A Arqueologia do Saber | FOUCAULT

| segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Que ligação estabelecer entre acontecimentos díspares? Como estabelecer entre eles uma
sequência necessária? Que continuidade os atravessa ou que
significação de conjunto acabamos por formar? Pode-se definir
uma totalidade ou é preciso limitar-se a reconstituir
encadeamentos?) são substituídas, de agora em diante, por
interrogações de outro tipo: Que estratos é preciso isolar uns dos
outros? Que tipos de séries instaurar? Que critérios de periodização
adotar para cada uma delas? Que sistema de relações (hierarquia,
dominância, escalonamento, determinação unívoca, causalidade
circular) pode ser descrito entre uma e outra? Que séries de séries
podem ser estabelecidas? E em que quadro, de cronologia ampla,
podem ser determinadas sequências distintas de acontecimentos?




Coleção Campo Teórico
Dirigida por Manoel Barros da Motta e
Severino Bezerra Cabral Filho
Da mesma coleção:
Do Mundo Fechado ao Universo Infinito
Alexandre Koyré
Estudos de História do Pensamento Científico
Alexandre Koyré
Estudos de História do Pensamento Filosófico
Alexandre Koyré
O Normal e o Patológico
Georges Canguilhem
O Nascimento da Clínica
Michel Foucault
Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade
Jacques Lacan
Teoria e Clínica da Psicose
Antonio Quinet
Michel Foucault - Uma Trajetória Filosófica Paul
Rabinow e Hubert Dreyfus
Raymond Roussel
Michel Foucault

7ª edição / 3ª reimpressão - 2008
© Copyright Éditions
Gallimard, 1969
Traduzido de:
L'Archéologie du Savoir
Capa: Mello & Mayer Editoração
eletrônica: Textos & Formas
CIP-Brasil Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
FS6a Foucault, Michel, 1926-1984
7.ed. A arqueologia do sabei/Michel Foucault; tradução de Luiz Felipe Baeta Neves,
-7ed. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
(Campo Teórico)
Tradução de: L'archéologie du Savoir
ISBN 978-85-218-0344-7
1. Teoria do conhecimento. I. Titulo. II. Série.
03-2742
CDD 121
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Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Sumário
Capa – Orelha - Contracapa
I - INTRODUÇÃO .............................................................................. 1
II - AS REGULARIDADES DISCURSIVAS ..................................... 21
1. As Unidades do Discurso ...................................................... 23
2. As Formações Discursivas .................................................... 35
3. A Formação dos Objetos ....................................................... 45
4. A Formação das Modalidades Enunciativas .......................... 56
5. A Formação dos Conceitos .................................................... 62
6. A Formação das Estratégias .................................................. 71
7. Observações e Consequências ............................................... 79
III - O ENUNCIADO E O ARQUIVO ............................................... 87
1. Definir o Enunciado .............................................................. 89
2. A Função Enunciativa ........................................................... 99
3. A Descrição dos Enunciados ................................................. 120
4. Raridade, Exterioridade, Acúmulo ........................................ 134
5. O A Priori Histórico e o Arquivo .......................................... 143
IV - A DESCRIÇÃO ARQUEOLÓGICA .......................................... 151
1. Arqueologia e História das Idéias .......................................... 153
2. O Original e o Regular .......................................................... 159
3. As Contradições .................................................................... 168
4. Os Fatos Comparativos ......................................................... 177
5. A Mudança e as Transformações .......................................... 187
6. Ciência e Saber ...................................................................... 199
V - CONCLUSÃO .............................................................................. 221
I
INTRODUÇÃO
Há dezenas de anos que a atenção dos historiadores se voltou,
de preferência, para longos períodos, como se, sob as peripécias
políticas e seus episódios, eles se dispusessem a revelar os
equilíbrios estáveis e difíceis de serem rompidos, os processos
irreversíveis, as regulações constantes, os fenômenos tendenciais
que culminam e se invertem após continuidades seculares, os
movimentos de acumulação e as saturações lentas, as grandes bases
imóveis e mudas que o emaranhado das narrativas tradicionais
recobrira com toda uma densa camada de acontecimentos. Para
conduzir essa análise, os historiadores dispõem de instrumentos
que criaram ou receberam: modelos de crescimento econômico,
análise quantitativa dos fluxos de trocas, perfis dos
desenvolvimentos e das regressões demográficas, estudo do clima
e de suas oscilações, identificação das constantes sociológicas,
descrição dos ajustamentos técnicos, de sua difusão e persistência.
Estes instrumentos permitiram-lhes distinguir, no campo da
história, camadas sedimentares diversas: as sucessões lineares, que
até então tinham sido o objeto da pesquisa, foram substituídas por
um jogo de interrupções em profundidade. Da mobilidade política
às lentidões próprias da "civilização material", os níveis de análises
se multiplicaram: cada um tem suas rupturas específicas, cada um
permite um corte que só a ele pertence: e, à medida que se desce
para bases mais profundas, as escansões se tornam cada vez
maiores. Por trás da história desordenada dos governos, das guerras
e da fome, desenham-se histórias, quase imóveis ao olhar -
histórias com um suave declive: história dos caminhos marítimos,
história do trigo ou das minas de ouro, história da seca e da
irrigação, história da rotação das culturas, história do equilíbrio
obtido pela espécie humana entre a fome e a proliferação. As
velhas questões de análise tradicional (Que ligação estabelecer
entre
4 Michel Foucault
acontecimentos díspares? Como estabelecer entre eles uma
sequência necessária? Que continuidade os atravessa ou que
significação de conjunto acabamos por formar? Pode-se definir
uma totalidade ou é preciso limitar-se a reconstituir
encadeamentos?) são substituídas, de agora em diante, por
interrogações de outro tipo: Que estratos é preciso isolar uns dos
outros? Que tipos de séries instaurar? Que critérios de periodização
adotar para cada uma delas? Que sistema de relações (hierarquia,
dominância, escalonamento, determinação unívoca, causalidade
circular) pode ser descrito entre uma e outra? Que séries de séries
podem ser estabelecidas? E em que quadro, de cronologia ampla,
podem ser determinadas sequências distintas de acontecimentos?
Ora, mais ou menos na mesma época, nessas disciplinas
chamadas histórias das idéias, das ciências, da filosofia, do
pensamento e da literatura (a especificidade de cada uma pode ser
negligenciada por um instante), nessas disciplinas que, apesar de
seu título, escapam, em grande parte, ao trabalho do historiador e a
seus métodos, a atenção se deslocou, ao contrário, das vastas
unidades descritas como "épocas" ou "séculos" para fenômenos de
ruptura. Sob as grandes continuidades do pensamento, sob as
manifestações maciças e homogêneas de um espírito ou de uma
mentalidade coletiva, sob o devir obstinado de uma ciência que
luta apaixonadamente por existir e por se aperfeiçoar desde seu
começo, sob a persistência de um gênero, de uma forma, de uma
disciplina, de uma atividade teórica, procura-se agora detectar a
incidência das interrupções, cuja posição e natureza são, aliás,
bastante diversas. Atos e liminares epistemológicos descritos por
G. Bachelard: suspendem o acúmulo indefinido dos
conhecimentos, quebram sua lenta maturação e os introduzem em
um tempo novo, os afastam de sua origem empírica e de suas
motivações iniciais, e os purificam de suas cumplicidades
imaginárias; prescrevem, desta forma, para a análise histórica, não
mais a pesquisa dos começos silenciosos, não mais a regressão sem
fim em direção aos primeiros precursores, mas a identificação de
um novo tipo de racionalidade e de seus efeitos múltiplos.
Deslocamentos e transformações dos conceitos: as análises de G.
Canguilhem podem servir de modelo, pois mostram que a história
de um conceito não é, de forma
A Arqueologia do Saber 5
alguma, a de seu refinamento progressivo, de sua racionalidade
continuamente crescente, de seu gradiente de abstração, mas a de
seus diversos campos de constituição e de validade, a de suas
regras sucessivas de uso, a dos meios teóricos múltiplos em que foi
realizada e concluída sua elaboração. Distinção, feita igualmente
por G. Canguilhem, entre as escalas micro e macroscópicas da
história das ciências, onde os acontecimentos e suas consequências
não se distribuem da mesma forma: assim, uma descoberta, o
remanejamento de um método, a obra de um intelectual - e também
seus fracassos - não têm a mesma incidência e não podem ser
descritos da mesma forma em um e em outro nível, onde a história
contada não é a mesma. Redistribuições recorrentes que fazem
aparecer vários passados, várias formas de encadeamento, várias
hierarquias de importância, várias redes de determinações, várias
ideologias, para uma única e mesma ciência, à medida que seu
presente se modifica: assim, as descrições históricas se ordenam
necessariamente pela atualidade do saber, se multiplicam com suas
transformações e não deixam, por sua vez, de romper com elas
próprias (M. Serres acaba de apresentar a teoria desse fenômeno no
domínio da matemática). Unidades arquitetônicas dos sistemas,
tais como foram analisadas por M. Guéroult e para as quais a
descrição das influências, das tradições, das continuidades culturais
não é pertinente como o é a das coerências internas, a dos axiomas,
das cadeias dedutivas, das compatibilidades. Finalmente, as
escansões mais radicais são, sem dúvida, os cortes efetuados por
um trabalho de transformação teórica quando "funda uma ciência
destacando-a da ideologia de seu passado e revelando este passado
como ideológico".1 A isso seria necessário acrescentar, é evidente,
a análise literária, considerada daqui por diante como unidade: não
a alma ou a sensibilidade de uma época, nem os "grupos", as
"escolas", as "gerações" ou os "movimentos", nem mesmo o
personagem do autor no jogo de trocas que ligou sua vida à sua
"criação", mas sim a estrutura própria de uma obra, de um livro, de
um texto.
1.Althusser, Ponr Marx. p. 168.
6 Michel Foucault
E, assim, o grande problema que se vai colocar - que se coloca -
a tais análises históricas não é mais saber por que caminhos as
continuidades se puderam estabelecer; de que maneira um único e
mesmo projeto pôde-se manter e constituir, para tantos espíritos
diferentes e sucessivos, um horizonte único; que modo de ação e
que suporte implica o jogo das transmissões, das retomadas, dos
esquecimentos e das repetições; como a origem pode estender seu
reinado bem além de si própria e atingir aquele desfecho que
jamais se deu - o problema não é mais a tradição e o rastro, mas o
recorte e o limite; não é mais o fundamento que se perpetua, e sim
as transformações que valem como fundação e renovação dos
fundamentos. Vê-se, então, o espraiamento de todo um campo de
questões - algumas já familiares - pelas quais essa nova forma de
história tenta elaborar sua própria teoria: como especificar os
diferentes conceitos que permitem avaliar a descontinuidade
(limiar, ruptura, corte, mutação, transformação)? Através de que
critérios isolar as unidades com que nos relacionamos: O que é
uma ciência? O que é uma obra? O que é uma teoria? O que é um
conceito? O que é um texto? Como diversificar os níveis em que
podemos colocar-nos, cada um deles compreendendo suas
escansões e sua forma de análise? Qual é o nível legítimo da
formalização? Qual é o da interpretação? Qual é o da análise
estrutural? Qual é o das determinações de causalidade?
Em suma, a história do pensamento, dos conhecimentos, da
filosofia, da literatura, parece multiplicar as rupturas e buscar toda
as perturbações da continuidade, enquanto a história propriamente
dita, a história pura e simplesmente, parece apagar, em benefício
das estruturas fixas, a irrupção dos acontecimentos.
*
Mas que este entrecruzamento não nos iluda. Não imaginemos,
com fé nas aparências, que algumas das disciplinas históricas
caminharam do contínuo ao descontínuo, enquanto outras iam do
formigamento das descontinuidades às grandes unidades
ininterruptas; não imaginemos que, na análise da política, das
instituições ou da economia, fomos cada vez mais sensíveis às
determinações globais, mas sim que, na
A Arqueologia do Saber 7
análise das idéias e do saber, prestamos uma atenção cada vez
maior aos jogos da diferença; não acreditemos que, ainda uma vez,
essas duas grandes formas de descrição se cruzaram sem se
reconhecerem.
Na verdade, os problemas colocados são os mesmos,
provocando, entretanto, na superfície, efeitos inversos. Podem-se
resumir esses problemas em uma palavra: a crítica do documento.
Nada de mal-entendidos: é claro que, desde que existe uma
disciplina como a história, temo-nos servido de documentos,
interrogamo-los, interrogamo-nos a seu respeito; indagamos-lhes
não apenas o que eles queriam dizer, mas se eles diziam a verdade,
e com que direito podiam pretendê-lo, se eram sinceros ou
falsificadores, bem informados ou ignorantes, autênticos ou
alterados. Mas cada uma dessas questões e toda essa grande
inquietude crítica apontavam para um mesmo fim: reconstituir, a
partir do que dizem estes documentos - às vezes com
meias-palavras -, o passado de onde emanam e que se dilui, agora,
bem distante deles; o documento sempre era tratado como a
linguagem de uma voz agora reduzida ao silêncio: seu rastro frágil
mas, por sorte, decifrável. Ora, por uma mutação que não data de
hoje, mas que, sem dúvida, ainda não se concluiu, a história mudou
sua posição acerca do documento: ela considera como sua tarefa
primordial, não interpretá-lo, não determinar se diz a verdade nem
qual é seu valor expressivo, mas sim trabalhá-lo no interior e
elaborá-lo: ela o organiza, recorta, distribui, ordena e reparte em
níveis, estabelece séries, distingue o que é pertinente do que não é,
identifica elementos, define unidades, descreve relações. O
documento, pois, não é mais, para a história, essa matéria inerte
através da qual ela tenta reconstituir o que os homens fizeram ou
disseram, o que é passado e o que deixa apenas rastros: ela procura
definir, no próprio tecido documental, unidades, conjuntos, séries,
relações. É preciso desligar a história da imagem com que ela se
deleitou durante muito tempo e pela qual encontrava sua
justificativa antropológica: a de uma memória milenar e coletiva
que se servia de documentos materiais para reencontrar o frescor
de suas lembranças; ela é o trabalho e a utilização de uma
materialidade documental (livros, textos, narrações, registros, atas,
edifícios, instituições, regulamentos, técnicas, objetos, costumes
etc.) que apresenta sempre e em toda a parte, em qualquer
8 Michel Foucault
sociedade, formas de permanências, quer espontâneas, quer
organizadas. O documento não é o feliz instrumento de uma
história que seria em si mesma, e de pleno direito, memória; a
história é, para uma sociedade, uma certa maneira de dar status e
elaboração à massa documental de que ela não se separa.
Digamos, para resumir, que a história, em sua forma
tradicional, se dispunha a "memorizar" os monumentos do passado,
transformá-los em documentos e fazer falarem estes rastros que,
por si mesmos, raramente são verbais, ou que dizem em silêncio
coisa diversa do que dizem; em nossos dias, a história é o que
transforma os documentos em monumentos e que desdobra, onde
se decifravam rastros deixados pelos homens, onde se tentava
reconhecer em profundidade o que tinham sido, uma massa de
elementos que devem ser isolados, agrupados, tornados
pertinentes, inter-relacionados, organizados em conjuntos. Havia
um tempo era que a arqueologia, como disciplina dos monumentos
mudos, dos rastros inertes, dos objetos sem contexto e das coisas
deixadas pelo passado, se voltava para a história e só tomava
sentido pelo restabelecimento de um discurso histórico;
poderíamos dizer, jogando um pouco com as palavras, que a
história, em nossos dias, se volta para a arqueologia - para a
descrição intrínseca do monumento.
Isso tem várias consequências. Inicialmente, o efeito de
superfície que já se assinalou: a multiplicação das rupturas na
história das idéias, a exposição dos períodos longos na história
propriamente dita. Esta, na verdade, sob sua forma tradicional, se
atribuía como tarefa definir relações (de causalidade simples, de
determinação circular, de antagonismo, de expressão) entre fatos
ou acontecimentos datados: sendo dada a série, tratava-se de
precisar a vizinhança de cada elemento. De agora em diante, o
problema é constituir séries: definir para cada uma seus elementos,
fixar-lhes os limites, descobrir o tipo de relações que lhe é
específico, formular-lhes a lei e, além disso, descrever as relações
entre as diferentes séries, para constituir, assim, séries de séries, ou
"quadros": daí a multiplicação dos estratos, seu desligamento, a
especificidade do tempo e das cronologias que lhes são próprias;
daí a necessidade de distinguir não mais apenas acontecimentos
importantes (com uma longa cadeia de consequências) e
A Arqueologia do Saber 9
acontecimentos mínimos, mas sim tipos de acontecimentos de
nível inteiramente diferente (alguns breves, outros de duração
média, como a expansão de uma técnica, ou uma rarefação da
moeda; outros, finalmente, de ritmo lento, como um equilíbrio
demográfico ou o ajustamento progressivo de uma economia a
uma modificação do clima); daí a possibilidade de fazer com que
apareçam séries com limites amplos, constituídas de
acontecimentos raros ou de acontecimentos repetitivos. O
aparecimento dos períodos longos na história de hoje não é um
retorno às filosofias da história, às grandes eras do mundo, ou às
fases prescritas pelo destino das civilizações; é o efeito da
elaboração, metodologicamente organizada, das séries. Ora, na
história das idéias, do pensamento e das ciências, a mesma
mutação provocou um efeito inverso: dissociou a longa série
constituída pelo progresso da consciência, ou a teleologia da razão,
ou a evolução do pensamento humano; pôs em questão,
novamente, os temas da convergência e da realização; colocou em
dúvida as possibilidades da totalização. Ela ocasionou a
individualização de séries diferentes, que se justapõem, se
sucedem, se sobrepõem, se entrecruzam, sem que se possa
reduzi-las a um esquema linear. Assim, apareceram, em lugar
dessa cronologia contínua da razão, que se fazia remontar
invariavelmente à inacessível origem, à sua abertura fundadora,
escalas às vezes breves, distintas umas das outras, rebeldes diante
de uma lei única, frequentemente portadoras de um tipo de história
que é própria de cada uma, e irredutíveis ao modelo geral de uma
consciência que adquire, progride e que tem memória.
Segunda consequência: a noção de descontinuidade toma um
lugar importante nas disciplinas históricas. Para a história, em sua
forma clássica, o descontínuo era, ao mesmo tempo, o dado e o
impensável; o que se apresentava sob a natureza dos
acontecimentos dispersos - decisões, acidentes, iniciativas,
descobertas - e o que devia ser, pela análise, contornado, reduzido,
apagado, para que aparecesse a continuidade dos acontecimentos.
A descontinuidade era o estigma da dispersão temporal que o
historiador se encarregava de suprimir da história. Ela se tornou,
agora, um dos elementos fundamentais da análise histórica, onde
aparece com um triplo papel. Constitui, de início, uma operação
deliberada do historiador (e não mais o que recebe
involuntariamente do material
10 Michel Foucault
que deve tratar), pois ele deve, pelo menos a título de hipótese
sistemática, distinguir os níveis possíveis da análise, os métodos
que são adequados a cada um, e as periodizações que lhes convém.
É também o resultado de sua descrição (e não mais o que se deve
eliminar sob o efeito de uma análise), pois o historiador se dispõe a
descobrir os limites de um processo, o ponto de inflexão de uma
curva, a inversão de um movimento regulador, os limites de uma
oscilação, o limiar de um funcionamento, o instante de
funcionamento irregular de uma causalidade circular. Ela é, enfim,
o conceito que o trabalho não deixa de especificar (em lugar de
negligenciá-lo como uma lacuna uniforme e indiferente entre duas
figuras positivas); ela toma uma forma e uma função específica de
acordo com o domínio e o nível em que é delimitada: não se fala
da mesma descontinuidade quando se descreve um limiar
epistemológico, a reversão de uma curva de população, ou a
substituição de uma técnica por outra. Paradoxal noção de
descontinuidade: é, ao mesmo tempo, instrumento e objeto de
pesquisa, delimita o campo de que é o efeito, permite
individualizar os domínios, mas só pode ser estabelecida através da
comparação desses domínios. Enfim, não é simplesmente um
conceito presente no discurso do historiador, mas este,
secretamente, a supõe: de onde poderia ele falar, na verdade, senão
a partir dessa ruptura que lhe oferece como objeto a história - e sua
própria história? Um dos traços mais essenciais da história nova é,
sem dúvida, esse deslocamento do descontínuo: sua passagem do
obstáculo à prática; sua integração no discurso do historiador, no
qual não desempenha mais o papel de uma fatalidade exterior que é
preciso reduzir, e sim o de um conceito operatório que se utiliza;
por isso, a inversão de signos graças à qual ele não é mais o
negativo da leitura histórica (seu avesso, seu fracasso, o limite de
seu poder), mas o elemento positivo que determina seu objeto e
valida sua análise.
