente. Consultava-o também sobre o que haviam
de dizer a Anselmo daquele golpe de sua ama, se ele viesse
antes dela curada. Lotário respondia que fizessem o que lhes
parecesse, que ele por si não estava com cabeça para acertar
conselhos;
que só lhe dizia que se desse pressa em vedar-lhe o sangue,
porque ele ia fugir para onde ninguém o visse; e, com mostras
da maior consternação, saiu.
Logo que se achou só, e onde ninguém o podia ver, não fazia
senão benzer-se, maravilhado da esperteza de Camila, e dos
modos tão apropriados de Leonela. Regalava-se, considerando
quão inteirado não ficaria Anselmo de que tinha por mulher
uma segunda Pórcia; já lhe tardava o tornarem a ver-se
juntos, festejarem entre si a mentira e a verdade, mais bem
caldeadas uma com a outra, do que jamais se pudera imaginar.
Leonela, que tinha já vedado o sangue da ama, sangue que não
passava do indispensável para crédito do embuste, lavou a
ferida com um pouco de vinho, e a ligou o melhor que soube,
dizendo, enquanto a estava curando, coisas que, só por si,
ainda que mais precedentes não houvera, bastariam para
capacitar Anselmo de que possuía em casa uma verdadeira
estátua da
340
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
honestidade. Com as palavras de Leonela travavam outras de
Camila, chamando-se cobarde e pusilânime, pois lhe faltara o
valor quando mais precisava dele, para destruir uma
existência que tanto lhe pesava. Pedia à serva o seu parecer
sobre dizer ou calar todo aquele sucesso ao marido. A serva
respondia-lhe que lhe não dissesse nada, porque dzer-lho era
pô-lo em obrigação de vingar-se de Lotário, o que lhe seria
muito arriscado, e que toda a mulher capaz estava obrigada a
não dar ao seu homem ocasiões para desavenças, antes lhas
devia esconder todas.
Respondeu a senhora que lhe parecia muito bem esse voto, e o
seguiria; mas que, em todo o caso, era necessário ver o que
se diria a Anselmo sobre a causa daquela ferida, que ele
forçosamente havia de ver. A isso respondia Leonela que lá
para mentiras fossem bater a outra porta, que ela por si nem
por brinco a tal se ajeitava.
- E eu então? - respondeu Camila. - Eu que nem para salvar a
vida me parece que saberia desfigurar a verdade? O melhor
será, segundo entendo, confessarmos-lhe tudo tal qual, do que
sujeitarmo-nos a poder ficar por embusteiras.
- Sossegue, minha Senhora; de hoje até amanhã - respondeu
Leonela - eu excogitarei o que lhe havemos de dizer, e talvez
que a ferida, por ser onde é, se lhe possa recatar; o Céu háde-
nos ajudar, em atenção a serem os nossos motivos tão
justos e honrados. Descanse, descanse, e faça por aquietar
esses temores, que poderiam sobressaltar a meu amo; e o mais,
tomo a dizer, deixe-o à minha conta e à de Deus, que nunca
falta a quem deseja o bem.
Atentíssimo se tinha conservado Anselmo a escutar a
representação tragicómica da morte da sua honra,
representação tão bem improvisada, que todas as personagens
pareciam mais que verdadeiras. Estava suspirando pela noite
para sair de sua casa, e ir ter com o seu bom amigo Lotário,
congratulando-se com ele de ter achado na mulher a margarida
preciosa.
Tiveram as duas cuidado em lhe dar vaga para a saída.
Mal que chegou ao amigo, não há contar os abraços com que o
apertou, os escarcéus que fez da sua felicidade e das
virtudes de Camila, o que tudo Lotário lhe esteve ouvindo sem
o mínimo sinal de alegria, por se lhe estar dentro revolvendo
o
341
MIGUEL DE CERVANTES
remorso de tão cego andar o pobre homem. Ainda que Anselmo
bem via aquela frieza no amigo, supunha ser efeito de ter
deixado a Camila ferida, e por causa dele; pelo que entre
outras coisas lhe disse que no tivesse cuidado pelo
acontecido, porque o golpe era por certo muito leve; e tanto,
que as duas tinham combinado em encobri-lo do próprio marido;
logo, não havia de que temer. Dali em diante, era alegraremse
e divertirem-se ambos a bom levar, pois por sua
industriosa cooperação tinha, enfim, atingido nas suas
relações conjugais o ápice da ventura; que já agora o único
emprego do tempo seria para ele fazer versos em honra e
louvor de Camila, para ficar lembrando em todos os séculos.
Aprovou Lotário com elogios tão boa determinação, e disse que
por sua parte estava pronto para ajudá-lo a erigir-lhe tão
merecido monumento. Em suma: ficou sendo desde aquela hora
Anselmo o homem mais deliciosamente logrado de todo o mundo.
Levava ele próprio por sua mão para sua casa, cuidando levar
o artífice da sua glória, o destruidor de toda a sua fama.
Recebia-o Camila com semblante ao parecer torcido, mas com
alma risonha.
Algum tempo durou este engano, até que, passados poucos
meses, a fortuna desandou a roda, e saiu à praça a maldade
com tamanho artifício encoberta até então e a Anselmo veio a
custar a vida a sua impertinente curiosidade.
CAPÍTULO XXXV
EM QUE SE TRATA DA GRANDE E DESCOMUNAL BATALHA QUE TEVE D.
QUIXOTE COM UNS ODRES DE VNHO TINTO, E SE DÁ FIM À NOVELA
DO CURIOSO IMPERTINENTE
Pouco faltava por ler da novela, quando do quarto onde jazia
D. Quixote adormecido saiu Sancho Pança todo alvoroçado a
gritar:
- Acudam, Senhores! Depressa! Valham a meu amo, que anda
metido na mais renhida batalha que estes olhos nunca
342
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
viram! Deus louvado! Pregou já uma cutilada no gigante
inimigo da Senhora Princesa Micomicadela, que lhe cortou a
cabeça pelo meio como se fora um nabo.
- Que dizes, criatura? - perguntou o padre interrompendo a
leitura. - O Sancho está em si? Como diabo pode ser isso que
dizeis, se o gigante está a duas mil léguas daqui?
Neste comenos, ouviu-se do aposento um grande ruído, e a voz
de D. Quixote que dizia em altos gritos:
- Espera, ladrão, malandrino, velhacão; estás seguro; não te
há-de valer a tua cimitarra.
E nisto soavam pelas paredes grandes cutiladas.
- Não têm que pôr-se a escutar - disse Sancho -; entrem a
apartar a peleja ou a ajudar meu amo, que talvez já não seja
preciso; sem dúvida, o gigante a estas horas está morto, e
dando contas a Deus da sua má vida. Vi-lhe o sangue em
enxurrada pelo chão, e a cabeça cortada e caída para a banda;
é tamanha como um grande odre de vinho.
- Dêem cabo de mim - exclamou o vendeiro - se D. Quixote ou
D. Diabo não deu alguma cutilada em alguns dos odres do tinto
que lhe estavam cheios à cabeceira. Aposto que não é senão o
meu vinho o que se figurou sangue a este palerma.
Assim dizendo, entrou no aposento com todos atrás de si, e
acharam a D. Quixote no mais extravagante vestuário do mundo:
estava em camisa, que não era tão comprida, que por diante
lhe cobrisse inteiramente as coxas e por detrás faltavam seis
dedos. As pernas eram esguias e fracas, cheias de felpa, e
nada limpas. Tinha na cabeça um barretinho vermelho e surrado
pertencente ao vendeiro; no braço esquerdo enrodilhada a
manta da cama, senreira de Sancho, por motivos que ele muito
bem sabia; e na direita floreava a espada nua, atirando
cutiladas para todas as bandas, dando vozes como se realmente
estivera pelejando com algum gigante. E o bonito era que
estava com os olhos fechados, porque realmente dormia
sonhando andar em batalha com o gigante.
Tão intensa havia sido a apreensão da aventura que ia acabar,
que o fez sonhar achar-se já no reino de Micomicão, e a
braços com o seu adversário; e tantas cutiladas tinha
assentado
343
MIGUEL DE CERVANTES
nos odres, supondo descarregá-las no gigante, que todo o
quarto era um lagar de vinho.
Logo que o vendeiro tal presenciou, encheu-se de tamanha
cólera que arremeteu com D. Quixote, e co os punhos fechados
lhe começou a chover tantos murros, que, se Cardénio e o cura
lho não tiram das mãos, a guerra do gigante se acabava ali
para todo sempre. Pois nem com tudo aquilo acordava o pobre
cavaleiro.
O que valeu foi acudir o barbeiro com uma caldeira de água
fria do poço, atirando-lha para cima de chapuz. Com isso é
que o fidalgo despertou; mas, ainda assim to pouco em si, que
não reparou na lástima em que se achava.
Doroteia, que tinha logo enxergado o como ele estava vestido
à curta, não quis entrar a ver a batalha do seu defensor com
o seu inimigo.
Andava Sancho buscando a cabeça do gigante por toda a casa;
como não a achava, disse:
- Está visto, que tudo aqui é encantamento: da outra vez,
neste mesmo lugar em que me acho, apanhei um chuveiro de
pancadaria e socos por estas ventas, sem saber quem fosse o
das mãos rotas, nem ver vivalma; e agora vejo com estes
cortar a cabeça e correr sangue do corpo como de um chafariz,
e tal cabeça no aparece.
- Que sangue e que chafariz estás tu para aí alanzoando,
inimigo de Deus e dos seus santos? - disse o vendeiro. - Não
vês, ladrão, que o sangue e o chafariz não são senão esses
odres, que para aí estão arrombados, e o meu rico vinho tinto
que nada no quarto? Nadar veja eu nos Infernos a alma de quem
mós arrombou.
- Não sei nada disso - respondeu Sancho -; o que sei é que
hei-de ser tão mofino que, por não achar a cabeçorra do
bruto, se me há-de desfazer o condado como sal na água.
O pobre Sancho acordado estava pior que o amo dormindo;
efeito das promessas do patrão.
Desesperava-se o vendeiro de ver a fleuma do escudeiro e o
malefício do fidalgo, e jurava que desta vez não havia de ser
como da passada, irem-se embora sem lhe pagarem; que lhe não
344
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
haviam de valer os privilégios da sua cavalaria para lhe não
satisfazer tudo por junto, e até o que poderia custar a
remendagem dos odres.
Segurava o cura as mãos a D. Quixote, o qual, supondo ter já
finalizado a pendência, e estar perante a princesa
Micomicadela, se lançou em joelhos aos pés do eclesiástico,
exclamando:
- Já pode a Vossa Grandeza, alta e poderosa Senhora, viver
desde hoje mais segura, porque já lhe não pode causar
prejuízo esta mainascida criatura; e eu também de hoje em
diante me dou por quite da palavra que vos obriguei, pois,
com a ajuda do alto Deus, e com o favor daquela por quem
vivo, tão inteiramente para convosco me desempenhei.
- Não era o que eu dizia? - disse ouvindo aquelas palavras
Sancho. - Vejam lá se eu estava borracho; vejam lá se meu amo
não tem já o gigante na salmoira. Certos são os touros: o meu
condado está na unha.
Quem não se havia de rir com os disparates daquele par? Tal
amo, tal moço! Riam-se todos, afora o taberneiro que se dava
ao Diabo.
Enfim, tanto fizeram, o barbeiro, Cardérnio e o cura, que, a
poder de trabalho, deram com D. Quixote na cama, ficando a
dormir com mostras de grandíssimo cansaço.
Deixando-o, pois, a dormir, saíram para o portal da taberna
com o fim de consolar a Sancho Pança de não haver encontrado
a cabeça do gigante, mas ainda tiveram mais que trabalhar em
abater a ira do vendeiro, o qual estava desesperado por causa
de assim morrerem os seus odres, vítimas de uma morte
repentina; e a vendeira, gritando a bom gritar, dizia:
- Em mau ponto, em minguada hora, entrou em minha casa este
cavaleiro andante, a quem meus olhos tão bom fora que nunca
houveram visto, pois que tão caro ele me fica: da vez passada
foi-se embora com o custo da ceia de uma noite, e da cama,
palha e cevada, para ele, e para o seu escudeiro, e para o
rocim e o jumento, dizendo que era cavaleiro aventureiro (que
má ventura lhe dê Deus a ele e a quantos aventureiros haja
neste mundo) e que por isso não estava obrigado a pagar coisa
algu-
345
MIGUEL DE CERVANTES
nos odres, supondo descarregá-las no gigante, que todo o
quarto era um lagar de vinho.
Logo que o vendeiro tal presenciou, encheu-se de tamanha
cólera que arremeteu com D. Quixote, e co os punhos fechados
lhe começou a chover tantos murros, que, se Cardénio e o cura
lho não tiram das mãos, a guerra do gigante se acabava ali
para todo sempre. Pois nem com tudo aquilo acordava o pobre
cavaleiro.
O que valeu foi acudir o barbeiro com uma caldeira de água
fria do poço, atirando-lha para cima de chapuz. Com isso é
que o fidalgo despertou; mas, ainda assim to pouco em si, que
náo reparou na lástima em que se achava.
Doroteia, que tinha logo enxergado o como ele estava vestido
à curta, não quis entrar a ver a batalha do seu defensor com
o seu inimigo.
Andava Sancho buscando a cabeça do gigante por toda a casa;
como não a achava, disse:
- Está visto, que tudo aqui é encantamento: da outra vez,
neste mesmo lugar em que me acho, apanhei um chuveiro de
pancadaria e socos por estas ventas, sem saber quem fosse o
das mãos rotas, nem ver vivalma; e agora vejo com estes
cortar a cabeça e correr sangue do corpo como de um chafariz,
e tal cabeça não aparece.
- Que sangue e que chafariz estás tu para aí alanzoando,
inimigo de Deus e dos seus santos? - disse o vendeiro. - Não
vês, ladrão, que o sangue e o chafariz não são senão esses
odres, que para aí estão arrombados, e o meu rico vinho tinto
que nada no quarto? Nadar veja eu nos Infernos a alma de quem
mós arrombou.
- Não sei nada disso - respondeu Sancho -; o que sei é que
hei-de ser tão mofino que, por não achar a cabeçorra do
bruto, se me há-de desfazer o condado como sal na água.
O pobre Sancho acordado estava pior que o amo dormindo;
efeito das promessas do patrão.
Desesperava-se o vendeiro de ver a fleuma do escudeiro e o
malefício do fidalgo, e jurava que desta vez não havia de ser
como da passada, irem-se embora sem lhe pagarem; que lhe não
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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
haviam de valer os privilégios da sua cavalaria para lhe não
satisfazer tudo por junto, e até o que poderia custar a
remendagem dos odres.
Segurava o cura as mãos a D. Quixote, o qual, supondo ter já
finalizado a pendência, e estar perante a princesa
Micomicadela, se lançou em joelhos aos pés do eclesiástico,
exclamando:
- Já pode a Vossa Grandeza, alta e poderosa Senhora, viver
desde hoje mais segura, porque já lhe não pode causar
prejuízo esta mainascida criatura; e eu também de hoje em
diante me dou por quite da palavra que vos obriguei, pois,
com a ajuda do alto Deus, e com o favor daquela por quem
vivo, tão inteiramente para convosco me desempenhei.
- Não era o que eu dizia? - disse ouvindo aquelas palavras
Sancho. - Vejam lá se eu estava borracho; vejam lá se meu amo
não tem já o gigante na salmoira. Certos são os touros: o meu
condado está na unha.
Quem não se havia de rir com os disparates daquele par? Tal
amo, tal moço! Riam-se todos, afora o taberneiro que se dava
ao Diabo.
Enfim, tanto fizeram, o barbeiro, Cardérnio e o cura, que, a
poder de trabalho, deram com D. Quixote na cama, ficando a
dormir com mostras de grandíssimo cansaço.
Deixando-o, pois, a dormir, saíram para o portal da taberna
com o fim de consolar a Sancho Pança de não haver encontrado
a cabeça do gigante, mas ainda tiveram mais que trabalhar em
abater a ira do vendeiro, o qual estava desesperado por causa
de assim morrerem os seus odres, vítimas de uma morte
repentina; e a vendeira, gritando a bom gritar, dizia:
- Em mau ponto, em minguada hora, entrou em minha casa este
cavaleiro andante, a quem meus olhos tão bom fora que nunca
houveram visto, pois que tão caro ele me fica: da vez passada
foi-se embora com o custo da ceia de uma noite, e da cama,
palha e cevada, para ele, e para o seu escudeiro, e para o
rocim e o jumento, dizendo que era cavaleiro aventureiro (que
má ventura lhe dê Deus a ele e a quantos aventureiros haja
neste mundo) e que por isso não estava obrigado a pagar coisa
algu-
345
MIGUEL DE CERVANTES
ma, porque assim o achava escrito nos aranzéis da cavalaria
andantesca: agora por seu respeito veio um outro senhor e me
levou a minha cauda, e, quando ma restituiu, entregou-ma com
mais de dois quartos de real de prejuízo, toda pelada, de
modo que não pode servir para o que meu marido a queria; e
por fim e remate de tudo isto, rompe-me os meus odres, e
entorna-lhes o vinho todo pelo chão, que assim lhe veja eu
derramado quanto sangue tem nas veias; e não se pense que,
pêlos ossos de meu pai e honra de minha mãe, não me hão-de
pagar um quarto sobre outro, ou eu me não chamaria pelo nome
que sou chamada, nem seria filha de quem sou.
Estas e outras razões dizia a taberneira com grande cólera e
era ajudada pela sua boa criada... A filha calava-se, e
somente de quando em quando se sorria.
O cura sossegou todo o barulho, prometendo-lhes satisfazer as
suas perdas do melhor modo possível, assim a dos odres, como
a do vinho, e principalmente o dano da cauda pelada, da qual
tanta conta faziam. Doroteia consolou a Sancho Pança,
dizendo-lhe que, sempre que se viesse a verificar que seu amo
havia cortado a cabeça ao gigante, lhe prometia, logo que se
visse senhora pacífica do seu reino, a dar-lhe o melhor
condado que lá houvesse. Consolou-se Sancho com esta
promessa, e assegurou à princesa que tivesse por certo, que
ele Sancho vira perfeitamente a cabeça do gigante, que, por
sinal mais certo, traia uma barba que lhe chegava até à
cinta, e que, se agora não aparecia, era porque tudo quanto
acontecia naquela casa vinha por via de encantamento, o que
ele já havia experimentado noutra vez que ali estivera.
Doroteia disse que assim o acreditava, e que se não
afligisse, porque as coisas correriam bem e à medida do seu
desejo.
Sossegados todos, quis o cura acabar de ler a novela, porque
viu que pouco faltava para concluir a sua leitura. Cardénio,
Doroteia, e todos os mais lhe rogavam que assim o fizesse, e
ele, para a todos dar gosto, e mesmo também pelo que lhe dava
o lê-la, prosseguiu o conto que era como se segue:
«Sucedeu, pois, que, pela satisfação que a Anselmo dava a
bondade de Camila, vivia numa vida contente e sem cuidados, e
346
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
Camila de propósito tratava secamente a Lotário, para que
Anselmo entendesse às avessas o amor que a este ela tinha; e
para maior confirmação do engano de Anselmo lhe pediu Lotário
licença de não vir a sua casa, porque Camila claramente
mostrava o desgosto com que o via sempre que era forçada a
recebê-lo;
porém, o iludido Anselmo disse-lhe que por modo nenhum tal
fizesse; e assim por mil maneiras se tomava Anselmo o
fabricador da sua desonra, quando cuidava que o era do seu
gosto.
Destarte corriam as coisas, quando Leonela, vendo-se de
alguma sorte autorizada e apoiada nos seus amores, chegou
neles a tal ponto que, sem olhar a outra coisa mais que a
satisfazê-los, os deixou ir à rédea solta, fiada em que sua
ama a encobria, e mesmo a advertia do modo mais fácil que
teria para pô-los sempre em execução. Finalmente, numa noite,
sentiu Anselmo passos no aposento de Leonela, e, querendo
entrar a ver quem os dava, sentiu que lhe detinham a porta, o
que lhe aumentou a vontade de abri-la, e tanto esforço fez
que a abriu, e entrou dentro a tempo ainda de ver que um
homem saltava pela janela para a rua; e, acudindo com
ligeireza a ver se o alcançava, ou pelo menos o conhecia, nem
uma nem outra coisa conseguiu, porque Leonela se abraçou com
ele, dizendo-lhe:
- Sossegue, meu Senhor, e não se alvoroce, nem siga a quem
daqui saltou, que é coisa minha, e tanto, que é meu esposo.
Não quis Anselmo acreditá-la, antes, cego pela ira, tirou uma
adaga e quis ferir a Leonela, mandando-lhe que lhe
confessasse a verdade, senão que a mataria: ela com o medo,
sem saber o que dizia, lhe respondeu:
- Não me mate, meu Senhor, que eu lhe contarei coisas da
maior importância que pode imaginar.
- Dize-as já - lhe disse Anselmo - se não queres morrer.
- Por agora me será impossível dizê-las - respondeu Leonela -
porque estou muito perturbada; deixe-me até pela manhã, que
então saberá de mim o que o há-de admirar, e esteja seguro,
que o que saltou pela janela é um mancebo desta cidade, que
me deu a mão de esposo.
Sossegou-se com isto Anselmo, e quis guardar o termo que a
criada lhe pedia, porque nem pelo pensamento lhe passava o
347
MIGUEL DE CERVANTES
poder ouvir coisa que fosse contra Camila, de cuja bondade
estava to seguro e satisfeito; e assim saiu do aposento,
deixando encerrada nele a Leonela, e dizendo-lhe que dali não
sairia até que lhe contasse tudo quanto para contar lhe
tinha.
Dali foi logo ter-se com Camila e contar-lhe, como lhe
contou, tudo o que com a criada havia passado, e como esta
lhe prometera de lhe dizer grandes coisas e da maior
importância. O estado em que ficou Camila, ouvindo o que o
marido lhe disse, fácil será a qualquer pessoa imaginá-lo;
foi tamanho o temor que se apoderou dela, crendo (e quem em
tal caso o não creria) que Leonela descobriria a Anselmo a
sua deslealdade dela, que não teve coragem nem ânimo de
esperar para ver se o seu receio se desvaneceria; e por isso,
assim que lhe pareceu estar Anselmo já adormecido, muito de
manso e sem ser sentida, juntou as melhores jóias que tinha e
algum dinheiro e se saiu de casa indo ter direita à de
Lotário, ao qual contou o que se tinha passado, e lhe pediu
que a pusesse em seguro ou que se ausentassem ambos para
lugar onde estivessem livres da vingança de Anselmo. Foi tal
a confusão em que semelhante nova pôs a Lotário, que não
sabia responder a Camila coisa que jeito tivesse, e ainda
menos sabia a resolução que devia tomar. Afinal, resolveu
levar Camila para um mosteiro, em que era prelada uma irmã
sua: Camila consentiu nisto, e, com a prontidão e brevidade
que pedia o caso, a guiou Lotário ao mosteiro, e, deixando-a
lá, se ausentou imediatamente da cidade, sem dar parte da sua
ausência a pessoa alguma.
Logo que amanheceu, Anselmo, sem reparar na falta de Camila,
e só possuído do desejo que tinha de saber o que Leonela
queria dizer-lhe, se levantou da cama e foi ao aposento onde
a havia deixado encerrada: abriu a porta, e, entrando para
dentro, não encontrou a Leonela, e somente viu os lençóis
atados à janela por meio dos quais pudera descer-se para a
rua; voltou muito triste para contar este acontecimento a
Camila; porém, não a achando na cama, nem em toda a casa,
ficou cheio de assombro: perguntou por ela aos criados da
casa, mas nenhum lhe soube responder; como andasse de novo
buscando a Camila pela casa, acertou de olhar para os seus
cofres, e viu que estavam abertos e que neles faltavam as
suas melhores jóias, e en-
348
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
tão foi que caiu na conta, compreendendo que a sua desventura
lhe no vinha de Leonela. Sem acabar-se de vestir e mesmo
assim como estava, partiu triste e pensativo para casa do seu
amigo Lotário a dar-lhe parte do sucedido; porém, quando
chegou à casa do seu amigo, e os criados deste lhe disseram
que naquela noite desaparecera, levando consigo todo o
dinheiro que possuía, sem se saber para onde fora, ficou
Anselmo espantado e em termos de perder o juízo; e, para que
a sua desgraça fosse ainda mais completa, quando voltou a sua
casa, achou-a deserta e desamparada dos criados e das
criadas, que todos se haviam dela ausentado. Não sabia o que
pensasse nem o que havia de dizer ou fazer, e pouco a pouco
se lhe ia esvaindo o juízo:
contemplava-se num instante privado da mulher, do amigo e dos
criados; parecia-lhe achar-se desamparado do céu que o
cobria, e sobretudo com a sua honra perdida, porque na fugida
de Camila via qual devia ser a opinião pública que a seu
respeito se preparava. Resolveu, por fim, depois de
longamente meditar, ir para a aldeia de seu amigo, onde
estivera quando ele próprio foi o maquinador de toda esta
desventura. Fechou as portas da sua casa, montou a cavalo, e
com desmaiado alento se pôs a caminho. Apenas haveria feito
meio caminho, quando, acossado dos seus pensamentos, forçoso
foi apear-se, e, depois de prender o cavalo a uma árvore, se
deixou cair junto do tronco dela soltando ternos e dolorosos
suspiros, e ali esteve quase até ao anoitecer, e a essa hora
viu que vinha da cidade um homem a cavalo ao qual, saudandoo,
lhe perguntou que novas havia em Florença. O homem lhe
respondeu:
- As mais estranhas que desde muito tempo se lá têm ouvido,
porque se conta, publicamente, que Lotário, aquele grande
amigo do rico Anselmo, que morava em S. João, fugiu esta
noite com Camila, mulher do referido Anselmo, do qual também
se não sabe por haver desaparecido: tudo isto foi dito por
uma criada de Camila, que a passada noite foi achada pelo
governador a escapar-se de casa de Anselmo, descendo de uma
janela para a rua por meio de uns lençóis, presos à mesma
janela; na verdade, não sei pontualmente como o negócio se
passou, somente sei que toda a cidade está admirada com este
349
MIGUEL DE CERVANTES
sucesso, porque não se podia esperar semelhante desfecho da
amizade dos dois, a qual era tanta que ordinariamente eram
chamados os dois amigos.
Aqui perguntou Anselmo:
- E sabe-se o caminho que levaram Lotário e Camila?
- Nem por pensamento - respondeu o cavaleiro -, apesar de
haver o governador empregado a maior diligência em procurálos.
- Adeus, e com Ele ide - disse Anselmo.
- E com Ele fiqueis - respondeu o caminhante, continuando o
seu caminho.
Com tão desastradas notícias, Anselmo chegou aos termos não
só quase de perder o juízo, mas até quase de perder a vida.
Levantou-se, conforme pôde, e chegou a casa do seu amigo, que
nada sabia do seu infortúnio; porém como este o visse chegar
amarelo, seco e consumido, entendeu que de algum grande mal
vinha possuído. Pediu logo Anselmo que lhe dessem um aposento
onde descansasse, e juntamente tudo o necessário para poder
escrever. Assim se fez, e o deixaram no aposento só e à sua
vontade, porque assim o desejou ele e também que lhe
cerrassem a porta. Quando se viu só, começou a sua imaginação
a carregá-lo tanto com a lembrança da sua desgraça, que
claramente se conheceu pelas aflições mortais que em si
sentia, que a vida se lhe ia acabando; e por isso determinou
deixar notícia da causa tão extraordinária da sua morte; e,
começando a escrever, antes de acabar tudo o que queria
deixar escrito, lhe faltou o alento e deixou a vida nas mãos
da dor que lhe causou a sua curiosidade impertinente.
Vendo o dono da casa que se fizera tarde, e que Anselmo não
chamava, resolveu-se a entrar no aposento dele a saber se a
sua indisposição aumentava, e o achou co metade do corpo
sobre a cama, e o rosto e peito debruçados sobre o bufete, em
cima do qual estava um papel escrito, e Anselmo conservava
ainda na mão a pena. Chegou-se o hóspede a ele, depois de
primeiramente o chamar, e vendo que, chamando-o, lhe não
respondia, pegou-lhe na mão e o encontrou frio, por onde
conheceu que estava morto. Admirou-se e ficou grandemente
350
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
magoado e aflito e chamou pela gente da casa para que
presenciassem a desgraça a Anselmo acontecida; e por último
leu o papel, que conheceu estar escrito por letra do mesmo
Anselmo, e nele se liam as razões seguintes:
«Um néscio e imprudente desejo é quem me tira a vida: se a
notícia da minha morte chegar aos ouvidos de Camila, saiba
que eu lhe perdoo, porque ela não estava obrigada a fazer
milagres, nem eu tinha necessidade alguma de querer que ela
os fizesse; e pois que fui eu o maquinador da minha desonra,
não há para que...»
Até este ponto escreveu Anselmo, por onde se conheceu que
naquele momento sem poder acabar o que escrevia se lhe acabou
a vida.
No dia seguinte, avisou o amigo de Anselmo aos parentes deste
do que sucedera, e já então eles sabiam desta grande desgraça
e também sabiam qual era o mosteiro onde se recolhera Camila,
a qual estava em termos quase de acompanhar o marido na
temerosa viagem que fizera, não pelas notícias que recebeu da
morte deste, mas sim pelas que teve do ausente amante.
Disse-se que, ainda que se viu viúva, nem quis sair do
mosteiro, nem tão-pouco professar, como religiosa, até que
(não dali a muitos dias) soube que Lotário havia sido morto
numa batalha que naquele tempo deu Mr. De Lautrec ao grande
capitão Gonçalves Fernandes de Córdova no reino de Nápoles,
onde o amigo tão tardiamente arrependido fora ter afinal:
sabido isto por Camila, imediatamente professou no mosteiro,
e em breves dias acabou a vida, vítima do rigor insuportável
da sua melancólica tristeza.
Este foi o fim desditoso para todos que lhes veio de um tão
desatinado princípio.»
- Muito bem - disse o cura - me parece esta novela; mas não
posso persuadir-me que seja isto verdade, e, sendo fingido, o
autor fingiu mal, porque na verdade não se pode imaginar que
tenha havido no mundo um marido tão parvo, que quisesse fazer
uma experiência como a que fez Anselmo: se este caso se desse
351
MIGUEL DE CERVANTES
entre um namorado e a sua amante, ainda poderia admitir-se;
mas entre marido e mulher coisa é impossível de acreditar:
pelo que toca ao estilo, em que se acha escrita, não me
descontenta.
CAPÍTULO XXXVI
QUE TRATA DE OUTROS SUCESSOS RAROS
QUE NA TABERNA SUCEDERAM
A este tempo o vendeiro, chegando à porta da venda, disse:
- Aí vem um formoso rancho de hóspedes, e, se aqui pousarem,
teremos hoje um dia cheio.
- Que gente é? - perguntou Cardénio.
- São quatro homens a cavalo, com lanças e adargas, e todos
eles mascarados de negro, e com eles vem também uma mulher
vestida de branco, a cavalo, sobre umas andilhas, igualmente
mascarada, e dois criados a pé.
O cura perguntou:
- E vêm aí já perto?
- Tão perto, que já aqui estão à porta - respondeu o
vendeiro.
Ouvindo isto, Doroteia lançou um véu sobre o rosto e Cardénio
se recolheu ao aposento de D. Quixote; e mal tinham feito
isto, quando entraram na venda todos os que o vendeiro havia
indicado; e, apeando-se os quatro cavaleiros, que eram
pessoas de bela disposição e gentil aparência, foram logo
ajudar a apear-se a mulher que vinha nas andilhas, e,
tomando-a em seus braços, um dos quatro a levou para uma
cadeira que estava junto da entrada do aposento em que
Cardénio se escondera, na qual ela se sentou.
Em todo este tempo, nenhum dos novamente chegados havia
tirado a máscara, nem pronunciado uma única palavra: somente
a mulher, ao sentar-se na cadeira deu um profundo suspiro, e
deixou cair os braços, como pessoa enferma e desmaiada. Os
criados, que vinham a pé, levaram os cavalos à cavalariça.
352
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
O cura, que reparou atentamente em tudo isto, desejando saber
quem era aquela gente tão silenciosa e que de um semelhante
traje usava, foi onde estavam os criados e perguntou a um
deles pelo que desejava saber; o criado lhe respondeu:
- Perdoai, Senhor meu, não saberei eu dizer-vos que gente é
esta, e só sei que mostra ser gente principal, especialmente
aquele que nos braços tomou a senhora que aí tendes visto,
quando ela se apeou da cavalgadura: digo isto porque os
outros todos o respeitam, e nada mais se faz senão o que ele
determina e manda.
- E quem é a senhora? - perguntou o cura
- Também - respondeu o criado - não poderei dizer-vos coisa
alguma a tal respeito, porque em todo o caminho ainda lhe não
vi a cara; muitas vezes, isso é verdade, a tenho ouvido
suspirar e dar uns gemidos tão profundos, que parece
arrancar-se-lhe com eles a alma: e não é de admirar que eu e
o meu companheiro ignoremos estes particulares, porque apenas
há dois dias os acompanhamos, pois os encontrámos no caminho
por acaso e eles nos pediram e capacitaram de vir com eles
até a Andaluzia, oferecendo-nos uma boa e abundante
recompensa.
O cura perguntou ainda:
- E já ouviste nomear algum deles? O criado lhe respondeu:
- Nem sombra de nome lhes ouvimos ainda, pois caminham com
tão grande silêncio, que causa admiração, e não se ouve entre
eles outra coisa senão somente os suspiros e soluços da pobre
senhora, a qual nos move muita pena; e o que nos parece é,
que ela, para onde quer que vai, vai contra sua vontade, e,
segundo o seu vestido o dá a entender, ela ou é freira, ou
vai para o ser, que é o mais certo; e talvez por não ser do
seu gosto a vida claustral, vai triste como parece.
- Tudo pode ser - disse então o cura.
E, deixando-os, voltou outra vez para onde estava Doroteia.
Esta, por ter ouvido os suspiros da mulher mascarada, movida
da compaixão natural, se chegou a ela e lhe disse:
- Que incómodo tendes, minha Senhora? Se por acaso é algum
daqueles que as mulheres costumam e podem curar, por
353
MIGUEL DE CERVANTES
terem disso uso e experiência, crede que com a melhor vontade
me ofereço para o vosso serviço.
A quanto Doroteia disse não respondeu palavra a aflita
senhora, e bem que por mais de uma vez repetisse aquela os
seus oferecimentos, esta contudo se conservava sempre
silenciosa, até que, chegando um dos cavaleiros mascarados
(que era o mesmo a quem disse o criado que os outros
obedeciam), disse a Doroteia:
- Não vos canseis Senhora, em oferecer coisa alguma a essa
mulher, porque o seu costume é não agradecer jamais qualquer
obséquio que se lhe faça; nem queirais que vos responda, se
não quereis que vos diga alguma mentira.
- Nunca a disse - exclamou neste momento a que até ali se
conservara calada - antes, por ser tão verdadeira e nunca
usar de enredos mentirosos, me vejo agora em tamanha
desventura, e disto quero eu que vós próprio deis o
testemunho, pois é a minha verdade pura quem vos torna falso
e mentiroso.
Estas palavras da senhora, Cardénio as ouviu clara e
distintamente, porque estava tão junto de quem as proferia,
que somente os separava a porta do aposento de D. Quixote, e
apenas as ouviu, soltando uma grande voz, disse:
- Deus me valha, que é isto que eu escuto? Que voz é esta que
me acaba de soar aos ouvidos?
A estes brados a senhora, que estava sentada na cadeira,
muito sobressaltada, e não vendo quem os dava, se levantou em
pé e procurou entrar no aposento: o que, visto pelo
cavaleiro, a deteve, sem deixá-lo mover um passo.
Com a repentina perturbação que lhe sobreveio neste momento,
quando se levantou da cadeira, à senhora lhe caiu do rosto o
véu com que o encobria, aparecendo este aos olhos dos
circunstantes um verdadeiro milagre de rara formosura, ainda
que sem cor alguma e como assombrado, e andava com os olhos
num continuado movimento perscrutando com grande afinco todos
os lugares, que com a vista alcançava, e isto de tal modo,
que parecia estar fora do seu bom senso, sinais estes que
causaram muita pena em Doroteia e em todos quantos
presenciavam este acontecimento. Tinha-a o cavaleiro segura
pêlos ombros e,
354
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
por estar todo ocupado em segurá-la, não pôde acudir à
máscara que lhe caía como efectivamente lhe caiu; e olhando
Doroteia para ele, a qual tinha abraçado a senhora, conheceu
que era o seu esposo D. Fernando. Apenas o conheceu, quando,
depois de dar um longo e tristíssimo gemido, ia a cair
desmaiada, e decerto jazeria no chão naquele instante se
junto a ela se no achasse o barbeiro, que a sustentou nos
braços salvando-a por este modo de uma perigosa queda. A este
tempo acudiu o cura, tirando-lhe o véu do rosto, com que se
ocultava, e deitando-lhe água para reanimá-la; e, logo que a
desmascarou, conheceu-a D. Fernando, e ficou como morto, mas
nem por isso deixou de continuar a ter segura a Lucinda, que
era quem forcejava por soltar-se das mãos dele, para ir em
busca de Cardénio a quem conhecera poucos momentos antes, e
do qual igualmente havia sido reconhecida.
Ouviu Cardénio o gemido de Doroteia quando ia a cair
desmaiada, e cuidando que quem gemera fora a sua Lucinda,
saiu do aposento todo aterrado, e a primeira pessoa em que
fitou os olhos foi D. Fernando, que tinha Lucinda presa em
seus braços. D. Fernando também conheceu logo a Cardénio, mas
este e também Lucinda e Doroteia ficaram mudos e suspensos
como quem não sabia o que lhes tinha acontecido. Todos quatro
se calavam e olhavam uns para os outros: Doroteia para D.
Fernando, D. Fernando para Cardénio, Cardénio para Luanda, e
Lucinda para Cardénio; porém, a primeira que rompeu o
silêncio foi Lucinda, falando deste modo a D. Fernando:
- Deixai-me, Sr. D. Fernando, pelo que deveis a ser quem
sois, e quando por outro respeito não queirais deixar-me,
deveis fazê-lo assim para que eu possa chegar à parede de que
sou pedra, e encostar-me ao apoio, de que não puderam ainda
apartar-me as vossas importunações, as vossas promessas, as
vossas dádivas, nem as vossas ameaças: considerai como, por
desusados, e para nós desconhecidos caminhos, o Céu me trouxe
para junto do esposo, e bem sabeis por mil custosas
experiências, que para arrancá-lo da minha lembrança apenas a
morte seria bastante;
sirvam tantos e tão claros desenganos para que mudeis (se
outra coisa não puderdes fazer) o amor em raiva, a vontade em
des-
355
MIGUEL DE CERVANTES
peito, e com isso acabai-me a vida, pois por bem acabada a
darei eu uma vez que ela se me acabe diante do meu querido
esposo:
porventura ficareis com a minha morte satisfeito da constante
fé, que sempre a ele guardei até ao meu derradeiro suspiro.
Neste tempo havia Doroteia voltado a si, e havia escutado
tudo quanto Lucinda dissera, por onde veio a conhecer a
pessoa que falava, e vendo que D. Fernando continuava em não
a deixar sair de seus braços, nem respondia às suas razões,
esforçando-se, quanto pôde, se levantou, e, lançando-se de
joelhos aos pés dele, banhada em lágrimas, tão lastimadas
como formosas, lhe disse:
- Se não é Senhor meu, porque os raios deste sol, que em teus
braços eclipsado tens, te ofuscam e tiram toda a luz dos
olhos, já terás visto que esta que se acha ajoelhada a teus
pés é a mísera Doroteia, sempre desditosa enquanto for da tua
vontade que ela o seja: eu sou aquela humilde lavradora a
quem tu por tua bondade, ou por teu gosto, quiseste elevar à
altura de poder chamar-se tua; sou a que, encerrada nos
limites da honestidade, viveu vida contente até que às vozes
de tuas importunações e dos teus sentimentos, que amorosos e
justos pareciam, abriu as portas do seu recato e te entregou
as chaves da sua liberdade: condescendência por ti tão mal
agradecida, como bem claro o patenteia encontrares-me no
lugar onde me encontras, e eu ver-te da maneira que te vejo;
contudo, não quero que te venha à imaginação haverem sido
desonrosos os passos que me trouxeram a este sítio, pois os
que dei até aqui foram unicamente movidos pelo sentimento
doloroso de me ver de ti esquecida. Quiseste que fosse tua, e
de tal modo o quiseste, que, ainda que o não queiras agora,
já não será possível que deixes de ser meu. Repara, Senhor
meu, que o amor que te dedico pode ser recompensa da nobreza
e formosura pelas quais queres deixar-me: não podes tu ser da
bela Lucinda, porque és meu, nem ela pode ser tua, porque é
de Cardénio; mais fácil será, se acaso bem o considerares,
que possas trazer a tua vontade de novo ao amor daquela que
te adora do que encaminhar a vontade da que te aborrece, e
obrigá-la a que bem te queira. Tu não ignoraste a minha
qualidade, tu solicitaste a minha inteireza, aproveitaste-te
do meu descuido, e
356
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
muito bem sabes tudo quanto se passou para eu ceder à tua
vontade; e por isso não te resta modo algum para agora te
arrependeres ou pretenderes que te enganaste: e, sendo isto
verdade, como é, e sendo tu tão bom cristão como és
cavaleiro, qual pode ser o motivo por que demoras com tão
longos rodeios tornar-me venturosa no fim como no princípio
me tornaste? E se acaso me não queres por tua legítima e
verdadeira esposa, que é o que eu na realidade sou, deves ao
menos querer-me e admitir-me por tua escrava, que na conta de
venturosa e bem-andante me hei-de ter uma vez que eu chegue a
ser tua. Não consintas em que publicamente seja infamada a
minha honra, deixando-me e abandonando-me. Não prepares uma
tão má velhice a meus pais, pois a não merecem ter aqueles
que sempre fizeram, como bons vassalos, tão leais serviços
aos teus antepassados; considera que pouca ou nenhuma
fidalguia existe no mundo que não tenha andado por este
caminho, e que a nobreza que vem pelas mulheres nada faz
contra a ilustração das mais distintas famílias, por onde
deves convencer-te de que a nobreza do teu sangue não há-de
aniquilar-se pela mistura do meu: quanto mais que a
verdadeira nobreza consiste principalmente na virtude, e se
esta a ti te falta, negando-me aquilo a que tão justamente
estás obrigado, as vantagens de nobre que tu possuis hás-de
perdê-las, e hão-de passar todas para mim; finalmente Senhor
meu, dir-te-ei, por último, que, ou tu queiras ou não
queiras, a tua esposa sou eu, e disto dão testemunho as tuas
palavras, que não foram mentirosas, nem agora o devem ser, se
porventura não acontece que tu prezas na tua pessoa aquilo
mesmo que desprezas na minha: o teu escrito, que em meu poder
existe, é a prova mais clara daquilo que me prometeste na
mesma ocasião em que chamavas o Céu por testemunha da
promessa que me fazias; mas quando nada de tudo quanto tenho
dito possa valer, apelo para a tua consciência íntima, a
qual, pintando-te vivamente a verdade das minhas palavras,
não deixará de por muitas vezes te afligir, roubando-te
metade das tuas alegrias, e perturbando-te a miúdo os gozos e
contentamento da tua vida.
Assim falou a lastimada Doroteia, e foram tantas as suas
lágrimas e tão doloroso o sentimento que manifestou, que os
357
MIGUEL DE CERVANTES
próprios companheiros de D. Fernando e todos os que estavam
ali presentes choraram com ela.
D. Fernando a escutou sem lhe responder uma só palavra até
que ela acabou de falar dando começo a tantos soluços e
suspiros que somente um coração de bronze se não enterneceria
em presenciar dor tão grande e tão profunda.
Lucinda olhava para ela não menos magoada do seu muito
sentimento; que admirada de sua rara discrição e formosura;
mas, ainda que muito desejava chegar-se a ela e dizer-lhe
palavras de alívio e consolação, não lho permitiam os braços
de D. Fernando que a seguravam.
Este, cheio de espanto e confusão, depois de passado um bom
espaço de tempo, no qual esteve olhando para Doroteia alargou
os braços, e, deixando-a livre, disse:
- Venceste, formosa Doroteia, venceste, porque não é possível
haver ânimo para negar tantas verdades juntas.
Lucinda por causa do desmaio que havia sofrido, assim que D.
Fernando deixou de sustê-la, ia a cair no chão, porém
Cardénio, que ao pé dela estava, colocado atrás de D.
Fernando para que este o não conhecesse, perdido todo o
receio, e, aventurando-se a correr todo o risco e perigo, a
sustentou em seus braços e ao mesmo tempo lhe disse:
- Se aos Céus piedosos apraz, que chegues a gozar algum
descanso, em nenhum lugar, leal, firme e formosa Senhora
minha, o encontrarás ao meu parecer mais seguro que nestes
braços que te agora recebem, e que já noutro tempo te
receberam quando a fortuna permitiu que eu pudesse chamar-te
minha.
A estas palavras, Lucinda, firmando a vista em Cardénio, a
quem começara a conhecer primeiro pela voz, agora se
certificou de que era ele próprio, e, sem atender a algum
honesto respeito, quase como fora de si, lhe lançou os braços
ao pescoço, e, juntando o seu rosto com o dele, lhe disse:
- Vós sim Senhor meu, vós é quem sois o verdadeiro dono desta
vossa cativa, por mais que a isso se oponha o poder de uma
inimiga sorte, e por maiores ameaças que feitas sejam à minha
vida, que só na vossa se sustenta.
