CONTRA O MÉTODO | Paul Feyerabend

| quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Importa lembrar, ainda, as muitas opiniões conflitantes sustentadas com respeito à superfície da Lua, mesmo no tempo de Galileu32, opiniões que talvez hajam influído sobre o que os observadores viam33. Necessário, para maior esclarecimento do assunto, seria uma coleção empírica de todos os primeiros resultados de observações telescópicas, preferivelmente em colunas paralelas e incluindo quaisquer representações pictóricas eventualmente conservadas34.




CONTRA O MÉTODO
Esboço de uma teoria anárquica* da teoria do conhecimento
* Comentários acerca da acepção em que se toma, aqui, o termo ‘anarquismo’, achamse
em nota 12 da Introdução e no próprio texto, capítulo XVI, trecho correspondente às
notas 18 e seguintes.
Série Metodologia das Ciências Sociais
e Teoria da Ciência
Coordenação de:
José Jeremias de Oliveira Filho
Professor Assistente Doutor
da Universidade de São Paulo
Paul Feyerabend
CONTRA O MÉTODO
Tradução de
Octanny S. da Mata
Leonidas Hegenberg
LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.
Copyright @ NLB, 1975
Título original: Against method
Publicado por NLB, 7 Carlisle Street, Londres WI
Capa: DIA DESIGN
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Ficha Catalográfica
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ)
Feyerabend, Paul.
F463c Contra o método; tradução de Octanny S. da
Mota e Leonidas Hegenberg. Rio de Janeiro,
F. Alves, 1977.
488 p. ilust. (Metodologia das ciências sociais e teoria da ciência)
Do original em inglês: Against method Bibliografia
1. Teoria do conhecimento I. Título
II. Série
77-0425 CDD — 121
CDU — 165
1977
Todos os direitos para a língua portuguesa reservados à
LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.
Rua Barão de Lucena, 43
Botafogo ZC-02
20.000 Rio de Janeiro, RJ
Para
IMRE LAKATOS
amigo e colega anarquista
Este ensaio é a primeira parte de um livro a propósito do anarquismo que seria escrito
por Lakatos e por mim. Cabia-me atacar a posição racionalista; Lakatos, por seu turno,
reformularia essa posição, para defendê-la e, de passagem, reduzir meus argumentos a nada.
Juntas, as duas partes deviam retratar nossos longos debates em torno desse tema—
debates que tiveram início em 1964, prosseguiram em cartas, aulas, chamadas telefônicas,
artigos, até quase o último dia de vida de Imre, e se transformaram em parte de minha
rotina diária. A origem do ensaio explica o seu estilo: trata-se de uma carta, longa e muito
íntima, escrita para Imre e cada frase perversa que contém foi escrita antecipando frase
ainda mais ferina de meu companheiro. Também é claro que o livro, como se apresenta, está
lamentavelmente truncado. Falta-lhe a parte mais importante, a réplica da pessoa para
quem foi elaborado. Publico-o, entretanto, como testemunho da forte e estimulante
influência que Imre Lakatos exerceu sobre todos nós.
Paul K. Feyerabend
Índice Analítico
que é, ainda, um resumo do argumento principal.
ITENS:
INTRODUÇÃO Página 17
A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é mais
humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas
representadas por ordem e lei.
I Página 7
Isso é demonstrado seja pelo exame de episódios históricos, seja pela análise da relação entre
idéia e ação. O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.
9
II Página 37
Cabe, por exemplo, recorrer a hipóteses que contradizem teorias confirmadas e/ou resultados
experimentais bem estabelecidos. É possível fazer avançar a ciência, procedendo contraindutivamente.
III Página 45
A condição de coerência, por força da qual se exige que as hipóteses novas se ajustem a
teorias aceitas, é desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e não a melhor. Hipóteses
que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evidência impossível de obter
por outra forma. A proliferação de teorias é benéfica para a ciência, ao passo que a
uniformidade lhe debilita o poder crítico. A uniformidade, além disso, ameaça o livre
desenvolvimento do indivíduo.
IV Página 65
Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento. A
ciência absorve toda a história do pensamento e a utiliza para o aprimoramento de cada
teoria. E não se respeita a interferência política. Ocorrerá que ela se faça necessária para
vencer o chauvinismo da ciência que resiste em aceitar alternativas ao status quo.
V Página 77
Nenhuma teoria está em concordância com todos os fatos de seu domínio, circunstância
nem sempre imputável à teoria. Os fatos se prendem a ideologias mais antigas, e um
conflito entre
10
fatos e teorias pode ser evidência de progresso. Esse conflito corresponde, ainda, a um
primeiro passo na tentativa de identificar princípios implícitos em noções observacionais
comuns.
VI Página 101
Como exemplo dessa tentativa, trago à baila o argumento da torre, de que os aristotélicos se
valiam para refutar o movimento da Terra. O argumento envolve interpretações naturais
— idéias tão estreitamente ligadas a observações, que se faz necessário especial esforço para
perceber-lhes a existência e determinar-lhes o conteúdo. Galileu identifica as interpretações
naturais que se mostram inconsistentes com a doutrina de Copérnico e as substitui por
outras.
VII Página 119
As novas interpretações naturais constituem linguagem de observação original e altamente
abstrata. São introduzidas e ocultadas, de sorte que não se percebe a modificação havida
(método da anamnese). Encerram a idéia da relatividade de todo movimento e a lei da
inércia circular.
VIII Página 139
Dificuldades iniciais provocadas pela alteração vêem-se afastadas por hipóteses ad hoc que,
assim, desempenham, ocasionalmente, uma função positiva; asseguram às novas teorias
espaço para se desenvolverem e indicam o sentido da pesquisa futura.
IX Página 151
Além de alterar as interpretações naturais, Galileu alterou também as sensações que
parecem ameaçar Copérnico. Admite que
11
tais sensações existam, louva Copérnico por não havê-las considerado e afirma tê-las
afastado com o auxílio do seu telescópio. Contudo, não oferece razões teóricas acerca do por
que procederia esperar que o telescópio traçasse dos céus um quadro verdadeiro.
Apêndice I Página 169
Apêndice II Página 175
X Página 189
Nem a experiência inicial com o telescópio oferece essas razões. As primeiras observações do
céu feitas através de telescópio são vagas, imprecisas, contraditórias e põem-se em conflito
com o que todos podem ver a olho desarmado. E a única teoria que teria levado a distinguir
entre as ilusões provocadas pelo telescópio e os fenômenos reais foi refutada por testes
simples.
XI Página 221
De outra parte, há alguns fenômenos telescópicos tipicamente copernicanos. Galileu
apresenta esses fenômenos como prova autônoma em prol de Copérnico, mas a situação é
antes a de que uma concepção refutada — a doutrina copernicana — tem certa semelhança
com fenômenos que emergem de outra concepção refutada — a idéia de que os fenômenos
telescópicos retratam fielmente o céu. Galileu domina em razão de seu estilo e de suas mais
aperfeiçoadas técnicas de persuasão, porque escreve em italiano e não em latim e porque
recorre a pessoas hostis, por temperamento, às velhas idéias e aos padrões de aprendizagem
a elas relacionados.
12
XII Página 227
Esses métodos ‘irracionais’ de fundamentação tornam-se necessários devido ao
‘desenvolvimento desigual’ (Marx, Lenine) dos diferentes ramos da ciência. A teoria
copernicana e outros elementos essenciais da ciência moderna puderam sobreviver tãosomente
porque, no passado, a razão foi freqüentemente posta de lado.
XIII Página 253
O método de Galileu estende-se a outros campos. Pode ser usado, por exemplo, para
eliminar os argumentos que se levantam contra o materialismo e para dar fim ao problema
filosófico espírito/corpo. (Os correspondentes problemas científicos permanecem, entretanto,
intocados.)
XIV Página 257
Os resultados até agora conseguidos trazem em seu bojo a sugestão de abolir a distinção
entre contexto da descoberta e contexto da justificação e de pôr de parte a distinção correlata
entre termos observacionais e termos teoréticos. Nenhuma dessas distinções tem papel a
desempenhar na prática científica. Tentativas de dar-lhes força trariam conseqüências
desastrosas.
XV Página 267
Enfim, a exposição feita nos capítulos VI-XIII atesta que a versão do pluralismo de Mill,
dada por Popper, não está em concordância com a prática científica e destruiria a ciência,
tal como a conhecemos. Existindo a ciência, a razão não pode reinar universalmente, nem a
sem-razão pode ver-se excluída. Esse
13
traço da ciência pede uma epistemologia anárquica. A compreensão de que a ciência não é
sacrossanta e de que o debate entre ciência e mito se encerrou sem vitória para qualquer dos
lados empresta maior força ao anarquismo.
XVI Página 283
Também não escapa a essa conclusão a engenhosa tentativa de Lakatos, feita no sentido de
erigir metodologia que (a) não emite ordens mas (b) coloca restrições a nossas atividades
ampliadoras de conhecimento. De fato, a filosofia de Lakatos só se afigura liberal porque é
um anarquismo disfarçado. E seus padrões, abstraídos a partir da ciência moderna, não
podem ser vistos como árbitros imparciais na pendência entre a ciência moderna e a ciência
aristotélica, o mito, a mágica, a religião, etc.
Apêndice III Página 333
Apêndice IV Página 343
XVII Página 347
Além disso, tais padrões, que envolvem uma comparação entre classes de conteúdo, nem
sempre são aplicáveis. As classes de conteúdo de certas teorias são insuscetíveis de
comparação, no sentido de que nenhuma das relações lógicas habituais (inclusão, exclusão,
superposição) vige entre elas. Ocorre isso quando comparamos os mitos à ciência. Ocorre,
ainda, nas mais desenvolvidas, mais gerais e, portanto, mais mitológicas partes da própria
ciência.
14
Apêndice V Página 441
XVIII Página 447
Dessa forma, a ciência se aproxima do mito, muito mais do que uma filosofia científica se
inclinaria a admitir. A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo
homem e não necessariamente a melhor. Chama a atenção, é ruidosa e impudente, mas só
inerentemente superior aos olhos daqueles que já se hajam decidido favoravelmente a certa
ideologia ou que já a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveniências e limitações.
Como a aceitação e a rejeição de ideologias devem caber ao indivíduo, segue-se que a
separação entre o Estado e a Igreja há de ser complementada por uma separação entre o
Estado e a ciência, a mais recente, mais agressiva e mais dogmática instituição religiosa. Tal
separação será, talvez, a única forma de alcançarmos a humanidade de que somos capazes,
mas que jamais concretizamos.
Índices de Assuntos Página 469
15
Introdução
Ordnung ist heutzutage meistens dort, wo nichts ist.
Es ist eine Mangelerscheinung.
BRECHT
A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é
mais humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas
representadas por ordem e lei.
17
Este ensaio é escrito com a convicção de que o anarquismo, embora não constituindo,
talvez, a mais atraente filosofia política, é, por certo, excelente remédio para a epistemologia
e para a filosofia da ciência.
A razão não é difícil de apontar.
‘A História, de modo geral, e a história das revoluções, em particular, é sempre de
conteúdo mais rico, mais variada, mais multiforme, mais viva e sutil do que’ o melhor
historiador e o melhor metodologista poderiam imaginar1. A História está repleta de
‘acidentes e conjunturas e curiosas justaposições de eventos’2 e patenteia a nossos olhos a
‘complexidade das mudanças humanas e o caráter imprevisível das conseqüências últimas
de qualquer ato ou decisão do homem’3. Devemos realmente acreditar que as regras
ingênuas e simplistas que os metodologistas adotam como guia são capazes de explicar esse
‘labirinto de interações’4? Não é claro que, em se tratando de um processo dessa espécie, só
pode ter participação bem sucedida um oportunista brutal que não se prenda a filosofia
alguma e que adote a diretriz que a ocasião pareça indicar?
19
Tal é, sem dúvida, a conclusão a que têm chegado observadores inteligentes e
ponderados. ‘Duas importantes conclusões práticas decorrem daí [do caráter do processo
histórico]’, escreve Lenine5, na continuação da passagem mencionada acima. ‘Em primeiro
lugar, a de que, para cumprir sua tarefa, a classe revolucionária [isto é, a classe daqueles
que desejam alterar seja uma parte da sociedade, como a ciência, seja a sociedade em seu
todo] deve estar em condições de dominar, sem exceção, todas as formas ou aspectos de
atividade social [deve compreender e saber aplicar não apenas uma particular metodologia,
mas qualquer metodologia e qualquer de suas variações imagináveis]...; e, em segundo
lugar, deve estar preparada para saltar de uma à outra, da maneira a mais rápida e mais
inesperada.’
‘As condições externas’, escreve Einstein6, ‘que os fatos da experiência colocam [diante
do cientista] não lhe permitem, ao erigir seu mundo conceptual, que ele se prenda em
demasia a um dado sistema epistemológico. Em conseqüência, o cientista aparecerá, aos
olhos do epistemologista que se prende a um sistema, como um oportunista inescrupuloso...’
Um meio complexo, onde há elementos surpreendentes e imprevistos, reclama
procedimentos complexos e desafia uma análise apoiada em regras que foram estabelecidas
de antemão e sem levar em conta as sempre cambiantes condições da História.
É possível, naturalmente, simplificar o meio em que o cientista atua, através da
simplificação de seus principais fatores. Afinal de contas, a história da ciência não consiste
apenas de fatos e de conclusões retiradas dos fatos. Contém, a par disso, idéias,
interpretações de fatos, problemas criados por interpretações conflitantes, erros, e assim por
diante. Análise mais profunda mostra que a ciência não conhece ‘fatos nus’, pois os fatos de
que tomamos conhecimento já são vistos sob certo ângulo, sendo, em conseqüência,
essencialmente ideativos. Se assim é, a história da ciência será tão complexa, caótica,
permeada de enganos e diversificada quanto o sejam as idéias que encerra;
20
e essas idéias, por sua por sua vez, serão tão caóticas permeadas de enganos e diversificadas
quanto as mentes dos que as inventaram. Inversamente, uma pequena lavagem cerebral
muito fará no sentido de tornar a história da ciência mais insípida, mais simples, mais
uniforme, mais ‘objetiva’ e mais facilmente accessível a tratamento por meio de regras
imutáveis.
A educação científica, tal como hoje a conhecemos, tem precisamente esse objetivo.
Simplifica a ciência, simplificando seus elementos: antes de tudo, define-se um campo de
pesquisa; esse campo é desligado do resto da História (a Física, por exemplo, é separada da
Metafísica e da Teologia) e recebe uma ‘lógica’ própria. Um treinamento completo, nesse
tipo de ‘lógica’, leva ao condicionamento dos que trabalham no campo delimitado; isso torna
mais uniformes as ações de tais pessoas, ao mesmo tempo em que congela grandes porções
do procedimento histórico. ‘Fatos’ estáveis surgem e se mantêm, a despeito das vicissitudes
da História. Parte essencial do treinamento, que faz com que fatos dessa espécie apareçam,
consiste na tentativa de inibir intuições que possam implicar confusão de fronteiras. A
religião da pessoa, por exemplo, ou sua metafísica ou seu senso de humor (seu senso de
humor natural e não a jocosidade postiça e sempre desagradável que encontramos em
profissões especializadas) devem manter-se inteiramente à parte de sua atividade científica.
Sua imaginação vê-se restringida e até sua linguagem deixa de ser própria7. E isso penetra
a natureza dos ‘fatos’ científicos, que passam a ser vistos como independentes de opinião, de
crença ou de formação cultural.
É possível, assim, criar uma tradição que se mantém una, ou intacta, graças à
observância de regras estritas, e que, até certo ponto, alcança êxito. Mas será desejável dar
apoio a essa tradição, em detrimento de tudo mais? Devemos conceder-lhe direitos
exclusivos de manipular o conhecimento, de tal modo que quaisquer resultados obtidos por
outros métodos sejam, de imediato, ignorados? Essa é a indagação a que pretendo dar
21
resposta neste ensaio. E minha resposta será um firme e vibrante NÃO.
Há duas razões que fazem parecer procedente essa resposta. A primeira é a de o mundo
que desejamos explorar ser uma entidade em grande parte desconhecida. Devemos, pois,
conservar-nos abertos para as opções, sem restringi-las de antemão. Receitas
epistemológicas podem parecer esplêndidas quando comparadas a outras receitas
epistemológicas ou a princípios gerais — mas quem assegurará que são o melhor meio de
descobrir não uns poucos ‘fatos’ isolados, mas também alguns profundos segredos da
natureza? A segunda razão está em que a educação científica, tal como acima descrita (e
como levada a efeito em nossas escolas), não pode ser conciliada ‘com uma atitude
humanista. Põe-se em conflito ‘com o cultivo da humanidade, único procedimento que
produz ou pode produzir seres humanos bem desenvolvidos’8; ‘como o sapato de uma dama
chinesa, mutila por compressão, cada aspecto da natureza humana que, ao ganhar relevo,
poderia tornar certa pessoa marcadamente diferente’9 e colocá-la fora dos ideais de
racionalidade que a moda impõe para a ciência ou para a filosofia da ciência. A tentativa de
fazer crescer a liberdade, de atingir vida completa e gratificadora e a tentativa
correspondente de descobrir os segredos da natureza e do homem implicam, portanto,
rejeição de todos os padrões universais e de todas as tradições rígidas. (Naturalmente,
implicam também a rejeição de larga parte da ciência contemporânea.)
Surpreende ver como é raro os anarquistas profissionais se dedicarem ao exame do
embrutecedor efeito das ‘Leis da Razão’ ou da prática científica. Os anarquistas
profissionais se opõem a qualquer tipo de restrição e exigem que ao indivíduo seja permitido
desenvolver-se livremente, desembaraçado de leis, deveres e obrigações. E, não obstante,
admitem, sem protesto, os severos padrões que cientistas e lógicos fazem pesar sobre a
atividade de pesquisa e sobre cada atividade capaz de criar ou de alterar o conhecimento.
Ocasionalmente, as leis do mé-
22
todo científico, ou o que um particular autor julga serem as leis científicas, chegam a
integrar-se ao próprio anarquismo. ‘O anarquismo é um conceito geral, baseado em uma
explicação mecânica de todos os fenômenos’, escreve Kropotkin10: ‘Seu método de
investigação é o das ciências naturais exatas..., o método de indução e dedução’. ‘Não parece
tão claro’, escreve um moderno professor ‘radical’ de Colúmbia11, ‘que a pesquisa científica
exija absoluta liberdade de expressão e debates. A evidência sugere, antes, que certos tipos
de restrição não colocam empecilhos no caminho da ciência...’
Há, certamente, pessoas para as quais isso ‘não parece tão claro’. Comecemos, portanto,
com uma apresentação geral da metodologia anárquica e de uma correspondente ciência
anárquica12. Não há por que temer que a decrescente preocupação com lei e ordem na
ciência e na sociedade — que é característica desse tipo de anarquismo — venha a conduzir
ao caos. O sistema nervoso humano é demasiado bem organizado para que isso venha a
ocorrer13. Poderá, é claro, vir tempo em que se faça necessário conceder à razão uma
vantagem temporária e que será avisado defender suas regras, afastando tudo o mais. Não
creio, porém, que estejamos vivendo esse tempo.
NOTAS
1. ‘A História como um todo e, em particular, a história das revoluções é sempre mais rica
de conteúdo, mais variada, multiforme, viva e cheia de engenho do que chegam a imaginar
os grupos em que há maior refinamento e as mais conscientes vanguardas das mais
avançadas classes’ (V. I. Lenine, ‘Left-Wing Communism — An Infantile Disorder’,
Selected Works, vol. 3, Londres, 967, p. 401).
23
Lenine dirigia-se a partidos e vanguardas revolucionárias e não a cientistas e
metodologistas; a lição, entretanto, é a mesma. Cf. nota 5.
2. Herbert Butterfield, The Whig Interpretation of History, Nova Iorque, 1965, p. 66.
3. Ibid. p. 21.
4. Ibid. p. 25, cf. Hegel, Philosophie der Geschichte, Werke, vol. 9, ed. Edward Gans,
Berlim, 1837, p. 9: ‘Mas o que a experiência e a História nos ensinam é que as nações e os
governos jamais aprenderam qualquer coisa na História e jamais agiram de acordo com
regras que dela poderiam ter derivado. Cada período apresenta características tão
peculiares, atravessa condições tão específicas que decisões terão de ser tomadas, mas
somente poderão ser tomadas no período e a partir dele’. ‘Muito sagaz’; ‘penetrante e muito
sagaz’; ‘NB’, escreve Lenine em anotações marginais a esse trecho. (Collected Works, vol.
38, Londres, 1961, p. 307.)
5. Ibid. Vemos aqui, de maneira clara, como algumas alterações podem transformar uma
lição de filosofia política em lição de metodologia. Isso não surpreende. Metodologia e
política são, ambas, meios de passar de um a outro estágio histórico. A única diferença está
em que as metodologias-padrão deixam de ter em conta o fato de que a História apresenta,
constantemente, feições novas. Vemos, também, que uma pessoa como Lenine, que não se
intimida diante de fronteiras tradicionais e cujo pensamento não se prende à ideologia de
uma profissão, pode fazer advertências úteis a todos, inclusive aos filósofos da ciência.
6. Albert Einstein, Albert Einstein: Philosopher Scientist, ed. P. A. Schilpp, Nova Iorque,
1951, pp. 683 s.
7. Quanto à deterioração de linguagem que acompanha cada aumento de profissionalismo,
cf. meu ensaio ‘Experts in a Free Society’, The Critic, novembro /dezembro 1970.
24
8. John Stuart Mill, 'On Liberty', The Philosophy of John Stuart Mill, ed. Marshall Cohen,
Nova Iorque, 1961, p. 258.
9. Ibid. p. 265.
10. Peter Alexeivich Kropotkin, ‘Modern Science and Anarchism’, Kropotkin’s
Revolutionary Pamphlets, ed. R. W. Baldwin, Nova Iorque, 1970, pp. 150-2. ‘Uma das
grandes características de Ibsen é a de que, para ele, nada valia, exceto a ciência.’ B. Shaw,
Back to Methuselah, Nova Iorque, 1921, xcvii. Comentando esses fenômenos e fenômenos
similares, Strindberg escreve (Antibarbarus): ‘Uma geração que teve a coragem de libertarse
de Deus, de esmagar o Estado e a Igreja, de submeter a sociedade e a moralidade,
continuava, porém, a curvar-se diante da Ciência, onde se impõe que a liberdade reine, a
ordem do dia era “crer nas autoridades ou ter cortada a cabeça” ’.
11. R. P. Wolff, The Poverty of Liberalism, Boston, 1968, p. 15. Para crítica pormenorizada
de Wolff, ver nota 52 de meu ensaio ‘Against Method’, in Minnesota Studies in the
Philosophy of Science, vol. 4, Minneapolis, 1970.
12. Ao escolher o termo ‘anarquismo’, simplesmente acompanhei uso geral. Contudo, o
anarquismo — tal como praticado no passado e como vem sendo hoje posto em prática por
crescente número de pessoas — apresenta características que não me disponho a apoiar.
Pouco se preocupa com as vidas humanas e com a felicidade humana (salvo as vidas e a
felicidade dos que pertencem a algum grupo especial); e encerra precisamente o tipo de
seriedade e dedicação puritanas que eu detesto. (Há algumas encantadoras exceções, como a
de Cohn-Bendit, mas são minorias). Por essas razões, eu prefiro recorrer, agora, à palavra
Dadaísmo. Um dadaísta não feriria um inseto já para não falar em um ser humano. Um
dadaísta não se deixa absolutamente impressionar por qualquer tarefa séria e percebe o
instante em que as pessoas se detêm a sorrir e
25
assumem aquela atitude e aquelas expressões faciais indicadoras de que algo importante está
para ser dito. Um dadaísta está convencido de que uma vida mais digna só será possível
quando começarmos a considerar as coisas com leveza e quando afastarmos de nossa
linguagem as expressões enraizadas, mas já apodrecidas, que nela se acumularam ao longo
dos séculos (‘busca da verdade’; ‘defesa da justiça’; ‘preocupação apaixonada’; etc., etc.).
Um dadaísta está preparado para dar início a alegres experimentos até mesmo em situações
onde o alterar e o ensaiar parecem estar fora de questão (exemplo: as funções básicas da
linguagem). Espero que, tendo conhecido o panfleto, o leitor lembre-se de mim como um
dadaísta irreverente e não um anarquista sério. Cf. nota 4 do capítulo II.
13. Mesmo em situações ambíguas nebulosas, logo se consegue uniformidade de ação e a ela
se adere tenazmente. Ver Mazufare Sherif, The Psychology of Social Norms, Nova Iorque,
1964.
26
I
Isso é demonstrado seja pelo exame de episódios históricos, seja pela análise da relação entre
idéia e ação. O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.
A idéia de conduzir os negócios da ciência com o auxílio de um método, que encerre
princípios firmes, imutáveis e incondicionalmente obrigatórios vê-se diante de considerável
dificuldade, quando posta em confronto com os resultados da pesquisa histórica.
Verificamos, fazendo um confronto, que não há uma só regra, embora plausível e bem
fundada na epistemologia, que deixe de ser violada em algum momento. Torna-se claro que
tais violações não são eventos acidentais, não são o resultado de conhecimento insuficiente
ou de desatenção que poderia ter sido evitada. Percebemos, ao contrário, que as violações são
necessárias para o progresso. Com efeito, um dos notáveis, traços dos recentes debates
travados em torno da história e da filosofia da ciência é a compreensão de que
acontecimentos e desenvolvimentos tais como a invenção do atomismo na Antigüidade, a
revolução copernicana, o surgimento do moderno atomismo (teoria cinética; teoria da
dispersão; estereoquímica; teoria quântica), o aparecimento gradual da teoria ondulatória da
luz só ocorreram porque alguns pensadores decidiram não se deixar limitar por certas
regras metodológicas ‘óbvias’ ou porque involuntariamente as violaram.
29
Essa maneira liberal de agir não é, repito, apenas um fato da história da ciência. g algo
razoável e absolutamente necessário para que se desenvolva o conhecimento. De maneira
mais específica, é possível evidenciar o seguinte: dada uma regra qualquer, por
‘fundamental’ e ‘necessária’ que se afigure para a ciência, sempre haverá circunstâncias em
que se torna conveniente não apenas ignorá-la como adotar a regra oposta. Exemplificando:
há circunstâncias em que é aconselhável introduzir. elaborar e defender hipóteses ad hoc, ou
hipóteses que se colocam em contradição com resultados experimentais bem estabelecidos e
aceitos, ou hipóteses de conteúdo mais reduzido que o da existente e empiricamente
adequada alternativa, ou hipóteses autocontraditórias, e assim por diante1.
Há circunstâncias — que ocorrem com apreciável freqüência — em que a argumentação
(ou o debate) perde sua característica antecipadora para tornar-se obstáculo ao progresso.
Ninguém sustentará que ensinar crianças é puramente uma questão de debate (embora a
argumentação possa fazer parte do ensino e dele devesse fazer parte em maior extensão do
que a habitual) e quase todos hoje admitem que um aparente resultado da razão — o
domínio de uma linguagem, a existência de um mundo perceptível ricamente articulado, a
capacidade lógica — é devido, em parte, à doutrinação, e, em parte, a um processo de
desenvolvimento que atua com a força de uma lei natural. E quando os argumentos parecem
produzir efeito, isto se deve mais à repetição física do que ao seu conteúdo semântico.
Tendo admitido isso, também devemos conceder que existe a possibilidade de
desenvolvimento não argumentativo, assim no adulto como nas (partes teoréticas das)
instituições, tais como a ciência, a religião, a prostituição e assim por diante. Não cabe, ao
certo, dar como assentado que o possível para uma criança — adquirir, ao menos estímulo,
novos modos e comportamento, adotá-las sem esforço visível — está para além do alcance de
pessoas mais velhas. Antes, caberia esperar que alterações catastróficas do ambiente e físico,
guerras, desmorona-
30
mento de sistemas gerais de moralidade, revoluções políticas transformem o padrões de
reação do adulto, inclusive no que se refere a importantes padrões de argumentação. Essa
transformação será, talvez, um processo inteiramente natural e a única função de um
argumento racional poderá corresponder ao fato de que ele faz crescer a tensão mental que
precede e causa o surto comportamental.
Ora, se há eventos, não necessariamente argumentos, que são causa de adotarmos
padrões novos, inclusive novas e mais complexas formas de argumentação, não caberá aos
defensores do status quo oferecer, não apenas contra-argumentos, mas também causas
contrárias? (‘Virtude sem terror é ineficaz’, diz Robespierre.) E quando velhas formas de
argumentação se revelam causa demasiado fraca, não deverão esses defensores desistir ou
recorrer a meios mais fortes e mais irracionais? (É muito difícil e talvez inteiramente
impossível combater, através de argumentação, os efeitos da lavagem cerebral.) Até o mais
rigoroso dos racionalistas ver-se-á forçado a deixar de arrazoar, para recorrer à propaganda
e à coerção, não porque hajam deixado de ser válidas algumas de suas razões, mas porque
desapareceram as condições psicológicas que se tornavam eficazes e as faziam suscetíveis de
influenciar terceiros. E qual a utilidade de um argumento que não consegue influenciar as
pessoas?
É certo que o problema jamais se apresenta exatamente sob este aspecto. O ensino e a
defesa dos padrões jamais consistem apenas em colocá-los diante do espírito do estudioso,
buscando torná-los tão claros quanto possível. Admite-se que os padrões encerrem também
a máxima eficácia causal. Isso torna extremamente difícil distinguir entre força lógica e
efeito material de um argumento. Assim como um animal bem adestrado obedecerá ao dono,
por maior que seja a perplexidade em que se encontre e por maior que seja a necessidade de
adotar novos padrões de comportamento; assim também o racionalista convicto se curvará à
imagem mental de seu mestre, manter-se-á fiel aos padrões de argumentação que lhe
foram transmitidos e aceitará
31
esses padrões por maior que seja a perplexidade em que se encontre mostrando-se incapaz e
compreender que a ‘voz da razão’ a que dá ouvidos é apenas o efeito causal tardio do
treinamento que recebeu. Não está em condições e descobrir que o apelo à razão, diante do
qual tão prontamente sucumbe, nada mais é que manobra política.
A partir da análise da relação entre idéia e ação também, é possível perceber que os
interesses, as forças, a propaganda e as técnicas de lavagem cerebral desempenham, no que
tange ao desenvolver-se de nosso conhecimento e ao desenvolver-se da ciência, papel muito
mais importante do que geralmente se admite. Freqüentemente se dá por aceito que a clara e
completa compreensão de novas idéias precede (e deve preceder) sua formulação e sua
expressão formal. (A investigação tem início com um problema, diz Popper.) Primeiro
temos uma idéia; ou um problema; depois agimos, isto é, falamos, construímos ou
destruímos. Em verdade, entretanto, esse não é o modo como se desenvolvem as crianças.
Usam palavras, combinam essas palavras, com elas brincam até que apreendem um
significado que se havia mantido para além de seu alcance. E a atividade lúdica inicial é
requisito básico do ato final de compreensão. Não há razão para supor que esse mecanismo
deixe de agir na pessoa adulta. Cabe esperar, por exemplo, que a idéia de liberdade só se faça
clara por meio das mesmas ações que supostamente criaram a liberdade. Criação de uma
coisa e geração associada à compreensão de uma idéia correta dessa coisa são, muitas vezes,
partes de um único e indivisível processo, partes que não podem separar-se, sob pena de
interromper o processo. Este não é orientado por um programa bem definido e, aliás, não é
suscetível de ver-se orientado por um programa dessa espécie, pois encerra as condições de
realização de todos os programas possíveis. É, antes, orientado por um vago anelo por
uma ‘paixão’ (Kierkegaard). A paixão faz surgir o comportamento específico e este,
por sua vez, cria as circunstâncias e idéias ne-
32
cessárias para análise e explicação do processo para torná-lo ‘racional’.
O desenvolvimento da doutrina copernicana, desde o tempo de Galileu até o século XX, é
perfeito exemplo da situação que desejo apresentar. Partimos de uma firme convicção,
contrária à razão e à experiência da época. A convicção se dissemina e encontra apoio em
outras convicções que são igualmente ou mais desarrazoadas (lei da inércia: telescópio). A
pesquisa toma novas direções, constroem-se novos tipos de instrumentos, a ‘evidência’
passa a ser relacionada com as teorias segundo novas linhas, até que surja uma ideologia
suficientemente rica para oferecer argumentos específicos em defesa de cada uma de suas
partes e suficientemente plástica para encontrar esses argumentos sempre que se façam
necessários. Hoje, podemos dizer que Galileu trilhava o caminho certo, pois sua persistente
busca de algo que, a certa altura, se afigurou uma ridícula cosmologia, veio a criar os
elementos necessários para defendê-la contra aqueles que só aceitam um ponto de vista
quando ele é apresentado de determinado modo e que só confiam nele quando encerra certas
frases mágicas, denominadas ‘relatos de observação’. E isto não é exceção — é o caso
comum: as teorias só se tornam claras e — ‘razoáveis’ depois de terem sido usadas, por
longo tempo, várias, partes incoerentes que as compõem Essa operação desarrazoada,
insensata, sem método é, assim, condição inevitável de clareza e de êxito empírico.
Ora, quando procuramos descrever e compreender de maneira geral processos dessa
espécie, somos obrigados, naturalmente, a recorrer às formas de expressão existentes, que
não tomam em conta aqueles processos e precisam, pois, ser deturpadas, mal-empregadas,
afeiçoadas a novos moldes, para se adequarem a situações imprevistas (sem um constante
mau uso da linguagem não pode haver descoberta ou progresso). Além disso, como as
categorias tradicionais são a bíblia do pensamento comum (inclusive do pensamento comum
científico) e da prática de todos os dias, [essa tentativa de compreender] apresenta,
33
em verdade, regras e formas de pensamento falso e ação errônea — falso e errônea, entendase,
do ponto de vista do senso comum (científico)2 Dessa maneira, o pensamento dialético
surge como uma forma de pensamento que ‘reduz ao nada as pormenorizadas determinações
de compreensão3, inclusive a lógica formal.
(De passagem, importa assinalar que o freqüente uso de palavras como ‘progresso’,
‘avanço’, ‘aperfeiçoamento’, etc. não significa afirme eu estar de posse de um conhecimento
especial acerca do que seja bom e do que seja mau nas ciências, nem significa pretenda eu
impor esse conhecimento aos leitores. Cada qual lerá as palavras a seu modo e de acordo
com a tradição a que esteja filiado. Assim, para um empirista, ‘progresso’ significará
transição para uma teoria capaz de permitir que a maioria de seus pressupostos básicos seja
objeto de testes empíricos diretos. Alguns acreditam que a essa espécie pertence a teoria
quântica. Aos olhos de outros, ‘progresso’ poderá significar unificação e harmonia, talvez
até mesmo às expensas da adequação empírica. Dessa maneira encarava Einstein a teoria
geral da relatividade. E minha tese é a de que o anarquismo favorece a concretização do
progresso em qualquer dos sentidos que a ele se decida emprestar. Mesmo uma ciência que
se paute pelo bem ordenado só alcançará resultados se admitir, ocasionalmente,
procedimentos anárquicos.)
É claro, portanto, que a idéia de um método estático ou de uma teoria estática de
racionalidade funda-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de sua
circunstância social. Os que tomam do rico material da história, sem a preocupação de
empobrecê-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de segurança intelectual
(que se manifesta como desejo de clareza, precisão, ‘objetividade’, ‘verdade’), esses vêem
claro que só há um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos
os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio: tudo vale.
34
É preciso, agora, passar a examinar e a explicar esse princípio abstrato, analisando-o em
ternos pormenorizados e concretos.
NOTAS
1. Um dos poucos pensadores a compreender esse traço do evolver do conhecimento foi Niels
Bohr: ‘... ele nunca tentará esboçar um quadro completo, mas acompanhará pacientemente
todas as fases de desenvolvimento de um problema, a partir de algum paradoxo manifesto,
para gradualmente chegar a sua elucidação. Em verdade, jamais encarará os resultados
obtidos como outra coisa que não pontos de partida de outros estudos. Especulando acerca
das perspectivas de uma linha de investigação, afastará as habituais considerações de
simplicidade, elegância e mesmo de coerência, observando que tais qualidades somente
podem ser adequadamente após (grifo meu) o evento...' L. Rosenfeld, in Niels Bohr. His Life
and Work as seen by his Friends and Colleagues, ed. S. Rosental, Nova Iorque, 1967, p.
117. Ora a ciência jamais é um processo completo; está, portanto, sempre ‘antes’ do
evento.Conseqüentemente, a simplicidade, a elegância ou a coerência jamais constituem
condições necessárias da prática (científica).
2. Herbert Marcuse, Reason and Revolution, Londres, 1941, p. 130.
3. Hegel, Wissenschaft der Logik, vol. I, Meiner, Hamburgo, 1965, p. 6.
35
II
Cabe, por exemplo, recorrer a hipóteses que contradizem teorias confirmadas e/ou resultados
experimentais bem estabelecidos. É possível fazer avançar a ciência, procedendo contraindutivamente.
Examinar o princípio em pormenor concreto significa traçar as conseqüências das
contra-regras que se opõem a algumas regras comuns do empreendimento científico. Para
ter idéia dessa forma de operação, consideremos a regra segundo a qual é a ‘ experiência’ ou
são os ‘ fatos’ ou são os ‘ resultados experimentais’ que medem o êxito de nossas teorias, a
regra segundo a qual uma concordância entre a teoria e os ‘ dados’ favorece a teoria (ou não
modifica a situação), ao passo que uma discordância ameaça a teoria e nos força, por vezes, a
eliminá-la. Essa regra é elemento importante de todas as teorias da confirmação e da
corroboração. É a essência do empirismo. A ‘ contra-regra’ a ela oposta aconselha-nos a
introduzir e elaborar hipóteses que não se ajustam a teorias firmadas ou a fatos bem
estabelecidos. Aconselha-nos a proceder contra-indutivamente.
O procedimento contra-indutivo dá surgimento às seguintes indagações: É a contraindução
mais razoável do que a indução? Há circunstâncias que lhe favoreçam o uso?
Quais os argumentos em seu favor? Quais os argumentos a ela contrários? Será, talvez,
cabível preferir sempre a indução e não a contraindução? E assim por diante.
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Essas indagações serão respondidas em duas fases. De início, examinarei a contra-regra
que nos impele a desenvolver hipóteses que não se ajustam a teorias aceitas e confirmadas. E
examinarei posteriormente a contra-regra que nos leva a desenvolver hipóteses que não se
ajustam a fatos bem estabelecidos. Os resultados resumem-se nos termos abaixo indicados.
No primeiro caso, ocorre que a evidência capaz de refutar uma teoria é, freqüentes vezes,
tão-somente desvelada com o auxílio de uma alternativa incompatível: o conselho (que
remonta a Newton e é, ainda, hoje, amplamente acolhido) segundo o qual só cabe recorrer a
alternativas quando as refutações já hajam desacreditado a teoria ortodoxa é um conselho
que põe o carro adiante dos bois. Além disso, algumas das mais importantes propriedades
formais de uma teoria manifestam-se por contraste e não por força de análise. O cientista
que deseja ampliar ao máximo o conteúdo empírico das concepções que sustenta e que deseja
entender aquelas concepções tão claramente quanto possível deve, portanto, introduzir
concepções novas. Em outras palavras, o cientista deve adotar metodologia pluralista.
Compete-lhe comparar idéias antes com outras idéias do que com a ‘ experiência’ e ele
tentará antes aperfeiçoar que afastar as concepções que forem vencidas no confronto.
Procedendo dessa maneira, manterá as teorias acerca do homem e do cosmos que se
encontram no Gênese ou no Pimandro e as elaborará e utilizará a fim de avaliar o êxito da
evolução e de outras concepções ‘ modernas’ 1. Concluirá, talvez, que a teoria da evolução
não é tão bem fundada quanto geralmente se admite e que deve ser complementada ou
inteiramente substituída por uma aperfeiçoada versão do Gênese. O conhecimento,
concebido segundo essas linhas, não é uma série de teorias coerentes, a convergir para uma
doutrina ideal; não é um gradual aproximar-se da verdade. É, antes, um oceano de
alternativas mutuamente incompatíveis (e, talvez, até mesmo incomensuráveis), onde cada
teoria singular, cada conto de fadas, cada mito que seja parte do todo força as demais
partes a manterem articulação
40
maior, fazendo com que todas concorram, através desse processo de competição, para o
desenvolvimento de nossa consciência. Nada é jamais definitivo, nenhuma forma de ver
pode ser omitida de uma explicação abrangente. Plutarco ou Diógenes Laércio e não Dirac
ou von Neumann são os modelos para a apresentação dessa espécie de conhecimento, onde a
história de uma ciência se faz porção inseparável da própria ciência — essencial para seu
posterior desenvolvimento, assim como para emprestar conteúdo às teorias que encerra em
qualquer momento dado. Especialistas e leigos, profissionais e diletantes, mentirosos e
amantes da verdade — todos estão convidados a participar da atividade e a trazer
contribuição para o enriquecimento de nossa cultura. A tarefa do cientista não é mais a de
‘buscar a verdade’ ou a de ‘louvar ao Deus’ ou a de ‘sistematizar observações’ ou a de
‘aperfeiçoar as previsões’. Esses são apenas efeitos colaterais de uma atividade para a qual
sua atenção se dirige diretamente e que é ‘tornar forte o argumento fraco’, tal como disse o
sofista, para, desse modo, garantir o movimento do todo.
A segunda contra-regra que favorece as hipóteses desajustadas das observações, dos fatos
e dos resultados experimentais não necessita de especial defesa, pois não há uma única
teoria digna de interesse que esteja em harmonia com todos os fatos conhecidos que se
situam em seu domínio. Não há, pois, que indagar se as teorias contra-indutivas devem ser
admitidas em ciência; a questão é, antes, a de saber se as atuais discrepâncias entre a teoria
e os fatos devem ser aprofundadas ou reduzidas, de saber o que se há de com elas fazer.
Para responder a essa indagação, basta lembrar que os relatos de observação, os
resultados experimentais, os enunciados ‘factuais’ ou encerram pressupostos teoréticos ou
os afirmam, por força da maneira como são usados. (Para aprofundar esse ponto, ver o
exame das interpretações naturais, nos capítulos VI e seguintes.) Assim, é costume dizer ‘a
mesa é marrom’ , quando a contemplamos em circunstâncias normais, com nossos
sentidos em equilíbrio, e dizer ‘a mesa parece ser marrom’ quando as
41
condições de luz deixam a desejar ou quando nos sentimos inseguros quanto a nosso poder
de observação — e isso expressa a convicção de que há circunstâncias comuns em que
nossos sentidos se mostram aptos a ver o mundo ‘como ele realmente é’ e de que há
circunstâncias, igualmente comuns, em que nossos sentidos se enganam. Expressa a
convicção de que algumas de nossas impressões sensoriais são corretas e outras não são. E
damos também como certo que o meio material que se interpõe entre nós e o objeto não
exerce influência deturpadora e que a entidade física de que o contato depende — a luz—
veicula um quadro verdadeiro. Trata-se, em todos os casos, de pressupostos abstratos e
altamente discutíveis que dão forma à nossa concepção do mundo, sem se tornarem
acessíveis a uma crítica direta. Em geral, nem sequer nos damos conta desses pressupostos e
só lhes reconhecemos os efeitos quando nos defrontamos com uma cosmologia inteiramente
diversa: os preconceitos são descobertos graças a contraste e não graças a análise. O
material de que o cientista dispõe, inclusive suas mais elaboradas teorias e suas técnicas
mais refinadas, estrutura-se de modo exatamente idêntico. Encerra, também, princípios que
não são conhecidos e que, se conhecidos, seriam de verificação extremamente difícil. (Em
conseqüência, uma teoria poderá conflitar com a evidência não porque deixe de ser correta,
mas porque a evidência está adulterada.)
Ora — como nos seria possível examinar algo de que nos estamos valendo o tempo todo?
Como analisar — para lhes apontar os pressupostos — os termos em que habitualmente
expressamos nossas observações mais simples e diretas? Como — agindo como agimos—
descobrir a espécie de mundo que pressupomos?
A resposta é clara: não podemos descobrir o mundo a partir de dentro. Há necessidade de
um padrão externo de crítica: precisamos de um conjunto de pressupostos alternativos ou
— uma vez que esses pressupostos serão muito gerais, fazendo surgir, por assim dizer,
todo um mundo alternativo — necessita-
42
mos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar
(e que, talvez, em realidade não passe de outro mundo imaginário). A primeira fase da
crítica que dirigiremos contra os conceitos e processos comuns, o primeiro passo na crítica
aos ‘ fatos’ há de consistir, portanto, em uma tentativa de romper o círculo vicioso. Temos
de inventar um sistema conceptual novo que ponha em causa os resultados de observação
mais cuidadosamente obtidos ou com eles entre em conflito, que frustre os mais plausíveis
teóricos e que introduza percepções que não integrem o existente mundo perceptível2. Esse
passo é também de caráter contra-indutivo. A contra-indução, portanto, é sempre razoável e
abre sempre uma possibilidade de êxito.
Nos sete capítulos seguintes essa conclusão será desenvolvida em pormenor e ilustrada
com exemplos retirados da História. Com o que disse, terei, talvez, dado a impressão de que
prego uma nova metodologia em que a indução é substituída pela contra-indução e onde
aparecem teorias várias, concepções metafísicas e contos de fadas, em vez de aparecer o
costumeiro binômio teoria/observação3. Essa impressão seria, indubitavelmente, errônea.
Meu objetivo não é o de substituir um conjunto de regras por outro conjunto do mesmo
tipo: meu objetivo é, antes, o de convencer o leitor de que todas as metodologias, inclusive as
mais óbvias, têm limitações. A melhor maneira de concretizar tal propósito é apontar esses
limites e a irracionalidade de algumas regras que alguém possa inclinar-se a considerar
fundamentais. No caso da indução (inclusive a indução por falseamento), isso equivale a
evidenciar até que ponto o processo contra-indutivo encontra apoio em argumentações.
Tenha-se sempre em mente que as demonstrações e a retórica usada não expressam
‘profundas convicções’ minhas. Apenas mostram como é fácil, através de recurso ao
racional, iludir as pessoas e conduzi-las a nosso bel-prazer. Um anarquista é
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como um agente secreto que participa do jogo da Razão para solapar a autoridade da Razão
(Verdade, Honestidade, Justiça e assim por diante)4.
NOTAS
1. Para esclarecer o papel de Pimandro na Revolução Copernicana, cf. nota 12 do capítulo
VIII.
2. ‘Entre em conflito’ ou ‘ponha em causa’ têm o propósito de ser mais gerais do que
‘contradiz’. Afirmo que um conjunto de idéias ou ações ‘conflita’ com um sistema
conceptual se é incompatível com ele ou se faz o sistema parecer absurdo. Para minúcias, cf.
capítulo XVII, adiante.
3. Dessa maneira, o Professor Ernan McMullin interpretou alguns de meus primeiros
artigos. Ver ‘A Taxonomy of the Relations between History and Philosophy of Science’,
Minnesota Studies 5, Minneapolis, 1971.
4. ‘Dada’, diz Hans Richter (in Dada: Art and Anti-Art) ‘não se limitava a não ter
programa; era contra todos os programas’ . Isso não exclui a habilidosa defesa dos
programas, para mostrar o caráter quimérico de todas as defesas, ainda que ‘racionais’ . Cf.,
também, capítulo XVI, texto correspondente às notas 21, 22, 23. (De idêntica maneira, um
ator ou teatrólogo poderia apresentar todas as manifestações externas de ‘profundo amor’
para desmascarar a impostura do ‘amor profundo’. Exemplo: Pirandello.) Espero que essas
observações afastem o temor que a senhorita Koertge manifesta de que eu apenas pretendia
iniciar um novo movimento, onde os lemas ‘proliferem’ ou ‘tudo vale’ substituam os lemas
do falseamento, do indutivismo ou da programação de pesquisas.
44
III
A condição de coerência, por força da qual se exige que as hipóteses novas se ajustem a
teorias aceitas, é desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e não a melhor. Hipóteses
que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evidência impossível de obter
por outra forma. A proliferação de teorias é benéfica para a ciência, ao passo que a
uniformidade lhe debilita o poder crítico. A uniformidade, além disso, ameaça o livre
desenvolvimento do indivíduo.
No presente capítulo, oferecerei argumentos pormenorizados, em prol da ‘contra-regra’
que nos impele a introduzir hipóteses incompatíveis com teorias bem assentadas. Os
argumentos serão indiretos. Levantar-se-ão mediante crítica da exigência de que as
hipóteses novas devam ajustar-se àquelas teorias. A essa exigência denominarei condição de
coerência1.
Prima facie, a condição de coerência pode ser apresentada em poucas palavras. É sabido
(e foi minuciosamente demonstrado por Duhem) que a teoria de Newton é incongruente
com a lei da queda dos corpos, de Galileu, e com as leis de Kepler; que a termodinâmica
estatística é inconsistente com a segunda lei da teoria fenomenológica; que a ótica
ondulatória é incompatível com a ótica geométrica; e assim por diante2. Note-se que
estamos falando de incoerência lógica, podendo ocorrer que as diferenças de previsão se
mostrem muito pequenas para que um experimento as possa apontar. Note-se também que
estamos asseverando não a incoerência de, digamos, a teoria de Newton e a lei de Galileu,
mas, antes, a incoerência de algumas conseqüências da teoria de Newton, no domínio
de validez da lei de Galileu com a lei de Galileu. Neste último caso, a
47
situação é particularmente clara. A lei de Galileu afirma que a aceleração dos corpos em
queda livre é uma constante, enquanto a aplicação da lei de Newton à superfície da Terra
indica uma aceleração que não é constante, mas que decresce (embora imperceptivelmente)
quando aumenta a distância em relação ao centro da Terra.
Mais abstratamente: consideremos uma teoria T’ que descreve adequadamente a situação
que se apresenta no domínio D’. T’ está em concordância com um número finito de
observações (de classe, digamos, F) e em concordância com essas observações dentro da
margem de erro M. Qualquer alternativa que se ponha em contradição com T’, fora de F e
dentro dos limites M, encontrará apoio naquelas mesmas observações e será, portanto,
aceitável, se T’ se mostrou aceitável. (Admitirei que F são as únicas observações feitas.) A
condição de coerência é muito menos tolerante. Elimina uma teoria ou uma hipótese não
porque esteja em desacordo com os fatos; elimina-a quando ela se põe em desacordo com
outra teoria, com uma teoria, acentuemos, de cujas instâncias confirmadoras partilha. E
dessa maneira transforma em medida de validade uma parte da teoria existente que ainda
não foi submetida a teste. A única diferença entre essa medida e uma teoria mais recente é
apenas o tempo de existência e o contato maior que temos com a teoria usada como ponto de
referência. Se a teoria mais recente fosse a mais antiga, a condição de coerência operaria em
seu favor. ‘A primeira teoria adequada tem o direito de prioridade sobre teorias posteriores
igualmente adequadas’3. Sob esse aspecto, o efeito da condição de coerência é similar ao
efeito dos mais tradicionais métodos de dedução transcendental, de análise de essências, de
análise fenomenológica, de análise lingüística. Contribui para a preservação do que é antigo
e familiar, não porque seja portador de qualquer inerente vantagem — não porque esteja
melhor fundamentado na observação do que a alternativa de sugestão recente ou porque seja
mais elegante — mas apenas por ser mais antigo e familiar. Essa não
48
é a única situação em que, a mais aprofundado exame, surge surpreendente semelhança
entre o empirismo de nossos dias e algumas escolas filosóficas por ele atacadas.
Ora, parece-me que essas breves considerações — embora levem a uma interessante
crítica tática da condição de coerência e aos primeiros fragmentários elementos de apoio à
contra-indução — não chegam, ainda, ao cerne da questão. Mostram que uma alternativa
para o ponto de vista aceito, alternativa que apresente os mesmos casos corroboradores, não
pode ser eliminada através de arrazoado factual. Não demonstram que a alternativa seja
aceitável; e menos ainda mostram que deva ser utilizada. É lamentável, diria um defensor
da condição de coerência, que o ponto de vista aceito não tenha completo fundamento
empírico. Acrescentar teorias novas de caráter igualmente insatisfatório não melhorará a
situação; nem há muito sentido no tentar substituir as teorias aceitas por algumas de suas
possíveis alternativas. A substituição não se operará com facilidade. Talvez imponha
domínio de um formalismo novo e talvez exija que problemas familiares sejam acomodados a
pautas novas. Manuais terão de ser reescritos, precisarão sofrer revisões os currículos
universitários e os resultados experimentais serão reinterpretados. E qual o resultado de tal
esforço? Outra teoria que, do ponto de vista empírico, não oferece qualquer vantagem em
relação à que substituiu. O único aprimoramento real, continuaria o defensor da condição
de coerência, é o que deriva do acréscimo de fatos novos. Esses fatos novos ou corroborarão
as teorias em vigor ou nos forçarão a modificá-las, indicando, com precisão, os pontos em
que apresentam deficiências. Em ambos os casos, darão lugar a progresso real e não a
alterações arbitrárias. O procedimento conveniente há de ser, portanto, o de confrontar a
concepção aceita com tantos fatos relevantes quanto possível. A exclusão de alternativas
torna-se, pois, simples questão de oportunidade: inventá-las não traz qualquer ajuda
e chega a ser prejudicial ao progresso, pois absorve tempo e atenção que
49
poderiam ser devotados a propósitos melhores. A condição de coerência afasta essas
discussões estéreis e força o cientista a concentrar-se em fatos que, ao final, são os únicos
reconhecidos juízes de uma teoria. É assim que o cientista militante justifica o apego a uma
única teoria, com exclusão das alternativas empiricamente cabíveis4.
Vale a pena voltar a realçar o núcleo razoável desse argumento. As teorias não devem ser
modificadas, a menos que haja razões prementes para a modificação. A única razão
premente para alterar uma teoria é a discordância com fatos. O exame de fatos
incompatíveis com a teoria conduz, portanto, a progresso. Exame de hipóteses
incompatíveis não leva ao mesmo resultado. Conseqüentemente, convém agir de forma a
fazer crescer o número de fatos relevantes. Não convém agir de maneira a fazer crescer o
número de alternativas factualmente adequadas, mas incompatíveis. Talvez se desejasse
acrescentar que o aperfeiçoamento formal, traduzido em maior elegância, simplicidade,
generalidade e coerência, não deve ser excluído. Mas, uma vez ocorridos esses
aperfeiçoamentos, parece que somente resta ao cientista a coleta de fatos — que ele utilizará
para fins de teste.
E assim é —contanto que os fatos existam e a eles se possa chegar, independentemente
de se ter ou não em conta alternativas da teoria a ser submetida a teste. A esse pressuposto,
do qual depende, de maneira decisiva, a validez do argumento precedente, denominarei
pressuposto da autonomia relativa dos fatos, ou princípio da autonomia. Não assevera esse
princípio que a descoberta e a descrição de fatos sejam independentes de todo teorizar.
Assevera, porém, que é possível chegar aos fatos integrados ao conteúdo empírico de uma
teoria, sejam ou não consideradas as alternativas dessa teoria. Não me consta que esse
importantíssimo pressuposto haja sido formulado, explicitamente, como um postulado do
método empírico. Todavia, ele está claramente presente em todas as investigações relativas a
questões de confirmação e testes. Todas as investigações dessa
50
ordem utilizam modelo em que uma única teoria é confrontada com uma classe de fatos (ou
enunciados de observação) que se presumem, de alguma forma, ‘dados’. Penso que esse
retrato simplifica em demasia a situação real. Os fatos e as teorias estão muito mais
intimamente ligados do que o admite o princípio da autonomia. Não apenas ocorre que a
descrição de cada fato singular depende de alguma teoria (que, naturalmente, pode diferir da
teoria a ser submetida a teste), como também ocorre existirem fatos que são desvelados
apenas com o auxílio de alternativas da teoria a ser submetida a teste e que se tornam
inacessíveis tão logo essas alternativas se vêem excluídas. E isso leva a sugerir que a
unidade metodol6gica a que devemos referir-nos, ao discutir questões relativas a testes e a
conteúdo empírico, se constitui de todo um conjunto de teorias, parcialmente superpostas,
factualmente adequadas, mas mutuamente inconsistentes. No presente capítulo, só
apresentaremos um breve esboço desse modelo de teste. Antes de fazê-lo, entretanto, desejo
examinar um exemplo que mostra claramente a função das alternativas na descoberta de
fatos críticos.
Sabe-se, hoje, que a partícula browniana é máquina de movimento perpétuo de segunda
espécie e que sua existência refuta a segunda lei fenomenológica. O movimento browniano
coloca-se, pois, no domínio dos fatos relevantes para a lei. Ora, poderia essa relação entre o
movimento browniano e a lei ter sido descoberta de maneira direta, isto é, poderia ter sido
descoberta por meio de exame das conseqüências observacionais da teoria fenomenológica
que não fizesse uso de uma teoria alternativa do calor? Essa indagação abre-se, de imediato,
em duas: (1) poderia a relevância da partícula browniana ter sido descoberta dessa maneira?
(2) poderia ter sido demonstrado que ela realmente refuta a segunda lei?
A resposta à primeira pergunta é: não o sabemos. É impossível dizer o que teria ocorrido
se a teoria cinética não fosse introduzida no debate. Suponho, entretanto, que, em tal caso,
a partícula browniana teria sido encarada como algo extra-
51
vagante — muito à semelhança de como foram considerados extravagantes os
surpreendentes efeitos relatados pelo falecido professor Ehrenhaft5 — e não lhe teria sido
atribuída a posição decisiva que lhe está reservada na doutrina contemporânea. A resposta à
segunda pergunta é simplesmente: Não. Consideremos o que se tornaria necessário fazer,
em face da descoberta de inconsistência entre o fenômeno do movimento browniano e a
segunda lei. Impor-se-ia: (a) medida do movimento exato da partícula para determinar a
alteração de sua energia cinética plus a energia despendida para vencer a resistência do
fluido; e (b) medida precisa de temperatura e de transferência de calor no meio circundante,
para assegurar que toda perda ocorrida se vê, de fato, compensada pelo acréscimo de energia
da partícula em movimento e pelo trabalho executado contra o fluido. Essas medições
colocam-se fora das possibilidades experimentais6: nem a transferência de calor nem a
trajetória da partícula pode ser medida com a desejada precisão. Conseqüentemente, é
impossível uma refutação ‘ direta’ da segunda lei, refutação que tão-somente levaria em
conta a teoria fenomenológica e os fatos concernentes ao movimento browniano. É
impossível a refutação em virtude da estrutura do mundo em que vivemos e das leis válidas
nesse mundo. Aliás, como se sabe, a real refutação surgiu por caminho muito diverso.
Surgiu via teoria cinética e a partir do uso que dela fez Einstein para calcular as
propriedades estatísticas do movimento browniano. Ao longo desse procedimento, a teoria
fenomenológica (T’) viu-se incorporada ao contexto mais amplo da física estatística (T) de
modo a violar-se a condição de coerência; depois disso, preparou-se um experimento crucial
(investigações de Svedberg e Perrin)7.
Parece-me que esse é exemplo típico da relação que se estabeleceu entre as teorias ou os
pontos de vista muito gerais e os ‘fatos’. A relevância e o caráter refutador dos fatos
decisivos só podem ser verificados com o auxílio de outras teorias que, embora factualmente
adequadas8, não estão em concordância com a concepção a ser submetida a teste. Assim
sendo,
52
a invenção e articulação de alternativas talvez tenham de preceder a apresentação dos fatos
refutadores. O empirismo, pelo menos em algumas de suas mais sofisticadas versões, exige
que o conteúdo empírico de todo conhecimento por nós conseguido seja aumentado o quanto
possível. Conseqüentemente, a invenção de alternativas para a concepção que está em debate
constitui parte essencial do método empírico. Inversamente, a circunstância de a condição
de coerência eliminar alternativas mostra, agora, que ela está em discordância não só com a
prática científica, mas também com o empirismo. Afastando testes valiosos, reduz o
conteúdo empírico das teorias autorizadas a permanecer (e estas, como acima referi, serão,
geralmente, as teorias que primeiro se viram formuladas); e, em especial, reduz o número de
fatos que evidenciariam as limitações daquelas teorias. Este último resultado de
determinada aplicação da condição de coerência é de interesse muito restrito. Pode muito
bem ocorrer que a refutação das incertezas, em mecânica quântica, pressuponha exatamente
uma incorporação da atual teoria em um contexto mais amplo que não esteja em
concordância com a idéia de complementaridade e. que, portanto, sugira experimentos
novos e decisivos. E pode também ocorrer, se bem sucedida, que, a insistência, por parte da
maioria dos físicos de hoje, em defender as condições de coerência, impeça, para sempre, as
incertezas de se verem refutadas. Dessa maneira, a condição, ao final, dará margem a uma
situação em que certo ponto de vista se petrifique em dogma, sendo posto, em nome da
experiência, em posição inteiramente inacessível a qualquer crítica.
Vale a pena examinar, com maior minúcia, essa defesa, aparentemente ‘empírica’, de um
ponto de vista dogmático. Admitamos que os físicos hajam acolhido, consciente ou
inconscientemente, a idéia da singularidade da complementaridade e que se recusem a
examinar alternativas. De início, é possível que esse procedimento se mostre inofensivo.
Afinal de contas, um homem e mesmo uma escola influente só podem fazer umas
53
tantas coisas de cada vez e é melhor que explorem uma teoria considerada interessante do
que uma teoria julgada sem atrativos. Admitamos, ainda, que a exploração da teoria
escolhida tenha levado a êxitos e que a teoria haja esclarecido, de maneira satisfatória,
circunstâncias que, há longo tempo, se mostravam ininteligíveis. Isso empresta apoio
empírico a uma idéia que inicialmente só parecia possuir uma vantagem: era interessante e
provocadora. A adesão à teoria ver-se-á reforçada e a atitude frente a alternativas será de
menor tolerância. Ora, se é verdade — tal como se sustentou no capítulo anterior — que
muitos fatos só se manifestam à luz de teorias alternativas, recusar-se a examinar essas
alternativas resultará em afastar, ao mesmo tempo, fatos potencialmente refutadores. Mais
particularmente: resultará em afastar fatos cuja descoberta patentearia a completa e
irreparável inadequação da teoria9. Tornados inacessíveis esses fatos, a teoria estará
aparentemente livre de imperfeição e se afigurará que “toda evidência aponta, com
determinação categórica, no... sentido... de que todos os processos que envolvem... interações
desconhecidas se conformam à lei quântica fundamental”10. Isso reforçará ainda mais a
crença no caráter único da teoria aceita e na futilidade de explicação que procure caminho
diverso. Firmemente convencido de que há uma única microfísica adequada, o físico tentará
valer-se dos termos dessa teoria para explicar fatos a ela antagônicos e não dará grande
atenção à circunstância de essas explicações se mostrarem, ocasionalmente, um tanto
impróprias. Logo a seguir, os desenvolvimentos havidos passam a ser de conhecimento
geral. Livros científicos de cunho popular (e isso inclui muitos livros a propósito de filosofia
da ciência) divulgam amplamente os postulados básicos da teoria; ocorrem aplicações em
campos remotos, auxílio financeiro é dado ao ortodoxo e negado aos rebeldes. Mais do que
nunca, a teoria parece possuir largo fundamento empírico. A possibilidade de considerar
alternativas torna-se reduzidíssima. Parece assegurado o êxito final dos
54
pressupostos básicos da teoria quântica e da idéia de complementaridade.
Com base em nossas considerações, também se torna evidente que o êxito aparente não
pode ser visto como sinal de verdade e de correspondência com o natureza. Muito ao
contrário, surge a suspeita de que a ausência de dificuldades maiores se deva a uma redução
do conteúdo empírico, provocada pela simples eliminação de alternativas e dos fatos
passíveis de se verem descobertos com o auxílio de tais alternativas. Em outras palavras,
surge a suspeita de que o pretenso êxito se deva à circunstância de que a teoria, ficando
projetada para além de seu ponto de partida, transformou-se em rígida ideologia. Essa
ideologia ‘tem êxito’ não porque bem se afeiçoe aos fatos, mas porque não se especificam
fatos que pudessem constituir-se em teste e porque alguns desses fatos são afastados. O
êxito é inteiramente artificial. Tomou-se a decisão de, haja o que houver, aderir a algumas
idéias e o resultado foi, muito naturalmente, o de essas idéias sobreviverem. Se, por
exemplo, a decisão for esquecida ou adotada apenas implicitamente, se ela se tornar lei
comum em Física, ocorrerá que a própria sobrevivência parecerá erigir-se em apoio
independente que reforçará a decisão e lhe emprestará caráter explícito — fechando, dessa
maneira, o círculo. É assim que a ‘evidência’ empírica pode ser criada através de um
procedimento que cita como justificação a própria evidência que produziu.
A essa altura, uma teoria ‘empírica’ do tipo descrito (e lembremos sempre que os
princípios básicos da atual teoria quântica e, em particular, a idéia de complementaridade
estão desagradavelmente próximos de constituir esse tipo de teoria) torna-se quase
indistinguível de um mito de segunda classe. Para nos darmos conta disso, basta lembrar
um mito como o da feitiçaria e da possessão demoníaca, desenvolvido por teólogos católicoromanos
e que, no continente europeu, dominou o pensamento dos séculos XV, XVI e
XVII. Esse mito é um sistema explicativo complexo, que encerra numerosas hipóteses
55
auxiliares, destinadas a abranger casos especiais, de sorte que facilmente alcança alto grau
de confirmação baseado em observações. O mito foi ensinado por longo tempo; seu conteúdo
recebe o reforço do medo, do preconceito e da ignorância, ao mesmo tempo que de um
exercício clerical zeloso e cruel. Suas idéias penetram o idioma comum; infeccionam todas as
formas de pensamento e atingem muitas decisões de relevante significação para a vida
humana. O mito proporciona modelos para a explicação de qualquer concebível evento—
concebível, entenda-se, para os que aceitaram o mito 11. Assim sendo, seus termos-chave
ver-se-ão fixados de maneira clara; e a idéia (que talvez tenha, originalmente, levado a esse
procedimento) de que são cópias de entidades isentas de alterações e que a alteração de
significado, se ocorrer, se deverá a erro humano — essa idéia passará a apresentar-se como
plausível. Essa plausibilidade fala em favor de todas as manobras utilizadas para a
preservação do mito (inclusive a eliminação de oponentes). O aparelhamento conceptual da
teoria e as emoções ligadas à sua aplicação, insinuando-se em todos os meios de
comunicação, em todas as ações e, afinal, em toda a vida da comunidade, passam a garantir
o êxito de métodos tais como o da dedução transcendental, da análise de uso, da análise
fenomenológica — meios de emprestar maior solidez ao mito (o que mostra, assinalemos de
passagem, que todos esses métodos, característicos de escolas filosóficas antigas e modernas,
apresentam um traço comum: tendem a preservar o status quo da vida intelectual).
Também os resultados de observação falarão em favor da teoria, de vez que formulados com
observância de seus termos. E surge a impressão de se haver, finalmente, alcançado a
verdade. Torna-se evidente, ao mesmo tempo, que se perdeu todo contato com o mundo e
que a estabilidade atingida, a aparência de verdade absoluta, não passa do resultado de um
conformismo absoluto12. Com efeito, como será possível submeter a teste ou aprimorar a
verdade de uma teoria, se ela é elaborada de maneira tal que qualquer acontecimento
concebível
56
pode ser descrito e explicado nos termos de seus princípios? A única maneira de estudar
esses princípios que a tudo abrangem seria compará-los com um conjunto de outros
princípios igualmente abrangentes — mas a possibilidade desse procedimento está, desde o
início, afastada. O mito não tem, pois, relevância objetiva; continua a existir apenas como
resultado do esforço da comunidade de crentes e de seus orientadores, sejam estes sacerdotes
ou vencedores do Prêmio Nobel. Esse é, a meu ver, o mais forte argumento contra qualquer
método que estimule a uniformidade, quer seja esse método empírico ou não. Cada método
dessa espécie é, em última análise, um método decepcionante. Dá forças a um conformismo
sombrio e fala de verdade; leva à deterioração das capacidades intelectuais, do poder de
imaginação e fala de introvisão profunda; destrói o mais precioso dom da juventude —o
enorme poder de imaginação — e fala em educar.
Resumindo: Unanimidade de opinião pode ser adequada para uma igreja, para as vítimas
temerosas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno) ou para os fracos e
conformados seguidores de algum tirano. A variedade de opiniões é necessária para o
conhecimento objetivo. E um método que estimule a variedade é a único método compatível
com a concepção humanitarista. (Na medida em que a condição de coerência restringe a
variedade, ela encerra um elemento teológico, elemento que se traduz na adoração dos
"fatos", que é um traço característico de quase todo empirismo13.)
NOTAS
1. A condição de coerência remonta pelo menos a Aristóteles. Desempenha papel
importante na filosofia de Newton
57
(embora Newton a violasse constantemente). É acolhida pela maioria dos filósofos da ciência
do século XX.
2. Pierre Duhem, La Théorie Physique: Son objet, Sa Structure, Paris, 1914, capítulo IX e
X. Em seu Objective Knowledge. Oxford, 1972, pp. 204-5, Karl Popper cita-me para apoiar
a afirmação de que foi dele, originalmente, a idéia ‘segundo a qual as teorias podem corrigir
uma lei relativa a “observações” ou a “fenômenos” que elas, supostamente, devem explicar’
. Comete ele dois equívocos. O primeiro consiste em admitir que as referências que a ele faço
constituem prova histórica de sua prioridade, quando não passam de manifestações de
cordialidade. O segundo equívoco está em olvidar que a idéia referida já ocorre em Duhem,
em Einstein e, especialmente, em Boltzmann, que antecipou todas as observações filosóficas
de ‘ The Aim of Science’, Ratio, i, pp. 24 ss., e de Einstein e Duhem. Com respeito a
Boltzmann, cf. meu artigo na Encyclopaedia of Philosophy, ed. Paul Edwards. Com respeito
a Duhem, cf. Objective Knowledge, p. 200.
3. C. Truesdell, ‘A Program Toward Rediscovering the Rational Mechanics of the Age of
Reason’, Archives for the History of Exact Sciences, vol. I, p. 14.
4. Evidência mais minuciosa a propósito da existência dessa atitude e de sua influência
sobre o desenvolvimento das ciências encontra-se em Thomas Kuhn, The Structure of
Scientific Revolutions, Chicago, 1962. A atitude é extremamente comum no campo da
teoria quântica. ‘Tiremos vantagem das teorias bem sucedidas de que dispomos e não
percamos tempo a imaginar o que ocorreria se utilizássemos outras teorias’ parece
constituir a diretriz orientadora de quase todos os físicos de nossa época (cf., por exemplo,
W. Heisenberg, Physics and Philosophy, Nova Iorque, 1958, pp. 56 e 144) e dos filósofos
‘científicos’ (p. ex., N. R. Hanson, ‘Five Cautions for the Copenhagen Critics’, Philosophy
of Science, nº.. 26, 1959, pp. 325
58
ss.). A atitude se manifesta nos artigos e nas catas de Newton (endereçadas a Hooke,
Pardies e outros) acerca da teoria das cores e se manifesta, ainda, em sua metodologia geral
(cf. minhas referências em ‘Classical Empiricism’. The Methodological Heritage,of Newton,
ed. Butts, Oxford, 1970).
5. Tendo, em variadas condições, testemunhado esses fenômenos, reluto muito mais do que
a comunidade científica atual em afastá-los, em dá-los como simples Dreckeffekt. Cf.
tradução que fiz de conferências pronunciadas por Ehrenhaft, em Viena, no ano 1947, e que
me disponho a fornecer mediante solicitação postal. Era melhor professor que a maioria dos
outros e deu a seus alunos muito melhor idéia acerca do caráter precário do conhecimento
físico. Ainda recordo quão interessadamente estudamos a teoria de Maxwell (no manual de
Abraham-Becker, em Heaviside, freqüentemente mencionado nas exposições de Ehrenhaft, e
nos trabalhos originais do próprio Maxwell) e a teoria da relatividade, com o objetivo de
refutar sua asseveração segundo a qual a Física teórica era desprovida de sentido; e quão
surpresos e desapontados nos sentimos ao descobrir que não havia cadeia dedutiva direta a
conduzir da teoria ao experimento e que muitas deduções oferecidas eram assaz arbitrárias.
Demo-nos conta, ainda, de que quase todas as teorias apóiam sua solidez em um reduzido
número de casos paradigmáticos, sendo necessário comprometer-lhes a estrutura para que
passem a abranger os casos restantes. É lamentável que os filósofos da ciência só raramente
se ocupem de casos de fronteira, como faziam Ehrenhaft ou Velikovsky, preferindo ver-se
reconhecidos pelos donos da ciência (e na própria área de naufrágio) a alcançar mais
profunda percepção do empreendimento científico.
6. Para minúcias, ver Zs. Physik, vol. 81 (1933), pp. 143 ss.
59
7. Para essas investigações (cujos antecedentes filosóficos estão em Boltzmann), cf. A.
Einstein, Investigations on the Theory of Brownian Motion, ed. R. Fürth, Nova Iorque,
1956, onde estão reunidos os artigos importantes de Einstein e há uma bibliografia
preparada por R. Fürth. A propósito do trabalho experimental de J. Perrin, ver Die Atome,
Leipzig, 1920. Acerca da relação entre a teoria fenomenológica e a teoria cinética de von
Smoluchowski, ver ‘Experimentell nachweisbare, der üblichen Thermodynamik
widersprechende Molekularphänomene’, Physikalische Zs., xiii, 1912, p. 1069, bem como a
breve nota de Karl R. Popper, ‘Irreversibility, or Entropy since 1905’, British Journal for
the Philosophy of Science, viii, 1957, p. 151, que resume os argumentos de importância
essencial. A despeito das significativas descobertas de Einstein e da esplêndida apresentação
que von Smoluchowski fez de suas conseqüências (Oeuvres de Marie Smoluchowski,
Cracóvia, 1927, vol. ii, pp. 226 ss., 316 ss., 462 ss. e 530 ss.), a presente situação da
termodinâmica é extremamente confusa, especialmente em razão da continuada
permanência de algumas discutíveis idéias acerca da redução. Para ser mais específico, direi
que se faz freqüentemente a tentativa de determinar o equilíbrio da entropia de um
complexo processo estatístico através de referência à (refutada) lei fenomenológica, após o
que são inseridas flutuações ad hoc. Quanto a esse ponto, cf. minha nota ‘On the Possibility
of a Perpetuum Mobile of the Second Kind’, Mind, Matter and Method, Minneapolis, 1966,
p. 409, e meu artigo ‘In Defence of Classical Physics’ , Studies in the History and
Philosophy of Science, I, nº.. 2, 1970.
De passagem, importa mencionar que, em 1903, quando Einstein iniciou seus trabalhos
no campo da Termodinâmica, havia evidência a sugerir que o movimento browniano não
poderia ser um fenômeno molecular. Ver
60
F. M. Exner, ‘Notiz zu Browns Molekularbewegung", Ann. Phys., nº.. 2, 1900, p. 843.
Exner afirmava que o movimento era de ordens de magnitude abaixo do valor a esperar com
base no princípio da eqüipartição.
8. A condição de adequação factual será afastada no capítulo V.
9. A teoria quântica pode ser adaptada para, assim, contornar numerosas dificuldades. É
uma teoria aberta, no sentido de que inadequações claras podem merecer explicações ad hoc,
através da introdução de operadores convenientes (ou de apropriados elementos) na
hamiltoniana, em vez de se reexaminar toda a estrutura. Uma refutação do formalismo
básico teria, pois, de evidenciar que não há ajustamento da hamiltoniana ou dos operadores
usados capaz de levar a teoria a ajustar-se a um determinado fato. Claro está que um
enunciado geral dessa espécie só poderá decorrer de uma teoria alternativa, que há de ser
suficientemente pormenorizada para permitir a realização de testes decisivos. Isso foi
explanado por D. Bohm e J. Bub, Reviews of Modern Physics, nº.. 38, 1966, pp. 456 SS. As
observações que refutam uma teoria nem sempre são descobertas com o auxílio de uma
teoria alternativa; muitas vezes, já são conhecidas. Assim, a anomalia do periélio de
Mercúrio era conhecida muito antes da criação da teoria geral da relatividade (que, por sua
vez, não foi criada com o intuito de resolver aquele problema). A partícula browniana era
conhecida muito antes de aparecerem as versões mais refinadas da teoria cinética. Sem
embargo, a explicação que as observações recebem, graças ao auxílio de uma teoria
alternativa, leva-nos a vê-las sob nova luz: verificamos que conflitam com uma concepção
geralmente aceita. Suspeito que todos os ‘falseamentos’, inclusive o repetido Caso do
Corvo Branco (ou do Cisne Negro), se baseiam em descobertas deste último tipo.
Para um interessantíssimo debate em torno da noção de ‘novidade’,
61
que surge em conexão com o ponto discutido, ver seção 1.1. do artigo de Elie Zahar, ‘Why
Did Einstein’ s Programme supersede Lorentz’s?’, British Journal for the Philosophy of
Science, junho, 1973.
10. L. Rosenfeld, ‘Misunderstandings about the Foundations of the Quantum Theory’ ,
Observation and lnterpretation, ed. Korner, Londres, 1957, p. 44.
11. Para descrições minuciosas, cf. Ch. H. Lea, Materials for a History of Witchcraft, Nova
Iorque, 1957, bem como H. Trevor-Roper, The European Witch Craze, Nova Iorque, 1969,
onde há muitas referências à bibliografia antiga e moderna.
12. A análise do uso, para considerar apenas um exemplo, pressupõe a existência de certas
regularidades concernentes ao uso. Quanto mais as pessoas diferem, no que concerne a
idéias fundamentais, mais difícil se torna desvelar essas regularidades. Conseqüentemente,
a análise do uso operará melhor em uma sociedade fechada, que se mantenha unida graças a
um poderoso mito como se deu com a sociedade dos filósofos de Oxford, que existia há cerca
de vinte anos. Os esquizofrênicos sustentam, muito freqüentemente, crenças tão rígidas,
amplas e desligadas da realidade quanto as melhores filosofias dogmáticas. Note-se,
contudo, que essas crenças lhes ocorrem naturalmente, ao passo que por vezes, um filósofo
‘crítico’ dedica toda sua vida à tentativa de encontrar argumentos que criem um estado de
espírito semelhante.
13. É interessante notar que são quase idênticas as trivialidades que levaram os protestantes
à Bíblia e as trivialidades que levam os empiristas e outros fundamentalistas ao que lhes
serve de fundamento, a saber, a experiência. Assim, em seu Novum Organum, Bacon pede
que todas as noções preconcebidas (aforismo 36), todas as opiniões (aforismo 42 ss.) e
mesmo as palavras (aforismo 59, 121) ‘sejam conjuradas e a elas se renuncie com
firme e solene
62
resolução e delas deve a compreensão libertar-se completamente, de sorte que o acesso ao
reino do homem, reino que se fundamenta nas ciências, possa assemelhar-se a um acesso ao
reino dos céus, onde só se concede entrada às crianças’ (aforismo 68). Em ambos os casos, a
‘disputa’ (que é consideração de alternativas) se vê criticada; em ambos os casos somos
convidados a afastá-la; e, em ambos os casos, nos prometem ‘imediata percepção’, aqui, de
Deus, e lá, da Natureza. Para informação acerca do pano de fundo teorético de tal
similaridade, cf. meu ensaio ‘Classical Empiricism’, in The Methodological Heritage of
Newton, ed. R. E. Butts, Oxford e Toronto, 1970. Para informação acerca dos fortes laços
entre o puritanismo e a ciência moderna, ver R. T. Jones, Ancients and Moderns,
Califórnia, 1965, capítulos 5-7. Exame exaustivo dos numerosos fatores que influenciaram
o surgimento do moderno empirismo encontra-se em R. K. Merton, Science, Technology
and Society in Seventeenth Century England, Nova Iorque, Howard Fertig, 1970 (versãolivro
do artigo de 1938).
63
IV
Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento. A
ciência absorve toda a história do pensamento e a utiliza para o aprimoramento de cada
teoria. E não se respeita a interferência política. Ocorrerá que ela se faça necessária para
vencer o chauvinismo da ciência que resiste em aceitar alternativas ao status quo.
Estas considerações encerram a discussão da primeira parte da contra-indução, que diz
respeito à invenção e elaboração de hipóteses incompatíveis com um ponto de vista
amplamente corroborado e de aceitação geral. Foi assinalado que o exame desse ponto de
vista reclama com freqüência, uma teoria alternativa, incompatível com a vigente, de sorte
que a advertência (newtoniana) feita no sentido de que se adiem as alternativas até que a
primeira dificuldade se tenha manifestado equivale a colocar o carro adiante dos bois. O
cientista interessado em conseguir o máximo conteúdo empírico, desejando compreender
tantos aspectos de sua teoria quantos possível, adotará metodologia pluralista, comparará as
teorias com outras teorias e não com ‘experiências’, ‘dados’ ou ‘fatos’ e tentará antes
aperfeiçoar do que afastar concepções que aparentemente não resistem à competição l. E isso
porque as alternativas de que ele necessita para manter o processo da competição também
são colhidas no passado. Em verdade, cabe retirá-las de onde quer que seja possível
encontrá-las — de mitos antigos e preconceitos modernos; das lucubrações dos especialistas
e das fantasias dos excêntricos. Toda a história de uma disciplina é utilizada na
67
tentativa de aprimorar seu estágio mais recente e mais ‘avançado’. A separação entre a
história de uma ciência, sua filosofia e a ciência mesma desaparece no ar, o mesmo
acontecendo com a separação entre ciência e não-ciência2.
Essa posição, conseqüência natural dos argumentos acima expostos, sofre ataques
freqüentes — não através de recurso a contra-argumentos, que seriam fáceis de repelir, mas
através de recurso a questões retóricas. ‘Se qualquer metafísica é admissível’, escreve a Dra.
Hesse, ao fazer resenha de um anterior ensaio meu3, ‘põe-se a questão de saber por que não
recuamos para explorar a crítica objetiva da ciência moderna que está presente no
aristotelismo ou mesmo no vodu?’ — insinuando que uma crítica dessa espécie seria de
todo risível. Tal insinuação, infelizmente, presume sejam os leitores muito ignorantes.
Muitas vezes se conseguiu progresso graças a uma ‘crítica do passado’, exatamente do tipo
que ela rejeita. Depois de Aristóteles e Ptolomeu, a idéia de que a terra se move — estranha,
antiga e ‘inteiramente ridícula’4 concepção pitagórica — foi jogada ao monte de entulhos da
história, só vindo a ser revivida por Copérnico e sendo por ele utilizada como arma para
frustração dos que a negavam. Os escritos mágicos desempenhavam importante papel nessa
revivescência, ainda não perfeitamente compreendida5, e foram estudados nada menos que
pelo grande Newton6. Esses desenvolvimentos não surpreendem. Jamais se consegue
estudar todas as ramificações de uma idéia e não há concepção a que se tenha dado a atenção
por ela merecida. Teorias são substituídas por versões mais de acordo com as inclinações da
época e são abandonadas muito antes de terem tido ocasião de exibir suas virtudes. Além
disso, doutrinas antigas e mitos ‘primitivos’ só se afiguram bizarros e desprovidos de
sentido porque seu conteúdo científico ou não é conhecido ou é adulterado por filólogos e
antropólogos não familiarizados com os mais simples conhecimentos físicos, médicos ou
astronômicos7. Vodu, a pièce de resistance da Dra. Hesse, é um caso em pauta.
Ninguém o conhece e todos a ele se referem como
68
um paradigma de atraso e confusão. Sem embargo, o vodu conta com uma base material
firme, embora ainda não suficientemente compreendida, e um estudo de suas manifestações
poderia enriquecer-nos e, talvez, levar-nos a rever nosso conhecimento acerca de fisiologia8.
Exemplo ainda mais interessante é o do ressurgimento da medicina tradicional, na
China comunista. Partimos de um ponto conhecido9: um grande país, de grandes tradições,
é submetido ao domínio ocidental e explorado segundo as formas costumeiras. Uma geração
nova reconhece ou julga reconhecer a superioridade material e intelectual do Ocidente e a
estende à ciência. A ciência é importada, ensinada e afasta todos os elementos da tradição.
Triunfa o chauvinismo científico: ‘O compatível com a ciência deve permanecer, o não
compatível com a ciência deve perecer’10. ‘Ciência’, nesse contexto, significa não apenas
um método específico, mas todos os resultados que o método até então produziu.O
incompatível com esses resultados deve ser eliminado. Médicos da velha espécie, por
exemplo, devem ser ou impedidos de exercitar a profissão ou reeducados. A medicina das
ervas, a acupuntura, a aplicação da moxa e a doutrina que as justifica são coisas do passado,
que não mais devem ser tomadas a sério. Essa foi a atitude adotada até aproximadamente
1954, quando a condenação de elementos burgueses do Ministério da Saúde deu começo a
uma campanha em prol do retomo à medicina tradicional. Não há dúvida de que a
campanha teve inspiração política. Encerrava pelo menos dois elementos, a saber. (1)
identificação da ciência ocidental a ciência burguesa e (2) recusa, por parte do partido, de
permitir que a ciência fugisse à supervisão política11 e recusa de conceder privilégios
especiais aos praticantes da arte médica. Apesar disso, a campanha propiciou a reação
necessária para vencer o chauvinismo científico da época e para tornar possível a
pluralidade (hoje, dualidade) de concepções. (Este é um ponto importante. Ocorre
freqüentemente que certas partes da ciência se tornem rígidas e intolerantes, de sorte que
a diversi-
69
ficação há de ser assegurada por meios externos e através de recursos políticos. Claro está
que não se pode garantir o êxito do procedimento — ver o caso Lysenko. Isso, entretanto,
não afasta a necessidade de a ciência sujeitar-se a controles não-científicos.)
Ora, o dualismo referido e politicamente assegurado conduziu a descobertas
interessantíssimas e muito perturbadoras, assim na China como no Ocidente, e levou ao
reconhecimento de que há efeitos e meios de diagnóstico a que a medicina moderna é incapaz
de chegar e para os quais não fornece explicação12. Patentearam-se consideráveis lacunas
da medicina ocidental. E não cabe esperar que o enfoque científico habitual venha, ao final, a
proporcionar uma resposta. No caso da medicina das ervas, esse enfoque abre-se em duas
fases13. Em primeiro lugar, a mistura de ervas é analisada, para determinação de seus
constituintes químicos. Em seguida, são determinados os efeitos específicos de cada qual
desses constituintes e, com base nisso, explicado o efeito do composto sobre um particular
órgão. Essa forma de proceder descarta a possibilidade de que o composto herbáceo,
considerado em seu todo, altera o estado de todo o organismo e de que seja esse novo estado
da totalidade do organismo (e não uma específica parte da mistura de ervas) o responsável
pela cura do órgão enfermo. Aqui, tal como em outros casos, o conhecimento decorre de uma
pluralidade de concepções antes que de determinada aplicação da ideologia preferida.
Reconhecemos que a pluralidade há de ser assegurada por entidades não-científicas,
suficientemente poderosas para sobrepujar as instituições científicas de maior prestígio.
Exemplos seriam a Igreja, o Estado, o partido político, o descontentamento popular ou o
dinheiro; o elemento com maior possibilidade de afastar o cientista daquilo que sua
‘consciência científica’ lhe diz dever perseguir ainda é o dólar (ou, mais recentemente, o
marco alemão).
Os exemplos de Copérnico, da teoria atômica, do vodu e da medicina chinesa mostram
que até mesmo a teoria mais
70
avançada e aparentemente mais precisa não é invulnerável, podendo ser alterada ou
inteiramente destruída com o auxílio de idéias que a vaidade da ignorância já tenha lançado
nos cestos de resíduos da História. Essa a via pela qual o conhecimento de hoje pode,
amanhã, passar a ser visto como conto de fadas; essa a via pela qual o mito mais ridículo
pode vir a transformar-se na mais sólida peça da ciência.
O pluralismo das teorias e das doutrinas metafísicas não é apenas importante para a
metodologia; também é parte essencial da concepção humanitária. Educadores progressistas
têm sempre tentado desenvolver a individualidade de seus discípulos, para assegurar que
frutifiquem os talentos e convicções particulares e, por vezes, únicos que uma criança
possua. Contudo, uma educação desse tipo tem sido vista, muitas vezes, como um fútil
exercício, comparável ao de sonhar acordado. Com efeito, não se faz necessário preparar o
jovem para a vida como verdadeiramente ela é? Não significa isso dever ele absorver um
particular conjunto de concepções, com exclusão de tudo o mais? E, se um traço de
imaginação nele permanecer, não encontrará adequada aplicação nas artes ou em um fluido
reino de sonhos que pouco tenha a ver com o mundo em que vivemos? Ao final, não levará
esse processo a um divórcio entre a realidade odiada e as deliciosas fantasias, entre a ciência
e as artes, entre a descrição cautelosa e a irrestrita auto-expressão? Os argumentos em prol
da pluralidade evidenciam que isso não precisa acontecer. É possível conservar o que
mereceria o nome de liberdade de criação artística e usá-la amplamente não apenas como
trilha de fuga, mas como elemento necessário para descobrir e, talvez, alterar os traços do
mundo que nos rodeia. Essa coincidência da parte (o indivíduo) com o todo (o mundo em
que vive), do puramente subjetivo e arbitrário com o objetivo e submisso a regras, constitui
um dos mais fortes argumentos em favor da metodologia pluralista. Para maior
esclarecimento, o leitor é convidado a consultar o magnífico ensaio de Mill, On Liberty14.
71
NOTAS
1. É importante, por conseguinte, que as alternativas sejam contrapostas uma às outras e
não se vejam isoladas ou emasculadas por alguma forma de ‘desmitificação’. Diversamente
de como procedem Tillich, Bultmann e seus seguidores, devemos encarar as concepções
acerca do mundo que se contêm na Bíblia, no épico Gilgamesh, na Ilíada ou nos Edda, na
condição de cosmologias alternativas, passíveis de serem usadas para modificar e até mesmo
substituir as cosmologias ‘científicas’ de certa época.
2. Uma apresentação e uma defesa verdadeiramente humanitarista dessa posição encontrase
em On Liberty, de J. Stuart Mill. A filosofia de Popper, que algumas pessoas gostariam
de apresentar-nos como o único racionalismo humanitarista hoje existente, não passa de
pálido reflexo da concepção de Mill. É: muito mais especializado, muito mais formalista e
elitista, desprovido daquela preocupação com a felicidade individual que é traço
característico em Mill. Poderemos compreender-lhe as peculiaridades, se , tivermos em
conta: (a) o pano de fundo do positivismo lógico, que desempenha importante papel na Logic
of Scientific Discovery, (b) o implacável puritanismo do autor (e da maioria de seus
seguidores), especialmente quando lembramos a influência de Harriet Taylor sobre a vida e
a filosofia de Mill. Não há uma Harriet Taylor na vida de Popper. Os argumentos expostos
deverão ter deixado claro que vejo a pluralidade não apenas como um ‘catalisador externo’
do progresso, tal como sugere Lakatos em seus ensaios (‘History of Science and its Rational
Reconstructions’, Boston Studies, vol. VIII, p. 98; ‘Popper on Demarcation and Induction’,
MS, 1970, p. 21), mas como parte essencial do progresso. Desde ‘Explanation,
Reduction and Empiricism’ (Minnesota Studies, vol. III, Min-
72
neapolis, 1962) e, especialmente, em ‘How to be a Good Empiricist’ (Delaware Studies, vol.
II, 1963), venho sustentando que as alternativas aumentam o conteúdo empírico das
concepções que eventualmente se colocam como centro de atenção e passam a ser, portanto,
‘partes necessárias’ do processo falseador (Lakatos, History, nota 27, descrevendo sua
própria posição). Em ‘Reply to Criticism’ (Boston Studies, vol. II, 1965), assinalei que o
‘princípio da pluralidade não apenas recomenda a invenção de novas alternativas, mas
também impede a eliminação de teorias mais velhas e já refutadas. A razão está no fato de
que essas teorias contribuem para aumentar o, conteúdo de suas vitoriosas rivais’ (p. 224).
Isso está de acordo com observação feita por Lakatos, em 1971, segundo a qual ‘as
alternativas não são meros catalisadores que, posteriormente, quando da reconstrução
racional, possam ser removidos’ (History, nota 27), salvo quanto ao fato de Lakatos atribuir
a mim concepção psicologista e a si próprio as minhas verdadeiras concepções.
Considerando os argumentos do texto, faz-se claro que a crescente separação entre história,
filosofia da ciência e ciência é inconveniente e deveria cessar, no interesse das três
disciplinas. De outra maneira, chegaremos a resultados minuciosos, precisos, mas
totalmente estéreis.
3. Mary Hesse, Ratio, nº.. 9, 1967, p. 93; cf. B. F. Skinner, Beyond Freedom and Dignity,
Nova Iorque, 1971, p. 5: ‘Nenhum físico moderno recorreria ao auxílio de Aristóteles’. Isso
pode ser verdade, mas dificilmente se afirmará que é vantajoso.
4. Ptolomeu, Syntaxis, citado segundo a tradução de Manitios, Des Claudius Ptolomaeus
Handbuch der Astronomie, vol. I, Leipzig, 1963, p. 18.
5. Para uma avaliação positiva do papel dos escritos mágicos na Renascença, cf. F. Yates,
Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, Londres, 1963, e a bibliografia ali
73
indicada. Para uma crítica da posição, cf. os artigos de Mary Hesse e Edward Rosen in vol.
V dos Minnesota Studies for the Philosophy of Science, ed. Roger Stuewer, Minnesota,
1970; cf., também nota 12 do capítulo VIII.
6. Cf. J. M. Keynes. ‘Newton the Man’, in Essays and Sketches in Biography, Nova Iorque,
1956, e, com mais minúcias, McGuire e Rattansi, ‘Newton and the "Pipes of Pan" ’ Notes
and Records of the Royal Society, vol. 21, nº. 2, 1966, pp. 108 ss.
7. Quanto ao conteúdo científico dos mitos, cf. C. de Santillana, The Origin of Scientific
Thought, Nova Iorque, 1961, especialmente o Prólogo. ‘Vemos’, escreve de Santillana,
‘como tantos mitos, de aparência fantástica e arbitrária, dos quais o conto dos Argonautas é
tardia manifestação, podem gerar uma terminologia de temas de representação, uma espécie
de código que está começando a ser decifrado’. Teve o propósito de permitir aos iniciados (a)
determinar inequivocamente a posição de certos planetas em relação à Terra, ao firmamento
e de uns em relação aos outros; (b) apresentar o conhecimento que havia acerca da criação
do mundo sob a forma de contos ‘acerca de como o mundo começou’. Há duas razões para
esse código não ter sido descoberto antes. Uma é a convicção que têm os historiadores da
ciência de que a ciência não se iniciou antes da Grécia e de que resultados científicos só
podem ser alcançados através do método científico, tal como hoje praticado (e como
pressagiado por cientistas gregos). A segunda razão está no fato de a astronomia, a geologia,
etc. serem ignoradas pela maioria dos assiriólogos, egiptólogos, conhecedores do Velho
Testamento e assim por diante: aparente primitivismo de muitos mitos é apenas o reflexo do
reduzido conhecimento astronômico, biológico, etc. dos que os recolhem e dos que os
traduzem. A partir das descobertas de Hawkins, Marshack e outros, temos de admitir a
existência de uma astronomia paleolítica interna
74
cional, que deu surgimento a escolas, observatórios, tradições científicas e
interessantíssimas teorias. Essas teorias, que eram expressas em termos sociológicos e não
matemáticos, deixaram suas marcas na sagas, nos mitos, nas lendas e podem ser
reconstruídas de duas maneiras; avançando, no presente, a partir dos resquícios da
astronomia da Idade da Pedra (tais como pedras mareadas, observatórios de pedra, etc.) ou
recuando para o passado, a partir de vestígios literários que encontramos nas sagas.
