CONFISSÕES | Agostinho de Hipona

| quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Homero imaginou tudo isso, atribuindo qualidades divinas a homens corrompidos, para
que os vícios não fossem considerados como tais, e para que todo aquele que os
cometesse parecesse que imitava a deuses celestes, e não a homens corrompidos.
E contudo, ó torrente infernal, em ti se precipitam os filhos dos homens, com o
dinheiro gasto para aprender tais coisas. E consideram acontecimento importante
representá-lo, publicamente no Foro, à vista das leis que concedem aos mestres um
prêmio, além de seus salários particulares.





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Digitação: Lucia Maria Csernik
2007
Copyright © Autor: Blaise Pascal.
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.ngarcia.org)
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CÓPIA: sexta-feira, 14 de março de 2008, 16:36:35
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LIVRO PRIMEIRO
CAPÍTULO I
Louvor e Invocação
És grande, Senhor e infinitamente digno de ser louvado; grande é teu poder, e
incomensurável tua sabedoria. E o homem, pequena parte de tua criação quer louvar-te,
e precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, traz em si o testemunho do
pecado e a prova de que resistes aos soberbos. Todavia, o homem, partícula de tua
criação, deseja louvar-te.
Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso
coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso.
Concede, Senhor, que eu bem saiba se é mais importante invocar-te e louvar-te, ou
se devo antes conhecer-te, para depois te invocar. Mas alguém te invocará antes de te
conhecer?
Porque, te ignorando, facilmente estará em perigo de invocar outrem. Porque,
porventura, deves antes ser invocado para depois ser conhecido? Mas como invocarão
aquele em que não crêem?
Ou como haverão de crer que alguém lhos pregue?
Com certeza, louvarão ao Senhor os que o buscam, porque os que o buscam o
encontram e os que o encontram hão de louvá-lo.
Que eu, Senhor, te procure invocando-te, e te invoque crendo em ti, pois me
pregaram teu nome. invoca-te, Senhor, a fé que tu me deste, a fé que me inspiraste pela
humanidade de teu Filho e o ministério de teu pregador.
CAPÍTULO II
Deus está no homem, e este em Deus
E como invocarei meu Deus, meu Deus e meu Senhor, se ao invocá-lo o faria
certamente dentro de mim? E que lugar há em mim para receber o meu Deus, por onde
Deus desça a mim, o Deus que fez o céu e a terra? Senhor, haverá em mim algum
espaço que te possa conter? Acaso te contêm o céu e a terra, que tu criaste, e dentro
dos quais também criaste a mim? Será, talvez, pelo fato de nada do que existe sem Ti,
que todas as coisas te contêm? E, assim, se existo, que motivo pode haver para Te pedir
que venhas a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis?
Ainda não estive no inferno, mas também ali estás presente, pois, se descer ao
inferno, ali estarás.
Eu nada seria, meu Deus, nada seria em absoluto se não estivesses em mim; talvez
seria melhor dizer que eu não existiria de modo algum se não estivesse em ti, de quem,
por quem e em quem existem todas as coisas? Assim é, Senhor, assim é. Como, pois,
posso chamar-te se já estou em ti, ou de onde hás de vir a mim, ou a que parte do céu
ou da terra me hei de recolher, para que ali venha a mim o meu Deus, ele que disse: Eu
encho o céu e a terra?
CAPÍTULO III
Onde está Deus?
Porventura o céu e a terra te contêm, porque os enches? Ou será melhor dizer que os
enches, mas que ainda resta alguma parte de ti, já que eles não te podem conter? E
onde estenderás isso que sobra de ti, depois de cheios o céu e a terra? Mas será
necessário que sejas contido em algum lugar, tu que conténs todas as coisas, visto que
as que enches as ocupas contendo-as? Porque não são os vasos cheios de ti que te
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tornam estável, já que, quando se quebrarem, tu não te derramarás; e quando te
derramas sobre nós, isso não o fazes porque cais, mas porque nos levantas, nem porque
te dispersas, mas porque nos recolhes.
No entanto, todas as coisas que enches, enche-as todas com todo o teu ser; ou talvez,
por não te poderem conter totalmente todas as coisas, contêm apenas parte de ti? E
essa parte de ti as contêm todas ao mesmo tempo, ou cada uma a sua, as maiores a
maior parte, e as menores a menor parte? Mas haverá em ti partes maiores e partes
menores? Acaso não estás todo em todas as partes, sem que haja coisa alguma que te
contenha totalmente?
CAPÍTULO IV
As perfeições de Deus
Que és, portanto, ó meu Deus? Que és, repito, senão o Senhor Deus? Ó Deus sumo,
excelente, poderosíssimo, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo.
Tão oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível;
imutável, mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as
coisas, conduzindo à ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre
repouso; sempre sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e
aperfeiçoando, sempre buscando, ainda que nada te falte.
Amas sem paixão; tens zelos, e estás tranqüilo; te arrependes, e não tens dor; te iras,
e continuas calmo; mudas de obra, mas não de resolução; recebes o que encontras, e
nunca perdeste nada; não és avaro, e exiges lucro. A ti oferecemos tudo, para que sejas
nosso devedor; porém, quem terá algo que não seja teu, pois, pagas dívidas que a
ninguém deves, e perdoas dívidas sem que nada percas com isso?
E que é o que até aqui dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa, ou que
poderá alguém dizer quando fala de ti? Mas ai dos que nada dizem de ti, pois, embora
seu muito falar, não passam de mudos charlatães.
CAPÍTULO V
Súplica
Quem me dera descansar em ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o
embriagasses, para que eu me esqueça de minhas maldades e me abrace contigo, meu
único bem! Que és para mim? Tem piedade de mim, para que eu possa falar. E que sou
eu para ti, para que me ordenes amar-te e, se não o fizer, irar-te contra mim,
ameaçando-me com terríveis castigos? Acaso é pequeno o castigo de não te amar? Ai de
mim! Dize-me por tuas misericórdias, meu Senhor e meu Deus, que és para mim? Dize a
minha alma: Eu sou a tua salvação. Que eu ouça e siga essa voz e te alcance. Não
queiras esconder-me teu rosto. Morra eu para que possa vê-lo para não morrer
eternamente.
Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que seja por ti dilatada.
Está em ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem o teu olhar: confesso-o, pois eu
o sei; porém, quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a ti? Livra-me,
Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a teu servo os alheios! Creio, e por isso falo. Tu o
sabes, Senhor. Acaso não confessei diante de ti meus delitos contra mim, ó meu Deus? E
não me perdoaste a impiedade de meu coração? Não quero contender em juízos contigo,
que és a verdade, e não quero enganar-me a mim mesmo, para que não se engane a si
mesma minha iniqüidade. Não quero contender em juízos contigo, porque, se dás
atenção às iniqüidades, Senhor, quem, Senhor, subsistirá?
CAPÍTULO VI
Os primeiros anos
Permita, porém, que eu fale em presença de tua misericórdia, a mim, terra e cinza;
deixa que eu fale, porque é à tua misericórdia que falo, e não ao homem, que de mim
escarnece. Talvez também tu te rias de mim, mas, voltado para mim, terás compaixão.
E que pretendo dizer-te, Senhor, senão que ignoro de onde vim para aqui, para esta
não sei se posso chamar vida mortal ou morte vital? Não o sei. Mas receberam-me os
consolos de tuas misericórdias, conforme o que ouvi de meus pais carnais, de quem e em
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quem me formaste no tempo, pois eu de mim nada recordo. Receberam-me os consolos
do leite humano, do qual nem minha mãe, nem minhas amas enchiam os seios; mas
eras tu que, por meio delas, me davas aquele alimento da infância, de acordo com o seu
desígnio, e segundo os tesouros dispostos por ti até no mais íntimo das coisas.
Também por tua causa é que eu não queria mais do que me davas; por tua causa é
que minhas amas queriam dar-me o que tu lhes davas, pois elas, movidas de sadio
afeto, queriam darme aquilo que abundavam graças a ti, já que era um bem para elas ou
delas receber aquele bem, embora realmente não fosse delas, meros instrumentos,
porque de ti procedem, com certeza, todos os bens, ó Deus, e de ti, Deus meu, depende
toda minha salvação.
Tudo isto vim a saber mais tarde, quando me falaste por meio dos mesmos bens que
me concedias interior e exteriormente. Porque então as únicas coisas que fazia era sugar
o leite, aquietar-me com os afagos e chorar as dores de minha carne.
Depois também comecei a rir, primeiro dormindo, depois acordado. Isto disseram de
mim, e o creio, porque o mesmo acontece com outros meninos, pois eu não tenho a
menor lembrança dessas coisas.
Pouco a pouco comecei a me dar conta de onde estava, e a querer dar a conhecer
meus desejos a quem os podia satisfazer, embora realmente não o pudessem, porque
meus desejos estavam dentro, e eles fora; e por nenhum sentido podiam entrar em
minha alma. assim, agitava os braços e dava gritos e sinais semelhantes a meus desejos,
os poucos que podia e como podia, embora não fossem de fato sua expressão. Mas, se
não era atendido, ou porque não me entendessem, ou porque o que desejava me fosse
prejudicial, eu me indignava com os adultos, porque não me obedeciam, e sendo livres,
por não quererem me servir; e deles me vingava chorando. Assim são as crianças que
pude observar; e que eu também fosse assim, mais me ensinaram elas, sem o saber, do
que os que me criaram, sabendo-o.
Minha infância morreu há muito tempo, mas eu continuo vivo. Mas, dize-me, Senhor,
tu que sempre vives, e em quem nada falece – porque existias antes do começo dos
séculos, e antes de tudo o que há de anterior, e és Deus e Senhor de todas as coisas; e
esse encontram em ti as causas de tudo o que é instável, e em ti permanecem os
princípios imutáveis de tudo o que se transforma, e vivem as razões eternas de tudo o
que é transitório – dize-me a mim, eu to suplico, ó meu Deus, diz-me, misericordioso, a
mim que sou miserável, dize-me: porventura a minha infância sucedeu a outra idade
minha, já morta? Será esta aquela que vivi no ventre de minha mãe? Porque também
desta me revelaram algumas coisas, e eu mesmo já vi mulheres grávidas.
E antes desse tempo, minha doçura e meu Deus, que era eu? Fui alguém, ou era parte
de alguma coisa? Dize-mo, porque não tenho quem me responda, nem meu pai, nem
minha mãe, nem a experiência dos outros, nem minha memória. Acaso te ris de mim,
porque desejo saber estas coisas, e me mandas que te louve e te confesse pelo que
conheci de ti?
Eu te confesso, Senhor dos céus e da terra, louvando-te por meus princípios e por
minha infância, de que não tenho memória, mas que, por tua graça, o homem pode
conjectura de si pelos outros, crendo em muitas coisas, ainda que confiado na autoridade
de humildes mulheres.
Então eu já existia, já vivia de verdade; e, já no fim da infância procurava sinais com
que pudesse exprimir aos outros as coisas que sentia. Com efeito, de onde poderia vir
semelhante criatura, senão de ti, Senhor? Acaso alguém pode ser artífice de si mesmo?
Porventura existirá algum outro manancial por onde corra até nos o ser e a vida,
diferente da que nos dais, Senhor, tu em quem ser e vida não são coisas distintas,
porque és o Sumo Ser e a Suprema Vida? Com efeito, és sumo, e não te mudas, nem
caminha para ti o dia de hoje, apesar de caminhar por ti, apesar de estarem em ti com
certeza todas estas coisas, que não teriam caminho por onde passar se não as
contivesses. E porque teus anos não fenecem, teus anos são um perpétuo hoje. Oh!
Quantos dias nossos e de nossos pais já passaram por este teu hoje, e dele receberam
sua duração, e de alguma maneira existiram, e quantos passarão ainda, e receberão seu
modo, e seu ser? Mas tu és sempre o mesmo, e todas as coisas de amanhã e do futuro,
e todas as coisas de ontem e do passado, nesse hoje as fazes, nesse hoje as fizeste.
Que importa que alguém não entenda essas coisas? Que este alguém se ria, e diga:
que é isto? Que se ria assim, e que prefira encontrar-te sem indagação do que,
indagando, não te encontrar.
CAPÍTULO VII
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Os pecados da primeira infância
Escuta-me, ó meu Deus! Ai dos pecados dos homens! E quem isto te diz é um
homem, e tu te compadeces dele porque o criaste, e não foste autor do pecado que nele
existe.
Quem me poderá lembrar o pecado da infância, já que ninguém está diante de ti limpo
de pecado, nem mesmo a criança cuja vida conta um só dia sobre a terra? Quem mo
recordará?
Acaso alguma criança pequena de hoje, em quem vejo a imagem do que não recordo
de mim? E em que eu poderia pecar nesse tempo? Acaso por desejar o peito da nutriz,
chorando? Se agora eu suspirasse com a mesma avidez, não pelo seio materno, mas
pelo alimento próprio da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. Logo,
era então digno de repreensão o meu proceder; mas como não podia entender a
censura, nem o costume nem a razão permitiam que eu fosse repreendido. Prova está
que, ao crescermos, extirpamos e afastamos de nós essa sofreguidão; e jamais vi
homem sensato que, para limpar uma coisa viciosa, prive-a do que tem de bom.
Acaso, mesmo para aquela idade, era bom pedir chorando o que não se me podia dar
sem dano, indignar-me asperamente com as pessoas livres que não se submetiam, assim
como as pessoas respeitáveis, e até com meus próprios pais, e com muitos outros que,
mais sensatos, não davam atenção aos sinais de meus caprichos, enquanto eu me
esforçava por agredi-los com meus golpes, quanto podia, por não obedecerem às minhas
ordens, que me teriam sido danosas?
Daqui se segue que o que é inocente nas crianças é a debilidade dos membros
infantis, e não a alma.
Certa vez, vi e observei um menino invejoso. Ainda não falava, e já olhava pálido e
com rosto amargurado para o irmãozinho caçula. Quem não terá testemunhado isso?
Dizem que as mães e as amas tentam esconjurar este defeito com não sei que práticas.
Mas se poderá considerar inocência o não suportar que se partilhe a fonte do leite, que
mana copiosa e abundante, com quem está tão necessitado do mesmo socorro, e que
sustenta a vida apenas com esse alimento? Mas costuma-se tolerar com indulgência
essas faltas, não porque sejam insignificantes, mas porque espera-se que desapareçam
com os anos. Por isso, sendo tais coisas perdoáveis em um menino, quando se acham
em um adulto, mal as podemos suportar.
Assim, pois, meu Senhor e meu Deus, tu que me deste a vida e corpo, o qual dotaste,
como vemos, de sentidos e proveste de membros, adornando-o de beleza e de instintos
naturais, com os quais pudesse defender sua integridade e conservação, tu me mandas
que te louve por esses dons e te confesse e cante teu nome altíssimo. Serias Deus
onipotente e bom ainda que só tivesses criado apenas estas coisas, que nenhum outro
pode fazer senão tu, ó Unidade, origem de todas as variedades, ó Beleza, que dás forma
a todas as coisas, e com tua lei as ordenas! Tenho vergonha, Senhor, de ter de somar à
vida terrena que vivo aquela idade que não recordo ter vivido, na qual acredito pelo
testemunho de outros, por vê-lo assim em outras crianças, embora essa conjectura
mereça toda a fé. As trevas em que está envolto meu esquecimento a seu respeito
assemelham-se à vida que vivi no ventre de minha mãe.
Assim, se fui concebido em iniqüidade, e se em pecado me alimentou minha mãe,
onde, suplico-te, meu Deus, onde, Senhor, eu, teu servo, onde e quando fui inocente?
Mas eis que silencio sobre esse tempo. Para que ocupar-se dele, se dele já não conservo
nenhuma lembrança?
CAPÍTULO VIII
As primeiras palavras
Acaso não foi caminhando da infância até aqui que cheguei à puerícia? Ou melhor,
esta veio a mim e suplantou à infância sem que esta fosse embora, pois, para onde
poderia ir?
Contudo deixou de existir, porque eu já não era um bebezinho que não falava, mas
um menino que aprendia a falar. Disso me recordo; mas como aprendi a falar, só mais
tarde é que vim a perceber. Não mo ensinaram os mais velhos apresentando-me as
palavras com certa ordem e método, como logo depois fizeram com as letras; mas foi
por mim mesmo, com o entendimento que me deste, meu Deus, quando queria
manifestar meus sentimentos com gemidos, gritinhos, e vários movimentos do corpo, a
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fim de que atendessem meus desejos; e também ao ver que não podia exteriorizar tudo
o que queria, nem ser compreendido por todos aqueles a quem me dirigia.
Assim, pois, quando chamavam alguma coisa pelo nome, eu a retinha na memória e,
ao se pronunciar de novo a tal palavra, moviam o corpo na direção do objeto, eu
entendia e notava que aquele objeto era o denominado com a palavra que
pronunciavam, porque assim o chamavam quando o desejavam mostrar.
Que esta fosse sua intenção, era-me revelado pelos movimentos do corpo, que são
como uma linguagem universal, feita com a expressão rosto, a atitude dos membros e o
tom da voz, que indicam os afetos da alma para pedir, reter, rejeitar ou evitar alguma
coisa. Deste modo, das palavras usadas nas e colocadas em várias frases e ouvidas
repetidas vezes, ia eu aos poucos notando o significado e, domada a dificuldade de
minha boca, comecei a dar a entender minhas vontades por meio delas.
Foi assim que comecei a comunicar meus desejos às pessoas entre as quais vivia, e
entrei a fazer parte do tempestuoso mundo da sociedade, dependendo da autoridade de
meus pais e obedecendo às pessoas mais velhas.
CAPÍTULO IX
Estudos e jogos
Ó meu Deus, meu Deus! Que de misérias e enganos não experimentei então, quando
se me propunha, em criança, como norma de bem viver, obedecer os mestres que me
instigavam a brilhar neste mundo, e me ilustrar nas artes da língua, fiel instrumento para
obter honras humanas e satisfazer a cobiça! Mudaram-me à escola, para que aprendesse
as letras, nas quais eu, miserável, desconhecia o que havia de útil. Contudo, se era
preguiçoso para aprendê-las, era fustigado, num sistema louvado pelos mais velhos;
muitos deles, que levavam esse gênero de vida antes de nós, nos traçaram caminhos tão
dolorosos pelos quais éramos obrigados a caminhar, multiplicando assim o trabalho e a
dor aos filhos de Adão.
Mas, por sorte, encontrei homens que te invocavam, Senhor, e com eles aprendi a te
sentir, quanto possível, como a um Ser grande que podia escutar-nos e vir em nosso
auxílio, embora sem a percepção dos sentidos. Ainda menino, pois, comecei a invocar-te
como refúgio e amparo e, para te invocar, desatei os nós de minha língua; e, embora
pequeno, te rogava já com grande fervor para que não me açoitassem na escola. E
quando não me escutavas, o que servia para meu proveito os mestres, assim como meus
próprios pais, que certamente não desejavam o meu mal, riam-se daquele castigo, que
então era para mim grave suplício.
Porventura, Senhor, haverá alguma alma tão grande, unida a ti com tão ardente
afeto, pois isto também pode ser produzido pela estultice – repito, uma alma que alcance
tal grandeza de ânimo que despreze os cavaletes e garfos de ferro, e os demais
instrumentos de martírio – para fugir dos quais se te dirigem súplicas de todas as partes
do mundo? Haverá uma alma que assim os despreze – rindo-se dos que têm deles tanto
horror – como se riam nossos pais dos tormentos que éramos castigados por nossos
mestres quando meninos? Porque, na verdade, não os temíamos menos, nem te
rogávamos com menor fervor para que nos livrasses deles.
Contudo, pecávamos por negligencia escrevendo ou lendo, estudando menos do que
nos era exigido; e não era por falta de memória ou de inteligência, que para aquela
idade, Senhor, me deste de modo suficiente, senão porque eu gostava de brincar,
embora os que nos castigavam não fizessem outra coisa. Mas os jogos dos mais velhos
chamavam-se negócios, enquanto que os dos meninos eram por eles castigados, sem
que ninguém se compadecesse de uns e de outros, ou melhor, de ambos. Um juiz
sensato poderia aprovar os castigos que eu, menino, recebia porque jogava bola, e
porque com este jogo atrasava o aprendizado das letras, com as quais, adulto haveria de
jogar menos inocentemente?
Acaso fazia outra coisa naquele que me castigava? Se nalguma questiúncula era
vencido por algum colega seu, não era mais atormentado pela cólera e pela inveja do
que eu, quando uma partida de bola era vencido por meu companheiro?
CAPÍTULO X
Amor ao jogo
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Contudo, Senhor meu, ordenador e criador da natureza, mas do pecado somente
ordenador, eu pecava; pecava desobedecendo as ordens de meus pais e mestres, uma
vez que podia no futuro fazer bom uso das letras que desejavam me ensinar, qualquer
que fosse sua intenção.
E não era desobediente para me ocupar de coisas melhores, mas por amor ao jogo;
buscava nos combates orgulhosas vitórias; deleitava-me com histórias frívolas, com as
quais incentivava sempre mais minha curiosidade. Igualmente curiosos, meus olhos se
abriam sempre mais para os jogos e espetáculos dos adultos, jogos que dão tao grande
dignidade a quem os oferece, que quase todos desejam as mesmas dignidades para seus
filhos. Contudo, gostam de os castigar se com tais espetáculos fogem dos estudos, por
meio dos quais desejam que eles venham um dia a oferecer espetáculos semelhantes.
Senhor, olha misericordiosamente para essas coisas, e livra-nos delas a nós que já te
invocamos; mas livra também aos que ainda não te invocam, a fim de que te invoquem,
e sejam igualmente libertados.
CAPÍTULO XI
O batismo diferido
Ainda menino, ouvi falar da vida eterna, que nos está prometida pela humildade de
Jesus, nosso Senhor, que desceu até nossa soberba; e fui marcado com o sinal da cruz,
sendo-me dado saborear de seu sal logo que saí do ventre de minha mãe, que sempre
esperou muito em ti.
Tu viste, Senhor, que numa ocasião, ainda menino, atacou-me repentinamente um
dor de estômago que me abrasava, e que me aproximou da morte. Tu viste também,
meu Deus, pois já me tinhas sob tua guarda, com que fervor de espírito e com que fé
pedi à piedade de minha mãe, e da mãe de todos nós, tua Igreja, o batismo de teu
Cristo, meu Deus e Senhor. Perturbou-se minha mãe carnal, pois que me criava com
mais amor em seu casto coração em tua fé para a vida eterna e, solícita, já havia
cuidado de que me iniciasse e purificasse com os sacramentos da salvação, confessandote,
ó meu Senhor Jesus, em remissão de meus pecados, quando, de repente, comecei a
melhorar. Em vista disso, diferiu-se minha purificação, considerando que seria
impossível, se eu vivesse, que não me tornasse a manchar; pois a culpa dos pecados
cometidos depois do batismo é muito maior e mais perigosa.
Nesta época eu já tinha fé verdadeira, juntamente com minha mãe e com todos da
casa, à exceção de meu pai, que, porém, não pôde vencer em mim a ascendência da
piedade materna, para que deixasse de acreditar em Cristo, tal como ele não acreditava;
minha mãe, solícita, cuidava de que tu, meu Deus, fosses mais pai para mim do que ele,
e a ajudavas a triunfar do marido, a quem servia melhor, porque nele te servia a ti e a
tuas ordens.
Mas, meu Deus, suplico-te que me mostres, se te apraz, por que motivo se diferiu
então meu batismo; se foi ou não para meu bem que me soltaram as rédeas do pecado.
Por que razão ainda hoje se diz de uns e de outros, como ouvimos em muitos lugares:
"Deixe que faça o que quiser, porque ainda não está batizado" – embora não digamos da
saúde do corpo: "Deixe que receba ainda mais feridas, porque ainda não está curado?"
Quanto melhor teria sido para mim receber logo a saúde, e que meus cuidados e os
dos meus fossem empregados em conservar intacta debaixo da tua proteção a saúde da
minha alma, que me havias concedido! Melhor fora, certamente; porém, como minha
mãe, sem dúvida, já previa quantas e quão grandes ondas de tentações me ameaçariam
depois da meninice, preferiu expor-me a elas como terra grosseira que depois receberia
forma, do que expor-me já como imagem tua.
CAPÍTULO XII
Ódio ao estudo
Nesta minha infância, na qual eu tinha menos que temer por mim do que em minha
adolescência, eu não gostava dos estudos, e odiava que a eles me obrigassem. Contudo,
era coagido, e me faziam grande bem. Quem não procedia bem era eu, que não
estudava a não ser constrangido, pois ninguém faz bem o que faz contra a vontade,
mesmo que seja bom o que faz.
Tampouco os que obrigavam a estudar agiam corretamente; antes, todo o bem que
eu recebia vinha de ti, meu Deus, porque eles não tinham outro fim ao me obrigarem a
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estudar senão saciar o apetite de abundante miséria e de gloria ignominiosa. Mas tu,
Senhor, que tens contados os cabelos de nossa cabeça, usavas do erro de todos os que
me coagiam a estudar para minha utilidade; e usavas da minha falta de vontade de
estudar para meu castigo, de que certamente eu já era digno, sendo ainda tão pequeno,
e tão grande pecador.
Assim, convertias em bem o mal que eles me faziam, e dos meus pecados, me davas
justa retribuição, porque é teu desígnio, e assim acontece, que toda alma desordenada
seja castigo de si mesma.
CAPÍTULO XIII
Gosto pelo latim
Porque odiava eu as letras gregas, que me ensinavam quando eu era criança? Não o
sei, e nem agora o posso explicar. Em compensação, as letras latinas me apaixonavam,
não as ensinadas pelos professores primários, mas a que é explicada pelos chamados
gramáticos, porque aquelas primeiras, com as quais se aprende a ler, a escrever e a
contar, não me foram menos pesadas e insuportáveis que as gregas. Mas donde podia
proceder essa aversão, senão do pecado e da vaidade da vida, porque eu era carne e
vento que caminha e não volta?
Aquelas primeiras letras, pelas quais podia, como ainda faço, chegar e ler tudo o que
há escrito e a escrever tudo o que quero, eram melhores e mais úteis que aquelas outras
nas quais me obrigavam a decorar os erros de um tal Enéias, esquecido dos meus, e a
chorar a morte de Dido, que se suicidou por amor, enquanto isso, eu, miserabilíssimo,
suportava a minha própria morte com olhos enxutos, morrendo para ti, ó meu Deus,
minha vida! Na verdade, que pode haver de mais miserável do que um infeliz que não se
compadece de si mesmo e que, chorando a morte de Dido por amor de Enéias, não chora
sua própria morte por falta de amor a ti, ó Deus, luz de meu coração, pão interior de
minha alma, virtude fecundante de meu pensamento? Não te amava; prevaricava longe
de ti, e ouvia de todas as partes: "Muito bem! Muito bem!" – porque a amizade deste
mundo é adultério contra ti; e se aclamam a alguém dizendo: "Muito bem! Muito bem!" –
é para que este não se envergonhe de ser assim. Eu não chorava estas faltas, chorava a
morte de Dido "que se suicidou com a espada", eu procurava as últimas de tuas
criaturas, abandonando-te a ti, como terra que eu era, atraída pela terra. Se então me
proibissem a leitura de tais coisas, me afligiriam por não ler aquilo que me comovia até a
dor.
Não obstante, semelhante loucura é considerada como coisa mais nobre e proveitosa
que as letras pelas quais aprendemos a ler e a escrever.
Mas agora, meu Deus, grite em minha alma tua verdade, e diga: Não é assim, não é
assim, antes, aquela primeira instrução é absolutamente superior; pois eu preferiria
esquecer todas as aventuras de Enéias, e outras histórias semelhantes, do que o saber
ler e escrever. Sei que nas escolas dos gramáticos pendem cortinas às portas; porém,
servem menos para velar o segredo que para encobrir o erro.
Não gritem contra mim aqueles mestres a quem já não temo, enquanto confesso a ti
os desejos de minha alma, e aborreço dos meus maus caminhos, a fim de amar os teus.
Não gritem contra mim os comerciantes da gramática, pois, se eu os interrogar sobre se
é verdade que Enéias veio uma vez a Cartago, como afirma o poeta, os néscios
responderão que não sabem, e os sábios negarão o fato. Porém, se lhes perguntar como
se escreve o nome de Enéias, todos os que estudaram me responderão a mesma coisa,
de acordo com a convenção com que os homens fixaram o valor das letras do alfabeto.
Do mesmo modo, se lhes perguntar o que seria mais prejudicial para a vida humana:
esquecer o ler e o escrever, ou todas as ficções dos poetas, quem não vê o que logo
responderia aquele que não estivesse de tudo esquecido de ti? Pequei, pois, em minha
infância, ao preferir vãos aos proveitosos, ou para dizer melhor, ao amar àqueles e ao
odiar a estes; era para mim uma cantiga odiosa aquele "um e um, dois; dois e dois,
quatro; enquanto considerava espetáculo encantador a história do cavalo de madeira
cheio de guerreiros e o incêndio de Tróia, "e até a sombra de Creuza".
CAPÍTULO XIV
Aversão ao grego
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Por que então aborrecia eu a literatura grega na qual se cantam tais coisas? Porque
também Homero é mui habilidoso em tecer essas historietas, dulcíssimo na sua
frivolidade, embora para mim, menino, fosse bem amargo. Creio que o mesmo ocorra
com Virgilio para os meninos gregos obrigados a estudá-lo, como a mim com relação a
Homero. Era a dificuldade de ter de aprender totalmente uma língua estranha que, como
fel, aspergia de amargura todas as doçuras das fábulas gregas.
Eu ainda não conhecia nenhuma palavra daquela língua, e já me obrigavam com
veemência, com crueldades e terríveis castigos, a aprendê-la. Na verdade, eu, ainda
criança, também não conhecia nenhuma palavra de latim; contudo, com um pouco de
atenção, o aprendi entre o carinho das amas, os gracejos dos que se riam e as alegrias
dos que brincavam, sem medo algum nem tormento. Eu o aprendi, sem a pressão dos
castigos, impelido unicamente por meu coração desejoso de dar à luz seus sentimentos,
e o único caminho para isso era aprender algumas palavras, não dos que as ensinavam,
mas do que falavam, em cujos ouvidos ia eu depositando quanto sentia.
Por aqui se evidencia claramente que, para instruir, tem mais eficácia e curiosidade
livre do que a necessidade inspirada pelo medo. Contudo, os excessos da curiosidade
encontram nessa violência um freio segundo tuas leis, ó Deus; que desde as palmatórias
dos mestres até os tormentos dos mártires sabem dosar suas salutares amarguras, que
nos reconduzem a ti do seio do pernicioso deleite que de ti nos apartara.
CAPÍTULO XV
Oração
Ouvi, Senhor, minha oração, para que não desfaleça minha alma sob a tua lei, nem
me canse em confessar tuas misericórdias, com as quais me arrancaste de meus
perversos caminhos; que tua doçura sobrepuje todas as doçuras que segui, e assim te
ame fortissimamente, e abrace tua mão com toda minha alma, e me livres de toda a
tentação até o fim dos meus dias.
Pois é, Senhor, meu rei e meu Deus, e a ti consagro quanto falo, escrevo, leio e conto,
pois quando aprendia aquelas futilidades, tu eras o que me davas a verdadeira disciplina,
e já me perdoaste os pecados de deleite cometidos naquelas vaidades. Muitas palavras
úteis aprendi nelas, é verdade; porém, estas também se podem aprender em estudos
sérios, e este é o caminho seguro pelo qual deveriam encaminhar as crianças.
CAPÍTULO XVI
O mal da mitologia
Ai de ti, torrente dos hábitos humanos! Quem há que te resista? Quando te secarás?
Até quando irás arrastar os filhos de Eva a esse mar imenso e tenebroso, que apenas
logram passar os que embarcam sobre o lenho da cruz? Acaso não foi em ti que li a
fábula de Júpiter que troveja e adultera? É verdade que não podia fazer tais coisas ao
mesmo tempo, mas assim se representou para autorizar a imitação de um verdadeiro
adultério com o encantamento de um falso trovão. Contudo, qual é o professor de pênula
capaz de ouvir com paciência a um homem nascido do mesmo pó que clama e diz:
"Homero imaginava essas ficções e atribuía aos deuses os vícios humanos; porém, eu
preferiria que atribuísse a nós as qualidades divinas". Com mais verdade se diria que
Homero imaginou tudo isso, atribuindo qualidades divinas a homens corrompidos, para
que os vícios não fossem considerados como tais, e para que todo aquele que os
cometesse parecesse que imitava a deuses celestes, e não a homens corrompidos.
E contudo, ó torrente infernal, em ti se precipitam os filhos dos homens, com o
dinheiro gasto para aprender tais coisas. E consideram acontecimento importante
representá-lo, publicamente no Foro, à vista das leis que concedem aos mestres um
prêmio, além de seus salários particulares.
E ferindo os rochedos de tuas margens, gritas dizendo: "Aqui se aprendem as
palavras; aqui se adquire a eloqüência, tão necessária para persuadir e explicar os
pensamentos; não poderíamos pois aprender as palavras: chuva de ouro, regaço, templo
celeste, logro e outras mais, escritas em determinada passagem, se Terêncio não nos
apresentasse um jovem perdido que se propõe a imitar a luxúria de Júpiter?
Contemplava ele uma pintura mural "na qual se representava o mesmo Júpiter no
momento em que, segundo dizem, descia como chuva de ouro sobre o regaço de Dânae,
para lograr assim à pobre mulher".
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E vede como se excitava à luxúria a vista de tão celestial mestre:
- Mas que deus fez isto? – diz.
- Nada menos que aquele que faz retumbar a abóbada do céu com enorme trovão! - E
eu, homenzinho, não haveria de fazer o mesmo?
- Fi-lo, sim, e com muito gosto.
De modo algum se aprendem com semelhante torpeza aquelas palavras; antes, essas
palavras levam mais atrevidamente a cometer a mesma devassidão. Não incrimino as
palavras, que são como vasos seletos e preciosos, mas condeno o vinho do erro que
mestres ébrios nos davam a beber nelas e, se não o bebêssemos, éramos açoitados, sem
que pudéssemos apelar para juiz mais sóbrio.
E, não obstante, meu Deus, cuja presença me protege desta lembrança, confesso que
aprendi estas coisas com gosto e que, miserável, nelas me comprazi, sendo por isso
chamado menino de grandes esperanças.
CAPÍTULO XVII
Êxitos escolares
Permite-me, Senhor, que diga também algo de meu talento, dádiva tua, e dos
desatinos em que o empregava. Propunha-se-me como desafio – coisa mui preocupante
para minha alma, tanto pelo louvor ou descrédito, como por medo dos açoites – que
repetisse as palavras de Juno, irada e ressentida por não podem "afastar da Itália ao rei
dos troianos", embora jamais tenha sabido que tivessem sido pronunciadas por Juno.
Mas obrigavam-nos a errar seguindo os passos das ficções poéticas, e a repetir em prosa
o que o poeta havia dito em verso. Era mais elogiado aquele que, conforme a dignidade
da pessoa representada, soubesse pintar com mais vivacidade e semelhança, e revestir
com palavras mais apropriadas seus afetos de ira ou de dor.
Mas qual o proveito disso – ó vida verdadeira, meu Deus – de que me servia ser
aplaudido por minha declamação mais que todos os meus coetâneos e condiscípulos?
Não era tudo aquilo fumo e vento? Acaso não havia outra coisa em que exercitar meu
talento e minha língua? Teus louvores, Senhor, teus louvores, consignados nas
Escrituras, poderiam soerguer a frágil planta de meu coração, e eu não teria sido
arrebatado pela vaidade de vãs quimeras, presa imunda das aves. Com efeito, há
diversas maneiras de oferecer sacrifício aos anjos rebeldes.
CAPÍTULO XVIII
Leis gramaticais, lei de Deus
Mas, por que admirar-se que eu me deixasse arrastar pelas vaidades e me afastar de
ti, meu Deus, se me propunham como exemplos para imitar a uns homens que se, ao
contar alguma boa ação, deslizassem nalgum barbarismo ou solecismo cobriam-me de
críticas e, pelo contrário, que eram elogiados por narrar suas torpezas com palavras
castiças e apropriadas, de modo eloqüente e elegante, e que os inchavam de vaidade?
Tu vês, Senhor, estas coisas, e te calas compassivo, paciente, cheio de misericórdia e
verdade. Mas te calarás para sempre? Arranca, pois, agora deste espantoso abismo a
alma que te busca sedenta de teus deleites, e que te diz de coração: Busquei, Senhor,
teu rosto; teu rosto, Senhor, buscarei ainda. Longe está de teu rosto quem anda ocupado
com afetos tenebrosos, porque não é com os pés carnais, nem cobrindo distâncias que
nos aproximamos ou nos afastamos de ti. Porventura aquele teu filho menor procurou
cavalos, ou carros, ou naves, ou voou com asas invisíveis, ou viajou a pé para alcançar
aquela região longínqua onde dissipou o que lhes havia dado, ó Pai, meigo ao lhe
entregar a substância, e mais carinhoso ainda ao recebê-lo andrajoso? Assim, pois, viver
nas paixões da luxúria, é o mesmo que viver em paixões tenebrosas, é viver longe de teu
rosto.
Olha, meu Senhor e meu Deus, é vê paciente, como costumas ver, de que modo
diligente os filhos dos homens observam as regras de ortografia recebidas dos primeiros
mestres, e desprezam as leis eternas de salvação perpétua recebidas de ti; de tal modo
que, se alguns dos que sabem ou ensinam as regras antigas dos sons pronunciasse a
palavra homo, sem aspirar a primeira letra, desagradaria mais aos homens do que se,
contra teus preceitos, odiasse a outro homem, sendo este homem.
Como se o homem pudesse ter inimigo mais pernicioso que o ódio com que se irrita
contra si mesmo, ou como se pudesse causar a outrem maior dano, perseguindo-o, do
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que causa a seu próprio coração odiando! Com certeza, não nos é mais íntima a ciência
das letras do que a consciência, que manda não fazer a outrem o que não queremos que
não nos façam.
Oh! Como és misericordioso, tu, que habitando silencioso nos céus, Deus grande e
único, espalhas com lei infatigável cegueiras vingadoras sobre as paixões ilícitas! Quando
o homem, aspirando à fama de eloqüente, ataca a seu inimigo com ódio feroz diante do
juiz, rodeado de grande multidão de homens, toma todo o cuidado para que, por um
lapsus linguae, não se lhe escape um inter ominibus, sem aspirar o h, sem cuidar que
com o furor de seu ódio se tire um homem de entre os homens.
CAPÍTULO XIX
Mal perdedor
À beira de tal lodaçal jazia eu, pobre criança, sendo esta a arena em que me
exercitava, temendo mais cometer um barbarismo de linguagem do que cuidando de não
invejar, se o cometia, aqueles que o tinham evitado.
Digo e confesso diante de ti, meu Deus, essas misérias, que me angariavam o louvor
daqueles cuja simpatia equivalia para mim a uma vida honesta, pois não via o abismo
pois não via o abismo de torpeza em que tudo isso me lançara, longe dos teus olhos. A
teus olhos quem era mais repelente do que eu? E eu até desagradava tais homens,
enganando com infinidade de mentiras a meus criados, mestres e pais por amor dos
jogos, por gosto de ver espetáculos frívolos e o desejo inquieto de os imitar.
Também cometia furtos na despensa e na mesa de meus pais, ora impelido pela gula,
ora para ter de dar aos meninos para brincar com eles, folguedos que os deleitavam
tanto quanto a mim, e que eles me faziam pagar. No jogo, freqüentemente, conseguia
vitórias fraudulentas, vencido pelo desejo de me sobressair. Contudo, nada havia que eu
quisesse mais evitar e que eu repreendesse mais atrozmente se o descobrisse em outros,
que o mesmo eu fazia aos demais.
Se acaso eu era o prejudicado, e o acusado ficava furioso, eu não cedia. Será esta a
inocência infantil? Não, Senhor, não o é, eu to confesso, meu Deus. Porque essas
mesmas coisas que se fazem com os criados e mestres por causa de nozes, bolas e
passarinhos, se avultam na maioridade com os magistrados e reis por causa de dinheiro,
palácios e servos, do mesmo modo que à palmatória sucedem-se maiores castigos.
Assim, quando tu, nosso rei, disseste: Delas é o reino do céus – quiseste sem dúvida
louvar na pequenez de sua estatura um símbolo de humildade.
CAPÍTULO XX
Ação de graças
Contudo, Senhor, graças te sejam dadas, excelso e ótimo criador e ordenador do
universo, nosso Deus, mesmo que te limitasses a me fazer apenas menino. Porque
então, eu já existia, vivia, sentia, cuidava da minha integridade, eco de tua profunda
unidade, fonte de minha existência.
Guardava também, com o secreto instinto, a integridade dos meus outros sentidos, e
deleitava-me com a verdade nos pequenos pensamentos que formava sobre coisas
pequenas.
Não queria ser enganado, tinha boa memória, e me ia instruindo com a conversação.
Alegrava-me com a amizade, fugia à dor, ao desprezo, à ignorância. E não seria isto, em
tal criatura, digno de admiração e de louvor? Pois todas essas coisas são dons do meu
Deus, que eu não dei a mim mesmo. E todos são bons, e tudo isso constitui o meu eu.
O que me criou, portanto, é bom, e ele próprio é o meu bem; a ele louvo por todos
estes bens que integravam meu ser de criança. Eu pecava em buscar em mim próprio e
nas demais criaturas, e não nele, os deleites, grandezas e verdades; por isso caia logo
em dores, confusões e erros.
Graças a ti, minha doçura, minha esperança e meu Deus, graças a ti por teus dons;
que eles fiquem em ti conservados. Assim me guardarás também a mim, e aumentarão e
aperfeiçoarão os dons que me deste, e eu estarei contigo, porque também me deste a
existência.
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LIVRO SEGUNDO
CAPÍTULO I
A adolescência
Quero recordar minhas torpezas passadas e as degradações carnais de minha alma,
não porque as ame, mas por te amar, ó meu Deus. É por amor de teu amor que o faço,
percorrendo com a memória amargurada, aqueles meus perversos caminhos, para que tu
me sejas doce, doçura sem engano, ditosa e eterna doçura. Resgata-me da dispersão em
que me dissipei quando, afastando-me de tua unidade, me desvaneci em muitas coisas.
Tempo houve de minha adolescência em que ardi em desejos de me fartar dos
prazeres mais baixos, e ousei a bestialidade de vários e sombrios amores, e se murchou
minha beleza, e me transformei em podridão diante de teus olhos, para agradar a mim
mesmo e desejar agradar aos olhos dos homens.
CAPÍTULO II
As primeiras paixões
E que me deleitava, senão amar e ser amada? Mas eu não era moderado, indo de
alma para alma de acordo com os sinais luminosos da amizade, pois, da lodosa
concupiscência de minha carne e do fervilhar da puberdade levantava-se como que uma
névoa que obscurecia e ofuscava meu coração, a ponto de não discernir a serena
amizade da tenebrosa libido. Uma e outra, confusamente, me abrasavam; arrastavam
minha fraca idade pelo declive íngreme de meus apetites, afogando-me em um mar de
torpezas. Tua ira se acumulava sobre mim, e eu não o sabia. Ensurdeci com o ruído da
cadeia de minha mortalidade, e cada vez mais me afastava de ti, e tu o consentias; e me
agitava, e me dissipava, e me derramava e fervia em minha devassidão, e tu te calavas
– ó alegria que tão tarde encontrei! – tu te calavas então, e eu ia cada vez mais para
longe de ti, sempre atrás de estéreis sementes de dores, com vil soberba e inquieto
cansaço.
Oh! Se alguém refreasse aquela minha miséria, para que fizesse bom uso da fugaz
beleza das criaturas inferiores; limitasse suas delicias, a fim de que as vagas daquela
minha idade rompessem na praia do matrimonio, já que de outro modo não podia haver
paz – contendo-se nos limites da geração, como prescreve tua lei, Senhor, tu que crias o
gérmen transmissor de nossa vida mortal, e que com mão bondosa podes suavizar a
agudeza dos espinhos, que mantiveste fora do paraíso! Porque tua onipotência está perto
de nós, mesmo quando vagueamos longe de ti.
Pelo menos eu deveria atender com mais diligencia à voz de tuas nuvens: Também
eles sofrerão as tribulações da carne; mas eu quisera poupar-vos; e bom é ao homem
não tocar em mulher; o que está sem mulher pensa nas coisas de Deus, de como o há de
agradar; mas o que está ligado pelo matrimonio pensa nas coisas do mundo, e em como
há de agradar à mulher.
Estas são as palavras que eu deveria ter ouvido mais atentamente; e, eunuco pelo
amor ao reino de Deus, teria suspirado mais feliz por teus abraços.
Mas eu, miserável, tornei-me em torrente, seguindo o ímpeto de minha paixão, te
abandonei e transgredi a todos os teus preceitos, sem porém, escapar de teus castigos.
E quem o poderia dentre os mortais? Sempre estavas ao meu lado, irritando-se
misericordiosamente comigo, e aspergindo com amaríssimos desgostos todos os meus
gozos ilícitos, para que eu buscasse a alegria sem te ofender e, quando a achasse, de
modo algum fosse fora de ti, Senhor.
Fora de ti, que impões a dor em mandamento, e feres para sarar, e nos tiras a vida
para que não morramos sem ti.
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Mas onde estava eu? Oh! Quão longe, exilado das delicias de tua casa naqueles meus
dezesseis anos de idade carnal, quando esta empunhou seu cetro sobre mim, e eu me
rendi totalmente a ela, à fúria da concupiscência que a degradação humana legítima,
porém, ilícita, de acordo com as tuas leis.
Nem mesmo os meus cogitaram em me sustentar na queda, pelo casamento, ao verme
cair; cuidavam apenas que eu aprendesse a compor discursos magníficos e a
persuadir com a palavra.
CAPÍTULO III
Cegueira do pai, cuidados da mãe
Nesse mesmo ano tive de interromper meus estudos, quando voltei de Madaura,
cidade vizinha, onde fora estudar literatura e oratória, enquanto se faziam os
preparativos necessários para minha viagem mais longa a Cartago, levado mais pela
ambição de meu pai que pelos seus parcos bens, pois, era mui modesto cidadão de
Tagaste.
Mas, a quem conto eu estes fatos? Certamente, não a ti, meu Deus, mas em tua
presença conto estas coisas aos da minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas
páginas chegassem às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler,
pensemos na profundeza do abismo de onde temos de clamar por ti? E que há de mais
próximo a teus ouvidos que o coração contrito e a vida que procede da fé?
Quem então não cumulava a meu pai de louvores, pois excedendo até seus deveres
familiares, gastava com o filho o necessário para tão longa viagem por causa de seus
estudos?
Porque muitos cidadãos, muito mais ricos do que ele, não mostravam para com os
filhos igual cuidado.
Contudo, este mesmo pai não se importava de saber se eu crescia para ti, ou que
fosse casto, contanto que fosse deserto; mas antes eu era deserto, por carecer de teu
cultivo, ó Deus, único, verdadeiro e bom senhor de teu campo, o meu coração.
Porém, no meu décimo sexto ano foi necessária uma interrupção em meus estudos
por falta de recursos familiares e, livre da escola, passei a viver com meus pais.
Avassalaram então minha cabeça os espinhos de minhas paixões, sem que houvesse
mãos que os arrancassem.
Pelo contrário, meu pai, certo dia, percebendo ao banho sinais de minha puberdade e
vendo-me revestido de inquieta adolescência, como se já se alegrasse pensando nos
netos, foi contá-lo alegre à minha mãe. Alegria esta gerada pela embriaguez com que
este mundo esquece de ti, seu criador, e em teu lugar ama tua criatura; embriaguez que
nasce do vinho sutil de sua perversa e mal inclinada vontade para as coisas baixas.
Mas, nessa época, já tinhas começado a levantar, no coração de minha mãe, teu
templo e os alicerces de tua santa morada; meu pai não era mais que catecúmeno,
recente ainda. Por isso minha mãe perturbou-se com santo temor. Embora eu ainda não
fosse batizado, temia que eu seguisse as sendas tortuosas por onde andam os que te
voltam as costas, e não o rosto.
Ai de mim! Como me atrevo a dizer que te calavas quando me afastava de ti? Seria
verdade que então te calavas comigo? E de quem eram, senão tuas, aquelas palavras
que pela boca de minha mãe, tua serva fiel, sussurraste em meus ouvidos, embora
nenhuma delas penetrasse no meu coração, para que a cumprisse?
Lembro bem que um dia me admoestou em segredo, com grande solicitude, que me
abstivesse da luxúria e, sobretudo, que não cometesse adultério com a mulher de
ninguém.
Porém, esses conselhos pareciam-me próprios de mulheres, e eu me envergonharia
de segui-los.
Mas, na realidade, eram teus, embora eu não o soubesse, e por isso julgava que te
calavas, e que era ela quem me falava; e eu te desprezava em tua serva, eu, seu filho,
filho de tua serva e servo teu, a ti que não cessavas de me falar pela sua boca.
Mas eu não o sabia, e me precipitava com tanta cegueira, que me envergonhava entre
os companheiros de minha idade, de ser menos torpe do que eles. Os ouvia jactar-se de
suas maldades, e gloriar-se tanto mais quanto mais infames eram; assim eu gostava de
fazer o mal, não só pelo prazer, mas ainda por vaidade. O que há de mais digno de
vitupério do que o vicio? E, contudo, para não ser escarnecido, tornava-me mais viciado
e, quando não houvesse cometido pecado que me igualasse aos mais perdidos, fingia ter
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feito o que não cometera, para que não parecesse mais abjeto quanto mais inocente, e
tanto mais vil quanto mais casto.
Eis com que companheiros andava eu pelas graças de Babilônia, revolvendo-me na
lama, como em cinamomo e ungüentos preciosos. E, para que todo esse lodo me
pegasse bem firme, subjugava-me o inimigo invisível, e me seduzia, por ser eu presa
fácil da sedução.
Nem então minha mãe carnal, que já fugira do meio da Babilônia, mas que em outras
coisas caminhava mais devagar, cuidou – como fizera ao aconselhar-me a castidade – de
conter com os laços do matrimonio aquilo de que seu marido lhe falara a meu respeito.
Já percebera ela que me era pestilento, e que mais adiante me seria perigoso – já que
essa paixão não podia ser cortada pela raiz. Não pensou nisso, digo, por temer que o
vínculo matrimonial frustrasse a esperança que sobre mim acalentava; não a esperança
da vida futura, que ela já tinha posto em ti, mas a esperança das letras que ambos, meu
pai e minha mãe, desejavam ardentemente; meu pai, porque não pensava quase nada
de ti, mas apenas ambições vãs a meu respeito; minha mãe, porque considerava que tais
tradicionais estudos das letras não só não me seriam de estorvo, sendo de não pouca
ajuda para chegar a ti. Assim julgo eu, agora, enquanto me é possível pela lembrança, o
caráter de meus pais.
Por isso, soltavam-me as rédeas para o jogo mais do que o permite uma moderada
severidade, deixando-me cair na dissolução de várias paixões; e de todas surgia uma
obscuridade que me toldava, ó meu Deus, a luz da tua verdade; e, por assim dizer, de
meu corpo, brotava minha iniqüidade.
CAPÍTULO IV
O furto das pêras
É certo, Senhor, que tua lei pune o furto, lei tão arraigada no coração dos homens que
nem a própria iniqüidade pode apagar. Que ladrão há que suporte com paciência que o
roubem? Nem o rico tolera isto a quem o faz forçado pela indigência. Também eu quis
roubar, e roubei não forçado pela necessidade, mas por penúria, fastio de justiça e
abundância de maldade, pois roubei o que tinha em abundância, e muito melhor. Nem
me atraía ao furto o gozo de seu resultado, mas atraía-me o furto em si, o pecado.
Nas imediações de nossa vinha, havia uma pereira carregada de frutos, que nem pelo
aspecto, nem pelo sabor tinham algo de tentador. Alta noite – pois até então ficaríamos
jogando nas eiras, de acordo com nosso mau costume – dirigimo-nos ao local, eu e
alguns jovens malvados, com o fim de sacudi-la e colher-lhe os frutos. E levamos grande
quantidade deles, não para saboreá-los, mas para jogá-los aos porcos, embora
comêssemos alguns; nosso deleite era fazer o que nos agradava justamente pelo fato de
ser coisa proibida.
Aí está meu coração, Senhor, meu coração que olhaste com misericórdia quando se
encontrava na profundeza do abismo. Que este meu coração te diga agora que era o que
ali buscava, para fazer o mal gratuitamente, não tendo minha maldade outra razão que a
própria maldade. Era hedionda, e eu a amei; amei minha morte, amei meu pecado; não
o objeto que me fazia cair, mas minha própria queda. Ó torpe minha alma, que saltando
para fora do santo apoio, te lançavas na morte, não buscando na ignomínia senão a
própria ignomínia?
CAPÍTULO V
A causa do pecado
Todos os corpos formosos, o ouro, a prata, e todos os demais têm, com efeito, seu
aspecto atraente. No contato carnal intervém grandemente a congruência das partes, e
cada um dos sentidos percebe nos corpos certa modalidade própria. Também a honra
temporal e o poder de mandar e dominar têm seu atrativo, de onde nasce o desejo de
vingança.
Todavia, para obtermos estas coisas, não é necessário abandonarmos a ti, nem nos
desviar de tua lei. Também a vida que aqui vivemos tem seus encantos, por certa beleza
que lhe é própria, e pela harmonia que tem com as demais belezas terrenas. Cara é,
finalmente, a amizade dos homens pela união que une muitas almas com o doce laço do
amor.
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Por todos estes motivos, e outros semelhantes, pecamos quando, por propensão
imoderada para os bens ínfimos, são abandonados os melhores e mais altos, como tu,
Senhor, nosso Deus, tua verdade e tua lei.
É verdade que também esses bens ínfimos têm seus deleites, porém, não como os de
Deus, criador de todas as coisas, porque nele se deleita o justo, e nele acham suas
delicias os retos de coração.
Portanto, quando indagamos a causa de um crime, não descansamos até averiguar
qual o apetite dos bens chamados ínfimos, ou que temor de perdê-los foi capaz de
provocá-lo. Sem dúvida são belos e atraentes, embora, comparados com os bens
superiores e beatíficos, sejam abjetos e desprezíveis. Alguém comete um homicídio. Por
que? Porque desejou a esposa do morto, ou suas terras, ou porque quis roubar alguma
coisa, ou então, ferido, ardeu em desejos de vingança. Por acaso cometeria o crime sem
motivo, apenas pelo gosto de matar? Quem pode acreditar em semelhante coisa?
Mesmo de Catilina, homem sem entranhas e muito cruel, de quem se disse que era
mau e cruel sem razão, acrescenta o historiador um motivo: "Para que a ociosidade não
embotasse suas mãos e sentimento".
Todavia, se indagares porque agia assim, dir-te-ei que mediante o exercício de crimes,
depois de tomada a cidade, conseguisse honras, poderes e riquezas, libertando-se do
medo das leis e das dificuldades da vida, causados pela pobreza de seu patrimônio e a
consciência de seus crimes. Logo, nem o próprio Catilina amava seus crimes, mas aquilo
por cujo motivo os cometia.
CAPÍTULO VI
O crime gratuito
Que amei, então, em ti, ó meu furto, crime noturno dos meus dezesseis anos? Não
eras belo, já que eras furto. Mas, por acaso és algo para que eu fale contigo? Belas eram
as pêras que roubamos, por serem criaturas tuas, ó formosíssimo Criador de todas as
coisas, bom Deus, Deus sumo, meu bem e meu verdadeiro bem; belas eram aquelas
pêras! Porém, não eram elas que apeteciam minha alma depravada. Eu as tinha em
abundância, e melhores. Colhi-as da árvore só para roubar; tanto que, tão logo colhidas,
joguei-as fora, saboreando nelas apenas a iniqüidade, com que me regozijava. Se
alguma delas entrou em minha boca, somente o crime é que lhe deu sabor.
E agora pergunto, meu Deus: que é que me deleitava no furto? Pois não encontro
nenhuma beleza nele. Já não falo da beleza que reside na justiça e na prudência, nem
sequer da que resplandece na inteligência do homem, na memória, nos sentidos ou na
vida vegetativa; nem da que brilha nos magníficos astros em suas órbitas, ou na terra e
no mar, cheios de criaturas, que nascem para sucederem umas às outras; nem sequer
da defeituosa e sombria formosura dos vícios enganadores.
O orgulho imita a altura; mas só tu, Deus excelso, estás acima de todas as coisas. E a
ambição, que busca, senão honras e glorias, quanto tu és o único sobre todas as coisas e
ser honrado e glorificado eternamente? A crueldade dos tiranos quer ser temida; porém,
quem há de ser temido senão Deus, a cujo poder ninguém, porém, quem há de ser
temido senão Deus, a cujo poder ninguém, em tempo algum ou lugar, nem por nenhum
meio pode subtrair-se e fugir? As carícias da volúpia buscam ser correspondidas; porém,
não há nada mais carinhoso que tua caridade, nem que se ame de modo mais salutar
que tua verdade, sobre todas as coisas formosa e resplandecente. A curiosidade sugere
amor à ciência, enquanto só tu conheces plenamente todas as coisas. Até a própria
ignorância e estultícia cobrem-se com o nome de simplicidade e inocência; das quais não
acham nada mais simples do que tu. E que pode haver mais inocente do que tu, pois, até
mesmo o castigo dos maus lhes vem de seus pecados? A indolência gosta do descanso;
porém, que repouso seguro pode haver fora do Senhor? O luxo gosta de ser chamado de
fartura; mas só tu és a plenitude e a abundância inesgotável de eterna suavidade. A
prodigalidade veste-se com a capa da liberalidade; porém, só tu, és verdadeiro e
liberalíssimo doador de todos os bens. A avareza quer possuir muitas coisas; porém, só
tu as possui todas. A inveja litiga acerca de excelências; porém, que há mais excelente
do que tu? A ira busca a vingança; e que vingança mais justa do que a tua? O temor
aborrece as coisas repentinas e insólitas, contrárias ao que se ama ou se deseja manter
seguro; mas haverá para ti algo de novo e repentino? Quem poderá separar de ti o que
amas? E onde, senão em ti, se encontra inabalável segurança? A tristeza definha com a
perda das coisas com que a cobiça se deleita, e não quer que se lhe tire nada, como
nada pode ser tirado de ti.
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Assim peca a alma, quando se aparta e busca fora de ti o que não pode achar puro e
ilibado senão quando se volta novamente para ti. Perversamente te imitam todos os que
se afastam de ti e se levantam contra ti. Porém, mesmo imitando-te, mostram que és o
criador de toda criatura e que, portanto, não existe lugar onde alguém se possa afastar
de ti de modo absoluto.
Que amei, então, naquele furto, e no que imitei, viciosa e imperfeitamente, a meu
Senhor?
Acaso foi o gosto de agir pela fraude contra a tua lei, já que não o podia fazer por
força, simulando, cativo, uma falsa liberdade ao fazer impunemente o que estava
proibido, imagem tenebrosa de tua onipotência?
Eis aqui o servo que, fugindo do seu senhor, seguiu uma sombra. Ó podridão! Ó
monstro da vida e abismo da morte! Como pôde agradar-me o ilícito, e não por outro
motivo, senão porque era ilícito?
CAPÍTULO VII
Ação de graças
Como agradecerei ao Senhor por poder recordar todas estas coisas sem que minha
alma sinta medo algum? Amar-te-ei, Senhor, e dar-te-ei graças, e confessarei teu nome,
pois me perdoaste tantas e tão nefandas ações. Devo à tua graça e misericórdia teresme
dissolvido os pecados como gelo, como também todo o mal que não pratiquei. De
fato, de que pecados não seria capaz, eu que amei gratuitamente o erro?
Confesso que todos já me foram perdoados; o mal cometido voluntariamente, e o que
deixei de fazer pela tua graça. Quem dentre os homens, conhecendo tua fraqueza,
poderá atribuir às próprias forças sua castidade e inocência para amar-te menos, como
se tivesse menor necessidade de tua misericórdia, com a qual perdoas os pecados aos
que se convertem a ti?
Aquele, pois, que, chamado por ti, seguiu tua voz e evitou todas estas coisas que lê de
mim, e que eu recordo e confesso, não se ria de mim por haver sido curado pelo mesmo
médico que o preservou de cair enfermo, ou melhor, de que adoecesse tanto. Antes,
esse deve amar-te tanto e ainda mais do que eu, porque o mesmo que me curou de
tantas e tão graves enfermidades, esse mesmo o livrou de cair no pecado.
CAPÍTULO VIII
O prazer da cumplicidade
E que fruto colhi eu, miserável, daquelas ações que agora recordo com rubor?
Sobretudo daquele furto, em que amei o próprio furto, e nada mais? Nenhum, pois o
furto, em si nada valia, ficando eu mais miserável com ele. Todavia, é certo que eu
sozinho não o teria praticado – a julgar pela disposição de meu ânimo na ocasião; - não,
de modo algum; eu sozinho não o faria.
Portanto, apreciei também na ocasião a companhia daqueles com quem o cometi.
Logo, também é certo que apreciei algo mais além do furto; embora não amasse de fato
nada mais, pois também essa cumplicidade era nada.
Mas, que é esta, na verdade? E quem mo poderá ensinar, senão o que ilumina meu
coração e rasga minhas sombras? De onde vem à minha alma a idéia destas indagações,
desta discussão e considerações? Se eu então amasse as pêras que roubei, e quisesse
apenas seu desfrute, podia tê-las roubado sozinho, se isso bastasse. Poderia fazer a
iniqüidade pela qual chegaria meu deleite sem necessidade de excitar o prurido da minha
cobiça com a conivência de almas cúmplices.
Porém, como não achava deleite algum nas pêras, colocava este no próprio pecado,
que consistia na companhia dos que pecavam comigo.
CAPÍTULO IX
O prazer do pecado
E que sentimento era aquele de minha alma? certamente, assaz torpe e eu um
desgraçado por alimentá-lo. Mas, que era na realidade? E quem há que conheça os
pecados? Era como um riso, como que a fazer-nos cócegas no coração, provocado por
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ver que enganávamos aos que não suspeitavam de nós tais coisas, e porque sabíamos
que haviam de detestá-las.
Porém, por que me deleitava o não perpetrar sozinho o roubo? Acaso alguém se ri
facilmente quando está só? Ninguém o faz, é verdade; porém, também é verdade que às
vezes o riso tenta e vence aos que estão sós, sem que ninguém os veja, quando se
oferece aos sentidos ou à alma algo extraordinariamente ridículo. Porque a verdade é
que eu sozinho nunca teria feito aquilo; não, eu sozinho jamais faria aquilo. Tenho viva,
diante de mim, meu Deus, a lembrança daquele estado de alma, e repito que eu sozinho
não teria cometido aquele furto, do qual não me deleitava o objeto, mas a razão do
roubo, o que, sozinho, não me teria agradado de modo algum, nem eu o teria feito.
Ó amizade inimiga! Sedução impenetrável da alma, vontade de fazer o mal por
passatempo e brinquedo, apetite do dano alheio sem proveito algum e sem desejo de
vingança! Só porque sentimos vergonha de não ser sem-vergonha quando ouvimos;
"Vamos! Façamos!".
CAPÍTULO X
Deus, o sumo bem
Quem desatará este nó, tão enredado e emaranhado? Como é asqueroso! Não quero
voltar para ele os olhos, não quero vê-lo. Só a ti quero, justiça e inocência, tão bela e
graciosa aos olhos puros, e com insaciável saciedade. Só em ti se acha o descanso
supremo e a vida imperturbável. Quem entra em ti, entra no gozo do seu Senhor, e não
temerá, e estará perfeitamente bem no sumo bem. Eu me afastei de ti e andei errante,
meu Deus, mui longe de teu esteio em minha adolescência, e cheguei a ser para mim
mesmo uma região de esterilidade.
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LIVRO TERCEIRO
CAPÍTULO I
O gosto do amor
Cheguei a Cartago, e por toda parte fervilhava a sertã de amores impuros. Ainda não
amava, mas já gostava de amar; secretamente sedento, aborrecia a mim próprio por não
me sentir mais indigente de amor. Gostando do amor buscava o que amar, e odiava a
segurança e os meus caminhos sem perigos, porque tinha dentro de mim fonte de
alimento interior, de ti mesmo, ó meu Deus. Eu não sentia essa fonte como tal; antes,
estava sem apetite algum dos manjares incorruptíveis, não porque estivesse saciado
deles, mas porque, quanto mais vazio, tanto mais enfastiado me sentia.
E por isso minha alma não estava bem e, ferida, voltava-se para fora de si, ávida de
se roçar miseravelmente às coisas sensíveis; se porém não tivessem alma, não seriam
certamente amadas.
Amar e ser amado era para mim a coisa mais doce, sobretudo se podia gozar do corpo
da criatura amada. Deste modo manchava com torpe concupiscência a fonte da amizade,
e obscurecia seu candor com os vapores infernais da luxúria. E apesar de tão torpe e
impuro, desejava com afã e cheio de vaidade, passar por afável e cortês.
Caí por fim no amor, em que desejava ser colhido. Porém, ó meu Deus, misericórdia
minha, quanto fel não misturaste àquela suavidade, e quão bom foste ao fazê-lo! Fui
amado, e cheguei secretamente aos laços do prazer, e me deixei alegremente enredar
com trabalhosos laços, para ser logo açoitado com as varas de ferro ardente do ciúme,
das suspeitas, dos temores, das iras e das contendas.
CAPÍTULO II
A paixão dos espetáculos
Arrebatavam-me os espetáculos teatrais, cheios das imagens de minhas misérias e de
alimento para o fogo de minha paixão. Mas, por que quer o homem condoer-se ao
contemplar coisas tristes e trágicas, que de modo algum gostaria de suportar? Contudo,
o espectador deseja sofrer com elas, e até essa mesma dor é seu deleite. Que é isso,
senão rematada loucura? De fato, tanto mais se comove alguém com elas quanto menos
livre se está de tais afetos, embora chamemos de misérias os sofrimentos próprios, e de
compaixão a comiseração do mal alheio.
Porém, que compaixão pode haver em coisas fictícias e representadas? Nelas não se
incita o espectador a que socorra a alguém, senão que o mesmo é convidado apenas à
angústia, apreciando tanto mais o autor daquelas histórias quanto maior é o sentimento
que elas nos inspiram. De onde resulta que, se tais desgraças humanas – quer das
histórias antigas, quer sejam inventadas – são representadas de forma a não se
excitarem sofrimento ao expectador, este sai aborrecido e murmurando; se porém, pelo
contrário, é levado à tristeza, fica atento e chora satisfeito.
Quer isso dizer que amamos as lágrimas e a dor? Sem dúvida que todo homem busca
o gozo; mas como não agrada a ninguém ser miserável, e sendo grato a todos ser
misericordioso, e como a piedade é inseparável da dor, não seria esta a causa verdadeira
para que apreciemos essas emoções dolorosas?
Também isso provém da amizade. Mas para onde se dirige? Para onde vai? Por que se
atira à torrente da pez ardente, às vagas horrendas de negras leviandades em que a
amizade se transforma voluntariamente, afastada e privada de sua celestial serenidade
que o homem repudia?
Deve-se, pois, repelir a compaixão? De modo algum. Convém, pois, que alguma vez
se amem as dores. Mas evita nisso a impureza, ó minha alma, sob proteção de Deus, do
Deus de nossos pais, louvado e exaltado por todos os séculos; cuidado com a impureza.
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Porque nem agora me fecho a tal compaixão. Mas naquele tempo comprazia-me no
teatro com os amantes, quando eles se gozavam em suas torpezas – embora estas não
passassem de encenações. E quando um deles se perdia, eu quase piedosamente me
contristava, e sentia prazer numa e noutra coisa.
Hoje, porém, tenho mais compaixão do homem que se alegra em seus vícios, que do
que sofre pela perda de um prazer funesto ou pela perda de uma mísera felicidade. Esta
misericórdia é certamente mais verdadeira, mas nela a dor não encontra nenhum prazer.
E embora seja certo que se aprove quem por caridade se compadece do miserável,
contudo, quem é fraternalmente compassivo preferiria que não houvesse razões para se
compadecer. Porque assim como não é possível que exista uma benevolência malévola,
tampouco o é que haja miseráveis para deles se compadecer.
Há, pois, dores que merecem compaixão, porém, nenhuma que mereça amor. Por isso
tu, Deus, que amas as almas muito mais elevadamente que nós, te compadeces delas de
modo muito mais puro, porque não sentes nenhuma dor. Mas quem será capaz de
chegar a isso?
Mas eu, desventurado, amava então a dor, e buscava motivos para senti-la. Naquelas
desgraças alheias, falsas e mímicas, agradava-me tanto mais a ação do ator, e me
mantinha tanto mais atento quanto mais copiosas lágrimas me fazia derramar.
Mas, que admira que eu, infeliz ovelha transviada de teu rebanho, por não aceitar tua
proteção, estivesse atacado de ronha asquerosa? De aqui nasciam, sem dúvida, os
desejos daquelas emoções de dor que, todavia, não queria que fossem muito profundas
em mim, porque não desejava padecer coisas como as que via representadas.
Comprazia-me que aquelas coisas, ouvidas ou fingidas, me tocassem só
superficialmente. Mas, como acontece aos que coçam a ferida com as unhas, terminava
por provocar em mim mesmo um tumor abrasador, podridão e pus repelente.
Tal era minha vida. Mas, seria isto vida, meu Deus?
CAPÍTULO III
O estudo da retórica e os demolidores
Entretanto, tua misericórdia, fiel, de longe pairava sobre mim. Em quantas iniqüidades
não me corrompi, meu Deus, levado por sacrílega curiosidade que, separando-me de ti,
conduzia-me aos mais baixos, desleais e enganosos serviços aos demônios, a quem
sacrificava minhas más ações, sendo em todas flagelado com duro açoite por ti! Também
ousei apetecer ardentemente e procurar meios para conseguir os frutos da morte na
celebração de teus mistérios, dentro dos muros de tua igreja. Por isso me açoitaste com
duras penas, que nada eram comparadas com minhas culpas, ó Deus, misericórdia
infinita, e meu refúgio contra os terríveis malfeitores, com os quais vaguei de cabeça
erguida, afastando-me cada vez mais de ti, preferindo meus caminhos aos teus, amando
a liberdade fugitiva! Os estudos a que era entregue, que se denominavam honestos ou
nobres, tinham por objetivo as contendas do foro, nas quais deveria me distinguir com
tanto maior louvor quanto mais hábeis fossem as mentiras. Tal é a cegueira dos homens,
que até de sua própria cegueira se gloriam! Eu já conseguira, naquele tempo, ser o
primeiro da escola de retórica, e por isso me vangloriava soberbamente, e me inflava de
orgulho. Contudo, tu sabes, Senhor, que eu era muito mais sossegado que os demais, e
totalmente alheio às turbulências dos eversores – ou demolidores – nome sinistro e
diabólico que eles consideravam distintivo de urbanidade, entre os quais vivia com
imprudente pudor por não pertencer a seu grupo. É verdade que andava com eles, e que
me deleitava, às vezes, com sua amizade, porém, sempre aborreci o que faziam, como
as troças e a insolência com que surpreendiam e ridicularizavam a timidez dos novatos,
sem outra finalidade senão rir de suas trapalhadas, fazendo disso alimento para suas
malévolas alegrias. Nada há mais parecido a estas ações que as dos demônios, pelo que
nenhum nome lhes cai melhor que o de eversores ou demolidores, por serem eles
transformados e pervertidos totalmente pelos espíritos malignos, que assim os burlam e
enganam, sem que o saibam, justamente no que eles gostam de ludibriar ou enganar os
demais.
CAPÍTULO IV
O Hortênsio de Cícero
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Entre essa gente estudava eu, em tão tenra idade, os livros da eloqüência, na qual
desejava sobressair com o fim condenável e vão de satisfazer à vaidade humana. Mas,
seguindo o programa usado no ensino desses estudos, cheguei a um livro de Cícero, cuja
linguagem, mais do que seu conteúdo, quase todos admiram. Esse livro contém uma
exortação à filosofia, e se chama Hortênsio. Esse livro mudou meus sentimentos, e
transferiu para ti, Senhor, minhas súplicas, e fez com que mudassem meus votos e
desejos. Subitamente, tornou-se vil a meus olhos toda vã esperança, e com incrível ardor
de meu coração suspirava pela sabedoria imortal, e comecei a me reerguer para voltar a
ti. Não era para limar a linguagem – aperfeiçoamento que, parece, eu compraria com o
dinheiro de minha mãe, naquela idade de meus dezenove anos, fazendo dois que
morrera meu pai – não era, repito, para limar o estilo que eu me dedicava à leitura
daquele livro, nem era seu estilo o que a ela me incitava, mas o que ele dizia.
Como ardia, meu Deus, como ardia meus desejos de voar para ti das coisas terrenas,
sem que eu soubesse o que obravas em mim! Porque em ti está a sabedoria, pela qual
aquelas páginas me apaixonavam. Não faltam os que nos iludam servindo-se da filosofia,
colocando ou encobrindo seus erros com nome tão grande, tão doce e honesto. Mas
quase todos os que assim fizeram em seu tempo e em épocas anteriores, são apontados
e refutados nesse livro. Também se encontra ali bem claro aquele salutar aviso de teu
Espírito, dado por meio de teu servo bom e piedoso (Paulo): Vede que ninguém vos
engane com vãs filosofias e argúcias sedutoras, de acordo com a tradição dos homens e
os ensinamentos deste mundo, e não de acordo com Cristo, porque é nele que habita
corporalmente toda a plenitude da divindade.
Mas então – tu bem o sabes, luz de meu coração – eu ainda não conhecia o
pensamento de teu Apóstolo. Só me deleitava naquelas palavras de exortação, o fato de
me excitarem fortemente, inflamando-me a amar, a buscar, a conquistar, a reter e a
abraçar não a esta ou àquela seita, senão à própria Sabedoria, onde quer que estivesse.
Só uma coisa me arrefecia tão grande ardor: não ver ali o nome de Cristo. Porque este
nome, Senhor, este nome de meu Salvador, teu filho, por tua misericórdia eu o bebera
piedosamente com o leite materno, e o conservava, no mais profundo do meu coração,
em alto apreço; e assim, tudo quanto fosse escrito sem este nome, por mais verídico,
elegante e erudito que fosse, não me arrebatava totalmente.
CAPÍTULO V
A desilusão das escrituras
Em vista disso, decidi dedicar-me ao estudo da Sagrada Escritura, para a conhecer. Vi
ali algo encoberto para os soberbos e obscuro para as crianças, mas humilde a princípio
e sublime à medida que se avança o velado de mistérios; e eu não estava disposto a
poder entrar nela, dobrando a cerviz à sua passagem. Contudo, ao fixar nela a atenção,
não pensei o que agora estou dizendo, mas simplesmente me pareceu indigna de ser
comparada com a majestade dos escritos de Cícero. Meu orgulho recusava sua
simplicidade, e minha mente não lhe penetrava o íntimo. Contudo, a agudeza desta visão
haveria de crescer com os pequenos; mas eu de nenhum modo queria ser criança e,
enfatuado de soberba, considerava-me grande.
CAPÍTULO VI
A sedução do maniqueísmo
Deste modo vim cair com uns homens que deliravam orgulhosos, demasiado carnais e
loquazes; em sua boca havia laços diabólicos e engodo pegajoso feito com as silabas de
teu nome, do nosso Senhor, Jesus Cristo, e do nosso Paracleto e Consolador, o Espírito
Santo. Estes nomes nunca saíam de seus lábios, porém, só no som e ruído da boca, pois
de resto, seu coração estava vazio de toda verdade.
Diziam: "Verdade! Verdade!" – e, incessantemente, falavam-me da verdade, que
nunca existiu neles; antes, diziam muitas falsidades, não apenas de ti, que és verdade
por excelência, mas também dos elementos deste mundo, criação tua. Sobre isso,
mesmo quando os filósofos diziam a verdade, tive de ultrapassá-los nos raciocínios por
amor de ti, ó pai sumamente bom, beleza de todas as belezas! Ó verdade, verdade!
Quão intimamente suspiravam por ti as fibras da minha alma, quando eles te faziam soar
ao meu redor freqüentemente e de muitos modos, embora apenas com as palavras e em
seus muitos e volumosos livros. Estes eram as bandejas nas quais, estando eu faminto
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de ti, serviam-me em teu lugar o sol e a lua, formosas obras de tuas mãos, porém, obras
tuas, e não a ti, nem sequer das principais. De fato, tuas obras espirituais são superiores
a estas corporais, ainda que estas sejam brilhantes e celestes. Mas eu tinha sede e fome
não daquelas primeiras, mas de ti mesmo, ó verdade, na qual não há mudança nem
obscuridade momentânea! E eles serviam-me nessas bandejas esplendidas ficções, de
acordo com as quais teria sido melhor amar a este sol, verdadeiro pelo menos aos olhos,
em lugar daquelas falsidades que pelos olhos do corpo enganavam o entendimento.
Contudo, como as tomava por ti, alimentava-me delas, não certamente com avidez,
porque não tinham o teu gosto – pois não eras aqueles vãos fantasmas – nem me nutria
com elas, antes sentia-me cada vez mais debilitado. A comida que se toma em sonhos,
não obstante ser muito semelhante à do estado de vigília, não alimenta aos que
dormem, porque estão dormindo. Aquilo, porém, em nada era semelhantes a ti, como
agora me certificou a verdade, pois que eram fantasmas corpóreos ou falsos corpos;
comparados com eles, são mais reais estes corpos – celestes ou terrestres – que vemos
com os olhos da carne assim como os vêem os animais e as aves.
Vemos estas coisas, e são mais reais do que as conjecturas sobre outros corpos
grandiosos, que, por sua vez, que, por sua vez, quando as imaginamos, são mais reais
do que quando por meio delas conjeturamos outras maiores e infinitas, que de modo
algum existem. Com tais quimeras me alimentava eu, então, e por isso não me saciava.
Mas tu, meu amor, em quem desfaleço para me tornar forte, nem és estes corpos que
vemos, mesmo no céu; nem os outros que não vemos, porque és o Criador e os
ocultaste, e não os consideras como as obras primas de tua criação.
Oh! Quão longe estavas daquelas minhas quimeras, fantasmas de corpos que jamais
existiram em comparação, são mais reais as imagens dos corpos existentes; e, mais
reais ainda essas imagens, esses mesmos corpos, os quais, todavia, não são tu! Mas
também não és a alma que dá vida aos corpos – mas é a vida das almas, a vida das
vidas, que vives, imutável, por ti mesma; a vida de minha alma.
Mas onde estavas então para mim? e quão longe peregrinava eu, longe de ti, privado
até as bolotas com que eu alimentava os porcos! Quão melhores eram as fábulas dos
gramáticos e poetas que todos aqueles enganos! Porque os versos, a poesia e a fábula
de Medeia soando pelo ar são certamente mais úteis que os cinco elementos do mundo
em seus mil disfarces, conforme os cinco antros de trevas, que não existem, mas que
matam a quem nele acredita. Porém, versos e poesia eu os posso converter em iguaria
para meu espírito e, quanto ao vôo de Medeia, se o recitava bem, não lhe afirmava
veracidade e, se me agradava ouvi-lo, não lhe dava crédito. Mas – ai de mim! – eu
acreditei naqueles erros dos maniqueístas.
Ai de mim, por que degraus fui descendo até a profundidade do abismo, exaurido e
devorado pela falta de verdade quando te buscava! E tudo isso, meu Deus – a quem me
confesso porque te compadeceste de mim quando ainda não te conhecia – tudo por
buscar-te, não com a inteligência – com a qual quiseste que eu fosse superior aos
animais – mas com os sentidos da carne. E tu estavas dentro de mim, mais profundo do
que o que em mim existe de mais íntimo, e mais elevado do que o que em mim existe de
mais alto.
Assim encontrei aquela mulher insolente e sem prudência – enigma de Salomão –
que, sentada em uma cadeira à porta de sua casa, diz aos que passam: Comei à vontade
dos pães escondidos, e bebei da doçura da água roubada, a qual me seduziu por andar
eu vagando fora de mim, sob o império da vista carnal, ruminando em meu íntimo o que
meus olhos haviam devorado.
CAPÍTULO VII
Alguns erros dos maniqueus
Não conhecia eu outra realidade – a verdadeira – e me sentia como que movido por
um aguilhão a aceitar a opinião daqueles insensatos impostores quando me perguntavam
de onde procedia o mal, se Deus estava limitado por forma corpórea, se tinha cabelos e
unhas, e se deviam ser considerados justos os que tinham várias mulheres
simultaneamente, e os que causavam a morte de outros ou sacrificavam animais.
Eu, ignorando essas coisas, perturbava-me com essas perguntas. Afastando-me da
verdade, parecia-me encaminhar para ela, porque não sabia que o mal é apenas privação
do bem, até chegar ao seu limite, o próprio nada. E como poderia ter eu tal
conhecimento, se com os olhos não conseguia ver mais do que corpos, e com a alma não
ia além de fantasmas?
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Tampouco sabia que Deus é espírito, que não tem membros dotados de comprimento
ou largura, nem quantidade material alguma, porque a quantidade ou matéria é sempre
menor na parte que no todo e, mesmo que fosse infinita, sempre seria menor em uma
parte definida por um espaço determinado do que em sua infinidade, não podendo estar
toda inteira em todas as partes, como o espírito, como Deus.
Ignorava totalmente o princípio de nossa existência, que há em nós, e pelo qual a
Escritura nos chama de imagem e semelhança de Deus.
Não conhecia tampouco a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas
pela lei retíssima do Deus onipotente. Por ela se hão de formar os costumes dos países
conforme os mesmos países e tempos, e sendo a mesma em todas as partes e tempos,
não varia de acordo com as latitudes e as épocas; lei essa segundo a qual foram justos
Abraão, Isaac, Jacó e Davi, e todos os que são louvados pela boca de Deus. Os
ignorantes, julgando as coisas de acordo com a sabedoria humana, e medindo a conduta
alheia pela própria, os julgam iníquos. É como se um ignorante em armaduras, não
sabendo o que é próprio de cada membro, quisesse cobrir a cabeça com a couraça e os
pés com o elmo, e se queixasse de que as peças não se lhe adaptem convenientemente.
Ou como se alguém se queixasse de que, em determinado dia considerado feriado do
meio-dia em diante, não lhe permitissem vender a mercadoria à tarde, como acontecera
pela manhã; ou porque vê que na mesma casa permite-se a um escravo qualquer tocar
no que não é permitido ao copeiro; ou porque não se permite fazer diante dos comensais
o que se faz atrás de uma estrebaria; ou, finalmente, se indignasse porque, sendo uma a
casa e uma a família, não se atribuíssem a todos as mesmas coisas.
Tais são os que se indignam quando ouvem dizer que em outros tempos se permitiam
aos justos coisas que não se lhe permitem agora, e que Deus mandou àqueles uma coisa
e a estes outra, conforme os tempos, servindo uns e outros à mesma norma de
santidade. E, contudo, é bem visível que no mesmo homem, no mesmo dia e na mesma
hora e na mesma casa, o que convém a um membro não convém a outro; e aquilo que
há pouco era licito, já não o é mais; e que o que se concede em uma parte, é justamente
proibido e castigado em outra.
Diremos, por isso, que a justiça é vária e inconstante? O que acontece é que os
tempos a que ela preside não caminham no mesmo passo, porque são tempos. Mas os
homens, cuja vida terrestre é breve, por não saberem harmonizar as causas dos tempos
idos, e das gentes que não viram nem conheceram, com as que agora vêem e
experimentam e, como também vêem facilmente o que no mesmo corpo, na mesma hora
e lugar convém a cada membro, a cada tempo, a cada parte e a cada pessoa,
escandalizam-se com as coisas daqueles tempos, enquanto aceitam as de agora.