358
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA |
Estranho espectáculo foi este para D. Fernando e para quan-
|i tos ali se achavam, que a todos encheu de admiração um
suces- |j só tão extraordinário vá
A este tempo, Doroteia, que estava olhando para D. jl
Fernando, como que entreviu mudar ele de cor, e que dava ares
de querer vingar-se de Cardénio, porque lhe viu levar a mão
ao punho da espada; e, havendo observado isto, com infinita
presteza se lhe abraçou aos joelhos beijando-lhos, e tão
fortemente que não o deixava movê-los, e com muitas lágrimas
lhe dizia:
- Que pensas tu fazer, tu, que és o meu único refúgio, neste
tão inesperado transe? Tens a teus pés a tua esposa, e aquela
que querias que o fosse está nos braços de seu marido: medita
se porventura te ficará bem quereres desfazer, ou se isso te
será possível, aquilo que o próprio Céu tem feito, ou se te
será conveniente o igualares a ti mesmo aquela que, saltando
por cima de todas as dificuldades, confirmada na sua própria
firmeza e lealdade, apresenta diante dos teus olhos os seus
banhados em \ \ amorosas lágrimas, capazes de inundar o rosto
e o peito do seu verdadeiro esposo. Por Deus, Senhor meu, te
rogo e mesmo até por quem tu és te suplico, que este tão
notório desengano não só não acrescente a tua ira, mas antes
de tal maneira a diminua l e adoce, que permitas a estes dois
amantes poderem durante Li todo o tempo, que o Céu para isso
lhes conceder, gozar descan- H só e tranquilidade, mostrando
assim a generosidade do teu ? nobre e ilustre peito, e então
verá o mundo que a razão tem \ contigo um poder muito
superior ao do apetite. '
Enquanto Doroteia esteve falando, Cardénio, sem deixar de
sustentar em seus braços a Lucinda, não perdia a D. Fernando
de vista com determinação de, no caso de lhe ver executar
algum movimento em seu prejuízo, se defender e ainda mesmo
ofender, como melhor pudesse, não só a ele, mas a quantos se
lhe mostrassem contrários, ainda que a vida lhe custasse.
Neste momento, porém, acudiram os companheiros de D. Fernando
e o cura e o barbeiro, que tudo haviam presenciado, sem que
também faltasse o bom de Sancho Pança; e rodearam todos a D.
Fernando, pedindo-lhe que se dignasse de atender às lágrimas
de Doroteia, e que, sendo verdade quanto ela havia
359
MIGUEL DE CERVANTES
exposto, não consentisse em deixá-la iludida e enganada nas
suas tão justas esperanças; que considerasse em que, não por
simples efeito do acaso, mas sim por providência particular
do Céu, se haviam todos ajuntado num lugar onde nenhum deles
contava que lhe aparecesse um semelhante encontro; e que
advertisse (acrescentava o cura) em ser a morte a única que
podia separar Lucinda de Cardénio, pois, ainda quando fossem
separados agora pêlos fios de uma espada, seria essa para
eles a morte mais ditosa, e em que nos lances irremediáveis
mostraria ele D. Fernando consumada cordura, sempre que por
um digno esforço a si próprio se vencesse, o que se
realizaria agora mostrando a generosidade do seu peito em
permitir que os dois recebessem como benefício especial da
vontade dele aquele mesmo bem que já do Céu lhes fora
primeiramente concedido;
e que observasse bem quanto era singular a formosura de
Doroteia, à qual poucas ou nenhuma se podiam igualar, e muito
menos excedê-la: que reunisse à beleza dela a humildade de
que era dotada, e o amor extremo que a ele lhe tinha, e
sobretudo se não esquecesse de que, prezando-se de cavaleiro
e de cristão, nenhuma outra coisa podia fazer com acerto seno
cumprir a palavra dada, pois, cumprindo-a, a cumpriria ao
mesmo tempo para com Deus e para com toda a gente discreta, a
qual sabe e conhece, que é prerrogativa da formosura
levantar-se à maior alteza, ainda que esteja colocada em
pessoa humilde quando se acha acompanhada da honestidade, sem
que possa notar-se menoscabo de baixeza em quem, embora
nascido em muito superior jerarquia, a elevar até a igualar
consigo próprio; finalmente que, quando as leis do gosto se
executassem, todas as vezes que não entrasse pecado nessa
execução, nunca com justiça poderia ser culpado aquele que as
seguisse.
A estas razões ajuntaram os demais várias outras, tais e
tantas, que o valoroso peito de D. Fernando, como quem era
alimentado por sangue tão ilustre, se abrandou e se deixou
vencer pela verdade, a qual lhe era impossível negar, ainda
que o quisesse fazer; e o sinal que deu de haver se rendido e
sujeitado ao bom parecer, que lhe fora proposto, descobriu-o
ele, abaixando-se e abraçando Doroteia, dizendo ao mesmo
tempo estas palavras:
360
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA
- Levantai-vos Senhora minha pois não é justo estar a meus
pés ajoelhada aquela que eu tenho posta dentro da minha alma;
se até aqui não tenho dado indícios de ser verdade o que digo
agora, talvez assim o Céu o dispusesse para que, havendo eu
visto a fé constante com que sou por vós amado, soubesse
melhor e mais completamente apreciar-vos e estimar-vos no
alto valor que mereceis: suplico-vos que não me repreendais
pelo mal que tenho procedido para convosco, pois a mesma
força de paixão que me moveu querer-vos por minha, foi essa a
própria que me impelia a procurar o não ser vosso; e
porventura para prova desta verdade, e para desculpa dos meus
desvarios atentai nos olhos encantadores da, ao presente, tão
alegre Lucinda, e neles encontrareis a única explicação
possível de meus erros; e pois que ela achou e alcançou o que
desejava, e eu achei em vós aquilo que me convém, viva
Lucinda segura e satisfeita por anos dilatados e venturosos
com o seu Cardénio e eu ajoelhando perante o Céu lhe rogarei
que me conceda vivê-
-los com a minha Doroteia. E, havendo acabado de dizer isto,
tornou de novo a abraça- H
-Ia, ajuntando seu rosto com o dela, com um sentimento de tão
< viva ternura, que necessário lhe foi ter grande cuidado em que U as lágrimas não viessem dar provas indubitáveis do seu amor e m do seu arrependimento. B' Nisto, não o imitaram Luanda nem Cardénio, nem mesmo quase todos os que se achavam ali presentes, porque começaram a " derramar tantas lágrimas, uns por causa da própria satisfação, e os r outros por causa da alheia que não parecia senão que de acontecer acabava naquele sítio e momento algum caso desastrado: até ' Sancho Pança chorava, ainda que teve depois a sinceridade de dizer que não chorava por ternura, mas sim por então saber que Doroteia não era a rainha de Micomicão como ele pensava, e sobretudo por conhecer que as grandes mercês que esperava receber dela não passavam de um verdadeiro sonho. Juntamente com o pranto enternecido de todos, durou também por algum espaço de tempo a admiração de que todos estavam cheios. Cardénio e Lucinda, depois de passada esta primeira impressão, se foram ajoelhar diante de D. Fernando, e lhe deram 1 ii !l1; 361 'r MIGUEL DE CERVANTES os agradecimentos pela graça que lhes havia concedido com tão corteses razões, que D. Fernando não sabia o que havia de responder-lhes, e por isso contentou-se em os levantar do solo e abraçá-los com mostras de grande delicadeza e de muito amor. Depois, perguntou a Doroteia como fora a sua vinda a uma terra e lugar tão distante da sua naturalidade e habitação. Doroteia em breves e discretas palavras lhe referiu tudo quanto havia dantes já contado a Cardénio, e desta sua história gostaram por tal modo D. Fernando e os seus companheiros, que lhes deu ocasião para sentirem grande pena em não durar mais tempo aquela narração: tanta foi a habilidade e graça com que ela soube contar a série das suas desventuras. Assim que Doroteia acabou de falar, contou também D. Fernando o que lhe acontecera na cidade depois que encontrou o papel que Lucinda guardava em seu seio, no qual declarava não poder ser sua esposa por isso que já o era de Cardénio: disse que a quis matar e o houvera assim feito se os pais o não impedissem, e que saíra da casa despeitado e corrido com a determinação de vingar-se com mais comodidade, quando se oferecesse ocasião oportuna para isso, e que depois soube como Lucinda faltara da casa paterna sem que alguém soubesse dizer para onde ela fora, e somente, passados alguns meses, lhe viera notícia certa de que se achava num convento com a firme resolução de ali passar toda a sua vida, uma ve que lhe fosse vedado ser esposa de Cardénio; e que logo que disto se certificou, escolhendo para seus companheiros aqueles três cavaleiros que ali estavam, se partira para o lugar onde o convento se achava situado; mas que fizera isto com grande cautela para evitar que, sabendo-se estar ele ali, houvesse no mesmo convento mais cuidadosa guarda: que um dia em que a portaria estava aberta foi lá com os seus três companheiros, e, deixando dois para tomarem conta da porta, ele, com o terceiro, entrara pelo interior do convento em busca de Lucinda, a qual encontraram no claustro falando com uma freira; e, arrebatando-a inesperadamente, a levaram do convento a um lugar, onde se proveram de tudo que lhes era necessário para a conduzirem na jornada que vinham fazendo, e que tudo isto puderam fazer muito à vontade 362 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA por estar o convento um pouco solitário e retirado da povoação. Disse mais que, logo que Lucinda se viu no poder dele perdeu os sentidos, e que, quando voltou a si, outra coisa não fizera mais que chorar e suspirar, guardando sempre o mais profundo silêncio; e que, assim calados todos, escutando-se apenas os soluços lacrimosos da raptada, haviam caminhado até aquela venda, que para ele fora como o haver chegado ao Céu, onde unicamente se rematam e finalizam todas as desgraças da Terra. CAPÍTULO XXXVII NO QUAL SE PROSSEGUE COM A HISTÓRIA DA FAMOSA INFANTA DE MICOMICÂO, E DE OUTRAS GRACIOSAS AVENTURAS Tudo quanto se havia ultimamente passado fora visto por Sancho, o qual ouvira quanto se dissera, com grande dor da sua alma, pois que repentinamente se lhe desfaziam e tornavam em fumo as esperanças bem fundadas que tinha de seus futuros aumentos, pois não era a linda princesa de Micomicão senão simplesmente a lavradora Doroteia, o gigante não passava de D. Fernando, e tudo isto sucedia enquanto seu amo dormia a sono solto, sem saber as grandes novidades ocorridas. Doroteia não podia ainda acabar de persuadir-se de que tudo aquilo era um sonho, que a alucinava; Cardénio estava possuído de igual pensamento; e Lucinda tinha as mesmas ideias destes dois a respeito do acontecido. D. Fernando dava agradecimentos ao Céu por havê-lo livrado de um labirinto, onde se achava metido e tão arriscado a perder o seu crédito e a sua alma: finalmente, todos os que se achavam na venda estavam satisfeitos e contentíssimos pelo bom desfecho que haviam tido negócios tão perigosos e desesperados. Tudo o cura, como discreto que era, punha no seu lugar, e dava a cada um os parabéns pelo descanso e boa ventura que alcançara; porém, quem sentia mais gosto e mais verdadeiro júbilo era a vendeira por haver apanhado a Cardénio e ao cura 363 MIGUEL DE CERVANTES a promessa de lhe pagarem todos os interesses e danos que por causa de D. Quixote lhe houvessem sobrevindo. Entre tanta gente contente só o pobre Sancho, como já se disse, era o triste, o aflito, e o desventurado, e com aspecto cheio de melancolia entrou no aposento de seu amo, o qual naquele momento acordara e lhe disse: - Bem pode Vossa Mercê, Senhor Triste Figura, dormir largamente e à sua vontade, sem se dar ao trabalho de excogitar o meio que há-de ter para dar cabo do gigante, e restituir a princesa ao seu reino, porque já tudo isto se acha feito e concluído. - Isso o creio eu muito bem - respondeu D. Quixote - porque travei com o gigante a mais descomunal e desaforada batalha que penso terei em todos os dias da vida que me restam; e de um revés, zás, lhe cortei a cabeça, e foi tanto o sangue que ele deitou, que corria pelo solo formando um regato que parecia ser de água! - Que parecia de vinho tinto, muito melhor pudera Vossa Mercê dizer - replicou Sancho - porque quero que Vossa Mercê saiba, se é que ainda o não sabe, que o gigante morto náo era mais nem menos que um odre partido e o sangue seis cântaros de vinho tinto que ele tinha na barriga, e a cabeça cortada é a pata que me pôs, e leva o Diabo tudo. - Que é isso que dizes, louco? - disse D. Quixote. - Acaso te deu volta ao miolo? - Levante-se Vossa Mercê - respondeu Sancho - e verá as boas obras que tem feito e quanto elas lhe hão-de sair caras; e verá mais a rainha convertida numa dama particular chamada Doroteia, com outros sucessos, que, se bem os ficar sabendo e conhecendo, terá ocasião de muito se admirar. - Nada disso - disse D. Quixote - me maravilha, porque, se bem te lembras já da outra vez que nesta venda pousámos, te fiz observar que tudo quanto aqui se passava era por arte de encantamento, e não seria coisa digna de grande reparo que acontecesse agora o mesmo. - Assim o acreditaria eu - replicou Sancho - se a minha manteação houvera sido também dessa natureza; porém não o foi, senão coisa muito real e verdadeira: e eu bem vi este mes- 364 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA mo vendeiro, que ainda hoje aqui está, sustentar uma das pontas da manta, e me fazia andar numa roda-viva, da manta lá para as alturas do céu, com grande donaire e brio e com tantas risadas, como força e valentia; e quando as pessoas, que figuram, são conhecidas, tenho para mim, ainda que seja um homem simples e pecador, que não pode haver encantamento algum, e que há somente um real movimento de costelas e uma fortuna na verdade desgraçadíssima. - Muito bem, tudo Deus há-de remediar - disse D. Quixote -; dá-me os meus vestidos, e deixa-me sair lá para fora, porque me quero informar e ver os sucessos e transformações que me contas. Deu-lhe Sancho os vestidos, e, enquanto ele se esteve vestindo, narrou o cura a D. Fernando e aos mais que ali se achavam as loucuras de D. Quixote e o artifício de que se haviam servido para tirá-lo da Penha Pobre, onde ele estava imaginado fazê-lo assim pêlos desdéns de sua senhora: mais lhes referiu todas as aventuras, contadas por Sancho, das quais se não admiraram pouco e se riram muito por lhes parecer, o mesmo que parecia a toda a gente, ser este um género de loucura o mais extraordinário, que podia caber em pensamento disparatado. O cura ainda acrescentou que, pois a boa ventura da Sr. Doroteia lhe impedia passar adiante com a empresa começada, mister era inventar e achar outro meio de levar D. Quixote para a sua terra natal. Ofereceu-se Cardénio de continuar o começado, dizendo que sua Lucinda representaria suficientemente a pessoa de Doroteia. - Não - disse D. Fernando -, não há de ser assim, porque eu quero que Doroteia prossiga o que começou, e, uma vez que a morada deste bom cavaleiro não seja muito distante deste sítio, muito folgarei com que se procure o remédio do seu mal. - A morada de D. Quixote - disse alguém - está daqui a dois dias de jornada. - Pois bem - continuou D. Fernando -, ainda que a distância fosse maior que essa grande gosto me dará o caminhá-la à conta de praticar obra tão meritória. 365 MIGUEL DE CERVANTES A este tempo se apresentou D. Quixote a quantos ali estavam, armado de todos os seus petrechos, trazendo na cabeça o elmo de Mambrino, bem que muito amassado, no braço esquerdo o seu escudo ou rodela, e na mão direita o lanção, em que se apoiava. Pasmou D. Fernando e todos quantos conheciam ento pela primeira vez a D. Quixote, quando viram seu rosto amarelo e seco, e de meia légua de comprido, a desigual estranheza da sua armadura, e os seus pausados ademanes, e guardaram silêncio, esperando ouvir o que ele dizia. D. Quixote, co muita gravidade e muito sossego, pondo os olhos na formosa Doroteia, falou assim: - Acabo de ser informado, bela senhora, por este meu escudeiro, de que a Vossa Grandeza se acha aniquilada, e destruído o vosso próprio ser, porque de rainha e grãsenhora, que éreis, vos haveis tomado numa donzela particular. Se isto aconteceu por ordem do nigromante rei vosso pai, receoso de que eu vos não prestasse o necessário e devido auxílio, declaro que ele não sabe, nem nunca soube, por onde estas coisas correm, e que completamente ignora as histórias cavaleirescas; porque, se as houvera lido e compreendido por tão longo espaço de tempo, e com tamanha atenção, como eu as li e compreendi, teria visto a cada passo o modo fácil com que outros cavaleiros, de menor fama que a minha, deram remate a empresas muito mais dificultosas, pois me parece não ser negócio de grande polpa matar um giganteto, embora ele seja muito arrogante, e ainda não há muitas horas que eu me vi com ele, e... mas quero calar-me aqui, para que não me digam que minto; é certo, porém, que o tempo, descobridor de todas as verdades, quando menos o pensarmos, falará por mim. - Viste-vos, mas foi com dois odres de vinho, e não com gigante algum - disse nesta ocasião o vendeiro. D. Fernando mandou-lhe que se calasse, e que por modo nenhum interrompesse a prática de Quixote, o qual, continuando, disse: - Finalmente, alta e deserdada senhora, se, pela causa que indiquei, vosso pai fez na vossa pessoa estas metamorfoses, não 366 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA lhe deis crédito, porque não pode haver na terra algum perigo, por maior que seja, através do qual no abra caminho a minha espada, que, cortando a cabeça ao vosso inimigo, me habilitará a colocar sobre a vossa, dentro em breves dias, a coroa real, que vos foi roubada. Aqui deixou D. Quixote de falar, e esperou que a princesa lhe respondesse, a qual, como já sabia ser a vontade de D. Fernando que se passasse adiante com o começado engano até deixar a D. Quixote na sua terra, com muita gravidade e donaire respondeu: - Quem quer que vos disse, valoroso Cavaleiro da Triste Figura, que eu troquei ou mudei o meu antigo ser, faltou à verdade, porque ainda hoje sou a mesma que fui ontem: é certo que alguma mudança fizeram no meu estado alguns acontecimentos felizes, que o tornaram o melhor que eu poderia desejar; porém, não foi isso bastante para eu deixar de ser o que era, nem para perder o pensamento que ainda conservo de amparar-me do valor do vosso braço invencível, pensamento este em que sempre estarei firme; portanto Senhor meu, digne-se a vossa bondade de restituir seu crédito honroso ao pai que me gerou, e tenha-o sempre na conta de homem prudente e entendido, porque foi ele que com a sua ciência descobriu um meio tão verdadeiro, quanto fácil, para remediar a minha desgraça, pois estou convencida de que sem o vosso auxílio jamais chegaria a ter a ventura que actualmente tenho; e em tudo isto vos digo a verdade pura, da qual são testemunhas a maior parte destes senhores aqui presentes. Agora só nos resta continuar amanhã o nosso caminho, porque hoje já só poderíamos fazer uma jornada muito pequena, e pelo que pertence ao bom sucesso da nossa empresa, tudo entrego nas mãos de Deus, e tudo confio no esforço do vosso peito. D. Quixote, ouvindo o que disse Doroteia, voltou-se para Sancho, e, com mostras de uma grande cólera, lhe disse: - Agora te digo eu, meu Sanchinho, que és o velhaquinho mais descarado de toda a Espanha: diz-me, ladrão vagabundo, não me asseguraste, ainda h pouco que esta princesa se havia mudado numa donzela chamada Doroteia, e que a cabeça, que 367 MIGUEL DE CERVANTES cortei ao gigante, era a pata que te pôs, isto junto com outros disparates tais, que me puseram na maior confusão pela qual hei passado em todos os dias da minha vida? Juro (e ao dizer isto levantou os olhos para o céu e apertou os dentes), que estou para fazer em ti um estrago tamanho, que ponha o sal na moleira a todos quantos escudeiros mentirosos hajam de servir daqui em diante aos cavaleiros andantes do mundo inteiro. - Acalme-se Vossa Mercê, meu Senhor bom - disse Sancho -, pois bem pode haver acontecido que eu me enganasse no que respeita à mudança da Senhora Princesa de Micomicão; porém, naquilo que respeita à cabeça do gigante, ou pelo menos aos furos dos odres, e ao ser vinho tinto o sangue derramado, por Deus que me não enganei, pois os odres ali estão todos esburacados perto da cama de Vossa Mercê, e o vinho tem feito do seu aposento um verdadeiro lago; e senão, ao fritar dos ovos o verá, quero dizer, que o verá quando aqui o Senhor Vendeiro lhe der em rol a conta do que Vossa Mercê lhe deve: enquanto a que a Senhora Rainha seja ainda a mesma que dantes era, no íntimo da alma me alegro eu com isso, porque hei-de ter rasca na assadura, como membro que sou da família. - Agora te digo eu, Sancho - respondeu D. Quixote -, que és completamente um parvo, e perdoa-me e basta. - Basta - disse então D. Fernando - e não se fale mais nisto; e pois que a Senhora Princesa já determinou que amanhã se contnuaria a jornada, que não se pode continuar hoje por ser muito tarde, cumpra-se o que ela manda, e esta noite poderemos nós passá-la em agradável conversação; e, chegando o dia de amanhã, todos queremos acompanhar ao Sr. D. Quixote, e ter a honra de presenciar as grandes e assombrosas façanhas que há-de fazer no decurso desta dfícil empresa, de que se encarregou. - Sou eu quem tem de servir-vos e acompanhar-vos - respondeu D. Quixote - e muito agradeço o favor com que sou tratado, e a boa opinião em que sou tido, a qual procurarei, quanto caiba em minhas forças, tornar verdadeira, ainda que perca a vida neste empenho, e mesmo mais que a vida, se mais que ela me é possível perder. 368 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA Outras semelhantes expresses de cortesia e oferecimentos continuaram a trocar-se entre D. Quixote e D. Fernando; mas a tudo impôs silêncio um passageiro que naquele momento entrou na venda, o qual pelo seu vestuário mostrava ser cristão chegado de terra de Mouros, pois usava de uma casaca de pano azul com meias mangas, de abas curtas, e sem gola, e os calções e o barrete eram também de cor azul; trazia uns borzeguins feitos segundo a moda dos Mouros, e um alfange suspenso de um talabarte lançado a tiracolo. Logo atrás deste passageiro, entrou uma mulher vestida à mourisca, com uma touca na cabeça, e o rosto encoberto, a qual viera a cavalo num jumento, e trazia um barretinho de brocado, e uma almalafa que a cobria desde a cabeça até aos pés. O homem era de forma robusta, de agradável presença, contando pouco mais de quarenta anos de idade, algum tanto moreno, barba bem posta e grandes bigodes, e, se estivera mais bem vestido, pelo seu ar e pelas suas maneiras, todos o julgariam como pessoa bem-nascida e com boa educação. Apenas entrou, pediu um aposento, e porque lhe disseram que não o havia mostrou-se magoado, e, chegando-se para o pé do jumento, em que vinha a que parecia moura, apeou-a tomando-a nos braços. Lucinda, Doroteia, a vendeira, sua filha e Maritornes, atraídas pelo traje novo e por elas nunca visto, rodearam a moura, e Doroteia, sempre comedida, graciosa e discreta, parecendo-lhe que os dois adventícios se afligiam pela falta de aposento, disse à mulher: - Não vos cause pena Senhora minha, a falta de comodidades que encontrais aqui, porque comodidades são coisas que nunca se encontram em casas tais, como esta; porém, contudo, se gostardes de vos aposentar connosco (ao dizer isto sinalou a Lucinda), porventura vos convencereis pelo decurso de todo este caminho de que não foi hoje o dia em que pior albergue encontrastes. Não respondeu nada a estrangeira a isto, nem fez outra coisa mais que levantar-se do lugar onde se havia sentado, e, cruzando as mãos ambas sobre o peito, inclinou a cabeça e curvou o corpo, como quem assim queria mostrar o seu agradecimento. 369 MIGEL DE CERVANTES Pelo silêncio em que se conservou, e pelas demonstrações que a estrangeira fez, ficaram persuadidas as que a rodeavam de ser sem dúvida ela alguma moura, que não sabia falar a linguagem dos cristãos. Acudiu nesta ocasião ali o cativo, que até aquele tempo estivera ocupado com outras coisas, e, vendo que a sua companheira nada responda a quanto as outras mulheres lhe perguntavam, disse: - Senhoras minhas, esta donzela apenas entende a minha língua, porém não sabe falar outra senão a da sua terra e por isso cuido que não tem respondido, e nem por certo responderá ao que lhe seja perguntado. - Não mais se lhe pergunta - disse Lucinda - senão se ela quer por esta noite aceitar a nossa companhia, que com a melhor vontade lhe oferecemos, assim como também lugar no aposento, em que havemos de repousar, e onde lhe procuraremos todas as comodidades possíveis, pois é dever nosso obsequiar os estrangeiros, sobretudo sendo eles do nosso sexo. - Por ela e por mim vos beijo Senhora, as mãos, e em muito aprecio a mercê que tendes a bondade de fazer, a qual não pode deixar de ser muito grande sendo feita em tal ocasião e por pessoas tais como tudo me está indicando que vós sois. - Dizei-me, Senhor - perguntou Doroteia -, esta senhora é cristã ou é moura? O seu traje e o seu silêncio nos levam a pensar que ea não é o que nós desejáramos que fosse. - Moura é no traje e no corpo - respondeu o cativo -, porém na alma é já uma verdadeira cristã, porque tem ardentíssimos desejos de o ser. - Logo ainda não é baptizada? - replicou Lucinda. - Não teve ainda ocasião oportuna de baptizar-se - disse o cativo -; desde que saiu de Argel, sua terra, e, como até agora não correu algum risco a sua vida, entendi poder dilatar-lhe o baptismo até que estivesse bem instruída do que ele é, e das cerimónias que manda praticar a nossa Santa Madre Igreja; espero, porém, que Deus será servido de que ela dentro de breve tempo se baptize com a decência devida à qualidade da sua pessoa, a qual é superior ao que mostra o seu vestuário e o meu. 370 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA Com estas razões acendeu o cativo em todos quantos o escutavam uma grande curiosidade e veementíssimo desejo de saberem quem ele era, e quem era a moura, mas nenhum lho quis perguntar por então, atendendo a que era mais própria aquela hora para o descanso que para ouvir a história da vida dos dois. Doroteia tomou pela mão a desconhecida e a fez sentar junto de si, pedindo-lhe que se desembuçasse; ela olhou para o cativo, como quem o consultava sobre o que lhe diziam, e o que ela devia fazer; e ele, falando-lhe em língua arábica, lhe disse que lhe pediam para descobrir seu rosto, e que assim o fizesse; ao que, obedecendo descobriu um rosto tão perfeito que Doroteia a teve por mais formosa que Lucinda, e Lucinda por mais formosa que Doroteia e todos os circunstantes foram de opinião que, se alguma mulher havia que pudesse igualar as duas, era sem dúvida a moura, e alguns chegaram mesmo a achar que ela as excedia em certos pontos de perfeição; e, como a formosura tenha por especial prerrogativa, e por graça singular o poder de ganhar as vontades e atrair os ânimos, logo todos se renderam ao desejo de servir e amimar a bela moura; e D. Fernando perguntou ao cativo como ela se chamava, ao que este respondeu que se chamava Leia Zoraida; e porque ela ouviu e entendeu a pergunta e a resposta, acudiu com muita pressa, e disse com uma espécie de pesar muito engraçado: - Não, não Zoraida, Maria, Maria - dando assim a entender que se chamava Maria, e não Zoraida. Estas palavras e o grande afecto, com que a moura as pro- B nunciou, fizeram borbulhar as lágrimas nos olhos de alguns dos ' que ali estavam, particularmente das mulheres, que por sua natureza são ternas e compassivas. Abraçou-a Lucinda com muito amor, dizendo-lhe: - Sim, sim, Maria, Maria. Ao que a moura respondeu: - Sim, sim, Maria, Zoraida, macange - que quer dizer, não. A este tempo já era chegada a noite, e por ordem dos que i vinham com D. Fernando havia o vendeiro com grande cuidado e diligência preparado a ceia o melhor que lhe foi pôs- l sível. 371 i1 MIGUEL DE CERVANTES Logo que foram horas competentes, sentaram-se todos a uma mesa muito comprida e estreita, porque na venda uma mesa regular, redonda, ou quadrada, era coisa que não existia, e deram a cabeceira ou lugar principal, apesar das suas recusas, a D. Quixote, o qual quis que ao seu lado se sentasse a Sr. de Micomicão, porque ele era o seu cavaleiro e defensor. Em seguida, sentaram-se Lucinda e Zoraida, e fronteiros a estas D. Fernando e Cardénio, e logo os outros cavaleiros, e do lado das senhoras e ao pé delas o cura e o barbeiro: e deste modo cearam com grande satisfação, a qual subiu de ponto quando viram a D. Quixote deixar de comer, e, movido por outro espírito, semelhante àquele que o fez falar, quando ceou com os cabreiros, principiar o discurso seguinte: - Verdadeiramente, Senhores meus, se bem se reconsideram as coisas, so muitas vezes extraordinários e inauditos os acontecimentos presenciados por todos os que professam a ordem da cavalaria andante; senão, dizei-me: quem seria o habitador deste mundo que, entrando pela porta deste castelo, e vendo-nos estar do modo que estamos, pudesse ajuizar e crer que nós somos quem somos? Quem pensaria que esta senhora, aqui ao meu lado sentada, é a grande rainha que todos nós sabemos, e que eu sou aquele Cavaleiro da Triste Figura, cujo nome a boca da fama por aí tem espalhado? Já se não pode duvidar que este ofício e ocupação excede a todos aqueles e aquelas que os homens inventaram, e tanto mais deve ser estimado, quanto a maiores perigos está sujeito; e não ousem contradizer-me os que pretendem sustentar que as letras levam vantagem às armas, pois eu lhes afirmarei, sejam eles quem quer que forem, que não sabem o que dizem: porque a principal razão em que os tais se fundam é em que os trabalhos do espírito excedem muito os do corpo, e que as armas somente ao corpo pertencem e por ele só são exercitadas; como se uma tão nobre ocupação fosse ofício próprio daqueles que levam a sua vida conduzindo cargas, os quais não precisam senão de possuir forças materiais; ou como se isto, a que chamamos armas nós os que fazemos profissão delas, não precisasse de muitos actos de fortaleza, os quais carecem na sua execução, para que esta seja 372 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA perfeita, de muita inteligência em quem os executa: ou como se o guerreiro, que tem a seu cargo o comando de um exército, ou a defesa de uma povoação sitiada, no tivesse necessidade de trabalhar igualmente com o espírito e com o corpo; senão vejase se é possível conseguir por meio das forças corporais e materiais o penetrar as intenções do inimigo, seus projectos, e seus estratagemas, e prevenir as dificuldades e os danos que ele pode suscitar e opor, tudo isto coisas tocantes privativamente ao entendimento, e nas quais o corpo nenhuma parte pode ter. Sendo, pois, ponto verificado que as armas requerem tanta força de espírito como as letras, examinemos agora qual dos dois espíritos é o que trabalha mais, se o do letrado, se o do guerreiro. Para isto se conhecer bem, deve examinar-se com atenção o destino a que cada um dos dois se encaminha, porque em mais alto valor se há-de apreciar a intenção daquele que tem por objecto alcançar um fim mais glorioso e nobre. O fim a que as letras se dirigem (e não falo agora das divinas, que aspiram somente a encaminhar as almas para o Céu, fim este tão sem fim, que nenhum outro se lhe pode igualar), quero dizer, as letras humanas, é estabelecer com clareza a justiça distributiva, e dar a cada um o que é seu, e o procurar e fazer que as boas leis se guardem e se cumpram: fim por certo este generoso, e digno de grande louvor; porém, não de tanto como merece aquele a que as armas atende, o qual consiste em segurar a paz, que é o maior bem que os homens podem nesta vida desejar; e observe-se que as primeiras boas novas, que teve o mundo e tiveram os homens, foram as anunciadas pêlos anjos na noite que para nós todos foi luminosíssimo dia quando nos ares cantaram: Glória seja dada a Deus nas alturas, e na Terra paz aos homens de boa vontade; e a saudação que o melhor Mestre da Terra e do Céu ensinou aos Seus companheiros e favorecidos foi dizer-lhes que, quando entrassem nalguma casa, falassem assim: Paz seja nesta casa; e muitas outras vezes lhes disse: Dou-vos a minha paz, a minha paz vos deixo, a paz seja convosco; bem como jóia e prenda dada e deixada por tal mão, jóia sem a qual não pode haver algum bem nem na Terra nem no Céu; esta paz é o verdadeiro fim da guerra, pois o mesmo é dizer armas do que dizer guerra. As- 373 MIGUEL DE CERVANTES sentada, pois, esta verdade, que o fim da guerra é a paz, e que nisto levam as armas vantagem às letras, tratemos agora dos trabalhos do letrado com o seu corpo e dos do professor das armas, e veremos quais são maiores. Por esta maneira e com estes bons termos prosseguia D. Quixote na sua prática, de modo que nenhum dos que o escutavam podia persuadir-se de que na realidade ele estava louco; antes, pelo contrário, como a maior parte dos que o ouviam eram cavaleiros, a quem as armas são sempre anexas, o ouviam com grande prazer, e ele continuou dizendo: - Digo, pois, que os trabalhos de um estudante de letras humanas são estes: o principal é a pobreza, não porque todos seam pobres, mas para pôr o caso em todo o extremo a que ele pode chegar; e o haver eu dito que o estudante padece pobreza, penso que não podia dizer mais a respeito da sua má sorte, porque quem é pobre, coisa nenhuma tem boa. Esta pobreza tem suas divisões, por que umas vezes vem ela acompanhada pela fome, outras pelo frio, outras pela falta de vestuário, e, finalmente, outras por tudo isto junto; contudo, não digo que seja tanta esta pobreza que o estudante não coma, embora o faça mais tarde do que se usa, ainda que a comida lhe venha do que sobeja aos ricos; grande miséria por certo é esta, a que vulgarmente se chama viver da sopa alheia, e também encontra nalgumas ocasiões alheio braseiro ou chaminé, onde, se não pode aquentar-se tanto quanto deseja, ao menos poderá minorar o frio que o persegue, e, por último, igualmente não digo que lhe falte absolutamente uma cama com roupa suficente onde durma coberto. Não quero entrar aqui noutras miudezas, tais como falta de camisas e de sapatos, vestuário velho e usado, e aquele prazer esfomeado que mostra quando a sua boa ventura o leva a ser comparsa nalgum jantar abundante e bem cozinhado. Por este caminho que tenho descrito, dicultoso e áspero, tropeçando aqui, caindo ali, levantando-se acolá, e tornando outra vez a cair cá, chegam os letrados ao grau que desejam: este grau tem levantado a muitos, os quais, havendo passado através de Sirtes, Cilas e Caríbdis, como que voando bafejados pelo hálito favorável da sua boa fortuna, chegaram a mandar e governar o 374 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA mundo sentados na sua cadeira curui, trocada já sua antiga fome em grande fartura, seu frio em óptimo calor, seus vestidos velhos e rapados em vistosas galas, o seu dormir sobre uma esteira em se deitarem agora e descansarem em leitos adornados com olandas e damascos; prémio é sem dúvida este justamente merecido pela sua virtude; porém, comparandose os trabalhos com os do militar guerreiro, ficam longe destes a perder de vista como agora vou mostrar. CAPITULO XXXVIII EM QUE SE CONTINUA O DISCURSO QUE FEZ D. QUIXOTE SOBRE AS ARMAS E LETRAS (_ontinuou D. Quixote, dizendo: - Visto começarmos, tratando do letrado, pela pobreza e pelas divisões várias com que esta o ataca, examinemos se o soldado é mais rico; e este exame nos fará conhecer que ninguém entre a própria pobreza é mais pobre que ele, porque vive atido a um miserável pagamento que vem ou tarde ou nunca, ou àquilo que por suas mãos pode pilhar, muitas vezes com grande perigo da sua vida e mesmo da sua consciência. Muitas vezes é tamanha a sua nudez que um esfarrapado colete lhe serve de gala e de camisa, e, no rigor do Inverno, quando se acha exposto na campina rasa às inclemências do tempo, costuma afugentar o frio com a própria respiração, a qual por isso que sai de uma boca onde falta o calor, tenho para mim que há- f -de sair igualmente fria, e que nada aquecerá apesar das leis estabelecidas pela Natureza. Em vão espera restaurar-se de todos estes incómodos na cama, que o aguarda, quando chegar a ' noite, cama que só tem de bom não ser estreita senão se ele assim o quiser, pois lhe pode dar a largura que lhe aprouver, medindo muitas braças de terra, se isso for de seu gosto, e depois virar-se e revirar-se à sua vontade, com a certeza de que nunca os lençóis se lhe enrodilharão ao pescoço. Chega depois de tudo isto o dia e a hora de receber o grau de seu exercício: 375 ï MIGUEL DE CERVANTES chega um dia em que lhe colocam na cabeça uma compressa quase em forma de barrete feita de fios para curar-lhe algum balázio que haja atravessado a cabeça ou o tenha estropiado nos braços ou nas pernas; e, quando isto assim não aconteça, porque o Céu piedoso o conservou vivo e são, pode muito bem ser ficar sempre na pobreza em que dantes estava, e somente sairá deste seu estado desgraçado, e porventura medrará alguma coisa, se houver muitos encontros e batalhas com os inimigos, e se em todos estes arriscados lances sair vencedor; mas esta qualidade de milagres raras vezes aparece. Mas dizei-me, meus Senhores, se bem o tendes considerado, não so os premiados e gananciosos na guerra muito menos que os que morreram nela? Sem dúvida me respondereis que não há aqui comparação possível de fazer-se, pois se não pode formar jamais essa conta exacta dos mortos na guerra, enquanto que dos que escaparam vivos e alcançaram prémios e distinções a lista se poderá compor com três algarismos apenas. Tudo isto sucede de uma maneira contrária entre os letrados, os quais com mais ou menos abundância sempre têm de que sustentar-se e não padecem as inclemências que perseguem os militares, e por isso claramente se vê que o trabalho do soldado é muito maior e o prémio muito mais pequeno. Bem sei que a isto se pode responder que é mais fácil premiar a dois mil letrados do que a trinta mil soldados, porque aqueles premeiam-se dando-lhes empregos, que são exclusivamente próprios da sua prossão, e estes somente podem premiar-se com as fazendas e bens do senhor a quem servem, prémio, cuja impossibilidade fortifica mais a razão do meu dito; porém deixemos este ponto, que é labirinto de dificultosíssima saída, e voltemos à preeminência das armas sobre as letras, matéria ainda hoje em dia mal averiguada por causa das raões que se apresentam pró e contra, de uma e de outra parte. Ouçamos o que dizem as letras quando afirmam que sem elas não podem as armas sustentar-se, porque também a guerra tem as suas leis, às quais está sujeita, e que estas leis devem pertencer à inspecção das letras e dos letrados, que são em tal caso os juizes competentes; ouçamos agora o que respondem as armas, as quais dizem que sem elas não podem manter-se as 376 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA leis, porque são as armas as defensoras naturais da república as conservadoras dos reinos, as defensoras das cidades, e as que asseguram o trânsito das estradas contra os perigos a que pode achar-se exposto, e varrem os mares da peste dos corsários, que muitas vezes o infesta; e nisto parece-me estar pelas armas a razão, pois sem o auxílio delas as monarquias, as repúblicas, os caminhos de mar e terra, tudo estaria sempre exposto ao rigor e confusão de uma desordenada guerra, a qual, enquanto durasse, traria consigo a licença que é o seu natural privilégio e usaria livremente das suas forças, uso sempre nocivo aos que a sofrem; e é coisa bem averiguada e certa que aquilo que mais custoso é em maior estima deve ser tido: alcançar alguém a eminência das letras, coisa é que custa tempo, vigílias, fome, nudez, vagados de cabeça, padecimento de estômago, e outras semelhantes a estas, que já em parte deixo apontadas; mas chegar a ser um bom soldado custa tudo isto por que passa o estudante, e em grau tanto mais subido, porque a cada passo se acha no risco de perder a vida, o que torna impossível a comparação entre o militar e o letrado; e que receio de precisões ou de pobreza pode afligir o estudante, que chegue ao que tem o soldado, quando num cerco é mandado fazer a guarda num parapeito ou revelim e pressente que o inimigo está fazendo uma mina direita ao lugar por ele ocupado, e que a sua honra e o seu dever militar lhe vedam arredar-se um passo da posição onde se acha, nem lhe permitem esquivar-se ao perigo que tão próximo se lhe apresenta? O que somente pode fazer é dar parte ao seu capitão do que sucede para que o remedeie com alguma contramina, e ele conservar-se quieto e firme no seu posto, esperando a cada instante voar até às nuvens sem ter asas e cair depois sobre a terra muito contra sua vontade. E se este perigo ainda parece pequeno a alguns, vejamos se porventura é menor o de duas galeras que mutuamente se investem no largo e espaçoso mar, aferradas as quais uma à outra pelas proas, não fica ao soldado mais espaço que o de uma tábua de três palmos junto do esporão; e, apesar de tudo isto e de conhecer diante de si tantos sinistros de morte, que o ameaçam, quantos são os canhões assestados da parte contrária à curta distância de um tiro 377 MIGUEL DE CERVANTES de lança, e de ver que o primeiro descuido dos pés o levaria a visitar os abismos profundos de Neptuno, guiado pela briosa inspiração do dever e da honra militar, se expõe a ser o alvo da mosquetaria e se esforça por passar o passo estreito e tão perigoso, que o separa da embarcação inimiga; e o mais admirável é que, apenas um tem caído em sítio de onde até ao fim do mundo se não levantará mais, outro vai imediatamente substituir-lhe o lugar, e, se este é da mesma maneira engolido pelas goelas insaciáveis do mar, outro e outro lhe sucedem sem dar tempo ao tempo de suas mortes; atrevimento e valentia a maior que pode encontrar-se em todos os lances da guerra. Venturosos foram aqueles séculos que careceram da espantosa fúria destes endemoninhados instrumentos da artilharia, cujo inventor tenho cá de num para mim que está recebendo no Inferno o prémio devido à sua diabólica invenção, com a qual proporcionou meios a um braço infame e cobarde para tirar a vida a um valoroso cavaleiro, pois se vê, amiudadas vezes, que, sem saber-se como nem por onde, chega uma bala disparada por um indivíduo que talvez fugisse espantado com o brilho do fogo que produziu a máquina quando deu o tiro, e corta e acaba a vida a um militar brioso quando este estava combatendo corajosa e valentemente, animado pêlos sentimentos que acendem e entusiasmam os peitos generosos, vida preciosa que deveria conservar-se por longos anos. E, considerando eu isto bem, estou capaz de afirmar que me pesa no íntimo da alma de haver abraçado este exercício de cavaleiro andante em tempos tão detestáveis como estes em que vivemos agora; porque, ainda que eu sou daqueles a quem não há perigo que meta medo, contudo, muitas vezes me sinto receoso de que a pólvora e o chumbo me roubem a ocasião de tornar-me famoso e conhecido pelo valor do meu braço e pêlos fios da minha boa espada em todos os ângulos da terra; porém, disponha o Céu, como lhe aprouver, que tanto mais estimado serei se levo a cabo o que pretendo, quanto me tenho exposto a perigos bem maiores que aqueles a que se expuseram os cavaleiros andantes dos anteriores séculos. Toda esta larga arenga disse D. Quixote, enquanto todos os outros que com ele estavam iam comendo a ceia de que ele se 378 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA esqueceu a tal ponto que não meteu coisa alguma na boca, ainda que algumas vezes Sancho Pança lhe lembrasse que não era mau o cear e que tempo lhe restaria depois para dizer quanto quisesse. Em todos os que o escutavam sobreveio grande pena, vendo que um homem, ao parecer, dotado de muita inteligência e que sabia discorrer com tanto acerto nas coisas de que tratava, perdia completamente a tramontana logo que falava sobre a negregada e desgraçadíssima tolice da cavalaria andante. O cura disse-lhe que tinha muita razão em tudo quanto havia afirmado em favor das armas, e que ele cura, apesar de letrado e graduado se achava conforme com a sua opinião i Acabada a ceia, tirados os pratos, e levantada a mesa, a to- ? alha e mais coisas pertencentes, e enquanto a vendeira, com sua filha e Maritornes, arranjavam e preparavam a espécie de caramanchel, onde dormira D. Quixote, para que somente as . mulheres ocupassem naquela noite a referida estância, pediu D. Fernando ao cativo para que lhe narrasse o decurso da sua l vida, porque decerto havia de ser peregrino e gostoso, confor- l me as mostras que já começara a dar vindo em companhia de j Zoraida; ao que respondeu o cativo que de boa vontade obede- , ceria ao que era mandado, receando apenas