COMO SE FAZ UMA TESE EM CIÊNCIAS HUMANAS

| segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Na presente ob'á. dirigida a todos os estudantes «em
situação cüíicil, conseqüência de discriminações remotas
ou recentes-, Umberto Eco expõecqueseentendepor
tese. come escolher o tema e organizar o tempo de
trabalho, como conduzir uma investigação bibliográfica,
como organizar o material seleccionado e, finalmente,
como dispor a redacçãp do trabalho. E sugere que se
aproveite -a ocasião da tese para recuperar o sentido
positivo e progressivo do estudo, entendido como
aquisição de uma capacidade para identificar os problemas,
encara-los com método e expõ-fqs segundo
certas técnicas de comunicação*. Um livro sempre
actual e indisoensávet.


universidade hoje

COMO SE FAZ
U M A T E S E
EM CIÊNCIAS HUMANAS
?3 EDITORIAL PRESENÇA
E D I T O R I A L Uá P R E S E N Ç A
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COMO S E FAZ
UMA TESE
EM CIÊNCIAS HUMANAS
Umberto Eco
COMO SE FAZ
UMA TESE
EM CIÊNCIAS HUMANAS
Prefácio de
Hamilton Costa
Tradução de A n a Falcão B a s t o s e Luís Leitão
E D I T O R I A L T2 PRESENÇA
KIÇHA TfiCNICA
Título ortglml: Cnmn Si ha Una Te ti l)i iaurea
Aulor: Umherttt flo0
Copyright O 1977 hy C H Kditricc Vslcniino Bompiani Aí ('., Milio
Tradução O kditnnal Prewnça. 1997
Tradução: Ana taltâo HatMí e IJI:< tetiãn Capa: Catarina Stauetra tiatiras Compoúçio. impfcv«an c seibimento: Xlutoitipn - Ari" (Irâficat. Ida. I. " ediçio. liÉMB, Janeira 198(1 1? edição. I.Wlf, Janeiro. 19X2 3.' edição. Lisboa. Janeiro. 1984 *.' edição. Lisboa. Janeiro. 1988 5. * ediçio. Lisboa. I-everciro, 1991 6. ' ediçio. Lisboa. Janeiro. 1995 7.4 ediçio. Lisboa. Janeiro, 1998 8. * ediçio. Lisboa. Abril, 2001 9. * ediçio. Lisboa. AMI, 20Q2 10. ' editai). Lisboa. Fevereiro. 2003 II. " ediçSu. Lisboa. Junho. 2IXM 12.' ediçio. Lisboa. Sclemhro. 2005 13. " ediçio. Lisboa, Fevereiro. 2007 Depú-iio lenal n." 253 273707 Reservados todos o\ direitos para a linpua ponupuexa ã EDITORIAL PRESENÇA Estrada da» Palmeiras. 59 Ouclui dc Baixo 2730 132 DARCARENA Eioail: infoí prekenca.pl Internet hllp:A,*v.w.prrkcnca.pl Í N D I C E PREFÁCIO À 2." KDICÂO PORTUGUESA 11 INTRODUÇÃO 23 I. Ú QUB K UMA TESE H PARA QUE SERVE 27 1.1. Por que se deve fa^cT uma tese c o que 6 27 1.2. A quem inicressa este livro 30 1.3- De que modo uma tese serve também para depois da licencialura _ 31 I. 4. Quatro regras óbvias 33 n. A ESCOLHA DO TOMA 35 II. 1 Tese monogrillca ou (esc panorâmica? 35 11.2. Tese histórica ou lese leórica? 39 11.3. Tennis amigos ou (emas contemporâneos? 42 11.4. Qminto (empo c preciso para fazer unia tese? 43 H.5. É necessário saber línguas estrangeiras? 47 H.6. Tese «científica» ou tese política? 51 H.7. Como evitar deixar-se explorar pelo orientador 66 UL A PROCURA DO MATERIAL _ 69 111.1. A acessibilidade da fontes „ _ 69 III. 2. A inveslijjaçao bibliográfica • . 77 IV. O PLANO DE TRABALHO E A ELABORAÇÃO DH FICHAS 125 IV. 1,0 índice como hipótese de trabalho 125 IV.2.Fichas c apontamentos 132 7 V. A RF.DACÇÃO 161 V.I A quem DOS dirigimos V.2. Como se fala 163 V A A* citações 171 V.4. As notas de rodapé 182 V.5. Advertências, ratoeiras, costumes 194 V. 6. O orgulho cicniífico 198 VI. A RF.DACÇÂO DF.F1NIT1VA 202 VI. l.Criicrios gráficos 202 VI.2. A bibliografia final 222 VI.3. Os Hpèndices 225 V1.4.0 índice 227 VII. CONCLUSÕES 233 BIBLIOGRAFIA SELECTTVA 237 8 Í N D I C E D E Q U A D R O S QUADRO I Resumo das regras para a citação bibliográfica 101 QUADRO 2 Exemplo de ficha bibliográfica 103 QUADRO 3 <>'•-•..- gerais sobre o Barroco Italiano identificadas, atrases d<>
exame de três elementos de consulta _ 111
QUADRO 4
Obras particulares sobre tratadistas italianos do século xvu identificadas
através do exame dc três elementos de consulta 112
QUADRO 5
Fichas de citação 138
QUADRO 6
Ficha de ligação 140
QUADRO 7-14
Fiehus dc leitura 144-156
QUADRO 15
Exemplo de análise continuada de um mesmo tèxtp 179
QUADRO 16
Exemplo de unia página com o sistema citação-nota 1X7
QUADRO 17
Exemplo dc bibliografia standard correspondente 188
QUADRO 18
A mesma página do quadro 16 reformulada com o sistema autor-
-data _ 192
QUADRO 19
Exemplo dc bibliografia correspondente com o sistema autor
-daia - 193
9
QUADRO 20
Corrta iransiiterar alfabetos não latinos 212
QUADRO 21
Abreviaturas mais usuais para utilizar eni notn ou no texto 216
QUADRO 22
Modelos de índice 229
10
P R E F Á C I O À 2.A E D I Ç Ã O P O R T U G U E S A
A publicação em português deste livro de Umberto Eco permite
ver o conjunto de problemas que a metodologia da investigação
actual levanta e faz compreender a importância das suas
tendências no avanço da ciência e na conservação do saber.
Encarada à luz das suas mutações teóricas, ou estudada na sua
complexa estruturação, ou, finalmente, na sistematização dos seus
modos de operar, essa reflexão é um contributo importante para
reformular muitas atitudes acomodadas do fazer a ciência, que se
comprazem na eternização do já feito-
A criação científica é uma actividade e uma instituição. Como
aclividade, designa o processo de investigação que leva a investigador
a produzir a obra cientifica. Como instituição, ê uma estrutura
constituída por Ires elementos: o sujeito, o ohjec.li> e o meio.
Ao longo dos tempos, estes aspectos foram evoluindo, designando
ct associação ou a dissociação quer dos mesmos, quer de algumas
das suas partes, diversos movimentos da investigação científica.
Caso nos atenhamos exclusivamente à evolução que se processou
nas ciências humanas, e a resiringirmo-nos ao nosso século, podemos
distinguir três movimentos importantes: um que se polarizou
em torno do sujeito da investigação, outro que gira em torno do
objecto investigado e finalmente um terceiro que pretende manter
um justo equilíbrio no processo da criação científica entre o sujeito
e o seu objecto. Todos eles revelam preocupações teóricas diferentes,
mas convergem na inquietação comum de tornar possível a ciência
através da elaboração e aperfeiçoamento dos métodos.
Existem, com efeito, três movimentos distintos na evolução da
metodologia da investigação. O primeiro, que tem como teorizado-
1 !
res Sertillanges, Ghellinck e Guitton'. sohrevaloriza o papel do
Sujeito "a estrutura da criação científica em detrimento da metodologia
da investigação. A questão fundamental torna-se. assim,
'ü da existência* de um clima espiritual que preexisle e determina
a criação " que o sujeito deve aspirar. Daí que o decisivo seja esta
aspiração manifestada sob a forma de vocação intelectual, uma vez
que i dela e do esforço que ela pode virtualmente despender na conquista
de um campo de trabalho, onde a cultura geral fecunda a
especialidade, na construção dum tempo interior ao abrigo dos
assaltos das preocupações dispersivas, de que depende a revelação
do talento e dô gênio, nos momentos dc plenitude duma vida consagrada
ao trabalho científico. O talento do investigador e o seu natural
intuicionismo fazem relegar os métodos de trabalho para um plano
menor, secundário e reduzido, pois, para além das superiores capacidades
intelectuais, ele pode dispor de vários meios práticos {desde
os seminários práticos até ao convívio esmeradamente seleccionado),
que ensinam a trabalhar ensinando como se fazem as coisas.
Neste contexto, a obra surgia, como a obra-prima medieval na
sua perfeição magistral, a coroar um longo percurso, no qual estavam
envolvidas muitas horas de trabalho de investigação essencial,
que só uma instituição de tipo tradicional poderia patrocinar, uma
vez que ela exige agentes humanos altamente qualificados e condições
objectivas de estudo extremamente complexificadas.
Por ser o sujeito da investigação indispensável pura o desenvolvimento
da ciência, não é menor a importância do seu ohjecto,
O conhecimento das condições da sua existência e dos modos da
sua abordagem tanto asseguram boa parte da sua acessibilidade,
como determinam as regras da sua reconstntçáo teórica.
Ora já nos ambientes científicos atrás descritos a obra de
Ghellinck chamara a atenção para a importância decisiva da elaboração
de certos trabalhos práticos (recensões críticas) que fornecessem
ao estudante um conjunto de regras práticas de trabalho,
anunciando desta forma o fim dum impressionismo responsável por
tantas verdades apressadas e pouco amadurecidas. Mas foram, sem
dúvida, as Directives ppur Ia confection d'unc nionographie scien-
' Antonino Dalmácio Serüllangcs. A vida intelectual. F.tptrtro. condições, mttvdnt.
Coimbra. Armênio Amado VA. Soe.. 1957: J. dc Ghellinck. tss exercices pratique*
du - Mmiitairc- cn théologie, 4.*cd., Paris. Deselcc du Broimcr et Cie.. 1948
e Jcun Guiiton, Le truvail intellemtel conseili à céus t/ui êiudient sr à ecux qui
ccriveni. Paris. cd. Montaígne. 1951.
12
lifiquc de Fernand Van Steenherghen2 que inauguraram o segundo
movimento da metodologia da investigação soh o signo do objecto.
Com efeito, a obra de Van Steenberghen centra-se exclusivamente
no estudo analítico e sistemático da composição duma monografia
cientifica no âmbito da filosofia medieval. Destinando-se a
senir de iniciação ã investigação de um objecto delimitado, descreve
os passos essenciais que permitem, no contexto da investigação,
descobrir a verdade e enuncia as regras fundamentais que ajudam,
no contexto da exposição, a transmitir as descobertas.
A metodologia da investigação de Van Steenberghen contrapõese
por dois modos à concepção anterior. Em primeiro lugar, pela
importância que confere ao objecto da pesquisa num duplo sentido,
o da sua dependência duma esfera científica particular e o da indispensabilidade
de métodos para o apreender e expor teoricamente.
Em segundo lugar, pela concepção de investigador que comporta,
pois trata-se de um especialista em formação que deve apetrechar-
-se com uma ferramenta intelectual — os modos de operar — para
resolver problemas inscritos num território concretamente definido
a desbravar planificada e metodicamente.
Ê da redução e unilateralização desta fase metodológica que
vivem os Style Manuais and Cuide americanos'. Preocupados em
resolver os vários tipos de trabalho científico e encarando-os dc uma
forma meramente atomista, os autores americanos deram-lhes
uma solução quase receituário de todos os elementos que entram
na composição duma monografia determinada. Entra-se. assim, num
período em que se perde de vista a metodologia gerar* para mergulhar
num atomismo de metodologia especializada. Todavia, algumas
destas obras tiveram o mérito de. pela sua profunda especialização,
resolver e uniformizar alguns pwblemas intrincados referentes
à bibliografia, ã tipologia da fichagem ou ao estilo gráfico,
dando forma de dicionário às fórmulas encontradas.
Se é verdade que da delimitação da metodologia à iniciação
científica decorreram aspectos importantes e até decisivos para o
: 3.« ed.. [jwsuin/Paris. cd. Bcatricc Nawclacn. 1901.
' Willíam Gües Canvphcll. Stcphcn Vaughan Bailou. Form and Stvte. Theses.
Repor!.*. Tem paper*. 5." cd„ Boston. Houghton Mitllin Company. 1979.
* Wo.nl Gray et ai. Hinorian 's Handbook: A Key to thc Sludy and Writing of
Hisiory. Boston, Noughinn Mifflin Company. 1964 c Dcmar Irvins. Writinx abimi
music: A mte btmk for Reportt and Theses. Scank. Lnivcrsiry of Washington Pfe*s.
1968.
13
progresso da ciência, dos seus excessos saíram algumas desvantagens
que se circunscrevem no empobrecimento da teorização geral
e especial. Não há metodologia dc investigação como fim em si.
divorciada da metodologia especial e geral.
E com isto passamos naturalmente ao terceiro movimento da
metodologia da investigação, que visa equilibrar os elementos subjectivos
e objeciivos no processo da criação e da investigação cientificas.
Autores como Asti Vera, Armando Zubizarreia e Ângelo
Domingos Salvador* visam nas suas propostas teóricas reavaliar a
estrutura e o processo da criação científica insialando-a no coração
da criação cultural, a fim de, harmonizando a teoria com a prática,
o estudo com a investigação, criarem os pressupostos do trabalho
científico numa concepção nova da formação universitária
que deve processar-se como um todo contínuo e progressivo, pois
"a estudar, a escrever ou a investigar só se aprende no exercício
dessas tarefas»6.
Entre as séries de Textos em que se revelaram os três movimentos
da metodologia da investigação, tomadas globalmente, há não só
evolução, como mudança de terreno e preocupações novas. Twuxenws
para primeiro plano os aspectos de mudança que constituem as linhas
de força das actuais tendências. Todavia, agora, importa determo-
-tios mais atentamente no último desses movimentos, para lhe determinarmos
a estrutura comum e as correntes particulares.
Pode afirmar-se que a estrutura comum da actual metodologia
da investigação assenta em dois princípios gerais: o da unidade
indissociável da metodologia da investigação com a metodologia
geral e o da globalidade do processo de formação cientifica. Ambos
os princípios assentam na revisão dos fundamentos da criação cientifica
segundo tuna óptica totalizante.
O princípio da unidade da metodologia da investigação com a
metodologia geral afirma a dependência tanto no ponto de partida
como no ponto de chegada da investigação em relação à ciência,
enquanto instância teórica, núcleo essencial que determina a conveniência
dos actos daquela (descrição, classificação, etc.) às leis
* Asti Vera. Metodologia de Io investigacióii, Madrid. cd. CinccL 1972: Armando
F. Zuhi/arrcta G.. l-a aventura dei trabaio intelectual tcomo esrudiar y como invéstigarj,
Bogotá, Fondo Educativo Imcramcricano. 1969 c Ângelo Domingos Salvador.
Métodos e técnicas ãe. pesquisa bibliográfica. Elsboração e relatório de estudos
científicos, 2.' ed.. Parlo Alegre, Liv. Sulina Ed., 1971.
''Armando F. Zulii/arreta G.. op. cit., p. V7I.
14
do pensamento. Exprime a constante preocupação de definir a validade
dos métodos de investigação, em relação aos pressupostos
científicos especiais e gerais.
O princípio da globalidade do processo da formação científica
confirma a continuidade entre o método de ensino e o método da
investigação, postulando uma formação acadêmica faseada lógico-
-cronologlcamente, de forma a promover no estudante as indispensáveis
competências investigativas.
Sobre este segundo princípio, assumido na sua forma concreta
de relação da formação geral com a especialização, no seio da
totalidade do ensino superior, se dividem as opiniões, podendo distinguir-
se duas posições particulares que se opõem, Para Armando
Zubizarreta, deve ser privilegiada a formação geral, que abrange
as formas tradicionais de estudo (exame, apontamentos), bem
como as formas actuais mais diversificadas (resumo de livros, resenha
crítica, comunicado científico, resumo de assuntos, ensaio) que
implicam um trabalho pessoal, mas sob a óptica recapitulativa,
deixando para segundo plano a especialização, Este tipo de prioridade
assenta na concepção de formação universitária progressiva,
em que sendo a meta final o trabalho monográfico, não deixa
de o mediatizar por metas mediaias. estando ele presente em formas
menos complexas desde o início até ao fim da formação. Ângelo
Domingos Salvador, pelo contrário, privilegia a especialização
reduzindo todas as formas mediatizadas do trabalho científico, atrás
enunciadas, à dúpfice categoria de estudos recapitulativos e estudos
originais, acumulando-as no final da formação geral e no decurso
da especialização.
Em resumo, ã evolução da metodologia da investigação impôs
a unidade da formação geral com a especialização, a síntese do
saber estudar com o saber investigar, admitindo fórmulas de doseamento
vário. Forjou, assim, um melo — o ensino universitário —
apto a fazer progredir a ciência sem atraiçoar a conservação e a
transmissão do saber.
Criada esta base indispensável para o regular desenvolvimento
da ciência, vejamos então como se organiza a actual metodologia da
investigação.
A metodologia da investigação estrutura-se em dois momentos
diferenciados e interdependentes. O primeiro é o da descoberta da
verdade, que agrupa todos os actos intelectuais indispensáveis à
formulação e resolução do problema estudado, enquanto o segundo
15
diz respeito à transmissão da verdade descoberta, com todos os
problemas que o sistema da composição levanta. Ambos os montemos
implicam não só operações cognitivas especificas, como designam
uma ordem cronológica de abordagens que lhes garante a validade
científica.
Dois são os contextos em que se desdobra o primeiro momento da
investigação — o contexto da descoberta e o contexto da justificação.
O contexto da descoberta é o caminho que se. inicia com a formulação
do problema e se encerra com a investigação das soluções.
Abre-se, assim, com a arte de pôr problemas, que requer um
longo convívio com os objectos e campos teóricos das disciplinas
que professamos, pois ela é a intuição aclimatada no território dos
modos de ver o semelhante nas diferenças. Desenvolve-se depois
através das várias operações que se reúnem sob a designação da
investigação das soluções e que agrupam a leitura e a técnica
de registo, A leitura, que durante muito tempo havia passado despercebida,
tornou-se. com as investigações recentes, o lugar privilegiado
da investigação das soluções, E evidente que se ela se
encontra na base da apreensão do material bibliográfico, exige, em
conseqüência, uma competência diversificada e aprofundada, e condiciona
todas as operações intelectuais ulteriores. Sem uma leitura
adequada e rigorosa, não se encontram reunidos os pressupostos do
registo, que caminha para uma clarificação e padronização indispensáveis
à formação de um clima de objectividade e seriedade
intelectual num país de reduzida tradição científica. E, fina/mente,
realiza-se como um programa que tem como limite a perícia de formular
problemas e a competência de acumular soluções, resultado
de adequado e progressivo adestramento, ao nível dos estudos recapitulativos,
que foi através de estratégias calculadas c judiciosamente
distribuídas sobre o tempo da formação geral, reduzindo
os factores da incerteza que pairavam sobre a compreensão dos
problemas, asfonnas de ler e as técnicas de registar.
Recolhidos os dados, importa apreciar a sua validade. E com isto
entramos no contexto da justificação, que define dois tipos de tarefas
opostas. Há que evitar as falácias que se fazem passar por
explicações — eis em que consiste a perseguição ao erro. E temos
de apurar, classificar, justificar e provar os dados, os factos, as
afirmações de tal modo que os que forem retidos sejam aqueles
que atravessaram positivamente estes filtros lógico-racionais. Todas
estas capacidades intelectuais exigem uma longa maturação e uma
16
formação lógica e filosófica profunda para permitir ao estudante
distinguir na tessitura do discurso da argumentação onde o nível
do discurso polemico acaba para dar lugar ao nível do discurso
lóg ico-cien tífico,
A expressão, segundo momento da metodologia da investigação,
é o esforço de síntese dialéctica da idéia com os meios da representação.
Foi Othon Moacyr Garcia quem insistiu nesta característica
específica da transmissão da verdade, chamando a atenção
para ofacto de o acto de escrever não poder realizar-se sem o concurso
do acto de pensar.
Essa interdependência obriga a percorrer um longo caminho
que. iniciado por um texto-base, aperfeiçoado através das revisões,
termina num texto definitivo onde a adequação entre o cometido
e a forma se encontram pelo menos ao nível satisfatório. E uma e
outro designam um campo teórico de abordagens sobre os ingredientes
fundamentais da exposição,
Na verdade, o problema essencial da redacção científica consiste
em adequar ao quadro, que resulta da unificação teórica da
descoberta da verdade, uma expressão lingüística coerente que
permita transmitir a verdade de uma forma inteligível. Importa primeiramente
resolver, no plano do pensamento, o problema da multiplicidade
dos factos através duma rigorosa unificação do conteúdo,
de tal forma que as generalizações científicas subsumam os dados
concretos. Depois de criada a estrutura de conteúdo, urge encontrar
a forma coerente e adequada entre os vários meios de expressão
pela determinação do âmbito .semântico da palavra e pela respectiva
subordinação ã monossemia.
Na encruzilhada do encontra da palavra com a idéia surge e cimenta-
se a unidade expressiva da linguagem cientifica. Unidade que
regula a função do seu uso, determina as suas características gerais,
estabelece a condição indispensável do seu exercício. A linguagem
científica é informativa, pois o seu uso destina-a a transmitir a verdade.
Por força desse uso ela deve tornar-se objectivada. precisa e
desambigutzada: preferindo o sentido denotativo. deve determiná-
lo no âmbito da extensão e da compreensão. A clareza é a
condição da sua existência, pois permite traduzir a complexidade
das relações causais nos seus diversos níveis. A linguagem científica,
em suma. tendo por objecto a verdade inteligível, deve criar
os mecanismos e dispositivos lingísticos capazes de transmitir
com a máxima inteligibilidade.
17
Para realizar os objeciivos alrãs descritos, a redacção científica
possui um sistema de composição que abrange três campos distintos
e de progressiva complexificação: o da constelação das idéias,
o da estruturação das seqüências e o do estilo científico.
O campo da constelação das idéias define as operações tendentes
à determinação do sentido das palavras em si e no contexto em que
são usadas e à inserção da palavra em unidades lingüísticas mais
vastas. Implica o desenvolvimento da capacidade analítica através
da escolha da palavra apropriada para o conceito objectivo, obrigando
a uma constante depuração das palavras provenientes de
horizontes vocabulares diferentes (desde o léxico comum até ao
léxico científico especializado) afim de a decantar da ambigüidade
em que um uso impróprio a envolveu. Além disso, o processo da
inserção da palavra em unidades como a frase ou o parágrafo exige
operações analíticas e sintéticas bastante desenvolvidas para. sem
comprometer o seu sentido denotativo inicialmente isolado fora
do contexto, a tornar um veículo apto à expressão das clivagens do
pensamento quer nas suas idéias essenciais, principais e secundárias,
quer nas relações de sucessão, paralelismo e oposição adentro
do desenvolvimento de cada parágrafo.
Interessa realçar, particularmente, a importância do parágrafo
como unidade significativa de expressão e lançar as linhas gerais da
sua definição. De acordo com Othon Moacvr Garcia, «o parágrafo
ê uma unidade de composição constituída por um ou mais de um
período, em que se desenvolve ou se explana determinada idéia central,
a que geralmente se agregam outras, secundárias mas intimamente
relacionadas pelo sentido»7. Torna-se. pois. a forma de expressão de
uma capacidade excepcional para tingir uma idéia ou um raciocínio
a uma unidade facilmente a/uilisável. A sua composição admite, via
de regra, três partes: um tópico frasal, em que se expressa a idéia
geral; um desenvolvimento no qual se desdobram e especificam as
tdeias enunciadas: è uma conclusão em que se reafirma o sentido geral.
Por sua vez, o campo da estruturação das seqüências comporto
as normas gerais que permitem tanto ordenar as idéias longitudinalmente
num esquema quer geral, quer particular (o capítulo),
seguindo o dispositivo orientador dos lugares estratégicos do texto
{introdução, desenvolvimento e conclusão), como regular as rela-
' Olhou Moacyr Garcia. Comunicação em prosa moderna. Aprender a escrever,
aprendendo a pensar, 2.' cd.. Rio de Janeiro. Fundação Geuílio Vargas. 1962. p. 185.
18
ções entre as idéias verticalmente, de maneira a tornar no espaço
discursivo reconhecíveis os conteúdos semânticos e o seu tipo de
relacionismo. For um lado, o desdobrar das idéias no desenvolvimento
obedece a regras associativas, opositivas ou silogtsticas.
conforme as opções consentidas pelo plano escolhido e pelo assunto
a expor, determinando, em conseqüência, a estratégia da escrita a
seguir na estrutura particular que é o capítulo, devendo em ambos
os casos procurar incansavelmente a diversidade de fórmulas. Por
outro lado, o discurso científico exige, para assegurar a sua clareza
específica, que as redes nocionais em que ele se constd/stancia assentem
em relações causais, claramente presas a idéias e factos, de
forma a reduzir ao mínimo o caracter paradoxal de que se reveste
a transmissão do conhecimento científico, devido à infiltração insidiosa
do sentido conotativo nos seus enunciados.
O estilo científico ocupa finalmente as experiências da expressividade
em ordem a conferir-lhe um cunho especial. O campo de
fundo em que se deve mover é o cognoscitívo. pois em nenhuma das
suas combinações das formas particulares da expressão pode comprometer
o objectivo essencial da linguagem científica. Há assim
um estilo acadêmico, um estilo filosófico, que não poderá infringir
as fronteiras que a tradição das ciências e o bom senso determinam.
E com isto passamos aos dispositivos semióticos que permitem,
por uma acertada dosagem, reforçar a eficácia da comunicação,
científica. Entre os inúmeros códigos a que se pode recorrer, nas
diversificadas realizações do discurso científico (desde o discurso
heurístico até ao discurso da vulgarização), há dois tipos de códigos
a nortear as possibilidades de opções: o lingüístico e o icõnico.
Neste incluem-se todos os esquemas e ilustrações que, reforçando
a clareza dos textos, comprometem por vezes o sentido de rigor. De
mais vasta utilização são os códigos lingüísticos que permitem
expressar, nas formas de análise, síntese, citações, notas de rodapé,
etc., todas as idéias que uma comunicação científica compona.
Ora todas as operações intelectuais que acima descrevemos representam
o limite da formação universitária. Para atingir o grau de
competência que elas pressupõem, adentro da concepção actual da
metodologia da investigação, afonnação gera! universitária deveiia
serfaseada de tal modo que a prática da escrita nela se inscrevesse
em todas as suas formas (análise, resumo, síntese, comentário, dissertação,
etc.) para apetrechar o estudante com as técnicas de
expressão escrita mais importantes.
19
O discurso científico, por isso, exprime a luta pela expressão
coerente e adequada da verdade inteligível, tendência virtual do
encontro da palavra com a idéia, na encruzilhada do rigor.
Aclaradas as linhas de força da actual metodologia da investigação
pela convergência da dúplice óptica evolutiva e sistemática
em que foram esquematicamente tratadas, importa indagar qual é
o lugar que a presente obra de Umbeno Eco vem ocupar.
Embora elaborada num contexto muito concreto e visando dar
resposta à necessidade deformação de professores na Itália do pós-
-guerra. essa obra teve o mérito de se tomar o manual dos modos
de operar da investigação, sisietnalizando-os e clarificando-os nas
suas formas fundamentais.
Essa inovação poderá vetificar-se em especial no que toca à técnica
de registo e, em menor grau, ao levantamento bibliográfico,
pelo que nos limitaremos a comentar algumas das suas características
que se destinam a orientar os leitores da obra,
Na abordagem do levantamento bibliográfico usa-se a estratégia
de expor primeiro teoricamente o assunto, para depois o exemplificar
praticamente, a fim de ensinar aos estudantes coitu) se usam,
com eficácia, os documentos impressos. Numa primeira parte (pp. 69-
-100) esclarecem-se as noçõesfitndamentais da biblioteconomia (como
se organiza e funciona a biblioteca) e da bibliografia (a descrição
e classificação dos livros e dos impressos), para, em seguida, ensinar
como se elabora uma bibliografia, utilizando num tempo mínimo
esse meio e esses documentos; enquanto na segunda parte (pp. 100-
-124). se retoma o problema concreto da elaboração de uma bibliografia
sobre o «conceito de metáfora na tratadística banxica italiana»
na biblioteca de Alexandria para mostrar todos os passos concretos
a dar quando se tem de elaborar um trabalho deste gênero.
O encadeamento lógico das tarefas, a exemplaridade dos processos,
a racionalização dos tempos tomam, de fado, o levantamento
bibliográfico, descrito pelo autor, uma prática investigativa a seguir
por todos os que aspiram a reunir com segurança e objectividade
(atente-se no papel do controlo cruzado da bibliografia), os materiais
para resolverem os problemas que se propõem estudar.
Quanto à técnica de registo, a obra em apreço não só realça a
necessidade de disciplinar o trabalho da investigação como também
propõe uma tipologia de fíchagem operatôria e eficaz. Disciplina
que se materializa na unificação do processo geral da confecção
das fichas, que exige um adestramento na recolha das idéias, pelo
20
desenvolvimento da análise, do resumo e da síntese, mas que se
completa pela diversificação dos tipos de fichas (fichas de leitura,
fichas temáticas, fichas de autor, fichas de citação, fichas de trabalho),
que permitem cingir de mais perto a pluridimensionalidade
em que se expressa a documentação. E embora todos estes recursos
técnicos venham exemplificados, privilegia-se um deles, a ficha
de leitura que pretende ser uma espécie de registo global, no qual
se fundem as técnicas analíticas americanas —ficha bibliográfica,
ficha de resumo e ficha de citação —, com as técnicas européias
tradicionais, em particular — o apontamento. Essa técnica teria
uma dupla finalidade de controlar as microieiluras através da sua
inserção na macroleitura, funcionando, assim, como critério de verificação
dos dados recolhidos quanto aos contextos de que foram
isolados, mas não privados. Adverte, desta maneira, o autor para
os perigos da mitologia da ficha, chamando a atenção, sobretudo
ao nível da justificação e da expressão, para os limites do seu uso
e as miragens a que pode dar origem.
Partindo das preocupações da actual metodologia da investigação,
as soluções positivas de Eco, ao nível do registo, prolongam a
eficácia das até então usadas e superam-nas na operatoriedade, pois
embora elas tenham, há muito, entrevisto aquelas formas concretas,
jamais lhe deram corpo real com tanta lucidez e igual racionalidade.
Sendo assim, podemos concluir que a actual metodologia da
investigação, consagrando a unidade do saber investigar com o
saber estudar, promove a uniformização das técnicas de trabalho
de molde a desimpedir o caminho da criação científica da pesada
herança que o intuicionismo e a improvisação impuseram à prática
científica portuguesa. Mas para que esses caminhos frutifiquem, é
imperioso reformular as condições ohjectivas e os meios institucionais
que enquadram a produção científica, sem o que prolongaremos
a utopia da renovação da vida num "reino cadaveroso».
A presente edição foi atentamente revista sobretudo no que respeita
ao vocabulário técnico da especialidade e à disposição das
vozes (primeira pessoa do singular e primeira e segunda pessoas
do plural) no interior do texto, a fim de lhe conferir o indispensável
rigor e restituir a caracteriz.ação sintáclica original.
Além disso, juntou-se-lhe uma bibliografia selectiva que visa
prolongar a utilidade e eficácia do próprio texto.
Hamilton Costa
21
I N T R O D U Ç Ã O
L Houve tempo cm que a universidade era uma universidade de
escoi A ela só tinham acesso os filhos dos diplomados. Salvo raras
excepçòes, quem estudava tinha todo o tempo à sua disposição- A universidaile
era concebida para ser freqüentada tranqüilamente, reservando
um certo tempo para o estudo e outro para os «sãos» divertimentos
goliardescos ou para actividade em organismos representativos.
As lições eram conferências prestigiosas; depois, os estudantes
mais interessados retiravam-se com os professores e assistentes em
longos seminários de dez ou quinze pessoas no máximo.
Ainda hoje, em muitas universidades americanas, um curso nunca
ultrapassa os dez ou vinte estudantes (que pagam bem caro e têm
o direito de «usar» o professor tanto quanto quiserem para discutir
com ele}. Numa universidade como Oxford, há um professor orientador,
que se ocupa da tese de investigação de um grupo reduzidíssimo
de estudantes (pode suceder que tenha a seu cargo apenas
um ou dois por ano) e acompanha diariamente o seu trabalho.
Se a situação actual em Itália fosse semelhante, não haveria
necessidade de escrever este livro — ainda que alguns conselhos
nele expressos pudessem senir também ao estudante «ideal» atrás
sugerido.
Mas a universidade italiana é hoje uma universidade de massas.
A ela chegam estudantes de todas as classes, provenientes de
todos os tipos de escola secundária, podendo mesmo inscrever-se
em filosofia ou em literaturas clássicas vindos de um instituto
técnico onde nunca tiveram grego nem latim. E se é verdade que
o latim de pouco scn>e para muitos tipos de actividade, é de grande
utilidade para quem fizer filosofia ou feiras.
23
Certos cursos têm milhares de inscritos. Destes, o professor
conhece, melhor ou pior, uma trintena que acompanha as aulas com
maior freqüência e, com a ajuda dos seus colaboradores (bolseiros,
contratados, agregados ao professorado), consegue fazer trabalhar
com uma certa assiduidade uma centena. Entre estes, há muitos que
cresceram numa família abastada e culta, em contado com um
ambiente cultural vivo. que podem permitir-se viagens de estudo,
vão aos festivais artísticos e teatrais e visitam países estrangeiros.
Depois há os outros. Estudantes que provavelmente trabalham e
passam lodo o dia no registo civil de uma pequena cidade de dez
mil habitantes onde só existem papelarias. Estudantes que, desiludidos
da universidade, escolheram a actividade política e pretendem
outro tipo de formação, mas que, mais tarde ou mais cedo.
terão de submeter-se à obrigação da tese. Estudantes muito pobres
que. tendo de escolher um exame, calculam o preço dos vários textos
obrigatórios e dizem que "este é um exame de doze mil Uras»,
optando entre dois opcionais por aquele que custa menos. Estudantes
que por vezes vêm à aula e têm dificuldade em encontrar um lugar
numa sala apinhada: e no fim queriam falar com o professor, mas
há uma fila de trinta pessoas e têm de ir apanhar o comboio, pois
não podem ficar num hotel. Estudantes a quem nunca ninguém disse
como procurar um livro na biblioteca e em que biblioteca: freqüentemente
nem sequer sabem que poderiam encontrar esses livros na
biblioteca da cidade onde vivem ou ignoram como se arrcmja um
cartão para empréstimo.
Os conselhos deste livro seivem particularmente para estes. São
também úteis para o estudante da escola secundária que se prepara
para a universidade e quer compreender como funciona a alquimia
da tese.
A todos eles a obra pretende sugerir pelo menos duas coisas:
— Pode fazer-se uma tese digna mesmo que se esteja numa situação
difícil, conseqüência de discriminações remotas ou recentes;
— Pode aproveitar-se a ocasião da tese (mesmo se o resto do curso
universitário foi decepcionante ou frustrante) para recuperar
o sentido positivo e progressivo do estudo, não entendido
como recolha de noções, mas como elaboração crítica de uma
experiência, como aquisição de uma competência (boa para
a vida futura) para identificar os problemas, encará-los com
método e expô-los segundo certas técnicas de comunicação.
24
2. Dito isto, esclarece-se que a obra não pretende explicar «como
se faz investigação científica» nem constitui uma discussão teórico-
critica sobre o valor do estudo. Trata-se apenas de uma série
de considerações sobre como conseguir apresentar a um júri um
objecto físico, prescrito pela lei, e composto de um certo número
de páginas dadilografadas, que se supõe ter qualquer relação com
a disciplina da licenciatura e que não mergulhe o orientador num
estado de dolorosa estupefacção.
É claro que o livro não poderá dizer-vos o que devem escrever
na tese. Isso ê tarefa vossa. Ele dir-vos-á: (1) o que se entende por
tese: (2) como escolher o lema e organizar o tempo de trabalho;
(3) como conduzir uma investigação bibliográfica; (4) como organizar
o material seleccionado: (5) como dispor fisicamente a redacção
do trabalho, hí a parte mais precisa é justamente a última, que
pode parecer a menos importante, porque é a única para a qual
existem regras bastante precisas.
J . 0 tipo de tese a que se faz referência neste livro é o que se
efectua nas faculdades de estudos hutnanísticos. Dado que a minha
experiência se relaciona com as faculdades de letras e filosofia,
é natural que a maior parte dos exemplos se refira a lemas que se
estudam naquelas faculdades. Todavia, dentro dos limites que este
livro se propõe, os critérios que aconselho adaptam-se igualmente
às teses normais de ciências políticas, magistério (*) e jurisprudência.
Sé se tratar de teses históricas ou de teoria geral, e não
experimentais e aplicadas, o modelo deverá serxir igualmente para
arquiteciura, economia, comércio e para algumas faculdades científicas.
Mas nestes casos é necessário alguma prudência.
4. Quando este livro for a imprimir, estará em discussão a refonna
universitária (**), E fala-se de dois ou três níveis de graduação
universitária, Podemos perguntar-nos se esta reforma alterará radicalmente
o próprio conceito de tese.
Ora. se tivermos vários níveis de título universitário e se o modelo
for o utilizado na maioria dos países estrangeiros, verificar-se-á
(*) Existe em Itália a Faculdade do Magistério que confere um titulo universitário
em letras, pedagogia ou línguas estrangeiras para o ensino nas escolas
médias. fiVD
(••) Bem entendido, o autor refere-.se ã edição italiana. fATI
25
uma situação semelhante á descrita no primeiro capitulo (LI). Isto
é, teremos teses de licenciatura (ou de primeiro nível) e teses de
doutoramento (ou de segundo nível).
Os conselhos que damos neste livro dizem respeito a ambas e,
no caso de existirem diferenças entre uma e outra, elas serão clarificadas.
Deste modo, pensamos que tudo o que se diz nas páginas que se
seguem se aplica igualmente no âmbito da reforma e, sobretudo, no
âmbito de uma longa transição para a concretização de uma eventual
reforma.
5. Cesare Segre leu o texto dactüografado e deu-me algumas
sugestões. Dado que tomei muitas em consideração, mas, relativamente
a outras, obstinei-me nas minhas posições, ele não é responsável
pelo produto final. Evidentemente, agradeço-lhe de todo
o coração.
6. Uma última advertência. O discurso que se segue diz obviamente
respeito a estudantes de ambos os sexos (studenti e studentesse)
(*), bem como a professores e a professoras. Dado que na
língua italiana não existem expressões neutras válidas para ambos
os sexos (os americanos utilizam cada vez mais o termo «person»,
mas seria ridículo dizer «a pessoa estudante» (la persona studente)
ou a «pessoa candidata» (!a persona candidata), limito-me a falar
sempre de estudante, candidato, professor e orientador, sem que este
uso gramatical encerre uma discriminação sexista'.
'(*) Evidentemente, a ressalva não é válida em português para o leniiu «estudante*,
que é um substantivo comum de dois gêneros. íffl'}
' Poderão perguntar-me por que motivo não utilizei sempre a estudante, a professora,
etc. A explicação reside no facto de ter trabalhado na base dc recordações
e experiências pessoais, tendo-me assim identificado melhor.
26
T. O Q U E É U M A T E S E E P A R A Q U E S E R V E
1.1. Por que se deve fazer uma tese e o que é?
Uma icsc é um trabalho dactilografado, de grandeza media, variável
entre as cem e as quatrocentas páginas, em que o estudante trata
um problema respettante à área de estudos em que se quer formar.
Segundo a lei italiana, ela é indispensável. Após ter terminado todos
os exames obrigatórios, o estudante apresenta a tese perante um júri
que ouve a informação do orientador (o professor eom quem «se faz»
a tese) e do ou dos arguentes. os quais levantam objecções ao candidato;
dai nasce uma discussão na qual tomam parte os outros membros
do júri. Das palavras dos dois arguentes, que abonam sobre
a qualidade (ou os defeitos) do trabalho escrito, e capacidade que o
candidato demonstra na defesa das opiniões expressas por escrito,
nasce o parecer do júri. Calculando ainda a média geral das notas
obtidas nos exames, o júri atribui uma nota à tese. que pode ir dura
mínimo de sessenta e seis até um máximo de cento e dez. louvor e
menção honrosa. Esta é pelo menos a regra seguida na quase totalidade
das faculdades de estudos humanísticos.
Uma vez descritas as características «externas» do texto e o
ritual em que se insere, não se disse ainda muito sobre a natureza
da tese. Em primeiro lugar, por que motivo as universidades ilalianas
exigem, como condição de licenciatura, uma tese?
Repare-se que este critério não é seguido na maior parte das universidades
estrangeiras. Nalgutnas existem vários níveis de graus
acadêmicos que podem ser obtidos sem tese; noutras existe um primeiro
nível, correspondente grosso modo à nossa licenciatura, que
não dá direito ao título de «doutor» e que pode ser obtido quer com
27
íi simples série de exames, quer com um irabalho escrito de pretensões
mais modestas; noutras existem diversos níveis de doutoramento
que exigem trabalhos de di ferenle complexidade... Porém, geralmente,
a tese propriamente dita é reservada a uma espécie de superlicenciatura,
o doutoramento, ao qual se propõem apenas aqueles que
querem aperfeiçoar-se e especializar-se como investigadores científicos.
Este tipo de doutoramento tem vários nomes, mas indicá-Io-
-emos daqui em diante por uma sigla anglo-saxónica de uso quase
internacional, PhD (que significa Philosophy Doctor. Doutor em
Filosofia, mas que designa todos os lipos de doutores em matérias
humanísticas, desde o sociólogo até ao professor de grego; nas matérias
não humànísticas sào utilizadas outras siglas, como. por exemplo.
MD, Medicine Doctor),
Por sua vez, ao PhD contrapõe-se algo muito afim à nossa licencialura
e que indicaremos doravante por licenciatura.
A licenciatura, nas suas várias formas, destina-se ao exercício da
profissão; pelo contrário, o PhD destina-sc à actividade acadêmica,
o que quer dizer que quem obtém um PhD segue quase sempre a
carreira universitária.
Nas universidades deste tipo. a tese é sempre de PhD. tese de
doutoramento, e constitui um trabalho originai de investigação, com
o qual o candidato deve demonstrar ser um estudioso capaz de fazer
progredir a disciplina a que se dedica. E efeetivãmente não se faz.
como a nossa tese de licenciatura, aos vinte e dois anos. mas numa
idade mais avançada, por vezes mesmo aos quarenta ou cinqüenta
anos (ainda que. obviamente haja PhD muito jovens). Porquê tanto
tempo? Porque se trata precisamente de investigação originai, em
que é necessário saber com segurança aquilo que disseram sobre o
mesmo assunto outros estudiosos, mas em que é preciso sobretudo
«descobrir» qualquer coisa que os outros ainda não tenham dito.
Quando se fala de «descoberta», especialmente no domínio dos estudos
humanísticos, não estamos a pensar em inventos revolucionários
como a descoberta da divisão do átomo, a teoria da relatividade
ou um medicamento que cure o cancro: podem ser descobertas modestas,
sendo também considerado um resultado «científico» um novo
modo de ler c compreender um texto clássico, a caracterização de
um manuscrito que lança uma nova luz sobre a biografia de um
autor, uma reorganização e uma releitura dc esludos anteriores
conducentes ao amadurecimento e sislematização das idéias que se
encontravam dispersas noutros textos. Km todo o caso, o estudioso
23
deve produzir um trabalho que, em teoria, os outros estudiosos do
ramo não deveriam ignorar, porque diz algo de novo (ef. 11.6.1.).
A tese à italiana será do mesmo tipo? Não necessariamente.
Efeeti vãmente, dado que na maior parte dos casos é elaborada entre
os vinte e dois e os vinte e quatro anos, enquanto ainda se fazem os
exames universitários, nào pode representar a conclusão de um longo
e reflectido trabalho, a prova dc um amadurecimento completo.
No entanto, sucede que há teses de licenciatura (feitas por estudantes
particularmente dotados) que são verdadeiras teses de PhD e
outras que nào atingem esse nível. Nem a universidade o pretende
a todo o cuslo: pode haver uma boa tese que não seja tese de investigação,
mas lese de compilação.
Numa lese de compilação, o estudante demonstra simplesmente
ter examinado criticamente a maior parte da «literatura» existente
(ou seja. os trabalhos publicados sobre o assunto) e ter sido capaz
de expô-la de modo claro, procurando relacionar os vários pontos de
vista, oferecendo assim uma inteligente panorâmica, provavelmente
útil do ponto de vista informativo mesmo para um especialista do
ramo, que, sobre aquele problema particular, jamais tenha efectuado
esludos aprofundados.
Eis, pois. uma primeira advertência: pode fazer-se uma tese de
compilação ou uma lese de investigação; uma tese de «Licenciatura»
ou uma tese de «PhD».
Uma tese de investigação é sempre mais longa, faliganie c absorvente:
uma tese de compilação pode igualmente ser longa e faügante
(existem trabalhos de compilação que levaram anos c anos) mas,
geralmente, pode ser feita em menos tempo e com menor risco.
Também não se pretende dizer que quem faz uma tese de compilação
tenha fechado o caminho da investigação: a compilação pode
constituir um acto de seriedade por parte do jovem investigador que.
antes de começar propriamente a investigação, pretende esclarecer
algumas idéias documentando-se bem.
Em contrapartida, existem leses que pretendem ser de investigação
e que. pelo contrário, são feitas à pressa; são más teses que
irritam quem as lê e que de modo nenhum servem quem as fez.
Assim, a escolha enirc tese dc compilação e tese de investigação
está ligada à maturidade e à capacidade de trabalho do candidato.
Muitas vezes — infelizmente — está também ligada a factores
econômicos, uma vez que um estudante-trabalhador terá com certeza
menos tempo, menos energia e freqüentemente menos dinheiro
29
para se dedicar a longas investigações (que muitas vezes implicam
a aquisição de livros raros e dispendiosos, viagens a centros ou bibliotecas
estrangeiros e assim por diante).
Infelizmente, não podemos dar neste livro conselhos de ordem
econômica. Até há pouco tempo, no mundo inteiro, investigar era
privilégio dos estudantes ricos. Também nào se pode dizer que hoje
em dia a simples existência de bolsas de estudo, bolsas de viagem
e subsídios para estadias em universidades estrangeiras resolva a
questão a contento de todos. O ideal é o de uma sociedade mais
justa em que estudar seja um trabalho pago pelo Estado, em que
seja pago quem quer que tenha uma verdadeira vocação para o estudo
e em que nào seja necessário ter a todo o custo o «canudo» para
conseguir emprego, obter uma promoção ou passar à frente dos
outros num concurso.
Mas o ensino superior italiano, e a sociedade que ele rerlecte. é
por agora aquilo que é; só nos resta fazer votos para que os estudantes
de todas as classes possam frequentá-Io sem se sujeitarem a
sacrifícios angustiantes, e passar a explicar de quantas maneiras se
pode fazer uma tese digna, calculando o tempo e as energias disponíveis
e também a vocação de cada um.
1.2. A quem interessa este livro
Nestas condições, devemos pensar que há muitos estudantes obrigados
a fazer uma tese, para poderem licenciar-se à pressa e alcançar
provavelmente o estatuto que tinham em vista quanto se inscreveram
na universidade. Alguns destes estudantes chegam a ter quarenta
anos. Estes pretenderão, pois, instruções sobre como fazer
uma tese num mês, de modo a poderem ter uma nota qualquer e
deixar a universidade. Devemos dizer sem rebuço que este livro não
é para eles. Se estas sào as suas necessidades, se são vítimas de
uma legislação paradoxal que os obriga a diplomar-se para resolver
dolorosas questões econômicas, é preferível oplarem por uma
das seguintes vias: (1) investir um montante razoável para encomendar
a tese a alguém; (2) copiar uma tese já feita alguns anos
antes noutra universidade (não convém copiar uma obra já publicada,
mesmo numa língua estrangeira, dado que o docente, se estiver
minimamente informado, já deverá saber da sua existência; mas
copiar em Milão uma tese feita na Calunia oferece razoáveis pos-
30
sibilidades de êxito; naturalmente, c necessário informar-se primeiro
se o orientador da lese, antes de ensinar em Milão, não terá ensinado
na Catânia; e, por isso mesmo, copiar urna tese implica um inteligente
trabalho de investigação).
