Grande Sertão: Veredas (PARTE 1) | João Guimarães Rosa

| sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Mas Medeiro Vaz não se achava, os nossos, deles ninguém
não sabia bem. Tocamos, fim que o mundo tivesse. Só
deerrávamos. Assim como o senhor, que quer tirar é instantâneo
das coisas, aproximar a natureza. Estou entendido. Esbarramos
num varjeado, esconso lugar, por entre o daGarapa e o da-Jibóia,
ali tem três lagoas numa, com quatro cores: se diz que a água é
venenosa. E isso de que me serve? Águas, águas.











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Grande Sertão: Veredas
João Guimarães Rosa
GUIMARÃES ROSA
GRANDE SERTÃO:
VEREDAS
EDITORA NOVA AGUILAR
1994
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 2 –
PRIMEIRA EDIÇÃO, 1994
BIBLIOTECA
LUSO-BRASILEIRA
SÉRIE BRASILEIRA
JOÃO GUIMARÃES ROSA
FICÇÃO COMPLETA
EM DOIS VOLUMES
VOLUME II
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de
briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no
quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço,
gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar.
Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem
ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não
quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de
beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de
cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram.
Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas,
cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe:
quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir,
instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O
senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que
situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem,
fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de
Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que
tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de
fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com
casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado
do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes.
Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas,
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almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que
vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens
dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem
tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão
ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.
Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores.
Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga.
Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num
Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão
direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-deSanta-Rita – todo
o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados:
porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha
que avisando: – “Eu já vou! Eu já vou!...” – que é o capiroto, o
que-diga... E um José Simpilício – quem qualquer daqui jura ele
tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a
ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se
empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem
também que a besta pra ele rupeia, nega de banda, não
deixando, quando ele quer amontar... Superstição. José Simpilício
e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou
ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época,
tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem,
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no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou
que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era
capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o
Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem
ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor
quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido
divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não
foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes,
clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há,
quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes,
será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso
Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-
Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim
esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que
ele forme forma, com as presenças!
Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a
crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade.
Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos.
Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito
condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de
paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que
ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de
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uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do
Campo-Redondo... Me concebo. O senhor não é como eu? Não
acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que
revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira,
fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os
viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito
me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe
daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti Pardo... Arres, me deixe lá, que
– em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo
deverá de ter conhecido diversos, homens, mulheres. Pois não
sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangued’Outro,
o Muitos-Beiços, o Rasgaem-Baixo, Faca-Fria, o
Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes...
Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não
sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço
se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio.
Será não? Será?
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não
possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no
moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a
folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range
rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo
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existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias.
O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco
de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor
consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira
alguma? Viver é negócio muito perigoso...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os
crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos
avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.
Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo,
franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este
caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa
importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor,
assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe
agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava
por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua
aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem
espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo,
este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu
estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas
crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”?
E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes.
... O diabo na rua, no meio do redemunho...
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Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as
certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não...
Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de
ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum,
e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma
estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada –
motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno
sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando,
de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a
outra, a mandiocabrava, também é que às vezes pode ficar
mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh,
o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho,
nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada
dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua
suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as
feições deles já representam a precisão de talhar para adiante,
rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por
ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas,
venenosas – que estragam mortal a água, se estão jazendo em
fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se
sabe? E o demo – que é só assim o significado dum azougue
maligno – tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para
campear?! Arre, ele está misturado em tudo.
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Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente,
aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor –
compadre meu Quelemém, diz. Família. Deveras? É, e não é. O
senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais
grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho,
bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem
os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.
Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um
chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no da-
Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu.
Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as
palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao
real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em
horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para
papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça
rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido
rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste
aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta...
Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão,
vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha
filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito.
Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o
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velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço
de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam.
Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos,
numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não
sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro
– eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz
dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e
uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não
perdeu o juizo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive
da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas
horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes
não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque
Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma.
Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo
castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos
tinham?!
Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas.
Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também
tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai,
demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o
velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois,
também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no
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corpo, por pagar. Se a gente – conforme compadre meu
Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado,
eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do
inimigo. Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó,
vizinho daqui mais seis léguas, homem de bem por tudo em
tudo, ele e a mulher dele, sempre sidos bons, de bem. Eles têm
um filho duns dez anos, chamado Valtei – nome moderno, é o
que o povo daqui agora apreceia, o senhor sabe. Pois essezinho,
essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito
mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso
de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em
qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha
pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula bentabêbada
dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três
pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo,
é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de
matar...” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim
um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está
pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir
isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o
menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu
nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e
na taca, depois limpam a pele do sangue, com cuia de salmoura.
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A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou de
magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e
entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos.
Arre, que agora, visível, o Pindó e a mulher se habituaram de
nele bater, de pouquinho em pouquim foram criando nisso um
prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas
certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom.
Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim, não chega
para a quaresma que vem... Uê-uê, então?! Não sendo como
compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor
dava? Aquele menino tinha sido homem. Devia, em balanço,
terríveis perversidades. Alma dele estava no breu. Mostrava. E,
agora, pagava. Ah, mas, acontece, quando está chorando e
penando, ele sofre igual que se fosse um menino bonzinho...
Ave, vi de tudo, neste mundo! lá vi até cavalo com soluço... – o
que é a coisa mais custosa que há.
Bem, mas o senhor dirá, deve de: e no começo – para
pecados e artes, as pessoas – como por que foi que tanto
emendado se começou? Ei, ei, aí todos esbarram. Compadre
meu Quelemém, também. Sou só um sertanejo, nessas altas
idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura
é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma
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doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e
meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre,
Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações,
regra-de-três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes
de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por
falar: mas, desde o começo, me achavam sofismado de ladino. E
que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia – que
também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom
livro, despaçado. Na fazenda O Limãozinho, de um meu amigo
Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e
charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto,
ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e
exemplos – missionário esperto engambelando os índios, ou São
Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto
muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom
caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe,
zela por mim: muito reza. Ela é uma abençoável. Compadre
meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de
consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos
me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo
com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor
saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido
diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu
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quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor
concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o
senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa
por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de
haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições
gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez,
artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não
pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente.
Por que o Governo não cuida?!
Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor
por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com
país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...
Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega: todos
nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de
emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo
chuva e negócios bons... De sorte que carece de se escolher: ou
a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de
religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de
jagunços; para outras coisas não fui parido. Mas minha velhice já
principiou, errei de toda conta. E o reumatismo... Lá como
quem diz: nas escorvas. Ahã.
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Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-omundo
é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é
que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer,
desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a
salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco
ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...
Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão,
católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu
Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso,
vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente
se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos
deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me
refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo
todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é
privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que
faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço,
executado. Eu não tresmalho!
Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não
mora, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela
pago, todo mês – encomenda de rezar por mim um terço, todo
santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha
mulher não vê mal nisso. E estou, já mandei recado para uma
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outra, do Vau-Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de
que reza também com grandes meremerências, vou efetuar com
ela trato igual. Quero punhado dessas, me defendendo em Deus,
reunidas de mim em volta... Chagas de Cristo!
Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força,
de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por
principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si,
para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as
coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério – foi
Medeiro Vaz. Que um homem antigo... Seu Joãozinho Bem-
Bem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar
como ele por dentro consistia. Joca Ramiro – grande homem
príncipe! – era político. Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e
não teve sorte: raposa que demorou. Só Candelário se
endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos
era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas mesmas
amizades, foi que tão alto se ajagunçou. Antônio Dó – severo
bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja.
Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado
raivoso em sua toda justiça. Ricardão, mesmo, queria era ser rico
em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu
formado tigre, e assassim. E o “Urutu-Branco”? Ah, não me
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fale. Ah, esse... tristonho levado, que foi – que era um pobre
menino do destino...
Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim
com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus
espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o
diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca – e afia – que se
raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se
arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que
eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e
carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe,
não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo –
um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por
mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta...
Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em
Sete-Lagoas, para partes de consultar um médico, de nome me
indicado. Fui vestido bem, e em carro de primeira, por via das
dúvidas, não me sombrearem por jagunço antigo. Vai e
acontece, que, perto mesmo de mim, defronte, tomou assento,
voltando deste brabo Norte, um moço Jazevedão, delegado
profissional. Vinha com um capanga dele, um secreta, e eu bem
sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era.
A verdade que diga, primeiro tive o estrito de me desbancar para
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um longe dali, mudar de meu lugar. Juízo me disse, melhor
ficasse. Pois, ficando, olhei. E – lhe falo: nunca vi cara de
homem fornecida de bruteza e maldade mais, do que nesse.
Como que era urco, trouxo de atarracado, reluzia um cru nos
olhos pequenos, e armava um queixo de pedra, sobrancelhonas;
não demedia nem testa. Não ria, não se riu nem uma vez; mas,
falando ou calado, a gente via sempre dele algum dente, presa
pontuda de guará. Arre, e bufava, um poucadinho. Só rosneava
curto, baixo, as meias-palavras encrespadas. Vinha reolhando,
historiando a papelada – uma a uma as folhas com retratos e com
os pretos dos dedos de jagunços, ladrões de cavalos e criminosos
de morte. Aquela aplicação de trabalho, numa coisa dessas,
gerava a ira na gente. O secreta, xereta, todo perto, sentado junto,
atendendo, caprichando de ser cão. Me fez um receio, mas só no
bobo do corpo, não no interno das coragens. Uma hora, uma
daquelas laudas caiu – e eu me abaixei depressa, sei lá mesmo por
que, não quis, não pensei – até hoje crio vergonha disso –
apanhei o papel do chão, e entreguei a ele. Daí, digo: eu tive mais
raiva, porque fiz aquilo; mas aí já estava feito. O homem nem me
olhou, nem disse nenhum agradecimento. Até as solas dos
sapatos dele – só vendo – que solas duras grossas, dobradas de
enormes, parecendo ferro bronze. Porque eu sabia: esse
Jazevedão, quando prendia alguém, a primeira quieta coisa que
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procedia era que vinha entrando, sem ter que dizer, fingia umas
pressas, e ia pisava em cima dos pés descalços dos coitados. E
que nessas ocasiões dava gargalhadas, dava... Pois, osga!
Entreguei a ele a folha de papel, e fui saindo de lá, por ter mão
em mim de não destruir a tiros aquele sujeito. Carnes que muito
pesavam... E ele umbigava um princípio de barriga barriguda, que
me criou desejos... Com minha brandura, alegre que eu matava.
Mas, as barbaridades que esse delegado fez e aconteceu, o senhor
nem tem calo em coração para poder me escutar. Conseguiu de
muito homem e mulher chorar sangue, por este simples
universozinho nosso aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde
manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier,
que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...
Tanto, digo: Jazevedão – um assim, devia de ter, precisava?
Ah, precisa. Couro ruim é que chama ferrão de ponta. Haja que,
depois – negócio particular dele – nesta vida ou na outra, cada
Jazevedão, cumprido o que tinha, descamba em seu tempo de
penar, também, até pagar o que deveu – compadre meu
Quelemém está aí, para fiscalizar. O senhor sabe: o perigo que é
viver... Mas só do modo, desses, por feio instrumento, foi que a
jagunçada se findou. Senhor pensa que Antônio Dó ou Olivino
Oliviano iam ficar bonzinhos por pura soletração de si, ou por
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rogo dos infelizes, ou por sempre ouvir sermão de padre? Te
acho! Nos visos...
De jagunço comportado ativo para se arrepender no meio
de suas jagunçadas, só deponho de um: chamado Joé Cazuzo –
foi em arraso de um tirotei’, p’ra cima do lugar Serra-Nova,
distrito de Rio-Pardo, no ribeirão Traçadal. A gente fazia má
minoria pequena, e fechavam para riba de nós o pessoal dum
Coronel Adalvino, forte político, com muitos soldados fardados
no meio centro, comando do Tenente Reis Leme, que depois
ficou capitão. Agüentamos hora mais hora, e já dávamos quase
de cercados. Aí, de bote, aquele Joé Cazuzo – homem muito
valente – se ajoelhou giro no chão do cerrado, levantava os
braços que nem esgalho de jatobá seco, e só gritava, urro claro e
urro surdo: – “Eu vi a Virgem Nossa, no resplandor do Céu, com seus
filhos de Anjos!...” Gritava não esbarrava. – “Eu vi a Virgem!...”
Ele almou? Nós desigualamos. Trape por meu cavalo – que
achei – pulei em meu assento, nem sei em que rompe-tempo
desatei o cabresto, de amarrado em pé de pau. Voei, vindo. Bala
vinha. O cerrado estrondava. No mato, o medo da gente se sai
ao inteiro, um medo propositado. Eu podia escoicear, feito
burro bruto, dá-que, dá-que. Umas duas ou três balas se
cravaram na borraina da minha sela, perfuraram de arrancar
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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quase muita a paina do encheio. Cavalo estremece em pró, em
meio de galope, sei: pensa no dono. Eu não cabia de estar mais
bem encolhido. Baleado veio também o surrão que eu tinha nas
costas, com poucas minhas coisas. E outra, de fuzil, em
ricochete decerto, esquentou minha coxa, sem me ferir, o
senhor veja: bala faz o que quer – se enfiou imprensada, entre
em mim e a aba da jereba! Tempos loucos... Burumbum!: o
cavalo se ajoelhou em queda, morto quiçá, e eu já caindo para
diante, abraçado em folhagens grossas, ramada e cipós, que me
balançaram e espetavam, feito eu estava pendurado em teião de
aranha... Aonde? Atravessei aquilo, vida toda... De medo em
ânsia, rompi por rasgar com meu corpo aquele mato, fui, sei lá –
e me despenquei mundo abaixo, rolava para o oco de um grotão
fechado de moitas, sempre me agarrava – rolava mesmo assim:
depois – depois, quando olhei minhas mãos, tudo nelas que não
era tirado sangue, era um amasso verde, nos dedos, de folhas
vivas que puxei e masgalhei... Pousei no capim do fundo – e um
bicho escuro deu um repulão, com um espirro, também doido
de susto: que era um papa-mel, que eu vislumbrei; para fugir,
esse está somente. Maior sendo eu, me molhou meu cansaço;
espichei tudo. E um pedacinho de pensamento: se aquele bicho
irara tinha jazido lá, então ali não tinha cobra. Tomei o lugar
dele. Existia cobra nenhuma. Eu podia me largar. Eu era só
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mole, moleza, mas que não amortecia os trancos, dentro, do
coração. Arfei. Concebi que vinham, me matavam. Nem fazia
mal, me importei não. Assim, uns momentos, ao menos eu
guardava a licença de prazo para me descansar. Conforme
pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Um joão-de-barro
cantou. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim,
mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau-d’Arco, quase na
divisa baiana, com nossa outra metade dos sócandelários... Com
meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu iavoava reto
para ele... Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem
nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas. No senhor me
fio? Atéque, até-que. Diga o anjo-da-guarda... Mas, conforme eu
vinha: depois se soube, que mesmo os soldados do Tenente e os
cabras do Coronel Adalvino remitiram de respeitar o assopro
daquele Joé Cazuzo. E que esse acabou sendo o homem mais
pacificioso do mundo, fabricador de azeite e sacristão, no São
Domingos Branco. Tempos!
Por tudo, réis-coado, fico pensando. Gosto. Melhor, para a
idéia se bem abrir, é viajando em trem-de-ferro. Pudesse, vivia
para cima e para baixo, dentro dele. Informação que pergunto:
mesmo no Céu, fim de fim, como é que a alma vence se esquecer
de tantos sofrimentos e maldades, no recebido e no dado? A
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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como? O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor
do corpo e dor da idéia marcam forte, tão forte como o todo
amor e raiva de ódio. Vai, mar... De sorte que, então, olhe: o
Firmiano, por apelidado Piolho-de-Cobra, se lazarou com a
perna desconforme engrossada, dessa doença que não se cura; e
não enxergava quase mais, constante o branquiço nos olhos, das
cataratas. De antes, anos, teve de se desarrear da jagunçagem.
Pois, uma ocasião, algum esteve no rancho dele, no Alto Jequitaí,
depois contou – que, vira tempo, vem assunto, ele dissesse: –
“Me dá saudade é de pegar um soldado, e tal, pra uma boa esfola,
com faca cega... Mas, primeiro, castrar...” O senhor concebe?
Quem tem mais dose de demo em si é índio, qualquer raça de
bugre. Gente vê nação desses, para lá fundo dos gerais de Goiás,
adonde tem vagarosos grandes rios, de água sempre tão clara
aprazível, correndo em deita de cristal roseado... Piolhode-Cobra
se dava de sangue de gentio. Senhor me dirá: mas que ele pronunceia
aquilo fora boca, maneira de representar que ainda não
estava velho decadente. Obra de opor, por medo de ser manso, e
causa para se ver respeitado. Todos tretam por tal regra:
proseiam de ruins, para mais se valerem, porque a gente ao redor
é duro dura. O pior, mas, é que acabam, pelo mesmo vau, tendo
de um dia executar o declarado, no real. Vi tanta cruez! Pena não
paga contar; se vou, não esbarro. E me desgosta, três que me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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enjoa, isso tudo. Me apraz é que o pessoal, hoje em dia, é bom de
coração. Isto é, bom no trivial. Malícias maluqueiras, e
perversidades, sempre tem alguma, mas escasseadas. Geração
minha, verdadeira, ainda não eram assim. Ah, vai vir um tempo,
em que não se usa mais matar gente... Eu, já estou velho.
Bom, ia falando: questão, isso que me sovaca... Ah; formei
aquela pergunta, para compadre meu Quelemém. Que me
respondeu: que, por perto do Céu, a gente se alimpou tanto, que
todos os feios passados se exalaram de não ser – feito semmodez
de tempo de criança, más-artes. Como a gente não carece
de ter remorso do que divulgou no latejo de seus pesadelos de
uma noite. Assim que: tosou-se, floreou-se! Ahã. Por isso dito, é
que a ida para o Céu é demorada. Eu confiro com compadre meu
Quelemém, o senhor sabe: razão da crença mesma que tem –
que, por todo o mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. Sujeito
assim madruga três vezes, em antes de querer facilitar em
qualquer minudência repreensível... Compadre meu Quelemém
nunca fala vazio, não subtrata. Só que isto a ele não vou expor. A
gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é
que é a regra do rei!
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do
mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam
ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso
que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas
Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A
força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus
vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho –
assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se
economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que
eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir,
barbatimão, angico, lá sei. – “Amanhã eu tiro...” – falei, comigo.
Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então,
saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido roído,
quase por metade, por aquela agüinha escura, toda quieta. Deixei,
para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma
da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não
ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí está: Deus... Bem,
o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...
Somenos, não ache que religião afraca. Senhor ache o
contrário. Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava – cré
que o caroá levanta a flor. Eli, bom meu pasto... Mocidade. Mas
mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. Também, eu
desse de pensar em vago em tanto, perdia minha mão-deJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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homem para o manejo quente, no meio de todos. Mas, hoje, que
raciocinei, e penso a eito, não nem por isso não dou por baixa
minha competência, num fogo-e-ferro. A ver. Chegassem
viessem aqui com guerra em mim, com más partes, com outras
leis, ou com sobejos olhares, e eu ainda sorteio de acender esta
zona, ai, se, se! É na boca do trabuco: é no té-retêretém... E
sozinhozinho não estou, há-de-o. Pra não isso, hei coloquei redor
meu minha gente. Olhe o senhor: aqui, pegado, vereda
abaixo, o Paspe – meeiro meu – é meu. Mais légua, se tanto, tem
o Acauã, e tem o Compadre Ciril, ele e três filhos, sei que
servem. Banda desta mão, o Alaripe: soubesse o senhor o que é
que se preza, em rifleio e à faca, um cearense feito esse! Depois
mais: o João Nonato, o Quipes, o Pacamã-de-Presas. E o Fafafa
– este deu lances altos, todo lado comigo, no combate velho do
Tamanduá-tão: limpamos o vento de quem não tinha ordem de
respirar, e antes esses desrodeamos... O Fafafa tem uma eguada.
Ele cria cavalos bons. Até um pouco mais longe, no pé-de-serra,
de bando meu foram o Sesfredo, Jesualdo, o Nélson e João
Concliz. Uns outros. O Triol... E não vou valendo? Deixo terra
com eles, deles o que é meu é, fechamos que nem irmãos. Para
que eu quero ajuntar riqueza? Estão aí, de armas areiadas.
Inimigo vier, a gente cruza chamado, ajuntamos: é hora dum
bom tiroteiamento em paz, exp’rimentem ver. Digo isto ao
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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senhor, de fidúcia. Também, não vá pensar em dobro.
Queremos é trabalhar, propor sossego. De mim, pessoa, vivo
para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a
devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou,
rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim,
penso também – mas Diadorim é a minha neblina... Agora, bem:
não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso; chega. Mas tem um
porém: pergunto: o senhor acredita, acha fio de verdade nessa
parlanda, de com o demônio se poder tratar pacto? Não, não é
não? Sei que não há. Falava das favas. Mas gosto de toda boa
confirmação. Vender sua própria alma... invencionice falsa! E,
alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito
mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta!
Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento,
não tem a obediência legal. Posso vender essas boas terras, daí de
entre as Veredas-Quatro – que são dum senhor Almirante, que
reside na capital federal? Posso algum!? Então, se um menino
menino é, e por isso não se autoriza de negociar... E a gente, isso
sei, às vezes é só feito menino. Mal que em minha vida aprontei,
foi numa certa meninice em sonhos – tudo corre e chega tão
ligeiro –; será que se há lume de responsabilidades? Se sonha; já
se fez... Dei rapadura ao jumento! Ahã. Pois. Se tem alma, e tem,
ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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queira. Não é vendível. O senhor não acha? Me declare, franco,
peço. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em idéia
firme, além de ter carta de doutor. Lhe agradeço, por tanto. Sua
companhia me dá altos prazeres.
Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma
ajuda. Aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o
senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte
do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...
Eh, que se vai? Jajá? É que não. Hoje, não. Amanhã, não.
Não consinto. O senhor me desculpe, mas em empenho de
minha amizade aceite: o senhor fica. Depois, quinta de-manhãcedo,
o senhor querendo ir, então vai, mesmo me deixa sentindo
sua falta. Mas, hoje ou amanhã, não. Visita, aqui em casa,
comigo, é por três dias!
Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de
territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus
motivos. Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde.
Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo
leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada. Os bandos bons de
valentões repartiram seu fim; muito que foi jagunço, por aí pena,
pede esmola. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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comércio vestidos de roupa inteira de couro, acham que traje de
gibão é feio e capiau. E até o gado no grameal vai minguando
menos bravo, mais educado: casteado de zebu, desvém com o
resto de curraleiro e de crioulo. Sempre, no gerais, é à pobreza, à
tristeza. Uma tristeza que até alegra. Mas, então, para uma safra
razoável de bizarrices, reconselho de o senhor entestar viagem
mais dilatada. Não fosse meu despoder, por azias e reumatismo,
aí eu ia. Eu guiava o senhor até tudo.
Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá,
num afã, espuma próspero, gruge; cada cachoeira, só tombos. O
cio da tigre preta na Serra do Tatu – já ouviu o senhor
gargaragem de onça? A garoa rebrilhante da dos-Confins,
madrugada quando o céu embranquece – neblim que chamam
de xererém. Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem
dono foi Diadorim... A da-Raizama, onde até os pássaros
calculam o giro da lua – se diz – e canguçu monstra pisa em
volta. Lua de com ela se cunhar dinheiro. Quando o senhor
sonhar, sonhe com aquilo. Cheiro de campos com flores, forte,
em abril: a ciganinha, roxa, e a nhiíca e a escova, amarelinhas...
Isto – no Saririnhém. Cigarras dão bando. Debaixo de um
tamarindo sombroso... Eh, frio! Lá geia até em costas de boi, até
nos telhados das casas. Ou no Meãomeão – depois dali tem uma
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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terra quase azul. Que não que o céu: esse é céu-azul vivoso,
igual um ovo de macuco. Ventos de não deixar se formar
orvalho... Um punhado quente de vento, passante entre duas
palmas de palmeira... Lembro, deslembro. Ou – o senhor vai –
no soposo: de chuva-chuva. Vê um córrego com má passagem,
ou um rio em turvação. No Buriti-Mirim, Angical, Extrema-de-
Santa-Maria... Senhor caça? Tem lá mais perdiz do que no
Chapadão das Vertentes... Caçar anta no Cabeça-de-Negro ou
no Buriti-Comprido – aquelas que comem um capim diferente e
roem cascas de muitas outras árvores: a carne, de gostosa,
diverseia. Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha
no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já
tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de
idéia e saudade de coração... Ah. Diz-se que o Governo está
mandando abrir boa estrada rodageira, de Pirapora a Paracatu,
por aí...
Na Serra do Cafundó – ouvir trovão de lá, e retrovão, o
senhor tapa os ouvidos, pode ser até que chore, de medo mau
em ilusão, como quando foi menino. O senhor vê vaca parindo
na tempestade... De em de, sempre, Urucuia acima, o Urucuia –
tão a brabas vai... Tanta serra, esconde a lua. A serra ali corre
torta. A serra faz ponta. Em um lugar, na encosta, brota do chão
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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um vapor de enxofre, com estúrdio barulhão, o gado foge de lá,
por pavor. Semelha com as serras do Estrondo e do Roncador –
donde dão retumbos, vez em quando. Hem? O senhor? Olhe: o
rio Carinhanha é preto, o Paracatu moreno; meu, em belo, é o
Urucuia – paz das águas... É vida!... Passado o Porto das Onças,
tem um fazendol. Ficamos lá umas semanas, se descansou.
Carecia. Porque a gente vinha no caminhar a pé, para não acabar
os cavalos, mazelados. Medeiro Vaz, em lugares assim, fora de
guerra, prazer dele era dormir com camisolão e barrete; antes de
se deitar, ajoelhava e rezava o terço. Aqueles foram meus dias. Se
caçava, cada um esquecia o que queria, de de-comer não faltava,
pescar peixe nas veredas... O senhor vá lá, verá. Os lugares
sempre estão aí em si, para confirmar.
Muito deleitável. Claráguas, fontes, sombreado e sol.
Fazenda Boi-Preto, dum Eleutério Lopes – mais antes do
Campo-Azulado, rumo a rumo com o Queimadão. Aí foi em
fevereiro ou janeiro, no tempo do pendão do milho. Tresmente:
que com o capitão-do-campo de prateadas pontas, viçoso no
cerrado; o anis enfeitando suas moitas; e com florzinhas as
dejaniras. Aquele capim-marmelada é muito restível, redobra
logo na brotação, tão verde-mar, filho do menor chuvisco. De
qualquer pano de mato, de de-entre quase cada encostar de duas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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folhas, saíam em giro as todas as cores de borboletas. Como não
se viu, aqui se vê. Porque, nos gerais, a mesma raça de
borboletas, que em outras partes é trivial regular – cá cresce, vira
muito maior, e com mais brilho, se sabe; acho que é do seco do
ar, do limpo, desta luz enorme. Beiras nascentes do Urucuia, ali o
povi canta altinho. E tinha o xenxém, que tintipiava de manhã no
revoredo, o saci-dobrejo, a doidinha, a gangorrinha, o tempoquente,
a rola-vaqueira... e o bem-te-vi que dizia, e araras
enrouquecidas. Bom era ouvir o mom das vacas devendo seu
leite. Mas, passarinho de bilo no desvéu da madrugada, para toda
tristeza que o pensamento da gente quer, ele repergunta e finge
resposta. Tal, de tarde, o bento-vieira tresvoava, em vai sobre
vem sob, rebicando de vôo todo bichinhozinho de finas asas;
pássaro esperto. Ia dechover mais em mais. Tardinha que enche
as árvores de cigarras – então, não chove. Assovios que
fechavam o dia: o papa-banana, o azulejo, a garricha-do-brejo, o
suiriri, o sabiá-ponga, o grunhatá-do-coqueiro... Eu estava todo o
tempo quase com Diadorim.
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com
assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não
é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a
bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava.
Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia
morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem
mais maldavam. E estávamos conversando, perto do rego –
bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. Desse lusfús, ia
escurecendo. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar
sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras,
e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma brisbisa. O ianso
do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. E o
chiim dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só,
de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de
à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje
fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas
essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos
sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das
brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém
que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Por
mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele
estava obedecendo quieto. Quase que sem menos era assim: a
gente chegava num lugar, ele falava para eu sentar; eu sentava.
Não gosto de ficar em pé. Então, depois, ele vinha sentava, sua
vez. Sempre mediante mais longe. Eu não tinha coragem de
mudar para mais perto. Só de mim era que Diadorim às vezes
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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parecia ter um espevito de desconfiança; de mim, que era o
amigo! Mas, essa ocasião, ele estava ali, mais vindo, a meia-mão
de mim. E eu – mal de não me consentir em nenhum afirmar
das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo,
num espairecer de contentamento, deixava de pensar. Mas sucedia
uma duvidação, ranço de desgosto: eu versava aquilo em
redondos e quadrados. Só que coração meu podia mais. O
corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende.
Perto de muita água, tudo é feliz. Se escutou, banda do rio, uma
lontra por outra: o issilvo de plim, chupante. – “Ta que, mas eu
quero que esse dia chegue!” – Diadorim dizia. – “Não posso ter
alegria nenhuma, nem minha mera vida mesma, enquanto
aqueles dois monstros não forem bem acabados...” E ele
suspirava de ódio, como se fosse por amor; mas, no mais, não
se alterava. De tão grande, o dele não podia mais ter aumento:
parava sendo um ódio sossegado. Odio com paciência; o senhor
sabe?
E, aquilo forte que ele sentia, ia se pegando em mim – mas
não como ódio, mais em mim virando tristeza. Enquanto os dois
monstros vivessem, simples Diadorim tanto não vivia. Até que
viesse a poder vingar o histórico de seu pai, ele tresvariava.
Durante que estávamos assim fora de marcha em rota, tempo de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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descanso, em que eu mais amizade queria, Diadorim só falava
nos extremos do assunto. Matar, matar, sangue manda sangue.
Assim nós dois esperávamos ali, nas cabeceiras da noite, junto
em junto. Calados. Me alembro, ah. Os sapos. Sapo tirava saco
de sua voz, vozes de osga, idosas. Eu olhava para a beira do rego.
A ramagem toda do agrião – o senhor conhece – às horas dá de
si uma luz, nessas escuridões: folha a folha, um fosforém – agrião
acende de si, feito eletricidade. E eu tinha medo. Medo em alma.
Não respondi. Não adiantava. Diadorim queria o fim. Para
isso a gente estava indo. Com o comando de Medeiro Vaz, dali
depois daquele carecido repouso, a gente revirava caminho, ia em
cima dos outros – deles! – procurando combate. Munição não
faltava. Nós estávamos em sessenta homens – mas todos cabras
dos melhores. Chefe nosso, Medeiro Vaz, nunca perdia guerreiro.
Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo, nos usos formado, não
gastava as palavras. Nunca relatava antes o projeto que tivesse,
que marchas se ia amanhecer para dar. Também, tudo nele
decidia a confiança de obediência. Ossoso, com a nuca enorme,
cabeçona meia baixa, ele era dono do dia e da noite – que quase
não dormia mais: sempre se levantava no meio das estrelas,
percorria o arredor, vagaroso, em passos, calçado com suas boas
botas de caititu, tão antigas. Se ele em honrado juízo achasse que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estava certo, Medeiro Vaz era solene de guardar o rosário na
algibeira, se traçar o sinal-da-cruz e dar firme ordem para se
matar uma a uma as mil pessoas. Desde o começo, eu apreciei
aquela fortaleza de outro homem. :O segredo dele era de pedra.
Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas,
antes delas acontecerem... Com isso minha fama clareia? Remei
vida solta. Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa,
ainda encontra. Vaqueiros? Ao antes – a um, ao Chapadão do
Urucuia – aonde tanto boi berra... Ou o mais longe: vaqueiros
do Brejo-Verde e do Córrego do Quebra-Quinaus: cavalo deles
conversa cochicho – que se diz – para dar sisado conselho ao
cavaleiro, quando não tem mais ninguém perto, capaz de
escutar. Creio e não creio. Tem coisa e cousa, e o ó da raposa...
Dali para cá, o senhor vem, começos do Carinhanha e do
Piratinga filho do Urucuia – que os dois, de dois, se dão as
costas. Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. Por lá,
sucuri geme. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se
enrosca nele, abofa – trinta palmos! Tudo em volta, é um barro
colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por
ferradura. Com medo de mãe-cobra, se vê muito bicho retardar
ponderado, paz de hora de poder água beber, esses escondidos
atrás das touceiras de buritirana. Mas o sassafrás dá mato,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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guardando o poço; o que cheira um bom perfume. Jacaré grita,
uma, duas, as três vezes, rouco roncado. Jacaré choca –
olhalhão, crespido do lamal, feio mirando na gente. Eh, ele sabe
se engordar. Nas lagoas aonde nem um de asas não pousa, por
causa da fome de jacaré e da piranha serrafina. Ou outra – lagoa
que nem não abre o olho, de tanto junco. Daí longe em longe,
os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles, buriti se
segue, segue. Para trocar de bacia o senhor sobe, por ladeiras de
beira-de-mesa, entra de bruto na chapada, chapadão que não se
devolve mais. Água ali nenhuma não tem – só a que o senhor
leva. Aquelas chapadas compridas, cheias de mutucas ferroando
a gente. Mutucas! Dá o sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanta
machuca. Os cavalos suavam sal e espuma. Muita vez a gente
cumpria por picadas no mato, caminho de anta – a ida da
vinda... De noite, se é de ser, o céu embola um brilho. Cabeça
da gente quase esbarra nelas. Bonito em muito comparecer,
como o céu de estrelas, por meados de fevereiro! Mas, em
deslua, no escuro feito, é um escurão, que peia e pega. É noite
de muito volume. Treva toda do sertão, sempre me fez mal.
Diadorim, não, ele não largava o fogo de gelo daquela idéia; e
nunca se cismava. Mas eu queria que a madrugada viesse. Dia
quente, noite fria. Arrancávamos canela-de-ema, para acender
fogueira. Se a gente tinha o que comer e beber, eu dormia logo.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Sonhava. Só sonho, mal ou bem; livrado. Eu tinha uma lua
recolhida. Quando o dia quebrava as barras, eu escutava outros
pássaros. Tiriri, graúna, a fariscadeira, juriti-dopeito-branco ou a
pomba-vermelha-do-mato-virgem. Mas mais o bem-tevi. Atrás e
adiante de mim, por toda a parte, parecia que era um bem-te-vi
só. – “Gente! Não se acha até que ele é sempre um, em
mesmo?” – perguntei a Diadorim. Ele não aprovou, e estava
incerto de feições. Quando meu amigo ficava assim, eu perdia
meu bom sentir. E permaneci duvidando que seria – que era um
bem-te-vi,.exato, perseguindo minha vida em vez, me acusando
de más-horas que eu ainda não tinha procedido. Até hoje é
assim...
Dali vindo, visitar convém ao senhor o povoado dos
pretos: esses bateavam em faisqueiras – no recesso brenho do
Vargem-da-Cria – donde ouro já se tirou. Acho, de baixo
quilate. Uns pretos que ainda sabem cantar gabos em sua língua
da Costa. E em andemos: jagunço era que perpassava ligeiro; no
chapadão, os legítimos coitados todos vivem é demais devagar,
pasmacez. A tanta miséria. O chapadão, no pardo, é igual, igual
– a muita gente ele entristece; mas eu já nasci gostando dele. As
chuvas se temperaram...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Digo: outro mês, outro longe – na Aroeirinha fizemos
paragem. Ao que, num portal, vi uma mulher moça, vestida de
vermelho, se ria. – “Ô moço da barba feita...” – ela falou. Na
frente da boca, ela quando ria tinha os todos dentes, mostrava
em fio. Tão bonita, só. Eu apeei e amarrei o animal num pau da
cerca. Pelo dentro, minhas pernas doíam, por tanto que desses
três dias a gente se sustava de custoso varar: circunstância de
trinta léguas. Diadorim não estava perto, para me reprovar. De
repente, passaram, aos galopes e gritos, uns companheiros, que
tocavam um boi preto que iam sangrar e carnear em beira
d’água. Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça, e
a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo
avermelhado. Então eu entrei, tomei um café coado por mão de
mulher, tomei refresco, limonada de pêra-do-campo. Se chamava
Nhorinhá. Recebeu meu carinho no cetim do pêlo –
alegria que foi, feito casamento, esponsal. Ah, a mangaba boa só
se colhe já caída no chão, de baixo... Nhorinhá. Depois ela me
deu de presente uma presa de jacaré, para traspassar no chapéu,
com talento contra mordida de cobra; e me mostrou para beijar
uma estampa de santa, dita meia milagrosa. Muito foi.
Mãe dela chegou, uma velha arregalada, por nome de Ana
Duzuza: falada de ser filha de ciganos, e dona adivinhadora da
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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boa ou má sorte da gente; naquele sertão essa dispôs de muita
virtude. Ela sabia que a filha era meretriz, e até – contanto que
fosse para os homens de fora do lugarejo, jagunços ou tropeiros
– não se importava, mesmo dava sua placença. Comemos
farinha com rapadura. E a Ana Duzuza me disse, vendendo
forte segredo, que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda
a banda o liso do Suçuarão. Ela estava chegando do arranchado
de Medeiro Vaz, que por ele mandada buscar, ele querendo suas
profecias. Loucura duma? Para quê? Eu nem não acreditei. Eu
sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras –
revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além, aonde tudo
quanto era bandido em folga se escondia – lá se podia azo de
combinar mais outros variáveis companheiros. Depois, de arte:
que o Liso do Suçuarão não concedia passagem a gente viva, era
o raso pior havente, era um escampo dos infernos. Se é, se? Ah,
existe, meu! Eh... Que nem o Vão-do-Buraco? Ah, não, isto é
coisa diversa – por diante da contravertência do Preto e do
Pardo... Também onde se forma calor de morte – mas em
outras condições... A gente ali rói rampa... Ah, o Tabuleiro? Senhor
então conhece? Não, esse ocupa é desde a Vereda-da-
Vaca-Preta até Córrego Catolé, cá embaixo, e de em desde a
nascença do Peruaçu até o rio Cochá, que tira da Várzea da
Ema. Depois dos cerradões das mangabeiras...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Nada, nada vezes, e o demo: esse, Liso do Suçuarão, é o
mais longe – pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si
mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com
aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é
que dali não avança, espia só o começo, só. Ver o luar
alumiando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se
sabe sozinho, na cama daqueles desertos. Não tem
excrementos. Não tem pássaros.
Com isso, apertei aquela Ana Duzuza, e ela não agüentou
a raiva em meus olhos. – “Seô Medeiro Vaz, pois foi ele
mesmo próprio quem me contou...” – ela teve de falar.
Soturnos. Não era possível!
Diadorim estava me esperando. Ele tinha lavado minha
roupa: duas camisas e um paletó e uma calça, e outra camisa,
nova, de bulgariana. Às vezes eu lavava a roupa, nossa; mas
quase mais quem fazia isso era Diadorim. Porque eu achava tal
serviço o pior de todos, e também Diadorim praticava com
mais jeito, mão melhor. Ele não indagou donde eu tinha
estado, e eu menti que só tinha entrado lá por causa da velha
Ana Duzuza, a fim de requerer o significado do meu futuro.
Diadorim também disso não disse; ele gostava de silêncios. Se
ele estava com as mangas arregaçadas, eu olhava para os
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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braços dele – tão bonitos braços alvos, em bem feitos, e a cara
e as mãos avermelhadas e empoladas, de picadas das mutucas.
No momento, foi que eu caí em mim, que podia ter
perguntado à Ana Duzuza alguma passagem de minha sina
por vir. Também uma coisa, de minha, fechada, eu devia de
perguntar. Coisa que nem eu comigo não estudava, não tinha a
coragem. E se a Duzuza adivinhasse mesmo, conhecesse por
detrás o pano do destino? Não perguntei, não tinha
perguntado. Quem sabe, podia ser, eu estava enfeitiçado? Me
arrependi de não ter pedido o resumo à Ana Duzuza. Ah, tem
uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida
acontece. Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não
vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e
de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a
nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito
mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou.
Viver nem não é muito perigoso?
Redisse a Diadorim o que eu tinha surripiado: que o
projeto de Medeiro Vaz só era o de conduzir a gente para o Liso
do Suçuarão – a dentro, adiante, até ao fim. – “E certo é. É
certo” – Diadorim respondeu, me afrontando com a surpresa de
que ele já sabia daquilo e a mim não tinha antecipado nem
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miúda palavra. E veja: eu vinha tanto tempo me relutando,
contra o querer gostar de Diadorim mais do que, a claro, de um
amigo se pertence gostar; e, agora aquela hora, eu não apurava
vergonha de se me entender um ciúme amargoso. Sendo
sabendo que Medeiro Vaz depunha em Diadorim uma
confiança muito maior do que em nós outros todos, de formas
que com ele externava os assuntos. Essa diferença de regra
agora me turvava? Mas Medeiro Vaz era homem de outras
idades, andava por este mundo com mão leal, não variava
nunca, não fraquejava. Eu sabia que ele, a bem dizer, só
guardava memória de um amigo: Joca Ramiro. loca Ramiro
tinha sido a admiração grave da vida dele: Deus no Céu e Joca
Ramiro na outra banda do Rio. Tudo o justo. Mas ciúme é mais
custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o
escuro, escuros.
Então, Diadorim o resto me descreveu. Pra por lá do
Suçuarão, já em tantos terrenos da Bahia, um dos dois Judas
possuía sua maior fazenda, com os muitos gados, lavouras, e lá
morava sua família dele legítima, de raça – mulher e filhos. A
gente suprisse de varar o Liso em boas farsas, se chegava lá
sem ser esperados, arrastava aquele pessoal por dura surpresa
– acabou-se com aquilo! Mesmo quem havia de deduzir que o
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Liso do Suçuarão prestasse para nele caminho se impor? Ah,
eles prosperavam em sua fazenda feito num quartel de bronze
– com que por outros cantos não se podia remeter, pois de
arredor decerto tinham vigias, reforço de munição e récua de
camaradas, pelos pontos de passagem dificultosa, que eles
governavam, em cada grota e cada ipueira. Truco que, de
repente, do lado mais impossível, a gente fosse surgir de
sobrevento, soflagrar aqueles desprevenidos... Eu escutei, e
perfiz até um arrepio. Mas Diadorim, de vez mais sério,
temperou: – “Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se
serve... Das perguntas que Medeiro Vaz fez, ela tirou por tino
a tenção dele, e não devia de ter falado as pausas... Essa carece
de morrer, para não ser leleira...”
Ouvi mal ouvi. Me vim d’águas frias. Diadorim era
assim: matar, se matava – era para ser um preparo. O judas
algum? – na faca! Tinha de ser nosso costume. Eu não sabia?
Não sou homem de meio-dia com orvalhos, não tenho a fraca
natureza. Mas me venceu pena daquela Ana Duzuza, ela com
os olhos para fora – a gente podia pegar nos dedos. Coisa que
me contou tantas lorotas. Trem, caco de velha, boca que se
fechava aboborosa, de sem dentes. Raspava a rapadura com a
quicé, ia ajuntando na palma da mão o farelo peguento preto;
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ou, se não, segurava o naco, rechupando, lambendo. A gente
engrossava nojo, salivava. Por que é, então, que ela merecia
tanto dó? Eu não tive solércia de contradizer. As vontades de
minha pessoa estavam entregues a Diadorim. A razão dele era
do estilo acinte. Só previ medo foi de que ele falasse para eu
mesmo ir voltar lá, por minhas próprias acabar a Ana Duzuza.
Eu não sojigava tudo por sentir. Fazia tempo que eu não
olhava Diadorim nos olhos.
Mas, de seguinte, eu pensei: se matarem a velha Duzuza,
pelo resguardar o segredo, então é capaz que matem a filha
também, Nhorinhá... então é assassinar! Ah, que se puxou de
mim uma decisão, e eu abri sete janelas: – “Disso que você
disse, desconvenho! Bulir com a vida dessa mulher, para a gente
dá atraso...” – eu o quanto falei. Diadorim me adivinhava: – “Já
sei que você esteve com a moça filha dela...” – ele respondeu,
seco, quase num chio. Dente de cobra. Aí, entendi o que pra
verdade: que Diadorim me queria tanto bem, que o ciúme dele
por mim também se alteava. Depois dum rebate contente, se
atrapalhou em mim aquela outra vergonha, um estúrdio asco.
E eu quase gritei: – “Aí é a intimação? Pois, fizerem, eu saio
do meio de vós, pra todo o nunca. Mais tu há de não me ver!...”
Diadorim pôs mão em meu braço. Do que me estremeci, de
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dentro, mas repeli esses alvoroços de doçura. Me deu a mão; e
eu. Mas era como tivesse uma pedra pontuda entre as duas
palmas. – “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por
conta duma bruxa feiticeira, e a má-vida da filha dela, aqui neste
confim de gerais?!” – ele baixo exclamou. E tive ira. – “Dou!” –
falei. Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a
figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor,
o exato?! E por aí eu já tinha pitado dois cigarros. Ser dono
definito de mim, era o que eu queria, queria. Mas Diadorim sabia
disso, parece que não deixava:
– “Riobaldo, escuta, pois então: Joca Ramiro era o meu
pai...” – ele disse – não sei se estava pálido muito, e depois foi
que se avermelhou. Devido o que, abaixou o rosto, para mais
perto de mim.
Acalmou meu fôlego. Me cerrou aquela surpresa. Sentei em
cima de nada. E eu cri tão certo, depressa, que foi como sempre
eu tivesse sabido aquilo. Menos disse. Espiei Diadorim, a dura
cabeça levantada, tão bonito tão sério. E corri lembrança em Joca
Ramiro: porte luzido, passo ligeiro, as botas russianas, a risada, os
bigodes, o olhar bom e mandante, a testa muita, o topete de
cabelos anelados, pretos, brilhando. Como que brilhava ele todo.
Porque Joca Ramiro era mesmo assim sobre os homens, ele tinha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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uma luz, rei da natureza. Que Diadorim fosse o filho, agora de
vez me alegrava, me assustava. Vontade minha foi declarar: –
Redigo, Diadorim: estou com você, assente, em todo sistema, e
com a memória de seu pai!... Mas foi o que eu não disse. Será por
quê? Criatura gente é não e questão, corda de três tentos, três
tranços. – “Pois, para mim, pra quem ouvir, no fato essa Ana
Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse. E, fechando,
quase gritei: – “Por mim, pode cheirar que chegue o
manacá: não vou! Reajo dessas barbaridades!...”
Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso,
de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às
loucas, gostasse de Diadorim, e também, recesso dum modo, a
raiva incerta, por ponto de não ser possível dele gostar como
queria, no honrado e no final. Ouvido meu retorcia a voz dele.
Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de
empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em
Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas
demais vezes, sempre. E tinha nojo maior daquela Ana Duzuza,
que vinha talvez separar a amizade da gente. Em mesmo eu
quase reconheci um surdo prestígio de, sendo preciso, ir lá, por
mim, reduzir a velha – só não podia maltratar era Nhorinhá, que,
ao tanto afeto, eu, eu bem-queria. Há-de que eu certo não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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regulasse, ôxe? Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando
isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! Não
devia de. O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas,
talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem
ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do
jeito que eu falasse mais mesmo comigo. Mire veja: o que e ruim,
dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si.
Para isso é que o muito se fala?
E as idéias instruídas do senhor me fornecem paz.
Principalmente a confirmação, que me deu, de que o Tal não
existe; pois é não? O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o
Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o
Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro,
o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o
Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos... Pois, não
existe! E, se não existe, como é que se pode se contratar pacto
com ele? E a idéia me retorna. Dum mau imaginado, o senhor
me dê o lícito: que, ou então – será que pode também ser que
tudo é mais passado revolvido remoto, no profundo, mais
crônico: que, quando um tem noção de resolver a vender a alma
sua, que é porque ela já estava dada vendida, sem se saber; e a
pessoa sujeita está só é certificando o regular dalgum velho trato
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– que já se vendeu aos poucos, faz tempo? Deus não queira;
Deus que roda tudo! Diga o senhor, sobre mim diga. Até
podendo ser, de alguém algum dia ouvir e entender assim: quemsabe,
a gente criatura ainda é tão ruim, tão, que Deus só pode às
vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do
diá? Ou que Deus – quando o projeto que ele começa é para
muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o
aproximo de Deus é em figura do Outro? Que é que de verdade
a gente pressente? Dúvido dez anos. Os pobres ventos no burro
da noite. Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas
guardadas, a poder de minhas rezas. Ahã. Deamar, deamo...
Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço:
toda saudade é uma espécie de velhice.
Mas aí, eu estava contando – quando eu gritei aquele
desafio raivoso, Diadorim respondeu o que eu não esperava: –
“Tem discórdia não, Riobaldo amigo, se acalme. Não é preciso
se haver cautela de morte com essa Ana Duzuza. Nem nós
vamos com Medeiro Vaz para fazer barbaridade com a mulher e
filhos pequenos daquele pior dos dois Judas, tão bem que
mereciam, porque ele e os da laia dele têm costumes de
proceder assim. Mas o que a gente quer é só pegar a família
conosco prisioneira; então, ele vem, se vem! E vem obrigado pra
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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combates... Mas, se você algum dia deixar de vir junto, como
juro o seguinte: hei de ter a tristeza mortal...” Disse. Tinha
tornado a pôr a mão na minha mão, no começo de falar, e que
depois tirou; e se espaçou de mim. Mas nunca eu senti que ele
estivesse melhor e perto, pelo quanto da voz, duma voz mesmo
repassada. Coração – isto é, estes pormenores todos. Foi um
esclaro. O amor, já de si, é algum arrependimento. Abracei
Diadorim, como as asas de todos os pássaros. Pelo nome de seu
pai, Joca Ramiro, eu agora matava e morria, se bem.
Mas Diadorim mais não supriu o que mais não explicava. E,
quem sabe para deduzir da conversa, me perguntou: – “Riobaldo,
se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de
bondade que era a dela...”
Na ação de ouvir, digo ao senhor, tive um menos gosto, na
ação da pergunta. Só faço, que refugo, sempre quando outro quer
direto saber o que é próprio o meu no meu, ah. Mas desci disso,
o minuto, vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar
esse tento, em sua amizade delicadeza. Ao que entendi. Assim
devia de ser. Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua
paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade. E eu
nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a
minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que
eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios,
querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou,
fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito
entre madrugar e manhecer.
– “... Pois a minha eu não conheci...” – Diadorim
prosseguiu no dizer. E disse com curteza simples, igual quisesse
falar: barra – beiras – cabeceiras... Fosse cego, de nascença.
Por mim, o que pensei, foi: que eu não tive pai; quer dizer
isso, pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele. Não me
envergonho, por ser de escuro nascimento. Orfão de conhecença
e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões.
Homem viaja, arrancha, passa: muda de lugar e de mulher, algum
filho é o perdurado. Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-ogiro
no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O
senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e
habilidoso. Pergunto: – “Zé-Zim, por que é que você não cria
galinhas-d’angola, como todo o mundo faz?” – “Quero criar
nada não...” – me deu resposta: – “Eu gosto muito de mudar...”
Está aí, está com uma mocinha cabocla em casa, dois filhos dela
já tem. Belo um dia, ele tora. É assim. Ninguém discrepa. Eu,
tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. Eu, isto é – Deus, por
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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baixos permeios... Essa não faltou também à minha mãe, quando
eu era menino, no sertãozinho de minha terra – baixo da ponta
da Serra das Maravilhas, no entre essa e a Serra dos Alegres,
tapera dum sítio dito do Caramujo, atrás das fontes do Verde, o
Verde que verte no Paracatu. Perto de lá tem vila grande – que se
chamou Alegres – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome,
mudaram. Todos os nomes eles vão alterando. É em senhas. São
Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e
o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que
podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome
de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. Lá como
quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de
Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio, com Nossa Senhora e
São José?! Precisava de se ter mais travação. Senhor sabe: Deus é
definitivamente; o demo é o contrário Dele... Assim é que digo:
eu, que o senhor já viu que tenho retentiva que não falta, recordo
tudo da minha meninice. Boa, foi. Me lembro dela com agrado;
mas sem saudade. Porque logo sufusa uma aragem dos acasos.
Para trás, não há paz. O senhor sabe: a coisa mais alonjada de
minha primeira meninice, que eu acho na memória, foi o ódio,
que eu tive de um homem chamado Gramacedo... Gente melhor
do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes;
quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. FicaJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali
onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe. Eu estava
com uns treze ou quatorze anos...
De sorte que, do que eu estava contando, ao senhor, uma
noite se passou, todo o mundo sonhado satisfeito. Declaro que
era em abril, em entrar. Medeiro Vaz, para o que traçava, tinha
querido se adiar das restadas chuvas de março – dia de São José e
sua enchente temposa – para pegar céu perfeito, com os campos
ainda subindo verdes, pois visto a gente ia baixar primeiro por
campinas de brejais, e daí avançar aquilo que se disse, depodepois.
Porque era extraordinária verdade, logo conheci; não
achei terrível. Tangemos, esbarrando dois dias no Vespê – lá se
tinha boa cavalaria descansada, outros cavalos sob guarda dum
sitiante amigo, Jõe Engrácio, por nome. Nos caminhos ainda se
lambuzava muita lama de ontem. – “Versar viagem a cavalo sem
ter estradas – só doido é quem faz isso, ou jagunz...” – aquele Jõe
Engrácio falou, esse era homem sério trabalhador, mas demais de
simplório; e, do que ele falava, ele mesmo logo se ria, fortemente.
Mas erro era – porquanto Medeiro Vaz sempre soube rumo
prático, pelo firme. Modo mesmo assim, ele Jõe Engrácio
reparou na quantidade de comidas e mantimentos que a gente
tinha reunido, em tantos burros cargueiros: e que era
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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despropósito, por amor daquela fartura – as carnes e farinhas, e
rapadura, nem faltava sal, nem café. De tudo. E ele, vendo o que
via, perguntou aonde se ia, dando dizendo de querer ir junto. –
“Bobou?” – foi só o que Medeiro Vaz indeferiu. – “Bobei, chefe.
Perdão peço...” – Jõe Engrácio reverenciou.
Medeiro Vaz não era carrancista. Somente de mais sisudez,
a praxe, homem baseado. Às vezes vinha falando surdo, de
resmão. Com ele, ninguém vereava. De estado calado, ele
sempre aceitava todo bom e justo conselho. Mas não louvava
cantoria. Estavam falando todos juntos? Então Medeiro Vaz
não estava lá. O que tinha sido antanha a história mesma dele, o
senhor sabe? Quando moço, de antepassados de posses, ele
recebera grande fazenda. Podia gerir e ficar estadonho. Mas
vieram as guerras é os desmandos de jagunços – tudo era morte
e roubo, e desrespeito carnal das mulheres casadas e donzelas,
foi impossível qualquer sossego, desde em quando aquele
imundo de loucura subiu as serras e se espraiou nos gerais. Então
Medeiro Vaz, ao fim de forte pensar, reconheceu o dever dele:
largou tudo, se desfez do que abarcava, em terras e gados, se
livrou leve como que quisesse voltar a seu só nascimento. Não
tinha bocas de pessoa, não sustinha herdeiros forçados. No
derradeiro, fez o fez-por suas mãos pôs fogo na distinta casa-deJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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fazenda, fazendão sido de pai, avô, bisavô – espiou até o voejo
das cinzas; lá hoje é arvoredos. Ao que, aí foi aonde a mãe estava
enterrada – um cemiteriozinho em beira do cerrado – então
desmanchou cerca, espalhou as pedras: pronto, de alívios agora
se testava, ninguém podia descobrir, para remexer com desonra,
o lugar onde se conseguiam os ossos dos parentes. Daí, relimpo
de tudo, escorrido dono de si, ele montou em ginete, com cachos
d’armas, reuniu chusma de gente corajada, rapaziagem dos
campos, e saiu por esse rumo em roda, para impor a justiça. De
anos, andava. Dizem que foi ficando cada vez mais esquisito.
Quando conheceu Joca Ramiro, então achou outra esperança
maior: para ele, loca Ramiro era único homem, par-de-frança,
capaz de tomar conta deste sertão nosso, mandando por lei, de
sobregoverno. Fato que Joca Ramiro também igualmente saía
por justiça e alta política, mas só em favor de amigos
perseguidos; e sempre conservava seus bons haveres. Mas
Medeiro Vaz era duma raça de homem que o senhor mais não
vê; eu ainda vi. Ele tinha conspeito tão forte, que perto dele até o
doutor, o padre e o rico, se compunham. Podia abençoar ou
amaldiçoar, e homem mais moço, por valente que fosse, de beijar
a mão dele não se vexava. Por isso, nós todos obedecíamos.
Cumpríamos choro e riso, doideira em juízo. Tenente nos gerais
– ele era. A gente era os medeiro-vazes.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Razão dita, de boa-cara se aceitou, quando conforme
Medeiro Vaz com as poucas palavras: que íamos cruzar o Liso
do Suçuarão, e cutucar de guerrear nos fundões da Bahia! Até, o
tanto, houve, prezando, um rebuliço de festejo. O que ninguém
ainda não tinha feito, a gente se sentia no poder fazer. Como
fomos: dali do Vespê, tocamos, descendo esbarrancados e escorregador.
Depois subimos. A parte de mais árvores, dos
cerrados, cresce no se caminhar para as cabeceiras. Boi brabeza
pode surgir do caatingal, tresfuriado com o que de gente nunca
soube – vem feio pior que onça. Se viam bandos tão compridos
de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho,
desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente. Daí, se
desceu mais, e, de repente, chegamos numa baixada toda
avistada, felizinha de aprazível, com uma lagoa muito correta,
rodeada de buritizal dos mais altos: buriti – verde que afina e
esveste, belimbeleza. E tinha os restos de uma casa, que o
tempo viera destruindo; e um bambual, por antigos plantado; e
um ranchinho. Ali se chamava o Bambual do Boi. Lá a gente
seria de pernoitar e arrumar os finais preparos. Eu estava de
sentinela, afastado um quarto-de-légua, num alto retuso. Dali eu
via aquele movimento: os homens, enxergados tamanhinho de
meninos, numa alegria, feito nuvem de abelhas em flor de araçá,
esse alvoroço, como tirando roupa e correndo para aproveitarem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de se banhar no redondo azul da lagoa, de donde fugiam
espantados todos os pássaros – as garças, os jaburus, os
marrecos, e uns bandos de patos-pretos. Semelhava que por
saberem que no outro dia principiava o peso da vida, os companheiros
agora queriam só pular, rir e gozar seu exato. Mas uns
dez tinham de sempre ficar formando prontidão, com seus rifles
e granadeiras, que Medeiro Vaz assim mandava. E, de tardinha,
quando voltou o vento, era um fino soprado seguido, nas palmas
dos buritis, roladas uma por uma. E o bambual, quase
igualmente. Som bom de chuvas. Então, Diadorim veio me fazer
companhia. Eu estava meio dúbito. Talvez, quem tivesse mais
receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Confesso. Eu cá
não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era
variável. Ah, naqueles tempos eu não sabia, hoje é que sei: que,
para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se
olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de
valentia; ou cara de ruindade! Mas minha competência foi
comprada a todos custos, caminhou com os pés da idade. E, digo
ao senhor, aquilo mesmo que a gente receia de fazer quando
Deus manda, depois quando o diabo pede se perfaz. O Danador!
Mas Diadorim estava a suaves. – “Olha, Riobaldo” – me disse –
“nossa destinação é de glória. Em hora de desânimo, você
lembra de sua mãe; eu lembro de meu pai...” Não fale nesses,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Diadorim... Ficar calado é que é falar nos mortos... Me faltou
certeza para responder a ele o que eu estava achando. Que vontade
era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos
dele, ocultando, para não ter de tolerar de ver assim o chamado,
até que ponto esses olhos, sempre havendo, aquela beleza verde,
me adoecido, tão impossível.
Dormiu-se bem. De manhãzim – moal de aves e pássaros
em revôo, e pios e cantos – a gente toda discorria, se
esparramava, atarefados, ajudando para o derradeiro. Os bogós
de couro foram enchidos nas nascentes da lagoa, e enqueridos
nas costas dos burrinhos. Também tínhamos trazido jumentos,
só modo para carregar. Os cavalos ainda pastavam um pouco,
do capim-grama, que tapava os pés deles. Se dizia muita alegria.
Cada um pegava também sua cabaça d’água, e na capanga o
diário de se valer com o que comer – paçoca. Medeiro Vaz,
depois de não dizer nada, deu ordem de seguida. Primeiro, para
adiante, foi uma turma de cinco homens, a patrulhazinha.
Constante que com a gente estavam três bons rastreadores –
Suzarte, Joaquim Beiju e Tipote – esse Tipote sabia meios de
descobrir cacimbas e grotas com o bebível, o Suzarte
desempenhava um faro de cachorro-mestre, e Joaquim Beiju
conhecia cada recanto dos gerais, de dia e de noite, referido
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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deletreado, quisesse podia mapear planta. Saímos, semoventes.
Seis novilhos gordos a gente repontava, serviam para se carnear
em rota. De repente, com a gente se afastando, os pássaros
todos voltavam do céu, que desciam para seus lugares, em ponto,
nas frescas beiras da lagoa – ah, a papeagem no buritizal, que
lequelequeia. A ver, e o sol, em pulo de avanço, longe na banda
de trás, por cima de matos, rebentava, aquela grandidade. Dia
desdobrado.
Em o que afundamos num cerrado de mangabal, indo sem
volvência, até perto de hora do almoço. Mas o terreno
aumentava de soltado. E as árvores iam se abaixando
menorzinhas, arregaçavam saia no chão. De vir lá, só algum tatu,
por mel e mangaba. Depois, se acabavam as mangabaranas e
mangabeirinhas. Ali onde o campo largueia. Os urubus em vasto
espaceavam. Se acabou o capinzal de capim-redondo e paspalho,
e paus espinhosos, que mesmo as moitas daquele de prateados
feixes, capins assins. Acabava o grameal, naquelas paragens
pardas. Aquilo, vindo aos poucos, dava um peso extrato, o
mundo se envelhecendo, no descampante. Acabou o sapé brabo
do chapadão. A gente olhava para trás. Daí, o sol não deixava
olhar rumo nenhum. Vi a luz, castigo. Um gavião-andorim: foi o
fim de pássaro que a gente divulgou. Achante, pois, se estava
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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naquela coisa – taperão de tudo, fofo ocado, arrevesso. Era uma
terra diferente, louca, e lagoa de areia. Onde é que seria o sobejo
dela, confinante? O sol vertia no chão, com sal, esfaiscava. De
longe vez, capins mortos; e uns tufos de seca planta – feito
cabeleira sem cabeça. As-exalastrava a distância, adiante, um
amarelo vapor. E fogo começou a entrar, com o ar, nos pobres
peitos da gente.
Expondo ao senhor que o sucedido sofrimento sobrefoi já
inteirado no começo; daí só mais aumentava. E o que era para
ser. O que é pra ser – são as palavras! Ah, porque. Por quê? Juro
que: pontual nos instantes de o raso se pisar, um sujeito dos
companheiros, um João Bugre, me disse, ou disse a outro, do
meu lado:
– “ ... O Hermógenes tem pauta... Ele se quis com o
Capiroto...”
Eu ouvi aquilo demais. O pacto! Se diz – o senhor sabe.
Bobéia. Ao que a pessoa vai, em meia-noite, a uma encruzilhada,
e chama fortemente o Cujo – e espera. Se sendo, há-de que vem
um pé-de-vento, sem razão, e arre se comparece uma porca com
ninhada de pintos, se não for uma galinha puxando barrigada de
leitões. Tudo errado, remedante, sem completação... O senhor
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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imaginalmente percebe? O crespo – a gente se retém – então dá
um cheiro de breu queimado. E o dito – o Coxo – toma espécie,
se forma! Carece de se conservar coragem. Se assina o pacto. Se
assina com sangue de pessoa. O pagar é a alma. Muito mais
depois. O senhor vê, superstição parva? Estornadas! “... O
Hermógenes tem pautas...” Provei. Introduzi. Com ele ninguém
podia? O Hermógenes – demônio. Sim só isto. Era ele mesmo.
A gente viemos do inferno – nós todos – compadre meu
Quelemém instrui. Duns lugares inferiores, tão monstromedonhos,
que Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por
um relance a graça de sua sustância alumiável, em as trevas de
véspera para o Terceiro Dia. Senhor quer crer?
Que lá o prazer trivial de cada um é judiar dos outros, bom
atormentar; e o calor e o frio mais perseguem; e, para digerir o
que se come, é preciso de esforçar no meio, com fortes dores; e
até respirar custa dor; e nenhum sossego não se tem. Se creio?
Acho proseável. Repenso no acampo da Macaúba da Jaíba,
soante que mesmo vi e assaz me contaram; e outros – as ruindades
de regra que executavam em tantos pobrezinhos arraiais:
baleando, esfaqueando, estripando, furando os olhos, cortando
línguas e orelhas, não economizando as crianças pequenas,
atirando na inocência do gado, queimando pessoas ainda meio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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vivas, na beira de estrago de sangues... Esses não vieram do
inferno? Saudações. Se vê que subiram de lá antes dos prazos,
figuro que por empreitada de punir os outros, exemplação de
nunca se esquecer do que está reinando por debaixo. Em tanto,
que muitos retombam para lá, constante que morrem... Viver é
muito perigoso.
Mas mor o infernal a gente também media. Digo. A igual,
igualmente. As chuvas já estavam esquecidas, e o miolo mal do
sertão residia ali, era um sol em vazios. A gente progredia dumas
poucas braças, e calcava o reafundo do areião – areia que
escapulia, sem firmeza, puxando os cascos dos cavalos para trás.
Depois, se repraçava um entranço de vice-versa, com espinhos e
restolho de graviá, de áspera raça, verde-preto cor de cobra. Caminho
não se havendo. Daí, trasla um duro chão rosado ou
cinzento, gretoso e escabro – no desentender aquilo os cavalos
arupanavam. Diadorim – sempre em prumo a cabeça – o sorriso
dele me dobrava o ansiar. Como que falasse: “Hê, valentes
somos, corruscubas, sobre ninguém – que vamos padecer e
morrer por aqui...” Os medeiro-vazes... Medeiro Vaz se
estugasse adiante, junto com os que rastreavam? Será que de lá
ainda se podia receder? De devagar, vi visagens. Os
companheiros se prosseguindo, só prosseguindo, receei de ter
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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um vágado – como tonteira de truaca. Havia eu de saber por
quê? Acho que provinha de excessos de idéia, pois caminhadas
piores eu já tinha feito, a cavalo ou a pé, no tosta-sol. Medo,
meu medo. Agüentei. Tanto tudo o que eu carregava comigo me
pesava – eu ressentia as correias dos correames, os formatos. A
com légua-e-meia de andada, bebi meu primeiro chupo d’água,
da cabaça – eu tinha avarezas dela. Alguma justa noção não
emendei, eu pensava desconjuntado. Até que esbarramos. Até
que, no mesmo padrão de lugar, sem mudança nenhuma,
nenhuma árvore nem barranco, nem nada, se viu o sol de um
lado deslizar, e a noite armar do outro. Nem auxiliei a tomar
conta dos bois, nem a destravar os burros de albarda. Onde era
que os animais iam poder pastar? Noite redondeou, noite sem
boca. Desarreei, peei o animal, caí e dormi. Mas, no extremo de
adormecer, ainda intruji duas coisas, em cruz: que Medeiro Vaz
estava insensato? – e que o Hermógenes era pactário! Tomo que
essas traves fecharam meus olhos. De Diadorim, aí jaz que
descansando do meu lado, assim ouvi: – “Pois dorme, Riobaldo,
tudo há-de resultar bem...” Antes palavras que picaram em mim
uma gastura cansada; mas a voz dele era o tanto-tanto para o
embalo de meu corpo. Noite essa, astúcia que tive uma sonhice:
Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse
mesmo gostar dele – os gostares...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação
do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na
brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma,
sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os
olhos, para não reter os horizontes, que trancados não alteravam,
circunstavam. Do sol e tudo, o senhor pode completar,
imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter sido, vivido. Só
saiba: o Liso do Suçuarão concebia silêncio, e produzia uma
maldade – feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir, e ir,
vir – e só; e que Medeiro Vaz estava demente, sempre existido
doidante, só agora pior, se destapava – era o que eu tinha
rompência de gritar. E os outros, companheiros, que é que os
outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o
costume – sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio desistido
por si... A calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo,
a dor do calor em todos os corpos que a gente tem. Os cavalos
venteando – só se ouvia o resfol deles, cavalanços, e o trabalho
custoso de suas passadas. Nem menos sinal de sombra. Água não
havia. Capim não havia. A debeber os cavalos em cocho armado
de couro, e dosar a meio, eles esticando os pescoços para pedir,
eles olhavam como para seus cascos, mostrando tudo o que
cangavam de esforço, e cada restar de bebida carecia de ser
poupado. Se ia, o pesadelo. Pesadelo mesmo, de delírios. Os
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cavalos gemiam descrença. Já pouco forneciam. E nós estávamos
perdidos. Nenhum poço não se achava. Aquela gente toda
sapirava de olhos vermelhos, arroxeavam as caras. A luz
assassinava demais. E a gente dava voltas, os rastreadores farejando,
procurando. Já tinha quem beijava os bentinhos, se rezava.
De mim, entreguei alma no corpo, debruçado para a sela, numa
quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo. Valentia vale
em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Ou eu
variava? A saudade que me dependeu foi de Otacília. Moça que
dava amor por mim, existia nas Serras dos Gerais – Buritis Altos,
cabeceira de vereda – na Fazenda Santa Catarina. Me airei nela,
como a diguice duma música, outra água eu provava. Otacília, ela
queria viver ou morrer comigo – que a gente se casasse. Saudade
se susteve curta. Desde uns versos:
Buriti, minha palmeira,
lá na vereda de lá
casinha da banda esquerda,
olhos de onda do mar...
Mas os olhos verdes sendo os de Diadorim. Meu amor de
prata e meu amor de ouro. De doer, minhas vistas bestavam, se
embaçavam de renuvem, e não achei acabar para olhar para o
céu. Tive pena do pescoço do meu cavalo – pedação, tábua
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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suante, padecente. Voltar para trás, para as boas serras! Eu via,
queria ver, antes de dar à casca, um pássaro voando sem
movimento, o chão fresco remexido pela fossura duma anta, o
cabecear das árvores, o riso do ar e o fogo feito duma arara. O
senhor sabe o que é o frege dum vento, sem uma moita, um pé
de parede pra ele se retrasar? Diadorim não se apartou do meu
lado. Caso que arredondava a testa, pensando. Adivinhou que eu
roçava longe dele em meus pensamentos. – “Riobaldo, não se
matou a Ana Duzuza... Nada de reprovável não se fez...” –
falou. E eu não respondendo. Agora, o que era que aquilo me
importava – de malfeitos e castigos? Eu ambicionava o suíxo
manso dum córrego nas lajes – o bom sumiço dum riacho mato
a fundo. E adverti memória dos derradeiros pássaros do
Bambual do Boi. Aqueles pássaros faziam arejo. Gritavam
contra a gente, cada um asia sua sombra num palmo vivo
d’água. O melhor de tudo é a água. No escaldado... “Saio daqui
com vida, deserteio de jaguncismo, vou e me caso com
Otacília!” – eu jurei, do proposto de meus todos sofrimentos.
Mas mesmo depois, naquela hora, eu não gostava mais de
ninguém: só gostava de mim, de mim! Novo que eu estava no
velho do inferno. Dia da gente desexistir é um certo decreto –
por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê. Ah, e os poços não
se achavam... Alguém já tinha declarado de morto. O Miquim,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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um rapaz sério sincero, que muito valia em guerreio, esbarrou e
se riu: – “Será que não é sorte?” Depois, se sofreu o grito de
um, adiante: – “Estou cego!...” Mais aquele, o do pior – caiu
total, virado torto; embaraçando os passos das montadas. De
repente, um rosnou, reclamou baixo. Outro também. Os cavalos
bobejavam. Vi uma roda de caras de homens. Suas as caras.
Credo como algum – até as orelhas dele estavam cinzentas. E
outro: todo empretecido, e sangrava das capelas e papos-dosolhos.
Medeiro Vaz a nada não atendia? Ouvi minhas veias. Aí,
a rumo, eu pude pegar a rédea do animal de Diadorim – aquelas
peças doeram na minha mão – tive que fiquei um instante no
inclinado. – “Daqui, deste mesmo de lugar, mais não vou! Só
desarrastado vencido...” – mas falei. Diadorim pareceu em
pedra, cão que olha. Contanto me mirou a firme, com aquela
beleza que nada mudava. – “Pois vamos retornar, Riobaldo...
Que vejo que nada campou viável...” – “Tal tempo!” – truquei,
mais forte, rouco como um guariba. Foi aí que o cavalo de
Diadorim afundou aberto, espalhado no chão, e se agoniou. Eu
apeei do meu. Medeiro Vaz estava ali, num aspeito repartido.
Pessoal companheiro, em redor, se engasgavam, pelo o
resultado. – “Nós temos de voltar, chefe?” – Diadorim solicitou.
Acabou de falar, e parou um gesto, para nós, a gente sofreasse.
Tom bom; mas se via que Medeiro Vaz não podia outro querer,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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a não ser o que Diadorim perguntava. Medeiro Vaz, então – por
primeira vez – abriu dos lados as mãos, de nada não poder
fazer; e ele esteve de ombros rebaixados. Mais não vi, e entendi.
Peguei minha cabaça, bebi gole, amargo de felém. Mas era
mesmo o final de se voltar, Deus me disse. E – o senhor mais
saiba – de supeto já eu estava remoçado, são, disposto! Todos
influídos assim. Pra trás, sempre dá o prazer. Diadorim apalpou
meu braço. Vi: os olhos dele marejados. Mor que depois eu
soube – que, a idéia de se atravessar o Liso do Suçuarão, ele
Diadorim era que a Medeiro Vaz tinha aconselhado.
Mas, para que contar ao senhor, no tinte, o mais que se
mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo. Como Deus foi servido,
de lá, do estralal do sol, pudemos sair, sem maiores estragos. Isto
é, uns homens mortos, e mais muitos dos cavalos. Mesmo o mais
grave sido que restamos sem os burros, fugidos por infelizes, e a
carga quase toda, toda, com os mantimentos, a gente perdemos.