que não fosse tal o ' conto como ele desejava para dar-lhe prazer e contentamento; l porém, que, apesar disso, cumpriria com as ordens recebidas e . vontade de D. Fernando. ! O cura e todos os mais lhe agradeceram a sua docilidade i em prestar-se a dar-lhes este gosto, que de novo lhe pediam lhes desse, ao que ele, prestando-se prontamente, respondeu: - Estejam Vossas Mercês atentos, e ouvirão uma história verdadeira, a qual porventura não poderia ser igualada pelas que costumam inventar-se com curioso e pensado artifício. Com isto que disse fez com que todos se acomodassem e lhe prestassem muita atenção; e, vendo ele que se calavam e esperavam o que dizer quisesse, com voz agradável e compassada começou assim: 379 MIGUEL DE CERVANTES CAPÍTULO XXXIX ONDE O CATIVO CONTA A SUA VIDA E SUCESSOS DELA Num lugar das montanhas de Leão teve sua origem a minha família, com quem foi mais liberal a Natureza do que a fortuna, e posto que aqueles povos ali situados fossem em geral pouco abastados de riqueza, contudo meu pai bem podia ser considerado como rico, e verdadeiramente o houvera sido, se, assim como tinha habilidade para gastar a sua fazenda, a tivesse tido para conservá-la e aumentá-la. E a inclinação que o levava a ser liberal e gastador lhe vinha de haver sido soldado no tempo da sua mocidade, porque a soldadesca é uma escola, na qual o mesquinho se torna liberal, e o liberal passa a ser pródigo, e, se alguns soldados aparecem às vezes miseráveis, são como monstros que de longe em longe se vêem. Meu pai passava muito além dos limites da liberalidade e entrava a grandes passos pêlos da prodigalidade, coisa esta sempre nociva ao homem casado, e que tem filhos, sucessores futuros da sua fortuna e do seu nome. Os filhos que meu pai tinha eram três, todos varões e já em idade de poderem escolher estado. Vendo meu pai que, conforme ele dizia, não tinha na sua mão força para mudar o seu génio gastador, resolveu-se a sofrer voluntariamente a privação da causa que o fazia ser assim como era, e o modo que para isso teve por melhor foi desfazer-se dos bens que possuía, porque na verdade o prprio Alexandre, se nada tivesse de seu, não poderia haver feito os donativos que fez; tomada esta resolução, chamou-nos um dia, a todos três, a um aposento, e ali sós por sós nos disse pouco mais ou menos as palavras seguintes: «Meus filhos, para convencer-vos de que eu vos quero bem, basta dizer-vos e vós saberdes que sou vosso pai; e para poder entender-se talvez que vos quero mal, bastará observarse que não tenho mão em mim quando se trata d conservar a fazenda da nossa casa, e por isso, para que daqui em diante não duvideis de que o amor que vos tenho é amor de pai, e que desejo não vos arruinar como se fora padrasto, quero fazer convosco um 380 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA tratado o qual tenho pensado há muitos dias, e disposto com madura consideração. Todos vós estais em idade de escolher modo de vida, e de eleger um exercício tal que depois de empregados nele vos honre e aproveite, e, para que isto possa verificar-se, assentei em que o melhor meio era dividir a minha fazenda em quatro partes, das quais vos entregarei três, repartindo-as entre vós com perfeita igualdade, e com a quarta ficarei eu para me sustentar e viver o resto dos dias que o Céu houver por bem ainda me conceder de vida; porém queria que depois que cada um tiver em seu poder esta parte da herança paterna seguisse um dos caminhos que lhe vou dizer. Há um rifão na nossa Espanha, segundo o meu parecer, assaz verdadeiro, como eles sempre são, por derivarem a sua existência de uma longa série de experiências discretas, o qual diz: Igreja, ou | mar, ou casa real, como se mais claramente dissera: quem quiser | ter valia e ser rico, ou siga a Igreja, ou navegue exercendo o i ofício de comerciante, ou entre a servir os reis nos empregos públicos, porque dizem: mais valem migalhas de rei que mercês de senhor. Digo-vos isto, porque a minha vontade é que um de vós siga as letras, o outro o comércio, e o terceiro o rei na vida mi- l litar, porque servi-lo na sua própria casa é dificultoso, e a vida ' militar, ainda que nem sempre dê riqueza, dá contudo grande nomeada exaltando o nome dos que com valor e distinço a exercitam: dentro em oito dias, vos darei a cada um a vossa parte em dinheiro sem vos defraudar em um ceitil, como o vereis l quando eu puser o meu projecto em execução. Dizei-me agora ! se quereis seguir o meu parecer e os meus conselhos em tudo quanto acabo de propor-vos.» ! E mandando-me então a mim, como o mais velho dos três, que respondesse, eu, depois de lhe haver dito que não se desfizesse de seus bens, e que continuasse gastando à sua vontade ' porque nós estávamos em idade de poder procurar meios honrados de levar a vida, concluí, todavia, diendo-lhe por fim que zesse ele em tudo o seu gosto e que o meu seria seguir o exer- ' cicio das armas, servindo nelas a Deus e ao meu rei. O meu ! segundo irmão, depois de falar pouco mais ou menos como eu havia falado, escolheu partir para as Índias, levando emprega- ] 381 MIGEL DE CERVANTES da a quantia que lhe tocasse. O mais novo dos três, e, segundo o meu pensar, o mais discreto, disse que queria seguir a Igreja ou ir para Salamanca acabar lá os seus estudos. Logo que terminámos esta prática e escolhemos os estados que queríamos seguir, o nosso pai abraçou a todos, e, com a brevidade prometida, pôs por obra quanto dissera, dando a cada um de nós a parte que lhe pertenceu, a qual, se bem me recordo, constou de três mil ducados em dinheiro, pois que um tio nosso comprou todos os bens e os pagou prontamente para que não saíssem do tronco de família. Todos três nos despedimos de nosso bom pai num mesmo dia, e eu, parecendo-me falta de humanidade que um velho e sobretudo pai meu ficasse com tão poucos meios de subsistência, consegui dele que dos meus três mil ducados guardasse dois mil, porque a mim me bastaria o resto para acomodar-me e arranjar-me de tudo quanto convinha a um soldado. Meus dois irmãos, movidos pelo meu exemplo, lhe deram cada um deles mil ducados, de modo que nosso pai ficou com quatro mil ducados em dinheiro, além de mais três mil ducados que valia a fazenda que no seu quinhão se reservara, a qual ele não quisera vender preferindo conservar a rai. Finalmente, chegado o tempo de nos ausentarmos, despedimo-nos de nosso pai e de nosso tio do qual falei há pouco, não sem muito sentimento e lágrimas de todos, e eles nos recomendaram muito que todas as vezes que tivéssemos ocasião oportuna, lhes comunicássemos os sucessos prósperos ou adversos que sobreviessem. Assim o prometemos, e, depois de novamente abraçados por nosso pai e por nosso tio, e recebida a bênção paternal, nos ausentámos, indo um para Salamanca, outro para Sevilha, e eu para Alicante, onde tive notícia que estava um navio genovês tomando carga de lã para Génova. Haverá hoje tempo de vinte e dois anos que saí de casa de meu pai, e, em todos eles, apesar de algumas cartas que tenho escrito, não hei recebido notícia alguma nem de meu pai, nem de meus irmãos, agora quanto neste longo período tem por mim passado. Embarquei em Alicante e cheguei a Génova com próspera viagem, partindo em seguida para Milão onde me preveni de armas e de algumas galas de soldados, e, querendo ir assentar 382 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA praça ao Piemonte e estando já de caminho para a Alexandria da Palha, constou-me que o grão-duque de Alva passava para Flandres: mudei então de propósito e fui com ele, servi-o nas jornadas que fez, achei-me presente na ocasião da morte dos condes de Eguemond e de Hom, e obtive ser alferes de um famoso capitão de Gualalaxara chamado Diogo de Urbina, e, passado algum tempo depois da nossa chegada a Flandres, vieram novas de se haver formado uma Liga entre a Santidade do papa Pio V, de feliz recordação, a república de Veneza, e a nossa Espanha contra o inimigo comum que é o Turco, o qual naquele mesmo tempo havia conquistado com uma poderosíssima armada a famosa ilha de Chipre, que pertencia ao domínio veneziano, perda desgraçada e lamentável. Supôs-se ser coisa certa que seria general-chefe dos coligados o Sereníssimo Sr. D. João de Áustria, irmão natural do nosso grande rei D. Filipe; tomou-se público e notório o tremendo preparativo de guerra que se estava fazendo, o que me incitou e moveu fortemente o ânimo para desejar ver-me na jornada que se esperava; e posto que tinha probabilidades e quase promessas certas de ser promovido a capitão no primeiro ensejo que se oferecesse para isso, tudo resolvi postergar e parti para a Itália; permitiu a minha boa sorte que nessa ocasião havia chegado a Génova o Sr. D. João de Áustria, o qual passava a Nápoles para ajuntar-se com a armada de Veneza, o que efectivamente se verificou em Messina. Achei-me, portanto, naquela felicíssima jornada, ocupando já o posto de capitão de infantaria, cargo a que mais me elevou a minha boa sorte do que os meus merecimentos; naquele dia tão venturoso para a cristandade, porque nele se desenganaram as nações de que os Turcos não eram invencíveis no mar, como até então geralmente se pensava; naquele dia, repito, em que o orgulho e soberba Otomanos foram humilhados e esmagados, entre tantos felizes como ali houve (porque até os cristãos que ali morreram tiveram maior dita que os que ficaram vivos, embora vencedores), somente eu fui desgraçado, pois, em troca da coroa naval que bem podia esperar cingir se vivera nos séculos romanos, me vi na noite, que se seguia àquele memorando dia, com cadeias aos pés e as mãos vergando sob o peso das algemas. 383 MIGUEL DE CERVANTES Isto me aconteceu pelo modo que vos agora vou contar: Tendo Uchali, rei de Argel, atrevido e venturoso corsário, investido e rendido a nau capitânia de Malta (na qual só ficaram vivos três cavaleiros, e estes mesmos cheios de feridas), acudiu a capitânia de João André a socorrê-la, na qual eu me achava com a minha companhia, e, fazendo o que numa tal ocasião me cumpria fazer, saltei dentro da galera contrária, que, desviando-se da em que eu ia, estorvou assim que os meus soldados me seguissem, achando-me eu só entre os inimigos a quem não pude resistir por serem eles tantos; afinal, fiquei prisioneiro e cheio de feridas, e, como já tereis ouvido dizer que o Uchali se salvou com toda a sua esquadra, já havereis entendido que fiquei sujeito ao seu poder, sendo por este modo eu o único triste entre tantos alegres, e o único cativo entre tantos vencedores e livres. Foram quinze mil os cristãos que naquele dia alcançaram a desejada lberdade, os quais todos vinham ao remo na armada turca. Levaram-me a Constantinopla, onde o grão-turco Selim nomeou a meu amo general do mar, porque desempenhara muito bem o seu dever na batalha, havendo levado em prol do seu valor o estandarte da religião maltesa; no ano seguinte, que foi o de 72, achei-me em Navarino vogando na capitânia dos três faróis: vi e observei a ocasião, ali infelizmente perdida, de não aprisionar ou destruir no porto a armada turca, porque todos os do Levante e janízaros que nela vinham tiveram por certo que seriam atacados dentro do referido porto, e por isso haviam de antemão preparado os vestidos e os passamaques, que assim chamam ao calçado de que usam, para fugirem por terra sem esperarem o combate; tão grande era o medo que a armada cristã lhes havia incutir. De diversa maneira, porém, quis o Céu que corressem as coisas, não por culpa nem descuido do general que comandava os nossos, mas sim pêlos pecados da cristandade, e porque Deus permite muitas vezes que tenhamos verdugos para nos castigarem. Efectivamente, o Uchali se acolheu a Módon, que é uma ilha próxima de Navarino, e, lançando os soldados em terra, fortificou a entrada do porto e se deixou estar ali sem fazer outro algum movimento, até que o Sr. D. João de Áustria se ausentou. Nesta 384 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA viagem, foi tomada a galera chamada a «Presa» da qual era capitão um filho do famoso corsário Barba Ruiva: tomou-a a capitânia de Nápoles chamada a «Loba» governada por aquele raio da guerra pai dos soldados sempre venturoso e nunca vencido D. Álvaro Bazan, marquês de Santa Cruz. E não deixarei agora de contar-vos o que aconteceu nesta presa da «Presa». Era tão cruel o filho do Barba Ruiva e tratava tão mal os seus cativos, que apenas estes conheceram que a «Loba» os ia abordar, largaram todos a um tempo os remos e agarraram o seu capitão que estava sobre a estanteirola, gritando que vogassem ligeiros, e, passando-o de banco em banco, da popa à proa, tantas dentadas lhe deram e o trataram por tal modo, que em muito breve espaço sua alma desceu ao Inferno; tal era a crueldade com que ele se portava para com os seus cativos, e o ódio entranhado que estes lhe votavam. Voltámos a Constantinopla, e soubemos depois lá, no ano seguinte, que foi o de setenta e três, que o Sr. D. João de Áustria havia tomado Tunes, privando os Turcos daquele dito reino e pondo em possessão dele a Mulei Hamet, cortando assim as esperanças de tomar ali a reinar, conservando-o, Mulei Hamida, que era o mouro mais cruel e ao mesmo tempo o mais valente que no mundo houve. Esta perda foi muito sentida pelo Grão-Turco, o qual, usando da sagacidade própria de todos os da sua família, ajustou a paz com os Venezianos que a desejavam muito mais ainda que ele, e no ano seguinte, que era o de setenta e quatro, mandou atacar a Goleta e o Forte que junto de Tunes havia levantado o Sr. D. João. Em todos estes lances andava eu no remo, sem alguma esperança de liberdade; pelo menos não esperava alcançá-la por meio de resgate, porque havia determinado comigo de não escrever a meu pai a dar-lhe notícia da minha desgraça. Perdeu-se finalmente a Goleta, perdeu-se o Forte, praças sobre as quais estiveram setenta e cinco mil soldados turcos pagos, e mais de quatrocentos mil mouros e árabes de toda a África, acompanhado este inumerável poder de gente com tantas munições e petrechos de guerra, e com tantos gastadores que estes puderam afinal cobrir a Goleta e o Forte com milhares de manadas de terra, que sobre eles lançavam. Primeiro se perdeu a Goleta, 385 MIGUEL DE CERVANTES havida até aquele tempo por inexpugnável mas esta perda não deve recair sobre os seus defensores os quais em sua defesa fizeram tudo quanto podiam e deviam fazer, e procedeu da facilidade com que se podiam levantar trincheiras sobre aquele areal deserto, pois que, achando-se ali água a dois palmos os Turcos nem a duas varas a encontraram; e por isso com muitos sacos de areia levantaram trincheiras tão altas que excediam a altura do Forte, e, cobrindo este de tiros incessantes, não era possível estar dentro dele para defendêlo. A opinião comum foi que os nossos andaram mal em se encerrarem na Goleta, e que teriam andado melhor indo esperar o inimigo no campo, ao tempo em que ele desembarcava: mas os que isto disseram falam de leve e com pouca experiência de casos semelhantes, porque, se na Goleta e no Forte o exército cristão não passava de sete mil homens, como é sabido, mal podia um número tão pequeno de guerreiros, por mais esforçados que fossem, sair ao campo e oferecer aí uma batalha ao inimigo que o atacava com forças incomparavelmente superiores. Como é possível deixar de perder-se uma força que não é socorrida, sobretudo quando é cercada por muitos e tenazes inimigos, e estes demais a mais estão na sua própria terra? Porém, pareceu a muitas pessoas, e dessas fui eu uma, que tal perda foi uma graça especial concedida pelo Céu à Espanha, permitindo que afinal de tudo ficasse para sempre destruída e arrasada aquela guarida de malfeitores, a qual sem proveito algum custava à mesma Espanha grande quantidade de dinheiro para conservar aquela posição de que não recebia proveito e apenas podia servir para conservar a memória do invictíssimo Carlos V, que fora quem noutro tempo a ganhara; como se fora mister, para tornar esta memória eterna, que aquelas pedras a sustentassem, a ela que jamais se varrerá da recordação dos Espanhóis. Perdeu-se também o Forte; mas os Turcos somente conseguiram ganhá-lo palmo a palmo, porque os soldados, que o defendiam, pelejaram tão forte e valorosamente, que os Turcos perderam ali mais de vinte e cinco mil homens em vinte e dois assaltos que se viram obrigados a fazer. De trezentos defensores, que escaparam com vida, nem um só deixou de ficar ferido: sinal claro e evidente do seu es- 386 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA forço e do bem que souberam defender-se e cumprir o dever de valentes soldados. Rendeu-se por capitulação um pequeno forte que estava no meio do lago, e de que era capitão D. João Zanoguera, cavaleiro valenciano e famoso guerreiro. Ficou cativo D. Pedro Puerto-Carrero, general da Golea, o qual fez todo o possível para defender a praça, e de tal modo sentiu o havê-la perdido, que no caminho de Constantinopla faleceu de puro pesar, não chegando vivo àquela capital. Também ficou prisioneiro o general do Forte que se chamava Gálvio Cerbelhon, cavaleiro milanês, grande engenheiro e valentíssimo soldado. Morreram nestas duas praças muitas pessoas de conta, e foi uma delas Pagão Dória, cavaleiro do hábito de S. João, homem por extremo generoso, como o mostrou pela suma liberalidade de que usou com seu irmão, o famoso João André Dória; e, o que mais lastimou por ocasião da sua morte, foi que esta se executasse pelas mãos de uns árabes (nos quais se fiou quando viu já o Forte perdido) que se ofereceram para guiá-lo, disfarçado com vestidos de mouro até Tabarca (que é um pequeno porto possuído pêlos Genoveses naquela ribeira para o fim de exercitarem a pesca do coral); os tais árabes lhe cortaram a cabeça e a trouxeram ao general da armada turca, o qual cumpriu para com eles o antigo rifão castelhano, que diz: Ainda que a traição agrada, o traidor sempre se aborrece; e, segundo se conta, mandou o general enforcar os que lhe trouxeram a cabeça por não haverem trazido vivo o dono dela. Entre os cristãos, que no Forte se perderam, foi um deles D. Pedro de Aguilar, natural não sei de que terra da Andaluzia, o qual servira no Forte o posto de alferes e era soldado de muita valia e de raro entendimento, tendo especial graça nas coisas de poesia: digo isto porque a sua sorte o trouxe à minha galera, ao meu banco e a ser escravo, assim como eu, do mesmo senhor; e, antes que nós saíssemos daquele porto, compôs este cavaleiro dois sonetos, um à Goleta, e outro ao Forte: estes sonetos os conservo de memria e hei-de repeti-los por me parecer que serão eles ocasião de prazer e não de enjoo. Quando o cativo nomeou a D. Pedro de Aguiar, D. Fernando olhou para os seus três companheiros, que todos se sorriram; um deles disse então ao cativo: «Antes que Vossa Mercê passe adiante, pe- 387 MIGUEL DE CERVANTES dia-lhe eu a graça de dizer me se porventura sabe alguma coisa a respeto do destino que teve ou do que foi feito desse D. Pedro de Aguilar.» Respondeu o cativo: «O que sei é que no fim de dois anos que ele esteve em Constantinopla fugiu de lá em traje de Amaute acompanhado de um espia grego; não sei se se pôs em liberdade, mas acredito que sim, porque daí a um ano tornei a ver em Constantinopla o tal grego, mas não me foi possível perguntar-lhe o sucesso daquela viagem.» - Pois saiba Vossa Mercê - disse o cavaleiro -, que esse D. Pedro é um meu irmão, e que voltou a Espanha, estando agora morador no nosso lugar, bem, casado, rico, e com três filhos. - Graça seja dada a Deus - exclamou o cativo - por tantos benefícios que lhe fez, porque, segundo o meu parecer, não há sobre a Terra contentamento igual ao que se sente quando se alcança a liberdade perdida. - Direi mais - replicou o cavaleiro - que sei muito bem os sonetos feitos por meu irmão. - Repita-os, pois Vossa Mercê - disse o cativo -, porque melhor os saberá dizer que eu. - De boa vontade o farei já, e o da Goleta era assim: CAPITULO XL NO QUAL SE CONTA A HISTÓRIA DO CATIVO SONETO Almas ditosas, que a mortal cadeia Rompestes, e que pelo bem que obrastes De um solo obscuro e baixo remontastes A sublime região de luzes cheia; Que, ardendo na ira duma honrosa ideia Vossas forças na terra exercitastes; Que o sangue alheio e o próprio derramastes No mar vizinho, e na longínqua areia; 388 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA Primeiro que o valor faltou a vida Aos braços fatigados que a vitória Vos deram ao cair já de vencida! Queda triste, mas bela, aonde a história Mostra quanto é justa e a vós devida No mundo a fama, e lá nos Céus a glória. - Dessa mesma forma o sei eu - disse o cativo. - Pois o do Forte - continuou o cavaleiro -, se bem me recordo, era o seguinte: SONETO Da aridez desta terra desgraçada, E dos castelos pelo chão lançados, As santas almas de três mil soldados Subiram vivas a melhor morada! Mui grande valentia exercitada Foi aqui por seus braços esforçados, Mas afinal já poucos e cansados, Todos morreram vítimas da espada! É este o solo, aonde padeceram Tristes sucessos as hispanas gentes No actual século, e nos que já correram. Mas jamais foram dele aos Céus luzentes Almas tão santas, nem jamais desceram Ao seio seu uns corpos tão valentes! Não desagradaram os sonetos, e o cativo, alegrando-se muito com as novas de seu camarada, continuou assim a história da sua vida: 389 MIGUEL DE CERVANTES - Rendidos que foram a Goleta e o Forte, os Turcos mandaram desmantelar a Goleta, porque o Forte ficou em tal estado que não houve que lançar por terra, e, para a desmantelar mais depressa e com menos trabalho, minaram-na por três partes; por nenhuma delas porém se pôde fazer voar mesmo aquilo que parecia menos sólido, que eram as muralhas velhas; o que com muita facilidade veio a terra foi quanto havia ficado em pé da fortificação nova que tinha feito o Fratin. Por último, a armada voltou vencedora e triunfante para Constantinopla, e poucos meses depois morreu meu senhor o Uchali, ao qual chamavam Uchali Fartax, que em língua turca quer dizer o Renegado Tinhoso, porque ele o era, e é costume entre os turcos porem uns aos outros os nomes tirados de algum defeito que tenham ou de alguma virtude que possuam; e sucede isto porque não há entre eles senão quatro apelidos de linhagem que descendem da casa otomana, e as outras, como disse, tomam nome e apelido umas vezes da imperfeição do corpo, e outras das virtudes do espírito. Ora este tinhoso vogou ao remo catorze anos na qualidade de escravo do Grão-Senhor, e tendo mais de trinta e quatro de idade renegou e renunciou à sua fé, para vingar-se de um turco, por lhe dar uma bofetada na ocasião em que se achava trabalhando com o remo; e foi tanto o seu valor, que sem se servir dos caminhos e dos meios torpes por que costumam subir os mais favoritos do Grão- Turco, chegou a ser rei de Argel, e por último a general do mar, que é o terceiro cargo que há naquele senhorio. Era calabrês de nação, e, moralmente considerado, era homem de bem, e tratava com muita caridade os seus cativos, que chegou a ter no número de três mil, os quais depois da sua morte foram repartidos, conforme a sua disposição testamentária, entre o Grão-Senhor (que também é filho herdeiro de quantos súbditos morrem, e entra em partilhas com os mais que deixa o defunto) e entre os seus renegados. Quis a minha má sorte que eu tocasse e pertencesse a um renegado veneziano, que foi o mais cruel de quantos renegados existiram, o qual, sendo grumete de uma nau, tinha ficado cativo do Uchali, mas que teve a fortuna de lhe agradar tanto que foi dos seus predilectos aquele que ele mais encheu de benefícios. Cha- 390 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA mava-se Azan Agá, e chegou a ser muito rico e rei de Argel, e com ele vim de Constantinopla um tanto mais contente por ficar mais perto de Espanha; não porque pensasse em escrever a alguém contando-lhe os meus infortúnios, mas por esperar que a sorte me no fosse tão adversa em Argel como havia sido em Constantinopla, tinha formado mil planos para fugir sem que nenhum pudesse levar a cabo. Em Argel, tratei de usar dos meios que me pareciam mais próprios para alcançar o que tanto desejava, porque nunca perdi as esperanças de obter a minha Uberdade, a ponto tal que, quando me falhava um plano que eu maquinara, pensara e pusera em execução, sem perder o ânimo logo descobria e me agarrava a outra esperança, que, embora débil e fraca, me mantivesse o alento. Assim ia eu entretendo a vida metido numa priso ou casa a que os Turcos chamam Banho, e na qual metem os cativos cristãos, tanto os que são do rei, como os que são de particulares, e os que chamam do Aljube, o que equivale a dizer que são cativos do município, porque servem a cidade nas obras públicas que a municipalidade faz e nos demais trabalhos, e a estes tais cativos é-lhes muito difícil alcançar a liberdade, porque, por serem de todos e por não terem senhor particular, não aparece com quem tratar o seu resgate mesmo quando este não lhes seja proibido. A estes Banhos, como dito fica, costumam alguns particulares do povo levar os seus cativos, mormente quando estes são de resgate porque até que este chegue os têm ali folgados e seguros. Também os cativos do rei, sendo igualmente dos de resgate, não saem a trabalho com a chusma dos outros a não ser quando o dito resgate se demora, porque em tal caso, para que dele tratem com mais afinco, os fazem trabalhar e ir à lenha com aqueles, coisa que não é pequeno trabalho. Eu era, pois, um dos de resgate; como souberam que eu tinha sido capitão, no número deles e no dos cavaleiros me puseram, posto que eu tivesse dito que era de poucas posses e sem fazenda. Lançaram-me uma cadeia, mais por sinal de resgate do que por me segurarem com ela, e assim passava eu a vida naquele Banho com outros muitos cavaleiros e pessoas gradas, com o destino e o sinal característico dos de resgate, e posto que as vezes, ou quase sempre, nos apertasse a 391 MIGUEL DE CERVANTES fome, e nos afligisse a nudez, o que mais nos atormentava era ouvir e ver a cada passo as inauditas e nunca vistas crueldades com que o meu senhor já nomeado tratava os cristãos. Cada dia enforcava um, empalava este, cortava as orelhas àquele, e isto por tão pouca coisa e tanto sem-razão, que os turcos conheciam que o fazia por hábito e por natural condição de ser assassino de todo o género humano. Só lhe caiu em graça um soldado espanhol chamado Fulano de tal Saavedra, porquanto, apesar de haver feito coisas que ficarão por muitos anos na memória daquela gente, e todas para alcançar a sua liberdade, nem por isso lhe deu nem mandou dar bastonadas e nem sequer o maltratou de palavras, e sucedeu isto com espanto nosso, pois que pela mais pequena das muitas coisas que fez temíamos que fosse empaado, e ele também mais de uma vez o temeu. Se o tempo mo permitisse, eu contaria algumas das aventuras deste soldado, com as quais vos entreteria e vos faria admirar muito mais do que com a narração da minha história. Voltando, pois, a esta direi que para o pátio da nossa prisão estavam voltadas as janelas da casa de um mouro rico e principal, as quais como são de ordinário as dos mouros, mais eram frestas que janelas, e demais a mais eram cobertas de espessas e estreitas gelosias. E um dia sucedeu que, estando num terrado com três companheiros a ver por passatempo se podíamos saltar com as cadeias, e estando sós (porque todos os outros cristãos tinham ido trabalhar), levantei por acaso os olhos, e vi aparecer por aquelas estreitas janelinhas de que falei uma cana com um lenço atado na ponta, balanceando-se e movendo-se quase como a dar-nos sinal para chegarmo-nos a ela e toma-la. Reparámos nisto, e um dos que estavam comigo foi colocar-se debaixo da cana para ver se a largavam ou o que faziam. Mal ele chegou, levantaram a cana e moveram-na para os dois lados, como se dissessem não com a cabeça. Retirou-se o cristão, e tornaram a baixar a cana e a fazer iguais movimentos, mas, indo outro, sucedeu a este o mesmo que ao primeiro. Foi em seguida o terceiro, e sucedeu-lhe o mesmo que aos dois. E, vendo eu isto, não quis deixar de experimentar a sorte, e, apenas cheguei a colocar-me debaixo da cana, deixaram-na cair e ela veio dar-me 392 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA aos pés dentro do Banho. Tratando logo de desatar o lenço, vi nele um nó, e encontrei dentro dez cianiis, que são umas moedas de ouro de que usam os Mouros e cada uma das quais tem o valor de dez dos nossos réis. Se saltei de contente com o achado, é escusado dizê-lo, pois foi tanto o contentamento como a admiração ao pensar de onde nos poderia vir aquele bem, especialmente a mim, pois é fora de toda a dúvida que não se querendo entregar a cana senão a mim, a mercê só a mim era feita. Tratei em todo o caso de arrecadar o dinheiro em seguida quebrei a cana, voltei para o terraço, olhei para a janela e vi então que por ela saía uma mão branca como a neve, abrindo-a e fechando-a precipitadamente. Esta descoberta levou-nos a nos capacitar ou a imaginar que alguma mulher que vivia naquela casa fora quem nos fez aquele benefício, e nós, em sinal de que lhe agradecíamos, lhe fizemos salemas conforme o uso dos Mouros, inclinando a cabeça, dobrando o corpo, e pondo os braços sobre o peito. Pouco depois, mostraram pela mesma janela uma cruz feita de canas e imediatamente a retiraram. Com este sinal mais nos capacitámos de que naquela casa estivesse cativa alguma cristã, e que essa era quem nos tinha feito a mercê, mas a brancura da mão e os braceletes que nela vimos nos fizeram mudar de pensamento, posto que imaginássemos que ela fosse uma das cristãs renegadas, que de ordinário costumam tomar por legítimas mulheres os seus próprios amos, e com isso se dão por muito felizes, porque as estimam mais que as da sua nação. Em todas as nossas conjecturas, estivemos, porém, muito longe da verdade, e por esta razão de aí em diante todo o nosso entretenimento era olhar fixamente para a janela através da qual nos tinha aparecido a boa estrela da cana; mas passaram-se uns bons quinze dias sem que a víssemos, nem sequer a mão, ou qualquer sinal, e, apesar de em todo este tempo havermos procurado com grande solicitude saber quem vivia naquela casa, e se nela havia alguma cristã renegada, nunca encontrámos quem nos dissesse outra coisa senão que ali vivia um mouro rico e principal chamado Agi Morato, alcaide que tinha sido da Bata, que entre eles é ofício de muita honra; mas quando já não esperávamos que por ali nos choveriam mais 393 MIGUEL DE CERVANTES cianiis, vimos com surpresa reaparecer a cana tendo outro lenço com outro nó mais crescido, e isto sucedeu quando, como da outra vez, o Banho estava só e sem gente. Fizemos a mesma experiência, indo primeiro do que eu cada um dos três que comigo estavam; mas a nenhum deles se baixou a cana, só eu tive essa dita, porque à minha vez deixaram-na cair. Desatei então o nó, e encontrei quarenta escudos de ouro espanhóis, e um papel escrito em árabe, e feita no fim do escrito uma grande cruz. Beijando-a, tomei os escudos, voltei ao terrado, todos zemos as nossas salemas, tornou a aparecer a mão, fizlhe sinal de que ia ler o papel e por então fechou-se a janela. Ficámos todos alegres e ao mesmo tempo confusos com o sucedido; e, não sabendo nenhum de nós a língua árabe, era grande o nosso desejo de entender o que o papel continha, e era mais ainda a dificuldade de procurar quem o lesse. Por último, tomei a resolução de fiar-me de um renegado natural de Múrda, que se tinha declarado meu grande amigo, e entre o qual e eu se tinham dado tais ligações que o obrigavam a guardar o segredo que lhe confiasse, porque costumam alguns renegados, quando formam tenção de voltar à terra de cristãos, trazer consigo atestados de cativos distintos em que dão fé, pela forma que podem, de que esse tal renegado é homem honrado, que sempre fez bem aos cristãos, e que tem firmado o plano de evadir-se na primeira ocasião que lhe apareça: destes alguns há que com a melhor intenção procuram estes atestados, outros servem-se deles em certos casos e por manhã, pois vindo roubar a terra de cristãos, e perdendo-se ou ficando cativos, mostram os atestados, e dizem que por esses papéis se verá o propósito com que vinham, e que este era ficar em terra de cristãos, e com esse fim é que vinham em corso com os demais turcos. Deste modo se livram do primeiro ímpeto e se reconciliam com a Igreja sem lhe ter feito mal algum; mas, no primeiro ensejo que se lhes oferece, voltam à Barbaria e são de novo o que dantes eram. Outros há que pelo contrário procuram de boa fé estes papéis e se deixam car em terra de cristãos. Ora um dos ditos renegados era este meu amigo, o qual tinha de todos os nossos camaradas atestados que quanto era possível o acreditavam como 394 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA j homem de bem, e os mouros o queimariam vivo se lhe encon- | trassem tais papéis. Constou-me que ele sabia bem o árabe, e f: que não só o falava como também que o escrevia; contudo, antes de me abrir com ele, lhe disse que me lesse aquele papel que por acaso tinha encontrado num buraco que havia no sítio onde habitávamos. Abriu-o, e esteve bastante tempo a olhar para ele e a traduzi-lo em voz baixa. Perguntei-lhe se o entendia; rés- i pondeu-me que perfeitamente e que, se eu queria que me co- : municasse palavra por palavra o seu cnteúdo, lhe desse tinta e pena para que melhor o fizesse. Logo lhe dei o que pedia, e ' pouco a pouco o foi traduzindo, dizendo-me no fim: ; - Tudo o que aqui vai em romance é, letra por letra, o que contém este papel mourisco, mas há-de advertir-se que, onde se diz Leila Maryem, se deve entender Noss Senhora a Virgem Maria. Lemos então o papel que dizia assim: ; «Quando eu era menina, tinha meu pai uma escrava, a qual na minha língua me deu conhecimento da doutrina cristã, e me disse muitas coisas de Lea Maryem. A tal cristã morreu, e eu ''.. sei que não foi ao fogo, mas sim que foi para Alá, porque a vi depois duas vezes e me disse que fosse à terra dos cristãos ver a Leila Maryem, que me queria muito. Não sei como hei-de ir: tenho visto desta janela muito cristão, mas só tu me hás pareci- r do cavalheiro. Sou muito nova e formosa e tenho muito dinheiro para levar comigo: olha tu se podes conseguir que vamos ambos, e lá serás meu marido, se quiseres, e, se não quiseres, não se me dará nada disso, pois que Leila Maryem me dará marido : com quem eu case. Eu escrevi isto, repara bem naquele a quem o deres a ler, não te fies de nenhum mouro, porque todos são pérfidos. Disto tenho eu muita pena, pois quisera que em ninguém te confiasses, porque, se meu pai o souber, me lançarei logo a um poço e me cobrirá de pedras. Porei um fio na cana, ata nele a resposta e se não tens quem te escreva em árabe, exprime-te por sinais, que Leila Maryem fará com que eu te entenda. Ela e Alá te guardem e bem assim também essa cruz que eu beijo muitas vezes, como me ordenou a cativa.» Notai, Senhores, se tínhamos ou não justos motivos para que as razões deste papel nos causassem admiração e alegria, e tan- | 395 ?' MIGUEL DE CERVANTES to mais que o renegado bem entendeu não ter sido casualmente achado este papel, antes se capacitou de que realmente a algum de ns fora dirigido; e nesta persuasão nos pediu que, se era verdade o que suspeitava, nos fiássemos nele, pois, sendo assim, arriscaria a sua vida pela nossa liberdade; e, dizendo isto, tirou do peito um crucifixo de metal, e derramando muitas lágrimas, jurou por Deus, representado por aquela imagem, em que ele, ainda que muito pecador e frágil, muito e muito fielmente cria, que guardaria lealdade e segredo em tudo quanto quiséssemos descobrir-lhe, porque lhe parecia e quase adivinhava, que por meio daquela que o papel havia escrito, ele e todos nós conseguiríamos a nossa liberdade, e deste modo alcançaria ele o que mais desejava, que era voltar ao grémio da Santa Igreja sua Mãe, da qual como membro podre estava separado por sua ignorância e por seus pecados. Com tantas lágrimas e com mostras de tanto arrependimento falou o renegado, que todos nós afoitamente resolvemos declarar-lhe a verdade do sucesso, e tudo lhe contámos sem encobrir nada. Mostrámos-lhe a janela por onde aparecia a cana, e ele marcou dali a casa, e ficou de pôr grande e especial cuidado em indagar quem habitava nela. Acordámos também que seria bom responder ao bilhete da moura, e, como tínhamos quem o soubesse escrever, imediatamente escreveu o renegado as razões que lhe fui ditando, que foram as que textualmente direi, porquanto não se me varreu da memória nem varrerá enquanto vida tiver, nenhum dos pontos substanciais deste sucesso. Eis o que se respondeu à moura: «O verdadeiro Alá te guarde, minha Senhora, e Aquela bendita Maryem, que é a verdadeira Mãe de Deus, e Aquela que por te querer bem, te há gravado no coração a vontade de ires à terra dos cristãos. Implora-Lhe tu que Se sirva dar-te a entender como poderá pôr por obra o que te ordena, pois é tão boa que decerto assim o fará. Da minha parte e da de todos estes cristãos que comigo se acham, te ofereço fazer por teu respeito quanto até morrer pudermos. Não deixes de me escrever e de me avisares do que pensares em fazer, que eu nunca deixarei de responder-te: o grande Alá nos deu um cristão cativo que sabe falar e escrever tua língua tão bem como verás deste pa- 396 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA pel, e por isso sem medo algum nos podes avisar de quanto quiseres. Quanto ao dizeres que, se fores à terra dos cristãos, serás minha esposa, eu te prometo que por esposa te aceitarei e to prometo como bom e fiel cristão, e bem deves saber que os cristãos cumprem melhor que os mouros aquilo que prometem. Alá e Maryem sua Mãe sejam em tua guarda, minha Senhora.» Escrito e fechado este papel, esperei dois dias que o Banho estivesse só, e logo fui ao costumado sítio do terrado para ver se descobria a cana, que efectivamente não tardou muito em aparecer. Assim que a vi, posto que não pudesse ver quem a punha, mostrei o papel para dar a entender que pusessem o fio; mas já a cana o trazia, e a ele atei o papel, e daí a pouco tornou a aparecer a mesma estrela que já anteriormente anunciara a nossa boa ventura, e vinha ali atado o lenço, que das outras vezes se mostrara como sendo a bandeira branca da paz. Deixaram-na cair, e, levantando-a, encontrei no lenço em toda a espécie de moeda de ouro e prata mais de cinquenta escudos, os quais cinquenta vezes mais dobraram o nosso contentamento e firmaram a nossa esperança de alcançarmos a liberdade. Naquela mesma noite, voltou o nosso renegado e nos disse ter sabido que naquela casa vivia o mesmo mouro que nos haviam dito chamar-se Agi Morato, riquíssimo em toda a extensão da palavra, o qual tinha só uma filha, herdeira de toda a sua fortuna, e que era geral opinião em toda a cidade ser a mais formosa mulher da Barbaria e que muitos dos vice-reis que ali vinham a tinham pedido em casamento, mas que ela nunca quisera casar-se, e que igualmente soube que Agi Morato tivera uma cativa cristã já falecida. Tudo isto concordava com o que vinha no papel. Logo conferenciámos com o renegado sobre o meio de raptar a moura, e voltarmos todos à terra de cristãos, e acordou-se afinal que por então esperássemos o segundo aviso de Zoraida, que era o nome daquela que quer agora chamar-se Maria: porquanto bem víamos nós que ela e não outra pessoa era quem devia resolver todas as dificuldades. Assentando nós nisto, disse o renegado que ficássemos descansados, pois que ele nos poria em liberdade ou perderia a vida. Quatro dias esteve o Banho com gente, que foram outros tantos em que deixou 397 MIGUEL DE CERVANTES de aparecer a cana, e, ao cabo deles, no costumado silêncio do Banho, apareceu a cana com o lenço tão prenhe que prometia um felicíssimo parto. A cana e o lenço inclinaram-se para mim, e encontrei nele outro papel e cem escudos de ouro sem outra qualquer moeda. Achando-se ali o renegado, demos-lhe a ler o papel dentro do nosso rancho, e ele nos disse que era este o seu teor: «Eu não sei, meu Senhor, como pôr em ordem a nossa partida para Espanha, nem Leila Maryem mo há revelado posto que lho tenha eu perguntado: o que se poderá fazer é que eu vos darei por esta janela muito dinheiro em ouro: resgatai-vos com ele, e igualmente dos vossos amigos vá um a terra de cristãos, compre lá uma barca, e venha buscar os outros, e quanto a mim encontrar-me-á no jardim que nos pertence, o qual está à porta do Bab-Azoun junto à marinha, onde tenho de passar todo este Verão com meu pai e com os criados; daí me podereis tirar de noite sem medo nenhum e levar-me à barca. E olha que hás-de ser meu marido, quando não eu pedirei a Maryem que te castigue. Se não tens em quem confies para ir buscar a barca, resgatate tu e parte que eu sei que voltarás mais depressa que qualquer outro, porque és cavalheiro e cristão. Procura saber onde é o jardim, e, quando passeares por aí, ficarei sabendo que o Banho está só, e então te darei muito dinheiro. Alá te guarde, meu Senhor.» Era sto o que dizia e continha o segundo papel, e sabido por todos, cada um se ofereceu para ser resgatado, e prometeu ir, e voltar sem demora, e também eu me ofereci para a mesma empresa: a tudo, porém, se opôs o renegado, dizendo que de nenhum modo consentiria que um se pusesse em liberdade sem que fossem todos juntos, porque lhe tinha mostrado a experiência quanto mal cumpriam os livres a palavra que davam no cativeiro, porquanto muitas vezes se tinham servido do mesmo meio alguns cativos principais, resgatando um que fosse a Valência ou a Maiorca com o dinheiro necessário para armar um navio e vir buscar os que o haviam resgatado e, contudo, nunca mais 398 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA voltava, porque a liberdade alcançada e o medo de tomar a perdê-la lhe apagavam da memória todas as abnegações do mundo. E, em testemunho da verdade que nos dizia, nos contou em breves palavras um caso que quase na mesma ocasião se tinha dado com uns cavaleiros cristãos, o mais estranho que jamais sucedeu naquelas partes nas quais a cada passo ocorrem coisas de admiração e grande espanto. Afinal, disse que o que se podia e devia fazer era que o dinheiro destinado ao resgate de um cristão, se desse a ele para comprar aí para Argel um navio, com o pretexto de se fazer mercador e traficar em Tetuão e naquela costa e que, sendo ele o senhor do navio, facilmente poderia tirá-los do Banho e embarcá-los a todos. Que por isso que a moura, como o tinha prometido, dava dinheiro para resgatá-los a todos, estando livres era fácil embarcarem ainda de dia, e a maior dificuldade que se opunha era a de não consentirem os Mouros que algum renegado tenha barca, e só baixel grande para ir em corso, porque receiam que o que compra barca, mormente sendo espanhol, se destine a ir nela a terra de cristãos; mas que ele removeria esta dificuldade, conseguindo que um mouro tagarino tomasse sociedade na compra da barca e no ganho das mercadorias, e deste modo se tomava senhor da mesma barca e dava todo o negócio por concluído. E posto que parecesse melhor, tanto a mim como aos meus camaradas que ele fosse pela barca a Maiorca, como dizia a moura, julgámos prudente contrariá-lo, não receosos de que, se não fizéssemos o que ele aconselhara, nos havia de denunciar e pôr-nos em risco de perder as vidas se descobrisse o que estava combinado com Zoraida, pela vida da qual nós todos daríamos as nossas; e nestas circunstâncias resolvemos entregar tudo às mãos de Deus e às do renegado; e neste estado de coisas respondemos a Zoraida que faríamos tudo quanto nos aconselhava, pois que o delineara com tanto tino, como se lhe tivesse sido revelado por Leila Maryem, e que em seu poder estava a presteza ou a demora do negócio. Outra vez lhe ofereci a mão de esposo; e, acontecendo estar no dia seguinte o Banho sem gente, por diversas vezes nos deu, 399 MIGUEL DE CERVANTES por via da cana e do lenço, dois mil escudos de ouro, e um papel onde dizia que no primeiro jumá que corresponde à nossa sexta-feira, iria para o jardim de seu pai, e que antes de r nos daria mais dinheiro; e, se este não bastasse, disso a avisássemos, pois que nos daria quanto lhe pedíssemos, porquanto seu pai tanto possuía que não daria pela falta, e mesmo até porque ela tinha as chaves de tudo. Demos logo quinhentos escudos ao renegado para comprar a barca. Com oitocentos me resgatei eu, dando o dinheiro a um mercador valenciano que na ocasião estava em Argel, o qual me resgatou de el-rei, empenhando a sua palavra em que apenas chegasse de Valência o primeiro baixel pagaria o meu resgate, porque, se desse logo o dinheiro, faria suspeitar o rei de que há muitos dias o meu resgate estava em Argel e que o mercador se servira dele para o seu negócio. Em suma: meu amo era tão caviloso que de modo nenhum consegui que desembolsasse logo o dinheiro. Na quinta-feira antes da sexta, em que devia ir para o jardim de seu pai, a formosa Zoraida nos deu outros mil escudos e nos avisou da sua partida, pedindo-me que, se me resgatasse, logo subisse ao jardim de seu pai, e, em todo o caso, tentasse ir ter lá com ela. Respondi-lhe em poucas palavras que assm o faria, e que não se esquecesse de nos encomendar a Leila Maryem, rezando todas aquelas orações que lhe havia ensinado a cativa. Feito isto, tratámos de dispor as coisas para que os nossos três companheiros se resgatassem para nos facilitarem a saída do Banho e para que também, por eu estar resgatado e eles não, havendo dinheiro para o resgate de todos, não se alvoroçassem e o Diabo os aconselhasse a alguma coisa em prejuízo de Zoraida; porquanto, ainda o serem eles quem eram me poderia tirar de semelhante receio, ainda assim não quis pôr o negócio em risco, e por esta razão os fiz resgatar da mesma maneira por que eu me resgatei, entregando todo o dinheiro ao mercador, para o termos bem em seguro, sem que, contudo, lhe descobríssemos a nossa empresa e o segredo por causa do perigo que corríamos. 