Exemplo do primeiro método está em A. Marshack, The Roots of Civilization, Nova Iorque,
1972. Exemplo do segundo método está em de Santillana — von Dechend, Hamlet’s Mill,
Boston, 1969. Para um sumário e interpretação, cf. meu Einführung in die
Naturphilosophie, Braunschweig 1974.
8. Cf. capítulo 9 de Lévi-Strauss, Structural Anthropology, Nova Iorque, 1967. Quanto à
base fisiológica de vodu, cf. C. R. Richter, ‘The Phenomenon of Unexplained Sudden
Death’, in The Physiological Basis of Psychiatry, ed. Gantt, bem como W. H. Cannon,
Bodily Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage, Nova Iorque, 1915, e ‘ “Voodoo” Death’,
in American Anthropologist, nova série, xliv, 1942. Minuciosas observações biológicas e
meteorológicas feitas pelos chamados ‘primitivos’ são apresentadas em Lévi-Strauss, The
Savage Mind, Londres, 1966.
9. R. C. Croizier, Traditional Medicine in Modern China, Harvard University Press, 1968.
O autor oferece versão equilibrada e interessantíssima dos desenvolvimentos havidos,
incluindo numerosas citações retiradas de livros, jornais, panfletos, mas, freqüentes vezes,
mostra inibição, que se prende a seu respeito pela ciência do século XX.
10. Chou Shao, 1933, citado por Croizier, op. cit., p. 109. Cf., também, D. W. Y. Kwok,
Scientism in Chinese Thought, New Haven, 1965.
75
11. Para avaliação da racionalidade dessa recusa, cf. meu artigo ‘Experts in a Free Society’,
The Critic, novembro/dezembro de 1970, e capítulo XVIII deste ensaio. Para informação
acerca das tensões entre ‘vermelho’ e ‘técnico’, cf. F. Schurmann, Ideology and
Organization in Communist China, University of California Press, 1966.
12. Para informação acerca dos resultados iniciais, cf. T. Nakayama Acupuncture et
Médicine Chinoise Verifiées au Japon, Paris, 1934, e F. Mann Acupuncture, Nova Iorque,
1962; edição revista, Nova Iorque, 1973. Na medicina tradicional, a verificação de pulsação
é o principal método de diagnóstico, considerando-se 12 diferentes tipos de pulsação. E. H.
Hume, Doctors East and West, Baltimore, 1940, pp. 190-2, fortalece interessantes exemplos
em que o diagnóstico fundado, na pulsação e o moderno diagnóstico científico levam ao
mesmo resultado. Cf., também, E. H. Hume, The Chinese Way of Medicine, Baltimore,
1940. Para conhecer o desenvolvimento histórico e ter informações adicionais, cf. a
introdução a The Yellow Emperor’s Classic of Internal Medicine, trad. llza Veith, Berkeley
e Los Angeles, 1966.
13. Cf. M. B. Krieg, Green Medicine, Nova Iorque, 1964.
14. Cf. a referência que faço a esse ensaio na seção 3 de ‘Against Method’, Minnesota
Studies in the Philosophy of Science, vol. 4, Minneapolis, 1970.
76
V
Nenhuma teoria está em concordância com todos os fatos de seu domínio, circunstância
nem sempre imputável à teoria. Os fatos se prendem a ideologias mais antigas, e um
conflito entre fatos e teorias pode ser evidência de progresso. Esse conflito corresponde,
ainda, a um primeiro passo na tentativa de identificar princípios implícitos em noções
observacionais comuns.
Passando a considerar a invenção, elaboração e utilização de teorias incompatíveis não
apenas com outras teorias, mas, ainda, com experimentos, com fatos e observações, podemos
começar assinalando que nenhuma teoria está jamais em concordância com todos os fatos
conhecidos em seu domínio. E a dificuldade não brota de afirmações sem base, nem é o
resultado de um procedimento sem rigor. Prende-se a experimentos e medidas da maior
precisão e dignos de todo crédito.
Será conveniente, a esta altura, distinguir duas diferentes espécies de discordância entre
teoria e fato: discordância numérica e falhas qualitativas.
O primeiro caso é comum: uma teoria chega a certa predição numérica e o valor que
efetivamente se obtém difere do previsto por mais que a margem de erro seja admitida.
Recorre-se, habitualmente, a instrumentos de precisão, mas discordâncias numéricas são
freqüentes no campo da ciência. Dão surgimento a um ‘oceano de anomalias’ que circunda
as teorias1.
Assim, a visão copernicana, ao tempo de Galileu, conflitava com fatos tão claros e óbvios
que Galileu teve de considerá-la ‘seguramente falsa’2. ‘Não há limites para minha
surpresa’, es-
79
creve ele em obra mais tardia3, ‘quando penso que Aristarco e Copérnico foram capazes de
levar a razão a dominar de tal modo a sensibilidade que, em detrimento desta última, a
primeira se fez senhora da crença que professavam’. A teoria da gravitação, proposta por
Newton, viu-se, desde o início, frente a dificuldades sérias, que propiciavam material para
sua refutação. Ainda hoje, no campo não-relativista, ‘existem discrepâncias numerosas
entre a observação e a teoria’4. O modelo atômico de Bohr foi introduzido e conservado,
apesar de clara e inabalável evidência em contrário5. A teoria especial da relatividade
manteve-se, a despeito dos transparentes resultados experimentais obtidos por Kaufmann,
em 1906, e a despeito da refutação D. C. Miller (falo de refutação porque o experimento foi,
do ponto de vista da evidência possível na época, pelo menos tão bem realizado quanto os
experimentos iniciais de Michelson e Morley)6. A teoria geral da relatividade embora
surpreendentemente bem sucedida em alguns setores (tenha-se em conta, não obstante, as
observações abaixo), falhou no explicar 10” no movimento dos pontos nodais de Vênus e
mais de 5” no movimento dos pontos nodais de Marte7; além disso, enfrenta, agora, novas
dificuldades, devido aos cálculos do movimento de Mercúrio, feitos por Dicke e outros8.
Todos esses são problemas de ordem quantitativa e podem ser resolvidos com a descoberta de
um melhor conjunto de números, sem forçar-nos a fazer ajustes qualitativos9.
O segundo caso, das falhas qualitativas, é menos conhecido, mas de interesse muito
maior. Nesse caso, a teoria é incompatível não com um fato recôndito, que pode ser trazido à
luz com o auxílio de equipamento complexo e só é conhecido por especialistas, mas é
inconsistente com circunstâncias facilmente percebidas e familiares a todos.
O primeiro e, a meu ver, o mais importante exemplo de uma inconsistência desse tipo é a
teoria de Parmênides a propósito do imutável e homogêneo, teoria contraditada por quase
tudo que é de nós conhecido e de que temos experiência. A
80
doutrina tem muito a seu favor10 e ainda hoje desempenha um relevante papel, por
exemplo, no campo da teoria geral da relatividade. Usada em uma forma embrionária por
Anaximandro, levou à introvisão que Heisenberg11 voltaria a manifestar em sua teoria das
partículas elementares, segundo a qual a substância básica ou os elementos básicos do
universo não podem estar sujeitos às mesmas leis que vigem para os elementos visíveis. A
teoria encontrou apoio em argumentos de Zenão, que mostrou as dificuldades inerentes à
idéia de um contínuo formado por elementos isolados.
Aristóteles deu atenção a esses argumentos e elaborou sua própria teoria do contínuo12.
Sem embargo, o conceito do contínuo como uma coleção de elementos permaneceu e
continuou a ser utilizado, a despeito de óbvias dificuldades, até que essas dificuldades quase
desapareceram, em começos do século XX13.
Outro exemplo de teoria com falhas qualitativas é o da teoria das cores, elaborada por
Newton. Segundo essa teoria, a luz consiste de raios diferentemente refrangíveis, que
podem ser separados, reunidos, refratados, mas que nunca têm alterada a constituição
interna e que apresentam reduzidíssima extensão lateral no espaço. Considerando que a
superfície dos espelhos é muito mais irregular do que a extensão lateral dos raios, a teoria
dos raios foi considerada incompatível com a existência de imagens especulares (o que foi
admitido pelo próprio Newton): se a luz consiste de raios, o espelho deveria comportar-se
como uma superfície áspera, isto é, deveria comportar-se tal qual uma parede. Newton
conservou sua teoria, eliminando a dificuldade por meio de recurso a uma hipótese ad hoc:
‘a reflexão de um raio se faz não por um ponto único do corpo refletor, mas por alguma
força ou poder desse corpo, igualmente difundido por toda a sua superfície’14.
No caso de Newton, a discrepância qualitativa entre teoria e fato foi afastada por uma
hipótese ad hoc. Em outros casos, não se chega a usar nem mesmo esse frágil
subterfúgio: conserva-se a teoria e procura-se esquecer suas insuficiências. Exem-
81
plo disso é a atitude em face da regra de Kepler, segundo a qual um objeto, visto através de
uma lente, é percebido no ponto de interseção dos raios que caminham da lente para o
olho15. A regra implica que será visto como infinitamente afastado o objeto que se situe no
foco.
‘Ao contrário, entretanto’, escreve Barrow, professor de Newton e seu predecessor em
Cambridge, fazendo comentário em torno dessa predição16, ‘a experiência nos assegura que
[um ponto situado nas vizinhanças do foco] aparece a distâncias várias, na dependência das
diferentes situações do olho... E quase nunca parece mais afastado do que estaria, se
diretamente visto a olho desarmado; por vezes, aliás, parece muito mais próximo. ...E tudo
isso dá a impressão de escapar a nossos princípios’. ‘Em mim, porém’, continua Barrow,
‘nem essa, nem qualquer outra dificuldade exercerá influência tão grande a ponto de levarme
a renunciar àquilo que sei ser claramente agradável à razão.’
82
Barrow menciona as dificuldades qualitativas e diz que, apesar delas, conservará a
teoria. Essa não é a forma habitual de agir. A forma habitual de agir é a de esquecer as
dificuldades, jamais fazer-lhes referência e proceder como se a teoria não apresentasse falhas.
Essa atitude é muito comum hoje em dia.
Assim, a eletrodinâmica clássica de Maxwell e Lorentz implica que o movimento de uma
partícula livre se auto-acelera17. Considerando a auto-energia do elétron, chega-se a
expressões divergentes para as cargas puntiformes e só é possível fazer as cargas de extensão
finita concordarem com a relatividade mediante a consideração de tensões e pressões no
interior do elétron — que não são passíveis de teste18. O problema ressurge na teoria
quântica, embora apareça, nesse caso, parcialmente disfarçado pela ‘renormalização’.
Consiste esse processo em afastar os resultados de certos cálculos, substituindo-os por uma
descrição do que é realmente observado. Assim, admite-se, implicitamente, que a teoria
oferece dificuldades, ao mesmo tempo em que se a formula de maneira a sugerir que um
novo princípio foi descoberto19. Pouco surpreende, portanto, que autores sem profundidade
filosófica adquiram a impressão de que ‘todas as evidências apontam com determinação
categórica no... sentido... [de que] todos os processos que dizem respeito a ... interações
desconhecidas se ajustam à lei quântica fundamental’20.
È instrutivo um outro exemplo que se colhe no campo da Física moderna, pois ele
poderia ter conduzido a um desenvolvimento inteiramente diverso o conhecimento que
possuímos do microcosmo. Ehrenfest demonstrou um teorema segundo o qual a teoria
clássica do elétron, elaborada por Lorentz, tomada em conjunto com o princípio da
eqüipartição, exclui o magnetismo induzido21. O raciocínio é extremamente simples: de
acordo com o princípio de eqüipartição, a probabilidade de certo movimento é proporcional a
exp (— U/RT), onde U é a energia de movimento. Ora, a energia de um elétron que se
move em um campo magnético B, constante, é, segundo Lorentz, U =Q
83
(E + v x B), onde Q é a carga da partícula que se move, V é a sua velocidade e B é o campo
elétrico. Essa magnitude se reduz, em todos os casos, a QEV, a menos que estejamos
dispostos a admitir a existência de pólos magnéticos singulares. (Em contexto adequado,
esse resultado dá forte apoio às idéias e às descobertas experimentais do falecido Felix
Ehrenhaft22.)
É impossível, muitas vezes, fazer o levantamento de todas as conseqüências interessantes
de uma teoria — e assim descobrir os resultados absurdos que dela decorrem. Isso talvez se
deva à deficiência dos métodos matemáticos existentes e pode também dever-se à ignorância
dos que defendem a teoria. Em tais circunstâncias, o mais comum é utilizar uma teoria até
certo ponto (freqüentemente arbitrário) e considerar uma teoria nova para cálculo de
aspectos mais refinados. Do ponto de vista metodológico, esse procedimento é um
verdadeiro pesadelo. Expliquemo-nos, usando como exemplo o cálculo de trajetória de
Mercúrio, nos termos de doutrina relativista.
O periélio de Mercúrio se desloca a um índice de aproximadamente 5.600” por século.
Desse valor, 5.026” são geométricos, estando ligados ao movimento do sistema de
referência, ao passo que 575” são dinâmicos e devidos a perturbações do sistema solar.
Todas essas perturbações, exceto os famosos 43”, são explicados pela mecânica clássica. E
nesses termos a explicação é habitualmente dada.
A explicação mostra que a premissa de onde derivamos os 43” não é a teoria geral da
relatividade aliada a convenientes condições iniciais. A premissa inclui a Física além dos
pressupostos relativistas admitidos. E ocorre mais: o cálculo relativista, a chamada ‘solução
Schwarzschild’, não diz respeito apenas ao sistema planetário tal como este existe no mundo
real (isto é, em nossa galáxia as simétrica); diz respeito ao caso inteiramente fictício de um
universo de simetria central, encerrando uma singularidade em ponto médio e nada mais.
Quais as razões para recorrer a tão estranha combinação de premissas?
84
A razão, nos termos da resposta costumeira, está em que trabalhamos com aproximações.
As fórmulas da Física clássica não aparecem porque a relatividade é incompleta. E o caso da
simetria central não é invocado porque a relatividade nada oferece de melhor. Ambos os
esquemas defluem da teoria geral, sob circunstâncias especiais que se manifestam em nosso
sistema planetário, contanto que omitamos magnitudes demasiado reduzidas para merecer
consideração. Em conseqüência, estamos usando amplamente a teoria da relatividade e a
estamos usando de maneira apropriada.
Note-se como essa idéia de aproximação difere da idéia legítima. Geralmente, dispomos
de uma teoria, temos como fazer os cálculos acerca do particular caso de nosso interesse,
notamos que esses cálculos nos conduzem a magnitudes que se colocam abaixo do nível de
precisão experimental, omitimos essas magnitudes e chegamos a um formalismo fortemente
simplificado. No caso que nos ocupa, efetuar as aproximações requeridas equivaleria a
calcular, em bases relativistas, todos os problemas dos n-corpos (inclusive ressonâncias a
longo termo entre as diferentes órbitas planetárias), desprezando magnitudes inferiores à
precisão da observação e mostrando que a teoria, dessa maneira simplificada, coincide com a
mecânica celeste clássica, tal como corrigida por Schwarzschild. Esse procedimento jamais
foi utilizado porque o problema relativista dos n-corpos continua a resistir a uma solução.
Nem sequer existem soluções aproximadas para problemas importantes, como, por exemplo,
o problema da estabilidade (um dos primeiros grandes empecilhos com que se defrontou a
teoria de Newton). A parte clássica do explanans não ocorre, pois, tão-somente por força de
conveniência — é absolutamente necessária. E as aproximações feitas não são o resultado de
cálculos relativistas, mas são introduzidas para levar a relatividade a acomodar-se ao caso
em tela. Caberia dizer que são aproximações ad hoc.
Na moderna física matemática, são comuns as aproximações ad hoc. Desempenham
importante papel na teoria quânti-
85
ca dos campos e são elemento essencial do princípio de correspondência. No momento, não
nos preocupam as razões desse fato, preocupando-nos tão-somente as suas conseqüências:
aproximações ad hoc escondem, quando não eliminam por completo, as dificuldades
qualitativas. Criam a falsa impressão de que a ciência é perfeita. Daí decorre que um filósofo
desejoso de estudar a adequação da ciência como retrato do mundo ou desejoso de elaborar
metodologia científica realista deverá considerar a ciência moderna com especial cuidado.
Na maioria dos casos, a ciência moderna é mais opaca e muito mais decepcionante do que o
foram suas ancestrais dos séculos XVI e XVII.
Como último exemplo de dificuldades qualitativas, voltarei a mencionar a teoria
heliocêntrica, à época de Galileu. Logo terei oportunidade de mostrar que essa teoria era
inadequada, tanto qualitativa como quantitativamente, e que era, a par disso,
filosoficamente absurda.
Resumindo esta curta e incompleta relação: para onde quer que olhemos, desde que
tenhamos paciência e selecionemos a evidência sem preconceitos, verificamos que as teorias
falham no retratar adequadamente certos resultados quantitativos e que, em surpreendente
grau, se revelam qualitativamente inidôneas. A ciência nos oferece teorias de grande beleza
e refinamento. A ciência moderna desenvolveu estruturas matemáticas superiores a tudo
quanto já existiu em matéria de coerência e generalidade. Entretanto, para que esse milagre
se realizasse, foi preciso atribuir todas as dificuldades surgidas à relação entre teoria e
fato23, ocultando-as por meio de aproximações ad hoc e de outros recursos.
Assim sendo, que dizer da exigência metodológica segundo a qual uma teoria há de ser
julgada à luz da experiência e rejeitada, se contradisser os enunciados básicos aceitos? Que
atitude adotar diante das várias teorias a respeito de confirmação e corroboração, todas elas
baseadas no pressuposto de que as teorias podem ser postas em concordância completa com
os fatos conhecidos? E que valor tem, como princípio de avaliação,
86
o nível de concordância alcançado? Essa exigência e essas teorias hão de ser vistas agora
como inúteis. Tão inúteis quanto um medicamento que só cura se o paciente estiver isento
de bactérias. Na prática, aquela exigência e aquelas teorias não são obedecidas.
Os metodologistas chamam a atenção para a importância dos falseamentos — mas
valem-se alegremente de suas falseadas teorias; doutrinam a respeito de quão importante é
ter em conta toda evidência relevante e nunca mencionam os fatos significativos e drásticos
que mostram serem as teorias por eles admiradas e aceitas — como a teoria da relatividade
ou a teoria quântica —tão inapropriadas quanto as teorias mais velhas, que eles rejeitam.
Na prática, eles repetem servilmente os mais atualizados pronunciamentos das grandes
celebridades da Física, embora tenham, para assim agir, de violar algumas regras básicas de
seu ofício. Será possível agir de modo mais razoável? Vejamos24.
Segundo Hume, as teorias não podem defluir dos fatos. A exigência de tão-somente
admitir teorias que decorram dos fatos deixa-nos sem teoria alguma. Conseqüentemente, a
ciência, tal como a conhecemos, só pode existir se abandonarmos aquela exigência e
revisarmos nossa metodologia.
Nos termos dos resultados atuais, teoria alguma é coerente com os fatos. A exigência de
só admitir teorias consistentes com os fatos conhecidos e aceitos deixa-nos, repitamos, sem
teoria alguma. (Insisto: sem teoria alguma, pois não há teoria diante da qual não se coloque
esta ou aquela dificuldade.) Logo, a ciência, tal como por nós conhecida, só poderá existir se
abandonarmos aquela exigência e revisarmos nossa metodologia, admitindo, agora, a
contra-indução a par de admitir as hipóteses não fundadas. O método correto não deverá
conter regras que nos levem a escolher entre teorias, tomando por base o falseamento. Ao
contrário, suas regras devem capacitar-nos a escolher entre teorias que já submetemos a
teste e que são teorias falseadas.
87
Avancemos. Não apenas se dá que fatos e teorias encontram-se em constante
desarmonia, mas dá-se ainda que jamais se acham tão nitidamente separados como todos
parecem crer. As regras metodológicas falam de ‘teorias’, ‘observações’ e ‘resultados
experimentais’ como se se tratasse de objetos claros e bem definidos, de propriedades fáceis
de avaliar e entendidos da mesma forma por todos os cientistas.
Todavia, o material de que o cientista realmente dispõe — as leis, os resultados
experimentais, as técnicas matemáticas, os preconceitos epistemológicos, a atitude frente às
absurdas conseqüências das teorias que aceita — é, sob muitos aspectos, indeterminado,
ambíguo e jamais se acha totalmente desvinculado de sua história. Esse material sempre se
acha contaminado por princípios que o cientista não conhece e que, se conhecidos,
dificilmente seriam passíveis de testes. Discutíveis concepções acerca da cognição — como a
de que os sentidos, usados em circunstâncias normais, fornecem fidedignas informações
acerca do mundo — invadem a própria linguagem da observação, passando a constituir
termos observacionais, bem como a servir de base para a distinção entre aparência ilusória e
aparência verdadeira. Como resultado, dá-se que as linguagens de que se vale a observação
prendem-se a velhas camadas da especulação que afetam, dessa maneira indireta, até a mais
progressiva metodologia. (Exemplo: a estrutura espaço-tempo, da Física tradicional,
codificada e consagrada por Kant.) A impressão sensorial, por simples que seja, sempre
contém um componente que traduz a reação fisiológica do organismo perceptivo, a qual não
tem correlato objetivo. Esse componente ‘subjetivo’ freqüentemente se combina com os
demais, para formar um conjunto não estruturado, que deve ser subdividido a partir do
exterior, com auxílio de procedimentos contra-indutivos. (Exemplo disso é a aparência que
tem uma estrela fixa vista a olho desarmado, aparência onde se incluem os efeitos subjetivos
de irradiação, difração, difusão, restritos pela inibição lateral dos elementos adjacentes da
retina.) E, por fim, surgem as premissas auxilia-
88
res, que se fazem necessárias como origem de conclusões passíveis de teste e que, por vezes,
passam a constituir ciências auxiliares completas.
Consideremos o caso de Copérnico e sua hipótese, cuja invenção, defesa e parcial
justificação se fizeram ao arrepio de quase tudo quanto hoje em dia consideraríamos regra
metodológica. Em tal caso, as ciências auxiliares encerravam as leis que descrevem as
propriedades e a influência da atmosfera terrestre (meteorologia); as leis óticas referentes à
estrutura do olho e dos telescópios e ao comportamento da luz; e as leis dinâmicas relativas
aos deslocamentos em sistemas móveis. E, o que é ainda mais importante, as ciências
auxiliares continham uma teoria do conhecimento, que postulava certa relação simples
entre as percepções e os objetos físicos. Nem todas essas ciências auxiliares existiam de
forma explícita. Muitas delas se mesclavam à linguagem da observação e conduziam à
situação descrita ao início da seção anterior.
Consideração de todas essas circunstâncias — dos termos concernentes à observação do
núcleo sensorial das ciências auxiliares, da especulação precedente — sugere que uma teoria
pode ser incompatível com a evidência não por encerrar incorreção, mas porque a evidência
está contaminada. A teoria vê-se ameaçada porque a evidência contém sensações não
analisadas, que só parcialmente correspondem a processos externos, ou porque é
apresentada nos termos de concepções antiquadas ou porque é avaliada com base em
elementos auxiliares já não válidos. A teoria de Copérnico enfrentou dificuldades por todas
essas razões.
O caráter histórico-fisiológico da evidência, o fato de que ela não apenas descreve certo
estado de coisas objetivo, mas também expressa certas concepções subjetivas, míticas e de há
muito ultrapassadas, concernentes ao mesmo estado de coisas, esse caráter é o que nos força
a contemplar a metodologia sob ângulos novos. Isso demonstra que seria assaz imprudente
permitir que a evidência, diretamente e sem mais, se erija em árbitro
89
de nossas teorias. Julgamento das teorias pelos ‘fatos’, procedido de maneira imediatista e
inapta, poderá eliminar idéias, simplesmente porque eles não se amoldam ao sistema de
referência de alguma cosmologia mais antiga. Dar por certos os resultados e observações
experimentais, lançando o ônus da prova sobre a teoria equivale a acolher a ideologia
observacional sem tê-la jamais examinado. (Note-se haver a suposição de que os resultados
experimentais foram obtidos com o maior cuidado possível. Conseqüentemente, ‘dar por
certos os resultados, etc.’ equivale a ‘dá-los por certos após o mais cuidadoso exame de sua
fidedignidade’; com efeito, nem mesmo o mais cuidadoso exame que se faça de um enunciado
de observação chega a interferir com os conceitos que o expressam ou com a estrutura da
imagem sensorial.)
Ora, como será possível examinar ‘algo de que nos utilizamos continuamente e que
pressupomos em todos os enunciados? Como será possível criticar os termos em que
habitualmente vazamos nossas observações? Nós o veremos.
O primeiro passo a dar em nossa crítica dos conceitos de uso comum consistirá em criar
a medida da crítica, algo com que possam tais conceitos sofrer comparação. Claro está que,
avançando, desejaremos saber alguma coisa mais acerca dessa medida-padrão; desejaremos
saber, por exemplo, se é melhor do que o material examinado ou se não é tão boa quanto ele.
Para que esse exame comece, há de existir, antes de tudo, a medida-padrão. Em
conseqüência, o primeiro passo a dar, em nossa crítica dos conceitos comuns e das reações
habituais, será o de saltar para fora do círculo e inventar um novo sistema conceptual
(inventar, por exemplo, uma nova teoria que entre em conflito com os resultados
observacionais mais cuidadosamente colhidos e introduza o dúbio nos mais plausíveis
princípios teoréticos), ou o de importar este sistema de fora do âmbito da ciência: da religião,
da mitologia, das idéias dos não-especialistas25 ou das palavras desconexas dos loucos. Esse
passo
90
é, ainda uma vez, contra-indutivo. Assim, a contra-indução é, ao mesmo tempo, um fato—
sem ela a ciência não poderia existir — e um lance legítimo e necessário no jogo da ciência.
NOTAS
1. Quanto a ‘oceano’ e às várias maneiras de manipulá-lo, cf. meu ‘Reply to Criticism’,
Boston Studies vol. 2, 1965, pp. 224 ss.
2. Galileu Galilei, The Assayer, citado em The Controversy on the Comets of 1618, ed. S.
Drake e C.cf. O’Malley, Londres, 1960, p. 323.
3. Galileu Galilei, Dialogue Concerning the Two Chief World Systems, Berkeley, 1953, p.
328.
4. Brower-Clemence, Methods of Celestial Mechanics, Nova Iorque, 1961. Também R. H.
Dicke ‘Remarks on the Observational Basis of General Relativity’, Gravitation and
relativity, ed. H. Y. Chiu e W. F. Hoffman, Nova Iorque, 1964, pp. 1-16. Para minucioso
exame de algumas das dificuldades da mecânica celeste clássica, cf. J Chazy, La Theorie de
la Relativité et la Méchanique Céleste, vol. I, capítulos 4 e 5, Paris, 1918.
5. Cf. Max Jammer, The Conceptual Development of Quantum Mechanics, Nova Iorque,
1966, seção 22. Para uma análise, cf. seção 3c/2 de Lakatos ‘Falsification and the
Methodology of Scientific Research Programmes’, Criticism and the Growth of Knowledge,
ed. Lakatos-Musgrave, Cambridge, 1970.
6. W. Kaufmann, ‘Über die Konstitution des Elektrons’, Ann. Phys., nº.. 19, 1906, p. 487.
Kaufmann registrou sua conclusão de maneira clara e grifando-a: ‘Os resultados das
91
medições não são compatíveis com o pressuposto fundamental de Lorentz e Einstein’.
Reação de Lorentz: ‘... parece muito possível que devamos abandonar completamente essa
idéia’ (Theory of Electrons, segunda edição, p. 213). Ehrenfest: ‘Kaufmann demonstra que o
elétron deformável de Lorentz é rejeitado pelas medições’ (‘Zur Stabilitätsfrage bei den
Bucherer-Langevin Elektronen’, Phys. Zs., vol. 7, 1906, p. 302). A relutância de Poincaré
em aceitar a ‘nova mecânica’ de Lorentz explica-se, ao menos em parte, pelo resultado do
experimento de Kaufmann. Cf. Science and Method, Nova Iorque, 1960, Livro III, capítulo
2, seção V, onde o experimento de Kaufmann é examinado em pormenor, levando à
conclusão de que ‘o princípio da relatividade... não se reveste da importância fundamental
que estamos inclinados a atribuir-lhe’. Cf., também, St. Goldberg, ‘Poincaré’s Silence and
Einstein’s Relativity’, British Journal for the Hístory of Science, vol. 5, 1970, pp. 73 ss. e a
bibliografia ali apontada. Somente Einstein considerou os resultados como ‘improváveis’
porque seu pressuposto básico, do qual se deduz a massa do elétron em movimento, não é
sugerido por sistemas teoréticos que abrangem mais amplos complexos de fenômenos’
(Jahrbuch der Radioaktivität und Elektrizität, vol. 4, 1907, p. 439). A obra de Miller foi,
durante muitos anos, estudada por Lorentz, que não encontrou a falha. Somente em 1955,
vinte e cinco anos depois de Miller haver terminado seus experimentos, foi que se encontrou
satisfatória explicação para os resultados a que ele chegou. Cf. R. S. Shankland,
‘Conversations with Einstein’, Am. Journ. Phys., vol. 31, 1963, pp. 47-57, especialmente p.
51 e as notas 19 e 34; cf., também, o debate que não chegou a conclusões, em ‘Conference on
the Michelson-Morley Experiment’, Astrophysical Journal, vol. 68, 1928, pp. 341 ss.
7. Chazy, op. cit., p. 230.
92
8. Ver R. H. Dicke, op. cit. Note-se que as posteriores correções de Dicke não invalidam o
argumento de que teorias superadas (como a da mecânica celeste clássica) podem ser usadas
para crítica das que as sucederam com melhor fado (relatividade geral). Além disso, Dicke
foi um perigo passageiro e isso é tudo quanto importa saber.
9. Herbert Feigl (Minnesota Studies, 5, 1971, p. 7) e Karl Popper (Objective Knowledge, p.
78) tentaram apresentar Einstein como um adulterador ingênuo. Assim, escreve Feigl: ‘Se
Einstein se fundava na “beleza”, “harmonia”, “simetria”, “elegância”, ao construir... sua
teoria geral de relatividade, impõe-se, não obstante, lembrar que ele também disse (em uma
conferência pronunciada na cidade de Praga, no ano de 1920 — à qual eu, jovem estudante,
estive presente): “Se as observações relativas ao desvio para o vermelho nos espectros das
grandes estrelas não se mostrarem quantitativamente de acordo com os princípios da
relatividade geral, minha teoria estará reduzida a pó e cinzas” ‘. Popper registra: ‘Einstein
... disse que se o efeito do desvio para o vermelho... não fosse observado, no caso das estrelas
anãs brancas, sua teoria da relatividade geral estaria refutada’.
Popper não cita a fonte de sua afirmação, sendo de crer que se apoiou em Feigl.
Entretanto, o relato de Feigl e a repetição de Popper colocam-se em conflito com as
numerosas ocasiões em que Einstein acentua o ‘caráter racional da questão’ (‘die Vernunft
der Sache’) que se põe acima da ‘verificação com base em pequenos efeitos’ — e isso não
apenas em observações casuais ou durante uma palestra, mas por escrito. Cf. a citação em
nota 6 acima, que se refere às dificuldades de que se rodeia a teoria especial da relatividade e
é anterior à reunião a que Feigl esteve presente. Cf., também, as cartas a M. Besso e a K.
Seelig, citadas em G. Holton, ‘Influences on Einstein’s Early Work’, Organon, nº. 3,
1966, p. 242, e K. Seelig, Albert
93
Einstein, Zurique, 1960, p. 271. Em 1952, Born escreve o seguinte a Einstein (Born-
Einstein Letters, Nova Iorque, 1971, p. 190, com respeito à análise que Freundlich fez da
flexão da luz nas vizinhanças do Sol e do desvio para o vermelho): ‘Realmente parece que
sua fórmula não é de todo correta. E parece que o é menos ainda no caso do desvio para o
vermelho [o caso crucial a que se referem Feigl e Popper]; leva a um valor muito menor do
que o valor teórico, quando caminhamos no sentido do centro do disco solar e a um valor
muito superior ao teórico, quando se trata das bordas do mesmo disco... Seria isso um
indício de não-linearidade?’ Einstein (carta de 12 de maio de 1952, op. cit., p. 192)
responde: ‘Freundlich... não me abala de maneira alguma. Ainda que a deflexão da luz, o
movimento do periélio ou o desvio fossem desconhecidos, as equações da gravitação
continuariam a ser convincentes, pois evitariam o sistema inercial (fantasma que a tudo
afeta e por nada é afetado). É realmente estranho que os seres humanos se mostrem
geralmente surdos aos mais fortes argumentos, enquanto se inclinam a superestimar
precisões de medida (grifo meu). Como explicar esse conflito (entre o testemunho de Feigl e
os escritos de Einstein)? Não é possível explicá-lo por uma alteração da atitude de Einstein.
Sua atitude irreverente para com a observação e o experimento existiu desde o início, como
vimos. A explicação estará, talvez, em um equívoco por parte de Feigl ou em ser esse mais
um exemplo do ‘oportunismo’ de Einstein —cf. texto correspondente à nota 6 da
Introdução.
10. Para uma defesa dos processos de Parmênides, cf. meu ‘In Defence of Classical Physics’,
loc. cit. Cf., também, a parte devotada a Parmênides em meu Einführung in die Natur
philosophie.
11. W. Heisenberg, ‘Der gegenwärtige Stand der Theorie der Elementarteilchen’,
Naturwissenchaften, nº. 42, 1955, pp.
94
640 ss. Para apresentação ampla da filosofia de Heisenberg, cf. Herbert Hörz, Werner
Heisenberg und die Phjlosophie, Berlim, 1966.
12. Physics, Livro VI, De Coelo 303 a 3 ss.; De Generatione et Corruptione, 316a. A teoria
do contínuo, proposta por Aristóteles, parece estar estreitamente ligada a seu empirismo. O
‘empirismo’ de Aristóteles não é, entretanto, apenas um dogma filosófico, é uma hipótese
cronológica formulada claramente (explica-se, fugindo ao habitual, que espécie de processo
se supõe que a experiência seja) e conduz, entre outras coisas, a uma solução de problemas
que surgem em tradições outras e tradições mais ‘metafísicas’. Um de tais problemas é, ao
que parece, o problema do contínuo. Para um levantamento de opiniões acerca dos
paradoxos de Zenão, cf. Zeno’s Paradoxes, ed. Salmon, Nova Iorque, 1970.
13. A. Grünbaum, ‘A Consistent Conception of the Extended Linear Continuum as an
Aggregate of Unextended Elements’, Philosophy of Science, nº. 19, 1952, p. 283, bem como
os artigos em Salmon, op. cit.
14. Sir Isaac Newton, Optics, Livro 2, parte 3, proposição 8, Nova Iorque, 1952, p. 266.
Para exame desse aspecto do método de Newton, cf. meu ensaio ‘Classical Empiricism’ op.
cit.
15. Johannes Kepler, Ad Vitellionem Paralipomena, Johannes Kepler Gesammelte Werke,
vol. 2, Munique, 1939, p. 72. Para exame pormenorizado da regra de Kepler e da influência
de tal regra, ver Vasco Ronchi, Optics: The Science of Vision, Nova Iorque, 1957, capítulos
43 ss. cf., também, capítulos IX-XI, diante.
16. Lectiones XVIII Cantabrigiae in Scholio Publicis habitae in quibus Opticorum
Phenomenon genuinae Rationes investigantur ac exponentur, Londres, 1669, p. 125. A
passagem é utilizada por Berkeley no ataque por ele dirigido contra a ótica tradicional
‘objetivista’ (An Essay Towards
95
a New Theory of Vision, Obras, vol. I, ed. Frazer, Londres, 1901, pp. 137 ss.).
17. Admitindo que M é a observada massa da partícula carregada, o valor de sua
aceleração, no tempo t, vem expresso por
Cf. D. H. Sen, Fields and or Particles, Nova Iorque, 1968, p. 10. Para esta particular
dificuldade, cf., também, H. R. Post, ‘Correspondence, Invariance and Heuristics’, in
Studies in the History and Philosophy of Science, novembro de 1971, nota 14. A asserção
de Post, segundo a qual a Física ‘é notavelmente malsucedida...’ como ciência, p. 219, e
segundo a qual, em comparação, ‘a botânica tem bom poder preditivo em seu campo de
aplicação’, nota 14, concorda com a opinião que professo e mostra que a ciência aristotélica,
globalmente considerada, talvez tenha sido mais adequada que suas sucessoras altamente
abstratas. Post e eu discordamos, entretanto, quanto a muitos outros pontos. O leitor é
convidado a ler o brilhante ensaio que ele escreveu para servir de antídoto parcial contra o
ponto de vista que procuro defender.
18. Cf. W. Heitler, The Quantum Theory of Radiation, Oxford, 1954, p. 31.
19. Além dessa objeção metodológica, há dificuldades factuais. Cf. o debate na 12ª
Conferência Solvay, The Quantum Theory of Fields, Nova Iorque, 1962, especialmente as
comunicações de Heitler e Feynman. Hoje (1971) a situação é, em essência, a mesma, cf.
Brodsky e Drell, ‘The Present Status of Quantum Electrodynamics’, Annual Review of
Nuclear Science, vol. 20, Palo Alto, 1970, p. 190. Todos os exemplos oferecidos nas notas
3-16 podem
96
ser usados como base para estudos do tipo daquele que se desenvolverá nos capítulos VI-XII
(Galileu e a Revolução Copernicana). Isso mostra que o caso de Galileu não é ‘uma exceção,
caracterizadora do início da chamada revolução científica’ (G. Radnitzky,
‘Theorienpluralismus Theorienmonismus’ in Der Methoden- und Theorienpluralismus in
den Wissenschaften, ed. Diemer Meisenheim, 1971, p. 164), mas, ao contrário, típica da
mudança científica em todos os tempos. Sem embargo, concordo com Radnitzky, ao dizer ele
que ‘hoje’, ou seja, na Física de 1960/70, a situação talvez seja um tanto diversa. A razão
está em que a Física vem experimentando um período de estagnação — enorme crescimento
de seu porte esconde a surpreendente pobreza de novas idéias fundamentais. (Essa
estagnação liga-se ao fato de que a Física está se transformando de ciência em negócio e de
que os físicos mais jovens deixaram de usar a História e a Filosofia como instrumentos de
pesquisa.)
20. Rosenfeld, in Observation and Interpretation, Londres, 1957, p. 44.
21. Essa dificuldade foi apontada por Bohr em sua tese de doutoramento,cf. Niels Bohr,
Collected Works, vol. I, Amsterdã, 1972, pp. 158, 381. Assinalou ele que alterações de
velocidade, devidas a alterações do campo externo, se equilibrariam depois de definido o
campo, de sorte que não poderiam surgir efeitos magnéticos. Cf., também, Heilbron e T. S.
Kuhn, ‘The Genesis of the Bohr Atam’, Historical Studies in the Physical Sciences, nº. 1,
1969, p. 221. O argumento referido no texto foi colhido em The F eynman Lectures, vol. 2,
Califórnia e Londres, 1965, capítulo 34.6. Para uma explicação mais clara, cf. R. Becker,
Theorie der Elektrizität, Leipzig, 1949, p. 132.
22. Ver nota 5 do capítulo III.
23. A obra de von Neumann no campo da mecânica quântica é exemplo especialmente
esclarecedor desse procedimento.
97
Para conseguir satisfatória demonstração do teorema da expansão no espaço de Hilbert, von
Neumann substitui as quase-intuitivas noções de Dirac (e Bohr) por concepções próprias e
mais complexas. As relações teoréticas entre essas noções são suscetíveis de tratamento mais
rigoroso que as relações teoréticas entre as noções que as precederam (‘mais rigorosas’ do
ponto de vista de von Neumann e seus seguidores). Dá-se coisa diversa no que respeita às
relações entre elas e os procedimentos experimentais. Não há como especificar instrumentos
para a grande maioria de observáveis (Wigner, American Journal of Physics, vol. 31, 1963,
p. 14) e, onde a especificação é possível, torna-se necessário modificar, de maneira
arbitrária, leis bem conhecidas e não refutadas ou então admitir que problemas triviais de
mecânica quântica, tal como o problema de espalhamento, não têm solução (J. M. Cook,
Journal of Mathematical Physics, vol. 36, 1957). Nesses termos, a teoria transforma-se em
um verdadeiro monstro de precisão e rigor, enquanto sua relação para com a prática se
torna mais obscura do que nunca. É interessante notar que desenvolvimentos semelhantes
ocorrem no ‘pensamento primitivo’. ‘O traço mais surpreendente da profecia de Nupe, que
se faz através do uso da areia’, escreve S. F. Nader em Nupe Religion, 1954, p. 63, ‘é o
contraste entre sua pretensiosa estrutura teórica e sua primitiva e canhestra aplicação na
prática’. Não é necessário dispor da ciência para produzir os pesadelos de von Neumann.
24. A existência de dificuldades qualitativas ou ‘bolsões de resistência’ (Santo Agostinho,
Contra Julianum, V, xiv, 51— Migne, vol. 44) foi usada por padres da Igreja para afastar
objeções que a ciência do tempo levantava contra certos aspectos da fé cristã, como, por
exemplo, a ressurreição de Cristo (que Porfírio havia considerado incompatível com a
Física).
98
25. É interessante notar o seguinte; Filolau que descartava a evidência trazida pelos
sentidos, pondo a terra em movimento, era um não-matemático perturbador. Esse
‘perturbador teve a coragem, que não tiveram grandes observadores e cientistas
conhecedores de Matemática, de afastar a informação dos sentidos, para permanecer fiel a
princípios em que firmemente acreditava’. K. von Fritz, Grundprobleme der Geschichte der
Antiken Wissenschaft, Berlim-Nova Iorque, 1971, p. 165. ‘Não surpreende, portanto, que o
passo seguinte, em tal caminho, haja sido dado por um homem cujos escritos, tanto quanto
os conhecemos, mostram-no como estilista e divulgador talentoso a quem, ocasionalmente,
ocorriam idéias, e não por um pensador profundo ou por um especialista em ciências
exatas’, op. cit., p. 184. Os perturbadores e os intelectuais sem profundidade avançam,
enquanto os pensadores ‘sérios’ descem às regiões mais sombrias do status quo ou, para
dizê-lo de outra maneira, ficam presos à lama.
99
VI
Como exemplo dessa tentativa, trago à baila o argumento da torre, de que os aristotélicos se
valiam para refutar o movimento da Terra. O argumento envolve interpretações naturais
— idéias tão estreitamente ligadas a observações, que se faz necessário especial esforço para
perceber-lhes a existência e determinar-lhes o conteúdo. Galileu identifica as interpretações
naturais que se mostram inconsistentes com a doutrina de Copérnico e as substitui por
outras.
Parece-me que (Galileu) incide muito em digressões contínuas e que não se detém para
explicar tudo quanto é relevante em cada ponto; mostra isso que não examinou os pontos
ordenadamente e que simplesmente buscou razões para alcançar particulares efeitos, sem ter
considerado... as primeiras causas...; e, dessa maneira, construiu sem alicerces.
DESCARTES
Não me inclino (com efeito) a comprimir doutrinas filosóficas em espaços
acanhadíssimos e a adotar aquele estilo rígido, conciso e desgracioso, aquele estilo despido de
qualquer adorno que é próprio dos geômetras puros e que os leva a só utilizar palavra que a
eles se tenha imposto por estrita necessidade... Não considero errôneo falar de coisas
múltiplas e diversas, mesmo nos tratados devotados a um único assunto... pois entendo que
a grandeza, nobreza, excelência de nossos feitos
103
e invenções não está no que é necessário — embora, de outra forma, passasse a corresponder
a um grande equívoco — mas no que não o é...
GALILEU
Entretanto, quando o bom senso crê que sofistas racionalizadores têm a intenção de
abalar o fundamento mesmo do bem-estar geral, passa a ser não apenas procedente, mas
permissível e até mesmo louvável ajudar a boa causa com pretensas razões antes que
permitir que a vantagem passe... ao oponente.
KANT1
Com ilustração concreta e base para discussão posterior, descreverei em termos breves, a
maneira como Galileu afastou um importante contra-argumento oposto à idéia de
movimento da Terra. Digo ‘afastou’ e não ‘refutou’ porque estamos manipulando um
sistema conceptual cambiante e com algumas tentativas de mascaramento.
Segundo o argumento que convenceu Tycho e que é usado contra o movimento da Terra
no próprio Trattato della Sfera, de Galileu, a observação mostra que ‘os corpos pesados,
quando tombam, seguem uma linha reta e vertical à superfície da Terra... Esse é visto como
um argumento irrefutável em favor da fixidez de nosso planeta. Com efeito, se a Terra
efetuasse rotação diária, uma torre de cujo topo fosse lançada um pedra, sendo carregada
pelo giro da Terra, se deslocaria centenas de metros para leste durante o tempo que a pedra
consumiria para cair e, assim, esta pedra deveria ferir o solo àquelas centenas de metros da
base da torre2.
Ao examinar o argumento, Galileu admite, desde logo, a correção do conteúdo sensorial
da observação feita, ou seja, admite que ‘corpos pesados... tombando, deslocam-se perpen-
104
dicularmente à superfície da Terra3. Considerando Um autor (Chiaramonti) que procura,
através de repetida menção desse fato, convencer os seguidores de Copérnico, diz Galileu:
‘Gostaria que esse autor não se desse ao incômodo de tentar levar-nos a compreender,
apelando para os nossos sentidos, que o movimento de queda dos corpos é movimento
retilíneo e não de outra espécie; e gostaria que ele não se zangasse, nem se queixasse por se
colocar em questão essa coisa clara, óbvia e manifesta. Com efeito, assim procedendo, ele se
dispõe a acreditar que o movimento não é retilíneo, mas circular, quando passa a considerar
pessoas para as quais a pedra parece mover-se, visivelmente, segundo um arco — e isso
porque invoca os sentidos e não a razão para esclarecimento desse ponto. Não é assim que se
deve proceder, Simplício; pois assim como... jamais vi ou esperei ver a pedra cair a não ser
perpendicularmente, o mesmo creio que todos os outros hajam visto. Melhor é, portanto,
deixar de lado a aparência, a propósito da qual concordamos todos, e recorrer ao poder da
razão, seja para confirmar-lhe a realidade, seja para revelar-lhe a falácia’4. A correção da
observação não é posta em causa. Em causa se põe sua ‘realidade’ ou ‘falácia’. Que se
pretende dizer com isso?
A pergunta é respondida por um exemplo mencionado por Galileu no parágrafo
seguinte: ‘a partir do qual... percebe-se quão facilmente qualquer pessoa pode ver-se lograda
pela simples aparência ou, digamos, pelas impressões dos próprios sentidos. O exemplo diz
respeito aos que caminham à noite pela rua e que, ao verem a Lua deslizar ao fundo dos
telhados, têm a impressão que ela os segue, caminhando com a mesma velocidade. Os
caminhantes a vêem como veriam um gato verdadeiro, deslizando pelas telhas e colocandose
por detrás delas, e essa impressão, caso a razão deixasse de intervir, obviamente iludiria
os sentidos’.
No exemplo dado, somos convidados a partir de uma impressão sensorial a considerar
um enunciado que seja impositivamente sugerido pela impressão. (A sugestão é de tal
105
maneira poderosa que levou à construção de completos sistemas de crença e a rituais, como
se percebe no estudo de aspectos de bruxaria ligados à Lua e de aspectos ligados a outras
hipóteses cosmológicas.) Mas ‘a razão interfere’; o enunciado sugerido pela impressão é
submetido a exame e, em vez dele, passa-se a considerar outros enunciados. Esse
procedimento em nada altera a natureza da impressão. (Isto só é parcialmente verdadeiro;
tendo em vista, porém, nossos atuais propósitos, podemos omitir as complexidades que
brotam do interagir de impressão e proposição.) Contudo, a impressão penetra em novos
enunciados de observação e desempenha papéis alternativos — melhores ou piores — em
nosso conhecimento. Quais as razões e métodos que regulam tais permutas?
Para começar, devemos ser claros a respeito da natureza do fenômeno total: aparência
plus enunciado. Não há dois atos: um, de percepção do fenômeno; outro, correspondente à
sua expressão com o auxílio do enunciado cabível, há um ato apenas, a saber o de dizer, em
certa situação observacional, ‘a Lua está me seguindo’ ou ‘a pedra está caindo
verticalmente’. Está claro que, por abstração, podemos dividir o processo em partes e
podemos também tentar fazer surgir situação em que enunciado e fenômeno pareçam estar
psicologicamente apartados, a aguardar que se estabeleça relação entre eles. (Isto é muito
difícil, talvez impossível de conseguir.) Em circunstâncias normais, entretanto, a separação
não ocorre; descrever uma situação conhecida é, para quem o faz, acontecimento em que
enunciado e fenômeno se prendem firmemente um ao outro.
Essa unidade é o resultado de um processo de aprendizado que se inicia na infância.
Desde os nossos primeiros dias, aprendemos a reagir a situações dando-lhes as adequadas
respostas, sejam estas lingüísticas ou de outra espécie. Os processos de ensino delineiam a
‘aparência’, ou ‘fenômeno’, e estabelecem forte conexão entre eles e as palavras, de sorte que,
ao fim, os fenômenos parecem falar por si mesmos, sem auxílio externo ou conhecimentos
outros. Os fenômenos são o que os enuncia-
106
dos associados asseveram que eles sejam. A linguagem que ‘falam’ está, naturalmente,
influenciada pelas crenças de gerações anteriores, mantidas há tanto tempo que não mais
parecem princípios separados, apresentando-se nos termos do discurso cotidiano e
parecendo, após o treinamento natural exigido, brotar das próprias coisas.
A esta altura, podemos desejar comparar — em nossa imaginação e de maneira abstrata
— os resultados do ensinamento de diferentes linguagens, que incorporam ideologias
diferentes. Talvez cheguemos a conscientemente desejar modificar algumas dessas
ideologias, adaptando-as a pontos de vista mais ‘modernos’. É muito difícil dizer de que
forma isso alterará a situação, a não ser admitindo o pressuposto adicional de que a
qualidade e a estrutura das sensações (percepções) ou, pelo menos, a qualidade e a estrutura
daquelas sensações que integram o corpo da ciência, independem de sua expressão
lingüística. Duvido da validade, ainda que relativa, desse pressuposto, que pode ser
refutado com o auxílio de exemplos simples e tenho a convicção de que nos estaremos
privando de descobertas novas e surpreendentes, enquanto nos mantivermos nos limites por
eles definidos. (Minha primeira tarefa, se alguma vez eu voltar a escrever, seria a de
examinar esses limites e a de aventurar-me para além deles.)
Acolhendo o pressuposto adicional simplificador, passamos a poder distinguir entre as
sensações e ‘as operações mentais que tão imediatamente decorrem dos sentidos’5 e que tão
firmemente se ligam a suas reações que se torna difícil uma separação. Tendo em conta a
origem e o efeito dessas operações, eu as denominarei interpretações naturais.
Na história do pensamento, as interpretações naturais têm sido vistas ou como
pressupostos a priori da ciência ou como preconceitos que importa afastar antes do início de
qualquer estudo sério. A primeira maneira de ver é de Kant; sob ângulo diferente e com base
em diferentes considerações, é também a maneira de ver de alguns filósofos da linguagem
contemporâ-
107
neos. A segunda maneira de ver é a de Bacon (que teve predecessores, como, por exemplo, os
céticos gregos).
Galileu é um daqueles raros pensadores que nem desejam conservar indefinidamente as
interpretações naturais, nem desejam eliminá-las inteiramente. Juízos extremos dessa
espécie são alheios a seu modo de pensar. Ele insiste em que se trave uma discussão crítica
para decidir quais interpretações naturais devem ser mantidas e quais devem dar lugar a
outras. Isso nem sempre é dito de maneira clara em suas obras. Muito ao contrário. Os
métodos de reminiscência, a que ele apela sem maiores restrições, têm o propósito de criar a
impressão de que nada se alterou e de que continuamos a exprimir nossas observações
segundo velhas e familiares maneiras. Sem embargo, a atitude de Galileu é relativamente
fácil de caracterizar: as interpretações naturais são necessárias. Os sentidos puros,
desajudados da razão, não nos proporcionam verdadeira compreensão da natureza.
Necessários para chegarmos a essa compreensão verdadeira são ‘os sentidos, acompanhados
pela razão’6. Mais ainda, no que se refere aos argumentos concernentes ao movimento da
Terra, é esse arrazoar, é a conotação dos termos de observação e não a mensagem dos
sentidos, ou a aparência, que provoca dificuldades. ‘Melhor, portanto, é pôr de lado a
aparência, a propósito da qual todos estamos de acordo, e recorrer à força da razão para
confirmar a realidade daquela aparência ou para revelar-lhe a falácia’7. Confirmar a
realidade da aparência ou revelar-lhe a falácia equivale a examinar a validade das
interpretações naturais que se acham de tal modo ligadas às aparências que não mais
podemos vê-las como pressupostos distintos. Passo, agora, a ocupar-me da primeira
interpretação natural, implícita no argumento das pedras que tombam.
Segundo Copérnico, o movimento de uma pedra que cai deve ser ‘a um tempo, retilíneo e
circular’8. Por ‘movimento da pedra’, entende-se não apenas seu movimento com relação a
um marco visível, situado dentro do campo visual do observador,
108
ou movimento observado, mas também seu movimento no sistema solar ou no espaço
(absoluto), isto é, o movimento real. Os fatos conhecidos e invocados no argumento
apontam para uma diferente espécie de movimento, o movimento vertical simples. Esse
resultado só refutará a hipótese de Copérnico se o conceito de movimento que ocorre no
enunciado de observação for o mesmo conceito de movimento que ocorre na predição de
Copérnico. O enunciado de observação segundo o qual ‘a pedra cai verticalmente’ deverá,
portanto, referir-se a um movimento no espaço (absoluto). Deve referir-se ao movimento
real.
Ora, a força de um ‘argumento nascido da observação’ deriva do fato de os enunciados de
observação estarem fortemente ligados às aparências. De nada vale apelar para a observação,
se não se sabe descrever o que se vê, se a descrição é hesitante, como a de alguém que acabou
de aprender a língua em que a formula. Formular um enunciado de observação envolve,
pois, dois eventos psicológicos muito diversos: (1) uma sensação clara e inequívoca e (2)
uma conexão clara e inequívoca entre a sensação e as partes da linguagem. Essa a maneira
pela qual a sensação vem a falar. No argumento acima, estarão as sensações falando a
linguagem do movimento real?
Falam a linguagem do movimento real no contexto do pensamento comum do século
XVII. Isso, pelo menos, é o que nos diz Galileu. Diz-nos que o pensamento comum do
tempo admite o caráter ‘operativo’ de todos os movimentos ou, para empregar termos
filosóficos bem conhecidos, admite o realismo ingênuo com respeito ao movimento: exceto no
caso de ilusões ocasionais e inevitáveis, o movimento aparente é idêntico ao real (absoluto).
Naturalmente que essa distinção não é feita de maneira explícita. Não se parte da distinção
entre movimento aparente e movimento real para, em seguida, relacionar um ao outro,
através de uma regra de correspondência. Descreve-se, percebe-se o movimento, age-se
com respeito a ele como se se tratasse do movimento real. Mas não se procede
assim em todas
109
as circunstâncias. Admite-se haver objetos que se movem sem que percebamos o movimento;
e também se admite que certos movimentos sejam ilusórios (cf. o exemplo da Lua,
anteriormente mencionado neste capítulo). O movimento aparente e o movimento real nem
sempre se identificam. Há, porém, casos paradigmáticos em que é psicologicamente muito
difícil ou mesmo impossível admitir engano. É desses casos paradigmáticos e não de
exceções que o realismo ingênuo, aplicado ao movimento, retira sua força. E são essas as
situações em que nós aprendemos nosso vocabulário cinemático. Desde a primeira infância,
aprendemos a reagir àquelas situações por meio de conceitos que contêm em seu bojo o
realismo ingênuo e que indeslindavelmente relacionam movimento e aparência de
movimento. O movimento da pedra, no argumento da torre, ou o suposto movimento da
Terra é um dos mencionados casos paradigmáticos. Como poderíamos deixar de perceber o
rápido movimento da grande porção de matéria que se supõe a Terra seja? Como poderia
escapar-nos o fato de que a pedra, caindo, percorre ampla trajetória no espaço? Do ponto de
vista do pensamento e da linguagem do século XVII, o argumento é, portanto, impecável e
convincente. Notemos, porém, que teorias não explicitamente formuladas (‘caráter
operativo’ de todos os movimentos; correção essencial da informação dos sentidos) passam a
participar do debate, sob o disfarce de termos de observação. Novamente nos damos conta de
que os termos de observação são cavalos de Tróia, que importa observar cuidadosamente.
Como proceder nessa difícil situação?
Aparentemente, o argumento das pedras que tombam refuta a concepção copernicana.
Isso talvez se deva a uma inerente desvantagem da teoria de Copérnico, mas poderá também
dever-se à presença de interpretações naturais que exigem aprimoramento. A tarefa inicial
é, portanto, a de descobrir e isolar esses despercebidos obstáculos ao progresso.
Acreditava Bacon que as interpretações naturais poderiam ser descobertas através de
um método de análise que as disse-
110
casse umas após outras, até que se pusesse a nu o cerne sensível de todas as observações.
Esse método apresenta sérias deficiências. Em primeiro lugar, as interpretações naturais da
espécie considerada por Bacon não são apenas acrescentadas a um campo de sensações já
existente. São instrumentais no constituir o campo, como o próprio Bacon diz. Afastemos
todas as interpretações naturais e teremos também eliminado a capacidade de pensar e de
perceber. Em segundo lugar (e desconsiderando essa fundamental função que toca às
interpretações naturais), é claro que uma pessoa, colocada diante de um campo de
percepções, sem dispor de uma interpretação natural, estaria completamente desorientada, e
nem saberia como começar o empreendimento da ciência. O fato de que começamos, mesmo
depois de alguma análise procedida por Bacon, atesta, portanto, que essa análise se deteve
prematuramente. Deteve-se precisamente naquelas interpretações naturais de que não nos
damos conta e sem as quais não podemos avançar. Segue-se daí que é auto-destruidora a
intenção de começar da estaca zero, após completo afastamento de todas as interpretações
naturais.
Além disso, não é possível, nem mesmo parcialmente, desemaranhar o enredo das
interpretações naturais. À primeira vista, a tarefa poderia parecer simples. Consistiria em
examinar os enunciados de observação, uns após os outros, e analisar-lhes o conteúdo. Sem
embargo, não é de esperar que os conceitos ocultos nos enunciados de observação venham a
revelar-se nas partes mais abstratas da linguagem. Ainda que assim ocorresse, continuaria
a ser difícil identificá-los; os conceitos, assim como os objetos da percepção, apresentam
ambigüidades e dependem do pano de fundo contra o qual se projetam.
Ocorre, a par disso, que o conteúdo de um conceito é tamb6m determinado pela maneira
como ele se relaciona com a percepção. Entretanto, como descobrir essa maneira, sem cair
em círculo vicioso? As percepções hão de ser identificadas e o mecanismo identificador
encerrará alguns dos mesmos elementos
111
que disciplinam o emprego do conceito sob investigação. Nunca apreendemos inteiramente
esse conceito, pois sempre utilizamos parte dele na tentativa de determinar-lhe os elementos
constitutivos. Só há um meio de fugir ao círculo vicioso: consiste em usar medida externa
de comparação, inclusive maneiras novas de relacionar conceitos e dados de percepção.
Retirada do domínio do discurso natural e afastada de todos os princípios, hábitos e atitudes
que constituem sua forma de vida, essa medida externa se afigurará, sem dúvida, estranha.
Isso, entretanto, não é argumento contra sua utilização. Pelo contrário, a impressão de
estranheza revela que as interpretações naturais estão operando e constitui um primeiro
passo no sentido de que venham a ser descobertas. Expliquemos esta situação, recorrendo ao
exemplo da torre.
O exemplo pretende evidenciar que a concepção copernicana foge a um acordo com ‘os
fatos’. Do ponto de vista desses fatos, a idéia de movimento da Terra é bizarra, absurda e
obviamente falsa — para repetir apenas algumas das expressões freqüentemente usadas
naquela época e ainda ouvidas sempre que profissionais mais apegados às tradições se
defrontam com uma teoria nova e contrária aos fatos. Isso leva-nos a suspeitar que a
concepção copernicana é um padrão de medida externa, exatamente do tipo acima descrito.
Podemos, agora, passar a contemplar a outra face do argumento, utilizando-o como
dispositivo identificador, capaz de auxiliar-nos a descobrir as interpretações naturais que
excluem o movimento da Terra. Fazendo o argumento girar sobre si mesmo, partimos da
asseveração de que a Terra se move e, a seguir, indagamos quais as alterações que se fazem
necessárias para afastar a contradição. Essa investigação poderá exigir tempo considerável e
seria procedente afirmar que ela até hoje não chegou ao fim. É possível, portanto, que
tenhamos de continuar a conviver com a contradição por décadas ou por séculos. Ainda
assim, ela deve ser defendida até que tenhamos terminado a investigação, pois, caso
contrário, essa
112
investigação, a tentativa de descobrir os componentes antediluvianos de nosso
conhecimento, sequer poderia começar. Essa, nós o vimos, é uma das razões possíveis de
oferecer para conservar e, talvez, até mesmo para inventar teorias incongruentes com os
fatos. Os ingredientes ideológicos de nosso conhecimento e, mais especialmente, de nossas
observações, são descobertos com o auxílio de teorias por eles refutadas. São descobertos
contra-indutivamente.
Permitam-me repetir o que ficou, até este ponto, assentado. As teorias são submetidas a
teste e, eventualmente, refutadas pelos fatos. Os fatos encerram componentes ideológicos,
concepções antigas que foram perdidas de vista ou que jamais chegaram a ser explicitamente
formuladas. Esses componentes são altamente suspeitos. Em primeiro lugar, devido à sua
idade e obscura origem: não sabemos como e por que surgiram; em segundo lugar, porque a
sua própria natureza os protege e sempre os protegeu de exame crítico. No caso de
contradição entre uma teoria nova e interessante e uma coleção de fatos firmemente
estabelecidos, a melhor maneira de agir consistirá, portanto, em não abandonar a teoria,
mas utilizá-la para descobrir os princípios ocultos que sejam responsáveis pela contradição.
A contra-indução é parte essencial desse processo de descoberta. (Excelente exemplo
histórico: os argumentos contra o movimento e o atomismo, desenvolvidos por Zenão e
Parmênides. Diógenes, o cínico, enveredou pelo caminho simples, que seria trilhado por
muitos cientistas contemporâneos e por todos os filósofos de nosso tempo: refutou os
argumentos, com o levantar-se e caminhar de um lado para outro. O caminho oposto, aqui
recomendado, levou a resultados muito mais interessantes, como é testemunhado pela
história do incidente. Não devemos apoiar-nos demasiado em Diógenes, pois conta-se
também que ele bateu em um discípulo que se mostrou satisfeito com sua refutação, dizendo
haver oferecido razões que o discípulo não deveria aceitar sem a elas acrescentar razões
próprias9.)
113
Tendo descoberto uma particular interpretação natural, como poderemos examiná-la e
submetê-la a teste? É claro que não poderemos agir da maneira habitual, isto é, dela derivar
predições e compará-las com os ‘resultados de observação’. Desses resultados não mais
dispomos. A idéia de que os sentidos, usados em circunstâncias normais, levam a retratos
corretos dos eventos reais — por exemplo, ao retrato do movimento real dos corpos físicos
— foi afastada de todos os enunciados de observação. (Recorde-se ter sido verificado que
essa noção constitui parte essencial do argumento anticopérnico.) Todavia, afastada aquela
idéia, nossas reações sensoriais deixam de ser relevantes para os testes. Essa conclusão foi
generalizada por alguns racionalistas mais antigos, que decidiram alicerçar sua ciência
exclusivamente na razão e atribuíram à observação uma função auxiliar insignificante.
Galileu não seguiu essa forma de procedimento.
Se uma interpretação natural perturba uma concepção que é atraente e se a eliminação
dessa interpretação retira a concepção do domínio do observável, o único procedimento
cabível é o de recorrer a outras interpretações, para verificar o que passa a ocorrer. A
interpretação de que se vale Galileu repõe os sentidos na posição de instrumentos de
exploração, mas tão-somente com respeito à realidade do movimento relativo. O movimento
‘em meio a coisas que o têm em comum’ é ‘não-operativo’, ou seja, ‘é insensível, é
imperceptível e sem qualquer efeito’10. O primeiro passo dado por Galileu, ao examinar, em
conjunto, a doutrina copernicana e a interpretação natural comum, mas não explícita,
consiste, portanto, em substituir esta última por outra interpretação. Dito de maneira
diferente, ele introduz uma nova linguagem de observação.
Trata-se, naturalmente, de um recurso inteiramente legítimo. De modo geral, a
linguagem de observação, presente em um argumento, encontra-se em uso há largo tempo e
é familiar. Considerando, de um lado, a estrutura de expressões comuns e, de outra parte, a
estrutura da filosofia aristotélica, nem aquele
114
uso nem aquela familiaridade podem ser vistos como um teste dos princípios subjacentes.
Esses princípios, essas interpretações naturais, ocorrem em todas as descrições. Casos
extraordinários, que poderiam criar dificuldades, são afastados com o auxílio de ‘expressões
de ajustamento’11, como a ‘semelhança de’ ou ‘análogo a’ que removem as dificuldades,
permitindo que a ontologia básica permaneça incontestada. Um teste, entretanto, se faz de
urgente necessidade. De urgente necessidade especialmente nos casos em que os princípios
parecem ameaçar a teoria nova. Torna-se, então, razoável introduzir linguagens
alternativas de observação, confrontando-as tanto com o idioma original quanto com a
teoria sob exame. Procedendo dessa maneira, devemos assegurar-nos de que o confronto se
faz em termos justos, isto é, não devemos criticar um idioma que deva funcionar como
linguagem de observação devido a não ser ele ainda bem conhecido e estar, portanto, menos
fortemente relacionado com nossas reações sensoriais e ser menos plausível do que um outro
idioma ‘comum’. Críticas superficiais dessa espécie, elevadas à condição de ‘filosofia’
inteiramente nova,. são abundantes em meio às discussões em torno do problema espíritocorpo.
Os filósofos que desejam introduzir e submeter a teste concepções novas vêem-se,
dessa forma, postos diante não de argumentos, que poderiam, provavelmente, contestar,
mas de uma impenetrável muralha de reações solidamente estabelecidas. A situação não
difere muito da situação de pessoas ignorantes de línguas estrangeiras, para as quais certa
cor é muito melhor traduzida pela palavra ‘vermelho’ do que pela palavra ‘rosso’. Em
oposição a essas tentativas de conversão por apelo ao que é familiar (‘Sei o que é a dor e sei,
também, por introspecção, que ela nada tem a ver com processos materiais!’), importa
acentuar que um juízo comparativo acerca das linguagens de observação — linguagens de
observação materialistas, fenomenalistas, objetivo-idealistas, teológicas, etc. — só pode
começar quando todas elas são dominadas com igual fluência.
115
Continuemos, agora, com a análise do raciocínio de Galileu.
NOTAS
1. As três citações são: Descartes, carta a Mersenne, datada de 11 de outubro de 1638,
Oeuvres, II, p. 380. Galileu, carta a Leopoldo da Toscana, 1640, usualmente citada sob o
título Sul Candor Lunare, Edizione Nazionale, VIII, p. 491. Para informação
pormenorizada acerca do estilo de Galileu e da conexão entre seu estilo e sua filosofia
natural, cf. L. Olschki, Galileo und seine Zeit: Geschichte der neusprachilichen
wissenschaftlichen Literatur, vol. III, Halle, 1927, reimpresso em Vaduz, 1965. A carta a
Leopoldo é reproduzida e comentada em pp. 445 ss.
A carta de Descartes é examinada por Salmon, que a toma como exemplo da pendência
entre racionalismo e empirismo, em ‘The Foundations of Scientific Inference’, Mind and
Cosmos, ed. Colodny, Pittsburgh, 1966, p. 136. Deveria, antes, ser vista como exemplo do
choque entre metodologias dogmáticas e metodologias oportunistas, considerando que o
empirismo pode mostrar-se tão estrito e rígido quanto os mais rigorosos tipos de
racionalismo.
A citação de Kant foi retirada de Critique of Pure Reason, B 777, 8 ss. (chamou-me a
atenção para o trecho, a obra do Prof. Stanley Rosen acerca do Simpósio de Platão).
Prossegue Kant: ‘Eu diria, entretanto, que nada é menos adequado a acompanhar a intenção
de defender uma boa causa do que o subterfúgio, a suficiência, o engano. Se apenas isso
fosse admitido, a batalha da razão especulativa estaria há muito encerrada ou logo
alcançaria
116
seu fim. Dessa maneira, a pureza de uma causa freqüentemente está na razão inversa de sua
verdade... ‘Importa, ainda, notar que Kant explica o surgimento da civilização com base em
procedimentos insinceros que ‘têm a função de elevar a humanidade acima de seu imperfeito
passado’ op. cit., 776, 14 s. Idéias similares estão presentes em sua explicação da História do
mundo.
2. Dialogue, op. cit., p. 126.
3. Ibid., p. 125.
4. Ibid., p. 256.
5. Francis Bacon, Novum Organum, Introdução.
6. Dialogue, op. cit., p. 255. Grifo meu.
7. Ibid., p. 256.
8. Ibid., p. 248.
9. Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, I, ed. C. L. Michelet, Berlim,
1840, p. 289.
10. Dialogue, op. cit., p. 171. O relativismo cinemático de Galileu não é coerente. Na
passagem citada, ele propõe a concepção de que (1) o movimento em meio a coisas que o têm
em comum é sem qualquer efeito. ‘O movimento’, diz ele, ‘na medida em que é e atua como
tal, nessa medida só existe relativamente a coisas que dele carecem; em meio a coisas que
dele participam igualmente, não atua e é como se não existisse’ (p. 116); ‘Qualquer
movimento atribuído à Terra há de necessariamente permanecer imperceptível... enquanto
contemplarmos apenas objetos terrestres’ (p. 114);... o movimento comum a muitas coisas
que se movem é vazio e sem conseqüência para a relação entre essas mesmas coisas
móveis...’ (p. 116). De outra parte, (2) Galileu também sugere que ‘por natureza... nada se
move em linha reta. O movimento de todos os corpos celestes observa um círculo; navios,
carruagens, cavalos, aves movem-se em círculo, ao redor da Terra; são circulares os
movimentos das partes dos animais; em suma — somos obrigados a admitir que
somente gravia
117
deorsum e levia sursum se movem, aparentemente, em linha reta; entretanto, nem mesmo
isso é certo, enquanto não houver sido provado que a Terra está em repouso’ (p. 19). Ora, se
admitirmos (2), as partes livres dos sistemas que se movem em linha reta hão de tender a
percorrer trajetórias circulares, assim contradizendo (1). Foi essa incoerência que me dispôs
a dividir o argumento de Galileu em duas fases, uma concernente à relatividade do
movimento (só o movimento relativo é notado), a outra concernente às leis de inércia (e só o
movimento inercial preserva a relação entre as partes de um sistema — admitido, é claro,
que movimentos inerciais vizinhos são aproximadamente paralelos). Para conhecer as duas
fases do argumento, ver o capítulo seguinte. Devemos também dar-nos conta de que aceitar
a relatividade do movimento, mesmo para trajetórias inerciais, significa abandonar a teoria
do impetus. Isso Galileu parece já ter feito a esta altura, pois seu argumento a favor da
existência de movimentos ‘contínuos’ ou ‘perpétuos’, que ele esboça nas pp. 147 ss. do
Dialogue invoca movimentos que são neutros, isto é, nem naturais nem provocados, e que
podemos admitir, portanto (7), que perdurem para sempre.
11. J. L. Austin, Sense and Sensibilia, Nova Iorque, 1964, p. 74. Expressões do ajustamento
desempenham importante papel na filosofia aristotélica.
118
VII
As novas interpretações naturais constituem linguagem de observação original e altamente
abstrata. São introduzidas e ocultadas, de sorte que não se percebe a modificação havida
(método da anamnese). Encerram a idéia da relatividade de todo movimento e a lei da
inércia circular.
Galileu substitui uma interpretação natural por uma interpretação muito diferente e, até
aquela data (1630), pelo menos parcialmente antinatural. Como procede ele? Como
consegue introduzir asserções absurdas e contra-indutivas — tal como a asserção de que a
Terra se move — conseguindo que mereçam consideração ponderada e atenta? De antemão
cabe dizer que argumentos não bastam — interessante e importantíssima limitação do
racionalismo — e, com efeito, os pronunciamentos de Galileu só têm a aparência de
argumentos. Em verdade, Galileu recorre à propaganda. Usa artifícios psicológicos, além
das eventuais razões que tenha a oferecer. Esses artifícios alcançam êxito: conduzem-no à
vitória. Contudo, lançam obscuridade sobre a nova atitude em relação à experiência—
atitude que está a tomar forma —e atrasam de séculos a possibilidade de uma filosofia
apoiada na razão. Lançam obscuridade sobre o fato de que a experiência em que Galileu
deseja fundamentar a concepção de Copérnico nada mais é que o resultado de sua fértil
imaginação, ou seja, que essa experiência foi inventada. Lançam obscuridade sobre esse
fato insinuando que os novos resultados surgidos são conhecidos e admitidos por
todos, bastando que
121
lhes prestemos atenção para que eles venham a aparecer como a mais óbvia expressão da
verdade.
Galileu ‘lembra-nos’ de que há situações onde o caráter não-operativo do movimento que
envolve mais de um corpo é tão evidente e tão firmemente acreditado quanto, em outras
circunstâncias, o é a idéia do caráter operativo do todo movimento. (Esta última idéia não
constitui, entretanto, a única interpretação natural do movimento.) As situações são:
acontecimentos ocorridos em um barco, em uma carruagem que se desloca suavemente e em
outros sistemas em que está presente um observador ao qual é permitido levar a cabo certas
operações simples.
‘Sagredo: Lembrei-me de certa fantasia que me cruzou a imaginação certo dia, — quando
eu viajava para Alepo, onde ia exercer as funções de cônsul de nosso país... Se, durante toda
a viagem, de Veneza a Alexandreta, a ponta de uma pena acompanhasse o navio e tivesse a
propriedade de deixar sinais visíveis — que traço, que marca, que linha deixaria?
Simplício: Teria deixado uma linha a estender-se de Veneza até lá; não perfeitamente
reta — ou, antes, não acompanhando um perfeito arco de círculo — porém mais ou menos
ondulante, conforme o jogo que aqui e ali houvesse o navio sofrido. Contudo, esta oscilação
de um metro ou dois para a esquerda ou para a direita, neste ou naquele ponto, em pouco
teria alterado a extensão completa da linha que se estenderia por muitas centenas de
quilômetros. Essas oscilações mal seriam perceptíveis e, sem erro de maior importância,
poderíamos considerar a linha como parte de um arco perfeito.
Sagredo: Assim, se desconsiderássemos a agitação das ondas e o movimento do navio se
fizesse calmo e tranqüilo, o preciso e perfeito movimento daquela ponta de pena
corresponderia a um arco de círculo perfeito. Ora, se eu tivesse continuamente conservado
essa pena em minha mão e só algumas vezes
122
a houvesse movido dessa ou daquela maneira, que alterações introduziria na extensão da
linha?
Simplício: Menores que as introduzidas em uma linha reta de mil metros de
comprimento que aqui e ali se desviasse por um milímetro do retilíneo perfeito.
Sagredo: Então, se, ao deixarmos o porto, um artista começasse a fazer desenhos com
aquela pena em uma folha de papel e continuasse a desenhar durante toda a viagem até
Alexandreta, ele teria podido fazer surgirem, do movimento da pena, toda uma coleção de
muitas figuras traçadas e esboçadas em milhares de direções, com paisagens, edifícios,
animais e outras coisas. E, não obstante, o movimento real e essencial da ponta da pena
teria sido apenas uma reta; longa, sem dúvida, porém muito simples. Quanto às ações do
artista, elas teriam sido conduzidas exatamente como se o navio estivera parado. A razão
por que, do longo movimento da pena, traço algum restaria, exceto as marcas registradas no
papel, está em que o movimento de Veneza a Alexandreta era comum ao papel, à pena e a
tudo mais que se encontrava no navio. Contudo, os pequenos movimentos para frente e para
trás, para a direita e para a esquerda, comunicados pelos dedos do artista à pena, mas não ao
papel, e dizendo respeito apenas à primeira, puderam deixar traço sobre o papel que
permanecia estacionário com respeito àqueles movimentos.’1
Ou
‘Salviati: ... imagine-se em um navio, com os olhos fixos em um ponto da verga da
embarcação. Acha você que, por estar o navio a mover-se rapidamente, terá que mover os
olhos para mantê-los fitos na verga e acompanhar-lhe o movimento?
Simplício: Estou certo de que não será preciso qualquer movimento. E isso não apenas
quanto a meus olhos; se eu tivesse apontado um mosquetão (para a verga), não seria preciso
123
desviá-lo nem um pouco para mantê-lo apontado, sem importar o quanto a embarcação se
movesse.
Salviati: E isso ocorre porque o movimento que a embarcação confere à verga, confere
também a você e a seus olhos, de sorte que não é preciso movê-los para fixar o topo da verga,
que, em conseqüência, parece-lhe imóvel. (E os raios da visão caminham do olho à verga,
como se uma corda estivesse estendida entre as duas extremidades do navio. Ora, centenas
de cordas estão estendidas entre diferentes pontos fixos, e cada qual delas conserva sua
posição, esteja o navio em movimento ou em repouso.)’2
É claro que essas situações levam a um conceito não-operativo de movimento, mesmo no
campo do senso comum.
De outra parte, o senso comum — e pretendo referir-me ao senso comum do artífice
italiano do século XVII— encerra também a idéia do caráter operativo de todo movimento.
Essa última idéia surge quando um objeto limitado, não composto de muitas partes, se move
em ambientes amplos e estáveis, como por exemplo, quando um camelo trota no deserto ou
uma pedra cai de uma torre.
Ora, Galileu insiste em ‘lembrar-nos’, também nesse caso, das condições em que
asseveramos o caráter não-operativo do movimento compartilhado, para subsumir o
segundo caso ao primeiro.
Assim, o primeiro dos dois paradigmas do movimento não-operativo, atrás mencionado,
é seguido pela asserção: ‘também é verdade que, estando a Terra em movimento, o
movimento da pedra, ao cair, corresponde a uma longa extensão de centenas ou milhares de
metros; e se a pedra pudesse marcar seu curso no ar imóvel ou em alguma outra superfície,
deixaria assinalada uma longa linha oblíqua. Todavia, aquela parte de todo esse
124
movimento, que é comum à pedra, à torre e a nós próprios, permanece imperceptível, sendo
como se não existisse. Só se torna observável aquela parte de que nem a torre, nem nós
participamos; em outras palavras, aquela parte com que a pedra, ao cair, mede a torre’3.
E o segundo paradigma precede a exortação no sentido de ‘transferir esse movimento
para o girar da Terra e para a pedra colocada no topo da torre, cujo movimento você não
pode discernir porque tal como a pedra, você recebe da Terra o movimento que se faz
necessário para acompanhar a torre — não sendo necessário mover os olhos. Em seguida,
você comunica à pedra um movimento de cima para baixo, que é peculiar a ela, de que você
não compartilhe, e que se combina esse movimento circular, a porção circular do
movimento, que é comum à pedra e ao olho e continua imperceptível. Só o movimento
retilíneo é sensível, pois, para segui-lo, você precisa mover os olhos para baixo’4.
Isto é, sem dúvida, fortemente persuasivo.
Cedendo a essa persuasão, começamos, invisivelmente, a confundir as condições dos dois
casos e nos tornamos relativistas. Essa a essência do artifício de Galileu. Como
conseqüência o conflito entre Copérnico e ‘as condições que nos afetam e atingem a esfera
acima de nós’5 dissolve-se no ar e, finalmente, nos damos conta de que ‘todos os eventos
terrestres, a partir dos quais habitualmente se afirma que a Terra está imóvel, enquanto o
Sol e as estrelas fixas se movem, teriam para nós, a mesma aparência, caso a Terra se
movesse e os demais corpos celestes se conservassem imóveis’6.
Examinaremos a situação de um ponto de vista mais abstrato. Começamos com dois
subsistemas conceptuais de pensamento ‘comum’ (ver a tabela adiante). Um deles considera
o mo-
125
vimento como um processo absoluto que sempre tem efeitos, que se manifestam, inclusive,
sobre nossos sentidos. Talvez que se tenha, até certo ponto, idealizado a descrição desse
sistema conceptual aqui oferecida; mas os argumentos dos opositores de Copérnico, citados
pelo próprio Galileu e por ele refutados ‘muito plausíveis’7 mostram que havia larga
tendência de pensar segundo aqueles argumentos e que essa tendência tomava-se um sério
obstáculo para o exame de idéias diferentes. Vez por outra, defrontamo-nos com maneiras de
pensar ainda mais primitivas, onde conceitos como ‘acima’ e ‘abaixo’ são usados de modo
absoluto. Exemplos: a asserção de que ‘a Terra é demasiado pesada para ascender acima do
Sol e, em seguida, voltar para uma posição abaixo dele’8 ou a asserção de que ‘após breve
lapso de tempo, as montanhas, projetadas para baixo, em razão da rotação do globo terrestre,
ocupariam posição tal que, se, umas poucas horas antes, teria sido necessário percorrer
acentuado aclive para alcançar-lhes os picos, umas poucas horas depois, seria necessário
percorrer declive acentuado para lá chegar’9. Esses argumentos, Galileu, em notas
marginais, considera ‘razões totalmente infantis [que] são suficientes para fazer com que os
imbecis continuem a acreditar na imobilidade da Terra’10 e julga desnecessário ‘preocuparse
com homens que tais, cujo nome é legião, ou dar atenção a suas tolices’11. Contudo, é
indiscutível que a idéia absoluta de movimento estava bem ‘enraizada’ e que a tentativa de
substituí-la encontraria forte resistência12:
O segundo sistema conceptual se erige em torno da relatividade do movimento e está
igualmente bem enraizado em seu campo de aplicação. Galileu pretende substituir o
primeiro sistema pelo segundo, em todos os casos, assim concernentes à Terra, como
concernentes aos céus. O realismo ingênuo, com respeito ao movimento, deve ser
completamente afastado.
126
PARADIGMA I: Movimento de objetos compactos em ambiente amplo, estável (o alce
observado pelo caçador).
PARADIGMA II: movimento de objetos em navios, carruagens e outros sistemas em
movimento.
Interpretação natural:
Interpretação natural:
Todo movimento é operativo.
Somente o movimento relativo tem caráter operativo.
Pedra caindo
Prova
?
Terra em repouso
Movimento da Terra
Prediz
?
Movimento oblíquo da pedra
Pedra caindo
Prova
?
Não há movimento relativo entre o ponto de partida e a Terra
Movimento da Terra
Prediz
?
Não há movimento relativo entre o ponto de partida e a pedra
Ora, já vimos que esse realismo ingênuo é em certas ocasiões, parte essencial de nosso
vocabulário de observação. Em tais ocasiões (Paradigma I), a linguagem de observação
encerra a idéia de eficácia de qualquer movimento ou, para recorrer ao modo material de
expressão, nossa experiência, em tais situações, é uma experiência de objetos que se movem
de modo absoluto. Tendo isso em conta, faz-se claro que a proposta de Galileu equivale a
uma revisão parcial de nossa linguagem de observação ou de nossa experiência. Uma
experiência que parcialmente contradiz a idéia de movimento da Terra é transfor-
127
mada em experiência que a confirma pelo menos no que concerne a ‘coisas terrestres’13.
Isso é o que realmente se dá. Galileu, entretanto, deseja persuadir-nos de que alteração,
alguma ocorreu, de que o segundo sistema conceptual já é universalmente conhecido,
embora não universalmente utilizado. Salviati, o representante de Galileu no Dialogue, seu
opositor, Simplício, e o inteligente leigo, que é Sagredo, todos eles relacionaram o método de
argumentação de Galileu com a teoria da anamnese, proposta por Platão — manobra tática
hábil, que nos inclinaríamos a considerar muito própria de Galileu. Importa, não obstante,
que não nos enganemos a propósito do revolucionário desenvolvimento que está em curso.
A resistência contra o pressuposto de que o movimento compartilhado é não-operativo foi
igualada à resistência que idéias esquecidas oferecem à tentativa, de fazê-las conhecidas.
Aceitemos essa interpretação da resistência! Não esqueçamos, porém, sua existência.
Teremos de admitir, então, que ela restringe o uso de idéias relativistas, confiando-as a uma
parte de nossa experiência cotidiana. Externamente a essa parte, isto é, no espaço
interplanetário, elas são idéias ‘esquecidas’ e, conseqüentemente, não ativas. Nesse exterior,
entretanto, não reina o completo caos. Outros conceitos são utilizados, entre os quais
aqueles mesmos conceitos de caráter absoluto que derivam do primeiro paradigma. Não nos
limitamos a utilizá-las; vemo-nos compelidos a admitir que se mostram inteiramente
adequados. Enquanto nos mantemos dentro dos limites do primeiro paradigma, não surgem
dificuldades. A ‘experiência’, isto é, a totalidade dos fatos de todos os domínios, não nos
força a realizar a alteração que Galileu deseja introduzir. O motivo para a mudança deverá
provir de outra fonte.
Porém, antes do mais, do desejo de ver ‘o todo [corresponder] a suas partes com
maravilhosa simplicidade’14, tal como o próprio Copérnico já havia dito. Provém da
‘exigência tipicamente metafísica’ de unidade de entendimento e de apresentação
conceptual. E, em segundo lugar, o motivo de mudança
128
relaciona-se com a intenção de deixar aberto o caminho para a aceitação do movimento da
Terra, que Galileu admite e não está disposto a abandonar. A idéia de movimento da Terra
mais se aproxima do primeiro que do segundo paradigma ou, pelo menos, assim acontecia
ao tempo de Galileu. Isso comunicou força aos argumentos aristotélicos e os tornou
plausíveis. Para eliminar essa plausibilidade, fazia-se necessário subsumir o primeiro
paradigma ao segundo e estender as noções relativas a todos os fenômenos. A idéia de
anamnese exerce, no caso, as funções de muleta psicológica, de alavanca a tornar fácil o
processo de subsunção, graças à circunstância de ocultar-lhe a existência. Como
conseqüência, passamos a manifestar a tendência de aplicar as noções relativas não apenas a
embarcações, carruagens e pássaros, mas à ‘sólida e pesada Terra’ como um todo. E temos a
impressão de que essa tendência existia em nós desde sempre, embora fosse necessário
algum esforço para torná-la consciente. Essa impressão é certamente errônea: é o resultado
das maquinações propagandísticas de Galileu. Melhor seria apresentarmos a situação de
maneira diferente, como alternativa de nosso sistema conceptual. Ou— por estarmos a
manipular conceitos que se filiam às interpretações naturais e que, por conseqüência, se
ligam a sensações — deveríamos apresentar a situação como uma alteração de experiência,
que nos permite acolher a doutrina copernicana. A alteração corresponde perfeitamente ao
padrão que se descreverá no capítulo XI, adiante: uma concepção inadequada, a teoria de
Copérnico, recebe a ajuda de uma outra concepção inadequada, a idéia do caráter nãooperativo
do movimento compartilhado, e, nesse processo, ambas as teorias ganham força e
se apóiam mutuamente. Essa é a alteração subjacente à transição que leva do ponto de vista
aristotélico à epistemologia da ciência moderna.
A experiência deixa, agora, de ser o fundamento imutável em que se constituía, tanto na
concepção apoiada no senso comum, quanto na filosofia aristotélica. A tentativa de defender
a teoria de Copérnico transforma a experiência em algo ‘fluido’,
129
de maneira análoga à como torna fluidos os céus ‘de sorte que as estrelas giram por si
mesmas’15. Um empirista que parta da experiência e que sobre ela erija seu edifício, sem
jamais voltar-se para trás, terá perdido, agora, o próprio chão em que pisava. Nem a Terra,
‘a sólida e pesada Terra’, nem os fatos em que ele geralmente confia podem continuar a
merecer crédito. Uma filosofia que recorre a essa experiência fluida e cambiante requer, é
claro, princípios metodológicos novos, que não insistam em um as simétrico julgamento das
teorias pela experiência. A Física Clássica adota intuitivamente esses princípios; dessa
maneira procedem pelo menos os grandes pensadores independentes, como Newton,
Faraday, Boltzmann. Contudo, a doutrina oficial ainda se prende fortemente à idéia de uma
base fixa e imutável. O conflito entre essa doutrina e o procedimento real é ocultado por
uma tendenciosa apresentação dos resultados da pesquisa, que lhes esconde a origem
revolucionária, sugerindo que eles brotam de uma fonte fixa e imutável. Esses métodos de
ocultação começam com a tentativa feita por Galileu (no sentido de introduzir idéias novas
sob a máscara da anamnese) e culminam com Newton16. Será preciso pô-los claros, se
desejarmos chegar à melhor compreensão dos elementos que, em ciência, concorrem para o
progresso.
Meu exame do argumento anticopernicano não está ainda encerrado. Até agora, tentei
descobrir o pressuposto por força do qual uma pedra que se move ao longo de uma torre
móvel parece cair ‘verticalmente’, sem que a vejamos tombar segundo um arco. Vimos que o
artifício é realizado por um pressuposto — que denominarei princípio da relatividade — de
acordo com o qual nossos sentidos só notam o movimento relativo, permanecendo
inteiramente insensíveis a movimentos que os objetos tenham em’ comum. Resta explicar,
entretanto, por que a pedra acompanha a torre e não fica para trás. Para salvaguardar a
concepção copernicana, é preciso explicar não apenas
130
por que passa despercebido um movimento que preserva a relação entre objetos visíveis, mas
explicar, também, por que o movimento compartilhado de vários objetos não lhes afeta a
relação. Em outras palavras, é preciso explicar por que esse movimento não é um agente
causal. Invertendo a questão (à maneira explicada no texto correspondente à nota 10 do
capítulo anterior), toma-se claro, agora, que o argumento anticopernicano, ali descrito, se
alicerça em duas interpretações naturais, a saber: o pressuposto epistemológico, segundo o
qual o movimento absoluto é sempre notado; e o princípio dinâmico, segundo o qual objetos
(como a pedra que tomba) que não sofrem interferência assumem seu movimento natural. O
problema é, agora, o de suplementar o princípio da relatividade com uma nova lei de inércia,
de maneira tal que se possa continuar afirmando a existência do movimento da Terra.
Percebe-se, desde logo, que a lei seguinte, o princípio da inércia circular (tal como o
denominarei) propicia a necessária solução: um objeto, que se move, com determina4a
velocidade angular em uma esfera livre de atrito, ao redor da Terra, continuará a mover-se
com a mesma velocidade angular, para todo o sempre. Combinando a visão oferecida pela
pedra que tomba com o princípio da relatividade, o princípio da inércia circular e outros
pressupostos simples, concernentes à composição de velocidades17, chegamos a um
argumento que não mais coloca em perigo a concepção de Copérnico e pode ser usado para
proporcionar-lhe apoio parcial.
O princípio da relatividade foi defendido de duas maneiras. A primeira através da
demonstração de como ele auxilia Copérnico: defesa inegavelmente ad hoc. A segunda
consistiu em apontar a função que desempenha dentro do esquema do senso comum e em,
sub-repticiamente, generalizar aquela função (ver acima). A defesa que Galileu faz do
princípio da inércia circular é exatamente da mesma espécie. Ainda neste caso, ele
introduz
131
o princípio sem aludir a experimento ou a observação, mais aludindo ao que supostamente
já é do conhecimento de todos.
‘Simplício: Então você não fez uma centena de testes ou, pelo menos, um? E com tanta
facilidade assevera que isso é certo?
Salviati: Sem ter realizado experimento, estou certo de que o efeito será o que menciono,
porque assim há de ser; e eu poderia acrescentar que você próprio sabe que as coisas não se
poderiam passar de outra maneira, embora possa fingir ignorá-lo... Contudo, sou tão
habilidoso em dominar cérebros alheios que, a despeito de você mesmo, eu o farei admitir
aquele ponto.’18
Passo a passo, Simplícío é forçado a admitir que um corpo, movendo-se sem atrito em
uma esfera concêntrica à Terra, executará movimento ‘sem limites’, ‘perpétuo’. Sabemos, é
claro, especialmente após a análise que acabamos de fazer a respeito do caráter nãooperativo
do movimento compartilhado, que Simplício aceita algo que não se baseia em
experimento ou em teoria corroborada. É uma sugestão original e ousada, que envolve
extraordinário salto de imaginação. Análise um pouco mais profunda revela que a sugestão
se prende a experimentos — como os ‘experimentos’ dos Discorsi19 — através de hipóteses
ad hoc. (O atrito a ser eliminado não decorre de investigações independentes — pois tais
investigações só se iniciam muito mais tarde, no século XVIII— mas decorre do resultado a
ser atingido, ou seja, a lei circular de inércia.) Contemplar os fenômenos naturais a partir
desse ângulo conduz, como vimos, a uma reavaliação de toda experiência. Procede, agora,
acrescentar que leva à invenção de uma nova espécie de experiência. não apenas mais
refinada, mas também muito mais especulativa do que é a experiência nos termos de
Aristóteles ou do senso comum. Paradoxal, mas não incorretamente, caberia dizer que
Galileu inventa uma experiência que tem ingredientes
132
metafísicos. Por meio dessa experiência é que se realiza a transição da cosmologia geostática
para o ponto de vista de Copérnico e Kepler,
NOTAS
1. Dialogue, op. cit., pp. 171 ss. .
2. Ibid., pp. 249 ss. Que os fenômenos do movimento visto dependem do movimento relativo
é algo asseverado por Euclides em sua Ótica, Theon red. par. 49 ss. Velha passagem do par.
50 recorre ao exemplo da embarcação que deixa o porto: Heiberg, vii, 283. O exemplo é
repetido por Copérnico no Livro I, capítulo viii, de De Revol. Foi lugar comum na ótica
medieval. Cf. Witelo, Perspectiva, iv, par. 138 (Basel, 1572, p. 180). Sabemos hoje que só é
válido para velocidades constantes.