Só não acabamos sumidos dextraviados, por meio do regular das
estrelas. E foi. Saímos dali, num pintar de aurora. E em lugares
deerrados. Mais não se podia. Céu alto e o adiado da lua. Com
outros nossos padecimentos, os homens tramavam zuretados de
fome – caça não achávamos – até que tombaram à bala um
macaco vultoso, destrincharam, quartearam e estavam comendo.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Provei. Diadorim não chegou a provar. Por quanto – juro ao
senhor – enquanto estavam ainda mais assando, e manducando,
se soube, o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era
homem humano, morador, um chamado José dos Alves! Mãe
dele veio de aviso, chorando e explicando: era criaturo de Deus,
que nu por falta de roupa... Isto é, tanto não, pois ela mesma
ainda estava vestida com uns trapos; mas o filho também
escapulia assim pelos matos, por da cabeça prejudicado. Foi
assombro. A mulher, fincada de joelhos, invocava. Algum disse:
– “Agora, que está bem falecido, se come o que alma não é,
modo de não morrermos todos...” Não se achou graça. Não,
mais não comeram, não puderam. Para acompanhar, nem farinha
não tinham. E eu lancei. Outros também vomitavam. A mulher
rogava. Medeiro Vaz se prostrou, com febre, diversos
perrengavam. – “Aí, então, é a fome?” – uns xingavam. Mas
outros conseguiram da mulher informação: que tinha, obra de
quarto-delégua de lá, um mandioca) sobrado. – “Arre que não!”
– ouvi gritarem: que, de certo, por vingança, a mulher ensinasse
aquilo, de ser mandiocabrava! Esses olhavam com terrível raiva.
Nesse tempo, o Jacaré pegou de uma terra, qualidade que dizem
que é de bom aproveitar, e gostosa. Me deu, comi, sem achar
sabor, só o pepego esquisito, e enganava o estômago. Melhor
engolir capins e folhas. Mas uns já enchiam até capanga, com torJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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rão daquela terra. Diadorim comeu. A mulher também aceitou, a
coitada. Depois Medeiro Vaz passou mal, outros tinham dores,
pensaram que carne de gente envenenava. Muitos estavam
doentes, sangrando nas gengivas, e com manchas vermelhas no
corpo, e danado doer nas pernas, inchadas. Eu cumpria uma
disenteria, garrava a ter nojo de mim no meio dos outros. Mas
pudemos chegar até na beira do dos-Bois, e na Lagoa Suçuarana,
ali se pescou. Nós trouxemos aquela mulher, o tempo todo, ela
temia de que faltasse outro de-comer, e ela servisse. – “Quem
quiser bulir com ela, que me venha!” – Diadorim garantiu. –
“Que só venha!” – eu secundei, do lado dele. Matou-se capivara
gorda, por fim. Dum geralista roto, ganhamos farinha-de-buriti,
sempre ajudava. E seguimos o corgo que tira da Lagoa Suçuarana,
e que recebe o do Jenipapo e a Vereda – do-Vitorino, e
que verte no Rio Pandeiros – esse tem cachoeiras que cantam, e é
d’água tão tinto, que papagaio voa por cima e gritam, sem
acordo: – É verde! É azul! É verde! É verde!... E longe pedra velha
remeleja, vi. Santas águas, de vizinhas. E era bonito, no correr do
baixo campo, as flores do capitão-da-sala-todas vermelhas e
alaranjadas, rebrilhando estremecidas, de reflexo. – “É o cavalheiro-
da-sala...” – Diadorim falou, entusiasmado. Mas o Alaripe,
perto de nós, sacudiu a cabeça. – “Em minha terra, o nome
dessa” – ele disse“é dona-joana... Mas o leite dela é venenoso...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Esbandalhados nós estávamos, escatimados naquela
esfrega. Esmorecidos é que não. Nenhum se lastimava, filhos do
dia, acho mesmo que ninguém se dizia de dar por assim. Jagunço
é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase
que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está
assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final. E
todo o mundo não presume assim? Fazendeiro, também?
Querem é trovão em outubro e a tulha cheia de arroz. Tudo que
eu mesmo, do que mal houve, me esquecia. Tornava a ter fé na
clareza de Medeiro Vaz, não desfazia mais nele, digo. Confiança
– o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela
rodeia é o quente da pessoa. E despaireci meu espírito de ir
procurar Otacília, pedir em casamento, mandado de virtude. Fui
fogo, depois de ser cinza. Ah, algum, isto é que é, a gente tem
devassalar. Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda
parte lambendo o prato... Mas eu gostava de Diadorim para
poder saber que estes gerais são formosos.
Talmente, também, se carecia de tomar repouso e aguardo.
Por meios e modos, sortimos arranjados animais de montada,
arranchamos dias numa fazenda hospitaleira na Vereda do
Alegre, e viemos vindo atravessando o Pardo e o Acari, em toda
a parte a gente era recebida a bem. Tardou foi para se ter sinal
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dos bandos dos Judas. Mas a vantagem nossa era que todos os
moradores pertenciam do nosso lado. Medeiro Vaz não
maltratava ninguém sem necessidade justa, não tomava nada à
força, nem consentia em desatinos de seus homens.
Esbarrávamos em lugar, as pessoas vinham, davam o que
podiam, em comidas, outros presentes. Mas os Hermógenes e
os cardões roubavam, defloravam demais, determinavam sebaça
em qualquer povoa) à-toa, renitiam feito peste. Na ocasião, o
Hermógenes beirava a Bahia de lá, se soube, e eram um mundo
enorme de má gente. E o Ricardão? Estivesse, esperasse. Dando
meias andadas, nós chegamos num ponto-verdadeiro, num
Buriti-do-Zé. Dono de lá, Sebastião Vieira, tinha curral e casa. E
guardava munição da gente: mais de dez mil tiros de bala.
Por que foi que não se fez combate, depois naqueles meses
todos? A verdade digo ao senhor: os soldados do Governo
perseguiam a gente. Major Oliveira, Tenente Ramiz e Capitão
Melo Franco – esses não davam espaço. E Medeiro Vaz pensava
era um pensamento: a gente mamparreasse de com eles não
guerrear, não se esperdiçar – porque as nossas armas guardavam
um destino só, de dever. Escapulíamos, esquipávamos. Vereda
em vereda, como os buritis ensinam, a gente varava para após. Se
passava o Piratinga, que é fundo, se passava: ou no Vau da Mata
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ou no Vau da Boiada; ou então, pegando mais por baixo, o São
Domingos, no Vau do José Pedro. Se não, subíamos beira desse,
até às nascentes, no São Dominguinhos. A ser o importante, que
se tinha de estudar, era avançar depressa nas boas passagens nas
divisas, quando militar vinha cismado empurrando. É preciso de
saber os trechos de se descer para Goiás: em debruçar para
Goiás, o chapadão por lá vai terminando, despenha. Tem quebracangalhas
e ladeiras terríveis vermelhas. Olhe: muito em além, vi
lugares de terra queimada e chão que dá som – um estranho.
Mundo esquisito! Brejo do Jatobazinho: de medo de nós, um
homem se enforcou. Por aí, extremando, se chegava até no
Jalapão – quem conhece aquilo? – tabuleiro chapadoso,
proporema. Pois lá um geralista me pediu para ser padrinho de
filho. O menino recebeu nome de Diadorim, também. Ah, quem
oficiou foi o padre dos baianos, saiba o senhor: população de um
arraial baiano, inteira, que marchava de mudada-homens,
mulheres, as crias, os velhos, o padre com seus petrechos e cruz e
a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música, como
vieram com todos, parecendo nação de maracatu! Iam para os
diamantes, tão longe, eles mesmo dizendo: “... nos rios...” Uns
tocavam jumentos de almocreve, outros carregavam suas coisas –
sacos de mantimentos, trouxas de roupa, rede de caroá a tiracol.
O padre, com chapéu-de-couro prà-trasado. Só era uma
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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procissão sensata enchendo estrada, às poeiras, com o plequeio
das alpercatas, as velhas tiravam ladainha, gente cantável.
Rezavam, indo da miséria para a riqueza. E, pelo prazer de tomar
parte no conforto de religião, acompanhamos esses até à Vila da
Pedra-de-Amolar. Lá venta é da banda do poente, no tempo-daságuas;
na seca, o vento vem deste rumo daqui. O cortejo dos
baianos dava parecença com uma festa. No sertão, até enterro
simples é festa.
Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição
se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para
se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e
pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham
comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais
crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus,
dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso
com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: –
“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” –
ciente me respondeu.
Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos.
O senhor vá lá, na Jijujã. Vai agora, mês de junho. A estrelad’alva
sai às três horas, madrugada boa gelada. É tempo da cana.
Senhor vê, no escuro, um quebrapeito – e é ele mesmo, já
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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risonho e suado, engenhando o seu moer. O senhor bebe uma
cuia de garapa e dá a ele lembranças minhas. Homem de mansa
lei, coração tão branco e grosso de bom, que mesmo pessoa
muito alegre ou muito triste gosta de poder conversar com ele.
Todo assim, o que minha vocação pedia era um fazendão
de Deus, colocado no mais tope, se braseando incenso nas
cabeceiras das roças, o povo entoando hinos, até os pássaros e
bichos vinham bisar. Senhor imagina? Gente sã valente,
querendo só o Céu, finalizando. Mas diverso do que se vê, ora cá
ora ali lá. Como deu uma moça, no Barreiro-Novo, essa desistiu
um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia
benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegadoregional
chegou, trouxe os praças, determinou o desbando do
povo, baldearam a moça para o hospício de doidos, na capital,
diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda.
Tinham o direito? Estava certo? Meio modo, acho que foi bom.
Aquilo não era o que em minha crença eu prezava. Porque, num
estalo de tempo, já tinham surgido vindo milhares desses, para
pedir cura, os doentes condenados: lázaros de lepra, aleijados por
horríveis formas, feridentos, os cegos mais sem gestos, loucos
acorrentados, idiotas, héticos e hidrópicos, de tudo: criaturas que
fediam. Senhor enxergasse aquilo, o senhor desanimava. Se tinha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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um grande nojo. Eu sei: nojo é invenção, do Que-NãoHá, para
estorvar que se tenha dó. E aquela gente gritava, exigiam saúde
expedita, rezavam alto, discutiam uns com outros, desesperavam
de fé sem virtude – requeriam era sarar, não desejavam Céu
nenhum. Vendo assaz, se espantava da seriedade do mundo para
caber o que não se quer. Será acerto que os aleijões e feiezas
estejam bem convenientemente repartidos, nos recantos dos
lugares. Se não, se perdia qualquer coragem. O sertão está cheio
desses. Só quando se jornadeia de jagunço, no teso das marchas,
praxe de ir em movimento, não se nota tanto: o estatuto de
misérias e enfermidades. Guerra diverte – o demo acha.
Mire veja: um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque
marido e mulher eram primos carnais, os quatro meninos deles
vieram nascendo com a pior transformação que há: sem braços e
sem pernas, só os tocos... Arre, nem posso figurar minha idéia
nisso! Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que
explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí, discorreu me
dizendo que a vida da gente encarna e reencama, por progresso
próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?!
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é
possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a
gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos
contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um
pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a
gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a
vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em
aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não
dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem
precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não
nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver
nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é
Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente
sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O
inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente
quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a
gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me
corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em
meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor...
De Araçuaí, eu trouxe uma pedra de topázio.
Isto, sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados?
De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no
falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de
que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de
ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem
poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de
transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho
que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e
não queria. Nem para se definir calado, em si, um assunto
contrário absurdo não concede seguimento. Voltei para os frios
da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a
pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília,
por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou
conto mal? Reconto.
Ao que nós acampados em pé duns brejos, brejal, cabo de
várzea. Até, lá era favorável de defender que os cavalos se
espairassem – por ter manga natural, onde se encostar, e currais
falsos, de pegar gado brabeza. Natureza bonita, o capim macio.
Me revejo, de tudo, daquele dia-a-dia. Diadorim restava um
tempo com uma cabaça nas duas mãos, eu olhava para ele. “Seja
por ser, Riobaldo, que em breve rompemos adiante. Desta vez, a
gente tange guerra...” – pronunciou, a prazer, como sempre
quando assim, em véspera. Mas balançou a cabaça: tinha um
trem dentro, um ferro, o que me deu desgosto; taco de ferro, sem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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serventia, só para produzir gastura na gente. – “Bota isso fora,
Diadorim!” – eu disse. Ele não contestou, e me olhou de um
hesitado jeito, que se eu tivesse falado causa impossível. Em tal,
guardou o pedaço de ferro na algibeira. E ficava toda-a-vida com
a cabaça nas mãos, era uma cabaça baiana fabricada, desenhada
de capricho, mas que agora sendo para nojo. E, como me deu
sede, eu peguei meu copo de corno lavrado, que não quebra
nunca, e fomos apanhar água num poço, que ele me disse. Era
por esconso por uma palmeira – duma de nome que não sei, de
curta altura, mas regrossa, e com cheias palmas, reviradas para
cima e depois para baixo, até pousar no chão com as pontas.
Todas as palmas tão lisas, tão juntas, fechavam um coberto,
remedando choupã de índio. Assino que foi de avistarem umas
assim que os bugres acharam idéia de formar suas tocas. Aí a
gente se curvar, suspendia uma folhagem, lá entrava. O poço
abria redondo, quase, ou ovalado. Como no recesso do mato, ali
intrim, toda luz verdeja. Mas a água, mesma, azul, dum azul que
haja – que roxo logo mudava. A vai, coração meu foi forte.
Sofismei: se Diadorim segurasse em mim com os olhos, me
declarasse as todas as palavras? Reajo que repelia. Eu? Asco!
Diadorim parava normal, estacado, observando tudo sem
importância. Nem provia segredo. E eu tive decepção de logro,
por conta desse sensato silêncio? Debrucei, ia catar água. Mas,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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qual, se viu um bicho – rã brusca, feiosa: botando bolhas, que à
lisa cacheavam. Resumo que nós dois, sob num tempo, demos
para trás, discordes. Diadorim desconversou, e se sumiu, por lá,
por aí, consoante a esquisitice dele, de sempre às vezes
desaparecer e tornar a aparecer, sem menos. Ah, quem faz isso
não é por ser e se saber pessoa culpada?
No que vim para um grupo de companheiros, esses
estavam jogando buzo, enchendo folga. Por simples que a
companheirada naqueles derradeiros tempos me caceteava com
um enjôo, todos eu achava muito ignorantes, grosseiros cabras.
Somente que na hora eu queria a frouxa presença deles – fulão e
sicrão e beltrão e romão – pessoal ordinário. A tanto, mesmo
sem fome, providenciei para mim uma jacuba, no come-calado.
E quis – que até me perguntei – pensar na vida: “Penso?” Mas
foi no instante em que todos levantaram as caras: só sendo um
rebuliço, acolá, na virada que principiava a vertente – onde é que
estavam uns outros, que chamavam, muito, acenando especial.
Pois fomos, ligeiro, ver o que, subindo pelo resfriado.
Passava era uma tropa, os diversos lotes de burros, que
vinham de São Romão, levavam sal para Goiás. E o arrieiromestre
relatando uma infeliz notícia, dessas da vida. – “Ele era
alto, feições compridas, dentuço?” – Medeiro Vaz exigiu certeza.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Olhe, pois era” – o arrieiro respondeu – “e, antes de morrer,
deu o nome: que era Santos-Reis... Mais não propôs dizer,
porque aí se exalou. Comandante, o senhor creia, nós tivemos
grande pena...” A gente, em volta, se consternava. Aqueles
tropeiros, no Cururu, tinham achado o Santos-Reis, que morria
urgente; tinham acendido vela, e enterrado. Febres? Ao menos,
mais, a alma descansasse. A gente tirou chapéus, em voto todos
se benzendo. E o Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais
falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação, da
parte de Só Candelário e Titão Passos, chefes em nosso favor na
outra grande banda do Rio.
– “Agora alguém carece de ir...” – Medeiro Vaz decidiu,
olhando salteado; amém! – nós apreciávamos. Eu espiei,
caçando Diadorim, que ali que era a mocinha de cabelos louros.
– “Sesfredo, me conta, me fala nesse acontecer...” – nem bem
cem braças andadas eu já pedia a ele. Era como se eu tivesse de
caçar emprestada uma sombra de um amor. – “E você não volta
para lá, Sesfredo? Você agüenta o existir?” – perguntei. –
“Guardo isso, para às vezes ter saudade. Berimbau! Saudade,
só...” – e ele alargou as ventas, de tanto riso. Vi que a estória da
moça era falsa. De inventar )ouco se ganha. Regra do mundo é
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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muito dividida. O Sesfredo comia muito. E sabia assoviar
seguido, copiando o de muitos pássaros.
Ao viável, eu tinha de atravessar as tantas terras e
municipios, jogamos uma viagem por este Norte, meia geral.
Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não
tenha aparecido. A que viemos: por Extrema de Santa Maria –
Barreiro Claro – Cabeça de Negro – Córrego Pedra do Gervásio
– Acari – Vieira – e Fundo – buscando jeito de encostar no de
São Francisco. Novidade não houve. Passamos, numa barca. Só
sempre bater para o nascente, direitamente em cima de
Tremedal, chamada hoje Monte-Azul. Sabíamos: um pessoal
nosso perpassava por lá, na Jaíba, até à Serra Branca, brabas
terras vazias do Rio Verde-Grande. De madrugada, acordamos
em sua janela um velhozinho, dono de um bananal. O velhozinho
era amigo, executou o recado. Daí a cinco madrugadas,
retornamos. Era para vir alguém, quem veio foi João Goanhá,
próprio. E as descrições que deu foram de todas as piores. Só
Candelário? Morto em tiroteio de combate, metralhadoras
tinham serrado o corpo dele, de esguelha, por riba da cintura. O
Alípio, preso, levado para a cadeia de algum lugar. Titão Passos?
Ah, perseguido por uma soldadesca, tivera de se escapar para a
Bahia, pela proteção do Coronel Horácio de Matos. Só mesmo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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João Goanhá era quem ainda estava. Comandava saldo de uns
homens, os poucos. Mas coragem e munição não faltavam. – “E
os Judas?” – perguntei, com triste raciocínio: por que era que os
soldados não deixavam a gente em paz, mas com aqueles não
terçavam? – “Se diz que eles têm uma proteção preta...” – João
Goanhá me esclareceu: – “O Hermógenes fez o pauto. É o
demônio rabudo quem pune por ele...” Nisso todos acreditavam.
Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que
eu fui o primeiro que cri.
Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade.
Porque ele sabia que os Judas, reforçados, tinham resolvido
passar o Rio em dois lugares, e marcharem em cima de Medeiro
Vaz, para acabar com ele de uma vez, no país de lá. Onde era que
o perigo, Medeiro Vaz precisava de nós.
Mas não pudemos. Mal a gente se tocou, para a Cachoeira
do Salto, e esbarramos com tropa de soldados – tenente Plínio.
Foi fogo. Fugimos. Fogo no Jacaré Grande – tenente Rosalvo.
Fogo no Jatobá Torto – sargento Leandro. Volteamos. Sobre aí,
me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. No
formato da forma, eu não era o valente nem mencionado
medroso. Eu era um homem restante trivial. A verdade que diga,
eu bem defronte de mim se portava, mesmo segurava uma varaJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de-ferrão, considerei nele certo propósito, de despique
gandaiado. Apartei minhas vistas. Requeri, dei passo: – “Se sendo
ordens, Chefe, eu gostava era de ir...” Medeiro Vaz limpou a
goela. A meio, eu estava me lançando, mas mais negaceando
prosápia: duvidoso d’ele consentir; pelo bom atirador que eu era,
o melhor e mor, necessitavam de mim, haviam de querer me
mandar escoteiro, dizedor de mensagem? E aí se deu o que se
deu – o isto é. Medeiro Vaz concordou! – “Mas carece de levar
um companheiro...” – ele propôs. Aí em tanto eu não devia de
me calar, deixar alheia a escolha do segundo, que não me
competia? Ah, ânsia: que eu não queria o que de certo queria, e
que podia se surtir de repente... E a vontade de fim, que me ora
vinha ranger na boca, me levou num avanço: – “Sendo suas
ordens, Chefe, o Sesfredo comigo vai...” – falei. Nem olhei
Diadorim. Medeiro Vaz aprouve. Me encarou, demais, e
despachou, em duríssimo: – “Vai, então, e no caminho não
morre!” A ser que Medeiro Vaz, por esse tempo, já acusava
doença a quase acabada – no peso do fôlego e no desmancho
dos traços. Estava amarelo almecegado, se curvava sem querer, e
diziam que no verter água ele gemia. Ah, mas outro igual eu não
conheci. Quero ver o homem deste homem!... Medeiro Vaz – o
Rei dos Gerais...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Por que era que eu estava procedendo à-toa assim? Senhor,
sei? O senhor vá pondo seu perceber. A gente vive repetido, o
repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado
noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei,
para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só
no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está
na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da
travessia. Mesmo fui muito tolo! Hoje em dia, não me queixo de
nenhuma coisa. Não tiro sombras dos buracos. Mas, também,
não há jeito de me baixar em remorso. Sim, que só duma coisa. E
dessa, mesma, o que tenho é medo. Enquanto se tem medo, eu
acho até que o bom remorso não se pode criar, não é possível.
Minha vida não deixa benfeitorias. Mas me confessei com sete
padres, acertei sete absolvições. No meio da noite eu acordo e
pelejo para rezar. Posso. Constante eu puder, meu suor não
esfria! O senhor me releve tanto dizer.
Mire veja o que a gente é: mal dali a um átimo, eu selando
meu cavalo e arrumando meus dobros, e já me muito entristecia.
Diadorim me espreitava de longe, afetando a espécie duma
vagueza. No me despedir, tive precisão de dizer a ele, baixinho: –
“Por teu pai vou, amigo, mano-oh-mano. Vingar Joca Ramiro...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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A fraqueza minha, adulatória. Mas ele respondeu: – “Viagem
boa, Riobaldo. E boa-sorte...” Despedir dá febre.
Galopando junto com Sesfredo, larguei aquele lugar do
Buriti das Três Fileiras. Pesares que me desenrolavam. E então
eu decifrei meu arranque de ter querido vir com o Sesfredo. Que
ele, se sabia, tinha deixado, fazia muitos anos, em terras do
Jequitinhonha, uma moça que apaixonava, e achava que não
tinha nascido para aquilo, de ser sempre jagunço não gostava.
Como é, então, que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém.
Acho, acho, é do influimento comum, e do tempo de todos.
Tanto um prazo de travessia marcada, sazão, como os meses de
seca e os de chuva. Será? Medida de muitos outros igualasse
com a minha, esses também não sentindo e não pensando. Se
não, por que era que eram aqueles aprontados versos – que a
gente cantava, tanto toda-a-vida, indo em bando por estradas
jornadas, à alegria fingida no coração?:
Olererê, baiana...
eu ia e não vou mais: eu faço
que vou
lá dentro, oh baiana!
e volto do meio pra trás... – ?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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João Goanhá, por valentão e verdadeiro, nem carecia de
estadear orgulho. Pessoa muito leal e briosa. Ele me disse: –
“Agora, da gente não sei o que vai ser... Para guerra grande, eu
acho que só Joca Ramiro é que era capaz...” Ah, mas João
Goanhá também tinha suas cartas altas. Homem de grito grosso.
E, mesmo ignorante analfabeto, de repente ele tirava, sei não de
onde, terríveis mindinhas idéias, mortes diversas. Assim a gente
experimentava, cá e cá, falseando fuga. Os campos-gerais ali
também tem. Tombadores. Arre, os tremedais, já viu algum? O
chão deles consiste duro enxuto, normal que engana; quem não
sabe o resto, vem, pisa, vai avançando, tropa com cavalos,
cavalama. Seja sem espera, quando já estão meio no meio, aquilo
sucrepa: pega a se abalar, ronca, treme escapulindo, feito gema de
ovo na frigideira. Ei! Porque, debaixo da crosta seca, rebole
ocultado um semifundo, de brejão engolidor... Pois, em roda dali,
João Goanhá dispôs que a gente se amoitasse – três golpes de
homens – tocaiando. Ao de manhã, primeiro passaram os do
sargento Leandro, esses eram os menos, e um guia pagavam, por
conhecer o caminho firme. Mas fomos lá, às pressas espalhamos
de lugar os ramos verdes de árvore, que eles tinham botado para
a certa informação. No depois, vinham os do tenente. Tenente,
tenente, tu quer! Seguidos por ali entraram, ah. Dos nossos, uns,
acolá, deram tiros, por disfarçação. Iscas! Cavalaria dos praças se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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avexou. Ave, e pronto, de repente foi: a casca de terra sacudia, se
rachou em cruzes, estalando, em muitos metros – balofou. Os
cavalos entornados – era como despejar prateleiras cheias – e os
soldados aiando gritos, se abraçavam com os animais caintes, ou
com o ar, uns a esmo desfechavam mosquetão. Mas encalcados
se afundando, pra não mais. A gente, se queria, mirava, ainda
acertava neles. Coisas que vi, vi, vi – oi... Eu não atirei. Não tive
braçagem. Talvez tive pena.
Tanto por tanto, daí se encachorraram mais em nós, por
beber vinganças. De campos e matas, vargens e grotas, em cada
ponto para trás, dos lados e adiante da gente, ei eram só
soldados, montão, se gerando. Furadodo-Meio. Serra do Deus-Me-
Livre. Passagem da Limeira. Chapada do Covão. Solón Nélson
morreu. Arduininho morreu. Morreram o Figueiró, BatataRoxa,
Dávila Manhoso, o Campelo, o Clange, Deovídio, Pescoço-
Preto, Toquim, o Sucivre, Elisiano, Pedro Bernardo – acho que
foram esses, todos. Chapada do Sumidouro. Córrego do Poldro.
Mortos mais uns seis. Corrijo: com outros, que pegos presos – se
disse que foram acabados! Doideamos. A Bahia estava cercada
nas portas. Achavam de tomar regalia de desforra na gente, até
qualquer molambo de sujeito, paisano morador. Ah, às vezes,
perdiam ligeiro essa graça... Gerais da Pedra. Lá, o Eleutério se
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apartou da gente, umas cem braças, e foi, a pé, bateu em porta
duma cafua, por esclarecer. O capiau surgiu, ensinou alguma
coisa, errada. Eleutério agradeceu, deu as costas, veio andando
uns passos. O capiau então chamou. Eleutério virou para trás,
para ouvir o que havia, e levou na cara e nos peitos o cheio duma
carga de chumbo fino. Cegou, rodou, entrupicado, arreganhava
os braços, todo se sarapintando das manchas vermelhas, que
cresciam. O cabelo dele aumentou em pé. E a soldadesca atirava,
de emboscados no mato do córrego, e na beira do cerrado, da
outra banda. O capiau se encobriu detrás do forno de assar
biscoito – de lá fazia pontaria com a espingarda – e balas nossas
levantavam terra ao redor dali, feito um ciscado de cachorro
grande. Dentro da cafua também restavam outros soldados; que
deram contas a Deus. Ataliba, com o facão, pregou o capiau na
taipa da cafua, ele morreu mansinho, parecia um santo. Ficou lá,
espetado. Nós – eh – bom. Conseguimos aragem. Até em um
ponto de a salvo conversarmos.
Serra Escura. Nem munição nem de-comer não sobravam.
De forma que a gente carecia de se separar, cada um por seu
risco, como pudesse caçar escape. Se esparramavam os goanhás.
De si por si, quem vivesse viesse para cá do Rio, para reunião: na
juntura da Vereda Saco dos Bois com o Ribeirão Santa Fé. Ou ir
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de direto para onde estivesse Medeiro Vaz. Ou, caso o inimigo
rondasse perto demais, então no Buriti-da-Vida, São Simão do
Bá, ou mais em riba, ali onde o Ribeirão Gado Bravo é vadeável.
Ao que João Goanhá mandou. A pressa era pressa. O ar todo do
campo cheirava a pólvora e a soldados. Diante de mim, nunca
terminava de atar as correias do gibão um Cunha Branco, sarado,
cabra velho guerreiro: ele boiava língua em boca aberta. E medo,
meu, medi muito maior. Se despedimos. Escorregando sem
rumo, eu fui, vim, o Sesfredo comigo também, viemos. Com a
graça de Deus, saímos fora da roda do perigo. Chegamos no
Córrego Cansanção, não longe do Araçuaí. Por durante um
tempo, carecíamos de ter algum serviço reconhecido, no viver
tudo cabe. Nossas armas, com parte das roupas, campeamos um
seguro lugar, deixamos escondidas. Aí, a gente se ajustou no
meio do pessoal daquele doutor, que estava na mineração, que
eu já disse e o senhor sabe.
Por que não ficamos lá? Sei e não sei. Sesfredo esperava de
mim toda decisão. Algum remorso, de não se cumprir de ir, de
desertados? Não vê que não, desafasto. Gente sendo dois,
garante mais para se engambelar, etcétera de traição não sopra
escrúpulos, como nem de crime nenhum, não agasta: igual
lobisomem verte a pele. Só se, companheiros sobrantes, a gente
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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amiúda no ajuizar o desonroso assunto, isto sim, rança o
descrédito de se ser tornadiço covarde. Mas eu podia rever
proveito, caçar de voltar dali para a casa-grande de Selorico
Mendes, exigir meu estado devido, na Fazenda São Gregório.
Temeriam! Assim e silva, como em outro tempo, adiante, podia
flauteado comparecer no Buritis Altos, por conta de Otacília –
continuação de amor. Quis não. Suasse saudade de Diadorim? A
ponto no dizer, menos. Ou nem não tinha. Só como o céu e as
nuvens lá atrás de uma andorinha que passou. Talvez, eu acho,
também, que foi juvenescendo em mim uma inclinação de
abelhudice: assaz eu queria me estar misturado lá, com os
medeiro-vazes, ver o fim de tudo. Em mês de agosto, buriti
vinhoso... Araçuaí não eram os meus campos... Viver é um
descuido prosseguido. Aí, as noites cambando para o entrar das
chuvas, os dias mal. Desengoli. – “Tempo de ir. Vamos?” – eu
disse para Sesfredo. – “Vamos, demais!” – o Sesfredo me
respondeu.
Ah, eh e não, alto-lá comigo, que assim falseio, o mesmo é.
Pois ia me esquecendo: o Vupes! Não digo o que digo, se o do
Vupes não orço – que teve, tãomente. Esse um era estranja,
alemão, o senhor sabe: clareado, constituído forte, com os olhos
azuis, esporte de alto, leandrado, rosalgar – indivíduo, mesmo.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Pessoa boa. Homem sistemático, salutar na alegria séria. Hê, hê,
com toda a confusão de política e brigas, por aí, e ele não
somava com nenhuma coisa: viajava sensato, e ia
desempenhando seu negócio dele no sertão – que era o de
trazer e vender de tudo para os fazendeiros: arados, enxadas,
debulhadora, facão de aço, ferramentas rógers e roscofes, latas
de formicida, arsênico e creolinas; e até papa-vento, desses
moinhos-de-vento de sungar água, com torre, ele tomava
empreitada de armar. Conservava em si um estatuto tão diverso
de proceder, que todos a ele respeitavam. Diz-se que vive até
hoje, mas abastado, na capital – e que é dono de venda grande,
loja, conforme prosperou. Ah, o senhor conheceu ele? Õ
titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor fraseia?
Wusp? É. Seo Emílio Wuspes... Wupsis... Vupses. Pois esse
Vupes apareceu lá, logo vai me reconheceu, como me conhecia,
do Curralinho. Me reconheceu devagar, exatão. Sujeito
escovado! Me olhou, me disse: – “Folgo. Senhor estar bom?
Folgo...” E eu gostei daquela saudação. Sempre gosto de tornar
a encontrar em paz qualquer velha conhecença – consoante a
pessoa se ri, a gente se acha de voltar aos passados, mas parece
que escolhidas só as peripécias avaliáveis, as que agradáveis
foram. Alemão Vupes ali, e eu recordei lembrança daquelas
mocinhas – a Miosótis e a Rosa’uarda – as que, no Curralinho,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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eu pensava que tinham sido as minhas namoradas. – “Seo
Vupes, eu também folgo. Senhor também estar bom? Folgo...”
– que eu respondi, civilizadamente. Ele pitava era charutos. Mais
me disse: – “Sei senhor homem valente, muito valente... Eu
precisar de homem valente assim, viajar meu, quinze dias, sertão
agora aqui muito atrapalhado, gente braba, tudo...” Destampei,
ri que ri, de ouvir.
Mas o mais garboso fiquei, prezei a minha profissão. Ah, o
bom costume de jagunço. Assim que é vida assoprada, vivida
por cima. Um jagunceando, nem vê, nem repara na pobreza de
todos, cisco. O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro
ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade.
São árvores que pegam poeira. A gente às vezes ia por aí, os
cem, duzentos companheiros a cavalo, tinindo e musicando de
tão armados-e, vai, um sujeito magro, amarelado, saía da algum
canto, e vinha, espremendo seu medo, farraposo: com um
vintém azinhavrado no conco da mão, o homem queria comprar
um punhado de mantimento; aquele era casado, pai de família
faminta. Coisas sem continuação... Tanto pensei, perguntei: –
“Para que banda o senhor tora?” E o Vupes respondeu: – “Eu,
direto, cidade São Francisco, vou forte.” Para falar, nem com
uma pontinha de dedo ele não bulia gesticulado. Então, era
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mesmo meu rumo – aceitei – o destinar! Daí, falei com o
Sesfredo, que quis também; o Sesfredo não presumia nada, ele
naquilo não tinha próprio destaque.
Mas os caminhos não acabam. Tal por essas demarcas de
Grão-Mogol, Brejo das Almas e Brasília, sem confrontos de
perturbação, trouxemos o seu Vupes. Com as graças, dele
aprendi, muito. O Vupes vivia o regulado miúdo, e para tudo
tinha sangue-frio. O senhor imagine: parecia que não se
mealhava nada, mas ele pegava uma coisa aqui, outra coisinha
ali, outra acolá – uma moranga, uns ovos, grelos de bambu,
umas ervas – e, depois, quando se topava com uma casa mais
melhorzinha, ele encomendava pago um jantar ou almoço,
pratos diversos, farto real, ele mesmo ensinava o guisar, tudo
virava iguarias! Assim no sertão, e ele formava conforto, o que
queria. Saiba-se! Deixamos o homem no final, e eu cuidei bem
dele, que tinha demonstrado a confiança minha...
Demos no Rio, passamos. E, aí, a saudade de Diadorim
voltou em mim, depois de tanto tempo, me custando seiscentos
já andava, acoroçoado, de afogo de chegar, chegar, e perto estar.
Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito. Bela é a lua,
lualã, que torna a se sair das nuvens, mais redondada recortada.
Viemos pelo Urucuia. Meu rio de amor é o Urucuia. O
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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chapadão – onde tanto boi berra. Daí, os gerais, com o capim
verdeado. Ali é que vaqueiro brama, com suas boiadas
espatifadas. Ar que dá açoite de movimento, o tempo-das-águas
de chegada, trovoada trovoando. Vaqueiros todos vaquejando.
O gado esbravaçava. A mal que as notícias referiam demais a
cambada dos Judas, aumentável, a corja! – “A tantos quantos?”
– eu pondo meu perguntar. – “Os muitos! Uma monarquia
deles...” – os vaqueiros respondendo.
Mas Medeiro Vaz não se achava, os nossos, deles ninguém
não sabia bem. Tocamos, fim que o mundo tivesse. Só
deerrávamos. Assim como o senhor, que quer tirar é instantâneo
das coisas, aproximar a natureza. Estou entendido. Esbarramos
num varjeado, esconso lugar, por entre o daGarapa e o da-Jibóia,
ali tem três lagoas numa, com quatro cores: se diz que a água é
venenosa. E isso de que me serve? Águas, águas. O senhor verá
um ribeirão, que verte no Canabrava – o que verte no Taboca,
que verte no Rio Preto, o primeiro Preto do Rio Paracatu – pois
a daquele é sal só, vige salgada grossa, azula muito: quem
conhece fala que é a do mar, descritamente; nem boi não gosta,
não traga, eh não. E tanta explicação dou, porque muito ribeirão
e vereda, nos contornados por aí, redobra nome. Quando um
ainda não aprendeu, se atrapalha, faz raiva. Só Preto, já molhei
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mão nuns dez. Verde, uns dez. Do Pacari, uns cinco. Da Ponte,
muitos. Do Boi, ou da Vaca, também. E uns sete por nome de
Formoso. São Pedro, Tamboril, Santa Catarina, uma porção. O
sertão é do tamanho do mundo.
Agora, por aqui, o senhor já viu: Rio é só o São Francisco,
o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão. E
agora me lembro: no Ribeirão Entre-Ribeiros, o senhor vá ver a
fazenda velha, onde tinha um cômodo quase do tamanho da
casa, por debaixo dela, socavado no antro do chão – lá judiaram
com escravos e pessoas, até aos pouquinhos matar... Mas, para
não mentir, lhe digo: eu nisso não acredito. Reconditório de se
ocultar ouro, tesouro e armas, munição, ou dinheiro falso
moedado, isto sim. O senhor deve de ficar prevenido: esse povo
diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento
formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Queremporque-
querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles
mesmos acabam crendo e temendo. Parece que todo o mundo
carece disso. Eu acho, que.
Assim, olhe: tem um marimbu – um brejo matador, no
Riacho Cizlá se afundou uma boiada quase inteira, que
apodreceu; em noites, depois, deu para se ver, deitado a fora, se
deslambendo em vento, do cafofo, e perseguindo tudo, um
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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milhão de lavareda azul, de jãdelãfo, fogo-fá. Gente que não
sabia, avistaram, e endoideceram de correr fuga. Pois essa estória
foi espalhada por toda a parte, viajou mais, se duvidar, do que eu
ou o senhor, falavam que era sinal de castigo, que o mundo ia se
acabar naquele ponto, causa de, em épocas, terem castrado um
padre, ali perto umas vinte léguas, por via do padre não ter
consentido de casar um filho com sua própria mãe. A que, até,
cantigas rimaram: do Fogo-Azul-do-Fim-do-Mundo. Hê, hê?...
Agora, a forca, eu vi – forca moderna, esquadriada,
arvorada bem erguida no elevado, em madeira de boa lei, parda:
sucupira. Ela foi num morrote, depois do São Simão do Bá,
perto da banda da mão-direita do Pripitinga. A estúrdia forca de
enforcar, construída, aprovada ali particularmente, porque não
tinham recurso de cadeia, e pajear criminoso por viagens era
dificultoso, tirava as pessoas de seus serviços. Aí, então, usavam.
Às vezes, da redondeza, vinham até trazendo o condenado, a
cavalo, para a forca, pública. Só que um pobre veio morar
próximo, quase debaixo dela, cobrava sua esmola, em cada útil
caso, dando seguida cavava a cova e enterrava o corpo, com cruz.
No mais nada.
Semelhante não foi, quando um homem, Rudugério de
Freitas, dos Freitas ruivos da Água-Alimpada, mandou obrigado
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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um filho dele ir matar outro, buscar para matarem, esse outro,
que roubou sacrário de ouro da igreja da Abadia. Aí, então, em
vez de cumprir o estrito, o irmão combinou com o irmão, os
dois vieram e mataram mesmo foi o velho pai deles, distribuído
de foiçadas. Mas primeiro enfeitaram as foices, urdindo com
cordões de embira e várias flores. E enqueriram o cadáver
paterno em riba da casa – casinha boa, de telhas, a melhor
naquele trecho. Daí, reuniram o gado, que iam levando para
distante vender. Mas foram logo pegos. A pegar, a gente ajudou.
Assim, prisioneiros nossos. Demos julgamento. Ao que, fosse
Medeiro Vaz, enviava imediato os dois para tão razoável forca.
Mas porém, o chefe nosso, naquele tempo, já era – o senhor
saiba Zé Bebelo!
Com Zé Bebelo, oi, o rumo das coisas nascia inconstante
diferente, conforme cada vez. A papo: – “Co-ah! Por que foi que
vocês enfeitaram premeditado as foices?” – ele interrogou. Os
dois irmãos responderam que tinham executado aquilo em
padroeiragem à Virgem, para a Nossa Senhora em adiantado
remitir o pecado que iam obrar, e obraram dito e feito. Tudo que
Zé Bebelo se entesou sério, em pufo, empolo, mas sem rugas em
testa, eu prestes vi que ele estava se rindo por de dentro. Tal, tal,
disse: – “Santíssima Virgem...” E o pessoal todo tirou os
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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chapéus, em alto respeito. – “Pois, se ela perdoa ou não, eu não
sei. Mas eu perdôo, em nome dela – a Puríssima, Nossa Mãe!” –
Zé Bebelo decretou. – “O pai não queria matar? Pois então,
morreu – dá na mesma. Absolvo! Tenho a honra de resumir
circunstância desta decisão, sem admitir apelo nem revogo, legal
e lealdado, conformemente!...” Aí mais Zé Bebelo disse, como
apreciava: – “Perdoar é sempre o justo e certo...” – pirlimpim,
pimpão. Mas, como os dois irmãos careciam de algum castigo,
ele requisitou para o nosso bando aquela gorda boiada, a qual
pronto revendemos, embolsamos. E desse caso derivaram
também uma boa cantiga violeira. Mas deponho que Zé Bebelo
somente determinou assim naquela ocasião, pelo exemplo pela
decência. Normal, quando a gente encontrava alguma boiada
tangida, ele cobrava só imposto de uma ou umas duas reses, para
o nosso sustento nos dias. Autorizava que era preciso se respeitar
o trabalho dos outros, e entusiasmar o afinco e a ordem, no meio
do triste sertão.
Zé Bebelo – ah. Se o senhor não conheceu esse homem,
deixou de certificar que qualidade de cabeça de gente a natureza
dá, raro de vez em quando. Aquele queria saber tudo, dispor de
tudo, poder tudo, tudo alterar. Não esbarrava quieto. Seguro já
nasceu assim, zureta, arvoado, criatura de confusão. Trepava de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ser o mais honesto de todos, ou o mais danado, no tremeluz,
conforme as quantas. Soava no que falava, artes que falava,
diferente na autoridade, mas com uma autoridade muito veloz.
Desarmado, uma vez, caminhou para o Leôncio Du, que tinha
afastado todo o mundo e meneava um facãozão. Como gritou: –
“Você quer vermelho? Te racho, fré!” Ao de que, o Leôncio Du
decidiu deixou o facão cair, e se entregou. Senhor ouve e sabe?
Zé Bebelo era inteligente e valente. Um homem consegue
intrujar de tudo; só de ser inteligente e valente é que muito não
pode. E Zé Bebelo pegava no ar as pessoas. Chegou um brabo,
cabra da Zagaia, recomendado. – “Tua sombra me espinha,
juazeiro!” – Zé Bebelo a faro saudou. E mandou amarrar o
sujeito, sentar nele uma surra de peia. Atual, o cabra confessou:
que tinha querido vir drede para trair, em empreita encobertada.
Zé Bebelo apontou nos cachos dele a máuser: estampido que
espatifa – as miolagens foram se grudar longe e perto. A gente
pegou cantando a Moda-do-Boi.
No regular, Zé Bebelo pescava, caçava, dançava as danças,
exortava a gente, indagava de cada coisa, laçava rês ou topava à
vara, entendia dos cavalos, tocava violão, assoviava musical; só
não praticava de buzo nem baralho – declarando ter receios, por
atreito demais a vício e riscos de jogo. Sem menos, se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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entusiasmava com qual-me-quer, o que houvesse: choveu,
louvava a chuva; trapo de minuto depois, prezava o sol.
Gostava, com despropósito, de dar conselhos. Considerava o
progresso de todos – como se mais esse todo Brasil, territórios
– e falava, horas, horas. – “Vim de vez!” – disse, quando
retornou de Goiás. O passado, para ele, era mesmo passado,
não vogava. E, de si, parte de fraco não dava, nenhão, nunca.
Certo dia, se achando trotando por um caminho completo
novo, exclamou: – “Ei, que as serras estas às vezes até mudam
muito de lugar!...” – sério. E era. E era mas que ele estava
perdido, deerrado de rota, há, há. Ah, mas, com ele, até o feio da
guerra podia alguma alegria, tecia seu divertimento. Acabando
um combate, saía esgalopado, revólver ainda em mão, perseguir
quem achasse, só aos brados: – “Viva a lei! Viva a lei!...” – e era
o pipoco-paco. Ou: – “Paz! Paz!” – gritava também; e bala: se
entregaram mais dois. – “Viva a lei! Viva a lei!...” Há-de-o, que
quilate, que lei, alguém soubesse? Tanto aquilo, sucinto, a fama
correu. Dou-lhe qual: que, uma vez, ele corria a cavalo, por
exercício, e um veredeiro que isto viu se assustou, pulou de
joelhos na estrada, requerendo: – “Não faz vivalei em mim não,
môr-de-Deus, seu Zebebel’, por perdão...” E Zé Bebelo jogou
para o pobre uma cédula de dinheiro; gritou: – “Amonta aqui,
irmão, na garupa!” – trouxe o outro para com a gente jantar.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Esse era ele. Esse era um homem. Para Zé Bebelo, melhor
minha recordação está sempre quente pronta. Amigo, foi uma
das pessoas nesta vida que eu mais prezei e apreciei.
Pois porém, ao fim retomo, emendo o que vinha
contando. A ser que, de campinas a campos, por morros, areiões
e varjas, o Sesfredo e eu chegamos no Marcavão. Antes de lá,
inchou o tempo, para chover. Chuva de desenraizar todo pau,
tromba: chuvão que come terra, a gente vendo. Quem mede e
pesa esses demais d’água? Rios foram se enchendo. Apeamos no
Marcavão, beira do do-Sono. Medeiro Vaz morreu, naquele país
fechado. Nós chegamos em tempo.
Ao quando encontramos o bando, foi ali, Medeiro Vaz já
estava mal; talvez por isso a alegria comum não pôde se dizer,
nem Diadorim me abraçou nem demonstrou um salves por
minha volta. Fiquei sincero. A tristeza e a espera má tomavam
conta da gente. – “O mais é o pior: é que tem inimigo, próximo,
tocaiando...” – Alaripe me disse. Muito chovido de noite-as
árvores esponjadas. Mesmo dava um frio vento, com umidades.
Para agasalhar Medeiro Vaz, tinham levantado um boi – o
senhor sabe: um couro só, espetado numa estaca, por resguardar
a pessoa do rumo donde vem o vento – o bafe-bafe.
Acampávamos debaixo de grandes árvores. O barulhim do rio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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era de bicho em bicheira. Medeiro Vaz jazente numa manta de
pele de bode branco – aberto na roupa, o peito, cheio de
cabelos grisalhados. A barriga dele tinha inflamado muito, mas
não era de hidropisia. Era de dores. Quando vislumbrou de
mim, aí armou no se aprumar, pelejando para me ver. Os olhos
– o alvor, como miolo de formigueiro. Mas se abriu, arriou os
braços, e mediu o chão com suas costas. “Está no bilim-bilim” –
eu pensei. Ah, a cara – arre de amarela, o amarelamento: de
palha! Assim desse jeito ele levou o dia quase a termo.
A tarde foi escurecendo. Ao menos Diadorim me chamou
adeparte; ele tramava as lágrimas. – “Amizade, Riobaldo, que eu
imaginei em você esse prazo inteiro...” – e apertou minha mão.
Avesso fiquei, meio sem jeito. Aí, chamaram: – “Acode, que o
chefe está no fatal!” Medeiro Vaz, arquejando, cumprindo tudo.
E o queixo dele não parava de mexer; grandes momentos.
Demorava. E deu a panca, troz-troz forte, como de propósito.
Uma chuva de arrobas de peso. Era quase sonoite. Reunidos em
volta, ajoelhados, a gente segurava uns couros abertos, para
proteger a morte dele. Medeiro Vaz – o rei dos gerais ; como era
que um daquele podia se acabar?! A água caía, às despejadas,
escorria nas caras da gente, em fios pingos. Debruçando por
debaixo dos couros, podia-se ver o fim que a alma obtém do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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corpo. E Medeiro Vaz, se governando mesmo no remar a
agonia, travou com esforço o ronco que puxava gosma de sua
goela, e gaguejou: – “Quem vai ficar em meu lugar? Quem
capitaneia?...” Com a estrampeação da chuva, os poucos
ouviram. Ele só falava por pedacinhos de palavras. Mas eu vi
que o olhar dele esbarrava em mim, e me escolhia. Ele avermelhava
os olhos? Mas com o cirro e o vidrento. Coração me
apertou estreito.
Eu não queria ser chefe! “Quem capitaneia...” Vi meu
nome no lume dele. E ele quis levantar a mão para me apontar.
As veias da mão... Com que luz eu via? Mas não pôde. A morte
pôde mais. Rolou os olhos; que ralava, no sarrido. Foi dormir
em rede branca. Deu a venta.
Era seu dia de alta tarefa. Quando estiou a chuva,
procuramos o que acender. Só se trouxe uma vela de carnaúba,
o toco, e um brandão de tocha. Eu tinha passado por um susto.
Agora, a meio a vertigem me dava, desnorteado na vontade de
falar aqueles versos, como quem cantasse um coreto:
Meu boi preto mocangueiro,
árvore para te apresilhar?
Palmeira que não debruça:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 105 –
buriti – sem entortar...
Deviam de tocar os sinos de todas as igrejas!
Cobrimos o corpo com palmas de buriti novo, cortadas
molhadas. Fizemos quarto, todos, até ao quebrar da barra. Os
sapos gritavam latejado. O sapo-cachorro arranhou seu rouco.
Alguma anta assoviava, assovio mais fino que o relincho-rincho
dum poldrinho. De aurora, cavacamos uma funda cova. A terra
dos gerais é boa.
Tomou-se café, e Diadorim me disse, firme:
– “Riobaldo, tu comanda. Medeiro Vaz te sinalou com as
derradeiras ordens...”
Todos estavam lá, os brabos, me olhantes – tantas
meninas-dos-olhos escuras repulavam: às duras – grão e grão –
era como levando eu, de milhares, uma carga de chumbo grosso
ou chuvas-de-pedra. Aprovavam. Me queriam governando.
Assim estremeci por interno, me gelei de não poder palavra. Eu
não queria, não queria. Aquilo revi muito por cima de minhas
capacidades. A desgraça, de João Goanhá não ter vindo! Rentemente,
que eu não desejava arreglórias, mão de mando. Engoli
cuspes. Avante por fim, como que respondi às gagas, isto disse:
– “Não posso... Não sirvo...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Mano velho, Riobaldo, tu pode!”
Tive testa. Pensei um nome feio. O que achassem,
achassem! – mas ninguém ia manusear meu ser, para
brincadeiras...
– “Mano velho, Riobaldo: tu crê que não merece, mas nós
sabemos a tua valia...” – Diadorim retornou. Assim instava, mão
erguida. Onde é que os outros, roda-a-roda, denotavam
assentimento. – “Tatarana! Tatarana!...” – uns pronunciaram;
sendo Tatarana um apelido meu, que eu tinha.
Temi. Terçava o grave. Assim, Diadorim dispunha do
direito de fazer aquilo comigo? Eu, que sou eu, bati o pé:
– “Não posso, não quero! Digo definitivo! Sou de ser e
executar, não me ajusto de produzir ordens...”
Tudo parava, por átimo. Todos esperando com suspensão.
Senhor conheceu por de-dentro um bando em-pé de jagunços –
quando um perigo poja? – sabe os quantos lobos? Mas, eh, não,
o pior é que é a calma, uma sisudez das escuras. Não que
matem, uns aos outros, ver; mas, a pique de coisinha, o senhor
pode entornar seu respeito, sobrar desmoralizado para sempre,
neste vale de lágrimas. Tudo rosna. Entremeio, Diadorim se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 107 –
maisfez, avançando passo. Deixou de me medir, vigiou o ar de
todos. Aí ele era mestre nisso, de astuto se certificar só com um
rabeio ligeiro de mirada – tinha gateza para contador de gado. E
muito disse:
– “A pois, então, eu tomo a chefia. O melhor não sou,
oxente, mas porfio no que quero e prezo, conforme vocês todos
também. A regra de Medeiro Vaz tem de prosseguir, com
tenção! Mas, se algum achar que não acha, o justo, a gente isto
decide a ponta d’armas...”
Hê, mandacaru! Oi, Diadorim belo feroz! Ah, ele conhecia
os caminhares. Em jagunço com jagunço, o poder seco da
pessoa é que vale... Muitos, ali, haviam de querer morrer por ser
chefes – mas não tinham conseguido nem tempo de se firmar
quente nas idéias. E os outros estimaram e louvaram: –
“Reinaldo! O Reinaldo!” – foi o aprovo deles. Ah.
Num nu, nisto, nesse repente, desinterno de mim um nego
forte se saltou! Não, Diadorim, não. Nunca que eu podia
consentir. Nanje pelo tanto que eu dele era louco amigo, e
concebia por ele a vexável afeição que me estragava, feito um
mau amor oculto – por mesmo isso, nimpes nada, era que eu
não podia aceitar aquela transformação: negócio de para sempre
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 108 –
receber mando dele, doendo de Diadorim ser meu chefe, nhem,
hem? Nulo que eu ia estuchar. Não, hem, clamei – que como
um sino desbadala:
– “Discordo.”
Todos me olhassem? Não vi, não tremi. Visivo só vi
Diadorim – resumo do aspecto e esboço dele para movimentos:
as mãos e os olhos; de reguarda. Como em relance corri cálculo,
de quantos tiros eu tinha para à queima-bucha dar – e uma
balazinha, primeira, botada na agulha da automática – ah, eu
estava com milho no surrão! De devagar, os companheiros, os
outros, não se buliram, tanto esperavam; decerto que saldavam
antipatia de mim, repugnados por eu estar seguidamente
atrapalhando as decisões, achassem que eu agora não tinha mais
direito de parecer, pois a chefia própria eu enjeitara. Quem sabe,
será se praziam no poder ver nós dois, Diadorim comigo – que
antes como irmãos, até ali – a gente se estraçalhar nas facas?
Torci vontade de matar alguém, para pacificar minha aflição;
alguém, algum – Diadorim não – digo. Decerto isso em mim
eles perceberam. Os calados. Só o Sesfredo, inesperado assim,
disse um também: – “Discordo!” Por me estimar, ele me
secundava. E o Alaripe, séria pessoa: – “Tem de que. Deixa o
Riobaldo razoar...” Endireitei os chifres. Chapei:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 109 –
– “Vejo, Marcelino Pampa é quem tem de comandar.
Mediante que é o mais velho, e, demais de mais velho, valente, e
consabido de ajuizado!” Cara de Marcelino Pampa ficou enorme.
Do que constei dos outros, concordantes, estabeleci que eu tinha
acertado solerte – dei na barra! Mas, Diadorim? De olhos os
olhos agarrados: nós dois. Asneira, eu naquela hora supria
suscitar alto meu maior bem-querer por Diadorim; mesmo,
mesmo, assim mesmo, eu arcava em cru com o desafio, desde
que ele brabasse, desde que ele puxasse. Tempo instante, que
empurrou morros para passar... Afinal, aí, Diadorim abaixou as
vistas. Pude mais do que ele! Se riu, depois de mim. Sempre
sendo que falou, firme:
– “Com gosto. Melhor do que Marcelino Pampa não tem
nenhum. Não ambicionei poderes...”
Falou como corajoso. E:
– “Tresdito que é a vez de se estar contornados, unidos
sem porfiar...” – o Alaripe inteirou.
Amém, todos, voz a voz, aprovavam. Marcelino Pampa
então principiou, falou assim:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Aceito, por precisão nossa, o que obrigação minha é.
Até enquanto não vem algum dos certos, de realce maior: João
Goanhá, Alípio Mota, Titão Passos... A tanto, careço do bom
conselho de todos que tiverem, segura fiança. Assentes que
vamos...”
Sobre mais disse, sem importância, sem noção; pois
Marcelino Pampa possuía talentos minguados. Somente pensei
que ele estava pondo um peso no lombo, por sacrifício. Ao que,
em melhores tempos, aprazia bem capitanear; mas, agora aquela
ocasião, a gente por baixos, e essas misérias, qualquer um não
havia de desgostar de responsabilidade? Ã, aí observei: como
Marcelino Pampa desde o instante expunha outro ar de ser, a
sisuda extravagância, soberbo satisfeito! Ser chefe – por fora um
pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores.
Meu era um alívio. Mesmo não duvidei de meu menos
valer: alguém lá tem a feição do rosto igualzinha à minha? Eh, de
primeiro meu coração sabia bater copiando tudo. Hoje, eu
desconheço o arruído rumor das pancadas dele. Diadorim veio
para perto de mim, falou coisas de admiração, muito de afeto
leal. Ouvi, ouvi, aquilo, copos a fora, mel de melhor. Eu
precisava. Tem horas em que penso que a gente carecia, de
repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 111 –
as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente
adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já
vendemos? Bobéia, minha. E como é que havia de ser possível?
Hem?!
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de Antônio
Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado de posses –
Davidão era o nome dele. Vai, um dia, coisas dessas que às
vezes acontecem, esse Davidão pegou a ter medo de morrer.
Safado, pensou, propôs este trato a um outro, pobre dos mais
pobres, chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de
réis, mas, em lei de caborje – invisível no sobrenatural –
chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate,
então era o Faustino quem morria, em vez dele. E o Faustino
aceitou, recebeu, fechou. Parece que, com efeito, no poder de
feitiço do contrato ele muito não acreditava. Então, pelo
seguinte, deram um grande fogo, contra os soldados do Major
Alcides do Amaral, sitiado forte em São Francisco. Combate
quando findou, todos os dois estavam vivos, o Davidão e o
Faustino. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a
hora-e-dia. Ah, e assim e assim foram, durante os meses,
escapos, alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não
saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e veja: isto
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mesmo narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente,
vindo com outros num caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o
que o moço me disse? Que era assunto de valor, para se compor
uma estória em livro. Mas que precisava de um final sustante,
caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o
Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste!
Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria,
por forma nenhuma. Do discutir, ferveram nisso, ferravam
numa luta corporal. A fino, o Faustino se provia na faca,
investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do
Faustino, que falecia...
Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa
limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí
podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros
e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. A vida disfarça?
Por exemplo. Disse isso ao rapaz pescador, a quem sincero
louvei. E ele me indagou qual tinha sido o fim, na verdade de
realidade, de Davidão e Faustino. O fim? Quem sei. Soube somente
só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem – deu
baixa do bando, e, com certas promessas, de ceder uns alqueires
de terra, e outras vantagens de mais pagar, conseguiu do Faustino
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 113 –
dar baixa também, e viesse morar perto dele, sempre. Mais deles,
ignoro. No real da vida, as coisas acabam com menos formato,
nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a
gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...
A que, o que logo vi, que Marcelino Pampa, por bem de
seu dispor, não dava altura. A tento de se acertar nos primeiros
rumos de se mexer, ele me chamou, mais João Concliz. – “Os
Judas estão aqui mesmo, de nós a umas quinze léguas, e sabem
da gente. Deveras atacar, não atacam, com este tempo de todas
chuvas e ribeirões cheios. Mas vão fechando modo de rodear a
gente, de menos longe, porque a quantidade deles é à farta... Recurso,
que eu acho, é dois: ou se fugir para o chapadão,
enquanto tempo – mas é perder toda esperança e diminuir da
vergonha... Ou, então, forçar tudo e experimentar um caminho
por entremeio deles: se vai para a outra banda do Rio, caçar
João Goanhá e os outros companheiros... Mais ainda não sei,
quero toda razoável opinião.” Assim ele, Marcelino Pampa,
disse. – “Mas, se souberem a notícia que Medeiro Vaz morreu,
hoje mesmo é capaz que sejam de vir em riba de nós...” – foi o
que João Concliz achou; e estava muito certo. Eu não atinava
com o que dizer, as confusões dessas horas me encostavam. O
que era, na situação, que Medeiro Vaz havia de fazer? E Joca
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ramiro? E Só Candelário? Ao esmo, esses pensamentos em
mim. Ai de, foi que reconheci como súcia de homens carece de
uma completa cabeça. Comandante é preciso, para aliviar os
aflitos, para salvar a idéia da gente de perturbações
desconformes. Não sabia, hoje será que sei, a regra de nenhum
meio-termo. Sem ação, eu podia gastar ali minha vida inteira,
debulhando. Também, logo depois, depois de muitos silêncios e
poucas palavras, Marcelino Pampa resolveu que, de tarde, nossa
conversa ia ter repetição. Atontados, três.
Dali, fui para perto de Diadorim. – “Riobaldo,” – ele mal
disse – “você está vendo que não temos remédio...” Aí,
esbarrou, pensou um tempo, com uma mão por cima da outra.
– “E vocês, que foi que determinaram de se fazer?” – me
perguntou. Respondi: – “Hoje de tarde é que se toma decisão,
Diadorim. Você está mal satisfeito?” Ele endireitou o corpo.
Foi, falou: – “Sei o meu. Cá por mim, isso tudo pouco adianta.
Quente quero poder chegar junto dum dos Judas, para
terminar!” Eu sabia que ele falava coisas de pelejar por cumprir.
Eu tinha mais cansaço, mais tristeza. – “Quem sabe, se... Para
ter jeito de chegar perto deles, até se não era melhor...” – assim
ele desabafou, em trago; e recolhido num estado de segredo. Por
seus grandes olhos, onde aquilo redondeou, cri que armasse
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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agarrar o comando, por meio de acender o bando todo em
revolta. Qualquer loucura, semelhante, era a dele. Mas, não; mais
disse: – “Foi você, mesmo, Riobaldo, quem governou tudo,
hoje. Você escolheu Marcelino Pampa, você decidiu e fez...”
Era. Gostei, em cheio, de escutar isso, soprante. Ah, porém,
estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. Cada
hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez
reunidos – Marcelino Pampa, eu e João Concliz, – não se teve
nem o tempo de principiar. Pelo que ouvimos: um galope, o
chegar, o riscar, o desapeio, o xaxaxo de alpercatas. Sendo assim
o Feliciano e o Quipes, que traziam um vaqueirinho, escoltado.
Que vieram quase correndo. O vaqueirinho não devia de ter
mais de uns quinze anos, e as feições dele mudavam-de mestre
pavor. – “Arte, que este tal passou, às fugas, meio arupa.
Pegamos. Aí ele tem grande coisa pra contar...” – e empurraram
um pouco o vaqueirinho. De medo – a gente olhava para ele – e
de nossos olhos ele se desencostava. Afe, por fim, bebeu gole de
ar, e soluceou:
– “É um homem... Só sei... É um homem...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Te acerta, mocinho. Aqui você está livre e salvo. Aonde
é que está indo?” – Marcelino Pampa regrou.
– “É briga enorme... É um homem... Vou indo pra longe,
para a casa de meu pai... Ah, é um homem... Ele desceu o Rio
Paracatu, numa balsa de buriti...”
– “Que foi mais que o homem fez?” – então João Concliz
perguntou. – “Deu fogo... O homem, com mais cinco homens...
Avançaram do mato, deram fogo contra os outros. Os outros
eram montão, mais duns trinta. Mas fugiram. Largaram três
mortos, uns feridos. Escaramuçados. Ei! E estavam a cavalo... O
homem e os cinco dele estão a pé. Homem terrível... Falou que
vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha, no rancho.
Emprestei. Tinham matado um veadinho campeiro, me deram
naca de carne...”
– “Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros
dizem? Aí e que jeito, que semelhança de figura é que ele tem?”
– “Ele? O jeito que é o dele, que ele tem? Em é mais baixo
do que alto, não é velho, não é moço... Homem branco... Veio
de Goiás... O que os outros falam e tratam: `Deputado’. Desceu o
Rio Paracatu numa balsa de buriti... – ‘Estávamos em jejum de
briga...’ – ele mesmo disse. Ele e seus cinco deram fogo feito
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 117 –
feras. Gritavam de onça e de uivado... Disse: vai remexer o
mundo! Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... Desceram...
Nem cavalo eles não têm...”
– “É ele! Mas é ele! Só pode ser...” – aí alguém lembrou. –
“E é. E, então, está do nosso lado!” – outro completou. –
“Temos de mandar por ele...” – foi a palavra de Marcelino
Pampa. – “Onde é que estará? Na Pavoã? Alguém tem de ir
lá...” – “É ele... É ver a vida: quem pensava? E é homem
danado, zuretado...” – “Está a favor da gente... E ele sabe
guerrear...” E era. Repegava a chuva, trozante, mas mesmo
assim o Quipes e Cavalcânti montaram e saíram por ele, da
Pavoã no rumo. De certo não acharam fácil, pois até à hora de
escurecer não tinham aparecido. Mas: aquele homem, para que o
senhor saiba, – aquele homem: era Zé Bebelo. E, na noite,
ninguém não dormiu direito, em nosso campo. De manhã, com
uma braça de sol, ele chegou. Dia da abelha branca.
De chapéu desabado, avantes passos, veio vindo,
acompanhado de seus cinco cabras. Pelos modos, pelas roupas,
aqueles eram gente do Alto Urucuia. Catrumanos dos gerais.
Pobres, mas atravessados de armas, e com cheias cartucheiras.
Marcelino Pampa caminhou ao encontro dele; seguinte de nosso
comandante, nós formávamos. Valia ver. Essas cerimônias.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Paz e saúde, chefe! Como passou?” – “Como passou,
mano?”
Os dois grandes se saudavam. Aí Zé Bebelo reparou em
mim: – “Professor, ara viva! Sempre a gente tem de se avistar...”
De nomes e caras de pessoas ele em tempo nenhum se esquecia.
Vi que me prezava cordial, não me dando por traidor nem falso.
Riu redobrado. De repente, desriu. Refez pé para trás.
– “Vim de vez!” – ele disse; disse desafiando, quase.
– “Em boa veio, chefe! É o que todos aqui
representamos...” – Marcelino Pampa respondeu.
– “A pois. Salve Medeiro Vaz!...”
– “Deus com ele, amigo. Medeiro Vaz ganhou repouso...”
– “Aqui soube. Lux eterna...” – e Zé Bebelo tirou o chapéu
e se persignou, parando um instante sério, num ar de exemplo,
que a gente até se comoveu. Depois, disse:
– “Vim cobrar pela vida de meu amigo Joca Ramiro, que a
vida em outro tempo me salvou de morte... E liquidar com esses
dois bandidos, que desonram o nome da Pátria e este sertão
nacional! Filhos da égua...” – e ele estava com a raiva tanta, que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tudo quanto falava ficava sendo verdade. – “Pois, então, estamos
irmãos... E esses homens?”
Os urucuianos não abriram boca. Mas Zé Bebelo rodeou
todos, num mando de mão, e declarou forte o seguinte:
– “Vim por ordem e por desordem. Este cá é meus
exércitos!...” Prazer que foi, ouvir o estabelecido. A gente
quisesse brigar, aquele homem era em frente, crescia sozinho nas
armas.
Vez de Marcelino Pampa dizer:
– “Pois assim, amigo, por que é que não combinamos
nosso destino? Juntos estamos, juntos vamos.”
– “Amizade e combinação, aceito, mano velho. Já, ajuntar,
não. Só obro o que muito mando; nasci assim. Só sei ser chefe.”
Sobre curto, Marcelino Pampa cobrou de si suas contas.
Repuxou testa, demorou dentro dum momento. Circulou os
olhos em nós todos, seus companheiros, seus brabos. Nada não
se disse. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Depressa
deu, o consumado:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “E chefe será. Baixamos nossas armas, esperamos vossas
ordens...” Com coragem falou, como olhou para a gente outra
vez.
– “Acordo!” – eu disse, Diadorim disse, João Concliz disse;
todos falaram: – “Acordo!”
Aí Zé Bebelo não discrepou pim de surpresa, parecia até
que esperava mesmo aquele voto. – “De todo poder? Todo o
mundo lealda?” – ainda perguntou, ringindo seriedade.
Confirmamos. Então ele quase se aprumou nas pontas dos pés, e
nos chamou: – “Ao redor de mim, meus filhos. Tomo posse!”
Podia-se rir. Ninguém ria. A gente em redor dele, misturando em
meio nosso os cinco homens do Urucuia. Adiante: – “Pois
estamos. É o duro diverso, meu povo. Mas os assassinos de Joca
Ramiro vão pagar, com seiscentos-setecentos!...” – ele definiu,
apanhando um por um de nós no olhar. – “Assassinos – els são
os Judas. Desse nome, agora, que é o deles...” – explicou João
Concliz. – “Arre, vote: dois judas, podemos romper as aleluias!
Aleluia! Aleluia! Carne no prato, farinha na cuia!...” – ele aprovou,
deu aquilo feito um viva. Nós respondemos. E assim era que Zé
Bebelo era. Como quando trovejou: desse trovôo de alto e rasto,
dos gerais, entrementes antes dos gotejos de chuva esquentada: o
trovão afunda largo, pé da gente apalpa a terra. Conforme foi:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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trovejou de cala-a-boca – e Zé Bebelo tocou um gesto de costas
da mão, respeitoso disse: – “Isto é comigo...” Do que se tratava,
retorno e conto, ele o seguinte revelou: – “Tudo eu não tinha,
com os meus, munição para nem meia-hora...” A gente
reconheceu mais a coragem dele. Isto é, qualquer um de nós
sabia que aquilo podia ser mentira. Mesmo por isso, somenos,
por detrás de tanta papagaiagem um homem carecia de ter a
valentia muito grande.
A cômodo ele começou, nesse dia, nessa hora; não
esbarrou mais. Achou de ir ver o lugar da cova, e as armas e trens
que Medeiro Vaz deixava, essas determinou que, o morto não
tendo parentes, então para os melhores mais chegados como
lembrança ficassem: as carabinas e revólveres, a automática de
rompida e ronco, punhal, facão, o capote, o cantil revestido, as
capangas e alforjes, as cartucheiras de trespassar. Alguém disse
que o cavalo grande, murzelo-mancho, devia de ficar sendo dele
mesmo. Não quis. Chamou Marcelino Pampa, a ele fez donativo
grave: – “Este animal é vosso, Marcelino, merecido. Porque eu
ainda estou para ver outro com igual siso e caráter!” Apertou a
mão dele, num toques. Marcelino Pampa dobrou de ar,
perturbado. Desse fato em diante, era capaz de se morrer, por Zé
Bebelo. Mas, para si mesmo, Zé Bebelo guardou somente o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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pelego berbezim, de forrar sela, e um bentinho milagroso, em
três baetas confeccionado.
Daí, levou a eito, vendo, examinando, disquirindo.
Aprendeu os nomes, de um em um, e em que lugar nascido,
resumo da vida, quantos combates, e que gostos tinha, qualquer
oficio de habilidade. Olhou e contou as pencas de munição e as
armas. Repassou os cavalos, prezando os mais bem ferrados e
os de agüentada firmeza. – “Ferraduras, ferraduras! Isto é que é
importante...” – vivia dizendo. Repartiu os homens em quatro
pelotões – três drongos de quinze, e um de vinte – em cada um
ao menos um bom rastreador. – “Carecemos de quatro buzinas
de caçador, para os avisos...” – reclamou. Ele mesmo tinha um
apito, pendurado do pescoço, que de muito longe se atendia.
Para capitanear os drongos, escolheu: Marcelino Pampa, João
Concliz, e o Fafafa. Pessoalmente, ficou com o maior, o de vinte
– nesse figuravam os cinco urucuianos, e eu, Diadorim,
Sesfredo, o Quipes, Joaquim Beiju, Coscorão, Dimas Doido, o
Acauã, Mão-de-Lixa, Marruaz, o Credo, Marimbondo, Rasgaem-
Baixo, Jiribibe e Jõe Bexiguento, dito Alparcatas. Só que,
tidos todos repartidos, ainda sobravam nove – serviram para
esquadrão adeparte, tomar conta dos burros cargueiros, com
petrechos e mantimentos. O testa deles foi Alaripe, por bom
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 123 –
que fosse para tudo ser. Aos esses, mesmo, se comediu
obrigação: Quim Queiroz zelava os volumes de balas; o jacaré
exercia de cozinheiro, todo tempo devia de dizer o de comer que
precisava ou faltava; Doristino, ferrador dos animais, tratador
deles; e os outros ajudavam; mas Raimundo Lê, que entendia de
curas e meizinhas, teve cargo de guardar sempre um surrão com
remédios. O que, remédio, por ora, não havia nenhum. Mas Zé
Bebelo não se atontava: – “Aí em qualquer parte, depois, se
compra, se acha, meu filho. Mas, vai apanhando folha e raiz, vai
tendo, vai enchendo... O que eu quero é ver o surrão à mão...” O
acampamento da gente parecia uma cidade.
Assuntos principais, Zé Bebelo fazia lição, e deduzia
ordens. – “Trabucar duro, para dormir bem!” – publicava.
Gostadamente: – “Morrendo eu, depois vocês descansam...” – e
ria: – “Mas eu não morro...” Sujeito muito lógico, o senhor sabe:
cega qualquer nó. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo.
Dava uma esperança forte. Ao um modo, melhor que tudo é se
cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra. O mais
eram traquejos, a cavalo, para lá e para cá, ou esbarrados firmes
em formatura, então Zé Bebelo perequitava, assoviando,
manobrava as patrulhas, vai-te, volta-te. Somente: – “Arre, temos
nenhum tempo, gente! Capricha...” Sempre, no fim, por animar,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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levantava demais o braço: – “Ainda quero passar, a cavalos,
levando vocês, em grandes cidades! Aqui o que me faz falta é
uma bandeira, e tambor e cornetas, metais mais... Mas heide! Ah,
que vamos em Carinhanha e Montes Claros, ali, no haja vinho...
Arranchar no mercado da Diamantina... Eli, vamos no Paracatudo-
Príncipe!...” Que boca, que o apito: apitava.
A sério, ele me chamava para o lado dele, e ia mandando vir
outros – Marcelino Pampa, João Concliz, Diadorim, o urucuiano
Pantaleão, e o Fafafa, vice-mandantes. Todos tinham de expor o
que sabiam daquele gerais território: as distâncias em léguas e
braças, os vaus, o grau de fundo dos marimbus e dos poços, os
mandembes onde se esconder, os mais fartos pastos. Como Zé
Bebelo simplificava os olhos, e perguntando e ouvindo avante.
Às vezes riscava com ponta duma vara no chão, tudo
representado. Ia organizando aquilo na cabeça. Estava aprendido.
