Grande Sertão: Veredas (PARTE 2) | João Guimarães Rosa

| sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em
quieto as coisas chamam a gente. E já se estava antefrente do
Paracatu – que também recovava o pouco e escasso. Esbarrei
não, nem examinei o adiante. Demiti meu cavalo n’água. Os
outros me acompanharam. Assim atravessamos.
Vai, viemos, viemos. Esses dias em ondas. Sei só as
encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de ferro. E era a luanova.
Aquelas pedras brancas, que de noite tanto esfriam. As
caraíbas estavam dando flor. Por ponto de meu corpo, medi o
enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um
vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: - “Amigo o amigo, aqui é
aqui?”











Achei especial o jeito de João Concliz vir, ansiado
cauteloso. Ação em que qualquer um anda – nessas semelhantes
ocasiões – só encostado nas paredes – “Você fica aqui, mais
você, e você... Você dessa banda... Você ali, você-aí acolá...” –
arrumação ele ordenava. – “Riobaldo, Tatarana: tu toma conta
desta janela... Daqui não sai, nem relaxa, por via nenhuma...”
Arredado, lá embaixo avistei Marcelino Pampa indo para as
senzalas, com uns cinco ou seis companheiros. Com outros,
Freitas Macho corria para a tulha; e para o engenho uns junto
com Jõe Bexiguento, dito “Alparcatas”. Meus peitos batendo
tresdobro forte, eu dividido naquela alarida. A grave escorei meu
rifle, limpo, arma minha, amásia. Ainda reconheci o Dimas
Doido e o Acauã, deitados atrás do cruzeiro do pátio. Um
daqueles urucuianos apareceu, mais outro, traziam balaio
grande, com algodão em rama. Mais homens, com sacos de
sabugos; foram buscar outros sacos, carregavam um caixote
também. Tudo eles estavam transportando, por entranqueirar o
pátio de fora: tábuas, tamboretes, cangalhas e arreios, uma mesa
de carapina retombada. Arranjos de guerra – esses são
engenhados sempre com uma graça variada, diversa dos
aspectos de trabalho de paz – isto vi; o senhor vê: homens e
homens repulam no afã tão unidamente, sujeitos maneiros, feito
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o meigo do demo assoprasse neles, ou até mesmo os espíritos!
Suspirei, de bestagem. Ao menos alguém fungou e me cutucou,
era o Preto Mangaba, mandado guarnecer ali, comigo junto.
Preto Mangaba me oferecia dum pão de doce-de-buriti, repartia,
amistoso. Eu então me alembrei de que estava com fome. Mas
Quim Queiroz trazia mais munição, ele ajudado por alguns;
arrastavam um couro, o couro esse cheio repleto de munição,
arrastavam no assoalho do corredor. Da janela da outra banda,
pus o olhar, espiei o desdém do mundo, distâncias. Abalavam
fogo contra a gente, outra vez, contra o espaço da casa. Ixe de
inimigo que não se avistava. Somente eu queria saber era se
agüentava manejar, como era que estava sentindo meu braço. Aí
ergui mão para coçar minha testa, aí me cismei: e fiz, com todo o
respeito, o pelo-sinal. Sei que o cristão não se concerta pela má
vida levável, mas sim porém sucinto pela boa morte – ao que a
morte é o sobrevir de Deus, entornadamente.
Atirei. Atiravam.
Isso não é isto?
Nonada.
A aragem. Diadorim onde estivesse? Soube que ele parava
em outro ponto, em seu posto em praça. Sustentava, picando
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alvos a para a frente, junto com o Fafafa, o Marruaz, Guima e
Cavalcânti, na barra da varanda. Todo lugar não era lugar? Não
se podendo esbarrar, de jeito nenhum, no arrebentar, nas
manivelas da guerra. Aprendi os momentos. Assim, assazmente,
João Concliz tornava a vir, zelante, com Alaripe, José Quitério e
Rasga-em-Baixo. – “Espera!” – ele mandou. Pelo que vinham
também o Pitolô e o Moçambicão, puxando uns couros de boi.
Esses couros inteiros eram para a gente pregar lá em riba, nas
padieiras, ficarem dependurados de cortinado bambo, nos vãos
das janelas. Depois, o Pacamã-de-Presas mais o Conceiço,
socavando com ferramenta, a fito de abrir torneiras nas paredes –
por onde buraco de se atirar. Aquela guerra ia durar a vida inteira?
O que eu atirava, ouvia menos. Mas o dos outros: assovios
bravos, o achispe, isto de ferro – as balas apedrejadas. Eu e eu.
Até meus estalos, que a cada, no próprio do coração. À mira de
enviar um grão de morte acertado naquelas raras fumaças
dançáveis. Assim é que é, assim.
Ah! E então, aí, no súbito aparecer, Zé Bebelo chegou, se
encostou quase em mim. – “Riobaldo, Tatarana, vem cá...” – ele
falou, mais baixo, meio grosso – com o que era uma voz de
combinação, não era a voz de autoridade. A de ver, o que ele
quisesse de mim? Para eu passar avante na posição, me transpor
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para um lugar onde se matar e morrer sem beiras, de maior
marca? Andei e segui, presente que, com Zé Bebelo, tudo carecia
mais era de ser depressa. Mesmo me levou. Mas me levou foi
para um outro cômodo. Ali era um quarto, pequeno, sem cama
nenhuma, o que se via era uma mesa. Mesa de madeira vermelha,
respeitável, cheirosa. Desentendi. Dentro daquele quarto, como
que não entrava a guerra. Mas o pensar de Zé Bebelo – ansiado
eu sabia – era coisa que estralejava, inventaste e forte.
– “Mais antes larga o rifle aí, deposita...” – ele falou. O
depor meu rifle? Pois botei, em cima da mesa, esquinado de
través, botei com o todo cuidado. Ali se tinha lápis e papel. –
“Senta, mano...” – ele, pois ele. Ofereceu a cadeira, cadeira alta,
de pau, com recosto. Se era para sentar, assentei, em beira de
mesa. Zé Bebelo de revólver pronto na mão, mas que não contra
mim – o revólver era o comando, o constante revirar e remexer
da guerra. E ele nem me olhou, e me disse:
– “Escreve...”
Caí num pasmo. Escrever, numa hora daquelas? O que ele
explicado mandou, eu fui e principiei; que obedecer é mais fácil
do que entender. Era? Não sou cão, não sou coisa. Antes isto,
que sei, para se ter ódio da vida: que força a gente a ser filhoJoão
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pequeno de estranhos... “Ah, o que eu não entendo, isso é que é
capaz de me matar...” – me lembrei dessas palavras. Mas palavras
que, em outra ocasião, quem tinha falado era Zé Bebelo, mesmo.
– “Escreve...”
O zunzum da guerra acontecendo era que me estorvava de
direito pensar. E Zé Bebelo não estava ali não era para isso, para
pensar por todos? Como que fosse, o papel, para o que carecia,
era pouco. Tinham de caçar mais papel, qualquer, por ali devia de
ter. Enquanto isso, eu cumprisse de escrever, na seca mão da
necessidade.
E ouvimos praga de dor.
– “Ao que foi?” Uns gemidos, despautados, de sorrogo. –
“Companheiro ofendido. O Leocádio...” – ouvimos. Sem-modos
se precipitado, Zé Bebelo avançou para ali, para ver. Sem
determinação tomada de ir, eu também já estava lá, atrás dele. O
homem, o primeiro ferido, caído sentado, as pernas estendidas
para diante, as costas amparadas na parede; com a mão esquerda
era que ele suportava sua testa, mas com a direita ainda segurava
o rifle, que o asno rifle ele não tinha largado. Conforme
Raimundo Lê já tinha exigido, alguns vinham da cozinha,
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trazendo as latas d’água. Raimundo Lê lavava a cara do homem
ensangüentada, do Leocádio. Esse estava atirado pelas queixadas,
má bala que lhe partira o osso, o vermelho brabotava e pingava.
– “Meu filho, tu agüenta ainda brigar?” – Zé Bebelo quis saber.
O Leocádio, que fez careta, garantiu que podia: – “O que posso.
Em nome de Deus e de meu São Sebastião guerreiro, o que
posso!” Sempre sendo a careta sem gracejo; pois falar era o que
para ele custava e maltratava. – “E da Lei... E da lei, também...
Ah, então, vamos, faz vingança, menino, faz vingança!” – Zé
Bebelo aforçurou. Semelhante só botasse apreço nos fatos por
resultar. Zé Bebelo se endemoninhava.
Segurou meu braço, suscitado de se voltar para a mesa,
para se escrever, amanuense. Pelo discorrer, revólver na mão, às
vezes achei, em minha fantasia, que ele estava me ameaçando. –
“Ei, ai, vamos ver. Que tenho esquadrão reiúno: esses é que vão
vir me dar retaguarda!” – ele falasse. Eu escrevesse, com mais
urgência. Os bilhetes – missiva para o senhor oficial
comandante das forças militares, outro para o excelentíssimo
juiz da comarca de São Francisco, outro para o presidente-dacâmara
de Vila Risonha, outro para o promotor. – “Apresta. A
massa do volume deles também dá valor...” – ele regendo.
Acertei. Escrevi. O teor era aquilo mesmo, o simples: que, se os
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soldados no soflagrante viessem, de rota abatida, sem esperdiçar
minuto, então aqui na Fazenda dos Tucanos pegavam caça
grossa, reunida – de lobo, jaguatirica e onça – de toda a
jagunçada maior reinante no vezvez desses gerais sertões. A rasa,
à justa, e cerrar com fecho formal: Ordem e Progresso, viva a
Paz e a Constituição da Lei! Assinado: José Rebelo Adro Antunes,
cidadão e candidato.
No pique dum momento, perdi e achei minha idéia, e
esbarrei. A em pé, agora formada, eu conseguia a alumiação
daquela desconfiança. Assim. Em que maldei, foi: aquilo não
seria traição? Rasteiro, tive que olhei Zé Bebelo, no grude dos
olhos. Daí, tão claro e aligeirado pensei – os prefácios. Aquele
tinha sido homem pago estipendiado pelo Governo, agora os
soldados do Governo com ele se encontravam. E nós, todos?
Diadorim e eu, os tristes e alegres sofrimentos da gente, a célebre
morte de Medeiro Vaz, a vingança em nome de Joca Ramiro?
Nem eu sabia ao certo, depois, no correr de tantos meses, o
extrato da vida de Zé Bebelo, o que ele tinha realmente feito,
somenos se cumprida a viagem de ida até em Goiás. Soubesse, o
pior, era que ele, por oficio e por espécie, não podia esbarrar de
pensar, não podia esbarrar de pensar inventado para adiante, sem
repouso, sempre mais. A gente estava por conta dele – e sem
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repouso nenhum também, nenhum – o portanto. E ele tinha
trazido o bando cá para perto do São Francisco, tinha querido
falhar os três dias naquela fazenda atacável. Quem sabe, então, o
recado para os soldados virem, ele mesmo já não teria enviado,
desde tempos? Idéia, essa. Arre de espanto – ah, como quando
onça de-lado pula, quando a canoa revira, quando cobra
chicoteia. Desse de ser? Ao caminho dos infernos – para prazo!
Aí, careci de querer a calma. O tiroteio já redobrava. Ouvi a
guerra.
Decerto eu estava exagerado. Antes Zé Bebelo havendo de
ser mesmo o chefe para a hora, safado capaz. Nem se desprazia.
– “Oi, xô! P’ra esses, munição não falta?...” – ele escarnecendo
disse, quando as descargas vieram em salva mais forte – o fiufiu e
os papocos. Ah as balas que partiam telhas e que as paredes todas
recebiam. Cacos caindo, do alto. – “Te apressa, Tatarana, que
nós dois temos também de atirar!” Alegre dito. Na janela, ali,
tinham pendurado igualmente um daqueles couros de boi: bala
dava, zaque-zaque, empurrando o couro, daí perdia a força e
baldava no chão. A cada bala, o couro se fastava, brando, no ter
o choque, balangava e voltava no lugar, só com mossa feita, sem
se rasgar. Assim ele amortecia as todas, para isso era que o couro
servia. “Traição?” – eu não queria pensar. Eu já tinha preenchido
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três cartas. Não é do tutuco nem do zumbiz das balas, o que
daquele dia em minha cabeça não me esqueço; mas do bater do
couro preto, adejante, que sempre duro e mole no ar se repetia.
Advindo que algum me trouxe mais papel, achado por ali,
nos quartos, em remexidas gavetas. Só coisa escrita já, de tinta
firme; mas a gente podendo aproveitar o espaço embaixo, ou a
banda de trás, reverso dita. Que era que estava escrito nos
papéis tão velhos? Um favor de carta, de tempos idos, num
vigente fevereiro, 11, quando ainda se tinha Imperador, no nome
dele com respeito se falava. E noticiando chegada em poder,
de remessa de ferramenta, remédios, algodão trançado tinto. A
fatura de negócios com escravos, compra, os recibos, por
Nicolau Serapião da Rocha. Outras cartas... – “Escreve, filho,
escreve, ligeiro...” A traição, então? Altamente eu escutava os
gritos dos companheiros, xingatório, no meio da desbraga do
quanto combate, na torração. Aqui mesmo, esgueirados para a
janela, o Duzentos e o Rasga-em-Baixo agora ombreavam
armas, seu vez-em-quando a ponto atiravam. Assim como não
pude, eu esbarrei, outra vez – e encarei Zé Bebelo sem final.
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– “Que é? Que é lá?!” – ele me perguntou. Devia ter me
deduzido, dos meus olhos, mesmo melhor do que o que eu sabia
de mim.
– “A pois... Por que é que o senhor não se assina, ao pé:
Zé Bebelo Vaz Ramiro... como o senhor outrora mesmo
declarou?...” – eu cacei contra, reperguntando.
Ato visível, que ele esteve pego, no usual de seu modo,
assim, de se espantar no ar. Conheci. Às vezes, também, um
atraiçoa, sem nem saber o que é que está produzindo-às falsas
hajas! Mas ele não tinha surpreendido a verdade do meu indagar,
a expedição de minha dúvida. Conforme, prazido consigo,
recachou, e me disse, me engambelando:
– “Ah, hã-an... Também pensei. Tanto que pensei; mas,
não se pode... Muito alta e sincera é a devoção, mas o exato das
praxes impõe é outras coisas: impõe é o duro legal...”
Aí, fui escrevendo. Simples, fui, porque fui; ah, porque a
vida é miserável. A letra saía tremida, no demoroso. Meu outro
braço também recomeçava a doer, quase’que. “Traição”... – sem
querer eu fui lançando no papel a palavra; mas risquei. Uma bala
no couro assoviou soco, outra entrou atrás, entrou com o couro
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levantado, deu na parede defronte, ricocheteou e veio cair,
quente, perto da gente. Ali na parede, tinha um chifre de boi de
se dependurar roupa; até armador de rede era de chifre de boi,
naquela Casa. Sumamente, eu esperei o pispissiu de alguma outra
bala, eu queria. Soubesse por quê? O pensar caladíssimo de Zé
Bebelo me perturbava.
Mas ele disse: – “Que é que é?” – se debruçando. – “Que
erro que foi?” Não viu, porque eu já tinha riscado. Mas, então,
ele muito falou. Ia explicando. De noite, no escuro feito, ia
mandar dois cabras, dos mais espertos viajeiros, para rastejarem
por ali, furando o cerco, cada um levava ruma igual daquelas
cartas. Assim, Deus azado ajudasse, e eles ou ao menos um deles
conseguisse, então era resumo certo que a soldadesca se movimentava
de vir. Apareciam, os trapezavam, apropositavam,
arrebentavam com os Hermógenes!
– “E a gente?” – eu perguntei.
– “Ãe? A gente? A ver, que você não me entendeu? A
gente obra jeito de se escapar, no cererê da confusão...”
Antes, tanto, que era muito difícil – eu repostei.
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– “Ah, sim, dificultoso é, meu filho. Mas pego, é o nosso
recurso. Se não, se outra, que saldo é que temos?” – e Zé Bebelo,
do dito, sagaz se rigozijava.
Então, com respeito, eu disse que a gente podia
experimentar de fazer isso mesmo agora: furar uma saída, por
entre os Hermógenes, brigando e matando. Eu disse isso. Mas
tinha esquecido que estava era encostado em Zé Bebelo, no
questionar. Aí quem era que podia com a idéia daquele homem,
quem era que se sustentava? A foro, pois, assim ele me
respondeu:
– “Pois era, Tatarana? Olhe: escuta, pensa – esses
Hermógenes não são mais valentes do que nós, nem estão em
quantidade maior; mas fato é que eles chegaram a surdas, e nos
cercaram, tomaram tudo quanto há de melhor, nessas posições.
Asseados, é que estão. Agora, nesta hora, a gente forçar um
escape, pode ser que se tenha sorte – mas mesmo assim sofrendo
muitas mortes, e sem meios para descontar essas, sem alcance
nenhum para se matar um bom poucado desses inimigos. Tu
entende? Mas, se os soldados chegarem, têm de dar o forte fogo
primeiro contra os Hermógenes, fazendo neles muito estrago. Aí,
se foge, com tenção só na escapula. Ao menos, algum lucro se
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teve... Ah, tu vê o que se quer? Ah, o que tu também quer, pois
não quer?!...”
Não nas artes que produzia, mas no armar de falar assim –
ele era razoável. Se riu, qual. Riu? Eu sendo água, me bebeu; eu
sendo capim, me pisou; e me ressoprou, eu sendo cinza. Ah, não!
Então, eu estava ali, em chão, em a-cu atôo de acuado?! Um ror
de meu sangue me esquentou as caras, o redor dos ouvidos,
cachoeira, que cantava pancada. Eu apertei o pé na alpercata,
espremi as tábuas do assoalho. Desconheci antes e depois – uma
decisão firme me transtornava. E eu vi, fiquei sabendo: me
queimassem em fogo, eu dava muitas labaredas muito altas! Ah,
dava. O senhor acha que menos acho? Mais digo. Mais fiz. Antes
veja, o que eu pensei – o que seguinte ia ser, e ficou formado um
decreto de pedra pensada: que, na hora de os soldados
sobrechegarem, eu parava perto de Zé Bebelo; e que, ele fizesse
feição de trair, eu abocava nele o rifle, efetuava. Matava, só uma
vez. E, daí... Daí eu tomava o comandamento, o
competentemente – eu mesmo! – e represava a chefia, e forçando
os companheiros para a impossível salvação. Aquilo por amor do
rijo leal eu fazia, era capaz; pelo certo que a vida deve de ser.
Mesmo não gostando de ser chefe, descrendo do enfado de
responsabilidades. Mas fazia. “Aí, pego a faca-punhal e o facão
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grande...” – tornei a pensar. Até chegar a hora, eu não ia falar
disso com pessoa nenhuma, nem com Diadorim. Mas fazia,
procedia. E eu mesmo senti, a verdade duma coisa, forte, com a
alegria que me supriu: – eu era Riobaldo, Riobaldo, Riobaldo! A
quase que gritei aquele este nome, meu coração alto gritou. Arre
então, quando eu experimentei os gumes dos meus dentes, e
terminei de escrever o derradeiro bilhete, eu estive todo
tranqüilizado e um só, e insensato resolvido tanto, que mesmo
acho que aquele, na minha vida, foi o ponto e ponto e ponto. E
entreguei o escrito a Zé Bebelo – minha mão não espargiu
nenhum tremor. O que regeu em mim foi uma coragem
precisada, um desprezo de dizer; o que disse:
– “O senhor, chefe, o senhor é amigo dos soldados do
Governo...”
E eu ri, ah, riso de escárnio, direitinho; ri, para me constar,
assim, que de homem ou de chefe nenhum eu não tinha medo. E
ele se sustou, fez espantos.
Ele disse: – “Tenho amigo nenhum, e soldado não tem
amigo...” Eu disse: – “Estou ouvindo.”
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Ele disse: – “Eu tenho é a Lei. E soldado tem é a lei...” Eu
disse: – “Então, estão juntos.”
Ele disse: – “Mas agora minha lei e a deles são às diversas:
uma contra a outra...”
Eu disse: – “Pois nós, a gente, pobres jagunços, não temos
nada disso, a coisa nenhuma...”
Ele disse: – “Minha lei, sabe qual é que é, Tatarana? É a
sorte dos homens valentes que estou comandando...”
Eu disse: – “É. Mas se o senhor se reengraçar com os
soldados, o Governo lhe repraz e lhe premeia. O senhor é da
política. Pois não é? Õ gente – deputado...”
Ah, e feio ri; porque estava com vontade. Aí pensei que ele
fosse logo querer o a gente se matar. A sorte do dia, eu cutucava.
Mas ruim não foi. Zé Bebelo só encurtou o cenho, no carregoso.
Fechou a boca, pensou bem.
Ele disse: – “Escuta, Riobaldo, Tatarana: você por amigo eu
tenho, e te apreceio, porque vislumbrei tua boa marca. Agora, se
eu achasse o presumido, com certeza, de que você está
desconcordando de minha lealdade, por malícias, ou de que você
quer me aconselhar canalhagem separada, velhaca, para vantagem
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minha e sua... Se eu soubesse disso, certo, olhe...” Eu disse: –
“Chefe, morte de homem é uma só...”
Eu tossi. Ele tossiu.
Diodolfo, correndo vindo, disse: – “O Jósio está morrendo,
com um tiro no pescoço, lá dele...”
Alaripe entrou, disse: – “Eles estão querendo pôr mãos e
pés no chiqueiro e na tulha. Se assanham!”
Eu disse: – “Dê as ordens, Chefe!” Eu disse gerido; eu não
disse copiável. Sei que Zé Bebelo sorriu, aliviado.
Zé Bebelo botou a mão no meu ombro; era o da banda do
braço que doía. – “A vamos, a vamos, com macacos e bananas!
A cá, na sala-dejantar, meu filho...” – ele instou. À janela.
Agachei, e escorei meu rifle, arma capital. Agora, era obrar. E
aqueles sujeitos estavam loucos?
Cabeça de um se bolou, redondante, feito um coco, por
cima da palha de buriti que cobria uma casa de vaqueiro.
Adesfechei: e vi arrebentar em pedaços o casco daquilo. Daí, a
dor me doeu no ferimento do braço, mordi meus beiços por essa
causa. Mas cacei. Outro afundei logo, cujo varei os peitos, com
outra bala certeira, duas balas. Ave, que afoitos! Ao tanto eu
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gemia, e apontava. Eles, em um e um, caíam, aceitavam o poder
da morte que eu mandava. Fiz conta: uns seis, sei, até a hora do
almoço – meiadúzia. Essas coisas, não gosto de relatar, não são
para que eu alembre; não se deve, de. Ao senhor, só, agora, sim: é
de declaração, é até ao desamargado dos sonhos... Que eu ali,
jajão. Conheço quando homem só disfarça, quando se encolhe
somente ferido, ou mas quando retomba mesmo por
desmanchado. Mortes diferentes, mortes iguais. Pena, se tive? Vá
se ter dó de canguçu, dever finezas a escorpião! Pena de errar
algum, eu ter podia; ah, mas não errava. Deixa que deixavam só
uns dois dedos de corpo em descoberto lateral – e minha bala se
comportava. Como aquele meu braço me doendo, ai dor doía, de
arrancado, parecendo que um fogo desenraizava tudo, dos ocos,
respondia até na barriga. A cada que eu dava um tiro, forcejava
minha careta, chorejava. Ria, despois. – “Aperta esta minha parte
de natureza, com um cabresto, com um pano, companheiro!” –
eu supliquei. Alaripe, servente, rasgou uma colcha de cama, me
passou dobras daquelas tiras, arrochadas. Também, doesse que
doesse, que me importava? – arrasos em redor de mim.
Trastanto, derrubei mais um, mais vizinho. Os outros uns. Esse,
urubu já bicou. Esse ia pulando em lanço, para um canto da
cerca, esse repulou no ar, esse deu um grito soltado. Menos, veja
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e mire, eu catasse de querer espécies de homens, para alvejar,
feito se por cabeça ganhasse prêmio de conto-de-réis. Mas mais,
de muitos, a vida salvei: pelo medo que de mim tomavam, para
não avançar nos lugares – pelos tirázios. Ainda demos um
tiroteio varredor, ainda batemos. Aí, eles desistiram para trás,
desandavam. Assim pararam, o balançar da guerra parou, até para
o almoço, em boa hora. E então conto o do que ri, que se riu:
uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a
dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi
levantavam; assim repicava o espairar, o vôo de reverências, não
achasse o que achasse – e era uma borboleta dessas de cor azulesverdeada,
afora as pintas, e de asas de andor. – “Ara, viva,
maria boa-sorte!” – o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era
quase a paz.
A comida para mim, ali mesmo me trouxeram, todos em
minha pontaria punham prezado valor. O imaginar o senhor não
pode, como foi que eu achei gosto naquela comida, às ganas, que
era: de feijão, carne-seca, arroz, maria-gomes e angu. Ao que bebi
água, muita, bebi restilo. O café que chupo. E Zé Bebelo,
revindo, me gabou: – “Tu é tudo, Riobaldo Tatarana! Cobra
voadeira...” Antes Zé Bebelo me ofereceu mais restilo, o tanto
também bebeu, às saúdes. Seria só por desconto de um começo
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de remorso, por me temer em consciências? A gente sabe mais,
de um homem, é o que
ele esconde. – “Ah: o Urutu Branco: assim é que você devia
se chamar... E amigos somos. A ver, um dia, a gente vai entrar,
juntos, no triunfal, na forte cidade de Januária...” – aprontado ele
falou. Ao que resposta não dei. Amigo? Eu, ali, do lado de Zé
Bebelo; mas Zé Bebelo não estava do lado de ninguém. Zé
Bebelo – cortador de caminhos. Amigo? Eu era, sim senhor.
Aquele homem me sabia, entendia meu sentimento. A ser: que
entendia meu sentimento, mas só até uma parte – não entendia o
depoisdo-fim, o confrontante. Assemelhado a ele, pensei. Pensei:
eu visse que traindo ele estivesse, ele morria. Morria da mão de
um amigo. Jurei, calado. E, desde, naquela hora, a minha idéia se
avançou por lá, na grande cidade de Januária, onde eu queria
comparecer, mas sem glórias de guerra nenhuma, nem
acompanhamentos. Alembrado de que no hotel e nas casas de
família, na Januária, se usa toalha pequena de se enxugar os pés; e
se conversa bem. Desejei foi conhecer o pessoal sensato, eu no
meio, uns em seus pagáveis trabalhos, outros em descanso
comedido, o povo morador. A passeata das bonitas moças
morenas, tão socialmente, alguma delas com os cabelos mais
pretos rebrilhados, cheirando a óleo de umbuzeiro, uma flor
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airada enfeitando o espírito daqueles cabelos certos. À Januária
eu ia, mais Diadorim, ver o vapor chegar com apito, a gente
esperando toda no porto. Ali, o tempo, a rapaziada suava,
cuidando nos alambiques, como perfeito se faz. Assim essas
cachaças – a vinte-e-seis cheirosa – tomando gosto e cor
queimada, nas grandes dornas de umburana.
Ao menos, daí desajoelhei e vim para a alpendrada, avistar
o que se passava com Diadorim; e eu estipulava meu direito de
reverter por onde que eu quisesse, porque meu rifle certeiro era
que tinha defendido de tomação o chiqueiro e a tulha, nos
assaltos, e então até a Casa. Diadorim guerreava, a seu
comprazer, sem deszelar, sem querer ser estorvado. Datado que
Deus, que me livrou, livrava também meu amigo de todo
comezinho perigo. As raivas, naquela varanda, vinham e caíam,
demasiadas, vi. Tiros altos, revoantes: eram os bandos de balas.
Assunto de um homem que estava deitado mal, atravessado,
pensei que assim em pouco descanso. – “Vamos levar para a
capela...” – Zé Bebelo mandou. Assunto que era o Acrísio, morto
no meio; torto. Devia de ter se passado sem tribulação. Agora
não caçavam uma vela, para em provisão dele se acender? –
“Quem tem um rosário?” Mas, no sobrevento, o Cavalcânti se
exclamou
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– “A que estão matando os cavalos!...”
Arre e era. Aí lá cheio o curralão, com a boa animalada
nossa, os pobres dos cavalos ali presos, tão sadios todos, que não
tinham culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus
nem justiça de coração, se viravam para judiar e estragar, o
rasgável da alma da gente – no vivo dos cavalos, a torto e direito,
fazendo fogo! Ânsias, ver aquilo. Alt’-e-baixos – entendendo,
sem saber, que era o destapar do demônio – os cavalos
desesperaram em roda, sacolejados esgalopeando, uns saltavam
erguidos em chaça, as mãos cascantes, se deitando uns nos
outros, retombados no enrolar dum rolo, que reboldeou, batendo
com uma porção de cabeças no ar, os pescoços, e as crinas
sacudidas esticadas, espinhosas: eles eram só umas curvas
retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho, de raiva
– rinchado; e o relincho de medo – curto também, o grave e
rouco, como urro de onça, soprado das ventas todas abertas.
Curro que giraram, trompando nas cercas, escouceantes, no
esparrame, no desembesto – naquilo tudo a gente viu um não
haver de doidas asas. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam
caindo, achatavam no chão, abrindo as mãos, só os queixos ou os
topetes para cima, numa tremura. Iam caindo, quase todos, e
todos; agora, os de tardar no morrer, rinchavam de dor – o que
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era um gemido alto, roncado, de uns como se estivessem quase
falando, de outros zunido estrito nos dentes, ou saído com custo,
aquele rincho não respirava, o bicho largando as forças, vinha de
apertos, de sufocados.
– “Os mais malditos! Os desgraçados!”
O Fafafa chorava. João Vaqueiro chorava. Como a gente
toda tirava lágrimas. Não se podia ter mão naquela malvadez, não
havia remédio. À tala, eles, os Hermógenes, matavam conforme
queriam, a matança, por arruinar. Atiravam até no gado, alheio,
nos bois e vacas, tão mansos, que, desde o começo, tinham
querido vir por se proteger mais perto da casa. Onde se via, os
animais iam amontoando, mal morridos, os nossos cavalos!
Agora começávamos a tremer. Onde olhar e ouvir a coisa
inventada mais triste, e terrível – por no escasso do tempo não
caber. A cerca era alta, eles não tiveram fuga. Só um, um cavalão
claro, que era o de Mão-de-Lixa e se chamava Safirento. Se
aprumou, nas alças, ficou suspenso, cochilasse debruçado na
régua – que nem que sendo pesado em balança, um ponto – as
nádegas ancas mostrava para cá, grossas carnes; depois tombou
para fora, se afundou para lá, nem a gente podia ver como
terminava. A pura maldade! A gente jurava vinganças. E, aí, não
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se divulgava mais cavalo correndo, todos tinham sido
distribuídos derrubados!
Aquilo pedia que Deus mesmo viesse, carnal, em seus
avessos, os olhos formados. Nós rogávamos as pragas. Ah, mas a
fé nem vê a desordem ao redor. Acho que Deus não quer
consertar nada a não ser pelo completo contrato: Deus é uma
plantação. A gente – e as areias. Aturado o que se pegou a ouvir,
eram aqueles assombrados rinchos, de corposo sofrimento,
aquele rinchado medonho dos cavalos em meia-morte, que era a
espada de aflição: e carecia de alguém ir, para, com pontaria
caridosa, em um e um, com a dramada deles acabar, apagar o
centro daquela dor. Mas não podíamos! O senhor escutar e saber
– os cavalos em sangue e espuma vermelha, esbarrando uns nos
outros, para morrer e não morrer, e o rinchar era um choro
alargado, despregado, uma voz deles, que levantava os couros,
mesmo uma voz de coisas da gente: os cavalos estavam sofrendo
com urgência, eles não entendiam a dor também. Antes estavam
perguntando por piedade.
– “Arre, eu vou lá, eu vou lá, livrar da vida os
pobrezinhos!...” – foi o que o Fafafa bramou. Mas não deixamos,
porque isso consumava loucura. Não dava dois passos no eirado,
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e ele morria fuzilamento, em balas se varava, ah. Agarramos
segurado o Fafafa. A gente tinha de parar presa dentro de casa,
combatendo no possível, enquanto a ruindade enorme acontecia.
O senhor não sabe: rincho de cavalo padecente assim, de repente
engrossa e acusa buracões profundos, e às vezes dão ronco quase
de porco, ou que desafina, esfregante, traz a dana deles no
senhor, as dores, e se pensa que eles viraram outra qualidade de
bichos, excomungadamente. O senhor abre a boca, o pêlo da
gente se arrupeia de total gastura, o sobregelo. E quando a gente
ouve uma porção de animais, se ser, em grande martírio, a
menção na idéia é a de que o mundo pode se acabar. Ah, que é
que o bicho fez, que é que o bicho paga? Ficamos naquelas
solidões. Alembrar que tão bonitos, tão bons, inda ora há pouco
esses eram, cavalinhos nossos, sertanejos, e que agora
estraçalhados daquela maneira não tinham nosso socorro. Não
podíamos! E que era que queriam esses Hermógenes? De certo
seria tenção deles deixar aqueles relinchos infelizes em roda da
gente, dia-e-noite, noite-e-dia, dia-e-noite, para não se agüentar,
no fim de alguma hora, e se entrar no inferno? Senhor então
visse Zé Bebelo: ele terrivelmente todo pensava – feito o carro e
os bois se desarrancando num atoleiro. Mesmo mestremente ele
comandava: – “Apuremos fogo... Abaixado...” –; fogo, daqui,
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dali, em ira de compaixão. Adiantava nada. Com pranchas de
munição que a gente gastasse, não alcançávamos de valer aos
animais, com o curral naquela distância. Atirar de salva, no
inimigo amoitado, não rendia. No que se estava, se estava: o
despoder da gente. O duro do dia. A pois, então, me subi para
fora do real; rezei! Sabe o senhor como rezei? Assim foi: que
Deus era fortíssimo exato – mas só na segunda parte; e que eu
esperava, esperava, esperava, como até as pedras esperam. “A faz
mal, não faz mal, não tem cavalo rinchando nenhum, não são os
cavalos todos que estão rinchando – quem está rinchando
desgraçado é o Hermógenes, nas peles de dentro, no sombrio do
corpo, no arranhar dos órgãos, como um dia vai ser, por meu
conforme... Assim, d’hoje-em-diante doravante, sempre temos de
ser: ele o Hermógenes, meu de morte – eu militão, ele guerreiro...”
Assim o relincho em restos, trescortado. Aqueles cavalos
suavam de derradeira dor.
Agarrávamos o Fafafa, segurado, disse ao senhor. Mas,
mais de repente, o Marruaz disse: – “A bom, vigia: olha lá...” O
que era. Que eles – quem havia de não crer? – que eles mesmos
agora estavam atirando por misericórdia nos cavalos
sobreferidos, para a eles dar paz. Ao que estavam. – “As graças
a Deus!...” – exclamou Zé Bebelo, alumiado, com um alívio de
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homem bom. – “Ah, é marmo!” – o Alaripe exclamou também.
Mas o Fafafa nem nada não disse, não conseguia: o quanto
pôde, se assentou no chão, com as duas mãos apertando os
lados da cara, e cheio chorou, feito criança – com todo o nosso
respeito, com a valentia ele agora se chorava. Aí, então, se
esperou. Durado de um certo tempo, descansamos os rifles, nem
um tirozinho não se deu. O intervalo para deixar a eles folga de
matarem em definitivo nossos pobres cavalos. Mesmo quando o
arraso do último rincho no ar se desfez de vez, a gente ainda se
estarrecia quietos, um tempo grande, mais prazo – até que o som
e o silêncio, e a lembrança daquele sofrer, pudessem se enralecer
embora, para algum longe. Daí, depois, tudo recomeçou de novo,
em mais bravo. E nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do
mundo. Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe
– mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e
maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma.
Deus é um gatilho?
Mas conto menos do que foi: a meio, por em dobro não
contar. Assim seja que o senhor uma idéia se faça. Altas misérias
nossas. Mesmo eu – que, o senhor já viu, reviro retentiva com
espelho cem-dobro de lumes, e tudo, graúdo e miúdo, guardo –
mesmo eu não acerto no descrever o que se passou assim,
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passamos, cercados guerreantes dentro da Casa dos Tucanos,
pelas balas dos capangas do Hermógenes, por causa. Vá de retro!
– nanje os dias e as noites não recordo. Digo os seis, e acho que
minto; se der por os cinco ou quatro, não minto mais? Só foi um
tempo. Só que alargou demora de anos – às vezes achei; ou às
vezes também, por diverso sentir, acho que se perpassou, no zuo
de um minuto mito: briga de beija-flor. Agora, que mais idoso
me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança
demuda de valor – se transforma, se compõe, em uma espécie de
decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um
rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo... Quem
me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à
gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é
furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isto, já aprendi.
A bobéia? Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba – é lavar
ouro. Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa
e real verdade?
A ser que aqueles dias e noites se entupiram emendados,
num ataranto, servindo para a terrível coisa, só. Aí era um tempo
no tempo. A gente povoava um alvo encoberto, confinado. O
senhor sabe o que é se caber estabelecido dessa constante
maneira? Se deram não sei os quantos mil tiros: isso nas minhas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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orelhas aumentou – o que azoava sempre e zinia, pipocava,
proprial, estralejava. Assentes o reboco e os vedos, as linhas e
telhas da antiga casarona alheia, era o que para a gente antepunha
defesa. Um pudesse narrar – falo para o senhor crer – que a casagrande
toda ressentia, rangendo queixumes, e em seus escuros
paços se esquentava. Ao por mim, hora em que pensei, eles iam
acabar arriando tudo, aquela fazenda em quadradão. Não foi.
Não foi, como logo o senhor vai ver. Porque, o que o senhor vai
é – ouvir toda a estória contada.
Morreu mais o Berósio. Morreu o Cajueiro. O Moçambicão
e Quim Queiroz, para a gente se sortir, traziam as quantidades de
balas. Rente Zé Bebelo andava em toda a parte, mandando se
atirar economizado e certeiro. – “Ah, oé, meus filhos: não vão
desperdiçar. Matem só gente viva!” – ele trestampava – “... É
coragem, e qué’pe-te! que o morto morrido e matado não agride
mais...” Aí cada um gritava para os outros valentia de exclamação,
para que o medo não houvesse. Aí os judas
xingávamos. Para não se ter medo? Ah, para não se ter medo é
que se vai à raiva. A sebo! De dor do calor de inchação, aquele
meu braço sempre piorava. Alaripe me cedeu, de bondoso, uma
vasilha com água fria, carreou para mim; em entremeio de atirar,
eu molhava bem um pano, torcia por cima do braço, o gotejado
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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frescor de alívio. Um companheiro sempre me ajudando, conforme
agradeci. Um urucuiano, daqueles cinco urucuianos de Zé
Bebelo. Isso, no instante, estranhei. Notei, de repente: aquele
homem, fazia tempo que não se arredava de mim, sempre me
seguindo, por perto.
Solevei uma desconfiança. Sempre o vulto presente daquele
homem; seria só por acasos? O urucuiano, deles, que o Salústio
se chamava. O que tinha os olhos miudinhos em cara redonda,
boca mole e sete fios de barba compridos no queixo. Arreliado
falei: – “Que que é? Tu amigou comigo?! Tatu – tua casa...” –
para ele. Semi-sério ele se riu. Comparsa urucuiano dos olhos
verdes, homem muito feioso. Ainda nada não disse, coçou a barriga
com as costas dobradas da mão – gesto de urucuiano. Eu
bati com a minha mão direita por cima da canhota, que pegava o
rifle, e deixei deixada – gesto de jagunço. Apertei com ele: – “Ao
que me quer?” Me deu resposta: – “Ao assistir o senhor, sua
bizarrice... O senhor é atirador! É no junto do que sabe bem, que
a gente aprende o melhor...” A verdade com que ele me louvava.
Se riu, muito sincero. Não desgostei da companhia dele, para os
bastantes silêncios. Assim é o que digo: que, quando o tiroteio
batia forte, de lá, e daí de repente estiava – aquilo servia um
pesado, salteação. Surdo pensei: aqueles Hermógenes eram gente
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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em tal como nós, até pouquinho tempo reunidos companheiros,
se diz – irmãos; e agora se atravavam, naquela vontade de
desigualar. Mas, por quê? Então o mundo era muita doideira e
pouca razão? De perto, a doideira não se figurava transcrita. Pois
o urucuiano Salústio João mais olhei. Ali, ajoelhado, ele mirava e
atirava. Atirava e fechava os olhos. Quando abria outra vez, queria
ver alguém vivo?
Sosseguei. Aí eu não devia de pensar tantas idéias. O
pensar assim produzia mal – já era invocar o receio. Porque,
então, eu sobrava fora da roda, havia de ir esfriar sozinho.
Agora, por me valer, eu tinha de me ser como os outros, a força
unida da gente mamava era no suscenso da ira. O ódio quase
sem rumo, sem porteira. Do Hermógenes e do Ricardão? Neles
eu nem pensava. Antes pensei outra vez foi no embuste do
urucuiano. Atual ele se ajoelhava dobroso, com a perna muito
para trás, a outra muito para diante. Aquele homem – achei –
estava mandado por Zé Bebelo, para espreitar meus atos.
A prova que era: de que Zé Bebelo despachava traição. As
espumas dele me espirravam. Será que fosse para o urucuiano
Salústio no primeiro descuido meu me amortizar? Tanto, não;
apostei. Zé Bebelo me queria vigiado, para eu não contar aos
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outros a verdade. Ora bem, que uns companheiros tinham
avistado os bilhetes eu escrever – o fato esquisito, assim, em hora
de começo de fogo; mas por certo pensavam que era para fazendeiros
amigos nossos, chefes de homens, rogando que viessem,
com retaguarda e reforço. Agora, Zé Bebelo temia que eu
candongasse. Aí mandou o urucuiano fazer a minha sombra. Mas
Zé Bebelo carecia de mim, enquanto o cerco de combate desse
de durar. Traidor mesmo traidor, e eu também não precisava dele
– da cabeça de pensar exato? Ao que, naquele tempo, eu não
sabia pensar com poder. Aprendendo eu estava? Não sabia
pensar com poder – por isso matava. Eu aqui – os de lá do lado
de lá. A anhanga que em riba da gente despejavam, balaços de
tantos rifles, balas que quebram tetos e portas. Ah, isso era
desgraça sem mão mandante, ofensa sem nenhum fazedor –
quase feito uma chuva-de-pedra, acontecer de trovões e raios,
tempestade – parecesse? Eu ia ter raiva dos homens que não
enxergava? Podia ter? Tinha, toda, era dos que eu matava bem.
Mas nem bem não era mesmo raiva; era só confirmação.
Desse jeito foi que entardeceu, o sol piscou; a gente tendo
perdido a certeza dos horários do dia. Afã de dessossego, era só.
Daí, pegava um cansaço. Fechasse a noite, o perigo podia vir a
ser maior. Os Hermógenes não iam investir, mediante trevas,
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– 490 –
para um fim ali dentro, de coronha e faca? Morreu mais o
Quiabo. Outros atestavam uns ferimentos. Por se necessitar da
capela, os defuntos a gente foi levando para um cômodo
pequeno e sem janela, que era pegado na escadinha do corredor.
Alaripe apareceu com uma vela, acendeu, enfiada numa garrafa.
Vela sozinha, para eles todos. Aí as lamparinas e candeias não
bastavam? Debaixo dum alumiar de candeia, Zé Bebelo estava
me convidando. Arte que logo entendi. Ele tinha mandado vir
Joaquim Beiju e o Quipes, para um segredado.
Agora, aqueles dois, era para surtirem, saindo rastejando,
conforme o quiçá; e cada um levava seu punhado de bilhetes,
enviados. Por uma banda um, o outro da outra: o que Deus
aprovasse, chegava. Assim eles aceitaram de cumprir, e motivos
não perguntaram. Tudo em encoberto. Então – se Zé Bebelo
guardava uma tenção honesta – por que, dito e feito, era que não
punha todo o mundo ciente do tramado? Ainda esperei. Mas –
dirá o senhor – por que era que eu também não delatava aquilo,
os efeitos e projetos, ao menos a Diadorim e Alaripe eu não
contava? Deponho que não sei. Aos perigos, os perigos. Só duma
coisa eu forte sabia... Só que eu ia vigiar sempre Zé Bebelo. Ele
trair, vivo, eu não deixava. Zé Bebelo tinha sua espécie de
natureza – que servia ou atraiçoava? Ah, depois eu ia ver.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ah, eu ia ver se, no engasgo da hora, ele ia querer se
estrapafar.
Joaquim Beiju e o Quipes ainda foram na cozinha, cortar
um de-comer, arranjar matula. Por essa volta, o jacaré mesmo
combatia também, às vezes em que não estava cozinhando, e
vinha atirar, da beira duma janela, com o Mijafogo. A noite
breava própria; o mais escuro ia ser regulando em antes das dez
horas, que quando depois podia subir um caco de lua. Aos
poucos, foi dando um tão respeitável silêncio, não se atirava de
parte nem de outra, a gente mesma ficava na cautela de não se
fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem necessidade. De
noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador.
– “Noite é p’ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no
usável...” – o Alaripe baixo falou. O cearense bom: esse permanecia
em tudo igual, com ele a gente desproduzia qualquer
remorso, o brigar parava sendo obrigação de vivente, conciso
dever de homem. Por uns assim, eu punia. Por uns, assim, eu
devia de ser inteiro leal, eu mesmo. Mas, então, eu carecia de
encostar Zé Bebelo, o espremer na franca fala. A que ele
soubesse de minha lei: a que ele sem um aviso não se
desgraçasse. Mesmo por causa da gente – porque Zé Bebelo era a
perdição, mas também só ele podia ser a salvação nossa. Então,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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com ele eu ia falar, o quieto desafio. Adiantava? Aí não
adiantasse. Mas, então, eu carecia de armar um poder, carecia de
subir para cima daquele homem. Eu tinha de encher de medo as
algibeiras de Zé Bebelo. Só isso era o que valia.
Contra o quanto, ele lavorava em firmes, pelo mais
pensável, não descumpria de praxe nenhuma. Determinou o
pessoal, para sono e sentinela, revezados. Onde perto de cada um
dormindo, um parava acordado. Outros rondavam. Zé Bebelo,
mesmo, ele não dormia? Sendo esse o segredo dele. Dava o ar de
querer saber o mundo universo, administrava. Ao quase, que. A
água para a serventia da casa vinha num rego, que beirava a cozinha,
encostado, no lateral, descia e passava ainda por baixo da
coberta. A gente podia encher as latas, sem arrisco. – “O que eles
hão-de, é de demover o rego, lá em riba, botar fácil a gente a
seco...” – Zé Bebelo ponderou. Mandou reservar quantia repleta:
as vasilhas achadas e procuradas. Fizemos. Mas, de destorcerem
o veio do rego, nunca que sucedeu aquilo. Até o derradeiro final,
correu água bastante, todo o tempo, fresca abarulhava. Ao se
fossem também empeçonhar o de beber? Toleima. Aonde iam
ter sortimento de veneno, para águas correntes corromper?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Deus escritura só os livros-mestres. Na noite Zé Bebelo
saiu, engatinhando por mais escuro, e revestido com as roupas
bem pretas que arranjou, dum e doutro. Ele devia de ter ido até
longe, como rato em beira de paiol – que coruja come. Queria
era farejar com os olhos o reprofundo. Voltou, aí deu ordem de
outra coisa: que todos aproveitassem o sem-lua para suas
necessidades boçais, aquelas tapadas estâncias. A gente ia, num
vão de buracos, da banda das senzalas. Assim Zé Bebelo
instruiu; e se virou para mim. – “Inimigo que faz igual
numeração, ou menor do que a nossa.
Por via disso é que não tomam coragem de dar assalto, e é
também que eles não conhecem o interior desta boa casa...”
Falou o tanto, comigo. Por que era que ele me escolhia, para os
sussurros segredar? Me achava comparsa? – “... Os beócios, sem
idéias... Não chegam a ser contrários para mim!” – ele muxoxou,
até desapontado. A modo que eu, em Zé Bebelo, quase que tinha
perdido toda minha fiança. A amizade dele eu para longe de mim
já encostava – porquanto que, por mão minha, no incerto, ele
podia ainda vir a precisar de ser matado. Eu estava em claro. Eu
tinha preenchido aqueles bilhetes e cartas, amanuense, os
linguados de papel – eu compartia as culpas. A invencionice de
ambicioneiro. – “Riobaldo, Tatarana, tu vem comigo, porque tu é
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ponteiro bom, fica de estado-maior meu...” – ele avolumou. Me
inteirei. Ali, era a vez.
Ali era a alçada para eu fazer e falar o que já disse, que eu
estava com essa razão na cabeça. Se tanto, pensei: “É a minha
viveza...” Pelo que repontei:
– “É. Eu vou, com o senhor, e o urucuiano Salústio vem
comigo. Vou com o senhor, e esse urucuiano Salústio vem
comigo, mas é na hora da situação... Aí, na hora horinha, estou
junto perto, para ver. A para ver como é, que será vai ser... O que
será vai ser ou vai não ser...” – alastrei, no mau falar, no
gaguejável. Senhor sabe por quê? Só porque ele me mirou, ainda
mais mor, arrepentinamente, e eu a meio me estarreci – apeado,
goro. Apatetado? Nem não sei. Tive medo não. Só que
abaixaram meus excessos de coragem, só como um fogo se
sopita. Todo fiquei outra vez normal demais; o que eu não
queria. Tive medo não. Tive moleza, melindre. Agüentei não falar
adiante.
Zé Bebelo luziu, ele foi de rajada:
– “Ao silêncio, Riobaldo Tatarana! Eh, eu sou o Chefe!?...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Saiba o senhor – lá como se diz – no vertiginosamente:
avistei meus perigos. Avistei, como os olhos fechei,
desvislumbrado. Aí como as pernas queriam estremecer para
amolecer. Aí eu não me formava pessoa para enfrentar a chefia
de Zé Bebelo?
Agora, pois. Mas agora não tinha outro jeito. Ah? Mas, aí,
nem sei, eu não estava mais aceitando os olhos de Zé Bebelo me
olhar. “No mundo não tem Zé Bebelo nenhum... Existiu, mas
não existe... Nem nunca existiu... Tem esse chefe nenhum... Tem
criatura nem visagem nenhuma com essa parecença presente
nem com esse nome...” – eu estabeleci, em mansas idéias. Aceitei
os olhos dele não, agarrei de olhar só para um lugarzinho,
naquele peito, pinta de lugar, titiquinha de lugar – aonde se podia
cravar certeira bala de arma, na veia grossa do coração... Imaginar
isso, no curto. Nada mais nada. Tive medo não. Só aquele
lugarzinho mortal. Teso olhei, tão docemente. Sentei em cima de
um morro de grandes calmas? Eu estava estando. Até, quando
minha tosse ouvi; depois ouvi minha voz, que falando a dável
resposta:
– “Pois é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou
nada... Não sou mesmo nada, nadinha de nada, de nada... Sou a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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coisinha nenhuma, o senhor sabe? Sou o nada coisinha mesma
nenhuma de nada, o menorzinho de todos. O senhor sabe? De
nada. De nada... De nada...”
Ao dito, falei; por quê? Mas Zé Bebelo me ouviu,
inteiramente. As surpresas. Ele expôs uma desconfiança
perturbada. Esticou o beiço. Bateu três vezes com a cabeça. Ele
não tinha medo? Tinha as inquietações. Sei disso, soube, logo.
Assim eu tinha acertado. Zé Bebelo então se riu, modo generoso.
Adiantava? Ainda falou: – “Ah, qual, Tatarana. Tu vale o melhor.
Tu é meu homem!...” – para alargamentos. Murmurei o sosso de
coisa, o que nem era palavras. – “A bem, vamos animar esses
rapazes...” – amém, ele disse, espetaculava. Daí desapartamos, eu
para a cozinha, ele para a varanda. O que eu tinha feito? Não por
saber – mas somente pelo querer – eu tinha marcado. Agora, ele
ia pensar em mim, mas meditado muito. Achei. Agora, ele ia não
poder trair, simples, mas havia de raciocinar as vezes, dar de
rédea para trás – do avançado para traição. A certa graça, a
situação dele, aparvada. Eu estava com o bom jogo.
Aquela noite, meu quinhão dormi; no amiudar-do-galo o
tiroteio já principiava renovado. Mas só os tiros espaços – para
não esperdiçar, e render – porque eles estavam procedendo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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como nós, o igual imediato. A guerra fina caprichada, bordada
em bastidor. Fui ver o madrugar a manhã: uma brancura. O
senhor sabe: no levante, clareou o céu com o sol das barras. Mas
o curralão já estava pendurado de urubus, os usos como eles
viajam de todas as partes, urubu, passarão dos distúrbios. E,
quando dava que rondava o vento, o curral fedia. Mas –
perdoando Deus – tresandava mais era dentro da casa, mesmo
sendo enorme: os companheiros falecidos. Se taramelou o
quarto, por tapar a soleira da porta se forrava com algodão em
rama e aniagens. O fedor revinha surgindo sempre, traspassava.
A tanto, depois, a gente ouviu miados. – “Sape! O gato está lá...”
– algum gritou. Ah, era o gato, que sim. Saiu, soltado,
surripiadamente, foi tornar a se ocultar debaixo dum catre,
noutro cômodo. Carecia de se oferecer a ele de comer, que
quem bem-trata gato consegue boa-sorte. No menos, na saladefora,
ocupei meu oficio, de mosquetear. A ganho, conforme as
vazas, mais de um homem derrubei, que rolou, em réu, sei que
defini. Avistante que os urubus já destemiam o se combater dos
tiros, assaz eles baixavam, para o chão do curral, rebicavam
grosso, depois paravam às filas, na cerca, acomodados acucados.
Quando pulavam de asas, abanassem aquele fedor. O dia
andando, a catinga no ar aumenta. Aí eu não queria provar de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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sal, roi farinha seca, com punhado de rapadura. Na casa toda,
como que não se achava um litro de cal, um caneco de creolina,
por vil remédio. Morreu o Quim Pidão, se botou o corpo por
cima dum banco na sala, provisório: ninguém não queria mais
coragem de ir abrir com presteza o quarto dos defuntos. O dia
envelhecia. A roubo, estive perto de Diadorim, quase só para
espiar, quase sem a conversação. De ver Diadorim, com agrado,
minha tenência pegava a se enfraquecer. Outros receios eu
concebendo. O prazo que ali assim íamos ter de tolerar, no
carrego da guerra. A gente até carecesse, no derradeiro durar, de
comer somente os couros assados – conforme o caso terrível de
Dutra Cunha, de um diabo, que, em sua fazenda do Canindé,
resistiu ao cerco de Cosme de Andrade e Olivino Oliviano. Esse
Dutra Cunha era o homem de um olho só. Zé Bebelo bem sabia
a história dele. Agora, de Zé Bebelo eu risse. Montante de
outras coisas ainda podiam suceder, de desde a madrugadinha
até à viração da tarde? Mas ninguém falava em Joaquim Beiju e
no Quipes. A uma hora dessas, ou eles já estavam arriados pelo
inimigo, ou então, traquejando nos caminhos, a rumo de
cidades. Assim – entardecer, anoitecer – galopassem em algum
cavalo arranjado nos campos, e o tempo da gente eles
estendiam. Será que haviam de vir os soldados? Aquele outro
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dia, morreu mais o Acerejo. A tudo, o cheiro de morte velha. –
“O mau-fétido que vai terminar mazelando a gente...” – sempre
um dizer. A dita morrinha, até a água que se bebia pegava na
boca da gente, e rançava. A Casa dos Tucanos agüentava as
batalhas, aquela casa tão vasta em grande, com dez janelas por
banda, e aprofundada até em pedras de piçarrão a cava dos
alicerces. A Casa acho que falava um falar – resposta ao
assovioso – a quando um tiro estrala em dois, dois. De
embiricica, entrantes as balas vinham, puxavam um fio de ar.
Eh, lascassem! Mas os companheiros por conta à-toa riam, não
acrescentavam cangalha aos pesares. Mesmo, quando se
sobrecarregava um rir, os que estavam mais longe mandavam
saber o porquê, ou gritavam por perguntar, em empenho de
combate. A resto, um Zé Vital deu ataque: o qual era um acesso
sacramentado de feioso, principiando depois que ele se queixava
de sentir o nariz quente, ele mesmo já sabia a data – e daí
proclamava um grito de porco com frio, e caía estatelado no
chão, duro como um cano de arma; mas atazanava batendo com
os braços e pernas, querendo às ânsias coisa ou criatura em que
se agarrar, o onde esbugalhava os olhos, a boca aspumada,
escumando. Se disse: – “Isto é doença velha pertencida, isto não
é fato de guerra...” Acesso que passava a estado meio
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semimorto, num vago – pois deitaram o Zé Vital numa canastra
de couro. Ao para a tarde, para a noite. Aí tudo navegava. A
Casa estava se enchendo de moscas, dessas de enterro, as
produzidas. A cada que cada, elas presumiam o sujo, em penca
maior, pretejavam. Para as coisas que há de pior, a gente não
alcança fechar as portas. Desdenhei Diadorim. De ver
Diadorim, que, em febre de acertar e executar, não tomava
consigo muita cautela, só forcejava por vingança – punições
maravilhosas. Diadorim, mesmo, a cara muito branca, de da
alma não se reconhecer, os olhos rajados de vermelho, o
encovo. Aquilo era o crer da guerra. Por que causa? Porque Joca
Ramiro constava de assassinado morrido? A razão normal de
coisa nenhuma não é verdadeira, não maneja. Arreneguei do que
é a força – e que a gente não sabe – assombros da noite. A
minha terra era longe dali, no restante do mundo. O sertão é
sem lugar. A Bigri, mulher minha mãe, não tinha me rogado
praga. Alta manhã – em tudo repetido o igual: o cantar do
rifleio, afora o feder ruim dos mortos e cavalos, e a moscaria,
que se esparramava. Mesmo com a minha vontade toda de paz e
descanso, eu estava trazido ali, no extrato, no meio daquela
diversidade, despropósitos, com a morte da banda da mão
esquerda e da banda da mão direita, com a morte nova em
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minha frente, eu senhor de certeza nenhuma. Sem Otacília,
minha noiva, que era para ser dona de tantos territórios
agrícolas e adadas pastagens, com tantas vertentes e veredas,
formosura dos buritizais. O que era isso, que a desordem da
vida podia sempre mais do que a gente? Adjaz que me
aconformar com aquilo eu não queria, descido na inferneira.
Carecia de que tudo esbarrasse, momental meu, para se ter um
recomeço. E isso era. Pela última vez, pelas últimas. Eu queria
minha vida própria, por meu querer governada. A tristeza, por
Diadorim: que o ódio dele, no fatal, por uma desforra, parecia
até ódio de gente velha – sem a pele do olho. Diadorim carecia
do sangue do Hermógenes e do Ricardão, por via. Dois rios
diferentes – era o que nós dois atravessávamos? Do lado de
Diadorim restei, um tanto, no afã de escopetear. O inimigo
nunca se via, nem bem o malmal, na fumacinha expelida, de
cada uma pólvora. Arte, artimanha: que agora eles decerto
andavam disfarçados de mbaiá – o senhor sabe – isto é,
revestidos com moitas verdes e folhagens. Adequado que,
embaiados assim, sempre escapavam muito de nosso ver e
mirar. Ah, mas, deles, tiros vinham, bala estripitriz, e o trapuz de
nossas telhas se despencando. A mãe morte. Quem devia mais,
esse morria? – “Õ xente! Não é que pegaram em mim, e eu
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estou passando, estou ficando cegado?...” – exclamou o Evaristo
Caitité, quando descuidou a meia-banda e levou em si uma carga
total. Ele já estava sem jogo nenhum no corpo, as partes das
pernas se esfriavam. Antes quase rindo se acabou; ficou tão de
olhos. – “O que é que ele vê? Vê a vitória!...” – Zé Bebelo se
cresceu no dizer. A vitória e os urubus, que a farto comiam, e o
Manuelzinho-da-Croa, meu cavalinho pedrês, que eu nele não ia
poder nunca mais amontar. Assustava era o alopro dos
companheiros, que não se sujeitavam mais de dormir, estavam
pertencidos perturbados. A caso de se ter mão na nervosia deles,
que queriam dar saída e lanços, avançar no ar. Doidagem desses
comuns repentes, o desfazer do ajuntado. – “A firmeza, meus
filhos. Fôlego e paciência, a gente sempre tem – é só requerer e
repuxar, mais um dedo e outro dedo dobrado...” – Zé Bebelo
media os modos de valer. Assim sendo, agora, só o remedeio,
com as esperanças, extraordinárias. A um jeito de se escapar
dali, a gente, a salvos? Zé Bebelo era a única possibilidade para
isso, como constante pensava e repensava, obrava. E eu cri. Zé
Bebelo, que gostava sempre de deixar primeiro tudo piorar bem,
no complicado. Um gole de cachaça me deu bom conselho. Sem
a vinda dos soldados – se viessem – a gente não estava perdidos?
Zé Bebelo não era quem tinha chamado os soldados? Ah, mas,
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agora, Zé Bebelo não ia mais trair, não ia – e isso só por minha
causa. Zé Bebelo carecia de rédeas de um outro diverso poder e
forte sentir, que tomasse conta, desse rumo a ele. Assim eu
estava sendo. Eu sabia. Zé Bebelo, mesmo nos relances de me
olhar, fingia não conhecer minha vigiação, afetava. Mas ele se
estreitava em meus palpos, conscienciado. Agora, ele tinha de
especular, de afinar a cabeça, para o trabalho de imaginar maior,
achar alguma outra invenção – para resolver o final com acerto
para a vitória de nós todos – sem traição nem airagem. A tanto,
cri, acreditado. Sabia que Zé Bebelo era muito capaz. Só não ri.
“Ao menos outro deles, dos Hermógenes, quero ver se resgato
de abater, até vir o sereno do anoitecido...” – eu meditei. Não
deu. Não pude. O que houve, o conseguinte, foi que Zé Bebelo
pegou em meu ombro. Ele mudou de lugar, e pôs a cara no meio
da luz. – “Aí, está ouvindo, Tatarana Riobaldo, está ouvindo?” –
ele disse, com um sorriso de tão grandes brilhos, que não era de
ruindade e nem de bondade. Aquilo foi num dia, devia de estar
sendo por volta de umas três da tarde, pelo rumo do sol. Ouvi!
Mas, então, a soldadesca tinha vindo, alcançada, estavam
chegando? Era. Era! Remexendo um rebuliço, de nós todos,
mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo, de nada
não soubessem o tencionado. Os praças? O tiroteio deles,
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pegando os Hermógenes de supetão, surpresa bruta, de
retaguarda. Os tiros, que eram: ... a bala, bala, bala... bala, bala, bala...
a bala: bá!... – desfechavam com metralhadora. Aí
arrejarrajava, feito um capitão de vento. Até destroçavam
também nas custas da Casa? – “Apre, meninos, faz mal não. A
vantagem do valente é o silêncio do rumor...” – Zé Bebelo
sentenciava. Zé Bebelo trepava em altas serras. Duvidava de
nada. Que vencia! Quem vence, é custoso não ficar com a cara
de demônio.
Dele de perto não saí, a atenção e ordem ele recomendava.
O cano de meu rifle era tutor dele? Antes de minha hora, no
que ele mandasse opor e falasse eu não podia basear dúvidas.
Mas, desde vez, aquilo a vir gastava as minhas forças. Ali – sem
a vontade, mas por mais do que todos saber – eu estava sendo o
segundo. Andando que Zé Bebelo falecesse ou trastejasse, eu
tinha de tomar assumida a chefia, e mandar e comandar? Outro
fosse – eu não; Jesus e guia! É baixo, os homens não iam me
obedecer; nem de me entender eles não eram capazes. Capaz de
me entender e de me obedecer, nos casos, só mesmo Zé Bebelo.
A jus – pensei – Zé Bebelo, somente, era que podia ser o meu
segundo. Estúrdio, isso, nem eu não sabendo bem por que, mas
era preciso. Era; eu o motivo não sabendo. Se fiz de saber, foi
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pior. O que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos
dos ouvidos e dos olhos? Mas as pernas não estavam. Ah, fiquei
de angústias. O medo resiste por si, em muitas formas. Só o que
restava para mim, para me espiritar – era eu ser tudo o que fosse
para eu ser, no tempo da quelas horas. Minha mão, meu rifle. As
coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência.
Agora, o que era que se esperava? Só Zé Bebelo decerto
podia responder, mas ele não dava senha de mudança. Onde o
normal. Aí já se via o dia quase em fim, com as cores do sol.
Voavam uns guaxes. Dos soldados e dos judas, quase que não se
ouvia empipoco de arma, só os tiros salteados, a cá e lá, como se
escasso quisessem briga. A gente sobrossosa, nesse ensino de
onça, traiçoeiros todos. Astúcias que manobrando em esconso
deviam de estar, para trás e para os lados, pelo jeito melhor de
pegarem o encoberto dos lugares, querendo enrolar os outros,
para o remate de dar bote. – “Soldado pede é cautela, e o dobrosoldo...”
– acho que um disse. Aquela era a ocasião mais
arriscada. Ao que jagunço é isto – o senhor ponha letreiro. Ao
encosto no rifle e apreparo nas patronas – isso era o que bastava.