3. Ibid., p. 172 ss.
4. Ibid., p. 250.
5. Ptolomeu, Syntaxis, i, I, p. 7.
6. Dialogue, p. 416; cf. os Dialogues Concerning Two New Sciences, trad. Henry Crew e
Alfonso de Salvio, Nova Iorque, 1958, p. 164: ‘O mesmo experimento que, à primeira vista,
parecia evidenciar uma coisa, assegura-nos, quando sob mais cuidadoso exame, do
contrário’. O Prof. McMullin, criticando essa maneira de ver as coisas, pede melhor
‘justificação lógica e biográfica’ de que Galileu não apenas argumentou, mas também
induziu a engano [‘A Taxonomy of the Relation between History and Philosophy of
Science’, Minnesota Studies, vol. 5, Minneapolis, 1971, p. 39] e objeta à maneira como eu
indico haver Galileu introduzido o relativismo dinâmico. Segundo o Prof.
133
McMullin, ‘o que Galileu sustenta é que, se o opositor já interpreta as observações feitas
naquele contexto [movimentos de embarcações] de modo ‘relativista’, como poderá esse
opositor, mantendo a coerência, agir de outra maneira no caso de observações feitas em
terra?’ (op. cit., p. 40). É dessa maneira, sem dúvida, que Galileu argumenta. Mas ele assim
argumenta contra um interlocutor que, segundo diz, ‘sente grande repugnância em
reconhecer esta qualidade não-operativa do movimento entre coisas que dele participam’
(Dialogue, op. cit., p. 171), interlocutor que está convencido de que uma embarcação, além
de apresentar movimentos relativos, tem posições e movimentos absolutos (cf. Aristóteles,
Physics, 208b 8 ss.) e que, de um ou de outro modo, desenvolveu a arte de usar noções
diferentes em diferentes ocasiões, sem resvalar em contradição. Ora, se essa é a posição a ser
atacada, então a circunstância de mostrar que o opositor tem idéia relativa de movimento ou
freqüentemente utiliza essa idéia relativa em suas ações cotidianas não constitui
absolutamente ‘demonstração de incoerência nos termos de seu próprio “paradigma” ’
(McMullin, op. cit., p. 40). Tão-somente revela uma parte daquele paradigma, sem tocar na
outra. O argumento só se transforma na prova desejada se a noção absoluta for suprimida
ou afastada ou levada a confundir-se com a noção relativista — e isto é o que Galileu faz,
embora sub-repticiamente, como tentei demonstrar.
7. Dialogue, op. cit., p. 131.
8. Ibid., p. 327.
9. Ibid., p. 330.
10. Ibid., p. 327.
11. Ibid., p. 327, grifo meu.
12. A idéia de que há uma direção absoluta no universo tem interessantíssima história.
Apóia-se na estrutura do campo gravitacional na superfície da Terra ou daquela parte da
Terra que o observador conhece, generalizando as experiên-
134
cias ali feitas. Raramente a generalização é encarada como uma hipótese à parte; antes,
incluiu-se na ‘gramática’ do senso comum e empresta sentido absoluto às expressões ‘acima’
e ‘abaixo’. (Essa é uma ‘interpretação natural’, no preciso sentido explicado no texto.)
Lactâncio, um religioso do século IV, invoca tal significado, quando pergunta (Divinae
Institutiones, III, De Falsa Sapientia): ‘Chegamos, realmente, a estar tão confusos, a ponto
de admitir a existência de seres humanos cujos pés estão acima das cabeças? De árvores que
crescem para baixo e não para cima?’ O mesmo uso da linguagem é pressuposto por aquela
‘massa de homens não instruídos’ que levantam a questão de saber por que os antípodas não
estão despencando da Terra (Plínio, Natural History, II, pp. 161-6; cf., também, Ptolomeu,
Syntaxis, I, 7). As tentativas que fizeram Tales, Anaxímenes e Xenófanes de encontrar para
a Terra apoio que a impedisse de ‘cair’ (Aristóteles, De Coelo, 294 a 12 ss.) mostram que
quase todos os primeiros filósofos, com a única exceção de Anaximandro, participavam
dessa maneira de pensar. (Acerca dos atomistas, para os quais os átomos, de início, ‘caem’,
cf. Jammer, Concepts of Space, Cambridge, Mass., 1953, p. 11.) Até mesmo Galileu, que
ridiculariza a idéia de queda dos antípodas (Dialogue, op. cit., p. 331) fala, vez por outra, da
‘metade superior da Lua’, para indicar aquela parte da Lua ‘que é invisível para nós’. E não
esqueçamos alguns filósofos da linguagem, que vivem em nosso tempo, e ‘que são demasiado
estúpidos para reconhecer as próprias limitações’ (Galileu, op. cit., p. 327) e que desejam
reviver, ao menos com alcance local, o significado absoluto de ‘acima-abaixo’. Assim, não
deve ser subestimado o poder de um esquema conceptual primitivo sobre os espíritos dos
contemporâneos de Galileu — admitido um mundo anisotrópico, que também ele teve de
combater. Para exames de alguns aspectos do bom senso britânico, inclusive bom senso
astronômico,
135
ao tempo de Galileu, ver E. M. W. Tillyard, The Elizabethan World Picture, Londres, 1963.
Concordância entre a opinião popular e o universo de simetria central é freqüentemente
afirmada por Aristóteles, p. ex., in De Coelo, p. 308a 23 s.
13. Dialogue, op. cit., pp. 132 e 416.
14. Ibid., p. 341. Galileu cita, nessa passagem, a manifestação de Copérnico ao Papa Paulo
III, in De Revolutionibus; cf., também, capítulo X e a Narratio Prima (citada com base em
E. Rosen, Three Copernican Treatises, Nova Iorque, 1959, p. 165): ‘Pois todos esses
fenômenos parecem estar nobremente ligados entre si, como que por um elo de ouro, e cada
qual dos planetas, por sua posição e ordem e pela desigualdade de movimento, dá
testemunho de que a Terra se move e que nós, habitantes do globo terrestre, em vez de
aceitarmos que ele muda de posição, acreditamos que os planetas vagam pelo espaço
observando todos os tipos de movimentos próprios’. Note-se que razões empíricas estão
ausentes do argumento; e tinham de estar, pois Copérnico (Commentariolus, op. cit., p. 57)
admite que a teoria ptolomaica é ‘consistente com os dados numéricos’ .
15. Dialogue, op. cit., p. 120.
16. ‘Classical Empiricism’ op. cit.
17. Esses pressupostos não eram, de maneira alguma, óbvios, mas conflitavam com certas
idéias básicas da Física aristotélica.
18. Dialogue, op. cit., p. 147.
19. Assinalemos, de passagem, que muitos dos ‘experimentos’ ou ‘experiências’, a que se
recorre nos raciocínios e propósito do movimento, são inteiramente fictícios. Assim, Galileu,
no Trattato della Sfera (Edizione Nazionale, vol. II, pp. 211 ss.), que ‘acompanha a opinião
de Aristóteles e de Ptolomeu’ (p. 223), usa o seguinte argumento contra a rotação da
Terra: ‘... objetos projetados de lugares
136
altos para o chão, como, por exemplo, uma pedra lançada do topo de uma torre, não cairiam
junto ao pé dessa torre, pois durante o tempo que a pedra, caminhando retilineamente para
o chão, percorre o ar, a Terra, movendo-se para o leste, receberia a pedra em ponto bem
afastado do pé da torre, exatamente como se dá com uma pedra que, tombando do mastro de
um navio em rápido movimento, não cai junto ao pé desse mastro, porém mais para o lado
da popa’ (p. 224). A parte grifada, referente ao comportamento de pedras em navios, volta a
ser usada no Dialogue (p. 126), quando os argumentos ptolomaicos são discutidos, mas já
não é aceita como correta. ‘Parece ocasião apropriada’, diz Salviati (ibid., p. 180) ‘para fazer
notar que há certa generosidade dos copernicanos para com seus adversários, ao admitirem
aqueles como corretos e verdadeiras numerosas experiências que esses adversários jamais
realizaram. Tal, por exemplo, a experiência do corpo a tombar do mastro de um navio em
movimento. . .’ Anteriormente (p. 154), deixa-se mais implícito do que observado que a
pedra cairá ao pé do mastro, ainda que o navio se encontre em movimento; e um
experimento possível é examinado na p. 186. Bruno (La Cena de le Ceneri, Opere ltaliane, I,
ed. Giovanni Gentile, Bari, 1907, p. 83) dá por admitido que a pedra cairá ao pé do mastro.
Note-se que o problema não se presta facilmente a uma solução experimental. Experimentos
foram feitos, mas ficaram longe de ser concludentes. Cf. A. Armitage, ‘The Deviation of
Falling Bodies’, Annals of Science, 5, 1941-7, pp. 342 ss., e A. Koyré, Metaphysics and
Measurement, Cambridge, 1968, pp. 89 ss. O argumento da torre encontra-se em
Aristóteles, De Coelo, 296b 22, e Ptolomeu, Syntaxis, i, 8. Copérnico discute-o no mesmo
capítulo de De Revol., mas procura afastá-lo no capítulo seguinte (cf. nota 12 ao ca-
137
pítulo VIII do presente ensaio). O papel do argumento na Idade Média é examinado em M.
Clagett, The Science of Mechanics in the Middle Ages. Madison, 1959, capítulo 10.
138
VIII
Dificuldades iniciais provocadas pela alteração vêem-se afastadas por hipóteses ad hoc que,
assim, desempenham, ocasionalmente, uma função positiva; asseguram às novas teorias
espaço para se desenvolverem e indicam o sentido da pesquisa futura.
Esta é a altura conveniente para aludir a certas idéias, formuladas por Lakatos, que
lançam luz nova sobre o problema. do desenvolvimento do saber e que, até certo ponto,
comprometem a busca em que ele próprio se empenhou, visando a instalar lei e ordem na
ciência.
É comum admitir que os bons cientistas se recusam a utilizar hipóteses ad hoc e que,
assim agindo, agem bem. Idéias novas, segundo se diz, projetam-se para além da evidência
existente, e devem fazê-lo, para que sejam de interesse. É de esperar que hipóteses ad hoc
eventualmente se insinuem no processo, sendo preciso oferecer-Ihes resistência e mantê-las
ao largo. Isso retrata a atitude costumeira, tal como expressa, por exemplo, nos trabalhos de
K. R. Popper.
Em oposição a isso, Lakatos acentuou que o caráter ‘ad hoc’ nem é desprezível nem está
ausente do corpo da ciência1. As idéias novas, insiste ele, são, via de regra, quase
inteiramente ad hoc e não podem ser senão assim. E só chegam a ser corrigidas aos poucos,
através de ampliação gradual, que permite aplicá-las a situações muito afastadas de seu
ponto de partida. Esquematicamente:
141
Popper: As teorias novas apresentam e têm de apresentar excesso de conteúdo, que é,
mas não deveria ser, a pouco e pouco, infectado por adaptações ad hoc.
Lakatos: As teorias novas são e não podem fugir a ser ad hoc. O excesso de conteúdo é e
deve ser desenvolvido aos poucos, através de sua extensão gradual a fatos e domínios novos.
O material histórico até agora examinado (e o que aparece nos capítulos IX-XI, adiante)
empresta claro apoio à posição de Lakatos. A primeira fase da mecânica de Galileu conta
exatamente a mesma história.
Em De Motu2, movimentos de esferas, no centro do universo e fora dele, homogêneos e
não-homogêneos, em torno do centro de gravidade ou em torno de outros pontos, são
examinados e dados como naturais, forçados ou não pertencentes a quaisquer dessas
categorias. Pouco nos é dito, entretanto, a respeito do movimento real dessas esferas e o que
nos é dito só o é implicitamente. Surge, por exemplo, a questão de saber se uma esfera, posta
a mover-se no centro do universo, se moveria para sempre3. Registra-se que,
‘aparentemente, ela se moveria para sempre’, mas não se dá uma resposta definida. A
propósito de uma esfera de mármore, que passa a girar em torno do eixo central, assevera-se,
no De Motu, que ‘girará por longo tempo’4; no Dialogue on Motion, anota-se, porém, que
um movimento perpétuo ‘está longe de ajustar-se à natureza da própria Terra, com a qual
mais compatível parece o repouso do que o movimento’5. Outro e mais específico argumento
contra as rotações perpétuas encontra-se em Diverse Speculations6, de Benedetti.
‘Certamente’, diz Benedetti, ‘as rotações não são perpétuas’, pois as partes da esfera,
desejando mover-se em linha reta, são constrangidas contra a sua natureza ‘e assim
chegam, naturalmente, ao repouso’. Ainda em De Motu, encontramos crítica da asserção
segundo à qual acrescentar uma estrela à esfera celeste poderia retardar o movimento dessa
esfera, porque alteraria
142
a relação entre a força das. inteligências motoras e a resistência oferecida7. Tal asserção, ao
ver de Galileu, aplica-se a uma esfera excêntrica. Acrescentar um peso a uma esfera
excêntrica poderá, ocasionalmente, implicar ver esse peso afastar-se do centro e elevar-se a
nível mais alto: Entretanto, ‘ninguém diria que uma esfera concêntrica ver-se-á afetada pelo
peso, uma vez que, ao longo da trajetória circular, esse peso nem se aproximará nem se
afastará do centro’8; Note-se que a rotação original é, neste caso, atribuída a ‘inteligências’
— não se presume que esteja ocorrendo por si mesma. Isso está em perfeito acordo com a
teoria geral do movimento, proposta por Aristóteles, onde se postula um motor para cada
movimento e não apenas para os movimentos tumultuosos9. Galileu parece aceitar essa
parte da teoria, assim quando admite que esferas ,em rotação acabam por deter-se, como
quando acolhe ‘a força das inteligências’. Aceita, ainda, a teoria do ímpeto, que atribui
qualquer movimento a uma força interna, semelhante à força do som que permanece em um
sino longo tempo depois de ele ter sido golpeado10 e que se reconhece ‘diminuir
gradualmente’11.
Através desses. poucos exemplos, vemos que Galileu coloca em posição especial os
movimentos que não são nem naturais, nem forçados. Podem esses movimentos durar por
tempo considerável, embora não contem com o apoio do meio circundailte. Entretanto, eles
não persistem para sempre e requerem uma força impulsora interna, até mesmo para
persistirem por tempo finito.
Ora, se quisermos afastar os argumentos dinâmicos que se põem contra o movimento da
Terra (e estamos pensando antes na rotação do que no movimento em torno do Sol),
importará rever os dois princípios mencionados. Impor-se-á admitir que os movimentos
‘neutros’, discutidos por Galileu em seus primeiros trabalhos concernentes à dinâmica,
podem perdurar para sempre ou, pelo menos, podem ser de duração comparável à das idades
históricas. Impor-se-á encará-los como ‘naturais’, no sentido inteiramente novo e
revolucionário de que, para que se mante-
143
nham, não se faz necessário força impulsora interna ou externa. O primeiro pressuposto é
necessário, para explicar o aparecimento e o desaparecimento diário das estrelas. O segundo
pressuposto é necessário, caso desejemos explicar o movimento como um fenômeno relativo,
dependente da escolha de adequado sistema de coordenadas. Copémico, nas breves
considerações que faz em tomo do problema, admite o primeiro pressuposto e, talvez,
também o segundo12. Muito tempo se passa, antes de Galileu chegar a uma teoria
semelhante. A permanência ao longo de uma linha horizontal surge como hipótese em seus
Discorsi13 e, ao que parece, ambos os pressupostos são admitidos no Dialogue14. Minha
opinião é a de que uma clara idéia de movimento permanente, com (sem) ímpeto, só foi
desenvolvida por Galileu na medida em que ele gradualmente aceitava a concepção
copernicana. Galileu alterou sua maneira de ver os movimentos ‘neutros’ — tornou-os
permanentes e ‘naturais’ — para fazê-las compatíveis com a rotação da Terra e para escapar
às dificuldades do argumento da torre15. Suas novas idéias relativas a tais movimentos são,
portanto, e pelo menos parcialmente, ad hoc. O ímpeto, no sentido antigo, desapareceu, em
parte devido a razões metodológicas (interesse no como e não no por quê—
desenvolvimento que merece, por si mesmo, estudo cuidadoso) e, em parte, por causa de
incompatibilidade, vagamente percebida, com a idéia de relatividade de todos os
movimentos. Em ambos os casos, teve seu papel o desejo de não contraditar Copérnico.
Ora, se estamos certos ao presumir que, a essa altura, Galileu elaborou uma hipótese ad
hoc, caberá louvá-la por sua agudeza metodológica. É claro que a mobilidade da Terra exige
uma nova dinâmica. Um teste a que submeter a antiga dinâmica será o de explicar, através
dela, o movimento da Terra. Tentar, por esse modo, explicar o movimento da. Terra é o
mesmo que buscar uma instância refutadora da antiga dinâmica. O movimento da Terra é,
entretanto, incompatível com o experimento da torre, caso este seja interpretado nos termos
da dinâmica
144
antiga. Interpretar o experimento da torre nos termos da dinâmica antiga significa, pois,
tentar preservar a dinâmica antiga de maneira ad hoc. Quem não queira assim agir, haverá
de descobrir uma interpretação diferente para o fenômeno da queda livre. Que interpretação
escolher? Deseja-se uma interpretação que transforme o movimento terrestre em instância
refutadora da velha dinâmica, sem, contudo, emprestar apoio ad hoc ao próprio movimento
da Terra. O primeiro passo’ no sentido de tal interpretação consiste em estabelecer contato,
embora fluido, com os ‘fenômenos’, isto é, com a pedra que tomba; e consiste em estabelecer
esse contato de tal maneira que o movimento da Terra não se veja obviamente contraditado.
A fase inicial desse passo consiste em elaborar uma hipótese ad hoc relativa à rotação da
Terra. Em seguida, far-se-ia preciso refinar essa hipótese, de modo a tornar possíveis
predições adicionais. Galileu e Copémico chegaram a dar o primeiro passo. A atitude que
adotaram só parecerá condenável se esquecermos que o objetivo era o de submeter a teste
concepções antigas, antes que o de demonstrar concepções novas e se esquecermos, além
disso, que o desenvolvimento de uma teoria aceitável é processo complexo, que há de
começar modestamente e que demanda tempo. Demanda tempo, devido a que,
primeiramente, o domínio dos fenômenos possíveis há de ser circunscrito pelo posterior
desenvolvimento da hipótese copernicana. Que a hipótese permaneça ad hoc por algum
tempo e que, durante esse intervalo, o heliocentrismo se desenvolva em todas as suas
ramificações astronômicas é melhor do que mergulhar outra vez em idéias primitivas que,
por sua vez, só podem ser defendidas com o auxílio de outras hipóteses ad hoc.
Galileu valeu-se de hipóteses ad hoc. Foi bom que delas fizesse uso. Se assim não
houvesse agido, teria, de qualquer modo, adotado procedimento ad hoc — com respeito a
uma teoria anterior. Se não é possível evitar procedimento ad hoc, preferível é adotar esse
procedimento com respeito a uma teoria nova, pois uma teoria nova, tal como todas as
coisas novas,
145
produz sensação de liberdade, de arrebatamento e de progresso. Galileu merece aplausos por
ter-se inclinado a dar guarida a uma hipótese interessante e não a uma hipótese chão
NOTAS
1. Cf. Lakatos, in Criticism and the Growth of Knowledge, Cambridge, 1970. O uso de
hipóteses ad hoc no campo das ciências identifica-se ao que os antropologistas denominaram
‘elaborações secundárias’. (Ver R. Horton, ‘African Traditional Thought and Western
Science’, in Witchcraft and Sorcery, ed. N. Marwick, Londres, 1970, p. 35.) As elaborações
secundárias são consideradas uma differentia specifica, a separar a ciência da bruxaria. As
considerações que fazemos no texto (e no capítulo XII, adiante) refutam essa maneira de ver
e mostram que as diferenças — se diferenças há — devem ser buscadas alhures.
2. Galileu Galilei, De Motu. Citado de Galileo Galilei on Motion and on Mechanics, ed.
Drake e Drabkin, Madison, 1960, p. 73.
3. Ibid., p. 73.
4. Ibid., p. 78.
5. Citado de Mechanics in Sixteenth Century Italy, ed. Drake e Drabkin, Madison,1960, p.
338. Em nota 10, na mesma página, Drake comenta que ‘Galileu, quando escreveu esse
trecho, não era um copernicano’.
6. Ibid., p. 228.
7. Ibid., pp. 73 ss.
8. Ibid., p. 74.
9. Physics, VII, 1, 241b 34-6.
10. De Motu, op. cit., p. 79.
146
11. De Motu, op. cit., viii (segundo a subdivisão de Drabkin).
12. De Revolutionibus, I, capítulo 8: ‘O movimento circular, entretanto, é sempre [de
velocidade constante] porque tem uma causa que não cessa’ (grifo meu). Copérnico aceita a
doutrina aristotélica do movimento e dos elementos e procura explicar a rotação da Terra
nos termos dessa doutrina. A referência a ‘causa’ é ambígua. Poderia implicar uma versão
da teoria do ímpeto, mas também poderia significar que a Terra gira sobre si mesma com
velocidade angular constante, porque reside em seu lugar natural: ‘Conseqüentemente, um
corpo simples tem movimento simples, o que se vê, principalmente, no caso do movimento
circular, na medida em que o corpo simples se mantém em seu lugar natural e preserva sua
unidade. Nesse lugar, o movimento só pode ser circular e permanece como tal
continuamente, como se o corpo se achasse em repouso’. Considerando que Copérnico
encara a divisão de movimento em retilíneo e circular como correspondendo a um artifício
matemático ‘semelhante ao que leva a distinguir entre linha, ponto e superfície, quando é
certo que um não pode existir sem os outros e nenhum deles pode existir sem um corpo, a
segunda interpretação parece a preferível (embora encarando o mundo como um ‘animal’,
ele continue a admitir o espaço absoluto — ver adiante). Para esses problemas, cf. as
observações de Birkenmajer, em nota 82 ss. de G. Klaus (ed.) Copernicus über
Kreisbewegung, Berlim, 1959. Cf., também, o terceiro diálogo de La Cena de le Ceneri, de
Bruno, op. cit., pp. 76-85, especialmente 82 ss. O princípio utilizado por Bruno (e, talvez,
também por Copérnico), segundo o qual a Terra é um organismo, cujas partes tendem a
mover-se com o todo, possivelmente haverá sido colhido em Discourse of Hermes to Tat
(tradução inglesa in Scott, Hermetica, vol. I). Copérnico menciona Hermes uma vez, em De
Revol., i, 10, ao discutir a posição do sol: ‘No centro se coloca o Sol, a que Trisme-
147
gistus [sic] chama o Deus visível...’, cf. nota 5 do capítulo IV. Ele torna o mundo
semelhante a um organismo onde o movimento circular coexiste com o movimento retilíneo
assim como o organismo coexiste com suas doenças. (Todo o problema da relação entre
movimento circular e movimento retilíneo é extensamente examinado em First Day, no
Dialogue de Galileu.) A Terra, entretanto, ‘concebe do sol e se torna grávida, dando a luz
anualmente’ (capítulo X). Para um exame das reações diante das dificuldades físicas
oferecidas pelo movimento da Terra, cf. capítulo 1 do vol. III de A. Koyré, Études
Galiléennes, Paris, 1939.
13. Two New Sciences, Nova Iorque, 1954, pp. 215 e 250.
14. Op. cit., pp. 147 55.
15. Segundo Anneliese Maier (Die Vorlaufer Galileis im 14 Iahrhundert, Roma, 1949, pp.
151 ss.), Galileu substituiu o ímpeto pela inércia com o fim de explicar o ‘fato’ de
movimentos ‘neutros’ persistirem sempre. Antes de tudo, esse ‘fato’ não existiu. Em
segundo lugar, Galileu, de início, não acreditou, e acertadamente, que ocorresse tal fato. Foi
o que acabamos de ver. Conseqüentemente, ele não tinha necessidade de ‘explicar certos
fenômenos há pouco percebidos’ (p. 151). A necessidade era apenas teorética: ajustar,
‘salvar’ não um fenômeno, mas uma nova concepção do mundo. Para a insuficiência dos
experimentos da época, cf. nota 19 do capítulo anterior. Stillman Drake afirmou, em um
ensaio interessantíssimo e muito provocador, que ‘Galileu, na condição de físico, tratou os
movimentos inerciais como retilíneos. Não obstante, Galileu, na condição de propagandista,
ao escrever o Dialogue, assinalou que o movimento retilíneo não pode ser perpétuo,
enquanto pode sê-lo o circular... Por isso mesmo, quando no Dialogue, leio o elogio
metafísico dos círculos, não concluo, com a maioria dos historiadores, que o autor foi
incapaz de fugir ao sortilégio das antigas tradições; antes, suspeito
148
fortemente de que, nessas passagens, haja um propósito último’ (Galileo Studies, Ann
Arbor, 1970, p. 253). Para fundamentar a asserção, o autor oferece grande número de
convincentes argumentos. Tudo isso, como é claro, ajusta-se muito bem à ideologia do
presente ensaio.
149
IX
Além de alterar as interpretações naturais, Galileu alterou também as sensações que
parecem ameaçar Copérnico. Admite que tais sensações existam, louva Copérnico por não
havê-las considerado e afirma tê-las afastado com o auxílio do seu telescópio. Contudo, não
oferece razões teóricas acerca do por quê procederia esperar que o telescópio traçasse dos
céus um quadro verdadeiro.
Repito e sintetizo. Oferece-se um argumento que, fundado na observação, refuta
Copérnico. O argumento é invertido, a fim de que se ponham claras as interpretações
naturais responsáveis pela contradição. As interpretações hostis são substituídas por
outras; propaganda e apelo a certos aspectos do senso comum, remotos e de alto nível
teórico, são usados para afastar velhos hábitos e consagrar hábitos novos. As novas
interpretações naturais, também formuladas explicitamente, na condição de hipóteses
auxiliares, são estabelecidas, em parte, por emprestarem apoio a Copérnico e, em parte,
devido a considerações acerca de plausibilidade e em virtude de hipóteses ad hoc. Dessa
forma, surge uma ‘experiência’ inteiramente nova. Evidência independente continua a
faltar por completo, mas isso não é obstáculo, pois cabe esperar que decorra tempo longo
antes de o apoio independente chegar a manifestar-se. Necessária se faz uma ciência dos
objetos sólidos, e uma aerodinâmica, mas tais ciências ainda permanecem perdidas no
amanhã. Agora, entretanto, a tarefa que lhes cabe está bem definida, pois os
pressupostos de Galileu (inclusive suas hipóteses ad hoc) são
153
suficientemente claros e simples para fixar o sentido da pesquisa futura.
Observe-se, de passagem, que o procedimento de Galileu reduz drasticamente o conteúdo
da dinâmica. A dinâmica aristotélica era uma teoria geral da mudança compreendendo a
locomoção, a alteração qualitativa, a geração e a corrupção; propiciava, além disso, uma base
para a teoria da bruxaria. A dinâmica de Galileu e de seus sucessores só diz respeito à
locomoção e apenas à locomoção da matéria. Outras espécies de movimento são
desconsideradas, com a esperançosa observação (devida a Demócrito) de que, ao final, a
locomoção terá como explicar todos os movimentos. Assim, uma teoria do movimento, de
caráter empírico e amplo, é substituída por uma teoria muito mais acanhada, que se
acompanha da metafísica do movimento1 exatamente como se dá na substituição da
experiência ‘empírica’ por uma experiência que abrange elementos especulativos. Percebese,
porém, que, agora, a contra-indução passa a desempenhar importante papel vis-à-vis
teorias e vis-à-vis fatos. E favorece, indiscutivelmente, o avanço da ciência. Isso encerra as
considerações iniciadas no capítulo VI. Passo a ocupar-me, a partir deste ponto, de outro
aspecto da campanha de propaganda desenvolvida por Galileu, aspecto relacionado não com
as interpretações naturais, mas com o núcleo sensorial de nossos enunciados observacionais.
Respondendo a um interlocutor que expressara espanto diante do reduzido número de
copernicanos, Salviati, que ‘desempenha o papel de Copérnico’2, apresenta a seguinte
explicação : ‘Você se espanta por existirem tão poucos seguidores da opinião pitagórica
[segundo a qual a Terra se move), ao passo que eu me espanto por já haver surgido alguém
que a abrace e acompanhe. Jamais poderei louvar suficientemente a notável perspicácia dos
que se ligaram àquela opinião e a acolheram como verdadeira: em apoio na pura força do
intelecto, fizeram eles tal violência aos próprios sentidos que chegaram a preferir o que a
razão lhes dizia ao que, em sentido contrário,
154
a experiência sensível apontava claramente. Com efeito, os argumentos contra o girar [a
rotação] da Terra até agora examinados [os argumentos de ordem dinâmica acima expostos]
são, como pudemos ver, muito plausíveis; e o fato de os adeptos de Ptolomeu e de
Aristóteles, bem como todos os seus discípulos, os haverem considerado concludentes,
constitui, sem dúvida, forte elemento em prol de sua eficácia. Contudo, as experiências que
frontalmente contradizem o movimento anual [o movimento da Terra em torno do Sol] são
tão mais poderosas que, repito, não têm limites nem espanto quando recordo que Aristarco e
Copérnico foram de tal maneira hábeis no levar a razão a sobrepor-se aos sentidos que, em
detrimento destes últimos, aquela se transformou em reitora de suas convicções’3.
Pouco adiante, Galileu observa que ‘eles [os copernicanos] confiavam no que a razão lhes
ditava’4. E conclui sua breve explanação acerca das origens da doutrina de Copérnico,
registrado: ‘tomando a razão como guia, ele [Copérnico] continuou resolutamente a afirmar
o que a experiência sensível parecia contradizer’. ‘Não posso dominar meu assombro’, repete
Galileu, ‘ao vê-lo constantemente inclinado a persistir em afirmar que Vênus talvez gire em
torno do Sol e talvez esteja, em certas ocasiões, sessenta vezes mais próxima de nós do que
em ocasiões outras, continuando a ter sempre o mesmo aspecto, quando deveria parecer
quarenta vezes maior’5.
As ‘experiências que frontalmente contradizem o movimento anual’ e ‘que são tão mais
poderosas’ consistem no fato de que ‘Marte, quando próximo de nós... deveria parecer
sessenta vezes maior do que ao estar no ponto mais afastado. Entretanto, não se percebe essa
diferença. Ao contrário, quando em oposição ao Sol, e mais próximo de nós, parece apenas
quatro ou cinco vezes maior do que quando, ao estar em conjunção, oculta-se por detrás dos
raios do Sol’6.
‘Outra dificuldade, e dificuldade maior, é provocada por Vênus que, se circulasse em
volta do Sol, como diz Copérnico, ora estaria além e ora aquém dele, afastando-se e
aproxi
155
mando-se de nós do equivalente ao diâmetro do círculo que descreve. Assim, quando está
aquém do Sol e muito próxima de nós, seu disco deveria parecer-nos pouco menos de
quarenta vezes maior do que quando aquele planeta se encontra para além do Sol, próximo
do ponto de conjunção. Sem embargo, a diferença é quase imperceptível.’7
Em ensaio anterior, The Assayer, Galileu expressou-se de maneira ainda mais
contundente. Respondendo a um adversário que havia levantado a questão do
copernicanismo, observa ele que ‘nem Tycho, nem outros astrônomos, nem mesmo
Copérnico, pôde refutar claramente (Ptolomeu), tanto mais que sempre tiveram pela frente
o argumento que decorre do movimento de Marte e Vênus’. (Esse ‘argumento’ volta a ser
mencionado no Dialogue e acaba de ser referido.) Conclui ele que ‘os dois sistemas’ (o
copernicano e o ptolomaico) são indiscutivelmente falsos’8.
Assim, novamente percebemos que a concepção de Galileu acerca da origem do
copernicanismo difere acentuadamente das explanações históricas habituais. Não aponta ele
fatos novos que ofereçam apoio indutivo à idéia de Terra em movimento, nem menciona
quaisquer observações que refutariam o ponto de vista geocêntrico, mas que seriam
explicadas pelo copernicanismo. Ao contrário, sublinha que tanto as concepções de
Ptolomeu quanto as de Copérnico são refutadas pelos fatos9 e elogia Aristarco e Copérnico
por não haverem desanimado em face dessas tremendas dificuldades. Louva-os por haverem
agido contra-indutivamente.
Isso, entretanto, não encerra a questão 10.
Realmente, embora caiba admitir haver Copérnico agido simplesmente com base na fé11,
cabe dizer, também, que Galileu se viu em posição inteiramente diversa. Afinal de contas,
Galileu inventou uma nova dinâmica. E inventou o telescópio. A nova dinâmica, poder-seladesejar
assinalar, afasta a incoerência entre o movimento da Terra e as ‘condições que
afetam a nós e aos que se acham no espaço acima de nós’12. E o telescópio afasta
156
o conflito ‘ainda mais claro’ entre as alterações do brilho aparente de Marte e Vênus, tal
como previsto no esquema copernicano e tal como percebido a olho desarmado. Notemos, de
passagem, que essa também é a maneira de ver de Galileu. Admite que ‘não fosse pela
existência de um sentido superior e mais aperfeiçoado que o sentido natural e comum, a
juntar forças às da razão, ‘e ele se mostraria’ muito mais recalcitrante com respeito ao
sistema copernicano’13. O ‘sentido superior e mais aperfeiçoado’ é, naturalmente, o
telescópio e sentimo-nos inclinados a observar que o procedimento aparentemente contraindutivo
era, em verdade, indução (ou conjectura plus refutação plus nova conjectura);
todavia, era uma indução com apoio em experiência aperfeiçoada, englobando não apenas
interpretações naturais melhores, como também núcleo sensorial mais avançado que o
existente ao tempo dos aristotélicos predecessores de Galileu14. Trata-se de assunto que
importa examinar em pormenor.
O telescópio é um ‘sentido superior e mais aperfeiçoado’ que oferece evidência nova e
mais fidedigna para a avaliação de questões astronômicas. Como é tal hipótese examinada e
que argumentos são apresentados em seu favor?
No Sidereus Nuncius15, publicação em que são referidas suas primeiras observações
telescópicas, trabalho a contribuir para sua fama, Galileu registra que ‘obteve êxito (na
construção do telescópio) graças a profundo estudo da teoria da refração’. Sugere isso que
ele tinha razões teoréticas para preferir o resultado das observações por telescópio ao das
observações a olho desarmado. Entretanto, a particular razão que ele apresenta — mais
aprofundado conhecimento da teoria da refração — nem é correta nem é suficiente.
A razão não é correta por existirem sérias dúvidas quanto ao conhecimento de Galileu
acerca das partes da ótica física de seu tempo que seriam relevantes para a compreensão dos
fenômenos telescópicos. Em uma carta que dirigiu a Giuliano de Médici, no dia 19 de
outubro de 161016, mais de ano e
157
meio após a publicação de Sidereus Nuncius, Galileu solicita um exemplar da Ótica, de
Kepler, publicada em 160417, e assinala que não tinha ainda podido consegui-la na Itália.
Jean Tarde, que, em 1614, interrogou Galileu a propósito da construção de telescópios de
preestabelecido grau de aumento, relata, em seu diário, que ele considerava difícil essa
questão e que havia julgado a Ótica publicada por Kepler em 161118 tão obscura ‘que talvez
seu próprio autor não a tenha entendido’19. Em carta endereçada a Liceti, escrita dois anos
antes de sua morte, Galileu observou que, no a ele concernente, a natureza da luz
continuava a ser obscura20. Ainda que encaremos esses pronunciamentos com a cautela
que se faz necessária no caso de um autor fantasioso, como Galileu, teremos de reconhecer
que seu conhecimento de ótica era muito inferior ao de Kepler21. Essa é também a conclusão
do Professor E. Hoppe, que resume a questão nos termos seguintes:
‘A afirmação de Galileu, segundo a qual, tendo ouvido falar do telescópio holandês,
reconstruiu o aparelho através de cálculo matemático, deve, naturalmente, ser entendida
cum grano salis, pois que, em seus trabalhos, não encontramos tais cálculos e o relato que,
em carta, ele faz de seus primeiros esforços, registra que não havia podido dispor de
melhores lentes; seis dias depois, vemo-lo a caminho de Veneza, levando uma peça melhor,
para ser dada de presente ao doge Leonardi Donati. Isso não parece cálculo; mais parece
tentativa e erro. O cálculo parece ter sido de outra espécie e, aqui, ele alcançou êxito, pois,
no dia 25 de agosto de 1609, seu salário foi aumentado de três vezes’22.
Tentativa e erro — significa isso que ‘no caso do telescópio, não a matemática e sim a
experiência foi que levou Galileu a uma serena fé na fidedignidade de seu instrumento’23.
Esta segunda hipótese a propósito da origem do telescópio é também apoiada por
testemunho de Galileu, tendo ele escrito que havia submetido o telescópio a testes ‘uma
centena de milhares de vezes, com relação a uma centena de milhares de estrelas e
158
outros objetos’24. Esses testes produziram resultados notáveis e surpreendentes. A
bibliografia da época — livros, cartas, registros de mexericos — dá notícia do
extraordinário impacto que o telescópio causou como forma de aperfeiçoar a visão terrestre.
Julius Caesar Lagalla, professor de Filosofia em Roma, descreve uma reunião realizada
aos 16 de abril de 1611 , ocasião em que Galileu fez demonstração de seu aparelho:
‘Estávamos no topo do J aniculum, perto do portão da cidade que tem o nome de Espírito
Santo, onde se diz ter sido a vila do poeta Marcial, hoje propriedade do Reverendíssimo
Malvasia. Através do aparelho, vimos tão distintamente o palácio do ilustríssimo Duque
Altemps, nas Colinas Toscanas, que facilmente contamos todas e cada qual de suas janelas
— e a distância é de dezesseis milhas italianas. Do mesmo lugar, lemos as letras esculpidas
na galeria que, para as bênçãos, Sixto erigiu no Laterano e pudemos ler tão claramente, a
uma distância de pelo menos duas milhas, que distinguíamos os pontos lavrados entre as
letras’25.
Outros relatos confirmam este e similares eventos. O próprio Galileu acentua ‘o número
e a importância dos benefícios que se pode esperar sejam proporcionados pelo instrumento,
quando usado em terra ou no mar’26. O êxito terrestre do telescópio estava, portanto,
assegurado. Sua aplicação às estrelas era, entretanto, algo inteiramente diverso.
NOTAS
1. A chamada revolução científica levou a assombrosas descobertas e aumentou
consideravelmente nosso conhecimento de Física, Fisiologia e Astronomia. Conseguiuse
isso, afastando, considerando como irrelevante e, freqüentes
159
vezes, como não-existentes, fatos que haviam dado apoio à filosofia anterior. Assim, todas as
evidências em favor da bruxaria, da possessão demoníaca, da existência do diabo, etc. foram
descartadas, ao mesmo tempo em que eram descartadas as ‘superstições’ por elas
confirmadas. O resultado foi que, ‘ao término da Idade Média, a ciência viu-se forçada a
apartar-se da psicologia humana, de sorte que até mesmo o grande esforço de Erasmo e de
seu amigo Vives, os mais altos representantes do humanismo, não bastou para provocar
uma reaproximação e a psicopatologia teve de acompanhar de longe, durante séculos, as
tendências desenvolvimentistas da medicina geral e da cirurgia. Em verdade... o divórcio
entre a ciência médica e a psicopatologia foi tão definitivo que esta última se viu totalmente
relegada ao domínio da teologia e do direito civil e canônico — dois domínios que,
naturalmente, mais e mais se afastaram da medicina...’ G. Zilboorg, M. D., The Medical
Man and the Witch, Baltimore, 1935, pp. 3 ss. e 70 ss. A astronomia avançou, mas o
conhecimento acerca do homem caminhou para o estágio anterior e mais primitivo. Outro
exemplo é o da astrologia. ‘Nos primeiros estágios do espírito humano’, escreve A. Comte.
(Cours de Philosophie Positive, vol. III, pp. 273-80, ed. Littré, Paris, 1836), ‘esses elos entre
astronomia e biologia foram estudados de um diferente ponto de vista, mas, ao menos, foram
estudados e não abandonados, como é a tendência comum em nosso tempo, que está sob a
influência limitadora de um positivismo nascente e incompleto. Por trás da fantasiosa
crença que a filosofia antiga depositava na influência fisiológica das estrelas, está a forte,
embora confusa, convicção de que os fatos da vida são, de alguma forma, dependentes do
sistema solar. À semelhança de todas as primitivas inspirações da inteligência do homem,
tal sentimento exigia retificação, por meio da ciência positiva — e não destruição;
embora, infelizmente, em
160
ciência, tal como em política, é, com freqüência, difícil reorganizar sem atravessar um breve
período de subversão’.
2. Dialogue, op. cit., pp. 131 e 256.
3. lbid., p. 328. Em outras ocasiões, Galileu se expressa muito mais belicosa e
dogmaticamente, na aparência, ignorando as dificuldades aqui referidas. Cf. suas notas
preparatórias para a carta endereçada à Grã-Duquesa Cristina, Opera, V, pp. 367 ss.
4. Ibid, p. 335.
5. Ibid., p. 339.
6. Ibid., p. 334.
7. Para minúcias concernentes à variação das magnitudes planetárias, cf. Apêndice I do
presente capítulo.
8. The Assayer, citado com base em The Controversy on the Comets of 1918, op. cit., p. 184.
9. Isto se refere ao período que antecede o fim do século XV; cf. Derek J. de S. Price,
‘Contra-Copernicus: A Critical Re-Estimation of the Mathematical Planetary Theory of
Ptolomy, Copernicus and Kepler’, Critical Problems in the History of Science, ed. M.
Clagett, Madison, 1959, pp. 197-218. Price ocupa-se apenas das dificuldades cinemáticas e
óticas enfrentadas pelas concepções novas. (Consideração das dificuldades dinâmicas
reforçaria o ponto por ele defendido.) Assinala Price que, ‘nas condições mais favoráveis,
um sistema geostático ou heliostático, recorrendo a círculos excêntricos ( ou seus
equivalentes) e epiciclos centrais, pode explicar os movimentos angulares dos planetas com
acuidade superior a 6’... exceto a teoria que se faz necessária para explicar... Mercúrio e
excetuado também o planeta Marte que se desvia de mais de 30’, nos termos dessa teoria.
[Essa acuidade] é certamente superior à acuidade de 10’ que o próprio Copérnico julgou
objetivo satisfatório de sua própria teoria’ e que era difícil de submeter a teste, especialmente
em vista do fato de que a refração (quase 10 no horizonte) não era
161
levada em conta ao tempo de Copérnico e de que a base observacional das previsões era bem
pouco satisfatória.
Carl Schumacher (Untersuchungen über die ptolemäische Theorie der unteren Planeten,
Münster, 1917) verificou que as predições concernentes a Mercúrio e Vênus, feitas por
Ptolomeu, diferem, quando muito, de 30’ das feitas por Copérnico. Os desajustes
encontrados entre predições modernas e as de Ptolomeu (e Copérnico) que, no caso de
Mercúrio, chegam a 7 º, devem-se principalmente a constantes errôneas e equivocada
consideração de condições iniciais, inclusive a um incorreto valor atribuído à constante de
precessão. Quanto à versatilidade do esquema ptolomaico, cf. N. R. Hanson, Isis, nº. 51,
1960, pp. 150-8.
10. Alguns enunciados de caráter histórico apresentados neste e nos capítulos seguintes, até
e inclusive o capítulo XI, bem como as inferências delas retiradas, são objeto de contestação
em recente ensaio que aparece em Studies in the History an Philosophy of Science, maio de
1973, pp. 11-46, ensaio preparado por P. K. Machamer, com o auxílio de G. Buchdahl, L.
Laudan e outros especialistas. Exame do ensaio é feito no Apêndice II ao presente capítulo.
11. Ele assim não agiu, como se pode ver da nota 12, capítulo VIII, e da nota 7, capítulo IX,
do presente ensaio.
12. Ptolomeu, Syntaxis, i, 7.
13. Dialogue, op. cit., p. 328.
14. Quanto a essa concepção, cf. Ludovico Geymonat, Galileo Galilei, versão Stillman
Drake, Nova Iorque, 1965 (1ª edição italiana, 1957), p. 184.
15. The Sidereal Messenger of Galileo Galilei, versão E. St. Carlos, Londres, 1880, nova
publicação por Dawsons of Pall Mall, 1960, p. 10.
16. Galileu Galilei, Opere, Ediz. Naz., x, p. 441.
162
17. Ad Vitellionem Paralipomena quibus Astronomiae Pars Optica Traditur, Frankfurt,
1604, citado segundo Johannes Kepler, Gesammelte Werke, vol. II, Munique, 1939, ed.
Franz Hammer. A esse particular trabalho faremos referência falando na ‘ótica de 1604’.
Era, no tempo, a única obra útil acerca de ótica. A razão da curiosidade de Galileu foram,
muito provavelmente, as numerosas referências feitas a essa obra na resposta de Kepler ao
Sidereus Nuncius. Para a história dessa resposta (e sua tradução), cf. Kepler’s Conversation
with Galileo’s Sidereal Messenger, versão E. Rosen, Nova Iorque, 1865. As muitas
referências à obra anterior, contidas em Conversation, foram interpretadas, por alguns
inimigos de Galileu, como sinal de que ‘a máscara fora arrancada de seu rosto’ (G. Fugger a
Kepler, 28 de maio de 1610; Galileu, Opere, vol. X, p. 361) e de que (Kepler) ‘o havia
apanhado’ (Maestlin a Kepler, 7 de agosto; Galileu, Opere, vol. X, p. 428). Galileu deve ter
recebido a Conversation antes de 7 de maio (Opere, X, p. 349) e acusa recebimento da
Conversation, impressa, em uma carta dirigida a Kepler no dia 19 de agosto (Opere, X, p.
421).
18. Dioptrice, Augsburg, 1611, Werke, vol. IV, Munique, 1941. Essa obra foi escrita depois
das descobertas de Galileu. A referência que a elas faz Kepler, no prefácio, foi vertida para o
inglês por E. St. Carlos, op. cit., pp. 37, 19 ss. O problema a que se refere Tarde é abordado
no Dioptrice, de Kepler.
19. Geymonat, op. cit., p. 37.
20. Carta a Liceti, datada de 23 de junho de 1640. Opere, VIII, p. 208.
21. Kepler, o mais culto e simpático dos contemporâneos de Galileu, dá clara explicação das
razões por que, a despeito de seu grande conhecimento de questões óticas, ‘deixou de tentar
construir o aparelho’. ‘Você, entretanto’ — dirige-se a Galileu — ‘merece cumprimentos.
Libertando-se de todos
163
os receios, voltou-se diretamente para a experimentação visual’ (Conversation, op. cit., p.
18). Resta acrescentar que Galileu, devido à sua falta de conhecimento de ótica, não tinha
‘receios’ de que se libertar: ‘Galileu... ignorava completamente a ciência da ótica e não é
muito ousado admitir que esse foi um acidente feliz, tanto para ele quanto para a
humanidade’, Ronchi, Scientitic Change, ed. Crombie, Londres, 1963, p. 550.
22. Die Geschichte der Optik, Leipzig, 1926, p. 32. A posição de Hoppe, no que diz respeito
à invenção do telescópio, é também a de Wolf, Zinner e outros. Huyghens assinala que seria
necessária inteligência sobre-humana para inventar o telescópio com base na Física e na
Geometria então conhecidas. Afinal de contas, diz ele, ainda não entendemos o
funcionamento do telescópio. (‘Dioptrica’, Hugenii Opuscula Postuma, Ludg. Bat., 1903,
163, parafraseada de A. G. Kastner, Geschichte der Mathematik, vol. IV, Gõttingen, 1800,
p. 60.)
Vários autores a cuja falta de imaginação e equilíbrio fazem honra seus elevados padrões
morais, foram iludidos pelos numerosos indícios da frivolidade de Galileu e procuraram
atribuir suas ações a elevados (e insípidos) motivos. Episódio muito menos importante, ou
seja, o silêncio de Galileu a respeito das realizações de Copérnico, no Trattato della Sfera
(Opere, II 211 ss. —menciona-se a idéia de movimento da Terra, mas não o nome de
Copérnico) numa ocasião em que, segundo alguns, já havia aceito o credo copernicano,
levou a muita cogitação e a algumas convenientes hipóteses ad hoc, até mesmo um autor tão
superficial como L. Geymonat (op. cit., 23). Entretanto, não há razão para que um homem,
e homem extremamente inteligente, se conforme com os padrões dos antiquados acadêmicos
de hoje e para que deixe de, à sua maneira, ampliar os interesses que tem. Estranho
princípio moral é o que requer que um pensador seja
164
um divulgador que ‘expressa’ apenas o que acredita ser ‘a verdade’ e nunca menciona
aquilo em que não crê. (Isso é o que exige a atual busca de autenticidade?) Uma visão
puritana desse tipo é, por certo, base demasiado ingênua para permitir compreender um
homem de fins da Renascença e início do período barroco. Além disso, Galileu, o charlatão, é
figura muito mais interessante que o contido ‘investigador da verdade’ que somos
convidados, habitualmente, a reverenciar. Veremos que só através de escamoteações dessa
ordem é que se podia fazer progresso naquela época. Cf., também, nota 19 do presente
capítulo.
As maquinações da propaganda de Galileu são freqüentemente orientadas pela percepção
de que as instituições existentes, as condições sociais e os preconceitos podem dificultar a
aceitação de idéias novas, implicando que estas tenham talvez de ser introduzidas de
maneira ‘indireta’, forjando elos entre as circunstâncias de sua origem e as forças capazes
de ameaçar-lhes a sobrevivência. Assim agindo, no caso da doutrina copernicana, Galileu
mais de uma vez se afasta da trilha reta da verdade (seja esta qual for). Na carta à Grã-
Duquesa Cristina (citada com base em St. Drake, Discoveries and Opinions of Galileo,
Nova Iorque, 1957, p. 178) diz ele que ‘era Copérnico... não apenas católico, mas um
sacerdote e cônego. Em tão grande estima o tinha a Igreja que, ao reunir-se o Conselho
Laterano, sob a direção de Leão X e decidir-se pela correção do calendário eclesiástico, foi
chamado Copérnico das profundezas da Alemanha a Roma, a fim de proceder à reforma’.
Em verdade, entretanto, Copérnico jamais recebeu ordens eclesiásticas, não foi chamado a
Roma e o Calendário Gregoriano foi estabelecido em oposição a ele. ‘Por que falseou Galileu
esse aspecto da biografia de Copérnico? Como católico fiel, Galileu estava empenhado na
esforçada tentativa de evitar cometesse a Igreja o crasso erro [?] de condenar a dou-
165
trina copernicana como heresia. Ao longo de sua apaixonada campanha, Galileu fez, acerca
de Copérnico, numerosas afirmativas históricas errôneas, com o propósito de colocar o
astrônomo revolucionário mais próximo da Igreja Católica Romana do que os puros fatos
indicavam’. Rosen, biografia de Copérnico, in Three Copernican Treatises, Nova Iorque,
1971, p. 320. Isso nos lembra a observação de Kant, segundo a qual as mentiras ‘(podem)
por algum tempo, ter a função de elevar a humanidade acima de seu passado rude’. Crítica,
B 776, 16.
23. Geymonat, op. cit., p. 39.
24. Carta endereçada a Carioso, 25 de maio de 1616, Opere, X, p. 357; carta a P. Dini, 12
de maio de 1611, Opere, IX, p. 106: ‘Nem se ponha em dúvida que eu, por um período de
mais de dois anos, venho ensaiando meu instrumento (ou, antes, dezenas de instrumentos
meus), dirigindo-o a centenas de milhares de objetos, próximos e distantes, grandes e
pequenos, brilhantes e obscuros; não percebo, portanto, como pode alguém haver imaginado
que eu fiquei ingenuamente frustrado em minhas observações’. As centenas e milhares de
experimentos lembram aqueles de Hooke e é quase certo que sejam igualmente espúrios. Cf.
nota 8 do capítulo X.
25. Lagalla, De phaenomenis in orbe lunae novi telescopii usa a D. Galileo Galilei nunc
iterum suscitatis physica disputatio (Veneza, 1612), p. 8; citado com base em E. Rosen, The
Naming of the Telescope, Nova Iorque, 1947, p. 54. Os relatos periódicos (Avvisi) do
Ducado de Urbino, acerca de acontecimentos e boatos em Roma, contêm a seguinte
referência do evento: ‘Galileu Galilei, o matemático, vindo de Florença, aqui chegou antes
da Páscoa. Foi professor em Pádua e está atualmente a serviço do Grão-Duque da Toscana,
com um salário de 1.000 escudos. Ele observa o movimento das estrelas com o occiali que
inventou ou, melhor, aperfeiçoou. Contra a opinião de
166
todos os filósofos antigos, declara ele que há outros quatro planetas ou estrelas, que são
satélites de Júpiter a que ele denomina corpos dos Médici, bem como dois acompanhantes de
Saturno. Aqui, discutiu essa opinião com padre Clavius, o jesuíta. Na quinta-feira à noite,
na propriedade de Monsignor Malavasia, para além do portão de São Pancrácio, lugar
amplo e aberto, foi-lhe oferecido um banquete por Frederico Cesi, Marquês de Monticelli e
sobrinho do Cardeal Cesi, que se fazia acompanhar de seu parente, Paulo Monaldesco. Na
reunião estiveram Galileu; um flamengo chamado Terrentius; Pérsio, da comitiva do
Cardeal Cesi; [La] Galla, professor de nossa Universidade; o grego, que é o matemático do
Cardeal Gonzaga; Piffari, professor em Siena; e outras oito pessoas. Alguns saíram
especialmente para fazer a observação, mas embora houvessem permanecido fora até uma
hora da manhã, não chegaram a concordar quanto ao que viram’ (citado com base em
Rosen, op. cit., p. 31).
26. Sidereal Messenger, op. cit., p. ii. Segundo Berellus (De Vero Telescopii Inventore,
Haia, 1655, p. 4), o príncipe Moritz imediatamente compreendeu o valor militar do
telescópio e ordenou que a invenção — atribuída por Berellus a Zacharias Jansen - fosse
mantida em segredo. Assim, o telescópio parece ter começado por ser arma secreta e só
posteriormente foi usado na Astronomia. A literatura se refere a muitos predecessores do
telescópio, que se coloca, entretanto, no domínio da mágica natural e aí é usado. Um
exemplo é o de Agrippa von Nettesheim que, em seu livro a respeito de filosofia ocultista
(escrito em 1509, Livro II, capítulo 23) registra: ‘et ego novi ex illis miranda conficere et
specula in quibus quis videre poterit quaecunque voluerit a longissima distantia’. ‘Assim o
brinquedo de uma época veio a ser o precioso tesouro de outra’, Henry Morley, The Life of
Cornelius Agrippa von Nettesheim, vol. II, p. 166.
167
168
Apêndice I
A variação das magnitudes dos planetas desempenhou, de tempos em tempos,
importante papel no desenvolvimento da teoria planetária. Nos termos do De Coelo, II, 12,
de Simplício. Aristóteles notou o fenômeno, porém não revisou sua astronomia de esferas
concêntricas. Hiparco hierarquizou as magnitudes das estrelas fixas, distribuindo-as em
escala numérica de 1 (as estrelas mais brilhantes) a 6 (apenas visíveis), tomando por base a
visibilidade das estrelas ao amanhecer (Zinner, Entstehung und Ausbreitung der
Kopernikanischen Lehre, Erlangen, 1943, p. 30); e, a partir da alteração de brilho das
estrelas fixas (Plínio, Hist. Nat., II, 24), e planetas (II, 13), inferiu o movimento radial.
Ptolomeu, Syntaxis, IX, 2, define o objetivo da teoria planetária como sendo o de mostrar
que ‘as anomalias manifestas surgem devido ao movimento circular (de velocidade angular
constante)’ e passa a tratar das duas anomalias de locomoção, sem jamais referir-se a brilho.
‘Salva’ as anomalias, no sentido de que as explica em termos de círculos percorridos com
velocidade angular constante e não no sentido de que chega a uma fórmula arbitrária
para prever os fenômenos. (Que este sentido de ‘salvar’ é o correto foi sustentado
171
por F. Krafft, Beiträge zur Geschichte der Wissenschaft und Technik, nº. 5, Wiesbaden,
1955, pp. 5 ss.) De acordo com Simplício, De Coelo, II, 12 e Prado, Hypotyposis, I, 18, os
fenômenos a serem ‘salvos’, neste sentido, incluem o fato de que, ‘os próprios planetas
alteram o brilho’ e essa alteração é salva ‘por excêntricos e epiciclos’ (Hypot., VII, 13).
Posteriormente, quando o esquema do epiciclo passou a ser encarado como simples artifício
de cálculo (cf. Duhem, To Save the Phenomena, Chicago, 1969, para referências), a
alteração de brilho foi afastada do domínio dos fenômenos a serem salvos, chegando,
algumas vezes, a ser usada como argumento contra uma interpretação literal da alteração
de distância entre a Terra e o planeta (ver adiante, quando se fala de Osiandro). Não
obstante, alguns astrônomos usaram a discrepância entre a variação de distância, tal como
calculada segundo uma forma de entender Ptolomeu, e as reais alterações de magnitude
como argumento contra o sistema dos epiciclos. Exemplos: Henrique de Hesse, De
improbatione concentricorum et epicyclorum (1364) e Mestre Julmann, Tractatus de
reprobationibus epicyclorum et eccentricorum (1377) (paráfrase de Zinner, pp. 81 ss.) De
acordo com Henrique de Hesse, o brilho de Marte, calculado segundo as indicações de al-
Farghani, varia a uma razão aproximadamente 1:100, enquanto a comparação que se faz
com uma vela, colocada, inicialmente, a uma distância onde tem brilho semelhante ao brilho
máximo de Marte e, depois, afastada do equivalente a dez vezes essa distância, mostra que,
no seu mínimo de brilho, Marte deveria ser invisível. Mestre Julmann calcula as alterações
de magnitude em 42:1 no caso de Vênus, 11:1 no caso de Marte, 4:1 no caso da Lua, e 3:1
no caso de Júpiter, o que, afirma ele, contradiz a observação. Regiomontanus refere-se a
improváveis alterações de brilho em Vênus e Marte (Zinner, p. 133).
Usando os dados de Syntaxis, X, 7, o cálculo, no caso de Marte, leva a uma variação de
diâmetro de 1:8, a uma variação do disco de aproximadamente 1:64 (o que, segundo a
ótica de
172
Euclides, é a medida correta para a variação de brilho). A variação real é de quatro
magnitudes, isto é, situa-se entre 1:16 e 1:28, ou seja, difere, entre uma e quatro
magnitudes, das magnitudes calculadas (o espaçamento se deve ao espaçamento de base das
magnitudes). No caso de Vênus, a diferença é ainda mais clara. Copérnico (De Revol.,
capítulo 10, último parágrafo) e Réticus, (Narratio Prima, in E. Rosen (ed.), Three
Copernican Treatises, Nova Iorque, 1969, p. 137) entendem que o problema está resolvido
— mas não está. No Commentariolus, os valores para Marte são os seguintes: raio do
‘grande círculo’, 23; raio do deferente, 38; raio de primeiro epiciclo, 5 (cf. Rosen, op. cit., pp.
74, 77); em conseqüência, distância mais longa/distância mais curta ~ 50 + (38 — 25) +
5/(38 —25) —5 ~ 8, tal como anteriormente (Galileu, op. cit., pp. 321 s., dá o valor 1:8
para Marte e 1:6 para Vênus) . Se as estimativas de magnitude existentes entre os séculos
XIV e XVII fossem suficientemente precisas para indicar uma discrepância entre as
previsões de Ptolomeu e as variações reais — e Henrique de Hesse, Regiomontanus e
Copérnico acreditavam que fossem — então, o problema das magnitudes planetárias
apareceria inalterado em Copérnico (e essa é também a opinião de Derek Price, ‘Contra
Copernicus’, loc. cit., 213). A situação é reconhecida pelo muito caluniado Osiandro, que
menciona o problema na introdução a De Revol., apresentando-a como argumento favorável
à natureza ‘hipotética’, isto é, instrumentalista, da cosmologia copernicana. Escreve ele:
‘Não se faz necessário que tais hipóteses sejam verdadeiras; nem se faz necessário que
pareçam verdadeiras; basta que levem a cálculos capazes de se colocar em consonância com
os resultados da observação; exceto para alguém ignorante em questões de ótica e de
geometria que se incline a entender que o epiciclo de Vênus se assemelha à verdade e a
admitir que tal é a causa de o planeta estar ora quarenta (ou mais) graus adiante do Sol, ora
os mesmos graus atrás dele. Quem não perceberá que admitir isso implica admitir,
173
necessariamente, que o diâmetro do planeta, quando próximo da Terra, há de ser quatro
vezes maior do que ao achar-se ele à mais afastada existência da Terra e seu corpo mais de
sessenta vezes maior —- fato que é contraditado pela experiência de todas as idades’. (Grifo
meu.)
A passagem grifada, que é omitida tanto pelos que criticam Osiandro como pelos que o
apóiam (Duhem, p. 66, cita o trecho anterior e o posterior à passagem - mas não a própria
passagem), esclarece a natureza de seu instrumentalismo. Sabemos que ele foi um
instrumentalista não só por motivos filosóficos, mas também por motivos táticos (carta a
Réticus, datada de 20 de abril de 1541, reproduzida em K. H. Burmeister, Georg Joachim
Rheticus, III, Wiesbaden, 1968, p. 25) e porque o instrumentalismo se colocava na linha de
uma poderosa tradição no campo da Astronomia (carta a Copérnico, 20 de abril de 1541,
traduzida in Duhem, p. 68). Agora, percebemos que sua filosofia apoiava-se, a par disso, em
razões físicas, interpretado de maneira realista, Copérnico se punha em incompatibilidade
com fatos óbvios. Este ponto não vem mencionado no bombástico trabalho de Popper, ‘Three
Views Concerning Human Knowledge’, Conjectures and Refutations, Nova Iorque, 1962,
pp. 97 ss., onde Osiandro é citado —mas apenas até o ‘exceto’, que introduz as razões
físicas de seu procedimento. O Osiandro de Popper é, assim, apresentado como um
dogmatista filosófico, enquanto é, de fato, um verdadeiro popperiano: toma a sério as
refutações. Cf. também meu ensaio, ‘Realism and Instrumentalism’, in The Critical
Approach, ed. Bunge, Nova Iorque, 1964. O argumento de Osiandro é examinado e
definitivamente rejeitado por Bruno, La Cena de le Ceneri, Opere Italiane, I, ed. Gentile,
Bari, 1907, p. 64. ‘A magnitude visível de um objeto fulgurante não nos permite inferir-lhe
a magnitude real ou distância a que se encontre.’ Isso é certo, mas não foi aceito por Galileu,
que precisa explorar a dificuldade para melhor propaganda de seu telescópio.
174
Apêndice II
O ensaio de Machamer, embora visando a apresentar Galileu como homem disciplinado e
metódico, não invalida meu argumento principal. Galileu viola importantes regras de
método científico, regras criadas por Aristóteles, aprimoradas por Grosseteste (entre
outros), consagradas pelos positivistas lógicos (tais como Carnap e Popper): Galileu alcança
êxito porque não obedece a essas regras. Seus contemporâneos, com reduzidíssimas
exceções, deixaram de parte certas dificuldades fundamentais que se manifestaram àquela
época; e a ciência moderna desenvolveu-se com rapidez e segundo orientação ‘correta’ (do
ponto de vista dos atuais aficcionados da ciência) em razão dessa negligência. A ignorância
foi uma bênção. De outra parte, mais determinada aplicação das normas do método
científico, mais determinada busca dos fatos relevantes, longe de acelerar esse
desenvolvimento, haveria conduzido a uma estagnação. Esses são os pontos que desejo
realçar em minha maneira de ver o caso Galileu. Tendo-os em mente, que será possível dizer
acerca das alegações de Machamer e seus colegas?
‘Ao discutir certo ponto’, escreve Machamer, ‘Feyerabend ignora... insistentemente
outras passagens relevantes’ — com
177
isso, quer ele dizer que só examino o que tenho por pontos falhos em Galileu, ignorando os
muitos e excelentes argumentos que ofereceu para demonstrar o movimento da Terra.
Tendo em vista meus propósitos, foi lícito agir como eu agi. Com efeito, para mostrar que a
generalização ‘todos os corvos são negros’ é sustentada com questionável fundamento, basta
apresentar um corvo branco e revelar as tentativas feitas no sentido de escondê-lo, de
transformá-lo em um corvo preto ou de levar as pessoas a acreditarem que ele é, na verdade,
preto; e é perfeitamente razoável ignorar os muitos corvos pretos que indubitavelmente
existem. Para mostrar que o enunciado ‘a Terra se move’ é sustentado por fundamentos
discutíveis, basta apresentar um único obstáculo a essa concepção e indicar as tentativas
feitas no sentido de ocultá-lo ou de transformá-lo em evidência favorável à afirmação; podese,
novamente, com toda naturalidade, ignorar os pontos em prol da hipótese que, diga-se de
passagem, são muito mais frágeis e ambíguos no caso de Galileu do que no caso dos corvos:
as fases de Vênus, mencionadas por Machamer, não tornam o movimento da Terra mais
plausível, como ele próprio o reconhece (Tycho!), e Galileu os encara erradamente,
acrescentando prova desfavorável a seu ponto de vista. A teoria das marés, a que Machamer
dá posição proeminente, como argumento em favor do movimento da Terra, só passa a
desempenhar essa função se esquecermos as dificuldades que faz surgir (suficientemente
grandes para serem percebidas até pelo mais míope dos marinheiros) e exatamente assim
procede Galileu, que deixa de considerar as provas contra o movimento da Terra (e isto é
admitido por Machamer, p. 9). O fato— se é um fato — de que alguns menos categorizados
estudiosos, contemporâneos de Galileu, consideraram o ponto interessante, acolheram-no e
nele trabalharam, só prova o que afirmo, isto é, que a pesquisa sempre viola importantes
regras metodológicas e não pode proceder de outro modo. A maior coerência do sistema
copernicano, p. 12, é um exemplo especialmente mau para o autor
178
e especialmente bom para mim: no Commentariollus, Copérnico havia, com efeito, elaborado
um sistema simples e mais coerente do que o ptolomaico. Quando publicou o De
Revolutionibus, a simplicidade e coerência maiores haviam desaparecido diante da exigência
de acurada representação dos movimentos planetários. Galileu ignora essa perda de
coerência e simplicidade, pois ignora todos os epiciclos. Volta a uma teoria ainda mais
primitiva que a exposta no . Commentariolus, empiricamente inferior à de Ptolomeu. Não o
critico por isso (e por seu silêncio em torno do problema do movimento dos planetas). Muito
ao contrário —- entendo que era o único meio de realizar progresso. Para progredir,
precisamos fazer recuo que nos afaste da evidência, reduzir o grau de adequação empírica
(conteúdo empírico) de nossas teorias, abandonar o que já conseguimos e começar de novo.
Quase todos os metodologistas contemporâneos, inclusive Machamer, pensam de outra
maneira —- e esse é o ponto que desejo acentuar.
Resumindo esta parte do debate: tendo em vista meu objetivo, eu poderia, sem prejuízo,
omitir os ‘argumentos’ oferecidos por Galileu em favor do movimento da Terra. Acrescentar
esses argumentos ao debate é algo que robustece minha posição.
Esta é altura apropriada para algumas breves observações de caráter metodológico. Em
primeiro lugar, Machamer freqüentemente entende mal o meu estilo de argumentar. Assim,
faz objeção a eu dizer que a ótica de Kepler é refutada por fatos simples, porque eu digo,
também, que as teorias não podem ser refutadas por fatos. O ponto seria válido, se, na
passagem em causa, eu estivesse falando comigo mesmo. Estivesse eu fazendo isso e teria,
efetivamente, de replicar: ‘Mas, meu caro PKF, você não se lembra de ter dito que as teorias
não podem ser refutadas nem mesmo pelo mais impressionante dos fatos?’ Todavia, eu não
falava comigo mesmo. Dirigia-me a pessoas que aceitam a regra do falseamento e para eles o
argumento acarreta dificuldades. A isto os lógicos denominam
179
argumentum ad hominem. Assim seja: em meu ensaio, dirijo-me a seres humanos. Não me
dirijo a cães, nem a lógicos, observações semelhantes são aplicáveis a muitos outros
comentários de Machamer. (De passagem: nunca aceitarei a leitura ‘caridosa’ que
Machamer faz de minhas palavras na nota 13. Como está, meu argumento é mais eficaz.)
Em segundo lugar, Machamer freqüentemente desperta os fantasmas de artigos que
escrevi há centenas de anos (tempo subjetivo!) para combater algo que escrevi mais
recentemente. Nisso, ele está, sem dúvida, sob a influência de filósofos que, tendo feito
minúscula descoberta, a ela voltam repetidamente por falta de alguma coisa nova a dizer e
que transformam essa falha — falta de idéias — na virtude suprema, a saber, a coerência.
Quando escrevo um artigo, geralmente esqueço o que escrevi antes e a utilização de
argumentos anteriores se faz a risco de quem os aplica.
Em terceiro lugar, Machamer entende mal até mesmo aquelas idéias que continuo a
professar. Jamais disse, como ele supõe, que quaisquer duas teorias rivais são
incomensuráveis (nota 35). Disse, isto sim, que certas teorias rivais, denominadas
‘universais’ ou ‘não-instanciais’, se interpretadas de certo modo, não admitem comparação
fácil. Mais especificamente, nunca admiti que Ptolomeu e Copérnico sejam
incomensuráveis. Eles não o são.
Voltemos à história. Machamer tenta demonstrar que a história do telescópio se
desenvolveu de maneira muito diferente de como a relatei. Para saber quem está certo e
quem está errado, permitam-me repetir o que entendo seja de importância. Afirmo duas
coisas: (1) as teorias óticas existentes àquele tempo não bastavam, como alicerce teorético,
para a construção do telescópio e parte dessas teorias tornava duvidosa a confiança que o
telescópio, depois de inventado, devia merecer; (2) Galileu desconhecia as teorias óticas de
sua época.
No que se refere a (2), Machamer assinala, com grandes mostras de erudição, que
Galileu sabia que a luz se propaga em
180
linha reta e se reflete a ângulos iguais e conhecia também os fundamentos básicos da
triangulação (a isso equivalem as referências que faz nas pp. 14 e 15). Sancta simplicitas!
Na próxima vez que eu disser, em aula acerca de equações diferenciais, que Strawson e seus
seguidores não sabem matemática, alguém se levantará para dizer que Strawson conhece a
tabuada. Aplicação: ao dizer que Galileu desconhecia a ótica, não quis dizer que ele
desconhecesse o bê-a-bá da ótica. Pretendo afirmar que ignorava as partes da ótica que, no
tempo em causa, eram necessárias para a construção do telescópio, admitindo que o
telescópio haja sido construído como resultado de uma compreensão dos princípios básicos
da ótica. Quais eram esses princípios?
Havia dois elementos da ótica do século XVII que se faziam necessários, mas não
suficientes, para a compreensão do telescópio. Nenhum deles foi elaborado em pormenor e
jamais se viram combinados para constituir um corpo coerente de teoria. Eram (a) o
conhecimento das imagens produzidas por lentes e (b) o conhecimento das coisas vistas
através de uma lente.
O primeiro elemento pertence à Física pura. Na literatura a respeito de ótica, referida
por Machamer, não há lugar algum em que se ofereça explicação de imagens projetadas por
uma lente convexa. Imagens vistas através de pequenas aberturas, sem lentes, já eram
difíceis de explicar (cf. os rodeios a que Pecham é levado em sua Perspectiva, John Pecham
and the Science of Optics, ed. David Lindberg, Madison e Londres, 1970, pp. 67 ss.).
A explicação correta (sem lentes) é dada por Maurolyocus; mas tão-somente em 1611,
um ano após o aparecimento do Sidereus Nuncius, foi que seu livro se editou. Com respeito
ao segundo elemento, aparentemente desconhecido de Machamer, a situação é muito menos
confortadora. Pecham, conhecedor do fenômeno da constância (Lindberg, op. cit., p.
147) acentua que ‘é impossível determinar o tamanho de um objeto visto
181
em raios refratados’ (p. 217), significando isso que, para ele, a ótica fisiológica dos meios
refratores é deficiente em um ponto relevantíssimo: não nos diz como a ‘faculdade do
tamanho’ se comportará quando se trate de raios refratados. Acrescentemos a isso o
princípio (aristotélico) segundo o qual a percepção, se extraordinárias as circunstâncias,
produz resultantes não concordantes com a realidade e tornar-se-ão claras as dificuldades de
(a) e (b), uma vez separadas.
No telescópio os dois processos se combinam para produzir um só efeito. Teoricamente,
não há maneira de conseguir a combinação, a não ser com base em princípios inteiramente
novos. Esses princípios — princípios falsos — foram elaborados por Kepler em 1604 e 1611.
Até agora ocupamo-nos da situação histórica. A propósito dela, como se manifesta
Machamer? Escreve ele: ‘Quem quer que houvesse lido Pecham... saberia ‘que todo
instrumento ótico feito à base de lentes seria explicável em termos de leis óticas — as leis de
refração e a natureza da luz’ (p. 182). De nosso lado, vimos que ‘quem quer que houvesse
lido Pecham’ teria chegado a conclusão inteiramente diversa. Teria compreendido que ‘as
leis da refração e a natureza da luz’ não bastam; que seria preciso ter em conta as reações do
olho e do cérebro e que tais reações eram desconhecidas, no caso dos meios refratores. Teria
compreendido que o raciocínio necessário para chegar ao telescópio só é ‘suficientemente
simples para ter sido feito por todos quantos estudaram ótica’ (nota 61), se por ‘ótica’
entendermos ótica pós-kepleriana: Machamer, que vê as leis da refração como suficientes
para o entendimento do telescópio, que tacitamente adota o ponto de vista de Kepler e o
projeta de volta a Pecham (que havia argumentado contra uma simplificada versão desse
ponto de vista) não tem percepção do muito que significou a transição que levou das antigas
maneiras de ver para as concepções de Kepler e Descartes. Com efeito, embora as
(errôneas) idéias de Kepler possam parecer simples a um historiador da ciência que,
no século XX,
182
assimilou-as sem exame, à invenção de tais idéias, nas circunstâncias históricas por mim
descritas, esteve longe de ser simples. Foi Galileu quem realizou essa notável invenção?
Parece pouco provável. Ele não as discute em suas cartas ou em seus escritos. Nas escolas,
os manuais, como o de Pecham, corresponderiam a um limite superior de sofisticação
raramente alcançado — e eram insuficientes. Além disso, apontavam para uma direção
equivocada. É, naturalmente, possível que Galileu, ignorando as minuciosas leis
psicológicas enunciadas nesses livros, recorresse à lei da refração, desse por assentado que
até em meios refratores os ângulos maiores significam tamanho maior e é possível que
prosseguisse a partir desse ponto. Não me parece que ele assim tenha agido; mas se o fez—
e Machamer chega muito próximo de sugerir que o fez — a posição que defendo se veria
ainda mais reforçada: Galileu conseguiu progresso afastando fatos importantes (como o
fenômeno da constância) soluções sensatas (que não conhecia ou não compreendia) e
levando uma hipótese falsa (falsa até mesmo para Pecham e por bons motivos) ao seu
extremo. As freqüentes referências que Machamer faz a livros tradicionais seriam, neste
caso, irrelevantes.
A seguir, surge a questão da natureza das observações de Galileu. Sustento que algumas
das observações de Galileu, com o telescópio, eram contraditórias entre si, enquanto outras
poderiam ser corrigidas por observações a olho desarmado. Quanto a este último ponto,
Machamer registra que ‘historicamente, nenhum dos contemporâneos de Galileu usou desse
argumento’ (nota 12). Incorreto e irrelevante. Kepler fez objeções à impressão de suavidade
do bordo da Lua e concitou Galileu a ‘voltar a investigar a questão’. E se ninguém mais se
manifestou, isso mostra apenas que as pessoas não faziam observações muito cuidadosas e
estavam, conseqüentemente, prontas a aceitar os novos milagres astronômicos de Galileu.
De novo, a ignorância ou precipitação foi uma bênção. Não me impressionam
absolutamente os ‘cálculos’ do professor Righini (p. 23),
183
sejam eles quais forem. Isso porque, para tais cálculos basta a distribuição geral de luzes e
sombras, provavelmente conhecida por Galileu. Nem me impressiona o fato de algumas
pessoas reconhecerem algumas coisas na Lua de Galileu. O que me impressiona é a grande
diferença que vai da Lua de Galileu àquela que todos podem ver a olho desarmado. Se a
diferença se deve à tentativa que fez Galileu de acentuar certos aspectos da Lua que tinha
por essenciais —- como pensa Machamer — estamos de volta à minha tese de que Galileu
freqüentemente se afasta do fato para defender seu ponto de vista. É o que temos, em
decorrência dos comentários de Machamer.
O que Machamer deixa de mencionar são os aspectos paradoxais das observações de
Galileu, como, por exemplo, o fato de que a Lua parece ter o interior enrugado, mas as
bordas perfeitamente lisas ou o fato de que os planetas ganham, enquanto as estrelas fixas
perdem em tamanho. Ninguém, exceto Kepler, deu atenção a essas peculiaridades, o que
demonstra, mais uma vez, quão pouco se refletiu acerca das observações. (Foi essa falta de
reflexão de seus contemporâneos que capacitou Galileu a avançar tão bem como avançou.)
Machamer levanta grande celeuma (dedica-lhe mais de três páginas) em torno de dez
linhas por mim escritas a propósito da diferença entre observações terrestres e celestes.
Nessas dez linhas, digo que há razões físicas e psicológicas para a diferença. Machamer fala
acerca das primeiras, mas não das últimas. Afirma, corretamente, que, desde o começo os
argumentos cosmológicos se basearam em triangulações interplanetárias, tendo o próprio
Aristóteles admitido que a luz obedece às mesmas leis nos céus e na Terra. De fato, mas não
é esse o ponto que eu procurava acentuar. Procurava dizer que, sendo a luz uma ‘entidade
interdepartamental’, apresentava propriedades especiais e sujeitava-se a condições
diferentes em um e outro daqueles domínios. Simples olhar à história das teorias a respeito
da luz, de Parmênides a Einstein, confirma a primeira parte de minha asserção. A segunda
parte é muito menos
184
evidente, ninguém lhe deu maior atenção e os que o fizeram em uma oportunidade deixaram
de fazê-la em outras. As estrelas eram consideradas como pontos de condensação nas esferas
celestes (Aristóteles, De Coelo, 289 a 11 e ss.; Simplício; vários autores medievais); havia
alteração de material, que passava de ar a fogo e a éter; mas parece que ninguém notou os
problemas de refração que daí se originam. Os debates se iniciaram ao tempo de Tycho, em
suas discussões com Rothmann, e tais discussões mereceram pertinentes comentários de
Kepler. Chega este a elaborar alguns pressupostos a respeito da ‘essência celeste’, uma das
razões que teve para não construir o telescópio. ‘Você’, escreve ele, em sua réplica ao
Nuncius de Galileu (ed. Rosen, p. 18), ‘afastando todos os impedimentos... voltou-se
diretamente para a experimentação visual’. Assim, é certo que os especialistas em ótica
ignoravam as diferenças afirmadas pelos cosmologistas e triangulavam ousadamente no
espaço. Assim agindo, mostravam negligência grave, ignorância ou completo alheamento
aos requisitos de coerência (a que não me prendo, mas a que se prende até o menos
qualificado metodologista). Não obstante, os óticos alcançaram êxito. Uma vez mais a
ignorância, a superficialidade, a falta de senso revelaram-se uma bênção. Machamer, que
não dá atenção ao todo da situação histórica, mas apenas à parte que o favorece, não chega a
aperceber-se dessa frutífera fuga a regras. Não surpreende, portanto, que ele pense ter
descoberto, em meu ensaio, um equívoco histórico. (Importa realçar que Kepler discute as
essências celestes a despeito da obra de Tycho a propósito dos cometas e a propósito da Nova
de 1572 e de que, ainda em 1630, Galileu defendia a natureza atmosférica dos cometas.
Mostra isso que a ‘distinção aristotélica’ entre a esfera celeste e a esfera terrestre não pode
ter, como insinua Machamer, ‘entrado em completo colapso’ por volta de 1577 (p. 21).
Entrou em colapso para alguns, mas não entrou em colapso para outros; e o colapso não
ocorreu sem deixar traços. Aqui, tal como em outros pontos, Machamer apressa-se a
gene-
185
ralizar a partir de idéias daqueles com que mantém afinidade.) E baste isso quanto aos
problemas físicos relacionados com as observações celestes.
Coisa diferente se dá com os problemas psicológicos provocados pelas observações
telescópicas. Esses problemas foram percebidos por Pecham e outros (como, por exemplo,
Roger Bacon) e continuam a existir (ilusões quanto à Lua). Ao tempo de Galileu, os
problemas psicológicos eram enormes e explicam muitos relatos estranhos (alguns dos quais
examinados neste livro). Esses problemas eram comparáveis aos de alguém que, sem ter
jamais visto uma lente, usasse, pela primeira vez, um mau microscópio. Não sabendo o que
esperar (afinal de contas, não encontramos, pelas ruas, pulgas do tamanho de homens), a
pessoa é incapaz de distinguir entre as propriedades do objeto e as ‘ilusões’ criadas pelo
instrumento (distorções, faixas coloridas, descoloração, etc.) e os objetos deixam de ter nexo.
Na superfície da Terra — com edifícios, navios, etc. —o telescópio operará bem: trata-se de
coisas familiares e o conhecimento que delas temos elimina a maior parte das distorções,
assim como o conhecimento que temos de uma voz e de uma língua elimina as distorções
provocadas pelo aparelho telefônico. O procedimento compensatório não se aplica ao que
ocorre no céu, como os primeiros observadores logo notaram e registraram. Assim, é certo
que o telescópio provoca ilusões, seja nos casos de observação celeste seja nos de observação
terrestre (p. 20), mas apenas os primeiros casos, pela razão mencionada, constituíam
problema. É interessante notar que o combinado efeito da diferença física e fator psicológico
foi percebido por Pecham, para quem ‘os tamanhos das estrelas não são perfeitamente
conhecidos, pois o céu é matéria mais sutil que o ar e o fogo’ (op. cit., p. 219).
Machamer conclui seu ensaio com a seguinte advertência: "A história’, diz ele, ‘deve
estar concluída, inteiramente concluída, antes que sejam consideradas as implicações
filosóficas’
186
(p. 46). A recomendação é excelente — por que terá ele próprio ignorado? Eu acrescentaria
que se deve refletir, e refletir bem, antes de avançar consideração até mesmo a respeito do
mais simples dos fatos históricos.
187
X
Nem a experiência inicial com o telescópio oferece essas razões. As primeiras observações do
céu feitas através de telescópio são vagas, imprecisas, contraditórias e põem-se em conflito
com o que todos podem ver a olho desarmado. E a única teoria que teria levado a distinguir
entre as ilusões provocadas pelo telescópio e os fenômenos reais foi refutada por testes
simples.
Para começar, há o problema da visão através do telescópio. Esse problema é diverso,
conforme se tenha em conta objetos celestes ou terrestres; e imaginou-se que ele diferiria de
um para outro caso1.
Imaginou-se que diferiria dada a existência da idéia de que objetos terrestres e celestes
seriam feitos de material diferente, obedecendo a leis diferentes. Essa idéia acarreta a
conseqüência de que o resultado de uma interação da luz (que liga os dois domínios e tem
propriedades especiais) com objetos terrestres não pode, sem maior exame, ser estendido ao
que no céu ocorre. A essa idéia física acrescentou-se, de inteiro acordo com a teoria
aristotélica do conhecimento2 (e com as atuais concepções acerca da matéria), a idéia de que
os sentidos estão familiarizados com a aparência dos objetos terrestres e capacitados,
portanto, a percebê-los distintamente, ainda que a imagem telescópica sofresse forte
distorção ou fosse desfigurada por franjas coloridas. Não conhecemos as estrelas de perto.
Conseqüentemente, não podemos recorrer à memória, que delas tenhamos, para separar o
que provém do telescópio daquilo que provém do objeto mesmo3. Além disso, todas as
indicações
191
comuns (tais como sentido de profundidade, superposição, conhecimento de tamanho, etc.)
que possibilitam e auxiliam nossa visão, na face da Terra, estão ausentes quando nos
voltamos para o céu, sendo de esperar a ocorrência de fenômenos novos e surpreendentes4.
Tão-somente uma nova teoria da visão — abrangendo hipóteses concernentes ao
comportamento da luz no telescópio e hipóteses relativas à reação do olho em circunstâncias
excepcionais — poderia vencer a distância que separa os céus da Terra e que era, e continua
a ser, fato óbvio em Física e nas observações astronômicas5. Dentro em pouco, teremos
oportunidade de tecer comentário em torno de teorias existentes àquela época e veremos que
não tinham como desempenhar esse papel e que se viram refutadas por simples e óbvios
fatos. Por ora, desejo concentrar-me nas observações mesmas e assinalar as contradições, e
dificuldades que surgem quando se tenta admitir, sem maior exame, os resultados das
observações celestes feitas por meio do telescópio, aceitando-as como indicadoras de
propriedades estáveis e objetivas das coisas vistas.
Algumas dessas dificuldades já se anunciam em um relato acerca dos Avvisi6 do tempo,
a cujo término se observa que ‘embora eles (os participantes da reunião descrita) saíssem
com o objetivo de realizar essa observação (de “mais quatro estrelas ou planetas que são
satélites de Júpiter... bem como de dois acompanhantes de Saturno”7) e permanecessem fora
até uma hora da manhã, não alcançaram acordo quanto ao que viram’.
Outro encontro que se tomou célebre em toda a Europa põe a situação ainda mais clara.
Cerca de um ano antes, nos dias 24 e 25 de abril de 1610, Galileu transportou seu telescópio
até a casa de um opositor, Magini, em Bolonha, para mostrá-lo a vinte e quatro professores
de todas as faculdades. Horky, exaltadíssimo discípulo de Kepler, escreveu nessa ocasião8:
‘Não dormi em 24 e 25 de abril, nem de dia e nem de noite, mas experimentei de mil
maneiras o instrumento9,
192
dirigindo-o a coisas aqui de baixo e coisas lá de cima. Aqui, ele funciona magnificamente;
nos céus, decepciona, pois algumas estrelas fixas [Spica Virginis, por exemplo, é
mencionada, bem como um resplendor terrestre] são vistas duplicadamente10. Tenho como
testemunhas homens excelsos e nobres doutores... e todos admitiram que o instrumento
causa decepção... Isso levou Galileu ao silêncio e, no dia 26, ele tristemente nos deixou,
saindo de manhãzinha... sem sequer agradecer Magini pelo esplêndido banquete...’ Magini
escreveu a Kepler no dia 26 de maio: ‘Ele nada conseguiu e estavam presentes mais de vinte
ilustrados homens — ninguém viu distintamente os novos planetas (nemo perfecte vidit);
dificilmente ele afirmará que existem’11. Poucos meses depois (em carta assinada por
Ruffini) repete ele: ‘Somente alguns de visão aguçada se mostraram, até certo ponto,
convencidos’12. Depois que esses e outros relatos negativos lhe chegaram de todos os lados,
à semelhança de uma avalanche de papel, Kepler pediu testemunhos a Galileu13: ‘Não
desejo esconder-lhe que vários italianos enviaram cartas a Praga, afirmando que não
chegaram a ver aquelas estrelas [as luas de Júpiter] em seu telescópio. Pergunto-me como
pode ocorrer que tantos neguem o fenômeno, inclusive aqueles que usam um telescópio.
Ora, levando em conta o que por vezes acontece comigo, não considero impossível que uma
pessoa possa ver o que milhares são incapazes de ver...14 Não obstante, lamento que tarde
tanto a confirmação por parte de outros... Rogo-lhe, portanto, Galileu, que me envie
testemunhos tão cedo quanto possível...’ Galileu, em resposta datada de 19 de agosto, referese
a si próprio, ao Duque da Toscana e Giuliano deMédici ‘e a muitos outros em Pisa,
Florença, Bolonha, Veneza e Pádua, que, não obstante, guardam silêncio e hesitam. A maior
parte deles é inteiramente incapaz de identificar Júpiter ou Marte ou mesmo a Lua como um
planeta...’15— o que, para dizer o menos, não retrata um estado de coisas muito
confortador.
193
Hoje, percebemos um pouco melhor por que o apelo direto à visão através do telescópio
estava fadado a conduzir ao desapontamento, especialmente nos estágios iniciais. A
principal razão, já antevista por Aristóteles, era a de que os sentidos usados em condições
anormais são suscetíveis de fornecer uma resposta anormal. Alguns historiadores mais
antigos vislumbraram o que ocorria, mas falam em termos negativos, tentando explicar a
ausência de relatos observacionais satisfatórios ou a pobreza do que é visto pelo
telescópio16. Não se dão conta da possibilidade de que os observadores se deixam também
perturbar por fortes ilusões positivas. Só recentemente se percebeu o grau dessas ilusões, o
que se deu principalmente graças à obra de Ronchi e de sua escola17. As maiores variações
são apontadas na posição da imagem telescópica e, correspondentemente, na ampliação
observada. Alguns observadores colocam a imagem no interior do telescópio, levando-a a
alterar sua posição lateral com a posição lateral do olho, exatamente como se daria com uma
pós-imagem ou com um reflexo no interior do telescópio — excelente prova de que se deve
estar diante de uma 'ilusão’18. Outros situam a imagem de maneira que não se produz
qualquer ampliação, embora coubesse esperar uma ampliação linear superior a trinta19.
Mesmo a duplicação de imagens pode ser explicada pela focalização inadequada20.
Acrescentando as muitas imperfeições dos telescópios da época a essas dificuldades
psicológicas21, entende-se a escassez de relatos satisfatórios e experimenta-se surpresa
diante da rapidez com que a realidade dos novos fenômenos foi aceita e, como era costume,
publicamente reconhecida22. A aceitação causa perplexidade ainda maior, se tivermos em
conta que muitos relatos, mesmo de bons observadores, ou eram claramente falsos (e
suscetíveis de serem demonstrados falsos àquela época) ou eram autocontraditórios.
Assim, Galileu aponta rugosidades, ‘vastas protuberâncias, profundos recortes e
sinuosidades’23 nos limites internos da parte clara da Lua, ao passo que o limite externo
‘não parece
194
desigual, áspero e irregular, mas perfeitamente redondo e circular, tão nitidamente definido
como se traçado por compasso e sem quaisquer indentações correspondentes a
protuberâncias e cavidades’24. A Lua se afigurava, então, cheia de montanhas no interior,
mas de periferia perfeitamente lisa e isso a despeito do fato de a periferia haver-se alterado
como conseqüência das ligeiras oscilações do corpo lunar. A Lua e alguns dos planetas,
como, por exemplo, Júpiter, se avolumavam, enquanto decrescia o diâmetro aparente das
estrelas fixas: os primeiros eram trazidos para mais perto, enquanto as últimas se viam
afastadas. ‘As estrelas’, escreve Galileu, ‘assim as fixas como as errantes, quando vistas ao
telescópio, de maneira alguma parecem ter o tamanho aumentado na mesma proporção em
que outros objetos, e a própria Lua, ganham em tamanho; no caso das estrelas, esse aumento
parece muito menor, a ponto de ser possível considerar que um telescópio (é uma ilustração)
suficientemente poderoso para aumentar de cem vezes outros objetos, dificilmente
apresentará as estrelas aumentadas de quatro ou cinco vezes’25.
Os traços surpreendentes dos primeiros tempos da história do telescópio emergem,
contudo, ao examinarmos de mais perto os retratos da Lua, feitos por Galileu.
Um breve exame dos desenhos de Galileu e das fotografias de fases similares convencerá
o estudioso, de que ‘nenhum dos traços registrados... pode ser identificado, com segurança,
a quaisquer pontos conhecidos da paisagem lunar’26. Examinando essa evidência, toma-se
fácil imaginar que ‘Galileu não era um grande observador astronômico; ou que a excitação
provocada por tantas descobertas que pôde fazer, graças ao telescópio, toldaram-lhe a
capacidade ou o senso crítico’27.
Talvez essa afirmação seja correta (embora eu duvide, tendo em vista a extraordinária
habilidade de observação que Galileu mostrou em outras oportunidades).28 Mas ela é de
conteúdo pobre e, a meu ver, pouco interessante; não sugere novas pesquisas e é
remota a possibilidade de submetê-la a
195
teste29. Outras hipóteses conduzem, entretanto, a sugestões novas e nos mostram quão
complexa era a situação, ao tempo de Galileu. Consideremos as duas hipóteses seguintes.
Hipótese I. Galileu registrava fielmente o que via e, dessa maneira, deixou-nos prova das
deficiências dos primeiros telescópios bem como das peculiaridades da visão telescópica em
sua época. Desse modo interpretados, os desenhos de Galileu são relatos exatamente da
mesma espécie dos relatos feitos a partir dos experimentos de Stratton, Ehrismann e
Kohler30 exceto pelo fato de que devem ser tomadas em conta as características do
aparelhamento físico e a falta de familiaridade com os objetos vistos31. Importa lembrar,
ainda, as muitas opiniões conflitantes sustentadas com respeito à superfície da Lua, mesmo
no tempo de Galileu32, opiniões que talvez hajam influído sobre o que os observadores
viam33. Necessário, para maior esclarecimento do assunto, seria uma coleção empírica de
todos os primeiros resultados de observações telescópicas, preferivelmente em colunas
paralelas e incluindo quaisquer representações pictóricas eventualmente conservadas34.
Pondo de parte as peculiaridades dos instrumentos, essa coleção forneceria interessante
material para uma história da percepção (e da ciência) ainda por ser escrita35. Esse o
conteúdo da Hipótese I.
A Hipótese II é mais específica do que a Hipótese I e a desenvolve em uma determinada
direção. Durante os últimos dois ou três anos, tenho-a considerado com diferentes graus de
entusiasmo e meu interesse por ela renasceu em decorrência de uma recente carta do
professor Stephen Toulmin, a quem sou grato pela maneira simples e clara de apresentar
seu modo de ver. Parece-me, todavia, que a hipótese se defronta com numerosas dificuldades
e deverá, talvez, ser abandonada.
A Hipótese II: tal como a Hipótese I, aborda os registros telescópicos do ponto de vista da
teoria da percepção; mas acrescenta que a prática da observação por telescópio e a
familiaridade com os novos registros telescópicos alteraram não apenas o que era visto
através do instrumento, mas também o
196
197
que era visto a olho desarmado. Isto é obviamente de importância para avaliarmos a atitude
que podemos adotar, hoje, acerca dos relatos de Galileu.
Que a aparência das estrelas e da Lua haja sido, em algum tempo, muito mais indefinida
do que nos dias atuais, foi algo a mim sugerido pelo fato de existirem, acerca da Lua, várias
teorias que são incompatíveis com o que todos podem claramente ver com os próprios olhos.
A teoria da parada parcial, elaborada por Anaximandro (ao pretender explicar as fases da
Lua), o fato de Xenófanes crer na existência de diferentes sóis e diferentes luas em diferentes
zonas da Terra, a circunstância de Heráclito admitir que eclipses e fases se deviam ao girar
das bacias que, para ele, representavam o Sol e a Lua36 — todas essas concepções se
levantam ao arrepio da existência de uma superfície estável e claramente visível, uma ‘face’,
como a que ‘sabemos’ que a Lua possui. O mesmo se diga da teoria de Berossos, que se
manifesta à época de Lucrécio37 e mesmo posteriormente, em Alhazen.