Ignorava eu então estas coisas e não as refletia e, embora de todos os lados me
ferissem os olhos, eu não as via. Quando declamava algum poema, não me era lícito por
um pé em qualquer outra parte do verso, senão em uma espécie de metro uns e em
outra outros, e em um mesmo verso não podia meter em todas as partes o mesmo pé; e
a própria arte da prosódia, apesar de mandar coisas tão distintas, não era diversa em
cada parte, senão uma só e coerente.
Contudo, não via como a justiça, à qual serviram aqueles varões bons e santos,
pudesse conter simultaneamente, de modo mais belo e sublime, preceitos tão diversos,
sem variar em sua essência, apesar de não mandar ou distribuir aos diferentes tempos
todas as coisas simultaneamente, mas a cada um as que lhe são próprias. E, cego,
censurava àqueles piedosos patriarcas, que não só usavam do presente como Deus lhes
mandava e inspirava, mas também prediziam o futuro conforme Deus lhes revelava.
CAPÍTULO VIII
Moral e costume
Acaso será em alguma parte e momento injusto amar a Deus de todo o coração, com
toda a alma e com todo o entendimento, e amar ao próximo como a nós mesmos? Por
isso, todos os pecados contra a natureza, como o foram os do sodomitas, hão de ser
detestados e castigados sempre e em toda a parte, pois, mesmo que todos os
cometessem, não seriam menos réus de crime diante da lei divina, que não fez os
homens para usar tão torpemente de si; de fato viola-se a união que deve existir com
Deus quando a natureza, da qual ele é autor, se mancha com a depravação das paixões.
Com relação aos pecados que são contra os costumes humanos, também hão de ser
evitados de acordo com a diversidade dos costumes, a fim de que o pacto mútuo entre
os povos e nações, firmado pelo costume ou pela lei, não seja quebrado por nenhum
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capricho de cidadão ou forasteiro, porque é indecorosa a parte que não se acomoda ao
todo.
Todavia, quando Deus ordena algo contra tais costumes ou pactos, sejam quais
forem, deve ser obedecido, embora o que mande nunca tenha sido feito; e se não foi
cumprido, deve ser restaurado, e se não estava estabelecido, deve-se estabelecer. Se é
lícito a um rei mandar na cidade que governa coisas que ninguém antes dele e nem ele
próprio havia mandado, e se não é contra o bem da sociedade obedecê-lo, antes o seria
o não obedecê-lo – por ser pacto básico de toda sociedade humana obedecer a seus reis
– quanto mais deveria ser Deus obedecido sem titubeios em tudo que mandar, como rei
do universo? Porque, assim como entre os poderes humanos o maior poder se antepõe
ao menor, para que este lhe preste obediência, assim Deus antepõe-se a todos.
O mesmo se deve dizer dos crimes perpetrados com desejo de causar o mal, quer por
agressão, quer por injúria; e ambas as coisas, ou por desejo de vingança, como ocorre
entre inimigos, ou por alcançar algum bem sem trabalhar, como o ladrão que rouba ao
viajante; ou para evitar algum mal, como acontece com o que teme; ou por inveja, como
quando um miserável quer mal ao que é mais feliz, ou ao que conseguiu riquezas,
temendo ser igualado ou que já lhe sejam iguais; ou unicamente pelo prazer de ver o
mal alheio, como acontece com o espectador dos combates dos gladiadores, ou com o
que se ri e zomba dos outros.
Tais são os princípios ou fontes de iniqüidade, que nascem da paixão de mandar, de
ver ou de sentir, quer de uma só dessas paixões, ou de duas, ou de todas juntas. Razão
por que se vive do mal, ó Deus altíssimo e dulcíssimo, contra o saltério de dez cordas,
teu decálogo.
Mas, que pecado pode atingir a ti, que não és atingido pela corrupção? Ou que crimes
podem ser cometidos contra ti, a quem ninguém pode causar dano? O que vingas são os
crimes que os homens cometem contra si, porque, mesmo quando pecam contra ti,
agem impiamente contra suas próprias almas, e sua iniqüidade engana-se a si própria,
quer corrompendo e pervertendo sua natureza – feita e ordenada por ti – quer usando
imoderadamente das coisas permitidas, ou até desejando imoderadamente as não
permitidas, pelo uso daquilo que é contra a natureza.
Pecam também os que com o pensamento e a palavra se revoltam contra ti, dando
coices contra o aguilhão; ou quando, uma vez quebrados os limites da sociedade
humana, alegram-se audaciosamente com as facções ou desuniões, de acordo com as
suas simpatias ou antipatias. E tudo isso o homem faz quando és abandonado, fonte da
vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta ama-se
uma parte do todo como se fosse o todo.
Essa a razão pela qual só se pode voltar para ti com piedade humilde, para assim nos
purificares nossos maus costumes; pela piedade te mostras propício com os pecados dos
que te confessam, e ouves os gemidos dos cativos, e nos livras dos grilhões que nós
mesmo forjamos, contanto que não ergamos contra ti os chifres de uma falsa liberdade,
quer arrastados pela cobiça de mais haveres, quer pelo temos de perder tudo, preferindo
nosso próprio egoísmo a ti, Bem de todos.
CAPÍTULO IX
Pecados e imperfeições
Mas, entre tantas maldades, crimes e iniqüidades, estão os pecados dos que
progridem, pecados que os homens de bom juízo vituperam, segundo a regra da
perfeição, e louvam pela esperança de frutos futuros, como o verde é promissor das
colheitas.
Há outras ações semelhantes a ações maldosas ou a delitos, e que não são pecados,
porque nem te ofendem a ti, Senhor, nosso Deus, nem tampouco à sociedade humana;
como por exemplo quando procuramos coisas convenientes para o uso da vida e às
circunstâncias, sem que se saiba se essa busca é cobiça, ou quando castigamos a alguém
como desejo de que se corrija, fazendo uso do poder ordinário, e não se sabe se o
fazemos por vontade de mortificar.
Por isso, muitas ações que parecem condenáveis aos homens, são aprovadas por teu
testemunho; e muitas, louvadas pelos homens, são condenadas por teu testemunho,
porque muitas vezes as aparências do ato diferem das intenções do seu autor, assim
como circunstâncias ocultas do tempo.
Mas quando ordenas, algo insólito e imprevisto, mesmo que o tenhas proibido uma
vez, mesmo que escondas por algum as razões do teu mandamento, mesmo que seja
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contra as convenções de alguns homens da sociedade, quem pode duvidar de que se há
de obedecer, sendo que só é justa a sociedade humana que te obedece? Felizes dos que
sabem o que tu ordenaste, porque os que te servem fazem tudo o que mandas, ou
porque assim o exige o tempo presente, ou para preparar o futuro.
CAPÍTULO X
Ridicularias dos maniqueus
Desconhecendo eu essas verdades, ria-me de teus santos e profetas. Mas, que fazia
eu quando me ria deles, senão dar motivo para que te risses de mim? deixei-me cair
insensivelmente, aos poucos, em tais extravagâncias, a ponto de acreditar que o figo,
quando colhido, chora lágrimas de leite junto com a mãe figueira, e que se um "santo"
da seita comesse o tal figo, colhido não por seu delito, mas de outrem, misturando-o em
suas entranhas, gemendo e arrotando enquanto rezava, exalaria anjos e até mesmo
partículas de Deus, partículas essas do verdadeiro Deus que ficariam cativas para sempre
naquele fruto se não fossem libertadas pelos dentes e pelo estômago do "santo eleito"!
Também acreditei, pobre de mim, que se devia ter mais misericórdia com os frutos da
terra que com os homens para os quais foram criados. Pois, se algum faminto, que não
fosse maniqueísta me pedisse de comer, parecia-me que atendê-lo era como merecer,
por aquele bocado, a pena de morte.
CAPÍTULO XI
O sonho de Mônica
Mas estendeste tua mão do alto, e arrancaste minha alma deste abismo de trevas,
enquanto minha mãe, tua fiel serva, chorava-me diante de ti muito mais do que as
outras mães costumam chorar sobre o cadáver dos filhos, pois via a morte de minha
alma com a fé e o espírito que havia recebido de ti. E tu a escutaste, Senhor, tu a ouviste
e não desprezaste suas lágrimas que, brotando copiosas, regavam o solo debaixo de
seus olhos por onde fazia sua oração; sim, tu a escutaste, Senhor. Com efeito, donde
podia vir aquele sonho, com que a consolaste, ao ponto de me admitir em sua
companhia e mesa, fato que havia me negado porque aborrecia e detestava as
blasfêmias do meu erro?
Nesse sonho viu-se de pé sobre uma régua de madeira; e um jovem resplandecente,
alegre e risonho que vinha ao seu encontro, triste e amarga. Este lhe perguntou a causa
de sua tristeza e lágrimas diárias, não por curiosidade, como sói acontecer, mas para
instruí-la; e respondendo-lhe ela que chorava a minha perdição, mandou-lhe, para sua
tranqüilidade, que prestasse atenção e visse por onde ela estava também estaria eu.
Apenas olhou, viu-me junto de si, de pé sobre a mesma régua.
De onde veio este sonho, senão dos ouvidos que tinhas atentos a seu coração, ó Deus
bom e onipotente, que cuidas de cada um de nós como se não tivesses outro para
cuidar, zelando de todos como de cada um! E como explicar o que se segue? Contou-me
minha mãe esta visão, e querendo-a eu persuadir de que significava o contrário, e que
não devia desesperar de ser algum dia o que eu era, isto é, maniqueísta, ela, sem
nenhuma hesitação, me respondeu: "Não; não me foi dito: onde ele está ali estarás tu,
mas onde tu estás ali estará ele também".
Confesso, Senhor, e muitas vezes disse que, pelo que me recordo, me abalou mais
esta tua resposta pela solicitude de minha mãe, imperturbável diante de explicação falsa
e ardilosa, e por ter visto o que se devia ver – e que eu certamente não veria sem que
ela o dissesse – que o mesmo sonho com o qual anunciaste a esta piedosa mulher com
tanta antecedência, a fim de consolá-la em sua aflição presente, uma alegria que só
havia de se realizar muito tempo depois.
Seguiram-se, efetivamente, quase nove anos, durante os quais continuei a me
revolver naquele abismo de lodo e trevas de erro, afundando-me tanto mais quanto mais
esforços fazia para me libertar. Entretanto, aquela piedosa viúva, casta e sóbria como as
que tu amas, já um pouco mais alegre com a esperança, porém, não menos solícita em
suas lágrimas e gemidos, não cessava de chorar por mim em tua presença em todas as
horas de suas orações; e suas preces eram aceitas a teus olhos, mas deixava-me ainda
revolver-me e envolver-me naquela escuridão.
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CAPÍTULO XII
Uma profecia
Nessa mesma ocasião deste à minha mãe outra resposta, de que ainda me lembro –
pois passo em silencio muitas circunstâncias, pela pressa que tenho de chegar àquelas
que te devo confessar com mais urgência, ou porque não as recordo – deste-lhe outra
resposta por meio de um teu bispo, educado em tua Igreja e exercitado em tuas
Escrituras. Como ela pedisse que se dignasse falar comigo, para refutar meus erros e
desenganar-me de minhas más doutrinas e ensinar-me as boas – pois assim fazia com
quantos julgava idôneos – ele negou-se com muita prudência, como pude verificar
depois; respondeu-lhe que eu estava incapacitado para receber qualquer ensinamento,
por estar enfatuado com a novidade da heresia maniqueísta, e por haver criado
embaraço a muitos ignorantes com algumas questões fáceis, como ela mesma lhe
relatara.
"Deixe-o – disse – e unicamente ore por ele ao Senhor! Ele mesmo, lendo os livros
dos hereges, descobrirá o erro e reconhecerá sua grande impiedade". – Ao mesmo
tempo contou-lhe que, quando criança, sua mãe, seduzida pelo erro, entregara-o aos
maniqueus, chegando não só a ler, mas a copiar quase todas as suas obras; e que ele
mesmo, sem necessidade de que ninguém o contestasse ou convencesse, chegara a
perceber a falácia daquela doutrina, abandonando-a enfim.
Depois de assim falar, minha mãe não se aquietava, instando com maiores rogos e
mais copiosas lágrimas a que me visitasse, para discutir comigo sobre o tal assunto. O
bispo, já com certo enfado de sua insistência, lhe disse: "Vai-te em paz, mulher, e
continua a viver assim, que não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas" –
palavras que ela recebeu como vindas do céu, segundo me recordava muitas vezes em
seus colóquios comigo.
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LIVRO QUARTO
CAPÍTULO I
Dos dezenove aos vinte e oito anos
Durante esse período de nove anos – dos dezenove até os vinte e oito anos – fui
seduzido e sedutor, enganado e enganador, conforme minhas muitas paixões;
publicamente, com aquelas doutrinas que se chamam liberais; ocultamente, com o falso
nome de religião, mostrando-me aqui soberbo, ali supersticioso, e em toda parte
vaidoso. Ora perseguindo a aura da gloria popular até os aplausos do teatro, os certames
poéticos, os torneios de coroas de feno, as bagatelas de espetáculos e a intemperança da
luxúria; ora, desejando muito purificar-me dessas imundícies, levando alimento aos
chamados "eleitos" e "santos", para que na oficina de seu estômago fabricasse anjos e
deuses que me libertassem. Tais coisas seguia eu e praticava com meus amigos, iludidos
comigo e por mim.
Riam-se de mim os arrogantes, e os que ainda não foram prostrados e salutarmente
esmagados por ti, meu Deus; mas eu, pelo contrário, hei de confessar diante de ti
minhas torpezas para teu louvor. Permite-me, te suplico, e concede-me que me lembre
fielmente dos desvios passados de meu erro, e que eu te sacrifique uma vítima de
louvor.
De fato, sem ti, que sou eu para mim mesmo senão um guia que conduz ao abismo?
Ou que sou eu, quando tudo me corre bem, senão uma criança que suga o leite, e que se
alimenta de ti, alimento incorruptível? E que é o homem, seja ele quem for, se é
homem?
Riam-se de nós os fortes e poderosos, que nós, débeis e pobres, confessaremos teu
santo nome.
CAPÍTULO II
Professor de retórica
Naqueles anos eu ensinava retórica e, movido pela cobiça, vendia a arte de vencer
pela loquacidade. Contudo, bem sabes, Senhor, que preferia ter bons discípulos, dos que
se chamam "bons", aos quais ensinava sem rodeios a arte de enganar, não para que
usassem dela contra a vida de um inocente, mas para algum dia defender algum
culpado. Mas, ó Deus, tu me viste de longe vacilar sobre um caminho escorregadio, viste
brilhar, entre espesso fumo, os fulgores da boa fé que eu demonstrava ao ensinar
àqueles amantes da vaidade, àqueles pesquisadores de mentiras, eu, seu irmão e
semelhante.
Por essa mesma época tive em minha companhia uma mulher, não reconhecida pelo
chamado matrimônio legítimo, mas procurada pelo inquieto ardor de minha paixão
imprudente; mas era só uma, e eu lhe era fiel. E assim experimentei pessoalmente a
distância que há entre o amor conjugal contraído com o fim de ter filhos, e o amor
lascivo, no qual a prole também nasce, mas contra o desejo dos pais, embora, uma vez
nascida, os obrigue a amá-la.
Lembro-me também de que, querendo participar de um certame de poesia, um
arúspide mandou-me indagar que dádiva lhe daria para eu sair vencedor. Mas eu, que
abominava aqueles nefandos sortilégios, respondi-lhe que não consentiria que se
matasse uma mosca para obter a vitória, mesmo que o prêmio fosse uma coroa de ouro
incorruptível; sabia eu que ele teria de matar animais em seus sacrifícios, julgando com
tais honras assegurar para mim os votos do demônio.
Mas, confesso, Deus de meu coração, que se repudiei tal crime, não o fiz por amor da
tua pureza. Pois ainda não sabia te amar, eu, que sabia conceder apenas esplendores
corpóreos.
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Não é pois verdade que a alma que suspira por semelhantes fábulas não se aniquila
longe de ti, e se apóia na falsidade, e se apascenta de vento? Mas eis que, não querendo
que se oferecessem sacrifícios aos demônios, eu mesmo me sacrificava a eles com
aquela superstição. Com efeito, que significa apascentar ventos, senão apascentar os
espíritos diabólicos, isto é, tornarmo-nos, por nossos erros, objeto de seu riso e
escárnio?
CAPÍTULO III
A atração da astrologia
Por isso, não cessava de consultar os impostores chamados matemáticos, já que estes
não usavam em suas adivinhações de quase nenhum sacrifício, nem dirigiam preces a
nenhum espírito o que, conseqüentemente, é condenado e repelido com razão pela
piedade cristã e verdadeira. Porque o bom é confessar-te, Senhor, e dizer-te: Tem
misericórdia de mim, e cura minha alma, porque pecou contra ti, e não abusar da tua
indulgência para pecar mais livremente, mas ter sempre presente a sentença do Senhor:
Eis-te curado: não peques mais, para que te não suceda algo pior – Estas palavras, cujo
efeito salutar os astrólogos querem destruir, dizendo: "O impulso de pecar vem dos
céus; foi Vênus, Saturno ou Marte que fizeram isto" – e tudo para que o homem, que é
carne, e sangue, e soberba podridão, se sinta sem culpa, e atribua esta ao criador e
ordenador do céu e das estrelas. E quem é este, senão tu, nosso Deus, suavidade e fonte
de justiça, que dás a cada um de acordo com suas obras, e não desprezas ao coração
contrito e humilhado?
Havia então um varão muito sábio, peritíssimo na arte médica, na qual era celebre;
sendo procônsul, pôs com suas próprias mãos sobre minha cabeça insana a coroa da
vitória do concurso; foi como procônsul, e não como médico, porque daquela minha
enfermidade só tu me podias sarar, pois resistes aos soberbos e dás tua graça aos
humildes.
Contudo, deixaste acaso de cuidar de mim também por meio daquele ancião? Ou
talvez desistisse de curar minha alma? Tendo-me familiarizado muito com ele, passei a
ser assistente assíduo e freqüente de suas conversas, que eram agradáveis e graves, não
pela elegância da linguagem, mas pela vivacidade das sentenças. Assim que ficou
sabendo, por conversa, que eu me dedicava à leitura dos livros dos astrólogos,
admoestou-me benigna e paternalmente a que os deixasse, e a que não gastasse
inutilmente nessas quimeras meus cuidados e trabalho, que melhor empregaria em
coisas úteis. Acrescentou que também ele havia cultivado aquela arte, a ponto de querer
adotá-la, em sua juventude, como profissão para ganhar a vida, pois, se havia entendido
Hipócrates, podia também entender aqueles livros; por fim, deixara aqueles estudos
pelos da medicina, por causa da sua falsidade, não querendo, como homem sério, ganhar
o pão enganando os outros. "Mas tu, disse-me ele – que tens para manter entre os
homens tuas aulas de retórica, segues essas mentiras não por necessidade, mas por
mera curiosidade; mais um motivo para que acredites no que te digo, pois cuidei de
aprendê-la tão perfeitamente que quis viver apenas de seu exercício".
Indaguei-lhe então por que muitas das coisas prognosticadas pela tal ciência se
revelavam verdadeiras, respondeu-me, como pôde, que a força do acaso está espalhada
por toda a natureza. "Se alguém – dizia ele – consultando as vezes as páginas de um
poeta qualquer, encontra um verso que, apesar do poeta pensar em coisas muito
diversas quando o compôs, adapta-se admiravelmente ao assunto que o preocupa; assim
pois nada tem de estranho que a alma humana, movida por instinto superior,
inconsciente do que se passa no seu íntimo, diga, não por arte, mas por sorte, algo que
corresponda aos atos e gestos do consulente".
E isto, Senhor, me ensinou ele, ou melhor, me ensinaste por teu intermédio, e
delineaste em minha memória o que eu mesmo mais tarde devia procurar. Mas então,
nem ele, nem meu caríssimo Nebrídio, jovem muito bom e casto, que zombava de toda
aquela arte divinatória, puderam me convencer a abandoná-la, porque ainda
impressionava-me mais a autoridade daqueles autores. Não tinha eu encontrado ainda o
argumento evidente que procurava, que me demonstrasse sem ambigüidade que os
presságios acertados dos astrólogos são obra da sorte ou casualidade, e não da arte de
observar os astros.
CAPÍTULO IV
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A morte do amigo
Por aqueles anos, quando comecei a ensinar em minha cidade natal, conheci um
amigo, a quem amei em demasia por ser meu companheiro de estudos, de minha idade,
e por estarmos ambos na flor da juventude. Juntos fomos criados quando crianças,
juntos íamos à escola, juntos havíamos brincado. Mas nessa época não era amigo tão
íntimo como o foi depois, embora também não o fosse tanto quanto o exige a verdadeira
amizade, uma vez que esta só existe entre os que unes por meio da caridade, derramada
em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Contudo, aquela amizade, aquecida ao calor de estudos semelhantes era-me
sumamente grata. Consegui até afastá-lo da verdadeira fé, pouco profunda e arraigada
em sua adolescência, arrastando-o para as fábulas supersticiosas e prejudiciais, razão
das lágrimas de minha mãe.
Esse homem já errava em espírito comigo, e minha alma não podia viver sem ele.
Mas eis que, seguindo de perto no encalço de teus servos fugitivos, ó Deus das
vinganças, que és a um tempo fonte de misericórdia, e nos converte a ti por estranhos
caminhos, eis que tu o arrebataste desta vida, quando eu apenas havia gozado um ano
de sua amizade, mais doce para mim que todas as doçuras da minha vida.
Quem poderá enumerar teus louvores, mesmo limitando-se ao que experimentou em
si mesmo? Que fizeste então, meu Deus! E quão impenetrável é o abismo de teus juízos!
Lutando meu amigo contra a febre, ficou por muito tempo sem sentidos, banhado no
suor da morte; e, como temessem por sua vida, batizaram-no sem que ele o soubesse,
com o que não me importei, convencido que estava de que seu espírito reteria melhor
aquilo que eu lhe havia inculcado do que o sinal que recebera sobre o corpo inconsciente.
A realidade, contudo, foi muito outra. Melhorando, e estando fora de perigo, logo que
lhe pude falar – e o fiz logo que ele o pôde, e como dependíamos mutuamente um do
outro eu não me afastava do seu lado – tentei rir-me em sua presença do batismo,
julgando que também ele zombaria comigo de um batismo recebido sem conhecimento
nem sentidos, mas ele já sabia que o havia recebido. Olhando-me então com horror,
como a um inimigo, admoestou-me com admirável e repentina franqueza, dizendo-me
que se queria continuar a ser seu amigo deixasse de tais palavras. Admirado e
perturbado, reprimi toda minha emoção, esperando que convalescesse primeiro, para,
recobradas as forças, estar disposto a discutir comigo o que quisesse. Mas tu, Senhor,
livraste-o de minha louca amizade, guardando-o em ti para o meu consolo, pois, poucos
dias depois, na minha ausência, voltaram-lhe as febres e morreu.
Que dor fez anoitecer o meu coração! Tudo o que via era morte para mim. a pátria me
era um suplício, e a casa paterna tormento insuportável, e tudo o que o lembrava
transformava-se para mim em crudelíssimo martírio. Buscavam-no por toda parte meus
olhos, e o mundo não mo devolvia. Cheguei a odiar todas as coisas, porque nada o
continha, e ninguém mais me podia dizer como antes, quando chegava depois de alguma
ausência: "Ali vem ele". Transformara-me mesmo num grande problema. Perguntava à
minha alma porque andava triste, e se perturbava tanto, e ela não sabia o que
responder-me. E se eu lhe dizia: "Espera em Deus" – minha alma não me obedecia, e
com razão, porque para mim, era mais real e melhor o amigo querido que perdera, que o
fantasma em que mandava tivesse esperança. Só o pranto me era doce. Ocupava o lugar
de meu amigo nas delicias de meu coração.
CAPÍTULO V
O conforto das lágrimas
E agora, Senhor, que essas coisas já passaram, agora que o tempo sarou minha
ferida, poderei ouvir de ti, que és a própria verdade, aproximando o ouvido de meu
coração de tua boca, o motivo por que o pranto é doce aos desgraçados? Acaso, mesmo
presente em toda parte, repeliste para longe de ti nossa miséria, permanecendo imutável
em ti, enquanto deixas que nos envolvamos em nossas provações? E, contudo, se nossos
lamentos não chegarem a teus ouvidos, não haverá para nós esperança alguma.
Mas, por que motivo dos gemidos, do choro, dos suspiros e das queixas colhe-se como
fruto doce do amargor da vida? Esperamos que nos ouça? Virá daí a doçura? Isso
acontece na oração que leva em si o desejo de chegar a ti; porém, poder-se-á dizer o
mesmo da dor da perda ou do pranto que então me avassalavam?
Eu não esperava ressuscitar meu amigo com minhas lágrimas, mas limitava-me a me
condoer e a chorar minha miséria, pois eu havia perdido minha alegria.
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Ou será que o pranto, que é amargo em si mesmo, se torna um deleite quando, pelo
fastio, aborrecemos os prazeres que antes nos eram gratos?
CAPÍTULO VI
Inconsolável
Mas para que falar dessas coisas, se agora não é tempo de investigar, mas de me
confessar a ti? Eu era miserável, como o é toda alma prisioneira do amor pelas coisas
temporais; se sente despedaçar quando as perde, sentindo então sua miséria, que a
torna miserável antes mesmo de as perder. Assim é como eu era então e, chorando
muito amargamente, descansava na amargura. E como era miserável! Contudo, mais
que o amigo caríssimo, eu amava minha vida miserável, porque embora desejasse
mudá-la, não queria perdê-la como ao amigo, não sei se gostaria de perdê-la por ele,
como se conta de Orestes e Pílades – se não é ficção – que queriam morrer um pelo
outro, porque para eles viver separados era pior que a morte. Mas não sei que novo
sentimento nascera em mim, muito contrário a este: sentia pesado tédio de viver, e ao
mesmo tempo tinha medo de morrer. Creio que quanto mais amava o amigo tanto mais
odiava e temia a morte, como inimigo feroz que mo havia arrebatado; pensava que ela
acabaria de repente com todos os homens, como o fizera com ele. Este era meu estado
de espírito, pelo que me lembro.
Meu Deus, eis aqui meu coração, ei seu conteúdo! Olha para o meu passado, porque
sei, esperança minha, que me purificas da impureza desses afetos, atraindo para ti meus
olhos, e libertando meus pés dos laços que me aprisionavam. Maravilhava-me de que
sobrevivessem os outros mortais a seus amados se nunca houvessem de morrer; e mais
me maravilhava ainda de que, morto ele, eu continuasse a viver, porque eu era outro
ele. Bem disse um poeta quando chamou ao amigo "metade da sua alma". E eu senti que
minha alma e a sua não eram mais que uma em dois corpos, e por isso causava-me
horror a vida, porque não queria viver pela metade; e ao mesmo tempo tinha muito
medo de morrer, para que não morresse de todo aquele a quem eu tanto amara.
CAPÍTULO VII
De Tagaste para Cartago
Ó loucura, que não sabe amar os homens humanamente! Ó homem insensato, que
sofre desmedidamente os reveses humanos! Assim era eu então, e assim agitava-me,
suspirava, chorava, perturbava-me, e não encontrava descanso nem conselho. Trazia a
alma em farrapos e ensangüentada, indócil ao meu governo, e eu não encontrava lugar
onde a pudesse depor. Nem os bosques amenos, nem os jogos e cantos, nem os lugares
suavemente perfumados, nem os banquetes suntuosos, nem os prazeres da alcova e do
leito, nem, finalmente, os livros e os versos podiam dar-lhe descanso. Tudo me causava
horror, até a própria luz. Tudo o que não era o que ele era, era-me insuportável e
odioso, exceto gemer e chorar, pois, somente nisto achava algum repouso. E se minha
alma deixava de chorar, logo pesava sobre mim o grande fardo da desgraça.
A ti, Senhor, deveria ser elevada, para ter cura. Eu o sabia, mas não o queria nem
podia.
Tanto mais que, ao pensar em ti, não tinha em mente algo sólido e firme, mas um
fantasma, o meu erro. Se nele tentava descansar minha alma, logo deslizava como quem
pisa em falso, e caía de novo sobre mim. Eu era para mim mesmo uma infeliz morada,
na qual era ruim e da qual não podia sair. E para onde iria meu coração, fugindo de si
mesmo? Para onde fugir de mim mesmo?
Para onde não me seguiria?
Por isso fugi de minha pátria, porque meus olhos buscariam menos meu amigo onde
não estavam acostumados a vê-lo. E assim me fui de Tagaste para Cartago.
CAPÍTULO VIII
O consolo do tempo e da amizade
O tempo não corre debalde, nem passa inutilmente sobre nossos sentidos; antes,
causa na alma efeitos maravilhosos. Assim vinha e passava, dias após dias, e passando
deixava em mim novas esperanças e novas recordações; pouco a pouco restituía-me a
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meus prazeres de outrora, a que ia cedendo minha dor. Substituíam-na não novas dores,
mas sementes de novas dores.
Mas, por que me penetrara aquela dor tão profundamente, até o mais íntimo de meu
ser, senão porque derramei minha alma sobre a areia, amando a um mortal como se não
o fora? O que mais me confortava e alegrava eram sobretudo as consolações de outros
amigos, com os quais partilhava o amor para o que amava tem teu lugar, isto é, uma
fábula enorme, uma longa mentira, cujo contato impuro corrompia nossa mente,
arrastada pelo prurido de ouvir aquilo que a agradava; fábula esta que não morria para
mim, ainda que morresse algum de meus amigos.
Outros prazeres havia neles que cativavam mais fortemente minha alma, como
conversar, rir, agradar-nos mutuamente com amabilidade, ler juntos livros bem escritos,
gracejar uns com os outros e divertir-nos juntos; às vezes discutir, mas sem ódio, como
quando discordamos de nós mesmos para, com tais discórdias muito raras, temperar as
muitas conformidades; ensinar ou aprender reciprocamente muitas coisas, suspirar
impacientes pelos ausentes e receber alegres os recém-chegados. Estes sinais, e outros
semelhantes, que procedem de corações que se amam, e que se manifestam no rosto,
na fala, nos olhos, e em mil outros gestos graciosos, inflamavam nossas almas, como em
uma centelha, fazendo de muitas uma só.
CAPÍTULO IX
O amigo de Deus
. É isto o que se ama nos amigos; e de tal modo se ama, que a consciência humana se
julga culpada se não ama ao que a ama, ou se não retribui amor com amor procurando
na pessoa do amigo apenas o sinal exterior de sua benevolência. Daqui o pranto do luto
quando morre um amigo, as trevas de dores, e as lágrimas que inundam o coração
quando a doçura se transforma em angústia, e a morte dos que morrem na morte dos
que vivem.
Bem-aventurado o que te ama, Senhor, e ama ao amigo em ti, e ao inimigo por amor
a ti; só não perde o amigo quem tem a todos por amigos naquele que nunca se perde. E
quem é este, senão nosso Deus, o Deus que fez o céu e a terra, e os enche, porque,
enchendo-os, os criou?
Ninguém, Senhor, te perde senão o que te abandona. Mas, quem te deixa, para onde
vai, ou para onde foge, senão de ti benévolo para ti irado? Onde não achará tua lei para
seu castigo? Porque tua lei é a verdade, e a verdade és tu mesmo.
CAPÍTULO X
As mentiras da beleza
Ó Deus das virtudes! Converte-nos e mostra-nos tua face, e seremos salvos! Porque,
para onde quer que se volte a alma humana, onde quer que se estabeleça fora de ti,
sempre encontrará dor, mesmo que sejam as belezas que estão fora de ti e fora de si
mesma; e todavia, estas nada seriam se não existissem em ti. Elas nascem e morrem; e,
nascendo, começam a existir, e crescem para alcançar a perfeição e, uma vez perfeitas,
começam a envelhecer e morrem. Embora nem tudo envelheça, tudo perece. Logo,
quando os seres nascem e se esforçam para existir, quanto mais depressa crescem para
existir, tanto mais se apressam para deixar de existir. Esta é a sua condição. Eis tudo o
que lhes deste, porque são partes de coisas que não existem simultaneamente mas,
morrendo e sucedendo-se umas às outras, formam o conjunto de que são partes.
Assim forma-se também nosso discurso, por meio dos sinais sonoros; este nunca se
realizaria se uma palavra não se extinguisse, depois de pronunciadas suas sílabas, para
dar lugar à seguinte.
Que minha alma te louve por tudo isto, ó Deus, criador de todas as coisas; mas não se
pegue a elas com o visco do amor dos sentidos, pois também elas caminham para o nãoser,
e dilaceram a alma com desejos pestilentos, e ela quer existir e gosta de descansar
nas coisas que ama. Mas nelas não acha onde, porque as coisas não são estáveis. Elas
são fugazes, e quem poderá segui-las com os sentidos da carne? Ou quem as pode
alcançar, mesmo estando presentes? Lento é o sentido da carne, por ser da carne, mas
essa é a sua condição. É suficiente para o que foi criado, mas não o é para reter o curso
das coisas, do princípio que lhes foi fixado, até o fim que lhes foi designado, porque em
teu Verbo, que as criou, ouvem estas palavras: "Daqui até ali".
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CAPÍTULO XI
A verdade de Deus
Não seja vã, ó minha alma, nem ensurdeças o ouvido do coração com o tumulto de
tua vaidade. Ouve também : o próprio Verbo clama que voltes, porque só acharás
repouso imperturbável lá onde o amor não é abandonado, se ele não nos abandona
antes. Eis que as coisas passam para ceder lugar as outras, e para que assim se forme
este universo inferior, de todas as suas partes. "Mas, por acaso, afasto-me de um lugar
para outro? – diz o Verbo de Deus – Fixa nele tua morada, confia a ele tudo o que dele
recebeste, alma minha, já cansada de tantos enganos. Confia à Verdade quanto da
Verdade recebeste, e nada perderás; antes, tua podridão reflorescerá e serão curadas
todas as tuas fraquezas, e serão retomadas e renovadas, estreitamente unidas a ti, tuas
partes inconscientes; e já não te arrastarão para a ladeira por onde descem, mas
permanecerão contigo para sempre onde está Deus, eterno e imutável".
Por que, perversa, segues o apelo de tua carne? Seja esta, convertida a te seguir.
Tudo o que por ela sentes é parte, mas ignoras o todo de que é parte, ainda que te dê
prazer. Mas, se os sentidos de tua carne fossem idôneos para compreender o todo, e se,
para teu castigo, não tivessem sido justamente limitados a compreender apenas partes
do universo, certamente desejarias que passasse tudo o que presentemente existe, para
melhor desfrutar do conjunto.
O que falamos também ouves com os ouvidos da carne, e com certeza não queres que
as sílabas se detenham, mas que voem, para que outras lhes sucedam, e assim ouvires o
conjunto.
O mesmo acontece com todas as coisas que compõem um todo, quando essas partes
constituintes não existem simultaneamente; há mais encanto no todo do que nas partes
percebidas separadamente. Mas melhor do que todas elas, é o que as fez, que é nosso
Deus, que não passa, porque nada vem depois dele.
CAPÍTULO XII
O amor em Deus
Se te agradam os corpos, louva a Deus neles, e dirige teu amor para teu artífice, para
não o desagradar nas mesmas coisas que te agradam.
Se te agradam as almas, ama-as em Deus, porque, embora mutáveis, se fixas nele,
terão estabilidade; de outro modo, passariam e pereceriam. Ama-as, pois, nele, e arrasta
contigo até ele quantas almas puderes, dizendo-lhes: "Amemo-lo". Porque ele criou estas
coisas, e não está longe; ele não as fez para depois ir embora, mas dele procedem e nele
estão. E ele está onde aprecia a verdade: no mais íntimo do coração; mas o coração
errante se afastou dele.
Voltai, pecadores, ao coração, e ligai-vos àquele que é vosso criador. Firmai-vos nele,
e estareis firmes; descansai nele, e estareis descansados. Para onde ides por esses
ásperos caminhos? Para onde ides? O bem que amais, dele procede, mas só é bom e
suave quando se dirige a ele; porém, será justamente amargo se, abandonando a Deus,
amardes injustamente o que dele procede. Por que continuai por caminhos difíceis e
trabalhosos? O descanso não está onde o buscais. Buscais a vida feliz na região das
trevas: não está lá. Como achar a vida bem-aventurada onde nem sequer há vida?
Ele, nossa vida real veio até nós; sofreu nossa morte, e a suplantou com a abundância
de sua vida; com voz de trovão clamou para que voltássemos a ele, para o lugar
escondido de onde veio até nós, passando primeiro pelo seio de uma virgem, onde se
desposou com ele a natureza humana, carne mortal, para não ficar sempre mortal.
Dali, como o esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante, para correr seu
caminho. E não se deteve; correu clamando com suas palavras, com suas obras, com
sua própria morte, com sua vida, com sua descida aos ínferos e com sua ascensão,
clamando para que voltássemos a ele. Se ele se afastou de nossa vista, foi para que
entremos em nosso coração, e ali o encontremos; se partiu, ainda está conosco. Não quis
ficar por muito tempo entre nós, mas não nos abandonou. Retirou-se de onde nunca se
afastou, pois o mundo foi criado por ele, e no mundo estava, e ao mundo veio para
salvar os pecadores. E a ele se confessa minha alma, a ele que a cura e contra quem
pecou.
Filhos dos homens, até quando sereis duros de coração? Será possível que, depois de
ter a vida descido até vós, não queirais subir e viver? Mas para onde subis, quando vos
ergueis e abris vossa boca no céu? Descei para subir, para subir até Deus, já que caístes
levantando-vos contra Deus.
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Dize-lhes isto, minha alma, para que chorem neste vale de lágrimas, e assim os
arrebates contigo para Deus, pois, ao dizer estas palavras ardendo em chamas de
caridade, é o espírito divino que te inspira.
CAPÍTULO XIII
O problema do belo
Então eu ignorava tais coisas – e por isso amava belezas terrenas. Caminhava para o
abismo, dizendo a meus amigos: "Será que amamos algo que não é belo? E que é o
belo? E que é a beleza? Que é que nos atrai e apega às coisas que amamos? Pois, com
certeza, se nelas não houvesse certa graça e formosura, não nos atrairiam.
E eu observava e via que num mesmo corpo uma coisa era o todo, harmonioso e belo,
e outra o que lhe era conveniente, sal aptidão de se ajustar de maneira perfeita a
alguma coisa como, por exemplo, a parte do corpo em relação ao conjunto, o calçado em
relação ao pé, e outras similares. Esta consideração brotou em minha alma do íntimo de
meu coração, e escrevi alguns livros sobre o belo e o conveniente, creio que dois ou três
– tu o sabes, Senhor – pois já me esqueci, e não os tenho mais porque se me
extraviaram não sei como.
CAPÍTULO XIV
Razões de uma dedicatória
Mas, meu Senhor e meu Deus, qual o motivo de dedicar esses livros a Hiério, orador
de Roma? Não o conhecia, apreciando-o apenas pela fama de sua doutrina, que era
grande, e por alguns ditos seus, que ouvira, e que me agradaram. Mas dele gostava
principalmente porque ele agradava aos outros, que lhe tributavam grandes elogios,
admirados de que um sírio, educado na eloqüência grega, chegasse a orador admirável
na latina, e grande conhecedor de todos os assuntos, ligados à filosofia. Assim, ouve-se
louvar a um homem, e, embora ausente, começa-se a amá-lo. Entrará o amor no
coração do que ouve pela boca do que louva? É certo que não, mas o amor de um se
inflama com amor do outro. Por isso se ama ao que é louvado; mas só quando se está
persuadido de que o louvor vem de coração sincero, ou quando o louvor é inspirado pelo
amor.
Assim pois amava eu então aos homens, pelo juízo dos homens, e não pelo teu, meu
Deus, em quem ninguém se engana. Contudo, por que não o louvava como se louva a
uma auriga famoso ou a um caçador afamado pelas aclamações do povo, mas de modo
mais distinto e mais ponderado, tal como eu gostaria de ser louvado?
Certamente, eu não gostaria de ser louvado e amado como os comediantes, embora
eu também os ame e louve; antes, preferiria mil vezes, permanecer desconhecido a ser
louvado dessa maneira, e mesmo ser odiado a ser amado assim. De que modo convivem
em uma alma gostos tão vários e diversos? Como é que amo em outro o que rejeitaria e
afastaria para longe de mim, sendo ambos homens? Aprecia-se um bom cavalo, sem que
se queira ser um cavalo, se isso fosse possível. Mas de um histrião não se pode dizer o
mesmo, pois tem a mesma natureza que nós. Logo, amo em um homem o que teria
horror de ser, embora também eu seja homem?
Grande abismo é o homem, cujos cabelos tu, Senhor, tens contados; e não se perde
um sem que tu o saibas; e, contudo, mais fáceis de contar são seus cabelos que suas
paixões e os movimentos de seu coração.
Mas aquele orador era do número dos que eu amava a ponto de desejar ser como ele;
mas eu andava errante por meu orgulho e era arrastado por toda espécie de vento,
embora em segredo fosse governado por ti. E como sei, e como te confesso com tanta
certeza que o amava mais por amor dos que o louvavam do que pelos méritos que lhe
valiam esses louvores?
Se em vez de o louvarem aquelas mesmas pessoas o criticassem, e se me contassem
dele as mesmas coisas, mas com censura e desprezo, certamente não me entusiasmaria
por ele; não obstante, os fatos não seriam diferentes e nem o homem outro, mas
unicamente os sentimentos dos narradores.
Eis onde jaz enferma a alma que ainda não se apoiou na firmeza da verdade. É levada
e trazida, atirada e rechaçada, segundo os sopros das línguas que ventam dos peitos dos
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que opinam! E de tal modo a luz lhe é toldada, que não distingue a verdade, apesar de
estar ela à nossa vista.
Para mim era importante que aquele homem conhecesse minhas palavras e meus
trabalhos. Se ele os aprovasse, me entusiasmaria ainda mais por ele; mas se os
reprovasse, meu coração fútil e vazio de tua firmeza, se lastimaria. Contudo, meu prazer
era pensar e refletir no problema do belo e do conveniente, assunto do livro que lhe
dedicara, admirando-o na minha imaginação, mesmo que ninguém mais o louvasse.
CAPÍTULO XV
Os primeiros livros
Mas não atinava com a chave de tuas artes em tão grandes obras, ó Deus onipotente,
único criador de maravilhas. Vagava minha alma pelas formas corpóreas, e definia o belo
como o que agrada por si mesmo, e o conveniente como o que agrada por sua
acomodação a outra coisa, e apoiava essa distinção com exemplos tomados dos corpos.
Daqui passei à natureza da alma, mas o falso conceito que tinha das coisas espirituais
não me permitia perceber a verdade. A própria força da verdade saltava-me aos olhos,
mas logo eu afastava da realidade incorpórea meu espírito inquiridor, voltando-me para
as figuras, as cores e as grandezas materiais. E como não podia ver nada semelhantes
na alma, julgava que tampouco seria possível ver minha alma.
Mas, como eu amava a paz da virtude, e aborrecia a discórdia do vício, notava
naquela certa unidade e neste certa desunião; parecia-me que residisse nessa unidade a
alma racional, a essência da verdade e do sumo bem. Na desunião, via eu não sei que
substância de vida irracional e a natureza do sumo mal, que não era apenas substância,
mas também verdadeira vida. Todavia não procedia de ti, meu Deus, de quem procedem
todas as coisas. E chamava àquela unidade mônada, como alma sem sexo, e a esta
multiplicidade díada, como a ira nos crimes, a concupiscência nas paixões, sem saber o
que dizia. Ignorava então, ainda não havia aprendido que o mal não é substância
alguma, nem que nosso espírito não é o bem soberano e imutável.
Assim como se cometem crimes quando o movimento do espírito é vicioso e se atira
insolente e turbulento, e se cometem infâmias quando o afeto da alma, fonte dos
prazeres carnais, é imoderado, assim os erros e falsas opiniões contaminam a vida se a
alma racional está viciada, como estava a minha então. Ignorava que ela deveria ser
ilustrada por outra luz para participar da verdade, por não ser da mesma essência da
verdade, porque tu, Senhor, alumiarás minha lâmpada; tu, meu Deus, iluminarás minhas
trevas, e todos participamos de tua plenitude, porque és a luz verdadeira que ilumina a
todo homem que vem a este mundo, e porque em ti não há mudança nem a
momentânea obscuridade.
Eu me esforçava para me aproximar de ti, mas tu me repelias para que
experimentasse a morte, pois resistes aos soberbos. E que maior soberba haveria que
afirmar, com inaudita loucura, que eu era da mesma natureza que tu? Porque, sendo eu
mutável, e reconhecendo-me tal – pois, se queria ser sábio, era para fazer-me de menos
para mais perfeito – preferia, contudo, julgar mutável a ti do que não ser o que tu és. Eis
aqui por que era repelido, e por que resistias à minha soberba cheia de vento.
Eu não imaginava mais que formas corpóreas; carne, acusava a carne; espírito
errante, não conseguia voltar para ti, nem em mim, nem nos corpos; não eram sugeridas
por tua verdade, mas imaginadas por minha vaidade, de acordo com os corpos. E dizia
aos pequeninos teus fiéis concidadãos, dos quais eu, ignaro, ainda exilado, dizia-lhes eu,
tagarela inepto: "Por que a alma, criatura de Deus, se engana?" Mas não queria que
dissessem: "E por que Deus se engana?" E defendia antes que tua substância imutável
era obrigada a errar, para não confessar que a minha, mutável, se desencaminhara
espontaneamente, ou que era castigada pelo erro.
Teria eu vinte e seis ou vinte e sete anos quando escrevi essas coisas, revolvendo
dentro de mim apenas imagens corporais, cujo ruído aturdia os ouvidos do meu coração.
Buscava eu aplicá-los – ó doce verdade – à tua melodia interior, quando meditava sobre
o belo e o conveniente. Meu desejo era estar diante de ti, e ouvir tua voz, e alegrar-me
intensamente com a voz do esposo, mas não o podia, porque o alarido do meu erro me
arrebatava para fora e, sob o peso de minha soberba, caía no abismo. Pois ainda não
davas gozo e alegria a meus ouvidos, nem exultavam meus ossos, porque ainda não
haviam sido humilhados.
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CAPÍTULO XVI
As dez categorias de Aristóteles
E que lucro me trazia, tendo eu vinte anos de idade, mais ou menos, e chegando-me
às mãos a obra de Aristóteles, intitulada As Dez Categorias – que meu mestre, o retórico
de Cartago, e outros, considerados doutos, citavam com grande ênfase e ponderação,
fazendo-me suspirar por ela como por algo grandioso e divino – de que me servia ler
essa obra e compreendê-la sozinho? Falando com outros, que afirmavam ter conseguido
entendê-la só por meio de mestres eruditíssimos, que lha haviam explicado não apenas
com palavras, mas também com figuras pintadas na areia, nada me souberam dizer que
eu já não tivesse entendido em minha leitura particular.
Parecia-me que essa obra falava com muita clareza das substâncias, como o homem,
e das coisas que nelas se encerram, como a forma do homem; a estatura, quantos pés
mede; o parentesco, de quem é irmão; onde se encontra, quando nasceu; se está de pé,
sentado, calçado ou armado; se faz alguma coisa ou se padece de alguma coisa, e,
enfim, uma infinidade de relações que se contêm nestes nove gêneros, dos quais citei
alguns exemplos, ou no próprio gênero da substância, que são também inumeráveis os
que encerra.
De que me aproveitava tudo isso, se até me prejudicava? Julgando que naqueles dez
predicamentos se achavam compreendidas, de modo absoluto, todas as coisas,
esforçava-me por compreender também a ti, meu Deus, Ser maravilhosamente simples e
imutável, como se fosses subordinado à tua grandeza e formosura, como se estas
estivessem em ti como em seu sujeito, como se fosses um corpo; tua grandeza e beleza
são porém uma mesma coisa contigo, ao contrário dos corpos, que não são grandes ou
belos por serem corpos, pois, embora fosses menores e menos belos, nem por isso
deixariam de ser corpos.
Era pois falso o que pensava de ti, e não verdade; ilusões de minha miséria, e não
representação sólida de tua beleza. Havias ordenado, Senhor, e assim se cumpria em
mim tua vontade, que a terra me produzisse abrolhos e espinhos, e que eu só
conseguisse meu pão à custa de trabalho.
De que me aproveitava também ler e compreender por mim mesmo todos os livros
que pude ter nas mãos sobre as artes chamadas liberais, se eu era então escravo de
minhas más inclinações? Comprazia-me em sua leitura, sem atinar de onde vinha quanto
de verdadeiro e certo achava neles; eu estava de costas para a luz, e o rosto, para os
objetos iluminados, e por isso meus olhos, que os viam iluminados, não recebiam luz.
Tu sabes, Senhor, meu Deus, como sem ajuda de mestre, aprendi tudo o que li,
quanto às leis da retórica, da dialética, da geometria, da música e da matemática,
porque também a vivacidade da inteligência e a agudeza da intuição são dons teus. Mas
não te oferecia por eles sacrifício algum, e por isso causavam-me mais dano do que
proveito. Insisti em me apoderar da melhor parte da minha herança, e não guardei em ti
minha força, mas afastei-me de ti para uma região longínqua, a fim de dissipá-la entre
as meretrizes de minhas paixões.
De que me serviam dons tão preciosos, se não usava bem deles? Só compreendi que
aquelas artes eram tão difíceis de entender, mesmo para os estudiosos e sábios, quando
me esforçava para expô-las: entre eles, o mais destacado era o que me compreendia
menos vagarosamente.
Mas qual o fruto disso, se eu te concebia, Senhor meu Deus, ó Verdade, como um
corpo luminoso e infinito, e eu como uma parcela desse corpo? Que rematada
perversidade! Assim era eu; não me envergonho agora, meu Deus, de confessar tuas
misericórdias para comigo, e de te invocar, já que não me envergonhei então de proferir
ante os homens tais blasfêmias e de ladrar contra ti. De que me aproveitava, repito, a
inteligência ágil para entender aquelas ciências, e para explicar com clareza tantos livros
complicados, sem que ninguém mos houvesse explicado, se errava monstruosamente na
piedade com sacrílega torpeza? E que prejuízo sofriam teus pequeninos em serem de
menor inteligência, se não se afastavam de ti, para que, seguros no ninho da tua Igreja,
se cobrissem de penas, e lhes alimentassem as asas da caridade com o sadio alimento da
fé?
Ó Deus e Senhor nosso! Esperemos, ao abrigo de tuas asas; protege-nos, leva-nos!
Tu levarás os pequeninos, e até escarnecidos tu os levarás, nossa firmeza só é firmeza
quando está em ti; mas quando depende de nós, então é debilidade. Nosso bem vive
sempre em ti, e somos perversos porque nos afastamos de ti. Voltemos já, Senhor, para
não nos aniquilarmos, porque em ti vive nosso bem, sem deficiência alguma; sem medo
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de não o encontrar quando voltarmos para nossa origem e, embora ausentes, nem por
isso desaba nossa casa, tua eternidade.
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LIVRO QUINTO
CAPÍTULO I
Oração
Recebe, Senhor, o sacrifício de minhas Confissões por meio da minha língua, que tu
formaste e impeliste a confessar teu nome. Cura todos os meus ossos, e que eles
proclamem: Senhor, quem haverá semelhante ai ti? Na verdade, quem se dirige a ti,
nada te informa do que ocorre em si, porque não há coração fechado que se possa
subtrair a teu olhar, nem dureza de homem que possa repelir tua mão. Ao contrário, a
abrandas quando queres, ou para compadecer-te, ou para castigar; não há quem se
esconda de teu calor. Mas, que minha alma te louve para que te ame, a confesse tuas
misericórdias para que te louve. Toda a criação não cala teus contínuos louvores, nem os
espíritos todos, com sua boca voltada para ti, nem os animais e coisas corporais, pela
boca dos que os contemplam. Assim, apoiando-se em tua criação, nossa alma se levanta
de sua franqueza, e chega a ti, seu admirável criador, onde encontrará rejuvenescimento
e verdadeira fortaleza.
CAPÍTULO II
Os que fogem de Deus
Afastem-se e fujam de ti os irrequietos e os pecadores. Tu os vês e distingues suas
sombras. E eis que, apesar deles, todas as continuam belas; somente eles são feios. E
que damos te poderiam causar? Ou em que poderia desonrar teu império, justo e íntegro
desde os céus até as coisas mais ínfimas? E para onde fugiram, ao fugir de tua presença?
E em que lugar não os encontrarás? Fugiram, sim, para não ver-te a ti, que os estás
vendo, mas deparam contigo, que não abandonas nada do que criaste; tropeçaram
contigo, injustos, e justamente são castigados; subtraindo-se á tua brandura, ofenderam
tua santidade, e caíram sob teus rigores.
Evidentemente eles ignoram que estás em toda parte, que nenhum lugar te limita, e
que só tu estás presente mesmo nos que se afastam de ti.
Que se convertam, pois, e te busquem, porque não abandonas tua criatura, como elas
abandonaram a seu Criador. Que se convertam, e logo estarás em seus corações, nos
corações dos que te confessam, dos que se lançam em ti, dos que choram em teu regaço
depois de percorrerem penosos caminhos. E tu, bondoso, enxugarás suas lágrimas; e
chorarão ainda mais, mas serão felizes por chorar, porque és tu, Senhor, e nenhum
homem de carne e sangue, tu, Senhor, que os criaste, que os consolas e robusteces.
E onde estava eu quando te buscava? Certamente, estavas diante de mim, mas eu me
havia afastado de mim mesmo, e não me encontrava, e muito menos de ti!
CAPÍTULO III
Fausto e o maniqueísmo
Falarei, na presença de meu deus, do ano vigésimo nono de minha vida. Já havia
chegado a Cartago um dos bispos maniqueus, chamado Fausto, grande laço do demônio,
no qual caíam muitos pelo encanto sedutor de sua eloqüência. Apesar de ser exaltada
por mim, eu a sabia contudo discernir das verdades que desejava conhecer. Não era o
prato do estilo que eu considerava, mas o alimento doutrinal que nele me era servido por
aquele famoso Fausto, tao reputado entre os seus.
Antecedera-o a fama de homem erudito em toda espécie de ciência, e particularmente
instruído nas artes liberais. E como eu tinha lido muitas teorias dos filosofo, e as
guardava na memória, quis comparar algumas destas com as grandes fábulas do
maniqueísmo. Pareciam-me mais prováveis as doutrinas daqueles que chegaram a
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conhecer a ordem do mundo, embora não tivessem encontrado a seu Criador. Porque tu
és grande, Senhor, e pondes os olhos nas coisas humildes, e as elevadas as conheces de
longe, e não te aproximas senão dos contritos de coração. Nem és encontrado pelos
soberbos, ainda que sua curiosa perícia seja capaz de contar as estrelas do céu e as
areias do mar; seja capaz de medir as regiões do céu e de investigar o curso dos astros.
Com a inteligência e o engenho que lhes deste investigam os segredos do mundo, e
descobriram muitos deles; predisseram com muitos anos de antecedência os eclipses do
sol e da lua, no dia e hora em que hão de suceder, sem que nunca lhes falhasse o
cálculo, acontecendo sempre tal e como haviam anunciado. Deixaram ainda por escrito
as leis por eles descobertas, as quais ainda hoje se lêem, e de acordo com elas se prediz
em que ano, e em que mês do ano, e em que dia do mês, e em que hora do dia, e em
que parte de sua luz se hão de eclipsar o sol e a lua; e tudo acontece como está predito.
Admiram-se disto os ignorantes, e pasmam. Os sábios gloriam-se disso, e se
desvanecem, e com ímpia soberba afastam-se e se eclipsam de tua luz. E, prevendo com
exatidão o eclipse vindouro do sol, não vêem o seu, que já está presente. Não procuram
religiosamente saber de onde lhes vem o talento com que investigam essas coisas e,
achando que tu as criaste, não se entregam a ti, para que conserves o que lhes deste,
nem se te oferecem em sacrifício, como se tivessem feito a si mesmos; nem dão morte
às suas soberbas, que alçam vôo como aves do céu; nem às suas insaciáveis
curiosidades que, como peixes do mar, passeiam pelas secretas sendas do abismo; nem
às suas luxúrias, que os igualam aos animais do campo, a fim de que tu, ó Deus, fogo
devorador, destruas estas suas preocupações de morte, e os torne a criar para uma vida
imortal.
Mas não conheceram o caminho, o teu Verbo, por quem fizeste as coisas que
numeram, e a eles próprios que as numeram, e os sentidos com que percebem as coisas
que numeram, e a mente graças à qual as numeram. Tua sabedoria escapa aos
números. Teu Filho Unigênito se fez para nós sabedoria, justiça e santificação, e foi
contado entre nós, e pagou tributo a César. Não conheceram este caminho, por onde
desceriam de seu orgulho até ele, e por ele subiriam até ele; não conheceram, digo, este
caminho, e se julgaram mais elevados e resplandecentes que estrelas, e assim vieram a
rolar por terra, e seu coração insensato se obscureceu.
Dizem muitas coisas verdadeiras acerca das criaturas; mas, como não procuram
piedosamente a Verdade, isto é, o autor da Criação, não o encontram; e, se o encontram
reconhecendo-o por Deus, não o honram como a Deus, nem lhe dão graças. Antes, se
desvanecem em seus pensamentos, e se dizem sábios, atribuindo a si próprios o que é
teu.
Atribuem a ti, com perversa cegueira, suas mentiras, a ti, que és a própria Verdade;
alteram a glória de um Deus incorruptível, concebendo-a à semelhança e imagem do
homem corruptível, das aves, dos quadrúpedes, das serpentes. E convertem tua verdade
em mentira, e adoram e servem antes à criatura do que ao Criador.
Eu porém guardava muitas de suas opiniões verdadeiras acerca das criaturas, cuja
explicação encontrava nos números, na ordem dos tempos e no testemunho visível dos
astros; comparava-as com os ensinamentos de Manés, que escreveu sobre essas
matérias numerosas e delirantes loucuras, sem achar nenhuma explicação para os
solstícios e equinócios, os eclipses do sol e da lua, e para outras coisas, enfim, das quais
tomara conhecimento pelos livros da sabedoria profana.
Contudo, exigia-me que acreditasse nessas doutrinas, embora não concordassem
absolutamente com meus cálculos e com o que meus olhos testemunhavam.
CAPÍTULO IV
Ciência e ignorância
Senhor, Deus da verdade, acaso te agradará quem conhecer essas coisas? Infeliz do
homem que, conhecendo-a todas, te ignora ti; mas feliz de quem te conhece, embora as
ignore! Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa
de seu saber, mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, te glorifica como Deus, e te dá
graças, e não se desvanece em seus pensamentos.
É melhor aquele que reconhece estar na posse de uma árvore e te dá graças por sua
utilidade, embora ignore quantos côvados tem de altura e de largura, que o que a mede,
e conta todos os seus ramos, mas não a possui, nem conhece, nem ama a seu Criador.
Assim o homem fiel, a quem pertencem todas as riquezas do mundo, e que, nada
possuindo, possui tudo, por estar unido a ti, a quem servem todas as coisas – embora
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desconheça até o curso das estrelas da Ursa – e seria insensatez duvidar – é certamente
melhor do que o que mede os céus, conta as estrelas e pesa os elementos, mas despreza
a ti, que dispuseste todas as coisas em número, peso e medida.
CAPÍTULO V
Loucuras de Manes
Mas, quem pediu a esse Manés que escrevesse sobre coisas cujo conhecimento não é
necessário à piedade? Tu disseste ao homem: Vê que a piedade é a sabedoria. Manés
podia muito bem ignorar essa piedade ainda que fosse muito instruído nas ciências
profanas. Mas, como não as conhecia, e se atrevia desavergonhadamente a ensiná-las,
de nenhum modo conhecia a piedade. Pois certamente é vaidade alardear conhecimentos
humanos, mesmo verdadeiros, e é piedade confessar-te a ti. Manés, afastando-se dessa
regra, falou tanto sobre essas coisas que foi convencido de sua ignorância pelos que as
conhecem bem. Donde se viu-se claramente o crédito que merecia em matérias mais
obscuras. Ele não queria ser pouco estimado; empenhou-se em convencer aos demais
que tinha em si, pessoalmente, e na plenitude de seu poder, o Espírito Santo, que
consola e enriquece teus fiéis. Surpreendido em erro ao falar do céu, das estrelas, e do
curso do sol e da lua, embora tais coisas não pertençam à religião, claramente deixou
ver ser sacrílego seu atrevimento ao ensinar coisas que ignorava e também falsas, e isso
com tão insano orgulho a ponto de atribuí-las à pretensa divindade de sua pessoa.
Quando pois ouço que este ou aquele irmão em Cristo ignora esses problemas, e
confunde uma coisa com outra, suporto com paciência seu modo de opinar. Nada vejo
que possa ser-lhe prejudicial enquanto não fizer idéia indigna de ti, Senhor, criador do
universo, mesmo que ignore até o lugar e a natureza das coisas materiais. O mal seria
acreditar que esses problemas pertencem à essência da piedade, e tenazmente atreverse
a afirmar o que ignora. Mas ainda essa fraqueza é suportada nos primórdios da fé pela
mãe caridade, até que o homem novo cresça e se transforme em varão perfeito, e não
possa ser abalado por qualquer vento de doutrina.
Quanto a Manés, que se atreveu a se fazer de doutor, de mestre, de guia e cabeça
daqueles a quem convertera, de tal forma que os que o seguiam acreditassem seguir não
um homem qualquer, mas teu Espírito Santo, quem não julgaria que tão rematada
loucura, uma vez demonstrada sua falácia, deveria ser detestada e afastada para bem
longe?
Contudo, eu ainda não estava certo se o que havia lido em outros livros, sobre as
mudanças dos dias e das noites, uns mais longos, outros mais curtos, e sobre o sucederse
dos dias e das noites, e dos eclipses do sol e da lua, e outros fenômenos semelhantes,
poderiam ser explicados conforme sua doutrina. Caso isso fosse possível, eu ainda ficaria
em dúvida quanto ao modo por que se realizariam esses fenômenos; eu anteporia a
autoridade de Manés à minha fé, pois o tinha então em conta de santo.
CAPÍTULO VI
A eloqüência de Fausto
Durante os quase nove anos em que meu espírito errante deu ouvidos aos maniqueus,
esperei ansiosamente a vinda de Fausto. Os demais adeptos, com os quais me
encontrava casualmente, embaraçados com as objeções que eu lhes fazia, remetiam-me
a ele que, à sua chegada, com uma simples entrevista resolveria facilmente todas
aquelas dificuldades, e ainda outras maiores que me ocorressem, de maneira claríssima.
Logo que chegou, pude notar que se tratava de um homem simpático, de fala
cativante, e que expunha os temas comuns dos maniqueus, mas com muito mais agrado
que eles. Mas, que interessava à minha sede este elegante copeiro de copos preciosos?
Eu já tinha os ouvidos fartos daquelas teorias, e nem me pareciam melhores por serem
expostas em melhor estilo, nem mais verdadeiras pela elegância de suas formas; nem eu
considerava Fausto mais sábio por ter o rosto de mais graça e sua linguagem mais
finura. Aqueles que mo haviam recomendado não eram bons juizes: tinham Fausto como
homem sábio e prudente somente porque lhes agradava sua facúndia.
Diferentes de outra espécie de homens que conheci, que tinham como suspeita a
verdade, e não se lhe renderiam se lhes fosse apresentada com linguagem elegante e
verbosa.
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Mas eu, meu Deus, nessa época já tinha aprendido de ti, por caminhos ocultos e
admiráveis – e creio que eras tu que me ensinavas, porque era verdade, e ninguém pode
ser mestre da verdade senão tu, seja qual for a instância e modo dela brilhar – já havia
aprendido de ti que não se deve ter por verdadeiro um pensamento porque expresso
eloqüentemente nem falso porque é dito com rudeza; e que, pelo contrário, um
pensamento não é verdadeiro por ser enunciado com simplicidade, nem falso porque sua
expressão é elegante; a sabedoria e a ignorância são como alimentos, proveitosos ou
nocivos, e as palavras, elegantes ou rudes, como pratos preciosos ou toscos, nos quais
se podem servir a ambos.
A ânsia com a qual por tanto tempo esperara por Fausto, deleitava-se enfim com o
ardor e a vivacidade de suas disputas, com os termos apropriados e a facilidade com que
lhe vinham à boca para adornar seu pensamento. Deleitava-me, certamente, e eu o
louvava e exaltava com os outros, e muito mais ainda do que eles.
Contudo, na reunião dos ouvintes, me aborrecia não poder apresentar-lhe minhas
dúvidas, e dividir com ele os cuidados de meus problemas, conferindo com ele minhas
dificuldades em forma de perguntas e respostas. Quando, enfim, o pude fazer,
acompanhado de meus amigos, comecei a falar-lhe em ocasião e lugar oportunos para
tais discussões, apresentando-lhe algumas objeções das que mais me preocupavam. Vi
então que se tratava de homem completamente ignorante das artes liberais, com
exceção da gramática, que conhecia de modo superficial.
Contudo como havia lido alguns discursos de Cícero, e pouquíssimos livros de Sêneca,
alguns poemas e livros da seita, escritos em bom latim e com arte, e como se exercitava
todos os dias em falar, adquirira grande facilidade de expressão, que ele tornava mais
agradável e sedutora com o bom emprego de seu talento e certa graça natural.
Não é assim como estou contando, meu Senhor e meu Deus, juiz de minha
consciência?
Diante de ti estão meu coração e minha memória, e que já então guiavas no segredo
oculto de tua providência, pondo diante de meus olhos meu erros vergonhosos, para que
os visse e odiasse.
CAPÍTULO VII
Desilusão
Por isso, logo que reconheci sua ignorância naquelas ciências em que o julgava grande
conhecedor, comecei a desesperar de que me pudesse esclarecer e resolver as
dificuldades que me preocupavam. É bem verdade que ele podia ignorar tais coisas e
possuir a verdadeira piedade, contanto que não fosse maniqueísta. Seus livros estão
cheios de fábulas intermináveis acerca do céu e dos astros, do sol e da lua, que eu já não
esperava, mas que pudesse explicar tão argutamente como eu o desejava, comparandoas
com os cálculos matemáticos que eu lera em outras partes, para ver se deveria
preferir o que diziam os livros de Manés, ou se, pelo menos, estes apresentavam
demonstrações de igual valor.
Mas, quando apresentei minhas dificuldades à sua consideração e crítica, com grande
modéstia, não se atreveu a tomar sobre si tal encargo, pois certamente sabia que
ignorava o assunto e não se envergonhava de confessá-lo. Não pertencia à classe de
charlatães que me vi obrigado muitas vezes a suportar, que pretendiam ensinar-me tais
coisas, mas não me diziam nada. Este, pelo menos, tinha coração, senão dirigido a ti,
pelo menos não era incauto consigo mesmo. Não ignorava totalmente sua ignorância,
razão pela qual não quis meter-se temerariamente em questões de onde não pudesse
sair, ou de mui difícil retirada. Por isso mesmo cresceu aos meus olhos, por ser a
modéstia de uma alma que se conhece muito mais bela que o saber que eu desejava; e
em todas as questões mais difíceis e sutis o encontrei sempre com igual ânimo.
Esfriado pois meu entusiasmo pelos livros de Manés, e muito mais desconfiado dos
outros doutores maniqueus, depois que este, tão renomado, se me havia mostrado tão
ignorante em muitas das questões que me inquietavam, continuei a tratar com ele, mas
por causa de sua paixão pelas letras, que eu ensinava então aos jovens de Cartago. Lia
com ele os livros que desejava conhecer por ter ouvido falar deles, ou os que eu
considerava apropriados à sua inteligência.
Quanto ao mais, todo o empenho que eu havia posto em progredir na seita
desapareceu por completo tão logo conheci este homem, mas não a ponto de me separar
definitivamente dela.
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De fato, não achando na ocasião caminho melhor que aquele por onde cegamente me
lançara, resolvi continuar provisoriamente na mesma, até que tivesse a fortuna de
encontrar algo melhor e preferível. Foi assim que aquele Fausto, que havia sido para
muitos laço de morte, começava involuntária e inconscientemente a desfazer o laço que
me enredara. É que tuas mãos, meu Deus, no segredo de tua providência, não
abandonavam minha alma; e minha mãe, dia e noite, não deixava de te oferecer em
sacrifício por mim o sangue de seu coração, na forma de suas lágrimas.
E tu, Senhor, agiste comigo de modo admirável, pois isso foi obra tua, meu Deus.
Porque o Senhor é quem dirige os passos do homem e quem inspira seu caminho. E
quem poderá dar-nos a salvação, senão tua mão, que restaura o que fez?
CAPÍTULO VIII
Viagem a Roma
Também foi obra tua o fato de me convencerem a ir a Roma, para ali lecionar o que
ensinava em Cartago. Mas não deixarei de confessar-te o motivo que me moveu, porque
também nisso tudo se reconhece a profundidade de teu desígnio, e merece ser meditada
e exaltada tua misericórdia sempre presente. O motivo que me levou a Roma não foram
maiores lucros e maior dignidade, como me prometiam os amigos que tal me
aconselhavam – se bem que essas razões ainda fossem importantes para mim nesse
tempo – mas o principal e quase único motivo de minha determinação era saber que os
jovens de Roma eram mais sossegados nas classes, em virtude da rigorosa disciplina a
que estavam sujeitos. Não lhes era lícito entrar desordenada e impudentemente nas
aulas dos professores dos quais não eram alunos, nem sequer eram admitidos sem
licença; bem o contrário do que acontecia em Cartago, onde a liberdade dos estudantes é
tão vergonhosa e destemperada que invadem cínica e furiosamente as aulas,
perturbando a ordem estabelecida pelos mestres em seu próprio interesse. Além disso,
com incrível insolência cometem uma quantidade de grosserias, que deveriam ser
castigadas pelas leis, se a tradição não os protegesse. Tal costume aliás, apenas
manifesta a infelicidade no caso desses jovens, que já praticam como lícito o que jamais
será permitido por tua lei eterna. Julgam agir impunemente, quando a própria cegueira é
seu maior castigo, padecendo eles males incomparavelmente maiores do que os que
causam aos outros.
Com isso vi-me obrigado, quando professor, a suportar nos outros costumes que não
quis adotar como meus quando estudante; e por isso desejava ir para uma cidade na
qual, segundo me asseguravam, não aconteciam tais coisas. E tu, Senhor, minha
esperança e meu quinhão na terra dos vivos, a fim de que eu mudasse de residência
para a saúde de minha alma, me punhas espinhos em Cartago, para arrancar-me dali, e
deleites em Roma para atrair-me para lá. Atraías-me por meio de homens que amavam
uma vida morta, dos quais uns agiam aqui como loucos, e outros me aliciavam alhures
com bens ilusórios. E, para corrigir meus passos, usavas ocultamente da sua e da minha
perversidade. Porque os que perturbavam minha paz estavam cegos por uma raiva
vergonhosa, e os que me convidavam para mudar sabiam a terra; e eu, que detestava
em Cartago uma verdadeira miséria, buscava em Roma uma falsa felicidade.
Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu, ó Deus, o sabias,
sem manifestá-lo a mim nem à minha mãe, que chorou amargamente minha partida,
seguindo-me até o mar. Mas tive de enganá-la, porque me agarrava com força, instandome
a desistir de meu propósito ou a levá-la comigo. Fingi pois que tinha que me despedir
de um amigo que eu não queria abandonar, até que, soprando o vento, ele pudesse
navegar. Assim enganei a minha mãe, e a uma tal mãe! Fugi, e tu também me perdoaste
este pecado misericordiosamente, salvando-me a mim, cheio de execráveis imundícies,
das águas do mar para que chegasse ás águas de tua graça. Purificado com elas,
secariam os rios dos olhos de minha mãe, com que todos os dias regava a terra diante
de ti, por minha causa.
Contudo, como se recusasse a voltar sem mim, apenas pude persuadi-la a
permanecer aquela noite em uma capela próxima a nosso navio, consagrada à memória
de São Cipriano. Mas naquela mesma noite parti às escondidas, deixando-a orar e a
chorar. E que te pedia ela, meu Deus, com tantas lágrimas, senão que me impedisses de
navegar? Mas tu, de visão infinitamente mais ampla, entendendo o intuito de seu desejo,
não atendeste ao que ela então te pedia, para fazer em mim aquilo que sempre te pedia.
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Soprou o vento, enfunou nossas velas, e logo desvaneceu de nosso olhar a praia,
onde de manhã cedo minha mãe, louca de dor, enchia de queixas e de prantos teus
ouvidos insensíveis.
Deixaste-me correr atrás de minhas paixões para dar fim ás minhas concupiscências,
castigando com o justo flagelo da dor a saudade demasiado carnal de minha mãe. Ela,
como todas as mães, e ainda mais que a maioria delas, desejava manter-me junto de si,
desconhecendo as grandes alegrias que lhe preparavas com minha ausência. Não o
sabia, e por isso chorava e se lamentava, denunciando com esses lamentos a herança
que recebera de Eva, buscando em lágrimas ao que com gemidos havia dado à luz.
Por fim, depois de ter-me chamado de mentiroso e de mau filho, pôs-se de novo a
rezar por mim e voltou para sua vida habitual, enquanto eu me dirigia a Roma.
CAPÍTULO IX
Enfermo
Em Roma fui colhido pelo flagelo de uma doença corporal, que esteve a ponto de me
mandar para a sepultura, carregado de todos os pecados cometidos contra ti, contra mim
e contra o próximo; pecados numerosos e pecados, que se somavam à cadeia do pecado
original, pelo qual todos morremos em Adão. Ainda não me tinhas perdoado nenhum
deles em Cristo, nem ele havia apagado com sua cruz as inimizades que contraíra
contigo com meus pecados. E como poderia ele desfazê-los por uma cruz de onde eu não
via pender mais que um fantasma? Porque tão falsa me parecia a morte de sua carne
como verdadeira a morte de minha alma, e tão verdadeira a morte de sua carne como
falsa a vida de minha alma, que disto se não persuadia.
Entretanto, agravando-se as febres, eu estava a ponto de partir e de perecer. Para
onde iria eu, se então tivesse que morrer, senão para o fogo e tormentos merecidos por
minhas ações, de acordo com a justa ordem por ti estabelecida? Minha mãe tudo
ignorava, mas, ausente, orava por mim, e tu, presente em todas as partes onde ela
estava, lhe dava ouvidos; exercias tua misericórdia para comigo onde eu estava,
restituindo-me a saúde do corpo, ainda que meu coração sacrílego continuasse doente.
Nem mesmo estando em tão grande perigo desejei teu batismo. Quando menino eu era
melhor, porque então o solicitei à piedade de minha mãe, como já recordei e confessei.
Mas, para minha vergonha, eu havia crescido e, em minha loucura, zombava dos
remédios de tua medicina, que não me deixou morrer duplamente em tal estado.
Se o coração de minha mãe fosse transpassado por essa ferida, nunca haveria de
sarar.
Minha eloqüência não é suficiente para descrever o grande amor que me dedicava, e a
que ponto seus cuidados para me gerar em espírito eram piores que os que suportava
quando me concebeu pela carne.
Por isso, não vejo como poderia sarar se minha morte em tal estado tivesse ferido as
entranhas de seu amor. E onde estariam tantas orações, continuamente repetidas?
Estariam em ti, somente em ti. Seria possível que tu, Deus de misericórdia, desprezasses
o coração contrito e humilhado de uma viúva casta e sóbria, que freqüentemente dava
esmolas e servia obsequiosa a teus santos? Que em nenhum dia deixava de levar sua
oferenda a teu altar? Que ia duas vezes por dia – de manhã e à tarde – à tua igreja, sem
faltar jamais, e não para entreter-se em vãs conversas e cochichos de velhas, mas para
te ouvir as palavras e para que a ouvisses em suas orações? Poderias desprezar as
lágrimas de uma mãe que não te pedia nem ouro, nem prata, nem bem algum terreno e
frágil, mas a salvação da alma de seu filho? Poderias, ó Deus, a quem ela devia tudo o
que era, poderias desprezá-la e negar-lhe teu auxílio? De nenhum modo, Senhor; pelo
contrário, tu a assistias, e a escutavas, mas pelo caminho determinado por tua
providência.
Como poderias enganá-la naquelas visões e respostas, de algumas das quais já
falamos, e de outras que passo em silêncio, que ela guardava em seu coração fiel, e que
te apresentava em suas orações contínuas como compromissos assinados por tua mão, e
que irias cumprir.
Porque, por tua misericórdia infinita, gostas de te fazer devedor daqueles a quem
perdoas todas as dívidas.
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CAPÍTULO X
Agostinho e os erros dos maniqueus
Restabeleceste-me, pois, daquela doença, e então salvaste o filho de tua serva quanto
ao corpo a fim de poder, salvá-lo melhor e mais firmemente. Em Roma juntei-me ainda
com os que se diziam "santos", falsos e enganadores. E não só convivia com os ouvintes,
entre os quais se contava o dono da casa em que eu adoecera e convalescera – mas
também com os que se chamam "eleitos".
Ainda então me parecia que não éramos nós que pecávamos, mas não sei que
estranha natureza que pecava em nós; por isso minha soberba se deleitava em me ter
como isento de culpa, e portanto de todo desobrigado a confessar meu pecado, quando
agia mal, para que pudesses curar minha alma que te ofendia. Antes, gostava de me
desculpar, acusando a não sei que ser estranho que estava em mim, mas que não era
eu. Na verdade, eu era tudo aquilo, embora minha impiedade me tivesse dividido contra
mim mesmo. E o mais incurável de meu pecado era justamente o não me considerar
pecador, preferindo, minha execrável iniqüidade, que fosses vencido em mim, para
minha perdição, ó Deus onipotente, a que vencesses minha alma para minha salvação.
Ainda não tinhas posto guarda diante da minha boca, nem porta de proteção ao redor de
meus lábios, a fim de que meu coração não se inclinasse para as más palavras, nem
buscasse desculpas para seus pecados, como os homens prevaricadores. Eis a razão pela
qual eu ainda mantinha relações de amizade com os eleitos dos maniqueus. Mas,
desesperado de poder progredir para a verdade dentro daquela falsa doutrina,
contentava-me a segui-la até encontrar algo melhor, professando-a já com mais
liberdade e frouxidão.
Nesse tempo, veio-me à mente a idéia de que os filósofos chamados acadêmicos
haviam sido mais prudentes que os outros, por sustentarem que se deve duvidar de
tudo, e que nenhuma verdade pode ser compreendida pelo homem. Julguei então que
era esse o seu pensamento, como geralmente se crê, não tendo ainda compreendido
suas verdadeiras intenções.
Quanto a meu hospede, não me furtei de admoestar sua excessiva credulidade com
que aceitava as fábulas de que estavam cheios os livros dos maniqueus. Todavia, tinha
mais amizade com tais homens do que com os estranhos à sua heresia. É verdade que já
não a defendia com a antiga animosidade; mas sua familiaridade – em Roma havia
muitos deles ocultos – tornava-me bastante negligente para procurar outra coisa.
Desesperava eu principalmente de poder achar a verdade em tua Igreja, ó Senhor dos
céus e da terra, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, verdade da qual eles me
afastavam. Parecia-me mui torpe acreditar que tinhas figura de carne humana, e que
estavas limitado pelos contornos de um corpo como o nosso. E quando queria pensar em
meu Deus, não o sabia imaginar senão com massa corpórea – pois não me parecia que
pudesse existir algo diferente – esta era a causa principal e quase única de meu erro
inevitável.
Daqui se gerou também minha crença de que o mal tivesse substância, também
corpórea, massa negra e disforme, ora espessa – a que chamavam terra – ora tênue e
sutil, como o ar, a qual julgava ser um espírito maligno que investia sobre a terra. E visto
que minha piedade, por pouca que fosse me obrigava a pensar que um Deus bom não
podia criar nenhuma natureza má, eu imaginava duas substâncias antagônicas, ambas
infinitas, a do mal um pouco menor, a do bem um pouco maior; e deste princípio
pestilento originavam-se as demais blasfêmias. Com efeito, quando meu espírito se
esforçava por voltar à fé católica, era rechaçado porque minha idéia de fé católica não
era correta. E me parecia ser mais piedoso, ó Deus, a quem louvam em mim tuas
misericórdias, julgar-te infinito por todas as partes, com exceção de um aspecto, a
substância do mal, onde era forçoso reconhecer teus limites, do que julgar-te limitado
por todas as partes pelas formas do corpo humano.
Também tinha como melhor admitir que não havias criado nenhum mal – o qual
aparecia à minha ignorância não só como substância, mas como substância corpórea, por
eu não poder conceber o espírito senão como corpo sutil difundido pelos espaços – do
que crer que a natureza do mal, tal como a imaginava, procedesse de ti.
Também supunha que nosso Salvador, teu Filho Unigênito, houvesse surgido, para nos
salvar, dessa substância luzidíssima de teu corpo. A seu respeito, nada aceitava senão o
que me sugeria minha louca imaginação. E por isso julgava que tal natureza não podia
nascer da Virgem Maria sem se ajuntar com a carne, mas não via como poderia juntar-se
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à carne sem se corromper; por isso tinha medo de acreditar em sua encarnação, para
não me ver obrigado a julgá-lo corrompido pela carne.
Sem dúvida agora teus fiéis irão sorrir, branda e amorosamente, se lerem estas
minhas confissões; mas eu, realmente, era assim.
CAPÍTULO XI
Desculpas dos maniqueus
Além de tudo, eu já não estava convencido que se pudessem defender os pontos que
os maniqueus criticavam em tuas Escrituras. Todavia, desejava por vezes discutir com
sinceridade cada um desses pontos com algum varão, grande conhecedor de seus livros,
para lhe indagar a opinião. Quando ainda em Cartago, já me despertara o interesse o
discurso de um tal Elpídio, que falava e discutia publicamente contra os maniqueus,
alegando citações da Sagrada Escritura que não me era fácil refutar.
Por sua vez, as respostas dos maniqueus me pareciam fracas; e mesmo assim não as
expunham em público, mas somente entre nós, e muito em segredo, alegando que as
Escrituras do Novo Testamento haviam sido falsificadas por não sei quem, com o intuito
de mesclar a lei dos judeus com a fé cristã; por isso eles próprios não podiam mostrar
nenhum exemplar sem ser apócrifo.
Mas o que principalmente me mantinha cativo, e como que sufocado, eram as tais
"substâncias", que pareciam oprimir-me, e debaixo de cujo peso, arquejante, me era
impossível respirar a atmosfera pura e simples de tua verdade.
CAPÍTULO XII
Os estudantes de Roma
Com toda diligência comecei a pôr em prática a tarefa que me levara a Roma, ensinar
a arte retórica, e comecei por reunir alguns estudantes em casa, para me tornar
conhecido deles, e, por seu intermédio, dos demais.
Mas logo vim a saber, com surpresa, que os estudantes de Roma praticavam outras
artimanhas, que eu não havia experimentado na África. Se bem era verdade, como me
haviam assegurado, que em Roma não ocorriam as mesmas violências dos jovens
corrompidos de Cartago, também me afirmavam que aqui os estudantes, aos grupelhos,
deixavam de repente de assistir às aulas, passando para outro professor, com o fim de
não pagar o devido salário, faltando assim aos compromissos e desprezando a justiça por
amor ao dinheiro.
Também a estes odiava meu coração, porém, não com rancor perfeito, porque na
realidade, mas os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples
injustiça de seu comportamento. Sem dúvida são infames os que assim agem, e se
maculam longe de ti, amando passatempos efêmero e a recompensa de lodo, que rende
imundas as mãos ao ser colhida, agarrando-se a um mundo fugaz, e desprezando a ti,
que permaneces eternamente, a ti que chamas e perdoas à alma humana adúltera
quando se volta para ti. Ainda agora aborrece-me gente tão depravada e sem modos,
embora agora deseje que se corrijam, para que prefiram ao dinheiro a ciência que
aprendem, e à essa ciência prefiram a ti, Deus, verdade e abundância de verdadeiro bem
e paz castíssima. Mas naquele tempo – confesso – preferia que não fossem maus para
meu interesse do que bons por teu amor.