Evidentemente, os dois conselhos que acabámos de dar são ilegais.
Seria o mesmo que dizer «se te apresentares ferido no posto
de socorros e o médico não quiser examinar-te, aponta-lhe uma faca
à garganta». Em ambos os casos, trata-se de actos de desespero.
O nosso conselho foi dado a título paradoxal, para reforçar o facto
de este livro não pretender resolver graves problemas de estrutura
social e de ordenamento jurídico existente.
Este livro dirige-se. portanto, àqueles que (mesmo sem serem
milionários nem terem à sua disposição dez anos para se diplomarem
após terem viajado por todo o mundo) têm uma razoável possibilidade
de dedicai" algumas horas por dia ao estudo e querem preparar
uma tese que lhes dê também uma certa satisfação intelectual
c lhes sirva depois da licenciatura. E que, portanto, tixados os limites,
mesmo modestos, do seu projecto, queiram fazer um trabalho
sério. Até uma recolha de cromos pode fazer-se de um modo sério:
basta fixar o tema da recolha, os critérios de catalogação e os limites
históricos da recolha. Se se decide não remontar além de 1960,
óptimo, porque desde 196U até hoje existem todos os cromos. Haverá
sempre uma diferença entre esta recolha e o Museu do l..ouvrc, mas
é preferível, em vez de um museu pouco sério, fazer uma recolha
séria de cromos de jogadores de futebol de 1960 a 1970-
Este critério é igualmente válido para uma tese de licenciatura.
1.3. De que modo uma tese serve também para depois
da licenciatura
Há duas maneiras dc fazer uma tese que sirva também para depois
da licenciatura. A primeira 6 fazer da tese o início de uma investigação
mais ampla que prosseguirá nos anos seguintes se. evidentemente,
houver a oportunidade e a vontade para tal.
Mas existe ainda urna segunda maneira, segundo a qual um director
de um organismo de turismo local será ajudado na sua profissão
pelo facto de ter elaborado uma tese sobre Do «Ferino a Lúcia» aos
«Promessi Sposi». Efeeti vãmente, fazer uma tese significa: (1) escolher
um tema preciso; (2) recolher documentos sobre esse lema;
31
(3) pôr em ordem esses documentos: (4) reexaminar o tema cm primeira
mão. á luz dos documentos recolhidos; (5) dar uma forma
orgânica a todas as reflexões precedentes; (6) proceder de modo que
quem lê perceba o que se quer dizer e fique em condições, se for
necessário, de voltar aos mesmos documentos para retomar o tema
por sua conta.
Fa/cr uma tese significa, pois. aprender a pôr ordem nas próprias
idéias e a ordenar dados: é uma experiência de trabalho
metódico; quer dizer, construir um «objecto» que, em princípio,
sirva também para outros. E deste modo nõo importa tanto o tema
da tese quanto a experiência de trabalho que ela comporta. Quem
soube documcniar-se sobre a dupla redacção do romance de Manzoni.
saberá depois também recolher com método os dados que lhe servirão
para o organismo turístico. Quem escreve já publicou uma
dezena de livros sobre temas diversos, mas se conseguiu fazer os
últimos nove é porque aproveitou sobretudo a experiência do primeiro,
que era uma reclaboração da tese de licenciatura Sem aquele
primeiro trabalho, não leria aprendido a fazer os outros. E. tanto
nos aspectos positivos como nos negativos, os outros reflectem
ainda 0 modo como se fez o primeiro. Com o lempo tornamo-nos
provavelmente mais maduros, conhecemos mais as coisas, mas a
maneira como trabalhamos nas coisas que sabemos dependerá sempre
do modo como estudámos inicialmente muitas coisas que não
sabíamos.
Em última análise, fazer uma lese é como exercitar a memória.
Temos uma boa memória cm velhos quando a mantivemos em
exercício desde muito jovens. E não importa se ela se exercitou
aprendendo de cor a composição de todas as equipas da Primeira
Divisão, as poesias de Carducci ou a série de imperadores romanos
dc Augusto a Rórnulo Augusto. Bem entendido, já que se exercita
a memória, mais vale aprender coisas que nos interessam ou
que venham a servir-nos; mas. por vezes, mesmo aprender coisas
inúteis constitui uma boa ginástica. E, assim, embora seja melhor
fazer uma lese sobre um tema que nos agrade, o tema é secundário
relativamente ao método de trabalho e à experiência que dele
se tira.
E isto também porque, se se trabalhar bem. não há nenhum
tema que seja verdadeiramente estúpido: a trabalhar bem tiram-
- « conclusões úteis mesmo dc um tema aparentemente remoto
ou periférico. Marx nào fez a tese sobre economia política, mas
sobre dois filósofos gregos como Epicuro e Demócrito. H não se
tratou de um acidente. Marx foi talvez capaz de analisar os problemas
da história c da economia com a energia teórica que
sabemos precisamente porque aprendeu a reflectir sobre os seus
filósofos gregos. Perante tantos estudantes que começam com
uma tese ambiciosíssima sobre Marx e acabam na secção de pessoal
das grandes empresas capitalistas, c necessário rever os conceitos
que se têm sobre a utilidade, a aciualidade e o interesse
dos temas das teses.
1.4. Quatro regras óbvias
Há casos em que o candidato faz a tese sobre um lema imposto
pelo docente. Tais casos devem evitar-se.
Nào estamos a referir-nos. evidentemente, aos casos em que o
candidato pede conselho ao docente, mas sim àqueles em que a
culpa é do professor (ver 11.7.. «Como evitar deixar-se explorar pelo
orientador») ou àqueles em que a culpa é do candidato, desinteressado
de tudo e disposto a alinhavar qualquer coisa para se despachar
depressa.
Ocupar-nos-emos, pelo contrário, dos casos em que se pressupõe
a existência de um candidalo movido por um interesse qualquer e
de um docente disposto a interpretar as suas exigências.
Nestes casos, as regras para a escolha do tema são quatro:
1) Que o lema corresponda aos interesses do candidata (quer
esteja relacionado com o lipo de exames feitos, com as
sua*; leituras, com o seu mundo político, cultural ou religioso):
2) Que as fontes a que recorre sejam acessíveis, o que quer dizer
que estejam ao alcance material do candidalo;
3) Que as fontes a que recorre sejam manitsedveis. o que quer
dizer que estejam ao alcance cultura! do candidato;
4) Que o quadro metodológico da investigação esteja ao alcance
da experiência do candidato.
Expressas desta maneira, estas quatro regras parecem banais e
resumir-se na norma seguinte: quem quer fazer uma tese deve fa/er
uma tese que seja capaz de lazer. Pois bem. é mesmo assim, c há
33
casos de leses drama li ca m cri le falhadas justamente porque não se
soube pôr o problema inicial nestes termos tão óbvios1.
Os capítulos que se seguem tentarão fornecer algumas sugestões
para que a tese a fazer seja uma tese que se saiba e possa fazer.
1 Poderíamos acrescentar unia quinta regia: que o professor seja o indicado.
Efeeti vãmente, há candidatos que. por razões de simpatia ou de preguiça, querem
fazer com o docente da matéria A uma tese que, na verdade, é da matéria B. O
docente aceita ipur simpatia, vaidade ou dcsatençâol e depois nào está em condições
de acompanhar u tese.
34
II. A E S C O L H A D O T E M A
I I . l . Tese monográflca ou tese panorâmica?
A primeira tentação do estudante é fazer uma tese que fale de
muitas coisas. Se ele se interessa por literatura, o seu primeiro
impulso é fazer uma tese do gênero A literatura hoje, tendo de restringir
o tema. quererá escolher A literatura italiana desde o pós-
-guerra até aos anos 60.
Estas teses são perigosíssimas. Trata-se dc temas que fazem tremer
estudiosos bem mais maduros. Para um estudante de vinte anos,
é um desafio impossível. Ou fará uma resenha monótona de nomes e
de opiniões correntes, ou dará à sua obra um cariz original e será
sempre acusado de omissões imperdoáveis. O grande crítico contemporâneo
Gianfranco Contini publicou em 1957 uma Letíeratum
Italiana-Ottocento-Novecento ÍSansoni Accademia). Pois bem, se se
tratasse de uma tese de licenciatura, teria ficado reprovado, apesar
das suas 472 páginas. Com efeito, teria sido atribuído a negligência
ou ignorância o facto de não ter citado alguns nomes que a maioria
das pessoas consideram muito importantes, ou de ter dedicado capítulos
inteiros a aulores ditos «menores» e breves notas de rodapé a autores
considerados «maiores». Evidentemente, tratando-se de um estudioso
cuja preparação histórica e agudeza crítica são bem conhecidas, toda
a gente compreendeu que estas exclusões e desproporções eram voluntárias,
e que uma ausência era criticamente muito mais eloqüente do
que uma página demolidora. Mas se a mesma graça for feita por um
estudante de vinte e dois anos. quem garante que por detrás do silêncio
não está muita astúeia e que as omissões substituem páginas
críticas escritas noutro lado — ou que o autor saberia escrever?
35
Em teses deste gênero, o estudante acaba geralmente por acusar
os membros do júri de não o terem compreendido, mas estes não
podiam compreendê-lo e. portanto, uma tese demasiado panorâmica
constitui sempre um acto de orgulho. Não que o orgulho intelectual
— numa tese — seja de rejeitar a priori. Pode mesmo dizer-se que
Dante era um mau poeta: mas é preciso dizê-lo após pelo menos trezentas
páginas de análise detalhada dos textos dantescos. Estas demonstrações,
numa tese panorâmica, nào podem fazer-se. Eis porque seria
então melhor que o estudante, em vez de A literatura italiana desde
o pós-guerra até aos anos 60, escolhesse um título mais modesto.
K posso dizer já qual seria o ideal: não Os romances de Fenoglio.
mas As diversas redacçòes de "ti panigiano Jolmny». Enfadonho?
Fi possível, mas corno desafio é mais interessante.
Sobretudo, se se pensar bem, trata-se de um acto de astúcia. Com
uma tese panorâmica sobre a literatura de quatro décadas, o estudante
expõe-se a todas as contestações possíveis. Como pode resistir
o orientador ou o simples membro do júri à tentação de fazer
saber que conhece um autor menor que o estudante nào citou? Basta
que qualquer membro do júri. consultando o índice, aponte três omissões,
e o estudante será alvo de urna rajada de acusações que farão
que a sua tese pareça uma lista de desaparecidos. Sc, pelo contrário,
o estudante trabalhou seriamente num terna muito preciso, consegue
dominar um material desconhecido para a maior parle dos membros
do júri. Não estou a sugerir um truquezito dc dois vinténs: será
um Iruque. mas nào de dois vinténs, pois exige esforço. Sucede simplesmente
que o candidato se apresenta como «Perito» diante dc
uma platéia menos perita do que ele. e, já que teve o trabalho de se
tornar perito, é justo que goze as vantagens dessa situação.
Entre os dois extremos da tese panorâmica sobre quarenta anos dc
literatura e da tese rigidamente monográfica sobre as variantes de um
texto curto, há muitos esládios intermédios. Poderão assim apontar-
-se temas como A neovanguarda literária dos anos 60, ou A imagem
das Langhe em Pavese e Fenoglio. ou ainda Afinidades e diferenças
entre três escritores «fantásticos»: Savinio, Buzzaii e Landolft.
Passando as faculdades eieniíficas. num livro com o mesmo tema
que nos propomos dá-se um conselho aplicável a todas as matérias:
O tema Geologia, por exemplo, é demasiado vasto. A Vulcanologia.
como ramo da geologia, c ainda demasiado lato. Os vulcões no México
poderia ser desenvolvido num exercício bom mas um tanto superficial. Uma
36
limitação subsequente daria origem a uni estudo üc maior valor: A história
do Popocatepetl (que foi escalado provavelmente por uni dos conquistadores
de Corte? em 1519. e que só em 1702 leve uma erupção violenta}.
Úm lema mais limitado, que diz respeito a um menor mi mero de anos. seria
O nascimento e u morte aparente do Paricutin (dc 20 dc Fevereiro de 1943
SI 4 dc Março de 1952)'.
Eu aconselharia o último tema. Com a condição de que. nessa
altura, o candidato diga tudo o que há a dizer sobre aquele amaldiçoado
vulcão.
Há algum tempo veio ter comigo um estudanie que queria fazer
a tese sobre O símbolo no pensamento contemporâneo. Era uma tese
impossível. Pelo menos, eu não sabia o que queria dizer «símbolo»;
efectivamente, trata-se de um termo que muda dc significado segundo
os autores e, por vezes, em dois autores diferentes quer dizer duas
coisas absolutamente opostas. Repare-se que por «símbolo» os lógicos
formais ou os matemáticos entendem expressões sem significado
que ocupam um lugar definido com urna função precisa num
dado cálculo formalizado (como os a e os h ou os x e os y das fórmulas
algébricas). enquanto outros autores entendem uma forma
repleta de significados ambíguos, como sucede nas imagens que
ocorrem nos sonhos, que podem referir-se a uma árvore, a um órgão
sexual, ao desejo de crescimento e assim por diante. Como fazer
então uma tese com este título? Seria necessário analisar todas as
acepções do símbolo em toda a cultura contemporânea, catalogá-las
dc modo a evidenciar as semelhanças e as diferenças, ver se subjacente
às diferenças há um conceito unitário fundamental que apareça
em todos os autores e todas as teorias, se as diferenças não
tornam enfim incompatíveis entre si as teorias em questão. Pois bem.
uma obra deslas nenhum filósofo, lingüista ou psicanalista contemporâneo
conseguiu ainda realizá-la de uma maneira satisfatória.
Como poderia consegui-lo um estudioso novato que, mesmo precoce,
não tem alrãs de si mais de seis ou sete anos de leituras adultas?
Poderia lambem fazer uma dissertação inteligentemente parcial,
nias cairíamos de novo na história da literatura italiana de Contini.
Ou poderia propor uma teoria pessoal do símbolo, pondo de parte
tudo quanto haviam dito os outros autores: mas até que ponto esta
' C. W. Cooper c E. J. Robins, tlie Temi Paper A Manual and Model. Stanford.
Stanford Universiiy Press, 4.' cri.. 1967, p. 3.
37
escolha seria discutível di-lo-emos no parágrafo 11.2. Com o estudante
cm tjuestão discutiu-se um pouco. Teria podido fazer-se uma
lese sobre o símbolo em Freud e Jung. nào considerando todas as
outras acepções, e confrontando apenas as destes dois autores. Mas
descobriu-se que o estudante não sabia alemão (c falaremos sobre o
problema do conhecimento das línguas no parágrafo TT.5). Decidiu-
-se então que ele se debruçaria sobre o lema O conceito de símbolo
em Peirce, Frye e Jung. A tese teria examinado as diferenças entre
três conceitos homônimos em três autores diferentes, um filósofo,
um crítico e um psicólogo; leria mostrado como em muitas análises
em que sào considerados estes três autores se cometem muitos equívocos,
uma vez que se atribui a um o significado que é usado por
outro. Só no final, a título de conclusão hipotética, o candidato teria
procurado extrair um resultado para mostrar se existiam analogias,
e qutds. entre aqueles conceitos homônimos, aludindo ainda aos outros
autores dc quem linha conhecimento mas de quem. por explícita limitação
do tema. não queria nem podia ocupar-se. Ninguém teria podido
dizer-lhe que não tinha considerado o autor K, porque a tese era sobre
X, Y e Z, nem que tinha citado o autor J apenas em tradução, porque
ter-se-ia tratado de uma referência marginal, em conclusão, e a tese
pretendia estudar por extenso e no original apenas os três autores referidos
no título.
Eis como uma tese panorâmica, sem se tornar rigorosamente
monográíica. se reduzia a um meio termo, aceitável por todos.
Por outro lado. sem dúvida o termo «monográfico» pode ter uma
acepção mais vasta do que a que utilizámos aqui. Uma monografia é o
tratatamento de um só lema e como tal opòe-sc a uma «história de», a
um manual, a uma enciclopédia. Pelo que um tema como O tema do
«mundo às wessas» nos escritores medievais também é monográfico.
Analisam-se muitos escrilores. mas apenas do ponto dc vista de um tema
específico (ou seja. da hipótese imaginária proposta a título de exemplo,
dc paradoxo ou de fábula, dc que os peixes voem no ar, as aves
nadem na água etc). Se se fizesse bem este trabalho, obter-se-ia uma
óptima monografia Contudo, para o fazer bem, é preciso ter presente
todos os escritores que trataram o tema, especialmente os menores, aqueles
de quem ninguém se lembra. Assim, esta tese é classificada como
monogràTico-panorâmica e é muito difícil: exige uma infinidade de leituras.
Se se quisesse mesmo fazê-la. seria preciso restringir o seu campo.
O tema do «mundo às wessas» nos poetas carolíngios. O campo restringe-
se, sabendo-se o que se lem de dominar c o que se deve pôr de parte.
38
Evidentemente, é mais excitante fazer a tese panorâmica, pois.
além do mais. parece fastidioso ocuparmo-nos durante um. dois ou
mais anos sempre do mesmo autor. Mas repare-se que fazer uma tese
rigorosamente monográíica nào significa de modo nenhum perder de
vista o contexto. Fazer uma tese sobre a narrativa de Fenoglio significa
ter presente o realismo italiano, ler também Pavese ou Vkorini.
bem como analisar os escritores americanos que Fenoglio l ia e traduzia.
Só inserindo um autor num contexto o compreendemos e explicamos.
Todavia, uma coisa é utilizar o panorama como fundo, e outra
fazer um quadro panorâmico. Uma coisa é pintar o reiralo de um cavalheiro
sobre urn fundo dc campo com um rio, e outra pinlar campos,
vales e rios. Tem dc mudar a técnica, tem de mudar, em termos fotográficos,
a focagem. Parlindo de um só autor, o contexto pode ser
também um pouco desfocado, incompleto ou de segunda mão.
Para concluir, recordemos este princípio fundamental; quanto
mais se restringe o campo, melhor se trabalha e com maior segurança.
Uma tese monogrãfica c preferível a uma tese panorâmica.
É melhor que a tese se assemelhe mais a um ensaio do que a uma
história ou a uma enciclopédia.
IT.2. Tese histórica ou tese teórica?
Esta alternativa só tem sentido para ceitas matérias. Efeeti vãmente,
em matérias como história da matemática, filologia românica ou história
da literatura alemã, uma tese só pode ser histórica. E em matérias
como composição arquitectónica. física do reactor nuclear ou
anatomia comparada, geralmente só se fazem teses teóricas ou experimentais.
Mas há outras matérias, como filosofia teórica, sociologia,
antropologia cultural, estética, filosofia do direito, pedagogia
ou direito internacional, em que se podem fazer teses de dois tipos.
Uma tese teórica é uma tese que se propõe encarar um problema
abstracto que pode já ter sido ou não objecto de outras reflexões; a
natureza da vontade humana, o conceito de liberdade, a noção de
função social, a existência de Deus. o código genético. Enumerados
assim, estes temas fazem imediatamente sorrir, pois pensamos naqueles
tipos de abordagem a que üramsci chamava «noções breves
sobre o universo», E. no entanto, insignes pensadores se debruçaram
sobre estes temas. .Vias. com poucas cxccpçõcs, fizeram-no na
conclusão de um trabalho de meditação dc várias décadas.
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Nas mãos de um estudante com uma experiência científica necessariamente
limitada, estes temas podem dar origem a duas soluções.
A primeira (que c ainda a menos trágica) leva a fazer a tese definida
(no parágrafo anterior) como «panorâmica". Trata-se o conceito
ile função social, mas numa série de autores. E a este respeito aplicam-
-8c as observações já feitas. A segunda solução é mais preocupante,
dado que o candidato presume poder resolver, em poucas páginas, o
problema de Deus e da definição de liberdade. A minha experiência
diz-me que os estudantes que escolheram temas do gênero quase
sempre fizeram teses muito curtas, sem grande organização interna,
mais semelhantes a um poema lírico do que a um estudo científico.
E, geralmente, quando se objecta ao candidato que a exposição é
demasiado personalizada, genérica, informal, sem comprovações historiográficas
nem citações, ele responde que nào se compreendeu que
a sua tese é muito mais inteligente do que muitos outros exercícios
de banal compilação. Pode dar-se o caso de ser verdade, mas, mais
uma vez. a experiência ensina que geralmente esta resposta é dada
por um candidato com as idéias confusas, sem humildade científica
nem capacidade comunicaliva. O que se deve entender por humildade
científica (que não c uma virtude para fracos mas. pelo contrário,
uma virtude das pessoas orgulhosas) ver-sc-á no parágrafo
TV.2.4. it certo que não se pode excluir que o candidato seja um gênio
que, apenas com vinte c dois anos, tenha compreendido tudo. e é
evidente que estou a admitir esta hipótese sem sombra dc ironia. Mas
a realidade é que. quando sobre a crosta terrestre aparece um gênio
de tal qualidade, a humanidade leva muito tempo a aperceber-se disso,
e a sua obra é lida e digerida durante um certo número de anos antes
que se apreenda a sua grandeza. Como se pode pretender que um
júri que está a examinar, não uma. mas muitas teses, apreenda de
ehoíre a grandeza deste corredor solitário?
Mas ponhamos a hipótese de o estudante estar consciente dc ter
compreendido um problema importante; dado que nada nasce do
nada. ele terá elaborado os seus pensamentos sob a influência
de outro autor qualquer. Transformou então a sua tese. de teórica
em historiográfica. ou seja. não tratou o problema do ser. a noção
de liberdade ou o conceito de acção social, mas desenvolveu
temas como o problema do ser no jovew Heidegger, a noção de
liberdade em Kant ou o conceito de acção social em Parsons. Se
lem idéias originais, elas emergirão no confronto com as idéias do
autor tratado; podem dizer-se muitas coisas novas sobre a liberdade
40
estudando o modo como outra pessoa falou da liberdade. E se se
quiser, aquela que devia ser a sua tese teórica torna-se o capítulo
final da sua lese historiográfica. O resultado será que todos poderão
verificar aquilo que diz. dado que (referidos a um pensador anterior)
os conceitos que põe em jogo serão publicamente verificáveis.
É difícil movermo-nos no vago e estabelecer uma exposição ab initio.
Precisamos de encontrar um ponto de apoio, especialmente para
problemas tão vagos como a noção de ser ou de liberdade. Mesmo
quando se é gênio, e especialmente quando se é gênio, nào significa
uma humilhação partir-se de outro autor. Com efeito, partir dc
um autor anterior não significa prestar-lhe culto, adorá-lo ou reproduzir
sem crítica as suas afirmações; pode lambem partir-se de um
autor para demonstrar os seus erros e os seus limites. Mas tem-se
um ponto de apoio. Os homens medievais, que tinham um respeito
exagerado pela autoridade dos autores antigos, diziam que os modernos,
embora ao seu lado fossem «anões», apoiando-sc neles tornavam-
se «anões às costas de gigantes» e, deste modo. viam mais além
do que os seus predecessores.
Todas estas observações não são válidas para as matérias aplicadas
e experimentais. Sc se apresentar uma tese em psicologia, a
alternativa não é enlrc O problema da percepção em Piaget e O problema
da percepção (ainda que um imprudente pudesse querer propor
um tema tão genericamenie perigoso). A alternativa à tese historiográfica
é antes a lese experimental: .4 percepção das cores num
grupo de crianças deficientes. Aqui o discurso muda, dado que se
tem direito a encarar dc forma experimental uma questão, contanto
que se siga um método de investigação e se possa trabalhar em
condições razoáveis, no que respeita a laboratórios e com a devida
assisléncia. Mas um bom investigador experimental nào começa a
controlar as reacções dos seus pacientes sem antes ter feito pelo
menos um trabalho panorâmico (exame dos estudos análogos já realizados),
pois de outro modo arriscar-se-ia a descobrir o chapéu dc
chuva, a demonstrar qualquer coisa que já havia sido amplamente
demonstrada, ou a aplicar métodos que já se Unham revelado errôneos
(se bem que possa ser objecto de investigação o novo controlo
de um método que não tenha ainda dado resultados satisfatórios).
Portanto, uma tese de caracter experimental não pode ser feita em
casa. nem o método pode ser inventado. Mais uma ve/. se deve partir
do princípio de que. se se é um anão inteligente, é melhor subir
aos ombros de um gigante qualquer, mesmo se for de altura modesta:
41
ou mesmo dc outro anão. Depois lemos sempre tempo para trabalhar
sozinhos.
IÍ.3. lemas antigos ou temas contemporâneos?
Encarar esta questão pode parecer querer voltar à amiga querelle
des anciens et des modernes... E. de facto, para muilas disciplinas
a questão não se põe (se bem que uma tese de história da literaiura
latina possa tratar tão bem de Horácio como da situação dos estudos
horacianos no último vinlénio). Inversamente, é lógico que. se
nos licenciamos em história da literatura italiana contemporânea,
não haja alternativa.
Todavia não é raro o caso de ura estudante que. perante o conselho
do professor de literaiura italiana para se licenciar sobre um
petrarquista quinhentista ou sobre um árcade, prefira temas como
Pavese, Bassani. Sanguineti. Muilas vezes a escolha nasce de uma
vocação autêntica e é difícil contestá-la. Outras vezes nasce da falsa
idéia de que um autor contemporâneo c mais fácil e mais agradável.
Digamos desde já que o autor contemporâneo é sempre rnais difícil
É certo que geralmente a bibliografia c mais reduzida, os textos
são de mais fácil acesso, a primeira documentação pode ser consultada
à beira-mar. com um bom romance nas mãos, em vez de fechado
numa biblioteca. Mas. ou queremos fazer uma tese remendada, repetindo
simplesmente o que disseram outros críticos e então nào há
mais nada a dizer (e. se quisermos, podemos fa/cr uma lese ainda
mais remendada sobre um petrarquista do século xvi). ou queremos
dizer algo de novo. e enião apercebemo-nos de que sobre o autor
anligo existem pelo menos chaves interpretativas seguras às quais
nos podemos referir, enquanto para o autor moderno as opiniões são
ainda vagas e discordantes, a nossa capacidade crítica é falseada pela
falta de perspectiva, e tudo se toma demasiado difícil.
E indubitável que o autor anligo impõe uma leitura mais futigante,
uma pesquisa bibliográfica mais atenta (mas os títulos estão
menos dispersos e existem repertórios bibliográficos já compleios);
mas se se entende a tese como ocasião para aprender a fazer uma
investigação, o autor antigo põe mais problemas de preparação.
Se. além disso, o estudante se sentir inclinado para a crítica contemporânea,
a tese pode ser a última ocasião de abordar a literamra
do passado, para exercitar o seu gosto e capacidade de leitura. Assim.
42
seria bom aproveiiar esla oportunidade. Muitos dos grandes escritores
contemporâneos, mesmo de vanguarda, não fizeram leses sobre Montale
ou Pound. mas sobre Dantc ou Foscolo. E claro que não existem regras
precisas: um bom investigador pode conduzir uma análise histórica ou
estilística sobre um autor contemporâneo com a mesma profundidade
e precisão filológica com que trabalha sobre um antigo.
Além disso, o problema varia de disciplina para disciplina. E m
filosofia talvez ponha mais problemas uma tese sobre Ilusserl do
que uma tese sobre Descartes e a relação entre «facilidade» e «legibilidade
» inverte-se: lê-se melhor Pascal do que Camap.
Deste modo. o único conselho que verdadeiramente poderei dar
é o seguinte: trabalhai sobre um contemporâneo como se fosse um
antigo e sobre um antigo como se fosse um contemporâneo- Ser-
-vos-á mais agradável e fareis um trabalho mais sério.
IT.4. Quanto tempo é preciso para fazer uma tese?
Digamo-lo desde logo: não mais de três anos, nem menos de seis
meses, Não mais de três anos, porque se em três anos de irabalho
não se conseguiu circunscrever o tema e encontrar a documentação
necessária, isso só pode significar três coisas:
1) escolheu-se uma tese errada, superior às nossas forças;
2) é-se um eterno descontente que quer dizer tudo, e continua-
-se a trabalhar na tese durante vinte anos enquanto um estudioso
hábil deve ser capaz de fixar a si mesmo limites, mesmo
modestos, e produzir algo de definitivo dentro desses limites;
3) teve início a neurose da tese. ela é abandonada, retomada, sentimo-
nos falhados, entramos num estado de depressão, utilizamos
a tese como álibi de muitas cobardias. nunca viremos
a licenciar-nos.
Não menos de seis meses, porque mesmo que se queira fazer o
equivalente a um bom artigo de revista, que não tenha mais de sessenta
páginas, entre o estudo da organização do trabalho, a procura
de bibliografia, a elaboração de fichas e a redacção do texto passam
facilmente seis meses. E claro que um estudioso mais maduro
escreve um ensaio em menos tempo: mas tem atrás de si anos e anos
de leituras, de fichas e de apontamentos, que o esludante ao invés
deve fazer a partir do zero.
43
Quando se fala de seis meses ou (rês anos. pensa-se. evidentemente,
não no tempo da redacção definitiva, que pode levar um mês
ou quinze dias. consoante o método com que se trabalhou: pensa
-se no lapso de tempo que medeia entre a formação da primeira idéia
da tese e a entrega final do trabalho. Assim, pode haver um estudante
que trabalha efectivameme na tese apenas durante um ano mas
aproveitando as idéias e as leituras que. sem saber aonde chegaria,
tinha acumulado nos dois anos precedentes.
O ideal, na minha opinião, é escolher a tese (e t> respectivo orientador)
mais ou menos no final do segundo ano da universidade.
Nesta altura está-se já familiarizado com as várias matérias, conhecendo-
se o conteúdo, a dificuldade e a situação das disciplinas em
que ainda não se fez exame. Uma escolha tão tempcsliva não é
nem comprometedora nem irremediável. Tem-se ainda lodo um ano
para compreender que a idéia era errada e mudar o tema. o orientador
ou mesmo a disciplina. Repare-se que mesmo que se passe
um ano a trabalhar numa tese de literatura grega para depois se verificar
que se prefere uma tese cm história contemporânea, isso não
foi de modo nenhum tempo perdido: pelo menos aprendeu-se a formar
uma bibliografia preliminar, como pôr um texto em ficha, como
elaborar um sumário. Recorde-se o que dissemos no parágrafo I.3.:
uma tese serve sobretudo para aprender a coordenar as idéias, independentemente
do seu tema.
Escolhendo assim a tese por alturas do fim do segundo ano. têm-
-se três verínrs para dedicar à investigação c, na medida do possível,
a viagens de estudo; podem escolher-se os programas de exames
perspectivando-os para a tese, E claro que sc se fizer uma tese de
psicologia experimental, é difícil perspectivar nesse sentido um
exame de literaiura latina; mas com muitas outras matérias de carácler
filosófico e sociológico pode chegar-se a acordo com o docente
sobre alguns textos, talvez em substituição dos obrigatórios, que
façam inserir a matéria do exame no âmbito do nosso interesse dominante.
Quando isto é possível sem especiosa violentação ou truques
pueris, um docente inteligente prefere sempre que um estudante prepare
um exame «motivado» e orientado, e não um exame ao acaso,
forçado, preparado sem paixão, só para ultrapassar um escolho que
não sc pode eliminar.
Escolher a tese no fim do segundo ano significa ter tempo até
Outubro do quarto ano para a licenciatura dentro dos limites ideais,
com dois anos completos à disposição.
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Nada impede que se escolha a tese antes disso. Nada impede que
isso aconteça depois, se se aceitar a idéia de entrar já no período
posterior ao curso. Tudo desaconselha a escolhê-la demasiado tarde.
Até porque uma boa tese deve ser discutida passo a passo com
o orientador, na medida do possível. E isto não tanto para mitificar
o docente, mas porque escrever uma tese é como escrever um
livro, c um exercício de comunicação que pressupõe a existência
de um público — c o orientador é a única amostra de público competente
dc que o estudante dispõe no decurso do seu trabalho. Uma
tese fciia à última hora obriga o orientador a percorrer rapidamente
os diversos capítulos ou mesmo o trabalho já feito. Se for este o
caso. c se o orientador nào ficar satisfeito com o resultado, atacará
o candidato peranlc o júri, com resultados desagradáveis, mesmo
para si próprio, que nunca deveria apresentar-se com uma tese que
não lhe agrade: é uma derrota também para ele. Se pensar que o
candidato não consegue engrenar no trabalho, deve dizer-lho antes,
aconselhando-o a fazer uma outra tese ou a esperar um pouco mais.
Sc depois o candidalo. não obstante estes conselhos, insistir em que
o orientador não tem razão ou que para ele o factor tempo é fundamental,
enfrentará igualmente o risco de uma discussão tempestuosa,
mas ao menos fá-lo-á com plena consciência da situação.
De todas estas observações se deduz que a tese de seis meses,
embora se admita como mal menor, não representa o ideal (a menos
que. como se disse, o tema escolhido nos últimos seis meses permita
aproveitar experiências efectuadas nos anos anteriores).
Todavia, pode haver casos de necessidade em que seja preciso resolver
tudo em seis meses. Trata-se então de encontrar um tema que possa
ser abordado de modo digno e sério naquele período dc (empo. Nào
gostaria que toda esta exposição fosse tomada num sentido demasiado
«comercial", como se estivéssemos a vender «teses de seis meses» e
«teses de três anos», a preços diversos e para todos os tipos dc cliente.
Mas a verdade é que pode haver também uma boa tese de seis meses.
Os requisitos da tese de seis meses são os seguintes:
1) o tema deve ser circunscrito:
2) o tema deve ser tanto quanto possível contemporâneo, para
não ter de se procurar uma bibliografia que remonte aos gregos:
ou então deve ser um tema marginal, sobre o qual se
tenha escrito muito pouco;
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3) os documentos dc iodos os tipos devem encontrar-se disponíveis
numa área restrita e poderem ser facilmente consultados.
Vamos dar alguns exemplos. Se escolher como tema A igreja de
Santa Maria do Castelo de Alexandria, posso esperar encontrar tudo
o que me sirva para reconstituir a sua história e as vicissitudes dos seus
restauros na biblioteca municipal de Alexandria e nos arquivos da
cidade. Digo «posso esperar» porque estou a formular uma hipótese e
me coloco nas condições de um estudante que procura uma tese dc seis
meses. Mas terei de informar-me sobre isso antes de arrancar com o
projecto, para verificar se a minha hipótese é válida. Além disso, terei
de ser um estudante que reside na província de Alexandria; se resido
cm Caltanissetta. tive uma péssima idéia. Além disso, existe um «mas».
Se alguns documentos fossem acessíveis, mas se se tratassem de manuscritos
medievais jamais publicados, teria de saber alguma coisa de paleografia,
ou seja, de dominar uma técnica de leitura e decifração de manuscritos.
E eis que este terna, que parecia tão fácil, se torna difícil.
Se, pelo contrário, verifico que eslã tudo publicado, pelo menos desde
o século XTX para cá, movimento-mc em terreno seguro.
Outro exemplo. Raffaele La Capria c um escritor contemporâneo
que só escreveu três romances c um livro de ensaios, Foram todos
publicados pelo mesmo editor, Bompiani. Imaginemos uma tese
com o título A sorte de Raffaelle lui (.'apria na crítica italiana contemporânea,
Como de uma maneira geral os editores lêm nos seus
arquivos os recortes de imprensa de todos os ensaios crílicos e artigos
publicados sobre os seus autores, com uma serie de visitas à
sede da editora em Milão posso esperar pôr em fichas a quase totalidade
dos textos que me interessam. Além disso, ò autor está vivo
e posso escrever-lhe ou ir entrevistá-lo, colhendo outras indicações
bibliográficas c. quase de certeza, fotocópias de textos que me interessam.
Naturalmente, um dado ensaio crítico remeter-mc-á para
outros autores a que La Capria é comparado ou contraposto. O campo
alarga-se um pouco, mas dc um modo razoável. E. depois, sc escolhi
La Capria é porque já lenho algum interesse pela literatura italiana
contemporânea, de outro modo a decisão teria sido tomada
cinicamente, a frio. c ao mesmo tempo imprudentemente.
Outra tese de seis meses: A interpretação da Segunda Guerra
Mundial nos manuais de História para as escolas secundárias do
último qüinqüênio. E talvez um pouco complicado detectar todos
os manuais dc História cm circulação, mas as editoras escolares não
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são tantas como isso. Uma vez na posse dos textos ou das suas fotocópias,
vê-se que estes assuntos ocupam poucas páginas c o trabalho
de comparação pode ser feito, e bem. em pouco tempo. Evidentemente,
não sc pode avaliar a forma como um manual fala da Segunda Guerra
Mundial sc não compararmos esle tratamento específico com o quadro
histórico geral que esse manual oferece; e. portanto, tem de trabalhar-
-se um pouco em profundidade. Também não se pode começar sem
ler admitido como parâmetro uma meia dúzia de histórias acreditadas
da Segunda Guerra Mundial. É claro que se eliminássemos todas
estas formas de controlo critico, a tese poderia fazer-se não em seis
meses mas numa semana, e então não seria uma tese de licenciatura,
mas um artigo de jornal, talvez, arguto e brilhante, mas incapaz de
documentar a capacidade de investigação do candidato.
Se se quiser fazer a lese de seis meses, mas trabalhando nela
ama hora por dia. então 6 inútil continuar a falar. Voltemos aos conselhos
dados no parágrafo 1.2: copiem uma tese qualquer e pronto.
11.5. E necessário saber línguas estrangeiras?
Este parágrafo não se dirige àqueles que preparam uma tese numa
língua ou literatura estrangeira. E , de facto. desejável que estes
conheçam a língua sobre a qual vão apresentar a tese. Ou melhor,
seria desejável que. se se apresentasse uma tese sobre um autor francês,
esta fosse escrita em francês. E o que se faz em muilas universidades
estrangeiras, e é justo.
Mas ponhamos o problema daqueles que fazem uma tese cm filosofia,
em sociologia, em jurisprudência, em ciências políticas, em
história ou era ciências naturais. Surge sempre a necessidade de ler
um livro escrito numa língua estrangeira mesmo se a tese for sobre
história italiana, seja ela sobre Dante ou sobre o Renascimento, dado
que ilustres especialistas de Dante e do Renascimento escreveram
em inglês ou alemão.
Habitualmcnle, nestes casos aproveita-se a oportunidade da tese para
começar a ler numa língua que não se conhece. Motivados pelo tema
e com um pequeno esforço, começa-se a compreender qualquer coisa.
Muitas vezes urna língua aprende-se assim. Geralmente depois não se
consegue falá-la mas pode-se lê-la. E melhor que nada.
Se sobre um dado tema existe só um livro em alemão e não se sabe
esta língua, pode resolver-se o problema pedindo a alguém para ler os
47
capítulos considerados mais importantes; haverá o pudor de nào basear
demasiado o trabalho naquele livro mas, pelo menos, poder-se-á legitimamente
integrá-lo na bibliografia, uma vez que foi consultado.
Mas todos estes problemas são secundários. O problema principal
é o seguinte: preciso de escolher uma tese que não implique o
conhecimento de línguas que não sei ou que não estou disposto a
aprender. E por vezes escolhemos uma tese sem saber os riscos que
iremos correr. Entretanto, analisemos alguns casos imprescindíveis:
1) Não se pode fazer uma tese sobre um autor estrangeiro se
este autor não for lido no originai A coisa parece evidente se se tratar
de um poeta, mas muitos pensam que para uma tese sobre Kant.
sobre Freud ou sobre Adam Smilh esla precaução não é necessária.
Pelo contrário, é-o por duas razões; antes de mais, nem sempre estão
traduzidas todas as obras daquele aulor c, por vezes, a ignorância
de um texto menor pode comprometer a compreensão do seu pensamento
ou da sua formação intelectual; cm segundo lugar, dado um
autor, a maior parte da literatura sobre cie está geralmente na língua
em que escreveu, e se o autor está traduzido, nem sempre o
estão os seus intérpretes; finalmente, nem sempre as traduções reproduzem
fielmente o pensamento do autor, enquanto fazer uma tese
significa justamente redescobrir o seu pensamento original precisamente
onde o falsearam as traduções ou divulgações de vários gêneros;
fazer uma tese significa ir além das fórmulas difundidas pelos
manuais escolares, do tipo «Foscolo é clássico e Leopardi é romântico
» ou «Platão é idealista e Aristóteles realista» ou, ainda, «Pascal
é pelo coração e Descartes pela razão».
2) Não se pode fazer uma tese sobre um tema se as obras mais
importantes sobre ele estão escritas numa língua que não conhecemos.
Um estudante que soubesse optimamente o alemão c não
soubesse francês, não poderia na prática fazer uma tese sobre
Nietzsche. que. no entanto, escreveu em alemão: e isto porque de há
dez anos para cá algumas das mais importantes análises dc Nietzsche
foram escritas em francês, ü mesmo se pode dizer para Frcud: seria
difícil reler o mestre vienense sem ler em conta o que nele leram
os revisionistas americanos c os estrutura listas franceses.
3) Não se pode fazer uma lese sobre um autor ou sobre um tema
lendo apenas as obras escritas nas línguas que conhecemos, Quem
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nos diz que a obra decisiva não está escrita na única língua que nào
conhecemos? É certo que esta ordem de considerações pode conduzir
à neurose, e é necessário proceder com bom senso. Há regras de
honestidade científica segundo as quais é lícito, se sobre um autor
inglês tiver sido escrito algo em japonês, observar que se conhece a
existência desse estudo mas que não se pode lê-lo. Esta «licença de
ignorar» abarca geralmente as línguas nào ocidentais e as línguas
eslavas, dc modo que há estudos extremamente sérios sobre Marx
que admitem não ter tido conhecimento das obras em russo. Mas
nestes casos o estudioso sério pode sempre saber (e mostrar saber í
o que disseram em síntese aquelas obras, dado que se podem encontrar
recensões ou extractos com resumos. Geralmente as revistas científicas
soviéticas, búlgaras, checas, eslovacas. israelitas, etc, fornecem
em rodapé resumos dos artigos em inglês ou francês. Mas se se trabalhar
sobre um autor francês, pode ser lícito não saber russo, mas
é indispensável ler pelo menos inglês para contornar o obstáculo.
Assim, antes de estabelecer o tema de uma tese, é necessário ter
a prudência de dar uma vista de olhos pela bibliografia existente para
ter a certeza de que não há dificuldades lingüísticas significativas.
Certos casos são a priori evidentes. E impossível apresentar uma
tese em filologia grega sem saber alemão, dado que nesta língua
existem muitos estudos importantes na matéria.
Em qualquer caso. a tese serve para obter umas noções terminológicas
gerais sobre todas as línguas ocidentais, uma vez que.
mesmo que não se leia russo, é necessário estar pelo menos em condições
de reconhecer os caracteres cirílicos e perceber se um livro
citado trata de arte ou de ciência. Ler o cirflico aprende-se num serão
e basta confrontar alguns títulos para compreender que iskusstvo significa
arte e nauha significa ciência. E preciso não nos deixarmos
aterrorizar: a lese deve ser entendida como uma ocasião única para
fazermos um exercício que nos servirá pela vida fora.
Todas estas observações não têm em conta o facto dc que a melhor
coisa a fazer, se sc quiser abordar uma bibliografia estrangeira, é ir
passar algum tempo no país em questão: mas isto é uma solução
cara. e aqui procuramos dar conselhos que sirvam também para os
estudantes que não têm estas possibilidades.
Mas admitamos uma última hipótese, a mais conciliadora.
Suponhamos que há um estudante que sc interessa pelo problema
da percepção visual aplicada à temática das artes. Este estudante
não sabe línguas estrangeiras e não tem tempo para as aprender
(ou lem bloqueios psicológicos: há pessoas que aprendem o sueco
numa semana e outras que em dc/ anos nào conseguem falar razoavelmente
o francês). Além disso, lem de apresentar, por motivos
econômicos, uma lese em seis meses. Todavia, está sinceramenie
interessado no seu lema. quer terminar a universidade para trabalhar,
mas depois tenciona retomar o tema escolhido e aprofundá-lo
com mais calma. Temos lambem de pensar nele.
Bom. este estudante pode encarar um tema do lipo Os problemas
da percepção visual nas suas relações com as artes figurativas cm
alguns autores contemporâneos. Será oportuno traçar, antes de mais,
um quadro da problemática psicológica no tema, e sobre isto existe
uma série de obras traduzidas em italiano, desde o Occhio e cervello
de Gregory até aos textos maiores da psicologia da forma e da psicologia
transaccional. Em seguida, pode focar-se a temática de três
autores, digamos Arnheim, para a abordagem gesialtista. Gombrich
para a semiológico-informacional e Panofsky para os ensaios sobre
a perspectiva do ponto de vista iconológico. Nestes três autores discute-
se, corn base em três pontos de vista diferentes, a relação entre
naturalidade e «culturalidade» da percepção das imagens. Para situar
estes três autores num panorama de fundo, há algumas obras de conjunto,
por exemplo, os livros de Gillo Dorfles. Uma vez traçadas
csias três perspectivas, o estudante poderá ainda tentar reler os dados
problemáticos obtidos ã luz de uma obra de arte particular, reformulando
eventualmente uma interpretação clássica (por exemplo, o
modo como Longhi analisa Piero delia Francescaí e completando-a
com os dados mais «contemporâneos» que Tecolheu. O produto final
não terá nada de original, ficará a meio caminho entre a tese panorâmica
c a tese monográfica. mas terá sido possível elaborá-lo com
base em traduções italianas. O estudante não será censurado por nào
ter lido todo o Panofsky. mesmo o que existe apenas em alemão ou
inglês, porque não se tratará de uma tese sobre Panofsky, mas diurna
tese sobre um problema, ern que só se recorre a Panofsky para
um determinado aspecto, como referência a algumas questões.
Como já se disse no parágrafo II.1, este tipo de lese não é o mais
aconselhável, dado que se corre o risco de ser incompleto e genérico:
fique claro que se trata de um exemplo de tese de seis meses
para estudantes urgentemente interessados em acumular dados preliminares
sobre um problema pelo qual sintam uma atracçào especial.
Trata-se de um expediente, mas pode ser resolvido pelo menos
de uma maneira digna.
50
De qualquer modo. se não se sabe línguas estrangeiras c se não
se pode aproveitar a preciosa ocasião da tese para começar a apreudê-
-las, a solução mais razoável é a lese sobre um lema especificamente
italiano em que as referências à literatura estrangeira possam ser eliminadas
ou resolvidas recorrendo a alguns textos já traduzidos.
Assim, quem quisesse fazer uma tese sobre Modelos do romance
histórico nas obras narrativas de Garibaldi. deveria ter algumas
noções básicas sobre as origens do romance histórico e sobre Walter
Scott (além da polêmica oilocentisia italiana sobre o mesmo assunto,
evidentemente), mas poderia encontrar algumas obras de consulta
na nossa língua e teria a possibilidade de ler em italiano pelo menos
as obras mais importantes dc Walter Scott. sobretudo procurando na
biblioteca as traduções oitocentistas. E ainda menos problemas poria
um tema como A influência de Guerrazzi na cultura do ressurgimento
italiano. Isto. evideniemente, sem nunca partir de um opíimismo
preconcebido: e valerá a pena consultai1 bem as bibliografias,
para ver se houve aulores estrangeiros, e quais, que tenham abordado
este assunto.
11.6. Tese «científica» ou tese política?
Após a coniesiação estudantil de 1968. manifestou-se a opinião
de que não se deveriam fazer teses de temas «culturais» ou livreseos.
mas sim ligadas a determinados interesses políticos e sociais.
Se é esla a questão, então o título do presente capítulo é provocatório
e enganador, porque faz pensar que uma lese «política» não é
«científica». Ora, na universidade fala-se freqüentemente da ciência,
de cientificidade. de investigação científica, do valor científico
de um trabalho, e este termo pode dar lugar quer a equívocos involuntários,
quer a mistificações ou a suspeitas ilícitas de embalsamamemo
da cultura.
IT.6.1. Que é a cientificidade?
Para alguns, a ciência identifica-se com as ciências naturais ou
com a investigação em bases quantitativas: uma investigação não é
científica se não procede através de fórmulas e diagramas. Nesta
acepção, portanto, não seria científico ura estudo sobre a moral em
51
Aristóteles, mas também não o seria um estudo sobre consciência
de classe e revoltas camponesas durante a reforma protestante.
Evidentemente, nào é este o sentido que se dá ao termo «científico»
na universidade. Procuremos, pois. definir a que título um trabalho
pode dizer-se científico em sentido lato.