400 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA CAPÍTULO XLI NO QUAL O CATIVO CONTINUA A SUA HISTÓRIA Ainda não eram passados quinze dias e já o nosso renegado tinha comprado uma magnífica barca, com capacidade para nela se acomodarem mais de trinta pessoas; e, a fim de desviar suspeitas e tornar segura a empresa, empreendeu viagem a um lugar chamado Sargel, que está a vinte léguas de Argel para os lados de Orão, onde se negoceia muito em figos passos. Duas ou três vezes fez essa viagem em companhia do tagarino de que falei. Tagarinos chamam na Barbaria aos mouros de Aragão, e Mudéjares aos de Granada, e no reino de Fez chamam a estes últimos Elches os quais são a gente de que o rei dali mais se serve na guerra. Ora, cada vez que o renegado passava com a sua barca, dava fundo numa pequena enseada que distava menos de dois tiros de frecha do jardim onde Zoraida estava à nossa espera, e muito de propósito se colocara ali, com os mourozinhos ao remo, ora a fazer a azla, ora a fingir que ensaiava o que pensava fazer deveras, e deste modo ia ao jardim de Zoraida, e pedia-lhe fruta, que seu pai lhe dava sem o conhecer; e por mais diligências que fez, como depois me disse, para falar com Zoraida, e dizer-lhe que era ele que iria de meu mando levála a terra de cristãos, e que por isso estivesse segura e contente, nunca o pôde conseguir, porque as mouras não se deixam ver de nenhum mouro ou turco sem que tal mandem seus maridos ou pais; com cristãos cativos é que elas vinham à fala ainda mais do que seria razoável; mas melhor foi que acontecesse assim, porque me pesaria que lhe houvesse falado, pois talvez ela se inquietasse, vendo que o seu negócio andava na boca de renegados; Deus, que ordenara as coisas de outro modo, não deu lugar ao bom desejo que tinha o renegado, e este, vendo com quanta segurança ia e voltava a Sargel, e que dava fundo quando, como e aonde queria, e que o tagarino seu companheiro não tinha outra vontade que não fosse a sua, e que eu já estava resgatado, faltando apenas buscar alguns cristãos que vogassem ao remo, 401 MIGUEL DE CERVANTES disse-me que visse eu quais queria trazer comigo afora os resgatados, e que os tivesse prevenidos para a primeira sexta-feira, dia que tinha escolhido para ser o da nossa partida. Em vista disto, falei a doze espanhóis, todos eles homens muito possantes no remo, e daqueles que mais livremente podiam sair da cidade, e não foi pouco encontrar tantos numa ocasião em que estavam em corso vinte baixéis, tendo levado toda a gente de remo, e nem estes doze teria arranjado, se não sucedesse ter deixado seu amo de ir em corso naquele Verão, ficando em terra para acabar uma galeota que tinha no estaleiro: a estes homens disse somente que na primeira sexta-feira de tarde saíssem um a um com dissimulação, e que me esperassem ao pé do jardim de Agi Morato. A cada um em particular dei estas instruções, recomendando-lhes que encontrando ali outros cristãos não lhes dissessem senão que os tinha mandado esperar naquele sítio. Feita esta diligência, faltava-me a principal, e era esta dar conta a Zoraida do estado em que estavam os nossos negócios para estar prevenida e não se sobressaltasse, se fôssemos raptá-la mais depressa do que porventura ela esperasse que poderia chegar a barca dos cristãos: resolvi, portanto, ir ao jardim e ver se acharia meio de falar-lhe, e, com o pretexto de apanhar algumas ervas, fui lá um dia antes da minha partida, e a primeira pessoa com quem me encontrei foi com seu pai e este me disse, na língua que em toda a Barbaria e mesmo em Constantinopla se fala entre cativos e mouros, a qual nem é mourisca nem castelhana, nem de nação alguma, senão uma mistura de todas as línguas, mas pela qual todos nos entendemos; digo, que nesta forma de linguagem me perguntou o que eu procurava no seu jardim, e quem eu era. Respondi-lhe que era escravo de Arnaute Mami, e isto por saber eu com toda a certeza que este era seu íntimo amigo; e também lhe disse que procurava ervas para fazer salada. Perguntou-me ainda se era ou não homem de resgate e quanto meu amo pedia por mim. Neste tempo saiu da casa do jardim a bela Zoraida, que já muito antes me tinha visto; e, como as mouras não fazem reparo em aparecer aos cristãos, nem tãopouco se esquivam, como já disse, facilmente veio ter aonde o pai estava comigo, e o pró- 402 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA t prio pai vendo-a vir devagar a chamou e lhe disse que se che- '. gasse. Fora demasia dizer eu agora a muita formosura, a gentileza, : os galhardos e ricos adornos com que a minha querida Zoraida se mostrou a meus olhos: tão-somente direi que do seu formosíssimo colo, orelhas e cabelos pendiam mais pérolas do que quantos destes tinha na cabeça. Nos pés, que, conforme o uso oriental, trazia nus, tinha dois carcasses (que assim se chamam em mourisco uma espécie de cadeias de que nos pés usam as mulheres) de puríssimo ouro, com tantos diamantes engastados, que, segundo ela me disse depois, seu pai estimava em dez mil dobras e noutro tanto os braceletes. Eram ricas e inumeráveis as pérolas, porque o maior luxo dos Mouros consiste em adorno de pérolas e aljôfares, sendo por isso que entre os Mouros há mais destas pedras preciosas do que em todas as outras nações, e o pai de Zoraida tinha fama de possuir muitas e das mais ricas de Argel, além de mais de duzentos mil escudos espanhóis, que tudo isto pertencia a esta que agora é minha senhora. Se com estes adornos devia vir ou não formosa e quanto o foi nos seus dias de prosperidade, que o diga a formosura que ainda hoje tem, apesar dos trabalhos por que tem passado, pois bem sabido é que nalgumas mulheres a formosura tem dias e estações, e diminui ou cresce conforme as circunstâncias; além de que muito naturalmente as paixões a realçam ou estragam, quando muitas vezes a não destroem. Finalmente, apresentou-se ricamente adornada e extremamente formosa, ao menos pareceume a mim que era a mais bela que eu até aí tinha visto, e, juntando à sua formosura os benefícios por mim recebidos, tudo isto me fazia ver ali uma deidade do Céu que desceu à Terra para me salvar e encher de gozos. Apenas ela tinha chegado, disse-lhe o pai, na sua língua, que eu era cativo de seu amigo Arnaute Mami, e que fora buscar salada. Tomando a mão ao pai, e naquela mistura de linguagem, de que já tenho falado, perguntou-me se eu era cavaleiro, e por que razão me não resgatava. Respondi-lhe que já estava resgatado, e que do preço do resgate podia ver a valia em que me tinha meu amo, pois eu havia dado mil e quinhentos zoltanis. A isto me respondeu: 403 MIGUEL DE CERVANTES - Na verdade, se tivesses sido de meu pai, eu faria com que nem pelo dobro te resgatasses, porque vós os cristãos mentis em tudo quanto dizeis, e vos fingis pobres para enganar os Mouros. - Assim podia ser Senhora - lhe respondi -, mas crede que tratei com toda a verdade com meu amo, e que com ela trato e tratarei sempre com todas as pessoas do mundo. - E quando partes? - perguntou-me Zoraida. - Amanha, segundo creio - respondi-lhe -, pois está aqui um baixel de França, que amanhã dará à vela, e espero ir nele. - Não será melhor - replicou Zoraida - esperar que cheguem baixéis de Espanha, e que vás num deles, e não num dos de França, por não serem os Franceses vossos amigos? - Não - respondi eu-; contudo, talvez espere um baixel de Espanha que dizem estar a chegar; mas o mais certo é que eu parta amanhã, porque me apertam as saudades de ver a minha terra e as pessoas da minha estima, que não quero esperar nenhuma comodidade por maior que ela seja. - Provavelmente és casado na tua terra - disse-me Zoraida - e por isso desejas ir quanto antes ver tua mulher? - Não sou casado - respondi eu -, mas dei a minha palavra de casar logo que ali chegue. - E é formosa a dama com quem prometeste casar? - disse Zoraida. - Tão formosa é - lhe respondi - que em seu justo ouvor me basta dizer que ela se parece muito contigo. Disto se riu com grande vontade o pai, e disse-me: - Por Alá, cristo, que deve ter muita formosura essa dama, se é verdade parecer-se com minha filha, que é a mais formosa de todo este reino. Olha bem para ela e verás como é verdade o que te digo. Nesta conversação serviu-nos de intérprete, como mais habituado a outras semelhantes, o pai de Zoraida, pois que ainda que ela falava a língua bastarda, que ali se usa, exprimia-se mais por sinais do que por palavras. De repente, chegou um mouro a correr, gritando que quatro turcos, saltando os muros, tinham entrado no jardim e andavam a tirar a fruta ainda verde. O ve- 404 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA lho e Zoraida ficaram sobressaltados, porque é geral e quase natural o medo que os Mouros têm aos Turcos, mormente sendo soldados, pois são estes tão insolentes e têm tanto poderio sobre os Mouros, os quais lhes estão sujeitos, que os tratam pior do que aos seus escravos. Por este motivo disse o pai de Zoraida: - Minha filha, vai para casa, e fecha-te nela, enquanto vou falar àqueles cães; e tu, cristão, procura as ervas que pretendes; vai-te em paz, e Alá te acompanhe à tua terra. Cortejei-o, e ele foi procurar os turcos deixando-me só com Zoraida, que fingia começar a cumprir as ordens do pai, caminhando para casa; mas, logo que este se encobriu com as árvores do jardim, ela voltou-se para mim e disse-me, banhada em lágrimas: - Amexi, cristão, amexi7- o que quer dzer: Vais-te, cristão, vais-te? E eu respondi-lhe: - Irei, Senhora, mas aconteça o que acontecer, não irei sem ti: está próxima a primeira sexta-feira, e não te sobressaltes quando aqui nos vires, que em seguida iremos depois com certeza à terra de cristãos. De tal maneira me exprimi que ela me compreendeu perfeitamente, e, lançando-me um braço ao pescoço, com passos lentos começou a caminhar para casa; quis, porém, a sorte, que poderia ser tervel, se o Céu o não determinasse de outro modo, que o pai, voltando já de estar com os turcos, nos visse nesta posição; e, posto que nós também o víssemos a ele, Zoraida, mulher fina, não retirou o braço, antes mais se chegou a mim e pousou a cabeça sobre o meu peito, dobrando um pouco os joelhos, fingindo perfeitamente que desmaiava, e diligenciando eu ao mesmo tempo mostrar que a sustinha contra minha vontade. Correu o pai para onde estávamos, e, vendo a filha neste estado, perguntou o que tinha; e, como ela lhe não respondesse, disse: - Sem dúvida desmaiou sobressaltada com a entrada destes cães. E, tirando-a do meu, conchegou-a ao seu peito, e ela então, dando um suspiro e ainda banhada em pranto, tornou a dizer: 405 MIGUEL DE CERVANTES - Amexi, cristão, amexi: vai-te, cristão, vai-te. - Não importa, minha filha - respondeu o pai -, que o cristão se vá, pois nenhum mal te fez, e os turcos já se foram embora: nenhuma coisa te sobressalte, pois nenhuma há que deva afligir-te; como já te disse, os turcos, a instâncias minhas, saíram por onde tinham entrado. - Foram eles Senhor, que a assustaram - disse eu ao pai -; mas como ela diz que me retire, não quero tornar-me incómodo. Fica-te em paz, e com licença tua se me for preciso, voltarei a procurar ervas neste jardim, porque, segundo diz meu amo, em nenhum outro as há melhores para salada do que no teu. - Podes vir colher quantas quiseres - respondeu Agi Morato - pois minha filha não se queixa de ti nem de nenhum cristão; querendo referir-se aos Turcos, é que disse que te retirasses, ou então que eram horas de ires procurar as tuas ervas. Logo me despedi de ambos, e ela, arrancando-se-lhe a alma como parecia, retirou-se com o pai, e eu, sob o pretexto de procurar as ervas, rodeei o jardim com todo o vagar e à minha vontade, notei bem as entradas e saídas e a fortaleza da casa, e a facilidade com que poderia executar o meu plano. Concluído este serviço, retirei-me, e contei ao renegado e aos meus companheiros quanto se tinha passado, e já me tardava a hora de gozar sem sobressalto o bem que na bela e formosa Zoraida me dava a sorte. Finalmente, passou-se o tempo, e chegou o dia e a ocasião por nós tão desejada; e, seguindo todos a ordem do plano que com discrição e com muitas combinações havíamos formado, tivemos a fortuna que tanto desejávamos, porquanto, ao anoitecer da sexta-feira que se seguiu ao dia em que falei com Zoraida no jardim, o renegado deu fundo com a barca quase defronte do sítio onde estava a formosíssima Zoraida. Já os cristãos que tinham de ir trabalhar ao remo estavam preparados e escondidos em diversos sítios daqueles arredores. Todos me esperavam, suspensos e alvoroçados, e impacientemente desejosos de atacarem o baixel que tinham à vista, porque ignoravam as combinações com o renegado e pensavam que à força de braço é que tinham de ganhar e possuir a liberdade, 406 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA | matando os mouros que estavam dentro da barca. Logo que nos l avistaram chegaram-se para nós todos aqueles cristãos que por L ali se achavam escondidos, e já então a cidade estava deserta e s não se via alma viva em toda aquela campina. Uma vez reunidos, hesitámos em se seria melhor ir primeiro de tudo raptar ; Zoraida ou render a barca, e, nesta perplexidade, chegou o nosso renegado e perguntou-nos o que esperávamos, acrescentando que já eram horas e que todos os seus mouros estavam descuidados e a maior parte deles a dormir. Contámoslhe o que nos detinha e então ele nos disse que antes de tudo convinha tomar o baixel o que poderia fazer-se com facilidade e que feito isto iamos buscar Zoraida. A todos nos pareceu sensato este parecer, e, sem mais demora, e indo ele na frente, nos precipitámos sobre o baixel, e saltando ele dentro primeiro que todos empunhou um alfange, e disse em mourisco: - Ninguém aqui se mova se não quer perder a vida. E já então todos os cristãos tinham saltado para dentro da barca. Os mouros, que eram pouco animosos ouvindo falar desta maneira o seu arrais, ficaram espantados, e sem que nenhum deles tivesse coragem para pegar nas armas, que poucas ou quase nenhumas tinham, deixaram-se manietar pêlos cristãos, o que estes lhes fizeram com toda a presteza, ficando os mouros compreendendo que seriam passados à espada no mesmo instante em que gritassem. Depois disto feito, deixando-os guardados por metade dos nossos, fomos os que restávamos buscar Zoraida ao jardim de Agi Morato, indo à nossa frente o renegado, e quis a nossa boa sorte que, quando íamos para forçar a porta, ela se abrisse com tanta facilidade como se não estivesse fechada, e deste modo muito tranquilamente e em silêncio chegámos à casa sem que ninguém nos pressentisse. Estava a lindíssima Zoraida esperando por nós a uma janela, e, logo que sentiu gente, perguntou em voz baixa se éramos nizarani, como se dissesse ou perguntasse, se éramos cristãos. Eu lhe respondi que sim, e que baixasse. Logo que me conheceu, sem demorar-se nem mais um instante e sem responder-me uma só palavra, desceu rapidamente, abriu a porta e apareceu-nos tão formosa e tão ricamente vestida que não sei como 407 MIGUEL DE CERVANTES descrevê-lo. Apenas a vi perto de num, tomei-lhe a mão, e comecei a beijar-lha, e o mesmo fizeram o renegado e os meus dois companheiros, e os outros, que não sabiam de que se tratava, fizeram o que nos viram a nós fazer, parecendo-lhes decerto que com isto lhe dávamos graças e a reconhecíamos como senhora da nossa liberdade. Perguntou-lhe o renegado, em língua mourisca, se o pai estava no jardim, e ela respondeu que sim e que dormia. - Pois é necessário acordá-lo - replicou o renegado - e leválo connosco e tudo quanto tem de valor neste formoso jardim. - Não - disse ela -, não consinto que em meu pai alguém ouse tocar, e nesta casa náo há mais nada que o que vai comigo, que é tanto que chegará para que todos fiquem ricos e contentes; esperai, e vê-lo-eis. Neste momento, voltou a casa, dizendo que não se demoraria, e que estivéssemos nós quietos e não fizéssemos ruído algum. Perguntei então ao renegado o que tinha passado com ela, e, contando-me ele tudo, disse-lhe eu que só se havia de fazer o que Zoraida quisesse, e quando isto dizia já ela voltava com um cofrezinho cheio de escudos de ouro, em tamanha porção que o conduzia com muito custo. Quis, porém, a má sorte que neste meio tempo acordase o pai e sentisse o ruído que ia no jardim, e, chegando à janela, conheceu logo que éramos cristãos, e em altas e desesperadas vozes começou a gritar em árabe: - Cristãos, cristãos, ladrões, ladrões! Estes gritos puseram-nos em grande e arriscada confusão; mas o renegado, conhecendo o perigo em que estávamos e quanto era preciso levar a cabo a empresa sem ser sentido, correu aonde estava Agi Morato, e foram atrás dele alguns dos nossos; quanto a mim, entendi que não devia desamparar Zoraida, que caíra desmaiada sobre os meus braços. Finalmente, os que subiram de tal modo se houveram que num momento desceram, trazendo Agi Morato com as mãos atadas e com um lenço na boca, de maneira que não podia proferir palavra, ameaçando-o ainda assim que lhe tirariam a vida se falasse. Quando a filha o avistou, cobriu os olhos para não o ver, e o pai ficou espantado, 408 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA [? iignorando quanto ela de sua vontade se havia colocado nas nos- | sãs mãos; mas, sendo o mais necessário então a ligeireza dos pés, \ a toda a pressa nos fomos meter na barca, na qual os que nela ] estavam principiaram a recear que tivéssemos sido mal sucedidos. Apenas se teriam passado duas horas pela noite dentro, já todos nós estávamos na barca, e logo tirámos ao pai de Zoraida a atadura que lhe puséramos nas mãos e o lenço com que lhe tapáramos a boca; mas disse-lhe outra vez o renegado que lhe tiraríamos a vida, se proferisse uma só palavra. Como ele ali viu a filha, começou a suspirar com muita ternura e com muita mais r ainda quando viu que eu estreitamente a apertava nos braços, sem que ela se defendesse, nem se esquivasse ou soltasse um queixume, antes ficando serena; mas tudo ele sofria calado para que o renegado não pusesse em execução as muitas ameaças que lhe havia feito. Vendo-se já na barca e observando que íamos começar a remar, e olhando para o pai e para os outros mouros que estavam amarrados, Zoraida disse ao renegado, para mo dizer a num, que lhe fizesse eu a mercê de soltar aqueles mouros e pôr-lhe o pai em liberdade, pois que mais fácil lhe seria atirar-se ao mar do que ver diante dos olhos e por sua causa ser levado cativo um pai que tanto a tinha amado sempre. Disse-mo o renegado, e eu respondi que isso era da minha melhor vontade; mas objectou o renegado que isto não convinha, porque se ali os deixássemos, chamariam em socorro toda a terra e alvoroçariam a cidade, podendo suceder que fossem sobre nós com algumas fragatas ligeiras e nos tomassem a terra e o mar, de modo que não pudéssemos escapar-lhes; e que o mais que poderia fazerse-lhe era pô-los em liberdade na terra dos cristãos a que primeiramente chegássemos. Assentámos todos neste parecer, e Zoraida, à qual expusemos as razões que tínhamos para no lhe fazermos logo a vontade, deu-se por satisfeita. Em seguida, com um silêncio que nos enchia de profunda satisfação e com alegre diligência cada um dos nossos valentes rmeiros tomou os remos e começámos, encomendando-nos de todo o coração a Deus, a navegar em roda das ilhas de Maiorca, que era a mais próxima terra de cristãos; mas, por soprar vento um tanto norte e estar o mar algum tanto agitado, não pude- ; 409 MIGUEL DE CERVANTES mós seguir a derrota de Maiorca, e vimo-nos forçados a navegar em tomo de Orão, não sem grande pesar nosso, pois receávamos ser descobertos do lugar de Sargel que naquela costa não dista de Argel mais de sessenta milhas; e demais a mais temíamos encontrar por aquelas paragens alguma galeota das que ordinariamente conduzem mercadorias de Tetuão, posto que cada um por si e todos juntos presumíamos que, encontrando galeota de mercadorias, não sendo das que andam em corso, não só não nos perderíamos, mas até que conseguiríamos baixel em que com mais segurança pudéssemos concluir a nossa viagem. Enquanto se navegava, ia Zoraida com a cabeça entre as minhas mãos para não ver o pai, e notei que ela rezava a Leila Maryem, pedindo-lhe que nos protegesse. Teamos navegado trinta milhas, quando nos amanheceu estando desviados de terra coisa de três tiros de arcabuz, e observámos que estava toda deserta e que por isso ninguém nos vira; contudo, fomos à força de braços entrando um pouco no mar, que já estava mais sossegado, e, achando-nos quase duas léguas desviados de terra, deu-se ordem para que se vogasse por quartos, enquanto comíamos alguma coisa, pois ia bem provida a barca; posto que os remadores dissessem que não era ocasião oportuna para repousar, e que somente dessem de comer aos que não vogavam, porque quanto a eles não queriam de modo algum largar os remos das mãos. Assim se fez, e neste meio tempo começou a soprar um vento rijo que logo nos obrigou a navegar à vela e a deixar o remo, e a tomarmos o rumo de Orão por não nos ser possível fazer outra viagem. Tudo isto se fez com muita presteza, e deste modo navegámos à vela mais de oito milhas por hora sem outro receio que não fosse o de nos encontrarmos com algum baixel dos que andam em corso. Demos de comer aos mouros tagarinos, e o renegado os consolou, dizendo-lhes que não iam cativos, e que tanto assim era que na primeira ocasião se lhes restituiria a liberdade. O mesmo disse ao pai de Zoraida que lhe respondeu: - Outra qualquer coisa poderei eu crer e esperar da vossa liberalidade e cortesia; mas, quanto à promessa de me pordes 410 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA em liberdade, náo me julgueis tão simples, cristão, que disso me persuada; pois decerto que não vos teríeis exposto ao perigo de tirar-ma para tão facilmente ma restituirdes, mormente sabendo vós muito bem quem eu sou, e quanto podeis receber como preço dela. Mas, se a quereis pôr já em preço, eu vos ofereço quanto pedirdes por mim e por essa minha desgraçada filha, ou ao menos só por ela, por ela que é a maior e a melhor parte da minha alma. E desatou logo a chorar tão amargamente, que nos comoveu a todos, e obrigou Zoraida a volver os olhos para ele, e, vendo-o assim a chorar, de tal modo se enterneceu, que se levantou de meus pés, onde estava e foi abraçar-se no pai, e, juntando a sua face à dele, ambos romperam em tão terno pranto que muitos dos que ali íamos os acompanhámos no choro. Quando, porém, o pai a viu vestida de gala e adornada com tantas jóias, disse-lhe na sua língua: - Que é isto, filha? Pois ainda ao anoitecer de ontem, antes que nos sucedesse esta terrível desgraça em que agora nos vemos, te vi com os teus vestidos ordinários e caseiros, e agora, sem que tivesses tempo para te vestires, e sem receberes novidade alguma alegre que devesses solenizar cobrindo-te de enfeites, vejo-te com os melhores vestidos que pude dar-te, quando nos foi mais favorável a fortuna?! Responde-me a isto, porque isto me suspende e admira muito mais do que a própria desgraça em que me encontro. Tudo o que o mouro dizia à filha nos explicava o renegado, e ela não lhe respondia palavra. Mas, quando ele viu a um lado da barca o cofrezinho onde a filha costumava guardar as jóias, o qual ele bem sabia que deixara em Argel, e que o não tinha trazido para o jardim, mais confuso ficou, e perguntoulhe como aquele cofre tinha vindo dar às nossas mãos e o que continha. Sem esperar que Zoraida respondesse, disse-lhe o renegado: - Não te canses Senhor, com tantas perguntas a tua filha, porque, respondendo-te eu a uma, responderei de uma só vez a todas; e assim convém que saibas que ela é cristã, e que foi a lima das nossas cadeias e a liberdade do nosso cativeiro: ela vai aqui muito de sua vontade e tão contente, ao que eu penso, de 411 MIGUEL DE CERVANTES se ver neste estado, como aquele que sai das trevas para a luz, da morte para a vida, e do Inferno para o Céu. - É verdade, minha filha, o que este homem diz? - perguntoulhe o pai. - Assim é - respondeu Zoraida. - Pois tu és cristã, e puseste teu pai em poder de seus inimigos? - Cristã eu o sou; mas não sou quem te pôs nesse estado, porque nunca o meu desejo se estendeu a deixar-te nem a fazer-te mal, e somente a fazer-te bem. - Mas qual é o bem que me fizeste, minha filha? - Qual ele seja, pergunta-o a Leila Maryem, que Ela melhor do que eu saberá responder-te. Apenas ouviu isto, o mouro com admirável presteza atirou consigo ao mar de cabeça para baixo, e sem dúvida se afogara, se a roupa, por ser larga, o não embaraçasse e retivesse sobre a água. Em altas vozes gritou Zoraida, que o salvassem, e indo logo nós todos em seu socorro, agarrámo-lo pela almalafa e tirámolo do mar quase afogado e sem sentidos, e isto tanto afligiu Zoraida, que derramou sobre o pai tão temas e dolorosas lágrimas, como se ele já estivesse morto. Pusemo-lo de pernas para o ar, e, lançando muita água pela boca, tornou a si ao cabo de duas horas, e, mudando no entretanto o vento, foi-nos conveniente aproximarmo-nos de terra, fazendo toda a força de remos para não sermos arrojados contra a costa; mas quis a nossa boa sorte que chegássemos a uma enseada que fica ao lado de um pequeno promontório ou cabo, a que os mouros apelidam de cava mna, o que na nossa língua quer dizer ma mulher crista; e é tradição entre os Mouros que naquele lugar está enterrada a cava por quem se perdeu a Espanha, porque cava na língua deles quer dizer mulher má, e rumia quer dizer cristão; e têm por mau agouro chegar ali a dar fundo quando a necessidade os obriga a isso, e sem esta nunca ali o vão dar; contudo, para nós não foi abrigo de má mulher, antes porto seguro da nossa salvação, porque o mar andava muito alterado. Pusemos sentinelas em terra, e nunca largámos 412 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA os remos da mão: comemos do que o renegado tinha provido a barca e de todo o nosso coração rogámos a Deus e a Nossa Senhora, que nos ajudasse e protegesse para que facilmente déssemos fim àquilo que tinha tido tão ditoso princípio. Nesta ocasião tratámos de ver o modo por que havíamos de satisfazer às súplicas de Zoraida, para pormos em terra seu pai e todos os outros que ali iam atados, pois que não tinha ânimo, nem cabia em seu temo coração ter diante de seus olhos manietado seu próprio pai e os outros da sua terra. Prometemos soltá-los no acto da partida, porque não havia perigo em deixá-los naquele lugar por ser despovoado. Não foram tão vãs as nossas orações que não fossem ouvidas do Céu porquanto em nosso benefício logo mudou o vento e ficou tranquilo o mar, convidando-nos a continuar alegres a nossa começada viagem. Vendo isto, desatámos os mouros, e pusemolos em terra um a um, do que eles ficaram admirados; mas o pai de Zoraida, que já estava bom, disse quando ia a desembarcar: - Porque julgais, cristãos, que esta má criatura dá mostras de se alegrar com a minha liberdade? Julgais que é por piedade que tem de mim? Decerto que não, mas antes que o faz para que a minha presença lhe não sirva de estorvo, quando queira pôr em execução os seus maus desejos; nem penseis que a levou a mudar de religião o entender ela que a vossa se avantaja à nossa, mas sim o saber ela que na vossa terra com mais facilidade do que na nossa se pratica a desonestidade; e, virando-se para Zoraida, que eu e outro cristão detínhamos por ambos os braços para que não rompesse nalgum desatino, disse-lhe: - Ó mulher infame, e mal aconselhada rapariga, para onde vais cega e desatinada, em poder destes cães nossos naturais inimigos? Maldita seja a hora em que te gerei, e malditos os regalos e deleites com que foste criada por mim. Mas, vendo-o eu em termos de não acabar tão cedo, apressei-me a pô-lo em terra, e ali continuou em voz alta as suas maldiçes e lamentos, pedindo a Alá por intervenção de Mafoma, que nos confundisse e destruísse, dando cabo de nós; e quando, por nos havermos feito à vela, não pudemos ouvir as suas palavras, vimos-lhe as acções, que eram arrancar as bar- 413 MIGUEL DE CERVANTES bas e os cabelos, e arrastar-se pelo chão; mas uma vez de tal modo esforçou a voz, que pudemos entender que dizia isto: - Volta, minha amada filha, volta à terra, que tudo te perdoo; entrega a esses homens esse dinheiro, que já é deles, e vem consolar este teu triste pai, que nesta triste areia deixará a vida, se o deixas. Zoraida escutava tudo isto, tudo sentia, e por tudo chorava, e não soube dizer-lhe ou responder-lhe senão isto: - Praza a Alá, meu pai, que Leila Maryem, que há sido a causa de eu ser cristã, te console em tua tristeza. Alá sabe muito bem que eu não podia fazer senão o que fiz, e que estes cristãos nada devem à minha vontade, pois que ainda que eu não quisesse vir, antes desejasse ficar em casa, isso me teria sido impossível, porquanto a alma me impelia a pôr em execução esta obra que me parece tão boa quanto tu, ó meu amado pai, a julgas má. Quando disse isto, já o pai a não ouvia, nem nós o ouvíamos a ele; e, consolando Zoraida, cuidámos todos da nossa viagem, a qual o vento nos facilitou por tal modo que contámos amanhecer no dia seguinte nas praias de Espanha; mas, como nunca ou raras vezes o bem puro e simples deixa de vir acompanhado ou seguido de algum mal que o perturbe ou sobressalte, quis a nossa desgraça, ou talvez as maldições do mouro contra sua filha, que sempre se devem temer as maldições dos pais, sejam eles quem quer que forem; repito, quis a nossa desgraça, que, estando nós já dentro do golfo, e sendo passadas quase três horas depois de haver anoitecido, correndo a todo o pano, com os remos em descanso, porque o vento prspero tornava desnecessário vogar a eles, com a luz da Lua que resplandecia em todo o seu brilho, vimos ao pé de nós um baixel redondo, que a todo o pano e levando o leme um pouco à orça, atravessava adiante de nós, e isto já tão perto que nos foi preciso amainar para não irmos de encontro a ele, fazendo os do baixel também força de vela para que pudéssemos passar. De bordo do baixel perguntaram-nos quem éramos, para onde navegávamos e de onde vínhamos; mas, porque nos fizeram em francês estas perguntas, disse-nos o renegado: 414 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA - Ninguém responda, porque estes sem dúvida são corsários franceses que nada poupam. Em vista desta advertência, ninguém respondeu palavra, e, tendo nós passado um tanto adiante, que já o baixel ficara a sotavento, de repente despejaram duas peças de artilharia, e, ao que parecia, ambas vinham com planquetas, porque com uma nos cortaram o mastro ao meio, atirando-nos com ele e com a vela ao mar, e disparando no mesmo instante outra peça, a bala deu no meio da nossa barca de tal modo que a abriu toda sem causar outro mal; mas, como víssemos que íamos ao fundo, todos em altas vozes começámos a pedir socorro e a rogar aos do baixel que nos recolhessem, porque nos alagávamos. Amainaram ento as velas, e, deitando a falua ao mar, entraram dentro dela uns doze franceses armados com os seus arcabuzes e mechas acesas e assim se chegaram ao nosso; e, vendo que éramos muito poucos, e que o baixel se afundia, recolheramnos, dizendo-nos que por sermos descorteses em não lhes respondermos é que nos sucedera aquilo. O nosso renegado tomou o cofre das riquezas de Zoraida e atirou com ele ao mar, sem que algum de nós visse o que ele fazia. Por último, entrando no baixel dos franceses, estes, depois de se informarem de tudo quanto quiseram saber de nós, como se fôssemos seus figadais inimigos, despojaram-nos de tudo quanto tínhamos, e a Zoraida até tiraram os carcasses que trazia nos pés; mas a mim não me afligia tanto o pesar que a ela lhe causavam como o temor que eu tinha de que depois de lhe tirarem estas riquíssimas e preciosíssimas jóias, passassem a tirar-lhe aquela que mais valia e ela sobre todas ainda mais estimava; felizmente os desejos daquela gente não se estendiam senão ao dinheiro e disto nunca se farta a sua cobiça, que então chegou a tal ponto que até os vestidos de cativos nos tirariam, se de algum proveito lhe servissem; e houve entre eles quem fosse de parecer que nos lançassem todos ao mar embrulhados numa vela, porque tinham tenção de fazer negócio nalguns portos de Espanha com o nome de bretôes, e que, levando-nos vivos, correriam o risco de serem castigados, descoberto que fosse o roubo que nos tinham feito; porém o capitão, que fora 415 MIGUEL DE CERVANTES quem despojara a minha querida Zoraida, disse que ele se contentava com a presa e que não queria tocar em nenhum porto de Espanha, mas seguir logo a sua viagem e passar o estreito de Gibraltar de noite, ou como pudesse, até Arrochela, de onde tinha saído, e então resolveram dar-nos a falua do seu navio e o mais que era necessário para a curta navegação que nos restava; e com efeito assim o fizeram no dia seguinte, já à vista de terra de Espanha, e neste momento foi tamanha a nossa alegria que nos esquecemos de todas as mágoas e desgraças, como se nenhuma tivéssemos suportado; tal é a ânsia com que se deseja alcançar a liberdade perdida! Seria, pouco mais ou menos, meio- -dia, quando nos meteram na barca, dando-nos dois barris de água e algum biscoito; e o capitão, movido por estranha compaixão, deu a Zoraida, no acto do desembarque, uns quarenta escudos de ouro, e não consentiu que os soldados lhe tirassem estes vestidos que ela agora traz. Entrámos no baixel, demos- -lhe graças pela bondade com que afinal nos trataram, mostrando-nos mais agradecidos do que queixosos; fizeram-se eles ao largo, seguindo a derrota do estreito, e nós, não tendo por norte senão a terra que tínhamos adiante dos olhos, com tanta pressa vogámos, que ao pôr do Sol estávamos tão perto que, segundo nos pareceu, podíamos chegar a ele antes de ser muito de noite; mas, como não houvesse luar e o céu estivesse escuro, e ignorando nós em que paragem nos achávamos, não nos pareceu coisa segura meter a proa à terra, como queriam muitos dos nossos, os quais disseram em abono do seu parecer que atracássemos, mesmo que fosse a umas rochas e longe do povoado, assim nos livraríamos do temor que com bons fundamentos devíamos ter de que por ali andassem baixéis de corsários de Tetuão, que costumavam anoitecer em Barbaria e amanhecer nas costas de Espanha, onde de ordinário fazem presa e vão dormir a suas casas; mas dos muitos pareceres que houve, aquele que se aproveitou foi o de que nos fôssemos pouco a pouco aproximando e que desembarcássemos aonde pudéssemos melhor fazê-lo e o sossego do mar o permitisse. Assim se fez, e ainda não seria meia-noite quando chegámos ao pé de uma muito disforme e alta montanha; mas não tão encravada no mar que 416 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA ? nos negasse um pouco de espaço para comodamente fazermos " o desembarque. Encalhámos na areia, saímos todos para terra e beijámo-la, e, derramando lágrimas de contentamento, todos | demos graças a Deus Nosso Senhor pêlos benefícios incomparáveis que nos dispensou durante a viagem; tirámos da barca os abastecimentos que nela vinham, puxámo-la para terra, subimos um grande estirão da montanha, pois que, nem mesmo chegando ali, tínhamos o coração tranquilo ou podíamos crer que estávamos em terra de cristãos. Amanheceu mais tarde do que queríamos, e subimos toda a montanha, a fim de vermos se dali descobríamos algum povoado ou cabanas de pastores; mas, por mais que alongássemos a vista, nem povoado, nem pessoa, nem caminho ou atalho descobrimos. Não obstante isto, resolvemos entrar pela terra dentro, pois pelo menos podíamos encontrar quem dela nos desse notícia; mas, no meio de tudo, o que mais me afligia era ver ir Zoraida a pé por aquelas asperezas, porquanto, ainda que algumas vezes a levei aos ombros, mais a cansava a ela o meu cansaço do que a descansava o descanso que eu lhe queria dar, e por este motivo nunca mais ela quis que eu tivesse esse trabalho; e com muita paciência e mostras de alegria, levando-a eu sempre pela mão, ainda não teríamos andado um quarto de légua, e eis que ouvimos o som de uma pequena campainha, que foi para nós sinal claro de que por ali perto andava gado, e, olhando todos com atenção se aparecia alguém, ao pé de um sobreiro vimos um pastor, amda rapaz, que com muito descanso e descuido estava fazendo gravuras num pau com uma navalha. Gritámos-lhe, e ele, levantando a cabeça, pôs-se ligeiramente de pé, e, pelo que depois soubemos, os primeiros que lhe apareceram foram o renegado e Zoraida, e, como os visse vestidos de mouros, pensou que todos os da Barbaria iam sobre ele, e, correndo velozmente pelo bosque dentro, começou a dar os maiores gritos do mundo, dizendo: - Mouros, mouros em terra; mouros, às armas, às armas! Ficámos todos em confusão com estes gritos, e não atinávamos com o que devíamos fazer; mas, considerando que os gri- ' 417 ' MIGUEL DE CERVANTES tos do pastor com certeza alvoroçariam a terra e que viria logo a cavalaria da costa para ver o que era, resolvemos que o renegado despisse as roupas de turco e vestisse um jaleco ou casaco de cativo que um de nós lhe deu logo, ficando em camisa; e, em seguida, encomendando-nos a Deus, fomos pelo mesmo caminho por onde vimos ir o pastor, esperando a cada momento que viesse sobre nós a cavalaria da costa; e com efeito não nos enganou o pensamento, porque, ainda não seriam passadas duas horas, quando, tendo nós já saído daquelas matas para um plaino, descobrimos uns cinquenta cavaleiros, que, correndo a toda a brida, vinham direitos a nós; e logo que os avistámos, parámos à espera deles; mas, quando chegaram e viram em lugar dos mouros tão pobres cristãos, ficaram confusos, e um deles perguntou-nos se tínhamos sido nós a causa de ter um pastor gritado às armas. Respondi-lhe que sim; e indo a contar-lhe o que nos tinha sucedido, de onde vínhamos, e quem nós éramos, um dos cristãos que vinham connosco conheceu o cavaleiro que nos tinha feito a pergunta, e disse, sem me deixar proferir mais uma palavra: - Graças sejam dadas a Deus, Senhores, por nos haver conduzido para tão boa terra, porque, se me não engano, aquela que pisamos é a de Velez-Málaga: se os anos do cativeiro não me tiraram a memória, vós Senhor, que nos perguntais quem somos, sois Pedro de Bustamante, meu tio. Apenas o cristão cativo tinha dito isto, o cavaleiro apeou-se logo, e correu a abraçá-lo, dizendo-lhe: - Sobrinho da minha alma, e da minha vida, já te conheço, e já te chorámos por morto, eu e minha irmã, tua mãe, e todos os teus que ainda vivem, porque Deus lhes conservou a vida para que tivessem a consolação de tornarem a ver-te; já sabíamos que estavas em Argel; e pelo estado e qualidade dos vestidos que tu e os teus companheiros trazeis, compreendo que foi milagrosa a vossa redenção. - É verdade - respondeu o moço - e tempo teremos de vos contar tudo. E, logo que os cavaleiros viram que éramos cristãos que vínhamos do cativeiro, apearam-se dos seus cavalos e cada um 418 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA í f S nos ofereceu o seu para nos levarem à cidade de Velez-Málaga, que estava dali a légua e meia. Foram alguns deles levar-nos o barco à cidade para o que E lhes dissemos aonde o tínhamos deixado; outros puseram-nos nas ancas dos seus cavalos, indo Zoraida nas do cavalo do tio do cristão. Acudiu a receber-nos todo o povo, que por via de alguém que se tinha adiantado, já sabia da nossa chegada. Aque- Ia gente não se admirava de ver cativos em liberdade, nem S mouros cativos, porque todos os daquela costa estão costumados a ver tanto uns como outros; do que se admirava era da , formosura de Zoraida, a qual naquela ocasião estava tanto mais encantadora, quanto o cansaço da jornada e a alegria de se ver já em terra de cristãos, sem receio de perder-se, lhe tinha feito subir ao rosto tais cores que, se não me enganava a afeição, poderia dizer que não havia mulher mais formosa em todo o mundo, pelo menos que por mim tivesse sido vista. Fomos direitos à igreja dar graças a Deus pela mercê recebida, e logo Zoraida, que entrou dentro dela, disse que havia ali stos que se pareciam com os de Leila Maryem. Dissemos-lhe que eram efectivamente imagens suas, e, como melhor pôde, explicou o renegado o que significavam, para que as adorasse como se verdadeiramente cada uma delas fosse a própria Leila Maryem que lhe havia falado. Ela, que tem entendimento esclarecido, e que é de um natural fácil e penetrante compreendeu logo quanto se lhe disse acerca das imagens. Levaram-nos dali e alojaram-nos a todos em diferentes casas do povo; mas ao renegado, a Zoraida e a mim levou-nos o cristão, que tinha vindo connosco, para casa de seus pais, que possuíam medianos bens de fortuna, e trataramnos com tanto amor como ao seu próprio filho. Estivemos seis dias em Veiez, ao cabo dos quais o renegado, informando-se do que lhe convinha, foi à cidade de Granada para por via da Santa Inquisição voltar ao grémio da Santíssima Igreja; os outros cristãos libertados foram cada um para onde melhor lhe pareceu: unicamente ficámos eu e Zoraida com os escudos que por cortesia lhe tinha dado o francês, com parte dos quais comprei este animal em que ela vem; e servindo-lhe eu até agora de pai e de escudeiro, e não de esposo, vamos com 419 MIGUEL DE CERVANTES intenção de ver se meu pai é vivo, ou se algum de meus irmãos teve sorte melhor do que a minha, posto que, por o Céu me ter dado Zoraida por companhia, me parece que nenhuma outra sorte pudera caber-me que eu estimasse mais, por muito boa que ela fosse. A paciência com que Zoraida sofre os incómodos que consigo traz a pobreza e o desejo que mostra de ser cristã são tais e de tal ordem que me causam admiração e me movem a servi-la por toda a vida, pois me perturba o gosto, que tenho de ver-me seu e de que ela seja minha, o não saber eu se encontrarei na minha terra algum cantinho onde a recolha, e se o tempo e a morte terão feito tal mudança nos teres e vida de meu pai e de meus irmãos, que apenas encontre quem me conheça, se eles já no existem. Não tenho mais que contarvos, meus Senhores, da minha história, e se ela é agradável e peregrina, julguem-no os vossos bons entendimentos, que por mim só sei dizer que quisera ter-vo-la contado com mais brevidade, posto que o receio de enfadar-vos me fez omitir várias circunstâncias. CAPÍTULO XLII EM QUE SE TRATA DO MAIS QUE SUCEDEU NA ESTALAGEM E DE OUTRAS COISAS DIGNAS DE SEREM CONHECIDAS Deste modo acabou o cativo a sua história, e disse-lhe então D. Fernando: - Na verdade Senhor Capitão, que a forma por que contaste este estranho sucesso igualou a novidade e estranheza do mesmo caso: tudo é peregrino e raro, e cheio de acidentes que maravilham e surpreendem a quem os ouve; e tão grande foi o gosto que tivemos em escutá-lo, que, ainda que o dia de amanhã nos achasse entretidos com o mesmo conto, folgáramos de o ouvir de novo. E, dizendo isto, D. António e todos quantos ali se achavam se ofereceram para serv-lo em tudo que lhes fosse possível, com palavras e razões tão amorosas e tão verdadeiras, que o capitão ficou muito satisfeito com tais provas de bondade: fez-lhe 420 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA D. Fernando especial oferecimento, dizendo-lhe que, se o capito quisesse ir com ele, conseguiria que o