Nenhum dos companheiros estava desinquieto, nem ralava
apreensão. Nenhum conversava precisando de saber a maneira
de escapulir vivos dali, da Fazenda dos Tucanos. Com a chegada
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da soldadesca, o que parecia moagem era para eles era festa.
Assim uns gritaram feito araras machas. Gente! Feito meninos.
Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles
todos, que sim. Então, eu não era jagunço completo, estava ali no
meio executando um erro. Tudo receei. Eles não pensavam. Zé
Bebelo, esse raciocinava o tempo inteiro, mas na regra do
prático. E eu? Vi a morte com muitas caras. Sozinho estive – o
senhor saiba. Mas, nisso, conforme o acontecido exato, uma
coisa muito inesperada se deu. Da banda do mato, de repente,
por cima das moitas de lobolobo, alguém levantou um pano
branco, na ponta de uma vara.
A gente não tinha licença de abrir fogo no alvo daquele
trapo. Apraz que a gente ia consentir em negócio com os judas?
Aqueles, para mim, guardavama definitiva marca, e só o que
podiam trazer era a maldição. Mas Zé Bebelo, maneiro em
presteza, já tinha amarrado um grande lenço branco na ponta de
um rifle, e mandou que o Mão-de-Lixa aquilo erguesse e
sacudisse no ar. – “A regra que é regra!” – Zé Bebelo disse. – “A
solenidade de embaixador sempre se tem de consentir; até para
herege, até para bugre...” Aprovavam, os outros, deram razão.
Achei que estavam com a vontade de saber que notícias eram, o
que vir vinha. Com o que mais admirei: a mensagem daqueles
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panos brancos, de lá e de cá, durou um certo tempo. Como tudo
nesta vida carece de se acertar direito.
Depois, um sujeito apareceu, do capim, e veio, devia de ter
passado por um rombo feito na cerca. A certa distância estava,
no eirado, e um dos nossos disse, reconhecendo: – “Ah, é o
Rodrigues Peludo, homem devoto do Ricardão...” Que era, que
era – os outros companheiros concordaram. Atrás desse, meio
engatinhando também, surgiu mais um: – “É o Lacrau!” E o
Rodrigues Peludo virava para trás, falava qualquer coisa, parecia
que estava mandando o Lacrau ir s’embora. Mas o Lacrau
teimava, seguia acompanhando o outro. – “Xente, dond’ é que
está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha
ciência nenhuma dele...” O qual era dos Gerais do Bolor, terra
jequitinhonha, e homem de certa valia. Caboclo claro. E que, ele
sendo réu, tinha esfaqueado na sala de júri um promotor, em
outroras. De ver os dois, perto, assim pessoas, escada acima, e
presentes em pé, diante da gente, nas decididas condições, achei
muita esquisitice. Rodrigues Peludo levantou os olhos, feito se a
gente estivesse no céu, e saudou normal. Daí disse:
– “Seô Chefe...”
– “Homem, te vira de costas!” – Zé Bebelo regrou.
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No assim simples eles obedeceram, tanto um, tanto o
outro. Mas estavam muito armados. Momentos que foram, eu
louvei a coragem calma daqueles dois, que de qualquer longe
recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por
belprazer. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimônia.
Afiguro o que pensei.
E Zé Bebelo perguntou, impondo ordem de resposta: que
mandatela eles traziam? Do lado meu, o Diodolfo chiava boca
num dente, conforme sestro dele, e o José Gervásio sussurrou: –
“Tramóia...” Mas Zé Bebelo regia tudo, mão em revólver. Um
homem falar seu recado, de costas, no meio dos contrários, na
boca de tantas armas – o senhor já presenciou essas
circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta, sem rasgo
de tremor na voz:
– “Com sua licença dada, e nos usos, estou trazendo estas
palavras, Seô Chefe, que para repetir ao senhor fui mandado: –
Que, em vistas desses soldados, e do mais, que é contra todos, se
não era mais aproveitável, para uma parte e outra, de se fazer
trato de paz, por uns tempos... E por essa oferta é que venho,
por ordens. Que – se serve, ou valor tem, o dito – pergunta faço;
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e se o senhor há de estar ou não de acordo, me dando a resposta
que queira dar, para eu levar para os meus chefes...”
– “Que chefes?” – Zé Bebelo indagou, sem tom de
nenhuma malícia. Rodrigues Peludo demorou um ponto, fazendo
menção de virar o rosto, mas o que deixou em tempo de fazer. E
contestou:
– “Nhô Ricardão. E seô Hermógenes...” – “E eles então
estão querendo paz?”
– “Estão propondo um acordo correto...”
Em boa distância, do mato do grotal, estralejou um tiro,
que era de fuzil. E uns outros, muito estampidos. O que aquilo
me constou era que era falta de respeito. Tiros que não beiravam
por aqui. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo disse:
– “Homem, vocês podem abaixar o corpo.”
Rodrigues Peludo, sempre de costas, se agachou,
depositou o rifle no chão; o Lacrau meio ajoelhado ficou. Agora
eles estavam entre trincheiras. Agora a roda nossa, ajuntados os
muitos companheiros brabos, com a bafagem da boa cachaça: o
Marruaz que representou a dedo o sino-salomão no peito, no
rumo do coração; o Preto Mangaba, que, mudando de estar,
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esbarrou em mim – do que me lembro e sei, porque doeu em
meu braço; e Diodolfo cuspiu forte – soluçou dos estômagos. E
o Fafáfa, repontante: – “Em paz, quem é que devolve vida em
nossos cavalos?!” Aí o Moçambicão, atrás de mim, me
ressoprou, como um boi reconhecendo minhas costas. Mas
minha mão, por si, pegou a mão de Diadorim, eu nem virei a
cara, aquela mão é que merecia todo entendimento. Mão assim
apartada de tudo, nela um suave de ser era que me pertencia, um
calor, a coisa macia somente. São as palavras? Mas aí espiei para
Diadorim, e ele despertou do que tinha se esquecido, deixado,
de sua mão, que ele retirou da minha outra vez, quase num
repelão de repugno. E ele estava sombrio, os olhos riscados,
sombrio em sarro de velhas raivas, descabelado de vento.
Demediu minha idéia: o ódio – é a gente se lembrar do que não
deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente. – “O
palavreado, destes!” – Diadorim chiou, por detrás dos dentes.
Diadorim queria sangues fora de veias. E eu não concordava
com nenhuma tristeza. Só remontei um pasmo e um consolo
expedito; porque a guerra era o constante mexer do sertão, e
como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais.
Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira
d’água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de correr. E Alaripe buliu no bissaco, estava recheando de novo
as suas cartucheiras. Mas isto tudo, que conto ao senhor, se
compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes. E do
modo de um prosseguir sem partes. Porque Zé Bebelo, as mãos
na cinta, se encurtava frio em siso, feito uma a cobra. O que
disse, o quanto: – “Homem, e o que mais?”
– “Era tudo o que eu já falei, Chefe, seô. Ao que peço
vossa resposta, para conduzir. E em caso de algum acordo, que é
de bom respeito, as ordens tenho, para com meu juramento
fechar trato...” – foi a resposta de Rodrigues Peludo, com a clara
voz de quem está mais cumprindo do que querendo. Até inveja
eu tive dele: porque, para viver um punhado completo, só
mesmo em instâncias assim.
– “Antes bem” – Zé Bebelo glosou, – “quem é que está
rodeando e vexando os outros, e atacando?”
– “O em usos... – é a gente... Isto é...” – o Rodrigues
Peludo compôs o confessar.
– “Ah. Isto era. Ah, e então?!”
– “Ao que vim ajustar é propostas. Ao para salvo e lucro
das nulas partes. As ambas. Caso se Ossa Seoria se concorde...”
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Somenos aprumo, nem o tom. Mas, de tudo seja, também,
o que gravei, aí, desse Rodrigues Peludo, foi um ter-tem de
existidas lealdades. Assim que, inimigo, persistia só inimigo,
surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o
desleixo de si. E que podia conceber sua outra razão, também.
Assim que, então, os de lá – os judas – não deviam de ser somente
os cachorros endoidecidos; mas, em tanto, pessoas,
feito nós, jagunços em situação. Revés – que, por resgate da
morte de J oca Ramiro, a terrível que fosse, agora se ia gastar
o tempo inteiro em guerras e guerras, morrendo se matando,
aos cinco, aos seis, aos dez, os homens todos mais valentes do
sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha idéia – como
a areia que a mais fininha há: que é a que o rio Urucuia rola
dentro de suas largas águas, quando as chuvaradas do inverno.
Ali, dos meus companheiros, tantos mortos. Acaso, que
companheiros eram; e agora o que se depositava deles era o
assunto de lembranças, e aquele amassado e envelhecido
feder, que às horas repontava. Constado que produziam isso,
mesmo estando amontoados no cômodo soturno, entrapadas
as frestas da porta, e cá fora se torrando couros com folhas
polvreadas. Mediante os estoques desse mau-cheiro, por certo
Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mortos, afora os feridos, leves e graves. Mas Zé Bebelo anteteve
de mandar chamar Marcelino Pampa, João Concliz e
muitos diversos outros, e o apinho e apessoar, nosso, ombros
em ombros, aprazava efeito de bando significado, numeroso.
Com os vivos é que a gente esconde os mortos. Aqueles
mortos – o Jósio, entortado prestes, com pedaços de sangue
pendurados do nariz e dos ouvidos; o Acrísio, repousado
numa agência quieta, que ele não havia de em vida; o Quim
Pidão, no pormiúdo de honesto, que nunca nem tinha
enxergado tremde-ferro, volta-e-outra a perguntar como seria;
e Evaristo Caitité, com os altos olhos afirmados, esse sempre
sido prazenteiro no meio de todos. Tudo por culpa de quem?
Dos malguardos do sertão. Ali ninguém não tinha mãe?
Redigo ao senhor: quando o raio, quando arraso, o Gerais responde
com esses urros. A culpa daquele Rodrigues Peludo,
por um exemplo? Desmenti. O ódio de Diadorim forjava as
formas do falso. Odio a se mexer, em certo e justo, para ser,
era o meu; mas, na dita ocasião, eu daquilo sabia só a
ignorância. À-toa, até, que estava relembrando o Hermógenes.
Assim, pensando no Hermógenes – só por precisão de com
alguém me comparar. E, com Zé Bebelo, eu me comparar,
mais eu não podia. Agora, Zé Bebelo, eu – eu, mesmo eu – era
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quem estava botando debaixo de julgamento. Isso ele
soubesse? Ah, naquela cabeça grande, o que Zé Bebelo
pensava era o útil, o seco, e a pressa. De curto ponto, ele
disse, concedendo um foral:
– “Resolvo. Sendo em séria fiança, eu aceito o intervalo
de armas, com o prazo demarcado de três dias. De três dias:
digo! Agora, homem, tu vai – remete isto ao que estiver o seu
chefe, seja lá quem.”
– “A vou...” – o Rodrigues Peludo se prometeu.
– “Se sendo em séria fiança, então de lá um dê três tiros,
pra o trato fechado. Assim assente para esta noite: no instinto
em que a primeirinha estrela se frisar!”
– “A vou.”
O Rodrigues Peludo repuxava bandoleira do rifle e
salvava saudação. Às vozes do ruído, reponho que nenhum de
nós não sabendo se a decisão de Zé Bebelo era justa e
convinhável, ninguém disse mote de dúvida nem de aprovo.
Nisso, no olho do silêncio, ainda era só o que me prevalecia.
Rodrigues Peludo botou o rifle no sovaco, já no jeito de que ia
engatinhar descendo a escada. Mandava a vontade de um,
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sabente de si. Zé Bebelo mandava, ele tinha os feios olhos de
todo pensar. A gente preenchia. Menos eu; isto é – eu
resguardava meu talvez.
Mas, aí, de abalo, o Lacrau, que tinha persistido quieto
feito ouvindo santa-missa perto do altar, ele surge se viravirou,
pelo repente, a traque disse:
– “Aqui, eu, eu fico no meio de vós, meu Chefe! – a que
vim para isto. Sou homem que sempre fui: do estado de Joca
Ramiro – ele é o das próprias cores... Agora, meu braço
ofereço, Chefe. A por tudo quanto, se sepreponha o senhor de
me aceitar...”
A acarra daquilo, tão exclamaste, a forte palavra. Assomo
assim de frechar surpresa, a gente capistrou, grossamente, e
sem fala. Tudo o que ele disse, o Lacrau se empinou em-pé.
Onde mais, deixou o silêncio se perfazer da questão anterior –
a suplicação, o concitado. O que era fato imponente, digo ao
senhor; mire veja, mire veja. Ânimo nos ânimos! A quanto,
semelhavelmente, esse Lacrau não se comportava sem
consciência sisuda, no amor mais à-mão, para se segurar com
trincheiras; mas, assim mesmo, a gente em aperto de cerco, ele
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tinha querido vir, para sócio. Alguém ficou como pasmado?
Zé Bebelo, não.
– “Aqui me praz, que te aceito, rapaz!” – Zé Bebelo
deferiu.
A guerra tem destas coisas, contar é que não é plausível.
Mas, mente pouco, quem a verdade toda diz. Trás isso, o
Rodrigues Peludo esbarrou, o instante, mas endurecendo a
cabeça, para não se virar para espiar para o Lacrau. Em tanto
que o Lacrau, meio mostrando o rifle, pronunciou: – “Estou
na regra, tio mano, que na regra estou, como senhor de
minhas ações, contra quem eu seja. E a carabina – porque
sempre foi minha de posse, arma que de patrão não ganhei.
Estou inteiro...” Ninguém respondeu palavra. Sendo que o
Rodrigues Peludo deixou de contravir, e, puxando pelo sair
assim, escorregou adiante o corpo, se foi.
Numa roda-morta, se esperou, ré que de lá, da dobrada
duma ladeirinha, os três tiros eles deram, somando o
aprovado. A tanto, tresmente, também se respondeu
desfechando. Aí, para a gente Zé Bebelo disse: – “Sou lá o
maluco? Aqueles outros não têm a constância de observar,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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não merecem a palavra dada. O que fiz, foi encaminhar o que
vamos pôr em obra. E aceitei nossa vitória!”
Seja ou não se aquele negócio entendessem, os
companheiros aprovavam. Até Diadorim. Seja Zé Bebelo
levantava a idéia maior, os prezados ditos, uma idéia tão
comprida. O teatral do mundo: um de estadela, os outros
ensinados calados. Sempre sendo, em todo o caso, que Zé
Bebelo me semiolhava espreitado avulso, sob receios e respeito.
Só eu, afora ele, ali, misturava as matérias. Só eu era que guardava
minha exata esperaçao, o que me engraçava. O que era que Zé
Bebelo ia proceder, nas horas vespertinas, no posto-que? Do que
ele tinha pensado e principiado – as tramóias de trair – ia poder
largar, e achar feição para outro salvamento, agora, nessa conjunção?
Mas, porém, não nego que eu, mesmo por estima, queria
que ele bem acertasse na tarefa de meter seu siso, de remerecer.
O raciocínio, que dele eu gostava, constante de admiração; e pela
necessidade. Medonho e esquisito achei, que fosse para ter de
matar completo Zé Bebelo. Como é que? Mas ele abria lugar
demais, o perto demais, sobre papel que não era o pra ele, a meu
parecer. Pelo que eu tinha precisão de me livrar, daquele movimento
sem termo nem nenhumas outras ociosidades. O senhor
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me organiza? Saiba: essas coisas, eu pouco pensei, no lazer de um
momento.
– “Amigos, agora eu louvo e a todos gabo, cada um qual
melhor. E então vamos voltados: papocar fogo, pra paga, até a
noitinha se ilustrar!” – Zé Bebelo determinou, tão versado. A este
ponto, que, por se possuir basta munição, a gente se prezasse de
atirar, por sustos e estragos, primeiramente para o aviável do
matinho dos pastos e da baixada, e dos morrotes cerradeiros,
onde existiam uns valos. Com o que, no ablativo do mandado,
Marcelino Pampa ia retornar para as senzalas, o Freitas Macho
para a tulha, e para o engenho o Jõe Bexiguento, sobrenomeado
“Alparcatas”. Mas Zé Bebelo reservou que eu estivesse com ele e
mais Alaripe, por se pôr o Lacrau em conversa deposta.
Onde o que o Lacrau teve para relatar era pouco, pouco.
Deu razão das coisas perguntadas. Dizendo que o inimigo se
formava em tanto de uns cem, mas a quanta parte deles de
jagunços mal assentados, sem quilates; ainda aguardavam outra
gente por vir, de refrescos, que decerto em pronto não viessem,
por estorvo dos soldados. Nisso não sabia contar das pessoas
nem dos maiores motivos do Hermógenes e do Ricardão, nem
acerca da morte de loca Ramiro aumentava passagens mais do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 519 –
que as de todos já entendidas. Daí, no que Zé Bebelo e Alaripe se
afastaram no corredor, ele Lacrau aliviado se gracejou de rosto,
como falou: – “O esmarte homem que é este chefe nosso
Zebebéo! Outro não vi, para espiritar na gente o pavor e a ação
de acerto...” As agudezas. A vez da má verdade.
Fomos. Fui. Para o recanto duma janela, nesse comenos. A
pra efetuar fogo. A ordem não era-de? Desígnios esses, de Zé
Bebelo. Sucinto em cada puxada de gatilho, relembrei o dito do
Lacrau: que Zé Bebelo o que era. Sendo que uma criatura, só a
presença, tira o leite do medo de outra. Aí, Diadorim mesmo,
que era o mais corajoso, sabia tanto? O que o medo é: um
produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se
mexe, sacoleja, a gente pensa que é por causas: por isto ou por
aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para
esse sarro de medo se destruir; agunço sabe. Outros contam de
outra maneira.
A ordem de se jantar, o jacaré veio avisando. Comi a pura
farinha. Tomei mais. – “Os soldados?” – era o que mais se
perguntava. Tinham esbarrado tiroteio, a gente não escutava o
costurar. Medido nas suas partes, o dia estava gastado; beirava o
prazo da decisão. Excogitei – “Diadorim, esta noite, no começo
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da hora, você vem para perto, me assiste, comigo.” Mas
Diadorim contradisse de querer saber que modos meus que
eram, as tantas espécies. Ainda pensei no Alaripe. A ele me fiz. –
“A de paga, amigo. Ora veja...” – o Alaripe divertido me achou.
De qual deles, agora, eu ia cobrar e arrecadar? Acauã ou o Mãode-
Lixa, ou Diodolfo? Todos seguiam caminho de seus
costumes; no novo não conseguiam de se nortear. Três tristes de
mim! Ali eu era o indez? Noção eu nem acertava, de reger; eu
não tinha o tato mestre, nem a confiança dos outros, nem o
cabedal de um poder – os poderes normais para mover nos
homens a minha vontade. Mesmo meu braço do ferimento, que
já estava muito melhorado por si, aí tornou a doer, no injusto, em
tanto que isto se passava. Adrede, no retorcer do vento, apurei o
ruto de nossos cavalos, os ossos de feder, só a lástima. Será que
eu tivesse por dever de peitar pessoas? Ah, nos curtos
momentos, eu não ia explicar a eles coisas tão divagadas, e que
podiam mesmo não vir a ter fundamento nenhum. Porque – eu
digo ao senhor – eu mesmo duvidava. Tivesse de vigiar no
estreito Zé Bebelo, atravessar o projeto dele se o caso fosse, que
modo que eu ia enfrentar um homem assim? Ah, o julgamento
no Sempre-Verde tinha sido relaxado em brando – para valer
preços. Zé Bebelo, sozinho por si, em outro sobrecalor de
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– 521 –
regimento, servisse para governar os arrancos do sertão? “Não
me importo... Não me importo...” – eu quis, com outras palavras
tais. Ali eu não tinha risco. Ali alguém ia me chamar de Senhormeu-
muito-rei? Ali nada eu não era, só a quietação. Conto os
extremos? Só esperei por Zé Bebelo: – o que ele ia achar de
fazer, ufano de si, de suas proezas, malazarte.
Deu comigo. – “Riobaldo, Tatarana...” Anda que me
encarava, os sagazes olhos piscados. Aquele, me entendia; me
temesse? – “Riobaldo, Tatarana, vem comigo, quero ver a
opinião, sem sinal nem prova...” Ali me levou para uma janela da
cozinha, de lá a grande espaço se tinha vista para o morro, com
seus matos. Zé Bebelo pegou o caneco, que encheu no pote
d’água. Também bebi. Assim escutei: ele falava comigo, com o
efeito de uma amizade.
– “Rapaz, você é um que aceita o matar ou morrer, simples
igualmente, eu sei, você é desabusado na coragem melhor – que é
a da valentia produzida...”
Só mostrei meus ombros; seja que eu secundei.
– “A tão bom: que é que eles agora vão fazer, os da banda
contrária?” – aí ele indagou de mim.
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– “Ora... O que não sei, e saber quero, é – a gente ; o que
é que a gente agora vai fazer?” – perguntei para cima. Outro tal,
repontei: – “Estou em claro. E estou em dúvida. Todo tempo
me gasta...” – isto assim dito.
Só que Zé Bebelo queria não ouvir, a seu seguro:
– “Te põe no lugar. Hem? O que eles fazem é que, a estas
horas, estão no desembargar, para aquele morro, que é aonde
soldados não apertam cerco. De lá foram por esse sul abaixo, via
torta; de madruga já por lá, no Buriti-Alegre, que foram surgir,
escrevo. Agora, hem, maximé? – e os soldados? Andam tomando
contas daí, que são lugares rededores, salvante a sapata do morro,
e dela os pertos – a cava –, porque lá, conforme a boa regra de
razão, paravam com os tiros sobre si. Oh, se sabe!”
Noves e nada eu não dissesse.
– “A bem. Ã e nós?” – Zé Bebelo tornou a indagar.
A resposta não dei. Aquilo tudo eu estava pondo de
remissa.
– “Ah, tempo de partida! A gente, nós, vamos é rente por
essa cava, Riobaldo, meu filho. Sem tardada-porque daqui a pois
sai é a lua, declaradamente...”
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Ao que, já se estava no ponto. Anoitecido. A uma estrela se
repicava, nos pretos altos, o que vi em virtude. A estrelinha,
lume, lume. Assim – quem era que tinha podido mais? Zé
Bebelo, ou eu? Será, quem era que tinha vencido?
Quite com isso, no cumprir, entreguei os destinos.
O truztruz. Com pouco, nesse passo, os todos homens se
apessoando, no corpo daquele corredor – as fileiras em mexemexe
desde a sala-defora até à cozinha, sobre mais entre os
conspirados silêncios, os movimentos com energias. Arte e tanto,
Zé Bebelo expunha o que recomendava. Sempre uma ou outra
lamparina se acendeu, para os companheiros empalidecidos.
Agora a gente ia romper a pé, sem os recursos, dava dó era a
quantia de munição de se largar ali, no se pôr em salvo. Assaz,
então, tudo o que possível se encheu, de balas e caixas – os
bornais e capangas, patronas e cartucheiras. Mas não bastava. A
ser que, daí, um inventou uma fronha de cama: a que, presada
com correia ou corda, para tiracol, concabia tiros em boa dose; e
muitos assim aproveitavam, logo não restou fronha a dispor.
Mesmo, a alguma matula, também, se devia, por garantir. Desde
aí, no concorrer, se saía por uma porta. O quanto a noite se
atravava de bom grosso. Adiante primeiro foram mandados João
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Concliz, Moçambicão e Suzarte, para reconhecerem se estava
limpo o caminho, rumo de fuga, sem o estorvável. Ponto que os
poucos feridos, que havendo, se queixavam em condições,
mesmo o Nicolau, que se escorava no rifle e às vezes se retardava.
Só ficando na Casa os mortos, que não careciam de se rezar a
eles adeus, os soldados amanhã que viessem, que enterrassem.
Soformamos diversos golpes, acho que cinco, Diadorim e eu
entramos no derradeiro, com o comando do próprio Zé Bebelo;
e com o Acauã, o Fafafa, Alaripe e Sesfredo, que acompanhavam
comigo. Saíram os de primeiramente, iam um ante outro – como
um rio a buscar baixo; ou um cão, cão. A gente demorava.
Aquela cozinha grande, no cabo do negócio, muito aprisionava,
de sobreleve; e contei os companheiros, as respirações. Saíram
outros e outros. Dos dianteiros, nem se percebia rumor. Toda a
hora eu esperava um tiro e um grito de alto-lá-o-rei! Mas era só o
tremer daquela paz em proporção. Admirei Zé Bebelo. A vez
nossa chegada, ali o acostumar os olhos com o outro mudar.
Abaixamos, e saímos também. Semoveu-se.
Livrados! No escuso, o tudo ajudando, fizemos passagem,
avante mais. Tempo que andamos, contracalados, soprando o
sangue para se esfriar; até que se cobrou veras de perigo não
haver, no regozijo de poupados de qualquer espreita ou
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agredimento. Se esbarrou, para ar, um sueto de uns momentos. –
“Não é que o gato ficou lá...” – um, risonho, falou. – “Ah,
demais. A lá é a Casa...” – outro se pôs. Aquela à-morte fazendagrande
dos Tucanos. Vai, eu, o cheiro fartado, bom, de folhas
folhagens e do capim do campo, enunciou em meu lembrar o
mau-cheiro dos defuntos, que agora próprio no meu nariz eu
nem não aventava mais. E Zé Bebelo, segredando comigo,
espiou para trás, observou assim, pegando na minha mão: –
“Riobaldo, escuta, botei fora minha ocasião última de engordar
com o Governo e ganhar galardão na política...” Era verdade, e
eu limpei o haver: ele estava pegando na mão do meu caráter. Aí,
aclarava – era o fornido crescente – o azeite da lua. Andávamos.
Saiba o senhor, pois saiba: no meio daquele luar, me lembrei de
Nossa Senhora.
A de entre, entramos, pela esquerda e rumo do norte.
Desde o depois, o do poente mesmo. Com foras e auroras,
estávamos outra vez no público do campo. Antes da manhã,
agora se passava a Vereda-Grande, no Vaudos-Macacos. Ao que,
em rompendo a luz toda da manhã, se chegou no sítio dum
Dodó Ferreira, onde a gente bebeu leite e os meus olhos
pulavam nas árvores. Aquilo, de verdade, e eu em mim – como
um boi que se sai da canga e estrema o corpo por se prazer.
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Assim foi que, nesse arraiar de instantes, eu tornei a me exaltar de
Diadorim, com esta alegria, que de amor achei. Alforria é isso.
Sobre mesmo a pé, e com o peso completo, caminhar pelos
Gerais parecia que pouquinho me cansava. Diadorim – o nome
perpetual. Mas os caminhos é que estão se jazendo em tudo no
chão, sempre uns contra os outros; retorce que os falsíssimos do
demo se reproduzem. O senhor vá me ouvindo, vá mais me
entendendo.
No sítio desse Dodó Ferreira, o Nicolau e o Leocádio iam
ficar acoitados lá, até que pudessem sarar de todo somenos.
Nós, não. De que desde dali, rifles nas costas, riscamos de rota
abatida para o Currais-do-Padre, para renovame; porque lá se
tinha resguardada uma boa cavalaria. À força de inchar pé e
esmorecer pernas, pelo que aquilo nem foi viagem: era rojão de
escabrear, menção de cativeiros. Desgraça de estrada, as pedras
do mundo, minhas léguas arrependidas. De que serve eu lhe
contar minuciado – o senhor não padeceu feliz comigo – ? Saber
as revezadas do capim? Ah, então, que foram: mimoso, sempreverde,
marmelada, agrestes e gramade-burro... A caminhada é
assim, é ser: despesa grossa, o abalo. Contra a mera vontade, que
meio me lembro, aquelas ladeiras de chapadas. Subindo para
terreno concertado, cada tabuleiro que o fim dele é dificultoso,
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pior do que batoqueira de caatingal. Os muitos campos, com
tristeza agora bota valesse menos que alpercata. O vento
endureceu. Aí passa gavião, apanha guincho, de todas as estirpes
deles – o que gaviãozinho quiriquitou! E lá era que o senhor
podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O quanto em
toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se
bebia estável. Assim que a madotagem desmereceu em acabar,
mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais,
ainda tinha araticum maduro no cerrado. Mas, para balear uma
rês da solta, era o mister de toda sorte e diligência, por ser um
gado estruso, estranhador. O fumo de pitar se acabando
repentino na algibeira de uns e outros – bondade dos
companheiros era que acudia. E deu daquele vento trazedor:
chegou chuva. A gente se escondendo, divididos, embaixo dos
pequizeiros, que tempesteava. Dormir remolhado, se dormia,
com a lama da friagem. De madrugar, depois, se achava era pé de
onça, circulando as marcas. E a gente ia, recomeçado, se andava,
no desânimo, nas campinas altas. Tão território que não foi feito
para isso, por lá a esperança não acompanha. Sabia, sei. O pobre
sozinho, sem um cavalo, fica no seu, permanece, feito numa croa
ou ilha, em sua beira de vereda. Homem a pé, esses Gerais
comem.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Diadorim vinha constante comigo. Que viesse sentido,
soturno? Não era, não, isso eu é que estava crendo, e quase dois
dias enganoso cri. Depois, somente, entendi que o emburro era
mesmo meu. Saudade de amizade. Diadorim caminhava correto,
com aquele passo curto, que ó dele era, e que a brio pelejava por
espertar. Assumi que ele estava cansado, sofrido também. Aí
mesmo assim, escasso no sorrir, ele não me negava estima, nem
o valor de seus olhos. Por um sentir: às vezes eu tinha a cisma de
que, só de calcar o pé em terra, alguma coisa nele doesse. Mas,
essa idéia, que me dava, era do carinho meu. Tanto que me vinha
a vontade, se pudesse, nessa caminhada, eu carregava Diadorim,
livre de tudo, nas minhas costas. Até, o que me alegrava, era uma
fantasia, assim como se ele, por não sei que modo, percebesse
meus cuidados, e no próprio sentir me agradecendo. O que
brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando,
feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a
gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com
esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se
espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de
excogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu
poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. Mas, então,
num determinado, eu disse:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Diadorim, um mimo eu tenho, para você destinado, e
de que nunca fiz menção...” – o qual era a pedra de safira, que do
Araçuaí eu tinha trazido, e que à espera de uma ocasião sensata
eu vinha com cautela guardando, enrolada numa pouca de
algodão, dentro dum saquitel igual ao de um breve, costurado no
forro da bolsa menorzinha da minha mochila.
De desde que falei, Diadorim quis muito saber o presente
qual era, assim apertando comigo com perguntas, que sem
aperreio deixei de responder, até de tarde, quando fizemos
estância. A parança que foi – conforme estou vivo lembrado –
numa vereda sem nome nem fama, corguinho deitado demais, de
água muito simplificada. Aí, quando ninguém não viu, eu saquei a
mochila, desfiz a ponta de faca as costuras, e entreguei a ele o mimo,
com estilo de silêncio para palavras.
Diadorim entrefez o pra-trás de uma boa surpresa, e sem
querer parou aberto com os lábios da boca, enquanto que os
olhos e olhos remiravam a pedra-de-safira no covo de suas mãos.
Ao que, se sofreou no bridado, se transteve sério, apertou os
beiços; e, sem razão sensível nem mais, tornou a me dar a
pedrinha, só dizendo:
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– “Deste coração te agradeço, Riobaldo, mas não acho de
aceitar um presente assim, agora. Aí guarda outra vez, por um
tempo. Até em quando se tenha terminado de cumprir a
vingança por Joca Ramiro. Nesse dia, então, eu recebo...”
Isso, de arrevés, eu li com hagá; e mesmo antes, quando
apontou no rosto dele, para o avermelhar de cor, a palidez de
espécie. Delongando, ainda restei com a pedra-de-safira na mão,
aquilo dado-e-tomado. Donde declarei:
– “Escuta, Diadorim: vamos embora da jagunçagem, que já
é o depois-de-véspera, que os vivos também têm de viver por só
si, e vingança não é promessa a Deus, nem sermão de
sacramento. Não chegam os nossos que morremos, e os judas
que matamos, para documento do fim de loca Ramiro?!”
Ah foi ele me ouvir e se encurtar, em duro que revi, que
nem ossos. Ao crespo de um com a afronta a meia-goela – e os
olhos davam o que deitavam. O que durou só um átimo, tanto
que ele teve mão em seu gênio, conciso com um suspiro; mas
mesmo me retrouxe remoque:
– “Riobaldo, você teme?”
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Tomei sem ofensa. Mas muita era minha decisão, que eu já
tinha aperfeiçoado lá na Fazenda dos Tucanos, e que só vinha
esperando para executar com mais regimento de ordem, quando
se tivesse chegado no Curraisdo-Padre, conforme meu sistema
nesses procedimentos.
– “Tem que temerei! Você, aí faz o que em seu querer
esteja. Eu viro minha boa volta...”
Dar o mal por mal: assim. Eu tinha a quanta razão. Eu
guardei a pedrinha na algibeira, depois melhor botei, no bolso do
cinto; contei minhas favas, refavas. Diadorim respirava muito.
Dele foi o relance:
– “Riobaldo, você pensa bem: você jurou vinga, você é
leal. E eu nunca imaginei um desenlace assim, de nossa
amizade...” – ele botou-se adiante. – “Riobaldo, põe tento no que
estou pedindo: tu fica! E tem o que eu ainda não te disse, mas
que, de uns tempos, é meu pressentir: que você pode – mas
encobre; que, quando você mesmo quiser calcar firme as estribeiras,
a guerra varia de figura...”
Arredei: – “Tu diz missa, Diadorim. Isso comigo não me
toca...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Da maneira, ele me tentava. Com baboseira, a prosável
diguice, queria abrandar minha opinião. Então eu ia crer? Então
eu não me conhecia? Um com o meu retraimento, de nascença,
deserdado de qualquer lábia ou possança nos outros – eu era o
contrário de um mandador. A pra, agora, achar de levantar em
sanha todas as armas contra o Hermógenes e o Ricardão, aos
instigares? Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era
para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à
força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam
de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai
virando tigre debaixo da sela. Eu sabia, eu via. Eu disse: nãozão!
Me desinduzi. Talento meu era só o aviável de uma boa pontaria
ótima, em arma qualquer. Ninguém nem mal me ouvia, achavam
que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. Mesmo eu
não era capaz de falar a ponto. A conversa dos assuntos para
mim mais importantes amolava o juizo dos outros, caceteava. Eu
nunca tinha certeza de coisa nenhuma.
Diadorim disse: – “Ei, retenteia! Coragem faz coragem...”
Demais eu disse: – “Sou Capitão-General?!...”
Antes tantas astúcias, em empalhar que eu não fosse
embora, que eu ficasse preso naquele urjo de guerra, sem cabo
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nem ponta, sem costas nem frente, e que maçava. Recachei. A
mão dele, doçura de dada, de leve na minha. Temi afracar. E em
duro repostei, com outra ombrada:
– “Vou e vou. Só inda acompanho é até o Currais-do-
Padre. Lá eu requeiro para mim um cavalo bom. E trovejo no
mundo...”
Verdadeiro meu propósito era esse, como está dito. Eu não
caturrava. Eu sou assim amor-com-amor, e ingratidão não. E
bem por isso Diadorim não persistiu, com palavras cordatas; mas
por fim disse, de motejo, zombariazinha:
– “Então, que quer mesmo ir, vai. Riobaldo, eu sei que
você vai para onde: relembrado de rever a moça clara da cara
larga, filha do dono daquela grande fazenda, nos gerais da Serra,
na Santa Catarina... Com ela, tu casa. Cês dois assentam bem,
como se combinam...”
Nonde nada eu não disse. Se menos pensei em Otacília.
Nem maldisse Diadorim, de que não se calava. A mais, pirraçou:
– “Vai-te, pega essa prenda jóia, leva dá para ela, de
presente de noivado...”
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Demorei no fazer um cigarro. Nós estávamos na beira do
cerrado, cimo donde a ladeirinha do resfriado principia; a gente
parava debaixo dum paratudo – pau como diz o goiano, que é a
caraíba mesma – árvore que respondia à saudade de suas irmãs
dela, crescidas em lontão, nas boas beiras do Urucuia. Acolá era a
vereda. Com o tempo se refrescando, e o desabafo do ar, buriti
revira altas palmas. A por perto, se ouvia a algazarra dos
companheiros. De ver, eu tinha dó, minha pena sincera de
Diadorim, nessas jornadas. De verdade, entardecia. Derradeira
arara já revoava.
– “... Ou quem sabe você resolve melhor mandar de dádiva
para aquela mulherzinha especial, a da Rama-de-Ouro, filha da
feiticeira... Arte que essa mais serve, Riobaldo, ela faz o gozo do
mundo, dá açúcar e sal a todo passante...”
Não era na Rama-de-Ouro – era na Aroeirinha. Mas, por
que era que ele falava no nome de Nhorinhá, com tão cravável
lembrança? Ao crer, que soubesse mais do que eu mesmo o que
eu produzia no coração, o encoberto e o esquecido. Nhorinhá –
florzinha amarela do chão, que diz: – Eu sou bonita!... E tudo
neste mundo podia ser beleza, mas Diadorim escolhia era o ódio.
Por isso era que eu gostava dele em paz? No não: gostava por
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destino, fosse do antigo do ser, donde vem a conta dos prazeres
e sofrimentos. Igual gostava de Nhorinhá – a sem-mesquinhice,
para todos formosa, de saia cor-de-limão, prostitutriz. Só que, de
que gostava de Nhorinhá, eu ainda não sabia, filha de Ana
Duzuza. O senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus
cocos na vereda – as águas levam – em beiras, o coquinho as
águas mesmas replantam; dai o buritizal, de um lado e do outro
se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo.
– “... Você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa
Catarina. Vocês vão casar, sei de mim, se sei; ela é bonita,
reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha
sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos,
prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as
mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas
rendas... A noiva, com o alvo véu de filó...”
Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar
mel de flor. E me embebia – o que estava me ensinando a gostar
da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, de sonsom,
feito se imaginasse sempre, a si mesmo uma estória recontasse.
Altas borboletas num desvoejar. Como se eu nem estivesse ali
ao pé. Ele falava de Otacília. Dela vivendo o razoável de cada
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dia, no estar. Otacília penteando compridos cabelos e
perfumando com óleo de sete-amores, para que minhas mãos
gostassem deles mais. E Otacília tomando conta da casa, de
nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando
ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em
camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço às festas da
cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de
molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo
eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão, agora só
ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que
batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro
que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez
– alguma causa que ele até de si guardava, e que eu não podia
inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. No tempo, não
apareci no meio daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns
companheiros, com João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que
ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo.
Ao relançar das labaredas, e o refreixo das cores dando lá acima
nos galhos e folhas, essas trocavam tantos brilhos e rebrilhos, de
dourado, vermelhos e alaranjado às brasas, essas esplendências,
com mais realce que todas as pedras de Araçuaí, do Jequitinhonha
e da Diamantina. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao
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quando bem anoiteceu, foi assim. A gente só sabe bem aquilo
que não entende.
O senhor veja: eu, de Diadorim, hoje em dia, eu queria
recordar muito mais coisas, que valessem, do esquisito e do
trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram, esqueci fora do
rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo nenhum.
Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim, e
eu gostava demais dele.
Na surgida manhã, saímos, para a parte final da caminhada.
Zé Bebelo, certa hora, me chamou. Inda que avante, Zé Bebelo
mesmo devia de estar curtindo más e piores: fio que ele amargava
a vitória que tinha inventado. Noção dos inimigos nossos, que,
seja lá por onde, puxavam posse de sua munição e de suas
montadas e cargas, socorridos de tudo quanto careciam. – “Um
Hermógenes quer tomar conta do sertão dos Gerais...” – eu tirei
liberdade para dizer. Mesmo mais indiretas disse; e isso me
realiviou, no dizer, pouco somente, que era só por picardia.
Direto, disso, Zé Bebelo não me respondeu; ele pensava as mil
coisas. Em tanto, nesses cálculos de meditação, ele ligeiro
sobrezumbia com os beiços, e balangava às esquerdas-edireitas as
abas enfunadas do chapéu; e às vezes assoprava sem ser por canJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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saço de marcha. O que das idéias sobrava, era que ele referia: –
“Ainda não entendo... Ainda não entendo... Até agora,
reconheço, ele tem tido uma sorte... Sapo sem-colarinho, reigordo...
Mas, deixa a gente ir e vir, que os ovos e dúzias ele
paga!...” Do Hermógenes discursava – orçamento do
Hermógenes. E, de ouvir que a sorte do Hermógenes existia alta,
isso me penou, tanto me certificava. Aí fiquei a menos. Nem eu
não queria arreliar Zé Bebelo. Mas, para mim, ele estava muito
errado: pelos passos e movimentos, porque gostava prático da
guerra, do que provava um muito forte prazer; e por isso não
tinha boa razão para um resultado final. Assim achei, espiando o
alto céu, que é com as nuvens e os urubus repartido. Deponho:
de que é que aquilo me adiantava? E chuvas dadas, derramadas.
Aí, vai, chegamos no Currais-do-Padre.
O lugar que não tinha curral nenhum, nem padre: só o
buritizal, com um morador. Mas o ao em redor, em grandes
pastos, era o capim melhor milagroso – que o que deixava de ser
provisório rico era o meloso de muito óleo, a não ver uns fios
de santa-luzia azul, e do duro-do-brejo, nas baixadas, e, nos altos
com pedregal, o jasmim-da-serra. De lá vinham saindo
renascidos, engordados, os nossos cavalos, isto é, os que tinham
sido de Medeiro Vaz, e que agora herdávamos. Regozijei.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 539 –
Escolhi um, animal vistoso, celheado, acastanhado murzelo, que
bem me pareceu; e dei em erro, porque ele era meio sendeiro e
historiento. Daqui veio que o nome que teve foi de “Padrim
Selorico”. Mas o dono do sítio, que não sabia ler nem escrever,
assim mesmo possuía um livro, capeado em couro, que se
chamava o “Senclér das Ilhas”, e que pedi para deletrear nos meus
descansos. Foi o primeiro desses que encontrei, de romance,
porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. Nele achei
outras verdades, muito extraordinárias.
Além de que, tudo o que eu tivesse de resolver, de minha
vida, fui deixando para os seguintes. Dia de ser de chuva, que
madrugou tarde: boi nos cinzentos. E os pássaros de passagem
precisavam de gritar muito uns para os outros. Diadorim
moderava o falar comigo, e me ver, recolhido em certo vexame,
receoso; eu achei. Já disse ao senhor? – dia a dia ele raiava, em
formosura. E chuva alta, que envinha, estava mandando urubu
voar para casa. Os cavalos pastavam com mais pressa. Nunca, em
todos meus tempos, eu vi inverno tamanho demorado. Era para
espera. Mesmo assim, Zé Bebelo pôs ordem de se ir. Porque
estávamos quase todos montados em pêlo, carecíamos de tocar
para o Curral Caetano, onde se tinha quantidade grande de
arreios guardados. Depois, daí, para buscar munição, na VirgemJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Mãe. Prazo não se perdia. Aos caminhos barrancosos, de sopega,
feito torrão de açúcar preto se derretendo, empapados. Aos
barros fomos, como perdidas criaturas, de se rir, se chorar. E –
mas o senhor sabe o que isso é? – aqueles nossos cavalos não
tinham ferraduras.
Pra mais onde? Ah, aonde os altos bons: o Chapadão do
Urucuia, em que tanto boi berra. Mas nunca chegamos nem na
Virgem-Mãe. Afiguro, desde o começo desconfiei de que
estávamos em engano. Rumos que eu menos sabia, no viável.
Como a serra que vinha vindo, enquanto para ela eu ia indo, em
tantos dias: longe lá, de repente os olhos da gente percebem um
fio de tremor – se vê é um risquinho preto, que com léguas
andadas vira cinzento e vira azul – daí, depois, parede de morro
se faz. No arquear dali, foi que se pegou o primeiro caminho
achado, para se passar. Bem baixamos. Os rios estavam sujos,
em espumas. Não havendo a ajuda de Joaquim Beiju, que estava
dando para dela se sentir falta. Zé Bebelo, em assarapanto, até
os dedos da mão dele não deixavam de se perpassar, contando
rosário nas tiras da rédea. Que andávamos desconhecidos no
errado. Disso, tarde se soube – quem que guiava tinha enredado
nomes: em vez da Virgem-Mãe, creu de se levar tudo para a
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– 541 –
Virgem-da-Laje, logo lugar outro, vereda muito longe para o sul,
no sítio que tem engenho-de-pilões. Mas já era tarde.
Trovoou truz, dava vento. E chuvas que minha língua
lambeu. Nelas mais não falo. Mas, quando estiou o tempo, de
vez, não sei se foi melhor: porque bateu de começo a fim dos
Gerais um calor terrível. Aí, quem sofreu e não morreu, ainda se
lembra dele. Esses meses do ar como que estavam
desencontrados. Doenças e doenças! Nosso pessoal, montão
deles, pegou a mazelar. Mas isto eu refiro depois. O senhor já
que me ouviu até aqui, vá ouvindo. Porque está chegando hora
d’eu ter que lhe contar a$ coisas muito estranhas.
Quadrante que assim viemos, por esses lugares, que o nome
não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos.
Sertão, – se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não
encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão
vem. Mas, aonde lá, era o sertão churro,,o próprio, mesmo. Ia
fazendo receios, perfazendo indagação. Descemos por umas
grotas, no meio de serras de parte-vento e suas mães árvores. O
pongo de um ribeirão, o boqueirão de um rio. O Abaeté não era;
se bem fosse que parecia: largo rio Abaete, no escalavrado, beiras
amarelas. Aquele rio fazia uma grande volta, acolá, clareado, com
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 542 –
a vista de uns coqueiros. Ali era um lugar longe e bonito, como
que me acenava. Mas não endireitamos para ele, porque o rumo
determinado era outro, torando desviado muito, consoante. E
mais maninhava. Topar um vivente é que era mesmo grande
raridade. Um homenzinho distante, roçando, lenhando, ou uma
mulher= zinha fiando a estriga na roca ou tecendo em seu tear de
pau, na porta de uma choça, de buriti toda. Outro homem quis
me vender uma arara mansa, que a qual falava toda palavra que
tem á. Outra velha, que estava fumando o pito de barro. Mas ela
enrolou a cara no xale, não se ajuizaram os olhos dela. E o gado
mesmo vasqueava: só por pouco acaso um boi ou vaca, de
solidão, bicho passeado sem dono. Veado, sim, vi muitos: tinha
vez que pulavam, num sonhoso, correndo, de corta campo, tanto
tantos – uns dois, uns três, uns vinte, em grupos – mateiros e
campeiros. Faltava era o sossego em todo silêncio, faltava rastro
de fala humana. Aquilo perturbava, me sombreava. já depois,
com andada de três dias, não se percebeu mais ninguém. Isso foi
até onde o morro quebrou. Nós estávamos em fundos fundos.
Isto é, nos arrampadouros. Tinha uma estrada, aí na subida
dela houvesse coisas. Uns galhos de árvores colocados –
ramalhos e jaribaras – forma de sinal: para não se passar. Mas
esse aviso havia de ser particular, para o uso de outros, não para
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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o nosso destino. Não respeitamos, de jeito nenhum. Fomos indo.
No entrar numa guapira, se redobrou o achado daquelas ramas
verdes, que não obedecemos. Eu vinha adiante, com o Acauã e o
Nélson, instruindo o caminho. Já estávamos pelas rédeas, para
outra subida de ladeira: mas aí escutamos o latir de cachorros. E
enxergamos um homem – no alto da virada – uns homens. Esses
estavam com espineardas.
Os quantos homens, de estranhoso aspecto, que agitavam
manejos para voltarmos de donde estávamos. Por certo não
sabiam quem a gente era; e pensavam que três cavaleiros menos
valessem. Mas, entendendo que do caminho não desgarrávamos,
começaram a ficar estramontados. Um eu vi, que dava ordens:
um roceiro brabo, arrastando as calças e as esporas. Mas os
outros, chusmote deles, eram só molambos de miséria, quase que
não possuíam o respeito de roupas de vestir. Um, aos menos
trapos: nem bem só o esporte de uma tanga esfarrapada, e, em
lugar de camisa, a ver a espécie de colete, de couro de
jaguacacaca. Eram uns dez a quinze. Não consegui sentido no
que eles ameaçavam, e vi que estavam aperrando as armas.
Queriam cobrar portagem? Andavam arrumando alguma
jerimbamba? Não convinha avançar assim por cima deles, logo,
mas também dar recuada podia ser uma vergonha. Esbarramos,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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neles quase encostados. Íamos esperar o resto do pessoal. E eles,
ali confrontes, não explicavam razão nenhuma. Só um disse:
– “Pode não... Pode não...”
E renuía com a cabeça, o banglafumém, mesmo quando
falava, com uma voz de qualidade diversa, costumada daquela
terra de lugar; e os outros renuindo também: – “Ah, pode não...
Pode não...” – com o vozeio soturno.
Nos tempos antigos, devia de ter sido assim.
Gente tão em célebres, conforme eu nunca tinha
divulgado nem ouvido dizer, na vida. O das esporas foi se
amontar num jumento – esse era o único animal-de-sela que ali
tinham. Acho que montou para oferecer à gente maior vulto de
respeito; tocava batendo palma de mão na anca do jegue, veio
vindo, para primeiro se presenciar. Olhei para todos. Um tinha a
barba muito preta, e aqueles seus olhos permeando. Um,
mesmo em dia de horas tão calorosas, ele estava trajado com
uma baeta vermelha, comprida, acho que por falta de outra
vestimenta prestável. Ver a ver o sacerdote! – “Ih! Essa gente
tem piolho e muquiranas...” – o Nélson disse, contrabaixo.
Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas, boJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cudas baludas, garruchas e bacamartes, escopetas e trabucão –
peças de armas de outras idades. Quase que cada um era escuro
de feições, curtidos muito, mas um escuro com sarro ravo,
amarelos de tanto comer só polpa de buriti, e fio que estavam
bêbados, de beber tanta saeta. Um, zambo, troncudo, segurava
somente um calaboca, mas devia de ser de braço terrível, no
manobrar aquele cacete. O quanto feioso, de dar pena, constado
chato o formo do nariz, estragada a boca grande demais, em
três. Outro, que tinha uma foice encabada muito comprido, e
um porongo pendurado a tiracol por uma embira, cochichava
com os restantes uma séria falação: a qual uma espécie de
pajelança. Artes vezes ele guinchava, feito o demônio
gemedeiro. Esse, que por nome de Constantino acudia. Todos
eles, com seus saquinhos chumbeiros e surrões, e polvorinhos
de corno, e armamento tão desgraçado, mesmo assim não
tomavam bastante receio de nossos rifles. Para o nosso juízo,
eles eram doidos. Como é que, desvalimento de gente assim,
podiam escolher ofício de salteador? Ah, mas não eram. Que o
que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem
salvação naquele recanto lontão de mundo, groteiros dum
sertão, os catrumanos daquelas brenhas. O Acauã que explicou,
o Acauã sabia deles. Que viviam tapados de Deus, assim nos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ocos. Nem não saíam dos solapos, segundo refleti, dando cria
feito bichos, em socavas. Mas por ali deviam de ter suas casas e
suas mulheres, seus meninos pequenos. Cafuas levantadas nas
burguéias, em dobras de serra ou no chão das baixadas, beira de
brejo; às vezes formando mesmo arruados. Aí plantavam suas
rocinhas, às vezes não tinham gordura nem sal. Tanteei pena
deles, grande pena. Como era que podiam parecer homens de
exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que
tinham uso, ralado salitre das lapas, manipulando em panelas.
Que era uma pólvora preta, fedorenta, que estrondava com
espalhafato, enchendo os lugares de fumaceira. E às vezes essa
pólvora bruta fazia as armas rebentarem, queimando e matando
o atirador. Como era que eles podiam brigar? Conforme podiam
viver?
E enfim os companheiros apontaram em vinda, e subiram
a primeira ladeira, aquele tropeado de guerreiros, em tão grande
número numeroso. Quase eu queria me rir, do susto então dos
catrumanos. Mas foi não, porque eles não se aluíram do ponto
onde estavam, só que olhavam para o chão, calados, acho que
porque essa é a forma de declararem seus espantos. O do jegue,
Teofrásio, que era quem capitaneava, deu alguma intimação para
o da foice, esse que o Dos-Anjos se chamava, era o falador; e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 547 –
que foi quem veio adiante, saudar Zé Bebelo e render
explicação:
– “Ossenhor uturje, mestre, a gente vinhemos, no
graminhá... Ossenhor uturje...”
Ossos e queixos; e aquela voz que o homem guardava nos
baixos peitos, era tôo que nem de se responder em ladainha dos
santos, encomendação de mortos, responsório.
– “Ossenhor uturje, mestre... Não temos costume... Não
temos costume... Que estamos resguardando essas estradas... De
não vir ninguém daquela banda: povo do Sucruiú, que estão
com a doença, que pega em todos... Ossenhor é grande chefe,
dando sua placença. Ossenhor é Vossensenhoria? Peste de
bexiga preta... Mas povoado da gente é o Pubo – que traslada do
brejão, ossenhor com os seus passaram perto de lá, valor distante
meia-légua... As mulheres ficaram, cuidando, cuidando... A
gente vinhemos, no graminhá. Faz três dias... Cercar os
caminhos. O povo de Sucruiú – estão dizendo : nem não estão
enterrando mais os defuntos deles... Pode querer vir algum, com
recado, trazendo a doença, e esta é a razão... Veio um, querendo
pedir auxílios, relatar bobagens, essas mogúncias e brogúncias...
Mas teve de voltar, deveras retornou, não demos passa
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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gem. Estão com a maldição, a urros. Castigo de Deus
Jesus! Povo do Sucruiú, gente dura de rúim... Ossenhor uturje,
mestre: convém desemendar deste lado, não passar no Sucruiú,
respraz... Bexiga da preta!...”
E aquele homem o Dos-Anjos tinha largado a foice no
chão, botou o pé em riba; e abria os braços, depois ficou de
mãos postas, acho que estava produzindo algum feitiço, com os
olhos todos fechados. Ele era magro, magro, da vista da gente
não se ter. Os outros deles, devagarosamente tinham vindo se
chegando também. Zé Bebelo, seguro que por não se rir sem
caridade, armou rosto reverso, aquele semblante serioso; e eles
desconfiaram. Porque um, que era velhusco e estava com o
chapéu-de-palha corroído nas todas beiras, apareceu com um
dinheiro na palma da mão, oferecendo a Zé Bebelo, como em
paga por perdoamento. A que era um dobrão de prata, antigo
do Imperador, desses de novecentos – e-sessenta réis em cunho,
mas que na Januária por ele dão dois mil-réis, ainda com
senhoriagem de valer até os dez, na capital. Mas Zé Bebelo, com
alta cortesia, rejeitou aquele dado dinheiro, e o catrumano velho
não bem entendeu, pelo que permaneceu um tempo, com ele
ofertado na mão. Assim os outros não entrediziam palavras, que
só arregalados espiavam, para Zé Bebelo e para a moeda,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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olhavam como se estivessem prestando conta de suas fortes
invejas. O jeito de estremecer, deles, às vezes, era todo, era de
banda; mas aquilo sendo da natureza constante do corpo, e não
temor – pois, quando pegavam receio, iam ficando era mais
escuros, e respiravam com roncado rumor, quietos ali. Que
aqueles homens, eu pensei: que nem mansas feras; isto é, que no
comum tinham medo pessoal de tudo neste mundo.
Como que o senhor visse os catrumanos rir! O da foice
tornou a apanhar a foice, o no jegue ficou segurando o chapéu
em respeito, o velho beobobo sumiu seu dobrão de prata em
alguma algibeira. A mais eles todos riram, as tantas grandes
bocas, e não tinham quase nenhum dente. Riam, sem motivo
justo, agora mas para nos agradar. Cônscio, o da foice criou
ânimo, mesmo indagou:
– “O que mal não pergunto: mas donde será que ossenhor
está servido de estando vindo, chefe cidadão, com tantos
agregados e pertences?”
– “Ei, do Brasil, amigo!” – Zé Bebelo cantou resposta,
alta graça. – “Vim departir alçada e foro: outra lei – em cada
esconso, nas toesas deste sertão...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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O velho agiu o pelo-sinal. Ia remenicar alguma outra coisa.
Mas Zé Bebelo, completo de escutar e ver, deu não com a mão,
e abriu a marcha. Tocamos. Ora vi as derradeiras caras daqueles
catrumanos, que mostravam por nossa causa muitos pasmos de
admiração, e a cobiça que tinham de fazer cento-e-dobro de
perguntas, que por receio de atrevimento nunca perguntavam.
Só dos rifles: – “Úixe-te, isto é lazarinha moderna?...” Donde um
deles, o montado no jegue, ainda gritou um conselho: que a
gente então principiasse volta, no buritizal duma lagoazinha, da
banda da mão direita – por via de se evitar de passar por dentro
do Sucruiú – e que, retomada a estrada, no quebrar da mão
esquerda, num vau perto da mata virgem, era só se andar as sete
léguas, num sítio se chegava, de um tal de seor Abrão, que era
hospitaleiro... Isso aquele homem recomendou, não por serviço
de préstimo, eu pelo tom e jeito bem entendi: gritou, no fim
assim, a fito somente de que os seus outros vissem que ele bem
possuía coragem também de dar voz, perante presença nossa, de
tantos grandes jagunços donos de arejo d’armas. Mas Zé
Bebelo, descrendo de temer o que eles anunciavam, do arraial
onde estava alastrando a varíola reinante, deu ordem de
seguirmos, em reto em diante em frente.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Rir, o que se ria. De mesmo com as penúrias e
descômodos, a gente carecia de achar os ases naquele povo de
sujeitos, que viviam só por paciência de remendar coisas que
nem conheciam. As criaturas.
Mas eu não ri. Ah, daí, não ri honesto nunca mais, em
minha vida. Como que marquei: que a gente ter encontrado
aqueles catrumanos, e conversado com eles, desobedecido a eles
– isso podia não dar sorte. A hora tinha de ser o começo de
muita aflição, eu pressentia. Raça daqueles homens era
diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. Esses,
mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso,
de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum
deles; e isso com os poderes da pobreza inteira e apartada; e de
como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós
mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio
regedor eles nem divulgavam. Só o mau fato de se topar com
eles, dava soloturno sombrio. Apunha algum quebranto. Mas
mais que, por conosco não avirem medida, haviam de ter
rogado praga. De pensar nisso, eu até estremecia; o que
estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma.
Aqueles homens eram orelhudos, que a regra da lua tomava
conta deles, e dormiam farejando. E para obra e malefícios tiJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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nham muito governo. Aprendi dos antigos. Capatazia de soprar
quente qualquer ódio nas folhas, e secar a árvore; ou de rosnar
palavras em buraco pequeno que abriam no chão, tapando
depois: para o caminho esperar a passagem de alguém, e a ele
fazer mal; ou guardavam um punhado de terra no fechado da
mão, no prazo de três noites e três dias, sem abrir, sem largar: e
quando jogavam fora aquela terra, em algum lugar, nele com
data de três meses ficava sendo uma sepultura... De homem que
não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor
tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente
entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo
que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada
no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor
sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente.
Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que
bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe
do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico
longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e
com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. Numa o senhor
põe ouro, na outra prata; depois, para ninguém não ver, elas o
senhor fecha bem. E foi o que eu pensei. Aqueles catrumanos
pedindo por maldição, como era que eu podia deixar de pensar
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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neles? Há-de, que se eles tivessem me pegado sozinho, eu
apeado e precisado, decerto me matavam, para roubar minhas
armas, as coisas e minhas roupas. Amargo que acabavam
comigo, sem escrúpulos, hom’essa, que nem tinham, porquanto
eu era desconhecido e forasteiro. De doente, ou ferido
perdendo meu sangue, que eu estivesse, algum deles ia ser capaz
de me ceder gole duma cuia d’água? Draste eu duvidava deles.
Duvidava dos fojos do mundo. E por que era que há de haver
no mundo tantas qualidades de pessoas – uns já finos de sentir e
proceder, acomodados na vida, tão perto de outros, que nem
sabem de seu querer, nem da razão bruta do que por necessidades
fazem e desfazem. Por quê? Por sustos, para vigiação sem
descanso, por castigos? E de repente aqueles homens podiam
ser montão, montoeira, aos milhares mis e centos milhentos,
vinham se desentocando e formando, do brenhal, enchiam os
caminhos todos, tomavam conta das cidades. Como é que iam
saber ter poder de serem bons, com regra e conformidade,
mesmo que quisessem ser? Nem achavam capacidade disso.
Haviam de querer usufruir depressa de todas as coisas boas que
vissem, haviam de uivar e desatinar. Ah, e bebiam, seguro que
bebiam as cachaças inteirinhas da Januária. E pegavam as
mulheres, e puxavam para as ruas, com pouco nem se tinha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mais ruas, nem roupinhas de meninos, nem casas. Era preciso
de mandar tocar depressa os sinos das igrejas, urgência
implorando de Deus o socorro. E adiantava? Onde é que os
moradores iam achar grotas e fundões para se esconderem –
Deus me diga? Nem me diga o senhor que não – aí foi que eu
pensei o inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a
força carregando nas costas a justiça, e o alto poder existindo só
para os braços da maior bondade. Isso foi o que eu pensei,
muito redoído, no estufo do calor vingante. E foi por durante
quase uma hora, montado no meu cavalo ruim chamado
Padrim-Selorico, a passo por aqueles ruins campos, até se chegar
perto do povoado do Sucruiú, onde que estava arranchada a
horrorosa doença, por cima da pior miséria. Bobéia minha?
Porque os companheiros, indo cuidando de seu ramerrão
comum, nenhum não punha tento em dessas idéias. Então era
só eu? Era. Eu, que estava mal-invocado por aqueles
catrumanos do sertão. Do fundo do sertão. O sertão: o senhor
sabe.
Mas em tanto, então levantei o meu entender para Zé
Bebelo – dele emprestei uma esperança, apreciei uma luz. Dei
tino. Zé Bebelo, em testa, chefe como chefe, como executava
nossa ida. Da marca de um homem solidado assim, que era
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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sempre alvissareiro. Por ele eu crescia admiração, e que era
estima e fiança, respeito era. Da pessoa dele, da grande cabeça
dele, era só que podia se repor nossa guarda de amparo e
completa proteção, eu via. Porque Zé Bebelo previa de vir, cá
embaixo, no escuro sertão, e, o que ele pensava, queria, e
mandava: tal a guerra, por confrontação; e para o sertão
retroceder, feito pusesse o sertão para trás! E era o que íamos
realizar de fazer. Para mim, ele estava sendo feito o canoeiro
mestre, com o remo na mão, no atravessar o rebelo dum rio
cheio. – “Carece de ter coragem... Carece de ter muita coragem...” –
eu relembrei. Eu tinha. Diadorim vindo do meu lado, rosável
mocinho antigo, sofrido de tudo mas firme, duro de temporal,
naquelas constâncias. Sei que amava, não amava? Os outros, os
companheiros outros, semelhavam no rigor umas pobres
infâncias na relega – que deles a gente precisasse de tomar conta.
Com Zé Bebelo da minha mão direita, e Diadorim da minha
banda esquerda: mas, eu, o que é que eu era? Eu ainda não era
ainda. Se ia, se ia. O cavalo pombo de Zé Bebelo era o de mais
armada vista, o maior de todos. Cavalo selado, montado, e muito
chão adiante. Viajar! – mas de outras maneiras: transportar o sim
desses horizontes!...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Desde, porém, como já entrávamos no perto do Sucruiú,
conforme as léguas que os cascos de nossos cavalos contando,
era de ver que voz Zé Bebelo dava, se queria em reto ou atalho.
Ah, em reto, foi. Mas nenhum de nós teve sobrosso. O que era,
era. Aquele desgraçado lugar devia de estar lá acolá, no pião alto
do campo, em seu sempre. Obra de um tiro de carabina. E como
deviam de estar cozinhando, com tanto fogão, porque subia para
o pedaço de céu um povôo de fumaças, feito andassem por lá
renovando pastos desfora de tempo. Fazia fole de calor. Mas,
entre as vertentes, no corguinho rabo serelepe que passamos, de
beiras de terra preta, só os animais foram que beberam a toda
sede: que, nós, mesmo da água corrente a gente se receava.
Donde é que decorre a peste? Até o ver o ar. A poeira e miséria.
Azul desbotado puído, sem os realces. O sol carregando de
envelhecer antesmente as folhagens – o começo do mês de junho
já dava parecença de alto fim de agosto. Aquele ano declarava de
não se ter nem frio, pelo legal. De que valeram as tantas chuvas?
Aí este mundo de sertão tinha se perdido – eu mesmo me disse.
Como que íamos atravessar o Sucruiú, lá se chegava. O qual eram
as cafuas em suas construções, no entremeio da fumaça. Essas
choupanas. Gente? Não se divulgava. E certo que não se tinha
medo maior. Antes todos queriam avistar de perto, de passagem,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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o que aquilo de verdade fosse. Só que se tinha confiança nos
bentinhos e verônicas. E de repente correu aviso que Jõe
Bexiguento e o Pacamã-de-Presas sabiam reza para São Sebastião
e São Camilo de Lélis, que livram de todo mal vago. Como se
ter? Como se aprender, também? Tempo não dava. Mas – o que
vieram dizendo, de um em um, se virando para trás nos cavalos:
que não se carecia. Assim aqueles dois iam praticar resumida a
oração, e cada um, da gente, consigo reproduzisse,
constantemente, as fortes ave `orarias e padre-nossos, que isso
bastava. Assim foi que fizemos. Avante eu rezei.