O modelo pode muito bem ser o das ciências naturais como foram
apresentadas desde o início da idade moderna. Uma pesquisa é científica
quando responde aos seguintes requisitos:
1) A pesquisa debruça-se sobre um objecto reconhecível e definido
de tal modo que seja igualmente reconhecível pelos outros,
O termo objecto não tem necessariamente um significado físico. A raiz
quadrada também é um objecto. embora nunca ninguém a tenha visto.
A classe social é um objecto de estudo, ainda que alguém possa contestar
que se conhecem apenas indivíduos ou médias estatísticas c não
classes propriamente ditas. Mas. então, também não teria realidade
física a classe de todos os números inteiros superiores a 3725, dc que
seria muito natural que um matemático se ocupasse. Definir o objecto
significa assim, definir as condições em que podemos falar dele baseando-
nos cm algumas regras que estabelecemos ou que outros estabeleceram
antes de nós. Se fixarmos as regras segundo as quais urn
número inteiro superior a 3725 possa ser reconhecido onde quer que
se encontre, teremos estabelecido as regras de reconhecimento do
nosso objecto. Surgem evidentemente problemas se, por exemplo,
temos de falar de um ser fabuloso cuja inexistência é geralmente reconhecida,
como o centauro. Neste caso, temos três possibilidades. Em
primeiro lugar, podemos decidir falar dos centauros tais como são
apresentados na mitologia clássica e, assim, o nosso objecto torna-se
pubHeamente reconhecível e identificável, dado que trabalhamos com
textos (verbais ou visuais) em que se fala de centauros. Trala-se então
de dizer quais as características que deve ter um ser de que fala a
mitologia clássica para que seja reconhecível como centauro.
Em segundo lugar, podemos ainda decidir levar a cabo uma indagação
hipolética sobre as características que deveria ter uma criatura
que vivesse num mundo possível (que não é o real) para poder ser um
centauro. Temos então de definir as condições de subsistência deste
mundo possível, sublinhando que todo o nosso estudo se processa no
âmbito desta hipótese. Se nos mantivermos rigorosamente fiéis ao pressuposto
inicial, podemos dizer que falamos de um «objecto» que lem
uma certa possibilidade de ser objecto de investigação científica.
52
Em terceiro lugar, podemos decidir que temos provas suficientes
para demonstrar que os centauros existem, de facto. Neste caso.
para constituir um objecto sobre o qual se possa trabalhar, teremos
de produzir provas (esqueletos, restos de ossos, impressões em lavas
vulcânicas, fotografias efectuadas com raios infravermelhos nos bosques
da Grécia ou outra coisa qualquer), de modo a que os outros
possam admitir o facto de, seja a nossa hipótese correcta ou errada,
haver algo sobre que se pode discutir.
É claro que este exemplo é paradoxal e não creio que alguém
queira fazer teses sobre centauros, sobretudo no que se refere à
terceira alternativa, mas permitiu-me moslrar como, em cenas
condições, se pode sempre constituir um objecto de investigação
publicamente reconhecível. E se se pode fazê-lo com os centauros.
mesmo se poderá dizer de noções como comportamento moral,
desejos, valores ou a idéia do progresso histórico.
2) A pesquisa deve dizer sobre esle objecio coisas que não tenham
já sido ditas ou rever com uma óptica difcrcnie coisas que já foram
ditas. Um trabalho matematicamenle exacio que servisse para demonstrar
pelos métodos tradicionais o leorcma dc Pitágoras não seria um
trabalho científico, uma vez que não acrescentaria nada aos nossos
conhecimentos. Seria, quando muito, um bom trabalho de divulgação,
como um manual que ensinasse a construir uma casota para cão
utilizando madeira, pregos, plaina, serra e martelo. Como já dissemos
em I.I.. também uma lese dc compilação pode ser cientificamente útil
na medida em que o compilador reuniu e relacionou de uma forma
orgânica as opiniões já expressas por outros sobre o mesmo tema. Da
mesma maneira, um manual dc instruções sobre como fazer uma casota
para cão não c trabalho científico, mas a uma obra que confronte e
discuta todos os métodos conhecidos para fazer uma casota para cão
pode já atribuir-se uma modesta pretensão de cientificidade.
Há só que ter presente uma coisa: uma obra de compilação só
tem utilidade científica se não existir ainda nada de semelhante nesse
campo. Sc existem já obras comparativas sobre sistemas para casotas
dc cão. fazer uma igual é perda de tempo (ou plágio).
3) A pesquisa deve ser útil aos outros. E útil um artigo que apresente
uma nova descoberta sobre o comportamento das partículas elementares.
E útil um artigo que conte como foi descoberta uma carta
inédita de Leopardi e a transcreva por inteiro. Um trabalho é científico
53
sc (observados os requisitos expressos nos ponlos I e 2) acrescentai'
alguma coisa àquilo que a comunidade já sabia c se iodos os tnibalhos
futuros sobre o mesmo tema o tiverem, pelo menos cm icoria. de tomar
em consideração. Evidentemente, a importância científica é proporcional
ao grau dc indispcnsabüidade que o contributo exibe. Há contributos
após os quais os estudiosos, se nào os tiverem em conta, não podem
dizer nada de positivo. E há outros que os estudiosos não fariam mal
em ter em conta mas, sc não o fizerem, não vem mal nenhum ao mundo.
Recentemente, foram publicadas cartas que James Joycc escrevia ã
mulher sobre escaldantes problemas sexuais. E claro que alguém que
amanhã estude a gênese da personagem de Molly Bloom no Ulisses de
Joyce. poderá ser ajudado pelo faelo de saber que. na vida privada, Joyce
atribuía à mulher uma sexualidade viva e desenvolvida como a dc Molly;
iraia-se. portanto, de um útil conlribulo científico. Por outro lado. há
admiráveis interpretações dc Ulisses em que a personagem Molly é
focada de uma maneira corrccia mesmo sem se terem em conta aqueles
dados; trata-se. portanto, dc um contributo dispensável. Pelo contrário,
quando foi publicado Stephen Heiv. a primeira versão do romance
joyciano Retrato do artista quando jovem, todos estiveram de acordo
que era essencial lê-lo em consideração para compreender a evolução
do escritor irlandês. Era um contributo científico indispensável.
Ora. qualquer um poderia revelar um desses documentos que, freqüentemente,
são objecto de ironia a propósito dos rigorosíssimos
filólogos alemães, que se chamam «contas da lavadeira», e que são
efectivamente textos de valor ínfimo, em que talvez o autor tenha
anotado as despesas a fazer naquele dia. Por vezes, dados deste gênero
lambem são úteis, pois podem conferir um tom dc humanidade a um
artista que todos supunham isolado do mundo, ou revelar que nesse
período ele vivia assaz pobremente. Outras vezes, pelo contrário, não
acrescentam nada àquilo que já se sabia, são pequenas curiosidades
biográficas e não têm qualquer valor científico, embora haja pessoas
que arranjam fama de investigadores incansáveis revelando semelhantes
inépcias. Não que sc deva desencorajar quem se diverte a
fazer semelhantes investigações, mas não se pode falar de progresso
do conhecimento humano e seria muito mais útil. se não do ponto de
vista científico pelo menos do pedagógico, escrever um bom livrinho
de divulgação que contasse a vida e resumisse as obras do autor.
4) A pesquisa deve fornecer os elementos para a confirmação e
para a rejeição das hipóteses que apresenta c. portanto, deve fornecer
54
os elementos para uma possível continuação pública. Este é um requisito
fundamental. Eu posso querer demonstrar que existem centauros
no Peloponeso. mas devo fazer quatro coisas precisas: a) produzir
provas (como se disse, pelo menos um osso caudal );b) dizer como procedi
para enconlrar o achado; c) dizer como se deveria proceder para
encontrar outros; d) dizer possivelmente que tipo dc osso (ou de outro
achado), no dia em que fosse encontrado, destruiria a minha hipótese.
Deste modo, não só forneci as provas da minha hipótese, mas
procedi de modo a que outros possam continuar a procurar, seja para
a confirmar seja para a pôr em causa.
O mesmo sucede com qualquer outro tema. Admitamos que faço
uma tese para demonstrar que num movimento extraparlamentar de
1969 havia duas componentes, uma leninista c outra trotskista, embora
se considere geralmente que ele era homogêneo. Tenho de apresentar
documentos (panfletos, registos dc assembléias, artigos, etc.) para
demonslrar que lenho razão; terei de dizer como procedi para enconlrar
aquele material e onde o encontrei, de modo que outros possam
continuar a investigar naquela direcção; e terei de dizer segundo que
critério atribuí o material de prova a membros desse grupo. Por exemplo,
sc o grupo se dissolveu em 1970, tenho de dizer se considero expressão
do grupo apenas o material teórico produzido pelos seus membros
até tal data (mas, então, terei de dizer quais os critérios que me levam
a considerar certas pessoas membros do grupo: inscrição, participação
nas assembléias, suposições da polícia?): ou se considero ainda textos
produzidos por ex-membros do grupo após a sua dissolução, partindo
do princípio de que. se expressaram depois aquelas idéias, isso significa
que já as cultivavam, talvez em surdina, durante o período de actividade
do grupo. Só desse modo forneço aos outros a possibilidade de
fazer novas investigações e de mostrar, por exemplo, que as minhas
observações estavam erradas porque, digamos, nào se podia considerar
membro do grupo um fulano que fazia parte dele segundo a polícia
mas que nunca foi reconhecido como tal pelos outros membros, pelo
menos a avaliar pelos documentos de que se dispõe. Apresentámos
assim uma hipótese, provas e processos de confirmação e de rejeição.
Escolhi propositadamente temas muito diferentes, justamente para
demonstrar que os requisitos de cientificidade podem aplicar-se a
qualquer tipo de investigação.
Tudo o que acabei de dizer refere-se ã oposição artificial entre
tese «científica» e lese «política». Pode fazer-se uma lese política
55
observando Iodas as regras de cientificidade necessárias. Pode também
haver uma tese que relate uma experiência de informação alternativa
mediante sistemas audiovisuais numa comunidade operária:
ela será científica na medida em que documentar de modo público
e controlável a minha experiência e permitir a alguém refazê-la quer
para obter os mesmos resultados, quer para descobrir que os meus
haviam sido casuais e nào eram efectivamente devidos à minha intervenção,
mas a outros factores que nào considerei.
0 aspecto positivo dc um método científico é que ele nunca faz
perder tempo aos outros: mesmo trabalhar na esteira de uma hipótese
científica, para depois descobrir que é necessário refutá-la. significa
ter feito qualquer coisa dc útil sob o impulso de uma proposta
anterior. Se a minha tese serviu para estimular alguém a fazer outras
experiências de contra-informação entre operários (mesmo se os
meus pressupostos eram ingênuos), consegui alguma coisa de útil.
Neste sentido, vê-se que não há oposição entre tese científica e
tese política. Por um lado, pode dizer-se que todo o trabalho científico,
na medida em que contribui para o desenvolvimento do conhecimento
alheio, tem sempre um valor político positivo (tem valor
político negativo toda a acção que tenda a bloquear o processo de
conhecimento), mas. por outro, deve dizer-se com toda a segurança
que qualquer empreendimento político com possibilidade dc sucesso
deve ter uma base de seriedade científica.
E, como viram, pode fazer-se uma tese «científica» mesmo sem
utilizar os logaritmos ou as provetas.
II.6.2. Temas hislórico-teóricos ou experiências «cfuentes»?
Nesta altura, porém, o nosso problema inicial apresenta-se reformulado
de outro modo: será mais úiil fazer uma tese de erudição ou
uma tese ligada a experiências práticas, a empenliamentos sociais
directos? Por outras palavras, será mais útil fazer uma tese em que
se fale dc autores célebres ou de textos antigos, ou uma tese que me
imponha uma intervenção directa na eontemporaneidade. seja esta
intervenção dc ordem teórica (por exemplo: o conceito de exploração
na ideologia ncocapitalista) ou de ordem prática (por exemplo: pesquisa
das condições dos habitantes de barracas na periferia de Roma)?
Só por si. a pergunta é ociosa. Cada um faz aquilo que lhe agrada,
e. se um estudante passou quatro anos a estudar filologia românica, nin-
56
guém pode pretender que se ocupe dos habitantes das barracas, tal como
seria absurdo pretender um acto de «humildade acadêmica» da parte de
quem passou quatro anos com Danilo Dolci. pedindo-lhe uma tese sobre
os Reis de França.
Mas suponhamos que a pergunta é feita por um estudante em
crise, que pergunta a si mesmo para que lhe servem os estudos universitários
e. especialmente, a experiência da lese. Suponhamos que
este estudante tem interesses políticos e sociais acentuados e que teme
trair a sua vocação dedicando-se a temas «livreseos».
Ora, se eleja se encontra mergulhado numa experiência político-
-social que lhe deixa entrever a possibilidade de daí extrair um discurso
conclusivo, será bom que encare o problema dc como tratar
cientificamente a sua experiência.
Mas se esta experiência nào foi feita, enlào parece-me que 3 pergunta
exprime apenas numa inquietação nobre, mas ingênua. Dissemos
já que a experiência de investigação imposta por uma tese serve sempre
para a nossa vida futura (profissional ou política), c não tanto pelo
tema que se escolher quanto pela preparação que isso impõe, pela escola
dc rigor, pela capacidade de organização do material que ela requer.
Paradoxalmente, poderemos assim dizer que um estudante com
interesses políticos não os trairá se fizer uma tese sobre a recorrência
dos pronomes demonstrativos num escritor de botânica do
éculoxvm. Ou sobre a teoria do impetus na ciência pré-galilaica.
Ou sobre as geometrias não euclidianas. Ou sobre o nascimento do
direito eclesiástico. Ou sobre a seila mística dos hesicastas2. Ou sobre
a medicina árabe medieval. Ou sobre o artigo do código de direito
penal relativo à agitação nas praças públicas.
Podem cultivar-se interesses políticos, por exemplo sindicais,
mesmo fazendo uma boa tese histórica sobre os movimentos operários
do século passado. Podem compreender-se as exigências contemporâneas
de contra-informação junto das classes subalternas estudando
o estilo, a difusão, as modalidades produtivas das xilografias populares
no período do renascimento.
E. para ser polêmico, aconselharei ao estudante que até hoje só
tenha tido actividade política e social, justamente uma deslas leses.
: llesicasia monge grego dc uma seiia (sécs. xt-xiv) cujo fim era o dc viver
dc acordo com as regras dc solidão para atingir a tranqüilidade cspiritti.il. Bascia-
-sc na doutrina da transfiguração emanada da divindade, modificando o aseeiismo
sinaita c o misticismo dc Simeãu. (NR)
57
e não o relato das suas experiências directas, pois é evidente que o
trabalho dc lese será a última oportunidade que terá para obter conhecimentos
histéricos, leóricos e técnicos c para aprender sistemas de
documentação (além de reflectir a partir de uma base mais ampla
sobre os pressupostos teóricos ou históricos do seu trabalho político).
Evidentemente, esia é apenas a minha opinião. E por respeitar unia
opinião diferente que me coloco no ponto de vista de quem. mergulhado
numa actividade política queira utilizar a tese ern vista do seu trabalho
c as suas experiências dc trabalho político para a redacção da tese.
Isto é possível e pode fazer-se um óptimo trabalho; mas devo
dizer, com toda a clareza c severidade, uma série de coisas, precisamente
em defesa da respeitabilidade de uma iniciativa deste tipo.
Sücctíe por vezes que o estudante atamanca uma centena de páginas
que reúnem panfletos, registos de debates, descrições de actividades
e estatísticas eventualmente tornadas de empréstimo dc um trabalho
precedente, e apresenta o seu trabalho como tese «política». E acontece
por ve/cs que o júri de tese. por preguiça, demagogia ou incompetência,
considera o trabalho bom. Trata-se, pelo contrário, de uma
palhaçada e não apenas relativamente aos critérios universitários, mas
mesmo relativamente aos critérios políticos. Há um modo sério e um
modo irresponsável de fazer política. Um político que decida um plano
de desenvolvimento sem ter informações suficientes sobre a situação
da sociedade é, quando não um criminoso, pelo menos um palhaço.
E podemos prestai' um péssimo serviço ao nosso partido político fazendo
uma tese política destituída de requisitos científicos.
Dissemos em IT.6.1. quais são estes requisitos e como eles sào
essenciais para uma intervenção política séria. Uma vez. vi um estudante
que fazia um exame sobre problemas dc comunicação de massas
afirmar que havia feito um «inquérito» ao público da televisão
junto dos trabalhadores de uma dada zona. Na realidade, tinha interrogado,
de gravador em punho, uma dúzia de habitantes dos subúrbios
durante duas viagens de comboio. Era natural que o que se retirava
desta transcrição de opiniões não fosse um inquérito. E não apenas
porque não tinha os requisitos dc verificabilidade de um inquérito
digno desse nome, mas também porque os resultados que dai se tiravam
eram coisas que podíamos muito bem imaginar sem fazer inquéritos.
Para dar um exemplo, pode prever-se. mesmo ficando sentado
à secretária, que, de doze pessoas, a maioria diga que gosta de ver
as transmissões directas dos jogos de futebol. Assim, apresentar um
pseudo-inquérito de trinta páginas para chegar a este belo resultado
58
é uma palhaçada. E é o estudante que se engana a ele próprio pensando
ter obtido dados «objeetivos», quando se limitou a confirmar
de uma forma aproximada as suas opiniões.
Ora. o risco da superficialidade apresenta-se em especial ãs teses
de caracter político, por duas razões: a) porque numa tese histórica
ou filológica existem métodos tradicionais de investigação a que o
investigador não se pode subtrair, enquanto para trabalhos sobre
fenômenos soeiais cm evolução muitas vezes o método tem dc ser
inventado (por este motivo, freqüentemente uma boa tese política é
mais difícil do que uma tranqüila tese histórica); b) porque muita
metodologia da investigação social «à americana» observou os métodos
estalístico-quantitativos, produzindo esludos enormes que não
contribuem para a compreensão dos fenômenos reais e, por conseqüência,
muitos jovens politizados assumem uma atitude de desconfiança
relativamente a esta sociologia que, quando muito, é uma
«sociometria», acusando-a de servir pura e simplesmente o sistema de
que constitui a cobertura ideológica: contudo, para reagir a este tipo
de investigação tende-se por vezes a não fazer investigação alguma,
transformando a tese numa seqüência dc panfletos, de apelos ou de
asserções meramente teóricas.
Como se escapa a este risco? De muilas maneiras: analisando estudos
«sérios» sobre temas semelhanles, não sc lançando num trabalho
de investigação social se. pelo menos, não sc acompanhou a actividade
de um grupo já com alguma experiência, munindo-se de alguns
métodos de recolha e análise dos dados, não contando fazer em poucas
semanas trabalhos de investigação que habitualmente são longos e difíceis...
Mas como os problemas variam segundo os campos, os temas e
a preparação do estudante — e não sc podem dar conselhos genéricos
— limitar-me-ei a um exemplo. Escolherei um tema «novíssimo», para
o qual parece não existirem precedentes de investigação, um tema de
actualidade escaldante, de indubi laveis conotações políticas, ideológicas
c práticas — e que muitos professores tradicionalistas definiram como
«meramente jornalístico»: o fenômeno das estações de rádio independentes.
II.6.3. Como Transformar um assunto da actualidade em tema
científico
É sabido que nas grandes cidades surgiram dezenas e dezenas
destas estações, que há duas. três e quatro mesmo em centros de
59
uma centena de milhar dc habitantes, que elas aparecem em toda a
parte. Que são de natureza política ou de natureza comercial. Que
têm problemas legais, mas que a legislação é ambígua c está em
evolução, e entre o momento em que escrevo (ou faço a tese) e o
momento em que este livro for publicado (ou a tese for discutida)
a situação ler-se-á já alterado.
Terei pois. antes de mais. de definir com exactidão o âmbito geográfico
e temporal do meu estudo. Poderá ser apenas As rádios livres
de 1975 a 1976, mas terá de ser completo. Se decidir analisar apenas
as rádios milanesas. sejam as rádios milanesas, mas toda*;. De
outro modo. o meu estudo será incompleto, uma vez que pode dar-
-se o caso de ter descurado a rádio mais signifiealiva quanto a programas,
índice dc audiência, composição cultural dos seus responsáveis
ou localização (periferia, bairros, centro).
Admita-se que decidi trabalhar sobre urna amostra nacional dc
trinta rádios: terei dc estabelecer os critérios de escolha da amostra
c, se a realidade nacional é que para cada cinco rádios políticas há
três comerciais (ou para cinco de esquerda uma de extrema-direita).
não deverei escolher uma amostra de trinta rádios em que vinte e
nove sejam políticas e de esquerda (ou vice-versa), porque desse
modo a imagem que dou do fenômeno será à medida dos meus desejos
ou dos meus temores e não à medida da situação real.
Poderei ainda decidir (e voltamos à tese sobre a existência de
centauros num mundo possível) renunciar ao estudo das rádios tal
como são e. pelo contrário, propor um projecto de rádio livre ideal.
Mas neste caso, por um lado, o projecto tem de ser orgânico e realista
(não posso pressupor a existência de aparelhos que nào existem
ou que não são acessíveis a um pequeno grupo privado) e. por
outro, não posso elaborar um projecto ideal sem ter em conta as
linhas tendenciais do fenômeno real, pelo que. ainda neste caso. é
indispensável um estudo preliminar sobre as rádios existentes.
Em seguida, deverei tomar públicos os parâmetros de definição
de «rádio livre», isto é. tornar publicamente identificável o objecto dc
pesquisa.
Entendo por rádio livre apenas uma rádio de esquerda? Ou uma
rádio feita por um pequeno grupo em situação semilegal em território
nacional? Ou uma rádio nào dependente do monopólio, ainda
que porventura se trate de uma rede articulada com propósitos meramente
comerciais? Ou devo ter presente o parâmetro territorial e
considerar rádio livre apenas uma rádio de S. Marino ou de Monte
60
Cario? Seja como for, terei de expor os meus critérios e explicar
por que excluo certos fenômenos do campo de investigação,
Obviamente, os critérios deverão ser razoáveis, ou os termos que
utilizo terão de ser definidos de uma forma não equívoca: posso
decidir que. para mim. só são rádios livres aquelas que exprimem
uma posição de extrema-esquerda. mas então lenho de ter em conta
que geralmente com a designação «rádio livre» se referem lambem
outras rádios e não posso enganar os meus leitores fazcndo-lhes crer
ou que falo também delas ou que elas não existem. Neste caso, terei
de especificar que contesto a designação «rádio livre» para as rádios
que não quero examinar (mas a exclusão deverá ser justificada) ou
escolher para as rádios de que me ocupo uma denominação genérica
Chegado a este ponto, deverei descrever a estrutura de uma rádio
livre sob o aspecto organizativo. econômico c jurídico. Se nalgumas
delas trabalham profissionais a tempo inteiro c noutras trabalham
militantes rotativamente, terei de construir uma tipologia organizativa.
Deverei ver se todos estes tipos têm características comuns
que sirvam para definir um modelo abstracto de rádio independente,
ou se a expressão «rádio livre» cobre uma série multiforme de experiências
muito diferentes. E eompreendereis imediatamente como
o rigor científico dcsla análise também é útil para efeitos práticos,
uma vez que. se quisesse constituir uma rádio livre, teria de saber
quais são as condições õptimas para o seu funcionamento.
Para construir uma tipologia que se possa tomar em considera-
, poderei, por exemplo, proceder à elaboração de um quadro que
inclua todas as características possíveis em função das várias rádios
que eslou a analisar, tendo na vertical as características de uma dada
rádio e na horizontal a freqüência estatística de uma dada característica.
Apresentamos a seguir um exemplo puramente orientador c
de dimensões reduzidíssimas, respeitante a quatro parâmetros — a
presença de operadores profissionais, a proporção música-palavra,
a presença de publicidade e a caracterização ideológica — aplicados
a sete rádios imaginárias.
Um quadro deste gênero dir-me-ia, por exemplo, que a Rádio
Pop é feita por um grupo não profissional, com uma caracterização
ideológica explícita, que transmite mais música do que intervenções
faladas e que aceita publicidade. E . simultaneamente, dir-me-ia que
a presença da publicidade ou o predomínio da música sobre o elemento
falado não são necessariamente opostos à caracterização ideológica,
dado que encontramos pelo menos duas rádios nestas condições.
61
enquanto só uma única com caracterização ideológica c predomínio
do elemento falado sobre a música. Por outro lado. não há nenhuma
sem caracterização ideológica que não tenha publicidade e em que
prevaleça o elemento falado, E assim por diante. Este quadro é puramente
hipotético e considera poucos parâmetros e poucas rádios;
portanto, não permite tirar conclusões estatísticas dignas de consideração.
Tratava-se apenas dc uma sugestão.
Mas como obter esles dados? As fontes são três: dados oficiais,
declarações dos interessados c protocolos de audição.
Dados oficiais: são sempre os mais seguros, mas sobre as rádios
independentes existem muito poucos. Normalmente, há um registo
nas autoridades de segurança pública. Em seguida, deveria haver
num notário o acto constitutivo da sociedade ou qualquer coisa do
gênero, mas nào se sabe se é possível vê-lo. Se se chegar a uma
regulamentação mais precisa, poderão encontrar-se outros dados,
'as de momento nào há mais nada. Lembremos, todavia, que dos
dados oficiais fazem parte o nome, a banda de transmissão e as horas
de actividade. Uma tese que fornecesse pelo menos esles três elementos
para todas as rádios constituiria já um contributo útil.
As declarações dos interessados. Para o efeito interrogam-se os
responsáveis das rádios. O que disserem constitui um dado objecüvo,
desde que seja evidente, que se trata daquilo que eles disseram
e desde que os critérios de recolha das entrevistas sejam
homogêneos. Trata-se dc elaborar um questionário, dc modo a que
todos respondam a todos os temas que consideramos importantes,
e que a recusa de responder sobre um determinado problema seja
registada. Não é obrigatório que o questionário seja seco e conciso,
para ser respondido com um sim ou um nào. Se todos os directores
fizerem uma declaração programática. o registo dc todas estas
declarações poderá constituir um documento útil. Entendamo-nos
bem sobre a noção de «dado objectivo» num caso deste tipo. Se o
director diz «nós não temos objectivos políticos e não somos financiados
por ninguém», isto não significa que ele diga a verdade: mas
é um dado ohjectivo o facto de a emissora se apresentar publicamente
com esse aspecto. Quando muilo, poderá refutar-se esta afirmação
através de uma análise crítica do conteúdo dos programas
transmitidos por aquela rádio. Com o que chegamos à terceira fonte
de informação.
63
Protocolos de audição. É o aspecto da tese em que poderá assinalar-
se a diferença entre o trabalho serio e o trabalho diletante.
Conhecer a actividade de uma rádio independente significa tê-la
acompanhado durante alguns dias. digamos uma semana, hora a
hora. elaborando uma espécie de grelha que mostra o que transmite
e quando, qual a duração das rubricas, tempo dc música e do elemento
falado, quem participa nos debates, sc existem e sobre que
temas, e assim por diante. Na tese não poderemos incluir tudo o
que transmitiram durante a semana, mas poderemos referir os elementos
significativos (comentários a canções, compassos de espeni
durante um debate, modos de dar uma notícia) dos quais ressalte
um perfil artístico, lingüístico e ideológico da emissora em questão.
Existem modelos de protocolos de audição da rádio e da televisão
elaborados durante alguns anos pela A R O I dc Bolonha, onde
foram cronometradas a extensão das notícias, a recorrência de cerlos
termos e assim por diante. Uma vez feito este estudo para várias
rádios, poderemos proceder às comparações: por exemplo, como a
mesma canção ou a mesma notícia de actualidade foi apresentada
por duas ou mais estações diferentes.
Poderíamos ainda comparar os programas da rádio de monopólio
com os das rádios independentes: proporção música-clcmcnto
falado, proporções entre notícias e passatempos, proporções entre
programas e publicidade, proporções enlre música clássica e música
ligeira, entre música italiana e música estrangeira, entre música ligeira
tradicional e música ligeira «jovem™, etc. Como se vê. a partir de
uma audição sistemática, munidos dc um gravador e de um lápis,
podem tirar-se muitas conclusões que provavelmente não se manifestariam
nas entrevistas aos responsáveis.
Por vezes, a simples comparação entre diversos comitentes publicitários
(proporções entre restaurantes, cinemas, editoras, etc.) pode
dizer-nos alguma coisa sobre as fontes de financiamento (de outro
modo ocultas) de uma dada rádio.
A única condição é que não inlroduzamos impressões ou induções
arriscadas do tipo «se ao meio-dia transmitiu música pop e
publicidade da Pan American, isso significa que é uma rádio americanófila
». uma vez que é preciso saber também o que foi transmitido
à uma. às duas. às três e à segunda-feira, à terça e à quarta.
Se as rádios são muitas, só temos dois caminhos: ou ouvir todas
ao mesmo tempo, constituindo um grupo de audição com tantos
regisiadorvs quantas as rádios (é a solução mais séria, pois permite
M
comparar as várias emissoras numa mesma semana) ou ouvir uma
por semana. Porém, neste último caso. terá de se trabalhar constantemente,
de modo a fazer os registos uns a seguir aos outros sem tornar
heterogêneo o período de audição, que não pode cobrir o espaço
de seis meses ou de um ano, dado que neste sector as mutações são
rápidas e freqüentes e não teria sentido comparar os programas da
Rádio Beta em Janeiro com os da Rádio Aurora em Agosto, pois,
nesse intervalo, quem sabe o que teria acontecido à Rádio Bela.
Admitindo que todo este trabalho tenha sido bem feito, o que resta
fazer ainda? Uma quantidade dc outras coisas. Enumeremos algumas:
— Estabelecer índices de audiência; nào há dados oficiais c nào
podemos fiar-nos apenas nas declarações dos responsáveis; a
única alternativa é uma sondagem com o método do telefonema
ao acaso («que rádio está a ouvir neste momento?»).
E o método seguido pela R A I . mas exige uma organização específica,
um tanto dispendiosa. Mais vale renunciar a este inquérito
do que registar impressões pessoais do tipo «a maioria
das pessoas ouve Rádio Delta» só porque cinco amigos nossos
declararam ouvi-la. O problema dos índices de audiência
mostra-nos como se pode trabalhar cientificamente num fenômeno
tão contemporâneo e actual, mas como é difícil fazê-
-lo; é melhor uma tese de história romana, é mais fácil.
— Registar a polêmica na imprensa c as eventuais opiniões sobre
as diversas rádios.
— Fazer uma recolha e um comentário orgânico das leis relativas
a esta questão, de modo a explicar como as várias emissoras
as iludem ou as cumprem, c que problemas daí advêm.
— Documentar as posições relativas dos vários partidos. Tentar
estabelecer tabelas comparativas dos custos publicitários.
Talvez os responsáveis das várias rádios não no-lo digam, ou
nos mintam, ruas sc a Rádio Delta faz publicidade ao restaurante
A i Pini. poderia ser fácil obter, do respectivo proprietário,
o dado que nos interessa.
— Fixar um aconteeimento-amostra (em Junho dc 1976 as eleições
políticas teriam sido um assunto exemplar) e registar
como foi tratado por duas. três ou mais rádios.
— Analisar o estilo lingüístico tias várias rádios (imitação dos locuti>-
res da RAI. imitação dos disc-jockey americanos, uso de terminologias
de grupos políticos, adesão a modelos dialeciais. etc).
65
— Analisar o modo como certas transmissões da R A I foram
influenciadas (quanto à escolha dos programas c aos usos lingüísticos)
pelas emissões das rádios livres.
- Recolha orgânica de opiniões sobre as rádios livres da parte
dc juristas, líderes políticos, etc. Três opiniões apenas fazem
um artigo de jornal, cem opiniões fa/cm um inquérito.
— Recolha de toda a bibliografia existente sobre o assunto, desde
livros e artigos sobre experiências semelhantes noutros países,
até aos artigos dos mais remotos jornais de província ou
de pequenas revistas, de maneira a recolher a documentação
mais completa possível.
É claro que nào é necessário fazer todas estas coisas. Uma só. desde
que bem feita e completa, constitui já um tema para uma tese. Nem se
disse que estas são as únicas coisas a fazer. Limitei-me a alinhar alguns
exemplos para mostrar como. mesmo sobre um tema tão pouco «erudito
» e sobre o qual não há literatura crítica, se pode fazer um trabalho
científico, útil aos outros, que se pode integrar numa investigação mais
vasta, indispensável para quem queira aprofundar o assunto, e sem
impressionismos. observações ao acaso ou extrapolações arriscadas.
Portanto, para concluir: tese científica ou tese política'.' Falsa
questão. É tão científico fazer uma tese sobre a doutrina das idéias
em Platão como sobre a política da Lotta Continua de 1974 a 1976.
Se é uma pessoa que quer trabalhar seriamente, rcflicia antes de
escolher, porque a segunda tese é indubitavelmente mais difícil do
que a primeira e exige maior maturidade científica. Quanto mais
não seja. porque não terá bibliotecas em que sc apoiar, mas antes
uma biblioteca para organizar.
Pode. assim, fazer-se de uma forma científica uma lese que omros
definiriam, quanlo ao lema. como puramente «jornalística». E pode
fazer-se de um modo puramente jornalístico uma tese que. a avaliar
pelo título, teria todos os atributos para parecer científica.
TT.7. Como evitar deixar-se explorar pelo orientador
Por vezes, o estudante escolhe um tema de acordo com os seus
interesses. Outras vezes, pelo contrário, aceita a sugestão do professor
a quem pede que oriente a tese.
Ao sugerirem temas, os professores podem seguir dois critérios
diferentes: indicar um tema que conheçam muito bem c no qual
66
poderão facilmente seguir o aluno, ou indicar um tema que não
conheçam suficientemente bem e sobre o qual quereriam saber mais.
Diga-se desde já que. contrariamente ao que se possa pensar ã primeira
vista, o segundo critério é o mais honesto e generoso. O docente
considera que. ao acompanhar essa tese, ele próprio será levado a alargar
os seus horizontes, pois se quiser avaliar bem o candidato e ajudá-lo
durante o trabalho, terá de debruçar-se sobre algo de novo. Geralmente,
quando o docente escolhe esta segunda via é porque confia no candidato.
E normalmente diz-lhe explicitamente que o tema também é novo
para ele e que lhe inieressa aprofundá-lo. Há. por outro lado. docentes
que se recusam a propor teses sobre campos já muito batidos,
embora a situação actual da universidade dc massas conuibua para
moderar o rigor dc muitos e para os tornar mais compreensivos.
Há. porém, casos específicos em que o docenle está a fazer um
trabalho de grande fôlego para o qual tem necessidade de muitos
dados, e decide utilizar os candidatos como participantes de um trabalho
de equipa. Ou seja. durante um dado número de anos. ele
orienta as teses num determinado sentido.
Se for um economista interessado na situação da indústria num
certo período, orientará teses relativas a sectores particulares, com
o objectivo de estabelecer um quadro completo da questão. Ora este
critério é não só legítimo como cientificamente útil: o trabalho de
tese contribui para uma investigação de alcance mais amplo no interesse
colectivo. E isso é útil mesmo do ponto de vista didáctico.
pois o candidato poderá servir-se dos conselhos de um docente muito
informado sobre o assunto e poderá utilizar como material de fundo
e de comparação as teses já elaboradas por outros estudantes sobre
lemas correlarivos e limítrofes. Se, depois, o candidato fizer um bom
trabalho, poderá esperar uma publicação, pelo menos parcial, dos
seus resultados, eventualmente no âmbito de uma obra coleetiva.
Há. porém, alguns inconvenientes possíveis:
1. O docente está muito ligado ao seu lema e força o candidalo
•. por seu lado. não tem nenhum interesse naquela direcção. O estudante
torna-se então um aguadeiro. que se limita a recolher afadigadamente
material que depois outros irão interpretar. Como a sua
tese será uma tese modesta, sucede que depois p docente, ao elaborar
o estudo definitivo, poderá utilizar uma parte do material recolhido,
mas não citará o estudante, até porque não se lhe pode airibuir
nenhuma idéia precisa.
67
2. Ü docente c desonesto, faz trabalhar os estudantes, liceneia-
-os e utiliza desabusadamente o seu trabalho como sc fosse dele.
Por vezes, trata-se de uma desonestidade quase dc boa-fé: o docente
acompanhou a tese apaixonadamente, sugeriu muitas idéias e, passado
um certo tempo, já nào distingue as idcias que sugeriu das que
foram trazidas pelo estudante, assim como depois de uma apaixonada
discussão colectiva sobre um assunto qualquer, já não conseguimos
lembrar-nos de quais as idéias com que havíamos começado
e quais as que adquirimos por estímulo alheio.
Como evitar estes inconvenientes? O estudante, ao abordar um
determinado docente, já terá ouvido falar dele aos seus amigos, terá
contactado licenciados anteriores e terá feito uma idéia da sua correeção.
Terá lido livros seus e terá reparado se ele cita freqüentemente
os seus colaboradores ou não. Quanto ao resto, intervém
faelores imponderáveis de estima e confiança.
"lambem é preciso não cair na atitude neurótica de sinal contrário
e considerar mo-nos plagiados sempre que alguém fala de temas
semelhantes aos da nossa tese. Quem fez uma tese. digamos, sobre
as relações entre o darwinismo e o lamarckismo. teve oportunidade
de ver. acompanhando a literatura crítica, quantas pessoas falaram
já desse tema e como há tantas idéias comuns a todos os estudiosos.
Deste modo, nào vejo razão para se sentir um gênio expoliado
se. algum tempo depois, d docente, um seu assistente ou um colega se
ocuparem do mesmo tema.
Por roubo de trabalho científico entende-sc, sim. a utilização de
dados experimentais que só podiam ter sido recolhidos fazendo essa
dada experiência: a apropriação da transcrição de manuscritos raros
que nunca tivessem sido transcritos antes do nosso trabalho: a utilização
dc dados estatísticos que ninguém tenha recolhido antes de
nós, e só na condição de a fonte não ser citada (pois, uma vez a tese
tornada pública, toda a gente tem o direito de a citar): a utilização
de traduções, feitas por nós. de textos que nunca tenham sido traduzidos
ou o tenham sido de forma diferente.
De qualquer modo. e sem desenvolver síndromas paranóicos, o
estudante deve verificar se. ao aceitar um tema de tese. fica ou não
integrado num trabalho colectivo. e pensar se vale a pena fazê-lo.
III. A P R O C U R A D O M A T E R I A L
[11.1 A acessibilidade das fontes
111.1.1. Quais são as fontes de um trabalho científico
Uma tese estuda um objecto utilizando determinados instrumentos.
Muitas vezes o objecto é um livro c os instrumentos são outros livros.
É o caso. por exemplo, de uma tese sobre O pensamento econômico
de Adam Smith, cujo objecto é constituído pelos livros de Adam Smith,
enquanto os instrumentos são outros livros sobre Adam Smith. Diremos
então que, neste caso. os escritos dc Adam Smith constituem as fontes
primárias e os livros sobre Adam Smith constituem as fontes secundárias
ou a literaiura crítica. Evidentemente, sc o assunto fosse A s fontes
do pensamento econômico de Adam Smith. as fontes primárias seriam
os livros ou os escritos em que este autor sc inspirou. É certo que as
fontes de um autor lambem podem ser acontecimentos históricos (determinados
debates que tiveram lugar na sua época em tomo de certos
fenômenos concretos), mas estes acontecimentos são sempre acessíveis
sob a forma dc material escrito, isto é, de outros textos.
Noutros casos, pelo contrário, o objecto é um fenômeno real; é
o que acontece com as leses sobre os movimentos migratórios internos
na Itália actual. sobre o comportamento de um grupo de crianças
deficientes ou sobre as opiniões do público relativamente a um
programa de televisão a ser transmitido actualmente. Aqui, as fontes
nào existem ainda sob a forma de textos escritos, mas devem
tornar-se os textos que virão a integrar-se na tese como documentos:
dados estatísticos, transcrições dc entrevistas, por vezes fotografias
ou mesmo documentação audiovisual. Por sua vez. no que
69
respeita à literatura crítica, as coisas nào variam muito relativamente
ao caso anterior. Se não forem livros e artigos de revistas, serão artigos
de jornal ou documentos de vários tipos.
Deve manter-se bem presente a distinção entre as fontes e a literatura
crítica, uma vez. que a literatura crítica refere freqüentemente
trechos das vossas fontes, mas — como veremos no parágrafo seguinte
— estas são fontes de segunda mão. Além disso, um estudo apressado
c desordenado pode levar facilmente a confundir o discurso
sobre as fontes com o discurso sobre a literatura crítica. Sc tiver
escolhido como tema O pensamento econômico de Adam Smith e
me der conta de que, à medida que o trabalho avança, passo a maior
parte do tempo a discutir as interpretações de um certo autor, descurando
a leitura directa de Smith. posso fazer duas coisas: ou voltar
à fonte, ou decidir mudar o tema para.4.? interpretações de Adam
Smith no pensamento liberal inglês contemporâneo. Esta última não
me eximirá de saber o que disse este autor, mas é claro que nessa
altura interessar-me-á menos discutir o que ele disse do que o que
outros disseram inspirando-se nele. E óbvio, todavia, que. se quiser
criticar de uma forma aprofundada os seus intérpretes, terei de comparar
as suas interpretações com o texto original.
Poderia, no entanto, tratar-se de um caso em que o pensamento
original me interessasse muito pouco. Admitamos que comecei uma
tese sobre o pensamento 2©D na tradição japonesa. E claro que tenho
de saber ler japonês c que não posso confiar nas poucas traduções
ocidentais de que disponho. Suponhamos, porém. que. ao examinar
a literatura crítica, fiquei interessado na utilização que fez do Zen
uma certa vanguarda literária c artística americana nos anos 50.
Evidentemente, nesta altura já não estou interessado cm saber com
absoluta exactidão teológica e filológica qual seria o sentido do pensamento
Zen, mas sim saber de que modo idéias originárias do Oriente
se tomaram elementos de uma ideologia artística ocidental. O tema
da tese tomar-se-á então O uso de sugestões Zen na «San Francisco
Renaissance» dos anos 50 e as minhas fontes passarão a ser os textos
dc Kcrouac. Ginsberg. Ferlinghetti, etc. Estas são as fontes sobre
as quais terei de trabalhar, enquanto no que se refere ao Zen poderão
ser suficientes alguns livros seguros e algumas boas traduções.
Admitindo, evidentemente, que nào pretenda demonstrar que os californianos
tenham compreendido mal o Zen original, o que tornaria
obrigatório a comparação com os textos japoneses. Mas se me limitar
a pressupor que eles se terão inspirado livremente cm traduções
70
do japonês, o que me interessa é aquilo que eles fizeram do Zen e
não aquilo que o Zen era na origem.
Tudo isto para dizer que é muito importante definir logo o verdadeiro
objecto da tese, uma vez que se terá de enfrentar, logo de
início, o problema da acessibilidade das fontes.
No parágrafo IU.2.4, encontrar-se-á um exemplo de como se pode
partir quase do zero, para descobrir numa pequena biblioteca as fontes
adequailas ao nosso trabalho. Mas trata-se dc um caso-limite. Geralmente,
aceita-se o tema sem sc saber se se está em condições dc aceder às fontes
e é preciso saber: (1) onde elas se podem encontrar: (2) se são facilmente
acessíveis; (3) se estou em condições dc trabalhar com elas.
Com efeito, posso aceitar imprudentemente uma tese sobre certos
manuscritos de Joyce sem saber que se encontram na Universidade
de Búfalo. ou sabendo muito bem que nunca poderei lá ir. Poderei
aceitar entusiasticamente trabalhar numa série de documentos pertencentes
a uma família dos arredores, para depois descobrir que ela
é muito ciosa deles e só os mostra a estudiosos de grande fama.
Poderei aceitar trabalhar em certos documentos medievais acessíveis,
mas sem pensar que nunca fiz um curso que me preparasse
para a leitura de manuscritos antigos.
Mas sem querer procurar exemplos tão sofisticados, poderei aceitar
trabalhar num autor sem saber que os seus textos originais são
raríssimos e que terei de viajar como um doído de biblioteca em
biblioteca e de país em país. Ou pensar que é fácil obter os microfilmes
dc todas as suas obras, sem me lembrar de que no meu instituto
universitário não existe um leitor de microfilmes, ou que sofro
de eonjunlivite e não posso suportar um trabalho tão desgastante.
E inútil que cu. fanático do cinema, me proponha trabalhar uma tese
sobre uma obra menor de um realizador dos anos 20 para depois descobrir
que só existe uma cópia desta obra nosFilm Archives de Washington.
Uma vez resolvido o problema das fontes, as mesmas questões
surgem para a literatura crítica, Poderei escolher uma lese sobre um
autor menor do século x v in porque na biblioteca da minha cidade
se encontra, por acaso, a primeira edição da sua obra. para me aperceber
depois de que o melhor da literatura crítica sobre este autor
-ó é acessível à custa de pesados encargos financeiros.
Nào se podem resolver estes problemas contentando-se com trabalhar
apenas no que se tem. porque da literatura crítica se deve ler.
se não tudo, pelo menos tudo aquilo que é importante, e é necessário
abordar as fontes directamente (ver o parágrafo seguinte).
7:
Em vez de cometer negligências imperdoáveis, é melhor escolher
outra lese segundo os critérios expostos no capítulo 11.
A título dc orientação, eis algumas teses a cuja discussão assisti
recentemente, nas quais as fontes foram identificadas, de uma maneira
muito precisa, se limitavam a um âmbito verificável e estavam claramente
ao alcance dos candidatos, que sabiam como ulilizá-las.
A primeira tese era sobre A experiência clerical moderada na administração
comuna! de Modena (1889-1910). O candidato, ou o
docente, tinham limitado com muita exaclidão a amplitude do irabalho.
O candidato era de Modena e. portanto, trabalhava in loco.
A bibliografia constava de uma bibliografia geral e dc outra sobre
Modena. Penso que, no que respeita à segunda, terá sido possível
trabalhar nas bibliotecas da cidade. Para a primeira, terá sido necessário
uma surtida a outros lugares. Quanto às fontes propriamente
ditas, elas dividem-se em fontes de arquivo c fontes jornalísticas.
O candidato tinha visto tudo e folheado todos os jornais da época.
A segunda lese era sobre A política educativa do PCI desde o
centro-esquerda até à contestação estudantil. Também aqui se pode
ver como o terna foi delimitado, com exactidão e. direi, com prudência:
após 68. o estudo ter-sc-ia tornado desordenado. As fontes
eram: a imprensa oficial do PC. as actas parlamentares, os arquivos
do Partido e a imprensa geral. Posso imaginar que. por mais exacta
que fosse a investigação, tenham escapado muitas coisas da imprensa
geral, mas tratava-se indubitavelmente de uma fonte secundária
da qual se podiam recolher opiniões e críticas. Quanto ao resto, para
definir a política educativa do PC, bastavam as declarações oficiais.
Repare-se que a coisa teria sido muito diferente se a tese dissesse
respeito à política educativa da DC. isto é. de um partido do governo.
Isto porque, por um lado. haveria as declarações oficiais e. por outro,
os actos efectivos do governo que eventualmente as contradiziam:
o estudo teria assumido dimensões dramálicas. Veja-se só que, se o
período fosse além de 1968. entre as fontes de opinião não oficiais,
teriam dc classificar-se todas as publicações dos grupos exlraparlamentares
que daquele ano cm diante começaram a proliferar. Mais
uma vez. estaríamos perante um trabalho bem mais duro. Para concluir,
imagino que o candidato tivesse tido a possibilidade de trabalhar
em Roma, ou de pedir que lhe fossem enviadas fotocópias dc
todo o material de que necessitava.
A terceira lese era de história medieval e, aos olhos dos leigos,
parecia muito mais difícil. Dizia respeito às vicissitudes dos bens
72
da abadia de S. Zcno, em Vcrona. na Baixa Idade Média. O núcleo do
trabalho consistia na transcrição, que nunca tinha sido feita, de algumas
folhas do registo da abadia de S. Zcno, tio século Xlfl. Era evidentemente
necessário que o candidato tivesse noções de paleografia,
isto é, soubesse como se lêem c segundo que crilérios se
transcrevem os manuscritos antigos. Todavia uma vez dc posse desta
técnica, tratava-se apenas de executar o trabalho de um modo sério
e de comentar o resultado da transcrição. No entanto, a tese apresentava
em rodapé uma bibliografia de trinta obras, sinal de que o
problema específico tinha sido enquadrado historicamente na base
da literatura precedente. Imagino que o candidato fosse de Vcrona
e tivesse escolhido um trabalho que pudesse fazer sem precisar
de viajar.