Ora, esse descaso por fenômenos que, para nós, são óbvios, pode-se dever a certa
indiferença para com a evidência existente, que era, porém, tão clara e circunstanciada
quanto é hoje, ou pode dever-se a uma diferença na própria evidência. Não é fácil escolher
entre essas alternativas. Influenciado por Wittgenstein, Hanson e outros, inclinei-me,
durante algum tempo, pela segunda versão; hoje, contudo, parece-me que ela é negada pela
fisiologia (psicologia)38 e pela informação histórica. Basta lembrar como Copérnico afastou
as dificuldades que nasciam das variações do brilho de Marte e de Vênus, variações bem
conhecidas naquele tempo39. E, quanto à face da Lua, Aristóteles a ela se refere muito
naturalmente ao observar que ‘as estrelas não giram. Com efeito, o girar envolve rotação,
mas a “face” da Lua, como se diz, é sempre vista’40. Cabe inferir, portanto, que o ocasional
descaso pela estabilidade da face da Lua não se deveu à ausência de impressões claras, mas a
algumas concepções amplamente disseminadas e relativas à falibilidade
198
dos sentidos. Essa inferência encontra apoio na forma de Plutarco discutir o assunto,
discussão que não se refere ao que é visto (exceto como evidência pró ou contra algumas
concepções) mas a certas explicações de fenômenos que, por outros aspectos, se admite serem
bem conhecidos41: ‘Para começar’, diz ele, ‘é absurdo afirmar que a figura vista na Lua é
atribuível a uma afecção da visão... a uma condição a que denominamos ofuscamento
(fulgor). Quem faz essa asseveração deixa de notar que esse fenômeno deveria, antes,
ocorrer com o Sol, pois o Sol sobre nós lança luz penetrante e violenta; além disso, não
explica porque olhos embotados e fracos não chegam a perceber variação de forma na Lua,
cujo disco apresenta, para eles, brilho igual e forte, ao passo que os dotados de visão aguçada
e vigorosa percebem mais definida e distintamente o padrão dos traços da face da Lua e mais
facilmente se dão conta das variações’. ‘A desigualdade também refuta completamente a
hipótese’, continua Plutarco42, ‘pois a sombra que se vê, se não é contínua e confusa, é bem
retratada pelas palavras de Agesianax: “Brilha rodeada de fogo, mas no interior/Mais azul
que lápis lazuli mostra aspecto virginal/E delicado semblante, um rosto claro”. Em verdade,
as franjas negras somem por detrás das brilhantes, que as circundam... e se entrelaçam
inteiramente umas com as outras, de sorte que o delineamento da figura lembra um
quadro’. Posteriormente, a estabilidade da face vem a ser usada como argumento contra
teorias que dizem ser a Lua constituída de fogo ou de ar, pois ‘o ar é sutil e sem
configuração e, assim, move-se naturalmente e não permanece no lugar’43. A aparência da
Lua se afigurava ser, então, fenômeno conhecido e claro. Em questão estava a relevância do
fenômeno para a teoria astronômica44.
Podemos, com segurança, admitir que o mesmo era verdade, ao tempo de Galileu45.
Mas deveremos, então, admitir que as observações de Galileu estavam sujeitas a uma
verificação a olho desarmado e poderiam, dessa maneira, ser tachadas de enganadoras.
199
Assim, o monstro circular, abaixo do centro do disco da Lua46, situa-se em limite bem
superior ao da observação a olho desarmado (seu diâmetro supera 3½ minutos de arco), e
um simples olhar nos convence de que a face da Lua não é, em lugar algum, desfigurada por
uma imperfeição desse tipo. Seria interessante verificar o que os contemporâneos tiveram a
dizer a respeito do assunto47 ou, se eram artistas, que retratos traçaram.
Resumo o que até agora se tornou manifesto.
Galileu tinha reduzidíssimo conhecimento da teoria ótica de seu tempo. Seu telescópio
alcançou resultados surpreendentes na Terra e esses resultados foram procedentemente
exaltados. Dificuldades logo surgiram: o telescópio fez emergirem fenômenos espúrios e
contraditórios e alguns dos resultados a que levou poderiam ser refutados por um simples
lançar de olhos desajudados de qualquer auxílio. Somente uma nova teoria da visão
telescópica poderia trazer ordem ao caos (que havia de ser ainda maior, devido aos diferentes
fenômenos percebidos àquele tempo, mesmo a olho desarmado), distinguindo a aparência da
realidade. Essa teoria foi elaborada por Kepler, inicialmente em 1604 e novamente em
161148.
Segundo Kepler, fixa-se o lugar da imagem de um objeto punctiforme através do traçado
da trajetória dos raios que emergem do objeto, com observância das leis de (reflexão e)
refração até o momento em que eles alcancem o olho; em seguida, aplica-se o princípio
(ainda hoje ensinado) segundo o qual ‘a imagem será vista no ponto determinado pela
intersecção interna dos raios de visão de ambos os olhos’49 ou, no caso de visão monocular,
dos dois lados da pupila50. Essa regra, derivada do pressuposto de que ‘a imagem é produto
do ato de visão’ envolve um aspecto empírico e um aspecto geométrico51. Apóia a posição da
imagem em um ‘triângulo métrico’52 ou ‘triângulo telemétrico’ — tal como Ronchi o
denomina 53 -, construído com os raios que chegam ao olho e utilizado pelo olho e pela
mente para colocar a imagem a uma
200
adequada distância. Qualquer que seja o sistema ótico, qualquer que seja a trajetória total
dos raios que vão do objeto ao observador, a mente desse observador utiliza tão-somente a
porção final desses raios e nela baseia o seu juízo visual, a percepção.
Claro está que essa regra representou considerável avanço, para além de todo o
pensamento anterior. Não obstante, basta um minuto para a demonstração de que é
inteiramente falsa: tome-se um vidro de aumento, determine-se o seu foco e contemple-se
um objeto que lhe esteja próximo. O triângulo telemétrico alcança, para além do objeto, o
infinito. Ligeira alteração de distância traz a imagem kepleriana do infinito para muito
próximo e a faz retornar ao infinito. Jamais se observa fenômeno desse tipo. Vemos a
imagem, ligeiramente ampliada, a uma distância que é, na maioria das vezes, idêntica à
distância real entre o objeto e a lente. A distância visual da imagem permanece constante,
por mais que varie a distância entre a lente e o objeto e até mesmo quando a imagem sofre
distorção e se torna, afinal, difusa54.
Essa era, portanto, a verdadeira situação em 1610, quando Galileu deu a conhecer as
descobertas feitas com o auxílio do telescópio. Como reagiu Galileu diante de tal situação?
A resposta já foi dada: elevou o telescópio ao estado de um ‘sentido superior e mais
aperfeiçoado’55. Que razões tinha para assim proceder? Essa indagação leva-me de volta
aos problemas provocados pela evidência (contra Copérnico), apontada e debatida no
capítulo IX.
NOTAS
1. Disso dificilmente se dão conta os que sustentam (acompanhando Kästner, op. cit., p. 33)
que ‘não se percebe
201
como um telescópio pode ser digno de crédito e útil na Terra e decepcionar no que se refere
aos céus’. O comentário de Kästner é feito em oposição a Horky. Ver, abaixo, texto
correspondente às notas 9-16 deste capítulo.
2. Para essa teoria, cf. G. E. L. Owen, ‘TI?ENAI TA ?AINOMENA’, Aristote et les
Problèmes de la Méthode, Louvain, 1961, pp. 83-103. Para o desenvolvimento do
pensamento aristotélico durante a Idade Média, cf. A. C. Crombie, Robert Grosseteste and
the Origins of Experimental Science, Oxford, 1953, bem como Clemens Baumker, ‘Witelo,
ein Philosoph und Naturforscher des 13. Jahrhunderts’, Beiträge zur Geschichte der
Philosophie des Mittelalters, vol. III, Münster, 1908. As obras de Aristóte1es a consultar
são Anal. Post., De Anima, De Sensu. Com respeito ao movimento da Terra, cf. De Coelo,
293 a 28 s.: ‘Há, entretanto, muitos outros que concordariam em dizer que é errado atribuir
posição central à Terra, buscando confirmar antes a teoria de que os fatos de observação’
(grifo meu). Como vimos no capítulo VII, foi precisamente assim que Galileu introduziu a
teoria copernicana: alterando a experiência de modo a levá-la a adequar-se à doutrina que
preferia. Que os sentidos estão familiarizados com a circunstância cotidiana, mas são
suscetíveis de fornecer informação enganosa acerca de objetos que escapam àquela
circunstância é algo que, de imediato, encontra prova na aparência da Lua. Na Terra, em
condições comuns, objetos grandes e distanciados, como, por exemplo, as montanhas, são
vistos como se fossem de largas proporções e estivessem afastados. A aparência da Lua
fornece, entretanto, idéia inteiramente falsa da distância a que se encontra e de seu
tamanho.
3. Não é muito difícil distinguir as letras de um alfabeto conhecido em meio a um trecho que
escapa à nossa compreensão, ainda que a grafia seja quase ilegível. Tal separação não é
possível quando as letras pertencem a um
202
alfabeto que nos é desconhecido. As partes dessas letras não se ligam umas às outras, para
compor padrões distintos que se projetam contra o pano de fundo do ruído (ótico) geral (à
maneira descrita por K. Koffka, Psychol. Bull., 19, 1922, pp. 551 ss., parcialmente
reproduzido em Experiments in Visual Perception, ed. M. D. Vernon, Londres, 1966; cf.,
também, o artigo de Gottschaldt, no mesmo volume).
4. Para ter idéia da importância de alguns dispositivos como os diafragmas, os fios
cruzados, último plano, etc. para a localização e fixação da forma da imagem telescópica e
para ganhar noção das estranhas situações que surgem quando tais dispositivos não se
acham presentes, ver capítulo 4 de Ronchi, Optics, The Science of Vision, op. cit.,
especialmente pp. 151, 174, 189, 191, etc. cf., também, R. L. Gregory, Eye and Brain, Nova
Iorque, 1966, passim e p. 99 (a propósito do fenômeno autocinético). Explorations in
Transactional Psychology, ed. F. P. Kilpatrick, Nova Iorque, 1961, contém ampla
informação acerca do que ocorre na ausência de certos dispositivos habituais.
5. Por essa razão é que ‘o profundo estudo da teoria da refração’ que Galileu pretensamente
realizou (texto correspondente à nota 15 do capítulo IX) teria sido insuficiente para
determinar a utilidade do telescópio; cf., também, nota 16 do presente capítulo.
6. Pormenores no capítulo IX, nota 25.
7. Assim o anel de Saturno foi visto àquele tempo. Cf., também, R. L. Gregory, The
Intelligent Eye, p. 119.
8. Galileu, Opere, vol. X, p. 342. (Grifo meu, no que se refere à diferença, já comentada,
entre observações terrestres e celestes.)
9. As ‘centenas’ e ‘milhares’ de observações, tentativas, etc., com que deparamos nesse
trecho, dificilmente passarão de efeito retórico (pondo-se em correspondência com o nosso
203
‘já lhe disse mil vezes’). Não podemos usá-los para chegar, por inferência, a uma vida de
incessantes observações.
10. Encontramos novamente caso onde faltam indicações externas. Cf. Ronchi, op. cit., com
respeito à aparência de chamas, pequenas luzes, etc.
11. Carta de 26 de maio, Opere, III.
12. Ibid., p. 196.
13. Carta de 9 de agosto de 1610, citada com apoio em Caspar-Dyck, Johannes Kepler in
Seinen Briefen, vol. I, Munique, 1930, p. 349.
14. Kepler, que era afetado de poliopia (‘a grande distância, em vez de um único objeto
pequeno, as pessoas portadoras desse defeito vêem dois ou três. Em conseqüência, em vez de
uma Lua única, dez ou mais a mim se apresentam’, Conversation, op. cit., nota 94; cf.,
também, o restante da nota para posteriores citações) e estava familiarizado com as
investigações anatômicas realizadas por Platter (cf. S. L. Polyak, The Retina, Chicago,
1942, pp. 134 ss., para pormenores e bibliografia), tinha consciência da necessidade da
crítica fisiológica das observações astronômicas.
15. Caspar-Dyck, op. cit., p. 352.
16. Assim, Emil Wohlwill, Galileo und sein Kampf für die Kopernikanische Lehre, vol. I,
Hamburgo, 1909, p- 208, escreve; ‘Não há dúvida de que os resultados decepcionantes se
deviam à falta de prática em observação por telescópio, ao restrito campo de visão do
telescópio de Galileu, bem como a ausência de qualquer possibilidade de alterar a distância
das lentes, de maneira a acomodá-las às peculiaridades dos olhos dos homens de ciência...’
Juízo similar, embora mais dramaticamente expresso, aparece em Sleepwalkers, de Arthur
Köstler, p. 369.
17. Cf. Ronchi, Optics, op. cit.: Histoire de la Lumière, Paris, 1956; Storia dei
Cannochiale, Cidade do Vaticano, 1964; Critica dei Fondamenti dell’Acustica e
del’Ottica, Roma,
204
1964; cf., também, o resumo de E. Cantare in Archives d’Histoire des Sciences, dezembro de
1966, pp. 333 ss. Gostaria de registrar, a esta altura, que as investigações do Professor
Ronchi muito influíram sobre minhas idéias acerca do método científico. Para curta
apresentação histórica da obra de Galileu, cf. o artigo de Ronchi em Scientific Change, ed.
A. C. Crombie, Londres, 1963, pp. 542-61. O livro Optical Illusions, de S. Tolansky,
Londres, 1964, mostra quão pouco explorado é esse campo. Físico, Tolansky viu-se aturdido
em suas pesquisas ao microscópio (a propósito de cristais e metais), por uma após outra
ilusão de ótica. Escreve ele: ‘Isso desviou nosso interesse para a análise de outras situações,
levando à descoberta inesperada de que as ilusões de ótica podem desempenhar e
efetivamente desempenham papel que afeta muitas observações científicas diariamente
feitas. Isso me aconselhou a ser prudente e, em conseqüência, vim a verificar que as ilusões
são em maior número do que eu teria admitido’. As ‘ilusões da visão direta’, cujo papel na
pesquisa científica vem sendo lentamente redescoberto, eram conhecidas dos autores
medievais ligados à ótica; delas se ocupavam em capítulos especiais de seus livros. Além
disso, consideravam as imagens vistas através de lentes como fenômenos psicológicos, como
resultado de má apreensão, pois uma imagem ‘é mera aparência de um objeto colocado fora
de seu posto’, como lemos em John Pecham (cf. David Lindberg, ‘The “Perspectiva
Communis” of John Pecham’, Archives lnternationales d’Histoire des Sciences, 1965, p. 51,
bem como o último parágrafo da Proposição ii/19 da Perspectiva Communis, de Pecham,
que se encontra em John Pecham and the Science of Optics, ed. D. Lindberg, Wisconsin,
1970, p. 171).
18. Ronchi, Optics, op. cit., p. 189. Isso pode explicar o desejo, freqüentemente
manifestado, de examinar o interior do
205
telescópio. Problemas desse tipo não surgem no caso de objetos terrestres, cujas imagens são
regularmente colocadas ‘no plano do objeto’ (ibid., p. 182).
19. Para a ampliação conseguida no telescópio de Galileu, cf. The Sidereal Messenger, op.
cit., p. 11; cf., também, A. Sonnefeld, ‘Die Optischen Daten der Himmelsfernrohre von
Galileo Galilei’, Jenaer Rundschau, vol. 7, 1962, pp. 207 ss. A antiga regra ‘segundo a qual
o tamanho, a posição e a disposição com que uma coisa é vista depende da abertura do
ângulo com que é vista’ (R. Grosseteste, De Iride, citado de Crombie, Robert Grosseteste,
Oxford, 1953, p. 120), que remonta a Euclides, é quase sempre errônea. Ainda recordo o
desapontamento que senti quando, tendo construído um refletor com suposta ampliação
linear de aproximadamente 150, vi uma Lua aumentada de apenas cinco vezes e colocada
muito próxima da ocular (1937).
20. A imagem permanece nítida e inalterada por considerável período de tempo — a má
focalização pode, entretanto, verificar-se na duplicação.
21. O primeiro telescópio recebido por Kepler do Eleitor Ernst de Köln (que, por sua vez, o
havia recebido de Galileu) e no qual baseou sua Narratio de observatis a se quartuor Jovis
satellibus, Frankfurt, 1611, mostrava às estrelas quadradas e intensamente coloridas (Ges.
Werke, IV, 461). O próprio Ernst von Köln foi incapaz de perceber qualquer coisa pelo
telescópio e pediu que Clavius lhe enviasse um instrumento melhor (Archivio della
Pontifica Università Gregoriana, 530, f. 182 r). Francesco Fontana, que, a partir de 1643,
observou as fases de Vênus, nota um desequilíbrio na extremidade (e infere a existência de
montanhas); cf. R. Wolf, Geschichte der Astronomie, Munique, 1877, p. 398. Para as
peculiaridades dos telescópios do tempo e literatura descritiva, cf. Ernst Zinner, Deutsche
und Niederländische Astronomische Instrumente
206
des 11. bis 18. Jahrhunderts, Munique, 1956, pp. 216-21. Consultar também o catálogo de
autores, na segunda parte do livro.
22. O padre Clavius (carta de 17 de dezembro de 1610, Opere, X, p. 485), astrônomo do
poderoso Collegium Romanum, dos Jesuítas, exalta Galileu como o primeiro a ter observado
as luas de Júpiter e lhes reconhece a realidade. Magini, Grienberger e outros logo o
acompanharam. Assim fazendo, não procederam de acordo com sua própria filosofia ou,
então, foram muito descuidados na investigação do assunto. O professor McMullin (op.
cit., nota 32) acentua essa pronta aceitação das observações telescópicas de Galileu: ‘Os
períodos regulares observados com relação aos satélites e às fases de Vênus indicavam
fortemente que não se tratava de produtos da fisiologia ou da ótica. Por certo que não se
faziam necessárias “ciências auxiliares”...’ — ‘Não se faziam necessárias ciências
auxiliares’, escreve McMullin, embora ele próprio recorra ao uso da não examinada hipótese
auxiliar segundo a qual os eventos astronômicos se distinguem dos eventos fisiológicos por
sua regularidade e intersubjetividade. Essa hipótese é, contudo, falsa, como o demonstram a
ilusão provocada pela Lua, o fenômeno de fata morgana, o arco-íris, os halos e muitas
ilusões provocadas pela visão ao microscópio, tão vividamente descritas por Tolansky, pelos
fenômenos da feitiçaria (todas as mulheres relataram que o íncubo tinha o membro gelado) e
por numerosos outros fenômenos. A hipótese era também reconhecida como falsa por
Pecham, Witelo e outros sábios medievais que haviam estudado as ‘ilusões’ comuns e
intersubjetivas, provocadas por lentes, espelhos e outros dispositivos óticos. Na
Antigüidade, o fato de ser falsa a hipótese de McMullin era notório. Galileu explicitamente
a discute e repudia em seu livro a respeito dos cometas. Assim, fazia-se necessária uma
nova teoria da visão, não
207
apenas para que fossem aceitas as observações de Galileu, mas também para oferecer
argumentos em prol de sua realidade astronômica. Clavius, é claro, pode não se ter dado
conta dessa necessidade. O que de modo algum surpreende. Afinal de contas, alguns de seus
refinados sucessores do século XX, tal como o Professor McMullin, também não percebem
essa necessidade. Além disso, importa assinalar que os ‘períodos regulares’ das luas de
Júpiter não eram tão bem conhecidos quanto McMullin dá a entender. Durante toda a sua
vida, Galileu tentou determinar esses períodos para chegar a melhores maneiras de calcular
a longitude no mar. Não obteve êxito. Posteriormente, o mesmo problema ressurgiu sob
aspecto diverso: foi quando a tentativa de determinar a velocidade da luz, recorrendo a mais
de uma lua, conduziu a resultados incongruentes (Cassini). Quanto à atitude de Clavius e
dos cientistas do Collegium Romanum, cf. o interessantíssimo livro Galileo in China, de
Pasquale M. d’Elia, S. J., Harvard University Press, 1960. As primeiras observações dos
astrônomos do Collegium estão registradas no ‘Nuncius Sidereus’ por eles mesmos
publicado, Ed. Naz., III/1, pp. 291-98.
23. The Sidereal Messenger, op. cit., p. 8.
24. Op. cit., p. 24. — cf. a figura I, adiante, retirada da publicação de Galileu. Kepler, em
sua Optics, de 1604, escreve (com base em observações feitas a olho desarmado): ‘Parecia
como que estivesse faltando algo na circularidade da periferia última’ (Werke, vol. II, p.
219). Volta a essa asserção em sua Conversation (op. cit., pp. 28 ss.), criticando os
resultados das observações telescópicas de Galileu, com base no que ele próprio havia podido
observar sem o auxílio de qualquer aparelho: ‘Você pergunta por que o círculo exterior da
Lua não aparece também como irregular. Não sei quão cuidadosamente você refletiu a
propósito do assunto e talvez sua pergunta, como é pro-
208
vável, tenha por base uma impressão muito disseminada. Em meu livro [a Optics de 1604]
afirmo que há, sem dúvida, alguma imperfeição naquele círculo exterior, durante a lua
cheia. Volte a estudar a questão e a dizer-nos como a vê...’ Nesta passagem, os resultados de
observação a olho desarmado são opostos às observações telescópicas de Galileu — e com
inteira razão, como adiante veremos. O leitor, que se lembra da poliopia de Kepler (cf. nota
14 deste capítulo) poderá perguntar-se por que Kepler confiaria em seus sentidos até esse
ponto. A resposta se contém no trecho seguinte (Werke, II, pp. 194 ss.): ‘Quando se iniciam
os eclipses da Lua, eu, que sofro desse defeito, percebo o eclipse antes que o percebam os
outros observadores. Muito antes de o eclipse começar, chego a perceber a direção de onde
vem a sombra, enquanto que outros, de visão aguda, continuam em dúvida... A já
mencionada ondulação da Lua (cf. a citação anterior) desaparece para mim, quando a Lua se
aproxima da sombra e é cortada a porção mais forte dos raios do Sol...’ Galileu tem duas
explicações para a contraditória aparência da Lua. Uma delas envolve a atmosfera lunar
(Messenger, op. cit., pp. 26 ss.). A outra explicação (ibid., pp. 25 ss.), que envolve a
aparência tangencial de cadeias de montanhas que se põem umas atrás das outras, não é, em
verdade, muito plausível, pois a distribuição das montanhas próximas à extremidade visível
do globo lunar não mostra a disposição que se faria necessária (o ponto está, agora, melhor
assentado, graças à publicação da fotografia da Lua tirada pelos russos no dia 7 de outubro
de 1959; cf. Zdenek Kopal, An Introduction to the Study of the Moon, North Holland,
1966, p. 242).
25. Messenger, op. cit., p. 38; cf., também, a explicação mais minuciosa em Dialogue, op.
cit., pp. 336 ss. ‘O telescópio, por assim dizer, afasta o céu de nós’, escreve A.
Chwalina,
209
ao editar Kleomedes, Die Kreisbewegung der Gestime (Leipzig, 1927, p. 90), comentando o
decréscimo do diâmetro aparente de todas as estrelas, com a única exceção do Sol e da Lua.
Posteriormente, a diferente ampliação que sofrem os planetas (ou cometas) foi usada como
forma de identificá-los. ‘Com base na experiência, eu sei’, escreve Herschel, no artigo em
que relata sua primeira observação de Urano (Phil. Trans., 71, 1781, pp. 493 ss. —aí se diz
que o planeta é um cometa) ‘que os diâmetros das estrelas fixas não sofrem aumento
proporcional ao uso de recursos mais potentes, tal como se dá no caso dos planetas; por isso
mesmo, agora uso as potências de 460 e 932 e verifico ter o diâmetro do cometa aumentado
proporcionalmente, como era de esperar...’ Note-se que a regra não se aplicava sem exceção
aos telescópios do tempo de Galileu. Assim, aludindo a ‘um cometa visto em novembro de
1618, Horácio Grassi (‘On the Three Comets of 1618’ in The Controversy of the Comets of
1618, op. cit., p. 17) assinala: ‘quando o cometa foi observado através de telescópio não
chegou a sofrer aumento’ e infere, em perfeita concordância com a ‘experiência’ de Herschel,
que ‘terá de ser dito encontrar-se ele mais afastado de nós do que a Lua...’. Em seu
Astronomical Balance (ibid., p. 80) repete que, segundo a experiência comum de ‘ilustres
astrônomos de vários pontos da Europa’, ‘o cometa observado com um longo telescópio não
chegou a receber qualquer incremento...’ Galileu (ibid., p. 177) aceita isso como um fato, só
criticando as conclusões que Grassi daí pretende retirar. Todos esses fenômenos refutam a
asseveração de Galileu (Assayer, op. cit., p. 204) segundo o qual ‘o telescópio opera sempre
da mesma forma’. Contradizem também a teoria da irradiação (cf. nota 55 deste capítulo).
26. Kopal, op. cit., p. 207.
210
27. R. Wolf (Geschichte der Astronomie, p. 396) aponta a má qualidade dos desenhos da
Lua feitos por Galileu (‘... seine Abbildung des Mondes kann man... kaum... Karte
nennen’), enquanto Zinner (Geschichte der Sternkunde, Berlim, 1931, p. 473) diz que as
observações da Lua e de Vênus, relatadas por Galileu, ‘são observações típicas de um
principiante’. O retrato que pinta da Lua, segundo Zinner, ‘não tem semelhança com a
Lua’ (ibid., p. 472). Zinner menciona também a melhor qualidade das quase simultâneas
observações feitas pelos Jesuítas (ibid., p. 473) e indaga finalmente se as observações que
Galileu fez da Lua e de Vênus não seriam o resultado antes de um espírito fértil do que de
um olhar cuidadoso (‘solete dabei... der Wunsch der Vater der Beobachtung gewesen sein?’)
— pergunta cabível, particularmente se tivermos em conta os fenômenos rapidamente
mencionados em nota 33 deste capítulo.
28. A descoberta e identificação das luas de Júpiter não foram realizações insignificantes,
especialmente porque ainda não existia suporte estável para o telescópio.
29. A razão, entre outras, é a grande variação do que diferentes observadores vêem pelo
telescópio; cf. Ronchi, op. cit., capítulo IV.
30. Para uma visão geral e para obter bibliografia básica, ver Gregory, op. cit., capítulo II.
Para exame e bibliografia pormenorizados, cf. K. W. Smith e W. M. Smith, Perception and
Motion, Filadélfia, 1962, parcialmente reproduzido em M. D. Vernon, op. cit. O leitor
deverá também consultar o artigo de Ames, ‘Aniseikonic Glasses’, Explorations in
Transactional Psychology, que se ocupa da alteração da visão normal provocada por
condições óticas por vezes apenas ligeiramente anormais. Estudo amplo é feito por I. Rock,
The Nature of Perceptual Adaptation, Nova Iorque, 1966.
211
31. Muitos instrumentos antigos e excelentes descrições deles existem ainda; cf. Zinner,
Deutsche und Niederländische Astronomische Instrumente.
32. Para informações interessantes, o leitor consultará as passagens importantes da
Conversation, de Kepler, bem como o seu Somnium (este agora em nova tradução de E.
Rosen, que acrescentou muitos elementos esclarecedores: Kepler’ s Somnium, ed. Rosen,
Madison, 1967). A obra padrão para traduzir as crenças da época é ainda Face on the
Moon, de Plutarco (obra que será citada com base na tradução de Moralia XII feita por H.
Cherniss, Londres, 1967).
33. ‘Descreve-se a Lua de acordo com objetos que se pensa poder perceber em sua superfície’
(Kastner, op. cit., vol. IV, p. 167, comentando os relatos observacionais de Fontana,
elaborados em 1646). ‘Maestlin chegou a ver chuva na Lua’ (Kepler, Conversation, op. cit.,
pp. 29 s., apresentando o relato observacional de Maestlin); cf., também, da Vinci,
anotações, citadas com base em J. P. Richter, The Notebooks of Leonardo da Vinci, vol. II,
Nova Iorque, 1970, p. 167: ‘Se você mantiver sob observação as manchas da Lua, notará
que freqüentemente se alteram e isso eu próprio comprovei, desenhando-as. Essas alterações
se devem às nuvens que se formam a partir das águas da Lua...’ Quanto à instabilidade da
imagem de objetos desconhecidos e à dependência em que se colocam da crença (ou do
‘conhecimento’) cf. Ronchi, op. cit., capítulo 4.
34. O capítulo 15 de Kopal, op. cit., contém interessante coleção exatamente dessa espécie.
Escopo mais largo tem W. Schulz, Die Anschauung vom Monde und seinen Gestalten in
Mythos und Kunst der Völker, Berlim, 1912.
35. Deve-se também investigar a dependência daquilo que é visto com respeito aos métodos
contemporâneos de representação pictórica. Fora do campo da astronomia, isso foi
212
feito por E. Gombrich, Art and Illusion, Londres, 1960, e L. Choulant, A History and
Bibliography of Anatomical Illustration, Nova Iorque, 1945 (traduzido, com acréscimos,
por Singer e outros), que se preocupa com a anatomia. A astronomia tem a vantagem de que
um dos ângulos do quebra-cabeça, a saber, as estrelas, tem estrutura simples (muito mais
simples que a do útero, por exemplo) e relativamente bem conhecida; cf., também, capítulo
XVII, adiante.
36. Para essas teorias e bibliografia adicional, cf. J. L. D. Dreyer, A History of Astronomy
from Thales to Kepler, Nova Iorque, 1953.
37. Quanto a Berossos, cf. artigo de Toulmin em Isis, nº. 38, 1967, p. 65. Lucrécio escreve
(On the Nature of Things, versão de Leonard, Nova Iorque, 1957, p. 216): ‘Ela pode girar
sobre si mesma / à semelhança da esfera de uma bola — se, por acaso, isso for / uma parte
dela recoberta com luz brilhante / e pelo girar daquela esfera / pode exibir-nos suas variadas
formas / até que volte aquela flamejante porção sua, / inteiramente, para a visão e os
esgazeados olhos dos homens...’
38. Cf. texto correspondente às notas 50 ss. de meu ‘Reply to Criticism’, op. cit., p. 246.
39. Na Antigüidade, as diferenças de magnitude entre Vênus e Marte eram consideradas
‘óbvias a nossos olhos’, Simplício, De Coelo, II, 12, Heiberg, p. 504. Polemarco examina as
dificuldades da teoria de Eudoxo, no que concerne a esferas homocêntricas, ou seja porque
Vênus e Marte ‘aparecem, em meio ao movimento retrógrado, muitas vezes mais brilhantes,
de sorte que (Vênus), em noites sem Lua, faz com que os corpos lancem sombras’ (objeção de
Autolicus) e é possível que ele esteja invocando a possibilidade de um engano dos sentidos
(o que freqüentemente se discutia nas escolas antigas). Aristóteles, que deve ter tido
conhecimento de todos esses fatos, não
213
os menciona em parte alguma do De Coelo ou na Metafísica, embora faça uma exposição
acerca do sistema de Eudoxo e dos aperfeiçoamentos introduzidos por Polemarco e Calipo.
Cf. nota 7 do capítulo IX.
40. De Coelo, 290 a 25 ss.
41. Op. cit., p. 37, cf., também, S. Sambursky, The Physical World of the Greeks, Nova
Iorque, pp. 244 ss.
42. Ibid.; cf., entretanto, nota 17 deste capítulo, observação de Plínio (Hist. Nat., II, 43-46)
segundo a qual, a Lua ‘ora se apresenta manchada e, subitamente, brilha clara’, bem como o
relato de da Vinci, referido em nota 33 deste capítulo.
43. Ibid., p. 50.
44. Todos esses pontos requerem pesquisa complementar, particularmente diante da
desconfiança do tempo com respeito à visão, tal como expressa no princípio Non potest fieri
scientia per visum solum. Ronchi (‘Complexities, Advances and Misconceptions in the
Development of the Science of Vision: What is being Discovered?’, Scientific Change, op.
cit., p. 544 —mas notar a crítica de D. C. Lindberg e N. H. Steneck, ‘The Sense of Vision
and the Origins of Modern Science’, in Science, Medicine and Society in the Renaissance,
Nova Iorque, 1900) escreve o seguinte a propósito desse princípio: ‘Nenhum valor científico
deve ser atribuído ao que observado tão-somente pela visão. A observação visual jamais pode
ser considerada válida, a menos que o tato a confirme’. Como conseqüência, ‘ninguém
utilizou as... imagens ampliadas [criadas pelos espelhos côncavos] como base do
microscópio. A razão para esse fato fundamental é clara: ninguém acreditava no que via no
espelho, uma vez que se dava conta de que era impossível uma corroboração pelo toque’. Há
também as surpreendentes alterações da percepção terrestre normal, talvez possíveis de ser
inferidas a partir dos resultados de Snell e Dodds, cf. capítulo XVII. A par disso,
será
214
algo desarrazoado supor que os fenômenos são imunes às concepções que temos da relação
entre eles e o mundo. (Pós-imagens poderão ser brilhantes e perturbadoras para alguém
cuja visão surgiu há pouco. Posteriormente, elas passam quase despercebidas, sendo
necessário estudá-las através de recurso a métodos especiais.) A hipótese do texto foi
desenvolvida em um particular sentido não tanto porque eu me ache convencido de que ele
seja o verdadeiro, mas para indicar possíveis linhas de pesquisa e para proporcionar
impressão clara da complexidade da situação, ao tempo de Galileu.
45. Forte argumento em favor dessa afirmativa é a descrição que da Lua faz Kepler em sua
Optics, de 1604: comenta a descontínua feição da fronteira entre luz e sombra (Werke, II, p.
218) e descreve a parte sombreada da Lua durante um eclipse, dizendo que se assemelha a
carne triturada ou madeira. triturada (ibid., p. 219). Volta a essas passagens em
Conversation (op. cit., p. 27), dirigindo-se a Galileu para dizer-lhe que ‘a suas agudas
observações não falta o apoio de meu próprio testemunho. Com efeito, [em minha] Optics, a
metade da Lua aparece dividida por uma linha ondeada. Desse fato, deduzi existirem picos e
depressões nó corpo da Lua. [Mais tarde] descrevo a Lua como assemelhando-se, durante
um eclipse, a carne ou madeira triturada, com fortes raias luminosas a penetrar na região de
sombra’. Lembrar também que Kepler critica os relatos das observações telescópicas de
Galileu com base em observações por ele próprio feitas a olho desarmado; cf. nota 24 deste
capítulo.
46. ‘Há um outro ponto que não devo, de modo algum, esquecer o que notei e em que tenho
pensado. É o seguinte: O meio da Lua é, ao que parece, ocupado por uma cavidade
perfeitamente circular, maior que todo o resto. Observei essa depressão quando próximos o
primeiro e o terceiro quartos, e representei-a tão bem quanto possível
215
na segunda ilustração já dada a conhecer. Quanto à aparência, no que respeita a efeitos de
luz e sombra, tem a mesma que na Terra teria a Boêmia, se fosse fechada, de todos os lados,
por montanhas altíssimas, dispostas ao longo da circunferência de um círculo perfeito; a
porção da Lua é cercada por picos tão altos que o lado mais afastado, adjacente à porção
sombria da Lua, é visto batido de luz solar antes que a fronteira entre luz e sombra alcance a
metade do espaço circular...’ (Messenger, op. cit., pp. 21 ss.). Essa descrição, penso eu,
refuta definitivamente a conjectura de Kopal quanto a descuido nas observações. É
interessante notar a diferença que existe entre as xilogravuras do Nuncius (figura 1, neste
capítulo) e o desenho original de Galileu. A xilogravura corresponde, muito proximamente,
à descrição, ao passo que o desenho original, com seus traços impressionistas (‘Kaum eine
Karte’, diz Wolf) , é suficientemente vago para poder fugir à acusação de sério erro de
observação.
47. ‘Não posso deixar de pensar no significado daquela grande cavidade circular, da parte
que usualmente denomino canto esquerdo da boca’, diz Kepler (Conversation, op. cit., p.
28), e passa a formular conjecturas quanto a sua origem (considerando, inclusive, esforços
deliberados de seres inteligentes).
48. Não considerei, aqui, a obra de della Porta (De Refractione) e a de Maurolicus, ambos,
em certos aspectos, precursores de Kepler (o que é, por este, devidamente mencionado).
Maurolicus toma a importante decisão [Photismi de Lumine, versão de Henry Crew, Nova
Iorque, 1940, p. 45 (a propósito de espelhos) e p. 74 (a propósito de lentes)] de considerar
apenas o ápice da cáustica; mas não é estabelecida relação com o que se vê por visão direta.
As dificuldades foram removidas pela hipótese simples e engenhosa de Kepler; cf. Ronchi,
Histoire de la Lumière, op. cit., capítulo III.
216
49. Werke, II, p. 72. A Optics, de 1604, foi parcialmente vertida para o alemão por F. Plehn,
J. Keplers Grundlagen der geometrischen Optik, Leipzig, 1922. As passagens importantes
aparecem na seção 2 do capítulo 3, pp. 38-48.
50. Ibid., p. 67.
51. ‘Cum imago sit visus opus’, ibid., p. 64. ‘In visione tenet sensus communis oculorum
suorum distantiam ex assuefactione, angulos vero ad illam distantiam notat ex sensu
contortionis oculorum’, ibid., p. 66.
52. ‘Triangulum distantiae mensorium’, ibid., p. 67.
53. Optics, the Science of Vision, op. cit., p. 44. Deve-se também consultar o segundo
capítulo desse livro, para uma história da ótica pré-kepleriana.
54. Ronchi, Optics, pp. 182, 202. Esse fenômeno era conhecido por todos que houvessem
usado, ao menos uma vez, um vidro de aumento—inclusive Kepler. Mostra isso que pôr de
parte fenômenos comuns não acarreta a conseqüência de eles terem sido vistos de maneira
diferente (cf. texto correspondente à nota 44 deste capítulo). A explicação que Isaac Barrow
dá para a dificuldade enfrentada pela regra de Kepler foi atrás mencionada (texto
correspondente à nota 16 do capítulo V). Segundo Berkeley (op. cit., p. 141), ‘esse
fenômeno... subverte inteiramente a opinião dos que gostariam de levar-nos a calcular
distâncias por ângulos e retas...’ Berkeley substitui essa teoria por uma opinião sua, de
acordo com a qual o espírito avalia as distâncias com base na clareza ou confusão das
primeiras impressões. A idéia de Kepler acerca do triângulo telemétrico foi adotada quase
imediatamente por todos os doutrinadores ligados ao assunto. Foi-lhe dada posição
fundamental por Descartes, para quem ‘Distantiam... discimus, per mutuam quandam
conspirationem oculorum’ (Dioptrices, citado com base em Renati Descartes Specima
Philosophiae, Amsterdã, 1657, p. 87). ‘Mas’, diz Barrow, ‘nem essa, nem qualquer
outra
217
dificuldade... me levará a renunciar àquilo que sei ser manifestamente agradável à razão’.
Foi essa a atitude responsável pelo moroso avanço da teoria das lentes e da ótica em geral.
‘A razão desse peculiar fenômeno’, escreve Moritz von Rohr (Das Brillenglas als optisches
Instrument, Berlim, 1934, p. 1), ‘há de ser procurada na estreita relação entre as lentes e o
olho, sendo impossível oferecer aceitável teoria das lentes sem compreender o processo da
visão...’ O triângulo telemétrico omite precisamente esse processo ou, melhor, dele
proporciona uma explicação simplista e falsa. O estado da ótica, ao início do século XX, é
bem descrito por A. Gullstrand em ‘Apêndices à Parte I’ do Treatise on Physiological
Optics, de Helmholtz, versão Southall, Nova Iorque, 1962, pp. 261 ss. Damo-nos conta, aí,
de como um retorno ao processo psicofisiológico habilitou os físicos a chegarem a uma
explicação mais razoável da física das imagens óticas: ‘A razão por que as leis da imagem
ótica real foram, por assim dizer, chamadas à vida pelas exigências da ótica fisiológica está
em parte no fato de que, por meio de cálculos trigonométricos, sem dúvida enfadonhos, mas
fáceis de realizar, tornou-se possível que o engenheiro ótico mais se aproximasse das
realidades de seu problema. Assim, graças ao trabalho de homens como Abbé e seus
seguidores, a ótica técnica atingiu o esplêndido desenvolvimento atual, enquanto, com os
recursos científicos existentes, tem sido impossível apreensão ampla das intricadas relações
no caso da formação de imagens no olho’.
55. ‘Ó, Nicolau Copérnico, que prazer teria sentido você, caso visse parte de seu sistema
confirmada por tão claro experimento!’, escreve Galileu, deixando implícito que os novos
fenômenos telescópicos forneciam apoio adicional a Copérnico (Dialogue, op. cit., p. 339). A
diferença de aspecto entre planetas e estrelas fixas (cf. nota 27 deste capítulo) é por ele
explicada através da formulação da
218
hipótese de que ‘o próprio instrumento de ver [o olho] introduz uma obstrução que é dele
mesmo (ibid., p. 335), obstrução que o telescópio remove, a saber, a irradiação, permitindo
que o olho veja as estrelas e os planetas como realmente são. (Mario Giuducci, seguidor de
Galileu, atribuiu a irradiação à refração devida à umidade da superfície do olho, Discourse
on the Comets of 1618,., p. 47.) Essa explicação, embora possa parecer plausível
(especialmente diante da tentativa feita por Galileu para mostrar que a irradiação pode ser
afastada por meios outros que não o telescópio), não é tão conveniente quanto se poderia
desejar. Gullstrand (op. cit., p. 426) diz que ‘devido às propriedades da ondulada superfície
do feixe de raios refratados pelo olho... há impossibilidade matemática de uma seção
transversal cortar a superfície cáustica em curva suave, na forma de um círculo concêntrico
ao da pupila’. Outros autores apontam para a ‘falta de homogeneidade dos vários humores
e, acima de tudo, dos humores do cristalino’ (Ronchi, Optics, op. cit., p. 104). Kepler dá a
seguinte explicação (Conversation, op. cit., pp. 33 ss.): ‘Os pontos que são fontes de luz
transmitem seus cones ao cristalino. Aí tem lugar a refração e, por trás do cristalino, os
raios voltam a contrair-se para se transformarem em um ponto. Mas esse ponto não alcança
a retina. Conseqüentemente, a luz se dispersa uma vez mais e se espalha por uma pequena
área da retina, quando deveria incidir em um ponto. Assim, o telescópio, dando causa a uma
outra refração, faz com que esse ponto coincida com a retina...’ Polyak, em sua obra clássica,
The Retina, atribui a irradiação parcialmente a ‘defeitos dos meios dióptricos e a imperfeita
acomodação’, mas ‘principalmente’ à ‘peculiar constituição estrutural da própria retina’ (p.
176), acrescentando que pode tratar-se também de uma função do cérebro (p. 429).
Nenhuma dessas hipóteses abarca todos os fatos conhecidos acerca de irradiação.
219
Gullstrand, Ronchi e Polyak (se omitirmos a referência ao cérebro, que pode explicar tudo o
que quisermos) não sabem como explicar o desaparecimento da irradiação no telescópio.
Kepler, Gullstrand e Ronchi também falham ao oferecer uma explicação para o fato, que foi
enfatizado pelo próprio Ronchi, de que grandes objetos não apresentam irradiação nas
bordas (‘Quem procure explicar o fenômeno da irradiação há de admitir que se
contemplamos uma lâmpada elétrica de longe, de modo que ela se reduza a um ponto, esse
alguém a vê rodeada por imensa coroa de raios, ao passo que, de perto, nada vê em torno
dela’, Optics, op. cit., p. 105). Sabemos, hoje, que grandes objetos se tornam definidos pela
interação lateral inibitória dos elementos da retina (interação que é aumentada por função
cerebral), cf. Ratliff, Maçh. Bands, p. 146, mas ainda não foi esclarecido o fenômeno que se
passa com o diâmetro do objeto, sob condições de visão telescópica. A hipótese de Galileu
recebeu apoio principalmente por estar em concordância com o ponto de vista copernicano e
era, portanto, em grande parte, ad hoc.
220
XI
De outra parte, há alguns fenômenos telescópicos tipicamente copernicanos. Galileu
apresenta esses fenômenos como prova autônoma em prol de Copérnico, mas a situação é
antes a de que uma concepção refutada — a doutrina copernicana tem certa semelhança
com fenômenos que emergem de outra concepção refutada — a idéia de que os fenômenos
telescópicos retratam fielmente o céu. Galileu domina em razão de seu estilo e de suas mais
aperfeiçoadas técnicas de persuasão, porque escreve em italiano e não em latim e porque
recorre a pessoas hostis, por temperamento, às velhas idéias e aos padrões de aprendizagem
a elas relacionados.
221
De acordo com a teoria copernicana, Marte e Vênus aproximam-se e afastam-se da Terra
segundo os índices 1:6 e 1:8, respectivamente. (Trata-se de números aproximados.) A
alteração de brilho que sofrem deveria ser de 1:40 e 1:60, respectivamente (são esses os
valores apontados por Galileu). Não obstante, Marte pouco se altera e a variação do brilho
de Vênus ‘é quase imperceptível’l. Essas experiências ‘opõem-se claramente ao movimento
anual [da Terra)’2. O telescópio, de outro lado, provoca novos e estranhos fenômenos,
alguns deles ilusórios, como se pode verificar através de observação a olho desarmado,
alguns contraditórios entre si, alguns chegando a ter a aparência de ilusórios — e a única
teoria capaz de colocar ordem nesse caos, a teoria da visão, devida a Kepler, é refutada por
evidências da mais clara espécie. Todavia — e com isto chego ao que reputo o traço
principal do procedimento de Galileu —, há fenômenos telescópicos, a saber, a variação
telescópica do brilho dos planetas, que se colocam em mais estreita concordância com a
teoria copernicana do que com os resultados da observação a olho desarmado. Visto ao
telescópio, Marte sofre a alteração que caberia esperar, segundo Copérnico.
223
Posta em confronto com os resultados gerais da observação por telescópio, essa alteração
continua a mostrar-se perturbadora. Tão perturbadora quanto a teoria copernicana, quando
posta em confronto com a evidência colhida no período pré-telescópio. Sem embargo, a
alteração está em harmonia com as previsões de Copérnico. É essa harmonia, e não um
profundo conhecimento de ótica e de cosmologia, que, ao ver de Galileu, corrobora
Copérnico e a veracidade do telescópio, no que se refere a fatos terrestres, assim como a fatos
celestes. E é sobre essa harmonia que ele constrói uma concepção inteiramente nova do
universo. ‘Galileu’, escreve Ludovico Geymonat, referindo-se a esse aspecto da questão, ‘não
foi o primeiro a apontar o telescópio para o céu, mas... foi o primeiro a aperceber-se do
enorme interesse das coisas dessa maneira vistas. E compreendeu, de imediato, que os
fenômenos amoldavam-se perfeitamente à teoria copernicana e contradiziam a astronomia
antiga. Galileu acreditava, havia muito tempo, na verdade da doutrina de Copérnico, porém
nunca pudera demonstrá-la, a despeito das declarações extremamente otimistas feitas a
amigos e colegas [não conseguiu, como vimos, e como ele próprio o diz, afastar os exemplos
refutadores]. Não deveria a prova direta [não deveria a simples harmonia com a evidência]
ser, afinal, aí buscada? Quanto mais essa convicção se enraizava em seu espírito, mais clara
se tornava, para ele, a importância do instrumento novo. No espírito de Galileu, a confiança
na fidedignidade do telescópio e o reconhecimento de sua importância não foram dois atos
distintos, mas, antes, dois aspectos do mesmo processo’. Pode a ausência de comprovação
autônoma ser expressa de modo mais patente? ‘O Nuncius’, escreve Franz Hammer,
expondo a questão na mais concisa forma de que tenho conhecimento4 ‘contém duas
incógnitas, sendo uma determinada com o auxílio da outra’. Isso é inteiramente correto,
exceto pela circunstância de que as ‘incógnitas’ não eram desconhecidas, mas reconhecidas
como falsas — assim o diz o próprio Galileu. É essa peculiaríssima situação—
concordância
224
entre duas idéias interessantes, mas refutadas — que Galileu explora, a fim de evitar a
eliminação de qualquer das duas a idéias.
E recorre exatamente ao mesmo processo para preservar sua nova dinâmica. Vimos que
também esta ciência foi ameaçada por eventos passíveis de observação. Para conjurar o
perigo, Galileu introduz o atrito e outros elementos perturbadores e, recorrendo a hipóteses
ad hoc, trata-os como tendências definidas antes pela discrepância óbvia entre fato e teoria
do que como eventos físicos explicados por uma teoria do atrito, a favor da qual provas
novas e independentes poderiam vir, algum dia, a ser descobertas. (Essa teoria só surgiu
muito mais tarde, no século XVIII.) Nesses termos, a concordância entre a nova dinâmica e
a idéia de movimento da Terra, concordância que se vê acentuada por Galileu, graças a seu
método de anamnese, faz com que ambas se afigurem mais razoáveis.
O leitor compreenderá que o pormenorizado estudo de fenômenos históricos, semelhantes
aos de que nos ocupamos, cria consideráveis dificuldades para a concepção segundo a qual a
transição da cosmologia pré-copernicana para a do século XVII consistiu na substituição de
teorias refutadas por conjecturas mais amplas que explicavam os exemplos refutadores,
faziam previsões novas e eram corroboradas por observações realizadas com o propósito de
submeter a teste as novas previsões. E o leitor perceberá, talvez, os méritos de uma
concepção diferente, asseveradora de que, se a astronomia pré-copernicana enfrentava
dificuldades (via-se diante de uma série de contra-exemplos e implausibilidades), a teoria
copernicana enfrentava dificuldades maiores (via-se diante de contra-exemplos e
implausibilidades mais sérios); entretanto, por colocar-se em harmonia com teorias ainda
mais inadequadas ganhou força, manteve-se, sendo as refutações afastadas por hipóteses ad
hoc e hábeis técnicas de persuasão. Esse parece quadro muito mais fiel das ocorrências
havidas ao tempo de Galileu
225
do que a descrição oferecida por quase todas as versões alternativas.
Interromperei, agora, a narrativa histórica, para demonstrar que o quadro não é apenas
factualmente adequado, mas é também perfeitamente razoável, e que qualquer tentativa de
impor algumas das metodologias mais comuns no século XX — tal como, por exemplo, o
método das conjecturas e refutações — teria acarretado conseqüências desastrosas.
NOTAS
1. As reais variações de Vênus e Marte são de uma e quatro magnitudes, respectivamente.
2. Dialogue, op. cit., p. 328.
3. Op. cit., pp. 38 ss. (grifo meu).
4. Johannes Kepler, Gesammelte Werke, op. cit., vol. IV, p. 447. Kepler (Conversation, op.
cit., p. 14) fala de ‘provas mutuamente corroboradoras’. Lembre-se, todavia, que
‘mutuamente corroboradoras’ eram duas hipóteses refutadas (ou duas hipóteses que talvez
fossem incomensuráveis com os enunciados básicos existentes). Em carta endereçada a
Herwarth, datada de 26 de março de 1598, Kepler fala das ‘muitas razões’ que deseja aduzir
em prol do movimento da Terra e acrescenta: ‘cada qual dessas razões, de per si considerada,
só mereceria reduzida crença’ (Caspar-Dyck, Johannes Kepler in seinen Briefen, vol. I,
Munique, 1930, p. 68).
226
XII
Esses métodos ‘irracionais’ de fundamentação tornam-se necessários devido ao
‘desenvolvimento desigual’ (Marx, Lenine) dos diferentes ramos da ciência. A teoria
copernicana e outros elementos essenciais da ciência moderna puderam sobreviver tãosomente
porque, no passado, a razão foi freqüentemente posta de lado.
227
Tendência dominante em discussões a propósito de metodologia é a de focalizar o
problema do conhecimento sub specie aeternitatis, por assim dizer. Comparam-se
enunciados uns com outros, esquecendo-lhes a história e sem levar em conta a circunstância
de poderem provir de estratos históricos diferentes. Indaga-se, por exemplo: dados certo
conhecimento prévio, algumas condições iniciais, certos princípios básicos, várias
observações reconhecidas — que conclusões será lícito retirar com respeito a uma hipótese
recém-sugerida? As respostas variam muito. Afirmam algumas que é possível determinar
graus de confirmação e que estes permitem a avaliação de uma hipótese. Outras afastam a
idéia de existir uma lógica da confirmação e julgam a hipótese por seu conteúdo e pelos
falseamentos que hajam efetivamente ocorrido. Mas quase todas dão por admitido que as
observações precisas, os princípios claros e as teorias corroboradas já são decisivos; que
podem e devem ser utilizados aqui e agora, seja para eliminar a hipótese sugerida, seja para
tomá-la aceitável ou, talvez, até mesmo para confirmá-la!1
229
Esse procedimento só se reveste de sentido se pudermos admitir que os elementos do
conhecimento — as teorias, as observações, os princípios de nossa argumentação — são
entidades atemporais que partilham do mesmo grau de perfeição, são igualmente acessíveis e
se relacionam entre si independentemente dos eventos que os produziram. Trata-se de um
pressuposto muito comum. É acolhido, sem discussão, por todos os lógicos; está subjacente à
usual distinção que se faz entre um contexto de descoberta e um contexto de justificação; e
expressa-se, com freqüência, através da afirmativa de que a ciência lida com proposições e
não com enunciados ou sentenças. Sem embargo, esse procedimento esquece que a ciência é
um processo histórico heterogêneo e complexo, que encerra vagas e incoerentes antecipações
de futuras ideologias e, a par delas, contém sistemas teoréticos altamente refinados e antigas
e petrificadas formas de pensamento. Alguns de seus elementos se apresentam sob a forma
de enunciados claramente redigidos, ao passo que outros se mantêm à sombra e só se
tornam conhecidos por contraste, por serem postos ao lado de concepções novas e fora do
comum. (Assim foi que o argumento da torre invertida auxiliou Galileu a descobrir as
interpretações naturais hostis a Copérnico. E assim foi também que Einstein descobriu
certos pressupostos que jaziam nas profundezas do solo da mecânica clássica, pressupostos
como, por exemplo, o da existência de sinais de velocidade infinita. Para considerações
gerais, cf. último parágrafo do capítulo V.) Muitos dos conflitos e contradições que se
manifestam na ciência devem-se a essa heterogeneidade do material, a essa ‘desigualdade’ de
desenvolvimento histórico, tal como diria um marxista, e não têm significação teorética
imediata2. Têm eles muito em comum com os problemas que surgem quando se faz
necessário instalar urna estação elétrica junto a uma catedral gótica. Ocasionalmente, são
levados em conta aqueles traços; tal se dá, por exemplo, quando se afirma que as leis físicas
(enunciados) e as leis biológicas (enunciados) pertencem a domínios concep-
230
tuais diferentes e não podem ser objeto de comparação direta. Contudo, na maioria dos casos
e, especialmente, no caso observação versus teoria, nossas metodologias projetam todos os
vários elementos da ciência e os diferentes estratos históricos por eles ocupados sobre um só
e o mesmo plano, e passam, desde logo, a emitir juízos comparativos. Isso equivale a
promover uma luta entre um menino e um homem feito e anunciar, triunfantemente, o que
já é óbvio, isto é, a vitória do homem (a história da teoria cinética e a mais recente história
das teorias das variáveis ocultas, em mecânica quântica, estão repletas de infundadas
críticas dessa espécie, o mesmo acontecendo com a história da psicanálise e do marxismo).
Ao examinar as hipóteses novas, devemos, como é claro, considerar a situação histórica.
Vejamos como isso afetará nosso julgamento!
A hipótese geocêntrica e a teoria de Aristóteles, relativa ao conhecimento e à percepção,
ajustam-se muito bem uma à outra. A percepção dá apoio à teoria da locomoção, que
acarreta uma Terra imóvel, e constitui, por sua vez, caso especial de uma ampla concepção
de movimento, onde se inclui locomoção, acréscimo e decréscimo, alteração qualitativa,
geração e corrupção. Essa concepção ampla define o movimento como transição de uma
forma, de agente para paciente, que se encerra quando o paciente assume a forma que, de
início, caracterizava o agente da interação. Nos mesmos termos, a percepção é processo em
que a forma do objeto penetra o ser perceptivo sob exatamente a mesma forma que
caracterizava o objeto, de sorte que, em certo sentido, o ser perceptivo adquire as
propriedades do objeto.
Uma tal teoria da percepção (que se poderia encarar como refinada versão do realismo
ingênuo) não admite qualquer discrepância maior entre as observações e as coisas
observadas. ‘Que no mundo existam coisas inacessíveis ao homem, não apenas agora e no
futuro próximo, mas em princípio e por causa das características naturais do homem,
coisas que, por231
tanto, jamais serão por ele vistas — isso era algo inconcebível ao fim da Idade Antiga e
durante a Idade Média.’3 E a teoria não estimula o uso de instrumentos, pois que estes
interferem com os processos que se desenvolvem no meio. Esses processos só proporcionam
retratos verdadeiros enquanto não forem perturbados. As interferências criam formas que
não são idênticas aos formatos dos objetos percebidos — criam ilusões. Essas ilusões são
facilmente percebidas através do exame de imagens produzidas por espelhos curvos ou de
lentes não-polidas (e lembremos que as lentes utilizadas por Galileu estavam longe do nível
de perfeição hoje alcançado). São distorcidas, e as imagens vistas por meio das lentes
apresentam franjas coloridas e podem surgir em ponto diverso daquele em que se encontra o
objeto. Astronomia, física, psicologia, epistemologia — todas essas disciplinas colaboram,
na filosofia aristotélica, para criar um sistema que é coerente e racional e que se coloca em
harmonia com os resultados da observação, tal como se nota a partir de um exame da
doutrina de Aristóteles sob a forma como a desenvolveram alguns filósofos medievais.
(Análise desse tipo evidencia o poder interno do sistema aristotélico.)
Em tal sistema, interessante papel se reserva à observação. Aristóteles é um empirista.
Os ataques por ele dirigidos contra uma abordagem excessivamente teorética são tão válidos
quanto os dos empiristas ‘científicos’ dos séculos XVII e XVIII. Todavia, enquanto estes
dispensam de exame o conteúdo e a verdade do empirismo, Aristóteles esclarece (1) a
natureza da experiência e (2) por que ela é importante. Experiência é aquilo que um
observador normal (observador cujos sentidos se encontram em boas condições, que não está
embriagado, nem sonolento, etc.) percebe em condições normais (dia claro, ausente a
interferência com o meio) e descreve em linguagem que se adapta aos fatos e pode ser por
todos entendida. A experiência é de importância para o conhecimento porque, em
circunstâncias normais, as percepções do observador contêm formas idênticas às que
residem no objeto. Essas explicações
232
Figura 2. Lua, após sete dias (quarto crescente).
233
não são ad hoc. São conseqüência direta da teoria geral do movimento, elaborada por
Aristóteles, quando posta em conjugação com a idéia fisiológica de que as sensações
obedecem às mesmas leis físicas a que está sujeito o resto do universo; e são confirmadas
pela evidência corroboradora de qualquer dessas duas concepções (sendo parte da evidência
o fato de existirem imagens distorcidas pelas lentes). Hoje compreendemos um pouco
melhor a razão por que uma teoria do movimento e da percepção agora considerada falsa
pôde alcançar tanto êxito (explicação evolucionária da adaptação de organismos; movimento
nos vários meios). Permanece o fato de que nenhum decisivo argumento empírico poderia
ser levantado contra ela (embora não deixasse de enfrentar dificuldades).
Essa harmonia entre a percepção humana e a cosmologia aristotélica é tida como ilusória
pelos que defendem a existência do movimento da Terra. Ao ver dos seguidores de
Copérnico, existem processos de largas proporções, que envolvem vastas massas cósmicas e,
apesar disso, não deixam traço em nossa experiência. Conseqüentemente, as observações
feitas não mais podem ser vistas como testes das novas leis fundamentais que estão sendo
propostas. Não se ligam diretamente a essas leis e podem estar delas inteiramente separadas.
Hoje, depois que o êxito da ciência moderna levou-nos a compreender que a relação entre o
homem e o universo não é tão simples quanto supunha o realismo ingênuo, cabe dizer que
aquela foi uma antecipação correta, que o observador está, de fato, desligado das leis do
mundo, em razão das especiais condições físicas de sua plataforma de observação, a Terra
móvel (efeitos gravitacionais; lei da inércia; forças de Coriolis; influência da atmosfera sobre
as observações óticas; aberração; paralaxe estelar; e assim por diante), pelas idiossincrasias
de seu instrumento fundamental de observação, o olho humano (irradiação; pós-imagens;
mútua inibição dos elementos adjacentes da retina; e assim por diante), bem como pelas
concepções mais antigas que, invadindo a linguagem de observação, provocam o uso
da
234
linguagem do realismo ingênuo (interpretações naturais). As observações talvez encerrem
algo que é próprio da coisa observada, mas esse acréscimo é, via de regra, obscurecido por
outros efeitos (alguns dos quais acabamos de mencionar) e ocorrerão casos em que seja por
eles totalmente eliminado. Consideremos a imagem de uma estrela fixa, tal como vista ao
telescópio. Essa imagem é deslocada por efeitos de refração, de aberração e, possivelmente, de
gravitação. Contém o espectro da estrela não como ela é agora, mas como era há algum
tempo (no caso das supernovas extragaláticas, a diferença pode ser de milhões de anos),
distorcido pelo efeito Doppler, matéria galática interposta, etc. Além disso, a extensão e a
estrutura interna da imagem são inteiramente determinadas pelo telescópio e pelos olhos do
observador: é o telescópio que decide quão amplos serão os discos de difração e é o olho
humano que decide que. parte da estrutura desses discos será vista. Fazem-se necessárias
habilidade considerável e muita teoria para isolar a contribuição provinda da causa original,
a estrela, e para usá-la para fins de teste, significando isso que as cosmologias nãoaristotélicas
só podem ser submetidas a teste depois de havermos separado observações de
leis, valendo-nos, para isso, da ajuda de ciências auxiliares capazes de descrever os
complexos processos que ocorrem entre o olho e o objeto e os processos ainda mais complexos
que se registram entre a córnea e o cérebro. No caso de Copérnico, faz-se indispensável uma
nova meteorologia (no velho sentido da palavra: ocupação com coisas que se põem abaixo da
Lua), uma nova ciência da ótica fisiológica, voltada para os aspectos subjetivos (espírito) e
objetivo (luz, meio, lente, estrutura do olho) da visão, bem como uma nova dinâmica,
esclarecedora de como o movimento da Terra poderia agir sobre os processos físicos
registrados em sua superfície. As observações só se tornam relevantes após os processos
descritos por essas novas disciplinas se haverem colocado entre o mundo e o olho. A
linguagem em que damos expressão a nossas observações talvez deva também ser revista,
235
de sorte que à nova cosmologia seja dada justa oportunidade e ela não se veja ameaçada por
uma despercebida colaboração de sensações e de antigas idéias. Em resumo: o que se faz
necessário para submeter a teoria de Copérnico a teste é uma concepção do mundo
inteiramente nova, onde se registre nova concepção do homem e de suas capacidades de
conhecer.
Obviamente, essa nova concepção do mundo demandará tempo longo para aparecer e
talvez nunca cheguemos a formulá-la em sua totalidade. É extremamente improvável que a
idéia de movimento da Terra se acompanhe imediatamente, do surgimento, em pleno
esplendor formal, de todas as ciências que hoje dizemos constituírem o corpo da ‘Física
clássica’. Adotando posição um pouco mais realista, uma tal seqüência de eventos não seria
apenas extremamente improvável, mas seria, em princípio, impossível, diante da natureza
do homem e das complexidades do mundo que habita. Tão-somente após haverem surgido
aquelas ciências, toma-se procedente dizer que um teste adquire sentido.
Essa necessidade de aguardar e de ignorar grande massa de observações e de medições
críticas raramente é objeto de exame em nossas metodologias. Descartando a possibilidade
de uma nova Física ou nova Astronomia terem de ser julgadas à luz de uma nova teoria do
conhecimento, podendo requerer testes inteiramente novos, os cientistas confrontam aquela
Física, de imediato, com o status quo e anunciam triunfantemente que ela ‘não está em
concordância com fatos e princípios assentados’. Os cientistas têm razão, é claro (e até
trivialmente), mas não no sentido pretendido; isso porque, em um estágio inicial de
desenvolvimento, a contradição indica apenas que o antigo e o novo são diferentes e estão
desajustados. A contradição não revela qual seja a melhor alternativa. Juízo dessa espécie
pressupõe que os contendores se defrontam em termos de igualdade. Como proceder para
chegar a uma justa comparação?
236
O primeiro passo é claro: devemos conservar a nova cosmologia até que haja sido
complementada pelas ciências auxiliares necessárias. Importa conservá-la diante de fatos
refutadores certos e patentes. Podemos, naturalmente, tentar explicar nossa maneira de
agir, dizendo que as observações críticas não são relevantes ou que são enganadoras, mas
não podemos encontrar, para essa explicação, uma única razão objetiva. Seja qual for a
explicação que dermos, ela não passará de um gesto verbal, gentil convite para participar do
desenvolvimento de uma filosofia nova. Nem podemos, agindo razoavelmente, afastar a
teoria da percepção já aceita, que afirma serem relevantes as observações, que dá as razões
em favor dessa afirmação e que se vê confirmada por evidência autônoma. Assim, a nova
concepção é arbitrariamente apartada de dados que deram apoio a sua predecessora e
tornada mais ‘metafísica’: um novo período da história da ciência começa com um
movimento de recuo, que nos leva de volta ao estágio anterior em que as teorias eram mais
fluídas e de mais reduzido conteúdo empírico. Esse movimento de recuo não é meramente
acidental; tem função definida; é essencial que desejemos atingir o status quo, pois ele nos
dá o tempo e a liberdade necessários para pormenorizar a concepção geral e para encontrar
as ciências auxiliares necessárias4.
Esse movimento de recuo é, indubitavelmente, essencial mas como persuadir as pessoas a
acompanharem nossa diretriz? Como afastá-las de um sistema bem estabelecido, refinado e
empiricamente bem sucedido, levando-as a dar adesão a uma hipótese incompleta e
absurda? A uma hipótese — mais do que isso — contraditada por observação após
observação, bastando que nos demos ao trabalho de compará-la com o que nossos sentidos
mostram estar transparentemente ocorrendo. É difícil convencê-los de que o êxito do status
quo é apenas aparente e que isso poderá ser demonstrado dentro de 500 anos ou mais —se
não há um único argumento a nosso favor. (Lembremos que as ilustrações de que me
vali no penúltimo parágrafo
237
ganham força a partir dos êxitos da Física clássica, mas não estiveram ao alcance dos
copernicanos.)5 Claro se torna que a adesão às novas idéias terá de ser conseguida por meios
outros que não argumentos. Terá de ser conseguida por meios irracionais, como a
propaganda, a emoção, as hipóteses ad hoc e os preconceitos de toda espécie. Tornam-se
necessários esses ‘meios irracionais’ para dar apoio àquilo que não passa de fé cega, até que
disponhamos das ciências auxiliares, de fatos, de argumentos que transformem a fé em
‘conhecimento’ bem fundado.
É nesse contexto que se torna importante o aparecimento de uma nova classe secular,
dotada de visão nova e de acentuado desprezo pela ciência das escolas, seus métodos, seus
resultados e até sua linguagem. O latim bárbaro falado pelos doutores (ele tem muito em
comum com o não menos bárbaro ‘inglês ordinário’ falado pelos filósofos, de Oxford), a
pobreza intelectual da ciência acadêmica, seu alheamento ao mundo (que logo passa a ser
visto como indicação de inutilidade), sua ligação com a Igreja —todos esses elementos são
acrescentados à cosmologia aristotélica e o desdém por eles sentido se comunica a todos os
argumentos aristotélicos6. Essa incriminação-por-associação não torna os argumentos
menos racionais ou menos conclusivos, mas lhes reduz a influência sobre os espíritos que se
inclinam por seguir Copérnico, pois Copérnico, agora, quer dizer progresso em outras áreas
também, é símbolo dos ideais de uma nova classe que, olhando para trás, vê os tempos
clássicos de Platão e Cícero e, olhando para frente, contempla uma sociedade livre e
pluralista. A associação de idéias astronômicas e históricas às tendências de classe também
não produz argumentos novos. Mas engendra firme comprometimento com a concepção
heliocêntrica — e isso, como vimos, é tudo de que se necessita a essa altura. Vimos,
igualmente, com que maestria Galileu explora a situação e como lhe dá mais largas
dimensões através de ilusões, anedotas e non sequiturs.
238
Defrontamo-nos com uma situação que teremos de analisar e compreender, se, em face do
debate entre ‘razão’ e ‘irracionalidade’, quisermos adotar atitude mais razoável que as
assumidas por escolas filosóficas de nosso tempo. Admite a razão que idéias por nós
introduzidas para ampliar e aperfeiçoar nosso conhecimento podem surgir de maneira
desordenada e que a origem de um particular ponto de vista talvez esteja na dependência de
preconceito de classe, paixão, idiossincrasias pessoais, questões de estilo e até mesmo de
puro e simples erro. Mas a razão exige também que, ao julgar essas idéias, obedeçamos a
certas regras bem definidas: a avaliação de idéias não deve deixar-se penetrar por elementos
irracionais. Ora, o que nossos exemplos históricos mostram é, aparentemente, o seguinte:
houve situações em que nossos juízos mais liberais, e as mais liberais de nossas regras
teriam eliminado uma idéia ou um ponto de vista que, hoje, consideramos essencial para a
ciência, sem permitir que prevalecessem — e tais situações se repetem com freqüência (cf.
quanto a este ponto, os exemplos do capítulo V). As idéias sobreviveram e agora podemos
dizer que estão em harmonia com a razão. Sobreviveram graças ao preconceito, à paixão, à
presunção, aos erros, à pura teimosia; em suma, graças ao fato de todos os elementos que
caracterizam o contexto da descoberta se haverem oposto aos ditames da razão e graças ao
tato de se haver permitido que esses elementos irracionais atuassem. Em outras palavras: a
teoria copernicana e outras concepções ‘racionais’ só existem hoje porque, em seu passado, a
razão, em algumas ocasiões, foi posta em segundo plano. (A recíproca também é verdadeira:
a feitiçaria e outras concepções ‘irracionais’ só deixaram de exercer influência porque, em
seu passado, a razão, em algumas ocasiões, foi posta em segundo plano.)7
Ora, admitindo que a teoria copernicana é uma Boa Coisa, teremos de admitir também
que sua sobrevivência é uma Boa Coisa. E, tendo em conta as condições de tal sobrevivência,
teremos de admitir, ainda, que foi uma Boa Coisa a razão haver
239
sido posta em segundo plano durante os séculos XVI, XVII e mesmo XVIII. Além disso, os
cosmologistas dos séculos XVI e XVII não dispunham do conhecimento que hoje temos e
não sabiam que a doutrina de Copérnico tem como dar nascimento a um sistema científico
aceitável do ponto de vista do ‘método científico’. Não sabiam qual das diversas concepções
então existentes conduziria à razão futura, se defendida de modo ‘irracional’. Privados
dessa orientação, só lhes restava conjecturar e, ao fazer conjecturas, haviam, como vimos, de
seguir suas inclinações. Convém, conseqüentemente, permitir que, em quaisquer
circunstâncias, as inclinações se contraponham à razão, pois isso pode beneficiar a ciência8.
Esse argumento, que aconselha a não permitir que a razão predomine sobre nossas
inclinações e ocasionalmente (ou freqüentemente — examinar, de novo, o material do
capítulo V) aconselha a afastar por completo a razão, não depende, é claro, dos elementos
históricos por mim apresentados. Se é historicamente acertada a apresentação que faço de
Galileu, o argumento se mantém, exatamente como foi formulado. Se a apresentação não
corresponde à realidade e é simples versão imaginária, então essa versão imaginária estará
mostrando que é possível o conflito entre a razão e as pré-condições do progresso, estará
indicando como esse conflito pode surgir e estará impondo a conclusão de que as
possibilidades de progresso podem ver-se bloqueadas por nosso desejo de agir racionalmente.
Note-se que o progresso é aqui definido como o definiria um racionalista amante da ciência,
isto é, como acarretando ser Copérnico superior a Aristóteles e Einstein superior a
Newton.o É claro que não há obrigatoriedade de aceitar essa definição que, por certo, é
muito acanhada. Dela só nos utilizamos para mostrar que a idéia de razão, aceita pela
maioria dos racionalistas (inclusive todos os racionalistas críticos), é suscetível de impedir o
progresso, tal como esse progresso é definido por essa própria maioria. Volto, agora, ao
exame de alguns pormenores da transição que levou de Aristóteles a Copérnico.
240
O primeiro passo dado no sentido de uma nova cosmologia, foi, como deixei dito, um
passo para trás: evidência aparentemente relevante é descartada, novos dados são
introduzidos por ligações ad hoc, o conteúdo empírico da ciência é drasticamente reduzido9.
Ora, a cosmologia que, por acaso, está ocupando o centro das atenções e cuja adoção nos
leva a promover as alterações descritas difere das outras concepções sob um único aspecto:
possui traços que, àquela época, parecem atraentes aos olhos de alguns. Dificilmente,
entretanto, há uma idéia que seja totalmente destituída de mérito e que não possa tornar-se
o ponto de partida de um concentrado esforço. Nenhuma invenção surge no isolamento e
nenhuma idéia está completamente privada de fundamento (abstrato ou empírico). Ora, se
apoio parcial aliado a plausibilidade parcial basta para dar começo a uma tendência nova—
e sugeri que sim —, se dar início a uma tendência nova equivale a dar um passo que nos
afasta da evidência, se qualquer idéia pode apresentar-se como plausível e receber apoio
parcial, então o passo atrás é, em verdade, um passo à frente, a romper com a tirania de
sistemas teoréticos bem coligados, altamente corroborados e deselegantemente apresentados.
Precisamente acerca deste ponto, escreve Bacon10: ‘Erro diferente é a... dogmática redução
da ciência a artes e métodos, estágio a partir do qual as ciências raramente conseguem
aperfeiçoamento; assim como os jovens raramente crescem de estatura após o corpo e os
membros se haverem desenvolvido completamente, assim o conhecimento, enquanto reside
em aforismos e observações, mantém a aptidão de crescer; mas, uma vez reduzido a métodos,
embora possa aprimorar-se, explicar, adaptar-se a uso, não mais se desenvolverá em volume
e substância’.
A similaridade com as artes, tantas vezes asseverada, manifesta-se exatamente nesse
ponto. Uma vez percebido que o estreito ajustamento ao empírico não é virtude e que deve
ser visto com tolerância em tempos de mudança, passam a ser traços importantes de nosso
conhecimento o estilo, a elegância
241
da expressão, a simplicidade de apresentação, o interesse do argumento e da narrativa, e a
sedução do conteúdo. Dão vida ao que é dito e nos auxiliam a vencer a resistência do
material de observação11. Criam e fazem com que se mantenha o interesse por uma teoria
que se afastou parcialmente do plano observacional e que seria inferior a suas rivais, caso
julgada à luz dos padrões costumeiros. É nesse contexto que muito da obra de Galileu deve
ser colocado. Essa obra tem sido, freqüentes vezes, comparada à propaganda12 — e por
certo que é propaganda. Contudo, a propaganda dessa espécie não é uma atividade marginal
que pode ser ou não ser acrescentada a meios de defesa supostamente mais eficazes e que
deveria, talvez, ser evitada pelo ‘cientista profissionalmente honesto’. Nas circunstâncias
por nós ora consideradas, a propaganda é fundamental. É fundamental porque se faz preciso
despertar o interesse quando se vive um tempo em que as prescrições metodológicas
habituais não oferecem flanco ao ataque; e, por causa disso, o interesse deve ser mantido,
talvez por séculos, até que surjam novas razões. Claro também que tais razões, isto é, as
ciências auxiliares apropriadas, não precisam surgir de um para outro instante e em
completo esplendor formal. Talvez que, de início, se mostrem desarticuladas e se ponham em
conflito com a evidência existente. De começo, tudo quanto se exige é consonância, pelos
menos parcial, com a cosmologia. A consonância mostra que aquelas ciências são, no
mínimo, relevantes e que, possivelmente, produzirão, algum dia, evidência completa e
positiva. Assim, a idéia de que o telescópio mostra o mundo tal como ele realmente é
defronta-se com muitos obstáculos. Mas o apoio que dá a Copérnico e dele recebe constitui
indicação de que talvez estejamos a mover-nos em direção correta.
Encontramos aqui relação extremamente interessante entre uma concepção de ordem
geral e a hipótese particular que é sua evidência. Admite-se, via de regra, que concepções de
ordem geral não significam muito, a menos que a evidência relevante
242
possa ser inteiramente especificada. Carnap, por exemplo, assevera que ‘Não há
interpretação independente para [a linguagem em cujos termos é formulada uma teoria ou
concepção do mundo]. O sistema T [os axiomas da teoria e as regras de derivação] é, por si
mesmo, um sistema de postulados não interpretado. [Seus] termos recebem apenas
interpretações indireta e incompleta, devido ao fato de que alguns deles se ligam a termos
observacionais por meio de regras de correspondência13. ‘Não há interpretação
independente’, diz Carnap, e, não obstante, uma idéia como a do movimento da Terra, que é
inconsistente (e talvez incomensurável) com a evidência existente na época, que se sustenta
graças a declarar que essa evidência é irrelevante e que está, portanto, desligada dos mais
importantes fatos da astronomia do tempo, consegue transformar-se em núcleo, em ponto de
cristalização, passando a congregar outras concepções inadequadas que, gradualmente, vãose
articulando e, finalmente, fundem-se para constituir uma cosmologia nova que acolhe
novos tipos de evidência. Não há melhor versão desse processo do que a descrição que nos
faz John Stuart Mill das vicissitudes de sua educação. Referindo explicações dadas por seu
pai a respeito de assuntos de lógica, ele diz: ‘No momento, as explicações de modo algum
tornaram claro o assunto; mas não foram inúteis; permaneceram como pontos de referência,
em torno dos quais se foram cristalizando minhas observações e reflexões e alcance de suas
ponderações de ordem geral foram se esclarecendo, na medida em que eu, posteriormente,
encontrava exemplos particulares’14. De maneira exatamente análoga, a concepção
copernicana (embora despida de conteúdo cognitivo, do ponto de vista de um empirismo
estrito, ou mesmo refutada) fazia-se necessária para a construção das ciências
complementares mesmo antes de se haver tornado suscetível de teste graças ao auxílio de
tais ciências e mesmo antes de que, por sua vez, lhes fornecesse evidência corroboradora da
espécie a mais convincente. Não é claro que, nas circunstâncias, diretriz extremamente
inconveniente haveria
243
sido ditada por nossas belas e brilhantes metodologias que de nós pedem que nos
concentremos em teorias de elevado conteúdo empírico e que tomemos a sério os riscos e as
refutações e comparemos enunciados pertencentes a camadas históricas diversas, como se
todos fossem idéias platônicas igualmente perfeitas? (O conselho de que submetesse a teste
suas teorias teria sido inútil para Galileu: ele se via diante de embaraçosa quantidade de
exemplos prima fade refutadores e, não tendo como explicá-los, pois carecia do
conhecimento necessário [embora não carecesse das necessárias intuições], devia, portanto,
afastá-los, de modo a salvar de prematura extinção uma hipótese potencialmente valiosa.)
Não é claro também que nos devemos tornar mais realistas, que devemos deixar de
embasbacar-nos diante das formas imaginárias de um céu filosófico ideal (um ‘terceiro
mundo’, como Popper o denomina agora) e passar a ter em conta o que possa ajudar-nos
neste mundo material, considerada a nossa inteligência passível de erros, nossos imperfeitos
instrumentos de medida e nossas teorias falhas? É surpreendente a relutância com que
filósofos e cientistas adaptam suas concepções gerais a uma atividade em que já estão
presentes aquelas teorias falhas (e que, se perguntados, não desejariam abandonar). Essa
relutância, essa resistência psicológica é que faz necessário combinar o argumento abstrato
com o malho da história. O argumento abstrato é imprescindível porque imprime sentido a
nossa reflexão. A história, entretanto, é também imprescindível, ao menos no atual estágio
da filosofia, porque dá força a nossos argumentos. E isso explica a longa digressão que fiz
acerca da Física e da Astronomia do século XVII.
Resumamos o conteúdo dos seis últimos capítulos:
Quando a ‘idéia pitagórica’ de movimento da Terra foi revivida por Copérnico,
enfrentou dificuldades que excediam as
244
dificuldades encontradas pela astronomia ptolomaica da época. Estritamente falando, havia
que encará-la como refutada. Galileu, convencido da verdade da doutrina copernicana e sem
acompanhar a comum, mas não universal, crença em uma experiência assentada, buscou
novos tipos de fatos, suscetíveis de dar apoio a Copérnico, mas que fossem de aceitação
geral. Reuniu esses fatos, procedendo de duas diferentes maneiras. Em primeiro lugar, com
o invento do telescópio, que alterou o núcleo sensorial da experiência cotidiana, colocando
em seu lugar fenômenos perturbadores e não explicados; em segundo lugar, com o
estabelecimento de seu princípio da relatividade e sua dinâmica, que alteraram os
componentes conceptuais da mesma experiência. Nem os fenômenos telescópicos, nem as
novas idéias de movimento eram aceitáveis ao ver do senso comum (ou dos aristotélicos).
Além disso, era possível demonstrar, facilmente, serem falsas as teorias associadas às
posições de Galileu. E, não obstante, essas teorias falsas e esses fenômenos inaceitáveis são
distorcidos por Galileu e transformados em forte apoio à teoria de Copérnico. Todo o rico
repositório da experiência diária e da intuição dos leitores é utilizado nos argumentos de
Galileu, mas os fatos que esses leitores se vêem convidados a relembrar são dispostos
segundo novo esquema, fazem-se aproximações, omitem-se efeitos conhecidos, traçam-se
diferentes linhas conceptuais, de sorte que um novo tipo de experiência emerge,
manufaturado com matéria quase impalpável. Solidificar essa experiência é algo que se
busca através da insinuação de que o leitor com ela sempre esteve familiarizado. Ela ganha
solidez e logo se vê aceita como verdade absoluta, a despeito do fato de seus elementos
conceptuais serem de feição incomparavelmente mais especulativa do que a dos elementos
conceptuais do senso comum. Cabe, portanto, dizer que a ciência de Galileu se fundamenta
em metafísica elucidada. A distorção permite o avanço de Galileu e impede
245
quase todos os outros de fazerem a crítica filosófica de seu esforço (ainda hoje, dá-se ênfase à
matemática de Galileu, a seus supostos experimentos, à sua freqüente invocação da
‘verdade’, olvidando-se completamente seus lances de propaganda). Entendo que Galileu
levou teorias refutadas a se ampararem mutuamente; que dessa maneira construiu uma
nova concepção do mundo, frouxamente (se é que mesmo frouxamente) relacionada com a,
cosmologia anterior (aí incluída a experiência cotidiana); que estabeleceu falsas conexões
entre os elementos perceptivos de sua cosmologia, conexões que só agora passam a ser
substituídas por genuínas teorias (ótica fisiológica, teoria dos contínuos); e que, em todas as
situações que o admitiam, substituiu velhos fatos por um novo tipo de experiência,
simplesmente inventado, com o propósito de dar apoio a Copérnico. Lembremos, de
passagem, que o procedimento de Galileu reduz drasticamente o conteúdo da dinâmica: a
dinâmica aristotélica era uma teoria geral da mudança, abrangendo locomoção, alteração
qualitativa, geração e corrupção. A dinâmica de Galileu e de seus seguidores só se ocupa da
locomoção, afastando outras espécies de movimento com a insinuação esperançosa (devida a
Demócrito) de que a locomoção virá, afinal, a ser capaz de abranger todos os movimentos.
Desse modo, uma teoria do movimento, de caráter empírico e geral, é substituída por uma
teoria de alcance muito menor, que se faz acompanhar de metafísica do movimento, nos
mesmos termos em que uma experiência ‘empírica’ cede passo a uma experiência onde se
contêm elementos especulativos. Esse, a meu ver, o verdadeiro modo como Galileu agiu.
Assim agindo, evidenciou estilo, senso de humor, plasticidade e elegância, percepção do
valor das falhas do intelecto humano — de maneira que jamais foi igualada na história da
ciência. Temos aqui fonte quase inexaurível de material para especulações metodológicas e,
o que é muito mais importante, para recuperação daqueles traços do conhecimento que não
só nos informa como também nos encanta.
246
NOTAS
1. Em uma série de artigos interessantes e provocadores, o professor Kurt Huebner, da
Universidade de Kiel, criticou o caráter ‘abstrato’ das metodologias contemporâneas e
sustentou que ‘a fonte do progresso científico não reside em regras abstratas de falseamento
ou em inferências indutivas ou procedimentos semelhantes, mas no todo da situação
espiritual e histórica, em que o cientista vem a encontrar-se. É a partir de tal situação que
ele reúne seus pressupostos e é sobre tal situação que sua atividade vem a repercutir... A
fraqueza básica da contemporânea filosofia da ciência reside, a meu ver, no seguinte: a
despeito da grande variedade de escolas e de pensadores, continua a proceder ahistoricamente.
Procura resolver seus problemas fundamentais — o caráter dos métodos a
serem aplicados e a justificação dos enunciados obtidos através deles — por meio da simples
reflexão, ficando o pensamento, ao que parece, entregue a si mesmo e a seus refinamentos. .
.’ (‘Was zeigt Kepler’s "Astronomia Nova" der modernen Wissenschaftstheorie?’, in
Philosophia Naturalis, vol. II, 1969, pp. 267 ss.). Huebner também estuda o estranho
caminho que leva de pensadores de orientação histórica, tais como Duhem, Mach, Poincaré,
Meyerson e outros, à atitude seca, a-histórica e, portanto, essencialmente não-científica,
hoje dominante (Phil. Nat., nº. 13, 1971, pp. 81-97), e está elaborando uma teoria da ciência
que toma em conta a História, oferecendo um esboço de ‘Structural Theory of History’
(Studium Generale, nº. 24, 1971, pp. 851-64, especialmente pp. 858 ss.). Essa a trilha que
há de ser seguida se quisermos vencer a esterilidade da atual filosofia da ciência.
2. Segundo Marx, partes ‘secundárias’ do processo social, como a demanda, a produção
artística ou as relações
247
jurídicas podem colocar-se adiante da produção material e passar a arrastá-la: cf. The
Poverty of Philosophy e, especialmente, Introduction to the Critique of Political Economy,
Chicago, 1918, p. 309: ‘A desigual relação entre, por exemplo, o desenvolvimento da
produção material e o da arte. De modo geral, o conceito de progresso não deve ser tomado
no sentido da abstração costumeira. No caso da arte, etc. não é tão importante e difícil
compreender essa desproporção como o é no caso das relações sociais práticas, p. ex. a
relação entre a educação nos Estados Unidos da América e na Europa. O ponto realmente
difícil, a ser discutido aqui, é o do desigual desenvolvimento das relações de produção como
relações jurídicas’. Trotsky descreve a mesma situação: ‘O ponto central da questão está em
que os diferentes aspectos do progresso histórico — economia, política, Estado, emergência
da classe trabalhadora — não se desenvolveu simultaneamente, ao longo de linhas
paralelas’ (‘The School of Revolutionary Strategy’, discurso pronunciado no encontro geral
de membros do partido da Organização de Moscou de julho de 1921, publicado em The First
Five Years of the Communist International, vol. II, Nova Iorque, 1953, p. 5). Ver também
Lenine, Left-Wíng Communism —an Infantile Disorder (op. cit., p. 59) no que respeita ao
fato de as múltiplas causas de um evento poderem estar fora de fase e só terem efeito quando
ocorrem simultaneamente. Sob diferente forma, a tese do ‘desenvolvimento desigual’ diz
respeito ao fato de o capitalismo haver alcançado estágios diferentes em diferentes países e
mesmo em diferentes regiões do mesmo país. Este segundo tipo de desenvolvimento pode
conduzir a uma inversão das relações entre as ideologias associadas, de sorte que a eficiência
da produção e as idéias políticas radicais se desenvolvem em proporções inversas.
248
‘Na Europa civilizada, com sua indústria altamente desenvolvida, sua cultura rica e
multiforme e suas constituições, alcançou-se um ponto da história em que a burguesia
dominante, receando o aumento e crescente força do proletariado, acorre em apoio de tudo
quanto é atrasado, moribundo e medieval... Mas, por toda a jovem Ásia, estende-se poderoso
movimento democrático, a crescer e ganhar fortaleza’ (Lenine, ‘Backward Europe and
Advanced Asia’, Collected Works, vol. 19, op. cit., pp. 99 ss.). Quanto a essa
interessantíssima situação, que merece ser explorada em prol da filosofia da ciência, cf. A.
C. Meyer, Leninism, capítulo 12, Cambridge, 1957, e L. Althusser, For Marx, Londres e
Nova Iorque, 1970, capítulos 3 e 6. O pano de fundo filosófico é esplendidamente
apresentado no ensaio de Mao Tse-tung, On Contradiction (Selected Readings, Pequim,
1970, P’ 70, especialmente secção IV).
3. F. Blumenberg, Galileo Galilei, Sidereus Nuncius, Nachricht von neuen Sternen, vol. I,
Frankfurt, 1965, p. 13. O próprio Aristóteles era de espírito mais aberto: ‘A evidência
(concernente aos fenômenos celestes) só é reduzidamente alcançada pelas sensações, ao
passo que no concernente a plantas e animais perecíveis dispomos de informação abundante,
já que convivemos com eles...’, De Parto Amim. 644 b 26 ss. No que é dito a seguir,
apresenta-se visão altamente idealizada do último período do aristotelismo. A não ser
quando se afirme o contrário, a palavra ‘Aristóteles’ refere-se a essa idealização. Quanto às
dificuldades para compor um quadro coerente do próprio Aristóteles, cf. During,
Aristoteles, Heidelberg, 1966. Quanto a algumas diferenças entre Aristóteles e seus
seguidores da época medieval, cf. Wolfgang Wieland, Die Aristotelische Physik, Göttingen,
1970.
4. Exemplo dessa espécie de movimento de recuo é a volta de Galileu à cinemática
do Commentariolus e seu desin-
249
teresse pelo esquema dos epiciclos, tal como desenvolvido em De Revol. Para admirável
exposição racional dessa passagem, cf. a palestra de Imre Lakatos ‘A Philosopher looks at
the Copernican Revolution’, Leeds, 6 de janeiro de 1973. (Tenho cópia datilografada, a mim
gentilmente enviada pelo professor Lakatos.)
5. Estavam ao dispor dos céticos, especialmente Aenesidemus que assinala, acompanhando
Filo, que nenhum objeto aparece tal como é, porém modificado, em razão de combinar-se
com ar, luz, umidade, calor, etc.; cf. Diogenes Laertius, IX, 84. Afigura-se, entretanto, que
a concepção cética só teve reduzida influência sobre o desenvolvimento da astronomia
moderna e isso é compreensível: não se inicia um movimento a partir do que é razoável.
6. Quanto a essas pressões sociais, cf. , a magnífica Geschichte der neusprachlichen
wissensehaltlichen Literatur, de Olschki. Quanto ao papel do puritanismo, cf. R. F. Jones,
op. cit., capítulos V e VI.
7. Essas considerações refutam J. Dorling que, no British Journal for the Philosophy of
Science, vol. 23, 1972, 189 s., apresenta meu ‘irracionalismo’ como pressuposto e não como
resultado de minha pesquisa. Continua ele ‘. . . imaginar-se-ia que o filósofo da ciência
estivesse mais interessado em recolher e analisar pormenorizadamente os argumentos
científicos aparentemente suscetíveis de reconstrução racional’. Imaginar-se-ia que o
filósofo da ciência estivesse mais interessado em recolher e analisar pormenorizadamente os
movimentos que se fazem necessários para o avanço da ciência. Esses movimentos, busquei
mostrar, opõem-se à reconstrução racional.
8. ‘Razão’ abrange, neste caso, a racionalidade mais liberalizada de nossos contemporâneos
racionalistas críticos.
9. Interessante notar que isso é exatamente o que ocorre no caso da teoria quântica
e da teoria da relatividade. Cf.
250
meu ensaio ‘Problems of Empiricism, Part II’, Pittsburgh Studies, vol. IV, Pittsburgh,
1970, seções 9 e l0.
10. Advancement of Learning (edição de 1605), Nova Iorque, 1944, p. 21. Cf., também, o
Novum Organum, Aforismos 79, 86, bem como o pequeno e esplêndido livro de J. W. N.
Watkins, Hobbes’ System of Ideas, Londres, 1965, p. 169.
11. ‘O que restitui vida ao fenômeno científico é a arte’ (The Diary of Anaïs Nin, vol. I, p.
277).
12. Cf. A. Koyré, Études Galiléennes, vol. III, Paris, 1939, pp. 53 ss.
13. ‘The Methodological Character of Theoretical Concepts’, Minnesota Studies in the
Philosophy of Science, vol. I, Minneapolis, p. 47.
14. Autobiography, citada com base em Essential Works of John Stuart Mill, ed. Lerner,
Nova Iorque, 1965, p. 21.
251
XIII
o método de Galileu estende-se a outros campos. Pode ser usado, por exemplo, para eliminar
os argumentos que se levantam contra o materialismo e para dar fim ao problema filosófico
espírito/corpo. (Os correspondentes problemas científicos permanecem, entretanto,
intocados.)
Galileu realizou progresso alterando as ligações comuns entre palavras e palavras
(introduziu conceitos novos), entre palavras e impressões (introduziu novas interpretações
naturais) , através do uso de princípios novos e incomuns (como a lei da inércia e o
princípio da relatividade universal) e através da modificação do núcleo sensorial de seus
enunciados de observação. Era movido pelo desejo de provocar a aceitação do ponto de vista
copernicano. A doutrina de Copérnico choca-se contra alguns fatos óbvios, é incompatível
com princípios plausíveis e aparentemente bem-estabelecidos e não se acomoda à ‘gramática’
de um idioma comumente falado. Não se acomoda à ‘forma de vida’ em que se contêm esses
fatos, princípios e regras de gramática. Contudo, nem as regras, nem os princípios e nem
mesmo os fatos são sacrossantos. O erro pode residir neles e não na idéia de que a Terra se
move. Cabe, portanto, modificá-los, criar novos fatos e novas regras de gramática, para
verificar o que ocorrerá uma vez que essas regras estejam à mão e se hajam tornado
familiares. Essa tentativa exigirá, talvez, considerável tempo e, sob certo aspecto, a aventura
de Galileu não chegou ainda a seu termo. Já podemos, entretanto,
255
perceber que as alterações foram sábias e que teria sido tolice prender-se à forma aristotélica
de vida, ignorando tudo o mais.