Algum dia, depois de hoje, hei de esquecer aquilo. Arruado
que era até bem largo, mas mal se enxergavam aquelas casas. Ao
demais rezando, ao real vendo – eu vim. Casas – coisa humana.
Em frente delas todas, o que estavam era queimando pilhas de
bosta seca de vaca. O que subia, enchia, a fumaça acinzentada e
esverdeada, no vagaroso. E a poeira que demos fez corpo com
aquele fumegar levantante, tanto tapava, nos soturnos. Aí tossi,
cuspi, no entrecho de minhas rezas. Voz nem choro não se
ouviu, nem outro rumor nenhum, feito fosse decreto de todas as
pessoas mortas, e até os cachorros, cada morador. Mas pessoas
mor que houvesse: por trás da poeira, para lá da fumaça
verdolenga se vislumbravam os vultos, e as tristes caras deles, que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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branqueavam, tantas máscaras. Aos homens e mulheres,
apartados tão estranhos, caladamente, seriam os que estavam
jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas fogueiras –
isso que deviam de ter por todo remédio. Nem davam fé de
nossa vinda, de seus lugares não saíam, não saudavam. Do perigo
mesmo que estava maldito na grande doença, eles sabiam ter
quanta cláusula. Sofriam a esperança de não morrer. Soubesse eu
onde era que estavam gemendo os enfermos. Onde os mortos?
Os mortos ficavam sendo os maus, que condenavam. A reza reganhei,
com um fervor. Aquela travessia durou só um
instantezinho enorme. Mesmo que os cavalos nossos indo iam
devagar, que é como se vai, quando todos rezando sozinhos em
cima deles, devagar duma procissão. Não se perturbou palavra. E
foi que dali acabamos de surgir – da arrepoeira e fumaça de
estrume, e o corusco de labareda alguma, e a mormaceira. Deus
que tornasse a tomar conta deles, do Sucruiú, daquele transformado
povo.
Olhei o ilustre do céu. Dado dava de um estar soto-livre,
conseguido se soltar das possibilidades horrorosas. Revi todos e
Diadorim, que era uma cortesia de bondade. Não espiei para
trás, não ver de enxergar o fim daquelas casas, no vaporoso
pardo-azulado, no exalante. E o que rogava eram coisas de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 559 –
salvação urgente, tão grande: eu queria poder sair depressa dali,
para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em
incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos. Eu
levava Diadorim... Mas, de começo, não vi, não fui sentindo que
queria poder levar também Otacília, e aquela moça Nhorinhá,
filha de Ana Duzuza, e mesmo a velha Ana Duzuza, e Zé
Bebelo, Alaripe, os companheiros todos. Depois, todas as
demais pessoas, de meu conhecimento, e as que mal tinha visto,
além de que a agradecida formosura da boa moça Rosa’uarda, a
mocinha Miosótis, meu mestre Lucas, dona Dindinha, o
comerciante Assis Wababa, o Vupes – Vusps... Todos, e meu
padrinho Selorico Mendes. Todos, que em minha lembrança eu
carecia de muitas horas para repassar. Igual, levava, ah, o povo
do Sucruiú, e, agora, o do Pubo – os catrumanos escuros. E que
para o outro lugar levava restantes os cavalos, os bois, os
cachorros, os pássaros, os lugares: acabei que levasse até mesmo
esses lugares de campos tão tristes, onde era que então se
estava... Todos? Não. Só um era que eu não levava, não podia: e
esse um era o Hermógenes!
Aí dele me lembrei, na hora: e esse Hermógenes eu
odiasse! Só o denunciar dum rancor – mas como lei minha
entranhada, costume quieto definitivo, dos cavos do continuado
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 560 –
que tem na gente. Era feito um nojo, por ser. Nem, no meu
juízo, para essa aversão não carecia de compor explicação e
causa, mas era assim, eu era assim. Que ódio é aquele que não
carece de nenhuma razão? Do que acho, para responder ao
senhor: a ofensa passada se perdoa; mas, como é que a gente
pode remitir inimizade ou agravo que ainda é já por vir e nem se
sabe? Isso eu pressentia. Juro de ser. Ah, eu.
Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover
desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no
mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam
– o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos
outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que
quero e sobrequero : é que ninguém tem o direito de fazer medo
em mim!
São os momentos, se sei. Senti um cansaço. Adiantamos
ligeiro, depois que passado o vau da mata-virgem, e tenteávamos
pelo encontrável. O sol ia entrando, vi o céu nos roxos, nos
vermelhos. Misturamos numa baixada, no capim cacheado.
Umas lavourinhas. Daí, lá se estava, no retiro do Abrão, onde o
campo largueia. Era uma boa casa. Mas, de dentro, saíram, de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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repente, por suas portas, uns homens, que fugiam corridos, feito
ratos se escapulindo do toucinho de um jacá.
Sendo que Zé Bebelo assim na dianteira sempre cavalhava,
vente, superintendeu que não perseguíssemos aqueles tais, nem
neles se atirasse por comprazimento. O que estavam era em
mão de roubando, se soube; como que tinham até sacos, para
carregar dentro as coisas. Num átimo, eu reluzi quem que eles
podiam ser. Só acertei. Pois não foi que um deles, errando no
abrir da fuga, demorou, e perdeu as facilidades; então, veio do
nosso lado, embrafustado, quase debaixo dos cavalos. Era um
pretinho.
Um rapazola retinto, mal aperfeiçoado; por dizer, um
menino. Nu da cintura para os queixos. As calças, rotas em
todas as partes, andavam cai’caindo; ele apertou perna em perna.
Arfava chiado, como quem, por todo engano de pressa, tivesse
chupado na boca um gole quente de café demais. Bezerro
doente, de mal-de-ano, às vezes faz assim. Cuido que por não
perder de todo as calças como vestimenta, ele se ajoelhou –
chato no chão, mais deitado do que ajoelhado. – “A benção!” –
pois disse. E a idéia dele rodou ligeira, pois, quando se notou,
tinha tirado do bojo do saco o que estava lá: que era um pé de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 562 –
alpercata de homem, um candieirozinho pequeno, desses que
vinham da Bahia, uma escumadeira de cozinha e um arranjado
envernizado de couro preto, que nem boldrié – que tudo jogou
fora, para uma banda, o longe que pôde. Seguinte o que, mostrou
à gente o saco vazio, e com isto dizendo, arquejado:
– “Tirei não, nada não... Tenho nada... Tenho nada...”
Isso tudo se deu curto, que nem o mijar dum sapo; e dum
modo tal inocente, de quem visse risse. E em coisa tão tola
declarada assim a gente até crê razão, por ser tão afã de absurdo.
– “Donde é que vocês vieram, dond’é?” – Zé Bebelo
indarguiu.
– “A gente quer voltar para casa... Semos, sim, é do
Sucruiú, nhor sim...”
Arte que a aproveitar, ele tornou a atar melhor o resumo
de embira, que cinturava aqueles molambos de calças. E se
encolhia, temia; e se ria. Que nome era capaz de ter?
– “Guirigó... Minha graça é essa... Sou filho de Zé Câncio,
seu criado, sim senhor...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Tão magro, trestriste, tão descriado, aquele menino já
devia de ter prática de todos os sofrimentos. Olhos dele eram
externados, o preto no meio dum enorme branco de mandioca
descascada. O couro escuro dele era que tremia, constante, e
tremia pelo miúdo, como que receando em si o que não podia
ser bom. E quando espiava para a gente, era de beiços, mostrando
a língua à grossa, colada no assoalho da boca, mas como se
fosse uma língua demasiada demais, que ali dentro não pudesse
caber; em bezerro pesteado, às vezes, se vê assim. Menino muito
especial. Jagunço distraído, vendo um desses, do jeito, à
primeira, era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo,
pensando que padecia agonia, e que carecesse dessa ajuda, por
livração.
– “Guirigó, qu’é que vieram caçar aqui? Fala!”
– “O que qu’ a gente veio caçar, sim senhor? Eles vieram,
eu também vim... Buscar de comer...”
– “Ih, que’s, menino! Quem te vê comer essa tralha que
você amoitou aí no saco...”
O pretinho espichado no chão sacudia a cabeça, que não
que não, que parecia ter gosto de poder negar assim. – “Mas o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de comer todo se acabou...” Havia de negar tudo, renegava: até
que tivesse tido mãe, nascido dela, até que a doença brava
estivesse matando o povo do Sucruiú, os parentes todos dele. A
gente queria que aquele traste de menino sentisse em si, e se
entristecesse, por tantas suas desditas chorasse uma lágrima, a
lagrimazinha só, por um momento que fosse. Ah, ele fizesse
logo isso, a gente ficava desconsolado e legítimo no triste, a
gente ficava tranqüilizados. Qual, o menino preto negava. O que
ele afirmava, no descaramento firme de seu gesto, era que nem
era ninguém, nem aceitava regra nenhuma devida do mundo,
nem estava ali, defronte dos cascos dos cavalos da gente. Ah,
queria salvar seu corpo, queria escape. Se abraçava com
qualquer poeira. De mais, não queria saber. – Que podia, que
fosse logo embora! – Zé Bebelo consentiu ordem. E ainda
jogou um pedaço de rapadura, que ele aparou, fácil, como numa
abocada. – “Pra tu adoçar essa tua tripinha preta!” – foi o que
Zé Bebelo gritou. E aquele menino, sem fungar, sem olhar para
trás, pulou em rumo, maneiro e leviano, se sumiu por onde
carecia de ir. Não pensei que fosse tão pequeno, conforme
mesmo era.
– “Coitadinho, os dentes dele estavam alumiando de
brancos...” – Diadorim disse.
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– “Hem? Hem?” – Zé Bebelo falou. – “O que imponho é
se educar e socorrer as infâncias deste sertão!”
Eu ia fazer o sinal-da-cruz, mas com a mão não cheguei a
bulir, porque isso me pareceu falta de caridade, pensando no
menino pretinho.
E, com o determinado costumeiro, de se espalhar os de
vigia, por todas as quatro bandas, mais o movimento de procura
dum pasto bem fechado e conveniente, tomamos conta de tudo
e entramos naquela casa, para ver o visível e se fazer fogo de
aprontar nosso jantar na fornalha de sua grande cozinha.
Virgem! – digo ao senhor: o interior dela dava pena, nunca vi
nada tão remexido e roubado. Total o que era de jeito de se
carregar, o em arcas e em trouxas, e que no comum duma casa
remediada se acha, faltava. Não se encontrou uma peça de
roupa, uma lamparina de folha, uma folhinha na parede, um
gancho de rede, uma raspadeira, um cabresto pendurado, uma
esteira, uma vasilha, uma coisa alguma em que se pegar. Eram
só as mesas, os catres, os bancos. Tinham limpado a carne
daquele costelame. Por onde andaria o dono? Mas se ficou
sabendo que o nome dele não era em verdade Abrão, mas
Habão, que assim se chamava. Consoante o diploma de patente,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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que no chão, num canto, avistei, lavrado preenchido cerimonial,
de que esse Habão era Capitão da Guarda-Nacional, em válidos
títulos. Aquele retiro se chamava o Valado. Com pouco mais
uns dias que se passassem, o pessoal do Sucruiú era capaz de
desmanchar até o prédio da casa, por seus esteios e caibros. Para
não falar que, de gado, galinhas e porcos, e cachorros e o mais,
nem sinal se divulgava. Sobravam só os passarinhos, soltos,
como de toda parte no igual, que piaram uns momentos, pelo
acabar da tardinha, alegres assim no empobrecido.
Vai, dentro de lá, num quarto, muito recanto, sediava, no
escuro que já fazia, um oratório em armariozinho, construido
pregado na parede; que estava com suas poucas imagens e um
toco para se acender, de vela-benta. Nisso não tinham
desrespeitado de mexer. E nós, então, cada um depois dum,
viemos ao quarto-do-oratório beijar a santa maior, que era no
seu manto como uma boneca muito perfeita, que era a Minha
Nossa Senhora Mãe-de-Todos. Se comeu, se dormiu.
Se acordou, bem o digo. Cada dia é um dia. E o tempo
estava alisado. Triste é a vida do jagunço – dirá o senhor. Ah,
fico me rindo. O senhor nem não diga nada. “Vida” é noção
que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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falsa. Cada dia é um dia. Ora, mais, ordens já para antes do vir
da aurora se cumprir, dali Zé Bebelo já tinha dado. E foi se
saber: o Suzarte e o Tipote, e outros, com o João Vaqueiro,
rastreavam redobrados, onde em redor, remediando o mundo a
alho e faro. Tudo eles achavam, tudo sabiam; em pouquinhas
horas, tudo tradiziam. O chão, em lugares, guardava molde
marcado dos cascos de muitíssimas reses, calcados para um
rumo só – um caminho eito. Aqueles rastros tinham vigorado
por cima da derradeira lama da derradeira chuva. E – de
quantidade e de quanto tinha chovido – eles liam, no capim e
nos regos de enxurradas, e na altura da cheia já rebaixada, a
deixa, beiradas do ribeirão. Pelo comido pastado das reses,
também, muito se reconhecia. Aos passos dos cavaleiros e
cachorros. As pessoas da casa tinham viajado para a banda de
oestes. Mas o gado, escolhendo por si e sem tocada, mas depois
de solto por boa regra, pegara ida espaçada mais virante acima,
aonde devia haver, para se lamber, salinas de barreiro. E
bastantes outras coisas eles decifravam assim, vendo espiado o
que de graça no geral não se vê. Capaz de divulgarem até os
usos e costumes das criaturas ausentes, dizer ao senhor se aquele
seô Habão era magro ou gordo, seria forreta ou mão-aberta,
canalha inteirado ou razoável homem-de-bem. Porque, dos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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centos milhares de assuntos certos que parecem mágica de
rastreador, só com o Tipote e o Suzarte o senhor podia rechear
livro. E ainda antes do meio-dia subir, desemalocaram duas
gordas novilhas, carneadas fartas para a nossa refeição. Um bom
entendedor, num bando, faz muita necessidade.
E aquele lugar, o Valado, eu aceitei – o senhor preste
atenção! ; para ficar, uns meus tempos, ali, ainda me valia. Senti
assim, meu destino. Dormindo com um pano molhado em cima
dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca, de noite
o destino da gente às vezes conversa, sussurra, explica, até pede
para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas
coração não é meio destino? Permanecer, ao menos ali, eu quis.
Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Zé Bebelo suscitado
determinou, que a gente fosse mais para adiante. Ele concebia
medo. Conheci. Estava.
Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por quê? Chega um
dia, se tem. Medo dele era da bexiga, do risco de doença e
morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o
mau-ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo
demais. Tanto ri. Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um
pau do campo. Assim mesmo, em errei; disso não sabia. Mas o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cabedal é um só, do misturado viver de todos, que mal vareia, e
as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por
exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor;
mas, se o senhor firme agüentar de não temer, de jeito nenhum,
a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé
Bebelo, que sempre se suprira certo de si, tendo tudo por
seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim.
Pelo que umas cinco léguas andamos. De modo, meio,
conforme decerto, aquele algum seô Habão também tinha se
ido. Carecíamos? Merecer logo ao menos uma semana de
quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais em sua
saúde. Esses homens do Sucruiú, cercados da banda outra pelos
catrumanos, ei que só podiam achar espaço por estes lados, eles
sim. Nós, no nosso. Eu sei que um se mexer a esmo é sempre
fácil; e que com o cansaço é que se tapa o desânimo. Mas, o que
eu queria, real, era estar sarado de alguma demorada doença,
comendo aos poucos o meu caldo com angu, e, em invernia de
chuva fria esfriada, me esquentando perto do borralho de um
fogão, e galo de manhã cantando em algum terreiro. Era para ir?
Fôssemos. Disso deslavava. Descemos a Vereda do Porco-Espim,
que não tinha nome verdadeiro anterior, e assim chamamos,
porque um bicho daqueles por lá cruzou. Chapadas de ladeira
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 570 –
pouca. Depois, uma lomba, com o cerradão. E por fim viemos
esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se
vê. – Tudo é gerais... – eu pensei, por consolo. Um homem, que
com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de
desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário
e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro
taperado.
E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu
ponho: que era por minha sina o lugar demarcado, começo de
um grande penar em grandes pecados terríveis. Ali eu não devia
nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que
assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo,
e a velhice da casa. Que mesmo como coruja era – mas da
orelhuda, mais mor, de tristes gargalhadas; porque a suindara é
tão linda, nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma,
por cima de riscas sedas de brancura. E aquele situado lugar não
desmentia nenhuma tristeza. A vereda dele demorava uma
agüinha chorada, demais. Até os buritis, mesmo, estavam presos.
O que é que buriti diz? É: – Eu sei e não sei... Que é que o boi diz:
– Me ensina o que eu sabia... Bobice de todos. Só esta coisa o
senhor guarde: meia-légua dali, um outro corgo-vereda, parado,
sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas eram
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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duas, uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um
tristonho brejão, tão fechado de moitas de plantas, tão
apodrecido que em escuro: marimbus que não davam salvação.
Elas tinham um nome conjunto – que eram as Veredas-Mortas.
O senhor guarde bem. No meio do cerrado, ah, no meio do
cerrado, para a gente dividir de lá ir, por uma ou por outra, se via
uma encruzilhada. Agouro? Eu creio no temor de certos pontos.
Tem, onde o senhor encosta a palma-da-mão em terra, e sua mão
treme pra trás ou é a terra que treme se abaixando. A gente joga
um punhado dela nas costas – e ela esquenta: aquele chão
gostaria de comer o senhor; e ele cheira a outroras... Uma
encruzilhada, e pois! – o senhor vá guardando... Aí mire e veja: as
Veredas Mortas... Ali eu tive limite certo.
Os ruins dias, o castigo do tempo todo ficado, em que
falhamos na Coruja, conto malmente. A qualquer narração dessas
depõe em falso, porque o extenso de todo sofrido se escapole da
memória. E o senhor não esteve lá. O senhor não escutou, em
cada anoitecer, a lugugem do canto da mãe-da-lua. O senhor não
pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã. Até os
pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou
são os tempos, travessia da gente?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 572 –
Daí, despropositou o frio, vezmente. E quase que todos os
companheiros já estavam adoecidos.
Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras
enfermidades. Febres. Em algum trecho, por falta de sinal, a
gente devia de ter arranchado no sezonático. Agora, a maior
parte dos companheiros tremiam em prazos, com a intermitente.
Remédio que valesse, de todo faltava. Aquilo afracava, no diário;
os homens perdiam a natureza. E um andaço de defluxo, que
também me baqueou. Pior não estive; mas, eu, de mim, sei.
Todos, de em antes, me davam por normal, conforme eu era, e
agora, instantantemente, de dia em dia eu ia ficando demudado.
Com uma raiva, espalhada em tudo, frouxa nervosia. – “É do
fígado...” – me diziam. Dormia pouco, com esforços. Nessas
horas da noite, em que eu restava acordado, minha cabeça estava
cheia de idéias. Eu pensava, como pensava, como o quem-quem
remexe no esterco das vacas. Tudo o que me vinha, era só
entreter um planejado. Feito num traslo copiado de sonho, eu
preparava os distritos daquilo, que, no começo achei que era
fantasia; mas que, com o seguido dos dias, se encorpava, e ia
tomando conta do meu juízo: aquele projeto queria ser e ação! E,
o que era, eu ainda não digo, mais retardo de relatar. Coisa
cravada. Nela eu pensava, ansiado ou em brando, como a água
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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das beiras do rio finge que volta para trás, como a baba do boi cai
em tantos sete fios.
Ah, mas aquilo, por terrível que fosse, eu tinha de levantar,
mas tinha! Em tal já sabia do modo completo, o que eu tinha de
proceder, sistema que tinha aprendido, as astúcias muito sérias.
Como é? Aos poucos, pouquinhos, perguntando em conversa a
uns, escutando de outros, me lembrando de estórias antigo
contadas. A maneira que quase sem saber o que eu estava
fazendo e querendo. De em desde muito tempo. Custoso pior
não sendo, no arrevesso. Só o que demandava era uma fúria de
quente frieza, dura nos dentes, um rompante de grande coragem.
Ao que era por tanto negrume e carregume, a mais medonha
responsabilidade possível – ato que só raro mas raro um homem
acha o querer para executar, nesses sertões todos.
Vai, um dia, eu quis. Antes, o que eu vinha era adiando
aquilo, adiando. Quis, assim, meio às tantas, mesmo desfazendo
de esclarecer no exato meus passos e motivos. Ao que, na
moleza, eu tateava. Digo! comecei. Tinha preceito. O que seja –
primeiro, não se coma, não se beba, e é; se bebe cachaça... Um
gole que era fogo solto na goela e nos internos. Não quebrava o
jejum do demo. No que eu confiei que estava pronto para ir
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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avante: no que eram obras de chão e escuridão. Engano meu. A
aguardar, até à hora, eu carecia de não deixar que nem um
fiozinho de idéia comum em mim esvoaçasse. Deixei. Aí foi um
instante: Diadorim estava perto de mim, vivo como pessoa, com
aquela forte meiguice que ele denotava. Diadorim conversou,
aceitei a companhia dele. Logo larguei meu começo de mão,
relaxei aqueles propósitos. Cacei comida. Comi tanto, zampei, e
meu corpo agradecia. Diadorim, com as pestanas compridas, os
moços olhos. Desde aí, naquelas outras coisas não queria pensar,
e ri, pauteei, dormi. A vida era muito normal, mesma, e certa bem
que estava.
Tanto o engano. Os três dias passados, eu reproduzi tudo
com uma qualidade de remorsos, aquelas decisões. Sonhei coisas
muito duras. O porque era pior, agora, que eu tomei sombra
vergonhosa, por ter começado e não ter tido firmeza para levar a
acabado. E a herança de minhas queixas antigas. Conforme eu
pensava: tanta coisa já passada; e, que é que eu era? Um raso
jagunço atirador, cachorrando por este sertão. O mais que eu
podia ter sido capaz de pelejar certo, de ser e de fazer; e no real
eu não conseguia. Só a continuação de airagem, trastejo, trançar o
vazio. Mas, por quê? – eu pensava. Ah, então, sempre achei: por
causa de minha costumação, e por causa dos outros. Os outros,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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os companheiros, que viviam à-toa, desestribados; e viviam perto
da gente demais, desgovernavam todaa-hora a atenção, a certeza
de se ser, a segurança destemida, e o alto destino possível da
gente. De que é que adiantava, se não, estatuto de jagunço? Ah,
era. Por isso, eu tinha grande desprezo de mim, e tinha cisma de
todo o mundo. Apartado. De Zé Bebelo, mais do que de todos.
Zé Bebelo doente não estava. Doença, com ele? Sendo o
que a um assim não podia permitido; só se perdesse de todo o
siso. A não ser por essa malacafa. Ei, pois, ele estava caipora.
Logo vi. Daí tinha conta a nossa reles perdição, aquele
atrasamento geral. Zé Bebelo, para mim, tinha gastado as
vantagens. Zé Bebelo murchava muda na cor, não existia mais
em viço para desatinos, nada que falava era mais de se
reproduzir, aqueles exageros bonitos e tamanhos rasgos. Só
dizendo que tínhamos de esperar mesmo ali, até que os
adoecidos sarassem. Assim em impossibilidades. Tudo o que
acontecia, era a má-sorte. Não digo por um Zé Vital, que tornava
a dar ataque, dos de entortar boca escumante e se esbracejar e
espernear com madeira de braços-e-pernas que de quem eram.
Mas uma jararaca picou o Gregoriano: era aquela, a rastejo no
capim e nas folhas caídas, nem chegava a quatro palmos – e com
poder de acabar – e o Gregoriano morreu, em pobres horas. E
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mais conto o que com um Felisberto se dava. Assaz em
aparências de saúde, mas tendo sido baleado na cabeça, fazia já
alguns anos; uma bala de garrucha – a bala de cobre, se dizia –
que estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, em ponto
onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de
escrafunchar. Aí, com o intervalo dos meses, e de repente, sem
razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava,
até os dentes, de azinhavres, ficava mal. Ao que os olhos inchavam,
tudo fuscado em verde, uma mancha só, o muito grande. O
nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do
esverdeio. Daí, feito flor de joaninha-silva em muito sol, do
meio-dia para a tarde, virava era azul. Aquilo era para poder
sarar? Quando que? A tosse dum garrote entisicado. Dizia
naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava. A
maior felicidade era ele não saber quem tinha acertado nele
aquela bala, não carecer de imaginar onde era que tal pessoa
estava, nem de ódio constante de repensar nela.
Mas que em desregra a gente se comportava, então, de
parar ali envelhecendo os dias, na Coruja, como fosse menos-emais
para aproveitar a carne fresca e de-sol que na campeação se
conseguia, as boiadas daqueles sertões. Sempre Zé Bebelo não
desistia de palavrear, a raleza de projetos, como faz-de-conta. A
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mó de moinho, que, nela não caindo o que moer, mói assim
mesmo, si mesma, mói, mói. As doenças se curassem? Minhas
dúvidas. Aí, quem não pegara a maleita padecia por outros
modos – malde-inchar, carregação-do-peito, meias-dores; teve
até agravado de estupor. Adiantemente, me desvali. O que me
coçava, que nem se eu tivesse provado lombo de capivara no cio.
A ser, o fígado, que me doía; mas não me certifiquei: apalpar
lugar de meu corpo, por doença, me dava um desalento pior.
Raimundo Lê cozinhou para mim um chá de urumbeba.
Era um recurso para aliviar meu achaque, e era dado com
bondade. Isso mesmo foi o que eu disse a Raimundo Lê,
agradecido: – “É um recurso para aliviar meu achaque, e estou
vendo que é dado com bondade...” Alaripe pegou a gabar a
virtude mezinheira das mais raízes e folhas. – “Até estas aqui,
duvidar, devem de poder servir, em doses, de remédio para algum
carecer, só que não se sabe...” – ele disse, por uma moita
rosmunda de frei-jorge, esfiada em tantos espetos, e a pavoã por
perto crescida. Ali, naquela hora, eu conferi como era usual a
gente estimar os companheiros, em ajuntado. Diadorim – que
graças-a-Deus estava de todo são – com os cuidados todos
depunha assisado por mim. E o Sidurino disse: – “A gente
carecia agora era de um vero tiroteio, para exercício de não se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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minguar... A alguma vila sertaneja dessas, e se pandegar, depois,
vadiando...” Ao assaz confirmamos, todos estávamos de acordo
com o sistema. Aprovei, também. Mas, mal acabei de pronunciar,
eu despertei em mim um estar de susto, entendi uma dúvida, de
arpejo; e o que me picou foi uma cobra bibra. Aqueles, ali, eram
com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros com
sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não
refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma
ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial,
de outra gente, gente como nós, com madrinhas e mães – eles
achavam questão natural, que podiam ir salientemente cumprir,
por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. O horror
que me deu – o senhor me entende? Eu tinha medo de homem
humano.
A verdade dessa menção, num instante eu achei e
completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar
regendo o costume da vida da gente, e eu não era capaz de
acertar com elas todas, de uma vez! Aí, para mim – que não
tenho rebuço em declarar isto ao senhor – parecia que era só
eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança
eu mais não depositava, em ninguém. Ah, o que eu agradecia a
Deus era ter me emprestado essas vantagens, de ser atirador,
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por isso me respeitavam. Mas eu ficava imaginando: se fosse
eu tivesse tido sina outra, sendo só um coitado morador, em
povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? A ver,
então, aqueles que agorinha eram meus companheiros, podiam
chegar lá, façanhosos, avançar em mim, cometer ruindades.
Então? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que
agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o
tanto dizer, mas assim foi que eu pensei, e pensei ligeiro. Ah,
eu só queria era ter nascido em cidades, feito o senhor, para
poder ser instruído e inteligente! E tudo conto, como está
dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer,
para mim, é quase igual a perder dinheiro.
Ateado no que pensei, eu sem querer disse alto: – “... Só
o demo...” E: – “Uém?...” – um deles, espantado, me indagou.
Aí, teimei e inteirei: – “Só o Que-Não-Fala, o Que-Não-Ri, o
Muito-Sério – o cão extremo!” Eles acharam divertido. Algum
fez o pelo-sinal. Eu também. Mas Diadorim, que quando
ferrava não largava, falou: – “O inimigo é o Hermógenes.”
Disse, me olhou. Seja, fosse, para agradar o meu espírito.
Arte de docemente, o que eu não pensei, o que eu reproduzi,
firme:
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– “Que sim, certo! O inimigo é o Hermógenes...”
Vigiei Diadorim; ele levantou a cara. Vi como é que
olhos podem. Diadorim tinha uma luz. Reponho: em tanto já
estava noitinha, escurecendo; aquela escuridão queria mandar
os outros embora. O que Diadorim reslumbrava, me lembro
de hei-de me lembrar, enquanto Deus dura. Mas, entre nós
dois, sem ninguém saber, nem nós mesmos no exato, o que a
gente acabava de fazer, entestando nos fundos,
definitivamente por morte, era o julgamento do Hermógenes.
Hermógenes Saranhó Rodrigue Felipes – como ele se
chamava; hoje, neste sertão, todo o mundo sabe, até em escritos
no jornal já saiu o nome dele. Mas quem me instruiu disso, na
ocasião, foi o Lacrau, aquele que à custa de riscos conseguira
nos Tucanos se baldear para o meio de nós, consoante relatei. A
ele dei de perguntar, ao mau respeito, muitas coisas. Assaz de
contente, ele me respondia. Se era verdade, o que se contava?
Pois era – o Lacrau me confirmou – o Hermógenes era positivo
pactário. Desde todo o tempo, se tinha sabido daquilo. A terra
dele, não se tinha noção qual era; mas redito que possuía gados
e fazendas, para lá do Alto Carinhanha, e no Rio do Borá, e no
Rio das Fêmeas, nos gerais da Bahia. E, veja, por que sinais se
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conhecia em favor dele a arte do Coisa-Má, com tamanha
proteção? Ah, pois porque ele não sofria nem se cansava, nunca
perdia nem adoecia; e, o que queria, arrumava, tudo; sendo que,
no fim de qualquer aperto, sempre sobrevinha para
corrigimento alguma revirada, no instinto derradeiro. E como
era a razão desse segredo? – “Ah, que essas coisas são por um
prazo... Assinou a alma em pagamento. Ora, o que é que vale?
Que é que a gente faz com alma?...” O Lacrau se ria, só por
acento. Ele me dizia que a natureza do Hermógenes demudava,
não favorecendo que ele tivesse pena de ninguém, nem
respeitasse honestidade neste mundo. – “Pra matar, ele foi
sempre muito pontual... Se diz. O que é porque o Cujo
rebatizou a cabeça dele com sangue certo: que foi o de um
homem são e justo, sangrado sem razão...” Mas a valência que
ele achava era despropositada de enorme, medonha mais forte
que a de reza-brava, muito mais própria do que a de
fechamento-de-corpo. Pactário ele era, se avezando por cima de
todos. – “Você, que não cede nenhum valor à alma, você,
Lacrau, era capaz de fechar desse pacto?” – eu indaguei. – “Ah,
não, mano, quero lá não navegar por detrás das coisas...
Coragem minha é para se remedir contra homem levado feito
eu, não é para marcar a meia-noite nessas encruzilhadas,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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enfrentar a Figura...” Calado, considerei comigo. Esse Lacrau
tirava a sensatez da insensatez. Outras informações ele disse. O
senhor não é como eu? Sem crer, cri.
Às parlendas, bobéia. O medo, que todos acabavam
tendo do Hermógenes, era que gerava essas estórias, o quanto
famanava. O fato fazia fato. Mas, no existir dessa gente do
sertão, então não houvesse, por bem dizer, um homem mais
homem? Os outros, o resto, essas criaturas. Só o Hermógenes,
arrenegado, senhoraço, destemido. Rúim, mas inteirado, legítimo,
para toda certeza, a maldade pura. Ele, de tudo tinha sido
capaz, até de acabar com Joca Ramiro, em tantas alturas.
Assim eu discerni, sorrateiro, muito estudantemente. Nem
birra nem agarre eu não estava acautelando. Em tudo
reconheci: que o Hermógenes era grande destacado daquele
porte, igual ao pico do serro do Itambé, quando se vê quando
se vem da banda da Mãe-dos-Homens – surgido alto nas
nuvens nos horizontes. Até amigo meu pudesse mesmo ser;
um homem, que havia. Mas Diadorim era quem estava certo:
o acontecimento que se carecia era de terminar com um.
Diadorim, o Reinaldo, me lembrei dele como menino, com a
roupinha nova e o chapéu novo de couro, guiando meu ânimo
para se aventurar a travessia do Rio do Chico, na canoa
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 583 –
afundadeira. Esse menino, e eu, é que éramos destinados para
dar cabo do Filho do Demo, do Pactário! O que era o direito,
que se tinha. O que eu pensei, deu de ser assim.
Mas em tanto, com as mudanças e peripécias, no afinco de
tudo lhe referir, ditas conforme digo – não toco no nome de
Otacília? Nela eu queria pensar, na ocasião; mas mal que, cada
vez, achava mais custoso. A ser que se nublando a sustância da
recordação, a esquecida formosura. Assim a nossa conversação
de amor, lá na Santa Catarina, não consistisse mais do que em
uma estória alheia, escutada de outra pessoa contar. Sei que eu
queria uma saudade. Para isso rezei, a todas as minhas Nossas
Senhoras Sertanejas. Mas rebotei de lado aquelas orações, na
água fina e no ar dos ventos. Elas, era feito eu lavrasse falso, não
me davam nenhuma cortesia. Só um vexame, de minha extração
e da minha pessoa: a certeza de que o pai dela nunca havia de
conceder o casamento, nem tolerar meu remarcado de jagunço,
entalado na perdição, sem honradez costumeira. As quantias por
paga! O senhor entende, o que conto assim é resumo; pois, no
estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um
dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.
Mas eu achei, aí, a possibilidade capaz, a razão. A razão maior,
era uma. O senhor não quer, o senhor não está querendo saber?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Aquilo, que eu ainda não tinha sido capaz de executar.
Aquilo, para satisfazer honra de minha opinião, somente que
fosse. – “Ah, qualquer dia destes, qualquer hora...” – era como
eu me aprazava. O dum dia, duma noite. Duma meia-noite. Só
para confirmar constância da minha decisão, pois digo, acertar
aquela fraqueza. Ao que, alguma espécie aquilo continha? Na
verdade real do Arrenegado, a célebre aparição, eu não cria.
Nem. E, agora, com isto, que falei, já está ciente o senhor?
Aquilo, o resto... Aquilo – era eu ir à meia-noite, na
encruzilhada, esperar o Maligno – fechar o trato, fazer o pacto!
Vejo que o senhor não riu, mesmo em tendo vontade.
Também tive. Ah, hoje, ah – tomara eu ter! Rir, antes da hora,
engasga. E eu me enviava pelo sério. Uma precisão eu encarecia:
aí, de sopesar minhas seguidas forças, como quem pula a largura
dum barranco, como quem saca sua faca para relumiar.
E veio mesmo outra manhã, sem assunto, eu decidi
comigo: – É hoje... Mas dessa vez eu ainda remudei. Sem
motivo para sim, sem motivo para não. Delonguei, deveras. Não
é que, não foi de medo. Nem eu cria que, no passo daquilo,
pudesse se dar alguma visão. O que eu tinha, por mim – só a
invenção de coragem. Alguma coisice por principiar. O que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 585 –
algum tivesse feito, por que era que eu não ia poder? E o mais –
é peta! – nonada. Do Tristonho vir negociar nas trevas de
encruzilhadas, na morte das horas, soforma dalgum bicho de
pêlo escuro, por entre chorinhos e estados austeros, e daí
erguido sujeito diante de homem, e se representando, canhim,
beiçudo, manquinho, por cima dos pés de bode, balançando
chapéu vermelho emplumado, medonho como exigia
documento com sangue vivo assinado, e como se despedia,
depois, no estrondo e forte enxofre. Eu não acreditava, mesmo
quando estremecia. T’arreneguei.
Com isso, o tempo mais parava. Também, fazia mais de
mês que a gente estava naquela tapera de retiro, cujo a Coruja
era que era o nome, por um desses impossíveis de Zé Bebelo.
Ao que mais foi que aconteceu ali? Bem, passa um bando de
papagaios, o senhor pensa que eles levaram de sua pessoa
alguma diversão. Mas os papagaios estão voando já longe, e o
rumor deles, conforme o vento, faz que nem estivessem
retornando. Diadorim, esse, nunca teve instante desiludido.
Sempre eu gostava muito dele. Só que não falasse; por aquele
tempo eu quase não abria boca para conversação.
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E se deu que chegaram lá dois homens, quando não se
esperava, um deles se vendo que sendo patrão, e o outro algum
vaqueiro de seu serviço. Aí logo se soube: era o dono daqueles
lugares, do retiro do Valado, principalmente; e ele, conforme já
disse, seô Habão se chamava. Ali, quando dei fé, ele já tinha se
apeado; estava curvado para o chão, mas seguro com a mão
esquerda na rédea de seu cavalo. Era um homem de boa idade,
vestido com brim azul encorpado escuro, e calçando pretas
botas joelhudas. Quando levantou o olhar, outra vez, notei que
tinha boa catadura. Mas o cavalo – esse me entusiasmou: era um
animal gateado, grande, com imponência e todo brio, de rabejo
vasto; e mais tarde o senhor verá o que ele era; cavalo de cara
alta, de beiço mole, cavalo que debruça bem e que em poço
bebia remolhando a testa. Ele sabia olhar redor-mirado a gente,
com simpatias ou com desprezos, e respirava para dentro dos
peitos a maior quantidade de ar que desejava, por quantas ventas
tão largas ele tinha. Bem, dele depois lhe conto.
Seô Habão estava conversando com Zé Bebelo. Admirei a
noção dele: que era uma calma muito sensata e firmada, junto
com um miúdo comportamento. E vigiava os traços simples do
arredor, não perdendo azo de reparar em todas as coisas, como
era que estavam em que pé. Olhares de dono – o senhor sabe. E
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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assim foi que ele declarou a Zé Bebelo que, na ocasião, estava
desprevenido, não transportava consigo o dinheiro razoável.
Mas que, se a gente desse a ele o gosto de seguirmos até à
verdadeira sua fazenda-grande que possuía, na vertente do
Resplandor, dali a umas vinte léguas de lonjura, ele havia de
fornecer ademais um auxílio, em espórtulas. E ele falou aquilo
com tantas sinceras medidas – a gente se capacitando do
profundo que o dinheiro para ele devia de ter valor. Por aí, vi
que ele era adiantado e sagaz. Porque: ema, no chapadão, é a
primeira que ouve e se sacode e corre – e mesmo em quando
tenha razão.
Mas, com seus modos guerreiros, Zé Bebelo abriu um
gesto, à fidalgamente, nem deixando o outro estipular:
– “Ah, isso não, patrício meu amigo, he, mas
absolutamente! A gente não é gente da desordem... E favor, de
sobra, nós já devemos ao senhorpela pousada em suas terras e
pelas cabeças de gado de sua posse, que temos carneado, por
precisão de sustento...”
O homem depressa pronunciou que tinha prazer naquilo,
que sua boiada toda estava às ordens; mas, como por uma regra,
perguntou assim mesmo quantas cabeças, mais ou menos, a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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gente já tinha consumido. Assim ele dava balanço, inquiria, e
espiava gerente para tudo, como se até do céu, e do vento suão,
homem carecesse de cuidar comercial. Eu pensei: enquanto
aquele homem vivesse, a gente sabia que o mundo não se
acabava. E ele era sertanejo? Sobre minha surpresa, que era.
Serras que se vão saindo, para destapar outras serras. Tem de
todas as coisas. Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais,
é só a fazer outras maiores perguntas.
Fiquei notando. Em como Zé Bebelo aos poucos mais
proseava, com ensejos de ir mostrando a valia declarada que
tinha, de jagunço chefe famoso; e daí, sutil, se reconhecia da
parte dele um certo desejo de agradar ao outro. Por causa que o
outro era diferido, composto em outra séria qualidade de
preocupações. E seô Habão, que escutava com respeito, devagarzinho
pegava a fazer perguntas, com a idéia na lavoura, nos
trabalhos perdidos daquele ano, por desando das chuvas
temporãs e do sol grave, e das doenças sucedidas. O que me dava
a qual inquietação, que era de ver: conheci que fazendeiro-mor é
sujeito da terra definitivo, mas que jagunço não passa de ser
homem muito provisório.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 589 –
E Zé Bebelo mesmo se cansava de falar demonstrado.
Porque seô Hahão, mansoso e manso, sem glória nenhuma, era
um toco de pau, que não se destorce, fincado sempre para o seu
arrumo. Ele só entendia de assuntos triviais, mas cuidava deles
com uma força vagarosa, verdadeira, de boi-decoice. E, no mais,
nem ouvia, apesar de toda a cortesia de respeito, quando se falava
em loca Ramiro, no Hermógenes e no Ricardão, em tiroteios
com os praças e na grande tomada, por quinhentos cavaleiros, da
formosa cidade de São Francisco – que é a que o Rio olha com
melhor amor. Daí, assim ia sendo que, mesmo sem sentir, o
próprio Zé Bebelo se via principiando a ter de falar com ele em
todas as pestes de gado, e nas boas leiras de vazante, no feijãoda-
seca e nos arrozais cacheando, em que os passarinhos de
Deus viram em a má praga. Com efeito, nos intervalos daquela
dividida conversa, não sei o que Zé Bebelo sentia nem achava.
Eu, digo – me disse: que um homem assim, seô Habão, era para
se querer longe da gente; ou, pois, então, que logo se exigisse e
deportasse. Do contrário, não tinha sincero jeito possível: porque
ele era de raça tão persistente, no diverso da nossa, que somente
a estância dele, em frente, já media, conferia e reprovava.
Mas, sei lá, só por um doente desejo de necessidade de ver
bem se aquilo era, o certo foi que não sosseguei até poder me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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presenciar com ele, perto a perto, e inventar conversação. E nem
custoso não me foi, porque ele passou ali com a gente muitas
horas, quase que o dia todo. Dei um jeito, fazendo como se
menos quisesse, e vim em fala. Seô Habão me olhou com tantã
norma desusada, que eu senti minhas falsidades. E esqueci as
palavras primeiras, que tinha aprontado para declarar.
– “Seô Capitão Habão...” – eu disse; e num relance eu
conheci que estava também tendo de falar o p’r’ agradar.
Assim, o que dissertei foi que eu sabia do título de capitão
que ele usufruía, por ter relido o diploma, na casa do Valado,
que de roubos a furtos a gente do Sucruiú tinha devastado. E
contei a ele que a referida patente eu tinha por cautela apanhado
do chão e guardado dentro do oratório, por detrás das imagens
dos santos.
Ele nem deu ar de interesse no fato, não me agradeceu por
isso; perguntou nada. Disse:
- “A bexiga do Sucruiú já terminou. Estou ciente dos que
morreram: foram só dezoito pessoas...”
E o que indagou foi se eu soubesse se tinham feito muitos
estragos nos canaviais. – “... O que eles deixaram em pé, e que
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lobo ou mão-pelada não roeram, sempre há-de dar uns carros,
se move moagem...” Agora ele conservava os olhos sem olhar,
num vagar vago, circunspecto, pensava aqueles capítulos. Disse
que ia botar os do Sucruiú para o corte da cana e fazeção de
rapadura. Ao que a rapadura havia de ser para vender para eles
do Sucruiú, mesmo, que depois pagavam com trabalhos
redobrados. De ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz,
sem calor nenhum, deu em mim, de repente, foram umas
nervosias. Ao que, aqueles do Sucruiú, fossem juntas-de-bois em
canga, criaturas de toda proteção apartadas. Mas eu não tinha
raiva desse seô Habão, juro ao senhor, que ele não era
antipático. Eu tinha era um começo de certo desgosto, que seria
meditável. – “Para o ano, se Deus quiser, boto grandes roças no
Valado e aqui... O feijão, milho, muito arroz...” Ele repisava, que
o que se podia estender em lavoura, lá, era um desadoro. E
espiou para mim, com aqueles olhos baçosos – aí eu entendi a
gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os
companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e
roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços
destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô
Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para
escravos! Nem sei se ele sabia que queria. Acho que a idéia dele
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 592 –
não arrumava o assunto assim à certa. Mas a natureza dele
queria, precisava de todos como escravos. Ainda confesso
declarado ao senhor: eu não tivesse raiva daquele seô Habão.
Porque ele era um homem que estava de mim em tão grandes
distâncias. A raiva não se tem duma jibóia, porque jibóia
constraga mas não tem veneno. E ele cumpria sua sina, de
reduzir tudo a conteúdo. Pudesse, economizava até com o sol,
com a chuva. Estava picando fumo no covo da mão, garanto ao
senhor que não esperdiçava nem o átomo dumas felpas. A
alegria dele era uma recontada repetição, um condescendido:
vinte, trinta carros de milho, ah, os mil alqueires de arroz... Zé
Bebelo, que esses projetos ouvisse, ligeiro logo era capaz de
ficar cheio de influência: exclamar que assim era assim mesmo,
para se transformar aquele sertão inteiro do interior, com
benfeitorias, para um bom Governo, para esse ô-Brasil! Em
peta, que, um seô Habão, esse não se entusiasmava. Era só os
carros-de-bois carreando a cana. E ele dava ordens. Ordem que
dava, havia de ser costumeira e surda, muito diferente da de
jagunço. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós
íamos virando enxadeiros. Nós? Nunca! Mas, então, eu antes
queria ver chegar duma vez os do Hermógenes, em galopadas e
gritos, berrando rifles em todo fogo, e ai para se ouvir, e sangue
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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para quem ver pudesse. Aí era que iam saber o que sebaceiro é!
E, por um despique, foi que acertei meu correão com as armas; e
pronunciei:
– “Duvidar, seô Habão, o senhor conhece meu pai,
fazendeiro Senhor Coronel Selorico Mendes, do São Gregório?!”
Pensei que ele nem fosse acreditar. Mas, juro ao senhor: ele
me olhou com muitos outros olhos. Aquele olhar eu agüentei,
facilitado. Seô Habão sacudia em sim a cabeçona, surpreendido
mas circunstante. – “Dou notícia... Dou notícia...” – ele quase
que se lastimou. Nem sei se ele sabia que meu Padrinho Selorico
Mendes fosse, como era, muito mais fornecido de renome e
avultado em posses, conforme até por estes sertões do gerais se
contava. Regozijei, devagar; mas não regozijei completo. Do que
destapei: que um desses, com a estirpe daquele seô Habão,
tirassem dele, tomassem, de repente, tudo aquilo de que era dono
– e ele havia de choramingar, que nem criancinha sem mãe, e
tatear, toda a vida, feito ceguinho catando no chão o cajado, feito
quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento. A
misericórdia, também, eu quase tive. Natureza da gente não cabe
em nenhuma certeza. De ver o homem, em pé, diante de mim,
recrescer e tornar a minguar – isto tudo no meu juízo – nem sei
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de que estimas me esquecia e de que outras me lembrava. E, com
pouco, no rebaixar do sol, ele tornou a amontar no seu cavalo
gateado, belo, e se foi, de rompido, no rumo torto do Valado.
Sobre assim, aí corria no meio dos nossos um conchavo de
animação, fato que ao senhor retardei: devido que mesmo um
contador habilidoso não ajeita de relatar as peripécias todas de
uma vez. Pois foi que o vaqueiro tal, que acompanhava o seô
Habão, em conversa distraída com algum ou com outro, por
acasos mencionou que um bando de uns dez homens, jagunços
também, pelo dito e visto, andavam parapassando, como que à
espera de destino, em entre o Fazendão Felício – que é na beira
da estradamor para esse poente todo – e o Porto velho da
Remeira, no rio Paracatu – aonde, menos dia, mais dia, todo o
mundo acaba vindo chegando. Depressa então falaram o assunto
ciente para Zé Bebelo, que reconheceu, pela descrição: – “Chagas
de Cristo! É eles, ei, egüei... Só pode que pode ser é mesmo o
João Goanhá, com uns outros...” E instantâneo expediu, para lá,
dois próprios, que tocassem ligeiro como sem senões e voltassem
trazendo os comparsas amigos. Isso com a certa alegria se ouviu,
porque eram novidades acontecendo.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Afora eu. Achado eu estava. A resolução final, que tomei
em consciência. O aquilo. Ah, que – agora eu ia! Um tinha de
estar por mim: o Pai do Mal, o Tendeiro, o Manfarro. Quem que
não existe, o Solto-Eu, o Ele... Agora, por quê? Tem alguma
ocasião diversa das outras? Declaro ao senhor: hora chegada. Eu
ia. Porque eu estava sabendo – se não é que fosse
naquela noite, nunca mais eu ia receber coragem de decisão.
Senti esse intimado. E tanto mesmo nas idéias pequenas que já
me aborrecendo, e por causa de tantos fatos que estavam para
suceder, dia contra dia. Eu pensava na vinda de João Goanhá, e
que a gente carecia de sair de novamente por ali, por terras e
guerras. Pensei naquele seô Habão, que nem num transtorno?
Mais não sei. E essas coisas desconvinham em mim, em espécie
de necessidade. A não me apartar à-toa dali – das Veredas-
Mortas!
Sombra de sombra, foi entardecendo; fuscava. Ao que eu
estivesse destemido, soberbo? Da mão peluda, eu firme estava.
Fazia muito tempo que eu não descabia de tão em arrojo. Dou:
que nunca, feito naquela hora, e em aquele dia. Somente com a
alegria é que a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações.
Retrocedi de todos. De Zé Bebelo, demais: que ele havia de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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desconfiar, dizer o que era desordens que cabeça de homem não
cogita. De Diadorim refugi. Ah, deixa a agüinha das grotas
gruguejar sozinha. E, no singular de meu coração, dou dito: o
que eu gostava tanto de Diadorim, tinha um escrúpulo – queria
que ele permanecesse longe de toda confusão e perigos. Há-de,
essa lembrança branda, de minha ação, minha Nossa Senhora
ainda marque em meu favor. Deus me tenha!
Adjaz o campo, então eu subi de lá, noitinha – hora em que
capivara acorda, sai de seu escondido e vem pastar. Deus é muito
contrariado. Deus deixou que eu fosse, em pé, por meu querer,
como fui.
Eu caminhei para as Veredas-Mortas. Varei a quissassa;
depois, tinha um lance de capoeira. Um caminho cavado.
Depois, era o cerrado mato; fui surgindo. Ali esvoaçavam as
estopas eram uns caborés. E eu ia estudando tudo. Lugar meu
tinha de ser a concruz dos caminhos. A noite viesse rodeando.
Aí, friazinha. E escolher onde ficar. O que tinha de ser melhor
debaixo dum pau-Cardoso – que na campina é verde e preto
fortemente, e de ramos muito voantes, conforme o senhor sabe,
como nenhuma outra árvore nomeada. Ainda melhor era a
capa-rosa – porque no chão bem debaixo dela é que o Careca
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dança, e por isso ali fica um círculo de terra limpa, em que não
cresce nem um fio de capim; e que por isso de caparosa-dojudeu
nome toma. Não havia. A encruzilhada era pobre de
qualidades dessas. Cheguei lá, a escuridão deu. Talentos de lua
escondida. Medo? Bananeira treme de todo lado. Mas eu tirei de
dentro de meu tremor as espantosas palavras. Eu fosse um
homem novo em folha. Eu não queria escutar meus dentes.
Desengasguei outras perguntas. Minha opinião não era de ferro?
Eu podia cortar um cipó e me enforcar pelo pescoço, pendurado
morrendo daqueles galhos: quem-é-que quem que me
impedia?! Eu não ia temer. O que eu estava tendo era o medo
que ele estava tendo de mim! Quem é que era o Demo, o
Sempre-Sério, o Pai da Mentira? Ele não tinha carnes de comida
da terra, não possuía sangue derramável. Viesse, viesse, vinha
para me obedecer. Trato? Mas trato de iguais com iguais. Primeiro,
eu era que dava a ordem. E ele vinha para supilar o
ázimo do espírito da gente? Como podia? Eu era eu – mais mil
vezes – que estava ali, querendo, próprio para afrontar relance
tão desmarcado. Destes meus olhos esbarrarem num ror de nada.
Esperar, era o poder meu; do que eu vinha em cata. E eu
não percebia nada. Isto é, que mesmo com o escuro e as coisas
do escuro, tudo devia de parar por lá, com o estado e aspecto. O
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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chirilil dos bichos. Arre, quem copia o riso da coruja, o gritado.
Arrepia os cabelos das carnes.
E não conheci arriação, nem cansaço.
Ele tinha que vir, se existisse. Naquela hora, existia. Tinha
de vir, demorão ou jajão. Mas, em que formas? Chão de
encruzilhada é posse dele, espojeiro de bestas na poeira rolarem.
De repente, com um catrapuz de sinal, ou momenteiro com o
silêncio das astúcias, ele podia se surgir para mim. Feito o Bode-
Preto? O Morcegão? O Xu? E de um lugar – tão longe e perto de
mim, das reformas do Inferno – ele já devia de estar me vigiando,
o cão que me fareja. Como é possível se estar, desarmado de si,
entregue ao que outro queira fazer, no se desmedir de tapados
buracos e tomar pessoa? Tudo era para sobrosso, para mais
medo; ah, aí é que bate o ponto. E por isso eu não tinha licença
de não me ser, não tinha os descansos do ar. A minha idéia não
fraquejasse. Nem eu pensava em outras noções. Nem eu queria
me lembrar de pertencências, e mesmo, de quase tudo quanto
fosse diverso, eu já estava perdido provisório de lembrança; e da
primeira razão, por qual era, que eu tinha comparecido ali. E, o
que era que eu queria? Ah, acho que não queria mesmo nada, de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa,° esta coisa: eu
somente queria era – ficar sendo!
E foi assim que as horas reviraram. – A meia-noite vai
correndo... – eu quis falar. O cote que o frio me apertava por
baixo. Tossi, até. – “Estou rouco?” – “Pouco...” – eu mesmo
sozinho conversei. Ser forte é parar quieto; permanecer. Decidi o
tempo – espiando para cima, para esse céu: nem o setestrelo,
nem as três-marias, – já tinham afundado; mas o cruzeiro ainda
rebrilhava a dois palmos, até que descendo. A vulto, quase encostada
em mim, uma árvore mal vestida; o surro dos ramos. E
qualquer coisa que não vinha. Não vendo estranha coisa de se
ver.
Ao que não vinha – a lufa de um vendaval grande, com
Ele em trono, contravisto, sentado de estadela bem no centro.
O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o
desconhecido era, duvidável. Eu queria ser mais do que eu. Ah,
eu queria, eu podia. Carecia. “Deus ou o demo?” – sofri um
velho pensar. Mas, como era que eu queria, de que jeito, que?
Feito o arfo de meu ar, feito tudo: que eu então havia de achar
melhor morrer duma vez, caso que aquilo agora para mim não
fosse constituído. E em troca eu cedia às arras, tudo meu, tudo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 600 –
o mais – alma e palma, e desalma... Deus e o Demo! – “Acabar
com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!...” –; e isso figurei
mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma
razão. Do Hermógenes, mesmo, existido, eu mero me lembrava
– feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona,
em seus despropósitos, a formiguinha passeando por diante da
gente – entre o pé e o pisado. Eu muxoxava. Espremia, p’r’ ali,
amassava. Mas, Ele – o Dado, o Danado – sim: para se entestar
comigo – eu mais forte do que o Ele; do que o pavor d’Ele – e
lamber o chão e aceitar minhas ordens. Somei sensatez. Cobra
antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento. Cobra
desfecha desferido, dá bote, se deu. A já que eu estava ali, eu
queria, eu podia, eu ali ficava. Feito Ele. Nós dois, e tornopio do
pé-devento – o ró-ró girado mundo a fora, no dobar, funil de
final, desses redemoinhos: ... o Diabo, na rua, no meio do
redemunho... Ah, ri; ele não. Aheu, eu, eu! “Deus ou o Demo –
para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. Eu esperava, eh! De
dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu
repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de
fôlego – da mais-força, de maior-coragem. A que vem, tirada a
mando, de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da
gente. Como era que isso se passou? Naquela estação, eu nem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 601 –
sabia maiores havenças; eu, assim, eu espantava qualquer
pássaro.
Sapateei, então me assustando de que nem gota de nada
sucedia, e a hora em vão passava. Então, ele não queria existir?
Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo
direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às nãovezes,
é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande.
Remordi o ar:
– “Lúcifer! Lúcifer!...” – aí eu bramei, desengolindo.
Não. Nada. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só – que
principia feito grilos e estalinhos, e o sapo-cachorro, tão
arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido, de
passarinho ninhante mal-acordado dum totalzinho sono.
– “Lúcifer! Satanás!...”
Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a
gente mesmo, demais.
– “Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!”
Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras.
E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me
ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que
medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; fechou o
arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um
gozo de agarro, daí umas tranqüilidades-de pancada. Lembrei
dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Vi as asas. Arquei
o puxo do poder meu, naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta,
eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente
mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite.
Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!
Pois ainda tardei, esbarrado lá, no burro do lugar. Mas
como que já estivesse rendido de avesso, de meus íntimos
esvaziado. – “E a noite não descamba!...” Assim parava eu, por
reles desânimo de me aluir dali, com efeito; nem firmava em
nada minha tenção. As quantas horas? E aquele frio, me
reduzindo. Porque a noite tinha de fazer para mim um corpo de
mãe – que mais não fala, pronto de parir, ou, quando o que fala,
a gente não entende? Despresenciei. Aquilo foi um buracão de
tempo.
A mor, bem na descida, avante, branquejavam aqueles
grossos de ar, que lubrinam, que corrubiam. Dos marimbus, das
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Veredas-Mortas. Garoa da madrugada. E, a bem dizer por um
caminho sem expedição, saí, fui vindo m’embora. Eu tinha tanto
friúme, assim mesmo me requeimava forte sede. Desci, de
retorno, para a beira dos buritis, aonde o pano d’água. A claridadezinha
das estrelas indicava a raso a lisura daquilo. Ali era
bebedouro de veados e onças. Curvei, bebi, bebi. E a água até
nem não estava de frio geral: não apalpei nela a mornidão que
devia-de, nos casos de frio real o tempo estar fazendo. Meu
corpo era que sentia um frio, de si, frior de dentro e de fora, no
me rigir. Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão
duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse
mais.
Foi orvalhando. O ermo do lugar ia virando visível, com o
esboço no céu, no mermar da d’alva. As barras quebrando. Eu
encostei na boca o chão, tinha derreado as forças comuns do
meu corpo. Ao perto d’água, piorava aquele desleixo de frio.
Abracei com uma árvore, um pé de breubranco. Anta por ali
tinha rebentado galhos, e estrumado. – “Posso me esconder de
mim?...” Soporado, fiquei permanecendo. O não sei quanto
tempo foi que estive. Desentendi os cantos com que piam, os
passarinhos na madrugança. Eu jazi mole no chato, no folhiço,
feito se um morcegãocaiaria me tivesse chupado. Só levantei de lá
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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foi com fome. Ao alembrável, ainda avistei uma meleira de
abelha aratim, no baixo do pau-de-vaca, o mel sumoso se
escorria como uma mina d’água, pelo chão, no meio das folhas
secas e verdes. Aquilo se arruinava, desperdiçado. Senhor, senhor
– o senhor não puxa o céu antes da hora! Ao que digo, não digo?
Cheguei no meio dos outros, quando o jacaré estava
terminando de coar café. – “Tu treme friúra, pegou da maleita?”
– algum me perguntou. – “Que os carregue!” – eu arrespondi. E
mesmo com o sol saindo bom, cacei um cobertor e uma rede.
Arte – o enfim que nada não tinha me acontecido, e eu queria
aliviar da recordação, ligeiro, o desatino daquela noite. Assim eu
estava desdormido, cisado. Aí mesmo, no momento, fui
ecogitando: que a função do jagunço não tem seu que, nem p’ra
que. Assaz a gente vive, assaz alguma vez raciocina. Sonhar, só,
não. O demônio é o Dos-Fins, o Austero, o Severo-Mor.
Aporro!
Sabendo que, de lá em diante, jamais nunca eu não sonhei
mais, nem pudesse; aquele jogo fácil de costume, que de
primeiro antecipava meus dias e noites, perdi pago. Isso era um
sinal? Porque os prazos principiavam... E, o que eu fazia, era
que eu pensava sem querer, o pensar de novidades. Tudo agora
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reluzia com clareza, ocupando minhas idéias, e de tantas coisas
passadas diversas eu inventava lembrança, de fatos esquecidos
em muito remoto, neles eu topava outra razão; sem nem que
fosse por minha própria vontade. Até eu não puxava por isso, e
pensava o qual, assim mesmo, quase sem esbarrar, o todo
tempo.
Nos começos, aquilo bem que achei esquipático. Mas, com
o seguinte, vim aceitando esse regime, por justo, normal, assim.
E fui vendo que aos poucos eu entrava numa alegria estrita,
contente com o viver, mas apressadamente. A dizer, eu não me
afoitei logo de crer nessa alegria direito, como que o trivial da
tristeza pudesse retornar. Ah, voltou não; por oras, não voltava.
– “Uai, tão falante, Tatarana? Quem te veja...” – me
perguntaram; o Alaripe perguntou. Será que de mim debicavam.
Eu estava, com efeito, relatando mediante certos floreados
umas passagens de meus tempos, e depois descrevendo, por
diversão, os benefícios que os grados do Governo podiam
desempenhar, remediando o sertão do desdeixo. E, nesse falar,
eu repetia os ditos vezeiros de Zé Bebelo em tantos discursos.
Mas, o que eu pelejava era para afetar, por imitação de troça, os
sestros de Zé Bebelo. E eles, os companheiros, não me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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entendiam. Tanto, que foi só entenderem, e logo pegaram a rir.
Aí riam, de miséria melhorada.
– “Os mestres, que está certo, amigo...” – o Àlaripe
dissesse. - “Deveras, está certo, mano-velho...” – outro, o Rasgaem-
Baixo, inteirou.
Aquilo não tolerei. Esse vesgueiro Rasga-em-Baixo, o qual
entornava de lado a cabeça, gastando ar demais, o que respirava
três vezes forte, e fuxicando o nariz, numa fungação. Desentendi
e impliquei.
– “Certo de que, nesta vida? Pois eu nem costumo nunca
xingar ninguém de filho daquela ou dessa, por receio de que seja
mesmo verdade...” Assim a eles eu disse. Tanto enquanto riam,
apreciando me ouvir, eu contei a estória de um rapaz
enlouquecido devagar, nos Aiáis, não longezinho da Vereda-da-
Aldeia: o qual não queria adormecer, por um súbito medo que
nele deu, de que de alguma noite pudesse não saber mais como
se acordar outra vez, e no inteiro de seu sono restasse preso.
Mais me acudiam dessas fantasias. E eu relanceei, de
repente, e falei o que era que a gente precisava:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Urgentemente é se mandar portador, a lugar de
farmácia, comprar adquirido remédio forte, que há, para se
terminar com a maleita, em definitividade!”
Disse, e daí todos aprovaram; mais Zé Bebelo com aquilo
concordou, de imediato. Portador foi.
Eu tinha enjôo de toda pasmacez. Com Zé Bebelo, falei:
– “Chefe, o que se tem de obrar: enviar algum comparsa
esperto, que cace de entrar para o bando dos Judas, para no meio
deles observar o serviço que se passa, e remeter para a gente as
notícias e deixar traço nos lugares. Ou que mesmo dê jeito de
liquidar mãomente o Hermógenes – proporcionando venenos,
por um exemplo...”
– “A maluqueira, Tatarana, isso que você está
definindo...” – Zé Bebelo me contestou.
– “Maluqueiras – é o que não dá certo. Mas só é
maluqueira depois que se sabe que não acertou!” – eu atalhei,
curto; porque eu naquela hora achava Zé Bebelo inferior; e
porque, que alguém falasse contra, por cima das minhas
palavras, me dava raiva.
Zé Bebelo retardou em me rever. Do fim, o dizer:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 608 –
– “Um homem, para a façanha assim, só mesmo se...”
– “Sol procura é as pontas dos aços...” – eu cortei, sem
meio medir o razoado. Ao tanto que Zé Bebelo completava:
–... Só eu... ou você mesmo, Tatarana. Mas a gente
somos garrotes remarcados.”
Mas, daí, me entendendo bem, ele fechou assim: –
“Riobaldo, tu é um homem de estúrdia valia...”
A dado sincero; eu senti. Ao perante diante de minhas
presenças, todos tinham mesmo de ser sinceros. Só nos olhos
das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos
onde os olhos.