marquês seu irmão fosse padrinho de baptismo de Zoraida, e que pela sua parte disporia as coisas de modo que o capitão pudesse entrar na sua terra com os cómodos devidos à sua autoridade e pessoa. Tudo o capitão agradeceu muito cortesmente, mas não quis aceitar nenhum destes liberais oferecimentos. Já se aproximava a noite, e, ao fechar-se de todo, chegou à venda um coche acompanhado de alguns homens a cavalo. Pedindo pousada, respondeu-lhes a locandeira que não havia na taberna um só palmo que estivesse desocupado. - Ainda que assim seja - disse um dos que vinham a cavalo e que tinha entrado na venda - não há-de faltar para o Senhor Ouvidor, que aqui vem. Ouvindo este nome, a vendeira ficou perturbada e disse: - Senhor, o pior é que não tenho camas; se o Senhor Ouvidor as traz, como é natural que traga, entre em boa hora, que eu e meu homem cederemos o nosso aposento para acomodar Sua Mercê. - Em boa hora seja - disse o escudeiro. A este tempo, porém, já havia saído do coche um homem que pelo traje mostrou logo o ofício e cargo que exercia, porque o seu vestido talar com mangas de pregas indicava ser efectivamente ouvidor, como tinha dito o criado. Trazia pela mão uma donzela, ao parecer de dezasseis anos, com vestido de jornada, e tão bizarra, galharda e formosa que, ao verem-na, todos ficaram admirados, de sorte que, a não terem visto a Doroteia, Lucinda e Zoraida, que estavam na venda, ficariam a crer que difícil seria encontrar outra formosura como a desta donzela. D. Quixote achava-se presente quando entraram o ouvidor e a jovem, e disse-lhe apenas o viu: - Pode Vossa Mercê entrar com segurança e passear por este castelo, pois que ainda que seja estreito e de poucos cómodos, nunca há estreiteza e falta deles no mundo que não dê lugar às armas e às letras, mormente se as armas e as letras trazem por guia e escudo a formosura, como a trazem as letras de Vossa Mercê na pessoa desta formosa donzela, diante da qual, para 421 MIGUEL DE CERVANTES que passe, não só devem abrir-se e patentear-se todos os castelos mas também devem desviar-se as rochas, e as montanhas dividir-se e abaixar-se. Entre Vossa Mercê neste paraíso, que achará aqui estrelas e sóis para acompanharem o céu que Vossa Mercê traz consigo: aqui achará igualmente bem representadas as armas e a peregrina formosura. O ouvidor ficou admirado da alocução de D. Quixote e pôs-se a olhar para ele com toda a atenção, não lhe causando menor admiração a sua figura do que as suas palavras, e sem lhe dar nenhumas em resposta, ficou novamente surpreso quando viu diante de si Lucinda, Doroteia e oraida, as quais, tendo notícia dos novos hóspedes, e encarecendo-lhes a vendeira a formosura da donzela, tinham saído ao seu encontro para a verem e receberem; mas D. Fernando, Cardénio e o cura já lhe estavam fazendo os mais sinceros e corteses oferecimentos. Com efeito, o Senhor Ouvidor entrou confuso, tanto do que via como do que ouvia, e as formosas damas, que estavam na venda, deram as boas-vindas à donzela. Finalmente, viu bem o ouvidor que toda a gente que ali estava era distinta; mas dava-lhe que entender a figura, parecer e postura de D. Quixote e, tendo feito uns aos outros corteses oferecimentos e examinado as comodidades da casa, determinou-se o que já estava resolvido, que todas as mulheres se acomodassem no caramanchão já referido, e que os homens ficassem de fora como em sua guarda; e foi muito do contento do ouvidor que sua filha (pois era filha dele, a donzela) fosse com aquelas senhoras, o que ela fez de muito boa vontade; e com parte da estreita cama do vendeiro e com metade da que o ouvidor trazia se acomodaram naquela noite melhor do que esperavam. O cativo, que, desde que deu com os olhos no ouvidor, sentiu dizer-lhe o coração que aquele era seu irmão, perguntou a um dos criados que tinham vindo com ele, como era que se chamava, e se sabia de que terra ele era. O criado respondeulhe que se chamava João Perez de Viedma e que tinha ouvido dizer que era de um lugar das montanhas de Leão. Com esta relação e com o que ele tinha visto mais se inteirou de que era aquele o seu irmão, que por conselho do pai havia seguido as letras; e alvoroçado e contente, chamando à parte 422 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA D. Fernando, Cardénio e o cura, contou-lhes o que se passava, certificando-os de que aquele ouvidor era seu irmão. Também lhe tinha dito o criado que ele ia para as Índias como ouvidor nas audiências do México: igualmente soube que aquela donzela era sua filha, cuja mãe tinha morrido de parto, e que tinha enriquecido muito com o dote que com a filha lhe ficou em casa. Em vista de todas estas coisas, consultou-os sobre a maneira de se descobrir ao irmão ou de saber primeiro se, dando-selhe a conhecer, o irmão se agastaria por vê-lo pobre, ou se, pelo contrário, o receberia com agrado. - Deixe-me a mim fazer essa experiência - disse o cura - posto que Senhor Capitão, não pode haver dúvida de que sereis bem recebido, porque o valor e prudência, que vosso irmão mostra no seu bom parecer, não dão indícios de ser arrogante e indiferente às desgraças da fortuna, as quais decerto há-de saber avaliar. - Apesar de tudo isso - disse o capitão - eu não queria darme a conhecer de improviso, mas por meio de alguns rodeios. - Já vos disse - respondeu o cura - que eu me haverei de modo que fiquemos todos satisfeitos. Estando já preparada a ceia, todos se sentaram à mesa, excepto o cativo e as senhoras, as quais tinham ido cear no seu aposento; quando a ceia ia em meio, disse o cura: - Do mesmo nome de Vossa Mercê, Senhor Ouvidor, tive um camarada em Constantinopla, onde alguns anos estive cativo, o qual era um dos mais valentes soldados e capitães que havia em toda a infantaria espanhola; mas tinha tanto de esfrçado e valoroso como de desgraçado. - E como se chamava esse capitão, meu Senhor? - perguntou o ouvidor. - Chamava-se - respondeu o cura - Rui Perez de Viedma, era natural de um lugar das montanhas de Leão, e contou-me um caso que se deu entre o pai e os irmãos dele, caso esse que, se não me fosse narrado por um homem verdadeiro como ele era, eu o tomaria por uma daquelas histórias que no Inverno os 423 MIGUEL DE CERVANTES velhos costumam contar estando à lareira, pois me disse que o pai havia repartido os seus bens entre os três filhos que tinha, e lhes dera certos conselhos melhores que os de Catão, e o certo é que o meu camarada foi tão bem sucedido no serviço das armas, por ele escolhido que em poucos anos, pelo seu valor e esforço, chegou ao posto de capitão de infantaria, e esteve no caminho e predicamento de ser mestrede- campo; foi-lhe, porém, anal, adversa a fortuna, porque, aonde a esperava e a podia encontrar boa, ele a perdeu, perdendo a liberdade, na felicíssima jornada em que tantos a alcançaram, que foi na batalha de Lepanto; eu perdi-a na Goleta, e depois, por diversos sucessos, nos achámos camaradas em Constantinopla. Daí veio para Argel, onde sei que lhe sucedeu um dos mais estranhos casos que têm sucedido no mundo. E daqui foi o cura continuando até sucintamente contar o que sucedera entre Zoraida e o cativo. A tudo isto prestava tanta atenção o ouvidor que nunca na sua vida havia sido tão ouvidor como então. Só chegou o cura até ao lance em que os franceses despojaram os cristãos que vinham na barca, e à necessidade e pobreza a que o seu camarada e a formosa moura ficaram reduzidos, acrescentando que não sabia o que fora feito deles, se haviam chegado a Espanha ou se os franceses os tinham levado para França. O capitão, um pouco desviado, estava escutando quanto dizia o cura e observava os movimentos do irmão, e este, vendo que o cura havia chegado ao fim do conto, disse, dando um grande suspiro e enchendo-se-lhe os olhos de lágrimas: - Ah, Senhor, as novidades que me dais tocam-me tanto que não posso deixar de mostrá-lo com estas lágrimas que contra toda a minha discrição e esforço me rebentam dos olhos! Esse tão valoroso capitão, em que me falais, é o meu irmão mais velho, o qual, como mais forte, e de mais altos pensamentos do que eu e o outro meu irmão mais novo, escolheu o honroso e digno exercício das armas, que foi este um dos três caminhos que nosso pai nos propôs, como vos disse o vosso camarada, na história que a nosso respeito lhe ouviste. Eu segui o das letras, pelas quais subi, com a ajuda de Deus, e dos meus esforços, à 424 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA alta posição em que me vedes. Meu irmão mais novo está no Peru, tão rico que, com o que tem mandado a meu pai e a mim, tem satisfeito a parte que levou consigo e ainda tem posto nas mãos de meu pai meios com que possa fartar a sua natural liberalidade, e eu pude, com a ajuda dele, tratar dos meus estudos com mais decência e autoridade e chegar à posiço em que me vejo. Meu pai ainda vive, porém matam-no os desejos de saber notícias de seu filho primogénito e pede a Deus, em contínuas orações, que a morte não lhe feche os olhos antes que veja com vida os de seu filho, da discrição do qual me parece estranho que entre tantos trabalhos e aflições ou prósperos sucessos se tenha descuidado de dar notícias de si a seu pai, pois que, se ele ou algum de nós as tivéssemos, não teria meu irmão necessidade de esperar o milagre da cana para obter o seu resgate; mas o que me faz tremer agora é o pensar eu se aqueles franceses lhe terão dado a liberdade ou se o matariam, para encobrir o roubo que lhe fizeram. Tudo isto fará com que eu siga a minha viagem, não com o contentamento com que a comecei, mas com a maior melancolia e tristeza! Ó meu irmão quem me dera saber onde agora estás, que eu te iria buscar e livrar de teus trabalhos, ainda que fosse à custa dos meus! Oh! quem levara a nosso velho pai a notícia de que ainda vives, mesmo quando estivesses nas mais recônditas masmorras da Barbaria, pois dali te arrancariam as suas riquezas, as do outro meu irmão, e as minhas! Ó Zoraida formosa e liberal, quem pudera pagar-te o bem que a meu irmão fizeste! Quem pudera assistir ao renascimento de tua alma e às tuas núpcias! Que gosto elas nos fariam! Estas e outras semelhantes palavras dizia o ouvidor, cheio de tanta compaixão com as notícias que lhe tinham dado de seu irmão, que quantos o escutavam davam sinais de o acompanharem na sua dor. E, vendo o cura que tinha sido tão bem sucedido em seu intento, o que tanto desejava o capitão, não quis tê-los tristes por mais tempo, e, levantando-se da mesa, e entrando aonde estava Zoraida, tomou-a pela mão, e vieram após ela Lucinda, Doroteia, e a filha do ouvidor. Estava o capitão observando o 425 MIGUEL DE CERVANTES que o cura queria fazer, mas este, tomando-o também pela mão, levou-os ambos para onde estava o ouvidor e os demais cavaleiros, e disse então: - Cessem, Senhor Ouvidor, as vossas lágrimas, e satisfaça-se quanto possa desejar o vosso coração, pois tendes aqui vosso bom irmão e vossa boa cunhada: este que aqui vedes é o capitão Viedma, e esta é a formosa moura que tanto bem lhe fez; os franceses, em que vos falei, puseram-nos no triste estado em que os vedes para mostrardes a vossa generosa liberalidade. Correu o capitão a abraçar seu irmão, e este pôs-lhe as mãos no peito para a mais distância o reconhecer melhor, e, quando se convenceu de que era ele, tão estreitamente o abraçou, derramando copiosas lágrimas, que nelas o acompanharam todos os que ali se achavam. As palavras que se trocaram entre os dois irmãos, os sentimentos que eles mostravam, creio que mal se podem conceber, quanto mais descrevê-los. Ali contaram uns aos outros os seus sucessos, ali mostraram a verdadeira amizade de irmãos, ali o ouvidor abraçou Zoraida, ali lhe ofereceu os seus bens, ai a fez abraçar por sua filha, ali a formosa cristã e a moura formosíssima renovaram as lágrimas de todos. Ali D. Quixote, sem proferir palavra, prestara a maior atenção a estes estranhos sucessos, os quais todos atribuía às quimeras da cavalaria andante. Ali combinaram que o capitão e Zoraida voltassem com seu irmão para Sevilha, e dessem parte ao pai da sua liberdade e chegada, para que, do modo que lhe fosse possível, viesse assistir ao baptismo e às bodas de Zoraida, por não poder o ouvidor interromper a sua jornada, por isso que tinha notícias que dali a um mês partia a frota de Sevilha para a Nova Espanha, e por lhe causar grande transtorno perder a viagem. Finalmente, todos ficaram contentes e alegres pelo bom sucesso do cativo; e, como já fosse muito mais de meia-noite, resolveram recolher-se e descansar durante o tempo que restava até amanhecer. D. Quixote ofereceu-se para fazer a guarda do castelo, a fim de que não fossem acometidos por algum gigante ou por outro qualquer cavaleiro andante, malvado e traidor, cobiçosos do grande tesouro de formosura que aquele castelo encerrava. Os que o conheciam agradeceram-lhe o oferecimento, 426 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA e contaram ao ouvidor o génio singular de D. Quixote, ao que o mesmo ouvidor achou muita pilhéria. Só Sancho Pança desesperava com a demora que havia em descansar e dormir, e ele melhor que todos se acomodou, deitando-se sobre os aparelhos do seu burro, que lhe custaram tão caros como adiante se dirá. Recolhidas as damas no lugar que lhes estava destinado, e acomodando-se os outros como puderam, D. Quixote saiu fora da venda para fazer a sentinela do castelo, conforme o tinha prometido. Estava quase a romper a aurora, quando chegou aos ouvidos das damas uma voz tão entoada e tão suave, que as obrigou a todas a aplicar o ouvido, especialmente a Doroteia, que estava desperta, e ao lado da qual dormia D. Clara de Viedma, que assim se chamava a filha do ouvidor. Ninguém podia imaginar quem era a pessoa que tão bem cantava, e era uma voz só, sem que a acompanhasse instrumento algum. Umas vezes parecia-lhes que cantava no pátio, outras que era na cavalariça, e, estando todas atentas mas nesta confusão, Cardénio chegou à porta do aposento, e disse: - Quem não dorme, escute, e ouvirá a voz de um moço das mulas, que de tal modo canta que encanta. - Já o ouvimos Senhor - respondeu Doroteia. E com isto se foi Cardénio; e Doroteia, prestando toda a sua atenção, entendeu que o que se cantava era isto: CAPITULO XLIII ONDE SE CONTA A AGRADÁVEL HISTÓRIA DO MOÇO DAS MULAS COM OUTROS ESTRANHOS SUCESSOS ACONTECIDOS NA VENDA Sou marinheiro de amor, e em seu pélago profundo navego, sem ter esp'ranca de encontrar porto no mundo. 427 MIGUEL DE CERVANTES E vou seguindo uma estrela, que brilha no céu escuro, mais bela e resplandecente que quantas viu Palinuro. Eu não sei aonde me guia, e a navegar me costumo, mirando-a com alma atenta, cuidoso, mas não do rumo. Recatos impertinentes, honestidade no apuro, so as nuvens que ma encobrem, quando mais vê-la procuro. Límpida e lúcida estrela, só teu clarão me conduz! Extinguese a minha vida, em se extinguindo a tua luz. Chegando o cantador a este ponto, pareceu a Doroteia que não seria bem que deixasse Clara de ouvir tão doce voz e, assim, abanando-a, a despertou, dizendo-lhe: - Perdoa, Menina, se te desperto, porque o faço para que tenhas o gosto de ouvir a melhor voz que talvez hajas ouvido em todos os dias da tua vida. Acordou Clara toda sonolenta, e da primeira vez não entendeu o que Doroteia lhe dizia, e, tornando-lho a perguntar, tornou-lho ela a dizer, estando Clara muito atenta; porém, apenas ouviu dois versos com que o cantador ia prosseguindo, assenhoreou-se dela tão estranho temor, como se estivesse enferma de algum acesso grave de quartas; e, abraçando-se estreitamente com Doroteia: - Ai! Senhora da minha alma e da minha vida! Para que me despertastes? Que o maior bem que a fortuna me podia fazer por agora era cerrar-me os olhos e os ouvidos para não ver nem ouvir esse desditoso músico. 428 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA l - Que dizes Menina? Olha que asseveram que o cantador ? é um dos moços das mulas. - É donatário e Senhor de muitos lugares - respondeu Clara - e do lugar que na minha alma ocupa com tanta segurança, que, se ele o não quiser largar, nunca lhe será tirado. Ficou Doroteia admirada das sentidas razões da donzela, parecendo-lhe que em muito se avantajavam à discrição que os seus poucos anos prometiam, e assim lhe disse: - Falais de modo, minha Sr. Clara, que não posso entendervos; declarai-vos melhor e explicai-me: que é isso que dizeis de almas e de lugares, e deste cantador, cuja voz em tal inquietação vos pôs? Mas por agora nada me digais, que não quero perder, por acudir ao vosso sobressalto, o gosto que sinto de ouvir o músico, que, ao que me parece, volta ao seu cantar, com versos novos e nova toada. - Seja embora - respondeu Clara. ! E, para não o ouvir, tapou com as mãos ambas os ouvidos, o que também causou pasmo a Doroteia, a qual, estando atenta ao que se cantava, viu que prosseguia desta maneira: Ó minha doce espranca, que, afrontando impossíveis na verdade, ' prossegues sem mudança na senda que traçou tua vontade, conserva ânimo forte, inda que surja a cada passo a morte. Não ganham preguiçosos triunfo honrado, ou singular vitória, nem podem ser ditosos os que, mostrando uma fraqueza inglória, entregam desvalidos ao ócio vil os lânguidos sentidos. Que amor suas glórias venda caro, é razão, e é justo o que contrata; nem há tão rica prenda 429 MIGUEL DE CERVANTES como a que pelo gosto se aquilata. E é caso natural custar só pouco o que só pouco vai'. Coisas quase impossíveis sempre alcança quem emprega porfias amorosas. Com rme confiança sigo eu do amor as mais dificultosas. E nem sequer me aterra ter de ganhar o Céu, estando na Terra. Aqui deu fím a voz, e Clara principiou a novos soluços. Tudo isto acendia o desejo de Doroteia, que anelava por saber a causa de tão suave canto e de tão triste choro, e assim lhe tornou a perguntar, que é que lhe tinha querido dizer. Então Clara, temerosa de que Lucinda ouvisse, estreitou nos braços Doroteia, e pôs-lhe a boca tão próxima do ouvido, que seguramente podia falar sem ser por outrem ouvida, e assim lhe disse: - Este cantador Senhora minha, é filho de um fidalgo natural do reino de Aragão, senhor de dois lugares, que vivia na corte defronte da casa de meu pai. E, ainda que meu pai tinha, de Inverno, vidraças nas janelas de sua casa, e gelosias de Verão, não sei o que foi nem o que não foi mas o que é certo é que este fidalgo, que andava nos estudos, me viu, nem eu sei se na igreja se noutra parte; finalmente, enamorou-se de mim, e deu-mo a entender das janelas de sua casa, com tantos gestos e tantas lágrimas, que tive de o acreditar e de lhe bem querer, sem saber quanto ele me queria a mim. Entre os sinais que me fazia, havia um de sobrepor as mãos, dando-me a entender que casaria comigo, e, posto que eu muito folgasse com isso, sendo soinha e sem mãe, não sabia a quem havia de o comunicar, e assim o deixei estar sem lhe conceder outro favor que não fosse, quando meu pai estava fora e o pai dele também, erguer um pouco o vidro ou a gelosia, e deixar que me visse mais a seu gosto, o que ele tanto festejava que dava mostras de verdadeira loucura. Nisto chegou o tempo da partida de meu pai, que ele soube, 430 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA mas não de mim, pois nunca lho pude dizer. Caiu doente de pura mágoa, ao que eu entendo de modo que no dia em que nós partimos, nunca logrei vê-lo para despedir-me dele, ao menos com os olhos; mas, ao cabo de dois dias de caminho, ao entrarmos na pousada de um lugar que fica a uma jornada daqui, vi-o à porta com trajes de arrieiro tão próprios que se eu o não trouxesse tão retratado na minha alma, ser-me-ia impossível conhecê-lo. Conheci-o, admirei-me, e alegrei-me; ele mirou-me a furto, resguardando-se de meu pai, de quem sempre se esconde, quando atravessa por diante de num, nos caminhos e nas pousadas aonde chegamos; e, como sei a sua jerarquia e fino trato, e considero que por meu amor vem a pé e com tantos trabalhos, morro de angústia, e onde ele põe os pés ponho eu os olhos. Não sei quais são suas tenções, nem como pôde escapar a seu pai, que lhe quer extraordinariamente, porque não tem outro herdeiro, e porque ele o merece, como Vossa Mercê reconhecerá quando o vir. E ainda mais lhe posso dizer que tudo quanto canta tira-o da sua cabeça, pois tenho ouvido que é grande estudante e poeta; e que, de cada vez que o vejo, toda tremo e me sobressalto receosa de que meu pai dê com ele, e venha no conhecimento dos nossos desejos. Nunca lhe dei palavra em toda a minha vida, e contudo lhe quero de tal maneira, que não poderei viver sem ele. Eis aqui Senhora minha, tudo quanto vos posso dizer deste músico, cuja voz tanto vos encanta, que só por ela se deixa ver que não é moço das mulas, como dizeis, mas senhor e possuidor de almas e de lugares, como vos disse. - Não digais mais nada, Sr. D. Clara - acudiu Doroteia, beijando-a mil vezes -, não digais mais, repito, e aguardai que rompa o dia, que espero em Deus encaminhar os vossos negócios de maneira tal que tenham o feliz termo que merecem tão honestos princípios. - Ai! Senhora - disse D. Clara -, que feliz termo posso eu esperar, se seu pai é tão rico e tão principal que lhe parecerá que nem sequer posso ser criada de seu filho, quanto mais esposa? Pois casar-me eu contra vontade de meu pai não o farei nem por tudo quanto houver neste mundo; eu só quereria 431 MIGUEL DE CERVANTES que esse moço partisse e me deixasse; talvez com cessar de o ver, e com a grande distância do caminho que levamos se me aliviasse a pena que tenho, agora ainda que posso dizer que este remédio, que imagino, bem pouco me há-de aproveitar. Não sei como isto foi, nem por onde entrou este amor que lhe eu tenho, sendo eu tão menina, e ele tão moço, que em verdade creio que somos da mesma idade, não tendo eu ainda dezasseis anos completos, que só os faço para o S. Miguel, segundo assevera meu pai. Não pôde deixar de rir Doroteia, vendo este dizer de criança, e disse para D. Clara: - Descansemos, Senhora, o pouco tempo da noite que suponho que ainda resta, e Deus madrugará connosco, e tudo lograremos, ou muito trôpegas hei-de eu ter as mãos. Com isto sossegaram, e toda a venda caiu em profundo silêncio: só não dormiam a filha do vendeiro, e Maritornes, sua criada, as quais, como já sabiam por onde pecava D. Quixote, e que estava fora armado e a cavalo fazendo sentinela, determinaram ambas burlá-lo, ou pelo menos passar um pouco de tempo, ouvindo os seus disparates. Sucedeu, pois, que em toda a venda não havia janela que deitasse para o campo, a não ser a fresta de um palheiro por onde de fora atiravam os panos de palha. A esta fresta se chegaram as duas semidonzelas, e viram que D. Quixote estava a cavalo, encostado à sua lança, soltando de quando em quando tão doloridos e profundos suspiros, que parecia que de cada um se lhe arrancava a alma. E também ouviram que dizia, com voz branda e amorosa: - Ó Senhora minha Dulcineia dei Toboso, extremo de toda a formosura, fim e remate da discrição, arquivo do melhor donaire, depósito da honestidade, e ultimamente ideia de tudo quanto há de proveitoso, honesto e deleitável no mundo; o que estará agora fazendo Tua Mercê? Terás porventura na mente o teu cativo cavaleiro, que a tantos perigos, só para servirte, quis por sua vontade expor-se? Dá-me tu novas suas, ó trifronte Lua, que talvez a estejas agora mirando com inveja... a ela, que, passeando por algumas galerias dos seus sumptuosos paços, ou 432 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA debruçada do peitoril de alguma varanda talvez esteja considerando como há-de, ressalvada a sua honestidade e grandeza, acalmar a tormenta que por ela este meu atribulado coração padece, que glória há-de dar às minhas penas, que sossego ao meu cuidado, e finalmente que vida à minha morte e que prémio aos meus serviços. E tu Sol, que já deves estar à pressa enfreando os teus cavalos para madrugar e sair a ver a minha deidade, logo que a vejas, suplico-te que da minha parte a saúdes; mas livra-te de que, ao vê-la e saudá-la, lhe dês ósculo no rosto, que terei mais zelos de ti do que tu mesmo os tiveste daquela ágil ingrata que te fez suar e correr pêlos plainos da Tessália, ou pelas margens do Peneu que me não recordo bem por onde é que então correste, zeloso e enamorado. A este ponto chegava então D. Quixote co o seu tão lastimoso arrazoamento, quando a filha do vendeiro o começou a chamar de manso e a dizer-lhe: - Senhor meu, chegue-se cá Vossa Mercê, se for servido. A estes sinais e a esta voz volveu D. Quixote a cabeça, e viu, à luz da Lua, que estava então em plena claridade, que o chamavam da fresta que lhe pareceu janela, e ainda demais a mais com rexas de ouro, segundo as devem de ter tão ricos castelos, como o que ele imaginava que era a venda em que se achavam. E logo no mesmo instante se lhe representou, na louca fantasia, que desta vez, como da outra, a formosa donzela, filha do senhor daquele castelo, tornava a solicitá-lo, e, com este pensamento, para se não mostrar descortês e desagradecido, voltou a rédea a Rocinante e chegou-se à fresta e, apenas viu as duas raparigas, disse: - Lastimo, formosa Senhora, que logo fôsseis pôr a vossa mente amorosa em quem não pode corresponder-vos, conforme merecem o vosso grande valor e gentileza, de que não deveis culpar este mísero cavaleiro andante, a quem amor impossibilitou de poder entregar a sua vontade a outra que não seja aquela que, no momento em que os seus olhos a viram, logo ficou senhora absoluta da sua alma. Perdoai-me, boa Senhora, e recolhei-vos ao vosso aposento, e não queirais, com o signifi- 433 MIGUEL DE CERVANTES car-me tanto os vossos anelos, que eu me mostre mais desagradecido: e se, pelo amor que me tendes, achais em mim coisa que não seja amor, com que possa satisfazer-vos, pedi- -ma, que vos juro, por aquela doce e ausente inimiga minha, que em continente vo-la darei, ainda que seja uma guedelha dos cabelos de Medusa, que eram todos cobras, ou os prprios raios do Sol encerrados numa redoma. - De nada disso há mister a minha senhora Senhor Cavaleiro - disse neste momento Maritomes. - Pois de que há mister a vossa senhora, discreta dona? - tornou D. Quixote. - Só de uma das vossas lindas mãos - disse Maritomes - para poder desafogar com ela o grande desejo que a trouxe a esta fresta, com tanto perigo da sua honra, que, se seu pai a pressentir, em tantos pedaços a há-de cortar, que o maior de todos será a orelha. - Quisera eu ver isso - respondeu D. Quixote -; ele que se livre de tal praticar ou terá o mais desastrado fim que nunca teve no mundo um pai, por haver posto as mãos nos delicados membros de sua enamorada filha. Pareceu a Maritomes que D. Quixote daria a mão que lhe pedira, e, tendo no pensamento o que havia de fazer, desceu da fresta, e foi à cavalariça, onde tomou o cabresto do jumento de Sancho Pança e com muita presteza volveu a tempo que D. Quixote se pusera em pé sobre a sela de Rocinante para chegar à janela gradeada, onde imaginava estar a perdida donzela; e, ao dar-lhe a mão, dizia: - Tomai, Senhora, essa mão, ou, para melhor dizer, esse verdugo dos malfeitores do mundo; tomai Senhora, essa mão, em que não tocou mão de mulher alguma, nem a daquela que tem inteira posse de todo o meu corpo. Não vo-la dou para que a beijeis, mas para que lhe mireis a contextura dos nervos, a travaçâo dos músculos, a grossura e espaçado das suas veias, por onde vereis que tal será a força do braço, que uma tal mão possui. - Agora o veremos - disse Maritomes. E dando uma laçada numa das pontas do cabresto, deitou- -lho ao pulso, e, descendo da fresta, amarrou fortissimamente a 434 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA outra ao ferrolho da porta do palheiro. D. Quixote, que sentiu no pulso a aspereza da corda, disse: - Mais parece que Vossa Mercê me está arranhando do que afagando a mão; não a trateis tão mal, porque ela não tem culpa do desgosto que a minha vontade vos causa, nem bem parece que em tão pequena parte vos vingueis do todo do vosso dissabor... vede que quem bem quer não se vinga tão mal. Porém, todas estas razões de D. Quixote já não as ouvia ninguém, porque, logo que Maritornes o amarrou, tanto ela como a outra se foram embora, a morrer de riso, e deixaram-no de tal modo preso que lhe foi impossível soltar-se. Estava, pois, como se disse, de pé em cima de Rocinante, com o braço todo metido pela fresta, e amarrado pelo pulso ao ferrolho da porta, com grandíssimo temor e cuidado não se mexesse o cavalo, porque ficaria então pendurado pelo braço, e assim não ousava fazer movimento algum, ainda que do raciocínio e mansidão de Rocinante bem se poderia esperar que estaria sem se mover um século todo. Afinal, vendo-se D. Quixote amarrado e vendo também que as damas se tinham ido embora, começou a imaginar que tudo aquilo se fazia por encantamento, como da outra vez, quando naquele mesmo castelo o moeu de pancadas aquele mouro encantado do arrieiro, e maldizia entre si a sua pouca discrição e pouco discorrer, pois, tendo-se saído tão mal da primeira vez, se aventurara a entrar ali de novo, sendo regra de cavaleiros andantes que, em tentando uma aventura e não se saindo bem dela, sinal é de que não está para eles guardada, mas sim para outro, e não precisam de tentá-la segunda vez. Com tudo isto, puxava pelo braço a ver se podia soltar-se, mas estava tão bem atado, que todas as suas tentativas foram baldadas. Certo é que puxava com tento, para que Rocinante se não movesse, e, ainda que quisesse sentar-se ou cavalgar nele, não podia senão ou estar de pé, ou arrancar a mão. Ali foi o desejar a espada de Amadis, contra a qual não tinha força encantamento algum; ali foi o maldizer a sua fortuna, exagerar a falta que faria no mundo a sua presença, durante o tempo em que ali estivesse encantado, que assim sem a mínima 435 MIGUEL DE CERVANTES dúvida se julgava; ali o recordar-se da sua querida Dulcineia dei Toboso, ali o chamar pelo seu bom escudeiro Sancho Pança, que sepultado no sono e estendido sobre a albarda do seu jumento, não se recordava naquele instante nem da mãe que o deu à luz; ali chamou pêlos sábios Lirgando e Alquife, para que o ajudassem; ali invocou a sua boa amiga Urganda, para que o socorresse, e finalmente ali o encontrou a manhã, tão desesperado e confuso, que bramia como um touro, porque já não esperava que com o dia se remediasse a sua aflição, considerando-a eterna, e julgando-se encantado; e fazia-lho acreditar ver que Rocinante nem pouco nem muito se movia, e julgava que daquela forma, sem comer nem beber nem dormir, haviam de estar ele e o cavalo, até que passasse aquele mau influxo das estrelas, ou até que outro mais sábio nigromante o desencantasse. Porém, enganou-se muito na sua suposição, porque apenas principiou a amanhecer chegaram à venda quatro homens a cavalo, muito bem postos e trajados, com a sua escopeta nos arções. Bateram à porta da venda, que ainda estava fechada, com grandes aldrabadas, e, vendo isto D. Quixote do sítio onde continuava a fazer sentinela, com voz arrogante e alta lhes disse: - Cavaleiros ou escudeiros, ou quem quer que sejais, não tendes para que chamar às portas deste castelo, que bem claro é que a tais horas, ou os que estão lá dentro dormem, ou não é costume abrir as fortalezas antes do Sol ir já alto; desviai-vos para fora, e esperai que o dia aclare, e então veremos se será justo ou não que vos abram a porta. - Que diabo de fortaleza ou de castelo é este, para nos obrigar a ter essas cerimónias todas? Se sois o estalajadeiro, mandai que nos deixem entrar, porque somos caminhantes que só queremos dar cevada às nossas cavalgaduras, e passar adiante, que vamos com pressa. - Parece-vos, cavaleiros, que tenho figura de estalajadeiro? - respondeu D. Quixote. - Não sei que figura tendes, mas o que sei é que dizeis um disparate chamando castelo a esta venda. 436 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA p - É castelo - respondeu D. Quixote - e até dos melhores desta província toda, e tem gente lá dentro que já empunhou ceptro e cingiu diadema. - Melhor fora às avessas - disse o viandante -, que cingisse o ceptro e empunhasse a coroa; e decerto estará aí alguma companhia de representantes, que a miúdo usam ter essas coisas que dizeis, porque numa venda tão pequena, e tão silenciosa como esta, não creio eu que se alojem pessoas dignas de coroas e ceptros. - Sabeis pouco do mundo - replicou D. Quixote - visto que ignorais os casos que costumam acontecer na cavalaria andante. Cansaram-se os companheiros do perguntador do colóquio, e tomaram por isso a bater com grande fúria à porta, e de modo que o vendeiro despertou, e acordaram também todos os que na venda estavam. Sucedeu a este tempo que uma das cavalgaduras em que vinham os quatro se chegou a cheirar a Rocinante, que, melancólico e triste, de orelhas derrubadas, sustentava, sem se mover, o seu esguio senhor, e, como afinal era de carne, apesar de parecer de pau, não pôde deixar de cheirar também a quem se lhe chegava a afagá-lo, e, apenas se moveu um pouco, logo se afastaram os pés de D. Quixote, e escorregando dariam com ele no chão, a não ficar suspenso do braço, o que lhe causou tanta dor, que julgou ou que lhe cortavam o pulso, ou que a mão se lhe arrancava, porque ficou tão próximo do chão que, com os bicos dos pés pisava a terra, o que mais o molestava, porque como sentia que lhe faltava pouco para pôr as plantas dos pés no solo, estirava-se quanto podia, como os que sofrem o tormento da polé, que eles próprios acrescentam a sua dor com o afinco que põem em estirar-se, enganados com a esperança que se lhes representa de que, logo que se estirem um pouco mais, chegarão a terra firme. 437 MIGUEL DE CERVANTES CAPÍTULO XLIV ONDE SE PROSSEGUEM OS INAUDITOS SUCESSOS DA VENDA Efectivamente tantos e tais foram os brados de D. Quixote, que, abrindo logo as portas da venda, saiu o estalajadeiro espavo rido a ver quem dava esses gritos, e os que estavam fora fizeram o mesmo. Maritomes, que já despertara com os brados imaginando o que podia ser, foi ao palheiro, e desatou, sem que ninguém a visse, o cabresto que sustinha D. Quixote, que deu logo consigo no chão, à vista do estalajadeiro e dos viandantes, que, chegando-se a ele, lhe perguntaram o que tinha, que tais vozes dava. Ele, sem responder palavra, tirou a corda do pulso, e, pondo-se de pé, montou em Rocinante, embraçou o escudo, enristou a lança, e, tomando campo, volveu a meio galope, dizendo: - A quem disser que eu estive, com justo motivo, encantado, se a princesa Micomicoa, muito Senhora minha, me der licença para isso, desde já o desminto, e repto e desafio para batalha singuar. Admirados ficaram os nossos viandantes das palavras de D. Quixote, mas o vendeiro tirou-os daquela admiração, dizendolhes quem ele era, e que não havia que fazer caso dele, porque não tinha juízo. Perguntaram ao vendeiro se por acaso chegara àquela venda um rapazito dos seus quinze anos de idade, vestido de arrieiro, com tais e tais sinais, dando os mesmos que tinha o amador de D. Clara. O vendeiro respondeu que havia tanta gente na venda que não reparara nessa pessoa por quem perguntavam; mas, tendo visto um deles o coche em que viera o ouvidor, disse: - Aqui deve estar sem dúvida, porque é este o coche que dizem que ele segue; fique um de nós à porta, e entrem os demais a procurá-lo; e seria bom também que outro desse volta à venda para que ele se não safe pelas traseiras das cavalariças. - Assim se fará - respondeu um deles. E, entrando dois, o terceiro ficou à porta e o quarto foi rodear a venda. 438 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA Tudo isso via o estalajadeiro, e não podia atinar com o motivo por que se faziam essas diligências, ainda que supôs que procuravam o moço cujos sinais lhe tinham dado. Já a esse tempo aclarara o dia; e tanto por isso, como pelo barulho que D. Quixote fizera, estavam todos despertos e levantados, e com especialidade D. Clara e Doroteia, que, uma com o sobressalto de ter tão próximo o seu namorado, e a outra com o desejo de o ver, mal tinham podido dormir aquela noite. D. Quixote, que viu que nenhum dos quatro viandantes fazia caso dele, nem lhe respondia à sua pergunta, rabeava de despeito e de fúria; e se achasse nas ordenações da sua cavalaria que licitamente podia o cavaleiro andante tomar e encetar outra empresa, depois de ter dado a sua fé e a sua palavra de não começar outra sem acabar a que prometera, investiria com todos e os obrigaria a , responder, mau grado seu; mas por lhe parecer que lhe não convinha nem lhe estava bem tentar empresa nova antes de restabelecer no seu reino Micomicoa, teve de se calar e permanecer quedo, esperando para ver em que paravam as diligências daqueles viandantes: um dos quais achou o mancebo, que procurava, a dormir ao lado de um arrieiro, muito descuidoso de que ninguém o buscasse, e ainda menos de que o encontrasse. O homem travou-lhe do braço e disse-lhe: - Por certo, Sr. D. Luís, que diz bem com quem sois o fato que vestis, e a cama em que vos acho com o regalo com que vossa mãe vos criou. Esfregou o moço os olhos sonolentos, e encarou fito o que o segurava, e logo conheceu que era criado de seu pai, o que lhe deu tamanho sobressalto que não acertou ou não pôde dizer -lhe palavra por grande espaço de tempo. E o criado prosseguiu dizendo: - Aqui não há outra coisa que fazer, Sr. D. Luís, senão ter paciência e voltar para casa, se Vossa Mercê não deseja que seu pai e meu Senhor faça a viagem do outro mundo, porque se não pode esperar outra coisa do pesar que lhe causa a vossa ausência. - Pois como soube meu pai - disse D. Luís - que eu vinha por este caminho e com este traje? 439 MIGUEL DE CERVANTES - Um estudante - respondeu o criado -, a quem destes conta dos vossos pensamentos, foi quem o descobriu, compadecido das lástimas que vosso pai fazia quando deu pela vossa falta; e logo enviou quatro dos seus criados em vossa busca, e todos aqui estamos ao vosso serviço, mais contentes do que se pode imaginar, pelo bom despacho com que tomaremos, levando-vos à presença de quem tanto vos quer. - Isso será se for da minha vontade, ou se o Céu o ordenar - respondeu D. Luís. - O Céu ordena que regresseis a casa, nem outra coisa é possível. Todas estas razes as ouviu o arrieiro, junto de quem estava D. Luís; e levantando-se dali fo contar o que se passava a D. Fernando e a Cardénio e aos outros que já se tinham vestido, e a quem disse que o homem que viera dava dom ao rapaz, e queria que ele voltasse a casa de seu pai, e que o moço não queria. Com isto e com o que sabiam já, da boa voz que o Céu lhe tinha dado, vieram todos com grande desejo de saber mais particularmente quem era, e também de o ajudar, se alguma violência lhe quisessem fazer, e assim foram ter ao sítio onde ele ainda estava falando e porfiando com o seu criado. Nisto, saiu Doroteia do seu aposento e atrás dela D. Clara, toda turbada, e, chamando Doroteia de parte a Cardénio, lhe contou em breves razões a história do músico e de D. Clara, e Cardénio referiu-lhe que tinham vindo a buscar D. Luís uns criados de seu pai; e não o disse tão de manso que D. Clara o não ouvisse, com que ficou tão fora de si que, se Doroteia não corresse a ampará-la, daria consigo no chão. Cardénio disse a Doroteia que volvessem ao aposento, que ele procuraria remediar tudo, e elas obedeceram. Já estavam todos os quatro, que vinham procurar D. Luís, dentro da venda, e rodeavam-no, persuadindo-lhe que logo, sem mais detença, voltasse a consolar seu pai. Respondeu ele que de nenhum modo o podia fazer sem dar fim a um negócio em que lhe iam a existenciar a honra e a alma. Apertaram-no então os criados, dizendo-lhe que não voltariam sem ele, e que o levariam por vontade ou por força. 440 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA - Isso o não fareis vós - redarguiu D. Luís - senão matandome primeiro, ainda que, de qualquer modo que me leveis, sem vida sempre eu irei. Já a este tempo tinham acudido à porfia todos os outros que na venda estavam, especialmente Cardénio, D. Fernando, os seus amigos, o ouvidor, o cura, o barbeiro e D. Quixote, que entendeu enfim não haver necessidade de continuar com a guarda do castelo. Cardénio, como já sabia a histria de D. Luís, perguntou aos criados o que os movia a querer levar aquele moço contra sua vontade. - Move-nos a isso - respondeu um dos quatro - dar a vida a seu pai, que, pela ausência deste cavalheiro, fica em perigo de a perder. A isto disse D. Luís: - Não há motivo para que se dê conta aqui das minhas coisas; eu sou livre, e voltarei se quiser, se não quiser nenhum de vós me obrigará. - Será a razão quem o obrigue - respondeu o homem - e quando ela nada possa com Vossa Mercê, poderá connosco bastante para que não deixemos de fazer aquilo a que viemos e a que somos obrigados. - Saibamos ao certo o que isto vem a ser - acudiu o ouvidor. Mas o homem, que o conhecera por vizinho de sua casa, respondeu: - Não conhece Vossa Mercê, Senhor Ouvidor, este cavalheiro, que é filho do seu vizinho, que se ausentou de casa de seu pai em trajes tão pouco decorosos, como Vossa Mercê pode ver? Encarou-o então o ouvidor mais atentamente, e conheceu-o, e disse-lhe abraçando-o: - Que criancices são estas, Sr. D. Luís, ou que motivos tão poderosos, que vos obrigam a vir desta maneira, com traje que diz tão mal com a vossa qualidade? Vieram as lágrimas aos olhos a D. Luís, e não pôde dar palavra ao ouvidor, que disse aos quatro que sossegassem, que tudo se faria por bem; e, pegando a D. Luís pela mão, afastou- 441 MIGUEL DE CERVANTES -o para um lado e perguntou-lhe que desatino fora aquele. E, enquanto lhe fazia estas e outras perguntas, ouviram à porta da venda grande alarido, motivado por dois hóspedes que naquela noite ali tinham pousado, e que, vendo toda a gente ocupada em saber o que os quatro homens procuravam, tinham intentado ir-se sem pagar o que deviam, mas o vendeiro, que atendia mais ao seu negócio que aos alheios, agarrou-os ao sair da porta, e lhes pediu a sua paga, afeando-lhes a má tenção com palavras tais, que os levou a responderem-lhe a murros: e assim começaram a dar-lhe tamanha sova, que o pobre do vendeiro teve de gritar e de pedir socorro. A estalajadeira e sua filha não viram pessoa desocupada que o pudesse socorrer, a não ser D. Quixote, a quem a rapariga disse: - Socorra Vossa Mercê, Senhor Cavaleiro, pela virtude que Deus lhe deu, a meu pobre pai, que o estão moendo dois maus homens como se fosse pimenta. A que D. Quixote respondeu, muito descansado e com muita fleuma: - Formosa donzela, não tem lugar por agora a vossa petição, porque não posso meter-me noutra aventura, enquanto não der fim a uma em que está empenhada a minha palavra. Mas o que eu poderei fazer para vos servir é o seguinte: Correi a dizer a vosso pai que sustente a sua batalha o melhor que puder, e que de nenhum modo se deixe derrotar, enquanto eu vou pedir licença à princesa Micomicoa para o poder socorrer em sua aflição, que, se ela ma der, tende a certeza que o salvarei desde logo. - Mal-pecado - disse nisto Maritomes, que estava presente -, antes de Vossa Mercê alcançar essa licença que diz, estará meu amo no outro mundo. - Consenti, Senhoras, que eu a alcance - respondeu D. Quixote - que, logo que a tenha, pouco importa que ele esteja no outro mundo, que eu de lá o irei tirar, ou pelo menos tal vingança vos darei dos que para lá o tiverem mandado, que ficareis amplamente satisfeitas. E, sem dizer mais, foi-se pôr de joelhos diante de Doroteia, pedindo-lhe com palavras cavalheirescas que fosse servida sua 442 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA grandeza dar-lhe licença de acudir ao castelão daquele solar, que estava em grande míngua. Deu-lha a princesa de bom grado, e logo ele, embraçando o escudo e empunhando a espada, correu à porta da venda, onde ainda os dois hóspedes continuavam a maltratar o vendeiro; mas, assim que ali chegou, ficou de todo quedo, apesar de Maritornes e a vendeira lhe dizerem porque é que se detinha, que socorresse seu amo e marido. - Detenho-me - disse D. Quixote - porque no me é lícito desembainhar a espada contra quem não for cavaleiro; mas ide chamar o meu escudeiro Sancho, que a ele toca e pertence esta defesa e vingança. Passava-se isto à porta da venda, onde ferviam os murros, tudo com grande prejuízo do vendeiro, e raiva de Maritornes, da vendeira e de sua filha, que se desesperavam ao ver a cobardia de D. Quixote, e os maus-tratos que sofria seu marido, amo e pai. Mas deixemo-lo, que não faltará quem o socorra, ou senão que sofra calado quem a mais se atreve do que ao que as suas forças lhe permitem, e volvamos cinquenta passos atrás a ver o que foi que D. Luís respondeu ao ouvidor, que lhe perguntara o motivo da sua vinda a pé, e vestido com trajes tão vis. O mancebo, agarrando-lhe fortemente as mãos, como em sinal de que alguma grande dor lhe pungia o coração, derramando lágrimas em grande abundância, disse-lhe: - Senhor meu, não sei outra coisa dizer-vos, senão que, desde o momento em que o Céu quis e a nossa vizinhança facilitou que eu visse a minha Sr. D. Clara, vossa filha, desde esse instante lhe submeti a minha vontade; e, se a vossa, meu verdadeiro pai e senhor, a não impedir, hoje mesmo há-de ser minha esposa. Por ela deixei a casa de meus pais, e revesti este traje, para a seguir fosse aonde fosse, como a seta ao alvo e o marinheiro ao norte. Ela dos meus desejos não sabe mais do que o que pôde entender algumas vezes, que de longe via chorar meus olhos. Já sabeis Senhor, a riqueza e a nobreza de meus pais, e de como sou o seu único herdeiro; se vos parecer que são partes estas para que vos arrisqueis a fazer-me em tudo venturoso, recebei-me logo por vosso filho; que se a meu pai, levado por outros desígnios, não agradar este bem que eu procurei para 443 MIGUEL DE CERVANTES num, mais força terá o tempo para desfazer e mudar as coisas do que a vontade humana. Calou-se ao dizer isto o enamorado mancebo, e o magistrado ficou de o ouvir suspenso, confuso e admirado, tanto pelo modo e discrição como D. Luís lhe descobriu o seu pensamento, como por não saber a resolução que havia de tomar em tão repentino e inesperado negócio, e assim é que respondeu que por então sossegasse, e entretivesse os seus criados para que não o levassem nesse dia, e ele houvesse tempo para considerar o que a todos ficaria melhor. Beijou-lhe D. Luís à viva força as mãos, e banhou-lhas de lágrimas que enterneceriam um coração de mármore, quanto mais o do ouvidor, que, como discreto, logo conhecera quanto a sua filha convinha aquele matrimónio; posto que, se possível fosse, o quisera antes efectuar com o consentimento do pai de D. Luís, de quem sabia que pretendia obter uma titular para seu filho. Já a esse tempo estavam os hóspedes em boa paz com o vendeiro, pois que D. Quixote, co boas razões, mais do que com ameaças, os persuadira a pagarem-lhe tudo quanto ele pedia, e os criados de D. Luís aguardavam o fim da prática do ouvidor e a resolução de seu amo; quando o Demónio, que não dorme, ordenou que naquele mesmo instante entrasse na venda o barbeiro, a quem D. Quixote tirara o elmo de Mambrino, e Sancho Pança o aparelho do burro, que trocou pelo do seu; o barbeiro, ao levar o jumento para a cavalariça, viu Sancho Pança a arranjar não sei o quê na albarda, e logo que a viu conheceu-a, e atreveu-se a arremeter com Sancho, dizendo: - Ah! D. Ladrão, que aqui vos apanho; venha a minha bacia e a albarda, e o aparelho que me roubastes. Sancho, que se viu acometido tão de improviso, e ouviu os vitupérios que lhe diziam, com uma das mãos agarrou a albarda, e com a outra ferrou no barbeiro tamanho murro, que lhe banhou os dentes em sangue; mas nem por isso o barbeiro largou a albarda, antes levantou a voz de modo tal, que todos os da venda acudiram ao ruído e pendência, e dizia ele: - Aqui-d'el-rei e da justiça, que este ladrão e salteador de estrada, sobre o roubar-me a fazenda, ainda me quer matar. 