A quarta tese era sobre Teatro experimental em prosa no Trentino.
O candidato, que vivia naquela região, sabia que tinha aí havido
um número limitado de companhias experimentais, e empreendeu
o trabalho de as reconstituir através da consulta de anuários jornalísticos,
arquivos municipais e levantamentos estatísticos sobre a
freqüência do público. Não muito diferente é o caso da quinta tese.
Aspectos da política cultural em Budrio, com particular referência
à actividade da biblioteca municipal. São dois exemplos de teses
com fontes de fácil verificação e. no entanto, muito úteis, pois dão
!ugar a uma documentação eslatíslico-sociológica utilizável por investigadores
subsequentes.
Uma sexta tese constitui, pelo contrário, o exemplo de uma investigação
feita com uma certa disponibilidade de tempo e de meios,
mostrando simultaneamente como sc pode desenvolver com um bom
nível científico um tema que. à primeira visia, apenas parece susceptível
de uma compilação honesta. O título era ,4 problemática do
actorna obra de Adolphe Àppia. Trala-se dc um autor muito conhecido,
abundantemente estudado pelos historiadores e teóricos do teatro,
e sobre o qual parece já nada haver de original para dizer. Mas
o candidato empreendeu um paciente estudo nos arquivos suíços,
correu muitas bibliotecas, não deixou por explorai- nenhum dos locais
em que Appia trabalhou e conseguiu elaborar uma bibliografia dos
textos deste autor (compreendendo artigos menores jamais lidos) e
dos textos sobre ele. de tal modo que pôde examinar o tema com
uma amplitude e precisão que. segundo disse o relator, fazia da tese
um contributo decisivo. Tinha, pois. superado a mera compilação e
revelado fontes até aí inacessíveis.
73
III. 1.2. Fontes de primeira e de segunda mão
Quando se trabalha sobre livros, uma fonte de primeira mào c
uma edição original ou uma edição crítica da obra em questão.
Uma tradução não é uma fonte: é uma prótese, como a dentadura
ou os óculos, um meio de atingir de uma forma limitada algo
que se encontra fora do meu alcance.
Uma antologia não é uma fonte: é um apanhado de fontes; pode
ser útil como primeira aproximação, mas lazer uma tese sobre um
autor significa pressupor que verei nele coisas que outros não viram,
c uma antologia fomece-mc apenas aquilo que outra pessoa viu.
As resenhas efectuadas por outros autores, mesmo completadas
pelas mais amplas citações, não são uma fonte: são quando muito
fontes de segunda mão.
Uma fonte pode ser de segunda rnâo dc várias maneiras. Se quiser
fazer uma lese sobre os discursos parlamentares de Palmiro,
Togliatli. os discursos publicados pelo Unità constituem urna fonte
de segunda mão. Ninguém me diz que o redactor não lenha feito cortes
ou cometido erros. Pelo contrário, as actas parlamentares serão
fontes de primeira mão. Se conseguisse encontrar o texto escrito direitamente
por Togliatti, teria uma fonte de primeiríssima mão. Se quiser
estudar a declaração de independência dos Estados Unidos, a única
fonte de primeira mão é o documento autêntico. Mas posso também
considerar de primeira mão uma boa fotocópia. E posso ainda considerar
de primeira mão o texto elaborado criticamente por qualquer
hisloriógrafo de seriedade indiscutível («indiscutível» quer aqui dizer
que nunca foi posta em causa pela literatura crítica existente),
Compreende-se então que o conceito de «primeira» e «segunda mão»
depende da perspectiva que se der à tese. Se a tese pretender discutir
as edições críticas cxislenles. é necessário recorrer aos originais.
Se ela pretender discutir o sentido político da declaração de independência,
uma boa edição crítica scr-mc-á mais do que suficiente.
Se quiser fazer uma tese sobre Fstntntras narrativas nos «Promessi
Sposi». bastar-me-á uma edição qualquer das obras de Manzoni. Sc.
pelo contrário, o meu objectivo for diseulir problemas lingüísticos
(digamos. Manzoni entre Milão e Florença), então lerei de dispor
de boas edições críticas das várias redacções da obra manzoniana.
Digamos enlão. que. nos limites fixados pelo objeclo da minha pesquisa,
as fontes devem ser sempre de primeira mão. A única coisa que
74
não posso fazer é citar o meu autor através da citação feita por outro. Em
icoria. um trabalho científico sério nunca deveria citar a partir dc uma
citação, mesmo que não se trate do autor de que nos ocupamos directamente.
No entanto, há excepções razoáveis, especialmente para uma tese.
Se se escolher, por exemplo. O problema da transcendemalidade
do Belo na «Summa theologiae» de 5. Tomás de Aquino, a fonte primária
será a Sui/ima de São Tomás, c digamos que a edição Marietti
actualmente no mercado basta, a menos que sc venha a suspeitar de
que trai o original, caso em que se terá de recorrer a outras edições
(mas. nessa altura, a tese tornar-se-á de caracter filológico. em vez
de ter um caracter estético-filosófico). Em seguida, descobrir-se-á
que o problema da transcendental idade do Belo é aflorado também
por Sào Tomás no Comentário ao De Divinis Nominibus do Pseudo-
-Dionísio. e apesar do título restritivo do trabalho, ler-se-á lambem
de ver directamente esta última obra. Finalmente, verificar-se-á que
São Tomás retomava aquele tema de toda uma tradição teológica
anterior e que descobrir todas as fontes originais representa o trabalho
de uma vida erudita. Todavia, ver-se-á que este trabalho já
existe e que foi feito por Dom Henry Pouillon. que no seu exienso
trabalho refere amplos fragmentos de todos os autores que comentaram
o Pseudo-Dionísio. sublinhando relações, derivações c contradições.
F, certo que nos limites da tese se poderá usar o material
colhido por Pouillon sempre que se desejar fazer uma referência
a Alexandre de Halcs ou a Hilduíno. Se se chegar à conclusão dc
que o texto dc Alexandre de Hales é essencial para o desenvolvimento
da exposição, é melhor procurar consultá-lo directamente na
edição da Quaracchimas; se se trata de remeter para qualquer breve
citação, bastará declarar que se teve acesso ã fonte aüavés de Pouillon.
Ninguém dirá que sc agiu com incúria, uma vez que Pouillon é um
estudioso sério c que o texto que se foi buscar a este autor não constituía
o objecto directo da lese.
A única coisa que não deverão fazer é citar uma fonte de segunda
mão fingindo ter visto o original. E isto não apenas por razões de
ética profissional: pensem no que aconteceria se alguém vos perguntasse
como conseguiram ver directamenle um determinado manuscrito,
quando é sabido que o mesmo foi destruído em 1944!
Não se devera, porém, cair na neurose da primeira mão. O facto
c Napoleão ter morrido em 5 dc Maio dc 1821 é conhecido de
todos, geralmente através de fontes dc segunda mão (livros de história
escrilos com base noutros livros de história). Sc alguém qui-
75
sesse estudar a data da morte de Napoleão, teria de ir procurar documentos
da época. Mas se sc quiser falar da influência da morte
de Napoleão na psicologia dos jovens liberais europeus, pode-se
confiar num livro dc história qualquer c considerar a data como boa.
O problema, quando sc recorre a fontes de segunda mão (declarando-
-o), é verificai' mais de uma e ver se uma certa citação, ou a referência
a um facto ou a uma opinião, são confirmados por diferentes
autores. De outro modo. é preciso ter cuidado: ou se decide evitar
recorrer àquele dado, ou vai-se verificá-lo nas origens.
Por exemplo, já que se deu um exemplo sobre o pensamento
estético de São Tomás, dir-vos-ei que alguns textos contemporâneos
que discutem este problema partem do pressuposto de que São Tomás
disse que puichrum est id quod visum p/ocet. Eu. que fiz a tese de
licenciatura sobre este tema. andei a procurar nos textos originais e
apercebi-me de que São Tomás minca tal havia dito. Tinha dito, sim.
pulchra dicuntur quae, visa placent e nào pretendo explicar agora
por que molivo as duas formulações podem levar a conclusões interprctalivas
muito diferentes. O que linha acontecido'.' A primeira fórmula
linha sido proposta há muitos anos pelo filósofo Maritain. que
pensava rcprodu/.ir dc modo fiel o pensamento de São Tomás, c
desde então os outros intérpretes tinham-se remetido àquela fórmula
(extraída de uma fonte de segunda mão) sem sc preocuparem cm
recorrer à fonte de primeira mão.
Põe-se o mesmo problema para as citações bibliográficas. Tendo
de tenninar a tese à pressa, um aluno qualquer decide pôr na bibliografia
coisas que não leu, ou mesmo falar destas obras em notas de
rodapé (ou. o que é ainda pior, no texto), utilizando informações
recolhidas noutras obras. Poderia acontecer fazerem uma tese sobre
o Barroco, tendo iido o artigo de Luciano Anceschi «Bacone tia
Rinascimcnio e Barocco». in Da Bacone a Kant (Bolonha. Mulino.
1972). Depois de o cilarem e para fazer boa figura, tendo encontrado
determinadas notas num outro texto, acrescentariam «Para outras
observações pertinentes e estimulantes sobre o mesmo tema, ver. do
mesmo autor, "Uestética di Bacone" in Uestetica deWempirismo
inglese, Bolonha Alfa, 1959». Faricis uma Iriste figura quando alguém
vos chamasse a atenção para o facio dc sc tratar do mesmo ensaio
que tinha sido publicado havia treze anos e que da primeira vez tinha
aparecido numa edição universitária de tiragem mais limitada.
Tudo o que se disse sobre as fontes de primeira mão é igualmente
válido no caso de o objeclo da vossa tese não ser uma série de textos,
76
mas um fenômeno cm curso. Se quiser falar das reacções dos camponeses
da Romagna às transmissões do telejomal. é fonte de primeira
mão o inquérito que tiver feito no local, entrevistando segundo as rearas
uma amostra significativa e suficiente de camponeses, üu. quando muito,
"im inquérito análogo que acabou de ser publicado por uma fonte fide-
'igna. Mas se me limitasse a citai' dados de uma pesquisa de há dez
nos. é claro que estava a agir de uma forma incorrccia. quanto mais
não fosse porque desde essa altura mudaram tanto os camponeses como
as transmissões de televisão. Seria diferente sc fí/esse uma tese sobre
As pesquisas sobre a relação entre público e televisão nos anos 60.
0T.2. À investigação bibliográfica
II 1.2.1. Como utilizar a biblioteca
Como fazer uma investigação preliminar na biblioteca? Sc sc
dispõe já de uma bibliografia segura, vai-se obviamente ao catálogo
por autores c vê-se o que a biblioteca em questão pode fornecer-
-nos. Em seguida, passa-se a uma outra biblioteca e assim por diante.
Mas este método pressupõe uma bibliografia já feita (e o acesso a
uma série dc bibliotecas, eventualmente uma em Roma e outra em
Londres). Evidentemente, este caso não se aplica aos meus leitores.
Nem se pense que sc aplica aos estudiosos profissionais. O estudioso
poderá ir por vezes a uma biblioteca procurar um livro de que
já conhece a existência, mas freqüentemente vai à biblioteca não
com a bibliografia, mas para fazer uma bibliografia.
Fazer uma bibliografia significa procurar aquilo de que não
se conhece ainda a existência. O bom investigador c aquele que é
capaz de entrar numa biblioteca sem ter a mínima idéia sobre um
tema e sair de lá sabendo um pouco mais sobre ele.
O catálogo — Para procurar aquilo de que ainda se ignora a existência,
a biblioteca proporciona-nos algumas facilidades. A primeira
é, evidentemente, o catálogo por assuntos. O catálogo alfabético por
autores é útil para quem já sabe o que quer. Para quem ainda não o
sabe. há o catálogo por assuntos. E aí que uma boa biblioteca rnc
diz tudo o que posso encontrar nas suas salas, por exemplo, sobre
a queda do Império Romano do Ocidente.
Mas o catálogo por assuntos exige que se saiba como o consultar,
E claro que não encontrará uma entrada «Queda do Império
77
Romano» na letra Q (a menos que se trate de uma biblioteca com
um ficheiro muito sofisticado). E necessário procurar em «Império
Romano», em seguida em «Roma» e depois em «História (de Roma)».
E se trouxermos já algumas informações preliminares da escola
básica, leremos o cuidado de procurar em «Rómulo Augusto» ou
«Augusto (Rómulo)». «Oestes». «Üdoacro». «Bárbaros» e «Romano-
-Bárbaros (Reinos)». Os problemas, porém, não acabam aqui. E isto
porque em muilas bibliotecas há dois catálogos por autores e dois
catálogos por assuntos, isto é. um velho, que se detém numa cena
data, e um novo, que está a ser completado e que um dia incluirá o
velho, mas não por agora. E não quer dizer que a Queda do Império
Romano se encontre no catálogo velho só pelo facto dc ter ocorrido
há tantos anos: efeeti vãmente, poderia existir um livro publicado há
dois anos que só constasse do catálogo novo. Em certas bibliotecas
há ainda catálogos separados, que dizem respeito a entidades particulares.
Noutras pode suceder que assuntos c autores estejam em
conjunto. Noutras ainda, há catálogos separados para livros e revistas
(divididos por assuntos e autores). Em resumo, é preciso estudar
o funcionamento da biblioteca em que se trabalha e decidir em
conformidade. Poderá ainda acontecer que se encontre uma biblioteca
que lem os livros no primeiro piso e as revistas no segundo.
É também necessário uma certa intuição. Se o catálogo velho for
muito velho e eu procurar «Retórica», será melhor que dê uma vista
de olhos também cm «Rcthorica»: quem sabe se não houve um arquivista
diligente que aí tenha colocado todos os títulos mais antigos
que ostentavam o «th».
Note-se em seguida que o catálogo por autores é sempre mais
seguro do que o catálogo por assuntos, dado que a sua compilação
não depende da interpretação do bibliotecário, que já influi no catálogo
por assuntos. Com efeito, se a biblioteca tiver um livro de
Giuseppe Rossi. é inevitável que este sc encontre no catálogo por
autores. Mas se üiuseppe Rossi tiver escrito um artigo sobre «O papel
de Odoacro na queda do Império Romano do Ocidente c o estabelecimento
dos reinos romano-bárbaros», o bibliotecário pode tê-lo
registado nos assuntos «Roma (História de)» ou «Odoacro», enquanto
se anda a procurar em «Império do Ocidente».
Pode. porém, dar-se o caso de o catálogo não me dar as informações
que procuro. Terei então de partir de uma base mais elementar.
Em qualquer biblioteca há uma secção ou uma sala de obras de referência,
que integra as enciclopédias, histórias gerais e repertórios biblio-
78
gráficos. Se procurar algo sobre o Império Romano do Ocidente, terei
então de ver o que encontro cm matéria de história de Roma. elaborar
uma bibliografia-base partindo dos volumes de referência que encontrar
e prosseguir a partir daí. verificando o catálogo por autores.
Os repertórios bibliográficos — São os mais seguros para quem
tenha já uma idéia clara sobre o tema que pretende tratar. Paia certas
disciplinas existem manuais célebres cm que se encontram todas as
informações bibliográficas necessárias. Para outras, existe a publicação
continuamente aclualizada de repertórios ou mesmo de revistas dedicadas
só à bibliografia dessa matéria. Para outras ainda, há revistas que
têm em cada número um apêndice informativo sobre as publicações
mais recentes. A consulta dos repertórios bibliográficos — na medida
em que estiverem actualizados — é essencial para completar a pesquisa
no catálogo. Com eleito, a biblioteca pode estar muito bem fornecida
no que respeita a obras mais antigas e não ter obras actuais. Ou pode
proporcionar-nos histórias ou manuais da disciplina cm questão datados
— digamos - de 1960, em que podem encontrar-se utilíssimas
indicações bibliográficas, sem que. porém, se possa saber se saiu alguma
coisa de interessante cm 1975 (e talvez a biblioteca possua estas obras
recentes, mas as tenha classificado num assunto em que não sc tenha
pensado). Ora. um repertório bibliográfico actualizado dá-nos cxaclamente
estas informações sobre os últimos contributos na matéria.
O modo mais cômodo para identificar os repertórios bibliográficos
é, em primeiro lugar, perguntar o seu titulo ao orientador da tese. Em
segunda instância, podemos dirigir-nos ao bibliotecário (ou ao empregado
do departamento de obras de referência), o qual provavelmente
nos indicará a sala ou a estante em que estes repertórios estão à disposição.
Não se podem dar aqui outros conselhos sobre este ponto, pois,
como se disse, o problema varia muito de disciplina paia disciplina.
O bibliotecário — E preciso superar a timidez. Muitas vezes
o bibliotecário dar-vos-á conselhos seguros, fazendo-vos ganhar
muito tempo. Deveis pensar que (salvo o caso de directores
excessivamente ocupados ou neuróticos) um director de biblioteca,
especialmente se for pequena, ficará contente se puder demonstrar
duas coisas: a qualidade da sua memória c da sua erudição, e a
riqueza da sua biblioteca. Quanto mais longe do centro c menos freqüentada
for a biblioteca, mais ele se preocupa por ela ser desconhecida.
E. naturalmente, regozijar-se-á por uma pessoa pedir ajuda.
79
É claro que, se. por um lado, se deve contar muito com a assistência
do bibliotecário, por outro, não é aconselhável confiar cegamente
nele. Ouçam-sc os seus conselhos, mas depois procure-se
oulras coisas por conta própria. O bibliotecário não é um perito universal
e, alem disso, não sabe que forma particular quereis dar à
vossa pesquisa. Provavelmente, considera fundamental uma obra que
vos servirá muito pouco, e não outra que vos será, pelo conlrário.
uiilíssima. Até porque não existe, a priori. uma hierarquia de obras
úteis e importantes. Para os objectivos da vossa investigação pode
ser decisiva uma idéia contida quase por engano numa página de
um livro, quanto ao resto inútil
SI
Quando se encontrar um capítulo sobre o tema em questão, cora a respectiva
bibliografia, pode-sc percorrê-lo rapidamente (voltar-sc-á a ele
mais larde). mas deve passar-sc imediatamente à bibliografia c copiá-la
toda. Ao fazê-lo. entre o capítulo consultado e as eventuais anotações
que acompanham a bibliografia sc for organizada racionalmente, far-
-se-á uma idéia de quais são os livros, de entre os enumerados, que o
autor considera básicos, e pode começar-sc por pedir esses. Além disso,
se se examinar nào uma mas várias obras de referência, far-se-á ainda
um controlo cruzado das bibliografias e ver-se-ã quais as obras que todas
citam. Fica assim estabelecida uma primeira hierarquia. Esta hierarquia
será provavelmente posta em causa pelo trabalho subsequente, mas por
agora constitui uma base de partida.
Objectar-se-á que, se há dez obras de consulla, é um pouco demorado
estar a copiar a bibliografia de todas: efecii vãmente, por vezes com
este método arriscamo-nos a reunir muitas centenas de livros, ainda que
o controlo cruzado permita eliminar os repelidos (se se puser por ordem
alfabética a primeira bibliografia, o controlo das seguintes tornar-sc-á
mais fácil). Mas. actualmente, em qualquer biblioteca digna desse nome.
existe uma máquina dc fotocópias e cada cópia sai a um preço razoável.
Uma bibliografia específica numa obra de consulta, salvo casos
excepcionais, ocupa poucas páginas. Com uma módica quantia será possível
fotocopiar uma série de bibliografias que depois poderão ordenar-
-se calmamente, em casa. Só quando terminada a bibliografia se voltara
à biblioieca para ver o que realmente se pode encontrar. Nesta altura,
será muito útil ler uma ficha para cada livro, porque poderá escrever-se
em cada uma delas a sigla da biblioteca e a cota do livro (uma só ficha
poderá comer muilas siglas e a indicação de muitos locais, o que significará
que o livro está disponível em muitos lugares; mas também haverá
fichas sem siglas e isso será uma desgraça, vossa ou da vossa lese).
Ao procurar uma bibliografia, sempre que encontro um livro
tenho tendência para o assinalar num pequeno caderno. Depois,
quando for verificar no ficheiro por autores, se os livros identificados
na bibliografia estão disponíveis, in loco, escrevo ao lado do
título o local onde se encontra. Todavia, se tiver anotado muitos títulos
(e numa primeira pesquisa sobre um tema facilmente se chega
à centena - a menos que depois se decida que muitos são para pôr
de pane), a dada altura já não consigo encontrá-los.
Ponanto, o sistema mais cômodo é o de uma pequena caixa com
fichas. A cada livro que identifico dedico uma ficha. Quando descubro
que o livro exisic numa dada biblioteca, assinalo esse facio.
82
As caixas deste tipo são baratas c encontram-se em qualquer papelaria.
Ou podem mesmo fazer-se. Cem ou duzentas fichas ocupam
pouco espaço e podem levar-se na pasta sempre que se lbr à biblioteca.
Finalmente, icr-se-á uma idéia clara daquilo que se deverá
encontrar e daquilo que já se encontrou. Em pouco tempo tudo estará
ordenado alfabcticamente e será de fácil acesso. Se sc quiser, pode
organizar-se a ficha de tal modo que se tenha ao alio, à direita, a
localização na biblioteca e ao alto, ã esquerda, uma sigla convencional
que diga sc o livro nos interessa como referência geral, como
fonte para um capítulo panicular e assim por diante.
E claro que se não se tiver paciência para se ter um ficheiro. poderá
recorrer-se ao caderno. Mas os inconvenientes são evidentes: naturalmente,
anotar-se-ão na primeira página os autores que começam
por A . na segunda os que começam por B e, chegada ao fim a primeira
página, já não se saberá onde pôr um artigo de Azzimonti,
Federieo ou dc Abbati. Gian Saverio. Melhor seria então arranjar uma
agenda telefônica. Não se ficaria com Abbati antes de Azzimonti. mas
ter-se-iam os dois nas quatro páginas reservadas ao A. O método da
caixa com fichas é o melhor, podendo servir também para qualquer
trabalho posterior ã tese (bastará completá-lo) ou para emprestar a
alguém que mais tarde venha a trabalhar em temas semelhantes.
No capítulo IV falaremos de outros tipos de ficheiros. como o
ficheiro de leitura, o ficheiro de idéias ou o ficheiro de citações (e
veremos também em que casos é necessária esta proliferação dc
fichas). Devemos aqui sublinhar que o ficheiro bibliográfico não
deverá ser identificado com o ficheiro de leitura, pelo que antecipamos
desde já algumas idéias sobre este último.
O ficheiro de leitura compreende fichas, eventualmente de forto
grande, dedicadas a livros (ou artigos) que se tenham efeeti vamente
lido: nestas fichas anotar-se-ão resumos, opiniões, eiiaçõcs, em
suma. tudo aquilo que puder servir para referir o livro, lido no momento
da redacção da lese (quando já não estiver à nossa disposição) e para
a redacção da bibliografia final. Não é um ficheiro para trazer connosco.
pelo que por vezes pode igualmente ser feito em folhas muito
grandes (embora em forma de fichas seja sempre mais manuseável).
O ficheiro bibliográfico já é diferente: registará todos os livros
que se deverão procurar, e não apenas os que sc tenham enconttado
e lido. Pode ter-se um ficheiro bibliográfico dc dez mil títulos e um
ficheiro de leitura de dez títulos embora esta situação dê a idéia dc
uma tese começada demasiado bern e acabada demasiado mal.
83
O ficheiro bibliográfico deve acompanhar-nos sempre que vamos
a uma biblioteca. A s suas fichas registam apertas os dados essenciais
do livro em questão, c a sua localização nas bibliotecas que tenhamos
explorado. Poderá quando muito acrescentar-se à ficha qualquer outra
anotação do tipo «muito importante segundo o autor X», ou «essencial
encontrá-lo», ou ainda «fulano disse que esta obra não tinha qualquer
interesse», ou mesmo «comprar». Mas chega. Uma ficha de leitura
pode ser múltipla (um livro pode dar origem a várias fichas de apontamentos),
enquanto uma ficha bibliográfica é uma e uma só.
Quanto mais bem elaborado for o ficheiro bibliográfico, mais será
susceptível de ser conservado e completado por pesquisas subsequentes,
e de ser emprestado (ou mesmo vendido). Vale, pois, a pena
fazê-lo bem e de modo legível. Não é aconselhável garatujar um
título. poiTentura errado, cm caracteres eslenográficos. Freqüentemente,
o ficheiro bibliográfico inicial (após terem sido assinalados nas fichas
os livros encontrados, lidos c classificados no ficheiro de leitura)
pode constituir a base para a redacção da bibliografia final.
São estas, pois, as nossas instruções para o registo correcto dos
lílulos, ou seja. as normas para citação bibliográfica. Estas normas
são válidas para:
1) A ficha bibliográfica
2) A ficha de leitura
3) A citação dos livros nas notas de rodapé
4) A redacção da bibliografia final.
Portanto, deverão ser recordadas nos vários capítulos em que nos
ocuparmos destas fases do trabalho. Mas são aqui fixadas uma vez
por todas. Trata-se de normas muito importantes com as quais os
estudantes terão dc ter a paciência de se familiarizar. Repare-se que
são sobretudo normas funcionais, urna vez que permitem quer a vós.
quer aos vossos leitores, identificar o livro de que se fala. Mas são
também normas, por assim dizer, dc etiqueta erudita: a sua observância
revela que a pessoa está familiarizada com a disciplina, a sua
violação Irai o parvenu científico c, por vezes, lança uma sombra
de descrédito sobre um Irabalho. noutros aspectos bem feito, Não
são, pois, normas vãs, que não passam de puras frivolidades de erudito.
O mesmo sucede no desporto, na filatelia. no bilhar, na vida
polílica: se alguém utiliza mal expressões-chave, é olhado com desconfiança,
como alguém que vem de fora. que não é «dos nossos».
E preciso estar dentro das regras do grupo em que se quer entrar,
pois «quem não mija em companhia ou é ladrão ou é espião».
84
Até porque para violar regras ou para se lhes opor é necessário
começar por conhecê-las e. eventualmente, demonstrar a sua inconsistência
ou a sua função meramente repressiva. Mas anles de dizer
que não é necessário sublinhar o título dc um livro, é preciso saber
que ele se sublinha e porquê.
III.2.3. A citação bibliográfica
Livros — Eis um exemplo de citação bibliográfica errada:
Wilson. ].. «Philosophy and rcligkm». Oxford. 1961-
A citação está errada pelas seguintes razões:
1) Dá apenas a inicial do nome próprio do autor. A inicial não
basta, em primeiro lugar, porque quero saber o nome e o apelido dc
uma pessoa e, depois, porque pode haver dois autores com o mesmo
apelido e a mesma inicial. Sc ler que o autor do livro Clavis universalis
é P. Rossi, não ficarei a saber se se trata do filósofo Paolo
Rossi da Universidade de Florença, ou do filósofo Pietro Rossi da
Universidade de Turim. Quem, é J . CohenV O critico e estetólogo
francês Jean Cohen ou o filósofo inglês Jonathan Cohen?
2) Seja como for que se apresente o título de um livro, nunca é
necessário pô-lo entre aspas, dado que é um hábito quase universal
referir entre aspas os títulos das revistas ou os títulos dos artigos de
revistas. Em todo o caso, no título em questão, era melhor pôr
Religion com maiúscula, pois os títulos anglo-saxónicos têm os substantivos,
adjectivos e verbos com maiúsculas, deixando apenas com
minúsculas os artigos, partículas, preposições e advérbios (salvo se
constituírem a última palavra do título: The Lógica! Use oflf),
3) Não está certo dizer onde um livro foi publicado e nào dizer
por quem. Suponhamos que tínhamos enconirado um livro que nos
parecia importante, que o queríamos comprar e que vinha indicado
«Milão. 1975». Mas de que cdilora? Mondadori, Rizzoü. Rusconi,
Bompiani. Eclirinelli. Vallardi? Como é que o livreiro havia de nos ajudar?
E se estivesse marcado «Paris. 1976». para onde iríamos escrever?
Só podemos limitar-nos à cidade quando se trata de livros antigos
(«Amesterdão. 1678») que só se podem encontrar numa biblioteca
ou num círculo restrito de antiquários. Se num livro estiver
escrito «Cambridge», de que cidade se trata? Da de Inglaterra ou da
dos Estados Unidos? Há muitos autores importantes que referem os
livros apenas com a cidade, A menos que se trate de artigos de enci-
85
clopédia (onde existem critérios de brevidade para economizar espaço)
decerto se trata de autores snobes que desprezam o seu público.
4) De qualquer forma, nesta citação. «Oxford» está errado. Este
livro nào foi editado em Oxford, mas, como se diz no frontispício.
pela Oxford University Press, que é uma editora com sede em Londres
(bem corno em Nova Iorque e Toronto). Além disso, foi impresso em
Glasgow. mas refere-se sempre o lugar da edição e não o lugar da
impressão (com exeepção dos livros antigos, onde os dois locais coincidem,
dado que se tratava de impressores-editores-livTeiros). Encontrei
numa tese um livro indicado como «Bompiani, Farigliano» porque por
acaso esse livro tinha sido impresso (como se inferia da referência
«acabado de imprimir») em Farigliano. Quem faz coisas destas dá a
impressão de nunca ter visto um livro na sua vida. Para ter a certeza,
é preferível não se limitar a procurar os dados editoriais no frontispício.
mas também na página seguinte, onde está o copyright. .Aí se pode
encontrar o local real da edição, bem como a sua data c número.
Se nos limitarmos ao frontispício, poderemos incorrer cm erros
graves, como para livros publicados pela Yale University Press, pela
Cornei! University Press ou pela Harvard University Press, indicar
como locais de publicação Yale. Harvard e Cornell, que não são
nomes dc localidades, mas de célebres universidades privadas. Os
respectivos locais são New IJaven, Cambridge (Massachusctts) c
Ithaca. Seria o mesmo que um estrangeiro encontrar um livro editado
pela Univcrsitã Cattolica e indicá-lo como publicado na alegre
cidadezinha batucar da costa do Adriático.
Ultima advertência: é bom costume citar sempre a cidade de edição
na (íngua original. E. portanto. London e não Londres, Berline não Berlim.
5) Quanto à data, está bem por acaso. Nem sempre a data referida
no frontispício é a verdadeira data do livro. Pode ser a da última edição.
Só na página do cvpyright poderemos encontrar a data da primeira
edição (e possivelmente descobriremos que a primeira edição
foi publicada por outro editor). A diferença é por vezes muito importante.
Suponhamos que se encontra uma citação como esta:
Searle. J., Speich Acrs, Cambridge, 1974.
A parte as outras incorrecções, verificando o copyriglu descobre-
se que a primeira edição é de 1969. Ora pode tratar-se, na vossa
lese. de precisar se Scarlc falou dos speech acrs antes ou depois de
outros autores e. portanto, a data da primeira edição é fundamental.
86
Além disso, se se ler bem o prefácio do livro, descobrir-se-á que a
sua tese fundamental foi apresentada como dissertação dc PhD em
Oxford em 1959 (portanto dez anos antes) e que. entretanto, várias
partes do livro foram publicadas cm revistas filosóficas.
Não passaria pela cabeça dc ninguém citar uma obra deste modo:
Manzoni. Alessandra, I pwmessi spoSí, Molleiia, 1976
só porque lem na mão uma edição recente publicada em Molfetta.
Ora, quando sc trabalha sobre um autor. Searle eqüivale a Manzoni: não
podemos difundir idéias erradas sobre o seu trabalho, em nenhum caso.
E sc, ao estudar-se Manzoni. Searle ou Wilson, se tiver trabalhado com
uma edição posterior, revista e aumentada, deverá especificar-se quer
a data da primeira edição quer a da edição da qual se faz a citação.
Agora que já vimos como não se deve citar um livro, examinemos
a seguir cinco maneiras de citar correctamenie os dois livros de
que falámos. Esclareçamos que há outros critérios e que qualquer
deles poderia ser válido desde que permitisse: a) distinguir os livros
dos artigos ou dos capítulos de outros livros; b) identificar sem equívocos
quer o nome do autor quer o título: c) identificar local dc publicação,
editor e edição: d) identificar eventualmente o número dc páginas
ou a dimensão do livro. Deste modo. os cinco exemplos que
apresentamos são todos bons numa medida variável, embora demos
preferência, por vários molivos. ao primeiro:
Speech Acts — .AH Essay in lhe Philosophy of Langaage,
I> ed.. Cambridge. Cambridge University Press. 1969
(.VeiL, 1974), pp. VU1-204.
Philosophy and Religion — The Logic of Religious Belief,
London. Òxíord University Press. 1961, pp. V1II-120.
Speech Acrs (Cambridge: Cambridge, 1969).
1'hilosophy and Religion (London: Oxford. 1961).
Speech Acis. Cambridge, Cambridge University Press.
l.'etl-. 1969.(5-." ed.., 1974), pp, V11I-204.
Philosophy and Religion, lx>ndon, Oxford University Press.
1961. pp.Viri-120."
Speech Acts. London: Cambridge University Press. 1969.
Philosophy and Religion. London: Oxford University Press,
1961.
1. Searle. John R..
Wilson. John,
2. Searle. John R..
Wilson. John.
3. Searle, John /?..
Wilson. John.
4. Searle. John R..
Wilson. John.
Si SEARLE. John R.
1969 Speech Acrs — An Essay in lhe Philosophy of luinguage.
Cambridge. Cambridge Universily Press (5.* ed.. 1974),
pp. VIII-204.
87
WILSON. John
1961 Philosophy tmd Rpligitm — The I-ogit: ofReligious Reliej.
London. Oxford University Press. pp. VIT1-I20.
Evidentemente, há soluções mistas: no exemplo 1 o nome do
autor podia estar cm maiúsculas como em 5; no exemplo 4 pode
encontrar-se o subtítulo como no primeiro e no quinto. E. como
veremos, há sistemas ainda mais complicados que incluem também
o título da colecção.
De qualquer forma, avaliemos estes cinco exemplos, iodos eles válidos.
Deixemos por agora de lado o exemplo número cinco. Trata-se de
um caso de bibliografia especializada (sistema dc referência autor-data)
de que falaremos mais adiante, a propósito das notas c da bibliografia
final. O segundo é tipicamente americano, sendo mais utilizado nas
notas de rodapé do que na bibliografia finai. O terceiro, tipicamente alemão,
tornou-se raro e. a meu ver. não apresenta qualquer vantagem. A
quarta forma é muito utilizada nos Estados Unidos, e considero-a muito
antipática, pois não permite distinguir imediatamente o título da obra.
O sistema número 1 diz-nos tudo aquilo que nos serve, di/.-nos claramente
que se traia de um livro e dá-nos uma idéia do seu volume.
Revistas — Para ver de imediato a comodidade deste sistema,
procuremos citar de três formas diferentes um artigo de revista:
Anceschi, Luciano. «Orizzonte delia poesia», // Verri I (NS). Fevereiro 1962'
6-21.
Anceschi. Luciano. «Orizzoiue delia poesia». // Verri I (NS). pp. 6-21
Anceschi, Luciano, Orizzonte delia poesia, in «II Verti», Fevereiro I%2. pp. f>
-21.
Haveria ainda outros sistemas, mas vejamos desde já o primeiro
e o terceiro. O primeiro põe o artigo entre aspas c a revista em itálico,
o lereciro, o artigo em itálico e a revista entre aspas. Por que motivo c
preferível o primeiro? Porque permite com um simples olhar compreender
que «Orizzontc delia poesia» não é um livro ruas um texto curto.
Os artigos dc revista entram assim na mesma categoria (como veremos)
dos capítulos dos livros e das actas dos congressos. E claro que
o segundo exemplo é urna variação do primeiro: limita-se a omitir
a referência ao mês de publicação. Porém, o primeiro exemplo informa-
-mc também sobre a data do artigo e o segundo, não. pelo que é deficiente.
Teria sido melhor pôr ao menos: // Verti 1. 1962. Note-se que
88
foi posta a indicação (NS) ou «Nova Série». Isto é muito importante
porque // Verri teve uma primeira série também com o número I, que
é de 1956. Sendo preciso citar aquele número (que obviamente não
podia ter a indicação «antiga série»), seria correcta a seguinte forma:
Ciorlicr. Cláudio. «UApocalisse di Dylan Tliomas». // Verri 1. 1. Outono
1956, pp. 39-46
onde, como se vê, além do número, está especificado o ano. E assim
que a outra citação podia ser reformulada da seguinte maneira:
Anceschi. Luciano. «Orizzunte deli» puesia», II Verri VII, 1. 1962, pp. 6-21.
sc não fosse o facto de a nova série não indicar o ano. Note-se ainda
que certas revistas numeram os fascículos progressivamente ao longo
do ano lou numeram por volume: e num ano podem ser publicados
vários volumes). Portanto, querendo, não seria necessário pôr o
número do fascículo. bastaria registar o ano e a página. Exemplo:
Guglielmi. Guido. xTccnica c lelleratura», Língua esiife. 1966, pp. 323-340.
Se procurar a revista na biblioteca, verificarei que a página 323
se encontra no terceiro volume do primeiro ano. Mas não vejo por
que hei-de sujeitar o meu leitor a esta ginástica (embora certos autores
o façam) quando seria muito mais cômodo escrever:
Guglielmi. Guido. «Técnica e leiteratura», Ungua e st/te. I. 1. 1966
e nessa altura, embora não forneça a página, o artigo é muito mais
acessível. Além disso, se quisesse encomendar a revista ao editor
como número atrasado, não me interessaria saber a página mas o
número do volume. Todavia, a indicação das páginas inicial e final
serve-me para saber sc sc trata de um artigo longo ou de uma breve
nota e. portanto, são informações sempre aconselháveis.
Aurores vários e organizado por — Passamos agora aos capítulos
de obras mais vastas, sejam elas recolhas de ensaios do mesmo
autor ou colectâncas mistas. Eis um exemplo simples:
Morpurgo-Tagliabuc. Guido. «Arislolelisnío e líarocco» in A A W . Rerorica e
Ruroeco. Atti dcl ITI Congresso Inluma/ionale di -Studi
Umanistici. Vene/ia. 15-18 Junho 1954. organizado por
Enrico CastelU. Roma. Bocea. pp. 119-196.
89
O que me diz uma indicação deste iipo? Tudo aquilo dc que
necessito, isto é:
a) Trata-se de um texto integrado numa recolha de outros textos e.
portanlo, o de Morpurgo-Tagliabue não é um livro, embora do número
dc páginas (77) se conclua ser um estudo bastante consistente.
b) A recolha é um volume com o título Retórica e Barocco que
reúne textos dc autores vários ( A A W ou AA.VV.).
c) Esta recolha constitui a documentação das acias de um encontro.
E importante sabê-lo porque em certas bibliografias poderei descobrir
que o volume está catalogado em «Actas de encontros e congressos».
d) Que é organizado por Enrico CastelU. E um dado muito importante,
não só porque cm qualquer biblioteca poderei encontrar a recolha
no nome «Castclli, Enrico», mas também porque, segundo o uso
anglo-saxónico. os nomes dos autores vários não vêm registados em
A (Autores Vários) mas no nome do organizador. Portanto, este
volume, numa bibliografia italiana, apareceria desta forma:
AAW, Retórica e Barocco. Roma. Bocca. 1955. pp. 256. 20 il.
mas numa bibliografia americana tomaria a seguinte forma:
Castclli. Enrico, (ed.), Returiai e Barocco, etc.
onde «ed.» significa «organizador» ou «organizado por» (com «eds."
a organização pertenceu a mais de um indivíduo).
Por imitação do costume americano, hoje em dia este livro podia
ser registado como:
Castclli. Enrico (organizado por). Retórica e Barocco, etc.
São coisas que se devem saber para identificar um livro num
catálogo de biblioteca ou noutra bibliografia.
Como veremos no parágrafo III.2.4. a propósilo de uma experiência
concreta de pesquisa bibliográfica, a primeira citação que
encontrarei deste artigo, na Storia delia Lettcratura Italiano de
Garzanti, falaria do ensaio dc Morpurgo-Tagliabue nos seguintes
termos:
ter preseiiie... A miscelãnea Retórica tf Barocco, Aui dei III Congresso
Internazionale di Studi Uihanistict Milano, 1955. e em particular o importante
ensaio de (i. Morpurgo-Tagliabue, «Arisiolelismo c Barocco».
90
Trata-se de uma péssima indicação bibliográfica, dado que:
á) não diz o nome próprio do autor. /;) leva a crer que o con-
•rresso se realizou em Milão ou que o editor é de Milão (e ambas
as alternativas estão erradas), c) não diz quem é o editor, d) não
indica a dimensão do ensaio, e) não diz por quem é organizada a
miscelãnea. embora com a expressão antiquada «miscelãnea» se
indique que é uma recolha de textos de vários autores.
Ai de nós se procedêssemos assim na nossa ficha bibliográfica.
Devemos redigir a ficha de modo a deixar espaço livre para as indicações
que por enquanto nos faltam. Deste modo, anotaremos o livro
da seguinte forma:
Morpurgo-Tagliabue. G...
«Aristotclismo c Barocco», in AAW. Retórica e Barocco — AUi ciei 111 Congresso
Interna/ionale di Studi Umanistici organizado por .... Milano— 1955. pp....
de modo que nos espaços em branco possamos depois introduzir os
dados que faltam, quando os tivermos encontrado noutra bibliografia,
no catálogo da biblioteca ou mesmo no próprio livro.
Muitos autores e nenhum organizador— Suponhamos agora que
queremos registar um ensaio publicado num livro que é obra de quatro
autores diferentes, sem que nenhum deles se apresente como
organizador. Tenho, por exemplo, à minha frente, um livro alemão
com quatro ensaios, respectivamente de T. A. van Djik. .Tens Ihwe,
Janos S. Petõfi e Hannes Rieser. Por comodidade, num caso deste
tipo. indica-se apenas o primeiro autor seguido de et ai, que significa
et alii;
Djik T. A. van et al.. Zur Bestimmung narraliver Strukntren. etc.
Passemos agora a um caso mais complicado. Trata-se dc um
longo artigo que aparece no torno terceiro do volume duodécimo de
uma obra colectiva. em que cada volume tem um título diferente
do da obra global;
Hymcs, Dell, «Anthropology and Sociology», in Sebeok. Thomas A., org.,
Current Tremi* ia IJngutstics. vol. XII. Linguisiirs and Adjacem
Arts and Sciences, t. 3,TheHague, Mouton. 1974. pp. 1445-1475.
91
- Isto para citar o artigo de Dell Hymcs. Se. pelo contrário, tiver
de citar a obra completa, a informação que o leitor espera já não 6
em que volume se encontra Deli Hymes, mas por quantos volumes
é composta a obra:
Sebcok. Thomas A. org.. Current Trends in Lingüista: \; The Hague. Mtmton.
1967-1976. l2vols.
Quando tenho dc citar um ensaio contido num volume de ensaios
do mesmo autor, o método a adoptar não difere do caso de Autores
Vários, salvo que omito o nome do autor antes do livro:
Rossi-Landi. Ferruccio. «Ideologia come progeitazionc sociale». in // lingUu$-
gio come lavoro e come mercato, Milano. Rômpiani,
1968. pp. 193-224.
Ter-se-á notado que, geralmente, o título de utn capítulo é in um
dado livro, enquanto o artigo de revista não é in a revista e o nome
desta segue-se imediatamente ao título do artigo.
A .série — Um sistema de citação mais perfeito aconselha que
anotemos também a eolccção em que o livro é publicado. Trata-se
de uma informação, que, na minha opinião, não c indispensável,
uma vez que a obra fica suficientemente identificada conhecendo o
autor, título, editor e ano de publicação. No entanto, cm certas disciplinas,
a eolccção pode constituir uma garantia ou uma indicação
dc uma cena tendência científica. A eolccção refere-se entre aspas
depois do título e inclui o número de ordem do volume:
Rossi-l.andi. Ferruccio, li linguaggio come lavoro e come me reato. «Nuov:
Saggi lüiüani 2», Milano. Bompiani. 1968. p. 242.
Anônimo, Pseudônimo, etc. — Há ainda os casos de autores anônimos,
de utilização de pseudônimos e de artigos de enciclopédia
providos de iniciais.
No primeiro caso. basta píir no lugar do nome do autor a indicação
«Anônimo». No segundo, basta fazer suceder ao pseudônimo,
entre parênteses, o nome verdadeiro (se for conhecido), eventualmente
seguido dc um ponto de interrogação se for uma hipótese bastante
provável. Se se trata de um autor reconhecido como tal pela tradição.
92
mas cuja figura histórica lenha sido posta em causa pela crítica mais
recente, registá-lo-emos como «Pseudo». Exemplo:
Longino (Pseudo), Del Sublime.
No terceiro caso. uma vez que o artigo «Secentismo» da Enciclopédia
Treccani tem as iniciais «M. Pr.», procura-se no início do
volume a lista das iniciais, onde sc verifica que se trata dc Mario
Praz. e escreve-se:
ario) PrCaz). «Scccnlismo». Enciclopédia Italiana, XXXI.
Uso do in — Há ainda obras que são agora acessíveis num volume
ensaios do mesmo autor ou numa antologia dc utilização geral, mas
que começaram por ser publicadas em revistas. Sc se trata de uma referência
marginal relativamente ao tema da lese. pode citar-se a fonte
mais acessível, mas sc sc trata de obras sobre as quais a tese se debruça
especificamente, os dados da primeira publicação são essenciais por
razões de exactidào histórica. Nada impede que se use a edição mais
acessível, mas sc a antologia ou volume dc ensaios forem bem feitos
deve encontrar-se neles a referência à primeira edição do trabalho cm
questão. Partindo destas indicações, poder-se-ão então organizar referências
bibliográficas deste tipo:
Kai/. .letrold J. e Fodor. Jerry A., «The Structurc of a Seraantic Thcory».
Language. 39. 1963, pp. 170-210 (agora in
Fodor, Jerry A. c Kalz, Jerrold J.. orgs., 77IÍ
Structurc of language, Englcwood Cliffs;
Preniice-Ilall. 1964. pp. 479-5IH).
Quando se utiliza a bibliografia especializada do tipo autor-data
(de que falaremos em V.4.3.). deve indicar-se em destacado a data
da primeira publicação:
Kat/, Jerrold J. e Fodor. Jerry A.
1963 «The Structure of a Scmantic Theory». Language 39 (agora
in Fodor. J. A. G Kat/. J. J.. orgs., Vic Structure of Language,
Engkwood Cliffs. Prcnticc-Hall. 1964, pp. 479-518).
Citações de jornais — As citações de diários c semanários funcionam
como as citações das revistas, salvo que é mais conveni-
93
eme (para mais fácil acesso) pôr a data de preferência ao número.
Ao citar de passagem um artigo não é estritamente necessário indicar
também a página (embora seja sempre útil; nem. no caso dos
jornais diários, indicar a coluna. Mas se se fizer um estudo específico
sobre a imprensa, então estas indicações tornam-se quase
indispensáveis:
Nascimbem. Gtulio, «Come ('Italiano santo e navigatore é divcnlato bipo!aro>..
Corriere delia Sera. 25.6.1976. p. 1. col. 9.
Para os jornais que não lenham uma difusão nacional ou internacional
(ao contrário do que acontece com The Times, l.e Monde
ou o Corriere delia Será), é conveniente especificar a cidade; cf.
Ga-zeilino (Venezia). 7.7.1975.
Citações de documentos oficiais ou de obras monumentais —
Para os documentos oficiais existem abreviaturas e siglas que variam
de disciplina para disciplina, lal como existem abreviaturas típicas
para trabalhos sobre manuscritos antigos. Aqui só podemos remeter
o leitor para a literatura específica, cm que se inspirará.
Recordemos apenas que. no âmbito de uma dada disciplina, cenas
abreviaturas são de uso tradicional, não sendo vós obrigados a dar
outros esclarecimentos. Para um estudo sobre as actas parlamcnlares
americanas, um manual dos Eslados Unidos aconselha citações
do tipo:
S. Rcs. 21K, 83d Cong.. 2d Sess.. 100 Cong. Rec. 2972 (1954)
que os especialistas estão em condições de ler assim: «Senatc
Resolution number 218 adopted at the second session of lhe Eighlv-
-Third Congress, 1954. and recorded in volume 100 of lhe
Congressional Record beginning on page 2972».
Da mesma forma, num estudo sobre a filosofia medieval, quando
se indicar um texto como susceptível de ser encontrado in P. I.. 175.