Com pouco, sabia mais do que nós juntos todos. Bem eu
conhecia Zé Bebelo, de outros currais! Bem eu desejasse ter
nascido como ele... Aí, saía, por caçar. Sucinto que gostava de
caçar; mas estava era sujeitando a exame o morro, discriminando.
O mato e o campo – como dois é um par. Veio e foi, figurava,
tomava a opinião da gente: – “Com dez homens, naquela altura,
e outros dez espalhados na vertente, se podia impedir a passagem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 125 –
de duzentos cavaleiros, pelo resfriado... Com outros alguns, dando
a retaguarda, então...” Nesfartes, só nisso ele pensava, quase que.
Sendo que expedia, sobre hora, alguém adiante, se informar do
meximento dos Judas, trazer notícias vivas. E, homem feliz, feito
Zé Bebelo naquele tempo, afirmo ao senhor, nunca não vi.
Diadorim também, que dos claros rumos me dividia. Vinha
a boa vingança, alegrias dele, se calando. Vingar, digo ao senhor:
é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O demônio
diz mil. Esse! Vige mas não rege... Qual é o caminho certo da
gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima. Ou parar
curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito
esperando? Mas, quem é que sabe como? Viver... O senhor já
sabe: viver é etcétera... Diadorím alegre, e eu não. Transato no
meio da lua. Eu peguei aquela escuridão. E, de manhã, os
pássaros, que bem-meviam todo tal tempo. Gostava de
Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava,
mas aí sabia que já gostava em sempre. Oi, suindara! – linda cor...
Dando o dia, de repente, Zé Bebelo determinou que tudo e
tudo fosse pronto, para uma remarcha em exercícios, como geral.
Só por festa. Ao que os burrinhos comiam amadrinhados, em
bom pasto: – “Menininhos, responsabilidade de cangalhas em
vocês, carregando a nossa munição!” – Zé Bebelo mandou. Mas,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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montado, declarou: – “Meu nome d’ora por diante vai ser ah-ohah
o de Zé Bebelo Vaz Ramiro! Como confiança só tenho em
vocês, companheiros, meus amigos: zé-bebelos! A vez chegou:
vamos em guerra. Vamos, vamos, rebentar com aquela cambada
de patifes!...” Saímos, solertes entes.
Para isso, a lua não era boa. Quem põe praça de
cavalhadas, por desbarranco de estradas lamentas, desmancho
empapado de chão, a chuva ainda enxaguando? Convinha
esperar regras d’água. – “O Rio Paracatu está cbeio...” alguém
disse. Mas Zé Bebelo atalhou: – “O São Francisco é maior...”
Com ele tudo era assim, extravagável; e não queria conversas de
cutilquê. Rompemos. Melava de chover baixo, mimelava. Até o
derradeiro do momento, parecia que íamos atravessar o
Paracatu. Não atravessamos. Tudo aquele homem retinha
estudado. Daí, distribuiu as patrulhas. O drongo dele, viemos,
pela beira, sempre o Paracatu à mão esquerda. Trovejou, de
perturbar. Ele disse: – “Melhor, dou surpresa... Só uma boa
surpresa é que rende. Quero é atacar!”. A gente ia para o Buriti-
Pintado. A lá, consta de dez léguas, doze, – “Na hora, cada um
deve de ver só um algum judas de cada vez, mirar bem e atirar.
O resto maior é com Deus...” – já vai que falava. – “Para um
trabalho que se quer, sempre a ferramenta se tem. Só com estes
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 127 –
cavalos, só à ligeireza, de lugar para lugar, para a frente e para
trás. Sei, mas o principal dos combates vamos dar é bem a pé...”
Na beira do rio Soninho, descansamos. Animais de carga, a
ponta de mulas, ficaram botados escondidos, numa bocaina na
balsa. Só três homens tomavam conta. – “Eu é que escolho a
hora e o lugar de investir...” – Zé Bebelo disse. E, num lugar de
remanso, passamos o rio Soninho, no escuro, sem ensolvar, bala
em boca. De manhã, de três lados, demos fogo. Aí Zé Bebelo
tinha meditado tudo como um ato, de desenho. Primeiro, João
Concliz avançou, com seus quinze, iam fazendo de conta que
desprevenidos. Quando os outros vieram, nós todos já
estávamos bem amoitados, em pontos bons. Duma banda, então,
o Fafafa recruzou, seus cavaleiros: que estavam muito juntos,
embolados, do modo por que um bando de cavaleiros ou cavalos
dá ar de ser muito maior do que no real é. Todos cavalos ruços
ou baios – cor clara também aumenta muito a visão do tamanho
deles. Ah, e gritavam. Assaz os judas atiravam mal, discordados,
nadinha nem. Aí, de poleiro pego prévio, abrimos nossa
calamidade neles. Pessoal do Hermógenes... Não se disse guavai!
Supetume! Só bala de aço. – “Dou duelo!... – Ei, tibes...” Só o
quanto de se quebrar galho e rasgar roupagem. Um judas correu
errado, do lado onde o Jiribibe estava: triste daquele. – “Ouh!” –
foi o que ele fez de contrição perfeita. Outro levantou o corpo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 128 –
um pouco demais. – “Tu! Tu pensa que tem Deus-e-meio?!” –
Zé Bebelo disse, depois de derrubar o tal, com um tiro de
nhambu, baixo. Outro fugia esperto. – “Tem talento nos pés...”
Os que enviei, deixei de numerar, por causa de caridade. Ai deles.
Vitória, é isto. Ou o senhor pensa que é em alegre mal, feito
numa caçada?
Descansar? Quem disse, não foi ouvido. – “Vou lá deixar
essa cambada birbar por aí em sossego?! Bis, minha gente!
Vamos neles!” – Zé Bebelo se frigia. Mas o próprio pessoal de
João Concliz tinha segurado mão nos cavalos daqueles. –
“Toquemos na mão do norte: lá a cara do chão é minha mais...”
Não, o caminho era da banda contrária. Tínhamos de cair em
riba do grosso da judadas. Por resfriados e atalhos, mesmo com
aquela cavalhada adestra, tocamos, tocamos. Estrada capaz de
quatro, lado a lado. No Oi-Mãe. Lá tem um lajeiro – largo: onde
grandes pedras do fundo do chão vêm à flor. Chegamos de
sobremão, vagarosinho. Zé Bebelo recomendava, feito rondando
quarto de doente. Ele cheirava até o ar. Sonso parecia um gato.
Se vendo que, no inteiro mesmo de sua cabeça, ele antes tudo
traçava e guerreava. Seja por um exemplo: havia uma cava
grande, o inimigo estava emboscado dos dois lados, nos
socavões, nas paredes. Como era que Zé Bebelo já sabia?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 129 –
Orçando longe volta, João Concliz levou seus homens muito
adiante de lá, na borda do campo, de recacha. Dado tempo,
então, nosso pelotão rastejou para os altos, até chega estávamos
por cima dos beiços da cava. Ah e aí o Fafafa veio vindo,
descuidado à mostra, com seus cavaleiros – surgiam
inocentemente, feito veados para se matar... Mas – há! – então
por de riba da cava desfechamos demos urros e o rifleio,
transcruzando nos inferiores: – “Lá vai obra!...” Hê-hê! Deu de
abelhas de pau oco: os das socavas entornaram o sangue-frio,
demais se assustaram, correndo em fuga maior debaixo de tiros,
xingos, às pragas. João Condiz, pois é, o senhor sabe... Urubus
puderam voar cererém – uns urubus declarados.
Mas daí voltamos, desatravessando outra vez o Soninho,
até onde estava a nossa mulada, com munição e o mais. Mesmo
viemos negaceando de recuar. Assim era pena, mas carecíamos
de flautear desse jeito, sustância nossa não dava para se acabar
com aqueles judas de uma vez. Sempre, sempre, para enganar no
que vissem, Zé Bebelo variava de se viajar uma hora quase todos
juntos, outra hora despedidos espalhados. Ainda, por suma
vantagem disso, demos um tiroteio ganho, na fazenda São
Serafim, dos diabos!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Rumo a rumo de lá, mas muito para baixo, é um lugar. Tem
uma encruzilhada. Estradas vão para as Veredas Tortas-veredas
mortas. Eu disse, o senhor não ouviu. Nem torne a falar nesse
nome, não. É o que ao senhor lhe peço. Lugar não onde. Lugares
assim são simples – dão nenhum aviso. Agora: quando passei por
lá, minha mãe não tinha rezado – por mim naquele momento?
Assim, feito no Paredão. Mas a água só é limpa é nas
cabeceiras. O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no
efeito que dão. O senhor ouvindo seguinte, me entende. O
Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. É um arraial. Hoje
ninguém mora mais. As casas vazias. Tem até sobrado. Deu
capim no telhado da igreja, a gente escuta a qualquer entrar o
borbolo rasgado dos morcegos. Bicho que guarda muitos frios
no corpo. Boi vem do campo, se esfrega naquelas paredes.
Deitam. Malham. De noitinha, os morcegos pegam a recobrir os
bois com lencinhos pretos. Rendas pretas defunteiras. Quando se
dá um tiro, os cachorros latem, forte tempo. Em toda a parte é
desse jeito. Mas aqueles cachorros hoje são do mato, têm de
caçar seu de-comer. Cachorros que já lamberam muito sangue.
Mesmo, o espaço é tão calado, que ali passa o sussurro de meianoite
às nove horas. Escutei um barulho. Tocha de carnaúba
estava alumiando. Não tinha ninguém restado. Só vi um papagaio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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manso falante, que esbagaçava com o bico algum trem. Esse, vez
em quando, para dormir ali voltava? E eu não revi Diadorim.
Aquele arraial tem um arruado só: é a rua da guerra... O demônio
na rua, no meio do redemunho... O senhor não me pergunte nada.
Coisas dessas não se perguntam bem.
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo.
Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum,
disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem
de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr
denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho
meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me
caça. Da vida pouco me resta – só o deo-gratias; e o troco.
Bobéia. Na feira de São João Branco, um homem andava
falando: – “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo.
A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos
cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas – ele dizia:
aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou
contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e
batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os
revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes,
vinham de Goiás, reclamavam posse de todos animais de sela.
Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos
anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas
cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da
gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e
sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam.
Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa
importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte
ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse
diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é
que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas
que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de
recente data. O senhor mesmo sabe.
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome
Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma
carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças,
escrita, acho que, por outra alheia mão. Essa Nhorinhá tinha
lenço curto na cabeça, feito crista de anu-branco. Escreveu,
mandou a carta. Mas a carta gastou uns oito anos para me
chegar; quando eu recebi, eu já estava casado. Carta que se
zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões,
nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e
capangas. Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou
tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja dobrada, se
rasgando. Mesmo tinham enrolado noutro papel, em canudo,
com linha preta de carretel. Uns não sabiam mais de quem
tinham recebido aquilo. Ultimo, que me veio com ela, quase por
engano de acaso, era um homem que, por medo da doença do
toque, ia levando seu gado de volta dos gerais para a caatinga,
logo que chuva chovida. Eu já estava casado. Gosto de minha
mulher, sempre gostei, e hoje mais. Quando conheci de olhos e
mãos essa Nhorinhá, gostei dela só o trivial do momento.
Quando ela escreveu a carta, ela estava gostando de mim, de
certo; e aí já estivesse morando mais longe, magoal, no São
Josezinho da Serra – no indo para o Riacho-dasAlmas e vindo
do Morro dos Ofícios. Quando recebi a carta, vi que estava
gostando dela, de grande amor em lavaredas; mas gostando de
todo tempo, até daquele tempo pequeno em que com ela estive,
na Aroeirinha, e conheci, concernente amor. Nhorinhá, gosto
bom ficado em meus olhos e minha boca. De lá para lá, os oito
anos se baldavam. Nem estavam. Senhor subentende o que isso
é? A verdade que, em minha memória, mesmo, ela tinha
aumentado de ser mais linda. De certo, agora não gostasse mais
de mim, quem sabe até tivesse morrido... Eu sei que isto que
estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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avante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria
decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é
uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria
vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que
empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O
que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está
pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não
sabe!
Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é
homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve,
pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto.
Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais
pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um
grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas
raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas. O
que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.
Foi um fato que se deu, um dia, se abriu. O primeiro.
Depois o senhor verá por quê, me devolvendo minha razão.
Se deu há tanto, faz tanto, imagine: eu devia de estar com
uns quatorze anos, se. Tínhamos vindo para aqui – circunstância
de cinco léguas – minha mãe e eu. No porto do Rio-de-Janeiro
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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nosso, o senhor viu. Hoje, lá é o porto do seo Josozinho, o
negociante. Porto, lá como quem diz, porque outro nome não há.
Assim sendo, verdade, que se chama, no sertão: é uma beira de
barranco, com uma venda, uma casa, um curral e um paiol de
depósito. Cereais. Tinha até um pé de roseira. Rosmes!... Depois
o senhor vá, verá. Pois, naquela ocasião, já era quase do jeito. O
de-Janeiro, dali abaixo meia-légua, entra no São Francisco, bem
reto ele vai, formam uma esquadria. Quem carece, passa o de-
Janeiro em canoa – ele é estreito, não estende de largura as trinta
braças. Quem quer bandear a cômodo o São Francisco, também
principia ali a viagem. O porto tem de ser naquele ponto, mais
alto, onde não dá febre de maresia. A descida do barranco é indo
por a-pique, melhoramento não se pode pôr, porque a cheia vem
e tudo escavaca. O São Francisco represa o de-Janeiro, alto em
grosso, às vezes já em suas primeiras águas de novembro.
Dezembro dando, é certo. Todo o tempo, as canoas ficam
esperando, com as correntes presas na raiz descoberta dum paud’óleo,
que tem. Tinha também umas duas ou três gameleiras, de
outrora, tanto recordo. Dá dó, ver as pessoas descerem na lama
aquele barranco, carregando sacos pesados, muita vez. A vida
aqui é muito repagada, o senhor concorde. Outro, meu tempo,
então, o que é que não havia de ser?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Pois tinha sido que eu acabava de sarar duma doença, e
minha mãe feito promessa para eu cumprir quando ficasse bom:
eu carecia de tirar esmola, até perfazer um tanto – metade para
se pagar uma missa, em alguma igreja, metade para se pôr
dentro duma cabaça bem tapada e breada, que se jogava no São
Francisco, a fim de ir, Bahia abaixo, até esbarrar no Santuário do
Santo Senhor Bom-Jesus da Lapa, que na beira do rio tudo
pode. Ora, lugar de tirar esmola era no porto. Mãe me deu uma
sacola. Eu ia, todos os dias. E esperava por lá, naquele parado,
raro que alguém vinha. Mas eu gostava, queria novidade quieta
para meus olhos. De descer o barranco, me dava receio. Mas
espiava as cabaças para bóia de anzol, sempre dependuradas na
parede do rancho.
Terceiro ou quarto dia, que lá fui, apareceu mais gente.
Dois ou três homens de fora, comprando alqueires de arroz.
Cada saco amarrado com broto de buriti, a folha nova – verde e
amarela pelo comprido, meio a meio. Arcavam com aqueles
sacos, e passavam, nas canoas, para o outro lado do de-Janeiro.
Lá era, como ainda hoje é, mata alta. Mas, por entre as árvores,
se podia ver um carro-de-bois parado, os bois que mastigavam
com escassa baba, indicando vinda de grandes distâncias. Daí, o
senhor veja: tanto trabalho, ainda, por causa de uns metros de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 137 –
água mansinha, só por falta duma ponte. Ao que, mais, no
carro-de-bois, levam muitos dias, para vencer o que em horas o
senhor em seu jipe resolve. Até hoje é assim, por borco.
Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa
árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que
eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéude-
couro, de sujigola baixada, e se ria para mim. Não se mexeu.
Antes fui eu que vim para perto dele. Então ele foi me dizendo,
com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e
que moravam num lugar chamado Os-Porcos, meio-mundo
diverso, onde não tinha nascido. Aquilo ia dizendo, e era um
menino bonito, claro, com a testa alta e os olhos aos-grandes,
verdes. Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse
lugarim Os-Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos
gerais de Lassance.
– “Lá é bom?” – perguntei. – “Demais...” – ele me
respondeu; e continuou explicando: – “Meu tio planta de tudo.
Mas arroz este ano não plantou, porque enviuvou de morte de
minha tia...” Assim parecesse que tinha vergonha, de estarem
comprando aquele arroz, o senhor veja.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 138 –
Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia,
como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele
era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma,
muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança,
nem intenção, sem sobejo de esforço, fazia de conversar uma
conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo
de que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e
assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem
brincadeira – só meu companheiro amigo desconhecido.
Escondido enrolei minha sacola, aí tanto, mesmo em fé de
promessa, tive vergonha de estar esmolando. Mas ele apreciava
o trabalho dos homens, chamando para eles meu olhar, com um
jeito de siso. Senti, modo meu de menino, que ele também se
simpatizava a já comigo.
A ser que tinha dinheiro de seu, comprou um quarto de
queijo, e um pedaço de rapadura. Disse que ia passear em canoa.
Não pediu licença ao tio dele. Me perguntou se eu vinha. Tudo
fazia com um realce de simplicidade, tanto desmentindo pressa,
que a gente só podia responder que sim. Ele me deu a mão, para
me ajudar a descer o barranco.
As canoas eram algumas, elas todas compridas, como as de
hoje, escavacadas cada qual em tronco de pau de árvore. Uma
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 139 –
estava ocupada, apipada passando as sacas de arroz, e nós
escolhemos a melhor das outras, quase sem água nem lama
nenhuma no fundo. Sentei lá dentro, de pinto em ovo. Ele se
sentou em minha frente, estávamos virados um para o outro.
Notei que a canoa se equilibrava mal, balançando no estado do
rio. O menino tinha me dado a mão para descer o barranco. Era
uma mão bonita, macia e quente, agora eu estava vergonhoso,
perturbado. O vacilo da canoa me dava um aumentante receio.
Olhei: aqueles esmerados esmartes olhos, botados verdes, de
folhudas pestanas, luziam um efeito de calma, que até me
repassasse. Eu não sabia nadar. O remador, um menino também,
da laia da gente, foi remando. Bom aquilo não era, tão
pouca firmeza. Resolvi ter brio. Só era bom por estar perto do
menino. Nem em minha mãe eu não pensava. Eu estava indo a
meu esmo.
Saiba o senhor, o de-janeiro é de águas claras. E é rio cheio
de bichos cágados. Se olhava a lado, se via um vivente desses –
em cima de pedra, quentando sol, ou nadando descoberto,
exato. Foi o menino quem me mostrou. E chamou minha
atenção para o mato da beira, em pé, paredão, feito à régua
regulado. – “As flores...” – ele prezou. No alto, eram muitas
flores, subitamente vermelhas, de olho-de-boi e de outras
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 140 –
trepadeiras, e as roxas, do mucunã, que é um feijão bravo;
porque se estava no mês de maio, digo – tempo de comprar
arroz, quem não pôde plantar. Um pássaro cantou. Nhambu? E
periquitos, bandos, passavam voando por cima de nós. Não me
esqueci de nada, o senhor vê. Aquele menino, como eu ia poder
deslembrar? Um papagaio vermelho: – “Arara for?” – ele me
disse. E – quê-quê-quê? – o araçari perguntava. Ele, o menino, era
dessemelhante, já disse, não dava minúcia de pessoa outra
nenhuma. Comparável um suave de ser, mas asseado e forte –
assim se fosse um cheiro bom sem cheiro nenhum sensível – o
senhor represente. As roupas mesmas não tinham nódoa nem
amarrotado nenhum, não fuxicavam. A bem dizer, ele pouco
falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e
sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele
gostasse de mim.
Mas, com pouco, chegávamos no do-Chico. O senhor
surja: é de repentemente, aquela terrível água de largura:
imensidade. Medo maior que se tem, é de vir canoando num
ribeirãozinho, e dar, sem espera, no corpo dum rio grande. Até
pelo mudar. A feiúra com que o São Francisco puxa, se moendo
todo barrento vermelho, recebe para si o de-janeiro, quase só
um rego verde só. – “Daqui vamos voltar?” – eu pedi, ansiado.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 141 –
O menino não me olhou – porque já tinha estado me olhando,
como estava. – “Para quê?” – ele simples perguntou, em
descanso de paz. O canoeiro, que remava, em pé, foi quem se
riu, decerto de mim. Aí o menino mesmo avançação enorme
roda-a-roda – o que até hoje, minha vida, avistei, de maior, foi
aquele rio. Aquele, daquele dia. As remadas que se escutavam,
do canoeiro, a gente podia contar, por duvidar se não
satisfaziam termo. – “Ah, tu: tem medo não nenhum?” – ao
canoeiro o menino perguntou, com tom. – “Sou barranqueiro!”
– o canoeirinho tresdisse, repontando de seu orgulho. De tal o
menino gostou, porque com a cabeça aprovava. Eu também. O
chapéu-de-couro que ele tinha era quase novo. Os olhos, eu
sabia e hoje ainda mais sei, pegavam um escurecimento duro.
Mesmo com a pouca idade que era a minha, percebi que, de me
ver tremido todo assim, o menino tirava aumento para sua
coragem. Mas eu agüentei o aque do olhar dele. Aqueles olhos
então foram ficando bons, retomando brilho. E o menino pôs a
mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da
minha pele, no profundo, desse a minhas carnes alguma coisa.
Era uma mão branca, com os dedos dela delicados. – “Você
também é animoso...” – me disse. Amanheci minha aurora. Mas
a vergonha que eu sentia agora era de outra qualidade. Arre vai,
o canoeiro cantou, feio, moda de copla que gente barranqueira
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 142 –
usa: “... Meu Rio de São Francisco, nessa maior turvação: vim te dar
um gole d’água, mas pedir tua benção...” Aí, o desejado, arribamos
na outra beira, a de lá.
Ao ver, o menino mandou encostar; só descemos. – “Você
não arreda daqui, fica tomando conta!” – ele falou para o
canoeiro, que seguiu de cumprir aquela autoridade, desde que
amarrou a corrente num pau-pombo. Aonde o menino queria
ir? Sofismei, mas fui andando, fomos, na vargem, no meioavermelhado
do capim-pubo. Sentamos, por fim, num lugar
mais salientado, com pedras, rodeado por áspero bamburral.
Sendo de permanecer assim, sem prazo, isto é, o quase calados,
somente. Sempre os mosquitinhos era que arreliavam, o vulgar.
– “Amigo, quer de comer? Está com fome?” – ele me
perguntou. E me deu a rapadura e o queijo. Ele mesmo, só
tocou em miga. Estava pitando. Acabou de pitar, apanhava talos
de capim-capivara, e mastigava; tinha gosto de milho-verde, é
dele que a capivara come. Assim quando me veio vontade de
urinar, e eu disse, ele determinou: – “Há-te, vai ali atrás, longe
de mim, isso faz...” Mais não conversasse; e eu reparei, me
acanhava, comparando como eram pobres as minhas roupas,
junto das dele.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 143 –
Antojo, então, por detrás de nós, sem avisos, apareceu a
cara de um homem! As duas mãos dele afastavam os ramos do
mato, me deu um susto somente. Por certo algum trilho passava
perto por ali, o homem escutara nossa conversa. À fé, era um
rapaz, mulato, regular uns dezoito ou vinte anos; mas altado,
forte, com as feições muito brutas. Debochado, ele disse isto: –
“Vocês dois, uê, hem?! Que é que estão fazendo?...” Aduzido
fungou, e, mão no fechado da outra, bateu um figurado
indecente. Olhei para o menino. Esse não semelhava ter tomado
nenhum espanto, surdo sentado ficou, social com seu prático
sorriso. – “Hem, hem? E eu? Também que se sorriu, sem
malícia e sem bondade. Não piscava os olhos. O canoeiro, sem
seguir resolução, varejava ali, na barra, entre duas águas, menos
fundas, brincando de rodar mansinho, com a canoa passeada.
Depois, foi entrando no do-Chico, na beirada, para o rumo de
acima. Eu me apeguei de olhar o mato da margem. Beiras sem
praia, tristes, tudo parecendo meio podre, a deixa, lameada ainda
da cheia derradeira, o senhor sabe: quando o do-Chico sobe os
seis ou os onze metros. E se deu que o remador encostou quase
a canoa nas canaranas, e se curvou, queria quebrar um galho de
maracujá-do-mato. Com o mau jeito, a canoa desconversou, o
menino também tinha se levantado. Eu disse um grito. – “Tem
nada não...” – ele falou, até meigo muito. – “Mas, então, vocês
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 144 –
fiquem sentados...” – eu me queixei. Ele se sentou. Mas, sério
naquela sua formosa simpatia, deu ordem ao canoeiro, com uma
palavra só, firme mas sem vexame: – “Atravessa!” O canoeiro
obedeceu.
Tive medo. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os
confins do rio, do outro lado. Longe, longe, com que prazo se ir
até lá? Medo e vergonha. A aguagem bruta, traiçoeira – o rio é
cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de
desamparo. Apertei os dedos no pau da canoa. Não me lembrei
do Caboclo-d’Água, não me lembrei do perigo que é a “onçad’água”,
se diz – a ariranha – essas desmergulham, em bando, e
becam a gente: rodeando e então fazendo a canoa virar, de
estudo. Não pensei nada. Eu tinha o medo imediato. E tanta
claridade do dia. O arrojo do rio, e só aquele estrape, e o risco
extenso d’água, de parte a parte. Alto rio, fechei os olhos. Mas
eu tinha até ali agarrado uma esperança. Tinha ouvido dizer que,
quando canoa vira, fica boiando, e é bastante a gente se apoiar
nela, encostar um dedo que seja, para se ter tenência, a
constância de não afundar, e aí ir seguindo, até sobre se sair no
seco. Eu disse isso. E o canoeiro me contradisse: – “Esta é das
que afundam inteiras. É canoa de peroba. Canoa de peroba e de
pau-d’óleo não sobrenadam...” Me deu uma tontura. O ódio que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 145 –
eu quis: ah, tantas canoas no porto, boas canoas boiantes, de
faveira ou tamboril, de imburana, vinhático ou cedro, e a gente
tinha escolhido aquela... Até fosse crime, fabricar dessas, de
madeira burra! A mentira fosse – mas eu devo de ter arregalado
doidos olhos. Quieto, composto, confronte, o menino me via. –
“Carece de ter coragem...” – ele me disse. Visse que vinham
minhas lágrimas? Dói de responder: – “Eu não sei nadar...” O
menino sorriu bonito. Afiançou: – “Eu também não sei.”
Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma
luz. – “Que é que a gente sente, quando se tem medo?” – ele
indagou, mas não estava remoqueando; não pude ter raiva. –
“Você nunca teve medo?” – foi o que me veio, de dizer. Ele
respondeu: – “Costumo não...” – e, passado o tempo dum meu
suspiro: – “Meu pai disse que não se deve de ter...” Ao que meio
pasmei. Ainda ele terminou: – “... Meu pai é o homem mais
valente deste mundo.” Aí o bambalango das águas, aro!” – o
mulato veio insistindo. E, por aí, eu consegui falar alto, contestando,
que não estávamos fazendo sujice nenhuma, estávamos
era espreitando as distâncias do rio e o parado das coisas. Mas, o
que eu menos esperava, ouvi a bonita voz do menino dizer: –
“Você, meu nego? Está certo, chega aqui...” A fala, o jeito dele,
imitavam de mulher. Então, era aquilo? E o mulato, satisfeito,
caminhou para se sentar juntinho dele.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 146 –
Ah, tem lances, esses – se riscam tão depressa, olhar da
gente não acompanha. Urutu dá e já deu o bote? Só foi assim.
Mulato pulou para trás, ô de um grito, gemido urro. Varou o
mato, em fuga, se ouvia aquela corredoura. O menino abanava a
faquinha nua na mão, e nem se ria. Tinha embebido ferro na
coxa do mulato, a ponta rasgando fundo. A lâmina estava
escorrida de sangue ruim. Mas o menino não se aluía do lugar. E
limpou a faca no capim, com todo capricho. – “Quicé que
corta...” – foi só o que disse, a si dizendo. Tornou a pôr na
bainha.
Meu receio não passava. O mulato podia voltar, ter ido
buscar uma foice, garrucha, a reunir companheiros; de nós o
que seria, daí a mais um pouco? Ao menino ponderei isso,
encarecendo que a gente fosse logo embora. – “Carece de ter
coragem. Carece de ter muita coragem...” – ele me moderou, tão
gentil. Me alembrei do que antes ele tinha falado, de seu pai.
Indaguei: – “Mas, então, você mora é com seu tio?” Aí ele se
levantou, me chamando para voltarmos. Mas veio demorão,
vagarosinho até aonde a canoa. E não olhava para trás. Não,
medo do mulato, nem de ninguém, ele não conhecia.
Tem de tudo neste mundo, pessoas engraçadas: o
remadorzinho estava dormindo espichado dentro da canoa, com
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 147 –
os seus mosquitos por cima e a camisa empapada de suor de sol.
Se alegrou com o resto da rapadura e do queijo, nos trouxe
remando, no meio do rio até mais cantava. Dessa volta, não lhe
dou desenho – tudo igual, igual. Menos que, por vez, me
pareceu depressa demais. – “Você é valente, sempre?” – em
hora eu perguntei. O menino estava molhando as mãos na água
vermelha, esteve tempo pensando. Dando fim, sem me encarar,
declarou assim: – “Sou diferente de todo o mundo. Meu pai
disse que eu careço de ser diferente, muito diferente...” E eu não
tinha medo mais. Eu? O sério pontual é isto, o senhor escute,
me escute mais do que eu estou dizendo; e escute desarmado. O
sério é isto, da estória toda – por isto foi que a estória eu lhe
contei eu não sentia nada. Só uma transformação, pesável. Muita
coisa importante falta nome.
Minha mãe estava lá no porto, por mim. Tive de ir com
ela, nem pude me despedir direito do Menino. De longe, virei,
ele acenou com a mão, eu respondi. Nem sabia o nome dele.
Mas não carecia. Dele nunca me esqueci, depois, tantos anos
todos.
Agora, que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi
que eu precisei de encontrar aquele Menino? Toleima, eu sei.
Dou, de. O senhor não me responda. Mais, que coragem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 148 –
inteirada em peça era aquela, a dele? De Deus, do demo? Por
duas, por uma, isto que eu vivo pergunta de saber, nem o
compadre meu Quelemém não me ensina. E o que era que o pai
dele tencionava? Na ocasião, idade minha sendo aquela, não dei
de mim esse indagado. Mire veja: um rapazinho, no Nazaré, foi
desfeiteado, e matou um homem. Matou, correu em casa. Sabe
o que o pai dele temperou? – “Filho, isso é a tua maioridade. Na
velhice, já tenho defesa, de quem me vingue...” Bolas, ora.
Senhor vê, o senhor sabe. Sertão é o penal, criminal. Sertão é
onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. Mas, onde
é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta.
Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não
conheceu, compadre meu Quelemém não conheceu, milhões de
milhares de pessoas não conheceram. O senhor pense outra vez,
repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o
rio, defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí,
capaz, passa. O Chapadão é em sobre longe, beira até Goiás,
extrema. Os gerais desentendem de tempo. Sonhação – acho
que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente,
depois, nas vezes em que no Menino pensava, eu acho que. Mas,
para quê? por quê? Eu estava no porto do de-Janeiro, com
minha capanguinha na mão, ajuntando esmolas para o Senhor
Bom-Jesus, no dever de pagar promessa feita por minha mãe,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 149 –
para me sarar de uma doença grave. Deveras se vê que o viver
da gente não é tão cerzidinho assim? Artes que foi, que fico
pensando: por aí, Zé Bebelo um tanto sabia disso, mas sabia
sem saber, e saber não queria; como Medeiro Vaz, como Joca
Ramiro; como compadre meu Quelemém, que viaja diverso
caminhar. Ao quê? Não me dê, dês. Mais hoje, mais amanhã,
quer ver que o senhor põe uma resposta. Assim, o senhor já me
compraz. Agora, pelo jeito de ficar calado alto, eu vejo que o
senhor me divulga.
Adiante? Conto. O seguinte é simples. Minha mãe morreu
– apenas a Bigri, era como ela se chamava. Morreu, num
dezembro chovedor, aí foi grande a minha tristeza. Mas uma
tristeza que todos sabiam, uma tristeza do meu direito. De
desde, até hoje em dia, a lembrança de minha mãe às vezes me
exporta. Ela morreu, como a minha vida mudou para uma segunda
parte. Amanheci mais. De herdado, fiquei com aquelas
miserinhas – miséria quase inocente – que não podia fazer
questão: lá larguei a outros o pote, a bacia, as esteiras, panela,
chocolateira, uma caçarola bicuda e um alguidar; somente peguei
minha rede, uma imagem de santo de pau, um caneco-de-asa
pintado de flores, uma fivela grande com ornados, um cobertor
de baeta e minha muda de roupa. Puseram para mim tudo em
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 150 –
trouxa, como coube na metade dum saco. Até que um vizinho
caridoso cumpriu de me levar, por causa das chuvas numa
viagem durada de seis dias, para a Fazenda São Gregório, de
meu padrinho Selorico Mendes, na beira da estrada boiadeira,
entre o rumo do Curralinho e o do Bagre, onde as serras vão
descendo. Tanto que cheguei lá, meu padrinho Selorico Mendes
me aceitou com grandes bondades. Ele era rico e somítico,
possuía três fazendas-de-gado. Aqui também dele foi, a maior
de todas.
– “De não ter conhecido você, estes anos todos, purgo
meus arrependimentos...” – foi a sincera primeira palavra que
ele me disse, me olhando antes. Levei dias pensando que ele
não fosse de juizo regulado. Nunca falou em minha mãe. Nas
coisas de negócio e uso, no lidante, também quase não falava.
Mas gostava de conversar, contava casos. Altas artes de
jagunçosisso ele amava constante – histórias.
– “Ah, a vida vera é outra, do cidadão do sertão.
Política! Tudo política, e potentes chefias. A pena, que aqui já
é terra avinda concorde, roncice de paz, e sou homem
particular. Mas, adiante, por aí arriba, ainda fazendeiro graúdo
se reina mandador – todos donos de agregados valentes,
turmas de cabras do trabuco e na carabina escopetada!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 151 –
Domingos Touro, no Alambiques, Major Urbano na Macaçá,
os Silva Salles na Crondeúba, no Vau-Vau dona Próspera
Blaziana. Dona Adelaide no Campo-Redondo, Simão Avelino
na Barra-da-Vaca, Mozar Vieira no São João do Canastrão, o
Coronel Camucim nos Arcanjos, comarca de Rio Pardo; e
tantos, tantos. Nisto que na extrema de cada fazenda some e
surge um camarada, de sentinela, que sobraça o pau-de-fogo e
vigia feito onça que come carcaça. Ei. Mesma coisa no
barranco do rio, e se descer esse São Francisco, que aprova,
cada lugar é só de um grande senhor, com sua família geral,
seus jagunços mil, ordeiros: ver São Francisco da Arrelia,
Januária, Carinhanha, Urubu, Pilão Arcado, Xiquexique e
Sento-Sé.”
Demais falasse, tendo conhecido o Neco, se lembrava de
quando Neco forçou Januária e Carinhanha, nas eras do ano
de 79: tomou todos os portos – Jatobá, Malhada e Manga –
fez como quis; e pôs sede de suas fortes armas no arraial do
jacaré, que era a terra dele. – “Estive lá, com carta firmada
pelo Capitão Severiano Francisco de Magalhães, que era
companheiro combinado do Neco. O pessoal que eles
numeravam em guerra comprazia uma babilônia. Botavam até
barcas, cheias de homens com bacamartes, cruzando para
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 152 –
baixo e para cima o rio, de parte a parte. Dia e noite, a gente
ouvia gritos e tiros. Cavalaria de jagunços galopando, saindo
para distâncias marcadas. Abriam festa de bomba-real e
foguetório, quando entravam numa cidade. Mandavam tocar o
sino da igreja. Arrombavam a cadeia, soltando os presos,
arrancavam o dinheiro em coletoria, e ceiavam em Casa-da-
Câmara...”
Meu padrinho Selorico Mendes era muito medroso.
Contava que em tempos tinha sido valente, se gabava, goga.
Queria que eu aprendesse a atirar bem, e manejar porrete e
faca. Me deu logo um punhal, me deu uma garrucha e uma
granadeira. Mais tarde, me deu até um facão enterçado, que
tinha mandado forjar para próprio, quase do tamanho de
espada e em formato de folha de gravata. – “Sentei em mesa
com o Neco, bebi vinho, almocei... Debaixo da chefia dele,
paravam uns oitocentos brabos, só obedeciam e rendiam
respeito.” Meu padrinho, hóspede do Neco; de recontar isso
ele sempre se engrandecia. Naquela dita ocasião, todas as
pessoas importantes tinham fugido da Januária, desamparadas
de poder-de-lei, foram esperar melhor sorte em Pedras-de-
Maria-da-Cruz. – “Neco? Ah! Mandou mais que Renovato, ou
o Lióbas, estrepoliu mais do que João Brandão e os
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Filgueiras...” E meu padrinho me mostrou um papel, com
escrita de Neco – era recibo de seis ancorotes com pólvora e
uma remessa de iodureto – a assinatura rezava assim: Manoel
Tavares de Sá.
Mas eu não sabia ler. Então meu padrinho teve uma
decisão: me enviou para o Curralinho, para ter escola e morar
em casa de um amigo dele, Nhô Maroto, cujo Gervásio Lê de
Ataíde era o verdadeiro nome social. Bom homem. Lá eu não
carecia de trabalhar, de forma nenhuma, porque padrinho
Selorico Mendes acertava com Nhô Maroto de pagar todo fim
de ano o assentamento da tença e impêndio, até de botina e
roupa que eu precisasse. Eu comia muito, a despesa não era
pequena, e sempre gostei do bom e do melhor. A ser que,
alguma vez, Nhô Maroto me pedia um ou outro serviço,
usando muito bico de palavreado, me agradando e dizendo
que estimava como um favor. Nunca neguei a ele meus pés e
mãos, e mesmo não era o nenhum trabalho notável. Vai,
acontece, ele me disse: – “Baldo, você carecia mesmo de
estudar e tirar carta-de-doutor, porque para cuidar do trivial
você jeito não tem. Você não é habilidoso.” Isso que ele me
disse me impressionou, que de seguida formei em pergunta, ao
Mestre Lucas. Ele me olhou, um tempo – era homem de tão
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 154 –
justa regra, e de tão visível correto parecer, que não poupava
ninguém: às vezes teve dia de dar em todos os meninos com a
palmatória; e mesmo assim nenhum de nós não tinha raiva
dele. Assim Mestre Lucas me respondeu: – “É certo. Mas o
mais certo de tudo é que um professor de mão-cheia você dava...”
E, desde o começo do segundo ano, ele me determinou
de ajudar no corrido da instrução, eu explicava aos meninos
menores as letras e a tabuada.
Curralinho era lugar muito bom, de vida contentada. Com
os rapazinhos de minha idade, arranjei companheirice. Passei lá
esses anos, não separei saudade nenhuma, nem com o passado
não somava. Aí, namorei falso, asnaz, ah essas meninas por
nomes de flores. A não ser a Rosa’uarda – moça feita, mais
velha do que eu, filha de negociante forte, seo Assis Wababa,
dono da venda O Primeiro Barateiro da Primavera de São José – ela
era estranja, turca, eles todos turcos, armazém grande, casa
grande, seo Assis Wababa de tudo comerciava. Tanto sendo
bizarro atencioso, e muito ladino, ele me agradava, dizia que
meu padrinho Selorico Mendes era um freguesão, diversas vezes
me convidou para almoçar em mesa. O que apreciei – carne
moída com semente de trigo, outros guisados, recheio bom em
abobrinha ou em folha de uva, e aquela moda de azedar o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 155 –
quiabo – supimpas iguarias. Os doces, também. Estimei seo
Assis Wababa, a mulher dele, dona Abadia, e até os meninos,
irmãozinhos de Rosa’uarda, mas com tamanha diferença de
idade. Só o que me invocava era a linguagem garganteada que
falavam uns com uns, a aravia. Assim mesmo afirmo que a
Rosa’uarda gostou de mim, me ensinou as primeiras
bandalheiras, e as completas, que juntos fizemos, no fundo do
quintal, num esconso, fiz com muito anseio e deleite. Sempre
me dizia uns carinhos turcos, e me chamava de: – “Meus olhos.”
Mas os dela era que brilhavam exaltados, e extraordinários
pretos, duma formosura mesmo singular. Toda a vida gostei
demais de estrangeiro.
Hoje é que reconheço a forma do que meu padrinho
muito fez por mim, ele que criara amparado amor ao seu
dinheiro, e que tanto avarava. Pois, várias viagens, ele veio ao
Curralinho, me ver – na verdade, também, ele aproveitava para
tratar de vender bois e mais outros negócios – e trazia para mim
caixetas de doce de buriti ou de araticum, requeijão e marmeladas.
Cada mês de novembro, mandava me buscar. Nunca ralhou
comigo, e me dava de tudo. Mas eu nunca pedi coisa nenhuma a
ele. Dez vezes mais me desse, e não se valia. Eu não gostava
dele, nem desgostava. Mais certo era que com ele eu não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 156 –
soubesse me acostumar. Acabei, por razão outra, fugindo do
São Gregório, o senhor vai ver. Nunca mais vi meu padrinho.
Mas por isso ele não me desejou mal; nem entendo. Decerto,
ficou entusiasmado, quando teve notícias de que eu era o
jagunço. E me deixou por herdeiro, em folha de testamento: das
três fazendas, duas peguei. Só o São Gregório foi que ele testou
para uma mulata, com que no fim de sua velhice se ajuntou.
Disso não fiz conta. Mesmo o que recebi eu menos merecia.
Agora, derradeiramente, destaco: quando velho, ele penou
remorso por mim; eu, velho, a curtir arrependimento por ele.
Acho que nós dois éramos mesmo pertencentes.
Depois pouco que voltei do Curralinho, definitivo, grande
fato se deu, que ao senhor não escondo. Certa madrugada, os
cachorros todos latiram, no São Gregório, alguém estava
batendo. Era mês de maio, em má lua, o frio fiava. E, quando
tão moço, eu custava muito para me levantar; não por fraca
saúde, mas por preguiça mal corrigida. Assim que saí da cama e
fui ver se era de se abrir, meu padrinho Selorico Mendes, com a
lamparina na mão, já estava pondo para dentro da sala uns
homens, que eram seis, todos de chapéu-grande e trajados de
capotes e capas, arrastavam esporas. Ali entraram com uma
aragem que me deu susto de possível reboldosa. Admirei: tantas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 157 –
armas. Mas eles não eram caçadores. Ao que farejei: pé de
guerra.
Meu padrinho mandou eu ir lá dentro, chamar alguma das
mulheres, que coasse café quente. Quando voltei, um dos
homens – Alarico Totõe – estava expondo, explicando. Todos
continuavam sem tomar assentos. Alarico Totõe sendo um
fazendeiro do Grão-Mogol, conhecido de meu padrinho. Ele,
com seu irmão Aluiz Totõe, pessoas finas, gente de bem.
Tinham encomendado o auxílio amigo dos jagunços, por
uma questão política, logo entendi. Meu padrinho escutava,
aprovando com a cabeça. Mas para quem ele sempre estava
olhando, com uma admiração toda perturbosa, era para o chefe
dos jagunços, o principal. E o senhor sabe quem era esse? Joca
Ramiro! Só de ouvir o nome, eu parei, na maior suspensão.
Adrede Joca Ramiro estava de braços cruzados, o chapéu
dele se desabava muito largo. Dele, até a sombra, que a
lamparina arriava na parede, se trespunha diversa, na
imponência, pojava volume. E vi que era um homem bonito,
caprichado em tudo. Vi que era homem gentil. Dos lados,
ombreavam com ele dois jagunões; depois eu soube – que seus
segundos. Um, se chamava Ricardão: corpulento e quieto, com
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 158 –
um modo simpático de sorriso; compunha o ar de um
fazendeiro abastado. O outro – Hermógenes – homem sem
anjo-da-guarda. Na hora, não notei de uma vez. Pouco, pouco,
fui receando. O Hermógenes: ele estava de costas, mas umas
costas desconformes, a cacunda amontoava, com o chapéu raso
em cima, mas chapéu redondo de couro, que se que uma cabaça
na cabeça. Aquele homem se arrepanhava de não ter pescoço.
As calças dele como que se enrugavam demais da conta,
enfolipavam em dobrados. As pernas, muito abertas; mas,
quando ele caminhou uns passos, se arrastava – me pareceu –
que nem queria levantar os pés do chão. Reproduzo isto, e fico
pensando: será que a vida socorre à gente certos avisos? Sempre
me lembro dele, me lembro mal, mas atrás de muitas fumaças.
Naquela hora, eu estava querendo que ele não virasse a cara.
Virou. A sombra do chapéu dava até em quase na boca,
enegrecendo.
No terminar, Alarico Totõe pediu que precisavam de um
recanto oculto, onde a tropa dos homens passasse o dia que
vinha, pois que viajavam de noite, dando surpresa e
desmanchando rastro. – “Tem ótimo reconditório...” – meu
padrinho consentiu. E mandou que eu fosse guiar aquela gente,
até aonde o poço do Cambaubal, num fechado, mato caapuão.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Primeiro, tomou-se café. Assim Joca Ramiro corria pronto os
olhos, em tudo ali, sorrindo franco, a cara muito galharda, e pôs
as mãos nos bolsos. Ricardão ria grosso. E aquele Hermógenes
veio para sair comigo, mais o outro homem – um cabeça-chata
alvaço, com muita viveza no olhar; desse gostei, Alaripe se
chamava, até hoje se chama. Em que, eles dois a cavalo, eu a pé,
viemos até onde estavam esperando os outros, dois passos, no
baixo da estrada.
Aí mês de maio, falei, com a estrela-d’alva. O orvalho
pripingando, baciadas. E os grilos no chirilim. De repente, de
certa distância, enchia espaço aquela massa forte, antes de poder
ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros.
Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem.
Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos
sacudidos, o pêlo deles, de suor velho, semeado das poeiras do
sertão.
Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma
tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos, que
nem o dum grande rio, do aflor. A bem dizer, aquela gente estava
toda calada. Mas uma sela range de seu, tine um arreaz, estribo, e
estribeira, ou o coscós, quando o animal lambe o freio e mastiga.
Couro raspa em couro, os cavalos dão de orelha ou batem com o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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pé. Daqui, dali, um sopro, um meio-arquejo. E um cavaleiro ou
outro tocava manso sua montada, avançando naquele bolo,
mudando de lugar, bridava. Eu não sentia os homens, sabia só
dos cavalos. Mas os cavalos mantidos, montados. É diferente.
Grandeúdo. E, aos poucos, divulgava os vultos muitos, feito
árvores crescidas lado a lado. E os chapéus rebuçados, as pontas
dos rifles subindo das costas. Porque eles não falavam – e
restavam esperando assim – a gente tinha medo. Ali deviam de
estar alguns dos homens mais terríveis sertanejos, em cima dos
cavalos teúdos, parados contrapassantes. Soubesse sonhasse eu?
Decerto de guarda, apartado dos mais, se via um cavaleiro,
inteiro. Veio vindo para cá, o cavalo dele era escuro; era um
alazão de bom pisar.
– “Capixum, é eu, mais o siô Hermógenes...” – o cabeçachata
falou aviso.
– “A bom, Alaripe!” – o de lá respondeu.
A gente se encostava no frio, escutava o orvalho, o mato
cheio de cheiroso, estalinho de estrelas, o deduzir dos grilos e a
cavalhada a peso. Dava o raiar, entreluz da aurora, quando o céu
branquece. Ao o ar indo ficando cinzento, o formar daqueles
cavaleiros, escorrido, se divisava. E o senhor me desculpe, de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu
represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é,
é saudade.
De junto com o Capixum, se aproximou outro um,
também, de sotochefe, que o Hermógenes tratou de sié-Marques.
O Hermógenes tinha voz que não era fanhosa nem rouca, mas
assim desgovernada desigual, voz que se safava. Assim – fantasia
de dizer – o ser de uma irara, com seu cheiro fedorento. – “Aoh,
uê, alguém, irmão?” – aquele sié-Marques perguntou, tratando de
minha pessoa. – “De paz, mano velho. Amigo que veio mostrar à
gente o arrancho...” – o Hermógenes contestou. Deu ainda um
barulho de boca e goela, qual um rosno. Sem mais delongas
nenhumas, saí, caminhando ao lado do cavalo do Hermógenes,
puxando todos para o Cambaubal. Atrás de nós, eu ouvia os
passos postos da grande cavalaria, o regular, esse empurro
continuado. Eu não queria virar e espiar, achassem que eu era
abelhudo. Mas, agora, eles conversavam, alguns riam, diziam
graças. Presumi que estavam muito contentes de ganhar o
repouso de horas, pois tinham navegado na sela a noite toda. Um
falou mais alto, aquilo era bonito e sem tino: – “Siruiz, cadê a
moça virgem?” Largamos a estrada, no capim molhado meus pés
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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se lavavam. Algum, aquele Siruiz, cantou, palavras diversas, para
mim a toada toda estranha:
Urubu é vila alta,
mais idosa do sertão:
padroeira, minha vida –
vim de lá, volto mais não...
Vim de lá, volto mais não?...
Corro os dias nesses verdes,
meu boi mocho baetão:
buriti –água azulada,
carnaúba – sal do chão...
Remanso de rio largo,
viola da solidão:
quando vou p’ra dar batalha,
convido meu coração...
Vinham quebrando as barras. Dia de maio, com orvalho, eu
disse. Lembrança da gente é assim.
Me emprestaram um cavalo, e eu fui, com o Alaripe,
esperar a chegada da tropa de burros, adiante, na boca da ponte.
Não tardava já vinham aparecendo. Um lote de dez mulas, com
os cargueiros. Mas vinham com os cincerros tapados, tafulhados
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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com rama de algodão: afora o geme-geme das cangalhas, não
faziam nenhum rumor. Guiamos os tropeiros também para o
Cambaubal. Mas, aí, meu padrinho chegou, com Joca Ramiro, Ricardão,
e os Totões. Meu padrinho insistiu, me trouxe outra vez
para casa. O dia já estava clareando completo. Meu coração
restava cheio de coisas movimentadas.
Não vi mais o acampo deles, as esporas tilintim. Não pude.
Padrinho Selorico Mendes mandou que eu fosse no O-Cocho,
buscar um homem chamado Rozendo Pio, esse homem – meu
padrinho me disse – rastreava. E era para ele vir, debaixo de
todos os segredos, tapejar o bando de Joca Ramiro por bons
trilhos e atalhos, na Serra das Trinta Voltas, modo de caber em
duas noites, sem perigo maior, o que, se não, durasse seis ou sete.
Sendo assim, só eu mesmo merecia confiança de ir. Fui, com
desgosto. Três léguas, três léguas e meia longe. Mas eu tinha de
levar um cavalo adestro, para o homem. E esse Rozendo Pio era
tratantaz e tolo. Demorou muito, com desculpa de arranjos. No
caminho, na vinda, ele nem sabia de nada, de jagunços, quase não
conversava, não quis dar demonstração. Nem fazia prazer
naquilo. Quando chegamos, era o anoitecido, o bando estava
pronto para sair. Se separavam em pequenos golpes. Meu
padrinho tinha mandado amarrar os cachorros todos da fazenda.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Se foram. Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça, o de se
ver.
Semanas seguintes, meu padrinho só falou nos jagunços.
Dito que Joca Ramiro era um chefe cursado: muitos iguais não
nascem assim – dono de glórias! Aquela turma de cabras, tivesse
sorte, podia impor caráter ao Governo. Meu padrinho levara
aquele dia todo no meio deles. Contava: o cuidado nos arranjos,
as coisas todas regradas, aquele dormir de ordem, aquela
autoridade enorme no entremeamento. Nem nada faltava. As
sacas de farinha, tantas e tantas arrobas de carne-de-sol, a
munição bem zelada, caixote com pães de sabão para cada um
lavar a roupa e o corpo. Até tinham um mestre-ferrador, com
sua tendinha e os pertences: uma bigorna e as tenazes, fole de
mão, ferramenta exata; e capanga de alveitar, com vários
sortidos flames de sangrar cavalos adoecidos. E as mais coisas
meu padrinho descrevia com muito agrado, de que tinha ouvido
sincera narração. As lutas dos joca-ramiros, os barulhos, as
manhas traçadas para se ganhar em combate, maço de estórias
de toda raça de artes e estratagemas. De ouvir meu padrinho
contar aquilo, se comprazendo sem singeleza, começava a dar
em mim um enjôo. Parecia que ele queria se emprestar a si as
façanhas dos jagunços, e que Joca Ramiro estava ali junto de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 165 –
nós, obedecendo mandados, e que a total valentia pertencia a
ele, Selorico Mendes. Meu padrinho era antipático. Ficava mais
sendo. Eu achava. Num lugar parado, assim, na roça, carece de a
gente de vez em quando ir alterando os assuntos.
Não estou caçando desculpa para meus errados, não, o
senhor reflita. O que me agradava era recordar aquela cantiga,
estúrdia, que reinou para mim no meio da madrugada, ah, sim.
Simples digo ao senhor: aquilo molhou minha idéia. Aire, me
adoçou tanto, que dei para inventar, de espírito, versos naquela
qualidade. Fiz muitos, montão. Eu mesmo por mim não
cantava, porque nunca tive entôo de voz, e meus beiços não dão
para saber assoviar. Mas reproduzia para as pessoas, e todo o
mundo admirava, muito recitados repetidos. Agora, tiro sua
atenção para um ponto: e ouvindo o senhor concordará com o
que, por mesmo eu não saber, não digo. Pois foi – que eu
escrevi os outros versos, que eu achava, dos verdadeiros assuntos,
meus e meus, todos sentidos por mim, de minha saudade e
tristezas. Então? Mas esses, que na ocasião prezei, estão goros,
remidos, em mim bem morreram, não deram cinza. Não me
lembro de nenhum deles, nenhum. O que eu guardo no giro da
memória é aquela madrugada dobrada inteira: os cavaleiros no
sombrio amontoados, feito bichos e árvores, o refinfim do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 166 –
orvalho, a estrela-d’alva, os grilinhos do campo, o pisar dos
cavalos e a canção de Siruiz. Algum significado isso tem?
Meu padrinho Selorico Mendes me deixava viver na
lordeza. No São Gregório, do razoável de tudo eu dispunha,
querer querendo. E, de trabalhar seguido, eu nem carecia.
Fizesse ou não fizesse, meu padrinho me apreciava; mas não me
louvava. Uma coisa ele não tolerava, e era só: que alguém
indagasse justo quanto era o dinheiro que ele tinha. Com isso eu
nunca somei, não sou especula. Eu vivia com o meu bom corpo.
Alguém há de achar algum regime melhor?
Mas, um dia – de tanto querer não pensar no princípio
disso, acabei me esquecendo quem – me disseram que não era àtoa
que minhas feições copiavam retrato de Selorico Mendes.
Que ele tinha sido meu pai! Afianço que, no escutar, em roda de
mim o tonto houve – o mundo todo me desproduzia, numa
grande desonra. Pareceu até que, de algum encoberto jeito, eu
daquilo já sabia. Assim já tinha ouvido de outros, aos pedacinhos,
ditos e indiretas, que eu desouvia. Perguntar a ele, fosse?
Ah, eu não podia, não. Perguntar a mais pessoa nenhuma;
chegava. Não desesquentei a cabeça. Ajuntei meus trens, minhas
armas, selei um cavalo, fugi de lá. Fui até na cozinha, conduzi
um naco de carne, dois punhados de farinha no bornal. Achasse
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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algum dinheiro à mão, pegava; disso eu não tinha nenhum
escrúpulo. Virei bem fugido. Toquei direto para o Curralim.
Razão por que fiz? Sei ou não sei. De as, eu pensava claro,
acho que de bês não pensei não. Eu queria o ferver. Quase
mesmo aquilo me engrossava, desarrazoado, feito o vicio dum
ruim prazer. Eu fazia minha raiva. Raiva bem não era, isto é: só
uma espécie de despique a dentro, o vexame que me inçava não
me dava rumo para continuação. Único reger era me empinar e
assoprar em esta minha cabeça, aí a confusão e desordem e altos
desesperos. Arremessei o cavalo, galopei demais. Não ia para a
casa de Nhô Maroto. Ante antes ia para o seo Assis Wababa –
aquela hora eu queria só gente estranha, muito estrangeira,
estrangeira inteira! Só fosse um pouco para ver a Rosa’uarda,
essa assim eu amava? Ah, não. Gostasse da Rosa’ uarda, mais aí
nas delícias dela minha idéia não podendo se firmar – porque
aumentava o desamparo de minha vergonha. Ia para a escola de
Mestre Lucas. A lá, perto da casa de Mestre Lucas, morava um
senhor chamado Dodó Meireles, que tinha uma filha chamada
Miosótis. Assim, à parva, às tantices, essa mocinha Miosótis
também tinha sido minha namorada, agora por muitos
momentos eu achava consolo em que ela me visse – que
soubesse: eu, com minhas armas matadeiras, tinha dado revolta
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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contra meu padrinho, saíra de casa, aos gritos, danado no
animal, pelo cerrado a fora, capaz de capaz! Daí, a Mestre Lucas
eu tinha de dar uma explicação. Eu não gostava daquela
Miosótis, ela era uma bobinhã, no São Gregório nunca tinha
pensado nela; gostava era de Rosa’uarda. Mas Nhô Maroto
havia de logo saber que eu tivesse chegado no Curralim, e meu
padrinho ia ter o pronto aviso. Mandava alguém me buscar.
Vinha, ele. Não me importava. De repente, eu sabia: o que eu
estava querendo era isso mesmo. Ele viesse, me pedisse para
voltar, me prometendo tudo, ah, até nos meus pés se ajoelhava.
E não viesse? Se demorasse a vir? Aí, o que era que eu ia fazer,
caçar meio de vida, aturar remoque sei lá de todos, me repartir
no miudinho de cada dia, tão penoso aborrecido. A bis, então,
cresceu minha raiva. Tive outras lágrimas nos bobos olhos.
Adramado pensei em minha mãe, com todo querer, e afirmei
alto que seria só por conta dela que eu estava procedendo pelo
avesso, gritei. Mas aquilo se fingia mal, espécie de minha
vergonha esteve sendo maior. Como o cavalo, em rogo de
misericórdia, escureceu o pêlo de todo suor. Sosseguei as esporas.
Viemos a passo de marcha. Eu tinha medo por causa de
minha vida, quando entramos no Curralinho.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Em casa de seo Assis Wababa, me deram trato regozijante.
No que jantei, ri, conversei. Só a praga duma surpresa me
declararam: a de que a Rosa’uarda agora estava sendo noiva, para
se casar com um Salino Cúri, outro turco negociante, nos
derradeiros meses para lá vindo. Assumi, em trela, tristeza e alívio
– aquele amor não seria mesmo para mim, pelos motivos
pessoais. Nublo em que me vi, mas me governei: trancei as
pernas, comecei cara de falar pouco, senhor-não, senhor-sim,
acautelado sisudo, e indagando dos grandes preços; assim fossem
cuidar que essa minha viagem era por tramar importante encargo
para o meu padrinho Selorico Mendes. Seo Assis Wababa oxente
se prazia, aquela noite, com o que o Vupes noticiava: que em
breves tempos os trilhos do trem-de-ferro se armavam de chegar
até lá, o Curralinho então se destinava ser lugar comercial de
todo valor. Seo Assis Wababa se engordava concordando, trouxe
canjirão de vinho. Me alembro: eu entrei no que imaginei – na
ilusãozinha de que para mim também estava tudo assim
resolvido, o progresso moderno: e que eu me representava ali
rico, estabelecido. Mesmo vi como seria bom, se fosse verdade.
Mas estava lá o Vupes, Alemão Vupes, que eu disse – seo
Emílio Wusp, que o senhor diz. Das vezes que viera a passar pelo
Curralinho, ele já era meu conhecido. Tresdobrado homem.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Sendo que entendia tudo de manejar com armas, mas viajava sem
cano nenhum; dizia: – “Níquites! Desarmado eu completo, eu
assim, eles todos mesmo vão muito mais me respeitar, oh, no
sertão.” Ele me viu afinar mira, uma vez, e me louvou, por eu, de
nascença, saber tão bem, na horinha, segurar de não respirar.
Mesmo dizia: – “Senhor atira bem, porque atira com espírito.
Sempre o espírito é que acerta...” Soante que dissesse: sempre o
espírito é que mata... Mas, a bem, agora aquela hora, estava lá o
Vupes, assim foi. Porque, num desastre de instante, eu tinha
pegado a pensar – o que resolvia minha situação era trabalhar
para ele, se viajar vendendo ferramentas por aí, descaroçador de
algodão. Nem ponderei, mas disse: – “Seo Vupes, o senhor não
quererá me ajustar, em seu serviço?” Minha bestice. “Níquites!” –
conforme que o Vupes constante exclamava. Ali nem acabei de
falar, e em mim eu já estava arrependido, com toda a velocidade.
Idéia nova que imaginei: que, mesmo pessoa amiga e cortês,
virando patrão da gente, vira mais rude e reprovante. Mordi boca,
já tinha falado. Ainda quis emendar, garantindo que era por
gracejo; mas seo Assis Wababa e o Vupes me olhavam a menos,
com desconfianças, me senti rebaixado demais. A contra mim
tudo contra, o só ensejo das coisas me sisava. Dali logo saí, me
despedindo bem. Aonde? Só se fosse ver o Mestre Lucas. Assim
vim andando, mediante desespero. Me alembro, vinha andando e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 171 –
agora era que eu pegava a pensar livre e solto na Rosa’uarda,
lindas pernas as lindas grossas, ela no vestido de nanzuque,
nunca havia de ser para meu regalo. Dum modo senti, como me
recordei, depois, tempos, quando foi arte se cantar uma cantiga:
Seu pai fosse rico,
tivesse negócio,
eu casava contigo
e o prazer era nosso...
Isso, mas totalmente; às vezes.
Ao que, digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na
minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso
curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem
ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim
de clina de cavalo. Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse
sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa
vã, que não conforma respostas. As vezes essa idéia me põe
susto. Mas, o senhor veja: cheguei em casa do Mestre Lucas, ele
me saudou, tão natural. Achei também tudo o natural, eu estava
era cansado. E, quando Mestre Lucas me perguntou se eu vinha
era de passeata, ou de recado da fazenda, expliquei que não: que
eu tinha merecido licença de meu padrinho, para começar vida
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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própria em Curralinho ou adiante, a fito de desenvolver mais
estudos e apuramento só de cidade. Dizendo o que disse, eu
mesmo jurava que Mestre Lucas não ia acreditar. Mas acreditou,
até melhor. Sabe o senhor por quê? Porque, naquele dia, justo,
ele estava remexido no meio de um assunto, que preparava o
desejo dele para aí me acreditar. Digo: ele me ouviu, e disse: –
“Riobaldo, pois você chega em feita ocasião!”
Aí me explicou: um senhor, no Palhão, na fazenda Nhanva,
altas beiras do Jequitaí, para o ensino de todas as matérias estava
encomendando um professor. Com urgência, era homem de sua
situação, garantia boa paga. Assim queria que Mestre Lucas fosse,
que deixasse alguém dando escola no lugar dele, no Curralim, por
uns tempos; isso, claro, não podia. Eu queria ir?
– “O senhor acha que eu posso?” – perguntei; para
principiar qualquer tarefa, quase que eu sozinho nunca tive
coragem. – “Ei, pode!” – o Mestre Lucas declarou. Já que estava
acondicionando numa bruaca os livros todos – geografia,
arimética, cartilha e gramática – e borracha, lápis, régua, tinteiro,
tudo o que pudesse ter serventia. Aceitei. Um entusiasmo nosso
me botava brioso. Melhor que era para logo, para o seguinte: dois
camaradas do dito fazendeiro estavam ali no Curralinho,
esperando decisão, agora me levavam. Dona Dindinha, mulher
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de Mestre Lucas, no despedir, me abraçou, me deu umas lágrimas
de bondade: – “Tem tanta gente ruim neste mundo, meu filho...
E você assim tão moço, tão bonito...” Aí, nem cheguei a ver
aquela menina Miosótis. A Rosa’uarda, vi, de longes olhares.
Os dois camaradas, em tanto percebi, eram capangas. Mas
sujeitos de seu trato, sem altos-e-baixos nem as maiores
asperezas, me deram toda consideração. Viajamos juntos quatro
dias, quase trinta léguas, bom tempo beirando o Riachão e
enxergando à mão esquerda os vultos da Serrado-Cabral. Meus
companheiros quase que não me informavam, de nada ou nada.
Tinham outras ordens. Mas, mesmo antes da gente entrar em terras
do Palhão, fui vendo coisas calculosas, dei meio para duvidar.
Patrulhas de cavaleiros em armas; troco de conversa de vigiação;
e uma tropa de burros cargueiros, mas no meio dos tocadores
vinham três soldados. Mais perto, em maiores me vi. Chegar lá
declamava surpresa. A Nhanva enxameava de gente homem –
pralaprá de feira em praça. E era vistosa fazenda assobradada,
com grandes currais e um terreirão. Vi logo o dono.
Ele era imediatamente estúrdio, vestido de brim azul e
calçando botas amareladas. Era nervoso, magro, um pouco mais
para baixo do que o tamanho mediano, e com braços que
pareciam demais de compridos, de tanto que podiam gesticular.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 174 –
Fui indo, ele veio vindo, o grande revólver na cintura; um lenço
no pescoço dele esvoaçava. E aquele cabelo bom, despenteado
alto, topete arrepiadinho. Apressei o passo, e ele esbarrou, com
as mãos nas cadeiras. Me olhou frenteante, deu risada – de certo
nem estava sabendo quem eu era. E gritou, caçoando: – “Me
vem com o andar de sapo, me vem...
Ah-oh-ah, o destempo de estar sendo debochado se irou de
mim. Esbarrei, também. Me fiz mouco. Mas ele veio para mim,
então, saudou, com um modo sensato de simpatia. Adiado eu
disse: – “Sou o moço professor...” A alegria dele, me ouvindo, foi
estupefacta. Me ferrou do braço, com porção de falas e agrados,
subiu a escada comigo, me levou para um quarto, lá dentro,
ligeiro, parecia até que querendo me esconder de todos. Uma
doidice, de quê? Ah, mas, ah – esse quem era – o homem? Zé
Bebelo. A fixe de fato, tudo nele, para mim, tirava mais para fora
uma real novidade.
Disse ao senhor? – eu estava pensando que ia dar escola
para os filhos dum fazendeiro. Engano. O comum, com Zé
Bebelo, virava diferente adiante, aprazava engano. Estudante
sendo ele mesmo. Me avisou. Quis antever os cadernos, livros,
pegar com as mãos. Assim ler e escrever, e as quatro contas, ele
já soubesse, consumia jornais. Remexeu, tarabuz, e tudo foi
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 175 –
arrumando na mesa grande do quarto, senhor-jesus-cristo que
assoviava, o cantarolado. Mas – e aí comigo falou sério –
naquilo se tinha de sungar segredo: eu visse. – “Vamos constar é
que estou assentando os planos! Você fica sendo meu
secretário.” Nesse mesmo ido dia, a gente começou. Aquele
homem me exercitou tonto, eh, ô, me fino fiz. Ânsia assim e
anfa, e poder de entender demais, nunca achei quem outro. O
que ele queria era botar na cabeça, duma vez, o que os livros
dão e não. Ele era a inteligência! Vorava. Corrido, passava de
lição em lição, e perguntava, reperguntava, parecia ter até raiva
de eu saber e não ele, despeitos de ainda carecer de aprender,
contra-fim. Queimava por noite duas, três velas. Ele mesmo
falava: – “Relógio não vou olhar. Aí estudo, estudo, até que
estico um cochilão. Cochilão me vem: então espairo o livro, e
me deito, que me durmo.” Pela sua vontade dele, simples. De
dia, estávamos debulhando páginas, e de repente se levantava
ele, chegava na janela, apitava num apito, ministrava aquela
brama de ordens: dez, vinte executações duma vez. O pessoal
corria, cumpriam; aquilo semelhava um circo, bom teatro. Mas,
com menos de mês, Zé Bebelo se tinha senhoreado de reter
tudo, sabia muito mais do que eu mesmo soubesse. Aí, a alegria
dele ficou demasiadamente. Sobrevinha com o livro, me fazia de
queima-cara um punhado de perguntas. Ao tanto eu demorava,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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treteava no explicar, errando a esmo, caloteava. Ai-ai-ai d’ele
atalhar as minhas palavras, mostrar no livro que eu estava falso,
corrigir o dito, me dar quinau. Se espocava às gargalhadas,
espalmava mão, expendia outras normas, próprias de sua idéia lá
dele – e sendo feliz de nessas dificuldades me ver, eu )a
ignorante, esmorecido e escabreado. Só aí, digo, foi que ele
ficou gostando de mim. Certo. Me deu um abraço, me gratificou
em dinheiro, me fez firmes elogios – “Siô Baldo, já tomei os
altos de tudo! Mas carece de você não ir s’embora, não, mas
antes prosseguir sendo o secretário meu... Aponto que vamos
por esse Norte, por grandes fatos, que você não se
arrependerá...” – me disse – “... Norte, más bandas.” Soprou, só;
enche que ventava.
Porque ele tinha me estatutado os todos projetos. Como
estava reunindo e pervalendo aquela gente, para sair pelo Estado
acima, em comando de grande guerra. O fim de tudo, que seria:
romper em peito de bando e bando, acabar com eles, liquidar
com os jagunços, até o último, relimpar o mundo da jagunçada
braba. – “Somente que eu tiver feito, siô Baldo, estou todo:
entro direito na política!” Antes me confessou essa única sina
que ambicionava, de muito coração: e era de ser deputado.
Pediu segredo, e eu não gostei. Porque eu estava sabendo que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 177 –
todos já aventavam aquela toleima, por detrás dele até
antecipavam alcunha: “o Deputado”... O mundo é assim. Mas,
mesmo desse jeito, o pessoal todo não regateava a ele a maior
dedicação de respeito. Por via de sua macheza. Ah, Zé Bebelo
era o do duro – sete punhais de sete aços, trouxados numa
bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma, sempre
certeira a pontaria, laçava e campeava feito um todo vaqueiro,
amansava animal de maior brabeza – burro grande ou cavalo;
duelava de faca, nos espíritos solertes de onça acuada, sem parar
de pôr; e medo, ou cada parente de medo, ele cuspia em riba e
desconhecia. Contavam: ele entrava de cheio, pessoalmente, e
botava paz em qualquer rutuba. Ô homem couro-n’água,
enfrentador! Dava os urros. E mesmo, para ele, parecia não ter
nada impossível. Com tanta bobéia assim, desfrutável e escurril,
e ai de quem pensasse em poitar olho de chacotas: morria
vertiginoso... – “O único homem-jagunço que eu podia acatar,
siô Baldo, já está falecido... Agora, temos de render este serviço à
pátria – tudo é nacional!” Esse que já tinha morrido, que ele
falava, era Joãozinho Bem-Bem, das Aroeiras, de redondeante
fama. Se dizia, tinha estudado a vida dele, nos pormenores, com
tanta devoção especial, que até um apelido em si se apôs: Zé
Bebelo; causa que, de nome, em verdade, era José Rebelo Adro
Antunes.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Sei seja de se anuir que sempre haja vergonheira de
jagunços, a sobre-corja? Deixa, que, daqui a uns meses, neste
nosso Norte não se vai ver mais um qualquer chefe encomendar
para as eleições as turmas de sacripantes, desentrando da justiça,
só para tudo destruírem, do civilizado e legal!” Assim dizendo, na
verdade sentava o dizer, com ira razoável. A gente devia mesmo
de reprovar os usos de bando em armas invadir cidades, arrasar o
comércio, saquear na sebaça, barrear com estrumes humanos as
paredes da casa do juiz-de-direito, escramuçar o promotor
amontado à força numa má égua, de cara para trás, com lata
amarrada na cauda, e ainda a cambada dando morras e aí
soltando os foguetes! Até não arrombavam pipas de cachaça
diante de igreja, ou isso de se expor padre sacerdote nu no olho
da rua, e ofender as donzelas e as famílias, gozar senhoras
casadas, por muitos homens, o marido obrigado a ver? Ao
quando falava, com fogo que puxava de si, Zé Bebelo tinha de se
esbarrar, ia até na varanda ou na janela, a apitar o apito, ditar as
boas ordens. Daí, mais renovado, voltava para perto de mim,
repunha: – “Ah, cujo vou, siô Baldo, vou. Só eu que sou capaz de
fazer e acontecer. Sendo porque fui eu só que nasci para tanto!”
Dizendo que, depois, estável que abolisse o jaguncismo, e
deputado fosse, então reluzia perfeito o Norte, botando pontes,
baseando fábricas, remediando a saúde de todos, preenchendo a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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pobreza, estreando mil escolas. Começava por aí, durava um
tempo, crescendo voz na fraseação, o muito instruído no jornal.
Ia me enjoando. Porque completava sempre a mesma coisa.
Mas, minha vida na fazenda, era ruim ou era boa? Se
melhor era. Arre, eu estava feito um inhampas. Aí lordeei. Me
acostumei com o fácil movimento, entrei de amizade com os
capangas. Sempre chegavam pessoas de fora, que conversavam
em sozinhos com Zé Bebelo, gente de cidade. De um, eu soube
que era delegado, em missão. E ele me apresentava com a honra
de: Professor Riobaldo, secretário sendo. Nas folgas vagas, eu ia
com os companheiros, obra de légua dali, no Leva, aonde
estavam arranchadas as mulheres, mais de cinqüenta. Elas
vinham vindo, tantas, que, quase todo dia, mais tinham de
baratear. Não faltava esse bom divertir. Zé Bebelo aprovava: –
“Onde é que já se viu homem valer, se não tem à mão estadas
raparigas? Ond’é?” Mesmo cachaça ele fornecia, com regra. –
“Melhor, se não eles por si providenceiam, dão logo em abusos,
patuléias...” – isto explicava. Demais, de tudo ali se prazia
fartura confortável! Abastada comida, armamento de primeira,
monte de munição, roupas e calçados para os melhores. E o
cobre para semanal de pagamento, pois nenhum daqueles
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 180 –
homens estava ali por amor-de-deus, mas ajeitando seu meio de
viver. Diziam que era dinheiro do cofre do Governo. Parecia.