CAPÍTULO XIII
Viagem a Milão, Santo Ambrósio
Por isso, quando da cidade de Milão escreveram ao prefeito de Roma pedindo para lá
um professor de retórica, com viagem paga pelo Estado, eu mesmo solicitei esse
emprego por intermédio dos mesmos amigos, ébrios com as vaidades dos maniqueus,
dos quais ia-me separar.
Tanto eles como eu, porém, o ignorávamos. Símaco, então prefeito da cidade, propôsme
o tema de um discurso, e sendo eu aprovado, mandou-me para Milão.
Chegado a Milão, visitei o bispo Ambrosio, famoso na terra por suas qualidades,
piedoso servo teu, cuja eloqüência distribuía zelosamente entre teu povo a flor de teu
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trigo, a alegria do azeite e a sóbria embriaguez de teu vinho. A ele era eu conduzido por
ti sem o saber, a fim de que ele me conduzisse a ti conscientemente.
Esse homem de Deus recebeu-me paternalmente, e se interessou muito por minha
viagem, como bispo. Comecei a amá-lo; a princípio, não como mestre da verdade, que
eu desesperava de achar em tua Igreja, mas pela sua amabilidade para comigo. Ouvia-o
atentamente quando pregava ao povo, não com espírito adequado, mas como se
quisesse sondar sua eloqüência, para ver se correspondia à sua fama, ou se era maior ou
menor que a que se dizia; ficava suspenso das suas palavras, mas indiferente ao
conteúdo, coisa que eu até desprezava. Deleitava-me com a suavidade dos sermões, os
quais, embora mais eruditos que os de Fausto, eram contudo, menos alegres e
envolventes no estilo. Quanto à substância de tais sermões não havia comparação, pois
Fausto se perdia por entre as fábulas dos maniqueus, e Ambrosio ensinava claramente a
mais sã doutrina da salvação. Mas a salvação anda longe dos pecadores, tal como eu era
então. Todavia, insensivelmente e sem o saber, ia-me aproximando dela.
CAPÍTULO XIV
Catecúmeno
Não cuidava eu de aprender o que dizia, interessado apenas em como o dizia – era
este gosto frívolo o único que ainda permanecia em mim, perdidas já as esperanças de
que se abrisse para o homem o caminho para ti. Todavia, infiltravam-se em meu espírito,
juntamente com as palavras que me agradavam, as coisas que desprezava. Já não me
era possível discernir umas das outras, e assim, ao abrir meu coração à sua eloqüência,
nele entrava ao mesmo tempo e aos poucos, a verdade.
Parece-me, de bom início, que seus ensinamentos podiam ser defendidos e que as
afirmações de fé católica – que eu julgava impotente contra os ataques dos maniqueus –
não eram absolutamente temerárias, principalmente depois de me serem explicados
uma, duas ou mais vezes, as passagens obscuras do Velho Testamento que,
interpretadas no sentido literal, me davam a morte. Assim, interpretados no sentido
espiritual muitos dos textos daqueles livros, comecei a repreender aquele meu
desespero, que me levava a crer na impossibilidade de resistir aos que aborreciam e
zombavam da lei e dos profetas.
Contudo, não me julgava na obrigação de segui o caminho dos católicos, só porque
também esta fé podia ter defensores doutos, capazes de refutar objeções com eloqüência
e lógica. Nem por isso me parecia que devia condenar a fé que antes abraçara, pois as
armas de defesa eram iguais. Assim, de um lado a fé católica não me parecia vencida,
contudo ainda não me parecia vencedora.
Apliquei então todas as forças de meu espírito para ver se podia de algum modo, com
argumentos decisivos, convencer de falsidade os maniqueus. A verdade é que se eu
então tivesse podido conceber uma substância espiritual, imediatamente todas as
invenções daqueles se esvaeceriam e seriam arrancadas de minha alma. Mas não podia.
Contudo, refletindo e comparando sempre mais o que os filósofos haviam teorizado
acerca do mundo material e de toda a natureza sensível, cada vez mais me capacitava de
que eram muito mais prováveis as doutrinas destes que as dos maniqueus. Por isso,
duvidando de tudo e flutuando por entre as doutrinas, à maneira dos acadêmicos, como
os julga a opinião geral, resolvi abandonar os maniqueus, julgando que enquanto tivesse
em dúvida não devia permanecer em uma seita à qual eu já antepunha alguns filósofos.
Recusava-me, contudo, terminantemente, a confiar-lhes a cura das enfermidades de
minha alma, por ser-lhes desconhecido o nome salutar de Cristo.
Por isso tudo, resolvi tornar-me catecúmeno na Igreja Católica, que me havia sido
recomendada por meus pais, até que alguma claridade certa viesse dirigir meus passos.
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LIVRO SEXTO
CAPÍTULO I
Esperanças
Ó minha esperança desde a minha juventude! Onde estavas, ou a que lugar te havias
retirado? Acaso não foste tu quem me criou, diferenciando-me dos animais, fazendo-me
mais sábio que as aves do céu? Mas eu caminhava por trevas e resvaladouros, e te
buscava fora de mim, e não encontrava o Deus de meu coração; caí nas profundezas do
mar. Eu perdera a confiança e desesperava de encontrar a verdade.
Minha mãe já viera a meu encontro, forte em sua piedade, seguindo-me por mar e por
terra, confiando em ti em todos os perigos. Até na travessia do mar proceloso ela
encorajava os marinheiros – os que costumam animar os navegadores inexperientes
quando se perturbam – garantia-lhes que chegariam a salvo ao fim da viagem, porque
assim lho tínheis prometido em visão.
Encontrou-me em grave perigo, já sem esperança de buscar a verdade. Contudo,
quando lhe disse que já não era maniqueísta, sem ser ainda católico, não pulou de
alegria, como quem ouve algo inesperado, pois já estava segura sobre aquele ponto de
minha miséria, que a fazia chorar por mim como por um morto que haveria de
ressuscitar. Oferecia-me continuamente a ti em pensamento, como sobre um esquife,
para que dissesses ao filho da viúva: Jovem, eu te digo: levanta-te, e seu filho revivesse,
e voltasse a falar, e o entregasses à sua mãe.
Nem se abalou seu coração com alegria exagerada ao ouvir quanto já se havia
cumprido daquilo que com tantas lágrimas te suplicava todos os dias. Viu-me, senão na
posse da verdade, já afastado do erro. E como estava certa de que me concederias o que
faltava – pois lhe havias prometido a graça total – respondeu-me, com muita calma e
com o coração cheio de confiança, que esperava em Cristo que, antes de sair desta vida,
me havia de ver católico fiel.
Foi o que me disse. Mas diante de ti, ó fonte das misericórdias, redobrava as súplicas
e lágrimas, para que apressasses teu auxílio e aclarasses minhas trevas. Ia com maior
solicitude à igreja para ficar suspensa dos lábios de Ambrosio, como da fonte de água
viva que jorra para a vida eterna. Minha mãe amava este varão como a um anjo de
Deus, pois sabia que fora ele quem me fizera mergulhar naquela dúvida, pela qual
antevia, segura, que eu haveria de passar da enfermidade pela saúde, depois de um
perigo mais grave, que os médicos chamam de crítico.
CAPÍTULO II
Obediência de Mônica
Assim, um dia, como costumava na África, levou papas, pão e vinho puro à sepultura
dos mártires, mas o porteiro não quis permitir suas ofertas. Quando soube que essa
proibição vinha do bispo, resignou-se tão piedosamente e obedientemente, que eu
mesmo me admirei de quão facilmente passasse a condenar o hábito, e não a criticar a
proibição de Ambrósio.
É que seu espírito não era dominado pela embriaguez, nem o amor do vinho a incitava
ao ódio da verdade, como acontece a muitos homens e mulheres, que ao ouvir o cântico
da sobriedade, sentem a mesma repulsa que os ébrios diante de um copo d’água. Mas
ela, ao trazer as cestas com as oferendas usuais para serem provadas e repartidas, não
bebia mais que um pequeno copo de vinho, temperado segundo seu paladar bastante
sóbrio e condizente com sua dignidade. E se eram muitos os sepulcros que devia honrar
desse modo, levava sempre o mesmo copo, usando-o para todos, de modo que o vinho
não só estava muito aguado, mas até quente.
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Dividia-o em pequenos tragos com as pessoas presente, porque buscava a piedade, e
não o prazer.
Tão logo porém soube que o ilustre pregador e mestre a verdade proibira tal costume
– mesmo para os que o praticavam sobriamente, para não dar aos ébrios azo de se
embriagarem, e porque essa espécie de parentales (festas pagãs que se celebravam de
13 a 21 de fevereiro consagradas especialmente aos deuses lares) era muito semelhante
à superstição dos pagãos – ela se absteve de muito boa vontade. No lugar da cesta cheia
de frutos da terra, aprendeu a levar ao túmulo dos mártires um coração cheio de puros
desejos, dando o que podia aos pobres.
Celebrava assim a comunhão com o corpo do Senhor, cuja paixão serviu de modelo
aos mártires em seu sacrifício e coroação.
Mas, parece-me, meu Senhor e meu Deus – e assim o crê meu coração em tua
presença – que minha mãe não teria abdicado tão facilmente desse costume – que
todavia era necessário cortar – se outro a quem não amasse tanto como a Ambrosio o
tivesse proibido. De fato, ela o estimava muito por ter-me salvado, e ele a tinha em
grande estima pela religiosidade e solicitude com que freqüentava a igreja, na prática
das boas obras. Por isso, muitas vezes quando me encontrava com ele, irrompia em
louvores à minha mãe, e me felicitava por ser seu filho. Ignorava o filho que ela tinha em
mim, filho que duvidava de tudo, e julgava impossível achar o caminho da vida.
CAPÍTULO III
Primeiras conquistas
Na oração, eu ainda não implorava o teu socorro, mas meu espírito achava-se
ocupado em investigar e inquieto por discutir. Considerava ao próprio Ambrósio como
homem feliz aos olhos do mundo, vendo-o tão honrado pelas mais altas autoridades.
Somente seu celibato me parecia difícil. Mas eu não podia aquilatar, por nunca as ter
experimentado, as esperanças que o animavam, nem a luta que tinha de travar contra as
tentações de sua alta posição; nem conhecia os consolos na adversidade, nem os
saborosos deleites do interior do seu coração quando ruminava teu alimento. Ele, por sua
vez, desconhecia minha inquietação e o abismo em que estava para cair, porque não lhe
podia perguntar, como desejava, o que queria. Uma multidão de homens de negócios, a
quem ele acudia nas dificuldades, impediam-me de o ouvir ou de lhe falar.
No bem pouco tempo que lhe deixavam livre, dedicava-se a reparar as forças do corpo
com o alimento necessário, ou as do espírito, com a leitura. Quando lia, seus olhos
percorriam as páginas e seu espírito penetrava-lhes o sentido, mas sua voz e sua língua
repousavam.
Muitas vezes, estando eu presente – pois ninguém estava proibido de entrar, nem era
costume anunciar quem se apresentava – vi-o ler em silêncio, e nunca de outra maneira.
E ali ficava eu por muito tempo calado – pois, quem se atreveria molestar um homem
tão atento? – e por fim me afastava. Conjeturava eu que nos curtos momentos que
encontrava para repousar o espírito, livre do tumulto dos negócios alheios, não queria
que o ocupassem com outra coisa. Lia em silêncio (era comum naqueles tempos ler em
voz alta, tanto pela dificuldade dos textos como pela escassez dos livros, muitas vezes
lidos em comum), talvez para evitar que algum ouvinte, suspenso e atento à leitura,
encontrando alguma passagem obscura, pedisse explicações, ou o obrigasse a dissertar
sobre questões difíceis. Gastaria o tempo em tais coisas, e impedido de ler todos os
livros que desejava, embora fosse mais provável que lesse em silêncio para poupar a
voz, que facilmente lhe enrouquecia.
Em todo caso, qualquer que fosse sua intenção, só poderia ser boa em um homem
como ele.
O certo é que não se apresentava nenhum ensejo para interrogar a teu santo-oráculo
que habitava em seu coração sobre o que desejava, exceto quando lhe ouvia uma breve
resposta, e minhas inquietudes pediam muito tempo e vagar para consultá-lo, o que
nunca encontrava. Ouviao, é certo, explicar perfeitamente ao povo a palavra da verdade
todos os domingos, persuadindo[ 49] me sempre mais de que podiam ser desatados
todos os nós das calúnias sagazes que aqueles que me enganavam teciam contra os
livros sagrados.
Logo verifiquei que vossos filhos espirituais, a quem regeneraste no sei da santo mãe,
a Igreja, não interpretavam aquelas palavras: "Fizeste o homem à sua imagem" – de
modo a acreditar que estavas encerrado na forma do corpo humano. E embora eu então
não soubesse, nem sequer suspeitasse de longe o que fosse substância espiritual –
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alegrei-me com isso, envergonhando-me por ter ladrado durante tantos anos, não contra
a fé católica, mas contra invenções de minha inteligência carnal. Tinha sido ímpio e
temerário por criticar uma doutrina que eu deveria ter antes procurado conhecer. Mas tu
– que estás ao mesmo tempo tão alto e tão perto de nós, tão escondido e tão presente,
tu que não tens membros maiores nem menores, que estás inteiro em toda parte sem
estar todo em nenhum lugar, certamente não tens nossa forma corpórea. Contudo,
fizeste o homem à tua imagem, e eis que ele, da cabeça aos pés, é limitado pelo espaço.
CAPÍTULO IV
O espírito da letra
Não compreendendo como poderia se espelhar esta tua imagem ao homem, eu
deveria bater à porta, perguntando-te de que modo deveria entender essa crença, em
lugar de me opor insolentemente, como se ela fosse o que eu imaginava. E assim, tanto
mais fortemente me roia o coração o desejo de ter alguma certeza, quanto mais me
envergonhava de ter sido o joguete dos que me haviam prometido a certeza, e por ter
defendido com pueril empenho e animosidade tantas coisas duvidosas como sendo
verdadeiras.
Depois vi a razão por que eram falsas. Mas já estava então certo de que elas eram
duvidosas, embora as tivesse julgado irrefutáveis por algum tempo, quando, com minhas
cegas discussões, combatia tua Igreja Católica. Embora então não a reconhecesse como
mestra da verdade, pelo menos sabia que não ensinava aquilo de que eu a acusava.
Daí minha confusão, e a conversão que se operava em meu pensamento, ó meu Deus,
vendo que tua Igreja única, corpo de teu Filho único, na qual, ainda menino me
ensinaram o nome de Cisto, não gostava de bagatelas infantis. Regozijava-me que em
sua doutrina sadia nada havia que te representasse, a ti, Criador de todas as coisas,
circunscrito numa forma e num espaço que, embora amplo, seria contudo limitado.
Também me alegrava de que as Antigas Escrituras da lei e os profetas já não me
fossem propostas na interpretação anterior, em que me pareciam absurdas, quando eu
acusava teus santos de pensamentos que nunca haviam tido. Alegrava-me ouvir a
Ambrósio dizer muitas vezes em seus sermões ao povo, recomendando com muito zelo a
verdade: a letra mata e o espírito vivifica. E, levantando o véu místico, revelava-me o
significado espiritual de passagens que, segundo a letra, pareciam ensinar um erro. Nada
dizia que me chocasse, embora eu ainda ignorasse se ele dizia a verdade.
Abstinha-se meu coração de aderir a qualquer doutrina, temendo cair em um
precipício; mas esta suspensão matava-me muito mais, porque queria estar tão certo
das coisas que não via como o estava de que sete e três são dez. Eu não estava tão
louco para pensar que a inteligência alcançaria tal evidência. Mas, assim como entendia
isso, queria entender igualmente as outras verdades, quer fossem materiais, que não
tinha presentes a meus sentidos, quer espirituais, nas quais não sabia pensar senão de
modo material.
É verdade que poderia sarar pela crença, e assim, purificado pela fé o olhar de meu
espírito, pudesse dirigir-se de algum modo à tua verdade, sempre imutável e
indefectível. Mas, como sói acontecer a quem caiu nas mãos de um médico ruim, e que
depois receia as mãos de um bom, assim me sucedia quanto à saúde de minha alma
que, não podendo sarar senão pela fé, recusava-se a sarar por temor de crer,
novamente, em falsidades. Minha alma resistia às tuas mãos, ó meu Deus, que
preparaste o remédio da fé, e o derramaste sobre as enfermidades da terra, dando-lhe
tanta autoridade e eficácia.
CAPÍTULO V
Os mistérios da Bíblia
Desde esse tempo, recaía minha preferência na doutrina católica, porque ajuizava que
nela houvesse mais modéstia, e não mentira, ao impor a crença no que não era
demonstrado – quer porque, mesmo havendo provas, estas não fossem acessíveis a
todos, quer porque não existissem. Diferente do que ocorria entre os maniqueus, que
desprezavam a fé, e prometiam, com temerária arrogância, a ciência, para depois nos
obrigarem a acreditar em uma infinidade de fábulas completamente absurdas,
impossíveis de demonstrar.
Depois, com suavidade e misericórdia, começaste, Senhor, a cuidar e à preparar aos
poucos o meu coração, e foi aceitando tudo o que eu acreditava sem o ter visto, e a cuja
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realização não presenciara. Tantos fatos da história dos povos, tantas notícias sobre
lugares e cidades que não vira, tudo o que aceitava acreditando em amigos, em médicos
e em outras pessoas que, se não as acreditássemos, não poderíamos dar um passo na
vida. E, sobretudo, que fé inabalável eu tinha em ser filho de meus pais, coisa que não
poderia saber sem prestar fé no que ouvia. Então me convenceste de que os dignos de
censura não são os que acreditam em teus livros, cuja autoridade estabeleceste entre
quase todos os povos, mas o que não crêem neles. E eu não devia dar ouvidos ao que
talvez me dissessem: "Como sabes que esses livros foram dados aos homens pelo
Espírito de Deus, único e verdadeiro?" Ora, era precisamente isto o que eu devia crer,
porque nenhuma objeção caluniosa ou agressiva, das que eu havia lido nos escritos
contraditórios dos filósofos, nunca conseguiram arrancar-me a certeza de tua existência,
embora ignorasse o que eras, e a certeza de que o governo das coisas humanas está em
tuas mãos.
Eu acreditava nisso, ora mais fortemente, ora mais frouxamente; mas em tua
existência e que cuidava do gênero humano, sempre acreditei, embora ignorasse a
natureza, ou qual o caminho que nos conduz ou reconduz a ti. Por isso, persuadido de
nossa impotência para achar a verdade só por meio da razão, e que para isso nos é
necessária a autoridade das Sagradas Escrituras, comecei a crer que nunca terias
conferido tão soberana autoridade a essas Escrituras em todo o mundo, se não
quiséssemos que crêssemos e te buscássemos por elas.
Sobre os mistérios em que costumava tropeçar, e que ouvira explicar muitas vezes de
modo aceitável, eu os atribuía à sua profundidade, parecendo-me a autoridade das
Escrituras tanto mais venerável e digna da fé sacrossanta, quando de leitura fácil para
todos. E ela reserva porém, a uma percepção mais aguda a majestade de seu mistério.
Pela clareza da linguagem e sua simplicidade do estilo, ela se abre a todos e, no entanto,
estimula a reflexão dos que não são levianos de coração. Recebe a todos em seu vasto
seio, mas não deixa ir a ti, por caminhos estreitos, senão um pequeno número; muito
mais, porém, do que seriam se ela não tivesse essa elevada autoridade, e não atraísse as
turbas do regaço de sua santa humildade.
Pensava eu nessas coisas, e me assistias; suspirava, e me ouvias, vacilava, e me
governavas; seguia pela via larga do mundo, e não me abandonavas.
CAPÍTULO VI
Alegria de bêbado
Eu aspirava às honras, às riquezas e ao matrimonio, e tu te rias de mim. E nesses
desejos sofria grandes amarguras; e tu me eras tanto mais propício quanto menos
consentias que me fosse doçura o que não eras tu. Vê, Senhor, meu coração, tu que
quiseste que recordasse estes fatos e os confessasse. Esta alma, a quem livraste do
visco tenaz da morte, une-se agora a ti.
Como era infeliz! E tu fustigavas o mais dolorido da ferida, para que deixasse tudo, e
se convertesse a ti, que estás acima de tudo. Sem ti nada existiria. Ferias minha alma
para que voltasse para ti, e fosse curada.
Que miserável era eu então! E como agiste para que eu sentisse minha desgraça? Era
o dia em que me preparava para declamar os louvores do imperador; neles ia mentir
muito e, mentindo granjearia a aprovação dos que sabiam das mentiras. Preocupado,
meu coração se consumia com a febre de pensamentos impuros quando, ao passar por
uma rua de Milão, vi um mendigo já bêbado, creio eu, mas bem humorado e divertido.
Suspirei então, e falei aos amigos que me acompanhavam sobre as muitas dores que nos
provocavam nossas loucuras. Com todos os esforços, quais eram os que então me
afligiam, apenas arrastava a carga de minha infelicidade cada vez mais pesada,
aguilhoado por meus apetites, para conseguir somente uma alegria tranqüila, na qual já
nos havia precedido aquele mendigo; alegria que nunca talvez alcançássemos. O que ele
havia conseguido com umas poucas moedas de esmola, era exatamente o que eu
aspirava com tão árduos caminhos e rodeios: a alegria de uma felicidade temporal.
A alegria do mendigo não era certamente verdadeira, mas a que eu buscava com
minhas ambições era ainda mais falsa. Ele, pelo menos, estava alegre, e eu, angustiado;
ele seguro, e eu inquieto. Se alguém me perguntasse se preferia estar alegre ou triste eu
responderia: alegre; mas se me perguntassem novamente se queria ser como aquele
mendigo ou ser como eu era, sem dúvida escolheria a mim mesmo, embora cheio de
cuidados e de temores. Mas isto eu faria por maldade ou com razão? Eu não devia
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preferir-me ao mendigo por ser mais culto, pois a ciência para mim não era fonte de
felicidade, mas apenas um meio de agradar aos homens, e não instruí-los.
Por isso, Senhor, quebravas meus ossos com a vara de tua disciplina.
Longe de minha alma os que dizem: "Importa levar em conta a causa da alegria; o
mendigo se alegrava com a embriaguez, e tu com a glória". Que glória, Senhor? Com a
que não está em ti. Porque como aquela não era verdadeira alegria, assim aquela glória
não era a verdadeira, antes perturbava mais ainda meu coração. O ébrio, naquela
mesma noite, curaria sua embriaguez, enquanto eu já dormia com a minha, e me
levantara com ela, e tornaria a dormir e a levantar com ela, e tu sabes quantos dias!
Importa, é certo, conhecer os motivos da alegria de cada um, eu o sei, e a alegria da
esperança fiel dista infinitamente daquela vaidade. Mas então, havia entre nós outra
diferença, pois certamente ele era o mais feliz, não só porque transbordava de alegria,
enquanto eu me consumia de cuidados, mas também porque ele comprara o vinho
desejando a felicidade dos benfeitores, enquanto eu procurava com mentiras uma vã
ostentação.
Muitas coisas disse então sobre isso a meus amigos, e muitas vezes eu costumava
examinar minha vida, e achava-me infeliz. Isso me afligia e redobrava minha dor; se me
sorria alguma ventura, não acudia para apanhá-la, porque escapava-me das mãos antes
mesmo que a pudesse alcançar.
CAPÍTULO VII
Alípio
Os que convivíamos em boa amizade lamentávamos estas coisas, mas de modo
especial e muito intimamente eu falava com Alípio e Nebrídio. Alípio, como eu, era do
município de Tagaste, nascido de uma das melhores famílias da cidade. Era mais jovem
do que eu, pois havia sido meu discípulo quando comecei a ensinar em nossa cidade, de
depois em Cartago. Ele me queria muito, por eu lhe parecer bom e douto, e eu o
apreciava por sua grande inclinação à virtude, que já se manifestava em tenra idade.
Contudo, o abismo dos costumes cartagineses, onde ferve o gosto dos espetáculos
frívolos, engolfara-o na loucura dos jogos circenses. Alípio revolvia-se miseravelmente
nesse abismo na época em que eu ensinava retórica na escola pública, mas ele não me
tinha como mestre por causa de uma desavença que surgira entre mim e seu pai. Eu
sabia que Alípio amava morbidamente o circo, e isso muito me angustiava, por me
parecer que se iam se perder, se já não estivessem, magníficas esperanças. Mas não
achava meios de alertá-lo e repreendê-lo, nem pela amizade, nem pelo magistério, pois
julgava que tinha sobre mim a mesma opinião que seu pai. Mas não era assim. Pondo de
parte a vontade paterna sobre isso, começou a me cumprimentar, comparecia à minha
aula, ouvia-me um pouco, e logo se retirava.
Eu já me esquecera de alertá-lo para não desperdiçar seu talento tão precioso com
aquele cego e apaixonado gosto por jogos fúteis. Mas tu, Senhor, que governas o que
criaste, não te esqueceste de que Alípio deveria ser ministro de teus sacramentos entre
teus filhos; e para que fosse atribuída claramente a ti a sua emenda, a realizaste por
meu intermédio, mas sem que eu o soubesse.
Um dia, estando sentado ao lugar de costume, diante de meus discípulos, veio Alípio,
saudou-me, sentou-se, atento ao assunto de que eu tratava. Por acaso trazia eu nas
mãos uma lição; para melhor expô-la, e tornar mais clara e agradável sua explicação,
pareceu-me oportuno fazer uma comparação com os jogos circenses, com mordaz
sarcasmo aos escravos dessa loucura. Mas tu sabes, Senhor, que então não pensei em
curar Alípio dessa peste. Todavia tomou para si minhas palavras, acreditando que eu só
dissera por sua causa. Qualquer outro tomaria isso com desgosto; mas ele, jovem
virtuoso, tomou-o como causa para censurar a si próprio, e para me estimar ainda mais.
Já havias dito outrora, e escrito em teus livros: "Corrige o sábio, e ele te amará". Eu
não o repreenderia, mas tu, servindo-te de todos, quer eles o saibam ou quer não, de
acordo com a justa ordem que conheces, fizeste de meu coração e de minha língua
carvões abrasadores, para cauterizar e curar aquela alma tão promissora, mas
pervertida.
Senhor, cale teus louvores quem não percebe tuas misericórdias, que eu te confesso
do mais íntimo de meu ser. Depois de ouvidas minhas palavras, Alípio saiu daquele fosso
profundo, onde gostosamente se enterrara, cegando-se com o torpe prazer, e sacudiu
sua alma com corajosa temperança, afastando de si todas as imundícies dos jogos
circenses, para onde nunca mais voltou.
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Depois venceu a resistência paterna para me escolher como mestre, e seu pai cedeu e
consentiu. Voltando a ser meu discípulo, foi envolvido comigo na superstição dos
maniqueus, apreciando neles aquela ostentação de continência, que ele julgava legítima
e sincera. Na verdade, porém, era um desvario sedutor, um laço onde caíam almas
preciosas, ainda incapazes de avaliar a sublimidade da virtude e, por isso mesmo,
vítimas fáceis da aparência que mascara uma virtude hipócrita e fingida.
CAPÍTULO VIII
A atração do anfiteatro
Não querendo por nada deixar a carreira mundana, tão decantada por seus pais,
partira antes de mim para Roma, a fim de estudar Direito; lá se deixou arrebatar de
modo incrível, e com incrível avidez, pelos espetáculos de gladiadores.
A princípio, detestava e aborrecia espetáculos semelhantes. Certa vez, encontrando-se
com alguns amigos e condiscípulos que voltavam de um jantar, apesar de resistir, foi
arrastado por eles com amigável violência para o anfiteatro, onde naquele dia se
celebravam jogos funestos e cruéis.
Dizia-lhes Alípio: "Mesmo que arrasteis para lá meu corpo, e o retenhais ali, podereis
por acaso obrigar minha alma e meus olhos a contemplar tais espetáculos? Estarei ali
como ausente, e assim triunfarei deles e de vós". Mas eles, não fazendo caso de tais
palavras, levaram-no, talvez para verificar se poderia ou não cumprir a palavra.
Quando chegaram, ocuparam os lugares que puderam, pois todo o anfiteatro já fervia
nas paixões mais selvagens. Alípio, fechando a porta dos olhos, proibiu que sua alma se
envolvesse em tal crueldade. E oxalá também tivesse tapado os ouvidos! Porque, em um
lance da luta, foi tão grande o clamor da multidão que, vencido pela curiosidade, e
julgando-se preparado para desprezar e vencer a cena, fosse o que fosse, abriu os olhos.
Foi logo ferido na alma mais profundamente do que a ferida física do gladiador a quem
desejou contemplar e caiu. Sua queda foi mais miserável que a do gladiador, causa de
tantos gritos. Estes, entrando-lhe pelos ouvidos, abriram-lhe os olhos, para ferir e abater
sua alma, mais temerária do que forte, e tanto mais fraca por apoiar-se em si mesma,
em lugar de se apoiar em ti. Logo que viu sangue, bebeu junto a crueldade, e não se
afastou do espetáculo; pelo contrário, prestou mais atenção. Assim, sem o saber,
absorvia o furor popular e se deleitava naquela luta criminosa, inebriado de sangrento
prazer.
Já não era o mesmo que ali viera, era agora mais um da turba à qual se misturara,
digno companheiro daqueles que para ali o arrastaram.
Que mais direi? Contemplou o espetáculo, gritou, apaixonou-se, e foi contaminado de
louco ardor, que o estimulava a voltar, não só com os que o haviam levado, mas à sua
frente, e arrastando a outros. Mas tu te dignaste, Senhor, livrá-lo deste estado com mão
forte e misericordiosa, ensinando-o a não confiar em si, mas em ti, embora isto
acontecesse muito tempo depois.
CAPÍTULO IX
Alípio, ladrão a contragosto
Contudo, essa aventura gravara-se em sua memória como remédio para o futuro. o
mesmo ocorreu com outro fato, quando ainda era estudante em Cartago, e seguia meus
cursos.
Era meio-dia. Alípio estava repassando uma declamação, segundo o costume dos
estudantes, quando foi preso como ladrão pelos guardas do foro. Sem dúvida o
permitiste, meu Deus, apenas para que esse jovem, tão grande no futuro, começasse já
a aprender que, ao julgar outrem, ninguém deve condenar ninguém levianamente, e com
temerária credulidade.
Alípio, pois, passeava diante do tribunal, sozinho, com as tábuas e o estilete, quando
um jovem estudante, o verdadeiro ladrão, levando escondido um machado, sem que
Alípio o percebesse, entrou pelas grades que rodeiam a rua dos banqueiros, e se pôs a
cortar o seu chumbo.
Ao ruído dos golpes, os banqueiros que estavam embaixo alvoroçaram-se, e
chamaram gente para prender o ladrão, fosse quem fosse. Mas este, ouvindo a gritaria,
fugiu depressa, abandonando o machado para não ser preso com ele. Ora, Alípio, que
não o vira entrar, viu-o sair e fugir precipitadamente. Curioso, porém, para saber a
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causa, entrou no lugar. Encontrou o machado e se pôs, admirado, a examiná-lo. Bem
nessa hora chegaram os guardas dos banqueiros, e o surpreendem sozinho, empunhando
o machado, a cujos golpes, alarmados, haviam acudido. Prendem-no, levam-no, e
gloriam-se, diante dos inquilinos do foro por ter apanhado o ladrão em flagrante, e já o
iam entregar aos rigores da justiça.
Mas a lição devia ficar por aqui, Senhor, porque imediatamente saíste em socorro de
sua inocência, da qual eras única testemunha. Quando o conduziam à prisão ou ao
suplício, veio-lhes ao encontro um arquiteto, encarregado superior da direção dos
edifícios públicos. Os guardas alegraram-se com esse encontro, pois sempre que faltava
alguma coisa no foro o magistrado suspeitava deles. Agora ele saberia quem era o
verdadeiro ladrão. Mas este senhor tinha visto várias vezes Alípio na casa de um
senador, a quem visitava com freqüência. Reconheceu-o, tomou-o pela mão, separou-o
da turba, e perguntou-lhe a causa de tamanha desgraça.
Informado do que se passara, o arquiteto mandou à turba alvoroçada e enfurecida
contra Alípio que o seguisse. Quando chegaram à casa do jovem autor do roubo, achavase
à porta um menino escravo, novo demais para recear comprometer seu amo, e que
poderia revelar tudo, porque o seguira até o foro. Alípio, ao reconhecê-lo, apontou-o ao
arquiteto; este, mostrando-lhe o machado, lhe disse: "Sabe de quem é este machado?"
Ao que o menino respondeu sem demora: "Nosso". Depois de interrogado, confessou o
resto.
Deste modo, o processo foi transferido para aquela casa, para confusão da turba, que
já imaginara tripudiar de Alípio. O futuro dispensador de tua palavra, e juiz de tantas
causas de tua Igreja, saiu dessa aventura com mais experiência e sabedoria.
CAPÍTULO X
Os três amigos
Encontrei Alípio em Roma, onde se uniu a mim com vínculo de amizade tão estreito,
que foi comigo para Milão, tanto para evitar nosso afastamento como para exercer o
Direito, embora mais para agradar aos pais do que por vontade própria. Já por três vezes
fora assessor, sempre com admirável lisura, e ficando ele mais admirado ainda de que
juizes preferissem o dinheiro à inocência.
Ficou provada a integridade do seu caráter, não só contra os atrativos da cobiça, mas
também contra o aguilhão do medo. Em Roma, era assessor do tesoureiro das finanças
da Itália.
Havia nesse tempo um senador poderosíssimo, a quem estavam sujeitos muitos
clientes, uns por benefícios, outros por terror. Segundo o costume dos poderosos, este
senador tentou fazer não sei que coisa era proibida pelas leis, e Alípio se lhe opôs. À
tentativa de corrompê-lo, Alípio reconheceu com o riso. Zombou das ameaças que aquele
lhe dirigiu, causando admiração geral pela rara qualidade de sua alma, que não desejava
a amizade e nem temia a inimizade de homem tão poderoso, conhecido por seus
inúmeros meios de prestar favores ou de prejudicar. Até o próprio juiz, de que Alípio era
assessor, embora se opusesse também, não o fazia abertamente, responsabilizando a
Alípio que, dizia ele, não lhe permitia fazer o que desejava, porque, se acedesse – e era
verdade – demitir-se-ia imediatamente.
Alípio quase se deixara seduzir pelo amor às letras, mandando copiar códigos segundo
a tarifa paga aos trabalhos para o Estado; porém, consultando a justiça, inclinou-se pelo
melhor, preferindo a integridade, que lhe proibia esta ação, ao poder que lha permitia.
Isso é fato pequeno, mas o que é fiel no pouco também o é no muito, e de modo
nenhum podem ser vãs aquelas palavras saídas da boca de tua Verdade. Se não fordes
fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E se nas alheias não fordes
fiéis, quem vos dará o que é vosso?
Assim era então este amigo, tão intimamente unido a mim, e que comigo buscava o
tipo de vida que deveríamos seguir.
Também Nebrídio deixou sua pátria, vizinha de Cartago, e a própria Cartago, onde
gozava de boa fama. Abandonou as magníficas propriedades do pai, a casa e até a
própria mãe, que não o quis seguir; veio para Milão apenas para viver comigo, na busca
apaixonada da verdade e da sabedoria.
Assim como eu, ele suspirava, partilhando minha perplexidade, mostrando-se
investigador ardoroso da vida feliz e indagador acérrimo das questões mais difíceis.
Eram três bocas famintas que comunicavam mutuamente a própria fome, esperando
que lhes desses comida no tempo oportuno. Na amargura, que graças à tua misericórdia
sempre seguia nossas ações mundanas, se desejávamos entender a causa dos
sofrimentos, encontrávamos trevas. Afastávamos gemendo e dizendo: Até quando
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durará este sofrimento? E isto repetíamos com freqüência, mas não abandonávamos
nosso modo de vida, porque não víamos nenhuma certeza a que nos pudéssemos
abraçar, se o abandonássemos.
CAPÍTULO XI
Entre Deus e o mundo
Era com admiração que me recordava diligentemente do longo tempo decorrido desde
meus dezenove anos, quando comecei a arder no desejo da sabedoria, propondo-me,
quando a achasse, abandonar todas as vãs esperanças e enganosas loucuras das
paixões.
Chegado porém aos trinta anos, ainda continuava preso ao mesmo lodaçal, ávido de
gozar dos bens presentes, que me fugiam e me dissipavam. Entretanto, dizia: "Amanhã
hei de encontrá-la; a verdade aparecerá clara, e a abraçarei. Fausto virá, e dará todas as
explicações. Ó grandes varões da Academia: é verdade que não podemos compreender
nenhuma coisa com certeza para a conduto de nossa vida?"
"Mas não! Procuremos com mais diligencia, sem desesperarmos. Já não me parecem
absurdas nas Escrituras as coisas que antes me pareciam tais: posso compreendê-las de
modo diferente, mais razoável. Fixarei, pois, os pés naquele degrau em que me
colocaram meus pais quando criança, até que encontres a verdade em sua evidência".
"Mas onde e quando buscá-la? Ambrósio não tem tempo livre para me ouvir, e a mim
falta tempo para ler. E além do mais, onde encontrar os livros? E onde ou quando
poderei comprá-los?"
A quem hei de pedi-los?
"Repartamos o tempo, reservemos algumas horas para a salvação da alma nasceu
uma grande esperança: a fé católica não ensina o que eu pensava, e eu a criticava
levianamente. Seus doutores têm como crime limitar Deus à figura humana; e eu ainda
hesito em bater para que nos sejam reveladas as outras verdades! As horas da manhã
eu dedico aos alunos; mas que faço das outras? Por que não as consagro a essa busca?"
"Mas quando então, visitar os amigos poderosos, de cujos favores necessito? Quando
preparar as lições que os alunos me pagam? Quando reparar as forças do espírito,
descansando em algo aprazível?"
"Perca-se tudo! Deixemos essas coisas vãs e fúteis. Entreguemo-nos por completo à
busca da verdade. A vida é miserável, e a hora da morte, incerta. Se esta me
surpreender de repente, em que estado sairei do mundo? E onde aprenderei o que deixei
de aprender aqui? Não serei antes castigado por essa negligência? Mas, e se a própria
morte cortar e for o fim a todo cuidado e sentimento? Também seria conveniente
investigar este ponto. Mas afastemos tais pensamentos! Não é por acaso nem é em vão
que se difunde por todo o mundo a fé cristã, com grande prestígio. Deus jamais teria
criado tantas e tais coisas por nós, se com a morte do corpo terminasse também a vida
da alma. Por que hesitar, pois, em abandonar as esperanças do mundo para me
consagrar à busca de Deus e da bem-aventurança?"
Mas espere um pouco! Os bens mundanos também têm seus deleites, que não são
pequenos. Não devo deixá-los sem pensar; seria feio ter de voltar a eles. Eis-me prestes
a conseguir um cargo de honra. Que mais posso desejar? Tenho uma multidão de amigos
poderosos. Sem me apressar muito poderia obter, no mínimo, uma presidência. Poderia
então casar-me com uma mulher de alguma fortuna, para que meus gastos não fossem
muito pesados.
Aqui estariam os limites de meus desejos. Muitos homens grandes e dignos de
imitação, apesar de casados, dedicaram-se ao estudo da sabedoria.
Enquanto assim pensava, e os ventos cambiantes impeliam meu coração de um lado
para outro, o tempo passava, e eu retardava minha conversão ao Senhor. Adiava de dia
para dia o viver em ti, morrendo todavia todos os dias em mim mesmo. Amando a vida
feliz, temia buscá-la em sua morada; procurava-a fugindo dela! Pensava que seria mui
desgraçado se me visse privado das carícias da mulher. Não pensava ainda no remédio
de tua misericórdia, que cura esta enfermidade, porque nunca o havia experimentado.
Julgava que a continência fosse obra de nossa própria força, que eu pensava não ter. Eu
era bastante néscio para ignorar que ninguém, como está escrito, é casto sem que tu
lhes dê a força. Essa força certamente ma darias se eu ferisse teus ouvidos com os
gemidos de minha alma, e com fé firme lançasse em ti meus cuidados.
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CAPÍTULO XII
Casar ou não?
Opunha-se Alípio a que me casasse, repetindo-me que, se o fizesse, não poderíamos
dedicar-nos juntos, com segura tranqüilidade, ao amor da sabedoria, como há muito
desejávamos.
Alípio, nessa matéria, era castíssimo de causar admiração, porque, ao entrar na
juventude, experimentara o prazer carnal, mas não se prendera a ele. Antes,
arrependeu-se muito, e o desprezou, vivendo depois em perfeita continência.
Eu argumentava com os exemplos dos que, embora casados, haviam-se dedicado ao
estudo da sabedoria, servindo a Deus, e guardando fidelidade e amor aos amigos.
Contudo, eu estava longe dessa grandeza de alma. Prisioneiro da morbidade da carne,
arrastava com prazer mortal minha cadeia, temendo que ela se rompesse e, rejeitando
as palavras que bem me aconselhavam, como o ferido repele a mão que lhe desfaz as
ataduras.
Além do mais, a serpente falava por minha boca a Alípio, e pela língua lhe tecia doces
laços em seu caminho, para que seus pés honestos e livres se enredassem.
Ele admirava-se de que eu, a quem tanto estimava, estivesse tão preso ao visco do
prazer a ponto de afirmar, sempre que tratávamos desse assunto, que me era impossível
levar vida casta. Para esgrimir contra sua admiração, dizia-lhe que havia grande
diferença entre sua rápida e furtiva experiência do prazer, de que mal se lembrava e
que, por isso, podia desprezar facilmente, e as delícias de uma ligação verdadeira, à
qual, se juntasse o honesto nome de matrimonio, já não causaria admiração se eu não
pudesse desprezar aquela vida. Com isso, Alípio também começou a desejar o
matrimonio, não certamente vencido pelo apetite do prazer, mas pela curiosidade.
Desejava saber, dizia ele, o que era aquele bem sem o qual minha vida – que ele tanto
apreciava – não me parecia vida, mas tormento. De fato, livre dessa prisão, sua alma
pasmava de tal servidão, e do espanto passava ao desejo de experimentá-la. Depois
talvez caísse naquela mesma servidão que o espantava, pois queria fazer um pacto com
a morte, e o que ama o perigo, nele cairá.
Certamente que nem ele, nem eu tínhamos grande interesse no que há de bonito e
honesto no matrimonio, como a direção da família e a educação dos filhos. Mas o que me
mantinha preso e com fortes tormentos era o hábito de saciar minha insaciável
concupiscência; e a ele, era a admiração que o arrastava para o mesmo cativeiro. Assim
éramos, Senhor, até que tu, ó Altíssimo, que não desamparas nosso lodo, compassivo,
por caminhos maravilhosos e ocultos, viestes em socorro destes infelizes.
CAPÍTULO XIII
O pedido de casamento
Instavam solicitamente comigo para que me casasse. Já havia feito o pedido, já havia
recebido uma promessa, ajudado sobretudo por minha mãe, que nutria a esperança que
eu, uma vez casado, seria regenerado nas águas salutares do batismo. Minha mãe
alegrava-se por me ver cada dia mais apto para recebê-lo, vendo que na minha fé se
realizavam seus votos e tuas promessas.
Contudo, nada revelaste à minha mãe que, a meu pedido e por seu desejo, te
suplicava com forte clamor de coração, todos os dias que lhe desse alguma visão sobre
meu futuro matrimonio. Via, sim, algumas coisas vãs e fantásticas, que o espírito
humano engendra quando preocupado. Ela me relatava, sem a confiança que costumava
dar às visões que lhe enviavas, mas com desprezo. Dizia que distinguia, por um vago
discernimento que não podia explicar com palavras, a diferença que havia entre tuas
revelações e os sonhos de sua alma.
Contudo, insistia no matrimonio, e pediu-se a mão de uma jovem, à que ainda
faltavam dois anos para ser núbil (em todo o Império Romano era a idade de 12 anos),
mas, como ela agradava, era preciso esperar.
CAPÍTULO XIV
Um projeto desfeito
Éramos muitos os amigos, que aborrecíamos as mazelas da agitação da vida humana.
Em nossas conversas, havíamos debatido e quase resolvido nos retirar da multidão para
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viver sossegadamente. Nosso projeto organizava a vida de tal sorte que tudo o que
tivéssemos seria comunitário, formando de todos os patrimônios um patrimônio único.
Graças à nossa amizade sincera não haveria mais a fortuna deste ou daquele, mas uma
só fortuna comum.
Seriamos cerca de dez homens os que desejávamos formar essa sociedade. Alguns de
nós, muito ricos, como Romaniano, meu conterrâneo, cujos sérios cuidados de negócios
o tinham trazido à corte imperial. Era muito amigo meu desde menino, e um dos que
mais instavam nesse projeto, tendo sua opinião um grande peso pois sua riqueza era
bem superior que a dos outros.
Fora combinado que todos os anos, dois de nós, como magistrados, administrariam
todo o necessário, ficando os outros em paz. Mas quando se começou a discutir se as
mulheres consentiriam nesse acordo – alguns dentre nós eram casados, e outros
pensavam em casar – todo o plano, tão bem construído, se desvaneceu entre nossas
mãos, fez-se em pedaços e teve de ser abandonado.
Novamente aos suspiros e gemidos, voltamos a caminhar pelos largos e batidos
caminhos do século, porque em nosso coração havia mil pensamentos, mas teu conselho
permanece eternamente. Na tua sabedoria te rias de nossos projetos, e preparavas o
cumprimento dos teus, a fim de dar-nos alimento no tempo oportuno, abrindo tuas mãos
e enchendo-nos de bênçãos.
CAPÍTULO XV
A separação da amante
Entretanto, multiplicavam-se meus pecados. Quando arrancaram do meu lado, por ser
impedimento ao meu matrimonio, aquela com quem partilhava o leito, meu coração, ao
qual ela estava unida, ficou ferido e sangrando. Ela, por sua vez, voltando para a África,
fez-te voto, Senhor, de jamais conhecer outro homem, deixando comigo o filho natural
que dela tivera.
Mas eu, desgraçado, fui incapaz de imitar aquela mulher. Estava impaciente pelo
prazo de dois anos que deveria transcorrer até receber por esposa aquela que pedira em
casamento – e porque eu não era amante do matrimonio, mas escravo da sensualidade –
procurei pois outra mulher, não como esposa, mas para alimentar e manter íntegra ou
agravada a doença da minha alma, sob a tutela do meu hábito, até que contraísse
matrimonio. Mas nem por isso sarava a chaga causada pela separação da primeira
mulher; mas, depois de ardor e sofrimento agudíssimos, começava a se corromper
doendo tanto mais desesperadamente quanto mais fria se tornava.
CAPÍTULO XVI
A aproximação de Deus
Louvor e glória a ti, ó fonte das misericórdias! Eu me tornava cada vez mais
miserável, e tu te aproximavas cada vez mais de mim. já estava junto de mim tua
destra, para me arrancar do lodo dos meus vícios, e em purificar, e eu não o sabia. Mas
nada havia que me fizesse sair do profundo abismo dos prazeres carnais, a não ser o
medo da morte e de teu juízo futuro, que jamais saiu do meu peito, através das várias
doutrinas que segui.
Discutia com meus amigos Alípio e Nebrídio, sobre o bem e o mal finais; facilmente
meu juízo teria dado a palma a Epicuro, se eu não acreditasse na imortalidade da alma e
do julgamento de nossos atos, coisas em que Epicuro nunca acreditou. E eu perguntava:
"Se fossemos imortais, e vivêssemos em perpétuo gozo sensorial, sem temor algum de
perdê-lo, não seriamos felizes? Que mais poderíamos desejar?" Ignorava eu que isto era
fruto duma grande miséria. Não podia, tão imerso no vício e cego como estava, imaginar
a luz da virtude e uma beleza invisível aos olhos da carne, e somente visível das
profundezas da alma. Na minha miséria, não indagava de que fonte provinha esse
grande gosto em conversar com os amigos, por maior que fosse a abundância dos
prazeres carnais, segundo a idéia que eu tinha então? Eu amava a meus amigos
desinteressadamente, e também sentia que eles me amavam com o mesmo
desinteresse.
Ó caminhos tortuosos! Ai da alma temerária que, afastando-se de ti, esperava achar
algo melhor! Dá voltas e mais voltas, para todos os lados, mas tudo lhe é duro, porque
só tu és seu descanso. Mas eis que estás presente, e nos livras de nossos miseráveis
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erros, e nos pões em teu caminho, e nos consolas dizendo: "Correi, que eu vos levarei e
conduzirei ao termo, e aí serei vosso sustento!"
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LIVRO SÉTIMO
CAPÍTULO I
A idéia de Deus
Já havia morrido minha adolescência má e nefanda; entrava na juventude, e quanto
mais crescia em idade, mais vergonhosa se tornava minha vaidade, a ponto de não
poder imaginar uma substância além da que se pode perceber com os olhos.
Desde que comecei receber as lições da sabedoria, não mais te imaginava, meu Deus,
sob a forma de um corpo humano – sempre fugi dessa idéia, e me alegrava encontrar
essa doutrina na fé de nossa mãe espiritual, a Igreja Católica; - mas não me ocorria
outro modo de te imaginar.
E sendo eu homem – e que homem – esforçava-me para imaginar a ti, o sumo, o
único e verdadeiro Deus. Com toda minha alma eu te julgava incorruptível, inviolável e
imutável. Mesmo não sabendo de onde nem como me vinha esta certeza, eu via com
clareza e tinha como certo que o incorruptível é melhor do que o corruptível. Sem
hesitar, colocava o que não pode ser vencido acima do que o pode ser, e o que não sofre
mudança parecia-me melhor do que é suscetível a mudanças.
Meu coração clamava violentamente contra todos os meus fantasmas. Esforçava-me
por afugentar, com um só golpe, o redemoinho de imagens imundas que volitavam ao
meu redor.
Mas, apenas disperso, em um piscar de olhos, tornava a se formar os atropelos sobre
minha vista, obscurecendo-a. Apesar de não te atribuir uma figura humana, contudo,
necessitava te conceber como algo corporal, situado no espaço, quer imanente ao
mundo, quer difundido por fora do mundo, através do infinito; tal era o ser incorruptível,
inviolável e imutável que eu colocava acima do que é corruptível, sujeito à deterioração e
ás mudanças. O que não ocupava espaço me parecia um nada absoluto, perfeito, e não
um simples vazio, como quando se tira um corpo de um lugar, permanecendo o lugar
vazio de todo o corpo, terrestre, úmido, aéreo ou celeste, mas, enfim, um lugar vazio,
como que um nada espaçoso.
Assim, pois, com o coração pesado, sem consciência clara de mim mesmo,
considerava como um perfeito nada tudo o que não tivesse extensão por determinado
espaço, ou não se difundisse ou pudesse assumir um desses estados. As formas
percorridas por meus olhos eram os moldes das imagens pelas quais andava meu
espírito; não via que a mesma faculdade com que formava essas imagens não era da
mesma natureza que elas, não obstante não pudesse formá-las se ela não fosse por sua
vez algo grande.
E também a ti, vida de minha vida, imaginava-te como um Ser imenso, penetrando
por todas as partes, através dos espaços infinitos, toda a massa do mundo, alastrandose
sem limites na imensidão, de sorte que a terra, o céu e todas as coisas te continham,
e tudo isso tinha em ti seu limite, sem que te limitasses em parte alguma. E assim como
a massa do ar – deste ar que está sobre a terra – não impede a passagem da luz do sol,
não o impede de a atravessar, de a penetrar sem romper ou cortar, antes enchendo-a
totalmente, assim eu pensava que não somente a substância do céu, do ar e do mar,
mas também a da terra se deixava atravessar e penetrar por ti em todas as suas partes,
grandes e pequenas, que receberiam tua presença, que, com secreta inspiração, governa
interior e exteriormente tudo o que criaste.
Assim conjeturava eu, por não poder imaginar-te de outra forma; mas minha
conjectura era falsa. Porque, se assim fosse, uma porção maior da terra conteria parte
maior de ti; e uma porção menor da terra conteria parte menor. E de tal modo estariam
as coisas impregnadas de ti, que o corpo de um elefante conteria tanto mais de teu ser
que o corpo do passarinho, pois aquele é maior do que este, e ocupa mais espaço.
Assim, fragmentado entre as partes do universo, estarias presente nas grandes partes do
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universo por grandes partes de ti, e nas pequenas por pequenas, o que não acontece.
Mas ainda não tinhas iluminado minhas trevas.
CAPÍTULO II
Objeção contra o maniqueísmo
Bastava-me, Senhor, para calar aqueles enganados enganadores e muitos charlatães
– pois o que se ouvia de sua boca não era a tua palavra – bastava-me, certamente, o
argumento que há muito tempo, estando ainda em Cartago, costumava propor-lhes
Nebrídio, impressionando a todos os que então o ouvimos.
"Que poderia fazer contra ti – dizia aquela não sei que raça de trevas, que os
maniqueus costumam opor-te como massa hostil – se não quisesses lutar contra ela?"
Se respondessem que te podia ser nociva em algo, então serias violável e corruptível.
Se dissessem que não te podia prejudicar nada, não haveria razão para luta. Luta essa
em que uma parte de ti mesmo, um de teus membros, produto de tua própria
substância, se misturava às forças adversas, a naturezas não criadas por ti. Assim se
corromperia, degradando-se a ponto de mudar sua felicidade em miséria e de necessitar
de auxílio para se libertar e purificar. E essa parte de ti seria a alma que teu Verbo devia
salvar da escravidão, ele que é livre de impurezas, ele que é imaculado da corrupção, ele
que é intacto sem ser corruptível, sendo feito de uma só e mesma substância.
E assim, se declaram incorruptível tudo o que és, isto é, a substância que te forma,
todas essas proposições são erros execráveis; e se eles te consideram corruptível, essa
mesma afirmação também é falsa, e abominável logo à primeira vista.
Bastava-me, pois, este argumento contra aqueles que eu queria expulsar de vez de
meu peito angustiado. De fato, sentindo e dizendo tais coisas de ti, não tinham outra
saída senão um horrível sacrilégio de coração e de língua.
CAPÍTULO III
Deus e o mal
Mas eu, mesmo quando afirmava e cria firmemente que és incorruptível, inalterável,
absolutamente imutável, Senhor meu, Deus verdadeiro que não só criaste nossas almas
e nossos corpos, e não somente nossas almas e corpos, mas todas as criaturas e todas
as coisas. Todavia, faltava-me ainda uma explicação, a solução do problema da causa do
mal. Qualquer que ela fosse, estava certo de que deveria buscá-la onde não me visse
obrigado, por sua causa, a julgar mutável a um Deus imutável, porque isso seria
transformar-me no mal que procurava.
Por isso, buscava-a com segurança, certo de que era falsidade o que diziam os
maniqueus; deles fugia com toda a alma, porque via suas indagações sobre a origem do
mal cheias de malícia, preferindo crer que tua substância era passível de sofrer o mal do
que a deles ser susceptível de o cometer.
Esforçava-me por compreender a tese que ouvira professar, de que o livre-arbítrio da
vontade é a causa de praticarmos o mal, e de teu reto juízo é a causa do mal que
padecemos.
Mas era incapaz de entendê-lo com clareza. E esforçando-me por afastar desse
abismo os olhos do meu espírito, nele me precipitava de novo, e tentando
reiteradamente fugir dele, sempre voltava a recair.
O fato de eu ter a consciência de possuir uma vontade, como tinha consciência de
minha vida, era o que me erguia para a tua luz. Assim, quando queria ou não queria
alguma coisa, estava certíssimo de que era eu, e não outro, o que queria ou não queria,
e então me convencia de que ali estava a causa do meu pecado. Quanto ao que fazia
contra a vontade, notava que isso mais era padecer do mal do que praticá-lo; julgava
que isso não era culpa, mas castigo, que me instava a confessar justamente ferido por ti,
considerando tua justiça.
Mas de novo refletia: "Quem me criou? Não foi o bom Deus, que não só é bom, mas a
própria bondade? De onde, então, me vem essa vontade de querer o mal e de não
querer o bem?
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Seria talvez para que eu sofra as penas merecidas? Quem depositou em mim, e
semeou minha alma esta semente de amargura, sendo eu totalmente obra de meu
dulcíssimo Deus? Se foi o demônio que me criou, de onde procede ele? E se este, de anjo
bom se fez demônio, por decisão de sua vontade perversa, de onde lhe veio essa
vontade má que o transformou em diabo, tendo ele sido criado anjo por um Criador
boníssimo?"
Tais pensamentos de novo me deprimiam e sufocavam, mas não me arrastavam até
aquele abismo de erro, onde ninguém te confessa, e onde se antepõe a tese que tu és
sujeito ao mal a considerar o homem capaz de o cometer.
CAPÍTULO IV
A substância de Deus
Empenhava-me então por descobrir as outras verdades, como havia descoberto que o
incorruptível é melhor que o corruptível, e por isso confessava que tu, qualquer que fosse
tua natureza, devias ser incorruptível. Porque ninguém pôde nem poderá jamais
conceber algo melhor do que tu, que és o sumo bem por excelência. Por isso, sendo
certíssimo e inegável que o incorruptível é superior ao corruptível, o que eu já fazia, meu
pensamento já poderia conceber algo melhor do que o meu Deus, se não fosses
incorruptível.
Portanto, logo que vi que o incorruptível deve ser preferido ao corruptível,
imediatamente deveria buscar-te no incorruptível, para depois indagar a causa do mal,
isto é, a origem da corrupção, que de nenhum modo pode afetar tua substância. É certo
que, nem por vontade, nem por necessidade, nem por qualquer acontecimento
imprevisto, pode a corrupção afetar nosso Deus, porque ele é Deus, e não pode querer
senão o que é bom, e ele próprio é o sumo bem; e estar sujeito à corrupção não é
nenhum bem.
Tampouco poder ser obrigado, contra a tua vontade, seja ao que for, porque tua
vontade não é maior do que teu poder. Seria maior caso pudesses ser maior do que és,
pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. E que pode haver de imprevisto
para ti, se conheces todas as coisas, e se todas elas existem porque as conheces?
Mas, por que tantas palavras para demonstrar que a substância de Deus não é
corruptível, já que se o fosse não seria Deus?
CAPÍTULO V
A origem do mal
Eu buscava a origem do mal, mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em
meu modo de buscá-la. Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o
que podemos ver – como a terra, o mar, o ar, as estrelas, as árvores e os animais –
como o que não podemos ver – como o firmamento, e todos os anjos e seres espirituais.
Estes, porém, como se também fossem corpóreos, colocados em minha imaginação em
seus respectivos lugares. Fiz de tua criação uma espécie de massa imensa, diferenciada
em diversos gêneros de corpos; uns, corpos verdadeiros, e espíritos, que eu imaginava
como corpos.
E eu a imaginava não tão imensa quanto ela era realmente – o que seria impossível –
mas quanto me agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um
ser que a rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções, como
se fosses um mar incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja tão grande
quanto possível, limitada, e toda embebida, em todas as suas partes, desse imenso mar.
Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de ti, infinito, e dizia: "Eis aqui
Deus, e eis aqui as coisas que Deus criou; Deus é bom, imenso e infinitamente mais
excelente que suas criaturas; e, como é bom, fez boas todas as coisas; e vede como as
abraça e penetra! Onde está pois o mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no
mundo? Qual é a sua raiz e sua semente?
E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que atormenta e
espicaça sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é certo que não há razão
para temer. Portanto, ou o mal que tememos existe, ou o próprio temor é o mal. De
onde, pois, procede o mal se Deus, que é bom, fez boas todas as coisas? Bem superior a
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todos os bens, o Bem supremo, criou sem dúvida bens menores do que ele. De onde pois
vem o mal? Acaso a matéria de que se serviu para a criação era corrompida e, ao dar-lhe
forma e organização, deixou nela algo que não converteu em bem?
E por que isto? Acaso, sendo onipotente, não podia mudá-la, transformá-la toda, para
que não restasse nela semente do mal? Enfim, por que se utilizou dessa matéria para
criar? Por que sua onipotência não a aniquilou totalmente? Poderia ela existir contra sua
vontade? E, se é eterna, por que deixou-a existir por tanto tempo no infinito do passado,
resolvendo tão tarde servirse dela para fazer alguma coisa? Ou, já que quis fazer de
súbito alguma coisa, sendo onipotente, não poderia suprimir a matéria, ficando ele só,
bem total verdadeiro, sumo e infinito? E, se não era conveniente que, sendo bom, não
criasse nem produzisse bem algum, por que não destruiu e aniquilou essa matéria má,
criando outra que fosse boa e com a qual plasmar toda a criação?
Porque ele não seria onipotente se não pudesse criar algum bem sem a ajuda dessa
matéria que não havia criado."
Tais eram os pensamentos de meu pobre coração, oprimido pelos pungentes temores
da morte, e sem ter encontrado a verdade. Contudo, arraigava sempre mais em meu
coração a fé de teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, professada pela Igreja Católica; fé
ainda incerta, certamente, em muitos pontos, e como que flutuando fora das normas da
doutrina. Minha alma porém não a abandonava, e cada dia mais se abraçava a ela.
CAPÍTULO VI
O absurdo dos horóscopos
Também já havia rechaçado as enganosas predições e ímpios delírios dos astrólogos.
Ainda por isso, meu Deus, quero confessar-te tuas misericórdias desde o mais íntimo
de minha alma! Foste tu, e só tu – pois, quem pode afastar-nos da morte do erro, senão
a Vida que desconhece a morte, a Sabedoria que ilumina as pobres inteligências sem
precisar de outra luz, e que governa o mundo até as folhas que tremulam nas árvores?
Foste tu que medicaste a obstinação com que me opunha ao sábio velho Vindiciano e ao
magnânimo jovem Nebrídio, que diziam – o primeiro, com veemência, o segundo com
alguma hesitação, mas freqüentemente – não existir a tal arte de predizer as coisas
futuras, e que as conjecturas dos homens muitas vezes têm concurso do acaso e que, de
tanto repetir, acertavam em predizer algumas coisas, sem que os mesmos que as diziam
o soubessem.
Foste tu que me fizeste encontrar um amigo mui afeiçoado a consultar os astrólogos,
não entendido nessa ciência, mas que consultava por curiosidade. Conhecia ele uma
história, que ouvira do pai, segundo dizia. Ignorava ele até que ponto essa história era
valiosa para destruir a autoridade daquela arte.
Esse homem, chamado Firmino, educado nas artes liberais e instruído na eloqüência,
veiome consultar, como amigo íntimo, sobre alguns assuntos nos quais alimentava
esperanças mundanas, para ver qual seria meu vaticínio conforme suas constelações,
como eles dizem. Eu, que já começara a me inclinar à opinião de Nebrídio, embora não
me negasse a fazer-lhe o horóscopo e expor-lhe as suas conclusões, acrescentei,
contudo, que estava quase persuadido de que tudo aquilo era ridícula quimera.
Então, ele me contou que seu pai tinha grande interesse na leitura de tais livros, e que
tivera um amigo igualmente apaixonado. Conversando sobre a matéria, empolgaram-se
cada vez mais no estudo daquelas tolices, e chegaram ao ponto de observar os
momentos do nascimento até dos animais domésticos, notando a posição das estrelas a
fim de coligir dados experimentais daquela pseudo-arte.
Firmino me relatava ter ouvido o pai contar que, estando sua mãe para o dar à luz,
também estava grávida uma serva daquele amigo de seu pai, coisa que não poderia
passar despercebida a seu senhor, que cuidava com extrema diligência e precisão de
conhecer até o parto das cadelas.
E sucedeu que, contando com o maior esmero os dias, horas e suas menores parcelas,
da esposa e da escrava, ambas as mulheres deram à luz no mesmo momento, o que os
obrigou a fazer, até em seus menores detalhes os mesmos horóscopos para os nascidos,
um para o filho e outro para o pequeno servo.
Tendo começado o trabalho de parto, informaram um ao outro o que se passava em
suas casas, e enviaram mensageiros um ao outro, a fim de anunciar com igual rapidez o
nascimento das crianças; e conseguiram-no fazer facilmente, como se o fato se passasse
em suas próprias casas. E Firmino contava que os mensageiros que haviam sido enviados
vieram a se encontrar à mesma distância de suas respectivas casas, de modo que não se
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podia notar a menor diferença na posição das estrelas, assim como nas demais frações
de tempo. No entanto Firmino, como filho de grande família, corria pelos mais brilhantes
caminhos do mundo, crescia em riquezas e era coberto de honras, ao passo que o
escravo, sujeito ainda ao jugo da escravidão, tinha que servir a seus senhores, segundo
ele próprio contava, pois o conhecia.
Ouvindo essa história, na qual acreditei pelo crédito que merecia seu narrador – toda
minha resistência se quebrou. Esforcei-me em seguida para afastar Firmino daquela vã
curiosidade, dizendo-lhe que, pelo seu horóscopo e para ser verdadeiro, deveria
certamente considerar a seus pais como os primeiros entre seus concidadãos; o renome
da sua família, a mais nobre da cidade; seu nascimento ilustre, sua educação esmerada e
seus conhecimentos nas artes liberais. E, pelo contrário, se aquele servo me consultasse
sobre o tal horóscopo – que era o mesmo de Firmino – se também tivesse de lhe dizer a
verdade – deveria ver nos mesmo signos sua família paupérrima, sua condição servil e
tantas outras coisas, tão diferentes e opostas às primeiras.
Portanto, para dizer a verdade, vendo os mesmos sinais celestes deveria tirar
conclusões divergentes, porque fazer prognósticos semelhantes seria mentir.
De onde concluí, com toda certeza, que as predições verdadeiras não podem atribuir a
uma arte, mas ao acaso, e que as falsas não se devem à ignorância dessa arte, mas à
mentira do acaso.
Após esta abertura e nela baseado, ruminava dentro de mim tais coisas, para que
nenhum daqueles loucos que buscam nisso o lucro, e a quem eu então desejava refutar e
ridicularizar, não me objetasse que Firmino ou o pai podia ter contado mentiras. Voltei
pois minha atenção ao caso dos gêmeos, muitos dos quais saem do seio materno com
tão breve intervalo de tempo, que por mais que o pretendam importante, não pode ser
apreciado pela observação humana, nem pode ser considerado nos signos que o
astrólogo lançará mão para fazer uma previsão certa. Mas os vaticínios não serão
verdadeiros pois, vendo os mesmos signos, deveria predizer a mesma sorte para Esaú e
Jacó, sendo que os sucessos da vida de ambos foram muito diversos.
O astrólogo, portanto, deveria prognosticar coisas falsas, ou, no caso de falar coisas
verdadeiras, estas forçosamente deveriam ser diferentes, a despeito da identidade das
observações. Logo, se seus prognósticos fossem verdadeiros, não o seriam por efeito da
arte, mas do acaso. Porque tu, Senhor, governador justíssimo do Universo, por
inspiração secreta, desconhecida dos consulentes e astrólogos, fazes que cada um ouça a
resposta que lhe convém, de acordo com os méritos das almas, do fundo do abismo de
teu justo juízo. E que o homem não se atreva a dizer: Que é isto? Por que isto? Não o
diga, não o diga, porque é um simples homem.
CAPÍTULO VII
Ainda a origem do mal
Deste modo, ó meu auxílio, já me havias libertado daqueles grilhões. Contudo eu
buscava ainda a origem do mal, e não encontrava solução. Mas não permitias que as
vagas de meu pensamento me apartassem da fé. Fé na tua existência, na tua substância
imutável, na tua providência para os homens, e na tua justiça que os julgará. Já
acreditava que traçaste o caminho da salvação dos homens, rumo à vida que sobrevém
depois da morte, em Cristo, teu Filho e Senhor nosso, e nas Sagradas Escrituras,
recomendadas pela autoridade de tua Igreja Católica.
Salvas e fortemente arraigadas estas verdades em meu espírito, buscava eu
ansiosamente a origem do mal. E que tormentos, como que de parto, eram aqueles de
meu coração! Que gemidos, meu Deus! E ali estavam teus ouvidos atentos, e eu não o
sabia. Quando, em silêncio, me esforçava em pacientes buscas, altos clamores se
elevavam até tua misericórdia: eram as silenciosas angústias de minha alma.
Tu só sabes o que eu padecia, mas homem algum o sabia. De fato, quão pouco era o
que minha palavra transmitia aos meus amigos mais íntimos! Chegava, porventura, a
eles o tumulto de minha alma, que nem o tempo, nem as palavras bastavam para
declarar? Contudo, chegavam a teus ouvidos as queixas que em meu coração rugiam, e
meu desejo estava diante de ti, mas a luz de meus olhos não estava contigo, porque ela
estava dentro, e eu olhava para fora. Ela não ocupava espaço algum, e eu só pensava
nas coisas que ocupam lugar, e não achava nelas lugar de descanso, nem me acolhiam
de modo que pudesse dizer: "Basta, Aqui estou bem!" – Nem me permitiam que eu fosse
para onde me sentisse satisfeito. Eu era superior a estas coisas, mas sempre inferior a ti.
Serias minha verdadeira alegria se eu te fosse submisso, pois sujeitasse a mim tudo o
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que criaste inferior a mim. Tal seria o justo equilíbrio e a região central de minha
salvação: permanecer como imagem tua, e servindo-te, ser o senhor de meu corpo. Mas,
como me levantei soberbamente contra ti, investindo contra meu Senhor coberto com o
escudo de minha dura cerviz, até mesmo as criaturas inferiores se fizeram superiores a
mim, e me oprimiam, e não me davam um momento de alívio e de descanso.
Quando as olhava, elas me vinham ao encontro atabalhoadamente de todos os lados;
mas quando nelas me concentrava, tais imagens corporais me barravam para que me
retirasse, como se me dissessem: "Para onde vais, indigno e impuro?" E estas
recobravam forças com a minha chaga, porque humilhaste o soberbo como a um homem
ferido. Minha presunção me separava de ti, e meu rosto de tão inchado, fechava meus
olhos.
CAPÍTULO VIII
A piedade de Deus
Mas tu, Senhor, permaneces eternamente, e não te iras eternamente contra nós,
porque te compadeceste da terra e do pó, e foi de teu agrado corrigir minhas
deformidades. Tu me aguilhoavas com estímulos interiores para que estivesse
impaciente, até que por uma visão interior, te tornasses para mim uma certeza. O
inchaço de meu orgulho baixava graças à mão secreta de tua medicina; a vista de minha
alma, perturbada e obscurecida, ia sarando dia a dia graças ao colírio das dores
salutares.
CAPÍTULO IX
Agostinho e o neo-platonismo
Primeiramente, querendo tu mostrar-me como resistes aos soberbos e dás tua graça
aos humildes, e com quanta misericórdia ensinaste aos homens o caminho da humildade,
por se ter feito carne teu Verbo, e ter habitado entre os homens, me fizeste chegar às
mãos por meio de um homem inchado de monstruoso orgulho, alguns livros dos
platônicos, traduzidos do grego para o latim.
Neles eu li – não com estas palavras, mas substancialmente o mesmo e expresso com
muitos e diversos argumentos – que "no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com
Deus, e o Verbo era Deus. Este estava desde o princípio em Deus. Todas as coisas foram
feitas por ele, e sem ele nada foi feito do que foi feito. O que foi feito é vida nele, e a
vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a
compreenderam. Diziam também que a alma do homem, embora dê testemunho da luz,
não é a luz, mas o Verbo, Deus, é a verdadeira luz, que ilumina a todo homem que vem
a este mundo. E que neste mundo estava, e que o mundo é criatura sua, e que o mundo
não o conheceu".
E que ele veio para sua morada, e que os seus não o receberam, e que a quantos o
receberam deu o poder de se fazerem filhos de Deus, desde que acreditem em seu
nome, isto não o li nesses livros.
Também neles li que o Verbo, Deus, não nasceu da carne nem do sangue, nem da
vontade do varão, mas de Deus. Mas que o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, isso
não o li naqueles livros.
Igualmente achei nesses livros, dito de diversos e múltiplos modos, que o Filho,
consubstancial ao Pai, não considerou usurpação ser igual a Deus, porque o é por
natureza. Não dizem porém que se aniquilou a si mesmo, tomando a forma de escravo,
que se fez semelhante aos homens, sendo julgado homem por seu exterior; e que se
humilhou, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz, pelo que Deus o
ressuscitou entre os mortos, e lhe deu um nome acima de todo nome, para que ao nome
de Jesus se dobrem todos os joelhos no céu, na terra e no inferno, e toda língua confesse
que o Senhor Jesus está na glória de Deus Pai.
Neles se diz também que antes e sobre todos os tempos, teu Filho único permanece
imutável, eterno consigo, e que de sua plenitude recebem as almas para sua bemaventurança
e que, para serem sábias, são renovadas participando da sabedoria que
permanece em si mesma.
Mas não se encontra escrito ali que morreu, no tempo marcado, pelos ímpios, e que
não perdoaste a teu Filho único, mas que o entregaste por todos nós. Porque escondeste
estas coisas aos sábios e as revelastes aos humildes, a fim de que os atribulados e
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sobrecarregados viessem a ele, para que os reconfortasse, porque ele é manso e humilde
de coração. Dirige os pequenos na justiça e ensina aos mansos seu caminho, vendo
nossa humildade e nosso trabalho, e perdoando todos os nossos pecados.
Mas aqueles que, erguendo-se sobre uma doutrina, digamos, mais sublime, não
ouvem ao que lhes diz: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e
encontrareis descanso para vossas almas. E ainda que conheçam a Deus, não o
glorificam como Deus, nem lhe dão graças, mas se desvanecem em seus pensamentos, e
seu coração insensato se obscurece; e dizendo que são sábios, se tornam estultos.
E por isso lia também nesses livros que a glória de tua natureza incorruptível havia
sido transformada em ídolos e simulacros de todo tipo, à semelhança da imagem do
homem corruptível, das aves, dos quadrúpedes e serpentes. Isto é, naquele alimento do
Egito pelo qual Esaú perdeu sua primogenitura. Israel, teu povo primogênito, voltando o
coração para o Egito, honrou em teu lugar a cabeça de um quadrúpede, curvando tua
imagem, isto é, a própria alma, diante da imagem de um bezerro comendo feno.
É o que encontrei nesses livros, mas delas não me alimentei, porque agradou-te,
Senhor, tirar de Jacó o opróbrio de sua inferioridade, para que o maior servisse ao
menor, chamando os gentios para tua herança.
Também eu vinha dentre os gentios para ti, e interessei-me pelo ouro que, por tua
vontade, teu povo trouxera do Egito, pois era teu onde quer que estivesse. E disseste
aos atenienses, por boca de teu Apóstolo, que em ti vivemos, nos movemos e temos
nosso ser, como alguns deles o disseram, e é deles que vinham os livros que me
ocupavam. Mas não me fixei nos ídolos dos egípcios, aos quais sacrificavam, com teu
ouro, os que mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo ante à
criatura do que ao Criador.
CAPÍTULO X
A descoberta de Deus
Estimulado por estas leituras a voltar a mim mesmo, entrei, guiado por ti, no profundo
de meu coração, e o pude fazer porque te fizeste minha ajuda. Entrei, e vi com os olhos
da alma, acima desses mesmos olhos, acima de minha inteligência, a luz imutável; não
esta vulgar e visível a todos os olhos de carne, nem outra do mesmo gênero, embora
maior. Era muito mais clara e enchendo com sua força todo o espaço. Não, não era esta
luz, mas uma luz diferente de todas estas.
Ela não estava sobre meu espírito como o azeite sobre a água, como o céu sobre a
terra, mas estava acima de mim porque me criou; eu lhe era inferior por ter sido criado
por ela. Quem conhece a verdade conhece a luz, e quem a conhece, conhece a
eternidade. O amor a conhece! Ó eterna verdade, amor verdadeiro, amada eternidade!
Tu és meu Deus. Por ti suspiro dia e noite. Quando te conheci pela primeira vez,
ergueste-me para me fazer ver que havia algo para ser visto, mas que eu ainda era
incapaz de ver. E deslumbraste a fraqueza de minha vista com o fulgor do teu brilho, e
eu estremeci de amor e temor. Pareceu-me estar longe de ti numa região desconhecida,
como se ouvira tua voz do alto: "Sou o pão dos fortes; cresce, e comer-me-ás. Não me
transformarás em ti, como fazes com o alimento da tua carne, mas tu serás mudado em
mim".
E conheci então que "castigaste o homem por causa de sua iniqüidade", e "que
secaste minha alma como uma teia de aranha", e eu disse: Porventura não existe a
verdade, por não ser difusa pelos espaços finitos e infinitos? E tu me gritaste de longe:
Na verdade, Eu sou o que sou.
E eu ouvi como se ouve no coração, sem deixar motivo para dúvidas; antes, mais
facilmente duvidaria de minha vida que da existência da verdade, que se manifesta à
inteligência pelas coisas da criação.
CAPÍTULO XI
Deus e as criaturas
E contemplei as outras coisas que estão abaixo de ti, e vi que nem existem
absolutamente, e nem absolutamente deixam de existir. Certamente existem, porque
procedem de ti; mas não existem, pois, não são o que tu és,, porque só existe
verdadeiramente o que permanece imutável.
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Com isso, para mim é bom apegar-me a Deus, porque, se não permanecer nele,
tampouco poderei permanecer em mim. ele, porém, permanecendo em si, renova todas
as coisas, e tu és o meu Senhor, porque não necessitas de meus bens.
CAPÍTULO XII
O mal e o bem da criação
Também pode entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem
sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não
fossem boas de algum modo. Com efeito, se fossem sumamente boas, seriam
incorruptíveis; e se não tivessem nenhuma bondade, nada haveria nelas que se pudesse
corromper. Porque a corrupção é um mal, e não poderia ser nociva se não diminuísse o
bem real. Logo, ou a corrupção é inofensiva, o que é impossível, ou, o que é certo, tudo
o que se corrompe é privado de algum bem. E assim, se algo for privado de todo o bem,
deixará totalmente de existir. E se algo subsistisse sem já poder ser corrompido, seria
ainda melhor, porque permaneceria incorruptível. E haverá maior absurdo do que afirmar
que uma coisa se torna melhor pela perda de todo o bem? Logo, ser privado de todo o
bem é o nada absoluto. De onde se segue que, enquanto as coisas existem, elas são
boas.
Portanto, tudo o que existe é bom; e o mal, cuja origem eu procurava, não é uma
substância, porque se o fosse seria um bem. De fato, ou ele seria substância
incorruptível, e portanto um grande bem; ou seria uma substância corruptível, que se
não se poderia corromper se não fosse boa.
Vi pois, e foi para mim evidente, que tu eras o autor de todos os bens, e que não há
em absoluto substância alguma que não tenha sido criada por ti. E como não as fizeste
todas iguais, toas as coisas existem, porque cada uma por si é boa, e todas juntas muito
boas, porque nosso Deus fez todas as coisas muito boas.
CAPÍTULO XIII
Os louvores da criação
E para ti, Senhor, não existe absolutamente o mal; e nem para universalidade da tua
criação; porque nada existe fora dela, capaz de romper ou de corromper a ordem que tu
lhe impuseste. Todavia, em algumas de suas partes, determinados elementos não se
harmonizam com outros, e estes são considerados maus. Mas, como esses mesmos
elementos combinam com outros, são da mesma forma bons, e bons em si mesmos. E
mesmo esses elementos que não concordam entre si se harmonizam com a parte inferior
das criaturas que chamamos terra, com seu céu cheio de nuvens e de ventos, como lhe é
conveniente.
Longe de mim dizer: Oxalá não existissem estas coisas! – Embora, considerando-as
separadamente, eu as desejasse melhores, somente o fato de existirem deveria bastar
para eu te louvar porque o proclamam os dragões da terra e todos os abismos; o fogo, o
granizo, a neve, o vento da tempestade, que executam tuas ordens; os montes e todas
as colinas; as árvores frutíferas e todos os cedros; as feras e todos os gados; os répteis e
todas as aves; os reis da terra e todos os povos; os príncipes e todos os juízes da terra,
os jovens e as virgens, os anciões e as crianças; todos louvam teu nome.
Mas como também do alto dos céus é louvado, que seja louvado o nosso Deus, lá no
alto por todos os teus anjos, todas as potestades, o sol e a lua, todas as estrelas e a luz,
os céus dos céus, e a águas que estão sobre os céus glorificam teu nome, eu já não
desejava nada melhor, porque, considerando o todo, os elementos superiores me
pareciam sem dúvida melhores que os inferiores; mas um julgamento mais sadio me
fazia considerar o todo melhor que os elementos superiores tomados à parte.
CAPÍTULO XIV
Recapitulação
Não têm juízo sadio, nos que se desagradam com alguma parte de tua criação, como
acontecia comigo, quando me desagradavam tantas de tuas obras. Mas, como minha
alma não se atrevia a desgostar do meu Deus, não queria considerar como obra tua o
que lhe desagradava.
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Por isso fora atrás da teoria das duas substâncias, na qual não achava descanso, e
repetia coisas alheias. Desembaraçando-me desses erros, imaginara para si um Deus que
se difundia pelos espaços infinitos e, julgando que eras tu, colocou-o em seu coração, e
de novo se tornou o templo de seu ídolo, coisa abominável a teus olhos.
Mas, depois que afagaste minha cabeça, sem que eu o percebesse, e fechaste meus
olhos para não vissem a vaidade, desprendi-me um pouco de mim mesmo, e minha
loucura adormeceu profundamente; quando despertei em teus braços, vi que eras infinito
não daquele modo, e esta visão não procedia da carne.
CAPÍTULO XV
Deus e a criação
Contemplei depois as outras coisas, e vi que deviam a ti sua existência, e que todas
estão contidas em ti, não como em um lugar material, mas de modo diferente: conservas
todas elas em tua verdade, sustentadas na tua mão; todas as coisas são verdadeiras
enquanto existem, e só é falso o que julgamos existir, mas não existe.
Também vi que cada coisa adapta-se não só a seus lugares, mas também a seus
tempos, e que tu, que és o único eterno, não começaste a agir depois de infinitos
espaços de tempos, porque todos os espaços de tempo – passados ou futuros – não
teriam passado nem viriam se tu não agistes e não fosses permanente.
CAPÍTULO XVI
Onde está o mal
Entendi por experiência que não é de admirar que o pão seja enjoativo ao paladar
enfermo, mesmo tão agradável para o paladar sadio, e que olhos enfermos considerem
odiosa a luz, que para os límpidos é tão cara. Se tua justiça desagrada aos maus, muito
mais desagradam a víbora e o caruncho, que criaste bons e adaptados à parte inferior da
tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais
diferem de ti, assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na
medida em que se assemelham a ti.
Indaguei o que era a iniqüidade, e não achei substância, mas a perversão de uma
vontade que se afasta da suprema substância, de ti, meu Deus – e se inclina para as
coisas baixas, e que derrama suas entranhas, e se intumesce exteriormente.
CAPÍTULO XVII
Caminho para Deus
Admirava-me de já te amar, e não a um fantasma em teu lugar, mas não era estável
no gozo de meu Deus. Era arrebatado a ti por tua beleza, e logo afastado de ti pelo meu
peso, que me precipitava sobre a terra a gemer. Meu peso eram os hábitos carnais. Mas
tua lembrança me acompanhava. Nem absolutamente duvidava da existência de um ser
a quem eu devia me unir, embora não estivesse apto para esta união, porque o corpo,
que se corrompe, sobrecarrega a alma, e a morada terrena oprime o espírito carregado
de cuidados. Estava certíssimo de que tuas belezas invisíveis se descobrem à inteligência
desde a criação do universo, por meio de tuas obras; bem como teu poder eterno e tua
divindade.
Buscava saber de onde me vinha minha faculdade de apreciar a beleza dos corpos –
quer celestes, quer terrenos – e o que me permitia julgar rápida e cabalmente das coisas
mutáveis quando dizia: "Isto deve ser assim, aquilo não deve ser assim". Procurando a
origem de minha faculdade de julgar quando assim julgava, achei a eternidade imutável
e verdadeira, acima de meu espírito mutável.