444 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA - Mentis! - exclamou Sancho. - Que eu náo sou salteador de estrada, e estes despojos ganhou-os em guerra leal o meu senhor D. Quixote. Já D. Quixote estava presente, e muito folgava de ver o modo como o seu escudeiro se defendia e ofendia, e teve-o daí por diante como homem de prol, e ficou-lhe na mente o armá-lo cavaleiro na primeira ocasião que se lhe deparasse, por lhe parecer que ficaria bem empregada em Sancho a ordem de cavalaria. Entre outras coisas que o barbeiro ia dizendo no decurso da pendência, veio a exclamar: - Senhores, esta albarda é tão minha como a morte que devo a Deus, e conheço-a como se a tivesse parido, e aí está na manjedoura o burro, que não me deixará mentir; ponham-lha, e se lhe não ficar ao pintar, que me tenham por infame. E mais ainda, no mesmo dia em que ma tirou, tiraram-me também uma bacia de arame, nova, que ainda não fora estreada, e que custara um bom escudo. Aqui não se pôde conter D. Quixote, e, metendo-se entre os dois e apartando-os, pondo a albarda no chão para a ter manifesta até se aclarar a verdade disse: - Para que Vossas Mercês vejam, clara e manifestamente, o erro em que está este bom escudeiro, basta dizer que chama bacia ao que foi, é, e será o elmo de Mambrino que eu lhe conquistei em guerra leal, e de que fiquei lícito e legítimo possuidor. No caso da albarda não me intrometo, porque o que sei dier é que o meu escudeiro Sancho me pediu licença para tirar os jaezes do cavalo deste vencido cobarde, e com eles adornar o seu; dei-lha, ele tomou-a, e do jaez se ter convertido em albarda não saberei dar outra razão a não ser a do costume, a saber: que essas transformações se vêem nos casos da cavalaria; para confirmação disso, vai, meu filho Sancho, buscar o elmo, que este bom homem chama bacia. - Com a breca! - disse Sancho. - Se só temos essa prova da nossa intenção, tão bacia é o elmo de Mambrino como é albarda o jaez. - Faz o que te mando - disse D. Quixote - que nem todas as coisas deste castelo hão-de ser guiadas por encantamento. 445 MIGUEL DE CERVANTES Sancho foi buscar a bacia, e, assim que D. Quixote a viu, tomou-a nas mãos e disse: - Vejam Vossas Mercês com que cara pode dizer este escudeiro que isto é bacia e não o elmo que eu disse, e juro, pela ordem de cavalaria que professo, que foi este elmo que eu lhe conquistei, sem lhe ter tirado ou acrescentado coisa alguma. - Nisso é que não há dúvida - acudiu Sancho -; que desde que meu amo o ganhou até hoje, só entrou numa batalha, quando livrou os desventurados galeotes; e se não fosse este bacielmo não passaria então muito bem, porque apanhou naquele transe pedradas com fartura. CAPÍTULO XLV ONDE SE ACABA DE AVERIGUAR A DÚVDA DO ELMO DE MAMBRINO E DA ALBARDA, E DE OUTRAS AVENTURAS SUCEDIDAS COM TODA A VERDADE - Que lhes parece a Vossas Mercês, Senhores - disse o barbeiro -, o que afirmam estes homens de prol, que ainda porfiam que esta bacia é elmo? - E a quem o contrário disser - acudiu D. Quixote - lhe farei eu conhecer que mente se for cavaleiro, e, se for escudeiro, que mente e remnte mil vezes. O nosso barbeiro, que tudo presenciava, e que conhecia perfeitamente o génio de D. Quixote, quis espertar o seu desatino, e levar por diante a burla, para que todos rissem, e exclamou, falando com o seu colega: - Senhor Barbeiro, sabei que também sou do vosso ofício, e tenho há mais de vinte anos carta de exame, e conheço muito bem todos os instrumentos barbeiris, sem faltar um só e, além disso, fui também soldado, na minha mocidade, e também sei o que é morrião e celada de encaixar, e outras coisas que tocam à milícia, digo, aos géneros de armas dos soldados, e afirmo, salvo melhor parecer, que este objecto que aqui está diante de nós, nas mãos daquele bom senhor, não é bacia de barbeiro, mas está 446 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA tão longe de sê-lo, como está longe o branco do negro, e a verdade da mentira; e também digo que este elmo, apesar de o ser, não é elmo inteiro. - Não, decerto - disse D. Quixote -, falta-lhe metade, que é a babeira. - Assim é - afirmou o cura, que já entendera a intenção do seu amigo barbeiro. E o mesmo asseveraram Cardénio, D. Fernando e os seus companheiros, e até o ouvidor, se não estivesse tão pensativo com o negócio de D. Luís, ajudaria pela sua parte a mentira. - Valha-me Deus! - disse então o barbeiro burlado. - Pois é possível que tanta gente honrada diga que isto não é bacia e que é elmo? É caso para fazer pasmar uma universidade, por mais discreta que seja. Basta; mas, se esta bacia é elmo, também deve ser esta albarda jaez de cavalo, como aqui disse este senhor. - A num parece-me albarda - observou D. Quixote - mas já disse que em tal coisa me não intrometo. - Que seja albarda ou jaez - acudiu o cura - só o Sr. D. Quixote o pode dizer, que, nestas coisas de cavalarias, todos estes senhores e eu lhe damos a primazia. - Por Deus, meus Senhores - disse D. Quixote -, são tantas e tão estranhas as coisas que neste castelo, das duas vezes que aqui tenho estado, me hão sucedido, que me não atrevo a dizer afirmativamente coisa alguma do que se perguntar acerca do que nele se contém, porque imagino que tudo o que aqui se trata é por via de encantamento. Da primeira vez muito me derreou um mouro encantado, e Sancho não se deu muito bem com outros, seus sequazes, e esta noite estive pendurado por um braço cerca de duas horas, sem saber como vim a cair em semelhante desgraça. De forma que pôr-me eu agora em coisa tão confusa a dar o meu parecer seria cair em juízo temerário. Pelo que toca ao dizerem que isto é bacia e não elmo, já respondi; mas, quanto a declarar se isso é albarda ou jaez, não me atrevo a dar sentença definitiva, e exclusivamente o deixo ao bom parecer de Vossas Mercês; talvez, por não terem sido armados cavaleiros como eu, não hajam que ver com Vossas Mercês os 447 MIGUEL DE CERVANTES encantamentos deste lugar, e tenham livres os entendimentos, e possam julgar as coisas deste castelo como elas são, real e verdadeiramente, e não como a mim me pareçam. - Não há dúvida - respondeu D. Fernando - que o Sr. D. Quixote disse muito bem, que hoje a nós outros toca a definição deste caso; e para que vá com mais fundamento, eu tomarei em segredo os votos destes senhores, e do que resultar darei inteira e clara notícia. Para os que sabiam a mania de D. Quixote, era isto matéria de muito riso; mas para os que a ignoravam parecia-lhes o maior disparate do mundo, especialmente aos quatro criados de D. Luís e a D. Luís também, e a outros três viandantes, que por acaso tinham chegado à venda, e que pareciam ser quadrilheiros, como efectivamente eram. Mas quem mais se desesperava era o barbeiro, cuja bacia ali diante dos seus olhos se transformara em elmo de Mambrino, e cuja albarda já não tinha dúvida que se lhe havia de tornar em rico jaez de cavalo; e uns e outros riam de ver como D. Fernando andava tomando os votos, falando ao ouvido dos circunstantes para que em segredo declarassem se era jaez ou albarda aquela jóia, sobre a qual tanto se pelejara; e, depois de tomar os votos de todos os que a D. Quixote conheciam, disse em voz alta: - O caso é, bom homem, que já estou cansado de tantos pormenores, porque vejo que a ninguém pergunto o que desejo saber, que me não diga que é disparate dizer-se que isto seja albarda de jumento, quando bem se vê que é jaez de cavalo, e até de cavalo fino, e assim haveis de ter paciência, porque, em que vos pese e ao vosso jumento, isto é jaez e não albarda, e foram péssimas pela vossa parte as alegações e provas. - Não tenha eu lugar no Céu - exclamou o pobre barbeiro - se Vossas Mercês todos se não enganam, e tão bem pareça a minha alma aos olhos de Nosso Senhor, como esta albarda me parece albarda; mas lá vão leis... e mais não digo; o que posso afirmar é que não estou bêbedo, que ainda não quebrei o jejum, a não ser de pecar. Não causavam menos riso as necedades do barbeiro do que os disparates de D. Quixote, que nisto acudiu: 448 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA - Aqui não há mais que fazer do que tomar cada qual o que lhe pertence, e a quem Deus a deu, S. Pedro que a benza. Um dos criados de D. Luís exclamou: - Se isto não é de caso pensado, não me posso persuadir que homens de tão bom entendimento, como são ou parecem ser todos os que aqui estão, se atrevam a dizer e afirmar que isto não é bacia e aquilo albarda; mas, como vejo que o afirmam e dizem, dá-me isto a entender que não deixa de ter mistério o porfiar numa coisa tão contrária à verdade; porque voto a tal que ninguém que hoje vive no mundo me pode fazer acreditar que isto não é bacia de barbeiro, e aquilo albarda de burro. - Pode muito bem ser de burra - disse o cura. - Tanto monta - tomou o criado -, que o caso não está nisso, mas em ser ou não ser albarda, como Vossas Mercês dizem. Ouvindo isto um dos quadrilheiros que tinham entrado, que ouvira a pendência, cheio de enfado e cólera, bradou: - E tão albarda como meu pai é meu pai, e quem outra coisa disse ou disser, é porque está bêbedo como um cacho. - Mentis como um velhaco e vilão - respondeu D. Quixote. E, levantando a lança, que nunca largara das mãos, descarregoulhe tal golpe na cabeça, que, se o quadrilheiro se não desviasse, deixara-o ali estendido; a lança fez-se pedaços no chão, e os outros quadrilheiros, que viram maltratar o seu camarada, ergueram a voz pedindo auxílio à Santa Irmandade. O vendeiro, que pertencia à corporação, correu a ir buscar a vara e a espada, e veio colocar-se ao lado dos seus companheiros; os criados de D. Luís rodearam-no para que não aproveitasse o alvoroço para se safar; o barbeiro, vendo o rebuliço, tornou a deitar mão à albarda, e o mesmo fez Sancho; D. Quixote desembainhou a espada e arremeteu com os quadrilheiros; D. Luís bradava aos seus criados que o largassem a ele e socorressem D. Quixote, e Cardénio e D. Fernando, que se tinham colocado todos ao lado do ilustre manchego; o cura bradava, gritava a vendeira, a filha afligia-se, Maritornes chorava, Doroteia estava confusa, Lucinda suspensa, e Clara desmaiada. O barbeiro desancava Sancho, Sancho moía o barbeiro; D. Luís, a quem um criado se atreveu a agarrar no braço para que se não fosse em- 449 MIGUEL DE CERVANTES bora, deu-lhe um murro que lhe pôs os dentes em sangue; o ouvidor defendia D. Luís; D. Fernando metera debaixo de si um quadrilheiro e cosia-o a pontapés; o vendeiro tomava a levantar a voz pedindo auxílio à Santa Irmandade; de modo que, em toda a venda no havia seno prantos, brados, gritos, confusões, temores, sobressaltos, desgraças, cutiladas, sopapos, pauladas, couces, e efusão de sangue. E, no meio deste caos, o que havia de imaginar D. Quixote? Imagina-se engolfado na discórdia do campo de Agramante, e diz com voz que atroava toda a venda: - Tenham mo todos, embainhem as espadas, sosseguem e ouçamme, se no querem perder a vida. A este brado, todos pararam, e ele prosseguiu dizendo: - Não vos disse já Senhores, que este castelo era encantado, e que alguma legião de Demónios deve habitar nele? Em confirmação do meu dito, quero que vejais com os vossos olhos como para entre nós passou e se trasladou a discórdia do campo de Agramante. Vede como além se pugna pela espada, aqui pelo cavalo, acolá pela águia, e ali pelo elmo, e todos pelejamos, e ninguém se entende; venha, pois Vossa Mercê, Senhor Ouvidor, e Vossa Mercê, Senhor Cura, e sirva um de rei Agramante, e outro de el-rei Sobrinho, e ponham-nos em paz; porque, por Deus Todo-Poderoso, é grande loucura matar-se, por coisas tão fúteis, gente tão principal como todos os que aqui estamos. Os quadrilheiros, que não entendiam o fraseado de D. Quixote, e se viam maltratados por D. Fernando, Cardénio e os seus companheiros, não queriam aquietar-se; o barbeiro, sim, porque na pendência lhe tinham arrepelado as barbas e a albarda; Sancho, à primeira voz de seu amo, obedeceu como bom criado; os quatro servos de D. Luís também ficaram quedos, vendo que de pouco lhes servia o barulho; só o vendeiro porfiava que se haviam de castigar as insolências daquele louco, que a cada momento lhe alvoroçava a estalagem. Finalmente, o barulho se apaziguou por então, a albarda ficou passando por jaez até ao dia de Juízo, e a bacia por elmo, e a venda por castelo, na imaginação de D. Quixote. Postos, pois, já em sossego, e feitos 450 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA amigos todos por persuasão do ouvidor e do cura, voltaram os criados de D. Luís a insistir para que os acompanhasse, e, enquanto estava com eles em avenças, o ouvidor aconselhava-se com D. Fernando, Cardénio e o cura, sobre o que havia de fazer naquele caso, contando-lhes tudo o que D. Luís lhe pedira. Enfim, acordou-se que D. Fernando dissesse aos criados de D. Luís quem era, e como desejava que D. Luís o acompanhasse à Andaluzia, onde pelo marquês seu irmão seria estimadíssimo, e assim se faria a vontade a D. Luís, que naquela ocasião não tomava para casa de seu pai, nem que o despedaçassem. Assim se apaziguou toda aquela pendência, graças à autoridade de Agramante e cordura de el-rei Sobrinho; mas, vendo- -se o inimigo da concórdia e o emulo da paz menosprezado e burlado, e o pouco fruto que tirara de os haver posto a todos em tão confuso labirinto, quis provar outra vez a mão, ressuscitando novas pendências e desassossegos. E, pois, o caso, que os quadrilheiros sossegaram, por ter entreouvido a qualidade dos que com eles se tinham batido, e retiraram-se da pendência, por lhes parecer que sempre haviam de levar o pior na batalha; mas um deles, que fora desancado e pisado aos pés por D. Fernando, lembrou-se de súbito de que entre alguns mandados que trazia para prender delinquentes, vinha um contra D. Quixote, que a Santa Irmandade mandara prender pela liberdade que deu aos galeotes, e como Sancho, com muita razão, temera. Lembrando- -se, pois, disto, quis certificar-se se diziam bem com as feições de D. Quixote os sinais que lhe tinham dado, e, tirando do seio um pergaminho, sucedeu ser esse logo o que procurava, e pondo-se a lê-lo com todo o vagar, porque não era grande ledor, a cada palavra que lia punha os olhos em D. Quixote, e ia cotejando os sinais com as feiçes do seu rosto, e viu que sem dúvida alguma era a ele que o mandado se referia. E, apenas se certificou, dobrou logo o pergaminho, e, pondo o mandado na mão esquerda, com a mão direita agarrou a D. Quixote pelo pescoço, que nem o deixava respirar, e com grandes brados dizia: - Auxílio à Santa Irmandade, e, para que se veja que deveras e com razão o peço, leia-se este pergaminho, onde se ordena que se prenda este salteador de estradas. 451 MIGUEL DE CERVANTES Pegou o cura no mandado, e viu que era verdade tudo o que o quadrilheiro dizia, e que os sinais eram realmente os de D. Quixote, o qual, vendo-se maltratado por aquele vilão malandrino, no auge da cólera, e com os ossos a rangerem-lhe, agarrou-se com ambas as mãos à garganta do quadrilheiro, com tal ânsia, que, se o infeliz não fosse socorrido pêlos seus camaradas, mais depressa ali deixaria a vida do que D, Quixote a presa. O vendeiro, que por força havia de favorecer os da sua corporação, veio logo acudir-lhe. A vendeira, que viu de novo seu marido em pendências, de novo começou a gritar, procedendo logo pelo mesmo teor Maritomes e a filha, que imploravam a misericórdia do Céu e dos que ali estavam. Sancho exclamou, ao ver o que se passava: - Por vida de Nosso Senhor, que é bem verdade tudo quanto meu amo diz dos encantamentos deste castelo, que se não pode aqui estar uma hora em sossego. D. Fernando apartou o quadrilheiro e D. Quixote, co grande alívio de ambos, desenclavinhando-lhes as mãos com que mutuamente se afogavam; mas nem por isso deixavam os quadrilheiros de reclamar o seu preso, e de pedir que os ajudassem a amarrá-lo, porque assim convinha ao serviço de el-rei e da Santa Irmandade, de cuja parte de novo lhes pediam socorro e auxílio para prenderem aquele roubador e salteador de estrada. Ria-se D. Quixote de ouvir estas razões, e com muito sossego disse: - Vinde cá, gente soez e malcriada, chamais assaltar nas estradas dar liberdade aos algemados, soltar os presos, socorrer os míseros, levantar os caídos, remediar os necessitados? Ah! gente infame, dignos, por vosso baixo e vil entendimento de que o Céu vos não comunique o valor que se encerra na cavalaria andante, nem vos dê a entender o pecado e ignorância em que estais, não reverenciando a sombra, quanto mais a presença de qualquer cavaleiro andante! Vinde cá, ladrões de quadrilha, e não quadrilheiros, salteadores com licença da Santa Irmandade, dizei-me, quem foi o ignorante que assinou mandado de priso contra um cavalero tal como eu sou? Quem era esse que não sabia que são isentos de todo o foro judicial os 452 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA cavaleiros andantes, e que a sua lei é a sua espada, foros os seus brios, pragmática a sua vontade? Quem foi o mentecapto, torno a dizer, que não sabe que não há foro de fidalgo com tantas preeminências e isenção como o que adquire um paladino andante no dia em que calça as esporas de ouro e se entrega ao duro exercício da cavalaria? Que cavaleiro andante pagou nunca peitas, nem alcavalas, chapim de rainha, moeda foreira, portagem, nem barca? Que castelão o acolheu no seu castelo, fazendo-lhe pagar o escote? Que rei o no assentou à sua mesa? Que donzela se lhe não afeiçoou e se lhe não entregou rendida, com todas as veras da sua alma? E, finalmente, que cavaleiro andante houve, há, ou há-de haver no mundo que não tenha brio, para dar ele só quatrocentas pauladas a quatrocentos quadrilheiros que se lhe ponham adiante? CAPITULO XL VI DA NOTÁVEL AVENTURA DOS QUADRILHEIROS, E DA GRANDE FEROCIDADE DO NOSSO BOM CAVALEIRO D. QUIXOTE Enquanto D. Quixote dizia isto, estava o cura convencendo os quadrilheiros de que ele era falto de juízo, como viam pelas suas obras e palavras, e não tinham motivo para ir com esse negócio por diante, porque, ainda que o prendessem e levassem, logo teriam de o deixar como louco; ao que respondeu o do mandado, que lhe não competia julgar da loucura de D. Quixote, mas fazer o que lhe ordenavam, e que, preso uma vez, podiam-no soltar trezentas. - Com tudo isso - acudiu o cura -, desta vez não o levareis, nem ele se deixará levar, pelo que eu vejo. Efectivamente, o cura tanto lhes disse, e D. Quixote tantas loucuras fez, que mais doidos seriam do que ele os quadrilheiros, se lhe não conhecessem a falta de siso, e assim houveram por bem apaziguar-se, e até servir de medianeiros para se fazerem as pazes entre Sancho Pança e o barbeiro, que ainda insistiam, com grande rancor, na sua pendência. Finalmente, eles, como 453 MIGUEL DE CERVANTES membros da justi a, se fizeram rbitros da causa e partiram a contenda ao meio, mandando que se trocassem as albardas, mas n o o resto do aparelho, ficando assim as duas partes n o de todo contentes, mas alguma coisa satisfeitas; e, quanto ao elmo de Mambrino, o cura socapa, e sem que D. Quixote o percebesse, deu ao barbeiro oito r is, e em troca lhe passou ele recibo e promessa de o n o demandar em tempo algum, men. Sossegadas, pois, estas duas pend ncias, que eram as principais e de mais tomo, restava que os criados de D. Lu¡s se resignassem a separar-se, indo-se tr s embora e ficando um para o acompanhar ao s¡tio aonde D. Fernando o levava; e como j a boa sorte e melhor fortuna come aram a aplanar dificuldades, e a favorecer os enamorados e os valentes da estalagem, quis levar ao termo essa boa obra, e dar a tudo feliz xito, porque os criados fizeram quanto quis seu jovem amo, e com isso t o contente ficou D. Clara, que bastava olhar para o seu rosto para se conhecer o regozijo daquela alma. Zoraida, ainda que n o entendia bem todos os sucessos que tinha visto, alegrava-se e entristecia-se conforme a express o que lia no semblante de cada um, principalmente no do seu espanhol, em quem tinha sempre pregados os olhos e a alma. O dono da venda, a quem n o passou despercebida a recompensa que o cura dera ao barbeiro, pediu que lhe pagassem o estrago que D. Quixote fizera nos odres e no vinho, jurando que n o deixaria sair nem Rocinante, nem o jumento, se n o se lhe satisfizesse at ao £ltimo maravedi. Tudo o cura apaziguou, e tudo D. Fernando pagou, ainda que o ouvidor de muito boa vontade se oferecera tamb m para pagar, e assim ficaram todos em paz e sossego, de forma que a venda j n o parecia o campo de Agramante, como D. Quixote dissera, mas antes ali reinava a paz octaviana; e foi opini o comum que se deviam dar gra as boa inten o e muita eloqu ncia do Senhor Cura, e incompar vel liberalidade de D. Fernando. Vendo-se, pois, D. Quixote livre e desembara ado de tantas pend ncias, suas e do seu escudeiro, pareceu-lhe que seria bom prosseguir na come ada viagem, e dar fim quela grande aven- 454 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA i ?( tura, para que fora chamado e escolhido, e, assim, com resoluta determina o, foi-se p“r de joelhos diante de Doroteia, a qual ; lhe n o consentiu que dissesse uma s¢ palavra sem que se levan- J tasse, e por lhe obedecer D. Quixote se p“s em p e lhe disse: _ prov rbio vulgar, formosa Senhora, ser a dilig ncia m e do bom xito, e em muitas e graves coisas tem mostrado a ex- : \ peencia que a solicitude do demandista leva a bom fim o pleito duvidoso; mas em nenhuma se mostra tanto esta verdade como nas coisas da guerra, onde a celeridade e presteza previnem as delibera ”es do inimigo e alcan am a vit¢ria antes que o contr rio se ponha em defesa. Tudo isto digo, alta e preciosa Senhora, porque me parece que a nossa estada neste castelo j sem proveito, e poderia ser de tanto dano que algum dia o sentiamos, porque, quem sabe se por ocultos espias n o ter sabido j o gigante vosso advers rio que vou destru¡-lo, e, dando-lhe lugar o tempo, se tenha fortificado nalgum inexpugn vel castelo e fortaleza, contra o qual pouco valessem as minhas dilig ncias e a for a do meu incans vel bra o? Assim, pois Senhora minha, previnamos, como disse, com a nossa dilig ncia os seus des¡gnios, e partamos desde j a procurar a fortuna, que logo Vossa Merc a ter como deseja, apenas eu chegue a ver o vosso opositor. Calou-se D. Quixote, e esperou com muito sossego a resposta da formosa infanta, a qual, com adea senhoril e acomodado ao estilo de D. Quixote, lhe respondeu desta maneira: _ Agrade o-vos, Senhor, o desejo que mostrais de favorecer-me na minha grande ang£stia, como cavaleiro que tem por alta miss o proteger os ¢rf os e necessitados; e queira o C u que se cumpra o vosso desejo e o meu, para que vejais que h no mundo mulheres agradecidas. E, quanto minha partida, seja presto, que eu n o tenho mais vontade que a vossa; disponde de mim a vosso bom talante, que aquela que uma vez vos entregou a defesa da sua pessoa e p“s nas vossas m os a defesa dos seus senhorios, n o h -de querer ir contra o que ordenar a vossa prud ncia. _ Nas m os de Deus e n o nas minhas _ acudiu D. Quixote _ mas, quando uma senhora se me humilha, n o quero perder 455 MIGUEL DE CERVANTES o ensejo de a levantar e p“-la no seu herdado trono. Partamos, pois, j porque o desejo e o caminho me esporeiam, que costuma dizer-se que o perigo est na tardan a; e que j o C u n o criou, nem viu o Inferno nenhum que me espante ou acobarde. Vai selar o Rocinante, Sancho, e aparelha o teu jumento e o palafr m da rainha, e, depois de nos despedirmos do castel o e destes senhores, partamos sem demora. Sancho, que a tudo estava presente, disse abanando a cabe a: _ Ai, Senhor, Senhor! Nem tudo o que luz ouro; com perd o seja dito do ouro verdadeiro. _ Que tem isso com o que se passa aqui, vil o? _ Se Vossa Merc se enfada _ respondeu Sancho _ eu calo-me e deixo de dizer aquilo a que sou obrigado como leal escudeiro, e como deve um bom criado dizer a seu amo. _ Diz o que quiseres _ redarguiu D. Quixote _ conquanto que as tuas palavras se n o dirijam a assustar-me, que se tu tiveres medo procedes como quem s, e se eu o n o tenho procedo como quem sou. _ N o isso, mal-pecado _ respondeu Sancho _, mas o que eu digo que tenho por averiguado e certo que esta senhora, que se diz ser rainha do grande reino de Micomic o, -o tanto como minha m e, porque, se o fosse, n o andaria decerto a cada canto e a cada instante aos beijinhos com um sujeito c da roda. Fez-se Doroteia muito corada, porque era verdade que seu esposo D. Fernando algumas vezes colhera furtivamente nos seus l bios parte do pr mio que os seus desejos mereciam, o que fora visto por Sancho, parecendo-lhe a ele que semelhante desenvoltura era mais de loureira que de rainha de t o grande reino. N o quis ou n o p“de Doroteia responder palavra a Sancho, mas deixou-o prosseguir na sua pr tica, e ele foi dizendo: _ Isto digo eu Senhor; porque, se depois de termos corrido por montes e vales, e passado m s noites e piores dias, h -de vir a colher o fruto dos nossos trabalhos quem est folgando na venda, n o h motivo para que me apresse a selar o Rocinante, albardar o jumento e aparelhar o palafr m, e ser melhor que fiquemos quedos, e as maraonas que fiem, e n¢s que vamos comendo. 456 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA Ah! Deus Sant¡ssimo, que f£ria que teve D. Quixote, ao ouvir as descompostas palavras do seu escudeiro! Digo s¢ que bradou com voz atrapalhada e l¡ngua tartamuda, lan ando vivo fogo p los olhos: _ velhaco, e vil o, descomposto e ignorante, est£pido, desbocado, murmurador, e maldizente, que semelhantes palavras ousaste dizer na minha presen a e na presen a destas ¡nclitas senhoras, como que ousaste p“r na tua confusa imagina o semelhantes desonestidades e atrevimentos? Vai-te da minha presen a, monstro da Natureza, reposit¢rio de mentiras, arm rio de embustes, inventor de maldades, publicador de sandices, inimigo do decoro que se deve s pessoas reais; vai-te, e n o apare as diante de mim, sob pena da minha ira. E, dizendo isto, franziu as sobrancelhas, entumeceu as faces, e deu com o p direito uma grande patada no ch o, tudo sinais da c¢lera que lhe refervia nas entranhas. A estas palavras e furibundo adea ficou Sancho t o encolhido e medroso, que folgaria que naquele instante se abrisse debaixo de seus p s a terra e o tragasse; n o fez mais do que voltar as costas e tirar-se da presen a de seu enfadado amo. Mas a discreta Doroteia, que j conhecia perfeitamente o g nio de D. Quixote, disse, para lhe moderar a ira: _ N o vos despeiteis Senhor Cavaleiro da Triste Figura, com as sandices que o vosso bom escudeiro proferiu, porque talvez n o as diga sem motivo, nem do seu bom entendimento e consci ncia crist se deve esperar que levante testemunhos a ningu m: e assim se h -de acreditar, sem lhe p“r d£vida, que, como neste castelo, segundo dizeis Senhor Cavaleiro, tudo sucede por obra de encantamento, poderia suceder, repito, que Sancho visse por parte diab¢lica o que ele diz que viu, tanto em ofensa da minha honestidade. _Juro pelo Deus Omnipotente _ acudiu D. Quixote _ que bateu no ponto a vossa grandeza, e que alguma vis o m se p“s diante deste pecador de Sancho, que lhe fez ver o que seria imposs¡vel ver-se de outro modo que n o fosse por encantamento, que eu bem sei, pela bondade e inoc ncia deste desgra ado, que n o sabe levantar testemunhos a ningu m. 457 MIGUEL DE CERVANTES _ Assim e assim ser _ disse D. Fernando _ pelo que deve Vossa Merc , Sr. D. Quixote, perdoar-lhe e reduzi-lo ao gr mio da sua gra a, sicut erat in principio, antes que as tais vis”es lhe ourassem o ju¡zo. D. Quixote respondeu que lhe perdoava, e o cura foi buscar Sancho, que veio muito humilde, e, pondo-se de joelhos, pediu a m o a seu amo, e este deu-lha, e, depois de lha ter deixado beijar, deitou-lhe a b n o, dizendo: _ Agora acabar s de conhecer, Sancho filho, que todas as coisas deste castelo s o feitas por via de encantamento. _ Assim creio _ disse Sancho _, excepto o caso do mantear, que esse, realmente, sucedeu por via ordin ria. _ N o creias _ respondeu D. Quixote _ que, se assim fosse, eu te vingaria ent o e ainda agora; mas nem ent o pude, nem agora vi pessoa de quem tirasse vingan a do teu agravo. Desejaram saber todos o que era isso de mantear, e o vendeiro lhes contou por mi£do os voos de Sancho, com o que todos riram, e Sancho bastante se correria, se de novo lhe n o assegurasse seu amo que era encantamento, ainda que nunca chegou a tanto a sandice de Sancho, que acreditasse n o ser verdade pura e averiguada, sem mescla de engano algum, o de ter sido manteado por pessoas de came e osso, e n o por fantasmas sonhados e imaginados, como seu amo acreditava e afirmava. Havia j dois dias que toda aquela ilustre companhia estava na venda; e, parecendo-lhes que j era tempo de partir, imaginaram o modo como o cura e o barbeiro poderiam levar D. Quixote para a sua terra, e ali guarec -lo das suas loucuras, sem ser necess rio que Doroteia e D. Fernando o acompanhassem aldeia, com as tais inven es da liberdade da rainha Micomicoa. E o que imaginaram foi o combinarem-se com um carreiro, que por ali acertou de passar com o seu carro de bois, para o levarem da seguinte forma: fizeram uma jaula de paus encruzados em feitio de grade, capaz de nela caber folgadamente D. Quixote, e logo D. Fernando e os seus amigos, juntamente com o vendeiro, com os criados de D. Lu¡s e com os quadrilheiros, por ordem e parecer do cura, taparam o rosto e 458 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA se disfar aram, uns de um modo, outros de outro, de feitio que a D. Quixote parecesse que era outra gente, e n o a que vira naquele castelo. Feito isto, com grand¡ssimo sil ncio entraram no aposento onde ele estava dormindo e descansando das passadas refregas. Chegaram-se a ele, que dormia bem livre e bem seguro de tal acontecimento, e, agarrando-o com for a, amarraram-lhe muito bem os p s e as m os, de forma que, quando ele despertou em sobressalto, n o p“de mexer-se, nem fazer outra coisa, sen o ficar admirado e suspenso de ver diante de si t o estranhos rostos, e logo foi para o que lhe representava continuamente a sua tresvariada imagina o, e sup“s que todas aquelas figuras eram fantasmas desse castelo encantado, e que, sem d£vida alguma, estava ele j encantado tamb m, pois que n o podia nem mexer-se nem defender-se, tudo exactamente como pensara que sucederia o cura, inventor da tram¢ia. De todos os presentes, s¢ Sancho estava em seu ju¡zo e na sua figura; e, ainda que pouco lhe faltava para ter as mesmas enfermidades que seu amo, n o deixou de conhecer quem eram todos aqueles vultos disfar ados; mas n o ousava abrir boca sem ver em que parava aquele assalto e pris o de seu amo, que tamb m n o dizia palavra, esperando para ver em que viria a dar a sua desgra a; e em que veio a dar tudo aquilo foi em trazerem ali a jaula, meterem-no a ele para dentro, e pregarem os paus com tanta for a, que se n o arrancariam nem com fortes empux”es. Levaram-no depois em charola, e, ao sair do aposento, ouviu-se uma voz temerosa, tanto quanto o barbeiro, n o o da albarda, mas o outro, a p“de fazer, e que dizia: _ cavaleiro da Triste Figura, n o te aflija a pris o em que vais, porque assim conv m para que mais depressa acabe a aventura em que o teu grande esfor o te meteu; a qual terminar quando o furibundo le o manchego com a branca pomba tobosina se unir em doces la os, j depois de humilhada a nobre cerviz ao jugo matrimonial. Desse inaudito cons¢rcio sair o luz do orbe os bravos cachorros, que h o-de imitar as mort¡feras garras do valoroso pai; e isto acontecer antes que o seguidor da fugitiva ninfa por duas vezes visite as l£cidas 459 MIGUEL DE CERVANTES imagens, com o seu curso r pido e natural. E tu, o escudeiro mais nobre e mais obediente que jamais teve espada cinta, barbas no rosto e olfacto nas ventas, n o te aflija nem te descontente o ver que levam assim, diante dos teus olhos, a flor da cavalaria andante, que bem presto, se aprouver a quem moldou o mundo, te ver s t o alto e to sublimado, que te n o conhecer s a ti pr¢prio, e n o sair o defraudadas as promessas que te fez o teu bom amo; e asseguro-te, da parte da s bia Mentironiana, que o teu sal rio te ser pago, como poder s ver por obras; e segue as pisadas do valoroso e encantado cavaleiro, porque necess rio que v s ao s¡tio onde ambos haveis de parar; e porque me n o l¡cito dizer outra coisa, ficai com Deus, que eu me vou para onde sei. E, ao acabar a profecia, levantou a voz a tal ponto, e abaixou-a depois com t o terno som, que at os sabedores da burla estiveram quase a acreditar que era verdade o que ouviam. Ficou D. Quixote consolado com a profecia, porque logo coligiu a significa o de toda ela, e viu que lhe prometiam ver-se unido, em santo e justo matrim¢nio, com a sua querida Dulcineia dei Toboso, de cujas felizes entranhas sairiam outros le”es, que eram seus filhos, para gl¢ria perp tua da Mancha; e, acreditando isto e bem firmemente, levantou a voz, e, dando um grande suspiro, disse: _ tu, quem quer que sejas, que tanto bem me prognosticaste, rogo-te que pe as da minha parte ao s bio nigromante que tem as minhas coisas a seu cargo, que me n o deixe perecer nesta pris o, onde agora me levam, enquanto n o vir cumpridas t o alegres e incompar veis promessas, como s o as que aqui se me fizeram; que, sendo assim, terei por gl¢ria as penas do meu c rcere, e por al¡vio estas algemas que me cingem, e n o por duro campo de batalha este leito em que me recostam, mas por macia cama e t lamo ditoso. E, no que diz respeito a Sancho Pan a, meu escudeiro, confio da sua bondade e bom proceder, que n o me deixar nem na pr¢spera, nem na adversa fortuna, porque, ainda que n o suceda, por sua ou minha m ventura, poder-lhe dar a ilha ou outra coisa equivalente que tem prometida, pelo menos o seu sal rio n o poder perder-se, por- 460 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA que no meu testamento, que j est feito, deixo declarado o que se lhe h -de dar, n o conforme os seus muitos e bons servi os, mas conforme as minhas limitadas posses. Inclinou-se-lhe Sancho Pan a com muito comedimento e beijoulhe ambas as m os, n o podendo beijar uma s¢, por estarem as duas amarradas. Logo aquelas vis”es tomaram a jaula aos ombros, e meteram-na no carro de bois. CAPITULO XLVn DO MODO ESTRANHO COMO FOI ENCANTADO D. QUIXOTE DE LA MANCHA, COM OUTROS SUCESSOS Quando D. Quixote se viu daquela maneira engaiolado, e em cima do carro, disse: _ Muitas e muitas graves hist¢rias tenho eu lido de cavaleiros andantes; mas nunca li, nem vi, nem ouvi, que aos cavaleiros encantados os levem desta maneira, e com a demora que prometem estes pregui osos e tardios animais; porque sempre os costumam levar p los ares com estranha ligeireza, encerrados nalguma parda e densa nuvem, ou nalgum carro de fogo, ou sobre algum hipogrifo ou outro animal semelhante; mas que me levem a mim num carro de bois, viva Deus, que me p”e em confus o Talvez a cavalaria e os encantamentos dos nossos tempos devam de seguir outro caminho do que seguiram antigamente; e tamb m pode ser que, como eu sou cavaleiro £nico no mundo, e o primeiro que ressuscitei o j olvidado exerc¡cio da cavalaria aventurosa, tamb m novamente se hajam inventado outros g neros de encantamento, e outros modos de levar os encantados. Que te parece, Sancho filho? _ N o sei o que me parece _ respondeu Sancho _ por n o ser t o lido como Vossa Merc nas escrituras andantes; mas, com tudo isso, ousaria afirmar e jurar que estas vis”es, que por aqui andam, n o s o cat¢licas. 