O José Vereda cachimbava, sentado perto de seus
pertences. O Balsamão estava ali junto. Esse era maneirasgrossas,
homem de muito sobrecenho. Derradeiramente eles
estavam muito amigos, mesmo porque os dois eram da mesma
terra – geralistas das campinas. Má vontade me veio, de dizer,
eu disse: – “Assunto aí não é capaz que haja? Torto, torto,
nasceu morto... Olh’ lá, caso se um de vocês tem mulher
bonita e nova, quando retornarem para casa...” Isso podia ser
razão de desguisado. Eu queria rixar? Figuro de cientificar ao
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 609 –
senhor: o costume meu nunca tinha sido esse. Agora, era que
eu me espiritava só para arrelias e inconveniências. E, aí,
quando uns estavam querendo tirar oração, por ser dia de
domingo, não estive que não falasse: – “Reza é começo de
quaresma...” Os que riram, riram. Foram deixando de lado
aquela mexida igrejeira. Apondo em balança, que é que isso
me representava? Tudo eu palpava com os pés, nisso eu
respingava um tardar.
Daqui veio que Diadorim mesmo estranhou aqueles
meus modos. A entender me deu, e eu reminiquei, com soltura
de palavras: como é que ia tolerar conselho ou contradição?
Agravei o branco em preto. Mas Diadorim perseverou com os
olhos tão abertos sem resguardo, eu mesmo um instante no
encantado daquilo – num vem-vem de amor. Amor é assim –
o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão!
Conferindo que nem vergonha eu tive. Não ter vergonha
como homem, é fácil; dificultoso e bom era poder não se ter
vergonha feito os bichos animais. O que não digo, o senhor
verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o
maior segredo? De manhã, naquele mesmo dia, ele tinha
conversado, de me dizer:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 610 –
– “Riobaldo, eu gostava que você pudesse ter nascido
parente meu...” Isso dava para alegria, dava para tristeza. O
parente dele? Querer o certo, do incerto, coisa que significava.
Parente não é o escolhido – é o demarcado. Mas, por cativa
em seu destinozinho de chão, é que árvore abre tantos braços.
Diadorim pertencia a sina diferente. Eu vim, eu tinha escolhido
para o meu amor o amor de Otacília. Otacília – quando
eu pensava nela, era mesmo como estivesse escrevendo uma
carta. Diadorim, esse, o senhor sabe como um rio é bravo? É,
toda a vida, de longe a longe, rolando essas braças águas, de
outra parte, de outra parte, de fugida, no sertão. E uma vez ele
mesmo tinha falado: – “Nós dois, Riobaldo, a gente, você e
eu... Por que é que separação é dever tão forte?...” Aquilo de
chumbo era. Mas Diadorim pensava em amor, mas Diadorim
sentia ódio. Um nome rodeante: Joca Ramiro – José Otávio
Ramiro Bettancourt Marins, o Chefe, o pai dele? Um mandado
de ódio. No que eu sabia. Não venci as ácidas picuinhas, no
relembrar:
– “Aquele, hora destas, deve de andar lá por entre o
Urucuia e o Pardo... O Hermógenes...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ele acinzentou a cara. Tremeu, aos pingos, no
centrozinho dos olhos. Revi que era o Reinaldo, que guerreava
delicado e terrível nas batalhas. Diadorim, semelhasse maninel,
mas diabrável sempre assim, como eu agora eu estava
contente de ver. Como era que era: o único homem que a
coragem dele nunca piscava; e que, por isso, foi o único cuja
toda coragem às vezes eu invejei. Aquilo era de chumbo e
ferro.
E, em relance em mais, eu já estava carecendo de
declarar aos companheiros todos os erros que vínhamos
pagando, por motivo do ultimamente, conforme agora eu
ladino deduzia. Disse, com modos, ao próprio Zé Bebelo, que
isto de mim escutou:
– “... Sem tenção de descrédito ou ofensa, Chefe, mas
duvido de que bem fizemos em restar todos aqui, comprando
cura de doenças. Mais ajuizado certo não seria se ter remetido
meia-dúzia de cabras, dos sãos, que tivessem ido buscar a
munição nesse lugar, a Virgem-Mãe, e trazer? Munição já
estava aqui, e a gente estava mais garantidos...”
Zé Bebelo em mal amargo – ele espinoteou com a
cabeça, arejou os queijos. Desde, depressinha, me explicou a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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maior razão, com palavras baixas. Porque ele de tudo já
soubesse: foi então que me disse que o extravio nosso tinha
sido mais completo; porque a gente tinha vindo em má rota,
em vez da Virgem-Mãe para a Virgem-da-Laje. Eu escutei, tei.
Em outras ocasiões, uma notícia dessas era capaz de me
perturbar. Mas, dessa viagem, eu achava até divertido. Figuro
explicando ao senhor: desde por aí, tudo o que vinha a
suceder era engraçado e novo, servia para maiores movimentos.
Com essas levezas eu seguia a vida.
Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais,
estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida manhã, orçado o
sol, e eles redondeavam no aprazível – tropilha grande, pondo
poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou
confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí
porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que
cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre
relincha exagerado. Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como
não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já
escumavam e retremiam, que com as orelhas apontavam. Assim
ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva
tão repentina, eu pulei para o meio deles: - “Barzabu! Aquieta,
cambada!” – que eu gritei. Me avaliaram. Mesmo pus a mão no
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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lombo dum, que emagreceu à vista, encurtando e baixando a
cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufor.
Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo,
dos cavalos e as minhas maneiras. Só que se riam, formados no
costume de jagunços, que é de frouxas essas leviandades. -
“Barzabu!” – ô gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. E
eu parava, rente, no meio de todos, que de volta aceitavam minha
presença, esses cavalos.
-“Tu sendo peão amansador domador?!” – que o Ragásio
caçoou comigo. Mas eu me virei, e já se ouvia outro tropel: era
aquele seô Habão, que chegava. Vinha com três homens,
estroteantes – gentinha trabalhosa. E o animal dele, o gateado
formoso, deu que veio se esbarrar ante mim. Foi o seô Habão
saltando em apeio, e ele se empinou: de dobrar os jarretes e o
rabo no chão; o cabresto, solto da mão do dono, chicoteou alto
no ar. - “Barzabu!” – xinguei. E o cavalão, lão, lão, pôs pernas
para adiante e o corpo para trás, como onça fêmea no cio mor.
Me obedecia. Isto, juro ao senhor: é fato de verdade.
O seô Habão estava ali, me desentendeu nos olhos. Ele
ficou a vermelho. Mas eu acho que, homem só vendido ao
dinheiro e ao ganho, às vezes são os que percebem primeiro o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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atiço real das coisas, com a ligeireza mais sutil. Ele não gaguejou.
Melhor me disse: - “Se este praz ao senhor... Se ele praz ao
senhor... Lhe dou, amigavelmente, com bom agrado: assim como
ele está, moço, ele é seu...”
Não acreditei? Reafirmo ao senhor: meu coração não
pulsou dúvidas. Agradeci, com meu brio; peguei a ponta do
cabresto. Agora, daquela hora, era meu o cavalo grande, com
suas manchas e riscas – ah, como ele pisava peso no chão, e
como ocupava tão grande lugar! Até passeei um carinho nas faces
dele, e pela tábua-do-pescoço a fora. Meu o bicho era, por posse,
e assim revestido, conforme estava – que era com um Bocadinho
bom, com caçambas de pau. Mas sendo que, dividido o instante,
eu já ali pensei: por que seria que o seô Habão se engraçava de
me presentear de repente com uma prenda dum valor desse, eu
que não era amigo nem parente dele, que não me devia
obrigação, quase que nem me conhecia? Aos que projetos ele
engenhava em sua mente, que possança minha ele adivinhava? A
pois, fosse. Aquele homem me temia? Da admiração de meu
povo todo, dei fé, borborinho com que me rodeavam. Certo,
deviam de estar com invejas. Fosse! E a mãe!... A primeira coisa,
que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as
invejas dos outros restantes... Me rejo, me calejo! Só por causa
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 615 –
daquele cavalo, até, eu fui ficando mais e mais, enfrentava. Não
me riram.
-“É deveras... Animal de riqueza: graúdo, farto e
manteúdo...” - “Sorte é isto. Merecer e ter...”
- “Ainda bem que foi bem empregado...”
Só dissessem. Disfarcei meu regozijo. Disse logo foi a
tenção de maiores idéias em desejos – segundo a como apeirado
aquele eu já queria: que arreado à gaúcha, com peitoral com
pratas em meia-lua, e as peças dos arreios chapeadas de belo
metal.
- “Ara, que assim ouvi, Tatarana: o nome que ele vai se
chamar é mesmo Barzabu?” – algum caçoou de me perguntar.
- “A não, meu compadre torto! Sossega a velha... Nome
que dou a ele, d’ora em diante, conferido, é este – quem que
aprender, aprende! – que é: o cavalo SiruizL..” – assim foi que eu
respondi, sem tempo nenhum para pensamento. Montei.
Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras,
ladroalmente. Pois Zé Bebelo estava aparecendo ali, e eu atinei,
ligeiro, com o que não tinha refletido. Ao que: oferecer e receber
um presente daquele, naquelas condições, era a mesma coisa que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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forte ofender Zé Bebelo. Um dom de tanto quilate tinha de ser
para o Chefe. Reconheci, aí. Mas não tirei para trás. Não
desapeei. É de ver que, conforme em mim, nesses enquantos, eu
já devia de estar fitando Zé Bebelo com um certo desprezo. Ia
haver o que ia haver, e eu não me importei. Um qualquer chefe
de jagunço havia de ter ímpeto de resolver aquilo fatal. Aí,
esperei. Teria sido uma tenção dessas, de arder a desordem no
meio nosso, a razão do seô Habão? Pensei o dito, num ínterim. E
pensei pontudo em minhas armas.
Mas Zé Bebelo, acabando de saber o acontecido, mirou em
mim, somente, poupado risonho: - “Tal te fica bem, Professor,
amontado nesse estampo, queremos havemos de te ver garboso,
guerreando as boas batalhas... Em hora!...” – foi o que ele disse,
se me seja que gostou pouco. Choveu para o meu arrozal! Ah,
mesmo só inteligência, só, era que que era aquele homem.
Desapeei.
Como por um rasgo, para solércias, dei o cabresto ao
Fafafa. Disse: – “Tu desarreia, amilha e escova, tu trata dele...” ; e
isso fiz, porque o Fafafa, que tanto gostava simples de cavalos,
era o prestante para cuidar dum animal, em mesmo que dele não
sendo. Mas eu tinha dado uma ordem. Assim me refiz. E o seô
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Habão tinha trazido também boa quantidade de remédio para se
tomar pela maleita, das pastilhas mais amargosas. Todo o mundo
recebia.
Saí, uns passos. Eu estava dando as costas a Zé Bebelo. Ele
podia, num relance, me agredir de morte, me atirar por detrás... –
atentei. Esbarrei em meu caminhar, fiquei assim parado, assim
mesmo. O medo nenhum: eu estava forro, glorial, assegurado;
quem ia conseguir audácias para atirar em mim? As deles haviam
de amolecer e retombar, com emortecidos braços; eu podia dar
as costas para todos. O que o Drão – o demonião – me disse,
disse: seria só? Olhei para cima: pegaram nas nuvens do céu com
mãos de azul. Aquela firme possança; assim permaneci, outro
tempo, acendido. Eu leve, leve, feito de poder correr o mundo ao
redor. Ao senhor eu conto, direto, isto como foi, num dia tão
natural. Será que, de cousas tão forçosas, eu ia poder me
esquecer? Aquele dia era uma véspera.
Em tanto o seô Habão jantou com a gente. Raimundo Lê
repartiu com os carecidos as pastilhas de remédio. Diadorim meu
amigo estava. Zé Bebelo me chamou adeparte, me expondo
especializado diversas coisas que pretendia reformar de fazer.
Alaripe conversou comigo. E dessa derradeira conversa quero
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 618 –
referir ao senhor. Foi que, eu puxando, eu desejando saber, se
falou muito nessas orações de curar a gente contra bala de morte,
e em breves que fecham o corpo. Alaripe então contou uma
estória, caso sucedido, fazia tempos, no giro do sertão. O qual era
o seguinte.
Um José Misuso uma vez estava ensinando a um
Etelvininho, a troco de quarenta mil-réis, como é que se faz a
arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente.
Do que deu o preceito: - “... Só o sangue-frio de fé é que se
carece – pra, na horinha, se encarar o outro, e um grito pensar,
somente: Tu erra esse tiro, tu erra, tu erra, a bala sai vindo de
lado, não acerta em mim, tu erra, tu erra, filho de uma cã!...”
Assim ele ensinou ao Etelvininho, o Misuso. Mas, aí, o
Etelvininho reclamou: - “Ara, pois, se é só isso, só issozinho,
pois então eu já sabia, mesmo por mim, sem ninguém me ensinar
– já fiz, executei assim, umas muitas vezes...” - “E fez igualzinho,
conforme o que eu defini?” – indagou o José Misuso, duvidando.
- “Igualzinho justo. Só que, no fim, eu pensava insultado era: ...
seu filho duma cuia!...” – o Etelvininho respondeu. - “Ah, pois
então” – o José Misuso cortou a questão - “... pois então basta
que tu me pague só uns vinte mil-réis...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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A gente muito rimos todos. A hora a ser de satisfa, alegrias
sobejavam. Se caçoou, se bebeu, um cantou o sebastião.
Mansinho, mãe, chegaram as voltas da noite. Dormi com a cara
na lua.
Acordei. A madrugada com luar, me lembro, acordei com o
rumor de cavaleiros que vinham chegando, no esquipado, e que
travavam repentino com áspero estremecimento os cavalos:
br’r’r’uuu... Calculei: uns dez. Ao que eram. Levantei, pulando de
minha rede, quem podiam esses ser? Todos os companheiros nos
rifles, e eu não tinha escutado aviso de sentinelas.
Madrugada essa boa claridade. Luar que só o sertão viu.
Vim dele.
- “Aí é o nosso João Goanhá, com os cabras...” – disse
Diadorim, que tinha a rede dele armada da minha a uns três
passos. Assim era. João Goanhá, o Paspe, Drumõo, o compadre
Ciril, o Bobadela, o Isidoro... Tornar a encontrar companheiros
desses, aí é que se põe significado na vida, se encompridando se
encurtando. O João Goanhá, gordo, forte, barbudo. Era a dele
uma barba muito fechada, muito preta. Veio do luar, chegou
bom. Todo o mundo falava, a gente se abraçava. Com pouco o
fogo se acendia, para o café, para algum almoço. Enquanto isso,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Zé Bebelo, formado em pé, o mais rompante que pudesse, pedia
notícias por interrogação.
Antes, as verdades, essas, as coisas comuns, conforme foi
que se passaram. Mais não sei? Mesmo não tinha botado idéia na
cabeça, acabando de despertar de meu sono. Diadorim era o que
estava alegrinho especial: só se ele tinha bebido. Diadorim, de
meu amor – põe o pezinho em cera branca, que eu rastreio a flor
de tuas passadas. Me recordo de que as balas em meu revólver
verifiquei. Eu queria a muita movimentação, horas novas. Como
os rios não dormem. O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer
é chegar a ser mais grosso, mais fundo. O Urucuia é um rio, o rio
das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde,
veredas, marimbus, a sombra separada dos buritizais, ele.
Recolhe e semeia areias. Fui cativo, para ser solto? Um
buraquinho d’água mata minha sede, uma palmeira só me dá
minha casa. Casinha que eu fiz, pequena – ô gente! – para o
sereno remolhar. O Urucuia, o chapadão derredor dele. Estas
árvores: essas árvores. Conversa, Zé Bebelo: conversa, com as
marrecas chocas, no meio das varas do juncal. Mesmo na hora
em que eu for morrer, eu sei que o Urucuia está sempre, ele
corre. O que eu fui, o que eu fui. E esses velhos chapadões –
dele, dos Couros, de Antônio Pereira, dos Arrepiados, do Couto,
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do Arrenegado. Um homem é escuro, no meio do luar da lua –
lasca de breu. Dentro de mim eu tenho um sono, e mas fora de
mim eu vejo um sonho – um sonho eu tive. O fim de fomes. Ei,
boto machado em toda árvore. Eu caminhei para diante. Em, ô
gente, eu dei mais um passo à frente: tudo agora era possível.
Não era de propósito, o senhor não julgue. Nem não
fizeram espantos. Não exclamei, não pronunciei; só disse.
- “Ah, agora quem aqui é que é o Chefe?”
Só perguntei. Sei por quê? Só por saber, e quem-sabe por
excessos daquela minha mania derradeira, de me comparecer
com as doidivãs bestagens, parlapatal. De forma nenhuma eu não
queria afrontar ninguém. Até com preguiça eu estava. A verdade,
porém, que um tinha de ser o chefe. Zé Bebelo ou João Goanhá.
Um para o outro olharam.
- “Agora quem é que é o Chefe?”
Somente eu estava por cima da surpresa deles? Zé Bebelo –
o pensante, soberbo e opinioso. João Goanhá – duro homem tão
simples, vindo por meio de dificuldades e distâncias, desde a
outra banda do rio, caçar a lei da companhia da gente, como um
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costume necessário, que sem isso ele não conseguia direito se
pertencer. Com meus olhos, tomei conta.
- “Quem é que é o Chefe?!” – repeti.
Me olharam. Saber, não soubessem, não podiam como
responder: porque nenhum deles não era. Zé Bebelo ainda fosse?
Esse pardejou. E, o João Goanhá, eu vi aquele mestre quieto se
mexer, em quente e frio, diante das minhas vistas-nem não tinha
ossos: tudo nele foi encurtando medidagesto, fala, olhar e estar.
Nenhum deles. E eu – ah – eu era quem menos sabia – porque o
Chefe já era eu. O Chefe era eu mesmo! Olharam para mim.
- “Quem é qu’...”
E... Ao que o pessoal, os companheiros todos, convocados,
fechavam roda. Eu felão. Não me entendessem? Foi que alguns
dos homens rosnaram. E foi esse Rasga-em-Baixo, o principal
deles, esse, pelo que era, pelo visto, oculto inimigo meu – que
buliu em suas armas... Sanha aos crespos, luziu faca, no a-golpe...
Meu revólver falou, bala justa, o Rasga-em-Baixo se fartou no
chão, semeado, já sem ação e sem alma nenhuma dentro. E aí o
irmão dele, José Félix: ele tremeu muito lateral; livrou o ar de sua
pessoa; outro tiro eu também tinha dado...
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- “ ... é o Chefe?!...”
Ato de todos quietos permanecidos, esbarrados com tanta
singelez de choques. Ah, eu, meu nome era Tatarana! E
Diadorim, jaguarado, mais em pé que um outro qualquer, se
asava e abava, de repor o medo mor. Ele veio marechal. Se
viram, se sentiram, decerto que acertaram: pelos altos de nós
dois; e porque logo aí Alaripe, o Acauã, o Fafafa, o Nélson,
Sidurino, Compadre Ciril, Pacamã-de-Presas – e outros e outrosjá
formavam do lado da gente. – Tenho de chefiar! – eu queria,
eu pensava. Isso eu exigia. Assim. João Goanhá se riu para mim.
Zé Bebelo sacudiu uns ombros.
Ali, era a hora. E eu frentemente endireitei com Zé Bebelo,
com ele de barba a barba. Zé Bebelo não conhecia medo. Ao
então, era um sangue ou sangues, o etcétera que fosse. Eu não
aceitava muita parlagem: - “Quem é que é o Chefe?” – eu quis.
Se quis, foi com muita serenidade. Zé Bebelo retardou. Eu
social, encostado. Conheci que ele tardava e pensava, para ver o
que fazer mais vagarosamente.
- “Quem é-que?” – eu brando apertei.
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Eu sabia do respirar de todos. Durasse mais, aquilo eu já
largava, por me cansar, por estar achando cacete. Minha vontade
estroina de paliar: – Seu Zé Bebelo, velho, tu me desculpe... – eu
calei. Zé Bebelo se encolheu um pouco, só. Aí ele não tremeu, no
sucinto dos olhos.
- “A rente, Riobaldo! Tu o chefe, chefe, é: tu o Chefe fica
sendo... Ao que vale!...” – ele dissezinho fortemente, mesmo
mudado em festivo, glo riando um fervor. Mas eu temi que ele
chorasse. Antes, em rosto de homem e de jagunço, eu nunca
tinha avistado tantas tristezas.
- “Sendo vós, companheiros...” – eu falei para em volta.
Tantos, tantos homens, os nos rifles, e eles me aceitavam.
Assim aprovaram. O Chefe Riobaldo. Aos gritos, todos
aprovavam. Rejuravam, a pois. A esses resultados. No que eram
com solenidade, sinceridade. Tudo dado em paz. Só aqueles dois
amaldiçoados irmãos, baldeados mortos, na ponta de unha. Ali,
enterrar aqueles dois seria faltar a meu respeito. Amém. Tudo me
dado. O senhor, mire e veja, o senhor: a verdade instantânea dum
fato, a gente vai departir, e ninguém crê. Acham que é um falso
narrar. Agora, eu, eu sei como tudo é: as coisas que acontecem, é
porque já estavam ficadas prontas, noutro ar, no sabugo da unha;
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e com efeito tudo é grátis quando sucede, no reles do momento.
Assim. Arte que virei chefe. Assim exato é que foi, juro ao
senhor. Outros é que contam de outra maneira.
Ao fim, depois que João Goanhá me aprovou, revi os
aspectos de Zé Bebelo. Acertar com ele.
- “O senhor, agora...” – eu quis dizer.
- “Não, Riobaldo...” – ele me atalhou. - “Tenho de tanger
urubu, no m’embora. Sei não ser terceiro, nem segundo. Minha
fama de jagunço deu o final...”
Daí, riu, e disse, mesmo cortês: - “Mas, você é o outro
homem, você revira o sertão... Tu é terrível, que nem um urutu
branco...”
O nome que ele me dava, era um nome, rebatismo desse
nome, meu. Os todos ouviram, romperam em risos. Contanto
que logo gritavam, entusiasmados: - “O Urutu-Branco! Ei, o
Urutu-Branco!...”
Assim era que, na rudeza deles, eles tinham muita
compreensão. Até porque mais não seria que, eu chefe, agora
ainda me viessem e dissessem Riobaldo somente, ou aquele
apelido apodo conome, que era de Tatarana. Achei, achava.
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Vai, e eu, por um raio de momento, eu tinha concebido que
carecesse de tirar a vida a Zé Bebelo, por maior sossego de meu
reger, no futuramente; e agora eu estava quase triste, com pena
de ver que ele ia-s’embora. O divertido havia de ser, sim isso, de
levar Zé Bebelo comigo, de sotenente, através desse através. Ah,
homem como aquele, não se matava. Homem como aquele,
pouco obedecia. A ele mandei fornecer mais um cavalo, e um
cargueiro – com mantimento, coisas, munição melhor. Dali a
hora, mesmo, ele pegou caminho. Para o sul. Vi quando ele se
despediu e tocou – com o bom respeito de todos ; e fiquei me
alembrando daquela vez, de quando ele tinha seguido sozinho
para Goiás, expulso, por julgamento, deste sertão. Tudo estava
sendo repetido. Mas, da vez dessa, o julgamento era ele, ele
mesmo, quem tinha dado e baixado. Zé Bebelo ia s’embora,
conseguintemente. Agora, o tempo de todas as doideiras estava
bicho livre para principiar.
De seguida, parado persisti, para um prazo de fôlego. Aí
vendo que o pessoal meu já me obedecia, prático mesmo antes
da hora. Como que corriam e mexiam, se aprontando para saída,
sacudiam no ar os baixeiros, selavam os cavalos. Tantos e tantos,
eu sabia o nome e o defeito maior de cada um daqueles homens,
e tantos seus braços e tantos rifles e coragens. Aí eu mandava. Aí
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eu estava livre, a limpo de meus tristes passados. Aí eu
desfechava. Sinal como que me dessem essas terras todas dos
Gerais, pertencentes. Por perigos, que por diante estivessem, eu
aumentava os quilates de meu regozijo. À fé, quando eu
mandasse uma coisa, ah, então tinha de se cumprir, de qualquer
jeito. - “Tenho resoluto que!” – e montei, com a vontade muito
confiada. Dali a gente tinha logo de sair, segundo ã regra exata.
Estradeei. Nem olhei para trás. Os outros me viessem? Cantava o
trinca-ferro. Uma arara chiou cheio; levou bala, quase. Atrás de
mim, os cabras deram vivas. Eles vinham, em vinham. Eu
contava, prazido, o tôo dos cascos.
Dei galope. No Valado chegamos, conforme íamos
retornar, por assim. De galope, como está dito. Gente, gentinha,
nos rodeou, roceiros em seu serviço. Aquele seô Habão, incluso,
muito estarrecido. Esbarramos parada. O que eu carecia era de
uns instantes sempre meus, para estribar meu uso. Era primeira
viagem saída, de nova jagunçagem; e as extraordinárias cousas,
para que todos admirassem e vissem, eu estava em precisão de
fazer. E vi um itambé de pedra muito lisa; subi lá. Mandei os
homens ficassem embaixo, eles outros esperavam. Minha
influência de afã, alegria em artes, não padecesse de se estorvar
em monte de pessoas nenhumas. De despiço, olhei: eles nem
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careciam de ter nomes – por um querer meu, para viver e para
morrer, era que valiam. Tinham me dado em mão o brinquedo
do mundo.
Fiquei lá em cima, um tempo. Quando desci, umas coisas
eu resolvia. Aonde se ia; em cata do Hermógenes? Ah, não.
Antes, primeiro, para o Chapadão do Urucuia, onde tanto boi
berra. Ao que me seguissem. Ah, mas, assim, não. O que foi o
que eu pensei, mas que não disse: – Assim não...
E veio perante minha presença o seô Habão, mais
antecipado que todos; macio, atarefadinho, ele já me sussurrava.
Homem, esse! Ele queria me oferecer dinheiro, com seus meios
queria me facilitar. Ah, não! de mim ele é que tinha de receber,
tinha de tomar. Agarrei o cordão de meu pescoço, rebentei, com
todas aquelas verônicas. As medalhas, umas delas que eu tinha de
em desde menino. Fiz gesto: entreguei, na mão dele. O senhor
havia de gostar de ver o ar daquele seô Habão, forçado de aceitar
pagamento do que nem eram correntias moedas de tesouro do
rei, mas costumeiras prendas de louvor aos santos. Ele estava em
todos tremores – conforme esses homens que não têm vergonha
de mostrar medo, em desde que possam pedir à gente perdão
com muita seriedade. Digo ao senhor: ele beijou minha mão! Ele
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devia de estar imaginando que eu tinha perdido o siso. Assim
mesmo, me agradeceu bem, e guardou com muito apreço as
medalhas na algibeira; até porque, não podia obrar de outra
forma. Matar aquele homem, não adiantava. Para o começo de
concerto deste mundo, que é que adiantava? Só se a gente
tomasse tudo o que era dele, e fosse largar o cujo bem longe de
lá, em estranhas terras, adonde ele fosse preta-e-brancamente
desconhecido de todos: então, ele havia de ter de pedir esmolas...
Isso, naquela hora, pensei. Ah, não. E nem não adiantava:
mendigo mesmo, duro tristonho, ele havia ainda de obedecer de
só ajuntar, ajuntar, até à data de morrer, de migas a migalhas...
As verônicas e os breves ele vendesse ou avarasse para os
infernos. Comigo só o escapulário ainda ficou. Aquele
escapulário, dito, que conservava pétalas de flor, em pedaço de
toalha de altar recosturadas, e que consagrava um pedido de
benção à minha Nossa Senhora da Abadia. Que, mesmo, mais
tarde, tornei a pendurar, num fio oleado e retrançado. Esse eu
fora não botava, ah, agora podia desdeixar não; inda que ele me
reprovasse, em hora e hora, tantos meus malfeitos, indas que
assim requeimasse a pele de minhas carnes, que debaixo dele meu
peito todo torcesse que nem pedaço quebrado de má cobra.
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E, num reverter de mão, eu já estava pensando: o que eu ia
fazer com ele, com o seô Habão, por alguma alvíssara de mercê.
Porque, em fato, ele merecia, e eu a ele devia. Porque ele tinha
vesprado em reconhecer meu poder, antes de outro qualquer; e
mesmo um barão de presente dele tinha sido, e era, aquele meu
formoso cavalo Siruiz, em qual eu estava amontado.
Aí, me lembrei, de uma coisa, e isso era próprio encargo
para ele, cabendo em sua marca de qualidade. Me lembrei da
pedra: a pedra de valor, tão bonita, que do Araçuaí eu tinha
trazido, fazia tanto tempo. Tirei o embrulhinho, da bolsa do
cinto. Apresentei a ele. Eu falei: - “Seô Habão, o senhor escute, o
senhor cumpra: pega este mimo, zelando com os dedos todos de
suas mãos... já e já, o senhor viaje, num bom animal, siga rumo
dos Buritis Altos, cabeceira de vereda, para a Fazenda Santa
Catarina...”
E mais disse: que era para entregar, de minha parte, à moça
da casa, que Otacília se chamava, a qual era minha sempre noiva.
Mas não dando razão de nomear minha pessoa pelos altos
títulos, nem citando chefia de jagunços... Mas somente prezar
que eu era Riobaldo, com meus homens, trazendo glória e justiça
em território dos Gerais de todos esses grandes rios que do
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poente para o nascente vão, desde que o mundo mundo é,
enquanto Deus dura!
Ah, não: em Deus não falasse. Seô Habão pôs atenção;
perturbado mas sisudo, ele cogitava. O que ele dizia, carecia de
ser repetido, esfiando o as sunto nas pontas dos dedos, tostões.
Ser rico é um diverso dissabor? Que um pudesse se acautelar
assim, me atanazava. Quem era? O que por primeira vez reparei:
que ele tinha as orelhas muito grandes, tão grandonas; até, sem
querer, eu tive de experimentar com a mão o tamanho medido
das minhas. Melhor trazer esse sujeito comigo, perto mais perto,
para poder vigiar, por todas as partes? Melhor, não; o melhor
seria desmanchar a presença dele em definitivas distâncias. – Não
vou comer teus peitos, teu nariz, teus duros olhos moles... – eu
pensei. Mas ele também tinha alguma espécie de chefia. Eu virei
a cara, andei três passos, dando com Diadorim. - “O que eu
tolero e desentendo, esse homem: que é, porque, dele, não se
consegue ter raiva nem ter pena...” – falei. Mas vi um adejo
sombrio no meu amigo, condenado que era de tristeza que não
quer ceder suas lágrimas. O quanto, por causa da pedra de
topázio? – eu reconheci. Eu não tinha tido dó de Diadorim.
“Dei’stá’, tem tempo, Diadorim, tem tempo...” – pensei, a meio.
Da amizade de Diadorim eu possuía completa certeza. E mais
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não me amofinei. De manhã cedo, o senhor esbarra para pensar
que a noite já vem vindo? O amor de alguém, à gente, muito
forte, espanta e rebate, como coisa sempre inesperada. E eu
estava naquelas impaciências. Trasmente que, em Otacília,
mesmo, verdadeiro eu quase nem cuidava de sentir, de ter
saudade. Otacília estava sendo uma incerteza – assunto longe
começado. Visse, o que desse, viesse. O seô Habão ia, levava a
pedra de topázio, a vida do mundo ia vivendo, coração dá tantas
mudanças; meus dízimos eu pagava. O pássaro que se separa de
outro, vai voando adeus o tempo todo. Ah, não, eu não – rio,
riachos! – não me amofinava. Aquela tristeza de Diadorim eu não
aceitei, nem ceitil não recebi. Ingratidão, para o mais-tarde.
Mas o seô Habão não queria ter terminado: negócio que
carecia ainda de algum ponto. Dei licença. Ele perguntou,
sonseante: ... se eu não prazia de enviar por ele algum recado
também para o senhor meu pai, Selorico Mendes, dono do São
Gregório, e de outras boas e ricas fazendas?... Eu achei graça,
acenei que sim: disse que fosse, reproduzisse a minha saudação...
E então foi que o seô Habão levantou a cara, aquietado – até
mediante sorriso. De sorte que, para corrigir em siso a
tranqüilidade daquilo, eu determinei: - “O senhor vá logo, logo,
de rota abatida... E de lá não quero nenhuma resposta...” –
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enquanto ri, de ver como ele me obedecia expresso, sem
necessidade de caráter.
Onde que, mal dele livre me vi, gritei, despachado, pelos
demais. Dand’ ordens: - “A rodar por aí, me trazerem os
homens!”
Que’s homens? Os todos que fossem e houvesse. - “Quem
tiver instrumento – a toque! Quem gostar de dançar, arre melhor!
P’r’ apreparo, trazer as mulheres também... Com que as músicas,
de lá, lá lá...” Tudo tinha de semelhar um social. Ao pois, quem
era que ordenava, se prazia e mandava? Eu, senhor, eu: por meu
renome, o Urutu-Branco... Ah, não. Festa?
Eu já estava resolvendo o contrário. Mas reunir aquela
porção de homens, e formar todos de guerreiros. A com a gente,
a que viessem. Aquilo valia? Os outros não falaram, decerto não
acharam ou acharam. Ou quanto mais que, eles, os meus, só
mesmo o mover por me agradar, só, era o que de si desejavam; e
aquela minha lei era divertida. Saíram, espalhados sendo, em
caçar, em boa alarida.
Mas trouxeram. Me trouxeram, rebanhal, os todos
possíveis. Do Sucruiú, uns pouquinhos – alguns com as caras
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secando os brotes das bexigas, más marcas, feito mijo na areia;
outros um ou outro de semblante liso fresco, esses escapos de
não terem tido a doença. Os que fingiam não me temer, achavam
mais favorável querer ter vindo por próprio conselho; malabriam
boca em risos. Dei que pronto todos provassem gol
d’alguma cachaça. Aquela gente depunha que tão aturada de
todas as pobrezas e desgraças. Haviam de vir, junto, à mansa
força. Isso era perversidades? Mais longe de mim-que eu
pretendia era retirar aqueles, todos, destorcidos de suas misérias.
Até que fiz. Ah, mas, mire e veja: a quantidade maior eram
aqueles catrumanos – os do Pubo. Eles, em vozes. Ou o senhor
não pode refigurar que estúrdia confusão calada eles paravam,
acho que, de ser chamados e reunidos, eles estavam alertando em
si o sair de um pavor. Ao depois, quando dei brado, queriam se
alinhalinhar, mesmo, solertes, como se por soldados
reconhecidos. Seriam eles assim bons no ruim, para guerra
serviam, para meter em formatura? Tanto todo o mundo achava
graça, meus jagunços queriam pagode. Ah, os catrumanos iam de
ser, de refrescos. Iam, que nem onças comedeiras! Não
entendiam nada, assim atarantados, com temor ouviam minha
decisão. - “Filhos-da-mãe!” – eu declarei. Tive de repente fé
naqueles desgraçados, com suas desvalidas armas de toda
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antiguidade, e cabaças na bandola, e panelas de pólvora escura e
fedor de fumaça ceguenta. Adivinhei a valia de maldade deles;
soube que eles me respeitavam, entendiam em mim uma visão
gloriã. Não queriam ter cobiças? Homens sujos de suas peles e
trabalhos. Eles não arcavam, feito criminosos? - “O mundo,
meus filhos, é longe daqui!” – eu defini. – Se queriam também
vir? – perguntei. Ao vavar: o que era um dizer desseguido,
conjunto, em que mal se entendia nada. Ah, esses melhor se
sabiam se mudos sendo. Dei brado. Indaguei dum. Tomou um
esforço de beira de coragem, para me responder. Esse aquele era
o do chapéu encartuchado, rapaz moço. Respondeu que
Sinfrônio se chamava; e indicou outro – que era o pai. Aquele
outro, o pai, era um homem sem pescoço. Respondeu que se
chamava Assunciano. E indicou outro. Mais adiante não deixei.
Deixasse, iam de dedo em dedo me passando para o daquelas
pernas de fora, que Osirino era, as pernas forradas de lama seca;
ou para o que coçava suas costas em pau de árvore, feito um
bezerro ou um porco. Visli a sorrateira malícia nos jeitos deles. E
mais o do jegue – no jegue amontado, permanecendo de perfil,
aquele bronzeado jumento – que tinha, o ho mam por nome
Teofrásio; e só não desamontava do jegue por ordem minha, que
em antes eu tinha-dado. Ele me disse: - “Dou louvor. Em tudo,
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chefe, vos obedecemos...” – ele disse; e de lá se virou o focinho
branco do jumento. O homem Teofrásio limpou a goela; mas
com respeito. - “Assim vós prazido, chefe. Pedimos vossa
benção...” E eu concedi – que o Teofrásio, meio chefim deles, o
do jegue: que o jegue pudesse trazer. Daí houve porém. Que um,
o sem pescoço, baixinho descoroçoou, na desengraça, observou:
- “... Quem é que vai tomar conta das famílias da gente, nesse
mundão de ausências? Quem cuida das rocinhas nossas, em
trabalhar pra o sustento das pessoas de obrigação?...” O que
falou, tinha falado por todos. - “... Pra os roçados? Pra os
plantios...” E mesmo um outro, de mãos postas como que para
rezar, choramingou: - “Dou de comer à mea mul’é e treis fi’o’,
em debaixo de meu sapé...” – e era um homem alto, espingolado,
com todos os remendos em todos os molambos. - “Como é a tua
graça, seô?” – indaguei. Se chamava Pedro Comprido. Mas, aí, eu
já tinha pensado. - “Pois vamos! As famílias capinam e colhem,
completo, enquanto vocês estiverem em glórias, por fora,
guerreando para impor paz inteira neste sertão e para obrar
vingança pela morte atraiçoada de loca Ramiro!...” – eu
determinei. – I j’ Maria, é ver, nós, de Cristo, jagunceando...” –
escutei, dum. Daí, declarei mais: - “Vamos sair pelo mundo,
tomando dinheiro dos que têm, e objetos e as vantagens, de toda
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valia... E só vamos sossegar quando cada um já estiver farto, e já
tiver recebido umas duas ou três mulheres, moças sacudidas, p’ra
o renovame de sua cama ou rede!...” Ah, ô gente, oh e eles: que
todos, quase todos, geral, reluzindo aprovação. Mesmo os meus
homens. Fiz gesto, com meu contentamento. Queria o que só me
faltou – que foi que o jumento do homem zurrasse. Eu ia
transformar os regimentos desses foros. Convoquei todos nas
armas. - “E o Borromeu? E o Borromeu?” – ainda perguntavam.
Quem era que esse Borromeu? Mandei vir. Um cego; ele era
muito amarelo, escreiento, transformado. - “Responde, tu velho,
Borromeu: que é que tu faz?” - “Estou no meu canto, cá, meu
senhor... Estou me acostumando com o momentozinho de
minha morte...” Cego, por ser cego, ele tinha direito de não
tremer. - “Tu é devoto?” - “Pecador pior. Pecador sem o que
fazer, pede preto, pede padre...” Apontou com o dedo. Levei os
olhos. Não vi nada. É assim, a esmo, que os cegos fazem. Aquele
era o bom rumo do Norte. - “Ah, meu senhor, eu sei é pedir
muitas esmolas...” Pois, então, que viesse também o Borromeu,
viesse. Mandei que montassem o dito num cavalo manso, que da
banda da minha mão direita devia sempre de se emparelhar.
Alguns riram. E, pelo que riram, de certo não sabiam – que um
desses, viajando parceiro com a gente, adivinha a vinda das
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pragas que outros rogam, e vão defastando o mau poder delas;
conforme aprendi dos antigos. E, por nada, mais me lembrei, de
repentinamente, do menino pretozinho, que na casa do Valado a
gente tinha surpreendido, que furtando num saco o que achava
fácil de carregar. E tiveram de campear esse menino. Ele estava
amoitado, o tempo todo, com a boca no chão, no meio do
mandiocal. Quando foi pego, xingava, mordia e perneava. Ele se
chamava Guirigó; com olhares demais, muito espertos. -
“Guirigó, tu vem vestido, ou nu?” Como que não vinha?
Aprontaram um cavalo para ele só, que devia de se emparelhar
com o meu, da banda de minha mão esquerda. Há-de há, meu
povo! Todos tocamos. Cavalos que chegassem, bastados, tinha
não; mas, por diante, animais alheios a gente topasse, para se
assenhorear, a laço e mãos. Os muitos vinham a pé, aqueles
catrumanos ainda meio vigiados. Ver o seguinte. Eu queria esses
campos. Pernoitamos, com marcha de dez léguas, assim mesmo.
Terçando um total de projetos, com os entusiasmos, no topo da
cabeça minha, poder não pude dormir, mesmo com o cansaço
em que estava, na noite não preguei os olhos. Mas conversei
surgidamente com os que paravam, espalhados, de sentinelas, e
mandei acender foguinhos de assar mandioca e fogueiras de
iluminar. Ah, a gente ia encher os espaços deste mundo adiante.
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Aonde é que jagunço ia? À vã, à vã. Tinha minha vontade,
de estar em toda a parte. Mas, quadrando que primeiro, mais para
o norte: para o Chapadão do Urucuia, aonde tanto boi berra.
Que eu recordava de ver o rio meu – beber em beira dele uma
demão d’água... Ah, e essas estradas de chão branco, que dão
mais assunto à luz das estrelas. Eu pensei, eu quis. E o
Hermógenes, os Judas? Ara, inimigo, o senhor dê um passo, em
que rumo qualquer, lá em sua frente o senhor encontra o mau...
Eu não tinha todo tempo? Safra em cima, eu em minha lordeza.
Mesmo deitado, eu sentia que estava caminhando, galopando.
Quando a madrugada bateu as asas, eu já estava abotoando a
espora. Outra vez, eu digo: tem botim novo flote, e chinelo velho
redomão. O dia ia ser lindo de leveza! – pelas beiradas do céu.
Forramos o estômago; e saímos, deslizando com a manhã, com o
merujo do orvalho. O que eu via: altos de mata e além! As coisas
todas eu pensava, e nada nenhuma não me sombreasse. Algum
medo não palpitava frio por detrás de meus olhos; e, por via
disso, eu de todos era o chefe, mesmo em silêncio singular.
Conforme assim, chegamos, no Pé-da-Pedra, fazenda da
Barbaranha. Em perto de sete léguas. E o que aí foi, lhe conto.
Ao entrementes, eu achei graça: em que o Alaripe, João
Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, e mesmo Diadorim, e
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outros mais velhos, não carecessem de formar conselho. As
lérias. Meu direito era contrariar as regras todas do chefe que
antes fora; para mim, só mesmo o que servia era à solta a lei da
acostumando. Aí, não viessem me dizer que a gente estava só
com três dias de farinha e carne-seca. Toleima. Todo boi,
enquanto vivo, pasta. Razão e feijão, todo dia dão de renovar. A
coragem que não faltasse; para engolir, a polpa de buriti e carnes
de rês brava. Às léguas, eu indo, eles me seguindo. - “Tu está
vendo o tamanho do mundo, Guirigó? Que é que tu acha de
maior boniteza?” Assim eu perguntei, àquele sacizinho de duas
pernas, que preto reluzente afora os graúdos olhos brancos, me
remedando, da banda de minha mão canhota sempre viesse,
encarapitado sobre seu alto cavalo. E ele, a cuja senvergonhice: -
“De todas as coisas, boniteza melhor é dessa faquinha enterçada,
de metal, que o senhor travessa na cintura...” Segundo tinha
botado desejo no meu punhal puxável de cabo de prata, o
dioguim. - “A pois: no primeiro fogo que se der, se tu não abrir
boca e choro bué, por medos, a dita faca tu ganha,
presenteada...” eu prometi. A falta de mantimentos, por isso eu ia
encurtar rédeas, travar o passo? A toleima. A outra receita que
descumpri, era a de repartir o pessoal em turmas. Cautelas... Que
não. Eu fosse ter cautela, pegava medo, mesmo só no começar.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Coragem é matéria doutras praxes. Aí o crer nos impossíveis, só.
- “Seo Borromeu, está gostando destes Gerais, hem seo
Borromeu?” – ao cego, da minha outra banda, perguntei, por
desfrute. - “Ah, Chefe: é sempre amanhecendo manhã, e aqui a
gente merece tudo – vento que não vareia de ser... Mas vento que
vem dos amáveis...” – ele me respondeu. - “... O que não vejo,
não devo; não consumo...” – continuou respondendo. Ele
gostava de conversar, mas também preparava no silêncio. Ia
sacolejando em cima da sela do animal, noutra quietação diversa.
Podia dar conselho? - “Arte de jagunço, meu Chefe? Isto é ofício
bonito, para o vivo.” O ditado desses, só somente para rir eu
aceitava. Mas, dividir minha gente, por oras, eu detestava de
obrar. Por causa que o que me prazia mais era contemplar o
volume profundo da ida deles, de esquadrão.
De a de lado. Todos eles passarem, tropeando, nós todos, o
rumor constante dos cascos. Cavalo, cavalaria! Cortejo que fazia
suas voltas, pelos ermos, pelos ocos, pelos altos, a forma duma
mistura de gente amontada, uma continuação grande, solevando
para adiante o aprumo de meus homens, os chapéus deles quase
todos bem engraxados com sebo de boi e nata de leite, em ponta
os canos dos rifles de guerra, a tiracol. Com qual seguimento? Só,
o que esperava a gente, era o pouso para jantar; passeata para a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estrela-da-tarde. Mas, do que um falava, outro mal ouvia e ria; do
que esses se riam, outros ainda falavam. Prosapeavam. Me prazia.
Me prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em
asso. A poeira avermelhava e branqueava: poeiras que punham o
vento mais áspero. Uns homens em cavalos e armas. Quem visse,
fuga fugia, corria: tinham de temer, vigiando com seus olhos
escondidos no mato em beiras de estrada. Até os bichos, do
cerradão, que escutam o começo de tudo, de seu longe e de seu
perto, e logo sabem esperar, ocultos no rareamento, assim não se
viam, nenhuns, não se achavam; os pássaros sempre já tinham
revoado. Ah, não, eu bem que tinha nascido para jagunço. Aquilo
– para mim – que se passou: e ainda hoje é forte, como por um
futuro meu. Eu estou galhardo. Naquilo, eu tinha amanhecido.
Comi carne de onça? Esquipando, eu queria que a gente entrasse,
daquele jeito, era em alguma grande verdadeira cidade.
Só às vezes, em repente de receio, eu ainda olhei em vão –
com as presenças de Zé Bebelo me cismava. Se o que sei. Com
um arranco de freio, raciocinado. Mas, dando de rédeas sem
descanso, derrubei dos ombros aquele meu costume, Zé Bebelo
terminara. Só os meus homens. Escutava, olhava – e eram
aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir, e muita má
gente matar. Aos dez e dezes, digo, afirmo que me lembro de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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todos. Esses passam e transpassam na minha recordação, vou
destacando a contagem. Nem é por me gabar de retentiva
cabedora, nome por nome, mas para alimpar o seguimento de
tudo o mais que vou narrar ao senhor, nesta minha conversa
nossa de relato. O senhor me entende? A mesmice dos cabras
jagunços – no contemplar a cavalhada – no passo, os animais
dando dos quartos, comuns assim, que não fazem penachos, que
não tiram arredondamentos da magreza. Os filhos nascidos de
distritos de lugares diversos, mas agora debaixo da minha estima
completa, dever de coração enérgico. Até os capiaus e os
catrumanos copiavam o comportamento, uns amontados, outros
restantes apressados mesmo a pé, e iam pegando o exato. Até o
catrumano Teofrásio, em seu jegue, que, como prestável
jumento, cumpria bem seu ir, desde que tinha companhia de
outros animais. E o Guirigó e o Borromeu, eu meando os dois,
ao alcance de qualquer minha mão. Sempre, mesmo como
sempre. Mas, um, era Diadorim – montado à baiana, gineta, com
estribos curtos e rédea muito ponderada, bridando bem, em seu
argel travado, às upas: cavalo bulideiro, cavalo de olhos pretos
conforme como a noite – Diadorim, que era o Menino, que era o
Reinaldo. E eu. Eu? Nos estribos de ferro, freio de ferro, silha
forte e silha mestra – e o par de coldres! Assaz, então, cantaram:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Olererê, Baiana,
eu ia e não vou mais...
Eu faço
que vou
lá dentro, oh Baiana,
e volto do meio p’ra trás...
Ao demais eu ouvi, soturno sorridente.
Ora vez, que, desse jeito, fomos entortando, entre as duas
chapadas, encalço da estrada do rio; e se chegou na fazenda
cercã, que era por lá, a Barbaranha dita, em um lugar redondo e
simples, no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao senhor, respeitante.
Mas acrescento que o dono, no atual, era um seo Ornelas –
Josafá Jumiro Ornelas, por nome todo.
- “De uns três dias foi o São João, então amanhã é o São
Pedro...” – alguém disse, de voz.
Soubessem que esse seo Ornelas era homem bom
descendente, posseiro de sesmaria. Antes, tinha valido, com
muitos passados, por causa de políti ca, e ainda valesse,
compadre que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda
Baluarte.
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- “Ao que ele tem, mas tem, mesmo, muita coragem?!” – eu
me fiz. - “Aí falam em sessenta ou oitenta mortes contáveis...” o
Marcelino Pampa afiançou “... e ainda não esmoreceu os
ânimos...”
Chegamos, com proceder seguro, e o céu por cima dali
estava muito sereno. Na fazenda tinfiam levantado um mastro,
na frente do pátio; vi movimentos de gente. As mulheres, na
boca do forno fumaçando, mexiam com feixes verdes de mariana
e vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. Só
aqueles formosos cheiros das quitandas e do forno quente
varrido, já confortavam meu estômago. No mastro, que era
arvorado para honra de bandeira do santo, eu amarrei o cabresto
do meu cavalo.
Mas não desordeei nem coagi, não dei em nenhuma
desbraga. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém. E o
fazendeiro, senhor dali, de dentro saiu, veio saudar, convidar para
a hospedagem, me deu grandes recebi, mentos. Apreciei a
soberania dele, os cabelos brancos, os modos calmos. Bom
homem, abalável. Para ele, por nobreza, tirei meu chapéu e
conversei com pausas.
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- “Amigo em paz? Meu chefe, entre, a valer: a casa velha é
sua, vossa...” – ele pronunciou.
Eu disse que sim. Mas, para evitar algum acanhamento e
desajeito, mais tarde, também falei: - “Dou todo respeito, meu
senhor. Mas a gente vamos carecer de uns cavalos...” Assim logo
eu disse, em antes de vir a amolecer as situações e estorvar o
expediente negócio a boa conversação cordial. O homem não
treteou. Sem se franzir nem sorrir, me respondeu: - “O senhor,
meu chefe, requer e merece, e com gosto eu cedo... Acho que
tenho para coisa de uns cinco ou sete, em estado regular.”
E eu entrei com ele na casa da fazenda, para ela pedindo em
voz alta a proteção de Jesus. Onde tive os usuais agrados, com
regalias de comida em mesa. Sendo que galinha e carnes de
porco, farofas, bons quitutes ceamos, sentados, lá na sala.
Diadorim, eu, João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz,
Alaripe e uns outros, e o menino pretinho Guirigó mais o cego
Borromeu – em cujas presenças todos achavam muita graça e
recreação.
A dona fazendeira era mulher já em idade fora de galas; mas
tinham três ou quatro filhas, e outras parentas, casadas ou moças,
bem orvalhosas. Aquietei o susto delas, e nenhuma falta de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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consideração eu não proporcionei nem consenti, mesmo porque
meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem assim
no meio nosso, garantidas em suas honras e prendas, e com toda
cortesia social. A ceia indo principiando, somente falei também
de sérios assuntos, que eram a política e os negócios da lavoura e
cria. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão,
para alto se ler e a respeito disso tudo se falar.
Seo Ornelas me intimou a sentar em posição na cabeceira,
para principal. - “Aqui é que se abancava Medeiro Vaz, quando
passou...” – essas palavras. Medeiro Vaz tinha regido nessas
terras. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía tudo.
Conforme jagunço de meio-oficio tinha sido, e amigo
hospedador, abastado em suas propriedades. De ser de linhagem
de família, ele conseguia as ponderadas maneiras, cidadão, que se
representava; que, isso, ainda que eu pelejasse constante, tarde
seria para bem aprender. Na verdade. Aquela hora, eu, pelo que
disse, assumi incertezas. Espécie de medo? Como que o medo,
então, era um sentido sorrateiro fino, que outros e outros
caminhos logo tomava. Aos poucos, essas coisas tiravam minha
vontade de comer farto.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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- “O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é
achado...” – ele seo Ornelas dizia. - “O sertão é confusão em
grande demasiado sossego...” Essa conversa até que me agradou.
Mas eu dei de ombros. Para encorpar minha vantagem, às vezes
eu fazia de conta que não estava ouvindo. Ou, então, rompia fala
de outras diversas coisas. E joguei os ossinhos de galinha para os
cachorros, que ali nas margens esperavam, perto da mesa com
toda atenção. Cada cachorro sungava a cabeça, que sacudia,
chega estalavam as orelhas, e aparava certeiro seu osso, bem
abocava. E todos, com a maior devoção por mim, e simpatias,
iam passando os ossos para eu presentear aos cachorros. Assim
eu mesmo ria, assim riam todos, consentidos. O menino Guirigó
comeu demais, cochilava afundado em seu lugar, despertava com
as risadas. Aquele menino já tinha pedido que um dia se
mandasse costurar para ele uma roupa, e prover um chapéu-decouro
para o tamanho de sua cabeça dele, que até não era
pequena, e umas cartucheiras apropositadas. - “Tu é existível,
Guirigó... Vai pelos proveitos e preceitos...” – eu caçoava. Aí
caçoei: - “Duvidar, é só dar um saco vastoso na mão dele, e
janela para pular, para dentro e para fora: capaz de supilar os
recheios e pertences todos duma casa-grande de fazenda, feito
esta, salvo que seja...” E eu bem que já estava tomando afeição
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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àquele diabrim. Pois, com o Guirigó, as senhoras e moças
conversavam e brejeiravam, como que só com ele, por criança,
elas perdessem o acanhamento de falar. Mas o seo Ornelas
permanecia sisudo, faço que ele afetava de propósito não reparar
no menino. Pelo tudo, era como se ele reprovasse minha decisão
de trazer para a mesa semelhantes companhias. O menino e o
cego Borromeu – aqueles olhos perguntados. - “As colheitas...” –
seo Ornelas supracitava. Homem sistemático, sestronho. O
moderativo de ser, o apertado ensino em doutrinar os cachorros,
ele obrava tudo por um estilo velhoso, de outras mais arredadas
terras – sei se sei. E quase não comia. Só, vez outra, jogava na
boca um punhado seco de farinha.
- “Oxalá, o senhor vai, o senhor venha... O sertão carece...
Isto é, um homem forte, ambulante, se carece dele. O senhor
retorne, consoante que quiser, a esta casa Deus o traga...”
Solei um vexame, por não saber a resposta concernente,
nuns casos como esse – resposta que eu achava que devia de ser
uma só, e a justa, como em teatral em circo em pantomima bem
levada. O que é igual quase um calar. À puridade, eu sentia assim:
feito se estivesse pego numa ignorância – mas que não era de
falta de estudo ou inteligência, mais uma minha falta de certos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estados. O que são bobéias: limpei goela, mudei de cara. - “...
Amigo meu Medeiro Vaz, a outra ocasião, travou combates, no
ContaBoi, daqui a duas léguas... Contra os de um Tolomeu
Guilherme. Defunto amigo Medeiro Vaz, que a alma dele Deus
haja... Adiante comandava em frente, para o exemplo...
Enterramos os melhores mortos...” – o homem descrevia. - “Eu
sei!” – eu disse, mesmo nada tencionando dizer. A ver: e que é
que achava de mim aquele surdo velho? Ah, ele expunha os
cabelos brancos, mas faltava em barba que cofiasse. - “Senhor
saiba, ao que Medeiro Vaz mesmo foi que entre todos me
escolheu, nos olhos da morte, me determinou para capitanear e
dar governo... Tolomeu Guilherme, que conheço, é um que deve
de estar presentemente embarcando cargas, no porto em
Pirapora... Mas sou, de mim, o Urutu-Branco, Riobaldo que
Tatarana já fui; o senhor terá ouvido? Aí o mais esse sertão tem
de ver, quem mais abre e mais acha!” – assim eu disse, um pouco
enfurecido. - “Pois maior honra é a minha, meu Chefe: que em
posto de dono, na pobreza desta mesa, somente homens de alta
valentia e valia de caráter se sentaram...” – ele glosou, sem
sobrosso de perturbação. Dobrei, de costas, castanheteei para os
cachorros. Assim ele havia de sentir o perigo de meu desprazer;
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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havia de recear, de mim, aquilo – como o outro diz: ... quando o
burro dá as ancas!...
Aí, no rever do instante, percebi os olhos de Diadorim, que
me juntavam com uma das mocinhas de lá, das que estavam
servindo, a mais vistosa de todas. A mocinha essa de saia preta e
blusinha branca, um lenço vermelho na cabeça – que para mim é
a forma mais assentante de uma mulher se trajar. Ela estava
parada, em pé, no meio das outras, quase encostada na parede. O
olhar de Diadorim era que estava me indicando: que para aquela
mocinha ia meu admirar. Administrado, chamei: - “A senhora
meninazinha, chega aqui mais perto, me faça obséquio da
bondade...” E ela avermelhou as faces; mas veio; reparei que
tinha as mãos aperfeiçoadas bonitas, mãos para tecer minha rede.
A ela perguntei a graça.
- “É minha neta...” – foi seo Ornelas quem disse. E mal
nem ouvi o nome com que ela me respondeu. Assussurrada, só
gostei de ver como ela se mexia por ficar quieta – vergonhosa
como uma coalhada no prato.
Mas, nos tons do velho Ornelas, eu tinha divulgado um
extravago de susto, recuante, o leve medo de tremor. Isso foi o
que me satisfez. Aquele homem, visconde e portoso em tudo, ah,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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pelo mulheriozinho de sua casa ele não encobria o comprado, eh,
sua família dele. A avaliar o de Diadorim, por igual, como
mostrava – outros olhos – o arregalo de ciúmes. Aqui digo: que
se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem
se faz.
Deu silêncio. Aquilo tardou assim: feito o tamanduá a
língua põe, feito quem quer comungar. A mocinha me tentando,
com seu parado de águas; a boniteza dela esteve em minhas
carnes. Ela perigou. Não perigou: no instante, achei em minha
idéia, adiada, uma razão maior – que é o sutil estatuto do homem
valente. Aquela formosura, aquela delicadezazinha, então podiam
mesmo ser assim, em toda segurança, feito ela fosse, por um
exemplo, filha minha. A mocinha, eu de repente queria, eu
gostava de dar a ela muito forte proteção. Diadorim não
imaginasse isso. Os olhos de Diadorim não me reprovavam – os
olhos de Diadorim me pediam muito socorro. Seo Ornelas
empalidecido. Certo que, num rebimbo de raio, eu – pronto! – o
Ornelas estava caído muito a morto, com uma bala entrolheolho,
antes de notar sequer que eu tinha pensado em arisco de mover
nas armas. Diadorim, caso fosse, ele eu desarmava; e meus
homens estariam ali, todos de pé, fechando praia de mar. A
menina-mocinha, que eu agarrava nos braços, era uma quantaJoão
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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coisa primorosa que se esperneia... Mas eu não quis! Ah, há-de-o,
quanto e qual não quis, digo ao senhor: e Deus mesmo baixa a
cabeça que sim: ah, era um homem danado diverso, era, eu –
aquele jagunço Riobaldo... Donde o que eu quis foi oferecer
garantia a ela, por sempre. Ao que debati, no ar, os altos da
cabeça. Segurei meus cornos. Assim retido, sosseguei – e melhor.
Como que, depois do fogo de ferver, no azeite em corpo de meu
sangue todo, agora sochupei aquele vapor fresco, fortíssimo, de
vantagens de bondades.
- “Menina, tu há de ter noivo correto, bem apessoado e
trabalhador, quando for hora, conforme tu merece e eu rendo
praça, que votos faço... Não vou estar por aqui, no dia, para
festejar. Mas, em todo tempo, vocês, carecendo, podem mandar
chamar minha proteção, que está prometida – igual eu fosse
padrinho legítimo em bodas!”
Alto estive, atrás do que falei. Ela se assustou, outra vez,
sem capacidade nenhuma, ainda mais ao avermelhar. E eu
também mercês colhi – da alegria veraz, nos meus olhos de
Diadorim. Será que será, que por contentar profundo Diadorim
eu tinha feito aquilo resoluto? Ou por outra, por aquele próprio
velho homem, seo Ornelas, que nesse intervalo de instantes
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dizendo estava: - “Agradece, minha filha, as todas palavras deste
grande Chefe, que é declarado sagrado nosso amigo, perante as
voltas todas que o mundo dá e der!”
Realmente, então eu virei para ele. E, daí, deveras foi afoito
que eu quis com ele outras conversas, e prezei a amizade daquele
homem dos sertões transatos. O quanto fiz perguntas. Aceitei o
chá de laranjeira, com que sempre dei bem, numa tigela grande,
com capricho desenhada. Minha gente junto comigo escutava.
- “O senhor tem noção de quem Zé Bebelo é?” – eu
indaguei, uma hora, por me confirmar.
- “Zé Bebelo? Pode ser, não digo... Mas figuro que, esse
nome, nunca ouvi, não, meu senhor...” – foi o que ele respondeu.
Ao que – isso era um fato possível? Ele não sabia. De Zé
Bebelo, nem do Ricardão, nem do Hermógenes, ele não sabia
nem a preposição. Mas, então, tudo naquela parte dos Gerais era
ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de ser de se
recomeçar... - “Sou de pouca política, me desfiz de ser...” – ele
externou. O chefe próprio dele, ele não citou; feito se eu
ignorasse o qual era. Célebre, esse, também – e que o senhor
pode ter conhecido igualmente, pois era um que viajava amiúde
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 655 –
até no Rio de janeiro, se bem que famanado homem de cabras
em armamentos, na política de jagunçagem. Aquele – sequinho,
espigadinho, vestido cidadão, com mãozinhas pequenas,
pezinhos – e do ar sempre assustado constantemente. Dele
sozinho, o que se diz: umas duzentas mortes! Conheceu, o
senhor? No barranco do São Francisco – o Coronel Rotílio
Manduca – em sua Fazenda Baluarte! Agora, paz.
Mas aí eu perguntei a respeito daquele seô Habão, só mais
para variação de conversa, mudando o propósito. Em resposta
assim ouvi: - “Esse um, vem a ser até parente de minha mulher, e
longe meu aparentado... Mas de desde mais de uns dez anos que
cortamos conhecimento.”
E como eu atalhei o assunto, por convinhável nas boas
normas, pois a lembrança dum inimigo deixa qualquer homem
agastado, o seo Ornelas relatou à gente diversos casos. E o que
em mente guardei, por esquipático mesmo no simples, foi o
seguinte, conforme vou reproduzir para o senhor. O qual se deu
da parte da banda de fora da cidade da Januária.
Seo Ornelas, nessa ocasião, tinha amizade com o delegado
dr. Hilário, rapaz instruído social, de muita civilidade, mas
variado em sabedoria de inventiva, e capaz duma conversação tão
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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singela, que era uma simpatia com ele se tratar. - “Me ensinou um
meio-mil de coisas... A coragem dele era muito gentil e
preguiçosa... Sempre só depois do final acontecido era que a
gente reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer...”
Ao que, numa tarde, seo Ornelas – segundo seu contar –
proseava nas entradas da cidade, em roda com o dr. Hilário mais
outros dois ou três senhores, e o soldado ordenança, que à
paisana estava. De repente, veio vindo um homem, viajor. Um
capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau
comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da
ponta do pau. - “... Semelhasse que esse homem devia de estar
chegando da Queimada Grande, ou da Sambaíba. Nele não se via
fama de crime nem vontade de proezas. Sendo que mesmo a
miseriazinha dele era trivial no bem-composta...” Seo Ornelas
departia pouco em descrições: - “... Aí, pois, apareceu aquele
homenzém, com o saco mal-cheio estabeleci do na ponta do pau,
do ombro, e se aproximou para os da roda, suplicou informação:
– O qual é que é, aqui, mó que pergunte, por osséquio, o senhor
doutor delegado?-ele extorquiu. Mas, antes que um outro desse
resposta, o dr. Hilário mesmo indicou um Aduarte Antoniano,
que estava lá – o sujeito mau, agarrado na ganância e falado de
ser muito traiçoeiro. – O doutor é este, amigo... – o dr. Hilário,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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para se rir, falsificou. Apre, ei – e nisso já o homem, com
insensata rapidez, desempecilhou o pau do saco, e desceu o dito
na cabeça do Aduarte Antoniano – que nem fizesse questão de
aleijar ou matar... A trapalhada: o homenzinho logo sojigado
preso, e o Aduarte Antoniano socorrido, com o melor e sangue
num quebrado na cabeça, mas sem a gravidade maior. Ante o
que, o dr. Hilário, apreciador dos exemplos, só me disse: – Pouco
se vive, e muito se vê... Reperguntei qual era o mote. – Um outro
pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem
convém... – o dr. Hilário completou. Acho que esta foi uma das
passagens mais instrutivas e divertidas que em até hoje eu
presenciei...”