Frente ao problema espírito/corpo, a situação é exatamente a mesma. De novo, temos
‘observações, conceitos, regras de gramática e princípios gerais que, em conjunto,
constituem uma ‘forma de vida’ que, aparentemente, dá apoio a certas concepções, como a
do dualismo, e exclui outras, como a do materialismo. (Digo ‘aparentemente’, porque a
situação é, aqui, muito menos clara do que foi no caso da astronomia.) E, de novo, podemos
agir à maneira galileana, buscando novas interpretações naturais, fatos novos, novas regras
de gramática, novos princípios a que o materialismo possa acomodar-se e, então, comparar
os sistemas totais — o materialismo e os novos fatos, regras, interpretações naturais e
princípios, de uma parte; o dualismo e as velhas ‘formas de vida’, de outra parte. Assim, não
há necessidade de tentar demonstrar, como Smart, que o materialismo é compatível com a
ideologia do senso comum. Nem é o procedimento sugerido tão ‘desesperado’ (Armstrong)
quanto deve parecer aos não-familiarizados com a alteração conceptual. O procedimento era
comum na Antigüidade e ocorre sempre que pesquisadores imaginosos se lançam em novas
direções (Einstein e Bohr são exemplos recentes)1.
NOTAS
1. Para pormenorizado exame desse ponto, indico ao leitor os capítulos 9-15 de meu ensaio
‘Problems of Empiricism’, Beyond the Edge of Certainty, ed. Colodny, Nova Iorque, 1965,
preferivelmente na versão aperfeiçoada e publicada em italiano I problemi dell’Empirismo,
Milão, 1971, pp. 31-69.
256
XIV
Os resultados até agora conseguidos trazem em seu bojo a sugestão de abolir a distinção
entre contexto da descoberta e contexto da justificação e de pôr de parte a distinção correlata
entre termos observacionais e termos teoréticos. Nenhuma dessas distinções tem papel a
desempenhar na prática científica. Tentativas de dar-lhes força trariam conseqüências
desastrosas.
257
Usemos, agora, o material das seções precedentes para esclarecer as seguintes
características do empirismo contemporâneo: (1) distinção entre contexto da descoberta e
contexto da justificação; (2) distinção entre termos observacionais e termos teoréticos; (3)
problema da incomensurabilidade. Esta última questão nos conduzirá de volta ao problema
da racionalidade e da ordem versus anarquismo, que é o traço principal deste ensaio.
Uma das objeções levantadas contra minha tentativa de retirar conclusões metodológicas
a partir de exemplos históricos é a de que se faz confusão de dois contextos essencialmente
distintos, a saber, um contexto de descoberta e um contexto de justificação. A descoberta
pode ser irracional, não se impondo que atenda a qualquer método reconhecido. A
justificação, de outra parte, ou —para recorrer à Palavra Sagrada de uma escola diferente
— a crítica só tem começo após a ocorrência das descobertas e se desenvolve ordenadamente.
‘Uma coisa é’, escreve Herbert Feigl, ‘reconstituir as origens históricas, a gênese e o
desenvolvimento psicológicos, as condições sócio-político-econômicas para aceitação ou
rejeição de teorias científicas; e
259
coisa muito diferente é efetuar reconstrução lógica da estrutura conceptual e dos meios de
teste das teorias científicas’1.
Com efeito, trata-se de coisas diferentes, especialmente por serem executadas por duas
diferentes disciplinas (história da ciência e filosofia da ciência) extremamente zelosas da
respectiva independência. A questão não está, contudo, em saber que distinções um espírito
fértil é capaz de imaginar ao se ver diante de um processo complexo ou em saber como certo
material homogêneo pode ser subdividido por acidentes de História; a questão está em saber
até que ponto a distinção reflete uma diferença real e em saber se a ciência pode avançar sem
forte interação entre os domínios distinguidos. (Um rio pode ver-se dividido por fronteiras
nacionais, mas isso não faz dele uma entidade descontínua.) Ora, há, naturalmente,
perceptível diferença entre as regras de teste, nos termos em que ‘reconstruídas’ por
filósofos da ciência e os procedimentos de que se valem os cientistas na pesquisa
efetivamente realizada. Essa diferença revela-se ao mais superficial exame. De outra parte, o
mais superficial exame revela também que determinada aplicação dos métodos de crítica e
prova, que se diz pertencerem ao contexto da justificação, eliminaria a ciência tal como a
conhecemos — e jamais teriam permitido que ela surgisse2. Entretanto, o fato de a ciência
existir prova que esses métodos foram, freqüentemente, postos de lado. Postos de lado
exatamente em função de procedimentos que agora se diz pertencerem ao contexto da
descoberta. Em outras palavras: na história da ciência, padrões de justificação proíbem,
freqüentes vezes, formas de agir provocadas por condições psicológicas, sócio-econômicopolíticas
e outras de caráter ‘externo’ — e a ciência tão-somente sobrevive porque se permite
que essas formas de agir prevaleçam. Assim, a tentativa de ‘reconstituir as origens
históricas, a gênese e o desenvolvimento psicológicos e as condições sócio-políticoeconômicas
para aceitação ou rejeição de teorias científicas’, longe de ser empreendimento
completamente diverso da consideração de testes, leva, em verdade, a uma
260
crítica de tais considerações — contanto que os dois domínios, o da pesquisa histórica e o do
exame dos processos de teste, não sejam mantidos estanques por decreto irrecorrível.
Em artigo recente, Feigl repete seus argumentos e acrescenta alguns pontos. Acha
‘surpreendente o fato de que... estudiosos como N. R. Hanson, Thomas Kuhn, Michael
Polanyi, Paul Feyerabend, Sigmund Koch et al. tenham a distinção por não-válida ou,
quando menos, por enganosa’3. E assinala que nem a psicologia da invenção, nem qualquer
similaridade, por maior que seja, entre a ciência e as artes pode evidenciar que a distinção
não existe. Quanto a esse aspecto, ele está, sem dúvida, com a razão. Nem mesmo os mais
surpreendentes relatos acerca de como os cientistas chegam a suas teorias podem excluir a
possibilidade de que eles procedam de modo inteiramente diverso, uma vez que a elas
tenham chegado. Contudo, essa possibilidade jamais se concretiza. Inventando teorias e
contemplando-as de maneira descansada e ‘artística’, adotamos, muitas vezes, modos de
agir que as regras metodológicas proíbem. Exemplificando: interpretamos a evidência de
sorte a amoldá-la a nossas caprichosas idéias, eliminamos dificuldades através de recurso a
procedimentos ad hoc, afastamos essas dificuldades ou simplesmente nos recusamos a tomálas
a sério. Conseqüentemente, as atividades que, segundo Feigl, pertencem ao contexto de
descoberta não são apenas diferentes do que se passa no contexto da justificação, mas
colocam-se em conflito com este. Os dois contextos não caminham lado a lado; entram,
freqüentemente, em choque. Vemo-nos, pois, diante do problema de saber a que contexto dar
tratamento preferencial. Esta é a primeira parte do argumento. Ora, vimos que, em caso de
conflito, os cientistas ocasionalmente se inclinam pelos modos de agir recomendados pelo
contexto de justificação, mas podem também escolher modos de agir que pertencem ao
contexto da descoberta e, muitas vezes, têm excelente razão para assim proceder. Com efeito,
a ciência, tal como a conhecemos hoje, não poderia existir sem constante-
261
mente esquecermos o contexto da justificação. Esta é a segunda parte do argumento. A
conclusão é transparente. A primeira parte mostra que não estamos apenas diante de uma
diferença, mas diante de uma alternativa. A segunda parte realça que ambas as opções
postas pela alternativa são igualmente importantes para a ciência e devem receber igual
peso. Não estamos, portanto, lidando com uma alternativa, mas com um domínio único e
uniforme de procedimentos, sendo todos igualmente importantes para o desenvolvimento da
ciência. Isso faz desaparecer a distinção.
Argumento semelhante aplica-se à ritual distinção entre prescrições metodológicas e
descrições históricas. Segundo se diz, a metodologia concerne ao que deve ser feito e não
pode ser criticada através de referência, ao que é feito. Importa, porém, estarmos seguros de
que nossas prescrições dispõem de um ponto de ataque no material histórico e importa
estarmos também seguros de que a aplicação daquelas prescrições há de conduzir a
resultados desejáveis. Alcançamos a segurança, tendo em conta leis e tendências (históricas,
sociológicas, físicas, psicológicas, etc.) que nos esclarecem acerca do que é e do que não é
possível em circunstâncias dadas e, assim, apartam as prescrições praticáveis daquelas que
levariam a situações sem solução. O progresso, repitamos, só será alcançado se a distinção
entre o ser e o dever ser for ‘encarada como recurso temporário e não como linha divisória
fundamental.
Distinção que talvez haja tido alguma significação hoje, definitivamente perdida — é a
que se fez entre termos observacionais e termos teoréticos. Em nossos dias, admite-se, de
modo geral, que essa distinção não é tão nítida quanto se julgou há algumas poucas
décadas. Também se admite, em completa concordância com as primeiras concepções de
Neurath, que tanto as teorias quanto as observações podem ser abandonadas: teorias podem
ser abandonadas em virtude de observações conflitantes; observações podem ser afastadas
devido a razões teoréticas. Enfim, descobrimos que o aprendizado não
262
se desenvolve da observação para a teoria, mas sempre envolve ambos esses elementos. A
experiência aparece acompanhada de pressupostos teóricos e não antes deles; e a experiência
sem teoria é tão incompreensível quanto, (supostamente) a teoria sem experiência:
eliminemos parte do conhecimento teorético de um ser senciente e teremos pessoa
completamente desorientada e incapaz de realizar a mais simples das ações. Eliminemos
maior porção de conhecimento e o mundo sensorial dessa pessoa (sua ‘linguagem de
observação’) começará a desintegrar-se, desaparecerão a sensação de cor e outras sensações
simples, até que a pessoa venha a achar-se em estágio mais primitivo que o de um bebê.
Uma criança, por outro lado, não possui um mundo perceptual estável que possa usar para
emprestar sentido às teorias que lhe são oferecidas. Muito ao contrário, atravessa vários
estágios de percepção que só frouxamente se relacionam entre si (estágios anteriores
desaparecem quando estágios novos se instalam — ver capítulo XVII) que abrangem todo o
conhecimento teorético existente na ocasião. Mais ainda: todo o processo só se inicia porque
a criança reage adequadamente aos sinais, interpreta-os corretamente, porque dispõe de
meios de interpretação mesmo antes de haver experimentado sua primeira sensação clara.
Todas essas descobertas clamam por uma nova terminologia que não mais. separe o que
se acha tão intimamente ligado, seja no desenvolvimento do indivíduo, seja no da ciência.
Contudo, a distinção entre observação e teoria continua a ser sustentada e defendida por
quase todos os filósofos da ciência. Com que sentido? Ninguém negará que as sentenças
científicas podem ser classificadas em sentenças longas e sentenças breves ou que os
enunciados científicos admitem classificação em enunciados intuitivamente óbvios e nãointuitivamente
óbvios. Ninguém negará que tais distinções podem ser feitas. Mas ninguém
lhes dará grande valor ou chegará sequer a mencioná-las, porque não desempenham, hoje,
qualquer papel decisivo no cenário da ciência. (Nem sempre foi assim. Já se
263
julgou, por exemplo, que a plausibilidade intuitiva fosse importante guia para a verdade;
mas desapareceu do campo da metodologia, no momento mesmo em que a intuição foi
substituída pela experiência e por considerações formais.) Desempenha a experiência esse
papel? Não o desempenha, tal como vimos. Entretanto, a conclusão de que deixou de ser
relevante a distinção entre observação e teoria ou não se manifesta ou é rejeitada4. Demos
um passo avante e abandonemos esse último traço de dogmatismo em ciência.
NOTAS
1. ‘The Orthodox View of Theories’, Analyses of Theories and Methods of Physics and
Psychology, ed. Radner e Winokur, Minneapolis, 1970, p. 4.
2. Cf. os exemplos dados no capítulo V.
3. ‘Empiricism at Bay’, MS, 1972, p. 2.
4. ‘Neurath deixa de oferecer... regras [que distingam os enunciados empíricos dos demais]
e, assim, indevidamente, põe de parte o empirismo’, K. R. Popper, The Logic of Scientific
Discovery, Nova Iorque e Londres, 1959, p. 97. Para exposição mais pormenorizada acerca
da dicotomia teoria-observação, cf. meu ensaio ‘Die Wissenschaftstheorie — eine bisher
unbekannte Form des Irrsinns?’, Proceedings of the German Conference of Philosophy,
Kiel, 1972, Felix Meiner, Hamburgo, 1973. ‘Fluidez de contornos’, diz Giedymin, ‘parece
ser a objeção comumente levantada contra as distinções analítico-sintético, observacionalteorético’,
British Journal for the Philosophy of Science, agosto de 1970, p. 261. A objeção é
aceita por muitos autores, mas, certamente, não por mim. Ver as considerações no texto
264
acima, ‘Science without Experience’, Journal of Philosophy of Science, 1969 (observacionalteorético)
bem como os comentários feitos durante o debate, no vol. I dos Salzburg Studies
in the Philosophy of Science, Salzburg, 1967 (analítico-sintético). Minha objeção principal é
a de que as distinções, embora agradáveis aos espíritos simples, são irrelevantes para o
processo da ciência e de que a tentativa de emprestar-lhes força pode ser empecilho ao
progresso.
265
XV
Enfim, a exposição feita nos capítulos VI-XIII atesta que a versão do pluralismo de Mill,
dada por Popper, não está em concordância com a prática científica e destruiria a ciência,
tal como a conhecemos. Existindo a ciência, a razão não pode reinar universalmente, nem a
sem-razão pode ver-se excluída. Esse traço da ciência pede uma epistemologia anárquica. A
compreensão de que a ciência não é sacrossanta e de que o debate entre ciência e mito se
encerrou sem vitória para qualquer dos lados empresta maior força ao anarquismo.
267
A incomensurabilidade, que examinarei em seguida, relaciona-se estreitamente ao
problema da racionalidade da ciência. De fato, uma das mais comuns objeções não apenas do
uso das teorias incomensuráveis, mas até mesmo à idéia de que existem teorias
incomensuráveis na história da ciência, é o temor de que elas restrinjam fortemente a
eficácia do argumento tradicional, não-dialético. Examinemos, pois, um pouco mais
atentamente os padrões críticos que, ao ver de alguns, constituem o conteúdo de um
argumento ‘racional’. De maneira particular, examinemos os padrões da escola de Popper,
cuja raciomania, aqui, mais de perto nos interessa. Isso nos preparará para o estágio final do
debate da questão que põe, na ciência, de um lado, as metodologias que se prendem às regras
e à ordem e, de outro, o anarquismo.
O racionalismo crítico, a metodologia positivista mais liberal hoje existente, ou é uma
idéia penetrada de significado ou não passa de uma coleção de frases feitas (como ‘verdade’,
‘integridade profissional’, ‘honestidade intelectual’, e assim por diante), que têm por
objetivo intimidar oponentes pusilânimes. Quem teria coragem ou mesmo perspicácia
para declarar que
269
talvez a ‘verdade’ não seja importante e talvez chegue a ser indesejável? No primeiro caso,
há de ser possível apresentar regras, padrões, restrições que nos permitam distinguir o
comportamento crítico (pensar, cantar, escrever peças) de outros tipos de comportamento,
de modo a dispormos de meios para descobrir as ações irracionais e corrigi-las com o auxílio
de sugestões concretas. Não é difícil apresentar os padrões de racionalidade defendidos pela
escola popperiana.
Esses padrões são padrões de crítica: o debate racional consiste em tentativa de criticar e
não em tentativa de demonstrar ou de tornar provável. Cada passo dado no sentido de
proteger da crítica certa concepção, de fazê-la segura ou ‘bem fundada’, é passo que afasta
da racionalidade. Cada passo que a torne vulnerável é passo desejável. Além disso,
recomenda-se abandonar idéias que hajam sido consideradas vazias e é proibido conservá-las
em face da crítica severa e bem sucedida, a menos que se possa encontrar contraargumentos
adequados. Desenvolva suas idéias de maneira que elas possam ser criticadas;
ataque-as impiedosamente; não tente protegê-las e sim exibir seus pontos fracos; elimine-as
tão logo esses pontos fracos se hajam posto manifestos — são essas alguma concepções
propostas pelos racionalistas críticos.
Essas regras se tornam definidas e pormenorizadas quando nos voltamos para o campo
da filosofia da ciência e, especialmente, para o campo da filosofia das ciências naturais.
No domínio das ciências naturais, a crítica associa-se ao experimento e à observação. O
conteúdo de uma teoria é a soma total dos enunciados básicos que a contradizem; é a classe
de seus falseadores potenciais. Maior conteúdo equivale a maior vulnerabilidade e,
conseqüentemente, as teorias de amplo conteúdo são de preferir às teorias de conteúdo
reduzido. É desejável o aumento de conteúdo, cabendo evitar o decréscimo desse
conteúdo. Uma teoria q ue contrarie um enunciado básico aceito deve ser abandonada.
Proíbem-se as hipóteses ad hoc — e
270
assim por diante. Uma ciência que aceita as regras de um empirismo crítico dessa espécie
desenvolver-se-á da maneira a seguir exposta.
Parte-se de um problema, como o problema dos planetas, ao tempo de Platão. Esse
problema (que será examinado de forma algo idealizada) não é fruto de curiosidade, mas é
um resultado teorético. Deve-se ao fato de não se terem concretizado certas expectativas: de
um lado, parece claro que as estrelas são divinas e, portanto, cabe esperar que se comportem
de maneira ordenada e obediente a regras; de outra parte, não é fácil descobrir, no
comportamento das estrelas, uma regularidade discernível. Os planetas, tanto quanto se
pode perceber, movem-se de maneira caótica. De que modo conciliar esse fato com a
expectativa e com os princípios sobre que essa expectativa se apóia? Será a expectativa
descabida? Ou teremos falhado na análise dos fatos? Eis o problema.
Importa assinalar que os elementos do problema não são simplesmente dados. O ‘fato’ da
irregularidade, por exemplo, não é perceptível sem mais. Para descobri-la não basta que a
pessoa tenha olhos normais — espírito agudo. Ele só se torna objeto de atenção em virtude
de certa expectativa. Mais precisamente: existe o fato da irregularidade porque havia uma
expectativa de regularidade. Afinal de contas, o termo ‘irregularidade’ só adquire sentido
em face de uma regra. No caso em pauta, a regra (que é a mais específica parte da
expectativa) afirma o movimento circular com velocidade angular constante. As estrelas
fixas amoldam-se a essa regra e a ela também se acomoda o Sol, se traçarmos a sua trajetória
com relação às estrelas fixas. Os planetas não se curvam à regra, nem diretamente, com
respeito à Terra, nem indiretamente, com respeito às estrelas fixas.
(No caso do problema em exame, a regra é formulada explicitamente e pode ser discutida.
Nem sempre assim ocorre. Reconhecer uma cor como vermelho é algo que se torna
possível
271
em razão de pressupostos profundamente enraizados, concernentes à estrutura de nossa
circunstância e o reconhecimento não ocorre quando esses pressupostos deixam de ser
aplicáveis.)
Sintetizando essa parte da doutrina de Popper: a pesquisa começa a partir de um
problema. O problema é o resultado de um conflito entre uma expectativa e uma observação
que, por sua vez, se constitui da expectativa. É transparente que esta doutrina se afasta da
doutrina indutivista, para a qual os fatos objetivos penetram no espírito passivo e ali
deixam seus traços. Foi preparada por Kant, Poincaré, Dingler e por Mill (On Liberty).
Formulado o problema, procura-se resolvê-lo. Resolver um problema equivale a inventar
uma teoria relevante, falseável (em grau maior do que qualquer teoria alternativa), porém
ainda não falseada. No caso mencionado (planetas, ao tempo de Platão), o problema era:
descobrir movimentos circulares, de velocidade angular constante, para preservar os
fenômenos planetários. O problema foi resolvido por Eudoxo e Heráclides, de Pontos.
Em seguida, surge a crítica da teoria elaborada para tentar solver o problema. Crítica
bem sucedida afasta a teoria de uma vez por todas e cria um problema novo, a saber, o de
explicar (a) por que a teoria se manteve até aquela data?; (b) por que deixou de satisfazer?
Para tentar resolver este problema, precisamos de uma nova teoria, que preserve as
conseqüências aceitáveis da anterior, afaste seus erros e faça previsões anteriormente
inexistentes. Aí estão algumas das condições formais a que deve satisfazer a adequada
sucessora de uma teoria refutada. Acolhendo essas condições, procede-se por conjectura e
refutação, passando de teorias menos gerais para teorias de maior generalidade, expandindo,
assim, o conteúdo do conhecimento humano.
272
Fatos, em crescente número, são descobertos (ou construídos com o auxílio das
expectativas) e, a seguir, explicados por teorias. Não há garantia de que o homem venha a
resolver todos os problemas e a substituir cada teoria refutada por sucessora capaz de
satisfazer as condições formais. A invenção de teorias depende de nosso talento e de outras
circunstâncias fortuitas, como, digamos, uma equilibrada vida sexual. Contudo, enquanto
esses talentos se manifestarem, o esquema referido fornece correta versão do crescer de um
conhecimento que satisfaz as regras do racionalismo crítico.
Ora, a esta altura, cabe levantar duas indagações:
1. É desejável viver de acordo com as regras de um racionalismo crítico?
2. É possível ter, ao mesmo tempo, a ciência tal como a conhecemos e essas regras?
No que me toca, entendo ser a primeira questão muito mais importante que a
segunda. Certo é que a ciência e outras
273
instituições que se mostram crescentemente frustradoras e acanhadas desempenham
importante papel em nossa cultura e ocupam o centro de interesse de muitos filósofos (a
maioria dos filósofos é oportunista). Assim, as idéias da escola de Popper surgiram com a
generalização das soluções propostas para problemas epistemológicos e metodológicos. O
racionalismo crítico nasceu da tentativa de solver o problema de Hume e de compreender a
revolução einsteiniana, sendo, depois, estendido para o campo da política e até mesmo para o
da conduta na vida privada. (Parece, portanto, justificada a posição de Habermas e outros,
que vêem Popper como um positivista.) Esse procedimento poderá satisfazer um filósofo de
escola, que olha a vida através das lentes de seus próprios problemas técnicos e só reconhece
o ódio, o amor, a felicidade na medida em que se fazem presentes nesses problemas.
Contudo, se considerarmos os interesses do homem e, acima de tudo, a questão de sua
libertação (libertação da fome, do desespero, da tirania de emperrados sistemas de
pensamento e não a acadêmica ‘liberdade do querer’), então, estaremos procedendo da pior
maneira possível.
Com efeito, não é admissível que a ciência tal como a conhecemos, ou a ‘busca da
verdade’, no estilo da filosofia tradicional, venha a criar um monstro? Não é admissível que
prejudique o homem, transformando-o em máquina miserável, hostil, egoísta, desprovida de
encanto e de humor? ‘Não é possível’, pergunta Kierkegaard, ‘que minha atividade como
observador objetivo [ou crítico-racionaI] da natureza diminua minha fortaleza de ser
humano?l Suspeito que a resposta a todas essas indagações deva ser afirmativa e creio que
se faz urgentemente necessária uma reforma das ciências que as torne mais anárquicas e
mais subjetivas (no sentido de Kierkegaard).
Não são esses, porém, os problemas que desejo agora examinar. No presente ensaio,
limitar-me-ei à segunda pergunta e indagarei: é possível ter, ao mesmo tempo, a ciência tal
como a conhecemos e as regras de um racionalismo crítico tal como
274
o descrito? A essa pergunta a resposta parece ser um firme e sonoro Não.
Para começar, vimos, embora de passagem, que, freqüentemente, o real desenvolvimento
das instituições, idéias, práticas e assim por diante não ocorre a partir de um problema,
porém a partir de uma atividade sem importância — a do jogo, por exemplo — que, como
efeito colateral, conduz a desenvolvimentos posteriormente interpretados como soluções
para problemas que vêm a surgir2. Caberá excluir esses desenvolvimentos? Se os
excluirmos, isso não reduzirá consideravelmente o número de nossas reações de adaptação e
a qualidade de nosso processo de aprendizado?
Em segundo lugar, também vimos, nos capítulos VIII-XII, que um princípio estrito de
falseamento ou um ‘falsear ingênuo’, como o denomina Lakatos3, eliminaria a ciência tal
como a conhecemos e nunca haveria permitido que ela tivesse início.
A exigência de conteúdo crescente também não se vê satisfeita. As teorias que destroem
um ponto de vista amplo e bem enraizado e passam a dominar, restringem-se, inicialmente,
a uma acanhada esfera de fatos, a uma série de fenômenos paradigmáticos de que recebem
apoio e só lentamente se entendem a outras áreas. Isso é demonstrado por exemplos
históricos (capítulos VIII e IX; nota 1 ao capítulo IX) e, em termos gerais, é plausível:
buscando elaborar uma teoria nova, precisamos, de início, dar um passo atrás em relação à
evidência e reconsiderar o problema da observação (o ponto foi discutido no capítulo XII).
Posteriormente, a teoria é estendida a outros domínios, mas a forma de extensão raramente
é determinada pelos elementos que constituem o conteúdo de suas predecessoras. O aparato
conceptual da teoria, que emerge lentamente, logo começa a definir seus próprios problemas,
sendo esquecidos ou postos de lado como irrelevantes os problemas, os fatos e as observações
anteriores (cf. os dois exemplos em nota 1 ao capítulo IX e a exposição que se faz na parte
final do próximo capítulo). Trata-se de um desenvol-
275
vimento inteiramente natural e contra ele não há objeções. Com efeito, por que haverá uma
ideologia de sentir-se restringida por problemas antigos que, de qualquer modo, só faziam
sentido no contexto abandonado e agora se afiguram tolos e artificiais? Por que irá a
ideologia sequer considerar os ‘fatos’ que originaram problemas dessa espécie ou
desempenharam papel em sua solução? Por que não procederá à sua própria maneira,
delineando suas tarefas e compondo seu próprio domínio de ‘fatos’? Afinal, supõe-se que
uma teoria abrangente envolva também uma ontologia com o propósito de delimitar o que
existe e assim delimitar o âmbito de fatos possíveis e possíveis interrogações. O
desenvolvimento da ciência ocorre em consonância com estas considerações. Concepções
novas logo enveredam por novas direções e encaram com desagrado os problemas anteriores
(Sobre que base se apóia a Terra? Qual o peso específico do flogístico? Qual a velocidade
absoluta da Terra?) e os anteriores fatos (a maior parte dos fatos descritos no Malleus
Maleficarum — capítulo 9, nota 1— os fatos do vodu —- capítulo 4, nota 8 - as
propriedades do flogístico ou do éter), que tanto ocuparam o espírito de pensadores de
outras épocas. E quando prestam atenção a teorias precedentes, as concepções novas tentam
dispor-lhes o núcleo factual da maneira já descrita, recorrendo à ajuda de hipóteses ad hoc;
aproximações ad hoc, redefinição de termos ou simplesmente afirmando, sem mais
aprofundado exame da questão, que o núcleo ‘decorre’ de novos princípios básicos4. São
‘enxertados em velhos programas com os quais [se mostram] gritantemente incoerentes’5.
O resultado de todos esses procedimentos é uma interessante ilusão epistemológica: o
imaginado conteúdo das teorias anteriores (que é a interseção das lembradas conseqüências
daquelas teorias com o domínio de problemas e fatos recentemente reconhecidos)
diminui e pode reduzir-se até o ponto de se tornar menor que o imaginado
conteúdo das novas ideologias (que são as conseqüências reais dessas ideologias,
plus todos
276
aqueles ‘fatos’, leis, princípios que a elas se ligam por hipóteses ad hoc, aproximações ad hoc
ou pela afirmação sentenciosa de algum influente físico ou filósofo da ciência - e que
propriamente pertencem à concepção anterior). Comparando o velho ao novo, poderá
parecer que a relação de conteúdos empíricos semelha-se ao seguinte
ou talvez ao seguinte
quando, em verdade, muito mais se assemelha ao seguinte
representando D o domínio de problemas e fatos próprios da antiga teoria, ainda lembrados,
mas que foram distorcidos de maneira a se acomodarem às novas linhas dominantes. Essa
ilusão é a responsável por teimosamente persistir a exigência de conteúdo maior6.
277
Enfim, já se percebeu claramente a necessidade de hipóteses ad hoc: hipóteses ad hoc e
aproximações ad hoc criam uma área experimental de contato entre os ‘fatos’ e aquelas
partes de uma concepção nova que parecem capazes de explicá-los em alguma ocasião futura
e após acréscimo de muitos elementos adicionais. Hipóteses e aproximações ad hoc
especificam possíveis explanada e explanatia e assim determinam a diretriz da pesquisa
futura. Talvez tenham de ser conservadas para sempre, se as linhas dominantes estiverem
parcialmente inacabadas (e isso aconteceu no caso da teoria quântica, que exige conceitos
clássicos para tornar-se uma teoria completa) 7. Ou são incorporadas à nova teoria como
teoremas, levando a uma redefinição dos termos básicos da ideologia anterior (e isso se
registrou no caso de Galileu e da teoria da relatividade). A exigência de que o conteúdoverdade
da teoria anterior, tal como concebido enquanto essa teoria dominava inconteste,
seja abrangido pelo conteúdo-verdade da teoria sucessora é violada, assim em um caso, como
no outro.
Em resumo: para onde quer que olhemos, sejam quais forem os exemplos por nós
considerados, verificamos que os princípios do racionalismo crítico (tomar os falseamentos a
sério; aumentar o conteúdo; evitar hipóteses ad hoc; ‘ser honesto’ — signifique isso o que
significar; e assim por diante) e, a fortiori, os princípios do empirismo lógico (ser preciso;
apoiar as teorias em medições; evitar idéias vagas e imprecisas; e assim por diante)
proporcionam inadequada explicação do passado desenvolvimento da ciência e são
suscetíveis de prejudicar-lhe o desenvolvimento futuro. Proporcionam inadequada versão da
ciência, porque esta é muito mais ‘fugidia’ e ‘irracional’ do que sua imagem metodológica. E
são suscetíveis de prejudicar a ciência, porque a tentativa de torná-la mais ‘racional’ e mais
precisa pode, como vimos, destruí-la. A diferença entre ciência e metodologia, que é
óbvio fato da história, indica, portanto, insuficiência da metodologia e, talvez, também
das ‘leis da razão’. Com efeito, o que se afigura ‘fugidio’, ‘caótico’, ‘oportu-
278
nista’, quando posto em paralelo com tais leis, tem importantíssima função no
desenvolvimento daquelas mesmas teorias que hoje encaramos como partes essenciais de
nosso conhecimento acerca da natureza. Esses ‘desvios’, esses ‘erros’ são pré-condições de
progresso. Permitem que o conhecimento sobreviva no complexo e difícil mundo que
habitamos, permitem que nos mantenhamos como agentes livres e afortunados. Sem ‘caos’,
não há conhecimento. Sem freqüente renúncia à razão, não há progresso. Idéias que hoje
constituem a base da ciência só existem porque houve coisas como o preconceito, a vaidade,
a paixão; porque essas coisas se opõem à razão; e porque foi permitido que tivessem trânsito.
Temos, portanto, de concluir que, mesmo no campo da ciência, não se deve e não se pode
permitir que a razão seja exclusiva, devendo ela, freqüentes vezes, ser posta de parte ou
eliminada em prol de outras entidades. Não há uma só regra que seja válida em todas as
circunstâncias, nem uma instância a que se possa apelar em todas as situações.
Importa lembrar, agora, que essa conclusão foi retirada sob condição de que a ciência, tal
como a conhecemos, permaneça inalterada e que se permita sejam os processos por ela
usados os determinadores de seu desenvolvimento futuro. Dada a ciência, a razão não pode
ser universal e a sem-razão não pode ver-se excluída. Essa peculiar característica do
desenvolvimento da ciência empresta forte apoio a uma epistemologia anárquica. A ciência
não é sacrossanta. As restrições que impõe (e são muitas essas restrições, embora não seja
fácil relacioná-las) não são necessárias para que venhamos a alcançar gerais, coerentes e
frutíferas concepções do mundo. Há mitos, há dogmas de teologia, há metafísica e há muitas
outras maneiras de elaborar uma cosmovisão. Faz-se claro que uma conveniente interação
entre a ciência e essas cosmovisões ‘não científicas’ necessitará do anarquismo ainda mais
que a própria ciência. E, assim, o anarquismo não é apenas possível, porém necessário, tanto
para o progresso interno da ciência, quanto para o desenvolvimento de nossa cultura como
um todo. E a razão, por fim,
279
reúne-se a todos aqueles outros monstros abstratos, como Obrigação, Dever, Moralidade,
Verdade e seus antecessores mais concretos, os Deuses, que já foram usados para intimidar
o homem e restringir-lhe o livre e feliz desenvolvimento — e se vai desvanecendo...
NOTAS
1. Papirer, ed. Heiberg, VII, Parte I, séc. A, nº. 182. Mill tenta mostrar que o método
científico pode ser visto como parte de uma teoria do homem e, assim, dá resposta positiva à
indagação proposta por Kierkegaard; cf. nota 2 ao capítulo IV.
2. Cf. os breves comentários acerca da relação entre idéia e ação, no capítulo I. Para
pormenores, cf. notas 31 ss. de ‘Against Method’, Minnesota Studies, vol. 4, 1970.
3. ‘Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes’, Criticism and
the Growth of Knowledge, ed. Lakatos e Musgrave, Cambridge, 1970, pp. 93 sS.
(‘Falseamentismo ingênuo’ aqui também recebe a denominação de ‘dogmático’.)
4. ‘A teoria de Einstein é superior à ... teoria de Newton anno 1916 ... porque explicou tudo
quanto a teoria de Newton havia conseguido explicar...’, Lakatos, op. cit., p. 124.
5. Lakatos, discutindo Copérnico e Bohr, ibid, p. 143.
6. Essa ilusão transparece até mesmo no excelente artigo de Elie Zahar, a respeito do
desenvolvimento que levou de Lorentz a Einstein. Segundo Zahar, Einstein avantajouse
a Lorentz com a explicação acerca do periélio de Mercúrio (1915). Contudo, em
1915, ninguém havia conseguido ofe-
280
recer uma explicação relativista da clássica teoria da perturbação, com o grau de
aproximação alcançado por Laplace e Poincaré, enquanto as implicações de idéias de
Lorentz sobre o que se passa a nível atômico (teoria do elétron dos metais) também não
foram explicadas, mas viram-se gradualmente substituídas pela teoria quântica: Lorentz foi
‘superado’ não por um, mas por pelo menos dois diferentes programas mutuamente
incomensuráveis. Lakatos, na esplêndida reconstrução que faz do programa de pesquisa de
Copérnico — do Commentariolus ao De Revol. – nota progressivas alterações, mas tal só
ocorre porque ele omite os problemas dinâmico e ótico para se concentrar na cinemática
pura e simples. Pouco surpreende que tanto Zahar quanto Lakatos guardem a impressão de
que a condição de conteúdo continua satisfeita. Cf., também, minha breve nota ‘Zahar on
Einstein’, in the British Journal for the Philosophy of Science, março de 1974.
7. Cf. ‘Problems of Empiricism’, Parte II, op. cit., seções 9 e 10.
281
XVI
Weil er uns sonst niederhaut
Preisen wir ihn alle laut.
(Do coro introdutório de
Judite e Holofernes, de Nestroy.)
Também não escapa a essa conclusão a engenhosa tentativa de Lakatos, feita no sentido de
erigir metodologia que (a) não emite ordens, mas (b) coloca restrições a nossas atividades
ampliadoras de conhecimento. De fato, a filosofia de Lakatos só se afigura liberal porque é
um anarquismo disfarçado. E seus padrões, abstraídos a partir da ciência moderna, não
podem ser vistos como árbitros imparciais na pendência entre a ciência moderna e a ciência
aristotélica, mito, a mágica, a religião, etc.
283
Eu teria encerrado, a esta altura, meu ensaio em defesa de um anarquismo
epistemológico, não fosse o fato de não se notar redução no empenho com que, em ciência e
filosofia, se busca o legal e o ordenado e não tivesse tal empenho ganho um novo e hábil
defensor na pessoa de Imre Lakatos. A tarefa que Lakatos se propõe — fazer crescer o
número dos Amigos da Razão e restituir confiança a racionalistas hesitantes e apreensivos
— é tarefa que, sob certo prisma, não se rodeia de dificuldades. Bastam, com efeito, umas
poucas frases bem torneadas para despertar o temor do Caos na mais esclarecida audiência e
levá-la a desejar ardentemente regras simples e dogmas simples que lhe seja dado seguir sem
a necessidade de, a todo instante, reconsiderar as questões. Alguns dos mais declarados
anarquistas confiam, como vimos, na razão, na ciência e até mesmo na induçãol. E a
geração mais jovem, que em tão altos brados proclama seu desprezo pela autoridade, não
está preparada para viver sem a autoridade da Razão. Devo confessar que esse quase
universal anseio por diretriz ‘objetiva’ é, para mim, fonte de perplexidade. Não me
surpreende quando especialistas avançados em anos, com uma reputação a manter (ou a
ganhar ra-
285
pidamente, antes que morram) e muito naturalmente confundindo o conhecimento com o
rigor mortis mental, olham com má vontade para tentativas de afrouxamento da ciência ou
para tentativas de demonstrar que a grande ciência (que não é a ciência das escolas, nem a
ciência da Rand Corporation, e certamente não é a ciência de Fallowfield ou da London
School of Economics) é uma aventura intelectual que não conhece limites e não reconhece
regras, nem mesmo as regras da lógica. Perturba-me um pouco, entretanto, ver o fervor com
que estudantes e outros não-iniciados se apegam a frases envelhecidas e princípios
decrépitos, como se lhes fosse insuportável uma situação em que sobre eles pesa
responsabilidade por toda ação e em que são causa original de toda regularidade de espírito.
Considerar essa atitude como um apelo à razão é algo que leva a encontrar uma audiência
atenta, ainda que essa mesma audiência seja inteiramente desprovida de razão. Isso é o que
pretendo significar, ao dizer que a tarefa a si mesmo proposta por Lakatos não é, sob certos
aspectos, difícil. Sob outro ângulo, entretanto, a tarefa é assaz difícil: muito difícil é vencer
os obstáculos que a pesquisa recente descobriu estarem colocados diante da razão e elaborar
uma forma de racionalismo capaz de medir-se com eles. E, não obstante, é exatamente isso
que Lakatos procura fazer. Vejamos como ele procede.
Lakatos critica as metodologias existentes e chega a resultado quase idêntico ao que
alcancei. Considerando o modo como são eliminadas as teorias, eis o que escreve: ‘Se
contemplarmos a história da ciência, se tentarmos perceber como alguns dos mais notórios
falseamentos ocorreram, teremos de chegar à conclusão de que alguns deles são claramente
irracionais ou de que se apóiam em princípios de racionalidades diversos dos que acabamos
de examinar’2. Os ‘princípios de racionalidade que acabamos de examinar’ são os princípios
do racionalismo crítico, tal como esboçado na seção anterior, mas Lakatos estava preparado
para estender suas observações a metodologias outras e a outros eventos que não o
falseamento3. É ele um dos pou-
286
cos pensadores a notar a enorme distância que existe entre as várias imagens da ciência e a
‘coisa mesma’; e percebeu também que a tentativa de reformar as ciências, fazendo com que
se aproximem da imagem, está fadada a prejudicá-las e poderá, talvez, destruí-las. Com essa
conclusão concordo plenamente.
Concordo igualmente com duas sugestões que formam parte essencial da teoria da
ciência, proposta por Lakatos. A primeira sugestão é a de que a metodologia deve conceder
‘espaço livre’4 para as idéias que desejemos examinar. Surgida uma teoria nova, não cabe,
de imediato, recorrer aos padrões costumeiros para decidir se ela sobreviverá ou não. Nem
gritantes incoerências internas, nem óbvia ausência de conteúdo empírico, nem amplo
conflito com resultados experimentais deve impedir-nos de conservar e aperfeiçoar ponto de
vista que, por esta ou aquela razão, nos agrade5. No que se refere a aferições metodológicas,
importa a evolução da teoria no decurso de longos períodos de tempo e não sua configuração
em um particular momento. Esta sugestão afasta a maioria das objeções que levantei nos
capítulos precedentes.
Em segundo lugar, Lakatos sugere que os padrões metodológicos não são imunes à
crítica. Procede examiná-los, aprimorá-los, substituí-los por melhores padrões. O exame não
é abstrato, mas faz uso de dados históricos: ‘os dados históricos desempenham papel decisivo
no embate entre metodologias rivais’. Esta segunda sugestão separa a mim e a Lakatos dos
lógicos, para os quais recorrer à História é usar ‘método de paupérrima eficácia’6 e para os
quais a metodologia deve atuar com base apenas em modelos simples. (Muitos lógicos
sequer percebem o problema; dão por assentado que elaborar sistemas formais e jogar com
eles é a única maneira legítima de compreender as alterações que se dão na ciência.) 7
A discórdia entre mim e Lakatos diz respeito aos padrões que ele recomenda, à sua
maneira de avaliar a ciência moderna (em comparação com, digamos, a ciência aristotélica
ou o mito), à sua afirmativa de que procedeu ‘racionalmente’, bem
287
como aos particulares dados históricos de que ele se vale ao discutir as metodologias.
Começarei com uma explanação acerca do primeiro item da lista.
Quando uma teoria nova ou nova idéia entra em cena, geralmente se apresenta algo
desarticulada, contém contradições, não é clara a relação em que se coloca para com os fatos,
e são abundantes as ambigüidades. A teoria está repleta de imperfeições. Pode, não obstante,
ser trabalhada e aperfeiçoar-se. A unidade natural das aferições metodológicas não é,
portanto, uma teoria única, mas uma sucessão de teorias ou um programa de pesquisa; não
formulamos juízo acerca do estágio em que um programa de pesquisa se encontra em
determinado instante, porém julgamos sua história, preferivelmente estabelecendo
comparação com a história de programas rivais.
Ao ver de Lakatos, os juízos são da seguinte espécie: ‘Diz-se que um programa de
pesquisa está progredindo quando seu crescimento teorético se antecipa a seu crescimento
empírico, isto é, enquanto ele continua a alcançar algum êxito na previsão de fatos novos...;
acha-se em estagnação quando o crescimento teorético se atrasa com respeito ao crescimento
empírico, ou seja, quando ele só proporciona explicações post hoc de descobertas casuais ou
de fatos antecipados por um programa rival e por este descobertos’8. Um programa em
estagnação pode vir a degenerar, até o ponto de nada conter senão ‘solenes reafirmações’ da
posição original, combinadas com uma repetição, em seus termos, dos (êxitos de) programas
rivais9. Asseverações dessa ordem são fundamentais na metodologia que Lakatos deseja
defender. Descrevem a situação em que um cientista se encontra. Não lhe dizem como agir.
Verificando que um programa de pesquisa se encontra em avançado estágio de
degeneração, sente-se o impulso de abandoná-lo e de substituí-lo por outro, mais promissor.
É inclinação inteiramente legítima. Mas também é legítimo proceder de maneira oposta,
conservando aquele programa. Qualquer tentativa de exigir seu abandono com base em
uma regra pode ser criti-
288
cada por meio de argumentos quase idênticos aos que levaram a inicialmente ‘assegurar-lhe
espaço livre’: se é desavisado rejeitar teorias errôneas no momento em que surgem, de vez
que podem desenvolver-se e aperfeiçoar-se, também desavisado é rejeitar programas de
pesquisa que revelam tendência de deterioração, pois que podem recuperar-se e atingir
imprevisto esplendor (a borboleta nasce quando a lagarta atingiu o estágio extremo de
degeneração). Conseqüentemente, não se pode racionalmente criticar um cientista que se
apega a um programa em degenerescência e não há meio racional de mostrar que são
desarrazoadas suas ações.
Lakatos aceita este ponto. Acentua que é possível alguém ‘apegar-se racionalmente a um
programa em degeneração até que este seja dominado por um rival e mesmo
posteriormente’10, e que ‘programas podem libertar-se da fossa da degeneração’11. É certo
que a retórica de Lakatos freqüentemente o leva para além do esperado, mostrando que ele
ainda não se acomodou a suas próprias inclinações liberais12. Todavia, quando a questão se
coloca de forma explícita, a resposta é clara: a metodologia dos programas de pesquisa
oferece padrões que auxiliam o cientista na avaliação da situação histórica em que ele toma
decisões; não contém regras que lhe digam o que fazer13.
Assim, a metodologia dos programas de pesquisa difere radicalmente do indutivismo, do
falseamentismo e de outras filosofias ainda mais paternalistas. O indutivismo exige o
abandono das teorias a que falta suporte empírico. O falseamentismo exige o abandono de
teorias que deixem de apresentar maior conteúdo empírico do que suas predecessoras. Todos
exigem o abandono de teorias incoerentes ou de baixo conteúdo empírico. A metodologia dos
programas de pesquisa, como vimos, não inclui essas exigências, nem pode incluí-las. Seu
rationale — ‘proporcionar espaço livre’ — e os argumentos que estabelecem a necessidade
de padrões mais liberais tornam impossível especificar as condições em que um programa de
pesquisa deve ser abandonado ou em que se torna irracional continuar a dar-lhe
289
apoio. Qualquer opção do cientista será racional, porque é compatível com os padrões. A
‘razão’ deixa de exercer influência sobre as ações do cientista. (Fornece, entretanto, a
terminologia para a descrição dos resultados dessas ações.)
Permitam-me rememorar os passos que levam a esse resultado surpreendente. O
primeiro passo corresponde à definição de razão (‘teoria da racionalidade’), que é aceita por
Lakatos. Coloca-se nos padrões que ele propõe para aferição comparativa dos programas de
pesquisa. O segundo passo corresponde à anotação14 de que os padrões, considerados em si
mesmos, não têm força no campo da heurística. A razão, tal como a define Lakatos, não
orienta diretamente as ações do cientista. Dada a razão e nada mais, ‘tudo vale’. Segue-se
daí que não há diferença ‘racionalmente’ perceptível entre a posição de Lakatos e a minha,
sempre considerando os padrões de Lakatos como forma de medir a racionalidade. Contudo,
há, por certo, grande diferença na retórica e diferimos também quanto a nossa atitude em
face da ‘liberdade’ de pesquisa15, que emerge de nossos ‘padrões’. Passo a examinar mais de
perto essas diferenças.
A característica distintiva do anarquismo político é sua oposição à ordem de coisas
estabelecidas: o Estado, as instituições, as ideologias que fundamentam e glorificam essas
instituições. A ordem estabelecida há de ser destruída, de sorte a que a espontaneidade
humana encontre campo aberto e possa exercitar seu direito de iniciar livremente a ação, de
escolher livremente o que lhe pareça melhor. Por vezes, alguém deseja superar não apenas
algumas circunstâncias sociais, mas todo o mundo físico, visto como corrompido, irreal,
efêmero e vazio de importância. Esse anarquismo religioso ou escatológico nega não apenas
as leis sociais, mas as leis morais, físicas e perceptivas, e delineia um modo de existência que
não mais se prenda ao corpo, a suas reações e necessidades. A violência, sob forma política
ou espiritual, desempenha importante papel em quase todas as formas de anarquismo. A
violência é necessária para
290
vencer os obstáculos levantados por uma sociedade bem organizada ou por modos pessoais
de comportamento (percepção, reflexão, etc.) e é benéfica para o indivíduo, porque liberta
suas energias e o leva a aperceber-se das forças que tem a seu dispor. As associações livres,
onde cada um faz o que está mais de acordo com as suas aptidões, substituem as petrificadas
instituições estabelecidas, não cabendo permitir que função alguma se mantenha fixa— ‘o
chefe de ontem pode tornar-se o subordinado de amanhã’16 . O ensino há de basear-se na
curiosidade e não em exigências, o ‘professor’ deve estimular essa curiosidade, sem recorrer
a qualquer método consagrado. A espontaneidade reina suprema, tanto no que respeita ao
pensamento (percepção) como no que respeita à ação.
Uma das características notáveis do anarquismo político pós-iluminista é sua confiança
na ‘razão natural’ da raça humana e seu respeito pela ciência. Esse respeito só raramente é
tática oportunista — reconhece-se um aliado e a ele se dirige uma saudação, para mantê-lo
satisfeito; na maioria das vezes, o respeito se baseia na genuína convicção de que a ciência,
não adulterada, proporciona explicação verdadeira do homem e do mundo e forja poderosas
armas ideológicas na luta contra o simulacro de ordens em vigor.
Em nossos dias, essa ingênua e quase infantil confiança na ciência está ameaçada por
dois fatores.
O primeiro deles é o surgimento de novos tipos de instituições científicas. Em oposição a
sua predecessora imediata, a ciência de fins do século XX pôs de lado todas as pretensões
filosóficas e tornou-se poderoso negócio que dá forma especial à mentalidade dos que a ela se
dedicam. Bom salário, boa posição frente ao chefe e aos colegas, na ‘unidade’ que formam,
tais são os principais objetivos dessas formigas humanas que se mostram insuperáveis no
solucionar minúsculos problemas, sem contudo serem capazes de compreender qualquer
coisa que lhes transcenda o domínio de competência. Considerações humanitárias são
relegadas a nível mínimo17, o mesmo acontecendo com
291
qualquer forma de progressismo que ultrapasse a fronteira dos aperfeiçoamentos de
interesse imediato. As mais altas conquistas do passado são usadas não como instrumentos
de ilustração, mas como formas de intimidação, tal como se viu em recentes debates a
propósito da teoria da evolução. Que alguém consiga dar um grande passo à frente — e a
profissão estará pronta a transformá-lo em clava para agredir os demais e levá-los à
submissão.
Este segundo desenvolvimento diz respeito ao pretenso valor dos produtos desta sempre
cambiante empresa. Já se imaginou que as leis científicas fossem definitivas e irrevogáveis.
O cientista descobre fatos e leis e faz aumentar constantemente o volume do conhecimento
seguro e indubitável. Hoje, sabemos, graças principalmente aos trabalhos de Mill, Mach,
Boltzmann, Duhem e outros, que a ciência não pode oferecer garantias daquela ordem. As
leis científicas são suscetíveis de revisão e, com freqüência, notamos não apenas que elas
apresentam aspectos incorretos, mas que são inteiramente falsas, fazendo asserções acerca
de entidades que jamais existiram. Há revoluções que não deixam pedra sobre pedra e
desafiam todos os princípios. De aparência desagradável, apresentando resultados indignos
de confiança, a ciência deixou de ser uma aliada do anarquista e transformou-se em
problema. Deve o anarquista abandoná-la? Deve utilizá-la? Que deve fazer com ela? Esse o
problema. O anarquismo epistemológico dá resposta a essa pergunta. Põe-se em linha com
os credos remanescentes do anarquismo e afasta os últimos elementos de oposição.
O anarquismo epistemológico difere tanto do ceticismo quanto do anarquismo político
(religioso). Enquanto o cético vê tudo como igualmente bom ou igualmente mau ou desiste
completamente de formular juízos dessa espécie, o anarquista epistemológico não sente
escrúpulo em defender o mais banal ou o mais afrontoso enunciado. Enquanto o anarquista
político ou religioso pretende afastar certa forma de vida, o anarquista epistemológico
desejará, talvez, defendê-la, pois não tem lealda-
292
de permanente para com qualquer instituição, nem permanente aversão contra ela. Como o
dadaísta, a quem se assemelha muito mais do que se assemelha ao anarquista político, o
anarquista epistemológico ‘não apenas não tem programa [como é] contra todos os
programas’18, embora, por vezes, se mostre o mais exaltado defensor do status quo ou de
seus opositores: ‘para ser um verdadeiro dadaísta há que ser também um antidadaísta’. Seus
objetivos mantêm-se os mesmos ou se alteram na dependência do argumento, do tédio, de
uma experiência de conversão, do desejo de impressionar a amante ou de outros fatores
dessa ordem. Dado um objetivo qualquer, o anarquista epistemológico talvez tente atingi-lo
com o auxílio de grupos organizados, talvez sozinho; talvez recorra à razão, à emoção, ao
ridículo, a uma ‘atitude de séria preocupação’ ou a quaisquer outros. meios inventados pelos
humanos para obter o que há de melhor em seus semelhantes. Seu passatempo favorito é o
de perturbar os racionalistas, descobrindo razões fortes para fundamentar doutrinas
desarrazoadas. Não há concepção ‘absurda’ ou ‘imoral’ que ele se recuse a examinar ou
acompanhar e método algum é visto como indispensável. Aquilo a que se opõe de maneira
decidida e absoluta são os padrões universais, as leis universais, as idéias universais, como
‘Verdade’, ‘Razão’, ‘Justiça’, ‘Amor’, e o comportamento que essas idéias acarretam,
conquanto não deixe de admitir que, freqüentes vezes, é de boa política agir como se tais leis
(tais padrões, tais idéias) existissem e como se lhes desse crédito. Talvez que o anarquista
epistemológico se ligue ao anarquista religioso na oposição à ciência e ao mundo material e
talvez que supere qualquer vencedor de Prêmio Nobel na defesa vigorosa da pureza
científica. Não tem ele objeção a ver, na textura do mundo, tal como descrito pela ciência e
revelado por seus próprios sentidos, uma quimera, por detrás da qual se oculta uma
realidade mais profunda e, talvez, espiritual, ou simples teia de sonhos, que nada revela e
nada esconde. Devota grande interesse a procedimentos, fenômenos e experiências do tipo
dos relatados por Carlos Cas-
293
tañeda19, indicadores de que as percepções podem ser dispostas de maneira fora do comum e
que a escolha de uma particular disposição ‘correspondente à realidade’, embora não sendo
arbitrária (depende, quase sempre da tradição), certamente não é mais ‘racional’ ou mais
‘objetiva’ do que a escolha de outra disposição qualquer: Rabbi Akiba que, em transe
extático, passa de uma a outra esfera celestial e, continuando a ascender, vê-se, finalmente,
face a face com Deus em todo seu esplendor20, faz observações genuínas, dependendo de
aceitarmos sua maneira de vida como forma de medir a realidade; e seu espírito é tão
independente de seu corpo quanto o asseveram as observações escolhidas21. Aplicando esse
ponto de vista a um assunto, específico, tal como a ciência, o anarquista epistemológico vem
a constatar que o seu desenvolvimento, dado como aceito (p. ex., do Mundo Fechado para o
‘Universo Infinito’), só ocorreu porque os militantes da ciência inadvertidamente usaram a
filosofia anárquica no interior das fronteiras de sua esfera profissional — alcançaram êxito
porque não admitiram ver-se limitados por ‘leis da razão’, ‘padrões de racionalidade’ ou
‘imutáveis leis da natureza’. Sob todos esses desmandos, coloca-se a convicção do
anarquista, segundo a qual o homem só deixará de ser escravo para ganhar uma dignidade
que é mais do que exercício de cauteloso conformismo quando se tornar capaz de escapar de
categorias e convicções fundamentais, inclusive daquelas que, supostamente, o fazem
humano. ‘A compreensão de que razão e anti-razão, sentido e sem sentido, intenção e acaso,
consciência e não-consciência [e, acrescentaria eu, humanitarismo e anti-humanitarismo]
são, em conjunto, partes necessárias de um todo, essa foi a mensagem central de Dada’,
escreve Hans Richter. O anarquista epistemológico aceita esse ponto, embora não se
expresse de forma tão contida. Não há como, neste ensaio, acompanhar todas as implicações
dessa radical concepção, que é racional no sentido de que toda ação por ela recomendada
pode ser defendida com recurso aos mais primorosos argumentos (afinal, a razão é
escrava das paixões). Eu, diferentemente,
294
procurarei mostrar como um anarquista epistemológico pode atuar em específicas situaçõesproblema,
admitido que ele se haja temporariamente inclinado por escolher certo objetivo e
por aceitar certa descrição do ‘estado do mundo’.
Imaginemos que esse anarquista esteja vivendo ao início do século XVII e que há pouco
passou a conhecer a obra principal de Copérnico. Que atitude tomará? Que procedimento
recomendará? A que procedimento se oporá? Que dirá? O que ele diga estará na
dependência de seus interesses, das ‘leis sociais’, da filosofia social, das opiniões referentes
ao quadro contemporâneo que ele resolveu aceitar, no momento. Há inúmeras maneiras de
ele justificar essas leis, essas opiniões, essa filosofia, em face dos que solicitem uma
justificação ou, quando menos, um argumento. Não há, de nossa parte, interesse em tal
justificação ou tais argumentos.
Admitamos, ainda, que nosso anarquista não tenha a atenção voltada apenas para
desenvolvimentos técnicos, mas também para a paz social e dê-se conta de que a paz social
pode ser perturbada por desenvolvimentos ocorridos em recônditos campos (note-se que as
expressões ‘tenha a atenção voltada’ e ‘dê-se conta’ e o que mais consta como descrição de
sua atividade são descrições apoiadas no senso comum, que acarretam atitude metodológica
de que o anarquista não partilha: ele é como um agente secreto duplo, que atua em favor de
um e outro dos lados hostis). Passará ele, então, a estudar o potencial ideológico da doutrina
copernicana, considerada a existência de classes novas e algo agitadas que podem ver em
Copérnico um defensor de seus interesses, mas classes que também podem ser atingidas e
domadas por meio de argumentos. Convencido da ‘racionalidade’ de seus oponentes
(contanto que as razões não sejam dadas em linguagem seca e acadêmica), ele preparará
divertidos folhetos (‘divertidos’ do ponto de vista dos leitores) acentuando os pontos fracos
da teoria copernicana e reunirá os intelectuais mais ativos para que essa tarefa mais
eficientemente se complete. Talvez que ele alcance êxito, embora ‘seja muito
295
difícil fazer ruir um programa de pesquisa apoiado por cientistas cheios de talento e
imaginação’22: ‘se dois grupos que defendem diferentes programas de pesquisa entram em
competição, aquele que disponha de maior talento criador [e, importa acrescentar, maior
visão das condições sociais e da psique dos oponentes] terá mais probabilidade de vencer ... o
caminho da ciência é traçado antes de tudo pela imaginação criadora e não pelo universo de
fatos, que nos cerca’23. Talvez que ele aja mais diretamente, defendendo o ideal de
estabilidade que inspira o ponto de vista aristotélico, ainda aceito por grandes grupos da
população total. Dessa maneira, acompanhando o jogo de alguns racionalistas e utilizando
as leis sociais como temporárias alavancas, o anarquista destrói racionalmente a ânsia de
progresso experimentada por outros racionalistas.
Interessante assinalar que o cardeal Belarmino, embora estivesse longe de ser um
anarquista, agiu guiado por considerações muito semelhantes às agora esboçadas: ele deseja
a paz social. ‘Galileu não mostrou muita preocupação com o povo comum e ignorante, com
o “rebanho” como dizia ele, em sua esnobe atitude para com todos que não eram grandes
matemáticos e experimentadores de sua estirpe. Ainda que, tal como sugeria, o povo
perdesse a fé, caso viesse a saber que a Terra se move em torno do Sol a uma velocidade de
29 quilômetros por segundo, continuaria a doutrina copernicana a dever ser louvada, com
propósito ou sem propósito. O homem comum ... era caro ao coração de Belarmino e ele não
podia compreender a precipitação impetuosa de Galileu, a forçar um ponto que poderia
perturbar a fé dos simples, sendo-lhe possível reservar suas intuições — como o fazem os
cientistas de hoje — para debate e tranqüilo estudo entre colegas. Belarmino tinha,
indubitavelmente, o direito de reclamar alguma prova mais sólida que as luas de Júpiter, as
fases de Vênus, as manchas do Sol, uma vez que tudo isso muito bem se acomodava ao
sistema de Tycho Brahe, permitindo que a Terra continuasse imóvel ... Essa era a orientação
adotada pelos astrônomos jesuítas’... 24
296
(Infelizmente [ou felizmente?] esses astrônomos contentavam-se com levantar dificuldades
e adaptar descobertas feitas por outros; não compreendiam o valor publicitário das previsões
e dos espetáculos dramáticos, nem recorriam aos poderes intelectuais e sociais das novas
classes que emergiam. Perderam por omissão.)
Admitamos de outra parte, que nosso anarquista deteste as peias emocionais,
intelectuais, sociais, a que seus contemporâneos estão presos; que as encare como obstáculo
e não como pressuposto de uma vida feliz e realizada; e que, sendo um intelectual e não um
general ou um bispo, ele prefira alterar a situação, sem sair de seu gabinete. Em tal hipótese,
ele buscará pontos de vista que se oponham a alguns pressupostos fundamentais da
ideologia ortodoxa e que seja possível usar como alavancas para subverter essa ideologia. Ele
compreenderá que idéias abstratas só podem converter-se em alavancas desse tipo se forem
elementos de uma prática, de uma ‘forma de vida’ que (a) possa associá-las a eventos de
influência e (b) tenha, ela própria, alguma influência social. Se isso não acontecer, as idéias
serão descartadas ou ridicularizadas como sinais de abstração e sofisticação intelectual. Há
de existir uma tradição capaz de absorver as idéias novas, usá-las, elaborá-las e essa tradição
há de merecer o respeito de pessoas influentes, classes poderosas, etc. Talvez que nosso
anarquista decida ser o ponto de vista copernicano uma alavanca potencial da espécie que
ele deseja e talvez que busque, em torno de si, meios de torná-la mais eficaz. A primeira
matéria ou ‘forma de vida’ que encontra nessa busca é, naturalmente, a astronomia e, no
campo da astronomia, a exigência de tabelas novas, de mais precisos valores para as
constantes, de melhores meios de estabelecer o calendário. Avanços em tal sentido
robusteceriam a doutrina copernicana e lhe reforçariam a alavanca. Entretanto, o maior dos
êxitos de previsão é, de imediato, anulado por uma teoria conhecida, que também faz parte
da astronomia e que parece gozar do favor do próprio Copérnico, o grande25: as teorias
astronômicas são instru-
297
mentos de previsão; o êxito que alcancem nada nos diz acerca da real estrutura do universo;
problemas dessa ordem são resolvidos pela Física, apoiando-se em observações simples. Essa
‘concepção instrumentalista’ não é apenas parte da tradição que ele deseja utilizar, mas
pode também contar com o apoio de observações diversas daquelas que fundamentam a
Física: contemplem Vênus ou Marte e verão que esses planetas têm as proporções
aumentadas ou diminuídas de maneira muito diversa de como deveriam aumentar ou
diminuir nos termos em que a doutrina de Copérnico lhes estabelece as trajetórias26.
Mostra isso que se fazem precisos meios adicionais para fortalecer a concepção que destruirá
o status quo. Meios que não poderão ser tão facilmente interpretados à feição
instrumentalista. E, assim, nosso anarquista altera seu método de agir. Deixa de parte as
complexidades da astronomia planetária27, admite que os planetas se desloquem segundo
círculos simples e tenta encontrar sinais mais claros da verdade da teoria de Copérnico.
Um golpe de sorte o levou a ouvir falar do telescópio. Este se afigura importante auxílio
para a arte da guerra, atraiu a atenção do público, rodeia-se de mistério, há disposição de
nele acreditar ou, melhor, os artífices, cuja estreita familiaridade com as lentes lhes dá
alguma experiência prática de aparelhos desta espécie, estão inclinados a nele confiar.
Promovem-se exibições públicas. São vistas coisas impossíveis de ser vistas a olho
desarmado e cuja natureza é conhecida — torres, muralhas, navios, etc. Ninguém duvida de
que o instrumento mostre as coisas como realmente são. O palco está preparado. E agora o
telescópio é apontado para o céu. Observam-se numerosos fenômenos perturbadores, alguns
absurdos, alguns contraditórios, alguns diretamente favorecendo a posição copernicana.
Nem o mais sofisticado argumento de natureza ótica é capaz de deter a crescente convicção
de que se abriu uma nova idade para o conhecimento e de que velhas fábulas a respeito dos
céus não passam disso — de fábulas. Essa convicção é particularmente forte entre os
que têm avançado conhecimento de cunho prático,
298
despido de terminologia complexa e que estão convencidos de ser a Física praticada na
Universidade antes uma coleção de palavras do que um conhecimento de coisas (lembrar o
desprezo puritano pelas especulações inúteis). Solicitado a oferecer uma justificação
teorética, nosso anarquista, recordando a lei do desenvolvimento desigual, usará farrapos de
argumentos, sem pejo de lhes emprestar feição de propaganda. Com grande freqüência, o
entusiasmo pelas novas concepções é tão acentuado que se torna desnecessário propaganda
adicional: ‘Afortunadamente para esses homens, suas simpatias lhes obscureceram, algumas
vezes, a visão crítica’, escreve Albert Schweitzer a propósito de circunstâncias análogas no
campo da Cristologia28. E, desse modo, a alavanca se robustece ainda mais, até desalojar
toda a concepção ortodoxa, inclusive suas implicações no que respeita à posição do homem
no universo material, à relação entre homem e Deus e assim por diante29.
Como terceiro exemplo, tomemos um anarquista interessado tão-somente no
aperfeiçoamento da astronomia científica e entendendo que o aumento de conteúdo é
condição necessária para aquele aperfeiçoamento. Talvez ele haja convencido a si próprio de
que o aumento de conteúdo só pode ser conseguido por meio de observações de tipo
inteiramente novo e talvez ele inicie o movimento afirmando estar de posse dessas
observações, embora inexista argumento em favor desta afirmação. Pondo o aumento de
conteúdo na dependência exclusiva de novas observações, ele tem de afastar as observações
antigas e as destrói sem jamais explicar por que não devem ser usadas, criando, assim, a
‘ilusão epistemológica’, descrita no capítulo XV. As novas razões são aceitas, as velhas são
esquecidas e jamais se dá qualquer razão para justificar a troca: as razões não existem no
momento em que a permuta ocorre e, quando passam a existir, já não se revestem de
interesse. Dessa maneira, o aumento de conteúdo é manufaturado pelo simultâneo recurso
ao entusiasmo, à capacidade de esquecer e à mudança histórica.
299
Os dois últimos exemplos, que são versões apenas ligeiramente simplificadas de
desenvolvimentos históricos reais30, firmam um ponto (já acentuado no capítulo 1): dado
um objetivo qualquer, embora o mais acanhadamente ‘científico’, o procedimento ametódico
do anarquista tem maior possibilidade de alcançar êxito do que um bem-definido
conjunto de padrões, regras e prescrições31. (Somente no interior das linhas de uma
concepção do mundo largamente abrangente é que regras especiais podem ser justificadas e
adquirir possibilidade de êxito.) O primeiro exemplo torna plausível a hipótese de que
argumentos, judiciosamente utilizados, poderiam ter impedido o surgimento da ciência
moderna. Argumentos podem ser causa de atraso da ciência, ao passo que a decepção é
necessária para que ela avance. Acrescentemos a isso o que aprendemos acerca dos
princípios ordenadores do mito, do entusiasmo religioso, das experiências paranormais e
nos inclinaremos decididamente a acreditar que são muitos os modos de abordar a natureza
e a sociedade e muitos os modos de avaliar os resultados de uma particular abordagem, que é
preciso escolher e que não há condições objetivas a nos guiar. Até aqui, fizemos breve e
muito incompleto esboço da ideologia do anarquismo epistemológico e de algumas de suas
aplicações possíveis.
Imre Lakatos, de outro lado, deseja que a ciência e, em verdade, o todo da vida intelectual
se conforme a certos padrões fixos, quer fazê-la: ‘racional’. O que significa duas coisas: (a)
os padrões escolhidos nunca cederão passo a padrões de outra espécie; se o conhecimento ou
a ciência há de ser parte de um contexto mais amplo, isso não deve afetar-lhe a natureza; a
ciência, em especial deve conservar sua ‘integridade’. (b) Os padrões também serão dotados
de força heurística, ou seja, a atividade por eles regulada será diversa da aventura
intelectual do anarquista.
Já tivemos ocasião de notar que os particulares padrões escolhidos por Lakatos não
emitem ordens abstratas (como ‘eliminar teorias incompatíveis com enunciados básicos
aceitos’)
300
e não encerram juízos gerais concernentes à racionalidade ou irracionalidade de uma via de
ação (como ‘é irracional insistir em uma teoria que se põe contra enunciados básicos
aceitos’). Ordens e juízos desse gênero permitiram decisões concretas em complexas
situações históricas. Se o esquema que encerra os padrões deve diferir do ‘caos’ do
anarquismo, é preciso propiciar meio de essas decisões ocorrerem com certa regularidade.
Os padrões, por si mesmos, não podem, como vimos, assegurar que assim aconteça.
Contudo, pressões psicológicas ou sociológicas têm como fazê-lo.
Assim, imaginemos que instituições dedicadas a tornar públicas a obra e os resultados
alcançados pelo cientista, instituições que lhe concedem amparo intelectual e o levam a
sentir-se respeitado e seguro, instituições que, em razão de sua relevância e de sua força
(intelectual, financeira, política), podem fazê-lo sentir-se importante, adotem, com respeito
aos padrões, uma atitude conservadora, recusando-se a dar apoio a programas de pesquisa
exóticos, negando-lhes fundo, ridicularizando-lhes os defensores, furtando-se a publicarlhes
os resultados, fazendo, por todos os modos possíveis, com que o cientista se sinta
deslocado. A conseqüência pode ser facilmente antecipada: especialmente hoje em dia,
quando a ciência deixou de ser aventura filosófica para tornar-se negócio, os cientistas, tão
necessitados (como quaisquer outros) de apoio emocional e financeiro reverão suas ‘decisões’
e tenderão a rejeitar programas de pesquisa que mostrem aspectos negativos.
Ora, a atitude conservadora adotada pelas instituições não é irracional, pois não conflita
com os padrões. É o resultado de diretrizes coletivas, do tipo estimulado pelos padrões. A
atitude do cientista que prontamente se adapta às pressões também não é irracional, pois
que ele decide segundo linha que é justificada pelos mesmos padrões. Chegamos, portanto,
ao legal e ordenado, sem reduzir o liberalismo de nossa metodologia. E até à complexa
natureza dos padrões se atribui, agora, uma função. Com efeito, embora os padrões não
prescrevam ou proscrevam
301
qualquer particular ação, embora se mostrem perfeitamente compatíveis com o ‘tudo vale’
do anarquista, que acerta, pois, ao vê-los como simples enfeite, não deixam esses padrões de
emprestar conteúdo às ações de indivíduo e instituições decididos a adotar, com respeito a
eles, atitude conservadora. Tomados em si mesmos, os padrões mostram-se incapazes de
proibir o mais ultrajante dos comportamentos. Tomados em conjunto com a espécie de
conservadorismo descrita, exercem influência sutil, mas firme, sobre o cientista. E é
precisamente assim que Lakatos deseja vê-los utilizados: diante de um programa em
degeneração, ele sugere que ‘os editores de revistas científicas deveriam recusar-se a
publicar artigos [de cientistas fiéis àquele programa] ... Instituições patrocinadoras de
pesquisa deveriam recusar-se a fornecer verbas’32. A sugestão, como vimos, não conflita
com os padrões. Tendo os padrões como critério de racionalidade, é perfeitamente cabível
fazer a sugestão e agir segundo seus termos. Ela afeta os padrões, não por fortalecer-lhes o
poder de persuasão, mas por criar uma situação histórica diante da qual, do ponto de vista
prático, muito difícil se toma prosseguir com um programa de pesquisa que se ache em
decadência. O programa de pesquisa passa a ser abandonado não porque se levantem contra
ele argumentos fundados nos padrões, mas porque seus adeptos se vêem impossibilitados de
prosseguir. Em resumo, que de maneira alguma é injusto: programas de pesquisa são
afastados não porque haja argumentos que os destruam, mas porque seus defensores são
destruídos na luta pela sobrevivência. Talvez pareça que um gentil colega, ao comparar os
méritos próprios de dois programas de pesquisa, ao oferecer pormenorizada explicação
acerca do êxito de um deles e do crescente número de. falhas do outro, ao apontar todas as
medidas ad hoc, as incoerências, o verbalismo vazio do programa em. degeneração, talvez
pareça, repetimos, que, ao assim proceder, aquele colega esteja usando poderosos
argumentos contra a manutenção do programa — porém essa impressão só será
experimentada por quem ainda não haja deixado o falsea-
302
mentismo ingênuo, etc. etc., e passado para as idéias de Lakatos. Quem tenha feito essa
opção e esteja consciente das implicações do tipo de racionalidade recém-adotado sempre
estará capacitado a replicar: ‘Meu caro amigo, você argumenta bem, mas não está
atualizado no que diz respeito à sua teoria da racionalidade. Você pensa poder convencer-me
com seus argumentos, mas eu sei, graças ao sentido que dou a “racional” que alguém pode
racionalmente prender-se a um programa de pesquisa que se ache em degeneração até que
ele seja dominado por um programa rival e mesmo posteriormente33. Talvez, é claro, você
tenha a impressão de que, além de, haver aceito os padrões de Lakatos, adotei, com relação a
eles, uma atitude conservadora. Fosse esse o caso e seu argumento me atingiria muito
justamente, pois eu teria tomado uma decisão, sem a ela me ater. Entretanto, não sou e
jamais fui conservador e, assim, é possível que você me expulse do jogo, mas não poderá
mostrar que fui irracional’.
Resumindo: a metodologia do programa de pesquisa, na medida em que é racional, não
difere do anarquismo. Na medida em que difere do anarquismo, não é ‘racional’. A completa
e pacífica aceitação dessa metodologia não gera qualquer dificuldade para o anarquista que,
por certo, não se furta a admitir que as regras metodológicas possam ser e usualmente sejam
impostas por ameaças, intimidação, impostura. Essa, afinal de contas, uma das razões por
que o anarquista mobiliza (não contra-argumentos mas) contraforças, para vencer as
restrições impostas pelas regras.
Claro, ainda, que Lakatos não foi bem sucedido no demonstrar ‘mudança racional’ onde
‘Kuhn e Feyerabend entendem haver mudança irracional’34. Minha própria posição já foi
exposta. Quanto a Kuhn, basta lembrar que ocorre uma revolução sempre que o novo
programa de pesquisa haja acumulado suficiente número de êxitos e o programa ortodoxo
tenha sofrido suficiente número de fracassos, de modo a poderem ser vistos como rivais
sérios, importando ainda que os protagonistas do
303
programa novo proclamem o desaparecimento da concepção ortodoxa. Do ponto de vista da
metodologia dos programas de pesquisa, assim agem não apenas em razão de seus padrões,
mas por haverem adotado atitude conservadora em face desses padrões. Os ortodoxos, que a
eles se opõem, tomam o que se poderia denominar atitude ‘liberal’, estando preparados para
tolerar margem maior de degeneração do que os conservadores. Os padrões permitem ambas
as atitudes. Como vimos, nada têm a dizer quanto à ‘racionalidade’ ou ‘irracionalidade’
dessas atitudes, daí decorrendo que o embate entre conservadores e liberais, com a vitória
final dos primeiros, não é ‘mudança racional’35, mas pura e simples ‘luta pelo poder’
permeada de ‘sórdida controvérsia pessoal’36. Não é um tópico de metodologia ou de teoria
da racionalidade, mas de ‘psicologia das massas’37.
A falha de Lakatos, no manter seu propósito e apontar o trabalho da razão onde outros
apenas divisam pressões que levam a avanços e recuos, é falha que se oculta por detrás de
uma terminologia ambígua. De uma parte, diz-nos ele que a clara irracionalidade de muitos
importantes avanços científicos se deveu a idéia desnecessariamente acanhada do que deve
ser entendido como racional. Se tão-somente é racional a aceitação de teorias comprovadas,
se é irracional conservar teorias que se ponham em conflito com enunciados básicos aceitos,
então toda a ciência é irracional. Assim, Lakatos elabora novos padrões. Esses novos
padrões, que também são medidas de racionalidade, não mais proíbem o que concorre para o
aperfeiçoamento da ciência. Mas não proíbem, igualmente, qualquer outra coisa. Devem ser
fortalecidos. E não podem ser fortalecidos pelo acréscimo de outros padrões, isto é, tornando
mais rígida a razão. Mas podem adquirir força prática, se transformados em núcleo de
instituições conservadoras. Aferido pelos padrões da metodologia dos programas de
pesquisa, esse conservadorismo não é racional, nem irracional. É, porém, eminentemente
racional segundo outros padrões, como, por exemplo, segundo os padrões do senso
comum38. Dessa riqueza de significados da
304
palavra ‘racional’ Lakatos tira efeito máximo. Em seus argumentos contra o falseamentismo
ingênuo, acentua o novo ‘racionalismo’ de seus padrões, dizendo que ele permite a
sobrevivência do saber científico. Em seus argumentos contra Kuhn e contra o anarquismo,
Lakatos enfatiza a ‘racionalidade’ inteiramente diversa, própria do senso comum, mas deixa
de informar seus leitores acerca da mudança, de maneira que pode ficar com o bolo—
padrões mais liberais — e pode também comê-lo —fazer com que sejam usados
conservadoramente; Lakatos pode até mesmo esperar, em ambos os casos, ser considerado
um racionalista. Há, sem dúvida, grande semelhança entre Lakatos e os primeiros Padres da
Igreja, que introduziram doutrinas revolucionárias sob o disfarce de orações comuns (que
eram o bom senso da época) e assim, aos poucos, chegaram a modificar o próprio senso
comum39.
Esse grande talento para a agressão ambígua torna Lakatos um aliado bem-vindo, na
luta contra a Razão. Com efeito, uma concepção que se afigure ‘racional’, em qualquer
sentido dessa palavra carregada de emotividade, tem, hoje, maior possibilidade de se ver
aceita do que uma concepção que abertamente rejeite a autoridade da Razão. A filosofia de
Lakatos, seu disfarçado anarquismo, é um esplêndido cavalo de Tróia, capaz de infiltrar o
anarquismo real, direto, ‘honesto’ (palavra muito apreciada por Lakatos) nos espíritos de
nossos mais encarniçados racionalistas. Descobrindo que assim ocorreu, eles relutarão
muito menos em admitir que a ideologia do racionalismo não tem conveniência intrínseca,
perceberão que até mesmo no campo da ciência a pessoa é dominada pela propaganda e
envolvida em luta entre forças conflitantes, e concordarão com que o argumento não passa
de meio sutil e eficientíssimo de paralisar o oponente de boa fé40.
Até agora, dei por admitidos os padrões de Lakatos, comparei-os com outros padrões,
indaguei como influenciam o comportamento (indaguei, por exemplo, como uma prática
orientada pela metodologia dos programas de pesquisa difere de uma prá-
305
tica anárquica) e examinei as conseqüências que os padrões trazem para a teoria da
racionalidade. Põe-se, agora, a questão de saber por que devemos considerar os padrões, de
saber por que devemos preferi-los a outros padrões científicos (tais como os do indutivismo)
ou a padrões não-científicos (tais como os dos fundamentalistas religiosos). Lakatos dá
resposta à primeira questão, mas não à segunda, embora consiga produzir a impressão de
que a ambas respondeu. Aqui, tal como antes, ele usa o senso comum e a apreciação geral
pela ciência para atravessar abismos sobre os quais não consegue lançar a ponte dos
argumentos. Vejamos como procede Lakatos.
Deixei dito que Lakatos e eu aferimos o valor das metodologias colocando-as frente a
dados históricos. Os dados históricos que Lakatos utiliza são ‘avaliações “básicas” da elite
científica’41 ou ‘juízos básicos de valor’42, que são juízos de valor a propósito de específicas
realizações da ciência. Exemplo: ‘A teoria da relatividade de Einstein, de 1919, é superior à
mecânica celeste de Newton, na forma em que a apresenta Laplace’. Para Lakatos, esses
juízos de valor (que, em conjunto, formam o que ele denomina ‘saber científico geral’)
constituem adequada base para debates metodológicos por serem aceitos pela grande maioria
dos cientistas: ‘Embora haja reduzida margem de concordância no que diz respeito a um
critério universal acerca do caráter científico das teorias, tem havido, nos dois últimos
séculos, considerável coesão de vistas no que concerne a realizações isoladas’43. Juízos
básicos de valor podem, portanto, ser usados para avaliar teorias relativas à ciência ou a
reconstruções racionais da ciência, muito à semelhança de como enunciados ‘básicos’ são
utilizados para avaliar teorias acerca do mundo. Os modos de avaliação dependem,
naturalmente, da particular metodologia que se decidiu adotar: um falseamentista rejeitará
regras metodológicas incongruentes com juízos básicos de valor44; um seguidor de Lakatos
aceitará programas metodológicos de pesquisa que ‘representem progressiva alteração
na seqüência dos programas de pesquisa de reconstruções racionais: ‘... o
306
progresso na teoria da racionalidade científica é marcado pela descoberta de fatos históricos
desconhecidos, pela reconstrução de crescente porção de história, impregnada de valor, que
se põe como racional’45. O padrão de crítica metodológica reve-la-se, dessa maneira, o
melhor programa metodológico de pesquisa de que se pode dispor em determinada época.
Até aqui, temos uma primeira aproximação do procedimento de Lakatos.
A aproximação omitiu dois importantes traços da ciência. De uma parte, os juízos
básicos de valor não são tão uniformes quanto se admitiu. A ciência abre-se em numerosas
disciplinas, cada qual delas podendo assumir diferente atitude frente a uma teoria dada e as
disciplinas singulares se abrem, por sua vez, em escolas. Os juízos básicos de valor aceitos
por um experimentalista diferirão dos aceitos por um teórico (basta ler o que escreveram
Rutherford, Michelson ou Ehrenhaft a propósito de Einstein); um biólogo e um
cosmologista olharão diferentemente para a mesma teoria; o seguidor fiel de Bohr verá a
introdução de modificações na teoria quântica através de prisma diferente de como os verá o
adepto de Einstein. E a uniformidade que permaneça desaparecerá durante as revoluções,
quando todos os princípios são postos em causa e todos os métodos são violados. Mesmo os
cientistas individualmente considerados formam juízos diversos acerca de uma teoria
proposta: Lorentz, Poincaré e Ehrenfest julgaram que os experimentos de Kaufmann
haviam refutado a teoria especial da relatividade e prepararam-se para abandonar o
princípio da relatividade na forma sugerida por Einstein, enquanto o próprio Einstein era
de parecer diferente46. Em segundo lugar, os juízos básicos de valor raramente se prendem
a boas razões. Todos admitem que a hipótese de Copérnico representou um grande passo
avante, mas é difícil que alguém seja capaz de oferecer, a respeito daquela hipótese, uma
satisfatória explicação, ainda que parcial47, já para não falar em enumeração das razões
de sua excelência. A teoria de Newton (da gravitação) foi ‘altamente apreciada pelos
maiores cientistas’48, grande parte dos quais não tinha consciência
307
das dificuldades que encerrava, alguns deles acreditando que a teoria seria dedutível a partir
das leis de Kepler49. A teoria dos quanta, que se põe em discordância quantitativa e
qualitativa com a evidência50 e se mostra insatisfatória em certos pontos, é aceita não a
despeito de suas dificuldades, em consciente violação do falseamentismo, porém porque
‘toda evidência aponta em termos definitivos na ... direção... [de que] todos os processos que
envolvem... interações desconhecidas se conformam à lei quântica fundamental’51. E assim
por diante. Tais são as razões que fazem surgir os juízos básicos de valor, a cujo ‘saber
científico geral’ Lakatos ocasionalmente atribui grande peso52. Acrescentemos a isso o fato
de que a maioria dos cientistas aceita confiantemente os juízos de valor, sem examiná-los,
mas simplesmente curvando-se à autoridade dos colegas especialistas, e veremos que ‘o
saber científico geral’ não é muito geral e, por certo, não é muito sábio.
Lakatos está consciente da dificuldade. Dá-se conta de que os juízos básicos de valor nem
sempre são razoáveis53 e admite que ‘o juízo dos cientistas é por vezes falho’54. Em tais
casos, diz ele, o juízo há de ser equilibrado e talvez superado pelo ‘estatuto do filósofo’ 55. A
‘reconstrução racional da ciência’ que Lakatos emprega para avaliação do método não é,
pois, apenas a soma de todos os juízos básicos de valor, nem é o melhor o programa de
pesquisa que procure absorvê-los. É um ‘sistema pluralista de autoridades’56, no qual os
juízos básicos de valor são a influência dominante, enquanto se mostram uniformes e
razoáveis. Se desaparece a uniformidade ou se ‘a tradição degenera’57, pressões filosóficas
de ordem geral se manifestam e impõem (restauram) a razão e a uniformidade.
Ora, suspeito que Lakatos subestima largamente o número de ocasiões em que isto se
dará. Acredita que a uniformidade dos juízos básicos de valor haja prevalecido ‘nos dois
últimos séculos’58, quando, em verdade, essa uniformidade foi fato raro. No caso de se
registrarem, entretanto, suas ‘reconstruções racionais’ são dominadas pelo senso
comum59 ou por padrões
308
abstratos e pressões concretas da metodologia dos programas de pesquisa. Além disso,
Lakatos só admite uniformidade se não houver muito afastamento em relação a seus
padrões: ‘Quando uma escola científica degenera em pseudociência, convirá, talvez, forçar o
debate metodológico’60. Significa isso que os juízos tão facilmente formulados por Lakatos
nem são resultados de pesquisas, nem porções da ‘prática científica’; são partes de uma
ideologia que ele tenta impor-nos sob o disfarce de um ‘saber científico “geral” ’. Pela
segunda vez, nota-se interessantíssima diferença entre a formulação das proposições de
Lakatos e seu valor nominal. Vimos que a metodologia dos programas de pesquisa foi
introduzida com o propósito de servir de auxílio ao racionalismo. Sem embargo, ela não tem
como dizer que uma ação qualquer seja ‘irracional’. Sempre que Lakatos enuncia tal juízo
— e ele o faz com freqüência — apóia-se em entidades ‘externas’, apóia-se, por exemplo, em
suas próprias inclinações conservadoras ou no conservadorismo inerente ao senso comum.
Descobrimos, assim, que suas ‘reconstruções’ estão muito próximas das metodologias gerais
que ele proclama vir examinando e com estas se confundem nos tempos de crise. A despeito
da diferença da retórica (‘Não será arrogância tentar impor uma a priori filosofia da ciência
às mais avançadas ciências? ... Penso que sim’61), a despeito da decisão de prender-se ao
concreto (‘tem havido considerável concordância... no que concerne a conquistas
particulares’62), Lakatos não difere, em verdade, dos epistemologistas tradicionais; muito ao
contrário, a eles oferece novo e poderoso instrumento de propaganda: associa os princípios
que defende àquilo que, à primeira vista, se afigura substancial volume de senso comum
científico independente, mas tal volume nem é substancial, nem é independente. É lançado e
constituído de acordo com os princípios abstratos que Lakatos deseja defender.
Olhemos o assunto de um diferente ponto de vista. Uma ‘reconstrução racional’, como a
entende Lakatos, compreende juízos concretos acerca de resultados em certo domínio e
pa-
309
drões gerais. É ‘racional’ no sentido de que reflete o que se acredita ser valiosa realização no
domínio em pauta. Reflete o que se poderia denominar ideologia profissional daquele
domínio. Ora, ainda que essa ideologia consistisse apenas de massa uniforme de juízos
básicos de valor, ainda que não incluísse quaisquer ingredientes abstratos, ainda assim não
garantiria que o campo correspondente produzisse resultados compensadores ou que os
resultados não fossem ilusórios. Todos os pajés procedem de acordo com regras complexas e
comparam seus resultados e estratagemas com os resultados e estratagemas de outros pajés
da mesma tribo, passando a dispor de rica e coerente ideologia profissional — e, apesar
disso, racionalista algum se inclinaria a tomá-los a sério. A medicina astrológica emprega
padrões estritos e contém juízos básicos de valor aceitavelmente uniformes e, sem embargo,
os racionalistas lhe rejeitam a totalidade da ideologia profissional, dando-a como
‘irracional’. Aquela medicina está longe de mostrar-se preparada para examinar até mesmo
o ‘juízo básico de valor’ segundo o qual o método tropical de preparar um mapa é preferível
ao método sideral (ou vice-versa63). Essa possibilidade de rejeitar padrões profissionais tout
court mostra que as ‘reconstruções racionais’, isoladamente, não podem resolver o problema
do método. Para determinar o método correto, é necessário reconstruir a disciplina correta.
Mas qual é a disciplina correta?
Lakatos não examina esse ponto — e não sente necessidade de examiná-lo, pois apenas
deseja informar-se do que se dá na ciência pós-século XVII e admite que o empreendimento
científico se apóie em uma ideologia profissional coerente e uniforme. (Vimos que isso não
ocorre.) Mas Lakatos avança. Tendo terminado sua ‘reconstrução’ da ciência moderna,
volta-a contra outros setores, como se já houvesse estabelecido que a ciência moderna é
superior à mágica ou à ciência aristotélica e que não produz resultados ilusórios. Não há,
entretanto, sombra de argumento. dessa espécie. As ‘reconstruções racionais’ dão por bom o
‘saber científico geral’, não demonstram que ele seja
310
melhor que o ‘saber fundamental’ de feiticeiros e bruxos. Ninguém demonstrou que a
ciência (dos ‘dois últimos séculos’64) alcança resultados que se conformam a seu próprio
‘saber’, ao passo que outros domínios deixam de apresentar resultados desse gênero.
Demonstrado foi, por estudos antropológicos mais recentes, que todos os tipos de ideologia e
de instituições conexas produzem, e têm produzido, resultados que se conformam com seus
padrões e resultados que não se conformam com seus padrões. A ciência aristotélica, por
exemplo, conseguiu dar acomodação a numerosos fatos, sem alterar suas noções básicas e
seus princípios fundamentais, assim se conformando a seus próprios padrões de
estabilidade. Fazem-se necessárias, obviamente, considerações adicionais para decidirmos
que campo aceitar em termos de medida de método.
Exatamente o mesmo problema surge no caso de regras metodológicas particulares.
Pouco satisfaz a rejeição do falseamentismo ingênuo por conflitar ele com alguns juízos
básicos de valor emitidos por cientistas eminentes. A maioria desses eminentes cientistas se
apega a teorias refutadas não porque tenha alguma visão dos limites do falseamentismo
ingênuo, mas porque não percebe que as teorias estão refutadas (cf. exemplos no texto
correspondente às notas 46-50 deste capítulo). Além disso nem mesmo prática mais
‘razoável’ seria suficiente para rejeitar a regra: a tolerância universal para com teorias
refutadas talvez não seja mais que um erro. É certamente erro em um mundo que contém
espécies bem definidas que só raramente são mal interpretadas pelos sentidos. Em tal
mundo, as leis básicas são manifestas e as recalcitrantes observações são corretamente vistas
como indicador as de um erro em nossas teorias e não em nossa metodologia. A situação se
altera quando as perturbações se tornam mais freqüentes e assumem o aspecto de uma
questão que todos os dias se repete. Uma descoberta cosmológica dessa ordem força-nos a
optar: conservaremos o falseamentismo ingênuo, concluindo que o conhecimento é
impossível, ou nos inclinaremos por uma idéia mais recôndita e abstrata de
conhe-
311
cimento e, correspondentemente, por um tipo de metodologia mais liberal (e menos
empírico)? Os cientistas, em sua maioria, inconscientes do pano de fundo cosmológiconomológico
apresentado pelo problema e até mesmo do próprio problema, conservam teorias
incompatíveis com observações e experimentos feitos e as louvam por sua excelência.
Caberia dizer que fazem a escolha certa por instinto65, mas dificilmente se admitirá que o
comportamento resultante é medida decisiva do método, especialmente à vista do fato de
que, em mais de uma ocasião, o instinto se desorientou. O criticismo cosmológico, há pouco
esboçado (onipresença das perturbações), deve ser preferido.
O criticismo cosmológico66 cresce de importância quando novos métodos e novas formas
de conhecimento surgem em cena. Em períodos de decadência, diz Lakatos, o estatuto do
filósofo se manifesta e procura ‘opor-se à autoridade da corrompida lei assentada em casos’,
defendida pelo cientista67. Exemplos de decadência incipiente ou retardada que ele tem em
mente correspondem a certas partes da sociologia, da astrologia social68, da moderna física
das partículas69, Todos esses casos contradizem a ‘boa metodologia’70, que é metodologia ‘
‘‘destilada’’ a partir da ciência sazonada’71; violam, em outras palavras, a ideologia
profissional da ciência de Newton, Maxwell, Einstein (embora não a de Bohr72). Contudo,
a incessante alteração da ciência moderna, que se anuncia com Galileu, seu elástico uso dos
conceitos, sua recusa em aceitar normas costumeiras, seus procedimentos ‘não-empíricos’,
opôs-se à ideologia profissional dos aristotélicos e foi, para eles, exemplo de incipiente
decadência. Ao formular esse juízo, os aristotélicos faziam uso de sua filosofia geral, de seus
desiderata (criação de uma ordem intelectual estável, baseada no mesmo tipo de percepção
que auxilia o homem na sua atividade cotidiana, ‘preservação dos fenômenos’ com o auxílio
de artifícios matemáticos, etc.) e dos juízos básicos de valor de sua ciência (que
punha de parte os seguidores de Ocam, assim como, hoje, Lakatos põe de parte o
grupo de Copenhague). E os aristotélicos tinham
312
uma grande vantagem, pois os juízos básicos de valor dos seguidores do credo copernicano
eram ainda mais variados e desarrazoados do que os juízos básicos de valor dos
contemporâneos físicos que estudam as partículas elementares. Além disso, a filosofia
aristotélica tinha o apoio da crença disseminada, que continuou presente em Newton, de
que a maioria das inovações era de importância secundária e de que tudo de relevante já
havia sido descoberto. Claro está que um Lakatos do século XVII ter-se-ia posto ao lado das
escolas. E, assim, tomaria as mesmas ‘errôneas’ decisões de um indutivista do século XVII
ou de um convencionalista do século XVII ou de um falseamentista do século XVII.
Percebemos, de novo, que Lakatos não superou as dificuldades que desenvolvimentos
cataclísmicos põem diante de outras metodologias; não alcançou êxito em sua tentativa de
revelar que tais desenvolvimentos podem ser percebidos, em sua totalidade, através de
‘óculos popperianos’73. Uma vez mais, o metodologista é obrigado a admitir que a querela
entre Antigos e Modernos não pode ser reconstruída em termos racionais. Quando menos,
essa reconstrução não pode ser feita ao tempo da querela.
A situação é, hoje, exatamente a mesma. Torna-se possível, naturalmente, ‘reconstruir’ a
transição, substituindo os básicos juízos de valor aristotélicos (acerca de teorias
aristotélicas) por básicos juízos de valor modernos e usar padrões modernos (progresso, com
aumento de conteúdo) em vez de padrões aristotélicos (estabilidade de princípios; post hoc
‘preservação dos fenômenos’). Mas a necessidade de tal ‘reconstrução’ mostraria, antes de
tudo, o que Lakatos nega, ou seja que ‘novos paradigmas trazem... uma nova
racionalidade’74. Em segundo lugar, ter-se-ia rejeitado a ideologia profissional dos
aristotélicos sem mostrar que ela é menos adequada que seu substituto: para decidir entre
uma ‘reconstrução racional’ (no sentido de Lakatos) da ciência aristotélica, que se vale do
‘estatuto’ da filosofia aristotélica, e uma ‘reconstrução racional’ da ciência ‘moderna’ (dos
‘últimos dois séculos’75), baseada em
313
estatuto ‘moderno’ e em básicos juízos de valor ‘modernos’, fazem-se necessários mais que
padrões ‘modernos’ e básicos juízos de valor ‘modernos’. Seria preciso mostrar que, ao
tempo em causa, os métodos aristotélicos não alcançavam os objetivos aristotélicos ou que
mostravam grande dificuldade para alcançá-las, ao passo que os ‘modernos’, empregando
métodos modernos não experimentaram essa dificuldade com respeito a seus objetivos; ou,
alternativamente, seria preciso mostrar que os objetivos modernos são preferíveis aos
objetivos aristotélicos. Ora, vimos que os ‘aristotélicos’76 se estavam saindo bem, ao passo
que os ‘modernos’ se viram diante de numerosos problemas, que simplesmente ocultaram,
com o auxílio de artifícios de propaganda77. Se desejarmos saber por que a transição
ocorreu e como pôde ela ser justificada em face de nossa predileção pelos métodos e
resultados da ciência contemporânea, teremos de identificar os motivos que levaram as
pessoas a agir a despeito dos problemas78 e teremos, também, de examinar a função da
propaganda, do preconceito, da ocultação e de outros procedimentos ‘irracionais’ na gradual
resolução de problemas. Todos esses são fatores ‘externos’, no esquema de Lakatos79.