A tal que, enfim, veio o dia de se sair, guerreiramente, por
vales e montes, a gente toda. Oi, o alarido! Aos quantos gritos,
um araral, revôo avante de pássaros – o senhor mesmo nunca viu
coisa assim, só em romance descrito. De glória e avio de própria
soldadesca, e cavalos que davam até medo de não se achar pasto
que chegasse, e o pessoal perto por uns mil. Acompanhado dos
chefes-de-turma – que ele dava patente de serem seus sotenentes
e oficiais de seu terço – Zé Bebelo, montado num formudo ruçopombo
e com um chapéu distintíssimo na cabeça, repassava
daqui p’r’ali, eguando bem, vistoriava. Me chamou para junto, eu
tinha de ter à mão um caderno grosso, para por ordem dele
assentar nomes, números e diversos, amanuense. Com eles eu
estava vindo, então, o senhor vê. Vinha, para conhecer esse
destino-meu-deus. O que me animou foi ele predizer que,
quando eu mais não quisesse, era só opor um aceno, e ele dava
baixa e alta de me ir m’embora.
Digo que fui, digo que gostei. A passeata forte, pronta
comida, bons repousos, companheiragem. O teor da gente se
distraía bem. Eu avistava as novas estradas, diversidade de terras.
Se amanhecia num lugar, se ia à noite noutro, tudo o que podia
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ser ranço ou discórdia consigo restava para trás. Era o enfim.
Era. – “Mais, mais, há-de dará é para diante, quando se formar
combate!” – uns proseavam. Zé Bebelo querendo. Sabia o que
queria, homem de muita raposice. Já no sair da Nhanva, tinha
composto seu povo em avulsos – cada grupo, cada rumo. Um
pelo São Lamberto, da mão direita; outro pegou o Riacho Fundo
e o Córrego do Sanhar; outro se separou da gente no Só-Aqui,
indo o Ribeirão da Barra; outro tomou sempre à mão esquerda,
encostando ombro no São Francisco; mas nós, que vínhamos
mais Zé Bebelo mesmo em capitania, rompemos, no meio, seguindo
o traço do Córrego Felicidade. Passamos perto de Vila
Inconfidência, viemos acampar no arraial Pedra-Branca, beira do
Água-Branca. E tudo correndo bem. Dum batalhão para outro,
se expedia gente com ordens e recados. Arrastávamos uma rede
grande, peixe grande por pegar. E foi. Eu não vi essa célebre
batalha – eu tinha ficado na Pedra-Branca. Não por medo, não.
Mas Zé Bebelo me mandou: – “Tem paciência, você espera, para
reunir os municipais do lugar e fazer discurso, logo que um
estafeta vier relatar qual foi nossa primeira vitória...”
Se deu, o que se disse. Só que, em vez de estafeta, a galope,
veio Zé Bebelo mesmo. Eu tinha ficado com ruma de foguetes,
para soltar, e foi festa. Zé Bebelo mandou dispor uma tábua por
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cima de um canto de cerca, conforme ele ali subiu e muito falou.
Referiu. Para lá do Rio Pacu, no município de Brasília, tinham
volteado um bando de jagunços – o com o valentão
Hermógenes à testa – e derrotado total. Mais de dez mortos,
mais de dez cabras agarrados presos; infelizmente só, foi que
aquele Hermógenes conseguira de fugir. Mas não podia ir a
longe! Ao que Zé Bebelo elogiou a lei, deu viva ao governo, para
perto futuro prometeu muita coisa republicana. Depois, enxeriu
que eu falasse discurso também. Tive de. – “Você deve de citar
mais é em meu nome, o que por meu recato não versei. E falar
muito nacional...” – se me se soprou. Cumpri. O que um homem
assim devia de ser deputado – eu disse, encalquei. Acabei, ele me
abraçou. O povo eu acho que apreciava. Daí, quando se estava
no depois do almoço, vieram cavaleiros nossos, tangendo o troço
de presos. Senti pena daqueles pobres, cansados, azombados,
quase todos sujos de sangues secos – se via que não tinham
esperança nenhuma decente. Iam de leva para a cadeia de
Extrema, e de lá para outras cadeias, de certo, até para a da
Capital. Zé Bebelo, olhando, me olhou, notou moleza. – “Tem
dó não. São os danados de façanhosos...” Ah, era. Disso eu sabia.
Mas como ia não ter pena? O que demasia na gente é a força feia
do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.
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Pensei que agora podíamos merece maior descanso. Ah,
sim? – “Montar e galopar. Tem mais. Tem...” – Zé Bebelo
chamou. Tocamos. Conversando, no caminho, eu perguntei, não
sei: – “E Joca Ramiro?” Zé Bebelo tiscou de ombros, parece que
não queria falar naquele. Daí me deu um gosto, de menor
maldade, de explicar como era fabuloso o estado de Joca Ramiro,
como tudo ele sabia e provia, e até que trazia um homem só para
o oficio de ferrador, com a tendinha e as ferramentas, e o tudo
mais versante aos animais. O que ouvindo, Zé Bebelo esbarrou.
– “Ah, é uma idéia que vale, ora veja! Isso a gente tem de
conceber também, é o bom exemplo para se aproveitar...” – ele
atinou. E eu, que já ia contar mais, do diverso, das peripécias que
meu padrinho dizia que Joca Ramiro inventava no dar batalha,
então eu como me concertei em mim, e calei a boca. Mire veja o
senhor tudo o que na vida se estorva, razão de pressentimentos.
Porque eu estava achando que, se contasse, perfazia ato de
traição. Traição, mas por quê? Dei um tunco. A gente não sabe, a
gente sabe. Calei a boca toda. Desencurtamos os cavalos.
No entre o Condado e a Lontra, se foi a fogo. Aí, vi,
aprendi. A metade dos nossos, que se apeavam, no avanço,
entremeados disfarçantes, suas armas em arte – escamoteados
pelas árvores – e de repente ligeiros se jazendo: para o rastejo;
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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com as cabeças, farejavam; toda a vida! Aqueles sabiam brigar,
desde de nascença? Só avistei isso um instante. Sendo que
seguindo Zé Bebelo, reviramos volta, para o Gameleiras, onde
houve o pior. O que era, era o bando do Ricardão, que quase
próximo, que cercamos. Para acuar, só faltando cães! E demos
inferno. Se travou. Tiro estronda muito, no meio do cerrado: se
diz que é estampido, que é rimbombo Tive noção de que
morreram bastantes. Vencemos. Não desci de meu animal. Nem
prestei, nem estive, no fim, como o galope se desabriu: os homens
perseguindo uns, que com o mesmo Ricardão se
escapavam. Mas mais não se aproveitou, o Ricardão já tinha tido
fuga. Então os nossos, de jeriza, com os oito prisioneiros feitos
queriam se concluir. – “Eh, de jeito nenhum, epa! Não consinto
covardias de perversidade!” – Zé Bebelo se danou. Apreciei a
excelência dele, no sistema de não se matar. Assim eu quis que o
ar de paz logo revertesse, o alimpado, o povo gritando menos.
Aquele dia tinha sido forte coisa. De longe e sossego eu careci,
demais. Se teve pouco. Arranjado o preciso, só se tomou prazo
breve, porque recombinaram por diante os projetos e
desarrancamos para a Terra Fofa, quase na demarca com o Grão-
Mogol. Mas lá não cheguei. Em certo ponto do caminho, eu
resolvi melhor minha vida.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 185 –
Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou
um desgosto. Não sei se era porque eu reprovava aquilo: de se ir,
com tanta maioria e largueza, matando e prendendo gente, na
constante brutalidade. Debelei que descuidassem de mim, restei
escondido retardado. Vim-me. Isso que, pelo ajustado, eu não
carecia de fazer assim. Podia chegar perto de Zé Bebelo,
desdizer: – “Desanimei, declaro de retornar para o Curralim...”
Não podia? Mas, na hora mesma em que eu a decisão tomei, logo
me deu um enfaro de Zé Bebelo, em trosgas, a conversação.
Nem eu não estava para ter confiança nenhuma em ninguém. A
bem: me fugi, e mais não pensei exato. Só isso. O senhor sabe, se
desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem sustância
narrável.
Meu cavalo era bom, eu tinha dinheiro na algibeira, eu
estava bem armado. Virei, vagaroso. Meu rumo mesmo era o do
mais incerto. Viajei, vim, acho que eu não tinha vontade de
chegar em nenhuma parte. Com vinte dias de remanchear, e sem
as trapalhadas maiores, foi que me encostei para o Rio das
Velhas, à vista da barra do Córrego Batistério. Dormi com uma
mulher, que muito me agradou – o marido dela estava fora, na
redondeza. Ali não dava maleita. De manhã cedo, a mulher me
disse: – “Meu pai existe daqui a quarto-de-légua. Vai, lá tu almoça
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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e janta. De noite, se meu marido não tiver voltado, eu te chamo,
dando avisos.” Eu falei: – “Você acende uma fogueira naquele
alto, eu enxergo, eu cá venho...” Ela falou: – “Ao que não posso,
alguém mais avistando havia de poder desconfiar.” Eu falei: –
“Assim mesmo, eu quero. Fogueira – uma fogueirinha de nada...”
Ela falou: – “Quem sabe eu acendo...” A gente sérios, nem se
sorrindo. Aí, eu fui.
Mas o pai dessa mulher era um homem finório de esperto,
com o jeito de tirar da gente a conversa que ele constituía. A
casa dele – espaçosa, casa-de-telha e caiada – era na beira, ali
onde o rio tem mais troas. Se chamava Manoel Inácio,
Malinácio dito, e geria uns bons pastos, com cavalhada
pastando, e os bois. Me deu almoço, me pôs em fala. Eu estava
querendo ser sincero. E notei que ele no falar me encarava e no
ouvir piscava os olhos; e, quem encara no falar mas pisca os
olhos para ouvir, não gosta muito de soldados. Aos poucos,
então, contei: que dos zé-bebelos não tinha querido fazer parte;
o que era a valente verdade. – “E Joca Ramiro?” – ele me
perguntou. Eu disse, um pouco por me engrandecer e pôr
minha prosa, que já tinha servido Joca Ramiro, e com ele
conversado. Que, mesmo por isso, é que eu não podia ficar com
Zé Bebelo, porque meu seguimento era por loca Ramiro, em
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 187 –
coração em devoção. E falei no méu padrinho Selorico Mendes,
e em Aluiz e Alarico Totõe, e de como foi que Joca Ramiro
pernoitou em nossa fazenda do São Gregório. Mais coisas decerto
eu disse, e aquele homem Malinácio me ouvia, só se
fazendo de sossegado. Mas eu percebi que ele não estava. Deu
jeito de aconselhar que eu fosse embora. Que ali miasmava
braba maleita. Não acertei. Eu queria esperar, para ver se a
fogueira por minha sorte se acendia, eu tinha gostado muito da
filha dele casada. Por um instante, o sabido do homem se tardou
no que fazer. Mas, eu, requerendo um lugar para armar minha
rede na sombra, e descansar – eu disse que não andava bem de
saúde, – isso pareceu ser de seu agrado. Me levou para um
quarto, onde tinha um jirau com enxergão, me botou lá à Ia
vontade, fechou a porta. Ferrei; abraçado com minhas armas.
Acordei só no aquele Malinácio me chamando para jantar.
Cheguei na sala, e dei com outros três homens. Disseram de si
que tropeiros eram, e estavam assim vestidos e parecidos. Mas o
Malinácio começou a glosar e reproduzir minha conversa tida
com ele – disso desgostei, segredos frescos contados não são
para todos. E o arrieiro dono da tropa – que era o de cara
redonda e pra clara – me fez muita interrogação. Não estive em
boas cócoras. Construí de desconfiar. Não do fato d’ele tal
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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encarecer – pois todo tropeiro sempre muito pergunta ; mas do
jeito como os outros dois ajudavam aquele a me ver, de tudo
perseverado tomando conta. Ele queria saber para onde eu
mesmo me ia além. Queria saber por que, se eu punia por loca
Ramiro, e estava em armas, por que então eu não tinha caçado
jeito de trotar para o Norte, a fito de com o pessoal ramiros me
juntar? Quem desconfia, fica sábio: dizendo como pude, muito
confirmei; mas confirmei acrescentando que chegara até ali por
dar volta cautelosa, e mesmo para sobre ter a calma de resolver
os projetos em meu espírito. Ah, mas ah! – enquanto que me
ouviam, mais um homem, tropeiro também, vinha entrando, na
soleira da porta. Agüentei aquele nos meus olhos, e recebi um
estremecer, em susto desfechado. Mas era um susto de coração
alto, parecia a maior alegria.
Soflagrante, conheci. O moço, tão variado e vistoso, era,
pois sabe o senhor quem, mas quem, mesmo? Era o Menino! O
Menino, senhor sim, aquele do porto do de-Janeiro, daquilo que
lhe contei, o que atavessou o rio comigo, numa bamba canoa,
toda a vida. E ele se chegou, eu do banco me levantei. Os olhos
verdes, semelhantes grandes, o lembrável das compridas
pestanas, a boca melhor bonita, o nariz fino, afiladinho.
Arvoamento desses, a gente estatela e não entende; que dirá o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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senhor, eu contando só assim? Eu queria ir para ele, para
abraço, mas minhas coragens não deram. Porque ele faltou com
o passo, num rejeito, de acanhamento. Mas me reconheceu,
visual. Os olhos nossos donos de nós dois. Sei que deve de ter
sido um estabelecimento forte, porque as outras pessoas o novo
notaram – isso no estado de tudo percebi. O Menino me deu a
mão: e o que mão a mão diz é o curto; às vezes pode ser o mais
adivinhado e conteúdo; isto também. E ele como sorriu. Digo
ao senhor: até hoje para mim está sorrindo. Digo. Ele se
chamava o Reinaldo.
Para que referir tudo no narrar, por menos e menor?
Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum,
sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê.
Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir
relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto
coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio
é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante.
– “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as
horas de todos” – me explicou o compadre meu Quelemém.
Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro
dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se
consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem
tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no
ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente
quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas,
quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama
inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as
surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Muito
falo, sei; caceteio. Mas porém é preciso. Pois então. Então, o
senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?!
Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha.
Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta.
Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guerra, eu vencendo,
aí estremeci num relance claro de medo – medo só de
mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que
eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que
eu de repente me perguntei, para não me responder: – “Você é
o rei-dos-homens?...” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo.
Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam
só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor,
nem eu, ninguém não sabe.
Conto. Reinaldo – ele se chamava. Era o Menino do Porto,
já expliquei. E desde que ele apareceu, moço e igual, no portal
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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da porta, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me
separar da companhia dele, por lei nenhuma; podia? O que
entendi em mim: direito como se, no reencontrando aquela hora
aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o
todo sempre, as regências de uma alguma a minha família. Se
sem peso e sem paz, sei, sim. Mas, assim como sendo, o amor
podia vir mandado do Dê? Desminto. Ah – e Otacília? Otacília,
o senhor verá, quando eu lhe contar – ela eu conheci em
conjuntos suaves, tudo dado e clareado, suspendendo, se diz:
quando os anjos e o vôo em volta, quase, quase. A Fazenda
Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Otacília,
estilo dela, era toda exata, criatura de belezas. Depois lhe conto;
tudo tem o tempo. Mas o mal de mim, doendo e vindo, é que eu
tive de compesar, numa mão e noutra, amor com amor. Se
pode? Vem horas, digo: se um aquele amor veio de Deus, como
veio, então – o outro?... Todo tormento. Comigo, as coisas não
têm hoje e anfontem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que
tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa
começou? O senhor por ora mal me entende, se é que no fim
me entenderá. Mas a vida não é entendível. Digo: afora esses
dois – e aquela mocinha Nhorinhá, da Aroeirinha, filha de Ana
Duzuza – eu nunca supri outro amor, nenhum. E Nhorinhá eu
deamei no passado, com um retardo custoso. No passado, eu,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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digo e sei, sou assim: relembrando minha vida para trás, eu
gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha
mesma antiga pessoa. Medeiro Vaz, antes de sair pelos Gerais
com mão de justiça, botou fogo em sua casa, nem das cinzas
carecia a possessão. Casas, por ordem minha aos bradados, eu
incendiei: eu ficava escutando – o barulho de coisas rompendo e
caindo, e estralando surdo, desamparadas, lá dentro. Sertão!
Logo que o Reinaldo me conheceu e me saudou, não tive
mais dificuldade em dar certeza aos outros de minha situação.
Ao quase sem sobejar palavras, ele afiançou o meu valimento,
para aquele mestre de cara redonda e bom parecer, que passava
por arrieiro da tropa e se chamava Titão Passos. De fato,
tropeiros não eram, eu soube, mas pessoal brigal de Joca
Ramiro. E a tropa? Essa, que se estava para seguir porquanto
pra o Norte, com os três lotes de bons animais, era para levar
munição. Nem tiveram mais prevenimento de esconder isso de
mim. Aquele Malinácio era o guardador: com as munições bem
encobertadas. Defronte da casa dele, mesmo, e para cima e para
baixo, o rio possuía as croas de areia – cada qual com seu nome,
que os remadores do das-Velhas botavam, e que todos tanto
conheciam. Três croas e uma ilha. Mas uma delas três, maior,
também sendo meio ilha: isto é, ilha de terra, na parte de baixo,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 193 –
com grandes pedras e árvores, e suja de matinho, capim, o
alecrim viçoso remolhando suas folhagens nágua e o bunda-denegro
verde vivente; e croa, só de areia, na parte de cima. Uma
croa-com-ilha, que é conforme se diz. A Croa-comIlha do
Malinácio, dita. A lá, que aonde estava o oculto, a gente ia em
canoa, baldear a munição. Os outros companheiros, afetados de
tropeiros, sendo ó Triol e João Vaqueiro, e mais Acrísio e
Assunção, de sentinelas, e Vove, Jenolim e Admeto, que
acabavam de enquerir a carga na mulada. A gente, jantou-se, já
se estava de saída, para toda viagem. Eu ia com eles.
Pois fomos, Nem tive pesar nenhum de não esperar o sinal
da fogueira da mulher casada, filha do Malínácio. E ela era
bonita, sacudida. Mulher assim de ser: que nem braçada de cana
– da bica para os cochos, dos cochos para os tachos. Menos
pensei. A andada de noite principiava como sobre algodão –
produzida cuidadosa. Aquilo era munição de contos e contos de
réis, a gente prezava grandes responsabilidades. Se vinha sem
beiradear, mas sabendo o rio. Titão Passos comandava.
De seguir assim, sem a dura decisão, feito cachorro magro
que espera viajantes em ponto de rancho, o senhor quem sabe
vá achar que eu seja homem sem caráter. Eu mesmo pensei.
Conheci que estava chocho, dado no mundo, vazio de um meu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 194 –
dever honesto. Tudo, naquele tempo, e de cada banda que eu
fosse, eram pessoas matando e morrendo, vivendo numa fúria
firme, numa certeza, e eu não pertencia a razão nenhuma, não
guardava fé e nem fazia parte. Abalado desse tanto, transtornei
um imaginar. Só não quis arrependimento: porque aquilo
sempre era começo, e descoroçoamento era modo-de-matéria
que eu já tinha aprendido a protelar. Mas o Reinaldo vinha
comigo, no mesmo lote, e não caçava minha companhia, não se
chegou para perto de mim, nem vez, não dava sinal de prosseguir
amizade. A gente descarecia de cuidar dos burros, um por
um, enfileirados naquela paciência, na escuridão da noite eles
tudo enxergavam. Se eu não tivesse passado por um lugar, uma
mulher, a combinação daquela mulher acender a fogueira, eu
nunca mais, nesta vida, tinha topado com o Menino? – era o que
eu pensava. Veja o senhor: eu puxava essa idéia; e com ela em
vez de me alegre ficar, por ter tido tanta sorte, eu sofria o meu.
Sorte? O que Deus sabe, Deus sabe. Eu vi a neblina encher o
vulto do rio, e se estralar da outra banda a barra da madrugada.
Assaz as seriemas para trás cantaram. Ao que, esbarramos num
sitiozinho, se avistou um preto, o preto já levantado para o
trabalho, descampando mato. O preto era nosso; fizemos
paragem.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 195 –
Dali, rezei minha ave-mariazinha de de-manhã, enquanto
se desalbardava e amilhava. Outros escovavam os burros e
mulas, ou a cangalhada iam arrumando, a carga toda se pôde
resguardar – quase que ocupou inteira a casinha do preto.O qual
era tão pobre desprevenido, tivemos até de dar comida a ele e à
mulher, e seus filhinhos deles, quantidade. E notícia nenhuma,
de nada, não se achava. A gente ia ao menos dormir o dia; mas
três tinham de sobreficar, de vigias. O Reinaldo se dizendo ser
um deles, eu tive coragem de oferecer também que ficava; não
tinha sono, tudo em mim era nervosía. O rio, objeto assim a
gente observou, com uma croa de areia amarela, e uma praia
larga: manhãzando, ali estava re-cheio em instância de pássaros.
O Reinaldo mesmo chamou minha atenção. O comum: essas
garças, enfileirantes, de toda brancura; o jaburu; o pato-verde, o
pato-preto, topetudo; marrequinhos dançantes; martimpescador;
mergulhão; e até uns urubus, com aquele triste preto
que mancha. Mas, melhor de todos – conforme o Reinaldo
disse-o que é o passarim mais bonito e engraçadinho de rioabaixo
e rio-acima: o que se chama o manuelzinhoda-croa.
Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar
apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros,
em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 196 –
para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: – “É
formoso próprio...” – ele me ensinou. Do outro lado, tinha
vargem e lagoas. P’ra e p’ra, os bandos de patos se cruzavam. –
“Vigia como são esses...” Eu olhava e me sossegava mais. O sol
dava dentro do rio, as ilhas estando claras. – “É aquele lá:
lindo!” Era o manuelzinho-da-croa, sempre em casal, indo por
cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito
atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos catando
suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea –
às vezes davam beijos de biquinquim – a galinholagem deles. –
“É preciso olhar para esses com um todo carinho...” – o
Reinaldo disse. Era. Mas o dito, assim, botava surpresa. E a
macieza da voz, o bem-querer sem propósito, o caprichado ser
– e tudo num homem-d’armas, brabo bem jagunço – eu não
entendia! Dum outro, que eu ouvisse, eu pensava: frouxo, está
aqui um que empulha e não culha. Mas, do Reinaldo, não. O
que houve, foi um contente meu maior, de escutar aquelas
palavras. Achando que eu podia gostar mais dele. Sempre me
lembro. De todos, o pássaro mais bonito gentil que existe é
mesmo o Manuelzinho-da-croa.
Depois, conversamos de coisas miúdas sem valor alheio, e
eu tive uma influência para contar artes de minha vida, falar a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 197 –
esmo leve, me abrir em amáveis, bom. Tudo me comprazia por
diante, eu não necessitava de prolongares. – “Riobaldo...
Reinaldo...” – de repente ele deixou isto em dizer: – “... Dão par,
os nomes de nós dois...” A de dar, palavras essas que se
repartiram: para mim, pincho no em que já estava, de alegria;
para ele, um vice-versa de tristeza. Que por quê? Assim eu ainda
não sabia. O Reinaldo pitava muito; não acerto como podia
conservar os dentes tão asseados; tão brancos. Ao em tanto que,
também, de pitar se carecia: porque volta-emeia abespinhavam a
gente os mosquitinhos chupadores, donos da vazante, uns
mosquitinhos dançadinhos, tantos de se despertar. Eu fui
contando minha existência. Não escondi nada não. Relatei como
tinha acompanhado Zé Bebelo, o foguetório que soltei e o
discurso falado, na Pedra-Branca, o combate dado na beira do
Gameleiras, os pobres presos passando, com as camisas e as
caras sujadas de secos sangues. – “Riobaldo, você é valente...
Você é um homem pelo homem...” – ele no fim falou. Sopesei
meu coração, povoado enchido, se diz; me cri capaz de altos,
para toda seriedade certa proporcionado. E, aí desde aquela
hora, conheci que, o Reinaldo, qualquer coisa que ele falasse,
para mim virava sete vezes.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 198 –
Desculpa me dê o senhor, sei que estou falando demais,
dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é
que vale e o que é que não vale? Tudo. Mire veja: sabe por que é
que eu não purgo remorso? Acho que o que não deixa é a minha
boa memória. A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no
escuro. Mas, eu, lembro de tudo. Teve grandes ocasiões em que
eu não podia proceder mal, ainda que quisesse. Por quê? Deus
vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta
pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo,
ninguém pode medir suas perdas e colheitas. Mas conto. Conto
para mim, conto para o senhor. Ao quando bem não me
entender, me espere.
Aí nesse mesmo meio-dia, rendidos na vigiação, o
Reinaldo e eu não estávamos com sono, ele foi buscar uma
capanga bonita que tinha, com lavores e três botóezinhos de
abotoar. O que nela guardava era tesoura, tesourinha, pente,
espelho, sabão verde, pincel e navalha. Dependurou o espelho
num galho de marmelo-do-mato, acertou seu cabelo, que já
estava cortado baixo. Depois quis cortar o meu. Me emprestou a
navalha, mandou eu fazer a barba, que estava bem grandeúda.
Acontecendo tudo com risadas e ditos amigos – como quando
com seu arreleque por-escuro uma nhaúma devoou, ou quando
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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eu pulei para apanhar um raminho de flores e quase caí
comprido no chão, ou quando ouvimos um him de mula, que
perto pastava. De estar folgando assim, e com o cabelo de
cidadão, e a cara raspada lisa, era uma felicidadezinha que eu
principiava. Desde esse dia, por animação, nunca deixei de
cuidar de meu estar. O Reinaldo mesmo, no mais tempo,
comprou de alguém uma outra navalha e pincel, me deu,
naquela dita capanga. Às vezes, eu tinha vergonha de que me
vissem com peça bordada e historienta; mas guardei aquilo com
muita estima. E o Reinaldo, doutras viagens, me deu outros
presentes: camisa de riscado fino, lenço e par de meia, essas
coisas todas. Seja, o senhor vê: até hoje sou homem tratado.
Pessoa limpa, pensa limpo. Eu acho.
Depois, o Reinaldo disse: eu fosse lavar corpo, no rio. Ele
não ia. Só, por acostumação, ele tomava banho era sozinho no
escuro, me disse, no sinal da madrugada. Sempre eu sabia de tal
crendice, como alguns procediam assim esquisito – os
caborjudos, sujeitos de corpo-fechado. No que era verdade. Não
me espantei. Somente o senhor tenha: tanto sacrifício, desconforto
de esbarrar nos garranchos, às tatas na ceguez da noite,
não se diferenciando um ai dum ei, e pelos barrancos, lajes
escorregadas e lama atolante, mais o receio de aranhas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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caranguejeiras e de cobras! Não, eu não. Mas o Reinaldo me
instruiu aquilo, e me deixou na beira da praia, alegrias do ar em
meu pensamento. Cheguei a encarar a água, o Rio das Velhas
passando seu muito, um rio é sempre sem antiguidade. Cheguei
a tirar a roupa. Mas então notei que estava contente demais de
lavar meu corpo porque o Reinaldo mandasse, e era um prazer
fofo e perturbado. “Agançagem!” – eu pensei. Destapei raivas.
Tornei a me vestir, e voltei para a casa do preto; devia de ser
hora de se comer a janta e arriar a tropa para as estradas. Agora
o que eu queria era ímpeto de se viajar às altas e ir muito longe. A
ponto que nem queria avistar o Reinaldo.
Estou contando ao senhor, que carece de um explicado.
Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu
acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice
reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se
crê no sincero sem maldade. Está certo, sei. Mas ponho minha
fiança: homem muito homem que fui, e homem por mulheres! –
nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o
que, o sem preceito. Então – o senhor me perguntará – o que era
aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida. Direitinho declaro o que,
durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se
passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 201 –
nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia,
mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisafeita.
Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele
fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele
estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia
então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo
entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele
sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar
todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele,
dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação
dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos.
Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos,
do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou
meu cabelo. Sempre. Do demo: digo? Com que entendimento eu
entendia, com que olhos era que eu olhava? Eu conto. O senhor
vá ouvindo. Outras artes vieram depois.
Assim mesmo, naquele estado exaltado em que andei,
concebi fundamento para um conselho: na jornada por diante, a
gente tinha de deixar duma bando o rio, ir passar a Serra-da-
Onça e entestar com a travessia do Jequitaí, por onde podia ter
tropa de soldados; mais ajuizado não seria se enviar só um, até lá,
espiar o que se desse e colher outras informações?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Titão Passos era homem ponderado em simples, achou boa
a minha razão. Todos acharam. Aquela munição era de ida
urgente, mas também valia mais que ouro, que sangue, se carecia
de todo cuidado. Fui louvado e dito valedor, certo nas idéias. Ao
senhor confesso, desmedi satisfação, no ouvir aquilo – que a
assoprada na vaidade é a alegria que dá chama mais depressa e
mais a ar. Mas logo me reduzi, atinando que minha opinião era só
pelo desejo encoberto de que a gente pudesse ficar mais tempo
ali, naquele lugar que me concedia tantos regalos. Assim um rôo
de remorso: tantos perigos ameaçando, e a vida tão séria em
cima, e eu mexendo e virando por via de pequenos prazeres.
Sempre fui assim, descabido, desamarrado. Mas meu querer
surtiu efeito, novas ordens. Para assuntar e ver com ver, o
Jenolim saiu em rumo do Jequitaí, de sua Lagoa-Grande; e, com
a mesma tenção, rebuçado viajou o Acrísio, até Porteiras e o
Pontal da Barra, com todos os ouvidos bem abertos. E nós
ficamos esperando a volta deles, cinco dias lá, com grande
regozijo e repouso, na casa do preto Pedro Segundo de Rezende,
que era posteiro em terras da Fazenda São Joãozinho, de um
coronel Juca Sá. Até hoje, não me arrependo retratando? Os dias
que passamos ali foram diferentes do resto de minha vida. Em
horas, andávamos pelos matos, vendo o fim do sol nas palmas
dos tantos coqueiros macaúbas, e caçando, cortando palmito e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 203 –
tirando mel da abelha-depoucas-flores, que arma sua cera cor-derosa.
Tinha a quantidade de pássaros felizes, pousados nas croas
e nas ilhas. E até peixe do rio se pescou. Nunca mais, até o
derradeiro final, nunca mais eu vi o Reinaldo tão sereno, tão
alegre. E foi ele mesmo, no cabo de três dias, quem me
perguntou: – “Riobaldo, nós somos amigos, de destino fiel,
amigos?” – “Reinaldo, pois eu morro e vivo sendo amigo seu!” –
eu respondi. Os afetos. Doçura do olhar dele me transformou
para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do
mundo. Como no tempo em que tudo era falante, ai, sei. De
manhã, o rio alto branco, de neblim; e o ouricuri retorce as
palmas. Só um bom tocado de viola é que podia remir a vivez de
tudo aquilo.
Dos outros, companheiros conosco, deixo de dizer.
Desmexi deles. Bons homens no trivial, cacundeiros simplórios
desse Norte pobre, uns assim. Não por orgulho meu, mas antes
por me faltar o raso de paciência, acho que sempre desgostei de
criaturas que com pouco e fácil se contentam. Sou deste jeito.
Mas Titão Passos, digo, apreciei; porque o que salvava a feição
dele era ter o coração nascido grande, cabedor de grandes
amizades. Ele achava o Norte natural. Quando que
conversamos, perguntei a ele se Joca Ramiro era homem bom.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 204 –
Titão Passos regulou um espanto: uma pergunta dessa decerto
que nunca esperou de ninguém. Acho que nem nunca pensou
que Joca Ramiro pudesse ser bom ou ruim: ele era o amigo de
Joca Ramiro, e isso bastava. Mas o preto de-Rezende, que estava
perto, foi quem disse, risonho bobeento: – “Bom? Um
messias!...” O senhor sabe: preto, quando é dos que encaram de
frente, é a gente que existe que sabe ser mais agradecida. Ao
que, em tanto, no ouvir falar de Joca Ramiro, o Reinaldo se
aproximou. Parecia que ele não gostava de me ver em comprida
conversa amiga com os outros, ficava quasezinho amuado. Com
o tempo dos dias, fui conhecendo também que ele não era
sempre tranqüilo igual, feito antes eu tinha pensado. Ah, ele
gostava de mandar, primeiro mandava suave, depois, visto que
não fosse obedecido, com as sete-pedras. Aquela força de
opinião dele mais me prazia? Aposto que não. Mas eu concordava,
quem sabe por essa moleza, que às vezes a gente tem,
sem tal nem razão, moleza no diário, coisa que até me parece ser
parente da preguiça. E ele, o Reinaldo, era tão galhardo garboso,
tão governandor, assim no sistema pelintra, que preenchia em
mim uma vaidade, de ter me escolhido para seu amigo todo leal.
Talvez também seja. Anta entra n’água, se rupeia. Mas, não. Era
não. Era, era que eu gostava dele. Gostava dele quando eu
fechava os olhos. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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do sonho de minhas noites. O senhor entenderá, agora ainda não
me entende. E o mais, que eu estava criticando, era me a mim
contando logro – jigajogas.
– “Você vai conhecer em breve Joca Ramiro, Riobaldo...”
– o Reinaldo veio dizendo. – “Vai ver que ele é o homem que
existe mais valente!” Me olhou, com aqueles olhos quando doces.
E perfez: – “Não sabe que quem é mesmo inteirado valente, no
coração, esse também não pode deixar de ser bom?!” Isto ele
falou. Guardei. Pensei. Repensei. Para mim, o indicado dito, não
era sempre completa verdade. Minha vida. Não podia ser. Mais
eu pensando nisso, uma hora, outra hora. Perguntei ao compadre
meu Quelemém. – “Do que o valor dessas palavras tem dentro”
– ele me respondeu – “não pode haver verdade maior...”
Compadre meu Quelemém está certo sempre. Repenso. E o
senhor no fim vai ver que a verdade referida serve para aumentar
meu pejo de tribulação.
Fim do bom logo vem, mas. O Acrísio retornou:
pasmaceira na barra do rio, a nenhuma novidade. Retornou o
Jenolim: o Jequitaí estava passável. E saímos simples com a
tropa, sem menos dessossego nem mais receio, serra para cima,
pelos caminhos tencionados. Daí, hora grave me veio, com três
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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léguas de marcha. Mazelas de mais pesares. E donde menos temi,
no pior me vi. Titão Passos começou a me perguntar.
Titão Passos era homem liso bom; me fazia as perguntas
com natureza tão honrosa, que eu não tinha ânimo de mentir,
nem de me caber calado. Nem podia. De lá mais adiante,
atravessando o Jequitaí, tudo ia se abrir a ser para nós todos
campo de fogo e aos perigos de mortes. As turmas de cavaleiros
de Zé Bebelo campeavam naquele país, caçando gente, sopitando,
vigiando. Do povo morador, não faltava quem, desconfiando
de nós, mandasse a eles envio de denúncia, pois todos queriam
aproveitar a ocasião para se acabar com os jagunços, para
sempre. – “Morrer, morrer, a gente sem luxo se cede...” – o
Reinaldo disse. – “... Mas a munição tem de chegar em poder de
loca Ramiro!” Eu podia pensar tranqüilo na minha morte por ali?
Podia pensar no Reinaldo morrendo? E o que Titão Passos
queria saber era tudo que eu soubesse, a respeito de Zé Bebelo,
das malasartes que ele usava em guerra, de seus aprovados
costumes, suas forças e armamentos. Tudo o que eu falasse,
podia ajudar. O saber de uns, a morte de outros. Para melhor
pensar, fui mal-respondendo, me calando, falando o que era
vasto. Como eu ia depor? Podia? Tudo o que eu mesmo quisesse.
Mas, traição, não.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Não. Nem era por retente de dever, por lei honesta
nenhuma, ou floreado de noção. Mas eu não podia. Tudo
dentro de mim não podia. Dou vendido em pecas riquezas o
que eu cansei naquela hora, minhas caras deviam de estar
pegando fogo. Que se eu contasse, não contasse, essas ânsias.
Eu não podia, como um bicho não pode deixar de comer a
avistada comida, como uma bicha-fêmea não pode fugir
deixando suas criazinhas em frente da morte. Eu devia? Não
devia? Vi vago o adiante da noite, com sombras mais
apresentadas. Eu, quem é que eu era? De que lado eu era? Zé
Bebelo ou Joca Ramiro? Titão Passos... o Reinaldo... De
ninguém eu era. Eu era de mim. Eu, Riobaldo. Eu não queria
querer contar.
Falei e refalei inútil, consoante; e quer ver que Titão Passos
aceitava aquilo assim? Me acreditava. Lembrei que ainda tinha,
guardada estreito comigo, aquela lista, de nomes e coisas, de Zé
Bebelo, num caderno. Alguma valia aquilo tinha? Não sei, sabia
não. Andando, peguei, oculto, rasguei em pedacinhos, taquei
tudo no arrojo dum riacho. Aquelas águas me lavavam. E, de
tudo que a respeito do resto eu sabia, cacei em mim um esforço
de me completo me esquecer. Depois, Titão Passos disse: –
“Você pode ser de muita ajuda. Se a gente topar com a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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zebelância, você entra de bico – fala que é um deles, que esta
tropa você está levando...” Com isso, me conformei. Aos poucos,
mesmo compunha uma alegria, de ser capaz de auxiliar e pôr
efeito, como o justo companheiro. A que, no bando de loca
Ramiro, eu havia de prestar toda a minha diligência e coragem. E
nem fazia mal que eu não relatasse a respeito de Zé Bebelo mais,
porquanto o prejuízo que disso se tivesse, por ele eu também
padecia e pagava. No caso, em vista de que agora eu estava
também sendo um ramiro, fazia parte. De pensar isso, eu
desfrutei um orgulho de alegria de glória. Mas ela durou curta.
Oi, barros de água do Jequitaí, que passaram diante de minha
fraqueza.
Foi que Titão Passos, pensando mais, me disse: – “Tudo
temos de ter cautela... Se eles já souberam notícia de que você
fugiu, e te encontram, são sujeitos para quererem logo te matar
imediato, por culpas de desertor...” Ouvi retardado, não pude dar
resposta. Me amargou no cabo da língua. Medo. Medo que
maneia. Em esquina que me veio. Bananeira dá em vento de todo
lado. Homem? É coisa que treme. O cavalo ia me levando sem
data. Burros e mulas do lote de tropa, eu tinha inveja deles... Tem
diversas invenções de medo, eu sei, o senhor sabe. Pior de todas
é essa: que tonteia primeiro, depois esvazia. Medo que já
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principia com um grande cansaço. Em minhas fontes, cocei o
aviso de que um suor meu se esfriava. Medo do que pode haver
sempre e ainda não há. O senhor me entende: costas do mundo.
Em tanto, eu devia de pensar tantas coisas – que de repente
podia cursar por ali gente zebebela armada, me pegavam: por al,
por mal, eu estava soflagrante encostado, rendido, sem salves,
atirado para morrer com o chão na mão. Devia de me lembrar de
outros apertos, e dar relembro do que eu sabia, de ódios daqueles
homens querentes de ver sangues e carnes, das maldades deles
capazes, demorando vingança com toda judiação. Não pude, não
pensava demarcado. Medo não deixava. Eu estando com um
vapor na cabeça, o miolo volteado. Mudei meu coração de posto.
E a viagem em nossa noite seguia. Purguei a passagem do medo:
grande vão eu atravessava.
A tristeza. Aí, o Reinaldo, na paragem, veio para perto de
mim. Por causa da minha tristeza, sei que de mim ele mais
gostava. Sempre que estou entristecido, é que os outros gostam
mais de mim, de minha companhia. Por quê? Nunca falo queixa,
de nada. Minha tristeza é uma volta em medida; mas minha
alegria é forte demais. Eu atravessava no meio da tristeza, o
Reinaldo veio. Ele bem-me-quis, aconselhou brincando: –
“Riobaldo, puxa as orelhas do teu jumento...” Mas amuado eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 210 –
não estava. Respondi somente: – “Amigo...” – e não disse nem
mais. Com toda minha cordura. Mas, de feito, eu carecia de
sozinho ficar. Nem a pessoa especial do Reinaldo não me
ajudava. Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas
estreitas horas – isso procuro. O Reinaldo comigo par a par, e a
tristeza do medo me eivava de a ele não dar valor. Homem como
eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo
algum desespero.
Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que
alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo
enraizado. Fui indo. De repente, de repente, tomei em mim o
gole de um pensamento – estralo de ouro: pedrinha de ouro. E
conheci o que é socorro.
Com o senhor me ouvindo, eu deponho. Conto. Mas
primeiro tenho de relatar um importante ensino que recebi do
compadre meu Quelemém. E o senhor depois verá que naquela
minha noite eu estava adivinhando coisas, grandes idéias.
Compadre meu Quelemém, muitos anos depois, me
ensinou que todo desejo a gente realizar alcança – se tiver ânimo
para cumprir, sete dias seguidos, a energia e paciência forte de só
fazer o que dá desgosto, nojo, gastura e cansaço, e de rejeitar
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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toda qualidade de prazer. Diz ele; eu creio. Mas ensinou que,
maior e melhor, ainda, é, no fim, se rejeitar até mesmo aquele
desejo principal que serviu para animar a gente na penitência de
glória. E dar tudo a Deus, que de repente vem, com novas coisas
mais altas, e paga e repaga, os juros dele não obedecem medida
nenhuma. Isso é do compadre meu Quelemém. Espécie de reza?
Bem, rezar, aquela noite, eu não conseguia. Nisso nem
pensei. Até para a gente se lembrar de Deus, carece de se ter
algum costume. Mas foi aquele grão de idéia que me acuculou,
me argumentou todo. Ideiazinha. Só um começo. Aos
pouquinhos, é que a gente abre os olhos; achei, de per mim. E
foi: que, no dia que amanhecia, eu não ia pitar, por forte que
fosse o vício de minha vontade. E não ia dormir, nem descansar
sentado nem deitado. E não ia caçar a companhia do Reinaldo,
nem conversa, o que de tudo mais prezava. Resolvi aquilo, e me
alegrei. O medo se largava de meus peitos, de minhas pernas. O
medo já amolecia as unhas. Íamos chegando numa tapera, nas
Lagoas do Córrego Mucambo. Lá nós tínhamos pastos bons. O
que resolvi, cumpri. Fiz.
Ah, aquele dia me carregou, abreviei o poder de outras
aragens. Cabeça alta – digo. Esta vida está cheia de ocultos
caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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entenderá. Ao que, por outra, ainda um exemplo lhe dou. O que
há, que se diz e se faz – que qualquer um vira brabo corajoso, se
puder comer cru o coração de uma onça-pintada. É, mas, a
onça, a pessoa mesma é quem carece de matar; mas matar à mão
curta, a ponta de faca! Pois, então, por aí se vê, eu já vi: um
sujeito medroso, que tem muito medo natural de onça, mas que
tanto quer se transformar em jagunço valentão – e esse homem
afia sua faca, e vai em soroca, capaz que mate a onça, com muita
inimizade; o coração come, se enche das coragens terríveis! O
senhor não é bom entendedor? Conto. De não pitar, me vinham
uns rangidos repentes, feito eu tivesse ira de todo o mundo.
Agüentei. Sobejante saí caminhando, com firmes passos: bis,
tris; ia e voltava. Me deu vontade de beber a da garrafa. Rosnei
que não. Andei mais. Nem não tinha sono nenhum, desmenti
fadiga. Reproduzi de mim outro fôlego. Deus governa grandeza.
Medo mais? Nenhum algum! Agora viesse corja de zebebelos ou
tropa de meganhas, e me achavam. Me achavam, ah, bastantemente.
Eu aceitava qualquer vuvu de guerra, e ia em cima,
enorme sangue, ferro por ferro. Até queria que viessem, duma
vez, pelo definitivo. Aí, quando os passos escutei, vi: era o
Reinaldo, que vindo. Ele queria direto, comigo se conferir.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Sabia
disso. E ele curtia um engano: pensou que eu estava amofinado, e
eu não estava. O que era sisudez de meu fogo de pessoa, ele
tomou por mãmolência. Queria me trazer consolo? – “Riobaldo,
amigo...” – me disse. Eu estava respirando muito forte, com
pouca paciência para o trivial; pelo tanto respondi alguma palavra
só. Ele, em hora comum, com muito menos que isso a gente
marfava. Na vez, não se ofendeu. – “Riobaldo, não calculei que
você era genista...” – ainda gracejou. Dei a nenhuma resposta.
Momento calados ficamos, se ouvia o corrute dos animais, que
pastavam à bruta no capim alto. O Reinaldo se chegou para perto
de mim. Quanto mais eu tinha mostrado a ele a minha dureza,
mais amistoso ele parecia; maldando, isso pensei. Acho que olhei
para ele com que olhos. Isso ele não via, não notava. Ah, ele me
queria-bem, digo ao senhor.
Mas, graças-a-deus, o que ele falou foi com a sucinta voz:
– “Riobaldo, pois tem um particular que eu careço de
contar a você, e que esconder mais não posso... Escuta: eu não
me chamo Reinaldo, de verdade. Este é nome apelativo,
inventado por necessidade minha, carece de você não me
perguntar por quê. Tenho meus fados. A vida da gente faz sete
voltas – se diz. A vida nem é da gente...”
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– 214 –
Ele falava aquilo sem rompante e sem entonos, mais antes
com pressa, quem sabe se com tico de pesar e vergonhosa
suspensão.
– “Você era menino, eu era menino... Atravessamos o rio
na canoa... Nos topamos naquele porto. Desde aquele dia é que
somos amigos.” Que era, eu confirmei. E ouvi:
– “Pois então: o meu nome, verdadeiro, é Diadorim...
Guarda este meu segredo. Sempre, quando sozinhos a gente
estiver, é de Diadorim que você deve de me chamar, digo e peço,
Riobaldo...”
Assim eu ouvi, era tão singular. Muito fiquei repetindo em
minha mente as palavras, modo de me acostumar com aquilo. E
ele me deu a mão. Daquela mão, eu recebia certezas. Dos olhos.
Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de
grandeza. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos
– logo eu disse: – “Diadorim... Diadorim!”com uma força de
afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava, gostava. Aí
tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção, toda a vida:
eu terçando, garantindo, punindo por ele. Ao mais os olhos me
perturbavam; mas sendo que não me enfraqueciam. Diadorim.
Sol-se-pôr, saímos e tocamos dali, para o Canabrava e o Barra.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 215 –
Aquele dia fora meu, me pertencia. Íamos por um plaino de
varjas; lua lá vinha. Alimpo de lua. Vizinhança do sertão – esse
Alto-Norte brabo começava. – Estes rios têm de correr bem! –
eu de mim dei. Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo
certo. Dia da lua. O luar que põe a noite inchada.
Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era real o nome
dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se
passava. Era um nome, ver o quê. Que é que é um nome? Nome
não dá: nome recebe. Da razão desse encoberto, nem resumi
curiosidades. Caso de algum crime arrependido, fosse, fuga de
alguma outra parte; ou devoção a um santo-forte. Mas havendo o
ele querer que só eu soubesse, e que só eu esse nome verdadeiro
pronunciasse. Entendi aquele valor. Amizade nossa ele não
queria acontecida simples, no comum, sem encalço. A amizade
dele, ele me dava. E amizade dada é amor. Eu vinha pensando,
feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar.
Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até
aquela-alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de
voar, mas bate suas asinhas no chão.
Hoje em dia, verso isso: emendo e comparo. Todo amor
não é uma espécie de comparação? E como é que o amor
desponta. Minha Otacília, vou dizer. Bem que eu conheci
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 216 –
Otacília foi tempos depois; depois se deu a selvagem desgraça,
conforme o senhor ainda vai ouvir. Depois após. Mas o primeiro
encontro meu com ela, desde já conto, ainda que esteja contando
antes da ocasião. Agora não é que tudo está me subindo mais
forte na lembrança? Pois foi. Assim que desta banda de cá a
gente tinha padecido toda resma de reveses; e que soubemos que
os judas também tinham atravessado o São Francisco; então nós
passamos, viemos procurar o poder de Medeiro Vaz, única
esperança que restava. Nos gerais. Ah, buriti cresce e merece é
nos gerais! Eu vinha com Diadorim, com Alaripe e com João Vaqueiro
mas Jesualdo, e o Fafafa. Aos Buritis-Altos, digo ao
senhor – vereda acima – até numa Fazenda Santa Catarina se
chegar. A gente tinha ciência de que o dono era favorável do
nosso lado, lá se devia de esperar por um recado. Fomos
chegando de tardinha, noitinha já era, noite, noite fechada. Mas o
dono não estava, não, só ia vir no seguinte, e sor Amadeu o graça
dele era. Quem acudiu e falou foi um velhozinho, já santificado
de velho, só se apareceu no parapeito da varanda – parece que
estava receoso de nossa forma; não solicitou de se subir, nem
mandou dar nada de comer. mas disse licença d’a gente dormir
na rebaixa do engenho. Avô de Otacília esse velhinho era, se
chamava Nhô Vô Anselmo. Mas, em tanto que ele falava, e
mesmo com a confusão e os latidos de muitos cachorros, eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 217 –
divulguei, qual que uma luz de candeia mal deixava, a doçura de
uma moça, no enquadro da janela, lá dentro. Moça de carinha
redonda, entre compridos cabelos. E, o que mais foi, foi um
sorriso. Isso chegasse? Às vezes chega, às vezes. Artes que morte
e amor têm paragens demarcadas. No escuro. Mas senti: me
senti. Águas para fazerem minha sede. Que jurei em mim: a Nossa
Senhora um dia em sonho ou sombra me aparecesse, podia ser
assim – aquela cabecinha, figurinha de rosto, em cima de alguma
curva no ar, que não se via. Ah, a mocidade da gente reverte em
pé o impossível de qualquer coisa! Otacília. O prêmio feito esse
eu merecia?
Diadorim-dirá o senhor: então, eu não notei viciice no
modo dele me falar, me olhar, me querer-bem? Não, que não –
fio e digo. Há-de-o, outras coisas... O senhor duvida? Ara,
mitilhas, o senhor é pessoa feliz, vou me rir... Era que ele gostava
de mim com a alma; me entende? O Reinaldo. Diadorim, digo.
Eli, ele sabia ser homem terrível. Suspa! O senhor viu onça: boca
de lado e lado, raivável, pelos filhos? Viu rusgo de touro no alto
do campo, brabejando; cobra jararacuçu emendando sete botes
estalados; bando doido de queixadas se passantes, dando febre
no mato? E o senhor não viu o Reinaldo guerrear!... Essas coisas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 218 –
se acreditam. O demônio na rua, no meio do redemunho... Falo!
Quem é que me pega de falar, quantas vezes quero?!
Assim ao feito quando logo que desapeamos no acampo do
Hermógenes; e quando! Ah, lá era um cafarnaum. Moxinife de
más gentes, tudo na deslei da jagunçagem bargada. Se estavam
entre o Furado-de-São-Roque e o Furado-do-Sapo, rebeira do
Ribeirão da Macaúba, por fim da Mata da Jaíba. A lá chegamos
num de-tardinha. Às primeiras horas, conferi que era o inferno.
Aí, com três dias, me acostumei. O que eu estava meio transtornado
da viagem.
A ver o que eu contava: quem não conhecia o Reinaldo,
ficou pronto conhecendo. Digo, Diadorim. Nós tínhamos em
fim chegado, sem soberba nenhuma, contentes por topar com
tanto número de companheiros em armas: de todos, todos eram
garantia. Entramos no meio deles, misturados, para acocorar e
prosear caçamos um pé de fogo. Novidade nenhuma, o senhor
sabe – em roda de fogueira, toda conversa é miudinhos tempos.
Algum explicava os combates com Zé Bebelo, nós o nosso:
roteiro todo da viagem, aos poucos para se historiar. Mas
Diadorim sendo tão galante moço, as feições finas caprichadas.
Um ou dois, dos homens, não achavam nele jeito de macheza,
ainda mais que pensavam que ele era novato. Assim loguinho,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 219 –
começaram, aí, gandaiados. Desses dois, um se chamava de alcunha
o Fancho-Bode, tratantaz. O outro, um tribufu, se dizia
Fulorêncio, veja o senhor. Mau par. A fumaça dos tições deu
para a cara de Diadorim – “Fumacinha é do lado – do
delicado...” – o Fancho-Bode teatrou. Consoante falou soez,
com soltura, com propósito na voz. A gente, quietos. Se vai lá
aceitar rixa assim de graça? Mas o sujeito não queria pazear. Se
levantou, e se mexeu de modo, fazendo xetas, mengando e
castanhetando, numa dança de furta-passo. Diadorim se esteve
em pé, se arredou de perto da fogueira; vi e mais vi: ele
apropriar espaços. Mas esse Fancho-Bode era abusado, vinha
querer dar umbigada. E o outro, muito comparsa, lambuzante
preto, estumou, assim como fingiu falsete, cantarolando pelo
nariz:
Pra gauder, Gaudêncio...
E aqui pra o Fulorêncio?...
Aquilo lufou! De rempe, tudo foi um ão e um cão, mas, o
que havia de haver, eu já sabia... Oap!: o assoprado de um
refugão, e Diadorim entrava de encontro no Fancho-Bode,
arrumou mão nele, meteu um sopapo: – um safado nas queixadas
e uma sobarbada – e calçou com o pé, se fez em fúria. Deu com
o Fancho-Bode todo no chão, e já se curvou em cima: e o punhal
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 220 –
parou ponta diantinho da goela do dito, bem encostado no gogó,
da parte de riba, para se cravar deslizado com bom apoio, e o
pico em pele, de belisco, para avisar do gosto de uma boa-morte;
era só se soltar, que, pelo peso, um fato se dava. O fechabrir de
olhos, e eu também tinha agarrado meu revólver. Arre, eu não
queria presumir de prevenir ninguém, mais queria mesmo era
matar, se carecesse. Acho que notaram. Ao que, em hora justa e
certa, nunca tive medo. Notaram. Farejaram pressentindo: como
cachorro sabe. Ninguém não se meteu, pois desapartar assim é
perigoso. Aquele Fulorêncio instantâneo esbarrou com os
acionados indecentes, me menos olhou uma vez, daí não quis me
encarar mais. – “Coca, bronco!” – Diadorim mandou o Fancho
se levantasse: que puxasse também a faca, viesse melhor se
desempenhar! Mas o Fancho-Bode se riu, amistoso safado, como
tudo tivesse constado só duma brincadeira: – “Oxente! Homem
tu é, manovelho, patrício!” Estava escabreado. Dava nojo, ele,
com a cara suja de maus cabelos, que cresciam por todo lado.
Guardei meu revólver, respeitosamente. Aqueles dois homens
não eram medrosos; só que não tinham os interesses de morrer
tão cedo assim. Homem é rosto a rosto; jagunço também: é no
quem-com-quem. E eles dois não estavam ali muito estimados.
Comprazendo conosco, outros companheiros deram ar de
amizade. E mesmo, por gracejo cordial, o Fulorêncio me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 221 –
perguntou: – “Mano Velho, me compra o que eu sonhei hoje?”
Divertindo, também, para o ar dei resposta: – “Só se for com
dinheiro da mãe do jacaré...” Todos riram. De mim não riram. O
Fulorêncio riu também, mas riso de velho. Cá pensei, silencioso,
silenciosinho: “Um dia um de nós dois agora tem de comer o
outro... Ou, se não, fica o assunto para os nossos netos, ou para
os netos dos nossos filhos...” Tudo em mais paz, me ofereceram:
bebi da januária azulosa – um gole me foi; cachaça muito
nomeada. Aquela noite, dormi conseguintemente.
Sempre disse ao senhor, eu atiro bem.
E esses dois homens, Fancho-Bode e Fulorêncio, bateram a
bota no primeiro fogo que se teve com uma patrulha de Zé
Bebelo. Por aquilo e isso, alguém falou que eu mesmo tinha
atirado nos dois, no ferver do tiroteio. Assim, por exemplo, no
circundar da confusão, o senhor sabe: quando bala raciocina.
Adiante falaram que eu aquilo providenciei, motivo de evitar que
mais tarde eles quisessem vir com alguma tranquibérnia ou
embusteria, em fito de tirarem desforra. Nego isso, não é
verdade. Nem quis, nem fiz, nem praga roguei. Morreram,
porque era seu dia, deles, de boa questão. Até, o que morreu foi
só um. O outro foi pego preso – eu acho – deve de ter acabado
com dez anos em alguma boa cadeia. A cadeia de Montes Claros,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 222 –
quem sabe. Não sou assassino. Inventaram em mim aquele falso,
o senhor sabe como é esse povo. Agora, com uma coisa, eu
concordo: se eles não tivessem morrido no começo, iam passar o
resto do tempo todo me tocaiando, mais Diadorim, para com a
gente aprontarem, em ocasião, alguma traição ou maldade. Nas
estórias, nos livros, não é desse jeito? A ver, em surpresas
constantes, e peripécias, para se contar, é capaz que ficasse muito
e mais engraçado. Mas, qual, quando é a gente que está vivendo,
no costumeiro real, esses floreados não servem: o melhor
mesmo, completo, é o inimigo traiçoeiro terminar logo, bem
alvejado, antes que alguma tramóia perfaça! Também, sei o que
digo: em toda a parte, por onde andei, e mesmo sendo de ordem
e paz, conforme sou, sempre houve muitas pessoas que tinham
medo de mim. Achavam que eu era esquisito.
Só o que mesmo devo de dizer, como atiro bem: que vivo
ainda por encontrar quem comigo se iguale, em pontaria e
gatilho. Por meu bom, de desde mocinho. Alemão Vupes pouco
me ensinou. Naquele tempo, já eu era. Dono de qualquer cano
de fogo: revólver, clavina, espingarda, fuzil reiúno, trabuco,
clavinote ou rifle. Honras não conto alto, porque acho que acerto
natural assim é de Deus, dom dado. Pelo que compadre meu
Quelemém me explicou: que eu devo de, noutra vida, por certo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 223 –
em encarnação, ter trabalhado muito em mira em arma. Seja?
Pontaria, o senhor concorde, é um talento todo, na idéia. O
menos é no olho, compasso. Aquele Vupes era profeta? Certa
vez, entrei num salão, os companheiros careciam que eu jogasse,
mor de inteirar a parceiragem. Bilhar – quero dizer. Eu não sabia,
total. Tinha nunca botado a mão naquilo. – “Faz mal nenhum” –
o Advindo disse. – “Você forma comigo, que sou tão no taco.
João Nonato, com o Escopil, jogam de contra-lado...” Aceitei.
Combinado ficou que o Advindo pudesse me superintender e
pronunciar cada toque, com palavras e noção de conselhos, mas
sem licença de apoiar mão em minha mão ou braço, nem
encostar dedo no taco. É de ver que, mesmo do jeito, não
bobeei um ceitil: o Advindo me lecionava o rumo medido da
vantagem, e eu encurvava o corpo, amolecia barriga e taqueava
o meu chofre, querendo aquilo no verde . era o justo repique –
umas carambolas de todos estalos, retruque e recompletas, com
recuanço, ladeio perfeito, efeito produzido e reproduzido; por
fim, eu me reprazia mais escutando rebrilhar o concoco
daquelas bolas umas nas outras, deslizadas... E pois, conforme
dizia, por meu tiro me respeitavam, quiseram pôr apelido em
mim: primeiro, Cerzidor, depois Tatarana, lagarta-de-fogo. Mas
firme não pegou. Em mim, apelido quase que não pegava. Será:
eu nunca esbarro pelo quieto, num feitio?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 224 –
No que foi, no que me vi, no acampo do Hermógenes.
Cabralhada. Tiba. De boa entrada, ao que me gasturei, no
vendo. Aqueles eram mais de cento e meio, sofreúdos, que
todos curtidos no jagunçar, rafaméia, mera gente. Azombado,
que primeiro até fiquei, mas daí quis assuntação, achei, a meu
cômodo. Assim, isto é, me acostumei com meiosó meu coração,
naquele arranchamento. Propriamente, pessoal do Hermógenes.
Digo: bons e maus, uns pelos outros, como neste mundo se pertence.
Por um que ruim seja, logo mais para adiante se encontra
outro pior. E a situação nossa era de guerra. Mesmo com isso, a
peito pronto, ninguém se perturbou com perigos de tanta
gravidade. Se vivia numa jóvia, medindo mãos, em vavavá e
conversa de festa, tomando tempo. Aqueles não
desamotinavam. A ajunta, ali, assim, de tantos atrás do ar, na vagagem:
manga de homens, por zanzar ou estar à-toa ou parar
formando rodas; ou uns dormindo, como boi malha; ou
deitados no chão sem dormir – só aboboravam. Assaz toda
espécie de roupa, divulguei: até sujeito com cinta larga de lã
vermelha; outro com chapéu de lebre e colete preto de fino
pano, cidadão; outros com coroça e bedém, mesmo sem chuva
nenhuma; só que de branco vestido não se tinha: que com terno
claro não se guerreia. Mas jamais ninguém ficasse nu-de-Deus
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 225 –
ou indecente descomposto, no meio dos outros, isso não e não.
Andando que sentados, jogando jogos, ferrando queda de braço,
assoando o nariz, mascando fumo forte e cuspindo longe, e
pitando, picando ou dedilhando fumo no covo da mão, com
muita demora; o mais, sempre no proseio. Aventes baldrocavam
suas pequenas coisas, trem objeto que um tivesse e menos
quisesse, que custou barato. E ninguém furtava! Furtasse, era
perigar morte. Cantavam cantarol, uns, aboiavam sem bois. Ou
cuidavam do espírito da barriga. O serviço que cumpriam era
alimpar as armas bem – marcadas as cruzes nas feições das
coronhas. E tudo o mais que faziam, que fosse coisa de sem-oque-
fazer. Por isso – se dizia – que ali corresse muita
besouragem, de falação mal, de rapa-tachos. Tinham lá até
cachorros, vadiando geral, mas o dono de cada um se sabia;
convinha não judiar com cão, por conta do dono.
Ao às-tantas me aceitaram; mas meio atalhados. Se o que
fossem mesmo de constância assim, por tempero de propensão;
ou, então, por me arrediarem, porquanto me achando deles
diverso? Somente isto nos princípios. Sendo que eu soube que
eu era mesmo de outras extrações. Semelhante por este
exemplo, como logo entendi: eles queriam completo ser
jagunços, por alcanço, gala mestra; conforme o que avistei,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 226 –
seguinte. Pois não era que, num canto, estavam uns,
permanecidos todos se ocupando num manejo caprichoso, e
isto que eles executavam: que estavam desbastando os dentes
deles mesmos, aperfeiçoando os dentes em pontas! Se me
entende? Senhor ver, essa atarefação, o tratear, dava alojo e
apresso, dava até aflição em – aflito, abobante. Os que lavravam
desse jeito: o Jesualdo – mocinho novo, com sua simpatia –, o
Araruta e o Nestor; os que ensinavam a eles eram o Simião e o
Acauã. Assim um uso correntio, apontar os dentes de diante, a
poder de gume de ferramenta, por amor de remedar o aguçoso
de dentes de peixe feroz do rio de São Francisco – piranha
redoleira, a cabeça-de-burro. Nem o senhor não pense que para
esse gasto tinham instrumentos próprios, alguma liminha, ou
ferro lixador. Não: aí era à faca. O Jesualdo mesmo se fazia,
fazia aquilo sentado num calcanhar. Aviava de encalcar o corte
da faca nas beiras do dente, rela releixo, e batia no cabo da faca,
com uma pedra, medidas pancadas. Sem espelho, sem ver; ao
tanto, que era uma faca de cabo de niquelado. Ah, no abre-boca,
comum que babando, às vezes sangue babava. Ao mais gemesse,
repuxando a cara, pelo que verdadeiro muito doía. Agüentava.
Assim esquentasse demais; para refrescar, então ele bochechava
a breve, com um caneco de água com pinga. Os outros dois,
também. O Araruta procedia sozinho, igual, batendo na faca
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 227 –
com a prancha de outra. O Nestor, não: para ele, o Simião, com
um martelinho para os golpes, era quem raspava; mas decerto o
Nestor ao outro para isso algum tanto pagasse. Abrenunciei. –
“Arrenego!” – eu disse. – “Deveras? Então, mano-velho, pois tu
não quer?” – o Simão, em gracejo, me perguntou. Me fez careta;
e – acredite o senhor: ele, que exercia lâmina nos do outro, ele
não possuía, próprio, dente mais nenhum nas gengivas –
conforme aquela vermelha boca banguela toda abriu e me
mostrou. Repontei: – “Eu acho que, para se ser valente, não
carece de figurativos...” O Acauã, que já era bom conhecido
meu, assim mesmo achou de se reagir: – “São gostos...” Mas,
um outro, que chegando veio, falou o mais seco: – “Tudo na
vida são gostos, companheiro. Mas não será o meu!” Olhei para
esse, que me deu o apoio. E era um Luís Pajeú – com a facapunhal
do mesmo nome, e ele sendo de sertão do mesmo nome,
das comarcas de Pernambuco. Sujeito despachado, moreno bem
queimado, mas de anelados cabelos, e com uma coragem
terrivelmente. Ah, mas o que faltava, lá nele, que ele mais não
tinha, era uma orelha, – que rente cortada fora, pelo sinal. Onde
era que o Luís Pajeú havia de ter deixado aquela orelha? – “Será
gosto meu não, de descasear dentaduras...” – conciso declarou,
falava meio cantado, mole, fino. Alto e forte, foi outro falar, de
outro, que no instante também ouvi: – “Uê, em minha terra, se
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afia guampa, é touro, ixi!” E esse um, trolado demais franco, e
desempenado cavaleiro, era o Fafafa. Fiz conhecença. Dele
tenho, para mais depois.
Ao que lá não faltava a farta comida, pelo que logo vi.
Gêneros e bebidas boas. De donde vinha tudo, em redondezas
tão pobrezinhas, a gente parando assim quase num deserto? E a
munição, tanta, que nem precisaram da que tínhamos trazido, e
que foi levada mais adiante, para os escondidos de Joca Ramiro,
perto do arraial do Bró? E a jorna, para satisfazer àquela
cabroeira vivente, que estavam ali em seu emprego de cargo? Ah,
tinham roubado, saqueado muito, grassavam. A sebaça era a
lavoura deles, falavam até em atacar grandes cidades. Foi ou não
foi?
Mas, mire e veja o senhor: nas eras de 96, quando os
serranos cismaram e avançaram, tomaram conta de São
Francisco, sem prazo nem pena. Mas, nestes derradeiros anos,
quando Andalécio e Antônio Dó forcejaram por entrar lá, quase
com homens mil e meio-mil, a cavalo, o povo de São Francisco
soube, se reuniram, e deram fogo de defesa: diz-que durou
combate por tempo de três horas, tinham armado tranquias, na
boca das ruas – com tapigos, montes de areia e pedra, e árvores
cortadas, de través – brigaram como boa população! Daí, aqueles
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 229 –
retornaram, arremeteram mesmo, senhores da cidade quase toda,
conforme guerrearam contra o Major Alcides Amaral e uns
soldados, cercados numas duas ou três casas e um quintal,
guerrearam noites e dias. A ver, por vingar, porque antes o Major
Amaral tinha prendido o Andalécio, cortado os bigodes dele.
Andalécio – o que, de nome real: Indalécio Gomes Pereirahomem
de grandes bigodes. Sei de quem ouviu, se recordava
sempre com tremores: de quando, no tiroteio de inteira noite,
Andalécio comandava e esbarrava, para gritar feroz: – “Sai pra
fora, cão! Vem ver! Bigode de homem não se corta!...” Tudo
gelava, de só se escutar. Aí, quem trouxe socorro, para salvar o
Major, foi o delegado Doutor Cantuária Guimarães, vindo às
pressas de Januária, com punhadão de outros jagunços, de
fazendeiros da política do Governo. Assim que salvaram,
mandaram desenterrar, para contar bem, mais de sessenta
mortos, uns quatorze juntos numa cova só! Essas coisas já não
aconteceram mais no meu tempo, pois por aí eu já estava retirado
para ser criador, e lavrador de algodão e cana. Mas o mais foi
ainda atual agora, recentemente, quase, isto é; foi logo de se
emendar depois do barulhão em Carinhanha – mortandades:
quando se espirrou sangue por toda banda, o senhor sabe:
“Carinhanha é bonitinha...” – uma verdade que barranqueiro
canta, remador. Carinhanha é que sempre foi de um homem de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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valor e poder: o coronel João Duque – o pai da coragem.
Antônio Dó eu conheci, certa vez, na Vargem Bonita, tinha uma
feirinha lá, ele se chegou, com uns seus cabras, formaram grupo
calados, arredados. Andalécio foi meu bom amigo. Ah, tempo de
jagunço tinha mesmo de acabar, cidade acaba com o sertão.
Acaba?
Atinei mal, no começo, com quem era que mandava em
nós todos. O Hermógenes. Mas, perto duns cinqüenta – nesse
meio o Acauã, Simão, Luís Pajeú, Jesualdo e o Fafafa –
obedeciam a João Goanhá, eram dele. E tinha um grupo de
brabos do Ricardão. Onde era que estava o Ricardão? Reunindo
mais braços-de-armas, beira da Bahia. Se esperava também a
vinda de Só Candelário, com os seus. Se esperava o chefe
grande, acima de todos – Joca Ramiro – falado aquela hora em
Palmas. Mas eu achava aquilo tudo dando confuso. Titão
Passos, cabo-de-turma com poucos homens à mão, era
nãostante muito respeitado. E o sistema diversiava demais do
regime com Zé Bebelo. Olhe: jagunço se rege por um modo
encoberto, muito custoso de eu poder explicar ao senhor. Assim
– sendo uma sabedoria sutil, mas mesmo sem juízo nenhum
falável; o quando no meio deles se trança um ajuste calado e
certo, com semelho, mal comparando, com o governo de bando
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de bichos – caititu, boi, boiada, exemplo. E, de coisas, faziam
todo segredo. Um dia, foi ordem: ajuntar todos os animais, de
sela e de carga, iam ser levados para amoitamento e pasto, entre
serras, no Ribeirão Poço Triste, num varjal. Para mim, até o
endereço que diziam, do lugar, devia de ser mentira. Mas tive de
entregar meu cavalo, completo no contragosto. Me senti, a pé,
como sem segurança nenhuma. E tem as pequenas coisas que
aperreiam: enquanto estava com meu animal, eu tinha a
capoteira, a bolsa da sela, os alforjes; podia guardar meus trecos.
De noite, dependurava a sela num galho de árvore, botava por
debaixo dela o dobro com as roupas, dormia ali perto, em paz.
Agora, eu ficava num descômodo. Carregar os trens não podia –
chegava o peso das armas, e das balas e cartuchame. Perguntei a
um, onde era que tudo se depositava. – “Eh, bereu... Bota em
algum lugar... Joga fora... Oxe, tu carrega ouro nesses dobros?...”
Quê que se importavam? Por tudo, eram fogueiras de se
cozinhar, fumaça de alecrim, panela em gancho de mariquita, e
cheiro bom de carne no espeto, torrada se assando, e batatas e
mandiocas, sempre quentes no soborralho. A farinha e
rapadura: quantidades. As mantas de carne-ceará. Ao tanto que a
carne-de-sol não faltasse, mesmo amiúde ainda saíam alguns e
retornavam tocando uma rês, que repartiam. Muitos misturavam
a jacuba pingando no coité um dedo de aguardente, eu nunca
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 232 –
tinha avistado ninguém provar jacuba assim feita. Os usares! A
ver, como o Fafafa abria uma cova quadrada no chão, ajuntava
ali brasas grandes, direto no brasal mal-assasse pedação de carne
escorrendo sangue, pouco e pouco revirava com a ponta do
facão, só pelo chiar. Disso, definitivo não gostei. A saudade
minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com
quiabo e abóbora-d’água e caldo, um refogado de caruru com
ofa de angu. Senti padecida falta do São Gregório – bem que a
minha vidinha lá era mestra. Diadorim notou meus males. Me
disse consolo: – “Riobaldo, tem tempos melhores. Por ora,
estamos acuados em buraco...” Assistir com Diadorim, e ouvir
uma palavrinha dele, me abastava aninhado.
Mas, mesmo, achei que ali convinhável não era se ficar
muito tempo juntos, apartados dos outros. Cismei que
maldavam, desconfiassem de ser feio pegadio. Aquele povo
estava sempre misturado, todo o mundo. Tudo era falado a
todos, do comum: às mostras, às vistas. Diferente melhor, foi
quando estivemos com Medeiro Vaz: o maior número lá era de
pessoal dos gerais – gente mais calada em si e sozinha, moradores
das grandes distâncias. Mas, por fim, um se acostuma; isto é, eu
me acostumei. Sem receio de ser tirado de meu dinheiro: que eu
empacotava ainda boa quantia, que Zé Bebelo sempre me pagou
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 233 –
no pontual, e gastar eu não tinha onde. Recontei. Aí, quis que
soubessem logo como era que eu atirava. Até gostavam de ver: –
“Tatarana, põe o dez no onze...” – me pediam, por festar. De
duzentas braças, bala no olho de um castiçal eu acertava. Num
aquele alvo só – as todas, todas! Assim então esbarrei aquilo com
que me aperreavam, os coscuvilhos. – “Se alguém falou mal de
mim, não me importo. Mas não quero que me venham me
contar! Quem vier contar, e der notícias, é esse mesmo que não
presta: e leva o puto nome-da-mãe, e de que é filho!...” – eu
informei. O senhor sabe: nome-da-mãe, e o depois, quer dizer –
meu pinguelo. Sobre o fato, para de mim não desaprenderem,
não se esquecerem, eu pegava o rifle – tive rifle de winchester,
até, de quatorze tiros – e dava gala de entremez. – “Corta aquele
risco Tatarana!” – me aprovavam. Se eu cortasse? Nunca errei.
Para rebater, reproduzia tudo a revólver. – “Vem um cismo de
fio de cabelo no ar, que eu acerto.” Sobrefiz. Social eu andava
com minhas cartucheiras triplas, só que atochadas sempre. Ao
que, me gabavam e louvavam, então eu esbarrava sossegado.
Surgidamente, aí, principiou um desejo que tive – que era o de
destruir alguém, a certa pessoa. O senhor pode rir: seu riso tem
siso. Eu sei. Eu quero é que o senhor repense as minhas tolas
palavras. E, olhe: tudo quanto há, é aviso. Matar a aranha em teia.
Se não, por que era que já me vinha a idéia desejável: que joliz
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– 234 –
havia de ser era se meter um balaço no baixo da testa do
Hermógenes?
A bronzes. O ódio pousa na gente, por umas criaturas. Já
vai que o Hermógenes era ruim, ruim. Eu não queria ter medo
dele. Digo ao senhor que aquele povo era jagunços; eu queria
bondade neles? Desminto. Eu não era criança, nunca bobo fui.