Tal, e outras, contou o seo Ornelas, senhor de prosa muito
renovada. Pelo que, por todo o seroar, deixei com ele a mão;
ainda que às vezes eu ficasse em dúvida: se competia, sendo eu
um chefe, aturar que um outro fiasse e tecesse, guiando a fala. E
também, com o tardio da noite, veio a hora de se desapear da
mesa, e eu teimei em rejeitar oferta de cama em catre em quarto
ou sala, mas fui fora, caçar o meio da minha gente; por sinal que
armei rede por entre cajueiro e jenipapeiro, perto dos currais, e,
para o segundo sono, mudei de rearmar, de faveira para faveira,
lá para dentro duma cerca. Mas, na mesa, aquele menino Guirigó,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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na senvergonhice inocente de sua pouca geração, tinha
adormecido completo antecipadamente, e eu consenti que as
mulheres carregassem o coitadinho diabinho, pesado como um
de maioridade, e levassem para dormir sei lá onde, por entre
colchão e lençol. A vida inventa! A gente principia as coisas, no
não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação –
porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e
temperada. Assim eu tinha trazido o pretinho Guirigó, do
Sucruiú, e agora ele estava indo para se deitar no limpo e fofo,
nos braços das jovens e donzelas carregado. Somente que,
inteirado no sono, ele mesmo disso não soubesse, nem
aproveitasse, do que em sua existência dele era que estava se
sucedendo. - “A pois, boa noite o senhor tenha, Chefe, com um
aprazível amanhecer...” – assim seo Ornelas me saudou. Ao que
eu, regozijado e bem servido, retribuí a ele, quase com aquelas
mesmas palavras.
As partes, que se deram ou não se deram, ali na
Barbaranha, eu aplico, não por vezo meu de dar delongas e
empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte. Mas só
porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos
daquela era faziam significado de muita importância em minha
vida verdadeira, e entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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que com a lição solerte do dr. Hilário se tinha formado. Aí, narro.
O senhor me releve e suponha.
No outro dia, acordei com a boca amarga e doce, e o través
de baixar alguma ordem comandando; esse dia com essa noite
não se pertencia. Achamos, de recrutagem, os cavalos que
pudemos – o que foram os dez, os burros e mulas também
contados. O seo Ornelas honrava os atos. Além do que quis que
eu falhasse, para a festa, com o meu povo; mas achei mais
sobressaído ir mesmo embora, exato. Semeei para trás de mim o
bom ensejo, para poder ser de vir a colher, mais para diante,
outros assim tão bons e melhores. Sincero o dito, a gente
agradeceu, subindo todos em selas, e a limpo seguimos – a
manhã ainda com diversas claridades. Seo Ornelas externou as
despedidas, com o x’totó de foguetes, conforme se lembrou de
mandar começar a soltação, cujos por bem uma meia-dúzia. O
pessoal deu vivas, gloriando o mastro com a bandeira do santo.
Ao que, pelo mais, puxei em frente, pondo meu cavalo: com
espora, rédea e pernas. Deciso.
Rompemos umas duas léguas, em estradas de muita areia.
Mas eu já estava agastado. O que nesta vida muda com mais
presteza: é lufo de noruega, caminhos de anta em setembro e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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outubro, e negócios dos sentimentos da gente. Assim, de repente,
eu achei: que a conversa com aquele seo Ornelas tinha me
rebaixado. Aos poucos eu tivesse perdido a vigiação de minha
alçada, no acaso da presença dele, debaixo daqueles telhados. A
opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas, sorrateira, e se
mescla aos tantos, mesmo sem a gente saber, com a maneira da
idéia da gente! Se sério, então, um tinha de apertar os dentes,
drede em amouco, opor seus olhos. A cuspir para diante. Alguma
instância, das outras pessoas, pegava na gente, assim feito
doença, com retardo. Apartado de todos – era a norma que me
servia – no sutil e no trivial. A culpa minha, maior, era meu
costume de curiosidades de coração. Isso de estimar os outros,
muito ligeiro, defeito esse que me entorpecia. O tanto que, daí
depois, essas pessoas andavam em minha desilusão: de repente
todos estavam endoidecendo... Do agravo, como ia em pensar,
achei asperezas até na goela; e o cuspe não cabia em minha boca,
salgado como um suadouro de cangalha. Aí então, estou
lembrado, vendo como vi o Alaripe de mim a curta distância – e
que, em tudo comedido, guardava o balanceio brando no coxim
da sela, de vaqueiro de gado tangedor. Chamei para ele vir.
- “Ah, o velho entregou os cavalos, hem, Alaripe? Coração
dele aguou...” – blasonei. - “... Deu por paz. Alaripe, ei, essa paz
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 661 –
não te enjoa?” - “Ah, é deveras... A uns, é o que sucede...” - “Mas
a paz não é boa? Então, como é que ela enjoa, assim mesmo?” -
“Natureza da gente, mal completada...” - “Tudo tu vê, Alaripe: eu
acho que o enjôo da paz será também algum outro medo da
guerra...” - “Pode que seja.” - “E mas só o medo da guerra é que
vira valentia...” - “Mal bem não entendo, meu chefe, mas deve de
ser...” - “Pois não é? Só quando se tem rio fundo, ou cava de
buraco, é que a gente por riba põe ponte...”
Assaz essas coisas, eu inventava em fala, para ter meus
eixos, meus aços. A boca do boi quer sal – o sal do barro
vermelho. Eu estava chamando umas bizarrias. Força dessa
minha maneira: eu estava pelo calor de tudo. E a gente ia indo,
aquela comprida cavalhada. Um ribeirão raso e estreito se passou
– nem bem seis braças. Riacho desses que os que vão morrer
chamam de rio-Jordão. Todo o mundo passou, por tanto, diante
de mim, eu esbarrado em pé – isto é, a cavalo.
A virar o ar, viemos; em caminho não se descansou um dia.
Agora eram os brejos da beira do Paracatu. Mas eu tinha
conseguido encher em mim causas enormes. Dispor do ror
daquilo eu não conciliava, conforme perseguia, custoso,
vermelho meu. Somente quis, nem podia dizer aos outros o que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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queria, somente então uns versos dei, que se puxaram, os meus,
seguintes:
Hei-de às armas, fechei trato
nas Veredas com o Cão.
Hei-de amor em seus destinos
conforme o sim pelo não.
Em tempo de vaquejada
todo gado é barbatão:
deu doideira na boiada
soltaram o Rei do Sertão...
Travessia dos Gerais
tudo com armas na mão...
O Sertão é a sombra minha
e o rei dele é Capitão!...
Arte que cantei, e todas as cachaças. Depois os outros à
fanfa entoaram – mesmo sem me entender, só por bazófias –
mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu
rompante; cantavam melhor cantando. De todos, menos vi
Diadorim: ele era o em silêncios. Ao de que triste; e como eu ia
poder levar em altos aquela tristeza? Aí – eu quis: feito a
correnteza. Daí, não quis, não, de repentemente. Desde que eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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era o chefe, assim eu via Diadorim de mim mais apartado.
Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em
quieto as coisas chamam a gente. E já se estava antefrente do
Paracatu – que também recovava o pouco e escasso. Esbarrei
não, nem examinei o adiante. Demiti meu cavalo n’água. Os
outros me acompanharam. Assim atravessamos.
Vai, viemos, viemos. Esses dias em ondas. Sei só as
encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de ferro. E era a luanova.
Aquelas pedras brancas, que de noite tanto esfriam. As
caraíbas estavam dando flor. Por ponto de meu corpo, medi o
enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um
vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: - “Amigo o amigo, aqui é
aqui?” Ao que ele confirmou: - “Aqui, o senhor, meu senhor, os
senhores estão nos andares do rio Urucuia...” Aos campos. Sentei
que estava. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão.
Tanta doideira fiz? A prazo. Como aquela vista reta vai longe,
longe, nunca esbarra. Assim eu entrei dentro da minha liberdade.
Oi, grita, arara, araraúna, para a tua voz desenrouquecer! O
Chapadão é uma estada, estando. Somente eu sabia respirar.
Sumo bebi de mim, e do que eu não me tonteava. Só estive em
meus dias. E ainda hoje, o suceder deste meu coração copia é o
eco daquele tempo; e qualquer fio de meu cabelo branco que o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo – sem traslado...
Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras de
claridade... Acho que foi assim.
Assim. Mas alguém me impediu. Ou era que mesmo desse
jeito tinha de ser? Urubus perpassaram, extremamente, e para o
poente vinham. Diadorim me chamou, pegando em meu braço.
Diadorim vigiou aquelas diferenças: ele temeu; temeu por minha
salvação, a minha perdição. Ou foi que minha Nossa Senhora da
Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o
açoite de minha ação, ele me puxou, eu segurado, o propósito
para trás. Nas grimpas, naquelas, o significado duma coisa tive,
que depois lhe relato. Ah, só no azul do anoitecer é que o
Chapadão tem fim.
Foi na descida de algumas ladeiras, no se costear um
barrocão. Diadorim disse: - “Estou aqui, te vejo mesmo,
Riobaldo!”
Eu disse: - “Ah, não. Ah, paz!”
Ele disse: - “A uma coisa eu te digo, Riobaldo...” Eu disse: -
“Pois, fala.”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Diadorim disse – a voz dele se paliava: - “Por querer bem é
que eu falo, Riobaldo...” – feito o sussurro, nessas veredas, mão
mansa, de tardinha, descabelando o buritizal.
Eu disse: - “Vai dizendo!” ; falei uma segunda palavra.
A testa dele merujava, coisas grossas gotas – mesmo me
temesse? – aquele suor devia de se gelar. Aí era um aviso, que ele
queria me fornecer? Aí eu não queria ouvir o que fosse, de
repente eu não queria, eu não queria, fiz de ficar indignado. No
eu no meu, não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor
de mim, assim obedecessem. A chefia sabe chefiar. Por certo,
que, para a jagunçagem, os Gerais mal serviam. A pobreza
daquelas terras, só pobreza, a sina tristezinha do pouco povo.
Aonde o povo no rareado, pelo que faltava de água naquelas
chapadas; e a brabeza do gado, que caminhava em triste achar.
Desejar de minha gente, seria que se atravessasse o do-Chico – ir
em cata de vilas e grandes arraiais, adonde se ajustar pagas e
alugar muitos divertimentos. Conforme no renovável servisse: ir
aonde houvesse política e eleição. Sabia disso. Eu não era
pascácio.
Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta. E
mesmo eu sempre tive diversas saudades.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Reprazia, para mim, um dia reverter para o rio das Velhas,
cujos campais de gado, com coqueiral de macaúbas, meio do
mato, sobre morro, e o grande revôo baixo da nhaúma, e o
mimoso pássaro que ensina carinhos – o manuelzinho-da-troa...
Diadorim, eu gostava dele? Tem muitas épocas de amor. Amor
em perto, às vezes sossega, em muitos adiamentos – ao homem
da branca barba. - “Tempo de guerrear!” – eu disse, para Alaripe,
o Pacamã-de-Presas, o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias. Em
qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu mastro-deguerra?
Primeiro, então, por ali mesmo, na areia roxa, para tomar
o instinto do ar, a gente recruzava. Mas, dirá o senhor: e o
Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes, os
Judas? Sim, sei. Mas, eles, no meu ir eles iam vir, haviam-de.
Sabia isso era eu no coxim da sela, suor nosso. Seguindo, no raso
e no monte, das areias tirando brilhos. A mal o mundo serenava,
de tardinha, quando os jaós cantavam. Ou silêncio tão devassado,
completo, que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão
de um sino. Diadorim não me entendesse? Ele entendia?
Assim, eu tivesse muito ódio, Diadorim havia de me
entender. Mas eu estava acontecido. Por exemplo, vinha uma
boiada, que passou, no bombalanceio. Aqueles vaqueiros, esses
com os laços enrodilhados nas garupas, e que, por prazer,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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aboiavam. Apreciei de ver como todos souberam jeito de
esconder o medo que de mim deviam de ter. Boiada com rumo
na barra do Paracatu, salvante que mudassem de roteiro. Mas a
gente ia por lados contrários. Deles até carneamos duas reses. Se
assou carne na moda do povo dos Gerais – que era com espeto
de vara de folha-miúda, tanto tempo se esbrazeando para
estorricar, o naco de carne se torrava como um fumo, e o gosto
daquele cheiro se supria forte, só por si punha a boca da gente
aguando. Dada a mais cachaça ao menino Guirigó e ao cego
Borromeu: para eles falarem coisas diferentes do que certas, por
em si desencontradas, diversas de tudo. Conselhos me davam?
Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o
araticum, que – consoante o senhor escrito apontará – sobejam
nesses campos. Mas a minha sina formava o rebrilhar; em tudo,
digo ao senhor. Conforme fatos houve.
Da mulher – que me chamaram: ela não estava
conseguindo botar seu filho no mundo. E era noite de luar, essa
mulher assistindo num pobre rancho. Nem rancho, só um papiri
à-toa. Eu fui. Abri, destapei a porta – que era simples encostada,
pois que tinha porta; só não alembro se era um couro de boi ou
um tranço de buriti. Entrei no olho da casa, lua me esperou lá
fora. Mulher tão precisada: pobre que não teria o com que para
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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uma caixa-de-fósforo. E ali era um povoado só de papudos e
pernósticos. A mulher me viu, da esteira em que estava se
jazendo, no pouco chão, olhos dela alumiaram de pavores. Eu
tirei da algibeira uma cédula de dinheiro, e falei: - “Toma, filha de
Cristo, senhora dona: compra um agasalho para esse que vai
nascer defendido e são, e que deve de se chamar Riobaldo...”
Digo ao senhor: e foi menino nascendo. Com as lágrimas nos
olhos, aquela mulher rebeijou minha mão... Alto eu disse, no me
despedir: - “Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o
mundo tornou a começar!...” – e saí para as luas.
Aquelas obras, então, Diadorim não visse? Ah, conselho de
amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha
palmeando em lume-d’água. O amor dá as costas a toda
reprovação. E era o que Diadorim agora desfazia em mim, no
amargoso.
- “Repuno: que você está diferente de toda pessoa,
Riobaldo... Você quer dansação e desordem...”
Mexi meu cuspe dentro da boca.
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- “ ... A bem é que falo, Riobaldo, não se agaste mais... E o
que está demudando, em você, é o cômpito da alma – não é
razão de autoridade de chefias...”
Diadorim disse, e a voz dele, ecosa, me rodeou; as certas
sinceridades. Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da
gente, a qual é arraial escondido por detrás de sete serras? Aí,
demorei. Eu ia aceitar essa repreensão? Ah, nunca. E,
desaguardadamente, eu atinei com outro motivo, para opor: a
extratada conversa, que Diadorim tinha tido, adeparte, com o
arrieiro de uma tropa. Perguntei, contra: - “O segredo, com o
velho arrieiro da tropa, Diadorim, que se falaram – era de minha
pessoa?”
Essa tropa, que passara por nós, dias antes, rumava para o
Abaeté, com carga de fumo, mantas de borracha, couros de onça
e de lontra e cera de palmeiral, pouca coisa. Fossem atravessar o
rio, num porto; iam passar por terras minhas conhecidas, nos
sertões menores... Agora, eu queria saber.
- “Aquele levou um recado meu. Instruí o homem que
levasse um recado...”
- “Um recado, de mim? Aí hei, que?! Malfiz?!...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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- “Um recado. Mais tu não pergunte, Riobaldo: que, o que
fiz, foi.” Dizendo, Diadorim se arredou de mim, com uma
decisão de silêncio. Não vê, que nem precisava. Eu tinha
guardado meus ouvidos. Eu não queria escutar o reto, naquela
ocasião, por desânimo de ser. Diadorim tinha citado alma. O que
ele soubesse, não soubesse, não tinha ciência de coisa nenhuma,
da arte em que eu tinha ido estipular o Oculto, nas Veredas
Mortas, no ermo da encruzilhada... Aquilo não formava meu
segredo? E, mesmo, na dita madrugada de noite, não tinha
sucedido, tão pois. O pacto nenhum – negócio não feito. A
prova minha, era que o Demônio mesmo sabe que ele não há, só
por só, que carece de existência. E eu estava livre limpo de
contrato de culpa, podia carregar nômina; rezo o bendito!
Trastempo, mais outras coisas sobrevinham, mas por roda
normal do mundo, ninguém podia afiançar o contrário. Apus
pedra por sobre pedra, não guardo lembrança. Eu era o chefe.
Vez minha de dar comando e estar por mais alto. Zé Bebelo
tinha de todo desaparecido. Agora, o que se carecia, era de se
pegar mais munição. Todos deviam de me obedecer
completamente. Só eu não queria abusar. Por que não queria?
Ah, então, eu estava em dúvidas. Até por isso era que eu
estremecia, fino, no ouvir certas menções. A haver a coisa que de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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longe me ameaçasse, feito o vem-vem das nuvens de chuva. O
demo, mesmo assim, podia me marcar? Se não fosse, como era
que Diadorim viesse vir com aquelas palavras? Acho que eu não
era capaz de ser uma coisa só o tempo todo.
Do que Diadorim se estranhava, era do seguinte: tinha sido
o que aconteci com um sujeito senhor, um que disse se chamar
nhô Constâncio Alves, que topamos no Chapéu-do-Boi. E
também do desgraçado do homenzinho-na-égua, com o cachorro
dele, que vieram vindo, três léguas depois daquele. As coisas vãs,
esparramáveis.
De que tivesse neste mundo um tal nhô Constâncio Alves,
o que era que eu ponderava com isso? Mas ele mesmo ali
loguinho falou: que era nado no pé da serra de Alegres, e sendo
da minha primeira terra, também. Foi bem tratado. Mas disse que
podia ser de ter me conhecido, quando eu menino. Isso me disse
aquele nhô Constâncio Alves. Queria recompensas? Aos
princípios, não desgostei de prosear com um antigo assim,
compatrício, asseado em suas roupas e bem-vindo. Aí ele tomou
café, com a gente. A dar, que o homem foi se avontadeando,
encompridando as respostas; eu mesmo dava jeito para que ele
tomasse coragem.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 672 –
Até que, um certo momento, o pretinho Guirigó se chegou
sorrateiro, e emitiu em minha orelha. - “Iô chefe...” – arenga do
menino Guirigó, que às vezes bem não regulava. O capeta – ele
falou no capeta? Ou então, só de olhar para ele, e escutar, eu
pensei no capeta; mas, que era do capeta, eu entendi. Daí, de
repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos.
Aquele homem tinha quantia consigo: tinha consciência ruim e
dinheiro em caixa... – assim eu defini. Aquele homem merecia
punições de morte, eu vislumbrei, adivinhado. Com o poder de
quê: luz de Lúcifer? E era, somente sei. A porque, sem prazo, se
esquentou em mim o doido afã de matar aquele homem,
tresmatado. O desejo em si, que nem era por conta do tal
dinheiro: que bastava eu exigir e ele civilmente me entregava.
Mas matar, matar assassinado, por má lei. Pois não era? Aí,
esfreguei bem minhas mãos, ia apalpar as armas. Aí tive até um
pronto de rir: nhô Constâncio Alves não sabia que a vida era do
tamanhinho só menos de que um minuto...
Ah, mas, então, do sobredentro de minhas idéias – do que
nem certo sei se seja meu – uma minha-voz, vozinha forte
demais, de tão fraca, suministrou um cochicho. Foi. Em tão curta
ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um recanto
tem, miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de entrar, então, em meus grandes palácios. No coração da gente,
é o que estou figurando. Meu sertão, meu regozijo! Que isto era
o que a vozinha dizia: - “Tento, cautela, toma tento, Riobaldo:
que o diabo fincou pé de governar tua decisão!...” A anteguarda
que ouvi, e ouvi seteado; e estribei minhas forças energias. Que
como? Tem então freio possível? Teve, que teve. Aí resisti o
primeiramente. Só orçava. O instante que é, é – o senhor nele se
segure. Só eu sei.
Mas, aquilo de ruim-querer carecia de dividimento – e não
tinha; o demo então era eu mesmo? Desordenei quase, de minhas
idéias. Eu matava um tiquinho, só? Em nome de mim, eu não
matava? Só forcejei por sobrenadar alto em mente o mando
daquela vozinha. Ru, eh, masquei meus beiços, eu arrebentasse.
Vi que acabava tendo de matar, e era o que eu mesmo queria.
Como que tivessem espalhado, ombro com ombro, pelos inteiros
cabíveis do Chapadão, os diabinhos, mil e mil, tocando lindas
violas – para acabar com o que eu mesmo me falasse, e de mim
quisesse por valia me entender, contra o que o demônio-mestre
tinha determinado... Sendo que mal resisti, nas últimas, saiba o
senhor. Ah, mas. E é preciso, por aí, o senhor ver: quem é que
era e que foi aquele jagunço Riobaldo! Pois em instantâneo eu
achei a doçura de Deus: eu clamei pela Virgem... Agarrei tudo em
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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escuros – mas sabendo de minha Nossa Senhora! O perfume do
nome da Virgem perdura muito; às vezes dá saldos para uma vida
inteira...
Súbito sendo – pois, pois – que um recurso eu tive, e por
uma greta me saí, levando a salvo comigo o desgraçado nhô
Constâncio Alves. O conforme foi: que isto eu espiritei: que fazia
a ele uma pergunta. Respondesse a mal, morresse; mas, de outro
jeito, recebia perdão. Aí a pergunta seguinte: - “Se sendo que o
senhor é de minha terra, a pois: conheceu um homem que se
chamava Gramacedo? Será, o senhor é parente dele?”
Só esperei. Ele dissesse que tinha conhecido o outro, e, aí,
morria, por eu não poder não-matar; por quanto a salvação dele
mermava, que nem morrão de candeia. E assim, com obrigação
minha mesma, eu tinha para sempre combinado.
Mas nhô Constâncio Alves era para ganhar, no azo daquilo,
pelo que deu, de resposta: - “Gramacedo? Sinto dizer, mas esse
eu nunca vi, nem dele ouvi falar. Tenho parentescos com
ninguém de tal nome...”
A minha mão já tinha estado para o revólver, brandamente.
Nhô Constâncio Alves percebeu o mal-amém. Confuso como se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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rebaixou um pouquinho no tamanho: ele devia de estar abrindo
os joelhos, por tremor de medo nas pernas. Aí ele mesmo então
achasse que carecia de muito morrer? – num pingo eu pensei,
traiçoeiro. O medo mostrado chama castigo de ira; e só para isso
é que serve. Ah, mas – ah, não! –; eu tinha decidido. Tinha ou
não tinha. Eu? Assim, noutro repingo: arejei que toda criatura
merecia tarefa de viver, que aquele homem merecia viver – por
causa de uma grande beleza no mundo, à repentina. Um anjo
voou dali? Eu tinha resistido a terceira vez. Agora, nhô
Constâncio Alves estava delivrado de perigo. Só que eu gritei: -
“O senhor tem seu dinheiro?”
Ligeiro, novo, o homem caçou com suas mãos o
surrãozinho, que abriu: estava cheio de notas, bem enroladas e
embrulhadas num pano; e assim me dava, me presenteava. Mirei
aquele triste pescoço. O que em seco ele foi engolindo: que
podiam ser as contas todas dum terço.
Aproximei o cobre. O ele, nhô Constâncio Alves, deixei
que fosse embora. Nem espiei – para dele não ver as costas. Mas,
aí, então, para me pacificar e enterter o Outro, eu tive de falar
alto: - “Perdoei este; mas, o primeiro que se surgir, destas
estradas, paga!” Eu disse. Eu ia cumprir?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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De seguida, o primeiro veio, logo mais adiante; quase no se
inteirarem três léguas. Conforme houve fatos, coisa que se
passou. E foi numa várzea, com uns boizinhos ali bem pastando.
Demos com um sujeito, aparecido viajor. Ele vinha numa égua.
Essa égua era acastanhada, com alguma altura. Aqueles arreios,
de velhos, era que desfaziam. Um cabo da rédea estava sendo de
couro, mas o outro de sedenho. A égua também cambaiava. O
homem tinha cara de focinho, avançando o formato dos ossos da
boca: não tinha queixo. Desgraçado desse homem, pelo que em
sua vida ia ser, pelo que seus aspectos indicavam. Nem merecia
dó, assim achei. Mas, na companhia dele, atrás, vinha também
um cachorrinho.
Eles esbarraram. O cachorrinho pegou a latir, nesse ofício
que quase todo cão tem, de ser presumido valente. O homem
bambeou de si, em cima da égua, ele estava pecando de pavor.
Como que, num só relance ele transformou três caras. E para o
pretinho Guirigó me virei, por perguntar: - “Aqui, este, deveras
eu mato?”
- “Senhor mata? Senhor vai matar?” – o pretinho só se saiu
pelos olhos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ao que escutei queixos e dentes do homem bater. Súdito
indivíduo assim não tinha ação de voz nem tirava um suplicar.
Tudo o que não sabia, ele adivinhava. Previsse que ia morrer só
para indenizar do perdão dum outro, só por preencher o lugar
que devia de ser o do nhô Constâncio Alves?
Ah, não. Agora, a vontade de matar tinha se acabado! Sei e
soube: por certo que o demo, agora, escondia sua intenção, por
desconfiar de que eu não fosse querer cumprir. Com ele, meu
senhor, assim é: sempre escolhe seus estilos. Ao mais, dessa vez,
ele sabia que não carecesse de me azuretar. Sabia que eu estava
até com enjôo da situação daquele homem da égua, meu gosto
era permitir que ele fosse s’embora, forro de qualquer castigo.
Mas sabia igual que eu estava na estrita obrigação de matar –
porque eu não podia voltar atrás na promessa da minha palavra
declarada, que os meus cabras tinham escutado e glosado. Ah, o
demo bem me conhecia!
Devia de estar no astuto, ali por perto, feitor, se
pagodeando de mim: querendo ver bem boa execução, do meu
dever de crime. E o homem da égua o nada de tudo espiava, por
mais inteiriço não se ser se forcejava, e um espírito de silêncio ele
gemia. Aí onde era que estava o anjo-da-guarda dele? Aí tinha de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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morrer. Carecia de morrer, porque o diabo, por novas voltas, no
nó de compromisso tinha me pegado; e porque outro ao-menosremédio
não havia. O cachorrinho por sua vez entendia isso, e
latiu, cainhava, ganiz; mais conseguido do que o dono ele sabia
dar de gemer. Mas eu estava pensando redobrado.
Como era que eu ia matar aquele sujeito, anunciado de
pobre, e matar em vez de um outro, sadio em bojo, e rico?
Aquilo era justiça? Vai ver, ele nem conhecesse o nhô Constâncio
Alves, nem soubesse quem fosse. Era justiça? Era possível? Eu
pensei. O que era que Zé Bebelo, numa urgência assim, no arco,
inventava de fazer? Eu tinha a preguiça de falar perguntas.
Os outros, parados em volta, esperavam, por apreciar.
Ninguém não tinha pena do homem da égua, mirei e vi.
Consideravam de espreitar meu procedimento. A afleima de
assim loguinho ter de botar e ouvir minhas palavras no ar, me
agravou. E foi então, para retardar os momentos, que ao cego
Borromeu eu indaguei: - “Seja o que, companheiro velho? E eh lá
isso?...”
Atabafado. Até porque, de pedir avisos a um cego, assim,
em públicas varas, eu tivesse de me vexar.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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- “Se é se é, Chefe? A-hem? Se é o que mecê sumeteu,
enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal?” – sem-termo
do cego me respondeu, sem-razão. Ao que eu tinha trazido
aquele comigo, para a nenhuma utilidade. - “Senhor mesmo é
que vai matar?” – o menino Guirigó suputou, o diabo falou
como uma flauta. - “Te acanha, dioguim, não-sei-que-diga! Vai
sebo...” – eu ralhei. Onde os outros riram rabo.
Mas, entre isso, o homem condenável, em cima da égua,
amontado sempre, chorava por si mesmo, sensato sério; chorava,
decerto, o ter crescido de sua longe meninice. Nem perguntei o
nome dele, nem donde era que era. Um naqueles casos, de nada
carecia nem necessitava. A cara dele, pelo malaventurar, se
quebrava das formas e cor, e perpassava – ele era um ser com a
cara desmanchada. Aí o Acauã, por um gesto de aviso meu,
assestava nele, sobrestante; porque, mesmo no magoar do terror,
por vez um se assopra de adoido, dá bote, dá nas armas.
Agarrado todo na égua, só encolhido, encarapitado – o pobre.
- “Vai sebo!” – eu tornei a xingar o menino-de-infância.
Adforma que eu tinha de resolver. Antes ligeiro, para os
meus homens não me acharem aparvo. Ou o demo. O demo?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ainda que muito eu sei. Agora esse se prespiritava por lá, sabível
mas invisível; e ele estava se rindo de mim, meu próximo.
Ah, não! Somei que tive pena do homem? A cachorrinha se
latia. Mas, como era que eu podia atirar numa triste pessoa
daquelas, que semelhava com os ombros debaixo de todas
ventanias? A cachorrinha perturbava os cavalos. Aperto do dever
que eu tinha de cumprir, de editada palavra. Ou eu temi também
o Tranjão, o Tibes, o Cujo, que eu mesmo ajustara por meu
vigiador? Seja o que; hoje mais rezo. O homem nas costas da
égua, desinquieta, que agora dava debate. Decerto porque, animal
de montada, no que percebe aquele humano pavor alheio, o todo
desprezo ao cavaleiro está obrigado a demonstrar. Conseguinte
que, sobre assim, todos riram mais: - “Oé, eh, ele já está se
deixando!” – algum reparou. Se via? Se o homem dera de obrar,
mesmo permeando para a sela, que se sujava? Às caçoadas,
constavam de querer ver aquilo. Daí, o cachorro, por resguardo
de seu dono, agrediu os cavaleiros – com qual a latição dele, e os
arreganhos, os cavalos de uns desgostavam e se empinavam, por
reboliz. O homem, mesmo, era que se franzia, no não dizer, não
desbobeava. Ah, e Zé Bebelo! – repentino relembrei, as remotas
vezes. Os cavalos saltando assim, os cavaleiros bramando:
recordação de Zé Bebelo. Só Zé Bebelo servia para apurar um
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impedimento desses, no deslindar. Onde ele? Ah! Ah e foi aí –
então – que estouradamente achei: fortes idéias! Rapatrás,
fazendo meu cavalo também se arquear e empinar, às patas – eu
disse. Disse, que bradei – num entusiasmamento daqueles
mesmos de Zé Bebelo – a fala igual à de Zé Bebelo, na baralhada
em pompa dos animais, arre crinas, na arroubagem de arruaça.
Eu pronunciei: - “Rai’-a-puta-pô! Não tenho que matar este
desgraçado, porque minha palavra prenhada não foi com ele:
quem eu vi, primeiro, e avistei, foi esse cachorrinho!...”
Só um assarapanto de silêncio. Daí, me vivavam. Todos
entenderam, me admiraram. A tanto que sei. Agora, eu, digo ao
senhor: dele, do Demo – naquele instante – agora era eu quem
ria!
- “Ei-ei, gente, segura o cão!” – dei ordem. Num trêstempo
a cachorrinha estava pega, se esbrabejava. No que uma
peia, um laço ou um cabresto, eram desconformes para isso,
então o Pacamã-de-Presas e o Jiribibe arrumaram uma jarda de
fina corda, com ela se amarrou o bichinho num pé de assa-leitão.
- “Não deixem ela uivar... Não deixem ela uivar...” – foi o que o
cego Borromeu disse, pelo modo ele tinha medo de uivado de
cachorro. - “A bom, cachorro a gente enforca...” – o menino
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Guirigó deu atrevimento de ensinar. Mandei que esse menino
fosse para mais longe, perder as influências. Deram uma palmada
na anca do cavalo dele, que o João Vaqueiro puxou, para ir exilar
os dois em boa conveniente distância.
- “Um cachorro, quando se enforca, chora lágrimas – os
olhos dele regulam com os de gente...” – foi o que o Alaripe
disse, com simples voz. A tudo, pensei. Agora, matar aquela
cachorrinha? O que menos eu pudesse, só mesmo por pragas.
Pelo tanto que a cachorrinha se prezava correta, latindo tão
relatado. Ah, não! Ah, não, não matava. Mais, por aí, eu também
já tinha aprendido – das sutilezas. Tornei a transdizer: -
“Adoude!... E nem não foi essa cadela. A égua, essa é que foi – a
que primeiro deu nas minhas vistas!”
Real, mudando o propósito – e para que isto bem se
entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos; quem é que
ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui: eu falando, ficava
sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com
outra pressa. - “Desapeiem o homem, mandemos embora, que se
vá!” – em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem
entendimento das coisas, sem ação. Transes que em instante
temi: aquele homem morresse, roqueado no medo, rebaixado
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dessa forma – então, ah, aí, então, o destino de lugar, para mim,
estava definitivo: só sendo nas extremas do fim do Inferno...
Com jeito, com asco, uns dos meus cumpriram meu mandado,
desamontaram o homem, e o homem quase nem se impunha de
ficar em pé. - “Tu foge fora daqui, tu te vai embora!” – eu disse,
tive de gritar. Aí ele entendeu, e saiu. Por um momento, pensei
que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora era
que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços
fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma
sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas
resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele,
que tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou,
outra vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se
sacudiam. Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim
a estúrdia arfagem de chorar também – eu nas margens do mar.
Não quis e nem pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam
em escuro. As graças d’arte – sabe o senhor : na escuridão, não se
chora, por não se ver, como não se pita cigarro... Com isso,
desgostei de mim. Ah, no final da vez, o que ria o riso principal
era ele, o demo. O Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu,
mesmo por querer salvar a vida dele, eu tinha procedido de
demorar assim, com aquele homem. Antes tivesse logo matado.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Como é que se podia desrespeitar tudo desse jeito, numa
desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o homem não tinha
vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua cachorrinha. E
a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade. Tanto ela
não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora eu
colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta
daquele homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais
para adiante, de pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí já tinham desarreado
a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram dependurados num
galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele magro animal,
preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava; assim
esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse
outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha,
essa, eu pensei: eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo
tinha ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha
acertação, mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha
começado a desastrada estória, que um final razoável carecia de
ter. Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que
se debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Ao que o Fafafa, que não teve poder em si de se consentir
silêncio, virou para mim, e disse: - “Nosso Chefe, com vênia eu
peço: o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o preço deste
inocente animal, que seja poupado... A egüinha não é de todo
ruim...”
Aonde que ele disse, outros secundaram: eu deixasse.
Repente meu foi meio irado; porque até o Fafafa me atravessava.
Os demais, a ver que reprovavam minha decisão, de que a égua
se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em seguida, gostei,
eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu pessoal
discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do demo
era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que, assim,
como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver.
Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi
um recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei: -
“Delibero o certo: o primeiro que eu vi, foi essa égua. Ela tinha
de receber a morte... Ah, mas égua não é gente, não é pessoa que
existe. E que? Ah, então, não é cabível que se mate a égua, por
tanto que a minha palavra decidida era de se matar um homem!
Não executo. A alçada da palavra se perdeu por si e se gastou –
pois não está dito? Acho e dou que o negócio veio ao
terminado.”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Verdadeiramente, com alegria, foi que todos me aprovaram.
Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza de toda
solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas
espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente,
tanto, e descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas
coisas, de certo modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na
outra, eu limpei o seco de minhas mãos.
- “Aí, correr alguém, em tempo de campear outra vez esse
homem...” – eu disse. - “Trazer, a modo de se dar a ele dinheiro,
se dar de comer e um café, e tornar a entregar a ele o que é
dele...”
Eu falava era por devolver a égua. E o Suzarte, José
Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo homem. A
égua, que se soltou, caçava moitas de capim, para pastar. Com o
que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa aguada
na vereda perto, o jacaré armou a trempe e coou café. Sentei, na
sombra dum pau-doce, fiquei ouvindo os gabos que os em redor
de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
- “Tal a tal, o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que
o Zé Bebelo próprio...” – um disse.
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- “À fé, que determina com a mesma justiça que-Medeiro
Vaz...” – outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha perturbação. Aquela
hora, eu estimava meus homens, que vivessem, que falassem.
Mas, para afirmar idéia e respeito de que eu estava em minha
chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia
aproveitar para uma sesta de soneques. Aprazia escutar o
ventinho do chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas
folhas do bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se
sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela
pedaços de carne-seca. Alembro que eu ainda podia caber nesse
domingozinho de tranqüilidade. O melhor – ah, pensei, o melhor
de tudo! – era que o Anhangão não aparecesse, não se visse
porfiando no meio de todos; e que mesmo o mais certo era d’ele,
demo, não competir, por não ter nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte, Jiribibe e José
Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o resultado
algum. - “... Sujeito se sumiu nesse mundo, carregando com o
rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada dele...” –
assim rendiam explicação. Que é que se podia remediar? Seguir
nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a égua ali,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de outros
tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? - “Reinaldo, essa tu
quer?” – perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor
respondeu: - “Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai
se encontrar com onde estiver o dono...” E ele mesmo desatou.
Valia o senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha:
que latiu suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora,
feito fosse para um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe
desaparecer, e nós tocamos, no caminho contrário. A égua ficou
lá, pastando; e o arreio do homem, como um espantalho,
pendurado no ramo de árvore, até as moscas do campo já se
ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante.
Eu ia, à meia~ rédea, não me instava, não pensava. Será – mal
pergunto eu ao senhor – que viajei este sertão com o Outro
sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo de entender
como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso é
que tinha sido a nossa conversação – por causa do de que agora
lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que derradeiro ele me
disse, me ficou um retardo. Aquele passo me envergonhava.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Como ser? Eu queria e não queria ouvir – não queria e queria.
Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação. E eu
quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido,
perguntei: - “O recado mandado, Diadorim, tu diz. Teu falar no
exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras exijo – o que me
reverte!...”
- “Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao
arrieiro para dar a uma mulher...”
- “Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro
da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha noiva; será?”
- “Riobaldo, pois foi. Em que é que você malda?”
Ao que, por praga, eu relutei no freio. Até o campolino
meu cavalo assumiu um espanto. Porque surpreendi o mundo
desequilibrado rústico, o que me pertencia e o que não me
pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja, então que
segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava.
Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por
mim era de todo quilate: ele não tartameava mais de ciúme nem
de medo. Disse assim: - “Pedi a ela que rezasse por você,
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Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que
não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...”
No argame, no esquisito desgosto de meu espírito, vi que,
mesmo antes dele falar, eu já sabia que aquilo era – o que ele não
evitava de me dizer. Rude que ainda reperguntei, mesmo assim: -
“Ah, não! Ah, você acha que eu careço de suas rezas orações, por
minha ajuda, Diadorim?”
- “Acho, de manhã à noite, Riobaldo... Demais. Nem sei
mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe, mesma, que
estivesse viva, achava...” Mor, mor, aí, recebi surto de meu
sangue, forte, no corpo da cara e na beira das orelhas, e logo
doeu no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para
não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa.
Com um tapa na rédea, eu tirei de perto dele a cara de meu
cavalo.
- “Acha tua vida, rapaz! Careço é de menos amizades...” –
ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem pensei: – Hás-de!
Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com chumbo fino... – e
ri mamente. O que era que me transtornava, do meio para o fim,
por essa fraseação?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Sendo que, depois logo, quando esbarramos a caminhada
do dia, eu fiz questão de não querer prosa nem presenças de
ninguém, para que vissem que eu estava pensativo de projetos, e
raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do Chapadão, longe
no poente, segundo se ia indo, por meu comando. As muitas
sérias coisas referi comigo quando eu estava provando a fresca da
tarde.
Por curto: minto, se não conto que estava duvidoso. E o
senhor sabe no que era que eu estava imaginando, em quem. Ele
é? Ele pode? Ainda hoje eu conheço tormentos por saber isso;
trastempo que agora, quando as idades me sossegam. E o demo
existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio –
feito remanchas n’água. A saúde da gente entra no perigo
daquilo, feito num calor, num frio. Eu, então? Ao que fui, na
encruzilhada, à meia-noite, nas Veredas Mortas. Atravessei meus
fantasmas? Assim mais eu pensei, esse sistema, assim eu menos
penso. O que era para haver, se houvesse, mas que não houve:
esse negócio. Se pois o Cujo nem não me apareceu, quando
esperei, chamei por ele? Vendi minha alma algum? Vendi minha
alma a quem não existe? Não será o pior?... Ah, não: não declaro.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Desgarrei da estrada, mas retomei meus passos. O senhor
segurado não acha? Ao que tropecei, e o chão não quis minha
queda. De hoje em dia, eu penso, eu purgo. Eu tive pena de
minhas velhas roupas. E rezo. Para a minha reza, Deus dá as
costas, mas abaixa meio ouvido. Rezo. Queria ver ainda uma
igreja grande, brancas torres, reinando de alto sino, no estado do
Chapadão. Como que algum santo ainda não há de vir, das beiras
deste meu Urucuia? E o diabo não há! Nenhum. É o que tanto
digo. Eu não vendi minha alma. Não assinei finco. Diadorim não
sabia de nada. Diadorim só desconfiava de meus mesmos ares.
Escuto o claro riso dele, que era raramente; quer dizer: me
alembro. Compadre meu Quelemém me dá conselhos, de
tranqüilidade. O que ele renova é: - “... Em presente e futuros...”
Eu sei.
Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o
que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo
significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que
era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito,
de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a
gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que,
sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse
norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e
cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a
certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência,
tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer,
o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e
é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivivel
mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua
continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para
cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num
papel...
Ora, veja. Remedeio peco com pecado? Me torço! Com
essa sonhação minha, compadre meu Quelemém concorda, eu
acho. E procurar encontrar aquele caminho certo, eu quis,
forcejei; só que fui demais, ou que cacei errado. Miséria em
minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus: se não, como é
que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer
oração. Olhe: tudo o que não é oração, é maluqueira... Então,
não sei se vendi? Digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não
vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu
vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é
este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum
comprador...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Divulgo o meu. Essas coisas que pensei assim; mas pensei
abreviado. O que era como eu tivesse de furtar uma folga nos
centros de minha confusão, por amor de ter algum claro juizo –
espaço de três credos. E o resto já vinha. O senhor verá, pois.
Porém mais além.
Na Serra do Tatu, o frio ali é tal, que, em madrugadas, a
gente necessita de uns três cobertores. Na Serra dos Confins,
meados de julho, lá já está sovertendo o laçaço dos ventos,
desencontrados, de agosto; como que venta: árvores caídas.
Aonde eu ia, todos achavam natural. Chefe é chefe. Será que eles
não sabiam que eu não sabia aonde ia? Isto é – digo – isto é. Não
soubessem os começos e os finais. Dalgum modo, eu estava indo
e sabendo. Sobre como é que a coruja conseguiu modo de poder
voar sem se escutar o rumor do vôo? Ao que eu estava
sofismado. Menos que não guardei raiva de Diadorim, nem
sentimentos. O desar que ele tinha falado e feito, aquela ruim
conversa nossa, não deixou nem nublo: melhor fugiu, de todo, de
minha lembrança.
O palpite meu, primeiro, era de chegar até na Serra do Meio
– cruzar na Cachoeira-do-Urucuia. Daí, desisti. De repente, torci
direto para o norte; foi no Lagamar, a travessia. Mas, fujo de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dizer: que, antes, no Lugar-doTouro, se arrecadou a exata
munição. Ainda antes se dando, dias, que a gente tinha recebido
uma boa surpresa. O Quipes!
Assim o Quipes, que retornava, depois de tantos meses. De
desde que tinha cumprido a ordem de sair por travesso socorro,
de lá ondonde estávamos cercados em combates, na Fazenda dos
Tucanos – o senhor se alembrará. Ele vinha certo e alegre. E, de
ver um companheiro assim se aparecer, de ausências, a gente
ganhava mais mocidade.
Lampeiro, o Quipes entrado em boas roupas, montado
num bom cavalo amarelo, pitando maço de cigarros de fábrica;
rico feito um Mascarenhas. Arte que puxava um burro e uma
burra, adestros, e tinha comprado coisas: até trempe e caçarolas,
e açúcar real e chocolate em pó. Ao fagueiro, pujante, mesmo.
- “Ara, veja, como passou? E dond’ é que soube de nós?” –
eu em atiço perguntei.
- “Ao que pois, Tatarana: em faltas de notícia, formei meu
pião por aí... Já estive em Ingazeiras, na Barra-da-Vaca, no Oi-
Mãe, em Morrinhos... O Urucuia não é o meio do mundo?” –
assim ele se temperou.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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O que não era toda a verdade. O que ele estava era recémchegando.
E me tratou de Tatarana... O seja que tivesse vivido
esses tempos tangendo urubu, adformas que vinha agora na
ignorância de que eu é que era o Chefe. Indagou por Zé Bebelo;
e pois de Zé Bebelo mesmo ele tudo não sabia. Nem o parar do
Hermógenes. Nem não tinha nenhum sinal do Joaquim Beiju,
assim como aviso de outras novidades do mundo não deu. Só,
por terminar, se gabou de ter tido duas ofertas: para servir de
jagunço de Dona Adelaide, no Capão Redondo, e do Coronel
Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte.
- “Ah, entrei, gozando de minha pessoa de paz, até nas
cidades de Januária e São-Francisco...” – ainda proseou. Devia
de.ser verdade. Assim como verdade completa que, a burra e o
burro, e a tralha, ou o dinheiro para tudo adquirir, ele devia de ter
roubado tomado em terra de riquezas.
Tal que disse: - “Isto eu bem comprei, na venda do José
Vassalo...” Desajuizado gastador, esse o Quipes.
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde que então, eu varava
mundo, em comando, e ainda não prezava o meu nome. Eu – o
Urutu-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser o que não dava
realce – qualquer um podia, fazendeiro com posses, mão em
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada,
glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O
menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras
batalhas. Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou
será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? – Cigano
sou? – eu pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei
ordem. Aí torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos
beirando o Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu
tencionava fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo
– o recado enviado. Mas, à vez, balancei uma inquietação,
daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão dele de tanto
absurdo. Essas desordenadas da vida da gente: tudo o que
estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável
explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio
do meio duma coisa eu tinha certeza: que Diadorim não ia me
mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim
me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília
assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu
coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia
também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança
em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, da Santa Catarina,
mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando.
Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de momento eu me arrepiei por
trás da testa. Ato do que meio confuso imaginei, por um vão
imaginar: que, me querendo-bem – a mais de meu merecimento
– e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela Otacília pudesse
praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir
aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão...
Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de
repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza
real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando
de meus homens... Assim, de jeito tão desigual do comum, minha
vida granjeava outros fortes significados. E isso variou em meu
pensamento, inesperado de ligeiro supor, que, a bem notado,
nem foi um pensar. Arremedo de sonho, também, não seria de
ser. Então, emendando de novo o vero juízo, tive um receio: por
causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir, rumo
de profecias.
Otacília – me alembrei da luzinha de meio mel, no demorar
dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém tinha me contado
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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que assim eram assim, para gozo e sentimento. O corpo – em lei
dos seios e da cintura todo formoso, que era de se ver e logo
decorar exato. E a doidice da voz: que a gente depois viajasse,
viajasse, e não faltava frescura d’água em nenhumas todas as
léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força que
era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o
recado na verdade fosse outro – o para ela vir, afoitamente, que
eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era
extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa
humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode
mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um
diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! – digo.
Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós – que
seguimento de coisas havia de suceder?
A bobéia, toleima. Otacília estava guardada protegida, na
casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe,
com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe
neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia tocava
com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado de
donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim,
mire veja. O senhor saiba – Diadorim: que, bastava ele me olhar
com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 700 –
vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele,
do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha
mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo
hoje, naquele tempo eu não sabia.
Máximo me lembro é de que, na minguante, se estava no
veredal das cabeceiras de um córrego, lugar de desmedidas
pastagens, adonde os cavalos usufruírem descanso. A lá
esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever
uma carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um homem, dos
ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha noiva, trazia a
resposta. O que eu cogitei de escrever era muito singelo: as
notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os
parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que
achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por
oras. Por quê? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também:
mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade
muito dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não
tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu
digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 701 –
fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e
remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê?
Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo.
Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite-esse é o
motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não
entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez.
Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto,
já venho – falar no assunto que o senhor está de mim esperando.
E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim, vestido com um
paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de pau abertos
em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê e não
vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor
nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato...
O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão,
lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não
fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de
se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele
vazio assim, como é que eu ia dizer: - “Te arreda desta minha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 702 –
conversa!”?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase
que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de
Diadorim: – que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse...
Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração: não pude.
Não pude, diabralmente, desarrazoado – por outras fortes
ordens... –; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar
querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila
aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no
que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era
um impossível. Demiti de tudo.
O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era
em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era
dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é
o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu remorso.
Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que
eu acordava e ainda não abria os olhos: eram só os minutos, e, ali
durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado.
Assim: – Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela...-isto
eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto: como havia de
escapulir dele, do Temba, que eu tinha mal chamado. Ele
rondava por me governar? Mas, então, governar pudesse, eu não
era o Urutu-Branco, não vinha a ser chefe de nada, coisa
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 703 –
nenhuma! Ah, eu carecia dum jeito, dum esperto socorro, para
tentear com o Sujo em suas próprias portas, e mediante me pôr
livre de fim fatal. De que modo?
Mas acontece que o instante entre o sono e o acordado era
assaz curto, só perpassava, não dava pé. Eu não podia me firmar
em coisa nenhuma, a clareza logo cessava. Daqueles avisos e
propósitos, o montante movimento do mundo me delia, igual a
um secar. E eu mesmo estava contra mim, o resto do tempo.
Não estava? Todo o mundo, cada dia, me obedecia mais, e mais
me exaltavam. Com o que peguei, aos poucos, o costume de
pular, num átimo, da rede, feito fosse para evitar aquela
inteligencinha benfazeja, que parecia se me dizer era mesmo do
meio do meu coração. Num arranco, desfazia aquilo – faísca de
folga, presença de beija-flor, que vai começa e já se apaga – e daí
já estava inteirado no comum, nas meias-alegrias: a meia-bondade
misturada com maldade a meio. Agora levantava, puxava e
arreava meu Siruiz, cavalo para alvoradas. Saía sozinho.
Sair na escuridão, o senhor sabe: aqueles galhos de árvores
batendo na cabeça da gente. Sempre eu ia até longe; quando
voltava, encontrava o pessoal se aprontando, café já coado,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cavalaria em fila para a viagem. Uma vez, inda mais longe fui, do
que nas outras. E dei com o lázaro.
Ele se achava como que tocaiando, no alto duma árvore,
por se esconder, feito uma cobra ararambóia. Quase levei o
susto. E era um homem em chagas nojentas, leproso mesmo, um
terminado. Para não ver coisas assim, jogo meus olhos fora!
Promovi meu revólver. Aquele de repente se encolheu, tremido;
e tremeu tanto depressa, que as ramagens da árvore enroscaram
um rumor de vento forte. Não gritou, não disse nada. Será que
possuía sobra dalguma voz? Eu tinha de esmagalhar aquela coisa
desumana.
Dum fato, na hora, me lembrei: do que tinham me contado,
da vez em que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses num
goiabal. O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas
maduras, por uma e uma, no pé, com o fito de transpassar o mal
para outras pessoas, que depois comessem delas. Uns assim
fazem. Medeiro Vaz, que era justo e prestimoso, acabou com a
vida dele. Isso contavam, já de dentro do meu ouvido. A quizília
que em mim, ânsia forte: o lázaro devia de feder; onde estivesse,
adonde fosse, lambuzava pior do que lesma grande, e tudo
empestava da doença amaldita. Arte de que as goiabas de todo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 705 –
goiabal viravam fruta peçonhenta... – e d’eu dar no gatilho: lei leal
essa, de Medeiro Vaz...
- “Ô guaimoré!” – xinguei. E gritei pulhas. Acho que
insultava era por de certo modo retardar meu dever? Ele não
respondeu. Em ante mim, assim, ninguém não respondesse? Mas
fincava de me olhar: ah, ele tinha dois olhos, no meio das folhas
da folhagem. Muito coitado ele era – o senhor esteja de acordo.
Mas, aí, foi que vi e repeli o que que é ódio de leproso! Na cabeça
daqueles olhos, eu armei minha pontaria.
E ouvi o vir dum cavaleiro. Esperei. Não dissessem que eu
tinha baleado à traição o maldelazento, com escondidos de não
ter testemunhas. Quem vinha? Em já madruga-manhã, tudo
clareado, reconheci: Diadorim! Embolsei a arma, sem razão.
Diadorim me perseguia? “Vigia, Diadorim: tu pune por este?!” –
eu havia de indagar, apontando o esconso do leproso. “Estou
aqui, te vejo é você mesmo, Riobaldo...” – ele ia dizer - “...
Riobaldo, tem tento!”... A imaginação dessa conversa, eu pensei
de relance, como uma brasa chia em dentro de vasilha d’água.
Assim estremeci, eu ente. Porque, do bafo mesmo de minha idéia
vã, eu estava catando tal anúncio de acusação: – Tu traz o
Arrenegado... Eu e ele – o Dê?! Então, num sutil, podia mesmo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 706 –
ser que ele quisesse estar tomando conta de mim? – Aí, nem
nunca, nem! – eu rosnei, riso. Espinoteei na sela, feito acordado
dum cochilo de cão. E Diadorim tropeava chegando. Mas eu
virei rédea e roseteei, com brado, meu animal cumprindo:
rompemos em galope que era um abismo...
-Eh, diogo! dianho!... Eh diogo, eh dião...
Retos, fomos, desabalando, que um quarto-de-légua quase,
por doidejo. Nós três? Que eu pensei. E esbarrei, por tanto; meu
cavalo sacudiu o pescoço todo. Espiei em roda, até com a mão.
Não vi o demo... Meu espírito era uma coceira enorme. Como eu
ia poder contra esse vapor de mal, que parecia entrado dentro de
mim, pesando em meu estômago e apertando minha largura de
respirar? Aí eu carecia de negar pouso a ele. A nega. Eu quis! Eu
quis?
Como olhei, Diadorim estava acolá, estacado parado no
lugar, perto da árvore do homem. Por certo ele tinha enxergado a
coisa viva, e estava desentendendo meu espaço, esses desatinos.
Contemplei Diadorim, daquela distância. Montado sempre, teso
de consciência, ele me parecia mais alto de ser, e não bulia, por
mim avistado. E o lázaro? Ah, esse, que se espertasse, que
fugisse, para não falecer... Que é que adiantava que, àquela hora,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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os passarinhos cantassem, acabando de amanhecer o campo
sertão? A enquanto sobejasse de viver um lázaro assim, mesmo
muito longe, neste mundo, tudo restava em doente e perigoso,
conforme homem tem nojo é do humano.
Condenado de maldito, por toda lei, aquele estrago de
homem estava; remarcado: seu corpo, sua culpa! Se não, então
por que era que ele não dava cabo do mal, ou não deixava o mal
dar logo cabo dele? Homem, ele já estava era morto. Que o que
Diadorim dissesse; que dissesse. Que aquele homem leproso era
meu irmão, igual, criatura de si? Eu desmentia. Como era que,
sabendo de um lázaro assim, eu ia poder prezar meu amor por
Diadorim, por Otacília?! E eu não era o Urutu-Branco? Chefe
não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o
defeituoso. Esporeei, voltando. “Não sou do demo e não sou de
Deus!” – pensei bruto, que nem se exclamasse; mas exclamação
que havia de ser em duas vozes, uma muito diferente da outra.
Vim feito. Tornei a empunhar o revólver. Mas completei, eu
mesmo, aquilo que Diadorim decerto ia me responder:
“Riobaldo, tu mata o pobre, mas, ao menos, por não desprezar,
mata com tua mão cravando faca-tu vê que, por trás do podre, o
sangue do coração dele é são e quente...” Encostar nele a ponta
de minha franqueira de cabo prateante? – Toma! Tu cai no
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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chão... Agalopando assim, joguei fora meu revólver. Joguei – ou
foi um ramo de rompe-gibão que relou arrancando a arma de
meu pulso. Cheguei, esbarrei. Meu cavalo, tão airoso, batia mão,
rapava; ele deu um bufo de burro. Vi Diadorim. Mas o leprento
tinha ganhado para se ir, graças que não assisti à arriação dele:
decerto descendo às pressas, se escapando de gatas nas moitas de
feijão-bravo. Desse, tive um cansaço enorme; pode que seja por
não saber se matava ou não matava, caso ele ainda estivesse lá.
Do leproso.
Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado,
reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo
comum. Os olhos-vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum
verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio
se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor:
Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem
tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa...
Reforço o dizer: que era belezas e amor, com inteiro respeito, e
mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não
alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava
separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De
que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual,
macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas
ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o
chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou
o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos
governa... Aquilo eu repeli?
Antes que Diadorim mesmo abrisse boca para me sorrir,
me falar, eu tive de fazer uma coisa. A meio em ânsia, meio em
astúcia; meio em raiva. Como foi que peguei o vivo de tal idéia,
em gesto, como se deu de que me alembrei daquilo? Homem,
não sei. Mas enfiei mão: por entre armas e cartucheiras, e correias
de mochilas, abri à berra meu jaleco e a minha camisa. Aí peguei
o cordão, o fio do escapulário da Virgem – que em tanto cortei,
por não poder arrebentar – e joguei para Diadorim, que aparou
na mão. Ia me fazer alguma pergunta, que eu não consenti, a voz
dele era que mais significava. Isto é, porque eu primeiro falei,
como resumo. - “Hei-á, voltar – que o povoão está de minha
espera!” – eu enfim disse; eu ainda estava respirando muito
ligeiro demais.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 710 –
Assim eu dava era ordem, como convinha. Eu não estava
de francamentes. Para mim, um palmo, àquela hora, podia medir
três braças. Apertei. Nem meu cavalo carecia disso: era eu
encolher um pé, e ele já via vôo. À paz! Mas Diadorim, vez de
logo vir, tocou em contrário. Sustentei em esbarro meu Siruiz, a
ver, querendo as curiosidades. Diadorim estava indo lá, modo de
caçar e recolher o revólver, que de minha mão tinha caído. Num
repousozinho de coração, calado eu agradeci à amizade dele essa
fineza. Daí, vim. Sempre longe em frente, portanto que meu
cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. Daí,
cantei. Mesmo mal, me canteipor causa que via que, medeando
tão grandes silêncios, era que Diadorim tomava mais sorrateiro
poder em meu afeto, que não era possível concernente. Entre
isso, chegamos de volta no arranchamento. Mas cheguei lá foi
para ter ocupação de uma estúrdia novidade. Com os urucuianos.
O senhor estando lembrado: aqueles cinco, soturnos
homens, catrumanos também, dos Gerais, cabras do Alto-
Urucuia. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo
surgidos, e que com ele desceram o Rio Paracatu, numa balsa de
talos de buriti. Esses sempre mereceram pouca história da gente,
por quietos e certos, bem procedidos, sujeitos de furtadas
palavras. Agora eles comigo queriam um entendimento. Um
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 711 –
Diodato, esse era o cabo deles. Formou em frente dos outros,
puxando a parlagem.
Queriam conversa comigo em só, apartada. Eu apreciasse
aqueles homens. A valentia deles estava por dentro de muita
seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no anzol – o
povo diz. As lérias. Como contam também que nos Gerais
goianos se salga o de-comer com suor de cavalo... Sei lá, sei? Um
lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas
também, nesta vida. Mas aqueles cinco me condiziam. Admirei
de ver que eles todos ainda estavam a pé, mas com dobros e
bissacos nas costas, feito prontos para pedestre viagem. Sisudez
deles ainda semelhava maior. Então constituí meus ouvidos, para
o cabecilho, Diodato.
- “Praz vosso respeito, Chefe, a gente decidiram... A gente
vamos’embora. Praz vossas ordens...” – o homem me disse,
assim mesmo, casmurro com serenidade. Tive de ver bem suas
feições, uma cara assim se examinava aos poucos.
Entendi, mas reperguntei. O homem não coçou a cabeça.
Olhos de santo de madeira. O nariz dele era bem grande, nariz
que não se empinava. Só tinha a barbazinha que tem um queixo
de cavalo.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 712 –
O homem não coçou a cabeça. Firme disse. Queriam irs’embora,
duma vez; careciam. Ah, eles bem que conheciam a
regra: que um jagunço sai do bando quando quer – só tem que
definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão pertence. As
armas, eles não devolviam, porque eram deles; mas, como tinham
de primeiro vindo a pé, largavam bem agora os cavalos. Pegavam
era um tanto de matula – trivial de farinha e carne-seca, e
rapadura, para uns três dias, mal. Mesmo assim, era doideira,
achei. Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos,
alto ermo, distantes brenhas. Por que é que iam, nem esperando
eu desse minha primeira ganhada?
- “A isso, meio acontecidos, Chefe... A conforme a gente
carece, praz vosso respeito, senhor, sim...” – o homem meio
respondeu, bastante sincero. Reparei no chapéu na cabeça dele,
que era de couro de veado suaçuapara, com macias abas e
formato muito composto. A cara dele mesmo dava um ar
honrável, circunspecto, por mal que com manchas, sarro de
alguma velha moléstia, semelhando nódoas de caldo de caju. -
“Sua graça, toda, é Diodato de quê?” – indaguei. - “Diodato
Nariz, por alcunha...” – ele disse; disse, de brancura. Conheci
como eu nunca tinha dado tento d’atenção naqueles homens,
cuja valia. Assim que eles eram, de batismo: e o Pantaleão,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 713 –
Salústio João, João Tatu e O-Bispo. Naquela hora, era que eu
punha tino. Nunca mais tive notícia desses. Hoje, repenso.
Naquela hora, eu cogitava jeito de conservar todos em
companhia. Remei minhas perguntas. Donde que eram?
- “Desses córregos...” Do Buriti-Comprido, Tamboril,
Cambaúba, Virgens, Mata-Cachorro, das Cobras... Para cima da
Bazra-da-Vaca, Ari nos... Em sertão são. Isso, que são lugares. E
que é que me adiantava saber que tinham suas ocas por lá? O que
eu inventei de conhecer era donde tinham estado, quando Zé
Bebelo deu com eles, que vinha voltando de Goiás. - “Ah,
senhor sim, nas beiras... Roças do rio São Marcos, senhor sim, no
Esparramado... Fazenda duma Dona Mogiana...” Cabras dessa
Dona Mogiana? Eram. Tinham sido. Mas com sua labuta de
plantações. Que qualidades de crimes eles tinham feito, para
principiar, crimes de boa inerência? E por que era que tinham
querido vir com Zé Bebelo? Isso eu quis perguntar. O que de
repente perguntei: - “Por via de que é que vocês desespiritaram
de seguir vinda com a gente?” Falei, e refuguei para não ter
falado; que gabo e questão não são regra de se negociar. Mas o
homem Diodato, distanciado duma minha pergunta dessas,
esbarrou vez, demorão; mesmo, num desajeito, ele fungava. E ele
comigo não tinha ajuste, mas não queria me ofender sem a razão.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 714 –
Chega olhou para os companheiros, que acenavam devagar com
as cabeças, mas numa maneira brandazinha de sonsa, fora de
tudo o mais, para não se entender se é sestro ou anuído – que é
do jeito comum como essa gente costuma.
- “Ara, senhor, sim...” – por fim ele falou resposta: - “... que
a influência esmoreceu... A gente gastou o entendido...” ; e estava
quase meio envergonhado.
Eu disse: - “A pois?”
- “Não vê, Chefe, praz vosso respeito: as coisas
demudaram... Que viemos com siu Zé Bebel’... Vai, a gente
gastou o entendido...” – ele disse. - “O que Zé Bebelo falou,
quando chamou vocês?”
- “A foi. Quando chamou, senhor sim...” - “Ele prometeu
vantagens?”
- “Não se diz... Chamou. Falou misturado... A gente
viemos.” - “E o que é que falou?”
- “Agora, a gente não sabe mais. Falou muito razoável...
Falou muito razoável... Agora, com perdão vosso, a gente
esquecemos, a gente gastou o entendido... Mas muito razoável
falou...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 715 –
De irritado, de afleima, dei o discutir: - “Pois, por que é,
então, que não foram logo, com Zé Bebelo, quando Zé Bebelo se
foi?”
- “Deixamos o tempo dos outros passar... Não temos
questão... Não temos questão...”
Mirei e vi: o que desde de antes me invocava. Aquele
homem, por uns astutos indícios, se apartando, ele desconfiasse
de mim. Aqueles outros homens, os do todo sertão, das brenhas,
os com as ventas largas para baixo, cada-um um cão – o que era
que eles achavam em meu ser? Repensei: ah! Ah, então, para
avaliar em prova a dúvida deles, tive um recurso. A manha, como
de inesperadamente de repente eu muito disse: – Louvado seja
Nosso Senhor Jesus Cristo!
Senhor vendo como foi, o supetão de susto que ele teve,
arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido não acreditava,
o tanto que retardou para responsar, todo baixo, o: ... Para
sempre...
Ah. Despedidos estavam, podiam ir. Ah.
Ah, não. A bobéia. Se ele em fato estranhou, foi somente
por causa do tom de minha voz. Se foi por minha voz, foi
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 716 –
porque, no afã de querer pronunciar sincero demais o santíssimo
nome, eu mesmo tinha desarranjado fala – essas nervosias...
E eles iam s’embora, conforme desisti de sobreguardar
esses homens. Do jeito, de que é que me valiam? O contrato de
coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho, não é
com dares e tomares. Fino que me abespinhei, por conta. Ao que
aqueles homens não eram meus de lei, eram de Zé Bebelo. E Zé
Bebelo era assim instruído e inteligente, em salão de fazenda?