Terceira consequência: o tema e a possibilidade de uma história
global começam a se apagar, e vê-se esboçar o desenho, bem
diferente, do que se poderia chamar uma história geral. O projeto
de uma história global é o que procura reconstituir a forma de
conjunto de uma civilização, o princípio -material ou espiritual - de
uma sociedade, a significação comum a todos os fenômenos de um
período, a lei que explica sua coesão - o que se chama
metaforicamente o "rosto" de
A Arqueologia do Saber 11
uma época. Tal projeto está ligado a duas ou três hipóteses:
supõe-se que entre todos os acontecimentos de uma área
espaço-temporal bem definida, entre todos os fenômenos cujo
rastro foi encontrado, será possível estabelecer um sistema de
relações homogêneas: rede de causalidade permitindo derivar cada
um deles relações de analogia mostrando como eles se simbolizam
uns aos outros, ou como todos exprimem um único e mesmo
núcleo central; supõe-se, por outro lado, que uma única e mesma
forma de historicidade compreenda as estruturas econômicas, as
estabilidades sociais, a inércia das mentalidades, os hábitos
técnicos, os comportamentos políticos, e os submeta ao mesmo
tipo de transformação; supõe-se, enfim, que a própria história
possa ser articulada em grandes unidades - estágios ou fases - que
detêm em si mesmas seu princípio de coesão. São estes postulados
que a história nova põe em questão quando problematiza as séries,
os recortes, os limites, os desníveis, as defasagens, as
especificidades cronológicas, as formas singulares de permanência,
os tipos possíveis de relação. Mas não que ela procure obter uma
pluralidade de histórias justapostas e independentes umas das
outras: a da economia ao lado da das instituições e, ao lado delas
ainda, as das ciências, das religiões ou das literaturas; não,
tampouco, que ela busque somente assinalar, entre essas histórias
diferentes, coincidências de datas ou analogias de forma e de
sentido. O problema que se apresenta - e que define a tarefa de
uma história geral - é determinar que forma de relação pode ser
legitimamente descrita entre essas diferentes séries; que sistema
vertical podem formar; qual é, de umas às outras, o jogo das
correlações e das dominâncias; de que efeito podem ser as
defasagens, as temporalidades diferentes, as diversas
permanências; em que conjuntos distintos certos elementos podem
figurar simultaneamente; em resumo, não somente que séries, mas
que "séries de séries" - ou, em outros termos, que "quadros"2 - é
possível constituir. Uma descrição global
2. Será preciso assinalar, para os mais desatentos, que um "quadro" (e, sem
dúvida, em todos os sentidos do termo) é formalmente uma "série de séries"? De
qualquer forma, não se trata de uma pequena imagem fixa que se coloca diante de
uma lanterna mágica, para grande decepção das crianças, que, nessa idade,
preferem, é claro, a vivacidade do cinema.
12 Michel Foucault
cinge todos os fenômenos em torno de um centro único - princípio,
significação, espírito, visão do mundo, forma de conjunto; uma
história geral desdobraria, ao contrário, o espaço de uma dispersão.
Finalmente, última consequência: a história nova encontra um
certo número de problemas metodológicos, muitos dos quais, sem
dúvida, a antecediam há muito, mas cujo feixe agora a caracteriza.
Entre eles, podem-se citar: a constituição de corpus coerentes e
homogêneos de documentos (corpus abertos ou fechados, acabados
ou indefinidos); o estabelecimento de um princípio de escolha
(conforme se queira tratar exaustivamente a massa documental, ou
se pratique uma amostragem segundo métodos de levantamento
estatístico, ou se tente determinar, antecipadamente, os elementos
mais representativos); a definição do nível de análise e dos
elementos que lhe são pertinentes (no material estudado, podem-se
salientar as indicações numéricas; as referências - explícitas ou não
- a acontecimentos, a instituições, a práticas; as palavras
empregadas, com suas regras de uso e os campos semânticos por
elas traçados, ou, ainda, a estrutura formal das proposições e os
tipos de encadeamento que as unem); a especificação de um
método de análise (tratamento quantitativo dos dados,
decomposição segundo um certo número de traços assinaláveis,
cujas correlações são estudadas, decifração interpretativa, análise
das frequências e das distribuições); a delimitação dos conjuntos e
dos subconjuntos que articulam o material estudado (regiões,
períodos, processos unitários); a determinação das relações que
permitem caracterizar um conjunto (pode tratar-se de relações
numéricas ou lógicas; de relações funcionais, causais, analógicas;
pode tratar-se da relação significante-significado).
Todos estes problemas fazem parte, de agora em diante, do
campo metodológico da história, campo que merece atenção por
duas razões. Inicialmente, porque vemos até que ponto se libertou
do que constituía, ainda há pouco, a filosofia da história, e das
questões que ela colocava (sobre a racionalidade ou a teleologia do
devir, sobre a relatividade do saber histórico, sobre a possibilidade
de descobrir ou de dar um sentido à inércia do passado e à
totalidade inacabada do presente). Em seguida, porque coincide,
em alguns de seus pontos, com problemas que se encontram em
alguma outra parte - nos
A Arqueologia do Saber 13
domínios, por exemplo, da linguística, da etnologia, da economia,
da análise literária, da mitologia. A estes problemas pode-se
atribuir a sigla do estruturalismo. Sob várias condições, entretanto,
eles estão longe de cobrir, sozinhos, o campo metodológico da
história, de que só ocupam uma parte cuja importância varia com
os domínios e os níveis de análises; salvo em certo número de
casos relativamente limitados, eles não foram importados da
linguística ou da etnologia (conforme o percurso hoje frequente),
mas nasceram no campo da própria história - essencialmente no da
história econômica e em virtude das questões que ela colocava;
enfim, não autorizam, de modo algum, que se fale de uma
estruturalização da história, ou, ao menos, de uma tentativa para
superar um "conflito" ou uma "oposição" entre estrutura e devir: já
há bastante tempo que os historiadores identificam, descrevem e
analisam estruturas, sem jamais se terem perguntado se não
deixavam escapar a viva, frágil e fremente "história". A oposição
estrutura-devir não é pertinente nem para a definição do campo
histórico nem, sem dúvida, para a definição de um método
estrutural.
*
Esta mutação epistemológica da história não está ainda acabada.
Não data de ontem, entretanto, pois se pode, sem dúvida, fazer
remontar a Marx o seu primeiro momento. Mas seus efeitos
demoraram. Ainda em nossos dias, e sobretudo para a história do
pensamento, ela não foi registrada nem refletida, enquanto outras
transformações mais recentes puderam sê-lo - as da linguística, por
exemplo - como se fosse particularmente difícil, nesta história que
os homens retraçam com suas próprias idéias e com seus próprios
conhecimentos, formular uma teoria geral da descontinuidade, das
séries, dos limites, das unidades, das ordens específicas, das
autonomias e das dependências diferenciadas. É como se aí onde
estivéramos habituados a procurar as origens, a percorrer de volta,
indefinidamente, a linha dos antecedentes, a reconstituir tradições,
a seguir curvas evolutivas, a projetar teleologias, e a recorrer
continuamente às metáforas da vida, experimentássemos uma
repugnância singular em pensar a diferença, em descrever os
afastamentos e as dispersões, em
14 Michel Foucault
desintegrar a forma tranquilizadora do idêntico. Ou, mais
exatamente, é como se a partir desses conceitos de limiares,
mutações, sistemas independentes, séries limitadas - tais como são
utilizados de fato pelos historiadores - tivéssemos dificuldade em
fazer a teoria, em deduzir as consequências gerais e mesmo em
derivar todas as implicações possíveis. É como se tivéssemos
medo de pensar o outro no tempo de nosso próprio pensamento.
Há uma razão para isso. Se a história do pensamento pudesse
permanecer como o lugar das continuidades ininterruptas, se ela
unisse, continuamente, encadeamentos que nenhuma análise
poderia desfazer sem abstração, se ela tramasse, em torno do que
os homens dizem e fazem, obscuras sínteses que a isso se
antecipam, o preparam e o conduzem, indefinidamente, para seu
futuro, ela seria, para a soberania da consciência, um abrigo
privilegiado. A história contínua é o correlato indispensável à
função fundadora do sujeito: a garantia de que tudo que lhe
escapou poderá ser devolvido; a certeza de que o tempo nada
dispersará sem reconstituí-lo em uma unidade recomposta; a
promessa de que o sujeito poderá, um dia - sob a forma da
consciência histórica -, se apropriar, novamente, de todas essas
coisas mantidas a distância pela diferença, restaurar seu domínio
sobre elas e encontrar o que se pode chamar sua morada. Fazer da
análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência
humana o sujeito originário de todo o devir e de toda prática são as
duas faces de um mesmo sistema de pensamento. O tempo é aí
concebido em termos de totalização, onde as revoluções jamais
passam de tomadas de consciência.
Sob formas diferentes, esse tema representou um papel
constante desde o século XIX: proteger, contra todas as
descentralizações, a soberania do sujeito e as figuras gêmeas da
antropologia e do humanismo. Contra a descentralização operada
por Marx - pela análise histórica das relações de produção, das
determinações econômicas e da luta de classes - ele deu lugar, no
final do século XIX, à procura de uma história global em que todas
as diferenças de uma sociedade poderiam ser conduzidas a uma
forma única, à organização de uma visão do mundo, ao
estabelecimento de um sistema de valores, a um tipo coerente de
civilização. À descentralização operada pela genealogia
nietzschiana, o tema opôs a busca de um
A Arqueologia do Saber 15
fundamento originário que fizesse da racionalidade o telos da
humanidade e que prendesse a história do pensamento à
salvaguarda dessa racionalidade, à manutenção dessa teleologia e à
volta, sempre necessária, a este fundamento. Enfim, mais
recentemente, quando as pesquisas da psicanálise, da linguística,
da etnologia, descentraram o sujeito em relação às leis de seu
desejo, às formas de sua linguagem, às regras de sua ação, ou aos
jogos de seus discursos míticos ou fabulosos, quando ficou claro
que o próprio homem, interrogado sobre o que era, não podia
explicar sua sexualidade e seu inconsciente, as formas sistemáticas
de sua língua ou a regularidade de suas ficções, novamente o tema
de uma continuidade da história foi reativado: uma história que não
seria escansão, mas devir; que não seria jogo de relações, mas
dinamismo interno; que não seria sistema, mas árduo trabalho da
liberdade; que não seria forma, mas esforço incessante de uma
consciência em se recompor e em tentar readquirir o domínio de si
própria, até as profundezas de suas condições; uma história que
seria, ao mesmo tempo, longa paciência ininterrupta e vivacidade
de um movimento que acabasse por romper todos os limites. Para
tornar válido este tema que opõe à "imobilidade" das estruturas, a
seu sistema "fechado", à sua necessária "sincronia", a abertura viva
da história, é preciso, evidentemente, contestar nas próprias
análises históricas o uso da descontinuidade, a definição dos níveis
e dos limites, a descrição das séries específicas, a revelação de todo
o jogo das diferenças. Somos, então, levados a antropologizar
Marx, a fazer dele um historiador das totalidades e a reencontrar
nele o propósito do humanismo; somos levados a interpretar
Nietzsche nos termos da filosofia transcendental e a rebaixar sua
genealogia no plano de uma pesquisa do originário; finalmente,
somos levados a deixar de lado, como se jamais tivesse aflorado,
todo este campo de problemas metodológicos que a história nova
propõe hoje. Pois se era tido como certo que a questão das
descontinuidades, dos sistemas e das transformações, das séries e
dos limiares, se colocava em todas as disciplinas históricas (e nas
que dizem respeito às idéias ou às ciências tanto quanto nas que
dizem respeito à economia e às sociedades), como se poderia opor,
com qualquer aspecto de legitimidade, o "devir" ao "sistema", o
movimento às regulações circulares, ou, como
16 Michel Foucault
se diz era uma irreflexão bem ligeira, a "história" à "estrutura"?
É a mesma função conservadora que se encontra em atividade
no tema das totalidades culturais - pelo qual se criticou e depois
distorceu Marx -, no tema de uma busca do originário - que se opôs
a Nietzsche antes de se querer transpô-lo -, e no tema de uma
história viva, contínua e aberta. Denunciaremos, então, a história
assassinada, cada vez que em uma análise histórica - e sobretudo se
se trata do pensamento, das idéias ou dos conhecimentos - virmos
serem utilizadas, de maneira demasiado manifesta, as categorias da
descontinuidade e da diferença, as noções de limiar, de ruptura e de
transformação, a descrição das séries e dos limites. Denunciaremos
um atentado contra os direitos imprescritíveis da história e contra o
fundamento de toda historicidade possível. Mas não devemos nos
enganar: o que tanto se lamenta não é o desaparecimento da
história, e sim a supressão desta forma de história que era em
segredo, mas totalmente referida à atividade sintética do sujeito; o
que se lamenta é o devir que deveria fornecer à soberania da
consciência um abrigo mais seguro, menos exposto que os mitos,
os sistemas de parentesco, as línguas, a sexualidade ou o desejo; o
que se lamenta é a possibilidade de reanimar pelo projeto o
trabalho do sentido ou o movimento da totalização, o jogo das
determinações materiais, das regras de prática, dos sistemas
inconscientes, das relações rigorosas mas não refletidas, das
correlações que escapam a qualquer experiência vivida; o que se
lamenta é o uso ideológico da história, pelo qual se tenta restituir
ao homem tudo o que, há mais de um século, continua a lhe
escapar. Acumulamos todos os tesouros de outrora na velha
cidadela desta história; acreditamos que ela fosse sólida;
sacralizamo-la; fizemos dela o lugar último do pensamento
antropológico; acreditamos poder aí capturar até mesmo aqueles
que se tinham encarniçado contra ela; acreditamos poder torná-los
guardiões vigilantes. Mas os historiadores desertaram há muito
tempo dessa velha fortaleza e partiram para trabalhar em outro
campo; percebe-se mesmo que Marx ou Nietzsche não asseguram a
salvaguarda que se lhes tinha confiado. Não se deve mais contar
com eles para proteger os privilégios, nem para afirmar, uma vez
mais - e, entretanto, só Deus sabe se se teria necessidade disso na
aflição de hoje -, que a história,
A Arqueologia do Saber 17
pelo menos ela, é viva e contínua; que ela é, para o tema em
questão, o lugar do repouso, da certeza, da reconciliação - do sono
tranquilizado.
Neste ponto se determina uma empresa cujo perfil foi traçado
por Histoire de la folie, Naissance de la clinique, Les mots et les
choses, muito imperfeitamente. Trata-se de uma empresa pela qual
se tenta medir as mutações que se operam, em geral, no domínio da
história; empresa onde são postos em questão os métodos, os
limites, os temas próprios da história das idéias; empresa pela qual
se tenta desfazer as últimas sujeições antropológicas; empresa que
quer, em troca, mostrar como essas sujeições puderam-se formar.
Estas tarefas foram esboçadas em uma certa desordem, e sem que
sua articulação geral fosse claramente definida. Era tempo de lhes
dar coerência - ou, pelo menos, de colocá-las em prática. O
resultado desse exercício é este livro.
Eis algumas observações, antes de começar e para evitar
qualquer mal-entendido.
- Não se trata de transferir para o domínio da história, e
singularmente da história dos conhecimentos, um método
estruturalista que foi testado em outros campos de análise. Trata-se
de revelar os princípios e as consequências de uma transformação
autóctone que está em vias de se realizar no domínio do saber
histórico. É bem possível que essa transformação, os problemas
que ela coloca, os instrumentos que utiliza, os conceitos que aí se
definem, os resultados que ela obtém, não sejam, até certo ponto,
estranhos ao que se chama análise estrutural. Mas não é essa
análise que aqui se encontra, especificamente, em jogo.
- Não se trata (e ainda menos) de utilizar as categorias das
totalidades culturais (sejam as visões de mundo, os tipos ideais ou
o espírito singular das épocas) para impor à história, e apesar dela,
as formas da análise estrutural. As séries descritas, os limites
fixados, as comparações e as correlações estabelecidas não se
apóiam nas antigas filosofias da história, mas têm por finalidade
colocar novamente em questão as teleologias e as totalizações.
18 Michel Foucault
- Na medida em que se trata de definir um método de análise
histórica que esteja liberado do tema antropológico, vê-se que a
teoria que vai ser esboçada agora se encontra, com as pesquisas já
feitas, em uma dupla relação. Ela tenta formular, em termos gerais
(e não sem muitas retificações e elaborações), os instrumentos que
essas pesquisas utilizaram ou criaram para atender às necessidades
da causa. Mas, por outro lado, ela se reforça com os resultados
então obtidos para definir um método de análise que esteja isento
de qualquer antropologismo. O solo sobre o qual repousa é o que
ela descobriu. As pesquisas sobre a loucura e o aparecimento de
uma psicologia, sobre a doença e o nascimento de uma medicina
clínica, sobre as ciências da vida, da linguagem e da economia,
foram tentativas de certa forma cegas: mas elas se esclareciam
sucessivamente, não somente porque precisavam, pouco a pouco,
seu método, mas porque descobriram - neste debate sobre o
humanismo e antropologia - o ponto de sua possibilidade histórica.
Em uma palavra, esta obra, como as que a precederam, não se
inscreve - pelo menos diretamente ou em primeira instância - no
debate sobre a estrutura (confrontada com a gênese, a história, o
devir); mas sim no campo em que se manifestam, se cruzam, se
emaranham e se especificam as questões do ser humano, da
consciência, da origem e do sujeito. Mas, sem dúvida, não
estaríamos errados em dizer que aqui também se coloca o
problema da estrutura.
Este trabalho não é a retomada e a descrição exata do que se
pode ler em Histoire de la folie, Naissance de la clinique ou Les
mots et les choses. Em muitos pontos ele é diferente, permitindo
também diversas correções e criticas internas. De maneira geral,
Histoire de la folie dedicava uma parte bastante considerável, e
aliás bem enigmática, ao que se designava como uma
"experiência", mostrando assim o quanto permanecíamos próximos
de admitir um sujeito anônimo e geral da história. Em Naissance
de la clinique, o recurso à análise estrutural, tentado várias vezes,
ameaçava subtrair a especificidade do problema colocado e o nível
característico da arqueologia. Enfim, em Les mots et les choses, a
ausência da balizagem metodológica permitiu que se acreditasse
em
A Arqueologia do Saber 19
análises em termos de totalidade cultural. Entristece-me o fato de
que eu não tenha sido capaz de evitar esses perigos: consolo-me
dizendo que eles estavam inscritos na própria empresa, já que, para
tomar suas medidas, ela mesma tinha de se livrar desses métodos
diversos e dessas diversas formas de história; e depois, sem as
questões que me foram colocadas,3 sem as dificuldades levantadas,
sem as objeções, eu, sem dúvida, não teria visto desenhar-se tão
clara a empresa à qual, quer queira quer não, me encontro ligado
de agora em diante. Daí, a maneira precavida, claudicante deste
texto: a cada instante, ele se distancia, estabelece suas medidas de
um lado e de outro, tateia em direção a seus limites, se choca com
o que não quer dizer, cava fossos para definir seu próprio caminho.
A cada instante, denuncia a confusão possível. Declina sua
identidade, não sem dizer previamente: não sou isto nem aquilo.
Não se trata de uma crítica, na maior parte do tempo; nem de uma
maneira de dizer que todo mundo se enganou a torto e a direito;
mas sim de definir uma posição singular pela exterioridade de suas
vizinhanças; mais do que querer reduzir os outros ao silêncio,
fingindo que seu propósito é vão - tentar definir esse espaço branco
de onde falo, e que toma forma, lentamente, em um discurso que
sinto como tão precário, tão incerto ainda.
*
- Você não está seguro do que diz? Vai novamente mudar,
deslocar-se em relação às questões que lhe são colocadas, dizer
que as objeções não apontam realmente para o lugar em que você
se pronuncia? Você se prepara para dizer, ainda uma vez, que você
nunca foi aquilo que era você se critica? Você já arranja a saída
que lhe permitirá, em seu próximo livro, ressurgir em outro lugar e
zombar como o faz agora: não, não, eu não estou onde você me
espreita, mas aqui de onde o observo rindo.
3. As primeiras páginas deste texto, especialmente, constituíram, sob forma um
pouco diferente, uma resposta às questões formuladas, pelo Cercle
d'épistémologie de E.N.S. (v. Colliers pour Vanalyse, nº 9). Por outro lado, um
esboço de certas exposições foi apresentado em resposta aos leitores de Esprit
(abril, 1968).
20 Michel Foucault
- Como?! Você pensa que eu teria tanta dificuldade e tanto
prazer em escrever, que eu me teria obstinado nisso, cabeça baixa,
se não preparasse - com as mãos um pouco febris - o labirinto onde
me aventurar, deslocar meu propósito, abrir-lhe subterrâneos,
enterrá-lo longe dele mesmo, encontrar-lhe desvios que resumem e
deformam seu percurso, onde me perder e aparecer, finalmente,
diante de olhos que eu não terei mais que encontrar? Vários, como
eu sem dúvida, escrevem para não ter mais um rosto. Não me
pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo: é
uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos
deixe livres quando se trata de escrever.