Todavia, sem eles não há meio de compreender uma das mais importantes revoluções do
pensamento. Sem eles, só poderemos dizer que a ideologia profissional da física e da
astronomia dos séculos. XV e XVI foi seguida pela ideologia profissional da ciência
‘moderna’ e que, hoje, esta reina soberana. Não poderemos explicar como isso ocorreu, nem
teremos razão alguma para asseverar que nossa ideologia profissional é superior à dos
aristotélicos.
Permitam-me, agora, oferecer esboço breve, incompleto e unilateral da transição, onde
são considerados fatores que reputo relevantes e que explicam a função desempenhada no
surgimento da nova astronomia. Muitas minúcias estão ausentes, enquanto outras são
exageradas. Meu propósito não é, entretanto, o de oferecer uma versão acadêmica e sim o
de contar um conto de fadas que talvez se venha a transformar, algum dia, em
versão
314
acadêmica e que se mostra mais realista e mais completa do que o conto de fadas insinuado
por Lakatos e sua máfia. Para pormenores, aconselha-se o leitor a que retome aos capítulos
VI-XII deste ensaio.
Para começar, importa admitir que novos juízos básicos de valor e novo estatuto se
fazem agora presentes no campo da astronomia. Não há tão-somente novas teorias, novos
fatos, novos instrumentos, há também uma nova ideologia profissionl80. A ideologia não
surge a partir do nada, mas tem seus antecedentes na Antigüidade (Xenófanes e Demócrito,
por exemplo) e desempenha algum papel em ofícios e profissões alheios à esfera da física e da
astronomia. A crescente importância das classes e grupos. empenhados nesses ofícios e
profissões toma a ideologia importante e dá apoio àqueles que desejam usá-la no campo da
astronomia. Esse apoio é urgentemente necessário, pois as muitas dificuldades teoréticas
surgidas só podem encontrar solução se houver determinação suficiente para prosseguir
com o programa da Terra móvel. A diferente maneira de as novas classes enfatizarem
‘Copérnico’ (progresso, antevisão, combate ao status quo) e ‘Aristóteles’ (regressão,
favorecimento do status quo, hostilidade ao surgimento de novas classes) aumenta a
determinação, reduz o impacto das dificuldades e toma possível o progresso da astronomia.
Essa associação entre idéias astronômicas e tendências históricas (e de classe) não toma os
argumentos aristotélicos menos racionais ou menos concludentes, mas reduz a influência
deles sobre os espíritos daqueles que tendem a seguir Copérnico. Não faz aparecer um único
argumento novo, mas engendra firme apego à idéia do movimento da Terra — e, a essa
altura, como veremos, isso é tudo que se toma preciso. (Vimos também, em capítulos
anteriores, quão magistralmente Galileu explora a situação e como, através de artifícios,
anedotas e non sequiturs, lhe aumenta a dimensão.) E isso me leva ao segundo. ponto.
Nosso problema é o seguinte: dada a situação histórica da idéia do movimento da Terra
em, digamos, 1550, e sua situação
315
histórica em, digamos, 1850 —como foi possível passar da primeira situação (S’) à segunda
(S”)? Que condições psicológicas, históricas, metodológicas precisam ser satisfeitas para
que um grupo de pessoas, dedicado ao aperfeiçoamento do saber e, especialmente, da
astronomia, possa fazer passar a ciência — e isto inclui os preconceitos profissionais dos
astrônomos, assim como as condições alheias à ciência que se fazem necessárias para sua
sobrevivência sob particular aspecto – de S’ para S”? Por outro lado, quais as atitudes,
crenças e ações que teriam tomado impossível alcançar S” a partir de S’? Percebe-se, de
imediato, que o aparecimento de nova ideologia profissional era absolutamente essencial—
mas esse é ponto não acessível a análise, nos termos postos por Lakatos. Percebemos também
que a distinção entre história ‘interna’ e ‘externa’, tão importante para Lakatos, restringe as
dimensões da resposta e favorece a metodologia escolhida para servir-lhe de base. Com efeito,
é muito possível que uma ciência tenha determinada história ‘interna’ apenas porque sua
história ‘externa’ encerra atos compensadores que, a cada instante, violam a metodologia
que a define. Exemplos são fáceis de dar. A ignorância de Galileu acerca dos princípios
básicos da visão telescópica será certamente colocada na parte externa da história da
astronomia. Contudo, dada S’, isto é, dadas a ótica e as teorias psicológicas do século XVI,
essa ignorância se ‘fazia necessária para que Galileu falasse tão convictamente quanto falou.
N aquela situação histórica, a ignorância foi uma bênção. A crença ainda não
fundamentada que ele depositava na doutrina copernicana era necessária para que ele desse
ao que viu o valor de evidência e, mais especificamente, de evidência em prol da essencial
similaridade entre coisas celestes e coisas terrestres. A existência de grupos de
antiaristotélicos e de outros inimigos de filósofos de escola era necessária para
transformar esses atos subjetivos em fenômeno social mais amplo e, afinal, em
elementos de uma ciência nova. Concentrando-nos na história interna da teoria de
Copérnico, notamos aumento de conteúdo
316
(as observações de Galileu) e, assim, parece estarmos em concordância com os princípios da
nova ideologia profissional. Entretanto, se considerarmos também a história externa ou,
como diz Lakatos, se, acrescentarmos à nossa informação a ‘psicologia das massas’,
percebemos que a concordância ‘no interior’ da ciência é o resultado de numerosas violações
em seu ‘exterior’; notaremos que essas violações se faziam necessárias para a transição de S’
para S” e que, por conseguinte, pertencem à própria ciência e não a outro domínio qualquer.
Exemplificando: o aumento de conteúdo, que Lakatos olha com tanto orgulho, é resultado da
‘ilusão epistemológica’ por mim anteriormente descrita, a qual, por sua vez, só se manifesta
porque se decidiu não ‘registrar’ e ‘exibir publicamente’ os verdadeiros ‘resultados das
facções rivais’81. Assim, mesmo um desenvolvimento que pareça ordenado há de ser
constantemente aferido, significando isso que a separação entre ‘interno’ e ‘externo’ (e a
correspondente separação entre o Terceiro Céu e seu confuso reflexo nos espíritos
humanos82) inibe o estudo da alteração científica. Esse é apenas mais um exemplo de
distinção sem diferença que, se tomada a sério, fará muita diferença para a qualidade de
nossa pesquisa.
Por fim, cabe alguma dúvida quanto ao critério de aumento de conteúdo, que Lakatos
propõe e a que atribui importante papel em seus padrões, satisfazer as próprias condições de
Lakatos, relativas a uma aceitável teoria da racionalidade (ver nota 12 e texto
correspondente a notas 41 e seguintes; e assinale-se que não estou considerando o problema
da incomensurabilidade!). Tendo em conta a onipresença da ‘ilusão epistemológica’ e o
desenvolvimento de programas de pesquisa tais como o atomismo, o da Terra móvel, o
fisicalismo, no sentido de que o mundo obedece às leis da física, sem interferência divina,
talvez devamos concluir que o aumento de conteúdo (comparado com o conteúdo de
programas rivais) é evento extremamente raro e que o programa de pesquisa histórica que
lhe presume a existência tem estado em degenerescência e continua
317
a degenerar. Contudo, não dispomos ainda de evidência suficiente para fazer com que um
empirista admita essa conclusão.
Chego, portanto, à seguinte avaliação da contribuição de Lakatos.
Todas as teorias do saber (científico) decorrem da pergunta: que é conhecimento e como
pode ele ser conseguido?
A resposta tradicional83 encerra uma definição de conhecimento ou de conhecimento
potencial (um critério de demarcação) e uma enumeração dos passos por meio dos quais o
conhecimento pode ser alcançado (por meio dos quais o conhecimento pode ser separado do
não conhecimento). A resposta tradicional é geralmente olhada como definitiva. De
qualquer modo, raramente nos ensinam como ela pode se revista84. As revisões que ocorrem
são sub-reptícias, desacompanhadas de argumentos e freqüentemente modificam o modo de
alcançar conhecimento, sem modificar a epistemologia que o acompanha85. Em
conseqüência, o contato entre ciência e epistemologia torna-se mais tênue e, finalmente,
desaparece por completo86. Essa é a situação que descrevi nos anteriores capítulos deste
ensaio87. Ninguém reconhece que podem existir formas várias de conhecimento e que talvez
seja preciso fazer uma opção.
Comparada com essa teoria tradicional, a teoria de Lakatos é um aperfeiçoamento
sensível. Seus padrões e sua concepção de conhecimento estão muito mais próximos da
ciência do que os das explicações precedentes; os padrões podem ser revistos, ou assim
parece, e aprendemos também como fazer a revisão. Os métodos de revisão envolvem, de
modo essencial, a história e, assim, diminuem a distância entre a teoria do conhecimento e o
material (o ‘conhecimento’) que está sendo efetivamente reunido. Torna-se possível
examinar, agora, de maneira realista, até a mais simples das regras, decidindo se ela deve
ser mantida ou substituída por outra. Essa a impressão criada pelo modo como Lakatos
apresenta sua metodologia; dessa maneira ela surge aos olhos do leitor irrefletido e
entusiasta. Mais aprofundada consideração, mais ‘racional’ exame revela algo inteira-
318
mente diverso: Lakatos não mostrou que seus padrões são os padrões da ciência, não
mostrou que levam a resultados relevantes e sequer foi bem sucedido no emprestar-lhes
força, exceto através do uso de pressão, intimidação, ameaças. Não refutou o anarquismo,
nem chegou a estabelecer que sua metodologia corresponde ao melhor programa histórico de
pesquisa. Arbitrariamente escolhe a ciência como critério de método e conhecimento, sem
haver examinado os méritos de outras ideologias profissionais. Para ele, tais ideologias
simplesmente não existem. Desconsiderando-as, ele só nos proporciona uma caricatura das
principais convulsões sociais e intelectuais; desconsiderando as influências ‘externas’,
adultera a história das disciplinas, insinuando que o desvio em relação aos padrões não era
necessário para que progredissem. Essa a ‘Verdadeira História’ de Imre Lakatos.
Entretanto, como deixei dito, essa não é a história que exerce influência sobre o leitor. Como
em outros casos, o estudioso da metodologia dos programas de pesquisa deixa-se influenciar
pela aparência, não pelo núcleo ‘racional’ (agora, ‘racional’ no sentido da teoria da
racionalidade defendida por Lakatos). E como essa aparência corresponde a um passo
enorme para além da realidade de concepções anteriores, como conduziu a
interessantíssimas descobertas históricas e filosóficas e como parece indicar diretriz clara e
certa no labirinto da história, podemos dar-lhe apoio, sem renunciar ao anarquismo. Cabe
mesmo admitir que, no presente estágio de consciência filosófica, uma teoria irracional,
falsamente interpretada como versão nova da Razão, será instrumento melhor para a
libertação do espírito do que um anarquismo irrestrito, suscetível de paralisar quase todos
os cérebros. (Tendo concluído meu ensaio, associar-me-ei a Lakatos, em vez de continuar a
saudar o anarquismo explícito.) De outra parte, não há razão por que não se tente antecipar
o próximo estágio, reunindo os obstáculos e apresentando-os de maneira tão impressionante
quanto possível. Lancemos, pois, um olhar ao fenômeno da incomensurabilidade que, a meu
ver, cria problemas para todas as teorias da racio-
319
nalidade, inclusive para a metodologia dos programas de pesquisa. A metodologia dos
programas de pesquisa admite que teorias rivais e programas de pesquisa rivais sempre
podem ser comparados no que respeita a conteúdo. O fenômeno da incomensurabilidade
parece sugerir que assim não se dá. Como pode esse fenômeno ser identificado e quais as
razões de sua existência?
NOTAS
1. Cf. Introdução, texto correspondente à nota 12.
2. Lakatos, ‘Falsification and the Methodology of Research Programmes’, in Criticism and
the Growth of Knowledge, Cambridge, 1970, p. 114. Referências posteriores serão feitas a
‘Falsification’.
3. Cf. ‘Falsification’, p. 104, no que se refere a consistência e compatibilidade.
4. ‘History of Science and its Rational Reconstructions’, in Boston Studies for the
Philosophy of Science, vol. VIII, p. 113. Referências posteriores serão feitas a ‘History’.
5. Exemplos são: ausência de conteúdo — a teoria atômica ao longo dos tempos; a idéia de
movimento da Terra, devida a Filolau; inconsistência — o programa de Bohr (cf.
‘Falsification’, pp. 138 ss.); amplo conflito com resultados experimentais — a idéia de
movimento da Terra, como descrita nos capítulos VI e seguintes, anteriores, a teoria de
Prout, como descrita em ‘Falsification’, pp. 138 ss.
6. R. Carnap, Logical Foundations of Probability, Chicago, 1950, p. 217.
7. R. Carnap, p. 202, traça distinção entre problemas lógicos e metodológicos e adverte-nos
de que os problemas de
320
psicologia e de sociologia que acompanham a aplicação de sistemas de lógica indutiva ‘não
devem ser encarados como dificuldades próprias da lógica indutiva’ (p. 254). Parece ele,
portanto, perceber a necessidade de uma avaliação factual da lógica indutiva aplicada.
Contudo, essa avaliação factual é feita nos moldes abstratos que levaram inicialmente, à
elaboração de uma lógica indutiva. A par de um ‘universo simples’, sem o qual as atividades
da lógica indutiva não poderiam sequer começar, utilizamos também ‘um observador X com
uma biografia simplificada’ (p. 213). Ora, eu não faço objeções ao processo da abstração.
Contudo, abstraindo a partir de um particular traço da ciência, devemos garantir que a
ciência possa existir sem ele, que uma atividade, não necessariamente a ciência, que dele
careça, é (fisicamente, historicamente, psicologicamente) possível; e devemos também
acautelar-nos para restaurar o traço omitido, ao chegar ao fim o debate. (Quanto a esse
ponto, cientistas e filósofos da ciência agem de maneiras muito diversas. O físico, que se
vale da geometria [que desconsidera o peso] para calcular algumas propriedades de um
objeto material, volta a ter em conta o peso, após terminados aqueles cálculos. Nunca
admite ele que o mundo esteja cheio de formas imponderáveis. O filósofo que se vale da
lógica dedutiva [onde se desconsideram as contradições] para determinar algumas
propriedades de um argumento científico nunca reintroduz a contradição no argumento
após haver terminado seu trabalho e admite que o mundo esteja repleto de sistemas
teoréticos autocoerentes.) Ora, a única maneira de descobrir se determinado traço se faz
necessário para a ciência é proceder a um estudo funcional desse traço (no sentido da
antropologia moderna), examinando seu papel no desenvolvimento da ciência. Isso nos leva
de volta à história, onde encontramos os dados para esse estudo. Sem eles, não há meio de
saber se a ‘forma indireta de abordar um
321
esquema abstrato’ é, em verdade, a melhor forma de pôr em prática a metodologia (p. 217);
sem eles, não há como apreciar o esquema que foi efetivamente proposto.
8. ‘History’, p. 100.
9. Ibid., p. 105; pormenores em ‘Falsification’, pp. 116 ss.
10. Ibid., p. 104.
11. ‘Falsification’, p. 164.
12. ‘Forneço regras para a “eliminação” de todos os programas de pesquisa’, ‘History’, p.
100 — note-se a ambigüidade introduzida pelas aspas. Por vezes, as restrições são
introduzidas de maneira diferente, através da negação de ‘racionalidade’ de certos processos.
‘É perfeitamente racional disputar um jogo perigoso’, diz Lakatos (‘History’, p. 104),
‘irracional é enganar-se a respeito do perigo’: pode-se fazer o que se queira; bastando
ocasionalmente lembrar (ou recitar?) os padrões que, por falar nisso, nada dizem acerca de
riscos ou de dimensão de riscos. Fazer referência a riscos implica presunção cosmológica (só
raramente a natureza permite que os programas de pesquisa se comportem como lagartas)
ou presunção sociológica (só raramente as instituições permitem que sobrevivam programas
em degenerescência). De passagem, Lakatos (‘History’, p. 101) admite a necessidade desses
pressupostos adicionais: somente eles podem ‘transformar a ciência de mero jogo em
exercício epistemologicamente racional’. Contudo, Lakatos não os discute em minúcia e os
que dá por aceitos são, para dizer o menos, duvidosos. Tomemos o pressuposto cosmológico
a que há pouco me referi. Ele é interessante e, por certo, merece mais pormenorizado estudo.
Esse estudo, ouso sugerir, revelaria que o programa de pesquisa a ele correspondente está,
hoje, em fase de degenerescência. (Para percebê-lo, basta considerar anomalias tais como a
revolução copernicana, a revivescência da teoria atômica, o ressurgimento do pressuposto
das influências celestes, bem como as adaptações ad hoc dessas anomalias,
322
que se refletem na ‘ilusão epistemológica’ descrita no capítulo XV.) O pressuposto
sociológico, de outra parte, é, sem dúvida, verdadeiro — significando isso que, dado um
mundo no qual o pressuposto cosmológico seja falso, estaremos para sempre impedidos de
chegar à verdade.
13. ‘History’, p. 104, quatro últimas linhas.
14. O que é repetidamente sublinhado pelo próprio Lakatos: ‘History’, pp. 92, 104, notas 2,
57 et al.
15. Importa lembrar que o debate só gira em tomo de regras metodológicas e que ‘liberdade’
aqui significa liberdade vis-à-vis tais regras. O cientista continua limitado pelas
propriedades de seus instrumentos, recursos financeiros disponíveis, inteligência dos
assistentes, atitude dos colegas, dos companheiros de lazer — o cientista é limitado por
inúmeras restrições de ordem física, fisiológica, sociológica e histórica. A metodologia dos
programas de pesquisa (e o anarquismo epistemológico por mim advogado) só afasta as
restrições metodológicas.
16. Bakunin, Oeuvres, vol. II, p. 297.
17. ‘O desejo de aliviar o sofrimento é de reduzido valor na pesquisa’, escreve um moderno
Frankenstein, Dr. Szentgyorgi, em Lancet, i, 1961, p. 1394 (palestra feita em um congresso
médico internacional). Essa pessoa deveria. ser aconselhada a trabalhar no campo da
caridade. A pesquisa requer egoístas, egoístas consumados, que buscam prazer e satisfação
próprios e os encontram solvendo enigmas da natureza’. Quanto aos efeitos dessa atitude
nas atividades dos médicos, cf. M. H. Pappworth, Human Guinea Pigs, Boston, 1965.
Quanto a alguns efeitos em psiquiatria, cf. D. L. Rosenhan, Science 179, 1973, pp. 250 ss.
18. Quanto a essa e às duas citações seguintes, cf. Hans Richter, Dada-Art an Anti-Art,
Londres, 1965.
19. The Teachings of Don Juan, Nova Iorque, 1968. À semelhança de outros
‘experimentos’, essas experiências foram preparadas de duas maneiras. Há uma preparação
a longo
323
prazo e uma preparação a prazo curto. A preparação a longo prazo consiste de uma série de
testes de personalidade, explicações a propósito dos testes e de seus resultados, estados de
alucinose provocados por drogas, e é resumida em uma complexa e interessantíssima teoria
do conhecimento ou das fases do conhecimento (op. cit., pp. 79 ss.). A preparação a prazo
curto consiste em induzir o estado de alucinose e em particulares instruções transmitidas
(cf. ordem para transformar-se em um corvo, op. cit., pp. 172 ss.). As preparações a longo e
a curto prazo, tomadas em conjunto, emprestam significado às experiências e as reúnem em
um mundo único e coerente que se liga mais ou menos fortemente ao mundo cotidiano, mas
que dele, ocasionalmente, se separa por completo. Em um e outro caso, os critérios podem
diferir, mas não há modo objetivo de decidir entre eles, a menos que se descubra um
‘supermundo’ onde se incluam experiências de ambas as espécies. Mesmo nesta hipótese,
necessitaremos de critérios para avaliar as experiências e teremos de optar por uma das
várias possibilidades.
20. Cf. W. Bousset, ‘Die Himmelsreise der Seele’, Archiv für Religionswissenschaft, Bd. 4,
1901, pp. 136 ss. Reimpressão, Darmstadt, 1961, p. 14.
21. Ordene à sua alma que se transfira para a Índia, que transponha o oceano; em um
momento, isso estará feito. E se você desejar romper a abóbada do universo e contemplar o
que está além — caso haja algo para além do mundo você poderá fazê-la’. Corpus
Hermeticum, XII, citado com base em Festugière, La Révélation d’Hermès Trismégiste,
Paris, 1950, vol. I, p. 147.
22. ‘Falsification’, p. 158.
23. Ibid., p. 187.
24. James Broderick, S.J., Robert Bellarmine, Saint and Scholar, Londres, 1961, pp. 366 ss.
324
25. ‘Muitos perspicazes leitores das Revolutions deixaram-se enganar pela mutilação de
Osiandro’, E. Rosen, Three Copernican Treatises, Nova Iorque, 1971, p. 40.
26. Cf. Apêndice I, p. 169.
27. Esse é, com efeito, o procedimento de Galileu, cf. capítulo XII, nota 4.
28. The Quest for the Historical Jesus, Nova Iorque, 1962, p. 5.
29. Nesse campo, manifestaram-se outras idéias e atitudes que poderiam ser usadas para
reforçar a ideologia copernicana. Cf. Hans Blumenberg, Die Kopernikanische Wende,
Frankfurt, 1965, e T. Seznec, The Survival of the Pagan Gods, Princeton, 1963,
especialmente p. 60.
30. Cf. a versão mais minuciosa nos capítulos VI-XII, anteriores.
31. Note-se que a ‘ilusão epistemológica’, uma causa freqüente de progresso, não ocorre
segundo supõe Lakatos: ‘Os resultados das facções rivais ... devem ser registrados e, em
todos as ocasiões, publicamente exibidos’. ‘History’, p. 101; grifo do original.
32. ‘History’, p. 105.
33. Ibid., p. 104.
34. Ibid., p. 118; cf. ‘Falsification” p. 93.
35. Ibid., p. 118.
36. Ibid., p. 120.
37. ‘Falsification’, p. 178— grifo do original.
38. ‘Em tais decisões’, diz Lakatos, referindo-se a decisões como as que levam ao emprego
conservador dos padrões, ‘importa usar o senso comum’ —‘History’, nota 58. Correto—
contanto que reconheçamos que, assim agindo, abandonamos o domínio da racionalidade,
tal como definido pelos padrões, e passamos para um meio ‘externo’ ou para outros padrões.
Lakatos nem sempre deixa claro a mudança. Muito ao contrário. Em seu ataque aos
oponentes, faz amplo uso da inclinação que temos de considerar o senso comum como
inerentemente racional e de empre-
325
gar a palavra ‘racional’ de acordo com os padrões do senso comum. Lakatos acusa os
adversários de ‘irracionalidade’. Instintivamente, concordamos com ele, esquecendo que sua
própria metodologia não apóia o julgamento, nem proporciona quaisquer razões para
formulá-lo. Cf. também a nota seguinte.
39. Utilizando a autoridade psicológica que a confissão batismal tinha sobre os elementos
das primeiras igrejas cristãs e afirmando que a interpretação não-gnóstica era ‘seu conteúdo
evidente’ (H. Harnack, History of Dogma, vol. II, Nova Iorque, 1961, p. 26), Irineu
conseguiu derrotar a heresia gnóstica. Utilizando a autoridade psicológica que o senso
comum tem sobre filósofos da ciência e outras pessoas que se acomodam aos hábitos e dando
a interpretação conservadora de seus padrões com seu conteúdo evidente, Imre Lakatos
quase conseguiu convencer-nos da racionalidade de sua filosofia da lei e da ordem e do
caráter não-ornamental de seus padrões: hoje, como ontem, os melhores propagandistas
estão na Igreja e na ala conservadora da política.
40. Quanto a algumas objeções que habitualmente são levantadas neste ponto, cf. Apêndice
a este capítulo.
41. ‘History’, p. 111.
42. Ibid., p. 117.
43. Ibid., p. 111.
44. Cf. a regra em ‘History’, p. 111.
45. ‘History’, pp. 117-18.
46. Para bibliografia, cf. notas 32 e 33 de meu ensaio ‘Von der beschränkten
methodologischer Regeli’, Neue Hefte für Philosophie, Hefte 2/3, Gõttingen, 1972, e as
notas 6 e 9 do capítulo V.
47. Cf. o breve levantamento nas pp. 139 ss. de ‘Von der, etc.’ e os capítulos VI-XII deste
ensaio.
48. ‘History’, p. 112.
326
49. M. Born, Natural Philosophy of Cause and Chance, Londres, 1948, pp. 129 ss.
50. Cf. notas 5 e 17-19 do capítulo V.
51. Rosenfeld in Observation and Interpretation, Londres, 1975, p.44.
52. ‘Não será... arrogância tentar impor uma filosofia da ciência a priori às mais avançadas
ciências? ... Penso que é.’ ‘History’, p. 121.
53. Ibid., nota 80.
54. Ibid., p. 121.
55. Ibid., p. 121.
56. Ibid., p. 121.
57. Ibid., p. 122.
58. Ibid., p. 111.
59. Cf. nota 38, acima.
60. ‘History’, p. 122.
61. Ibid., p. 121.
62. Ibid., p. 111.
63. ‘Vice-versa’ — esta era a opinião de Kepler. Cf. Norbert Herz, Keplers Astrologie,
Viena, 1895, e as referências ali feitas.
64. ‘History’, p. 111.
65. ‘Até hoje, os padrões científicos, aplicados “instintivamente” pela elite científica a casos
particulares é que se têm constituído na principal— embora não exclusiva — medida das
leis universais do filósofo.’ ‘History’, p. 121.
66. ‘Cosmologia’ abrange, neste caso, história, sociologia, psicologia e todos os outros
elementos capazes de influenciar o êxito de certo procedimento. A ‘lei’ do desenvolvimento
desigual, por mim referida no capítulo XII, pertence também à cosmologia, tomada neste
sentido.
67. ‘History’, p. 122.
68. Ibid., nota 132; ‘Falsification’, p. 176.
69. ‘History’, nota 130.
70. Ibid., nota 132.
327
71. Ibid., p. 122.
72. Ibid., nota 130; ‘Falsification’, p. 145: ‘Quem melhor caracteriza a posição racional é
Newton.’ Vemos quão arbitrária é essa seleção de padrões: o solitário Einstein é aceito, as
bem disciplinadas coortes da Escola de Copenhague são rejeitadas. Por certo que não se faz
necessária toda a complexa maquinaria dos enunciados básicos de valor, balanceada, pelo
‘senso comum’ e por princípios filosóficos, quando se sabe, de antemão, que
desenvolvimentos não serão tolerados.
73. ‘Falsification’, p. 177.
74. Ibid., p. 178.
75. ‘History’, p. 111. Todos os juízos metodológicos de Lakatos se apóiam (se é que se
apóiam em enunciados básicos — ver texto correspondente às notas 58 ss. deste capítulo)
nos juízos básicos de valor e no estatuto desse período, deixando de parte os juízos básicos
de valor das escolas que ele não aprecia. E quando os juízos básicos de valor não mostram a
necessária unidade são, de imediato, substituídos pelos padrões popperianos. Pouco
surpreende que Lakatos não encontre sequer um traço de ‘conhecimento científico’ na Idade
Média. Com efeito, àquele tempo, os pensadores procediam de maneira muito diversa.
Empregando seus próprios padrões, Lakatos não pode afirmar que aqueles pensadores
fossem menos dignos de nota — e, assim, ele simplesmente recai na ideologia vulgar de
nossa própria idade ‘científica’. A maioria das pesquisas concernentes à astronomia egípcia,
babilônica e da Grécia Antiga orienta-se exatamente pela mesma diretriz. Interessa-se tãosomente
por aqueles fragmentos de velhas idéias que se mostram conformes com a ideologia
da ciência moderna. Abandonam as antigas cosmologias e os velhos objetivos que as uniam,
de modo admirável, entre si e a outros fragmentos. Pouco surpreende que os resultados se
afigurem incoerentes e ‘irracionais’. Exceção isolada é B. L. van
328
der Waerden, Erwachende Wissenschaft, II, Basiléia, 1968, p. 7: ‘Neste livro, estudamos a
história da astronomia babilônica em suas conexões com a religião astral e a astrologia.
Recorrendo a esse. método, não retiramos a astronomia do contexto cultural-histórico de
que faz parte’. Cf., também, meu Einführung in die Naturphilosophie, Braunschweig, 1974,
onde é examinada, com algum pormenor, a transição do mito para a filosofia.
76. Repito que não me refiro, aqui, às doutrinas contidas no corpus aristotélico, mas à
elaboração de que foram alvo no campo da astronomia, da psicologia, etc., ao fim da Idade
Média. A expressão ‘aristotélicos’ é, naturalmente, uma simplificação e deverá, algum dia,
ser substituída por uma indicação da influência de filósofos individualizados. Entrementes,
cabe usá-la em uma crítica a outra simplificação, a saber, ciência ‘moderna dos últimos dois
séculos’.
77. São pura propaganda, quando julgadas pelos padrões de Lakatos. Compreensão da
função que desempenham no surgimento da ciência moderna melhora a opinião que temos a
respeito delas e por isso as dizemos ‘racionais’.
78. Sob muitos aspectos, a relação entre os aristotélicos e os adeptos de Copérnico é
comparável à relação entre os membros da Escola de Copenhague e os teóricos da variável
oculta. Uns estabelecem princípios básicos e, a seguir, oferecem versão puramente formal de
fatos recém-descobertos, ao passo que os outros desejam chegar aos próprios princípios
básicos para antecipar e/ou explicar todos os fatos relevantes. Considerando as dificuldades
que se põem diante de qualquer explicação unificada, o primeiro método parece muito mais
realista.
79. ‘History’, seção i/E.
80. Isso é esquecido no trabalho de Lakatos-Zahar, ainda não publicado, ‘Did Copernicus
supersede Ptolemy?’, onde se presume que a metodologia utilizada para avaliar
teorias (1) permaneceu imutável durante a transição de Ptolomeu
329
a Copérnico e (2) não diferia significativamente da metodologia dos programas de pesquisa.
(Lakatos e Zahar esquecem também as dificuldades relativas à dinâmica, examinadas nos
anteriores capítulos VI e VII. Apor essas dificuldades à bem sucedida versão que eles
apresentam é transformá-la em versão desoladoramente fracassada.)
81. Quanto a ‘ilusão epistemológica’, cf. capítulo XV, texto correspondente às notas 6 e 7.
A citação foi recolhida em ‘History’, p. 101.
82. ‘Falsification’, p. 180; ‘History’, seção i/E.
83. Essa maneira de dizer equivale, naturalmente, a uma simplificação. E também o é a
descrição que se faz a seguir.
84. Isso é verdade em relação a Popper: ‘Ele não provoca, e não falemos em responder, as
indagações: “Em que circunstâncias, você abandonaria o critério da demarcação?” ’,
‘History’, p. 110, grifo do original. Não se aplica a Platão ou Aristóteles que estudam o
conhecimento e lhe descobrem a complexidade. Cf. W. Wieland, Die Aristotelische Physik,
pp. 76 ss. (Todo o espalhafato que os popperianos fazem a propósito de ‘conhecimento
prévio’ [background knowledge] é aqui antecipado com argumentos e observações vigorosas
e simples.) Mas aplica-se aos aristotélicos do último período da Idade Média.
85. Um exemplo é apontado em meu ‘Classical Empiricism’, The Methodological Heritage
of Newton, ed. Butts, Oxford, 1969.
86. Como exemplo, cf. a relação entre a filosofia de Descartes e sua física, entre a
metodologia de Newton e sua física e entre a filosofia de Popper e a física de Einstein, tal
como vista por Einstein. O último caso é algo obscurecido pelo fato de Popper mencionar
Einstein como uma das inspirações e como a principal ilustração de sua doutrina do
falseamento. Ora, é muito possível que Einstein, que parece ter sido como que um
oportunista epistemológico (ou cínico — ver texto correspondente à nota seis da
Introdução)
330
tenha, ocasionalmente, se manifestado de maneira que pode ser interpretada como favorável
a uma epistemologia do falseamento. Entretanto, suas ações e o conjunto de seus
pronunciamentos escritos contam uma história diferente. Cf. capítulo V, nota 9.
87. Cf. também minha manifestação na Conferencia Alemã de Filosofia, Kiel, outubro de
1972, a aparecer nas Atas (Felix Mainer, Hamburgo).
331
Apêndice III
Tendo ouvido uma de minhas exposições em prol do anarquismo, o Prof. Wigner assim
se manifestou: ‘Tenho certeza de que você não lê todos os manuscritos que lhe são enviados,
mas joga a maioria deles na cesta de papéis’. Sem dúvida que assim procedo. ‘Tudo vale’
não significa leia eu tudo quanto se escreve — valha-me Deus! Significa fazer eu a seleção
de maneira muito individual e própria, em parte porque não posso dar-me ao incômodo de
ler o que não me interessa — e meus interesses mudam de semana para semana, de dia para
dia — e, em parte, por estar convencido de que a Humanidade e mesmo a Ciência lucrarão
se cada um de nós se dedicar a seu próprio campo. É possível que um físico prefira um
artigo difícil, parcialmente incompreensível e repleto de erros a uma exposição cristalina,
porque o artigo se relaciona com uma pesquisa, ainda mal organizada, em que está
empenhado e talvez ele alcance êxito e esclareça idéias muito antes de um rival que jurou
jamais ler uma linha confusa (uma das qualidades da Escola de Copenhague estava em sua
habilidade de evitar a precisão prematura: cf. ‘On a Recent Critique of Complementarity,
Part II’, Philosophy of Science, março de 1969, sec. 6 ss.). Em outras
335
ocasiões, é possível que o físico procure a mais perfeita demonstração de um princípio que
está em vias de utilizar, a fim de que não sofra desvios o debate daquilo que ele considera os
mais importantes resultados obtidos. Há, naturalmente, os chamados ‘pensadores’ que,
chova ou faça sol, subdividem a correspondência recebida de maneira exatamente idêntica,
imitando os recíprocos princípios de escolha — mas pouco nos inclinamos a admirá-los pela
uniformidade e, por certo, não consideramos ‘racional’ o procedimento que adotam: a
Ciência reclama pessoas flexíveis e inventivas e não rígidos imitadores de padrões de
comportamento ‘estabelecidos’.
No caso de instituições e organizações; como a National Science Foundation, a situação é
exatamente a mesma. A fisiognomonia de uma organização e sua eficiência dependem de
seus membros e se aperfeiçoam com a agilidade emocional e mental que estes revelam. Até
mesmo as grandes lojas se deram conta de que um punhado de homens servis é inferior, em
potencial competitivo, a um grupo de pessoas com opiniões fora do comum e os negócios já
encontraram meio de incorporar à própria maquinaria os mais surpreendentes
inconformistas. Problemas especiais são enfrentados por fundações que distribuem dinheiro
e desejam fazê-lo de maneira justa e razoável. A justiça parece exigir que a concessão de
auxílios se faça com base em padrões que não variem de um para outro candidato e que
reflitam a situação intelectual nos campos a serem favorecidos. A exigência pode ser
satisfeita de maneira ad hoc, sem apelo a ‘padrões de racionalidade’ universais. Pode-se,
inclusive, manter a ilusão de que as regras escolhidas garantem eficiência e não são
simplesmente medidas oportunistas, provisórias: qualquer livre associação deve respeitar as
ilusões de seus membros e dar-lhes apoio institucional. A ilusão de racionalidade torna-se
especialmente forte quando uma instituição científica se opõe a exigências políticas. Nesse
caso, uma classe de padrões se levanta contra outra — o que é muito legítimo: cada
organização, cada partido, cada grupo religioso tem o direito de defender sua
336
particular forma de vida e todos os padrões que nela se contêm. Entretanto, os cientistas vão
muito além. À semelhança do que antes deles fizeram os defensores da Única e Verdadeira
Religião, insinuam que seus padrões são essenciais para que se alcance a Verdade ou para
que se consigam Resultados e negam essa condição às exigências do político. Opõem-se,
especialmente, a qualquer interferência política e se apressam a lembrar quem os ouve ou
quem os lê das desastrosas conseqüências do caso Lysenko.
Ora, vimos que a crença em um conjunto de padrões que ao êxito sempre conduziu e ao
êxito sempre conduzirá não passa de uma quimera. A autoridade teorética da ciência é
muito menor do que se supõe. Sua autoridade social, por outro lado, tornou-se, hoje, algo
tão poderoso que a interferência política se faz necessária para assegurar desenvolvimento
equilibrado. E, com o fim de estudar os efeitos dessa interferência, importa examinar mais
de um caso não analisado. Cumpre lembrar os casos em que a ciência, deixada a si mesma,
cometeu sérios desatinos e importa não esquecer exemplos em que a interferência política
atuou para melhoria da situação (um exemplo foi debatido no texto correspondente às notas
9-13 do capítulo IV). Essa ponderada apresentação da evidência talvez nos convença de que
é mais do que tempo de acrescentar a separação Estado–Ciência à separação, hoje habitual,
entre Estado e Igreja. A ciência é apenas um dos muitos instrumentos inventados pelo
homem para fazer face à circunstância. Não é o único, não é infalível e tornou-se demasiado
poderoso, dinâmico em demasia, excessivamente perigoso para ser abandonado a si mesmo.
Por fim, digamos uma palavra acerca da finalidade prática perseguida por Lakatos com o
auxílio de sua metodologia.
Lakatos preocupa-se com a poluição intelectual. Participo dessa preocupação. Livros
chãos e vazios inundam o mercado, palavreado penetrado de termos estranhos e esotéricos
pretende expressar introvisões profundas, ‘especialistas’, sem inteligência e sem caráter e
sem sequer traços de índole intelectual, estilística
337
e emocional, falam-nos acerca de nossa ‘condição’ e dos meios de aperfeiçoá-la e não pregam
apenas para nós, que podemos perceber quem são, mas, deixados livres, pregam para nossos
filhos e têm permissão de arrastá-los para a sua própria miséria intelectual. ‘Professores’,
recorrendo aos graus e ao temor da reprovação, moldam o cérebro dos jovens até que estes
percam a última dose de imaginação que hajam possuído. A situação é desastrosa e de
correção difícil. Não vejo, porém, de que maneira a metodologia de Lakatos poderia ajudar.
Ao que julgo, o primeiro e mais premente problema é retirar a educação das mãos dos
‘educadores profissionais’. Os constrangimentos decorrentes de notas, competição e exames
regulares devem ser afastados, importando também distinguir o processo de aprendizagem
do preparo para uma particular profissão. Concedo que os negócios, as religiões, as
profissões especiais, como as da ciência ou da prostituição, tenham o direito de exigir que
seus afiliados e/ou praticantes se conformem a padrões que lhes parecem importantes e que
possam verificar-lhes a competência. Admito, ainda, que isso implique a necessidade de
tipos especiais de educação, capazes de preparar o homem ou a mulher para os respectivos
‘exames’. Não é preciso que sejam ‘racionais’ ou ‘razoáveis’, em qualquer sentido, os
padrões transmitidos, embora, normalmente, venham apresentados como tais; basta que
sejam aceitos pelos grupos a que alguém se deseja filiar, seja o da ciência, dos Altos
Negócios ou da Única e Verdadeira Religião. Afinal de contas, em uma democracia, a
‘razão’ tem tanto direito de ser ouvida e manifestar-se quanto a ‘não-razão’ especialmente
em vista de ser ‘razão’ para um homem aquilo que para outro é insanidade. Uma coisa,
entretanto, há de ser evitada a qualquer custo: não se deve permitir que os padrões especiais
definidores de especiais assuntos e de particulares profissões se infiltrem na educação geral e
deles não se deve fazer a propriedade característica do ‘homem bem-educado’. A educação
geral deve preparar o cidadão para escolher entre os padrões ou para encontrar seu caminho
na sociedade,
338
onde se incluem grupos dedicados a padrões vários, mas ela não deve, em condição alguma,
desvirtuar seu propósito, de modo a acomodá-lo aos padrões de um grupo determinado. Os
padrões serão examinados, serão debatidos, as crianças serão estimuladas a conseguir
domínio das matérias mais importantes, mas tão somente no sentido de alguém que alcança
proficiência em um jogo, isto é, sem comprometimento sério e sem roubar ao espírito a
capacidade de também entregar-se a outros jogos. Preparado segundo esse esquema, o jovem
poderá decidir devotar o resto de sua vida a certa profissão, começando imediatamente a
tomá-la a sério. Esse ‘comprometimento’ deve ser o resultado de uma decisão consciente,
com base em conhecimento razoavelmente completo das alternativas e não uma conclusão
precipitada.
Tudo isto significa, é claro, que devemos impedir que os cientistas assumam o controle
da educação e passem a ensinar como ‘fato’ e ‘como único método verdadeiro’ aquilo que por
acaso esteja sendo o mito do dia. Concordância com a ciência, decisão de trabalhar segundo
os cânones da ciência há de ser o resultado de exame e de seleção e não de uma particular
maneira de criar as crianças.
Parece-me que mudança dessa ordem introduzida na educação e, por conseqüência, na
perspectiva, removeria grande parte da poluição intelectual deplorada por Lakatos. A
alteração de perspectiva tornaria claro que há muitas maneiras de ordenar o mundo que nos
rodeia, que as odiadas restrições colocadas por um conjunto de padrões podem ser quebradas
pela aceitação livre de uma diferente espécie de padrões e que não há necessidade de rejeitar
qualquer ordem e de permitir que a pessoa se reduza a uma lamuriosa corrente de
consciência. Uma sociedade apoiada em um conjunto de regras restritivas e bem definidas,
sociedade em que ser homem se torne sinônimo de obedecer a essas regras, força o dissidente
a retirar-se para uma terra-de-ninguém, totalmente desprovida de regras e, assim, o priva
de sua razão e de sua humanidade. O paradoxo do mo-
339
derno irracionalismo está em que seus defensores tacitamente identificam o racionalismo à
ordem e ao discurso articulado e, por isso, vêem-se forçados a estimular a tartamudez e o
absurdo — muitas formas de ‘misticismo’ e ‘existencialismo’ tornam-se impossíveis sem
firme, porém despercebida, adesão a alguns princípios da desdenhada ideologia (basta
lembrar a ‘teoria’ segundo a qual a poesia não passa de emoções vividamente expressas).
Removam-se os princípios, admita-se a possibilidade de existirem diferentes formas de vida
e esses fenômenos desaparecerão como um sonho desagradável.
Meu diagnóstico e minha sugestão coincidem com os de Lakatos — até certo ponto.
Lakatos apontou os princípios de racionalidade declaradamente rígidos como a ponte de
algumas correntes do irracionalismo e concitou-nos a adotar padrões novos e de maior
liberalidade. Eu apontei os princípios de racionalidade declaradamente rígidos e o ‘respeito
geral pela ‘razão’ como a fonte de algumas formas de misticismo e irracionalismo e também
concitei à adoção de padrões mais liberais. Mas enquanto o grande ‘respeito pela grande
ciência’, demonstrado por Lakatos (‘History’, p. 113) o leva a procurar os padrões dentro
das fronteiras da ciência moderna ‘dos dois últimos séculos’ (p. 111), eu recomendo que a
ciência seja posta em seu lugar, como forma interessante, mas de modo algum exclusiva, do
conhecimento, que apresenta vantagens e desvantagens: ‘Embora a ciência, vista como um
todo, seja uma inconveniência, ainda assim dela se pode aprender’ (Gottfried Benn, carta a
Gert Micha Simon, datada de 11 de outubro de 1949; citada com base em Gottfried Benn,
Lyrik und Prosa, Briefe und Dokumente, Wiesbaden, 1962, p. 235). Também não creio que
se possa banir os charlatães por meio do simples recurso de tornar rígidas as normas.
Charlatães sempre existiram e nas mais reputadas profissões. Alguns exemplos referidos
por Lakatos (‘Falsification’, p. 176, nota 1) parecem indicar que o problema surge
devido ao excesso e não à falta de controle (cf., também, as observa-
340
ções que ele faz acerca da ‘falsa consciência’, in ‘History’, pp. 94, 108 ss.). Isso é
especialmente verdadeiro a propósito dos ‘revolucionários’ e da ‘reforma’ das universidades
por eles propostas. O erro está em eles serem puritanos e não em serem libertinos (para um
exemplo mais antigo, cf. as Born-Einstein Letters, Nova Iorque, 1971, p. 150). Além disso,
quem esperaria que os covardes melhorassem o clima intelectual mais rapidamente que os
libertinos? (Einstein percebeu esse problema e advertiu contra o relacionar a pesquisa à
profissão: a pesquisa há de estar livre das pressões que a profissão se inclina a impor—
Born-Einstein Letters, pp. 105 ss.) Imporia lembrar ainda que os raros casos em que as
metodologias liberais encorajam o palavreado vazio e a reflexão desconexa (‘desconexa’ de
um ponto de vista, embora talvez não de outro) serão, talvez, inevitáveis, no sentido de que
o liberalismo culpável é também pré-condição de progresso.
Permitam-me, por fim, repetir que, a meu ver, o chauvinismo da ciência constitui-se em
problema bem mais sério do que o problema da poluição intelectual. Talvez seja mesmo uma
das causas principais da poluição. Os cientistas não se contentam com dirigir suas idéias de
acordo com o que entendem ser as regras do método científico: desejam dar universalidade a
essas regras, querem que elas se tornem parte da sociedade e valem-se de todos os meios de
que dispõem — argumento, propaganda, táticas de pressão, intimidação, ação de grupos—
a fim de atingir seus objetivos. Os comunistas chineses perceberam os perigos presentes
nesse chauvinismo e passaram a agir no sentido de afastá-lo. Ao longo desse processo,
restauraram importantes partes da herança intelectual e emocional do povo chinês e
aperfeiçoaram a prática da medicina (cf. texto correspondente às notas 9-13 do capítulo IV).
Seria conveniente que outros governos fizessem o mesmo.
341
Apêndice IV
Imre Lakatos contestou, em várias ocasiões, as críticas feitas neste capítulo. Falou acerca
do assunto em conferências (como nas conferências do curso de verão em Alpbach, 1973),
comentou-o em cartas e conversas pessoais. Em certa época, ele parecia afirmar que embora
o anarquismo epistemológico não possa ser destruído por meio de argumentos, é possível
mostrar que ele é absurdo: onde está o anarquista epistemológico disposto a, por puro
espírito de contradição, lançar-se pela janela de um edifício de 50 andares em vez de usar o
elevador? Ao fim de sua vida, parecia ser essa a principal objeção que a mim opunha.
Objeção que me perturbou por largo tempo, até eu encontrar resposta que me parece
decisiva. Escrevi a resposta em um pedaço de papel, preguei-a na parede, próximo de minha
cadeira favorita e pretendia usá-la como parte de minha réplica à última crítica de Imre. A
resposta é a seguinte:
O caso do anarquista que evita a janela mostra que os anarquistas agem, com freqüência,
de maneira previsível. Não demonstra que eles ou os que os acompanham no evitar as
janelas se guiem por uma teoria da racionalidade, que tenham escolhido, por exemplo, o
comportamento sugerido pelo mais
345
avançado programa de pesquisa que conhecem. Gatinhos que se aproximem da figura de um
abismo recuam, ainda que seja essa a primeira coisa que vêem. O comportamento, cabe
presumir, é inato. As pessoas recuam porque foram ensinadas a se manter longe das janelas
e porque acreditam firmemente naquilo que para muitos deles não passa de boato, isto é,
narrações acerca dos efeitos mortais da queda de grande altura. Não se demonstrou ainda
que as teorias mecânicas e fisiológicas a que os mais prolixos não-saltadores possam recorrer
para justificar o próprio comportamento estejam em concordância com os programas de
pesquisa e duvido que haja como remediar tal situação. Não está o anarquista
epistemológico, de outra parte, obrigado a comportar-se de modo contrário ao costumeiro.
Ele admitirá, prontamente, que é covarde, que não tem como controlar o medo e que esse
medo o mantém afastado das janelas. (Para minúcias, ver capítulo XVI, especialmente o
texto correspondente às notas 38 ss.) O que ele nega é a possibilidade de oferecer, para
aquele medo, razões que se ponham em consonância com os padrões de alguma teoria da
racionalidade, de modo a evidenciar que ele está efetivamente agindo em obediência a
padrões. Este é o ponto em causa e não o que o anarquista epistemológico faz ou deixa de
fazer.
346
XVII
Além disso, tais padrões, que envolvem uma comparação entre classes de conteúdo, nem
sempre são aplicáveis. As classes de conteúdo de certas teorias são insuscetíveis de
comparação, no sentido de que nenhuma das relações lógicas habituais (inclusão, exclusão,
superposição) vige entre elas. Ocorre isso quando comparamos os mitos à ciência. Ocorre,
ainda, nas mais desenvolvidas, mais gerais e, portanto, mais mitológicas partes da própria
ciência.
347
Tenho muita simpatia pela concepção, formulada clara e elegantemente por Whorff (e
antecipada por Bacon), segundo a qual as linguagens e os padrões de reação que envolvem
não constituem meros instrumentos para descrever eventos (fatos, estados de coisas), mas
são, também, modeladores de eventos (fatos, estados de coisas)1 contendo-se em sua
‘gramática’ uma cosmologia, uma visão ampla do mundo, da sociedade, da situação do
homem2, que influencia o pensamento, o comportamento, a percepção3. De acordo com
Whorff, a cosmologia de uma linguagem se expressa em parte pelo aberto uso de palavras,
mas apóia-se, ainda, em Classificações ‘que não têm marca evidente, mas que operam por
meio de uma invisível “troca central” de elos de ligação, de maneira a determinar outras
palavras que assinalam a classe’4. Assim, ‘os substantivos como pai, menino, menina,
esposa, tio, mulher, senhora, que incluem milhares de nomes tais como Jorge, Frederico,
Maria, Carlos, Isabel, Isidoro, Joana, João, Alice, Aluísio, Ester, não portam marca
distintiva de gênero, à semelhança do latino us ou a, mas, não obstante, cada qual desses
milhares de palavras tem um invariável elo de ligação que o prende, com precisão absoluta,
seja
349
à palavra “ele” ou à palavra “ela” que, entretanto, não se manifesta no quadro de
comportamento patente enquanto e até quando não o requeiram especiais situações do
discurso’5.
Classificações implícitas (que, em razão de sua natureza subjacente, são ‘mais sentidas
do que compreendidas — consciência delas envolve uma qualidade intuitiva’6 — que ‘se
mostram mais capazes de ser racionais do que as classificações explícitas’7 e que talvez se
revelem ‘muito sutis’ e desligadas ‘de qualquer grande dicotomia’8) criam ‘resistências
padronizadas a pontos de vista amplamente divergentes’9. Se essas resistências se opuserem
não apenas à verdade das alternativas a que resistem, mas também à presunção de que uma
alternativa haja sido apresentada, teremos, então, um exemplo de incomensurabilidade.
Creio, ainda, que as teorias científicas, tais como a teoria do movimento, elaborada por
Aristóteles, a teoria da relatividade, a teoria quântica, a cosmologia clássica e moderna, são
suficientemente gerais, suficientemente ‘profundas’ e se desenvolveram segundo diretrizes
suficientemente complexas para poderem ser consideradas ao longo das mesmas linhas das
linguagens naturais. Os debates que preparam a transição para uma nova época, no campo
da física ou da astronomia, dificilmente se restringem, alguma vez, aos traços patentes do
ponto de vista ortodoxo. Freqüentemente revelam idéias ocultas, substituem-nas por idéias
de espécie diferente e alteram tanto as classificações implícitas quanto as explícitas. A
análise que Galileu fez do argumento da torre levou a uma formulação mais clara da teoria
aristotélica acerca do espaço e revelou, também, a diferença entre ímpeto (magnitude
absoluta, inerente ao objeto) e momento (que depende do sistema de referência escolhido). A
análise feita por Einstein, a propósito da simultaneidade, desvelou alguns traços da
cosmologia newtoniana que, embora desconhecidos, haviam influenciado todos os
argumentos acerca de espaço e tempo e Niels Bohr verificou, em acréscimo, que o
mundo físico não poderia ser encarado como algo independente
350
por completo do observador e admitiu a idéia de independência que era parte da física
clássica10. Tendo em conta casos como esses verificamos que os argumentos científicos
podem, sem dúvida, ver-se expostos a ‘resistências padronizadas’11, cabendo esperar que a
incomensurabilidade também se manifeste entre teorias.
(Como a incomensurabilidade depende de classificações implícitas e envolve importante
alterações conceptuais, muito dificilmente se torna possível oferecer dela uma definição
explícita. Nem as ‘reconstruções’ costumeiras conseguem esclarecê-la. O fenômeno há de
ser apresentado, o leitor deve ser levado até ele por meio de uma confrontação com grande
variedade de exemplos e, então, julgará por si mesmo. Será esse o método adotado no
presente capítulo.) 12
Interessantes casos de incomensurabilidade ocorrem já no domínio da percepção. (Isso
não surpreenderá, se lembrarmos as considerações expendidas no capítulo XIV, atrás.)
Dados estímulos apropriados, mas diferentes sistemas de classificação (diferentes ‘conjuntos
mentais’), nosso aparelho perceptivo poderá produzir objetos de percepção entre os quais a
comparação não será fácil13. Um juízo direto é impossível. Podemos comparar as duas
atitudes em nossa memória, mas não enquanto estivermos contemplando o mesmo quadro.
O primeiro dos desenhos que se encontram abaixo vai um passo adiante. Dá surgimento a
objetos de percepção que não apenas negam outros objetos de percepção — conservando,
assim, as categorias básicas — mas impedem a formação de qualquer outro objeto (note-se
que o cilindro intermediário se desvanece no nada, na medida em que nos aproximamos da
parte interior do estímulo) provocado pelas duas partes exteriores. Sequer a memória pode,
agora, oferecer-nos visão completa das alternativas.
351
Todo o desenho que tenha um traço de perspectiva apresenta esse fenômeno: podemos
decidir-nos a prestar atenção à folha de papel onde as linhas estão traçadas — e então não se
tratará de um padrão tridimensional; de outra parte, podemos decidir-nos a investigar as
propriedades desse padrão e, então, a superfície do papel desaparecerá ou será integrada ao
que só pode ser denominado uma ilusão. Não há meio de ‘apreender’ a transição de um para
outro caso14. Em todas essas circunstâncias, a imagem percebida está na dependência
de ‘conjuntos
352
mentais’ passíveis de ser alterados à vontade, sem recurso a drogas, hipnose,
recondicionamento. Contudo, os conjuntos mentais podem ser paralisados pela doença,
como resultado de criação dentro de certa cultura ou em razão de determinantes fisiológicos
que escapam a nosso controle. (Nem toda alteração de linguagem se acompanha de
alterações de percepção.) Nossa atitude para com outras raças ou para com pessoas de
formação cultural diferente depende, freqüentes vezes, de padrões ‘congelados’ de segunda
espécie: tendo aprendido a ‘ler’ fisionomias, de maneira padronizada, formulamos juízos
padronizados e nos equivocamos.
Interessante exemplo de conjuntos fisiologicamente determinados e que levam à
incomensurabilidade é proporcionado pelo desenvolvimento da percepção humana. Como
sugerido por Piaget e sua escola15, a percepção da criança atravessa diversos estágios antes
de alcançar a forma adulta, relativamente estável. Em um estágio, os objetos parecem
comportar-se muito à semelhança de pós-imagens e são tratados como tais. A criança
acompanha o objeto com os olhos até que ele desapareça; não faz a menor tentativa de
recuperá-lo, ainda que isso requeira tão somente mínimo esforço físico (ou intelectual),
esforço que, aliás, já está ao alcance da criança. Não há mesmo tendência de procurar o
objeto — e isso é razoável, ‘conceptualmente’ falando. Com efeito, seria absurdo ‘procurar’
uma pós-imagem. Seu ‘conceito’ não propicia operação desse tipo.
O surgimento do conceito e da imagem de percepção dos objetos materiais altera
dramaticamente a situação. Ocorre drástica reorientação dos padrões de comportamento e,
cabe conjecturar, de pensamento. Pós-imagens ou coisas a elas semelhantes continuam a
existir; mas são, agora, difíceis de achar e hão de ser descobertas. por métodos especiais (o
mundo visual anterior desaparece literalmente16. Esses métodos derivam de um novo
esquema conceptual (pós-imagens ocorrem em seres humanos, não são partes do
mundo físico) e não podem reconduzir aos exatos fenômenos do estágio anterior. (Tais
fenôme-
353
nos devem, portanto, receber nome diferente, como ‘pseudo-pós-imagens’—
interessantíssimo análogo perceptivo da transição de, digamos, mecânica newtoniana para
relatividade especial). Nem as pós-imagens nem as pseudo-pós-imagens ocupam especial
posição no mundo novo. Não são tratadas, por exemplo, como evidência sobre a qual se
suponha repousar a nova noção de um objeto material. Nem podem ser usadas para explicar
essa noção: pós-imagens surgem com ela, dela dependem e estão ausentes dos espíritos
daqueles que ainda não reconhecem objetos materiais; e as pseudo-pós-imagens desaparecem
tão logo esse reconhecimento passa a ocorrer, O campo de percepção jamais contém, ao
mesmo tempo, pós-imagens e pseudo-pós-imagens. Importa admitir que cada estágio possui
um tipo de ‘base’ observacional a que se dá atenção especial e a partir da qual são recebidas
múltiplas sugestões. — Não obstante, essa base (a) altera-se de estágio para estágio e (b) é
parte do aparato conceptual de certo estágio e não exclusiva e única fonte de interpretação,
como alguns empiristas gostariam de fazer-nos crer.
Considerando desenvolvimentos desse gênero, cabe suspeitar que a família de conceitos
centrada em ‘objeto material’ e a família de conceitos centrada em ‘pseudo-pós-imagens’ são
incomensuráveis, precisamente no sentido aqui em questão; essas famílias não podem ser
empregadas simultaneamente, nem há como estabelecer, entre elas conexões lógicas ou de
percepção.
Ora, será razoável esperar que alterações conceptuais e perceptivas dessa espécie ocorram
tão-somente na infância? Devemos acolher de bom grado o fato, se é um fato, de que o
adulto está ligado a um mundo perceptivo estável que se acompanha de um sistema
conceptual estável, suscetível de modificações várias, mas cujas linhas gerais estão
definitivamente estabelecidas? Ou será mais realista presumir que transformações
fundamentais, acarretadoras de incomensurabilidade, continuem a ser possíveis e devam ser
encorajadas, sob pena de ficarmos para sempre excluídos do que poderia constituir um
estágio superior de conhecimento e consciência? Além disso, a questão da mo-
354
bilidade do estágio adulto é, de qualquer modo, uma questão empírica, a ser explorada
através de pesquisa, insuscetível de se ver resolvida por um fiat metodológico17. A tentativa
de romper as fronteiras de um dado sistema conceptual e escapar ao alcance dos ‘óculos
popperianos’18 é parte essencial dessa pesquisa (e deve ser, ainda, parte essencial de
qualquer vida interessante).
Essa tentativa envolve muito mais do que uma prolongada ‘discussão crítica’19 como
alguns remanescentes da Ilustração gostariam de levar-nos a acreditar. Importa fazer-se
capaz de apresentar e apreender novas relações perceptivas e conceptuais, inclusive as que
não são imediatamente claras (relações implícitas — ver acima) que não podem ser
atingidas apenas por meio de discussão crítica (cf., também, capítulos I e II). As versões
ortodoxas restringem-se, naturalmente, a teorias (físicas — ou, antes, a pálidas caricaturas
dessas teorias)20, esquecendo as relações ocultas que contribuem para esclarecimento de seu
significado, descartando alterações perceptivas e tratando o resto de maneira rigidamente
padronizada, de sorte que qualquer debate de idéias fora do comum é, de imediato, barrado
por uma série de respostas rotineiras. Entretanto, agora, todo esse conjunto de respostas é
posto em dúvida. Cada conceito que nele ocorre é suspeito, especialmente os conceitos
‘fundamentais’ como ‘observação’, ‘teste’, e, naturalmente, o próprio conceito de ‘teoria’.
Quanto à palavra ‘verdade’, só podemos dizer, a esta altura, que ela perturba, mas não
consegue muito mais do que isso. A melhor maneira de agir, em tais circunstâncias, é
recorrer a exemplos que se põem para além do alcance das respostas rotineiras. Por essa
razão, decidi examinar meios de representação que não as linguagens ou teorias,
desenvolvendo minha terminologia em conexão com elas. Mais especialmente,
examinarei estilos de pintura e desenho. Tornar-se-á claro que não existem objetos
‘neutros’ suscetíveis de ser representados em qualquer estilo e de ser usados
como árbitros objetivos entre
355
estilos radicalmente diversos. A aplicação às linguagens é óbvia.
O ‘estilo arcaico’, tal como definido por Emanuel Loewey, em sua obra a respeito da arte
grega antiga21, apresenta as características seguintes:
(1) a estrutura e os movimentos das figuras e de suas partes limitam-se a uns poucos
esquemas típicos;
(2) as formas individuais são estilizadas, tendendo a ter certa regularidade e são
‘executadas com ... abstração precisa’22
(3) a representação de uma forma depende do contorno que pode conservar o valor de
uma linha independente ou constituir as fronteiras de uma silhueta. ‘As silhuetas podem
receber numerosas posturas: estar de pé, caminhar, correr, lutar, morrer, lamentar-se, ...
Contudo, a sua estrutura essencial há de sempre ser clara’23;
(4) a cor aparece em um só matiz e as gradações de luz e sombra estão ausentes;
(5) via de regra, as figuras exibem suas partes (e os episódios mais amplos exibem seus
elementos), da maneira mais completa — ainda que isso implique deselegância de
composição e ‘certo descuido quanto a relações espaciais’. As partes recebem o seu valor
conhecido, ainda quando isso conflite com sua relação para com o todo24;
(6) assim, com umas poucas e bem determinadas exceções, as figuras que integram a
composição dispõem-se de tal maneira que as superposições são evitadas e objetos que se
situam um atrás do outro aparecem como estando lado a lado;
(7) o ambiente de uma ação (montanhas, nuvens, árvores, etc.) ou é completamente
ignorado ou, em grande porção, omitido. A ação forma unidades autônomas de cenas típicas
(batalhas, funerais, etc.)”.
Esses elementos estilísticos encontrados, com modificações várias, nos desenhos das
crianças, na arte ‘frontal’ dos egípcios, na arte grega inicial e entre os povos
primitivos, são explicados
356
por Loewy em termos de mecanismos psicológicos: ‘a par das imagens que a realidade
apresenta ao olho físico, existe um mundo de imagens inteiramente diverso, imagens que
vivem, ou melhor, que somente ganham vida em nosso espírito e que, embora sugeridas pela
realidade, sofrem total transformação. Todo ato primitivo de desenho ... tenta reproduzir
essas imagens e elas apenas; com a regularidade instintiva de uma função psíquica’26. O
estilo arcaico altera-se como conseqüência de ‘numerosas observações planejadas da
natureza, observações que modificam as puras imagens mentais’27, iniciando-se o
desenvolvimento em direção ao realismo e, dessa forma, começando a História da Arte. Para
o estilo arcaico e para a transformação por ele sofrida são dadas razões naturais, fisiológicas.
Ora, não é claro o porquê seria mais ‘natural’ copiar imagens da memória do que
imagens da percepção, estas muito melhor definidas e muito mais permanentes28. Verificase,
ainda, que, freqüentemente, o realismo precede mais esquemáticas formas de
apresentação. Isso é verdade em relação à idade da pedra lascada’29, da arte egípcia30, da
arte geométrica ática31. Em todos esses casos, o ‘estilo arcaico’ é antes o resultado de um
esforço consciente (que pode, é claro, ser auxiliado ou bloqueado por tendências
inconscientes e por leis fisiológicas) do que uma reação natural a marcas internas de
estímulos externos32. Em vez de procurar as causas psicológicas de um ‘estilo’, devemos,
portanto, dar preferência a tentar descobrir seus elementos, analisar-lhes a função,
compará-los com outros fenômenos da mesma cultura (estilo literário, construção de
sentenças, gramática, ideologia), atingindo, assim, um esboço geral da subjacente visão do
mundo, incluindo uma explicação do modo como essa visão do mundo influencia a
percepção, o pensamento, a forma de argumentação e uma explicação dos limites que impõe
às fantasias da imaginação. Veremos que essa análise das linhas gerais proporciona melhor
compreensão do processo de alteração conceptual do que a explicação naturalista ou a
explicação que deflui de uso de frases corriqueiras como ‘uma
357
discussão crítica e uma comparação das ... várias estruturas é sempre possível’33. Claro
está, alguma forma de comparação é sempre possível (por exemplo, uma teoria física poderá
soar mais melodiosa do que outra, quando apresentada em voz alta, com o acompanhamento
de um violão). Coloquemos, porém, regras específicas para o processo de comparação, tais
como as regras de lógica, aplicadas à relação das classes de conteúdo, e depararemos com
exceções, restrições indevidas, e seremos forçados, a cada momento, a sair do embaraço
através de evasivas. Muito mais interessante e instrutivo é examinar os tipos de coisas que
podem ser ditas (representadas) e os tipos de coisas que não podem ser ditas (representadas),
caso a comparação tenha de ocorrer dentro de uma estrutura especificada e historicamente
bem assentada. Para tal exame, devemos passar além das generalidades e estudar, em
pormenor, as estruturas. Principio com uma apresentação de alguns exemplos de estilo
arcaico.
As ilustrações B e C (ver o fim deste capítulo) mostram as seguintes características da
figura humana: ‘os homens são muito altos e esguios, o tronco é um triângulo que afila para
o peito, a cabeça é uma protuberância, sendo o rosto mero prolongamento; ao fim do período
em que o estilo domina, a cabeça é avivada — a protuberância é desenhada em suas linhas
demarcadoras e um ponto representa o olho’34. Todas ou quase todas as partes aparecem em
perfil e são ligadas como os braços de uma boneca de pano ou de marionetes. Não são
‘integradas’ de modo a formar um todo orgânico. Esta característica ‘aditiva’ do estilo
arcaico é particularmente visível no tratamento dado ao olho. O olho não participa das ações
do corpo, não guia o corpo, nem estabelece contato entre ele e o meio ambiente: não ‘olha’. É
acrescentado ao perfil da cabeça, na forma de parte de uma notação, como se o artista
procurasse dizer: ‘e ao lado de todas essas coisas, digamos as pernas, os braços, os pés, o
homem também possui dois olhos, que ficam na cabeça, um de cada lado’ (Ilustrações D e A
contêm o ‘olho frontal’). Analo-
358
gamente, estados específicos do corpo (vivo, morto, enfermo) não são indicados por meio de
arranjos especiais das partes, mas mediante colocação do mesmo corpo-padrão em várias
posições padronizadas. Assim, o corpo do homem morto, colocado no carro funerário
(Ilustração C), articula-se precisamente como o homem que está em pé — mas com um giro
de 90 graus que permite situá-lo entre a parte inferior do sudário e a parte superior do
esquife35. Tendo a forma de um homem vivo, ele é colocado na posição de um homem morto.
Outro exemplo é a figura de uma criança, que tem metade de seu corpo dentro da boca de
um leão36. O leão tem aspecto feroz, mas a criança parece feliz e o ato de engolir é
sumariamente aposto à representação do que é um leão e do que é uma criança. (Temos o
que se denomina agregado paratáctico: os elementos de um agregado desse gênero recebem
todos o mesmo realce, a única relação que entre eles se estabelece é seqüencial, não há
hierarquia, nenhuma das partes é posta em subordinação ou é determinada por outras.) A
pintura diz: leão feroz, criança tranqüila, o leão devora a criança.
A necessidade de apresentar todas as partes essenciais de uma situação leva, com
freqüência, a uma separação de partes que estão realmente em contato. O quadro se
transforma em mapa. Assim, o auriga da Ilustração E aparece em pé, acima do solo (que é
apresentado em vista ampla) e não escondido pelos aros das rodas, de sorte que seus pés, o
chão, os raios, tudo pode ser claramente visto. Nenhuma dificuldade surge caso olhemos a
pintura como um catálogo visual das partes de um acontecimento, em vez de contemplá-la
como ilusória apresentação do próprio acontecimento. (Nenhuma dificuldade surge,
dizemos: seus pés tocavam o chão, que é retangular e ele estava cercado por varões de
grade...)37. Contudo, essa interpretação há de ser aprendida, não decorre diretamente do
quadro.
A parte de aprendizado que se faz necessária talvez seja grande. Alguns desenhos e
pinturas egípcios só podem ser de-
359
codificados com o auxílio do próprio objeto representado ou com o auxílio de representações
tridimensionais desse objeto (estatuária, no caso de seres humanos, animais, etc.).
Utilizando essa informação, damo-nos conta de que a cadeira da Figura A representa o
objeto da Figura C e não o objeto da Figura B e deve ser entendida como: ‘cadeira com
encosto e quatro pernas, pernas ligadas por um suporte’, ficando claro que só as pernas
fronteiras entre si e as pernas traseiras entre si ligam-se daquele modo38. A interpretação
de grupos é complexa e alguns casos não foram ainda compreendidos39.
360
(Ser capaz de ‘ler’ certo estilo inclui, também, conhecimento dos traços que sejam
irrelevantes. Nem todos os traços de uma figura arcaica têm valor representativo, assim
como nem todos os traços de uma sentença escrita desempenham papel no articular-lhe o
conteúdo. Isso foi olvidado pelos gregos que começaram por inquirir das razões das ‘dignas
posturas’ das estátuas egípcias (já Platão fazia comentários a esse propósito). Essa
indagação ‘poderia ter surpreendido um artista egípcio, como nós nos surpreenderíamos se
alguém fizesse indagação a respeito da idade ou do temperamento do rei de um jogo de
xadrez’40.)
Até agora, oferecemos breve exposição de algumas peculiaridades do ‘estilo arcaico’.
De vários modos se pode descrever e analisar um estilo. As descrições já apresentadas
concentraram atenção em traços formais: o estilo arcaico mostra faixas visíveis cujas partes
se dispõem aproximadamente de maneira semelhante à com que se apresentam na
‘natureza’, a não ser quando esta disposição se mostra passível de ocultar elementos
importantes. Todas as partes colocam-se ao mesmo nível, e supõe-se que ‘leiamos’ as faixas,
em vez de as ‘vermos’ como versões ilusórias da situação41. As faixas não têm qualquer
organização, a não ser a seqüencial, isto é, a forma de um elemento não depende da presença
de outros elementos (acrescentar um leão e o ato de devorar não faz com que a criança
pareça infeliz; acrescentar o processo de morte não faz com que um homem pareça fraco). As
pinturas arcaicas são agregados paratácticos, não sistemas hipotácticos. Os elementos do
agregado podem ser partes físicas, tais como cabeças, braços, rodas, podem ser estados de
coisas, tal como o fato de um corpo estar morto, podem ser ações, tal como a ação de devorar.
Em vez de descrever os traços formais de um estilo, podemos descrever os traços
ontológicos de um mundo formado pelos elementos representados no estilo, acomodados de
maneira adequada, sendo possível, ainda, descrever a impressão
361
que esse mundo provoca em quem o contempla. Esse é o procedimento do crítico de arte que
aprecia insistir no comportamento peculiar dos caracteres que o artista coloca em suas telas
e na ‘vida interior’ que o comportamento parece indicar. Assim, G. M. S. Hanfmann42
escreve, a propósito das figuras arcaicas: ‘Independentemente de quão animados e ágeis
possam ser os heróis arcaicos, não parecem eles mover-se por sua própria vontade. Seus
gestos são fórmulas explicativas, impostas aos atores, para explicar o tipo de ação que está
ocorrendo. O obstáculo crucial para o convincente retrato da vida interior era o curioso
caráter destacado do olho arcaico. Ele mostra que uma pessoa está viva, mas é incapaz de
ajustar-se às exigências de uma situação específica. Ainda quando o artista arcaico é bem
sucedido no denotar uma aparência humorística ou trágica, os fatores do gesto externado e
do olhar destacado lembram a exagerada animação de um espetáculo de marionetes.’
Com freqüência, uma descrição ontológica só acrescenta palavreado à análise formal;
nada mais é do que um exercício de ‘sensibilidade’ e ‘graça’. Contudo, não devemos pôr de
parte a possibilidade de que um particular estilo forneça explicação precisa do mundo, como
visto pelo artista e por seus contemporâneos e de que todo traço formal corresponda a
supostos (ocultos ou explícitos) inerentes à subjacente cosmologia. (No caso do estilo
‘arcaico’, não devemos desprezar a possibilidade de que o homem, na época, realmente se
sentisse como um boneco dirigido por forças exteriores e que, dessa maneira, visse e tratasse
os semelhantes.) Essa interpretação realista de estilos e de outros meios de representação
estaria em concordância com a tese de Whorff, segundo a qual as linguagens, além de serem
instrumentos para a descrição de eventos (que podem encerrar traços outros, não
abrangidos por qualquer descrição) constituem, ainda, modeladores de eventos (de modo que
há um limite lingüístico para o que pode ser expresso em determinada linguagem e esse
limite coincide com os limites da coisa
362
mesma)44. A interpretação realista é muito plausível. Não cabe, entretanto, simplesmente
admiti-la45.
Não se deve admiti-la, pois há falhas técnicas, propósitos especiais (caricatura) capazes
de alterar um estilo sem alterar a cosmologia. Importa lembrar, ainda, que todos os homens
têm, aproximadamente, o mesmo equipamento neurofisiológico, de modo que a percepção
não pode ser adulterada numa direção arbitrariamente escolhida’46. Em alguns casos,
podemos indubitavelmente mostrar que desvios, em relação a uma ‘fiel tradução da
Natureza’, ocorrem na presença de pormenorizado conhecimento do objeto e a par de
apresentação mais ‘realistas’: a oficina do escultor Tutmosis, em Tel al-Amarna (a antiga
Achet-Aton) contém máscaras diretamente retiradas de modelos vivos, com todas as
minúcias de formação da cabeça (indentações) e da face intacta, além de cabeças esculpidas a
partir dessas máscaras. Algumas dessas cabeças preservam as minúcias, em outras elas
foram eliminadas e substituídas por formas simples. Exemplo extremado desse estilo é a
cabeça completamente lisa de um egípcio. Prova que ‘pelo menos alguns artistas
permaneceram conscientemente alheios à Natureza’47. Durante o reinado de Amenotis IV
(1364-1347 a.C.), o modo de representação sofreu duas alterações; a primeira, em direção a
um estilo mais realista, ocorreu apenas quatro anos após sua ascensão ao trono, revelando
isso que a capacidade técnica, no sentido do realismo, já existia, estava em condições de ser
usada, mas era deixada intencionalmente de lado. Uma inferência que leve do estilo (ou da
linguagem) para a cosmologia e os modos de percepção requer, portanto, argumento
especial: não pode ser feita sem maiores cuidados. (Uma observação similar aplica-se a
qualquer inferência que, a partir de teorias comuns em ciência, como a teoria da relatividade
ou a idéia de movimento da Terra, conduza à cosmologia e a modos de percepção.)
O argumento (que jamais é concludente) consiste em indicar traços característicos em
campos distantes. Se as idiossincrasias de um particular estilo de pintura aparecem
também na
363
estatuária, na gramática de linguagens da época (e, aqui, especialmente em classificações
implícitas, que não podem ser facilmente deturpadas); se puder ser mostrado que essas
linguagens são utilizadas pelos artistas e pelo povo; se houver princípios filosóficos,
formulados nas linguagens que apontam as idiossincrasias como traços do mundo e não
apenas como algo artificial e que tentam explicar-lhes a origem; se o homem e a natureza
apresentam esses traços não só na pintura, mas ainda na poesia, em ditos populares, na lei
não escrita; se a idéia de que os traços são parte da percepção normal não for contraditada
por coisa alguma que saibamos acerca da fisiologia ou da psicologia da percepção; se
pensadores de épocas seguintes atacarem as idiossincrasias, dando-as como ‘erros’ que
resultam de uma ignorância do ‘verdadeiro modo’ — então poderemos admitir que não
estamos tão-somente lidando com falhas técnicas e propósitos particulares, mas que estamos
diante de um coerente modo de vida, cabendo admitir que as pessoas que participaram desse
modo de vida viram o mundo de maneira semelhante à como nós, agora, vemos as pinturas
que nos deixaram. Aparentemente, todas essas condições foram satisfeitas na Grécia
arcaica: a estrutura formal e a ideologia da épica grega, tal como reconstruídas com base nos
textos e em posteriores referências a esses mesmos textos, repetem todas as peculiaridades do
estilo geométrico, em suas últimas fases, e as peculiaridades do estilo arcaico, em suas
manifestações iniciais”.
Assinalemos, de início, que cerca de nove décimos da épica de Homero consistem de
fórmulas que são frases prefabricadas cuja extensão varia de uma ou duas palavras a várias
linhas completas e que se repetem em locais adequados40. Um quinto dos poemas consiste
de linhas inteiramente repetidas neste ou naquele ponto; em vinte e oito mil linhas de
Homero há cerca de vinte e cinco mil frases repetidas. Repetições já ocorrem na poesia da
corte de Micenas e podem ser observadas na poesia de cortes orientais: ‘Títulos de deuses,
reis e homens devem ser dados corretamente e, em um mundo de cortesãos, o princípio
364
de expressão correta ganha extensão maior. A correspondência dos reis é altamente formal e
essa formalidade se projeta para além das cenas de mensageiro da poesia, aparecendo- nas
fórmulas usadas para iniciar discursos. Analogamente, as coisas que se operam são
relatadas nos termos da ordem de operação, seja esta ordem explícita ou não; essa técnica
aplica-se a outras descrições, mesmo que não se apóiem em ordens de operação do mesmo
teor. Essas imposições derivam todas elas, em última análise, da corte do rei e é razoável
supor que essa corte, por sua vez, apreciasse ver a formalidade retratada na poesia’50. As
condições das cortes (sumeriana, babilônica, hitita, fenícia e outras) explicam, também, a
ocorrência dos padronizados elementos de conteúdo (cenas típicas; rei e nobres na guerra e
na paz; mobiliário; descrição de coisas belas) que, transportadas de cidade para cidade e até
mesmo para além das fronteiras nacionais, são repetidas e adaptadas a circunstâncias locais.
A lenta combinação dos elementos constantes e variáveis, que resulta de numerosas
adaptações desse tipo, é usada pelos poetas analfabetos da ‘idade sombria’ da Grécia pelos
quais são desenvolvidas uma linguagem e formas de expressão capazes de preencher da
melhor forma os requisitos da composição geral. O requisito da memória exige a existência
de prévias descrições dos acontecimentos, de fácil uso por um poeta que compõe em seu
espfrito7 sem auxílio da escrita. O requisito da métrica exige que as frases descritivas
básicas sejam suscetíveis de emprego nas várias partes do verso que o poeta está prestes a
completar: ‘Diversamente do poeta que escreve seus versos... [o poeta oral] não pode pensar
descansadamente na palavra seguinte, nem alterar o que já expôs, nem —antes de
prosseguir — rever o que acabou de expressar. ...Deve ter à sua disposição grupos de
palavras, todas passíveis de adaptação ao verso’51 A economia exige que, dada certa
situação e certo requisito métrico (princípio, meio ou fim de um verso), haja apenas um
modo de continuar a narrativa — e esse requisito é satisfeito em surpreendente extensão:
‘Todos os principais per-
365
sonagens da Ilíada e da Odisséia, caso seus nomes, a par de um epíteto, sejam postos na
parte final do verso, terão uma fórmula nome-epíteto em nominativo, começada por uma
consoante sim- pies que ocupa lugar entre a censura trocaica do terceiro pé e o fim do verso:
por exemplo, ???????? ???? ‘????????. Em uma relação de 37 personagens que dispõem
de fórmulas desse tipo, relação na qual se incluem todos os que têm alguma importância nos
poemas, são três apenas os nomes que admitem uma segunda forma, capaz de substituir a
primeira’52. ‘Se tomarmos, nos 5 casos gramaticais, o singular de todas as fórmulas nomeepíteto,
usadas para Aquiles, teremos 45 fórmulas diferentes, das quais nenhuma tem, no
mesmo caso, o mesmo valor métrico”. Tendo esses recursos ao seu dispor, o poeta homérico
‘não mostra interesse por originalidade de expressão, ou por variedade. Utiliza ou adapta
fórmulas herdadas’54. Não tem ‘escolha, sequer chega a pensar em termos de escolha; para
dada parte do verso, qualquer que seja o caso de declinação necessário e qualquer que seja o
assunto, o vocabulário de fórmulas fornecia, de imediato, uma combinação de palavras’55.
Utilizando as fórmulas, o poeta homérico oferecia uma versão de cenas típicas, nas quais
objetos são às vezes descritos por ‘acréscimo de partes a uma fileira de palavras, em
aposição’56. Idéias que hoje consideraríamos logicamente subordinadas a outras são
enunciadas em proposições independentes, gramaticalmente coordenadas. Exemplo (Ilíada,
9.556 e ss.):
Meleagros ‘deitou-se ao lado de sua esposa, a linda Cleópatra, filha da Marpessa de
adoráveis tornozelos, filha de Euenos e de Ides, que foi o mais forte dentre os homens da
Terra naquela época — e ele ergueu o arco contra o Sr. Febo Apolo, por causa da donzela de
tornozelos adoráveis. A ela então, em seus aposentos, seu pai e senhora mãe chamavam pelo
nome de Alcione, porque...’
366
e assim por diante, ao longo de dez outros versos e dois ou três temas, antes de um ponto
final. Esse traço paratáctico da poesia homérica, onde se reflete a ausência de elaborados
sistemas de cláusulas subordinadas do grego primitivo57, torna claro, ainda, porque se diz
que Afrodite está ‘rindo suavemente’, quando, em verdade, ela se queixa e está em lágrimas
(Ilíada, 5.375) ou porque se diz que Aquiles é ‘de pés ligeiros’, quando ele está sentado,
conversando com Príamo (Ilíada, 24.559). Tal como no último período da cerâmica
geométrica (no estilo ‘arcaico’ de Loewy), um corpo morto é um corpo vivo colocado na
posição de morte (cf., acima, texto correspondente à nota 35) ou uma criança devorada é
uma criança tranqüila colocada em relação apropriada com a boca de um leão feroz, dessa
mesma forma, Afrodite, em queixas, é simplesmente Afrodite — a deusa sorridente—
inserida em uma situação de queixa, da qual ela só externamente participa, sem alteração de
sua natureza.
O tratamento aditivo dos acontecimentos torna-se muito claro no caso do movimento
(humano). Na Ilíada, 22.298, Aquiles arrasta Heitor pelo pó ‘e o pó se levantava em tomo
dele, que era arrastado e seus negros cabelos esvoaçavam de ambos os lados e no pó jazia sua
cabeça que fora rompida’ — isto é, o processo de arrastar contém o estado de jazer como
parte independente que, adicionada a outras partes desse gênero, constitui o movimento58.
Falando mais abstratamente, poderíamos dizer que, para o poeta, ‘o tempo se compõe de
momentos’59. Muitas das analogias partem do pressuposto de que as porções de uma
entidade complexa têm vida própria e podem ser facilmente separadas. O homem geométrico
é um rol visível de partes e posições, o homem homérico é composto de partes, superfícies,
ligações, que se isolam através de comparação com objetos inanimados de uma forma
precisamente definida: o corpo de Hipoloco rola pelo campo de batalha, como um tronco,
depois de Agamenon lhe haver cortado os braços e a cabeça (llíada, 11.146 — ?????,
pedra de forma cilíndrica), o
367
corpo de Heitor gira como um pião (Ilíada, 14.412), a cabeça de Gogition tomba para um
dos lados, ‘como um galho pesado de frutos e das chuvas da primavera’ (Ilíada, 8.302)60, e
assim por diante. A par disso, as fórmulas da épica, especialmente as combinações nomeepíteto,
são freqüentemente empregadas não de acordo com o conteúdo, mas segundo a
conveniência métrica: ‘Zeus se transforma de conselheiro em deus trovejante e em Deus
paternal, não com respeito ao que está fazendo, mas porque a métrica o exige. Ele não é
nephelegerata Zeus quando está reunindo nuvens, mas quando está preenchendo a unidade
métrica, ?? — ??— —’ 61, assim como o artista geométrico distorcerá as relações espaciais
— introduzindo contatos onde eles não existem e rompendo-os onde ocorrem — para contar
a história visual de maneira própria e pessoal. Assim, o poeta repete os traços formais,
utilizados pelo artista geométrico e pelo artista do período arcaico inicial. — Nenhum deles
parece dar-se conta da ‘substância subjacente’ que mantém os objetos reunidos e delineia
suas partes, de modo a eles refletirem a ‘unidade superior’ a que pertencem.
Essa ‘unidade superior’ não é encontrada nos conceitos da linguagem. Por exemplo, não
há expressão que possa ser usada para descrever o corpo humano como entidade singular62.
Soma é o cadáver, demos é acusativo de especificação, significando ‘em estrutura’ ou ‘com
referência à forma’; alusão aos membros ocorre onde hoje falaríamos de corpo (????,
membros movimentados pelas juntas; ?????, membros como expressão de força corporal;
???????????, todo seu corpo tremia; ??????? ??? ????????, seu corpo estava cheio de
vigor). Tudo quanto encontramos é um boneco montado a partir de elementos mais ou
menos articulados.
Esse boneco não tem alma, no sentido que damos a essa palavra. O ‘corpo’ é um
agregado de membros, tronco, movimento; a ‘alma’ é um agregado de eventos ‘mentais’ que
não são necessariamente particulares e que podem pertencer a um indivíduo inteiramente
diverso. ‘Na descrição de idéias ou de emo-
368
ções, Homero nunca vai além de uma definição puramente espacial ou quantitativa; jamais
tenta sondar-lhes a natureza particular, não física’63. As ações se iniciam não a partir de
um ‘eu autônomo’, porém de outras ações, acontecimentos, ocorrências, inclusive a partir
de interferência divina. Essa, precisamente, a maneira como os eventos mentais são
experienciados64. Sonhos, acontecimentos psicológicos fora do comum, como a lembrança
súbita, os súbitos atos de reconhecimento, o aumento súbito de energia vital, durante uma
batalha, durante uma fuga, súbitos acessos de ira, tudo isso não é explicado por alusão a
deuses e demônios, mas sentido como tal. O sonho de Agamenon ‘ouviu as palavras de seu
[Zeus] e desceu’ (Ilíada, 2.16) —- o sonho desce, não uma figura nele ‘e permaneceu ao lado
da cabeça [de Agamenon] com o aspecto de Nestor’ (Ilíada, 2.20). A pessoa não tem um
sonho (o sonho não é um evento ‘subjetivo’), a pessoa vê o sonho (ele é um evento ‘objetivo’)
e a pessoa vê, ainda, como ele se aproxima e como ele se afasta65. A raiva súbita,
manifestações de força, são descritas e sentidas como atos divinos66: ‘Zeus concede e reduz
a força do homem da maneira que lhe agrada, pois seu poder está acima de todos os outros’
(Ilíada, 20.241), não é apenas uma descrição objetiva (possível de ser estendida para
abranger o comportamento de animais), porém expressa o sentimento de que a
transformação proveio de fora, de que a pessoa ‘foi provida... de grande coragem’ (Ilíada,
13.60). Hoje em dia, eventos dessa ordem ou são esquecidos ou vistos como puramente
acidentais67. ‘Contudo, para Homero e para o pensamento primitivo em geral, não há o que
seja um acidente.’68 Todo acontecimento se explica. Isso torna os acontecimentos mais
claros, acentua-lhes os traços objetivos, dá-lhes a forma de deuses e demônios conhecidos e,
assim, os transforma em poderosa evidência do aparato divino utilizado para explicá-los:
‘Os deuses estão presentes. Reconhecer isso como um fato aceito pelo grego é a primeira
condição para lhe compreender a religião e a cultura. Nosso conhecimento dessa presença
baseia-se em uma experiên369
cia (interior ou exterior) dos próprios deuses ou de uma ação dos deuses’69.
Resumindo: o mundo arcaico é muito menos compacto do que o mundo que nos rodeia e
é experienciado como sendo menos compacto. O homem arcaico não tem unidade ‘física’—
seu ‘corpo’ consiste de um conjunto de partes, membros, superfícies, conexões; e não tem
unidade ‘mental’ —seu ‘espírito’ é composto de uma variedade de eventos, alguns deles
nem mesmo ‘espirituais’, no sentido que atribuímos a esta palavra, eventos que lhe habitam
o corpo de boneco em termos de constituintes adicionais ou que lhe são introduzidos a partir
do exterior. Os eventos não são moldados pelo indivíduo, são arranjos complexos de partes,
nos quais o corpo-boneco se insere em lugar adequado’70. Essa a visão do mundo que
emerge como resultado de uma análise dos traços formais da arte ‘arcaica’ e da poesia
homérica, feita em conjunto com uma análise dos conceitos que o poeta homérico empregou
para descrever o que via. Seus traços principais são experienciados pelos indivíduos que
empregam os conceitos. Esses indivíduos vivem, sem dúvida, no mesmo tipo de mundo
retratado por seus artistas.
Evidência adicional para a conjectura pode ser alcançada com base em exame de ‘metaatitudes’,
tais como atitudes religiosas gerais e ‘teorias’ de (atitudes para com o)
conhecimento.
Com efeito, a ausência de caráter compacto, há pouco descrita, volta a apresentar-se no
campo da ideologia. Há uma tolerância em questões religiosas que as gerações posteriores
julgaram moral e teoreticamente inaceitável e que ainda hoje é vista como exteriorização de
espíritos frívolos e simples71. O homem arcaico é um eclético religoso, não faz objeções
contra deuses e mitos estrangeiros, acrescenta-os ao existente mobiliário de seu mundo, sem
qualquer tentativa de síntese ou de afastamento de contradições. Não há sacerdotes, não há
dogma, não há enunciados categóricos acerca dos deuses, do homem, do mundo72. (Essa
tolerância é encontrada, ainda, entre os filósofos jônicos da Natureza, os quais
desenvolvem suas idéias a par
370
do mito, sem buscar a eliminação deste último.) Não há ‘moralidade’ religiosa no sentido
que damos a essa expressão, nem são os deuses abstratas encarnações de princípios
eternos’73. Nisso, vêm eles a transformar-se posteriormente, durante a época arcaica e, em
conseqüência, ‘perdem [sua] humanidade’. Como decorrência, a religião voltada para o
Olimpo, em sua feição moralizadora, tendeu a transformar-se em religião do medo,
tendência que se reflete no vocabulário religioso. Não há palavra correspondente a ‘temente
a Deus’ na Ilíada’74. Essa a maneira como a vida se desumaniza, por força daquilo que
algumas pessoas gostam de denominar ‘progresso moral’ ou ‘progresso científico’.
Observações similares cabem com respeito à ‘teoria do conhecimento’ implícita nesta
visão inicial do mundo. As Musas da Ilíada, 2.84 e ss., têm conhecimento porque estão
próximas das coisas — não precisam confiar em boatos — e porque estão a par de todas as
muitas coisas que são de interesse para o escritor, uma após outra. ‘A quantidade e não a
intensidade é o padrão de julgamento de Homero’ e do conhecimento75, tal como se faz
claro de expressões do tipo ???????? e ????????? ‘muita ponderação’, e ‘muita reflexão’,
bem como de críticas posteriores, do tipo ‘aprender muitas coisas [?????????] não
aperfeiçoa a inteligência’76. Interesse e desejo de compreender muitas coisas surpreendentes
(terremotos, eclipses do Sol e da Lua, as paradoxais cheias e vazantes do Nilo), cada qual
delas explicada de maneira particular e sem recurso a princípios universais, persistem nas
descrições dos séculos VIII e fim do VII (que simplesmente enumeram as tribos, seus
hábitos e o relevo litorâneo, sucessivamente encontrados na viagem); até mesmo um
pensador do porte de Tales se satisfaz com apresentar observações curiosas e propor
explicações várias, sem tentar juntá-las de forma sistemática77 (O primeiro pensador a
elaborar um ‘sistema’ foi Anaximandro, que sucedeu Hesíodo.) O conhecimento assim
concebido não é alcançado por meio da tentativa de apreender uma essência que se
coloca para além
371
das informações dos sentidos, mas pela tentativa de apreendê-la (1) colocando o observador
na posição correta, em relação ao objeto (processo, agregado), inserindo-o no lugar
adequado, dentro do padrão complexo que constitui o mundo e (2) acrescentando os
elementos que, em tais circunstâncias, são percebidos, O conhecimento é o resultado de um
complicado levantamento, feito a partir de um ponto conveniente e apropriado. Pode-se pôr
em dúvida um relato vago ou uma explicação de quinta mão, mas não é possível duvidar
daquilo que se contempla com os próprios olhos. O objeto reproduzido ou descrito é o
arranjo dos elementos que podem incluir escorços e outros fenômenos perspectóides78. O
fato de um remo parecer quebrado, quando mergulhado em água, perde aqui, a força cética
que assume em outra ideologia79. Assim como Aquiles, sentado, não nos leva a duvidar que
ele tenha pés ligeiros — em verdade, começaríamos a duvidar de sua ligéireza se ele fosse,
em princípio, incapaz de sentar-se —, de maneira exatamente anáioga o remo quebrado não
nos leva a duvidar de que ele seja perfeitamente reto fora da água — em verdade,
começaríamos a duvidar de que fosse reto se não parecesse quebrado dentro da água80. O
remo quebrado não é um aspecto que contradiga outro aspecto, de sorte que se frustre a
nossa investigação acerca da natureza dos remos; é uma especial parte (situação) do remo
real, não apenas compatível com o fato de o remo ser reto, mas exigindo essa condição.
Concluímos: os objetos de conhecimento têm o mesmo caráter aditivo das faixas visíveis
apresentadas pelo artista arcaico e das situações descritas pelo poeta arcaico.
Não há qualquer concepção uniforme de conhecimento81. Grande variedade de palavras
é empregada para expressar o que, hoje em dia, consideramos formas diferentes de
conhecimento ou maneiras diversas de adquirir conhecimento. ?????82 significa perícia em
certa profissão (carpinteiro, cantor, general, físico, carroceiro, lutador), incluindo as artes
(onde se louva o artista não como criador notável, mas como dominador de seu
372
campo); ??????, literalmente equivalente a ‘tendo visto’, refere-se ao conhecimento ganho a
partir do exame; ao ???????, especialmente na Ilíada, embora freqüentes vezes traduzida
por ‘ouvir’ ou ‘compreender’, é palavra mais vigorosa, contém a idéia de acompanhar e
obedecer, alguém absorve algo e atua de conformidade com esse algo (ouvir pode
desempenhar um importante papel). E assim por diante. Muitas dessas expressões implicam
atitude receptiva de parte de quem procura alcançar o conhecimento, que repete, em suas
ações, o comportamento das coisas que o cercam, acompanha-as83, age como convém a uma
entidade que está inserida no lugar por ele ocupado.