Desisti, dado. Não baboseio. E o mais? Era como alguém
dizendo: - “Vai declarar seca, por esse Norte, e homem e mulher
vão vir...” A vida é um vago variado. O senhor escreva no
caderno: sete páginas... Aqueles urucuianos não iam em cata de
Zé Bebelo, conforme sem nem satisfação fiquei sabendo.
Voltavam de volta para os seus recantos. Quartel de mandioca,
em qualquer parte se planta; e o senhor derruba um mato, faz um
chão bom, roça também se semeia... Eles foram embora, deixei
levarem os cavalos. Reparti com eles alguma quantia, e com
alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja... Estúrdio é
o que digo, nesta verdade – que, eu livre longe deles, desaluídos é
que eles estavam comigo; mas, eu quisesse com gana o préstimo
deles, então só me serviam era na falsidade... O senhor me
entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim, tão
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 717 –
suportados nas coisas deles, que... por contar o que achei: que
devia de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu
destino... Mas, de desertarem de mim, então, será que era um
agouro? Não sei. Que sei? Tive fé em mim sozinho. O que juro,
e que sei, é que tucano tem papo!...
Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não
querer, em contrários instantes: que rezassem por mim, a rogo e
paga. Reza boa, de outros, singela, que mais me valesse-essas
avemariazinhas, novenas. Assim conforme Diadorim tinha
expedido o recado, para minha Otacília, mediante o arrieiro de
uma tropa. Pelejei por afirmar a idéia nisso, que próprio depois
eu enxotava. Às vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais
longe, desconhecidamente. Me lembrei de um homem, de minha
meninice. Um do outro lado do rio. O sujeito que escondia uma
oração tão entremunhada, desguisada, que duvido mesmo um
padre aquilo entendesse, e desse licença. Pois, ora, me servia. Ou
a mulher que teve seu meninozinho parido no chão do rancho,
no povoado dos papudos; ela me devia mercês, então não podia
encaminhar a Deus, por miM, nem um louvamém? - “Só será
que o arrieiro passa e vai, na Santa Catarina?...”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 718 –
Isso perguntei a Diadorim. O que perguntei era por uma
opinião. Eu queria pensar nisso, de tarde, nos repontos. De
assento. Mas logo esse sossego manso me largava – nuvenzinha
dele. Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? Às voltas e revoltas, eu
pelejava contra o meu socorro. Hoje, eu sei; pois sei, porquê. Mas
eu não falava sozinho. Figuro que estava em meu são juízo. Só
que andava às tortas, num lavarinto. Tarde foi que entendi mais
do que meus olhos, depois das horrorosas peripécias, que o
senhor vai me ouvir. Só depois, quando tudo encurtou. Dei
decreto de fim em essas esquisitices.
No que não perguntei, Diadorim me respondeu? - “... A
muita coragem, Riobaldo... Se carece de ter muita coragem...”
Ah, eu sabia. A coragem, eu? Aí quem era que me vencesse,
nesse dever, alirolé, quem podia afrontar minha presença, feito
morro padastro? Tinha mãos e ações, que davam para lavar meus
trajes. Mas, o que Diadorim disse, não me fez mossa. Dou
exemplo. Do que houve e se passou, uma vez, no Carujo, um
arraial triste, em antigos tempos. O povo dali fugiu, por alguma
guerra ou pressa, fecharam a igrejinha com um morto lá dentro,
entre as velas... Eu gostava de Diadorim corretamente; gostava
aumentado, por demais, separado de meus sobejos. Aquilo,
davandito, ele tinha falado solto e sem serviço, era só uma
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 719 –
recordação, assim um fraseado verdadeiro, ditado da vida. O que
não fosse destinado para ele nem para mim, mas que era para
todos. Ou, então, sendo para mim, mas em outros passados, de
primeiro. Ali naquele lugar, o Carujo, no reabrirem, depois de
uns meses, a igreja, o defunto tinha se secado sozinho... Ao por
tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já
disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles
for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado
a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem – é o que o
coração bate; se não, bate falso. Travessia – do sertão – a toda
travessia.
Só aquele sol, a assaz claridade – o mundo limpava que
nem um tremer d’água. Sertão foi feito é para ser sempre assim:
alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos,
avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo. Caminho de
gado.
Arte que eu achei o meu projeto.
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação,
como que um perde o bom tino. Porque, viver é muito
perigoso... Diadorim, o rosto dele era fresco, a boca de amor;
mas o orgulho dele condescendia uma tristeza. Matéria daquilo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 720 –
que me desencontrava; motivo esse que me entristeceu? A
nenhum. Eu já estava chefe de glórias. Nem Diadorim não
duvidava do meu roteiro – que fosse para encontrar o
Hermógenes. Desse jeito a gente ia descendo ladeiras. Ladeiras
areentas e com pedras, com os abismos dos lados; e tão a pique,
que podiam rebentar os rabichos dos arreios, no despenhado; no
ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas, feito se os
pescoços deles se encompridassem; e montões de pedras para
baixo rola vam. Até ri. Diadorim ainda cria mais no meu fervor
em se ir perseguir o Hermógenes. Essas ladeiras era que me
atrasavam. Depois dali, eu ia ter muita pressa demais.
Agora, o senhor saiba qual era esse o meu projeto: eu ia
traspassar o Liso do Suçuarão!
Senhor crê, sem estar esperando? Tal que disse. Ainda hoje,
eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos. Qu’ é que me
acuava? Agora, eu velho, vejo: quando cogito, quando relembro,
conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e assoprado.
Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele. Eh! – o
que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor está
pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como
corujão que se voa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 721 –
o qual carrega em mão curva... No nada disso não pensei; como é
que pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos,
tivesse um relógio. A atravessar o Liso do Suçuarão. Ia. Indo, fui
ficando airoso.
Por forma como a gente rodeou outra volta, não se
passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus
homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser.
Daí, uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a
perto dele umas poucas cinco léguas: o desmenso, o raso enorme
– por detrás dos morros. E a gente dava a banda da mão
esquerda ao Vão-do-Oco e ao Vão-do-Cuio: esses buracões
precipícios – grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes
degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo
do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que
formam mato muito matagal. Isto é um vão. E num vão desses o
senhor fuja de descer e ir ver, aindas que não faltem as boas
trilhas de descida, no barranco matoso escalavrado, entre as
moitarias de xaxim. Ao certo que lá embaixo dá onças – que elas
vão parir e amamentar filhos nas sorocas; e anta velhusca
moradora, livre de arma de caçador. Mas o que eu falo é por
causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa,
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mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode
matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana.
No que eu no meu destino não pensei. Diadorim, em
sombra de amor, foi que me perguntou aquilo: - “Riobaldo, tu
achasses que, uma coisa mal principiada, algum dia pode que terá
bom fim feliz?”
Ao que eu, abirado, reagi: - “Mano meu mano, te
desconheço?! Me chamo não é Urutu-Branco? Isto, que hei-de já,
maximé!”
Diadorim persistiu calado, guardou o fino de sua pessoa. Se
escondeu; e eu não soubesse. Não sabia que nós dois estávamos
desencontrados, por meu castigo. Hoje, eu sei; isto é: padeci. O
que era uma estúrdia queixa, e que fosse sobrosso eu pensei.
Assim ele acudia por me avisar de tudo, e eu, em quentes me
regendo, não dei tino. Homem, sei? A vida é muito discor dada.
Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras
todas do Cão, e as vertentes do viver.
O que na hora achei, foi que Diadorim estivesse me
relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a
travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre
o que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada
aqueles perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde
nenhum outro antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas
constantes. Eu, não: o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite. Esbarramos. Era numa
curta vereda, duns brejos, buritizalzinho. Acendemos fogo. Aí
mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu primeiro sono,
sim. O resto, foi ondas. Reprazer cru dessa espiritação – eu ardia
em mim, e em satisfa contente, feito fosse véspera duma
patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral. Depois, o raso. Aí o Liso
do Suçuarão – em fundo e largo, as cinqüenta léguas e as quase
trinta léguas, das mais. Ninguém me fazia voltar a seco de lá.
Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim –
esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas
movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos dois
bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando
caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é
grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a
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Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem.
Para vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte
para a sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o
ninho dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o
arrojo de Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento
suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as lagartixas
que percorriam de leve, por debaixo das moitas de caculucage. O
pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja –
mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo é em
centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite
duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora.
Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
- “Aqui, gente.”
Guerreiros em minha presença! Com certo rebuliço, como
todos vieram, para saber daquela novidade. Declarei a eles.
Todos me entenderam? Em fila – as caras todas ficando iguais.
Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser, e que
fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino
Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim
me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Mas, os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era
feito se eu estivesse aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem Medeiro Vaz
mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem nada!
Aprofundar naquele raso perverso – o chão esturricado, solidão,
chão aventesma – mas sem preparativos nenhuns, nem
cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos para
carneação, nem bogós de couro-cru derramando de cheios, nem
tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos
embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá,
quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as
enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as foices, para
colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e
tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não
pensei – mas meu coração pensava. Eu não era o do certo: eu era
era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de
farejadores – nem Suzarte, Nélson ou o Quipes, que tapejassem;
nem o Tipote para trilhar e entender, ver se divulgava os
socorros: alguma grota duvidável d’água.
Se o cada um que se valesse, cada um que me seguisse. -
“Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro...” – eu determinei.
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Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me ouvindo, falou: -
“A gente? A gente.”
Esse era um menino, eu não devia de mandar alguém
conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro
deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para
tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de
voltar de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor
sozinho eu ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que
esperei a resposta deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah,
jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.
- “Se amanhã meu dia for, em depois-d’amanhã não me
vejo.” - “Antes de menino nascer, hora de sua morte está
marcada!”
- “Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não
passa...” Os que diziam assim eram todos eles, secundando os
cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se animando. Ao
que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou no
comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava, frente
a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Sol em glória. Eu pensei em Otacilia; pensei, como se um
beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos horizontes. Aonde
entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E os cavalos,
vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou, alguém, salvo a
um seguinte. Águas não desmanchavam meu torrão de sal. Ah,
nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos. Aí eu em
frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O digo? Os outros, a em
passo em passo, usufruíam quinhão da minha andraja coragem.
Rasgamos sertão. Só o real. Se passou como se passou, nem
refiro que fosse difícil-ah; essa vez não podia ser! Sobrelégios?
Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se economizava. As
estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias, atravessamos.
Todos; bem, todos, tirante um. Que conto.
O que era – que o raso não era tão terrível? Ou foi por
graças que achamos todo o carecido, nãostante no ir em rumos
incertos, sem mesmo se percurar? De melhor em bom, sem os
maiores notáveis sofrimentos, sem em-errar ponto. O que era, no
cujo interior, o Liso do Suçuarão? – era um feio mundo, por si,
exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até nãoonde a vista
não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os
trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas – cavalo
repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza
em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava
encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou,
o que deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socorro,
em az. A uns lugares estranhos. Ali tinha carrapato... Que é que
chupavam, por seu miudinho viver? Eh, achamos reses bravas –
gado escorraçado fugido, que se acostumaram por lá, ou que de
lá não sabiam sair; um gado que assiste por aqueles fins, e que
como veados se matava. Mas também dois veados a gente caçou
– e tinham achado jeito de estarem gordos... Ali, então, tinha de
tudo? Afiguro que tinha. Sempre ouvi zum de abelha. O dar de
aranhas, formigas, abelhas do mato que indicavam flores.
Todo o tanto, que de sede não se penou demais. Porque,
solerte subitamente, pra um mistério do ar, sobrechegamos
assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém não crê:
em paragens, com plantas.
De justiça, digo, também: uma regra se teve, sem se saber
de quem foi que veio a idéia dessa combinação. Qual foi que a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com a
maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse
qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para
novidade boa.
Eu que digo. Mesmo, não era só capim áspero, ou planta
peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade pintarroxa, um
mandacaru que assustava. Ou o xiquexique espinharol,
cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de flor
dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho luís-cacheiro.
Ah, não. Cavalos iam pisando no quipá, que até rebaixado,
esgarço no chão, e começavam as folhagens – que eram urtigão e
assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentios de flor
belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e a
maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha,
muito melindrosa flor, que também guarda muito orvalho,
orvalho pesa tanto: parece que as folhas vão murchar. E ervacurraleira...
E a quixabeira que dava quixabas.
Digo – se achava água. O que não em-apenas água de
touceira de gra vatá, conservada. Mas, em lugar onde foi córrego
morto, cacimba d’água, viável, para os cavalos. Então, alegria. E
tinha até uns embrejados, onde só faltava o buriti: palmeira alalã
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– pelas veredas. E buraco-poço, água que dava prazer em se
olhar. Devido que, nas beiras – o senhor crê? – se via a coragem
de árvores, árvores de mata, indas que pouco altaneiras:
simaruba, o anis, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo; e
gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava:
Sombra, só de gameleira,
na beira do riachão...
Assim achado, tudo, e o mais, sem sobranço nem desgosto,
eu apalpei os cheios. O respeito que tinham por mim ia
crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços
meus, os riobaldos, raça de UrutuBranco. Além! Mas, daí, um
pensamento – que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse
pensamento – então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de
tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse,
que quanto de mim ia tirar cobro? - “Deixa, no fim me ajeito...”
– que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou
não conhecesse, que a bula dele é esta: aos poucos o senhor vai,
crescendo e se esquecendo...
Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com
uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo
formosura.
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- “Riobaldo, escuta: vamos na estreitez deste passo...” – ele
disse; e de medo não tremia, que era de amor – hoje sei.
- “... Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto...
Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma
coisa, vou contar a você...” Ele disse, com o amor no fato das
palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e
dele. Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.
Só sei que, no meio reino do sol, era feito parássemos numa
noite demais clareada. Assim figuro. Dentro de muito sol, eu
estava reparando uma cena: que era um jumentinho, um jegue já
selvagem caatingano, no limpo do campo caçando o que roer,
assaz pelos cardos.
Eu não tinha de tomar tento em coisas mais graves? Mire
veja o senhor. Picapau voa é duvidando do ar. Que tal Zé Bebelo
– na hora me lembrei – quando mal irado, ou quando conforme
querendo impor medo a todos: - “Norte de Minas! Norte de
Minas...!”-o que bramava. E ele estava com a razão. Mas Zé
Bebelo era projetista. Eu, eu ia por meu constante palpite.
Usando de toda ajuda que me vinha, mas prevenido sempre
contra o Maligno: que o que rança, o que azeda. As traças dele
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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são novas sempre, e povoadas tantas, são que nem os tins de
areia grãoindo em areal. Então eu não sabia?!
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem
rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade: um, troncudo, pardaz,
genista, filho não sei de que terra. Assim, casta de gente?
Ah, não. Por meu bem, eu estava em todo o meu siso. Até
mais. “Não faço caso!” – eu disse, isto é: pensei dizendo. Eu não
queria somar com aquilo nenhum; porque cheirava ao Cujo: esses
estratagemas. Era do demo... – eu tirei um enredo. “Pois, então,
paz...” – eu falei, me falei. “... Não faço conta...” – me prometi.
Eu estava em manhas. Estive que estive no embalançar, em
equilibrável. Tico tanto pensei. Mas tudo era frisado ligeiro,
ligeiro, feito cavalo que pressente fúria de boi.
Aí escutei a voz – a voz dele tremia nervosa, como de
cabrito; da maneira que gritou – à briga. Um desfeliz. Levei os
olhos.
Ah, quem o homem era, eu já sabia, ele se chamava
Treciziano. O bruto; para falar com ele, só a cajado. Eu sabia.
Rebém que desconfiei do demo. Ali esse Treciziano era fraco de
paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do que os
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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outros – segundo esse tremor das ventas – e pegou a malucar?
Diziam que ele criava dor-de-cabeça, e padecia de erupções e
dartros. Estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma
ofensa. Homem zuretado, esbraseia os olhos. Eu, senhor de
minhas inteligências, como fica dito. Eu estava podendo refletir,
em passo de jumento. - “Siô, deixa o padre of recer missa...” –
falei para mim mesmo. Eu queria tolerar, primeiro: porque o
demo não era homem para mandar em mim e me pôr em raiva.
Aí, era só eu forçar calma, tenteador; depois, com palavras de
energia boa, eu acautelava evitando a jerimbamba, e daí
repreendia esse Treciziano, revoltoso, próprio por autoridade
minha, mas sem pau nem pedra. Que dessa – chefe eu – o O não
me pilhava...
Mas – ah! – quem diga: um faz, mas não estipula. O que
houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece
nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que
por distraído: num dividido de minuto, a gente perde o tino por
dez anos. Vi: ele – o chapéu que não quebrava bem, o punhal
que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras...
Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que
sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo...
O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele
agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. - “E-hê!...”
Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se
debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com
ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas
e trens que eu tinha na cintura e a tiracol: se prendeu ali, um
mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal –
pajeuzeira – em dura mão, peguei por baixo o outro, encorteirecortei
desde o princípio da nuca – ferro ringiu rodeando em
ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e
mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro
caiu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros
apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na
garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca – bonito brilho, feito
um verniz veludo... E ele: estava rente aos espinhos dum
mandacaru-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas
ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali,
era mesmo o do Treciziano!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E
tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias,
armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar
nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu
tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavores disso
– da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios e palavras
prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro,
tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já
era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o
mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e
veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto
galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia.
Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele
homem tão morto: das beiras do corte – lá nele – a pele subia
repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase
nas maminhas até, deixavam formado o buraco medonho
horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: -
“Ao que sei, este era da Serra d’Umã...” O de tão longe, o sapo
leiteiro! Uns estavam remexendo nele – não tinha um pêlo nos
peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe,
joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquele cabra era em ramo de suicídios-
“A modo que morreu? Ele foi para os infernos?”-indagou em
verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com
isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa – a morte,
isso sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que
foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso
recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo
real. Diadorim me olhava – eu estivesse para trás da lua. Só aí,
revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida.
Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o
queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não,
pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa
para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca
se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de
grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário – toda alvíssima!
– e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de
lá, há-se que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia,
desconversei meu espírito. Até às aleluias!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Que, como conto. Aquele Treciziano tinha redobrado
destino de tristefim de louco. Pois nem bem três léguas andadas,
daí depois, a gente saía do Liso, como que a ponto: dávamos
com uma varzeazinha e um esporão da serra; chapadas, digo.
Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos
crondeubais da Bahia.
Adiante vim para pedir gole d’água, todo pacífico, no
rancho de um solteiro; esse deu informação de que, dez léguas
em volta, o povoal ia existindo sem questão. Somente seguimos.
Dali antes, a gente tinha passado o Alto-Carinhanha – lá é que o
Rei-Diabo pinta a cara de preto. Onde chegados na aproximação
do lugar que se cobiçava. Dado dia e meio – descrevendo no
rumo que certo achamos logo – se havia de ter a casa da raça do
Hermógenes! Lei de que íamos dar lá, madrugando madrugada,
pegando todos desprevenidos, em movível supetão. Pois o
Hermógenes parava longe, em hora recruzando meus antigos
rastros, estes rasgos ele não adivinhava. Aí era o meu
contrabalanço. Ah! – choca mal, quem sai do ninho...
Ao que, por isso, não tardamos; não tivessem a primeira
notícia da gente. Não se tomou nem um dia de fôlego. A trote e a
chouto, vencemos uma grande noite – e demos lá, no luzir d’alva.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Abarcamos as condições do lugar, em cerco, entendidos uns com
uns, por meio de avisos: que eram canto de acauã e assovio de
macaco. Porque sempre eles deviam de ter alguns curimbabas na
defesa: capangas e carabinas. Daí, só se esperou o listrar da
primeira barra e a ponta da manhã estremecente. Segundo nosso
uso. Demos fogo.
Digo franco: feio o acontecido, feio o narrado. Sei. Por via
disso mesmo resumo; não gloso. No fim, o senhor me completa.
Mas, fazia tempo que não se dava combate, e o propor da gente
era tribuzana, essas ferocidades assim.
A casa da fazenda – aquele reto claro caiado; mas era um
casarão acabando o tope do morrete; enganando, até parecia
torta. Varejamos o total a tiro. Aí, e o que se gritava!:
azurradamente...
Aqueles que estavam lá eram homens ordinários –
derreteram debaixo do pé de meus exércitos. O que foi um
desbarate! Como que já estavam de asas quebradas, nem
provaram resistências: deles mal ouvi uns tiros. E a gente, nós,
estouramos para o centro, a surto, sugre, destrambelhando na
polvorada, feito rodeio de vento. Assaz. Do que fiz, desisto.
Todos não fizeram? Volvido, receei que Diadorim não me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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aprovasse; mas Diadorim concordou com os fatos, em armas, em
frente. O que se matou e estragou – de gente humana e bichos,
até boi manso que lambia orvalhos, até porco magro em beira de
chiqueiro. O mal regeu. Deus que de mim tire, Deus que me
negocie... À vez.
De seguida, tochamos fogo na casa, pelos quinze cantos
mortos. Armou incendião: queimou, de uma vez, como um pau
de umburana branca... E de lá saímos, quando o fogo rareou,
tardezinha. E, na manhã que veio, acampou-se em beira-d’água
de sossego. A gente traspassava de cansaços, e sobra de sono.
Mas, trazida presa, já em muito nosso poder, estava a merecida,
que se queria tanto – a mulher legal do Hermógenes.
Aquela mulher sabia dureza; riscava. Ela discordava de todo
destino. Assim estava com um vestido preto, surrado muito
desbotado; caiu o pano preto, que tinha enlaçado na cabeça, e ela
não se importou de ficar descabelada. Deixaram: ela sentar,
sentou. Nunca encurtou a respiração. Devia de ter sido bonita,
nos festejos da mocidade; ainda era. Deram a ela de comer,
comeu. De beber, bebeu. A curto, respondeu a algumas duas ou
três coisas; e, logo depois de falar, apertava demais a boca
fechada, estreitos finos beiços. Mas falava quase assoviado.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Figuro que não mascava fumo nem cachimbava, mas mesmo
assim cuspia em roda; mas não passava a sola do pé, por cima,
para alimpar o chão, como é costume de se fazer, nessas
condições. Adverti que estava descalça, e assim devia de ser fora
do uso, decerto por causa da hora e confusão em que tinha sido
pega. Se arranjou para ela par de alpercatas. Ela soubesse que não
se pertencia com a gente. Aceitou meu olhar, seca, seca, com
resignação em quieto ódio; pudesse, até com as unhas dos pés
me matava. Enrolou a cara num xale verde; verde muito
consolado. Mas eu já estava com ela – com os olhos dela, para a
minha memória. Magreza, na cara fina de palidez, mas os olhos
diferiam de tudo, eram pretos repentinos e duráveis, escuros
secados de toda boa água. E a boca marcava velhos sofrimentos?
Para mim, ela nunca teve nome. Não me disse palavra nenhuma,
e eu não disse a ela. Tive um receio de vir a gostar dela como
fêmea. Meio receei ter um escrúpulo de pena; certo não temi
abrir razão de praga. Muito melhor que ela não carecesse de vir.
Ser chefe, às vezes é isso: que se tem de carregar cobras na
sacola, sem concessão de se matar... E ela ficava assim
embiocada, sem semblantes, com as mãos abertas, de palmas
para cima – como se para sempre demonstrar que não escondia
arma de navalha, ou porque pedisse esmola a Deus. Lembro
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 741 –
dessa mulher, como me lembro de meus idos sofrimentos. Essa,
que fomos buscar na Bahia.
É de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas
viemos contornando – só extorquindo vantagens de dinheiro,
mas sem devastar nem matar – sistema jagunço. E duro
capitaneei, animado de espírito. O Jalapão me viu, os todos
Gerais me viram demais. Aqueles distritos que em outros tempos
foram do valentão Volta-Grande. Depois, mesmo Goiás a baixo,
a vago. A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o
sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não
vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves
pesos... Rodeando por terras tão longes; mas eu tinha raiva surda
das grandes cidades que há, que eu desconhecia. Raiva-porque eu
não era delas, produzido... E nave guei salaz. Tem as telhas e tem
as nuvens... Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?!
Virei os tigres; mas mesmo virei sendo o Urutu-Branco, por
demais.
Somente que me valessem, indas que só em breves e
poucos, na idéia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que,
por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigri minha
mãe me ralhando; os buritis dos buritis – assim aos cachos; o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 742 –
existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o
manuelzinho-da-croa; a imagem de minha Nossa Senhora da
Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como
os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar
água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na
cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília.
No sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra
espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido
outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões.
Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de apropósito?
Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela
agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e
demos volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão
vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depoisd’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se vinha, por pobres
lugares, aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos, o
senhor está lembrado deles; ensinando aqueles catrumanos, para
as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já prometiam
puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens. Aprovei, de
ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem malandro
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois canos
encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia de
admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé
Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda
vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava
executando: que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em
mãos, se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num definitivo mau silêncio,
a cara desaparecida pelo xale verde, escanchada em seu cavalo.
Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricuri, por se tapar
do forte sol baiano. A mais, dela não se ouviu queixa ou
reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia nela era
aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em esperar; essa
capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza de si, o ódio
então era bom, na razão desse sentido: que às vezes é feito uma
esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua
garrucha antiqüíssima apontou, era um velho. Desse, eu digo,
salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato d’eu não conseguir
conhecer a intenção da existência dele, sua razão de sua
consciência. Ele morava numa burguéia, em choça muito de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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solidão, entre as touças da sempreviva-serrã e lustro das
folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope do morro, que era de
espalhaventos. De lá do alto, a mente minha era poder verificar
muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas para uma
banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora
estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto que,
na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além. Dela
eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era
só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá,
namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era
clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados,
gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela
não tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá – quero dizer:
Morro dos Oficios – redescendo, demos com o velho, na porta
da choupã dele mesmo. Homem no sistema de quase-doido, que
falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de piaçava;
goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho
em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os cabelos
dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se
mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou –
abocou a garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo.
Esse era o velho da paciência. Paciência de velho tem muito
valor. Comigo conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver,
ele tinha aprendido. Deus pai, como aquele homem sabia todas
as coisas práticas da labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo.
Mas, agora, que tanto aforrava de saber, o derrengue da velhice
tirava dele toda possança de trabalhar; e mesmo o que tinha
aprendido ficava fora dos costumes de usos. Velhinho que
apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que retrato, é devido à
estúrdia opinião que divulgou em mim esse velho homem. Que,
por armas de sua personalidade, só possuía ali era uma faquinha e
um facão cego, e um calaboca – Porrete esse que em parte ocado
e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E ele mancava
estragado: por tanto que a metade do pé esquerdo faltava,
cortado – produção por picada de cobra – urutu geladora, se
supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de sal
grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no
comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbu,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ou gambás, que, jogando neles certeiramente o calaboca, sempre
conseguia de caçar. Me chamou de: - “Chefão cangaceiro...”
Acabando que, para me render beneficio de agradecimento,
ele me indicou, muito conselhante, que, num certo resto de
tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado
fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... – ele disse ; eu
escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e
para mim... - “Aonde, rumo?” – indaguei, por comprazer. Ele
piscou para o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num RiachodasAlmas...
Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar
matos, furar a caatinga por batoqueiras, por louvar loucura
alheia? Minha guerra nem não me dava tempo. E, mesmo, se ele
sabia assim, e verdade fosse, por que era que não ia, muito
pessoalmente, cavacar o ouro para si? Derri dele, brando. Por
que é que se dá conselho aos outros? Galinhas gostam de poeira
de areia – suas asas... E o velho homem – cujo. Ele entendia de
meus dissabores? Eu mesmo era de empréstimo. Demos o
demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo.
Siruiz. Aleluia só.
E o velho, no esquipático de olhar e ser, qualquer coisa em
mim ele duvidava dela. Mas – que é que era? que é que era?!... Eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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carecia de indagar. E, mesmo – porque a chefe não convém
deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação
incerta – tive de indagar leixo, remediando com gracejo
diversificado: - “Mano velho, tu é nado aqui, ou de donde? Acha
mesmo assim que o sertão é bom?...”
Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao
senhor: - “Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: –
... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o
senhor mesmo.” Respondeu com uma insensatez, ar de ir me
ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo
para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu
não decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos
aquilo, às pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os
dedos de uma mão, em modo que me deu nojo. Descemos
flauteando o resto do morro. Quando chegamos cá no acampo,
as ramas d’árvores já iam pegando o pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eli. – fome de
bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho era minha
razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas, em
trinta e cinco léguas – e o caminho passava pelo São Josezinho
da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez
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com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre
outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei.
Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul;
vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo
momento, se o caminho demudasse – se o que aconteceu não
tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que
não me dão fundamento. O passado – é ossos em redor de ninho
de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia: que eu
estou bem casado de matrimônio – amizade de afeto por minha
bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas – se eu tivesse
permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em
que eu era o Urutu-Branco, quantas coisas terríveis o vento-dasnuvens
havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o
que é – possível o que foi. O sertão não chama ninguém às
claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repen te
se estremece, debaixo da gente... E – mesmo – possível o que
não foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava
dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói
sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia
se desprezou... Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu
adiante, com bons cavalos novos para retroco. Sobre os gerais
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planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que
morreram, sem serras de quebra-vento.
Com a campina roxa brandamente, vagarosa por onde
fomos, tocamos, querendo o poente e tateando tudo, chapada
sem lugar de fim. Só os punhados daquele capim de lá, com sua
magra dureza. O para bem valer era que, agora, quando alguém
com o nosso brabo cortejo deparava, seriam gente já distante,
desconhecida dela, e que não diziam mais: - “Aquela é a dona de
um seô Hermógenes, que estão remetendo para as enxovias...”
Essa mesma não dava trabalhos; a mulher ocultada no xale
verde, como dizer. A mulher sem resgate – isto é dizer: que ia
para morte de outro homem – à sina sorte. Eu tinha era receio de
que ela adoecesse. Dei as todas ordens, de bom tratamento.
Tanto a tanto, decidi disposto que não se entrasse com bruteza
nos povoados, nem se amolasse ninguém, sem a razoável
necessidade. Também pelo que aquilo não me dava glória, e eu ia
para um grande fim. Até estive nervoso.
Desde as crondeúbas, nascidas em extraordinárias
quantidades, e os montes de areia quase alvos, com as seriemas
por cima perpassando, e o mais, tudo eu tinha avistado. Que vi
córrego que corta e salga, e comi coco de ouricuri. Desordens
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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não me tentavam, o assaltar e o rixar. Agora, para essas e outras
jagunçagens – assim mesmo como para pautear à-toa, de
abocabaque – eu não tinha interesse de tempo. Não por moleza
ou falta de hombridade; ah, não: tanto em que durou minha
chefia, e acho mesmo que de dantes, eu agüentei tudo o que é
cão e leão. Corrijo e digo: só o frio é que mal tolerei. Quando
geava, dormi deveras estreito entre diversas fogueiras. O frio
desdiz com jagunço. A gente indo, ali mesmo nos altos
tabuleiros, enchemos surrões com talos de canela-de-ema, boa
acendedora de fogo. A canela-de-ema de qualidade – crescida
mais de metro, acertante. Depois da madrugada, de guardado eu
bebia um chá de jurema, me restabelecesse todos os ânimos. Daí
diante, melhor, foi desamainando a friagem das madrugadas. E já
fazia tempo que eu não passava navalha na cara, contrário de
Diadorim. Minha barba luzia grande e preta, conferindo
conspeito – isto eu mesmo podia fácil ver, mirando na folha da
água, quando meu cavalo Siruiz se debruçava para beber em
qualquer riachinho da largura de duas braças. Estórias!
Consabido que meus homens, por sincera precisão de
mulher, armavam querer de trazer umas delas, pegadas pelas
beiras de estradas, me vinham com lelê disso. O que eu, enérgico,
debelei e reprovei: não se estava ainda em ponto para esse
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 751 –
desmazelo de bem-passar. Pelo mal de que essas mulheres não
davam para ser ao menos uma para cada um, e, por via de jus
dessas condições, a companhia delas podia estragar a lei do viver
da gente, com arrelias de vuvu e rusgas. O que ajuntávamos,
trazendo, era cada bom cavalo que se pegasse. E tocamos
conosco cinqüenta-e-tantas reses, de gado baiano; à-toa. Por
campos gramados, quando havendo, isso ia mais sem estorvo,
em conformes. Depois, piorou. Mas outras coisas melhoraram.
O senhor tenha na ordem seu quinhão de boa alegria, que até o
sertão ermo satisfaz.
Digo mesmo de meu expor, falante de mulheres. Quando
se viaja varado avante, sentado no quente, acaba o coxim da sela
fala de amores. E eu surgia em sossego assim, passo compasso, o
chapadão tão alargante. Lá o ar é repousos. Os Hermógenes
andavam por bem longe. E nunca que pelotão de soldados havia
de ali vir, por cima de nossas batidas. Sossego traz desejos. Eu
não lerdeava; mas queria festa simples, achar um arraial bom, em
feira-de-gado. Queria ouvir uma bela viola de Queluz, e o
sapateado de pés dançando. Mas, por lei, eu carecia de nudezes
de mulher. Nesses dias, moderei minha inclinação. Baixei ordens
severianas: que todos pudessem se divertir saudavelmente, com
as mulheres bem dispostas, não deixando no vai-vigário; mas não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 752 –
obrassem brutalidades com os pais e irmãos e maridos delas,
consoante que eles ficassem cordatos. Estatuto meu era esse. Por
que destruir vida, à-toa, à-toa, de homem são trabalhador? Zé
Bebelo não teria outro reger... E vejo, pergunto: donde era que
estava então o demo, perseguição? Devo redizer, eu queria
delícias de mulher, isto para embelezar horas de vida. Mas eu
escolhia – luxo de corpo e cara festiva. O que via com um
desprezo era moça toda donzela, leiga do são-gonçalodoamarante,
e mulher feiosa, muito mãe-de-família. Essas, as
bisonhas, eu repelia. Mas, daí então, me deram notícia do Verde-
Alecrim. Joguei de galope. Torei o cavalo para lá.
Guia era um exato rapaz, vaqueiro goiano do Uruú. Esse
me discriminou – o Verde-Alecrim formava somente um
povoado: sete casas, por entre os pés de piteiras, beirando um
claro riozinho. Meia-dúzia de cafuas coitadas, sapé e taipa-desebe.
Mas tinha uma casa grande, com alpendre, as vidraças de
janelas de malacacheta, casa caiada e de telhas, de verdade, essa
era a das mulheres-damas. Que eram duas raparigas bonitas, que
mandavam no lugar, aindas que os moradores restantes fossem
santas famílias legais, com suas honestidades. Cheguei e logo
achei que lugar tal devia era de ter nome de Paraíso.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 753 –
Antes, primeiro, pensei em todos, para o justo quinhão,
porque eu era chefe. Reparti o pessoal em grupos, determinando
que saíssem indo adiante, com via por trechos remarcados. Pois,
mesmo a poucas léguas de lá aonde eu, eles iam achar, por um
exemplo, dois arraiais – o Adroado e o São Pedro – e até o
Barro-Branco, que era um vilório. Entanto que, Diadorim,
conforme conveniente, enviei também expresso – ele
comandasse os guias tenteadores. Tudo pronto, vim,
acompanhado só com uma guarda de dez homens. O que eu não
disse: que o Verde-Alecrim ficava em aprazível fundo, no centro
de uma serra enrodilhada. Dum alto, se via, duma olhada e olhar.
Esporeei, desci, de batida.
Aí cheguei bem de mão. Meus homens, deixei que fossem
para as casas domésticas, conversar casadas e suas crias. Eu apeei
na das duas. Escolhi assim. Bom, quando há leal, é amor de
militriz. Essas entendem de tudo, práticas da bela-vida. Que
guardam prazer e alegria para o passante; e, gostar exato das
pessoas, a gente só gosta, mesmo, puro, é sem se conhecer
demais socialmente... Eu chegasse de noite, e elas estavam com
casa alumiada, para me admitir. Como que o amor geral conserva
a mocidade, digo – de Nhorinhá, casada com muitos, e que
sempre amanheceu flor. E, isto, a torto digo, porque as duas não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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se comparavam com Nhorinhá, não davam nem para lavar os pés
dela.
Mas que, porém, beleza a elas também não faltava, isto sim.
Uma – Maria-da-Luz – era morena: só uma oitava de canela. Os
cabelos enormes, pretos, como por si a grossura dum bicho –
quase tapavam o rosto dela mesma, aquela nhazinha-moura. Mas
a boquinha era gomo, ponguda, e tão carnuda vermelha se
demonstrava. Ela sorria para cima e tinha o queixo fino e
afinado. E os olhos água-mel, com verdolências, que me
esqueciam em Goiás... Ela tinha muito traquejo. Logo me
envotou. Não era siguilgaita simples.
A outra, Hortência, meã muito dindinha, era a Ageala,
conome assim, porque o corpo dela era tão branquinho formoso,
como frio para de madrugada se abraçar... Ela era ela até no
recenso dos sovacos. E o fio-dolombo: mexidos em curvos de
riacho serrano, desabusava. Comprimento exato dele, assim, o
senhor medir nunca conseguia. No meio delas duas, juntamente,
eu descobri que até mesmo meu corpo tinha duros e macios. Aí
eu era jacaré, fui, seja o que sei.
No meio daquela noite, andei com fome, não quis cachaça.
Me descansei, comi uma coalhada muito fria. Comi bolo com
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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cidrão. Bebi bom café, adoçado com um açúcar de primeira,
branco igual. Porque as duas minhas-damas eram ricas; dizer:
deviam de ter muito dinheiro de prata aforrado. Por lá, na casa
delas, era ponto de pernoite de lavradores de posses, feito
estalagem, com altas pagas. Mas as duas, mesmas, provinham de
muito boas famílias, a Ageala Hortência era filha de grande
fazendeiro paranãnista, falecido. Eram donas de terras, possuíam
aquelas roças de milho e feijão nas vertentes da serra, nos
dependurados. Ali mesmo no VerdeAlecrim, delas era toda a
terra plantável. Por isso, os moradores e suas famílias serviam a
elas, com muita harmonia de ser e todos os préstimos,
obsequiando e respeitando – conforme eu mesmo achei bem: um
sistema que em toda a parte devia de sempre se usar.
Como se deu que, enquanto se bebia o café, escutamos uma
tosse, da banda de fora. E era do homem que eu tinha deixado de
vigia. O qual tinha acontecido de ser o Felisberto – o que, por ter
uma bala de cobre introduzida na cabeça, vez em quando todo
verdeava verdejante, como já foi dito. E então elas duas
pensaram em se mandar o Felisberto entrar para provar do café
também, dando que não é justo ficar um desconfortado no
sereno, enquanto os outros se acontecem. Sendo as duas, o
senhor vê, pessoas muito bondosas.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Assenti, boamente, nisso, em que elas estavam com a razão.
Só que, pelo respeito, eu sendo Chefe, não ia poder deixar o
Felisberto me avistar assim, perfeito descomposto nu, como eu
estava. Maria-da-Luz aí trouxe uma roupagem velha dela, que era
para eu amarrar na cintura, tapando as partes. Experimentei. Daí,
entendi o desplante, me brabeei, com um repelão arredei a
mulher, e desatei aquilo, joguei longe. Tornei a vestir minhas
roupas, botei até jaleco. Elas melhor me riam. Eu era algum
saranga? Eu podia dar bofetadas – não fosse a só beleza e a
denguice delas, e a estroina alegria mesma, que meio me
encantava.
O Felisberto entrou, saudou, comeu e bebeu. Naquela
ocasião ele estava passando bem, normal. Só assim, ao
silenciosamente. Entendo que mais fosse para o galhardo que
para o sem-graça, rapaz desses de que as mulheres se arregalam.
Em ver, seria mais moço do que eu, mais calmo. Não quisesse
ardores com damas, quisesse os poucos recantos para devagar se
resignar. Não cobiçou a qual, ou agrados. Nem na hora reparei
que a Maria-da-Luz com ele se olhasse. Só bem, o que ela
refletiu, quando o Felisberto, comido e bebido, tornou a sair, ela
me disse: – que, se eu no caso dúvida não pusesse, o Felisberto
podia com ela se introduzir, no outro cômodo, por variação
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dumas duas horas, constante que nesse breve prazo eu ainda
restava felizardo com a Ageala Hortência. Danado eu disse que
não; e ela: - “Tu achou a gente casual aqui, no afrutado. Tu veio e
vai, fortunosamente. Tu não repartindo, tu tem?...” – assim ela
me modificou. A doidivã, era uma afiançada mulher. No sertão
tem de tudo.
E eu tinha falado meu não, era mais somente porque não se
pode falhar na regra: de só se pandegar com sentinela posta. Eu
era o chefe. O Felisberto era sentinela. Aquela casa de lugar – as
delícias que estavam – eu melhores neste mundo não achasse,
pensei. Eu quisesse reinar lá, pelos meus prazeres. O senhor sabe:
eu chefe, o outro sentinela. Esse Felisberto, pelo jeito, ia viver tão
escasso tempo, podia bem que nem fizesse mais conta do ofício.
Sendo o mais que pensei: eu, sentinela! O senhor sabe. Ah –
ainda que no nocivo desses andares – eu conseguia meditar
minhamente: ah, eu não tive os chifres-chavelhos nem os pés de
cabra... Ali, pelos meus prazeres eu quisesse me reinar,
descambava para fecho de termo. A morte estava com esse
Felisberto, coitado desgraçado. A coisa estranha que uma bala de
arma tinha entrado nos centros da cabeça mesma dele, recessos
da idéia dele – de lá, de vezes em vezes, perturbava com
excessos: daí um dia, em curto, era a morte fatal. Agora, podia
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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bem ser que ele quisesse largar de mão de ser jagunço? Aquele
fato daquela bala entrada depositada no dentro de um – e que
não se podia tirar de nenhum jeito, nem não matava de uma vez,
mas não perdoava na data – me enticava. Aquele homem, mesmo
com a valia e bizarria dele, eu pudesse querer mais no meu
bando? As duas mulheres, belezas assins, dando delícias,
bilistrocas... Outra idéia eu tive. Só eu sei: eu sentinela! Só não
posso dar uma descrição ao senhor, do estado que eu pensei,
achei; só sei em bases.
Amanheceu claro. Mas Maria-da-Luz não era logrã, isso
conheci, no ver como ela olhou para o Felisberto, com modos
mimosos. Quem sabe ele havia de gostar de ficar para sempre
permanecido ali? Perguntei. O Felisberto se riu, tão incerto feliz,
que eu logo vi que tinha justo pensado. E elas, demais. – “Deixa
o moço, que nós prometemos. Tomamos bom cuidado nele, e
tudo, regalado sustento. Que de nada ele há-de nunca sentir
falta!” Tanto elas disseram, que tudo transformavam. Mulheres.
E o Felisberto ia permanecer, a siso, arrecadado na sujeição
desses deleites; podia ter um remédio de fim de vida melhor? Em
tal, abracei o companheiro, e abracei as duas, dando para sempre
a minha despedida e fazendo mostra de falar de farto. Mulheres
sagazes! Até mesmo que, nas horas vagas, no lambarar, as duas
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viviam amigadas, uma com a outra – se soube. O que, quando eu
já ia saindo, acharam de me dizer? Isto:
– “Mas, você já vai, mesmo, nego? Visita-de-médico?...”
Como não pude sofrear meu rir.
Reuni meus outros meus homens. Abalei de lá. Bem que eu
sentia – eu exalava uma certa inveja do Felisberto. Mas, aí, eu
estimei o Felisberto, como se ele fosse um meu irmão. Como
Céu há, com esplendor, e aqui beleza de mulher – que é sede.
Deus que abençoe muito aquelas duas. A pois, me ia, e elas
ficavam as flores naquele povoadozinho, como se para mim
ficassem na beira dum mar. Ah: eu sentinela! – o senhor sabe.
Assim eu queria me esquecer de tudo, terminada aquela
folga. O dever de minha hombridade. Aí mais, quando tornei a
rever Diadorim, constante vi, que andava à minha espera com os
companheiros, num papuã, matando perdizes. E encaminhei para
Diadorim, com a meia-dúvida. Eu não tinha razão? Porque
Diadorim já sabia de tudo. Como sabia? Ah, o que era meu logo
perdia o encoberto para ele, real no amor. – “Riobaldo, você
vadiou com as do Verde-Alecrim... Você, está comprazido?” –
ele de franca frente me perguntou. Eu tibes. Corri mão por meu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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peito. Mas admirei que Diadorim não estivesse jeriza. Mesmo, ele
ao leve se riu, e o modo era de malina satisfação.
– “Você já está desistido dela?” – em fim ele indagou.
– “Hem? Hem? Dela quem dela? Tu significa essas
velhacas palavras...» – eu só fiz que respondi, redatado.
Mediante porque: aí logo entendi, no instante. E ele cerrou
a conversa.
Porque eu entendi: que a referida era Otacília. Minha noiva
Otacília, tão distante – o belo branco rosto dela aos poucos
formava nata, dos escuros... Tudo isto, para o senhor, meu
senhor, não faz razão, nem adianta. Mas eu estou repetindo
muito miudamente, vivendo o que me faltava. Tão minhas coisas,
eu sei. Morreu a lua? Mas eu sou do sentido e reperdido. Sou do
deslembrado. Como vago vou. E muitos fatos miúdos
aconteceram. Conforme foi. Eu conto; o senhor me ponha
ponto.
Pelo que, do trecho, voltamos. Para mais poente do que lá,
só uruburetamas. E o caminho nosso era retornar por essas gerais
de Goiás – como lá alguns falam. O retornar para estes gerais de
Minas Gerais. Para trás deixamos várzeas, cafundão, deixamos
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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fechadas matas. O joão-congo piava cânticos, triste lá e ali em
mim. Isto é, minto: hoje é triste, naquele tempo eram as alegrias.
Suaçuapara corria da gente, com a cabeça empinada quase nas
costas, protegendo para não prender nas árvores sua galhadura
dele. Galheiro suaçupucu com sua fêmea suaçuapara. Um dia,
vez, se matou uma sucuri, de trinta-e-seis palmos, que de ar
engravidava. Dava lugares, em que, de noite, se estava de repente
no cabo do revólver, ou em carabinas, mesmo; e carecia de se
acender maiores fogueiras, porque, no cheio oco do escuro,
podia vir cruzar permeio à gente algum bicho estranhão: formas
de grandes onças, que rodeando esturravam, ou a mãe-da-lua, de
vôo não ouvido, corujante; ou, de supetão, às brutas, com forte
assovio, vindo do lado do vento, algum macho d’anta, cavalo-rão.
E foi aí que o Veraldo, que era do Serro-Frio, reconheceu uma
planta, que se chamasse guia-torto, se certo suponho, mas que se
chamava candeia na terra dele, a qual se acendia e prendia em
forquilha de qualquer árvore, ela aí ia ardendo luminosa, clara,
feito uma tocha.
Atravessamos campos. Dias, tão claros, céu de toda altura.
Assaz voavam eram os gaviões. E Goiás estava pondo fogo nos
seus pastos. Arte que fumaçava, fumaceava, o tisne. O sol roxo
requeimão. Tive uma saudade de outras audácias. Morreu o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Pitolô, por bala de arma que disparou sem ser por querer de
ninguém – caso muito acontecível. Num sítio Padre-Peixoto,
morreu o Freitas Macho, também, de uma dor forte no vão da
barriga, banda-da-mão-direita; remédio de chá nele não produziu
o vero efeito. Alaripe teve uma carregação-dos-olhos. O
Conceiço destroncou o braço, deu trabalho e dores, para se repor
no lugar. Advertido que, antes, dessas passagens assim não lhe
vinha minuciando, e que elas corretamente sempre se dão; mas
que eram somente as mortes sérias serenas, doutras desgraças
diversas, ou doenças para molestar.
E dos fazendeiros remediados e ricos, se cobrava avença,
em bom e bom dinheiro: aos cinco, dez, doze contos, todos
tinham mesmo pressa de dar. Com o que, enchi a caixa. E abriam
para a gente pipotes de cachaça, a qual escanceavam. Se jantava
banquete, depois um coreto se cantava. As vezes, não sei porque,
eu pensava em Zé Bebelo, perguntava por ele em outros tempos;
e ninguém conhecia aquele homem, lá, ali. O de que alguns tivessem
notícia era da fama antiga de Medeiro Vaz. Daí, me dava
raiva de ter pensado refletido em Zé Bebelo. Bobéias. E,
andantemente, só me engracei foi duma mulher, casada essa, que,
com tremor enorme, me desgostou neste responder: – “Ai,
querendo Deus, que o meu marido quiser...” Ao que eu atalhei:
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– 763 –
“Ah, pois nem eu não quero mais não, minha senhora dona. Não
estou de maneira.” E, sem ser de propósito, até botei mauolhado
num menino pequeno, que estava perto.
Que assim viemos. Mas, conto ao senhor as coisas, não
conto o tempo vazio, que se gastou. E glose: manter firme uma
opinião, na vontade do homem, em mundo transviável tão
grande, é dificultoso. Vai viagens imensas. O senhor faça o que
queira ou o que não queira – o senhor todaa-vida não pode tirar
os pés: que há-de estar sempre em cima do sertão. O senhor não
creia na quietação do ar. Porque o sertão se sabe só por alto.
Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou é traiçoeiro muito
desastroso. O senhor...
Tomei mais certeza da minha chefia. Quer ver que eu tinha
deixado de parte todas as minhas dúvidas de viver, e que
apreciava o só-estar do corpo, no balanço daqueles dias
temperados tão bem, quando o céu varreu. Dias tão claros. Tanto
que as cigarras chiavam em grosas; e de que tal-arte valessem por
um atraso das chuvas do ano, alguns já queriam desejar. Não foi.
Mas eu cria por mim nas melhores profecias. E sempre dei um
trato respeitável amistoso aos homens de valia mais idosa,
vigentes no sério de uma responsabilidade mais costumeira.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Esses eram João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz,
Alaripe e outros uns restantes – que mereciam de si; e não me
esqueci das praxes. Tirante que não pedi conselhos. Mas não
houvesse; mas, pedir conselho – é não ter paciência com a gente
mesmo; mal hajante... Nem não contei meus projetados. O Rio
Urucuia sai duns matos – e não berra; desliza: o sol, nele, é que se
palpita no que apalpa. Minha vida toda... E refiro que fui em
altos; minha chefia.
Diadorim mesmo mal me entendeu. Qual que recordo, foi
num durante de tarde, a incertas horas, quando se vinha por um
selado, estirão escampante. Nós dois em dianteira, par de
homens; um diabo de calor; e os cavalos pisavam légua destinada
de cristal e malacachetas. Céu e céu em azul, ao deusdar. O
senhor vá ver, em Goiás, como no mundo cabe mundo.
E o que Diadorim me disse principiou deste jeito assim:
que perguntou, esconso, se eu queria aquela guerra
completamente. Tal achei áspero – que ele me condenava o vir
dando tantas voltas, em vez de reto para topar o inimigo ir.
Remeniquei:
– “Uai, Diadorim, pois você mesmo não é que é o dono da
empreita?!” – e, mais, meio debiquei, com estas: – “Que eu,
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– 765 –
vencendo vou, é menos feito Guy-de-Borgonha...” Acho que, as
palavras que eu disse, agora não estou trastejando...
Mas Diadorim repuxou freio, e esbarrou; e, com os olhos
limpos, limpos, ele me olhou muito contemplado. Vagaroso, que
dizendo:
– “Riobaldo, hoje-em-dia eu nem sei o que sei, e, o que
soubesse, deixei de saber o que sabia...”
Demorei que ele mesmo por si pudesse pôr explicação. E
foi ele disse: – “Por vingar a morte de Joca Ramiro, vou, e vou e
faço, consoante devo. Só, e Deus que me passe por esta, que
indo vou não com meu coração que bate agora presente, mas
com o coração de tempo passado... E digo...”
Afirmo que não colhi a grã do que ele disse, porque naquela
hora as idéias nossas estavam descompassadas surdas, um do
outro a gente desregulava. E o tom mesmo de sério que ele
impunha rumou meu pensamento para outros pontos: o Urucuia
– lá onde houve matas sem sol nem idade. A Mata-de-São-Miguel
é enorme – sombreia o mundo... E Diadorim podia ter medo? –
duvidei. Eu sempre sabia: um dia, o medo consegue subir, faz
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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oco no ânimo do mais valente qualquer... Com tanto, eu fui e
disse:
– “Tudo na vida cumpre essa regra...”
Duvidei pouco. Diadorim não temia. O que ele não se
vexou de me dizer:
– “Menos vou, também, punindo por meu pai Joca
Ramiro, que é meu dever, do que por rumo de servir você,
Riobaldo, no querer e cumprir...’ Nem considerei. – “É, o
Hermógenes tem de acabar!” – eu disse. Diadorim, ia ter certas
lágrimas nos olhos, de esperança empobrecida. Me mirava, e não
atinei. Será que até eu achasse uma devoção dele merecida trivial?
Certo seja. Não dividi as finuras. Mas, também, afiguro que
responder mais não pude, por motivos de divertência. Qual que,
na hora, deu de dar, diante, um desvôo de tanajuras, que pelas
grandes quantidades delas, desabelhadas, foi coisa muito valente,
para mim foi o visto nunca visto: em riscos, zunindo como
enchiam o ar, caintes então, porque a lei delas é essa, como
porque o corpo traseiro pesa tão bojudo, ovado, bichão maduro,
elas não agüentam o arco de voar, iam semeando palmos de
chão, de preto em acobreadas, e tudo mesmo cheirava à natureza
delas, cheiro cujo que de limão ruivo que se assasse na chapa.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Bagos dessas, muito mundialmente... Caso que os cavalos se
espantavam, uns na só cisma até refugando. E o menino Guirigó,
de ver mais que todos, tocou cá para adiante, com gritos e
arteirices, tão entusiasmável; como tanto aprovei, porque o
menino Guirigó do Sucruiú eu tinha botado viajante comigo era
mesmo para ele saber do mundo. Mas o esbagoar estirante das
tanajuras vinha para toda parte, mesmo no meio da gente,
chume-chume, fantasiado duma chuva de pedras, e elas em tudo
caíam, e perturbavam, nos ombros dos homens, e no pêlo dos
animais. Como digo que eu mesmo a tapas enxotei muitas, e outras
que depois tive de sacudir fora da croa de meu chapéu, por
asseio. Içá, savitu: já ouvi dizer que homem faminto come frita
com farinhas essa imundície... E os pássaros, eles sim,
gaviãozinho, que no campo esmeirinhavam, havendo com o que
encher os papos. Mas bem porém que cada tanajura, mal ia
dando com o chão, no desabe, sabia que tinha de furar um
buraco ligeirinho e se sumir desaparecida na terra, sem escolha de
sorte, privas de suas asas, que elas mesmas já de si picavam
desfolhadas, feito papelzinho. Isso é dos bichos do mundo; uso.
Mas, então, quando mirei e não vi, Diadorim se desaportou de
meus olhos. Afundou no grosso dos outros. Ai-de! hei: e eu tinha
mal entendido.
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E o senhor tenha bons estribos: que informo que o que
disse se deu bem em antes dele Diadorim ter tido a conversa com
a mulher do Hermógenes. Que agora, do que sei, vou tosquejar.
Como de fato, desamarrou o tempo. Formou muita chuva.
Com assim, emendados chovidos três dias, então certificamos de
permanecer esse tempo em prédio, e enchemos a Fazenda
Carimã, que era de um denominado Timóteo Regimildiano da
Silva; do Zabudo, no vulgar. Esse constituía parentesco proximado
com os Silvalves, paracatuanos, cujos tiveram sesmarias, na
confrontação das divisas, das duas bandas iguais. Do Zabudo: o
senhor preste atenção no homem, para ver o que é um ser
esperto.
Primeiro, encontramos de repente com ele, quando se ia
por um assente – chapadazinha dessas, de capim fraco. Conciso
já principiava a chuviscar, e eu estava pensando: que, por ali,
menos longe, algum rancho ou alguma casa de sitiante havia de
vagar. Nessa mesma horinha, o tal se apareceu. Conforme vinha,
num cavalo baio, com uma daquelas engraçadas selas cutucas,
que eles usam, e introduzido em botas-de-montar muito boas,
dessas de couro de sucuriju, de que eles faziam antigamente. No
natural, que foi ele ver a gente e levou choque.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Instantezinho, porém, se converteu. Isto, que se desapeou,
ligeiro, e tirou o chapéu, com cortesia mor, com gesto de braço, e
manifestou:
– “Senhores meus cavaleiros, podem passar, sem susto e
com gosto, que aqui está é um amigo...”
– “Amigo de quem?” – eu revidei.
– “Vosso, meussenhor cavaleiro... Amigo e criado...”
Esperança dele era ver a gente pelas costas. Com ele
apertei: aonde que morasse? – “Lá daquela banda, meussenhor...
Sitiozinho raso...” – outrarte ele respondeu, nhento, pasmado.
Atalhei: – “A pois, pra lá vamos, adonde menos chova. O senhor
mostre.” Aí ele remudou os modos, falando em muito
aprazimento, em honras de sinceridade. A fazenda era ali, só a
uns passos. Assim ele já se astuciava.
Do Zabudo, homem somítico, muito enjoativo e sensato.
Requeri dele o prêmio – que marquei em arras de sete contos – e
ele se desesperou, conforme caretas, e suas costas das mãos,
mesmas, uma e depois a outra, diversas vezes ele beijava. Sempre
gemendo que não e que sim, pediu vênia de me noticiar como os
negócios da lavoura para ele nos derradeiros três anos andavam
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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desandando, com peste que no gado deu e redeu, e praga no
canavial: por via dela, nem fervia mais safra. E, tudo que falava,
explicava e redizia, mesmo se fiou de querer me levar, debaixo de
temporal, para exemplificar minhas vistas com o pejorativo de
suas posses. Por causa da caceteação, concedi rebates, acabei
deixando o estipulado em três-contosquinhentos; e também por
receio de se pegar em mim a nhaca daquele atraso. Se bem que,
no repleto de dinheiro ganho goiano, como já se estando, eu
descarecia de sistema de bruteza com ninguém. E mesmo se
traçou que o sustento nosso ele por metade fornecia gracioso,
sem estipêndio; escatimava, mas dava. Ao tanto que o resto eu
pagava caro, e os percebidos: certas dúzias de ferraduras, o milho
para os animais, umas mantas de toicinho e dez quartilhos de
cachaça – que, em justo dizer, nem prestava. Bom, lá, era o fumo
de rolo. E, já dava de ser: como desemboque, eu pagasse a ele só
para se comportar calado. Por fim, penso, a falha nossa lá, para
aquele do-Zabudo, ficou quase de graça.
E dito e referido, que chovia em Goiás todo, assistimos
dentro de casa, só saindo no quintal para chupar jabuticabas. A
gente tinha baralhos, se jogou, rouba-monte e escopa, porque
truque eu não consentia, por achar que me faltava floreado
rompante para os motes e gritos, que nesse endiabrado jogo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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compertencem; e mesmo por achar vadiado, para a minha chefia.
Então bem, enquanto a gente formava essa distração, o do-
Zabudo ia e vinha, flauteando, excogitando decerto – para
ratinhar e sisar a gente com mangonhas – outras velhaquices
choradas. E foi, de repente, ele se chegou com esta, que não se
esperava por barato nem caro: – Que a nhã senhora, aquela,
suplicava o favor dum particular com o moço chamado
Reinaldo...
Essa, nhã, refiro, era a mulher do Hermógenes; que em
reserva fechada se tinha, no quarto-do-oratório. E Diadorim,
saber o senhor tem, era o conhecido por “Reinaldo”.
Que me invocou – o senhor vai dizer – me causou
espantos? Haviade. Eu estava na sala-de-jantar, jogando, com
João Goanhá, João Concliz e Marcelino Pampa. Alaripe, com a
baciinha de lixívia em areia e com estopa, na soleira da porta para
o quintal, acendrava as armas. Ele falou: – “Deus que, olh’ lá: que
se o Reinaldo não dá cabo da criatura...” Descontamos. – “Eh,
ela será que faz mandraca?” – João Goanhá alvitrou, com essas
risadas. – “Ara, para obrar bom feitiço, que valha, diz-se que só
mesmo negra, ou negro...” Isto que Marcelino Pampa deu de
opinião, enquanto pegava o sete-belo com o sete-de-paus. Eu
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 772 –
joguei, e João Goanhá somou seis e três, na mesa, conforme
pegou com um valete, e escopou. Diadorim se tinha
encaminhado para onde estava a mulher, para ir ouvir o que ela
queria que ele ouvisse.
Tocou minha vez de baralhar e repartir cartas. Ou seria
algum pedido que ela tivesse de fazer a ele, bem. Daí, João
Goanhá esteve dizendo que a mulher rogava era por sua
liberdade. E eu desconversei, observando casual, primeiro a
respeito do luxo de tantos anéis que João Goanhá gostava de
botar em cheios dedos; e depois chamei atenção para as goteiras
abertas na telha-vã daquele grande cômodo, que se carecia de
dispor umas latas em diversos pontos e até uma gamela, no meio
da mesa, fim de se aparar águas da chuva. Mas, mesmo por mim,
eu já tinha perdido a simpatia no divertimento do jogo, e me
ergui de lá, fui ver a coisa nenhuma, no alpendre, onde até
homens dormiam madraços, aborrecidos com um chover tão
constante.
Diadorim não vinha, não dava de sair do quarto-dooratório.
E, quando foi que veio, não me contou nada. O que
disse, comum: – “Ah, ela só chorou mágoas...” Não perguntei
passo. Devido que não perguntei logo à primeira, depois foi não
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 773 –
ficando bem, para o meu brio, o perguntar. Diadorim se
atarantava quieto, nem não era correto o que ele estava fazendo –
escondendo fatos. Palavras que vieram a gume em minha boca,
foram estas: – Que eu não gostava de hipocrisias... Pensei, e não
disse. Eu podia duvidar das ações de Diadorim? Lá ele alguma
criatura para traição? Rosmes! Idéia essa não aceitei, por plausível
nenhum. Mas, de motivo como me desgostei, assim resolvi a
saída da gente dali da Carimã, no instante mesmo, e dei ordem.
Fossem trazer os cavalos, e arrear, atrás do tempo que fizesse –
enxurradas tais, nuvens grossas, céu nubloso e trovão em ronco.
Chuvas com que os caminhos se afundavam.
E assim cumpriram. Mas, aí nem bem os cavalos vieram no
curral, se deu uma estiada muito repentina – por um montão de
vento. O céu firmou, e sol, com todos os bons sinais. Ante o que
– por isso e por tanto – a admiração do pessoal foi de grandes
mostras. E eu vi que: menos me entendiam, mais me davam os
maiores poderes de chefia maior.
Só o do-Zabudo, saiba o senhor, parava fora da roda, sem
influência nenhuma, feito um tratante. Saiba o senhor que assim
ele ainda me veio, com visagens e embaraços, por amortecer a
paga, pedindo ágios de calote e prazos mercantis. Agora – mais
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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que tudo – saiba o senhor uma coisa, a que ele, para os fins,
executou na hora da confusão da saída, no zafamar. Pois de
repente trouxe e ofertou a Diadorim, de regalo, uma caixeta da
boa e melhor marmelada goiana, dada a valores: – “Ademais o
senhor prove o de que demais gostará... A de Santa Luzia, perto
desta, perde por famosa...” Dando aquilo a Diadorim, ele não
queria disfarçado me agradar, por vantagens? Se sei. O que é que
estivesse adedentro das idéias daquele homem? O jeito estúrdio e
ladino de olhar a gente, outrolhos – e que na hora não me fez
explicação. Sendo que, mediado esse obséquio a Diadorim, ele
conseguiu mesmo me adular. Saranga fui, contracontas, contra
aquele paranãnista lordaço. Ele se saiu quite, por pouco não
pegou até dinheiro meu emprestado. Mesmo pelos cavalos e
burros que cedeu, recebeu igual quantidade dos nossos, bem
melhores, somente que estavam cansados. Teve até permissão de
conservar o dele próprio, o baio, que disse ser de venerada
estimação, por herdado pessoal do pai. Nele, amontado prazido,
naquela dita cutuca, pandegamente, pois ainda veio, por quartode-
légua, fazendo companhia à gente. Coisa assim, não se vê.
Tanto ambicionava, que nem temia. Sempre me olhava, finório,
com as curiosidades. E assim. Agora, o senhor prestou toda a
atenção nesse homem, do-Zabudo? O diabo dele. O senhor me
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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diga: o senhor desconfiou de alguma arte, concebeu alguma
coisa?
Sumimos de lá. Em cinco léguas, vi o barro se secar. O
campo reviçava. Mas concedi que a viagem viesse à branda,
serenada. Queria, quis. O burrinho de Nosso Senhor Jesus Cristo
também não levava freio de metal... Isso, na ocasião, emendo que
não refleti. Razão minha era assim de ter prazos, para que meu
projeto formasse em todos pormenores. Mas – isto afianço ao
senhor – também eu não sentia açoite de malefício herege nenhum,
nem tinha asco de ver cruz ou ouvir reza e religião.