II
AS REGULARIDADES DISCURSIVAS

1
AS UNIDADES DO DISCURSO
O emprego dos conceitos de descontinuidade, de ruptura, de
limiar, de limite, de série, de transformação, coloca, a qualquer
análise histórica, não somente questões de procedimento, mas
também problemas teóricos. São estes os problemas que vão ser
aqui estudados (as questões de procedimento serão consideradas no
curso das próximas pesquisas empíricas, se eu tiver, pelo menos, a
oportunidade, o desejo e a coragem de empreendê-las). Entretanto,
só serão considerados em um campo particular: nessas disciplinas
tão incertas de suas fronteiras, tão indecisas em seu conteúdo, que
se chamam história das idéias, ou do pensamento, ou das ciências,
ou dos conhecimentos.
Há, em primeiro lugar, um trabalho negativo a ser realizado:
libertar-se de todo um jogo de noções que diversificam, cada uma à
sua maneira, o tema da continuidade. Elas, sem dúvida, não têm
uma estrutura conceitual bastante rigorosa; mas sua função é
precisa. Assim é a noção de tradição: ela visa a dar uma
importância temporal singular a um conjunto de fenômenos, ao
mesmo tempo sucessivos e idênticos (ou, pelo menos, análogos);
permite repensar a dispersão da história na forma desse conjunto;
autoriza reduzir a diferença característica de qualquer começo, para
retroceder, sem interrupção, na atribuição indefinida da origem;
graças a ela, as
24 Michel Foucault
novidades podem ser isoladas sobre um fundo de permanência, e
seu mérito transferido para a originalidade, o gênio, a decisão
própria dos indivíduos. O mesmo ocorre com a noção de
influência, que fornece um suporte - demasiado mágico para poder
ser bem analisado - aos fatos de transmissão e de comunicação;
que atribui a um processo de andamento causai (mas sem
delimitação rigorosa nem definição teórica) os fenômenos de
semelhança ou de repetição; que liga, a distância e através do
tempo - como por intermédio de um meio de propagação -,
unidades definidas como indivíduos, obras, noções ou teorias.
Assim também ocorre com as noções de desenvolvimento e de
evolução: elas permitem reagrupar uma sucessão de
acontecimentos dispersos; relacioná-los a um único e mesmo
princípio organizador; submetê-los ao poder exemplar da vida
(com seus jogos de adaptação, sua capacidade de inovação, a
incessante correlação de seus diferentes elementos, seus sistemas
de assimilação e de trocas); descobrir, já atuantes em cada começo,
um princípio de coerência e o esboço de uma unidade futura;
controlar o tempo por uma relação continuamente reversível entre
uma origem e um termo jamais determinados, sempre atuantes. O
mesmo acontece, ainda, com as noções de "mentalidade" ou de
"espírito", que permitem estabelecer entre os fenômenos
simultâneos ou sucessivos de uma determinada época uma
comunidade de sentido, ligações simbólicas, um jogo de
semelhança e de espelho - ou que fazem surgir, como princípio de
unidade e de explicação, a soberania de uma consciência coletiva.
É preciso pôr em questão, novamente, essas sínteses acabadas,
esses agrupamentos que, na maioria das vezes, são aceitos antes de
qualquer exame, esses laços cuja validade é reconhecida desde o
início; é preciso desalojar essas formas e essas forças obscuras
pelas quais se tem o hábito de interligar os discursos dos homens; é
preciso expulsá-las da sombra onde reinam. E ao invés de deixá-las
ter valor espontaneamente, aceitar tratar apenas, por questão de
cuidado com o método e em primeira instância, de uma população
de acontecimentos dispersos.
É preciso também que nos inquietemos diante de certos recortes
ou agrupamentos que já nos são familiares. É possível admitir, tais
como são, a distinção dos grandes tipos de discurso, ou a das
formas ou dos gêneros que opõem, umas às outras, ciência,
literatura, filosofia, religião, história, ficção etc.,
A Arqueologia do Saber 25
e que as tornam espécies de grandes individualidades históricas?
Nós próprios não estamos seguros do uso dessas distinções no
nosso mundo de discursos, e ainda mais quando se trata de analisar
conjuntos de enunciados que eram, na época de sua formulação,
distribuídos, repartidos e caracterizados de modo inteiramente
diferente: afinal, a "literatura" e a "política" são categorias recentes
que só podem ser aplicadas à cultura medieval, ou mesmo à cultura
clássica, por uma hipótese retrospectiva e por um jogo de analogias
formais ou de semelhanças semânticas; mas nem a literatura, nem a
política, nem tampouco a filosofia e as ciências articulavam o
campo do discurso nos séculos XVII ou XVIII como o articularam
no século XIX. De qualquer maneira, esses recortes - quer se trate
dos que admitimos ou dos que são contemporâneos dos discursos
estudados - são sempre, eles próprios, categorias reflexivas,
princípios de classificação, regras normativas, tipos
institucionalizados: são, por sua vez, fatos de discurso que
merecem ser analisados ao lado dos outros, que com eles mantêm,
certamente, relações complexas, mas que não constituem seus
caracteres intrínsecos, autóctones e universalmente reconhecíveis.
Mas, sobretudo, as unidades que é preciso deixar em suspenso
são as que se impõem da maneira mais imediata: as do livro e da
obra. Aparentemente, pode-se apagá-las sem um extremo artifício?
Não são elas apresentadas da maneira mais exata possível?
Individualização material do livro que ocupa um espaço
determinado, que tem um valor econômico e que marca por si
mesmo, por um certo número de signos, os limites de seu começo e
de seu fim; estabelecimento de uma obra que se reconhece e que se
delimita, atribuindo um certo número de textos a um autor. E, no
entanto, assim que são observadas um pouco mais de perto,
começam as dificuldades. Unidade material do livro? Será a
mesma quando se trata de uma antologia de poemas, de uma
coletânea de fragmentos póstumos, do Traité des coniques ou de
um tomo da Histoire de France de Michelet? Será a mesma
quando se trata de Un coup de dés, do processo de Gilles de Rais,
do San Marco de Butor, ou de um missal católico? Em outros
termos, a unidade material do volume não será uma unidade fraca,
acessória, em relação à unidade discursiva a que ela dá apoio? Mas
essa unidade discursiva, por sua vez, será homogênea e
26 Michel Foucault
uniformemente aplicável? Um romance de Stendhal ou um
romance de Dostoiévski não se individualizam como os de La
comédie humaine; e estes, por sua vez, não se distinguem uns dos
outros como Ulisses da Odisséia. É que as margens de um livro
jamais são nítidas nem rigorosamente determinadas: além do título,
das primeiras linhas e do ponto final, além de sua configuração
interna e da forma que lhe dá autonomia, ele está preso em um
sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras frases:
nó em uma rede. E esse jogo de remissões não é homólogo,
conforme se refira a um tratado de matemática, a um comentário
de textos, a uma narração histórica, a um episódio em um ciclo
romanesco; em qualquer um dos casos, a unidade do livro, mesmo
entendida como feixe de relações, não pode ser considerada como
idêntica. Por mais que o livro se apresente como um objeto que se
tem na mão; por mais que ele se reduza ao pequeno paralelepípedo
que o encerra: sua unidade é variável e relativa. Assim que a
questionamos, ela perde sua evidência; não se indica a si mesma,
só se constrói a partir de um campo complexo de discursos.
Quanto à obra, os problemas por ela levantados são mais
difíceis ainda. Aparentemente, entretanto, o que há de mais
simples? Uma soma de textos que podem ser denotados pelo signo
de um nome próprio. Ora, essa denotação (mesmo se forem
deixados de lado os problemas da atribuição) não é uma função
homogênea: o nome de um autor denota da mesma maneira um
texto que ele próprio publicou com seu nome, um texto que
apresentou sob pseudônimo, um outro que será descoberto após
sua morte, em rascunho, um outro ainda que não passa de
anotações, uma caderneta de notas, um "papel"? A constituição de
uma obra completa ou de um opus supõe um certo número de
escolhas difíceis de serem justificadas ou mesmo formuladas: será
que basta juntar aos textos publicados pelo autor os que ele
planejava editar e que só permaneceram inacabados pelo fato de
sua morte? Será preciso incluir, também, tudo que é rascunho,
primeiro projeto, correções e rasuras dos livros? Será preciso
reunir esboços abandonados? E que importância dar às cartas, às
notas, às conversas relatadas, aos propósitos transcritos por seus
ouvintes, enfim, a este imenso formigamento de vestígios verbais
que um indivíduo deixa em torno de si, no momento de morrer, e
que falam, em um entrecruzamento indefinido, tantas
A Arqueologia do Saber 27
linguagens diferentes? De qualquer forma, o nome "Mallarmé" não
se refere da mesma maneira às versões inglesas, às traduções de
Edgar Poe, aos poemas ou às respostas a pesquisas; assim, não é a
mesma relação que existe entre o nome de Nietzsche por um lado
e, por outro, as autobiografias de juventude, as dissertações
escolares, os artigos filológicos, Zaratustra, Ecce Homo, as cartas,
os últimos cartões-postais assinados por "Dionysos" ou "Kaiser
Nietzsche", as inumeráveis cadernetas em que se misturam notas
de lavanderia e projetos de aforismos. Na verdade, se se fala com
tanto prazer e sem maiores questionamentos sobre a "obra" de um
autor, é porque a supomos definida por uma certa função de
expressão. Admite-se que deve haver um nível (tão profundo
quanto é preciso imaginar) no qual a obra se revela, em todos os
seus fragmentos, mesmo os mais minúsculos e os menos
essenciais, como a expressão do pensamento, ou da experiência, ou
da imaginação, ou do inconsciente do autor, ou ainda das
determinações históricas a que estava preso. Mas vê-se logo que tal
unidade, longe de ser apresentada imediatamente, é constituída por
uma operação; que essa operação é interpretativa (já que decifra,
no texto, a transcrição de alguma coisa que ele esconde e manifesta
ao mesmo tempo); que, finalmente, a operação que determina o
opus em sua unidade e, por conseguinte, a própria obra, não será a
mesma no caso do autor do Théâtre et son double ou no caso do
autor do Tractatus, e que, assim, não é no mesmo sentido que se
falará uma "obra". A obra não pode ser considerada como unidade
imediata, nem como unidade certa, nem como unidade homogênea.
Finalmente, eis a última precaução para colocar fora de circuito
as continuidades irrefletidas pelas quais se organizam, de antemão,
os discursos que se pretende analisar: renunciar a dois temas que
estão ligados um ao outro e que se opõem. Um quer que jamais
seja possível assinalar, na ordem do discurso, a irrupção de um
acontecimento verdadeiro; que além de qualquer começo aparente
há sempre uma origem secreta - tão secreta e tão originária que
dela jamais poderemos nos reapoderar inteiramente. Desta forma,
seríamos fatalmente reconduzidos, através da ingenuidade das
cronologias, a um ponto indefinidamente recuado, jamais presente
em qualquer história; ele mesmo não passaria de seu próprio vazio;
e a partir dele, todos os começos jamais poderiam deixar
28 Michel Foucault
de ser recomeço ou ocultação (na verdade, em um único e mesmo
gesto, isto e aquilo). A esse tema se liga um outro, segundo o qual
todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito;
e que este já-dito não seria simplesmente uma frase já pronunciada,
um texto já escrito, mas um "jamais-dito", um discurso sem corpo,
uma voz tão silenciosa quanto um sopro, uma escrita que não é
senão o vazio de seu próprio rastro. Supõe-se, assim, que tudo que
o discurso formula já se encontra articulado nesse meio-silêncio
que lhe é prévio, que continua a correr obstinadamente sob ele,
mas que ele recobre e faz calar. O discurso manifesto não passaria,
afinal de contas, da presença repressiva do que ele diz; e esse
não-dito seria um vazio minando, do interior, tudo que se diz. O
primeiro motivo condena a análise histórica do discurso a ser busca
e repetição de uma origem que escapa a toda determinação
histórica; o outro a destina a ser interpretação ou escuta de um
já-dito que seria, ao mesmo tempo, um não-dito. É preciso
renunciar a todos esses temas que têm por função garantir a infinita
continuidade do discurso e sua secreta presença no jogo de uma
ausência sempre reconduzida. É preciso estar pronto para acolher
cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos,
nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que
lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado
até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares,
na poeira dos livros. Não é preciso remeter o discurso à longínqua
presença da origem; é preciso tratá-lo no jogo de sua instância.
Essas formas prévias de continuidade, todas essas sínteses que não
problematizamos e que deixamos valer de pleno direito, é preciso,
pois, mantê-las em suspenso. Não se trata, é claro, de recusá-las
definitivamente, mas sacudir a quietude cora a qual as aceitamos;
mostrar que elas não se justificam por si mesmas, que são sempre o
efeito de uma construção cujas regras devem ser conhecidas e cujas
justificativas devem ser controladas; definir em que condições e
em vista de que análises algumas são legítimas; indicar as que, de
qualquer forma, não podem mais ser admitidas. Seria bem possível,
por exemplo, que as noções de "influência" ou de "evolução"
originassem uma crítica que as colocasse - por um tempo mais ou
menos longo - fora de uso. Mas a "obra", o "livro", ou ainda estas
unidades como a "ciência" ou a "literatura", será
A Arqueologia do Saber 29
preciso sempre dispensá-las? Será preciso tomá-las por ilusões,
construções sem legitimidade, resultados mal alcançados? Será
preciso desistir de se buscar qualquer apoio nelas, mesmo
provisoriamente, e de lhes dar uma definição? Trata-se, de fato, de
arrancá-las de sua quase-evidência, de liberar os problemas que
colocam; reconhecer que não são o lugar tranquilo a partir do qual
outras questões podem ser levantadas (sobre sua estrutura, sua
coerência, sua sistematicidade, suas transformações), mas que
colocam por si mesmas todo um feixe de questões (Que são? Como
defini-las ou limitá-las? A que tipos distintos de leis podem
obedecer? De que articulação são suscetíveis? A que subconjuntos
podem dar lugar? Que fenômenos específicos fazem aparecer no
campo do discurso?). Trata-se de reconhecer que elas talvez não
sejam, afinal de contas, o que se acreditava que fossem à primeira
vista. Enfim, que exigem uma teoria; e que essa teoria não pode ser
elaborada sem que apareça, em sua pureza não sintética, o campo
dos fatos do discurso a partir do qual são construídas.
E eu mesmo, de minha parte, nada farei senão isso: certamente
tomarei por marco inicial unidades inteiramente formadas (como a
Psicopatologia, ou a medicina, ou a economia política); mas não
me colocarei no interior dessas unidades duvidosas para
estudar-lhes a configuração interna ou as secretas contradições.
Não me apoiarei nelas senão o tempo necessário para me perguntar
que unidades formam; com que direito podem reivindicar um
domínio que as especifique no espaço e uma continuidade que as
individualize no tempo; segundo que leis elas se formam; sobre o
pano de fundo de que acontecimentos discursivos elas se recortam;
e se, finalmente, não são, em sua individualidade aceita e quase
institucional, o efeito de superfície de unidades mais consistentes.
Aceitarei os conjuntos que a história me propõe apenas para
questioná-los imediatamente; para desfazê-los e saber se podemos
recompô-los legitimamente; para saber se não é preciso reconstituir
outros; para recolocá-los em um espaço mais geral que, dissipando
sua aparente familiaridade, permita fazer sua teoria.
Uma vez suspensas essas formas imediatas de continuidade,
todo ura domínio encontra-se, de fato, liberado. Trata-se de um
domínio imenso, mas que se pode definir: é constituído pelo
conjunto de todos os enunciados efetivos (quer tenham
30 Michel Foucault
sido falados ou escritos), em sua dispersão de acontecimentos e na
instância própria de cada um. Antes de se ocupar, com toda
certeza, de uma ciência, ou de romances, ou de discursos políticos,
ou da obra de um autor, ou mesmo de um livro, o material que
temos a tratar, em sua neutralidade inicial, é uma população de
acontecimentos no espaço do discurso em geral. Aparece, assim, o
projeto de uma descrição dos acontecimentos discursivos como
horizonte para a busca das unidades que aí se formam. Essa
descrição se distingue facilmente da análise da língua. Certamente
só podemos estabelecer um sistema linguístico (se não o
construímos artificialmente) utilizando um corpo de enunciados ou
uma coleção de fatos de discurso; mas trata-se, então, de definir, a
partir desse conjunto que tem valor de amostra, regras que
permitam construir eventualmente outros enunciados diferentes
daqueles: mesmo que tenha desaparecido há muito tempo, mesmo
que ninguém a fale mais e que tenha sido restaurada a partir de
raros fragmentos, uma língua constitui sempre um sistema para
enunciados possíveis - um conjunto finito de regras que autoriza
um número infinito de desempenhos. O campo dos acontecimentos
discursivos, em compensação, é o conjunto sempre finito e
efetivamente limitado das únicas sequências linguísticas que
tenham sido formuladas: elas bem podem ser inumeráveis e
podem, por sua massa, ultrapassar toda capacidade de registro, de
memória, ou de leitura: elas constituem, entretanto, um conjunto
finito. Eis a questão que a análise da língua coloca a propósito de
qualquer fato de discurso: segundo que regras um enunciado foi
construído e, consequentemente, segundo que regras outros
enunciados semelhantes poderiam ser construídos? A descrição de
acontecimentos do discurso coloca uma outra questão bem
diferente: como apareceu um determinado enunciado, e não outro
em seu lugar?
Vê-se igualmente que essa descrição do discurso se opõe à
história do pensamento. Aí, também, não se pode reconstituir um
sistema de pensamento a partir de um conjunto definido de
discursos. Mas esse conjunto é tratado de tal maneira que se tenta
encontrar, além dos próprios enunciados, a intenção do sujeito
falante, sua atividade consciente, o que ele quis dizer, ou ainda o
jogo inconsciente que emergiu involuntariamente do que disse ou
da quase imperceptível fratura de suas palavras manifestas; de
qualquer forma, trata-se de
A Arqueologia do Saber 31
reconstituir ura outro discurso, de descobrir a palavra muda,
murmurante, inesgotável, que anima do interior a voz que
escutamos, de restabelecer o texto miúdo e invisível que percorre o
interstício das linhas escritas e, às vezes, as desarruma. A análise
do pensamento é sempre alegórica em relação ao discurso que
utiliza. Sua questão, infalivelmente, é: o que se dizia no que estava
dito? A análise do campo discursivo é orientada de forma
inteiramente diferente; trata-se de compreender o enunciado na
estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as
condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais
justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a
que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação
exclui. Não se busca, sob o que está manifesto, a conversa
semi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar por que não
poderia ser outro, como exclui qualquer outro, como ocupa, no
meio dos outros e relacionado a eles, um lugar que nenhum outro
poderia ocupar. A questão pertinente a uma tal análise poderia ser
assim formulada: que singular existência é esta que vem à tona no
que se diz e em nenhuma outra parte?
Devemos perguntar-nos para que, finalmente, pode servir essa
atitude de manter em suspenso todas as unidades admitidas, se se
trata, em suma, de reencontrar as unidades que fingimos questionar
no início. Na verdade, a supressão sistemática das unidades
inteiramente aceitas permite, inicialmente, restituir ao enunciado
sua singularidade de acontecimento e mostrar que a
descontinuidade não é somente um desses grandes acidentes que
produzem uma falha na geologia da história, mas já no simples fato
do enunciado; faz-se, assim, com que ele surja em sua irrupção
histórica; o que se tenta observar é essa incisão que ele constitui,
essa irredutível - e muito frequentemente minúscula - emergência.
Por mais banal que seja, por menos importante que o imaginemos
em suas consequências, por mais facilmente esquecido que possa
ser após sua aparição, por menos entendido ou mal decifrado que o
suponhamos, um enunciado é sempre um acontecimento que nem a
língua nem o sentido podem esgotar inteiramente. Trata-se de um
acontecimento estranho, por certo: inicialmente porque está ligado,
de um lado, a um gesto de escrita ou à articulação de uma palavra,
mas, por outro lado, abre para si mesmo uma existência
remanescente no campo de uma memória, ou na
32 Michel Foucault
materialidade dos manuscritos, dos livros e de qualquer forma de
registro; em seguida, porque é único como todo acontecimento,
mas está aberto à repetição, à transformação, à reativação;
finalmente, porque está ligado não apenas a situações que o
provocam, e a consequências por ele ocasionadas, mas, ao mesmo
tempo, e segundo uma modalidade inteiramente diferente, a
enunciados que o precedem e o seguem.
Mas se isolamos, em relação à língua e ao pensamento, a
instância do acontecimento enunciativo, não é para disseminar uma
poeira de fatos e sim para estarmos seguros de não relacioná-la
com operadores de síntese que sejam puramente psicológicos (a
intenção do autor, a forma de seu espírito, o rigor de seu
pensamento, os temas que o obcecam, o projeto que atravessa sua
existência e lhe dá significação) e podermos apreender outras
formas de regularidade, outros tipos de relações. Relações entre os
enunciados (mesmo que escapem à consciência do autor; mesmo
que se trate de enunciados que não têm o mesmo autor; mesmo que
os autores não se conheçam); relações entre grupos de enunciados
assim estabelecidos (mesmo que esses grupos não remetam aos
mesmos domínios nem a domínios vizinhos; mesmo que não
tenham o mesmo nível formal; mesmo que não constituam o lugar
de trocas que podem ser determinadas); relações entre enunciados
ou grupos de enunciados e acontecimentos de uma ordem
inteiramente diferente (técnica, econômica, social, política). Fazer
aparecer, em sua pureza, o espaço em que se desenvolvem os
acontecimentos discursivos não é tentar restabelecê-lo em um
isolamento que nada poderia superar; não é fechá-lo em si mesmo;
é tornar-se livre para descrever, nele e fora dele, jogos de relações.