948 (ou HL. CLXXV. col. 948), qualquer pessoa compreenderá que
nos estamos a referir à coluna 948 do volume 175 da Patrologic.
latina de Migne, uma recolha clássica de textos latinos da Idade
Média cristã. Mas se se estiver a elaborar ex novo uma bibliografia
em fichas, será conveniente que. da primeira vez. se anole a refe-
94
rência completa da obra, até porque na bibliografia geral será melhor
citá-la por extenso:
Patroiosiae Cargas Completas, Series Latina, organizador J. P. Migne, Pari*.
Gurnier. 1844-1866. 222 võls. (•iSuppíemenlitm, Turnhout. Brepol*. 1972).
I
err
Citações de clássicos — Para citar obras clássicas, há convenções
quase universais, do tipo tífulo-livro-capítulo. ou parle-parágrafo
ou canto-verso. Certas obras foram agora subdivididas segundo
critérios que remontam à antigüidade: quando organizadores modernos
lhes sobrepõem outras subdivisões, geralmente conservam também
a referência tradicional. Deste modo, se quisermos citar da
Metafísica de Aristóteles a definição do princípio da nào contradição,
a citação será: Mel. TV, 3. 1005 b, 18.
Um trecho dos Collected Papers de Charles S. Peirec cita-se
habitualmente: ÇP, 2.127.
Um versículo da Bíblia citar-se-á como 1 Som, 14:6-9.
As comédias c as tragédias clássicas (mas também as moders)
citam-se colocando o acto em números romanos, a cena
em números árabes e, eventualmente, o verso ou os versos: Fera,
IV, 2:50-51. Os anglo-saxões por vezes preferem: Shrew. IV.
i i , 50-51.
Evidentemente, isto exige que o leilor da tese saiba que Fera
quer dizer A fera amansada, de Shakespeare. Se a tese for sobre
teatro isabelino. não há problema. Mas se a referência intervém como
divagação elegante e douta numa tese dc psicologia, será melhor
fazer uma citação mais extensa.
O principal critério deveria ser a funcionalidade e a fácil compreensão:
se me referir a um verso de Dante como 11.27.40. pode
logicamente deduzir-se que se eslá a falar do quadragésimo verso
do canto 27 da segunda parte. Mas um especialista de Dante preferiria
Purg. XXVII, 40. e é conveniente conformarmo-nos aos costumes
discipünares — que conslitucm um segundo, mas não menos
importante, critério.
Evidentemente, é preciso estar atento, aos casos ambíguos. Por
exemplo, os Pensamentos dc Pascal são referidos com um número
diferente, consoante nos reportamos à edição de Brunschvicg ou a
outra, pois são ordenados de forma diversa. E isto são coisas que
se aprendem lendo a literatura crítica sobre o lema.
95
Citações de obras inéditas e de documentos privados — Teses
de licenciatura, manuscritos e documentos semelhantes sào especificados
como tal. Vejamos dois exemplos:
íià Porta, Andréa, Aspeni di una lenria deWesecuzione nel linguaggiu ntiiu
rate. Tese discutida na Faculdade de Letras e Filosofia.
Bologna, A. A. 1975-76.
Valesio. Paulo. Npvantiqua; liheiorics as a Comemporary Lingnisiic
Theory. texto dactilografado em curso de publicação ipo;
gentil cedância do autor).
De igual modo sc podem citar cartas privadas e comunicações
pessoais. Se são de importância secundária, basta mencioná-las numa
nota. Mas se têm uma importância decisiva para a nossa tese, figurarão
também na bibliografia;
-Smiih, John. Cana pessoal ao autor (5.1.1976).
Como se verá ainda em V.3., para este tipo de citações deveremos
ter a delicadeza dc pedir autorização a quem nos fez a comunicação
pessoa] e. se ela tiver sido oral. mostrar-lhe a nossa transcrição
para aprovação.
Originais e traduções — Em rigor, um livro deveria ser consullado
e citado na língua original. Mas a realidade é bem diferente.
Sobretudo porque existem línguas que. por consenso geral, não c!
indispensável saber (corno o búlgaro) e outras que nào se é obrigado
a saber (parte-se do princípio de que todos sabem um pouco de francév
c dc inglês, um pouco menos de alemão, que um italiano pode compreender
o espanhol e o português mesmo sem saber estas línguas,
embora isso não passe de urna ilusão, e que regra geral não se percebe
o russo ou o sueco). Em segundo lugar, porque certos livros
podem muito bem ser lidos cm iraduçòes. Se se fizer uma tese sobre
Molière. seria bastante grave ter lido este autor em italiano, mas numa
tese sobre a história do Ressurgimento não há grande problema se
se ler a História de Itália de Denis Mack Smith na tradução italiana
publicada pela Laterza. E seria honesto citar o livro cm italiano.
Todavia, a indicação bibliográfica poderá vir a ser útil a outroN
que queiram utilizar a edição original e. portanto, será conveniente
96
ar uma indicação dupla. O mesmo sucede se se tiver lido o livro
sm inglês. Está certo citá-lo cm inglês, mas por que não ajudar outros
leitores que queiram saber se há uma tradução italiana e quem a
publicou? Deste modo. para ambos os casos, a forma mais adequada
é a seguinte:
Mack Smith, Denis. ftaly. A Modem Mistory, Ann Arbor, The University of
Michigan Press, 1959 (tr. it. de Albeno Acquaronc, Storia
d'ltalia — Dal 1851 al 195S, Bari, Laier/.a, 1959).
Há excepções? Algumas. Por exemplo, sc a tese não for em grego
e suceder citar-se (o que pode acontecer numa dissertação sobre
temas jurídicos) A República, de Platão, bastará citá-la em italiano,
desde que sc especifique a tradução c a edição a que se faz referência.
Do mesmo modo. se se fizer uma tese dc antropologia cultural,
sc tiver de citar o seguinte livro:
_ounan, Ju. M. e Uspcnskij. B A.. Tipologia delia cultura, Milano. Rompiam,
1975
poderemos sentir-nos autorizados a citar apenas a tradução italiana,
e isto por duas boas razões: é improvável que os nossos leitores
ardam de desejo dc ir verificar no original russo, c não existe um
livro original, dado que sc trata de uma recolha dc ensaios publicados
em várias revistas, coligidos pelo organizador italiano. Quando
muito poderia indicar-se a seguir ao título: organizado por Remo
Faccani e Marzio Marzaduri. Mas se a tese fosse sobre a situação
actual dos estudos semióticos, então deveria proceder-se com maior
exactidão. Admitindo que não se está em condições de ler o russo
(e pressupondo que a tese não seja sobre semiótica soviética), é possível
que nào nos refiramos a esta recolha em geral, mas que estejamos
a discutir, por exemplo, o sétimo ensaio da recolha. E então
será interessante saber quando foi publicado, pela primeira vez c
onde: tudo indicações que o organizador terá dado em nota ao título.
Assim, registar-sc-á o ensaio da seguinte maneira:
Juri M.. "O ponjatii geografíceskogo prostranslvu v russkich srcdncvekovych
tckstach». Trúdy pp znakavym sistemem II. 1965.
pp. 210-216 (tr. tL de Remo Faccani. «II conceito di spazio
97
geográfico nci testi medievali russi». in Lotman. Ju. M. e Uspenskij, B. A..
Tipologia delia cultura, organizado por Reino Faccani c Marzio Marzadurí.
Milano, Bompiani. 1975).
Deste modo. não estaremos a fingir ter lido o texto original, pois
assinalou-se a lbnte italiana, mas forneceram-se ao leitor todas as
indicações que eventualmente lhe possam servir.
Para obras em línguas pouco conhecidas, quando não existe tradução
e se quer assinalar a sua existência, é habitual pfir entre parênteses
a seguir ao título uma tradução na nossa língua.
Examinemos finalmente um caso que. à primeira vista, parece
muito complicado e cuja solução «perfeita» parece demasiado minuciosa.
E veremos como mesmo as soluções podem ser doseadas.
David Efron é um judeu argentino, que em 1941 publicou em
inglês, na America, um estudo sobre a gestuaüdade dos judeus e
dos italianos de Nova Iorque, com o título Gesture and tòtvironmem.
Só em 1970 aparece na Argentina uma tradução espanhola, com um
título diferente: Gesto, raza y cultura. Em 1972, é publicada uma
reedição inglesa, na Holanda, com o título (semelhante ao espanhol)
Gesture, Race and Culture. Desta edição, foi feita a tradução italiana,
Gesto, raza e cultura, cm 1974. Como citar este livro?
Comecemos por ver casos extremos, ü primeiro diz respeito
a uma tese sobre David Efron: nesle caso, a bibliografia final terá
uma secção dedicada às obras do autor, e todas estas edições serão
citadas por ordem de datas como outros tantos livros, e com a
especificação, em cada citação, dc que é uma reedição do precedente.
Supõe-se que o candidato tenha visto todas as edições, pois
deve comprovar se houve modificações ou cortes. O segundo caso
refere-se a uma tese de economia, dc ciências políticas ou de
sociologia, que trate de problemas da emigração e em que o livro
de Efron só é citado porque contém algumas informações úteis
sobre aspectos marginais: neste caso, poderá eilar-se apenas a edição
italiana.
Vejamos agora um caso intermédio: a citação é marginal, mas é
importante saber que o estudo é de 1941 e não de há poucos anos
atrás. A melhor solução seria:
Efron. David, Gesntre and Eiivironment, New York, King's Crown Press, 194!
(tr. ít. de Mtchelangclo Spada. Gesto, ruzza e cultura. Milano.
Rompiam. 1974).
98
Dá-se, todavia, o caso de a edição italiana indicar, no Copyright,
que a primeira edição é de 1941 e da responsabilide da
King's Crown, mas não indicar o título original, referindo-se por
extenso à edição holandesa de 1972. E uma negligência grave (e
posso dizê-lo porque sou eu que organizo a colecção em que foi
publicado o livro de Efron). dado que um estudante poderia citar
a edição dc 1941 como Gesture, Race and Culture. Eis porque
é sempre necessário verificar as referências bibliográficas em
mais de urna fonte. Um estudante mais aguerrido que quisesse
dar também uma informação suficiente sobre o destino de Efron
e os ritmos da sua redescoberta por parte dos estudiosos, poderia
dispor dc dados que lhe permitissem fornecer uma ficha assim
concebida:
Efron. David. Gesture and F.nvironmeni, New York. King's Crown Press. 1941
(2.fi ed.. Gesture. Race and Culture, The Hague. Mowon, 1972;
tr. il. dc Michelangelo, Sparia. Gesto, razza e cultura. Milano.
Rompiani, 1974).
Por aqui se pode ver. em conclusão, que o caracter mais ou menos
completo da informação a fornecer depende do tipo de tese e do
papel que o livro em questão desempenha no discurso global (se
constitui fonte primária, fonte secundária, fonte colateral e acessória,
etc).
Na base destas indicações, os estudantes estarão agora em
condições de elaborar uma bibliografia final para a sua tese. Mas
voltaremos a ela no Capítulo V I . Tal como nos parágrafos V.4.2.
e V.4.3., a propósito de dois sistemas diferentes de referências
bibliográficas e de relações entre notas e bibliografia, encontram-
se exemplificadas duas páginas inteiras de bibliografia
(Quadros 16 e 17). Vejam-se, portanto, estas páginas para um
resumo definitivo do que foi dito. Por agora, interessava-nos saber
como se faz uma boa citação bibliográfica para podermos elaborar
as nossas fichas bibliográficas. As indicações fornecidas
são mais do que suficientes para se poder constituir um ficheiro
correcto.
Para concluir, apresentamos no Quadro 2 um exemplo de ficha
para um ficheiro bibliográfico. Como se vê. no decurso da pesquisa
bibliográfica comecei por identificar a tradução italiana Seguidamente,
encontrei o livro na biblioteca e assinalei ao alto, à direita, a sigla
99
da biblioteca e os dados para a localização do volume. Finalmente,
encontrei o volume e retirei da página do eppyrigkt o título e o editor
originais. Não havia indicações de datas, mas encontrei uma na
banda interior da capa e anotei-a com reservas. Indiquei depois o
motivo por que o livro deve ser tido em conta.
IIL2.4. A biblioteca de Alexandria: uma experiência
Poderão, todavia, objeetar que os conselhos que dou estão muito
bem para um estudioso especializado, mas que um jovem sem preparação
específica que se candidata à tese encontra muitas dificuldades;
— não tem à disposição uma biblioteca bem fornecida porque
naturalmente vive numa localidade pequena:
- lem idéias muito vagas sobre aquilo que procura e nem sequer
sabe por onde começar no catálogo por assuntos, porque nào
recebeu instruções suficientes do professor:
— não pode deslocar-se de uma biblioteca para outra (porque
não tem dinheiro, não tem tempo. 6 doente, etc).
Procuremos então imaginar uma situação-limite. Imaginemos
um estudante-trabalhador que durante os primeiros quatro anos
do curso foi muito poucas vezes à universidade. Teve contactos
esporádicos com um só professor, por exemplo, o professor de
Hstética ou de História da Literatura Italiana. Já um pouco atrasado
para fazer a tese. tem à sua disposição o úhimo ano acadêmico.
Em Setembro conseguiu abordar o professor ou um seu
assistente, mas como se estava em período de exames, a conversa
foi muito rápida. O professor disse-lhe: «Por que não faz uma
tese sobre o conceito de metáfora nos tratadistas do barroco italiano?
». E o estudante voltou para o seu pequeno meio. uma
localidade dc mil habitantes sem biblioteca municipal. A localidade
mais importante (noventa mil habitantes) está a meia hora
de viagem. Há aí uma biblioteca, aberta de manhã e à tarde.
Trata-se de, aproveitando os dois meios dias de tolerância no
trabalho, ver se consegue encontrar lá algo com que possa formar
urna primeira idéia da tese e. provavelmente, fazer todo o
100
QUADRO 1
RESUMO DAS REGRAS
PARA A CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
No final desta longa resenha de usos bibliográficos, procuremos
recapitular enumerando todas as indicações que deve ter
uma boa citação bibliográfica. Sublinhámos (na impressão virá
em itálico) aquilo que deve ser sublinhado e pusemos entre
aspas tudo o que deve aparecer entre aspas. Há uma vírgula
onde queremos uma vírgula c um parêntese onde queremos o
parêntese.
O que está assinalado com um asterisco constitui indicação
essencial que nunca deve ser omitida. As outras indicações
são facultativas e dependem do tipo de tese.
LIVROS
* 1. Apelido e nome de autor (ou dos autores, ou do organizador,
com eventuais indicações sobre pseudônimos ou
falsas atribuições),
* 2. Título e subtítulo da obra,
3. («Colecção»),
4. Número da edição (se houver várias),
* 5. Local de edição: se no livro não consta, escrever s.l. (sem
local),
* 6. Editor: se no livro não consta, omiti-lo,
* 7. Data de edição: se no livro não consta, escrever s.d. (sem
data).
8. Dados eventuais sobre a edição mais recente.
9. Número de páginas e eventual número de volumes de que
a obra se compõe.
101
10. (Tradução: sc o título está cm língua estrangeira e existe
uma tradução portuguesa, espcciMea-se nome do tradutor, título
português, local de edição, editor, dala dc edição, eventualmente
o número de páginas).
ARTIGOS DE REVTSTAS
* 1. Apelido c nome do autor.
* 2. «Título do artigo ou capítulo»,
* 3. Título da revista,
* 4. Volume e número do fascículo (eventuais indicações dc
Nova Série),
5. Mês e ano.
6. Páginas em que aparece o artigo.
CAPÍTULOS D E LIVROS, ACTAS DE CONGRESSOS.
ENSAIOS E M O B R A S COLECTfVAS
* I. Apelido e nome do autor.
* 2. «Título do capítulo ou do ensaio».
* 3. in
* 4. Eventual nome do organizador da obra colectiva ou A A W .
* 5. Título da obra colectiva,
6. (Eventual nome do organizador se se pôs A A V V ) ,
* 7. Eventual número do volume da obra em que se encontra
o ensaio citado.
* 8. Local, editor, dala. número de páginas como no caso dos
livros de um só autor.
102
QUADRO 2
EXEMPLO DE FICHA BIBLIOGRÁFICA
í3s . C O V A .
e 2t7b
r>\ B
103
trabalho sem outro recurso. Está excluída a hipótese de poder comprar
livros caros ou de pedir microfilmes noutro lado. Quando muito,
poderá i r ao centro universitário (com as suas bibliotecas mais beir,
fornecidas) duas ou ü"ês vezes entre Janeiro c Abril. Mas de momento
terá de arranjar-se in loco. Se for mesmo necessário, poderá comprar
alguns livros recentes, edições econômicas, gastando no máximo
umas vinte mil liras.
Este é o quadro hipotético. Procurei então colocar-me nas condições
em que se encontra este estudante, pondo-me a escrever estas
linhas numa aldeia do Alto Monferrato, a vinte e três quilômetros
de Alexandria (noventa mil habitantes, uma biblioteca municipal
— pinacoteca — museu). O centro universitário mais próximo é
Gênova (uma hora de viagem), mas em hora c meia chega-se a Turim
ou a Pavia. Em três horas a Bolonha. E já uma situação privilegiada,
mas não vamos entrar em linha de conta com os centros universitários.
Trabalharemos só em Alexandria.
Em segundo lugar, procurei um tema sobre o qual nunca tinha feito
estudos específicos, e para o qual me encontro muito mal preparado.
Trata-se. pois, do conceito de metáfora na tratadística barroca italiana.
E óbvio que não sou completamente virgem no assunto, uma vez que
já me ocupei de estética e dc retórica: sei. por exemplo, que. em Itália,
nas últimas décadas saíram livros sobre o Barroco dc Giovanni Getto.
Luciano Anceschi e Ezio Raimondi. Sei que existe um tratado do século
xvu que é // cannocchiale aristotelico de Emanuelc Tcsauro, no qual
estes conceitos são largamente discutidos. Mas isto é também o mínimo
que o nosso estudante deveria saber, uma vez que no fmal do terceiro
ano já terá feito alguns exames c, se leve contactos com o professor de
que se falou, é porque terá lido algo da sua autoria em que se faz referência
a esles assuntos. De qualquer forma, para tornar a experiência
mais rigorosa, parto do princípio de que nào sei nada daquilo que sei.
Limito-mc aos meus conhecimentos da escola média superior: sei que
o Barroco é algo que tem a ver com a arte c a literatura do século x v u
e que a metáfora c uma figura de retórica. E é tudo.
Decido dedicar à pesquisa preliminar três tardes, das três as seis.
Tenho nove horas à minha disposição. Em nove horas não se lêem
livros, mas pode fazer-se uma primeira investigação bibliográfica.
Tudo o que vou relatar nas primeiras páginas que se seguem foi
feilo cm nove horas. Não pretendo fornecer o modelo de um trabalho
completo e bem feito, mas o modelo de um trabalho de encaminhamento
que deve servir para tomar outras decisões.
104
Ao entrar na biblioteca, encontro-me, de acordo com o que se
disse em 111.2.1., perante três possibilidades:
1) Começar a examinar o catálogo por assuntos: posso procurar
nos artigos seguintes: «Italiana (literatura)», «Literatura (italiana)»,
«Estética», «Século xvu», «Barroco», «Metáfora». «Retórica».
«Tratadistas», «Poéticas»1. A biblioteca tem dois catálogos, um antigo
e um aetualizado, ambos divididos por assuntos e autores. Como
ainda não estão integrados, preciso dc procurar em ambos. Poderei
fazer um cálculo imprudente: sc procuro uma obra do século X I X ,
ela estará com certeza no catálogo antigo. Engano. Se a biblioteca
a comprou há um ano a um antiquário, estará no catálogo moderno.
A única coisa de que posso estar certo é que, se procuro um livro
saído na última década, só pode estar no catálogo moderno.
2) Começar a procurar na sala dc obras de referência em enciclopédias
e histórias da literatura. Nas histórias da literatura (ou da estética)
deverei procurar o capítulo sobre o século x vu ou sobre o Barroco.
Nas enciclopédias poderei procurar Século XVU, Barroco, Metáfora,
Poética, Estética, etc. tal como farei no catálogo por assuntos.
3) Começar a fazer perguntas ao bibliotecário. Afasto imediatamente
esta possibilidade, não só porque é a mais fácil, mas também
para não ficar numa siluação de privilégio. Com efeito, conheço o
bibliotecário, e. quando lhe disse o que estava a fazer, começou a seleccionar-
me uma série dc títulos de repertórios bibliográficos que possuía,
alguns mesmo em alemão e em inglês. Teria assim começado
logo a explorar um íílão especializado, pelo que não tive em conta as
suas sugestões, üfereceu-mc ainda facilidades para poder requisitar
muitos livros de uma só vez, mas recusei-as cortesmente. tendo-me
apenas e sempre dirigido aos contínuos. Tenho dc controlar tempos e
dificuldades, tal como um estudante comum teria de o fazer.
Decidi, assim, partir do catálogo por assuntos e fiz mal. porque
tive uma sorte excepcional. Em «Metáfora» eslava registado: Giuseppe
Conte. La metáfora harocea — Saggio snlle. poetiche dei Seicento,
1 Enquanto procurar «Século xvu». «Barroco" o» «F.siéiica» me parece bastante
óbvio, a ideia de ir ver cm "Poética» parece um pouco mais subtil. Eis o
motivo: não podemos imaginar um estudante que chegue a esle tema partindo do
2ero: nem teria conseguido formulá-lo: portanto, ou de um professor, ou dc um
amigo ou dc uma leiiura preliminar, a sugestão veio-lhe de algum lado. Deste modo,
terá ouvido falar das «poéticas do Barroco» ou das poéticas (ou programas dc ane)
geral. Partimos, pois do princípio dc que o estudante está de posse dcslc dado.
105
Milano. Mursia. 1972. Era praticamente a minha tese. Se for desonesto,
posso limitar-me a copiá-la. mas seria também estúpido, pois
é muito provável que o meu orientador também conheça este livro.
Se quiser fazer uma boa tese original, este livro põe-me numa situação
difícil, dado que ou consigo dizer qualquer coisa mais e diferente,
ou estou a perder o meu tempo. Mas se quiser fazer uma
honesta tese de compilação, ele pode constituir um bom ponto de
partida. Poderei, pois, começar por ele sem mais problemas.
ü livro tem o defeito de não possiür uma bibliografia final, mas
tem densas notas no fim de cada capítulo, onde os livros, além de
cilados. são muitas vezes descritos e apreciados. Consigo seleccionar
aproximadamente uns cinqüenta títulos, mesmo depois de ter
verificado que o autor faz freqüentes referências a obras de estética
c de semiótica contemporânea que não têm propriamente que ver
com o meu tema, mas que aclaram as suas relações com os problemas
de hoje. Neste caso, estas indicações podem servir-me para imaginar
uma tese um pouco diferente, orientada para as relações entre
Barroco e estética contemporânea, como veremos depois.
Com os cinqüenta títulos «históricos» assim reunidos, ficarei já
com um ficheiro preliminar, para explorar depois o catálogo por
autores.
Mas decidi renunciar lambem a este caminho. O golpe dc sorte
tinha sido demasiado singular. Deste modo. procedi como sc a biblioteca
não tivesse o livro de Conte (ou como se não o tivesse registado
nos assuntos cm questão).
Para tornar o trabalho mais metódico, decidi passar à via número
dois: fui, assim, ã sala de obras de referência e comecei pelos
lextos gerais, mais precisamente pela Enciclopédia Treccani.
Nào encontrei «Barroco»: em contrapartida, havia «Barroca, arte»,
inteiramente dedicado às artes figurativas. O volume da letra B é
dc I93U. pelo que o facto fica explicado: ainda nào se tinha iniciado
na altura a reabilitação do Barroco, em Itália. Pensei então em ir
procurar «Seiscentismo». termo que durante muilo tempo teve uma
conotação um tanto depreciativa, mas que cru 1930. numa cultura
bastante influenciada pela desconfiança croeiana relativamente ao
Barroco, podia ter inspirado a formação da terminologia. E aqui tive
uma grande surpresa: um belo artigo, extenso, aberto a todos os problemas
da época, desde os teóricos e poetas do Barroco italiano
como Marino ou Tcsauro. até às manifestações do barroquismo noutros
países (Gracián. l.ily. Gongora, Crashaw. etc). Boas citações.
106
uma bibliografia substancial. Vejo a data do volume e verifico que
é tlc 1936; vejo as iniciais e verifico que são dc Mario Praz. Tudo
o que se podia ter de melhor naquela época (c em muitos aspectos
ainda hoje). Mas admitamos que o nosso estudante não sabia quão
grande e subtil crítico é Praz: verificará, todavia, que o artigo é estimulante
e decidirá pô-lo em ficha, com tempo, mais tarde. Por agora,
passa à bibliografia e vê que este Praz. que desenvolve os artigos
tão bem, escreveu dois livros sobre o assunto: Secenüsmo e marinismo
in Inghilterra, de 1925. c Studi sul concettismo, de 1934. Fará
assim uma ficha para cada um destes livros. Depois encontrará alguns
títulos italianos, de Crocc a D'Ancona, que anota: detecta uma referência
a um poeta crítico contemporâneo como T. S. Eliot e. finalmente,
depara-se-lhe uma série dc obras em inglês e em alemão.
Toma obviamente nota delas todas, mesmo se não souber estas línguas
(depois se verá), mas verifica que Praz falava do seiscentismo
em geral, enquanto ele procura coisas mais especificamente centradas
na situação italiana. A situação no estrangeiro será evidentemente
de ter em conta como pano de fundo, mas talvez não se deva
começar por aí.
Vejamos ainda a Treccani cm «Poética» (nada. o leitor é remetido
para «Retórica». «Estética» e «Filologia»»), «Retórica» e
«Estética».
A retórica é tratada com uma certa amplitude, há um parágrafo
sobre o século xvu, a rever, mas nenhuma indicação bibliográfica
específica.
A estética é da autoria dc Guido Calogero, mas. como sucedia nos
anos trinta, é entendida como disciplina eminentemente filosófica Lá
está Vico. mas nào os tratadistas barrocos. Isto permite-me vislumbrar
um caminho a seguir: se procuro material italiano, encontrá-lo-
-ei mais facilmente entre a crítica literária e a história da literatura, e
não na história da filosofia (pelo menos, como depois se verá. até as
épocas mais recentes). Em «Estética» encontro, todavia, uma série de
títulos de histórias clássicas da estética que poderão dizer-me qualquer
coisa — são quase todas em alemão ou inglês c muito antigas:
Zimmerman, dc 1858. o Schlasler. de 1872, o Bosanqucu de 1895.
seguidamente Saintsbury, Menendez y Pelayo, Xnight c, finalmente,
"roce. Direi desde já que. salvo o de Croce, nenhum destes textos
xiste na biblioteca de Alexandria. De qualquer forma, são registados,
pois mais tarde ou mais cedo poderei precisar de lhes dar uma
vista de olhos, depende do caminho que a tese tomar.
107
Procuro o Grande Dizionario Enciclopédico Utet, porque me
lembro de que tinha artigos muito desenvolvidos e actuaüzados sobre
«Poética» e outras coisas que me são úteis, mas não há. Vou então
folhear a Enciclopédia Filosófica de Sansoni. De interessante encontro
«Metáfora» e «Barroco», ü primeiro termo não me dá indicações
bibliográficas úteis, mas diz-me (e vou-me apercebendo cada
vez melhor da importância desta advertência) que tudo começa com
a teoria da metáfora de Aristóteles. O segundo refere alguns livros
que encontrarei depois em obras de consulta mais especificas (Croee.
Venturi, Getto. Rousset, Anceschi. Raimondi) e faço bem anotar
todos; com efeito, descobrirei mais larde que está aqui registado um
estudo muito importante dc Rocco Montano. que as fontes que viria
a consultar depois não referiam, quase sempre por serem anteriores.
Nesta altura pensei que talvez, fosse mais produtivo abordar uma
obra de referência mais aprofundada e mais recente, e procuro n
Síoria delia Letieralara Italiana organizada por Cecchi e Sapegno.
publicada pela Garzanti.
Além de uma série de capítulos de autores vários sobre a poesia,
a prosa, o teatro, os viajantes, etc, encontro um capítulo de
Franco Croce, «Critica e trattatistica dei Barocco» (de umas cinqüenta
páginas). Limito-me apenas a este. Percorro-o muito à pressa
(não estou a ler textos, mas a elaborar uma bibliografia) e vejo que
a discussão crítica se inicia com Tassoni (sobre Petrarca), continua
com uma série de autores que falam sobre o Adone de Marino
(Stigliani, Errico, Aprosio, Aleandri. Vlllani. etc), passa pelos tratadistas
a que Croce chama barroco-moderados (Pcrcgrini, Sfor/.a
Pallavicino) e pelo texto base de Tesauro. que constitui o verdadeiro
tratado em defesa do engenho e perspicácia barrocos («talvez a obra
mais exemplar de todo o preceituário barroco mesmo ao nível europeu
») e termina com a crítica dos finais do século XVtt (Frugoni.
Lubrano. Boschini. Malvasia, Bellori e outros). Vejo que o essencial
do que pretendo deve centrar-se em Sforza Pallavicino. Peregrini
e Tesauro. e passo à bibliografia que compreende uma centena de
títulos. Esta está organizada por assuntos e não por ordem alfabética.
Tenho de ser eu a pô-los cm ordem através das fichas. Observou-
-se que Franco Croce se ocupa de vários críticos, desde Tassoni a
Frugoni, e em boa verdade seria conveniente fazer a ficha de todas
as referências bibliográficas que ele indica. Pode acontecer que, para
a tese. apenas sirvam as obras sobre os tratadistas moderados e sobre
Tesauro. mas para a introdução e paia as notas pode ser útil fazer
108
EXEMPLO DE FICHA A COMPLETAR, REDIGIDA COM BASF
NUMA PRIMEIRA FONTE BIBLIOGRÁFICA COM LACUNAS
r ^ - >
109
referência a outras análises do período. Lembre-se que esia bibliografia
inicial deveria ser discuiida pelo menos uma vez. quando estivesse
pronta, com o orientador. Ele deverá conhecer bem o tema c,
portanto, poderá dizer desde logo aquilo que podemos pôr dc parle
e aquilo que temos absolutamente dc ler. Quando o ficheiro estiver
cm condições, poderão ambos percorrê-lo numa hora. De qualquer
forma, c para a nossa experiência, limito-me às obras gerais sobre
o Barroco e à bibliografia especifica sobre os tratadistas.
Dissemos já como se deve fazer as fichas dos livros quando a
nossa fonte bibliográfica é incompleta: na ficha reproduzida na página
109 deixei espaço para escrever o nome próprio do autor (Ernesto.
Epaminonda, Evaristo ou Elio?) e o nome do editor (Sansoni. Nuova
Itália ou Nerbini?). A seguir à data fica espaço para outras indicações.
A sigla ao alto, só a acrescentei, evidentemente, depois de a
ter verificado no catálogo por autores de Alexandria (BCA: Biblioteca
Cívica di Alessandria, foi a sigla que escolhi) e ter visto que o livro
de Raimondi (Ezioü) tem a cota «Co D 119».
E assim farei com todos os outros livros. Nas páginas seguintes,
porém, procederei dc modo mais rápido, citando autores e título*
sem outras indicações.
Resumindo, até agora consultei a Treccani e a Grande Enctcloffedia
Filosófica (e decidi registar apenas as obras sobre a tratadistica italiana)
e o ensaio de Franco Croce. Nos quadros 3 c 4 encontra-se a
enumeração de tudo o que foi posto era fichas. (ATtNÇÀo: a cada
uma das minhas indicações sucintas deve corresponder uma ficha
completa e analítica com os espaços em branco para as informações
que me faltam!)
Os títulos antecedidos de um «sim» são os que existem no catálogo
por autores da Biblioteca áe Alexandria. Efeeti vãmente, acabada
esta primeira fase de elaboração de fichas, c para me distrair
um pouco, folheei o catálogo. Fiquei assim a saber que outros livros
posso consultar para completar a minha bibliografia.
Como poderão ver. de trinta e oito obras fichadas, encontrei
vinte e cinco. Chegámos quase aos setenta por cento. Incluí também
obras de que nào fiz ficha mas que foram escritas por autores
fichados (ao procurar uma obra encontrei também, ou em vez dela.
uma outra).
Disse que tinha limitado a minha escolha apenas aos lítulos que
sc referem aos tratadistas. Deste modo. ao prescindir dc registar textos
sobre outros críticos, não anotei, por exemplo, a Idea dc Punokky.
110 111
iNj
Q L A D R O 4
OIÍKAS PARTICULARES SÜURli TRATADIStAS ITALIANOS DO SÉCULO XVII IDRXTIFICADAS ATRAVÉS DO EXAME DE TRRS
t£LI:MENTOS Pli CONSULTA (Trcixani, Gramk Enciclopédia Eilosuliira. Slorifl deliu Ulk-ialiiia Italiana liarvaiili)
r.Miiii.li:»!':.-.
114 IMMlilliVll
Obras encontradas no caiálugo
[:l!'e$ti'iicii
Volpe, L., Le idee estnirfu- dei Cará] Sforw Patiavxcina
Ci>nsi«ii)/o. M , DuUo Sailigcro ul Qtiúãrto
Cope, J.. «The 1654 Exliiion oí Emwmclc Tçsauro^s // cannochlale
itrislolelivo»
Po/./.Í. C. «Noie prelusíve alio atile dd caimucchiale»
Dcihcll. S. L.. "Graciúri, Tcxaurò and llic Nalmv bf Mciaphysical Wii»
Mn//co. J. A., «Mctaphysiutl Poeiiy and lhe Puclíus «tf Convspundcncc»
Mcn.ip.icc lí risca, 1.., "L'< > > i i • i • i • i i • • • i • . . . 1111... • i i i . . . - • - . « . . . . - . . . . i
Bianchi. D.. "Iniomo al Canuoccliialc ArlitotUlico-
HúlzfelcJ, II.. «Threç Naúonal Dcfuimations of Árisipüd: Tesouro,
(inicián. Iloilciiu»
Ilucke. G. R.. Mc W<arocca Idlcnirín»
Tradução italiana
// numierismo ilel Tusso
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11
preender quais são as dimensões do problema na cultura européia,
em Espanha, em Inglaterra, em França e na Alemanha. Volto a
encontrar nomes apenas aflorados no artigo de Mario Praz tia
Treccani e outros, de Bacon a L i l y e Sidncy, Gracián. Gongora.
Opitz. as teorias do wir, da agudeza, do engenho. Pode acontecer
que a minha tese não tome em consideração o barroco europeu
mas estas noções devem servir-me de pano de fundo. De qualquer
forma, terei de ter uma bibliografia completa sobre todas estas coisas.
O texto de Anceschi forneceu-me cerca de 250 títulos. Encontro
a primeira lisla de livros anteriores a 1946 e, em seguida, uma
bibliografia dividida por anos, de 1946 a 1958. Na primeira secção
volto a confirmar a importância dos estudos de Gctlo c Hatzfeld.
do volume Retórica e Barocco (e aqui verifico que foi organizado
por Enrico CastelU). enquanto já o texto me havia remetido para
a obra de Wõlfflin, Croce (Benedetto) e D*Ors. Na segunda secção
encontro uma série de títulos que — sublinhe-se — nào fui
procurar todos no catálogo por autores, dado que a minha experiência
se limitou a três tardes. De qualquer modo. verifico que há
alguns autores estrangeiros que trataram o problema de vários pontos
de vista e que terei obrigatoriamente de procurar: Curtius.
Wellek, Ilauser e Tapié; reenconoro Hocke. sou remetido para um
Rinascimento e Barocco de Eugênio Battisti. para as relações com
as poéticas artísticas, volto a verificar a importância de Morpurgo-
-Tagliabue. e dou-me conta de que lerei também de ver o trabalho
de Delia Volpe sobre os comentadores renascentistas da Poética
aristotélica.
Esta possibilidade deveria convencer-me a ver também (ainda no
volume Marzorati, que tenho na mão) o extenso ensaio de Cesare
Vasoli sobre a estética do Humanismo e do Renascimento. Já tinha
encontrado o nome de Vasoli na bibliografia de Franco Croce. Pelos
artigos de enciclopédia examinados sobre a metáfora, já me tinha
dado conta, c deverei tê-lo registado, que o problema surge já na
Poética e na Retórica de Aristóteles: e agora aprendo em Vasoli que
no século XVI houve uma série de comentadores da Poética e da
Retórica; e isto não é tudo. pois vejo que entre esles comentadores
e tratadistas barrocos se encontram os teóricos do Maneirismo. que
já tratam o problema do engenho e da idéia, que também já tinha
vislo aflorar nas páginas sobre o barroco que tinha lido por alto.
Deveria impressionar-me. entre outras coisas, a recorrência de citações
semelhantes e de nomes como Schlosser.
114
Será que a minha tese começa a correr o risco de se tomar
demasiado vasta? Não. terei simplesmente dc delimitar muito bem
o cerne do meu interesse c trabalhar num aspecto específico, pois
de outro modo teria mesmo dc ver tudo; mas, por outro lado, não
deverei perder de vista o panorama global, pelo que terei de examinar
muitos destes textos, pelo menos para ter informações de
segunda mão.
ü extenso texto dc Anceschi leva-me a ver também as outras
obras deste autor sobre o tema. Registarei sucessivamente Da Bacone
a Kant, idea dei Rarocco e um artigo sobre «Gusto e gênio dei
Barloli». Em Alexandria encontrarei apenas este último artigo e o
livro Da Bacone a Kant.
Nesta altura consulto o estudo de Rocco Montano. «L'estética
dei rinascimento c dei barocco». no volume XI da Grande antologia
filosófica Marzorati, dedicado ao Pensiero dei Rinascimento e
delia Riforma.
Apercebo-me imediatamente de que não se trata apenas de um
estudo, mas dc uma antologia de trechos, muitos dos quais de grande
utilidade para o meu trabalho. E vejo mais uma vez como são estreitas
as relações entre estudiosos renascentistas da Poética, maneiristas
e tratadistas barrocos. Encontro ainda uma referência a uma antologia
da I.atcrza em dois volumes, Trauatisti d'arte tra Manierismo
e Controrifonna. Enquanto procuro este título no catálogo de
Alexandria, folheando aqui e a l i , verifico que nesta biblioteca há
ainda uma outra antologia publicada pela Laterza: Trattati di poética
c. retórica dei 600. Não sei se terei de recorrer a informações
dc primeira mão sobre este tema. mas. por prudência, faço uma ficha
do Hvfo. Agora sei que existe.
Voltando a Montano e à sua bibliografia, tenho de fazer um certo
trabalho de reconstituição, porque as indicações estão espalhadas
por vários capímios. Volto a encontrar muitos dos nomes já conhecidos,
vejo que terei de procurar algumas histórias clássicas da
estética como as obras de Bosanquet. Saintsbury. Gilberi c Kuhn.
Dou-me conta de que para saber muitas coisas sobre o barroco espanhol
terei de encontrai" a imensa Historia de Ias ideas estéticas en
Espana, de Marcelino Menendez y Pelayo.
Anoto, por prudência, os nomes dos comentadores quinhentistas
da Poética (Robortello, Castelvetro, Scaligero, Segni, Cavalcanti.
Maggi, Varchi. Vettori, Speroni, Mintumo, Piccolomini. Giraldi,
Cinzio. etc). Verei depois que alguns estão reunidos em antologia
115
pelo próprio Monlano, OUtrOS por Delia Volpe, outros ainda no volume
antológico da l.alerza.
Vcjo-mc remetido para o Maneirismo. Emerge agora dc um modo
muito significativo a referência à Idea de Panofsky. Mais uma vez
a obra dc Morpurgo-Tagliabue. Pergunto-me se não sc devia saber
alguma coisa mais sobre os tratadistas maneiristas — Scrlio, Dolce.
Zuccari. Lornazzo, Vasari — mas isso levar-me-ia às artes figurativas
e à arquitectura. e talvez sejam suficientes alguns textos históricos
como Wólfflin, Panofsky. Schlosser ou. mais recentemente.
Battisti. Não posso deixar de registar a importância de autores não
italianos como Sidney, Shakespeare. Cervantes...
Volto a encontrar, citados como autores fundamentais. Curtius.
Schlosser. Hauser. italianos como Calcaterra. Getto. Anceschi, Praz,
Ulivi. Marzot e Raimondi. O círculo aperta-se. Certos nomes são
citados por todos.
Para tomar alento, torno a folhear o catálogo por autores: vejo
que o célebre livro de Curtius sobre a literatura européia e a Idade
Média Latina existe em tradução francesa, em vez de em alemão: a
Letterarura artística de Schlosser já vimos que há. Enquanto procuro
a Stòfia sociale deli'arte de Araold Hauser (e é estranho que
não haja. dado que existe também em edição de bolso), encontro do
mesmo autor a tradução italiana da obra fundamental sobre o
Maneirismo c ainda, para não sair do tema. a Idea de Panofsky.
Encontro La Poética dei 500 dc Delia Volpe. // secenrisino nella
critica de Santangelo. o artigo «Rinascimento. aristotelismo e barocco^
de Zonta. Através do nome dc Helmuth Haizleld. encontro uma
obra de vários autores, preciosa cm muitos outros aspectos La critica
stüistica e il barocco letteraria, Atti dei M Congresso internazionale
di studi italiani. Firenze, 1957. As minhas expectativas ficam
frustradas relativamente a uma obra, que parece importante, de
Carmine Jannaco. o volume Seicenio da história literária Vallardi.
os livros de Praz. os estudos de Rousset e Tapié, o já referido Retórico
e Barocco com o ensaio de Morpurgo-Tagliabue. as obras de Eugênio
D'Ors. de Menendez y Pelayo. Em resumo, a biblioteca dc Alexandria
não é a Biblioteca do Congresso de Washington, nem sequer
a Braidcnsc de Milão, mas o facto é que já consegui trinta e cinco
livros certos, o que não é nada mau para começar. E a coisa não
acaba aqui.
Com efeito, por vezes basta encontrar um só texto para resolver
toda uma série de problemas. Continuando a examinar o catálogo
116
por autores, decido dar uma vista de olhos (uma vez que há e que
me parece uma obra de consulta básica) à «La polemica sul barocco»
de Giovanni Getto, in A A V V . Letteratura italiana — IM correnti,
vol. 1, Milano. Marzorati. 195Ó. E vejo que se trata de um estudo
de quase cem páginas e de excepcional importância. Com efeito,
vem aí relatada a polemica sobre o barroquismo desde então até
hoje. Verifico que todos discutiram o barroco, desde Gravina Muratori.
Tiraboschi. Bettinelli. Baretti. Alfieri. Cesarotti. Cantü, Gioberti, De
Sanctis. Manzoni. Mazzini. Leopardi e Carducci até Curzio Malaparte
e aos autores que eu já tinha registado. E Getto apresenta extensos
trechos da maior parte destes autores, de tal modo que me surge um
problema. Se vou apresentar uma tese sobre a polêmica histórica
sobre o barroco, terei de procurar todos estes autores: mas se trabalhar
sobre textos da época, ou sobre interpretações contemporâneas,
ninguém me exigirá que faça um trabalho tão vasto (que, além
disso, já foi feito e muito bem: a menos que queira fazer uma tese
dc alia originalidade científica, que me tomará muitos anos de trabalho,
mesmo para demonstrar que a pesquisa de Getto é insuficiente
ou mal perspectivada; mas, geralmente, trabalhos deste gênero
requerem maior experiência). E, assim, o trabalho de Getto serve-
-rne para obter uma documentação suficiente sobre tudo aquilo que
não virá a constituir lema específico da minha lese. mas que não
poderá deixar dc ser aflorado. Assim, trabalhos deste gênero deverão
dar lugar a uma série dc fichas, ou seja, vou fazer uma sobre
Muratori. outra sobre Cesarotti, outra sobre I-copardi. e assim por
diante, anotando a obra cm que tenham dado a sua opinião sobre o
Barroco c copiando, cm cada ficha, o resumo respectivo fornecido
por Getto, com as citações (sublinhando, evidentemente, cm rodapé
que o material foi retirado deste ensaio de Getto). Se depois utilizai'
este material na tese. uma vez que sc tratará dc informações dc
segunda mão. deverei sempre assinalar em nota «cit. in Getto. etc.»:
e isto não só por honestidade, mas também por prudência, uma vez
que não fui verificar as citações e, portanto, não serei responsável
por uma sua eventual imperfeição: referirei lealmente que as retirei
de um outro estudioso, não estarei a fingir que verifiquei cu próprio
tudo e ficarei tranqüilo. Evidentemente, mesmo quando confiamos
num estudo precedente deste tipo. o ideal seria voltar a verificar nos
originais as diversas citações utilizadas, mas. voltamos a recordá-
-lo. estamos apenas a fornecer um modelo de investigação feita com
poucos meios e em pouco tempo.
117
Neste caso. porém, a única coisa que nào posso pennitir-me é ignorar
os autores originais sobre os quais vou fazer a tese. Terei agora
de ir procurar os autores barrocos, pois, como dissemos em Ui.2.2..
uma tese também deve ter material dc primeira mão. Não posso falar
dos tratadistas se não os ler. Posso não ler os teóricos maneiristas das
artes figurativas c basear-me cm estudos críticos, uma vez que não
conslitucm o cerne da minha pesquisa mas não posso ignorar Tesauro.
Nesta medida, como sei que, dc qualquer modo, terei de ler a
Retórica c a Poética dc Aristóteles, dou uma vista dc olhos a este
artigo. E tenho a surpresa de encontrar umas 15 edições antigas da
Retórica, entre 1515 e 1837. com comentários dc Rrmolao Bárbaro,
a tradução de Bernardo Segni, com a paráfrase dc Avcrróis e de
Piccolomini; além da edição inglesa Loeb que inclui o texto grego.
Falta a edição italiana da Laterza. Quanto à Poética, há também
aqui várias edições, com comentários dc Castclvctro c Roboriell. a
edição Loeb com o texto grego e as duas traduções modernas italianas
de Rostagni e Valgimigli. Chega e sobra, dc tal modo que me
dá vontade de fazer uma tese sobre um comentário renascentista à
Poética. Mas não divaguemos.
Em várias referências dos textos consultados verifiquei que também
seriam úteis para o meu estudo algumas observações dc M i li/ia.
de Muratori e de Fracastoro, e vejo que em Alexandria há igualmente
edições antigas destes autores.
Mas passemos aos tratadistas barrocos. Antes de mais, temos a
antologia da Rjcciardi. Trattatisti e narratori dei 600 de Ezio Raimondi.
com cem páginas do Cannoechiale aristotelico, sessenta páginas de
Peregrini c sessenta de Sforza Pallavicino. Se não tivesse dc fazer
uma tese, mas um ensaio de umas trinta páginas para um exame,
seria mais do que suficiente.
Porém, interessam-me também os textos inteiros e. entre estes,
pelo menos: Emanuelc Tesauro. // Cannoechiale aristotelico. Nicola
Peregrini. Delle Ácutezze e Ifimti delfingegno ridotti a arte: Cardinal
Sforza Pallavicino. Del ttene c Trattato dello stile e dei dialogo.
Vou ver o catálogo por autores, secção antiga, e encontro duas edições
do Cannoechiale: uma dc 1670 c outra de 1685. É pena que não
haja a primeira edição de 1654, tanto mais que entretanto l i em qualquer
lado que houve aditamentos dc uma edição para outra. Encontro
duas edições oitocentistas de todas as obras de Sforza Pallavicino.
Não encontro Peregrini íé uma maçada, mas consola-me o facto de
ter uma antologia de oitenta páginas deste autor no Raimondi).
118
Diga-se de passagem que encontrei aqui e ali. nos textos críticos,
vestígios dc Agostino Mascardi e do seu De 1'arte istorica. de
1636. uma obra com muitas observações sobre as artes que, todavia,
não é considerada entre os itens da tratadística barroca: aqui em
Alexandria há cinco edições, três do século x v u e duas do século
xtx. Convir-me-á fazer uma tese sobre Mascardi? Em boa verdade,
não c uma pergunta peregrina. Se uma pessoa não pode deslocar-
-sc, deve trabalhar apenas com o material que há in loco.
Uma vez, um professor de filosofia disse-me que tinha escrito
um livro sobre certo filósofo alemão só porque o seu instituto adquirira
a nova edição das suas obras completas. Se não, teria estudado
outro autor. Não é um bom exemplo de ardente vocação científica,
mas sucede.
Procuremos agora fazer o ponto da situação, ü que é que fiz em
Alexandria? Reuni uma bibliografia que, sem exagerar, compreende
pelo menos trezentos títulos, registando todas as indicações que encontrei.
Destes trezentos títulos encontrei aqui bem uns trinta, além dos
textos originais de pelo menos dois dos autores que poderei estudar,
Tesauro c Sforza Pallavicino. Não é mau para uma pequena capital
dc província. Mas será o suficiente para a minha tese?