Entendi o estado de jagunço, mesmo assim sendo eu marinheiro
de primeira viagem. Um dia, agarraram um homem, que tinha
vindo à traição, espreitar a gente por conta dos bebelos.
Assassinaram. Me entristeceu, aquilo, até ao vago do ar. O
senhor vigie esses: comem o cru de cobras. Carecem. Só por
isso, para o pessoal não se abrandar nem esmorecer, até Só
Candelário, que se prezava de bondoso, mandava, mesmo em
tempo de paz, que seus homens saíssem fossem, para
estropelias, prática da vida. Ser ruim, sempre, às vezes é custoso,
carece de perversos exercícios de experiência. Mas, com o
tempo, todo o mundo envenenava do juízo. Eu tinha receio de
que me achassem de coração mole, soubessem que eu não era
feito para aquela influição, que tinha pena de toda cria de Jesus.
– “E Deus, Diadorim?” – uma hora eu perguntei. Ele me olhou,
com silenciozinho todo natural, daí disse, em resposta: – “Doca
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– 235 –
Ramiro deu cinco contos de réis para o padre vigário de
Espinosa...”
Mas o Hermógenes era fel dormido, flagelo com frieza.
Ele gostava de matar, por seu miúdo regozijo. Nem contava
valentias, vivia dizendo que não era mau. Mas, outra vez, quando
um inimigo foi pego, ele mandou: – “Guardem este.” Sei o que
foi. Levaram aquele homem, entre as árvores duma capoeirinha,
o pobre ficou lá, nhento, amarrado na estaca. O Hermógenes não
tinha pressa nenhuma, estava sentado, recostado. A gente podia
caçar a alegria pior nos olhos dele. Depois dum tempo, ia lá,
sozinho, calmoso? Consumia horas, afiando a faca. Eu ficava
vendo o Hermógenes, passado aquilo: ele estava contente de si,
com muita saúde. Dizia gracejos. Mas, mesmo para comer, ou
falar, ou rir, ele deixava a boca própria se abrir alta no meio,
como sem vontade, boca de dor. Eu não queria olhar para ele,
encarar aquele carangonço; me perturbava. Então, olhava o pé
dele – um pé enorme, descalço, cheio de coceiras, frieiras de
remeiro do rio, pé-pubo. Olhava as mãos. Eu acabava achando
que tanta ruindade só conseguia estar naquelas mãos, olhava para
elas, mais, com asco. Com aquela mão ele comia, aquela mão ele
dava à gente. Entremeando, eu comparava com Zé Bebelo aquele
homem. Nessa hora, eu gostava de Zé Bebelo, quase como um
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 236 –
filho deve de gostar do pai. As tantas coisas me tonteavam: eu
em claro. De repente, eu via que estava desejando que Zé Bebelo
vencesse, porque era ele quem estava com a razão. Zé Bebelo
devia de vir, forte viesse: liquidar mesmo, a rãs, com o inferno da
jagunçada! E eu estava ali, cumprindo meu ajuste, por fora, com
todo rigor; mas estava tudo traindo, traidor, no cabo do meu
coração. Alheio, ao que, encostei minhas costas numa árvore. Aí
eu não queria ficar doido, no nem mesmo. Puxei conversa com
Diadorim. Por que era que Joca Ramiro, sendo chefe tão subido,
de nobres costumes, consentia em ter como seu alferes um sujeito
feito esse Hermógenes, remarcado no mal? Diadorim me
escutou depressa, tal duvidou de meu juízo: – “Riobaldo, onde é
que você está vivendo com a cabeça? O Hermógenes é duro, mas
leal de toda confiança. Você acha que a gente corta carne é com
quicé, ou é com colher-de-pau? Você queria homens bemcomportados
bonzinhos, para com eles a gente dar combate a Zé
Bebelo e aos cachorros do Governo?!” A espichado, nesse dia
calei. Assim uma coisa eu estava escondendo, mesmo de
Diadorim: que eu já parava fundo no falso, dormia com a traição.
Um nublo. Tinha perdido meu bom conselho. E entrei em
máquinas de tristeza.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 237 –
Então, eu era diferente de todos ali? Era. Por meu bom.
Aquele povo da malfa, no dia e noite de relaxação, brigar, beber,
constante comer. – “Comeu, lobo?”E vozear tantas asneiras,
mesmo de Diadorim e de mim já pensavam. Um dia, um disse:
– “Eh, esse Reinaldo gosta de ser bom amigo... Ao quando o
Leopoldo morreu ele quase morreu também, dos demorados
pesares...” Desentendi, mediante meu querer. Mas não me
adiantou. Dai, persistentemente, essa história me remoía, esse
nome de um Leopoldo; Tomava por ofensa a mim, que
Diadorim tivesse tido, mesmo tão antes, um amigo
companheiro. Até que, vai, cresci naquela idéia: que o que estava
fazendo falta era uma mulher.
E eu era igual àqueles homens? Era. Com não terem
mulher nenhuma lá, eles sacolejavam bestidades. – “Saindo por
aí”, – dizia um – “qualquer uma que seja, não me escapole!” Ao
que contavam casos de mocinhas ensinadas por eles,
aproveitavelmente, de seguida, em horas safadas. – “Mulher é
gente tão infeliz...” – me disse Diadorim, uma vez, depois que
tinha ouvido as estórias. Aqueles homens, quando estavam
precisando, eles tinham aca, almiscravam. Achavam,
manejavam. Deus me livrou de endurecer nesses costumes
perpétuos. A primeira, que foi, bonita moça, eu estava com ela
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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somente. Tanto gritava, que xingava, tanto me mordia, e as
unhas tinha. Ao cabo, que pude, a moça – fechados os olhos –
não bulia; não fosse o coração dela rebater no meu peito, eu
entrevia medo. Mas eu não podia esbarrar. Assim tanto, de
repente vindo, ela estremeceuzinha. Daí, abriu os olhos, aceitou
minha ação, arfou seus prazeres, constituído milagre. Para mim,
era como eu tivesse os mais amores! Pudesse, levava essa moça
comigo, fiel. Mas, depois, num sítio perto da Serra Nova, foi
uma outra, a moreninha miúda, e essa se sujeitou fria estendida,
para mim ficou de pedras e terra. Ah, era que nem eu nos
medonhos fosse – e, o senhor crê? – a mocinha me agüentava
era num rezar, tempos além. Às almas fugi de lá, larguei com ela
o dinheiro meu, eu mesmo roguei pragas. Contanto que nunca
mais abusei de mulher. Pelas ocasiões que tive, e de lado deixei,
ofereço que Deus me dê alguma minha recompensa. O que eu
queria era ver a satisfação – para aquelas, pelo meu ser. Feito
com a Rosa ‘uarda, sempre formosa, a filha de Assis Wababa,
sonhos meus, turcamente; e que a qual, não lhe disse: o pai dela,
que era forte negociante, em todo tempo nanja que não
desconfiou. Feito com aquela moça Nhorinhá, filha de Ana
Duzuza. Digo ao senhor. Mas o senhor releve eu estar glosando
assim a seco essas coisas de se calar no preceito devido. Agora:
o tudo que eu conto, é porque acho que é sério preciso.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Permeio com quantos, removido no estatuto deles, com
uns poucos me acompanheirei, daqueles jagunços, conforme
que os anjos-da-guarda. Só quase a boa gente. Sendo que são,
por todos, estes: Capixum – caboclo sereno, viajado, filho dos
gerais de São Felipe; Fonfredo – que cantava todas as rezas de
padre, e comia carne de qualidade nenhuma, e que nunca dizia
de onde era e viera; o que rimava verso com ele: Sesfredo, desse
já lhe contei; o Testa-em-Pé, baiano ladino, chupava muito; o
Paspe, vaqueiro jaibano, o homem mais habilidoso e serviçal que
já topei nesta minha vida; Dadá Santa-Cruz, dito “o Caridoso”,
queria sempre que se desse resto de comida à gente pobre com
vergonha de vir pedir; o Carro-de-Boi, gago, gago. O Catocho,
mulato claro – era curado de bala. Lindorífico, chapadeiro minasnovense,
com mania de aforrar dinheiro. O Diolo, preto de
beiço maior. Juvenato, Adalgizo, o Sangue-de-Outro. Ei, tantos;
para que que eu fui querer começar a descrever? Dagobé, o
Eleutério, Pescoço-Preto, José Amigo...
Amigo? Homem desses, alguém dizendo a um que ele é
demônio de ruim, ele ria de não querer ser, capaz até de nessa
raiva matar o outro. Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais
difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso,
mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 240 –
no rabo da palavra. Ezirino matou um companheiro, que Batatinha
se chamava, o pobre dum cafuz magrelo, só que tinha o
danado defeito de contrariar qualquer coisa que a gente falava.
Ezirino caiu no mundo. Daí, começou voz que ele tinha fugido
para se bandear com os zé-bebelos, pago por sua traição, e que
Batatinha somente morreu porque disso sabia. Todo o mundo
andava encrespo, forjicavam muita cilada e enredos de
desconfianças. Mudamos para outros lugares, mais a coberto,
em distância: obra de sete léguas, para a parte do poente. Muito
vi que não estávamos fazendo isso por escapulir; mas que o
Hermógenes, Titão Passos e João Goanhá, antes acharam de
combinar aquilo, em suas conversas – era o arrumo para
melhores combates com Zé Bebelo. Ah, e, aí, lá chegaram, com
satisfação de todos, dez homens, a Só Candelário pertencidos.
Traziam cargueiros com mais sal, bom café e uma barrica de
bacalhau. Delfim era um daqueles, tocava. E o Luzié, alagoano
de Alagoas. Nesse dia, eu saí, com esquadra, fomos rondar os
caminhos de porventura dos bebelos, andamos mais de três
léguas e tanto, no meio da noite retornamos.
De manhã cedo, eu soube: tinham até dançado, aquela
véspera. – “Diadorim, você dança?” – logo, perguntei. –
“Dança? Aquilo é pé de salão...” – quem respondeu foi o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 241 –
Garanço, o de olhos de porco. Ouvindo o que, me sobrou um
enjôo. O Garanço, era um mocorongo mermado, com estúrdias
feições, e pessoa muito agradável de seu natural. Ele tinha idéias,
às vezes parecia criança pequena. Punha nome em suas armas: o
facão era torturum, o revólver rouxinol, a clavina era berra-bode.
Com ele, a gente ria, sempremente. Mais o Garanço dava de
procurar a companhia nossa, minha e de Diadorim; aquele
tempo ele vinha costumeiro para perto. Às vezes, como naquilo,
ele me produzia jeriza, verdadeira. Diadorim não dizia nada,
estava deitado de costas, num pelego, com a cabeça num feixe
de capim cortado. Ali naquele lugar ele contumaz dormia – Diadorim
menos gostava de rede. O Garanço era sanfranciscano,
dum lugar chamado Morpará. Hás-de, queria que a gente
escutasse ele recontar compridas passagens de sua vida. Aquilo
aborrecia. Eu queria estar-estâncias: dos violeiros, que tocavam
sentimento geral. Depois, Diadorim se levantou, ia em alguma
parte. Guardei os olhos, meio momento, na beleza dele, guapo
tão aposto – surgido sempre com o jaleco, que ele tirava nunca, e
com as calças de vaqueiro, em couro de veado macho, curtido
com aroeira-brava e campestre. De repente, uma coisa eu
necessitei de fazer. Fiz: fui e me deitei no mesmo dito pelego, na
cama que ele Diadorim marcava no capim, minha cara posta no
próprio lugar. Nem me fiz caso do Garanço, só com o violeiro
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 242 –
somei. A zangarra daquela viola. Por não querer meu
pensamento somente em Diadorim, forcejei. Eu já não
presenciava nada, nem escutava possuído – fiquei sonhejando: o
ir do ar, meus confins. Aí pensei no São Gregório? A bem, no
São Gregório, não; mas peguei saudade dos passarinhos de lá, do
poço no córrego, do batido do monjolo dia e noite, da cozinha
grande com fornalha acesa, dos cômodos sombrios da casa, dos
currais adiante, da varanda de ver nuvens. O senhor sabe?: não
acerto no contar, porque estou remexendo o vivido longe alto,
com pouco caroço, querendo esquentar, demear, de feito, meu
coração, naquelas lembranças. Ou quero enfiar a idéia, achar o
rumozinho forte das coisas, caminho do que houve e do que não
houve. As vezes não é fácil. Fé que não é.
Mire veja: naqueles dias, na ocasião, devem de ter
acontecido coisas meio importantes, que eu não notava, não
surpreendi em mim. Mesmo hoje não atino com o que foram.
Mas, no justo momento, me lembrei em madrugada daquele
nome: de Siruiz. Refiro que perguntei ao Garanço, por aquele
rapaz Siruiz, que cantava cousas que a sombra delas em meu
coração decerto já estava. O que eu queria saber não era próprio
do Siruiz, mas da moça virgem, moça branca, perguntada, e dos
pés-de-verso como eu nunca tive poder de formar um igual. Mas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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o Garanço já tinha respondido. – “Eh, eh, ô... O Siruiz já morreu.
Morreu morto no tiroteio, entre o Morcego e o Suaçuapara,
passado para cá o Pacuí...” Do choque com que ouvi essa
confirmação de notícia, fui arriando para um desânimo. Como se
assim ele tivesse falado: “Siruiz? Mas não foram vocês mesmos
que mataram?...” Eu, não. Nessa vez, eu tinha restado longe por
fora, na PedraBranca, não vi combate. Como era que eu podia?
O Garanço tomava rapé. Era um sujeito de intenções muito
parvas. Perguntou se o Siruiz não seria meu amigo, meu parente.
– “Quem sabe se era...” – eu respondi, de toleima. O Garanço, vi
que não gostou. Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na
face dos olhos. Nem eu quis indagar o mais, certo estava de que
ele Garanço não sabia nada do que tivesse valor. Mas eu
guardava triste de cor a canção recantada. E Siruiz tinha morrido.
Então me instruíram na outra, que era cantiga de se viajar e
cantar, guerrear e cantar, nosso bando, toda a vida:
“Olererêêê, baiana... Eu ia e
não vou mais: Eu faço
que vou lá dentro, oh baiana, e volto
do meio p’ra trás...”
O senhor aprende? Eu entôo mal. Não por boca de
ruindade, lá como quem diz. Sou ruim não, sou homem de gostar
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 244 –
dos outros, quando não me aperreiam; sou de tolerar. Não tenho
a caixeta da raiva aberta. Rixava com nenhum, ali, aceitava o
regime, na miudez das normas. Vai, daí, comigo erraram. Um,
errou. Um pai-jagunço chamado Antenor, acho que era coração
– de-jesusense, começou a temperar conversa, sagaz de fiúza,
notei. Ele era homem chegado ao Hermógenes – se sabia dessa
parte. De diz em diz, rodeava a questão. Queria saber que apreço
eu tinha por loca Ramiro, por Titão Passos, os outros todos. Se
eu conhecia Só Candelário, que estava por chegar? O giro dos
assuntos – ele me tenteava a fala. Notei. E, devagar, vinha
querendo deixar em mim uma má vazante: me largar em dúvida.
Não era? Aquilo eu inteligenciava. Esse Antenor, sempre
louvando e vivando Joca Ramiro, acabou por me dar a entender,
curtamente, o em conseguinte: que Joca Ramiro talvez fazia mal
em estar tanto tempo por longe, alguns de bofe ruim já
calculavam que ele estivesse abandonando seu pessoal, em horas
de tanta guerra; que Joca Ramiro era rico, dono de muitas posses
em terras, e se arranchava passando bem em casas de grandes
fazendeiros e políticos, deles recebia dinheiro de munição e paga:
seô Sul de Oliveira, coronel Caetano Cordeiro, doutor Mirabô de
Melo. Que era que eu achava?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Eu escutei. Respondi? Ah, ah. Sou lá para achar nenhuma
coisa. Não tinha nascido no ontem, cedo tomei experiência de
homens por homens. Disse só que decerto Joca Ramiro estava
formando gente e meios para vir em ajuda de nós, jagunços em
lei, e nesse meio-tempo punha toda confiança no Hermógenes,
em Titão Passos, João Goanhá – fortes no fato valor e na
lealdade. Gabei o Hermógenes, principal; bispei. Com isso,
aquele Antenor concordou. A bem dizer, aprovou o quanto eu
disse. Mas realçou mais altamente a fama do Hermógenes, e do
Ricardão, também – esses dois seriam os chefes de encher a
mão, em paz regalada mas por igual nos combates. Esse sujeito
Antenor sabia coçar queixo de cobra e semear sal em roças
verdes. Vulto perigoso, nas ações – o Garanço me preveniu,
com a boa noção vinda de sua redondice de atinar. Ações? O
que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma
palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai
rompendo rumo. Aquele Antenor já tinha depositado em mim o
anúvio de uma má idéia: disidéia, a que por minhas costas logo
escorreu, traiçoeirinha como um rabo de gota de orvalho. Que
explicação dou ao senhor? Acreditar, no que ele tinha suso dito,
não acreditei. Mas, em mim, para mim, aquilo tudo era – era
assim como um lugar com mau-cheiro, no campo, uma árvore:
lugar fedido, onde é que alguma jaratataca acuou, por se defender
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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do latido dos cachorros. E grande aviso, naquele dia, eu tinha
recebido; mas menos do que ouvi, real, do que do que eu tinha
de certo modo adivinhado. De que valeu? Aviso. Eu acho que,
quase toda a vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas
só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio.
Aviso? Rompe, ferro!
Cacei Diadorim. Mas eu estreava umas ânsias. Como fosse,
falei, do novo e do velho; mal foi que falei: em zanga –
desrazoadamente – e de primeira entrada. Acho que, por via
disso, Diadorim não deu a devida estimação às minhas palavras.
Alheio, eh. Só ojerizado em estilos ele esteve, um raio de
momento, foi de ouvir que alguém pudesse duvidar do proceder
de loca Ramiro: loca Ramiro era um imperador em três alturas!
loca Ramiro sabia o se ser, governava; nem o nome dele não
podia à toa se babujar. E aqueles outros: o Hermógenes,
Ricardão? Sem Joca Ramiro, eles num átimo se desaprumavam,
deste mundo desapareciam – valiam o que pulga pula. O
Hermógenes? Certo, um bom jagunço, cabo-de-turma; mas
desmerecido de situação política, sem tino nem prosápia. E o
Ricardão, rico, dono de fazendas, somente vivia pensando em
lucros, querendo dinheiro e ajuntando. Diadorim, do Ricardão
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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era que ele gostava menos: – “Ele é bruto comercial...” – disse, e
fechou a boca forte, feito fosse cuspir.
Eu então disse, pelo conseguinte: – “A bom e bem,
Diadorim. Mas, se é ou se não é, por que é que não vamos levar
informação sutil a loca Ramiro, para o enfim?” Aí, refalei muito,
ao tanto que escondi minha raiva. Quem sabe Joca Ramiro, na lei
da caminhação, não estava esquecido de conhecer os homens,
deixando de farear o mudar do tempo? Viesse, Joca Ramiro
podia detalhar o podre do são, recontar seus brabos entre as
mãos e os dedos. Podia, devia de mandar embora aquele monstro
do Hermógenes. Se sendo etcétera, se carecesse – eh, uai: se
matava!... Diadorim pôs muito os olhos em mim, vi que com um
espanto reprovador, não me achasse capaz de estipular tanta
maldade sem escrúpulo. Mau não sou. Cobra? – ele disse? Nem
cobra serepente malina não é. Nasci devagar. Sou é muito
cauteloso.
Mais em paz, comigo mais, Diadorim foi me desinfluindo.
Ao que eu ainda não tinha prazo para entender o uso, que eu
desconfiava de minha boca e da água e do copo, e que não sei
em que mundo-de-lua eu entrava minhas idéias. O Hermógenes
tinha seus defeitos, mas puxava por Joca Ramiro, fiel – punia e
terçava. Que, eu mais uns dias esperasse, e ia ver o ganho do sol
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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nascer. Que eu não entendia de amizades, no sistema de jagunços.
Amigo era o braço, e o aço!
Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para
mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e
receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que
sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só
isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o
igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só
isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente
seja, mas sem precisar de saber o por que é que é. Amigo meu era
Diadorim; era o Fafafa, o Alaripe, Sesfredo. Ele não quis me
escutar. Voltei da raiva.
Digo ao senhor: nem em Diadorim mesmo eu não firmava
o pensar. Naqueles dias, então, eu não gostava dele? Em pardo.
Gostava e não gostava. Sei, sei que, no meu, eu gostava,
permanecente. Mas a natureza da gente é muito segundas-e –
sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor.
Antes o que me atazanava, a mor – disso crio razoável
lembrança – era o significado que eu não achava lá, no meio
onde eu estava obrigado, naquele grau de gente. Mesmo
repensando as palavras de Diadorim, eu apurava só este resto:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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que tudo era falso viver, deslealdades. Traição? Traição minha,
fosse no que fosse. Quase tudo o que a gente faz ou deixa de
fazer, não é, no fim, traição? Há-de-o, a alguém, a alguma coisa.
E eu não tardei no meu querer: lá eu não podia mais ficar. Donde
eu tinha vindo para ali, e por que causa, e, sem paga de preço, me
sujeitava àquilo? Eu iame embora. Tinha de ir embora. Estava
arriscando minha vida, estragando minha mocidade. Sem rumo.
Só Diadorim. Quem era assim para mim Diadorim? Não era,
aquela ocasião, pelo próprio dito de estar perto dele, de conversar
e mais ver. Mas era por não agüentar o ser: se de repente tivesse
de ficar separado dele, pelo nunca mais. E mesmo forte era a
minha gastura, por via do Hermógenes. Malagourado de ódio:
que sempre surge mais cedo e às vezes dá certo, igual palpite de
amor. Esse Hermógenes – belzebu. Ele estava caranguejando lá.
Nos soturnos. Eu sabia. Nunca, mesmo depois, eu nunca soube
tanto disso, como naquele tempo. O Hermógenes, homem que
tirava seu prazer do medo dos outros, do sofrimento dos outros.
Aí, arre, foi que de verdade eu acreditei que o inferno é mesmo
possível. Só é possível o que em homem se vê, o que por homem
passa. Longe é, o Sem-olho. E aquele inferno estava próximo de
mim, vinha por sobre mim. Em escuro, vi, sonhei coisas muito
duras. Nas larguezas do sono da gente.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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A já, que ia m’embora, fugia. Onde é que estava Diadorim?
Nem eu não imaginava que pudesse largar Diadorim ali. Ele era
meu companheiro, comigo tinha de ir. Ah, naquela hora eu
gostava dele na alma dos olhos, gostava da banda de fora de
mim. Diadorim não me entendeu. Se engrotou. Assaz, também,
acho que me acuso: que não tive um ânimo de franco falar. Se
fosse eu falasse total, Diadorim me esbarrava, no tolher, não me
entendia. A vivo, o arisco do ar: o pássaro – aquele poder dele.
Decerto vinha com o nome de Joca Ramiro! Joca Ramiro... Esse
nem a gente conseguia exato real, era um nome só, aquela graça,
sem autoridade nenhuma avistável, andava por longe, se era que
andava. Teve um instante, bambeei bem. Foi mesmo aquela vez?
Foi outra? Alguma, foi; me alembro. Meu corpo gostava de
Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia,
bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram.
Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi
– ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha
percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo
dele, na sala do teatro. Maiormente. As tristezas ao redor de nós,
como quando carrega para toda chuva. Eu podia pôr os braços
na testa, ficar assim, lorpa, sem encaminhamento nenhum. Que é
que queria? Não quis o que estava no ar; para isso, mandei vir
uma idéia de mais longe. Falei sonhando: – “Diadorim, você não
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tem, não terá alguma irmã, Diadorim?” – voz minha; eu
perguntei.
Sei lá se ele riu? O que disse, que resposta? Sei quando a
amargura finca, o que é o cão e a criatura. De tristeza, tristes
águas, coração posto na beira. Irmã nem irmão, ele não tinha: –
“Só tenho Deus, Joca Ramiro... e você, Riobaldo...” – ele
declarou. Hê, de medo, coração bate solto no peito; mas de
alegria ele bate inteiro e duro, que até dói, rompe para diante na
parede. – “Diadorim, então quem foi esse moço Leopoldo, que
morreu seu amigo?” – eu indaguei, de sem-tempo, nem sei
porquê; eu não estava pensando naquilo. Antes já eu estava para
trás de ter perguntado, palavras fora da boca. – “Leopoldo? Um
amigo meu, Riobaldo, de correta amizade...” – e Diadorim desfez
assoprado um suspiro, o que muda melhor. – “Até te falaram
nele, Riobaldo? Leopoldo era o irmão mais novo de loca Ramiro...”
Aquilo, eu já soubesse demais – que Joca Ramiro se
realçasse por riba de tudo, reinante. Mas pude ter a língua
sofreada. – “Vamos embora daqui, juntos, Diadorim? Vamos
para longe, para o porto do de-Janeiro, para o sertão do baixio,
para o Curralim, São-Gregório, ou para aquele lugar nos gerais,
chamado Os-Porcos, onde seu tio morava...” De arrancar, de
meu falar, de uma sede. Aos tantos, fui abaixando os olhos –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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constando que Diadorim me agarrava com o olhar, corre que um
silêncio de ferro. Assombrei de mim, de desprezo, desdenhado,
de duvidar da minha razão. O que eu tinha falado era umas
doideiras. Diadorim esperou. Ele era irrevogável. Então, eu saí
dali, querendo esquecer ligeiro o atual. Minha cara estava
pegando fogo.
Andei, em dei, até que lembrei: o Garanço. Bom, o
Garanço, esse ia comigo, me seguia em tudo, era pobre homem
à espera de qualquer ordem cordial. Isto ele mesmo nem sabia,
mas era: que carecia era de alguma amizade. Estava lá, curvado,
cabeçudo como uma cigarra. Estava cozinhando pequis, numa
lata. – “Eh, eh, nós!...” – ele assim dizia. Ladeei conversa. Ele
me ouvia, com anuídos, e fazendo uma cara de entender. Não
conseguia. Só conseguia demonstrar os tamanhos de sua cabeça.
Ao que bastava um meu maior cochicho, e o Garanço vinha,
servia de companheiro para fugirmos. O mais que pudesse
haver, era ele primeiro perguntar: – “E o Reinaldo?” ; porque já
estava acostumado com eu e Diadorim sermos dois, e ele querer
ser o três. Então, eu respondi: – “Segredo, eh, Garanço.
Segredo, eh, e vamos!” – e que Diadorim era para vir depois. O
Garanço tinha alguma diferença, por alguma banda de sua
natureza ele se desapartava da jagunçagem.
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– 253 –
Mas eu não cheguei a falar, não quis, não expliquei nada.
Que era que eu ia fazer, às fugas com aquele prascóvio, pelo sul e
pelo norte, nos sertões da Jaíba? Ele só sabia cumprir obediência,
no que eu riscasse, governado por meu querer e por minha idéia;
um companheiro assim não aumentava segurança minha
nenhuma. Quero sombra? Quero eco? Quero cão? Não, com ele
eu não me fazia, melhor esperar; eu ia ficando. Desse no que
desse; mais um tempo. Algum dia, podia Diadorim mudar de
tenção. Em Diadorim era que eu pensava, de fugir junto com ele
era que eu carecia; como o rio redobra. O Garanço se regalava
com os pequis, relando devagar nos dentes aquela polpa amarela
enjoada. Aceitei não, daquilo não provo: por demais distraído
que sou, sempre receei dar nos espinhos, craváveis em língua. –
“Eh, eh, nós...” – o Garanço reproduzia, tão satisfeito. Minha
amizade sobrou um pouco para ele, que era criatura de simples
coração. Digo ao senhor: naquele dia eu tardava, no meio de
sozinha travessia.
Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu
desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que
se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas –
de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi
exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 254 –
horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo
recruzado. Se eu fosse filho de mais ação, e menos idéia, isso sim,
tinha escapulido, calado, no estar da noite, varava dez léguas,
madrugada, me escondia do largo do sol, varava mais dez,
passava o São Felipe, as serras, as Vinte-e-Uma-Lagoas,
encostava no São Francisco bem de frente da Januária, passava,
chegava em terra cidadã, estava no pique. Ou me pegassem no
caminho, bebelos ou Hermógenes, me matassem? Morria com
um bé de carneiro ou um au de cão; mas tinha sido um mais
destino e uma mor coragem. Não valia? Não fiz. Quem sabe nem
pensei sério em Dia~ dorim, ou, pensei algum, foi em vezo de
desculpa. Desculpa para meu preceito, mesmo. Quanto pior mais
baixo se caiu, maismente um carece próprio de se respeitar. De
mim, toda mentira aceito. O senhor não é igual? Nós todos. Mas
eu fui sempre um fugidor. Ao que fugi até da precisão de fuga.
As razões de não ser. O que foi que eu pensei? Nas
terríveis dificuldades; certamente, meiamente. Como ia poder
me distanciar dali, daquele ermo jaibão, em enormes voltas e
caminhadas, aventurando, aventurando? Acho que eu não tinha
conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de
errar – de ir cair na boca dos perigos por minha culpa. Hoje, sei:
medo meditado – foi isto. Medo de errar. Sempre tive. Medo de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 255 –
errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar
de si esse medode-errar, a gente estava salva. O senhor tece?
Entenda meu figurado. Conforme lhe conto: será que eu mesmo
já estava pegado do costume conjunto de ajagunçado? Será, sei.
Gostar ou não gostar, isso é coisa diferente. O sinal é outro. Um
ainda não é um: quando ainda faz parte com todos. Eu nem
sabia. Assim que o Paspe tinha agulhas grandes, fio e sovela:
consertou minhas alpercatas. Lindorífico me cedeu, por troco de
espórtula, um bentinho com virtudes fortes, dito de sãossalavá e
cruz-com-sangue. E o Elisiano caprichava de cortar e descascar
um ramo reto de goiabeira, ele que assava a carne mais gostosa,
as beiras tostadas, a gordura chiando cheio. E o Fonfredo
cantava loas de não se entender, o Duvino de tudo armava
risada e graça, o Delfim tocando a viola, Leocádio dançava um
valsar, com o Diodolfo; e Geraldo Pedro e o Ventarol que
queriam ficar espichados, dormindo o tempo todo, o Ventarol
roncasse – ele possuía uma rede de casamento, de bom algodão,
com chuva de rendas rendadas... Aí e o Jenolim e o Acrísio, e
João Vaqueiro, que depunham por mim com uma estima
diferente, só porque se tinha viajado juntos, vindo do das-
Velhas: – “Viva, companheiro tropeiro...” – saudavam. Ao que
se jogava truque, e douradinha e douradão, por cima de couros
de rês. Aí a troça em beirada de fogueiras, o vuvo de falinhas e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 256 –
falas, no encorpar da noite. Artes que havia uma alegria. Alegria,
é o justo. Com os casos, que todos iam contando, de combates e
tiroteios, perigos tantos vencidos, escapulas milagrosas, altas
coragens... Aquilo, era uma gente. Ali eu estava no entremeio
deles, esse negócio. Não carecia de calcular o avante de minha
vida, a qual era aquela. Saísse dali, tudo virava obrigação minha
trançada estreita, de cor para a morte. Homem foi feito para o
sozinho? Foi. Mas eu não sabia. Saísse de lá, eu não tinha
contrafim. Com tantos, com eles, gente vivendo sorte, se
cumpria o grosso de uma regra, por termo havia de vir um
ganho; como não havia de ter desfecho geral? Por que era que
todos ficavam ali, por paz e por guerra, e não se desmanchava o
bando, não queriam ir embora? Reflita o senhor nisso, que foi o
que depois entendi vasto.
Desistir de Diadorim, foi o que eu falei? Digo, desdigo.
Pode até ser, por meu desmazelo de contar, o senhor esteja
crendo que, no arrancho do acampo, eu pouco visse Diadorim,
amizade nossa padecesse de descuido ou míngua. O engano.
Tudo em contra. Diadorim e eu, a gente parava em som de voz e
alcance dos olhos, constante um não muito longe do outro. De
manhã à noite, a afeição nossa era duma cor e duma peça.
Diadorim, sempre atencioso, esmarte, correto em seu bom
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 257 –
proceder. Tão certo de si, ele repousava qualquer mau ânimo.
Por que é, então, que eu salto isso, em resumo, como não devia
de, nesta conversa minha abreviã? Veja o senhor, o que é muito e
mil: estou errando. Estivesse contando ao senhor, por tudo,
somente o que Diadorim viveu presente mim, o tempo – em
repetido igual, trivial – assim era que eu explicava ao senhor
aquela verdadeira situação de minha vida. Por que é, então, que
deixo de lado? Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe
estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que
é bonito e bom. Seja? E, aquele Garanço, olhe: o que eu dele
disse, de bondade e amizade, não foi estrito. Sei que, naquela vez,
não senti. Só senti e achei foi em recordação, que descobri,
depois, muitos anos. Coitado do Garanço, ele queria relatar, me
falava: – “Fui almocreve, no Serem. Tive três filhos...” Mas, que
sorte de jagunço recluta era ele – assim meninoso, jalofo e bom.
– “Eta, e você já matou seus muitos homens, Garanço?” – pois
perguntei. O riso dele ficava querendo ser mais grosso: – “Eh,
eh, nós... Sou algum medroso? E mecê encomenda o que, no rifle
que está em minha mão, mano velho! Eh, não desprevino, não
lhe envergonho o desse...” O Garanço, mesmo afirmo, acho que
nunca duvidou de coisa nenhuma. Toda tardeza dele não deixava.
E só. Comum de benquistar e malquistar.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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O senhor entenderá? Eu não entendo. Aquele
Hermógenes me fazia agradados, demo que ele gostava de mim.
Sempre me saudando com estimação, condizia um gracejo
amistoso ou umas boas palavras, nem parecia ser o bedegueba.
Por cortesia e por estatuto, eu tinha de responder. Mas, em mal.
Me irava. Eu criava nojo dele, já disse ao senhor. Aversão que
revém de locas profundas. Nem olhei nunca nos olhos dele.
Nojo, pelos eternos – razão de mais distâncias. Aquele homem,
para mim, não estava definitivo. E arre que ele não desconfiava,
não percebia! Queria conversa, me chamava; eu tinha de ir – ele
era o chefe. Fiquei de ensombro. Diadorim notou; me deu
conselho: – “Modera esse gênio que você tem, Riobaldo. As
pessoas não são tão ruins agrestes.” – “Dele não me temo!” – eu
respondi. Eu podia xingar com os olhos. Aí, o Hermógenes me
presenteou com um nagã, e caixas de balas. Estive para nem
aceitar. Eu já possuía revólver meu, carecia algum daquele, de
tanto só cano, tão enorme? Por insistências dele, mesmo, com
aquilo fiquei. Cuspi, depois. Dado que eu nunca ia retribuir!
Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das
pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe
de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando
desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me
transforma. Aquele Hermógenes era matador – o de judiar de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 259 –
criaturas filhos-de-deus – felão de mau. Meus ouvidos
expulsavam para fora a fala dele. Minha mão não tinha sido feita
para encostar na dele. Ah, esse Hermógenes – eu padecia que
ele assistisse neste mundo... Quando ele vinha conversar
comigo, no silêncio da minha raiva eu pedia até ao demônio
para vir ficar de permeio entre nós dois, para dele me apartar. Eu
podia rechear de balas aquele nagã próprio, e descarregar nele
tiros, entre os todos olhos. O senhor tolere e releve estas palavras
minhas de fúria; mas, disto, sei, era assim que eu sentia, sofria. Eu
era assim. Hoje em dia, nem sei se sou assim mais.
Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do
ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta
mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito
riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas.
Coração mistura amores. Tudo cabe. Conforme contei ao
senhor, quando Otacília comecei a conhecer, nas serras dos gerais,
Buritis Altos, nascente de vereda, Fazenda Santa Catarina.
Que quando só vislumbrei graça de carinha de riso e boca, e os
compridos cabelos, num enquadro de janela, por o mal aceso de
uma lamparina. Mas logo fomos para acomodar, numa rebaixa de
engenho-de-pilões, lá pernoitamos. Eu, com Diadorim, Alaripe,
João Vaqueiro e Jesualdo, e o Fafafa. No que repontávamos de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 260 –
dura viagem: tudo o que era corpo era bom cansaço. Mas eu
dormi com dois anjos-da-guarda.
O que lembro, tenho. Venho vindo, de velhas alegrias. A
Fazenda Santa Catarina era perto do céu – um céu azul no
repintado, com as nuvens que não se removem. A gente estava
em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde,
as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. A frente da
fazenda, num tombado, respeitava para o espigão, para o céu.
Entre os currais e o céu, tinha só um gramado limpo e uma
restinga de cerrado, de donde descem borboletas brancas, que
passam entre as réguas da cerca. Ali, a gente não vê o virar das
horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre. Para mim, até
hoje, o canto da fogo-apagou tem um cheiro de folhas de assapeixe.
Depois de tantas guerras, eu achava um valor viável em
tudo que era cordato e correntio, na tiração de leite, num papudo
que ia carregando lata de lavagem para o chiqueiro, nas galinhasd’angola
ciscando às carreiras no fedegoso-bravo, com
florezinhas amarelas, e no vassoural comido baixo, pelo gado e
pelos porcos. Figuro que naquela ocasião tive curta saudade do
São Gregório, com uma vontade vã de ser dono de meu chão,
meu por posse e continuados trabalhos, trabalho de segurar a
alma e endurecer as mãos. Estas coisas eu pensava repassadas. E
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 261 –
estava lá, outra vez, nos gerais. O ar dos gerais, o senhor sabe.
Tomamos farto leite. Trouxeram café para nós, em xicrinhas. Ao
que ficamos por ali, à-toa, depois de uma conversa com o
velhozinho, avô. Otacília eu revi já foi na sobremanhã. Ela
apareceu.
Ela era risonha e descritiva de bonita; mas, hoje-em-dia, o
senhor bem entenderá, nem ficava bem conveniente, me dava
pejo de muito dizer. Minha Otacília, fina de recanto, em seu
realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença. Fui eu
que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel,
regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu
voar antes do mormaço. Aquela visão dos pássaros, aquele
assunto de Deus, Dioadorim era quem tinha me ensinado. Mas
Diadorim agora estava afastado, amuado, longe num emperreio.
Principal que eu via eram as pombas. No bebedouro, pombas
bando. E as verdadeiras, altas, cruzando do mato. – “Ah, já
passaram mais de vinte verdadeiras...” – palavras de Otacília,
que contava. Essa principiou a nossa conversa. Salvo uns risos e
silêncios, a tão. Toda moça é mansa, é branca e delicada.
Otacília era a mais.
Mas, na beira da alpendrada, tinha um canteirozinho de
jardim, com escolha de poucas flores. Das que sobressaíam, era
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 262 –
uma flor branca – que fosse caeté, pensei, e parecia um lírio –
alteada e muito perfumosa. E essa flor é figurada, o senhor sabe?
Morada em que tem moças, plantam dela em porta da casa-defazenda.
De propósito plantam, para resposta e pergunta. Eu
nem sabia. Indaguei o nome da flor.
– “Casa-comigo...” – Otacília baixinho me atendeu. E, no
dizer, tirou de mim os olhos; mas o tiritozinho de sua voz eu
guardei e recebi, porque era de sentimento. Ou não era? Daquele
curto lisim de dúvidas foi que minou meu maisquerer. E o nome
da flor era o dito, tal, se chamava – mas para os namorados
respondido somente. Consoante, outras, as mulheres livres,
dadas, respondem: – “Dorme-comigo... “Assim era que devia de
haver de ter de me dizer aquela linda moça Nhorinhá, filha de
Ana Duzuza, nos Gerais confins; e que também gostou de mim e
eu dela gostei. Ah, a flor do amor tem muitos nomes. Nhorinhá
prostituta, pimenta-branca, boca cheirosa, o bafo de meninopequeno.
Confusa é a vida da gente; como esse rio meu Urucuia
vai se levar no mar.
Porque, no meio do momento, me virei para onde lá estava
Diadorim, e eu urgido quase aflito. Chamei Diadorim – e era um
chamado com remorso – e ele veio, se chegou. Aí, por alguma
coisa dizer, eu disse: que estávamos falando daquela flor. Não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 263 –
estávamos? E Diadorim reparou e perguntou também que flor
era essa, qual sendo? – perguntou inocente. – “Ela se chama é
liroliro...” – Otacília respondeu. O que informou, altaneira disse,
vi que ela não gostava de Diadorim. Digo ao senhor que alegria
que me deu. Ela não gostava de Diadorim – e ele tão bonito
moço, tão esmerado e prezável. Aquilo, para mim, semelhava um
milagre. Não gostava? Nos olhos dela o que vi foi asco,
antipatias, quando em olhar eles dois não se encontraram. E
Diadorim? Me fez medo. Ele estava com meia raiva. O que é
dose de ódio – que vai buscar outros ódios. Diadorim era mais
do ódio do que do amor? Me lembro, lembro dele nessa hora,
nesse dia, tão remarcado. Como foi que não tive um
pressentimento? O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de
ver um corpo claro e virgem de moça, morto à mão, esfaqueado,
tinto todo de seu sangue, e os lábios da boca descorados no
branquiço, os olhos dum terminado estilo, meio abertos’ meio
fechados? E essa moça de quem o senhor gostou, que era um
destino e uma surda esperança em sua vida?! Ah, Diadorim... E
tantos anos já se passaram.
Desde esse primeiro dia, Diadorim guardou raiva de
Otacília. E mesmo eu podia ver que era açoite de ciúme. O
senhor espere o meu contado. Não convém a gente levantar
escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro. Que
Diadorim tinha ciúme de mim com qualquer mulher, eu já sabia,
fazia tempo, até. Quase desde o princípio. E, naqueles meses
todos, a gente vivendo em par a par, por altos e baixos,
amarguras e perigos, o roer daquilo ele não conseguia esconder,
bem que se esforçava. Vai, e vem, me intimou a um trato: que,
enquanto a gente estivesse em oficio de bando, que nenhum de
nós dois não botasse mão em nenhuma mulher. Afiançado,
falou: – “Promete que temos de cumprir isso, Riobaldo, feito
jurado nos Santos-Evangelhos! Severgonhice e airado aveio
servem só para tirar da gente o poder da coragem... Você cruza e
jura?!” Jurei. Se nem toda a vez cumpri, ressalvo é as poesias do
corpo, malandragem. Mas Diadorim dava como exemplo a regra
de ferro de Joãozinho Bem-Bem – o sempre sem mulher, mas
valente em qualquer praça. Prometi. Por um prazo, jejuei de nem
não ver mulher nenhuma. Mesmo. Tive penitência. O senhor
sabe o que isso é? Desdeixei duma roxa, a que me suplicou os
carinhos vantajosos. E outra, e tantas. E uma rapariga, das de
luxo, que passou de viagem, e serviu aos companheiros quase
todos, e era perfumada, proseava gentil sobre as sérias
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 265 –
imoralidades, tinha beleza. Não acreditei em juramento, nem
naquilo de seo Joãozinho Bem-Bem; mas Diadorim me vigiava.
De meus sacrifícios, ele me pagava com seu respeito, e com mais
amizade. Um dia, no não poder, ele soube, ele quase viu: eu tinha
gozado hora de amores, com uma mocinha formosa e dianteira,
morena cor de doce-de-buriti. Diadorim soube o que soube, me
disse nada menos nada. Um modo, eu mesmo foi que uns dias
calado passei, na asperidão sem tristeza. De déu em demos,
falseando; sempre tive fogo bandoleiro. Diadorim não me acusava,
mas padecia. Ao que me acostumei, não me importava. Que
direito um amigo tinha, de querer de mim um resguardo de
tamanha qualidade? Às vezes, Diadorim me olhasse com um
desdém, fosse eu caso perdido de lei, descorrigido em bandalho.
Me dava raiva. Desabafei, disse a ele coisas pesadas. – “Não sou
o nenhum, não sou frio, não... Tenho minha força de homem!”
Gritei, disse, mesmo ofendendo. Ele saiu para longe de mim;
desconfio que, com mais, até ele chorasse. E era para eu ter
pena? Homem não chora! – eu pensei, para formas. Então, eu ia
deixar para a boca dos outros aquela menina que se agradou de
mim, e que tinha cor de doce-deburiti e os seios tão grandes?!
Ah, essa agora não estava a meu dispor, tínhamos viajado muito
para longe de onde ela morava. Mas entramos num arraial maior,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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com progresso de bordel, no hospedado daquilo usufruí muito,
sou senhor. Diadorim firme triste, apartado da gente, naquele arraial,
me lembro. Saí alegre do bordel, acinte. Depois, o Fafafa,
numa venda, perguntou se não tinham chá de mate seco,
comercial; e um homem tirou instantâneo nosso retrato. Se
chamava o lugar: São João das Altas.
Mulher esperta, cinturinhazinha, que me fez bem. O senhor
releve e não reprove. Demasias de dizer sobem com as
lembranças da mocidade. Não estou contando? Pois minha vida
em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito.
Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu –
como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu
criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia
com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim.
E ainda falhamos dois dias na Fazenda Santa Catarina.
Naquele primeiro dia, eu pude conversar outras vezes com
Otacília, que, para mim, hora em mais hora embelezava. Minha
alma, que eu tive; e minha idéia esbarrada. Conheci que Otacília
era moça direta e opiniosa, sensata mas de muita ação. Ela não
tinha irmão nem irmã. Sor Amadeu chefiava largo: grandes gados
em léguas de alqueires. Otacília não estava noiva de ninguém. E
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 267 –
ia gostar de mim? De moça-de-família eu pouco entendesse. A
ser, a Rosa’uarda? Assim igual eu Otacília não queria querer;
salvante assente que da Rosa’uarda nunca me lembrei com
desprezo: não vê, não cuspo no prato em que o bom já comi.
Sete voltas, sete, dei; pensamentos eu pensava.
Revirei meu fraseado. Quis falar em coração fiel e sentidas
coisas. Poetagem. Mas era o que eu sincero queria – como em
fala de livros, o senhor sabe: de bel-ver, bel-fazer e bel-amar. O
que uma mocinha assim governa, sem precisão de armas e
golpes, guardada macia e fina em sua casa-grande, sorrindo
santinha no alto da alpendrada... E ela queria saber tudo de mim,
mais ainda me perguntava. – “Donde é mesmo que o senhor é,
donde?” Se sorria. E eu não medi meus alforjes: fui contando que
era filho de Seô Selorico Mendes, dono de três possosas
fazendas, assistindo na São Gregório. E que não tinha em minhas
costas crime nenhum, nem estropelias, mas que somente por
cálculos de razoável política era que eu vinha conduzindo aqueles
jagunços, para Medeiro Vaz, o bom foro e patente fiel de todos
estes Gerais. Aqueles? Diadorim e os outros? Eu era diferente
deles.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Fiquei esperando o que ela desse em resposta. Nem nada
não acreditava? Mas Otacília mudou para séria a feição do rosto,
não queria mais de minha vida só assim meiamente indagar. Os
de todos lindos olhos dela estavam me assinalando o céu com
essas nuvens. Eu tinha renegado Diadorim, travei o que tive
vergonha. Já era para entardecendo. Vindo na vertente, tinha o
quintal, e o mato, com o garrulho de grandes maracanãs
pousadas numa embaúba, enorme, e nas mangueiras, que o sol
dourejava. Da banda do serro, se pegava no céu azul, com
aquelas peças nuvens sem movimento. Mas, de parte do poente,
algum vento suspendia e levava rabos-de-galo, como que com
eles fossem fazer um seu branco ninho, muito longe, ermo dos
Gerais, nas beiras matas escuras e águas todas do Urucuia, e
nesse céu sertanejo azul-verde, que mais daí a pouco principiava
a tomar raias feito de ferro quente e sangues. Digo, porque até
hoje tenho isso tudo do momento riscado em mim, como a
mente vigia atrás dos olhos. Por que, meu senhor? Lhe ensino:
porque eu tinha negado, renegado Diadorim, e por isso mesmo
logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. A espécie do
que senti. O sol entrado.
Daí, sendo a noite, aos pardos gatos. Outra nossa noite, na
rebaixa do engenho, deitados em couros e esteiras – nem se tinha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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o espaço de lugar onde rede armar. Diadorim perto de mim. Eu
não queria conversa, as idéias que já estavam se acontecendo
eram maiores. Assim eu ouvindo o ciciri dos grilos. Na beira da
rebaixa, a fogueira feita sarrava se acabando, Alaripe ainda esteve
lá, mexendo em tição, pitou um cigarro. O Jesualdo; Fafafa e
João Vaqueiro não esbarravam de falar, mais o Alaripe também,
repesavam as vantagens da Santa Catarina. No que eu pensava?
Em Otacília. Eu parava sempre naquela meia-incerteza, sem
saber se ela sim-se. Ao que nós todos pensávamos as mesmas
coisas; o que cada um sonhava, quem é que sabia?
– “Aquilo é poço que promete peixe...” – o Jesualdo disse.
Dela devia de ser. – “Amigo, não toque no nome dessa moça,
amigo!...” – eu falei. Ninguém deu resposta, eles viam que era a
sério fatal, deviam de estar agora desqueixelados, no escuro. Por
longe, a mão-da-lua suspirou o grito: – Floriano, foi, foi, foi... –
que gemia nas almas. Então, era que em alguma parte a lua estava
se saindo, a mãe-da-lua pousada num cupim fica mirando,
apaixonada abobada. Deitado quase encostado em mim,
Diadorim formava um silêncio pesaroso. Daí, escutei um
entredizer, percebi que ele ansiava raiva. De repente.
– “Riobaldo, você está gostando dessa moça?”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 270 –
Aí era Diadorim, meio deitado meio levantado, o assopro
do rosto dele me procurando. Deu para eu ver que ele estava
branco de transtornado? A voz dele vinha pelos dentes.
– “Não, Diadorim. Estou gostando não...” – eu disse,
neguei que reneguei, minha alma obedecia.
– “Você sabe do seu destino, Riobaldo?”
Não respondi. Deu para eu ver o punhal na mão dele, meio
ocultado. Não tive medo de morrer. Só não queria que os outros
percebessem a má loucura de tudo aquilo. Tremi não.
– “Você sabe do seu destino, Riobaldo?” – ele
reperguntou. Aí estava ajoelhado na beira de mim.
– “Se nanja, sei não. O demônio sabe...” – eu respondi –
“Pergunta...”
Me diga o senhor: por que, naquela extrema hora, eu não
disse o nome de Deus? Ah, não sei. Não me lembrei do poder da
cruz, não fiz esconjuro. Cumpri como se deu. Como o diabo
obedece – vivo no momento. Diadorim encolheu o braço, com o
punhal, se defastou e deitou de corpo, outra vez. Os olhos dele
dançar produziam, de estar brilhando. E ele devia de estar
mordendo o correiame de couro.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 271 –
Assisado, me enrolei bem no cobertor; mas não adormeci.
Eu tinha dó de Diadorim, eu ia com meu pensamento para
Otacília. Me balanceei assim, adiantado na noite, em tanto gaio,
em tanto piongo, com todas as novas dúvidas e idéias, e
esperanças, no claro de uma espertina. Com muito, me levantei.
Saí. Tomei a altura do sete-estrelo. Mas a lua subia estada,
abençoando redondo o friinho de maio. Era da borda-do-campo
que a mãe-da-lua sofria seu cujo de canto, do vulto de árvores da
mata cercã. Quando a lua subisse mais, as estrelas se sumiam para
dentro, e até as seriemas podiam se atontar de gritar. Ao que
fiquei bom tempo encostado no cajueiro da beira do curral. Só
olhava para a frente da casa-da-fazenda, imaginando Otacília
deitada, rezada, feito uma gatazinha branca, no cavo dos lençóis
lavados e soltos, ela devia de sonhar assim. E, de repente, pressenti
que alguém tinha vindo por detrás de mim, me vigiava.
Diadorim, fosse? Não virei a cara para ver. Não tive receio.
Nunca posso ter medo das pessoas de quem eu gosto. Digo.
Esperei mais, outro tempo. Daí, vim voltando. Mas lá não estava
pessoa nenhuma, entre claridade e sombras. Ilusão minha, a
fantasiação. Bebi água do rego, com o frio da noite ela corria
morna. Tornei a entrar na rebaixa. Diadorim permanecia lá,
jogado de dormir. De perto, senti a respiração dele, remissa e
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delicada. Eu aí gostava dele. Não fosse um, como eu, disse a
Deus que esse ente eu abraçava e beijava. E, com o vago, devo
de ter adormecido – porque acordei quando Diadorim no mexe
leve se levantou, saiu sem rumor, levando a capanga, ia tomar seu
banho em poço de córrego, das barras no clarear. Desde o que,
depressa eu tornei a me dormir.
Mas, cedo no amanhecer, o sor Amadeu tinha chegado, e
com notícia urgente: que o grosso do bando de Medeiro Vaz
recruzava, de lá a quinze léguas, da Vereda-Funda para a
Ratragagem, e nós tínhamos de seguir, sem folga,
supraditamente. No que Nhô Vô Anselmo me deu um dito
afeiçoado e diferente – entendi que o velhozinho sabia de alguma
coisa, e que não desgostava que eu viesse a ficar neto dele. Nós
almoçamos e montamos. Diadorim, Alaripe, Jesualdo e João
Vaqueiro se retiraram em adiantando, e o Fafafa. Mas eu cacei
melhor coragem, e pedi meu destino a Otacília. E ela, por alegria
minha, disse que havia de gostar era só de mim, e que o tempo
que carecesse me esperava, até que, para o trato de nosso casamento,
eu pudesse vir com jus. Saí de lá aos grandes cantos,
tempo-doverde no coração. Por breve – pensei – era que eu me
despedia daquela abençoada fazenda Santa Catarina, excelentes
produções. Não que eu acendesse em mim ambição de teres e
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– 273 –
haveres; queria era só mesma Otacília, minha vontade de amor.
Mas, com um significado de paz, de amizade de todos, de
sossegadas boas regras, eu pensava: nas rezas, nas roupagens, na
festa, na mesa grande com comedorias e doces; e, no meio do
solene, o sor Amadeu, pai dela, que apartasse – destinado para
nós dois – um buritizal em dote, conforme o uso dos antigos.
Vim. Diadorim nada não me disse. A poeira das estradas
pegava pesada de orvalho. O birro e o jesus-meu-deus cantavam.
O melosal maduro alto, com toda sua roxidão, roxura. Mas, o
mais, e do que sei, eram mesmo meus fortes pensamentos.
Sentimento preso. Otacília. Por que eu não podia ficar lá, desde
vez? Por que era que eu precisava de ir por adiante, com
Diadorim e os companheiros, atrás de sorte e morte, nestes
Gerais meus? Destino preso. Diadorim e eu viemos, vim; de rota
abatida. Mas, desse dia desde, sempre uma parte de mim ficou lá,
com Otacília. Destino. Pensava nela. Às vezes menos, às vezes
mais, consoante é da vida. Às vezes me esquecia, às vezes me
lembrava. Foram esses meses, foram anos. Mas Diadorim, por
onde queria, me levava. Tenho que, quando eu pensava em
Otacília, Diadorim adivinhava, sabia, sofria.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 274 –
Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de
avanço, em minha história. O senhor tolere minhas más devassas
no contar. É ignorância. Eu não converso com ninguém de fora,
quase. Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o
compadre meu Quelemém; mas ele quer saber tudo diverso: quer
não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa.
Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando
com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a
contar corrigido. E para o dito volto. Como eu estava, com o
senhor, no meio dos Hermógenes.
Destaque feito: Zé Bebelo vinha vindo. Vinham por nós.
E tivemos notícia: a légua dali, eles estavam chegando, no meio
do dia, patrulhão de cavaleiros. Légua, não era verdade – mas,
obra de seis léguas, o sim. E eram só uns sessenta, por aí. Todo
o tempo eu vinha sabendo que nosso fim era esse, mas mesmo
assim foi feito surpresa. Eu não podia imaginar que ia entrar em
fogo contra os bebelos. De certo modo, eu prezava Zé Bebelo
como amigo. Respeitava a finura dele – Zé Bebelo: sempre
entendidamente. E uma coisa me esmoreceu a torto. Medo, não,
mas perdi a vontade de ter coragem. Mudamos de acampo, para
perto, para perto. – “É agora! É hoje!...” O Hermógenes reunia
o pessoal, todos. A gente carecia de levar o préstimo maior de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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munição, que se pudesse. Aonde? Diadorim, por um gesto, me
cortou de fazer mais perguntas. Às armas. Diadorim ia, para
aquilo, prezável de passeata. Ah, uma coisa não referi ao senhor.
Que era que, aquele tempo, no arranchamento do Hermógenes,
minha amizade com Diadorim estava sendo feito água que corre
em pedra, sem pepa de barro nem pó de turvação. Da voz de
homens e do tinir de armas em má véspera, não se podia deixar
de receber um lufo de dureza, de mais próprio respeito, e muita
coisinha se empequenava. – “Zé Bebelo é arisco de aviso,
Diadorim... Ele joga seguro: por aí perto, em esconso, deve de
ter outra tropa de guerra, prontos para virem dar retaguarda. Eu
sei bem – essa a norma dele... Carece de prevenir o
Hermógenes, João Goanhá, Titão Passos...” – eu não retive, e
disse. – “Eles sabem, Riobaldo. Toda guerra é essa...” –
Diadorim me respondeu. E eu estava sabendo que eu já dizer
aquilp era traição. Era? Hoje eu sei que não, que eu tinha de
zelar por vida e pela dos companheiros. Mas era, traição, isto
também sim: era, porque eu pensava que era. Agora, depois
mais do tudo que houve, não foi?
Agarrei minha mochila, comi fria a minha jacuba. Tudo
estava sendo determinado decidido, até o que a gente tinha de
fazer depois. Aí João Goanhá apartava o pessoal em punhados
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 276 –
de quinze ou vinte: cada um desses, acabado o fogo, devia de se
reunir em lugar certo comum. Daquela hora em diante, íamos ter
de brigar em pequenas quantidades. Pelas caras dos homens, eu
via que estavam satisfeitos, parecia muito e pouco. Com regozijo,
um golinho se bebeu. – “Toma este breve, Riobaldo. Foi minha
mãe-de-criação quem costurou para mim. Mas eu carrego dois...”
Era o Feijó, um sacudido oitavão, ele manobrava rifle de três
canos. Que simpatia demonstrada era essa, eu nunca tinha dado
fé daquele Feijó? – “A vamos. Hoje se faz o que não se faz...” –
um se exaltava assim, tive medo de castigo de Deus. Quem
quisesse rezar, podia, tinha praça; outros, contritos,
acompanhavam. Outros ainda comiam, zampando, limpavam a
boca com as duas mãos. – “Não é medo não, amigos, é o trivial
do corpo!” – explicavam alguns, que ainda careciam de ir por
suas necessidades. Restantes risadas davam. Ao que faltava nem
meia-hora para o sol ir entrando. Daquele lugar, vazio de
moradas e de terras lavradias, a gente ouvia o gugo da juriti como
um chamado acabado, junto com lobo guará já dando gritos de
penitência. – “Presta uma demão, aqui...” Ajudei. Era um montesclarense
– acho que o cujo nome esqueci – que queria passar
tiras de pano, por sola das alpercatas e peito dos pés, reforçando.
Terminou, e fez os passos de dança, maneiro nas juntas,
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assobiava. Aquele rapaz pensava alguma coisa? – “Riobaldo?” –
Diadorim me disse – “arruma jeito de mudar de lugar, na hora,
sempre que puder. E põe cautela: homem rasteja por entre as
moitas, e vem pular nas costas da gente, relampeando faca.”
Diadorim sorria sério. Um outro me esbarrou, quando passava.
Era o Delfim, violeiro. Onde era que a viola ele ia poder guardar?
Eu apertei a mão de Diadorim, e queria sair, andar, gastar.
Conto que chegou o Hermógenes. A voz do Hermógenes,
dando ordens de guerra – já disse ao senhor? – ficava clara e
correta; um podia dizer: que até ficava. Ao menos ele sabia
aonde ia levar a gente, e o que queria. Deu resumo do traço.
Que todos cumprissem, que todos soubessem! A partida dos
zebebelos estava com posição no Alto dos Angicos –
tabuleirinho de chã. Podiam ter espalhado sentinelas muito
longe, até na beira do córrego Dinho, ou para lá, em volta, nas
contravertentes. Mas, disso, logo se ia saber, porqual os espias
nossos rondavam. O que se tinha era de chegar, já como o
escuro, e engatinhar às ladeiras, no durado da noite, na arte
vagarosa. Só íamos abrir fogo, de surpresa, no clarearzinho da
madrugada. Cada um de seu Ponto melhor. Tudo tinha de valer
Pm cnnsagato e finice, até se carecia de respirar só por metade.
Se algum topasse com inimigos, por má-sorte, antes, ele que
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escorresse como pudesse, ou dependesse na faca: atirar com
arma é que não podendo. Sendo que podendo, mas só depois do
Hermógenes – que era quem era o dono: – o primeiro tiro ele
dava. Como cada qual tinha de atirar com sangue-frio, de matar
exato. Porque nosso prazo seria acabar com todos, com
brevidade; mais antes que outros deles pudessem vir, para um
reforço. Mesmo assim, Titão Passos ia com uns trinta
companheiros reguardar o caminho de vinda, à emboscada, num
tombador de pedra. Já vai que o Hermógenes explicava, devagar,
e tudo repetia, com paciência: o dever absoluto era que até o
mais tonto aprendesse, e estava definido o rumo de tarefa por
onde cada um devia de se pôr no chão e começar a engatinhar,
virada arriba. Mas, eu, catei o sentido de tudo já na primeira
razão, e, de cada vez que ele repetia, eu reproduzia – em minha
idéia os acontecimentos se passando, eu já estava lá, e rastejava,
me aprontava. Peguei a sentir. Me fiz fácil nas armas.
Por jeito? Com o que se deu, que eu não contava. O
Hermógenes me chamou. Aí – as cintas e cartucheiras, mochilão,
rede passada e um cobertor por tudo cobrir – ele estava
parecendo até um homem gordo. – “Riobaldo, Tatarana, tu vem.
Lugar nosso vai ser o mais perigoso. Careço de três homens
bons, no próximo de meu cochicho.” Para que vou mentir ao
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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senhor? Com ele me apartar assim, me conferindo valia, um certo
aprazimento me deu. Natureza da gente bebe de águas pretas,
agarra gosma. Quem sabe? Eu gostei. Mesmo com aversão, que
digo, que foi, que forte era, como um escrúpulo. A gente – o que
vida é : é para se envergonhar...
Mas, aí, eu fiquei inteiriço. Com a dureza de querer, que
espremi de minha sustância vexada, fui sendo outro – eu mesmo
senti: eu Riobaldo, jagunço, homem de matar e morrer com a
minha valentia. Riobaldo, homem, eu, sem pai, sem mãe, sem
apego nenhum, sem pertencências. Pesei o pé no chão, acheguei
meus dentes. Eu estava fechado, fechado na idéia, fechado no
couro. A pessoa daquele monstro Hermógenes não encostava
amizade em mim. E nem ele, naquela hora, não era. Era um
nome, sem índole nem gana, só uma obrigação de chefia. E, por
cima de mim e dele, estava Joca Ramiro. Pensei em Joca Ramiro.
Eu era feito um soldado, obedecia a uma regra alta, não obedecia
àquele Hermógenes. Dentro de mim falei: – “Eu, Riobaldo, eu!”
Joca Ramiro é que era – a obrigação de chefia. Mas Joca Ramiro
parava por longe, era feito uma lei, uma lei determinada. Pensei
nele só, forte. Pensando: – “Joca Ramiro! Joca Ramiro! Joca
Ramiro!...” A arga que em mim roncou era um despropósito,
uma pancada de mar. Nem precisava mais de ter ódio nem receio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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nenhum. E fui desertando da cobiça de mimar o revólver e
desfechar em fígados. Refiro ao senhor: mas tudo isso no bater
de ser. Só. Dessas boas fúrias da vida.
Aí, ele tinha que eu escolhesse os para vir juntos. Eu? Ele
estava me experimentando? E não tardei: – “O Garanço...” – eu
disse. – “... e este, aqui!” – completei, para aquele
montesclarense apontando. Bem que eu queria também o Feijó;
mas deviam de ser só dois, a conta já estava. E Diadorim? – o
senhor perguntará. Ah, por Diadorim era que eu não dizia, o
pensamento nele me repassava. O tempozinho todo, naquele
soflagrante. E estúrdio: eu principalmente não queria Diadorim
perto de mim, para as horas. Por quê? Por que, é o que eu
mesmo não sabia. Seria que me desvalesse a presença dele
comigo, pelos perigos que eu visse virem a ele, no meio do
combate; ou seria que a lembrança de ter Diadorim junto, naquilo,
me desgostasse, por me enfraquecer, agora eu assim, duro
ferro diante do Hermógenes, leão coração? Se sei, sei. Porque
era como eu estava. E assim respondi: que então o Garanço e o
Montesclarense iam com a gente.
Como saímos, viemos vindo, desfeitos aos dois, aos três,
aos sozinhos. Já a já, era noite. Noite da Jaíba dá de uma asada,
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uma pancada só. Há-de: que se acostumar com o escuro nos
olhos. Conto tudo ao senhor. O caminhar da gente se media em
silencioso, nem o das alpercatas não se ouvia. De tantos matos
baixos, carrascal, o chio dos bichinhos era um milhão só. Por lá a
coruja grande avoa, que sabe bem aonde vai, sabe sem barulho. A
quando o vulto dela assombrava em frente da gente no ar, eu
fechava os olhos três vezes. O Hermógenes rompia adiante, não
dizia palavra. Nem o Garanço também, nem o Montesclarense.
Isso, em meu sentir, eu a eles agradecia. Quem vai morrer e
matar, pode ter conversa? Só esses pássaros de pena mole,
gerados da noite – tantos bacuraus insensatos: o sebastião que
chamava a fêmea, com grandes risadas, pedindo tabaco-bom.
Digo ao senhor o que eu ia pensando: em nada. Só esforçava
tenção numa coisa: que era que devia de guardar tenência simples
e constância miúda, esperando a novidade de cada momento.
Minha pessoa tomava para mim um valor enorme. Aquele
pássaro mede-léguas erguia vôo de pousado no meio da estrada,
toda vez ia se abaixar dez braças mais adiante, do jeito mesmo,
conforme de comum esses fazem. Bobice dele – não via que o
perigo torna a vir, sempre?
Digo tudo, disse: matar-e-morrer? Toleima. Nisso mesmo
era que eu não pensava. Descarecia. Era assim: eu ia indo,
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cumprindo ordens; tinha de chegar num lugar, aperrar as armas;
acontecia o seguinte, o que viesse vinha; tudo não é sina? Nanja
não queria me alembrar, de nenhum, nenhuma. Com meia-légua
andada, por um trilho. É preciso não roçar forte nas ramagens,
não partir galhos. Caminhar de noite, no breu, se jura sabença: o
que preza o chão – o pé que adivinha. A gente imagina uns buracões
disformes. A gente espera vozes. Eh. Pouquinhas estrelas
dando céu; a noite barrava bruta. Digo ao senhor: a noite é da
morte? Nada pega significado, em certas horas. Saiba o que eu
mais pensei. No seguinte: como é que curiango canta. Que o
curiango canta é: Curí-angú!
A obra de umas cem braças do riacho, o Hermógenes
esbarrou. Con chegamos. E com as mãos apalpávamos uns os
outros. Dali em diante, era junto a junto. O Hermógenes,
puxando, enxergava por nós. Que olhos, que esse, descascavam
de dentro do escuro qualquer coisa, olhar assim, que nem o de
suindara. Cada um com punhal a ponto, atravessamos o córrego,
pulando pelas alpondras; mais para baixo, sabíamos de uma
estiva, mas lá se temia que tivessem botado sentinelas. Ali era o
lugar pior: um estremecimento me desceu, senti o espaço da
minha nuca. Do escurão, tudo é mesmo possível. No outro lado,
o Hermógenes sussurrou ordens. Deitamos. Eu estava atrás
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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duma árvore, uma almêcega. Mais atrás de mim, o riacho,
passante por suas pedras. Naquela espera, carecíamos de persistir
horas, dando tempo. Assim, a água perto, os mosquitos vêm, eles
acordam com o cheiro da cara da gente, não concedem sossego.
Acender cigarro e pitar, não se podia. A noite é uma grande
demora. Ah o que os mosquitos infernizavam. Por isso mesmo,
direi, era que Hermógenes tinha escolhido ali: que ninguém
pegasse no sono, que a mosquitada não deixava? Mas não seria
de mim que pudesse ferrar no sono assim perto daquele homem,
príncipe das tantas maldades. O que eu queria era que tudo
sucedesse, mal ou bem aquela noite tivesse termo de terminada. –
“Tá aqui, toma...” – ouvi. Era o Hermógenes, um taco de fumo
me dando, que em forte cachaça ele tinha acabado de empapar.
Era para se esfregar na cara e nas mãos. Aceitei. Fosse coisa de
comer, não aceitava. Nada não disse, não agradeci. Aquilo era do
serviço de armas, fazia parte. E esfreguei, bem. Ao que os
mosquitos deixaram de me ferroar. Desde fiquei, pois então, me
divertindo de beliscar a casca da almêcega, aquela resina de ici-í.
Daí, os pensamentos que tive foram os que nem merecem, e eu
não sou capaz de dar narração: retrato de pessoas diversas,
ressalte de conversas tolas, coisas em vago das viagens que eu
tinha feito. A noite durava.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Haja de contar o que foi – o todo de se escorregar para
cima a encosta – até ao ponto, donde a espera de tocaia devia de
ser? Aquilo o igual, sempre sendo. Um homem se arraiga em
terra, no capim, no chão, e vai, vai – sendo serepente – de gatoem-
caça. Carece de repartir frouxo o peso do corpo, semelhante
fosse nadando; cotovelo e joelho é que transpõem. Tudo um ai
de vagar, que chega aporreia, tem que ser. Não vale arranco de
pressa, o senhor tem de ficar o comprido que pode, por mais de.
As juntas da gente estalam, o senhor mesmo escuta. Se coça a
canela com o calcanhar; – estando com polaina não adianta. De
cada vez, o senhor vira o corpo num lado: e olha, escuta.
Qualquer barulho sem tento, que se faz, verte perigo. Pássaro
pousado em moita, que se assusta forte a vôo, dá aviso ao
inimigo. Pior são os que têm ninho feito, às vezes esvoaçam aos
gritos, no mesmo lugar – dão muito aviso. Aí quando é tempo de
vaga-lume, esses são mil demais, sobre toda a parte: a gente mal
chega, eles vão se esparramando de acender, na grama em redor é
uma esteira de luz de fogo verde que tudo alastra – é o pior aviso.
O que nós estávamos fazendo era uma razão de loucura muita,
coisa que só mesmo em guerra é que se quer. O punhal
travessado na boca, sabe?: sem querer, a gente rosna. Às guardas,
qualquer mato ameaçava que ia bulir: com o inimigo vindo dele.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Árvores branquiçadas, traiçoeiramente. A gente amassa com a
barriga espinhos e gravetos, é preciso de saber quando é que é
melhor se calcar no estrepe firme com gosto – que é o que mais
defende d’ele não se cravar. O inimigo pode estar engatinhando
também, versa por detrás, nunca se tem certeza. O cheiro de
terra agoura mal. Capim de beira em fio, que corta a cara. E uns
gafanhotos pulam, têm um estourinho, tlique, eu figurava que era
das estrelas remexidas, titique delas, caindo por minhas costas.
Trabalhos de unha. O capim escorria, do sereno da noite,
lagrimado. Ah, e cobra? Pensar que, num corisco de momento,
se pode premer mão numa rodilha grossa de cascavel, numa certa
morte dessas. Pior é a surucucu, que passeia longe, noturnazã,
monstro: essa é o que há com mais doida ligeireza neste mundo.
Rezei a jaculatória de São Bento. A água do sereno me molhava,
da macega, das folhas, – é o que digo ao senhor; me desgostava.
Raio de um repente, afastaram a erva alta, minha cabeça eu
encolhi. Era um tatu, que ia entrando no buraco, fungou e escutei
o esfrego de suas muxibas. Tatu-peba, e eu no rés dele. Que
modo quê? Rastejando de minha banda da direita, o Hermógenes
rompia, eu sentia o bafo duma boca, e aquele avultar deitado de
bicho duro, braço por braço. O Garanço e o Montesclarense
espigavam vez mais adiante, vez mais atrás. Quando de semJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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menos, o Hermógenes me esbarrou. Ele falou um murmo – me
cochichou de mão em concha. – “É aqui mesmo...” – ele redisse.
Onde era que estavam as estrelas dianteiras, e os macios pássaros
da noite? – pensei. Eu tinha fechado os olhos. O cheiro dum
araçá-branco formava bolas. Quietei.
Até que o dia deu, que é que foi do meu tempo, que horas
que se passaram? Aí eu podia medir, pelas estrelas que vão em
movimento, descendo no rumo de seu poente, elas viravam. Mas,
digo ao senhor, eu não olhei para o céu. Não queria. Não podia.
Assim espichado, no escabro, um sofre o festo da noite, o chão
esfriava. Pensei: será se eu fosse adoecer?; um longe de dor-dedente
já me indispondo. Aquilo que cochilei – dormir, eu em
firme rejeitava. O Hermógenes, um homem existente encostado
no senhor, calado curto, o pensamento dele assanha – feito um
berreiro. Aquelas mortes, que eram para daí a pouco, já estavam
na cabeça do Hermógenes. Eu não tinha nada com aquilo,
próprio, eu não estava só obedecendo? Pois, não era? Ao que, o
meu primeiro fogo tocaieiro. Danado desuso disso é o antes –
tanto antes, ror. O senhor acha que é natural? Osgas, que a gente
tem de enxotar da idéia: eu parava ali para matar os outros – e
não era pecado? Não era, não era, eu resumi: – Osgas... Cochilei,
tenho; Por descuido de querer. Dormi, mesmo? Eu não era o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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chefe. loca Ramiro queria aquilo? E o Hermógenes, mandante
perto, em sua capatazia. Dito por uns: no céu, coisa como uma
careta preta? É erro. Não, nada, oi. Nada.
Eu ia matar gente humana. Dali a pouco, o madrugar
clareava, eu tinha de ver o dia vindo. Como era o Hermógenes?
Como vou dizer ao senhor..? Bem, em bró de fantasia: ele
grosso misturado – dum cavalo e duma jibóia... Ou um cachorro
grande. Eu tinha de obedecer a ele, fazer o que mandasse.