Eis o terceiro interesse de tal descrição dos fatos de discurso:
libertando-os de todos os grupamentos considerados como
unidades naturais, imediatas e universais, temos a possibilidade de
descrever outras unidades, mas, dessa vez, por um conjunto de
decisões controladas. Contanto que se definam claramente as
condições, poderia ser legítimo constituir, a partir de relações
corretamente descritas, conjuntos que não seriam arbitrários, mas
que, entretanto, teriam permanecido invisíveis. Certamente essas
relações jamais teriam sido formuladas, por elas mesmas, nos
enunciados em questão (diferentemente, por exemplo, dessas
relações explícitas que são
A Arqueologia do Saber 33
colocadas e ditas pelo próprio discurso, quando assume a forma do
romance, ou quando se inscreve numa série de teoremas
matemáticos). Elas, entretanto, não constituiriam, de maneira
alguma, uma espécie de discurso secreto, animando, do interior, os
discursos manifestos; não é, pois, uma interpretação dos fatos
enunciativos que poderia trazê-los à luz, mas a análise de sua
coexistência, de sua sucessão, de seu funcionamento mútuo, de sua
determinação recíproca, de sua transformação independente ou
correlativa.
Fora de cogitação, entretanto, está o fato de se poder descrever,
sem limites, todas as relações que possam assim aparecer. É
preciso, numa primeira aproximação, aceitar um recorte provisório:
uma região inicial que a análise revolucionará e reorganizará se
houver necessidade. Mas como circunscrever essa região? Por um
lado, é preciso, empiricamente, escolher um domínio em que as
relações corram o risco de ser numerosas, densas e relativamente
fáceis de descrever: e em que outra região os acontecimentos
discursivos parecem estar mais ligados uns aos outros, e segundo
relações mais decifráveis, senão nesta que se designa, em geral,
pelo termo ciência? Mas, por outro lado, como se dar o máximo de
chances de tornar a apreender, em um enunciado, não o momento
de sua estrutura formal e de suas leis de construção, mas o de sua
existência e das regras de seu aparecimento, a menos que nos
dirijamos a grupos de discursos pouco formalizados, onde os
enunciados não pareçam se engendrar necessariamente segundo
regras de mera sintaxe? Como estarmos certos de que escaparemos
de recortes como os da obra, de categorias como as da influência, a
menos que proponhamos, desde o início, domínios bastante
amplos, escalas cronológicas bastante vastas? Finalmente, como
estarmos certos de que não nos prenderemos a todas essas unidades
ou sínteses pouco refletidas que se referem ao sujeito falante, ao
sujeito do discurso, ao autor do texto, enfim, a todas essas
categorias antropológicas? A menos, talvez, que consideremos o
conjunto dos enunciados através dos quais essas categorias se
constituíram - o conjunto dos enunciados que escolheram como
"objeto" o sujeito dos discursos (seu próprio sujeito) e que se
dispuseram a desenvolvê-lo como campo de conhecimentos?
Assim se explica o privilégio real que dei a discursos dos quais
se pode dizer, muito esquematicamente, que definem as
34 Michel Foucault
"ciências do homem". Mas isso não passa de um privilégio inicial.
É preciso ter em mente dois fatos: a análise dos acontecimentos
discursivos não está, de maneira alguma, limitada a semelhante
domínio; e, por outro lado, o recorte do próprio domínio não pode
ser considerado como definitivo, nem como válido de forma
absoluta; trata-se de uma primeira aproximação que deve permitir
o aparecimento de relações que correm o risco de suprimir os
limites desse primeiro esboço.
2
AS FORMAÇÕES DISCURSIVAS
Tentei descrever relações entre enunciados. Tive o cuidado de
não admitir como válida nenhuma dessas unidades que me podiam
ser propostas e que o hábito punha à minha disposição. Decidi-me
a não negligenciar nenhuma forma de descontinuidade, de corte, de
limiar ou de limite. Decidi-me a descrever enunciados no campo
do discurso e as relações de que são suscetíveis. Vejo que duas
séries de problemas se apresentam de imediato: uma - vou deixá-la
em suspenso no momento e a retomarei mais tarde - se refere à
utilização grosseira que fiz dos termos enunciado, acontecimento,
discurso; a outra, às relações que podem ser legitimamente
descritas entre esses enunciados, deixados em seu grupamento
provisório e visível.
Há, por exemplo, enunciados que se apresentam - e isso a partir
de uma data que se pode determinar facilmente - como referentes à
economia política, ou à biologia, ou à Psicopatologia; há, também,
os que se apresentam como pertencentes a essas continuidades
milenárias - quase sem origem - que chamamos gramática ou
medicina. Mas o que são essas unidades? Como se pode dizer que
a análise das doenças mentais feita por Willis e pelos clínicos de
Charcot pertencem à mesma ordem de discurso? Que as invenções
de Petty estão numa relação de continuidade com a economia de
Neumann? Que a análise do juízo feita pelos gramáticos de
Port-Royal pertence
36 Michel Foucault
ao mesmo domínio da identificação das alternâncias vocálicas nas
línguas indo-européias? O que é, então, a medicina, a gramática, a
economia política? Será que não passam de um reagrupamento
retrospectivo pelo qual as ciências contemporâneas se iludem sobre
seu próprio passado? São formas que se instauraram
definitivamente e se desenvolveram soberanamente através do
tempo? Encobrem outras unidades? E que espécie de laços
reconhecer validamente entre todos esses enunciados que formam,
de um modo ao mesmo tempo familiar e insistente, uma massa
enigmática?
Primeira hipótese - a que me pareceu inicialmente a mais
verossímil e a mais fácil de provar: os enunciados, diferentes em
sua forma, dispersos no tempo, formam um conjunto quando se
referem a um único e mesmo objeto. Assim, parece que os
enunciados pertinentes à Psicopatologia referem-se a esse objeto
que se perfila, de diferentes maneiras, na experiência individual ou
social, e que se pode designar por loucura. Ora, logo percebi que a
unidade do objeto "loucura" não nos permite individualizar um
conjunto de enunciados e estabelecer entre eles uma relação ao
mesmo tempo descritível e constante. E isso ocorre por duas
razões. Cometeríamos um erro, seguramente, se perguntássemos ao
próprio ser da loucura, ao seu conteúdo secreto, à sua verdade
muda e fechada em si mesma, o que se pôde dizer a seu respeito e
em um momento dado; a doença mental foi constituída pelo
conjunto do que foi dito no grupo de todos os enunciados que a
nomeavam, recortavam, descreviam, explicavam, contavam seus
desenvolvimentos, indicavam suas diversas correlações,
julgavam-na e, eventualmente, emprestavam-lhe a palavra,
articulando, em seu nome, discursos que deviam passar por seus.
Mas há mais ainda: esse conjunto de enunciados está longe de se
relacionar com um único objeto, formado de maneira definitiva, e
de conservá-lo indefinidamente como seu horizonte de idealidade
inesgotável; o objeto que é colocado como seu correlato pelos
enunciados médicos dos séculos XVII ou XVIII não é idêntico ao
objeto que se delineia através das sentenças jurídicas ou das
medidas policiais; da mesma forma, todos os objetos do discurso
psicopatológico foram modificados desde Pinel ou Esquirol até
Bleuler: não se trata das mesmas doenças, não se trata dos mesmos
loucos.
A Arqueologia do Saber 37
Poderíamos, deveríamos talvez, concluir, a partir dessa
multiplicidade dos objetos, que não é possível admitir, como uma
unidade válida para constituir um conjunto de enunciados, o
"discurso referente à loucura". Talvez fosse necessário que nos
ativássemos apenas aos grupos de enunciados que têm um único e
mesmo objeto: os discursos sobre a melancolia ou sobre a neurose.
Mas logo nos daríamos conta de que cada um desses discursos, por
sua vez, constituiu seu objeto e o elaborou até transformá-lo
inteiramente. Assim, a questão é saber se a unidade de um discurso
é feita pelo espaço onde diversos objetos se perfilam e
continuamente se transformam, e não pela permanência e
singularidade de um objeto. A relação característica que permitiria
individualizar ura conjunto de enunciados referentes à loucura não
seria, então, a regra de emergência simultânea ou sucessiva dos
diversos objetos que aí são nomeados, descritos, analisados,
apreciados ou julgados? A unidade dos discursos sobre a loucura
não estaria fundada na existência do objeto "loucura", ou na
constituição de um único horizonte de objetividade; seria esse o
jogo das regras que tornam possível, durante um período dado, o
aparecimento dos objetos: objetos que são recortados por medidas
de discriminação e de repressão, objetos que se diferenciam na
prática cotidiana, na jurisprudência, na casuística religiosa, no
diagnóstico dos médicos, objetos que se manifestam em descrições
patológicas, objetos que são limitados por códigos ou receitas de
medicação, de tratamento, de cuidados. Além disso, a unidade dos
discursos sobre a loucura seria o jogo das regras que definem as
transformações desses diferentes objetos, sua não-identidade
através do tempo, a ruptura que neles se produz, a descontinuidade
interna que suspende sua permanência. De modo paradoxal, definir
um conjunto de enunciados no que ele tem de individual consistiria
em descrever a dispersão desses objetos, apreender todos os
interstícios que os separam, medir as distâncias que reinam entre
eles - em outras palavras, formular sua lei de repartição.
Segunda hipótese para definir um grupo de relações entre
enunciados: sua forma e seu tipo de encadeamento. Parecera-me,
por exemplo, que a ciência médica, a partir do século XIX, se
caracterizava menos por seus objetos ou conceitos do que por um
certo estilo, um certo caráter constante da
38 Michel Foucault
enunciação. Pela primeira vez, a medicina não se constituía mais
de um conjunto de tradições, de observações, de receitas
heterogêneas, mas sim de um corpus de conhecimentos que
supunha uma mesma visão das coisas, um mesmo
esquadrinhamento do campo perceptivo, uma mesma análise do
fato patológico segundo o espaço visível do corpo, um mesmo
sistema de transcrição do que se percebe no que se diz (mesmo
vocabulário, mesmo jogo de metáforas); enfim, parecera-me que a
medicina se organizava como uma série de enunciados descritivos.
Mas, ainda aí, foi preciso abandonar essa hipótese inicial e
reconhecer que o discurso clínico era não só um conjunto de
hipóteses sobre a vida e a morte, de escolhas éticas, de decisões
terapêuticas, de regulamentações institucionais, de modelos de
ensino, mas também um conjunto de descrições; que este não
podia, de forma alguma, ser abstraído daqueles, e que a enunciação
descritiva não passava de uma das formulações presentes no
discurso médico. Foi preciso, também, reconhecer que essa
descrição não parou de se deslocar: seja porque, de Bichat à
patologia celular, deslocaram-se as escalas e os marcos; seja
porque, da inspeção visual, da auscultação e da palpação ao uso do
microscópio e dos testes biológicos, o sistema da informação foi
modificado; seja ainda porque, da simples correlação
anatomoclínica à análise refinada dos processos fisiopatológicos, o
léxico dos signos e sua decifração foram inteiramente
reconstituídos; seja, finalmente, porque o médico, pouco a pouco,
deixou de ser o lugar de registro e de interpretação da informação,
e porque, ao lado dele, fora dele, constituíram-se massas
documentárias, instrumentos de correlação e técnicas de análise
que ele tem, certamente, de utilizar, mas que modificam, em
relação ao doente, sua posição de sujeito observante.
Todas essas alterações, que nos conduzem, talvez hoje, ao
limiar de uma nova medicina, depositaram-se lentamente no
discurso médico, no decorrer do século XIX. Se se quisesse definir
esse discurso por um sistema codificado e normativo de
enunciação, seria preciso reconhecer que essa medicina se desfez
tão logo apareceu e que só conseguiu se formular com Bichat e
Laennec. Se há unidade, o princípio não é, pois, uma forma
determinada de enunciados; não seria, talvez, o conjunto das regras
que tornaram possíveis, simultânea ou sucessivamente, descrições
puramente perceptivas, mas, também,
A Arqueologia do Saber 39
observações tornadas mediatas por instrumentos, protocolos de
experiências de laboratórios, cálculos estatísticos, constatações
epidemiológicas ou demográficas, regulamentações institucionais,
prescrições terapêuticas? Seria preciso caracterizar e individualizar
a coexistência desses enunciados dispersos e heterogêneos; o
sistema que rege sua repartição, como se apóiam uns nos outros, a
maneira pela qual se supõem ou se excluem, a transformação que
sofrem, o jogo de seu revezamento, de sua posição e de sua
substituição.
Outra direção de pesquisa, outra hipótese: não se poderiam
estabelecer grupos de enunciados, determinando-lhes o sistema dos
conceitos permanentes e coerentes que aí se encontram em jogo?
Por exemplo, a análise da linguagem e dos fatos gramaticais não
repousaria, com os clássicos (desde Lancelot até o fim do século
XVIII), em um número definido de conceitos cujo conteúdo e uso
eram estabelecidos de forma definitiva: o conceito de juízo
definido como a forma geral e normativa de qualquer frase, os
conceitos de sujeito e de predicativo reagrupados sob a categoria
mais geral de nome, o conceito de verbo utilizado como
equivalente do de ligação lógica, o conceito de palavra definido
como signo de uma representação etc? Seria possível, assim,
reconstituir a arquitetura conceitual da gramática clássica. Mas,
ainda aí, logo encontraríamos limites; sem dúvida, poderíamos
descrever, com tais elementos, apenas as análises feitas pelos
autores de Port-Royal; logo seríamos obrigados a constatar o
aparecimento de novos conceitos; alguns entre eles derivaram-se,
talvez, dos primeiros, mas outros lhes são heterogêneos e alguns
até incompatíveis. A noção de ordem sintática natural ou inversa, a
de complemento (introduzida no decorrer do século XV11I por
Beauzée) podem, sem dúvida, integrar-se ainda ao sistema
conceitual da gramática de Port-Royal. Mas nem a idéia de um
valor originariamente expressivo dos sons, nem a de um saber
primitivo guardado nas palavras e transmitido obscuramente por
elas, nem a de uma regularidade na mutação das consoantes, nem a
concepção do verbo como simples nome que permite designar uma
ação ou uma operação é compatível com o conjunto dos conceitos
que Lancelot ou Duclos podiam usar. Será necessário admitir,
nessas condições, que a gramática só aparentemente constitui uma
figura coerente, e que é uma falsa unidade esse conjunto de
enuncia40
Michel Foucault
dos, análises, descrições, princípios e consequências, deduções,
que se perpetuou com esse nome durante mais de um século?
Entretanto, talvez fosse descoberta uma unidade discursiva se a
buscássemos não na coerência dos conceitos, mas em sua
emergência simultânea ou sucessiva, em seu afastamento, na
distância que os separa e, eventualmente, em sua
incompatibilidade. Não buscaríamos mais, então, uma arquitetura
de conceitos suficientemente gerais e abstratos para explicar todos
os outros e introduzi-los no mesmo edifício dedutivo; tentaríamos
analisar o jogo de seus aparecimentos e de sua dispersão.
Finalmente, a quarta hipótese para reagrupar os enunciados,
descrever seu encadeamento e explicar as formas unitárias sob as
quais eles se apresentam: a identidade e a persistência dos temas.
Em "ciências" como a economia e a biologia, tão voltadas para a
polêmica, tão permeáveis a opções filosóficas ou morais, tão
prontas em certos casos à utilização política, é legítimo, em
primeira instância, supor que uma certa temática seja capaz de ligar
e de animar, como um organismo que tem suas necessidades, sua
força interna e suas capacidades de sobrevivência, um conjunto de
discursos. Será que não se poderia, por exemplo, constituir como
unidade tudo que, de Buffon a Darwin, constituiu o tema
evolucionista? Tema de início mais filosófico que científico, mais
próximo da cosmologia que da biologia; tema que dirigiu de longe
pesquisas, mais do que nomeou, recobriu e explicou resultados;
tema que supunha sempre mais do que dele se sabia, mas que
forçava, a partir dessa escolha fundamental, a transformar em saber
discursivo o que fora esboçado como hipótese ou como exigência.
Será que não se poderia falar, da mesma forma, do tema
fisiocrático? Idéia que postulava, além de qualquer demonstração e
antes de qualquer análise, o caráter natural das três rendas
fundiárias; que supunha, em consequência, o primado econômico e
político da propriedade agrária; que excluía qualquer análise dos
mecanismos da produção industrial; que implicava, em
compensação, a descrição do circuito do dinheiro no interior de um
Estado, de sua distribuição entre as diferentes categorias sociais, e
dos canais pelos quais voltava à produção; que, finalmente,
conduziu Ricardo a se interrogar sobre os casos em que essa tripla
renda não aparecia, nas condições
A Arqueologia do Saber 41
era que poderia formar-se, e a denunciar, em consequência disso, o
arbitrário do tema fisiocrático?
Mas a partir de semelhante tentativa, somos levados a fazer
duas constatações inversas e complementares. Em um caso, a
mesma temática se articula a partir de dois jogos de conceitos, de
dois tipos de análise, de dois campos de objetos perfeitamente
diferentes: a idéia evolucionista, em sua formulação mais geral,
talvez seja a mesma em Benoit de Maillet, Bordeu ou Diderot, e
em Darwin; mas, na verdade, o que a torna possível e coerente não
é, de forma alguma, da mesma ordem. No século XVIII, a idéia
evolucionista é definida a partir de um parentesco das espécies que
forma um continuum prescrito desde o início (só as catástrofes da
natureza o teriam interrompido, ou progressivamente constituído
pelo passar do tempo). No século XIX, o tema evolucionista se
refere menos à constituição do quadro contínuo das espécies do
que à descrição de grupos descontínuos e à análise das
modalidades de interação entre um organismo, cujos elementos são
solidários, e um meio que lhe oferece suas condições reais de vida.
Trata-se de um único tema, mas a partir de dois tipos de discurso.
No caso da fisiocracia, ao contrário, a escolha de Quesnay repousa
exatamente sobre o mesmo sistema de conceitos que a opinião
inversa, sustentada pelos que podem ser chamados utilitaristas.
Nessa época, a análise das riquezas compreendia um jogo de
conceitos relativamente limitado e que era admitido por todos
(dava-se a mesma definição da moeda; dava-se a mesma
explicação sobre os preços; fixava-se, da mesma maneira, o custo
de um trabalho). Ora, a partir desse jogo conceitual único, havia
duas maneiras de explicar a formação do valor, analisando-o a
partir da troca, ou da remuneração pela jornada de trabalho. Essas
duas possibilidades inscritas na teoria econômica, e nas regras de
seu jogo conceitual, deram lugar, a partir dos mesmos elementos, a
duas opções diferentes.
Estaríamos errados, sem dúvida, em procurar na existência
desses temas os princípios de individualização de um discurso.
Não seria mais indicado buscá-los na dispersão dos pontos de
escolha que ele deixa livres? Não seriam as diferentes
possibilidades que ele abre no sentido de reanimar temas já
existentes, de suscitar estratégias opostas, de dar lugar a interesses
inconciliáveis, de permitir, com um jogo de concei42
Michel Foucault
tos determinados, desempenhar papéis diferentes? Mais do que
buscar a permanência dos temas, das imagens e das opiniões
através do tempo, mais do que retraçar a dialética de seus conflitos
para individualizar conjuntos enunciativos, não poderíamos
demarcar a dispersão dos pontos de escolha e definir, antes de
qualquer opção, de qualquer preferência temática, um campo de
possibilidades estratégicas?
Eis-me, pois, em presença de quatro tentativas, de quatro
fracassos e de quatro hipóteses que se revezam. Será preciso,
agora, prová-las. A propósito dessas grandes famílias de
enunciados que se impõem a nosso hábito - e que designamos
como a medicina, ou a economia, ou a gramática -, eu me
perguntara em que poderiam fundar sua unidade. Em um domínio
de objetos cheio, fechado, contínuo, geograficamente bem
recortado? Deparei-me, entretanto, com séries lacunares e
emaranhadas, jogos de diferenças, de desvios, de substituições, de
transformações. Em um tipo definido e normativo de enunciação?