Falemos claro. Se quisesse fazer uma tese de três meses, toda de
segunda mão, bastaria. Os livros que não encontrei vêm citados nos
que encontrei e, se elaborar bem a minha resenha, poderei daí extrair
um discurso aceitável. Talvez não muito original, mas correcto.
O problema seria, contudo, a bibliografia- Com efeito, se ponho apenas
aquilo que realmente vi, o orientador poderia atacar com base
num texto fundamental que descurei. E se faço balota. vimos já
como este procedimento é ao mesmo tempo incorrecto e imprudente.
Porém, uma coisa é certa: nos primeiros Ires meses posso trabalhar
tranqüilamente sem me deslocar dos arredores, entre sessões na
biblioteca e empréstimos. Devo ter presente que as obras dc referência
e os livros antigos não podem ser emprestados, bem como
os anais de revistas (mas para os artigos posso trabalhar com fotocópias).
Mas outros livros podem. Se conseguir planificar uma sessão
intensiva no centro universitário para os meses seguintes, dc Setembro
a Dezembro poderei trabalhar tranqüilamente no Picmonte examinando
uma série de coisas. Além disso, poderei ler toda a obra de
Tesauro e de Sforza. Ou melhor, pergunto a mim mesmo se não seria
conveniente orientar tudo para um só destes autores, trabalhando
directamente sobre o texto original e utilizando o material biblio-
119
gráfico encontrado para elaborar um panorama de fundo. Depois
verei quais são os livros que nào posso deixar dc consultar c irei
procurá-los a Turim ou a üénova. Com um pouco dc sorte encontrarei
tudo o que é preciso. Graças ao lema italiano, evitarei ter de
ir, quem sabe, a Paris ou a Oxford.
Todavia, são decisões difíceis de tomar. O melhor é. uma vez
feita a bibliografia, ir ver o professor a quem apresentarei a tese e
mostrar-lhe aquilo que tenho. Ele poderá aconselhar-me uma solução
cômoda que me permita restringir o quadro e dizer-me quais os
livros que em absoluto terei dc ver. No que respeita a estes últimos,
se houver faltas em Alexandria, posso ainda falar com o bibliotecário
para ver se é possível pedi-los emprestados a outras bibliotecas.
Num dia no centTo universitário poderei ter identificado uma série
de livros e artigos sem ter lido tempo para os ler. Para os artigos, a
biblioteca de Alexandria poderia escrever a pedir fotocópias. Um
artigo importante de vinte páginas custar-me-ia duas mil liras mais
as despesas postais.
Em teoria, poderei ainda tomar uma decisão diferente. Em
Alexandria tenho os textos de dois autores principais e um número
suficiente de textos críticos. Suficiente para compreender estes dois
autores, não suficiente para dizer algo de novo no plano historiográfico
ou filológico (se, pelo menos, houvesse a primeira edição
de Tesauro. poderia fazer uma comparação de três edições seiscentistas).
Supoiúiamos agora que alguém me sugere debruçar-me apenas
sobre quatro ou cinco livros em que se exponham leorias contemporâneas
da metáfora. Eu aconselharei: Ensaios de lingüística
geral de Jakobson. a Retórica Geral do Grupo de Liège e Metonímiu
e Metáfora de Albert Henry. Tenho elementos para esboçar uma teoria
estruluralista da metáfora. E são tudo livros que sc encontram
no comércio e em conjunto custam, quando muito, dez mil liras. e.
além disso, estão traduzidos em italiano.
Poderei lambem comparar as teorias modernas com as teorias
barrocas. Para um trabalho deste tipo. com os textos de Aristóteles.
Tesauro e uma trintena de estudos sobre Tesauro, bem como os três
livros contemporâneos de referência, terei a possibilidade de construir
uma tese inteligente, com alguma originalidade e nenhuma pretensão
de descoberta filológica (mas com a pretensão de exactidáo
no que respeita às referências ao Barroco). E tudo sem sair de
Alexandria, exceplo para procurar em Turim ou Gênova nào mais
de dois ou três livros fundamentais que faltavam cm Alexandria.
120
Mas tudo isto são hipóteses. Poderia mesmo dar-se o caso dc,
fascinado pela minha pesquisa, descobrir que quero dedicar, não um
mas três anos ao estudo do Barroco, endividar-me ou pedir uma
bolsa de estudo para investigar à minha vontade, etc. etc Não esperem
pois que este livro vos diga o que devereis pôr na vossa tese
ou o que devereis fazer da vossa vida.
O que queríamos demonstrar (e pensamos ter conseguido) é que
se pode chegar a uma biblioteca de província sem saber nada ou
quase nada sobre um tema e ter, em três tardes, idéias suficientemente
claras e completas. Isto significa que não é aceitável dizer
«estou na província, não lenho livros, não sei por onde começar e
ninguém me ajuda».
Evidentemente, é necessário escolher temas que se prestem a
este procedimento. Suponhamos que queria fazer uma lese sobre
a lógica dos mundos possíveis em Kripke e Hinlikka. Fiz também
esta prova e perdi muito pouco lempo. Uma primeira inspecção do
catálogo por assuntos (termo «Lógica») revelou-me que a biblioteca
tem pelo menos uma quinzena de livros muito conhecidos de
lógica formai (Tarski. Lukasicwicz, Quine, alguns manuais, estudos
de Casari, Wiilgenstein, Strawson, c l c ) . mas nada, evidentemente,
sobre as lógicas modais mais recentes, material que se encontra, na
maior parte dos casos, cm revistas especializadíssimas c que muitas
vezes nem sequer existem nalgumas bibliotecas dc institutos dc
filosofia.
Mas escolhi de propósito um tema que ninguém aborda no último
ano, sem saber nada do assunto c sem ter já cm casa textos dc base.
Não estou a dizer que seja uma tese para estudantes ricos. Conheço
um estudante que não 6 rico c apresentou uma tese sobre temas
semelhantes hospedando-sc num pensionato religioso e comprando
pouquíssimos livros. Mas era uma pessoa que tinha decidido empenhar-
se a tempo inteiro, fazendo certamente sacrifícios, mas sem
que uma difícil situação familiar o obrigasse a trabalhar. Não há
teses que, por si próprias, sejam paia estudantes ricos, pois mesmo
escolhendo As variações da moda balnear em Acapulco no decurso
de cinco anos. pode sempre encontrar-se uma fundação disposta a
financiai- o estudo. Mas é óbvio que certas teses não poderão ser
feitas se se estiver em situações particularmente difíceis. E é por
isso que aqui também se procura ver como se podem fazer trabalhos
dignos, se não propriamente com aves-do-paraíso, pelo menos
sem gralhas.
121
ÍTI.2.5. E os livros devem ler-se? Epor que ordem?
O capítulo sobre a pesquisa na biblioteca e o exemplo de investigação
ab ovo que apresentei levam a pensar que fazer uma tese
significa reunir uma grande quantidade de livros.
Mas uma tese faz-se sempre, e só. sobre livros e com livros''
Vimos já que há também teses experimentais, em que se registam
estudos no terreno, talvez conduzidos observando durante meses c
meses o comportamento de um casal de ratos num labirinto. Ora.
sobre este lipo de tese nào posso dar conselhos precisos, uma vez
que o método depende do tipo dc disciplina, c quem empreende
estudos deste gênero vive já no laboratório, cm contacto com outros
investigadores, e nào tem necessidade deste livro. A única coisa que
sei, como já disse, é que mesmo neste gênero dc teses a experiência
deve ser enquadrada numa discussão da literatura científica precedente
c. portanto, também nestes casos sc terá dc trabalhar com
livros.
O mesmo acontecerá com urna lese dc sociologia, para a qual o
candidato passe muito tempo cm contacto com situações reais. Ainda
aqui terá necessidade de livros, quanto mais não seja para ver como
foram feitos estudos semelhantes.
Há teses que se fazem folheando jornais, ou actas parlamentares,
mas também elas exigem uma literatura de base.
Finalmente, há teses que se fazem apenas falando de livros, como
as teses de literatura, filosofia, história da ciência, direito canónico
ou lógica formal. E na universidade italiana, particularmente nas
faculdades de ciências humanas, são a maioria. Até porque um estudante
americano que estude antropologia cultural tem os índios em
casa ou consegue dinheiro para fazer investigações no Congo,
enquanto, geralmente, o estudante italiano se resigna a fazer uma
tese sobre o pensamento de Franz Boas. Há, evidentemente, e cada
vez mais, boas leses de etnologia, feilas indo estudar a realidade do
nosso país, mas mesmo nestes casos há sempre um trabalho de biblioteca,
quanto mais não seja para procurar repertórios folcloristas anteriores.
Digamos, de qualquer forma, que este livro incide, por razões
compreensíveis, sobre a grande maioria das leses feilas sobre livros
e utilizando exclusivamente livros.
A este propósito deve. porém, recordar-se que geralmente uma
tese sobre livros recorre a dois tipos: os livros de que se fala e os
122
livros com o auxílio dos quais sc fala. For outras palavras, há os textos-
objcelo c há a literatura sobre esses textos. No exemplo do parágrafo
anterior, tínhamos, por um lado, os tratadistas do barroco c,
por outro, todos aqueles que escreveram sobre os tratadistas do barroco.
Temos, portanto, de distinguir os textos da literatura crítica.
Deste modo, a questão que se põe é a seguinte: é necessário abordar
dc imediato os textos ou passar primeiro pela literatura crítica?
A questão pode ser desprovida de sentido, por duas razões: a) porque
a decisão depende da situação do estudante, que pode já conhecer
bem o seu autor e decidir aprofundá-lo ou deparar pela primeira
vez com um autor muito difícil e à primeira vista incompreensível;
b) o círculo, por si só, é vicioso, dado que sem literatura crítica preliminar
o texto pode ser ilegível, mas sem o conhecimento do texto
é difícil avaliar a literatura crítica.
Porém, acaba por ter uma certa razão de ser quando é feita por
um estudante desorientado, como. por exemplo, o nosso sujeito hipotético
que aborda pela primeira vez os tratadistas barrocos. Este pode
interrogar-se se deve começar logo a ler Tesauro ou familiarizar-se
primeiro com Getto, Anceschi, Raimondi e assim por diante.
A resposta mais sensata parece-me a seguinte: abordar logo dois
ou três textos críticos dos mais gerais, o suficiente para ter uma ideia
do terreno em que nos movemos; depois atacar directamente o autor
original, procurando compreender o que diz; seguidamente examinar
a restante crítica; finalmente, vollar a analisar o autor à luz das
novas idéias adquiridas. Mas isto é um conselho muito teórico. Com
efeito, cada pessoa estuda segundo ritmos dc desejos próprios e muitas
vezes não se pode dizer que «comer» dc uma forma desordenada
faça mal. Pode proceder-se em ziguezague, alternar os objectivos,
desde que uma apertada rede de anotações pessoais, possivelmente
sob a forma de fichas, dc consistência ao resultado destes movimentos
«aventurosos». Naturalmente, tudo depende também da
estrutura psicológica do investigador. Há indivíduos monocrónicos
e indivíduos policrónieos. Os monocrónicos só trabalham bem se
começarem e acabarem uma coisa de cada vez. Não conseguem ler
enquanto ouvem música, não podem interromper um romance para
ler outro, pois de outro modo perdem o fio à meada e. nos casos
limite, nem sequer podem responder a perguntas quando estão a
fazer a barba ou a maquilhar-se.
Os policrónieos são o contrário. Só trabalham bem se cultivarem
vários interesses ao mesmo tempo e sc sc dedicarem a uma só
123
coisa, deixara-se vencer pelo lálio. Os monocrónieos são mais melódicos,
mas freqüentemente tem pouca fantasia: os policrónicos parecem
mais criativos, mas muitas vezes são trapalhões e volúveis. Mas.
se formos analisar a biografia dos grandes homens, encontramos
policrónicos c monocrómcos.
124
IV. O P L A N O D E T R A B A L H O Ji A ELABORAÇÃO D E
F T C H A S
rv.1. O índice como hipótese de trabalho
Uma cias primeiras coisas a fazer para começar a trabalhar numa
lese ú escrever o lílulo. a introdução e o índice final — ou seja.
cxaciarnenle as coisas que qualquer autor fará no fim. Este conselho
parece paradoxal: começar pelo fim? Mas quem disse que o
índice vinha no fim? Rrn eerios livros vem no princípio, de modo
que o leitor possa fazer logo uma idéia daquilo que irá encontrar na
leitura. Por outras palavras, redigir iogo o índice como hipótese de
trabalho serve para definir imediatamente o âmbito da tese.
Poderá objectar-se que. à medida que o trabalho avançar, este índice
hipotético terá de ser reestruturado várias vezes e talvez mesmo assumir
uma forma totalmente diversa. Certamente, mas essa reestruturação
far-se-á melhor se se tiver um ponto de partida a reeslruiurar.
Imaginemos que temos de fazer uma viagem de automóvel de um
milhar de quilômetros, para o que dispomos de uma semana. Mesmo
estando de férias, não iremos sair de casa às cegas tomando a primeira
direcçào que nos apareça. Faríamos um plano geral. Pensaríamos tomar
a estrada de Müao-Nápoles (Auto-estrada do Sol), fazendo desvios em
Florença, Siena e Arezzo, uma paragem mais longa em Roma e uma visita
a Montecassino. Se. depois, ao longo da viagem, verificarmos que Siena
nos lomou mais tempo do que o previsto ou que. além de Siena. valia a
pena visiiar San Giminiano. decidiremos eliminar Montecassino. Chegados
a ÀrezzO, poderia vir-nos à cabeça tomar a direcçào leste, ao contrário do
previsto, e visitar Urbino. Perugia. Assis e Gubbio. Islo quer dizer que
— por razões perfeitamente válidas alterámos o nosso trajecto a meio
da viagem. Mas foi esse trajecto que modificámos, e não nenhum trajecto.
125
O mesmo se passa em relação à tese. Estabeleçamos um plano de
Trabalho. Este plano assumirá a forma de um índice provisório. Ainda
melhor se este índice for um sumário, onde, para cada capítulo, se esboce
um breve resumo. Procedendo deste modo. tornamos mais claro, mesmo
para nós, aquilo que queremos fazer. Em segundo lugar, apresentaremos
ao orientador um projecto compreensível. Em terceiro lugar, assim
poderemos ver se as nossas idéias já estão suficientemente claras. H;í
projectos que parecem muito claros enquanto pensados, mas. quando
se começa a escrever, tudo se esboroa entre as mãos. Pode ter-se idéia*
claras sobre o ponto de partida e de chegada, mas verificar que nào se
sabe muito bem como se chegará de um ao outro e o que haverá no
meio. Uma tese, tal como uma partida de xadrez, compõe-se de muitos
movimentos, salvo que desde o início teremos de ser capazes de prever
os movimentos que faremos para dar xeque ao adversário, pois. de outro
modo. nunca o conseguiremos.
Para sermos mais precisos, o plano de trabalho compreende o rindo,
o índice e a inirodução. Um bom título é já um projecto. Não falo do
titulo que foi entregue na secretaria muitos meses anies. e que quase
sempre é tão genérico que permite infinitas variações: falo do título
«secreto» da vossa tese, aquele que habitualmente surge como subtítulo.
Uma tese pode ter como título «público» O atentado a Tógliatti
e a rádio, mas o seu subtítulo (e verdadeiro lema) será: Análise de
conteúdo que ambiciona a revelar a utilização feita da vitória de Gino
Hartali no Tourde France para distrair a atenção da opinião pública
dofacto político emergente. Isto significa que. após se ter delimitado
a área temática, se decidiu tratar só um ponto específico desta. A formulação
deste ponto constitui também uma espécie de pergunta: houve
uma utilização específica por parte da rádio da vitória de Gino Bartali
de modo a revelar o projecto de desviar a atenção do público do atentado
contra Togliatti? E este projecto poderá ser relevado por uma análise
de conteúdo das notícias radiofônicas? Eis como o «título» (transformado
em perguntai se toma parte essencial do plano de trabalho.
Imediatamente após ter elaborado esta pergunta, devemos estabelecer
etapas de trabalho, que corresponderão a outros tantos capítulos
do índice. Por exemplo:
1. Literatura sobre o tema
2. O acontecimeniu
3. As notícias da rádio
4. Análise quantitativa da* notícias c da sua localização horária
126
5. Análise de conteúdo das notícias
6. Conclusões
Ou pode prever-se um desenvolvimento deste tipo:
1. O acontecimento: síntese das várias fontes de informação
2. As notícias radiofônicas desde o alentado ate à vitória dc Bartali
3. As notícias radiofônicas desde a vitória de Bartali até ao terceiro dia seguinte
4. Comparação quantitativa das duas series dc notícias
5. Análise comparada de conteúdo das duas séries de notícias
6. Avaliação sociopolítica
Seria de desejar que o índice, como se disse, fosse muito mais
analítico. Podemos, por exemplo, escrevê-lo numa grande folha com
quadrados a tinta onde se inscrevem os títulos a lápis, que se vão
progressivamente eliminando ou substituindo por outros, de modo
a controlar as várias fases da reestruturação.
Uma outra maneira de fazer o índice-hipótese é a estrutura em árvore:
1. Descrição do acontecimento
2. As notícias radiofônicas
Do atentado ate Bartali
De Bartali em diante
3. etc.
que permite acrescentar várias ramificações. Em definitivo, um
índice-hipótese deverá ter a seguinte estrutura:
1. Posição do problema
2. Os estudos precedentes
3. A nossa hipótese
4. Os daüos que estamos cm condições de apresentar
5. A sua análise
6. Demonstração da hipótese
7. Conclusões e indicações para trabalho posterior
A terceira fase do plano dc trabalho 6 um esboço de introdução.
Esta não é mais do que o comentário analítico do índice: «Com este
trabalho propomo-nos demonstrar uma determinada tese. Os estudos
precedentes deixaram em aberto muitos problemas e os dados recolhidos
são ainda insuficientes. No primeiro capítulo tentaremos estabelecer
o ponto x; no segundo abordaremos o problema y. Em conclusão.
127
tentaremos demonstrar isto e aquilo. Deve ter-se presenie que nos fixámos
determinados limites precisos, isto é, tais ciais. Dentro destes limites,
o método que seguiremos é o seguinte... E assim por diante.»
A função desta introdução fictícia (fictícia porque será refeita uniu
série de vezes antes de a tese estar terminada) é permitir-nos fixar
idéias ao longo de uma linha directriz que só será alterada à custa
de uma reestruturação consciente do índice. Assim, podereis controlar
os vossos desvios e impulsos. Esta introdução serve ainda para
mostrar ao orientador o que se pretende fazer. Mas sen'e sobretudo
para ver se já se tem as idéias em ordem. Com efeito, o estudante
provém geralmente da escola média superior, onde se presume que
tenha aprendido a escrever, dado que teve de fazer uma grande quantidade
de composições. Depois passa quatro, cinco ou seis anos na
universidade, onde regra geral já ninguém lhe pede para escrever,
e chega ao momento da tese sem estar minimamente exercitado'.
Será um grande choque e um fracasso tentai" readquirir essa prática
no momento da redacção. É necessário começar a escrever logo de
início c mais vale escrever as próprias hipótese de trabalho.
Estejamos atentos, pois. enquanto não formos capazes de escrever
um índice c uma introdução, não estaremos seguros de ser aquela
a nossa tese. Sc não conseguirmos escrever o prefácio, isso significa
que não temos ainda idéias claras sobre como começar. Se as temos,
é porque podemos pelo menos «suspeitar» de aonde chegaremos.
E é precisamente baseados nesta suspeita que devemos escrever a
introdução, como se fosse um resumo do trabalho já feito. Não receemos
avançar demasiado. Estaremos sempre a lempo de voltar atrás.
Vemos agora claramente que introdução e índice serão reescritos con -
tinuamente à medida que o trabalho avança. E assim que se faz. O índice
e a introdução finais (que aparecerão no trabalho dactüograíado) serão
diferentes dos iniciais. E normal. Se não fosse assim, isso sigriificaria que
toda a investigação feita não tinha trazido nenhuma idéia nova. Seríamos
provavelmente pessoas de caracter, mas seria inútil fazer uma tese.
O que distingue a primeira e a última redacção da introdução?
O facto dc, na última, se prometer muito menos do que na primeira.
1 0 mesmo não acomccc noutros países, como nus Estadas Unidos, onde o estudante^
em ve/. dos exames orais, escreve papers. ou ensaios, ou pequenas teses de
dez ou vinte páginas para cada disciplina em que se lenha inscrito. É um sisieim
muito útil que uimhém já tem sido adoptado enire nÓS (dada que os regulamentos
dc modo nenhum o excluem c a forma «oral-sebencisia» do exame 6 apenas um dos
métodos permitidos ao docente para avaliar as aptidões do estudante).
128
e sermos mais prudentes. O objectivo da introdução definitiva será
ajudar o leitor a penetrar na tese: mas nada de lhe prometer aquilo
que depois não lhe daremos. O objectivo dc uma boa introdução
definitiva é que o leitor se contente com cia, compreenda tudo e já
não leia o resto. E um paradoxo, mas muitas vezes uma boa introdução,
num livro publicado, dá uma idéia exacta ao crítico, levando-
-o (ou a outros) a falar do livro como o autor gostaria. Mas, sc depois
o orientador ler a tese e verificai' que se anunciaram na introdução
resultados que não se obtiveram? Eis a razão por que esta última
deve ser prudente e prometer apenas aquilo que a tese dará.
A introdução serve também para estabelecer qual é o centro c
qual a periferia da tese. Distinção esta que é muito importante, c não
apenas por razões de método. E-nos exigido que sejamos exaustivos
muito mais paia aquilo que se definiu como centro do que para
o que se definiu como periferia. Se numa tese sobre o conflito dc
guerrilhas no Monferrato estabelecermos que o centro são os movimentos
das formações badoglianas. ser-nos-á perdoada qualquer inexactidão
relativamente às brigadas garibaldinas. mas ser-nos-á exigida
uma informação exaustiva sobre as formações de Franchi e de Mauri.
Evidentemente, o inverso também é verdadeiro.
Para decidir qual será o centro da tese. devemos saber algo sobre
o material de que dispomos. Esta é a razão por que o título «secreto»,
a introdução fictícia e o índice-hipótese são das primeiras coisas a
fazer mas nào a primeira,
A primeira coisa a fazer é a investigação bibliográfica (e vimos
cm 1U.2.4. que se pode fazerem menos de uma semana, mesmo numa
pequena cidade). Voltemos à experiência de Alexandria: em três dias
estaríamos em condições de elaborar um índice aceitável.
Qual deverá ser a lógica que preside ã construção do índice-hipótese?
A escolha depende do tipo de tese. Numa tese histórica poderemos
ter um plano cronológico (por exemplo: As perseguições dos
Valdenses em Itália) ou um plano de causa e efeito (por exemplo,
As causas do conflito israeh-árabe). Pode haver um plano espacial
(A distribuição das bibliotecas itinerantes no canavesano) ou comparativo-
contrastante (Nacionalismo e populismo na literatura
italiana do período da Grande Guerra). Numa lese de caracter experimental
ter-sc-á um plano indutivo de algumas provas até à proposta
de uma teoria: numa tese dc caracter lógico-maiemãtico, um
plano de tipo dedutivo, primeiro a proposta da teoria e depois as
suas possíveis aplicações e exemplos concretos... Direi que a lite-
129
ratura crítica a que nos lemos referido pode oferecer bons exemplos
de planos de trabalho, para o que basta utilizá-la crilicamenle comparando
os vários autores c vendo quem responde melhor ãs exigências
do problema formulado no título «secreto» da tese.
O índice estabelece desde logo qual será a subdivisão lógica da
tese em capítulos, parágrafos e subparágrafos. Sobre as modalidades
desta subdivisão, veja-se VI. 1.3. e VÍ.4. Também aqui uma boa subdivisão
de disjunção binaria nos permite fazer acrescemos sem alterar
demasiado a ordem inicial. Por exemplo, se tivermos o seguinte índice:
1. Problema central
1.1. Subproblema principal
1.2. Subproblema secundário
2. Desenvolvimento do problema centra!
2.1. Primeira ramificação
2.2. Segunda ramificação
esta estrutura poderá ser representada por um diagrama em árvore
onde os traços indicam sub-ramificações sucessivas que poderão
introduzir-se sem perturbar a organização geral do trabalho:
PROBLEMA CENTRAL
PC
SUBPROBLEMA
PRINCIPAL
SP
SUBPROBLEMA
SECUNDÁRIO
SS
DESENVOLVIMENTO
DO PROBLEMA
CENTRAL
DPC
PRIMEIRA
RAMIFICAÇÃO
PR
SEGUNDA
RAMIFICAÇÃO
SR
130
As siglas assinaladas sob cada subdivisão estabelecem a correlação
entre índice e ficha de trabalho, e serão explicadas em IV.2.I.
Uma vez disposto o índice como hipótese de trabalho, deverá
referir-se sempre os vários pontos do índice, as fichas e outros tipos
de documentação. Rsias referências devem ser claras desde O início
e expressas com nitidez através de siglas e/ou cores. Com eleito,
elas servir-nos-ão para organizar as referências internas.
O que á uma referência interna, vimo-lo também oeste livro.
Muitas vezes, fala-se dc qualquer coisa que já foi tratada num capítulo
anterior c remete-se o leitor, entre parênteses, para os números
do respectivo capítulo, parágrafo ou subparágrafo. As referências
internas destinam-se a não repelir demasiadas vezes as mesmas coisas
mas servem também para mostrar a coesão de toda a tese. Uma
referência interna pode significar que um mesmo conceito 6 válido de
dois pontos dc vista diversos, que um mesmo exemplo demonstra dois
argumentos diferentes, que tudo o que se disse com um sentido geral
se aplica também à análise de um determinado ponto, em particular,
e assim por diante.
Uma tese bem organizada devia estar cheia de referências internas.
Se estas não existem, isso significa que cada capítulo avança
por conta própria, como se tudo aquilo que foi dito nos capítulos
anteriores de nada servisse. Ora, é indubitável que há certos tipos
de teses (por exemplo, recolhas de documentos) que podem funcionar
assim, mas. pelo menos na altura de tirar as conclusões, deveria sentir-
se a necessidade das referências internas. Um índice-hipótese
bem construído é a rede numerada que nos permite aplicar as referências
internas sem andar sempre a verificar entre folhas e folhinhas
onde se falou de determinada coisa. Como pensais que fiz para
escrever o livro que estais a ler?
Para reílectir a estrutura lógica da tese (centro e periferia, tema
central e suas ramificações, etc), o índice deve ser articulado
em capítulos, parágrafos e subparágrafos. Para evitar longas explicações,
poderá ver-se o índice desta obra. Ela é rica em parágrafos
e subparágrafos (e. por vezes, em subdivisões ainda mais pequenas
que o índice não refere: veja-se. por exemplo, em 111.2.3.).
Uma .subdivisão muito analítica permite a compreensão lógica do
discurso.
A organização lógica deve reflectir-se no índice. Isto eqüivale
CIT
Vida como arte. N
Oscar Wildc
'Podemo.i purdoar a o» liouiera que faça
uma coiaa útil simulando que a admira?
A única desculpa para fazor uma
coiaa u t i l I que e l a seja admirada
infinitamente.
Toda a arte c completanentc inútil."
(Profácio a
II r l t r a t t o di D.Gray,
1 grandi s c r i c t o r i
atranieri líTKT, pag.16)
QUADRO 6
FICHA Dli LIGAÇÃO
L i g . N.
Passagem do táctil ao v i s u a l
Cf. Eauser, Storia sociale d e l l ' a r t e
I I , 267 onde e citado W o l f f l in sobre a
passagem do táctil ao v i s u a l entre o Renasc.
e o Barroco : línsar v s . pictÓrico,
superf. v s . profundidade, fechado vs. aberto,
c l a r e z a absoluta v s . clareza r e l a t i v a ,
multiplicidade v s . unidade.
Estas idéias encontraa-se en Raimondi
I I romanzo sen2a i d i l l i o ligadas as r e centes
teorias de McLuhan (Galsxia
Çutemfaer^) e Walther Ong.
140
IV.2.2. Fichagem das fontes primárias
As fichas de leitura destinam-se à literatura crítica. Não as utilizarei-
ou pelo menos, não utilizarei o mesmo tipo de ficha para as fontes
primárias. Por outras palavras, se preparar uma tese sobre Manzoni.
é natural que faça a ficha de todos os livros e artigos sobre Manzoni
que conseguir encontrar, mas seria estranho fazer a ticha de I promessi
sposi ou de Carmagnola, E o mesmo aconteceria se se fizesse
uma tese sobre alguns artigos tio Código de Direito Civil ou uma tese
de história da matemática sobre o Programa de Erlangen de Klein.
O ideal, para as fontes primarias, é lê-las à mão. O que não é
difícil, se se trata de um autor clássico de que existem boas edições
críticas, ou de um autor moderno cujas obras se podem encontrar
nas livrarias. Trata-se sempre de um investimento indispensável. U m
livro ou uma série de livros nossos podem ser sublinhados, mesmo
a várias cores. E vejamos para que serve isso.
Os sublinhados personalizam o livro. Assinalam as pistas do nosso
interesse. Permitem-nos vollar ao mesmo livro muito tempo depois,
detectando imediatamenle aquilo que nos havia interessado. Mas 6
preciso sublinhar com critério. Há pessoas que sublinham tudo. É o
mesmo que nào sublinhar nada. Por outro lado. pode dar-se o caso
de. na mesma página, haver informações que nos interessam a diversos
níveis. Trata-se então dc diferenciar os sublinhados.
Devem utilizar-se cores, fcltros dc ponta fina. Atribui-se a cada
cor um assunto: essas cores serão registadas no plano de trabalho e
nas várias fichas. Isso servirá na fase de redacção, pois saber-se-á
imediatamente que o vermelho se refere aos trechos relevantes para
o primeiro capítulo c o verde aos trechos relevantes para o segundo.
Devem associar-se as cores a siglas (ou podem utilizar-se siglas
em vc/. dc cores). Voltando ao nosso tema dos mundos possíveis na
ficção científica, assinale-se com DT tudo o que disser respeito às
dobras temporais e com C tudo o que se referir às contradições entre
mundos alternativos. Se a tese disser respeito a vários autores, atribui-
se uma sigla a cada autor.
Devem utilizar-se siglas para sublinhar a importância das informações.
Um sinal vertical à margem com a anotação IMP, dir-nos-á
141
que se traia de um trecho muilo importante e, assim, não teremos
necessidade de sublinhar iodas as linhas. CIT poderá significar que
se trata de um trecho a citar integralmente. CtT/rjT significará que é
uma citação ideal para explicar o problema das dobras temporais.
Devem assinalar-se os pontos a que se irá voltar. Numa primeira
leitura, determinadas páginas pareceram-nos obscuras. Poderá então
assinalar-se à margem e ao alto um grande R (rever). Assim, saber-
-sc-á que se deverá voltar a esta passagem na fase de aprofundamento,
quando a leitura de livros ulteriores tiver esclarecido as idéias.
Quando não se deve sublinhar? Quando o livro não é nosso, evidentemente,
ou se se trata de uma edição rara de grande valor comercial,
que quaisquer sublinhados ou anotações desvalorizariam. Nestes
casos, mais vale fotocopiar as páginas importantes e sublinhá-las
em seguida. Ou então pode arranjar-se um caderno onde se transcrevem
os trechos de maior realce intercalados com comentários.
Ou ainda elaborar um ficheiro expressamente criado para as fontes
primárias, mas isso é muito fatigante, dado que se terá praticamente
de fichar página por página. Se a tese for sobre Le grand Meaulnes,
óptimo, porque se trata de um livro pequeno: mas se for uma tese
sobre a Ciência da Lógica de Hegel? E se. voltando ã nossa experiência
da biblioteca de Alexandria (111.2.4.), for preciso fazer fichas
da edição seiscenlista do Cannoccliiale Aiistotelico de Tesauro? Só
restam as fotocópias e o caderno de apontamentos, (ambém este com
sublinhados a cores e siglas.
Devem completar-se os sublinhados com separadores. anotando
na margem saliente siglas e cores.
Atenção ao álibi das fotocópias! As fotocópias são um instrumento
indispensável, quer para podermos ter connosco um lexlo já
lido na biblioteca, quer para levar para casa um texto que ainda não
tenhamos lido. Mas muitas vezes as fotocópias funcionam como
álibi. Uma pessoa leva para casa centenas dc páginas de fotocópias
e a acção manual que exerceu no livro fotocopiado dá-lhe a impressão
de o possuir. A posse da fotocópia substitui a leitura: é uma
coisa que acontece a muita gente. Uma espécie de vertigem da acumulação,
um neocapilalismo da informação. Cuidado com as fotocópias:
uma vez em posse delas, devem ser imediatamente lidas e
142
anotadas. Se o tempo não urge, não se deve fotocopiar nada de novo
antes de se ter possuído (isto é. lido e anotado) a fotocópia precedente.
Há muitos casos em que não sei por que fotocopiei um determinado
lexlo: fiquei talvez mais tranqüilo, tal como se o tivesse lido.
Sc. o livro é vosso e não tem valor de antigüidade, não se deve
hesitar em anotá-lo, Não deveis dar crédito àqueles que dizem que
os livros são intocáveis. Os livros respeitam-se usando-os e não deixando-
os quietos. Mesmo se os vendêssemos a um alfarrabista. não
nos dariam mais do que alguns tostões, pelo que mais vale deixar
neles os sinais da nossa posse.
É necessário analisar todas estas coisas antes de escolher o lema da
tese. Sc ele nos obrigar a utilizar livros inacessíveis, de milhares de
páginas, sem possibilidade de os fotocopiar e não tendo tempo para
transcrever cadernos e cadernos, essa tese deve ser posta de lado.
TV.2.3. As fichas de leitura
Entre todos os tipos de fichas, as mais correntes e, no fim de
contas, as indispensáveis, são as fichas de leitura: ou seja, aquelas
em que se anotam com precisão todas as referências bibliográficas
relativas a um livro ou a um artigo, se escreve o seu resumo, se
transcreve algumas citações-chave, se elabora uma apreciação
e se acrescenta uma série de observações.
Em resumo, a ficha de leitura contribui para o aperfeiçomento da
ficha bibliográfica descrita em III.2.2. Ksta última contém apenas indicações
úteis para encontrar o livro, enquanto a ficha de leitura contém
todas as informações sobre o livro ou o artigo e, portanto, deve ser
muito maior. Poderão usar-se formatos normalizados ou fazê-las o
próprio, mas em geral deverão ter o tamanho de uma folha de cademo
na horizontal ou de meia folha de papel de máquina. É conveniente
que sejam de cartão para poderem ser consultadas no ficheiro ou reunidas
em maços ligados por um elástico; devem permitir a utilização
de esferográficas ou caneta de tinta permanente, sem borrar e deixando
a caneta deslizar com facilidade. A sua estrutura deve ser mais ou
menos a das fichas exemplificai!vas apresentadas nas Quadros 7-14.
Nada obsta. e até é aconselhável, que para os livros imporlanles
se preencham muitas fichas, devidamente numeradas e comendo cada
uma, no anvenso, indicações abreviadas do livro ou artigo em exame.
143
Croce, Benedetto Th. Gen. (r>
Recensão a Mclson Sei Ia, Estética eiuaicale in S.T. d'A. (v. ficha)
La c r i t i c a , 1931, p-71
Realça o cuidado e a nindorn : : de convicções estéticas com que SoLlrt aborda o tema.
Haa relativamente a ST, Croco afirma:
" . . . o facto e que as suaa t< Idade Média ea geral, ma ••= particular para S. Tonas, cujo espírito estava preocupada coa outras coisas: daí eatarea condenados ã generalidade. £ por isso os trabalhos ea torno do estética dc S. Toaãu e de t rca filósofos aedievais pouco frutuosoa e leea-6e coa enfado, quando não são (o liabitualacnte não são) tratados coa a circunspecção c a elegância com que Solla escrovou o seu." [A rofutaçSo deata teae podo íiorvir-me como tema introdutÕrlo• As palavras concluiitvna como hipoteca,! 1 >a m
5
O
>
a
0
Biondol i l lo, Francesco St. Ccn. (r)
"A ootética c o gosto na Idado Media", Capítulo II de
Bravo atoria dcl susto e dei pannioro estético, Hesaina, Principnto, 1924, pa8.29
Uiondolillo ou do gen t i l ian i rimo raíopo
Passamos por cina da introdução, vulgarização para almas jovena do verbo gentiliano.
Vejamos o capítulo sobre a Idade Media: ST fica liquidado en IB linhas. "Ha Idade Hedla,
coa o predominar da teologia da qual a f i l o s o f i a foi considerada serva . . . o problema
artístico perdeu m importância a que tinha ascendido eapecíalaente por obra. de
Aristóteles e de Plotlno" [Carência cultural ou aí-fél Culpa sua ou da escola?) Contínueaos:
"Isto e, estaaoa coa o Dante da idade eadura que, no Convívio (11,1) a t r i buía
a arte quatro significados [ expÕc a teoria doa quatro sentidos ignorando que ja
Boda a repetia; não sabe mesmo n a d a ) . . . E este significado quádruplo pensavata Dante
o os outros que sc encontrasse na Divina C.. que, pelo contrário, só tem valor artístico
quBndo, e só enquanto. 5 expressão pura c desinteressada de um mundo interior
próprio, e Dante ''abandona^i;^ complotanonto ã sua visão".
[Pobre Itália! E pobre Dante, toda um.i vida dc caoseirao a procurar supra-sentidos
i' cete diz que os nao havia, mas que "acreditava... se encontraosu" o afinal nao. A citar
como teratologia historiográfica»]
1
>
iC
a
8
••fJc.,
Cluns, ll.lt.
Pie Literarasthetifc des europSíschenMittvlaltor».
Bochuo-Langendreec, Poppinghaus, 1937, pp. 606
Th. Ccn. Lett.(r,b)
A sensibilidade estética existia na Idade Media a 5 ã sua luz que devem ser vista» no
obras dos pootac medievais. 0 centro da investigação ê* a consciência que o poeta podia
ter então .da aua arte.
Vislumbra-se una evolução do gosto medieval:
oec. VII e VIII - as doutrinas cristas oao reduzidas às formas vazias do clasaicismo.
sec. IX o X
séc. XI sog.
séc. XII
sdc. XIV
- as fábulas antigas são utilizada*! na perspectiva da Ótica criatã.
- aparece o cthos criotao propriamente dito (obras litürgicas, vidas
de Bentos, paráfrases da Bíblia, predomínio do alem).
- o ncoplatonieao leva a uma visão cais humana do mundo: tudo rcflcctc
Dfíua n seu modo (amor, actividades profiasionaia, natureza).
Desenvolvc-ce a corrente alegórica (de AlcuTno aos Victorinou e outros).
- Embora continuando ao serviço de Deus, n poesia aoral torna-se
estetien. Tnl como Deus se "exprime na criação, assim o poeta se exprime
a ai mesmo, pensamentos, sentioenCoa (Inglaterra, Dnnte.etc).
0 livro c uma recensao de De Bruyne in Rc.ncogc.de p h i l , 1938? diz que dividir etn épocas
a evolução não é nuito seguro porque as várias correntes estão sempre simultaneamente
presentes fê u nua tese dos Ktudes: pÔe cm causa esta carência de sentido histórico;
ele acredita demasiado na Philosophía Pcrennit;!} a civilização artística medieval
v polílúnica.
Cluiii 2
De Bruyne c r i t i c a Glunz por não se ter ficudu peto prazer formal da poesia: os medievais
tinham disso um sentido muito vivo, basta pensar nas artes poéticas. E depois
uma estética literária fazia parte de uma visão estética mais geral que Clunz negligenciaria,
estética em que convergiam a teoria pitagorica das proporções, a estético
qualitativa ag06tiniana (modus, apeciea, oedo) a a dionisiane (claritas, lux). Tudo
isto apoiado pela psicologia dos victorinos e pela visão cristã do universo.
Hatitatn, Jacquos
"Signo cc syaboie"
Rcvwe Thosistc, Abril, 1938, p.299
3h. SÍ. (v)
H.i expectativa de uma investigação aprof indada sobre u tema (desde a I.H.oté hoje),propÕe-
so aLudir a: teoria filosófica do nig. a o reflexões sabre o Hiano nÜgico.
[insuportável como eemprei r.iiderniza sen fazer filologia: por exemplo, não ae refete a
ST, mas a João dc São Tonas!]
Desenvolve a teoria deste último (ver mtnha ficho):"Signum ett id quod repraesentat
aliud a se potentiao cognoscentl" (Log.II.P, 21,1).
i. .-'-i '..i cssentialiter consiatit in ordine ad aignatua"
Mas o •igno não é seepre a imagem a vice-versa (o Filho £ iaagca « não eigno do Pai, o
grito £ signo e não imagem da dor). João acrescenta:
"Ratio ergo imaginis consistit in hoc quod procedac ab alio ut a principio, et ia
slallitudLaea ejus, ut docet S. Thomae, I, 35 e XCXlIl" (?7T)
Diz então Haritain quo o símbolo 5 ua eigno-imagen: "quelquc choae de acnaible aianitJant
un objet en raison d'un« rãlation pregupposcc d'analogia" (303)•
Isto deu-me a ideia do voif^t. De Ver.VlII, 5 « CG.111.49.
Haritain desenvolve ainda idéias nobre o signo formal, instrumental, pratico, etc. e
sobre o aigno como acto ijo mngia (parto documentadíasima)*
Quase não se refere 5 arte fmaa ja *c encontran aqui algumaa rofarÕncian aa raízes
inconscientes e profunda» do arte que encontraremos depois cm Creative Intuition]
Para uca interprctação tomiata S intcrcssaote o seguinte M W W " - I 1 'i. i l'oeuvre
O
>
n
m
•o
>
3
d'art se rencontient le signo speculatíf (1'oeuvre manifeste autra chose qu*elle) ct
1c signe poetique (ellc coaimunique un ordrr, un appel); non qu'ellc soit formellement
ni^no pratique, mata c'c«t un oigne apírulatif qui par ourabondance e»t vJrtuellement
pratique: ec eLle-même. sana le louloir, et a condition de na pus le vouloir, e i i
J U S S Í une sorte de signr .«HÍque (elle séduie, elle enaorcelle)"(J29).
150
QUADRO 11
FICHA DE LEITURA
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I9a « 4 M C41l < nH t*o* V r9*- M o1 l» B fl li l - l " .' fl « •rl o •O P M •çi • l í • q I — i "3 10 P i : a3* I—i 151 Curtius, Ernst Robert TB . gan Europaiachc Litotatur un4 1atgini«chcs Hittelaltar. Berna, Trance, 1948 ea particular C12, ase.3 í.ivro grande. Por agora sõ me serve a pãg. 228. Pretende denonatrar que um conceito de poesia em Coda a sua dignidade( capacidade rovcladora e aprofundamento da verdade, era desconhecido dos eico1í«tícos, enquanto estava vivo cm Dance e noa autores do século XIV Caqui tem razão-). Em Alberto Magno, por exemplo, o método científleo ,(aodus definicionia, divieivus, collectivus) opõe-se ao método poético da Bíblia (histórias, parábolas, metáfora»). 0 aodus pocticua como o mais fraco doa modos filosóficos. (Há qualquer coisa do gênero ea S T , ir verificar l í ! ] Efectivaaentd Curtius remete a S T (I, 1,9 a 1) a ã distinção da posaia coao intima doutrinai (ver ficha). En resumo, a escolãstica nunca se interessou pela poesia e nunca produitu nenhuaa poética I isto é verdade para a escolãstica, mas não para a Idade HÍdiaJ e nenhuma teoria da arte £ n * o • vardadej'. Estarmos a incomodar-nos a extrair dal una estetica da literatura e da» artes plásticas nao tem, por isso, qualquer sentido nem objectivo• A condenação é proferida no n.l da pãg. 229: "0 homea moderno aobrcvalorira sem medida a arte porque perdeu o sentido da beleza inteligível que o neoplatonisao e a I.H. tinhas bea claro. Sero te aaari, Pulchritudo taa antiqna et taa nova, diz Agostinho a Deus (Cont.. X, 27, 18). Fala-se aqal da uaa baleia a ri >X
D
O
Curtius 2
de qoe a estética não sabe nada £ pois, mas o problema da participação do Belo divino
nos seres?}. Quando a escolãstica fala da bolsza, cia é pensada coao ua atributa de
D S ) B I "a metafísica do Belo (ver Plotino) c a teoria da arte não têm nada a ver uma
com a outra" Cê vordade, mas encontram-aa no terreno neutro de uma teoria da forma ! ]
[Atenção, este autor não é como Biondollilo t Nao conhece certos textos filosóficos
de ligação mas sabe ao coisas. A refutar com circunspecção.]