Repetindo e concluindo: os modos de representação, usados durante o início do período
arcaico, na Grécia, não são meros reflexos da incompetência ou de interesses artísticos
especiais, mas proporcionam fiel versão do que é sentido, visto, pensado como traços
fundamentais do mundo do homem arcaico. Esse é um mundo aberto. Seus elementos não
são formados ou inter-relacionados por uma ‘substância subjacente’, não são aparências a
partir das quais aquela substância poderia ser, com dificuldade, inferida. Ocasionalmente,
aglutinam-se para formar conjuntos. A relação de um elemento singular para o conjunto a
que pertence é análogo à relação de uma parte para um agregado de partes e não semelhante
à relação de uma parte para um todo dominador. O agregado particular, denominado
‘homem’ é visitado e, às vezes, habitado por ‘eventos mentais’. Tais eventos podem nele
residir, como nele penetrar, vindos do exterior. À semelhança de todos os demais objetos, o
homem é uma estação de troca de influências, antes que fonte única de ação, um ‘eu’ (o
‘cogito’ de Descartes não tem como inserir-se nesse mundo e o argumento não pode sequer
começar a desenvolver-se). Há grande similaridade entre essa concepção e a cosmologia
de Mach, exceto pelo fato de que os elementos do mundo arcaico são formas e
eventos físicos e mentais reconhecíveis, ao passo que os elementos utilizados por
Mach são mais abstratos, são metas de pesquisa ainda
373
desconhecidos e não seu objeto. Em suma, as unidades representativas da concepção do
mundo arcaico admitem uma interpretação realista, expressam uma ontologia coerente e a
ela se aplicam as observações de Whorff.
A esta altura, interrompo o argumento que venho apresentando a fim de fazer alguns
comentários que associam as observações precedentes a problemas de filosofia da ciência.
(1) Cabe objetar que escorços e outras imitações de perspectiva são traços tão óbvios de
nosso mundo de percepção que não podem ter estado ausentes do mundo perceptivo dos
antigos. A maneira arcaica de apresentação seria, portanto, incompleta e incorreta sua
interpretação em termos realistas.
Resposta: escorços não são traço óbvio de nosso mundo perceptivo, a menos que a eles
demos atenção especial (na idade da fotografia e do filme, isso ocorre freqüentemente). Se
não formos fotógrafos, cineastas ou pintõres profissionais, perceberemos coisas, não
aspectos. Movendo-nos rapidamente por entre objetos complexos, notamos muito menos a
transformação do que a percepção dos aspectos permitiria. Aspectos, escorços, se de alguma
forma penetram em nossa consciência, são usualmente suprimidos como desaparecem as
pós-imagens quando completado o estágio apropriado de desenvolvimento perceptivo84 e só
chegam a ser percebidos em situações particulares85. Na Grécia Antiga, essas situações
especiais surgiam no teatro, para os espectadores que contemplavam da primeira fila os
impressionantes espetáculos de Ésquilo e Agatarco e há, com efeito, uma escola que atribui
ao teatro decisiva influência sobre o desenvolvimento da perspectiva86. Além disso, porque
deveria o mundo perceptual dos gregos antigos coincidir com o nosso? Faz-se necessário um
argumento mais profundo do que a referência a uma inexistente forma de percepção para
consolidar a objeção levantada.
(2) O leitor deve tomar nota do método usado para definir as peculiaridades da
cosmologia arcaica: em princípio, o método é idêntico ao usado por um
antropologista que exa-
374
mine a concepção do mundo de uma associação de tribos. As diferenças, que são acentuadas,
devem-se à escassez de evidência e a particulares circunstâncias de origem (fontes estritas;
obras de arte; nenhum contato pessoal). Examinemos, mais de perto, o método que é
utilizado em um e outro caso.
Um antropologista, tentando descobrir a cosmologia da tribo por ele escolhida e a
maneira como tal cosmologia se espelha na linguagem, nas artes, na vida diária (questão
realismo versus instrumentalismo), antes de tudo aprende a linguagem e informa-se dos
hábitos sociais básicos; investiga de que modo se relacionam eles com outras atividades,
inclusive com atividades prima facie irrelevantes (p. ex., ordenhar vacas e preparar
refeições)87 procura identificar as idéias-chave88. A atenção que devota a minúcias não é
conseqüência de desorientado empenho em ser completo, mas resultado da convicção de que
o aparentemente insignificante, para uma forma de pensar (e perceber), talvez desempenhe
papel importantíssimo em esquema diverso. (As diferenças entre as operações de lápis e
papel de um adepto de Lorentz e dos adeptos de Einstein são, freqüentemente, diminutas,
quando discerníveis; entretanto, expressam fundo conflito de ideologias).
Tendo identificado as idéias-chave, o antropologista procura entendê-las. Isso ele faz de
maneira idêntica à maneira como, originalmente, ganhou compreensão de sua própria
linguagem, inclusive da linguagem especial da profissão que lhe proporciona rendas.
Interioriza as idéias, de sorte que suas conexões se gravem firmemente na memória, façam
parte de suas reações e possam manifestar-se com espontaneidade. ‘Se quiser compreendê-la,
o antropologista deve ter a sociedade nativa dentro de si mesmo e não apenas em seus livros
de anotações89. Esse processo há de ser mantido isento de influência externa.
Exemplificativamente, o pesquisador não deve tentar conseguir melhor apreensão das idéias
da tribo comparando-as com idéias que já conhece ou que tem por mais compreensíveis ou
mais precisas. De maneira alguma deve ele tentar uma
375
‘reconstrução lógica’. Esse procedimento o ligaria ao que é conhecido ou preferido por
certos grupos e o impediria, para sempre, de assimilar a desconhecida ideologia que está
examinando.
Completando o estudo, o antropologista terá conhecimento da sociedade nativa e
conhecimento de seu próprio desenvolvimento pessoal. Tem, agora, meios para estabelecer
comparações. A comparação decidirá se a maneira nativa, de pensar pode ser reproduzida
em termos europeus (admitido que haja um conjunto único de ‘termos europeus’) ou se
encerra uma ‘lógica’ própria, não presente em qualquer linguagem ocidental. Ao longo da
comparação, o antropologista refraseará, talvez, certas idéias nativas, dando-lhes forma em
uma língua. Isso não quer dizer que essa língua, tal como falada, independentemente da
comparação, seja comensurável com o idioma nativo. Significará que as línguas podem
orientar-se em muitas direções e que a compreensão independe de qualquer particular
conjunto de regras.
(3) O exame das idéias-chave atravessa estágios vários, nenhum dos quais leva a um
esclarecimento cabal. Aqui, o pesquisador deve exercer firme controle sobre seu empenho de
obter clareza imediata e perfeição lógica. Nunca deve procurar tomar um conceito mais
claro do que o sugerido pelo material (a não ser como auxílio temporário para pesquisa mais
aprofundada). É esse material e não sua intuição lógica o que decide acerca do conteúdo dos
conceitos. Exemplificando: os nuer, uma tribo do Nilo que foi estudada por Evans-
Pritchard, têm alguns interessantes conceitos acerca do espaço e do tempo90. O pesquisador
não familiarizado com o pensamento nuer achará esses conceitos ‘obscuros e
insuficientemente precisos’. Para melhorar as coisas, ele talvez tente explicá-los recorrendo
a noções da relatividade especial. É possível que isso gere conceitos mais claros que,
entretanto, deixarão de ser conceitos nuer. Se, por outro lado, ele desejar atingir conceitos
que sejam, a um só tempo, claros e nuer, deverá conservar suas noções-
376
chave vagas e incompletas até que a informação correta se apresente, isto é, até que o estudo
de campo forneça os elementos faltantes que, em si mesmos, serão tão obscuros quanto os
elementos já conseguidos.
Cada item de informação é uma pedra na construção do compreender, significando isso
que cada item se esclarece com a descoberta de outras pedras, provindas da linguagem e da
ideologia da tribo, e não com definições prematuras. Enunciados como ‘.. os nuer. . não
podem falar do tempo como algo presente, que passa, pelo qual se pode esperar, que é
possível poupar e assim por diante. Não creio que eles jamais tenham experimentado o
sentimento de lutar contra o tempo ou de ter de coordenar atividades a uma abstrata
passagem do tempo, uma vez que seus pontos de referência são, sobretudo, as próprias
atividades, geralmente com caráter de lazer.’91 — enunciados como esse ou são partes de
um todo (e nesse caso o conteúdo que encerram é incompleto e não inteiramente
compreendido) ou constituem tentativas preliminares de antecipar o arranjo da totalidade
das partes componentes. Cabe, então, submetê-los a teste e elucidá-los pela descoberta de
outros f atores componentes e não por meio de esclarecimentos lógicos. (Uma criança
aprende o significado de uma palavra não através de esclarecimento lógico, mas percebendo
como ela se combina com as coisas e com outras palavras.) A ausência de clareza, em um
particular enunciado antropológico, indica antes escassez de material do que fluidez das
intuições lógicas do antropologista.
(4) Essas mesmas observações aplicam-se a minha tentativa de examinar a
incomensurabilidade. No campo das ciências, a incomensurabilidade está estreitamente
relacionada ao significado. Um estudo da incomensurabilidade nas ciências fará, portanto,
surgirem enunciados onde se contêm termos-significado — contudo, esses termos só serão
parcialmente entendidos, tal como o termo ‘tempo’ só é incompletamente entendido na
citação feita no parágrafo anterior. A observação de que tais
377
enunciados só deveriam ser emitidos após elaboração de uma clara teoria do significado’92 é
tão sensata quanto a observação de que enunciados a propósito do tempo dos nuer, que são o
material conducente a uma compreensão do tempo nuer, só deveriam ser apresentados
depois que essa compreensão fosse alcançada. Meu argumento pressupõe, naturalmente, que
o método antropológico seja o método correto para estudar a estrutura da ciência (e, no que
importa, qualquer outra forma de vida).
(5) É possível que os lógicos levantem objeções. Assinalarão que um exame dos
significados e da relação entre termos é tarefa de lógica, não de antropologia. Ora, por
‘lógica’ pode-se entender pelo menos duas coisas diferentes. ‘Lógica’ pode significar estudo
das estruturas inerentes a certo gênero de discurso ou resultados desse estudo. E pode
significar um particular sistema de lógica ou conjunto de sistemas.
Estudo da primeira espécie pertence à antropologia. Com efeito, para verificar, por
exemplo, se AB v A ? A é parte da ‘lógica da teoria quântica’, deveremos estudar a teoria
quântica. Como essa teoria não é uma emanação divina, mas obra do homem, haveremos de
estudá-la sob a forma em que a obra humana geralmente se apresenta, isto é, haveremos de
estudar- lhe os registros históricos — manuais, artigos, relatórios de reuniões e de
conversas pessoais, cartas e material semelhante. (No caso da teoria quântica, nossa posição
é mais favorável, devido ao fato de que a tribo de teorizadores quânticos ainda não se
extinguiu. Assim, podemos suplementar o estudo histórico fazendo trabalho antropológico
de campo.)
Cabe admitir que esses registros, por si mesmos, não levam a uma solução única de
nossos problemas93. Mas quem jamais admitiu que isso acontecesse? Os registros
históricos não levam a. uma solução única para os problemas históricos e, apesar disso,
ninguém sugeriu que devam ser postos de lado. Não há dúvida de que os registros
são necessários para um estudo lógico,
378
no sentido agora examinado, A questão está em saber como devem eles ser utilizados.
Desejamos descobrir a estrutura do campo de discurso de que os registros fornecem
incompleta informação. Desejamos aprender a respeito deles, sem, de qualquer forma,
alterá-los. Em nosso exemplo, não estamos interessados em saber se uma aperfeiçoada
mecânica quântica do futuro empregará AB v A ? A ou se empregará uma invenção nossa,
se uma pequena margem de reconstrução aplicará o princípio que altera a teoria de maneira
a ela conformar-se, a alguns princípios preconcebidos da lógica moderna e prontamente
propiciará respostas. Desejamos saber se a teoria quântica, tal como atualmente praticada
pelos físicos, emprega o princípio. Com efeito, é o trabalho dos físicos e não o trabalho dos
reconstrutores que desejamos examinar. Talvez que esse trabalho esteja repleto de
contradições e lacunas. Sua ‘lógica’ (no sentido em que estou empregando a palavra) talvez
seja ‘ilógica’, se julgada sob o prisma de um particular sistema de lógica formal.
Ora, colocando nossa questão dessa maneira, damo-nos conta de que não admite
qualquer resposta. Talvez não exista uma teoria única, uma ‘teoria quântica’ usada nos
mesmos termos por todos os físicos. A diferença que vai de Bohr a, digamos, von Newmann
sugere que isso é mais do que uma remota possibilidade. Para submeter a possibilidade a
teste, isto é, para eliminá-la ou dar-lhe forma, importará examinar casos concretos. Esse
exame de casos concretos talvez conduza a concluir que os teorizadores quânticos diferem
tanto entre si quanto os católicos e as várias seitas de protestantes: usam o mesmo livro
(embora até isso seja duvidoso — bastando comparar Dirac e von Newmann), mas por certo
que estão com ele fazendo coisas diferentes.
A necessidade de efetuar estudos de casos antropológicos, em um campo que parecia
inicialmente dominado por uni mito único, sempre o mesmo, sempre usado de modo
idêntico, indica poder ser fortemente deficiente nosso conhecimento
379
comum da ciência. Pode ele estar inteiramente errado. (Alguns erros foram apontados nos
capítulos anteriores.) Em tais circunstâncias, a única maneira segura de agir é confessar a
ignorância, abandonar as reconstruções e começar a estudar ciência desde a base. Importará
abordá-la à semelhança de como um antropologista estuda os tortuosos processos mentais
dos feiticeiros de um grupo de tribos recentemente descobertas. Importa estarmos
preparados para a constatação de que esses tortuosos processos são amplamente ilógicos (se
julgados do ponto de vista da lógica formal) e têm de ser amplamente ilógicos para atuar
como atuam.
(6) Entretanto, apenas uns poucos filósofos da ciência interpretam ‘lógica’ em tal
sentido. Apenas uns poucos filósofos estão preparados para admitir que as estruturas
básicas subjacentes a um idioma há pouco descoberto podem diferir radical- mente das
estruturas básicas de mais conhecidos sistemas de lógica formal; e absolutamente ninguém
está preparado para admitir que isso também poderia ser verdade com respeito à ciência. Na
maioria das vezes, a ‘lógica’ (no sentido até agora focalizado) de uma particular linguagem,
ou de uma teoria, é imediatamente identificada aos traços de um particular sistema lógico,
sem consideração da necessidade de um inquérito concernente à adequação dessa
identificação. O professor Giedymin, por exemplo, entende por ‘lógica’ um sistema a que dá
preferência e que é amplo, mas que nem tudo abrange. (Por exemplo, não contém nem
poderia ser usado para formular as idéias de Hegel. Há matemáticos que duvidam de que o
sistema possa ser usado para expressar a matemática usual, não formalizada.) Um estudo
lógico da ciência, tal como a entendem Giedymin e seus seguidores é estudo dos conjuntos
de fórmulas daquele sistema, sua estrutura, propriedades de seus integrantes últimos
(intensão, extensão, etc.), suas conseqüências e seus modelos possíveis. Se estudo desse
tipo não repetir os traços que um antropologista apontou na ciência, digamos, isso
mostrará que ou a ciência apresenta algumas falhas ou que o antro-
380
pologista nada sabe de lógica. Não faz a menor diferença para o lógico, neste segundo
sentido, que suas fórmulas não pareçam enunciados científicos, que não sejam usadas como
enunciados científicos e que a ciência não possa ser desenvolvida segundo os esquemas
simples que seu cérebro é capaz de entender (e, portanto, encara como os únicos esquemas
admissíveis). Ou ele deixa de notar a discrepância ou a encara como resultante de
imperfeições que hão de ser afastadas da explicação satisfatória. Nem por sombra lhe ocorre
que as ‘imperfeições’ possam desempenhar uma junção importante e que o progresso
científico se torne impossível, caso elas sejam afastadas. Para ele, a ciência é axiomática,
mais teoria dos modelos, mais regras de correspondência, mais linguagem de observação.
Procedimento dessa ordem presume (sem perceber que há um pressuposto envolvido) que
já se completou um estudo antropológico, em condições de familiarizar-nos com as
classificações — explícitas ou não — da ciência e que esse estudo inclinou-se em favor da
abordagem axiomática (etc., etc.). Estudo dessa espécie jamais se realizou. Os .
fragmentários elementos resultantes do trabalho de campo, hoje existentes, e devidos
principalmente aos esforços de Hanson, Kuhn, Lakatos e outros, mostram que a abordagem
do lógico não remove apenas algumas partes irrelevantes da ciência, mas aqueles traços que
fazem o progresso científico e tornam, portanto, possível a ciência.
(7) Os debates em torno de significado, por mim referidos, são outra ilustração das
deficiências da abordagem do lógico. Para Giedymin, que escreveu duas longas notas acerca
da matéria, esse termo e seus derivados, tal como o termo ‘incomensurabilidade’, são
‘obscuros e insuficientemente precisos’94 . Concordo. Giedymin deseja tornar os termos
mais claros, deseja compreendê-los melhor. Concordo novamente. Tenta conseguir a clareza
que sente estar faltando através de uma explicação em termos de um particular tipo de
lógica formal e do modelo da linguagem dupla, restringindo a discussão
381
a ‘intensão’ e ‘extensão’, como explicadas na lógica escolhida. Aqui a discordância tem
início. Com efeito, a questão não é a de saber como ‘significado’ e ‘incomensurabilidade’
ocorrem em um determinado sistema lógico. A questão é a de saber que papel desempenham
em ciência (efetivamente praticada, não a reconstruída), O esclarecimento há de provir de
mais pormenorizado estudo desse papel e as lacunas hão de ser preenchidas com os
resultados de tal estudo. Como o preenchimento de lacunas exige tempo, os termos-chave
permanecerão ‘obscuros e insuficientemente precisos’ por anos e talvez por décadas. (Ver,
ainda, itens 3 e 4 acima).
(8) Lógicos e filósofos da ciência não vêm a situação por esse prisma. Não estando
dispostos e sendo incapazes de manter uma discussão não-formal, exigem que os principais
termos do debate sejam ‘esclarecidos’. E ‘esclarecer’ os termos de uma discussão não
significa estudar as propriedades adicionais e até agora desconhecidas do campo em causa
(de que necessitamos para tornar os termos completamente inteligíveis); significa incluir
nesses termos noções existentes, oriundas de um domínio de lógica e senso comum
inteiramente diverso, de preferência idéias observacionais, até que aqueles termos também se
afigurem comuns, e significa, ainda, tomar cuidado para que o processo de inclusão das
noções nos termos obedeça às leis (aceitas) da lógica. Só se permite que a discussão avance
após haverem sido dessa maneira modificadas as fases iniciais. Assim, o curso de uma
investigação é desviado para os estreitos canais das coisas já compreendidas e a
possibilidade de descoberta conceptual fundamental (ou de alteração conceptual
fundamental) vê-se consideravelmente reduzida. Alteração conceptual fundamental, de
outra parte, pressupõe novas visões do mundo e novas linguagens capazes de expressá-las.
Ora, construir uma nova concepção do mundo e a correspondente linguagem nova é
processo que requer tempo considerável, tanto em ciência quanto em metaciência. Os
termos da linguagem nova só se tornam claros quando o processo se encontre avan382
çado — cada palavra é o centro de numerosas linhas que as ligam a outras palavras,
sentenças, porções de arrazoados, gestos, que, de início, parecem absurdos, mas que se
tomam perfeitamente razoáveis uma vez estabelecidas aquelas conexões. Argumentos,
pontos de vista, teorias, termos e debates podem, assim, ver-se esclarecidos de pelo menos
duas diferentes maneiras: (a) à maneira já descrita, que nos leva de volta a idéias comuns e
trata as coisas novas como caso especial de coisas anteriormente entendidas; e (b) por
incorporação a uma linguagem do futuro, significando isso que se deve aprender a
argumentar com termos não-esclarecidos e a usar sentenças para as quais inexistem, ainda,
regras de emprego. Assim como a criança começa a usar palavras sem compreendê-las,
acrescentando mais e mais fragmentos lingüísticos não entendidos à sua atividade lúdica,
para só depois descobrir o princípio de atribuição de significado — desenvolvendo uma
atividade anterior que é pressuposto necessário da emergência final do significado — o
inventor de um mundo novo (e o filósofo da ciência que procura entender-lhe o
procedimento) há de estar preparado para dizer absurdos até que a quantidade de absurdos
criada por ele e seus companheiros seja suficientemente grande para emprestar sentido a
todas as partes desse novo mundo. Não há melhor versão desse processo do que a descrição
das vicissitudes de sua educação, deixada por John Stuart Mill. Referindo-se às explicações
de assuntos lógicos que seu pai lhe dava, escreve ele: ‘As explicações não tornavam o
assunto claro para mim, àquele tempo, mas não eram, por causa disso, inúteis;
permaneciam como um núcleo para que em torno dele, se cristalizassem minhas observações
e reflexões. A importância das observações gerais vinha a ser por mim compreendida por
força de exemplos particulares que eu encontrava posteriormente95. Construir uma
linguagem nova (para compreender ‘o mundo ou o conhecimento) é processo de espécie
exatamente análoga, exceto pela circunstância de que os ‘núcleos’ iniciais não são
dados, mas hão de ser inventados. Percebemos, assim,
383
como é essencial aprender a falar por enigmas e quão desastroso efeito tem sobre nossa
compreensão o impulso no sentido de alcançar clareza imediata. (Além disso, esse impulso
trai um tipo de mentalidade acanhada e bárbara: ‘usar palavras de modo frouxo, sem
examiná-las muito curiosamente, não é, em geral, marca de educação descuidada; pelo
contrário, há certo descuido de educação no ser demasiado preciso'96).
Todas essas observações são assaz triviais e podem ser ilustradas por exemplos óbvios. A
lógica clássica só chega à cena quando se reuniu suficiente material de argumentação (em
matemática, retórica, política) suscetível de servir como ponto de partida e campo de testes.
A aritmética desenvolveu-se sem uma compreensão clara do conceito de número; tal
compreensão só veio a surgir quando passou a existir quantidade suficiente de ‘fatos’
aritméticos para lhe darem substância. De maneira semelhante, adequada teoria do
significado (e da incomensurabilidade) só pode surgir depois de reunido número suficiente
de ‘fatos’ que façam dessa teoria algo mais do que um exercício de lançamento de conceitos.
Essa a razão dos exemplos dados na presente seção.
(9) Importa, ainda, examinar outro dogma antes de retomar o fio principal da exposição.
Trata-se do dogma segundo o qual todas as disciplinas, independentemente da maneira
como se constituam, obedecem automaticamente às leis da lógica ou devem obedecer a tais
leis. Assim fosse, e o trabalho antropológico de campo poderia ser dado como supérfluo. ‘O
que é verdadeiro em lógica é verdadeiro em psicologia... no método científico e na história da
ciência’, escreve Popper97.
Essa dogmática asserção não é clara (sob uma das principais interpretações que admite)
nem é verdadeira. Para começar, suponhamos que as expressões ‘psicologia’, ‘história da
ciência’, ‘antropologia’ referem-se a certos domínios de fatos e regularidades (da natureza,
da percepção, do espírito humano, da sociedade). Nesse caso, a asserção não é clara,
384
pois não há uma disciplina única — a LÓGICA —capaz de revelar a estrutura lógica
desses domínios. Há Hegel, há Brouwer, há os formalistas. Apresentam eles não apenas
interpretações diversas de um e mesmo conjunto de ‘fatos’ lógicos, mas ‘fatos’ inteiramente
diversos. E a asserção não é verdadeira por existirem enunciados científicos legítimos que
violam regras lógicas simples. Por exemplo, há enunciados que desempenham importante
papel no campo das disciplinas científicas estabelecidas e que só se revelam
observacionalmente adequados se forem autocontraditórios: fixemos um padrão de
movimento que acaba de entrar em repouso e notaremos que ele se move em direção oposta,
sem, contudo, alterar sua posição. A única descrição fenomenologicamente adequada é: ‘ele
se move no espaço, mas não muda de lugar’ — e essa descrição é autocontraditória98. Há
exemplos fornecidos pela geometria99: assim a figura inscrita (que não precisa parecer do
mesmo modo para todas as pessoas) é vista como um triângulo isósceles cuja base não é
dividida ao meio pela perpendicular. Há exemplos em que a ± b & b = c & a ?? c, é a única
descrição fenomenologicamente adequada100. Além disso, não há uma única ciência ou
outra forma de vida que seja útil, progressista e ao mesmo tempo esteja em consonância com
exigências lógicas. Cada ciência inclui teorias que são incompatíveis com fatos e com outras
teorias e que, se analisadas em pormenor, revelam contradições. Só crença dogmática nos
princípios de uma disciplina supostamente uniforme, a ‘Lógica’, nos leva a esquecer tal
situação101. A objeção segundo a qual os princípios lógicos e os princípios, digamos,
aritméticos, diferem dos princípios empíricos, por não serem passíveis de tratamento pelo
método das conjecturas e das refutações (ou por qualquer outro método empírico’) foi
afastada raças a pesquisas mais recentes, realizadas nesse campo de estudo102.
Em segundo lugar, admitamos que as expressões psicologia’, ‘antropologia’, ‘História
da ciência’, ‘física’ não se referem
385
a fatos e leis, mas a certos métodos de reunir fatos, incluindo certas maneiras de relacionar
a observação à teoria e à hipótese,
isto é, consideremos a atividade ‘ciência’ e suas várias subdivisões. De duas maneiras pode
ser estudada essa atividade. Podemos tentar estabelecer requisitos ideais de conhecimento e
de aquisição de conhecimento e procurar construir maquinaria (social) que obedeça a esses
requisitos. Dessa maneira procedem quase todos os epistemologistas e filósofos da ciência.
Por vezes, alcançam êxito no estabelecer maquinaria capaz de operar em certas condições
ideais, mas nunca indagam ou chegam a considerar digno de indagação o problema de saber
se as condições se vêm satisfeitas no mundo real em que vivemos. Essa investigação, de
outra parte, teria de examinar a maneira como os cientistas realmente lidam com a
circunstância, teria de examinar a forma real de seu produto, a saber, ‘conhecimento’, e a
maneira como esse produto se altera, em conseqüência de ações e decisões ocorridas em
complexas condições sociais e materiais. Em uma palavra, a investigação teria de ser
antropológica.
Não há como prever o que uma investigação antropológica trará à luz. Mos capítulos
precedentes, que são esboços rudimentares de estudos antropológicos de particulares
episódios, veio à tona o fato de que a ciência está sempre cheia de lacunas e de contradições,
que a ignorância, a teimosia, a aceitação de preconceitos, a mentira, longe de impedirem a
386
marcha do conhecimento, são seus pressupostos essenciais e que as tradicionais virtudes da
precisão, da coerência, da ‘honestidade’, do respeito pelos fatos, do conhecimento máximo, se
praticadas com determinação, levarão, em certas circunstâncias, a ciência à estagnação.
Veio à tona, ainda, que os princípios lógicos não apenas desempenham um papel bem menos
importante nos processos (argumentativos e não-argumentativos) que movem a ciência,
mas que a tentativa de torná-los universalmente vigentes prejudicaria seriamente a ciência.
(Não se pode afirmar que von Newmann tenha feito avançar a teoria quântica, mas por
certo que ele transformou o exame de seus fundamentos em algo mais prolixo e
canhestro.)103
Ora, um cientista, empenhado em determinada pesquisa, não completou, ainda, as fases
todas que levam a resultados definitivos. O futuro está em aberto. Deverá o cientista
acompanhar o lógico vazio e despreparado que lhe prega as virtudes da clareza, da
coerência, do apoio experimental (ou do faiscamento experimental), da solidez de
argumentação da ‘honestidade’, e assim por diante, ou imitará os que o precederam no
mesmo campo e progrediram quebrando a maioria das regras que o lógico deseja agora
impor-lhe? Confiará em injunções abstratas, ou nos resultados de um estudo de episódios
concretos? Penso que a resposta é clara e se reveste da relevância de um trabalho de campo,
não apenas para os antropologistas, mas também para os membros da sociedade que ele
examina.
Retomando a exposição, passarei a descrever a transição que leva do universo paratáctico
dos gregos arcaicos ao universo substância-aparência de seus pósteros.
A cosmologia arcaica (de agora por diante denominá-la-ei cosmologia A) contém coisas,
eventos, suas partes; não contém quaisquer aparências104. Conhecimento completo de um
objeto equivale a completa enumeração de suas partes e peculiaridades. O homem não pode
atingir conhecimento completo. Há número demasiadamente grande de coisas, de eventos,
de situações (Ilíada, 2.488) e o homem só pode aproximar-se de uns poucos
387
(Ilíada, 2.485). Contudo, embora o homem não possa alcançar conhecimento completo, está
em condições de obter ampla porção de conhecimento. Quanto mais larga sua experiência,
quanto maior o número de vicissitudes, de coisas vistas, ouvidas, lidas, tanto maior o
conhecimento105.
A nova cosmologia (cosmologia B), que surge entre os séculos VII e V a.C., distingue
entre saber muito, ?????????, e conhecimento verdadeiro106 e adverte contra o confiar no
‘costume nascido da experiência multifacetada’, ???? ??? ? ??????107. Essa distinção e
essa advertência só fazem sentido em um mundo cuja estrutura seja muito diversa da
estrutura de A. Em uma versão que desempenhou papel importante no desenvolvimento da
civilização ocidental e que sublinha problemas como o da existência de entidades teoréticas e
o da alienação, os eventos novos formam o que caberia denominar Mundo Verdadeiro, ao
passo que os eventos da vida cotidiana são agora, aparências que não passam de reflexos
pálidos e enganadores daquele mundo108. O Mundo Verdadeiro é simples e coerente,
admitindo descrição uniforme, O mesmo cabe dizer em relação a todos os atos pelos quais
seus elementos são abrangidos: umas poucas noções abstratas substituem os variados
conceitos que eram usados na cosmologia A para descrever como o homem se ‘inseria’ na
circunstância e para expressar os tipos igualmente numerosos de informação assim obtidos.
A partir daí, só existe um tipo importante de informação e é o conhecimento.
O totalitarismo conceptual que emerge como resultado do lento surgir do mundo B tem
conseqüências interessantes e nem todas desejáveis. Situações que adquiriam sentido
quando ligadas a um particular tipo de cognição, aparecem, agora, isoladas, desarrazoadas
pondo-se em possível conflito com outras situações: temos um ‘caos de aparências’. O ‘caos’
é conseqüência direta da simplificação da linguagem que acompanha a crença em um
Mundo Verdadeiro109. Mais ainda, as múltiplas capa-
388
cidades dos observadores se dirigem agora para esse Mundo Verdadeiro, adaptam-se a um
objetivo uniforme, amoldam-se a um particular propósito, tornam-se mais semelhantes
entre si, significando isso que o homem se empobrece com o empobrecimento de sua
linguagem. Vê essa pobreza surgir precisamente no momento em que descobre um ‘eu’
autônomo e avança no sentido do que alguns apreciaram denominar ‘mais profunda noção
de Deus’ (supostamente encontrada em Xenófanes), que é uma noção de Deus privada da
rica variedade de traços tipicamente humanos110. Eventos ‘mentais’, anteriormente
tratados segundo analogia com os eventos do corpo, e dessa forma experienciados111,
tornam-se mais ‘subjetivos’, tomam-se alterações, ações, revelações de uma alma
espontânea: a distinção entre aparência (primeira impressão, simples opinião) e realidade
(conhecimento verdadeiro) espalha-se. Até mesmo a tarefa do artista consiste, agora, em
dispor formas de maneira tal que a essência subjacente possa ser apreendida com facilidade.
Na pintura, isso leva ao desenvolvimento do que só se pode chamar métodos sistemáticos de
iludir a visão: o artista arcaico trata a superfície sobre a qual pinta como o escritor trataria
uma folha de papiro; é uma superfície real, supõe-se que deva ser vista como uma superfície
real (embora a atenção nem sempre se dirija para ela) e os traços que o artista deixa sobre a
superfície são comparáveis às linhas de um diagrama ou às letras de uma palavra. São
símbolos que informam quem os contempla acerca da estrutura do objeto; de suas partes, da
maneira como essas partes se relacionam umas às outras. A figura simples que se encontra
abaixo pode, por exemplo, representar três caminhos que se encontram em um dado ponto.
O artista, por outro lado, usando a perspectiva, olha a superfície e as marcas que nela
coloca são estímulos que despertam
389
a ilusão de um arranjo de objetos tridimensionais. A ilusão ocorre porque
o espírito humano é suscetível de ser levado a experiências ilusórias quando adequadamente
estimulado. O desenho passa agora a ser visto como aresta de um cubo que se projeta na
direção de quem o vê, ou como a aresta de um cubo que se afasta de quem o observa (e é
visto de baixo) ou, ainda, como um plano que flutua sobre a superfície do papel onde se
encontra o desenho bidimensional de três caminhos convergentes.
Combinando essa nova maneira de ver com o novo conceito de conhecimento por nós
descrito, chegamos a novas entidades, a saber, objetos físicos tal como compreendidos pela
maioria dos filósofos contemporâneos. Para esclarecimento, seja-me lícito retomar o caso do
remo.
Segundo a visão arcaica, ‘o remo’ é um complexo consistente de partes, algumas das
quais são objetos, outras são situações e outras são acontecimentos. Procede dizer ‘o remo
reto está quebrado’ (e não ‘parece estar quebrado’), assim como é possível dizer ‘o Aquiles de
pés ligeiros está caminhando lentamente’, pois que os elementos têm, todos, igual
importância. São partes de um agregado paratáctico. Assim como o viajante explora todas
as partes de uma região estranha, descrevendo-as em termos de ‘periegesis’, que lhe
enumera as peculiaridades, uma após outra, de maneira análoga o estudioso de objetos
simples, tais como remos, barcos, pessoas, cavalos, insere-se nas ‘principais situações-remo’,
apreende-as de modo apropriado e as relata através de uma lista de propriedades,
390
acontecimentos relações. Assim como uma periegesis minuciosa esgota o que pode ser dito
acerca de um país, uma lista minuciosa esgota o que pode ser dito acerca de um objeto112.
‘Quebrado na água’ pertence ao remo da mesma forma que ‘retilíneo para a mão’: são
‘igualmente reais’. Na cosmologia B, entretanto, ‘quebrado na água’ é uma ‘aparência’,
contraditada pelo que sugere a ‘aparência de um objeto retilíneo’ e isso mostra o quão pouco
dignas de confiança hão de ser as aparências113. O conceito de objeto transformou-se do
conceito de um agregado, de eqüimportantes partes perceptíveis, no conceito de uma
essência imperceptível, subjacente a uma variedade de fenômenos enganadores. (Podemos
presumir que o modo de o objeto apresentar-se sofreu similar transformação e os objetos,
agora, parecem menos ‘achatados’ do que antes.)
Considerando essas alterações e peculiaridades, é plausível presumir que a comparação
de A e B, como interpretada pelos que as aceitam (e não como ‘reconstruída’ por pessoas
estranhas a essas cosmologias, bem treinadas em lógica, mas, sob outros aspectos,
despreparadas) provocará problemas vários. No restante deste capítulo serão examinados
tão-somente alguns aspectos de alguns desses problemas. Assim, apenas mencionarei as
transformações psicológicas de que se acompanha a transição de A para B e que não
constituem apenas matéria de conjectura114, mas podem ser definidas por uma pesquisa
autônoma. Há, nesse ponto, rico material para pormenorizado estudo do papel dos sistemas
de referência (conjuntos mentais, linguagens, modos de representação) e dos limites do
racionalismo.
Para começar, o cosmos A e o cosmos B são formados por elementos diferentes.
Os elementos de A são partes relativamente independentes de objetos que mantêm
relações externas. Participam de agregados sem terem alteradas suas propriedades
intrínsecas. A ‘natureza’ de um especial agregado é determinada por suas partes e pela
maneira como essas partes se relacionam entre si.
391
Enumere-se as, partes, em ordem adequada, e ter-se-á o objeto. Isso aplica-se a agregados
físicos, aos seres humanos (espíritos e corpos), a animais e também se aplica a agregados
sociais como, digamos, a honra de um guerreiro.
Os elementos de B situam-se em duas classes: essências (objetos) e aparências (de objetos
— o que vem a seguir somente é verdadeiro a propósito de algumas versões simplificadas de
B). Objetos (acontecimentos, etc.) continuam a poder combinar-se. Podem formar
totalidades harmoniosas. onde cada parte confere significado ao todo e do todo recebe
significado (caso extremo é o de Parmênides, para quem partes isoladas não apenas são
irreconhecíveis, como são inteiramente inconcebíveis). Aspectos adequadamente combinados
não produzem objetos, mas condições psicológicas para a apreensão de fantasmas, que não
passam de outros aspectos e de aspectos particularmente enganadores (afiguram-se muito
convincentes). Não há enumeração de aspectos que se torne idêntica ao objeto (problema da
indução).
A transição de A para B introduz, assim, entidades novas e novas relações entre
entidades (o que se vê claramente na pintura e na estatuária). Altera, ainda, o conceito e a
autoexperiência do homem. O homem arcaico é uma reunião de membros, ligações, tronco,
pescoço, cabeça115, é um boneco posto em movimento por forças externas, tais como os
inimigos, as circunstâncias sociais, os sentimentos (que são descritos e percebidos como
instituições objetivas — ver acima)116: ‘o homem é alvo aberto a muitíssimas forças que
incidem sobre ele e o penetram até o próprio cerne’117. É um ponto de troca de causas
materiais e espirituais, mas sempre objetivas. Isso não é apenas uma idéia ‘teorética’, mas
fato de observação. O homem não é apenas descrito dessa maneira; é retratado dessa
maneira e dessa maneira sente ser constituído. Não possui um centro de ação, um ‘eu’
espontâneo que produza suas próprias idéias, intenções, sentimentos e que difira do
comportamento de situações sociais, de eventos ‘mentais’ do tipo A. Esse eu
392
não é mencionado, nem percebido. Não se encontra em lugar algum de A. Mas desempenha
papel decisivo em B. Com efeito, não é implausível supor que algumas relevantes
peculiaridades de B, tais como aspectos, aparências, ambigüidades de sentimento118, se
incluam no estágio, como resultado de considerável crescimento de autoconsciência119.
Talvez que nos inclinássemos a explicar a transição da forma seguinte: o homem arcaico
dispõe de uma limitada cosmologia; descobriu algumas coisas e não outras. Em seu
universo, faltam importantes objetos, de sua linguagem estão ausentes conceitos
importantes, sua percepção carece de estruturas de maior importância. Acrescente-se os
elementos faltantes ao cosmos A, os termos faltantes à linguagem A, as estruturas faltantes
ao mundo perceptivo de A e ter-se-á o cosmos B, a linguagem B, a percepção B.
Há tempos denominei a teoria em que tal explicação se apóia ‘teoria oca’, ou ‘teoria do
queijo suíço’ da linguagem (e de outros meios de regulamentação). De acordo com a teoria
oca, toda cosmologia (toda linguagem, todo modo de percepção) apresenta apreciáveis
lacunas que podem ser preenchidas, permanecendo inalterado tudo o mais. A teoria oca vêse
diante de numerosas dificuldades. No presente caso, manifesta-se a dificuldade de que o
cosmos B não contém um só elemento do cosmos A. Nem termos comuns, nem teorias
filosóficas, nem pinturas e estátuas, nem concepções artísticas; a religião e as especulações
teológicas não conservam elementos de A, no momento em que a transição para B se
encerra. Isto é um fato histórico120. É tal fato um acidente ou apresenta A algumas
propriedades estruturais que impedem a coexistência de situações A e de situações-B?
Vejamos.
Já mencionei um exemplo que pode sugerir-nos razão acerca do por que B não comporta
fatos-A: o desenho abaixo pode ser a interseção de três caminhos, tal como apresentado
segundo os princípios de quadros-A
393
(que são faixas visuais). Introduzida a perspectiva (como conjunto mental, ou método
objetivo), o quadro não mais pode ser visto da mesma forma. Em vez de linhas traçadas em
um papel, temos a ilusão de profundidade e um panorama tridimensional, embora de tipo
muito simples. Não há meio de incorporar o quadro-A ao quadro-B, exceto como parte dessa
ilusão. Contudo, uma ilusão de faixa visual não é uma faixa visual.
A situação toma-se mais clara quando nos voltamos para os conceitos. Disse eu acima
que ‘a natureza’ de um objeto (= agregado) em A é determinada pelos elementos do
agregado e pelas relações entre esses elementos. Caberia acrescentar que essa determinação é
‘fechada’, no sentido de que os elementos e suas relações constituem o objeto; dados esses
elementos e relações, está o objeto dado. Exemplificando, os ‘elementos’ descritos por
Ulisses, em seu discurso, Ilíada, 9.225 ss., constituem honra, graça, respeito. Os conceitos-
A são, assim, muito parecidos com noções como as de ‘xeque-mate’: dado certo arranjo das
peças no tabuleiro, não há meio de ‘descobrir’ que o jogo possa ser continuado. Essa
‘descoberta’ não preencheria uma falha, não aumentaria nosso conhecimento de possíveis
posições no xadrez, mas poria término ao jogo. O mesmo seria acarretado pela ‘descoberta’
de ‘significados reais’ ocultos em outros lances e outras posições.
Exatamente as mesmas observações aplicam-se à descoberta de um eu individual,
diferente das faces, do comportamento, dos ‘estados mentais’ objetivos, do tipo que
ocorre em
394
A; aplicam-se à ‘descoberta’ de uma substância por detrás das ‘aparências’ (antes elementos
de A) ou à ‘descoberta’ de que a honra pode estar ausente, a despeito da presença de todas as
suas manifestações externas. Um enunciado como o de Heráclito — ‘Você não poderia
chegar aos limites da alma, qualquer que fosse o caminho trilhado, tão profundo é o logos’
(Diels, p. 45)— não se acrescenta apenas ao cosmos A, solapa os princípios necessários
para a construção de ‘estados mentais’ do tipo A, ao passo que a rejeição que Heráclito faz
de ?????????, e a rejeição que Parmênides faz de ???? ??? ??????? solapa as regras que
disciplinam a construção de cada fato singular de A. Toda um concepção do mundo, todo
um universo de pensamento, discurso, percepção, se vê destruído.
É interessante notar como esse processo de destruição se manifesta em casos particulares.
No longo discurso que faz, Ilíada, 9.308 ss., Aquiles deseja dizer que a honra pode estar
ausente, embora presentes todas as suas manifestações externas. Os termos da linguagem
por ele usada estão de tal modo associados a situações sociais definidas que ele ‘não tem
palavras para expressar sua desilusão. Não obstante, expressa-a e de maneira notável.
Consegue fazê-lo, utilizando mal a linguagem de que dispõe. Faz perguntas que não podem
ser respondidas, exigências que não podem ser atendidas’121. Age de modo ‘irracional’.
A mesma irracionalidade encontra-se nos escritos de todos os demais autores da época.
Em comparação com A, os pré-socráticos falam de modo realmente estranho. O mesmo
acontece com os poetas líricos, a explorarem as novas possibilidades do eu que
‘descobriram’. Libertados dos grilhões de um modo de expressão e pensamento bem
construído e claro, os elementos de A perdem sua função costumeira e passam a flutuar
desnorteadamente — surge o ‘caos de sensações’. Libertados de situações sociais firmes e
claras, os sentimentos se tornam efêmeros, ambivalentes, contraditórios: ‘amo e não amo;
deliro e não deliro’, escreve Anacreonte122. Libertados das regras da
395
anterior pintura geométrica, os artistas produzem estranhas mesclas de perspectivas e
esquematismos”. Separados de conjuntos psicológicos bem determinados, e libertados de sua
conotação realista, os conceitos podem ser agora usadas ‘hipoteticamente’, sem repulsa à
mentira, e as artes vêem aberto o caminho, para explorar imaginativamente os mundos
possíveis”. Trata-se do .mesmo ‘passo atrás’ que anteriormente vimos constituir
pressuposto necessário da alteração e, talvez, do progresso125 — apenas que, agora, não se
põem de lado tão-somente as observações, mas ainda, alguns importantes padrões de
racionalidade. Vistos de A (e também do prisma de algumas ideologias posteriores), todos
esses poetas, pensadores, artistas são maníacos furiosos.
Recordemos as circunstâncias responsáveis por tal situação. Temos um ponto de vista
(teoria, sistema de referência, cosmos, modo de representação) cujos elementos (conceitos,
‘fatos’, representações) surgem de acordo com certos princípios de construção. Os princípios
envolvem algo como um ‘fecho’: há coisas que não podem ser ditas ou ‘descobertas’ sem
violação de princípios (não significando isso que os contradigam). Digam-se as coisas,
façam-se as descobertas e os princípios permanecerão em suspenso. Consideremos agora os
princípios de construção que subjazem a cada elemento do cosmos (da teoria), a cada fato
(cada conceito). Demos a esses princípios o nome de princípios universais da teoria em
causa. Sustar os princípios universais significa sustar todos os fatos e todos os conceitos.
Finalmente, consideremos uma descoberta, uni enimciado, ou uma atitude incomensurável
com o cosmos (a teoria, os sistemas de referência) e vejamos se eles sustam alguns dos
princípios universais. Heráclito 45 é incomensurável com a porção psicológica de A: susta
as regras que se fazem necessárias para constituir indivíduos e põe termo a todos os fatos-A
relativos a indivíduo (fenômenos correspondentes a esses fatos podem, naturalmente,
persistir por tempo apreciável, — de vez que nem todas as alterações conceptuais
conduzem a alterações
396
de percepção e de vez que existem alterações conceptuais que nunca deixam traço nas
aparências126; contudo, esses fenômenos não mais podem ser descritos do modo costumeiro
e não podem, portanto, ser encarados como observações dos ‘fatos objetivos’ usuais).
Note-se a natureza aproximada e vaga desta explicação de ‘incomensurável’ e a ausência
de terminologia lógica. A razão da fluidez já foi explicada (itens 3 e 4, acima). A ausência de
lógica deve-se ao fato de lidarmos com fenômenos externos a seu domínio. Meu objetivo é o
de encontrar uma terminologia para descrever certos complexos fenômenos históricoantropológicos
só imperfeitamente compreendidos, não me interessando definir
propriedades de sistemas lógicos, especificados em pormenor. Termos tais como ‘princípios
universais’ e ‘sustar’ supostamente resumem informação antropológica, muito à
semelhança de como a versão acerca do tempo nuer que nos dá Evans-Pritchard (texto
correspondente à nota 91) resume a informação antropológica a seu alcance. (Cf. a breve
discussão no item 3 acima.) O caráter vago da explicação reflete a feição incompleta e a
complexidade do material e convida a uma articulação por meio de pesquisa posterior. A
explicação há de encerrar algum conteúdo — de outra forma, seria inútil. Não deve,
entretanto, encerrar conteúdo demasiado, sob pena de termos de revê-la a cada instante.
Note-se, ainda, que, falando em ‘princípio’, não pretendo referir-me simplesmente a um
enunciado tal como ‘conceitos se aplicam quando satisfeito um número finito de condições’
ou ‘conhecimento é enumeração de elementos discretos que formam agregados paratácticos’;
pretendo referir-me ao hábito gramatical correspondente ao enunciado. Os dois enunciados
acima citados descrevem o hábito de ter o objeto como dado quando foi completada a lista de
suas partes. Esse hábito é sustado (embora não contraditado) pela conjectura de que nem
mesmo a mais completa lista esgota o objeto; é também sustado (mas, outra vez, no
contraditado) por uma incessante busca de no-
397
vos aspectos e de novas propriedades. (Não cabe; portanto, definir ‘incomensurabilidade’
fazendo alusão a enunciados)127. Se o hábito é sustado, com ele são sustados os objetos-A:
não é possível examinar objetos-A com o auxílio de um método de conjecturas e refutações
que não conhece fim.
Como superar a ‘irracionalidade’ do período de transição? Ela é superada nos termos
usuais (cf. item 8, acima), ou seja, pela produção de absurdos, até que o material produzido
seja suficientemente rico para permitir que os rebeldes revelem e todos os outros reconheçam
novos princípios universais. (Esta revelação não precisa consistir em escrever os princípios,
dando-lhes a forma de enunciados claros e precisos.) A loucura se transforma em sanidade,
contanto que seja suficientemente rica e suficientemente regular para operar como base de
uma nova mundivisão. Quando isso acontece, temos um novo problema: como comparar a
visão antiga à nova?.
Do que foi dito, decorre, obviamente, que não podemos comparar os conteúdos de A e de
B. Os fatos-A e os fatos-B não podem ser postos lado a lado, nem mesmo na memória:
apresentar fatos-B significa sustar princípios admitidos na construção de fatos-A. Tudo
quanto podemos fazer é traçar quadros-B de fatos-A, em B, ou introduzir enunciados-B de
fatos-A, em B. Não podemos utilizar enunciados-A de fatos-A, em B. Nem é possível
traduzir a linguagem A na linguagem B. Não quer isso dizer estarmos impedidos de
discutir as duas visões — a discussão não poderá fazer-se, entretanto, em termos de
quaiquer relações lógicas (formais) entre os elementos de A e os elementos de B. Terá de ser
tão ‘irracional’ como era o discurso daqueles que tencionavam abandonar A.
Ora, parece-me que a relação entre, digamos, a mecânica clássica (interpretada
realisticamente) e a mecânica quântica (interpretada segundo as concepções de Niels Bohr)
ou entre a mecânica newtoniana (interpretada realisticamente) e a teoria geral da
relatividade (também realisticamente interpretada) é, sob muitos aspectos, semelhante
à relação entre a cosmologia A e a
398
cosmologia B. (Há, também, é claro, diferenças importantes; por exemplo, a transição
moderna deixou inalteradas as artes, a linguagem comum e a percepção.) Assim, cada fato
de mecânica newtoniana presume que as formas, períodos, massas só se alteram por
interações físicas e esse pressuposto é sustado pela teoria da relatividade. Analogamente, a
teoria quântica erige fatos de acordo com as relações de incerteza, que são sustadas pela
abordagem clássica.
Concluirei este capítulo reproduzindo, sob a forma de teses, os resultados nele
alcançados. As teses podem ser vistas como sumários de material antropológico relevante
para a elucidação — de acordo com os itens 3 e 4 acima — dos termos-significado e da
noção de incomensurabilidade.
A primeira tese é a de que existem esquemas de pensamento (ação, percepção)
incomensuráveis entre si.
Repito que essa é uma tese histórica (antropológica) que há de ser apoiada em evidência
histórica (antropológica). Para minúcias, cf. itens 2 a 7, acima. Um exemplo é oferecido
pelos esquemas A e B.
Naturalmente, é sempre possível substituir um esquema que se afigure estranho e
incompreensível, quando focalizado do ponto de vista da ciência ocidental, por outro
esquema que se apresente como parte do senso comum ocidental (com ou sem ciência) ou
como imperfeita antecipação desse mesmo senso comum ou, ainda, como um prodigioso
conto de fadas. A maioria dos primeiros antropologistas distorceu dessa maneira os estudos
a que se dedicou e pôde, assim, presumir que o inglês (ou o alemão, o latim ou o grego) era
suficientemente rico para traduzir e permitir a compreensão do mais estranho mito.
Dicionários antigos expressam esta crença de maneira muito direta, pois apresentam
definições simples de todos os termos ‘primitivos’ e explicações simples de todas as
noções ‘primitivas’. No entretempo, tornou-se claro que dicionários e traduções são
meios inadequados de apresentar os conceitos de uma linguagem que não está
intimamente relacionada com a nossa ou de intro-
399
duzir idéias que não se afeiçoem aos modos ocidentais de pensar128. Linguagens desse tipo
hão de ser aprendidas a partir da estaca zero, como uma criança aprende palavras,
conceitos, aparências129 (‘aparências’ porque os rostos e as coisas não são apenas ‘dados’,
são ‘lidos’, ou ‘interpretados’ de certas maneiras — diferentes maneiras sendo relevantes
em diferentes ideologias). Não cabe exigir que o processo de aprendizado se estruture de
acordo com as categorias, leis e percepções com que estamos familiarizados. É precisamente
maneira de aprender ‘livre de preconceito’ que um estudo de campo deve alcançar.
Retomando do estudo de campo às concepções e à sua própria linguagem, como, por
exemplo, o inglês, o antropologista freqüentemente se dá conta de que uma tradução direta é
impossível e que suas concepções e as concepções da cultura a que ele pertence são
incomensuráveis com as idéias ‘primitivas’ que ele começou a compreender (e talvez haja
superposição em algumas partes e incomensurabilidade quanto a outras). Naturalmente que
ele desejará fazer uma exposição daquelas idéias em inglês, mas só terá como realizar esse
propósito se estiver preparado para usar termos comuns de modo estranho e novo. Talvez
tenha de construir um jogo lingüístico inteiramente novo com palavras inglesas e só terá
condições de iniciar sua exposição quando esse jogo lingüístico se haja tornado
relativamente complexo. Ora, sabemos que quase todas as linguagens contêm os meios de
reestruturar grandes porções de seu aparato conceptual. Sem isso, a ciência popular, a
ficção científica, os contos de fada, os contos fantásticos e a própria ciência seriam
impossíveis. Há, pois, um sentido em que podemos afirmar que os resultados de um estudo
de campo são sempre suscetíveis de se ver expressos em inglês. Não significa isso,
entretanto, como alguns racionalistas parecem crer, que minha primeira tese seja falsa.
Essa, inferência somente se justificaria se possível mostrar que uma apresentação correta (e
não apenas um dicionário-caricatura) de novas concepções, em determinado idioma, como,
digamos, o inglês, deixa a ‘gramática’ desse idioma into-
400
cada. Jamais foi apresentada uma demonstração desse gênero130 e não é de esperar que
venha a surgir.
Em segundo lugar, vimos que a incomensurabilidade tem um análogo no campo da
percepção e que é parte da história da percepção. Esse o conteúdo de minha segunda tese, a
respeito da incomensurabilidade; o desenvolvimento da percepção e do pensamento, no
indivíduo, atravessa estágios que são mutuamente incomensuráveis.
Minha terceira tese é a de que as concepções dos cientistas e, especialmente, as
concepções que têm acerca de questões fundamentais são, freqüentes vezes, tão diferentes
entre si quanto as idologias subjacentes a culturas diversas. Pior ainda: existem teorias
científicas mutuamente incomensuráveis, embora aparentemente relativas ‘à mesma
disciplina’. Nem todas as teorias rivais apresentam essa propriedade e as que a apresentam
somente a apresentam enquanto interpretadas de modo especial, como, por exemplo, sem
alusão a uma ‘linguagem de observação independente’. A ilusão de que estamos lidando
com a mesma disciplina surge, em tais casos, como decorrência de inconsciente confusão
entre dois diferentes tipos de interpretação. Utilizando a interpretação ‘instrumentalista’
das teorias, que as vê como simples instrumentos para a classificação de certos ‘fatos’,
guarda-se a impressão de que há alguma disciplina comum. Utilizando a interpretação
‘realista’, que tenta entender a teoria em seus próprios termos, aquela disciplina parece
desvanecer-se, embora haja definido sentimento (instrumentalismo inconsciente) de que ela
deva existir. Examinemos, agora, a forma como podem surgir teorias incomensuráveis.
A investigação científica, diz Popper, começa com um problema e avança resolvendo-o.
Essa caracterização não leva em conta que os problemas podem ser erradamente
formulados, que se pode investigar acerca de propriedades de coisas e processos que visões
posteriores declararão não existentes. Problemas dessa ordem não são resolvidos, mas
dissolvidos e removidos do domínio de uma in-
401
vestigação. Exemplos são o problema da velocidade absoluta da Terra, o problema da
trajetória dos elétrons em um padrão de interferência, e o importante problema de saber que
os íncubos são capazes de gerar descendentes ou se estão forçados a usar germes humanos
para esse fim131.
O primeiro problema viu-se dissolvido pela teoria da relatividade, que nega a existência
de velocidades absolutas. O segundo problema foi dissolvido pela teoria quântica através da
negação da existência de trajetórias em padrões de interferência. O terceiro problema
dissolveu-se, embora menos decisivamente, por força da psicologia e da fisiologia modernas
(isto é, pós-século XVI) e pela cosmologia mecanicista de Descartes.
Alterações ontológicas, tais como as descritas, acompanham-se, freqüentemente, de
alterações conceptuais.
A descoberta de que certas entidades não existem pode levar o cientista a redescrever
eventos, processos, observações, em que se viam manifestações daquelas entidades e que
eram, portanto, descritos em termos que lhes presumia a existência. (De outra parte, pode
levar o cientista a introduzir conceitos novos, de vez que as velhas palavras permanecerão
em uso por tempo considerável.) Isso aplica-se, de maneira particular, às ‘descobertas’ que
sustam princípios universais. São dessa espécie, como vimos, a ‘descoberta’ de uma
‘substância subjacente’ e a ‘descoberta’ de um ‘eu espontâneo’.
Desenvolvimento interessante ocorre quando a ontologia falha é abrangente, ou seja,
quando se imagina que seus elementos estejam presentes em todos os processos, dentro de
certo campo. Nesse caso, cada descrição interior a esse campo deve ser alterada e substituída
por um enunciado diferente — ou, talvez, não dar lugar a qualquer enunciado. A física
clássica é um caso em pauta. Desenvolveu uma terminologia abrangente para descrever
algumas propriedades fundamentais dos objetos físicos, tais como formas, volumes,
intervalos de tempo, massas, e assim por diante. O sistema conceptual ligado a essa
terminologia presume, pelo menos no que concerne a uma de suas nu-
402
merosas interpretações, que as propriedades são inerentes aos objetos e só se alteram como
resultado de uma interferência física direta. Esse é um dos ‘princípios universais’ da física
clássica. A teoria da relatividade implica, pelo menos segundo a interpretação aceita por
Einstein e Bohr, que propriedades inerentes, do tipo indicado, não existem, que formas,
volumes, intervalos de tempo, massas, são relações entre objetos físicos e sistemas de
coordenadas — e podem alterar-se, sem qualquer interferência física, quando substituímos
um sistema de coordenadas por outro. A teoria da relatividade também oferece princípios
novos para constituir fatos mecânicos. O sistema conceptual novo que dessa maneira surge
não apenas nega a existência dos clássicos estados de coisas, como nem chega a permitir que
formulemos enunciados para expressar aqueles estados de coisas. Não partilha e não pode
partilhar de um único enunciado emitido por sua predecessora — sempre admitido que não
utilizamos as teorias como esquemas classificatórios para a ordenação de fatos neutros. Se
interpretarmos ambas as teorias de modo realista, então as ‘condições formais para que
surja adequada sucessora de uma teoria refutada’, condições que foram enunciadas no
capítulo XV (a teoria nova tem de manter os aspectos bem sucedidos da teoria anterior,
negar-lhe as conseqüências falsas e fazer previsões adicionais), não podem ser satisfeitas e o
esquema positivista do progresso, com seus ‘óculos popperianos’, cai por terra. Nem mesmo
a liberal versão de Lakatos foge a esse destino, pois que também ela presume que classes de
conteúdo de diferentes teorias são passíveis de comparação, ou seja, que entre elas é possível
estabelecer uma relação de inclusão, exclusão ou superposição. É inútil tentar associar
enunciados clássicos a enunciados relativistas por meio de uma hipótese empírica. Uma
hipótese dessa espécie seria tão risível como o enunciado ‘sempre que há possessão pelo
demônio, há, também, uma descarga no cérebro’, enunciado que estabelece associação entre
termos de uma teoria da possessão, relativa à epilepsia, e termos ‘científicos’, mais
recentes. Com efeito,
403
não desejamos perpetuar a velha terminologia demoníaca e levá-la a sério apenas para
assegurar a possibilidade de comparação entre classes e conteúdos. No caso relatividade
versus mecânica clássica, uma hipótese dessa ordem não pode sequer ser formulada.
Recorrendo a termos de mecânica clássica, admitimos um princípio universal que é sustado
pela relatividade, significando isso que é sustado sempre que lançamos uma sentença com a
intenção de expressar um estado de coisas relativista. Empregando termos clássicos e
relativistas no mesmo enunciado, acolhemos e sustamos, a um só tempo, certos princípios
universais, o que é outra maneira de dizer que tais enunciados não existem: o caso
relatividade versus mecânica clássica é exemplo de dois esquemas incomensuráveis. Outros
exemplos são teoria quântica versus mecânica clássica132, teoria do ímpeto versus mecânica
de Newton133, materialismo versus dualismo corpo/espírito, e assim por diante.
Ora, é naturalmente possível interpretar todos esses casos de maneira diferente. Shapere,
por exemplo, criticou minha apreciação da teoria do ímpeto, afirmando que ‘o próprio
Newton não é inteiramente claro quanto a afirmar que o movimento inercial exija uma
causa’134. Além disso, ele vê, de Aristóteles a Newton, ‘grande número de... semelhanças e
continuidades’, onde eu vejo incomensurabilidade135. A primeira objeção pode ser
facilmente afastada (a) assinalando a formulação que Newton dá à primeira lei do
movimento — ‘corpus omne perseverare in statu quiescendi vel movendi uniformiter in
directum...’— que vê esse movimento antes como um estado do que em termos de
alteração136; (b) mostrando que a noção de ímpeto é definida segundo uma lei sustada por
Newton, cessando, pois, de ser um princípio constitutivo de fatos (essa demonstração é feita,
com algum pormenor, no estudo que dedico ao assunto. O item (b) responde, ainda, à
segunda objeção: é certo que esquemas incomensuráveis e conceitos incomensuráveis
podem apresentar muitas similaridades estruturais — isso, porém, não afasta o fato
de que os princípios universais,
404
proprios de um esquema, são sustados pelo outro. É esse o fato que define a
incomensurabilidade, a despeito de todas as similaridades que seja possível descobrir.
Shapere (e outros, depois dele) também tentou mostrar que as teorias incomensuráveis
não apenas são raras como constituem uma impossibilidade filosófica. Passo a discutir essa
posição.
Já disse que uma alteração científica pode levar à substituição de enunciados em certo
campo e que a substituição será ampla quando estivermos lidando com ideologias amplas.
Afetará não apenas teorias, mas também enunciados observacionais e (ver o que se disse,
atrás, acerca de Galileu) interpretações naturais. Ora, essa adaptação da observação à teoria
(e esse é o fulcro da primeira objeção) freqüentemente afasta conflitantes relatos de
observação e preserva uma cosmologia nova de maneira ad hoc. Surge, além disso, a
suspeita de que as observações, interpretadas em termos da teoria nova, não mais podem ser
usadas para refutar a teoria. Não é difícil replicar.
No que toca à objeção, seja-me permitido assinalar, em concordância com o antes
mencionado (cf. capítulos V e VI), que uma inconsistência entre teoria e observação pode
revelar um erro de terminologia observacional (e até de nossas sensações), de modo que é
muito natural alterar essa terminologia, adaptá-la à teoria nova, para ver o que sucede. Essa
alteração faz surgirem (e deve fazer surgirem) novas disciplinas auxiliares (hidrodinâmica,
teoria dos sólidos, ótica, no caso de Galileu) que, eventualmente, são mais do que
compensação pela perda de conteúdo empírico. No que se refere à suspeita137, importa
lembrar que as previsões decorrentes de uma teoria dependem de seus postulados (e de
regras gramaticais associadas) e, também, das condições iniciais, ao passo que o significado
de noções ‘primitivas’ depende apenas de postulados (e regras gramaticais associadas). Nos
raros casos em que uma teoria acarreta asserções acerca de possíveis condições iniciais138,
cabe refutá-la com o auxílio de relatos de observação autocontraditó-
405
rios, tal como: ‘o objeto A não se move em uma geodésica’, o que, analisado em termos da
versão Einstein-Infeld-Hoffmann equivale a ‘a singularidade alfa que se move em uma
geodésica não se move em uma geodésica’.
A segunda objeção critica uma interpretação de ciência que se afigura necessária para a
incomensurabilidade vir à tona. Já fiz notar que a indagação ‘São incomensuráveis duas
particulares teorias amplas como a mecânica clássica e a teoria especial da relatividade?’
não é uma indagação completa. As teorias podem ser interpretadas de diferentes modos.
Serão comensuráveis segundo algumas interpretações, incomensuráveis segundo outras. O
instrumentalismo, por exemplo, torna comensuráveis todas as teorias que se relacionam à
mesma linguagem de observação e são, com base nela, interpretadas. Um realista, de outra
parte, deseja oferecer versão unificada assim das matérias observáveis como das nãoobserváveis
e recorrerá aos mais abstratos termos da teoria que tem em vista para alcançar
aquele propósito139. Utilizará esses termos ou para conferir significado a sentenças de
observação ou para alterar a interpretação habitual a elas dada. (Exemplificando, utilizará
idéias da teoria especial da relatividade para alterar a interpretação clássica habitual,
traduzida em enunciados cotidianos acerca das formas de seqüências temporais, e assim por
diante.) Contra essa posição, é assinalado, por quase todos os empiristas, que os termos
teóricos têm sua interpretação derivada do fato de se ligarem a uma preexistente linguagem
de observação ou a uma outra teoria já associada a essa linguagem. Assim, Carnap afirma,
em passagem citada anteriormente140, que ‘Não há interpretação independente para LT [a
linguagem em cujos termos certa teoria ou certa concepção do mundo é formulada]. O
sistema T [os axiomas da teoria e as regras de dedução] é, em si mesmo, um sistema de
postulados não interpretados. [Seus] termos... só conseguem interpretação indireta e
incompleta devido à circunstância de alguns deles se associarem, através de regras C [de
correspondência], a termos de observação...’ Ora, se os
406
termos teóricos não admitem ‘interpretação independente’, não podem ser utilizados para
corrigir a interpretação dada a enunciados de observação — interpretação que é a única e
exclusiva fonte de seu significado. Segue-se que o realismo, tal como aqui descrito, é uma
doutrina inadmissível e que a incomensurabilidade não pode surgir enquanto nos
mantivermos dentro dos confins do ‘correto’ (ou seja, empírico) método científico.
A idéia que orienta essa objeção comum é a de que linguagens novas e abstratas não
podem ser introduzidas de maneira direta, mas hão de ser previamente relacionadas com um
idioma de observação já existente e presumivelmente estável141.
Essa idéia orientadora é, de imediato, refutada, bastando assinalar-se o modo como as
crianças aprendem a falar — por certo que não aprendem a partir de uma inata linguagem
de observação — e o modo como os antropologistas e lingüistas aprendem a desconhecida
linguagem de uma tribo recém-descoberta.
O primeiro caso já foi objeto de exame rápido. No segundo caso, vemos que aquilo que
ainda é anátema em antropologia — e com muito boas razões — continua a constituir
princípio fundamental para os representantes atuais da filosofia do Círculo de Viena.
Segundo Carnap, Feigl, Hempel, Nagel e outros, os termos de uma teoria ganham
interpretação de maneira indireta, ao serem relacionados a um sistema conceptual diferente
que ou é uma teoria mais antiga ou é uma linguagem de observação142. Teorias antigas e
linguagens de observação não são adotadas em virtude de alguma excelência teorética e (não
podem sê-lo, pois as teorias antigas são geralmente refutadas). São adotadas porque
‘empregadas em certa comunidade de linguagem como instrumento de comunicação143.
Segundo esse método, a frase ‘Tendo massa relativista muito maior do que...’ é parcialmente
interpretada por meio de uma conexão estabelecida entre ela e alguns termos pré-relativistas
(termos clássicos, termos de senso comum) que são ‘entendidos por todos’
(presumivelmente como conseqüência de um ensino prévio, que tem conexão com
méto-
407
dos ordinários de pesagem) e só vem a ser usada depois que essa conexão lhe tenha conferido
um conteúdo mais ou menos definido.
Esse procedimento, cuja aplicação pode envolver um aparato lógico formidável e que, por
isso mesmo, é freqüentes vezes encarado como o dernier cri de uma filosofia
verdadeiramente científica, mostra-se ainda pior do que a exigência (que já foi comum) de
que se esclarecessem pontos duvidosos vertendo-os para o latim. Com efeito, o latim era
escolhido em virtude de sua precisão e clareza e pelo fato de ser conceptualmente mais rico
do que os idiomas vulgares que se desenvolviam lentamente144; era, pois, escolhido por
uma razão teórica, enquanto que a escolha de uma linguagem de observação ou de uma
teoria anterior se deve ao fato de que são ‘previamente entendidas’: deve-se ao fato de sua
popularidade. Além disso, admitindo que os termos pré-relativistas (termos que se acham
consideravelmente afastados da realidade — particularmente se recordarmos que defluem de
uma teoria incorreta, baseada em uma ontologia não existente) possam ser ensinados de
maneira ostensiva, através, digamos, de métodos rudimentares de pesagem (e precisamos
admiti-lo, caso contrário todo o esquema cai por terra, de imediato), cabe perguntar: por que
não introduzir os termos relativistas de modo direto e sem auxílio de termos de algum outro
idioma? Enfim, é coisa do senso comum que o ensino, o aprendizado ou a formulação de
linguagens novas e desconhecidas não devem ser contaminados por material estranho. Os
lingüistas nos lembram, a cada momento, que traduções perfeitas nunca são possíveis,
mesmo que empreguemos complexas definições contextuais. Aí está uma das razões da
importância que adquire o trabalho de campo, quando as linguagens novas são aprendidas a
partir da estaca zero e uma das razões para rejeitar, como inapropriada, qualquer explicação
que se assente na idéia de uma tradução completa ou parcial. Entretanto, o que é anátema
em lingüística é justamente o que se toma por assente no empirismo lógico, surgindo a
mítica ‘linguagem observacio-
408
nal’ a substituir o inglês dos tradutores. Comecemos a realizar trabalho de campo também
neste domínio e passemos a estudar a linguagem das teorias novas sem apelar para as
fábricas de definições, das duplas linguagens, mas acompanhando os metafísicos, os físicos,
os escritores e os cortesãos que erigiram as novas concepções do mundo. Isto encerra meu
exame do princípio orientador que inspira a segunda objeção contra o realismo e contra a
possibilidade de teorias incomensuráveis.
Uma terceira objeção é a de que existem experimentos cruciais que refutam uma das
duas teorias supostamente incomensuráveis, confirmando a outra. Por exemplo, costuma-se
dizer que o experimento Michelson-Morley, a variação das partículas elementares, o efeito
Doppler, refutam a mecânica clássica e confirmam a relatividade. Resposta a esta posição
também não é difícil. Adotando o ponto de vista da relatividade, verificamos que os
experimentos, agora naturalmente descritos em termos relativistas, usando as noções
relativistas de extensão duração, massa, velocidade, e assim por diante”145, são relevantes
para a teoria e verificamos, ainda, que dão apoio à teoria. Adotando o ponto de vista da
mecânica clássica (com ou sem o éter), verificamos que os experimentos, agora descritos nos
termos muito diversos da física clássica (ou seja, aproximadamente à maneira como os
descreveu Lorentz), são relevantes; mas verificamos, também, que contrariam (a conjunção
de eletrodinâmica e) a mecânica clássica. Por que seriam necessário possuir terminologia
que nos permitisse dizer que é o mesmo o experimento confirmador de uma teoria e
refutador da outra? Não usamos, nós próprios, essa terminologia? Bem, por um lado seria
fácil, embora algo laborioso, expressar o que acabou de ser dito sem presumir identidade.
Em segundo lugar, a identificação, claro está, não contraria minha tese, pois agora usamos
os termos da relatividade ou da física clássica, como se faz em um teste, mas referindo-os e
sua relação ao mundo físico. A linguagem em que esse discurso é vazado pode ser clássica,
relativista ou vodu. Não adianta insistir em que os cientistas atuam
409
como se a situação fosse muito menos complexa’146. Se agem dessa forma, ou são
instrumentalistas (ver acima) ou estão errados: muitos dos cientistas estão hoje interessados
em fórmulas, enquanto estou examinando interpretações. É também possível que, estando
bem familiarizados com ambas as teorias, saltem de uma a outra com tal velocidade que
aparentemente estão permanecendo no mesmo campo do discurso.
(Essa última observação responde, também, de passagem, à objeção segundo a qual ‘a
transição da teoria da gravidade, elaborada por Newton, para a teoria de Einstein, não pode
constituir um salto irracional’ porque a teoria de Newton ‘decorre da teoria de Einstein’
como uma excelente aproximação’147. Pensadores de grande capacidade podem saltar
rapidamente de um campo a outro e a continuidade das relações formais não implica
continuidade de interpretações, como se inclina agora a admitir qualquer pessoa
familiarizada com a notória ‘derivação’ da lei da gravitação a partir das leis de Kepler.)
Costuma-se dizer, também, que, admitindo a incomensurabilidade, no domínio da
ciência, deixamos de contar com as condições para decidir se uma concepção nova explica
aquilo que pretende explicar ou se apenas vagueia por diferentes campos148. Por exemplo,
não saberíamos se uma teoria física, de invenção recente, continua a referir-se a problemas
de espaço e tempo ou se o seu autor não teria feito, por engano, uma asserção concernente à
biologia. Não há, porém, necessidade de contar com esse conhecimento. Isso porque, uma
vez admitido o fato da incomensurabilidade, a dúvida que inspira a objeção deixa de
manifestar-se. (O progresso conceptual torna, com freqüência, impossível colocar certas
indagações e explicar certas coisas; assim, não mais podemos indagar a respeito da
velocidade absoluta de um objeto, pelo menos enquanto levarmos a sério a relatividade.)
Trata-se de grave perda para a ciência? Absolutamente não. O progresso foi conseguido
exatamente pelo ‘vaguear por diferentes campos’, cuja feição hesitante agora tanto perturba
o crítico: Aristóteles viu o mundo como um su-
410
perorganismo, como entidade biológica, ao passo que um elemento essencial da ciência nova
de Descartes, Galileu e seus seguidores, em medicina e biologia, é o caráter exclusivamente
mecanicista. Devem esses desenvolvimentos ser proibidos? E se não o forem, que restará das
queixas?
Objeção estreitamente ligada a essa surge da noção de explicação, ou redução e acentua
que tal noção presume a continuidade de conceitos (outras noções poderiam ser usadas para
dar início a exatamente a mesma espécie de argumento). Usando exemplo meu, supõe-se que
a relatividade deva explicar as partes válidas da física clássica; em conseqüência, não pode
ser incomensurável com ela. A resposta é, mais uma vez, óbvia. Por que se preocuparia o
relativista com o destino da mecânica clássica, a não ser para vê-la como parte de um
desenvolvimento histórico? Só há uma tarefa que podemos legitimamente exigir que uma
teoria desempenhe: deverá proporcionar-nos correta visão do mundo, ou seja, da totalidade
de fatos, tal como constituídos por seus próprios conceitos básicos. Que têm os princípios de
explicação a ver com essa exigência? Não será razoável admitir que um ponto de vista como
o da mecânica clássica, que se mostrou falho, sob vários aspectos, e que encontra dificuldade
ante seus próprios fatos (ver acima, o que se refere aos experimentos cruciais) não tem como
dispor de conceitos inteiramente adequados? Não será igualmente razoável tentar substituir
esses conceitos pelos de uma cosmologia de maior êxito? Além disso, por que deveria a
noção de explicação ser afetada pela exigência de continuidade conceptual? Essa noção foi
considerada estreita em demasia (exigência de derivabiidade) e teve de ser ampliada para
incluir conexões parciais estatísticas. Nada nos impede de fazer uma ampliação ainda maior
para admitir, digamos, ‘explicações por equívoco’.
Teorias incomensuráveis podem ser, pois, refutadas através de alusão a seus próprios e
respectivos tipos de experiência, ou seja, através da descoberta de contradições
internas de que estejam padecendo. (Na ausência de alternativas comensuráveis,
411
tais refutações são, porém, muito fracas, como se pode ver dos argumentos em prol da
proliferação, mencionados nos capítulos II e III.) Seus conteúdos não podem ser
comparados. Nem é possível formular um juízo de verossimilitude, a não ser dentro das
fronteiras de uma particular teoria (lembremos que o problema da incomensurabilidade
somente surge quando analisamos a alteração de pontos de vista cosmológicos abrangentes;
teorias restritas raramente conduzem à necessidade de revisões coziceptuais). Nenhum dos
métodos que Carnap, Hempel, Nagel, Popper ou mesmo Lakatos desejam usar, para
racionalização das mudanças científicas, pode ser aplicado; o que pode ser aplicado, o
método da refutação, é de força muito reduzida. O que fica são os juízos estéticos, os juízos
de gosto, os preconceitos metafísicos, as aspirações religiosas; em suma, o que resta são
nossos desejos subjetivos: a ciência, no que tem de mais avançado e geral, devolve ao
indivíduo uma liberdade que ele parece perder quando penetra em partes mais vulgares da
mesma ciência; além disso, a imagem de seu ‘terceiro mundo’, o desenvolvimento de seus
conceitos, cessa de ser ‘racional’. Esse o último argumento necessário para nos mantermos
presos à conclusão do capítulo XII (e de todo o livro), a despeito dos ataques dos
racionalistas mais modernos e mais refinados.
NOTAS
1. De acordo com Whorff, ‘o sistema lingüístico que ama como pano de fundo (ou seja, a
gramática), no caso de cada linguagem, não é simplesmente um sistema reprodutor para
veicular idéias; é, em vez disso, um aperfeiçoador de idéias, um programa e um guia para a
atividade mental do indivíduo, para a sua análise de impressões, para
412
a sua síntese de seus próprios recursos mentais’. Language, Thought and Realily, MIT
Press, 1956, p. 121. Ver, ainda o Apêndice V.
2. Como exemplo, cf. a análise que Whorff leva a efeito, tendo em conta a metafísica dos
Hopi — op. cit., pp. 157 e ss.
3. ‘Usuários das gramáticas marcadamente diversas são conduzidos, pelas suas gramáticas,
a diferentes gêneros de observação...’, Ibid., p. 221.
4. Ibid., p. 69.
5. Ibid., p. 68.
6. Ibid., p. 70. Até [um] fonema pode assumir funções semânticas definidas, como parte do
contexto. Em inglês, o fonema ? [“thorn”] (o som oral th) só aparece, de início, no
criptótipo [classificação implícita, desvinculada de qualquer grande dicotomia — p. 70] das
partículas demonstrativas (the, this, there, than, etc.). Conseqüentemente, há certa pressão
psíquica voltada contra o uso do som th em palavras novas ou imaginárias: thigh, thay,
thob, thuzzle etc., pois lhes falta o significado demonstrativo. Encontrando palavra nova
desse tipo, p. ex., thob, nós tendemos, ‘instintivamente’, a lhe emprestar o som ? que th
recebe em ‘think’. Mas não se trata de ‘instinto’. Trata-se apenas de nosso velho conhecido,
o contexto linguis fico”. (p. 76— grifo meu).
7. Ibid., p. 80. O trecho prossegue: ‘...talvez que um grupo lingüístico, algo formal, e não
muito significativo, marcado por um traço explícito, coincida, grosseiramente, com alguma
concatenação de fenômenos, de maneira a sugerir uma racionalização desse paralelismo. Ao
longo do processo de transformação fonética, a marca distintiva, a desinência, ou seja o que
for, se perdeu e a classe passa de formal a semântica. Sua reatância é, agora, o que a
distingue como classe e sua idéia é o que a unifica. Com o passar do tempo e na medida
do uso, ela se organiza
413
crescentemente em torno de um rationale, atrai palavras semanticamente adequadas e perde
elementos anteriores que se tornam semanticamente inapropriados. O que mantém o todo é
a lógica’. Cf., também, o relato de Mill a respeito de seu desenvolvimento educacional, tal
como descrito no texto correspondente à nota 14 do capítulo XII.
8. Whorff, op. cit., p. 70. Essas classificações sutis são por Whorff denominadas criptótipos.
Um criptótipo é um ‘significado oculto, sutil, fugidio, não correspondente a qualquer
palavra e que, não obstante, a análise lingüística demonstra ser, em gramática,
funcionalmente importante’.
9. Ibid., p. 247.
10. Cf. ‘On a Recent Critique of Complementarity, Part II’, Philosophy of Science, nº. 36,
1969, pp. 92 e ss.
11. Exemplo recente é a crítica feita por Popper a Bohr. Popper não se preocupa em
conhecer as concepções de Bohr (para prova, cf. o artigo referido na nota anterior) e a
posição que ele ataca é, afinal, sua próprria maneira de vê-las. Contudo, o método de ataque
revela até que ponto ele ainda se deixa dominar pela ideologia da física clássica (que
desempenha papel decisivo em sua metodologia e, como se percebe, na definição que oferece
de enunciado básico, em Logic of Scientific Discovery, Nova Iorque, 1959, p. 103: ‘Cada
enunciado básico ou é um enunciado acerca de posições relativas de corpos físicos... ou há de
equivaler a algum enunciado básico dessa espécie mecanicista” ’; isto é, enunciados básicos
são enunciados de física clássica).
12. Cf. nota 6 e texto.
13. ‘Um mestre da introspecção, Kenneth Clark, recentemente descreveu, de maneira
vívida, a derrota de que foi vítima quando tentou ‘apanhar’ uma ilusão. Contemplando um
quadro de Velasquez, desejou observar o momento em que as pinceladas e as marcas da
tinta, sobre a tela, se trans-
414
formavam em uma visão de realidade transfigurada, momento esse que deveria coincidir
com determinada distância a que se colocasse do quadro, na medida em que dele se afastava.
Por mais que tentasse, afastando-se e aproximando-se, nunca pôde ter as duas visões ao
mesmo tempo...’, E. Gombrich, Art and Illusion, Princeton, 1956, p. 6.
14. Cf. R. L. Gregory, The Inteligent Eye, Londres, 1970, capítulo 2. Cf., também, a
distinção entre eikon e phantasma, em Platão, O Sofista, 235 b 8 e ss.: ‘Esse “aparentar” ou
“parecer” sem realmente “ser” ... todas essas expressões sempre geraram e continuam a
gerar perplexidade’. Platão fala acerca de distorções em estátuas de tamanho colossal,
distorções introduzidas para fazê-las parecer terem as proporções adequadas. ‘Não posso
utilizar uma ilusão e contemplá-la’, diz Gombrich, em tais casos, op. cit., p. 6.
15. J. Piaget, The Construction of Reality in the Child, Nova Iorque, 1954, pp. 5 e ss.
16. Esse é, aparentemente, um traço geral da aquisição de novos mundos perceptivos: ‘Em
sua maior parte, as antigas representações tiveram de ser antes suprimidas que reformadas’,
escreve Stratton, em seu famoso ensaio ‘Vision without Inversion of the Retinal Image’, The
Psychological Review, IV, 1897, p. 471.
17. Tal como Lakatos tenta fazer: ‘Falsification’, p. 179, nota 1: ‘As teorias incomensuráveis
nem são incompatíveis entre si nem comparáveis quanto ao conteúdo. Todavia, podemos
transformá-las, com o auxílio de um dicionário, em incompatíveis, mas de conteúdos
comparáveis.’
18. ‘Falsification’, p. 177. ‘Os óculos popperianos’ não foram é claro, inventados por
Popper, mas constituem uma propriedade espiritual comum da Aufkläricht do século
XVIII. Herder foi o primeiro a lhes perceber as limita-
415
ções (e, como resultado, a atrair contra ele, a ira de Kant).
19. Popper, in Criticism and the Growth of Knowledge, p. 56.
20. Isso é verdade para a filosofia da ciência, embora não para a epistemologia geral, onde
nos contentamos com examinar os hábitos lingüísticos daquela criatura antiga, mas ainda
hoje existente, que viveu no fim da Idade da Pedra, o Homo Oxoniensis.
21. Die Naturwiedergabe in der älteren Griechischen Kunst, Roma, 1900, capítulo 1.
Loewy usa ‘arcaico’ em termos de expressão genérica para abranger fenômenos da arte
egípcia, grega, primitiva, dos desenhos de crianças e de amadores. Na Grécia, suas
observações se aplicam desde o estilo geométrico (1000 a 700 a.C.) até o período arcaico (700
a 500 a.C.) que trata a figura humana com mais minúcias e as situa em condições da vida
real. Cf., também, F. Matz, Geschichte der Griechischen Kunst, vol. I, 1950, e Beazly e
Ashmole, Greek Sculpture and Painting, Cambridge, 1966, capítulos II e III.
22. Webster, From Mycenae to Homer, Nova Iorque, 1964, p. 292. Webster encara esse uso
de ‘padrões simples e claros’ na arte geométrica dos gregos como o ‘precursor’ de posteriores
desenvolvimentos na arte (em última análise, a invenção da perspectiva) matemática e
filosofia’.
23. Webster, op. cit., p. 205.
24. Ibid., p. 207.
25. Beazly e Ashmole, op. cit., p. 3.
26. Loewy, op. cit., p. 4.
27. Ibid., p. 6.
28. Os fatos da perspectiva são notados, mas não se incluem na apresentação pictórica; isso
se vê de descrições literárias. Cf. H. Schifer, Von Aegyptischer Kunst, Wiesbaden, 1963, pp.
88 e ss., onde o problema é mais amplamente discutido.
416
29. Cf. Paolo Graziosi, Palaeolithic Art, Nova Iorque, 1960, e André Leroc-Gourhan,
Treasures of Prehistoric Art, Nova Iorque, 1967, ambos com excelentes ilustrações. Loewy
não conhecia esses resultados: o ‘mea culpa d’un ceptique’ de Cartailhac, por exemplo, só
apareceu em 1902.
30. Cf. a transformação no apresentar animais, ao longo da transição dos tempos prédinásticos
para a Primeira Dinastia. O leão de Berlim (Berlim, Staatliches Museum, Nr.
22.440) é selvagem, ameaçador, muito diferente, quanto à expressão e execução, do
majestoso animal da Segunda e Terceira Dinastias. Este último parece mais uma
representação do conceito de leão do que de qualquer leão particular. Cf., também, a
diferença entre o falcão no quadro da vitória do rei Narmer (parte de trás) e na pedra
fúnebre do rei Wadji (Djet) da Primeira Dinastia ‘Sob todos os aspectos, avançava-se no
sentido da claridade pura, as formas se fortaleciam e se tornavam simples’ Schäfer, pp. 12 e
ss., especialmente p. 15, onde são apresentados pormenores adicionais.
31. A arte geométrica ática não deveria ser considerada primitiva embora não encerre a
espécie de realismo fotográfico que os eruditos parecem exigir em pintura. Ë arte altamente
requintada, com suas convenções próprias, a servirem propósitos específicos. Quanto a
formas e ornamentação uma revolução a separa da pintura de Micenas. Nessa revolução, as
figuras se viram reduzidas a silhuetas mínimas e, a partir de tais silhuetas mínimas se
erigiu uma arte nova’. Webster, op. cit., p. 205.
32. Essa tese também encontra apoio na observação de que os chamados primitivos com
freqüência ignoram o objeto que desejam desenhar; Schäfer, p. 102, citado por Conze.
33. Em Criticism, etc., p. 56.
34. Beazly e Ashmole, op. cit., p. 3.
417
35. Webster, p. 204: ‘O pintor sente a necessidade de afirmar que tem dois braços, duas
pernas e um peito varonil’.
36. R. Hampi, Die Gleichnisse Homers und die Bildkunst seiner Zeit, Tubinga, 1952.
37. ‘Todas as pinturas geométricas de carruagens apresentam pelo menos uma dessas
distorções’. Webster, p. 204. A cerâmica micena da última época, de outra parte, apresenta
as pernas dos ocupantes escondidas por um dos lados da carruagem.
38. Shäfer, op. cit., p. 123.
39. Ibid., pp. 223 e ss.
40. Gombrich, p. 134, com bibliografia.
41. ‘Mais nos aproximaremos do conteúdo factual dos desenhos frontais [geradvorstelliger]
de objetos se começarmos por ler seus conteúdos parciais sob a forma de sentenças
declarativas narrativas. O modo frontal de representação dá-nos um “conceito visual”
Sehbegriff] da coisa (situação) representada.’ Shäfer, op. cit, p. 118. Cf., também, Webster,
op. cit., p. 202, acerca do caráter ‘narrativo’ e ‘explicativo’ da arte micena e geométrica.
Mas cf. H. A. Groenewegen-Frankfort, Arrest and Movement, Londres, 1951, pp. 33 e s.;
as cenas da vida diária, reproduzidas nas paredes dos túmulos egípcios. ‘devem ser “lidas”:
colher implica arar, semear e ceifar; criar gado implica acesso a riachos e ordenha... a
seqüência das cenas é puramente conceptual, não narrativa; nem as legendas que
acompanham as cenas têm caráter dramático. Os sinais, observações, nomes, canções e
explicações que esclarecem a ação... não relacionam eventos nem lhes explicam o
desenvolvimento; são ditos típicos, próprios de situações típicas’.
42. ‘Narration in Greek Art’, American Journal of Archaeology, vol. 61, janeiro, 1957, p.
74.
43. Essa é, naturalmente, maneira muito imprecisa de falar. Só se pode ter a ‘impressão de
ser um fantoche’ se outras
418
impressões também ocorrerem ou, pelo menos, forem concebíveis De outra forma, somos o
que somos, sem qual que especificação.
44. Cf. a nota 1 e o texto deste capítulo.
45. Um esboço dos problemas que surgem no caso das teorias físicas encontra-se em meu
‘Reply to Criticism’, Boston Studies in the Philosophy of Science, vol. 2, 1965, seções 5-8
(ver, em especial, a lista de problemas, na p. 234). Hanson, Popper e outros admitem, sem
discussão, que o realismo é correto.
46. A situação pode ser diversa, em estados provocados pela ingestão de drogas,
particularmente se fazem parte de um programa sistemático de educação. a. a nota 19 e o
texto do capítulo anterior.
47. Schäfer, op. cit., p. 63.
48. Webster, op. cit., pp. 294 e ss.
49. No século XX, o papel das fórmulas foi descrito e submetido a teste por Milman Parry,
L’Epythète traditionelle chez Homère, Paris, 1928; Harvard Studies in Classical Philology,
volumes 41 (1930) e 43 (1932). Para uni apanhado breve, cf. D. L. Page, History and the
Homeric Illiad, University of California Press, 1966, capítulo VI, assim como G. S. Kirk,
Homer and the Epic, Cambridge, 1965, Parte 1.
50. Webster, op. cit., pp. 75 e s.
51. M. Parry, Harvard Stud. Cl. Phil, 41, 1930, p. 77.
52. Ibid., pp. 86 e s.
53. Ibid., p. 89.
54. Page, op. cit., p. 230.
55. Ibid., p. 242.
56. Webster, op. cit., pp. 99 e 5.; grifo meu.
57. Cf. Raphael Kühner, Ausführliche Grammatik der Griechischen Sprache, 2ª parte,
reimpressão, Darmstad, 1966. No século XX, esse modo paratáctico ou ‘simultâneo’ de
419
representação foi utilizado pelos primeiros expressionistas, por exemplo, Jacob von Hoddis,
em seu poema Weltende:
Dem Bürger fliegt vom spitzen Kopf der Hut,
In alien Lüften hallt es wie Geschrei.
Dachdecker stürzen ab und gehn entzwei.
Und an den Küsten — liest man— steigt die Flüt.
Der Sturm ist da, die wilden Meere hupfen
An Land, um dicke Dämme zu zerdrücken.
Die meisten Menschen haben einen Schnupfen.
Die Eisenbanen failen von den Brücken.
Os chapéus voam das cabeças dos burgueses.
Telhados tombam e se partem ao meio
Nos ventos passa o alarido.
Nas praias — segundo se lê — sobe a maré
A tormenta chegou, os mares bravios saltam
Sobre a terra, batendo nos espessos diques.
A maioria das pessoas apanha um resfriado.
Os trens caem de sobre as pontes*.
Von Hoddis afirma que Homero é um precursor, explicando que a simultaneidade foi usada
por Homem não. a fim de tornar um evento mais claro, mas com o objetivo de criar um
sentimento de espaço imensurável. Quando Homero descreve uma batalha e compara o
ruído das armas ao bicar do pica-pau quer simplesmente mostrar que enquanto uma batalha
se trava, continua presente a quietude dos bosques, apenas interrompida pelo ruído da ave.
Não se pode conceber uma catástrofe sem, ao mesmo tempo, pensar em um evento
totalmente destituído de importância. O Grande se mistura ao Pequeno, o Importante
ao Trivial. (Quanto ao relato, cf. J. R. Becher, in Expressionismus, ed. P. Raabe,
Olten e Freiburg, 1965, pp. 50 e ss.; esse breve artigo encerra, ainda, uma descrição da
tremenda impressão que as oito linhas de Von Hoddis causaram, quando de seu
aparecimento, em 1911.) Não se pode inferir que a mesma impressão haja sido produzida em
quem ouvia os cantores homéricos e que não possuía um meio complexo e romantizado que
se tivesse deteriorado em sentimentalismo lacrimoso, para usá-lo como termo de
comparação.
58. Cf. Gebbard Kurz, Darstellungsformen menschlicher Dewegung in der Ilias,
Heidelberg, 1966, p. 50.
59. Essa é a teoria que Aristóteles atribui a Zenão; ver Physics, 239 b, 31. A teoria
manifesta-se com clareza no argumento da seta: ‘A seta, em seu vôo, está em repouso. De
fato, se tudo está em repouso quando ocupa um espaço igual a si mesmo e o que está em vôo,
em qualquer momento dado, sempre ocupa um espaço igual a si mesmo, não pode mover-se’
(de acordo com Physics, 239 b). Não podemos assegurar que a teoria tenha sido defendida
pelo próprio Zenão, mas é lícito supor que ela desempenhou um papel de relevo no tempo de
Zenão.
60. Kurz, loc. cit.
61. R. Lattimore, The Iliad of Homer, Chicago, 1951, pp. 39 e s.
62. Para o que segue, ver B. Snell, The Discovery of the Mind, Harper Torchbooks, 1960,
capítulo 1.
63. Snell, op. cit., p. 18.
64. Cf. Doods, The Greeks and the Irrational, Boston, 1957, capítulo 1.
65. Com algum esforço, a experiência pode ser reproduzida ainda hoje. Fase 1: deitar, fechar
os olhos e dar atenção às alucinações hipnogógicas. Fase 2: permitir que as alucinações
tomem seu rumo e sigam suas próprias tendên421
cias. Elas se transformam de eventos que se passam diante dos olhos em acontecimentos que
passam, gradualmente, a cercar a pessoa, mas sem torná-la participante ativo de uma ação
que ocorre no espaço-do-sonho, tridimensional. Fase 3: passar da condição de observador do
evento alucinatório para a condição de elemento integrante de um complexo de
acontecimentos reais que atuam sobre o observador e podem sofrer a sua ação. A fase 3 pode
ser invertida ou pela ação de uma vontade quase inexistente ou por um ruído exterior. O
cenário tridimensional transforma-se em cenário bidimensional, junta-se numa área diante
dos olhos e desaparece. Seria interessante estudar de que maneira esses elementos formais
variam de cultura para cultura. (Até o momento, só foram estudados os conteúdos de
sonhos, tendo-se dado atenção a elementos formais apenas enquanto partes da fase 3.)