E, gradualmente, fui subindo dos corpos para a alma, que sente por meio do corpo; e
dela à sua força interior, à qual os sentidos comunicam as coisas exteriores, que é o
limite alcançado pelos animais. Daqui passei para o poder do raciocínio, ao qual cabe
julgar as percepções dos sentidos corporais; por sua vez, julgando-se sujeito a
mudanças, levantou-se até a sua própria inteligência, e afastou o pensamento de suas
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cogitações habituais. Livrou-se da multidão de fantasmas contraditórios, para descobrir
que luz a inundava quando, sem nenhuma dúvida, afirmava que o imutável deve ser
preferido ao mutável; e também de onde lhe vinha o conhecimento do próprio imutável,
porque, se não tivesse dele alguma noção, nunca o preferiria ao mutável com tanta
certeza. E, finalmente, chegou àquele que é um único lampejo.
Foi então que tuas perfeições invisíveis se manifestaram à minha inteligência por meio
de tuas obras. Mas não pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei
a meus hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o
desejo do perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer.
CAPÍTULO XVIII
A senda da humildade
Buscava um meio que me der força necessária para gozar de ti, e não a encontrei
enquanto não me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus,
que está sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos, que chama e diz: Eu
sou o caminho, a verdade e a vida. Ele une o alimento à carne (alimento que eu não
tinha forças para tomar), porque o Verbo se fez carne, para que tua Sabedoria, pela qual
criaste todas as coisas, fosse o leite de nossa infância.
Não tendo humildade, eu não possuía Jesus, o Deus da humildade, e não atinava o
que nos poderia ensinar sua fraqueza. Porque teu Verbo, verdade eterna, dominando as
criaturas mais sublimes da tua criação, levanta a si as que se lhe sujeitam e, nas partes
inferiores, construiu para si, com o nosso lodo, uma humilde morada. Assim faz para
humilhar e arrancar de si mesmos aqueles que deseja sujeitar e atrair, curando-lhes a
soberba e alimentando-lhes o amor, para que, confiando em si, não se afastem para
mais longe. Pelo contrário, que se humilhem, vendo a seus pés a humildade de um Deus
que também se vestiu de nossa túnica de carne, e cansados, se prostrem diante dela
para que, ao se levantar, os exalte.
CAPÍTULO XIX
A doutrina do verbo
Mas eu então julgava de outro modo. Considerava meu Senhor Jesus Cristo apenas
um homem de extraordinária sabedoria, a quem ninguém poderia igualar. Sobretudo seu
miraculoso nascimento de uma virgem, que nos ensina a desprezar os bens temporais
para adquirir a imortalidade. Parecia-me ter merecido, por decreto da Providência divina,
uma soberana autoridade para ensinar os homens.
Mas nem suspeitava o mistério que se encerra nestas palavras: o Verbo se fez carne.
Somente conhecia, pelas coisas que dele nos deixaram escritas, que comeu, bebeu,
dormiu, passeou, que se alegrou, se entristeceu e pregou, e que essa carne não se
juntou a teu Verbo senão com alma e inteligência humanas. Tudo isso sabe quem
conhece a imutabilidade de teu Verbo, que eu já conhecia quanto me era possível, sem
que disso nada duvidasse. Com efeito, mover os membros do corpo à vontade, ou não
movê-los, estar dominado por algum afeto ou não o estar, traduzir por palavras sábios
pensamentos e depois calar, são caracteres próprios da mutabilidade da alma e da
inteligência. Se esses testemunhos das Escrituras fossem falsos, tudo o mais correria o
risco de ser mentira, e o gênero humano não teria mais nesses livros a fé, condição de
salvação. Mas como são verdadeiras as coisas nela escritas, eu reconhecia em Cristo um
homem completo, não somente o corpo de um homem, ou um corpo sem uma alma
inteligente, mas um homem real, que eu julgava superior a todos os outros não por ser a
personificação da verdade, mas em razão da singular excelência de sua natureza
humana, e de uma mais perfeita participação na sabedoria.
Alípio porém pensava que os católicos, crendo em um Deus revestido de carne,
entendiam quem eu em Cristo, além de Deus e da carne, não havia alma humana; e não
julgava que lhe atribuíssem inteligência humana. E como estava bem persuadido de que
os atos atribuídos tradicionalmente a Cristo não podiam ser senão obras de um criatura
cheia de vida e de inteligência, Alípio se aproximava com certa relutância da fé cristã.
Mas depois, ao saber que este erro era próprios dos hereges apolinaristas, aderiu
alegremente à fé católica.
De minha parte, confesso que só aprendi mais tarde a diferença de interpretação das
palavras "o Verbo se fez carne", entre a verdade católica e o erro do Fotino (bispo de
Sírmio, afirmava que o Verbo não havia sido Filho de Deus até encarnar-se nas
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entranhas da Virgem Maria, negando toda união substancial entre a natureza humana e o
Verbo divino). A reprovação dos hereges põe às claras o pensamento da tua Igreja e o
que esta considera como doutrina sã.
Convém pois que haja heresias, para que os fortes se distingam entre os fracos.
CAPÍTULO XX
Do platonismo às Escrituras
Depois de ter lido aqueles livros dos platônicos, induzido por eles a buscar a verdade
incorpórea, começaram a se tornarem patentes, por meio de tuas obras, tuas perfeições
visíveis.
Repelido para longe de ti, compreendi em que consistia essa verdade, que as trevas
de minha alma me impediam de contemplar. Estava certo de tua existência e de que és
infinito, sem contudo te estenderes por espaços finitos ou infinitos; e de que és
verdadeiramente aquele que é sempre idêntico a si mesmo, sem te mudares em outro,
nem sofrer alteração alguma, quer parcialmente ou com algum movimento, quer de
qualquer outro modo; e de que tudo o mais vem de ti, pela única e irrefutável razão de
que existe. Tinha certeza de todas estas verdades, mas me achava ainda demasiado
fraco para gozar de ti. Tagarelava muito, como se fora competente nisso, mas se não
procurasse o caminho da verdade em Cristo, nosso Salvador, não seria perito, mas
perituro. Já começava a querer parecer sábio, cheio de meu castigo, e não chorava, mas
orgulhava-me com a ciência. Onde estava aquela caridade erigida sobre o alicerce da
humildade, que é Cristo Jesus? Ou talvez me a ensinariam aqueles livros? Creio que
quiseste que com eles me encontrasse antes de meditar nas tuas Escrituras, para que
fixassem em minha memória os afetos que nela experimentei. Depois, quando
encontrasse em teus livros a paz do coração, sarada com tuas mãos as feridas de minha
alma, pudesse discernir e perceber a diferença entre presunção e humildade, entre os
que vêem para onde se deve ir, e não vêem por onde se vai, nem o caminho que conduz
à pátria bem-aventurada, não só para contemplá-la, mas também para habitá-la.
Porém, se me tivesse instruído em tuas sagradas letras, e em sua intimidade tivesse
experimentado na doçura, para depois conhecer os livros dos platônicos, talvez eles me
arrancassem dos sólidos fundamentos da piedade; ou, se eu tivesse persistido nos
sentimentos salutares nelas hauridos, talvez julgasse que só por esses livros se poderia
chegar ao mesmo proveito espiritual.
CAPÍTULO XXI
A verdade das escrituras
Por isso lancei-me avidamente sobre as veneráveis escrituras inspiradas por teu
Espírito, sobretudo ao do apóstolo Paulo. E esvaeceram em mim aquelas dificuldades nas
quais julguei descobrir contradições entre ele e seu texto, em desacordo com os
testemunhos da Lei e dos Profetas. Compreendi a unidade daqueles castos escritos, e
aprendi a me alegrar com tremor.
Comecei a lê-los e compreendi que tudo de verdadeiro que lera nos tratados dos neoplatônicos
se encontrava ali, mas com o aval da tua graça, para que aquele que vê não
se glorie como se não houvesse recebido não só o que vê, mas também a faculdade de
ver. Com efeito, que tem ele que não tenha recebido? E tu, que és imutável, não só o
alertas para que te veja, mas também para que seja curado, para te possuir. Aquele que
está muito longe de te ver, tome, contudo, o caminho para chegar a ti, para te ver e te
possuir.
Porque, embora o homem se deleite com a lei de Deus, segundo o homem interior,
que fará dessa outra lei que luta em seus membros contra a lei de seu espírito, e que o
prende sob a lei do pecado, impressa em seus membros? Porque tu és justo, Senhor;
nós, porém, pecamos, cometemos iniqüidades; procedemos como ímpios, e tua mão se
fez pesada sobre nós, e é com justiça que fomos entregues ao pecador antigo, ao
príncipe da morte, porque ele persuadiu nossa vontade a se conformar à sua, que não
quis persistir com tua verdade.
Que fará esse homem infeliz? Quem o livrará deste corpo de morte, senão tua graça,
por Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem tu geraste co-eterno e criaste no princípio de
teus caminhos, ele, em quem o príncipe deste mundo não achou nada que merecesse a
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morte, e a quem, contudo, matou? Com o que foi anulada a sentença que havia contra
nós?
Nada disso dizem os livros platônicos. Nem têm naquelas páginas esse sentimento de
piedade, as lágrimas da confissão, esse teu sacrifício, a alma abatida, esse coração
contrito e humilhado, nem a salvação de teu povo, nem a cidade prometida, nem o
penhor do Espírito Santo, nem o cálice de nossa redenção.
Nos livros platônicos ninguém canta: "Minha alma não estará sujeita a Deus? Porque
dele procede minha salvação, pois é meu Deus e meu amparo, do qual não mais me
apartarei.
Ninguém ali ouvi o convite: Vinde a mim os que sofreis. Desdenham teus
ensinamentos, porque és manso e humilde de coração. Porque escondeste estas coisas
dos sábios e doutos, e as revelaste aos pequeninos.
Uma coisa é ver de um monte agreste a pátria da paz, e não encontrar o caminho que
conduz a ela, e fatigar-se debalde por lugares inacessíveis, entre ataques e emboscadas
dos desertores fugitivos, com seu chefe, o leão e o dragão, e outra coisa é conhecer o
caminho que conduz até lá, defendido pelos cuidados do imperador celeste, e onde não
roubam os desertores da milícia do céu, pois eles o evitam como um suplício.
Esses pensamentos penetravam-me as entranhas de modo maravilhoso, quando eu lia
o menor de teus apóstolos. Considerava tuas obras e enchia-me de assombro.
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LIVRO OITAVO
CAPÍTULO I
Hesitações
Faze, meu Deus, que eu recorde de ti em ação de graças, e proclame tuas
misericórdias para comigo. Que meus ossos se penetrem do teu amor, e digam: Senhor
quem semelhante a ti?
Rompeste com grilhões, e te oferecerei um sacrifício de louvor. Contarei como os
rompeste, e todos os que te adoram exclamarão quando me ouvirem: "Bendito seja o
Senhor no céu e na terra! Grande e admirável é seu nome! Tuas palavras, Senhor,
tinham-me gravado profundamente em meu coração, e me via cercado apenas por ti de
todos os lados. Tinha certeza de tua vida eterna, embora apenas a visse em enigma e
como em espelho. Já fora dissolvida toda dúvida quanto à tua substância incorruptível,
ao saber que toda substância procedia dela. E o que desejava não era tanto estar mais
certo de ti, mas mais firme em ti.
Quanto à minha vida temporal, estava eu ainda vacilante, e era necessário que meu
coração se purificasse do velho fermento. O caminho certo, que é o próprio Salvador, me
encantava, mas titubeava ainda em caminhar por seus estreitos desfiladeiros.
Então me inspiraste a idéia – que me pareceu excelente – de me dirigir a Simpliciano,
que eu tinha como um de teus bons servidores, em quem brilhava tua graça. Sobre ele
ouvira também que desde sua juventude te consagrava devotamente sua vida, e como já
encanecia, achei que em tão longa vida, dedicada ao estudo de teus caminhos, teria
acumulado grande experiência e instrução; e de fato assim era. Por isso queria confiarlhe
minhas inquietações, para que me apontasse o modo de vida mais idôneo de alguém,
com minhas disposições interiores, seguir teu caminho.
Vi tua Igreja cheia de fiéis que, por um caminho ou por outro, progrediam.
Quanto a mim, aborrecia-me a vida que levava no mundo, e era para mim fardo
pesadíssimo, agora que os apetites mundanos, como a esperança de honras e riquezas,
já não me animavam para suportar tão pesada servidão. Essas paixões haviam perdido
para mim o encanto, diante de tua doçura e da beleza de tua casa, que já amava. Mas
sentia-me ainda fortemente amarrado à mulher. Sem dúvida o Apóstolo não me proibia
de casar, embora em seu ardente desejo de ver todos os homens semelhantes a ele,
exortasse a um estado mais elevado.
Mas eu, ainda muito fraco, escolhia a condição mais fácil; por isso, vivia hesitando em
tudo o mais, e me desgastava com preocupações enervantes, pois a vida conjugal, a que
me julgava destinado e obrigado, ter-me-ia obrigado a novas incumbências, que eu não
queria suportar.
Ouvira da boca da própria Verdade que há eunucos que mutilavam a si próprios por
amor ao reino dos céus, embora acrescentando que o compreenda quem o puder
compreender. São vãos, por certo, todos os homens nos quais não reside a ciência de
Deus, e que nas coisas visíveis não puderam achar aquele que é. Mas eu já me livrara
dessa vaidade, já a havia ultrapassado, e pelo testemunho de tua criação, te encontrara
a ti, nosso Criador, e a teu Verbo, Deus em ti, e contigo um só Deus, por quem criaste
todas as coisas.
Há ainda outra espécie de ímpios; os que, conhecendo a Deus, não o glorificam como
Deus, nem lhe renderam graças. Eu também tinha caído nesse pecado; mas tua destra
me amparou e libertou, colocando-me em lugar onde me pudesse curar; e disseste ao
homem: Eis que a piedade é a sabedoria. E ainda: Não queiras parecer sábio, porque os
que se dizem sábios tornaram-se insensatos.
Já havia encontrado, finalmente, a pérola preciosa, que devia comprar vendendo tudo
o que possuía. Mas ainda hesitava.
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CAPÍTULO II
Visita a Simpliciano. Conversão de Vitorino
Fui ter pois com Simpliciano, pai espiritual do então bispo Ambrósio, que o amava
verdadeiramente como pai. Contei-lhe os labirintos do meu erro. E quando lhe disse que
havia lido alguns livros dos platônicos, traduzidos para o latim por Vitorino, outrora
retórico em Roma – e do qual ouvira dizer que morrera cristão – ele me felicitou por não
ter caído nas obras de outros filósofos, falazes e enganosas, segundo os elementos deste
mundo, mas apenas estes, que insinuam por mil modos a Deus e a seu Verbo.
Depois, para me exortar à humildade de Cristo, escondida aos sábios e revelada aos
humildes, evocou a lembrança do próprio Vitorino, que conhecera intimamente, quando
estava em Roma. Não guardarei silêncio sobre o que me contou dele, porque me dará
azo de proclamar os grandes louvores de tua graça a seu respeito. Esse erudito ancião,
profundo conhecedor de todas as ciências liberais, leitor e crítico de tantos livros de
filosofia, fora mestres de muitos nobres senadores. O prestígio de seu magistério lhe
valera uma estátua no foro romano, que ele aceitara (coisa que os cidadãos desse
mundo têm em grande conta). Até aquela idade avançada, havia adorado os ídolos,
participando de cultos sacrílegos, de que participava quase toda a nobreza romana da
época que inspirava ao povo sua devoção por Osíris, por "toda sorte de monstros
divinizados, pelo lavrador Anúbis", monstros que outrora "pegaram em armas contra
Netuno, Vênus e Minerva", e a quem, vencidos, a própria Roma dirigia súplicas, esse
velho Vitorino, que durante tantos anos havia defendido esses deuses com sua terrível
eloqüência, não se envergonhou de se tornar servo de teu Cristo e criança de tuas águas,
dobrando o pescoço ao jugo da humildade, e dobrando sua fronte ante o opróbrio da
cruz.
Senhor, Senhor, que inclinaste os céus e o desceste, que tocaste os montes e estes
fumegaram, de que modo te insinuaste naquele coração?
Segundo contou-me Simpliciano, Vitorino lia as Escrituras e investigava e
esquadrinhava com grande curiosidade toda a literatura cristã, e confiava a Simpliciano,
não em público, mas muito em segredo e familiarmente: "Sabes que já sou cristão?" Ao
que respondia aquele: "Não hei de acreditar, nem te contarei entre os cristãos enquanto
não te vir na Igreja de Cristo". Mas ele ria e dizia: "Serão pois as paredes que fazem os
cristãos?" E isto, de que já era cristão, o dizia muitas vezes, contestando-lhe Simpliciano
outras tantas vezes com a mesma resposta, opondo-lhe sempre Vitorino o gracejo das
paredes.
Vitorino receava desgostar a seus amigos, os soberbos adoradores dos demônios,
julgando que estes, de alto de sua babilônica dignidade, como cedros do Líbano, ainda
não abatidos pelo Senhor, fariam cair sobre ele suas pesadas inimizades.
Mas depois que hauriu forças nas leituras e orações, temeu ser renegado por Cristo
diante de seus anjos, se tivesse medo de o confessar diante dos homens. Sentiu-se réu
de um grande crime por se envergonhar dos mistérios de humildade de teu Verbo, não
se envergonhando do culto sacrílego de demônios soberbos, que ele próprio aceitara
como soberbo imitador; envergonhou-se da vaidade, e enrubesceu diante da verdade. De
repente, disse a Simpliciano, segundo este mesmo contava: "Vamos à Igreja; quero me
tornar cristão". Simpliciano, não cabendo em si de alegria, foi com ele. Recebidos os
primeiros sacramentos da religião, não muito depois, deu seu nome para receber o
batismo que renegara, causando admiração em Roma e alegria na Igreja. Viram-no os
soberbos, e se iraram; rangiam os dentes e se consumiam de raiva.
Mas teu servo havia posto no Senhor Deus sua esperança, e não tinha mais olhos para
as vaidades e as enganosas loucuras.
Enfim, chegou a hora da profissão de fé. Em Roma, os que se preparam para receber
tua graça, pronunciam de um lugar elevado, diante dos fiei, formulas consagradas
aprendidas de cor.
Os presbíteros, dizia-me Simpliciano, propuseram a Vitorino que recitasse a profissão
de fé em segredo, como era costume fazer com os que poderiam se perturbar pela
timidez. Mas ele preferiu confessar sua salvação na presença da plebe santa, uma vez
que nenhuma salvação havia na retórica que ensinara publicamente. Quanto menos,
pois, devia temer diante de tua mansa grei pronunciar tua palavra, ele que não havia
temido as turbas insanas em seus discursos! Assim, logo que subiu à tribuna para dar
testemunho da sua fé, em uníssono, conforme o iam conhecendo, todos repetiram seu
nome como num aplauso – e quem ali não o conhecia? – e um grito reprimido, saiu da
boca de todos os que se alegravam: "Vitorino! Vitorino!" Ao verem-no, se puseram a
gritar de júbilo, mas logo emudeceram pelo desejo de ouvi-lo. Vitorino pronunciou sua
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profissão de verdadeira fé com grande firmeza, e todos queriam raptá-lo para dentro de
seus corações. E realmente o fizeram: seu amor e alegria eram as mãos que o
arrebatavam.
CAPÍTULO III
A alegria das coisas perdidas
Bom Deus, que se passa no homem para que se alegre mais com a salvação de uma
alma desesperada, quando salva de grande perigo, do que se ela sempre tivesse tido
esperança, ou se o perigo tivesse sido menor? Também tu, Pai misericordioso, sentes
mais alegria por um pecador arrependido do que por noventa e nove justos que não têm
necessidade de penitência. Grande é o nosso prazer ao falar da alegria do pastor
trazendo de volta sobre os ombros a ovelha desgarrada, e da mulher que repõe em teus
tesouros, para satisfação geral dos vizinhos, a dracma perdida. E nos arranca lágrimas a
alegria das festas de tua casa quando lemos que teu filho menor estava morto e reviveu;
estava perdido e foi encontrado.
Tu te alegras em nós e em teus anjos, santificados pelo santo amor; pois és sempre o
mesmo, e conheces do mesmo modo e sempre as coisas que nem sempre existem, nem
da mesma maneira.
Mas, que se passa na alma, para que se alegre mais com as coisas que estima,
encontradas ou reavidas, do que se sempre as tivesse possuído? Na verdade, tudo o
atesta, e há inúmeros testemunhos que afirmam: "É assim mesmo!"
O general celebra o triunfo da vitória, e não teria vencido sem combate; e quanto
mais foi árdua a batalha, tanto maior é o gozo no triunfo.
A tempestade cai sobre os navegantes com ameaça de naufrágio. Todos empalidecem
diante da morte iminente. O céu e o mar se acalmam, é grande sua alegria, e nasce do
muito que temeram.
Adoece uma pessoa amiga: seu pulso revela um desfecho fatal. Todos os que desejam
sua cura sofrem com ela, por simpatia. Havendo melhora, embora ainda não recuperado
o vigor de outrora, já reina tal alegria como não existia antes, quando andava sadia e
forte.
Até os prazeres da vida humana, não só compensam os homens de desgraças casuais
e involuntárias, mas também de moléstias premeditadas e desejadas. Não há prazer
algum em beber ou comer sem que haja antes o estímulo da sede ou da fome. Os ébrios
costumam comer antes alguma coisa salgada, que lhes cause sede ardente e que
transformará em prazer quando acalmada com a bebida. O costume quer que as esposas
não sejam entregues imediatamente aos maridos: o marido desprezaria a noiva se não
tivesse que esperar e suspirar por ela.
Assim ocorre tanto na alegria torpe e vil, como na alegria lícita e permitida, na mais
sincera e honesta amizade, como na aventura daquele que estava morto e tornou a
viver, que se havia perdido e foi encontrado; em todos os casos uma alegria maior é
precedida de uma dor também maior.
Por que isto, Senhor, meu Deus, quando tu mesmo és tua própria alegria eterna, e as
criaturas à tua volta em ti se alegram? Por que esta parte do universo sofre as
alternâncias de progressos e quedas, de uniões e separações? Será este o modo de ser
que lhe concedeste quando, do mais alto dos céus até às profundezas da terra, desde o
princípio dos tempos até o fim dos séculos, desde o anjo até o pequenino verme, e desde
o primeiro movimento até o último, dispuseste todos os gêneros de bens e todas as tuas
obras justas, cada uma em seu lugar e tempo?
Ai de mim! Quão alto és nas alturas e quão profundo nos abismos! Jamais te afastas
de nós e, contudo, quanta dificuldade para voltar a ti!
CAPÍTULO IV
A conversão dos grandes
Vamos pois, Senhor, mãos à obra! Desperta-nos, chama-nos, inflama-nos, arrebatanos;
derrama tuas doçuras, encanta-nos: amemos, corramos! Não é verdade que muitos
voltam a ti, saindo de um abismo de cegueira mais profundo que o de Vitorino, e se
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aproximam de ti, e são iluminados pela tua luz, junto da qual recebem o poder de se
fazerem teus filhos?
Mas se estes são menos conhecidos pelo mundo dos homens, mesmo os que os
conhecem se alegram menos; mas quando a alegria é partilhada por muitos, ainda é
maior em cada um, porque se aquece e inflama de uns para os outros.
Ademais, os que são conhecidos de muitos, arrastam à salvação muitos outros, e
caminham adiante seguidos dos que os imitam. Por isso, grande é a alegria dos que os
precederam, por que não se regozijam só consigo.
Mas, longe de mim pensar que no teu tabernáculo são mais aceitos os ricos que os
pobres, e os nobres mais do que os plebeus, porque escolheste os fracos segundo o
mundo para confundir os fortes; o que é vil e desprezível segundo o mundo, a que não é
nada, para aniquilar o que é.
Contudo, o menor de teus apóstolos, por cuja boca pronunciaste essas palavras,
quando suas armas abateram o orgulhoso procônsul Paulo, sujeitando-o ao leve jugo de
teu Cristo e fizeram dele um súdito do grande Rei, quis, parar comemorar tão grande
triunfo, mudar seu nome de Saulo pelo de Paulo. De fato, o adversário é mais
completamente vencido naquilo em que tinha maior domínio e por meio do que retém
maior número de sequazes. Ora, o inimigo domina com mais força os soberbos pela
nobreza de seu nome e, graças a estes, número maior pelo prestígio de sua autoridade.
Assim, na medida em que o coração de Vitorino era tido como fortaleza inexpugnável
antes ocupada pelo demônio, e sua língua como dardo poderoso e agudo, que tantas
vezes havia dado a morte às almas, tanto mais copiosamente deviam exultar teus filhos,
ao verem que nosso Rei agrilhoara o forte, e que seus vasos roubados, eram agora
purificados e destinados à tua honra, convertendo-se em instrumentos úteis ao Senhor
para toda obra boa.
CAPÍTULO V
As duas vontades
Mal teu servo Simpliciano me contou a conversão de Vitorino, ardi no desejo de imitálo;
aliás, era esta a finalidade da narração de Simpliciano. Depois acrescentou que nos
tempos do imperador Juliano, uma lei proibia aos cristãos ensinar literatura e oratória, e
Vitorino, dócil à lei, preferiu abandonar a escola de palradores a abandonar teu Verbo,
que torna eloqüentes as línguas dos meninos. Não só me pareceu corajoso como
afortunado, por ter encontrado ocasião de se consagrar por ti. Por isso eu suspirava,
acorrentado não com os ferros de uma vontade estranha, mas por minha férrea vontade.
O inimigo dominava meu querer, e dele forjava uma corrente com a qual me mantinha
cativo. Da vontade perversa nasce a paixão, e desta satisfeita procede o hábito, e do
hábito não contrariado provém a necessidade, e com estes anéis enlaçados entre si – por
isso lhes chamei corrente – me mantinha preso em dura servidão. A nova vontade, que
despontava em mim, de te servir sem interesse, de me alegrar em ti, ó meu Deus, única
alegria verdadeira, ainda não era capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. Deste
modo minhas duas vontades, a velha e a nova, a carnal e a espiritual, lutavam entre si e,
nessa luta, dilaceravam-me a alma.
Entendi, por experiência própria, o que havia lido: a carne tem desejos contra o
espírito, e o espírito contra a carne. Eu vivia ao mesmo tempo a ambos, embora mais o
que aprovava em mim do que o que em mim desaprovava. Com efeito, nesta última
parte de mim eu era passivo e constrangido, mais do que ativo e livre.
E,contudo, o hábito que se impunha contra mim vinha de mim mesmo, pois fora
voluntariamente que eu chegara onde não queria. E quem poderia protestar
legitimamente, se um castigo justo segue o pecador?
Eu já não tinha aquela desculpa, com a qual persuadia-me de que, se ainda não
desprezava o mundo para te servir, era porque não tinha visão clara da verdade, uma
vez que agora já a conhecia de modo indiscutível. Mas, ainda apegado à terra, recusavame
a combater em tuas fileiras, e temia ver-me livre dos meus laços, quando devia
temer estar por eles atado.
Assim, sentia-me docemente oprimido pelo peso do mundo, como em um sonho, e os
pensamentos com que meditava em ti eram semelhantes aos esforços dos que desejam
despertar, mas, vencidos pela sonolência, voltam dormir. Não há ninguém que queira
dormir sempre, e segundo dita o bom senso, é melhor estar desperto que dormir.
Contudo, às vezes retarda-se o despertar, quando o torpor torna os membros pesados,
e, mesmo a contragosto, continua-se a dormir mesmo depois de chegada a hora de
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despertar. Assim eu estava certo que era melhor entregar-me a teu amor que ceder à
minha paixão. O primeiro me agradava, me dominava; o segundo me encantava, me
prendia.
Já não tinha o que responder quando me dizias: "Desperta, ó tu que dormes, levantate
de entre os mortos, e Cristo te há de iluminar". E quando por todos os meios me
mostrava a verdade do que dizias, e de que eu estava convencido, não tinha
absolutamente nada para responder, senão umas palavras preguiçosas e sonolentas: Um
momento... Depois... Um pouquinho mais...
Mas este pouquinho não tinha fim, e este momento se ia prolongando.
Em vão me deleitava em tua lei, segundo o homem interior, porque em meus
membros outra lei combatia a lei de meu espírito, mantendo-me cativo sob a lei do
pecado que estavas em meus membros. Com efeito, a lei do pecado é a violência do
hábito, pelo qual a alma é arrastada e presa, mesmo contra sua vontade, merecidamente
porém, pois se deixa arrastar por vontade própria. Pobre de mim! Quem poderia libertarme
deste corpo de morte senão tua graça, por Cristo, nosso Senhor?
CAPÍTULO VI
A narração de Ponticiano
Agora contarei de que modo me arrancaste do vínculo do desejo carnal, que me
prendia fortemente, e da servidão dos negócios do mundo, e confessarei teu nome, ó
Senhor, meu auxílio e minha redenção. Levava minha vida habitual com angústia
crescente; todos os dias suspirava por ti, freqüentava tua igreja, quando me deixavam
livre os negócios, cujo peso me fazia sofrer.
Comigo estava Alípio, desonerado do cargo de jurisconsulto, depois de ter sido
assessor pela terceira vez. Ele aguardava a quem vender de novo seus conselhos, como
eu vendia arte da eloqüência, se é que pelo ensino a podemos transmitir.
Nebrídio, por sua vez, acendendo às nossas solicitações amigas, auxiliava na escola a
nossa amigo íntimo, Verecundo; este, gramático e cidadão milanês, desejava
enormemente, e nos instava em nome da amizade, que um de nós lhe prestasse uma fiel
colaboração, pois dela muito necessitava.
Não foi, pois, o interesse que moveu a Nebrídio – que poderia auferir bem mais
vantagens se ensinasse as letras – mas, como grande amigo que era, não quis recusar
nosso pedido em obsequio à amizade. Agia, porém, com muita prudência, evitando fazerse
conhecido dos poderosos deste mundo, para evitar as inquietações do espírito que ele
queria manter o mais possível livre e desocupado para investigar, ler ou ouvir algo sobre
a sabedoria.
Certo dia em que Nebrídio estava ausente, não sei por que motivo, Alípio e eu
recebemos a visita de um tal Ponticiano, nosso compatriota da África, que servia em alto
cargo do palácio.
Não sei mais o que queria de nós.
Sentamo-nos para conversar, e, por acaso, deu com os olhos em um livro que estava
sobre a mesa de jogo, à nossa frente. Pegou-o, abriu-o, viu que eram as epístolas de
Paulo e ficou surpreso, pois pensava que se tratasse de algum dos livros cujo estudo me
preocupava.
Então sorriu para mim e, cumprimentando-me, manifestou-me sua admiração por ter
encontrado aquele livro, e só aquele, ao alcance dos meus olhos. Ponticiano era um
cristão fiel, e muitas vezes prostrava-se diante de ti, nosso Deus, na igreja, em
freqüentes e prolongadas orações.
E quando lhe declarei que aquele livro ocupava o melhor de minha atenção, tomando
a palavra, começou a falar-nos de Antão, monge do Egito, cujo nome era celebrado entre
teus fiéis, mas que nós desconhecíamos até aquela hora. Informado disto, continuou a
falar, revelando esse grande homem à nossa ignorância, que ele muito admirou.
Ouvíamos, estupefatos, tuas autenticas maravilhas, realizadas na verdadeira fé, na
Igreja Católica, tão recentes e quase contemporâneas. Todos nos admirávamos; nós, por
serem coisas tão grandes; e ele, por ser-nos tão desconhecidas.
Depois, passou a falar das multidões que vivem em mosteiros, e de seus costumes,
que trazem teu doce perfume, e da fecunda solidão do ermo, coisas todas que
desconhecíamos.
Até em Milão havia, fora dos muros, um mosteiro cheio de bons irmãos sob a direção
de Ambrósio, que também desconhecíamos.
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Ponticiano prosseguia, e falava sempre mais, e nós o ouvíamos atentos e calados. E
assim veio a nos contar que um dia, não sei quando, estando em Tréveris, saiu em
companhia de três companheiros, enquanto o imperador se concentrava nos jogos
circenses da tarde, para dar um passeio pelos jardins que rodeavam os muros da cidade.
Distraidamente passeando dois a dois, um com Ponticiano, e os outros dois juntos,
separaram-se e tomaram caminhos diferentes.
Caminhando a esmo, estes últimos deram com uma cabana, habitada por alguns
servos teus, pobres de espírito, a quem pertence o reino dos céus. Lá encontraram um
exemplar manuscrito da Vida de Santo Antão. Um deles começou a lê-lo, e, admirado e
arrebatado cogitou, enquanto lia, em abraçar aquele gênero de vida, abandonando o
serviço do mundo, para servir unicamente a ti.
Estes dois eram os chamados agentes de negócios do imperador. De repente, tomado
de amor santo e casto pudor, irado consigo mesmo, olha para o companheiro, e lhe diz:
"Dize-me, te peço, onde pretendemos chegar com todos estes nossos trabalhos? Que
buscamos? Qual a finalidade do nosso labor? Podemos aspirar mais no palácio do que ser
amigos do imperador? E mesmo nisto, quanta incerteza, quantos perigos! E quantos
perigos teremos de passar para chegar a um perigo ainda maior? E quando chegaremos
a isso? Mas, se eu quiser ser amigo de Deus, posso sê-lo agora mesmo". Disse essas
palavras, e exaltado pela gestação da nova vida voltou os olhos para o livro; ao ler,
transformava-se interiormente, o que só tu sabias, e seu espírito se despia do mundo,
como logo se evidenciou.
Enquanto lia, o coração se lhe tornou um mar tempestuoso, sentiu um
estremecimento e, intuindo o melhor caminho a tomar, resolveu abraçá-lo, dizendo ao
amigo: "Já rompi com nossos sonhos: decidi dedicar-me ao serviço de Deus, e isso quero
começar aqui e agora. Se não me queres imitar, ao menos não me contraries".
O amigo respondeu que desejava ficar com ele, e ser companheiro de tão nobre mercê
e de tão grande combate. Ambos já te pertenciam, e começavam a construir, com capital
suficiente, uma torre de salvação, a tudo renunciando para te seguir.
Então Ponticiano e seu companheiro, que passeavam em outro local do jardim,
procurando-os, deram também com a mesma cabana, e os avisaram para que
voltassem, pois já entardecia. Mas eles, relataram-lhes sua determinação e propósito, e
o modo como nascera e se fixara neles tal desejo, pediram-lhes que, se não quisessem
juntar-se a eles, que não os molestassem. Mas estes, sem se converterem, lamentaram
a si mesmos, no dizer de Ponticiano, e felicitando-os piedosamente, recomendaram-se às
suas orações; depois, arrastando o coração pela terra, voltaram ao palácio, enquanto
que os convertidos, fixando seu coração no céu, ficaram na cabana.
Ambos eram noivos; mas, quando suas noivas ouviram o sucedido, também te
consagraram sua virgindade.
CAPÍTULO VII
A reação de Agostinho
Eis o que Ponticiano nos relatou. E tu, Senhor, enquanto ele falava, me fazias refletir,
tirando-me da posição de costas, em que me colocara para não me ver a mim mesmo.
Tu me colocavas diante de meu próprio rosto para que visse como estava indigno,
disforme, sórdido, manchado e ulceroso.
Eu me via, e enchia-me de horror, mas não tinha para onde fugir de mim mesmo. Se
tentava afastar o olhar de mim mesmo, Ponticiano prosseguia com a narração, e de novo
me punhas diante de mim, e me empurravas diante de meus olhos, para que eu
descobrisse minha iniqüidade e a odiasse. Eu bem a conhecia, mas a dissimulava, fingia
não ver, esquecia.
E quanto mais ardentemente amava aqueles jovens, cuja salutar decisão ouvia
relatar, por se terem entregue completamente a ti para que os curasses, tanto mais
acerbamente me odiava ao me comparar com eles. Com efeito, já tinham decorrido
muitos anos – talvez uns doze – desde que, ao dezenove anos, lendo o Hortênsio de
Cícero, sentira-me atraído para o estudo da sabedoria. Ia adiando a hora de abandonar a
felicidade meramente terrena, quando não somente a sua descoberta, mas a sua própria
busca, deveria ser preferida aos maiores tesouros do mundo e aos maiores prazeres
corporais, que a um aceno, afluíam a meu redor.
Mas eu, jovem miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, já te havia
pedido a castidade, dizendo: "Dá-me castidade e continência, mas não agora" – pois
temia que me atendesse muito depressa, e que me curasses logo da doença de minha
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concupiscência, que eu mais queria saciar do que extinguir. E caminhei pelas sendas
ruins de uma superstição sacrílega, não porque estivesse certo dela, mas porque a
preferia às demais doutrinas, que eu não estudava piedosamente, mas que hostilmente
combatia.
Acreditava que o motivo por que adiava dia a dia o desprezo das promessas seculares,
para seguir apenas a ti, era o não ter descoberto uma claridade capaz de dirigir meus
passos.
Veio, então, o dia em que me vi nu, a ouvir as repreensões de minha consciência:
"Onde está a tua palavra? Não dizias que tua indecisão para lançar longe o fardo de tua
vaidade se devia à incerteza? Agora tens a certeza, e não obstante, ainda te oprime esse
fardo; outros, no entanto, que não se consumiram tanto em procurá-la, nem meditaram
dez anos ou mais sobre tais problemas, vêem nascer asas em seus ombros mais livres".
Assim me roia interiormente, devorado por enorme e terrível vergonha, enquanto
Ponticiano contava aquilo tudo. Finda a conversa, e resolvida a questão a que viera,
Ponticiano voltou para sua casa, e eu para dentro de mim. Que coisas não disse contra
mim? Com que açoite de palavras não flagelei minha alma, para obrigá-la a me seguir
em meus esforços para te alcançar! Ela resistia, recusava-se, sem se desculpar. Todos os
argumentos já estavam esgotados e refutados. Nada lhe restava, senão uma angústia
muda: tinha medo, como da morte, de ser tolhida à corrente do vício, onde se corrompia
mortalmente.
CAPÍTULO VIII
Luta espiritual
Então, em meio àquela luta interior que eu travava violentamente contra mim mesmo
no recesso do meu coração, perturbado no rosto e no espírito, volto-me para Alípio
exclamando: "Que tanto nos aflige? O que significa isto que ouviste? Levantam-se os
ignorantes e arrebatam o céu, e nós, com todo nosso saber insensato, nos revolvemos
na carne e no sangue! Acaso temos vergonha de segui-los porque se nos adiantaram, e
não temos vergonha de não os seguir?"
Foi mais ou menos o que eu lhe disse, e dele me afastei sob forte emoção. Alípio me
olhava atônito em silêncio. Eu não falava como de costume, e muito mais que as
palavras, minha fronte, minhas fazes, meus olhos, minha cor e o tom de minha voz
denunciavam meu estado de espírito.
Nossa casa tinha um pequeno jardim, que usávamos, assim como o restante da casa,
que nosso hóspede não habitava. Para ali me levara a tormenta de meu coração, onde
ninguém pudesse interferir no ardente combate que eu travava comigo mesmo, até que
se resolvesse o assunto conforme tu sabias e eu ignorava. Mas eu delirava para
reencontrar a razão, e morria para reviver; conhecia meu mal, mas desconhecia o bem
que depois haveria de sobrevir.
Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio seguiu-me passo a passo; mas, apesar de sua
presença, eu não estava menos só. E como haveria ele de me deixar naquele estado?
Sentamo-nos o mais longe possível da casa. Eu tremia pela violenta indignação, me
enraivecia por não poder seguir teu agrado e aliança, ó meu Deus, aliança pela qual
clamavam todos os meus ossos, que te elevavam louvores até o céu. E para ir a ti não
há necessidade de navios nem de carros, nem mesmo de dar aqueles poucos passos que
separavam a casa do jardim onde estávamos.
Não somente ir, mas chegar junto de ti, nada mais é do que querer ir, mas com
querer enérgico e pleno, e não com vontade tíbia, que se dispersa em todos os sentidos,
e se agita incerta, dividida, ora levantando-se, ora voltando a cair.
Enfim, naquela angustiante hesitação, fazia mil gestos, como soem fazer os homens
que querem e não podem, ou porque não têm membros, ou porque os têm atados em
cadeias, debilitados pela fraqueza ou paralisados de qualquer outro modo. Se puxei os
cabelos, se feri a fronte, se apertei os joelhos entre os dedos entrelaçados, eu o fiz
porque quis. Poderia porém querer fazê-lo e não o fazer, se a flexibilidade de meus
membros não me obedecesse. Portanto, fiz muitas coisas, nas quais o querer não era o
mesmo que o poder.
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Contudo, eu não fazia aquilo que desejava acima de tudo o mais, e que eu poderia
fazer desde que o quisesse, porque se o tivesse efetivamente querido, bastava que o
quisesse sinceramente; nisto o poder é o mesmo que o querer, e querer já seria agir.
Contudo não o fazia, e meu corpo obedecia mais facilmente ao mais leve comando de
minha alma, movendo os membros segundo sua vontade, do que a própria alma
obedecer a si mesma para realizar seu grande desejo com a vontade.
CAPÍTULO XI
A desobediência da vontade
Mas, de onde vinha este prodígio? Qual sua causa? Brilhe a tua misericórdia, e
perguntarei – se é que me podem responder – aos sombrios castigos infligidos aos
homens, e às tenebrosas misérias dos filhos de Adão. De onde vem este prodígio? E qual
sua causa?
A alma dá ordens ao corpo, e este obedece imediatamente; a alma dá ordens a si
mesma, e resiste. Ordena a alma à mão que se mova, e é tal sua presteza, que mal se
pode distinguir a ordem da execução; não obstante, a alma é espírito e a mão é corpo. A
alma dá a si mesma a ordem de querer, uma não se distingue da outra, e contudo, ela
não obedece. De onde este prodígio? E qual sua causa?
Manda a alma que queira – e não mandaria se não quisesse – e, não obstante, não faz
o que manda. Logo, não quer totalmente, e por isso não manda de modo total. A alma
manda na proporção do querer, e enquanto não quiser, suas ordens não são executadas,
porque é a vontade que dá a ordem de ser a uma vontade que nada mais é que ela
própria. Logo, não manda plenamente, e esta é a razão por que não faz o que manda.
Porque, se estivesse em sua plenitude, não mandaria que fosse, porque já seria.
Não há, portanto, prodígio algum em querer em parte e em parte não querer; é uma
enfermidade da alma. esta, sustentada pela verdade, não se ergue de todo, pois está
oprimida pelo peso do hábito. Há, portanto, duas vontades, ambas incompletas, e o que
uma possui falta à outra.
CAPÍTULO X
Contra os maniqueus
Desapareçam de tua presença, ó meu Deus, como os vãos faladores e sedutores do
espírito, aqueles que, ao observarem a dupla deliberação da vontade, concluem que
temos duas almas de naturezas opostas, uma boa, outra má.
Eles é que são de fato maus, que seguem tais más doutrinas; somente serão bons
quando aceitarem a verdade, concordando com os que a possuem. E assim o Apóstolo
poderá dizer deles: Outrora fostes trevas, mas agora sois luz no Senhor. Mas esses,
querendo ser luz não no Senhor, mas em si mesmos, julgam que a natureza da alma á a
mesma que a de Deus; vão-se tornando trevas ainda mais densas, pois em sua terrível
arrogância se afastam ainda mais de ti, luz verdadeira, que ilumina a todo homem que
vem a este mundo. Atentai para o que dizeis, e enchei-vos de vergonha. Aproximai-vos
dele, e sereis iluminados, e vossos rostos não serão cobertos de confusão.
Quando eu deliberava dedicar-me ao serviço do Senhor meu Deus, como de há muito
me tinha proposto, eu era o que eu queria, e lera o que eu não queria. Mas, nem queria
plenamente, nem deixar de querer por completo. Por isso lutava comigo mesmo, e me
dilacerava a mim mesmo. Essa destruição, embora involuntária, não mostrava, contudo,
a presença em mim de uma alma estranha, mas apenas o castigo de minha alma. E por
isso já não era eu quem mo infligia, mas o pecado que habitava em mim, como castigo
de pecado cometido livremente, por ser eu filho de Adão.
Com efeito, se fossem tantas as naturezas contrárias quantas são as vontades que em
nós se contradizem, não deveríamos admitir apenas duas naturezas, mas muitas. Se
alguém, com efeito, hesita entre uma reunião dos maniqueístas ou ao teatro, logo eles
exclamam: "Eis aí as duas naturezas, uma boa, que o atrai para cá, e outra má, que o
arrasta pra lá. E de onde mais viria essa hesitação de vontades opostas?"
De minha parte eu digo que ambas são más, tanto a que leva a eles como a que
arrasta ao teatro; mas eles só julgam boa a que leva até eles.
Mas, suponhamos que um dos nossos queira decidir, e conflitando as duas vontades,
titubeie entre ir ao teatro ou à nossa igreja; não ficarão indecisos os maniqueístas na
resposta que hão de dar? Porque, ou hão de confessar o que não querem, que é boa a
vontade que o leva à nossa igreja, como vão a ela os que foram iniciados em seus
mistérios e lhe permanecem fiéis, ou terão de reconhecer que num mesmo homem lutam
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duas naturezas más e duas almas más. E então terão de contradizer o que afirmam, que
uma natureza é boa e outra má. Ou então terão de aceitar a verdade e, neste caso, não
negarão que, quando alguém escolhe, é uma mesma alma a que hesita entre duas
vontades opostas.
Portanto, quando virem duas vontades que se contrapõem ao mesmo homem, não
falem mais de luta entre duas almas contrárias, uma boa e outra má, originadas em duas
substâncias antagônicas. Porque tu, ó Deus verdadeiro, os confundes, como no caso em
que ambas as vontades são más; por exemplo, quando alguém hesita, entre matar a
outrem com um punhal ou veneno; entre assaltar esta ou aquela propriedade alheia,
quando não pode assaltar a ambas; entre esbanjar na compra do prazer da luxúria, ou
guardar dinheiro por avareza; entre ir ao circo ou ao teatro, quando ambos sejam
concomitantes; e ainda acrescento uma terceira incerteza: entre roubar ou não a casa do
próximo, em havendo a oportunidade, ou ainda, acrescento uma quarta hipótese: entre
cometer ou não adultério, se tem possibilidade para isso. Suponhamos que todas essas
circunstâncias ocorram simultaneamente; como todas são igualmente desejadas, e
irrealizáveis ao mesmo tempo, a alma será dilacerada por um conflito entre quatro
vontades, ou mais ainda, tão numerosos são os objetos de desejo! Contudo, os
maniqueus não afirmam que existe tão grande número de substâncias diferentes.
O mesmo acontece com as vontades boas. Se eu lhes pergunto se é bom deleitar-se
com a leitura do Apóstolo, com a leitura de algum salmo espiritual, ou com o comentar
do Evangelho, eles responderão a cada questão: "É bom" – Ora, se as três atividades
têm a mesma atração simultaneamente, não teríamos vontades opostas a dividir o
coração do homem, enquanto escolhe qual delas abraçar de preferência?
Todas essas vontades são boas, e lutam entre si, até que se tome uma decisão, que
unifique a vontade, antes dividida. Assim também, quando a eternidade agrada à nossa
parte superior e o bem temporal nos prende fortemente cá embaixo: é a mesma alma
que, sem uma vontade plena, quer um e outro desses bens. Por isso, dilacera-a uma
grande dor; a verdade nos faz preferir a eternidade, mas o hábito não quer abandonar os
bens temporais.
CAPÍTULO XI
Últimas resistências
Assim sofria e me atormentava, com acusações mais acerbas que de costume,
rolando-me e debatendo-me dentro de minha cadeias, para ver se as quebrava por
completo. Elas mal me prendiam,mas ainda me prendiam. E tu, Senhor, me espicaçavas
no fundo de minha alma, e com severa misericórdia redobravas os açoites do temor e da
vergonha, para que eu não afrouxasse de novo, e para que quebrasse minha tênue e
leve cadeia, antes que ela se revigorasse para me prender mais firmemente.
E dizia comigo mesmo: "Vamos! Mãos à obra, sem demoras!" E quase passava da
palavra à ação. Estava a ponto de agir, mas não agia. Eu já não recaía nas antigas
paixões, mas delas estava bem próximo, e tomava ainda alento de seu ar. Quase a
alcançava, faltava pouco, cada vez menos, e já quase chegava ao termo e a segurava;
mas não a alcançava, nem a tocava; hesitava entre morrer para a morte e viver para a
vida. O mal arraigado dominava-me mais do que o bem, cujo hábito eu não possuía; na
medida que ia se aproximando o momento em que me transformaria em outro homem,
maior era o horror que me incutia, sem contudo me fazer voltar para trás ou mudar de
caminho. Simplesmente mantinha-me indeciso.
Mantinham-me preso umas tantas bagatelas, umas vaidades de vaidades, antigas
amigas minhas, que me puxavam por minhas vestes carnais, murmurando: "Então, nos
abandonas? De agora em diante nunca mais estaremos contigo? Desde este momento
nunca mais te será lícito isto ou aquilo?"
E que coisas, meu Deus, que torpezas me sugeriam com o que chamei de isto ou
aquilo! Por tua misericórdia, afasta-as da alma de teu servo! Oh! Que imundícies me
sugeriam, que indecências! Já se reduzira a menos da metade o número de vezes que eu
lhes dava ouvidos; não era mais um assalto aberto, frontal, mas segredado por cima dos
ombros, e como que puxando-me furtivamente, se me afastava, para que me voltasse
para trás.
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Contudo, faziam com que eu, vacilante, tardasse em me separar delas para correr
para onde me chamavam, enquanto o hábito violento me dizia: "Julgas que poderás viver
sem elas?"
Mas isto já dizia com voz muito débil. Para onde voltava o rosto, e por onde temia
passar, mostrava-se para mim a casta dignidade da continência, serena e alegre, sem
desordens, acariciando-me honestamente para que me aproximasse sem medo. Estendia
para mim, para me acolher e abraçar, suas mãos piedosas, cheias de uma multidão de
bons exemplos.
Junto dela, uma turba de meninos e meninas, uma juventude numerosa, e homens de
toda idade, viúvas veneráveis e virgens idosas. Em todas essas almas, não era estéril,
mas fecunda a mãe de filhos nascidos nas alegrias do esposo, que eras tu, Senhor! E a
continência zombava de mim com ironia animadora, como se dissesse: "Então, não serás
capaz de fazer o mesmo que eles? Ou será que estes e estas encontraram forças em si
mesmos, e não no Senhor, seu Deus? Foi o Senhor Deus, quem me entregou a eles. Por
que te apóias em ti, se és vacilante? Lança-te nele, não temas, que ele não se apartará
de ti, e tu não cairás. Lança-te com confiança, que ele te receberá e te curará."
E enchia-me de vergonha por ainda ouvir o murmúrio daquelas bagatelas e, vacilante,
continuava indeciso.
Mas de novo a voz da castidade parecia me dizer: Não dês ouvidos às tentações
imundas da tua carne impura que te prende à terra, a fim de que seja mortificada. Ela te
fala de deleites, contrários porém, à lei do Senhor teu Deus.
Essa luta se desenrolava no fundo do meu espírito, de mim contra mim mesmo. Alípio,
sem sair de perto de mim, aguardava em silêncio o desfecho de minha insólita agitação.
CAPÍTULO XII
A conversão
Mas logo que esta profunda reflexão tirou da profundeza de minha alma, e expôs toda
minha miséria à vista de meu coração, caiu sobre mim enorme tormenta, trazendo
copiosa torrente de lágrimas. E para dar-lhe toda vazão com seus gemidos, afastei-me
de Alípio; a solidão parecia-me mais adequada e me afastei o mais longe possível, para
que sua presença não me fosse embaraçosa. Tal era o estado em que encontrava, e
Alípio percebeu-o, pois lhe disse alguma coisa com um timbre de voz embargado de
lágrimas que me denunciou.
Alípio, atônito, continuou no lugar em que estávamos sentados; mas eu, não sei
como, me retirei para a sombra de uma figueira, e dei vazão às lágrimas; e dois rios
brotaram de meus olhos, sacrifício agradável a teu coração. E embora não com estes
termos, mas com o mesmo sentido, muitas coisas te disse como esta: E tu, Senhor, até
quando? Até quando, Senhor, hás de estar irritado! Esquece-te de minhas iniqüidades
passadas! Sentia-me ainda preso a elas, e gemia, e lamentava: "Até quando? Até
quando direi amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora às minhas
torpezas?"
Assim falava, e chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração. Mas eis que,
de repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e
repetia muitas vezes: "Toma e lê, toma e lê".
E logo, mudando de semblante, comecei a buscar, com toda a atenção em minhas
lembranças se porventura esta cantiga fazia parte de um jogo que as crianças
costumassem cantarolar; mas não me lembrava de tê-la ouvido antes. Reprimindo o
ímpeto das lágrimas, levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina
mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capitulo que encontrasse.
Tinha ouvido dizer que Antão, assistindo por acaso a uma leitura do Evangelho,
tomara para si esta advertência: "Vai, vende tudo o que tens, dá-lo aos pobres, e terás
um tesouro no céu; depois vem e segue-me" – e que esse oráculo decidira
imediatamente sua conversão.
Depressa voltei para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do
Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me
caiu sob os olhos: "Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres
impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso
Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os desejos da carne".
Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie
de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida.
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Então, marcando com o dedo, ou não sei com que, fechei o livro, e com o rosto já
tranqüilo, revelei a Alípio o que se passara. Ele, por sua vez, me revelou o que
acontecera com ele, e que eu ignorava. Pediu para ver o que eu tinha lido; mostrei-lhe,
ele prosseguiu a leitura. Eu ignorava o texto seguinte, que era este: Recebei ao fraco na
fé, palavras que aplicou a si mesmo, e mo revelou. Fortificado por essa advertência,
firmou-se nessa resolução e santo propósito, bem de acordo com seus costumes, nos
quais já há muito tempo tomara grande vantagem sobre mim.
Fomos depois à procura de minha mãe, que ao saber do sucedido, ficou radiante.
Contamo-lhe como o caso se passara; ela exultou, triunfante e bendizendo a ti, que és
poderoso para dar-nos mais do que pedimos ou entendemos, porque via que lhe havias
concedido, a meu respeito, muito mais do que constantemente te pedia com tristes
gemidos e lágrimas.
De tal forma me converteste a ti, que já não procurava esposa, nem abrigava
esperança alguma deste mundo, mas estava já naquela "regra de fé" em que há tantos
anos me havias mostrado à minha mãe. E assim converteste seu pranto em alegria,
muito mais fecunda do que havia desejado, e muito mais preciosa e pura do que a que
podia esperar dos netos nascidos de minha carne.
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LIVRO NONO
CAPÍTULO I
Colóquio
Ó Senhor, sou teu servo e filho de tua serva. Rompeste minhas cadeias: eu te
sacrificarei uma vítima de louvor. Louvem-te meu coração e minha língua, e que todos os
meus ossos te digam: Senhor, quem semelhante a ti? Que eles te digam essas palavras
e que me respondas e digas à minha alma: Eu sou tua salvação.
Quem sou eu, e como era? Que males não tive em minhas obras, ou, se não em
minhas obras, em minhas palavras, ou, se não em minhas palavras, em minha vontade!
Mas tu, Senhor, bom e misericordioso, puseste os olhos na profundeza de minha morte,
e purificaste com tua destra o abismo de corrupção de minha alma. Tratava-se agora
apenas de não querer o que eu queria, e de querer o que tu querias.
Mas, onde esteve meu livre arbítrio durante tantos anos? De que profundo e
misterioso abismo foi ele chamado num instante, para que eu inclinasse a cerviz a teu
jugo suave e o ombro a teu leve fardo, ó Cristo Jesus, meu auxílio e redenção?
Quão suave foi para mim a privação de doçuras fúteis! Temia então perdê-las, como
agora sentia prazer em deixá-las! Porque tu se afastavas de mim, e entravas em seu
lugar, mais doce que qualquer prazer, mas não para a carne e o sangue; mais claro que
toda luz, mais oculto que qualquer segredo; mais sublime que todas as honras, mas não
para os que exaltam a si mesmos.
Minha alma já estava livre dos devoradores cuidados da ambição, do ganho, e do
prurido dos apetites carnais; e falava muito comigo, ó Deus e Senhor meu, minha luz,
minha riqueza, minha salvação!
CAPÍTULO II
Adeus ao magistério
Pareceu-me de bom alvitre, em tua presença, não abandonar de modo ostensivo o
ministério da minha língua, mas retirá-lo suavemente do mercado da loquacidade, para
que dali por diante os jovens, que não se preocupam com tua lei ou paz, mas com as
enganosas loucuras e contendas forenses, não comprassem de minha boca armas para
seu furor. Felizmente faltavam pouquíssimos dias para as férias das vindimas (é provável
que as férias de outono dos estudantes coincidissem com as férias dos tribunais, que se
iniciavam em 22 de agosto, e terminavam em 15 de outubro). Decidi suportá-los até lá.
Então me retiraria como de costume, e, resgatado por ti, não tornaria mais a vender meu
ofícios.
Esta minha determinação, te era conhecida; dos homens, só a conheciam os de minha
intimidade. E, mesmo assim, tínhamos combinado de nada deixar transpirar. Contudo,
quando subíamos do vale de lágrimas, cantando o cântico gradual (série de salmos
cantados pelos peregrinos que sobem os degraus do templo de Jerusalém) nos tinhas
dado setas agudas e carvões destruidores contra a língua pérfida que contradiz, sob o
pretexto de aconselhar e, como quem se alimenta, consome o que ama.
Tinhas alvejado nosso coração com as setas do teu amor, e levávamos tuas palavras
cravadas em nossas entranhas; os exemplos de teus servos, que das trevas trouxeram
para a luz, e da morte para a vida, ardiam no fundo de nosso espírito em uma espécie de
fogueira, que inflamava e consumia nosso torpor, para que não mais nos inclinássemos
para as baixezas.
Estávamos inflamados de tal ardor, que o vento da contradição das línguas dolosas
não nos apagaria, antes fazia-nos arder mais e mais.
Contudo, por causa de teu nome, que santificaste em toda terra, nossa decisão e
propósito teriam também quem os louvasse. Pareceria de certo modo jactância não
aguardar as férias tão próximas; abandonar antes dessa data uma profissão pública, e
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exposta a todos, seria atrair sobre minha conduta todas as atenções, provocando
comentários. Diriam que eu me adiantara às férias iminentes por querer parecer grande
personagem. E de que me valeria que pensassem ou discutissem sobre minhas
intenções, blasfemando sobre o meu bem?
Além disso, nesse mesmo verão, devido ao excessivo trabalho didático, meus pulmões
começaram a se ressentir; respirava com dificuldade, e as dores no peito e minha voz,
que não saía clara ou prolongada, revelavam uma lesão. A princípio me senti angustiado,
vendo-me quase obrigado a abandonar o fardo do magistério ou, para me curar e
convalescer, teria certamente de o interromper. Mas, quando nasceu em mim e se firmou
a vontade plena de repousar e de ver que és o Senhor, então, tu o sabes meu Deus, que
cheguei a me alegrar de encontrar esta desculpa verdadeira para moderar o sentimento
das famílias, que por causa de seus filhos nunca me permitiram ser livre.
Cheio dessa consolação, esperava que escoasse aquele tempo – talvez uns vinte dias.
Mas minguara minha coragem, porque já me abandonara a cobiça de ganho, que me
ajudava a carregar este pesado encargo; e teria sucumbido se a paciência não tomasse o
lugar da ambição.
Talvez alguns de teus servos, meus irmãos, dirá que pequei nisso porque, estando
com o coração já cheio de desejos de te servir, consenti ficar mais uma hora sentado na
cátedra da mentira. Não discutirei. Mas tu, Senhor misericordiosíssimo, acaso não me
perdoaste e resgataste também este pecado, junto com todos os demais horrendos e
mortais na água santa do batismo?
CAPÍTULO III
Dois amigos
Angustiava-se Verecundo por este nosso bem, porque se via afastado de nossa
companhia pelos vínculos matrimoniais que o aprisionavam fortemente. Não era ainda
cristão, como sua mulher, mas justamente nela encontrava o maior obstáculo que o
impedia de entrar pelo caminho que havíamos começado a trilhar; não queria ser cristão,
dizia ele, senão do modo que justamente lhe era proibido.
Contudo, com sua grande bondade, pôs à nossa disposição sua propriedade no campo
pelo tempo que nos aprouvesse. Tu, Senhor, haverás de recompensá-lo no dia da
retribuição dos justos, pois já concedeste a graça. Porque, estando nós ausentes e já em
Roma, atacado de uma enfermidade corporal, Verecundo saiu desta vida depois de se
fazer cristão e crente. Assim te compadeceste não apenas dele, mas também de nós,
para que quando pensássemos na grande generosidade que teve conosco este amigo,
não nos afligíssemos de dor intolerável por não poder contá-lo entre os de tua grei.
Graças te sejam dadas, ó Deus nosso! Somos teus: tuas exortações e consolos o
indicam.
Fiel cumpridor de tuas promessas, concedes a Verecundo a amenidade de teu paraíso
sempre florido, por nos ter oferecido sua propriedade de Cassicíaco, na qual
descansamos em ti das angústias do século; lhe perdoaste os pecados sobre a terra, na
tua montanha, a montanha da abundância.
Verecundo, como disse, angustiava-se, mas Nebrídio partilhava a nossa alegria,
porque, embora não sendo ainda cristão e houvesse caído no erro tão pernicioso de
julgar que a carne verdadeira do teu Filho fosse mera aparência, já começava a se
desvencilhar e, sem ter ainda recebido os sacramentos da tua Igreja, buscava
ardentemente a verdade.
Não muito depois de nossa conversão e regeneração por teu batismo, fez-se por fim
católico fiel. Servia-te na África junto aos seus, em castidade e continência perfeitas;
toda sua família, sob sua influência, se fizera cristã. Libertaste-o então dos laços da
carne, vivendo agora no seio de Abraão, seja qual for o significado dessa expressão. Ali
vive meu Nebrídio, meu doce amigo que, de liberto, se tornou teu filho adotivo. Ali vive –
pois, que outro lugar conviria a uma alma assim? Ali vive, nesse lugar sobre o qual
indagava muitas coisas a mim, pobre homem ignorante. Já não aproxima seu ouvido da
boca, mas aproxima sua boca espiritual de tua fonte, e bebe avidamente de tua
sabedoria, numa felicidade sem fim. Mas não creio que se embriague a ponto de
esquecer de mim, enquanto tu, Senhor, que és sua bebida, te lembras de nós.
Essa era a nossa situação. Consolávamos o Verecundo que, sem que a amizade
fenecesse, andava desgostoso com nossa conversão; nós o exortávamos a se manter fiel
à sua condição conjugal. Quanto a Nebrídio, esperávamos que nos seguisse, pois,
facilmente poderia fazê-lo, e já estava a ponto de se decidir. Enfim, aqueles dias
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passaram, e me pareceram tantos e tão longos, tal era meu desejo de liberdade e
descanso, para cantar do fundo do meu ser: A ti meu coração: Procurei teu rosto; teu
rosto, Senhor, hei de buscar.
CAPÍTULO IV
A doçura dos salmos
Por fim, chegou o dia da libertação da profissão de retórico, da qual já me libertara em
pensamento. Assim aconteceu. Livraste minha língua da tarefa de que há havias livrado
meu coração. Eu te bendizia contente, e parti com todos os meus, para a quinta de
Verecundo. O que lá realizei nas letras, já a teu serviço, mas ainda com a respiração
ofegante, como durante uma pausa da luta, e ainda respirando da soberba da erudição, é
atestado pelos livros nos quais anotava meus debates com meus amigos ou comigo
mesmo em tua presença (refere-se aos seguintes livros: Contra Acadêmicos, De beata
vita, De ordine e dos Solilóquios). Do que tratei com Nebrídio, então ausente, claramente
o indicam minhas cartas.
Mas quando encontrei tempo suficiente para dar testemunho de todos os grandes
benefícios que me concedeste nessa época da vida, uma vez que tenho pressa de chegar
a outros assuntos mais importantes? Volta-me – e me é doce confessá-lo, Senhor – a
lembrança dos estímulos internos com que me domaste; o modo como me aplanaste a
alma derrubando as colinas e montanhas de meus pensamentos; como endireitaste meus
caminhos tortuosos e suavizasse minhas asperezas; como também submeteste Alípio – o
irmão de meu coração – ao nome de teu Filho único, Jesus Cristo, Senhor e Salvador
nosso, nome que ele mal suportava em minhas obras, porque preferia o cheiro dos
soberbos cedros das escolas, já abatidos pelo Senhor, ao odor das salutares ervas de tua
Igreja, antídoto contra o veneno das serpentes.
Que invocações elevei a ti, meu Deus, lendo os Salmos de Davi, cânticos de fé, hinos
de piedade, que expulsavam de mim todo sentimento de orgulho? Eu era ainda
inexperiente de teu verdadeiro amor, e dividia minhas horas de lazer com Alípio,
catecúmeno como eu. Minha mãe estava conosco. Ao aspecto da mulher ela aliava fé
varonil, a calma da velhice, a ternura de mãe e a piedade de cristã. Que exclamações
elevei a ti naqueles salmos, e como me inflamava com eles em teu amor! Incendiava-me
em desejos de recitá-los, se fosse possível, ao mundo inteiro, para rebater a soberba do
gênero humano! Com efeito, em todo o mundo se cantam. Não há ninguém que se
subtraia a teu calor.
Com que veemente e dolorosa indagação me levantava contra os maniqueístas! E de
novo me compadecia deles por ignorarem esses sacramentos, esses remédios, investindo
loucamente contra o antídoto que poderia curá-los! Gostaria que estivessem perto de
mim, sem que eu o soubesse, e que vissem meu rosto e ouvissem minhas exclamações
quando lia o Salmo 4 naquelas minhas férias, e percebessem os efeitos salutares que me
produzia este salmo: Quando te invoquei, tu me escutaste, ó Deus de minha justiça!
Dilataste minha alma na tribulação.
Compadece-te, Senhor, de mim, e ouve minha prece. Se me ouvissem – sem eu o
saber, para que não pensassem que eram por causa deles as palavras que eu
entremeava às do salmo, porque realmente nem eu diria tais coisas, nem as diria
daquele modo, se soubesse da sua presença; e, mesmo que as palavras fossem as
mesmas, ele não as entenderiam como eu as dizia a mim mesmo, diante de ti, na íntima
efusão dos afetos de minha alma.
Estremeci de medo, ao mesmo tempo me abrasei de alegre esperança em tua
misericórdia, ó Pai! E todos estes sentimentos saíam pelos meus olhos e pela voz
quando, dirigindo-se para nós, teu Espírito de bondade nos dizia: Filhos dos homens, até
quando sereis duros de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?
Também eu tinha amado a vaidade e buscado a mentira. Mas tu, Senhor, já havias
glorificado teu eleito, ressuscitando-o de entre os mortos e colocando-o à tua direita, de
onde haveria de nos enviar, segundo a promessa, o Paracleto, o Espírito da Verdade. O
Senhor estava glorificado, ressuscitando de entre os mortos, e subindo aos céus. Antes o
Espírito ainda não tinha sido dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado.
Clama o profeta: Até quando sereis duros de coração? Por que amais a vaidade e
buscais a mentira? Sabeis que o Senhor já glorificou a seu santo. Clama: Até quando?
Clama: Sabei! – E eu sem o saber durante tanto tempo, amando a vaidade e buscando a
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mentira! Por isso tremi quando o ouvi, porque me lembrei de ter sido igual àqueles a
quem tais palavras eram dirigidas. Os fantasmas que eu havia tomado pela verdade nada
mais eram do que vaidade e mentira.
Ah! As queixas fortes e profundas que me inspiravam a dor da recordação! Oxalá as
tivessem ouvido os que ainda amam a vaidade e buscam a mentira! Talvez também se
perturbassem e vomitassem seu erro. E tu os terias ouvidos quando clamassem por ti,
porque morreu por nós de verdadeira morte corporal aquele que intercede por nós diante
de ti.
Eu lia: Irai-vos, e não queirais pecar. Como me perturbavam tais palavras, meu Deus!
Já havia aprendido a me irar contra mim mesmo pelos meus crimes passados, para não
pecar mais; e de uma cólera justa, porque não era uma natureza estranha, da raça das
trevas, a que em mim pecava, como dizem os que não se indignam contra si, e
acumulam contra si a ira para o dia da ira e da revelação de teu justo juízo?
Meus bens já não eram exteriores, e eu já não os buscava à luz deste sol, com olhos
carnais. Os que querem gozar externamente, facilmente se dissipam e derramam pelas
coisas visíveis e temporais, lambendo com pensamento faminto apenas as aparências.
Oh! Se eles se esgotassem com a privação, e perguntassem: Quem nos mostrará o bem?
E que ouvissem nossa resposta: Está gravada dentro de nós a luz de teu rosto, Senhor! –
Porque não somos nós a luz que ilumina a todo homem, mas somos iluminados por ti,
para que sejamos luz em ti, nós que outrora fomos trevas.
Oh! Se eles vissem essa luz interior e eterna que eu havia visto! E como a havia
saboreado, irritava-me por não poder mostrá-la. Se, pelo seus olhares dirigidos para
fora, visse seu coração afastado de ti, me dissessem: "Quem nos mostrará o bem? Pois
ali, onde me irritara contra mim mesmo, ali, no recôndito de meu coração onde,
arrependido, eu havia sacrificado e imolado em mim o velho homem; onde, pondo em ti
minha esperança, começara a meditar a renovação de mim mesmo, ali fizeste com que
eu sentisse tua doçura, dando alegria a meu coração. E exclamava ao ler, fora de mim,
essas palavras cuja verdade ecoava em mim; e não queria desdobrar-me pelos bens
terrenos, devorando o tempo e sendo por ele devorado, porque possuía na eterna
simplicidade outro trigo, outro vinho e outro azeite.
E subia, no versículo seguinte, um profundo clamor de meu coração: Oh! Em paz! Oh!
Em seu próprio Ser! Mas, que disse? Dormirei e descansarei! Com efeito, quem nos há de
resistir quando se cumprir a palavra que está escrita: A morte foi devorada pela vitória?
Tu és esse mesmo Ser, e não mudas, e em ti está o repouso que faz esquecer todos
os sofrimentos. Porque ninguém pode ser comparado a ti e nem vale pensar em adquirir
outras coisas que não sejam o que tu és; mas tu, Senhor, singularmente me firmaste na
esperança.
Eu lia isto, e me inflamava. Não sabia que fazer com aqueles surdos, de quem eu fora
a peste, um cão raivoso e cego que ladrava contra a Bíblia, dulcificada por seu mel
celestial e iluminada por tua luz. E me consumia de dor por causa dos inimigos de tuas
Escrituras.
Quando poderei recordar tudo o que aconteceu naqueles dias de descanso? Mas não
esqueci, nem quero silenciar, a aspereza de um açoite que usaste em mim, e a admirável
presteza de tua misericórdia.
Atormentavas-me então com uma dor de dentes, que se agravara a tal ponto de me
impedir até de falar. Ocorreu-me ao pensamento pedir a todos os amigos, que rogassem
por mim, ó Deus da salvação! Escrevi meu pedido numa tabuleta encerada, e lha dei
para que o lessem.
Apenas dobramos os joelhos com suplicante afeto, logo a dor desapareceu. E que dor!
E como desapareceu! Enchi-me de espanto, eu o confesso, meu Deus e Senhor. Nunca,
desde minha infância, havia experimentado coisa semelhante.
No fundo de meu coração penetrou o sinal da tua vontade e, alegre na fé, louvei teu
nome.
contudo, esta fé não me deixava viver tranqüilo quanto a meus pecados passados,
que ainda não me haviam sido perdoados por teu batismo.
CAPÍTULO V
O conselho de Ambrósio
Terminadas as férias, informei aos milaneses que providenciassem para seus
estudantes outro vendedor de palavras, visto que determinara consagrar-me a teu
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serviço; e mesmo porque não podia mais exercer aquela profissão pela dificuldade de
respirar e pelas dores que sentia no peito.
Também comuniquei por escrito a teu bispo e santo bispo Ambrosio, os meus antigos
erros, minha intenção atual, para que me indicasse o que deveria ler de preferência em
tuas Escrituras, a fim de me preparar e dispor melhor para receber tão grande graça.
Ele me indicou o profeta Isaías, creio que porque anuncia mais claramente que os
demais o Evangelho e vocação dos gentios. Contudo, nada tendo compreendido na
primeira leitura, e julgando que toda a obra era assim, decidi voltar a ela quando
estivesse mais familiarizado com a palavra do Senhor.
CAPÍTULO VI
Batismo de Agostinho. Seu filho Adeodato
Chegado o tempo em que convinha nos inscrever para receber o batismo, deixamos o
campo, e voltamos para Milão.
Alípio também quis renascer em ti comigo, já revestido de humildade tão conforme a
teus sacramentos. Era tão enérgico domador do seu corpo, que caminhava com os pés
descalços, com insólita coragem, sobre o chão gelado da Itália.
Juntamos também a nós o jovem Adeodato, filho carnal de meu pecado; a quem
dotaste de grandes qualidades. Tinha cerca de quinze anos, mas por seu talento
ultrapassava já muitos homens maduros e doutos. Confesso-te que eram dons teus, meu
Senhor e meu Deus, criador de todas as coisas, tão poderoso para corrigir nossas
deformidades, pois este menino nada havia de meu, senão meu pecado. Se o criei em
tua disciplina, foste tu, e mais ninguém, quem no-lo inspirou. Sim, confesso que eram
dons teus.
Há um livro meu que se intitula O Mestre, no qual Adeodato dialoga comigo. Tu sabes
que todos os pensamentos ali manifestados são dele quando tinha dezesseis anos. Muitas
outras qualidades maravilhosas notei ainda nele, admirado por sua inteligência. Mas
quem, além de ti, poderia ser o autor dessas maravilhas? Cedo o arrebataste desta terra;
e a lembrança dele se torna mais tranqüila, nada mais tendo a temer por sua infância,
por sua adolescência ou por toda sua vida adulta. Associamo-lo a nós como irmão na
graça, para educá-lo em tua lei. Fomos batizados, e os remorsos de nossa vida passada
se afastaram de nós.
Naqueles dias eu não me fartava de considerar a grandeza de teus desígnios para a
salvação do gênero humano, pela inefável doçura que sentia. Quanto chorei ao ouvir,
profundamente comovido, teus hinos e cânticos que ressoavam suavemente em tua
Igreja! Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos, e destilavam a verdade em meu
coração. Acendia-se em mim um afeto piedoso, corriam-me lágrimas dos olhos, e o
pranto me consolava.
CAPÍTULO VII
O canto dos fiéis. Os corpos de São Gervásio e de São Protásio
Não havia muito tempo que a igreja de Milão começara a adotar essa prática
consoladora e edificante do canto, com grande regozijo dos fiéis, que uniam em um só
coro as vozes e o coração. Havia um ano, ou pouco mais, que Justina, mãe do imperador
Valentiniano, ainda menor, seduzida pelos arianos, perseguia, por causa de sua heresia,
teu servo Ambrósio. O povo fiel passava as noites na igreja, disposto a morrer com seu
bispo.
Nesse meio estava minha mãe, tua serva, uma das primeiras no zelo dessas
inquietações e vigílias, não vivendo senão de orações. Nós, apensar de ainda frios, sem o
calor de teu Espírito, nos sentíamos comovidos pela perturbação e consternação da
cidade.
Foi então que se fixou o costume de cantar hinos e salmos, como se faz no Oriente,
para que os fiéis não se consumissem no tédio e na tristeza. Desde esse dia esse
costume manteve-se, e no resto do mundo, quase todas as tuas comunidades de fiéis
passaram a adotá-lo.
Foi também nessa época que revelaste em sonho ao bispo Ambrósio o lugar em que
jaziam ocultos os corpos dos mártires Gervásio e Protásio, que durante muito tempo,
conservastes intactos no tesouro de teus segredos, a fim de revelá-los no momento
oportuno para refrear o furor de uma mulher, embora imperatriz.
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Com efeito, depois de descobertos e desenterrados, ao serem transladados com as
honras convenientes para a basílica ambrosiana, alguns possessos, atormentados pelos
espíritos imundos, foram curados, conforme confissão dos próprios demônios. Também
um cidadão, cego havia muitos anos, e muito conhecido na cidade, perguntou a razão
daquele alvoroço e alegria populares; informado, pediu a seu guia que o levasse até ás
relíquias. Lá chegando, obteve permissão para tocar com um lenço o ataúde de teus
santos, cuja morte havia sido preciosa a teus olhos. Feito isto, aplicou o lenço aos olhos,
que imediatamente se abriram.
A noticia do milagre logo se propagou, e imediatamente se ouviram teus louvores com
fervor, e o coração de tua inimiga, sem se converter à tua fé, reprimiu contudo o furor da
perseguição.
Graças te dou, meu Deus! De onde e para onde guiaste minha memória, para que
também te confessasse estes acontecimentos que, embora grandes, eu já havia
esquecido e omitido?
Todavia, quando assim exalava o odor de teus perfumes, eu ainda não corria atrás de
ti.
Eis que redobrava minhas lágrimas ao ouvir teus cânticos. Outrora eu suspirava por ti,
e enfim respirava o pouco ar de uma choça de feno (alusão ao profeta Isaias,40,6)
CAPÍTULO VIII
Mônica
Tu, que fazes morar na mesma casa os que têm coração unânime, trouxeste pra junto
de nós Evódio, jovem de nosso município que, militando como agente de negócios do
imperador, se convertera e recebera o batismo antes de nós, abandonara a milícia do
século, alistando-se na tua.
Estávamos juntos, e juntos pensávamos viver nosso santo propósito. Buscávamos um
lugar onde nos pudéssemos instalar mais comodamente para te servir e juntos
rumávamos para a África quando, chegando a Óstia, na foz do Tibre, faleceu minha mãe.
Muitas coisas passo em silêncio, porque tenho pressa. Recebe minhas confissões e
ações de graças, meu Deus, pelas inúmeras bondades que não menciono aqui. Mas não
quero calar o que brota de minha alma a respeito desta tua serva, que me gerou na
carne para a luz temporal, e no coração para a luz eterna. Não referirei suas qualidades,
nem a si mesma se havia educado.
Foste tu quem a educaste, nem seu pai, nem sua mãe sabiam o que viriam a ser
aquela a quem geraram. A disciplina de teu Cristo, a doutrina de teu Filho único
educaram-na em teu temor em uma família fiel, digno membro de tua Igreja.
Nem ela mesma enaltecia o zelo da mãe em educá-la, quanto o de uma velha serva,
que carregara seu pai quando menino, como hoje as meninas maiores costumam
carregar as crianças, às costas.
Estas recordações, sua idade avançada e hábitos exemplares lhe asseguravam
naquela casa cristã o respeito de seus amos. Ela própria cuidava solicitamente das
meninas que lhe haviam sido confiadas, ora repreendendo-as quando fosse o caso, com
santa e enérgica severidade, ora instruindo-as com discreta prudência. Afora do horário
em que tomavam uma sóbria refeição à mesa de seus pais, ainda que tivessem muita
sede, nem água permitia que elas bebessem, precavendo com isso um mau costume. E
acrescentava este sábio aviso: "Agora bebeis água, porque não tendes como beber
vinho; mas quando estiverdes casadas, donas da despensa e da adega, deixareis a água,
mas continuará o hábito de beber".
E unindo assim o conselho à autoridade, refreava os apetites daquela tenra idade, e
acostumava aquelas jovens à temperança, para que não tivesse desejo do que não lhes
convinha.
No entanto – como tua serva me contou a mim, seu filho – insinuou-se nela certo
gosto pelo vinho. Julgando-a menina sóbria, seus pais a escolheram, como era costume,
para tirar o vinho do tonel. Mergulhava a caneca pela parte superior do recipiente e,
antes de passar o vinho para a garrafa, sorvia com a ponta dos lábios um pouquinho;
era-lhe impossível beber mais, porque o vinho lhe repugnava. Não fazia isto movida pela
inclinação à embriaguez, mas pela exuberância juvenil, que se manifestava em
movimentos, em brincadeiras, e que na meninice costumam ser reprimidos pela
autoridade severa dos mais velhos. Mas, acrescentando todos os dias uns goles àqueles
goles – pois quem descuida das coisas pequenas pouco a pouco cai nas maiores –
acostumou-se a esvaziar avidamente copos quase cheios de vinho puro.
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Onde estava então a prudente anciã, e sua severa proibição? Mas que remédio curaria
um mal oculto se tua medicina, Senhor, não velasse sobre nós? Na ausência do pai, da
mãe e das amas, estavas lá tu que nos criaste, que nos chamas, e que por meio dos que
nos educam fazes o bem para a salvação das almas. Que fizeste então, meu Deus? Como
a socorreste? Como a curaste? Fizeste sair de outra pessoa, segundo tuas secretas
providências, um sarcasmo duro e pungente como ferro medicinal, para curar de um só
golpe aquela gangrena.
A criada que costumava acompanhá-la à adega, discutindo com sua jovem senhora,
como às vezes acontece, estando as duas a sós, lançou-lhe em rosto sua intemperança,
chamando-a insultuosamente de bêbada. Ferida por esse sarcasmo, a jovem reconheceu
a fealdade daquele hábito, reprovou-o, e no mesmo instante o abandonou.
Assim como muitas vezes as lisonjas dos amigos nos pervertem, assim os insultos dos
inimigos nos corrigem. Mas não é o bem que nos fazem por seu intermédio que retribuis,
mas a intenção com que o fazem. Aquela criada zangada pretendia ofender sua jovem
senhora, e não corrigi-la; e se o fez às escondidas foi só por força da circunstância do
lugar e tempo, ou para que não viesse a sofrer por denunciar tão tarde o costume de sua
senhora.
Mas, tu, Senhor, governador do céu e da terra, que desvias para teus desígnios as
águas da torrente e regulas o curso turbulento dos séculos, curaste a loucura de uma
alma com a insânia de outra. Por isso ninguém, ao considerar o caso, atribua a seu poder
pessoal o mérito de ter corrigido com suas palavras a alguém cuja emenda deseja
conseguir.
CAPÍTULO IX
Esposa e mãe exemplar
Educada assim na modéstia e na temperança, mais sujeita a seus pais pela tua mão
que por seus pais a ti, logo que chegou à idade núbil, foi dada em matrimônio a um
homem, a quem serviu como a senhor. Procurou conquistá-lo para ti, falando-lhe de ti
com suas virtudes, com as quais tu a tornavas bela e reverentemente amável e
admirável ante seus olhos. Suportou suas infidelidades conjugais com tanta paciência,
que jamais teve com ele a menor briga por isso, pois esperava que tua misericórdia viria
sobre ele, e que lhe trouxesse, com a fé, a castidade.
Seu marido, se de um lado era sumamente afetuoso, por outro era extremamente
colérico, mas ela tinha o cuidado de não contrariá-lo nem com ações, nem com palavras,
se o visse irado.
Logo que o via calmo e sossegado, oportunamente, mostrava-lhe o que havia feito, se
por acaso se tivesse irritado desmedidamente.
Muitas senhoras, embora tendo maridos mais calmos, traziam no rosto as marcas das
pancadas que as desfiguravam. Conversando entre amigas, lamentavam a conduta dos
maridos.
Minha mãe reprovava-lhes a língua e, como por gracejo, lembrava-lhes que, desde a
leitura do contrato matrimonial, deviam considerá-lo como documento que as tornava
servas, e portanto proibia-lhes de serem altivas com seus senhores. Essas senhoras, que
conheciam o mau gênio de seu marido, admiravam-se de que jamais ninguém tivesse
ouvido ou percebido qualquer indício que Patrício maltratasse a mulher, nem sequer que
algum dia tivessem brigado por questões domésticas. E como lhe pedissem
confidencialmente a razão disso, minha mãe expunha-lhes seu agir habitual, como acima
mencionei. Algumas, após experimentar, punham-no em prática e davam-lhe graças; as
que não a imitavam continuavam a sofrer humilhações e violências.