QUADRO 13
FICHA DE LEITURA
QUADRO 13 (Continuação)
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ri O •0ri aa b o kOi —rtj •3rl t S4>1 BIO o a CP i
E> < 154 155 QUADRO 14 FICHA DE LEITURA 156 As fichas dc lei 1 ura servem para a literatura crílica. Não são aconselháveis llchus de leitura para as fontes primárias, como se disse no parágrafo anterior. Muitas são as maneiras de fichar um livro. Isso depende da memória de cada um. Há pessoas que têm dc escrever tudo e pessoas para quem um rápido apontamento é suficiente. Digamos que o método standard 6 o seguinte: a) indicações bibliográficas precisas, possivelmente mais completas que as da ficha bibliográfica; esta servia para procurar o livro, a ficha de leitura serve para falar dele e para o citar como deve ser na bibliografia final: quando se faz a ficha de leitura, tem-se o livro na mão. e, portanto, podem lirar-se iodas as indicações possíveis, lais como número de páginas, edições, dados sobre o organizador da edição, etc: b) informações sobre o autor, quando não é auloridade muito conhecida: cf breve tou longo í resumo do livro ou do artigo; d) citações extensas, entre aspas, dos trechos que se considera dever citar (ou mesmo dc alguns mais), com indicação precisa da. ou das. páginas: atenção a confusão entre citações e paráfrases (ver V.3.2.)!; e) comentários pessoais, no final, no início c a meio do resumo: para não se correr o risco de os confundir depois com a obra do autor, é melhor po-los entre parênteses rectos a cores; f) colocar ao alto da ficha uma sigla ou uma cor que a remeta à parte respectiva do plano dc tTabalho: se se refere a várias partes, pôr várias siglas: se se referir à tese. no seu conjunto, assinale-se isso de uma maneira qualquer. Para não continuar com conselhos teóricos, será melhor fornecer alguns exemplos práticos. Nos Quadros 7-14 encontram-se alguns exemplos de fichas. Para não inventar temas e métodos, fui buscar as fichas da minha tese de licenciatura, que em sobre o Problema estético em S. Tomás de Aquino. Não pretendo afirmar que o meu método dc fichagem fosse o melhor, mas estas fichas dão exemplo dc um método que contemplava diversos tipos de ficha. Ver-se-á 157 que não fui tão preciso quanto estou a aconselhá-lo agora. Faltam muitas indicações e outras são excessivamente elípticas. São coisas que aprendi depois. Mas isso não quer dizer que devam cometer os mesmos erros. Não alterei nem o estilo nem as ingenuidade». Tomem- -se os exemplos por aquilo que vaiem. Note ainda que escolhi fichas breves e não apresento exemplos de fichas que se referiam a obras que depois foram fundamentais para o meu trabalho. Estas ocupavam dez fichas cada. Observemo-las uma por uma: Ficha Croce — Tratava-se de uma breve recensào, importante por causa do autor. Uma vez que já tinha encontrado o livro cm questão, transcrevi apenas uma opinião muito significativa. Repare-se nos parênteses rectos finais: fiz cfectivamente isso dois anos depois. Ficha Biondotillo — Ficha polêmica, com toda a irritação do neófíto que vê desprezado a seu tema. Era útil anotá-la assim para inserir eventualmente uma nota polêmica no trabalho. Ficha Glitnz — Um volumoso livro, consultado rapidamente em conjunto com um amigo alemão, para compreender bem do que tratava. Não tinha uma importância imediata para o meu trabalho, mas valia talvez a pena citá-lo em nota. Ficha Maríiain — Um autor de quem conhecia já a obra fundamental Art et Scolastique, mas em quem confiava pouco. Assinalei no fim não aeeilar as suas citações sem um controlo ulterior. Ficha Cheiiu — Um curto ensaio de um estudioso sério sobre um assunto bastante importante para o meu trabalho. Tirei dele todo o sumo possível. Note-se que se tratava de um caso clássico de referenciação de fontes dc segunda mão. Anotei aonde poderia ir verificá- -las em primeira mão. Mais do que uma ficha de leitura, tratava-se de um complemento bibliográfico. Ficha Curtius — Livro importante, de que só precisava registar um parágrafo. Tinha pressa e limitei-me a percorrer rapidamente o resto. Li-o depois da tese e por outros motivos. Ficha Marc — Artigo interessante de que extraí o sumo. Ficha Segond — Ficha de exclusão. Bastava-me saber que o trabalho não me servia para nada. Ao alto e à direita vêem-se as siglas. Quando pus letras minúsculas entre parênteses, isso significava que havia pontos a cores. Não vale a pena estar a explicar a que se referiam as siglas e às cores, o importante é que lá estavam. 158 IV.2.4. A humildade científica Não devem deixar-se impressionar pelo título deste parágrafo. Não se trata de uma dissertação ética, mas dc métodos de leitura e dc fichagem. Nos exemplos de fichas que forneci, vimos um em que eu. jovem investigador, escarnecia de um autor, liquidando-o em poucas palavras. Ainda estou convencido de que tinha razão e, de qualquer forma, podia permitir-me fazê-lo dado que ele havia liquidado em dezoito linhas um assunto tão importante. Mas isto era um caso- -limite. Seja como for. fiz a ficha respectiva e tomei em consideração a sua opinião. E isto não só porque é necessário registar todas as opiniões expressas sobre o nosso tema. mas também porque não é evidente que as melhores idéias venham dos autores mais importantes. E . a propósito, vou coniar-vos a história do abade Vallet. Para compreender bem a história seria necessário dizer-vos qual era o problema da minha tese e o escolho interpretativo no qual tinha encalhado havia cerca de um ano. Como o problema não interessa a toda a gente, digamos sucintamente que para a estética contemporânea o momento da percepção do belo é geralmente um momento intuitivo, mas em S. Tomás a categoria da intuição não existe. Muitos intérpretes contemporâneos esforçaram-se por demonstrar que ele de certo modo tinha falado dc intuição, o que era estar a deturpá-lo. Por outro lado, o momento da percepção dos objectos em. em S. Tomás, tão rápido e instantâneo que não explicava o desfrutar das qualidades estéticas, que são muito complexas, jogos de proporções, relações entre a essência da coisa e o modo como ela organiza a matéria, etc. A solução estava (e cheguei a ela um mês antes de acabar a tese) em descobrir que a contemplação estética se inseria no acto, bem mais complexo, do juízo. Mas S. Tomás não dizia isto explicitamente. E. todavia, da maneira como falava da contemplação estética, só se podia chegar àquela conclusão. Mas o objeciivo de uma investigação interpretai!va é muitas vezes precisamente esie: levar um autor a dizer explicitamente aquilo que não disse, mas que não podia deixar de dizer se lhe fosse feita a pergunta. Por outras palavras: mostrar como. comparando várias afirmações, deve emergir, nos termos do pensamento estudado, essa resposta. Talvez o autor não o tivesse dito porque lhe parecesse óbvio, ou porque — como no caso de S. Tomás — jamais tivesse tratado organicamente o problema estético, falando dele sempre incidentalmente e dando o assunto como implícito. 159 Tinha, pois, ura problema. E nenhum dos autores que l i me ajudava a resolvê-lo (e se na rainha tese havia algo de original, era precisamente essa questão, com a resposta que tinha de descobrir). E quando andava de um lado para o outro à procura de textos que rne ajudassem, encontrei um dia. num alfarrabista de Paris, um pequeno livro que come çou por me chamar a atenção pela sua bela encadernação. Abro-o c verifico tratar-se de um livro de um certo abade Vallet, Lidée du Beau dans la philosophie de Saint Thomas d Aquitt (Louvain. 1877). Não o tinha encontrado em nenhuma bibliografia. Tratava-se da obra dc um autor menor do século XTX. Como é evidente, compro-o (e nem sequei foi curo), começo a lê-lo e verifico que o abade Vallet era um pobre diabo, que se limitava a repelir idéias recebidas, não descobrindo nada de novo. Se continuei a lê-lo não foi por «humildade científica» (ainda não a conhecia, só a aprendi ao ler aquele livro, o abade Vallet foi o meu grande mestre), mas por pura obstinação e paia recuperar o dinheiro que havia despendido. Continuo a ler e. a dada altura, quase entre parênteses, dito provavelmente por desatenção. sem que o abade se tivesse dado conta do alcance da sua afirmação, encontro uma referência ã teoria do juízo cm Ligação com a da belc/a. Eureca! Tinha encontrado a solução! E fora o pobre abade Vallet que ma linha fornecido. Ele. que já linha morrido havia cera anos. de quem já ninguém se ocupava e que. no entanto, tinha algo a ensinar a quem se dispusesse a ouvi-lo. É isto a humildade científica. Qualquer pessoa pode ensinar-nos alguma coisa. Ou talvez sejamos nós que somos tão esforçados que conseguimos aprender alguma coisa com quem não o em tanto como nós. Ou então, quem parece não valer grande coisa tem qualidades ocultas. Ou. ainda, quem não é bom para Fulano pode ser bom para Beltrano. As razões são muitas. O faeto é que é necessário ouvir com respeito toda a gente, sem que isso nos dispense de pronunciar juízos de valor ou de saber que um determinado autor pensa de modo muito diferente e ideologicamente está muito longe de nós. Mesmo o mais encarniçado dos adversários pode sugerir-nos idéias. Isso pode depender do tempo, da estação, ou da hora do dia. Naturalmente, se tivesse lido o abade Vallet um ano antes, não teria aproveitado a sugestão. F. quem sabe quantos melhores do que eu não o terão lido sem encontrar nada de interessante? Mas. com este episódio, aprendi que. se se quiser fa/cr investigação, não se pode desprezar nenhuma fonte e isto por princípio. E a isso que chamo humildade científica. Talvez seja uma definição hipe^ crila. na medida em que oculta muito orgulho, mas não ponhamos problemas morais: quer seja por orgulho ou humildade, pr.itiquem-na. 160 V. A REDACÇÃO V . l . A quem nos dirigimos A quem nos dirigimos nós ao escrever uma tese? A o orientador? A todos os estudantes ou estudiosos que terão oportunidade de a consultar depois? Ao vasto público dos não especializados? Deve-se considerá-la como um livro que andará nas mãos de milhares de pessoas ou como uma comunicação erudita a uma academia científica? São problemas importantes, na medida em que dizem sobretudo respeito a exposição a dar ao trabalho, mas têm também a ver com a nível de clareza interna que se pretende conseguir. Eliminemos desde já um equívoco. Há quem pense que um texto dc divulgação, onde as coisas são explicadas de modo que todos compreendam, exige menos aptidões do que uma comunicação científica especializada que se expresse inteiramente por fórmulas só compreensíveis para um punhado de privilegiados. Isso de modo nenhum é verdade. Certamente, a descoberta da equação de Einstein. E = mcJ . exigiu muito mais engenho do que qualquer brilhante manual de Física. Porém, habitualmente os textos que não explicam com grande familiaridade os termos que usam (preferindo referências rápidas) reflectem autores muito mais inseguros do que aqueles em que o autor torna explícitas todas as referências e passagens. Se se lerem os grandes cientistas ou os grandes críticos, verificar-se-á que, salvo raras excepções. sào sempre muito claros c não têm vergonha de explicar bem as coisas. Digamos então que uma tese è um trabalho que. por razões do momento, é apenas dirigido ao orientador ou co-orientador. mas que de faeto pressupõe vir a ser lido e consultado por muitas outras pessoas, incluindo estudiosos não directamente versados naquela disciplina. I 161 Assim, numa tese de filosofia, decerto não será necessário começar por explicar o que é a filosofia, nem numa tese de vulcanologia o que são os vulcões, mas imediatamente abaixo deslc nível de evidência, será sempre eonveniente fornecer ao leilor iodas as informações necessárias. Antes de mais. definem-se os termos que se utilizam, a menos que sejam lermos consagrados e indiscutíveis na disciplina em questão, Numa lese de lógica formal não precisarei de definir um termo como «implicação» (mas numa tese sobre a implicação estrita de Lewis, lerei de definir a diferença enlre implicação material e implicação estrita). Numa tese de linguíslica. não lerci dc definir a noção de fonerna (mas tecei de fazê-lo se o assunio da tese for a definição dc fonerna em Jakobsont. Porém, nesta mesma tese de lingüística, sc uiili/.ar a palavra «signo» será conveniente defini-la. já que se dá o caso de ela se referir a entidades diferentes consoante o autor. Deste modo. teremos como regra geral: definir todos os termos técnicos utilizados como categorias-chave do nosso discurso. Em segundo lugar, nào é necessário partir do princípio de que o leitor tenha feito o trabalho que nós próprios fizemos. Se se tiver feito uma tese sobre Cavour. 6 possível que o leitor também saiba quem é Cavour. mas se for sobre Feüce Cavallotti será conveniente recordar, embora sobriamente. quando é que este autor viveu, quando nasceu e como morreu. Tenho à minha frente duas teses de uma faculdade dc letras, uma sobre Giovan Battista Andreini c outra sobre PÍCTTC Rémond de Sainte-AIbine. Estou pronto a jurar que, de cem professores universitários, mesmo sendo todos de letras e filosofia, só uma pequena percentagem teria uma idéia clara sobre estes dois autores menores. Ora. a primeira tese começa (mal) com: A história dos estudos sobre Giovan Baltisla Andreini inicia-se cnm uma enumeração das suas obras efectuada por Leone Aliacci. teólogo c erudito dc origem grega (Quilos 1586 Roma 1669) que contribuiu para a história do teatro... etc Podeis imaginar o desapontamento de qualquer pessoa que fosse informada dc um modo tão preciso sobre Aliacci. que estudou Andreini. e não sobre o próprio Andreini. Mas — podem dizer o aulor— Andreini é o herói da minha tese! Justamente, se é o herói, a primeira coisa a fazer é torná-lo familiar a quem quer que vá lê-la. c não basla o facto de O orientador saber quem cie é. O que se escreveu não foi uma cana particular ao orientador, mas um livro potencialmente dirigido à humanidade. 162 A segunda tese, mais adequadamente, começa assim: O objecto do nosso estudo é um texto publicado cm França, em 1747, escrito por uni autor que. além deste, deixou muito jwucos vestígios dele próprio. 1'ierre Rémond de Sainte-AIbine... a seguir ao que se começa a explicar de que texto se trata e qual a sua importância. Este início parece-me correcto. Sei que Saintc- -Albine viveu no século XVTII, c que as poucas idéias que tenho sobre ele são justificadas pelo facto de o aulor ter deixado poucos vestígios. V.2. Como se fala Urna vez decidido para quem se escreve (para a humanidade e não para o orientador), é necessário decidir como se escreve. E trata- -se de um problema muito difícil: sc houvesse regras exaustivas, seríamos todos grandes escritores. Pode recomendar-sc que se escreva a tese muitas vezes, ou que se escrevam outras coisas antes de empreender a tese. pois escrever é também uma questão de prática. De qualquer forma, sào possíveis alguns conselhos muito gerais. Não imitem Proust, Nada de períodos longos. Se vos acontecer fa/.â-Ios, dividam-nos depois. Não receiem repetir duas vezes o sujeito. Eliminem o excesso de pronomes e de orações subordinadas. Não escrevam: O pianista Wittgenstein, que era irmão do conhecido filósofo que escreveu o Traciatus Lvgico-Philosophicus que hoje cm dia muitos consideram a ohra- -prima da filosofia contemporânea, teve a ventura de Ravel ter escrito para ele o concerto paru a mão esquerda, dado que tinha perdido a direita na guerra. mas escrevam, quando muito: O pianista Wittgenstein era irmão rio filósofo I.udwig. Como era mutilado da mão direita. Ravel escreveu para ele o concerto para a mão esquerda. Ou então: O pianista Witigenstein era irmão do filósofo autor do célebre Tractaius. Este pianista tinha perdido a mão direita. Por esse motivo, Ravel escreveu-lhe um concerto paia a mão esquerda. 163 Não escrevam: O escritor irlandês renunciou à família, à pátria e a igreja e manteve-se fiel ao seu desígnio. Daí não se pode concluir que fosse ura escritor empenhado, embora haja quem tenha falado a seu respeito de tendências labianas e «socialistas». Quando deflagra a Segunda Guerra Mundial, cie tende a ignorar deltberadamente o drama que cortvulsiona a Hurojia e preocupa-se unicamente com a redaccão primeiro capitulo. Provavelmente
estarão mais preparados e documentados sobre o quarto capítulo.
Devem começar por aí, com a desenvoltura de quem já pôs em ordem
os capítulos anteriores. Ganharão confiança. Evidentemente, devem
ter um ponto a que se agarrar, e este é-lhes dado pelo índice como
hipótese que os guia desde o início (ver IV. 1.).
Não usem reticências ou pontos de exclamação, não expliquem
as ironias. Pode falar-se uma linguagem absolutamente referencial
ou uma linguagem figurada. Por linguagem referencial entendo uma
linguagem em que todas as coisas são chamadas pelos seus nomes
mais comuns, reconhecidos por toda a gente e que não se preslain
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a equívocos. «O comboio Veneza-Milão» indica de modo referencial
o que «A flecha da laguna» indica de modo figurado. Mas este
exemplo mostra-nos que mesmo na comunicação «quotidiana» sc
pode utilizar uma linguagem parcialmente figurada, üm ensaio crítico
ou um lexto científico deveriam ser escritos em linguagem referencial
(com todos os termos bem definidos e unívocos). mas também
pode ser útil utilizar uma metáfora, uma ironia ou uma litotes. Eis
um texto referencial seguido da sua transcrição cm lermos razoavelmenle
figurados:
Versão referencial — Krasnapolsky não é um intérprete muito perspicaz da
obra de líanieli. A sua interpretação extrai do texto do autor coisas que este
provavelmente não pretendia dÍ7.er. A propósito do verso «C ao crepúsculo fitar
as nuvens», Rilz entende-o como uma anotação paisagística normal, enquanto
Krasnapolsky vê aí uma expressão simbólica que alude à actividade poética.
Não devemos confiar na agudeza crítica de Kit?, mas de igual modo devemos
desconfiar de Krasnapolsky. Ililton observa que «sc Ritz parece uni prospecto
turístico, Krasnapolsky parece um sermão da Quaresma». E acrescenta:
«Verdadeiramente, dois críticos perfeitos.»
Versão figurada — Não estamos convencidos de que Krasnapolsky seja o mais
perspicaz dos intérpretes de Danieli. Ao ler o seu aulor. dá a impressão de lhe
forçar a mão. A propósito do verso «c ao crepúsculo fitar as nuvens»; Ritz
entende-o como unia anotação paisagística normal, enquanto Krasnapolsky carrega
na lecla do simbólico e vê aí uma alusão à actividade poética. Não c que
Ritz seja um prodígio de penetração crítica, mas Krasnapolsky também não é
brilhante. Como observa Hilton. se líii? parece um prospeclo turístico.
Krasnapolsky parece um sermão da Quaresma: dois modelos de perfeição crítica.
Vimos que a versão figurada utiliza vários artifícios retóricos.
Em primeiro lugar, a litotes: dizer que não se está convencido de
que fulano seja um intérprete perspicaz, quer dizer que se está convencido
de que ele não é um intérprete perspicaz. Depois, há as
metáforas; forçar a mão, carregar na tecla do simbólico. Ou ainda,
dizer que Ritz. não c um prodígio de penetração significa que é um
modesto intcrpreic ilhotes). A referência ao prospecto turístico e ao
sermão da quaresma são duas comparações, enquanto a observação
de que os dois autores são críticos perfeitos é um exemplo de ironia:
diz-se uma coisa para significar o seu contrário.
Ora. as figuras de retórica ou se usam ou nào sc usam. Se se
usam. é porque se presume que o nosso leitor está em condições de
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as apreender e porque se considera que desse modo o argumento
toma uma forma mais incisiva e convincente. Então não é preciso
envergonharmo-nos e não é necessário explicá-ias. Se se considera
que o nosso leitor é um idiota, não sc usem figuras de retórica, pois
utilizá-las com explicação é estar a chamar idiota ao leitor. Este vingar-
se-á chamando idiota ao autor. Vejamos como um estudante
tímido faria para neutralizar c desculpar as figuras que utiliza:
Versão figurada com reservas — Não estamos convencidos dc que Kiasnapolsky
seja o... mais perspicaz dos intérpretes de Danieli. Ao ler o seu autor, ele dá a
impressão de... lhe forçar a mão. A propósito do verso «c ao crepúsculo fita;
as nuvens». Ritz entende-o como uma anulação «paisagísiica» norma!, enquanto
Krasnapolsky carrega na... tecla do simbólico e vê aí a alusão à actividade poética.
Não c que Ritz seja um... prodígio dc interpretação crítica, mas Krasnapolsky
lambem nao é... brilhante! Como observa I lilion, se Ritz parece um... prospecto
turístico, Krasnapolsky parece um... sermão da Quaresma, c define-os (mas iro
nicamente!) como dois modelos de perfeição crítica. Ora, gracejos à parte, a
verdade é que... etc.
Estou convencido de que ninguém será tão intelectualmente
pequeno-burguês para elaborar um trecho de tal modo imbuído de
hesitações e de sorrisos de desculpa. Exagerei (e desta vez digo-o
porque é didacticamente importante que a brincadeira seja tomada
como tal). Mas este terceiro trecho contém de modo condensado
muitos maus hábitos do escritor diletante. Em primeiro lugar, a utilização
de reticências para avisar «atenção, que agora vou dizer uma
graça». Pueril. As reticências só se utilizam, como veremos, no corpo
de uma citação para assinalar os trechos que foram omitidos e.
quando muito, no fim de um período para assinalar que uma enumeração
não terminou, que haveria ainda outras coisas a dizer. Em
segundo lugar, o uso do ponto de exclamação para dar ênfase a uma
afirmação. Fica mal. pelo menos num ensaio crítico. Se forem ver
bem o livro que estão a ler neste momento, verificarão que não utilizei
o ponto de exclamação mais de uma ou duas vezes. Uma ou
duas vezes ainda vá. se se tratar de abanai" o leitor na sua cadeira
ou de sublinhar uma afirmação muito vigorosa do tipo: «atenção,
nunca cometam este erro!». Mas é melhor falar em voz baixa. Se
se disserem coisas importantes, conseguir-se-á maior efeito. Em terceiro
lugar, o autor do último trecho desculpa-se de recorrer à ironia
(mesmo de outrem) e sublinha-a. É eerlo que se nos parecer que
a ironia de Iíilton é demasiado subtil. se pode escrever: «Hilton
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afirma, com subtil ironia, que estamos perante dois críticos perfeitos
». Mas a ironia terá de ser verdadeiramente subtil, No caso citado,
depois de Hüton ter falado de prospecto turístico e de sermão da
Quaresma, a ironia tornava-se evidente e nào valia a pena estar a
explicá-la com todas as letras. O mesmo se pode dizer para os «gracejos
à parte». Por vezes, pode ser útil para mudar bruscamenie o
tom do discurso, mas é necessário ler-se efeclivamenie gracejado.
No caso presente estava-se a ironizar e a metaforizar, c isto não são
gracejos, mas artifícios retóricos muito sérios.
Poderão observar que nesic meu livro expressei pelo menos duas
vezes um paradoxo, e depois adverti que se tratava de paradoxos.
Mas nào o fiz por pensar que não o tinham compreendido. Pelo contrário,
li-lo porque leinia que tivessem compreendido demasiado e
daí deduzissem que não deviam loinar em conta esses paradoxos.
Insisti, pois, que apesar da forma paradoxal, a minha afirmação continha
uma verdade imporiante. E esclareci bem as coisas, pois este
é um livro didáctico em que. mais que a beleza do estilo, me importa
que todos compreendam o que quero dizer. Se tivesse escrito um
ensaio, leria enunciado o paradoxo sem o denunciar depois.
Definam sempre um termo quando o introduzirem pela primeira
vez, Se não sabem defini-lo. evitem-no. Se é um dos termos principais
da vossa tese e não conseguirem defini-lo, abandonem tudo.
Enganaram-se na tese (ou na profissão).
Não comecem a explicar onde é Roma para depois nào explicar
onde é Tombuciu. Faz-nos calafrios ler teses com frases do tipo:
«O filósofo panteísta judaico-holandés Espinosa foi definido por
Guzzo...». Alto lá! Ou estão a fazer uma tese sobre Espinosa e então
o leitor sabe quem é Espinosa e já lhe disseram que Augusto Gu/.zo
escreveu um livro sobre ele. ou estão a citar ocasionalmente esta
afirmação numa tese sobre física nuclear c então não devem presumir
que o leitor não saiba quem é F-spinosa mas saiba quem é Guzzo.
Ou então, trata-se de uma lese sobre a filosofia pós-gentiliana em
Itália e toda a gente sabe quem é Guzzo. mas nessa altura também
saberão quem é Espinosa. Não devem dizer, nem sequer numa tese
de história «T. S. Eliot. um poeta inglês» (à parte o faeto de ter
nascido na América). Parle-se do princípio de que T. S. Eliot é
universalmente conhecido. Quando muito, se quiserem sublinhar
que foi mesmo uin poeta inglês a dizer uma dada coisa, é melhor
escreverem «foi um poeta inglês. Eliot, quem disse que ... ».
Mas se fizerem uma tese sobre Eliot. tenham a humildade dc for-
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necer todos os dados. Sc não no texto, pelo menos numa nota logo
no início deve ser-se suficientemente honesto e preciso para condensar
em dez linhas todos os dados biográficos necessários. Nem
iodo o leitor, por mais especializado que seja. sabe de memória a
dala do nascimento de Eliot. E tanto mais se o trabalho versar sobre
um autor secundário de um século passado. Nào presumam que todos
saibam quem seja. Digam logo quem era. como se situa e assim por
diante. Mas mesmo se o autor for Molièrc, que custa pôr uma nota
com duas datas? Nunca se sabe.
Eu ou nós? Na tese devem introduzir-se as opiniões próprias na
primeira pessoa? Deve dizer-se «penso que ... »? Alguns pensam
que é mais honesto fazer assim do que utilizar o plural majestático.
Eu não diria isso. Diz-se «nós» porque se presume que o que sc
afirma possa ser partilhado pelos leitores. Escrever é um acto social:
escrevo para que tu que lês aceites aquilo que te proponho. Quando
muito pode procurar-se evitar pronomes pessoais recorrendo a expressões
mais impessoais como: «deve. portanto, concluir-se que: parece
então indubitável que; deve nesta altura dizer-se; é possível que; dai
decorre, portanto, que. ao examinar este texto vô-sc que», etc. Não
é necessário dizer «o artigo que citei anteriormente» ou « o artigo
que citámos anteriormente», bastando escrever «o artigo anteriormente
citado». Mas direi que se pode escrever «o artigo anteriormente
citado demonstra-nos que», porque expressões deste tipo não implicam
nenhuma personalização do discurso científico.
Não ponham nunca o artigo antes do nome próprio. Não há razão
para dizer «o Manzoni» ou «o Stcndhal» ou « o Pascoü». De qualquer
forma, soa um pouco antiquado. Imaginam um jornal a escrever
«o Berlinguer» e «o Leone». a menos que seja para fazer ironia?
Não vejo por que não se há-de escrever «como diz De Sanciis — ».
Duas excepções: quando o nome próprio indica um manual célebre,
uma obra de consulta ou um dicionário («segundo o Zingarelli.
como diz o Fliche c Martin»), e quando numa resenha crítica se
citam estudiosos de segunda ordem ou pouco conhecidos («comentam
a esle respeito o Caprazzoppa e o Bellotii-Bon»), mas também
isto faz. sorrir e recorda as falsas citações de Giovanni Mosca, e
seria melhor dizer «como comenta Romualdo Caprazzoppa». fazendo
seguir em nota a referência bibliográfica.
Não se devem aportuguesar os nomes de haptismo dos estrangeiros.
Certos textos dizem «João Pauto Saitre» ou «l.udovico
Wittgenstein». o que soa bastante ridículo. Imagina-se um jornal a
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escrever «Henrique Kissinger» ou «Valério Giscard d'Estaing»? e
achariam bem que um livro espanhol escrevesse «Benito Croce»?
Todavia, os livros de filosofia para os liceus chegam a referir «Bento
Espinosa» em vez de «Baruch Spinoza». Os israelitas deveriam
escrever «Baruch Croce»? Evidentemente que se se escrevesse Bacone
por Bacon, dir-se-ia Francisco em vez de Franeis. São permitidas
excepções. a principal das quais 6 a que se refere aos nomes gregos
e latinos: Platão, Virgílio, Horácio...
Só se devem aportuguesar os apelidos no caso de isso ser sancionado
pela tradição. Admitem-se Lutero e outros nomes num contexto
normal. Maomc* pode dizer-se. a menos que se trate de uma
tese em filologia árabe. Sc. porém, se aportuguesar o apelido, deve
também aportuguesar-se o nome: Tomás Moro. Mas numa tese específica
deverá utilizar-se Thomas More.
V.3. As citações
V.3.1. Quando e como se cita: dez regras
Habitualmente, numa tese citam-se muitos textos de vários autores:
o texto objecto do trabalho, ou a fonte primaria, e a literatura
critica sobre o assunto, ou as fontes secundárias.
Assim, as citações são praticamente de dois tipos: (a) cita-se um
texto sobre o qual depois nos debruçamos interpreta ti vãmente e (/?)
cita-se um texto para apoio da nossa interpretação.
Ú difícil dizer se se deve citar com abundância ou com parcimônia.
Depende do tipo de tese. Uma análise crítica de um escritor
requer obviamente que grandes trechos da sua obra sejam transcritos
e analisados. Noutros casos, a citação pode ser uma manifestação
de preguiça, quando o candidato não quer ou não é capaz de
resumir uma determinada série de dados c prefere que sejam outros
a fazê-lo.
Vejamos, pois. dez regras para a citação.
Regra 1 — Os trechos objecto de análise interpretativa são citados
com uma extensão razoável.
Regra 2 — Os textos da literatura crítica só são citados quando,
com a sua autoridade, corroboram ou confirmam uma afirmação
nossa.
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Estas duas regras implicam alguns corolários óbvios. Em primeiro
lugar, se o trecho a analisar ultrapassa a meia página, isso
significa que algo não funciona: ou se tomou uma unidade de análise
demasiado extensa, e. portanto, não podemos comentá-la ponto
por ponto, ou não estamos a falar de um trecho mas de um texto
inteiro e então, mais que uma análise, estamos a fazer um juízo global.
Nestes casos, se o texto for importante mas demasiado longo,
é melhor transcrevê-lo por extenso em apêndice e citar no decurso
dos diversos capítulos apenas breves períodos.
Em segundo lugar, quando se cita a literatura crítica, devemos
estar certos de que a citação diz algo de novo ou que confirma o que
se disse com autoridade. Vejamos, por exemplo, duas citações inúteis:
As comunicações de massas constituem, como diz McLuhan. «um dos fenômenos
centrais do nosso tempo». K preciso não esquecer que, só no nosso país.
seeundo Savoy, dois indivíduos cm cada três passam um terço do dia em frente
da televisão.
O que é que há de errado ou de ingênuo nestas duas citações? E m
primeiro lugar, que a comunicação de massas é um fenômeno central
do nosso tempo, é uma evidência que qualquer pessoa poderia ter
dito. Não se exclui que também McLuhan a tenha dito (não fui verificar
e inventei a citação), mas não é necessário invocai' a autoridade
de alguém para demonstrar algo tão evidente. Em segundo lugar, é
possível que o dado que referimos seguidamente sobre a audiência
televisiva seja exacto, mas Savoy não ú uma autoridade (é um nome
que inventei, um equivalente de Fulano). Deveria, em vez disso, ter-
-se citado uma investigação sociológica assinada por estudiosos conhecidos
e insuspeitos, dados do Instituto Nacional dc Estatística, os resultados
de um inquérito pessoal apoiados por quadros em apêndice. Em
vez de citar um Savoy qualquer, era preferível ter-se dito «facilmente
se presume que duas pessoas em cada três. etc».
Regra 3 — A citação pressupõe que se partilha a ideia do autor
citado, a menos que o trecho seja precedido e seguido de expressões
críticas.
Regra 4 — De todas as citações, devem ser claramente reconhecíveis
o autor e a fonte impressa ou manuscrita. Este reconhecimento
pode ter lugar de várias maneiras:
172
(7) com chamada e referência em nota. especialmente quando se
trata de um autor nomeado pela primeira vez:
b) com o nome do autor e a data de publicação da obra, entre
parênteses, após a citação (ver a este respeito V.4.3.);
c) com um simples parêntese que refere o número da página,
quando todo o capítulo ou toda a tese versam sobre a mesma obra
do mesmo autor. Veja-se. pois. no Quadro 15 como se poderia estruturar
uma página de tese com o título O problema da epifania no
«Portrait» de James Joyce, na qual a obra sobre que versa a lese,
uma vez definida a edição a que nos referimos e quando se tiver
decidido utilizar, por razões de comodidade, a tradução italiana de
Ccsare Pavese, é cilada com o número de página entre parênteses
no texto, enquanto a literatura crítica é citada em nota.
Regra 5 — As eiiações de fontes primárias são feitas, na medida
do possível, com referência à edição crítica ou à edição mais reputada:
seria dcsaconsclhável, numa tese sobre Balzac, citar as páginas
da edição Livres de Poche: pelo menos, recorra-se à obra completa
da Pléiade. Para autores antigos e clássicos, em geral basta
citar parágrafos, capítulos ou versículos, como é corrente fazer {ver
TII.2.3.). No que se refere a autores contemporâneos, referir, se possível,
se há várias edições, ou a primeira ou a última revista e corrigida,
segundo os casos. Cita-se da primeira se as seguintes forem
meras reimpressões, da última se esta contiver revisões, aditamentos
ou actualizações. Em qualquer caso, especificar que existe uma
primeira e uma edição n e explicar qual se cita (ver, sobre este
aspecto. IIL2.3.).
Regra 6 — Quando se estuda um autor estrangeiro, as citações
devem ser na língua original. Esta regra é taxativa se se tratar de
obras literárias. Nestes casos, pode ser mais ou menos útil fazer
seguir, entre parênteses ou em nota. a tradução. Para tal. sigam-se as
indicações do orientador. Se se tratar de um autor de que não se analisa
o estilo literário, mas no qual a expressão precisa do pensamento,
em todos os seus matizes lingüísticos, tem uma certa importância
(por exemplo, no comentário dos trechos de um filósofo), é conveniente
trabalhar com o texto estrangeiro original, mas neste caso é
altamente aconselhável acrescentar entre parênteses ou em nota a
tradução, pois isso constitui lambem um exercício interpretativo da
vossa pane. Finalmente, se sc citar um autor estrangeiro apenas para
173
colher uma informação, dados estatísticos ou históricos, um juízo
dc caracter gera!, pode ulili/.ar-sc apenas urna boa tradução ou mesmo
traduzir o trecho, para não sujeitar o leitor a constantes saltos de
língua para língua. Basta citar bem o título original e explicar que
tradução se utiliza. Pode ainda suceder que se fale de um autor
estrangeiro, quer este seja um poeta ou um prosador, mas que os
seus textos sejam examinados, não tanto pelo seu estilo quanto pelas
idéias filosóficas que contêm. Neste caso podemos também decidir,
se as citações forem muitas e constantes, recorrer a uma boa tradução
para tornar o discurso mais fluido, limitando-nos a inserir curtos
trechos no original quando se quiser sublinhar o uso específico
de uma certa palavra. É este o caso do exemplo sobre Joyce que
damos no Quadro 15. Ver ainda o ponto (c) da regra 4.
Regro 7 — A referência ao autor e à obra deve ser clara. Para
sc compreender aquilo que estamos a dizer, sirva o seguinte exemplo
(errado):
Estamos de acordo com Vasquez quando defende que «o problema cm questão
está longe dc estar resolvido»1 c. apesar da conhecida opinião de Braun:
paia quem «se fez definitivamente luz sobre esta velha questão», consideramos
com o nosso autor que «falta ainda percorrer uni longo caminho antes que se
chegue a um estádio de conhecimento satisfatório».
A primeira citação é certamente de Vasquez e a segunda de Braun.
mas a terceira será mesmo de Vasquez, como o contexto deixaria supor?
E uma vez que na noui 1 reportámos a primeira citação de Vasquez. à
página 160 tia sua obra. deveremos supor que também a terceira citação
é da mesma página do mesmo livro? E se a terceira citação fosse
de Braun? Vejamos corno o mesmo rrecho deveria ter sido redigido:
Estamos de acordo com Vasquez quando defende que «o problema cm questão
está longe dc estar resolvido»-' c. apesar da conhecida opinião de Braun.
para quem «se fez definitivamente luz sobre esta velha questão»1, consideramos
com o nosso autor que «falta ainda percorrer um longo caminho antes que
sc chegue a um estádio de conhecimento satisfatório»1.
: Roberto Vasquez. Fuzzy Ctmcepts, London. Fabcr, 1976. p. 160.
:Richard Braun. Logik und Erkennmis, Mimchcn. Hnk. 1968. p. 345.
•'Roberto Vasquez. Fuzzy Concepts, London. Fabcr, 1976, p. 160.
' Richard Braun. Logik und Erkeiuunis. Munchcn. Fink. 196H.
'Vasquez. op, e/r., p. 161.
174
Repare-se que na nota 2 se escreveu; Vasquez. op. eit: p. 161.
Se a frase fosse ainda da página 160, teríamos podido escrever:
Vasquez. ibidem. Ai de nós. todavia, se tivéssemos posto «iludem»
sem especificar «Vasquez». Isso quereria dizer que a frase se encontrava
na página 345 do livro de Braun citado. «lbidem->, portanto,
significa «no mesmo lugar» e só se pode utilizar quando se quer
repelir a citação da nota precedente. Mas se, no texto, cm vez de
dizer «consideramos com o nosso autor», tivéssemos dito «consideramos
com Vasquez» e quiséssemos reportar-nos ainda à página
160. teríamos podido utilizar em nota um simples «ibidem». Só com
urna condição: que se tenha falado de Vasquez e da sua obra algumas
linhas antes ou pelo menos dentro da mesma página, ou não
mais tlc duas notas antes. Se. pelo contrário. Vasquez tivesse aparecido
dez páginas antes, seria melhor repetir em nota a indicação por
inteiro ou no mínimo «Vasquez, op. CÍL, p. 160».