Mandava matar. Meu querer não correspondia ali, por conta
nenhuma. Eu nem conhecia aqueles inimigos, tinha raiva
nenhuma deles. Pessoal de Zé Bebelo, povo reunido na beira do
Jequitaí, por ganhar seu dinheirinho fiel, feito tropa de soldo.
Quantos não iam morrer por minha mão? Andante que
perpassou um vento, entre ele o crico de grilos e tantos
bichinhos divagados. Assaz, a noite, com sombras vermelhas. O
exemplar da morte, dessa, é que é num átimo, tão ligeira, tão
direitinha. As coisas que eu nem queria pensar, mas pensava
mais, elas vinham. Vezo de falar do Geraldo Pedro, que disse: –
“Aquele? Hoje ele não existe mais, virou sombração... Matei...”
E o Catocho, contando doutro: – “... Lá tem uns órfãos meus, lá
... Tive de matar o pai deles...” Por que era que falavam essas
perversidades... Por que é que falavam... Por que era que eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tinha de obedecer ao Hermógenes? Ainda estava em tempo: se
eu quisesse, sacanhava meu revólver, gastava nele um breve tiro,
bem certo, e corria, ladeira abaixo, às voltas, caçava de meu
sumir nesse vai-te-mundo. Ah, nada: então, aí mesmo era que o
fogo feio começava, por todas as partes, de todo jeito morresse
muita gente, primeiro de todos morria eu. Mesmo estava sem
remédio. O Hermógenes mandava em mim. Que que quer, ele
era mais forte! Pensei em Diadorim. O que eu tinha de querer
era que nós dois saissemos sobrados com vida, desses todos
combates, acabasse a guerra, nós dois largávamos a jagunçada,
íamos embora, para os altos Gerais tão ditos, viver em grande
persistência. Agora, aqueles outros, os contrários, não estavam
também com poder de me matar? À asneira. E eu ia, numa
madrugadinha, a cavalo, por uma estrada de areia branca, no
Buriti-do-Á, beira de vereda, emparelhado com um capiauzinho
bondoso, companheiro qualquer, a gente ria, conversava de
tantas miúdas coisas, sem maldade, se pitava, eu ia levando meio
saco de milho na garupa, ia para um moinho, para uma fazenda,
para berganhar o milho por fubá... – sonhos que pensava. À fé:
aqueles zebebelos também não tinham varado o Norte para destruir
gente? E pois?! O que tivesse de ser, somente sendo. Não
era nem o Hermógenes, era um estado de lei, nem dele não era,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 289 –
eu cumpria, todos cumpriam. “Vou para os Gerais! Vou para os
Gerais!” – eu dizia, me dizia. Numa minha perna, então torci o
de dar cãibra. Depois, tirei a dureza dos dedos. A ver, Diadorim,
a gente ia indo, nós dois, a cavalo, o campo cheirava, dez metros
de chão de flor. Por que que eu ia ter pena dos outros? Algum
tinha pena de mim...? Cabeça de homem é fraca, repensava. O
que se carecia justo de fazer era acabar logo com a guerra,
acabar com aqueles zebebelos. Pensar em Diadorim, era o que
me dava cordura de paz. Ah, digo ao senhor: dessa noite não me
esqueço. Posso? Aos poucos, fui ficando soporado, nem bom
nem ruim. Matar, matar, que que me importava? Dessa noite
esquecer não posso. Garoou, para a aurora.
Como clareia: é aos golpes, no céu, a escuridão puxada aos
movimentos. A gente estava de costas para as barras do dia. Me
lembro do que me lembro: o Hermógenes cruzou, adiante,
chato no chão, relando barriga em macio. Aquele homem era
danado de tigre, estava cochichando na cabeça do Garanço,
depois com o Montesclarense – mostrava a eles os lugares em
que deviam-de. Arre, voltou para perto de mim, agora veio da
outra banda. Disse: – “Tento, Riobaldo...” Eu vi quando o
Garanço rojou, indo, indo, pegou postura na proteção dum
cupim grande; obra de cinco metros para a minha frente,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 290 –
pouquinho para esta banda da esquerda. No não longe, rumo a
rumo, divulguei o Montesclarense. Eu ainda mudei distância de
uns passos: aproveitei tapação duma árvore de boa grossura –
um araçáde-pomba, fechado. De sovigia, o Hermógenes não me
largava. Doesse na gente, mesmo aquele principiozinho de
madrugada. Apertava a necessidade. Por que não se avançava de
uma vez, para tudo, vir às brabas? Ah, não se podia. Só logo no
primeiro entremear com os bebelos, nós quatro havíamos de
restar mortos, cosidos nas parnaíbas. E, dos companheiros,
outros, não se sabia. Sendo somente que o acampamento dos
bebelos devia de estar a uma hora dessas cercado exato, em boa
distância, à roda toda. Tudo era paciência. Vinha um
ventozinho, folheando. Tantos homens amoitados, que só
espiavam: na obrigação – refleti. Até achei bonito, agora. Aí
passarinhos que já vão voando, com o menorzinho ralo de luz
eles se contentam, para seu só isso de caçar o de comer. Triste,
triste, um tiriri cantou. Alegre, para mim, a peitica. Olhei
adiante, curto, lá era que eles estavam: por entre umas árvores
pequenas, dava réstia de claridade, e um formato de homem,
contravisto. Ele ia acender fogo. E apareceram vultos de outros,
levantantes. Com pouco, alguns podiam vir descendo, buscar
mais água no corguinho, se carecessem. Asneiras que pensei:
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será que eles gastaram muita água? Será que um esmorece, por
medo ter? Eu não campeava a morte. Seguro nasci, sou feito.
D’o Hermógenes ali junto estar, naquela hora, digo ao senhor,
gostei. – “Riobaldo, Tatarana! É o é...” – ele me governou, de
repente. Aceitei. Desamarrei mão, de vez pronta: eu já tinha
resumido pontaria: eu tive consolo duma coisa, que era que
aquele homem alto não podia ser Zé Bebelo... Não tremi, e
escutei meu tiro, e o do Hermógenes; e o homem alto caiu certo
morto, rolou na má poeira. Me deu uma raiva, dele, deles todos.
E em toda a parte, a sobre, o tiroteio tinha começado.
Estrondou. Falavam os rifles e outros: manlixa, granadeira
e comblém. Festa de guerra.
Mais digo ao senhor? Atirei, minhas vezes. Aí, tomei ar. O
senhor já viu guerra? A mesmo sem pensar, a gente esbarra e
espera: espera o que vão responder. A gente quer porções.
Demais é que se está: muito no meio de nada. A morte? A coisa
que o que era xô e bala. Que qual, agora não se podia mais ter
outros lados. Agora era só gritar ódio, caso quisesse, e o ar se
estragou, trançado de assovios de ferro metal. O senhor ali não
tem mãe, não vê que a vida é só brabeza. Revém ramo cortado
de árvore, aí e o comum que cavacam poeiras e terras. Digo ao
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 292 –
senhor, dou conversa. Aquilo era. Artes que carreguei o rifle,
escorei, repetente. Aquele povo inimigo nosso esperdiçava muita
munição, atiravam com nervosia. Não queriam morrer por nossa
mão, não queriam. Ri me ri, e o Hermógenes me chamou com
assombro. Em isso ele me crendo endoidado. Mas eu estava era
de repente pensando em meu padrinho Selorico Mendes.
“Agora, tu mesmo vai lá, vai! Tu não quer?!” – foi o que
arranjei vontade de gritar com o Hermógenes. Cão, que ele. Ri
mais. Homem sozinho, com sua carabina em mãos, o
Hermógenes era um como eu, igual, igual, até pior atirava. E
aqueles bebelos tinham feito madrugada para levar fogo. Fiquei
meu. “... Se todos passam mão em arma e fecham volta de
tiroteio, uns contra os outros, então o mundo se acaba...” – acho
que pensei. Eram só tolicezinhas, que por minha mente
marinhavam. Os tiros peguei a querer contar. Aquilo como
durou, demorava um oco. O dia tinha clareado saído: eu todo
podendo descrever o Montesclarense, atrás dum toro de pau e
moitas de anduzinho. Para que conto isto ao senhor? Vou longe.
Se o senhor já viu disso, sabe; se não sabe, como vai saber? São
coisas que não cabem em fazer idéia.
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Combate quanto, combate grande. Ser menos, que a gente
não rastejava alterando de lugar, que não era o caso. Quase que
só quando se pega no defendimento é que isso é de se fazer: para
pensarem que se vai em número maior que a verdade. Como
não, mais valia garantir o bom do posto, sem desguar. Tiro de lá
chama tiro de cá, e vira em vira. Disparo que eu dava, era
catando mover alheio, cujo descuido, como malandro
malandreia. Nem cento – e-cinqüenta braças era o eito, jaculação
minha. Aquilo servia até para carga de bocamorte. E mais de um,
eu etcétera, aí, pelo que sei, pelo que vejo. Mas só aqueles que
para morrer estavam com dia marcado. Minto? O senhor releve
idéias. Era assim.
Deu vez de, os muitos tiros se assanhavam, de prão, em
riba dum trecho só. Queriam costurar. Aí, e as horas não
acabavam. O sol encostava na nuca da gente. Sol, solão, debaixo
eu suava, transpirava dos cabelos, e pelo dentro das roupas, de
sentir as cócegas grossas no meio do lombo; e essas dormências
numas partes do corpo. Então, eu atirava. Não se ia avançar?
Não, nem. Os outros picavam forte, o fogo deles não
desmerecia. Cachorrada! Xingar, mesmo, ia servir só para
mostrar mais alvo. Ao que, eu descansava meus olhos nas costas
do Garanço, ali quase em minha frente. O Garanço tinha
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arrumado no chão o bissaco e o cobertor, estava sem jaleco, só
com a camisa de xadrezim. Eu vi o suor minar em mancha, na
camisa, no meio das costas dele, Garanço, aquela nódoa escura
ia crescendo, arredondada, alargada. O Garanço disparava,
sacudia o corpo, ele era amigo meu, com minúcia de valentia.
Rapaz de como se querer, homem de leal qualidade. Então, eu
atirava, também. “Bala e chumbo...” – eu peguei a dizer. “Bala e
chumbo... Bala e chumbo...” O lugar do coração me apertando
– eu era carne muita e calor bravo – “O que foi? Que é?” – o
Hermógenes me perguntou. – “Nada não!” – respondi. “Bala e
chumbo... Chumbo e bala...” Estrumes! Pelo que foi, de repente:
bem apartado, da banda esquerda de nós, uns homens dos
nossos deram figura, se pulando para diante, aos gritos,
investiram – contra o contra!
Ao que, eram dois... Três... – “Diá!” – o Hermógenes
rosnou: – “Deu a fúria nesses, bute!” Raspa que eles por lá
entraram, iam de coronhada e faca... Não se atirou, suspendemos
fôlego. E, vai, o Hermógenes me segurou tente: que o
Montesclarense – coitado! – também tinha crescido para avante,
no igual, e, de lá, nele balearam. Caiu, catando cacos. Pobre. Deu
doidice? Antes aí, os outros nossos, que se danando no vespeiro
dos bebelos, roncavam em poeira deles, decerto se acabavam
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estraçalhados que nem coelho com a cainça. Tomara tivessem
aprontado seus alguns! Assim aquilo sossegou, povo nosso
demos raiva de fogo – aí é que foi atirar. O Hermógenes me
resignou os ímpetos: – “Tatarana, te trava, não dá de esquentar
arma, gasta munição não. Só os tiros bons poucos. Só cobrar o
dizmo.” Aquele homem fazia frio, feito caramujo de sombra. A
ver que tive sede, mas minha cabaça não dava gota mais. Guardei
meu cuspe.
Aquilo não ia ter pique de ponto, guerra que não se sabe
terminar? Assunto que apostaram os mil tiros para cima de nossa
redondez de lugar, esses assoviaços. Triplavam. No ferrenho, tive
um tempo de coisa, espécie de mais medo, o que um não
confessa: vara verde, ver. Mas, morresse, eu descansava.
Descansava de todo desânimo. Andando que aquele ataque
nosso não servia para resultado nenhum, e eu carecia de avistar
os outros, saber de qualquer contagem de balanço, de quantos
tinham morrido ou estavam mal. Eu queria saber, dos deles e dos
nossos. Combate sem cabimento! Só o tiroteio, repetido
reproduzido. Meio peguei um pensamento: se o Hermógenes
sungasse raiva, se o Ele desse nele, por um vir? Que mandasse
avançasse, a fino de faca, nós todos tínhamos de avançar? Então,
eu estava ali era feito um escravo de morte, sem querer meu, no
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puto de homem, no danadório! E eu não podia virar só o corpo
um pouco, abocar minha arma nele Hermógenes, desfechar?
Podia não, logo senti. Tem um ponto de marca, que dele não se
pode mais voltar para trás. Tudo tinha me torcido para um rumo
só, minha coragem regulada somente para diante, somente para
diante; e o Hermógenes estava deitado ali, em mim encostado –
era feito fosse eu mesmo. Ah, e toda hora ele estavas sempre
estava. Que me disse: – “Tatarana, toma, come, e agradece ao
corpo um poucado...” Há-de que estava me oferecendo a
capanga, paçoca de carnes.
Tanto que os tiros tinham esbarrado quase em completo,
em partes. Eu, tendo comida minha, de matula, no bornal. Aí, e
munição minha de balas, no surrão. Eu carecia lá do
Hermógenes? Mas, por que foi então que aceitei, que mastiguei
daquela carne, nem fome acho que não tinha direito, engoli
daquela farinha? E pedi água. – “Mano velho, bebe, que esta é
competente...” – ele riu. O que estava me dando, na cabacinha,
era água com cachaça. Bebi. Limpei os beiços. Escorei o cano
do rifle, num duro de moita. Eu olhava aquele bom suor, nas
costas do Garanço. Ele atirava. Eu atirava. A vida era assim
mesmo, coração quejando. Até me caceteou uma lombeira.
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E, daí, deu-se. Da banda de longe – lá pelo tombador de
pedra, onde nossa gente com Titão Passos estavam escondidos
para a esparrela – foi um tirotear forte, fogo por salvas. Ah,
então era outra partida de zé-bebelos que deviam de estar
chegando, drongo deles, cavaleiros. O Hermógenes esticou o
pescoço, rijo ouvindo. Soante que atiravam, sucedidos, o tiroteio
foi mudando de feição. – “Tou gostando não...” – o que o
Hermógenes disse. Mais disse: – “O diabo deu em erro...”
Homem atilado, cachorral. – “Seja que sabidos vieram, eh,
pressentiram! Sei se, por ora, o trabalho está desandado...” Aí,
eu estava escutando. Eu olhei. Olhava para as costas do
Garanço, ela, a mancha, estava ficando de outra cor... O suor
vermelho... Era sangue! Sangue que empapava as costas do
Garanço – e eu entendi demais aquilo. O Garanço parado
quieto, sempre empinado com a frente do corpo, semelhando
que o cupim ele tivesse abraçado. A morte é corisco que sempre
já veio. Ânsias, ao em que bola me vinha goela arriba, do
arrocho grosso, imposto, que às vezes em lágrimas nos olhos se
transforma. A bobagem...
– “Tu, Tatarana, Riobaldo: agora é a má hora!” – era o
Hermógenes prevenindo. – “Demo!” – eu repontei. Mas ele não
entendeu minha soltura. Soprou: – “A muita cautela. Temos,
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que se foge em boa ordem: os que estão chegando vêm rodear a
gente, vão dar retaguarda.” E era. Como que esse maldito tudo
sabia, adivinhava o seguinte vivo das coisas, esse Hermógenes,
trapaças! Mas ainda me prezei: quem é que me segurava de ir?! –
rastejei de esquinado, os metros, em afogo, carecia de ver se o
Garanço podia ter ajuda. – “A p’a trás, mano. Te cuida!” – ouvi
o rispe do Hermógenes – que eu não me desgraçasse. Mas não
se deixa um cristão amigo deitar seu sangue no capim das
moitas, feito um traste roto, caititu caçado. Peguei, com meus
braços: não adiantava – era corpo. Ele estava defunto de não
fechar boca – aí, defunto airado. Todo vejo, o sangue dele a
mofos cheirasse. Anda que vinham vôo os mosquitos
chupadores, e mosca-verde que se ousou, sem o zumbo frisso,
perto no ar. Porque os tiros. E nem um momento de vela acesa
o Garanço não ia poder ter. – “Vem, tu vem, que estamos no
amém estreitos!” – que, enfezado, o Hermógenes chamou. Dei
para trás. O perigo saca toda tristeza. E a vez era esta: que o
Hermógenes encheu os peitos, e soltou um rinchado zurro, dos
de jumento velho em beira de campo. Três tantos. Ele estava
dando a retirada. Por outros lados, mais longe, outros o mesmo
onco-e-rincho copiavam. – “Arre, fogo, agora, forte fogo!” – o
Hermógenes me mandou. Atirei. Atiramos, teúdo. Ao que os
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companheiros todos atiravam. Assaz à retirada se estava
rinchando, mas os inimigos não sabiam: carecia que eles
pensassem que a gente ia dar um ataque final. Acharam? E sei.
A bala com bala ripostavam. Mas, nós, nesse entrequanto,
rompemos o arvoredo, aqui e ali, rojamos para baixo, embora,
mesmo. Desunir, assim, verga pior do que avançar. A lanço a
lanço, fui, pulei, nos abertos entre árvores, acompanhei o
Hermógenes. Aí, eu já estava para lá dele; mas virei e esperei.
Porque, na desordem de mente do alvoroço, aquela hora era só
no Hermógenes que eu via salvamento, para meu cão de corpo.
Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga,
cumpre também. Vim. Ainda divulguei, nas sofraldas descentes,
homens que corriam, meus iguais, às vezes se subiam do
bamburral baixo, feito acãoada codorniz. Viemos. Repassamos o
corguinho do Dinho, beiramos uma ipueira. Entramos no
cerrado. – “Tu tem tudo, Tatarana? Munição, as armas?” – o
Hermógenes me indagou. – “Tenho, se tenho!” – eu respondi,
bem. E ele para mim: – “Então, está certo...” Agora ele falasse
grosseado, com modo de chefe e mando, era assim. E fomos
para cinco léguas, entre o norte e o poente, no Cansanção, lugar
aonde um punhado dos da gente devia de se engrupar. Para lá
fomos, de rastros apagados. Caminhamos prazo dentro de
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riacho, depois escolhemos para pisar pedras, de nosso pisado
com ramos as marcas desmanchamos, e o mais do caminho se
seguiu por muitos diversos rodeios.
De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor minha
vida em dobrados passos; servia para quê? Quero é armar o
ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho. Por daí,
então, careço de que o senhor escute bem essas passagens: da
vida de Riobaldo, o jagunço. Narrei miúdo, desse dia, dessa
noite, que dela nunca posso achar o esquecimento. O jagunço
Riobaldo. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – porque não sou, não
quero ser. Deus esteja!
E dizendo vou. No mais, que quando se alcançou o nosso
bom esconder, num boqueirãozinho, já achamos companheiros
outros, diversos, vindos de armas, e que chegavam
separadamente, naquela satisfação de vida salva. Um era o Feijó.
Será, se tinha avistado o Reinaldo sem perigo? A meio
perguntei. Por causa que só em Diadorim era que eu pensava. O
Feijó em tanto tinha notado: Diadorim, na retirada, bem
conseguido; depois se retrasou, por uma cacimba de grota. – “...
Estava com sangue numa perna de calça. Para mim, foi nada,
arranho à-toa...” O que me ensombreceu – então Diadorim
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estava ferido. Aí, eu mesmo esbarrei, beirávamos o riachinho do
Jio, eu quis lavar os pés, que muito me doíam. Acho que, de
cansado, estava também com dores redondas de cabeça, molhei
minhas fontes. Cansaço faz tristeza, em quem dela carece.
Diadorim estivesse ali, somentemente, espaço disso me alegrava,
eu não havia de querer conversar reportório de tiros e combates,
eu queria calado a conseqüência dele. Ao modo que eu nem
conhecia bem o estorvo que eu sentia. Pena. Dos homens que
incerto matei, ou do sujeito altão e madrugador – quem sabe era
o pobre do cozinheiro deles – na primeira mão de hora varado
retombado? Em tenho que não. Dó que me dava era do
Garanço, e o Montesclarense. Quase com um peso, por minha
culpa dos dois – eles eu era quem tinha escolhido, para conduzir,
e depois tudo. Logo esses – o senhor sabe, o senhor segue
comigo. Remorso? Por mim, digo e nego. Olhe: légua e outra,
daqui, vereda abaixo, tigre canguçu estragou e arruinou a perna
do Sizino Ló, um que foi desse rio de São Francisco, foguista de
vapor; depois cá herdou uns alqueires. Comprou-se para ele,
então, uma boa perna-de-pau. Mas, assim, talvez por se ter
sacolejado um pouco do juizo, ele nunca mais quer sair de casa,
nem se levanta quase do catre, vive repetindo e dizendo: – “Ai,
quem tem dois tem um, quem tem um não tem nenhum...” Todo
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o mundo ri. E isso é remorso? Desgraça a mando era que eu
cumpria, azo de que tivesse perdido alguma coisa. Porque dó de
amizade é num sofrerzinho simples, e o meu não era. E cheguei
no CansançãoVelho, chamado também o Jio, dito.
Lá, com pouco, a gente era doze. Os alguns faltavam, dos
que eram para se reunir ali, mas decerto ainda vinham vir. Num
ponto me agradei: então, em guerra, quase não se morre? E,
mesmo, nas más horas é que vem bom consolo: para o Jio tinha
tocado, de antevéspera, o Braz, nessa antecedência em dois
jumentos ele tinha trazido mantimento de feijão e arroz, e toucinho
para torresmos, e pratos e panela, se cozinhou um jantar.
Tanto que comi, deitei. Dormi impado. Que caso que eu carecia
de pensar, que não fosse que na morte do Garanço e do
Montesclarense eu não devia nenhum dolo; e que Diadorim ia
chegar a vir também, aonde estávamos, mais tardar no romper da
aurora? Dormi. Mas daí a logo acordei, mão no rifle, como se vez
fosse. E não havia a coisa nenhuma, nem vulto nem barulho. Os
outros no estar, pesados no sono, cada um em seu recanto,
estufando suas redes penduradas de árvore em árvore.
Só vi um, o Jõe Bexiguento, sobrechamado o Alpercatas
esse era homem de estranhez em muitos seus costumes,
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conforme se dizia e era notado. Jõe Bexiguento parecia não estar
querendo ir dormir, tinha ficado na beira do fogo, remexendo as
brasas; num fusco em vermelho, dava para a cara dele se divulgar.
E ele pitava. Meigo repus o rifle, virei para o outro lado.
Adormecer, pude; mas, com outros minutos, tornei naquele mau
susto de acordar. Isso aconteceu três vezes, reformadas. Jõe
Bexiguento reparou em meu dessossego, veio para o pé de minha
rede, sentou no chão. – “Horas destas, tem galo já cantando,
noutros lugares...” – ele falou. Não sei se dei alguma resposta.
Agora eu estava cismado.
Ou se fosse que algum perigo se produzia por ali, e eu
colhia o aviso? Não é que, com muitos, dose disso sucedesse? Eu
sabia, tinha ouvido falar: jagunços que pegam esse condão,
adivinham o invento de qualquer sobrevir, por isso em boa hora
escapam. O Hermógenes. João Goanhá, mais do que todos, era
atreito a esses palpites de fino ar, coraçãoados. Atual isso
comigo? Que os bebelos rodeavam para ali, quem sabe perto já
rastejavam. Zé Bebelo mandava neles. Em todos o momentos,
em Zé Bebelo sempre pensei, e em como a vida é cheia de
passagens emendadas. Eu, na Nhanva, ensinando lição a ele,
ditado e leitura, as contas de juros; depois, de noite, na sala
grande, na mesa grande, se comia canjica temperada com leite,
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queijo, coco-da-baía, amendoim, açúcar, canela e manteiga-devaca.
– “Fofo faço, e em prazo, siô Baldo: acabar para uma vez
com essa cambada canalha de jagunços!” – ele referia, com
rompante e festa no dizer, bebendo seu coité de chá-decongonha,
que de tão quente pelava. Então, agora, era eu
também – Zé Bebelo vinha de lá, comandando armas de esquadrões,
e o que ele tinha jurado, naquela ocasião, ficava sendo
também de acabar comigo, com minha vida. Mas eu prezava Zé
Bebelo, minha simpatia é uma só, dada definitiva às altas, sempre
fui assim. Sendo que não fosse ele em sua pessoa, se ele no meio
não estivesse, tudo tinha outra ordem: eu podia pôr meu afinco o
– farto destravado, no querer combater. Mas, brigar, cruzando
morte, com Zé Bebelo, eu vi que era isso que me dava uma repugnância,
em minha inteligência. Levantei da rede, e convidei
Jõe Bexiguento para se botar mais lenha no fogo. Ele disse: –
“Convém não. Ocasiões assim, convém acender nem vela de cera
preta...” Enrolei um cigarro.
Contei ao Jõe o que eu estava sentindo estúrdio; se não era
agouramento? E ele me apaziguou: que anjo aviso não vinha
desse jeito, antes era uma certeza que minava fininha, de dentro
da idéia da gente, sem razoado nem discussão. O que eu purgava
era ranço nervoso, sobra da esquentação curtida nas horas de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tiroteio. – “Comigo, assim, depois de cada forte fogo, me dá esse
porém. É uma coceira na mente, comparando mal. Faz regular
uns seis anos, que estou na jagunçagem, medo de guerra não
conheço; mas, na noite, passado cada fogo, não me livro disso,
essa desinquietação me vem...”
Pela causa, me disse, era que ele não vencia dormir nem um
pisco, naquela comprida noite, e nem experimentava. Jõe
Bexiguento achava que não tinha mais sustância para ser jagunço;
duns meses, disse, andava padecendo da saúde, erisipelava e
asmava. – “Cedo aprendi a viver sozinho. P’ra o Riachão vou,
derrubo lá um bom mato...” Era o projeto em tal, que ele
formava vez em quando. – “Trabalhar de amassar as mãos... Que
isso é que sertanejo pode, mesmo na barra da velhice...”
– “Você era amigo do Garanço, Jõe?” – em manso
perguntei. – “Assim, o dito, pela rama. Que foi com ele? Deu o
fim, mesmo, legal? Acho que esse sempre se esteve meio
caipora... Ele mesmo sabia que era...” Ainda ouvindo as palavras,
conheci que tinha perguntado pelo Garanço só para depois
perguntar por Diadorim, digo: o Reinaldo. Mas outra coragem
não tive. Faltou razão para mim. Que desconversei: – “Caipora
se cura, Jõe? Você sabe rezas fortes?” – por aí devo que indaguei;
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bobéia minha, assunto. – “A que cujo, se caipora não curasse?
Todo o mundo dela tem, nos tempos...” – ele me repositou. – “...
Mas desses ensalmos quis aprender não. Memória que Deus me
deu não foi para palavrear avesso nele, com feitas ofensas...”
Pecados, vagância de pecados. Mas, a gente estava com
Deus? Jagunço podia? Jagunço – criatura paga para crimes,
impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e
roupilhando. Que podia? Esmo disso, disso, queri, por pura
toleima; que sensata resposta podia me assentar o Jõe, broeiro
peludo do Riachão do Jequitinhonha? Que podia? A gente, nós,
assim jagunços, se estava em permissão de fé para esperar de
Deus perdão de proteção? Perguntei, quente.
– “Uai?! Nós vive...” – foi o respondido que ele me deu.
Mas eu não quis aquilo. Não aceitei. Questionei com ele,
duvidando, rejeitando. Porque eu estava sem sono, sem sede,
sem fome, sem querer nenhum, sem paciência de estimar um
bom companheiro. Nem o ouro do corpo eu não quisesse,
aquela hora não merecia: brancura rosada de uma moça, depois
do antes da lua-de-mel. Discuti alto. Um, que estava com sua
rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou
xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que
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sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja
bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o
branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe
da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que
posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas
transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao
que, este mundo é muito misturado...
Mas Jõe Bexiguento não se importava. Duro homem
jagunço, como ele no cerne era, a idéia dele era curta, não
variava. – “Nasci aqui. Meu pai me deu minha sina. Vivo,
jagunceio...” – ele falasse. Tudo poitava simples. Então – eu
pensei – por que era que eu também não podia ser assim, como o
Jõe? Porque, veja o senhor o que eu vi: para o Jõe Bexiguento, no
sentir da natureza dele, não reinava mistura nenhuma neste
mundo – as coisas eram bem divididas, separadas. – “De Deus?
Do demo?” – foi o respondido por ele – “Deus a gente respeita,
do demônio se esconjura e aparta... Quem é que pode ir divulgar
o corisco de raio do borro da chuva, no grosso das nuvens
altas?” E por aí eu mesmo mais acalmado ri, me ri, ele era
engraçado. Naquele tempo, também, eu não tinha tanto o estrito
e precisão, nestes assuntos. E o Jõe contava casos. Contou. Caso
que se passou no sertão jequitinhão, no arraial de São João Leão,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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perto da terra dele, Jõe. Caso de Maria Mutema e do Padre
Ponte.
Naquele lugar existia uma mulher, por nome Maria
Mutema, pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade. Uma
noite, o marido dela morreu, amanheceu morto de madrugada.
Maria Mutema chamou por socorro, reuniu todos os mais
vizinhos. O arraial era pequeno, todos vieram certificar. Sinal
nenhum não se viu, e ele tinha estado nos dias antes em saúde
apreciável, por isso se disse que só de acesso do coração era que
podia ter querido morrer. E naquela tarde mesma do dia dessa
manhã, o marido foi bem enterrado.
Maria Mutema era senhora vivida, mulher em preceito
sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou
a dor sem demonstração. Mas isso lá é regra, entre gente que se
diga, pelo visto a ninguém chamou atenção. O que deu em nota
foi outra coisa: foi a religião da Mutema, que daí pegou a ir à
igreja todo santo dia, afora que de três em três agora se
confessava. Dera em carola – se dizia – só constante na salvação
de sua alma. Ela sempre de preto, conforme os costumes, mulher
que não ria – esse lenho seco. E, estando na igreja, não tirava os
olhos do padre.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 309 –
O padre, Padre Ponte, era um sacerdote bom-homem, de
meia-idade, meio gordo, muito descansado nos modos e de todos
bem estimado. Sem desrespeito, só por verdade no dizer, uma
pecha ele tinha: ele relaxava. Gerara três filhos, com uma mulher,
simplória e sacudida, que governava a casa e cozinhava para ele, e
também acudia pelo nome de Maria, dita por aceita alcunha a
Maria do Padre. Mas não vá maldar o senhor maior escândalo
nessa situação – com a ignorância dos tempos, antigamente, essas
coisas podiam, todo o mundo achava trivial. Os filhos, bemcriados
e bonitinhos, eram “os meninos da Maria do Padre”. E
em tudo mais o Padre Ponte era um vigário de mão-cheia,
cumpridor e caridoso, pregando cora muita virtude seu sermão e
atendendo em qualquer hora do dia ou da noite, para levar aos
roceiros o conforto da santa hóstia do Senhor ou dos santosóleos.
Mas o que logo se soube, e disso se falou, era em duas
partes: que a Maria Mutema tivesse tantos pecados para de três
em três dias necessitar de penitência de coração e boca; e que o
Padre Ponte visível tirasse desgosto de prestar a ela pai-ouvido
naquele sacramento, que entre dois só dois se passa e tem de ser
por ferro de tanto segredo resguardado. Contavam, mesmo, que,
das primeiras vezes, povo percebia que o padre ralhava com ela,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 310 –
terrível, no confessionário. Mas a Maria Mutema se desajoelhava
de lá, de olhos baixos, com tanta humildade serena, que uma
santa padecedora mais parecia. Daí, aos três dias, retornava. E se
viu, bem, que Padre Ponte todas as vezes fazia uma cara de
verdadeiro sofrimento e temor, no ter de ir, a junjo, escutar a
Mutema. Ia, porque confissão clamada não se nega. Mas ia a
poder de ser padre, e não de ser só homem, como nós.
E daí mais, que, passando o tempo, como se diz: no
decorrido, Padre Ponte foi adoecido ficando, de doença para
morrer, se viu logo. De dia em dia, ele emagrecia, amofinava o
modo, tinha dores, e em fim encaveirou, duma cor amarela de
palha de milho velho; dava pena. Morreu triste. E desde por
diante, mesmo quando veio outro padre para o São João Leão,
aquela mulher Maria Mutema nunca mais voltou na igreja, nem
por rezar nem por entrar. Coisas que são. E ela, dado que viúva
soturna assim, que não se cedia em conversas, ninguém não
alcançou de saber por que lei ela procedia e pensava.
Por fim, no porém, passados anos, foi tempo de missão, e
chegaram no arraial os missionários. Esses eram dois padres
estrangeiros, p’ra fortes e de caras coradas, bradando sermão
forte, com forte voz, com fé braba. De manhã à noite, durado
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 311 –
de três dias, eles estavam sempre na igreja, pregando,
confessando, tirando rezas e aconselhando, com entusiasmados
exemplos que enfileiravam o povo no bom rumo. A religião
deles era alimpada e enérgica, com tanta saúde como virtude; e
com eles não se brincava, pois tinham de Deus algum encoberto
poder, conforme o senhor vai ver, por minha continuação. Só
que no arraial foi grassando aquela boa bem-aventurança.
Aconteceu foi no derradeiro dia, isto é, véspera, pois no
seguinte, que dava em domingo, ia ser festa de comunhão geral
e glória santa. E foi de noite, acabada a benção, quando um dos
missionários subiu no púlpito, para a prédica, e tascava de
começar de joelhos, rezando a salve-rainha. E foi nessa hora que
a Maria Mutema entrou. Fazia tanto tempo que não comparecia
em igreja; por que foi, então, que deu de vir?
Mas aquele missionário governava com luzes outras. Maria
Mutema veio entrando, e ele esbarrou. Todo o mundo levou um
susto: porque a salve-rainha é oração que não se pode partir em
meio – em desde que de joelhos começada, tem de ter suas
palavras seguidas até ao tresfim. Mas o missionário retomou a
fraseação, só que com a voz demudada, isso se viu. E, mal no
amém, ele se levantou, cresceu na beira do púlpito, em brasa
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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vermelho, debruçado, deu um soco no pau do peitoril, parecia
um touro tigre. E foi de grito:
– “A pessoa que por derradeiro entrou, tem de sair! A p’ra
fora, já, já, essa mulher!”
Todos, no estarrecente, caçavam de ver a Maria Mutema.
– “Que saia, com seus maus segredos, em nome de Jesus
e da Cruz! Se ainda for capaz de um arrependimento, então
pode ir me esperar, agora mesmo, que vou ouvir sua confissão...
Mas confissão esta ela tem de fazer é na porta do cemitério! Que
vá me esperar lá, na porta do cemitério, onde estão dois
defuntos enterrados!...”
Isso o missionário comandou: e os que estavam dentro da
igreja sentiram o rojo dos exércitos de Deus, que lavoram em
fundura e sumidade. Horror deu. Mulheres soltaram gritos, e
meninos, outras despencavam no chão, ninguém ficou sem se
ajoelhar. Muitos, muitos, daquela gente, choravam.
E Maria Mutema, sozinha em pé, torta magra de preto,
deu um gemido de lágrimas e exclamação, berro de corpo que
faca estraçalha. Pediu perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que
da dura bondade de Deus baixasse nela, em dores de urgência,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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antes de qualquer hora de nossa morte. E rompeu fala, por entre
prantos, ali mesmo, a fim de perdão de todos também, se
confessava. Confissão edital, consoantemente, para tremer
exemplo, raio em pesadelo de quem ouvia, público, que rasgava
gastura, como porque avessava a ordem das coisas e o quieto
comum do viver transtornava. Ao que ela, onça monstra, tinha
matado o marido – e que ela era cobra, bicho imundo, sobrado
do podre de todos os estercos. Que tinha matado o marido,
aquela noite, sem motivo nenhum, sem malfeito dele nenhum,
causa nenhuma ; por que, nem sabia. Matou – enquanto ele
estava dormindo – assim despejou no buraquinho do ouvido
dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido. O
marido passou, lá o que diz – do oco para o ocão – do sono
para a morte; e lesão no buraco do ouvido dele ninguém não foi
ver, não se notou. E, depois, por enjoar do Padre Ponte,
também sem ter queixa nem razão, amargável mentiu, no
confessionário: disse, afirmou que tinha matado o marido por
causa dele, Padre Ponte – porque dele gostava em fogo de
amores, e queria ser concubina amásia... Tudo era mentira, ela
não queria nem gostava. Mas, com ver o padre em justa zanga,
ela disso tomou gosto, e era um prazer de cão, que aumentava
de cada vez, pelo que ele não estava em poder de se defender de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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modo nenhum, era um homem manso, pobre coitado, e padre.
Todo o tempo ela vinha em igreja, confirmava o falso, mais
declarava – edificar o mal. E daí, até que o Padre Ponte de
desgosto adoeceu, e morreu em desespero calado... Tudo crime,
e ela tinha feito! E agora implorava o perdão de Deus, aos uivos,
se esguedelhando, torcendo as mãos, depois as mãos no alto ela
levantava.
Mas o missionário, no púlpito, entoou grande o Bendito,
louvado seja! – e, enquanto cantando mesmo, fazia os gestos para
as mulheres todas saírem da igreja, deixando lá só os homens,
porque a derradeira pregação de cada noite era mesmo sempre
para os ouvintes senhores homens, como conforme.
E no outro dia, domingo do Senhor, o arraial ilustrado
com arcos e cordas de bandeirolas, e espoco de festa, foguetes
muitos, missa cantada, procissão – mas todo o mundo só
pensava naquilo. Maria Mutema, recolhida provisória presa na
casa-de-escola, não comia, não sossegava, sempre de joelhos,
clamando seu remorso, pedia perdão e castigo, e que todos viessem
para cuspir em sua cara e dar bordoadas. Que ela –
exclamava – tudo isso merecia. No meio-tempo, desenterraram
da cova os ossos do marido: se conta que a gente sacolejava a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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caveira, e a bola de chumbo sacudia lá dentro, até tinia! Tanto
por obra de Maria Mutema. Mas ela ficou no São João Leão
ainda por mais de semana, os missionários tinham ido embora.
Veio autoridade, delegado e praças, levaram a Mutema para culpa
e júri, na cadeia de Araçuaí. Só que, nos dias em que ainda esteve,
o povo perdoou, vinham dar a ela palavras de consolo, e juntos
rezarem. Trouxeram a Maria do Padre, e os meninos da Maria do
Padre, para perdoarem também, tantos surtos produziam bemestar
e edificação. Mesmo, pela arrependida humildade que ela
principiou, em tão pronunciado sofrer, alguns diziam que Maria
Mutema estava ficando santa.
E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou, e que de certo
modo me divagasse. Mas, foi ele acabar de contar, e escutamos o
assovio combinado dos nossos, e demos resposta: era um que
chegava – o Paspe – se aparecendo macio dos escuros, com
alpercatas sem barulho e o rifle em bandoleira. Ele tinha
formado, para a esparrela, com Titão Passos, agora vinha trazer
notícia dos dele, seguidos para se ajuntarem ao covo do Capão; e
pedir ordens. Rio de homem, esse Paspe: que não temia nem se
cansava. Contou: que, aquilo que era para estratagemas, deu foi
em por água-abaixo, porque os bebelos tinham botado espiação,
ou tomado o faro. Assim, o inimigo contornando, em vez de vir
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 316 –
simples: e tochando resposta antes de pergunta, fogo feio – dois
mortos, dos titão-passos, companheiros bons; mais três muito
feridos. Guerra tinha disso também.
– “Ah, e Zé Bebelo mesmo estava lá, no comando
daqueles, em sua dita pessoa?” – perguntei.
– “Decerto que estava. A cujo!” – o Paspe falou; e pediu
logo quem tivesse um golinho de cachaça.
Devo, então, que perguntei por Diadorim. Puro por
perguntar, sem esperanças de informação. E mesmo, más
notícias eu ainda tinha o receio de ouvir. Serviço que me foi, o
Paspe me respondeu:
– “Vi, esse por mim passou, até me deu um recado, uail: e
para você mesmo: – Vai, diz por mim ao Riobaldo Tatarana: que eu
tenho um quefazer, ao que vou, por dias poucos, com breve estou de
volta... – foi o que falou. Assim passou, a cavalo – onde terá sido
que arrumou montada? Decerto conseguiu algum animal dos
bebelos mesmo, que restou no meio de tirotei’...”
Ouvi e não cri. Ele, Diadorim? Aonde ia, sem mim então,
não podia ser ele, foras de norma. E ao Paspe reperguntei,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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pedindo o exato. Era. Mas não seria, então, que ele estivesse
ferido, numa perna?
Ao que nem não nem sim – mais pelo não que pelo sim... –
o Paspe completou. Não tinha reparado, no relance de tempo. Só
viu que o arreio era um socadinho, quase novo, e o cavalo alto,
desbarrigado, mas pronto de si, riscando com todas as ferraduras,
murzelo-andrino...
Aí, ai, oi, espécie de dor em meus cantos, o senhor sabe.
Agora eu pateteava. Que que era ser fiel; donde estava o amigo?
Diadorim, na pior hora, tinha desertado de minha companhia.
Às certas, fuga fugida, ele tinha ido para perto de Joca Ramiro.
Ah, ele, que de tudo sabia em tudo, agora assim de tenção me
largava lá sem uma palavra própria da boca, sem um abraço,
sabendo que eu tinha vindo para jagunço só mesmo por conta
da amizade! Acho que me escabreei. De sorte que tantos
pensamentos tive, duma viragem, que senti foi esfriar as pontas
do corpo, e me vir o peso de um sono enorme, sono de doença,
de malaventurança. Que dormi. Dormi tão morto, sem estatuto,
que de manhã cedo, por me acordarem, tiveram de molhar com
água meus pés e minha cabeça, pensando que eu tinha pegado
febre de estupor. Foi assim.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Vou reduzir o contar: o vão que os outros dias para mim
foram, enquanto. Desde que da rede levantei, com aquele peso
anoitecido, amanhecido nos olhos. Tempo de minha vazante. A
ver como veja: tem sofrimento legal padecido, e mordido e
remordido sofrimento; assim do mesmo que tem roubo
sucedido e roubo roubado. Me entende? Dias que marquei: foram
onze. Certo que a guerra ia indo. Demos um tiroteio
mediano, uma escaramucinha e um meio-combate. Que isso
merece que se conte? Miúdo e miúdo, caso o senhor quiser, dou
descrição. Mas não anuncio valor. Vida, e guerra, é o que é:
esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja.
Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima –
o que parece longe e está perto, ou o que está perto e parece
longe. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas
principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser
que o senhor saiba. Agora, o senhor exigindo querendo, está
aqui que eu sirvo forte narração – dou o tampante, e o que forde
trinta combates. Tenho lembrança. Pelo tempo durado de
cada fogo, se é capaz até do cálculo da quantidade de balas.
Contar? Do que se agüentou, de arvoados tiros, e a gente
atirando a truz, no meio de pobre roça alheia, canavial cortante,
eito de verde feliz ou palhada de milho morto, que se pisava e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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quebrava. De vez em que rifle trauteava tanto, e eram os estalos
passando, repassando, que, vai, se aconchava mão em orelha,
sem saber por que, feita uma esperança de se conseguir milagre
de algum barulhinho diverso outro, qualquer, que aquele não
fosse, na ensurdescência. E quando toró de chuva deu bomba,
desmanchando a função de briga e empapando todos,
ensolvando as armas. De se olhar em frente o morro, sem
desconfiança, e, de repente, do nu do morro, despejarem
descarga. De um entrar em poço, atravessando, e mesmo com
água quase até pelos peitos, ter de se virar em direção, e
desfechar. De como, no prazo duma hora só, careci de ir me
vendo escorando rifle e alvejando, em quentes, em beira de
mato e campo, em virada de espigão, descendo e subindo ramal
de ladeirinhas pequenas, e atrás de cerca, debaixo de cocho,
trepado em jatobá e pequizeiro, deitado no azul duma laje
grande, e rolando no bagaço doce de cana, e rebentando por
dentro de uma casa. E de companheiro em sopas de sangue
mais sujeira de suas tripas, lá dele, se abraçando com a gente, de
mandado da dor, para morrer só mesmo, seja que amaldiçoando,
em lei, toda mãe e todo pai. E como quando, no refervo,
combatendo no dano da mormaceira, a raiva de fúria de repente
igualava todos, nos mesmos urros e urros, uns e uns, contras e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 320 –
contrários – chega se queria combinar de botar fora as armas-defogo,
para o aproximaço de se avir em mãos às duras brancas,
para se oferecer fim, oferecer faca. Isso é isto. Sobejidão. O
senhor mais queria saber? Não? Eu sabia que não. Menos
mortandades. Aprecio uns assim feito o senhor-homem sagaz
solerte.
Vir voltemos. Aqueles dias eu empurrei, mudando em raiva
falsa a falta que Diadorim me fazia. Aí, curti amargos. Por me ver
casca em chão, que é o figurado de desprezo, e mais tudo o que
em ocasiões dessas se sente, conforme o senhor decerto conhece
e sabe. Mas o pior era o que eu mesmo mais sentia: feito se do
íntimo meu tivessem tirado o esteio-mor, pé-decasa. E, conforme
sempre se dá, segundo se está assim em calibre de cão, e
malquerente, repuxei idéias. Me alembrei do que tinha soprado
em intriga o Antenor, e dei razão à cisma dele: quem sabe,
mesmo, Joca Ramiro estava no propósito de deixar a gente se
acabar ali, na má guerra, em sertão plano? E então Diadorim
disso sabia, estava no enredo, agora tinha ido para junto de loca
Ramiro – que era a única pessoa que ele bastantemente prezava?
Fiquei em mim desiludido, caí numa lazeira. Mas cuspi três vezes
forte no chão, e risquei de mim Diadorim. Homem como eu não
é todo capaz de guardar a parte de amor, em desde que recebe
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 321 –
muitas ofensas de desdém. Só que, depois, o que há, é a alma
assim meio adoecida. Digo, fiquei lazo. Me veio de pensar em
falar com o Antenor. Não fiz. Dúvidas dessas, eu não ia repartir
com estranhas pessoas. E não gostei nunca de homem intrujão,
com esses não começo conversa: não hio e não chio. Tanto que
mesmo foi o Hermógenes que um dia me chamou, veio
caçoando: – “Eh, valente tu é, Tatarana! Gosto dessa sua
bizarria...”
– “S’as ordens, s’or...” – eu só falei. Porque, ele, pelo jeito,
logo entendi que ia me fazer algum espontâneo obséquio, ou me
dar alguma boa notícia; todo que um, assim, nessas horinhas,
logo muda de modo: antes, aproveita um tico para falar de cima,
jeitoso de dono bom ou de pai que cede. E foi que não errei. O
que o Hermógenes queria me prometer era que em breve iam
estar acabados aqueles riscos de trabalho e combate, com
liquidados os bebelos, e então a gente ficava livre para lidar
melhormente, atacando bons lugares, em serviço para chefes
políticos. E que, nessa ocasião, ele queria me escolher para
comandar uma parte dos seus, por ser isso de minha rija
competência – cabo-de-turma.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Tanto gabado elogio que não me mudou, não me fez.
Descarei. Experimentando o homem, só aproveitei foi para uma
deixa: – “Joca Ramiro...” – eu disse, com uma risadazinha minha
velhaca, que entre dois podia pegar qualquer incerto significado.
E me esperei. Mas o Hermógenes se saiu em só dizer, sério,
confioso: que Joca Ramiro era maludo capitão, vero, no real.
Sonsice de Hermógenes? Não, senhor. Sei e vi, que o sincero.
Por que era que todos davam assim tantas honras a Joca Ramiro,
esse louvo sereno, com doado? Isso meio me turvava. Mas, do
Hermógenes, então, me atormentou sempre aquele meu receio,
que eu carecia de pôr em raiva. Assim, por isso, falei em mim
comigo: – “A ele nego água, na boca do pote!” Esconjurar desse
jeito leve me trouxe sossego. Ao que eu carecia. Tanto mesmo
que eu não queria ter de pensar naquele Hermógenes, e o pensamento
nele sempre me vinha, ele figurando, eu cativo. Ser que
pensava, amiúde, em ele ser carrasco, como tanto se dizia, senhor
de todas as crueldades. No começo, aquilo me corria só os
calafrios de horror, a idéia minha refugava. Mas, a pouco, peguei
às vezes uma ponta de querer saber como tudo podia ser, eu
imaginava. Digo ao senhor: se o demônio existisse, e o senhor
visse, ah, o senhor não devia de, não convém espiar para esse,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 323 –
nem mi de minuto! – não pode, não deve-de! São se só as coisas
se sendo por pretas – e a gente de olhos fechados.
Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo
que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de
cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo
era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que
arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me
importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da
gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por
regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio
vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior
tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... ; aí,
outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo
carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu
prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se
estudar dessas matérias...
Daí, eu caçava o jeito de me espairecer, junto com todos.
Conversas com o Catocho, com Jõe Bexiguento, com o Vove,
com o Feijó – de mais sisudez – ou com Umbelino – o de cara
de gato. Se ria, fora de aperreio de combate muito se vadiava.
Assim-assei, naquela influição. Vinha ordem, então a gente se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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reunia em bando grande, depois tornava a em grupozinhos se
apartar. A guerra era a igual. E ali dava de se sentir o faltoso e o
imperfeito, como no mais acontece, em quantidade maior. O
São Francisco não é turvo sempre? E o que se falava mais era
em mulher? Isso fazia muito boa falta. Cada um queria delas, no
que só pensava. As mocinhas próprias de se provar, ou rua
alegre cheia de alegria – o bom sempre melhor, o bom. Amigo
meu, o Umbelino – esse que dizia: que, por não ter mulher ali,
se tinha de muito lembrar. Ele era do Rio Sirubim, de um lugar
para trás das cachoeiras. Valia como companheiro, capaz
d’armas. Que que pequeno, era bom. Relembrava: – “Já tive
uma mulher amigável só minha, na Rua-do-Alecrim, em São
Romão, e outra, mais, na Rua-do-Fogo...” Essas conversas, com
o calor. Calor em que cão pendura a língua, o senhor sabe. Já viu,
por aí? Em Januária ou São Francisco, tinha estação de tempo
em que não se podia deixar um ovo guardado: com umas duas ou
três horas, já se estragava. Todos contavam estórias de raparigas
que tinham sido simples somente; essas senvergonhagens. Mas,
de noite – é de crer? – a gente sabia dos que queriam qualquer
reles suficiente consolo. E eram brabos sarados guerreiros, que
nunca noutro ar. Coisas. Canta que cantavam, de dia, nenhum
sabia pé-de-verso direito, ou não queriam ensinar, era só aquela
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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invenção, e cantando fanhoso no nariz. Ou ficavam dizendo
graças e ditérios. Nem feito meninos não sendo. Por esse semquefazer,
a gente ainda mais comia, quase que por divertimento.
Os uns iam torar palmito, colher mandioca em mandiocalzinho
sem dono, dono tinha fugido longe. Gostei de favas do mato,
muito murici, quixaba e jaca. O Fonfredo tinha um blilbloquê, a
gente brincava de jogar. Tudo jogado a dinheiro baixo. Os
espertos, teve quem pôs a jogo até bentinho de pescoço, sem
dizer desrespeito. E faziam negócio desses breves, contado que
alguns arrumavam até escapulários falsos. Deus perdoa? O
senhor podia perguntar: Deus, para qualquer um jagunço, sendo
um inconstante patrão, que às vezes regia ajuda, mas, outras
horas, sem espécie nenhuma, desandava de lá – proteção se
acabou, e – pronto: marretava! Que rezavam. Jõe Bexiguento,
mesmo, quis que diversos tomassem parte em novena, numa mal
rezada novena, a santo de sua redobrada tenção, e a qual ele nem
teve persistência para nos dias medidos completar.
E – mas – o Hermógenes? Sobreveja o senhor o meu
descrever: ele vinha por ali, à refalsa, socapa de se rir e se divertir
no meio dos outros, sem a soberba, sendo em sendo o raposo
meco. Naqueles dias ele andava de pé-no-chão, mais com uma
calça apertada nas canelas e encurtada, e mesmo muito
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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esmolambado na camisa. Até que de barba grande, parecia um
pedidor. E caminhava com os largos passos, mais o muito nas
pontas, vinha e ia com um sorrizinho besteante, rodeava por toda
a parte. Nem eu no achar mais que ele era o ferrabrás? O que
parecia, era que assim estivesse o tempo todo produzindo alguma
tramóia.
Estudei uma dúvida. Ao que será que seria o ser daquele
homem, tudo? Algum tinha referido que ele era casado, com
mulher e filhos. Como podia? Ai-de vai, meu pensamento
constante querendo entender a natureza dele, virada diferente de
todas, a inocência daquela maldade. A qual que me aluava. O
Hermógenes, numa casa, em certo lugar, com sua mulher, ele
fazia festas em suas crianças pequenas, dava conselho, dava
ensino. Daí, saía. Feito lobisomem? Adiante de quem, atrás do
quê? A cruz o senhor faça, meu senhor! Aí eu acreditei que
tivesse de haver mesmo o inferno, um inferno; precisava. E o
demônio seria: o inteiro, louco, o doido completo – assim
irremediável.
Ah, me aluei? O Hermógenes, esquipático, diverso.
Comigo eu começava numa espécie, o ror, vontade de ir para
perto, reparar em tudo que fazia, dele escutar suas causas. Aos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 327 –
poucos, o incutido do incerto me acostumando, eu não tirava
isso da cabeça. O Hermógenes – ele dava a pena, dava medo.
Mas, ora vez, eu pressentia: que do demônio não se pode ter
pena, nenhuma, e a razão está aí. O demônio esbarra manso
mansinho, se fazendo de apeado, tanto tristonho, e, o senhor
pára próximo – aí então ele desanda em pulos e prezares de
dança, falando grosso, querendo abraçar e grossas caretas –
boca alargada. Porque ele é – é doido sem cura. Todo perigo. E,
naqueles dias, eu estava também muito confuso.
– “Será, o Hermógenes também gosta de mulheres?” – eu
careci de saber, perguntei. – “Eh. Apreceia não. Só se não
gosta...” – um disse. – “Quá. Acho que ele gosta demais é só nem
dele mesmo, demais, demais...” – algum outro atalhou. Que ele
era assim – eu fiquei em pausas –: e os companheiros todos
sabiam do ser; e achavam então que ato assim era possível
natural?! Como que não achavam? Até, por eu ter o assunto, já
um vinha: – “Daqui a seis léguas, é a baixada do Brejinho – lá
tem logradouro. Tem fêmeas...” Esse que disse era o Dute, me
parece; ou foi outro. Mas o Catocho desafirmou: que tinha
estado lá, não viu ar de mulher-davida nenhuma, só uma
vendinha de roça e uma velha pitando cachimbo, no batente
duma porta, pitando cachimbo e trançando peneiras. Que queJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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riam mulheres principalmente a fim, estava certo; eu também. Eu
queria, com as faces do corpo, mas também com entender um
carinho e melhorrespeito – sempre a essas do mel eu dei louvor
de meu agradecimento. Renego não, o que me é de doces usos:
graças a Deus toda a vida tive estima a toda meretriz, mulheres
que são as mais nossas irmãs, a gente precisa melhor delas, dessas
belas bondades. Mas o Lindorífico lembrava um pagode, em
algum ao lugarejo, para baixo de lá: do que batucavam, o propuxado
das sanfonas, cachaça muita, as mulheres vinham dar
umbigadas, tiravam a roupa, cavalheiros levavam damas nas
moitas, no escuro do sebo; outros desafiavam outros para brigar.
Para quê? Por que não gozar o geral, mas com educação, sem as
desordens? Saber aquilo me entristecia. Tem coisas que não são
de ruindade em si, mas danam, porque é ao caso de virarem, feito
o que não é feito. Feito a garapa que se azeda. Viver é muito
perigoso, já disse ao senhor. No mais, mal me lembro, mas sei
que, naqueles dias, eu estive muito maltrapilho. Em que era que
eu podia achar graça? De manhã, quando eu acordava, sempre
supria raiva. Um me disse que eu estava estando verde, má cara
de doença – e que devia de ser de figado. Pode que seja, tenha
sido. O Paspe, que cozinhava, cozinhou para mim os chás: o de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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macela, o de erva-doce, o de losna. Oi. Dor, mesmo, nenhuma eu
não tinha. Somente perrengueava.
Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de
uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com
raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em
outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho,
soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia
pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo
jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras
horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro
do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que,
o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha
significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me
crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela
raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono,
como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela
hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito
mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será
que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O
senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum
conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que
era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva
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mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte
raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa
própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o
sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e
fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto –
inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé,
em força para não esparramar raivas. Lembro que naquela manhã
também o calor era menos, e o ar era bondoso. Aí eu à paz –
com vontade de alegria – como se estimasse recebendo um aviso.
Demorei bom estado, sozinho, em beira d’água, escutei o fife
dum pássaro: sabiá ou saci. De repente, dei fé, e avistei: era
Diadorim que chegando, ele já parava perto de mim.
Ele mesmo me disse, com o sorriso sentido:
– “Como passou, Riobaldo? Não está contente por me
ver?”
A boa surpresa, Diadorim vindo feito um milagre alvo. Ao
que, pela pancada do meu coração. Aí, mas um resto de dúvida: a
inteira dúvida, que me embaraçava real, em a minha satisfação.
Eu era o que tinha, ele o que devia. Retente, então, permaneci;
não fiz mostra nenhuma. Esperei as primeiras palavras dele. Mais
falasse; retardei, limpei a goela.
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– “A pois. Por onde andou, se mal pergunto?” – aí falei.
Aquela amizade pontual, escolhida para toda a vida, dita a
minha nos grandes olhos, ele pronunciando:
– “Você também não está bom de saúde, Riobaldo, estou
vendo. Você derradeiramente não tem passado bem?”
– “Vivendo minha sorte, com lutas e guerras!”
Ao que Diadorim me deu a mão, que malamal aceitei. E ele
disse de contar. Segundo tinha procurado aqueles dias sozinho,
recolhido nas brenhas, para se tratar dum ferimento, tiro que
pegara na perna dele, perto do joelho, sido só de raspão. Menos
entendi. A real que estando ofendido, por que era que não havia
de vir para o meio da gente, para receber ajuda e ter melhor cura?
Doente não foge para um recanto, ou mato, solitário consigo,
feito bicho faz. Aquilo podia não ser verdade? Afiguro, aí bem
que criei suspeitas: aonde Diadorim não teria andado ido, e que
feia ação para aprontar, com parte na fingida estória? As
incertezas que tive, que não tive. Assaz ele falava assim afetuoso,
tão sem outras asas; e os olhos, de ver e de mostrar, de querer
bem, não consentiam de quadrar nenhum disfarce. Magro ele
estava, quasso, empalidecido muito, até ainda um pouco manJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cava. Que vida penosa não era capaz de ter levado, tantos dias,
sem o auxílio de ninguém, tratando o machucado com
emplastros de raízes e folhas, comendo o quê? Assunto de fome
e toda sorte de míngua devia de ter penado. E de repente eu
estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do
que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo
todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei. A
pois, o que sempre não é assim?
Além do que era sazão de sentimento sereno: arte que a
vida mais regateia. A vida não dá demora em nada. Nos
seguintes, logo tornamos para tornar em guerra, com
assanhamentos. De formas que perdi o semelhar de tantos
manejos e movimentos e a certa razão das ordens que a gente
cumpria. Mas fui me endurecendo às pressas, no fazer meu
particípio de jagunço, fiquei caminhadiço. Agora eu tinha
Diadorim assim perto de afeto, o que ainda valia mais no meio
desses perigos de fato. Sendo que a sorte também prevalecia do
nosso lado, aí vi: a morte é para os que morrem. Será?
Ao que, com João Goanhá de testa-chefe, saímos, uns
cinqüenta, pegar uma tropa de cargueiros dos bebelos, que
vinham ao descuidado, de noite, no Bento-Pedro – lugar num
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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braço de brejo, arrozal. Surpreender custou barato, bobearam as
sentinelas, sem se haver um grito-de-armas, foi só pôr em fugida.
Aquela carga era enorme, maior em dobro, uma riqueza – tinha
de tudo, até cachaça de pago imposto: as caixas de quarenta-eoito
garrafas cada. Ao tanto levamos os lotes de burros para
esconder no Capão dos Ossos, onde tem carrascais e caminhos
de caatinga pobre, com lagoas secando: as ipueiras verdolengas.
Daí, tivemos mando, no Poço-Triste, de tornar a amontar nos
animais. Aquilo era uma alegria. Minha alma estava: o troteio, a
poeirada que levantavam, os cavalos que rinchavam bem. Acinte
bebi água de de-dentro dum gravatá em flor. Aquelas aranhas
grandes armavam de árvore para árvore velhices de teia. Parecia
que a guerra já tinha se terminado bem. – “Berimbau!” – um
disse – “Agora é gozar gozo...” Mas. – “Ah, e Zé Bebelo?” –
perguntei. Um Federico Xexéu, que vinha de recado, botava o
fácil desânimo: – “Ih! Zé Bebel’? Evém ele, com gentes de
nuvens gentes...” A desléguas, se guerreava. A gente recebia a noticia.
Aí – cavalaria chusma, arruá que chegando, aos estropes,
terras arribavam: – “Eta, é?!” Sendo que era não. Só era Só
Candèlário, de repente. Apareceu, com aqueles muitos homens.
Sus, esbarrou o cavalo tão de repente, que o corpo dele se
encurtou pela metade. Só Candelário. Esse era alto, trigueiro azul,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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quase preto, com bigode amarelecido. Homem forçoso, homem
de fúria. Mandou que mandava. Em hora de fogo, pulava à frente
de todos, bramava o burro. Tomou a chefia geral, debaixo dele o
Hermógenes parecia um diabo coitado. Só Candelário era o para
enfrentar Zé Bebelo. Salvante que seria para tudo. Se apeou,
ficou um demorado tempo de costas para a gente.
Saudei o Fafafa, que era homem também dele: com os de
Só Candelário, o Alaripe e o Fafafa tinham outra vez aparecido.
O Fafafa, o que ele pois então me falou, numa ocasião terrível...
Ah, mas o que eu antes não contei: o do preso. Antes, como foi
que se passou, como estávamos em bons escondidos, em volta
da casa dum sitiante, no Timba-Tuvaca, casa caiada, casa-detelhas.
Uns em grota, uns em altos de árvores, tinha gente até
dentro de chiqueiro, na lama dos porcos. Aí chegaram os bebelos
– uns trinta? Tiroteamos na suspensão deles, os quantos que
matamos, matamos, os mais fugiram sem após. Um ficou preso.
Nem tinha nenhum ferimento. – “Que é que vão fazer com ele?”
– eu perguntei. Será que iam matar? – “É verdade, acho que sim.
Pois, amigo, a gente tem lá meios para guardar prisioneiro vivo?
Se degola é da banda da direita para a esquerda...” – o que o
Fafafa me respondendo. No que dizia, ele tinha razão. Mas,
quem seria que ia cumprir de dar o fim n’aquele pobre moço? O
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Hermógenes? Decerto era ele. Cocei os olhos, eu queria saber e
não saber. Sabia nem o nome, como se chamava o rapaz, que ia
morrer, assim no meio de toda boa ordem, por necessidade nossa
– porque, se solto, ele tornava a se juntar com os outros, dar
relatórios. Vim para a beira do córrego. Vendo como levavam o
rapaz, como ele caminhava normal, seguindo para aquilo com
seus dois pés. Essa injustiça não podia ser! Assim, os que
passavam, depois, que decerto iam para matar, eram outros, não
vi o Hermógenes. Um, um Adílcio, com vaidade de ser capaz da
maldade qualquer, pavão de penas. O outro, Luís Pajeú.
Imaginado, a que iam matar o homem, lá nas primeiras árvores
da capoeira, assim. Ânsia de dó, apalpei o nó na goela, ardi.
Aquilo fosse sonho mero, então só sonho; ou, não fosse, então
eu carecia de uma realidade no real, sem divago! Ajoelhei na
beirada, debrucei, bebi água com encostando a boca, com a cara,
feito um cachorro, um cavalo. A sede não passava, minha barriga
devia de estar inchada, igual a de um sapo, igual um saco de todo
tamanho. A umas cem braças para cima, onde o córrego
atravessava a capoeira, estavam esfaqueando o rapaz, e eu espiava
para a água, esperando ver vir misturado o sangue vermelho dele
– e que eu não era capaz de deixar de beber. Acho que eu estava
com uma febre.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Aquele grande gritar, de se estremecer. Diadorim me
puxou. Só Candelário subido em sela, aforçurado regendo: a
pronto ele queria o punhadão de homens, se ia para o É-Já, p’ra
lá do Bró, em todo o seguir. – “Vamos, Riobaldo! É para se
esperar Joca Ramiro...” Assim Diadorim me empurrou. Montei.
Sem tento, pisei um estribo, o outro o meu pé não achava. –
“Tocar ligeiro, Riobaldo!” – Diadorim me atanazando. Aquilo
que lavorava em minha cabeça – ah, mas, aí, quem é que eu vi?
O rapaz, aquele, o preso, vivo e exato. Também montado num
cavalo. Assim o que me contaram: que não ia morrer, não, iam
matar não, Só Candelário tinha favorecido perdão a ele, por
causa de sua mocidade. – “Ele é baiano, para a Bahia volta,
vamos levar mais adiante, para se soltar, para lá...” Me alegrei de
estrelas. Conforme mais me deram explicação, aquele não
oferecia perigo mais de tornar a se juntar com os outros bebelos
e vir outra vez de armas contra a gente: porque se tinha
providenciado de rezar nele uma reza de tirar a coragem de
guerra, feito ato, mandraca de se abobar! Tudo tinha graça. Mas,
e o Luís Pajeú e o Adílcio, então, do modo que vi? Pois, esses
passaram com as facas-de-arrasto, mas porque iam ajudar a
retalhar o porco, porção que se levava, dali, em carne e
toucinhos. Ah, eu tinha bebido àtoa gorgol d’água. Se deu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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galope. Me pareceu que daí adiante, a partir disso, o tudo era
para só ser a desatinada doidice. Só Candelário galopava em
frente de todos. Se ia – feito o rei dos ventos.
O lugar onde esbarramos, no É-Já, era logo depois da
ponte de pau, que estando esburacada: atravessamos mais
embaixo, mau vau, por espirro de águas e escorrego em lisas
pedras soltadas, no ribeirão lajeal. Ter, lá, ainda não tinha
ninguém; até me deu desengano. Mas tudo, no redor, era verde
capim em beira fresca, aguada e pastos bons. Atrevi que quis: –
“E Joca Ramiro?” Mas Diadorim se compôs: – “Agora, aqui,
Riobaldo, é o ponto: inimigo vindo, morremos; mas nem um
bebelo não tem licença quieta de passar!” Diadorim a tanto
impante, eu debiquei: – “Ah, me importa! Não é o que é se ver
Joca Ramiro? Pois eu estou vendo.” – “Rezinga não, Riobaldo. A
horas destas, Joca Ramiro deve de estar investindo aqueles, e
tudo destralhado vencendo...” – foi o que ele perfez. Atrás disso,
eu em ojeriza: – “Você sabe, hem, sabe. Os grandes segredos...”
– fui falei. Mas, em passos desses, Diadorim sempre me apeava.
Como o que reprovou: – “Sei de nada. Sei o que você pode saber
também, Riobaldo. Mas conheço Joca Ramiro, sozinho que
pensa as partes. Conheço Só Candelário – que só comparece é
em fecho de forte decisão...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ao que era. Nos dias em que tivemos de montar guarda
nos lajeiros e lajeados, aprendi os rasgos daquele homem. Só
Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era um. Acho
que nem dormia, comia o nada, nada, às pressas, pitava o tempo
todo. E olhava para os horizontes, sem paciência neles, parecia
querer mesmo: guerra, a guerra, muita guerra. Donde ele era,
donde vindo? Me disseram: desses desertos da Bahia. Passava,
não me olhava. Ocasião, então, Diadorim a ele me mostrou: –
“Este é o meu amigo Riobaldo, chefe...” Aí, Só Candelário me
divisou, sempre me viu. Rir sorrir ele não sabia – mas sossegava
um modo nos olhos, que tomavam um sério bom, por um seu
instante, apagando de serem aqueles olhos encarniçados: e isso
figurava de ser um riso. Que conhecia Diadorim, e prezando
muito, desde vi. – “Riobaldo, Tatarana, eu sei...” – ele falou –
“Tu atira bem, tem o adestro d’armas...” E foi andando; acho que
dele ainda ouvi: ...”amizade nas festas...”? Conseguia nem ficar
parado. E, por um ponto ou outro, que eu não divulguei bem, ele
tinha algum estilo de ar de parecença com o próprio Zé Bebelo.
Mas o Alaripe foi que me contou, uma coisa que todos
sabiam e nela falavam. Que Só Candelário caçava era a morte. E
bebia, quase constantemente, sua forte cachaça. Por quê? Digo
ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro. Pai dele
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– 339 –
tinha adoecido disso, e os irmãos dele também, depois e depois,
os que eram mais velhos. Lepra – mais não se diz: ai é que o
homem lambe a maldição de castigo. Castigo, de quê? Disso é
que decerto sucedia um ódio em Só Candelário. Vivia em fogo de
idéia. Lepra demora tempos, retardada no corpo, de repente é
que se brota; em qualquer hora, aquilo podia variar de aparecer.
Só Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a
camisa, espiar seus braços, a ponta do cotovelo, coçava a pele, de
em sangue se arranhar. E carregava espelhinho na algibeira, nele
furtava sempre uma olhada. Danado de tudo. A gente sabia que
ele tomava certos remédios – acordava com o propor da aurora,
o primeiro, bebia a triaga e saía para lavar o corpo, em poço, para
a beira do córrego ia indo, nu, nu, feito perna de jaburu. Aos
dava. Hoje, que penso, de todas as pessoas Só Candelário é o que
mais entendo. As favas fora, ele perseguia o morrer, por conta
futura da lepra; e, no mesmo do tempo, do mesmo jeito,
forcejava por se sarar. Sendo que queria morrer, só dava resultado
que mandava mortes, e matava. Doido, era? Quem não é,
mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava.
Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.
Tanto que o inimigo não dava de vir, pois bem, a gente
ficava em nervosias. Alguns, não. Feito aquele Luzié, que cantava
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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sem mágoas, cigarra de entre-chuvas. Às vezes, pedi que ele
cantasse para mim os versos, os que eu não esqueci nunca,
formal, a canção de Siruiz. Adiantes versos. E, quando ouvindo,
eu tinha vontade de brincar com eles. Minha mãe, ela era que
podia ter cantado para mim aquilo. A brandura de botar para se
esquecer uma porção de coisas – as bestas coisas em que a gente
no fazer e no nem pensar vive preso, só por precisão, mas sem
fidalguia. Diadorim, quando cuidava que sozinho estivesse,
cantarolava, fio que com boa voz. Mas, próximo da gente, nunca
que ele queria. A ver que também fiquei sabendo que os outros
não consideravam naqueles versos de Siruiz a beleza que eu
achava. Nem Diadorim, mesmo. – “Você tem saudade de seu
tempo de menino, Riobaldo?” – ele me perguntou, quando eu
estava explicando o que era o meu sentir. Nem não. Tinha
saudade nenhuma. O que eu queria era ser menino, mas agora,
naquela hora, se eu pudesse possível. Por certo que eu já estava
crespo da confusão de todos. Em desde aquele tempo, eu já
achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés
nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser
como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto
seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ao do jeito de Só Candelário? Esse variava raja. – “Arre,
que vê, estamos sem noticias, não sei... A notícia, a gente tem de
ir por ela, mesmo entrar no mundo para se buscar!” – isso Só
Candelário quase exclamava. Mandou três homens que saíssem a
cavalo, estrada avante, até a uma légua, colher do que houvesse,
espiar os espias. Me mandou, também. Mas, a bem dizer, fui eu
quem quis: na hora, à frente dei o passo, olhei muito para ele,
encarado. – “Tu Tatarana, vai...” Quando ele falava Tatarana, eu
assumia que ele estava sério prezando minha valia de atirador.
Montei, fui trotando travado. Diadorim e o Caçanje iam já mais
longe, regulado umas duzentas braças. Arte que perceberam que
eu vinha, se viraram nas selas. Diadorim levantou o braço, bateu
mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo
alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo filosofou: refugou baixo e
refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da
estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era, que
estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que
sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. Do vento. Do
vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a
briga de ventos. O quando um esbarra com outro, e se enrolam,
o doido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no
alto, o ponto às voltas, folharada, e ramaredo quebrado, no
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti
meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A
gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam
lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemonho!” – o Caçanje
falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda
do mar...” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que
fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali,
dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na
hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, rio meio do
redemunho... Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas
palavras, que o senhor nunca deve de renovar. Mas, me escute. A
gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e Diadorim se riram
também. Aí, tocamos.
Até à barra dos dois riachos, onde tem a cachoeira de
escadinhas. Nem pensei mais no redemoinho de vento, nem no
dono dele – que se diz – morador dentro, que viaja, o Sujo: o
que aceita as más palavras e pensamentos da gente, e que
completa tudo em obra; o que a gente pode ver em folha dum
espelho preto; o Ocultador. Ao então, chegamos na barra dos
riachinhos, na cachoeira; ficamos lá até o sol entrar. Como é que
se podia trazer notícias, para Só Candelário? Notícia é coisa que
se tira, a desejo, do fim do sol? Lá tinha um capão-de-mato. Ou
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era mata, muito velha. Os coatis desciam espirrando, de sua
sesta deles, nas árvores, e os jacus voavam para outras árvores,
se empoleirando para o sono da noite, com um escarcéu de
galinheiro. Tristeza é notícia? Tanto eu tinha um aperto de desânimo
de sina, vontade de morar em cidade grande. Mas que
cidade mesma grande nenhuma eu não conhecia, digo. Assim eu
aproveitei para olhar para a banda de donde ainda se praz
qualquer luz da tarde. Me lembro do espaço, pensamentos em
minha cabeça. O riacho cão, lambendo o que viesse. O coqueiro
se mesmando. A fantasia, minha agora, nesta conversa – o
senhor me atalhe. Se não, o senhor me diga: preto é preto?
branco é . branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo
de dentro da mocidade. Noitezinha, viemos. Primeira coruja que
a ãoar, eu era capaz de acertar nela um tiro.