Mas encontrei formulações de níveis demasiado diferentes e de
funções demasiado heterogêneas para poderem se ligar e se
compor em uma figura única e para simular, através do tempo,
além das obras individuais, uma espécie de grande texto
ininterrupto. Em um alfabeto bem definido de noções? Mas nos
encontramos na presença de conceitos que diferem em estrutura e
regras de utilização, que se ignoram ou se excluem uns aos outros e
que não podem entrar na unidade de uma arquitetura lógica. Na
permanência de uma temática? Ora, encontramos, em vez disso,
possibilidades estratégicas diversas que permitem a ativação de
temas incompatíveis, ou ainda a introdução de um mesmo tema em
conjuntos diferentes. Daí a idéia de descrever essas dispersões; de
pesquisar se entre esses elementos, que seguramente não se
organizam como um edifício progressivamente dedutivo, nem
como um livro sem medida que se escreveria, pouco a pouco,
através do tempo, nem como a obra de um sujeito coletivo, não se
poderia detectar uma regularidade: uma ordem em seu
aparecimento sucessivo, correlações em sua simultaneidade,
posições assinaláveis em um espaço comum, funcionamento
recíproco, transformações ligadas e hierarquizadas. Tal análise não
tentaria isolar, para descrever sua estrutura interna, pequenas ilhas
de coerência; não se disporia a suspeitar e trazer à luz os conflitos
latentes; mas estudaria
A Arqueologia do Saber 43
formas de repartição. Ou, ainda, em lugar de reconstituir cadeias
de inferência (como se faz frequentemente na história das ciências
ou da filosofia), em lugar de estabelecer quadros de diferenças
(como fazem os linguistas), descreveria sistemas de dispersão.
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de
enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que
entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas
temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem,
correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos,
por convenção, que se trata de uma formação discursiva -
evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e
consequências, inadequadas, aliás, para designar semelhante
dispersão, tais como "ciência", ou "ideologia", ou "teoria", ou
"domínio de objetividade". Chamaremos de regras deformação as
condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição
(objetos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas
temáticas). As regras de formação são condições de existência
(mas também de coexistência, de manutenção, de modificação e de
desaparecimento) em uma dada repartição discursiva.
Eis o campo que agora é preciso percorrer; eis as noções que é
preciso testar e as análises que é preciso empreender. Sei que os
riscos não são pequenos. Eu havia usado, para uma primeira
marcação, certos agrupamentos bastante soltos, mas bastante
familiares: nada me garante que os reencontre no fim da análise,
nem que descubra o princípio de sua delimitação e de sua
individualização; não estou certo de que as formações discursivas
que isolarei definam a medicina em sua unidade global, a
economia e a gramática na curva de conjunto de sua destinação
histórica; não estou certo de que elas não introduzam recortes
imprevistos. Da mesma forma, nada me garante que semelhante
discussão poderá dar conta da cientificidade (ou da
não-cientificidade) desses conjuntos discursivos que tomei como
ponto de partida e que se apresentam, de início, com uma certa
presunção de racionalidade científica; nada me garante que minha
análise não se situe em um nível inteiramente diferente,
constituindo uma descrição irredutível à epistemologia ou à
história das ciências. Será ainda possível que, ao fim de tal
empresa, não se recuperem essas unidades mantidas em suspenso
por zelo metodológico:
44 Michel Foucault
que sejamos obrigados a dissociar as obras, ignorar as influências e
as tradições, abandonar definitivamente a questão da origem,
deixar que se apague a presença imperiosa dos autores; e que assim
desapareça tudo aquilo que constituía a história das idéias. O
perigo, em suma, é que em lugar de dar fundamento ao que já
existe, em lugar de reforçar com traços cheios linhas esboçadas, em
lugar de nos tranquilizarmos com esse retorno e essa confirmação
final, em lugar de completar esse círculo feliz que anuncia,
finalmente, após mil ardis e igual número de incertezas, que tudo
se salvou, sejamos obrigados a continuar fora das paisagens
familiares, longe das garantias a que estamos habituados, em um
terreno ainda não esquadrinhado e na direção de um final que não é
fácil prever. O que, até então, velava pela segurança do historiador
e o acompanhava até o crepúsculo (o destino da racionalidade e da
teleologia das ciências, o longo trabalho contínuo do pensamento
através do tempo, o despertar e o progresso da consciência, sua
perpétua retomada por si mesma, o movimento inacabado mas
ininterrupto das totalizações, o retorno a uma origem sempre aberta
e, finalmente, a temática histórico-transcendental), tudo isso não
corre o risco de desaparecer, liberando à análise um espaço branco,
indiferente, sem interioridade nem promessa?
3
A FORMAÇÃO DOS OBJETOS
É preciso fazer agora um levantamento das direções abertas e
saber se podemos dar conteúdo a esta noção, apenas esboçada, de
"regras de formação". Vejamos, inicialmente, a formação dos
objetos. Para analisá-la mais facilmente, tomemos o exemplo do
discurso da Psicopatologia a partir do século XIX: corte
cronológico que podemos admitir facilmente numa primeira
abordagem. Signos suficientes no-lo indicam. Retenhamos apenas
dois deles: a colocação, no início do século, de um novo modo de
exclusão e de inserção do louco no hospital psiquiátrico; e a
possibilidade de percorrer de volta a fieira de certas noções atuais
até Esquirol, Heinroth ou Pinel (da paranóia podemos retroceder
até a monomania, do quociente intelectual à noção primeira da
imbecilidade, da paralisia geral à encefalite crônica, da neurose de
caráter à loucura sem delírio); enquanto se quisermos seguir mais
acima o fio do tempo, perdemos logo as pistas, os fios se
emaranham, e a projeção de Du Laurens, ou mesmo Van Swieten,
sob a patologia de Kraepelin ou de Bleuler, nada proporciona além
de coincidências aleatórias. Ora, os objetos dos quais a
Psicopatologia se ocupou, desde essa cesura, são muito numerosos,
em grande parte muito novos, mas também bastante precários,
cambiantes e condenados, alguns deles, a um rápido
desaparecimento: ao lado das agitações motoras, alucinações e
46 Michel Foucault
discursos que se desviam (que já eram considerados como
manifestações de loucura, se bem que fossem reconhecidos,
delimitados, descritos e analisados de outro modo), vimos surgir
alguns que se referiam a registros até então não utilizados:
perturbações ligeiras de comportamento, aberrações e problemas
sexuais, fatos de sugestão e de hipnose, lesões do sistema nervoso
central, deficits de adaptação intelectual ou motora, criminalidade.
Em cada um desses registros, múltiplos objetos foram nomeados,
circunscritos, analisados, depois corrigidos, novamente definidos,
contestados, suprimidos. Pode-se estabelecer a regra a que seu
aparecimento estava submetido? Pode-se saber segundo que
sistema não dedutivo esses objetos puderam se justapor e se
suceder para formar o campo retalhado - lacunar ou pictórico
segundo os pontos -da Psicopatologia? Qual foi seu regime de
existência enquanto objetos de discurso?
A) Seria preciso inicialmente demarcar as superfícies primeiras de sua
emergência: mostrar onde podem surgir, para que possam, em seguida,
ser designadas e analisadas essas diferenças individuais que, segundo os
graus de racionalização, os códigos conceituais e os tipos de teoria, vão
receber a qualificação de doença, alienação, anomalia, demência, neurose
ou psicose, degenerescência etc. Essas superfícies de emergência não são
as mesmas nas diferentes sociedades, em diferentes épocas e nas
diferentes formas de discurso. Permanecendo na Psicopatologia do século
XIX, é provável que elas fossem constituídas pela família, pelo grupo
social próximo, o meio de trabalho, a comunidade religiosa (que são todos
normativos, suscetíveis ao desvio, que têm uma margem de tolerância e
um limiar a partir do qual a exclusão é requerida, que têm um modo de
designação e de rejeição da loucura, que se não transferem para a
medicina a responsabilidade da cura e do tratamento, pelo menos o fazem
com a carga da explicação); se bem que organizadas de modo específico,
essas superfícies de emergência não são novas no século XIX. Em
compensação, foi nessa época, sem dúvida, que se puseram a funcionar
novas superfícies de aparecimento: a arte com sua normatividade própria,
a sexualidade (seus desvios em relação a proibições habituais tornam-se
pela primeira vez objeto de demarcação, de descrição e de análise para o
discurso psiquiátrico), a penalidade (enquanto a loucura, nas épocas
precedentes, era cuidadosamente destacada da conduta criminosa e valia
como desculpa, a criminalidade torna-se ela própria - e isso desde as
famosas "monomanias homicidas" - uma forma de desvio mais ou menos
aparentada à loucura). Nesses
A Arqueologia do Saber 47
campos de diferenciação primeira, nas distâncias, descontinuidades e
limiares que então se manifestam, o discurso psiquiátrico encontra a
possibilidade de limitar seu domínio, de definir aquilo de que fala, de
dar-lhe o status de objeto - ou seja, de fazê-lo aparecer, de torná-lo
nomeável e descritível.
B) Seria necessário descrever, além disso, instâncias de delimitação: a
medicina (como instituição regulamentada, como conjunto de indivíduos
que constituem o corpo médico, como saber e prática, como competência
reconhecida pela opinião pública, a justiça e a administração) tornou-se,
no século XIX, a instância superior que, na sociedade, distingue, designa,
nomeia e instaura a loucura como objeto; mas não foi a única a
representar esse papel: a justiça, e particularmente a justiça penal (com as
definições da escusa, da irresponsabilidade, das circunstâncias atenuantes
e com o uso de noções como as de crime passional, de hereditariedade, de
perigo social), a autoridade religiosa (na medida cm que se estabelece
como instância de decisão que separa o místico do patológico, o espiritual
do corporal, o sobrenatural do anormal, e na medida em que pratica a
direção de consciência mais para um conhecimento dos indivíduos do que
para uma classificação casuística das ações e das circunstâncias), a crítica
literária e artística (que, no curso do século XIX, trata a obra cada vez
menos como um objeto de apreciação que deve ser julgado, e cada vez
mais como uma linguagem que deve ser interpretada e cm que é preciso
reconhecer os jogos de expressão de um autor).
C) Analisar finalmente as grades de especificação: trata-se dos
sistemas segundo os quais separamos, opomos, associamos, reagrupamos,
classificamos, derivamos, umas das outras, as diferentes "loucuras" como
objetos do discurso psiquiátrico (essas grades de diferenciação foram, no
século XIX, a alma, como grupo de faculdades hierarquizadas, vizinhas e
mais ou menos interpenetráveis; o corpo, como volume tridimensional de
órgãos ligados por esquemas de dependência e de comunicação; a vida e a
história dos indivíduos, como sequência linear de fases, emaranhado de
traços, conjunto de reativações virtuais, repetições cíclicas; os jogos das
correlações neuropsicológicas como sistemas de projeções recíprocas e
campo de causalidade circular).
Semelhante descrição é, por si mesma, ainda insuficiente por dois
motivos. Os planos de emergência que acabamos de demarcar, essas
instâncias de delimitação, ou essas formas de especificação, não
fornecem, inteiramente constituídos e armados, objetos que o discurso da
Psicopatologia só teria, cm seguida, que relacionar, classificar e nomear,
eleger, recobrir finalmente de uma trama de palavras e frases: não são as
48 Michel Foucault
famílias - com suas normas, suas proibições, seus limiares de
sensibilidade - que determinam os loucos e propõem "doentes"
para a análise ou decisão dos psiquiatras; não é a jurisprudência
que denuncia, por ela mesma, à medicina mental, um delírio
paranóico sob um assassinato, ou que suspeita de uma neurose em
um delito sexual. O discurso é algo inteiramente diferente do lugar
em que vêm se depositar e se superpor, como em uma simples
superfície de inscrição, objetos que teriam sido instaurados
anteriormente. Mas a enumeração que acabamos de fazer é
insuficiente também por uma segunda razão. Ela demarcou, uns
após outros, vários planos de diferenciação em que os objetos do
discurso podem aparecer. Mas, entre eles, que relações existem?
Por que esta enumeração e não outra? Que conjunto definido e
fechado acreditamos circunscrever desta maneira? E como
podemos falar de um "sistema de formação" se conhecemos apenas
uma série de determinações diferentes e heterogêneas, sem
ligações ou relações assinaláveis?
Na verdade, estas duas séries de questões remetem ao mesmo
ponto. Para compreendê-lo, restrinjamos ainda o exemplo
precedente. No domínio com o qual a Psicopatologia se ocupou no
século XIX, vemos aparecer, muito cedo (desde Esquirol), toda
uma série de objetos pertencentes ao registro de delinquência: o
homicídio (e o suicídio), os crimes passionais, os delitos sexuais,
certas formas de roubo, a vagabundagem e, depois, através deles, a
hereditariedade, o meio neurógeno, os comportamentos de
agressão ou de autopunição, as perversidades, os impulsos
criminosos, a sugestibilidade etc. Não seria adequado dizer que se
trata das consequências de uma descoberta: descoberta feita, um
belo dia, por um psiquiatra, de uma semelhança entre condutas
criminosas e comportamento patológico; revelação de uma
presença dos sinais clássicos da alienação em certos delinquentes.
Tais fatos estão além da pesquisa atual: o problema, na realidade, é
saber o que os tornou possíveis e como essas "descobertas"
puderam ser seguidas de outras que as retomaram, corrigiram,
modificaram ou eventualmente anularam. Da mesma forma, não
seria pertinente atribuir o aparecimento desses objetos novos às
normas características da sociedade burguesa do século XIX, a um
sistema policial e penal reforçado, ao estabelecimento de um novo
código de justiça criminal, à introdução e
A Arqueologia do Saber 49
ao uso das circunstâncias atenuantes, ao aumento da criminalidade.
Sem dúvida, todos esses processos efetivamente ocorreram; mas
não puderam, por si mesmos, formar objetos para o discurso
psiquiátrico; prosseguindo a descrição nesse nível,
permaneceríamos, desta vez, aquém do que se procura.
Se, em nossa sociedade, em uma época determinada, o
delinquente foi psicologizado e patologizado, se a conduta
transgressora pôde dar lugar a toda uma série de objetos de saber,
deve-se ao fato de que, no discurso psiquiátrico, foi empregado um
conjunto de relações determinadas. Relação entre planos de
especificação, como as categorias penais e os graus de
responsabilidade diminuída, e planos psicológicos de
caracterização (as faculdades, as aptidões, os graus de
desenvolvimento ou de involução, os modos de reagir ao meio, os
tipos de caracteres, adquiridos, inatos ou hereditários). Relação
entre a instância de decisão médica e a instância de decisão
judiciária (relação complexa, para dizer a verdade, já que a decisão
médica reconhece totalmente a instância judiciária para a definição
do crime, o estabelecimento das circunstâncias em que se deu e a
sanção que merece, mas se reserva a análise de sua gênese e a
estimativa da responsabilidade envolvida). Relação entre o filtro
constituído pela interrogação judiciária, as informações policiais, a
investigação e todo o aparelho de informação jurídica, e o filtro
constituído pelo questionário médico, os exames clínicos, a
pesquisa dos antecedentes e as narrações biográficas. Relação entre
as normas familiares, sexuais, penais, do comportamento dos
indivíduos, e o quadro dos sintomas patológicos e doenças de que
eles são os sinais. Relação entre a restrição terapêutica no meio
hospitalar (com seus limiares particulares, seus critérios de cura,
sua maneira de delimitar o normal e o patológico) e a restrição
punitiva na prisão (com seu sistema de castigo e de pedagogia, seus
critérios de boa conduta, de recuperação e de libertação). São essas
relações que, atuando no discurso psiquiátrico, permitiram a
formação de todo um conjunto de objetos diversos.
Generalizemos: o discurso psiquiátrico, no século XIX,
caracteriza-se não por objetos privilegiados, mas pela maneira pela
qual forma seus objetos, de resto muito dispersos. Essa formação é
assegurada por um conjunto de relações estabelecidas entre
instâncias de emergência, de delimitação e de especificação.
Diremos, pois, que uma formação discursiva se
50 Michel Foucault
define (pelo menos quanto a seus objetos) se se puder estabelecer
um conjunto semelhante; se se puder mostrar como qualquer
objeto do discurso em questão aí encontra seu lugar e sua lei de
aparecimento; se se puder mostrar que ele pode dar origem,
simultânea ou sucessivamente, a objetos que se excluem, sem que
ele próprio tenha de se modificar.
Daí um certo número de observações e consequências.
1. As condições para que apareça um objeto de discurso, as
condições históricas para que dele se possa "dizer alguma coisa" e
para que dele várias pessoas possam dizer coisas diferentes, as
condições para que ele se inscreva em um domínio de parentesco
com outros objetos, para que possa estabelecer com eles relações
de semelhança, de vizinhança, de afastamento, de diferença, de
transformação - essas condições, como se vê, são numerosas e
importantes. Isto significa que não se pode falar de qualquer coisa
em qualquer época; não é fácil dizer alguma coisa nova; não basta
abrir os olhos, prestar atenção, ou tomar consciência, para que
novos objetos logo se iluminem e, na superfície do solo, lancem
sua primeira claridade. Mas esta dificuldade não é apenas negativa;
não se deve associá-la a um obstáculo cujo poder seria,
exclusivamente, de cegar, perturbar, impedir a descoberta,
mascarar a pureza da evidência ou a obstinação muda das próprias
coisas; o objeto não espera nos limbos a ordem que vai liberá-lo e
permitir-lhe que se encarne em uma visível e loquaz objetividade;
ele não preexiste a si mesmo, retido por algum obstáculo aos
primeiros contornos da luz, mas existe sob as condições positivas
de um feixe complexo de relações.
2. Essas relações são estabelecidas entre instituições, processos
econômicos e sociais, formas de comportamentos, sistemas de
normas, técnicas, tipos de classificação, modos de caracterização; e
essas relações não estão presentes no objeto; não são elas que são
desenvolvidas quando se faz sua análise; elas não desenham a
trama, a racionalidade imanente, essa nervura ideal que reaparece
totalmente, ou em parte, quando o imaginamos na verdade de seu
conceito. Elas não definem a constituição interna do objeto, mas o
que lhe permite aparecer, justapor-se a outros objetos, situar-se em
relação a eles, definir sua diferença, sua irredutibilidade e,
A Arqueologia do Saber 51
eventualmente, sua heterogeneidade; enfim, ser colocado em um
campo de exterioridade.
3. Essas relações se distinguem, de início, das relações que
poderiam ser chamadas "primárias" e que, independentemente de
qualquer discurso ou de qualquer objeto de discurso, podem ser
descritas entre instituições, técnicas, formas sociais etc. Afinal,
sabe-se que entre a família burguesa e o funcionamento das
instâncias e das categorias judiciárias do século XIX há relações
analisáveis em si mesmas. Ora, elas nem sempre podem ser
sobrepostas às relações que são formadoras de objetos: as relações
de dependência que podem ser assinaladas nesse nível primário
não se exprimem, forçosamente, no relacionamento que torna
possíveis objetos de discurso. Mas é preciso distinguir, além disso,
as relações secundárias que podem estar formuladas no próprio
discurso; o que, por exemplo, os psiquiatras do século XIX
puderam dizer sobre as relações entre a família e a criminalidade
não reproduz, sabemos bem, o jogo das dependências reais; mas
não reproduz tampouco o jogo das relações que tornam possíveis e
sustentam os objetos do discurso psiquiátrico. Assim se abre todo
um espaço articulado de descrições possíveis: sistema das relações
primárias ou reais, sistema das relações secundárias ou reflexivas,
e sistema das relações que podem ser chamadas propriamente de
discursivas. O problema é fazer com que apareça a especificidade
dessas últimas e seu jogo com as outras duas.
4. As relações discursivas, como se vê, não são internas ao
discurso: não ligam entre si os conceitos ou as palavras; não
estabelecem entre as frases ou as proposições uma arquitetura
dedutiva ou retórica. Mas não são, entretanto, relações exteriores
ao discurso, que o limitariam ou lhe imporiam certas formas, ou o
forçariam, em certas circunstâncias, a enunciar certas coisas. Elas
estão, de alguma maneira, no limite do discurso: oferecem-lhe
objetos de que ele pode falar, ou antes (pois essa imagem da oferta
supõe que os objetos sejam formados de um lado e o discurso, do
outro), determinam o feixe de relações que o discurso deve efetuar
para poder falar de tais ou tais objetos, para poder abordá-los,
nomeá-los, analisá-los, classificá-los, explicá-los etc. Essas
relações
52 Michel Foucault
caracterizam não a língua que o discurso utiliza, não as
circunstâncias era que ele se desenvolve, mas o próprio discurso
enquanto prática.
Pode-se agora encerrar a análise e avaliar até que ponto ela
realiza ou, igualmente, modifica o projeto inicial.
A propósito dessas figuras de conjunto que, de maneira
insistente mas confusa, se apresentavam como a Psicopatologia, a
economia, a gramática, a medicina, perguntamo-nos que espécie
de unidade poderia constituí-las: não seriam elas apenas uma
reconstrução extemporânea, a partir de obras singulares, de teorias
sucessivas, de noções ou temas, alguns dos quais abandonados,
outros mantidos pela tradição, outros ainda encobertos pelo
esquecimento e depois redescobertos? Não passariam de uma série
de empresas ligadas?