Regra <# — Quando uma citação não ultrapassa as duas ou três linhas, pode inscrir-se no corpo do parágrafo, entre aspasr como estou agora a fazer ao citar Campbell e Bailou, que dizem que «as citações directas que nào ultrapassam as três linhas dactilografadas devem ser postas entre aspas e aparecer no texto»*. Quando a citação é mais longa, c melhor colocá-la recolhida e a um espaço (se a tese for dactilografada a três espaços, a citação poderá ser a dois espaços). Neste caso não são necessárias as aspas, pois deve ser evidente que todos os trechos recolhidos c a um espaço são citações; e devemos procurar não utilizar o mesmo sistema para as nossas observações ou desenvolvimentos secundários (que deverão ser feitos em nota). Eis um exemplo de dupla citação recolhida7: Se uma citação directa c mais longa do que três linhas dactilografadas. eta é colocada fora do texto num parágrafo ou em vários parágrafos separadamente, a um espaço... 6 W. U. Campbell e S. V. Bailou. Form imã Sn/e, Boston. Hmighlon Mifflin. 1974. p. 40. ' Unia vez que a página que estão a ler é uma página impressa (c não daclilogratads). cm vez de um espaço mais pequeno uliliza-se um corpo de letra menor (que a máquina dc escrevei nuv tem). A evidência da utilização deslc corpo menor c tal que. no resto do livro, não foi necessário recolher as citações, bastando isolar o bloco em corpo mais pequeno, dando-lhe urna linha de espaço em cima e em baixo. Neste caso rccolhcu-sc a citação apenas para acentuar a utilidade deste artifício na página dactilografada. 175 A subdivisão em parágrafos da fome original deve ser mantida na cilacão. Os parágrafos que se sucedem directamente na fonte ficam separados só por um espaço, tal como as diversas linhas do parágrafo. Os parágrafos que são citados de duas fontes diversas e que não são separados por uni texio de comentário, devem ser separados por dois espaços8. Quando sc pretende indicar as citações, rccolhcm-sc estas, especialmente quando existem numerosas citações de vários tamanhos... Não se utilizam aspas1. Este método é muito cômodo porque faz imediatamente sobressair os textos citados, permite saltá-los se a leitura for transversal, debruçar- se exclusivamente sobre eles sc o leitor estiver mais interessado nos textos citados do que no nosso comentário c. finalmente, permite encontrá-los rapidamente quando se procuram por razões de consulta. Regra 9 — As citações devem ser fiéis, fim primeiro lugar, devem transcrever-se as palavras tal como estão (e. para tal, é sempre conveniente, após a redaccão da lese. voltar a verificar as citações no original, pois ao copiá-las. à mão ou à máquina, podemos ter cometido erros ou omissões). Em segundo lugar, não sc deve eliminar partes do texto sem que isso seja assinalado: esta sinalização de elipses faz-se mediante a inserção de reticências para a parte omitida. Em terceiro lugar, não se devem fazer interpolações e qualquer comentário, esclarecimento ou especificação nossos devem aparecer dentro de parênteses rectos ou em ângulo. De igual modo. os sublinhados que nào são do autor, mas nossos, devem ser assinalados. Exemplo: no texto citado são fornecidas regras ligeiramente diferentes das que eu utilizo para as interpolações: mas isto serve também para compreender como os critérios podem ser diversos, desde que a sua adopção seja constante e coerente. Dentro dacitação... podem verificar-se alguns problemas... Sempre que se omita a iranscrição de uma pane do texto, isso será assinalado pondo três pontos dentro de parênteses rectos |nós sugerimos as reticências sem os parênteses]... Por sua \ci, sempre que sc acrescente uma palavra para a compreensão do texto transcrito, ela serd inserida emre parênteses em ângulo (nào esqueçamos que estes autores estão a falar dc teses dc literatura francesa, onde por vezes pode ser necessário interpolar uma palavra que faltava no manuscrito original mas cuja presença o filósofo imagina]. * Campbell c Bailou, op, c/f., p. 40. °P. Cl. Pcrrin, An Index to Kngfish. 4." ed.. Chicago. Scott. Foresman and Co.. 1959. p.338. 176 Recorde-se a necessidade dc evitar os erros de francês e de escrever num estilo correexo e claro filálico nosso]"1. Se o autor que citamos, embora digno dc menção, incorrer num erro manifesto, dc estilo ou de informação, devemos respeitar o seu erro mas assinalá-lo ao leitor, quanto mais não seja com um parêntese recto deste tipo: \sic\. Dir-se-á. portanto, que Savoy afirma que em 1ÍS20 [sic]. após a morte de Bonaparie, a situação européia era nebulosa». Mas se estivesse no vosso lugar, eu ignoraria um tal Savoy. Regra 10 — Citar é como testemunhar num processo. Temos dc estar sempre em condições de encontrar as testemunhas e de demonstrar que são dignas de crédito. Por este motivo, a referência deve ser exacta e precisa (não se cita um autor sem dizer em que livro e em que página ocorre a passagem cilada) e deve poder ser controlável por todos. Como fazer então, se uma informação ou uma opinião importantes nos vierem de uma comunicação pessoal, dc uma caria ou de um manuscrito'.' Pode muito bem citar-se uma frase pondo em nota uma das seguintes expressões: 1. Comunicação pessoal do autor (6 dc Junho de 1975). 2. Cana pessoal do autor (ó dc Junho de 1975), 3. Declaração registada em 6 de Junho dc 1975, 4. C. Smith, Asfomes da Edda de. Snorri, manuscrito. 5. C. Smith. Comunicação ao XII Congresso dc Fisioterapia, manuscrita (no prelo pela editora Mouton. The Hague). Reparem que, no que respeita às fontes 2. 4 e 5 existem documentos que se poderão apresentar cm qualquer momento- Para a fonte 3 estamos no vago. dado que o termo «registo» não nos diz se se trata de registo magnético ou dc um apontamento estenográfico. Quatiio à fonte l . só o autor poderia desmentir-vos (mas poderia ter morrido entretanto). Nestes casos extremos é sempre boa norma, após ter-se dado forma definitiva à citação, comunicá-la por carta ao autor c obter uma carta de resposta cm que ele diga que se reconhece nas idéias que lhe atribuíram e vos autoriza a utilizar a citação. Se se tratasse de uma citação muitíssimo importante e inédita (uma nova fór- 10 R. Campagnnli e A. V. Borsari. Cuida alia tesi di laureu in li/igua e letteratiira francete, líologna. Patron. 1971, p. 32. 177 mula. O resultado de uma investigação ainda secreta), seria aconselhável pôr em apêndice à tese uma cópia da carta de autorização. Na condição, evidentemente, de o autor da informação ser uma conhecida autoridade científica e nào um fulano qualquer. Regras secundárias — Se quisermos ser exaeios, ao inserir um sinal de elipse (reticências com ou sem parênteses rectos). procedamos do seguinte modo com a pontuação: Sc omitirmos uma parle pouco importante,.. .a elipse deve seguir-se à pontuação da parle completa. Se omitirmos uma pane central..., a elipse precede a vírgula. Quando se citarem versos, devem seguir-se os usos da literatura crítiea a que nos referimos. Km qualquer caso, só um verso pode vir citado no texto assim: «Ia donzelletta vien dalla campagna». Dois versos ptxlem ser citados no texto separados por uma barra: « I cipressi che a Bolgheri alti e schietti/van da San Cuido In duplice filar». Sc. pelo coitirário, se tratar de um trecho poético mais longo, é melhor recorrer ao sistema de um espaço e recolhido: H quando saremo sposati, saro ben felice con le. Amo tanio la mia Kosie 0'Grady c la mia Rosie 0'Grady ama me. Procederíamos do mesmo modo penuite um verso só, que fosse o objecto de uma longa análise subsequente, como no caso cm que se quisessem extrair os elementos fundamentais da poética de Verlaine do verso Dc la musique avant loute chose. Nestes casos, direi que não é necessário sublinhar o verso, embora este seja em língua estrangeira. Sobretudo se a tese for sobre Verlaine: de outro modo. teríeis centenas de páginas todas sublinhadas. Mas escrever-se-á De la musique avant toute chose Cf pour vela prefere l 'impair ptus vague ct plus soluble dans l'air. sans rien en lni qui pese et qui pose.,. especificando «sublinhado nosso», se o fulcro da análise for a noção de «disparidade», 178 QUADRO 15 nXTíMPLO DE ANALISE CWHNUADA DF UM .MESMO TEXTO O lexto do 1'ariralt è rico destes momentos de êxtase que já em Stephèn Hero tinham sido definidos corno epifânícos: Cintilando e uenieluzindo trcmclurindo c alastrando, luz que rompia, flor que desabrochava. a visão desdobrou-se nu M A incessante sucessãn dc si mesma rompendo uuni carmesim vivo. alastrando e- desvanecefido-SC no rosa mais pálido, pétala a pétala, onda a onda A: luz, inundando todo o finiiameiito com 05 seus doces fulgorcs. cada fuliror mais intenso que o primeiro {p. 219). Todavia, vê-se imcdiatamenle que também a visão «submarina» sc transforma imediatamente ern visão de chama, onde predominam lonalklades rubras e sensações de fulgor. Talvez o texto original expresse ainda melhor esta passagem com expressões como «a hrakin light» ou «wave of light by wave oi' light» e «soíl flashes». Ora, sabemos que no Porimit as metáforas do fogo reaparecem com freqüência: a palavra «fire» aparece pelo menos 59 vezes e as diversas variações dc «flame» aparecem 35 vezes (I). Diremos então que a experiência da epifania sc associa à do fogo, o que nos fornece uma chave para procurar relações entre o jovem Joyce c o D*Annunzio de tf fuoco. Veja-sc então este trecho: Ou era porque, sendo ele tão fraco de vista como tímido dc espírito, sentia menos prazer na refracção do ardente mundo sensível através do prisma dc uma língua mullicolor e rieamenie ilustrada... (p. 2111. onde é desconccnantc a evocação de um trecho do Fuoco d"annunziuno que diz: auaída para aquela atmosfera ardente como a ambiente n'e. uma forja. 1 L- Hancock, A Word Iinlt'\ 10 J. Joyee's Portrait of tke Ártist, Carboudalc, Southcm Illinois University Press. 19~ó. V.3.2. Cilação, paráfrase e plágio Quando fizeram a ficha de leitura, resumiram em vários pontos o autor que vos inieressa: isto é, fizeram paráfrases e repetiram com palavras o pensamento do autor. Noutros casos, transcreveram trechos inteiros entre aspas. Quando depois passarem à redacção da tese. já nào terão o icxlo a frenle e provavelmente copiar3o trechos inteiros da vossa ficha. Deverão certificar-se de que os trechos que copiam são verdadeiramente paráfrases e não citações sem aspas. Caso contrário, terão cometido um plágio. Esta forma de plágio é muito comum nas teses. O estudante fica com a consciência tranqüila porque di/.. mais tarde ou mais cedo. numa nota em rodapé, que eslá u referir-sc àquele dado autor. Mas o leitor que. por acaso, se aperceba de que a página não eslá a parafrasear o texto original, mas sim a copiá-lo sem utilizar aspas, fica com uma péssima impressão. E isto náo diz respeito apenas ao orientador, mas a quem quer que depois veja essa lese. ou para a publicar ou para avaliar a competência de quem a fez. Como ter a certeza de que uma paráfrase nào é um plágio? E m primeiro lugar, se for muito mais curta do que o original, é claro. Mas há casos em que o autor, numa frase ou período bastante breve, diz coisas de grande conteúdo, dc tal modo que a paráfrase tem de ser muito mais longa, que o trecho original. Neste caso. não devemos preocupar-nos doentiamente com nunca pormos as mesmas palavras, pois por vezes é inevitável ou mesmo útil que certos termos permaneçam imutáveis. A prova mais iranquilizadora tem-se quando sc conseguir parafrasear o texto sem o ler à vista. Isso significará que nao só se copiou, mas lambem sc compreendeu. Para esclarecer melhor este ponto, passo a transcrever — com D número 1 — DIB trecho de um livro (trata-se de Norman Cohn. Os fanáticos Jo Apocalipse). No número 2 dou um exemplo de paráfrase razoável. No número 3 dou um exemplo de falsa paráfrase, que constitui um plágio. No número 4 dou um exemplo dc paráfrase igual ao número 3. mas onde o plágio é evitado mediante o uso honesto de aspas. /. O texio original A vinda (tu Anticristo deu lugar a uma tensão ainda maior. Sucessivas gerações viveram numa constante expectativa do demônio destruidor, cujo reino seria efeeti vãmente uni caos sem lei. uma época consagrada à rapina e ao saque, a tortura c oo massacre, mas também o prelúdio dc uma conclusão por que tc ansiava, a Segunda Vinda c o Reino di» Santos. Ãl pessoas estavam sempre alerta, atentas aos -sinais» que. de acordo com a tradição profética, anuncia- 180 nam c acompanhariam o último "período dc desordens-: e uma YtZ que os -sinais- incluíam maus goterrunlet. discórdia civil, guerra, seca. fome. peste, cometas, mortes imprevistas dc pessoas eminentes c um estado dc pecado generalizado, nunca houve qualquer dificuldade em descohri-los. 2. Uma paráfrase honesta Cohn11 é muito explícito a este respeito. Debruça-se sobre a situação de tensão típica dcslc período, em que a expectativa do Anticristo é ao mesmo tempo expectativa do reino do demônio, inspirado na dor e na desordem, e prelúdio da chamada Segunda Vinda, a Panísia. u volta dc Cristo triunfante. E numa época dominada por acontecimentos dolorosos, saques, rapinas, fomes e pestes, nao faltavam às pessoas os -sinais- correspondentes aos sintomas que os textos proféticos tinham sempre anunciado tomo característicos da vinda do Anticristo. 3. Uma falsa paráfrase Segundo Cohn... |segue-se uma lista de opiniões expressas pelo autor noutros capítulos]. Por outro lado. c necessário não esquecer que a vinda do Anlicrisio deu lugar a uma tensão ainda maior. As diversas gerações viviam em constante expectativa do demônio destruidor, cujo reino seria cfccüvamente um caos sem lei, uma época consagrada a rapina e ao saque, à tortura e ao massacre, mas também o prelúdio da Segunda Vinda ou do Reino dos Santos. As pessoas estavam sempre alerta, alenta» aos sinais que, segundo os profetas, anunciariam e acompanhariam o último -período de desordens-: c uma vez que estes sinais incluíam os maus governantes, a discórdia civil, a guerra, a seca, a fome. as pestes e os cometas, bem como as mortes imprevistas de pessoas importantes (alem dc um estado dc pecado generalizadoI. nunca houve qualquer dificuldade em descohri-kis. 4. Uma paráfrase quase textual que evita o plágio O mesmo Cohn já citado recorda, por outro lado. que "a vinda do Anticristo deu lugar a uma tensão tiindti maior». As diversas gerações viviam em constante expectativa do demônio destruidor «cujo reino seria cfccttvamcnte um caos sem lei, uma epoca consagrada à rapina c ao saque, a turtura e ao massacre, mas tamhém o prelúdio de uma conclusão por que se ansiava, a Segunda Vinda e o Reino dos Santos-, Vorman Onhn. I fanattet delVApocaliv*. Mílano. Comunita. 1%?. p 125. 181 As pessoas estavam sempre alerta e atentas aos sinais que, segundo os profetas, acompanhariam e anunciariam o último «período dc desordens». Ora. sublinha Cobri, dado que estes sinais incluíam «maus governantes, discórdia civil, guerra, seca, fome, peste, comeias, mortes imprevistas de pessoas eminentes c um estado dc pecado generalizado, nunca houve qualquer dificuldade cm descobri- los»12. Ora é evidente que, para ter o trabalho dc lazer a paráfrase número 4, mais valia transcrever como citação o trecho completo. Mas para isso era necessário que na vossa ficha dc leitura houvesse já o trecho transcrito integralmente ou uma paráfrase não suspeita. Como quando redigirem a tese já não sc lembrarão do que fizeram ao elaborar a ficha, é necessário que logo desde o início tenham procedido de modo correcto. Devem estar seguros de que. se na ficha não há aspas, o que escreveram é uma paráfrase e não um plágio. V.4. As notas dc rodapé V.4.1. Para que servem a.s notas Uma opinião bastante difundida pretende que não só as teses, mas também os livros com muitas notas, constituem um exemplo de snobismo erudito e freqüentemente uma tentativa de deitar poeira nos olhos, li certo que nào se deve excluir que muitos autores não poupem notas com o objectivo de conferir um tom importante ao seu trabalho, nem que outros encham ainda as notas de informações secundárias, provavelmente subtraídas sub-repticiarnente da literatura crítica examinada. Mas isso não impede que as notas, quando utilizadas numa medida conveniente, sejam úteis. Qual é a medida conveniente, não se pode dizer, pois depende do tipo de tese. Mas procuremos ilustrar os casos em que as notas são úteis, e como devem ser feitas. a) As tíbias servem para indicar a fonte das citações. Se a fonte tivesse de ser indicada no texto, a leitura da página seria difícil. Há evidentemente maneira de fazer referências evitando as notas, como '-' N. Cobri. I' fanaiici deli'Apocalissc. Milano. Comunit», 1965, p. 128 182 no sistema autor-data em V.4.3- Mas. em geral, a nota serve muito bem para este fim. Quando se trata de uma nota de referência bibliográfica, é conveniente que venha em rodapé e não na fim do livro ou do capítulo, pois desse modo pode verificar-se imediatamente, com uma vista de olhos, do que se está a falar. b) As notas servem para acrescentar outras indicações bibliográficas de reforço a um assunto discutido no texto: «sobre este assunto ver ainda o livro tal». Também neste caso são mais cômodas as de rodapé. c) As notas servem para referências externas e internas. Tratado um assunto, pode pôr-se em nota «cf.» (que quer dizer «confrontar » c que remete quer para um outro livro quer para outro capílulo ou parágrafo do nosso trabalho). As referências internas podem também ser feitas no texto, se forem essenciais; um exemplo disto é o livro que estão a ler, onde de vez em quando há uma referencia a outro parágrafo. d) As notas servem para introduzir uma citação de reforço que no texto viria perturbar a leitura. Ou seja, faz-se uma afirmação no texto e depois, para não perder o fio ao discurso, passa-se à afirmação seguinte, mas após a primeira remete-se para a nota em que se mostra como uma conhecida autoridade confirma a afirmação feita1 3. e) As notas ssrvem para ampliar as afirmações que se fizeram no texto1' nesta medida são úteis porque permitem não sobrecarregar o texto com observações que. por importantes que sejam, são acessórias relativamente ao lema e se limitam a repetir de um ponto de vista diferente aquilo que já se disse de um modo essencial. f) As notas servem para corrigir as afirmações do texto: estais seguros do que afirmais mas, ao mesmo tempo, conscientes de que pode haver quem não esteja de acordo, ou considerais que de um certo '•' «Todas as afirmações importantes de factos que não são matéria dc conhecimento geral... Devem ser baseadas numa prova da sua validade. Isto pode ser feito nu texto, na nota de rodapé, ou em ambos» (Campbell c Bailou, op. cir., p. 50). " As notas de vimteádii podem ser utilizadas para discutir ou ampliar pomos do lexlo. Por exemplo. Campbell e Bailou iop. ei*., p. 50) recordam que c útil remeler para a.s nulas discussões técnicas, comentários casuais, corolários e informações adicionais. 183 ponto de vista, se poderia fazer uma objecção à vossa afirmação. Será iãntão prova não só de lealdade cientifica, mas também dc espírito crítico inserir uma nota parcialmente redutiva1 5. g) As notas podam servir para fornecer a tradução de uma cilacão que era essencial apresentar em língua estrangeira, ou a versão original de controlo de uma citação que. por exigências de fluide/. do discurso, era mais cômodo fazer em iradução. h) As notas servem para pagar as dividas. Citar um livro de que se tirou uma frase é pagar uma dívida. Citar um aulor de quem se utilizou uma idéia ou uma informação é pagar uma dívida. Por vezes, todavia, lambem é preciso pagar dívidas cuja documentação não é fácil, e pode ser norma de correcção científica advertir, por exemplo, em nota, que uma série de idéias originais que estamos a expor não teria podido surgir sem os estímulos recebidos da leitura da obra tal, ou das conversas particulares com o estudioso tal. Enquanto as notas do tipo a, b e c são mais úteis em rodapé, as notas do tipo d e h podem também ir para o fim do capítulo ou para o fim da tese. especialmente se forem muito longas. Todavia, diremos que uma nota nunca deveria ser excessivamente longa: de ouiro modo nào será uma nota. mas um apêndice, e. como tal, deverá ser inscrito e numerado no fim do trabalho. De qualquer forma, é preciso ser coerente: ou todas as notas em rodapé ou todas as notas em fim dc capítulo, ou breves notas em pé-de-página e apêndices no fim do trabalho. E recorde-sc mais uma vez que se se estiver a analisar uma fonte homogênea, a obra de um só autor, as páginas de um diário, uma colecção de manuscritos, cartas ou documentos, etc. sc poderão evitar as notas estabelecendo simplesmente no início do traba- " F-fcciiv;imente, depois de termos dito que c útil fazer as notas, queremos precisar que, como também recordam Campbell c Bailou top. cit.. P. 50). «o uso das notas com vista â elaboração do trabalho exige uma certa prudência. É necessário ter cuidado em não transferir para as notas informações importantes e significativas: as idéias directamente relevantes e as informações essenciais devem aparecer no texto». Por nutro lado, como dizem os mesmos autores (iWtfem). «qualquer nota em rodapé deve justificar praticamente a sua existência». Nada mais irritante que as notas que aparecem inseridas sõ para fazer figura e que não dizem nada de importante para os fins do discurso cm questão. 184 lho abrevialuras para as fontes e inserindo entre parênteses no texto, para qualquer citação ou referência, uma sigla com o número da página ou documento. Veja-se o parágrafo 1II.2.3. sobre as citações de clássicos e sigam-se as mesmas regras. Numa tese sobre autores medievais publicados na Patrologia Latina de Migne, evitar-sc-ão cenlenas de notas introduzindo no texto parênteses deste tipo: i P L . 30, 231). Deve proceder-se do mesmo modo para referencias a quadros, tabelas e figuras no texto ou em apêndice. V.4.2. O sistema citaç.ão-nota Consideremos agora o uso da nota como meio para a referência bibliográfica: se no texto se falar de um autor qualquer ou se se citarem passagens dele. a nota correspondente fornecerá a referência bibliográfica adequada. Este sistema é muilo cômodo, pois se a nola for em rodapé, o leitor saberá imediatamente dc que obra se Irala. Este método impõe, porém, uma duplicação: as obras citadas em nota deverão depois encontrar-se na bibliografia final (excepluando casos raros, cm que a nota cita um autor que não tem nada a ver com a bibliografia específica da tese, como, por exemplo, se numa tese de astronomia quisesse citar «o Amor que move o sol e as outras estrelas»"': a nota bastaria). Com efeito, não se pode dizer que se as obras citadas aparecerem já cm nota. não será necessária a bibliografia final: na verdade, a bibliografia final serve para se ter uma panorâmica do material consultado c para dar informações globais sobre a literatura referente ao tema. e seria deselegante para com o leitor obrigá-lo a procurar os textos página por página, nas notas. Além disso, a bibliografia final fornece, relativamente à nota, informações mais completas. Por exemplo, ao citar-se um autor estrangeiro, pode dar-se em nota apenas o título na língua original, enquanto a bibliografia citará também a existência de uma tradução. Por outro lado, na nota é costume citar o autor pelo nome é apelido, enquanto na bibliografia ele virá por ordem alfabética pelo apelido e nome. Além disso, se de um artigo houver uma primeira edição numa revista e depois uma reedição, muito mais fácil dc encontrar num volume colectivo. a nota poderá citar só a segunda n Dante. r<2."ed„ 1973. Etas Kompass Libri). pp. 304. CORioi.iAXO. Giorgio 1969 Marketing — Straiegie e lecniche. Milano. Elas Kompass. S.p.A. (2.aed.. 1973. Elas Kompass Libri), pp. 304. Corigliano. Giorgio, 1969, Marketing — Straiegie c técniche, Milano. fitas Kompass, S.p.A. <2.a ed.. 1973, Elas Kompass Libri), pp. 304. ü que permite esta bibliografia? Permite, quando no texto se tem de falar deste livro, proceder do seguinte modo. evitando a chamada, a nola e a citação em rodapé: Nas investigações sobre os produtos existentes «as dimensões da amostra são também função das exigências específicas da prova» (Corigliano, 1969: 73). Mas o mesmo Corigliano advertira de que a definição da área constitui uma definição dc comodidade (1969: 71). O que faz o leitor? Vai consultar a bibliografia final e compreende que a indicação «(Corigliano. 1969:73)» significa «página 73 do livro Marketing etc. etc». Este sislema permite simplificar muito o texto e eliminar oitenta por cenlo das notas. Além disso, leva-nos, ao redigir, a copiar os 189 dados de um livro (c dc muitos livros, quando a bibliografia é muito grande) uma só vez. E, pois, um sistema particularmente recomendável quando se tem de citar constantemente muitos livros e o mesmo livro com muita freqüência, evitando assim fastidiosas pequenas notas à base de ibidem, dc op. ar,, etc. E mesmo um sistema indispensável quando se faz uma resenha cerrada da literatura referente ao tema. Com efeito, considere-se uma frase como esta: o problema fui amplamente tratado por Siumpf (1945: 88-lQOí, Rigabue (1956). Azzimonti (1957), Foriimpopoli (1967). Colacicchi (1968). Poggibonsi (1972) e (Vbiniewsky (1975). enquanto é totalmente ignorado por Barbapedana (1950). Fugazza (1967) e Ingrassia (1970). Se para cada uma destas citações se tivesse dc pôr uma nota com a indicação da obra, ter-se-ia enchido a página dc uma maneira inacreditável e, além disso, o leitor nao teria à vista de modo tão evidente a seqüência temporal e o desenvolvimento do interesse pelo problema em questão. No entanto, este sistema só funciona em certas condições: a) se se tratar de uma bibliografia muito homogênea e especializada, de que os prováveis leitores do trabalho estão já ao corrente. Se a resenha acima transcrita se referir, por exemplo, ao comportamento sexual dos batráquios (tema muito especializado), presume- -se que o leitor saberá imediatamente que «Ingrassia, 1970» significa o volume A limitação de nascimentos tios batráquios (ou pelo menos concluirá que se trata de um dos estudos de Ingrassia do último período e, portanto, focado diversamente dos já conhecidos estudos do mesmo autor nos anos 50). Se. pelo contrário, fizerem, por exemplo, uma tese sobre a cultura italiana da primeira metade do século, em que serão citados romancistas, poetas, políticos, filósofos e economistas, o sistema já não funciona, pois ninguém está habituado a reconhceer um livro pela data e, se alguém for capaz disso num campo específico, não o será em todos; b) se se tratar de uma bibliografia moderna, ou pelo menos dos últimos dois séculos. Num estudo de filosofia grega não é costume citar um livro de Aristóteles pelo ano de publicação (por razões compreensíveis); c) se se tratar de bibliografia científico-erudita: não é costume escrever «Moravia. 1929» para indicar Os indiferentes. 190 Se o irabalho satisfizer estas condições e corresponder a estes limites, então o sistema autor-data é aconselhável. No Quadro 18 vê-se a mesma página do Quadro 16 reformulada segundo o novo sistema: e vemos, como primeiro resultado, que ela fica mais curta, apenas com uma nota. em vez de seis. A bibliografia correspondente (Quadro 19) é um pouco mais extensa, mas também mais clara. A sucessão das obras de um mesmo autor salta à vista (note-se que quando duas obras do mesmo autor aparecem no mesmo ano, é costume especificar a data acrescentando-lhe letras por ordem alfabética), as referências internas à própria bibliografia são mais rápidas. Repare-se que nesta bibliografia foram abolidos os AAVV, e os livros colectivos aparecem sob o nome do organizador (efectivamente «AAVV. 1971» não significaria nada. pois podia referir-se a muitos livros). Note-se também que, além dc se registarem artigos publicados num volume colectivo, por vezes pôs-se também na bibliografia sob o nome do organizador o volume colectivo de onde foram extraídos; e outras vezes o volume colectivo só é citado no ponto que se refere ao artigo. A razão é simples. Um volume colectivo como Steinberg & Jakobovits, 1971. é citado por si porque muilos artigos (Chomsky, 1971; Lakoff, 1971: McCawley. 1971) se relerem a ele. Um volume como The Stntcture of Language. organizado por Katz e Fodor. é, pelo contrário, citado no corpo do ponto que diz respeito ao artigo «The Structure of a Semantic Theory» dos mesmos autores, porque não há outros textos na bibliografia que se refiram a ele. Note-se. finalmente, que este sistema permite ver imediatamente quando um texto foi publicado pela primeira vez, embora estejamos habituados a conhecê-los através de reedições sucessivas. Por este motivo, o sistema autor-data é útil nos estudos homogêneos sobre uma disciplina específica, dado que ncsies domínios é muitas vezes importante saber quem primeiro apresentou uma determinada teoria ou quem foi o primeiro a fazer uma dada pesquisa empírica. Há uma última razão pela qual. se se puder, é aconselhável o sistema autor-data. Suponha-se que se acabou e se dactilografou uma tese com muitas notas em rodapé, de tal modo que. mesmo numerando- as por capítulo, se chegava à nota 125. Apercebemo-nos de súbito de que nos esquecemos de citar um autor importante, que não podíamos permitir-nos ignorar: e. além disso, que devíamos tê-lo 191 QUADRO 18 A MESMA PÁGINA DO QUADRO 16 RKFORMULADA COM O SiSTfíMA AUTOR-DATA Chomsky (1965a: 162). embora admitindo o princípio da semântica inter pretativa dc Katz e Fodor (Katz & Fodor. 1963), .segundo o qual o significado do enunciado c a soma dos significados dos seus constituintes elementares, não renuncia, porem, a reivindicar em iodos os casos o primado da estrutura sinláctica profunda como determinante do significado'. A partir destas primeiras posições, Chomsky chegou a uma posição mais articulada, prenunciada também nas suas primeiras obras (Chomsky. 1965a: 163). através de discussões dc que dá conta in Chomsky. 1970, onde coloca a inlerprclação semântica a meio caminho entre a estrulura profunda e a estrutura de superfície. Outros autores (por c\.. Lakoff. 1971) temam cons • Iniir uma semântica generativa em que a forma lógico-scmânüca do enunciado gera a própria estrutura simdeiica (ef. também McCawley. 1971). 192 ! Para uma panorâmica satisfatória desta tendência, ver Kuwct. 1967 QUADRO 19 EXEMPLO DE BIBLIOGRAFIA CORRESPONDENTE COM O SISTEMA AUTOR-DATA Chomsky, Noam 1965a Aspecls of a Theory of Synsax, Cambridgc. Mass.. M.I.T. Press, pp- XX-252 citações dc falas dc obras dc teatro. £ certo que se pode dizer que Hamlet
pronuncia a fala "Ser ou não ser? Eis a questão"» aas eu aconselharia, ao
transcrever um trecho teatral, a dispo-lo do seguinte sodo:
Hamlet - Ser ou não sar? Eis a questão,
a menos que a literatura crítica específica a que se recorre nao use tradicionalmente
outros sistemas.
Coco fazer para citar, num texto aibeio entre aspas, om outro texto coe as
s? Usam-se as aspas simples, como quando se diz que, segundo Smith, "» cere
fala 'ser ou nao ser' constituiu o cavalo de batalha de todos os intír
tes shakespeareonos".
207
E se Saith disse que Brovn disse que Kolfrso disse usa coisa? Ha quem resol^
va este problema escrevendo que segundo a conhecida afirmação de Smith "todo*
aqueles que se referem a Brown quando afirma 'refutar o princípio de Volfraa
para quem^co ser e o nao ser coincidem^', incorrem num erro injustificável."
Mas se formos ver V.3.1. (regra 8), verificamos que, se a citação de Smith
for colocada em corpo menor recolhido, consegue-se evitar uma aposição de aspas,
podendo-nos assim limitar a usar aspas simples c duplas.
Todavia, no exemplo anterior encontrámos também as aspas chamadas P «i •p
(Vx) •i (ÀX)
(3 x) ii (Ex)
As primeiras cinco substituições seriam também aceitáveis para imprimir; as
ultimas três são aceitáveis no âmbito de uma tese dactilografada, fazendo-as
talvez anteceder de uma nota inicial que justifique e torne explícita a vossa
decisão.
Poderá haver problemas semelhantes com teses de lingüística once um for.era
pode ser representado como £hj , mas também como /b/.
SoutroS tipos de formalização, sistemas de parênteses podem ser reduzidos a
seqüências de parênteses curvos, pelo que a expressão
{[(ps q) A (q m> x)J=> Cp3 r)| pode tornar-se
<«p—»q) . ( q — » r ) ) — * (p—»r)) Do mesmo modo, quem faz uma tese de lingüística tranaformacional sabe que as disjunções em arvore podem ser etiquetadas com parênteses. Mas quem empreen de trabalhos do gênero já sabe estas coisas. VI,1,5. Sinais diacríticos e translitctações Transliterar significa transcrever um texto adoptando ua sistema alfabético 209 diferente do originei. A transliteraçao nao ter: o objectivo de dar uma inter pretação fonítica dc um texto, nas sim dc reproduzir o original letra por le_ tra de modo a que seja possível a qualquer pessoa reconstituir o texto na gra_ fia original! mesmo conhecendo apenas os dois alfabetos. Recorre-se a transliteração para a maior parte dos nomes históricos e geográficos e para palavras que não têm correspondente em português. Os sinais dj.içrí ticos sao sinais acrescentados as letras normais do alfabe to com o objectivo de lhes dar um valor fonétíco particular.. Assim, sao também sinais diacríticos os nossos acentos correntes (por exemplo, o acento agu do •' dá ao "e" no final da palavra a pronuncia aberta dc José). bem como a cedilha francesa "ç", o t i l espanhol "H", o trema alemão "I!" c os sinais menos conhecidos dc outros alfabetos; o "5" russo, o "6" cortado dinamarquês, o "Z" cortado polaco etc. Huma tese que não seja de literatura polaca, pode, por exemplo, eliminar-se a harra no "1": em vez de escrever "Eodz", escrever-se-ã então "Lodz"; c o que fazem também os jornais. Mas, para as línguas latinas, geralmente somos mais exigentes. Vejamos alguns casos. Respeitamos em qualquer livro o uso de todos os sinais particulares do a l fabeto francês. Estes sinais têm todos uma tecla correspondente, para as minúsculas, nas máquinas de escrever correntes. Para as maiúsculas, escrevemos C_a_ira, mas escrevemos Ecole, e não Ecole, A la recherche..., e não A" la recherche.... porque en francês, mesmo em tipografia, as maiúsculas não sc acen cuam. Sespeitamos sempre, quer para as minúsculas quer para as maiúsculas, o uso de três sinais particulares do alfabeto alemão: a, o, ü, s escrevemos sempre Ü, e não uc (Führer, « TIÕO Fuchrer). Respeitamos eo qualquer livro, quer para as minúsculas quer para a.-; :»aiúsçulas, o uso dos sinais particulares do alfabeto espanhol: 3s vogais com seen 210 to agudo e o n com t i l : n. Para o t i l do n minúsculo pode usar-se o sinal dc acento circunflexo: 5. Mas nao o farei numa tese de literatura espanhola. Respeitamos em qualquer livro, quer para as minúsculas, quer para as maiúsculas o uSo dos sinais particulares do alfabeto português: as vogais com t i l e a consoante ç. Para. as outras línguas c necessário decidir caso a caso, e como sempre a solução será diferente consoante sc cite una palavra isolada ou sc faça a te sc sobre essa língua específica. Para casos isolados,*pode recorrer-se ãs con venções adoptadas pelos jornais ou pelos livros não científicos. A letra d i namarquesa ã vem por vezes expressa com aa, o y checo transforca-se era y_, o í polaco torna-se 1_, e assim por diante. Apresentamos no quadro 20 as regras dc transcrição diacrltica dos alfabetos grego (que pode v i r transliterado em teses dc filosofia) e cirlÜco (que se£ ve para o russo e outras línguas eslavas, evidentemente pata teses que nao sejam dc eslavística). 211 QUADRO 20 COMO TRAN S L1TIÍRAR ALFABETOS NÃO LATINOS ALFABETO RUSSO M/m Irontl. M m Tr un 1 A • n B P B 6 b p P r B B V c c • r r g T T t il x d y r u E c e o * r E è | X X ch )K x 2 u :: c 3 3 z 1 H K 1 UI • 1 VI * 3 m m 16 K x k u H y ,1 JI 1 b •>
M M m 3 a t
H R n IO
O o o •
212
QUADRO 20 (Conlinuaçãot
ALFABETO GRfcüO ANTIGO
MAIÚSCULAS MINÚSCULAS 1TRAN5LITEKAÇÃO
A a a
B i b
r Y
A 5 d
E e 1
Z c z
H •n 5
e t h
I i I
K X C
A X 1
M m
N V n
B X
O 0 d
n K P
p P r
x s
T t
Y U ü
O Pb
X X ch
P*
Q u 0
ObiÉfvo(Õo: • T f = ngh
t* = nc
YS = ncs
YX - n c h
213
VI.1.6. Pontuação, acentos, abreviaturas
Mesmo entre os grandes editores, ha diferenças na utilização dos sinais de
pontuação e na forma de por aspas, notas e acentos. I)e uma tese exíge-se uma
precisão menor do que a um trabalho dactílografado pronto para a tipografia.
De qualquer forma, a conveniente estar informado sobre estes critérios e aplí
ca-los na medida do possível. A titulo da guia damos aqui as instruções fornecidas
paio editor italiano que publicou este livro, advertindo que, para
alguns critérios, outros editores procedem de maneira diference. Mas aquilo
que conta nao é tanto o critério quanto a constância na sua aplicação.
?cr.tc? g vírgulas. Os rcr.tcs c as vírgulas, runr.de sz se^er: s cícaçoas en~r-":
aspas, ficam sempre dentro das aspas, desde <]W estas encerrem um discurso completo. Diremos assim que Smith, a propósito da teoria do Kolfram, sc i n terroga sc devemos aceitar :i sua o?in;ão do que "0 ser ê idêntico ao não ser, qualquer que seja o ponto de vista em que o consideremos," Como sc vê, o cen to final fie? dentro das aspas, pois a citação de Vlolfram também termina cem um ponto. Pelo contrario, diremos que Smith nao está de acordo com Wolfram quando afirma que "o ser c idêntico 30 nao ser". E poremos o ponto apôs a <:j_ tação porque cia constitui apenas um trecho do período citado. O nesmo se fa. rã para as vírgulas: diremos que Smith, depois de ter citado a opinião de Vol fram, para quem "o ser e idêntico ao não ser", a refuta excelentemente. Mas procederemos de forma diferente citando, por exemplo• uma fala como esta: "Nao penso, 'disse,* que isso seja possível." Recordamos ainda nua não se usam vírgulas anteB de parêntese. Deste modo, nao escreveríamos "amava as palavras matizadas, os sons cheirosos, (ideia simbolista), as sensações aveludadas" mas sim "amava as palavras matizadas, os soas cheirosos (ideia simbolista). as sensações aveludadas". Chocadas. A chamada coloca-se a seguir ao sinal de pontuação. Assim, escreve, remos: 214 A resenha mais satisfatória sobre o tema, depois da de Vulpius,1 e a de Krahehenhuel.2 Este último não satisfaz todas as exigências a que Papper chama "limpidoz",^ mas é definido por Crumpz^ como um "modelo de perfeição". centos_ . No italiano, as vogais a, i , o, u, sc acentuadas no final da palavra acento grave (ex.accadrã, cosi, pero, gioventu). Pelo contrario a vo- '1, sempre que no fim da palavra, pede quase sempre o acento agudo (ex.: per- , poichi, trentatré, affinche, ne, pote) salvo algumas excepções : è, ciol, caffi, te, ahima, ohima, pie, diè, stiê, scirapanzl; note-se todavia que serão raves os acentos de todas as palavras derivadas do francês como : g i l i , cana- , lacche, bebe, bigne, alem dc nomes como Giosue, MOse, NoS c outros. Em cao dc duvida, consulte-se um bom dicionário de italiano. Os acentos tônicos (súbito, princlpi, meta, era, dei, scçta, d i i , dãnno, l l i a , . cintinnio ) nao sao usados, excepção feita para súbito c ptincipi em rases verdadeiramente ambíguas : Tra principi c principi incerti fallirono i moti dei 1821. Note-se que o E maiúsculo inicial de uma palavra francesa nunca c acentuado (Ecole, Etudiant, Editíon c não teole, Êtudiant, Êdition). As palavras espanholas têm so acentos agudos: Hernández, Garcia Lorca, Ve~ rÕn. 1. Por exigências de precisão, fazemos corresponder a chamada a nota, Mas trata-se dc um autor imaginário. 2. Autor imaginário 3. Autor imaginário A. Autor imaginário 215 — QUADRO 21 ABREVIATURAS MAIS l.SUAIS PARA UTILIZAR BM NOTA OU NO TEXTO Anon. Anônimo uri artigo (nflo pata artigos dc jornal, mas |>ara artigos dc leis c similares)
1. livro (por exemplo, vol. 1, l , 1, 1. l i
capitulo, plural capp. (por ve/es também c . ni;is em evitou casos c. quer di/or coluna]
col. coluna, plural coll. (ou c.)
Cl confrunlar. ver lambem, referir-se a
ecl. edlcHo (primeira, segundo; mus cm bibliografias inglesas ed. quer dfeer organizador,
editor, plural eds.l
e.f;. (nos icxlos ingleses) exctnpll gràtla, por exemplo
(Mi por exemplo
li,. figura, plural ligg.
kl folha, lambem foi., foll. ou í. e IT.
ihitl. ou lambem ifridrm, no mesmo lugar (isin c, mesma obra L* mesma página; se for ;i
mesma obra mas nao a mesma página, enlilo é (»/>. < rf, seguido da pág.) i,e. (nos (extos ingleses) id est, isto é. quer dizer Infra ver abaixo lltl ( ll lugar cilado M.N manuscrito, plural MSS NB note Item n. nula (CA.: ver ou cf. n. 3). MS Nova Serie n* número (por vezes lambem n.). mas pode-se eviinr escrevendo só o número op, cii. obra jú cilada anteriormente pelo mesmo autor patim aqui e ali (quando não nos referimos a nina página precisa porque o conceitu é Iratado pelo autor em toda a ohra). p. página, lambem pág.. plural pp. par. parágrafo tuimbém §í pseud. pseudônimo, quando a atribuição a um aulor é discutível cscrcvc-se pseudo f. c v. frcnle e verso (página ímpar c página par» s.d. sem data (dc edição), também s/d S.I. sem lueal (de edição), também s/d seg. seguinte, lambem sg.. plural sg. (ex.: p. 34 sg.) scc. sceção sic assim (escrilo assim mesmo pelo autor que estou a citar; pode usar-se quer como medida de prudência quer como sublinhado irônico no caro de erro significaiivo) NilA Nota do autor (habitualmente eutte parênteses rÒCtOSJ lambem N. A.) NdT Nota do tradutor (habitualmente entre parênteses rectos; também N. T.) NilO Nota do organizador (habitualnientc entre parênteses reetos: também N. O.) q. quadro tab. tabela ir. tradução, lambem irad. (pode sei seguido do nome da língua, do tradutor ou de ambos) V. ver V. verso, plural vv (sc se cilarem tmiitus versos, (• melhor não utilizar v. para ver. mus sim of.); pode lambem dizer-se vs., plnni) vss., mas atenção para não confundir CIIIII a abreviatura seguinte. r.v. versus. em oposição a (e,x.: branco vs. prelo, branco vs. prelo, branco vv. prelo; mas pode-se lambem escrever branco/prelo). viz, (nos textos ingleses) videlicel. quer dizer, e precisamente vol. volume, plural vols. (vol. significa geralmente um dado volume dc uma obra em vários volumes, enquanto vols. significa o número dc volumes de que se compõe a obrai NI*. l:siac unia listadas abreviaturas mais comuns. Temasespecíficus (paleogr.ilia, filologia clássica e nnxlenia. ( J lógica, matemática, elc.l têm series de ahieviaiiiras particulares que poderão apa*i>der-se lendo a literatura
^ critica respectiva.
v I , i . 7 . Alguns conselhos dispersos
Kao exagerem com as maiúsculas. Ê claro que poderão escrever o Amor e o
Calo se estiverem a analisar duas noções filosóficas precisas de um autor âtt
tigo, mas, hoje em dia, um autor moderno que fale do Culto da Família, sõ uti
liza as maiúsculas em tom irúnic"- t>um discurso dc antropologia cultural, se
quiserem dissociar n vossa responsabilidade de um conceito que atribuem a o^:
trom, o preferível escreverem o "culto ca família". Pode escrever-se o Ressur
gimento c c Terciãrio, mas nao vejo por que nao escrever o ressurgimento v o
terciãrio.
Escrever-se-i Banco do trabalho e não Banco do Trabalho, o Mercado comum
de preferencia a Mercado Comum.-
Eis alguns exemplos de maiúsculas habitualmente consentidas e outras a
evitar:
A America do Norte, a parte norte da América, o mar Negro, o monte Branco,
o Banco da agricultura, o Banco de Nápoles, a Capela Sistina, o Palácio Madama,
o Hospital maior, a Estação central (se I uma estação específica que
se chama desça maneira: pelo que falareis da Estação central de líilão e da
estação central de Soma), a Magoa Carta, a 3ula de oiro, a igreja de Santa
Catarina e as cartas de santa Catarina, o mosteiro de São Bento e a regra de
sao Bento, o senhor Teste, a senhora Verdurin. Os italianos costumam dizer
praça Garibaldi e rua de Roma mas em cercas línguas diz-se Place Vcndõrae e
Square Gay-Lussac.
Os substantivos comuns alemães escrevem-se com maiúscula, como se faz nesta
língua (Qstpolitik, Kulturgcschichte).
Dever-se-a por em minúsculas tudo o que sc puder sem comprometer a compreensão
do texto: os italianos, os congoleses, o bispo, o doutor, o coronel, 0
habitante de Vareso, o habitante de BÓrgamo, a 2* guerra mundial, a paz de
218
Viena, o prêmio Strega, o presidente da republica, o santo padre, o sul e o
norte.
Para usos mais precisos e melhor seguir a literatura da disciplina que se
estuda, mas utilizando como modelo os textos publicados nos últimos dez anos,
Quando abrirem aspas fechem-nss sempre. Parece uma recomendação idiota, mas
trata-se dc uma das negligências mais comuns num trabalho dactilografado. A
citação começa e depois ja não se sabe onde acaba.
Não escrevam demasiados números em algarismos árabes. Evidentemente esta
advertência nao tem razão de ser sc sc fizer uma tese dc matemática ou de
estatística, ou se se citarem dados e percentagens precisas, lías no decurso
de uma exposição corrente digam que um dado exercito tinh3 cinqüenta mil (c
não 50.000) homens, que uma dada obra c em três (e não 3) volumes, a menos
que estejam a fazer uma citação bibliográfica precisa, ca tipo "3 vols.". Di
gam que as perdas aumentaram dez por cento, que fulano morreu aos sessenta
anos, que a cidade distava trinta quilômetros.
Utilizem os algarismos nas datas, que S sempre preferível serem por extenso:
17 dc Maio de 1973 e não 17/5/73, mas podem abreviar e dizer a guerra de
14-13. E claro <: sposi ... b) Como se disse -.os rromessi sposi ... c) Como se disse em I pre-essi sposi ••• Num discurso continuo de tipo jornalístico, pre£ere-se a forma (b). A forma (a) S um pouco antiquada. A forma (c) é corrects, embora por vozes cansativa. Direi que sc poderã usar a íorma (b) quando se estã a falar de un l i vro ja citado por extenso e a (c) quando o título aparece pela primeira vez e e importante saber se cem ou oão o artigo. De qualquer modo, uma vez escolhida uma forma, sigam-na sempre. Z, no caso dos jornais, veja-se se o artigo faz ou não parte do título. Díx-se II Giorno, nas o Corriere delia Seta. 0 Tempo ê um semanário, enquanto U Terpo é ua diário. Kao exacerba cor: sublinhados inúteis. Sublir.^cr- as palavras estrangeiras nao integradas pelo português como splash-dovn ou Einfühlunp. mas não sublinhes sport, bar, flipper, film. Ouando a palavra nao estã sublinhada, não tem plural; o filme sobre ghost tovns. Nao sublinhar nomes de marcas ou de monumen tos célebres: "os Spitfire voltejavam aobro o Coldea Gate". Geralmente os termoi filoaSíicos utiUados em língua estrangeira, mesmo sublinhados, não so pões no plural e muito menos se declinam: "as Erlebnts de que fala Husserl", "o uni verso das varias Cestalt". Kas isto não estã multo correcto, sobretudo sc depois, usando termos latinos, estes se declinam: "oeupar-nos-emos portanto dt todos cs subjecta e não do subjectua único sobre o eual versa a experiência perceptiva". í melhor evitar estas situações difíceis utilizando o termo português correspondente (geralmente usa-se o estrangeiro para fazer alarde de cultura) ou construindo a frase dc outra maneira. 220 Utilizem com critério a alternância de ptdinais e cardinais, de númpror. rg nanos e árabes. Tradicionalmente o número romano indica a subdivisão mais im portar.te. Uma indicação como XIIX.3 indica o volume décimo terceiro, terceira parte-, o canto décimo terceiro, ver so 3; ou ano décimo terceiro, número três. Poderia também eserever-ae 13.3 e geralmente sem perigo de confusão, mas seria estranho escrever 3.XIH. Se se escrever Kamiet III,ii,28, eoeprecndcr-se-ã que sc trata do verso vinte e oito da cena segunda do terceiro acto; pode também escrever-se Hamlct 111,2, 2B (OU Hamlet III.2.28), mas não Hanlct 3,II,XXVI11. As tabelas, quadros estatísticos ou mapas indicam-se como fig. 1 ou q. 4 ou como fig. I « q. IV, mas, por favor, no índice dos quadrei <• das figuras mantenham o mesmo critério. Se utilizarei a numeração romana para os quadros, usem os algarismos árabes para as figuras. Deste modo ver-sc-a imediatamente a que se estão a referir. Releiam o trabalho dactiloRrafado! Nao so para corrigir os erros de dactilografia (especialmente as palavras estrangeiras e os cones próprios), mas também para verificar se os números das notas correspondem, tal como as paginas dos livros citados. Vejamos algumas coisas que deverão verificar abso latamente: Páginas: estão numeradas por ordem? Referências internas: corretpondem ao capítulo ou ã pagina certos? Citações: estão sempre entri aspa», no princípio e no fim? A utilização ias elipses, parênteses rectos • recolhimentos c sempre coerente? Todas as cita çoes têm a sua referencia? Notas: a chamada corresponde ao número da nora7 A cota estã visivelmente se parada de texto? As notas eatão numeradas eonsecutivamente ou há saltos? 221 3ib1 iof.t.if Ia: os nomes eStao por ordem alfabético? fuscram em alguém o nome próprio em vez do apelido? Ha todos os dados necessários para identificar o livro? Utilizou-se para determinados livros um sistema mais rico (por exemplo, numero dc pagina ou titulo da serie) ê para outros não? Distinguem-se os livros dos artigos do revista c dos capítulos de obras maiores? Todas as referencias terminara com um ponto? VI.2. A bibliografia final 0 capitulo sobro a bibliografia deveria ser muito extenso, muito preciso c muito cuidadoso. Mas já tratamos deste assunto pelo menos em dois casos. Zm III.2.3. dissemos coco se registan as informações relativas a uma obra, C em V.4.2. e V,4,3. dissemos como se cita uma abra e como sc estabeleces as relações entre a citação cm not« < para o consultar no / i a necessitamos de exercer ua trabalho físico oaior. Has i v deve estar no início, que esteja mesao no início. Alguns l i VE03 anglo-saxonicos colocam-no depois do prefácio e, freqüentemente, depois do prefacio, da introdução ã p r i a e i r a edição c da introdução a segunda edição. Uaa barbaridade. Estúpidas por estupfdez, também se podia po-lo no meio. Uma alternativa c colocar no início U B índice propriamente dito (citação apenas dos capítulos) c no fim um sumário muito pormenorizado, como sa faz em certos livros onde as subdivisões são muito analíticas. Por veses, poe-se no início o índice dos capítulos e no f i a um índice analítico por assuntos, que geralmente « acompanhado dt um índice dc noats. Knaa tese isto não é necessário. Basta um boaiíndJce-sumãTÍo muito analítico, dc pre fetSncía na abertura da tese, logo a seguir ao fro-tespleío. A organização do índice deve r e f l e e t i r a do texto, nesao em sentido espacial. Quer dizer, se no texto o parágrafo 1.2. for uma subdivisão menor do capitulo 1, isto deve ser tanbêa evideo. tc em termos de alinhaaento. Para compreendermos isto melhor, apresentamos no quadro 22 dois modelos dc índice. Ko entanto, a numeração dos capítulos c parágrafos poderia ser de tipo diferen t a , utilizando números rocanos, árabes, letras alfabéticas, etc. 228 QUADRO 22 MODELOS DE ÍNDICE: PRIMEIRO EXEHPLO- 0 MUNDO DE CHASLIE BROVH Introdução ?• 3 1. CHARLIE BROWN E A BANDA DESENHADA AMERICANA 1.1. De Yellov Kid a Charlie Brown 7 1.2. A corrente da aventuras e a corrente humorís_ t i c a 9 1.3. 0 caso Sehulz 10 2. BARDAS DE JORNAIS DlXRlOS E PAGINAS DOMINICAIS 2.1. Diferenças de ritmo narrativo IB 2.2. Diferenças temáticas 21 3. OS CONTEÚDOS IDEOLÓGICOS 3.1. A visão da infância 33* 3.2. A visão implícita da família 38 3.3. A identidade pessoal 45 3.3.1. Quem sou eu? 58 3.3.2. Quem são os outros? 65 3.3.3. Ser popular 78 3.6. Neurose e saúde 88 4. EVOLUÇÃO DO SIGNO CRXFICO 96 •Conclusões 160 Quadros estatísticos: Os índices de l e i t u r a na América 189 Apêndice l í Os Peanuts noa desenhos animados 200 Apêndice 2: As imitações dos Peanata 234 B i b l i o g r a f i a : Recolhaa em volume 250 Artigos, entrevistas, declarações de Schult 260 Estudos sobre a obra de Sehulz - nos Estados Unidos 276 - noutros paísea 277 - es I t á l i a 278 229 MODELOS DE ISDICE: SEGUNDO EXEMPLO O MUNDO DE CHABLIE BROTO Introdução p. 3 I. DE TELLDW KID A CHARL1E BROWN 7 1 1 . BANDAS DE JORNAIS DlXRIOS E PAGINAS DOMINICAIS 18 I I I . OS CONTEÚDOS IDEOLÓGICOS 45 IV. EVOLUÇÃO DO SIGNO GRAFICO 76 Cone Iusoes 90 230 O mesmo índice do quadro 22 podia ser numerado da seguinte ma ne i r a : A. PRIMEIRO CAPITULO A.I Primeiro parágrafo A.II Segundo parágrafo A . I I . l . Primeiro subparãgrafo do segundo parágrafo A.II.2. Segundo subparãgrafo do segundo parágrafo otc. Ou podia aprasencar-se ainda do seguinte modo: I. PRIMEIRO CAPÍTULO 1.1. Primeiro parágrafo 1.2. Segundo parágrafo 1.2.1. Primeiro subparãgrafo do segundo parágrafo etc. Podia escolher outros critérios, desde que permitissem os o«smos resultados de clareza e evidencia imediata. Como se viu, nao e necessário concluir os títulos com um ponto f i n a l . De igual modo, scra boa norma alinhar os números ã d± r e i t a e não 2 esquerda, isto á, assim: 7. 8. 9. 10. e não assim: 7. 8. 9. 10. O mesmo se aplica aos números romanos. Requinte? Não. apuro. Se tiverem a gravata torta, endireitam-na e nem mesmo a ut> hippy
agrada ter caca da passarinho no ombro.
231
VII. C O N C L U S Õ E S
Queria concluir com duas observações: fazer uma tese significa
recrear-se e a tese é como o parco: não deita nada fora.
Quem quer que. sem prática de investigação, atemorizado pela
lese que não sabia como fazer, lenha lido esle livro, pode ficar aterrorizado.
Quantas regras c quantas instruções. Impossível sair são e
salvo...
E. todavia, isso não á verdade. Para ser exaustivo, tive de imaginar
um leitor totalmente desprovido de tudo. mas qualquer de vocês,
ao ler um livro qualquer, teria já adoptado muitas das técnicas de
que se falou. O meu livro serviu, quando muito, para as recordar
todas, para trazer para o plano da consciência aquilo que muitos já
tinham absorvido sem se darem conta. Tombem um automobilista,
quando é levado a reflcctir sobre os seus gestos, verifica que é uma
máquina prodigiosa que em ríacçòes dc segundo toma decisões de
importância vital sem se poder permitir um erro. R. no entanto, quase
toda a gente conduz e o número razoável de pessoas que morrem em
acidentes na estrada diz-nos que a grande maioria escapa com vida.
O importante c fazer as coisas com gosto. B se tiverem escolhido
um tema que vos interessa, se tiverem decidido dedicar verdadeiramente
a tese o período, mesmo curto, que previamente estabeleceram
(tínhamos fixado um limite mínimo de seis meses), verificarão
então que a tese pode ser vivida como um jogo. como uma aposta,
como uma caça ao tesouro.
Há uma satisfação de desportista cm andar à caça de um texto
que não se encontra, há uma satisfação de charadista em encontrar,
depois de se ter rellceiido muito, a solução de um problema que
parecia insolúvel.
233
Devem viver a lese como um desafio. O sujeito do desafio são
vocês: inicialmente, ri/eram uma pergunta a que não sabiam ainda
responder. Trata-se dc encontrar a solução num número finito de
movimentos. Por vezes, a tese pode ser considerada como uma partida
a dois: o vosso autor quer confiar-vos o seu segredo e lerào de
o assediar, de o interrogar com delicadeza, de fazê-lo di/er aquilo
que não queria dizer mas que terá dc revelar. Por vezes, a tese é u m
[mzzle: tem-se todas as peças, mas c preciso pô-las no lugar.
Sc jogarem a partida com prazer agonfstico. farão uma boa tese.
Se partirem já com • idéia de que sc trata de um ritual sem importância
e que não vos interessa, estarão derrotados à partida. Nessa
altura, já o disse no inicio (e não mo façam repetir porque é que é
ilegal), encomendem-na. copiem-na, mas não itmifnem a vossa vida
e a de quem vos irá ajudar e ler.
Se tiverem feito a tese com gosto, terão vontade de continuar.
Geralmente, quando sc trabalha numa tese, só se pensa no momento
em que ela estará terminada: sonha-se com as férias que se seguirão.
Mas se o trabalho for bem feito, normalmente, depois da tese,
verificar-se-ã a irrupção dc um grande frenesim de trabalho. Deseja-
-sc aprofundar todos os pontos que foram negligenciados, perseguir
idéias que nos vieram ao espírito mas que tivemos de suprimir, ler
outros livros, escrever ensaios. E isto é sinal de que a tese vos activou
o metabolismo intelectual, que foi uma experiência positiva. E
ainda sinal de que sào agora vítimas de uma coaeçào para investigar,
um pouco como o Chaplin tios Tempos Modernos, que continuava
a apertar parafusos mesmo depois do trabalho: c lento de fazer
um esforço para parar.
Mas uma vea parados, pode acontecer que verifiquem ter vocação
para a investigação, que a tese não era apenas um instrumento
para obter a licenciai uni, e a licenciatura o instrumento para subir
dc categoria na função públicas ou para contentar os pais. H nem
sequer dizemos que pretender continuar a investigar signifique enveredar
pela carreira universitária, esperar um contrato, renunciar a
um trabalho imediato. Pode dedicar-se um (empo razoável à investigação
mesmo tendo uniu profissão, sem pretender ter um cargo
universitário. Mesmo um bom profissional deve continuar a estudar.
Se. de qualquer forma, sc dedicarem à investigação, verificarão
que uma tese bem feita é um produto de que se aproveita tudo. Como
primeira utilização, poderão com base nela fazer um ou vários artigos
científicos, talvez um livro (com alguns aperfeiçoamentos). Com
234
o andar do tempo, verificarão as respectivas fichas de leitura, naturalmente
aproveitando panes que não tinham entrado na redacção
final do vosso primeiro trabalho; as que eram parles secundárias da
tese aprescniar-se-ão como início de novos estudos... Pode mesmo
suceder-vos voltar à tese dez anos mais tarde. Até porque terá vido
como 0 primeiro amor. e ser-vos-á difícil esquecê-la. No fundo, terá
sido a primeira vez que fizeram um trabalho científico sério e rigoroso,
c isso não é uma experiência dc somenos importância.
235
I
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3. Estratégias da Comunicação, Adriano Duarte Rodrigues
4. Como Se Faz Uma Tese. Umberto Eco
5. O Pensamento de Platão, R. H. Hare
6. As Regras do Método Sociológico. Émile Durkheim
7. Sociologia Geral - A Acção Social. Guy Rocher
S. Sociologia Geral - A Organização Social. Guy Rocher
9. Nós - Uma Leitura de Cesárlo Verde. Helder Macedo
10. Comunicação e Cultura, Adriano Duarte Rodrigues
11. Capitalismo e Moderna Teoria Social, Anthony Giddens
12. Arte e Estética na Arte Medieval, Umberto Eco
13. Seis Lições Sobre os Fundamentos da Física, Richard P. Feynman
14. Raça e História. Claude Lévi-Strauss
15. Luís de Camões - O Épico. Hernâni Cidade
*ô. Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais, A. Sedas Nunes
17. O Suicídio - Estudo Sociológico, Émilo Durkheim
18. A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo. Max Weber
19. A Economia em Vinte e Quatro Lições. Mano Murteira
20. Frei Luís de Sousa - Um Drama Psicológico, Maria Almira Soares
2 1 . Breve História do Urbanismo, Fernando Chueca Goitia
22. Do Ocidente ao Oriente - Mitos, Imagens, Modelos. Álvaro Manuel
Machado
23. Luís de Camões - O Lírico. Hemâni Cidade
24. O Rio com Regresso - Ensaios Camilianos. Maria Alzira Seíxo
25. Ensaios Sobre a Crise Cultural do Século xvin. Hemâni Cidade
26. Trinta Leituras. Helder Macedo
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