Mas Só Candelário não era tolo nas meças. No outro dia,
notícias tivemos. E que! Dali a lá, as notícias todas andaram de
vir, em lote e réstia. Um Sucivre, que fino chegou, esgalopado.
Disse: – “Nhô Ricardão deu fogo, no Ribeirão do Veado. Titão
Passos pegou trinta e tantos deles, num bom combate, no
esporão da serra...” Os bebelos se desabelhavam zuretas, debaixo
de fatos machos e zuo de balas. A tanto, a gente em festa
se alegrava Só Candelário subiu no jirau de varas-que tinha
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mandado fazer, nele era que dormia sem repousar – e assim
espiou esquecido tempo, espiava as paradas distâncias, feito um
gavião querendo partir em vôo. Agora, era a guerra, mesmo,
estariam rompendo as aleluias, lá por lá. Donde, daí, veio o
Adalgizo: – “Seô Hermógenes passou, obra de seis léguas, vai
dar combate...” Nossa hora de fogo estava perto. Assim os
bebelos tinham de passar de fugida por ali no É-Já, resvés. Só
Candelário chega exclamava, chorava: dizia que nunca tinha
chefiado pessoal tão valente feito nós, com tantas capacidades.
E queria, logo, logo, o inimigo vindo. Todas as horas tocaiadas;
e de noite com um olho só se ia dormir, que das armas não se
largava. A redobrar as sentinelas, em ave-marias e alvorada.
Combate vem é feito raio cai. Tudo era alarme dado, cuquiada:
um pontapé em tição, o punhado de terra jogado para apagar as
fogueiras, de repente, e se assobiava cruzado. Vez, deram até
tiros: mas nada não era, só um boi loango, com muita fome e
pouco sono, que veio sozinho pastando e deu a cara comprida,
ali foras d’hora, no capinzal bom. – “Tudo que é estúrdio
comparece em tempo de guerra... Vote, vais!” – algum disse. E
teve gente que se riu disso, até à beira da madrugada. Daquilo
tudo eu gostei, gostava cada dia mais. Fui aprendendo a achar
graça no dessossego. Aprendi a medir a noite em meus dedos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Achei que em qualquer hora eu podia ter coragem. Isso que
vem, de mansinho, com uma risada boa, cachaça aos goles,
dormida com a gente encostado em coronha de sua arma. O que
carece é acompanheiragem de todos no simples, assim irmãos.
Diadorim e eu, a sombra da gente uma só uma formava.
Amizade, na lei dela. Como a gente estava, estava bem. Só
Candelário era o chefe ao meu gosto, como eu imaginava. Ah, e
Joca Ramiro?
Antes foi uma coisa acontecida repentina: aquele alvoroço,
na cavalhada geral. Aí o mundo de homens anunciando de si e
sobre o vasto chegando, da banda do Norte. Joca Ramiro! –
“Doca Ramiro!” – se gritava. Só Candelário pulou em sela,
assim como ele sempre era: mola de aço. Deu um galope, em
encontro. Nós todos, de começo, ficamos atarantados. Vi um
sol de alegria tanta, nos olhos de Diadorim, até me apoquentou.
Eu tinha ciúme? – “Riobaldo, tu vai ver como ele é!” –
Diadorim exclamou, se abraçou comigo. Parecia uma criança
pequena, naquela bela resumida satisfação. Como era que eu ia
poder raivar com aquilo? E, no abre-vento, a toda cavaleirama
chegando, empiquetados, com ferragem de cascos no
pedregulho. Eram de ser uns duzentos, quase tudo manosvelhos
baianos, gente nova trazida. Gritavam vivas para a gente,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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saudavam. E Joca Ramiro. A figura dele. Era ele, num cavalo
branco – cavalo que me olha de todos os altos. Numa sela
bordada, de Jequié, em lavores de preto-e-branco. As rédeas
bonitas, grossas, não sei de que trançado. E ele era um homem
de largos ombros, a cara grande, corada muito, aqueles olhos.
Como é que vou dizer ao senhor? Os cabelos pretos, anelados?
O chapéu bonito? Ele era um homem. Liso bonito. Nem tinha
mais outra coisa em que se reparar. A gente olhava, sem pousar
os olhos. A gente tinha até medo de que, com tanta aspereza da
vida, do serão, machucasse aquele homem maior, ferisse,
cortasse. E, quando ele saía, o que ficava mais, na gente, como
agrado em lembrança, era a voz. Uma voz sem pingo de dúvida,
nem tristeza. Uma voz que continuava.
Sobre o no meio daquele rebuliço, menos colhi de ver e de
escutar. Os chefes tinham apeado dos cavalos, e os homens,
todos, em balbúrdia com sensatez. Só Candelário não arredava
pé de Joca Ramiro, e explicava as diversas coisas, com grandes
gestos, quase ele não dava conta de se falar. A demora era
pouca. Aí o forte bando tinha de se aluir para adiante, em redobro
de marcha – iam para ferrar fogo, em lugar e hora
determinados – semelhante se soube. Tempo de beberem um
café. Mas Joca Ramiro veio de lá, em alargados vagarosos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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passos, queria correr o acampamento, saudar um e outro, a
palavrinha que fosse, um dito de apreço e apraz. O andar dele-vi
certo: alteado e imponente, como o de ninguém. Diadorim olhava;
e também tinha lágrimas vindo por caso. Decidido, deu um
à-frente, pegou a mão de Joca Ramiro, beijou. Joca Ramiro, que
firme contemplando, só um instante, seja, mas o docemente
achável, com um calor diferente de amizade. A quantia que ele
gostava de Diadorim! – e pousou nas costas dele um abraço. Ao
que, se virou para nós, que estávamos. E eu fiz como Diadorim
– nem sei porquê: peguei a mão daquele homem, beijei também.
Todos, os que eram mais moços, beijavam. Os mais velhos
tinham vergonha de beijar. – “Este aqui é o Riobaldo, o senhor
sabe? Meu amigo. A alcunha que alguns dizem é Tatarana...”
Isto Diadorim disse. A tento, Joca Ramiro, tornando a me ver,
fraseou: “Tatarana, pêlos bravos... Meu filho, você tem as
marcas de conciso valente. Riobaldo... Riobaldo...” Disse mais: –
“Espera. Acho que tenho um trem, para você...” Mandou vir o
dito, e um cabra chamado João Frio foi lá nos cargueiros, e
trouxe. Era um rifle reiúno, peguei: mosquetão de cavalaria.
Com aquilo, Joca Ramiro me obsequiava! Digo ao senhor:
minha satisfação não teve beiras. Pudessem afiar inveja em mim,
pudessem. Diadorim me olhava, com um contentamento. Me
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chamou de lado. Vi que, mesmo sendo assim querido e escolhido
de Joca Ramiro, ele procedia mais de ficar de longe, por
ninguém se queixar, não acharem que ali havia afilhadagem. –
“Não é que ele é mesmo o chefe de todos? Não é que é
mandante?” – Diadorim me perguntava. Era. Mas eu não
percebi o vivo do tempo que passava. Eles já estavam indo de
saída. Montado no cavale branco, Joca Ramiro deu uma
despedida. Vi que ele com os olhos caçou Diadorim. Só
Candelário gritou: – “Viva Jesus, em rotas e vantagens!” E, num
bufúrdio, todos esporaram, andaram, ao assaz. A alta poeira, que
demorava. Aquilo parecia uma música tocando.
Desde ver, a figura dele tinha parado no meio da gente,
noutra coisa não se falava. Aí em festa feita a gente tramava nas
armas: Joca Ramiro entrava direto em combate, então ia ser o
fim da guerra! – “Só Candelário queria ir também, mas teve de
aceitar ordem de ficar...” – Diadorim me explicou. Segundo
disse – que Só Candelário, por aquela ânsia e soência, de
avançar, a avançar, agora podia desequilibrar a boa regra de
tudo. Seria para ficar de espera, tapando o mundo aos que aqui
o mundo quisessem. Assim, mais, Joca Ramiro tinha mandado:
que nosso grupo se repartisse, em aos três ou quatro piquetes,
para valer de vigiar bem os vaus e suas estradas. Diadorim e eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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fizemos parte duma turma dessas, duns quinze homens, chefia
de João Curiol – fomos para a baixa dos Umbuzeiros, lugar feio,
com os gravatás poeirentos e uns levantados de pedra. Partindo
desse vau, a gente pega uma chapadinha – a Chapada-da-
Seriema-Correndo. A que parecia mesmo de propósito. Porque
foi lá, com todo o efeito, que a cara da caça se apareceu. Aquilo,
terrível. Conto já ao senhor, duma vez.
Terrível, tido, por causa da ligeireza com que aquilo veio.
Surpresa a gente sempre tem, o senhor sabe, mesmo em espera:
dá a vez, e não se vê, à parva. Não se crê que é. Tão de repente.
O vento vinha bom, da parte d’eles chegarem, de formas que o
galope pronto se ouviu. Escoramos as armas. Assim que eles
eram uns vinte. Passaram o ribeirão, com tanta pressa, que a
água se esguichou farta, vero bonito aquilo no sol. Demos fogo.
Do que podia suceder. Vi homem despencado demais, os
cavalos patatrás! Dada a desordem. Só cavalo sozinho podia
fugir, mas os homens no chão, no cata, cata. Ao que, a gente
atirava! Se morria, se matava, matava? Os cavalos, não. Mas teve
um, veio, à de se doidar, se espinoteava, o cavaleiro não
agüentava na rédea, chegaram até perto de nós, aí todos os dois
morreram de repente. Meu senhor: tudo numa estraga
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 350 –
extraordinária. Mas aqueles eram homens! Trampe logo que
puderam, os sobrantes deles se desapearam e rastejaram,
respondendo ao fogo. Ah, puderam tomar oculto atrás de outras
fragas de pedra, nisso a gente não conseguiu ter mão. Ainda
deviam de ser uns dez, ou uns oito. Afa que gritavam, em febre
de ódio, xingando todo nome. A gente, também. Anhãnhãe,
berrávamos fogo, quando sinal de homem tremeluzia. As balas
rachavam as pedras, só partiam escalhas. Um se mostrou, caiu
logo. Munição deles era pouca. Fugir, mesmo, não podiam. A
gente atirava. Aí deviam de ser uns seis – que é a meia-dúzia. –
“Aoê, sabe quem está lá, comandando?” – o rastejador Roque
me disse. – “Sabe quem?” Ah, eu sabia. Eu tinha sabido, o em
desde o primeiro momento. Era quem eu não queria para ser.
Era Zé Bebelo!
Assim eu condenado para matar.
Aqui eu não sei o que o senhor não sabe. – “A fogo! A
crevo!” – isto João Curiol gritava. Antes do depois, neles a gente
ia ir a pano de facão. – “Tralha! Lá vai obra, cão, carujo!
Roncolho!” – isto era a voz de Zé Bebelo, gritava. Eu não gritei.
Diadorim também atirava calado. Munição deles – quase
nenhuma. Eles deviam de ser uns quatro, ou três. O cano do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 351 –
meu rifle esquentava demais. – “Roncolho! Toma...” Um
Freitas, nosso, gritou, caiu muito ferido. A bala era de Zé
Bebelo. Atiramos, grosso. Eles respondendo. Respondiam
pouco. Deviam de ser... os quantos? Digo ao senhor: eu gostava
de Zé Bebelo. Redigo – que. eu menos atirava do que pensava.
Como era possível, assim, com minha ajuda, a morte dele? Um
homem daquela qualidade, o corpo dele, a idéia dele, tudo que
eu sabia e conhecia. Nessas coisas eu pensei. Sempre – Zé
Bebelo – a gente tinha que pensar. Um homem, coisa fraca em
si, macia mesmo, aos pulos de vida e morte, no meio das duras
pedras. Senti, em minha goela. Aquela culpa eu carregava?
Arresto gritei: – “Joca Ramiro quer esse homem vivo! loca Ramiro
quer este homem vivo! Joca Ramiro faz questão!...” A que
nem não sei como tive o repente de isso dizer – falso,
verdadeiro, inventado...
Gritei firme, repeti.
Os outros companheiros aceitavam aquilo, diziam
também, até João Curiol: – loca Ramiro quer este homem vivo!”
– “É ordem de Joca Ramiro!” De lá não atiravam mais. Só bala
ou outra, só. – “Arre, à unha, chefe?” – o Sangue-de-Outro
perguntou. João Curiol respondeu que não. Eles deviam de estar
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 352 –
reservando balas para um final. – “Ordem de loca Ramiro: é
pegar o homem vivo...” – ainda eu disse. Ali Zé Bebelo eu salvasse.
Todos aprovaram. Eu sei, eu sei? O senhor agora vai não
me entendes, O como são as coisas. Todos me aprovaram – e,
aí, extraordinariamente, eu dei um salto de espírito. O que? Mas,
então, eu não tinha pensado tudo, o real?! O que era que eu
estava fazendo, que era que eu estava querendo – que pegassem
vivo Zé Bebelo, em carnes e ossos, para depois judiarem com
ele, matarem de outro pior jeito, a fácil?! Minha raiva deu em
mim. Me mordi, me abri, me-amargo. Tanto tudo ia sendo
sempre’ por minha culpa! E daí pedi tudo ao rifle é às
cartucheiras. Eu atirava, atirava: queria, por toda a lei, alcançar
um tiro em Zé Bebelo, para acabar com ele de uma vez, sem
martírio de sofrimentos. – “Tu está louco, Riobaldo?” –
Diadorim gritou, rastejando para perto de mim, travando em
meu braço. – “Joca Ramiroquer o homem vivo! Joca Ramiro
quer, deu ordem!” – todos agora me gritavam. Assim contra
mim, assim todos. O que eu havia de desmentir? E não vi
direito, o fato. O que vi foi Zé Bebelo aparecendo, de repente,
garnisé. O que ele tinha numa mão, era o punhal; na outra uma
garrucha grande, fogo-central. Mas descarregou a garrucha,
atirando no chão, perto dos pés dele, mesmo. Arrancou poeira.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 353 –
Por trás daquela poeira ele reapareceu, dava pensamento assim –
aprumado, teso; de briga. Lampejou com o punhal, e esperou.
Ele mesmo estava querendo morrer à brava, depressamente.
Olhei, olhei. De atirar nele, de todo jeito não tive coragem. Ah,
não tinha! E um dos nossos, não sei quem, jogou o laço. Zé
Bebelo mal ainda bateu com um pé, por se firmar, e caiu,
arrastado, voz que gritou: – “Canalha! Canalha!” Mas todos
foram nele, desarmaram do punhal. Eu parei quieto, vago, se me
estranho. Não queria, ah não queria que ele me reconhecesse.
Sobrevinha o tropel grande de cavaleiros. Aos quais: era
Joca Ramiro; com sua gente total. Subiu pó e pó, por ouros,
poeira de entupir o narii e os olhos. Agarrei de mim, sentado lá,
no mesmo meu lugar, atrás do pedação de pedra. O que eu
estava era envergonhado. O fuzuê se fez um enorme. Sendo
que chegavam também os outros grupos nossos, escutei os
brados de Só Candelário. A roda de cavaleiros tantos, no raso,
sempre maior. Algum soprou o buzo do corno de boi. Tocavam
para o acampamento. Mas Diadorim estava me caçando, e mais
João Curiol, pelos mortos e feridos que também tínhamos, e
também ali ele devia de ter perdido algum trem seu, objeto. –
“Homem danado...” – ouvi o que um dizia. Meus olhos
firmavam no chão, agora eu via que tremia. – “Ipa! Zé Bebelo,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 354 –
oxém, ganhou patente. É estragador!” Eu falei: – “É?” – e neste
entretanto. Ao menos Diadorim raiava, o todo alegre, às quase
danças: – “Vencemos, Riobaldo! Acabou-se a guerra. A mais,
Joca Ramiro apreciou bem que a gente tivesse pegado o homem
vivo...” Aquilo me rendia pouco sossego. E depois? – “Para que,
Diadorim? Agora matam? Vão matar?” Mal perguntei. Mas o
João Curiol virou e disse: – “Matar não. Vão dar julga; mento...”
– “Julgamento?” – não ri, não entendi.
– “Aposto que sei. Aí foi ele mesmo quem quis. O
homem estúrdio! Foi defrontar com Joca Ramiro, e, assim
agarrado preso, do jeito como desgraçado estava, brabo gritou:
– Assaca! Ou me matam logo, aqui, ou então eu exijo
julgamento correto legal!... e foi. Aí Joca Ramiroconsentiu,
apraz-me, prometeu julgamento já...” – isto o que falou João
Curiol, para me dar a explicação.
Agradeci mesmo isso, a cisma não era para pôr peso em
meus peitos. Saímos ainda com João Concliz, a ir em longe
arredor, prevenir os que faltavam. A vinda geral. A gente de
Titão Passos e do Hermógenes mandava aviso de estarem em
caminho. Os do Ricardão já aos tantos chegavam. Saí, com esses
de João Concliz. Fui. Fiz questão. Eu não queria retornar logo,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 355 –
com os outros, não enxergar Zé Bebelo eu achava melhor.
Montamos e sumimos por aqueles campos, essa estrada, esses
pequizeiros. – “Homem engraçado, homem doido!” – Diadorim
ainda achava. – “Sabe o que ele falou, como foi?” E me deu
notícia.
Tinha sido aquilo: Joca Ramirochegando, real, em seu alto
cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo a pé, rasgado e sujo,
sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro
por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o
queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse:
– “Dê respeito, chefe. O senhor está diante de mim, o
grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!”
– “O senhor se acalme. O senhor está preso...” – Joca
Ramiro respondeu, sem levantar a voz.
Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou
de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:
– “Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas,
então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é
o que o senhor vai ver...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 356 –
– “Vejo um homem valente, preso...” – aí o que disse Joca
Ramiro, disse com consideração.
– “Isso. Certo. Se estou preso... é outra coisa...” – “O que,
mano velho?”
“... É, é o mundo à revelia!...” – isso foi o fecho do que Zé
Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas.
Assim isso. Toleimas todas? Não por não. Também o que
eu não entendia possível era Zé Bebelo preso. Ele não era
criatura que se prende, pessoa coisa de se haver às mãos.
Azougue vapor...
E ia ter o julgamento.
Tanto que voltamos, manhã cedinho estávamos lá, no
acampo, debaixo de forma. Arte, o julgamento? O que isso tinha
de ser, achei logo que ninguém ao certo não sabia. O
Hermógenes me’ ouviu, e gostou: – “É e é. Vamos ver, vamos
ver, o que não sendo dos usos...” – foi o que ele citou. – “Ei,
agora é julgamento!” – os muitos caçoavam, em festa fona.
Cacei de escutar os outros. – “Está certo, está direito. Joca
Ramirosabe o que faz-..” – foi o que disse Titão Passos. –
“Melhor, mesmo. Carece de se terminar o mais definitivo com
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 357 –
essa cambada!” – falou Ricardão. E só Candelário, que agora não
se apeava, vinha exclamando: – “Julgamento É isto! Têm de
saber quem é que manda, quem é que pode!” Ao espraia as
margens.
Agora estavam todos mais todos reunidos, estávamos no
acampamento do É-Já, onde ali mal tanto povo cabia, e lotes e
pontas de burros, a cavalhada pastando, jagunços de toda raça e
qualidade, que iam e vinham, co, miam, bebiam, bafafavam. Só
Candelário tinha remetido dois homens, longe, no São José
Preto, só para comprarem foguetes, que no fim teriarA de
pipocar. E onde estava Zé Bebelo? Apartado, recolhido de toda
vista, numa tenda de lona – essa única que se tinha, porque Joca
Ramiro mesmo se desacostumava de dormir em barraca, por o
abafo do calor. Não se podia ver o prisioneiro, que ficava lá
dentro, feito guardado. Contaram que ele aceitava comida e água,
e estivesse deitado num couro de vaca, pitando e pensando.
Gostei. O de que eu carecia era de que ele não botasse olhos em
mim. Eu apreciava tanto aquele homem, e agora ele não havia de
ser meu pesadelo. – “Aonde é que vamos? Onde é que esse
julgamento vai ser?” – perguntei a Diadorim, quando surpreendi
os suspensos de se ter saída. – “Homem, não sei...” –; Diadorim
disso não sabia. Só depois se espalhou voz. Ao que se ia para a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 358 –
Fazenda Sempre-Verde, depois da Fazenda Brejinho-do-Brejo,
aquela a do doutor Mirabô de Melo.
Mas, por que causa iam dar com aquele homem tamanha
passeata? Carecia algum? Diadorim não me respondeu. Mas, pelo
que não disse e disso, tirei por tino. Assim que Joca Ramiro fazia
questã de navegar três léguas a longe com acompanhamento de
todos os jagunços e capatazes e chefes, e g prisioneiro levado em
riba dum cavalo preto, e todas as tropas, com munição, coisas
tomadas, e mantimentos de comida, rumo do Norte – tudo por
glória. O julgamento, também. Estava certo? Saímos, de trabuz.
No naquele, a gente podia ver resenho de toda geração de
montadas. Zé Bebelo lá ia, rodeado por cavaleiros de guarda,
pessoal de Titão Passos, logo na cabeça do cortejo. Ia com as
mãos amarradas, como de uso? Amarrar as mãos não adiantava.
Eu não quis ver. Me dava travo, me ensombrecia. Fui ficando
para trás. Zé Bebelo, lá preso demais, em conduzido. Aquilo com
aquilo – aí a minha idéia diminuía. Tanto o antes, que fiz a
viagem toda na rabeira, ladeando o bando bonzinho de jegues
orelhudos, que fechavam a marcha. A pobreza primeira deles me
consolava – os jumentinhos, feito meninos. Mas ainda pensei: –
ele bom ou ele ruim, podiam acabar com Zé Bebelo? Quem tinha
capacidade de pôr Zé Bebelo em julgamento?! Então, ressenti um
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 359 –
fundo desânimo. Sem mais Zé Bebelo, então, o restado consolo
só mesmo podia ser aqueles jericos baianos, que de nascença
sabiam todas as estradas.
Assim passamos pelo Brejinho-do-Brejo, assim chegamos
na Sempre Verde. Aí fomos chegando. Que me deu, de repente?
Esporeei e galopeis para dianteira, fomentado, repinchando
dessas angústias. Vim. Eu queriá sobressalto de estar ali perto,
catar tudo nos olhos, o que acontecia maior. Nem não importei
mais que Zé Bebelo me visse. Passei quase para a frente de todos.
Estavam pensando que eu viesse com um recado. – “Que foi,
Riobaldo, que foi?” – gritou para mim Diadorim. Dei nenhuma
resposta. pessoa ali não me entendia. Só mesmo Zé Bebelo era
quem pudesse me entender.
A Fazenda Sempre-Verde era a casa enorme, viemos saindo
da estrada e entrando nas cheganças, os currais-de-ajuntamento.
Aquele mundo de gente, que fazia vulto. Parecia um mortório.
Antes passei, afanhou a porteira, aí fomos enchendo os currais,
com tantos os nossos cavalos. A casade-fazenda estava fechada.
– “Não carece de se abrir... Não carece de se abrir...” – era uma
ordem que todos repetiam, de voz em voz. Ave, não
arrombassem, aquilo era de amigos, o doutor Mirabô de Melo,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 360 –
mesmo ausente. Esbarramos no eirado, liso, grande, de tanto
tamanho. Aí tinham apeado Zé Bebelo do cavalo, ele estava com
as mão amarradas, sim, mas adiante do corpo, feito algemas. –
“Ata amarra os pés também!” – algum enfezado gritou. Outro se
chegou, com uma boa peia, de couro de capivara. Que era que
aquela gente pensavam? Que era que queriam? Doideira de
todos. Daí, Joca Ramiro, Só Candelário, o Hermógenes, o
Ricardão, Titão Passos, João Goanhá, eles todos reunidos no
meio do eirado, numa confa. Mas Zé Bebelo não estava
aperreado. Tomou corpo, num alteamento – feito quando o peru
estufa e estoura – e caminhou, em direitura. Que que pequeno,
era bom: homem às graças. Caminhou, mesmo. – “Oxente!” Para
diante de Joca Ramiro, no meio do eirado, tinham trazido um
mocho, deixado botado lá; era um tamborete de tripés, o assento
de couro. Zé Bebelo, ligeiro, nele se sentou. – “Oxente!” – se
dizia. A jagunçama veio avançando, feito um rodear de gado –
fecharam tudo, só deixando aquele centro, com Zé Bebelo
sentado simples e Joca Ramiro em pé, Ricardão em pé, Só
Candelário em pé, o Hermógenes, João Goanhá, Titão Passos,
todos! Aquilo, sim, que sendo um atrevimento; caso não, o que,
maluqueira só. Só ele sentado, no mocho, no meio de tudo. Ao
que, cruzou as pernas. E:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Se abanquem... Se abanquem, senhores! Não se
vexem...” – ainda falou, de papeata, com vênias e acionados, e
aqueles gestos de cotovelo, querendo mostrar o chão em roda, o
dele.
Arte em esturdice, nunca vista. O que vendo, os outros se
franziram, faiscando. Acho que iam matar, não podiam ser assim
desfeiteados, não iam aturar aquela zombaria. Foi um silêncio,
todo. Mandaram a gente abrir muito mais a roda, para o espaço
ficar sendo todo maior. Se fez.
Mas, de repente, Joca Ramiro, astuto natural, aceitou o
louco oferecimento de se abancar: risonho ligeiro se sentou, no
chão, defronte de Zé Bebelo. Os dois mesmos se olharam.
Aquilo tudo tinha sido tão depressa, e correu por todos um
arruído entusiasmado, dando aprovação. Ah, Joca Ramiro para
tudo tinha resposta: Joca Ramiro era lorde, homem acreditado
pelo seu valor.
A modo que – Zé Bebelo – sabe o senhor então o que ele
fez? Se levantou, jogou para um lado o tamborete, com pontapé,
e a esforço se sentou no chão também, diante de Joca Ramiro.
Foi aquele falatório geral, contente. De coisas de tarasco, assim, a
gente não gostava? E até os outros chefes, todos, um por um,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 362 –
mudaram de jeito: não se sentaram também, mas foram ficando
moleados ou agachados, por nivelar e não diferir. Ao que o
povaréu jagunço, com ansiedade de ver e ouvir o que se desse, se
espremendo em volta, sem remangar das armas. Aquele povo –
rio que se enche com intervalo dos estremecimentos, regular,
como o piscar de olho dum papagaio. Vigiei o Hermógenes. Eu
sabia: dele havia de vir o pior. Com o que, todo o mundo parado,
formaram uns silêncios. Menos no mais, Joca Ramiro ia falar as
palavras consagradas?
– “O senhor pediu julgamento...” – ele perguntou, com
voz cheia, em beleza de calma.
– “Toda hora eu estou em julgamento.”
Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? Mas ele
não estava lorpa nem desfeliz, bom para a forca. Que até capivara
se senta é para pensar – não é para se entristecer. E rodou
aprumada a cara, vistoriando as caras de tantos homens. Ar que
inchou o peito e o queixo levantou, valendo se valendo. Criatura
assim sente tudo adivinhado, de relâmpago, na ponta dos olhos
da gente. Eu tinha confiança nele.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado, duma vez.
Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso...” – Joca Ramiro fraseou.
– “Com efeito! Se era para isso, então, para que tanto
requifife?” – Zé Bebelo repostou, com toda a ligeireza.
De ouvir, dividi o riso do siso. A pois! Ele mesmo tinha
inventado exigido esse julgamento, e agora torcia o motivo:
como se em fim de um julgamento ninguém competisse de ser
fuzilado... Saranga ele não era. Mas estava brincando com a
morte, que para cada hora livrava. Ao que bastava Joca Ramiro
perder um ponto da paciência, um pouco. Só que, por sorte, paciência
Joca Ramiro nunca perdia; motejou, não mais:
– “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá
para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão,
viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença
aprendida não adiantou para nada... Serviu algum?”
– “Sempre serve, chefe: perdi – conheço que perdi. Vocês
ganharam. Sabem lá? Que foi que tiveram de ganho?”
O puro lorotal. E atrevimento, muito. Os jagunços em roda
não entendiam o escutado; e uns indicavam por gestos que Zé
Bebelo estava gira da idéia, outros quadrando um calado de mau
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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sinal. Até o que disse: – “De lá não sai barca!” Assim se diz. Joca
Ramiro não reveio logo. Mexeu com as sobrancelhas. Só, daí:
– “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os
sertanejos de seu costume velho de lei...”
– “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho
valeu enquanto foi novo...”
– “O senhor não é do sertão. Não é da terra...”
– “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que
galinha come e cata: esgaravata!”
Que visse o senhor os homens: o prospeito. Aqueles
muitos homens, completamente, os de cá e os de lá, cercando o
oco em raia da roda, com as coronhas no chão, e as tantas caras,
como sacudiam as cabeças, com os chapéus rebuçantes. Joca
Ramiro tinha poder sobre eles. Joca Ramiro era quem dispunha.
Bastava vozear curto e mandar. Ou fazer aquele bom sorriso,
debaixo dos bigodes, e falar, como falava constante, com um
modo manso muito proveitoso: – “Meus meninos... Meus
filhos...” Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o
senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam
referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 365 –
Estavam escutando sem entender, estavam ouvindo missa. Um,
por si, de nada não sabia; mas a montoeira deles, exata, soubesse
tudo. Estudei foi os chefes.
Naquela hora, o senhor reparasse, que é que notava? Nada,
mesmo. O senhor mal conhece esta gente sertaneja. Em tudo,
eles gostam de alguma demora. Por mim, vi: assim serenados
assim, os cabras estavam desejando querendo o sério
divertimento. Mas, os chefes cabecilhas, esses, ao que menos:
expunham um certo se aborrecer, segundo seja? Cada um
conspirava suas idéias a respeito do prosseguir, e cumpriam seus
manejos no geral, esses com suas responsabilidades. Uns
descombinavam dos outros, no sutil. Eles pensavam. Conforme
vi. Só Candelário duma banda de Joca Ramiro, com Titão Passos
e João Goanhá; o Ricardão da outra, com o Hermógenes. Atual
Zé Bebelo foi começando a conversar comprido, na taramelagem
como de seu gosto – aí o Ricardão armou um bocejo; e Titão
Passos se desacocorou, com a mão num ombro, que devia de ter
algum machucado. O Hermógenes fez beiço. João Goanhá,
aquele ar sonsado, quase de tolo, no grosso do semblante. O
Hermógenes botava pontas de olhar, some escuro, nuns visos. Só
Candelário, ficado em pé, sacudia o moroso das pernas.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Joca Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete. Porque
ele sobre se virou, para Só Candelário, ao de indagar:
– “Meu compadre, que é que se acha?”
Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que
tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não
podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os
onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as
palavras para dizer, disse:
– “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu...”
A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme
se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância.
Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de
propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro
esperou um instante:
– “A gente pode principiar a acusação.”
Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo.
Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por
mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que
ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em
combates, e que agora ia receber continuação de seu destino.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 367 –
Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava
para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse,
podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as
ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena.
Rés o que começasse, quem? O Hermógenes limpou a
goela. De primeira entrada eu vinha sabendo – esse
Hermógenes precisava de muitas vinganças.
Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras,
homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em
retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece
de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos.
Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse
fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão,
e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o
inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal,
de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que
a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída.
Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava
que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim,
conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou
em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha
levantado, para falar:
– “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar
este cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado
no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se
vida sobrava, para não sobrar!”
– “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e
batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau
em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não
somou; foi pondo:
– “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que
ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu
com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com
sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do
Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos... Merece ter
vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!”
– “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim
contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes
remedou, de feias caretas.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes
então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!”
– “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo
perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu.
- “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos
amarradas...”
Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu
ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá,
cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que
Zé Bebelo ia poder fazer? Isto:
– “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!...”
– disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu
chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer
raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era
enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez
menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte
costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma
aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele
ainda está é azuretado...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé
Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal,
raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque
acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas
de ofensa de insulto...” – Encarou o Hermógenes: – “Homem:
não abusa homem! Não alarga a voz!...”
Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no
poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para
todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz
torta entortada:
– “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me
agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e
preso... Meu direito é acabar com ele, Chefe!”
Vi a mão do perigo. Muitos homens resmungaram em
aprovo, ali rodeando, os tantos, dez ou vinte círculos, anéis de
gente. Rentes os do bando do Hermógenes chegaram a dar altas
palavras, de calca pá. Questionou-se a respeito disso? Tinham
barulhos na voz. Mesmo os chefes entre si cochicharam. Mas
Joca Ramiro sabia represar os excessos, Joca Ramiro era mesmo
o tutumumbuca, grande maioral. Temperou somente:
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– 371 –
– “Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo...”
E era verdade. Todo o mundo concordou, pelo que vi de
todos. Só para o nome-da-mãe ou de “ladrão” era que não havia
remédio, por ser a ofensa grave. Com Joca Ramiro explicar
assim, não havia jagunço que não aceitasse o razoável da
ponderação, o relembrado. O Hermógenes mesmo se melou na
atrapalhação das ligeirezas, e aí tinha de condizer. Nada ele não
disse: mas abriu quadrada a boca, em careta de quem provou
pedra de sal. E Zé Bebelo mesmo aproveitou para mudar o
aspecto – para uma certa circunspecção. Se via que ele pensava a
curto ganho no estreito, por detrás daquele sonsar. Trabalho de
idéia em aperto, pelo pão de salvar sua vida da estrosca.
Imediato, Joca Ramiro deu a vez a Só Candelário, não
deixando frouxura de tempo para mais motim: – “Hê, e você,
compadre? Qual é a acu. sação que se tem?”
Sobre o que, sobreveio Só Candelário, arre avante, aos
priscos, a figura muita, o gibão desombrado. Sobrava fala: –
“Com efeito! Com efeito!...” – falou. Vai, vai, forteou mais a voz:
– “Só quero pergunta: se ele convérn em nós dois resolvermos
isto à faca! Pergunto para briga de duelo... É o que acho! Carece
mais de discussão não... Zé Bebelo e eu – nós dois, na faca!...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 372 –
Só Candelário mais longe não conseguia de dizer, só repetia
aquilo, desafio, e no mais se mexer, feito com são-guido ou
escaravelho. Sem raiva quase nenhuma – notei; mas também sem
nenhuma paciência. Só Candelário sendo assim. Mas aí Joca
Ramiro remediou, dizendo, resistencioso, e escondeu o de que
ria:
– “Resultado e condena, a gente deixa para o fim,
compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das
culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”
– “Crime?... Crime não vejo. É o que acho, por mim é o
que declaró com a opinião dos outros não me assopro. Que
crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A
gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço – aos peitos,
papos. Isso é crime? Perdeu, rachou feito umbuzeiro que boi
comeu por metade... Mas brigou valente, mereceu... Crime, que
sei, é fazer traição, ser ladrão de cavalos ou de gado... não
cumprir a palavra...”
– “Sempre eu cumpro a palavra dada!” – gritou de lá Zé
Bebelo... Só Candelário olhou encarado para ele, rente repente,
como se nos instantes antes não soubesse que ele estava ali a três
passos. Só assim mesmo prosseguiu:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 373 –
– “... Pois, sendo assim, o que acho é que se deve de tornar
a soltar este homem, com o compromisso de ir ajuntar outra vez
seu pessoal dele e voltar aqui no Norte, para a guerra poder
continuar mais, perfeita, diversificada...”
Ressaltados, os homens, ouvindo isso, rosnaram de bem, cá
e lá: coragem sempre agradava. Diadorim apertou meu braço,
como sussurrou: – “Doideira, dele. Riobaldo, Só Candelário está
doido varrido...” Aí podia ser. Mas eu tinha relanceado um afio
de onde ódio que ele mirou no Her-, mógenes, enquanto falando;
e entendi: Só Candelário não gostava do Hermógenes! Sendo que
ele podia até nem saber disso, não ter noção firme de que não
gostava; mas era a maior verdade. Sucinto, só por conta disso, eu
apreciei demais aquele rompante.
Só Candelário esbarrou de falar, secado. Só aos bufos,
surdo de se ver que ele tinha feito o grande esforço todo,
sopitante. Se afundava para os altos.
– “Apraz ao senhor, compadre Ricardão?” – Joca Ramiro
solicitou, passando a vez.
Aquele retardou tanto para começar a dizer, que pensei
fosse ficar para sempre calado. Ele era o famoso Ricardão, o
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– 374 –
homem das beiras do Verde Pequeno. Amigo acorçoado de
importantes políticos, e dono de muitas posses. Composto
homem volumoso, de meças. Se gordo próprio não era, isso só
por no sertão não se ver nenhum homem gordo. Mas um não
podia deixar de se admirar do peso de tanta corpulência, a coisa
de zebu guzerate. As carnes socadas em si – parecia que ele
comesse muito mais do que todo o mundo – mais feijão, fubá de
milho, mais arroz e farofa –, tudo imprensado, calcado, sacas e
sacas. Afinal, ele falou: fosse o Almirante Balão:
– “Compadre Joca Ramiro, o senhor é o chefe. O que a
gente viu, o senhor vê, o que a gente sabe o senhor sabe. Nem
carecia que cada um desse opinião, mas o senhor quer ceder alar
de prezar a palavra de todos, e a gente recebe essa boa prova...
Ao que agradecemos, como devido. Agora, eu sirvo a razão de
meu compadre Hermógenes: que este homem Zé Bebelo veio
caçar a gente, no Norte sertão, como mandadeiro de políticos e
do Governo, se diz até que a soldo... A que perdeu, perdeu, mas
deu muita lida, prejuízos. Sérios perigos, em que estivemos; o
senhor sabe bem, compadre Chefe. Dou a conta dos
companheiros nossos que ele matou, que eles mataram. Isso se
pode repor? E os que ficaram inutilizados feridos, tantos e
tantos... Sangue e os sofrimentos desses clamam. Agora, que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 375 –
vencemos, chegou a hora dessa vingança de desforra. A ver,
fosse ele que vencesse, e nós não, onde era que uma hora destas
a gente estava? Tristes mortos, todos, ou presos, mandados em
ferros para o quartel da Diamantina, para muitas cadeias, para a
capital do Estado. Nós todos, até o senhor mesmo, sei lá.
Encareço, chefe. A gente não tem cadeia, tem outro despacho
não, que dar a este; só um: é a misericórdia duma boa bala, de
mete-bucha, e a arte está acabada e acertada. Assim que veio, não
sabia que o fim mais fácil é esse? Com os outros, não se fez? Lei
de jagunço é o momento, o menos luxos. Relembro também que
a responsabilidade nossa está valendo: respeitante ao seo Sul de
Oliveira, doutor Mirabô de Melo, o velho Nico Estácio,
compadre Nhô Lajes e coronel Caetano Cordeiro... Esses estão
agüentando acossamento do Governo, tiveram de sair de suas
terras e fazendas, no que produziram uma grande quebra, vai
tudo na mesma desordem... A pois, em nome deles, mesmo, eu
sou deste parecer. A condena seja: sem tardança! Zé Bebelo,
mesmo zureta, sem responsabilidade nenhuma, verte pemba,
perigoso. A condena que vale, legal, é um tiro de arma. Aqui,
chefe – eu voto!...”
A babas do que ele vinha falando, o povaréu jagunço movia
que louvava, confirmava. Aí, nhães, pelos que davam mais
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 376 –
demonstração, medi quantidade dos que eram do Ricardão
próprio. Zé Bebelo estava definito – eu pensei – qualquer
rumorzinho de salvação para ele se mermando, se no mel, no
p’ra passar. Mire e veja o senhor: e o pior de tudo era que eu
mesmo tinha de achar correto o razoado do Ricardão,
reconhecer a verdade daquelas palavras relatadas. Isso achei,
meio me entristeci. Por quê? O justo que era, aquilo estava certo.
Mas, de outros modos – que bem não sei – não estava. Assim,
por curta idéia que eu queira dividir: certo, no que Zé Bebelo
tinha feito; mas errado no que Zé Bebelo era e não era. Quem
sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é
sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh,
bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa;
carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às
cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito
perigoso, mesmo.
Nisso, Joca Ramiro já tinha transferido a mão de fala a
Titão Passos – esse era como um filho de Joca Ramiro, estava
com ele nos segredos simples da amizade. Abri ouvidos. Idéia me
veio que ia valer vivo o que ele falasse. Aí foi:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 377 –
– “Ao que aprecio também, Chefe, a distinção minha desta
ocasião, de dar meu voto. Não estou contra a razão de
companheiro nenhum, nem por contestar. Mas eu cá sei de toda
consciência que tenho, a responsabilidade. Sei que estou como
debaixo de juramento: sei porque de jurado já servi; uma vez, no
júri da Januária... Sem querer ofender ninguém – vou afiançando.
O que eu acho é que é o seguinte: que este homem não tem
crime constável. Pode ter crime para o Governo, para delegado e
juiz-de-direito, para tenente de soldados. Mas a gente é
sertanejos, ou não é sertanejos? Ele quis vir guerrear, veio –
achou guerreiros! Nós não somos gente de guerra? Agora, ele
escopou e perdeu, está aqui, debaixo de julgamento. A bem, se,
na hora, a quente a gente tivesse falado fogo nele, e matado, aí
estava certo, estava feito. Mas o refrego de tudo já se passou.
Então, isto aqui é matadouro ou talho?... Ah, eu, não. Matar, não.
Suas licenças...”
Coração meu recomprei, com as palavras de Titão Passos.
Homem em regra, capaz de mim. Cacei jeito de sorrir para ele,
aprovei com a cabeça; não sei se ele me viu. E mais não houve
rebuliço. Só que notei estopim os homens ficando diferentes.
Agora tomavam mais ânsia de saber o que era que iam decidir os
manantas. O pessoal próprio de Titão Passos era que formavam
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 378 –
o bando menor de todos. Mas gente muito valente. Valentes
como aquele bom chefe. “De que bando eu sou?” – comigo
pensei. Vi que de nenhum. Mas, dali por diante, eu queria
encostar direto com as ordens de Titão Passos. – “Ele é meu
amigo...” – Diadorim no meu ouvido falou – “... Ele é bisneto de
Pedro Cardoso, trasneto de Maria da Cruz!” Mas eu nem tive
surto de perguntar a Diadorim o resumo do que ele pensasse.
loca Ramiro agora queria o voto de João Goanhá – o derradeiro
falante, que rente dificultava.
João Goanhá fez que ia levantar, mas permaneceu agachado
mesmo. Resto que retardou um pouco no dizer, e o que disse,
que digo:
– “Eu cá, ché, eu estou p’lo qu’ o ché pro fim expedir...”
– “Mas não é bem o caso, compadre João. Vocês dão o
voto, cada um. Carece de dar...” – foi o que Joca Ramiro explicou
mais.
A tanto João Goanhá se levantou, espanou com os dedos
no nariz. Daí, pegou e repuxou seu canhão de cada manga.
Arrumou a cintura, com as armas, num propósito de decisão.
Que ouvi um tlim: moveu meus olhos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Antão pois antão...” – ele referiu forte: – “meu voto é
com o compadre Só Candelário, e com meu amigo Titão Passos,
cada com cada... Tem crime não. Matar não. Eh, diá!...”
Rezo que ele falou aquilo, aquele capiau peludo, renasceu
minha alegria. Rezo que falou, grosso, como se fosse por um
destaque de guerra. De ripipe, espiei o Hermógenes: esse preteou
de raiva. O Ricardão não acabava de cochilar, cara grande de
sapo. O Ricardão, no exatamente, era quem mandava no
Hermógenes. Cochilava fingido, eu sabia. E agora? Que é que
tinha mais de ter? Não estava tudo por bem em bem terminado?
Ah, não, o senhor mire e veja. Assim Joca Ramiro era
homem de nenhuma pressa. Se abanava com o chapéu. Ao em
uma soberania sem manha de arrocho, perpasseou os olhos na
roda do povo. Ant’ante disse, alto:
– “Que tenha algum dos meus filhos com necessidade de
palavra para defesa ou acusação, que pode depor!”
Tinha? Não tinha. Todo o mundo se olhava, num
desconcerto, como quem diz lá: cada um com a cara atrás da sela.
Para falar, ali não estavam. Por isso nem ninguém tinha esperado.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 380 –
Com tanto, uns fatos extraordinários. Haja veja, que Joca Ramiro
repetiu o perguntar:
– “Que por aí, no meio de meus cabras valentes, se terá
algum que queira falar por acusação ou para defesa de Zé Bebelo,
dar alguma palavra em favor dele? Que pode abrir a boca sem
vexame nenhum...”
Artes o advogo – aí é que vi. Alguém quisesse? Duvidei, foi
o que foi. Digo ao senhor: estando por ali para mais de uns
quinhentos homens, se não minto. Surgiu o silêncio deles todos.
Aquele silêncio, que pior que uma alarida. Mas, por que não
davam brados, não falavam todos total, de torna vez, para Zé
Bebelo ser botado solto?... me enfezei. Sus, pensei, com um
empurrão de força em mim. Ali naquel’horinha – meu senhor –
foi que eu lambi idéia de como às vezes devia de ser bom ter
grande poder de mandar em todos, fazer a massa do mundo
rodar e cumprir os desejos bons da gente. De sim, sim, pingo.
Acho que eu tinha suor nas beiras da testa. Ou então – eu quis –
ou, então, que se armasse ali mesmo rixa feia: metade do povo
para lá, metade para cá, uns punindo pelo bem da justiça, os
outros nas voltas da cauda do demo! Mas que faca.e fogo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 381 –
houvesse, e braços de homens, até resultar em montes de mortos
e pureza de paz... Sal que eu comi, só.
Abre que, ah, outra vez, Joca Ramiro reproduziu a
pergunta: – “Que se tiver algum...” – e isto e aquilo, tudo o
mais. Me armei dum repente. Me o meu? Eu agora ia falar – por
que era que não falava? Aprumei corpo. Ah, mas não acertei em
primeiro: um outro começou. Um Gu, certo papa-abóbora,
beiradeiro, tarraco mas da cara comprida; esse discorreu:
– “Com vossas licenças, chefe, cedo minha rasa opinião.
Que é – se vossas ordens forem de se soltar esse Zé Bebelo, isso
produz bem... Oséquio feito, que se faz, vem a servir à gente,
mais tarde, em alguma necessidade, que o caso for... Não ajunto
por mim, observo é pelos chefes, mesmo, com esta vênia. A
gente é braço d’armas, para o risco de todo dia, para tudo o
miúdo do que vem no ar. Mas, se alguma outra ocasião, depois,
que Deus nem consinta, algum chefe nosso cair preso em mão de
tenente de meganhas – então também hão de ser tratados com
maior compostura, sem sofrer vergonhas e maldades... A guerra
fica sendo de bem-criação, bom estatuto...”
Aquilo era razoável. A ver, tinha saído tão fácil, até Joca
Ramiro, em passagens, animou o Gu, com acenos. Tomei
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 382 –
coragem mais comum. Abri a minha boca. AI, mas, um outro
campou ligeiro, tomou a mão para falar: Era um denominado
Dosno, ou Dosmo, groteiro de terras do Cateriangongo – entre o
Ribeirão Formoso e a Serra Escura – e ele tinha olhos muito
incertos e vesgava. Que era que podia guardar para dizer um homem
desses, capiau medido por todos os capiaus do meu Norte?
Escutei.
– “Tomém pego licença, sós chefes. Em que pior não veja,
destorcendo meu desatino. É-que, é-que... Que eu acho que seja
melhor, em antes de se remitir ou de se cumprir esse homem,
pois bem: indagar de fazer ele dizer ond’é que estão a fortuna
dele, em cobre... A mó que se diz – que ele possederá o bom
dinheiro, em quantia, amoitado por aí... É só, por mim, é só, com
vosso perdão... Com vosso perdão...”
Riram, uns; por que é que riram? – rissem. Dei como um
passo adiante, levantei mão e estalei dedo, feito menino em
escola. Comecei a falar. Diadorim ainda experimentou de me
reter, decerto assustado: – “Espera, Riobaldo...” – tive o siso da
voz dele no ouvido. Aí eu já tinha principiado. O que eu acho,
disse, supri neste mais menos fraseado:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 383 –
– “Dê licença, grande chefe nosso, Joca Ramiro, que
licença eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer, que
calado não posso ficar...” Digo ao senhor: que eu mesmo notei
que estava falando alto demais, mas de me abrandar não tinha
prazo nem jeito – eu já tinha começado. Coração bruto batente,
por debaixo de tudo. Senti outro fogo no meu rosto, o salteio de
que todos a finque me olhavam. Então, eu não aceitei niw guém,
o que eu não queria era ver o Hermógenes. Não pôr as capas dos
olhos nem a idéia no Hermógenes – que Hermógenes nenhum
neste mundo não tivesse, nenhum para mim, nenhum de si! Por
isso, prendi minhas vistas só num homem, um que foi o
qualquer, sem nem escolha minha, e porque estava bem por
minha frente, um pardo. Pobre, esse, notando que recebia tanto
olhar, abaixou a cara, amassado de não poder outra coisa. No eu
falando:
–... Eu conheço este homem bem, Zé Bebelo. Estive do
lado dele, nunca menti que não estive, todos aqui sabem. Saí de
lá, meio fugido. Saí, porque quis, e vim guerrear aqui, com as
ordens destes famosos chefes, vós... Da banda de cá, foi que
briguei, e dei mão leal, com meu cano e meu gatilho... Mas, agora,
eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente de bem, e inteiro, que
honra o raio da palavra que dá! Aí. E é chefe jagunço, de primeiJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 384 –
ra, sem ter ruindades em cabimento, nem matar os inimigos que
prende, nem consentir de com eles se judiar... Isto, afirmo! Vi.
Testemunhei. Por tanto, que digo, ele merece um absolvido
escorreito, mesmo não merece de morrer matado à-toa... E isto
digo, porque de dizer eu tinha, como dever que sei, e cumprindo
a licença dada por meu grande chefe nosso, Joca Ramiro, e por
meu cabo-chefe Titão Passos!...”
Tirei fôlego de fôlego, latejei. Sei que me desconheci.
Suspendi do que estava:
–... A guerra foi grande, durou tempo que durou, encheu
este sertão. Nela todo o mundo vai falar, pelo Norte dos Nortes,
em Minas e na Bahia toda, constantes anos, até em outras
partes... Vão fazer cantigas, relatando as tantas façanhas... Pois
então, xente, hão de se dizer que aqui na SempreVerde vieram se
reunir os chefes todos de bandos; com seu cabras valentes,
montoeira completa, e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só
para, no fim, fim, se acabar com um homenzinho sozinho – se
condenar de matar Zé Bebelo, o quanto fosse um boi de corte?
Um fato assim é honra? Ou é vergonha?...”
– “Para mim, é vergonha...” – o que em brilhos ouvi: e
quem falou assim foi Titão Passos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 385 –
– “Vergonha! Raios diabos que vergonha é! Estrumes! A
vergonha danada, raios danados que seja!...” – assim; e quem
gritou, isto a mais, foi Só Candelário.
Tudo tão aos traques de-repente, não sei, eu nem acabei o
relance que me arrepiou minha idéia: que eu tinha feito grande
toleima, que decerto ia ser para piorar – o que foi no eu dizer que
Zé Bebelo não matava os presos; porque, se do nosso lado se
matava, então não iam gostar de escutar aquilo de mim, que
podia parecer forte reprovação. Aos brados bramados de Sô
Candelário, temi perder a vez de tudo falar. Aí, nem olhei para
Joca Ramiro – eu achasse, ligeiro demais, que Joca Ramiro não
estava aprovando meu saimento. Aí, porque nem não tive tempo
– porque imediato senti que tinha de completar o meu, assim:
– `... A ver. Mas, se a gente der condena de absolvido:
soltar este homem Zé Bebelo, a mãvazias, punido só pela
derrota que levou – então, eu acho, é fama grande. Fama de
glória: que primeiro vencemos, e depois soltamos...” ; em tanto
terminei de pensar: que meu receio era tolo: que, jagunço, pelo
que é, quase que nunca pensa em reto: eles podiam achar
normal que da banda de cá os inimigos presos a gente matasse,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 386 –
mas apreciavam também que Zé Bebelo, como contrário, tivesse
deixado em vida os companheiros nossos presos. Gente airada...
– “... Seja fama de glória! Só o que sei... Chagas de
Cristo!...” – eta Só Candelário tornou a atalhar. Desadorou-se!
Senhor de bofe bruto, sapateou, de arrompe: os de perto se
afastando, depressa, por a ele darem espaço. Agora o
Hermógenes havia de alguma coisa dizer? O Hermógenes
experimentava os dentes nos beiços. Ricardão fazia que
cochilava. Só Candelário era de se temer inteiro.
Somente que, em vez do trestampo, que a gente esperasse,
e que ninguém bridava, ele Só Candelário espiou para cima, às
pasmas, consoante sossegado estúrdio recitou, assim em tom – a
bonita voz, de espírito:
– “... Seja a fama de glória... Todo o mundo vai falar nisso,
por muitos anos, louvando a honra da gente, por muitas partes e
lugares. Hão de botar verso em feira, assunto de sair até
divulgado em jornal de cidade...” – Ele estava mandarino,
mesmo.
Aí eu pensei, eu achei? Não. Eu disse. Disse o verdadeiro, o
ligeiro, o de não se esperar para dizer: – “... E, que perigo que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 387 –
tem? Se ele der a palavra de nunca mais tornar a vir guerrear com
a gente, decerto cumpre. Ele mesmo não há de querer tornar a
vir. É o justo. Melhor é se ele der a palavra de que vai-s’embora
do Estado, para bem longe, em desde que não fique em terras
daqui nem da Bahia...” – eu disse; disse mansinho mãe, mansice;
caminhos de cobra.
– “Tenho uns parentes meus em Goiás...” – Zé Bebelo
falou, avindado de repente. E falou quando não se aguardava, e
também assim com tanta vontade de falar, que alguns muito se
riram. Eu não ri. Tomei uma respiração, e aí vi que eu tinha
terminado. Isto é, que comecei a temer. Num esfrio, num átimo,
me vesti de pavor. O que olhei – Joca Ramiro teria estado a
gestos? – Joca Ramiro fazendo um gesto, então queria que eu
calasse absolutamente a boca; eu não possuía vênia para discorrer
no que para mim não era de minha alta conta. Eu quis, de
repentemente, tornar a ficar nenhum, ninguém, safado
humildezinho...
Mas Titão Passos trucou, senhor-moço. Titão Passos
levantava a testa. Ele, que no normal falava tão pouco, pudesse
dar capacidade de tantas constâncias?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Titão Passos disse: – “... Então, ele indo para bem longe,
está punido, desterrado. É o que eu voto por justo. Crime maior
ele teve? Pelos companheiros nossos, que morreram ou estão
ofendidos passando mal, tenho muito dó...”
Só Candelário disse: – “... Mas morrer em combate é coisa
trivial nossa; para que é que a gente é jagunço?! Quem vai em
caça, perde o que não acha...”
Titão Passos disse: – “... E mortes tantas, isso não é culpa
de chefe nenhum. Digo. E mais que esses grandes de nossa
amizade: doutor Mirabô de Melo, coronel Caetano, e os outros –
hão de concordar com a resolução que a gente tome, em desde
que seja boa e de bom proveito geral. É o que eu acho, Chefe. Às
ordens...” – Titão Passos terminou.
O silêncio todo era de Joca Ramiro. Era de Zé Bebelo e de
Joca Ramiro.
Ninguém não reparava mais em mim, não apontavam o eu
ter falado o forte solene, o terrivelmente; e então, agora, para
todos os de lá, eu não existisse mais existido? Só Diadorim, que
quase me abraçava: – “Riobaldo, tu disse bem! Tu é homem de
todas valentas_” Mas, os outros, perto de mim, por que era que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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não me davam louvor, com as palavras: – Gostei de ver!
Tatarana! Assim é que é assim! Só, que eu tinha pronunciado
bem, Diadorim mais me disse: e que tinha sido menos por
minhas tantas palavras, do que pelo rompante brabo com que
falei, acendido, exportando uma espécie de autoridade que em
mim veio. E para Zé Bebelo eu não tinha olhado. Que era que
ele de mim devia de estar pensando? E Joca Ramiro? Esses se
fronteavam: um ao outro, e o em meio, se mediam.
Rente que nesse resto de tempo decerto cruzaram palavras,
que não deram para eu ouvir. Pois porque Zé Bebelo teve ordem
de falar, devia de ter tido. A licença. Principiou. Foi discorrendo
vagaroso, de entremeado, coisa sem coisa. Vi e vi: ele estava só
apalpando o vau. Sujeito finório. Aí o qualquer zunzo que
houvesse, ele colhia e entendia no ar – estava com as orelhas por
isso, aquela cabeça sobrenadando. Já um pouco descabelado. Mas
serenou sota, para diante.
– `... Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro,
este sincero julgamento, esta bizarria... Agradeço sem tremor de
medo nenhum, nem agências de adulação! Eu. José, Zé Bebelo, é
meu nome: José Rebelo Adro Antunes! Tataravô meu Francisco
Vizeu Antunes – foi capitão-de-cavalos... Demarco idade de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 390 –
quarenta-e-um anos, sou filho legitimado de José Ribamar
Pacheco Antunes e Maria Deolinda Rebelo; e nasci na bondosa
vila mateira do Carmo da Confusão...”
Oragos. Para que a tanta sensaboria toda, essas filosofias?
Mas porém ele pronunciava com brio, sem as papeatas de em
antes, sem o remonstrar nem os reviretes:
– “... Agradeço os que por mim bem falaram e puniram...
Vou depor. Vim para o Norte, pois vim, com guerra e gastos, à
frente de meus homens, minha guerra... Sou crescido valente,
contra homens valentes quis dar o combate. Não está certo? Meu
exemplo, em nomes, foram estes: Joca Ramiro, Joãozinho Bem-
Bem, Só Candelário!... e tantos outros afamados chefes, uns aqui
presentes, outros que não estão... Briguei muito mediano, não
obrei injustiça nem ruindades nenhumas; nunca disso me
reprovam. Desfaço de covardes e de biltragem! Tenho nada ou
pouco com o Governo, não nasci gostando de soldados... Coisa
que eu queria era proclamar outro governo, mas com a ajuda,
depois, de vós, também. Estou vendo que a gente só brigou por
um mal-entendido, maximé. Não obedeço ordens de chefes
políticos. Se eu alcançasse, entrava para a política, mas pedia ao
grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 391 –
votarem em mim, para deputado... Ah, este Norte em
remanência: progresso forte, fartura para todos, a alegria
nacional! Mas, no em mesmo, o afã de política, eu tive e não
tenho mais... A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do
sertão é tomando conta dele a dentro... Agora perdi. Estou preso.
Mudei para adiante! Perdi – isto é – por culpa de má-hora de
sorte; o que não creio. Altos descuidos alheios... De ter sido
guardado prisioneiro vivo, e estar defronte de julgamento, isto é
que eu louvo, e que me praz. Prova de que vós nossos jagunços
do Norte são civilizados de calibre: que não matam com o
distrair de mão um qualquer inimigo pegado. Isto aqui não são
essas estrebarias... Estou a cobro de desordens malinas. Estimei.
Dou viva Joca Ramiro, seus outros chefes, comandantes de seus
terços. E viva sua valente jagunçada! Mas, homem sou. Sou de
altas cortesias. Só que medo não tenho; nunca tive, no travável...”
Anda que fez um gesto bonito. Assaz, aí, se espiritou. Ao
que, de vez, foi grandeúdo:
– “... Uê, vim guerrear, de peito aberto, com estrondos.
Não vim socolor de disfarces, com escondidos e logro. Perdi, por
um desguardo. Não por má chefia minha! Não devia de ter
querido contra Joca Ramiro dar combate, não devia-de. Não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 392 –
confesso culpa nem retrauta, porque minha regra é: tudo que fiz,
valeu por bem feito. É meu consueto. Mas, hoje, sei: não deviade.
Isto é: depende da sentença que vou ter, neste nobre julgamento.
Julgamento, digo, que com arma ainda na mão pedi; e que
deste grande Joca Ramiro mereci, de sua alta fidalguia...
Julgamento – isto, é o que a gente tem de sempre pedir! Para
quê? Para não se ter medo! É o que comigo é. Careci deste
julgamento, só por verem que não tenho medo... Se a condena
for às ásperas, com a minha coragem me amparo. Agora, se eu
receber sentença salva, com minha coragem vos agradeço.
Perdão, pedir, não peço: que eu acho que quem pede, para
escapar com vida, merece é meia-vida e dobro de morte. Mas
agradeço, fortemente. Também não posso me oferecer de servir
debaixo d’armas de Joca Ramiro – porque tanto era honra, mas
não condizia bem. Mas minha palavra dando, minha palavra as
mil vezes cumpro! Zé Bebelo nunca roeu nem torceu. E, sem
mais por dizer, espero vossa distinta sentença. Chefe. Chefes.”
Digo ao senhor, foi um momento movimentado.
Zé Bebelo, acabando nas palavras, ali sentadinho ficou,
repequeno, pequenininho, encolhido ao mais. Já um pouco
descabelado. Era uma bolinha de gente. Fechou-se um homem.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 393 –
Olhei, olhei. Só a gente mal ouvisse o sussurro de todos lá; que
foi bom: conheci que era. – “O sujeito machacá! Assopres!” –
“Arre, maluco é – mas frege... Capaz que castra garrote com as
unhas dos dedos...” Não o que Diadorim não disse – mas ele
estava assim por pálido. Vai, vi os chefes. Eles conversaram um
circuitozinho, ligeiro. O Hermógenes e o Ricardão – e Joca
Ramiro para eles sorriu, seus compadres. O Ricardão e o
Hermógenes – eles dois eram chouriço e morcela. Só Candelárioconforme
seus conformes, avançante-Joca Ramirosorriu para Só
Candelário. O jeito de João Goanhá – richarte. Só Titão Passos
espiava desolhadamente, ele tão aposto homem tão bom, tão
sério: com as mãos ajuntadas baixo, em frente da barriga – só
esperava o nada virar coisas. Acontecesse o que. Joca Ramiro ia
decidir! Sobre o simples, o Hermógenes ainda ia se debruçar,
para um dizer em orelha. Mas Joca Ramiro encurtou tudo num
gesto. Era a hora. O poder dele veio distribuído endireito em Zé
Bebelo. O quando falou:
– “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo
este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos
políticos, mas não sou criado deles, nem cacundeiro. A sentença
vale. A decisão. O senhor reconhece?”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 394 –
– “Reconheço” – Zé Bebelo aprovou, com firmeza de voz,
ele já descabelado demais. Se fez que as três vezes, até: –
“Reconheço. Reconheço! Reconheço...” – estreques estalos de
gatilho e pinguelo – o que se diz: essas detonações.
– “Bem. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás,
o senhor põe a palavra, e vai?”
Zé Bebelo demorou resposta. Mas foi só minutozinho. E,
pois:
– “A palavra e vou, Chefe. Só solicito que o senhor
determine minha ida em modo correto, como compertence.”
– “A falando?”
– “Que: se ainda tiver homens meus vivos, presos também
por aí, que tenham ordem de soltura, ou licença de vir comigo,
igualmente...”
Ao que Joca Ramiro disse: – “Topo. Topo.”
– “ ... E que, tendo nenhum, eu viaje daqui sem vigia
nenhuma, nem guarda, mas o senhor me fornecendo animal-desela
arreado, e as minhas armas, ou boas outras, com alguma
munição, mais o de-comer para os três dias, legal...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 395 –
Ao que aí Joca Ramiro assim três vezes: – “Topo. Topo!”
– “... Então, honrado vou. Mas, agora, com sua licença, a
pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular, sem
voltar neste Estado, nem na Bahia? Por uns dois, três anos?”
– “Até enquanto eu vivo for, ou não der contra-ordem...”
– Joca Ramiro ai disse, em final. E se levantou, num de repente.
Ah, quando ele levantava, puxava as coisas consigo, parecia – as
pessoas, o chão, as árvores desencontradas. E todos também, ao
em um tempo – feito um boi só, ou um gado em círculos, ou
um relincho de cavalo. Levantaram campo. Reinou zoeira de
alegria: todo o mundo já estava com cansaço de dar julgamento,
e se tinha alguma certa fome.
Diadorim me chamou, fomos caminhando, no meio da
queleléia do povo. Mesmo eu vi o Hermógenes: ele se amargou,
engolindo de boca fechada. – “Diadorim” – eu disse – “esse
Hermógenes está em verde, nas portas da inveja...” Mas
Diadorim por certo não me ouviu bem, pelo que começou
dizendo: – “Deus é servido...” Não sosseguei. Aquele pessoal
tribuzava. O encarregado da Sempre-Verde abriu cozinha:
panelas grandes e caldeirões, cozinhando de tudo o que vale a
valer. Tinha sempre algum batendo mão-de-pilão. Digo, não por
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 396 –
nada não, mas pelo exato ser: eu tinha estalando nos meus olhos
a lembrança do Hermógenes, na hora do julgamento. De como
primeiro ele, soturno, não se sobressaía, só escancarava muito as
pernas, facãozão na mão; mas depois ficou artimanhado, com
uma tristeza fechada aos cantos, como cão que consome raivas.
E o Ricardão? Esse: uma pesadureza na cara toda, mas, quando
esbarrou de cochilar, aqueles olhos grossos, rebolando que nem
apostemados, sem bom preceito. Assente, enfim, tudo estava
passado, terminado. Estava? Pois, pedi espera a Diadorim, na
beira do rego, eu queria cuidar do meu cavalo, dissesse,
desarrear e escovar. Dei com o Hermógenes. Dito, a bem, eu
cacei onde estava o Hermógenes, tempo parei perto dele.
Virando que eu quis ir lá, e escutar, quase quis. Um dizer ouvi: –
... “Mamãezada...” Ao que seria? O Hermógenes não era
nenhum toleimado, para desfazer na decisão de Joca Ramiro.
“Mamãezada”?Mais não ouvi, relembro que não sei direito. Com
pouco, Zé Bebelo estava dando as despedidas. Se viu, montado
num bom cavalo de duas cores, arreado com sela boa de Minas-
Velhas. Deram que levasse carabina, suas outras armas, e cruzcruz
cartucheiras. Aí já tinha jantado. E o bornal com
matlotagem. Sobre o cavalo se houve, se upou na sela. Se foi.
Saiu em marcha de estrada, sem olhar para trás, o sol na beira.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Só o Triol devia de prestar acompanhamento a ele, por o uso de
resguardado território, de uma légua. Me deu certa tristeza. Mas
a minha satisfação ainda era maior.
Daí, estávamos todos pegando o que comer, que eram
essas grandes abundâncias. Angu e couve, abóbora-moranga
cozida, torresmos, e em toda fogueira assavam mantas de
carnes. Quem quisesse sopa, era só ir se aquinhoar na porta-dacozinha.
A quantidade de pratos era que faltava. E assaz muita
cachaça se tomou, que Joca Ramiro mandou satisfazer goles a
todos – extraordinária de boa. O senhor havia de gostar de ver
aquela ajuntação de povo, as coisas que falavam e faziam, o jeito
como podiam se rir, na vadiação, todos bem comidos,
entalagados. Daí, escureceu. Homens deitados no chão,
escornados até quase debaixo do mijo dos cavalos pastantes. Eu
estava que impava, queria um bom sono. A ver, fui com Diadorim
para o rumo dos pés de fruta, seguindo o rego. Com a
entrada da noite, o passar da água canta friinho, permeio,
engrossa, e a gente aprecia o cheiro do musguz das árvores. Zé
Bebelo tinha ido embora, para sempre, no cavalo de duas cores,
fez pouca poeira. Nós estávamos no jaz ali, repimpados,
enfunando as redes. Disso não esqueço? Não esqueço. A gente
estava desagasalhados na alegria, feito meninos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Eu tinha vindo para ali, para o sertão do Norte, como
todos uma hora vêm. Eu tinha vindo quase sem mesmo notar
que vinha – mas presado, precisão de agenciar um resto melhor
para a minha vida. Agora me expulsassem? Do jeito, isto é,
tinham repelido para trás Zé Bebelo. Não me esqueci daquelas
palavras dele: que agora era “o mundo à revelia...” Disse a
Diadorim. Mas Diadorim menos me respondeu. Ao dar, que
falou: – “Riobaldo, você prezava de ir viver n’Os-Porcos, que lá
é bonito sempre – com as estrelas tão reluzidas?...” Dei que sim.
Como ia querer dizer diferente: pois lá n’Os-Porcos não era a
terra de Diadorim própria, lugar dele de crescimento? Mas,
mesmo enquanto que essas palavras, eu pensasse que Diadorim
podia ter me respondido, assim nestas fações: – “... Mundo à
revelia? Mas, Riobaldo, desse jeito mesmo é que o mundo
sempre esteve...” Toleima, sei, bobéia disso, a basba do
basbaque. Que eu dizia e pensava numa coisa, mas Diadorim
recruzava com outras – “... Zé Bebelo, Diadorim: que é que
você achou daquele homem?” – ainda indaguei. – “Para ele, de
agora, não tem dia nem noite: vai seu rumo, fazendo a viagem...
Teve sorte! Entestou foi com Joca Ramiro – com sua alta
bondade...” – foi o que Diadorim me respondeu. E ficou
pensando, ficamos. Aí quando eu acabei até à pontinha meu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cigarro, ainda perguntei: – “A ver, quem salvou Zé Bebelo da
morte?” Diadorim, o que quis me dizer foi em tanto segredo,
que ele puxou a beira da minha rede, para a gente falar quase
cara a cara: – “Ah, quem salvou Zé Bebelo de morte? Pois,
abaixo de Joca Ramiro, por começar foi ele Zé Bebelo mesmo.
Depois, numa ponta do dito de Zé Bebelo, tomou figura Só
Candelário – homem esquipático e enorme de si, mas fiel, e que
põe mais de trezentas armas. Cabras que, por um gesto dele,
avançam e matam e matam...” Eu queria que ele tivesse explicado
o fato de outro jeito. Mas Diadorim estava prosseguindo: –
“... A ser que você viu o Hermógenes e o Ricardão, gente
estarrecida de iras frias... Agora, esses me dão receio, meu
medo... Deus não queira...” Depois, ele terminou assim: – “...
Ao enquanto Joca Ramiro pode precisar da gente, você mesmo
me prometeu, Riobaldo: a gente persiste por aqui.” Prometi
outra vez, confirmei. Desde, no sereno da noite, não se
conversou mais, não me recordo.
Diadorim estava triste, na voz. Eu também estive. Por
quê? – há-de o senhor querer saber. Por causa de Zé Bebelo ter
ido embora; e aquilo era motivo? Depois de Paracatu, é o
mundo... Zé Bebelo ido, sei lá bem porque, tirava meu poder de
pensar com a idéia em ordem, e eu sentia minha barriga demais
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cheia, demais de tantas comidas e bebidas. Só o que me
consolava era ter havido aquele julgamento, com a vida e a fama
de Zé Bebelo autorizadas. O julgamento? Digo: aquilo para mim
foi coisa séria de importante. Por isso mesmo é que fiz questão
de relatar tudo ao senhor, com tanta despesa de tempo e miúcias
de palavras. – “O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só
uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem
senso, neste meio do sertão...” – o senhor dirá. Pois: por isso
mesmo. Zé Bebelo não era réu no real! Ah, mas, no centro do
sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de
mais juizo! Daquela hora em diante, eu cri em Joca Ramiro. Por
causa de Zé Bebelo. Porque, Zé Bebelo, na hora, naquela
ocasião, estava sendo maior do que pessoa. Eu gostava dele do
jeito que agora gosto de compadre meu Quelemém; gostava por
entender no ar. Por isso, o julgamento tinha dado paz à minha
idéia – por dizer bem: meu coração. Dormi, adeus disso. Como é
que eu ia poder ter pressentimento das coisas terríveis que vieram
depois, conforme o senhor vai ver, que já lhe conto?
Curtamente: dali da Sempre-Verde, com um dia mais,
desapartamos. O bando muito grande de jagunços não tem
composição de proveito em ocasião normal, só serve para
chamar soldados e dar atrásamento e desrazoada despesa.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 401 –
Constava que João Goanhá torasse para a Bahia, e que o Antenor
seguindo rumo em beira do Ramalhada, com um punhado dos
Hermógenes. Novas ordens, muitas ordens. Alaripe ia vir com
Titão Passos. Titão Passos chamou a gente: Diadorim e eu. Se
tinha um roteiro, sendo para ser: o mais encostado possível no
São Francisco, até para lá do Jequitaí, e mais. Aquilo, por quê? A
gente não ia junto com Joca Ramiro, em caso de lhe a ele
podermos valer, em caso, com maior ajuda, mão a mão? Ah, mas
nossa tarefa era de muito encoberto empenho e valor: pelo que
tínhamos de estanciar em certos lugares, com o fito de receber
remessas; e em acontecer de vigiar algum rompimento de
soldados, que para o Norte entrassem. Arreamos, montamos,
saímos. Naquela mesma da hora, Joca Ramiro dava partida
também, de volta para o São João do Paraíso. Lá ia ele, deveras,
em seu cavalão branco, ginete – ladeado por Só Candelário e o
Ricardão, igual iguais galopavam. Saíam os chefes todos – assim
o desenrolar dos bandos, em caracol, aos gritos de vozear. Ao
que reluzia o bem belo. Diadorim olhou, e fez o sinal-da-cruz,
cordial. – “Assim, ele me botou a benção...” – foi o que disse. Dá
sempre tristezas algumas, um destravo de grande povo se
desmanchar. Mas, nesse dia mesmo, em nossos cavalos tão bons,
dobramos nove léguas.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 402 –
As nove. Com mais dez, até à Lagoa do Amargoso. E sete,
para chegar numa cachoeira no Gorutuba. E dez, arranchando
entre Quem-Quem e Solidão; e muitas idas marchas: sertão
sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de
repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando
menos se espera; digo. Mas saímos, saímos. Subimos. Ao
quando um belo dia, a gente parava em macias terras,
agradáveis. As muitas águas. Os verdes já estavam se gastando.
Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros. O marrequim, a
garrixa-do-brejo, frangos-d’água, gaivotas. O manuelzinho-dacroa!
Diadorim, comigo. As garças, elas em asas. O rio desmazelado,
livre rolador. E aí esbarramos parada, para demora,
num campo solteiro, em varjaria descoberta, pasto de muito
gado.