Sua sogra, a princípio irritara-se contra ela por causa dos mexericos de criadas
malévolas.
Mas conseguiu conquistá-la com respeito, contínua tolerância e mansidão, que ela
mesma, espontaneamente, denunciou ao filho as línguas intrigantes das criadas, que
perturbavam a paz doméstica entre ela e a nora, e pediu que as castigasse. Ele, em
obediência à mãe, para manter a disciplina familiar e a harmonia entre os seus, mandou
açoitar as acusadas, segundo a vontade da acusante; e esta prometeu-lhes ainda que
esse era o prêmio que devia esperar quem, querendo agradá-la, lhe dissesse mal da
nora. E ninguém mais se atreveu a fazê-lo, e viveram as duas em doce e memorável
harmonia.
A esta tua boa serva, em cujo seio me criaste, ó meu deus, minha misericórdia,
dotaste de outra grande virtude: a de intervir como pacificadora, sempre que podia, nas
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discórdias e querelas. Daquilo que ouvia de queixas amargas, vomitadas com
animosidade ressentida, quando na presença de uma amiga os ódios mal digeridos se
desafogam em amargas confidencias a respeito de uma amiga ausente, ela nada referia
uma à outra, senão o que poderia servir para a reconciliação.
Este dom me pareceria de pouca monta se uma triste experiência não me houvesse
mostrado grande número de pessoas – por não sei que horrível contagio de pecados,
espalhados por toda parte – que não só revelam as palavras pesadas de inimigos irados,
mas que ainda acrescentam coisas que não foram ditas. Quem fosse realmente humano,
deveria ter em pouca conta ou não excitar nem fomentar as inimizades dos homens, e
melhor ainda procurar extingui-las com boas palavras.
Assim era minha mãe, ensinada por ti, mestre interior, na escola de seu coração.
Por fim, conquistou para ti o seu marido, já no fim da vida, não tendo que lamentar no
cristão o que havia tolerado no infiel.
Ela era verdadeiramente a serva de teus servos, e todos os que a conheciam te
louvavam, honravam, te amavam em sua pessoa, porque percebiam tua presença em
seu coração, confirmada pelos frutos de uma vida santa.
Havia sido mulher de um só homem, cumprira sua dívida de gratidão com os pais,
governara sua casa piedosamente e dava testemunho com suas boas obras. Educara os
filhos, dando-os à luz tantas vezes quantas os via apartarem-se de ti.
E de nós, que nos chamamos teus servos por liberalidade tua, nós que vivemos em
comum na graça de teu batismo, antes de adormecer em tua paz, ela cuidou de nós
como se todos fôssemos seus filhos, e de tal modo nos serviu como se fosse filha de
cada um de nós.
CAPÍTULO X
O êxtase de Óstia
Estando já próximo o dia em que teria de partir desta vida – que tu, Senhor,
conhecias, e nós ignorávamos – sucedeu, creio, por disposição de teus ocultos desígnios
– que nos encontrássemos sós, eu e ela, apoiados em uma janela que dava para o jardim
interior da casa em que morávamos. Era em Óstia, sobre a foz do Tibre, onde, longe da
multidão, depois do cansaço de uma longa viagem, recobrávamos forças para a travessia
do mar.
Ali, sozinhos, conversávamos com grande doçura, esquecendo o passado, ocupados
apenas no futuro, indagávamos juntos, na presença da Verdade, que és tu, qual seria a
vida eterna dos santos, que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o
coração do homem pode conceber. Abríamos ansiosos os lábios de nosso coração ao
jorro celeste de tua fonte – da fonte da vida que está em ti – para que, banhados por
ela, pudéssemos de algum modo meditar sobre coisa tão transcendente.
Nossa conversa chegou à conclusão que nenhum prazer dos sentidos carnais, por
maior que seja, e por mais brilhante e maior que seja a luz material que o cerca, não
parece digno de ser comparado à felicidade daquela vida em ti. Elevando nosso
sentimento para mais alto, mais ardentemente em direção ao próprio Ser, percorremos
uma a uma todas as coisas corporais, até o próprio céu, de onde o sol, a luz e as estrelas
iluminam a terra.
E subimos ainda mais em espírito, meditando, celebrando e admirando tuas obras, e
chegamos até o íntimo de nossas almas. E fomos além delas, para alcançar a região da
abundância inesgotável, onde apascentas eternamente a Israel com o alimento da
verdade, lá onde a vida é a própria Sabedoria, por quem foram criadas todas as coisas,
as que já existem e as vindouras, sem que ela própria se crie a si mesma, pois existe
agora como antes existiu e como sempre existirá. Antes, nela não há nem passado, nem
futuro: ela apenas é, porque é eterna; mas ter sido ou haver de ser não é próprio do ser
eterno.
E enquanto assim falávamos dessa Sabedoria e por ela suspirávamos, chegamos a
tocá-la momentaneamente com supremo ímpeto de nosso coração; e, suspirando,
deixando ali atadas as primícias de nosso espírito, e voltamos ao ruído vazio de nossos
lábios, onde nasce e morre a palavra humana, em nada semelhante a teu Verbo, Senhor
nosso, que subsiste em si sem envelhecer, renovando todas as coisas! E dizíamos:
Suponhamos que se calasse o tumulto da carne, as imagens da terra, da água, do ar e
até dos céus; e que a própria alma se calasse, e se elevasse sobre si mesma não
pensando mais em si; se calassem os sonhos e revelações imaginarias e, por fim, se
calasse por completo toda língua, todo sinal, e tudo o que é fugaz – uma vez que todas
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as coisas dizem a quem sabe ouvi-las: Não fizemos a nós mesmas; fez-nos o que
permanece eternamente – se, dito isto, todas se calassem, atentas a seu Criador; e se só
ele falasse, não por suas obras, mas por si mesmo, de modo que ouvíssemos sua
palavra, não por uma língua material, nem pela voz de um anjo, nem pelo ruído do
trovão, nem por parábolas enigmáticas, mas o ouvíssemos a ele mesmo, a quem
amamos nas suas criaturas, mas sem o intermédio delas, como agora acabamos de
experimentar, atingindo em um relance a eterna Sabedoria, que permanece imutável
sobre toda realidade, e supondo que essa visão se prolongasse, que todas as outras
visões cessassem, e unicamente esta arrebatasse a alma de seu contemplador, e a
absorvesse e abismasse em íntimas delícias, de modo que a vida eterna seja semelhante
a este momento de intuição que nos fez suspirar, não seria isto a realização do entrar em
gozo de teu Senhor? Mas quando se dará isto? Por acaso quando todos ressuscitarmos?
Mas então não seremos todos transformados?
Tais coisas dizíamos, embora não deste modo, nem com estas palavras. Mas tu sabes,
Senhor, que naquele dia, à medida que falávamos dessas coisas, quanto nos parecia vil
este mundo, com todos os seus deleites – disse-me minha mãe: "Filho, quanto a mim, já
nada me atrai nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem por que ainda estou aqui,
se já se desvaneceram pra mim todas as esperanças do mundo. Uma só coisa me fazia
desejar viver um pouco mais, e era ver-te católico antes de morrer. Deus me concedeu
esta graça superabundantemente, pois te vejo desprezar a felicidade terrena para servilo.
Que faço, pois, aqui?"
CAPÍTULO XI
A morte de Mônica
Não me lembro bem o que respondi a tais palavras. Mas cerca de cinco dias mais
tarde, ou pouco mais, caiu de cama, com febre. Durante a doença, teve um dia um
desmaio, ficando por pouco tempo sem sentidos e sem reconhecer os presentes.
Acudimos de imediato, e logo voltou a si. Vendo-nos a seu lado, a mim e a meu irmão
(chamava-se Navígio, e era o mais velho dos irmãos), perguntou-nos, como quem
procura algo: "Onde estava eu?" – Depois, vendo-nos atônitos de tristeza, nos disse:
"Sepultareis aqui a vossa mãe" – Eu me calava, retendo as lágrimas, mas meu irmão
disse umas palavras em que desejava vê-la morrer na pátria e não em terras distantes.
Ao ouvi-lo, minha mãe repreendeu-o com o olhar, e aflita por ter pensado em tais coisas;
depois, olhando para mim, disse: "Vê o que ele diz" – E depois para ambos: "Sepultem
este corpo em qualquer lugar, e não se preocupem mais com ele. Peço apenas que se
lembrem de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejam". E tendo-nos
exposto seu pensamento com as palavras que pôde, calou-se; sua moléstia agravou-se e
suas dores aumentaram.
Mas eu, ó Deus invisível, meditando nos dons que infundes no coração de teus fiéis, e
nas admiráveis colheitas que deles brotam, alegrava-me e te dava graças. Lembrava-me
do grande cuidado que sempre demonstrara acerca de sua sepultura, adquirida e
preparada junto ao corpo do marido. Tendo vivido com ele na maior concórdia, assim
também queria – visão própria da alma humana incapaz das coisas divinas – ter a
felicidade de que os homens recordassem que, depois de sua viagem para além-mar, lhe
fora concedida a graça de a mesma terra cobrir o pó de ambos os cônjuges.
Quando esta vaidade havia deixado de existir em seu coração, pela plenitude de tua
bondade, eu não o sabia, mas alegrava-me com admiração ao ouvi-la falar assim. No
entanto, naquela conversa à janela quando me disse: "Que faço eu aqui?" – já estava
patente que não mais desejava morrer na pátria.
Soube também depois que em Óstia, estando eu ausente, falou certo dia com alguns
amigos meus, com maternal confiança, sobre o desprezo desta vida e o benefício da
morte. Eles, maravilhados da coragem dessa mulher – dádiva tua – perguntaram-lhe se
não temia deixar o corpo tão longe da pátria. "Nada está longe para Deus – disse ela –
nem preciso temer que ele ignore, no fim dos tempos, o lugar onde me ressuscitará".
Por fim, nove dias após cair enferma, aos cinqüenta e seis anos de idade e aos trinta e
três da minha, aquela alma santa e piedosa libertou-se do corpo.
CAPÍTULO XII
As lágrimas negadas
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Fechei-lhe os olhos, e uma tristeza imensa invadiu-me o coração, e já me ia desfazer
em lágrimas; ao mesmo tempo, meus olhos, obedecendo ao enérgico poder de minha
vontade, fechavam sua fonte até secá-la. Como foi angustiosa essa luta! E foi quando ela
deu o último suspiro, que o meu filho Adeodato rebentou em soluços; mas, instado por
todos nós, se calou.
Deste modo sua voz juvenil, voz do coração, calou em mim essa espécie de emoção
pueril que me provocava o pranto. De fato, não julgávamos correto celebrar aquele
funeral com lágrimas e choro, pois tais demonstrações deploram geralmente o triste
destino dos que morrem, ou sua total extinção. A morte de minha mãe não era uma
desgraça, e ela não morria para sempre, e disto estávamos certos pelo testemunho de
seus costumes, por sua fé sincera e outras razões inequívocas.
Que era então o que tanto me pungia, senão a ferida recente causada pelo
rompimento repentino de nosso dulcíssimo e querido convívio?
Era para mim grande consolação o testemunho que dera de mim, quando nesta última
enfermidade, respondendo com ternura às minhas atenções, chamava-me de bom filho,
e recordava com grande afeto o nunca ter ouvido de minha boca uma só palavra dura ou
injuriosa contra ela. Entretanto, o que era, meu Deus e meu Criador, a solicitude que eu
lhe tributava, em comparação com o devotamento servil que por mim suportava? Por me
ver privado de tão grande consolo, sentia a alma ferida e minha vida, que era uma só
com sua, estava despedaçada.
Reprimido o pranto do Adeodato, Evódio tomou o saltério e começou a cantar um
salmo, ao que todos respondíamos "Misericórdia e justiça te cantarei Senhor". Conhecia a
notícia de sua morte, acorreram muitos irmãos e mulheres piedosas e, enquanto os
encarregados dos funerais faziam seu ofício conforme o hábito, retirei-me para um lugar
conveniente, junto com os amigos que julgavam oportuno não me deixar só. Falava
sobre assuntos próprios das circunstâncias, e com o lenitivo da verdade mitigava meu
sofrimento, só conhecido por ti. Eles o ignoravam e me ouviam atentamente, julgando
que não sofria nenhuma dor.
Mas eu, pertinho de teus ouvidos, onde ninguém me podia escutar, censurava a minha
sensibilidade e fraqueza e reprimia a onda de tristeza que me invadia; esta cedia por uns
instantes, e novamente me arrastava com seu ímpeto, embora não chegasse a derramar
lágrimas ou alterar a face. Somente eu sabia quão oprimido estava meu coração! E como
me desgostava profundamente que as vicissitudes humanas tivessem tanto poder sobre
mim, que são inelutáveis pela ordem natural e a sorte de nossa condição; minha própria
dor causava-me outra dor, e me afligia com dupla tristeza.
Quando o corpo foi levado à sepultura, fui e voltei sem derramar uma lagrima. Nem
mesmo nas orações que te fizemos, quando oferecemos o sacrifício de nossa redenção
por intenção da morta, cujo cadáver jazia junto ao sepulcro antes de ser inumado, como
ali é costume, nem mesmo nessas orações, chorei. Mas durante todo o dia andei
oprimido por grande tristeza interior; pedia-te como podia, com a mente perturbada, que
aliviasses minha dor. Mas não me atendias, sem dúvida para que fixasse, bem na
memória, ao menos por esta única experiência, como são poderosos os laços do
costume, mesmo em uma alma que já não se alimentava de palavras enganadoras.
Lembrei então a ir aos banhos, por ter ouvido dizer que a palavra banho (bálneo, em
latim) vinha dos gregos, que o chamaram balanéion (tirar fora a ania), porque o banho
aliviava as tristezas da alma. Mas eu o confesso à tua misericórdia – ó Pai dos órfãos:
depois do banho fiquei como estava antes, porque meu coração não expulsou o amargor
de sua tristeza.
Depois adormeci. Ao despertar, minha dor estava mitigada; só, em meu leito, lembreime
dos versos cheios de verdade de teu Ambrósio. Porque, na verdade Tu és Deus,
criador de quanto existe, De todo o mundo supremo governante, Que o dia vestes com
tua luz brilhante, E de sonhos gratos a noite triste A fim de que os membros cansados O
descanso ao trabalho prepare E as mentes cansadas, repare E os peitos de pena
oprimidos Depois, pouco a pouco voltava aos sentimentos de antes sobre tua serva.
Recordava de sua piedade para contigo, de sua solicitude e paciência comigo, da qual
subitamente me via privado. E senti consolação em chorar diante de ti, por causa dela e
por ela, e por minha causa e por mim. E deixei que as lágrimas reprimidas corressem à
vontade, estendendo-as como um leito reparador sob meu coração. Teus ouvidos eram
os que ali me escutavam, e não os de nenhum homem, que pudesse interpretar com
soberba meu pranto.
E agora, Senhor, to confesso nestas linhas: leia-o quem quiser, interprete-o como
quiser. E se alguém julgar que pequei nessas lágrimas, que derramei sobre minha mãe
por alguns instantes, por minha mãe então morta a meus olhos, ela que me havia
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chorado tantos anos para que eu vivesse aos teus olhos, não se ria. Antes, é grande sua
caridade, chore por meus pecados diante de ti, Pai de todos os irmãos de teu Cristo!
CAPÍTULO XIII
Preces pela mãe morta
Agora, com a ferida do meu coração já sanada, na qual se podia censurar um afeto
muito carnal, derramo diante de ti, meu Deus, por tua serva, outra espécie de lágrimas,
bem diferentes, aquelas que brotam do espírito comovido à vista dos perigos que corre
toda alma que morre em Adão. É verdade que minha mãe, vivificada em Cristo, antes
mesmo de ser livre dos laços da carne, viveu de tal modo, que teu nome era louvado em
sua fé e em seus costumes. Contudo, não me atrevo a dizer que desde que a
regeneraste no batismo não saiu de sua boca nenhuma palavra contrária à tua lei.
Porque a Verdade, que é teu Filho, disse: "Quem chamar a seu irmão de louco será réu
do fogo da geena". Ai da vida dos homens, por mais louvável que seja, se tu a julgares
sem a tua misericórdia! Mas porque não examinas nossos pecados com rigor,
confiadamente esperamos tomar lugar a teu lado. Quem enumera diante de ti seus
próprios méritos, que mais expõe senão teus dons? Oh! Se os homens se reconhecessem
como homens! Se quem se glorifica se glorificasse no Senhor! Por isso, Deus de meu
coração, minha vida e minha gloria, esquecendo por um momento as boas ações de
minha mãe, pelas quais te dou graças com alegria, peço-te agora perdão por seus
pecados. Ouve-me pelos méritos daquele que é o médico de nossas feridas, que foi
suspenso do madeiro da cruz e que, sentado agora à tua direita, intercede por nós junto
a ti. Eu sei que ela sempre agiu com misericórdia, e que perdoou de coração todas as
faltas contra ela cometidas; perdoa-lhe também suas dívidas, se algumas contraiu em
tantos anos que se seguiram ao batismo. Perdoa-lhe, Senhor, perdoa-lhe, te suplico, e
não entres em juízo com ela.
Triunfe a misericórdia sobre a justiça pois as tuas são palavras de verdade, e
prometeste misericórdia aos misericordiosos. Se alguém o foi, deve-o à tua graça, tu que
tens compaixão de quem te apraz, e usas de misericórdia com quem queres ser
misericordioso.
Creio que já fizeste o que te suplico, mas desejo, Senhor, que acolhas os desejos de
minha boca. Estando iminente o dia de sua morte, ela não desejou sepultar o corpo com
grande pompa, ou que fosse embalsamado com preciosos aromas, nem desejou um rico
monumento, nem se preocupou em tê-lo na pátria. Nada disto nos pediu, mas desejou
apenas que nos lembrássemos dela ante do teu altar, onde servira todos os dias de sua
vida, sabendo que nele se oferece a vítima santa, com cujo sangue se destrói o libelo de
nossa condenação, e pelo qual vencemos o inimigo que conta nossas faltas e procura
com que nos acusar, nada achando naquele que é nossa vitória.
Quem poderá devolver-lhe seu sangue inocente? Quem poderá restituir-lhe o preço
pago por nosso resgate, para nos arrancar ao inimigo? A este mistério de nossa redenção
ligou tua serva sua alma com o vínculo da fé. que ninguém a afaste de tua proteção. Que
entre ela e ti não se interponha, nem pela força, nem pelo engano, o leão ou o dragão.
Ela não responderá que nada deve, para não ser convencida e arrebatada pelo astuto
acusador, responderá que suas dívidas lhe foram perdoadas por aquele a quem ninguém
pode restituir o que por nós pagou sem nada dever.
Que ela repouse em paz com seu marido, antes e depois do qual não teve outro; a
quem serviu, com uma paciência cujo fruto te oferecia, para o ganhar também para ti.
Mas inspira, meu Senhor e meu Deus, inspira a teus servos, meus irmãos, a teus filhos,
meus senhores, a quem sirvo de coração, com a palavra e com a pena, para que, ao
lerem estas páginas, diante do teu altar lembrem de Mônica, tua serva, e de Patrício,
outrora seu esposo, pelos quais me introduziste misteriosamente nesta vida. Que
lembrem com piedoso afeto daqueles que foram meus pais nesta vida transitória, e meus
irmãos em ti, ó Pai, na Igreja Católica, nossa mãe, e meus concidadãos na eterna
Jerusalém, pela qual suspira teu povo em sua peregrinação desde a saída até o regresso.
Assim, graças às minhas confissões, o último desejo de Mônica será mais amplamente
satisfeito com muitas orações do que só pelas minhas.
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LIVRO DÉCIMO
CAPÍTULO I
Finalidade do livro
Ó Deus, faz que eu te conheça, meu conhecedor, que eu te conheça como de ti sou
conhecido. Virtude de minha alma, penetra-a, assemelha-a a ti, para que a tenhas e
possuas sem mancha nem ruga.
Esta é a esperança com que falo, e nesta esperança me alegro, quando gozo de sã
alegria. Tudo o mais desta vida, tanto menos se há de chorar quanto mais o choramos, e
tanto mais teríamos que chorar quanto menos o choramos.
Mas tu amaste a verdade, porque quem a pratica alcança a luz. Eu desejo praticá-la
em meu coração, diante de ti, por esta minha confissão, e diante de muitas testemunhas
por meus escritos.
CAPÍTULO II
O que é confessar a Deus
E, para ti, Senhor, que conheces o abismo da consciência humana, que poderia haver
de oculto em mim, ainda que não to quisesse confessar?
Poderia apenas esconder-te de mim, e nunca me esconder de ti. Agora que meus
gemidos dão testemunho do desagrado que sinto por mim, tu me iluminas e me agradas,
e és amado e desejado a ponto de eu me envergonhar de mim renuncio a mim para te
escolher, e não quero agradar a ti ou a mim senão por teu amor.
Portanto, assim como sou, Senhor, tu me conheces. Já te disse com que escopo me
vou confessando a ti. Faço esta confissão não com palavras e vozes do corpo, mas com
as palavras da alma e o brado da inteligência, que teus ouvidos conhecem. Quando sou
mau, confessar-me ai é o mesmo que desprezar a mim próprio; quando sou bom, é
apenas nada atribuir a mim mesmo.
Porque tu, Senhor, abençoas o justo, mas antes tornas justo ao pecador.
Assim, meu Deus, a confissão que faço em tua presença, é e não é silenciosa; a boca
se cala, mas meu coração clama. Tudo o que digo aos homens de verdadeiro já tinhas
ouvido de mim, e nem ouves nada de mim que antes não me tivesses dito.
CAPÍTULO III
Por que se confessar aos homens?
Que tenho eu que ver com os homens, para que me ouçam as confissões, como se
eles pudessem curar as minhas enfermidades? São curiosos para conhecer a vida alheia,
mas indolentes para corrigir a própria! Por que desejam ouvir de mim quem sou, quando
não se importam em saber de ti o que são? E como podem saber, ao me ouvirem falar de
mim mesmo, se lhes digo a verdade, uma vez que homem algum sabe o que se passa no
outro, senão o espírito do homem, que nele, habita? Mas, se ouvissem a ti falar deles,
não poderiam dizer: "O Senhor mente". E o que é ouvir-te falar de si, senão
conhecerem-se a si mesmos? E quem, conhecendo a si mesmo, pode dizer "é falso", sem
mentir?
A caridade crê em tudo – pelo menos entre corações que ela unifica em si por seus
laços – por isso também eu, Senhor, me confesso a ti para que me ouçam os homens. A
eles não posso provar que falo a verdade; mas crêem-me aqueles cujos ouvidos a
caridade abre para mim.
Mas tu, Médico da minha alma, faze-me ver claramente a utilidade de meu propósito.
As confissões de meus pecados passados – que já perdoaste e esqueceste, para me fazer
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feliz em ti, transformando minha alma com tua fé e teu sacramento – levam o coração
dos que as lêem e ouvem a não dormir no desespero dizendo: "Não posso". Mas
despertem para o amor pela tua misericórdia e para a doçura de tua graça, que fortalece
o fraco e este se dá conta de sua debilidade.
Os bons, por sua vez, se agradam em ouvir os pecados passados daqueles que já não
sofrem. Agrada-lhes, não por serem pecados, mas porque o foram, e agora já não o são.
Mas, Senhor meu – a quem todos os dias se confessa minha consciência, agora mais
confiante com a esperança na tua misericórdia que na sua inocência – que proveito
haverá em confessar aos homens, na tua presença, neste livro, não o que fui, mas o que
sou agora? Sobre a confissão do passado, e dos seus eventuais proveitos, já falei acima.
Há muitos porém, quer me conheçam, quer não, que desejam saber quem sou agora,
neste momento em que escrevo as Confissões. Já ouviram de mim ou de outros alguma
coisa a meu respeito, mas seu ouvido não ouve meu coração, onde eu sou o que sou.
Querem, certamente, saber por confissão minha o que sou no íntimo, lá onde não podem
penetrar com a vista, com o ouvido, ou com a mente. Estão dispostos a acreditar em
mim. Mas poderão igualmente estar certos de me conhecer? A caridade, que os torna
bons, lhes diz que eu não minto quando confesso tais coisas de mim. É ela que os faz
acreditarem em mim.
CAPÍTULO IV
O fruto das confissões
Mas, com que propósito desejam ouvir-me? Desejarão talvez congratular-me comigo,
ouvindo quanto me aproximei de ti por tua graça, e orar por mim, ao ouvir quanto me
retardou o peso de minhas culpas? A estes mostrarei quem sou; já não é pequeno fruto,
Senhor meu Deus, que muitos te dêem graças por mim, e que muitos te roguem por
mim. possa o coração de meus irmãos amar em mim o que ensinas a amar, e, deplorar
em mim o que ensinas a aborrecer! Mas que brotem tais sentimentos em uma alma irmã,
e não em almas estranhas, ou nesses filhos espúrios, cuja boca fala vaidade, e cuja
direita é a direita da iniqüidade, que o faça uma alma fraterna que se alegra por mim
quando me aprova, e quando me reprova se aflige por mim, porque quer me aprove,
quer não, me ama.
É a esses que me revelarei. Que eles respirem diante de minhas boas ações, e
suspirem à vista de meus pecados. As obras boas são tuas obras e teus dons; as más
são meus pecados. As obras boas são tuas obras e teus dons; as más são meus pecados,
objeto de teus juízos.
Respirem pelo bem e suspirem pelo mal, e que subam à tua presença hinos e lágrimas
desses corações fraternos, que são os teus turíbulos.
E tu, Senhor, que te alegras com a fragrância de teu santo templo, tem piedade de
mim, segundo tua grande misericórdia por causa de teu nome, e tu, que jamais
abandonas uma obra começada, aperfeiçoa em mim o que há de incompleto.
Este poderá ser fruto de minhas confissões, não do que fui, mas do que sou. Farei
minha confissão não apenas a ti, com íntima alegria mesclada de temor, e com secreta
tristeza mesclada de esperança, mas também para os homens, que compartilham minha
alegria e de minha mortalidade, meus concidadãos e peregrinos como eu, quer os que
me precederam, como os que me seguem ou me acompanham no caminho da vida.
Estes são teus servos, meus irmãos, que tu quiseste fossem filhos teus e meus senhores,
e a quem me mandaste servir se quisesse viver contigo e de ti.
Mas este preceito teria sido de pouco valor para mim, se teu Verbo o tivesse proferido
apenas com palavras, e não tivesse mostrado o caminho com a obra. Eis que eu o imito
pela ação e pela palavras, e o faço à sombra de tuas asas, o perigo seria grande demais,
se minha alma aí não se abrigasse, e se minha fraqueza não te fosse conhecida.
Sou como uma criança, mas meu Pai vive sempre, e é meu tutor idôneo; ele é a um
tempo o que me gerou e o que me protege. Tu és todo o meu bem, tu, onipotente, que
estás comigo mesmo antes de eu estar contigo.
Revelarei pois, a estes, a quem me mandas servir, não como fui, mas como já sou
agora, e como ainda não sou. Mas não quero julgar-me a mim mesmo. Assim é que peço
para ser ouvido.
CAPÍTULO V
A ignorância do homem
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És tu, Senhor, quem me julga, porque ninguém conhece o que se passa no homem, a
não ser o seu espírito que nele está, todavia há no homem coisas que até o espírito que
nele habita ignora. Mas tu, Senhor, que o criaste, conheces todas as coisas. E eu,
embora diante de ti me despreze e me considere como terra e cinza, sei algo de ti que
ignoro de mim mesmo. É certo que agora vemos por espelho, em enigmas, e não face a
face. Por isso, enquanto peregrino longe de ti, estou mais presente a mim do que a ti.
Sei que em nada podes ser prejudicado, mas ignoro a que tentações posso resistir e a
quais não posso. Todavia há esperança, pois és fiel, e não permites que sejamos
tentados além de nossas forças; com a tentação, dás também meios para suportar, para
que possamos resistir.
Confessarei, portanto, o que sei de mim, e também o que de mim ignoro, porque o
que sei de mim só o sei porque me iluminas, e o que de mim ignoro continuarei
ignorando até que minhas trevas se transformem em meio-dia, em tua presença.
CAPÍTULO VI
Quem é Deus?
O que sei, Senhor, sem sombra de dúvida, é que te amo. Feriste meu coração com tua
palavra, e te amei. O céu, a terra e tudo quanto neles existe, de todas as partes me
dizem que te ame; nem cessam de repeti-lo a todos os homens, para que não tenham
desculpas. Terás compaixão mais profunda de quem já te compadeceste; e usarás de
misericórdia com quem já foste misericordioso. De outro modo, o céu e a terra cantariam
teus louvores a surdos.
Mas, que amo eu, quando te amo? Não amo a beleza do corpo, nem o esplendor
fugaz, nem a claridade da luz, tão cara a estes meus olhos, nem as doces melodias das
mais diversas canções, nem a fragrância de flores, de ungüentos e de aromas, nem o
maná, nem o mel, nem os membros tão afeitos aos amplexos da carne. Nada disto amo
quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento,
um abraço de meu homem interior, onde brilha para minha alma uma luz sem limites,
onde ressoam melodias que o tempo não arrebata, onde exalam perfumes que o vento
não dissipa, onde se provam iguarias que o apetite não diminui, onde se sentem abraços
que a saciedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus! Então, o que é
Deus? Perguntei à terra, e ela me disse: "Eu não sou Deus". E tudo o que nela existe me
respondeu o mesmo. Perguntei ao mar, aos abismos e aos répteis viventes, e eles me
responderam: "Não somos teu Deus; busca-o acima de nós". Perguntei aos ventos que
sopram; e todo o ar, com seus habitantes, me disse: "Anaxímenes está enganado eu não
sou Deus". Perguntei ao céu, ao sol, à luz e às estrelas. "Tampouco somos o Deus a
quem procuras"
– me responderam.
Disse então à todas as coisas que meu corpo percebe: "Dizei-me algo de meu Deus, já
que não sois Deus; dizei-me alguma coisa dele" – e todas exclamaram em coro: "Ele nos
criou" – Minha pergunta era meu olhar, e sua resposta a sua beleza.
Dirigi-me, então, a mim mesmo, e perguntei: "E tu, quem és?" – e respondi: "Um
homem".
Para me servirem, tenho um corpo e uma alma: aquele exterior, esta interior. Por qual
deles deverei perguntar pelo meu Deus, a quem já havia procurado com o corpo desde a
terra até o céu, até onde pude enviar os raios de meu olhar como mensageiros? Melhor,
sem dúvida, é a parte interior de mim mesmo. É a ela que dirigem suas respostas todos
os mensageiros de meu corpo, como a um presidente ou juiz, respostas do céu, da terra,
e de tudo o que existe, e que proclamam: "Não somos Deus" – e ainda – "Ele nos criou".
O homem interior conhece essas coisas por meio do homem exterior; mas o homem
interior, que é a alma, também conhece essas coisas por meio dos sentidos do corpo.
Interroguei a imensidão do universo acerca de meu Deus, e ele me respondeu: "Não
sou eu, mas foi ele quem me criou".
Mas essa beleza não se manifesta a quantos têm sentidos perfeitos? E por que não
fala a todos a mesma linguagem?
Os animais, pequenos ou grandes, a vêem; mas não podem interrogá-la, porque não
receberam a razão que, como juiz, interprete as mensagens dos sentidos. Os homens,
porém, podem interrogá-la, para que as perfeições invisíveis de Deus se manifestem
pelas suas obras.
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Mas o amor às coisas criadas os escraviza, e assim os torna incapazes de julgá-las.
Ora, elas só respondem aos que podem julgar-lhes as respostas. Elas não mudam sua
linguagem, isto é, sua beleza, quando um só as vê, e outro as interroga; elas não lhes
aparecem diferentes mas, para uns ficam mudas, enquanto falam a outros. Ou melhor:
eles falam a todos, mas apenas se entendem os que comparam sua expressão exterior
com a verdade interior. De fato a verdade me diz: "Teu Deus não é nem o céu, nem a
terra, nem corpo algum. A natureza das coisas o diz para quem sabe ver; a matéria é
menor em seus elementos que em seu todo. Por isso, minha alma, digo-te que és
superior ao corpo, pois vivificas sua matéria, dando-lhe vida, como nenhum corpo pode
dar a outro corpo. Mas teu Deus é também para ti a vida de tua vida.
CAPÍTULO VII
Deus e os sentidos
Que amo, então, quando amo a meu Deus? Quem é aquele que está acima da minha
alma? É por minha alma; portanto, que subirei até ele. Hei de sobrepujar a força que me
ata ao corpo, e que enche meu organismo de vida, pois não encontro nela o meu Deus.
Se assim fosse, o cavalo e a mula, que não têm inteligência, também o encontrariam,
porque essa mesma força vivifica seus corpos.
E existe outra força, que não só vivifica, mas que também torna sensível minha carne
que o Senhor me deu, ordenando ao olho que não ouça, e ao ouvido que não veja, mas
àquele que sirva para ver, e a este para ouvir; e que determinou a cada um dos outros
sentidos o respectivo lugar e ofício. É deles que se serve minha alma para exercer suas
diversas funções, permanecendo, contudo, uma só.
Vencerei também essa força, que também a possuem o cavalo e a mula, pois também
eles sentem por meio do corpo.
CAPÍTULO VIII
O milagre da memória
Vencerei então esta força de minha natureza, subindo por degraus até meu Criador.
Chegarei assim diante dos campos, dos vastos palácios da memória, onde estão os
tesouros de inúmeras imagens trazidas por percepções de toda espécie. Lá também
estão armazenados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo,
ou até alterando de algum modo o que nossos sentidos apanharam, e tudo o que aí
depositamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido no esquecimento.
Quando ali penetro, convoco todas as lembranças que quero. Algumas se apresentam
de imediato, outras só após uma busca mais demorada, como se devessem ser extraídas
de receptáculos mais recônditos. Outras irrompem em turbilhão e, quando se procura
outra coisa, se interpõem como a dizer: "Não seremos nós que procuras?" Eu as afasto
com a mão do espírito da frente da memória, até que se esclareça o que quero, surgindo
do esconderijo para a vista.
Há imagens que acodem à mente facilmente e em seqüência ordenada à medida que
são chamadas, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se
apresentarem novamente quando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma
coisa de memória.
Ali se conservam também, distintas em espécies, as sensações que aí penetraram
cada qual por sua porta: a luz, as cores, as formas dos corpos, pelos olhos; toda espécie
de sons, pelos ouvidos; todos os odores, pelas narinas; todos os sabores, pela boca;
enfim, pelo tato de todo o corpo, o duro e o brando, o quente e o frio, o suave e o
áspero, o pesado e o leve, quer extrínseco, como intrínseco ao corpo. A memória
armazena tudo isso em seus vastos recessos, em suas secretas e inefáveis sinuosidades,
para lembrá-lo e trazê-lo à luz conforme a necessidade. Todas essas imagens entram na
memória por suas respectivas portas, sendo ali armazenadas.
Todavia, não são as coisas em si que entram na memória, mas as imagens das coisas
sensíveis, que ali ficam à disposição do pensamento que as evoca. Mas quem poderá
explicar como se formaram tais imagens, apesar de se conhecer o sentido pelo qual
foram captadas e escondidas em seu íntimo? Pois, mesmo quando estou em silêncio e no
escuro, imagino, se quiser, as cores, e sei distinguir o branco do preto, e todas as outras
entre si; e isto sem que os sons, mesmo os lembrados, perturbem minhas imagens
visuais, e permanecem como que a parte.
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Se decido chamá-los, eles se apresentam imediatamente. Mesmo quando minha
língua descansa e minha garganta se cala, canto quanto quero, sem que as imagens das
cores, também presentes, se interponham ou perturbem enquanto me sirvo do tesouro
que me entrou pelos ouvidos.
Do mesmo modo as demais impressões, introduzidas e armazenadas em mim por
meio dos outros sentidos, posso recordar a meu talante; distingo o aroma dos lírios do
das violetas, sem cheirar nenhuma flor; e sem provar nem tocar em nada, mas apenas
com a lembrança, posso preferir o mel ao arroz fervido e o macio ao áspero.
Tudo isto realizo interiormente, no imenso palácio da memória. Ali eu tenho às minhas
ordens o céu, a terra, o mar, com tudo o que neles pude perceber, com exceção do que
já me esqueci. Ali encontro a mim mesmo, recordo de mim e de minhas ações, de seu
tempo e lugar, e dos sentimentos que me dominavam ao praticá-las. Ali encontro a mim
mesmo, recordo de mim e de minhas ações, de seu tempo e lugar, e dos sentimentos
que me dominavam ao praticá-las. Ali estão todas as lembranças do que aprendi, quer
pelo testemunho alheio, quer pela experiência.
Deste mesmo manancial provém as analogias entre fatos de minhas experiências
pessoais, ou em que acreditei baseado nas experiências previas; ligo umas e outras ao
passado, e medito no futuro, nas ações, nos acontecimentos, nas esperanças, e tudo
como se estivesse presente.
"Farei isto ou aquilo" – digo para mim, nesse vasto universo de minha alma, repleto
de imagens de tantas e tão grandes coisas. E disso tiro esta ou aquela conclusão. "Oh!
Se acontecesse isto ou aquilo!" "Queira Deus não aconteça isto ou aquilo!" isto digo em
meu íntimo, e nisso visualizando as imagens das realidades que exprimo, saídas do
mesmo tesouro da memória; sem elas, nada poderia dizer.
Grande é realmente o poder da memória, prodigiosamente grande, meu Deus! É um
santuário amplo e infinito. Quem o pôde sondar até suas profundezas? É um poder
próprio de meu espírito, que pertence à minha natureza; mas eu não sou capaz de
compreender inteiramente o que sou. Será o espírito demasiado estreito para se conter a
si mesmo? Onde, então, está o que ele não pode conter de si? Estaria fora dele, e não
nele? Como então não o contém?
Esta idéia me provoca grande admiração, e me enche de espanto. Viajam os homens
para admirar as alturas dos montes, as grandes ondas do mar, as largas correntes dos
rios, a imensidão do oceano, a órbita dos astros, e se esquecem de si mesmos! Nem se
admiram que eu fale dessas coisas sem vê-las com os olhos; contudo, eu não as poderia
mencionar se esses montes, se essas ondas, esses rios, esses astros, que eu vi, se esse
oceano, no qual acredito pelo testemunho alheio, eu não os visse na memória em toda
sua dimensão, como se estivessem diante de mim. mas quando eu os vi com meus
olhos, eu não os absorvi; não são as coisas que se encontram dentro de mim, mas
apenas suas imagens. E sei por qual sentido do corpo recebi a impressão de cada uma
delas.
CAPÍTULO IX
A memória intelectual
E não se limita a isto a imensa capacidade de minha memória. Ali estão, como em um
lugar recôndito, que alias, não é um lugar, todas as noções aprendidas das artes liberais,
pelo menos as que ainda não esqueci. Mas, neste caso, não são as imagens delas que
trago em mim, mas as próprias realidades em si. As noções de literatura, a dialética, as
diferentes espécies de questões, tudo o que sei a respeito desses problemas estão em
minha memória, mas não estão ali como a imagem solta de uma coisa, cuja realidade se
deixou fora. Nesse caso seria como um som que se ouve e passa, como a voz que deixa
no ouvido um rastro, que permite que a lembremos, como se ainda soasse embora já
não soe; ou como o perfume que, ao passar e desvanecer-se no ar, atinge o olfato e
grava sua imagem na memória, imagem que a lembrança reproduz; ou como o alimento,
que perde o sabor no estômago, mas o conserva na memória; ou como um corpo que se
sente pelo tato e que, ausente, é imaginado pela memória. Todas essas realidades não
nos penetram a memória, mas tão somente são captadas as suas imagens com
maravilhosa rapidez, e dispostas, digamos, em compartimentos admiráveis, de onde são
extraídas pelo milagre da lembrança.
CAPÍTULO X
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Memória dos sentidos
Ouço dizer que há três gêneros de questões a saber: se uma coisa existe, qual a sua
natureza e qual sua qualidade – retenho a imagem dos sons de que se compõem estas
palavras, e sei que estes atravessaram o ar como ruído, e já não existem. Mas as
realidades significadas por tais palavras, eu jamais atingi com nenhum sentido do corpo,
nem as vi em nenhuma parte fora de meu espírito; o que gravei na minha memória não
são suas imagens, mas as próprias realidades. Que me digam, se o puderem, por onde
entraram em mim! percorro em vão todas as portas do meu corpo, e não descubro por
onde poderiam ter entrado. Com efeito: os olhos dizem: "Se são coloridas, fomos nós
que as transmitimos." – Os ouvidos dizem: "Se eram sonoras, foram por nós
comunicadas". – As narinas dizem: "Se tinham cheiro, passaram por aqui". – E o gosto
diz: "Se não têm sabor, nada me perguntem". – O tato declara: "Se não são corpóreas,
eu não as toquei, e portanto não poderia revelá-las"
De onde, então, e por onde entraram em minha memória? Ignoro-o. Aprendi-as não
dando crédito ao testemunho alheio, mas as reconheci em mim e aprovei-as como
verdadeiras; confias a meu espírito como em depósito, de onde poderei tirá-las quando
quiser. Estavam pois ali, antes mesmo que eu as aprendesse, mas não na memória. E
onde estavam então? E porque, ao serem mencionadas, eu as reconheci e disse: "É
assim mesmo, é verdade" – senão porque já estavam em minha memória? Mas tão
escondidas e sepultadas em tão secretos recessos, que se alguém não as arrancasse dali
com suas perguntas, talvez eu nem pudesse concebê-las.
CAPÍTULO XI
Idéias inatas
Por isso descobrimos que adquirir tais noções – cujas imagens não atingimos por meio
dos sentidos mas que percebemos em nós, sem o auxílio de imagens, tais como são em
si mesmas, nada mais é do que coligir com o pensamento os elementos esparsos na
memória e, pela reflexão, obrigá-los a estarem sempre disponíveis à memória, onde
antes se ocultavam em desordem e abandono, de modo que se apresentem sem
dificuldade ao chamado do nosso espírito. E quantas noções deste tipo não encerra
minha memória, já descobertas e, como disse, postas como que à mão; eis o que
chamamos de "aprender" e "saber". Se porém deixo de as recordar por uns tempos, de
tal modo submergem e se dispersam em seus profundos esconderijos, que é preciso
reuni-las uma segunda vez, como se fossem novas (cogente) – pois não têm outra
habitação – e juntá-las de novo para que possam ser objeto do saber; isto é: preciso
tirá-las de sua condição de dispersão e juntá-las novamente. Daí a palavra cogitare,
porque cogo e cogito são como ago e agito, e facio, facito. Contudo, a inteligência
reivindicou essa palavra (cogito) para si, de modo que essa operação de coligir, de reunir
no espírito, e não em outra parte, é propriamente o que se chama pensar (cogitare).
CAPÍTULO XII
A memória e as matemáticas
A memória guarda também as relações e inumeráveis leis dos números e dimensões,
sendo que nenhuma dessas idéias foi impressa em nós pelos sentidos do corpo, porque
não têm cor, nem som, nem têm cheiro, nem gosto, nem são tangíveis. Ouço, quando
elas se fala, os sons das palavras que as exprimem; mas uma coisa são os sons, e outra
bem diferente são as idéias que elas significam. As palavras soam de modo diferente em
grego e em latim; mas as idéias nem são gregas, nem latinas, nem de nenhuma outra
língua.
Vi linhas traçadas por artistas, finas como um fio de aranha. Mas as linhas materiais
não são a imagem das que vi com meus olhos carnais. Para reconhecê-las não há
necessidade alguma de se pensar em um corpo qualquer, pois, é no espírito que as
reconhecemos.
Também conheci os números mediante os sentidos do corpo: mas a idéia de número é
bem diferente: não são imagens dos primeiros, possuindo por isso mesmo um ser muito
mais real.
Ria-se de mim quem não compreender o que disse; eu terei compaixão de seu riso.
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CAPÍTULO XIII
A memória da memória
Tudo isso eu guardo em minha memória, assim como o modo pelo qual o aprendi.
Também guardo na memória as muitas argumentações infundadas que ouvi contra
essas verdades. Essas objeções sem dúvida são falsas, mas não é falso recordá-las. E
lembro de ter sabido distinguir entre essas verdades e os erros que se lhe opunham.
Vejo agora que uma coisa é essa distinção, que faço hoje, e outra o recordar ter feito
muitas vezes tal distinção, ao considerá-las. Lembro-me, portanto, de ter muitas vezes
compreendido isso, e confio à memória o ato atual de distingui-las e compreendê-las,
para me lembrar, mais tarde, de que hoje as compreendi. Lembro-me então de que me
lembrei; e se mais tarde lembrar de que agora pude recordar essas coisas, será ainda
por força da memória.
CAPÍTULO XIV
A lembrança dos sentimentos
Essa mesma memória conserva também os afetos da alma, não do modo como os
sente a alma quando da vivencia, mas de modo muito diverso, segundo o exige a força
da memória.
Lembro-me de ter estado alegre, ainda que não o esteja agora; recordo minha tristeza
passada, sem estar triste; lembro-me de ter sentido medo, sem senti-lo de novo;
lembro-me de antigo desejo, sem que o mesmo sinta agora. Outras vezes, pelo
contrário, lembro-me com alegria a tristeza passada, e com tristeza uma alegria
passada. Isto nada tem para admirar quando se trata de emoções corporais, porque uma
coisa é a alma e outra o corpo; e assim não é maravilha que me lembre com alegria de
um sofrimento físico já passado.
Porém, aqui o espírito é a própria memória. Quando confiamos uma tarefa a alguém,
dizemos: "Não o guardei no espírito", "fugiu-me do espírito". É, portanto, a memória que
chamamos de espírito. Sendo assim, por que ao evocar com alegria uma tristeza
passada, meu espírito sente alegria e minha memória, tristeza? Se meu espírito se alegra
com a alegria que tem em si, por que a memória não se entristece com a tristeza, que
também tem em si? Seria a memória estranha ao espírito? Quem ousará afirmá-lo? Sem
dúvida a memória é como o estômago da alma, e a alegria e a tristeza são como
alimentos, doce ou amargo; quando tais emoções são confiadas à memória, depois de
passarem, digamos, por esse estômago, podem ali serem guardadas, mas já perderam o
sabor. Seria ridículo comparar emoções e alimento como semelhantes. Contudo, elas não
são totalmente diferentes.
É ainda da memória que tiro a distinção entre as quatro emoções da alma: o desejo, a
alegria, o medo e a tristeza. Assim, todo raciocínio que eu teça, dividindo cada uma delas
nas espécies de seus gêneros, definindo-as, é na memória que encontro o que tenho a
dizer, e de lá tiro tudo o que digo. Contudo, ao recordar essas emoções, não me perturbo
com nenhuma delas.
E antes mesmo que eu as recordasse para discuti-las, elas ali estavam, e por isso
puderam ser tiradas da memória mediante a lembrança. Talvez a lembrança tire da
memória essas emoções como o ato de ruminar tira do estômago os alimentos. Mas
então, por que aquele que rumina sobre tais paixões não sente na boca do pensamento a
doçura da alegria ou a amargura da tristeza? Estará justamente nisto a diferença entre
tais fatos? De fato, quem gostaria de falar dessas emoções se, todas as vezes que
falássemos do medo ou da tristeza, nos víssemos tristes ou temerosos?
Contudo, certamente não poderíamos falar deles se não encontrássemos na memória
não só os sons dessas palavras, segundo a imagem gravada em nós pelos sentidos, mas
ainda as noções que elas exprimem. Essas noções, nós não a recebemos por nenhuma
porta da carne, mas a própria alma, sentindo-as pela experiência das próprias emoções,
confiou-as à memória; ou então a própria memória as reteve, sem que ninguém lhas
confiasse.
CAPÍTULO XV
A memória das coisas ausentes
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Mas quem poderá explicar se a recordação se faz por meio de imagens ou não?
Por exemplo: se digo pedra, ou digo sol, sem que tais objetos estejam presentes a
meus sentidos, certamente tenho suas imagens na memória, à minha disposição.
Evoco uma dor do corpo, que está ausente de mim, já que nada me dói. Contudo, se a
imagem da dor não estivesse em minha memória, não saberia o que dizia, e ao
raciocinar não a distinguiria do prazer.
Falo de saúde do corpo, estando são; neste caso, está em mim o próprio objeto. No
entanto, se sua imagem não estivesse em minha memória, de modo algum lembraria o
significado dessa palavra. Os doentes, ouvindo falar de saúde, não saberiam do que se
trata, não fosse o poder da memória a conservar a imagem da ausência da realidade.
Falo dos números com que calculamos, e eles se apresentam na memória, não suas
imagens, mas os próprios números.
Evoco a imagem do sol, e esta se apresenta à minha memória; e não evoco a imagem
de uma imagem, mas a própria imagem, disponível à recordação.
Falo em memória, e reconheço o que falo, mas de onde o sei, senão da própria
memória?
Estará ela presente a si própria por sua imagem, e não por si mesma?
CAPÍTULO XVI
A memória do esquecimento
E quando falo do esquecimento, e reconheço de que falo, como poderia eu reconhecêlo
se dele não lembrasse? Não falo do som da palavra, mas da realidade que ela exprime.
Se eu a tivesse esquecido, não seria capaz de reconhecer o significado de tal som. Por
isso, quando me lembro da memória é por ela mesmo que se apresenta a mim; mas
quando me lembro do esquecimento, este e a memória estão presentes
simultaneamente: a memória, com que me recordo, e o esquecimento, de que me
recordo.
Mas, que é o esquecimento, senão falta de memória? E como pode ele estar presente
na minha lembrança. Se sua lembrança significa não lembrar? Mas se nos lembramos, o
guardamos na memória, e se nos é impossível reconhecer o que significa a palavra
esquecimento, quando a ouvimos, a não ser que dele nos lembremos, logo a memória é
a que retém o esquecimento. Ele está na memória, pois do contrário, nós o
esqueceríamos; mas, ele presente, nós nos esquecemos. Segue-se que ele não está
presente à memória por si mesmo, quando nos lembramos dele, mas por sua imagem.
Do contrário, o esquecimento não faria com que nos lembrássemos, mas com que nos
esquecêssemos. Mas, enfim, quem poderá descobrir, quem poderá compreender o modo
como isto se realiza?
Mas, Senhor, esgota-me esta busca e é, portanto, sobre mim mesmo que me canso;
tornei-me para mim mesmo uma terra de dificuldades e árduos labores. Por que não
exploro agora as regiões do firmamento, nem meço as distâncias dos astros, nem busco
as leis do equilíbrio da terra. Sou eu que me lembro, eu, o meu espírito. Não é de
admirar que esteja longe de mim tudo o que não sou eu. Todavia, que há mais perto de
mim do que eu mesmo? No entanto, é-me impossível compreender a natureza de minha
memória, sem a qual eu nem poderia pronunciar meu próprio nome.
Que direi então, desde que tenho a certeza que lembro do esquecimento? Diria talvez
que não está em minha memória o que recordo? Ou talvez direi que o esquecimento está
em minha memória, para que não o esqueça? Ambas hipóteses são grandes absurdos.
Vejamos uma terceira hipótese: poderei eu afirmar que minha memória retém a imagem
do esquecimento, e não o esquecimento em si, quando dele me lembro? Com que
fundamento, pois, poderei dizê-lo, se para que se grave na memória a imagem de um
objeto, é necessário que este esteja presente antes, de onde emana a imagem a ser
gravada? É assim que lembro de Cartago, e assim de todos os outros lugares por que
passei; assim me lembro do rosto dos homens que vi e das coisas que meus sentidos me
deram a conhecer; assim me lembro ainda da dor física, coisas cujas imagens a memória
fixou quando estavam presentes, para que eu as pudesse contemplar e repassar em
espírito, quando eu as evocasse na sua ausência.
Se, pois, é a imagem do esquecimento que está na memória, e não ele mesmo, é
evidente que nalgum momento esteve presente para que sua imagem fosse fixada. Mas,
se estava presente, como podia gravar na memória sua imagem, se o esquecimento
apaga com sua presença tudo o que lá está impresso? Contudo, seja qual for o
mecanismo desse fenômeno, e por mais incompreensível e inexplicável que seja, estou
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certo de que me lembro do esquecimento, que apaga da memória, todas as nossas
lembranças.
CAPÍTULO XVII
Deus e a memória
Grande é o poder da memória! E ela tem algo de terrível, meu Deus, em sua
complexidade infinita e profunda. E isto é o espírito, e isto sou eu mesmo. Que sou, pois
meu Deus? Qual a minha natureza? Vida vária e multiforme, de amplidão imensa. Eis-me
em minha memória, em seus campos, antros, inumeráveis cavernas, tudo isso
infinitamente cheio de toda espécie de coisas, também inumeráveis. Umas gravadas em
imagens, como os corpos; outras, estão sob a forma de não sei que noções e sinais,
como os afetos da alma, que a memória conserva quando a alma já não os sente,
embora tudo o que está na memória esteja também no espírito. Percorro em todas as
direções este mundo interior, vou de um lado para outro, e nele me aprofundo o mais
possível, sem encontrar-lhe os limites, tão grande é a vida que reside no homem mortal!
Que hei de fazer, pois, meu Deus, minha verdadeira vida? Ultrapassarei também esta
faculdade que se chama memória? Ultrapassa-la-ei para chegar a ti, doce luz? Que dizes?
Subindo em espírito a ti, que estás acima de mim, ultrapassarei também esta minha
força, que se chama memória, pois quero atingir-te onde és acessível, e unir-me a ti por
onde possa fazê-lo.
Também os animais e as aves têm memória, porque de outro modo não voltariam a
seus ninhos e tocas, nem fariam outras coisas habituais, e nem mesmo poderiam adquiri
hábitos sem a memória. Passarei, pois, além da memória para chegar àquele que me
separou dos animais e me fez mais sábio que as aves do céu. Passarei além da memória,
mas onde te hei de achar, ó Deus verdadeiramente bom, suavidade segura? Onde te hei
de encontrar? Se te encontro sem minha memória, estou esquecido de ti, e se não me
lembro de ti, como te poderei encontrar?
CAPÍTULO XVIII
A memória das coisas perdidas
Uma mulher perdeu uma dracma, e a procurou com sua lanterna. Mas se não se
lembrasse dela, não a haveria de encontrar; de fato, se dela não lembrasse, como
poderia saber, ao acha-la, que era aquela?
Lembro-me de ter procurado e achado muitas coisas perdidas, sei disso porque,
estando eu à procura, me diziam: "Por acaso é esta?" "Por acaso é aquela?" – e eu
sempre respondia que não, até encontrar o que procurava. Se não tivesse fixado a
lembrança do objeto, fosse o que fosse, ainda que me fosse mostrado, não o encontraria,
pois não o poderia reconhecer. E sempre que perdemos e achamos alguma coisa
acontece o mesmo.
Se alguma coisa desaparece de nossa vista, e não da memória – como sucede com
um corpo visível – conservamos interiormente sua imagem e o procuramos até que
apareça a nossos olhos. Quando for encontrado, será reconhecido de acordo com essa
imagem interior. Não podemos dizer que encontramos um objeto perdido se não o
reconhecemos; nem o podemos reconhecer se dele não lembramos. Tinha pois
desaparecido da nossa vista, mas era conservado pela memória.
CAPÍTULO XIX
A memória das lembranças
E quando a própria memória perde uma lembrança, como acontece quando nos
esquecemos de algo e procuramos recordá-la, o que se passa? Onde, afinal, a
procuramos senão na própria memória? E se esta, por acaso, nos oferece uma coisa por
outra, a repelimos até que apareça o que buscamos. E assim que aparece dizemos: "É
isto". E assim não diríamos se não a reconhecêssemos, e não a reconheceríamos se dela
não houvesse registro. É certo, portanto, que já a havíamos esquecido. Ou será que ela
não se apagara totalmente de nossa memória, por meio da parte que nos ficou impressa
procuramos a outra? A memória, nesse caso, teria ciência de não poder, como de
ordinário, fornecer a lembrança em seu conjunto e, mutilada, reclamaria e parte faltante.
É o que sucede quando vemos uma pessoa conhecida, ou nela pensamos sem poder
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recordar seu nome. Se outro nome nos apresenta ao espírito, não o associamos à tal
pessoa; por isso o afastamos, até que se apresenta um que concorde com nossa
representação habitual da pessoa.
Mas donde nos vem este nome, senão da memória? Mesmo quando nos é sugerido por
outrem, é pela memória que reconhecemos; não o aceitamos como um conhecimento
novo, mas recordando-o, confirmamos ser esse o nome que nos disseram. Se fosse
totalmente apagado da alma, nem mesmo avisados o reconheceríamos.
Não podemos pois, afirmar que nos esquecemos completamente daquilo de que nos
lembramos ter esquecido. De nenhum modo poderíamos resgatar uma lembrança
perdida se seu esquecimento fosse total.
CAPÍTULO XX
A memória da felicidade
E como hei de te buscar, Senhor? Quando te procuro, meu Deus, estou à procura da
felicidade. Procurar-te-ei para que minha alma viva, porque meu corpo vive de minha
alma, e minha alma vive de ti. Como então devo buscar a felicidade? Porque não a
possuirei até que possa dizer "basta". Como, pois, procurá-la? Talvez pela lembrança,
como se a tivesse esquecido, guardando contudo a lembrança do esquecimento? Ou pelo
desejo de conhecer algo desconhecido ou por nunca tê-lo vivido, ou por tê-lo esquecido a
ponto de nem ter consciência do seu esquecimento?
Mas não será justamente a felicidade que todos querem, sem exceção? E onde a
conheceram para a desejarem tanto? Onde a viram para assim a amarem? O que é certo
é que está em nós a sua imagem. Mas não sei como isto se dá. E há diversos modos de
ser feliz: quer possuindo realmente a felicidade, quer possuindo apenas sua esperança.
Este último modo é inferior ao dos que são realmente felizes, embora estejam melhor
que os não felizes nem na realidade, nem na esperança. Mesmo estes, todavia, não
desejariam tanto a felicidade se esta lhes fosse completamente estranha, e é certo que a
desejam. Não sei como a conheceram, e portanto ignoro a noção que dela têm. O que
me preocupa é saber se essa noção reside na memória, pois, se é lá que reside, é sinal
de já fomos felizes alguma vez. Por ora não busco saber se todos fomos felizes
individualmente, ou se o fomos naquele que pecou primeiro, e no qual todos morremos,
e de quem nascemos na infelicidade. O que procuro saber é se a felicidade reside na
memória, porque certamente não a amaríamos se não a conhecêssemos. Mal ouvimos
esta palavra, e todos confessamos que desejamos a mesma coisa; e não é o som da
palavra que nos deleita. Quando um grego a ouve pronunciar em latim, não se alegra,
porque ignora seu sentido. Mas nós nos alegramos ao ouvi-la, como ele se a ouvisse em
sua língua. A felicidade, com efeito, não é grega nem latina; mas gregos e latinos, assim
como todos que falam outras línguas, desejam alcançá-la.
Logo, a felicidade é conhecida de todos; e se fosse possível perguntar-lhes a uma
voz:"
Quereis ser felizes?" – todos, sem hesitar, responderiam que sim. E isso não
aconteceria se a memória não tivesse em si a realidade, expressa por essa palavra.
CAPÍTULO XXI
A memória do que nunca tivemos
Podemos comparar essa lembrança à que conserva de Cartago, quem a viu? Não, a
felicidade não se vê com os olhos, pois não é corporal. Seria pois comparável à
lembrança dos números? Também não, pois quem conhece os números não deseja
adquiri-los. Pelo contrário, a idéia da felicidade nos inclina a amá-la e a querer possuí-la,
para sermos felizes.
Lembramos dela, talvez, como lembramos da eloqüência? Também não, embora ao
ouvir essa palavra, muitos que não são eloqüentes a associam à realidade que ela
exprime, e desejariam obtê-la, o que indica que já têm idéia de eloqüência. Foi porém
pelos sentidos do corpo que ouviram a eloqüência alheia, deleitando-se com ela, e
desejando também ser eloqüentes. E certamente não lhes daria prazer se já não
tivessem uma idéia da eloqüência, e nem a desejariam se esta não os tivesse deleitado.
Mas a felicidade não a percebemos nos outros por nenhum sentido corporal.
Essa lembrança, será porventura comparável à da alegria? Talvez, pois quando estou
triste me lembro da alegria passada, e quando infeliz, lembro-me da felicidade. Ora, esta
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alegria, eu jamais a vi, ou ouvi, ou senti, ou saboreei, ou toquei; apenas a experimentei
em minha alma quando me alegrei. E esta idéia se fixou em minha memória para que eu
pudesse recordá-la, às vezes com desgosto, outras com saudades, conforme as
circunstâncias que a geraram.
De fato me senti invadido de alegria causada por ações torpes, cuja lembrança agora
aborreço e abomino; outras vezes alegrei-me por ações boas e honestas, das quais me
lembro com saudade; mas já pertencem ao passado, e evoco com tristeza minha antiga
alegria.
Mas onde e quando, então, experimentei a felicidade para lembrar-me dela, para
amá-la e deseja-la? Não sou eu apenas, ou alguns que a desejam; mas todos, sem
exceção queremos ser felizes. Sem uma noção precisa da felicidade, nossa vontade não
teria essa firmeza.
Que significa isto? Se perguntarmos a dois homens se querem alistar-se no exército,
talvez um responda que sim o outro que não. Mas, perguntemos se desejam ser felizes,
e ambos responderão que sim, sem nenhuma hesitação. E desejando um engajar-se, e o
outro não, têm ambos a mesma finalidade: ser felizes. Um gosta disto, outro daquilo,
mas ambos concordam em ser felizes, como seria unânime a resposta afirmativa a quem
lhes perguntasse se querem estar alegres. Essa alegria é o que eles chamam de
felicidade. E ainda que um siga por um caminho e outro por outro, a finalidade de todos
é um só: a alegria. Como a alegria é um sentimento do qual todos temos experiência, a
encontramos em nossa memória, e a reconhecemos ao ouvir pronunciar a palavra
felicidade.
CAPÍTULO XXII
A verdadeira felicidade
Longe de mim, longe do coração de teu servo, Senhor, que a ti se confessa, a idéia de
encontrar a felicidade não importa em que alegria! A felicidade é uma alegria que não é
concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: tu és essa alegria!
Alegrar-se de ti, em ti e por ti: isso é felicidade. E não há outra. Os que imaginam outra
felicidade, apegam-se a uma alegria que não é a verdadeira. Contudo, sempre há uma
imagem da alegria da qual sua vontade não se afasta.
CAPÍTULO XXIII
Felicidade e verdade
Poderemos então concluir que nem todos desejam ser felizes, pois há aqueles que não
querem buscar em ti sua alegria, tu que és a única felicidade? Ou talvez todos a queiram,
mas, como a carne combate contra o espírito, e o espírito contra a carne, e com isso se
contentam.
Porque não querem com força bastante aquilo que não podem, para obtê-lo.
Pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou no erro; ninguém
hesita em declarar que preferem a verdade, como em dizer que querem ser felizes. É que
a felicidade é a alegria que provém da verdade. E essa alegria é a que nasce de ti, que és
a própria Verdade, ó meu Deus, minha luz, saúde de meu rosto! Todos querem essa
vida, a única feliz, essa alegria que se origina na verdade.
Encontrei muitos que gostam de enganar, mas ninguém que quisesse ser enganado.
Onde, então, conheceram a felicidade, senão onde conheceram a verdade? Visto que
não querem ser enganados, também amam a verdade, e desde que amam a felicidade,
que nada mais é que a alegria proveniente da verdade, certamente também amam a
verdade; e não a amariam se não retivessem dela, na sua memória, alguma noção. Por
que, então, não se alegram com ela? Por que não são felizes? Porque se empolgam
demais com outras coisas, que os tornam mais infelizes do que a verdade, de que se
recordam fracamente, e que os faria felizes.
Há ainda um pouco de luz entre os homens: caminhem, caminhem, para que as trevas
não os surpreendam.
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Mas por que a verdade gera o ódio? Por que os homens olham como inimigo aquele
que a prega em teu nome, uma vez que amam a felicidade, que mais não é que a alegria
nascida da verdade? Talvez por amarem a verdade de tal modo que tudo de diferente
que amam, querem que seja verdade; e, não admitindo ser enganados, também não
querem ser convencidos de seu erro. Desse modo, detestam a verdade por amarem
aquilo que tomam pela verdade. Amam-na quando ela brilha, mas odeiam-na quando os
repreende; e, como não querem ser enganados, mas enganar, eles a amam quando ela
se manifesta, mas a odeiam quando ela os denuncia.
Porém ela os castiga; não querem ser descobertos pela verdade, mas esta os
denuncia, sem que por isso se manifeste a eles.
É assim o coração do homem! Cego e lerdo, torpe e indecente: quer permanecer
oculto, mas não quer que nada lhe seja ocultado. Em castigo, sucede-lhe o contrário:
não consegue esconder-se da verdade, enquanto esta lhe continua oculta. Contudo,
apesar de tão infeliz, prefere encontrar alegrias na verdade que no erro. Será, portanto,
feliz quando, livre de perturbações, se alegrar somente na Verdade, origem de tudo o
que é verdadeiro.
CAPÍTULO XXIV
Deus e a memória
Eis como esquadrinhei minha memória em tua procura, Senhor: não me foi possível
encontrar-te fora dela. Nada encontrei de ti que não fosse lembrança, e nunca me
esqueci de ti desde que te conheci. Onde encontrei a verdade, aí encontrei a meu Deus,
que é a própria verdade; e desde que aprendi a conhecer a verdade, nunca mais a
esqueci. Por isso, desde que te conheço, permaneces em minha memória. É lá que te
encontro quando me lembro de ti e quando sou feliz em ti. Estas são as santas delicias
que me deste em tua misericórdia, olhando para minha pobreza.
CAPÍTULO XXV
Recapitulação
Onde habitas em minha memória, Senhor, em que lugar dela estás? Que esconderijo
construíste aí? Que santuário aí edificaste para ti? Deste-me a honra de morar em minha
memória; mas em que parte dela resides? É o que quero agora descobrir.
Quando me recordei de ti, ultrapassei aquela região da memória que também os
animais possuem, pois não te encontrei entre as imagens dos objetos corpóreos. E
cheguei àquela parte onde depositei os afetos de minha alma, mas também aí não te
encontrei. Cheguei à morada que meu próprio espírito possui na memória – porque
também o espírito lembra de si mesmo – mas nem ali estavas. Isso porque não és
imagem corpórea, nem afeto de ser vivo, como a alegria, a tristeza, o desejo, o temor, a
lembrança, o esquecimento e outros semelhantes, e nem és meu próprio espírito, porque
és o Senhor e Deus do espírito, e tudo isso é mutável, enquanto permaneces imutável e
subsistes acima de todas as coisas, e te dignaste habitar em minha memória desde que
te conheço.
Mas, por que perguntar em que lugar da memória habitas, como se a memória tivesse
compartimentos? Certo é que habitas nela desde que te conheço, e é nela que te
encontro, quando penso em ti.
CAPÍTULO XXVI
Onde encontrar Deus?
Onde, então, te encontrei, para te conhecer? Não estavas ainda em minha memória
antes de eu te conhecer. Onde, então, te encontrei, para te conhecer, senão em ti
mesmo, acima de mim? No entanto, aí não existe espaço. Quer nos afastemos de ti, quer
nos aproximemos, aí não existe espaço algum. Ó Verdade, por toda parte assistes aos
que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todas essas diversas consultas. Tuas
respostas são claras, mas nem para todos.
Os homens te consultam sobre o que querem, mas nem sempre ouvem as respostas
que querem.
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Teu servo fiel é o que não pensa em ouvir de ti a resposta que quer, mas em querer a
resposta que lhe dás.
CAPÍTULO XXVII
Solilóquio de amor
Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de
mim, e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que
criaste. Estavas comigo, e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem
existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha
surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume,
respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me,
e o desejo de tua paz me inflama.
CAPÍTULO XXVIII
A vida do homem
Quando me unir a ti com todo meu ser, não sentirei mais dor ou fadiga; minha vida,
cheia de ti, será então a verdadeira vida. Alivias aqueles que enches de ti; mas, como
ainda não estou cheio de ti, sou um peso para mim mesmo. Minhas alegrias, que
deveriam ser choradas, lutam com minhas tristezas que deveriam alegrar-me, e ignoro
de que lado está a vitória.
Ai de mim, Senhor, tem piedade de mim! As tristezas do meu mal lutam com minhas
santas alegrias, e eu não sei de que lado está a vitória. Ai de mim! Senhor, tem piedade
de mim! Eis minhas feridas: eu não as escondo. Tu és o médico, eu o enfermo; és
misericordioso, e eu, miserável. Não é contínua tentação a vida do homem sobre a terra?
Quem quer aborrecimentos e dificuldades? Mandas que os suportemos, e não que os
amemos. Ninguém ama o que tolera, ainda que goste de o tolerar; e mesmo que alguém
se alegre em tolerar, preferiria nada ter que suportar. Na adversidade, desejo a
prosperidade, e na prosperidade temo a adversidade. Entre estes dois extremos, qual
será o termo médio onde a vida humana não seja tentação?
Ai das prosperidades do século, onde se receia a adversidade e a alegria é
corrompida! Ai das adversidades do século, uma, duas, três vezes ai! Pelo desejo da
prosperidade, por ser dura a adversidade, e pelo temor que vença a nossa paciência! A
vida do homem sobre a terra não é pois uma contínua tentação?
CAPÍTULO XXIX
Esperança em Deus
Só na grandeza da Tua misericórdia coloco toda minha esperança. Dai-me o que me
ordenas e ordena-me o que quiserdes. Mandas que sejamos castos. "Sabendo, diz um
sábio, que ninguém pode ser casto se Deus não lhe der este dom, já é sabedoria saber
de quem procede este dom". A continência reúne os elementos de nossa pessoa,
reconduz-nos à unidade que perdemos dispersando-nos por tantas criaturas. Pouco te
ama quem te ama juntamente com alguma criatura, e não a ama por tua causa.
Ó amor, que sempre ardes e jamais te extingues! Ó caridade, meu Deus, inflama-me!
Ordena-me a continência? Dá-me o que mandas, e ordena o que quiseres!
CAPÍTULO XXX
Sonho e voluptuosidade
Ordenas que me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e
da ambição do século. Proibiste as uniões luxuriosas, e embora tenhas permitido o
casamento, ensinaste que há um estado bem melhor. E, pela tua graça, optei por esse
estado, antes mesmo de me tornar dispensador de teu sacramento.
Mas em minha memória, de que falei longamente, vivem ainda as imagens dessas
voluptuosidades que meus costumes de outrora ali gravaram. Sem forças diante de mim
quando estou acordado, durante o sono, elas não somente suscitam em mim o prazer,
mas o consentimento do prazer e a ilusão da ação. Tais ilusões têm tal poder sobre
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minha alma e sobre meu corpo, apesar de tão falsas, que seus fantasmas impelem a
meu sono o que a realidade não me pode induzir quando em vigília. Acaso então, Senhor
meu Deus, será que eu não sou eu nessas horas? E como vai tão grande diferença dentro
de mim mesmo, do momento em que passo da vigília para o sono e vice versa! Onde
pois está a razão, que durante a vigília resiste a tais sugestões, e que não se abala
mesmo diante da realidade? Acaso se fecha juntamente com os olhos? Ou adormece com
os sentidos do corpo?
E por que, muitas vezes, mesmo no sono, resistimos, lembrados de nosso propósito, e
nele permanecemos castos, negando o consentimento a tais seduções? Todavia, a
diferença é tanta que, no caso de não resistir durante o sono, ao acordar voltamos a
encontrar a paz de consciência; e a própria diferença entre os dois estados indica que
não fomos nós que fizemos aquilo, e lamentamos o que se fez em nós.
Senhor onipotente, não poderia tua mão curar todas as enfermidades de minha alma,
abolindo também, com maior abundância de graça, os movimentos lascivos de meu
sono? cada vez mais multiplica, Senhor, o número de tuas bondades para comigo, para
que minha alma, livre do visco da concupiscência, siga até chegar a ti. Para que não seja
rebelde, nem mesmo durante o sono; para que, pelo estímulo de imagens bestiais, não
só não cometa essas torpezas degradantes até a lascívia carnal, mas que nem mesmo
consinta nisso.
Não é muito para ti, ó Todo-Poderoso, que podes fazer mais do que pedimos e
compreendemos, fazer com que, quer minha idade presente, quer na minha vida futura,
eu me deleite nessas tentações – mesmo que sejam tão pequenas, que o primeiro
esforço as venceria, quando adormeço com pensamentos castos.
Agora digo exultando ao meu Senhor em que estado me encontro neste gênero de
pecado, com tremor pelos dons que já me concedeste, e gemendo pelas minhas
imperfeições.
Espero que aperfeiçoes em mim tuas misericórdias, até que atinja a plenitude da paz
de que gozarão em ti meu espírito e meu corpo, quando a morte for absorvida pela
vitória.
CAPÍTULO XXXI
A intemperança
O dia me traz novo pecado, e oxalá fosse o único! Comendo e bebendo, restauramos
as diuturnas perdas de nosso corpo, até o dia em que destruirás o alimento e o
estômago, matando minha necessidade com uma maravilhosa saciedade, e revestindo
este corpo corruptível de eterna incorruptibilidade.
Mas por ora esta necessidade me é grata, e luto contra essa delícia, para que não me
domine; é uma guerra cotidiana que sustento com jejum, reduzindo meu corpo à
escravidão. Mas minhas dores são eliminadas pelo prazer, porque a fome e a sede são
sofrimentos: queimam e matam como a febre se os alimentos não lhe põem remédio.
Mas como esse remédio está sempre à nossa disposição, graças à liberdade de teus dons
que põe à disposição de nossa fraqueza a terra, a água e o céu, nossas misérias recebem
por nós o nome de delícias.
Tu me ensinaste a considerar os alimentos como remédios. Mas quando passo dessa
penosa necessidade à paz da saciedade, nessa passagem a concupiscência arma para
mim sua cilada. Esta passagem é prazerosa, e não há outra para se chegar onde a
necessidade nos obriga. A razão do beber e do comer é a conservação da saúde; mas um
prazer insidioso acompanha como lacaio essas funções, e sempre tenta tomar a
dianteira, de modo que faço pelo prazer o que digo fazer por minha saúde.
Ora, a medida do prazer não é a mesma da saúde; o que é bastante para a saúde não
o é para o prazer, e muitas vezes é difícil discernir se é o cuidado com o corpo que pede
reforço de alimento, ou se é a gula que nos engana e quer ser servida. Essa incerteza
alegra nossa pobre alma, feliz por ter encontrado um álibi e uma desculpa na
impossibilidade de determinar o que basta para o cuidado com a saúde, e sob o pretexto
da sua conservação esconde a busca do prazer. Esforço-me para resistir a essas
tentações diárias, e invoco tua mão para me socorrer. A ti confesso minha incerteza,
porque sobre este ponto meu juízo ainda não é firme.
Ouço a voz de meu Deus que ordena: "Não se façam pesados vossos corações com a
intemperança e embriaguez". A embriaguez está longe de mim; que tua misericórdia não
a deixe se aproximar. Mas a intemperança, ao contrário, chega às vezes a arrastar teu
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servo. Tua misericórdia há de afastá-la de mim, porque ninguém pode ser temperante
senão por tua graça.
Muitas coisas nos concedes quando te invocamos, e todo o bem que recebemos,
mesmo antes de o pedir, é a ti que sempre o devemos. E o ato mesmo de
reconhecermos que esses dons são teus, é ainda graça tua. Nunca estive embriagado,
mas conheci muitos, dados a esse vicio, que se tornaram sóbrios por tua graça. Assim, é
graças a ti que alguns não são o que nunca foram; e também é graças a ti que outros
não são mais o que foram; e é graças a ti, enfim, que estes e aqueles sabem a quem
devem essa graça.
Ouvi ainda de ti outra palavra: "Não corras atrás de tuas concupiscências, e reprime
teus apetites" – Tua graça ainda me fez ouvir outra palavra, de que tanto gostei: "Se
comemos, não teremos abundância; e se não comemos, não sofreremos privação". – Ou
seja: nem isto me fará rico, nem aquilo pobre. – E ouvi ainda esta outra: "Aprendi a me
contentar com o que tenho: sei viver na abundância e suportar a penúria. Tudo posso
naquele que me fortalece". – Eis como fala o bom soldado da milícia celeste: nada
parecido ao pó que somos. Mas, Senhor, lembra-se que somos pó, e que de pó fizeste o
homem; que este havia se perdido, e que foi reencontrado.
Por si mesmo, formado do mesmo pó que nós, nada podia aquele cujas palavras
inspiradas tanto amei: "Tudo posso naquele que me fortalece" – Concede-me forças,
para que eu possa. Dá-me o que mandas, e manda o que quiseres. Paulo confessa que
tudo recebeu de ti, e, quando se gloria, é no Senhor que ele se gloria.
Ouvi também outro que te pedia esta graça: "Afasta de mim a intemperança". – De
onde se conclui claramente, ó Deus santo, que dás a força de cumprir o que mandas.
"Tu me ensinaste, Pai bondoso, que tudo é puro para os puros, mas que é mau para o
homem comer com escândalo, que tudo o que fizeste é bom, e que nada deve ser
rejeitado do que se recebe com ação de graças; que os alimentos não nos recomendam a
Deus, que ninguém nos deve julgar pela comida ou pela bebida; que o que come não
deve julgar o que não come". – Por essas lições, graças e louvores te dou, meu Deus,
meu Mestre, que bateste à porta de meus ouvidos e iluminaste meu coração. Livra-me
de toda tentação. Não receio a impureza dos alimentos, mas a impureza do prazer.
Sei que Noé teve permissão de comer toda espécie de carne que pudesse servir de
alimento, e que Elias comeu carne para reparar as forças; sei que João Batista, asceta
admirável, não se manchou com os animais – os gafanhotos – de que se alimentava.
Todavia eu sei que Esaú deixou-se enganar pelo desejo de um prato de lentilhas; que
Davi se repreendeu a si mesmo por ter desejado água; que nosso Rei foi submetido à
tentação, não de carne, mas de pão. Por isso o povo foi justamente repreendido no
deserto, não por ter desejado comer carne, mas porque o desejo o fez murmurar contra
o Senhor.
Exposto a estas limitações, luto diuturnamente contra a concupiscência do comer e do
beber, pois não é coisa que possa cortar de uma vez por todas, apenas com o propósito
de nunca mais recair, como fiz com a luxúria. É uma rédea imposta a meu paladar, ora
para afrouxá-la, ora para retesá-la. E quem é, Senhor, que não se deixa arrastar às
vezes além dos limites do necessário? Se existe alguém assim, é de fato grande, e deve
engrandecer teu nome. eu porém não sou desse número, porque sou pecador. Contudo,
também, eu engrandeço teu nome, e Aquele que venceu o mundo intercede junto a ti
por meus pecados. Conta-me entre os membros enfermos de seu corpo, porque teus
olhos viram minhas imperfeições e porque todos serão inscritos em teu livro.
CAPÍTULO XXXII
Os prazeres do olfato
Quanto à sedução dos perfumes, não me preocupo demais. Quando ausentes, não os
procuro; quando presentes, não os recuso, mas estou sempre disposto a deles me
abster. Pelo menos assim me parece, embora talvez me engane. Trevas deploráveis me
envolvem, que me escondem minhas faculdades reais; por isso, quando meu espírito
indaga à respeito de suas forças, bem sabe que não pode confiar em si mesmo, por seu
íntimo permanecer muitas vezes insondável, até que a experiência lho manifeste.
Ninguém pois se deve ter seguro nesta vida, que é tentação perpétua. Pois. Como
podemos nos tornar melhores, não aconteça de nos tornar piores. Nossa única
esperança, nossa única confiança, nossa firme promessa é tua misericórdia.
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CAPÍTULO XXXIII
Os prazeres do ouvido
Os prazeres do ouvido me prendem e me subjugam com mais força, mas tu me
desligaste, me libertaste.
Agradam-me ainda, eu o confesso, os cânticos que tuas palavras vivificam, quando
executados por voz suave e artística; todavia eles não me prendem, e dele posso me
desvencilhar quando quero. Para assentarem no meu íntimo, em companhia com os
pensamentos que lhe dão vida, buscam em meu coração um lugar de dignidade, mas eu
me esforço ou me ofereço para ceder-lhes só o lugar conveniente.
Às vezes parece-me tributar-lhe mais atenção do que devia: sinto que tuas palavras
santas, acompanhadas do canto, me inflamam de piedade mais devota e mais ardente do
que se fossem cantadas de outro modo. Sinto que as emoções da alma encontram na
voz e no canto, conforme suas peculiaridades, seu modo de expressão próprio, um
misterioso estímulo de afinidade.
Mas o prazer dos sentidos, que não deveria seduzir o espírito, muitas vezes me
engana.
Os sentidos não se limitam a seguir, humildemente, a razão; o mesmo tendo sido
admitidos graças à ela, buscam precedê-la e conduzi-la. É nisso que peco sem o sentir,
embora depois o perceba.
Outras vezes, porém, querendo exageradamente evitar este engano, peco por
excessiva severidade; chego ao ponto de querer afastar de meus ouvidos, e da própria
Igreja, a melodia dos suaves cânticos que habitualmente acompanham os salmos de
Davi. Nessas ocasiões parece-me que o mais seguro seria adotar o costume de Atanásio,
bispo de Alexandria. Segundo me relataram, ele os mandava recitar com tão fraca
inflexão de voz, que era mais uma declamação do que um canto.
Contudo, quando lembro das lágrimas que derramei ao ouvir os cantos de tua Igreja,
nos primórdios de minha conversão, e que ainda agora me comovem, não tanto com o
canto, mas com as letras cantadas, voz clara e modulações apropriadas, reconheço
novamente a grande utilidade desse costume.
Assim, oscilo entre o perigo do prazer e a constatação dos efeitos salutares do canto.
Por isso, sem emitir juízo definitivo, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja,
para que, pelo prazer do ouvido, a alma ainda muito fraca, se eleve aos sentimentos de
piedade. E quando me comovem mais os cantos do que as palavras cantadas, confesso
meu pecado e mereço penitencia, e então preferiria não ouvir cantar.
Eis em que estado me encontro! Chorai comigo, e chorai por mim, vós que alimentais
no coração a virtude, fonte de boas obras. Porque vós, a quem isso não afeta, sois
insensíveis a tudo isso. E tu, Senhor meu Deus, escuta, olha e vê; tem piedade de mim,
cura-me. Eis que me tornei um problema para mim mesmo, sob teu olhar, e aí está
precisamente meu mal.
CAPÍTULO XXXIV
O prazer dos olhos
Resta ainda falar do prazer destes olhos carnais. Oxalá que os ouvidos fraternos e
piedosos de teu templo ouvissem a minha confissão! Encerrando assim as tentações da
concupiscência que ainda me perseguem, apesar de meus gemidos e dos desejos de ser
revestido de meu tabernáculo, que é o céu.
Meus olhos apreciam as formas belas e variadas, as cores brilhantes e amenas. Oxalá
elas não me acorrentassem a alma! Oxalá ela só fosse presa pelo Deus que criou coisas
tão boas: ele é meu bem, e não elas. Todos os dias, estando acordado, elas me
importunam sem o descanso das vozes que se calam, e às vezes de tudo o que existe,
quando silencia. A própria rainha das cores, a luz que inunda tudo o que vemos, e onde
quer que eu esteja durante o dia, acaricia-me de mil modos, mesmo quando estou
ocupado em outra coisa e não lhe dou atenção.
E ela se insinua tão fortemente que, se de repente me for tirada, a desejo, a procuro
e, se sua ausência se prolonga, a alma se entristece.