Mesmo, me sobrasse tempo algum de interesse, para reparar
nesses assuntos? Eu vinha entretido em mim, constante para uma
coisa: que ia ser. Queria ver ema correndo num pé só... Acabar
com o Hermógenes! Assim eu figurava o Hermógenes: feito um
boi que bate. Mas, por estúrdio que resuma, eu, a bem dizer, dele
não poitava raiva. Mire veja: ele fosse que nem uma parte de
tarefa, para minhas proezas, um destaque entre minha boa frente
e o Chapadão. Assim neblim-neblim, mal vislumbrado, que que
um fantasma? E ele, ele mesmo, não era que era o realce meu –
?-eu carecendo de derrubar a dobradura dele, para remediar
minha grandeza façanha! E perigo não vi, como não estava
cismando incerteza. Tempo do verde! Êpa, eu ia erguer mão e
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gritar um grito mandante – e o Hermógenes retombava. Onde
era que estava ele? Sabia não, sem nenhuma razoável notícia;
mas, notícia que se vai ter amanhã, hoje mesmo ela já se serve...
Sabia; sei. Como cachorro sabe.
Assim, o que nada não me dizia – isto é, me dizia meu
coração: que, o Hermógenes e eu, sem dilato, a gente ia se
frentear, em algum trecho, nos Gerais de Minas Gerais. Eu
conhecia. A pressa para quê? Ao ir, ao que ir – aí contra a Serra
das Divisões ou sobre o Rio São Marcos. Estrada-real, estrada do
mal. Como de fato, aquilo estava impossível, breado de barro
alto, num reafundo, num desmancho, que comia com engolo as
ferraduras mesmo cravadas novas, e assujeitava a gente a
escorregão e tombos, teve animal que rachou canela, quebrou
pescoço. – “Este caminho tem tripas...” – se dizia bem. Às
loucuras. E a jorna não rendia, não se podia deszelar o pisar.
Retardamos. Retardar, mesmo se me dava de agradável. Eu ia
numa caçada, com o grande gosto, ah. Pois não era? Mais tempo
se gastou, esbarrados em casas-de-fazendas ou em povoados.
Melhor – por lá, também, haviam de aprender a referir meu
nome. De em desde, bem que já cumpriam de me recompensar e
me favorecer, pela vantagem: porque eu ia livrar o mundo do
Hermógenes. O Hermógenes – pelejei para relembrar as feições
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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dele. Achei não. Antes devia de ser como o pior: odiado com
mira na gente. – “Diadorim...” – pensei – “... assopra na mão a
tua boa vingança...” O Hermógenes: mal sem razão... Para poder
matar o Hermógenes era que eu tinha conhecido Diadorim, e
gostado dele, e seguido essas malaventuranças, por toda a parte?
Retardamos. Até que, tomando sazão boa no veranico,
seguimos em fim, estrotejando. Parávamos léguas perto das
divisas, mandei ir vigias e dianteiros. Conferi meu povo nas
armas. Tudo prazia. O barranco mineiro ou o barranco goiano.
Da beira de Minas Gerais, vinha um mato vagaroso.
E piorou um tico o tempo, em Minas entramos, serraacima,
com os cavalos esticados. Aí o truvisco; e buzegava. O
ladeirão, ruim rampa, mas pegamos a ponta da chapada. Foi ver,
que com o vento nas orelhas, o vento que não vareia de
músicas. Tudo consabia bem; isto sim, digo; no remedido do
trivial, espaço de chuva, a gente em avanço por esses tabuleiros:
fazia rio, por debaixo, entre as pernas de meu cavalo. Sertão
velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é
que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não
adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros
lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol
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e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões,
por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se
alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem
sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos
bichos, do fundo dele...
Com trovôo. Trovoadão nos Gerais, a ror, a rodo... Dali
de lá, eu podia voltar, não podia? Ou será que não podia, não?
Bambas asas, me não sei. Bambas asas... Sei ou o senhor sabe?
Lei é asada é para as estrelas. Quem sabe, tudo o que já está
escrito tem constante reforma – mas que a gente não sabe em
que rumo está – em bem ou mal, todo-o-tempo reformando?
Meus homens adianteiros retornaram, que vindos com
uma notícia: os Hermógenes, bando enorme, tocavam meio para
cá – decerto também já cientes de meu caminhar! Era o devido.
Se estremeceu, de pressas. Vim. Viemos. Trastopamos com uns
campeiros e outros, que vaquejavam, ou que levando gado de
volta para o caatingal, por não morrerem suas reses todas, de
pastar o capim novo dos Gerais, que cresce cheio de areia. Mas
esses não sabiam de nada coisíssima. A gente contornou, por se
chegar primeiro no Nestor, na Vereda-Meã, e no Coliorano,
depois do Mujo. Vãozinho-do-Mujo, esse acho que era certo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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também, o nome. Mas o Coliorano morava num buritizal de
lagoa, e fazia chapéus-de-palha fabricados; dos melhores. Nele e
no Nestor, carecia de se chegar, em antes do Hermógenes – que
lá se tinha coito de munição. Contornamos. Muito brejo e sapal
já estavam de volta. Os rios andando sujos, e umbuzeiros dando
flor. Mas a cheia de todo rio carregava muito cuspe de espuma
por cima – sinal de que ela ia aumentando, com maiores chuvas
nas nascentes. Assim mesmo assim, não perdemos de breve
chegar e de arrecadar munição que se queria, total toda.
Arredondamos. Agora, em hora. Que era que faltava? Comigo –
redor de mim! – quem quisesse guerra...
Todos. E, todos, tinha vez eu achava que queria-bem o
meu pessoal, feito fossem irmãos meus, da semente dum pai e
na madre de uma mãe gerados num tempo. Meus filhos. Para
que relembrar, divulgar dum e dum, dar resenhas? Do Dimas
Doido – que xingava nomes até a galho de árvore que em cara
dele espanejasse, ou até algum mosquitinho chupador. Do
Diodolfo – mexendo os beiços num bis-bis: que era que sem
preguiça nenhuma rezava baixo, ou repetia coisas de mal, da
vida alheia, conversando com si-mesmo. Do Suzarte – tomando
olhos de tudo, chão, árvores, poeiras e estilos de vento, para
guardar em sua memória aqueles lugares em léu. Do Salústio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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João, em ancas de seu burro; e do Araruta – de toda confiança:
esse homem já tinha para mais de umas cem mortes. Do Jiribibe,
que a recorrer, da guia à culatra, por necessidade de cada
coisa ouvir, recontar e saber. Ou do Feliciano – que abria muito
o olho são, para melhor entender o que a gente dizia?
Tuscaninho Caramé, que cantava, bonita voz, algúa cantiga
sentimental. João Concliz, dobrando um assovio comprido sem
fim, como esses que são dos tropeiros dos campos goianos? Ou
o José do Ponto com o jacaré – tocando os cargueiros, com sua
tralha de cozinhar...
Mas refiro miúdos passos. Coisinhas que a gente vislumbra
em ocasião de momento, e que quase não esquecem, com pena.
Pois eu pensasse a breve na responsabilidade que a minha era,
quando via um homem idosamente respeitável, como Marcelino
Pampa – e que já tinha sido chefe – seguindo por seu próprio
gosto, no meio do andamento dos outros, ou esbarrar o cavalo
nos freios, e, esbarrado assim, mesmo sem virar a cara para
mim, mas abaixar um pouco a cabeça, e ficar escutando e
meditando o meu conselho. Ou quando um daqueles jagunços
mais velhos recomendava a qualquer rapaz como era que
deviam de ter cautela, no lidar com as armas de conjunto, e com
a munição nas canastras: pois de tudo calados cuidavam; porque
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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então, em sentir, era como se fosse coisa de paz, arranjos
miúdos em casa da gente. Ou mesmo quando eu avistava um
daqueles catrumanos, gente toda trazida, deportados por mim
da terra deles. Esses me davam estima? Ah, acho que me
achavam. Antes teriam um admirado receio, o medo maior. E
tinha uns – como digo ao senhor que relembro tudo – esse,
Assunciano: quando se falava em fogo, ele já ficava com o
corpo para diante, meio entortado; e que ele era magro, mas
ovante, barrigudo mediamente; e, de um qualquer um chapéu
simples, mas um pouco mais enfeitado ou novo, ele já
demonstrava mirar de boba inveja... Meus filhos.
Mas, não durava dai, menosmente, eu esquentava outra
vez meus altos planos, mais forte; eu refervesse. Eu era assim.
Sou? Não creia o senhor. Fui o chefe Urutu-Branco – depois de
ser Tatarana e de ter sido o jagunço Riobaldo. Essas coisas
larguei, largaram de mim, na remotidão. Hoje eu quero é a fé,
mais a bondade. Só que não entendo quem se praz com nada ou
pouco; eu, não me serve cheirar a poeira do cogulo – mais quero
mexer com minhas mãos e ir ver recrescer a massa... Outra
sazão, outros tempos. Eu ia para sofrer, sem saber. E, veja, se
vinha, eu comandei: – “É guerra, mudar guerra, até quando onça
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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e couro... É guerra!...” Todos me aprovavam. Ainda mesmo que
com o cantar:
“Olererê Baiana... Eu ia
e não vou mais... Eu faço
que vou
lá dentro, ó Baiana: e volto
do meio p’ra trás!”
Assim, aquela outra – que o senhor disse: canção de Siruiz
– só eu mesmo, meu silêncio, cantava.
Sofreado de minha soberba, e o amor afirmante, eu senti o
que queria, conforme declarado: que, no fim, eu casava
desposado com Otacília – sol dos rios... Casava, mas que nem
um rei. Queria, quis. – E Diadorim? – o senhor cuida.
Ingratidão é o defeito que a gente menos reconhece em si?
Diadorim – ele ia para uma banda, eu para outra, diferente; que
nem, dos brejos dos Gerais, sai uma vereda para o nascente e
outra para o poente, riachinhos que se apartam de vez, mas
correndo, claramente, na sombra de seus buritizais... Outras
horas, eu renovava a idéia: que essa lembrança de Otacília era
muito legal e intrujã; e que de Diadorim eu gostava com amor,
que era impossível. É. Mire e veja: o senhor se entende? Deixe
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 783 –
avante; conto. Mesmo, nos dias, o que era, era ir – vir, corrijo.
Até sem ter aviso nenhum, eu me havia do Hermógenes.
Pressentidos, todos os ventos eu farejava. O Hermógenes, com
seu pessoal dele – que nem em curvas colombinhando,
rastejassem, comprido grosso, mas sem bulha, por debaixo das
folhas secas... Mas eu estava fora de minha bainha. Às vezes, eu
acordava na metade certa da noite, e estava descansado, como se
fosse alto dia. Vão da noite, quando o mato pega a adquirir
rumores de sossegação. Ou quando luava, como nos Gerais dá,
com estrelas. Luava: para sobressair em azul de luz assim, só
mesmo estrela muito forte.
E chegamos! Aonde? A gente chega, é onde o inimigo
também quer. O diabo vige, diabo quer é ver... A pois! Sincero,
senhor: os campos do Tamanduá-tão; o inimigo vinha, num
trote de todos, muito sacudido. Se espandongaram... Campos do
Tamanduá-tão – o senhor aí escreva: vinte páginas... Nos
campos do Tamanduá-tão. Foi grande batalha.
Não se instruiu que. Nem não houve aviso. Dei guerra.
Como se quis: lei a lei, e fogo a fogo. Era na força da lua.
Tamanduá-tão é o varjaz – que dum topo de ladeira se
avistava; e para lá descemos por encanado de cava, quase grota,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 784 –
que a vertente entalha. Mas mais de mil bois, ou cavalos e éguas
uns oitocentos, se carecesse, cabiam de bom pastar ali naquele
baixadão, de raso em raso. Ao muito escuro, duma banda,
existia um travessão de mato. Outro braço de mata, da outra
banda. Com que, contornada essa mata, a gente estava sempre
naquilo que Tamanduá-tão é: a enorme vargem. Porque, para
tudo quanto havia, o nome era aquele só – que Mata-Grande do
Tamanduá-tão, e Mata-Pequena do Tamanduá-tão, e tudo. Por
mesmo, do Tamanduá-tão era a casa-de-fazenda – de muitos
antigos tempos, quando tinha tido senzalas e um engenho-depau-
em-pé. Mas já estava esquecida, arruinada em esteios, e com
restos de parede fechando matagalzinho em cima de montes de
terra e pedras, em fim de taperada. Bem sim, que, por perto,
assistia alguma pobre gente vinda, cultivando: o quanto se via
roça, milharais, feijoal faceiro. Gente, mal se viu. E do
Tamanduá-tão era a Vereda, com seus buritis altos e a água ida
lambida, donzela de branca, sem um celamim de barro. Diz-se
que lá se pesca, e gordas piabas. Por cima dela sei é de muito
tiro. Tinha um cocho no chão, no campo; o gado ouvia e se
fugia, bravo. Às beiras daquela, minha gente galopou – a vereda
toda, susã-jusã – feito estivessem sendo surucuiú sem fêmea,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 785 –
percorrente doidada... E o inimigo dava para trás! Não achavam
esconso... Assim é que se principiou.
A bem, como é que vou dar, letral, os lados do lugar,
definir para o senhor? Só se a uso de papel, com grande debuxo.
O senhor forme uma cruz, traceje. Que tenha os quatro braços,
e a ponta de cada braço: cada uma é uma... Pois, na de cima, era
donde a gente vinha, e a cava. A da banda da mão-direita nossa,
isto é, do poente, era a Mata-Grande do Tamanduá-tão. Rumo a
rumo, a da banda da mão-esquerda, a Mata-Pequena do
Tamanduá-tão. A de baixo, o fim do varjaz – que era, em bruto,
de repente, a parede da Serra do Tamanduá-tão, feia, com
barrancos escalavrados. Os barrancos cinzentos, divulgando uns
rebolos e relombos, barrancos muito esquisitos – como as
costas de fila de muitos animais... Mas, agora, o senhor assinale,
aqui por entremeio, de onde é a Serra do Tamanduá-tão e a
Mata-Grande do Tamanduá-tão, mais ou menos, os troços velhos
da casa-de-fazenda, que tanto se desmantelou toda; e,
rumo-a-rumo, no caminho da Serra para a Mata-Pequena, essas
rocinhas de pobres sitiantes. Aí o senhor tem, temos. A Vereda
recruza, reparte .o plaino, de esguelha, da cabeceira-do-mato da
Mata-Pequena para a casa-de-fazenda, e é alegrante verde, mas
em curtas curvas, como no sucinto caminhar qualquer cobra faz.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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E tudo. O resto, céu e campo. Tão grandes, como quando vi,
quando no fim: que ouvi só, no estradalhal, gritos e os relinchos:
a muita poeira, de fugida, e os cavalos se azulando...
Mas, primeiro, antes, teve o começo. E aí teve o antes-docomeço;
que o que era – a gente vindo, vindo. E vindo bem. Mal
ao justo, que, para tão cedo, assim, aquilo não se esperava. A
gente vinha acabando a serra. Serra da Chapada. Somente para
dali descer, e traduzir essas campinas, a grandeza de vargem.
Deles, inimigos, não se tinha aviso nenhum, nem espiação. Eu
podia saber? Eu era uma terrível inocência. E de tudo miúdo eu
dava de comer à minha alegria. Assim, o por exemplo, quando eu
quis experimentar a valia de meus catrumanos. Um, o Dos-
Anjos. Esse degozava de mostrar que tinha tomado
entendimentos: presto manejava. Achei graça no tirintim ligeiro,
como ele recarregou a comblém. Mas era uma arma sem trocha,
e muito envelhecida, abaixo de todas as menos, até com cano já
gasto. – “X’eu cá ver o arcabuz, mano-velho...” – eu arrecadei.
Ele nem queria entregar; conforme que disse, triste: – “É a méa
combléia...” – e excogitava na arma. Esse, merecia. Que fossem
arranjar para ele uma outra, consentã – rifle chapeado ou
winchester mão 27, ou carabina qualquer, bala de chumbo. E aí o
Dos-Anjos me desofereceu o trabuco dele velho; mais que
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 787 –
avexado, e menino-manso me olhava... Mas Marcelino Pampa –
acho que foi, – quando a gente acabou de rir, pagou boa lembrança:
disse que, num brugo, a meio indo para o pique do
morro, Medeiro Vaz tinha deixado guardado, uma vez, um feixe
de armamento de soldados. Que eram cinco fuzis máuser,
oleados bem, num caixote, escondidos no fundo dum grande
solapo, no paredão. Se dizia. Tanto que lá nem bicho mateiro não
ia, tirante macaco; e que por tudo, por certo, deviam de estar de
uso. – “Por que é que Medeiro Vaz escondeu?” – “Por, no
tempo, não ter servível munição...” – “E agora se tem, que dê?” –
“A pois.”
Eu disse ao senhor: eu não sabia do inimigo, nem o inimigo
de mim, e nós vínhamos para se-encontrar. Então? Ah, mas eu
parei mais alto – estive muito mais alto, mesmo; e foi assim a sol.
Pois logo a gente quebrou caminho, trepando encosta, lá para
aquelas burguéias. Os nenhuns fuzis não achamos, adentro do
cavernal, que era muito espaçoso, só com uns morcegos, que
habitavam. E eu, por um querer, disse que ia subir mais, até no
cume. Poucos foram os que comigo vieram. As alturas.
Poucos; me lembro do Alaripe. Posto, pois foi porque foi.
Que estávamos já voltando descendo do ponto do alto, o vento
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 788 –
bobeando na cara da gente e bela-vista adiante, muito descrita.
Caminhando, mesmo, a gente tinha enrolado cigarros, que não
estava sendo azado de acender, por via do encano do ar, que
ventainhava. Esbarramos. Àlaripe bateu binga. Mas, repronto, ele
mesmo encolheu o corpo, e apontou, exclamando surdo: – “Há,
lá: no quembembe...” – o que, quembembe, na linguagem da
terra dele, vinha a ser: na virada, na tombada... Como com efeito,
acolá, na Serra do Tamanduá-tão, vertente abaixo, vinha um
cavaleiro. E eram muitos outros.
Esses, eles! Mas nós já tínhamos tomado recato. –
“Maximé...” – eu disse. E o que eu senti, ah, não foi receio, nem
estupor, nem arrocho. O que eu senti foi nada, coisa nenhuma:
coisa-nenhuma em branco, ao redor da minha movimentação...
Quantos com que, assim viessem, se guerreava; mas sempre
um chefe é uma decisão. Falei. E, quando mesmo dei tento, já
tinha determinado as ordens justas carecidas; tudo atinado, o
senhor veja, e tal. Primeiro, que uns três homens fossem levar
para aquela dita solapa do morro os que não eram mãos-d’armas:
que o menino Guirigó, o cego Borromeu e a mulher do
Hermógenes, que lá esperassem o final de tudo. E para isso
escolhi também o catrumano Dos-Anjos, que logo vi que bem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 789 –
escolhi, por tanto que ele, na primeira coisa que pensou, foi na
quantia de comida que para eles se deixasse. Daí, o da guerra,
exato, muito singelo: repartir a gente em três drongos, que íamos
descer a serra em diversas bocainas diferentes. Eu, com o meu,
normal rente. João Goanhá, da banda da mão direita; Marcelino
Pampa da banda da mão esquerda: eles fossem para ladear, e
revir e cometer, dando todas retaguardas!
Num átimo. Discutido assim, o pessoal se arrumou para ir,
já indo; jagunço nunca dilata. Mas os de João Goanhá e os de
Marcelino Pampa, primeiramente, que deviam de longe. Eu, com
os meus, tinha mais tempo, convinha mesmo retardar. Estive
contando os cavalos. – “Te arma bem, Diadorim!” – eu disse. –
“Te arma bem, mano meu mano!” Por que foi que eu disse?
Então, o senhor me confere: que eu ingrato não era, e que nos
cuidados de meu amor Diadorim sempre estava. E amor é isso: o
que bemquer e mal faz? Apalpei meu selim, que minhas pernas
esquentavam. Empunhei o parabelo. Alguns dos homens ainda
aproveitavam a espera para comer o que tivessem, e um quis me
obsequiar com a metade duma broa de brote, de se roer, e outro
que trazia um embornal-de-couro cheio com cajus vermelhos e
amarelos. Rejeitei. Por mesmo que naquele dia eu estava de jejum
quebrado só com uma jacuba. Nem quis pitar. Não por nervoso.
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Mas eu sabia que era o minuto e não era a hora. E o do embornal
com os cajus, sendo um João Nonato, diamantinense, decidido
agradável me disse: – “Hoje, Chefe, depois que se ganhar, com o
bom gol se festeja?” Oi, sim. E de repente eu disse dizer: – “Tu,
menino, meu filho, tu vem adiante, mano-velho: emparelhado
comigo... Tu me dá sorte!” Deixamos de esporas.
Descendo na cava, por feliz a gente vinha em oculto. E,
justo, já embaixo, no principiar da várzea, era um capim com
mais viço, capinzal do fresco de pé-de-serra. Capim mais alto do
que eu – nele à gente se tapava. Coincidido que, permeio o verde
dos talos, a gente via algumas borboletas, presas num lavarinto,
batendo suas asas, como por ser. Caiu o açúcar no mel! Porque,
igual também convim que podíamos ladear um tanto; e, daí,
separei, de cabeça, um grupo de homens, que iam ir com o
Fafafa: esses avançarem primeiramente – como a certa isca –
perturbando o cálculo do inimigo, ao dar o dar. Respiramos
tempo, naqueles transitórios. De rechego, coçando as caras no
capim em pontas, que dava vontade de se espirrar. Só o rumor
que se ouvia era o dos cavalos abocanhando. Eu tinha pressa de
um final, mas o que ia mor em mim era um lavorar de paciência:
talento com que eu podia ficar retardando lá, a toda a vida. Safas
– que eu podia dar também um pulo, enorme, sustirado,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 791 –
repentemente. Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem. O
capinzal repartia tudo diverso: o abafo do ar e o fresco de lugar
de grota – frio e calor, lado dum doutro, nas finas folhas mesmo
da folhagem. Mas o calor vinha subindo era pernas acima, no
meu corpo: o que os meus pés, de tão quentes, suavam. E eu
não enxergava o chão; mas o cheiro do lugar ali era de barro
amarelo massal. Suspensos no parar, mesmo, a gente se
embalançava na sela, banda para banda, na suavidade essa –
conforme temperação, de que o espírito necessitava. Sendo o
mundo quieto, para não assustar os pássaros que comem
sementes no capim, porque o revôo deles havia de dar ao
inimigo alto aviso no ar.
Sobre isto, eu tirei um pé do estribo e ajoelhei no coxim da
sela. Porque era a hora de olhar; mirei e vi. Como o inimigo
vinha: as listras de homens, récua deles: passante de uns cem.
Tive mão em tudo, eles ainda estando longe. Fafafa encostou
dois dedos no meu joelho, como se até às mudas quisesse poder
receber a ordem. Ele esperava um instante certo de meu
respirar. Eu brinquei com a mão no arção. Vez de um, vez:
todos e todos. Falo o dito de jagunço: que eles mesmos não
conseguiam saber se tinham algum medo; mas, em morte,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 792 –
nenhum deles pensava. O senhor xinga e jura, é por sangue
alheio.
Daí, reolhei. Avistei que vinham – e tinham destacado em
galope, festinho adiante, uns tais, que se enviassem de vigiar a
cava e a passagem de sobe-serra, como cautela. Fechei os olhos,
e contei. Até dez, agüentei não, que me deu um deciso já em
sete. – “Tu é tu, Fafafa!” – eu disse. E ele gritou: – “Xé, do
campo!” –; e correu as esporas. E eu vi o virar dos cavalos –
partindo rompendo, amassando cama no capinzal. Seja que, os
homens para acompanharem o Fafafa, eu medi em número e
soltei, feito em porteira de gado: e pouco passaram de vinte. E
eu retinha a duro os outros, que queriam também ir. E
Diadorim, desses. – “Eu!” – que Diadorim disse. Eu disse: –
“Não!” – como agarrei embaixo a rédea do cavalo dele. Por que
foi que fiz? Bastava o meu mando. Aquilo não tinha significado.
Só fiz querer Diadorim comigo; e a gente se cabia entre riscos
do verde capim, assim eu Diadorim enxergava, feito ele estivesse
enfeitado. Se escutando os grandes gritos e tiros: que eram os de
Fafafa destruindo a anteguarda dos contrários. Amontado no
instante, mas eu mesmo assim tive prazo para
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– 793 –
me envergonhar de mim, e para sentir que Diadorim não
era mortal. E que a presença dele não me obedecia. Eu sei:
quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de
verdade...
Aí, me alteei, e tive: que era o começo da grande batalha.
Sobre o soprar, o Fafafa indo em frente, mais os dele, gritando
alardes!
No que, os outros, os Hermógenes, também, que primeiro
formavam mó, depressa alargaram espaço, se abrindo uns dos
outros – mato de gente. Eles tresfuriavam assim, aos urros
zurros, quantidade que eram; eh, sabiam vir, à cossa. E tiros
mesmo pouco ouvi; mas, no liso seco estradai, do meio do
campo, deu um pano de poeira, empenachada. Eu bebi gotas:
digo, isto é, que ainda esperei mais. Como o Fafafa, de
proposital – porque aqueles outros podiam recachar – retardava
a ida avante, num meio-galope somente, muito enganador. A
avistar melhor, quase trepei de todo na sela, meu animal
cumprindo de não bulir, porque era cavalo consciencioso. Mas,
enquanto isso, saiba o senhor o que foi que fiz! Que fiz o sinalda-
cruz, em respeito. E isso era de pactário? Era de filho do
demo? Tanto que não; renego! E mesmo me alembro do que se
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 794 –
deu, por mim: que eu estava crente, forte, que, do demo, do Cão
sem açamo, quem era era ele – o Hermógenes! Mas com o
arrojo de Deus eu queria estar; eu não estava?!
Foi o instante de tempo que era o momento. Só chamei
João Concliz: – “Agora é agora...” E joguei a rumo. – “Lá vai
obra!” Meu cavalo saiu às cabeçadas. Todos atrás de mim, no
arranque; e era o mundo mesmo. Gritei de sussus: – “Vale seis!
– e toma nove!...” – nas grimpas da voz... E eles meus, gritando
tão feroz, que semelhavam sobrevindos sobre o ar. Menos vi.
Mas todo o todo do Tamanduá-tão se alastrou em fogo de
guerra.
Suspenso – ouviu? – escapei, à de banda, com meu bom
cavalo, repuxei as rédeas. Só assim permaneci, eu estava debaixo
duma árvore muito galhosa; canjoão? Que pensei. E rompeu
tiro, romperam, na polvorada. Até o capim dava assovio. E, por
tudo se desejar de ver, tantamente demorava e ficava custoso,
para em alguma justa coisa se afirmar os olhos. O que era feito
grande mesa posta, cujos luxos motivos, por dizer, alguém puxa
a toalha e, vai, derruba... Quem era que ia poder botar naquilo
uma ordem, para um fim com vitória? E estralou bala... Repisei
em minhas estribeiras, apertei as pernas nas espendas. Eu tinha
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 795 –
de comandar. Eu estava sozinho! Eu mesmo, mim, não guerreei.
Sou Zé Bebelo?! Permaneci. Eu podia tudo ver, com friezas,
escorrido de todo medo. Nem ira eu tinha. A minha raiva já
estava abalada. E mesmo, ver, tão em embaralhado, de que é
que me servia? Conservei em punho meu revólver, mas cruzei
os braços. Fechei os olhos. Só com o constante poder de
minhas pernas, eu ensinava a quietidão a Siruiz meu cavalo. E
tudo perpassante perpassou. O que eu tinha, que era a minha
parte, era isso: eu comandar. Talmente eu podia lá ir, com todos
me misturar, enviar por? Não! Só comandei. Comandei o
mundo, que desmanchando todo estavam. Que comandar é só
assim: ficar quieto e ter mais coragem.
Mais coragem que todos. Alguém foi que me ensinou
aquilo, nessa minha hora? Me vissem! Caso que, coragem, um
sempre tem poder de mais sorver e arcar um excesso – igual ao
jeito do ar: que dele se pode puxar sempre mais, para dentro do
peito, por cheio que cheio, emendando respiração... À fé, que fiz.
Se não vivei Deus, ah, também com o demo não me peguei –
refiro ; mas um nome só eu falava, fortemente falado baixo, e
que pensado com mais força ainda. E que era: – Urutu Branco!...
Urutu Branco!... Urutu Branco!... Cujo era eu mesmo. Eu sabia,
eu queria.
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E quando a guerra para o meu lado relambeu, feito
repentina labareda dum fogo. Uns vieram. E os tiros – deles, –
bala batia e rebatia. Cortavam capim do chão, que riscavam com
punhado de terra. Tch’avam partes de ramos da árvore por cima
de mim, e vagens do angico, que então reconheci por isso. Como
quieto fiquei. Eu não era o chefe? Mesmo que uma carga de rifle
se passou em meu chapéu-de-couro-de-vaca, e que outra, zoante,
em meu jaleco raspou. A mil, que não movi mão, mas dei
desprezo. Mas, eu tivesse alargado braço e movido mão, para
com tiros de meu revólver ripostar, e eu mal morto estava –
ponto que enquadrado de passantes balas, que rentes, até
quentes. – Urutu Branco... – eu só relembrei, sussurrado ditoso,
como quando com mocinha meiga se namora. Cachaças que em
minha alegria. Em vento. E balas, mais, só; num enorme num
minuto. Mas, bem: que, aluir dali, eu não aluía. Morresse – tive
preguiça de pensar – mas, morresse, então morria três-em-pé, de
valente: como o homem maior valente no mundo todo, e na hora
mais alta de sua maior valentia! À fé, que foi. Dei em lagoa, de
tão filho tranqüilo...
E, de arrepelo, tudo demudou. Aqueles torceram os
cavalos, revertendo para se espraiarem por longe. Que era porque
os de João Goanhá tinham se avindo de contornar, no cabo do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 797 –
mato, e cometiam urrando o grosso do inimigo, por detrás. –
“Fu!.Fiau!” – que se diz. Que tínhamos de percalçar e de vencer.
E aqueles dianteiros Hermógenes, que tinham vindo, campavam
fuga, de batida. E um, do cavalo preto, que bobeou, o Paspe, o
Sesfredo e o Suzarte foram nele, galopando num embolo! –
reformaram feia nuvem. E o corpo dele, no retém, foi jogado
morto, se tangeu duro no ar, ressaltou: feito uma tábua... Assim
um outro, se desatinando – João Vaqueiro, apeado, acertou nele
diversas vezes. Esse recurvou – tatu e tal. Ele veio cair, perto
exato de mim, ferido muito grave, conforme gemia. – “Desarma,
mas não acaba de matar, mano-velho...” – a João Vaqueiro eu
disse. Aquele homem inimigo derrubado jeremiava, cris,
querendo enterrar as unhas na casca dum pau. O queixume que
ele exprimia: que tinham mesmo de perder, por terem vindo com
os cavalos deles tão sovados, e avante em surpresa tão contrária...
De tudo se espiolhava, suave praguejante, aí com três costelas
derrotadas. Mas, água, ele pedia, cristão. Sede é a situação que é
uma só, mesmo, humana de todos. Rebaixei o corpo e dei nas
mãos dele a minha cabaça, quase cheia, e que era boa como um
cantil. Rústico, fechei os olhos, para não me abrandar com pena
das desgraças. Nem não escutei; que ouvido também se fecha.
No cavalo, eu estava levantado. Campo que me competia
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 798 –
comandar, dito. Tudo em mim, minha coragem: minha pessoa, a
sombra de meu corpo no chão, meu vulto. O que eu pensei
forte, as mil vezes: que eu queria que se vencesse; e queria quieto:
feito uma árvore de toda altura!
Tiroteio fechava.
E o pessoal de Marcelino Pampa apareceu também,
surgindo, para maior mal dos Hermógenes. Matamos neles.
Pegamos pelos lados. Confiro o que foi. O senhor – só se ouvia
era carabina, repetindo. Fogo do Tamanduá-tão: o senhor saiba.
E, pá!, ainda no pior do meio, eu adivinhei sabendo: que meu
comando tinha dado certo, e que dali a vau tudo estava já ganho,
desfecho do fim desse final. Somente para colher o maduro, eu
podia sobreviver. Sei que risquei – joguei de galope, em cima. Ao
que vim, aonde que tudo se estardalhava. Dei gritos. Arte que
abria no rifle; e matava. Donde era que estava o Hermógenes? A
uivos, atrás duns, rompemos em linha na vereda. Todo buriti
levou bala.
A mais, o inimigo não tinha o recurso de se apostar – por
tanto que perdiam os cavalos. Advindo que o baixadão dali não
dava esconderijos de mato para tocaia à jagunça. E os poucos
foram os que pegar as distantes brenhas conseguiam, ou o cheio
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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do capinzal, aonde não íamos desentocar ninguém. Aqueles
deviam de estar de faca em fúria na mão, cobrejando; somente
por meio de cachorros-mestres, afirmados em caça de gente, era
que podiam ser pegos, o que não se tinha. Os mais, em desrédea,
meteram doida fuga, enquanto mal pudessem, de debaixo de
balaços. Menos de poucos passaram. Ao rascampo em viemos,
soprando a perseguição. Tinha um valo, varamos um mato de
lobeiras. Aí era para a banda das roças novas. Uns morrinhos;
demos fogo. Uma tapera, outra tapera. Demos fogo. Poucos dos
poucos deles escaparam. Os que desladeavam, caíam, por nossos
esteiras. Era um relanço bem fatal...
Mas, um homem grande – que como pulou abaixo do
cavalo grande, que baleado fora – alcançou jeito de correr, e
encontrou uma cafua, em frente. Entrou. De lá, decerto, ia
mandar bala. E então nós, a gente, todos, desistindo de mais
longe perseguir os sobrantes, cercamos por completo aquela
choupana, de regular distância, caçando jeito de entrincheiramento.
Ia ser o terrível. Que quem era, aquele homem? – “Ah, o
Ricardão!” – se gritava. E eu mesmo sabia. Determinei uma
descarga. Cafua de buriti, que estremeceu, como que se
entortando de lugar, arreganhada em partes. A gente atirando,
atirando, com pouco ela ia desaparecer, desmanchada. Mas eu dei
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 800 –
ordem de paz. – “E adonde estará o Hermógenes, próprio?” – eu
indaguei. Alguém soubesse. De se ter ouvido algum deles, ferido
ou agarrado preso: que o Hermógenes não fazia parte atual
daquele bando – mais acontecia de andar, com outros, muito
adiantado dali, vinte léguas, avanço no poente. Mas, então? E
quase nossa gente toda já estava vinda, para apreciarem o
derradeiro aprumo do Ricardão. Eu dei comando.
- “Seô Ricardão, o senhor saia para fora!” – eu gritei, do
protegido donde estava.
Ele não deu resposta. Daí: – “Pau de fogo, minha gente!”
– eu procedi. Pipocaram. Durante o que, a cafua começava nas
últimas. Mas de dentro ninguém não ripostou; nem um tiro,
nem. Ele estivesse morto? Não tinha munição? Esperei o
engolir em seco três vezes. Daí, regritei: – “Seô Ricardão, o
senhor se saia!...” E ele, no esquisito, respondeu: – “Vou sair!” –
com um grito natural. Enérgico, para o meu povo, eu ordenei
muita paz. E o todo silêncio. Espiei.
Lá acolá, o homem abriu devagar os cacos de porta. Saiu,
deu uns passos. Como vinha, alto, chapéu na cabeça, até meio
sorridente. Não se esbugalhava. Assim estivesse pensando que ia
ter julgamento? Achei que. E ele não estava ferido. Caminhou
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 801 –
mais. Sendo que – e, aí, foi minha idéia? – ah, não; mas vi que
Diadorim, de ódio, ia pular nele, puxar faca. Só fiz fim: num
tirte-guarte: atirei, só um tiro. O Ricardão arriou os braços, deu
o meio do corpo, em bala varado. Como no cair, jogou uma sua
perna para lá e para lá. Como caiu, se deitou. Se deitou,
conforme quase não estivesse sabendo que morria; mas nós
estávamos vendo que ele já morto já estava.
Acho deveras que todo o mundo respirou com suspiro.
Digo que esta minha mão direita, quase por si, era que tinha
atirado. Segundo sei, ele devolveu Adão à lama. Só estas minhas
artes de dizer – as fantasias...
– “Não enterrem este homem!” – eu disse.
A justiça. Mas, mesmo, como é que se ia poder enterrar a
quantidade deles, mortos naquele dia?
Ao quando retornávamos para a Serra, eu ia olhava o céu,
vez em quando. Primeiro urubu que passou – foi vindo dos
lados do Sungado-do-A – esse se serenou bem, que me parecia
uma amizade de aceno. Avoeje... Mas – o que ia suceder por
diante!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 802 –
Somenos sei, e conto mal certo, o que os três dias foram,
no seguinte. Se soalerte o senhor, que estamos descambando: o
senhor mesmo se prepare; que para fim terrível, terrivelmente.
Eu podia? Como é que vou saber se é com alegria ou
lágrimas que eu lá estou encaixado morando, no futuro?
Homem anda como anta: viver vida. Anta é o bicho mais
boçal... E eu, soberbo exato, de minha vitória! Conforme prazia
o dito do cego Borromeu, que não se entristecia: – “Ah, eu
nunca botei em antes o nariz nestes campos...” Soscrevo. Mas,
ele, o que carecia de querer saber, às vezes perguntava. Desses
lugares, o divulgado natural, pedia pergunta. Aí, glosava:
Macambira das estrelas,
quem te deu tantos espinhos?
Tibes! Eu, não. Ia demandar de outros o que eu mesmo
não soubesse, a ser: nestes meus Gerais, onde eu era o sumo
tenente? Não me respondiam. Ninguém mesmo ninguém. A
gente vive não é caminhando de costas? Rezo. O que é, o que é:
existível como fundo d’água. Agora eu cismo que o cego
Borromeu também só do que já sabia era que indagava. Se não,
se não, o senhor verse, como bula santa; a cita não é revelável:?
Macambira das estrelas,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 803 –
xiquexique resolveu:
– Quixabeira, bem me queira,
quem te ama, Bem, sou eu...
Soletrei tudo. Assim ele cantava. Atrás, o menino Guirigó,
se envelhecendo, sobre outro cavalo. E a mulher do
Hermógenes, montada também, magra malvaz, como podia
estar indo em cima duma nuvem. Ela desenrolava a cara,
daquele xale verde, sem vexame nenhum, e o que espiava da
gente era por riba do queixo. Quem sabe do orgulho, quem sabe
da loucura alheia? Ela comia, ela bebia; em um tempo, prazida e
moça, tinha se casado. Só com desgosto dos prazos da vida foi
que enxerguei aquela mulher... Coisa dita não disse. A pois. O
dia estava por dado. Sol rachava os barros. A mulher, o menino
e o cego – aqueles saíram, tocaram. Estavam por ordem minha
trazidos do brugo do morro, mas sendo levados, sempre de
guarda, para o arraial do Paredão: estipados com conduta de dez
homens.
Esta é que era a razão: que o Hermógenes, da banda do
poente, podia vir. Viesse feito! Como que estavam engrossados
com quantidade de bandidos jagunços – se soube – e alguns
daqueles, escapes com vida do Tamanduá-tão, já devia de ter ido
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 804 –
a ele, levasse aviso. Soltei a faro meus vigiadores – para ter as
distâncias vindo medidas. Ah, mas, demeio a parte-do-poente e
o Paredão, a passagem certa era um lugar muito plausível, no
morro, e que se chamava o Cererê-Velho. Aonde fomos.
Estugados, em boa marcha. Até que o mormaço bateu as
asas. Deu trovão, com ventos trapes. Dizendo todos, disso, que
ia breve chover – para minha desvantagem. Em beira do mato,
no Cererê-Velho, se trabalhou com facão em ramagem e cipó,
armando tipóias e latadas. Como que melhorou a experiência do
tempo, adiando; esbarrou o vento rufado. Mas aquele trabalho
nosso era carecido, folgar não se pôde; nem para palavra minha
com Diadorim, que era de todo dia; conforme bem alembro.
Noitou. Conforme fui dormir, recansado de falfa. Dormir por
pouco. Conforme foi, e que o meu espírito não queria. Que, de
repente, acordei.
Madrugada de meia-noite. A lua já estava muito deduzida, o
morro e o mato misturados. Relanceei em volta. Todo o mundo
dormindo. Só o chochorro mateiro, que sai de debaixo dos
silêncios, e um ô-ô-ô de urutau, muito triste e muito alto. Depois,
ouvi o uivado inteiro dum cão. Os companheiros todos
dormindo, acordado só eu, alevantado de noite. Pesou por diante
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 805 –
de meu coração. Devi àquele cão mal-uivante? Idéia tristezinha,
que me veio. Por que era que só eu tinha acordado, desoras, tão
antes de todos?
Mas eu mesmo queria prosperar de olhos abertos, carecia.
O que produzia, era eu agüentar até passar o arrocho no coração.
Deus que me punia – que hora tem – ou o demo pegou a
regatear? E entendi que podia escolher de largar ido meu
sentimento: no rumo da tristeza ou da alegria – longe, longe, até
ao fim, como o sertão é grande...
Arte que espiei arriba, levei os olhos. Aquelas estrelas sem
cair. As TrêsMarias, o Carretão, o Cruzeiro, o Rabo-de-Tatu, o
Carreiro-de-São-Tiago. Aquilo me criou desejos. Eu tinha de
ficar acordado firme. Depois, daí, vi o escuro tapar, de nuvens.
Eu ia esperar, fazendo uma coisa ou outra, até o definitivo do
amanhecer, para o sol de todos. Ao menos achei de tirar, do tôo
da noite, esse de-fim, canto de cantiga:
Remanso de rio largo...
Deus ou o demo, no sertão...
Amanheceu com chuva. Mundo branco, rajava. Deu raio,
deu trovão, escorremos água; e tudo que se pensou ou se fez foi
em montes de lama. Diz o senhor, sim: assim é dia-de-véspera?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 806 –
Receio meu era só pela fuga de cavalos. Escapulissem – eles
sabem como o Gerais é espaçoso; como no Gerais tem disso:
que, passando noite tão serena, desse de manhã o desabe de repente
daquela chuva... E igual, de feito, que antes do meio-dia
estiou, calibre que ventava. Sol saído; e é ligeiro, a gente vendo,
que essa areia seca seus estados... Medi horas. Só o cruzo de
meus cavaleiros, amontados todos, enchendo e povoando o
saco-de-campo, como abelhas na umburana... Surjo que sabiam o
que não sabiam: eles estavam desinquietos em modos.
E os vigieiros chegando, conforme voltavam da espiação,
mesmo molhados ensopados. Um disse: – “Por longe, não
estando viajando para cá... Só se com retardo...” Adonde estava o
Hermógenes? O céu botava mais nuvens. Daí, outro: – “Deles,
nada...” E eu expedi ainda outros: que saíssem e fossem e vissem,
mais mestres, batessem aquelas beiradas de maior mundo. Que
modo que senseei, do vazio do tempo em redor – e que eu
entredisse: – “O Sertão vem?” Vinha. Trinquei os dentes. Mordi
mão de sina. Porque era dia de antevéspera: mire e veja. Mas isso,
tão em-pé, tão perto, ainda nuveava, nos ocultos do futuro.
Quem sabe o que essas pedras em redor estão aquecendo, e que
em uma hora vão transformar, de dentro da dureza delas, como
pássaro nascido? Só vejo segredos. Mas que o inimigo já estava
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 807 –
aproximado, eu pressenti: se sabe, pela aperreação do corpo,
como que se querendo ter mais olhos; e até no que-é do
arraigado do peito, nas cavas, nas tripas. O Hermógenes estava
para arremeter, de rancor, se mexendo nos escuros. A guerra
estava aprazada em batalha, ali no CererêVelho? Mas meus
homens, os troados brabos jagunços, por uma palavra minha
desatribulados, agora ao ar que esperavam por mim.
E aí foi quando veio o Suzarte, que desde depois do
Tamanduá-tão tinha saído enviado até mais longe, para espreitar
e espiar, como cachorro correndo os ventos. Chegou, parecia
galopando num cavalo já morto. Esbarrou. O cavalo baio, como
desmanchado – que arqueava triste as pernas dianteiras –
descansou tudo no chão, que da boca e das ventas ajorrava
sangue: rebentado dos estômagos e dos peitos. Mas o Suzarte,
que antes do ranger-sela já tinha escapado os pés das estribeiras e
pulado solerte no chão, tomou um átimo, e relatou: – “Eles
estão.” E – para o resto – ele apontou com o dedo.
O Hermógenes, mor maldito! Ele vinha errado de mim, os
Hermógenes, eles. Davam arte de contornar da banda do norte,
às tantas. O Suzarte tinha avistado, no dia antes, o movimento
dos vigias costaneiros, e definido, de remoto, o corpo do bando:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 808 –
poeira duns oitenta... Era o Hermógenes. Contornava, feito
gavião, vonje, como comigo não tinha nenhuma lei de
combinação; e esse era o direito dele, de às-avessas de guerra! A
um mal, o mal; mas o perigo de astúcia aquela hora mudava
maior de lugar. Porque eles podiam vir e sobrevir. Ou menos
retos; ou, mesmo – enquanto a gente parava ali, oferecidos, em
cama-de-caça – também eles dispunham de revirar,’de supeto, no
Paredão, por outra banda, e arrebatar a Mulher, contra meus só
dez homens, fazer o que quisessem, e para depois emendarem
caminho para o Cererê-Velho, em nós, com toda retaguarda...
Revesti isso, num relance. Arvorei a minha chefia. Meus jagunços
esperavam a certa decisão: aí eles nem me olhavam. –
“Maximé...” – eu disse. Resumi. Apre, o que eu ia dizendo, no
meio do som de minha voz, era o que o umbigo de minha idéia,
aos ligeiros pouquinhos, manso me ensinava. E era o traçado.
Tanto que dei ordem. Repartição de gente – se carecia –:
determinei assim. Metade – metade. Os com João Goanhá e João
Concliz ficavam, altos, no Cererê-Velho, cumprindo espera
afoita. E chamei os outros, e Marcelino Pampa de soto-comando:
rompemos para o Paredão. Tudo se quatreou num pronto, no
volver-voltear dos cavalos. Já um giro dava nos campos, já a
gente se esquipava. E, Diadorim, que vinha atrás de mim uns
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 809 –
metros, quando virei o rosto vi meu sorriso nos lábios dele.
Íamos redeando resolutamente, dando as costas para o solentrando.
Dividi idéia da guerra que ia ser, no brutalhal. Vindo a
cavalo assim, era que eu pensava melhor, nas menos margens.
Do Cererê-Velho até no Paredão, seis léguas; e eu tinha de
deixar ao menos um homem em cada meia-légua, em estação,
para em caso serem capazes de traspassar recado, de tudo por
tudo, com a rapidez da guerra. Eu fiz, só ia sendo. Todo o resto,
que viesse, todo o igual. E meus homens cumpriam,
capitalmente. Alegria do jagunço é o movimento galopado.
Alegria! Eu disse? Ah, não, eu não. O senhor de repente rebata
essa palavra, devolvida, de volta para os portos da minha boca...
Que foi, o dito? Novas novidades.
Conforme vínhamos, a sério tocar, e já a bem uma légua
do Paredão se estava, quando apareceu o Trigoso. Esse
retornava de traquejar as beiras da banda do sul, e estivesse
jejuno virgem de toda nossa ciência derradeira. Do Hermógenes
nem nada sabia – pois, justo. Mas queria por força relatar. Disse
coisas sem proveito. Disse. Carecia de impor no meu espírito o
rebuliço, de esfriar em mim o sangue nas veias?!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “... No Saz – uma veredinha, três léguas abaixo –
Chefe... Vaqueiro que achei, que me disse, remendando
mensagem: que é um homem, chamado Abrão, com uma moça
bem arrumada... Que vêm vindo, beiradeando o rio, e a tralha
deles trazem em dois burros cargueiros, e condução de dois
camaradas...”
Ele falou. E foi a coisa mais de repente, na minha vida.
Otacília! Como tudo neste mundo podia ser, e como a minha
mente tinha logo puxado de arranco, das palavras do Trigoso,
todo verdadeiro significado! Inteirei, comigo: – Seô Habão?
Vigia se ele não traz consigo uma donzela formosíssima, ou se traz
em-apenas desilusão... E o Trigoso disse, estava dizendo completo.
Ela era! Otacília. Otacília. Eu tinha de escutar, outra vez, o
Trigoso da verdade das coisas menos sabia. Imaginar, eu
imaginava. Otacília – a vinda dela, sertão a dentro, por me
encontrar e me rever, por minha causa... Mas achava a guerraria
de todos os jagunços deste mundo, raivando nos Campos-
Gerais. Terríveis desordens em volta dela, longe saída de casa de
seu pai, sem garantias nenhumas... Que proteção ia poder dar a
ela esse seô Habão, com dois pobres camaradas perrengues,
tudo tão malaventurado, como se estavam? Engoli amargos. Me
rodeavam meus homens, o silêncio deles me entendia, como
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 811 –
bem cientes. Reperguntei: quem sabe, se assim paravam na beira
do rio, se então não deviam de ter retrocedido caminho, se
encaminhando também para o Paredão?
– “Ah, que não, Chefe. Vaqueiro me disse: de lá para lá,
iam indo... Fugindo do perigo para o perigoso... E, no Paredão,
mesmo dito, já não tem mais pessoas de sede. As famílias todas,
e os moradores, camparam no pé, desgarrados, assim que o
medo chegou lá... O medo é demais de grande...”
Estremeci, mor. Eram as horas. Só de ouvirem falar no
vago do Paredão, meu povo afastava os cavalos, já querendo
regalopar. Entendi e mais entendi, rodei mão na cara. Incerteza
de chefe, não tem poder de ser – eu soubesse bem. Mas, era eu
ali, em sobregoverno, meus homens me esperando, e lá Otacília
carecendo do meu amparo. E a guerra que podia dar de
recomeçar, na boca dum momento, ou antes. Que de mim? Que
diversas honras diferentes homem tem, umas às outras
contrárias. Na estreitura, sem tempo meu, eu podia desdeixar
meus homens? E tinha de ir. Não por bons-e-belos, ah. Mas
minha Otacília vinha, em hora tão despertencida, de todas a vez
pior. Eu podia requerer amor: – Me dê primavera? Vi tudo
indeciso de mim, estarrecido – as pedras pretas no meio do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 812 –
capim, o campo esticado. Só fiz que no forte do sentir eu
pudesse era este ameaço de reza: – Me dê o meu, só, e que é o que
quero e quero!... – ao Demo ou a Deus... A lá eu ia. Otacília não
era minha noiva, que eu tinha de prezar como quase minha
mulher? Meio do mundo.
Vai, e eu disse: lá ia, no vou e volto; e já mesmo. Se diz –
era um pulo. Para revir e dar guerra, tempo havia de ter. Os
outros fossem, para o Paredão, tocassem. Já estava escurecendo.
Só mais que, nesse propósito, muitos acharam de me
acompanhar: alegando que, à tal coisa, como chefe, eu carecia de
não querer sozinho ir. Abanei cabeça. Em assim, aceitei dois:
Alaripe e o Quipes – companhia que me bastava. Eu não ia
desarrumar negócio, afracar o forte de minha gente, com mais
homens arrecadados. E sendo o de ser. Arremessei ordens,
joguei meu cavalo.
Porém, porém: e esbarrei, em saída. Esbarrei, para
repontar Diadorim, que vinha vindo. – A lá, que é?! – eu disse,
asp’ro. Diadorim quisesse me acompanhar, eu duvidava, de que
motivos. Não me respondeu. Li nele a forma duma ira, como
apertou os olhos em direitura do campo. – Tu não vai para o
Paredão, tu teme? – eu ainda buli. Diadorim me empaliava, a
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 813 –
certas. O ódio luzente, nele, era por conta de Otacília... Ele me
ouviu e não disse, ladeando o cavalo. Mirou meio o chão;
vergonha que envermelhou. Agora ele me servia dáv’diva
d’amizade – e eu repelia, repelia. Mas, fora de minha razão, eu
precisei com urgência de ser ruim, mais duro ainda, ingrato de
dureza. Invocava minha teima, a balda de Diadorim ser assim. –
Tu volta, mano. Eu sou o Chefe! – pronunciei. E ele, falando de
um bem-querer que tinha a inocência enorme, respondeu assaz:
– “Riobaldo, você sempre foi o meu chefe sempre...”
Ainda vi como ele – com a mão, que era tão suave em paz
e tão firme em guerra – amimava o arção do selim. Repostei um
feio xingo. Bramei isso, porque o azo de Diadorim me
transtornava. Dei de rédea. Com um raspo de galope, peguei
junto com Alaripe e o Quipes, que mais adiantados me
aguardavam. Nem espiei para trás – não ver que Diadorim
obedecia, mas como devia de parar estacado lá, té que o meu
vulto desaparecesse. Desjustiça. Mas como a obrigação do dia
me arrolava. E em tudo não pensei, tocando para ir fazer-eacontecer,
aos baques do coração. O senhor diria, dirá: como
naquela hora Diadorim e eu desapartávamos um do outro –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 814 –
feito, numa água só, um torrãozinho de sal e um torrãozinho de
açúcar... Fui, com desejos repartidos.
Tropear cavalgada – nós três: o Quipes, Alaripe e eu – meio
a esmo, isso é que se tinha. Refiz o frio da idéia. Mas, nos
primeiros ares, nem consegui. Eu despropositava. – Diadorim é
doido... – eu disse. Todo me surripiei, instanteante: tanto porque
“Diadorim” era nome só de segredo, nosso, que nunca nenhum
outro tinha ouvido. Alaripe só fez que susteve cara de não
entender, e disse somente: – Hem? Mas, aí, eu desmanchei o
encoberto, dado dando o do passado, me desimportava;
consoante expliquei: – “Diadorim” é o Reinaldo... Alaripe ficou
em silêncio, para melhor me entender. Mas o Quipes se riu: –
“Dindurinh’... Boa apelidação... Falava feito fosse o nome de um
pássaro. Me franzi. – O Reinaldo é valente como mais valente,
sertanejo supro. E danado jagunço... Falei mais alto. – Danado... –
repeti. Alaripe, por respeito, confirmou: – Ah, danado é... Por
que era que não dava outro jeito, dele comigo conversar, que não
fosse com essas reverências?
E a noite já tinha completado escuro, sem lua ainda
aparecida, eu não podia avistar a cara dele como formava
opinião, as palavras que eu falei ficaram sendo sem dono. –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 815 –
Otacília é minha noiva, Alaripe. Se alembra dela? Antes de outros
silêncios, ele me respondeu: – Alembro... Lá é um fazendão bom...
Até me desgostava o modo zeloso do Alaripe sempre guiar o
caminho, cuidados com que separava os galhos e ramagens de
árvore, para o meu cômodo de seguir. E a gente estava quase a
passo em passo. Donde de conversar desisti muito. A que a qual
a escuridão tapava toda boca.
Aonde para que eu ia? – e carecia de ir, conforme meu
dever. Mas minha Otacília não devia de ter escolhido justa essa
ocasião, tão destacada de propósitos, para vir aventurar entre
homens de morte essa delicadeza, sem proteção nenhuma, filhade-
família... Alaripe e o Quipes não descuidavam de tomar tento
em tudo, nos lados, no arredor – figurável que era tempo de
guerra, em brenhas de noite, e algum inimigo menos-se-espera
podia surgir para o mal. Aonde se ia? Rumo dado, reto em cima
da Vereda do Saz, ou seguir seguido, rio Paracatu arriba? Tudo
como que tudo se me dava à raiva – tanto por causa desse
vaqueiro, trazedor de relatos. Nem eu soubesse certo se era o seô
Habão, se era Otacília...
A quase metade do céu tinha suas estrelas, descobertas
entre os enuveados para chuva. O setestrelo, no poente, a uma
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 816 –
braça: devia de regular umas nove horas. Nesse ponto, deu de se
ouvir um rumor grande, para dentro do cerrado, removendo nas
galharias. Só fizemos que esbarramos, rifles em mãos. – É anta...
– o Quipes disse, conhecedor alertamente. Alguma onça, à espera
de lua. Otacília a tudo estava exposta, por culpa de maus
conselhos. – O seô Habão entregou a ela a pedra de ametista... – eu
falei. Alto falei; e não queria que o Alaripe ressoasse: “... entregou
a ela a pedra...” Isto é: a pedra era de topázio! – só no bocal da
idéia de contar é que erro e troco – o confuso assim. Diadorim
sofria mais de tudo, quem sabe, por conta da dádiva daquela
pedra. Otacília não devia de ter vindo. Eu... Essas andanças!
Agora, aonde era que se ia encontrar viajor, ou aquele beida-mãe
de vaqueiro, para obrigar a definir notícia? Mas o vaqueiro aquele
não teria o certo pouso. Só atrás de seu gado urucuiano. Todo o
mundo se fugia, do Paredão e de toda parte, suas trouxas nas
costas. A quando se divisou um foguinho adiante no campo, seja
que pensei: gente arranchada no ar, em caminho para lugar
nenhum... Não era. Somente foguinhozinho avoável assim
azulmente, que em leve vento se espalhava: fogo-fá, jan-dla-foz.
O que não se achava, o que eu pensava. Eu era diferente de
todos? Era. Susto disso – como me divulguei. Alaripe, o Quipes,
mesmo o calado deles, sem visagens, devia de ser diverso do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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meu, com menos pensamentos. Era? Sei que eles deviam de
sentir por outra forma o aperto dos cheiros do cerradão, ouvir
desparelhos comigo o comprido ir de tantos mil grilos campais.
Isso me dava ojeriza, mas também com certo consolo –
misturado. Como quando viajando assim, no escuro da noite, a
idéia da gente cheia de atormentamentos, e de repente o cavalo
bufa, batendo o vulto da cabeça branquenta, e chamando atenção
para o cheiro do suor dele, que vale por uma persistência, com
paciência de responsabilidade... Aquela noite estava podendo
mais do que a minha decisão? Soubesse não sei. Noite lembrada
em mim, de sereno a orvalho.
Revi madrugar, quando esbarramos, na beira duma vereda
pagã, por repouso. Aurora: é o sol assurgente – e os passarinhos
arrozeiros. Cá o céu tomou as tintas. Aí retoquei muita
lembrança madraça, como se estivesse no antigamente. Fez falta
foi um café; mas comemos farofa, bebemos gole d’água. O
Quipes apanhou araticum maduro, ele vivia cuidando de achar as
frutas em árvores e moitas. E Àlaripe ajuntou gravetos e acendeu
um fogo; só por calor e costume, só, que não se tinha o que
quentar nem assar. Medito como aos poucos e poucos um
passarinho maior ia cantando esperto e chamando outros e
outros, para a lida deles, que se semelha trabalho. Me passavam
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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inveja, de como devia de ser o ninho que fizessem-tão reduzido
em artinha, mas modo mandado cabido, com o aos-fins-e-fatos.
E o que pensei: que aquela água de vereda sempre tinha
permanecido ali, permeio às touças de sassafrás e os buritis dos
ventos – e eu, em esse dia, só em esse dia, justo, tinha carecido de
vir lá, para avistar com eles; por que que era? Bobéia... Eu estava
cansado, com uma dor na ilharga.
Por desenfastiar, conversei. – A veja, Alaripe: que nome será
que esta vereda havia de ter, o que merecesse denominado? Alaripe,
agachado ali mesmo, se virou para mim, esbarrando de assoprar
o fogo: – Figuro que ela algum nome já tem, só que não se saiba. A
modo que, pegando algum morador de por perto, se indaga... – ele
melhor me respondeu. Mas eu contradisse que não se precisava.
Forrei chão, para um cochilo. De qualquer jeito, a paragem ali
tinha de ter demora, carecia de se dar um lombo aos cavalos.
Para o que o dia ia ser, eles requeriam um descanso, e pastar;
cavalo são desdenha de dormir, o senhor sabe: bicho que só
come, come, come. O sono me conseguiu. Ferrei em mais de
umas duas horas.
Por que tudo refiro ao senhor, de tantas passagens? Ah,
pelo que quando acordei, retenha o seguinte. Acordei sentido e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mal à parte. Amargava. Devia de ir ter cólicas. As ânsias essas,
mesmo com outro cansaço. Feito sem repouso nenhum,
daquelas horas. Assim: eu sem segurança nenhuma, só as
dúvidas, e nem soubesse o que tinha de fazer. Acordei foi com o
vozeio de Alaripe e o Quipes, que já esperavam por mim, e
estavam naquela pauteação trivial deles, coisas sem nenhum
fundamento. Depois, Alaripe tirou da capanga um vidro que
tinha cachaça dentro, me ofereceu o primeiro gole. Era um vidro
meão, claro, feito remédio de frasco. Com alívio, tomei. Mas era
um alívio mesmo assim triste, e eu descri; eu quis discorrer
qualquer noção. – O que é que tu acha do que acha, Alaripe? Ele
não me conheceu: principiou a definir o Paredão, do Cererê-
Velho, do Hermógenes. Atalhei: – que não isso; que da vida,
vagada em si, no resumo? – A pois, isto... Homem, sei? Como que
já vivi tanto, grossamente, que degastei a capacidade de querer me
entender em coisa nenhuma... Ele disse, disse bem. Mas eu entiquei:
– Não podendo entender a razão da vida, é só assim que se pode ser
vero bom jagunço... Alaripe esbarrou, como ia quebrar em duas
uma palma seca de buritirana. Me olhou, me falou: – Se só de
entender, é comigo, eu entendo. Entendo as coisas e as pessoas...
Respondeu, disse bem. De mim, então, entendia? Desjuízo, que
me veio. Eu ia formar, em roda, ali mesmo, com o Alaripe e o
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Quipes, relatar a eles dois todo tintim de minha vida, cada desarte
de pensamento e sentimento meu, cada caso mais ignorável:
ventos e tardes. Eu narrava tudo, eles tinham de prestar atenção
em me ouvir. Daí, ah, de rifle na mão, eu mandava, eu impunha:
eles tinham de baixar meu julgamento... Fosse bom, fosse ruim,
meu julgamento era. Assim. Desde depois, eu me estava: rogava
para a minha vida um remir – da outra banda de um outro
sossego...
Pensei; quase disse. Aquilo durou o de um pingo no ar. Eu
havia de? Ah, não, meu senhor. Deu um momento, me tirou
disso; e tanto bastou. Doidice, tontura de espírito... – eu repensei,
reposto em pé. Xô! O ypsilone dum jegue eu era – zote, do que
arrenego, cabeça orelhalmente? Ali eu era era o Chefe, estava
para reger e sentenciar: eu era quem passava julgamentos! Então,
falei:
– “Vão sozinhos, vocês dois, beira-rio, procurando. Eu
não posso ir mais, por meu dever. Retorno, já, para o Paredão...”
Alaripe ainda cruzcruzou: – “A gente – pode ser que lá a
gente faz falta...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 821 –
Mas eu fechei. Sendo o que eu mesmo não podia, ao menos
esses eu mandava. Fossem, já fossem. Eles tinham de encontrar a
minha Otacília, a ela render boa proteção. Amontamos, os três.
Ainda esperei a saída deles.
Até me lembro de que, escabreado, na hora de saudar e
tocar, Alaripe ainda apontou para a linha de mato, vereda-acima,
achando: – Como que avisto, por detrás d’árvores, passar a marcha
dum cavaleiro... Não era. Não era, porque o Quipes não viu,
conforme confirmou que não viu; e o Quipes tinha olho de
gavião-grande. Aí, pensei: será, o Alaripe estava sendo um
homem se envelhecendo? Amigo meu – e meu estranho. Até me
lembro, pensei assim.
Retornei, enquanto eles dois iam para a outra banda. Agora
eu mudava, para motivos: chega estremeci de influência, aos aosares
de guerra. Deixei de parte a cisma, do mesmo jeito com que,
ainda fazia pouquinho, eu tinha afrouxado ânimo; ah, a gente
larga urgente o real desses estados. Agora minha alegria era mais
minha, por outro destino. Otacília ia ter boa guarda. E então, por
uma vez, eu peguei o pensamento em Diadorim, com certo
susto, na liberdade. Constante o que relembrei: Diadorim, no
CererêVelho, no meio da chuva – ele igual como sempre, como
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antes, no seco do inverno-de-frio. A chuva água se lambia a
brilhos, tão tanto riachos abaixo, escorrendo no gibão de couro.
Só esses pressentimentos, sozinho eu senti. O sertão se abalava?
Desfechei. Naquela corrida, meu cavalo teve as dez pernas.
E cheguei no Paredão, na derradeira boa-luz da tarde.
Diadorim, me esperava, demais. Ainda vi a alegria no rosto
dele.
O Paredão. O senhor ponha. Como esvoaça mosca gorda,
de donde se matou boi. Tudo estava perfeito tranqüilo. Diadorim
– com chapéu xíspeto, alteado. Nele o nenhum negar: no firme
do nuto, nas curvas da boca, em o rir dos olhos, na fina cintura; e
em peito a torta-cruz das cartucheiras. Os mais, zelando nas
armas, corriam os dedos, apalpavam por afago. Conversei com
todos. Aqui a guerra – que queriam guerra. Assim os meus
catrumanos: quais as caras deles iam ficando de demônios; mais
feio no demônio é o nariz e os beiços...
Conferi as sentinelas. Fui ver onde tinham botado a Mulher
– ela fechada num quarto, no sobrado. Ficasse remetida lá, sobpé
de guarda. O sobrado marcava o meio quase da rua. Mas, para a
gente em armas, de que é que valia aquele arraial inteiro, tão
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vazio? Determinei: deixar lá memo só uns poucos, como vigias.