461 MIGUEL DE CERVANTES _ Cat¢licas! Pai do C u! _ tomou D. Quixote. _ Como h o-de ser cat¢licas se s o todos Dem¢nios, que tomaram corpos fant sticos para virem fazer isto, e p“r-me neste estado? E, se quiseres ver esta verdade, toca-lhes e apalpa-os, e ver s que os seus corpos s o ar, e que n o t m mais que as apar ncias. _ Por Deus, Senhor _ redarguiu Sancho _, j lhes toquei; e este diabo, que aqui anda t o sol¡cito, roli o de carnes, e tem outra propriedade muito diferente da que eu ouvi dizer que t m os Dem¢nios, porque, segundo se conta, todos tresandam a enxofre e outros maus cheiros, mas este a meia l gua se conhece que rescende a mbar. Dizia isto Sancho por D. Fernando, que, como t o fidalgo que era, devia de estar enfrascado em aromas. _ No te maravilhes disso, Sancho amigo _ respondeu D. Quixote _, porque te devo dizer que os Diabos sabem muito, e, ainda que tragam aromas consigo, eles a nada cheiram, ou em todo o caso, coisas boas no podem rescender; e o motivo que, estando o Inferno onde quer que estejam, e n o podendo eles receber al¡vio algum em seus tormentos, e a fragr ncia deleite e consola o, n o podem ter fragr ncias; e, se a ti te parece que esse Dem¢nio que dizes cheira a mbar, ou te enganas, ou ele te quer enganar, para fazer que o n o tenhas por Dem¢nio. Todos estes col¢quios se passaram entre o amo e o criado, e, temendo D. Fernando e Card nio que Sancho viesse a descobrir a sua inven o, resolveram abreviar a partida, e, chamando de parte o vendeiro, ordenaram-lhe que selasse Rocinante e albardasse o jumento de Sancho, o que ele fez com muita presteza. J nisto o cura ajustara com os quadrilheiros para que o acompanhassem at sua aldeia, dando-lhes um tanto por dia. Pendurou Card nio do ar o da sela de Rocinante o escudo e a bacia, e, por gestos, mandou a Sancho que montasse no burro e levasse de r dea Rocinante, e colocou de cada lado do carro um quadrilheiro com a sua escopeta; mas, antes que se pusesse o carro em movimento, saiu a vendeira com sua filha e Maritomes, fingindo que choravam com pena da desgra a de D. Quixote, e este disse-lhes ent o: 462 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA _ No choreis, minhas boas senhoras, que todas estas desventuras andam inerentes minha profisso; e, se tais calamidades me n o acontecessem, nunca eu me considerara famoso cavaleiro andante, porque aos cavaleiros de pouco nome e fama, nunca esses infort£nios sucedem, porque n o h no mundo quem se lembre deles; aos valorosos sim, que t m, por inveja de sua virtude e valentia, muitos pr¡ncipes e outros cavaleiros, que procuram por m s vias destruir os bons. Mas, com tudo isso, a virtude t o poderosa, que por si s¢, apesar de toda a nigromancia que soube o seu primeiro inventor Zoroastro, sair vencedora de todos os transes, e irradiar luz na Terra, como o Sol no firmamento. Perdoai-me, formosas senhoras, se, por descuido, algum desaguisado convosco pratiquei, que, por vontade e de ci ncia certa, nunca a ningu m os fiz; e rogai a Deus que me tire destas prises, que, se delas me vejo livre, n o me sair o da mem¢ria as merc s que neste castelo me fizestes, para vos agradecer, recompensar e servir como bem mereceis. Enquanto isto se passava entre as tr s damas do castelo e D. Quixote, o cura e o barbeiro despediram-se de D. Fernando e dos seus companheiros, e do capit o e de seu irm o, e de todas aquelas content¡ssimas senhoras, especialmente de Doroteia e Luanda. Todos se abra aram, e ficaram de dar not¡cia, uns aos outros, do que lhes sucedesse, dizendo D. Fernando ao cura para onde lhe havia de escrever a contar-lhe o que acontecesse a D. Quixote, assegurando-lhe que n o haveria coisa que mais gosto lhe desse do que sab -lo; e que ele tamb m lhe contaria tudo que visse que lhe poderia interessar, tanto o seu casamento, como o baptismo de Zoraida, e os sucessos de D. Lu¡s, e a volta de Lucinda para sua casa. O cura prometeu fazer pontualmente tudo o que lhe mandava. O vendeiro chegou-se ao cura, e deu-lhe uns pap is, dizendolhe que os achara num forro da maleta onde se encontrou a novela do Curioso impertinente, e que os levasse todos, visto que o dono nunca mais ali tomara, e ele n o sabia ler. O cura agradeceu, e, abrindo-os, viu que no princ¡pio do escrito diziam: 463 MIGUEL DE CERVANTES Novela de Rinconete e Cortadilo, e, vendo que era novela, coligiu logo que, sendo boa a do Curioso impertinente, esta o seria tamb m, pois talvez at fossem ambas do mesmo autor; e guardou-a, fazendo ten o de a ler, assim que tivesse ensejo. Montou a cavalo, e o mesmo fez o barbeiro seu amigo, com as suas m scaras, para que n o fossem logo conhecidos por D. Quixote, e partiram atr s do carro. E a ordem que levavam era a seguinte: primeiro, ia o carro com o dono a gui -lo, ao lado, os quadrilheiros com as suas escopetas, como j se disse; seguia-se Sancho Pan a no seu jumento, levando de r dea a Rocinante; atr s de tudo, cavalgavam o cura e o barbeiro nas suas possantes mulas, com os rostos cobertos, com grave e descansado porte, n o andando mais do que permitia o passo vagaroso dos bois. D. Quixote ia sentado na jaula, de m os atadas, p s estendidos, e encostado s grades, com tanta mudez e paci ncia como se n o fosse homem de carne, mas est tua de pedra. E, assim, naquele vagar e sil ncio, andaram duas l guas, at que chegaram a um vale, que o carreiro entendeu que era lugar acomodado para dar aos bois descanso e pastagem; e, depois de conferenciar com o cura, foi o barbeiro de parecer que andassem um pouco mais, porque sabia que por tr s de uma encosta que dali se divisava, havia outro vale mais arrelvado, e muito melhor do que esse em que queriam parar. Aceitou-se o parecer do barbeiro, e prosseguiram no seu caminho. Nisto, o cura voltou o rosto e viu que atr s dele vinham seis ou sete homens a cavalo, bem postos e ajaezados, que depressa os alcan aram, porque caminhavam, n o com a pachorra e descanso dos bois, mas como quem montava em boas mulas de c¢negas e desejava chegar depressa venda, que ficava dali a menos de uma l gua, para dormir a sesta. Chegaram os diligentes a par dos pregui osos, e cumprimentaram-se cortesmente; e um deles, que era c¢nego de Toledo e amo dos outros que o acompanhavam, ao ver a concertada prociss o do carro, quadrilheiros, Sancho, Rocinante, o cura e o barbeiro, D. Quixote engaiolado e preso, n o p“de deixar de 464 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA perguntar o que queria dizer levarem aquele homem daquele modo, ainda que j percebera, ao ver as ins¡gnias dos quadrilheiros, que devia de ser algum salteador fac¡nora, ou outro delinquente, cujo castigo tocasse Santa Irmandade. Um dos quadrilheiros, a quem foi feita a pergunta, respondeu: _ Senhor, o que significa ir este cavaleiro deste modo, ele que o diga, porque n¢s n o sabemos. _ Por fortuna ser o Vossas Merc s, Senhores Cavaleiros _ exclamou logo D. Quixote _, versados e peritos nisto de cavalaria andante? Porque, se o s o, eu lhes comunicarei as minhas desgra as, e, se o n o s o, n o h motivo para que me canse a diz -las. A este tempo, j tinham chegado o cura e o barbeiro, vendo que os viandantes estavam em pr tica com D. Quixote de Ia Mancha, para responderem de modo que o seu artif¡cio se n o descobrisse. O c¢nego, ao que D. Quixote perguntou, respondeu: _ Em boa verdade posso dizer-vos, que sei mais de livros de cavalaria do que das S£mulas de Vilialpando, de forma que se n o est em mais do que isso, podeis seguramente comunicar-me o que quiserdes. _ Louvado seja Deus _ redarguiu D. Quixote _ pois, sendo assim, quero que saibais Senhor Cavaleiro, que vou encantado nesta jaula, por inveja e fraude de maus encantadores, porque a virtude mais perseguida p los maus do que amada p los bons. Cavaleiro andante sou e n o daqueles, de cujo nome nunca a fama se recordou para os eternizar, mas dos que, a despeito e pesar da pr¢pria inveja, e de quantos magos criou a P rsia, e br manes a ndia, e gimnosofistas a Eti¢pia, h o-de p“r o seu nome no templo da imortalidade, para que sirva de exemplo e ditado nos s culos futuros, onde os cavaleiros andantes vejam os passos que h o-de seguir, se quiserem chegar mais elevada gl¢ria que as armas podem dar. _ Diz bem verdade o Sr. D. Quixote de Ia Mancha _ acudiu o cura _ porque ele vai encantado nesta carreta, n o por suas culpas e pecados, mas pela m ten o daqueles a quem a 465 MIGUEL DE CERVANTES virtude enfada e a valentia incomoda. Este Senhores, o Cavaleiro da Triste Figura, que talvez tenhais ouvido nomear, e cujas valorosas fa anhas e grandiosos feitos ser o escritos em duros bronzes e em eternos m rmores, por mais que se canse a inveja em escurec -los, e a mal¡da em ocult -los. Quando o c¢nego ouviu falar em semelhante estilo, esteve para se benzer de admirado, e nem podia imaginar o que lhe acontecera, e na mesma admira o ca¡ram todos os que com ele vinham. Nisto, Sancho Pan a, que se aproximara para ouvir a pr tica, exclamou: _ Agora, Senhores, quer me queiram bem, quer me queiram mal pelo que eu disser, a verdade que o Sr. D. Quixote vai a¡ t o encantado como minha m e que Deus haja; ele est em todo o seu ju¡zo, come e bebe, e faz todas as suas necessidades, como os outros homens, e como as fazia ontem antes que o engaiolassem. Sendo isto assim, como querem meter-me na cabe a que ele vai encantado? Pois n o tenho ouvido dizer a muitas pessoas que os encantados n o comem, nem dormem, nem falam, e meu amo, se lhe n o forem m o, capaz de falar mais do que trinta advogados? E, voltando-se para o cura, prosseguiu: _ Ah! Senhor Cura, Senhor Cura! Pensar Vossa Merc que n o sei quem ? E pensar que n o me calo e n o adivinho aonde v o ter estes novos encantamentos? Pois saiba que o conhe o, por mais que tape a cara, e que o percebo, por mais que dissimule os embustes. Enfim, onde reina a inveja, n o pode viver a virtude, nem onde h escassez, a liberalidade. Diabos levem o diabo que, se n o fosse Sua Rever ncia, j a estas horas meu amo e Senhor estaria casado com a princesa Micomicoa, e eu seria conde, pelo menos, pois outra coisa se n o podia esperar, tanto da bondade do meu Senhor da Triste Figura, como da grandeza dos meus servi os; mas j vejo que verdade o que por a¡ se diz, que a roda da fortuna anda mais depressa que a roda de um moinho, e que os que ontem estavam nas grimpas, hoje se acham estirados por terra. Pesa-me por meus filhos e por minha mulher, pois quando podiam e deviam esperar ver entrar seu pai pelas portas dentro, feito governador ou vice-rei 466 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA de alguma ilha ou reino, o h o-de ver entrar sota-cavalari o. Tudo o que eu digo n o sen o para encarecer a vossa paternidade, que veja que uma consci ncia maltratar meu amo, e repare bem, n o lhe v Deus pedir contas, na outra vida, desta pris o, e do bem que meu Sr. D. Quixote deixar de fazer, durante o tempo que estiver preso. _ O que aqui vai, n o vai na ndia _ acudiu o barbeiro. _ Tamb m v¢s, Sancho, sois da confraria do vosso amo? O Senhor nos valha! Vou vendo que lhe haveis de ir fazer companhia na jaula, e de ficar t o encantado como ele, por assim participardes do seu g nio e das suas cavalarias. Em hora m vos embutiu ele tantas promessas, e em m hora se vos meteu nos cascos a ilha que tanto desejais. _ Eu n o tenho c embutidos, nem sou homem que viva de lerias _ respondeu Sancho _ e, ainda que pobre, sou crist o-velho, e n o devo nada a ningu m; e se desejo ilhas, outros desejam coisas piores; e cada qual filho das suas obras; e, sendo homem, posso vir a ser papa, quanto mais governador de uma ilha, podendo meu amo ganhar tantas, que lhe falte a quem as d . Vossa Merc veja como fala Senhor Barbeiro, que nem tudo fazer barbas, e n o h s¢ basbaques no mundo, digo isto, porque todos nos conhecemos, e a num n o me impinge gato por lebre; e, a respeito do encantamento de meu amo Deus sabe onde estar a verdade, e fiquemos por aqui, que o melhor n o lhe mexer. N o quis o barbeiro responder a Sancho, para que este n o descobrisse com as suas simplicidades o que ele e o cura tanto procuravam encobrir; e, com este mesmo receio, dissera o cura ao c¢nego que se adiantasse um pouco, para ele lhe contar o mist rio do engaiolado, com outras coisas que o divertiriam. Acedeu o c¢nego e adiantou-se com ele e com os seus criados; ouviu atentamente tudo quanto o cura lhe disse da condi o, vida, loucura e costumes de D. Quixote, contando-lhe brevemente o princ¡pio e a causa dos seus desvarios, e o que lhe sucedera at ser metido naquela jaula, e a ten o que tinham feito de o levar para a sua terra, a fim de ver se, por algum meio, achavam rem dio sua loucura. Admiraram-se de novo o 467 MIGUEL DE CERVANTES c¢nego e os criados, ao ouvir a peregrina hist¢ria de D. Quixote, e, quando acabaram de a ouvir, disse o c¢nego: _ Eu por mim Senhor Cura, acho, na verdade, que s o prejudiciais na rep£blica estes livros a que chamam de cavalaria; e ainda que li, arrastado por um gosto errado e v o, o princ¡pio de quase todos os que est o impressos, nunca pude conseguir ler nenhum at ao fim, porque me parece que pouco mais ou menos s o todos a mesma coisa. E, no meu entender, este g nero de composi o assemelha-se ao que chamam f bulas mil sias, que s o esses contos disparatados que s¢ tratam de deleitar e n o de instruir, ao contr rio do que sucede com as f bulas apologais, que juntamente deleitam e instruem; e, ainda que o principal intento de semelhantes livros seja deleitar, n o sei como possam consegui-lo, estando cheios de tantos e de t o desaforados disparates; que o deleite, que na alma se gera, deve resultar da formosura e harmonia que v ou fantasia nas coisas que os olhos ou a imagina o lhe apresentam, e tudo quanto feio ou desconcertado n o nos pode causar satisfa o alguma. Pois que formosura ou que propor o pode haver num livro ou numa f bula, em que um mo o de dezasseis anos vibra uma cutilada a um gigante como uma torre, e o racha de meio a meio? Como havemos de acreditar que numa batalha, em que est de um lado um milh o de combatentes, e do outro o her¢i do livro, este alcance a vit¢ria s¢ pelo valor do seu bra o forte? E que diremos da facilidade com que uma rainha ou imperatriz presuntiva se deixa cair nos bra os de um cavaleiro andante e desconhecido? Que esp¡rito, a n o ser de todo b rbaro ou inculto, poder ficar deliciado ao ler que uma grande torre cheia de cavaleiros vai por esses mares adiante, como navio com vento de fei o, e anoitece na Lombardia, e amanhece nas terras do Preste Jo o das ndias, ou em outras que nem foram descritas por Ptolemeu, nem vistas por Marco Polo? E, se a isto se me responder, que os autores desses livros os escrevem como obras de imagina o, e n o ficam por isso obrigados a atender a delicadezas e verdades, direi que a mentira tanto mais saborosa quanto mais verdadeira se afigura, e agrada tanto mais quanto mais se aproxima do poss¡vel. H o-de-se casar as f bulas 468 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA mentidas com o entendimento dos que as lerem, escrevendo-se de forma que, facilitando os imposs¡veis, nivelando as grandezas, suspendendo os nimos, espantem, suspendam, alvorocem, e entretenham de modo que andem juntas a admira o e a alegria, e estas coisas todas n o as poder fazer quem fugir da verosimilhan a e da imita o, em que consiste a perfei o do que se escreve. Nunca vi um livro de cavalarias com unidade de ac o, mas compem-se de tantos membros, que mais parece que o autor quis formar uma quimera ou um monstro, do que fazer uma figura proporcionada. Al m disso, s o duros no estilo, incr¡veis nas fa anhas, lascivos nos amores, desjeitosos nas cortesias, prolixos nas batalhas, n scios nas raz”es, disparatados nas imagens, e, finalmente, alheios a todo o artif¡cio discreto, e, por isso, dignos de serem desterrados da rep£blica crist como coisa in£til. O cura estava-o escutando com grande aten o, e pareceu-lhe homem de bom entendimento, e que tinha raz o em tudo quanto dizia; e redarguiu-lhe que, por ser do mesmo pensar e ter ¢dio aos livros de cavalaria, queimara todos os de D. Quixote, que eram muitos. Contou-lhe a revista que lhes passara, e os que deitara ao lume, e os que deixara com vida, com o que muito se riu o c¢nego, e alegou que, apesar de ter dito mal desses livros, achava neles uma coisa boa, que era darem assunto para se poder manifestar um vivo engenho, porque tinham vasto e espa oso campo, por onde podia correr a pena sem o m¡nimo obst culo, descrevendo naufr gios, tormentas, recontros e batalhas, pintando um capit o valoroso, com todas as partes que para isso se requerem, j estrat gico prudente, prevenindo as ast£cias dos seus inimigos, j eloquente orador, persuadindo ou dissuadindo os seus soldados, avisado no conselho, pronto na determina o, t o valente em esperar como em acometer; narrando, ora um sucesso tr gico e lament vel, ora um acontecimento alegre a impensado; ali uma dama formos¡ssima, honesta, discreta e recatada; aqui um cavaleiro crist o, valente e comedido; al m um b rbaro, fanfarr o e desaforado; acol um pr¡ncipe cort s, valoroso e gentil, representando a bondade e a lealdade dos 469 MIGUEL DE CERVANTES vassalos, a grandeza e a liberalidade dos senhores; ora se pode ostentar astr¢logo, ora cosm¢grafo excelente, ora m£sico, ora perito em assuntos de governo, e talvez lhe apare a ensejo de se manifestar nigromante, se quiser. Pode apresentar as ast£cias de Ulisses, a piedade de Eneias, a valentia de Aquiles, as desgra as de Heitor, as trai ”es de S¡non, a amizade de Eur¡alo, a liberalidade de Alexandre, o valor de C sar, a clem ncia e verdade de Trajano, a fidelidade de ¢piro, a prud ncia de Cat o; e, finalmente, todas aquelas ac ”es que fazem perfeito um var o ilustre, ou pondo-as num s¢, ou dividindo-as por muitos. E, sendo isto feito com apraz¡vel estilo e engenhosa inven o, que se aproxime da verdade tanto quanto for poss¡vel, h - -de compor sem d£vida uma fina tela, entretecida de fios formos¡ssimos, que, depois de acabada, se revele t o perfeita e linda, que consiga o fim melhor a que se aspira nesses escritos, que ensinar e deleitar juntamente, como j disse; porque a solta contextura destes livros d lugar a que o autor possa mostrar- -se pico, l¡rico, tr gico, c¢mico, com todas as partes que encerram em si as dulc¡ssimas e agrad veis ci ncias da poesia e da orat¢ria _ que a epopeia tanto pode escrever-se em prosa como em verso. CAPITULO XL VIII ONDE PROSSEGUE O C NEGO NO ASSUNTO DOS LIVROS DE CAVALARIA, COM OUTRAS COISAS DIGNAS DO SEU ENGENHO _ Assim como Vossa Merc diz Senhor C¢nego _ acudiu o cura _, e por esse motivo s o mais dignos de repreens o os que at hoje t m composto semelhantes livros, sem discri o nem respeito por arte e regras, que os podiam guiar e fazer famosos em prosa, como o s o em verso os dois pr¡ncipes da poesia grega e latina. _ Eu pelo menos _ redarguiu o c¢nego _ tive certas tenta es de escrever um livro de cavalaria, guardando todos os 470 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA preceitos que apontei; at , para confessar a verdade, tenho j escritas mais de cem folhas, e, para ver se correspondiam minha estima o, confiei-as a homens apaixonados por esta leitura, doutos e discretos, e a outros ignorantes, que s¢ atendem ao gosto de ouvir disparates, e de todos obtive agrad vel aplauso; mas, com tudo isso, n o prossegui, n o s¢ por me parecer que me ia metendo em coisas alheias minha profiss o, como por ver que maior o n£mero dos simples de esp¡rito, do que dos cordatos, e que, ainda que melhor ser louvado p los poucos s bios que fustigado p los muitos n scios, n o quero sujeitar-me ao confuso ju¡zo do vulgo, que l semelhantes livros. Mas o que mais me impediu de o acabar foi um argumento que tirei das com dias que hoje se representam, dizendo comigo: se as com dias da voga, tanto as de pura imagina o, como as que se fundam na hist¢ria, s o todas, ou a maior parte, verdadeiros disparates, e coisas que n o t m p s nem cabe a, e, com tudo isso, o vulgo as ouve com gosto; e as considera e aprova como boas, estando t o longe de o ser; e os autores que as comp”em e os actores que as representam, dizem que est o muito bem assim, porque assim as quer o vulgo, e n o de outra maneira; e que as que seguem os preceitos da arte servem s¢ para quatro discretos que as entendem, e todos os outros ficam em jejum, sem compreender o seu artif¡cio; e que a eles lhes fica melhor ganhar o p o com muitos, do que fama com poucos; acontecer o mesmo ao meu livro, depois de eu ter queimado as pestanas a guardar os referidos preceitos, e virei a ser como o alfaiate do Cantillo; e, ainda que algumas vezes procurei persuadir aos actores que se enganam em seguir a opini o que seguem, e que mais gente h o-de atrair, e h o-de ganhar mais fama, representando com dias em que se n o viole a arte, em vez de pe as disparatadas, j t o aferrados est o ao seu parecer, que n o h raz o nem evid ncia que os demova. Lembro-me que um dia observei a um desses pertinazes: Dizei-me, n o vos recordais que h poucos anos se representaram na Espanha tr s trag dias que comp“s um famoso poeta destes reinos, que foram tais, que alegraram e suspenderam todos os que as ouviram, tanto os simples, como os entendidos, tanto os do vulgo como os da 471 MIGUEL DE CERVANTES flor do p£blico, e deram s¢ essas tr s mais dinheiro aos comediantes, do que trinta das melhores que de ent o para c se t m feito? _ Decerto Vossa Merc se refere, tornou o actor, Isabel, F¡lis e Alexandra7 _ A essas mesmas, repliquei eu e vede se n o guardavam perfeitamente os preceitos da arte, e se por guard -los deixaram de parecer o que eram, e de agradar a todos; de forma que a culpa n o do vulgo, que no reclama disparates, dos que n o sabem representar outra coisa. N o tinham disparates nem a Ingratid o Vingada, nem a Num ncia, nem o Mercador Amante, nem a Inimiga Favor vel, nem outras que foram compostas por alguns poetas entendidos, para seu renome e fama, e para lucro dos que as representaram. E outras coisas juntei a estas, deixando-o confuso, mas n o convencido nem disposto a arredar-se do seu errado pensamento. _ Tocou Vossa Merc num assunto Senhor C¢nego _ acudiu o cura _, que despertou em mim um antigo rancor, que tenho, contra as com dias que se usam agora, e que iguala o que voto aos livros de cavalaria, porque, devendo ser a com dia, segundo a opini o de C¡cero, espelho da vida humana, exemplo dos costumes, e imagem de verdade, as que hoje se representam s o espelhos de disparates, exemplos de necedades e imagens de lasc¡via. Pois que maior disparate pode haver no assunto de que tratamos, do que aparecer uma crian a no primeiro acto envolta nas faixas infantis, e aparecer no segundo feito j homem barbado? E que maior desatino, do que pintar-nos um velho valente e um mo o cobarde, um lacaio ret¢rico, um pajem conselheiro, um rei jornaleiro e uma princesa criada de servir? E que direi do modo como observam o tempo em que podem ou podiam suceder as ac es que representam, sen o que j vi com dias, em que a primeira jornada principiou na Europa, a segunda na sia, e a terceira acabou na frica, de modo que, se houvesse quatro jornadas, a quarta findaria na Am rica, e assim se teria passado em todas as quatro partes do mundo? E se a imita o deve ser o fim principal da com dia, como poss¡vel que se satisfa a qualquer mediano entendimento com o assistir a uma ac o, que, fingindo que se passa na poca de el-rei Pepino e de Carlos Magno, apresenta ao mesmo tempo, como personagem 472 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA principal, o imperador Heraclio, entrando com a cruz em Jerusal m, e, ganhando a Casa Santa como Godofredo de Bulh o, havendo infinitos anos que separam um do outro; e, fundandose a com dia em coisas fingidas, atribuir-lhe verdades hist¢ricas, e misturar-lhe peda os de outras, acontecidas a diferentes pessoas e em diferentes eras, e isto, n o com tra os veros¡meis, mas com erros patentes e de todo o ponto indesculp veis? E o pior que h ignorantes, que dizem que isto que a perfei o, e tudo o mais desacerto. E se falarmos agra das com dias divinas? Que milagres se fingem nelas! Que coisas ap¢crifas e mal entendidas, atribuindo-se a um santo os milagres de outro! E at nas humanas se atrevem a fazer milagres, sem mais respeito e considera o que parecer-lhes que ali ficar bem o tal milagre e tram¢ia, como eles chamam, para que gente ignorante pasme e concorra com dia; tudo isto em preju¡zo da verdade e em menoscabo da hist¢ria, e at em opr¢brio dos engenhos espanh¢is; porque os estrangeiros, que observam com muita pontualidade as leis da com dia, t m-nos na conta de b rbaros e ignorantes, vendo os absurdos e disparates das que fazemos. E n o ser bastante desculpa para isto dizer que o principal intento que t m as rep£blicas bem ordenadas, permitindo que se representem com dias, o entreter o povo com algum honesto recreio, e distra¡-lo s vezes dos maus humores que soe gerar a ociosidade; e que, visto que isto se consegue com qualquer com dia, boa ou m , n o h motivos para p“r leis, nem obrigar os que as comp”em e representam a que as fa am como deviam fazer-se, pois, como disse, com qualquer se consegue o que com elas se pretende. Ao que responderei eu, que este fim se conseguiria muito melhor, sem compara o alguma, com as com dias boas, do que com as que o n o s o, porque de ter ouvido a com dia engenhosa e bem ordenada, sairia o ouvinte alegre com as mentiras, ensinado com as verdades, admirado dos sucessos, discreto com as raz”es, avisado com os embustes, sagaz com os exemplos, irado contra o v¡cio, e namorado da virtude; que todos estes afectos h -de despertar a boa com dia no nimo do que a escutar, por muito r£stico e torpe que seja, e completamente imposs¡vel deixar de alegrar e entreter, satisfazer e contentar, a com dia que tiver to- 473 MIGUEL DE CERVANTES dos estes predicados, muito mais do que outra que deles carecer, como pela maior parte carecem estas que ordinariamente agora se representam. E n o t m culpa disto os poetas que as comp”em, porque, alguns h que conhecem perfeitamente aquilo em que erram, e sabem extremadamente o que devem fazer; mas, como as com dias se transformaram em mercadoria vend vel, dizem, e dizem com raz o, que os comediantes n o lhas comprariam se n o fossem daquele jaez; e assim o poeta procura acomodar-se ao que lhe pede o comediante que lhe h -de pagar a obra. E que isto verdade, v -se nas muitas e infinitas com dias que comp“s um felic¡ssimo engenho destes reinos, com tanta gala, tanto donaire, t o elegante verso, t o boas raz”es, t o graves senten as, e, finalmente, t o resplandecentes de elocu o e alteza de estilo, que est o mundo cheio da sua fama; e, por querer acomodar-se ao gosto dos comediantes, n o chegaram todas, como chegaram algumas, ao auge da perfei o que requerem. Outros as comp”em, tanto sem olhar ao que fazem, que, depois de representadas, v em-se os actores obrigados a fugir e ausentar-se, receosos de serem castigados, como o t m sido muitas vezes, por terem representado coisas em desabono de reis e desonra de linhagens; e todos estes inconvenientes cessariam, e muitos mais ainda que n o digo, se houvesse na corte uma pessoa inteligente e discreta, que examinasse todas as com dias antes que se representassem; n o s¢ as que se fizessem na corte, mas todas as que se quisessem representar em Espanha, sem cuja aprova o, selo e firma, nenhum alcaide, nos diversos lugares, deixassem representar com dia alguma; e, desta forma, os actores teriam cuidado de enviar as com dias corte, e com seguran a poderiam represent -las, e, aqueles que as comp”em, olhariam com mais cuidado e estudo para o que faziam, receosos de terem deixado passar as suas obras pelo rigoroso exame dos entendedores. E, desta forma, se fariam boas com dias, e se conseguiria felicissimamente o que nelas se pretende, tanto o entretenimento do povo, como a boa opini o dos talentos espanh¢is, o interesse e a seguran a dos actores, e a poupan a do cuidado de os castigar. E se se encarregasse outro, ou este mesmo, de examinar os livros de cavalaria que de novo se comp”em, sem d£vida pode- 474 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA riam aparecer alguns com a perfei o que Vossa Merc disse, enriquecendo a nossa l¡ngua com o precioso e agrad vel tesouro da eloqu ncia, dando ocasi o a que os livros velhos se escurecessem luz dos novos, que se publicassem para honesto passatempo, n o s¢ dos ociosos, mas dos mais ocupados, pois no poss¡vel que esteja continuamente o arco retesado, nem que a condi o e fraqueza humana se possa sustentar sem algum l¡cito recreio. Chegavam a este ponto do seu col¢quio o c¢nego e o cura, quando, adiantandose o barbeiro, dirigiu-se a eles e disse ao cura: _ Aqui, Senhor Licenciado, est o lugar que eu disse que era bom, para que, dormindo n¢s a sesta, pudessem ter os bois fresco e abundante pasto. _ Parece-me bem _ respondeu o cura. E, dizendo ao c¢nego o que tencionava fazer, tamb m este quis ali ficar, enlevado na vista do formos¡ssimo vale. E tanto para gozar essa amenidade, como para saborear a conversa o do cura, e para saber mais por mi£do as fa anhas de D. Quixote, ordenou a alguns dos seus criados que fossem venda, que estava dali perto, e trouxessem para todos o que houvesse de comer, porque resolvera passar naquele lugar a sesta: ao que respondeu um dos criados, que a az mola do repasto, que j havia de estar na estalagem, trazia provis”es bastantes para n o ser necess rio comprar outra coisa que n o fosse cevada. _ Pois, se assim _ disse o c¢nego _ levem daqui todas as cavalgaduras, e tragam a az mola. Enquanto isto se passava, vendo Sancho que podia falar a D. Quixote, sem ser em presen a do cura e do barbeiro, que tinha por suspeitos, chegou-se jaula onde ia seu amo, e disse-lhe: _ Senhor, para descargo da minha consci ncia, quero-lhe dizer o que se passa acerca do seu encantamento; e , que estes dois que aqui v m com os rostos encobertos s o o cura e o barbeiro do nosso lugar, e, supondo que tramaram lev -lo deste modo, de pura inveja que t m, por ver que Vossa Merc pratica t o famosas fa anhas. Sendo assim, claro se v que n o vai encantado, mas sim emba¡do e logrado. E, para prova disso, lhe quero perguntar uma coisa e, se me responder como espero, 475 MIGUEL DE CERVANTES tocará com a mäo neste engano, e verá que não vai encantado, mas ourado do juízo. _ Pergunta o que quiseres, Sancho meu filho _ tornou D. Quixote _, que eu te satisfarei e responderei, como tu desejas; e, quanto ao que dizes desses que aí väo serem o cura e o barbeiro, nossos compatriotas e conhecidos, poderá muito bem ser que pareça que säo eles mesmos; mas näo creias que realmente o sejam; o que hás-de crer e entender é que, se o parecem, como dizes, será porque os que me encantaram tomaram esse aspecto, porque é fácil aos nigromantes tomarem a figura que querem, e talvez tomassem as desses nossos amigos, para te darem ensejo de pensares o que pensas, e meterem-te num labirinto de imaginaçöes, que näo conseguirias sair dele, nem que tivesses o novelo de Teseu; e também o fariam, talvez, para eu vadiar no meu entendimento, e näo poder atinar de onde é que me vem este dano; porque, se por uma parte me dizes que me acompanham o cura e o barbeiro da nossa povoaçäo, e por outra me vejo engaiolado, e de mim sei que forças humanas, näo sendo sobrenaturais, näo seriam bastantes para cativar-me, que queres que diga ou que pense, senäo que o modo do meu encantamento excede quantos tenho lido em todas as histórias que tratam de cavaleiros andantes que foram encantados? Assim, bem podes ficar em paz e sossego, quanto a serem os que tu dizes, porque tanto säo eles como eu sou turco; e pelo que toca a quereres-me perguntar alguma coisa, fala, que eu te responderei, ainda que estejas a fazer perguntas até amanhä. _ Valha-me Nosso Senhor _ respondeu Sancho, dando um grande brado _, pois é possível que seja Vossa Mercê täo duro de cabeça e täo falto de miolo, que näo veja que é a pura verdade o que eu digo, e que nesta sua prisäo e desgraça entra mais a malícia do que o encantamento? Mas, se assim é, quero-lhe provar evidentemente que näo vai encantado; senäo diga-me, assim Deus o livre deste tormento, e assim se veja nos braços da minha Sr. Dulcineia, quando menos pensar... _ Acaba de esconjurar-me _ tomou D. Quixote _ e pergunta o que quiseres, que já te disse que te responderei com toda a pontualidade. 476 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA _ Isso peço _ redarguiu Sancho _ e o que desejo é que me responda, sem aumentar nem tirar coisa alguma, mas com toda a verdade, como se espera que digam e häo-de dizer todos os que professam as armas, como Vossa Mercê professa, debaixo do título de cavaleiros andantes. _ Estou farto de te dizer que näo mentirei em coisa alguma _ respondeu D. Quixote _; vê se perguntas, que, na verdade, me fatigas com tantos rogos e precauçöes, Sancho. _ Digo eu que estou certo da bondade e verdade de meu amo, e assim pergunto, falando com o devido respeito, porque faz muito ao caso do nosso conto, se depois que Vossa Mercê está engaiolado e encantado, como diz, já lhe deu vontade de fazer o que ninguém pode fazer por nós, como se costuma dizer? _ Muitas vezes, Sancho, e agora mesmo a tenho; tira-me deste perigo, que já näo saio limpo de todo. CAPïTULO XLIX ONDE SE TRATA DO DISCRETO COL?QUIO QUE SANCHO PANÇA TEVE COM SEU AMO D. QUIXOTE _ Ah! _ disse Sancho _ apanhei-o; era isso o que eu desejava saber, como desejo a salvaçäo eterna Ora venha cá, meu Senhor; pode negar o que por aí se costuma dizer vulgarmente quando uma pessoa está mal disposta: «Näo sei o que tem Fulano que näo come, nem bebe, nem dorme, nem responde com acerto ao que lhe perguntam, que näo parece senäo que está encantado?» De onde se conclui que os que näo comem, nem bebem, nem dormem, nem fazem as obras naturais que eu digo, estäo encantados, mas que o näo está quem tem a vontade que Vossa Mercê tem agora, quem bebe quando lhe däo de beber, e come quando tem de comer, e responde a tudo o que lhe perguntam. _ Dizes a verdade, Sancho _ respondeu D. Quixote _, mas eu já te disse que há muitos géneros de encantamentos, e que 477 MIGUEL DE CERVANTES pode ser que se mudasse com o tempo de uns para outros, e que se use agora fazerem os encantados tudo o que eu faço, apesar de näo o fazerem dantes, de forma que, contra o uso dos tempos, no há que arguir, nem que tirar consequências. Sei e tenho para mün que estou encantado, e isto me basta para segurança da minha consciência, que ficaria sobressaltada, se eu pensasse que o näo estava, e me deixasse ir nesta jaula, preguiçosa e cobarde, defraudando o amparo que poderia dar a muitos necessitados, que devem ter a estas horas extrema urgência do meu auxílio e valimento. _ Pois com tudo isso _ redarguiu Sancho _ entendo que, para maior sossego e satisfaçäo, bom seria que Vossa Mercê experimentasse sair deste cárcere, que eu me obrigo a facilitar- -lhe a saída até aonde eu puder, e que experimentasse montar no bom Rocinante, que também parece encantado, de melancólico e triste que vai; e, feito isto, que tentássemos de novo a sorte, a procurar mais aventuras, e, se nos näo saíssemos bem, sempre seria tempo de voltar à jaula, em que prometo, à fé de bom escudeiro, encerrar-me juntamente com Vossa Mercê, se Vossa Mercê for täo desditoso, e eu täo pateta, que näo consigamos o que acabo de dizer. _ Estou pronto, Sancho _ redarguiu D. Quixote _, e, quando vires conjuntura de pores por obra a minha liberdade, obedecer-te-ei em tudo e por tudo; mas verás, Sancho, como te enganas, no que respeita à minha desgraça. Nestas práticas se entretiveram o cavaleiro andante e o mal- -andante escudeiro, até que chegaram aonde já os esperavam apeados o cura, o barbeiro e o cónego. Logo o carreiro tirou os bois do carro, e deixou-os andar à vontade, por aquele verde e aprazível sítio, cuja frescura era convidativa, näo para as pessoas täo encantadas como D. Quixote, mas para sujeitos to avisados e discretos como o seu escudeiro, que pediu ao cura que consentisse na saída de seu amo por um instante, porque, se o näo deixassem sair, näo iria täo asseada a sua prisäo, como requeria o decoro de täo famoso cavaleiro. Entendeu-o o cura, e disse que de muito boa vontade consentiria, se näo receasse que, logo que D. Quixote se visse em liberdade, desatasse a fazer 478 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA das suas, e fosse para onde nunca mais se lhe pusesse a vista em cima. _ Fico por ele _ respondeu Sancho. _ E eu também _ disse o cónego _ e basta que ele me dê a sua palavra de cavaleiro, de se näo apartar de nós, senäo por nossa vontade. _ Dou _ respondeu D. Quixote, que tudo estava escutando _, tanto mais, que quem está encantado, como eu estou, näo tem liberdade para fazer o que quiser, porque a pessoa que o encantou, pode fazer que ele se näo mova de onde está nem em três séculos, e o fará andar em polvorosa, se ele fugir. E acrescentou que, sendo isto assim, podiam perfeitamente soltá-lo, demais a mais, sendo tanto em proveito de todos, e que, näo o soltando, lhes protestava que näo poderia deixar de lhes melindrar o olfacto, se eles se näo desviassem. O cónego toou-lhe as mäos, apesar de amarradas, e soltaram-no debaixo de palavra, alegrando-se ele imenso por se ver fora da jaula; e, a primeira coisa que fez foi estirar todo o corpo, e correu logo ao sítio onde estava Rocinante, e, dando-lhe duas palmadas nas ancas, disse: _ Ainda espero em Deus e na sua benta mäe, flor e espelho dos cavalos, que depressa nos havemos de ver ambos como desejamos; tu com teu amo às costas, e eu em cima de ti exercitando o ofício para que Deus me deitou ao mundo. E, dizendo isto, apartou-se D. Quixote co Sancho para um sítio desviado, de onde voltou com mais alívio e mais desejos de pôr por obra o que o seu escudeiro ordenasse. Olhava para ele o cónego, e admirava-se de ver a estranheza de sua grande loucura e de que em tudo o que dizia mostrava ter boníssimo entendimento; perdendo as estribeiras, como já se notou, quando se falava de cavalarias. E assim, movido de compaixäo, depois de se terem sentado todos na verde relva, à espera da refeiçäo do cónego, disse-lhe este: _ E possível Senhor Fidalgo, que tanto pudesse com Vossa Mercê a insípida e ociosa leitura dos livros de cavalaria, que lhe desse volta ao miolo, chegando a imaginar que vai encantado, com outras coisas desse jaez, täo longe de serem verdadeiras, 479 MIGUEL DE CERVANTES como está longe a mentira da verdade? E é possível que haja entendimento humano que suponha que houve no mundo aquela infinidade de Amadises, e tantos famosíssimos cavaleiros, tanto imperador de Trapizonda, tanto Felix de Hircânia, tanto palafrém, tanta donzela vagabunda, tantas serpes, tantos endriagos, tantos gigantes, tantas inauditas aventuras, tanto género de encantamentos, tantas batalhas, tantos recontros despropositados, tanta extravagância de trajes, tantas princesas enamoradas, tantos escudeiros condes, tantos anöes graciosos, tanto bihete, tanto requebro, tantas mulheres valentes, e, finalmente, tantas e täo disparatadas coisas como encerram os livros de cavalaria? Eu de mim sei dizer que, quando os leio, enquanto näo ponho na mente que säo tudo fábulas e leviandades, algum prazer me däo; mas, quando entro na conta do que valem, bato com o melhor de todos eles na parede, e ainda os atirara ao lume se o tivesse próximo ou presente, como merecedores de tal pena, por serem falsos e embusteiros, como inventores de novas seitas e de novo modo de vida, e como quem dá ocasiäo a que o vulgo ignorante venha a crer e a ter por verdadeiras tantas necedades como as que eles encerram. E também tanto atrevimento têm que ousam turbar os engenhos dos fidalgos discretos e bem-nascidos, como se mostra pelo que lhe fizeram a Vossa Mercê, que o levaram a termos de ser forçoso metê-lo numa jaula, e transportá-lo sobre um carro de bois, como quem transporta de lugar para lugar algum leäo ou tigre, para o mostrar por dinheiro. Eia! Sr. D. Quixote, doa-se de si próprio, e volte ao grémio da discriçäo, e saiba usar da muita que o Céu foi servido dar-lhe, empregando o seu felicíssimo talento noutra leitura que redunde em proveito da sua consciência e acrescentamento da sua honra. E, se ainda levado da sua natural inclinaçäo, quiser ler livros de façanhas e de cavalarias, leia na Sagrada Escritura o dos Juizes, que ali achará verdades grandiosas e feitos täo reais como denodados. Teve Lusitânia um Viriato, Roma um César, Cartago um Aníbal, Grécia um Alexandre, Castela um conde Fernäo Gonçalves, Valência um Cid, Andaluzia um Gonçalo Fernandes, Extremadura um Diogo Garcia de Paredes, Xerez um Garcia eres de Vargas, Toledo 480 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA um Garcilasso, Sevilha um D. Manuel de Leäo, e a liçäo dos seus valorosos feitos pode entreter, ensinar, deleitar e assombrar os mais altos engenhos que os lerem. Esta sim, esta é que será leitura digna do bom entendimento de Vossa Mercê, D. Quixote, Senhor meu, de que sairá erudito na história, enamorado da virtude, ensinado na bondade, melhorado nos costumes, ousado sem temeridade, prudente sem cobardia, e tudo isto para honra de Deus, proveito seu e fama da Mancha, de onde, segundo soube, tira Vossa Mercê o seu princípio e origem. Atentissimamente esteve D. Quixote escutando as razöes do cónego, e, quando viu que terminara, e depois de o ter estado contemplando por largo espaço, disse: _ Parece-me, Senhor Fidalgo, que a prática de Vossa Mercê encaminhou-se a querer-me dar a entender que näo houve cavaleiros andantes no mundo, e que todos os livros de cavalaria säo falsos, mentirosos, danosos e inúteis para a república, e que fiz mal em lê-los, pior em acreditá-los, e pessimamente em imitá-los, dando-me a seguir a dussima profissäo de cavaleiro andante que eles ensinam, e negou, além disso, que tivesse havido no mundo Amadises de Gaula ou da Greda, e todos os outros aventurosos cavaleiros de que andam cheios os livros. _ Tal qual como Vossa Mercê vai relatando _ interrompeu o cónego. _ Acrescentou também Vossa Mercê _ continuou D. Quixote _ que me tinham feito grande dano tais livros, porque me tinham dado volta ao juízo e metido numa jaula, e que melhor seria que eu me emendasse, mudando de leitura, e lendo outros mais verdadeiros, e que melhor deleitem e ensinem. _ Exacto _ tomou o cónego. _ Pois eu _ replicou D. Quixote _ sustento que quem näo tem juízo e quem vai encantado é Vossa Mercê, pois desatou a dizer tantas blasfémias contra uma coisa täo bem acolhida no mundo, e tida por täo verdadeira, que aquele que a negasse, como Vossa Mercê a nega, merecia a mesma pena que Vossa Mercê diz que dá aos livros, quando os lê e o enfadam; porque querer dizer que Amadis näo existiu neste mundo, nem existi- 481 MIGUEL DE CERVANTES ram todos os outros aventurosos cavaleiros de que estäo cheias as histórias, será querer persuadir que o Sol näo alumia, nem o gelo arrefece, nem a Terra pode connosco; pois diga-me, que engenho pode haver no mundo que persuada a outrem que näo foi verdade o caso de Floripes com Guy de Borgonha, e o de Ferrabrás com a ponte de Mantible, que sucedeu no tempo de Carlos Magno? E voto a tal que é täo verdade como ser agora dia; e, se é mentira, também mentira será a existência de Heitor e de Aquiles, e dos Doze Pares de França, e do rei Artur de Inglaterra, que tem andado transformado em corvo, e a cada instante o esperam no seu reino; e também se atreveräo a dizer que é mentirosa a história de Guarino Mesquinho, a da demanda do Santo Graal, e que säo apócrifos os amores de Tristäo e da rainha Iseu, como os de Genebra e Lançarote, apesar de existirem pessoas que quase se recordam de ter visto a Dona Quintanhona, que foi a melhor copeira de vinhos que teve a Grä-Bretanha. E é isto täo certo, que me recordo de me dizer a minha avó paterna, quando via alguma dona com reverendas toucas: «Aquela, meu neto, parece a Dona Quintanhona»; de onde concluo que ou a conheceu, ou viu algum retrato dela. Pois quem poderá negar que seja verdadeira a história de Pedro e da formosa Magalona, quando ainda hoje se vê na armaria dos reis a manivela com que se voltava o cavalo de madeira em que ia montado por esses ares o valente Pedro, e que é um pouco maior que uma lança de carreta? E junto da manivela está o selim de Babieca, e em Roncesvales está a trompa de Roldäo, que é do tamanho de uma grande viga; de onde se infere que houve doze Pares, que existiu Pedro, que houve Cides, e outros cavaleiros semelhantes, destes que diz o vulgo que andam à cata de aventuras. Senäo diga-me também que näo é verdade ter sido cavaleiro andante o valente lusitano Joäo de Melo, que foi a Borgonha, e combateu na cidade de Arras com o famoso Sr. de Charny, chamado Mossém Pedro; e depois na cidade de Basileia com Mossém Henrique de Ramestan, saindo de ambas as empresas vencedor e senhor de honrosa fama; e as aventuras e desafios que também tiveram em Borgonha os valentes espanhóis Pedro Barba e Gutierres Quijada (de cuja estirpe descen- 482 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA do por linha directa de varonia), vencendo os filhos do conde de Saint-Pol. Neguem-me também que D. Fernando Guevara fosse buscar aventuras à Alemanha onde combateu com Misser Jorge, cavaleiro da casa do duque de åustria. Digam que foram mentira as justas de Sueiro de Quinones, o do Passo; as empresas de Mossém Luís de Falces contra D. Gonçalo de Gusmäo, cavaleiro castelhano, e outras muitas façanhas praticadas por cavaleiros cristäos, destes reinos e dos estrangeiros, täo autênticas e verdadeiras que, quem as negasse, careceria de razäo e de bom discorrer. Ficou admirado o cónego de ver a misturada que D. Quixote fazia de mentiras e de verdades, e por ver o conhecimento que ele tinha de todas as coisas tocantes e concernentes aos feitos dos seus cavaleiros andantes, e respondeu-lhe da seguinte maneira: _ Näo posso negar, Sr. D. Quixote, que alguma coisa do que Vossa Mercê disse é verdade, especialmente no que toca aos cavaleiros andantes espanhóis; e também quero conceder que houve Doze Pares de França; mas näo quero acreditar que fizessem tudo o que deles diz o arcebispo Turpin; porque a verdade é que foram cavaleiros escolhidos pêlos reis de França, a quem chamaram Pares, por serem todos iguais em valor, em fidalguia; pelo menos, a näo o serem, era de razäo que o fossem; e constituíam como que uma dessas Ordens religiosas que hoje se usam de Santiago ou de Calatrava, que se pressupöe que os que a professam häo-de ser ou devem ser cavaleiros valentes e bem-nascidos; e assim, como dizem agora cavaleiro de S. Joäo ou de Alcântara, diziam naquele tempo cavaleiro da Ordem dos Doze Pares, porque foram doze iguais os que para esta religiäo militar se escolheram. Que existiu Cid näo há dúvida, Bernardo dei Cárpio também; mas näo acontece o mesmo com todas as grandes façanhas que se diz que fizeram. Quanto à manivela do conde Pedro, a que Vossa Mercê alude, e que está junto do selim de Dabieca na armaria dos reis, confesso o meu pecado, e que sou täo ignorante ou täo curto de vista que, tendo reparado no selim näo dei pela manivela, apesar de ser tamanha como Vossa Mercê disse. 