Havíamos procurado a unidade do discurso junto aos próprios
objetos, à sua distribuição, ao jogo de suas diferenças, de sua
proximidade ou de seu afastamento - em resumo, junto ao que é
dado ao sujeito falante -, e fomos mandados de volta, finalmente,
para um relacionamento que caracteriza a própria prática
discursiva; descobrimos, assim, não uma configuração ou uma
forma, mas um conjunto de regras que são imanentes a uma prática
e a definem em sua especificidade. Por outro lado, tínhamos usado,
a título de marco, uma "unidade" como a Psicopatologia: se
tivéssemos desejado fixar-lhe uma data de nascimento e um
domínio preciso, teria sido necessário, sem dúvida, reencontrar o
aparecimento da palavra, definir a que estilo de análise ela poderia
aplicar-se e como se estabeleceria sua separação, por um lado, da
neurologia e, por outro, da psicologia. O que se descobriu foi uma
unidade de um outro tipo, que não tem provavelmente as mesmas
datas, nem a mesma superfície, nem as mesmas articulações, mas
que pode dar conta de um conjunto de objetos para os quais o
termo Psicopatologia não passava de uma rubrica reflexiva,
secundária e classificatória. Finalmente, a Psicopatologia se
apresentava como uma disciplina, sempre se renovando, sempre
marcada por descobertas, críticas, erros corrigidos; o sistema de
formação que se definiu permanece estável. Mas entendamos: não
são os objetos que permanecem constantes, nem o domínio que
formam; nem mesmo seu ponto de emergência ou seu modo de
caracterização; mas o estabelecimento de relação entre as
superfícies em que podem
A Arqueologia do Saber 53
aparecer, em que podem ser delimitados, analisados e
especificados.
Nas descrições cuja teoria acabo de tentar fornecer, não se trata
de interpretar o discurso para fazer através dele uma história do
referente. No exemplo escolhido, não se procura saber quem era
louco em tal época, em que consistia sua loucura, nem se suas
perturbações eram idênticas às que nos são, hoje, familiares. Não
se questiona se os feiticeiros eram loucos ignorados e perseguidos
ou se, em um outro momento, uma experiência mística ou estética
não foi indevidamente medicalizada. Não se procura reconstituir o
que podia ser a própria loucura, tal como se apresentaria
inicialmente em alguma experiência primitiva, fundamental, surda,
apenas articulada,1 e tal como teria sido organizada em seguida
(traduzida, deformada, deturpada, reprimida talvez) pelos discursos
e pelo jogo oblíquo, frequentemente retorcido, de suas operações.
Sem dúvida, semelhante história do referente é possível; não se
exclui, de imediato, o esforço para desenterrar e libertar do texto
essas experiências "pré-discursivas". Mas não se trata, aqui, de
neutralizar o discurso, transformá-lo em signo de outra coisa e
atravessar-lhe a espessura para encontrar o que permanece
silenciosamente aquém dele, e sim, pelo contrário, mantê-lo em sua
consistência, fazê-lo surgir na complexidade que lhe é própria. Em
uma palavra, quer-se, na verdade, renunciar às "coisas",
"despresentificá-las"; conjurar sua rica, relevante e imediata
plenitude, que costumamos considerar como a lei primitiva de um
discurso que dela só se afastaria pelo erro, esquecimento, ilusão,
ignorância ou inércia das crenças e das tradições ou, ainda, desejo,
inconsciente talvez, de não ver e de não dizer; substituir o tesouro
enigmático das "coisas" anteriores ao discurso pela formação
regular dos objetos que só nele se delineiam; definir esses objetos
sem referência ao fundo das coisas, mas relacionando-os ao
conjunto de regras que permitem formá-los como objetos de um
discurso e que constituem, assim, suas condições de aparecimento
histórico; fazer uma história dos objetos discursivos
1. Isto é escrito contra um tema explícito na Histoire de la folie e presente
repetidas vezes no Prefácio.
54 Michel Foucault
que não os enterre na profundidade comum de um solo originário,
mas que desenvolva o nexo das regularidades que regem sua
dispersão.
Entretanto, elidir o momento das "próprias coisas" não é
remeter necessariamente à análise linguística da significação.
Quando se descreve a formação dos objetos de um discurso,
tenta-se identificar os relacionamentos que caracterizam uma
prática discursiva e não se determina uma organização léxica nem
as escansões de um campo semântico: não se questiona o sentido
dado, em sua época, às palavras "melancolia" ou "loucura sem
delírio", nem a oposição de conteúdo entre "psicose" e "neurose".
Não que tais análises sejam consideradas ilegítimas ou
impossíveis, mas não são pertinentes quando se trata de saber, por
exemplo, como a criminalidade pôde tornar-se objeto de parecer
médico, ou como o desvio sexual pôde delinear-se como um objeto
possível do discurso psiquiátrico. A análise dos conteúdos léxicos
define tanto os elementos de significação de que dispõem os
sujeitos falantes, em uma dada época, como a estrutura semântica
que aparece na superfície dos discursos já pronunciados; ela não se
refere à prática discursiva como lugar onde se forma ou se
deforma, onde aparece e se apaga uma pluralidade emaranhada - ao
mesmo tempo superposta e lacunar - de objetos.
A sagacidade dos críticos não se enganou: de uma análise como
a que empreendo, as palavras estão tão deliberadamente ausentes
quanto as próprias coisas; não há nem descrição de um vocabulário
nem recursos à plenitude viva da experiência. Não se volta ao
aquém do discurso - lá onde nada ainda foi dito e onde as coisas
apenas despontam sob uma luminosidade cinzenta; não se vai além
para reencontrar as formas que ele dispôs e deixou atrás de si;
fica-se, tenta-se ficar no nível do próprio discurso. Já que é preciso,
às vezes, acentuar ausências, embora as mais evidentes, direi que,
em todas essas pesquisas em que avancei ainda tão pouco, gostaria
de mostrar que os "discursos", tais como podemos ouvi-los, tais
como podemos lê-los sob a forma de texto, não são, como se
poderia esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e de
palavras: trama obscura das coisas, cadeia manifesta, visível e
colorida das palavras; gostaria de mostrar que o discurso não é uma
estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade
e uma língua, o intrincamento
A Arqueologia do Saber 55
entre um léxico e uma experiência; gostaria de mostrar, por meio
de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos,
vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as
palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias
da prática discursiva. Essas regras definem não a existência muda
de uma realidade, não o uso canônico de um vocabulário, mas o
regime dos objetos. "As palavras e as coisas" é o título - sério - de
um problema; é o título - irônico - do trabalho que lhe modifica a
forma, lhe desloca os dados e revela, afinal de contas, uma tarefa
inteiramente diferente, que consiste em não mais tratar os discursos
como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a
conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam
sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos
são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses
signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à
língua e ao ato da fala. É esse "mais" que é preciso fazer aparecer e
que é preciso descrever.
4
A FORMAÇÃO DAS MODALIDADES ENUNCIATIVAS
Descrições qualitativas, narrações biográficas, demarcação,
interpretação e recorte dos signos, raciocínios por analogia, dedução,
estimativas estatísticas, verificações experimentais, e muitas outras
formas de enunciados, eis o que se pode encontrar, no século XIX, no
discurso dos médicos. Que encadeamento, que determinismo há entre uns
e outros? Por que estes e não outros? Seria necessário encontrar a lei de
todas essas enunciações diversas e o lugar de onde vêm.
A) Primeira questão: quem fala? Quem, no conjunto de todos os
sujeitos falantes, tem boas razões para ter esta espécie de linguagem?
Quem é seu titular? Quem recebe dela sua singularidade, seus encantos, e
de quem, em troca, recebe, se não sua garantia, pelo menos a presunção
de que é verdadeira? Qual é o status dos indivíduos que têm - e apenas
eles - o direito regulamentar ou tradicional, juridicamente definido ou
espontaneamente aceito, de proferir semelhante discurso? O status do
médico compreende critérios de competência e de saber; instituições,
sistemas, normas pedagógicas; condições legais que dão direito - não sem
antes lhe fixar limites - à prática e à experimentação do saber.
Compreende, também, um sistema de diferenciação e de relações (divisão
das atribuições, subordinação hierárquica, complementaridade funcional,
demanda, transmissão e troca de informações) com outros indivíduos ou
outros grupos que têm eles próprios seu status (com o poder político e
seus
A Arqueologia do Saber 57
representantes, com o Poder Judiciário, com diferentes corpos
profissionais, com os grupos religiosos e, se for o caso, com os
sacerdotes). Compreende, também, um certo número de traços que
definem seu funcionamento em relação ao conjunto da sociedade (o papel
que se reconhece no médico, conforme seja chamado por uma pessoa, ou
requisitado, de maneira mais ou menos obrigatória, pela sociedade,
conforme exerça uma profissão, ou seja encarregado de uma função; os
direitos de intervenção e de decisão que lhe são reconhecidos nestes
diferentes casos; o que lhe é pedido como vigia, guardião e responsável
pela saúde de uma população, de um grupo, de uma família, de um
indivíduo; a parte que recebe da riqueza pública ou da de particulares; a
forma de contrato, explícito ou implícito, que estabelece, seja com o
grupo no qual exerce sua profissão, seja com o poder que lhe confiou uma
tarefa, seja com o cliente que lhe pediu um conselho, uma terapêutica,
uma cura). Esse status dos médicos é, em geral, bastante singular em
todas as formas de sociedade e de civilização: ele não é, quase nunca, um
personagem indiferenciado ou intercambiável. A fala médica não pode vir
de quem quer que seja; seu valor, sua eficácia, seus próprios poderes
terapêuticos e, de maneira geral, sua existência como fala médica não são
dissociáveis do personagem, definido por status, que tem o direito de
articulá-lo, reivindicando para si o poder de conjurar o sofrimento e a
morte. Mas sabe-se também que esse status foi profundamente
modificado na civilização ocidental, no final do século XVIII e no início
do século XIX, quando a saúde das populações tornou-se uma das normas
econômicas requeridas pela sociedade industrial.
B) É preciso descrever também os lugares institucionais de onde o
médico obtém seu discurso, e onde este encontra sua origem legítima e
seu ponto de aplicação (seus objetos específicos e seus instrumentos de
verificação). Esses lugares são, para nossa sociedade, o hospital, local de
uma observação constante, codificada, sistemática, assegurada por
pessoal médico diferenciado e hierarquizado, e que pode, assim, constituir
um campo quantificável de frequências; a prática privada, que oferece um
domínio de observações mais aleatórias, mais lacunares, muito mais
numerosas, mas que permitem, às vezes, constatações de alcance
cronológico mais amplo, com melhor conhecimento dos antecedentes e
do meio; o laboratório, local autônomo, por muito tempo distinto do
hospital, no qual se estabelecem certas verdades de ordem geral sobre o
corpo humano, a vida, as doenças, as lesões, que fornece certos elementos
de diagnóstico, certos sinais de evolução, certos critérios de cura, e que
permite experimentações terapêuticas; finalmente, o que se poderia
chamar a "biblioteca" ou o campo documentário, que compreende não
somente os livros ou tratados, tradicionalmente reconhecidos como
válidos, mas
58 Michel Foucault
também o conjunto dos relatórios e observações publicadas e
transmitidas, e ainda a massa das informações estatísticas (referentes ao
meio social, ao clima, às epidemias, à taxa de mortalidade, à frequência
das doenças, aos focos de contágio, às doenças profissionais) que podem
ser fornecidas ao médico pelas administrações, por outros médicos, por
sociólogos, por geógrafos. Ainda aí, esses diversos "lugares" do discurso
médico foram profundamente modificados no século XIX: a importância
do documento não deixa de crescer (diminuindo, proporcionalmente, a
autoridade do livro ou da tradição); o hospital que não passava de um
local de apoio para o discurso sobre as doenças e que era inferior em
importância e valor à prática privada (em que as doenças, deixadas em
seu meio natural, deviam, no século XVIII, se revelar em sua verdade
vegetal), torna-se, então, o local das observações sistemáticas e
homogêneas, confrontos em larga escala, estabelecimento das frequências
e das probabilidades, anulação das variantes individuais - em resumo, o
local de aparecimento da doença, não mais como espécie singular que
desdobra seus traços essenciais sob o olhar do médico, mas como
processo intermediário com seus marcos significativos, seus limites, suas
oportunidades de evolução. Da mesma forma, foi no século XIX que a
prática médica cotidiana integrou o laboratório como local de um discurso
que tem as mesmas normas experimentais da física, química ou biologia.
C) As posições do sujeito se definem igualmente pela situação que lhe
é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos:
ele é sujeito que questiona, segundo uma certa grade de interrogações
explícitas ou não, e que ouve, segundo um certo programa de informação;
é sujeito que observa, segundo um quadro de traços característicos, e que
anota, segundo um tipo descritivo; está situado a uma distância perceptiva
ótica cujos limites demarcam a parcela de informação pertinente; utiliza
intermediários instrumentais que modificam a escala da informação,
deslocam o sujeito em relação ao nível perceptivo médio ou imediato,
asseguram sua passagem de um nível superficial a um nível profundo, o
fazem circular no espaço interior do corpo - dos sintomas manifestos aos
órgãos, dos órgãos aos tecidos e dos tecidos, finalmente, às células. A
essas situações perceptivas é preciso somar as posições que o sujeito pode
ocupar na rede de informações (no ensino teórico ou na pedagogia
hospitalar; no sistema da comunicação oral ou da documentação escrita:
como emissor e receptor de observações, de relatórios, de dados
estatísticos, de proposições teóricas gerais, de projetos ou de decisões).
As diversas situações que podem ser ocupadas pelo sujeito do discurso
médico foram redefinidas, no início do século XIX, com a
A Arqueologia do Saber 59
organização de um campo perceptivo totalmente diferente
(disposto em profundidade, expresso por inovações instrumentais,
desenvolvido pelas técnicas cirúrgicas ou pelos métodos da
autópsia, centrado nos focos de lesão), e com a utilização de novos
sistemas de registro, de notação, de descrição, de classificação, de
integração em séries numéricas e em estatísticas, com a instituição
de novas formas de ensino, de circulação das informações, de
relação com os outros domínios teóricos (ciências ou filosofia) e
com as outras instituições (quer elas sejam de ordem
administrativa, política ou econômica).
Se no discurso clínico o médico é sucessivamente o
questionador soberano e direto, o olho que observa, o dedo que
toca, o órgão de decifração dos sinais, o ponto de integração de
descrições já feitas, o técnico de laboratório, é porque todo um
feixe de relações se encontra em jogo; relações entre o espaço
hospitalar, como local ao mesmo tempo de assistência, de
observação purificada e sistemática, e de terapêutica, parcialmente
testada, parcialmente experimental, e todo um grupo de técnicas e
de códigos de percepção do corpo humano - tal como é definido
pela anatomia patológica; relações entre o campo das observações
imediatas e o domínio das informações já adquiridas; relações
entre o papel do médico como terapeuta, seu papel de pedagogo,
seu papel de transmissor na difusão do saber médico e seu papel de
responsável pela saúde pública no espaço social. Entendida como
renovação dos pontos de vista, conteúdos, formas e do próprio
estilo da descrição, utilização dos raciocínios indutivos ou
probabilísticos, tipos de atribuição da causalidade, em resumo,
como renovação das modalidades de enunciação, a medicina
clínica não deve ser tomada como o resultado de uma nova técnica
de observação - a da autópsia, que era praticada desde muito antes
do século XIX; nem como o resultado da pesquisa das causas
patogênicas nas profundezas do organismo - Morgagni já o fazia
nos meados do século XVIII; nem como o efeito desta nova
instituição que era a clínica hospitalar- ela já existia há dezenas de
anos na Áustria e na Itália; nem como o resultado da introdução do
conceito de tecido no Traité de membranes, de Bichat. Deve, sim,
ser considerada como o relacionamento, no discurso médico, de
um certo número de elementos distintos, dos quais uns se referiam
ao status dos médicos, outros ao lugar institucional e técnico de
onde falavam, outros à sua
60 Michel Foucault
posição como sujeitos que percebem, observam, descrevem,
ensinam etc. Pode-se dizer que esse relacionamento de elementos
diferentes (alguns são novos, outros, preexistentes) é efetuado pelo
discurso clínico; é ele, enquanto prática, que instaura entre eles
todos um sistema de relações que não é "realmente" dado nem
constituído a priori; e se tem uma unidade, se as modalidades de
enunciação que utiliza, ou às quais dá lugar, não são simplesmente
justapostas por uma série de contingências históricas, é porque
emprega, de forma constante, esse feixe de relações.
Convém observar ainda que, após se ter constatado a
disparidade dos tipos de enunciação no discurso clínico, não se
tentou reduzi-la fazendo aparecer as estruturas formais, categorias,
modos de encadeamento lógico, tipos de raciocínio e indução,
formas de análise e síntese que puderam ser empregados em um
discurso; não se quis separar a organização racional, que é capaz de
dar a enunciados - como os da medicina - o que comportam em
termos de necessidade intrínseca. Não se quis, tampouco,
relacionar a um ato fundador, ou a uma consciência constituinte, o
horizonte geral de racionalidade no qual se destacaram, pouco a
pouco, os progressos da medicina, seus esforços para se alinhar
entre as ciências exatas, a condensação de seus métodos de
observação, a lenta e difícil expulsão das imagens ou dos
fantasmas que a habitam, a purificação de seu sistema de
raciocínio. Enfim, não se tentou descrever nem a gênese empírica
nem os diversos componentes da mentalidade médica: como se
deslocou o interesse dos médicos, por qual modelo teórico ou
experimental foram influenciados, que filosofia ou temática moral
definiu o clima de sua reflexão, a que questões, a que perguntas
tiveram de responder, que esforços tiveram de fazer para se
libertarem dos preconceitos tradicionais, que caminhos
percorreram na direção da unificação e coerência - jamais
acabadas, jamais atingidas - de seu saber. Em suma, as
modalidades diversas da enunciação não estão relacionadas à
unidade de um sujeito - quer se trate do sujeito tomado como pura
instância fundadora de racionalidade, ou do sujeito tomado como
função empírica de síntese. Nem o "conhecer", nem os
"conhecimentos".
A Arqueologia do Saber 61
Na análise proposta, as diversas modalidades de enunciação, em
lugar de remeterem à síntese ou à função unificante de um sujeito,
manifestam sua dispersão:2 nos diversos status, nos diversos
lugares, nas diversas posições que pode ocupar ou receber quando
exerce um discurso, na descontinuidade dos planos de onde fala.
Se esses planos estão ligados por um sistema de relações, este não
é estabelecido pela atividade sintética de uma consciência idêntica
a si, muda e anterior a qualquer palavra, mas pela especificidade de
uma prática discursiva. Renunciaremos, pois, a ver no discurso um
fenômeno de expressão - a tradução verbal de uma síntese
realizada em algum outro lugar; nele buscaremos antes um campo
de regularidade para diversas posições de subjetividade. O
discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente
desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece, e que o diz: é,
ao contrário, um conjunto em que podem ser determinadas a
dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo.
É um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de
lugares distintos. Ainda há pouco mostramos que não eram nem
pelas "palavras" nem pelas "coisas" que era preciso definir o
regime dos objetos característicos de uma formação discursiva; da
mesma forma, é preciso reconhecer, agora, que não é nem pelo
recurso a um sujeito transcendental nem pelo recurso a uma
subjetividade psicológica que se deve definir o regime de suas
enunciações.
2. Por isso. a expressão "olhar médico" empregada em Naissance de la clinique
não era muito feliz.
5
A FORMAÇÃO DOS CONCEITOS
Talvez a família de conceitos que se delineia na obra de Lineu
(mas também a que se encontra em Ricardo, ou na gramática de
Port-Royal) possa se organizar em um conjunto coerente. Talvez se
pudesse reconstituir a arquitetura dedutiva por ela formada. A
experiência, de qualquer forma, merece ser tentada - e ela o foi
diversas vezes. Em compensação, se tomamos uma escala maior e
se escolhemos, como marcos, disciplinas como a gramática, ou a
economia, ou o estudo dos seres vivos, o jogo de conceitos que
vemos aparecer não obedece a condições tão rigorosas: sua história
não é, pedra por pedra, a construção de um edifício. Será preciso
abandonar essa dispersão à aparência de sua desordem? Ver aí uma
sequência de sistemas conceituais, tendo cada um sua organização
própria e se articulando somente, seja com a permanência dos
problemas, seja com a continuidade da tradição, seja com o
mecanismo das influências? Não se poderia encontrar uma lei que
desse conta da emergência sucessiva ou simultânea de conceitos
discordantes? Não se pode encontrar entre eles um sistema de
ocorrência que não seja uma sistematicidade lógica? Antes de
querer repor os conceitos em um edifício dedutivo virtual, seria
necessário descrever a organização do campo de enunciados em
que aparecem e circulam.