Ó luz que Tobias contemplava quando, cego, mostrava ao filho o caminho da vida,
caminhando à sua frente com os passos da caridade, sem jamais se perder! Luz que via
Isaac, quando seus olhos carnais, oprimidos e velados pela velhice, mereceram não
abençoar os filhos reconhecendo-os, mas reconhecê-los ao abençoá-los! Luz que via
Jacó, também cego pela idade provecta, irradiou os fulgores de seu coração iluminado
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sobre as gerações do povo futuro, representadas em seus filhos! E a seus netos, os filhos
de José, impôs as mãos misticamente cruzadas, não na ordem em que queria dispô-los o
pai, que via com os olhos corporais, mas de acordo com seu próprio discernimento
interior! Eis a verdadeira luz; ela é uma, e todos os que a vêem e amam formam um
único ser.
Quanto à luz corporal, de que falava, com sua doçura sedutora e perigosa, é um dos
prazeres da vida para os cegos amantes do mundo. Mas os que nela sabem encontrar
motivos para te louvar, Deus, criador de todas as coisas, convertem-na em hino em teu
louvor, sem se deixarem dominar por ela no sono. é assim que desejo ser. Resisto às
seduções dos olhos, para que meus pés, que começam a trilhar teus caminhos, não
fiquem enredados. Elevo a ti olhos invisíveis, para que libertes meus pés de seus laços.
Tu não cessa de livrá-los, porque sempre estão a se prender. Tu não cessas de me livrar,
e eu me deixo cair a cada passo nas insídias espalhadas por toda parte, porque não
dormirás, nem cochilarás, tu que guardas a Israel.
Quantos encantos os homens acrescentaram às seduções dos olhos, com a variedade
de suas artes, com sua indústria de vestidos, de calçados, de vasos, de objetos de toda
espécie, com pinturas e esculturas diversas que de longe ultrapassam os limites do
necessário e moderado e da expressão piedosa. Exteriormente perseguem as produções
de suas artes, e em seu interior abandonam Àquele que os criou, deturpando em si o que
ele fez.
Quanto a mim, meu Deus e minha glória, encontro nisto razão para cantar-te um
hino, e oferecer um sacrifício de louvor àquele que sacrificou por mim. As belezas que da
alma do artista passam para suas mãos, provêm desta beleza, que é superior às nossas
almas e pela qual minha alma suspira dia e noite.
Entretanto, os que geram e os amantes das belezas exteriores, tiram da beleza
soberana apenas o critério para julgá-las, mas não uma regra para usá-las bem.
Contudo, a norma ali está, mas eles não a vêem. Se a vissem, não se afastariam , e
guardariam sua força para ti, e não a dissipariam em fatigantes delícias.
Mesmo eu, que exponho e compreendo essas verdades, deixo-me enredar nessas
belezas; mas tu me livras de seu laço, tu me libertas, porque tua misericórdia está diante
de meus olhos. Miseravelmente eu caio, e tu me levantas misericordiosamente, às vezes
sem que eu o perceba, quando minha queda foi suave, e outras infligindo-me uma pena,
por ter ficado preso ao chão.
CAPÍTULO XXXV
A curiosidade
Às anteriores acrescente-se outra tentação, que oferece maiores perigos. Além da
concupiscência da carne, que consiste no deleite voluptuoso de todos os sentidos, e cuja
servidão dana os que ela afasta de ti, insinua-se na alma um outro desejo, que se exerce
pelos mesmos sentidos corporais, mas tende menos a uma satisfação carnal do que a
tudo conhecer por meio da carne.
É a vã curiosidade, que se disfarça sob o nome de conhecimento e de ciência. Como
nasce do apetite de tudo conhecer, e como entre os sentidos os olhos são os mais aptos
para o conhecimento, a Sagrada Escritura chamou-a de concupiscência dos olhos.
De fato, ver é função própria dos olhos; mas muitas vezes nós usamos essa expressão
mesmo quando se trata de outros sentidos, aplicados ao conhecimento. Nós não
dizemos: "Ouve como isto brilha" – nem: "Sente como isso resplandece" – nem: "Apalpa
como isto cintila". – Para exprimir tudo isso dizemos "ver ou olhar". E até não nos
limitamos a dizer: "Olha que luz!", pois apenas os olhos nos podem dar esta sensação –
mas, dizemos ainda: "Olha que som! Olha que cheiro! Olha que gosto! Olha como é
duro!" Por isso toda experiência que é obra dos sentidos é chamada, como disse,
concupiscência dos olhos. Essa função da visão, que pertence aos olhos, é usurpada
metaforicamente pelos outros sentidos, quando buscam conhecer alguma coisa.
Daqui podemos distinguir claramente o papel da volúpia e o da curiosidade na ação
dos sentidos. O prazer procura o que é belo, melodioso, suave, saboroso, agradável ao
todo; a curiosidade por sua vez deseja o contrário, não para se expor ao sofrimento, mas
pela paixão de conhecer por meio da experiência. Que prazer pode ter na visão de um
cadáver dilacerado, que causa horror? E todavia onde há um cadáver, para lá corre toda
a gente para se entristecer e empalidecer. E temem depois revê-lo em sonhos, como se
alguém os tivesse obrigado a contemplá-lo, ou como se a fama de alguma beleza os
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tivesse atraído. O mesmo acontece com os outros sentidos, o que seria enfadonho
enumerar.
É esse quê de mórbido de curiosidade que faz com que se exibam monstruosidades
nos espetáculos. É ela que nos induz a perscrutar os segredos da natureza exterior, cujo
conhecimento de nada serve, mas que os homens buscam conhecer apenas pelo prazer
de conhecer. É ela também que inspira o homem a pesquisar, com fim semelhante, a
ciência perversa, que é a arte da magia.
E é ela, enfim, que, até na religião, nos induz a tentar a Deus, pedindo-lhe sinais e
prodígios, não para a salvação da alma, mas apenas pela ânsia de vê-los.
Nessa imensa floresta, cheia de insídias e perigos, cortei e lancei para fora de meu
coração muitos males, graças à força que me concedeste para tanto, Deus de minha
salvação.
Contudo, no turbilhão diário de tantas e tão variadas tentações que atormentam
minha vida, quando ousarei dizer que nenhuma delas atrai mais minha atenção e não
cativa minha vã curiosidade? Certamente que o teatro já não me atrai, nem me importo
mais em conhecer o curso dos astros; jamais, para obter uma resposta, consultei as
sombras, pois detesto todos os ritos sacrílegos.
Mas quantos artifícios inventa o inimigo para me tentar a que te peça algum milagre,
a ti, Senhor, meu Deus, a quem devo servir humilde e simplesmente! Eu te suplico, por
nosso Rei, por nossa pátria, a pura e casta Jerusalém, que o perigo de consentir nessas
coisas, que até agora esteve longe de mim, se afaste cada vez mais! Mas quando te peço
a salvação de uma alma, a finalidade de meu intento é bem diferente: ouve-me pois, e
concede-me a graça de seguir de bom grado tua vontade.
Mas incontáveis são as pequenas e desprezíveis bagatelas que tentam cada dia nossa
curiosidade! E quem poderá contar nossas quedas? Quantas vezes ouvimos contar
banalidades! Toleramo-las, de início, para não magoar os fracos, e depois, aos poucos,
ouvimo-las com atenção sempre crescente! Não vou mais ao circo, para ver um cão
correr atrás de uma lebre; mas, passando casualmente pelo campo e vendo algo assim,
eis-me interessado pela caçada, talvez até distraindo-me de algum pensamento
profundo. E, se não chega a me fazer mudar o caminho do meu cavalo, desvio o curso do
meu coração. Se após tal demonstração de minha fraqueza tu não me alertares para que
abandone esse espetáculo, elevando-me a ti por meio de alguma reflexão, ou
desprezando tudo e passando adiante, ficaria ali, absorvido como um bobo.
E que dizer quando, sentado em minha casa, observando uma lagartixa à caça de
moscas, ou uma aranha que as enreda em sua teia? Acaso, por serem animais pequenos,
a curiosidade que despertam em mim não é a mesma? É verdade que depois passo a te
louvar; Criador admirável, ordenador do universo, mas não foi esse o pensamento que
primeiro me moveu. Uma coisa é levantar-se depressa, e outra é não cair.
Dessas quedas está repleta minha vida, e minha única esperança está em tua infinita
misericórdia. Nosso coração é o receptáculo de tais misérias, e traz em si grande
quantidade de vaidades, que muitas vezes até interrompem e perturbam nossas orações;
e enquanto em tua presença levantamos a voz de nossa alma até teus ouvidos, tais
pensamentos fúteis, vindos não sei de onde, vêm perturbar um ato tão importante.
CAPÍTULO XXXVI
O orgulho
Terei também essa miséria como desprezível? Haverá algo que possa restituir-me a
esperança, a não ser tua conhecida misericórdia, que começou a me transformar? Sabes
o quanto já me transformaste; curaste-me primeiro da paixão da vingança, para
perdoar-me também todos meus pecados, curar minhas fraquezas, resgatar minha vida
da corrupção, conservar-me na piedade e misericórdia, e saciar dos teus bens meu
desejo. Derrubaste meu orgulho pelo temor, dobrando minha cerviz a teu jugo. Agora eu
trago o teu jugo, e o sinto suave, como prometeste e cumpriste. Na verdade, teu jugo já
era suave, mas eu não o sabia quando receava tomá-lo sobre mim.
Mas, Senhor, tu és o único que sabe mandar sem orgulho, porque és o único Senhor
verdadeiro, que não tem senhor! Diga-me, terá cessado em mim, se isso pode acontecer
nesta vida, esta terceira espécie de tentação, que consiste em querer ser temido e
amado pelos homens, com o único fim de obter uma alegria que não é alegria? Que vida
miserável, que arrogância indigna! Aí está o principal motivo porque não te amamos e
tememos piamente. Por isso resistes aos soberbos, enquanto dás tua graça aos
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humildes. Trovejas contra as ambições do mundo, e faz abalar as montanhas até suas
raízes.
Ora, como é necessário, para se adequar à sociedade, fazer-se amar e temer pelos
homens, o inimigo de nossa verdadeira felicidade nos alicia, e por toda parte semeia seus
laços gritando: "Bravo! Muito bem!" – para que, ávidos, recolhamos as lisonjas e nos
deixemos incautamente enredar. Seu intento é que deixemos de encontrar nossa alegria
na verdade, para buscá-la na mentira dos homens; estimula em nós o prazer em nos
fazer temer e amar, não pelo teu amor, mas em teu lugar. Com isso nos tornamos
semelhantes a ele, não unidos na caridade, mas partilhando de suas penas. Ele quis fixar
sua morada no aquilão (vento gelado do norte), para que nós, nas trevas e no frio,
servíssemos o perverso e sinuoso imitador de teu poder.
Nós, Senhor, somos teu pequeno rebanho: sê nosso dono. Estende tuas asas, para
nosso refúgio. Sê nossa glória; que nos amem por tua causa, e que tua palavra seja
observada por nós.
Quem busca o louvor dos homens, quando tu o reprovas, não será por estes
defendido quando o julgares, nem poderá subtrair á tua condenação. Mas quando não se
louva um pecados pelos desejos de sua alma, nem se abençoa quem pratica iniqüidades,
mas te louva um homem pelos dons que lhe concedeste, se ele se compraz mais no
louvor do que no dom que lhe atrai os louvores, tu o reprovas, a despeito dos louvores
que recebe dos homens. E quem o louva é melhor do que é louvado, porque um se
agradou com o dom de Deus, e o outro alegrou-se com o dom do homem.
CAPÍTULO XXXVII
A tentação do orgulho
Todos os dias somos acometidos por estas tentações, Senhor, somos tentados sem
trégua. Os louvores dos homens são a fornalha onde todos os dias somos postos à prova.
Também nisso mandas que sejamos continentes. Concede-nos o que mandas, e
manda o que quiseres.
A esse respeito, conheces os lamentos que meu coração te dirige, e os rios de
lágrimas que brotam de meus olhos. É-me difícil distinguir o quanto estou purificado
dessa peste; tenho muito medo de minhas faltas ocultas, que teus olhos conhecem, e os
meus ignoram. Nos outros gêneros de tentação, tenho recursos para me examinar, mas
quanto a este, quase nenhum.
Posso avaliar o quanto dominei a minha alma a respeito dos prazeres da carne e das
vãs curiosidades, quando me vejo privado de tais coisas por minha vontade ou por
necessidade.
Então me indago se é pena maior ou menor o ver-me privado desses dons.
Quanto à riqueza, ambicionada apenas para satisfazer a uma, duas ou todas as três
paixões, no caso em que a alma não perceba se as despreza quando as possui, depende
só dela renunciar a elas para provar seu desapego. Todavia, para nos privar dos louvores
e provar nosso poder sobre eles, será talvez necessário levar uma vida má, infame,
horrível, a ponto de ninguém nos conhecer sem nos detestar? Pode-se dizer ou conceber
maior insanidade?
Se o louvor deve habitualmente acompanhar uma vida boa e de boas obras, não será
por isso que deveremos abandonar a vida exemplar. Contudo, para distinguir se a
privação de um bem me é indiferente ou penosa, é preciso que me prive desse bem.
Então, Senhor, que devo confessar-te quanto a tais tentações? Que tenho em grande
apreço o louvor? Mas agrada-me mais a verdade. Pois, se tivesse que escolher entre
duas situações: ser louvado pela minha loucura ou por meus erros ou ser escarnecido
por todos pela minha firme certeza da verdade, bem sei o que escolheria. Contudo, não
gostaria que a aprovação alheia aumentasse para mim a alegria que sinto pelo pouco
bem que faço. Mas tenho de te confessar que não só o louvor a aumenta, mas também
que o vitupério a diminui.
Quando me sinto perturbado por essa miséria, uma desculpa surge em mim. Só tu
sabes, Senhor, se ela é válida, porque a mim me deixa perplexo. De fato, não nos
ordenaste apenas a continência, que nos ensina a afastar certas coisas de nós, mas
também a justiça, que direciona nosso amor. Não quiseste que amássemos somente a ti,
mas também o nosso próximo. Ora, às vezes me parece que é o aproveitamento e as
esperanças de que o próximo dá mostra que me encantam, quando me regozijo com um
elogio inteligente; e que, pelo contrário, é sua maldade que me entristece quando o ouço
censurar o que ignora ou o que é bom.
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Às vezes também me entristeço com os elogios que me fazem, quando louvam em
mim qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidade
medíocres e secundárias.
Mas, repito-o, como saber se o desagrado não provém de minha repugnância pelo
louvor que destoa do meu juízo a respeito de mim mesmo – não que seu interesse me
preocupe – mas pelo maior agrado que sinto quando o bem que amo em mim é amado
pelos outros? De algum modo, não me considero louvado quando o elogio contradiz a
opinião que tenho de mim mesmo, quer o encômio seja para o que me desagrada, quer
exagerando o valor do que pouco me agrada.
Serei, pois, sobre isso tudo um enigma para mim mesmo?
Mas é em ti, ó Verdade, que percebo que devo me alegrar com os louvores que me
dirigem, não em meu interesse, mas no interesse do próximo. Não sei se é este o meu
caso, pois neste assunto me conheces melhor do que eu mesmo. Suplico-te, meu Deus,
que me dês a conhecer a mim mesmo, para que eu possa confessar a meus irmãos,
dispostos a orar por mim, as chagas que achar em mim. Faze que me examine com mais
diligencia. Se for de fato o bem do próximo que me alegra quando me louvam, porque
sou menos sensível ao vitupério injustamente feito a outro, do que se fosse a mim?
Porque o aguilhão da injúria me faz sofrer mais do que injúria igualmente injusta feita a
uma outra pessoa diante de mim? Acaso também ignoro isto?
Deveria então concluir que me iludo, e que meu coração e minha língua burlam diante
de ti a verdade?
Afasta de mim, Senhor, esta loucura, para que minhas palavras não sejam para mim
óleo de pecador para ungir minha cabeça.
CAPÍTULO XXXVIII
A vanglória
Sou pobre e necessitado, e só melhoro quando, com gemidos íntimos e com
desagrado de mim mesmo, busco tua misericórdia, até que minha indigência seja
reparada e sanada com a paz que o olho soberbo ignora! Todavia, as palavras de nossa
boca, ou nossos atos conhecidos dos homens, encerram uma tentação muito perigosa,
filha do amor dos louvores que, para nos iludir com certa excelência, recolhe e mendiga
os aplausos alheios. A vanglória me tenta até quando a critico em mim, e é por isso
mesmo que eu a desaprovo. Muitas vezes, por excesso de vaidade, há quem se glorie até
mesmo do desprezo da vanglória; mas de fato não é mais do desprezo da vanglória que
se orgulha, porque ninguém a despreza quando se gloria de a desprezar.
CAPÍTULO XXXIX
O amor-próprio
Há ainda entre nós, profundamente assentada, outra tentação do mesmo gênero, que
torna vãos aqueles que se comprazem de si mesmos, ainda que não agradem aos outros,
ou até lhes desagradem, ou sequer procuram lhes agradar. E quanto mais enfatuados
estejam consigo mesmos, mais desagradam a ti, não só ao se gloriarem dos males como
se fossem bens, mas sobretudo quando se gloriam de teus bens como se fossem deles;
ou quando, reconhecendo-os em si, eles os atribuem a seus merecimentos; ou ainda
quando, atribuindo-os à tua graça, eles não os gozam amigavelmente com os demais,
gerando ciúmes e inveja.
Em todos estes perigos e provas, tu vês o temor de meu coração, e sinto que são mas
as feridas que curas em mim do que as que inflijo a mim mesmo.
CAPÍTULO XL
À procura de Deus
Quando deixaste de me acompanhar, ó Verdade, para me ensinar o que eu devia
evitar ou procurar, sempre te consultei, a ti submetendo, dentro da minha limitação,
meus medíocres pontos de vista? Percorri com os sentidos, como pude, o mundo
exterior. Observei a vida de meu corpo e os meus próprios sentidos. Depois adentrei nas
profundezas da memória em seus múltiplos domínios, tão maravilhosamente repletos de
inúmeras riquezas; observei tudo isso, estupefato. Sem teu auxílio nada poderia
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distinguir, mas reconheci que nada disto eras tu. Nem era eu o descobridor de todas
essas coisas; me esforcei para distingui-las e avaliá-las em seu devido valor, recebendoa
através dos sentidos e interrogando-as. Senti outras coisas unidas a mim, e as
examinei, assim como aos sentidos que mas traziam; revolvi as vastas reservas da
memória, analisando certas lembranças, guardando umas e trazendo outras à luz.
Porque tu és a luz permanente que eu consultava sobre a existência, o valor e a
qualidade de todas as coisas, e eu ouvia teus ensinamentos e tuas ordens. Costumo
fazê-lo muitas vezes, pois essa é a minha alegria, e sempre que meus trabalhos me
permitem algum descanso, refugio-me nesse prazer.
Em nenhuma dessas coisas que percorro consultando-te, não encontro lugar seguro
para minha alma senão em ti; só em ti se reúnem meus pensamentos esparsos, sem que
nada meu se aparte de ti. Às vezes, me fazes conhecer uma extraordinária plenitude de
vida interior, de inefável doçura que, se chegasse à contemplação, não seria certamente
compatível com esta vida. Mas torno a cair nesta baixeza, cujo peso me acabrunha; volto
a ser dominado pelos meus hábitos, que me tem cativo e, apesar de minhas lágrimas,
não me libertam. Tão pesado é o fardo do hábito! Não quero estar onde posso e não
posso estar onde quero: miséria em ambos os casos!
CAPÍTULO XLI
Deus e a mentira
Examinei minhas fraquezas de pecador nas três formas de concupiscência, e invoquei
tua destra para me salvar. Apesar de ter coração ferido, vi teu esplendor, e forçado a
recuar, disse: "Quem pode chegar lá? Fui lançado para longe de teus olhos". – Tu és a
verdade que preside a todas as coisas. E eu, minha avareza, não queria perder-te, mas
queria possuir ao mesmo tempo a ti e à mentira, como os que não querem mentir a
ponto de perderem a noção de verdade. Assim te perdi, porque não admites, nem
nenhum coração, conviver com a mentira.
CAPÍTULO XLII
Os neo-platônicos e o caminho para Deus
Poderia eu encontrar alguém que me reconciliasse contigo? Deveria eu recorrer aos
anjos? E com que orações, com que ritos? Ouvi dizer que muitos dos que se esforçam
para voltar a ti, e que não conseguiam por si mesmos, tentaram este caminho e caíram
na curiosidade de visões estranhas, recebendo por isso o justo castigo das ilusões.
Soberbos, procuravam-te com o coração inchado de sua ciência arrogante, e sem
humildade. E atraíram para si, pela semelhança de sentimentos, os demônios do ar, que
se fizeram cúmplices e aliados de sua soberba, e se tornaram iludidos de seus poderes
mágicos.
Procuravam um mediador para purificá-los, mas não o encontraram, senão ao
demônio transfigurado em anjo de luz, que justamente por não possuir corpo de carne,
seduziu-lhes fortemente a carne orgulhosa. Eram eles mortais e pecadores, e tu, Senhor,
com quem eles procuravam com soberba reconciliar-se, és imortal e sem pecado.
Era necessário que o mediador entre Deus e o homem tivesse alguma semelhança
tanto com Deus como com os homens; pois se assemelhasse apenas aos homens, estaria
muito longe de Deus; e se assemelhando só a Deus, estaria muito longe dos homens; em
ambos os casos não poderia ser mediador.
E aquele falso mediador que é o demônio, a quem teus ocultos juízos permitem que
iluda a soberba, tem de comum com os homens apenas uma coisa, isto é, o pecado.
Finge contudo, ter algum traço em comum com Deus, e como não está revestido de
carne mortal, pretende ser imortal. Mas, como a morte é o salário do pecado, ele tem
isso em comum com os homens: como eles, ele é condenado à morte.
CAPÍTULO XLIII
Cristo, o único mediador
O verdadeiro mediador que tua insondável misericórdia enviou e revelou aos homens,
para que aprendessem a humildade pelo seu exemplo, é esse mediador entre Deus e os
homens, o homem Jesus Cristo. Apareceu como intermediário entre os pecadores
mortais e o Justo imortal, mortal como os homens e justo como Deus. E, como a vida e a
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paz são a recompensa da justiça, pela justiça que o une a Deus ele suprimiu a morte
entre os ímpios justificados, e quis compartilhá-la com eles. Foi revelado aos santos dos
antigos tempos, para que eles se salvassem pela fé em sua paixão futura, como nós nos
salvamos pela fé em sua paixão passada. De fato, só é mediador enquanto homem;
enquanto Verbo não é intermediário, por ser igual a Deus: Deus em Deus e, ao mesmo
tempo, Deus único.
Como nos amaste, Pai bondoso! Não poupando teu Filho único, o entregaste por nós
pecadores! Oh! Como nos amaste! Foi por amor a nós que teu Filho, que não considerava
rapina o ser igual a ti, submeteu-se até a morte de cruz. Ele era o único livre entre os
mortos, tendo o poder de dar sua vida e de novamente retomá-la. Por nós se fez diante
de ti vencedor e vítima; por nós, diante de ti, se fez sacerdote e sacrifício, e sacerdote
porque ele era o sacrifício; de escravos, fez de nós teus filhos; nascidos de ti, se fez
nosso escravo. Com razão ponho nele a firme esperança que curarás todas as minhas
enfermidades por intermédio dele, que está sentado à tua direita e intercede por nós
junto de ti. De outro modo desesperaria, pois são muitos e grandes meus males; porém
mais poderoso é o poder do teu remédio. Poderíamos pensar que teu Verbo estava muito
longe para se unir ao homem, e desesperar de nós, se ele não se tivesse feito carne,
habitando entre nós.
Atemorizado por meus pecados e pelo peso de minhas misérias, meditei o projeto de
fugir para o ermo; mas tu te opuseste e me fortaleceste dizendo: Cristo morreu por
todos, para que os viventes já não vivam para si, mas por aquele que morreu por eles.
Eis, Senhor, que lanço em ti os cuidados da minha vida, e contemplarei as maravilhas
da tua lei. Conheces minha ignorância e minha fraqueza: ensina-me, cura-me. Teu Filho
único, em que estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, me remiu
com sangue. Não me caluniem os soberbos, porque eu conheço bem o preço de minha
redenção. Como o corpo e bebo o sangue da vítima redentora, distribuo-a aos outros;
pobre, desejo saciar-me dela em companhia daqueles que a comem e são saciados. E
louvarão ao Senhor os que o buscam!
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LIVRO DÉCIMO PRIMEIRO
CAPÍTULO I
Finalidade das confissões
Porventura, Senhor, tu que és eterno, ignoras o que te digo, ou não vês no tempo o
que se passa no tempo? Por que motivo, então, narrar-te essas coisas todas?
Certamente não é para que as conheças; é para despertar em mim e nos que me lêem
nosso amor por ti; para que todos exclamemos: Grande é o Senhor, e infinitamente
digno de louvores! Já disse e torno a dizer: É pelo desejo de teu amor que narro isso.
Também nós oramos e, não obstante, a Verdade nos diz: O Pai sabe do que haveis
mister, antes mesmo de lho pedires. – Por isso manifestamos nosso amor por ti,
confessando-te nossas misérias e tuas misericórdias para conosco, para que termines a
nossa libertação que começaste, e para que deixemos de ser infelizes em nós para
sermos felizes em ti. Pois nos chamaste para que fôssemos pobres de espírito, mansos,
penitentes, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração e pacíficos.
Muitas coisas te narrei, conforme o pude e conforme o desejo de minha alma, porque
o exigiste primeiro, para que te confessasse, Senhor, meu Deus, porque és bom, e
porque tua misericórdia é eterna.
CAPÍTULO II
A inteligência das Escrituras
Quando poderei eu descrever, com o poder de minha pena, todas as exortações, todos
os terrores, as consolações, as inspirações de que lançaste mão para me levar a pregar
tua palavra e dispensar ao povo teu sacramento?
Mesmo que eu fosse capaz de enumerar na ordem tais coisas, as gotas de meu tempo
me são preciosas. De há muito que anseio ardentemente meditar sobre tua lei, e te
confessar nela minha ciência e minha ignorância, os começos de tuas luzes na minha
alma e o que ainda resta em mim de trevas, até que minha fraqueza seja absorvida por
tua força. Não quero gastar em outros cuidados as horas de liberdade que me restam
além dos cuidados indispensáveis do corpo, do trabalho intelectual, dos serviços que
devemos aos homens, e dos que prestamos sem lhe dever.
Senhor meu Deus, ouve minha prece; que tua misericórdia atenda ao meu desejo,
pois não arde só por mim, mas também para servir ao amor fraternal, e bem vês em
meu coração que é assim.
Permitas que te sacrifique meu pensamento e minha língua, mas concede-me o que te
devo oferecer, porque sou pobre e indigente, enquanto és rico para todos os que te
invocam e, sem cuidados contigo, cuidas de nossa existência. Livra-me, Senhor, de toda
temeridade e de toda mentira que meus lábios e meu coração possam proferir. Que tuas
Escrituras sejam minhas castas delicias, que não me engane nelas, nem com elas engane
a ninguém. Senhor, ouve-me, e tem compaixão, Senhor meu Deus, luz dos cegos e vigor
dos fracos, mas também luz dos que vêem e força dos fortes; presta atenção à minha
alma e ouve-a clamar do fundo do abismo. E se teus ouvidos estão ausentes do abismo,
para onde iremos, por quem clamaremos?
Teu é o dia e tua é a noite; a um aceno do teu querer, os minutos voam. Concede-me
o tempo para meditar nos mistérios de tua lei, e não a feche para os que lhe batem à
porta; não foi em vão que quiseste fossem escritas tantas páginas de obscuros segredos.
Porventura, estes bosques não terão seus cervos, que ali se abrigam, se alimentam, que
aí passeiam, descansam e ruminam? Ó Senhor, aperfeiçoa-me e revela-me o sentido
desses mistérios. Tua palavra é minha alegria, tua voz está acima de todos os prazeres.
Concede-me o que amo, porque ando enamorado, e amar é um dom que me concedeste.
Não abandone teus dons, nem deixe de regar tua erva sedenta. Te exaltarei por tudo o
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que descobrir em teus livros; que eu ouça a voz de teus louvores. Faz que eu me inebrie
de ti, e que eu contemple as maravilhas de tua lei, desde o começo dos tempos, quando
fizeste o céu, a terra, até que partilharemos do reino do perpétuo de tua cidade santa.
Senhor, tem piedade de mim, ouve meu desejo. Julgo que não desejo nada da terra,
nem ouro, nem prata, nem pedras preciosas, nem belas roupas. Nem honrarias, nem
prazeres carnais, nem de coisas necessárias ao corpo de nossa peregrinação desta vida.
Tudo, alias, nos é dado por acréscimo quando procuramos teu reino e tua justiça.
Vê, meu Deus, de onde nasce meu desejo. Os ímpios contaram-me suas alegrias, mas
esses prazeres não são como os proporcionados por tua lei. É ela que inspira meu
desejo. Olha, ó Pai, olha, e vê, e aprova. Queira tua misericórdia que eu encontre graça
diante de ti, e que os arcanos secretos de tuas palavras se abram a meu espírito que
bate às suas portas! Isso eu te suplico por nosso Senhor, Jesus Cristo, teu filho, aquele
que está sentado à tua direita, o Filho do homem, a quem estabeleceste como mediador
entre nós e ti. Por ele nos procuraste quanto não te procurávamos, e nos procuraste para
que te buscássemos! Em nome de teu Verbo, por quem criaste todas as coisas, e a mim
entre outras; de teu Filho unigênito, por quem chamaste à adoção o povo dos crentes, no
qual também estou.
Eu te conjuro por aquele que está sentado à tua direita, e que intercede por nós, no
qual estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento que procuro em
teus livros.
Moisés escreveu a respeito: "Isto diz ele, isto diz a Verdade".
CAPÍTULO III
O que disse Moisés
Concede-me, Senhor, que eu ouça e compreenda como no princípio criaste o céu e a
terra. Moisés assim o escreveu. Escreveu e partiu deste mundo, para onde lhe falaste,
para junto de ti, e já não está presente para nós. Se estivesse aqui, detê-lo-ia, e dele
indagaria, em teu nome, o sentido de tais palavras, e absorveria com atenção as
palavras que brotassem de sua boca. Se me falasse em hebraico, em vão sua voz bateria
em meus ouvidos, e nenhuma idéia chegaria à minha mente; mas se me falasse em
latim, eu compreenderia suas palavras.
Mas, como saberia eu se ele dizia a verdade? E, posto que o soubesse, sabê-lo-ia por
seu intermédio? Não, mas seria dentro de mim, no íntimo recesso do pensamento que a
Verdade, que nem é hebraica, nem grega, nem latina, nem bárbara, sem auxílio de
lábios ou de língua, sem ruído de sílabas, me diria: "Ele fala a verdade". – e eu,
imediatamente, com a certeza da fé, diria àquele teu servo: "Tu dizes a verdade!".
Mas, como não posso consultar a Moisés, é a ti, ó Verdade, cuja plenitude ele possuía
quando enunciou tais palavras, é a ti, meu Deus, que dirijo minha súplica, perdoa meus
pecados.
Concedeste que um tem servo dissesse essas coisas: faze agora com que eu as
compreenda.
CAPÍTULO IV
O céu e a terra
Existem pois o céu e a terra, e clamam que foram criados, mediante de suas
transformações e mudanças. Mas o que não foi criado em sua forma definitiva, e todavia
existe, nada pode conter que antes já não existisse em sua forma potencial, e nisso
consiste a mudança e a variação. Proclamam também, os seres, que não foram criados
por si mesmos: "Existimos porque fomos criados. Não existíamos antes, de modo que
pudéssemos criar a nós mesmos." – E essa voz é a voz da própria evidência. És tu,
Senhor, quem os criaste. E porque és belo, eles são belos; porque és bom, eles são
bons; porque existes, eles existem. Mas tuas obras não são belas, não são boas, não
existem de modo perfeito como tu, seu Criador. Comparados contigo, os seres nem são
bons, nem belos, nem existem. Isso sabemos, e por isso te rendemos graças; mas nosso
saber, comparado com tua ciência, é ignorância.
CAPÍTULO V
A palavra e a criação
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De que modo criaste o céu e a terra, e de que instrumento te serviste para levar a
cabo tão grandiosa obra? Pois não procedeste como artesão, que forma um corpo de
outro, conforme a concepção de seu espírito, que tem o poder de exteriorizar a forma
que vê em si mesmo com o olhar do espírito. De onde lhe vem esse poder do espírito,
senão de ti, que o criaste? E essa forma, ele a impõe a uma matéria que preexistia, apta
para ser transformada, como a terra, a pedra, a madeira, o outro e tantas outras
substâncias.
Mas de onde proviriam essas coisas se não as tivesse criado? Criaste o corpo do
artista, a alma que governa seus membros, a matéria que ele plasma, a inspiração que
concebe e vê interiormente o que executará exteriormente. Deste-lhe os órgãos dos
sentidos, intérpretes pelos quais materializa as intenções de sua alma; informam o
espírito do que fizeram, para que este consulte a verdade, o juiz interior, para saber se a
obra é boa. Tudo isso te louva como criador de todas as coisas.
Mas como os fizeste? Como criaste, meu Deus, o céu e a terra? Por certo não criaste o
céu e a terra no céu e na terra. Nem tampouco os criaste no ar, nem sob as águas que
pertencem ao céu e à terra. Não criaste o universo no universo, porque não havia espaço
onde pudesse existir. Não tinhas à mão a matéria com que modelar o céu e a terra. E de
onde viria essa matéria que não tinhas ainda feito para dela fazer alguma coisa? Que
criatura pode existir que não exija tua existência? Contudo, falaste e o mundo foi feito.
Tua palavra o criou.
CAPÍTULO VI
Como falou Deus?
Mas, como falaste? Porventura do mesmo modo como aquela voz que, saindo da
nuvem, disse: Este é meu Filho bem-amado? – Essa voz fez-se ouvir, e passou; teve
começo e fim; suas sílabas ressoaram, depois passaram, em sucessão ordenada até a
última, que vem depois de todas as outras – e depois foi o silêncio. Por onde se vê
claramente que essa voz foi gerada por órgão temporal de uma criatura a serviço de tua
vontade eterna. E essas palavras, pronunciadas no tempo, foram comunicadas pelo
ouvido material à inteligência, cujo ouvido interior está atento à tua palavra eterna. E a
razão comparou essas palavras, proferidas no tempo, com o silêncio de teu Verbo eterno,
e disse: "È diferente, muito diferente. Tais palavras estão bem abaixo de mim, nem
sequer existem, pois fogem e passam; mas o Verbo de Deus permanece sobre mim
eternamente".
Se foi portanto com estas palavras sonoras e passageiras que ordenaste: Que se
façam o céu e a terra! – se foi assim que os criaste, conclui-se que já havia, antes do céu
e da terra, uma criatura temporal, cujos movimentos puderam fazer vibrar essa voz no
tempo. Ora, não havia corpo algum antes do céu e da terra; ou se algum existia, tu
certamente já o tinhas criado não por meio de uma voz passageira, justamente para que
pudesse soar essa voz passageira para dizer: "Façam-se o céu e a terra!" E fosse o que
fosse o ser de onde saísse tal voz, não teria existido se não o tivesses criado. Mas para
criar esse corpo, necessário à emissão destas palavras, de que palavra e serviste?
CAPÍTULO VII
A palavra co-eterna
É assim que nos convidas a compreender o Verbo, que é Deus junto de ti, que
também és Deus, Verbo pronunciado eternamente e pelo qual tudo é pronunciado
eternamente. O que é dito, não é uma seqüência de palavras, ou uma palavra que é
seguida por outra, como que a concluir uma frase; mas tudo é dito simultânea e
eternamente. Do contrário, já haveria tempo e mudança, e não a verdadeira eternidade
nem a verdadeira imortalidade.
Isto eu o sei, meu Deus, e por isso te dou graças. Eu o sei, e eu to confesso, Senhor;
e também o sabe todo aquele que não é ingrato à infalível verdade. Sabemos, Senhor,
sabemos que não ser mais depois de ter existido, ou passar a ser quando ainda não se
existia é o morrer e o nascer. Mas em teu Verbo, por ser verdadeiramente imortal e
eterno, nada desaparece nem tem sucessão. Com o teu Verbo que é co-eterno, enuncias
eternamente e a um só tempo tudo o que dizes. E o que se realiza é o que dizes que se
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faça. Não é de outro modo, senão pelo Verbo, que crias. Todavia os seres criados por tua
palavra não chegam à existência simultaneamente, desde toda a eternidade.
CAPÍTULO VIII
A verdadeira luz
Imploro-te, Senhor meu Deus, qual o porquê disso tudo? De certo modo eu o
compreendo, mas não sei como exprimi-lo. Poderei dizer que tudo o que tem começo e
fim, começa e acaba quando a razão eterna, que não tem começo nem fim, sabe que
deve começar ou acabar? Essa inteligência é teu Verbo, que é o princípio, porque
também nos fala. Assim falou-nos no Evangelho com voz humana, e a palavra ecoou
exteriormente nos ouvidos dos homens, para que cressem nele, e o buscassem em seu
íntimo, e o encontrassem na eterna Verdade, onde um bom e único mestre instrui todos
os seus discípulos.
Aí, Senhor, ouço tua voz a me dizer que só nos fala verdadeiramente quem nos
ensina, e quem não nos instrui, mesmo que fale, não nos diz nada. Mas quem nos
ensina, senão a Verdade imutável? As lições da criatura mutável têm o único valor de
nos conduzir à Verdade, que é imutável. Nela verdadeiramente aprendemos quando, de
pé, a ouvimos, alegrando-nos por cauda da voz do Esposo, que nos reconduz àquele de
quem viemos. Por isso, ele é o princípio, pois se ele não permanecesse, não teríamos
para onde voltar de nossos erros. Quando voltamos de um erro, temos plena consciência
dessa volta; e é para que tomemos consciência de nossos erros que ele nos instrui,
porque ele é o princípio, e sua palavra é para nós.
CAPÍTULO IX
A voz do Verbo
É nesse princípio, ó Deus, que criaste o céu e a terra; em teu Verbo, em teu Filho, em
tua virtude, em tua sabedoria, em tua verdade, falando e agindo de modo admirável.
Quem o poderá compreender ou explicar? Que luz é essa que por vezes me ilumina, e
que fere meu coração sem o lesar? Atemorizo-me e inflamo-me: tremo porque, de certo
modo, sou tão diferente dela; e inflamo-me, porque também sou semelhante a ela. A
Sabedoria é a mesma sabedoria que brilha em mim de quando em quando: ela rasga as
nuvens de minha alma, que novamente me encobrem quando dela me afasto, pelas
trevas e pelo peso de minhas memórias. Na indigência, meu vigor enfraqueceu de tal
modo, que nem posso mais suportar o meu bem, até que tu, Senhor que te mostraste
compassivo com todas minhas iniqüidades, cures também todas as minhas fraquezas.
Redimirás minha vida da corrupção; hás de me coroar na piedade e na misericórdia, e
saciarás com teus bens meus desejos, porque minha juventude será renovada com a da
águia.
Pela esperança formos salvos, e aguardamos com paciência o cumprimento de tuas
promessas.
Ouça, pois, Tua voz em seu interior, quem puder, e eu quero clamar, cheio de fé em
teu oráculo: "Como são magníficas as tuas obras, Senhor, que tudo criaste em tua
Sabedoria! Ela é o princípio e nesse princípio criaste o céu e a terra".
CAPÍTULO X
Que fazia Deus antes da criação
Com certeza ainda estão cheios do erro do velho homem os que nos dizem: "Que fazia
Deus antes de criar o céu e a terra?" – Se estava ocioso, se nada fazia, porque não
continuou a se abster sempre de qualquer ação? Se em Deus apareceu um movimento
novo, uma vontade nova de dar o ser ao que ainda não tinha criado, como falar de uma
verdadeira eternidade se nela nasce uma vontade que não existia antes? Mas a vontade
de Deus não é uma criatura, ela é anterior a toda criatura; nenhuma criação seria
possível se a vontade do Criador não a precedesse. A vontade, portanto, pertence à
própria substância de Deus. Logo, se na substância de Deus nasce algo que antes não
existia, não se pode mais com verdade chamá-la eterna. E se, desde toda eternidade,
Deus quis a existência da criatura, por que a criatura também não é eterna?
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CAPÍTULO XI
Tempo e eternidade
Os que assim falam não te compreendem ainda, ó Sabedoria de Deus, luz das
inteligências; não compreendem ainda como é criado o que é criado por ti e em ti.
Esforçam-se por saborear as coisas eternas, mas seu espírito voa ainda sobre as
realidades passadas e futuras. Quem poderá deter esse pensamento, quem o fixará por
um momento, para que tenha um rápido vislumbre do esplendor da eternidade imutável,
e a compare com os tempos impermanentes, para perceber que qualquer comparação é
impossível? Então veria que a sucessão dos tempos não é feita senão de uma seqüência
infindável de instantes, que não podem ser simultâneos; que, pelo contrário, na
eternidade, nada é sucessivo, tudo é presente, enquanto o tempo não pode ser de todo
presente. Veria que todo o passado é repelido pelo futuro, que todo futuro segue o
passado, que tanto o passado como o futuro tiram seu ser e seu curso daquele que é
sempre presente. Quem poderá deter a inteligência do homem para que pare e veja
como a eternidade imóvel, que não é futura nem passada, determina o futuro e o
passado? Acaso poderá realizar isso minha mão? Ou esta minha língua, com a palavra,
poderia realizar tal obra?
CAPÍTULO XII
Deus antes da criação
Eis minha resposta à questão: "Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?" – não
responderei jocosamente como alguém para contornar a dificuldade do problema:
"Preparava o inferno para os que perscrutam esses mistérios profundos". – Uma coisa é
compreender e outra é brincar. Não, essa não será minha resposta. Prefiro dizer: "Não
sei" – pois de fato não sei, que ridicularizar quem faz pergunta tão profunda, ou louvar
quem responde com sofismas.
Mas eu digo que tu, meu Deus, és o Criador de toda criatura; e, se por céu e terra se
entende toda criatura, não temo afirmar: "Antes que Deus criasse o céu e a terra, nada
fazia. De fato, se tivesse feito alguma coisa, o que poderia ser senão uma criatura? Oxalá
eu soubesse tudo o que desejo saber, como sei que nenhuma criatura foi criada antes da
criação.
CAPÍTULO XIII
O tempo antes da criação
Se algum espírito leviano, vagando por tempos imaginários anteriores à criação, se
admirar que o Deus Todo-Poderoso, tu, que criaste e conservas todas as coisas, ó autor
do céu e da terra, tenha-te mantido inativo até o dia da criação, por séculos sem conta,
que esse desperte e tome consciência do erra que gera sua admiração. Como, pois,
poderiam transcorrer os séculos se tu, criador, ainda não os tinha criado? E poderia o
tempo fluir se não existisse? E como poderiam os séculos passar, se jamais houvessem
existido? Portanto, como és o criador de todos os tempos – se é que houve algum tempo
antes da criação do céu e da terra – como se pode afirmar que ficaste ocioso? Pois
também criaste esse mesmo tempo, e este não poderia passar antes que o criasses.
Se porém, antes do céu e da terra não havia tempo algum, porque perguntam o que
fazias então? Não poderia haver então se não existia o tempo.
Não é no tempo que és anterior ao tempo: de outro modo não precederias a todos os
tempos. Precedes porém a todo o passado na altura de tua eternidade sempre presente;
dominas todo o futuro porque está por vir e que, quando chegar, já será passado.
Contudo, tu és sempre o mesmo, e teus anos não passam jamais. Teus anos não vão
nem vêm; mas os nossos vão e vêm, para que todos possam existir. Teus anos existem
simultaneamente, pois não fluem; não passam, não são expulsos pelos que vêm, porque
não passam. Os nossos, ao contrário, só existirão todos quando não mais existirem. Teus
anos são como um só dia, e teu dia não é uma repetição cotidiana, é um perpétuo hoje,
porque teu hoje não cede o lugar ao amanhã e nem sucede ao ontem. Teu hoje é a
eternidade. Por isso geraste um filho co-eterno, a quem disseste: "Hoje te gerei" – Todos
os tempos são obra tua, e tu existes antes de todos os tempos; é pois inconcebível que
tenha existido tempo quando o tempo ainda não existia.
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CAPÍTULO XIV
Que é o tempo?
Não houve, pois, tempo algum em que nada fizesses, pois fizeste o próprio tempo. E
nenhum tempo pode ser co-eterno contigo, pois és imutável; se, o tempo também o
fosse, não seria tempo. Que é pois o tempo? Quem poderia explicá-lo de maneira breve e
fácil? Quem pode concebê-lo, mesmo no pensamento, com bastante clareza para
exprimir a idéia com palavras? E no entanto, haverá noção mais familiar e mais
conhecida usada em nossas conversações?
Quando falamos dele, certamente compreendemos o que dizemos; o mesmo acontece
quando ouvimos alguém falar do tempo. Que é, pois, o tempo? Se ninguém me
pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei. Contudo, afirmo com
certeza e sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado; que se não houvesse
os acontecimentos, não haveria tempo futuro; e que se nada existisse agora, não haveria
tempo presente. Como então podem existir esses dois tempos, o passado e o futuro, se o
passado já não existe e se o futuro ainda não chegou? Quanto ao presente, se
continuasse sempre presente e não passasse ao pretérito, não seria tempo, mas
eternidade. Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como
podemos afirmar que existe, se sua razão de ser é aquela pela qual deixará de existir?
Por isso, o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não
existir.
CAPÍTULO XV
Tempo longo, tempo breve
No entanto, dizemos que o tempo é longo ou breve, o que só podemos dizer do
passado e do futuro. Chamamos longo, digamos, os cem anos passados, e longo também
os cem anos posteriores ao presente; um passado curto para nós, seriam os dez dias
anteriores a hoje, e breve futuro, os dez dias seguintes. Mas como pode ser longo ou
curto o que não existe? O passado não existe mais e o futuro não existe ainda. Por isso
não deveríamos dizer "o passado é longo" – mas o passado "foi longo" – e o futuro "será
longo".
Senhor, que és a minha luz, tua verdade não escarnecerá também nisso o homem?
Esse tempo passado, foi longo quando já havia passado ou quando ainda estava
presente? Porque ele só podia ser longo enquanto existia alguma coisa que pudesse ser
longa. Mas uma vez passado, não existia mais: donde se conclui que não podia ser
longo, porque já deixara de existir. Não digamos, portanto: "O tempo passado foi longo"
– pois não encontraremos nada que pudesse ter sido longo; uma vez passado não existe
mais. Mas digamos: "O tempo presente foi longo" – porque só era longo enquanto
presente. Ainda não havia passado, ainda não havia deixado de existir, e por isso era
susceptível de ser longo. Mas logo que passou, deixou de ser longo, porque cessou de
existir.
Mas vejamos, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo, porque foi-te
dada a prerrogativa de perceber e medir os momentos. Que me respondes? Por acaso
cem anos presentes são um tempo longo? Consideremos antes se cem anos podem ser
presentes. Se for o primeiro ano que corre, está presente; mas os outros noventa e nove
ainda são futuros, e portanto ainda não existem. Se estamos no segundo ano, já temos
um ano passado, o segundo presente e todos os outros no futuro. Desse período de cem
anos, seja qual for o ano que supomos presente, todos os que o precederam serão
passados, e todos os que estão por vir, futuros. Portanto, os cem anos não podem estar
simultaneamente presentes.
Vejamos agora se, pelo menos, o ano em curso é presente. Se estamos no primeiro
mês, os outros são futuros. Como acima, se estamos no segundo, o primeiro será
passado, e os demais, futuros. Assim o ano que corre não está todo presente; e como
não está todo presente, não é portanto verdade dizer-se que o ano esteja presente. Um
ano compõe-se de doze meses, e seja qual for o mês considerado, será o único em
curso. Mas o mês em curso não é presente, mas somente o dia. Vale o que dissemos
antes: se estamos no primeiro dia, todos os outros são futuros; se estamos no último,
todos os outros são passados; se estamos entre um desses dois dias, esse dia está entre
os dias passados e os futuros.
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Eis, portanto, esse tempo presente, o único que julgávamos poder chamar de longo,
reduzido ao espaço de um só dia. Mas, examinemos esse único dia, porque nem mesmo
ele é todo presente. Compõe-se de dia e noite, num total de vinte e quatro horas;
relativamente à primeira hora, todas as outras são futuras; em relação à última hora,
todas as outras são passadas; cada hora intermediaria tem atrás de si horas passadas e
diante de si horas futuras.
Mas também essa única hora é composta de fugitivos instantes; tudo o que dela
correu é passado, e tudo o que ainda lhe resta é futuro.
Se pudermos conceber um lapso de tempo que não possa ser subdividido em frações,
por menores que sejam, só essa fração poderá ser chamada de presente, mas sua
passagem do futuro para o passado seria tão rápida, que não teria nenhuma duração. Se
a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro, mas o presente não em duração alguma.
Qual seria pois, o tempo que podemos chamar de longo? Seria acaso o futuro? mas
nós não dizemos que o futuro é longo, porque ainda não existe, e por isso não pode ser
longo.
Dizemos: "Será longo". E quando se dará? Se atualmente ele ainda está no porvir, não
pode ser longo: não existindo ainda, não pode ser longo. Mas somente poderá ser longo
na hora em que emergir do futuro, que ainda não existe, em que começar a ser e a se
tornar presente, de modo que possa ser longo. Nesse caso o presente nos clama, pelo
que acima dissemos, que ele não pode ser longo.
CAPÍTULO XVI
A medida do presente
E, contudo, Senhor, percebemos os intervalos de tempos, os comparamos entre si, e
dizemos que uns são mais longos e outros mais breves. Medimos também o quanto uma
duração é maior ou menor que outra, e respondemos que esta é o dobro ou o triplo de
outra; que aquela é simples, ou que ambas são iguais. Mas é o tempo que passa que
medimos quando o percebemos passar. Quanto ao passado, que não existe mais, e o
futuro que não existe ainda, quem poderá medi-los, a menos que ouse afirmar que o
nada pode ser medido? Assim, quando o tempo passa, pode ser percebido e medido.
Porém quando já decorreu, ninguém o pode mentir ou sentir, porque já não existe.
CAPÍTULO XVII
O passado e o presente
Pai, apenas pergunto, não estou afirmando; meu Deus, ajuda-me, dirige-me. Quem
ousaria afirmar que não existe três tempos, como aprendemos na infância e como
ensinamos às crianças, o passado, o presente e o futuro? será que só o presente existe,
porque os demais, o passado e o futuro, não existem? Ou será que eles também
existem, e então o presente provém de algum lugar oculto, quando de futuro se torna
presente, e também se retira para outro esconderijo, quando de presente se torna
passado? E os que predisseram o futuro, onde o viram, se ele ainda não existe? É
impossível ver-se o que não existe. E os que narram o passado diriam mentiras se não
vissem os acontecimentos com o espírito. Ora, se esse passado não tivesse existência
alguma, seria absolutamente impossível vê-lo. Por conseguinte, o futuro e o passado
também existem.
CAPÍTULO XVIII
As previsões
Permite-me, Senhor, que eu leve adiante minhas investigações, tu que és minha
esperança; faze que minha tentativa não seja perturbada. Se o futuro e o passado
existem, quero saber onde estão. Se ainda não posso compreender, sei todavia que,
onde quer que estejam, não existem nem como futuro, nem como passado, mas apenas
como presente. Se também ali estiver enquanto futuro, então ainda não existirá; se o
passado aí estiver como passado, já não estará lá.
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Portanto, no lugar e no modo que estiverem, só podem existir como presentes.
Quando relatamos acontecimentos verídicos do passado, o que vêm à nossa memória
não são os fatos em si, que já deixaram de existir, mas as palavras que exprimem as
imagens dos fatos, que, através de nossos sentidos, gravaram em nosso espírito suas
pegadas. Minha infância, por exemplo, que não existe mais, pertence a um passado que
também desapareceu; mas quando eu a evoco e passo a relatá-la, vejo suas imagens no
presente, imagens que ainda estão na minha memória. E a predição do futuro, meu
Deus, seguiria um processo análogo? Os fatos que ainda não existem, serão
representados antecipadamente em nosso espírito como imagens já existentes? Eu o
ignoro. O que sei é que habitualmente premeditamos nossas ações futuras, e que essa
premeditação pertence ao presente, enquanto esta começará a existir, pois então não
será mais futura, mas presente.
Seja qual for a natureza desse misterioso pressentimento do futuro, o certo é que
apenas se pode ver aquilo que existe. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente.
Quando se diz que se vê o futuro, o que se vê não são os fatos futuros em si, que ainda
não existem porque são futuros, mas suas causas ou talvez sinais prognósticos, causas e
sinais que já existem. Estes não são pois futuros, mas presentes para os que as vêem, e
é graças aos vaticínios que o futuro é concebido pelo espírito e profetizado. Esses
conceitos já existem, e os que predizem o futuro vêem-nos presentes em si mesmos.
Gostaria de apelar para um exemplo tomado entre os muitos possíveis. Vejo a aurora,
e prognostico o nascimento do sol. O que vejo é presente, o que anuncio é futuro. Não o
sol, que já existe, mas seu surgimento, que ainda não ocorreu. Contudo, se eu não
tivesse uma imagem mental desse surgimento, como agora quando falo dele, ser-me-ia
impossível a previsão. Mas essa aurora que vejo não é o nascimento do sol, embora o
preceda; nem o é tampouco a imagem que trago em meu espírito. As duas coisas estão
presentes, eu as vejo, e assim posso predizer o que vai acontecer. O futuro, portanto,
ainda não existe; se ainda não existe, não existe no agora; e se não existe não pode ser
visto de modo algum, mas pode ser prognosticado pelos sinais presentes, que já existem
e podem ser vistos.
CAPÍTULO XIX
Oração
Mas tu, que és soberano sobre tuas criaturas, de que modo ensinas às almas os fator
porvir, como revelas aos teus profetas? De que modo ensinas o futuro, tu, para quem o
futuro não existe? Ou antes, como ensinas os sinais presentes dos fatos futuros? Pois, o
que ainda não existe não pode ser ensinado. O teu modo misterioso de agir está muito
acima de minha inteligência, sobrepuja minhas forças. Por mim mesmo eu não o poderia
alcançar, mas podê-lo-ei por ti, quando me concederes, ó doce Luz dos olhos de minha
alma!
CAPÍTULO XX
Conclusão
O que agora parece claro e evidente para mim é que nem o futuro, nem o passado
existem, e é impróprio dizer que há três tempos: passado, presente e futuro. Talvez
fosse mais correto dizer: há três tempos: o presente do passado, o presente do presente
e o presente do futuro. E essas três espécies de tempos existem em nossa mente, e não
as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a
percepção direta; o presente do futuro é a esperança.
Se me é lícito falar assim, vejo e confesso que há três tempos. Diga-se também que
são três os tempos: presente, passado e futuro, como abusivamente afirma o costume.
Não me importo, nem me oponho, nem critico o modo de falar, desde que fique bem
entendido o que se diz, e que não se acredite que o futuro já existe e que o passado
ainda existe. Uma linguagem que expresse com termos exatos é incomum: com muita
freqüência falamos com impropriedade, mas entende-se o que queremos dizer.
CAPÍTULO XXI
A medida do tempo
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Disse há pouco que medimos o tempo que passa; de modo que podemos afirmar que
um lapso de tempo é o dobro de outro, ou igual, e apontar entre os intervalos de tempo
outras relações, mediante esse processo comparativo. Portanto, como eu dizia, medimos
o tempo no momento em que passa. E se me perguntarem: Como o sabes? – eu
responderia: Sei porque o medimos, e porque é impossível medir o que não existe; ora,
o passado e o futuro não existem.
Quanto ao presente, como podemos medi-lo, se não tem duração? Portanto, só
podemos medi-lo enquanto passa; e quando passou, não o medimos mais, porque não
há mais nada a mentir.
Mas de onde se origina, por onde passa, para onde vai o tempo quando o medimos?
De onde vem senão do futuro? Por onde passa, senão pelo presente? Para onde vai
senão para o passado? Nasce pois do que ainda não existe, atravessa o que não tem
duração, e corre para o que não existe mais. No entanto, o que é que medimos, senão o
tempo relacionado ao espaço?
Quando dizemos de um tempo que é simples, duplo, ou triplo, ou igual, ou quando
formulamos qualquer outra relação dessa espécie, nada mais fazemos do que medir
espaços de tempo. Em que espaço medimos então o tempo no momento em que passa?
No futuro, talvez, donde procede? Mas o que ainda não existe não pode ser medido. Será
no presente, por onde ele passa? Mas, como medir o que não tem extensão? Será no
passado, para onde caminha? Mas o que não existe mais escapa à qualquer medida.
CAPÍTULO XXII
O enigma
Minha alma se inflama no desejo de deslindar este enigma tão complicado! Senhor,
meu Deus, meu bom Pai, eu to suplico por Cristo; não queiras tolher a meu desejo a
solução de tais problemas, tão familiares mas tão obscuros; permite que eu os penetre, e
faze com que a luz de tua misericórdia os ilumine, Senhor! A quem poderia eu consultar
sobre isso? A quem confessaria minha ignorância com mais proveito do que a ti, que não
se despraz com o forte zelo que me inflama por tuas Escrituras? Concede-me o que amo,
pois este amor é um dom teu. Dá-me, ó Pai, esta graça, tu que sabes presentear com
boas dádivas a teus filhos. Concede-me essa luz, porque determinei conhecê-las, e meu
esforço será rude até que me reveles esses mistérios. Eu to suplico, por Cristo, em nome
do Santo dos Santos, que ninguém perturbe minha investigação.
Acreditei, e por isso falo. Minha esperança, a esperança pela qual vivo, é contemplar
as delícias do Senhor. Eis que tornaste velhos os meus dias, e eles passam, não sei
como.
Nós só falamos de tempo, e de tempo, e de tempos e de tempos. Quanto tempo esse
homem falou? Quanto tempo demorou para fazê-lo? Há quanto tempo não vejo isto! A
duração desta sílaba é o dobro daquela, que é breve. Assim nos expressamos e assim
ouvimos, e todos nos compreendem, e nós compreendemos. São palavras claras e de
uso corrente, mas encerram mistérios, e compreendê-las requer melhor análise.
CAPÍTULO XXIII
O tempo e o movimento
Ouvi um homem instruído dizer que o tempo é nada mais do que o movimento do sol,
da lua e dos astros. Não concordo. Por que não seria então o tempo o movimento de
todos os corpos? Se os astros passassem, e a roda de um oleiro continuasse a rodar,
deixaria acaso de existir tempo para medir suas voltas? Como poderíamos dizer que elas
se davam a intervalos iguais, ou ora mais rápida, ora mais lentamente, e que umas
demoravam mais e outras menos? E, dizendo isto, não estaríamos falando do tempo?
Não haveria mais em nossas palavras sílabas longas e breves, porque umas ressoam por
mais tempo e outras por menos tempo?
E tu, Deus, concede aos homens que percebam, que reconheçam neste modesto
exemplo, o que as coisas grandes e pequenas têm em comum. Há astros e luminares
celestes que nos servem de sinais e marcam as estações, os dias e os anos. Isso é
verdade; todavia, como eu jamais diria que a volta realizada por aquela roda de madeira
representa o dia, nem o sábio cuja opinião transcrevo poderia afirmar que a volta da
roda não representa o tempo.
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O meu desejo é conhecer a natureza e a essência do tempo, com que medimos os
movimentos dos corpos, e nos autoriza a dizer, por exemplo, que um movimento dura
duas vezes mais que outro. O que chamamos de dia não é apenas o tempo todo o
percurso de oriente a oriente, e que nos faz dizer: "Passaram-se tantos dias" –
entendendo por isso também as noites, que não são enumeradas separadamente.
Portanto, já que o dia se completa pelo movimento do sol e o círculo que ele cumpre a
partir do oriente, pergunto eu se o dia é o próprio movimento ou se é o tempo que dura
esses movimentos, ou ambas as coisas.
Na primeira hipótese, teríamos um dia mesmo se o sol fizesse seu percurso no
intervalo de uma hora. Na hipótese da duração, não haveria dia se o sol fizesse seu
percurso no breve espaço de uma hora; e o sol deveria cumprir vinte e quatro vezes seu
percurso para formar um dia.
Diremos então que o movimento do sol, e a duração desse movimento, é que fazem o
dia? Mas então não se poderia chamar de dia se o sol efetuasse seu percurso no lapso de
uma hora, mais do que se, parando o sol seu percurso, passasse o mesmo tempo que é
necessário habitualmente ao sol para completar sua revolução de uma manhã a outra.
Portanto, não mais buscarei conhecer em que consiste o dia, mas em que consiste o
tempo, que usamos para medir o percurso do sol. Usando tal medida, diríamos que o sol
gastara em seu giro a metade do tempo habitual, se o tivesse completado em um lapso
de doze horas. E, comparando essas duas durações, diríamos que uma é o dobro da
outra, mesmo que o sol demorasse umas vezes o tempo simples, outras o tempo duplo
para ir de oriente para oriente.
Ninguém, portanto, me diga que o tempo é o movimento dos corpos celestes. Quando
a oração de um homem fez parar o sol para concluir vitoriosamente a batalha, o sol
estava imóvel, mas o tempo caminhava; e a batalha terminou no espaço de tempo que
lhe era necessário.
Veja, pois, que o tempo é uma espécie de extensão. Mas eu o vejo, ou apenas tenho a
impressão de vê-lo? Só tu mo demonstrarás, ó Luz, ó Verdade!
CAPÍTULO XXIV
O tempo, medida do movimento
Queres que eu aprove a quem diz que o tempo é o movimento de um corpo? Não, não
aprovo. Sei que não há corpo que não se mova no tempo: tu mesmo o afirmas. Mas não
acredito que o movimento de um corpo seja o tempo; isso nunca ouvi, e nem tu o dizes.
Quando um corpo se move, sirvo-me do tempo para medir a duração de seu movimento
do começo ao fim. Se não vejo o começo, e percebo seu movimento sem ver seu fim, só
posso medi-lo do momento em que observo o corpo mover-se até o momento em que já
não o vejo. Se o vejo por muito tempo, apenas posso afirmar que a duração de seu
movimento é longa, mas não posso dizer quanto é longa, porque só determinamos o
valor de uma duração comparando-a. Dizemos, por exemplo: "isso durou tanto quanto
aquilo, ou essa duração é o dobro daquela", semelhantes. Se podemos notar o ponto do
espaço onde se inicia um movimento, e o ponto de chegada, ou suas partes, se ele se
movesse em círculo, poderíamos dizer quanto tempo levou para ir de um ponto a outro o
movimento do corpo ou dessas partes.
Assim, o movimento de um corpo é diferente da medida de sua duração; que não vê,
pois, a qual dessas coisas se deve chamar de tempo? Se um corpo se move de forma
irregular, e outras vezes se detém, ora, é o tempo que nos permite medir, não apenas
seu movimento, mas também seu repouso, e afirmar: "Ficou em repouso por tanto
tempo quanto em movimento – ou qualquer outro intervalo que tenhamos calculado ou
estimado aproximadamente". O tempo não é pois a mesma coisa que o movimento.
CAPÍTULO XXV
Prece
Confesso-te, Senhor, que ainda não sei o que é tempo. E torno a confessar, Senhor,
eu o sei, que digo estas coisas no tempo, e que de há muito estou falando do tempo, e
que esse muito também não seria o que é senão pela duração do tempo. Mas como
posso saber isto, se desconheço o que é o tempo? Talvez eu ignore a arte de exprimir o
que sei. Ai de mim, que não sei nem mesmo o que ignoro! Eis-me diante de ti, meu
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Deus, tu vês que não minto e que falo de coração. Acenderás minha candeia, Senhor
meu Deus, e iluminarás minhas trevas.
CAPÍTULO XXVI
O tempo, distensão da alma
Acaso minha alma não foi sincera confessando-te que posso medir o tempo? De fato,
meu Deus, eu o meço, e não sei o que meço. Meço o movimento dos corpos com o
auxílio do tempo, e não poderei medir o tempo do mesmo modo? E poderia eu medir o
movimento de um corpo, sua duração, o tempo que gasta para ir de um lugar a outro,
sem medir o tempo em que se move?
Mas o tempo em si, com que o poderei medir? É com um tempo mais curto que
medimos um mais longo, como medimos uma viga com o côvado? Do mesmo modo
medimos a duração de uma sílaba longa com a duração de uma sílaba breve, dizendo
que uma é o dobro da outra. Do mesmo modo medimos a extensão de um poema pelo
número de versos, a extensão dos versos pelo número de pés, a extensão dos pés pelo
número de sílabas, a duração das sílabas longas pela duração das breves. Não é pelas
páginas dos livros que fazemos esse cálculo, o que seria medir o espaço e não o tempo.
Conforme as palavras passam e as pronunciamos, dizemos: "Eis um poema longo,
porque se compõe de tantos versos; esses versos são longos, porque são formados de
tantos pés; esses pés são longos, porque se estendem por tantas sílabas; esta sílaba é
longa, porque é o dobro de uma breve".
Todavia, não conseguimos uma medida exata do tempo; pode acontecer que um
verso mais curto, se pronunciado mais lentamente, se estenda por mais tempo que um
verso mais longo, recitado depressa. O mesmo acontece com um poema, um pé, uma
sílaba.
Por esse motivo é que o tempo me pareceu não ser nada mais que uma extensão. Mas
extensão de que? Não saberia dizê-lo ao certo; seria de admirar que não fosse extensão
da própria alma. portanto, dize-me , meu Deus, que é o que meço quando digo um tanto
vagamente: "Este tempo é mais longo do que aquele" – ou mais exatamente: "Este
tempo é o dobro daquele?
– Meço o tempo, eu o sei; mas não o futuro, que ainda não existe, nem o presente,
porque não tem duração, nem o passado, porque não existe mais. Que meço eu então?
Acaso o tempo que passa, e não o tempo passado, como disse acima?
CAPÍTULO XXVII
A medida do passado
Insiste, ó minha alma, e presta grande atenção: Deus é nosso apoio. Ele é que nos
criou, e não nós. Olha para lá, par o lado onde desponta a aurora da verdade.
Eis, por exemplo, que uma voz corpórea começa a ressoar, e soa, e continua vibrando
e deixar de soar; faz-se silencio, a voz calou-se, passou e deixa de existir. Antes de soar,
era futura, e não podia ser medida, pois ainda não existia; e agora também não o pode,
porque já não existe mais. Só poderíamos medi-la quando ressoava, porque então havia
o que medir. Mas mesmo então não era estável, porque vinha e passava. E não seria isso
que a tornava mensurável?
Porque enquanto passava, estendia-se por um espaço de tempo que a tornava capaz
de ser medida, porque o presente não tem duração alguma.
Admitamos que foi possível medi-la; eis, suponhamos agora, uma outra voz que
começa a se fazer ouvir; ela vibra de modo contínuo, sem nenhuma interrupção.
Meçamo-la enquanto vibra, porque no momento em que deixar de vibrar será passada, e
já não poderá ser medida. Meçamola, então, e avaliemos sua duração. Mas ela vibra
ainda, e só pode ser medida depois do início do fenômeno, quando começa a vibrar, até
seu fim, quando deixa de vibrar. Porque é precisamente o intervalo que separa um
começo de um fim que nós medimos. Por isso, uma voz, que ainda não terminou de
ressoar, escapa à medida: é impossível dizer se ela será longa ou breve, se é igual a
outra, simples ou dupla, ou qual a relação que tem com essa outra. Mas quando terminar
de soar, deixará de existir. Como, então, poderemos medi-la?
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De fato, medimos o tempo; mas não o tempo que ainda não existe, nem o que já não
existe, nem o que não tem duração alguma, nem o que está passando. Não é, portanto,
nem o futuro, nem o passado, nem o presente, nem o que não tem limites que medimos:
e, contudo, medimos o tempo.
Deus creator omnium (Deus, criador de tudo quanto existe): este verso é formado de
oito sílabas, alternativamente breves e longas. As quatro breves, a primeira, a terceira, a
quinta e a sétima – são simples em relação às quatro longas: a segunda, a quarta, a
sexta e a oitava. Cada sílaba longa tem uma duração duas vezes maior que a breve. Eu
pronuncio e percebo que é assim pelo testemunho claro de meus sentidos. E por esta
testemunho que é fidedigno, meço uma longa por uma breve, e noto que ela a contém
duas vezes.
Mas como uma sílaba só se faz ouvir depois da outra, se a breve vem primeiro, e a
longa a seguir, como poderei reter a breve, como aplicá-la à longa, para compará-las e
ver que esta contém aquela duas vezes, uma vez que a longa só começa a soar quando a
breve deixou de se ouvir? E a própria sílaba longa, não me é possível medi-la enquanto
está soando, porque eu só poderia medi-la quando se calasse. Mas ela, ao terminar,
passou. Que é pois que eu meço? Onde está a breve, que seria minha medida? Onde
está a longa, que meço? Apenas vibraram, foram-se, passaram, e não existem mais. Não
obstante, eu as meço e respondo com a segurança que me pode dar um sentido bem
educado, que evidentemente uma é de duração simples e a outra dupla. Mas só poderei
fazê-lo depois que ambas passaram e terminaram.
Logo, eu não meço as sílabas, que não existem mais, mas algo que permanece
gravado em minha memória.
É em ti, meu espírito, que meço o tempo. Não me objetes nada, pois é assim. Não te
perturbes com as ondas desordenadas de tuas emoções. É em ti, digo, que meço o
tempo. A impressão que em ti gravam as coisas em sua passagem, perduram ainda
depois que os fatos passam. O que eu meço é esta impressão presente, e não as
vibrações que a produziram e se foram. É ela que meço quando meço o tempo. Portanto,
ou essa impressão é o tempo, ou eu não meço o tempo.
Mas quando medimos silêncios, e dizemos que o silêncio teve a mesma duração que
certa palavra, não estamos dirigindo nossa atenção para a medida dessa palavra, como
se ainda pudéssemos ouvi-la, para podermos avaliar no espaço de tempo, o intervalo do
silêncio? Com efeito, por vezes, sem abrir a boca ou dizer palavra, fazemos mentalmente
poemas, versos, discursos; avaliamos a extensão do seu movimento, sua duração, uns
em relação aos outros, exatamente como se usássemos a voz.
Se alguém quisesse pronunciar um som prolongado, e regular antecipadamente, em
pensamento, sua duração, estima em silêncio a medida dessa duração e, confiando à
memória, começa a emitir o som, que vibra até atingir o limite fixado. Ou melhor: esse
som vibrou e vibrará, porque a parte que passou soou; a que ainda resta, soará e
chegará a seu fim. A atenção presente vai lançando o futuro para o passado, e o passado
cresce com a diminuição do futuro, até que, esgotado o futuro, não haja mais que
passado.
CAPÍTULO XXVIII
A medida do futuro
Mas o futuro, que ainda não existe, como pode diminuir ou consumir-se? E o passado,
que já não existe, como pode aumentar, a não se por existirem no espírito, autor dessas
três transformações: a espera, a atenção e a lembrança? O objeto de sua espera passa
pela atenção e se transforma em lembrança.
De fato, quem ousará negar que o futuro ainda não existe? Todavia, a espera do
futuro já está no espírito. E quem poderá negar que o passado não mais existe? Contudo,
a lembrança do passado ainda está no espírito. Enfim, haverá alguém que negue que o
presente carece de duração, porque é um instante que passa? No entanto, perdura a
atenção, diante da qual o seu objeto presente continuamente se retira. O futuro,
portanto, não é longo, porque não existe. Um futuro longo seria apenas uma longa
espera do futuro. nem pode ser longo o passado, que também não existe. Um passado
longo é uma longa lembrança do passado.
Digamos que eu queira cantar uma canção que conheço: antes de iniciar, minha
expectativa se estende pela melodia como um todo. Quando começo, tudo o que vira
passado é armazenada na memória. A atividade de meu espírito se divide em memória,
onde guardo o que já disse, e em expectativa em relação ao que vou dizer. Contudo, a
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atenção está presente, e por seu intermédio o futuro se torna passado. Quanto mais se
aproxima o fim da canção, tanto menos se torna a expectativa e tanto maior a memória,
até que aquela se esgota e a ação cumprida passa inteiramente para a memória.
E o que acontece com a canção tomada em seu conjunto, também ocorre com cada
uma de suas partes, com cada sílaba; e também acontece com uma ação mais longa, da
qual essa melodia talvez faça parte. O mesmo acontece com toda a vida do homem, da
qual seus atos são partes. Sucede, enfim, com toda a história dos filhos do homem, da
qual cada existência é apenas uma parte.
CAPÍTULO XXIX
A eternidade de Deus
Mas porque tua misericórdia é superior a todas as vidas, e eis que minha vida não é
mais que distensão, e tua destra me acolheu em meu Senhor, o Filho do homem,
mediador entre ti, que és uno, e nós, que somos muitos e vivemos divididos por diversas
paixões. Assim. Por ele me unirei àquele, que por ele se uniu a nós, e liberto dos antigos
dias, recolherei meu ser seguindo tua Unidade. Esquecido do passado, sem me preocupar
com as coisas futuras e transitórias, atento apenas àquilo que é eterno, não com
dispersão mas com todas as minhas forças buscarei a palma da vocação celeste, onde
ouvirei a voz de teu louvor, e onde contemplarei tua alegria, que não conhece futuro nem
passado.
Agora, porém, meus anos transcorrem em lamentos, e tu, meu consolo, ó Senhor,
meu Pai, tu és eterno. Mas eu me dispersei no tempo, cuja ordem ignoro; tumultuosas
vicissitudes despedaçam meus pensamentos, entranhas de minha alma, até o dia em
que, purificado pelo fogo de teu amor, me una a ti.
CAPÍTULO XXX
Deus e o tempo
E repousarei imutável em ti, em tua verdade, na minha forma. não mais tolerarei as
perguntas das pessoas que, pela enfermidade que é a pena de seu pecado, tem mais
sede de saber do que lhes permite sua capacidade, que dizem: "Que fazia Deus antes de
criar o céu e a terra?" – ou ainda: "Como lhe veio a idéia de criar algo, se antes nunca
fizera nada" – Concede-lhes, Senhor, que reflitam no que dizem, que compreendam que
não se pode falar nunca onde não há tempo. Quando se diz que alguém nunca fez nada,
que se quer dizer senão que esse tal nada fez em tempo algum? Que eles compreendam
que não pode existir tempo na ausência da criação, e deixem de semelhantes falácias.
Que também atentem para o que têm diante de si, para compreender que tu, antes de
todos os tempos, és o Criador eterno de todos os tempos, e que nenhum tempo te é coeterno,
nem criatura alguma, embora algumas estejam acima dos tempos (Agostinho se
refere aqui, aos anjos e demônios).
CAPÍTULO XXXI
Conclusão
Senhor, meu Deus, que abismos profundos os de teus segredos, e quão longe deles
me levaram as conseqüências de meus pecados! Cura meus olhos, para que eu me
alegre com tua luz! Se houvesse de fato um espírito de ciência e de presciência tão
grandes para conhecer o passado e o futuro, como conheço qualquer canto popular, esse
espírito nos encheria de extraordinária admiração e espanto. Nada, com efeito, lhe seria
oculto no passado e nos séculos vindouros, exatamente como, ao entoar essa melodia,
sei tudo o que cantei desde o começo, e tudo o que falta cantar até o fim. Mas longe de
mim a idéia de identificar um tal conhecimento àquele que tens de todas as coisas
futuras e passadas, ó Criador do Universo, Criador dos espíritos e dos corpos. Tua ciência
é incomparavelmente mais admirável e mais misteriosa.
Porque aquele que canta ou escuta uma melodia conhecida, dividido entre a
expectativa das notas por vir e a lembrança das notas passadas, passa por impressões
diferentes. Mas contigo não se dá nada semelhante, tu que és imutável e eterno, Criador
verdadeiramente eterno dos espíritos. Como no princípio, conheceste o céu e a terra,
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sem que teu espírito mudasse seu saber, assim criaste o céu e a terra, sem que tua ação
passasse por etapas distintas. Que aquele que compreende isto te louve, assim como o
que não compreende. Oh! Como és sublime! E os de coração humildes são tua morada!
Levantas os que caíram, e os que graças a ti continuam eretos, não caem nunca.
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LIVRO DÉCIO SEGUNDO
CAPÍTULO I
Prece
Inquieto está meu coração, Senhor, quando, na miséria de minha vida é atingido pelas
palavras de tua Escritura Sagrada. Por isso, geralmente, a abundância de palavras é
testemunho da pobreza da inteligência humana. A busca usa mais palavras que a
descoberta; é maior o pedir que o obter; a mão que bate cansa-se mais do que a mão
que recebe. Mas nós temos tua promessa: quem a destruirá? Se Deus está conosco,
quem será contra nós? Pedi, e recebereis; procurai e encontrareis; batei, e abrir-se-vosá.
Porque todo o que pede recebe, todo o que procura encontra, e a todo o que bate se
lhe abrirá.
São promessas tuas. E quem temerá ser enganado, quando a promessa vem da
Verdade?
CAPÍTULO II
O céu do céu
Que a humildade de minha língua confesse à tua grandeza que criaste o céu e a terra;
este céu que vejo, esta terra que piso, e de onde tiraste a terra que trago em mim. sim,
criaste tudo isto.
Mas, Senhor, onde está o céu de que nos falou a voz do salmista: "O céu do céu
pertence ao Senhor, mas ele deu a terra aos filhos dos homens?" – Onde está esse céu
que não vemos, e diante do qual tudo o que vemos é apenas terra?
De fato, todo este mundo material, cuja base é a terra, embora não seja inteiramente
belo em toda parte, recebeu até em seus últimos elementos, uma aparência atraente.
Mas, comparado com esse céu do céu, o céu de nossa terra também não passa de terra.
Por isso, não é absurdo chamar de terra esses dois grandes corpos visíveis, se os
compararmos a esse céu misterioso que pertence ao Senhor, e não aos filhos dos
homens.
CAPÍTULO III
As trevas sobre o abismo
Mas esta terra era invisível e informe, era um profundo abismo acima do qual não
pairava nenhuma luz, pois não tinha nenhuma forma. Por isso inspiraste estas palavras:
"As trevas cobriam o abismo". – Mas que são trevas, senão ausência da luz? De fato, se
então existisse, onde estaria a luz senão sobre a terra, para iluminá-la? Mas como a luz
ainda não existia, o que era a presença das trevas, senão a ausência da luz? As trevas
reinavam sobre o abismo porque a luz não existia, do mesmo modo que onde não há
ruído reina o silêncio. E que significa reinar o silêncio, senão falta de som?
Não ensinaste, Senhor, à alma que a ti se confessa? Não me ensinaste, Senhor, que
antes de receber de ti forma e figura esta matéria informe, não existia nada, nem cor,
nem figura, nem corpo, nem espírito? Não era um nada absoluto, mas massa informe,
sem figura alguma.
CAPÍTULO IV
A matéria informe
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Que nome darei a esta matéria, como sugerir sua idéia às inteligências mais curtas,
senão usando um termo de uso corrente? O que se pode encontrar no mundo que seja
mais parecido com essa ausência total de forma, que a terra e o abismo? Colocados no
mais baixo grau da criação, eles não têm a beleza dos corpos que no alto brilham de luz
fulgurante.
Por que, então, não aceitar que essa matéria informe, que criaste sem beleza para
com ela moldar um mundo cheio de beleza, fosse comodamente designada aos homens
pelos termos de terra invisível e informe?
CAPÍTULO V
Sua natureza
Assim, quando o pensamento indaga o que nossos sentidos podem colher a respeito
dessa matéria, responde a si mesmo: "Não é nem forma inteligível, como a vida, como a
justiça, porque é a matéria corpórea, nem uma forma sensível, porque nada há que se
possa ver ou perceber no que é invisível e sem forma". – Quando o pensamento humano
fala desse modo, procura conhecê-la ignorando-a, ou ignorá-la conhecendo-a?
CAPÍTULO VI
Em que consiste
Senhor, se pela boca e pela pena devo confessar-te o que me ensinaste sobre essa
matéria, eu direi que outrora ouvi falar, sem nada compreender, a respeito desse nome
por pessoas que também não entendiam. Tentei imaginá-la sob as formas mais diversas,
e não o consegui. Meu espírito revolvia confusamente formas feias e horríveis, mas enfim
sempre formas.
Chamava de informe essa matéria, não porque a imaginasse sem forma, mas por têlas
tão estranhas e bizarras que, se a visse, afastaria meus sentidos e confundiria minha
fraqueza de homem.
Por isso, o que eu concebia era informe, não por ausência de qualquer forma, mas por
comparação com formas mais belas. A reta razão me persuadia; se eu quisesse conceber
algo absolutamente informe, a suprimir nele todo resquício de forma, mas eu não
conseguia; parecia-me bem mais fácil negar a existência do que estava privado de toda
forma, do que conceber um ser a meio termo entre a forma e o nada, e que não fosse
nem forma, nem nada, um ser informe, um quase nada.
Então, minha inteligência deixou de inquirir minha imaginação, cheia de imagens de
formas corpóreas, que ela variava e mudada a seu talante. Fixei a atenção nos próprios
corpos, analisei mais profundamente essa mutabilidade pela qual eles cessam de ser o
que eram e começam a ser o que não eram. Suspeitei que essa transição de uma forma
para outra se fazia por meio de algo informe, e não do nada absoluto.
Mas meu interesse era saber, e não apenas supor; e se minha voz e minha pena te
confessassem em detalhes as soluções deste problema que me inspiraste, qual de meus
leitores teria paciência para me entender? Contudo, meu coração não deixará de te
honrar com cânticos de louvor por essas inspirações, por aquilo que não têm palavras
capazes de exprimir.
É a própria mutabilidade das coisas que é susceptível de assumir todas as formas em
que se transfiguram as coisas mutáveis. E o que é essa mutabilidade? É espírito? Será
talvez corpo?
Seria uma espécie de espírito ou de corpo? Se pudéssemos dizer: um nada que é algo,
ou o que é e não é, eu a chamaria assim. No entanto, era necessário que ela existisse de
alguma maneira, para tomar essas formas visíveis e complexas.
CAPÍTULO VII
A criação do nada
Mas de onde essa matéria tirava seu ser, senão de ti, por quem existe toda e qualquer
coisa? Quanto mais difere de ti uma coisa, mais longe de ti está – e não se trata de
distância espacial.
Portanto, és tu, Senhor que não mudas ao sabor das circunstâncias, mas que és
sempre o mesmo, o mesmo e o mesmo, santo e santo e santo, Senhor, Deus Todo-
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Poderoso, és tu, Senhor, que no princípio, que vem de ti, em tua Sabedoria, nascida de
tua substância, fizeste algo do nada. Criaste o céu e a terra, e isso não com tua
substância, pois nesse caso, tua criação seria igual a teu Filho unigênito e, por isso,
iguais a ti mesmo. E não seria justo que o que não é da tua substância, fosse igual a ti.
Mas fora de ti nada existia com que pudesses fazer o céu e a terra, ó Trindade una,
Unidade trina. Por isso criaste do nada o céu e a terra; duas realidades, uma imensa e
outra pequena. Porque és Todo-Poderoso e bom, e só podes criar coisas boas: o grande
céu e a pequena terra.
Fora de ti nada havia, e desse nada fizeste o céu e a terra, tuas duas obras: uma
próxima de ti, a outra próxima do nada. Uma que tem acima de si apenas a ti mesmo, e
outra que nada tem inferior a ela.
CAPÍTULO VIII
A terra invisível
Mas o céu do céu pertence a ti, Senhor; a terra, que deste aos filhos dos homens para
que a vissem e tocassem, não era tal como agora e vemos e tocamos. Era invisível e
informe: um abismo sobre o qual não havia luz. As trevas se estendiam sobre o abismo –
isto é: mais profundas que o abismo. Esse abismo das águas, agora visíveis, tem até em
suas profundezas uma luminosidade, perceptível aos peixes e aos animais que se
arrastam no fundo. Mas tudo isso era quase o nada, sendo ainda completamente
informe; porém já era um ser apto a receber uma forma.