483 MIGUEL DE CERVANTES _ Pois lá está sem dúvida algua _ redarguiu D. Quixote _ e por sinal que dizem que está acautelada, para se näo estragar. _ Tudo pode ser _ tomou o cónego _ mas, pelas ordens que recebi, näo me recordo de a ter visto; porém, ainda que conceda que lá está, nem por isso me obrigo a acreditar nas histórias de tantos Amadises, nem nas de semelhante turbamulta de cavaleiros, como por aí nos contam que tem havido, nem é razäo que um homem como Vossa Mercê, täo honrado e de täo boas partes, e dotado de tanto entendimento, queira dizer que säo verdadeiras tais e täo estranhas loucuras, como as que estäo escritas nos disparatados livros de cavalaria. CAPïTULO L DAS DISCRETAS ALTERCAÇES QUE D. QUIXOTE E O C?NEGO TIVERAM, COM OUTROS SUCESSOS _ Boa vai ela _ respondeu D. Quixote _, os livros que estäo impressos com licença dos reis, e com aprovaçäo daqueles a quem se enviam, e que com gosto geral säo lidos e celebrados por grandes e pequenos, pobres e ricos, letrados e ignorantes, plebeus e cavaleiros, e, finalmente, por todo o género de pessoas de qualquer estado e condiçäo que sejam, haviam de ser mentirosos, tendo demais a mais tanta aparência de verdade, pois nos dizem quem foram os pais e as mäes, os parentes, e a pátria e a idade dos cavaleiros, e dia a dia minuciosamente as façanhas que praticaram, e o sítio onde as praticaram? Cale-se Vossa Mercê, näo diga semelhante blasfémia, e creia-me, que nisto lhe aconselho o que deve fazer como discreto; senäo, leia-os, e veja o prazer que a sua leitura lhe dá. Pois diga-me, há maior contentamento do que dizermos: aqui se nos mostra agora, como se o estivéssemos vendo, um grande lago a ferver em borbotöes, e a nadarem nesse lago serpentes, cobras e lagartos e outros muitos animais ferozes e espantosos, e sair do meio do lago uma voz tristíssima, que diz: «Quem quer que sejas, cavaleiro, que o temeroso lago estás mirando, se que- 484 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA rés alcançar o bem que debaixo destas negras águas se encobre, mostra o valor do teu forte peito, e arroja-te ao meio do negro e inflamado líquido; porque, se assim o näo fizeres, näo serás digno de ver as altas maravilhas que em si encerram e contêm os sete castelos das sete fadas, que debaixo desta negrura jazem»; e que, apenas o cavaleiro acaba de ouvir a voz, sem mais reflexöes, e sem considerar o perigo a que se arrisca, e até sem despir as fortes e pesadas armas, encomendando-se a Deus e à sua dama, se arroja ao meio do refervente lago, e quando mal se precata e mal sabe aonde irá parar, se encontra no meio de uns floridos campos, que deixam os Elísios a perder de vista? Ali lhe parece que é mais transparente o céu e que o Sol brilha com mais vívida luz; oferece-se-lhe aos olhos uma aprazível floresta, composta de viçosas e frondosas árvores, que lhe alegra a vista com o seu verdor, e lhe afaga os ouvidos com o doce e näo ensinado canto dos infinitos, pequenos, e matizados passarinhos, que volteiam na intrincada ramaria. Aqui descobre um arroio, cujas frescas águas, que parecem líquidos cristais, correm sobre ténues areias e brancas pedrinhas, que se assemelham a ouro em pó e a puríssimas pérolas. Acolá vê uma fonte artisticamente construída com mármore liso e pintalgado jaspe; outra mais adiante ordenada a brutesco, onde as conchinhas dos mariscos, e as retorcidas casas brancas e amarelas dos caracóis, engastadas em aparente mas bem disposta desordem, e mescladas com luzentes cristais e finíssimas esmeraldas, formam um variado lavor; de maneira que a Arte, imitando a Natureza, parece aqui vencê-la. Eis de súbito se lhe descobre um forte castelo ou um vistoso alcácer, cujas muralhas säo de ouro maciço, de diamantes as ameias, e as portas de jacintos, e, finalmente, de täo admirável arquitectura, que, apesar de serem diamantes, escarbúnculos, ouro, pérolas, rubins e esmeraldas, os materiais que o formam, ainda o feito é de mais estimaçäo; e, depois de ter visto tamanhas maravilhas, näo é dobrado encanto ver sair pela porta do castelo um grande número de donzelas, cujos trajos vistosos e gentis, se eu me pusesse agora a descrevê-los como as histórias os contam, me dariam largo assunto; e vir logo a principal de entre elas tomar pela mäo o ousado cavaleiro que 485 MIGUEL DE CERVANTES se arrojou ao lago fervente, e levá-lo, sem dizer palavra, para dentro do rico alcácer ou castelo, e despi-lo, e banhálo de tépidas águas, e depois ungi-lo com as mais preciosas essências, e vestir-lhe uma camisa de finíssimo cendal, toda rescendente e perfumada, e virem outras donzelas e deitaremlhe um manto aos ombros, manto que, pelo menos, costuma valer uma cidade? E quando em seguida nos contam, que, depois disto, o levam para outra sala, onde acha as mesas postas com tanto gosto, que ele fica suspenso e admirado? E deitarem-lhe às mãos água destilada de âmbar e de fragrantes flores? E fazerem-no sentar numa cadeira de marfim? E todas as donzelas a servirem-no, guardando maravilhoso silêncio? E trazerem-lhe tanta variedade de manjares, tão saborosamente guisados, que não sabe o apetite qual há-de escolher? E ouvir a música que soa enquanto ele come, sem imaginar de onde vem a voz e o mavioso acompanhamento? E, depois de acabada a comida e levantada a mesa, ficar o cavaleiro recostado na cadeira e talvez espalitando os dentes, como é costume, e entrar a desoras pela porta da sala outra donzela muito mais formosa do que nenhuma das primeiras, e sentar-se ao lado do cavaleiro, e começar a dar-lhe conta que castelo é aquele, e de como ela se acha ali encantada, com outras coisas que o suspendem, e enchem de admiração os que lêem a sua história? Não quero alargar-me mais nisto, pois daqui se pode coligir que qualquer parte que se leia de qualquer história de cavaleiro andante há-de causar gosto e maravilha a quem a ler; creia-me Vossa Mercê, e, como já lhe disse, leia estes livros, e verá como lhe desterram a melancolia, e lhe melhoram a condição, se acaso a tiver má. Eu de mim sei que, depois de me ter metido a cavaleiro andante, sou bravo, comedido, liberal, bem-criado, generoso, cortês, audaz, brando, paciente, sofredor de trabalhos, de prisões, de encantamentos, e ainda que há tão pouco tempo me vi metido dentro de uma jaula, como se fosse doido, espero, pelo valor do meu braço, ser dentro de poucos dias rei de algum reino, onde possa mostrar o liberal agradecimento que o meu peito encerra; que, por minha fé Senhor, está inabilitado o pobre de poder mostrar com pessoa alguma a virtude da generosidade, ainda que em sumo grau 486 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA a possua, e a gratidão, que só consiste no desejo, é coisa morta, como é morta a fé sem obras. Por isso quereria que a fortuna me oferecesse depressa alguma ocasião de ser imperador, para mostrar o meu ânimo, fazendo bem aos meus amigos, especialmente a este pobre Sancho Pança, meu escudeiro, que é o melhor homem do mundo, e quereria dar-lhe um condado que há muitos dias lhe trago prometido, mas receio que não tenha habilidade para governar o seu estado. Sancho, ouvindo estas últimas palavras, disse para seu amo: - Trabalhe Vossa Mercê por me dar esse condado, que há tanto tempo me promete, e eu espero, e lhe juro, que me não faltará habilidade para governá-lo; e, se faltar, tenho ouvido dizer que há homens no mundo que tomam de arrendamento os estados dos senhores, e lhes dão um tanto por ano, e tratam do governo, e os senhores verdadeiros estão de perna estendida, gozando a renda que lhes dão, sem se importarem com mais nada; e é o que eu hei-de fazer, e não hei-de reparar muito na quantia, mas desisto logo de tudo, e passo a gozar da minha renda como um duque, e os outros que lá se avenham. - Isso - disse o cónego - é bom quanto ao gozar a renda; mas no administrar da justiça há-de intervir o senhor do estado, e aqui é que são necessários o bom juízo e a habilidade, e principalmente a boa intenção de acertar, que, se esta for errada nos princípios, irão sempre errados os meios e os fins; e assim costuma Deus ajudar o bom desejo do simples e desfavorecer o mau do discreto. - Não sei lá dessas filosofias - respondeu Sancho Pança - mas o que sei é que, assim que apanhasse o condado, logo o saberia reger, que eu tenho tanta alma como outro qualquer, e tanto corpo como quem o tiver maior, e tão rei seria eu do meu estado como cada qual do seu, e sendo-o faria o que quisesse, e fazendo o que quisesse faria a minha vontade, e fazendo a minha vontade estaria contente, e uma pessoa, em estando contente, não tem mais que desejar, e não tendo mais que desejar, acabou-se, e venha o estado, e adeus, e vejamonos, como dizia um cego a outro. 487 MIGUEL DE CERVANTES - Não são más filosoas essas como tu dizes, Sancho - observou o cónego -, mas, apesar de tudo, há muito que dizer nesse assunto de condados. - Não sei que mais haja que dizer - replicou D. Quixote -; só me guio por muitos e diversos exemplos que poderia trazer, a propósito disto, de cavaleiros da minha profissão, que, correspondendo aos leais e assinalados serviços que dos seus escudeiros tinham recebido, lhes outorgaram notáveis mercês, fazendo-os senhores absolutos de cidades e ilhas; e houve tal que chegaram a tanto os seus merecimentos, que teve ideias de se fazer rei. Mas para que estou eu a gastar tempo com isto, oferecendo-me tão insigne exemplo o grande e nunca bem louvado Amadis de Gaula, que fez o seu escudeiro conde da ilha Firme, e assim posso eu, sem escrúpulo de consciência, fazer conde a Sancho Pança, que é um dos melhores escudeiros que nunca teve um cavaleiro andante? Ficou admirado o cónego dos acertados disparates (se em disparates pode haver acerto) que D. Quixote dissera, do modo como pintara a aventura do cavaleiro do lago, da impressão que lhe tinham feito as desvariadas fábulas dos livros que lera, e, finalmente, pasmava da necedade de Sancho que, com tanto afinco desejava alcançar o condado que seu amo lhe prometera. Já nisto voltavam os criados do cónego, que tinham ido à venda buscar a azêmola do repasto, e, fazendo mesa de um tabuleiro da verde relva do prado, sentaram-se à sombra de umas árvores, e jantaram ali, para que o carreiro não desaproveitasse a amenidade daquele sítio, como já fica dito. E, mal começaram a jantar, ouviram barulho, e o som de uma campainha, que vibrava de dentro de umas sarças e densas matas que cavam perto, e no mesmo instante viram sair da espessura uma cabra, malhada de negro, branco e pardo; e atrás dela vinha um cabreiro, dando-lhe brados, e dizendo-lhe palavras meigas, para que se detivesse ou voltasse para o rebanho. A cabra fugitiva, temerosa e espavorida, veio para a gente que ali estava, como a pedir-lhe favor, e parou. Chegou o cabreiro, e, agarrando-lhe nas pontas, como se ela fosse capaz de entendimento e de discorrer, disse-lhe: 488 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA -Ah! serrana, serrana; malhada, malhada; porque foges tu? Que lobos te espantam, filha? Não me dirás que e isto, linda? Mas que pode ser, senão que és fêmea, e não podes estar sossegada? Mal haja a tua condição e a de todas aquelas a quem imitas. Volta, volta, amiga, que, se não estiveres tão satisfeita, pelo menos estarás segura no teu aprisco ou com as tuas companheiras, que, se tu, que as hás-de guiar e encaminhar, andas tão desencaminhada e tão sem juízo, onde pararão elas? Deram contentamento as palavras do cabreiro aos que as ouviram, especialmente ao cónego, que lhe disse: - Sossegai um pouco, irmão, por vida vossa, e não vos azafameis a fazer voltar tão depressa a cabra para o rebanho, que, se ela é fêmea, como dizeis, há-de seguir o seu natural instinto, por muito que vos ponhais a estorvá-la. Tomai este bocado, e bebei uma vez de vinho, com que abrandareis a cólera, e, entretanto, a cabra descansará. E, ao dizer isto, estendeu-lhe na faca uma perna de coelho. O homem recebeu-a, agradeceu, bebeu, sossegou e disse: - Não queria que, por eu ter falado tanto a sério com este animal, me tivessem Vossas Mercês por homem parvo, que em verdade não deixam de ter o seu mistério as palavras que lhe eu disse. Sou rústico, mas não tanto que não entenda como se há-de tratar com os homens e com os brutos. - Isso acredito eu - disse o cura - que já sei, por experiência, que os montes criam letrados, e que as cabanas dos pastores encerram filósofos. - Pelo menos Senhor - acudiu o cabreiro -, acolhem homens escarmentados; e, para que acrediteis esta verdade, e lhe toqueis com a mão, ainda que pareça que, sem ser rogado, me convido, se vos não enfadais, e quereis Senhores, atender-me um breve espaço, contar-vos-ei uma verdade que prove a minha, e o que aquele senhor disse (apontando para o cura). E a isto respondeu D. Quixote: - Como vejo que este caso tem umas sombras de aventura de cavalaria, eu, pela minha parte, vos ouvirei, irmão, com muito boa vontade, e da mesma forma todos estes Senhores, pelo muito 489 MIGUEL DE CERVANTES que têm de discretos, e de serem amigos de curiosas novidades, que suspendam, alegrem, e entretenham os sentidos, como penso, sem dúvida, que há-de fazer o vosso conto. - Eu ponho-me de fora - disse Sancho - que vou com esta empada para a beira daquele regato, onde tenciono fartar-me por três dias, porque tenho ouvido dizer ao meu Sr. D. Quixote que um escudeiro de cavaleiro andante deve comer quando se lhe oferecer ocasião, até não poder mais, porque, às vezes, tem de se meter por uma selva tão intrincada, que não podem sair dela nem em seis dias, e se um homem não vai farto, ou de alforges bem fornecidos, ali poderá ficar, como muitas vezes fica, mudado em esqueleto. - Tens razão, Sancho - disse D. Quixote -, vai aonde quiseres, e come o que puderes, que eu já estou satisfeito, e só me falta dar à alma a sua refeição, como lha darei, escutando o conto deste bom homem. - E o mesmo faremos nós - disse o cónego. E logo pediu ao cabreiro que principiasse. O cabreiro deu duas palmadas no lombo da cabra, que segurava pêlos chifres, dizendo-lhe: - Recosta-te junto de mim, malhada, que temos tempo de sobra. Parece que a cabra o entendeu, porque apenas ele se sentou, estirou-se-lhe ao lado, com muito sossego, e, olhando-lhe para a cara, parecia estar atenta ao que ia dizendo o cabreiro, que principiou a sua história desta maneira: CAPÍTULO LI QUE TRATA DO QUE CONTOU O CABREIRO A TODOS OS QUE LEVAVAM D. QUIXOTE - A três léguas deste vale fica uma aldeia, que, apesar de pequena, é uma das mais ricas que há por todos estes contornos, e onde havia um lavrador muito estimado, e tanto que, apesar de andar a estimação quase sempre anexa à riqueza, mais 490 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA o era ele pela virtude que tinha, que pela opulência que alcançara. Mas o que o fazia mais ditoso, segundo dizia, era ter uma filha de tão estremada formosura, rara discrição, donaire e virtude, que aquele que a conhecia e contemplava se admirava de ver os dons opimos com que o Céu e a Natureza a tinham enriquecido. Sendo menina, já era formosa, e sempre fo crescendo em beleza, até que, na idade de dezasseis anos, chegou a ser formosíssima, A fama do seu gentil aspecto principiou-se a estender por todas as aldeias circunvizinhas: que digo? Mais ainda, chegou às remotas cidades, e entrou até pelas salas dos reis, e pêlos ouvidos de toda a casta de gente, que de todas as partes a vinham ver como coisa rara ou como imagem maravilhosa. Guardava-a seu pai, e guardava-se ela a si, que não há cadeados, guardas, nem fechaduras, que defendam melhor uma donzea, que as do próprio recato. A riqueza do pai e a formosura da filha moveram muitos, tanto da povoaço como forasteiros, a que a pedissem em casamento; mas o pai, como pessoa a quem tocava dispor de tão rica jóia, andava confuso, sem saber resolver-se a qual a entregaria dos infinitos que o importunavam; e, entre os muitos que tão bom desejo tinham, um fui eu, a quem deram muitas e grandes esperanças de bom êxito, o ver que o pai sabia quem eu era, o ser natural da mesma aldeia, de sangue limpo e de idade florescente, de cabedais avultados, e dotado de certo engenho. Com estas mesmas partes a pediu também outro do mesmo lugar, que foi causa de se suspender e hesitar a vontade do pai, a quem parecia que em qualquer de nós estava sua filha bem empregada; e, para sair desta confusão, resolveu dizê-lo a Leandra (assim se chama a opulenta, que em tanta miséria me tem posto), advertindo que, visto sermos ambos guais, era bom deixar à vontade de sua querida filha o escolher a seu gosto; coisa digna de ser imitada por todos os pais que querem casar suas filhas. Não digo que lhes deixem escolher pessoas más e ruins, mas que lhas proponham boas, e entre essas que escolham a seu gosto. Não sei qual foi o de Leandra; só sei que o pai nos foi entretendo a ambos, falando-nos na pouca idade de sua filha e com generalidades, que nem o obrigavam, nem nos desobrigavam a nós. Chama-se o meu 491 MIGUEL DE CERVANTES competidor Anselmo, e eu chamo-me Eugênio, e digo-vos isto para que tenhais conhecimento dos nomes das personagens que entram nesta tragédia, cujo fim ainda está pendente, mas que bem se deixa ver que há-de ser desastroso. Por este tempo, veio ao nosso pvoado um tal Vicente de Ia Rosa, filho de um pobre lavrador do mesmo lugar, e que estivera servindo como soldado por essas Itálias e outras várias partes. Levou-o da nossa terra, sendo criança de menos de doze anos um capitão que, com a sua companhia, por ali passou, e voltou o moço dali a outros doze anos, vestido à militar, matizado de mil cores, cheio de mil dixes de cristal e subtis cadeias de aço. Hoje punha uma gala e amanhã outra; mas todas falsas e leves, de pouco peso e menor valor. A gente lavradora, que é de si maliciosa, e, dando-lhe o ócio lugar, é a própria malícia, reparou nisso, contou minuciosamente as suas galas e donaires, e notou que os fatos eram só três, de cores diferentes, com as suas ligas e meias, mas ele por tal forma os combinava, que, se os não contassem, havia de haver quem jurasse que eram mais de dez trajes diversos, e mais de vinte plumas, e não pareça impertinência e prolixidade isto que dos vestuários narrei, porque representam grande papel nesta história. Sentava-se num banco de pedra, que ca debaixo de um grande álamo, na nossa praça, e ali nos tinha todos de boca aberta, suspensos das façanhas que ia contando. Não havia terra em todo o orbe que não tivesse visto, nem batalha em que se não houvesse achado; matara mais mouros do que há em Marrocos e em Tunes, e entrara em mais duelos do que Luna e Gand, Diogo Garcia de Paredes, e outros mil que nomeava, e de todos saíra vencedor, sem que lhe houvessem tirado nem uma gota de sangue. Por outro lado, mostrava cicatrizes, que, apesar de se não descobrirem, dizia ele que eram de arcabuzadas recebidas em vários recontros e acções. Finalmente, com arrogância nunca vista, tratava por vós os seus iguais e os próprios que o conheciam, e dizia que o seu pai era o seu braço, a sua linhagem as suas obras, e que, sendo soldado, não ficava a dever nada ao próprio rei. Além destas fumaças, era um pouco músico, tocava guitarra com desembaraço, de modo que diziam alguns que a fazia falar; mas não paravam aqui as 492 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA suas prendas, que também era poeta, e de qualquer puerilidade fazia um romance de légua e mea. Este soldado, pois, que eu aqui pintei este Vicente de Ia Rosa este bravo, este galã, este músico, este poeta, foi visto e contemplado muitas vezes por Leandra, de uma janela que deitava para a praça. Enlevouse no donzel, nos seus vistosos trajes; encantaram-na os seus romances, que de cada um que compunha, dava ele mil cópias; chegaram aos seus ouvidos as façanhas que de si próprio referira; e, finalmente, que assim o Diabo o determinara veio a namorar-se dele e ainda antes de ele pensar em solicitá-la. E como nos casos de amor no há nenhum que com mais facilidade se cumpra, do que aquele que tem pela sua parte o desejo da dama, com facilidade se combinaram Leandra e Vicente; e, antes que nenhum dos seus muitos pretendentes desse notícia do seu desejo, já ela o cumprira, tendo deixado a casa de seu extremoso pai, porque era órfã de mãe, e, ausentando-se da aldeia com o soldado que mais triunfara nesta empresa do que em todas as outras muitas de que se vangloriava. Admirou-se toda a aldeia de tão estranho caso, e não só a aldeia, mas todos os que dele tiveram conhecimento; eu quei suspenso, Anselmo atónito, o pai triste, os parentes afrontados, a justiça solícita, os quadrilheiros alerta; tomaram-se os caminhos esquadrinharamse os bosques e tudo quanto havia, e, ao cabo de três dias, foram encontrar Leandra numa caverna de um monte, em camisa, sem os muitos dinheiros e as preciosíssimas jóias que de sua casa levara. Trouxeram-na à presença do aflito pai perguntaram-lhe pela sua desgraça, confessou, sem pressão, que Vicente de Ia Rosa a enganara, e debaixo da palavra de ser seu esposo, lhe persuadiu que deixasse a casa de seu pai, que ele a levaria à mais rica e esplêndida cidade que havia no mundo, que era Nápoles; que ela, mal-avisada e ainda pior enganada, o acreditara e, roubando seu pai, fugiu com o fanfarrão; e que ele a levou a um áspero monte, e a encerrou na caverna em que a tinham achado. Também disse que Vicente, sem lhe tirar a sua honra, lhe roubou tudo quanto tinha, e a deixou naquela caverna e se foi embora: sucesso que de novo causou espanto a todos. Difícil foi de acreditar a continência do moço; mas ela tão 493 MIGUEL DE CERVANTES deveras o afirmou, que, afinal, o aflito pai se foi consolando, não fazendo caso das riquezas que lhe levaram, desde o momento que tinham deixado a sua filha, a jóia, que, em se perdendo, não há esperança de que nunca mais se recupere. No mesmo dia em que apareceu Leandra, sumiu-a seu pai, e foi encerrá-la num mosteiro de uma vila aqui perto, esperando que o tempo ern parte desfaça a má fama com que sua filha ficou. Os poucos anos de Leandra serviram de desculpa ao seu erro, pelo menos para aqueles que nenhum interesse tinham em que ela fosse má ou boa, mas os que conheciam a sua discrição e muito entendimento não atribuíram a ignorância ao seu pecado, mas à sua desenvoltura e natural inclinação das mulheres, que costuma ser em geral desatinada e descomposta. Enclausurada Leandra, ficaram cegos os olhos de Anselmo, ou pelo menos sem terem objecto que mirar que lhes desse contentamento; os meus em trevas, sem luz que para coisa de gosto os encaminhasse. Com a ausência de Leandra, crescia a nossa tristeza, apoucava-se a nossa paciência, maldizíamos das galas do soldado, e abominávamos o pouco recato do pai da donzela. Finalmente, Anselmo e eu combinámos deixar a aldeia, e vir para este vale, onde ele, apascentando uma grande quantidade de ovelhas que lhe pertencem, e eu um numeroso rebanho de cabras também minhas, passamos a vida entre as árvores, desabafando as nossas mágoas, ou cantando juntos, ora os louvores, ora os vitupérios da formosa Leandra, ou suspirando a sós, comunicando ao Céu sentidas queixas. A nosso exemplo, vieram para estes ásperos montes muitos outros dos pretendentes de Leandra, fazendo o mesmo que nós fazemos, e são tantos, que parece que este sítio se converteu na pastoril Arcádia, por tal forma está cheio de pastores e de apriscos, e não há aqui um recanto em que se não ouça o nome da formosa Leandra. Este a maldiz, chamando-lhe caprichosa, vária e desonesta; aquele a condena como leviana e fácil; há tal que a absolve e lhe perdoa, ou que a justica e vitupera; um celebra a sua formosura, outro renega da sua condição, e, enfim, todos a infamam e todos a adoram, e essa loucura a tanto se estende, que há quem se queixe dos seus desdéns, sem nunca lhe ter falado, e até quem se 494 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA l. ,! lamente e snta a furiosa enfermidade dos zelos, que ela nunca a ninguém causou porque, segundo eu já disse, soube-se do ; seu pecado, antes de se saber do seu desejo. Não há concavidades de rochedos, margens de arroio, ou sombras de árvores que não esteam ocupadas por pastores que refiram aos ventos as suas desventuras; o eco, em todos os pontos em que pode formar-se, repete o nome de Leandra; Leandra, ressoam os montes; Leandra, mumuram os regatos, e Leandra a todos nos tem suspensos e encantados, esperando sem esperança, e temendo sem saber o que tememos. Entre todos estes insensatos, o que se mostra a um tempo mais avisado e mais louco é o meu rival Anselmo, que, tendo tantas outras coisas de que se queixar, s se queixa de ausência, e, ao som de um arrabil, que toca admiravelmente, com versos que mostram o seu engenho, a cantar se vai lamentando. Eu sigo outro caminho mais fácil e no meu parecer mais acertado, que é dizer mal da leviandade das mulheres, da sua inconstância, da sua dobiez, das suas promessas descumpridas, de sua fé quebrantada, e, finalmente do pouco discorrer com que empregam os seus pensamentos e inclinações; e foi este o motivo Senhores, das palavras e raões que disse a esta cabra, quando aqui cheguei, que, por ser fêmea, pouco a prezo, apesar de ser a melhor do meu rebanho. É esta a histria que prometi contar-vos. Se fui prolixo em narrá-la, não o serei menos em servir-vos; perto daqui tenho a minha choça, e nela fresco leite e saborosssimo queijo, variadas e maduras frutas que não são menos agradáveis à vista que ao paladar. CAPÍTULO L DA ENDÊNCIA QUE TEVE D. QUIXOTE COM O CABREIRO, COM A RARA AVENTURA DOS PENITENTES, A QUE FELIZMENTE DEU FIM À CUSTA DO SEU SUOR Causou prazer geral o conto do cabreiro a todos os que o tinham escutado. Com prazer mais especial o acolheu o cónego, 495 MIGUEL DE CERVANTES que notou com estranheza e curiosidade o modo como ele o contara, menos de cabreiro rústico, do que de discreto cortesão; e observou que acertara o cura dizendo que os montes criavam letrados. Todos ofereceram os seus serviços a Eugênio, mas quem se mostrou mais liberal foi D. Quixote, que lhe disse: - Decerto, cabrero mano, que, se eu me não achasse impossibilitado de poder encetar qualquer aventura, logo me poria a caminho para vos fazer feliz, indo arrancar Leandra do mosteiro (onde, sem dúvida, deve estar contra sua vontade), apesar da abadessa e de quantos quisessem estorválo, e pô-laia nas vossas mãos, para que dela fizésseis o que vos aprouvesse, guardando, porém, as leis da cavalaria, que ordenam que a nenhuma donzela se faça desaguisado algum, ainda que espero em Deus Nosso Senhor que não há-de poder tanto a força de um malicioso nigromante, que a não vença a de outro muito melhor intencionado, e, para então, vos prometo favor e ajuda, que a isso me obriga a minha profissão, que não é outra senão socorrer os desvalidos e necessitados. Olhou para ele o cabreiro, e vendo a triste figura de D. Quixote, admirou-se, e perguntou ao barbeiro que estava ao pé dele: - Senhor, quem é este homem, que tem semelhante catadura e de tal modo fala? - Quem há-de ser - respondeu o barbeiro - senão o famoso D. Quixote de Ia Mancha, que desfaz agravos, e é o amparo das donzelas, o assombro dos gigantes, e o vencedor das batalhas? - Isso assemelha-se - respondeu o cabreiro - ao que se lê nos livros dos cavaleiros andantes, que faziam tudo o que deste homem Vossa Mercê me diz, ainda que tenho para mim, ou que Vossa Mercê zomba, ou que este fidalgo tem aduela de menos. - Sois um grandíssmo velhaco - bradou D. Quixote - e vós é que tendes míngua de miolos, que eu tenho mais do que nunca teve nem há-de ter a vossa patifa geração. E, faendo seguir às paavras as obras, ferrou com um pão na cara do cabreiro, com tamanha fúria, que lhe esmurrou o nariz; mas o homem, que não era para graças, vendo que assim 496 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA o maltratavam sem respeitar nem os que jantavam nem a improvisada mesa, saltou em cima de D. Quixote, e, agarrandose- lhe ao pescoço com ambas as mãos, sem dúvida alguma o afogava, se Sancho Pança, acudindo, o não segurasse pêlos ombros e o não fizesse cair de costas em cima da mesa, quebrando pratos e copos, e espalhando e entornando vinhos e manjares. D. Quixote apenas se viu livre, saltou no cabreiro que, com o rosto cheio de sangue, moído com socos e pontapés de Sancho, procurava, de gatinhas, alguma faca para tirar sanguinolenta vingança; mas estorvaram-lho o cónego e o cura, e o barbeiro arranjou as coisas de modo que pôde Eugênio meter D. Quixote debaixo de si, fazendo chover sobre ele tantos murros, que, do rosto do pobre cavaleiro pingava tanto sangue como do seu. Rebentavam de riso o cónego e o cura, davam pulos de contentamento os quadrilheiros, e uns e outros açulavam os combatentes, como se faz aos cães; só Sancho Pança se desesperava, porque se não podia descartar de um criado do cónego que o impedia de ajudar seu amo. Enfim, estando todos em regozijo e festa, menos os dois que se desancavam e se carpiam, ouviram o som de uma trombeta tão triste, que lhes fez voltar as vistas para o sítio de onde lhes pareceu que soava; mas, quem se alvoroçou ao ouvi-lo foi D. Quixote que apesar de estar debaixo do cabreiro muito constrangido e derreado lhe disse: - Demónio mano, que outra coisa não podes ser, pois que tiveste valor e forças para subjugar as minhas, rogo-te que façamos tréguas só por uma hora, porque o plangente som daquela trombeta, que aos nossos ouvidos chega, parece-me que me chama a alguma nova aventura. O cabreiro, que já estava cansado de moer e de ser moído largou-o logo, e D. Quixote pôs-se de pé voltando o rosto para o sítio de onde vinha o som, e viu que por uma encosta desciam muitos homens, vestidos de branco e negro, à moda dos penitentes. E era o caso que, naquele ano, tinham as nuvens negado à terra o seu benfazejo orvalho, e por todos os lugares daquela comarca se faziam procissões, preces e penitências, pedindo a Deus que abrisse as mãos da Sua misericórdia e lhes desse chu- 497 MIGUEL DE CERVANTES vá; e, para isso, a gente da próxima aldeia vinha em procissão a uma devota ermida, que havia na encosta do vale. D. Quixote, que viu os estranhos trajes dos penitentes, sem lhe passarem pela memória as muitas vezes que os havia de ter visto, maginou que era coisa de aventura, e que a ele só tocava, como a cavaleiro andante, o tentá-la; e mais o confirmou nesta fantasia pensar que uma imagem que traziam, coberta de luto, seria alguma dama principal, que levavam à viva força aqueles refeces e desleais malandrins. E, apenas isto lhe entrou no pensamento, arremeteu com grande ligeireza a Rocinante, que andava pastando, enfreou-o num momento, montou a cavalo, embraçou o escudo, pediu a Sancho a espada, e disse em voz alta a todos os que estavam presentes: - Agora, valorosa companhia, vereis quanto importa que haja no mundo quem professe a ordem da cavalaria andante; agora digo que vereis na liberdade daquela boa senhora que ali vai cativa, se se hão-de ou não estimar os andantes cavaleiros. E, dizendo isto, aperta os ilhais a Rocinante, que esporas não as tinha, e vai a todo o trote (porque lá galopada não se lê em toda esta verdadeira história que Rocinante a desse uma vez só) encontrar-se com os penitentes; e ainda que o cura, o barbeiro e o cónego correram a detê-lo, já lhes não foi possível, e menos ainda o detiveram os brados que Sancho dava, dizendo: - Aonde vai, Sr. D. Quixote? Que demónios leva no peito, que o incitam a ir contra a nossa fé católca? Repare, mal haja eu, que essa procissão é de penitentes, e que aquela senhora que levam na peanha é a imagem bendita de Virgem Imaculada; veja o que faz Senhor, que desta vez se pode dizer que não é o que sabe. Debalde se fatigou Sancho, porque D. Quixote ia tão ansioso de chegar aos embiocados, e de livrar a senhora enlutada, que não ouviu uma palavra só, e ainda que a ouvisse, de nada serviria, porque não tornava atrás nem que lho mandasse elrei. Chegou, pois, à procissão, e sofreou Rocinante, que já ia com vontade de descansar o seu pedaço, e com voz turbada e rouca disse: 498 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA - Vós outros, que talvez por não serdes bons, encobris os rostos, atendei e escutai o que dizer-vos quero. Os primeiros que se detiveram foram os que levavam a imagem, e um dos quatro clérigos que cantavam as ladainhas, vendo a estranha catadura de D. Quixote, a magreza de Rocinante, e outras circunstâncias que descobriu no cavaleiro, e que moviam a riso, respondeu dizendo: - Irmão e Senhor, se nos quer dizer alguma coisa diga-a depressa, porque vão estes nossos irmãos penitentes flagelando as carnes, e não podemos, nem é de razão, que nos detenhamos a ouvir coisa alguma, a não ser tão breve que em duas palavras se diga. - Di-la-ei numa só - replicou D. Quixote - e é a seguinte: que deixeis livre imediatamente essa formosa senhora, cujas lágrimas e triste semblante dão claras mostras de que a levais contra sua vontade, e que algum notório desaguisado lhe tereis feito; e eu, que vim ao mundo para desfazer semelhantes agravos, não consentirei que avanceis nem mais um passo, sem lhe dardes a desejada liberdade que merece. Por estas razões, entenderam todos os que as ouviram que D. Quixote havia de ser louco, e desataram a rir com vontade. Esse riso foi o mesmo que deitar pólvora na cólera de D. Quixote, porque, sem dizer mais palavra, arrancando da espada, arremeteu ao andor. Um dos que o levavam, deixando a carga aos seus companheiros, saiu ao encontro de D. Quixote, arvorando uma forquilha ou bordão, em que assentava o andor nos descansos, e, aparando com ele uma grande cutilada que lhe atirou D. Quixote, e que lho fez em dois pedaços, com o troço que lhe ficou desfechou tamanha bordoada no ombro de D. Quixote do lado oposto ao do escudo, que, não podendo apará-la, o pobre cavaleiro caiu no chão em muito maus lençóis. Sancho Pança, que todo esbofado viera correndo atrás de seu amo, bradou ao desancador que lhe não desse mais bordoada, porque era um pobre cavaleiro encantado, que nunca na sua vida fizera mal a ninguém. Mas o que deteve o vilão não foram os brados de Sancho, foi ver que D. Quixote não bulia 499 MIGUEL DE CERVANTES nem mão nem pé; e, assim, julgando que o matara, a toda a pressa arregaçou a túnica até à cintura, e largou a correr pela campina, que nem um gamo. Nisto, chegaram todos os da companhia de D. Quixote; mas os da procissão, que os viram vir correndo, e, com eles, os quadrilheiros armados, recearam algum desatino, agruparam-se em tomo da imagem, e, levantando os capuzes, empunhando os penitentes as disciplinas, e os clérigos os tocheiros, esperaram o assalto, resolvidos a defender-se, e até, se pudessem, a ofender os seus agressores; mas a fortuna tudo fez pelo melhor, porque Sancho não pensou em outra coisa senão em atirar-se para cima do corpo de seu amo, supondo que estava morto, e fazendo sobre ele o mais doloroso e divertido pranto deste mundo. O cura foi conhecido pelo seu colega, que ia na procissão, e este conhecimento bastou para dissipar todos os sustos. O primeiro cura deu conta ao segundo, em breves palavras, de quem era D. Quixote; e tanto ele, como toda a turba de penitentes, foram ver se o pobre cavaleiro estava morto, e ouviram que Sancho Pança dizia com as lágrimas nos olhos: - Ó flor da cavalaria! Que só com uma paulada acabaste a carreira dos teus anos, tão bem empregados! Ó honra da tua linhagem, glória e maravilha da Mancha, e até de todo o mundo, que, faltando-lhe tu, ficará cheio de malfeitores, sem receio de serem castigados pelas suas malfeitorias! Ó tu, mais liberal que todos os Alexandres, pois só por oito meses de serviço me tinhas dado a melhor ilha que o mar cinge e rodeia! Ó humilde com os soberbos, e arrogante com os humildes, afrontador de perigos, sofredor de injúrias, namorado sem causa, incitador dos bons, açoite dos maus, inimigo dos ruins, enfim, cavaleiro andante, que é o mais que se pode dizer! Com os brados e gemidos de Sancho, reanimou-se D. Quixote, e as primeiras palavras que disse, foram: - Quem de vós está ausente, dulcíssima Dulcineia, a maiores misérias do que estas anda sujeito. Ajuda-me, Sancho amigo, a meter-me no carro do encantamento/ que não estou para oprimir a sela de Rocinante, porque tenho este ombro todo alanhado. 500 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA - Isso farei com muito boa vontade, meu Senhor - respondeu Sancho -, e voltemos à minha aldeia, em companhia destes Senhores, que só desejam o seu bem, e ali daremos ordem a nova saída, que nos dê mais proveito e fama. - Falas com acerto, Sancho - respondeu D. Quixote -, e será grande prudência deixar passar o mau influxo das estrelas, que vai correndo agora. O cónego, o cura e o barbeiro afirmaram-lhe que procederia muito bem fazendo o que dizia; e assim, tendo-se divertido muito com as simplicidades de Sancho Pança, meteram D. Quixote no carro, como antes vinha; a procissão voltou a ordenar-se e a prosseguir no seu caminho; o cabreiro despediu-se de todos; os quadrilheiros não quiseram ir mais adiante; o cónego pediu ao cura que lhe desse parte do que sucedia a D. Quixote, se sarava da sua doidice, ou se prosseguia com ela, e com isso pediu licença de seguir a sua viagem. Enfim, todos se dividiram e apartaram, ficando só o cura e o barbeiro, e D. Quixote e Sancho Pança e o bom do Rocinante, que, em tudo isto, não mostrara menos paciência do que o seu dono. O carreiro jungiu os bois, e acomodou D. Quixote em cima de um molho de feno, e, com a sua costumada fleuma, seguiu o caminho que o cura quis, e ao cabo de seis jornadas chegaram à sua aldeia, onde entraram no pino do dia, que aconteceu ser domingo, e estava toda a gente na praça, por meio da qual atravessou o carro de D. Quixote. Acudiram todos a ver o que ali vinha, e, quando conheceram o seu compatriota, ficaram maravilhados, e um rapaz foi logo correndo dar à ama e à sobrinha a notícia de que o seu tio e patrão vinha magro e amarelo, em cima de um molho de feno, dentro de um carro de bois. Foi grande lástima ouvir os gritos que as duas pobres senhoras soltaram, as bofetadas que deram nas faces, e as maldiçes com que de novo fulminaram os endiabrados livros de cavalaria, o que tudo se renovou quando viram entrar D. Quixote pela porta dentro. Às novas da vinda do fidalgo, acudiu a mulher de Sancho Pança que já sabia que seu marido fora com ele servindo-lhe de escudeiro, e, assim que viu Sancho, a primeira 501 MIGUEL DE CERVANTES coisa que lhe perguntou foi se o burro vinha bom. Sancho respondeu que vinha melhor que o dono. - Louvado seja Deus - redarguiu ela - que tanto bem me tem feito; mas conta-me agora, que lucraste com as tuas escudeirices? Que saiote me trazes? Que sapatos para teus filhos? - Não trago nada disso, mulher - disse Sancho -, mas trago coisas de mais considerações e valor. - Muito me apraz o que dizes - tomou a mulher -; mostra-me essas coisas de mais consideração e valor, para que se me alegre este coraço, que tão triste e desconsolado esteve sempre durante os séculos da tua ausência. - Em casa tas mostro, mulher - disse Pança -, e por agora sossega, que, sendo Deus servido que outra vez saiamos de viagem, à cata de aventuras, ver-me-ás bem depressa conde, ou governador de uma ilha, e não das que por aí há, mas das melhores que se possam encontrar. - Deus o queira marido, que bem o precisamos. Mas diz-me o que vem a ser isso de ilhas, que eu não entendo. - Não é o mel para a boca do asno - respondeu Sancho -; a seu tempo o verás, mulher, e então pasmarás de ouvir todos os teus vassalos a darem-te senhoria. - Que é o que dizes, Sancho, de senhorias, ilhas e vassalos? - respondeu Joana Pança, que assim se chamava a mulher de Sancho, apesar de não serem parentes, mas porque é costume na Mancha tomarem as mulheres o apelido dos maridos. - Não queiras saber tudo tão depressa, Joana; basta conheceres que eu digo a verdade, e dá um ponto na boca: só te direi, assm de passagem, que não há coisa mais saborosa neste mundo do que ser um homem honrado, escudeiro de um cavaleiro andante, que sai à cata de aventuras. E bem verdade que a maior parte das que se acham não vêm tanto ao nosso gosto, como uma pessoa quereria, porque, de cem que se encontram, noventa e nove costumam ser avessas e torcidas. Sei-o eu por experiência, porque de algumas saí manteado, e de outras moído; mas, com tudo isso, é linda coisa esperar os acontecimentos, atraves- 502 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA sando montes, esquadrinhando selvas, calcando penhas, visitando castelos, pousando em estalagens, à discrição, sem pagar um maravedi só que seja. Todas estas práticas se passaram entre Sancho Pança e Joana Pança, sua mulher, enquanto a ama e a sobrinha de D. Quixote o receberam, e o despiram, e o meteram na sua antiga cama. Olhava-as ele de revés, e não podia perceber onde é que estava. O cura disse à sobrinha que tivesse todo o desvelo com seu tio, e o amimasse bem e que estivessem alerta para que outra vez se lhes não escapasse contando o que fora mister para o trazer para casa. Aqui levantaram ambas de novo brados ao Céu ali se renovaram as maldições aos livros de cavalaria, ali pediram a Deus que confundisse, no centro do abismo, os autores de tantas mentiras e disparates. Finalmente, ficaram confusas e receosas de se verem outra vez sem seu amo e tio, assim que ele se sentisse melhor, e assim aconteceu como elas imaginavam. Mas o autor desta história, apesar de ter procurado com diligência e curiosidade os feitos que praticou D. Quixote na sua terceira saída, não pôde achar notícia deles, pelo menos por escritores autênticos; só a fama guardou, nas memórias da Mancha, que D. Quixote, a terceira vez que saiu de sua casa, foi a Saragoça, onde se achou numas famosas justas que naquela cidade se fizeram e ali lhe aconteceram coisas dignas do seu valor e bom engenho. Nem do seu fim e acabamento alcançaria ou saberia coisa alguma, se a sua boa sorte lhe não houvesse deparado um médico antigo, que tinha em seu poder uma caixa de chumbo, que, segundo ele disse, se achara no derrocado cimento de uma velha ermida que se renovara: nessa caixa se tinham encontrado uns pergaminhos, escritos em letras góticas, mas com versos castelhanos, que continham muitas das suas façanhas, e davam notícia da formosa Dulcineia dei Toboso, da figura de Rocinante, da fidelidade de Sancho Pança e da sepultura do próprio D. Quixote, co diferentes epitáfios e elogios da sua vida e costumes, e os que se puderam ler e tirar a limpo foram os que aqui põe o fidedigno autor desta nova e nunca vista história. O qual autor não pede aos que a lerem, em prémio do imenso trabalho que lhe custou investigar e revolver todos 503 MIGUEL DE CERVANTES os arquivos manchegos, para a dar à luz, senão que lhe dêem o mesmo crédito que costumam dar aos livros de cavalaria, que tão benquistos são por esse mundo; que com isso se dará por bem pago e satisfeito, e se animará a procurar e a dar à luz outras, senão tão verdadeiras, pelo menos de igual invenção e recreio. As primeiras palavras que estavam escritas no pergaminho, que se encontrou dentro da caixa de chumbo, eram estas: Os ACADÉMICOS DE ARGAMASILLA, LUGAR DA MANCHA, SOBRE A VIDA E MORTE DO VALOROSO D. QUIXOTE DE LA MANCHA HOC SCRIPSERUNT O Monicongo, académico de Argamasilia, à sepultura de D. Quixote EPITÁFIO O tresloucado que adornou a Mancha de mais despojos que Jasão de Creta; o juízo, que teve a grimpa inquieta bicuda, quando fora melhor ancha; o abraço que a sua força tanto ensancha, que chegou do Catai até Gaeta a Musa mais horrenda e mais discreta que versos foi gravar em brônzea prancha; quem bem longe deixou os Amadises, e em pouco os Galaores avaliou, estribado no amor, na bizarria: quem soube impor silêncio aos Belianises, quem, montado em Rocinante, vagueou, jaz morto, enfim, sob esta lousa fria. Do Apaniguado, académico de Argamasilla, in laude Dulcineae dei Toboso 504 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA Esta que vês de rosto amondongado, alta de peitos, e adea brioso, é Dulcineia, rainha dei Toboso, de quem esteve o grão Quixote enamorado. Pisou por ela um e o outro lado da grande serra Negra, e o bem famoso campo de Montiel, e o chão relvoso de Aranjuez, a pé e fatigado. Culpa de Rocinante! Ó dura estrela! Que esta manchega dama, e este invicto andante cavaleiro, em tenros anos ela deixou, morrendo, de ser bela, ele, ainda que em mármores inscrito, no evitou o amor iras e enganos. Do Caprichoso, discretíssimo académico de Argamasilia, em louvor de Rocinante, cavalo de D. Quixote de Ia Mancha SONETO No alto e soberbo trono diamantino, que com sangrentas plantas pisa Marte, o manchego frenético o estandarte tremula, com esforço peregrino. Pendura as armas e o aço fino com que assola, destroça, racha e parte! Novas proezas! mas inventa a arte um novo estilo ao novo paladino. Se do seu Amadis se orgulha a Gaula, por cuja prol a Grécia gloriosa mil vezes triunfou, e a fama ensancha; MIGUEL DE CERVANTES cinge a Quixote um diadema a aula a que preside a deusa belicosa, e orgulha-se dele a altiva Mancha. Nunca as suas glórias o olvido mancha, pois que até Rocinante em ser galhardo excede a Briliador, vence a Bayard. Do Burlador, académico argamasillesco, a Sancho Pança SONETO Pobre de corpo, de bravura rico, Sancho Pança aqui jaz: é coisa estranha! Escudeiro mais simples, mais sem mancha, não teve o mundo, juro e certifico! Pra ser conde faltou-lhe só um nico, se não conspira contra ele a sanha desta idade mesquinha, vil, tacanha, que nem sequer perdoa a um burrico. No burro andou (e com perdão se diga!) este manso escudeiro, atrás do manso Rocinante e do seu dono bisonho. Ó vãs esp'rancas! e mais vã fadiga! nunca deixais de prometer descanso, e tudo acaba em sombra, em fumo, em sonho. Do Cachidiabo, académico de Argamasilia, na sepultura de D. Quixote 506 DOM QUIXOTE DE LA MANCHA EPITÁFIO Aqui jaz o cavaleiro bem moído e mal-andante, que, montado em Rocinante, percorreu senda e carreiro. Sancho Pança o malhadeiro, jaz também neste local, escudeiro o mais leal, que houve em trato de escudeiro. Do Tiquitoc, académico de Argamasilia, na sepultura de Dulcineia dei Toboso EPITÁFIO Repousa aqui Dulcineia, que, sendo gorda e corada, em cinza e pó foi mudada pela morte horrenda e feia. Foi de castiça raleia, e teve assomos de dama, deu-lhe o grão Quixote a fama, e deu glória à sua aldeia. Foram estes os versos que se puderam ler; os outros, por estar mais carcomida a letra, entregaram-se a um académico, para que por conjecturas os decifrasse. Consta que o fez, à custa de muitas vigílias e de muito trabalho, e que tenciona dá-los à luz, com esperança na terceira saída de D. Quixote. Forse altrí cater con miglior plettro. 507 TÍTULOS PUBLICADOS Os Lusíadas LUÍS DE CAMÕES Eugenia Grande HONORÉ DE BALZAC O Vermelho e o Negro STENDHAL A Colina dos Vendavais EMILY BRONTË Oliver Twist CHARLES DICKENS O Eterno Marido FIÓDOR M. DOSTOIEVSKY O Jogador FIÓDOR M. DOSTOIEVSKY Sonata a Kreutzer LEÓN TOLSTOI Bel-Ami GUY DE MAUPASSANT Nana EMILE ZOLA Os Maias EÇA DE QUEIRÓS O Poço e o Pêndulo EDGAR ALLAN PÕE Aventuras de Tom Sawyer MARK TWAIN Quincas Borba MACHADO DE ASSIS A Ilha do Tesouro ROBERT L. STEVENSON O Duelo ANTÓN P. TCHEKOV Q Retrao de Dorian Gray OSCAR WILDE O Coração das Trevas JOSEPH CONRAD O Meu Coração a Nu CHARLES BAUDELAIRE Assim Falava Zaratustra FRIEDRICH W. NIETZSCHE Memórias de um Sargento de Miícias MANUEL ANTÓNIO DE ALMEIDA Os Praeres e os Dias MARCEL PROUST O Amor Louco ANDRÉ BRETON Gente de Dublin JAMES JOYCE O Raposo D. H. LAWRENCE Um Quarto que Seja Seu VIRGNIA WOOLF Antologia de Páginas Intimas FRANZ KAFKA Histórias de Almanaque BERTOLD BRECHT A Década Perdida F. SCOTT ITZGERALD Absalão, Absalão! 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