A Arqueologia do Saber 63
A) Essa organização compreende, inicialmente, formas de sucessão e,
entre elas, as diversas disposições das séries enunciativas (quer seja a
ordem das inferências, das implicações sucessivas e dos raciocínios
demonstrativos; ou a ordem das descrições, os esquemas de generalização
ou de especificação progressiva aos quais obedecem, as distribuições
espaciais que percorrem; ou a ordem das narrativas e a maneira pela qual
os acontecimentos do tempo estão repartidos na sequência linear dos
enunciados); os diversos tipos de correlação dos enunciados (que nem
sempre são idênticos ou passíveis de ser superpostos às sucessões
manifestas da série enunciativa: como a correlação hipótese-verlficação;
asserção-crítica; lei geral-aplicação particular); os diversos esquemas
retóricos segundo os quais se podem combinar grupos de enunciados
(como se encadeiam, umas às outras, descrições, deduções, definições,
cuja sequência caracteriza a arquitetura de um texto). Tomemos, por
exemplo, o caso da história natural na época clássica: ela não se serve dos
mesmos conceitos do século XVI; alguns que são antigos (gênero,
espécie, sinais) mudam de utilização; outros (como o de estrutura)
aparecem; outros ainda (o de organismo) se formarão mais tarde. Mas o
que foi modificado no século XVII e vai reger o aparecimento e a
recorrência dos conceitos, para toda a história natural, é a disposição geral
dos enunciados e sua seriação em conjuntos determinados; é a maneira de
transcrever o que se observa e de reconstituir, no fio dos enunciados, um
percurso perceptivo; é a relação e o jogo de subordinações entre
descrever, articular em traços distintivos, caracterizar e classificar; é a
posição recíproca das observações particulares e dos princípios gerais; é o
sistema de dependência entre o que se aprendeu, o que se viu, o que se
deduz, o que se admite como provável, o que se postula. A história
natural, nos séculos XVII e XVIII. não é simplesmente uma forma de
conhecimento que deu uma nova definição aos conceitos do "gênero" ou
de "caráter" e que introduziu conceitos novos como o de "classificação
natural" ou de "mamífero"; é, antes de tudo, um conjunto de regras para
dispor em série enunciados, um conjunto obrigatório de esquemas de
dependências, de ordem e de sucessões em que se distribuem os
elementos recorrentes que podem valer como conceitos.
B) A configuração do campo enunciativo compreende, também,
formas de coexistência. Estas delineiam, inicialmente, um campo de
presença (isto é, todos os enunciados já formulados em alguma outra
parte e que são retomados em um discurso a título de verdade admitida,
de descrição exata, de raciocínio fundado ou de pressuposto necessário, e
também os que são criticados, discutidos e julgados, assim como os que
são rejeitados ou excluídos); nesse campo de presença, as relações
instauradas podem ser da ordem da verificação
64 Michel Foucault
experimental, da validação lógica, da repetição pura e simples, da
aceitação justificada pela tradição e pela autoridade, do comentário, da
busca das significações ocultas, da análise do erro; essas relações podem
ser explícitas (e, por vezes, formuladas em tipos de enunciados
especializados: referências, discussões críticas) ou implícitas e
introduzidas nos enunciados correntes. Ainda aí, é fácil constatar que o
campo de presença da história natural na época clássica não obedece às
mesmas formas, nem aos mesmos critérios de escolha, nem aos mesmos
princípios de exclusão da época em que Aldrovandi recolhia, em um
único e mesmo texto, tudo que sobre os monstros podia ser visto,
observado, contado, mil vezes relatado ao pé do ouvido, até imaginado
pelos poetas. Distinto desse campo de presença, podemos descrever um
campo de concomitância (trata-se, então, dos enunciados que se referem a
domínios de objetos inteiramente diferentes e que pertencem a tipos de
discurso totalmente diversos, mas que atuam entre os enunciados
estudados, seja porque valem como conformação analógica, seja porque
valem como princípio geral e como premissas aceitas para um raciocínio,
ou porque valem como modelos que podemos transferir a outros
conteúdos, ou ainda porque funcionam como instância superior com a
qual é preciso confrontar e submeter, pelo menos, algumas proposições
que são afirmadas); assim, o campo de concomitância da história natural
na época de Lineu e de Buffon se define por um certo número de relações
com a cosmologia, história da terra, filosofia, teologia, Escrituras
Sagradas e exegese bíblica, matemática (sob a forma bem geral de uma
ciência da ordem); e todas estas relações o opõem tanto ao discurso dos
naturalistas do século XVI quanto ao dos biólogos do século XIX.
Finalmente, o campo enunciativo compreende o que se poderia chamar
um domínio de memória (trata-se dos enunciados que não são mais nem
admitidos nem discutidos, que não definem mais, consequentemente, nem
um corpo de verdades nem um domínio de validade, mas em relação aos
quais se estabelecem laços de filiação, gênese, transformação,
continuidade e descontinuidade histórica). É assim que o campo de
memória da história natural, desde Tournefort, aparece como
singularmente estreito e pobre em suas formas, quando o comparamos ao
campo de memória, tão amplo, tão cumulativo, tão bem especificado, da
biologia, a partir do século XIX; aparece, em compensação, como mais
bem definido e articulado que o campo de memória, que envolve, no
Renascimento, a história das plantas e dos animais, pois, na época, mal se
distinguia do campo de presença: tinha a mesma extensão e a mesma
forma e implicava as mesmas relações.
C) Torna-se possível, enfim, definir os procedimentos de intervenção
que podem ser legitimamente aplicados aos enunciados. Esses
A Arqueologia do Saber 65
procedimentos, na verdade, não são os mesmos para todas as formações
discursivas; os que são ai utilizados (à exceção de todos os outros), as
relações que os ligam e o conjunto que assim constituem permitem
especificar cada uma delas. Tais procedimentos podem aparecer: nas
técnicas de reescrita (como. por exemplo, as que permitiram aos
naturalistas do período clássico reescrever descrições lineares em quadros
classificatórios que não têm as mesmas leis nem a mesma configuração
das listas e dos grupos de parentesco estabelecidos na Idade Média ou
durante o Renascimento); em métodos de transcrição dos enunciados
(articulados na língua natural), segundo uma língua mais ou menos
formalizada e artificial (encontramos seu projeto e, até certo ponto, sua
realização em Lineu e em Adanson); os modos de tradução dos
enunciados quantitativos em formulações qualitativas e vice-versa
(relacionamento das medidas e descrições puramente perceptivas); os
meios utilizados para aumentar a aproximação dos enunciados e refinar
sua exatidão (a análise estrutural segundo a forma, o número, a disposição
e a grandeza dos elementos permitiu, a partir de Tournefort, aproximação
maior e sobretudo mais constante dos enunciados descritivos); a maneira
pela qual se delimita novamente - por extensão ou restrição - o domínio
de validade dos enunciados (a enunciação dos caracteres estruturais foi
limitada de Tournefort a Lineu, ampliando-se, novamente, de Buffon a
Jussieu): a maneira pela qual se transfere um tipo de enunciado de um
campo de aplicação a outro (como a transferência da caracterização
vegetal à taxinomia animal; ou da descrição dos traços superficiais aos
elementos internos do organismo); os métodos de sistematização de
proposições que já existem por terem sido formuladas anteriormente, mas
em separado; ou, ainda, os métodos de redistribuição de enunciados já
ligados uns aos outros, mas que são recompostos em um novo conjunto
sistemático (assim o fez Adanson, retomando as caracterizações naturais
que puderam ser feitas antes dele ou por ele próprio, em um conjunto de
descrições artificiais cujo esquema prévio ele tinha tomado por uma
combinatória abstrata).
Os elementos que nos propomos a analisar são bastante heterogêneos.
Alguns constituem regras de construção formal; outros, hábitos retóricos;
alguns definem a configuração interna de um texto; outros, os modos de
relações e de interferência entre textos diferentes; alguns são
característicos de uma época determinada, outros têm uma origem
longínqua e um alcance cronológico muito grande. Mas o que pertence
propriamente a uma formação discursiva e o que permite delimitar o
grupo de conceitos, embora discordantes, que lhe são específicos, é a
maneira pela qual esses diferentes elementos
66 Michel Foucault
estão relacionados uns aos outros: a maneira, por exemplo, pela
qual a disposição das descrições ou das narrações está ligada às
técnicas de reescrita; a maneira pela qual o campo de memória está
ligado às formas de hierarquia e de subordinação que regem os
enunciados de um texto; a maneira pela qual estão ligados os
modos de aproximação e de desenvolvimento dos enunciados e os
modos de critica, de comentários, de interpretação de enunciados
já formulados etc. É esse feixe de relações que constitui um
sistema de formação conceitual.
A descrição de semelhante sistema não poderia valer por uma
descrição direta e imediata dos próprios conceitos. Não se trata de
fazer seu levantamento exaustivo, de estabelecer os traços que
podem ter em comum, de tentar classificá-los, de medir-lhes a
coerência interna ou testar sua compatibilidade mútua; não se toma
como objeto de análise a arquitetura conceitual de um texto
isolado, de uma obra individual ou de uma ciência em um dado
momento. Colocamo-nos na retaguarda em relação a esse jogo
conceitual manifesto; e tentamos determinar segundo que
esquemas (de seriação, de grupamentos simultâneos, de
modificação linear ou recíproca) os enunciados podem estar
ligados uns aos outros em um tipo de discurso; tentamos
estabelecer, assim, como os elementos recorrentes dos enunciados
podem reaparecer, se dissociar, se recompor, ganhar em extensão
ou em determinação, ser retomados no interior de novas estruturas
lógicas, adquirir, em compensação, novos conteúdos semânticos,
constituir entre si organizações parciais. Esses esquemas permitem
descrever não as leis de construção interna dos conceitos, não sua
gênese progressiva e individual no espírito de um homem, mas sua
dispersão anônima através de textos, livros e obras; dispersão que
caracteriza um tipo de discurso e que define, entre os conceitos,
formas de dedução, de derivação, de coerência, e também de
incompatibilidade, de entrecruzamento, de substituição, de
exclusão, de alteração recíproca, de deslocamento etc. Tal análise
refere-se, pois, em um nível de certa forma pré-conceitual, ao
campo em que os conceitos podem coexistir e às regras às quais
esse campo está submetido.
Para precisar o que se deve entender aqui por "pré-conceitual",
retomarei o exemplo dos quatro "esquemas teóricos" estudados em
Les mots et les choses e que caracterizam, nos
A Arqueologia do Saber 67
séculos XVII e XVIII, a gramática geral. Esses quatro esquemas -
atribuição, articulação, designação e derivação - não designam
conceitos efetivamente utilizados por gramáticos clássicos; não
permitem tampouco reconstituir, acima de diferentes obras de
gramática, uma espécie de sistema mais geral, mais abstrato, mais
pobre, mas que descobriria, por isso mesmo, a compatibilidade
profunda desses diferentes sistemas aparentemente opostos. Eles
permitem descrever:
1. Como se podem ordenar e desenrolar as diferentes análises
gramaticais, e que formas de sucessão são possíveis entre as
análises do nome, as do verbo e as dos adjetivos, as que se referem
à fonética e as que se referem à sintaxe, as que dizem respeito à
língua originária e as que projetam uma língua artificial. Essas
diferentes ordens possíveis são prescritas pelas relações de
dependência que podem ser demarcadas entre as teorias da
atribuição, da articulação, da designação e da derivação.
2. Como a gramática geral define um domínio de validade
(segundo que critérios se pode discutir a verdade ou a falsidade de
uma proposição); como constitui um domínio de normatividade
(segundo que critérios certos enunciados são excluídos como não
pertinentes ao discurso, ou como irrelevantes e marginais, ou como
não científicos); como constitui um domínio de atualidade
(compreendendo as soluções adquiridas, definindo os problemas
presentes, situando os conceitos e as afirmações caídas em desuso).
3. Que relações a gramática geral mantém com a Mathesis
(com a álgebra cartesiana e pós-cartesiana, com o projeto de uma
ciência geral da ordem), com a análise filosófica da representação e
as teorias dos signos, com a história natural, os problemas da
caracterização e da taxionomia, com a análise das riquezas e os
problemas dos signos arbitrários de medida e de troca: demarcando
essas relações, podem-se determinar os caminhos que, de um
domínio a outro, asseguram a circulação, a transferência, as
modificações dos conceitos, a alteração de sua forma ou a mudança
de seu terreno de aplicação. A rede constituída pelos quatro
segmentos teóricos não define a
68 Michel Foucault
arquitetura lógica de todos os conceitos utilizados pelos
gramáticos; ela delineia o espaço regular de sua formação.
4. Como foram simultânea ou sucessivamente possíveis (sob a
forma da escolha alternativa, da modificação ou da substituição) as
diversas concepções do verbo ser. da ligação, do radical verbal e da
desinência (para o esquema teórico da atribuição); as diversas
concepções dos elementos fonéticos, do alfabeto, do nome, dos
substantivos e dos adjetivos (para o esquema teórico da
articulação); os diversos conceitos de substantivo e de substantivo
comum, de demonstrativo, de raiz nominal, de sílaba ou de
sonoridade expressiva (para o segmento teórico da designação); os
diversos conceitos de linguagem originária e derivada, de metáfora
e de figura, de linguagem poética (para o segmento teórico da
derivação).
O nível pré-conceitual que assim destacamos não remete nem a
um horizonte de idealidade nem a uma gênese empírica das
abstrações. De um lado, não é um horizonte de idealidade
colocado, descoberto ou instaurado por um gesto fundador - e de
tal forma originário que escaparia a qualquer inserção cronológica;
não é, nos confins da história, um a priori inesgotável, ao mesmo
tempo na retaguarda, porque escaparia a qualquer começo, a
qualquer reconstituição genética, e afastado, porque jamais poderia
ser contemporâneo de si mesmo em uma totalidade explícita. Na
verdade, colocamos a questão no nível do próprio discurso, que
não é mais tradução exterior, mas lugar de emergência dos
conceitos; não associamos as constantes do discurso às estruturas
ideais do conceito, mas descrevemos a rede conceitual a partir das
regularidades intrínsecas do discurso; não submetemos a
multiplicidade das enunciações à coerência dos conceitos, nem esta
ao recolhimento silencioso de uma idealidade metaistórica;
estabelecemos a série inversa: recolocamos as intenções livres de
não-contradição em um emaranhado de compatibilidade e
incompatibilidade conceituais; e relacionamos esse emaranhado
com as regras que caracterizam uma prática discursiva. Por isso
mesmo não é mais necessário apelar para os temas da origem
indefinidamente recuada e do horizonte inesgotável: a organização
de um conjunto de regras, na prática do discurso, mesmo se ela não
constitui um acontecimento tão fácil de ser situado quanto uma
formulação ou uma descoberta, pode, no entanto, ser
A Arqueologia do Saber 69
determinada no elemento da história; e, se ele é inesgotável, é no
sentido de que o sistema, perfeitamente descritível, por ele
constituído, dá conta de um jogo considerável de conceitos e de
um número muito importante de transformações que afetam, ao
mesmo tempo, esses conceitos e suas relações. O "pré-conceitual"
assim descrito, em lugar de delinear um horizonte que viria do
fundo da história e se manteria através dela, é, pelo contrário, no
nível mais "superficial" (no nível dos discursos), o conjunto das
regras que aí se encontram efetivamente aplicadas.
Vê-se que não se trata tampouco de uma gênese das abstrações,
tentando reencontrar a série das operações que permitiram
constituí-las; intuições globais, descobertas de casos particulares,
exclusão dos temas imaginários, reencontro de obstáculos teóricos
ou técnicos, empréstimos sucessivos a modelos tradicionais,
definição da estrutura formal adequada etc. Na análise que aqui se
propõe, as regras de formação têm seu lugar não na "mentalidade"
ou na consciência dos indivíduos, mas no próprio discurso; elas se
impõem, por conseguinte, segundo um tipo de anonimato
uniforme, a todos os indivíduos que tentam falar nesse campo
discursivo. Por outro lado, não são consideradas universalmente
válidas para todos os domínios indiscriminadamente; são sempre
descritas em campos discursivos determinados, e suas
possibilidades indefinidas de extensão não são reconhecidas
antecipadamente. Podem-se, no máximo, por uma comparação
sistemática, confrontar, de uma região a outra, as regras de
formação dos conceitos: foi assim que se tentou salientar as
identidades e as diferenças que esses conjuntos de regras podem
apresentar, na época clássica, na gramática geral, na história
natural e na análise das riquezas. Esses conjuntos de regras são
bastante específicos, em cada um desses domínios, para
caracterizar uma formação discursiva singular e bem
individualizada; mas apresentam analogias suficientes para que
vejamos essas diversas formações constituírem um grupamento
discursivo mais vasto e de um nível mais elevado. De qualquer
forma, as regras de formação dos conceitos, qualquer que seja sua
generalidade, não são o resultado, depositado na história e
sedimentado na espessura dos hábitos coletivos, de operações
efetuadas pelos indivíduos; não constituem o esquema descarnado
de todo um trabalho obscuro, ao longo do qual os
70 Michel Foucault
conceitos se teriam mostrado através de ilusões, preconceitos,
erros, tradições. O campo pré-conceitual deixa aparecerem as
regularidades e coações discursivas que tornaram possível a
multiplicidade heterogênea dos conceitos, e, em seguida, mais
além ainda, a abundância desses temas, dessas crenças, dessas
representações às quais nos dirigimos naturalmente quando
fazemos a história das idéias.
Para analisar as regras de formação dos objetos, vimos que não
seria necessário nem enraizá-los nas coisas nem relacioná-los ao
domínio das palavras; para analisar a formação dos tipos
enunciativos, não seria necessário relacioná-los nem ao sujeito
cognoscente nem a uma individualidade psicológica. Da mesma
forma, para analisar a formação dos conceitos, não é preciso
relacioná-los nem ao horizonte da idealidade nem ao curso
empírico das idéias.
6
A FORMAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS
Discursos, como a economia, a medicina, a gramática, a ciência
dos seres vivos, dão lugar a certas organizações de conceitos, a
certos reagrupamentos de objetos, a certos tipos de enunciação, que
formam, segundo seu grau de coerência, de rigor e de estabilidade,
temas ou teorias: tema, na gramática do século XVIII, de uma
língua originária de que todas as outras derivariam e manteriam a
lembrança por vezes decifrável; teoria, na filologia do século XIX,
de um parentesco - direito ou colateral - entre todas as línguas
indo-européias, e de um idioma arcaico que lhes teria servido de
ponto de partida comum; tema, no século XVIII, de uma evolução
das espécies que desenvolve no tempo a continuidade da natureza e
explica as lacunas atuais do quadro taxionômico; teoria, entre os
fisiocratas, de uma circulação das riquezas a partir da produção
agrícola. Qualquer que seja seu nível formal, chamaremos,
convencionalmente, de "estratégias" esses temas e essas teorias. O
problema é saber como se distribuem na história. Será por um
determinismo que as encadeia, as torna inevitáveis, as chama
exatamente a seu lugar, umas após outras, e, de fato, como as
soluções sucessivas de um único e mesmo problema? Ou por
encontros aleatórios entre idéias de origem diversa, influências,
descobertas, climas especulativos, modelos teóricos que a
paciência ou o gênio dos indivíduos
72 Michel Foucault
disporia em conjuntos mais ou menos bem constituídos? A menos
que seja possível encontrar entre elas uma regularidade e que
sejamos capazes de definir o sistema comum de sua formação.
Na análise dessas estratégias, tenho bastante dificuldade de
entrar em detalhes. A razão é simples: nos diferentes domínios
discursivos que enumerei, de uma forma bastante hesitante e,
sobretudo no início, sem controle metódico suficiente, tratava-se de
descrever, cada vez, a formação discursiva em todas as suas
dimensões e segundo suas características próprias: era preciso,
pois, definir, cada vez, as regras de formação dos objetos, das
modalidades enunciativas, dos conceitos, das escolhas teóricas.
Mas chegou-se à conclusão de que o ponto difícil da análise e
aquele que exigia mais atenção não eram sempre os mesmos. Na
Histoire de la folie, tratei de uma formação discursiva cujos pontos
de escolha teóricos eram bastante fáceis de ser demarcados, cujos
sistemas conceituais eram relativamente pouco numerosos e sem
complexidade, cujo regime enunciativo, enfim, era bastante
homogêneo e monótono; em compensação, o problema era a
emergência de todo um conjunto de objetos muito enredados e
complexos; tratava-se de descrever, antes de tudo, a formação
desses objetos para demarcar, em sua especificidade, o conjunto do
discurso psiquiátrico. Na Naissance de la clinique, o ponto
essencial da pesquisa era a maneira pela qual se modificaram, no
fim do século XVIII e início do XIX, as formas de enunciação do
discurso médico; a análise, então, havia-se voltado menos para a
formação dos sistemas conceituais, ou para a das escolhas teóricas,
do que para o status, o lugar institucional, a situação e os modos de
inserção do sujeito falante. Finalmente, em Les mots et les choses,
o estudo se referia, em sua parte principal, às redes de conceitos e
suas regras de formação (idênticas ou diferentes), tais como
podiam ser demarcadas na gramática geral, na história natural e na
análise das riquezas. Quanto às escolhas estratégicas, sua posição e
suas implicações foram indicadas (seja, por exemplo, a propósito
de Lineu e de Buffon, ou dos fisiocratas e dos utilitaristas); mas
sua demarcação permaneceu sumária e a análise quase não se
deteve em sua formação. Digamos que a análise das escolhas
teóricas ainda continuará incipiente até que se realize um estudo
ulterior em que ela possa reter o essencial da atenção.