Lugar perto da Guararavacã do Guaicuí: Tapera Nhã, nome
que chamava-se. Ali era bom? Sossegava. Mas, tem horas em que
me pergunto: se melhor não seja a gente tivesse de sair nunca do
sertão. Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista,
não se carecia de fazer nada. Nós estávamos em vinte e três
homens. Titão Passos determinou uma esquadrazinha deles –
com Alaripe em testa: fossem para a outra banda do morro,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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baixada própria da Guararavacã, esperar o que não acontecesse.
Nós ficamos.
O que, por começo, corria destino para a gente, ali, era:
bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito
a mil do pássaro rexenxão – que vinham voando, aquelas
chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de
mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as
malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de
acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no
meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando
não ventava, o sol vinha todo forte. Todo dia se comia bom
peixe novo, pescado fácil: curimatã ou dourado; cozinheiro era o
Paspe – fazia pirão com fartura, e dividia a cachaça alta. Também
razoável se caçava. A vigiação era revezada, de irmãos e irmãos,
nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormi, sestas
inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se
esquentar. Aí então aquelas fileiras de reses caminhavam para a
beira do rio, enchiam a praia, parados, ou refrescavam dentro
d’água. Às vezes chegavam a nado até em cima duma ilha
comprida, onde o capim era lindo verdejo. O que é de paz, cresce
por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha idéia de tudo só
ser o passado no futuro. Imaginei esses sonhos. Me lembrei do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 404 –
não-saber. E eu não tinha notícia de ninguém, de coisa nenhuma
deste mundo – o senhor pode raciocinar. Eu queria uma mulher,
qualquer. Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que
até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, serve como
beneficio.
Um dia, sem dizer o que a quem, montei a cavalo e saí, a
vão, escapado. Arte que eu caçava outra gente, diferente. E
marchei duas léguas. O mundo estava vazio. Boi e boi. Boi e boi
e campo. Eu tocava seguindo por trilhos de vacas. Atravessei
um ribeirão verde, com os umbuzeiros e ingazeiros debruçados
– e ali era vau de gado. “Quanto mais ando, querendo pessoas,
parece que entro mais no sozinho do vago...” – foi o que pensei,
na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de
tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em
mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão demotivo;
que, quando notei que estava com dorde-cabeça, e achei
que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de
bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem
aonde eu extenso ia. O tanto assim, que até um corguinho que
defrontei – um riachim à-toa de branquinho – olhou para mim e
me disse: – Não... – e eu tive que obedecer a ele. Era para eu não
ir mais para diante. O riachinho me tomava a benção. Apeei. O
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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bom da vida é para o cavalo, que vê capim e come. Então, deitei,
baixei o chapéu de tapa-cara. Eu vinha tão afogado. Dormi,
deitado num pelego. Quando a gente dorme, vira de tudo: vira
pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor,
repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro
tudo nestas fantasias. Mas eu estava dormindo era para
reconfirmar minha sorte. Hoje, sei. E sei que em cada virada de
campo, e debaixo de sombra de cada árvore, está dia e noite um
diabo, que não dá movimento, tomando conta. Um que é o
romãozinho, é um diabo menino, que corre adiante da gente,
alumiando com lanterninha, em o meio certo do sono. Dormi,
nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo o que é bonito é
absurdo – Deus estável. Ouro e prata que Diadorim aparecia ali,
a uns dois passos de mim, me vigiava.
Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta
vida. Tinha notado minha idéia de fugir, tinha me rastreado, me
encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O
calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o
verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus
lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço,
tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas
que a idéia da gente não dá para se entender – e acho que é por
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado
ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era
engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem
quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: –
Que você em sua vida toda toda por diante, tem de ficar para
mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... – que era como se
Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E,
digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi
que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de
rir dele.
A Guararavacã do Guaicuí: o senhor tome nota deste
nome. Mas, não tem mais, não encontra – de derradeiro, ali se
chama é Caixeirópolis; e dizem que lá agora dá febres. Naquele
tempo, não dava. Não me alembro. Mas foi nesse lugar, no
tempo dito, que meus destinos foram fechados. Será que tem um
ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar para trás?
Travessia de minha vida. Guararavacã – o senhor veja, o senhor
escreva. As grandes coisas, antes de acontecerem. Agora, o
mundo quer ficar sem sertão. Caixeirópolis, ouvi dizer. Acho qqe
nem coisas assim não acontecem mais. Se um dia acontecer, o
mundo se acaba. Guararavacã. O senhor vá escutando.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de
Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade.
Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo.
Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora.
Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum
rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado numa esteira
de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas,
reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte
em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum
mesmo jeito, se podia mandar o amor? O rancho era na bordada-
mata. De tarde, como estava sendo, esfriava um pouco, por
pejo de vento – o que vem da Serra do Espinhaço – um vento
com todas almas. Arrepio que fuxicava as folhagens ali, e ia, lá
adiante longe, na baixada do rio, balançar esfiapado o pendão
branco das canabravas. Por lá, nas beiras, cantava era o joão-pobre,
pardo, banhador. Me deu saudade de algum buritizal, na ida
duma vereda em capim tem-te que verde, termo da chapada.
Saudades, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais.
O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos,
quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento
é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo.
Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares. Mas, lá na
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Guararavacã, eu estava bem. O gado ainda pastava, meu vizinho,
cheiro de boi sempre alegria faz. Os quem-quem, aos casais,
corriam, catavam, permeio às reses, no liso do campo claro. Mas,
nas árvores, pica-pau bate e grita. E escutei o barulho, vindo do
dentro do mato, de um macuco – sempre solerte. Era mês de
macuco ainda passear solitário – macho e fémea
desemparelhados, cada um por si. E o macuco vinha andando,
sarandando, macucando: aquilo ele ciscava no chão, feito galinha
de casa. Eu ri – “Vigia este, Diadorim!” – eu disse; pensei que
Diadorim estivesse em voz de alcance. Ele não estava. O macuco
me olhou, de cabecinha alta. Ele tinha vindo quase endireito em
mim, por pouco entrou no rancho. Me olhou, rolou os olhos.
Aquele pássaro procurava o quê? Vinha me pôr quebrantos. Eu
podia dar nele um tiro certeiro. Mas retardei. Não dei. Peguei só
num pé de espora, joguei no lado donde ele. Ele deu um susto,
trazendo as asas para diante, feito quisesse esconder a cabeça,
cambalhota fosse virar. Daí, caminhou primeiro até de costas,
fugiu-se, entrou outra vez no mato, vero, foi caçar poleiro para o
bom adormecer.
O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em
mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente –
“Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer aquilo?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter
vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu
figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por
fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de
todos, de todas as outras pessoas – como quando a chuva entreonde-
os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus
mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava
com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. Não
era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia
de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra
pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas – de
dentro de mim: uma serepente. Aquilo me transformava, me
fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu
pudesse morrer, não me importava.
O que sei, tinha sido o que foi: no durar daqueles antes
meses, de estropelias e guerras, no meio de tantos jagunços, e
quase sem espairecimento nenhum, o sentir tinha estado sempre
em mim, mas amortecido, rebuçado. Eu tinha gostado em
dormência de Diadorim, sem mais perceber, no fofo dum
costume. Mas, agora, manava em hora, o claro que rompia, rebentava.
Era e era. Sobrestive um momento, fechados os olhos,
sufruía aquilo, com outras minhas forças. Daí, levantei.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Levantei, por uma precisão de certificar, de saber se era
firme exato. Só o que a gente pode pensar em pé – isso é que
vale. Aí fui até lá, na beira dum fogo, onde Diadorim estava,
com o Drumõo, o Paspe e Jesualdo. Olhei bem para ele, de
carne e osso; eu carecia de olhar, até gastar a imagem falsa do
outro Diadorim, que eu tinha inventado. – “Hê, Riobaldo, eh,
uê, você carece de alguma coisa?” – ele me perguntou, quemme-
vê, com o certo espanto. Eu pedi um tição, acendi um
cigarro. Daí, voltei, para o rancho, devagar, passos que dava. “Se
é o que é” – eu pensei – “eu estou meio perdido...” Acertei
minha idéia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato
daquilo. Ia, por paz de honra e tenência, sacar esquecimento
daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia de
quebrar o morro: acabar comigo! – com uma bala no lado de
minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo. Ou eu fugia
– virava longe no mundo, pisava nos espaços, fazia todas as
estradas. Rangi nisso – consolo que me determinou. Ah, então
eu estava meio salvo! Aperrei o nagã, precisei de dar um tiro –
no mato – um tiraço que ribombou. – “Ao que foi?” – me
gritaram pergunta, sempre riam do tiro tolo dado. – “Acho que
um macaquinho miúdo, que acho que errei...” – eu expendi.
Tanto também, fiz de conta estivesse olhando Diadorim,
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encarando, para duro, calado comigo, me dizer: “Nego que
gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!...” Assaz
mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso,
sempres vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo
acreditei. Ah, meu senhor! – como se o obedecer do amor
não fosse sempre ao contrário... O senhor vê, nos Gerais longe:
nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho
de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor
dorme em sobre um rio?
Segundo digo, o tempo que paramos na Guararavacã do
Guaicuí regulou em dois meses. Bom ermo. De lá, a gente
cruzou as vizinhanças todas, fizemos grande redondeza. Todo
dia, trocávamos recado de avisos com o pessoal do Alaripe.
Notícia, nenhumas. Nada não chegava em envio, do que fosse
para chegar. Da outra banda do rio, se sucedeu a queima dos
campos: quando o vento dava para trás, trazia as tristes fumaças.
De noite, o morro se esclarecia, vermelho, asgrava em labaredas
e brasas. Da banda de cá, num rumo, daí a obra de duas léguas,
tinha uma lavourinha, de um sujeito ainda moço, que era amigo
nosso. – “Ah, se ele quisesse alugar a mulherzinha dele para a
gente, bem caros preços que eu pagava...” – assim o que dizia o
Paspe, suspiroso. Mas quem vinha eram os meninos do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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lavrador, montados num cavalo magro, traziam feixes de cana,
para vender para a gente. Às vezes, vinham em dois cavalos
magros, e eram cinco ou seis meninos, amontados, agarrados
uns nos outros, uns mesmo não se sabia como podiam, de tão
mindinhos. Esses meninozinhos, todos, queriam todo o tempo
ver nossas armas, pediam que a gente desse tiros. Diadorim
gostava deles, pegava um por cada mão, até carregava os menorzinhos,
levava para mostrar a eles os pássaros das ilhas do rio. –
“Olha, vigia: o manuelzinho-da-troa já acabou de fazer a
muda...” Um dia, em que tínhamos caçado uma paca bem gorda,
o Paspe pitou de sal um quarto dela, enrolou em folhas, e deu
ao menino mais velho: – “P’ra tu leva de presente, dá à tua mãe,
fala que quem mandou fui eu...” – ele recomendou. A gente ria.
Os meninos receavam o gado: ali no meio tinha reses muito
bravas, um dia uma vaca deu corrida em alguém, querendo
bater. Mas, depois, com o secar, de magros e fracos os bois se
atolavam no embrejado, até morreram alguns. Os urubus
espaceavam, quando o céu empoeirado. Pousavam no pindaibal
do brejo. João Vaqueiro chamava a gente, ia desatolar os bois
que podia. Uns eram mansos: por um punhado de sal, se
chegavam, lambiam o chão nos pés da gente. João Vaqueiro
sabia tudo. Chega passava a mão nas tetas de uma vaca – capins
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tão bons, o senhor crê? – algumas ainda guardavam leite
naqueles peitos. – “A gente carecia era de dar um fogo, de sair
por aí, por combate...” – sensato se dizia. Que jagunço amolece,
quando não padece.
A quase meio-rumo de norte e nascente, a quatro léguas de
demorado andamento, tinha uma venda de roça, no começo do
cerradão. Vendiam licor de banana e de pequi, muito forte,
geléia de mocotó, fumo bom, marmelada, toucinho. Sempre só
um de nós era que ia lá – para não desconfiarem. Ia o Jesualdo.
A gente outorgava a ele o dinheiro, cada um encomendava o
que queria. Diadorim mandou comprar um quilo grande de
sabão de coco de macaúba, para sé lavar corpo. O dono da
venda tinha duas filhas, o Jesualdo cada vez que voltava carecia
de explicar à gente, de dia é de noite, como elas eram,
formosuramente. – “Ei, que quando vier o tempo, que de guerra
se tiver licença, ah, e se esse vendeiro for contra nós, ah, eu vou
lá, pego uma das duas, de mocinha faço ela virar mulher...” – o
Vove disse. – “O que tu não faz! Porque o que eu quero é o
exato: que eu vou’ lá, prezado peço em casamento, e nóivo...” –
o Triol contestou. E o Liduvino e o Admeto cantavam coisas de
sentimento, cantavam pelo nariz.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ao que perguntei: e aquela canção de Siruiz? Mas eles não
sabiam. – “Sei não, gosto não. Cantigas muito velhas...” – eles
desqueriam.
Daí, deu um sutil trovão. Trovejou-se, outro. As tanajuras
revoavam. Bateu o primeiro toró de chuva. Cortamos paus,
folhagem de coqueiros, aumentamos o rancho. E vieram uns
campeiros, rever o gado da Tapera Nhã, no renovame, levaram
as novilhas em quadra de produzir. Esses eram homens tão
simples, pensaram que a gente estava garimpando ouro. Os dias
de chover cheio foram se emendando. Tudo igual – às vezes é
uma sem-gracez. Mas não se deve de tentar o tempo. As garças
é que praziam de gritar, o garcejo delas, e o socó-boi range
cincerros, e o socó latindo sucinto. Aí pelo mato das pindaíbas
avante, tudo era um sapal. Coquexavam. De tão bobas tristezas,
a gente se ria, no friinho de entrechuvas. Dada a primeira
estiada, voltou aquele vaqueiro Bernabé, em seu cavalinho
castanho; e vinha trazer requeijão, que se tinha incumbido a ele,
e que por dinheirinho bom se pagou. – “A vida tem de mudar
um dia para melhor” – a gente dizia. Requeijão é com café bem
quente que é mais gostoso. Aquele vaqueiro Bernabé voltou,
outras diversas vezes.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 415 –
Ah, e, vai, um feio dia, lá ele apontou, na boca da estrada
que saía do mato, o cavalinho castanho dava toda pressa de
vinda, nem cabeceava. Achamos que fosse mesmo ele. Aí, não
era. Era um brabo nosso, um cafuz pardo, de sonome o Gavião-
Cujo, que de mais norte chegava. Ele tinha tomado muitas
chuvas, que tudo era lamas, dos copos do freio à boca da bota, e
pelos vazios do cavalo. Esbarrou e desapeou, num pronto ser,
se via que estava ancho com muitas plenipotências. O que era?
O Gavião-Cujo abriu os queixos, mas palavra logo não saiu, ele
gaguejou ar e demorou – decerto porque a notícia era urgente
ou enorme. – “Ar’uê, então?!” – Titão Passos quis. – “Te
rogaram alguma praga?” O Gavião-Cujo levantou um braço,
pedindo prazo. À fé, quase gritou:
– “Mataram Joca Ramiro!...”
Aí estralasse tudo – no meio ouvi um uivo doido de
Diadorim : todos os homens se encostavam nas armas. Aí, ei,
feras! Que no céu, só vi tudo quieto, só um moído de nuvens.
Se gritava – o araral. As vertentes verdes do pindaibal
avançassem feito gente pessoas. Titão Passos bramou as ordens.
Diadorim tinha caído quase no chão, meio amparado a tempo
por João Vaqueiro.
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Caiu, tão pálido como cera do reino, feito um morto
estava. Ele, todo apertado em seus couros e roupas, eu corri,
para ajudar. A vez de ser um desespero. O Paspe pegou uma
cuia d’água, que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo.
Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para
desamarrar o colete-jaleco, e Diadorim voltou a seu si, num
alerta, e me repeliu, muito feroz. Não quis apoio de ninguém,
sozinho se sentou, se levantou. Recobrou as cores, e em mais
vermelho o rosto, numa fúria, de pancada. Assaz que os belos
olhos dele formavam lágrimas. Titão Passos mandava, o
Gavião-Cujo falava. Assim os companheiros num estupor. Ao
que não havia mais chão, nem razão, o mundo nas juntas se
desgovernava.
– “Repete, Gavião!”
– “Ai, chefe, ai, chefe: que mataram Joca Ramiro...” –
“Quem? Adonde? Conta!”
Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços.
Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até
atravessado, na barriga, me doeu. Antes mais, o pobre
Diadorim. Alheio ele dava um bufo e soluço, orço que outros
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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olhos, se suspendia nas sussurrosas ameaças. Tudo tinha vindo
por cima de nós, feito um relâmpago em fato.
– “... Matou foi o Hermógenes...”
– “Arraso, cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio!
Traição! Que me paga!...” – constante não havendo quem não
exclamasse. O ódio da gente, ali, em verdade, armava um pojar
para estouros. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter
matado? Aquilo era como fosse um touro preto, sozinho surdo
nos ermos da Guararavacã, urrando no meio da tempestade.
Assim Joca Ramiro tinha morrido. E a gente raivava alto, para
retardar o surgir do medo – e a tristeza em cru – sem se saber
por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.
– “... O Hermógenes... Os homens do Ricardão... O
Antenor... Muitos...
– “Mas, adonde onde!?”
– “A desgraça foi num lugar, na Jerara, terras do Xanxerê,
beira da Jerara – lá onde o córrego da Jerara desce do morro do
Vôo e cai barra no Riachão... Riachão da Lapa... Diz-se que foi
sido de repente, não se esperava. Aquilo foi à traição toda.
Morreram os muitos, que estavam persistindo lealmente. Aí,
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mortos: João Frio, o Bicalho, Leôncio Fino, Luís Pajeú, o
Cambó, Leite-de-Sapo, Zé Inocêncio... uns quinze. Até se deu
um tiroteio terrível; mas o pessoal do Hermógenes e do
Ricardão era demais numeroso... Dos bons, quem pôde, fugiram
corretamente. Silvino Silva conseguiu fuga, com vinte e tantos
companheiros...”
Mas Titão Passos, de arrompe, atalhou a narração, ele
agarrou o Gavião-Cujo pelos braços:
– “Hem, diá! Mas quem é que está pronto em armas, para
rachar Ricardão e Hermógenes, e ajudar a gente na vingança
agora, nas desafrontas? Se tem, e ond’é então que estão?!”
– “Ah, sim, chefe. Os todos os outros: João Goanhá, Só
Candelário, Clorindo Campelo.,. João Goanhá pára com
porçanheira de homens, na Serra dos Quatis. Aí foi ele quem me
mandou trazer este aviso... Só Candelário ainda está para o
Norte, mas o grosso dos bandos dele se acha nos pertos da
Lagoa-do-Boi, em juramento... Já foi portador para lá. Sendo
que se despachou um positivo também para dar parte a Medeiro
Vaz, nos Gerais, no de lado de lá do Rio... Sei que o sertão pega
em armas, mas Deus é grande!”
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– “Louvado. Ah, então: graças a Deus! Ao que, então, está
bem...” – Titão Passos se cerrou.
E estava. Era a outra guerra. A gente ficávamos aliviados.
Aquilo dava um sutil enorme.
– “Teremos de ir... Teremos de ir...” – falou Titão Passos,
e todos responderam reluzentemente. Tínhamos de tocar, sem
atraso, para a Serra dos Quatis, a um lugar dito o Amoipira, que
é perto de Grão Mogol. Artes que o Gavião-Cujo ainda contava
mais, as miúcias – parecia que tinha medo de esbarrar de contar.
Que o Hermógenes e o Ricardão de muito haviam ajustado
entre si aquele crime, se sabia. O Hermógenes distanciou Joca
Ramiro de Só Candelário, com falsos propósitos, conduziu Joca
Ramiro no meio de quase só gente dele, Hermógenes, mais o
pessoal do Ricardão. Aí, atiraram em Joca Ramiro, pelas costas,
carga de balas de três revólveres... Joca Ramiro morreu sem
sofrer. – “E enterraram o corpo?” – Diadorim perguntou, numa
voz de mais dor, como saía ansiada. Que não sabia-o Gavião-
Cujo respondeu; mas que decerto teriam enterrado, conforme
cristão, lá mesmo, na Jerara, por certo. Diadorim tanto empalidecesse;
ele pediu cachaça. Tomou. Todos tomamos. Titão
Passos não queria ter as lágrimas nos olhos. – “Um homem de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tão alta bondade tinha mesmo de correr perigo de morte, mais
cedo mais tarde, vivendo no meio de gente tão ruim...” – ele me
disse, dizendo num modo que parecia ele não fosse também
jagunço, como era de se ser. Mas, agora, tudo principiava
terminado, só restava a guerra. Mão do homem e suas armas. A
gente ia com elas buscar doçura de vingança, como o rominhol
no panelão de calda. Joca Ramiro morreu como o decreto de
uma lei nova.
A daí, carecia fosse alguém do lado de lá do morro, pela
gente do Alaripe. – “Pois vamos, Riobaldo!” – Diadorim se pôs.
Vi que ele fervia ali assim no pego do parado. Selamos os
cavalos. Serra acima, fomos. Ao no galope, cada um engolia suas
palavras. A mesmo estava o céu encoberto, e um mormaço.
Mas, na descambada, Diadorim me reteve, me entregou á ponta
do cabresto para segurar. – “De tudo nesta vida a gente esquece,
Riobaldo. Você acha então que vão logo olvidar a honra dele?”
– me perguntou. Devo que retardei muito em responder, com
cara de não compreensão. Porque Diadorim completou: – “...
dele, a glória do finado. Do que se finou...” E dizia aquilo com
uma misturação de carinho e raiva, tanto desespero que nunca
vi. Desamontou, foi andando sem governar os passos, tapado
pelas moitas e árvores. Eu restei ficando tomando conta do caJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 421 –
valo. Pensei que ele tivesse ido a lá, por necessitar. Mas
demorou tanto a volta, que eu resolvi tocar atrás, para o que
havia ver, esporei e vim puxando o cavalo dele adestro. E aí o
que vi foi Diadorim no chão, deitado debruços. Soluçava e
mordia o capim do campo. A doideira. Me amargou, no cabo da
língua. – “Diadorim!” – chamei. Ele, sem se aprumar, virou o
rosto, apertou os olhos no choro. Falei, falei, meus consolos, e
ele atendia, em querelenga, me pedindo que sozinho fosse,
deixasse ele ali, até minha volta. – “Joca Ramiro era seu parente,
Diadorim?” – eu indaguei, com muita cordura. – “Ah, era,
sim...” – ele me respondeu, com uma voz de pouco corpo. –
“Seu tio, será?” – Que era... – ele deu, em gesto. Entreguei a ele
o cabresto do cavalo, e continuei ida. Em certa distância, para
prevenir os alaripes, e evitar atraso, esbarrei e disparei tiros, para
o ar, umas vezes. Cheguei lá, estavam todos reunidos, por meu
feliz. E estava chovendo, de acordo com o mormaço. – “Trago
notícia de grande morte!” – sem desapear eu declarei. Eles todos
tiraram os chapéus, para me escutar. Então, eu gritei: – “Viva a
fama do nosso Chefe Joca Ramiro... “ E, pela tristeza que
estabeleceu minha voz, muito me entenderam. Ao que quase
todos choraram. – “Mas, agora, temos de vingar a morte do
falecido!” – eu ainda pronunciei. Se aprontaram num átimo,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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para comigo vir. – “Mano velho Tatarana, você sabe. Você tem
sustância para ser um chefe, tem a bizarria...” – no caminho o
Alarípe me disse. Desmenti. De ser chefe, mesmo, era o que eu
tinha menos vontade.
Mas assim se deu que, no seguinte dia, no romper das
barras, saímos tocando, Diadorim do meu lado, mudado triste,
muito branco, os olhos pisados, a boca vencida. Deixamos para
trás aquele lugar, que disse ao senhor, para mim tão célebre – a
Guararavacã do Guaicuí, do nunca mais.
Redeando, rumamos, em tralha e torto, por aquele afora –
a gente ia investir o sertão, os mares de calor. Os córregos
estavam sujos. Aí, depois, cada rio roncava cheio, as várzeas
embrejavam, e tantas cordas de chuva esfriavam a cacunda
daquelas serras. A terrível notícia tinha se espalhado assaz, em
todas as partes o povo fazia questão de obsequiar à gente, e falavam
muito bem do falecido. Mas nós passávamos, feito flecha,
feito faca, feito fogo. Varamos todos esses distritos de gado.
Assomando de dia por dentro de vilórios e arraiais, e ocupando
a cheio todas as estradas, sem nenhum escondimento: a gente
queria que todo o mundo visse a vingança! Alto do Amoipira,
quando terminamos lá, os cavalos já afracavam. João Goanhá,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 423 –
em toda economizada estatura, foi ver a gente vindo e abriu seus
bons braços. Ele estava com próprios trezentos guerreiros. E
sempre outros chegavam. – “Meu irmão Titão Passos... Meu
irmão Titão Passos...” – ele falou, crescente. – “E vocês todos,
valentes cabras... Agora é que vai ser a grande briga!” Disse que
com três dias se saía em armas. João Goanhá ia na vaca e no
boi: não estava com por’oras. E Só Candelário, onde era que
estava? Só Candelário, piorado doente, devia de estar um tempo
desses nos Lençóis, para onde portador seguira, com pressa de
chamado. Mesmo assim, João Goanhá desnecessitava de esperar
por ele, para aos dois judas traidores dar batalha. No que
achamos bom conselho. E outros vinham chegando, oferecendo
peito de ajuda, com prestança em ponta. Veio até quem não se
imaginou: como aquele Nhão Virassaia, com seus trinta e cinco
cacundeiros – o que carregava nome de fama por todo o Rio
VerdeGrande. E o velho Ludujo Filgueiras, montesclarense, com
vinte e dois atiradores. E o grande fazendeiro coronel Digno de
Abreu, que mandou, seus, trinta e tantos capangas, também, por
Luís de Abreuzinho comandados, que era dele filho-natural. E o
gado em pé que se provia, para se abater e se comer, chegava a
ser uma boiada. Com sacas de farinha, surrão de sal, e açúcar
preto e café – até em carro-de-bois os mantimentos de fubá e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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arroz e feijão entregados. Só em quantidades de munição era que
a gente não produzia luxo, e Titão Passos se entristeceu de não
poder ter trazido a nossa, na Guararavacã tão em vão esperada.
Mas a lei de homem não é seus instrumentos. Saímos em guerra.
Ãhã, do norte, da Lagoa-do-Boi, com troca de avisos, sobrevinha
também o bastante da rapaziada dos baianos, debaixo do
comando de Alípio Mota, cunhado de Só Candelário. A simples
íamos cercar bonito os Judas, não tinham escape. Aindas que se
escapassem para o poente, atravessassem o rio, ah, encontravam
ferro e fogo: lá estava Medeiro Vaz – o rei dos Gerais!
Saímos, sobre, fomos. Mas descemos no canudo das
desgraças, ei, saiba o senhor. Desarma do tempo, hora de paga e
perdas, e o mais, que a gente tinha de purgar, segundo se diz.
Tudo o melhor fizemos, e tudo no fim desandava. Deus não
devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós não
estávamos forte em frente, com a coragem esporeada? Estávamos.
Mas, então? Ah, então: mas tem o Outro – o figura, o
morcegão, o tunes, o cramulhão, o debo, o carocho, do pé-depato,
o mal-encarado, aquele – o-que-não-existe! Que não existe,
que não, que não, é o que minha alma soletra. E da existência
desse me defendo, em pedras pontudas ajoelhado, beijando a
barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia! Ah, só Ela
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me vale; mas vale por um mar sem fim... Sertão. Se a Santa puser
em mim os olhos, como é que ele pode me ver?! Digo isto ao
senhor, e digo: paz. Mas, naquele tempo, eu não sabia. Como é
que podia saber? E foram esses monstros, o sobredito. Ele vem
no maior e no menor, se diz o grão-tinhoso e o cão-miúdo. Não
é, mas finge de ser. E esse trabalha sem escrúpulo nenhum, por
causa que só tem um curto prazo. Quando protege, vem, protege
com sua pessoa. Montado, mole, nas costas do Hermógenes,
indicando todo rumo. Do tamanho dum bago de aí-vim, dentro
do ouvido do Hermógenes, por tudo ouvir. Redondinho no lume
dos olhos do Hermógenes, para espiar o primeiro das coisas. O
Hermógenes, que – por valente e valentão – para demais até ao
fim deste mundo e do juízofinal se danara, oco de alma. Contra
ele a gente ia. Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres
tristes desses também se dão. Como eles conseguiram fugir das
unhas da gente, se escaparam – o Ricardão e o Hermógenes – os
Judas. Pois eles escapuliram: passaram perto, légua, quarto-delégua,
com toda sua jagunçama, e não vimos, não ouvimos, não
soubemos, tivemos jeito nenhum para cercar e impedir.
Avançaram, calados, escorregando pelos matos, ganhando o mais
poente, para o São Francisco. Atravessaram por nós, sem a gente
perceber, como a noite atravessa o dia, da manhã à tarde, seu
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pretume dela escondido no brancor do dia, se presume. Quando
pudemos saber, a distância deles já era impossível. Nós
estávamos pegando o ar. Duro de desanimável, hem? E pois
demore o senhor para o pior: o que veio em sobre!: os soldados
do Governo. Os soldados, soldadesca, tantas tropas. Surgiram de
todos os lados, de supetão, e agatanhavam, naquela sanha, é ver
cachorrada caçante. Soldados do Tenente Plínio – companhia de
guerra. Tenente Reis Leme, outra. E veio depois, com muitos
mais outros, um capitão Carvalhais, maior da marca, esse bebia
café em cuité e cuspia pimenta com pólvora. Sofremos, rolamos
por aí aqui, se rolou. vida é vez de injustiças assim, quando o
demo leva o estandarte. Pois – aquela soldadama viera para o
Norte era por vingar Zé Bebelo, e Zé Bebelo já andava por
longes desterrado, e nisso eles se viravam contra a gente, que
éramos de Joca Ramiro, que tinha livrado a vida de Zé Bebelo
das facas do Hermógenes e Ricardão; e agora, por sua ação, o
que eles estavam era ajudando indireto àqueles sebaceiros. Mas,
quem era que podia explicar isso tudo a eles, que vinham em
máquina enorme de cumprir o grosso e o esmo, tendo as garras
para o pescoço nosso mas o pensante da cabeça longe, só
geringonciável na capital do Estado?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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De contar tudo o que foi, me retiro, o senhor está cansado
de ouvir narração, e isso de guerra é mesmice, mesmagem.
Combatemos o quanto mais pudemos – está aí. Consoante
começou, no Curral de Vacas, perto do Morro do Cocuruto,
onde nos pegaram num relaxo. Fugimos, depois de grande fogo.
Fogo demos daí no Cutica, na Chapada Simão Guedes: mas
rodaram com a gente, de retruz. Serra da Saudade: a gente se
desarranjou, fugimos, bem. Ah, e: Córrego Estrelinhas, Córrego
da Malhada Grande, Ribeirão Traçadal – tudo foram as feiezas.
Recito frente ao senhor: e é rol de nomes? Para mim ficaram em
assento de sustos e sofrimento. Nunca me queixei. Sofrimento
passado é glória, é sal em cinza. De tanta maneira Diadorim
assistia comigo, como um gravatá se fechou. Semeei minha presença
dele, o que da vida é bom eu dele entendia. Tomando o
tempo da gente, os soldados remexiam este mundo todo. Milho
crescia em roças, sabiá deu cria, gameleira pingou frutinhas, o
pequi amadurecia no pequizeiro e a cair no chão, veio veranico,
pitanga e caju nos campos. Ato que voltaram as tempestades,
mas entre aquelas noites de estrelaria se encostando. Daí,
depois, o vento principiou a entortar rumo, mais forte – porque
o tempo todo das águas estava no se acabar. Tenente Reis Leme
nos escaramuçando: queria correr com a gente a pano de sabre.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Matou-se montanha de bons soldados. Estávamos em terras que
entestam com a Bahia. Em Bahia entramos e saímos, cinco
vezes, sem render as armas. Isto que digo, sei de cor: brigar no
espinho da caatinga pobre, onde o cãcã canta. Chão que queima,
branco! E aqueles cristais, pedra-cristal quase de sangue...
Chegamos até no cabo do mundo.
Quadrante o que havia, me esconjuro. Parecia que a gente
ia ter de passar o resto da vida guerreando com os praças? Mas
nosso constar era outro, com sangue de urgência – aquela luta de
morte contra os Judas – e que era briga nossa particular. Não se
tendo recurso competente. Ah, Diadorim mascava. Para ódio e
amor que dói, amanhã não é consolo. Eu mesmeava. Mas, dando
um dia, a gente teve certas notícias: os do Hermógenes estando
senhores arranchados, conforme retouçavam, da banda de lá do
Rio do Chico: nas vertentes da beira da mão direita do
Carinhanha, no Chapadão de Antônio Pereira. Questionou-se
nisso. Se pensou e falou em tudo por fazer e não fazer. Resultado
foi este: que o principal era a gente mandar reforço, para Medeiro
Vaz, uns cinqüenta ou cem homens, repartidos em miúdos
grupos, caçando jeito de safança por entre os lugares perigáveis.
Enquanto tanto, João Goanhá, Alípio Mota e Titão Passos, cada
qual de lado seu, deviam de ir desmanchar os rastos na caatinga,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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e depois se esconderem, por uns tempos, em fazendas de donos
amigos, até que a soldadesca se espairecesse. E era bom e era
justo. Era certo. Deus em armas nos guardava.
De mim, vim, com Diadorim, Alaripe, Jesualdo e João
Vaqueiro, e o Fafafa. Era para o outro lado, era para os meus
Gerais, eu vinha alegre contente. E saímos, com o seguinte risco:
o Imbiruçu, a Serra do Pau-d’Arco, o Mingu, a Lagoa dos
Marruás, o Dôminus-Vobíscum, o Cruzeiro-das-Embaúbas, o
Detrás-das-Duas-Serras. O Brejo dos Mártires, a Cachoeirinha
Roxa, o Mocó, a Fazenda Riacho-Abaixo, a Santa Polônia, a
Lagoa da Jabuticaba. E daí, por uns atalhos: o Córrego
Assombrado, o Sassapo, o Poço d’Anjo, o Barreiro do Muquém.
Nesse meu, caminho fazendo, tirei minha desforra: faceirei.
Severgonhei. Estive com o melhor de mulheres. Na Malhada,
comprei roupas. O vau do mundo é a alegria! Mas Diadorim não
se fornecia com mulher nenhuma, sempre sério, só se em
sonhos. Dele eu ainda mais gostava. E então se deu que
tínhamos esbarrado em frente da Lagoa Clara. Já era o do Chico
– o poder dele – largas águas, seu destino. A ver, o porto-debalsa,
que distava pouco. Travessia, ali, podia ser perigosa, com
tantos soldados vizinhantes. A gente se apartar? Ah, mas o que
bastava o balseiro se chamar: – “Hô, passador! Hô, passador!...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– ele viesse. Assim, para uma invenção, que se teve. O balseiro só
avistando João Vaqueiro e o Fafafa – estes ele então podia
passar, com cinco dos cavalos, falavam que era para uns
caçadores. Da outra banda, João Vaqueiro e o Fafafa fossem
levando os cavalos para um lugar para cima da barra, no Urucuia,
chamado o Olho-d’Agua-das-Outras. Lá a gente se encontrava.
Somente ficados com um cavalinho só, Alaripe e eu,
Diadorim e Jesualdo, andamos beira-rio, no vagarosamente. A
gente esperava o que acontecesse. Ali mais adiante, era um portode-
lenha. – “Você tem receio, Riobaldo?” – Diadorim me
perguntou. Eu?! Com ele em qualquer parte eu embarcava, até na
prancha de Pirapora! – “Vau do mundo é a coragem...” – eu
disse. E, com os rifles escorados, acenamos para uma grande
barca – aquela, a cara-de-pau que tinha no bico da frente era uma
cabeça de touro, boa-sorte nos dava. O barqueiro tocou um
berro no buzo, encostaram. A gente os quatro, com o cavalo, era
nada – as arrobazinhas. E nós entramos, depois que o patrão nos
saudou, em nome de Nosso Senhor CristoJesus, e disse: – “Eu cá
sou amigo de todos, segundo a minha condição...” E o Alaripe
aceitou dele um gole de cachaça, aceitamos. Jesualdo disse, repostando:
– “Amigo de todos? Rio-abaixo, na canoa, quem
governa é o remador!” Bem que rio-acima é que era, mas com
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remeiros muito bons esforçados. Aí constante, o velejo, vento
em pano – nem remeiro com o varejão não carecia de fazer
talento. Pediram notícias do sertão. Essa gente estava tão
devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a honestidade
deles. O sertão nunca dá notícia. Eles serviram à gente farta
jacuba. – “Por onde os senhores vieram?” – o patrão indagou. –
“Viemos da Serra Rompe-Dia...” – respondemos. Mentiras
d’água. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe. O
barqueiro não acreditou, deu o zé de ombros. Mas levou a gente
travessia fácil, frenteando a boca do Urucuia. Ah, o meu Urucuia,
as águas dele são claras certas. E ainda por ele entramos, subindo
légua e meia, por isso pagamos uma gratificação. Rios bonitos
são os que correm para o Norte, e os que vêm do poente – em
caminho para se encontrar com o sol. E descemos num pojo,
num ponto sem praia, onde essas altas árvores – a caraíba-de-flor
– roxa, tão urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-desangue;
o pau-paraíba, sombroso. O Urucuia, suas abas. E vi
meus Gerais!
Aquilo nem era só mata, era até florestas! Montamos
direito, no Olhod’Agua-das-Outras, andamos, e demos com a
primeira vereda – dividindo as chapadas –: o flaflo de vento
agarrado nos buritis, franzido no gradeai de suas folhas altas; e,
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sassafrazal – como o da alfazema, um cheiro que refresca; e
aguadas que molham sempre. Vento que vem de toda parte.
Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade.
Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre
caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma
verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém
não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem
ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível?
Lengalenga. Fomos, fomos.
Assim pois foi, como conforme, que avançamos rompidas
marchas, duramente no varo das chapadas, calcando o sapê
brabão ou areias de cor em cimento formadas, e cruzando
somente com gado transeunte ou com algum boi sozinho
caminhador. E como cada vereda, quando beirávamos, por seu
resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia –
todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água. E que, com
nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus
nas serras dos Gerais, viemos subindo até chegar de repente na
Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda.
Que’s borboletas! E era em maio, pousamos lá dois dias, flor de
tudo, como sutil suave, no conhecimento meu com Otacília. O
senhor me ouviu. Em como Otacília e eu ficamos gostando um
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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do outro, conversamos, combinados no noivável, e na
sobremanhã eu me despedi, ela com sua cabecinha de gata, alva
no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos; e de lá me
fui, com Diadorim e os outros. E de como viemos, em cata do
grosso do bando de Medeiro Vaz, que dali a quinze léguas
recruzava, da Ratragagem para a Vereda-Funda, e com eles nos
ajuntamos, economizando rumo, num lugar chamado o Bom-
Buriti. Me alembro, meu é. Ver belo: o céu poente de sol, de
tardinha, a roséia daquela cor. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta
daquelas friagens. Cantam que sim. Na Santa Catarina. Revejo.
Flores pelo vento desfeitas. Quando rezo, penso nisso tudo. Em
nome da Santíssima Trindade.
O que o seguinte foi este: o encontro da gente com
Medeiro Vaz, no Bom-Buriti, num ressaco, conforme já disse, ele
no meio de seus fortes homens, exatos, naquela bocaina de
campo. Medeiro Vaz, retrata], barbaça, com grande chapéu
rebuçado, aquela pessoa sisuda, circunspecto com todas as
velhices, sem nem velho ser. Cujo eu me disse: – “É bom homem...”
E ele beijou a testa de Diadorim, e Diadorim beijou
aquela mão. A um assim, a gente podia pedir a benção, se prezar.
Medeiro Vaz tomava rapé. Medeiro Vaz, mandando passar as
ordens. E tinha quartel-mestre. Subindo em esperança, de lá
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saímos, para chão e sertão. Sertão bravo: as araras. O só que
Medeiro Vaz comandou foi isto: – “Aleluia!” Diadorim tinha
comprado um grande lenço preto: que era para ter luto
manejável, funo guardado em sobre seu coração. Chapadão de
duro. Daí, passamos um rio vadoso – rio de beira baixinha, só
buriti ali, os buritis calados. E a flor de caraíba urucuiã – roxo
astrazado, um roxo que sobe no céu. Naquele trecho, também
me lembro, Diadorim se virou para mim – com um ar quase de
meninozinho, em suas miúdas feições. – “Riobaldo, eu estou
feliz!...” – ele me disse. Dei um sim completo. E foi assim que a
gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos
combates, e sofrimentos, que já relatei ao senhor, se não me
engano até ao ponto em que Zé Bebelo voltou, com cinco
homens, descendo o Rio Paracatu numa balsa de talos de buriti, e
herdou brioso comando; e o que debaixo de Zé Bebelo fomos
fazendo, bimbando vitórias, acho que eu disse até um fogo que
demos, bem dado e bem ganho, na Fazenda São Serafim. Mas,
isso, o senhor então já sabe.
Só sim? Ah, meu senhor, mas o que eu acho é que o
senhor já sabe mesmo tudo – que tudo lhe fiei. Aqui eu podia
pôr ponto. Para tirar o final, para conhecer o resto que falta, o
que lhe basta, que menos mais, é pôr atenção no que contei,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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remexer vivo o que vim dizendo. Porque não narrei nada à-toa:
só apontação principal, ao que crer posso. Não esperdiço palavras.
Macaco meu veste roupa. O senhor pense, o senhor ache.
O senhor ponha enredo. Vai assim, vem outro café, se pita um
bom cigarro. Do jeito é que retorço meus dias: repensando.
Assentado nesta boa cadeira grandalhona de espreguiçar, que é
das de Carinhanha. Tenho saquinho de relíquias. Sou um
homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente
percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas, a lume de
lua...
Urubu? Um lugar, um baiano lugar, com as ruas e as
igrejas, antiqüíssimo – para morarem famílias de gente. Serve
meus pensamentos. Serve, para o que digo: eu queria ter
remorso; por isso, não tenho. Mas o demônio não existe real.
Deus é que deixa se afinar à vontade o instrumento, até que
chegue a hora de se dançar. Travessia, Deus no meio. Quando
foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas; lá já é a Bahia?
Estive nessas vilas, velhas, altas cidades... Sertão é o sozinho.
Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão?
Sertão: é dentro da gente. O senhor me acusa? Defini o alvará
do Hermógenes, referi minha má cedência. Mas minha padroeira
é a Virgem, por orvalho. Minha vida teve meio-doJoão
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caminho? Os morcegos não escolheram de ser tão feios tão frios
– bastou só que tivessem escolhido de esvoaçar na sombra da
noite e chupar sangue. Deus nunca desmente. O diabo é sem
parar. Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não
voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo
esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com
lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que
ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se
aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem
sempre ensina, mas quem de repente aprende. Por que é que
todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez?
Eu queria formar uma cidade da religião. Lá, nos confins do
Chapadão, nas pontas do Urucuia. O meu Urucuia vem, claro,
entre escuros. Vem cair no São Francisco, rio capital. O São
Francisco partiu minha vida em duas partes. A Bigri, minha
mãe, fez uma promessa; meu padrinho Selorico Mendes tivesse
de ir comprar arroz, nalgum lugar, por morte de minha mãe?
Medeiro Vaz reinou, depois de queimar sua casa-de-fazenda.
Medeiro Vaz morreu em pedra, como o touro sozinho berra
feio; conforme já comparei, uma vez: touro preto todo urrando
no meio da tempestade. Zé Bebelo me alumiou. Zé Bebelo ia e
voltava, como um vivo demais de fogo e vento, zás de raio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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veloz como o pensamento da idéia – mas a água e o chão não
queriam saber dele. Compadre meu Quelemém outrotanto é
homem sem parentes, provindo de distante terra – da Serra do
Urubu do Indaiá. Assim era Joca Ramiro, tão diverso e reinante,
que, mesmo em quando ainda parava vivo, era como se já
estivesse constando de falecido. Só Candelário? Só Candelário
se desesperou por forma. Meu coração é que entende, ajuda
minha idéia a requerer e traçar. Ao que Joca Ramiro pousou que
se desfez, enterrado lá no meio dos carnaubais, em chão
arenoso salgado. Só Candelário não era, de certo modo, parente
do compadre meu Quelemém, o senhor sabe? Diadorim me veio,
de meu não-saber e querer. Diadorim – eu adivinhava. Sonhei
mal? E em Otacília eu sempre muito pensei; tanto que eu via as
baronesas amarasmeando no rio em vidro – jericó, e os lírios
todos, os lírios-do-brejo – copos-de-leite, lágrimas-demoça, sãojosés.
Mas, Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim
do Santíssimo. A Nhorinhá – nas Aroeirinhas – filha de
Ana Duzuza. Ah, não era rejeitã... Ela quis me salvar? De dentro
das águas mais clareadas, aí tem um sapo roncador. Nonada! A
mais, com aquela grandeza, a singeleza: Nhorinhá puta e bela. E
ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga. Uns talismãs. A
mocinha Miosótis? Não. A Rosa’uarda. Me alembrei dela; todas
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as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias que são
passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os
cavalos: os cavaleiros na madrugada – como os cavalos se
arraçoam. O senhor se alembra da canção de Siruiz? Ao que
aquelas troas de areia e as ilhas do rio, que a gente avista e vai
guardando para trás. Diadorim vivia só um sentimento de cada
vez. Mistério que a vida me emprestou: tonteei de alturas. Antes,
eu percebi a beleza daqueles pássaros, no Rio das Velhas –
percebi para sempre. O manuelzinho-da-troa. Tudo isso posso
vender? Se vendo minha alma, estou vendendo também os
outros. Os cavalos relincham sem causa; os homens sabem
alguma coisa da guerra? Jagunço é o sertão. O senhor pergunte:
quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo? Mas aquele
menino, o Valtei, na hora em que o pai e a mãe judiavam dele
por lei, ele pedia socorro aos estranhos. Até o Jazevedão,
estivesse ali, vinha com brutalidade de socorro, capaz. Todos
estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e
as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas,
muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar
a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o
sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver
perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um
descanso na loucura. Deus é que me sabe. O Reinaldo era
Diadorim – mas Diadorim era um sentimento meu. Diadorim e
Otacília. Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos
remansos do Urucuia, mas que é rio de braveza. Ele está sempre
longe. Sozinho. Ouvindo uma violinha tocar, o senhor se lembra
dele. Uma musiquinha até que não podia ser mais dançada – só o
debulhadinho de purezas, de virar-virar... Deus está em tudo –
conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo.
Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por
uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos,
a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que
já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num
cômpito. Eu penso é assim, na paridade. O demônio na rua...
Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas
coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é o do sentidor. O
que eu quero, é na palma da minha mão. Igual aquela pedra que
eu trouxe do Jequitinhonha. Ah, pacto não houve. Pacto?
Imagine o senhor que eu fosse sacerdote, e um dia tivesse de
ouvir os horrores do Hermógenes em confissão. O pacto de um
morrer em vez do outro – e o de um viver em vez do outro,
então?! Arrenego. E se eu quiser fazer outro pacto, com Deus
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mesmo – posso? – então não desmancha na rãs tudo o que em
antes se passou? Digo ao senhor: remorso? Como no homem
que a onça comeu, cuja perna. Que culpa tem a onça, e que culpa
tem o homem? Às vezes não aceito nem a explicação do
Compadre meu Quelemém; que acho que alguma coisa falta.
Mas, medo, tenho; mediano. Medo tenho é porém por todos. É
preciso de Deus existir a gente, mais; e do diabo divertir a gente
com sua dele nenhuma existência. O que há é uma certa coisa –
uma só, diversa para cada um – que Deus está esperando que
esse faça. Neste mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa.
Mas, então, todos são maus. Mas, mais então, todos não serão
bons? Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente
saber tudo, formar alma, na.consciência; para penar, não se
carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porquê. Digo ao
senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas;
também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente
sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo?
Não. Estou dando batalha. É preciso negar que o “Que-Diga”
existe. Que é que diz o farfal das folhas? Estes gerais enormes,
em ventos, danando em raios, e fúria, o armar do trovão, as feias
onças. O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que
Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante, quero
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo.
Agora, no que eu tive culpa e errei, o senhor vai me ouvir.
Vemos voltemos. O Buriti-Pintado, o Oi-Mãe, o rio
Soninho, a Fazenda São Serafim; com outros, mal esquecidos,
seja. Ao pé das chapadas, no entremeio do se encher de rios
tantos, ou aí subindo e descendo solaus, recebendo o empapo de
chuva e mais chuva, a gente se fervia – debaixo desses
extraordinários de Zé Bebelo – a gente lambia guerra. Zé Bebelo
Vaz Ramiro-viva o nome! A gente vinha sobre o rastro deles, dos
Hermógenes – por matar, por acabar com eles, por perseguir. No
borrusco, o Hermógenes corria, longes, de nós, sempre. Às artes
que fugiam. Mas eu com aquilo já tinha inteirado costume. Era
ruim e era bom.
Aí quando muito vento abriu o céu, e o tempo deu
melhora, a gente estava na erva alta, no quase liso de altas terras.
Se ia, aos vintes e trintas, com Zé Bebelo de bota-fogo. Assim
expresso, chapadão voante. O chapadão é sozinho – a largueza.
O sol. O céu de não se querer ver. O verde carteado do grameal.
As duras areias. As arvorezinhas ruim-inhas de minhas. A
diversos que passavam abandoados de araras – araral – conversantes.
Aviavam vir os periquitos, cota o canto-clim. Ali chovia?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Chove – e não encharca poça, não rola enxurrada, não produz
lama: a chuva inteira se soverse em minuto terra a fundo, feito
um azeitezinho entrador. O chão endurecia cedo, esse
rareamento de águas. O fevereiro feito. Chapadão,
chapadão,chapadão.
De dia, é um horror de quente, mas para a noitinha
refresca, e de madrugada se escorropicha o frio, o senhor isto
sabe. Para extraviar as mutucas, a gente queimava folhas de
arapavaca. Aquilo bonito, quando tição aceso estala seu fim em
faíscas – e labareda dalalala. Alegria minha era Diadorim.
Soprávamos o fogo, juntos, ajoelhados um frenteante o ao outro.
A fumaça vinha, engasgava e enlagrimava. A gente ria. Assim que
fevereiro é o mês mindinho: mas é quando todos os cocos do
buritizal maduram, e no céu, quando estia, a gente acha reunidas
as todas estrelas do ano todo. Mesmas vezes eu ria. Homem
dorme com a cabeça para trás, dois dedos no queixo. Era o
Pitolô. Um Pitolô, sei lá, cabra destemido, com crimes nos
maniçobais perto para cima de Januária; mas era nascido no
barranco. No Carinhanha, rio quase preto, muito imponente,
comprido e povooso. Ademais que ele contava casos de muito
amor; Diadorim às vezes gostava. Mas Diadorim sabia era a
guerra. Eu, no gozo de minha idéia, era que o amor virava
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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senvergonhagem.Turvei, tanto. – “Andorinha que vem e que vai,
quer é ir bem pousar nas duas torres da matriz de Carinhanha...”
– o Pitolô falava. Eu tinha súbitas outras minhas vontades, de
passar devagar a mão na pele branca do corpo de Diadorim, que
era um escondido. E em Otacília, eu não pensava? No escasso,
pensei. Nela, para ser minha mulher, aqueles usos-frutos. Um dia,
eu voltasse para a Santa Catarina, com ela passeava, no laranjal de
lá. Otacília, mel do alecrim. Se ela por mim rezava? Rezava. Hoje
sei. E era nessas boas horas que eu virava para a banda da direita,
por dormir meu sensato sono por cima de estados escuros.
Mas levei minha sina. Mundo, o em que se estava, não era
para gente: era um espaço para os de meia-razão. Para ouvir
gavião guinchar ou as tantas seriemas que chungavam, e avistar
as grandes emas e os veados correndo, entrando e saindo até dos
velhos currais de ajuntar gado, em rancharias sem morador? Isso,
quando o ermo melhorava de ser só ermo. A chapada é para
aqueles casais de antas, que toram trilhas largas no cerradão por
aonde, e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. Aqui e
aqui, os tucanos senhoreantes, enchendo as árvores, de mim a
um tiro de pistola – isto resumo mal. Ou o zabelê choco,
chamando seus pintos, para esgaravatar terra e com eles os
bichinhos comíveis catar. A fim, o birro e o garrixo sigritando.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ah, e o sabiá-preto canta bem. Veredas. No mais, nem mortalma.
Dias inteiros, nada, tudo o nada – nem caça, nem pássaro, nem
codorniz. O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num
rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso
diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os
olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da
aurora, o sertão tonteia. Os tamanhos. A alma deles. Mas Zé
Bebelo, andante, estava esperdiçando o consistir. E que o
Hermógenes só fizesse por se fugir toda a vida, isso ele não
entendia. – “Vai cavacando buraco, vai, que tu vê!” – oco da
paciência, ele resmungou. Ainda que, nesses dias, ele menos
falasse; ou, quando falava, eu não queria ouvir. Digo que, no cível
trivial, Zé Bebelo me indispunha com algum enjôo. A antes uma
conversa com Alaripe, somente simples, ou com o Fafafa, que
estimava irmãmente os cavalos, deles tudo entendia, mestre em
doma e em criação. Zé Bebelo só tinha graça para mim era na
beira dos acontecimentos – em decisões de necessidade forte e
vida virada – horas de se fazer. O traquejar. Se não, aquela mente
de prosa já me aborrecia.
A monte andante, ao adiável, aí assim e assaz eu airei meu
pensamento. Amor eu pensasse. Amormente. Otacília era, a
bem-dizer, minha noiva? Mas eu carecia era de mulher
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ministrada, da vaca e do leite. De Diadorim eu devia de
conservar um nojo. De mim, ou dele? As prisões que estão refincadas
no vago, na gente. Mas eu aos poucos macio pensava,
desses acordados em sonho: e via, o reparado – como ele
principiava a rir, quente, nos olhos, antes de expor o riso daquela
boca; como ele falava meu nome com um agrado sincero; como
ele segurava a rédea e o rifle, naquelas mãos tão finas,
brancamente. Esses Gerais em serras planas, beleza por ser tudo
tão grande, repondo a gente pequenino. Como se eu estivesse
calçando par de chinelo muito flote; e eu queria um sinapismo,
botim reiúno, duro, redomão.
Agora – e os outros? – o senhor dirá. Ah, meu senhor,
homens guerreiros também têm suas francas horas, homem
sozinho sem par supre seus recursos também. Surpreendi um, o
Conceiço, que jazia vadio deitado, se ocultando atrás de fechadas
moitas; momento que raro se vê, feito o cagar dum bicho bravo.
– “É essa natureza da gente...” – ele disse; eu não tinha
perguntado explicação. O que eu queria era um divertimento de
alívio. Ali, com a gente, nenhum cantava, ninguém não tinha
viola nem nenhum instrumento. No peso ruim do meu corpo, eu
ia aos poucos perdendo o bom tremor daqueles versos de Siruiz?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Então eu forcejei por variar de mim, que eu estava no nãoacontecido
nos passados. O senhor me entende?
De Diadorim não me apartava. Cobiçasse de comer e beber
os sobejos dele, queria pôr a mão onde ele tinha pegado. Pois,
por quê? Eu estava calado, eu estava quieto. Eu estremecia sem
tremer. Porque eu desconfiava mesmo de mim, não queria existir
em tenção soez. Eu não dizia nada, não tinha coragem. O que
tinha era uma esperança? Mesmo parava tempos no pensar numa
mulher achada: Nhorinhá, a minha moça Rosa’uarda, aquela
mocinha Miosótis. Mas o mundo falava, e em mim tonto sonho
se desmanchando, que se esfiapa com o subir do sol, feito
neblina noruega movente no frio de agosto.
A noite que houve, em que eu, deitado, confesso, não
dormia; com dura mão sofreei meus ímpetos, minha força
esperdiçada; de tudo me prostrei.
Ao que me veio uma ânsia. Agora eu queria lavar meu
corpo debaixo da cachoeira branca dum riacho, vestir terno
novo, sair de tudo o que eu era, para entrar num destino melhor.
Anda que levantei, a pé caminhei em redor do arrancho, antes do
romper das horas d’alva. Saí no grande orvalho. Só os pássaros,
pássaro de se ouvir sem se ver. Ali se madruga com céu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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esverdeado. Zé Bebelo podia pautear explicação de tudo: de
como a gente ia alcançar os Hermógenes e dar neles grave
derrota; podia referir tudo que fosse de bem se guerrear e reger
essa política, com suas futuras benfeitorias. De que é que aquilo
me servisse? Me cansava. E vim vindo, para a beira da vereda.
Consegui com o frio, esperei a escuridão se afastar. Mas, quando
o dia clareou de todo, eu estava diante do buritizal. Um buriti –
tetéia enorme. Aí sendo que eu completei outros versos, para
ajuntar com os antigos, porque num homem que eu nem conheci
– aquele Siruiz – eu estava pensando. Versos ditos que foram
estes, conforme na memória ainda guardo, descontente de que
sejam sem razoável valor:
Trouxe tanto este dinheiro
o quanto, no meu surrão,
p’ra comprar o fim do mundo
no meio do Chapadão.
Urucuia – rio bravo
cantando à minha feição:
é o dizer das claras águas
que turvam na perdição.
Vida é sorte perigosa
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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passada na obrigação:
toda noite é rio-abaixo,
todo dia é escuridão...
Mas estes versos não cantei para ninguém ouvir, não
valesse a pena. Nem eles me deram refrigério. Acho que porque
eu mesmo tinha inventado o inteiro deles. A virtude que tivessem
de ter, deu de se recolher de novo em mim, a modo que o truso
dum gado mal saído, que em sustos se revolta para o curral, e na
estreitez da porteira embola e rela. Sentimento que não espairo;
pois eu mesmo nem acerto com o mote disso – o que queria e o
que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha
tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar
alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no
meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer,
de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava.
Ao clarear do dia.
Aí o senhor via os companheiros, um por um, prazidos,
em beira do café. Assim, também, por que se agüentava aquilo,
era por causa da boa camaradagem, e dessa movimentação
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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sempre. Com todos, quase todos, eu bem combinava, não tive
questões. Gente certa. E no entre esses, que eram, o senhor me
ouça bem: Zé Bebelo, nosso chefe, indo à frente, e que não sediava
folga nem cansaço; o Reinaldo-que era Diadorim: sabendo
deste, o senhor sabe minha vida; o Alaripe, que era de ferro e de
ouro, e de carne e osso, e de minha melhor estimação; Marcelino
Pampa, segundo em chefe, cumpridor de tudo e senhor de
muito respeito; João Concliz, que com o Sesfredo porfiava,
assoviando imitado de toda qualidade de pássaros, este nunca se
esquecia de nada; o Quipes, sujeito ligeiro, capaz de abrir num
dia suas quinze léguas, cavalos que haja; Joaquim Beiju,
rastreador, de todos esses sertões dos Gerais sabente; o Tipote,
que achava os lugares d’água, feito boi geralista ou buriti em
broto de semente; o Suzarte, outro rastreador, feito cão
cachorro ensinado, boa pessoa; o Queque, que sempre tinha saudade
de sua rocinha antiga, desejo dele era tornar a ter um
pedacinho de terra plantadeira; o Marimbondo, faquista, perigoso
nos repentes quando bebia um tanto de mais; o Acauã, um roxo
esquipático, só de se olhar para ele se via o vulto da guerra; o
Mão-de-Lixa, porreteiro, nunca largava um bom cacete, que nas
mãos dele era a pior arma; Freitas Macho, grão-mogolense,
contava ao senhor qualquer patranha que prouvesse, e assim
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 450 –
descrevia, o senhor acabava acreditando que fosse verdade; o
Conceiço, guardava numa sacola todo retrato de mulher que ia
achando, até recortado de folhinha ou de jornal; José Gervásio,
caçador muito bom; José ]itirana, filho dum lugar que se
chamava a Capelinha-do-Chumbo: esse sempre dizia que eu era
muito parecido com um tio dele, Timóteo chamado; o Preto
Mangaba, da Cachoeira-do-Choro, dizia-se que entendia de toda
mandraca; João Vaqueiro, amigo em tanto, o senhor já sabe; o
Coscorão, que tinha sido carreiro de muito ofício, mas constante
que era canhoto; o jacaré, cozinheiro nosso; Cavalcânti,
competente sujeito, só que muito soberbose ofendia com
qualquer brincadeira ou palavra; o Feliciano, caolho; o Marruaz,
homem desmarcado de forçoso: capaz de segurar as duas pernas
dum poldro; Guima, que ganhava em todo jogo de baralho, era
do sertão do Abaeté; Jiribibe, quase menino, filho de todos no
afetual paternal; o Moçambicão – um negro enorme, pai e mãe
dele tinham sido escravos nas lavras; Jesualdo, rapaz cordato – a
ele fiquei devendo, sem me lembrar de pagar, quantia de dezoito
mil-réis; o Jequitinhão, antigo capataz arrieiro, que só se dizia por
ditados; o Nélson, que me pedia para escrever carta, para ele
mandar para a mãe, em não sei onde moradora; Dimas Doido,
que doido mesmo não era, só valente e esquentado; o Sidurino,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tudo o que ele falava divertia a gente; Pacamã-de-Presas, que
queria qualquer dia ir cumprir promessa, de acender velas e
ajoelhar adiante, no São Bom Jesus da Lapa; Rasga-em-Baixo,
caolho também, com movimentos desencontrados, dizia que
nunca tinha conhecido mãe nem pai; o Fafafa, sempre cheirando
a suor de cavalo, se deitava no chão e o cavalo vinha cheirar a
cara dele; Jõe Bexiguento, sobrenomeado “Alparcatas”, deste qual
o senhor, recital, já sabe; um José Quitério: comia de tudo, até
calango, gafanhoto, cobra; um infeliz Treciziano; o irmão de um,
José Félix; o Liberato; o Osmundo. E os urucuianos que Zé Bebelo
tinha trazido: aquele Pantaleão, um Salústio João, os outros. E –
que ia me esquecendo – Raimundo Lê, puçanguara, entendido de
curar qualquer doença, e Quim Queiroz, que da munição dava
conta, e o Justino, ferrador e alveitar. A mais, que nos dedos
conto: o Pitolô, José Micuim, Zé Onça, Zé Paquera, Pedro Pintado,
Pedro Afonso, Zé Vital, João Bugre, Pereirão, o Jalapa, Zé Beiçudo,
Nestor. E Diodolfo, o Duzentos, João Vereda, Felisberto, o Testa-em-
Pé, Remigildo, o Jósio, Domingos Trançado, Leocádio, Pau-na-Cobra,
Simião, Zé Geralista, o Trigoso, o Cajueiro, Nhô Faísca, o Araruta,
Durval Foguista, Chico Vosso, Acrísio e o Tuscaninho Caramé.
Amostro, para o senhor ver que eu me alembro. Afora algum de
que eu me esqueci – isto é: mais muitos... Todos juntos, aquilo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 452 –
tranqüilizava os ares. A liberdade é assim, movimentação. E
bastantes morreram, no final. Esse sertão, esta terra.
A verdade que com Diadorim eu ia, ambos e todos. Além
de que Zé Bebelo comandava. – “Ao que vamos, vamos, meu
filho, Professor: arrumar esses bodes na barranca do rio, e impor
ao Hermógenes o combate...” – Zé Bebelo preluzia, comedindo
pompa com sua grande cabeça. Assim de loguinho não aprovei,
então ele imaginou que eu estava descrendo. – “Agora coage tua
cisma, que eu estou senhor dos meus projetos. Tudo já pensei e
repensei, guardo dentro daqui o resumo bem traçado!” – e ele
pontoava com dedo na testa. Acreditar eu acreditasse, não
duvidei. O que eu podia não saber era se eu mesmo estava em
ocasiões de boa-sorte.
A ser, porque, numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida, a
gente tinha topado com turma de inimigos, retornados para lá
por espiação. Aí foi curto fogo, mas eu levei uma bala, de raspaz,
na carne do braço, perdi muito sangue. Raimundo Lê banhou
com casca de angico, na hora melhorei; Diadorim amarrou bem,
com pano duma camisa rasgada. Apreciei a delicadeza dele.
Atual, todos prestaram em mim amizade de atenção, aquilo vinha
a ser até um consolo. Só que, depois de dois dias, o braço me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 453 –
doía inteiro e inchava, sei que a inchação me cansasse muito,
sempre eu queria esbarrar pra água beber. – “Se eu tiver de atirar,
então como é que faço? Não posso...” – era outro meu receio.
Admirei, porque o José Félix também tinha tido ferimento, na
coxa e na perna, mas a natureza dele era limpa, o ofendido secava
por si, nem parecendo ser. Assim a primeira vez que me sucedia
um a-mal, isso me perturbasse. O que me sofria até nas margens
do peito, e nos dedos da mão, não me concedendo movimentos.
Muito temi por meu corpo. “Ah, minha Otacília” – eu gemi em
mim. – “Pode que nunca mais você me veja, e então nem viúva
minha você não vai ser...” Uns recomendavam arnica-do-campo,
outros aconselhavam emplastro de bálsamo, com isso rente se
sarava. Aí Raimundo Lê garantiu cura com erva-boa. Mas onde
era que erva-boa se ia achar?
À Fazenda dos Tucanos chegamos, lá esbarramos – é na
beira da Lagoa Raposa, passada a Vereda do Enxu. Visitamos o
fazendão vazio, não tinha almaviva de se ver. E do Rio-do-Chico
longe não se estava. Assim então por que era que não se avançar
logo, às duras marchas, para atacar? – “Sei de mim, sei...” – Zé
Bebelo menos disse, sem explicação. Desconheci. Cacei um catre,
cama-de-vento, num quarto meio escuro; com coisa nenhuma
não me importei. – “Retém as forças, Riobaldo. Vou campear o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 454 –
remédio, nesses matos...” – Diadorim falou. A gente nos
Tucanos ia falhar dois dias, ali ficamos comendo palmito e
secando em sol a carne de dois bois.
No primeiro dia, de tardinha, apareceu um boiadeiro, que
com seus camaradas viajando. Vinham de Campo-Capão-
Redondo, em caminhada para Morrinhos. Por que tinham
riscado aquela grande volta? – “O senhor dá paz à gente, Chefe?”
– o boiadeiro perguntou. – “Dou paz, damos, amigos...” – Zé
Bebelo respondeu. A quieto, o boiadeiro então achou que devia
de as novidades relatar. Que se estava em meio de perigos. Sim.
Os soldados! – “Os que soldados, esses, mano velho?”
Soldadesca pronta, do Governo, mais de uns cinqüenta. Assim
onde era que estavam? – “Ao que estão em São Francisco e em
Vila Risonha, e mais outros deles vão vindo chegando, Chefe; é o
que eu ouvi dizer...” Zé Bebelo, escutando, redondamente. Só
quis mais saber. Se isso, se aquilo. Se o boiadeiro sabia o nome
do Promotor de Vila Risonha, e do juiz de Direito, do Delegado,
do Coletor, do Vigário. O do Oficial comandante da tropa, o
boiadeiro não acertava dizer. Aquele boiadeiro era homem sério,
com palavra merecida e vontade de estar bem com todos. Tinha
uma garrafa de vinho depurativo na bagagem, me presenteou
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 455 –
com um gole, me fez bem. Pousou lá, no outro dia se foram,
muito cedo.
Nesse entremear, eu senti meu braço melhor, e estive mais
disposto. Andei andando, vi aquela fazenda. Essa era enorme –
o corredor de muitos grandes passos. Tinha as senzalas, na raia
do pátio de dentro, e, na do de fora, em redor, o engenho, a
casa-dos-arreios, muitas moradas de agregados e os depósitos;
esse pátio de fora sendo largo, lajeado, e com um cruzeiro bem
no meio. Mas o capim crescia regular, enfeite de abandono. Não
de todo. Pois tinham desamparado um gato, ali esquecido, o
qual veio para perto do jacaré cozinheiro, suplicar comida. Até
por dentro do eirado, mansejavam uns bois e vacas, gado
reboleiro. Aí João Vaqueiro viu um berrante bom, pendurado na
parede da sala-grande; pegou nele, chegou na varanda, e tocou:
as reses entendiam, uma ou outra respondendo, e entraram no
curral, para a beira dos cochos, na esperança de sal. – “Não faz
mês que o povo daqui aqui ainda estava...” – João Vaqueiro
declarou. E era verdade, com efeito, pois na despensa muita
coisa se encontrando aproveitável. Nos Tucanos, valia a pena.
Os dois dias ficaram três, que tão depressa passaram.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Madrugada, no em que se ia partir dali, eu acordei ainda
com o escuro, no amiudar. Só assim acordei, por um rumor, seria
o Simião, que estava dormindo no mesmo cômodo e tacteando
se levantava. Mas me chamou. – “A gente vai pegar a cavalhada.
Vamos?” – ele disse. Não gostei. – “Estou enfermo. Então vou?!
Quem é que rala a minha mandioca?” – repontei, áspero. Virei
para o canto; assim eu estava apreciando aquele catre de couro.
O Simião decerto ia, mais o Fafafa e Doristino, estavam bons
para o orvalho dos pastos. Diadorim, que dormia num colchão,
encostado na outra banda, já tinha se levantado antes e
desaparecido do quarto. Ainda persisti numa madorna. Aquela
moradia hospedava tanto – assim sem donos – só para nós.
Aquele mundo de fazenda, sumido nos sussurros, os trastes
grandes, o conforto das arcas de roupa, a cal nas paredes idosas,
o bolor. Aí o que pasmava era a paz. Pensei por que seria tudo
alheio demais: um sujo velho respeitável, e a picumã nos altos.
Pensei bobagens. Até que escutei assoviação e gritos, tropear de
cavalaria. “Ah, os cavalos na madrugada, os cavalos!...” – de
repente me lembrei, antiqüíssimo, aquilo eu carecia de rever.
Afoito, corri, compareci numa janela – era o dia clareando, as
barras quebradas. O pessoal chegava com os cavalos. Os cavalos
enchiam o curralão, prazentes. Respirar é que era bom, tomar
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 457 –
todos os cheiros. Respirar a alma daqueles campos e lugares. E
deram um tiro.
Deram um tiro, de rifle, mais longe. O que eu soube.
Sempre sei quando um tiro é tiro – isto é – quando outros vão
ser. Deram muitos tiros. Apertei minha correia na cintura.
Apertei minha correia na cintura, o seguinte emendando: que
nem sei como foi. Antes de saber o que foi, me fiz nas minhas
armas. O que eu tinha era fome. O que eu tinha era fome, e já
estava embalado, aprontado.
Às tantas o senhor assistisse àquilo: uma confusão sem
confusão. Saí da janela, um homem esbarrou em mim, em
carreira, outros bramaram. Outros? Só Zé Bebelo – as ordens, de
sobrevoz. Aonde, o quê? Todos eram mais ligeiros do que eu?
Mas ouvi: – “... Mataram o Simião...” Simião? Perguntei: – “E o
Doristino?” – “Ãã? Homem, não sei...” – alguém me
respondendo. – “Mataram o Simião e o Aduvaldo...” E eu ralhei:
– “Basta!” Mas, sobre o instante, virei: – “Ah, e o Fafafa?” O que
ouvi: – “Fafafa, não. Fafafa está é matando!...” Assim era, real,
verdadeiramente de repente, caído como chuva: o rasgo de
guerra, inimigos terríveis investindo. – “São eles, Riobaldo, os
Hermógenes!” – Diadorim aparecido ali, em minha frente, isto
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 458 –
falou. Atiraram um horror, duma vez, tiros e tiros que estavam
contra nós desfechando. Atiravam nas construções da casa. Diadorim
sacripante se riu, encolheu um ombro só. Para ele olhei, o
tanto, o tanto, até ele anoitecer em meus olhos. Eu não era eu.
Respirei os pesos. “Agora, agora, estamos perdidos sem
socorro...” – inventei na mente.
E raciocinei a velocidade disto: “Ser pego, na tocaia, é
diverso de tudo, e é tolo...” Assim enquanto, eu escutando, na
folha da orelha, as minúcias recontadas: as passadas dos
companheiros, no corredor; o assoviar e o dar das balas – que
nem um saco de bagos de milho despejado. Feito cuspissem – o
pôr e pôr! Senti como que em mim as balas que vinham estragar
aquela morada alheia de fazenda. Medo nem tive, não deu para
ter – foi outra noção, diferente. Me salvei por um espetar de
pensamento: que Diadorim, cenho franzindo, fosse mandar eu
ter coragem! Ele nem disse. Mas eu me inteirei, ligeiro demais,
num só destorcer. – “Eh, pois vamos! É a hora!” – eu declarei,
pus a mão no ombro dele. Respirei depressa demais. Aquele me
apatetar – saiba o senhor – não deve de ter durado nem os
menos minutos. No átimo, supri a claridade completa de idéia, o
sanguefrio maior, essas comuns tranqüilidades. E, por aí, eu sabia
mesmo exato: a gente já estava debaixo de cerco.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Achei especial o jeito de João Concliz vir, ansiado
cauteloso. Ação em que qualquer um anda – nessas semelhantes
ocasiões – só encostado nas paredes – “Você fica aqui, mais
você, e você... Você dessa banda... Você ali, você-aí acolá...” –
arrumação ele ordenava. – “Riobaldo, Tatarana: tu toma conta
desta janela... Daqui não sai, nem relaxa, por via nenhuma...”
Arredado, lá embaixo avistei Marcelino Pampa indo para as
senzalas, com uns cinco ou seis companheiros. Com outros,
Freitas Macho corria para a tulha; e para o engenho uns junto
com Jõe Bexiguento, dito “Alparcatas”. Meus peitos batendo
tresdobro forte, eu dividido naquela alarida. A grave escorei meu
rifle, limpo, arma minha, amásia. Ainda reconheci o Dimas
Doido e o Acauã, deitados atrás do cruzeiro do pátio. Um
daqueles urucuianos apareceu, mais outro, traziam balaio
grande, com algodão em rama. Mais homens, com sacos de
sabugos; foram buscar outros sacos, carregavam um caixote
também. Tudo eles estavam transportando, por entranqueirar o
pátio de fora: tábuas, tamboretes, cangalhas e arreios, uma mesa
de carapina retombada. Arranjos de guerra – esses são
engenhados sempre com uma graça variada, diversa dos
aspectos de trabalho de paz – isto vi; o senhor vê: homens e
homens repulam no afã tão unidamente, sujeitos maneiros, feito
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