Senhor, criaste o mundo de uma matéria sem forma; do nada fizeste este quase nada
de onde tiraste as grandes coisas que admiramos, nós, os filhos dos homens. Porque
este céu corpóreo é de fato admirável, este firmamento que separa uma água de outra,
que criaste no segundo dia, depois da luz, dizendo: "Faça-se – e assim se fez". Chamaste
a este firmamento de céu: o céu desta terra e deste mar que criaste no terceiro dia,
dando forma visível à matéria informe, criado por ti antes de todos os dias.
Já havias criado outro céu antes de haver dia; mas era o céu do céu, porque no
princípio criaste o céu e a terra. Quanto a esta mesma terra, nada mais era que matéria
informe, sendo invisível, caótica e as trevas reinando sobre o abismo. É desta terra
invisível, caótica, desta massa informe, deste quase nada, que formaste todas as coisas
de que é formado e não formado este mundo mutável, domínio da transformação, que
torna possíveis a percepção e a medida do tempo. Porque o tempo é feito da mudança
das coisas, de variações e transformações das formas, cuja matéria é esta terra invisível,
de que falei acima.
CAPÍTULO IX
A criação do tempo
Por isso, o Espírito que instruiu teu servo, quando relata que no princípio criaste o céu
e a terra, cala-se sobre o tempo, guarda silêncio sobre os dias. De fato, o céu do céu,
que fizeste no começo, é de alguma maneira uma criatura racional que, mesmo sem ser
co-eterna contigo, ó Trindade, participava todavia de tua eternidade. A doçura de te
contemplar beatamente a mantém imóvel e unida a ti sem movimento, e desde sua
criação escapa às vicissitudes fugazes do tempo.
Porém, esta massa informe, esta terra invisível, este caos, tu não o enumeraste entre
os dias; de fato, onde não há forma nem ordem, nada vem, nada passa e, portanto não
pode haver nem dias, nem sucessão de espaços temporais.
CAPÍTULO X
Invocação à verdade
Ó Verdade, luz de meu coração, faze com que se calem as minhas trevas. Deixei-me
cair nelas e fiquei às escuras; mas, mesmo do fundo desse abismo, eu te amei
ardentemente. Andei, errante, mas lembrei de ti. Ouvi tua voz atrás de mim, que me
exortava a que voltasse; mas dificilmente podia escutá-la, por causa do tumulto de
minha alma. e agora, eis que, ardente e anelante, volto à tua fonte. Que ninguém mo
impeça; beberei de sua água, e assim viverei. Que não seja eu minha própria vida! Vivi
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mal por minha culpa, e fui a causa de minha morte. Em ti eu revivo! Fala-me, ensina-me.
Creio em teus livros, e tuas palavras encerram profundos mistérios.
CAPÍTULO XI
As criaturas e o criador
Já me disseste, Senhor, com voz forte ao ouvido de minha alma, que és eterno, e que
só tu possuis a imortalidade, porque não mudas nem de forma, nem de movimento; tua
vontade não varia conforme o tempo, pois a vontade mutável não é imortal. Esta
verdade me é clara em tua presença. Peço-te que ela se torne para mim cada vez mais
clara, e sob tuas asas eu me mantenha atento a esta evidência.
Também disseste, Senhor, com voz forte ao ouvido de minha alma, que todas as
naturezas, todas as substâncias que não são o que és, mas que existem, tu as criaste;
que só o nada não provém de ti, assim como o movimento de uma vontade que se afasta
de ti, Ser supremo. Enfim, que nenhum pecado te causa dano, nem perturba a ordem de
teu império, superior ou inferior. Essa verdade é clara para mim em tua presença. Peçote
que se torne para mim cada vez mais clara, e que sob tuas asas eu me mantenha
atento a esta evidência.
Também disseste, Senhor, com voz forte ao ouvido de minha alma, que essa criatura,
que tem em ti seu único deleite, não te é co-eterna; que goza de ti em união casta e
duradoura, sem nunca trair em parte alguma sua natureza mutável; que, se conserva
sempre em tua presença e unida a ti com todo seu amor, não tem de esperar futuro,
nem que recordar passado, imutável pois com o tempo e o vir a ser. Feliz criatura, se
existe, por participar de tua felicidade, feliz de ser perenemente habitada e iluminada por
ti! Nada encontro que melhor se possa chamar de céu de céu que pertence ao Senhor,
que a esta habitação de tua divindade, que contempla tuas delícias sem que nada a
afaste para outras partes. Puro espírito, intimamente ligado por um elo de paz com esses
santos, espíritos, cidadãos de tua cidade, situada no céu e acima do nosso céu.
Diante disso, possa a alma, cuja peregrinação afastou de ti, compreender se já tem
sede de ti, se seu pranto se tornou seu pão, quando todos os dias lhe dizem: Onde está
teu Deus? – se ela deseja apenas habitar em tua morada todos os dias de sua vida. E
que é sua vida, senão tu?
Que são teus dias, senão tua eternidade, como teus anos que não passam, porque és
sempre o mesmo? Por isso, digo, faça compreender à alma, se possível, como tua
eternidade transcende todos os temos. Tua morada, que nunca se afastou de ti, embora
não te tendo co-eterna, graças à sua incessante e ininterrupta união contigo, não padece
de vicissitudes do tempo. Essa verdade é clara para mim em tua presença. Peço-te que
se torne para mim cada vez mais clara, e que sob tuas asas eu me mantenha atento a
esta evidência.
Vejo, de fato, não sei que matéria informe nas transformações das coisas últimas e
ínfimas. Mas quem dirá, a não ser o insensato, cujo espírito vagueia entre quimeras, à
mercê de seus fantasmas, quem, salvo este, ousaria afirmar que, se toda forma fosse
destruída, abolida, restando apenas a matéria informe, graças à qual as coisas se
transformam e passam de uma forma para outra, ela poderia produzir as vicissitudes do
tempo? Não, tal hipótese é absolutamente impossível, pois sem variedade de
movimentos não há tempo; e não há variedade onde não há forma.
CAPÍTULO XII
A criação e a eternidade
Bem consideradas estas coisas, por graça tua, meu Deus, e como me incitasse a
bater, e como me abres quando bato, encontro duas criações tuas não afetadas pelo
tempo, embora nenhuma delas te seja co-eterna. Uma, que criaste tão perfeita que
jamais deixa de te contemplar, que não sofre nenhuma mudança, embora de natureza
mutável, e goza de tua eternidade e de tua imutabilidade. Outra, informe, a ponto de lhe
ser impossível passar de uma forma para outra, quer no movimento, quer no repouso, e,
portanto, incapaz de estar sujeito ao tempo. Mas tu não a deixaste informe pois, antes
de qualquer dia, fizeste no principio o céu e a terra, as duas obras de que falava.
Mas a terra era invisível e informe, e as trevas reinavam sobre o abismo. Por essas
palavras, a Escritura sugere a idéia de algo informe, para ensinar aos poucos aos
espíritos que não podem conceber que a falta absoluta de forma não se confunde com o
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nada. É dessa massa informe que deveria ser criado um segundo céu, uma terra visível,
ordenada, a água cristalina, e enfim tudo o que foi feito na criação, de acordo com a
tradição das Escrituras, em dias sucessivos.
E essa obra é tal que, devido à mudanças regulares de seus movimentos e formas,
está sujeita às vicissitudes do tempo.
CAPÍTULO XIII
O céu e a terra em Gênesis
"No princípio criou Deus o céu e a terra. A terra era invisível e informe, e as trevas se
estendiam sobre o abismo." Ouço estas palavras, meu Deus, e não encontrando menção
do dia em que criaste essas coisas, concluo dessa omissão que se trata do céu do céu, do
céu intelectual, onde a inteligência conhece simultaneamente e não por partes; não por
enigma, ou como um espelho, mas por inteiro, em plena luz, face a face; conhece não
ora isto, ora aquilo, mas, como disse, simultaneamente, sem a seqüência temporal.
Concluo também que se trata da terra invisível, informe, estranha às vicissitudes do
tempo, que ora causam isto, ora aquilo, pois onde não há forma não pode haver isto ou
aquilo.
Dessas realidades, uma de forma acabada desde o início, a outra absolutamente
informe, o céu, isto é: o céu do céu, e a terra, isto é: terra invisível e informe, é bem a
propósito delas que tua Escritura diz, sem mencionar o dia: "No princípio criou Deus o
céu e a terra". E acrescenta imediatamente de que terra se trata. E, indicando que no
segundo dia foi criado o firmamento, que foi chamado de céu, dá a entender também de
que céu falara antes, sem precisar o dia.
CAPÍTULO XIV
A profundidade das Escrituras
Admirável profundidade das tuas palavras! Sua aparência nos acaricia, como se
acariciam as crianças! Sim, admirável profundidade, meu Deus, admirável profundidade!
O meditá-las causa um arrepio sagrado, tremor de respeito, estremecimento de amor.
Odeio com veemência seus inimigos. Oh! Se pudesses fazê-los morrer sob teu gládio de
dois gumes, para que não tivessem mais inimigos! Desejaria que eles morressem para si
mesmos, e que vivessem só para ti.
Mas há outros que não censuram mas, pelo contrário, exaltam o livro de Gênesis, e
que dizem: "Não é isto que quis dizer por essas palavras o Espírito de Deus, que as
inspirou a teu servo Moisés. Não, o que ele quis dizer não é o que dizes, mas o que nós
dizemos" – Eis, ó Deus de todos nós, o que eu lhes respondo: sê nosso árbitro.
CAPÍTULO XV
O que dizem seus inimigos
Ousareis apontar como falso o que, com voz clara, a Verdade disse ao ouvido de
minha alma sobre a verdadeira eternidade do Criador: ou seja, que sua substância não
varia no tempo, e que sua vontade se confunde com sua substância? E que por isso ele
não quer ora isto, ora aquilo, mas quer o que sempre quis, simultaneamente e para
sempre. Sua vontade não se exerce repetidas vezes, não se propõe ora esta, ora aquela
finalidade, não quer o que antes não queria, nem deixa de querer o que antes queria,
uma vez que tal vontade seria mutável, e o que é mutável não é eterno; ora, nosso Deus
é eterno.
Tereis por falazes as palavras da Verdade faladas ao ouvido de minha alma: que a
espera das coisas futuras se torna contemplação, quando presentes, e que depois se
transforma em memória, quando passadas? Que todo pensamento que varia assim é
mutável, e que nada do que é mutável é eterno? Ora, nosso Deus é eterno. E, reunindo e
condensando estas verdades, deduzo que meu Deus, o Deus eterno, não criou o mundo
por um novo ato de volição, e que sua ciência não admite nada que seja transitório.
Que respondeis, então, meus contraditores? Será isso falso? – Não, dizem eles. – Mas
então? Será que erro afirmar que toda criatura que tem forma, que toda matéria
susceptível de têla recebe seu ser somente daquele que é Bondade soberana, porque ele
é Ente supremo? – Também não o negamos. – Então, que negais? Negais talvez que haja
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uma criatura sublime, unida por um casto amor ao Deus verdadeiro e eterno, sem lhe ser
co-eterna, que dele não se separa nem se desvia para as várias vicissitudes do tempo,
mas, pelo contrário, repousa apenas em sua contemplação? Com efeito, te ama tanto
quanto pedes, ó Deus, e mostras a ela tua face e a sacias, e ela jamais se afasta de ti,
nem rumo a sim mesma. Ela é a morada de Deus, não terrena, e nem formada de
substância do céu material, habitáculo espiritual que participa de tua eternidade,
imaculada por toda a eternidade. Tu a fundaste pelos séculos dos séculos; estabeleceste
uma ordem, que não passará jamais. Contudo, essa lei não é co-eterna, porque teve
princípio, foi criada.
Não encontramos o tempo antes dessa criação, porque a sabedoria foi a primeira de
todas as tuas criações. E é claro que não me refiro à Sabedoria da qual és Pai, ó nosso
Deus, e que te é perfeitamente igual e co-eterna, por quem todas as coisas foram
criadas, e que é o princípio em que criaste o céu e a terra; refiro-me à sabedoria criada,
dessa essência intelectual que, pela contemplação da luz, também é luz; a esta, embora
criada, também chamamos de sabedoria. E assim como a luz que ilumina difere da luz
refletida, a sabedoria criada difere da sabedoria incriada; e a justiça justificante difere da
justiça nascida da justificação. Nós fomos também chamados de tua justiça. Porque um
de teus servos disse: "Para que, em Cristo, nos tornemos a justiça de Deus". – Há
portanto, uma sabedoria criada antes de todas as coisas, e ela foi criada como espírito
racional e inteligente, que habita tua cidade santa, nossa mãe, que está no alto, livre e
eterna nos céus – e em que céus, senão aos céus dos céus, que te louvam, esse céu que
pertence ao Senhor? – Se não encontramos o tempo antes dessa sabedoria, é porque ela
precede à criação do tempo, tendo sido criada primeiro, mas antes dela há a eternidade
de seu Criador, de quem recebeu sua origem, e não do tempo, pois este ainda não
existia, mas pela sua condição de criatura criada.
Ela procede pois, de ti, nosso Deus, embora seja de essência absolutamente diversa
da tua. Não encontramos nenhum tempo, não apenas antes dela, mas nela própria,
porque ela é capaz de contemplar sempre tua face sem jamais se apartar de ti, sendo
incólume às mudanças e às variações. Contudo, há nela certa mutabilidade que poderia
torná-la tenebrosa e gélida, não fosse o grande amor que a une a ti e que brilha como
meridiana luz e calor.
Ó morada luminosa e pura! Amei tua beleza e o lugar onde mora a glória de meu
Senhor, teu criador e possuidor. Por ti eu suspiro durante meu exílio! Peço àquele que te
criou que me possua também em ti, pois também me criou. Errei como ovelha
desgarrada, mas espero ser reconduzido a ti nos ombros de meu pastor, teu arquiteto.
Que me respondeis a isto, meus contraditores, vós que, também considerais Moisés
um servo piedoso de Deus, e seus livros como oráculos do Espírito Santo? Não será esta
a casa de Deus que, sem lhe ser co-eterna, é contudo, á sua maneira, eterna nos céus?
Em vão buscais aí as vicissitudes do tempo, pois não as encontrareis, uma vez que ela
transcende toda extensão, toda volubilidade do tempo, e sua felicidade é estar
intimamente unida a Deus para sempre.
– Assim é – dizem eles.
Mas então, qual das verdades que meu coração proclamou diante de Deus, quando
escutava em meu íntimo a voz que canta sal glória, podeis apontar como falsa? O que
disse sobre matéria informe, na qual não podia haver ordem por carecer de forma? Mas
onde não havia ordem não podia haver vicissitude de tempo; mas esse quase nada,
enquanto não era o nada absoluto, provinha certamente daquele de onde nasce tudo o
que, de algum modo, existe.
– Tampouco negamos isto – dizem eles.
CAPÍTULO XVI
Outros adversários das Escrituras
Quero discutir diante de ti apenas com os que reconhecem por verdadeiras as
afirmações que tua verdade revelou à minha inteligência. Os que o negam, que ladrem
quanto quiserem, até ficar roucos. Tentarei persuadi-los a que se acalmem, e dêem
acesso em seus corações à tua palavra. Se não o quiserem e me repelirem, peço-te, meu
Deus, que não te cales, não te afastes de mim. fala com verdade em meu coração,
porque só tu podes falar assim. E eu os deixarei fora, soprando o pó e levantando terra
contra os próprios olhos. Retirar-me-ei em mim mesmo, levantando a ti cânticos de
amor, soluçando altos gemidos durante meu exílio, lembrando-me de Jerusalém,
voltando para ela meu coração – Jerusalém, minha pátria e minha mãe – e para ti, que
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reinas sobre ela, seu pai, sua luz, seu tutor, seu esposo, suas castas e grandes delícias,
sua firme alegria, enfim, todos seus bens inefáveis, porque és o único, soberano e
verdadeiro Bem. Não me apartarei de ti até que reúnas todas as partes dispersas e
deformadas do meu ser na paz dessa mãe muito amada, onde estão as primícias de meu
espírito, e de onde me vêm todas as certezas, e nela me reformes e confirmes por toda a
eternidade, ó meu Deus, minha misericórdia.
Àqueles que, sem negar essas verdades, respeitando tua Escritura Sagrada, obra do
piedoso Moisés, e reconhecendo nela, conosco, a mais alta autoridade a seguir, e
contudo nos opõem alguma objeções, dirijo estas palavras: "Tu, que és nosso Deus,
serás árbitro entre minhas confissões e suas objeções".
CAPÍTULO XVII
Opiniões diversas sobre o céu e a terra
Eles dizem: "Sem dúvida, isso é verdade, mas não era isso que Moisés queria exprimir
quando, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu: "No princípio criou Deus e céu e a terra"
– Pela palavra céu, ele não quis significar essa criatura espiritual ou intelectual, que
contempla eternamente a face de Deus; e pela palavra terra, uma matéria informe. –
Que quis dizer então? – O que nós afirmamos – respondem – isso é o que Moisés quis
dizer, e o que expressou naquelas palavras. – E que é que afirmais? – Pelas palavras céu
e terra quis significar, em primeiro lugar, globalmente e de forma concisa, todo o mundo
visível, para em seguida pormenorizar, enumerando os dias, ponto por ponto, esse
conjunto que aprouve ao Espírito Santo designar com uma expressão global. O povo rude
e carnal ao qual falava era constituído de homens tais que julgou conveniente dar-lhes a
conhecer apenas as obras visíveis de Deus".
Quanto a esta terra invisível e informe, a este abismo de trevas, com que, durante
seis dias, foram sucessivamente criadas e ordenadas todas as coisas visíveis que são
conhecidas de todos, eles concordam comigo em que se pode entender com isso, sem
erro, essa matéria informe de que falei.
Algum outro dirá, talvez, que a realidade invisível e visível não foi chamada
impropriamente de céu e terra, e portanto, que o universo criado por Deus na sabedoria,
isto é, no princípio, está compreendido sob esses dois termos. Porém as coisas não foram
feitas da substância de Deus, mas do nada, e não se confundem com Deus, e nelas
existe o princípio da mutabilidade, quer permaneçam como morada eterna de Deus, quer
mudando-se como a alma e o corpo do homem.
Por isso a matéria comum a todas as coisas invisíveis e visíveis, matéria ainda
informe, mas susceptível de forma, e de onde se fariam o céu e a terra – em outras
palavras, a criação invisível e visível – mas uma e outra tendo recebido forma, foi
designada por essas expressões de terra invisível e informe, e de trevas reinando sobre o
abismo. Com a seguinte distinção: por terra invisível e informe deve-se entender a
matéria corpórea antes de ser qualificada pela forma; e por trevas reinando sobre o
abismo, a matéria espiritual antes da restrição de sua, digamos, imoderada fluidez, e
antes de ser iluminada pela sabedoria.
Poderia alguém afirmar, se quisesse: Esses termos céu e terra não significam
realidades perfeitas e acabadas, lá onde lemos: No princípio Deus criou o céu e a terra –
mas um esboço ainda informe, uma matéria passível de receber forma e servir para a
criação; nela já existiam, como que um embrião, sem distinção de formas e de
qualidades, essas criaturas, uma espiritual, e outra material que, ordenadas como estão
agora, são chamadas de céu e terra.
CAPÍTULO XVIII
Outras interpretações
Ouço e considero todas essas teorias, mas não quero discutir por questões de
palavras, o que não serve para nada, senão para a confusão dos ouvintes. Pelo contrário,
a lei é boa para a edificação se dela se faz uso legítimo, porque sua finalidade é a
caridade que nasce de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não
fingida. Nosso Mestre sabe quais dos dois preceitos em que resumiu toda a lei e os
profetas. A mim, que observo com zelo tais preceitos, ó meu Deus, luz de meus olhos na
escuridão, que me importa que possa que possa encontrar sentidos diferentes para essas
palavras, se todos são verdadeiros? Que me interessa, digo eu, que outros compreendam
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o texto de Moisés de modo diferente do meu? Nós todos que o lemos procuramos indagar
e compreender o pensamento do autor. E como o julgamos verídico, não ousamos
admitir que ele pusesse dizer o que sabemos ou o que consideramos falso.
Assim, nos esforços que fazemos para compreender, na Escritura Sagrada, a idéia que
o escritor quis transmitir, onde está o mal se o leitor interpreta o sentido que tu, Luz de
todas as inteligências sinceras, lhe fazes parecer verdadeiro, embora talvez não tenha
sido este o pensamento do autor? E considerando que ele, pensando de outra maneira,
só pensou verdades?
CAPÍTULO XIX
A verdade
A verdade, Senhor é que criaste o céu e a terra. A verdade é que o princípio é tua
Sabedoria, em que criaste todas as coisas. É também verdade que este mundo visível se
compõe de duas grandes partes, o céu e a terra, síntese de todas as realidades criadas.
É ainda verdade que tudo o que é mutável sugere a nosso pensamento a idéia de algo
informe, susceptível de tomar forma, de mudar e de se transformar.
A verdade é que um ser tão intimamente unido a uma forma mutável que, embora
sujeito em si a mudanças, nunca se transforma, não está sujeito ao tempo. A verdade é
que a massa sem forma, que é quase o nada, não pode conhecer as vicissitudes do
tempo. A verdade é que a matéria que constitui uma coisa, se assim podemos falar,
toma o nome dessa coisa, e portanto, podemos chamar de céu e de terra a essa massa
informe com a qual foram feitos o céu e a terra.
A verdade é que, de tudo o que recebeu forma, nada se aproxima mais do informe
que a terra e o abismo. A verdade é que não apenas tudo o que foi criado e formado,
mas ainda tudo o que possa ser criado se origina de ti, tu que és o autor de tudo que
existe. A verdade é que tudo o que é formado a partir do informe, primeiro é informe, e
depois recebe forma.
CAPÍTULO XX
O princípio e suas interpretações
Todas essas verdades, das quais não duvidam os que de ti receberam a graça de ver
com os olhos da alma, e que crêem firmemente que teu servo Moisés falou em espírito
de verdade, há quem dê esta interpretação: "No princípio Deus criou o céu e a terra" –
isto é, Deus criou, em seu Verbo, que lhe é co-eterno, o mundo racional e sensível, ou
espiritual e corporal. Outro diz: "No princípio Deus criou o céu e a terra" – isto é, Deus
criou em seu Verbo, que lhe é co-eterno, toda a massa do mundo corpóreo, com tudo o
que contém de realidades, manifestamente conhecidas.
Um terceiro diz: "No princípio Deus criou o céu e a terra" – isto é, Deus criou em seu
Verbo, que lhe é co-eterno, a matéria informe das criaturas espirituais e corporais. Outro
afirma: "No princípio Deus criou o céu e a terra" – isto é, Deus criou a matéria informe
das criaturas corporais, onde estavam ainda confundidos o céu e a terra, que agora
distinguimos na massa do universo, com suas formas bem distintas e determinadas.
Um último diz: "No princípio Deus criou o céu e a terra" – isto é, desde que começou a
agir, Deus criou a matéria informe, onde estavam contidos confusamente em potencial o
céu e a terra, que depois receberam forma própria, e que agora nos aparecem com tudo
o que neles existe.
CAPÍTULO XXI
A terra invisível
O mesmo ocorre em relação à interpretação das palavras que se seguem. Entre essas,
todas verdadeiras, cada um escolhe uma. Este diz: "A terra era invisível e caótica, e as
trevas se estendiam sobre o abismo" – isto é, essa massa corpórea, que Deus fez, era a
matéria ainda sem forma, sem ordem, sem luz, das coisas corpóreas.
Outro diz: "A terra era invisível e caótica, e as trevas se estendiam sobre o abismo" –
isto é, esse conjunto que chamamos de terra e céu era a matéria ainda informe e
tenebrosa, da qual seriam tirados o céu e a terra corpóreos, com tudo o que nossos
sentidos físicos neles percebem.
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Outro diz: "A terra era invisível e caótica, e as trevas se estendiam sobre o abismo" –
isto e´, esse conjunto que chamamos de céu e de terra era a matéria ainda informe e
tenebrosa, donde seriam feitos o céu inteligível, noutros termos, o céu do céu, e a terra,
isto é, toda natureza corpórea, nela incluindo o céu material, ou seja, a matéria de toda
criatura visível e invisível.
Outro diz: "A terra era invisível e caótica, e as trevas se estendiam sobre o abismo" –
isto é, não quis a Escritura chamar à massa informe de céu e de terra, porque ela já
existia; é dessa massa que ela chamou de terra invisível, caótica, abismo de trevas, é
dela, que Deus criou o céu e a terra, isto é, a criatura espiritual e a corporal.
E outro ainda: "A terra era invisível e caótica, e as trevas se estendiam sobre o
abismo" – isto é, já existia uma matéria informe, da qual a Escritura diz que Deus criou o
céu e a terra, toda a massa corporal do mundo, dividido em duas grandes partes, uma
superior, outra inferior, com todas as criaturas nelas existentes e que nos são familiares.
CAPÍTULO XXII
Objeções
Mas a essas últimas opiniões alguém poderia opor a seguinte objeção: "Se não quereis
dar o nome de céu e terra à matéria informe, havia então alguma coisa não criada por
Deus, e de que ele se serviria para criar o céu e a terra. De fato, a Escritura, não diz que
Deus criou essa matéria, a menos que consideremos que seja ela o que chama céu e
terra quando diz: "No princípio Deus criou o céu e a terra" – No que se segue: "A terra
era invisível e informe" – ainda que a Escritura quisesse designar assim a matéria
informe, nós apenas poderíamos entender com isso a matéria criada por Deus, conforme
está escrito: "Criou o céu e a terra" – Aos que sustentam as duas últimas opiniões que
acabamos de expor, ou de uma das duas, respondem assim: "Não negamos que esta
matéria informe seja obra de Deus, de quem procede tudo o que é bom. De fato
afirmamos ser um bem superior o que é criado e plenamente formado, mas também
dizemos que aquilo que é passível de ser criado e receber forma, embora seja um bem
inferior, é ainda um bem.
A Escritura não menciona a criação por Deus dessa matéria informe, mas deixa
também de falar de muitas outras coisas, como, por exemplo, da criação dos querubins,
dos serafins, dos tronos, das dominações, dos principados, das potestades, todas
criaturas que o Apóstolo menciona claramente, e que Deus evidentemente criou. Se as
palavras: "Deus criou o céu e a terra" – compreendem todas as coisas, que diremos das
águas sobre as quais pairava o Espírito de Deus?
Se pretendemos que sejam parte do que designa a palavra terra, como conceber por
isso uma matéria informe, quando vemos as águas tão belas? E, por outro lado, por que
está escrito que dessa matéria informe foi criado o firmamento, chamado de céu, quando
não se faz menção da criação das águas? Pois as águas que vemos correr com
harmoniosa beleza e não são nem informes, nem invisíveis! E se elas receberam sua
beleza quando Deus disse: "Que se reúnam as águas que estão sob o firmamento! – e se
nessa reunião receberam sua formação, que dizer das águas que estão acima do
firmamento? Informes, elas não teriam merecido lugar tão honroso, nem é referido com
que palavras foram formadas.
Assim, se o Gênesis é omisso quanto à criação de certas coisas, criação essa que está
acima de dúvidas para uma fé sadia e uma inteligência segura, e se nenhuma doutrina
racional ousa sustentar que essas águas são co-eternas a Deus, pelo fato de as vermos
mencionadas no Gênesis sem a menção do momento de sua criação , por que
haveríamos de aceitar, à luz da verdade, que essa matéria informe, que a Escritura
chama de terra invisível e desordenada e de abismo tenebroso, foi feita por Deus do
nada e por isso não é co-eterna a Deus, embora a narração da Escritura tenha deixado
de referir o momento em que foi criada?
CAPÍTULO XXIII
A opinião de Agostinho
Ouço e medito essas opiniões na medida de meu fraco entendimento, que confesso a
Deus, embora ele bem o conheça. Vejo que se podem originar duas espécies de opiniões
sobre um testemunho de interprete fidedigno. Uma é reativa à veracidade das coisas, e
outra à intenção daquele que as enuncia. Procurar conhecer a verdade sobre a criação é
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uma coisa; procurar saber o que Moisés, grande servo de tua lei, quis o que o leitor ou
ouvinte entendessem de suas palavras, é outra.
Quanto à primeira opinião, longe de mim todos que têm como verdades os seus erros!
Quanto à segunda, longe de mim todos os que julgam falsidade o que Moisés disse.
Possa eu unir-me em ti, alegrar-me em ti, Senhor, com aqueles que se alimentam de tua
verdade na imensidão da caridade. Aproximemo-nos juntos das palavras de teu Livro,
procurando tua vontade nas intenções de teu servo, a cuja pena as revelaste.
CAPÍTULO XXIV
Qual a verdade?
Quem de nós, entre tantos significados possíveis que ocorrem aos estudiosos quanto
as varias interpretações de tuas palavras, poderá atinar com tais intenções e declarar
com segurança: "Eis o pensamento de Moisés, este é o sentido que quis dar á sua
narração". – Quem poderá declará-lo, com a mesma segurança que ele, que essa
narração é verdadeira, qualquer que tenha sido o pensamento de Moisés?
Eis que eu, meu Deus, teu servo, te consagrei nesta obra o sacrifício de minhas
confissões; peço à tua misericórdia que me permita a realização desse desejo, e declaro
com toda segurança que criaste todas as coisas, as invisíveis e as visíveis, pelo teu verbo
imutável.
Mas poderei dizer com a mesma certeza que Moisés teve essa intenção, e não outra,
quando escreveu: "No princípio, criou Deus o céu e a terra"? – Embora esteja persuadido
de que isto está claro na tua verdade, não vejo com igual certeza o que Moisés pretendia
ao escrever tais palavras. Por essa expressão: "no princípio" pode ter significado: "no
começo da criação". Por céu e terra, pode ter querido dar-nos a entender, a natureza
espiritual e corporal, não já formada e perfeita, mas uma e outra, só esboçada e sem
forma. Vejo que ambos os sentidos são igualmente plausíveis. Mas não posso atinar em
qual dos dois pensava Moisés quando escrevia essas palavras. Fosse porém qual fosse
sua intenção ao exprimir essas palavras, eu não poderia duvidar de que tão grande
homem tenha entrevisto a verdade e a tenha formulado adequadamente.
CAPÍTULO XXV
Os diversos partidos
Que ninguém me moleste portanto, dizendo: "O pensamento de Moisés não é o que tu
dizes, mas o que eu digo". – Se apenas me dissessem: "Como sabes que Moisés de fato
entendia essas palavras no sentido que lhe atribuis?" – Eu não me agastaria, e
responderia talvez o que respondi acima, ou até mais explicitamente, se meu contraditor
fosse insistente.
Quando porém, me dizem: "O pensamento de Moisés não é o que dizes, é o que eu
afirmo" – sem contudo provar a veracidade de uma ou outra interpretação, então, ó vida
dos pobres, ó meu Deus, em cujo seio não há contradição, inunda de paz o meu coração,
para que eu tenha paciência para suportar essas pessoas. Pois não emitem tais opiniões
inspirados por Deus, ou porque tenham lido o pensamento de teu servo, mas porque são
orgulhosos. Ignoram o pensamento de Moisés, mas só apreciam o deles, e não por que
seja verdadeiro, mas por ser o deles. Assim não fosse, apreciariam igualmente a opinião
alheia, quando verdadeira, assim como eu aprecio o que eles dizem de verdadeiro, não
porque vem deles, mas porque é verdade, e que, por isso mesmo, é tanto deles como
minha, pois pertence em comum a todos os amantes da verdade.
Quanto à pretensão de que o pensamento de Moisés não está no que digo, mas no
que eles dizem, isso eu não aceito. Ainda que assim fosse, sua temeridade não é da
ciência, mas a da audácia; seria produzida não por uma intuição correta, mas pelo
orgulho.
Senhor, teu julgamento é terrível. Porque tua verdade nem é um bem meu, nem o
bem deste ou daquele: a verdade é o bem de todos nós; e tu nos conclamas
abertamente a que participemos dela, com a advertência severa de não a possuirmos
como bem privativo, para não sermos privados dela. De fato, quem reivindica apenas
para si o que ofereces para gozo de todos, e quer para si o que é de todos, é rejeitado
desse bem comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira: o que fala
mentira fala do que é seu.
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Ouvem, pois, juiz excelente, ó Deus, que és a própria Verdade: ouve o que respondo a
esse contraditor.
É diante de ti que falo, e na presença de meus irmãos que usam legitimamente da lei,
cujo fim á caridade. Escuta e vê o que lhes digo, se é de teu agrado. Eis as palavras
fraternas e de paz que lhe dirijo: "Quando ambos vemos que tuas palavras são
verdadeiras, ou as minhas palavras são verdadeiras, pergunto: onde o vemos?
Certamente não é em ti que eu a vejo, nem tampouco é em mim que tu a vês. Ambos a
vemos na verdade imutável, que está acima de nossas inteligências".
Uma vez que não discordamos sobre essa luz do Senhor, nosso Deus, por que discutir
sobre o pensamento de nosso próximo? Nós não o podemos ver como vemos a verdade
imutável.
Se o próprio Moisés nos aparecesse e nos explicasse seu pensamento – nem assim
veríamos esse pensamento, mas apenas acreditaríamos nele. Cuidemos pois, de não nos
levantarmos orgulhosamente um contra o outro a respeito das Escrituras. Amemos ao
Senhor, nosso Deus, de todo o nosso coração, de toda nossa alma, de todo nosso
espírito, e ao próximo como a nós mesmos. É segundo esses dois preceitos da caridade
que Moisés pensou aquilo que escreveu em seus livros. Não acreditarmos nisso seria
considerar o Senhor mentiroso, atribuindo a seu servo sentimentos distintos daqueles
que ele próprio lhe ensinou. Diante de tantos pensamentos igualmente verdadeiros que
podem ser deduzidos dessas palavras, vê que estultice é afirmar temerariamente que
Moisés teve este pensamento e não aquele, ofendendo com nossas disputas perniciosas a
caridade, por amor da qual ele escreveu as palavras que procuramos interpretar!
CAPÍTULO XXVI
Agostinho no lugar de Moisés
Todavia, meu Deus, que me elevas em minha pequenez, que descansas minha fadiga,
que ouves minhas confissões e perdoas meus pecados, tu me ordenas que eu ame a meu
próximo como a mim mesmo; não posso crer que Moisés, teu servo tão fiel, tenha sido
aquinhoado com menos dons do que eu teria desejado e apetecido se tivesse nascido em
seu tempo, e me tivesses confiado a tarefa de te servir com meu coração e minha língua,
e disseminar essas Escrituras. Estas, tanto tempo depois, deviam ser úteis a todos os
homens e, pelo mundo afora, triunfar com o prestígio de sua autoridade sobre as
afirmações das doutrinas falsas e orgulhosas.
Quereria, se estivesse no lugar de Moisés – pois todos procedemos da mesma massa,
e que é o homem se não te lembras dele? – e me tivesses confiado a missão de escrever
o Gênesis, quereria receber de ti tal eloqüência, tal qualidade de estilo, que mesmo os
espíritos incapazes de compreender como foi que Deus criou, não pudessem rejeitar
minhas palavras como superiores às suas forças; que os que já o pudessem,
descobrissem, nas poucas palavras de teu servo, todas as verdades que sua reflexão já
lhes tivesse proporcionado; e que se alguém, à luz de tua verdade, nelas percebesse
outro significado, também ele o pudesse encontrar nessas mesmas palavras.
CAPÍTULO XXVII
Os diversos sentidos da Escritura
Assim como uma fonte, em seu pequeno leito, torna-se depois mais abundante e,
pelos diversos regatos que alimenta, banha espaços muito mais amplos que qualquer um
deles, que deslizam através de muitas regiões, assim também a narração do ministro de
tua palavra, que deveria alimentar a tantos interpretes, faz brotar de seu estilo sóbrio e
conciso torrentes de límpida verdade, de onde cada um tira para si a verdade que pode,
para depois desenvolvê-la em longas sinuosidades de palavras.
Alguns, lendo ou escutando aquelas palavras, imaginam a Deus como homem ou
como massa material dotada de imenso poder que, por decisão nova e repentina, criara
fora de si mesma e como que à distância, o céu e a terra, esses dois grandes corpos, um
superior, outro inferior, onde estão contidas todas as coisas. E ao ouvirem dizer:"Deus
disse: faça-se isto! E isto foi feito! – imaginam que se trata de palavras comuns, que
começam e terminam, que soam no tempo e passam. Julgam que, logo após
pronunciadas, começa existir o que ordenaram que existisse. Todas as suas demais
concepções ressentem-se do mesmo hábito de pensar de modo carnal.
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Nisto são como crianças, pois enquanto essa linguagem humilde sustentar sua
fraqueza como o seio de uma mãe, o que se fortifica salutarmente é a fé, que lhes faz ter
como certo que Deus criou todas as realidades, cuja admirável variedade impressiona a
seus sentidos.
Mas, se alguém, desprezando a aparente simplicidade de tuas palavras, em sua
orgulhosa fraqueza, se lançar para fora do ninho que o nutriu, então cairá
miseravelmente, Senhor Deus, tem piedade dele! Que os transeuntes não pisem este
passarinho implume; manda teu anjo para que o reponha no ninho, para que viva até
que aprenda a voar!
CAPÍTULO XXVIII
Divergências
Para outros essas palavras não são um ninho, mas um vergel (jardim) ensombreado
onde descobrem frutos ocultos que procuram e colhem, voando e cantando alegremente.
Quando lêem ou ouvem as palavras de Moisés, vêem que tua estável e eterna
permanência, ó Deus, domina todos os tempos passados e futuros, e por isso não existe
criatura corpórea que não seja obra tua. Vêem que tua vontade, confundindo-se com teu
ser, criou todas as coisas sem sofrer modificação, sem que nasça nela uma decisão nova,
que não existisse antes; que criaste o mundo, não tirando de tua substância uma
imagem tua, forma substancial de toda realidade, mas tirando do nada uma matéria
informe, diferente de ti mesmo; e esta poderia ser formada à tua imagem pela volta à
tua Unidade, segundo a medida previamente estabelecida e concedida a cada ser, de
acordo com sua espécie. Vêem assim que todas as obras da criação são excelentes, ou
porque permanecem próximas a ti, ou porque, afastadas de ti no tempo e no espaço,
fazem ou sofrem as admiráveis variedades do mundo. Reconhecem essas coisas, e por
isso se alegram na luz de tua verdade, à medida que o podem com suas forças terrenas.
Outros, refletindo o sentido destas palavras: "No princípio criou Deus..." – vê no
princípio a Sabedoria, porque também ela nos fala.
Outro, ao considerar as mesmas palavras, entende por princípio o começo da criação,
e a expressão: "Deus criou no princípio" significa para ele: "Deus primeiramente fez". E
entre os mesmos que por princípio entendem que Deus criou em sua Sabedoria o céu e a
terra, um acredita que céu e terra designam a matéria da qual o céu e a terra foram
criados; outro pensa que a expressão se aplica a naturezas já formadas e distintas; outro
sustenta que a palavra céu significa natureza formada e espiritual, a terra, a natureza
informe e material.
Aqueles porém que entendem por céu e terra a matéria ainda informe, com a qual
viriam a ser formados o céu e a terra, não têm unanimidade: um concebe essa matéria
como origem comum das criaturas sensíveis e espirituais, outro apenas como fonte de
massa sensível e corpórea, contendo em seu vasto seio todas as realidades visíveis,
oferecidas a nossos sentidos.
Tampouco são unânimes os que crêem que nesse texto céu e terra se referem às
criaturas já formadas e dispostas; um acredita que se trata do mundo invisível e visível;
outro, apenas do mundo visível, onde se contempla o céu luminoso e a terra tenebrosa,
com tudo o que eles contêm.
CAPÍTULO XXIX
Dificuldades
Mas quem interpreta a palavra: "No princípio criou..." como se ela quisesse dizer:
"Primeiramente Deus criou..." – apenas pode entender, por céu e terra, se quiser se
manter coerente à verdade, a matéria do céu e da terra, isto é, da criação universal,
tanto espiritual como material.
Pois, se quiser referir-se com isso a um universo já inteiramente formado, seríamos
levados a indagar-lhe: "Se Deus criou isso antes, o que criou depois?" – Depois de ter
criado tudo, não encontrará mais nada para criar e, gostando ou não, ouvirá a pergunta:
"Como é possível que Deus tenha criado isso primeiro, se nada criou depois?"
Se ele quer significar que Deus criou primeiro a matéria informe, e depois lhe deu
forma, já não é uma tese absurda, desde que seja capaz de discernir a prioridade na
eternidade, no tempo, na escolha, na origem. Na eternidade: Deus antecede todas as
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coisas; no tempo: a flor precede o fruto; na escolha: o fruto vale mais do que a flor; na
origem: o som precede o canto.
Dessas quatro prioridades, a primeira e a última dificilmente se compreendem,
enquanto é bem fácil entender as outras duas. É de fato raro e dificultoso conceber a tua
eternidade criando, mas conservando-se imutável, as coisas mutáveis e, por isso,
antecedendo-as. E precisa ter uma inteligência penetrante para compreender, sem
grande esforço, como o som antecede o canto, uma vez que o canto é o som organizado;
e uma coisa pode muito bem existir sem forma, mas o que não existe não pode receber
forma. Assim, a matéria é anterior ao que dela se forma. e não porque seja sua causa
eficiente, pois também é objeto da criação; nem tampouco porque lhe seja anterior no
tempo. De fato, não emitimos em um primeiro instante, sons desarticulados e informes,
para depois os ligarmos e formar uma melodia e um canto, como se faz com a madeira e
a prata ao fabricarmos uma arca ou um vaso.
Com efeito, essas matérias precedem no tempo os objetos que delas são feitos. Mas
com o canto não é assim. Quando se canta ouve-se o som do canto: não há em primeiro
lugar sons desorganizados, que depois assumem a forma de canto. Logo que ele soa, o
som se desvanece, e não deixa de si nada que se possa coordenar com arte. Por
conseguinte, o canto é formado de sons: o som é sua matéria e, para se transformar em
canto, recebe uma forma. A prioridade não se fundamenta em um poder criador, porque
o som não é o artífice do canto, mas é apenas posto pelo corpo à disposição da alma do
cantor, para que dele faça um canto. Nem se trata de prioridade temporal: o som é
produzido ao mesmo tempo que o canto. Tampouco se trata de prioridade de escolha: o
som não é superior ao canto, pois o canto nada mais é que som, mas um som bonito.
Trata-se apenas de uma prioridade de origem, pois o canto não recebe forma para se
tornar som, mas o som para se tornar canto.
Compreende-se por esse exemplo, que a matéria das coisas foi criada antes, e
chamada de céu e terra, porque dela foram formados o céu e a terá. Não foi criada antes
em sentido cronológico, porque o tempo só tem início com a forma das coisas; ora, a
matéria era informe, e se tornou perceptível juntamente com o tempo. Todavia, nada se
pode mencionar dessa matéria a não ser alguma prioridade temporal, embora ocupe a
última posição na escala de valores, pois o que tem forma é evidentemente superior ao
que é informe. Ou que foi precedida pela eternidade do Criador, que a fez para que
fossem feitas do nada todas as coisas.
CAPÍTULO XXX
Espírito de caridade
Nessa diversidade de opiniões verdadeiras, que da própria verdade brote a concórdia!
Que nosso Deus tenha compaixão de nós, para que usemos legitimamente da lei segundo
o preceito que tem por fim a caridade pura.
Por isso, se me perguntarem qual dessas opiniões foi a de teu servo Moisés, eu não
seria coerente com minhas confissões se não te confessasse que o ignoro.
Sei, contudo, que essas opiniões são verdadeiras, a não mera interpretações
materialistas, sobre as quais já disse tudo o que pensava. São como meninos
esperançosos aqueles que não temem as palavras do teu Livro, tão profundas em sua
humildade, tão eloqüentes em sua concisão. Mas nós todos que, eu o declaro,
distinguimos e dizemos a verdade sobre tais palavras, amemo-nos uns aos outros; e
amemos igualmente a ti, nosso Deus, fonte da Verdade, pois temos sede, não de
fantasias, mas da própria Verdade. Honremos a teu servo, que nos legou tua Escritura,
cheio de teu espírito, e estejamos certos que, ao escrever as palavras que lhe revelaste,
ele teve em mira as revelações mais salientes da verdade e seus frutos proveitosos.
CAPÍTULO XXXI
O Gênesis e seu autor
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Assim, quando alguém me diz: "O pensamento de Moisés é o meu" – e outro diz:
"Não, ele pensou como eu" – parece-me mais consoante ao espírito religioso dizer: "Por
que não admitir ambos os pontos de vista, se ambos são verdadeiros?" – E se alguém
descobrir um terceiro, um quarto sentido, e outros mais, desde que sejam verdadeiros,
por que não acreditar que Moisés viu todos eles, ele por cujo intermédio o Deus único
adaptou as Escrituras à inteligência da multidão, que deveria descobrir-lhe significados
diversos e verdadeiros?
Por mim, digo-o sem hesitar e do fundo do coração: se, investido da mais alta
autoridade, tivesse algo a escrever, preferiria fazê-lo de modo que minhas palavras
proclamassem tudo o que cada um pudesse conceber de verdadeiro sobre isso, em vez
de propor um significado único e claro que excluísse todos os demais, cuja falsidade não
me pudesse ofender. E também não quero, meu Deus, ser tão temerário a ponto de
acreditar que esse grande homem não mereceu de ti essa graça.
Moisés, redigindo esses textos, pensou, concebeu todas as verdades que já fomos
capazes de encontrar, e também as que não o pudemos, mas que podem ser
descobertas.
CAPÍTULO XXXII
Oração
Enfim, Senhor, tu que és Deus, e não carne e sangue, se um homem não pôde ver
tudo por completo, poderia teu Espírito bom, que me deve conduzir à terra da retidão,
desconhecer algo do que tencionavas revelar por essas palavras a seus leitores
vindouros, apesar de teu mensageiro não entender senão um dos numerosos sentidos
verdadeiros? Se assim é, o sentido que ele pensou era o mais elevado de todos. Mas
revela a nós, Senhor, esse sentido ou algum outro que for de teu agrado e real; e quer
nos mostres o mesmo sentido que ao homem de Deus, quer seja outro, inspirado pelas
mesmas palavras, alimenta nosso espírito, guarda-nos da ilusão do erro.
Eis, Senhor meu Deus! Quantas páginas escrevi sobre tão poucas palavras! Deste
modo, minhas forças e o meu tempo serão suficientes para examinar todos os teus
livros? Permite-me, pois, abreviar minhas confissões e adotar uma única interpretação,
que me farás escolher como verdadeira, certa e boa, entre as muitas outras que me
poderão ocorrer. Que minha confissão seja fiel o bastante para que eu tenha exatidão ao
exprimir o pensamento de teu servo, pois para tal me esforçarei; e, se não o conseguir,
que eu pelo menos diga o que tua Verdade me quis dizer por suas palavras, como ela
disse a Moisés o que lhe aprouve.
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LIVRO DÉCIMO TERCEIRO
CAPÍTULO I
Invocação
Eu te invoco, ó meu Deus, minha misericórdia, que me criaste, e que não olvidaste
aquele que te esqueceu. Chamo-te à minha alma, que preparas para te receber fazendote
desejar por ela.
Não abandones ao que te invoca. Antes mesmo que eu te invocasse, já o tinhas
prevenido.
Muitas vezes me instaste, falando de mil modos diversos para que te ouvisse de
longe, para que me convertesse e invocasse por ti que me chamavas.
Senhor, apagaste todos os meus delitos para não ter de punir o que fizeram minhas
iníquas mãos, e te antecipaste a meus atos meritórios para me recompensar do que
fizeram tuas mãos, que me criaram; de fato, existias antes de mim, e eu não era digno
de receber de ti o ser.
Contudo, eis que existo, graças à tua bondade que precedeu tudo o que sou e do que
me fizeste. Não tinhas necessidade de mim, eu não sou um bem que te possa ser útil,
meu Senhor e meu Deus. Se estou a teu serviço, não é porque a ação te cansa ou
porque teu poder, privado de meus serviços, diminua; nem porque meu culto seja para ti
o que é a cultura para a terra, que sem ela ficaria estéril. Eu devo te honrar para ser feliz
em ti, a quem devo meu ser, capaz de felicidade.
CAPÍTULO II
A criação e a bondade de Deus
É pela plenitude de tua bondade que as criaturas subsistem, para que um bem, para ti
de todo inútil, ou de nenhum modo igualável a ti, embora saído de ti, continuasse a
existir, pois tu o criaste. Com efeito, que poderiam merecer de ti o céu e a terra, que
criaste no princípio? E digam, as naturezas espirituais e corpórea, que méritos tinham a
teus olhos, que as criaste em tua Sabedoria? Que méritos, para receber de ti o ser, que
mostram inacabado e informe, quando tendem à desordem e se afastam de tua
semelhança? O que é de natureza espiritual, mesmo informe, é ainda superior a um
corpo que recebeu forma; um corpo sem forma é superior ao puro nada; ora, todas
essas coisas continuariam informes em teu Verbo, se essa mesma palavra não as
recolhesse à tua Unidade, comunicando-lhes a forma e a excelência graças apenas a ti,
soberano Bem. Mas que merecimentos antecipados apresentaram a teus olhos, para
existir mesmo informes essas criaturas que, sem que as criasses nem teriam existido?
E o que a matéria corporal merecera de ti para existir, mesmo invisível e caótica? Nem
mesmo essa existência teria, se não as tivesses criado. Não existindo ainda, não podia
ter merecimento algum para existir. E a criatura espiritual, ainda no estado embrionário,
que títulos teria, mesmo para ser essa coisa vagante e tenebrosa, semelhante ao
abismo, diferente de ti, se por teu Verbo não fosse conduzida ao mesmo Verbo que a
criou e se, iluminada por ele, também não se transformasse em luz, não igual, mas
análoga à tua imagem? Para um corpo, não é a mesma coisa existir e ser belo, pois de
outro modo não poderia viver e viver sabiamente não são a mesma coisa, porque, se
fosse, todo espírito seria imutável em sua sabedoria.
Mas seu bem reside em se manter unido a ti, para não perder, afastando-se, a luz que
adquiriu com a tua proximidade, tornando a cair em uma vida semelhante a um abismo
de trevas.
E também nós, que por nossa alma somos criaturas espirituais, nós nos afastamos de
ti, nossa luz, nós fomos outrora trevas nesta vida e ainda padecemos por entre os restos
de nossas trevas, até que nos tornamos tua justiça em teu Filho único, como as
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montanhas de Deus. Pois fomos objetos de teus juízos, que são profundos como
abismos.
CAPÍTULO III
A luz
Sobre as palavras que proferiste no começo da criação: "Faça-se a luz, e a luz foi
feita" – eu entendo que se adaptam com propriedade à criatura espiritual, que já era
uma espécie de via apta a receber tua luz. Mas assim como ela não tinha merecido de ti
ser essa espécie de vida apta a receber a luz, do mesmo modo, uma vez criada, ela
como as demais formas não mereceu de ti essa iluminação. Porque sua informidade não
te agradaria se não tivesse tornado luz, e isso não se contentando com existir, mas
contemplando a luz que a iluminava, unindo-se intimamente a ela. Assim, ela devia a
existência e o viver feliz apenas à tua graça; voltada, por uma escolha feliz, para o que
não pode mudar nem para melhor, nem para pior. Voltou-se para ti, que és o único que
existes, e só o teu ser é simples, pois o viver e a felicidade são para ti a mesma coisa,
porque és tua própria felicidade.
CAPÍTULO IV
A bondade criadora
Que faltaria, pois, a esse bem, que és tu mesmo, se nenhuma dessas criaturas
existisse, ou se tivesse permanecido informes? Tu as criaste, não por ter necessidade
delas, nem para aumentar tua felicidade, mas levado pela plenitude de tua bondade,
comunicando-lhes uma forma.
Na tua perfeição, desagrada-te sua imperfeição; tu as aperfeiçoas para que elas te
agradem, e não, com isso, aperfeiçoar a ti mesmo.
Com efeito, teu Espírito bom pairava sobre as águas, e não era por elas levado como
se nelas descansasse. Se diz que teu Espírito nelas repousava; mas era ele que as fazia
em si.
Incorruptível, imutável, bastando-se a si mesma, tua vontade era suspensa acima da
vida que tinhas criado, para a qual viver não é o mesmo que viver feliz, porque ela vive,
mesmo quando flutua sobre as trevas. Esta vida carece ainda voltar-se para seu Criador,
para viver cada vez mais próxima à fonte da vida, para ver a luz na Luz divina, e nela
haurir perfeição, brilho e felicidade.
CAPÍTULO V
A trindade
Mas eis que me aparece o enigma da Trindade que és, meu Deus. Porque tu, Pai,
criaste o céu e a terra no princípio de nossa Sabedoria, que é tua Sabedoria, nascida de
ti, igual e co-eterna, a ti, isto é, em teu Filho.
Já falei longamente do céu do céu, da terra invisível e informe e do abismo das trevas,
onde a natureza espiritual errante e fluida permaneceria tal se não se voltasse para
Aquele de quem toda vida procede, para que, por meio de sua luz, se tornasse viva e
bela, o céu do céu, criado mais tarde entre a água superior e a água inferior.
Pelo vocábulo "Deus" eu já entendia o Pai, que criou essas coisas; na palavra
"princípio"
eu entendia o Filho, em quem ele as criou. E, como eu acreditava na Trindade de meu
Deus, eu a procurava em tuas santas palavras. E vi em tuas Escrituras que teu Espírito
pairava sobre as águas. Eis tua Trindade, meu Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, Criador de
toda criatura!
CAPÍTULO VI
O espírito sobre as águas
Mas, ó luz da verdade, aproximo de ti meu coração para que ele não me ensine
falsidades; dissipa-lhe as trevas e dize-me, eu to suplico por nossa mãe, a caridade,
dize-me, por que só depois de ter nomeado o céu, a terra invisível e informe e as trevas
sobre o abismo, por que só então é que as Escrituras falam de teu Espírito? Será porque
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convinha apresentá-lo assim pairando sobre alguma coisa? E seria isso possível se não
mencionasse primeiro sobre o que pairava? De fato, não era sobre o Pai nem sobre o
Filho que ele pairava, e seria impróprio falar assim se não pairasse sobre alguma coisa.
Era pois, necessário, mencionar primeiro o elemento sobre o qual ele pairava, já que
convinha falar dele apenas dizendo que pairava. Mas por que não convinha apresentá-lo
senão dizendo que pairava?
CAPÍTULO VII
As águas sem substância
Agora, quem o puder com a inteligência, siga a teu Apostolo, quando ele diz que tua
caridade se difundiu em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado, quando
nos instrui sobre as coisas espirituais e nos indica o caminho excelso da caridade, e
dobra o joelho diante de ti por nossa causa, para que conheçamos a ciência altíssima da
caridade de Cristo. E é porque era super eminente desde o princípio que pairava sobre as
águas.
A quem e como falarei do peso da concupiscência, que nos arrasta para um abismo
profundo, e da caridade que nos eleva, com a ajuda de teu Espírito, que pairava sobre as
águas?
A quem falar, como falar? Nós submergimos e emergimos, mas não em abismos
materiais. A metáfora é a um tempo correta e muito inexata. São nossas paixões, nossos
amores, a impureza de nosso espírito que nos arrasta para baixo sob o peso das
preocupações. E é tua santidade que nos eleva pelo amor de tua paz, para que
levantemos nossos corações para junto de ti, onde teu Espírito paira sobre as águas, e
alcancemos o sublime repouso, quando nossa alma tiver atravessado essas águas que
são sem substância.
CAPÍTULO VIII
À luz que ilumina as trevas
O anjo caiu, a alma do homem caiu, revelando assim as profundas trevas em que teria
caído o abismo que continha todas as criaturas espirituais, se não tivesses dito desde o
começo: "Faça-se a luz!" – se a luz não se tivesse feito, se todas as inteligências de tua
cidade celeste não se tivessem unido na obediência a ti, se não tivessem repousado em
teu Espírito que paira, imutável, sobre os seres transitórios. De outro modo, até o céu do
céu não seria mais que abismo de trevas, enquanto que agora é luz no Senhor.
Nesta lamentável inquietação dos espíritos decaídos, que, despidos da veste de tua
luz, manifestam as próprias trevas, mostras claramente a grandeza de tua criatura
racional; na busca da felicidade, ela só se sacia com tua grandeza, onde encontra
repouso – pois que ela não pode bastar-se a si própria. Porque tu, Senhor, iluminarás
nossas trevas. De ti vêm nossas vestes de luz, e nossas trevas serão como o sol do
meio-dia.
Dá-te a mim, meu Deus, entrega-te a mim. Eu te amo. Se meu amor é pouco, faze
que eu te ame com mais força. Não posso medir, não posso saber o que falta a meu
amor para que seja suficiente para que minha vida corra para teus braços, e dali não saia
antes de se esconder no segredo do teu rosto.
Se isto reconheço: tudo me corre mal onde tu não estás, não somente à minha volta,
mas até em mim mesmo; e toda a abundância que não é meu Deus, para não passa de
indigência.
CAPÍTULO IX
O amor de Deus
Mas o Pai e o Filho, não pairavam também sobre as águas? Se os imaginamos como
um corpo pairando no espaço, isso não se pode aplicar nem mesmo ao Espírito Santo. Se
porém entendermos por isso a excelência imutável da divindade acima de tudo o que é
transitório, então o Pai, o Filho e o Espírito Santo pairavam igualmente sobre as águas. E
por que só se menciona o Espírito Santo? Por que se menciona apenas a seu respeito um
lugar onde estava, ele que, no entanto, não ocupa espaço? Também apenas dele se disse
que era um dom de Deus, e é em teu dom que repousamos; é nele que gozamos de ti.
Nosso repouso é nosso lugar. É para lá que o amor nos arrebata, e teu Espírito levanta
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nossa humildade para longe das portas da morte. A paz, para nós, reside na tua boa
vontade. Os corpos tendem, por seu peso, para o lugar que lhes é próprio; mas um peso
não tende só para baixo; tende para o lugar que lhe é próprio. O fogo sobe, a pedra cai.
Cada um é movido por seu peso, e tende para seu justo lugar. O óleo, lançado à água,
flutua; a água, lançada ao óleo, afunda. Ambos são impelidos por seu peso a procurarem
o lugar que lhes é próprio. As coisas que não estão em seu lugar se agitam; mas quando
o encontram, repousam.
Meu peso é meu amor; para onde quer que eu vá, é ele quem me leva. Teu dom nos
inflama e nos eleva; ardemos e partimos. Subimos os degraus do coração e cantamos o
cântico gradual. É o teu fogo, o teu fogo benfazejo que nos consome e nos eleva,
enquanto subimos para a paz de Jerusalém celeste. Regozijei-me ao ouvir essas
palavras: "Vamos para a casa do Senhor!" – Ali nos há de instalar tua boa vontade, e
não desejaremos nada mais do que permanecer ali eternamente.
CAPÍTULO X
Os dons de Deus
Feliz a criatura que não conheceu outro estado! Seria porém diferente do que é se,
apenas criada, teu Espírito, que paira sobre todas as coisas mutáveis, não a tivesse
erguido com este apelo: "Faça- te a luz" – e a luz se fez. Em nós, o tempo em que
éramos trevas distingue-se do tempo em que nos tornamos luz. Mas dessa criatura só se
diz o que teria sido se não fosse iluminada. A Escritura fala dela como se tivesse sido
flutuante e tenebrosa, para nos realçar a causa que a transformou, isto é, que a conduziu
para a luz inextinguível, para que também fosse luz. Quem o puder, compreenda, quem
não o puder, que te peça a graça de o compreender. Por que importunam, como seu
fosse a luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo?
CAPÍTULO XI
O homem e a trindade
Quem é capaz de compreender a Trindade onipotente? E quem não fala dela, ainda
que a não compreenda? Rara é a pessoa que, falando dela, sabe o que diz. Discute-se,
disputa-se, mas ninguém sem paz interior contempla esta visão.
Quisera que os homens refletissem sobre três coisas que têm dentro de si mesmos.
Elas diferem muito da Trindade, e eu só as proponho para que as usem como exercício e
experiência do pensamento, e com isso compreender como estão longe deste mistério.
Eis as três coisas: ser, conhecer, querer. Porque existo, conheço, quero e vejo. Eu sou
aquele que conhece e quer. Sei que existo e que quero, e quero existir e saber. Repare,
quem puder, como nessas três coisas a vida é indivisível, a unidade da vida, a unidade
da inteligência, a unidade da essência; veja a impossibilidade de distinguir elementos
inseparáveis e, contudo, distintos. O homem está diante de si mesmo; que ele se
examine, veja e me responda. Contudo, por ter encontrado e reconhecido esta analogia,
não julgue por isso ter compreendido a essência do Ser imutável, que transcende tais
movimentos da alma, que existe imutavelmente, conhece imutavelmente e quer
imutavelmente. Mas é por causa de tais atributos que em deus há a Trindade, ou esses
três atributos pertencem a cada pessoa divina, cada uma sendo assim uma e trina? Ou
ambas as coisas são admiravelmente reais: a Trindade, misteriosamente simples e
múltipla, sendo para si mesma seu próprio fim infinito, pelo qual existe, se conhece e se
basta imutavelmente na magnitude superabundante de sua unidade? Quem conceberá
facilmente este mistério? Quem poderia explicá-lo? Quem, temerariamente, ousaria
enunciá-lo de algum modo?
CAPÍTULO XII
A criação e a Igreja
Ó minha fé, vai adiante em tua confissão. Dize a teu Senhor: "Santo, santo, santo! É o
Senhor, meu Deus! – Em teu nome fomos batizados, Pai. Filho e Espírito Santo; em teu
nome batizamos, Pai, Filho e Espírito Santo. Também entre nós Deus criou, pelo seu
Cristo, um céu e uma terra, isto é, os espirituais e os carnais de sua Igreja. E nossa
terra, antes de receber a forma da doutrina, era invisível e informe, e estávamos imersos
nas trevas da ignorância, porque castigaste o homem por causa de sua iniqüidade, e teus
justos juízos são como abismos profundos.
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Mas porque teu Espírito pairava sobre as águas, tua misericórdia não abandonou
nossa miséria, e disseste: "Faça-se a luz". Fazei penitencia, porque está próximo o reino
de Deus. Fazei penitencia, faça-se a luz! E porque tínhamos a alma conturbada, nos
lembramos de ti, Senhor, às margens do Jordão, sobre essa montanha grande como tu,
que te tornaste pequeno por nós.
Nossas trevas te desagradaram, nós nos voltamos para ti, e a luz se fez. E eis que
outrora fomos trevas e que agora somos luz no Senhor.
CAPÍTULO XIII
Nós e a luz
Contudo, somos luz apenas pela fé, e não por uma visão clara. É na esperança que
fomos salvos, e a esperança que vê não é mais esperança. O abismo clama pelo abismo,
mas é já pela voz de tuas cataratas. Não pude falar-vos como a homens espirituais, mas
como a carnais. Quem assim fala, não julga ainda ter atingido sua meta e, esquecendose
do que ficou para trás, avança para o que está vivo, como o cervo tem sede de água
das fontes, e diz: "Quando chegarei?" – Ele deseja o abrigo de sua morada, que está no
céu e chama o abismo inferior dizendo: "Não vos conformeis com este mundo, mas
reformai-vos renovando vosso espírito, e não queirais ser crianças na mente, mas sede
pequeninos quanto à malícia, para que sejais perfeitos no espírito..."
E ainda: "Ó gálatas insensatos, quem vos fascinou?" – Mas não é mais sua voz que
fala assim, e sim a tua voz, porque mandaste teu Espírito do alto do céu por intermédio
de Jesus, que subiu ao céu e abriu as cataratas de seus dons, para que a torrente de
alegria alegrasse tua cidade. É por essa cidade que suspira o amigo do esposo, ele que já
possui as primícias do Espírito, mas que ainda geme, porque está à espera da adoção e
do resgate do seu corpo. É por ela que suspira, porque ele é membro da Esposa de
Cristo; por ela se abrasa em zelo, porque é o amigo do esposo. Zela por ela, não por si
mesmo, pois é pela voz de tuas cataratas, e não com sua própria voz, que ele chama
pelo outro abismo, objeto de seu zelo e de seus temores. Assim como a serpente
enganou Eva com sua astúcia, ele receia que as inteligências débeis se corrompam e se
afastem da pureza que está em teu Esposo, teu Filho único. Quão resplandecente será
essa luz, quando o virmos tal como ele é, e quando tiverem passado essas lágrimas que
se tornaram o pão de meus dias e de minhas noites, enquanto a cada dia me perguntam:
Onde está o teu Deus?
CAPÍTULO XIV
Esperança
Também eu pergunto: "Onde estás, meu Deus? Onde estás?" – Respiro um pouco de
ti quando minha alma se expande dentro de mim mesmo em gritos de exaltação e de
louvor, verdadeiro canto de festa. – Mas ela ainda está triste, porque torna a cair e a ser
abismo, ou melhor, porque sente que ainda é abismo.
Minha fé, que acendeste à noite para conduzir meus passos, lhe diz: "Por que está
triste, ó minha alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor. Seu Verbo é uma
lâmpada para teus passos. Espera, persevera, até que a noite passe, a noite, mãe dos
iníquos, até que passe a ira do Senhor, ira da qual outrora fomos filhos quando éramos
trevas". – Dessas trevas ainda arrastamos os restos neste corpo morto pelo pecado, até
que alvoreça o dia e se dissipem as sombras. Espera no Senhor. Desde a manhã estarei
diante deles, e o contemplarei, e o louvarei eternamente. Desde a manhã estarei diante
dele e verei a salvação de minha face, meu Deus, que vivificará nossos corpos mortais
pelo seu Espírito que habita em nós, misericordiosamente levado por sobre as águas
tenebrosas de nossas almas.
Por isso, em nossa peregrinação, recebemos dele o penhor de já sermos luz; ele já
nos salvou pela esperança e, de filhos da noite e das trevas que éramos, ele fez filhos da
luz e do dia.
Na incerteza da ciência humana, só tu és capaz de distinguir entre uns e outros,
porque põe nossos corações à prova e chamas à luz dia e às trevas noite. Quem, senão
tu, sabe nos distinguir? E que temos nós que não o tenhamos recebido de ti? Nós, feitos
vasos de honra, fomos feitos da mesma argila que serviu para fazer os vasos de
ignomínia.
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CAPÍTULO XV
Símbolos
E quem, senão tu, nosso Deus, estendeu sobre nós um firmamento de autoridade, da
tua divina Escritura? O céu se dobrará como um livro, e agora ele se estende sobre nós
como um pergaminho. Mais sublime é a autoridade de que goza tua divina Escritura
depois que morreram aqueles que cujo intermédio no-las comunicaste. E sabes, Senhor,
sabes como cobriste de peles os homens, quando o pecado os tornou mortais. Por isso
estendeste como um pergaminho o firmamento de teu Livro, e tuas palavras em tudo
concordes, que dispuseste sobre nós pelo ministério de homens mortais. Por sua morte,
a autoridade de tuas palavras, por eles divulgadas, desdobra sua força sobre tudo o que
existe em baixo; ela não se erguia tão alto enquanto eles viviam. É que ainda não tinhas
desenrolado o céu como um pergaminho, nem tinhas ainda difundido a glória de sua
morte por toda parte.
Senhor, faze que contemplemos os céus, obra de tuas mãos! Dissipa de nossos
olhares as nuvens com que os tens velado. Neles está teu testemunho, dando sabedoria
aos humildes. Meu Deus completa teu louvor pela boca dos meninos que ainda mamam!
Não conhecemos outros livros que assim destruam a soberba, e que abatam tão bem o
inimigo que resiste a toda reconciliação contigo, e defende seus pecados. Não, Senhor,
não conheci outras palavras tão puras, que tantos me persuadissem à confissão, e
sujeitassem minha mente a teu jugo, convidando-me a te servir tão
desinteressadamente. Oxalá eu as compreenda, bondoso Pai! Concede esta graça à
minha submissão, pois as firmaste para os corações submissos.
Há outras águas, creio eu, sobre esse firmamento: águas imortais e isentas da
corrupção terrena. Que elas louvem teu nome! Que os povos celestes de teus anjos te
bendigam, pois não têm necessidade de olhar esse firmamento, nem de ler para
aprenderem a conhecer tua palavra! Eles sempre vêem tua face, e ali lêem, sem as
sílabas transitórias, o objeto da tua vontade eterna.
Lêem, escolhem, amam. Lêem perpetuamente, e o que eles lêem jamais fenece;
escolhendo e amando, lêem tua imutável vontade. Teu códice jamais de fecha, jamais se
enrola, porque tu mesmo és eternamente esse livro; tu os estabeleceste acima deste
firmamento, levantado por ti acima da fraqueza dos povos da terra, para que estes,
olhando-o, reconheçam tua misericórdia, que te anuncia no tempo, tu criador do tempo.
Tua misericórdia está no céu, e tua verdade se eleva até às nuvens. As nuvens passam,
mas o céu permanece. Os que pregam tua palavra passam para uma outra vida, mas tua
Escritura se estende sobre os povos até o fim dos séculos.
O céu e a terra passarão, mas tuas palavras não passarão. O pergaminho será
enrolado, e a erva sobre o qual se estendia passará com seu esplendor, mas a tua
palavra permanecerá eternamente. Agora ela nos aparece no enigma das nuvens e
através do espelho dos céus, e não como é na realidade, porque ainda não se manifestou
o que havemos de ser, apesar de amados pelo teu filho. Ele nos olhou através da teia da
sua carne e nos acariciou, e nos inflamou de amor, e corremos atrás de sua fragrância.
Mas quando ele aparecer seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.
Vê-lo tal qual é será nossa felicidade, mas nós ainda não o podemos contemplar.
CAPÍTULO XVI
Deus, fonte de luz
Assim como só tu existes plenamente, só tu possuis o conhecimento absoluto:
imutável, com efeito, és em teu ser, imutável em teu saber, imutável na tua vontade.
Tua essência sabe e quer imutavelmente, tua ciência é e quer imutavelmente, tua
vontade é e sabe imutavelmente.
Não é justo a teus olhos que a luz imutável seja conhecida pelo ser mutável, que ela
ilumina, como ela se conhece a si própria. Por isso, minha alma é para ti como terra sem
água, porque assim como não pode iluminar a si mesma, não se pode saciar por seus
próprios meios. Porque em ti está a fonte da vida, e graças à tua luz é que veremos a
luz.
CAPÍTULO XVII
As águas amargas
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Quem reuniu em um só mar as águas amargas? Seu objetivo é o mesmo: uma
felicidade temporal, terrena, alvo de todas as suas ações a despeito da grande
diversidade de cuidados que as agitam. Quem, senão tu, Senhor, poderia dizer a essas
águas que se reunissem em um só lugar, e à terra enxuta que aparecesse, sedenta de ti?
O mar é teu, pois tu o fizeste, e tuas mãos formaram a terra enxuta. Não é a amargura
das vontades mas a reunião das águas que chamamos de mar. Também refreias as
paixões más das almas e fixas os limites até onde permites que avancem as águas, para
que suas ondas se quebrem sobre si mesmas; e assim, crias o mar, submetido a teu
poder universal.
As almas sedentas de ti, que aparecem a teu olhos separadas do mar com outra
finalidade, tu as regas com um orvalho vivo, misterioso e doce, para que a terra produza
seu fruto.
E a terra o produz; ao teu comando, ó Senhor que és seu Deus, nossa alma germina
obras de misericórdia, de acordo com sua condição: ela ama o próximo e vai em auxílio
de suas necessidades materiais. Carrega em si a semente da compaixão, por uma
semelhança de natureza, porque é o sentimento de nossa fraqueza que nos leva a
compadecer as misérias dos que são necessitados, a socorrê-los, como desejaríamos que
nos socorressem se tivéssemos as mesmas necessidades. E não se trata só de dar apoio
fácil, como ervas nascidas de sementes, mas de proteção enérgica, vigorosa como a
árvore que carrega frutos, símbolos das obras que arrebatam à mão do poderoso a
vítima da injustiça, dando-lhe um abrigo à sombra protetora de um julgamento justo.
CAPÍTULO XVIII
Meditação
Senhor, assim como crias e concedes alegria e força, assim te peço que nasça da terra
a vontade, e que a justiça lance os olhos sobre nós do alto dos céus, e que no
firmamento brilhem os astros! Dividamos nosso pão com quem tem fome, acolhamos em
nossa casa o pobre sem teto, vistamos quem está nu, e não desprezemos nossos
semelhantes! Quando tais frutos nascem de nossa terra, olha, Senhor, e diz: Isso é bom;
faze que tua luz brilho no momento oportuno. Por esta humilde messe de boas obras,
faze que nos possamos elevar a uma contemplação deliciosa do Verbo da Vida, e que
brilhemos no mundo como astros, fixados no firmamento de tua Escritura.
E aí, de fato, que nos ensinas a distinguir entre as realidades inteligíveis e as
sensíveis, entre as almas espirituais e as almas que se entregam aos sentidos, como
entre o dia e a noite.
Deste modo já não és mais o único, no segredo de teu discernimento, como eras
antes da criação do firmamento, a distinguir entre a luz e as trevas. Também tuas
criaturas espirituais, dispostas e ordenadas nesse mesmo firmamento, depois que tua
graça se manifestou através do mundo, brilham sobre a terra, separam o dia da noite e
marcam as diferenças dos tempos. De fato, as coisas antigas passaram, e eis que se
fizeram novas, nossa salvação está mais próxima do que quando começamos a crer, a
noite avançou e se aproximou o dia, coroas o ano com tua benção, envias teus operários
à tua messe, semeada pelo trabalho de outros operários, enviando-os também para
outra sementeira, cuja messe será colhida no fim dos séculos.
Assim ouves as preces do justo e abençoas seus anos. Mas continuas eternamente o
mesmo, e em teus anos, que não terão fim, preparas um celeiro para os anos que
passam.
Por desígnio eterno, lanças sobre a terra os bens do céu no tempo oportuno; a um,
teu Espírito dá a palavra de sabedoria, luminar maior para os que encontram seu deleite
na luz de uma verdade clara como o raiar do dia; a outro dás, pelo mesmo Espírito, a
palavra de ciência, luminar menor; a outro a fé; a outro o poder de curar; a outro o dom
dos milagres; a outro a graça da profecia; a este o discernimento dos espíritos, `aquele
o dom das línguas. E todos esses dons são como estrelas, são obra de um só e mesmo
Espírito, que reparte a cada um os seus dons como lhe agrada, e que faz aparecer tais
astros para o bem comum.
Mas a palavra de ciência em que estão encerradas todos os mistérios, que variam com
o tempo, como varia a lua, e os outros dons que mencionei ao compará-los com as
estrelas, diferem a tal ponto desse brilho de sabedoria de que goza o raiar do dia, que
não passam de crepúsculo.
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Contudo, teus dons são necessários àqueles homens, a quem teu prudente servidor
não pôde dirigir como a espirituais, mas como a carnais, ele que pregou a Sabedoria
entre os perfeitos.
Quanto ao homem carnal, semelhante a um menino em Cristo, que só se alimenta de
leite, que não se julgue abandonado em sua noite, que saiba contentar-se com a luz da
lua e das estrelas, até que possa tomar alimento sólido e olhar para o sol. Eis o que nos
ensinas em tua sabedoria, nosso Deus, em teu livro, que é teu firmamento, para que
distingamos todas as coisas em contemplação admirável, embora ainda estejamos sob a
lei dos sinais, dos tempos, dos dias e dos anos.
CAPÍTULO XIX
Ainda a terra seca
Mas antes, lavai-vos, purificai-vos, arrancai a iniqüidade de vossos corações e de
meus olhos, para que apareça a terra seca. Aprendei a fazer o bem, sede justos para
com o órfão e defendei a viúva, para que a terra produza a erva tenra e árvores cheias
de frutos. Vinde e dialoguemos, diz o Senhor, e assim no firmamento do céu se
ascenderão luminares que brilharão por sobre a terra.
Aquele rico perguntava ao bom Mestre o que deveria fazer para ganhar a vida eterna.
E o bom Mestre, que é bom porque é Deus, e não um homem como o rico o considerava,
lhe declarou: "O que deseja conseguir a vida deve observar os mandamentos, afastar de
si a amargura da malícia e da iniqüidade, não matar, não cometer adultério, não roubar,
não prestar falso testemunho, a fim de que se mostre a terra seca, geradora do respeito
do pai e da mãe e do amor do próximo.
– Tudo isto já fiz – diz o rico. – De onde vêm pois tantos espinhos, se a terra é fértil?
– Vai, arranca os espessos emaranhados da avareza, vende teus bens, enriquece-te
dando tudo aos pobres, e possuirás um tesouro no céu; segue o Senhor se queres ser
perfeito, junta-te aos que ele instrui nas palavras de sabedoria, ele que sabe o que se
deve dar ao dia e à noite. Também tu o saberás, e eles se tornarão para ti luminares no
firmamento do céu. Mas isso não se realizará se ali não estiver teu coração, e teu
coração, não estará onde não estiver teu tesouro – Assim falou teu bom Mestre. Mas a
terra estéril entristeceu, e os espinhos sufocaram a Palavra divina.
Mas vós, geração escolhida, fracos aos olhos do mundo, que tudo deixaste para seguir
o Senhor, caminhais após ele, confundi os fortes; segui-lo com vossos pés
resplandecentes, e brilhai no firmamento para que os céus cantem suas glórias,
distinguindo a luz dos perfeitos, que ainda não são semelhantes aos anjos, e as trevas
dos pequenos, que ainda não perderam a esperança. Brilhai sobre toda a terra! Que o dia
resplandecente de sol transmita ao dia seguinte a palavra de Sabedoria, e que a noite,
iluminada pela lua, transmita à noite a palavra de Ciência. A lua e as estrelas brilham na
noite, mas a noite não as obscurece, porque são elas que iluminam a noite, de acordo
com a sua capacidade.
Como se Deus tivesse dito: Façam-se luminares no firmamento, e logo se fez ouvir um
ruído vindo do céu, semelhante ao de um vento violento, e foram vistas línguas de fogo,
que se dividiram e se colocaram sobre cada um deles. E apareceram luminares no céu,
que possuíam a palavra de vida. Correi por toda parte, chamas sagradas, fogos
admiráveis. Vós sois a luz do mundo, e não estais debaixo do alqueire. Aquele a quem
vos unistes foi exaltado e ele vos exaltou. Correi e dai-vos a conhecer a todas as nações.
CAPÍTULO XX
Os répteis e as aves
Que o mar também conceba e dê à luz tuas obras; que as águas produzam répteis
dotados de almas vivas. De fato, separando o precioso do vil, vos tornastes a boca de
Deus, pela qual ele diz: "Produzam as águas..." não a alma viva, filha da terra, mas
répteis dotados de almas vivas, e pássaros que voam sobre a terra. Assim como esses
répteis, teus sacramentos, ó meu Deus, deslizaram, graças às obras de teus santos, por
entre as ondas das tentações do século para regenerarem os povos com teu nome, em
teu batismo.
Então se operaram grandes maravilhas, semelhantes a enormes cetáceos, e as
palavras de teus mensageiros percorreram a terra, sob o firmamento de teu Livro, que
com tua autoridade deveria proteger seu vôo para onde quer que fossem. Não há língua
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nem palavras em que não se ouçam suas vozes; seu som espalhou-se por toda a terra, e
suas palavras até os confins do mundo, porque tu, Senhor, abençoando-os, os
multiplicaste.
Estaria eu mentindo? Ou confundindo a questão, não distinguindo as claras noções das
coisas do firmamento das obras corpóreas que se realizam no mar agitado e sob o
firmamento?
Por certo que não. Há coisas cuja idéia é completa, acabada, que não se multiplicam
no curso das gerações, tais como as luzes da sabedoria e da ciência. Mas esses seres são
o objeto de operações materiais múltiplas e variadas e, crescendo umas de outras, se
multiplicam sob tua benção, meu Deus. É assim que refreias a impertinência de nossos
sentidos, dando a uma verdade única o meio de se exprimir de varias maneiras, por
movimentos do corpo. Eis que produziram tuas águas, pela onipotência de teu Verbo.
Tudo isto se originou das necessidades de povos afastados de tua verdade eterna, por
meio do teu Evangelho. De fato foram essas águas que fizeram brotar essas coisas, e sua
amargura estagnante foi causa de que teu Verbo as criasse.
Todas tuas obras são belas, mas és indizivelmente mais belo tu, que criaste tudo o
que existe. Se Adão não se tivesse separado de ti, em sua queda, de seu seio não teria
saído o oceano amargo do gênero humano, com sua profunda curiosidade, seu orgulho
cheio de tempestades, suas ondas instáveis. E os dispensadores de tuas palavras não
teriam a necessidade de representar, no meio de tantas águas, por meio de sinais físicos
e sensíveis, teus atos e palavras místicas. Foi nesse sentido que entendi esses répteis e
essas aves. Mas até os homens iniciados nesses sinais e deles imbuídos, não avançariam
no conhecimento desses mistérios, aos quais estão sujeitos, se sua alma não se elevasse
á vida do espírito, e, após a palavra inicial, não aspirasse à perfeição.
CAPÍTULO XXI
A alma viva
E assim não foi a profundeza do mar, mas a terra livre do amargor das águas que,
impelida pelo teu Verbo gerou não mais os répteis dotados de almas vivas e os pássaros,
mas a alma viva.
E esta não mais tem necessidade de batismo (necessário para os gentios), como tinha
necessidade enquanto as cobriam. Pois não se entra de outro modo no reino dos céus,
desde que assim o determinaste. Para ter fé, ela já não exige grandes maravilhas. Ela
crê sem ter visto sinais e prodígios, porque é terra fiel, já distinta das águas do mar que
a incredulidade torna amargas: e as línguas são um sinal,não para os fiéis, mas para os
infiéis.
A terra que estendeste acima das águas não tem necessidade dessa espécie de aves
que as águas produziram por ordem de teu Verbo. Envia-lhe, pois, teu Verbo, por meio
de teus mensageiros. Nós falamos de suas obras, mas quem age por seu intermédio,
para que produzam uma alma viva, és tu. A terra a germina porque é a causa dos
fenômenos que ocorrem na superfície, assim como o mar foi causa da produção dos
répteis dotados de almas vivas, e das aves sob o firmamento do céu. A terra já não
necessita destas criaturas, embora ela se alimente de peixes pescados nas profundezas
do mar, nessa mesa que preparaste na presença dos crentes; porque eles foram
pescados nas profundezas do mar para alimentar a terra árida.
Também as aves, ainda que nascidas no mar, multiplicam-se sobre a terra. As
primeiras gerações evangélicas foram motivadas pela incredulidade dos homens, mas
também fiéis nela encontram diariamente copiosas exortações e bênçãos. Todavia, a
alma viva, extrai da terra sua origem, porque somente aos fiéis é meritório abster-se de
amar este mundo, para que sua alma viva por ti, essa alma que estava morta quando
vivia em delícias mortíferas. Ó Senhor, só tu fazes as delicias de um coração puro.
Que teus ministros trabalhem na terra, não como nas águas da incredulidade, quando
pregavam e falavam utilizando-se de milagres, de sinais misteriosos, de termos místicos,
para capturar atenção da ignorância, mãe da admiração, pelo medo desses sinais
secretos. Por esta porta, de fato, os filhos de Adão têm acesso à fé, esquecidos de ti
enquanto se escondem de tua fade e se tornam abismos. Que teus ministros trabalhem
como em terra seca, separada das fauces do abismo; e que sejam modelo para os fiéis,
vivendo sob teus olhares e incitando-os à imitação. E assim ouve não só para ouvir, mas
também para praticar. "Procurai a Deus, e vossa alma viverá, e a terra dará nascimento
a uma alma viva. Não vos conformeis com este mundo em que vivemos, abstendo-vos
dele. A alma vive evitando as coisas cujo desejo causa-lhe a morte.