66. Dizemos, hoje, que alguém é ‘dominado’ pelas emoções e esse alguém pode sentir a raiva
como um fator externo que o invade contra a sua vontade. A ontologia demoníaca dos
gregos contém uma terminologia objetiva para descrever esse aspecto de nossas emoções e,
assim, estabilizá-la.
67. A psicanálise e algumas ideologias correlatas contribuem novamente para que tais
eventos se integrem a contextos mais amplos, dando-lhes, pois, substância.
68. Dodds, op. cit., p. 6.
69. Wilamowitz-Moellendorf, Der Glaube der Helienen, 1, 1955, p. 17. Nossas concepções
do mundo subdividem um material que, sob outros prismas, é uniforme e criam diferenças
na percepção de luminosidade em locais onde a luminosidade objetiva carece de gradiente. O
mesmo processo atua na ordenação de impressões mais ou menos caóticas de nossa vida
interior, conduzindo a uma percepção (interior) de interferência divina — e pode, mesmo,
introduzir demônios, deuses e duendes no âmbito
422
das percepções exteriores. De qualquer modo, há um número apreciável de experiências
demoníacas e elas nos impedem de abandonar, a priori. a conjectura.
70. Significa isso que o êxito não resulta de esforço do indivíduo, mas é fruto de afortunado
ajuste de circunstâncias. Isso se exprime em palavras como ???????, que parece designar
atividades. Contudo, essas palavras, em Homero, não enfatizam o efeito do agente, mas o
fato de que o resultado ocorre de maneira apropriada — o processo que acarreta esse
resultado não enfrenta muitas perturbações, ajustando-se a outros processos que se
manifestam ao lado dele; no dialeto ático, ??????? ainda significa ‘Estou agindo bem’.
Analogamente, ??????? não enfatiza a conquista pessoal, mas o fato de que essas coisas vão
bem, ou seja, acomodam-se ao que as cerca. O mesmo vale para a aquisição do
conhecimento. ‘Ulisses viu muita coisa e passou por numerosas experiências; além disso ele
é o ??????????? que sabe como agir em situações novas e ele é o homem que obedece aos
preceitos de sua deusa Atena. A parte do conhecimento que resulta de ver não deflui, em
verdade, da atividade e da pesquisa do próprio Ulisses; simplesmente acontece, enquanto ele
é guiado pelas circunstâncias exteriores. Ulisses é bem diferente de Solon; este, como relata
Heródoto, foi o primeiro a viajar por motivos teóricos, porque se interessava pela pesquisa.
Em Ulisses, o conhecimento de muitas coisas acha-se curiosamente separado de sua
atividade no campo de ?????????: a atividade restringe-se a encontrar meios para alcançar
determinado objetivo, salvar a sua vida e a vida de seus companheiros.’ B. Snell, Die alten
Griechen und Wir, Göttingen, 1962, p. 48. Aí se encontra, ainda, análise pormenorizada
dos termos relevantes.
71. Exemplo: F. Schachermayer, Die frühe Klassik der Griechen, Stuttgart, 1966.
72. Cf. Wilamowitz-Moellendorf, op. cit.
423
73. M. P. Nilsson, A History of Greek Religion, Oxford, 1949, p. 152.
74. Dodds, p. 35.
75. Snell, The Discovery of Mind, p. 18.
76. Heráclito, segundo Diógenes Laércio, IX, L
77. A asserção de que Tales usou um princípio que expressava a unidade subjacente dos
fenômenos naturais e de que identificou esse princípio à água encontra-se em Aristóteles,
Metaphysics, 983 b 6-12 e 26 e ss. Estudo mais meticuloso dessa passagem e de algumas
outras e consulta a Heródoto sugere que ele pertence ao grupo de pensadores que cuidam de
muitos fenômenos extraordinários, realizam numerosas observações, mas não procuram
reuni-los em um sistema. Cf. a vívida apresentação de F. Kraft, em Geschichte der
Naturwissenschaften, 1, Freiburg, 1971, capítulo 3.
78. Fenômenos relativos à perspectiva são algumas vezes tratados como se fossóm
propriedades muito especiais dos objetos representados. Exemplificando, um vaso da Velha
Dinastia (Egito Antigo) apresenta uma indentação no topo, indicativa de perspectiva, mas
a indentação é apresentada como característica do próprio objeto; cf. Schäfer, op. cit., p. 266.
Alguns artistas gregos procuram encontrar situações em que a perspectiva não precisa ser
levada em conta. Assim, a peculiaridade do chamado estilo das figuras vermelhas (que surge
aproximadamente no ano 530 a.C.) ‘não consiste no fato de que há esboços em perspectiva,
mas no fato de que há novos e bem variados meios de evitá-los’; cf. E. Pfuhl, Malerei und
Zeichnung der Griechen, vol. I, Munique, 1923, p. 378.
79. Ver a discussão que se acha no primeiro capítulo do livro de A. J. Ayer, Foundations of
Empirical Knowledge. O exemplo é bem familiar aos antigos céticos.
80. Esta é, também, a maneira pela qual J. L. Austin enfrenta o caso. Cf. Sense and
Sensibilia, Nova Iorque, 1962. É
424
claro que problemas como o ‘problema da existência de entidades teóricas’ não podem
manifestar-se nestas circunstâncias. Todos esses problemas são criados pelo novo enfoque
— pelo qual se supera a ideologia aditiva dos tempos arcaicos e pré-arcaicos.
81. B. Snell, Die Ausdrücke für den Begriff des Wissens in der vorplatonischen
Philosophie, Berlim, 1924. Comentário breve aparece em Snell, Die alten Griechen und wir,
pp. 41 e ss. Ver, ainda, von Fritz, Philosophie und sprachliche Ausdruck bei Demokrit,
Plato, und Aristoteles, Leipzig-Paris-Londres, 1938.
82. Única vez em que aparece na Ilíada, de Homero, 15, 42; relativa à ????? de um
carpinteiro. (Latimore traduz ‘perito em carpintaria’.)
83. Cf. Snell, Ausdrücke, p. 50.
84. Cf. notas 15 e ss., e o texto do presente capítulo.
85. Cf. a nota 16.
86. Cf. a parte II de Hedwig Kenner, Das Theater und der Realismus in der Griechischen
Kunst, Viena, 1954, especialmente pp. 121 e s.
87. Evans-Pritchard, Social Anthropology, Free Press, 1965, p. 80.
88. Ibid., p. 80.
89. Ibid., p. 82.
90. Evans-Pritchard, The Nuer, Oxford, 1940, parte III cf., também, o resumo que se acha
em Social Anthropology, p. 120 e ss.
91. The Nuer, p. 103.
92. Achinstein, Minnesota Studies in the Philosophy of Science 4, Minneapolis, 1970, p.
224, afirma que ‘Feyerabend nos deve uma teoria do significado’ e Hempel dispõe-se a
aceitar a incomensurabilidade somente após se deixar clara a noção de significado que aí se
acha implícita, op. cit., p. 156.
425
93. No que segue, referir-me-ei a dois artigos de J. Giedymin, publicados no British Journal
for the Philosophy of Science, agosto de 1970, pp. 257 e ss., e fevereiro de 1971, pp. 39 e ss.
A referência far-se-á indicando apenas a página. Giedymin assevera que os problemas
lógicos não podem ser resolvidos utilizando unicamente a análise de documentos históricos
ou (pode-se presumir) os registros antropológicos; cf. p. 257.
94. Cf. a nota 93, para referência e contexto.
95. O processo é muito mais aleatório do que um racionalista estaria disposto a admitir, ou
suspeitar ou mesmo notar. Cf. von Kleist, ‘Über die allmähliche Verfertigung der Gedanken
beim Reden’, in Meisterwerke Deutscher Literaturkritik, ed. por Hans Meyer, Stuttgart,
1962, pp. 741-7. Hegel vislumbrou a situação. Cf. K. Loewith e J. Riedel, eds., Hegel,
Stüdienausgabe I, Frankfurt, 1968, p. 54.
96. Platão, Teeteto, 184 c. Ver, ainda, 1. Düring, Aristoteles, Heidelberg, 1966, p. 379,
criticando a exigência de Aristóteles, a solicitar precisão.
97. Objective Knowledge, Oxford, 1972, p. 6. Antecipado por A. Comte, Course, Lição 52.
98. Já se objetou (Ayer, G. E. L. Owen), afirmando que estamos diante de aparências, não
diante de eventos reais, e que a descrição correta seria ‘parece mover-se...’ Mas isso não
afasta a dificuldade. Com efeito, ao introduzir ‘parece’, o vocábulo surge no início da
sentença, que assume a forma ‘parece que se move e que não muda de lugar’. Considerando
que as aparências estão no domínio da psicologia fenomenológica, estabelecemos nossa tese,
a saber, a de que esse domínio contém elementos auto-inconsistentes.
99. E. Rubin, ‘Visual Figures Apparently Incompatible with Geometry’, Acta
Psychologica, VII, 1950, pp. 365 e ss.
426
100. E. Tranekjaer-Rasmussen, ‘Perspectoid Distances’, Acta P.sychologica, XI, 1955, p.
297.
101. Mach criticou a teoria da relatividade porque nela não se dava atenção aos fenômenos
psicológicos. Cf. a introdução de sua Physicoi Optics.
102. Graças, sobretudo, ao trabalho de lmre Lakatos, Proofs and Refutation’, British Journal
for the Philosophy of Science, 1962/63.
103. Além disso, as imprecisões que ele afasta do formalismo voltam a aparecer na relação
entre a teoria e o fato. Aqui, o princípio da correspondência é soberano. Cf. a nota 23 do
capítulo V.
104. Snell, Ausdrücke, p. 28 (aludindo a Homero) fala de um ‘conhecimento que brota das
aparências, reúne-as em um todo que é, a seguir estabelecido como sua verdadeira essência’.
Isso pode aplicar-se aos pré-socráticos, mas não se aplica a Homero. No caso de Homero, ‘o
mundo é entendido como soma de coisas, visíveis no espaço, e não como razão atuando
intensivamente’ (Snell, p. 67, discutindo Empédocles; cf., também, as linhas que vêm a
seguir, após a citação, para ver mais elaborado o tema).
105. Snell, Die alten Griechen um! Wir, p. 48.
106. Cf. Herácito, fr. 40 (Diels-Kranz).
107. Parmênides, fr. 7, 3. ‘Pela primeira vez, traça-se, aqui, o contraste entre o senso e
razão’; W. K. Guthrie, A History of Greek Philosophy, vol. II, Cambridge, 1965, p. 25.
108. Essa distinção também é traço característico de certas concepções mitológicas. Homero,
portanto, diverge tanto das mitologias anteriores quanto das filosofias posteriores. Seu
modo de ver é muito original. No século XX, J. L. Austin desenvolveu idéias similares; e ele
criticou o desenvolvimento desde Tales até o atual essencialismo, via Platão. Cf. o primeiro
capítulo de Sense and Sensibilia.
109. Snell, Ausdrücke, pp. 80 e 5.; von Fritz, Philosophie und
427
Sprachlicher Ausdruck bei Demokrit, Plato und Aristoteles Leipzig-Paris-Londres, 1938, p.
11.
110. ‘...transformando-se na encarnação da justiça cósmica, Zeus perde sua humanidade.
Assim, a religião do Olimpo, em sua feição moralizada, tendeu a transformar-se em uma
religião do medo...’, Dodds, Greeks, p. 35.
111. Snell, Discovery, p. 69.
112. A idéia de que o conhecimento consiste em listas remonta ao passado sumeriano, cf.
von Soden, Leistung und Grenzen Sumerisch-Babylonischer Wissenschaft, nova edição,
Darmstadt, 1965. A diferença entre a matemática e a astronomia babilônica e grega reside
precisamente nisso. Uma desenvolve métodos para a apresentação do que hoje denominamos
‘fenômenos’, eventos interessantes e relevantes, ocorridos no céu; enquanto a outra procura
elaborar a astronomia ‘deixando o céu de parte’ (Platão, Rep., 53 a e ss., Lgg., 818 a).
113. Xenófanes, fr. 34.
114. Transformações similares, aparecem na maioria dos escritos de Hanson.
115. ‘Para ser precisos, diremos que Homero nem chega a dispor de palavras para indicar
braços e pernas; fala de mãos, antebraços, parte superior do braço, pés, barriga da perna e
coxas. Nem há um termo abrangente para indicar o tronco.’ Snell, Discovery, capítulo 1,
nota 7.
116. ‘As emoções não surgem espontaneamente no homem, mas são a ele comunicadas pelos
deuses’, Snell, p. 52. Ver, também, o que foi dito anteriormente no presente capítulo.
117. Op. cit., p. 20.
118. Cf. o ‘doce-amargo Eros’ de Safo, Snell, p. 60.
119. Quanto a autoconsciência, cf. Karl Pribram, ‘Problems Concerning the Structure of
Consciousness’, manuscrito, Stanford, 1973.
428
120. O fato não é facilmente estabelecido. Muitas apresentações de A, inclusive algumas
muito pormenorizadas e requintadas, contaminam-se de conceitos-B. Um exemplo é dado
em nota 104 ao presente capítulo. Aqui, tal como em outras situações, somente o método
antropológico pode conduzir a conhecimento que seja mais do que um reflexo de desejos.
121. A. Parry, ‘The Language of Achilles’, Trans. & Proc. Amer. Phil. Assoc., 87, 1956, p.
6.
122. Diehl, Anthologia Lyrica2, fr. 79.
123. Pfuhl, op. cit.; cf., também, J. White, Perspective in Ancient Drawing and Painting,
Londres, 1965.
124. Plutarco relata a seguinte estória, em sua Vida de Solon: ‘Quando a companhia de
Téspis começou a representar tragédias e a novidade atraía a população, mas ainda não dava
lugar a competições públicas, Solon, gostando de ouvir e de aprender, e sendo muito dado,
em sua velhice, ao lazer e à diversão, e apreciando festas e música, foi ver Téspis atuar em
uma peça dele próprio, tal como era de uso em tempos antigos. Solon aproximou-se de
Téspis, após a representação, e perguntou-lhe se ele não se envergonhava de dizer tantas
mentiras a tantas pessoas. Quando Téspis respondeu que nada havia de chocante no
representar aquelas obras e ações, dando-lhes o aspecto de fantasia, Solon golpeou
violentamente o chão com seu cajado: “Se aplaudimos estas coisas em caráter de
brincadeira”, disse ele, “logo nos encontraremos a honrá-las a sério” ’. O relato parece não
ter fundamento histórico, porém mostra uma atitude muito comum (quanto a essa atitude,
cf. capítulo 8 de John Forsdyke, Greece before Homer, Nova Iorque, 1964). Solon, porém, ao
que parece, impressinou-se algo menos com as tradicionais formas de pensamento e talvez
haja sido um dos primeiros atores dramáticos (da variedade política): cf. G. Else, The
Origin and Early Form of Tragedy, Cam-
429
bridge, 1965, pp. 40 e ss. A atitude contrária, que revela o seguro e já um tanto vaidoso
cidadão de B, é expressa por Sinionides, que responde à indagação de porque os tessalianos
não se deixaram iludir por ele, dizendo ‘Porque são muito estúpidos’. Plutarco, De aud.
poet., 15 D.
125. Capítulo XII, texto correspondente à nota 4.
126. Isso é esquecido por Hanson, que parece esperar que cada transformação conceptual
importante dominará, de imediato, nossas percepções. Para minúcias, cf. nota 52 e texto
correspondente, de meu ‘Reply to Criticism’, Boston Studies in the Philosophy of Science,
vol. 2, Nova Iorque, 1965.
127. Isso responde a uma crítica incluída em nota 63, do artigo de Shapere, publicado em
Mind and Cosmos, Pittsburgh, 1966. As classificações a que os princípios levam são
‘implícitas’, no sentido de Whorff: cf., acima, nota 4 e texto que se estende até a nota 9.
128. A observação de Lakatos (‘Falsification’, op. cit., p. 179, nota 1), segundo a qual
‘podemos tornar comparáveis’ concepções não comparáveis, recorrendo a ‘um dicionário’,
continua a refletir a atitude dos antropologistas mais antigos. O mesmo ocorre com a
observação de Giedymin, de acordo com a qual ‘quaisquer duas linguagens e quaisquer duas
teorias podem ser transformadas em logicamente comparáveis’ (British Journal for the
Philosophy of Science, vol. 21, 1970, p. 46), exceto pelo fato de ele acrescentar a ressalva ‘se
não forem impostas restrições no que concerne à extensão de vocabulário e regras de
significado’. No caso da antropologia, temos, é claro, importante restrição que é: conservarse
tão próximo quanto possível da linguagem que está sendo falada por certa tribo. Na
filosofia da ciência, a situação é exatamente a mesma. Desejamos descobrir os princípios
da transformação científica, ou seja, queremos descobrir como teoria de Newton, na
forma em que se apresen-
430
tava por volta de 1900 (quando Einstein buscava princípios físicos de caráter geral, que
pudessem ser conservados em meio da revolução das idéias clássicas), se relaciona com a
relatividade, tal como concebida por Linstein e não como transformadas versões de Newton
e Einstein (suscetíveis de serem expressas na mesma linguagem e, portanto, facilmente
penetrando uma em outra) se relacionam entre si. Concordo com Giedymin em que ‘o
racionalismo, de acordo com a caracterização de Popper, exige que haja uma linguagem
comum para formular o argumento crítico’ (p. 47). Mas o ponto que levanto é o de indagar
se a ciência — que é a sucessão das fantásticas teorias criadas por seus inventores e não o
reflexo atenuado desse processo, nos espíritos dos lógicos e dos ‘racionalistas’ — conhece
essa linguagem comum e se a tentativa de empregar tal linguagem não levaria à estagnação.
Para responder a esse ponto, devemos contemplar a ciência como ela é e não como parece,
depois de haver sido tornada ‘racional’. As respostas que colhemos seguindo esse caminho
serão, provavelmente, fora do comum e excitantes: cientistas como Binstein são pessoas fora
do comum e excitantes, muito mais excitantes do que seus ‘explicadores’ lógicos podem
aspirar a ser.
129. Quanto a uma interessante discussão da situação em antropologia social, cf. capítulo
4, parte 1, de E. E. Evans-Pritchard, Social Anthropology and Other Essays, Free Press,
1974, especialmente pp. 82, começo, 83 fim do 2º. parágrafo, 85: ‘pessoas pertencentes a
culturas diversas notarão fatos diversos e os perceberão de maneiras diferentes. Na medida
em que isso é verdade, os fatos registrados em nossos livros de nota não são fatos sociais,
mas fatos etnográficos, com seleção e interpretação ocorridas ao nível da observação...’
Isso, naturalmente, é também verdade a propósito de estudos de caso
431
em ciência, inclusive aqueles em que se faz emprego de impressionante maquinaria lógica.
130. ‘O fato é que mesmo línguas totalmente diferentes (como o inglês e o hopi ou o chinês)
admitem tradução de uma para outra e há muitos hopis e chineses que aprenderam a
dominar muito bem o inglês’, escreve Popper (‘Normal Science and its Dangers’, Criticism
and the Growth of Knôwledge, op. cit., p. 56). Esquece ele que uma tradução adequada
sempre se faz com alguma violência seja ao inglês, seja à outra língua. Quem jamais negou
que as pessoas possam aprender a movimentar-se em esquemas mutuamente
incomensuráveis? Essa mesma observação aplica-se à anotação de Post (p. 253 de seu
ensaio), segundo a qual, ‘não há barreiras de comunicação entre as sucessivas teorias, pelo
menos — desde o século XVI’. O fato de a possibilidade de comunicação não acarretar
comparabilidade de significado (comensurabilidade) decorre desta consideração (que recolho
em Kürner, Categorical Frameworks, Oxford, 1971, p. 64): duas pessoas, A e B, talvez
falem duas línguas incomensuráveis, X e Y; sem embargo, A, interpretando cada sentença
de B, como enunciadora de uma afirmativa em X, e B, interpretando cada sentença de A
como enunciadora de uma afirmativa em Y, podem entender-se facilmente dentro de certo
limite: ‘duas proposições g e h podem encerrar conteúdo informativo comum para A e B,
ainda que g seja incompatível com os princípios constitutivos e individuadores da estrutura
categórica de A e que Y seja incompatível com os princípios individuadores e constitutivos
da estrutura categórica de A’. Insisto fortemente em que o leitor tenha à mão o livro de
Körner, enquanto acompanha minha exposição a propósito de incomensura-bilidade (que é
muito mais frustradora para os lógicos).
432
131. Cf. o Malleus Malleficarum, trad. Summers, Londres, 1928, parte II, capítulo IV,
questão I. A teoria remonta a São Tomás de Aquino.
132. Bohr adverte-nos (Zs. Physik, vol. 13, 1922, p. 144) ‘de que a conexão assintótica’
entre a teoria quântica e a física clássica ‘tal como admitida pelo princípio de
correspondência... não acarreta, em absoluto, o desaparecimento gradual da diferença entre
o tratamento teorético-quântico dos fenômenos de radiação e as idéias da eletrodinâmica
clássica; tudo quanto se afirma é uma concordância assintótica de resultados numéricos
estatísticos’. Em outras palavras, o princípio da correspondência afirma concordância entre
números, não entre conceitos. Segundo Bohr, essa concordância entre números chega a
apresentar certa desvantagem, pois ‘obscurece a diferença de princípio entre as leis que
governam o mecanismo real dos microprocessos e as leis contínuas do ponto de vista
clássico’ (p. 129; cf. também Atomic Theory and the Description of Nature, Cambridge,
1932, pp. 85 e 87 e ss.) Bohr, portanto, acentuou repetidamente que ‘o princípio de
correspondência há de ser encarado como uma lei puramente quantum-teorética que de
modo algum reduz o contraste entre os postulados [da existência de estados estacionários e
o postulado da transição] e a teoria eletromagnética’ (Ibid., p. 142, nota). As dificuldades
que surgem do ignorar tal situação foram muito claramente explicadas pelo falecido N. R.
Hanson em Patterns of Discovery, op. cit., capítulo 6; cf., também, meus comentários em
Phil. Rev., vol. 69, especialmente p. 251. Delas não se dão conta os racionalistas chãos que
inferem a continuidade dos conceitos a partir da existência de aproximações; cf. ensaio de
Popper em Criticism, op. cit., p. 57.
433
133. Cf. minha explanação da teoria do ímpeto em Minnesota Studies in the Philosophy of
Science, op. cit., vol. 3.
134. ‘Meaning and Scientific Change’, in Mind and Cosmos, ed. R. Colodny, Pittsburgh,
1966, p. 78.
135. Loc. cit.
136. Cf. A. Koyré, ‘The Significance of the Newtonian Synthesis’ in Newtonian Studies,
Londres, 1965, pp. 9 e ss.
137. A suspeita foi levantada pelo professor Hempel, em uma discussão no ‘Minnesota
Center for the Philosophy of Science’, cf. Minnesota Studies, vol. IV, Minneapolis, 1970,
pp. 236 e ss.
138. Isso parece ocorrer em algumas versões da teoria geral da relatividade, cf. Einstein-
Infeld-Hoffmann, Ann. Math., vol. 39, 1938, p. 65, e Sen, op. cit., pp. 19 e ss.
139. Essa consideração foi erigida em princípio por Bohr e Rosenfeld, Kgl. Danske
Videnskab, Selskab Math.-Phs. Medd., vol. 12, nº 8, 1933 e, mais recentemente, por
Marzke e Wheeler, in ‘Gravitation and Geometry I’, op. cit., p. 48: ‘Cada teoria adequada
deveria proporcionar, em e por si mesma, seus próprios meios de definir as quantidades com
que opera. Segundo esse princípio, a relatividade geral clássica deveria admitir calibrações
de espaço e tempo inteiramente livres de qualquer referência a [objetos que são externos] ela,
tais como réguas rígidas, relógios inerciais ou relógios atômicos [que envolvem] o quantum
de ação’. Seus termos deveriam, ainda, estar livres da contaminação de conceitos de
observação, que se filiam a um estágio anterior e mais primitivo do conhecimento.
140. Ver nota 13, do capítulo XII.
141. Um princípio ainda mais conservador é por vezes utilizado quando se examina a
possibilidade de linguagens dotadas de uma lógica diferente da nossa: ‘uma possibilidade
supostamente nova há de ser suscetível de ver-se acomodada a nosso presente aparato
conceptual ou
434
lingüístico ou de ver-se entendida em termos deles’. B. Straud, ‘Conventionalism and the
Indeterminacy of Translation’, Synthese, 1968, p. 173. A idéia de que uma linguagem nova
há de ser ensinada com o auxílio de uma estável linguagem de observação deriva da tradição
empírica e especialmente das concepções acerca de reconstrução lógica surgidas no Círculo
de Viena. Segundo essas concepções, o conteúdo empírico de uma teoria (ou de algum
idioma comum) se determina indagando quanto da teoria (ou do idioma) pode ser traduzido
em uma linguagem ideal cujas características empíricas sejam de fácil determinação. As
teorias são consideradas significativas até a medida em que essa tradução possa ocorrer.
Com base nessas concepções, era natural tentar relacionar a aquisição de uma linguagem
nova à linguagem ideal escolhida. Entretanto, logo se viu que as linguagens ideais não são
fáceis de elaborar e que mesmo os primeiros e mais elementares passos enfrentam
dificuldades inteiramente ausentes da física. Além disso, o conceito de ‘bases’ escolhidas, de
reconstrução, teve de ser gradualmente enriquecido para colocar-se à altura da
intersubjetividade dos termos científicos. Uma série de desenvolvimentos dessa espécie,
poucos deles claramente compreendidos ou mesmo reconhecidos, conduziu à gradual
substituição da idéia de reconstrução pela idéia de interpretação e levou, daí, à idéia de
ensino (cf. a crítica perspicaz que Hempel faz da situação atual em Minnesota Studies, vol.
4, Minneapolis, 1970, pp. 162 e ss.). O desenvolvimento, com seus erros e omissões, com o
seu gradual passar de uma para outra posição, é desconhecido de J. Giedymin (B. J. P. S.,
22, 1971, pp. 40 e ss.), que me critica por tomá-lo em conta. A ignorância de Giedymin não
surpreende porque ele se recusa, explicitamente, a dar importância à História (B. J. P. S.,
21, 1970, p. 257).
435
142. Quanto ao que segue, cf. também minha recensão de Nagel, Structure of Science, in B.
J. P. S., vol. 6, 1966, pp. 237-49.
143. Carnap, op. cit., p. 40; cf., também, Hempel, Philosophy of Natural Science, Nova
Iorque, 1966, pp. 74 e ss.
144. Por esse motivo, Leibniz considerava o alemão de seu tempo e especialmente o alemão
dos artífices como perfeita linguagem de observação, enquanto, para ele, o latim já se achava
demasiado contaminado por noções teoréticas. Ver seu ‘Unvergreifliche Gedancken,
betreffend die Ausuebung und Verbesserung der Deutschen Sprache’, Wissenschaftliche
Beihefte zur Zeitschrif des allgemeinein deutschen Sprachvereins, IVª. série, fascículo 29,
Berlim, 1907, pp. 292 e ss.
145. Para exemplo de tais descrições, cf. Synge, ‘Introduction to General Relativity’, seção
II, in Relativity Groups and Topology, ed. D. Witt e De Witt, 1964. Para maneira ainda
mais elegante de introduzir a relatividade, cf. Bondi, Assumtions and Myth in Physical
Theory, Cambridge, 1967, pp. 29 e ss. (o cálculo-k).
146. Como faz Popper, op. cit., p. 57.
147. Popper, op. cit.
148. Essa dificuldade foi levantada por Roger Buck, numa discussão no Minnesota Center,
cf. Minnesota Studies, vol. 4, p. 232.
436
Ilustração A. Ajax e Aquiles, jogando dados. Museu do Vaticano. (Cortesia do Museu do
Vaticano)
437
Ilustração B. Vaso do Cemitério de Diplon, Atenas. Meados do Oitavo Século. (Cortesia da
Coleção Mansell)
438
Ilustração C. Vaso funerário ateniense de 750 a.C., aproximadamente.
Museu Nacional de Atenas. (Cortesia da Coleção Mansell)
439
Ilustração D. Vaso guerreiro, da Acrópole de Micenas, de 1200 a.C., aproximadamente.
Museu Nacional de Atenas. (Cortesia da Coleção Mansell)
Ilustração E. Pormenor da ilustração C: carro de corridas ou carro de guerra, com seus
aurigas.
440
Apêndice V

Whorff refere-se a ‘Idéias’ e não a ‘eventos’ ou a ‘fatos’ e nem sempre se pode saber, com
clareza, se ele aprovaria a extensão que empresto a suas concepções. De uma parte, diz ele
que ‘tempo, velocidade e matéria não são essenciais para a construção de um coerente
quadro do universo’ (p. 216) e afirma que ‘retalhamos a natureza, organizamo-la em
conceitos e lhes atribuímos certas significações porque, em grande parte, manifestamos
tendenciosidade ao concordar em assim organizá-la’ (p. 213). Isso parece implicar que
línguas muito diversas postulam não só idéias diferentes para a organização dos mesmos
fatos, mas postulam também diferentes fatos, O ‘princípio da relatividade lingüística’
parece apontar para a mesma direção. Assevera, ‘em termos não-formais, que os usuários de
gramáticas acentuadamente diversas são impelidos por essas gramáticas para diferentes
tipos de observação e para diferente apreciação de atos de observação, externamente
similares; em conseqüência, os usuários não se equivalem como observadores, mas hão de
chegar a concepções do mundo um tanto diferentes’ (p. 221). Contudo, os ‘enunciados
mais formais’ (p. 221) do princípio já contêm um elemento diverso,
443
pois nos dizem que ‘nem todos os observadores da mesma evidência física são levados a
formar o mesmo quadro do universo, a não ser que tenham alicerces lingüísticos similares
ou que tais alicerces possam ser compatibilizados’ (p. 214, grifo meu)— podendo significar
isso que observadores usuários de linguagens muito diversas postularão fatos diferentes nas
mesmas circunstâncias físicas de idêntico mundo físico ou significar que disporão fatos
similares de maneiras diferentes. A segunda interpretação encontra algum apoio nos
exemplos dados, onde se diz que diferentes partes isoladas de significado em inglês e em
shawnee são ‘usadas para relatar a mesma experiência’ (p. 208) e onde lemos que ‘as
linguagens classificam diferentemente os itens da experiência’ (p. 209); a experiência é
encarada como uniforme provisão de fatos,. diferentemente classificados por diferentes
linguagens. A mesma segunda interpretação encontra apoio adicional na descrição que faz
Whorff da transição da explicação dos fenômenos barométricos pelo horror vacui para a
explicação pela teoria moderna: ‘Tempo já houve em que essas sentenças [Por que a água
sobe nas bombas? Porque a natureza tem horror ao vácuo.] pareceram satisfatórias à lógica;
hoje são vistas como expressões próprias de um jargão particular, mas isso não ocorreu por
haver a ciência descoberto fatos novos. A ciência adotou formulações lingüísticas novas com
respeito a velhos fatos e agora, quando estamos familiarizados com o dialeto novo, certas
características do antigo não mais se impõem a nós’ (p. 222). Todavia, considero esses
enunciados mais conservadores como secundários quando comparados com a grande
influência atribuída a categorias gramaticais e, especialmente, aos mais encobertos ‘sistemas
de relação’ de uma linguagem (pp. 68 ss.). Talvez alguns filósofos desejem relacionar a
incomensurabilidade com as questões provocadas pelo que foi denominado ‘tradução
radical’. Tanto quanto me é dado perceber, isso não traz qualquer vantagem. A tradução
radical é uma trivialidade lançada sobre uma descoberta filosófica importante: nem o
444
comportamento nem dados de observação de tipo mais subjetivo poderão jamais determinar
as interpretações (quanto a este ponto, cf. meu artigo ‘Towards a Realistic Interpretation of
Experience’, Proceedings of the Aristotelian Society, 1958). E a posterior ramificação dessa
trivialidade (tal como o hipopótamo refrigerado, de Davidson) só pôde ocorrer porque os
filósofos da linguagem não estão, ao que parece, familiarizados com os problemas, as
técnicas e as objeções feitas ao convencionalismo. Além disso, nosso problema é de fato
histórico e não de possibilidade lógica.
445
XVIII
Dessa forma, a ciência aproxima-se do mito, muito mais do que uma filosofia científica se
inclinaria a admitir. A ciência é uma das muitas formas de pensamento desenvolvidas pelo
homem e não necessariamente a melhor. Chama a atenção, é ruidosa e impudente, mas só
inerentemente superior aos olhos daqueles que já se hajam decidido favoravelmente a certa
ideologia ou que já a tenham aceito, sem sequer examinar suas conveniências e limitações.
Como a aceitação e a rejeição de ideologias devem caber ao indivíduo, segue-se que a
separação entre o Estado e a Igreja há de ser complementada por uma separação entre o
Estado e a ciência, mais recente, mais agressiva e mais dogmática instituição religiosa. Tal
separação será, talvez, a única forma de alcançarmos a huma-nidade de que somos capazes,
mas que jamais concre-tizamos.
447
A idéia de que a ciência pode e deve ser elaborada com obediência a regras fixas e
universais é, a um tempo, quimérica e perniciosa. É quimérica pois implica visão demasiado
simplista das capacidades do homem e das circunstâncias que lhes estimulam ou provocam
o desenvolvimento. E é perniciosa porque a tentativa de emprestar vigência às regras
conduz a acentuar nossas qualificações profissionais em detrimento de nossa humanidade.
Além disso, a idéia é prejudicial à ciência, pois leva a ignorar as complexas condições físicas
e históricas que exercem influência sobre a evolução científica. Torna a ciência menos
plástica e mais dogmática: cada qual das regras metodológicas se vê associada a
pressupostos cosmológicos, de modo que, recorrendo à regra, damos por admitido que os
pressupostos sejam corretos. O falseamentismo ingênuo dá por admitido que as leis da
natureza se apresentem de maneira clara e não oculta por perturbações de magnitude
considerável, O empirismo aceita que a experiência sensória seja melhor espelho do mundo
que o pensamento. O culto do argumento tem como certo que os manipuladores da
Razão oferecem resultados melhores que os do jogo incerto de nossas emoções. Talvez
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que esses pressupostos sejam plausíveis e até mesmo verdadeiros. Não obstante, convém, de
tempos em tempos, submete-los a exame. Submetê-los a exame significa deixar de utilizar a
metodologia a eles associada, passar a praticar a ciência de maneira diversa e verificar o que
vem a ocorrer. Casos específicos, tais como os relatados nos capítulos anteriores, mostram
que os exames referidos se estão continuamente realizando e que falam contra a validez
universal de qualquer regra. Todas as metodologias têm limitações e só a ‘regra’ do ‘tudo
vale’ é capaz de manter-se.
A alteração da perspectiva decorrente dessas descobertas conduz, uma vez mais, ao
longamente esquecido problema do mérito da ciência. A ele conduz pela primeira vez na
história moderna, pois que a ciência moderna se impôs a seus oponentes, não os convenceu.
A ciência dominou pela força, não através de argumentos (isso é especialmente verdadeiro
no que se refere às primeiras colônias, onde a ciência e a religião do amor fraternal foram
introduzidas como algo natural, sem consulta aos habitantes e sem lhes ouvir argumentos).
Hoje, damo-nos conta de que o racionalismo, inclinando-se para a ciência, não pode ser de
qualquer valia em face da pendência entre ciência e mito e damo-nos conta, ainda, graças a
investigações de caráter inteiramente diverso, que os mitos são muito mais válidos do que os
racionalistas têm ousado admitir1. Somos, assim, forçados a suscitar a questão do mérito da
ciência. Exame do assunto revela que ciência e mito se superpõem sob muitos aspectos, que
diferenças aparentemente perceptíveis são, com freqüência, fenômenos localizados que, em
outros pontos, se transformam em similaridades e que as discrepâncias fundamentais
resultam antes de propósitos diversos do que de métodos diferentes a tentarem alcançar um
único e mesmo fim ‘racional’ (como ‘progresso’, ou ‘aumento de conteúdo’, ou
‘crescimento’).
Para colocar em evidência as surpreendentes similaridades entre o mito e a ciência,
examiuarei, de maneira breve, o interessante artigo de Robin Horton, intitulado
‘African Traditional
450
Thought and Western Science’2. Horton estuda a mitologia africana e aponta as seguintes
características: a busca de teoria é busca da unidade subjacente à complexidade que se
percebe. A teoria dispõe as coisas em um contexto causal mais amplo que o contexto causal
propiciado pelo senso comum: tanto a ciência quanto o mito recobrem o senso comum de
uma superestrutura teorética. Há teorias de diferentes graus de abstração e elas são
utilizadas de acordo com os diferentes requisitos de explicação que se colocam. A construção
de teoria consiste em partir os objetos do senso comum para reunir os fragmentos de
maneira diversa. Os modelos teoréticos nascem da analogia, mas gradualmente se
distanciam do padrão em que a analogia se apoiava. E assim por diante.
Essas características, definidas a partir do estudo de casos, levado a efeito de modo não
menos cuidadoso e pormenorizado que o de Lakatos, refutam a idéia de que a ciência e o
mito obedeçam a diferentes princípios de formação (Cassirer), que o mito se instaura sem
reflexão (Dardel) ou especulação (Frankfort, ocasionalmente). Nem cabe acolher a idéia,
defendida por Malinowski e também por eruditos clássicos, tais como Harrison e Cornford,
de que o mito exerce função essencialmente pragmática ou se baseia em ritual. O mito está
muito mais próximo da ciência do que se poderia esperar com base em uma discussão
filosófica. Está mais próximo da ciência do que o próprio Horton se inclinaria a admitir.
Para percebê-lo, consideremos algumas das diferenças acentuadas por Horton. Segundo
ele, as idéias centrais do mito são vistas como sagradas. Teme-se que sofram ameaças.
‘Quase nunca se depara com uma confissão de ignorância’ e eventos ‘que fogem fortemente
às linhas de classificação admitidas pela cultura em que ocorrem’ despertam a ‘reação do
tabu’4. As crenças básicas são protegidas por essa reação e também pelo artifício das
‘elaborações secundárias’5 que, em nossos tempos, são séries de hipóteses ad hoc. A ciência,
de outra parte, se caracteriza por um ‘ceticismo essencial’6; ‘quando as falhas se
451
acumulam rapidamente, a defesa da teoria se transforma inexoravelmente em ataquè a ela’7.
Isso é possível devido à ‘abertura’ do empreendimento científico, devido ao pluralismo das
idéias que encerra e também devido a que ‘tudo quando escapa ou deixa de amoldar-se ao
estabelecido sistema de categorias não é visto como aterrador, como algo a ser isolado e
repudiado. É, pelo contrário, um ‘fenômeno’ intrigante — ponto de partida e desafio para a
criação de novas classificações e de novas teorias’8 . Vê-se que Horton absorveu bem as
lições de Popper9. Um estudo de campo a propósito da ciência leva-nos a descortinar quadro
muito diverso.
Revela esse estudo que, embora alguns cientistas possam agir segundo o esquema
descrito, a grande maioria segue trilha diferente. O ceticismo é mínimo; dirige-se contra a
maneira de ver dos oponentes e contra ramificações secundárias das idéias fundamentais
que se defende, mas nunca se levanta contra as próprias idéias básicas10. Atacar idéias
básicas desperta reações de tabu que não são menos intensas do que as reações de tabu nas
chamadas sociedades primitivas11. As crenças básicas são protegidas por essa reação e,
como vimos, por elaborações secundárias; e tudo quanto deixa de acomodar-se ao
estabelecido sistema de categorias é declarado incompatível com tal sistema ou é encarado
como algo escandaloso ou, mais freqüentemente, é simplesmente considerado como nãoexistente.
A ciência não está preparada para fazer do pluralismo teorético o fundamento da
pesquisa. Newton dominou por mais de 150 anos; Einstein introduziu, por curto espaço de
tempo, um ponto de vista mais liberal, mas viu-se sucedido pela Interpretação de
Copenhague. As semelhanças entre ciência e mito são inegavelmente de espantar.
Os campos estão, entretanto, ainda mais estreitamente relacionados. O dogmatismo
pesado a que fiz alusão não é apenas um fato, mas desempenha também importantíssima
função. Sem ele seria impossível a ciência12. Pensadores ‘primitivos’ mostraram maior
percepção da natureza do conhecimento do
452
que seus ‘esclarecidos’ rivais filosóficos. Torna-se necessário, pois, reexaminar nossa atitude
em face do mito, da religião, da magia, da feitiçaria e em face de todas aquelas idéias que os
racionalistas gostariam de ver para sempre afastadas da superfície da Terra (sem ter-lhes
prestado maior atenção — típica reação de tabu).
Há outra razão para que o reexame se torne urgentemente necessário. O surgimento da
ciência moderna coincide com a supressão das tribos não-ocidentais pelos invasores
ocidentais. As tribos não são apenas fisicamente suprimidas, mas perdem a independência
intelectual e se vêem forçadas a adotar a sangüinária religião do amor fraternal — o
Cristianismo. Os membros mais inteligentes conseguem uma vantagem adicional: são
iniciados nos mistérios do Racionalismo Ocidental e no que é sua culminância —a ciência
ocidental. Por vezes, isso conduz a um quase intolerável conflito com a tradição (Haiti). Na
maioria dos casos, a tradição desaparece sem deixar o traço de um argumento e as pessoas
simplesmente se tornam escravas, de corpo e espírito. Hoje, esse desenvolvimento sofre
gradual inversão — há grande relutância, indubitavelmente, mas a inversão se processa.
Volta-se a ganhar liberdade, as velhas tradições são redescobertas, quer pelas minorias dos
países ocidentais, quer pelas grandes populações de países não-ocidentais. Contudo, a
ciência continua a reinar soberana. Reina soberana porque seus praticantes são incapazes de
compreender e não se dispõem a tolerar ideologias diferentes, porque têm força para impor
seus desejos e porque usam essa força como seus ancestrais usaram a força de que eles
dispunham para impor o cristianismo aos povos que iam encontrando em suas conquistas.
Assim, embora um norte-americano possa, agora, abraçar a religião de seu gosto, não lhe é
permitido pedir que, na escola, seus filhos aprendam mágica e não a ciência. Existe
separação entre Estado e Igreja, não existe separação entre Estado e ciência.
453
Contudo, a ciência não tem autoridade maior que a de qualquer outra forma de vida.
Seus objetivos não são, por certo, mais importantes que os propósitos orientadores de uma
comunidade religiosa ou de uma tribo que se mantém unida graças a um mito. De qualquer
modo, não há por que esses objetivos possam restringir as vidas, os pensamentos, a educação
dos integrantes de uma sociedade livre, onde cada qual deve ter a possibilidade de decidir
por si próprio e de viver de acordo com as crenças sociais que tenha por mais aceitáveis. A
separação entre Estado e Igreja deve, portanto, ser complementada pela separação entre
Estado e ciência.
Não há a temer que tal separação leve a um colapso da tecnologia. Sempre haverá pessoas
que preferirão ser cientistas a ser donos de seus destinos e que se submeterão alegremente à
mais desprezível forma de escravidão (intelectual e institucional), contanto que se vejam
bem pagas e que tenham em torno de si quem lhes examine o trabalho e lhes cante louvores.
A Grécia se desenvolveu e progrediu porque pôde contar com os serviços de escravos, a essa
condição involuntariamente reduzidos. Nós nos desenvolveremos e progrediremos com o
auxílio de numerosos escravos voluntários, a trabalhar em universidades e laboratórios e a
nos proporcionar pílulas, gás, eletricidade, bombas atômicas, refeições congeladas e,
ocasionalmente, uns poucos e interessantes contos de fadas. Trataremos bem esses escravos,
chegaremos a dar-lhes ouvidos, pois, vez por outra, terão relatos interessantes a fazer, mas
não lhes permitiremos impor a própria ideologia a nossos filhos, sob o disfarce de teorias
‘progressistas’ de educação13. Não lhes permitiremos que ensinem as fantasias da ciência
como se fossem enunciados factuais de realidade. Talvez a separação entre Estado e ciência
constitua a única oportunidade que teremos de sobrepujar o barbarismo febril de nossa era
técnico-científica, atingindo a humanidade que está a nosso alcance, mas que jamais
concretizamos inteiramente14. Reexaminemos, para concluir, os argumentos que podem ser
aduzidos em prol de tal procedimento.
454
No espírito de cientistas e de leigos, a imagem da ciência do século XX é decorrência de
milagres tecnológicos, tais como a televisão em cores, as viagens à Lua, o forno a raios
infravermelhos e de informações vagas, mas nem por isso de menor força — algo como
histórias fantasiosas — a propósito de como surgem tais milagres.
Segundo essas histórias fantasiosas, o êxito da ciência é o resultado de combinação sutil,
mas cuidadosamente dosada, de inventividade e controle. Os cientistas têm idéias e dispõem
de métodos especiais para desenvolvê-las. As teorias da ciência foram aprovadas no teste do
método. Proporcionam melhor visão do mundo que idéias não passadas pelo crivo desse
teste.
A história fantasiosa explica por que a sociedade moderna dá à ciência tratamento
especial e por que lhe concede privilégios que não beneficiam outras instituições.
Idealmente, o Estado moderno é ideologicamente neutro. A religião, o mito, os
preconceitos exercem influência, mas tão-somente de forma indireta, através de partidos
politicamente atuantes. Princípios ideológicos podem ingressar na estrutura
governamental, mas apenas por meio de um voto majoritário e após longa discussão das
possíveis conseqüências. Em nossas escolas, as principais religiões são ensinadas em termos
de fenômenos históricos. São ensinadas como parte da verdade, na dependência de os pais
insistirem em mais direta forma de instrução. A eles cabe decidir quanto à educação
religiosa dos filhos. O apoio financeiro às ideologias não excede o apoio financeiro dado a
partidos e a grupos privados. Estado e ideologia, Estado e Igreja, Estado e mito estão
cuidadosamente separados.
Estado e ciência, entretanto, atuam em estreita ligação. Somas imensas são gastas no
desenvolvimento de idéias científicas. Disciplinas espúrias, como a filosofia da ciência, que
não têm a seu crédito qualquer descoberta, beneficiam-se do crescimento explosivo das
ciências. Até as relações humanas são tratadas de maneira científica, tal como
evidenciam os projetos
455
de educação, as propostas de reforma penitenciária e assim por diante. Quase todos os
assuntos científicos são matérias obrigatórias em nossas escolas. Se os pais de uma criança
de seis anos podem decidir se ela receberá rudimentos de protestantismo ou de judaísmo ou
se não terá instrução religiosa alguma, não gozam esses pais da mesma liberdade no que
respeita à ciência. Física, Astronomia, História devem ser estudadas. Não podem ser
substituídas por mágica, astrologia ou por um estudo das lendas.
E nem basta uma apresentação apenas histórica dos fatos e princípios físicos
(astronômicos, históricos, etc.). Não se diz algumas pessoas acreditam que a Terra se move
em torno do Sol, enquanto outras consideram que a Terra é uma esfera oca, onde se contêm
o Sol, os planetas, as estrelas fixas. Diz-se: a Terra gira em torno do Sol —e tudo o mais é
pura idiotia.
A maneira como aceitamos ou rejeitamos idéias científicas é, por fim, radicalmente
diversa dos processos de decisão democrática. Aceitamos leis científicas e fatos científicos,
ensinamo-los nas escolas, tornamo-los a base de importantes decisões políticas, sem,
contudo, havê-los submetido a votação. Os cientistas não os submetem a votação — ou, pelo
menos, assim dizem proceder — e os leigos por certo que não os submetem a voto. Propostas
concretas são, por vezes, objeto de debate e sugere-se votação. Todavia, o processo não se
aplica a teorias gerais e a fatos científicos. A sociedade moderna é ‘copernicana’, mas não
porque a doutrina de Copérnico haja sido posta em causa, submetida a um debate
democrático e então aprovada por maioria simples; é ‘copernicana’ porque os cientistas são
copernicanos e porque lhes aceitamos a cosmologia tão acriticamente quanto, no passado, se
aceitou a cosmologia de bispos e cardeais.
Até mesmo pensadores audazes e revolucionários se curvam ao juízo da ciência.
Kropotkin deseja destruir todas as instituições existentes — ma não toca na ciência. Ibsen
aprofunda-se no desmascarar as condições da humanidade contemporânea —
456
mas - conserva a ciência, em que vê medida da verdade. EvansPritchard, Lévi-Strauss e
outros reconheceram que o ‘Pensamento Ocidental’, longe de ser um pico isolado no
desenvolvimento da humanidade, é perturbado por problemas que não estão presentes em
outras ideologias — mas excluem a ciência da relativização das formas de pensamento. Para
eles, a ciência é uma estrutura neutra, encerrando conhecimento positivo, que é
independente de cultura, ideologia ou preconceito.
A razão desse tratamento especial está, sem dúvida, em nosso pequeno conto de fadas: se
a ciência encontrou método que transforma concepções ideologicamente contaminadas em
teorias verdadeiras e úteis, a ciência não é mera ideologia, porém medida objetiva de todas as
ideologias. Não cabe, portanto, a exigência de separação entre Estado e ideologia.
Contudo, o conto de fadas é, como vimos, falso. Não há método especial que assegure o
êxito ou o torne provável. Os cientistas não resolvem os problemas por possuírem uma
varinha de condão — a metodologia ou uma teoria da racionalidade — mas porque
estudaram o problema por longo tempo e conhecem bem a situação, porque não são tolos
(embora caiba duvidar disso hoje em dia, quando quase qualquer pessoa pode tomar-se um
cientista) e porque os excessos de uma escola científica são quase sempre contrabalançados
pelos excessos de alguma outra escola. (Além disso, os cientistas só muito raramente
resolvem os problemas, cometem erros numerosos e oferecem, freqüentemente, soluções
impraticáveis.) No fundo, pouquíssima diferença há entre o processo que leva ao anúncio de
uma nova lei científica e o processo de promulgação de uma nova lei jurídica: informa-se a
todos os cidadãos ou aos imediatamente envolvidos, faz-se a coleta de ‘fatos’ e preconceitos,
discute-se o assunto e, finalmente, vota-se. Sem embargo, enquanto uma democracia faz
algum esforço para esclarecer o processo, de sorte que todos o entendam, a ciência ou o
esconde ou o distorce, para que ele se Amolde a seus sectários interesses.
457
Nenhum cientista admitirá que votar tenha sentido na matéria a que se dedica. Só os
fatos, a lógica e a metodologia decidem — é o que nos diz o conto de fadas. Mas como
decidem os fatos? Que função desempenham no avanço do conhecimento? Não podemos
fazer nossas teorias deles derivarem. Não podemos apresentar um critério negativo,
dizendo, por exemplo, que as boas teorias são as teorias passíveis de refutação, mas não
contraditadas pelos fatos. Um princípio de falseamento que afasta as teorias porque não se
acomodam aos fatos teria de afastar a totalidade da ciência (ou teria de admitir que grandes
porções da ciência são irrefutáveis). A sugestão de que uma boa teoria explica mais que suas
oponentes também não é admissível. Certo: novas teorias predizem, com freqüência, coisas
novas — mas quase sempre a expensas de coisas já conhecidas. Voltando-nos para a lógica,
damo-nos conta de que nem mesmo seus mais simples requisitos são satisfeitos pela prática
científica e não poderiam ser satisfeitos, em razão da complexidade do material. As idéias de
que os cientistas costumam valer-se para apresentar o conhecido e avançar rumo ao
desconhecido raramente estão em estrita concordância com as injunções da lógica ou da
matemática pura e a tentativa que se fizesse para levá-las a essa concordância roubaria da
ciência a flexibilidade sem a qual é impossível alcançar progresso. Anotemos: só os fatos não
bastam para levar-nos a aceitar ou rejeitar teorias científicas, pois a margem que deixam ao
pensamento é demasiado ampla; a lógica e a metodologia eliminam demais, são demasiado
acanhadas. Entre esses extremos situa-se o sempre cambiante domínio das idéias e dos
desejos humanos. Mais pormenorizada análise dos lances de êxito no jogo da ciência (‘de
êxito’ do ponto de vista dos próprios cientistas) mostra, indubitavelmente que há uma larga
faixa de liberdade a pedir multiplicidade de idéias e a permitir a aplicação de processos
democráticos (apresentação-discussão-voto), mas que está obstruída pela política e pela
propaganda do poder. Esse o ponto em que o conto de
458
ladas do método especial assume sua função decisiva. Oculta a liberdade de decisão que os
cientistas criadores e o público em geral têm, mesmo no que se refere às mais sólidas e
avançadas partes da ciência, antepondo-lhes a repetição dos critérios ‘objetivos’ e assim
protegendo os grandes nomes (os Prêmio Nobel; os chefes de laboratórios de organizações
como a Associação Médica Americana, de escolas especiais; os ‘educadores’, etc.) contra as
massas (os leigos; os especialistas em campos não-científicos; os especialistas em outros
ramos da ciência): só importam os cidadãos que foram expostos às pressões das instituições
científicas (sofreram longo processo de educação), que sucumbiram a essas pressões (foram
aprovados no exame) e que estão, agora, firmemente convencidos da verdade do conto de
fadas. Dessa maneira os cientistas se iludiram a si próprios e aos demais com respeito à
tarefa a que se dedicam, sem, contudo, virem a sofrer qualquer real desvantagem: dispõem
de mais dinheiro, mais autoridade e exercem maior atração do que merecem — e os mais
estúpidos processos e mais risíveis resultados que alcançam em sua esfera de atuação vêm
rodeados de uma aura de excelência. É tempo de reduzi-los às devidas proporções e de
atribuir-lhes mais modesta posição na sociedade.
Essa advertência, que apenas alguns dos contemporâneos mais bem preparados têm
condições de aceitar, parece entrar em conflito com certos fatos simples e amplamente
conhecidos.
Não é certo que um médico disponha de melhores recursos para diagnosticar e curar uma
enfermidade do que um leigo ou o feiticeiro de uma sociedade primitiva? Não é certo que as
epidemias e as doenças graves só desapareceram após a implantação da medicina moderna?
Não temos de admitir que a tecnologia conseguiu enormes avanços após o surgimento da
ciência moderna? E não são as viagens à Lua a prova mais impressionante e inconteste de
sua excelência? Aí estão algumas das questões lançadas ao desafiador impudente que ousa
criticar a especial posição das ciências.
459
As questões só atingem o polêmico objetivo a que se dirigem se for presumido que os
resultados da ciência, por ninguém negados, surgiram sem recurso a elementos nãocientíficos
e que não podem ser aperfeiçoados sem interferência de tais elementos. Processos
‘não-científicos’, tais como o conhecimento de ervas, próprio dos feiticeiros e curandeiros, a
astronomia dos místicos, o tratamento de doenças em sociedades primitivas, são totalmente
destituídos de mérito. Só a ciência nos oferece uma astronomia útil, a medicina eficaz, uma
tecnologia digna de confiança. Importa admitir, ainda, que a ciência deve seu êxito a método
correto e não a um acidente feliz. Não foi uma afortunada antevisão cosmológica a
responsável pelo progresso e sim manipulação cosmologicamente neutra de dados
existentes. Tais os supostos que devemos admitir para emprestar às questões o vigor
polêmico supostamente por ela englobado. Nenhum & tais supostos resiste a verificação
mais. cuidadosa.
A astronomia moderna surgiu com a tentativa, feita por Copérnico, de adaptar as velhas
idéias de Filolau às necessidades das predições astronômicas. Filolau não era um cientista
preocupado com a precisão; era, como vimos (capítulo V, nota 25), um pitagórico
desorientado e as conseqüências de suas doutrinas foram consideradas ‘incrivelmente
ridículas’ por um astrônomo profissional como Ptolomeu (capítulo IV, nota 4). Mesmo
Galileu, que se defrontou com a aperfeiçoada versão copernicana da doutrina de Filolau, diz:
‘Não tem limites meu espanto quanto percebo que Aristarco e Copérnico foram capazes de
fazer com que a razão dominasse os sentidos, de sorte que, em detrimento destes, a razão se
tornasse a orientadora de suas convicções’ (Dialogue, 328). ‘Sentidos’, aqui, refere-se às
experiências a que recorreram Aristóteles e outros, para mostrar que a Terra se encontrava
em repouso. A ‘razão’, oposta por Copérnico a tais argumentos, é a mística razão de Filolau,
associada a uma fé igualmente mística (‘mística’ do ponto de vista dos racionalistas de hoje)
no caráter fundamental do movimento circular. Mostrei que a astronomia moderna e a
460
dinâmica moderna não poderiam ter progredido sem recorrer a essas idéias antediluvianas.
Enquanto a astronomia se beneficiou do pitagorismo e do amor de Platão pelos círculos,
a medicina se beneficiou do uso de ervas, da psicologia, da metafísica, da fisiologia de
feiticeiros, parteiras, curandeiros, boticários errantes. Sabe-se muito bem que a medicina
dos séculos XVI e XVII, embora teoricamente hipertrofiada sentia-se inútil em face da
doença (e assim permaneceu por longo tempo, após a ‘revolução científica’). Inovadores
como Paracelso voltaram a idéias primitivas e aprimoraram a medicina. Em todos os
pontos, a ciência se vê enriquecida por métodos não-científicos e resultados não-científicos,
enquanto processos freqüentemente vistos como partes essenciais da ciência foram
abandonados ou contornados.
O processo não se restringe à história inicial da ciência moderna. Está longe de ser
simples conseqüência do primitivo estágio das ciências, nos séculos XVI e XVII. Ainda
hoje, a ciência pode tirar e tira vantagem da consideração de elementos não-científicos.
Exemplo examinado acima, no capítulo IV, é a revivescência da medicina tradicional na
China comunista. Quando os comunistas, na década de 1950, forçaram os hospitais e
escolas de medicina a transmitir as idéias e métodos registrados no Manual de Medicina
interna do imperador Amarelo e a aplicá-las no tratamento dos pacientes, muitos
especialistas ocidentais (entre eles, Eccles, um dos ‘Cavaleiros de Popper’) se horrorizaram e
predisseram a derrocada da medicina chinesa. Ocorreu exatamente o oposto. A acupuntura,
a moxa, o diagnóstico pelo pulso conduziram a novas percepções, novos métodos de
tratamento e colocaram novos problemas, tanto para o médico ocidental quanto para o
chinês. E os que não apreciam ver o Estado imiscuir-se em questões científicas devem
lembrar-se do acentuado chauvinismo da ciência: para a maioria dos dentistas, a frase
‘liberdade para a ciência’ significa liberdade para doutrinar não apenas os que resolveram
acompanhá-los, mas também resto da sociedade.
461
Claro está que nem toda combinação de elementos científicos e não científicos alcança êxito
(exemplo: Lysenko). Todavia, também a ciência nem sempre é bem sucedida. Se importa
evitar as misturas porque às vezes falham, também a ciência pura (se é que ela existe) há de
ser evitada. (No caso Lysenko, o condenável não é a interterência do Estado, mas a
interferência totalitária, que destrói o oponente em vez de permitir-lhe seguir o próprio
caminho.)
Combinando essa observação com a percepção de que a ciência não dispõe de método
especial, chegamos à conclusão de que a separação entre ciência e não-ciência não é apenas
artificial, mas perniciosa para o avanço do saber. Se desejamos compreender a natureza, se
desejamos dominar a circunstância física, devemos recorrer a todas as idéias, todos os
métodos e não apenas a reduzido número deles. Assim, a asserção de que não há
conhecimento fora da ciência — extra scientiam nulla salus — nada mais é que outro e
convenientíssimo conto de fadas. As tribos primitivas faziam classificações de animais e
plantas mais minuciosas que as da zoologia e da botânica de nosso tempo; conheciam
remédios cuja eficácia espanta os médicos (e a indústria farmacêutica já aqui fareja uma
nova fonte de lucros); dispunham de meios de influir sobre os membros do grupo que a
ciência por longo tempo considerou inexistentes (vodu); resolviam difíceis problemas por
meios ainda não perfeitamente entendidos (construção de pirâmides, viagem dos polinésios).
Havia, na Idade da Pedra, uma astronomia altamente desenvolvida e internacionalmente
conhecida, astronomia que era factualmente adequada e emocionalmente satisfatória, dando
solução a problemas tanto sociais quanto físicos (o mesmo não se pode dizer a respeito da
astronomia moderna) e que foi submetida a testes por meios muito simples e engenhosos
(observatórios de pedra na Inglaterra e no Pacifico Sul; escolas astronômicas na Polinésia).
(Para tratamento mais aprofundado e referências mais precisas, no que toca a todas essas
afirmativas, cf. meu Einjührung in die Naturphilosophie.)
462
Houve a domesticação de animais, a criação da agricultura rotativa, novos tipos de plantas
foram desenvolvidas e conservados puros graças a evitar-se cuidadosamente a fertilização
cruzada, surgiram invenções químicas, ‘desenvolveu-se uma arte surpreendente, suscetível
de ser comparada às melhores manifestações da arte contemporânea. Por certo que não
houve excursões coletivas à Lua, mas indivíduos isolados, desprezando grandes perigos que
lhes ameaçavam a alma e a sanidade mental elevaram-se de esfera a esfera e finalmente
encararam Deus em todo Seu esplendor, enquanto outros homens se transformavam em
animais para depois readquirir figura humana (capítulo XVI, notas 20 e 21). Em todos os
tempos, o homem enfrentou a circunstância de olhos abertos, com inteligência viva; em
todos os tempos, realizou descobertas incríveis; em todos os tempos, há ensinamento a
colher em suas idéias.
A ciência moderna, de outra parte, não é tão difícil e tão perfeita quanto a propaganda
quer levar-nos a crer. Uma disciplina, como a física, a medicina ou a biologia, só parece
difícil porque é mal ensinada, porque as lições comuns estão repletas de material redundante
e porque a ela nos dedicamos já muito avançados na vida. Durante a guerra, quando o
exército norte-americano urgentemente reclamava médicos, foi repentinamente possível
reduzir o aprendizado médico a seis meses (todavia, os correspondentes manuais de
instrução acham-se, de há muito, desaparecidos. A ciência pode ser simplificada durante a
guerra. Em tempo de paz, o prestígio da ciência exige que se rodeie de complexidade maior).
E não raro ocorre que o juízo afetado e orgulhoso do especialista seja reduzido a suas
devidas proporções por um leigo. Numerosos inventores construíram máquinas
‘impossíveis’. Advogados têm demonstrado repetidamente que um especialista não sabe do
que está falando. Cientistas, e especialmente médicos, chegam com freqüência a conclusões
diferentes, de sorte que toca aos parentes da pessoa enferma (ou aos habitantes de certa área)
decidir, por voto, qual o procedimento a ser adotado. Quão freqüentemente não é a
463
ciência aprimorada e impelida a novos caminhos por influências não-científicas! Cabe a nós,
cabe aos cidadãos da sociedade livre aceitar o chauvinismo da ciência sem contraditá-la ou
subjugá-la pela força oposta da ação geral. Ação geral foi utilizada contra a ciência pelos
comunistas chineses na década de 1950 e voltou a ser usada, em circunstancias muito
diversas, por algumas pessoas que se opunham à teoria da evolução, na Califórnia da década
de 1970. Acompanhemos esses exemplos e livremos a sociedade do aperto estrangulador de
uma ciência ideologicamente petrificada, assim como nossos ancestrais nos livraram do
aperto estrangulador da Religião Verdadeira e Única.
O caminho que leva a tal objetivo é claro. Uma ciência que insiste em ser a detentora do
único método correto e dos únicos resultados aceitáveis é ideologia e deve ser separada do
Estado e, especialmente, dos procesos de educação. Cabe ensiná-la, mas tão-somente àqueles
que decidiram aderir a essa particular superstição. De outra parte, uma ciência que
renuncie a essas pretensões totalitárias deixa de ser independente e autônoma e poderia ser
ensinada sob diferentes combinações (mito e cosmologia moderna seria uma dessas
combinações). Está claro que todo empreendimento tem o direito de exigir que os a ele
devotados se preparem de maneira especial e pode, inclusive, impor a aceitação de certa
ideologia. (Eu, por exemplo, sou contra a descaracterização dos assuntos, que se vão
tornando mais e mais semelhantes entre si; quem não aprecie o catolicismo atual que o
abandone e se torne protestante ou ateu, em vez de arruiná-lo com alterações despidas de
sentido, como a da missa na língua nacional.) E isso é verdade em relação à física, tal como
verdadeiro com respeito à religião ou à prostituição. Contudo, essas ideologias especiais,
essas capacitações especiais não encontram lugar no processo da educação geral, que
prepara o cidadão para desempenhar seu papel na sociedade. Um cidadão amadurecido não é
um homem que foi instruído em uma especial ideologia — como o puritanismo ou
464
o racionalismo crítico — e que agora é portador dessa ideologia, como de um tumor mental;
um cidadão amadurecido é uma pessõa que aprendeu a tomar decisões e que decidiu em
favor daquilo que mais lhe convém. É pessoa de alguma solidez espiritual (não se apaixona
pelo primeiro trovador ideológico que lhe cruze o caminho) e que, portanto, está apta a
escolher conscientemente a tarefa que lhe pareça mais atraente, em vez de deixar-se dominar
por ela. Preparando-se para essa escolha, a pessoa estudará as ideologias mais importantes
em termos de fenômenos históricos, estudará a ciência como fenômeno histórico e não como
o único e sensato meio de enfrentar um problema. Estudará a ciência a par de outros contos
de fadas, tais como os mitos de sociedades ‘primitivas’, de sorte a contar com as informações
necessárias para chegar a uma decisão livre. Parte básica de uma educação geral dessa
espécie são conhecimentos dos principais propagandistas de todos os campos, de modo que o
neófito possa desenvolver resistência contra todas as formas de propaganda, incluindo a
propaganda que se denomina ‘argumento’. Somente após esse processo de endurecimento
será ele chamado a pronunciar-se em face das questões racionalismo-irracionalismo, ciênciamito,
ciência-religião e outras questões semelhantes. A decisão que tome em prol da ciência
— admitindo que a tome —será muito mais ‘racional’ do que é, hoje, qualquer decisão em
favor da ciência. Seja como for — a ciência e as escolas estarão cuidadosamente separadas,
como estão, hoje em dia, religião e escolas. Os cientistas participarão, é claro, de decisões
governamentais, pois todos participam de tais decisões. Mas não lhes será dada autoridade
dominante. Será o voto de todos os interessados que decidirá as questões fundamentais,
referentes, por exemplo, a métodos de ensino utilizados, ou à verdade de crenças básicas, tal
como a relativa à teoria da evolução ou à teoria quântica — o voto e não a autoridade dos
importantes que se ocultam por detrás de inexistente metodologia. Não há a temer que essa
maneira de dispor a sociedade conduza a resul-
465
tados indesejáveis. A própria ciência recorre ao método da discussão e do voto, embora sem
claro domínio de seu mecanismo e utilizando-o de maneira fortemente tendenciosa. E a
racionalidade de nossas crenças se verá consideravelmente acentuada.
NOTAS
1. Cf. os excelentes estudos de caso levados a efeito por Evans-Pritchard, Griaule, Edith
Hamilton, Jeremias, Frankfort, Thorkild Jacobsen e outros. Para um levantamento, cf. de
Santillana von Dechend, Hamlet’s Mill, Boston, 1969 e meu Einführung in die
Naturphilosophie, Braunschweig, 1974. Trata-se de estudos de caso no sentido de Lakatos e
observam os seus mais rígidos critérios. Por que, pois, ele e os racionalistas tanto hesitam
em aceitar os resultados daqueles trabalhos?
Originalmente publicado em Africa, vol. 37, 1967, pp. 87-155. Estou citando com base na
reimpressão abreviada de Max Marwick (ed.) Witchcraft and Sorcery, Penguin Books,
1970, pp. 342 ss.
Ibid., p. 362.
Ibid., p. 364.
Ibid., p. 365.
Ibid., p. 358.
Loc. cit.
Ibid., p. 365.
Ver discussão do que ele denomina ‘Closed and Open Predicament’, na Parte 2 deste
ensaio.
Esse é procedimento muito comum na feitiçaria africana. Cf. Evans, Witchcraft, Oracles
and Magic Among
466
the Azande, Oxford, 1937, pp. 230, 338; ver, também, Social Antropology, op. cit., p. 99.
2. Cf. as primeiras reações contra as variáveis ocultas em teoria quântica, a atitude para
com a astrologia, a telepatia, o vodu, Ehrenhaft, Velikovsky e assim por diante. Cf., também,
o interessante relato de Kostler, The Midwife Toad, Nova Iorque, 1973.
3. Isso foi acentuado por Kuhn; ver ‘The Function of Dogma in Scientific Research’, in A.
C. Crombie (ed.) Scientific Change, Londres, 1973, pp. 69-347 e The Structure of Scientific
Revolution, Chicago, 1972.
4. Cf. Apêndice III, p. 215.
5. Quanto às deficiências da ciência, em matéria de humanitarismo, cf. ‘Experts in a Free
Society’, The Critic, novembro/dezembro, 1971, ou a aperfeiçoada versão alemã desse ensaio
e de ‘Towards a Humanitarian Science’, na Parte II do vol. I de meu Augewählte
Aufsätaze, Vieweg, 1974.
467
Indice de Assuntos
n = nota
t = termo explicado
A
Ação, 30, 56, 263, 270, 286, 290, 301, 345, 373, 392, 399, 464 ver também Idéias; Padrões
Acupuntura, 68, 461 ver também Comunismo chinês e Medicina
Agregado paratáctico, 359t, 367, 387, 390
Alienação, 388
Alterações:
científicas, 49, 287, 317, 405, 430n, 450
conceptuais, 104, 256, 350, 357, 382, 392, 396, 401, 273, 450
Ampliação do conhecimento e da ciência, 30, 139-50, 261, 273, 450
e a metodologia dos programas de pesquisa científica, 288
sem discussão, 30
Anamnese, 120, 128, 225
469
Anarquismo:
epistemológico, 43, 259, 269, 274, 279, 319, 345
político, 22, 23, 290-94
religioso, 290, 292
ver também Dadaísmo
Antropologia, 68, 1 46n, 311, 407
da ciência e cosmologia, 32,1n, 374, 429n
ver também Estudo de campo
método antropológico e a incomensurabilidade, 397, 399, 400
Aparência, 106, 199, 426n
na cosmologia grega antiga, 387
realidade ou falácia da, 105, 108
vs. realidade, 88
Apoio empírico, 49, 53, 241, 387, 408
ver também Confirmação
Aprendizado, 30, 71, 262, 275, 338, 359, 407, 408
Argumento:
como obstáculo ao progresso, 30, 299
como um método de doutrinação, 30, 305, 465
da observação e das interpretações naturais, 109, 114, 128, 153
da torre, 101-138, 144, 230
ver também sob Galileu
e a metodologia dos programas de pesquisa científica, 301, 305
e anarquismo epistemológico, 244, 292, 294, 299
e chauvinismo científico, 341
e cosmologia, 357, 383
e incomensurabilidade, 115, 269, 351, 431n
e os lógicos, 321n, 387
valor limitado do, 31, 121, 237, 315
vs. emoções, 449
Aristotelismo, 31 3t
ciência, 96n, 240, 284, 287, 310, 404
dinâmica e teoria do movimento, 143, 154, 246, 350
empirismo e método científico e teoria do conhecimento e da percepção, 57n, 95n, 129, 177,
182, 191, 249n, 330n
forma de vida, 256, 296
juízos básicos de valor, 312
sistema filosófico e cosmologia, 231-34, 238, 312, 410
470
teoria do espaço, 350
vs. sistema copernicano, 101-252, 102, 129, 245, 314
Arte, 71, 247n, 375, 396, 399, 463
e ciência, 71, 261
estilo arcaico, 356
Antropologia, 1 60n, 310, 329n
Astronomia, 74n, 159n, 171-74, 232, 297, 314, 350 456, 460
e ciência, 75n, 261
ver também Copernicano, Sistema
Idade Paleolitica e Idade da Pedra, 75n
medieval, 39n, 330n
na Babilônia e no Egito, 328n, 428n
na Grécia Antiga, 74n, 328n, 428n
ptolomaica, 136n, 171-74, 179, 245, 329n
Atomismo, 70, 80, 135n, 317, 320n, 322n
Autoridade, 44, 285, 305, 454, 465
Avaliação de teorias ver Metodologia como padrões de apreciação
Axiomática, 381
B
Biologia, 160n, 230, 410, 463
Botânica, 96n, 462
CC
aos, 24, 279, 285, 301, 388, 395
Ceticismo, 250n, 292, 451
Chauvinismo científico, 69, 341, 461
Ciência:
chauvinismo da, ver Chauvinismo científico
democratização da, 456, 458, 463, 465
e o Estado ver Estado
institucional, 30, 71, 272, 286, 301, 304, 336, 447-69
interferência política na, 66, 70, 337, 462
moderna e negócios, 96n, 291, 301, 336
471
Classificações implícitas, 350t
ver também Incomensurabilidade; Instnumentalismo
Coerência
condições de, 37-53
vs. contra-indução, 37-44
Compatibilidade ver Coerência
Complementaridade, Princípio da, 53
Compreensão, 32, 128, 375, 382
Comunismo chinês e medicina, 69, 341, 461, 464
ver também Ciência, interferência política na
Conceitos, 90, 111, 124, 128, 407, 412, 434n
crítica dos, 90
ver também Contra-indução; Interpretações naturais
Confirmação, 39, 50, 51, 86, 229, 408
Conflitos, 44nt
ver também Pôr em causa
Conhecimento, 22, 41, 57, 71, 113, 229, 239, 272, 311, 318, 324n, 328n, 354, 386, 423n,
452
Conjecturas e refutações, 226, 272, 385, 398
Conteúdo empírico das teorias, 270t
acréscimo ou aumento, 40, 53, 142, 243, 270, 275, 299, 316, 450
comparação de, 277, 317, 320, 347-440
decréscimo ou diminuição, 30, 179, 237. 241, 270, 275, 289, 405
e linguagem ideal, 435n
e o princípio da autonomia, 50
falta de, 287
ilusão epistemológica, 276, 299
ver também Ilusão epistemológica
Continuidade, 403, 410
conceptual, 410, 433u
Conto de fadas, 40, 43, 71, 314, 399, 400, 455, 457, 462, 465
Contra-indução, 3744, 67, 87, 113, 157
Convencionalismo, 313, 435n
Copernicano, Sistema, 29, 33, 44n, 101-118, 255, 281n, 295, 307, 322n, 329n, 456, 460
Correspondência:
princípio da, 86, 433n
regras de, 109, 381
472
Corroboração ver Confirmação
Cortesãs, 409
ver também Prostituição
Cosmologia, 33, 90, 106, 133, 173, 234, 311, 328n, 347-440, 456, 464
alterações da, 347-440
alternativa e contra-indução, 42, 72n
classificações implícitas e incomensurabilidade, 350, 347-440, 411
e eliminação de programas de pesquisa em decadência, 322n
e linguagem, 349
e metodologia, 311, 322n, 449, 460
estudo antropológico da, 374
Crenças, 21, 33, 80, 106, 316
básicas, 451, 466
Cristianismo, 453
Cristologia, 299
Crítica, 42, 53, 90, 108, 236, 246, 259, 270, 289, 312, 355, 431n
DD
adaísmo, 25n, 44n, 293, 294
ver também Anarquismo
Decisões governamentais, 456, 465
ver também Democracia
Demarcação entre ciência e não-ciência, 68, 306, 330n
Democracia, 456, 463, 465
Descartes, Filosofia de, 330n, 402
Descoberta, 180, 230, 259, 270, 273, 288, 394, 402, 463
conceptual, 396
contexto da, 259
vs. contexto da justificação, 258
de interpretações naturais, por meio da contra-indução, 110-113
incomensurabilidade, 396
Desenvolvimento
da cultura, 41, 279
473
desigual, lei do, 228, 248n, 299, 327n
do indivíduo, 46, 71, 274, 279, 291, 338
ver também Educação; Liberdade; Pluralismo
Dinheiro, 301, 323n, 336
Dogmatismo, 53, 1 16n, 174, 264, 280n, 285, 384, 448, 452
E
Educação, 21, 22, 51, 71, 29i, 338, 382, 419n, 453, 459, 464
Einstein
metodologia de, 92n, 93n, 330n
teorias de, ver Relatividade
Elaborações secundárias, 1 46n, 451
Emoções, 238, 341, 462
Empirismo, 39t, 57, 62n, 116n, 130, 244, 354, 406
contemporâneo, 44, 259-66
crítico, 271
de Aristóteles ver Aristotelismo
exigência em favor do aumento de conteúdo empírico, 53, 318
ver também Conteúdo empírico das teorias
lógico, 278t, 408
ver também Positivismo lógico
ver também Experiência
Entidades teoréticas, 388, 392, 425n
Enunciados básicos, 86, 270, 306, 328n, 414n
Epistemologia, 19, 29, 131, 232, 309, 318, 322n, 386, 416n
anarquismo epistemológico ver Anarquismo
dadaísmo epistemológico ver Dadaísmo
ilusão epistemológica, 276, 317, 323, 325n
ver também Conteúdo empírico das teorias
preconceitos epistemológicos, 88
receitas epistemológicas, 22
ver também Metodologia como regras de prática científica
oportunismo epistemológico ver Oportunismo
Equipartição, Princípio da, 83
Escolas filosóficas, 274, 316
Especulação, 132, 154, 245, 451
474
Espírito/corpo, problema do, 115, 253-56, 294, 390
Espontaneidade, 290
Essencialismo, 427n
Estado, 70, 290, 337, 448, 453, 457, 464
Estados mentais, 351, 391, 396
Estudo de campo
da ciência, 386, 452
e incomensurabilidade, 400, 408
ver também Antropologia
Evidência, 33, 42 60n, 87n, 99n, 141, 178, 201, 223, 237, 241, 275, 354
manufaturada, 33, 153, 316
Evolução, Teoria da, 40, 292, 464
Exames, 338
Existencialismo, 340
Expectativas, 271
ver também Poper, dialética de
Experiência, 39, 62n, 86, 127, 263, 388, 444
alterações da (com o propósito de haver ajuste com teorias), 127, 136n, 154, 158, 190
em Aristóteles, 232
metafísica especulativa, 132, 155
Experimento, 53, 79, 94n, 132, 270, 312 crucial, 52, 409, 411
resultados experimentais, 39, 41, 49, 88, 287
Explicações, 59n, 280, 288, 371, 410, 458
ver também Hipóteses ad hoc
FF
alseamento ver Falsificacionismo
Falsificacionismo:
a-histórico, 247n
e descobertas, 61n
eliminação do, 87
e história da ciência, 286
e irrefutabilidade das teorias, 179, 458
elimina a ciência, 87, 280n, 458
475
e método histórico de avaliação das metodologias, 306, 311
e metodologia de Einstein, 93n, 330n
e pressupostos cosmológicos, 449
e racionalismo crítico, 272, 278
ingênuo, 93n, 275, 303,311, 458
sofisticado, 73n
vs. contra-indução, 43
ver também Contra-indução
vs. metodologia dos programas de pesquisa, 289, 303
vs. trabalho antropológico de campo, 387
Fatos, 39, 57, 78, 86, 112, 156, 177, 255, 396, 411, 430n, 452
conflitos entre teorias e, 41, 77-100, 178
descoberta e supressão de, 51, 238, 245, 273, 275, 384
e incomensurabilidade, 401-04
e o princípio da autonomia, 50
novos, 49, 50, 156, 329n, 444
sua natureza teorética, 41, 51, 77-100
ver também Contra-indução; Evidência; Experiência; Experimento
Fé, 158, 238, 296, 460
Feitiçaria, 50, 106, 146n, 154, 453
Felicidade, 25n, 72n, 274, 280
Fenomenologia, 51, 385
Ficção científica, 400
Filosofia, 73n, 160n, 246, 297
ver também Incomensurabilidade; Interpretações naturais
Filosofia da ciência
a priori, 309
e anarquismo, 19
e casos paradigmáticos, 54
e história da ciência, 29, 68, 97n, 244, 247n, 260, 321n
e método antropológico, 374
e política, 19
e racionalismo crítico, 270, 416n
e reconstrução racional, 250n
humanitarismo e educação científica, 22
Física, 52, 87, 96n, 159n, 232, 244, 298, 314, 350, 435n, 456, 463
clássica, 85, 88, 130, 236, 351, 409, 431n
moderna. 85, 96n, 312
476
Fisicalismo, 317
Fisiologia, 69, 88, 159n, 182, 204n, 218n, 234, 246, 290, 357, 402
Formalismo, 44, 98n, 264
em estética, 361
ver também Arte, estilo arcaico
formalistas, 385
sistemas formais, 287, 378
ver também Lógica
Formas de vida e de pensamento, 112, 255, 293, 297, 337, 378, 448, 454
ver também Estudo de campo; Antropologia
G
Galileu
dinâmica e mecânica de, 47, 121-38, 142-46, 154, 156, 224, 245
e a Lua, 184,. 194-99
e o argumento da torre, 101-118, 125, 130, 144, 230
e revolução copernicana, 79, 101-118
método de, 121, 127, 144-46, 156, 177, 244, 254
ótica e telescópio, 154, 157-59, 180-88, 195, 200, 201, 223, 245
relatividade, 108, 114, 121, 143, 245, 255
Genesis, 40 Gramática, 135n, 255, 357, 364, 397, 400, 405, 412n, 443
H
Hegel, Dialética de, 34
Hermeticismo, 324n
Hidrodinâmica, 405
Hipotácticos, Sistemas, 361
Hipóteses ad hoc:
e incomensurabilidade, 405
e mito, 139, 146n, 451
477
e racionalismo crítico, 270, 277
papel progressivo na ciência, 30, 139-50, 238, 261, 278
presença na ciência moderna, 60, 85
História, 19-20
avaliação da história da ciência, 287, 289, 299
background histórico da ciência, 88, 229, 238, 315, 449
da arte, 357
da ciência, 21, 33, 41, 74n, 246, 450
e filosofia da ciência ver Filosofia da ciência
e incomensurabilidade, 269, 378, 384, 397, 399, 444
na educação, 456, 464
econômica, social, política, 19, 248n, 327n
interna/externa, 260, 316
movimentos retroativos da, 237, 396
programas de pesquisa histórica, 319, 322n
refutações históricas da metodologia, 29, 34, 89, 225, 244,
ver também Reconstruções racionais
Homo Oxoniensis, 416n
Humanismo, 339
Humanitarismo, 17, 22, 57, 71, 72n, 291, 294
I
Idéias, 180, 275. 443. 452. 462
antropologia e idéias-chaves, 375
e ações, 31
Ideologia, 32, 78, 107, 256, 290, 305, 315, 357, 370, 375, 400, 448
ver também Contos de fada; Método científico
Ignorância, 51, 68, 71, 177, 386, 451
Igreja, 70, 135n, 165n, 326n, 337, 448, 453, 455
ver também Estado
Ilíada, 72n, 366, 387, 394
Imaginação, 52, 107, 132, 338, 357, 396
Ímpeto, Teoria do, 144, 350, 404
Incomensurabilidade, 40, 180, 226n, 243, 259, 269, 281, 319, 347-440, 350, 396t
Íncubos, 207n, 402
478
Indutivismo, 157, 247n, 272, 285, 289, 306, 313, 392
Instrumentalismo, 173, 298, 349, 375, 401, 406, 410
Instrumentos, 33, 114, 158, 232, 244, 323n, 349
ver também Telescópio
Interpretações naturais, 102t, 102-138, 255, 405
Intersubjetividade, 207n, 435n
Intuição, 21, 264
Irracionalismo, 31, 43, 238, 259, 270, 398, 465
J Juízos básicos de valor, 306t-3
15 Justificação, contexto da, 258
KK
epler:
e a Lua, 208n, 209n, 215n
essência celestial, 185
leis de, teoria de Newton, 31, 308
ótica e telescópio, 158, 179, 200, 223
poliopia, 204n, 209n
LL
akatos, máfia de, 315
Lei e ordem, 141, 259, 269, 284, 301, 326n
Liberdade, 22, 32
da vontade, 274
de associação, 290, 336
de escolha, na ciência, 459, 465
de expressão e de discussão (papel para a ciência), 25n
e anarquismo, 290
e chauvinismo científico, 461
479
e racionalismo crítico, 274
e razão, 279
e sistema copernicano, 238
libertação da ciência e dos sistemas de pensamento, 274, 395, 412, 464
Libertinos, 341
Linguagem, 34, 88, 107, 127, 234, 243, 349, 381, 388, 430n, 441-446
filosofia da, 238, 444
Listas (como forma de conhecimento), 390, 397, 428n
Lógica, 21, 230, 243, 260, 286-88, 349, 354, 376, 397, 407, 414n, 444, 458
indutiva, 321n
Lysenko, o caso, 70, 337
M
Mágica, 167n, 284, 452
Manual, 49
Marxismo, 231, 247n
Matemática, 85, 181, 380, 384, 416n
na Grécia Antiga e na Babilônia, 428n
Materialismo 256, 404
Mecânica:
clássica, 230, 398, 404, 409, 411
quântica, 29, 85, 250n, 281n, 308, 350, 387, 433n, 465
Medicina, 69, 87, 160n, 310, 411, 460
Medida, 52, 79
Metafísica, 21, 43, 71, 128, 133, 154, 237, 245, 279, 409, 412
Meteorologia, 89, 235
Método científico, 69, 205n, 240, 384, 407
como parte de uma teoria do homem, 274
e anarquistas, 6, 457
e história da ciência, 29, 86
ver também Metodologia como regras de prática científica
Metodologia como padrões de apreciação:
e financiamento da pesquisa, 336
e formalismo ver Formalismo
480
e pressupostos cosmológicos, 322n
intuição, 264
método histórico de Lakatos, para avaliação de padrões, 287, 306-313, 318
padrões anarquistas, 290-300
ver também Anarquismo; Confirmação
unidade de apreciação, 51, 288
Metodologia como regras de prática científica:
apreciação da, 311, 318, 450
da contra-indução ver Contra-indução
do empirismo ver Empirismo
do falsificacionismo ver Falsiflcacionismo
do indutivismo ver Indutivismo
do método científico único ver Método científico
do racionalismo crítico, 267-282
dos lógicos, 387.
e a metodologia dos programas de pesquisa, 288, 323n
e contra-regras, 39
e história da ciência, 19-21, 259, 316, 320n
e oportunismo ver Oportunismo
e política ver Política
e prática anarquista, 290-306
ver também Anarquismo
e pressupostos cosmológicos, 311, 449, 460
e razão, 285
e regras democráticas ver Democracia
e resolução científica de problemas, 457
e teoria da racionalidade ver Racionalismo
imposição, 303
para a eliminação de teorias e de programas de pesquisa, 261, 286, 288, 289
perniciosa e prejudicial para a ciência, 449
princípio da proliferação ver Proliferação
suas limitações, 43
sua violação e o progresso científico, 29
tudo vale, princípio do, 27-34
vs. prática científica, 21, 87, 226, 244, 259, 278, 286
Metodologia dos programas de pesquisa científica
ver Programas de pesquisa
Michelson-Morley, experimento de, 409
481
Mito, 40, 268, 284, 339, 379, 399, 408, 427n
comparado com a ciência, 50, 74n, 279, 287, 300, 329n, 348, 370, 448-57, 464
Moralidade, 31, 280, 290, 371, 428n
Movimento browniano, 51, 60n
NN
egócios ver Ciência, moderna e negócios
Newton
método e teorias de, 81, 306, 330n, 350, 354, 398, 404
Novos fatos ver Fatos
Nuer, 376
OO
bjetividade, 21, 34, 57, 71, 89, 192, 235, 285, 294, 300, 457
ver também Intersubjetividade
Objetos físicos, 89, 351, 390, 397, 402
Observação:
argumento da, 109, 153
e contra-indução, 41, 91
e feitiçaria, 50
e Galileu, 131-32, 155, 203n
ver também Galileu, e a Lua, ótica e telescópio
e incomensurabilidade, 355, 382, 396, 402, 405
e interpretações naturais, 101-118
ver também Interpretações naturais
enunciados de, 51, 90, 106, 111, 114, 405
núcleo sensorial dos, 111, 154, 255
produção dos, 109
intersubletiva, 207n
leis de, 48
linguagem de, 88, 106, 114, 120, 127, 381, 401, 406
natureza histórica da, 229
pelo telescópio ver Telescópio
realidade ou falácia da, 105
482
seu papel na ciência, 33, 229, 241, 270, 275, 298, 312, 385
teorias acerca da, 41, 232
termos observacionais e teorias, 51, 88, 90, 110, 259, 262, 405
terrestre vs. celeste, 183, 192
ver também Experimento; Instrumentos; Medida; Interpretações naturais;
Percepção; Fisiologia; Impressões sensori ais
Odisséia, 366
Ontologia, 115, 276, 361, 374, 402, 408, 422n
Oportunismo, 274, 291
de Finstein, 94n, 330n
epistemológico, 19, 116n, 278
P
Padrões:
da ação racional, 34346
de crítica, 42
de racionalismo ver Racionalismo; Teoria, da racionalidade;
Metodologia como padrões de apreciação
e educação geral, 338
e liberdade, 22
Paixão, 32, 279, 294
Paz social, 295
Pensamento primitivo, 98n, 400
Percepção, 42, 88, 106, 182-87, 189-220, 231, 291, 312, 363, 374, 422n
ver também Interpretações naturais; Observação, Perspectiva;
Fisiologia; Impressões sensoriais
Perspectiva, 372, 374, 389, 394, 396, 416n
Pesquisa, 21, 32, 83, 130, 154, 205n, 218, 261, 278, 323n, 386, 423n, 452
antropologia na ciência, 374, 397
Pluralismo, 40, 67, 70, 268, 308, 452
ver também Proliferação
Política, 19, 32, 66, 70, 161n, 248n, 274, 290, 337, 455, 458
Poluição intelectual, 337
483
Popper:
dialética de, 32, 269, 401
terceiro mundo de, 244, 317, 412
Popperismo, 72n, 93n, 141, 174, 267-82, 330n, 401, 403, 415n, 452
Pôr em causa, 44n
ver também Conflitos
Positivismo, 160n, 269, 274, 403
lógico, 72n, 177, 278, 407, 408
Possessão demoníaca, 50, 160n, 403
ver também Vodu; Feitiçaria
Prática cientifica ver Metodologia como regras de prática científica
Preconceito, 42, 67, 88, 107, 165n, 238, 279, 314, 286, 455, 457
Pressupostos, 41, 247n
a priori, 107
Previsão:
e o objetivo do cientista, 41
sem acuidade numérica, 79
Programas de pesquisa, Metodologia dos, 281n, 283-346, 330n
Progresso:
conceptual, 410
histórico, 248n
Progresso científico:
auxílios, métodos e fontes, 29, 34, 39, 49, fl4, 247n, 315, 410, 460
e anarquismo, 34, 279
condições prévias para, 240, 261, 279, 288, 325n, 381, 386, 396
critérios e definições, 79, 240, 321n, 403
facilidades e obstáculos, 30, 44, 110, 259, 276, 279, 286, 386, 458
Proliferação, Princípio da, 44n, 73n
ver também Pluralismo
Programa, 31, 121, 129, 154, 165n, 174, 238, 242, 297, 305, 309, 314, 341, 458, 465
Prostituição, 30, 338, 464
Protestantismo, 62n
Prova ou demonstração, 260
484
Psicanálise, 231, 422n
Psicologia, 110, 121, 160n, 183, 198, 205n, 259, 301, 316, 321n, 327n, 357, 384, 391, 402
das massas, 304, 317
Ptolomaica, astronomia ver Astronomia
Puritanismo, 25n, 63n, 72n, 341
RR
acionalismo, 31, 43, 72n, 76n, 116n, 121, 232, 259, 267-82, 285, 294, 300, 319, 329n,
391, 412, 431n, 465
crítico, 250n, 267-82, 286, 465
teoria da racionalidade, 31, 33, 259, 269, 278, 290, 300, 317, 319
343-46, 457
Razão, 22, 33, 44, 80, 108, 228, 239, 268, 279, 290, 293, 340, 427n
Reação do tabu, 451
Realidade ver Aparência
Realismo, 109, 128, 231, 234, 357, 374, 401, 403, 406, 409, 419n
Reconstruções, 379
antropológicas, 374
lógicas, 376, 382, 391, 435n
racionais, 73n, 250n, 260, 306, 308, 313 Redução, 53, 411
Regras:
e dialética, 34
lingüísticas, 376, 382
socialmente restritivas, 395
ver também Anarquismo; Lei e ordem; Metodologia como regras de
prática científica
Relatividade:
especial, 80, 84, 281n, 307, 354, 376, 402, 409
geral, 80, 281n, 398, 434n
linguística, princípio da, 443
teoria da, 87, 250n, 278, 350, 363, 407, 427n
ver também Galileu
Religião, 21, 90, 284, 299, 329n, 337, 370, 448, 453, 455, 464
485
Réplicas aos críticos, 44n, 169-74, 250n, 33-42, 430n
Retórica, 43, 203n, 290, 309, 384
Senso comum:
ciência e mito, 451
ver também Interpretações naturais
conservadorismo e a metodologia dos programas de pesquisa
científica, 304, 309, 328n
e incomensurabilidade, 382, 399, 407
e materialismo, 256
e sistema copernicano, 124, 129, 153, 245
SS
ensações e impressões sensoriais, 41, 88, 104, 129, 152, 234, 263, 395, 412n
ver também Interpretações naturais
Sentidos, 41, 88, 107, 114, 129, 199, 232, 372, 427n
ver também Interpretações naturais
Significado, 355, 377, 381, 405, 407, 432n
Simplicidade, 35n, 179
Simultaneidade, 350
Sistemas de referência, 90, 347-440, 358, 391, 396, 404
ver também Cosmologia; Conceitos; Incomensurabilidade
Sociologia, 259, 301, 321n, 322n, 327n
Sofística, 40, 104
Status quo, 31, 51, 66, 99n, 236, 293, 298, 315
T
Teatro, 374, 395
Tecnologia, 454, 460
Telescópio, 33, 89, 152, 157-59, 174, 180, 189-220, 242, 245, 298, 316
Tentativa e erro, 158
Teologia, 50, 57, 160n, 279, 326n
Teorias, 145, 154, 230
auxiliares e ciências, 51, 89, 154, 207n, 235, 242, 405
ver também Elaborações secundárias
486
cinética, 51, 52, 61n, 231
de Aristóteles, 171
dos modelos, 379, 451
e fato, 33, 79, 80, 86, 225, 231, 277
“oca”, 393.
Termodinâmica, 47, 51
Termo teorético, 262, 406
Testes, 34, 50, 114, 145, 190, 196, 236, 260, 355, 377, 409, 450
Totalitarismo conceptual, 388
Tradução, 398408
radical, 444
Transferência lógica, Princípio da (devido a Popper), 384
Tudo vale, Princípio do, 34, 44n, 290, 302
UU
niformidade, 21, 45, 52, 336
Universidades, 44, 341
V Variávéis ocultas, 231, 329n
Verdade, 34, 44, 121, 165n, 264, 269, 280, 323n, 355, 388
Verossimilitude, 412
Vodu, 68, 69, 409, 462
ZZ
oologia 462
487
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e impresso nas oficinas gráficas da
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* Em alemão, no original. Tradução livre.
420
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