Tanto o resto todo, para um ponto viemos, circunstância de
umas duzentas braças, aonde um lugar mais alto desenhado, que
seria para porta dos caminhos e apropriado para ali se resistir.
Formamos bons preparos. Minha mãe vivesse e viesse, ela
mesma por nenhum descuido mero não havia de poder me
reprovar.
Assim apreciei a gente – às mansas e às bravas – a minha
jagunçada. Agora eles estavam arrumando o mundo de outra
maneira. Tudo se media munição, e era fuzil e rifle se
experimentando. A guerra era,de todos. A juízo, eu não devia de
mestrear demais, tudo prescrevendo: porque eles também tinham
melindre para se desgostar ou ofender, como jagunço sabe honra
de profissão. Dos modos deles, próprios, era que eu podia me
saber, certificado, ver a preço se eu estava para ser e sendo exato
chefe. Com modos, eu falasse: – “Olh’, vigia, fulano: aí está
bom; mas lá acolá não é melhor?” – e receava que ele
respondesse, me explicando por que não era, não. Eu
questionava, comigo, que eles deviam de lavorar maior raiva.
Raiva tampa o espaço do medo, assim como do medo a raiva
vem. Reparei isto: como nenhum não citava o nome do
Hermógenes. Aí estava direito – que no imigo, em véspera, não
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se proseia. Mal que um disse: – “Ele não é laço: – é argola...” – Ou
outro, que: – “Ele adoida...” Mas os mais não glosavam. Com o
que prazi. Gastura que eu tinha era só de que, a ventos vai, um
fosse acrescentar: –... Ele é pactário...
Ah. E que fosse? Menção não era de se afirmar, regalia
nenhuma. Pois o demo não é de todos?! Alt’arte abri o meu
maior sentir: que eu havia de ter a vitória... Dali, o Hermógenes
não saía com vida, maneira nenhuma, testamental. Tive ódio
dele? Muitos ódios. Só não sabia por quê. Acho que tirava um
ódio por causa de outro, cosidamente, assim seguido de diante
para trás o revento todo. A modo que o resumo da minha vida,
em desde menino, era para dar cabo definitivo do Hermógenes
– naquele dia, naquele lugar. Pelejei para recordar as feições
dele, e o que figurei como visão foi a de um homem sem cara.
Preto, possuindo a cara nenhuma, feito se eu mesmo antes
tivesse esbagaçado aquele oco, a poder de balas... E tudo me
deu um enjôo. Tinha medo não. Tinha era cansaço de
esperança.
Também eu queria que tudo tivesse logo um razoável fim,
em tanto para eu então largar a jagunçagem. Minha Otacília,
horas dessas, graças a Deus havia de parar longe dali,
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resguardada protegida. O tudo conseguisse fim, eu batia para lá,
topava com ela, conduzia. Aí eu aí desprezava o ofício de
jagunço, impostura de chefe. Sei quem é chefe? Só o gatilho de
arma-de-fogo e os ponteiros do relógio. Sensato somente eu
saísse do meio do sertão, ia morar residido, em fazenda perto da
cidade. O que eu pensei: ... rio Urucuia é o meu rio – sempre
querendo fugir, às voltas, do sertão, quando e quando; mas ele
vira e recai claro no São Francisco... Agora, Alaripe e o Quipes,
regulando, deviam de já ter achado a minha Otacília, demais,
pelo Paracatu-acima, tão longe; e até semelhasse invenção, isto
que, na madrugada, eu mesmo também tinha estado em
caminho de lá, em tão precipitados surtos. Artezinha. Sei o
grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota,
esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com
pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias
todas...
Nessas e noutras muito extremadas coisas eu tornava a
pensar, o espírito em meia-mão, por diante permeio os outros
meus entretimentos deverdade. Agora tudo estava pronto, das
obrigações – afora a de esperar, que é a que regasta e se recoze.
A noite foi se esquentando assaz. Ali também, por avisante, não
se acendia fogueira. Mas o campo esparramava muito vagaJoão
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lume. Os homens formando grupos, acocorados assim, eles
conversavam. O quase que o legal, agora, era de se caçoarem
uns dos outros, desafiando quem fosse ser medroso ou
duvidado na coragem. Razão disso meava uma confiança, a
mais, eu escutando satisfeito aquelas bobices com que eles
porfiavam: – “Caranguejinho, sem cachaça tu vai?” – “Eh, não: tu!
Vai saudar o gado!” Pelos risos e debiques que divertissem, de
todos eu percebia a forte certeza. Cada cada-um, dali a pouco, ia
ser perigoso, de nele se encostar, feito um sapo que espirra. –
“Que te falo: amarra o burro, que a carga é sua...” – “Minha, a carga
está salva... Mal a bem, oxente, quero é ver o que vou ver...”Assim
se zé-zombavam. Aos ditos ditados, feito estivessem jogando
um truque, sem baralhos nenhuns. Por que é que aquilo me
comprazia? E Diadorim parava calado, próximo de mim, e eu
concebia o verter da presença dele, quando os nossos dois
pensamentos se encontravam. Que nem um amor no ao-escuro,
um carinho que se ameaçava. – “... Tiroteio fervo, se será! Aí é
que vou ver um mais menino que o J’bibe...” – “Se tu não sabe, você
vai saber: que eu já fiz minha fama... ““Jiribibe? Pois, aquele, eh: ele
pede esmola ao rei...” E reproduziam muitas essas gaitagens.
Agora estavam acostumados com a hora do lugar, e para
qualquer repente refrescados. Igual a um gado – que vem num
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pasto novo, e anda e fareja, reconhecendo tudo, mas depois
tudo aceita e então começa a resfeição. Agora, agora, sim, meus
homens estavam em ponto de fogo. Melhor mesmo não irem
dormir, antes de forte sono, por se evitar espertina de criatura
sozinha, em espera de possível má morte. Tive pena deles?
Disser isto, o senhor podia se rir de mim, declarável. Ninguém
nunca foi jagunço obrigado. Sertanejos, mire veja: o sertão é
uma espera enorme.
Vai, vai, uma hora eu perguntei a Diadorim: – “A Mulher
dissesse alguma coisa?” Isto eu não sabia por que era que estava
indagando. Aí eu não queria ciência de se a Mulher tivesse
falado alguma coisa trivial. Eu quisesse achar de saber – era se
ela alguma doidice de profecias havia de ter pronunciado?
Diadorim disse: – “Não.” Mas ele devia de estar curtindo outro
instar de outro assunto. Sustido eu sabia: o que era dele sempre
pensar – o imaginável de Otacília... Depois de remedir o
tamanho de um silêncio, ele mesmo veio: – E o Alaripe, mais o
Quipes; aonde foi que ficaram? Esse ciúme de Diadorim, não sei
porque, daquela vez não me deu prazer de vantagem. E eu
desdenhei, na meia-resposta: – Por aí... – que eu disse. Aí era o
cão da noite, que meu beiço indicava. Vaga-lumes, mais de
milhar. Mas o céu estava encoberto, ensombrado. Sofismei.
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Meio arrependido do dito, puxei outra conversa com Diadorim;
e ele me contrariou com derresposta, com o pique de muita
solércia. Me lembro de tudo. O que me deu raiva. Mas, aos
poucos, essa raiva minou num gosto concedido. Deixei em
mim. Digo ao senhor: se deixei, sem pejo nenhum, era por causa
da hora – a menos sobra de tempo, sem possibilidades, a espera
de guerra. Ao que, alforriado me achei. Deixei meu corpo querer
Diadorim; minha alma? Eu tinha recordação do cheiro dele.
Mesmo no escuro, assim, eu tinha aquele fino das feições, que eu
não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da idéia.
Diadorim – mesmo o bravo guerreiro – ele era para tanto
carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume no
pescoço: a lá, aonde se acabava e remansava a dureza do queixo,
do rosto... Beleza – o que é? E o senhor me jure! Beleza, o
formato do rosto de um: e que para outro pode ser decreto, é,
para destino destinar... E eu tinha de gostar tramadamente assim,
de Diadorim, e calar qualquer palavra. Ela fosse uma mulher, e àalta
e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão
e no fazer – pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! Mas,
dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em
singela conversação – por detrás de tantos brios e armas? Mais
em antes se matar, em luta, um o outro. E tudo impossível. TrêsJoão
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tantos impossível, que eu descuidei, e falei. –... Meu bem, estivesse
dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos... –; o disse, vagável
num esquecimento, assim como estivesse pensando somente,
modo se diz um verso. Diadorim se pôs pra trás, só assustado. –
O senhor não fala sério! – ele rompeu e disse, se desprazendo. “O
senhor” – que ele disse. Riu mamente. Arrepio como recaí em
mim, furioso com meu patetear. – Não te ofendo, Mano. Sei que tu
é corajoso... – eu disfarcei, afetando que tinha sido brinca de
zombarias, recompondo o significado. Aí, e levantei, convidei
para se andar. Eu queria airar um tanto. Diadorim me
acompanhou.
Era uma noite de toda fundura. Estava dando um vento,
esquisito para aquele tempo, por ser um vento em-hora do lado
suão, em-hora do norte, conforme se riscando um fósforo, ou
jogando punhado de areia fina clara para cima, se conhecia.
Andamos. Mas, agora, eu já tinha demudado o meu sentir, que
era por Diadorim uma amizade somente, rei-real, exata de forte,
mesmo mais do que amizade. Essa simpatia que em mim, me aumentava.
De tanto, que eu podia honestamente dizer a ele o meu
bemquerer, constância da minha estimação.
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Não disse. Por que que não disse, foi porque o perigo da
ocasião me invocou: achei que podia ser agouro, em véspera de
guerra, a conversa afeiçoada assim. Diadorim – em que era que
ele devia de estar pensando?; é o que eu não soube, não sei, à
minha morte esta pergunta faço... Como certo é que só do semmais
de coisas falamos, sem nenhuma expedição. Até que o
vento revirou: mudando inteiro, que vinha era só do norte,
conforme neste lado da minha cara ele só se fez quente,
refrescando. O sertão ventou rouco. Com formas que logo se
ajuizou de poder supravir chuva forte, e carecido foi que
determinamos de retornar com tudo, para se ir dormir mesmo
nas casas do arraial, só uns poucos homens de vigia se deixando
naquele alto, a padrasto. E isso era o exato, mas me aborreceu
demais e me cansou, mais do que as outras peripécias. Consabido
que na noite antes eu tinha viajado em todo regime das estrelas, e
mais ainda no dia, afora as duas ou três horinhas de sono, de
madrugada. Foi eu ver um catre, e me trespassei. Ainda disse
uma recomendação: que, tirante caso resoluto, em hora qualquer
não me chamassem. Dormi mortalmente. Essa, foi noite que eu
dormi: sendo o chefe Urutu-Branco, mesmo dizer – o jagunço
Riobaldo...
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Acordei último. Alteado se podia nadar no sol. Aí, quase
que não se passavam mais os bandos de pássaros. Mesmo perfiz:
que o dia ia dever ser bonito, firme. O calor fortalecia, e logo ia
se secando o chão, umas poças de lama e as árvores com gotejos
– porque de noite tinha caído uma bruega. Bebi café, comi um
naco de carne gorda, repassada na farinha, mastiguei um taco de
rapadura. Enquanto vi, meu pessoal discorria na mesma disposição,
influentes como antes. Tornamos para o ponto
demonstrado de espera, cada um caçando seu atrincheirado.
Chegou o Cavalcânti, vindo do Cererê-Velho, com recado:
nenhumas novidades. Para o Cererê-Velho recambiei aviso:
nenhumas novidades, minhas também. O que positivo era, e do
que os meus vigiadores do rededor davam confirmação. Antes,
mesmo, por mais, que eu quisesse ficar prevenido, o dia era de
paz. Todos percebessem. Era uma paz gritável. – Será que não vão
vir? – algum maldisse, no rifle se escorando. Vez vendo, duvidei.
Chegou a me dar desânimo, fato que não viessem – e a gente ter
de adiar fim, recomeço, rodando por esse mundo a fora em vã
caçada. – Ah, não! – retemperei. Homem nenhum podia deixar a
mulher sojugada presa em mão de outros, e demorar desistido de
ataque. Vinha que vinha, mais hora menos hora. Todos esperassem.
E eu mesmo de todas minhas armas não larguei, quando
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desci para momento de lavar o corpo no rio. Que tão perto era.
E, de lá, todo movimento dos meus eu avistava.
Duvido? Desavistei foi na mente, não foi dos olhos. Como
que o avio de descangar as armas de sobre mim e as cartucheiras,
e o vagar de tirar a roupa e remolhar os pulsos, e fazer menção
para entrar na água com conforto – essas ações tiravam conta do
meu estar, como um alívio de sossego. Eu tinha a certeza de paz,
por horas. E o demo me disse? Disse; mas foi assim: tiros!
Choque que levei – foi feito um trovão. Começou a se
bradar.
Os gritos, tiros. Que foi, mesmo, que eu primeiro ouvi?
Primeiro, dum pulo bruto, eu já estava lá, pegando minhas
roupas, armado prestes. E vi o mundo fantasmo. A minha gente
– bramando e avisando, e descarregando: e também se
desabalando de lá, xamenxame de abelhas bravas. Mas, por quê?
– eu desentendi; e tornei a entender, depressa demais: que o inimigo
dera de se estourar, todo de-repentemente, da banda outra,
lugar donde não devia de vir, nem ali possível de ser esperado.
Eles eram quantidade. Cru e cru que avançavam, avançando,
como que já iam tomar o Paredão, as casas na ponta do arraial.
Estarreci. Que, na prema da minha ausência, o muito mundo se
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acabava. Tudo diferente da cartada. E eu sei o que é estupor: que
eu tinha pegado calça e camisa em mão, e esbarrei, num
demorado sem termo, no meio de me revestir, e eu num latejo
frouxo pensando: – Não chego em tempo... Não adianta... Não
chego em tempo nenhum...
Sei lá o tanto que isso durou? E eu via o meu pessoal
avançar também, com brabura e diligência, na outra ponta, a
modo de impedir que o arraial fosse tomado... Porque o Paredão
era uma rua só; e aquilo ficou de enfiada – um cano de balas.
Mas, no mesmo ar de ar em que eu via aquilo, lavorei pensando:
que eu era tonto, e burro, e idiota as mil vezes, porque agora
estava perdida irremediavelmente minha ocasião, e a guerra
descambava, fora do meu poder... E eu acabei de me enroupar,
mal mal, e escutava essas vozes: – Tu não vai lá, tu é doido? Não
adianta... Não vai, e deixa que eles mesmos uns e outros resolvam,
porque agora eles começaram tudo errado e diferente, sem perfeição
nenhuma, e tu não tem mais nada com isso, por causa que eles
estragaram a guerra... Assim ouvi, sussurro muito suave, vozinha
mentindo de muito amiga minha. O meu medo? Não. Ah, não.
Mas meus pêlos crescendo em todo o corpo. Mas essa
horrorizância. Daquela doçura nojenta de voz. E senti meu corpo
muito grande. Me xinguei. Um sujeito vinha correndo, nele eu
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quase atirei. Desertor? Ah, não, esse o Sidurino era, correndo por
um cavalo. Ah – e bem fosse! – ia voltear para o Cererê-Velho,
chamar, trazer reforço, para darem retaguarda. E eu casei com
meu rifle, vim, vim, vim. Desconheci temor nenhum. Vivo em
vida, me ajuntei com os companheiros. Meus homens! – dei
ordens. As balas estralejavam.
Foi fogo posto. Arrasar que vem de para onde não se olha:
feito forte sol; e vem como sol nascendo! Rachavam lascas,
espatifavam. Aí podiam descascar os arvoredos de uma dessas,
floresta toda inteira... Apraz que os ares!
Ah esses meus jagunços – apragatados pebas – formavam
trincheira em chão e em tudo. Eles sabiam a guerra, por si, feito
já tivessem sabido, na mãe e no pai. Só se aos uivos urros, se
zurrava. Aí – como tomei chegada e peguei postura. Valia ver –
comandar? Gritei: – “Chagas de Cristo!...” Os meus davam ainda
outros gritos. A carabina, em mãos, coisa mexedora. A gente
disparava dentro dos quintais, avançávamos. E de detrás das
casas. E guardávamos o emboque da rua. Diz que lê?; diz-que
escreve! Tiro ali era máquina. Aos tantos, juntos, relando – cinco
deles, cinco dedos, cinco mãos. A gente tinha de caber em
buracos escavacados. A cabeça da gente é que dá voltas, mesmo
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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no esconderijo, como para se desviar. Mas não se tem medo a
gasto. Eu dizia: fré! – e botava bililica na agulha. – Amanso! Eu
queria que Diadorim não se descuidasse. Diadorim disse: –
“Toma cautela, Riobaldo...” Diadorim se descabelou,
bonitamente, o rosto dele se principiava dos olhos. Eu
comandava? Um comanda é com o hoje, não é com o ontem. Aí
eu era Urutu-Branco: mas tinha de ser o cerzidor, Tatarana, o que
em ponto melhor alvejava. Medo não me conheceu, vaca! Carabina.
Quem mirou em mim e eu nele, e escapou: milagre; e eu
não ter morrido: milagremente. A morte de cada um já está em
edital. Dia de minha sorte. O que digo e desdigo; o senhor
escute. Mas o inimigo fuzuavatiroteio total.
Tudo ali era à maldição, as sementes de matar. De ouvir o
renje uimuim dessas, perto de nossos cabelos – eles sobem, de si
–; e chega a doer de nervoso: mas dói real, como se umas
daquelas atravessassem até buracal do olho da gente, mas feito
dor que vara do céu-da-boca, por dentro dos ossos,
pontudamente, igual quando às vezes se come sorvete de gelo...
Era a cara pura da morte. – Av’ave! Marcelino Pampa, logo esse.
Nem olhou ninguém. Curvou o corpo quase se quebrando em
dois, ia encostar testa no chão; e largou tudo, espaireceu as mãos,
e bofou da boca diversos dois feixes de sangue. Sangue dele.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Semelhava que um boi nele tivesse pisado... E eu desfechei dez,
para a frente, vingando fosse. Daí, vigiei. Um homem morre mais
que vive, sem susto de instantaneamente, e está ainda com remela
nos olhos, ranho moco no nariz, cuspes na boca, e obra e
urina e restos de de-comer, nas barrigas... Mas Marcelino Pampa
era ouro, merecia lágrimas dalguma mulher perto, mão tremente
que lhe fechasse bem os olhos. Porque não se vê outro assim,
com tão legítimo valor, capaz de ser e valer, sem querer parecer.
E uma vela acesa, uma que fosse, ali ao pé, a fim de que o fogo
alumiar a primeira indicação para a alma dele – que se diz que o
fogo somente é que vige das duas bandas da morte: da de lá, e da
de cá... E eu peguei puxei o corpo para não ficar em cima dum
vestígio de lama – porque ali de noite tinha chovido; e Diadorim
panhou o chapéude-couro, com qual tapou o rosto do dono. A
paz no Céu ainda hoje-emdia, para esse companheiro, Marcelino
Pampa, que de certo dava para grande homem-de-bem, caso se
tivesse nascido em grande cidade. Ah pápá! falei fogo. Aquilo em
volta se arrebentava, balalhava.
Mas a gente tinha conseguido de firmar possessão –
agarramos mais da metade do arraial, do arruado. O sobrado
restou nosso. Com anseio, olhei, para muito ver, o sobrado rico,
da banda da mão direita da rua, com suas portas e janelas
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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pintadas de azul, tão bem esquadriadas. Aquela era a residência
alta do Paredão, soberana das outras. Dentro dela estava sobreguardada
a Mulher, de custódia. E o menino Guirigó e o cego
Borromeu, a salvos. Da parte de cima, das janelas, e das portas,
no rés, vez a vez meus homens descarregavam. Aquele sobrado,
sobradão, parava lá, sobre sereno – me prazia tudo comandando.
Ir lá?
– “Atual, em riba, estão dois: um é o José Gervásio.
Embaixo, na venda, uns quatro...” – quem me informou disso foi
o Jiribibe, em meu ouvido carecendo de altear voz, tanto que
espingardaria estrondava.
– “Pouco é, para ações. Tu vai lá, Riobaldo...” – quem me
disse foi Diadorim, em tanto. Surriada zuniu. O tutuco das balas,
e as que batiam no chão, as raivosas, tirando terra.
Atirei, seco. Umas três ou quatro vezes. Carreguei em
novamente.
– “Aqui é que é meu dever, Diadorim. Por o mais
perigoso...” – eu falei, muito alerta. Tudo que Diadorim
aconselhasse, eu punha de remissa; a modo de que com
pressentimentos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Tu vai, Riobaldo. Acolá no alto, é que o lugar de chefe.
Com teu dever, pela pontaria mestra: que lá em riba, de lá tu
mais alcança... Constante que, aqui, o negócio está garantido...”
– ele disse, mansinho, de me persuadir.
Troquei o rifle-papo pelo máuser, movi mão, fogo. Nesse
ato, nem sei se matei. Às artes, lá, o sobrado, que torna mirei e
admirei. Meu posto? O quanto também olhei Diadorim: ele,
firme se mostrando, feito veadamãe que vem aparecer e refugir,
de propósito, em chamariz de finta, para a gente não dar com o
veadinho filhote onde é que está amoitado... Aquele sobrado era
a torre. Assumido superior nas alturas dele, é que era para um
chefe comandar – reger o todo cantão de guerra!
– “Eu vou...” –; fui.
Deixado João Curiol no meu lugar, e esse tinha muita valia.
Rastejei, tomei saída, conforme tinha de ir: pelos quintais das
casas. Ainda virei, relanceando. Sempre queria ver Diadorim. O
querer-bem da gente se despedindo feito um riso e soluço, nesse
meio de vida.
Avancei, furando os terreiros e as hortas das casas, eu
debaixo de armas, nos arreios. Toda a parte ali tinha gente
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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nossa, que com brados me saudavam: conforme vale, quando
um chefe mostra mor valentia. Gente com o Jõe Bexiguento,
sobrechamado o “Alpercatas”. E estava lá o João Nonato – que
dava boa-sorte, com o bom ar. Avancei, rompi uma cerquinha
de taquara, contornei um pano de muro, onde o Paspe tinha
furado os adobes, cavando torneiras. E dei fé: que o Jiribibe
vinha me acompanhando. O menino bom. Os olhinhos dele a
gente só via era porque eram inventados de pretos. – “Será, da
banda de lá, estão bem governando, os clavinoteiros?” – ele me
disse. Aí, por que me dizia? Soubesse não que o brinquedo
agora era mortal? Sobre o que, se riu, me apresentando: o que
era, no fofo da terra, debaixo duma roseira, um gatinho preto-ebranco,
dormindo seu completo sossego, fosse surdo,
refestelado: ele estava até de mãos postas... Mas, perto de mim,
veio grão d’aço – que varou cheiamente um pé de mamoeiro. –
“Vigia, te abaixa!” – eu ralhei com o Jiribibe. A gente ouvia a
urração, ou cita seja, destemperada, dos inimigos, e um
desentoar de cantiga, que toda pessoa era filho-da, segundo a
qual. Aos canalhas! Mas mais xingava o Jiribibe, ripostando. Daí,
depressa, ganhamos trincheiras, atrás dum forno de assar
biscoitos: e berraram punhadão de disparos, para nosso lado,
chega semelhava rajada de chuva-de-pedra. Lugar danoso!
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 840 –
Aguardamos, deitados. – “Te foge, Jiribibe, que figuro eles têm
gente atirando de cima de árvores...” – eu total aconselhei.
Assim rastejávamos. E pouco faltava para o quintal do sobrado:
só uma cerca miúda, com um chuchuzeiro dependurado com
chuchus grandes; eram uns chuchus enormes. – “Vam’ boro,
Chefe!” – que o Jiribibe gritou. E caiu morto, para pra cá –
acertado na testa. Não gritei, e rastejei. Ao quando dar o
derradeiro lance, na porta da cozinha do sobrado, derrubei uma
bacia grande, que lá em-pé encostada estava. Aí entrei. Aquela
bacia atrás de mim levou uma carga de tirázios, com a qual
retiniu toda, lata velha... No eu entrar, os que ali vi me
saudaram: – “Epa, Chefe!” – Respondi: – “Eh, epa!” E, naquele
instante, pensei: aquela guerra já estava ficando adoidada. E
medo não tive. Subi a escada.
O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O
senhor avista meus cabelos brancos... Viver – não é? – é muito
perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é
que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu,
depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha
narração?
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Subi aquela escada-de-redor, escutando a madeira nos
meus passos, e avisando: – “Quem evém sou eu, minha gente!”
– repetido. Aquilo meio sombrio, o ar que dava era como de ser
antigo dia-de-domingo. Aí, notei que eu mesmo arfava um
pouco, e estava com uma sede. Por lá devia de ter algum pote
fresco – imaginei. – “É eu! minha gente...” – eu disse; mesmo
assim eles se assustaram primeiro, depois tomaram satisfação
por me ver. Os que na sala que dava para a frente da rua
estavam, os quais eram: que o Araruta e o José Gervásio, nas
armas; e o menino Guirigó e o cego Borromeu, assentados no
banco, encostado na parede para o interno. Esses dois, muito
juntos, como que tremiam um tanto; deviam de estar rezando. –
“Que e a mulher?” – eu indaguei.
O menino Guirigó queria mostrar: ela estava presa num
quarto. Ela também estivesse rezando? Corredor velho, para ele
davam tantas portas, por detrás duma delas tinham fechado a
mulher, num cômodo. A chave estava na mão do cego
Borromeu. Era uma chave de todo-tamanho, ele fez menção de
me entregar; rejeitei. – “Tem talha d’água, por aqui?” – eu disse,
eu tinha uma pressa desordenada, de certo. – “Diz que lá
embaixo tem...” – foi o que o menino Guirigó me deu resposta.
Entendi que ele curtia sede, igualmente, e querendo comigo ir –
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por seguro temia descer sozinho a escada. E o cego Borromeu,
também, que não respondeu, mas que mexeu a boca, mole,
mole, fazendo desse rumor de quem termina de mastigar
rapadura. Me enjoou. Mas ele não tinha comido alguma coisa.
Não tive comigo: – “Tu me ouve, xixilado, tu me ouve? Assim
tu me dá respeito e agradece interesses de ter tomado conta de
você, e trazido em companhia minha, por todas as partes?!” Eu
disse. Ele disse: – “Deus vos proteja, Chefe, dê ademão por nós
todos... E de tudo peço perdão...” Ele se ajoelhou. Ouvir e ver isso
me embaraçasse, eu já pegava ponto de remorso.
Porque esse homem, sem visão carnal, de valia nenhuma,
maldade minha era que tinha sido a trazida dele, de em desde o
começo de lugar onde ele cumpria sua vida. E agora ele devia de
padecer o redobrado medo, concebendo que vai ou vai a gente
fugisse dali, e ele para trás parasse, para as unhas dos outros.
Mas a cena desses todos pensamentos em mim foi ligeira
demais, conforme não tinham geração. A meio me lembro, e
conto, é só para firmar minha capacidade. Como o reslumbre,
que, no tento da hora, eu prezei em Otacília, juízo vago. Como
para a janela eu fui, quase que na imaginação de botar meu olhar
e haver de ver, no longe tal, o lugar aonde ela andava. Conto,
para o senhor conhecer quanta espécie de causa, no mover da
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mente, no mero da tragagem de guerra. E o José Gervásio e o
Araruta, cada um em beira duma janela, agachados, carabinas
em mão, as cheias cartucheiras. Para mim era que olhavam,
estudados, querendo algum qualquer sinal. E aí uma bala alta
abelhou, se seguindo sozinha, muito rente, com cujo barulho de
música que fez eu conheci que era de comblém. Eu tinha de dar
mais espertação ainda àqueles dois. Tenência. Para uma janela
me cheguei. E endureci no rifle. Em volta relanceei. Eu – o
bedegas!
Saiba o senhor: eu estava ali, assim em padastro de todos,
de do ar, de rechego, feito que em jirau-de-espera, para castigar
onça assassinã. Vi ou não vi? Só espreitei. Dono do que lucrei,
de espreitar. Uns deles, num terreiro acolá, manobravam a
gosto, nas más armas. Assestei. Um era um sujeitão, muito
baiano nos trajes. Do gatilho do rifle, no triz, me mandei nele.
Aquele caiu torto; o outro completou. Assim eram três: o
derradeiro percebeu que tinha céu, e correu, dando gambetas.
Zumba! levou não sei quantas esburacadoras, na tampa de suas
costas... Ah, ali valia; donde que eu estava. Ao mesmo quando
revingaram, com umas descargas, despejadas. Dei atrás, mas
sobranceei, de talaia. Fazia bem duas horas que aquela batalha
tinha principiado. Se estava no poder do meio-dia.
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De graça berra é o boi, tirante a vaca. Dessa daquela vez,
tudo não acabava sem um fim – ferrado que o Hermógenes não
era cão de desmorder os dentes; e ele vinha de cinqüenta léguas!
Toada tinha de ter um prazo. E há um vero jeito de tudo se
contar – uma vivença dessas? Os tiros, gritos, eco, baque boléu,
urros nos tiros e coisas rebentáveis. Dava até silêncio. Pois
porque variava, naquele compasso: que bater, papocar, lascar,
estralar e trovejar – truxe – cerrando fogo; e daí marasmar, o
calado de repente, ou vindo aos tantos se esmorecendo, de
devagar. Tempo que me mediu. Tempo? Se as pessoas
esbarrassem, para pensar – tem uma coisa! : eu vejo é o puro
tempo vindo de baixo, quieto mole, como a enchente duma
água... Tempo é a vida da morte: imperfeição. Bobices minhas –
o senhor em mim não medite. Mas, sobre uns assuntos assim,
reponho, era que eu almejava ter perguntado a Diadorim, na
véspera, de noite, conforme quando com ele passeei. Naquela
hora, eu cismasse de perguntar a Diadorim:
– “Tu não acha que todo o mundo é doido? Que um só
deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou
o amor? Ou em horas em que consegue rezar?”
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Não indaguei. Mas eu sabia que Diadorim havia de me dar
resposta: – “Doca Ramiro não era doido nenhum, Riobaldo; e
ele, mataram...” Então, eu podia, revia:
– “... Mas, porém, quando isto tudo findar, Diá, Di, então,
quando eu casar, tu deve de vir viver em companhia com a
gente, numa fazenda, em boa beira do Urucuia... O Urucuia,
perto da barra, também tem belas troas de areia, e ilhas que
forma, com verdes árvores debruçadas. E a lá se dão os
pássaros: de todos os mesmos prazentes pássaros do Rio das
Velhas, da saudade – jaburu e galinhol e garça-branca, a garçarosada
que repassa em extensos no ar, feito vestido de mulher...
E o manuelzinho-da-troa, que pisa e se desempenha tão catita –
o manuelzinho não é mesmo de todos o passarinho lindo de
mais amor?...”
Podia ser? Impossivelmente.
Eu não tinha sido capaz de perguntar aqueles ensalmos a
Diadorim, de fato só em coisa à-toa se conversou, trivial a
respeito de munição e meus armamentos, e avio de guerra.
Véspera. As horas é que formam o longe. Mas, agora, ali, em
ocasiões de morte, eu repisei; e, mesmo, amontado no
momento, que era que eu ia dizer a Diadorim, se perto de mim
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ele parasse? Hoje, não sei. Não soubesse, naqueles adiantes. Ali,
por onde eu estava, eu marcava muito suave a mão da morte;
feito um boiadeiro, que, em janela ou porta, ou tábua de curral
ou parede de casa, por todas as partes por onde anda, carimba
remarcada a amostra do ferro dele de seu gado, para se
conhecer. Assim. Como lembro, que eu tinha uma dor-decabeça;
era uma dor-de-cabeça forte, fincada num ai só, furante
de verrumas. Agüentei. Devia de ser da sede.
Dá, deu: bala beija-florou. Zuos – ao que rachavam
ombreiras das janelas, estraçalhavam, esfarelavam fasquia. Umas
que caíam quase como colhidas, no assoalho do chão – tinham
dançado de ricochete – e ficavam para lá, amolgadas, feito
pedaço de cano, ou aveladas de maduras. Essas podiam se
esfriar, de vagarinho. Perdiam sem valia aquele feio calor que,
podia ter sido a vida de uma pessoa. O José Gervásio e o
Araruta recuaram para o meio da sala, me recomendaram me
acautelasse. Mas eu permaneci. Disse que não, não, não. Minhas
duas mãos tinham tomado um tremer, que não era de medo
fatal. Minhas pernas não tremiam. Mas os dedos se
estremecitavam esfiapado, sacudindo, curvos, que eu tocasse
sanfona. Aí, gritei: – “Estrumes!” Deram fuzilada. Fogo
fechado, as cargas de pólvora e o despejar e assoviar – como o
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vento ronda, no final das águas... Mesmo assim eu queria e
visava, dali não saí, do vão aberto, não dando de meu poder.
Desfechei bem. Por mim, meu desprezo, como essas
assoviantes deles varejavam... Eu não estava caçando a morte –
o senhor bem me entenda. Eu queria era a coragem maior.
Macho com meu fuzil reiúno, dei salvas. Tive fechado o corpo?
Quero que não; não pergunto. Não morri, e matei. E vi. Sem
perigo de minha pessoa.
Aí, quando foi, monumental, peguei susto: lá embaixo,
muito estava demudando. Só se fez que, inesperadamente, parte
do povo do Hermógenes, que tantos eram – a rascorja! – tinham
alcançado de rodear por trás da minha gente, na ponta da rua,
tomando retaguarda. Iam vencer, fosse possível? Temi por todos.
Ah, não, que não regiam. D’ind’hoje, o amigo meu João
Vaqueiro eu estou vendo: mais homem, mais moreno,
arrenegando de todos os macacos, nem suor ele não
desperdiçava... o que ele vestiu, vestiu, couro é... e vai embora,
dando muito as costas... lá adiante, acometendo, contra outros
outros... Morreu, que mataram. Em obra de umas cem braças.
Ah, não! Os nossos agüentavam o relance, arre disparando,
a mastro de balas; foi um fogo...
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E eu, hesitado nos meus pés, refiz fé: teve o instante, eu
sabia meu dever de fazer. Descer para lá, me ajuntar com os
meus, para ajudar? Não podia, não devia de; daí, conheci. Ali, um
homem, um chefe, carecia de ficar – naquele meu lugar, no
sobrado. Mas, resoluto, mandei ao Araruta e ao José Gervásio,
que fossem, mas fossem! Eles mesmos queriam ir. Eles desceram
a escada. Estado daquele fogo era um pipoco mal-acreditado.
Tudo não sendo guerra? – entendi. Um panelão na trempe, o que
se cozinhava... Sobrestive. Surgindo o fim, eu restava desandado
ao para trás, sozinho só, com os dois. O menino Guirigó – uma
mão apertando as costas da outra, seguidos esses
estremecimentos, repuxava a cara, mas com os beiços abertos em
dor, tudo uma careta. Ele era um menino. E o cego Borromeu
fechava os olhos.
Tive pena. Não ouvi nada; eu disse: – “Deveras?” Eu disse:
– “Vocês têm paciência, meus filhos. O mundo é meu, mas é
demorado...” A arte que prometi: que, mais baque, mais retumbo,
a gente ganhava: a gente ganhava... a gente ganhava! Antes bati
uma palmada firme, no liso da minha coronha. A vitória! Ah – a
vitória – eu no meio dela, que com os ventos arrastado...
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E não era? Durou dali a meia-hora, nem bem, e vislumbrei
outro alvoroço, mas da ponta da outra banda, e festivo para mim,
me dando milagre. – Eli, do ar! Eh, dunga! Ao que era que tal era
que: repentemente, o pessoal meu do Cererê-Velho, sequazes de
João Goanhá suprachegavam também, enfrentando os
Hermógenes pelas costas – davam a toda retaguarda! De alegre
ser, destampei tiro sobre tiro. A guerra, agora, tinha ficado
enorme.
O senhor supute: lado a lado, somando, derramavam de ser
os trezentos e tantos – reinando ao estral de ser jagunços... Teria
restado mais algum trabuco simples, nos Gerais? Não tinha. E ali
era para se confirmar coragem contra coragem, à rasga de se
destruir a toda munição. Dessa guisa enrolada: como que lavrar
uma guerra de dentro e outra de fora, cada
um cercado e cercando. Recompor aquilo, no final? Só com
a vitória. Duvidei não. Nasci para ser. Esbarrando aquele
momento, era eu, sobre vez, por todos, eu enorme, que era, o
que mais alto se realçava. E conheci: oficio de destino meu, real,
era o de não ter medo. Ter medo nenhum. Não tive! Não tivesse,
e tudo se desmanchava delicado para distante de mim, pelo meu
vencer: ilha em águas claras... Conheci. Enchi minha história. Até
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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que, nisso, alguém se riu de mim, como que escutei. O que era
um riso escondido, tão exato em mim, como o meu mesmo,
atabafado. Donde desconfiei. Não pensei no que não queria
pensar; e certifiquei que isso era idéia falsa próxima; e, então, eu
ia denunciar nome, dar a cita: ... Satanão! Sujo!... e dele disse
somentes – S... – Sertão... Sertão...
Na meia-detença, ouvi um limpado de garganta. Virei para
trás. Só era o cego Borromeu, que moveu os braços e as mãos;
feio, feito negro que embala clavinote. Sem nem sei por que, mal
que perguntei:
– “Você é o Sertão?!”
– “Ossenhor perfeitamém, ossenhor perfeitamém... Que
sou é o cego Borromeu... Ossenhor meussenhor...” – ele
retorquiu.
– “Voxe, uai! Não entendo...” – tartamelei.
Gago, não: gagaz. Conforme que, quando ia principiar a
falar, pressenti que a língua estremecia para trás, e igual assim
todas as partes de minha cara, que tremiam – dos beiços, nas
faces, até na ponta do nariz e do queixo. Mas me fiz. Que o ato
do medo não tive. Mandei o cego se sentar, e ele obedeceu, ele
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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estava no aparvoado; mas não se abancando no banco: que
melhor se agachou, ficou agachado. Riu, de me dar nojo. Mas
nojo medo é, é não? Destemor maior Deus não me desse,
segundo retornei para a praça da janela, donde eu dava e
mandava. Sobreolhava. Ah, máuser e winchester que
assoviamzinho sutil. E chio de espingardão velho antigo. Chumbeou.
Há-de varavam. Como refiro, que também eu não persistia
ali aparte de tudo, desperdício; mais antes: quem se avultasse,
baqueava... Carabina.
Sucinto que se passou, horas tantas, estalos e estrondos
estouros, sotrançando no chicotear das balas-balas, sempre disso.
Sempremente. Ao constante que eu estive, copiando o meu
destino. Mas, como vou contar ao senhor? Ao que narro, assim
refrio, e esvaziado, luís-e-silva. O senhor não sabe, o senhor não
vê. Conto o que fiz? O que adjaz. Que eu manejava na mira.
Dava, dava. E que não pronunciei insultos e gritos, mesmo
porque minha boca, a modo que naquele preciso tremor, me
mal-obedecia. Sapateei, em vez, bati pé de pilão nas tábuas do
assoalho tão surdo – o senhor é capaz que escute, como eu
escutei? E o que o furor da guerra, lá fora, lá embaixo, tomava
certa conta de mim, que a quase eu deixava de dar fé da dor-decabeça,
que forte me doía, que doesse vindo do céu-da-boca,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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conforme desde, aos poucos, que o fogo tinha começado. E que
água não provei bebida, nem cigarro pitei. Esperançando meu
destino: desgraça de mim! Eu! Eu...
Como vou contar, e o senhor sentir em meu estado? O
senhor sobrenasceu lá? O senhor mordeu aquilo? O senhor
conheceu Diadorim, meu senhor?!... Ah, o senhor pensa que
morte é choro e sofisma-terra funda e ossos quietos... O senhor
havia de conceber alguém aurorear de todo amor e morrer
como só para um. O senhor devia de ver homens à mão-tente
se matando a crer, com babas raivas! Ou a arte de um: tá-tá, tiro
– e o outro vir na fumaça, de à-faca, de repelo: quando o que já
defunto era quem mais matava... O senhor... Me dê um silêncio.
Eu vou contar.
Tudo estava tão pendurado para o fim... Derradeiro ainda
foi, que eu virei para trás, para repreender o cego Borromeu; e
que eu estava com dormente dor, nos braços. Sem-ordem
daquele cego, estúrdio, agachado lá, cocoral. Só fez que disse,
bronco: – “Quem me dê um de-comer?” Respondi: ralhei. Ah,
há-de-o, singular ficasse, mesmo ali, mascando fumo grosso e
cuspindo amarelo e preto... Dei num suor. Vozeiro dele, então,
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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de repente: que principiou a cantar, ele estava cantando um
louvado...
Como os braços me testemunhavam um peso... Mesmo
estranhei, quando fui notando que o tiroteio da rua tinha
pousado termo; achei que fazia um certo minuto que o fogo
teria sopitado. Cessaram, sim. Mas gritavam, vuvu vavava de
conversa ruim, uns para os outros, de ronda-roda. Haviam de
ter desautorizado toda munição? Olhando, desentendi. Atirar eu
pudesse? Acho que quis gritar, e esperei para depoismente, mais
tarde. Mesmo o que vi: aquele mexinflol. E que quem saía duma
porta, para ir se juntar com o bando de todos – armou,
segurando frente de si engatilhada uma garrucha de dois canos,
pôs a mira – que era o catrumano Teofrásio, como se fosse
braço-d’armas! E vi, chefiando os dele, o Hermógenes! Chapéu
na cabeça era um bandejão redondo... Homem que se desata...
Entendi. O senhor me socorre.
Conheci o que estava para ser: que os dele e os meus
tinham cruzado grande e doido desafio, conforme para cumprir
se arrumavam, uns e outros, nas duas pontas da rua, debaixo de
forma; e a frio desembainhavam. O que vendo, vi Diadorim –
movimentos dele. Querer mil gritar, e não pude, desmim de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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mim-mesmo, me tonteava, numas ânsias. E tinha o inferno
daquela rua, para encurralar comprido... Tiraram minha voz.
Como vinham de lá e de lá, em contra-ranchos, a tomar
armas, as cartucheiras de tiracol. Atirar eu pude? A breca torceu
e lesou meus braços, estorvados. Pela espinha abaixo, eu suei
em fio vertiginoso. Quem era que me desbraçava e me peava,
supilando minhas forças? – “Tua honra... Minha honra de homem
valente!... “ – eu me, em mim, gemi: alma que perdeu o corpo. O
fuzil caiu de minhas mãos, que nem pude segurar com o queixo
e com os peitos. Eu vi minhas agarras não valerem! Até que
trespassei de horror, precipício branco.
Diadorim a vir – do topo da rua, punhal em mão, avançar
– correndo amouco...
Ai, eles se vinham, cometer. Os trezentos passos. Como eu
estava depravado a vivo, quedando. Eles todos, na fúria, tão
animosamente. Menos eu! Arrepele que não prestava para
tramandar uma ordem, gritar um conselho. Nem cochichar
comigo pude. Boca se encheu de cuspes. Babei... Mas eles
vinham, se avinham, num pé-de-vento, no desadoro, bramavam,
se investiram... Ao que – fechou o fim e se fizeram. E eu
arrevessei, na ânsia por um livramento... Quando quis rezar – e
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só um pensamento, como raio e raio, que em mim. Que o
senhor sabe? Qual: ... o Diabo na rua, no meio do redemunho... O
senhor soubesse... Diadorim – eu queria versegurar com os
olhos... Escutei o medo claro nos meus dentes... O Hermógenes:
desumano, dronho – nos cabelões da barba... Diadorim
foi nele... Negaceou, com uma quebra de corpo, gambetou... E
eles sanharam e baralharam, terçaram. De supetão... e só...
E eu estando vendo! Trecheio, aquilo rodou, encarniçados,
roldão de tal, dobravam para fora e para dentro, com braços e
pernas rodejando, como quem corre, nas entortações. ... O diabo
na rua, no meio do redemunho... Sangue. Cortavam toucinho
debaixo de couro humano, esfaqueavam carnes. Vi camisa de
baetilha, e vi as costas de homem remando, no caminho para o
chão, como corpo de porco sapecado e rapado... Sofri rezar, e
não podia, num cambaleio. Ao ferreio, as facas, vermelhas, no
embrulhável. A faca a faca, eles se cortaram até os suspensórios.
... O diabo na rua, no meio do redemunho... Assim, ah – mirei e vi – o
claro claramente: ai Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes...
Ah, cravou – no vão – e ressurtiu o alto esguicho de sangue:
porfiou para bem matar! Soluço que não pude, mar que eu
queria um socorro de rezar uma palavra que fosse, bradada ou
em muda; e secou: e só orvalhou em mim, por prestígios do
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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arrebatado no momento, foi poder imaginar a minha Nossa-
Senhora assentada no meio da igreja... Gole de consolo... Como
lá embaixo era fel de morte, sem perdão nenhum. Que engoli
vivo. Gemidos de todo ódio. Os urros... Como, de repente, não
vi mais Diadorim! No céu, um pano de nuvens... Diadorim!
Naquilo, eu então pude, no corte da dor: me mexi, mordi minha
mão, de redoer, com ira de tudo... Subi os abismos... De mais
longe, agora davam uns tiros, esses tiros vinham de profundas
profundezas. Trespassei.
Eu estou depois das tempestades.
O senhor nonada conhece de mim; sabe o muito ou o
pouco? O Urucuia é ázigo_ Vida vencida de um, caminhos
todos para trás, é história que instrui vida do senhor, algum? O
senhor enche uma caderneta... O senhor vê aonde é o sertão?
Beira dele, meio dele?... Tudo sai é mesmo de escuros buracos,
tirante o que vem do Céu. Eu sei.
Conforme conto. Como retornei, tarde depois, mal
sabendo de mim, e querendo emendar nó no tempo, tateando
com meus olhos, que ainda restavam fechados. Ouvi os rogos
do menino Guirigó e do cego Borromeu, esfregando meu peito
e meus braços, reconstituindo, no dizer, que eu tinha estado sem
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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acordo, dado ataque, mas que não tivesse espumado nem
babado. Sobrenadei. E, daí, não sei bem, eu estava recebendo
socorro de outros – o Jacaré, Pacamã-de-Presas, João Curiol e o
Acauã : que molhavam minhas faces e minha boca, lambi a água.
Eu despertei de todo – como no instante em que o trovão não
acabou de rolar até o fundo, e se sabe que caiu o raio...
Diadorim tinha morrido – mil-vezes-mente – para sempre
de mim; e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejavam.
– “E a guerra?!” – eu disse.
– “Chefe, Chefe, ganhamos, que acabamos com eles!...
João Goanhá e o Fafafa, com uns dos nossos, ainda seguiram
perseguindo os restos, derradeira demão...” – João Concliz deu
resposta. – “O Hermógenes está morto, remorto matado...” –
quem falou foi o João Curiol. Morto... Remorto... O do Demo...
Havia nenhum Hermógenes mais. Assim de certo resumido – do
jeito de quem cravado com um rombo esfaqueante se sangra
todo, no vão-do-pescoço: já ficou amarelo completo, oca de
terra, semblante puxado escarnecente, como quem da gente se
quer rir – cara sepultada... Um Hermógenes.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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Nas vozes, nos fatos, que agora todos estavam explicando:
por tanto que, assim tristonhamente, a gente vencia.
Sobresseguida à doideira de mão-de-guerra na rua, João Goanhá
tinha carregado em cima dos bandidos deles que estavam dando
retaguarda, e com eles rebentado... Aquilo não fazia razão.
Suspendi minhas mãos. Vi que podia. Só o corpo me estivesse
meio duro, as pernas teimando em se entesar, num emperro, que
às vezes me empalhava. Sendo que me levantei, sustentando, e
caminhei os passos; as costas para a janela eu dava.
Nesse ponto, foi que o Alaripe e o Quipes vinham
chegando. Notícia de Otacília me dessem; eu custava a me
lembrar de tantas coisas. Aqueles dois vinham alheios, do que
vinham, desiludidos da viagem deles:
- “Era a vossa noiva não, Chefe...” – o que Alaripe relatava.
– “O homem se chamava só Adão Lemes, indo conduzindo a
irmã dele, fazendeira, cujo nome é Aesmeralda... Iam de volta
para suas casas... Os que, então, no Porto-do-Ci deixamos, na
barra do Caatinga...”
Tanta gente tinha o mundo... – eu pensei. Tanta vida para a
discórdia. Agradeci ao Alaripe, mas virei para os outros nossos;
perguntei:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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– “Mortos, muitos?” – “Demais...”
Isto o João Curiol me respondeu, prestativamente, sistema
de amigo. Solucei em seco, debaixo de nada. Agora um me
dizendo: que, com as ferramentas, uns estavam trabalhando de
abrir covas para enterro, revezados. Alaripe fez um cigarro,
queria dar para mim; que rejeitei. – “E o Hermógenes?” – aí foi o
que o Alaripe perguntou.
Como estavam indo abrir aquele quarto, trazendo do
corredor a mulher do Hermógenes. Ela visse. – A senhora chegue
na janela, dona, espia para a rua... – o que João Concliz falou.
Aquela Mulher não era malina. – A senhora conheça, dona, um
homem demõiado, que foi: mas que já começou a feder, retalhado na
virtude do ferro... Aquela Mulher ia sofrer? Mas ela disse que não,
sacudindo só de leve a cabeça, com respeito de seriedade. – Eu
tinha ódio dele... – ela disse; me estremecendo. Ou eu ainda não
estava bem de mim, da dor que me nublou, tive de sentar no
banco da parede. Como no perdido mal ouvi partes do vozeio de
todos, eu em malmolência. – Tomaram as roupas da mulher nua?
Era a Mulher, que falava. Ah, e a Mulher rogava: – Que
trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos
muito verdes... Eu desguisei. Eu deixei minhas lágrimas virem, e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
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ordenando: – “Traz Diadorim!” – conforme era. – “Gente,
vamos trazer. Esse é o Reinaldo...” – o que o Alaripe disse. E eu
parava ali, permeio o menino Guirigó e o cego Borromeu. – Ai,
Jesus! – foi o que eu ouvi, dessas vozes deles.
Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes
que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já
frias já rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus-buritizais
levados de verdes... Buriti, do ouro da flor... E subiram as escadas
com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim – será
que amereci só por metade? Com meus molhados olhos não
olhei bem – como que garças voavam... E que fossem campear
velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em
volta do escuro do arraial...
Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a
Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como
que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim,
casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia,
só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo
assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota
nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara
economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 861 –
duráveis... Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi,
não é, não fica sendo! Diadorim...
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava
rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a
Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro
simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o
corpo. E disse...
Diadorim – nu de tudo. E ela disse: – “A Deus dada.
Pobrezinha...”
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu –
não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor
divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo
somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim
era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não
pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão
terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi
um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim!
Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não
acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 862 –
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da
gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci,
retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a
Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles
olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos.
Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só
ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por
que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– “Meu amor!...”
Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder
não presenciar o mundo.
A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça
de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as
mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que
tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas
de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra-deametista,
tanto trazida... O Quipes veio, com as velas, que
acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim.
Como tinham ido abrir a cova, cristamente. Pelo repugnar e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 863 –
revoltar, primeiro eu quis: – “Enterrem separado dos outros,
num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...”
Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me
vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos
extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí,
fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão
enterrada, em campo do sertão.
Ela tinha amor em mim.
E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando.
Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais
do que eu, a minha verdade. Fim que foi.
Aqui a estória se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui a
estória acaba.
Resoluto saí de lá, em galope, doidável. Mas, antes, reparti
o dinheiro, que tinha, retirei o cinturão-cartucheiras – aí ultimei
o jagunço Riobaldo! Disse adeus para todos, sempremente. Ao
que eu ia levar comigo era só o menino, o cego, e os dos
catrumanos vivos sobrados: esses eu carecia de repor de volta,
na terra deles, nos lugares. E, a Mulher, também dela me
despedi, há-de ver que esturdiamente, sem continuação de
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 864 –
continuação. Ainda encomendei a João Curiol, que era um
baiano bom, na palavra e no caráter, que providenciasse o
retorno daquela, para onde quisesse ir outra vez.
Desapoderei.
Aonde ia, eu retinha bem, mesmo na doidagem. A um
lugar só: às Veredas-Mortas... De volta, de volta. Como se, tudo
revendo, refazendo, eu pudesse receber outra vez o que não
tinha tido, repor Diadorim em vida? O que eu pensei, o pobre
de mim. Eu queria me abraçar com uma serrania? Mas, nessa
parte, de muito mal me lembro, pelo revés em minha saúde. Ao
que eu ia, de repente, me vinha um assombramento de espírito,
muita vez tonteei, de ter de me segurar, de cair; e, depois,
durante muitos espaços, eu restava esquecido de tudo, de quem
eu era, de meu nome. Mas o Alaripe, Pacamã-de-Presas, o
Quipes, o Triol, Jesualdo, o Acauã, João Concliz, e o Paspe, me
cuidavam; esses tinham, por toda a lei, forçado de me acompanharem,
vinham comigo; e o Fafafa, mais João Nonato e
Compadre Ciril, que vieram depois. Amigos meus. Aí eu vinha.
Chapadão. Morreu o mar, que foi.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 865 –
Eu vim. Pelejei. Ao deusdar. Como é que eu sabia
destornar contra a minha tristeza? O dito, vim, consoante
traçado. Num lugar, o Tuim, me alembro: eu tive de mudar para
outro cavalo. E um sitiante, no Lambe-Mel, explicou – que o
trecho, dos marimbus, aonde íamos, se chamava mais certo não
era Veredas-Mortas, mas Veredas-Altas... Coisa que compadre
meu Quelemém mais tarde me confirmou. Daí, mais para
adiante, dei para tremer com uma febre. Terçã. Mas o sentido
do tempo o senhor entende, resenha duma viagem. Cantar que
o senhor fosse. De ai, de mim. Namorei uma palmeira, na
quadra do entardecer...
Na morna, baqueei, não podendo mais. Me levaram, por
primeiro, de revexo. Depois me botaram para dentro duma casa
muito pobre. Desembestei doente. Por último, como perdi meu
conhecimento, estavam me deitando num catre.
Que foi febre-tifo, se diz, mas trelada com sezão, mas
sezão forte especial – nas altíssimas! Que a febre que eu tinha
era tamanha tanta, como nunca se viu – o Alaripe depois me
disse ; que no decorrer dos acessos eu tresvariava. Do que, no
ouvir contado, recordei a estória dum fazendeiro, o mais
maldoso, que o demônio por fim salteou, por suas ruindades: e
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 866 –
que, endemoninhado, no quarto de sua casa, uivando lobum,
suplicava alivio do calorão, e carecia mesmo que os escravos
despejassem nele latas e baldes d’água, ao constantemente, até
para evitar que, de tudo devorante tão quente, não viesse e desse
de pegar fogo no cômodo, de incêndios... Doidice. Em dança de
demônios, que nem não existem. Pois, então, só a doença não
bastasse? O tempo que fiquei, deslembrado, detido. O quanto
foi? Mas, quando dei acordo de mim, sarando e conferindo o
juízo, a luz sem sol, mire e veja, meu senhor, que eu não estava
mais no asilo daquela casinha pobre, mas em outra, numa grande
fazenda, para onde sem eu saber tinham me levado.
Eu estava na Barbaranha, no Pé-da-Pedra, hóspede de seo
Josafá Ornelas. Tomei caldo-de-galinha, deitado em lençóis alvos,
recostado. E já parava meio longe aquele pesar, que me
quebrantava. Lembro de todos, do dia, da hora. A primeira coisa
que eu queria ver, e que me deu prazer, foi a marca dos tempos,
numa folhinha de parede. Sosseguei de meu ser. Era feito eu me
esperasse debaixo de uma árvore tão fresca. Só que uma coisa, a
alguma coisa, faltava em mim. Eu estava um saco cheio de
pedras.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 867 –
Mas aquele seo Ornelas era homem de muita bondade,
muita honra. Ele me tratou com categoria, fui príncipe naquela
casa. Todos – a senhora dele, as filhas, as parentas – me
cuidavam. Mas o que mormente me fortaleceu, foi o repetido
saber que eles pelo sincero me prezavam, como talentoso
homem-de-bem, e louvavam meus feitos: eu tivesse vindo,
corajoso, para derrubar o Hermógenes e limpar estes Gerais da
jagunçagem. Fui indo melhor.
Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em
rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um
pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça.
Otacília.
Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era
sempre novo. Afirmo ao senhor, minha Otacília ainda se orçava
mais linda, me saudou com o salvável carinho, adianto de amor.
Ela tinha vindo com a mãe. E a mãe dela, os parentes, todos se
praziam, me davam Otacília, como minha pretendida.
Mas eu disse tudo. Declarei muito verdadeiro e grande o
amor que eu tinha a ela; mas que, por destino anterior, outro
amor, necessário também, fazia pouco eu tinha perdido. O que
confessei. E eu, para nojo e emenda, carecia de uns tempos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 868 –
Otacília me entendeu, aprovou o que eu quisesse. Uns dias ela
ainda passou lá, me pagando companhia, formosamente.
Ela tinha certeza de que eu ia retornar à Santa Catarina,
renovar; e trajar terno de sarjão, flor no peito, sendo o da festa de
casamento. Eu fui, com o coração feliz, por Otacília eu estava
apaixonado. Conforme me casei, não podia ter feito coisa
melhor, como até hoje ela é minha muito companheira – o
senhor conhece, o senhor sabe. Mas isto foi tantos meses depois,
quando deu o verde nos campos.
Eu já estava de todo bom, firme para as arremessadas,
quando ali na Barbaranha se surgiu para mim igualmente a visita
de seô Habão – ele com o seo Ornelas se tivessem entre tempos
pacificado. Homem baseado. Demonstrou que tinha muita
satisfação em me ver, assim como para mim vinha trazendo
outro cavalo de presente – o qual era ruço-rodado, ordem de
valor e estampa. Ali agraciado aceitei, meu sinceramente. Mas ele
portava causa maior – a que tinha ido confirmar e saber, e
agenciar, por seus bons préstimos. E era que meu padrinho
Selorico Mendes acabara falecido, me abençoando e se
honrando, orgulhoso de meus atos; e as duas maiores fazendas
ele tinha deixado para mim, em cédula de testamento. Seô Habão
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 869 –
queria logo me levar lá, no Curralim, no Corinto, para eu entrar
em paz de posses. Rejeitei; adiei, isto é. Porquanto, de fato, fui, e
tudo recebi em limpo, sem precisão de tocar demandas, por falta
de outros mais legítimos herdeiros, e o que também devido dou
ao advogado meu que zelou a sucessão – Dr. Meigo de Lima.
Só que isso foi mais tarde.
Pois, primeiro, eu tinha outra andada que cumprir,
conforme a ordem que meu coração mandava. Tudo agradeci,
dei a despedida, ao seo Ornelas e os dele – gente-do-evangelho.
Saí somente com o Alaripe e o Quipes, os outros deixei à espera
de minha volta, que, por muita companhia numerosa, de nós não
cobrassem duvidado. Mas, antes de sair, pedi à dona Brazilina
uma tira de pano preto, que pus de funo no meu braço.
Aonde fui, a um lugar, nos gerais de Lassance, Os-Porcos.
Assim lá estivemos. A todos eu perguntei, em toda porta bati;
triste pouco foi o que me resultaram. O que pensei encontrar:
alguma velha, ou um velho, que da história soubessem – dela
lembrados quando tinha sido menina – e então a razão rastraz de
muitas coisas haviam de poder me expor, muito mundo. Isso não
achamos. Rumamos daí então para bem longe reato: Juramento,
o Peixe-Cru, Terra-Branca e Capela, a Capelinha-do-Chumbo. Só
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 870 –
um letreiro achei. Este papel, que eu trouxe – batistério. Da
matriz de Itacambira, onde tem tantos mortos enterrados. Lá ela
foi levada à pia. Lá registrada, assim. Em um 11 de setembro da
era de 1800 e tantos... O senhor lê. De Maria Deodorina da Fé
Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e
nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor...
Reze o senhor por essa minha alma. O senhor acha que a vida é
tristonha?
Mas ninguém não pode me impedir de rezar; pode algum?
O existir da alma é a reza... Quando estou rezando, estou fora de
sujidade, à parte de toda loucura. Ou o acordar da alma é que é?
E, o pobre de mim, minha tristeza me atrasava, consumido.
Eu não tinha competência de querer viver, tão acabadiço, até o
cumprimento de respirar me sacava. E, Diadorim, às vezes
conheci que a saudade dele não me desse repouso; nem o nele
imaginar. Porque eu, em tanto viver de tempo, tinha negado em
mim aquele amor, e a amizade desde agora estava amarga
falseada; e o amor, e a pessoa dela, mesma, ela tinha me negado.
Para que eu ia conseguir viver? Mas o amor de minha Otacília
também se aumentava, aos berços primeiro, esboço de devagar.
Era.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 871 –
Passado esse tempo, conforme foi, pouca tardança.
Mas, então, quando se estava de volta, m’embora vindo,
peguei uma inesperada informação, na Barra do Abaeté. De Zé
Bebelo! Tinha mesmo de ser. Não sei por que foi, que com
aquilo me renasci. Que Zé Bebelo estava demorando léguas para
cima, perto do São Gonçalo do Abaeté, no Porto-Passarinho. Me
fiz para lá. E como era, que, antes e antes, eu não tivesse pensado
em Zé Bebelo? Trote tocamos, viemos, beirando aquele rio. O
senhor sabe – o rio Abaeté, que é entristecedor audaz de belo:
largo tanto, de morro a morro. E em minha vida eu já pensava.
Zé Bebelo gritou: – “Safa! Safas!...” – e me abraçou como
amigo cordial, contente de muito me ver, constante se nada
tivesse destruído o nosso costume. Conto que estava o mesmo,
aposto e condizente.
– “Tudo viva!, Riobaldo, Tatarana, Professor...” – ele
concisou. – “Tu quis paz?”
Sagaz assim me olhava, chega me cheirar só faltasse, de
tornados a encontrar no curral, como boi a boi. Disse que eu
estava feliz, mas emagrecido, e que encovava mais os olhos.
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 872 –
– “Estais p’ra trás... Sabe? Negociei um gado... Mudei meus
termos! A ganhar o muito dinheiro – é o que vale... Pó d’ouro em
pó...” – o que ele me disse.
E era a pura mentira. Mas podia ser verdade.
Porque ele, para se viver, carecia daquela bazófia, forte
mestreava. Como logo me pregou:
– “Há-te! Acabou com o Hermógenes? A bem. Tu foi o
meu discípulo... Foi não foi?”
Deixei: ele dizer, como essas glórias não me invocavam.
Mas, então, ele não me entendendo, esbarrou e se pôs. Cujo:
– “A bom, eu não te ensinei; mas bem te aprendi a saber
certa a vida...” Eu ri, de nós dois.
Três dias falhei com ele, lá, no Porto-Passarinho.
E Zé Bebelo corrigiu, para eu ouvir, os projetos que tinha.
Aí, ai, fanfarrices. Não queria saber do sertão, agora ia para
capital, grande cidade. Mover com comércio, estudar para
advogado. – “Lá eu quero deduzir meus feitos em jornal, com
retratos... A gente descreve as passagens de nossas guerras, fama
devida...” – “Da minha, não senhor!” – eu fechei. Distrair gente
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 873 –
com o meu nome... Então ele desconversou. Mas, naqueles três
dias, não descansou de querer me aliviar, e de formar outros
planejamentos para encaminhar minha vida. Nem indenizar
completa a minha dor maior ele não pudesse. Só que Zé Bebelo
não era homem de não prosseguir. Do que a Deus dou graças!
Porque, por fim, ele exigiu minha atenção toda, e disse:
– “Riobaldo, eu sei a amizade de que agora tu precisa. Vai
lá. Mas, me promete: não adia, não desdenha! Daqui, e reto, tu sai
e vai lá. Diz que é de minha parte... Ele é diverso de todo o
mundo.”
Mesmo escreveu um bilhete, que eu levasse. Ao quando
despedi, e ele me abraçou, senti o afeto em ser de pensar. Será
que ainda tinha aquele apito, na algibeira? E gritou: – “Safas!” –;
maximé.
Tinha de ser Zé Bebelo, para isso. Só Zé Bebelo, mesmo,
para meu destino começar de salvar. Porque o bilhete era para o
Compadre meu Quelemém de Góis, na Jijujã – Vereda do Buriti
Pardo. Mais digo? O senhor vá lá. No tempo de maio, quando o
algodão lãla. Tudo o branquinho. Algodão é o que ele mais
planta, de todas as modernas qualidades: o rasga-letras, bibol, e
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– 874 –
mussulim. O senhor vai ver pessoa de tal rareza, como perto dele
todo-o-mundo pára sossegado, e sorridente, bondoso... Até com
o Vupes lá topei.
Compadre meu Quelemém me hospedou, deixou meu
contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com
aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e
que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive
vergonha, assaz.
Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:
– “O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!”
Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu:
– “Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender,
às vezes, são as ações que são as quase iguais...”
E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar
passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi,
no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo.
Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com
ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco
– que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em
pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou:
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– 875 –
que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem
soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não
há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.
***
FIM DE “GRANDE SERTÃO: VEREDAS”









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