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Abstende-vos das violências selvagens da soberba, das ociosas voluptuosidades da
luxúria, da falsidade que engana em nome da ciência, para que os animais ferozes sejam
domesticados, os brutos domados e para que as serpentes sejam inofensivas: todos
representam alegoricamente os movimentos da alma humana. O fastio do orgulho, as
delícias da luxúria, o veneno da curiosidade, são movimentos da alma morta, mas não
morta a ponto de carecer de todo movimento; é afastando-se da fonte da vida que ela
morre, o mundo a arrebata ao passar, e a este se amolda.
Mas tua palavra, meu Deus, é a fonte da vida eterna, e não passa. Ela mesma nos
proíbe que nos afastemos de ti por essas palavras: "Não vos conformeis com o mundo
em que vivemos, para que a terra, fertilizada pela fonte da vida, produza uma alma viva,
uma alma que busque em tua palavra, transmitida por teus evangelistas, se fortificar,
imitando os imitadores de teu Cristo". – Eis o sentido da expressão "segundo sua
espécie", porque o homem imita a quem ama. "Sede como eu" – diz o Apostolo, - porque
sou como vós. – Assim haverá na alma viva apenas feras sem maldade, agindo com
doçura. Pois nos deste este mandamento: "Fazei vossas obras com mansidão, e sereis
amados por todos" – Também os animais domésticos serão bons: se comerem, não
sofrerão fastio e, se não comerem, não terão fome. As serpentes, tornando-se boas,
serão incapazes de causar danos, mas continuarão astutas e cautelosas; não
investigarão a natureza temporal, senão na medida necessária para compreender e
contemplar a eternidade através das coisas criadas. Esses animais, as paixões,
obedecem à razão, quando refreados em seus caminhos mortais, vivem e se tornam
bons.
CAPÍTULO XXII
Sentido místico da criação do homem
Assim, Senhor, nosso Deus e nosso Criador, quando nossos afetos mundanos, que nos
causam a morte porque nos faziam viver mal, se afastarem do amor do mundo, quando
nossa alma, vivendo bem, se tornar alma viva, e quando se cumprir a palavra que
proferiste pela boca de teu Apostolo: "Não vos conformeis com o mundo em que
vivemos" – então seguir-se-á aquilo que acrescentaste imediatamente ao dizer: "Mas
reformai-vos na novidade de vossa mente". – E já não será "segundo vossa espécie" –
como se fosse imitar nossos predecessores ou viver seguindo os exemplos de alguém
melhor que nós. Não disseste: "Que o homem seja feito de acordo com sua espécie" –
mas "façamos o homem à nossa imagem e semelhança" – para que pudéssemos
reconhecer tua vontade. Para tanto, o divulgador de teu pensamento, que gerou filhos
pelo Evangelho, não querendo que continuassem como crianças os que alimentara com
leite e agasalhara em teu seio como uma ama, dizia: "Reformai-vos renovando vosso
coração, para discernir a vontade de Deus, que é bom, agradável e perfeito". – Também
não dizes: "Faça-se o homem" – mas "à nossa imagem e semelhança". Aquele que é
renovado no espírito, que compreende e conhece tua verdade, não mais carece que um
outro lhe ensine a imitar sua espécie. Graças às tuas lições, ele reconhece por si qual é
tua vontade, o que é bom, agradável e perfeito. Tu lhe ensinas, pois agora é capaz deste
ensinamento, a ver a Trindade da Unidade e a Unidade da Trindade. Eis por que, depois
de falar no plural: "Façamos o homem" se diz no singular: "E Deus criou o homem".
Depois deste plural: "À nossa imagem" – este singular: "À imagem de Deus". Assim o
homem "se renova pelo conhecimento de Deus, à imagem de seu criador" – e "tornandose
espiritual, julga todas as coisas", que certamente hão de ser julgadas, "mas ele não é
julgado por ninguém".
CAPÍTULO XXIII
O julgamento do homem espiritual
Ele julga tudo, significa que tem autoridade sobre os peixes do mar, sobre os pássaros
do céu, sobre os animais domésticos e selvagens, sobre toda a terra e sobre todos os
répteis que nela se arrastam. Exerce esse poder pela inteligência, pela qual percebe as
coisas que são do Espírito de Deus. Mas, elevado a tão grande honra, o homem não
entendeu sua dignidade, igualou-se aos jumentos insensatos, tornando-se semelhante a
eles.
Por isso, na tua Igreja, Senhor, pela graça que lhe concedeste – pois somos obra tua,
e criados para obras boas, tanto os que governam como os que obedecem segundo o
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Espírito tem o dom de julgar. Porque assim fizeste a criatura humana homem e mulher,
em tua graça espiritual, onde não há distinção conforme o sexo, nem judeu nem grego,
nem escravo nem homem livre. Os espirituais, portanto, tanto os que presidem como os
que obedecem, julgam espiritualmente. Eles não julgam conhecimentos espirituais que
brilham no firmamento, pois não lhes cabe fazer juízos sobre tão sublime autoridade.
Nem julgam tua Escritura, mesmo em suas passagens obscuras: nós lhe submetemos
nossa inteligência, e temos certeza de que até aquilo que está oculto à nossa
compreensão é justo e verdadeiro. O homem, pois, embora já espiritual e renovado pelo
conhecimento, conforme a imagem de seu criador, deve ser cumpridor da lei, e não seu
juiz. Nem pode ajuizar sobre o que distingue espirituais e carnais. Somente teus olhos,
meu Senhor, os distinguem, mesmo que nenhuma obra sua os tenha revelado a nós,
para que os reconheçamos por seus frutos. Mas tu, Senhor, já os conheces e os
classificaste, e os chamaste no segredo de teu pensamento, antes de ter criado o
firmamento.
Tampouco julga, o homem espiritual, os povos inquietos deste mundo. De fato, por
que julgaria ele os que estão fora, ignorando quem alcançará a doçura da tua graça, e
quem permanecerá na eterna amargura da impiedade?
Por isso, o homem que criaste à tua imagem, não recebeu poder sobre os astros do
céu, nem sobre o mesmo céu misterioso, nem sobre o dia e a noite que chamaste á
existência antes da criação do céu, nem sobre a massa das águas, que é o mar. Mas
recebeu poder sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre todos os animais,
sobre toda a terra, e sobre tudo o que se arrasta pela superfície do solo.
Ele julga e aprova o que acha bom, e reprova o que acha mau, quer na celebração dos
sacramentos, com que são iniciados os que na tua misericórdia tira das águas profundas,
quer no banquete em que se serve o peixe tirado das profundezas para alimento da terra
fiel; quer nas palavras e expressões sujeitas à autoridade de teu Livro que, semelhantes
aos pássaros, voam sob o firmamento: interpretações, exposições, discussões, bênçãos e
invocações que brotam sonoras da boca, para que o povo responda: Amém! É necessário
que essas palavras sejam enunciadas fisicamente, por causa do abismo do mundo e da
cegueira da carne que, impossibilitada de ver o pensamento, tem necessidade de sons
que firam os ouvidos. Assim, sem dúvida é sobre a terra que as aves se multiplicam,
embora tenham suas origens na água.
O homem espiritual julga também aprovando o que acha correto e reprovando o que é
vicioso nas obras e nos costumes dos fiéis. Julga das suas esmolas, comparáveis aos
frutos da terra; ele julga a alma viva pelas paixões domadas pela castidade, os jejuns, e
pelos pensamentos piedosos, na medida em que essas coisas se manifestam aos sentidos
do corpo. Em resumo, é juiz de tudo o que pode se corrigir.
CAPÍTULO XXIV
Crescei e multiplicai-vos
Mas que é isto? Que mistério é este? Abençoas os homens, Senhor, para que eles
cresçam, se multipliquem, e encham a terra. Não queres nisto dar-nos a entender
alguma coisa?
Por que não abençoaste também a luz, que chamaste dia, nem a terra, nem o mar?
Eu diria, meu Deus, que nos criaste à tua imagem, diria que quiseste conceder
especialmente ao homem esta benção, se não houvesses abençoado igualmente os
peixes e os cetáceos, para que cresçam, se multipliquem, encham as águas do mar, e os
pássaros para que se multipliquem sobre a terra.
Afirmaria ainda que essa benção foi reservada às espécies vivas que se reproduzem
por meio de geração, caso a encontrasse também nas árvores, nas plantas, nos animais
da terra. Mas não foi dito nem às plantas, nem às árvore , nem aos répteis: "Crescei e
multiplicai-vos" – embora todas essas criaturas se multipliquem pela procriação, como os
peixes, os pássaros e os homens, conservando assim sua espécie.
Quer dizer, então, ó minha Luz, ó Verdade? Que tais palavras carecem de senso e
foram ditas em vão? De nenhum modo, ó Pai de misericórdia. Longe de mim, longe do
servidor de teu Verbo, uma tal afirmação! Apenas não compreendo o sentido dessas
palavras, e espero que os melhores que eu, ou seja, os mais inteligentes, a entendam
melhor, segundo a sabedoria que deste, meu Deus, a cada um. Que te agrade ao menos
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a confissão, que faço diante de ti, de minha certeza de que não falaste em vão aquelas
palavras.
Não calarei as reflexões que me sugere a leitura dessas palavras. O que penso é
verdadeiro, e nada vejo que impeça de explicar assim os textos figurados de teus livros.
Sei que sinais corporais podem exprimir de vários modos uma idéia que o espírito
concebe em um só sentido; uma idéia expressa de um só modo. Como exemplo, cito a
simples idéia do amor de Deus e do próximo. Quantos símbolos, quantas línguas, e em
cada uma inúmeras locuções lhe dão uma expressão concreta! É assim que crescem e se
multiplicam os peixes das águas.
E note ainda nisto, meu leitor. Há uma frase que a Escritura declara de uma só forma,
e que a voz fala apenas dessa maneira: "No princípio criou Deus o céu e a terra" – E não
pode a frase ser interpretada diversamente – descartando o erro ou o sofisma –
conforme os diversos pontos de vista legítimos? É assim que crescem e se multiplicam as
gerações dos homens! Se consideramos a natureza das coisas, não alegoricamente, mas
em sentido próprio, a sentença: "Crescei e multiplicai-vos" – se aplica a todas as
criaturas que nascem de uma semente. Se, ao contrário, a interpretamos em sentido
figurado, como penso que foi a intenção da Escritura, que não limita inutilmente essa
benção aos peixes e aos homens, encontramos então multidões de criaturas espirituais e
temporais, como no céu e na terra; de almas justas e injustas, como na luz e nas trevas;
de escritores sagrados que nos anunciaram a Lei, como no firmamento estabelecido
entre as águas; na sociedade amargurada dos povos, como no mar; no zelo das almas
piedosas, como em terra enxuta; nas obras de misericórdia praticadas nesta vida, como
nas plantas que nascem de semente e nas árvore frutíferas; nos dons espirituais
concedidos para o bem de todos, como nos luminares do céu; nas paixões dominadas
pela temperança, como na alma viva. Em todas essas coisas encontramos multidões,
fecundidade, crescimento. Mas que esse crescimento e essa proliferação exprimam uma
mesma idéia de vários modos e que uma só expressão possa ser entendida de muitas
maneiras, esse fato, apenas o encontramos nos sinais sensíveis e nos conceitos
intelectuais.
Os sinais corpóreos, originados da profundidade de nossa cegueira carnal,
correspondem, segundo penso, às gerações das águas; os conceitos intelectuais, gerados
pela fecundidade da inteligência, simbolizam,me parece, as gerações humanas.
E é por isso, Senhor, creio que disseste tanto às águas como aos homens: "Crescei e
multiplicai-vos" – Nessa benção, penso que nos deste a faculdade, o poder de formular
de várias maneiras uma única idéia, e de compreender também de muitas maneiras uma
expressão única, mas obscura.
É assim que as águas do mar se povoam, e não se moveriam sem as várias
interpretações das palavras. É assim que a terra se povoa de gerações humanas; sua
aridez se fecunda pela sua paixão da verdade, sob o poder da razão.
CAPÍTULO XXV
Os frutos da terra
Quero ainda dizer, Senhor meu Deus, o que me inspiram as palavras que seguem da
tua Escritura. E o farei sem medo, porque direi a verdade; pois não vem de ti, por acaso,
a inspiração do que queres que eu diga? Não creio que eu possa dizer a verdade se tu
não me inspirares, pois tu és a própria verdade, e todo homem é mentiroso. Por isto,
quem mente fala do que é seu. Logo, para falar a verdade, só falarei o que me inspiras.
Tu nos deste para alimento todas as ervas que produzem semente e que cobrem a
terra, e todas as árvore que contém em si, em germe, seus frutos. E não foi somente a
nós que deste esse alimento, mas também às aves do céu, aos animais da terra e aos
répteis, mas não aos peixes e aos grandes cetáceos. Dizíamos que esses frutos da terra
significam e representam alegoricamente as obras de misericórdia, que a terra fecunda
produz para as necessidades desta vida. Era semelhante a uma terra assim o piedoso
Onesíforo, cuja casa recebeu a graça de tua misericórdia, porque muitas vezes assistira a
teu Paulo, sem se envergonhar por suas cadeias.
É o mesmo que fizeram os irmãos que, de Macedônia, lhe forneceram o que lhe era
necessário, produzindo também abundante fruto. E contudo, o Apóstolo se queixa de
certas árvore que não lhe tinham dado fruto devido, quando escreve: "em minha
primeira defesa ninguém me assistiu; todos me abandonaram. Que isto não lhes seja
imputado!" – Tais frutos são devidos aos que nos ministram doutrina racional, ajudandonos
a compreender os mistérios divinos. E nós lhes devemos exemplos de todas as
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virtudes; e também lhes devemos os frutos como a pássaros do céu, por causa das
bênçãos que distribuem abundantemente sobre a terra, pois sua voz se fez ouvir por
toda a terra.
CAPÍTULO XXVI
O dom e o fruto
Nutrem-se com esses alimentos os que neles se alegram; não encontram neles alegria
os homens cujo deus é seu ventre. E até entre os que ofertam esses frutos, o fruto não é
o que eles dão, mas o espírito com que o oferecem. Por isso, naquele que servia a seu
Deus e não a seu ventre percebo claramente a fonte de sua alegria; e participo
fortemente de seu regozijo. Paulo recebera os presentes que os filipenses lhes tinham
mandado por intermédio de Epafrodito. Vejo bem a razão de sua alegria. E é dela que se
nutria, porque ele diz com verdade: "Alegrei-me muito no Senhor, vendo enfim
reflorescer para mim vossa estima, da qual já andáveis desgostados".
Eles, de fato, tinham estado realmente aborrecidos e, tornados áridos, não produziam
mais o fruto das boas obras; e Paulo se alegra por eles, porque suas simpatias tornaram
a florescer, e não por o terem socorrido na sua indigência. Porque ele diz em seguida:
"Não é por causa das privações que sofro que falo assim: aprendi a me contentar com o
que tenho. Sei acomodar-me às privações, e sei viver na abundância. Em tudo e por tudo
habituei-me à saciedade e à fome, à abundância e à penúria. Tudo posso naquele que
me fortalece".
Qual então o motivo de tua alegria, ó grande Paulo? De onde vem tal júbilo, de que te
alimentas, ó homem renovado para o conhecimento de Deus, conforme a imagem de teu
Criador, alma viva que possui tal domínio de si, língua alada que exprime os mistérios? É
certamente a tais almas que se deve este alimento. O que foi para ti esse alimento
substancioso? A alegria.
Ouçamos o que segue: "Contudo, fizestes bem ao partilhar de minhas tribulações" –
Esta é a fonte da alegria, isto é o que o nutre, as boas obras, e não o conforto que aliviou
sua miséria. Ele diz: "Na tribulação dilatastes meu coração" – pois ele aprendeu a viver
na abundância e sofrer as privações, em ti, que o confortas. – "Bem sabeis, filipenses –
diz ele – que nos primórdios de minha pregação do Evangelho, quando deixei a
Macedônia, nenhuma Igreja me assistiu com seus bens quanto ao dar e receber, com
exceção de vós, que, várias vezes me enviaste, para Tessalônica, com que suprir às
minhas necessidades". – Alegra-se agora por voltarem à prática de boas ações,
felicitando-se por terem eles reflorido como campo fértil e verdejante.
Referia-se por acaso às próprias necessidades quando dizia: "Socorrestes às minhas
necessidades"? – Será este o motivos de sua alegria? Certamente que não. E como o
sabemos?
Porque ele diz em seguida: "Eu não procuro a dádiva, mas o fruto". – Aprendi de ti,
meu Deus, a discernir a dádiva do fruto. O dom é a própria coisa dada por aquele que
acode às nossas necessidades; é o dinheiro, a comida, a bebida, a roupa, um abrigo, e
auxílio. O fruto é a vontade boa e reta do doador. O bom Mestre não se limita a dizer:
"Aquele que receber um profeta" – mas acrescenta: "Aquele que receber um justo..." –
mas acrescenta: "na qualidade de justo". – E assim, aquele receberá a recompensa do
profeta, e o outro, a do justo. Ele não diz apenas: "Aquele que der um copo de água
fresca a um de meus pequeninos" – mas acrescenta: "na qualidade de discípulo". – E
prossegue: "Na verdade vos digo: este não ficará sem recompensa".
– Dom é receber o profeta, receber o justo, dar um copo de água fresca a um
discípulo; fruto é fazer isso em consideração de sua qualidade de profeta, de justo, de
discípulo. É com este fruto que Elias era alimentado pela viúva: ela sabia que alimentava
um homem de Deus, e é por isso que o fazia. Os alimentos, porém, que lhe eram levados
pelo corvo, não passavam de dom, e não era o Elias interior, mas o Elias exterior que
recebia esse alimento, o que poderia morrer se lhe faltasse esse alimento.
CAPÍTULO XXVII
Peixes e cetáceos
Por isso, Senhor, direi diante de ti a verdade. Por vezes, ignorantes e infiéis que, para
serem iniciados e conquistados para a fé, precisam desses rituais de iniciação e de
milagres mirabolantes, simbolizados, a meu ver, pelos peixes e pelos cetáceos, acolhem
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teus servos e os socorrem, ou os auxiliam nas necessidades da vida presente, sem saber
por que o fazem nem em vista de que devem agir. Desse modo, nem aqueles os
alimentam, nem estes são alimentados por eles, pois os primeiros não são movidos por
vontade santa e reta, e os segundos não se alegram com os dons recebidos, não
descobrindo neles fruto algum. Ora, a alma só se alimenta com o que lhe traz alegria. É
esta a razão pela qual os peixes e os cetáceos se nutrem de alimentos que a terra só
pode produzir depois de separados e purificados de amargura das águas do mar.
CAPÍTULO XXVIII
A bondade da criação
Viste, meu Deus, que tudo o que criaste te pareceu excelente. Também nós vemos
tua criação, e ela nos parece excelente. Para cada espécie de obra criada, disseste:
"Faça-se" e quando elas se fizeram, viste que eram boas. Sete vezes está escrito – eu as
contei – que viste a excelência de tua obra; e na oitava vez contemplaste toda a criação,
e disseste que, no seu conjunto, era não apenas boa, mas muito boa. Tomadas
separadamente, tuas obras eram boas; consideradas em seu conjunto, elas eram boas e
até excelentes. O mesmo julgamento se pode fazer da beleza dos corpos. Um corpo,
formado de membros todos belos, é muito mais bonito que cada um desses membros
cuja harmoniosa organização forma o conjunto, embora, considerados à parte, também
eles tenham sua beleza própria.
CAPÍTULO XXIX
A palavra de Deus e o tempo
Procurei ver com atenção se forma sete ou oito as vezes que constataste a bondade
de tuas obras quando elas te agradaram. Mas não encontrei uma seqüência temporal não
tua visão, de onde pudesse deduzir que foi esse o número de vezes que viste tuas
criaturas. Então disse: "Senhor, não será verdadeira tua Escritura, inspirada por ti, que
és a própria verdade? Por que então me dizes que tua visão das coisas não está sujeita
ao tempo, enquanto tua Escritura me diz que dia por dia viste a bondade de tuas obras?
E calculei quantas vezes o fizeste."
A isto me respondes, porque és meu Deus, falando com voz forte no ouvido interior de
teu servo, rompendo minha surdez, me exclamas: "Ó homem, o que minha Escritura diz,
isto digo eu.
Mas ela fala no tempo, enquanto este não atinge o meu verbo, que permanece em
mim, eterno como eu. Assim, o que vês por meu Espírito, sou eu quem o vê; o que dizes
por meu Espírito, sou eu quem o diz. Mas o que vês no tempo, eu não vejo no tempo; e
o que dizes no tempo, eu não digo no tempo."
CAPÍTULO XXX
Erro dos maniqueus
Ouvi, Senhor, meu Deus, tua voz, e recolhi em meu coração uma gota de doçura de
tua verdade. Compreendi que há uns aos quais tuas obras desagradam. Eles sustentam
que muitas delas fizeste constrangido pela necessidade, como a estrutura dos céus, a
ordem dos astros; afirmam que não as criaste por ti mesmo, mas que elas já existiam
alhures, criadas por outra fonte; que te limitaste a reuni-las, a ordená-las, a entrelaçálas;
que com elas construíste as muralhas do mundo, depois de vencido teus inimigos,
para que essa construção os mantivesse cativos, e não mais pudessem se revoltar contra
ti; que não criaste nem organizaste outros seres, como os corpos carnais, os animais
pequenos e tudo o que se prende à terra por meio de raízes; que foi um espírito hostil,
uma outra natureza, não criada por ti, e que se opõe a ti nas regiões inferiores do
mundo, que as gerou e organizou. Esses insensatos falam assim porque não vêem tuas
obras através de teu Espírito, nem te reconhecem neles.
CAPÍTULO XXXI
A luz do espírito divino
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O oposto sucede aos que vêem tuas obras através de teu Espírito, pois és tu é quem
as vê neles. Portanto, quando vêem que elas são boas, tu também vês essa bondade;
em tudo o que lhes agrada por tua causa, tu és que nos agradas, e o que nos agrada
através de teu Espírito é em nós que te agrada. Com efeito, quem dentre os homens
sabe das coisas do homem, senão o espírito do homem que nele habita? Do mesmo
modo o que pertence a Deus ninguém o sabe, a não ser o Espírito de Deus. "Quanto a
nós, diz ainda Paulo, não recebemos e espírito deste mundo, mas o Espírito de Deus,
para que conheçamos os dons que nos vêm de Deus".
E isto me fez perguntar: Posto que certamente ninguém sabe das coisas de Deus, com
exceção do Espírito de Deus, como então nós conhecemos os dons que nos vêm de
Deus? Eis a resposta que recebi: As coisas que sabemos por seu Espírito, ninguém as
sabe a não ser o Espírito de Deus. É pois justo que foi dito aos que falavam, inspirados
pelo Espírito de Deus: "Não sois vós os que falais" – e aos que obtém seu saber do
Espírito de Deus: "Não sois vós os que sabeis". – E com igual razão se diz aos que vêem
através do Espírito de Deus: "Não sois vós os que vêem". Assim, em tudo o que vemos
de bom pelo Espírito de Deus, não somos nós que vemos, mas Deus.
Por isso, uma coisa é julgar mau o que é bom, como o fazem aqueles de quem falei
acima, e outra coisa é o homem ver o que é bom. Todavia, muitos amam tua criação
porque é boa, mas não tem amam nessa criação; e por isso preferem gozar dela que de
ti. Há ainda outro caso, quando alguém vê que uma coisa é boa, mas é Deus que nele vê
que essa coisa é boa, e é Deus que é amado em sua criação. Ele só o pode ser graças ao
Espírito que Deus nos deu, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado. Por ele, vemos que tudo o que de algum modo
existe é bom, pois recebe seu ser daquele que é, não de um modo qualquer, mas de
modo absoluto.
CAPÍTULO XXXII
A criação
Graças te damos, Senhor! Vemos o céu e a terra, isto é, a parte superior e inferior do
mundo material, assim como a criação espiritual e material. E, como adorno dessas
partes que se compõe, o conjunto do Universo, e o conjunto de toda a criação, vemos a
luz que foi criada e separada pelas trevas. Vemos o firmamento do céu, tanto o que está
situado entre as águas espirituais superiores e as águas materiais inferiores, como ainda
esses espaços de ar, chamados também de céu, onde volitam as aves do céu entre as
águas que se evolam em vapores, e nas noites serenas se condensam em orvalho, e as
que correm pesadas sobre a terra. Vemos a beleza das águas reunidas nas planícies do
mar, e a terra enxuta, ora nua, ora tomando forma visível e ordenada, mãe das plantas e
das árvore . vemos os luminares do céu brilhando acima de nós, o sol bastar para o dia,
a lua e as estrelas consolando a noite, e todos esses astros marcando e assinalando a
cadência do tempo. Vemos o elementos úmido habitado por peixes, monstros, animais
alados, porque a densidade do ar que sustenta o vôo dos pássaros é aumentada pela
evaporação das águas. Vemos a face da terra embelezar-se de animais terrestres, e o
homem, criado à tua imagem e semelhança, senhor de todos os animais irracionais,
precisamente porque foi feito à tua imagem e se assemelha a ti, em virtude da razão e
da inteligência. E como na alma humana há uma parte que domina pela reflexão e outra
que se submete na obediência, assim a mulher foi criada fisicamente para o homem; é
fora de dúvida que ela possui um espírito e uma inteligência racional, iguais aos do
homem, mas seu sexo a coloca sob a dependência do sexo masculino; é desse modo que
o desejo, princípio da ação, se submete à razão que concebe a arte do agir retamente.
Eis o que vemos, e que cada uma dessas coisas, tomadas por si, são boas, e que todas,
em seu conjunto, são muito boas.
CAPÍTULO XXXIII
A matéria e a forma
Que tuas obras te louvem para que te amemos! Que nós te amemos, para que tuas
obras te louvem! Elas têm seu princípio e fim no tempo, seu nascimento e morte, seu
progresso e decadência, sua beleza e sua imperfeição. Elas têm, portanto,
sucessivamente sua manhã e sua noite, umas oculta; outras, manifestamente.
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Foram feitas por ti do nada, não de tua substância, nem de nenhuma substância
estranha ou inferior a ti, mas de matéria concriada, isto é, criada por ti ao mesmo tempo
em que lhe deste forma, sem nenhum intervalo de tempo. Sem dúvida a matéria do céu
e da terra é uma coisa, e sua forma é outra; a matéria tua a fizeste do nada, a forma, tu
a tiraste da matéria informe.
Contudo, criaste uma e outra a um só tempo, de maneira que entre a matéria e a
forma não houvesse nenhum intervalo de tempo.
CAPÍTULO XXXIV
Alegoria da criação
Também meditei sobre o significado simbólico da ordem pela qual se fez tua criação e
da ordem pela qual a Escritura relata. Vimos que tuas obras, consideradas cada uma em
si, são boas, e em seu conjunto, muito boas. Em teu Verbo, em teu Filho único, vimos o
céu e a terra, a cabeça e o corpo da Igreja, predestinadas antes de todos os tempos,
quando ainda não havia nem manhã, nem tarde. Depois começaste a executar no tempo
o que predestinaste antes do tempo, a fim de revelar teus desígnios ocultos e de dar
ordem às nossas desordens – porque pesavam sobre nós nossos pecados, e nos
perdíamos longe de ti em voragens de trevas. Teu Espírito misericordioso pairava sobre
nós, para nos socorrer no momento oportuno. Justificaste os ímpios; tu os separaste dos
pecadores e confirmaste a autoridade de teu Livro entre os superiores, que te eram
dóceis, e os inferiores, para que a eles se submetessem. Reuniste em um corpo único, de
mesmas aspirações, a sociedade dos infiéis, para que aparecesse o zelo dos fiéis fecundo
em obras de misericórdia, e distribuindo aos pobres os bens da terra para adquirir os do
céu.
Acendeste então os luzeiros no firmamento: teus santos, que possuem a palavra de
vida e brilham pela sublime autoridade dos seus dons espirituais. Depois, para difundir a
fé entre as nações idólatras, fizeste com a matéria visível dos sacramentos os milagres
bem perceptíveis, e determinaste as vozes das palavras sagradas, conformes ao
firmamento de teu Livro, pelas quais seriam abençoados teus fiéis. Formaste depois a
alma viva dos fiéis, pela disciplina das paixões bem ordenadas e pelo vigor da
continência. Por fim renovaste a alma, que não estava sujeita senão a ti, e que não tinha
mais necessidade de nenhuma autoridade humana para imitar, à tua imagem e
semelhança; submeteste, como a mulher ao homem, a atividade racional ao poder da
inteligência. Quiseste que a teus ministros que são necessários ao progresso dos fiéis
nesta vida, que esses mesmos fiéis propiciassem o necessário para suas necessidades
temporais; obras valiosas de caridade, cujos frutos colherão no futuro. vemos todas
essas coisas, e todas são muito boas, porque tu as contemplas em nós, tu que nos deste
o Espírito, para que por ele pudéssemos vê-las e amar-te nelas.
CAPÍTULO XXXV
Prece
Senhor Deus, tu que nos deste tudo, concede-nos a paz do repouso, a paz do sábado,
a paz do ocaso. De fato, esta formosíssima ordem de coisas muito boas, passará quando
atingir o termo de seu destino, e terá sua tarde como teve seu amanhecer.
CAPÍTULO XXXVI
O repouso de Deus
O sétimo dia, porém, não tem crepúsculo; não entardece porque o santificaste para
que se prolongue eternamente. E o repouso de teu sétimo dia, depois de ter criado
tantas e tão boas obras, embora sem te causar fadiga, a palavra de tua Escritura nos
anuncia que também nós, depois de nossos trabalhos, que são bons porque assim nos o
concedeste, encontraremos o repouso em ti, no sábado da vida eterna.
CAPÍTULO XXXVII
O repouso da alma
Então também repousarás em nós, como hoje opera em nós; e o repouso de que
gozaremos será teu, como as obras que fazemos são tuas. Mas tu, Senhor, sempre estás
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ativo e sempre estás em repouso. Tu não vês o tempo, não ages no tempo nem repousas
no tempo; todavia, concede-nos que vejamos no tempo,fazes o próprio tempo e o
repouso além do tempo.
CAPÍTULO XXXVIII
O descanso de Deus
Vemos, portanto, as tuas criaturas porque elas existem. Mas elas existem porque tu
as vês. Olhando à nossa volta, vemos que elas existem; em nosso íntimo, vemos que são
boas. Mas tu já as viste feitas quando e onde viste que deviam ser feitas. Agora somos
inclinados a praticar o bem, depois que nosso coração concebeu essa idéia em teu
Espírito. Outrora estávamos inclinados ao mal, desertando de ti. Tu, porém, ó Deus,
único bem, nunca cessaste de nos fazer o bem. Por tua graça, algumas de nossas obras
são boas, mas não são eternas. Esperamos, depois de realizá-las, repousar em tua
grande santificação. Mas tu, que não precisas de nenhum outro bem, estás sempre em
repouso, porque és teu próprio repouso.
Que homem poderá dar ao homem a compreensão desta verdade? Que anjo a outro
anjo?
Que anjo ao homem? É a ti que devemos pedir, e em ti é que a devemos buscar, é à
tua porta que devemos bater. E somente assim receberemos, somente assim
encontraremos, somente assim se nos abrirá tua porta.
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PERFIL BIOGRÁFICO
SANTO AGOSTINHO
(354-430)
"Ó Senhor, cumpre em mim Tua obra e revela-me essas páginas!"
Com estas palavras, o Bispo Agostinho de Hipona, aos 43 anos de idade, abre o seu
coração. Não fora fácil o caminho de sacerdote, que, dentro do silêncio das noites
africanas, invocava o auxílio divino. Agostinho conhecera os prazeres do mundo, a
sensualidade das festas pagãs, o aplauso das multidões deslumbradas por sua oratória. E
quando, finalmente, se voltou para dentro de si, já era bispo há pelo menos dois anos,
venerado em toda a África.
Reconstruindo sua existência desde o princípio, ele visa a expurgá-la de toda culpa,
para entregá-la novamente a Deus. Ao escrever as Confissões, numa exposição por
vezes ingênua de todos os seus sentimentos e conflitos até a reconquista da fé,
Agostinho dirige-se principalmente a Deus. Mas não esquece o rebanho que lhe foi
confiado: "Quem eu sou nesse exato momento é o que desejam saber muitos. Mas para
que desejam saber isso? Para congratular-se contigo, ó Senhor, ouvindo como eu
avancei por obra Tua pelo Teu caminho, e para rezar por mim, sentindo quanto meu
peso me faz retardar o passo. Se assim for, é para esses que falo".
A perdição da alma reside em algumas pêras
Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354, em Tagaste, pequena cidade da Numídia,
atual Argélia. Sua infância e adolescência transcorreram principalmente em sua cidade
natal, no ambiente limitado de um povoado perdido entre montanhas. Mais tarde,
descreveria em cores carregadas este período. "Cometia pequenos furtos na despensa da
casa ou na mesa, por gulodice ou para ter algo a dar a meus camarada. Mesmo nos
jogos, muitas vezes conseguia, levado pela ânsia de superioridade, vitórias
fraudulentas". Um furto de peras ficou-lhe sobretudo na memória. "Fi-lo não premido
pela necessidade, mas por desprezo à justiça e excesso de maldade".
Suas observações sobre a severidade do ensino da época são bem mais equilibradas,
encerrando um protesto ainda hoje válido: "Para aprender tem mais valor uma
curiosidade livre do que a coerção baseada no medo".
"Quantas misérias e enganos experimentei naquela época, quando era rapazinho e me
propunham, para viver direito, a obediência àqueles que me instruíam, para que nesse
mundo construísse minha imagem..."
De Tagaste, Agostinho vai para Madaura, onde inicia os estudos de retórica. O rapaz
parece talhado para a oratória. Lê e decora trechos de poetas e prosadores latinos,
dentre os quais Virgílio e Terêncio. Adquire, com Varrão, noções de caráter enciclopédico.
Aprende regras elementares de música, física e matemática. Recebe tinturas de filosofia,
o suficiente para compreender certos poetas. Em compensação, jamais dominará o
grego.
Agostinho fará os estudos superiores em Madaura e Cartago. Depois de longos anos
receberá, finalmente, de acordo com os programas da época, o título de vir
eloquentissimus atque doctissimus.
Onde está a felicidade?
"Vim a Cartago, e uma multidão de torpes amores rodeou-me de todo lado. (...) Amar
e ser amado era para mim uma coisa deliciosa, tanto mais quanto podia também possuir
o corpo da pessoa amada". Na realidade, porém, Agostinho não era o pecador que ele
descreve nas suas Confissões. Segundo o testemunho de um adversário, o bispo
donatista (herético) Vicente de Cartena, o estudante Agostinho era um jovem ponderado,
dedicado aos livros.
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Não que lhe faltassem oportunidades mundanas. Cartago, a maior cidade do Ocidente
latino depois de Roma, era um dos grandes centros do paganismo, que dois séculos de
doutrina cristã ainda não haviam conseguido derrubar. A procissão anual à deusa do céu
(a antiga Tanit dos fenícios) atraía multidões ávidas de prazer, vindas de todas as partes
da África. Na grande metrópole realizavam-se os espetáculos sensuais, comedias e
pantomimas que contavam as aventuras eróticas de deuses e homens. Agostinho, um
rapaz de apenas dezessete anos, deixouse cativar pela alegria e esplendor das
cerimônias em honra dos milenares deuses protetores do império.
Em Cartago permanece durante três anos, unindo-se a uma mulher em concubinato –
o que as leis e costumes da época consideravam perfeitamente normal. "Tinha só a ela e
era-lhe fiel, como um marido", escreve mais tarde. "Tive de experimentar com ela, às
minhas custas, a diferença entre um compromisso conjugal criado para procriar filhos e o
acordo de um coração apaixonado, do qual a prole nasce ainda que não desejada,
mesmo que depois se seja levado a amá-la". Referia-se a seu filho Adeodato, nascido em
373.
"Naquele período tão incerto, estudava os livros de eloqüência, na qual desejava
destacarme com um fim reprovável, por orgulho, pelo prazer da vaidade humana.
Seguindo, portanto, a ordem tradicional do ensino, chegara a um livro, de Cícero..."
Continha ele uma discussão imaginária entre Cícero e Hortênsio, outro grande orador
romano, em torno do valor da filosofia.
Cícero demonstrava que a verdadeira felicidade reside na busca da sabedoria.
Agostinho sentiu-se fascinado. Os dezenove anos de sua vida pareceram-lhe
completamente desperdiçados. A busca e a investigação tornaram-se, daquele momento
em diante, seu objetivo primordial.
De início, decidiu dedicar-se ao estudo das Escrituras, mas logo se cansou: o
admirador de Virgilio, Terêncio e Cícero ficou desiludido diante do estilo simples da Bíblia.
O mestre da eloqüência e um bêbado trilham caminhos iguais
De volta à cidade natal, Agostinho abre uma escola particular, onde ensina gramática
e retórica. Gosta de ensinar; durante treze anos esta será sua profissão. Seus múltiplos
interesses intelectuais, entre os quais o ocultismo e a astrologia, não o impedem de
tornar-se excelente professor, capaz de despertar a curiosidade dos alunos.
No outono de 374 deixa Tagaste, transferindo-se para Cartago. Mais uma vez dedicase
ao ensino da retórica. "Os estudantes receberam minha ordem de aprender, além de
literatura, a refletir e a habituar seu espírito na concentração sobre si mesmos". Os
cartagineses, porém, são demasiado turbulentos. Agostinho segue para Roma, em 383.
Pouco tempo depois verificaria que os jovens romanos, embora mais quietos e gentis,
têm o hábito de abandonar as aulas na ocasião em que devem pagar os honorários aos
mestres. A luta contra os maus pagadores dura um ano, até que um concurso lhe dá a
cátedra de eloqüência em Milão.
Igrejas majestosas ao lado de templos pagãos; teatros e circos que nada ficavam a
dever aos romanos; assim era Milão, na época a capital administrativa da parte ocidental
do império, a residência do imperador. Era, sobretudo, uma cidade onde havia a
possibilidade de fazer carreira.
Agostinho consagrava as manhãs aos cursos de eloqüência, passando as tardes nas
antecâmaras dos ministérios. Esperava obter a presidência de um tribunal ou posto de
governador de uma província. Era, à primeira vista, um homem feliz: pago pelo Estado,
personagem quase oficial, respeitado como professor. No entanto, dominava-o uma
profunda inquietude quanto aos rumos da sua existência.
Por volta dos fins de 385, o mestre de eloqüência é escolhido para recitar a saudação
anual do imperador. Agostinho sai de casa com alguns amigos, dirigindo-se ao palácio
imperial.
"Ia para mentir", escreverá ao lembrar a oração de louvor em honra de Valentiniano
II, então com catorze anos. No caminho encontra um "pobre mendigo bêbado, que ria e
fazia arruaça". A cena, embora o aborreça, revela-lhe um aspecto da verdade que
procurava. O bêbado, com um pouco de dinheiro, alcançara a felicidade. "È claro que
essa não era autentica alegria, eu sei disso. Mas por acaso era autentica a alegria que eu
procurava com as minhas ambições e enredos tortuosos? Numa noite ele digeriria o
vinho e sua bebedeira passaria; eu, ao contrário, iria dormir e acordaria com meu
tormento, hoje, amanhã, quem sabe até quando..."
A inquietude é tema tipicamente agostiniano, um aspecto permanente de seu
desenvolvimento. O despertar de seu espírito crítico levou-o a abandonar o cristianismo
que sua família professava. Agostinho adotou o maniqueísmo de Mani, profeta persa que
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pregava uma doutrina na qual se misturavam Evangelho, ocultismo e astrologia.
Segundo Mani, o bem e o mal constituíam princípios opostos e eternos, presentes em
todas as coisas. Era uma religião teoricamente severa, mas cômoda na prática: o homem
não era culpado por seus pecados, pois já trazia o mal dentro de si. Ninguém era
obrigado a aceitar a fé sem antes discuti-la e compreendêla.
A doutrina seduziu, como ele mesmo diria: "um jovem amante da verdade, já
orgulhoso e loquaz devido às disputas mantidas na escola dos homens doutos". O
abandono do maniqueísmo viria mais tarde, ocasionado pela insatisfação das respostas
que a doutrina oferecia. Seu lugar seria temporariamente preenchido por um profundo
ceticismo.
Uma canção de criança pode mudar uma vida
Entre os dignitários procurados por Agostinho figurava Ambrósio, bispo de Milão, um
dos homens mais poderosos do império. O jovem professor buscava com ele uma
colocação oficial.
Em vez disso, encontrou respostas para algumas de suas dúvidas. "Esse homem de
Deus acolheu-me como um pai. Eu imediatamente o amei’. Passa a assistir, todos os
domingos, aos sermões de Ambrósio. Recomeça a ler os Evangelhos. Procura discutir
com o sacerdote, que, entretanto, se nega ao debate. Ambrósio sabe que, para o antigo
maniqueu, disputas filosóficas têm menos valor do que a aceitação da crença cristã por
intermédio da fé.
Por esta época volta para a África a mulher com quem vivera durante catorze anos. A
separação foi provocada pela mãe de Agostinho, Mônica, que desejava para o filho uma
união cristã, e que chegou ao ponto de lhe arranjar uma noiva. Agostinho, em seus
escritos, jamais procurou justificar a sua fraqueza e o excesso de zelo materno. Ao
contrário, falará com remorso de sua união ilegítima e da concubina cujo nome jamais
ousará dizer em suas Confissões.
As dúvidas espirituais de Agostinho eram partilhadas por dois amigos, Alípio e
Nebrídio.
Tinham, os três, abandonado a família para viver juntos uma nova experiência.
"Éramos três bocas de pobres famintos, que desabafávamos entre nós nossa miséria e
esperávamos que nos outorgassem alimento no momento justo". Ao lado de seus
companheiros, decidiram juntar seus bens e dedicar-se à filosofia. Mas havia uma
dificuldade: como suas noivas e esposas acolheriam o projeto? Alípio aconselhava
Agostinho a permanecer solteiro, para entregar-se totalmente aos estudos e meditações.
Este, porém, como disse nas Confissões, "estava bem longe da grandeza de alma desses
sábios. A mim, acariciava-me a morbidez da carne e com mortífera suavidade arrastava
a minha cadeia, temendo livrar-me dela e rejeitando essas palavras de incitação ao bem
e essa mão libertadora como quem sente remexer uma ferida".
Em 386 chega à resposta definitiva. Enquanto Alípio e Agostinho meditam, uma voz
infantil, vinda da casa da vizinha, repetia: "Toma, lê". Era o refrão de uma canção infantil
que a criança entoava. "Refreando o ímpeto das lágrimas, levantei-me, interpretando
essa voz como uma ordem divina’. O livro está lá: São Paulo. Toma-o, abre-o ao acaso e
lê: "Não nas orgias e nas bebedeiras, não nos deslizes e nas impudências, não nas
discórdias e na inveja, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não deis à carne
concupiscências".
A meditação se inspira no murmúrio da água
Na pequena vila de Cassiciaco, Agostinho encontra o lugar ideal para seus estudos e
meditações. As frias manhãs de outono e inverno transcorrem durante discussões. As
noites são dedicadas ás preces. Em Cassiciaco ele escreve suas primeiras obras: De Vita
Beata, acirrada polêmica contra os descrentes; Contra Acadêmicos; De Ordine, motivada
pelo murmúrio da água que corria junto às termas – um estudo sobre a ordem e a
harmonia da natureza governada por Deus. Ali são também escritos os Solilóquios, uma
invocação quase contínua a Deus. Terminadas as férias, Agostinho escreve a Milão,
dizendo que arranjassem "outro vendedor de palavras para os estudantes". Permanece
em Cassiciaco até março de 387. depois volta à cidade para assistir às aulas de
catecismo. Na noite de vigília da Páscoa, juntamente com Alípio e seu filho Adeodato,
Agostinho recebe o batismo das mãos de Ambrósio. Era o amanhecer de 25 de abril de
387, dia da Ressurreição.
Agostinho resolveu retornar à África, para realizar, na terra natal, seu ideal de vida
monástica. A viagem, porém, foi retardada pela doença de sua mãe, vítima de uma febre
maligna, que a levaria à morte em poucos dias. "Com apenas 56 anos incompletos, tendo
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eu 33, essa alma religiosa e devota libertou-se do corpo". O grande sonho de Mônica se
realizara: o filho entregarase de corpo e alma ao cristianismo.
Agostinho chega à África em 388. Cinco anos haviam passado desde que, desgostoso
com a inquietude dos estudantes cartagineses, partira para Roma. Volta à Tagaste, onde
vende a propriedade deixada pelo pai e distribui o dinheiro entre os pobres. Conserva
apenas uma pequena porção de terra, onde, ao lado dos amigos Alípio e Ovídio, funda o
primeiro mosteiro agostiniano. São poucos os discípulos, e a regra que os une não é a
das ordens monásticas orientais. Seu ideal é a contemplação, o otium deificante.Mas ao
misticismo junta-se a necessidade de aprofundar definitivamente os problemas do
espírito. Prova disso é o De Diversis Quaestionibus, nascido das discussões no interior do
mosteiro.
Nos dois anos de permanência em Tagaste, Agostinho escreve outros livros. De
Música, iniciado em Milão, De Genesi (contra os maniqueus). De Vera Religione,
considerado uma de suas primeiras obras-primas. Neste livro seu interlocutor é
Adeodato, que, com apenas dezesseis anos, revela uma maturidade e perspicácia que
assombram o pai. O rapaz consegue acompanhar Agostinho em seus difíceis argumentos
sobre o valor das palavras. Somente em raros momentos confessa hesitações: "Até aqui
minha inteligência não chega..." Então o raciocínio de Agostinho torna-se mais simples,
mais discursivo.
Adeodato morreria no ano seguinte, com apenas dezessete anos. Muitos, porém, o
substituíram, continuariam o ideal que animava os habitantes do mosteiro de Tagaste,
dividindo-se entre a ação e a vida contemplativa.
O apelo da multidão: um pastor para enfrentar os leões vorazes
No início de 391, a chamado de um funcionário imperial, Agostinho segue para
Hipona. A cidade, com cerca de 30 mil habitantes, funcionava com grande centro
comercial: no seu porto era embarcado o trigo enviado a Roma. Encostada nas
montanhas cobertas de pinheiros, a segunda metrópole africana em importância gozava
de posição privilegiada, sendo até mesmo bem protegida por fortificações.
Certo dia Agostinho assistia à missa quando o velho bispo da cidade, Valério, começou
a explicar ao povo as necessidades da diocese, acentuando a urgência de ter um
sacerdote que o ajudasse. Da multidão elevou-se, cada vez mais distinto, o pedido:
"Agostinho padre". Agostinho procurou resistir, defendendo a tranqüilidade de sua vida
monástica, mas a insistência da população triunfou: com os olhos cheios de lágrimas,
ajoelha-se frente a Valério e é ordenado sacerdote. Tem 37 anos e sabe que pesadas
tarefas o esperam; terá de lidar com necessidades objetivas do povo, ao lado de suas
preocupações espirituais. Seu temperamento contemplativo, porém, permanecerá
sempre fiel aos ideais de Cassiciaco e Tagaste. Funda, com Alípio, um segundo mosteiro.
Seus discípulos serão, mais tarde, bispos em várias cidades da África – o catolicismo
deste continente será marcadamente agostiniano.
Em 396, atendendo ao pedido de Valério, Agostinho é sagrado bispo auxiliar. Conserva
o hábito de penitente, recusando-se a usar anel e mitra. Desde os primeiros dias de sua
sagração, teve de se defrontar com "leões vorazes", os heréticos que estavam por toda
parte. Ele mesmo, em seu livro sobre heresias, chegaria a contar 88. A principal delas
era a seita dos donatistas, que, em fins de 312, se havia separado da Igreja, alegando
que os católicos mostraram-se demasiado servis ao poder imperial por ocasião das
perseguições de Diocleciano. Na época, os donatistas lutavam violentamente, e não só
com discussões. O próprio Agostinho salvara-se por milagre de uma emboscada. Um
outro bispo fora ferido de morte diante altar.
Ainda quando simples padre, Agostinho havia percebido a gravidade do cisma que se
desencadeava sobretudo nas regiões berberes menos romanizadas, entre os pobres do
campo oprimidos pelos proprietários rurais. Na agitação donatista havia um amplo
aspecto de revolta social. Camponeses, escravos e desertores incendiavam e saqueavam
os grandes domínios.
Sessenta cristãos já haviam sido trucidados. Era tempo, como escrevia Possídio, de
que a Igreja "longamente humilhada reerguesse a cabeça". Agostinho iniciou a luta
convidando os chefes donatistas para discussões públicas. Escreve contra eles mais de
uma dúzia de livros e opúsculos, nos quais procura demonstrar que a santidade da Igreja
universal não pode ser negada ou destruída pelas culpas de alguns de seus membros.
É preciso paciência diante de olhos em chamas
No início do século V, caracterizado por perseguições e heresias, Agostinho é um dos
personagens mais destacados. As desordens desencadeadas pelos donatistas levam o
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poder oficial a intervir. Em 411 é organizada uma grande conferência em Cartago; 279
donatistas, enfrentam 264 bispos católicos – entre os quais Agostinho – numa discussão
pública. Agostinho, "o lobo mortífero que ameaça destruir nosso rebanho", como diziam
os donatistas, domina a reunião. A 26 de junho de 411, o cisma era suprimido
legalmente.
Grande parte da doutrina agostiniana se desenvolve neste período, nascida nos
choques em que o bispo de Hipona intervém não só como representante oficial da Igreja,
mas também a título pessoal, por uma profunda necessidade de sua inteligência. Por
isso, as batalhas que trava têm um toque particular, tornam-se verificações e pesquisas
que contribuem para desenvolver suas opiniões. Multiplicam-se encontros, discussões
públicas, sínodos e concílios, mais numerosos que os de Roma. Mas em nenhuma ocasião
Agostinho – sempre orador oficial – esquece o fato de que mais valioso que a palavra é o
amor, de que os heréticos se persuadem com exemplos de amor fraterno, não com
argumentações sutis. "Os olhos dos doentes queimam, por isso são tratados com
delicadeza... Os médicos são delicados até com os doentes mais intolerantes: suportam o
insulto, dão o remédio, não revidam as ofensas. Fique bem claro que não somos
(católicos e donatistas) adversários: há um que cura e outro que é curado".
A espada dos bárbaros é a cólera dos antigos deuses
24 de agosto de 410. Uma terrível notícia abala o mundo: Roma, a capital do império,
a cidade sagrada que desde a ocupação gaulesa de 387 a.C. nunca mais enfrentara a
desonra da invasão, fora tomada por visigodos de Alarico. Forçando os muros aurelianos
da Porta Salária, os bárbaros dedicam-se ao saque, incendiando e causando
depredações. Mensageiros apressados trazem notícias trágicas, dizem que os cadáveres
são tantos que não é possível enterrá-los. E agora, seguido por uma longa fileira de
carros com os tesouros roubados dos templos, Alarico dirige-se para o sul, para
empreender a conquista da África.
Um mito apagou-se. Durante séculos, pareceu que Roma era a predileta dos céus.
Primeiro, protegida pelos deuses que Enéias trouxera de Tróia, depois pelo Deus que
Pedro trouxera de Jerusalém. Agora não se podia mais crer nisso. A fraqueza do império
– que precisou consentir na entrada pacífica dos bárbaros em seu território, que tivera de
recrutar corpos militares inteiros entre os recém-chegados, que vira seus recursos
desperdiçados nas lutas entre pretendentes a imperador – tornava-se patente. No
Ocidente empobrecido, afastado das importantes rotas comerciais que asseguravam a
riqueza de Constantinopla, a autoridade imperial diluiu-se, substituída pela concentração
do poder em mãos dos grandes proprietários de terras.
Somente a Igreja sobreviveria, conservando, em sua estrutura baseada na divisão
administrativa do império, os vestígios da civilização romana. Somente a Igreja dispunha
de elementos intelectualmente capazes, submetidos a uma rígida organização, de modo
a conservar a centralização que caracterizara o mundo romano. A vontade única do
imperador foi aos poucos substituída pela vontade única do bispo de Roma.
Diante dos refugiados que fugiam à aproximação dos visigodos, diante daqueles que
diziam que na ruína de uma cidade perecera todo o império, eleva-se a voz de
Agostinho: "Vamos, cristãos, germes celestes, peregrinos na Terra, que andais à procura
da cidade celeste nos céus, que desejais juntar-vos aos anjos, compreendei bem que
estais aqui de passagem..."
São palavras que dão a entender que nesse mundo tudo passa, e que as civilizações
são mortais como os indivíduos. Mas os pagãos – e mesmo muitos cristãos
amedrontados – parecem surdos às suas palavras. Roma caiu porque os antigos deuses
foram ultrajados. Alarico não passa da mão vingadora de Júpiter.
Para Agostinho, inicia-se outra batalha, uma das mais decisivas na história do
cristianismo.
Entre vários é preciso escolher
"A galinha come o escorpião e, digerindo-o, transforma-o em ovo. E como não falar de
Roma? Não temos lá muitos irmãos? Não está lá uma grande parte da Jerusalém
terrestre? É o que digo, quando não me calo a respeito dela, a não ser que não seja
verdade o que dizem de nosso Cristo, que Ele seria culpado pela queda de Roma,
protegida por divindades de pedra e de madeira... Deuses que têm olhos e não vêem,
orelhas e não ouvem. Eis a que guardiões foi confiada Roma por homens doutos: a
guardiões que não enxergam. Se tais deuses podiam proteger Roma, por que razão
morreram antes dela? Sei que respondem – Roma morreu – É verdade, mas eles (os
deuses) também morreram".
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O trabalho em que Agostinho apresenta a defesa do cristianismo e convida seus
contemporâneos a compreender o sentido profundo da história é a sua obra-prima, A
Cidade de Deus. Já não se trata de um reino de Deus que sucede à vida terrena. A
cidade de Deus e a dos homens coexistem: a primeira, antes simbolizada por Jerusalém,
é agora a comunidade dos cristãos. A cidade dos homens tem poderes políticos, moral e
exigências próprias. As duas cidades permanecerão lado a lado até o fim dos tempos,
mas depois a divina triunfará para participar da eternidade.
Agostinho levou 13 anos para escrever os 22 livros da obra que teria enorme
influência em toda a Idade Média. Para ele, Deus legitima a própria existência do poder,
sem garantir o exercício concreto deste. A providência divina não confere a um ato o
caráter de ato moralmente cristão. Desta forma, um católico pode afirmar que nada se
faz sem Deus, do qual procedem o princípio de autoridade e a orientação misteriosa dos
fatos. E ao mesmo tempo, pode evitar que o cristianismo seja responsabilizado por este
ou aquele acontecimento particular. O cristão pode, simultaneamente, ver a mão da
providência na queda de Roma, e lutar contra o perigo bárbaro com todo o coração e
todas as suas forças. A filosofia política de Agostinho é uma filosofia de tempos difíceis, e
serviu admiravelmente aos objetivos de seu autor, destruindo a argumentação dos
polemistas pagãos. "Roma não é eterna, porque só Deus é eterno".
O perigo imediato passara, a morte havia paralisado, em Consenza, a marcha de
Alarico.
O chefe bárbaro jazia, com seu cavalo e seus tesouros, no leito do rio Busento.
Agostinho, porém, não encontrava descanso. Novas heresias, como a dos pelagianos,
pretendiam afastar do cristianismo todo o elemento sobrenatural, ameaçavam a
comunidade dos fiéis. O bispo prossegue em sua luta, procurando sempre antepor os
argumentos do coração aos da razão. As palavras que mais freqüentemente aparecem
em seus escritos são amor e caridade. Amor, para ele, significa o conjunto de forças que
leva o homem a um determinado caminho, escolhido pela consciência. "Há amores que
devem ser amados, e amores que não devem ser amados". Para Agostinho, o
conhecimento abrange o homem inteiro, mente e coração. A alma é uma substância
dotada de razão e apta para governar o corpo. A fé serve de ponto de partida para
colocar a mente na direção certa, marca os limites do campo que a razão deverá
preencher. A realização vem quando se compreende aquilo em que se acredita.
Sua doutrina nasce nos estudos que se originaram da necessidade de responder aos
heréticos. Agostinho procura uma filosofia – que ele entende como sendo o caminho para
a felicidade – capaz de englobar o cristianismo e a salvação. Adota algumas posições dos
seguidores de Platão, como a concepção de dois níveis de conhecimento – um através
dos sentidos, e outro percebido unicamente pela razão. E junta-lhes a figura de Cristo.
Com esses elementos iniciais ergue um edifício filosófico que muito influenciaria o
pensamento ocidental e que, em alguns aspectos, conserva ainda hoje toda a sua força
polêmica.
Muitas vezes, porém, ao desenvolver uma idéia, interrompe o raciocínio para deixar
fugir um grito de amor a Deus: "Ó Senhor, amo-Te. Tu me estremeceste meu coração
com a palavra e fizeste nascer o amor por Ti. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão
nova, tarde Te amei...
Tocaste-me, e ardo de desejo de alcançar Tua paz". Mesclavam-se nele o polemista
inimigo das heresias, o administrador dos recursos da Igreja e o místico, que escolhera,
tantos anos atrás, uma vida de recolhimento.
Uma árvore tem folhas verdes. Como serão os frutos?
"Agostinho, vida", é o grito que ressoa na Basílica da Paz de Hipona, a 26 de setembro
de 426. É um dia de grande emoção para os fiéis: o bispo Agostinho designa o seu
sucessor na pessoa do Padre Heráclio. Repete-se, depois de trinta anos, uma cena que os
habitantes da cidade não esqueceram – a escolha de Agostinho por Valério. Como aquele
que o nomeara, Agostinho é agora um velho. Tem 72 anos. Relembra aos fiéis que uma
vez exprimira o desejo de ter cinco dias livres por semana para poder escrever e rever as
obras que de todos os lugares lhe solicitavam.
Nascem, depois de um ano de trabalho, os dois volumes de Retratações, que
comentam dezenas de obras. Sua "especialização" como escritor não o impede, porém,
de continuar a se dirigir ao povo.
Durante quarenta anos, desde que reencontrou a fé, Agostinho teve sua vida
sobrecarregada. Primeiro constrói seu mosteiro. Torna-se depois sacerdote e bispo,
encarregado até mesmo de distribuir justiça em nome do império. Conseguiu, entretanto,
permanecer fiel à sua vocação de contemplativo e arranjou tempo para realizar uma obra
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literária gigantesca – 113 trabalhos, 224 cartas e mais de quinhentos sermões.
Excetuadas as Confissões, escritas entre 397 e 398, foram precisos vinte anos para
completar os 15 livros sobre a Trindade. O De Doctrina Christiana, depois de
parcialmente escrito, teve de aguardar quase trinta anos até que Agostinho pudesse
cuidar da terça parte restante.
Poucos escritores do passado são conhecidos tão detalhadamente quanto ele. Se as
Confissões revelam até mesmo os recantos de sua alma, os discursos que pronunciou em
quarenta anos mostram-no sob outros aspectos. É fácil imaginá-lo com sua voz, que a
idade tornava apagada, usando uma linguagem direta e fácil, muito diferente das
sutilezas de seus escritos. O antigo mestre de eloqüência consegue transmitir e adaptar
os conceitos mais abstratos às exigências e à capacidade do auditório.
Falava duas vezes por semana na Igreja da Paz. Em certa ocasião, explicando São
João aos fiéis, ficou tão entusiasmado que pregou durante cinco dias consecutivos,
constantemente aplaudido. Mas o bispo não alimentava ilusões: "Vossos louvores são
folhas de árvore ; gostaria de ver os frutos". Muitas vezes lamentou a distância entre o
seu pensamento, sua fé e amor a Deus, e as palavras que proferia. "...Entretanto, a
atenção dos que me escutam prova-me que meu modo de falar não é tão frio quanto
possa parecer-me; pelo seu interesse compreendo que tiram dele algum proveito..."
O lugar do pastor é à frente do rebanho
Na primavera de 429, a África é dominada pelo terror. Chamados por Bonifácio,
comandante do exército imperial, os vândalos atravessam o Mediterrâneo. Vêm como
amigos. No entanto, passados poucos meses, o general é obrigado a empunhar as armas
contra os soldados de Genserico. O Bispo de Hipona dirige palavras severas a Bonifácio:
"Olha a África, olha como está devastada.. Ninguém teria pensado ou suposto que o
célebre Bonifácio, aquele que de simples tribuno, com poucos soldados, vencendo e
destruindo toda resistência, conseguiu pacificar todas estas populações, teria se
sujeitados aos bárbaros, que com tamanha audácia devastam e saqueiam tantas regiões
outrora povoadas... Eu, que estou atento às últimas causas, sei quantos males a África
sofre por causa dos pecados de seus habitantes; mas não quisera que tu estivesses entre
os malvados e iníquos; por causa dos quais Deus flagela os que escolhe com penas
temporais..."
Tarde demais. Os vândalos eram piores inimigos que os visigodos de Alarico. Seu
nome tornou-se sinônimo de destruição e morte. Em poucos dias devastaram a
Mauritânia, e em seguida a Numídia. Apesar dos esforços de Bonifácio, os bárbaros
tornaram-se donos de todo o país. As legiões romanas dominavam apenas três cidades:
Cartago, Cirta e Hipona. Nesta última, mais bem fortificada, Bonifácio prepara a
derradeira defesa. Agostinho, aos 75 anos, vê que não há mais salvação para os
hiponenses. Embora, nas amargas horas de desânimo, peça a Deus que o tire deste
mundo, torna-se, como fizera vinte anos antes em relação aos refugiados de Roma, o
organizados do auxílio aos fugitivos. Torna-se a voz da África, a testemunha mais
categorizada do fim da latinidade no continente.
Data desses dias uma das últimas cartas escritas a Honorato, bispo de Thiabe, para
lembrar que ao pastor de almas não é permitido fugir ante os perigos, e que o lugar dos
bispos é à frente dos fiéis, até o fim: "...não devemos, por causa desses males incertos,
cometer a culpa certa de abandonar nosso povo. Daí, adviria a ele grande mal, não
quanto às coisas desta vida, mas da outra, que merece ser procurada com maior
diligência e solicitude... Temamos que se extingam, abandonadas por nós, as pedras
vivas, mais que a obra do incêndio que queima a estrutura de nossos edifícios terrenos.
Temamos a morte dos membros do Corpo de Cristo, privados do alimento espiritual,
mais que as torturas a que a ferocidade dos inimigos poderia submeter os membros do
nosso corpo..."
Todo conhecimento reside em Deus e na alma
Catorze longos meses resistiria Hipona ao assédio dos vândalos. A cidade estava
repleta de refugiados, a quem era preciso alimentar e vestir. Ao inimigo externo
juntavam-se a carestia, a fome e as epidemias. Agostinho só podia oferecer a toda essa
gente as suas preces. "Vós dizeis – Desgraçados de nós, o mundo morrerá. Mas ouvi a
palavra: Céu e Terra passarão, mas a palavra de Deus não passará".
Muitos começaram a julgá-lo capaz de milagres. Certo dia trouxeram-lhe uma pessoa
doente, para que ele a curasse com sua benção. Agostinho respondeu: "Meu filho, se
tivesse tais poderes, começaria por curar a mim mesmo". Sua doença durou poucos dias.
Quando percebeu que a morte se avizinhava, pediu que o deixassem só, para que
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pudesse rezar. Nas paredes do quarto mandara afixar pergaminhos nos quais fizera
escrever os salmos penitenciais de Davi.
Agostinho morreu na noite de 28 para 29 de agosto de 430. "Não fez testamento",
escreveu Possídio, "porque, pobre para servir a Deus, não tinha bens a deixar... Mas
deixou à Igreja um clero numeroso e mosteiros cheios de homens e mulheres sob voto
de continência e obedientes a seus superiores".
De livro na mão e coração em chamas – assim os pintores medievais viram o bispo de
Hipona. O livro simboliza a ciência; o coração inflamado, o amor. Sabedoria e amor
foram os seus dons inseparáveis, que muito contribuíram para que o Papa João II
declarasse, em 534, que "a Igreja de Roma segue e conserva as doutrinas de Agostinho".
Ao construir sua filosofia como uma arma de defesa da fé, Agostinho forjou uma visão
do mundo que influenciaria, por muitos séculos, todos os líderes espirituais do ocidente.
A Cidade de Deus, síntese de filosofia, teologia, estudo das relações entre o Estado e a
liberdade de consciência, marcou profundamente o pensamento político da Idade Média.
Carlos Magno, considerava-o o seu livro preferido.
Agostinho foi o autor mais citado no último Concilio do Vaticano, destinado a abrir
novos rumos para o cristianismo dos tempos atuais. O fato talvez tivesse surpreendido
aquele que, nos Solilóquios escritos ao pé da água que corria pelas termas de Cassiciaco,
declarava que sua única finalidade era conhecer Deus e sua própria alma.
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ÍNDICE
LIVRO PRIMEIRO
CAPÍTULO I - Louvor e Invocação ........................................................................ 3
CAPÍTULO II - Deus está no homem, e este em Deus ............................................. 3
CAPÍTULO III - Onde está Deus?.......................................................................... 3
CAPÍTULO IV - As perfeições de Deus ................................................................... 4
CAPÍTULO V - Súplica......................................................................................... 4
CAPÍTULO VI - Os primeiros anos......................................................................... 4
CAPÍTULO VII - Os pecados da primeira infância.................................................... 5
CAPÍTULO VIII - As primeiras palavras ................................................................. 6
CAPÍTULO IX - Estudos e jugos............................................................................ 7
CAPÍTULO X - Amor ao jogo ................................................................................ 7
CAPÍTULO XI - O batismo diferido ........................................................................ 7
CAPÍTULO XII - Ódio ao estudo............................................................................ 8
CAPÍTULO XIII - Gosto pelo latim......................................................................... 8
CAPÍTULO XIV - Aversão ao grego ....................................................................... 9
CAPÍTULO XV - Oração ....................................................................................... 9
CAPÍTULO XVI - O mal da mitologia ....................................................................10
CAPÍTULO XVII - Êxitos escolares .......................................................................10
CAPÍTULO XVIII - Leis gramaticais, lei de Deus.....................................................11
CAPÍTULO XIX - Mal perdedor.............................................................................11
CAPÍTULO XX - Ação de graças ...........................................................................12
LIVRO SEGUNDO
CAPÍTULO I - A adolescência ..............................................................................13
CAPÍTULO II - As primeiras paixões.....................................................................13
CAPÍTULO III - Cegueira do pai, cuidados da mãe.................................................14
CAPÍTULO IV - O furto das pêras.........................................................................15
CAPÍTULO V - A causa do pecado........................................................................15
CAPÍTULO VI - O crime gratuito ..........................................................................16
CAPÍTULO VII - Ação de graças ..........................................................................17
CAPÍTULO VIII - O prazer da cumplicidade...........................................................17
CAPÍTULO IX - O prazer do pecado......................................................................17
CAPÍTULO X - Deus, o sumo bem........................................................................18
LIVRO TERCEIRO
CAPÍTULO I - O gosto do amor ...........................................................................19
CAPÍTULO II - A paixão dos espetáculos ..............................................................19
CAPÍTULO III - O estudo da retórica e os demolidores ...........................................20
CAPÍTULO IV - O Hortênsio de Cícero ..................................................................20
CAPÍTULO V - A desilusão das escrituras..............................................................21
CAPÍTULO VI - A sedução do maniqueísmo...........................................................21
CAPÍTULO VII - Alguns erros dos maniqueus ........................................................22
CAPÍTULO VIII - Moral e costume .......................................................................23
CAPÍTULO IX - Pecados e imperfeições ................................................................24
CAPÍTULO X - Ridicularias dos maniqueus ............................................................24
CAPÍTULO XI - O sonho de Mônica ......................................................................25
CAPÍTULO XII - Uma profecia .............................................................................25
LIVRO QUARTO
CAPÍTULO I - Dos dezenove aos vinte e oito anos .................................................27
CAPÍTULO II - Professor de retórica.....................................................................27
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CAPÍTULO III - A atração da astrologia ................................................................28
CAPÍTULO IV - A morte do amigo........................................................................28
CAPÍTULO V - O conforto das lágrimas.................................................................29
CAPÍTULO VI - Inconsolável ...............................................................................29
CAPÍTULO VII - De Tagaste para Cartago.............................................................30
CAPÍTULO VIII - O consolo do tempo e da amizade ...............................................30
CAPÍTULO IX - O amigo de Deus.........................................................................31
CAPÍTULO X - As mentiras da beleza ...................................................................31
CAPÍTULO XI - A verdade de Deus ......................................................................31
CAPÍTULO XII - O amor em Deus ........................................................................32
CAPÍTULO XIII - O problema do belo ...................................................................32
CAPÍTULO XIV - Razões de uma dedicatória .........................................................33
CAPÍTULO XV - Os primeiros livros......................................................................33
CAPÍTULO XVI - As dez categorias de Aristóteles ..................................................34
LIVRO QUINTO
CAPÍTULO I - Oração .........................................................................................36
CAPÍTULO II - Os que fogem de Deus..................................................................36
CAPÍTULO III - Fausto e o maniqueísmo ..............................................................36
CAPÍTULO IV - Ciência e ignorância.....................................................................37
CAPÍTULO V - Loucuras de Manes .......................................................................38
CAPÍTULO VI - A eloqüência de Fausto.................................................................38
CAPÍTULO VII - Desilusão ..................................................................................39
CAPÍTULO VIII - Viagem a Roma ........................................................................40
CAPÍTULO IX - Enfermo .....................................................................................41
CAPÍTULO X - Agostinho e os erros dos maniqueus ...............................................41
CAPÍTULO XI - Desculpas dos maniqueus.............................................................42
CAPÍTULO XII - Os estudantes de Roma ..............................................................43
CAPÍTULO XIII - Viagem a Milão, Santo Ambrosio .................................................43
CAPÍTULO XIV - Catecúmeno..............................................................................43
LIVRO SEXTO
CAPÍTULO I - Esperanças ...................................................................................45
CAPÍTULO II - Obediência de Mônica ...................................................................45
CAPÍTULO III - Primeiras conquistas....................................................................46
CAPÍTULO IV - O espírito da letra........................................................................47
CAPÍTULO V - Os mistérios da Bíblia....................................................................47
CAPÍTULO VI - Alegria de bêbado........................................................................48
CAPÍTULO VII - Alípio ........................................................................................49
CAPÍTULO VIII - A atração do anfiteatro ..............................................................49
CAPÍTULO IX - Alípio, ladrão a contragosto ..........................................................50
CAPÍTULO X - Os três amigos .............................................................................51
CAPÍTULO XI - Entre Deus e o mundo..................................................................51
CAPÍTULO XII - Casar ou não?............................................................................52
CAPÍTULO XIII - O pedido de casamento..............................................................53
CAPÍTULO XIV - Um projeto desfeito ...................................................................53
CAPÍTULO XV - A separação da amante ...............................................................53
CAPÍTULO XVI - A aproximação de Deus..............................................................54
LIVRO SÉTIMO
CAPÍTULO I - A idéia de Deus .............................................................................55
CAPÍTULO II - Objeção contra o maniqueísmo ......................................................56
CAPÍTULO III - Deus e o mal ..............................................................................56
CAPÍTULO IV - A substância de Deus...................................................................57
CAPÍTULO V - A ORIGEM DO MAL........................................................................57
CAPÍTULO VI - O absurdo dos horóscopos............................................................58
CAPÍTULO VII - Ainda a origem do mal ................................................................59
CAPÍTULO VIII - A piedade de Deus ....................................................................59
CAPÍTULO IX - Agostinho e o neo-platonismo .......................................................60
CAPÍTULO X - A descoberta de Deus....................................................................61
CAPÍTULO XI - Deus e as criaturas ......................................................................61
CAPÍTULO XII - O mal e o bem da criação............................................................61
CAPÍTULO XIII - Os louvores da criação...............................................................62
CAPÍTULO XIV - Recapitulação............................................................................62
CAPÍTULO XV - Deus e a criação .........................................................................62
CAPÍTULO XVI - Onde está o mal ........................................................................63
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CAPÍTULO XVII - Caminho para Deus ..................................................................63
CAPÍTULO XVIII - A senda da humildade..............................................................63
CAPÍTULO XIX - A doutrina do verbo ...................................................................64
CAPÍTULO XX - Do platonismo às Escrituras .........................................................64
CAPÍTULO XXI - A verdade das escrituras ............................................................65
LIVRO OITAVO
CAPÍTULO I - Hesitações....................................................................................66
CAPÍTULO II - Visita a Simpliciano. Conversão de Vitorino......................................66
CAPÍTULO III - A alegria das coisas perdidas ........................................................68
CAPÍTULO IV - A conversão dos grandes..............................................................68
CAPÍTULO V - As duas vontades .........................................................................69
CAPÍTULO VI - A narração de Ponticiano ..............................................................70
CAPÍTULO VII - A reação de Agostinho ................................................................71
CAPÍTULO VIII - Luta espiritual...........................................................................72
CAPÍTULO XI - A desobediência da vontade..........................................................72
CAPÍTULO X - Contra os maniqueus ....................................................................73
CAPÍTULO XI - Últimas resistências .....................................................................74
CAPÍTULO XII - A conversão...............................................................................74
LIVRO NONO
CAPÍTULO I - Colóquio.......................................................................................76
CAPÍTULO II - Adeus ao magistério .....................................................................76
CAPÍTULO III - Dois amigos ...............................................................................77
CAPÍTULO IV - A doçura dos salmos ....................................................................78
CAPÍTULO V - O conselho de Ambrosio ................................................................79
CAPÍTULO VI - Batismo de Agostinho. Seu filho Adeodato ......................................79
CAPÍTULO VII - O canto dos fiéis. Os corpos de São Gervásio e de São Protásio........80
CAPÍTULO VIII - Mônica.....................................................................................80
CAPÍTULO IX - Esposa e mãe exemplar................................................................81
CAPÍTULO X - O êxtase de Óstia .........................................................................82
CAPÍTULO XI - A morte de Mônica.......................................................................83
CAPÍTULO XII - As lágrimas negadas...................................................................84
CAPÍTULO XIII - Preces pela mãe morta ..............................................................85
LIVRO DÉCIMO
CAPÍTULO I - Finalidade do livro .........................................................................87
CAPÍTULO II - O que é confessar a Deus..............................................................87
CAPÍTULO III - Por que se confessar aos homens? ................................................87
CAPÍTULO IV - O fruto das confissões..................................................................88
CAPÍTULO V - A ignorância do homem.................................................................88
CAPÍTULO VI - Quem é Deus? ............................................................................89
CAPÍTULO VII - Deus e os sentidos .....................................................................90
CAPÍTULO VIII - O milagre da memória ...............................................................90
CAPÍTULO IX - A memória intelectual ..................................................................91
CAPÍTULO X - Memória dos sentidos....................................................................91
CAPÍTULO XI - Idéias inatas ...............................................................................92
CAPÍTULO XII - A memória e as matemáticas.......................................................92
CAPÍTULO XIII - A memória da memória..............................................................92
CAPÍTULO XIV - A lembrança dos sentimentos......................................................92
CAPÍTULO XV - A memória das coisas ausentes ....................................................93
CAPÍTULO XVI - A memória do esquecimento .......................................................93
CAPÍTULO XVII - Deus e a memória ....................................................................94
CAPÍTULO XVIII - A memória das coisas perdidas .................................................95
CAPÍTULO XIX - A memória das lembranças.........................................................95
CAPÍTULO XX - A memória da felicidade ..............................................................95
CAPÍTULO XXI - A memória do que nunca tivemos................................................96
CAPÍTULO XXII - A verdadeira felicidade..............................................................96
CAPÍTULO XXIII - Felicidade e verdade................................................................97
CAPÍTULO XXIV - Deus e a memória ...................................................................97
CAPÍTULO XXV - Recapitulação ...........................................................................97
CAPÍTULO XXVI - Onde encontrar Deus?..............................................................98
CAPÍTULO XXVII - Solilóquio de amor..................................................................98
CAPÍTULO XXVIII - A vida do homem..................................................................98
CAPÍTULO XXIX - Esperança em Deus .................................................................98
CAPÍTULO XXX - Sonho e voluptuosidade.............................................................99
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CAPÍTULO XXXI - A intemperança .......................................................................99
CAPÍTULO XXXII - Os prazeres do olfato ............................................................100
CAPÍTULO XXXIII - Os prazeres do ouvido .........................................................101
CAPÍTULO XXXIV - O prazer dos olhos...............................................................101
CAPÍTULO XXXV - A curiosidade........................................................................102
CAPÍTULO XXXVI - O orgulho ...........................................................................103
CAPÍTULO XXXVII - A tentação do orgulho .........................................................104
CAPÍTULO XXXVIII - A vanglória.......................................................................105
CAPÍTULO XXXIX - O amor-próprio....................................................................105
CAPÍTULO XL - À procura de Deus.....................................................................105
CAPÍTULO XLI - Deus e a mentira .....................................................................106
CAPÍTULO XLII - Os neo-platônicos e o caminho para Deus..................................106
CAPÍTULO XLIII - Cristo, o único mediador.........................................................106
LIVRO DÉCIMO PRIMEIRO
CAPÍTULO I - Finalidade das confissões..............................................................108
CAPÍTULO II - A inteligência das Escrituras ........................................................108
CAPÍTULO III - O que disse Moisés....................................................................109
CAPÍTULO IV - O céu e a terra..........................................................................109
CAPÍTULO V - A palavra e a criação...................................................................109
CAPÍTULO VI - Como falou Deus?......................................................................110
CAPÍTULO VII - A palavra co-eterna ..................................................................110
CAPÍTULO VIII - A verdadeira luz......................................................................110
CAPÍTULO IX - A voz do Verbo..........................................................................111
CAPÍTULO X - Que fazia Deus antes da criação ...................................................111
CAPÍTULO XI - Tempo e eternidade...................................................................111
CAPÍTULO XII - Deus antes da criação...............................................................112
CAPÍTULO XIII - O tempo antes da criação.........................................................112
CAPÍTULO XIV - Que é o tempo?.......................................................................112
CAPÍTULO XV - Tempo longo, tempo breve ........................................................113
CAPÍTULO XVI - A medida do presente ..............................................................114
CAPÍTULO XVII - O passado e o presente...........................................................114
CAPÍTULO XVIII - As previsões .........................................................................114
CAPÍTULO XIX - Oração ...................................................................................115
CAPÍTULO XX - Conclusão ................................................................................115
CAPÍTULO XXI - A medida do tempo..................................................................115
CAPÍTULO XXII - O enigma ..............................................................................115
CAPÍTULO XXIII - O tempo e o movimento.........................................................116
CAPÍTULO XXIV - O tempo, medida do movimento..............................................116
CAPÍTULO XXV - Prece.....................................................................................117
CAPÍTULO XXVI - O tempo, distensão da alma....................................................117
CAPÍTULO XXVII - A medida do passado ............................................................118
CAPÍTULO XXVIII - A medida do futuro..............................................................119
CAPÍTULO XXIX - A eternidade de Deus.............................................................119
CAPÍTULO XXX - Deus e o tempo ......................................................................119
CAPÍTULO XXXI - Conclusão.............................................................................120
LIVRO DÉCIMO SEGUNDO
CAPÍTULO I - Prece .........................................................................................121
CAPÍTULO II - O céu do céu .............................................................................121
CAPÍTULO III - As trevas sobre o abismo...........................................................121
CAPÍTULO IV - A matéria informe......................................................................121
CAPÍTULO V - Sua natureza .............................................................................122
CAPÍTULO VI - Em que consiste ........................................................................122
CAPÍTULO VII - A criação do nada.....................................................................122
CAPÍTULO VIII - A terra invisível.......................................................................123
CAPÍTULO IX - A criação do tempo....................................................................123
CAPÍTULO X - Invocação à verdade...................................................................123
CAPÍTULO XI - As criaturas e o criador ..............................................................123
CAPÍTULO XII - A criação e a eternidade............................................................124
CAPÍTULO XIII - O céu e a terra em Gênesis ......................................................124
CAPÍTULO XIV - A profundidade das Escrituras ...................................................125
CAPÍTULO XV - O que dizem seus inimigos.........................................................125
CAPÍTULO XVI - Outros adversários das Escrituras ..............................................126
CAPÍTULO XVII - Opiniões diversas sobre o céu e a terra .....................................126
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CAPÍTULO XVIII - Outras interpretações ............................................................127
CAPÍTULO XIX - A verdade...............................................................................127
CAPÍTULO XX - O princípio e suas interpretações ................................................128
CAPÍTULO XXI - A terra invisível .......................................................................128
CAPÍTULO XXII - Objeções ...............................................................................128
CAPÍTULO XXIII - A opinião de Agostinho...........................................................129
CAPÍTULO XXIV - Qual a verdade? ....................................................................129
CAPÍTULO XXV - Os diversos partidos................................................................130
CAPÍTULO XXVI - Agostinho no lugar de Moisés ..................................................130
CAPÍTULO XXVII - Os diversos sentidos da Escritura............................................131
CAPÍTULO XXVIII - Divergências.......................................................................131
CAPÍTULO XXIX - Dificuldades ..........................................................................132
CAPÍTULO XXX - Espírito de caridade.................................................................133
CAPÍTULO XXXI - O Gênesis e seu autor ............................................................133
CAPÍTULO XXXII - Oração ................................................................................133
LIVRO DÉCIMO TERCEIRO
CAPÍTULO I - Invocação...................................................................................134
CAPÍTULO II - A criação e a bondade de Deus ....................................................134
CAPÍTULO III - A luz........................................................................................135
CAPÍTULO IV - A bondade criadora....................................................................135
CAPÍTULO V - A trindade..................................................................................135
CAPÍTULO VI - O espírito sobre as águas ...........................................................135
CAPÍTULO VII - As águas sem substância...........................................................136
CAPÍTULO VIII - À luz que ilumina as trevas.......................................................136
CAPÍTULO IX - O amor de Deus ........................................................................136
CAPÍTULO X - Os dons de Deus ........................................................................137
CAPÍTULO XI - O homem e a trindade ...............................................................137
CAPÍTULO XII - A criação e a Igreja ..................................................................137
CAPÍTULO XIII - Nós e a luz .............................................................................137
CAPÍTULO XIV - Esperança...............................................................................138
CAPÍTULO XV - Símbolos .................................................................................138
CAPÍTULO XVI - Deus, fonte de luz ...................................................................139
CAPÍTULO XVII - As águas amargas ..................................................................139
CAPÍTULO XVIII - Meditação.............................................................................140
CAPÍTULO XIX - Ainda a terra seca....................................................................140
CAPÍTULO XX - Os répteis e as aves ..................................................................141
CAPÍTULO XXI - A alma viva.............................................................................141
CAPÍTULO XXII - Sentido místico da criação do homem.......................................142
CAPÍTULO XXIII - O julgamento do homem espiritual ..........................................143
CAPÍTULO XXIV - Crescei e multiplicai-vos .........................................................144
CAPÍTULO XXV - Os frutos da terra ...................................................................144
CAPÍTULO XXVI - O dom e o fruto.....................................................................145
CAPÍTULO XXVII - Peixes e cetáceos .................................................................146
CAPÍTULO XXVIII - A bondade da criação...........................................................146
CAPÍTULO XXIX - A palavra de Deus e o tempo ..................................................146
CAPÍTULO XXX - Erro dos maniqueus ................................................................146
CAPÍTULO XXXI - A luz do espírito divino ...........................................................147
CAPÍTULO XXXII - A criação .............................................................................147
CAPÍTULO XXXIII - A matéria e a forma.............................................................148
CAPÍTULO XXXIV - Alegoria da criação...............................................................148
CAPÍTULO XXXV - Prece...................................................................................148
CAPÍTULO XXXVI - O repouso de Deus ..............................................................148
CAPÍTULO XXXVII - O repouso da alma..............................................................149
CAPÍTULO XXXVIII - O descanso de Deus ..........................................................149
PERFIL BIOGRÁFICO SANTO AGOSTINHO............................................................150
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