A Arqueologia do Saber 73
No momento, só é possível indicar as direções da pesquisa. Poderiam,
assim, se resumir:
1. Determinar os pontos de difração possíveis do discurso. Tais
pontos se caracterizam inicialmente como pontos de incompatibilidade:
dois objetos ou dois tipos de enunciação, ou dois conceitos, podem
aparecer na mesma formação discursiva, sem poderem entrar -sob pena de
contradição manifesta ou inconsequência - em uma única e mesma série
de enunciados. Caracterizam-se, em seguida, como pontos de
equivalência: os dois elementos incompatíveis são formados da mesma
maneira e a partir das mesmas regras; suas condições de aparecimento são
idênticas; situam-se em um mesmo nível; e ao invés de constituírem uma
pura e simples falta de coerência, formam uma alternativa: mesmo que
segundo a cronologia não apareçam ao mesmo tempo, que não tenham
tido a mesma importância, e que não tenham sido representados, de modo
igual, na população dos enunciados efetivos, apresentam-se sob a forma
de "ou bem isso... ou bem aquilo". Finalmente, caracterizam-se como
pontos de ligação de uma sistematização: a partir de cada um desses
elementos, ao mesmo tempo equivalentes e incompatíveis, uma série
coerente de objetos, formas enunciativas, conceitos, foram derivados
(eventualmente, com novos pontos de incompatibilidade em cada série).
Em outros termos, as dispersões estudadas nos níveis precedentes não
constituem simplesmente desvios, não-identidades, séries descontínuas,
lacunas; podem chegar a formar subconjuntos discursivos - os mesmos
aos quais, habitualmente, se dá uma importância maior, como se fossem a
unidade imediata e a matéria-prima de que são feitos os conjuntos
discursivos mais vastos ("teorias", "concepções", "temas"). Por exemplo,
não se considera, em uma análise como esta, que a análise das riquezas,
no século XVIII, seja a resultante (por composição simultânea ou
sucessão cronológica) de diversas concepções diferentes da moeda, da
troca dos objetos de uso, da formação do valor e dos preços, ou da renda
fundiária; não se considera que ela seja feita das idéias de Cantillon que
substituem as de Petty, da experiência de Law, refletida sucessivamente
por teóricos diversos, e do sistema fisiocrático, que se opõe às concepções
utilitaristas. Ela é descrita mais exatamente como uma unidade de
distribuição que abre um campo de opções possíveis e permite a
arquiteturas diversas que se excluem aparecerem lado a lado ou cada uma
por sua vez.
2. Mas todos os jogos possíveis não estão efetivamente realizados: há
muitos conjuntos parciais, compatibilidades regionais, arquiteturas
coerentes, que poderiam ter aparecido e que não se manifestaram. Para
dar conta das escolhas - e apenas delas - que foram realizadas entre todas
as que o poderiam ter sido, é preciso descrever
74 Michel Foucault
instâncias específicas de decisão: em primeiro lugar, o papel
desempenhado pelo discurso estudado em relação aos que lhe são
contemporâneos e vizinhos. É preciso, pois, estudar a economia da
constelação discursiva à qual ele pertence. Esse discurso pode
desempenhar, na verdade, o papel de um sistema formal de que outros
discursos seriam as aplicações em campos semânticos diversos; pode ser,
ao contrário, o de um modelo concreto que é preciso levar a outros
discursos de um nível de abstração mais elevado (assim, a gramática
geral, nos séculos XVII e XVIII. aparece como um modelo particular da
teoria geral dos signos e da representação). O discurso estudado pode
estar também em uma relação de analogia, de oposição, ou de
complementaridade com alguns outros discursos (há, por exemplo,
relação de analogia, na época clássica, entre a analise das riquezas e a
história natural: a primeira é para a representação da necessidade e do
desejo o que a segunda é para a representação das percepções e dos
juízos; pode-se notar também que a história natural e a gramática geral se
opõem entre si como uma teoria dos caracteres naturais e uma teoria dos
signos de convenção; todas as duas, por sua vez, se opõem à análise das
riquezas, como o estudo dos signos qualitativos se opõe ao dos signos
quantitativos de medida; cada uma, enfim, desenvolve um dos três papéis
complementares do signo representativo: designar, classificar, trocar).
Podem-se finalmente descrever, entre diversos discursos, relações de
delimitação recíproca, cada um deles apresentando as marcas distintivas
de sua singularidade pela diferenciação de seu domínio, seus métodos,
seus instrumentos, seu domínio de aplicação (isso vale para a psiquiatria e
a medicina orgânica, que praticamente não se distinguiam uma da outra
antes do final do século XVIII e que estabelecem, a partir desse momento,
uma separação que as caracteriza). Todo esse jogo de relações constitui
um princípio de determinação que admite ou exclui, no interior de um
dado discurso, um certo número de enunciados: há sistematizações
conceituais, encadeamentos enunciativos, grupos e organizações de
objetos que teriam sido possíveis (e cuja ausência não pode ser justificada
no nível de suas regras próprias de formação), mas que são excluídos por
uma constelação discursiva de um nível mais elevado e de maior
extensão. Uma formação discursiva não ocupa, assim, todo o volume
possível que lhe abrem por direito os sistemas de formação de seus
objetos, de suas enunciações, de seus conceitos; ela é essencialmente
lacunar, em virtude do sistema de formação de suas escolhas estratégicas.
Daí o fato de que, uma vez retomada, situada e interpretada em uma nova
constelação, uma dada formação discursiva pode fazer aparecerem
possibilidades novas (assim, na distribuição atual dos discursos
científicos, a gramática de Port-Royal ou a taxionomia de Lineu podem
liberar
A Arqueologia do Saber 75
elementos que são, em relação a elas, ao mesmo tempo intrínsecos e
inéditos); mas não se trata de um conteúdo silencioso que teria
permanecido implícito, que teria sido dito sem sê-lo. e que constituiria,
sob enunciados manifestos, uma espécie de subdiscurso mais
fundamental, voltando agora à luz do dia; trata-se de uma modificação no
princípio de exclusão e de possibilidade das escolhas, modificação que é
devida à inserção em uma nova constelação discursiva.
3. A determinação das escolhas teóricas realmente efetuadas depende
também de uma outra instância. Essa instância se caracteriza, de início,
pela função que deve exercer o discurso estudado em um campo de
práticas não discursivas. Assim, a gramática geral desempenhou um
papel na prática pedagógica; de um modo muito mais manifesto e muito
mais importante, a análise das riquezas desempenhou um papel não só nas
decisões políticas e econômicas dos governos, mas nas práticas
cotidianas, pouco conceitualizadas e pouco teorizadas, do capitalismo
nascente e nas lutas sociais e políticas que caracterizaram a época
clássica. Essa instância compreende também o regime e os processos de
apropriação do discurso: pois, em nossas sociedades (e em muitas outras,
sem dúvida), a propriedade do discurso - entendida ao mesmo tempo
como direito de falar, competência para compreender, acesso lícito e
imediato ao corpus dos enunciados já formulados, capacidade, enfim, de
investir esse discurso em decisões, instituições ou práticas - está reservada
de fato (às vezes mesmo, de modo regulamentar) a um grupo determinado
de indivíduos; nas sociedades burguesas que conhecemos desde o século
XVI, o discurso econômico jamais foi um discurso comum (não mais que
o discurso médico, ou o discurso literário, ainda que de outro modo).
Finalmente, essa instância se caracteriza pelas posições possíveis do
desejo em relação do discurso: este, na verdade, pode ser o local de uma
encenação fantasmática, elemento de simbolização, forma do proibido,
instrumento de satisfação derivada (essa possibilidade de estar
relacionado com o desejo não é apenas o fato do exercício poético,
romanesco ou imaginário do discurso: os discursos sobre a riqueza,
linguagem, natureza, loucura, vida e morte, e muitos outros talvez, que
são muito mais abstratos, podem ocupar, em relação ao desejo, relações
bem determinadas). De qualquer modo. a análise dessa instância deve
mostrar que nem a relação do discurso com o desejo, nem os processos de
sua apropriação, nem seu papel entre as práticas não discursivas são
extrinsecos à sua unidade, à sua caracterização, e às leis de sua formação.
Não são elementos perturbadores que, superpondo-se à sua forma pura,
neutra, intemporal e silenciosa, a reprimiriam e fariam falar em seu lugar
um discurso mascarado, mas sim elementos formadores.
76 Michel Foucault
Uma formação discursiva será individualizada se se puder
definir o sistema de formação das diferentes estratégias que nela se
desenrolam; em outros termos, se se puder mostrar como todas
derivam (malgrado sua diversidade por vezes extrema, malgrado
sua dispersão no tempo) de um mesmo jogo de relações. Por
exemplo, a análise das riquezas, nos séculos XVII e XVIII, é
caracterizada pelo sistema que pôde formar, ao mesmo tempo, o
mercantilismo de Colbert e o "neomercantilismo" de Cantillon; a
estratégia de Law e a de Paris-Duverney; a opção fisiocrática e a
opção utilitarista. Esse sistema será definido se se puder descrever
como os pontos de difração do discurso econômico derivam uns
dos outros, se comandam e se pressupõem (como de uma decisão a
propósito do conceito de valor deriva um ponto de escolha a
propósito dos preços); como as escolhas efetuadas dependem da
constelação geral em que figura o discurso econômico (a escolha
em favor da moeda-signo está ligada ao lugar ocupado pela análise
das riquezas, ao lado da teoria da linguagem, da análise das
representações, das mathesis e da ciência da ordem); como essas
escolhas estão ligadas à função exercida pelo discurso econômico
na prática do capitalismo nascente, ao processo de apropriação de
que é objeto por parte da burguesia, ao papel que pode
desempenhar na realização dos interesses e dos desejos. O discurso
econômico, na época clássica, define-se por uma certa maneira
constante de relacionar possibilidades de sistematização interiores
a um discurso, outros discursos que lhe são exteriores e todo um
campo, não discursivo, de práticas, de apropriação, de interesses e
de desejos.
É preciso notar que as estratégias assim descritas não se
enraízam, aquém do discurso, na profundidade muda de uma
escolha ao mesmo tempo preliminar e fundamental. Todos esses
grupamentos de enunciados que devemos descrever não são a
expressão de uma visão do mundo que teria sido cunhada sob a
forma de palavras, nem a tradução hipócrita de um interesse
abrigado sob o pretexto de uma teoria: a história natural na época
clássica é diferente do confronto, nos limbos que precedem a
história manifesta, entre uma visão (lineana) de um universo
estático, ordenado, compartimentado e sabiamente oferecido desde
sua origem ao esquadrinhamento classificatório, e a percepção,
ainda um pouco confusa, de uma natureza herdeira do tempo, com
o peso de seus acidentes, e
A Arqueologia do Saber 77
aberta à possibilidade de uma evolução; da mesma forma, a análise
das riquezas é diferente do conflito de interesses entre uma
burguesia que se tornou proprietária fundiária e exprime suas
reivindicações econômicas ou políticas pela voz dos fisiocratas, e
uma burguesia comerciante que pedia medidas protecionistas ou
liberais por meio dos utilitaristas. Se as interrogarmos no nível de
sua existência, unidade, permanência e transformações, nem a
análise das riquezas nem a história natural poderão ser
consideradas como a soma dessas opções diversas. Estas, ao
contrário, devem ser descritas como maneiras sistematicamente
diferentes de tratar objetos de discurso (de delimitá-los,
reagrupá-los ou separá-los, encadeá-los e fazê-los derivar uns dos
outros), de dispor formas de enunciações (de escolhê-las,
organizá-las, constituir séries, compô-las em grandes unidades
retóricas), de manipular conceitos (de lhes dar regras de utilização,
fazê-los entrar em coerências regionais e constituir, assim,
arquiteturas conceituais). Essas opções não são germes de
discursos (onde estes seriam determinados com antecedência e
prefigurados sob uma forma quase microscópica); são maneiras
reguladas (e descritíveis como tais) de utilizar possibilidades de
discursos.
Mas estas estratégias não devem ser analisadas tampouco como
elementos secundários que viriam sobrecarregar uma racionalidade
discursiva, por direito independente deles. Não há (ou pelo menos
não se pode admitir para a descrição histórica cuja possibilidade
aqui traçamos) uma espécie de discurso ideal, ao mesmo tempo
último e intemporal, que escolhas de origem extrínseca teriam
pervertido, desordenado, reprimido, lançado para um futuro talvez
muito longínquo; não se deve supor, por exemplo, que existam,
sobre a natureza ou sobre a economia, dois discursos superpostos e
misturados: um, que prossegue lentamente, que acumula suas
aquisições e, pouco a pouco, se completa (discurso verdadeiro, mas
que só existe em sua pureza nos confins teleológicos da história); o
outro, sempre arruinado, sempre recomeçado, em contínua ruptura
consigo mesmo, composto de fragmentos heterogêneos (discursos
de opinião que a história, ao longo do tempo, lança para o
passado). Não há uma taxionomia natural que tenha sido exata,
excetuando-se o fixismo; não há uma economia da troca e do uso
que tenha sido verdadeira, sem as preferências e as ilusões de uma
burguesia mercantil.
78 Michel Foucault
A taxionomia clássica ou a análise das riquezas tais como existiram
efetivamente, e tais como constituíram figuras históricas,
compreendem, em um sistema articulado mas indissociável,
objetos, enunciações, conceitos e escolhas teóricas. E, assim, como
não seria preciso relacionar a formação dos objetos nem às
palavras nem às coisas, a das enunciações, nem à forma pura do
conhecimento nem ao sujeito psicológico, a dos conceitos, nem à
estrutura da idealidade nem à sucessão das idéias, não é preciso
relacionar a formação das escolhas teóricas nem a um projeto
fundamental nem ao jogo secundário das opiniões.
7
OBSERVAÇÕES E CONSEQUÊNCIAS
É preciso agora retomar um certo número de indicações
esparsas nas análises precedentes, responder a algumas questões
por elas colocadas, e considerar, antes de tudo, a objeção que
ameaça apresentar-se, pois o paradoxo da empresa logo aparece.
De início, eu havia questionado as unidades preestabelecidas
segundo as quais escandimos tradicionalmente o domínio
indefinido, monótono, abundante do discurso. Não se tratava de
contestar o valor de tais unidades ou de querer proibir seu uso, mas
de mostrar que elas reclamam, para serem definidas exatamente,
uma elaboração teórica. Entretanto - e é neste ponto que todas as
análises precedentes parecem bastante problemáticas -, seria
necessário sobrepor a essas unidades, talvez na verdade um pouco
incertas, uma outra categoria de unidades menos visíveis, mais
abstratas e, sem dúvida, bem mais problemáticas? Mesmo no caso
em que seus limites históricos e a especificidade de sua
organização são bastante fáceis de ser percebidos (como prova a
gramática geral ou a história natural), essas formações discursivas
colocam problemas de demarcação bem mais difíceis que o livro
ou a obra. Por que, então, proceder a reagrupamentos tão
duvidosos justamente no momento em que se problematizam
aqueles que pareciam os mais evidentes? Que domínio novo se
espera
80 Michel Foucault
descobrir? Que relações permanecem ainda obscuras ou
implícitas? Que transformações ainda permaneceram fora do
alcance dos historiadores? Em suma, que eficácia descritiva se
pode atribuir a essas novas análises? Tentarei responder a todas
essas perguntas mais adiante. Mas é preciso, desde já, responder a
uma questão primordial em relação às análises ulteriores, e
terminal em relação às precedentes: na verdade, tem-se o direito de
falar de unidades a propósito das formações discursivas que tentei
definir? O recorte que se propõe é capaz de individualizar
conjuntos? E qual é a natureza da unidade assim descoberta ou
construída?
Havíamos partido de uma constatação: com a unidade de um
discurso como o da medicina clínica, ou da economia política, ou
da história natural, tratamos de uma dispersão de elementos. Ora,
essa própria dispersão - com suas lacunas, falhas, desordens,
superposições, incompatibilidades, trocas e substituições - pode ser
descrita, em sua singularidade, se formos capazes de determinar as
regras específicas segundo as quais foram formados objetos,
enunciações, conceitos, opções teóricas: se há unidade, ela não está
na coerência visível e horizontal dos elementos formados; reside,
muito antes, no sistema que torna possível e rege sua formação.
Mas com que direito se pode falar de unidades e de sistemas?
Como afirmar que individualizamos bem conjuntos discursivos, se,
por trás da multiplicidade aparentemente irredutível dos objetos,
enunciações, conceitos e escolhas, utilizamos, de maneira bastante
temerária, uma massa de elementos que não eram menos
numerosos nem menos dispersos, mas que, além disso, eram
heterogêneos entre si? Se repartimos todos esses elementos em
quatro grupos distintos cujo modo de articulação quase não foi
definido? E em que sentido podemos dizer que todos esses
elementos descobertos por trás dos objetos, enunciações, conceitos
e estratégias dos discursos asseguram a existência de conjuntos não
menos individualizáveis que obras ou livros?
1. Vimos que - e, sem dúvida, não há necessidade de voltarmos
ao assunto -, quando se fala de um sistema de formação, não se
compreende somente a justaposição, a coexistência ou a interação
de elementos heterogêneos (instituições, técnicas, grupos sociais,
organizações perceptivas, relações entre
A Arqueologia do Saber 81
discursos diversos), mas seu relacionamento - sob uma forma bem
determinada - estabelecido pela prática discursiva. Mas o que são,
por sua vez, esses quatro sistemas, ou melhor, esses quatro feixes
de relações? Como podem definir para todos eles um sistema
único de formação?
É que os diferentes níveis, assim definidos, não são
independentes uns dos outros. Mostramos que as escolhas
estratégicas não surgem diretamente de uma visão de mundo ou de
uma predominância de interesses que pertenceriam a este ou àquele
sujeito falante; mas que sua própria possibilidade é determinada
por pontos de divergência no jogo dos conceitos; mostramos
também que os conceitos não eram formados diretamente sobre o
fundo aproximativo, confuso e vivo das idéias, mas a partir das
formas de coexistência entre os enunciados; quanto às modalidades
de enunciação, vimos que eram descritas a partir da posição que o
sujeito ocupa em relação ao domínio de objetos de que fala. Desta
maneira, existe um sistema vertical de dependências: todas as
posições do sujeito, todos os tipos de coexistência entre
enunciados, todas as estratégias discursivas não são igualmente
possíveis, mas somente as que são autorizadas pelos níveis
anteriores; considerando-se, por exemplo, o sistema de formação
que rege, no século XVIII, os objetos da história natural (como
individualidades portadoras de caracteres e por isso classificáveis;
como elementos estruturais suscetíveis de variações; como
superfícies visíveis e analisáveis; como campo de diferenças
contínuas e regulares), certas modalidades de enunciação são
excluídas (por exemplo, a decifração dos signos), outras estão
implícitas (por exemplo, a descrição segundo um código
determinado); da mesma forma, considerando-se as diferentes
posições que o sujeito do discurso pode ocupar (como sujeito que
observa sem mediação instrumental, como sujeito que tira da
pluralidade perceptiva os únicos elementos da estrutura, como
sujeito que transcreve esses elementos em um vocabulário
codificado etc), há um certo número de coexistências entre os
enunciados que são excluídas (como, por exemplo, a reativação
erudita do já dito, ou o comentário exegético de um texto
sacralizado); outras, ao contrário, que são possíveis ou requeridas
(com a integração de enunciados total ou parcialmente análogos
em um quadro classificatório). Os níveis não são. pois, livres, uns
em relação aos outros, e não se
82 Michel Foucault
desenvolvem segundo uma autonomia sem limite: da diferenciação
primária dos objetos à formação das estratégias discursivas existe
toda uma hierarquia de relações.
Mas as relações se estabelecem igualmente em uma direção
inversa. Os níveis inferiores não são independentes dos que lhes
são superiores. As escolhas teóricas excluem ou implicam, nos
enunciados que as efetuam, a formação de certos conceitos, isto é,
certas formas de coexistência entre os enunciados: assim, nos
textos dos fisiocratas, não encontraremos modos de integração dos
dados quantitativos e das medidas semelhantes aos das análises
feitas pelos utilitaristas. Não é que a opção fisiocrática possa
modificar o conjunto das regras que asseguram a formação dos
conceitos econômicos do século XVIII; mas ela pode utilizar ou
excluir algumas dessas regras e, em consequência disso, fazer com
que apareçam certos conceitos que não se apresentam em nenhum
outro lugar (como, por exemplo, o de produto líquido). Não foi a
escolha teórica que regulou a formação do conceito; mas ela o
produziu por intermédio das regras específicas de formação dos
conceitos e pelo jogo das relações que mantém com esse nível.
2. Esses sistemas de formação não devem ser tomados como
blocos de imobilidade, formas estáticas que se imporiam do
exterior ao discurso e definiriam, de uma vez por todas, seus
caracteres e possibilidades. Não são coações que teriam sua origem
nos pensamentos dos homens, ou no jogo de suas representações;
mas não são, tampouco, determinações que, formadas no nível das
instituições ou das relações sociais ou da economia, viriam
transcrever-se, à força, na superfície dos discursos. Esses sistemas
- já insistimos nisso - residem no próprio discurso; ou antes (já que
não se trata de sua interioridade e do que ela pode conter, mas de
sua existência específica e de suas condições) em suas fronteiras,
nesse limite em que se definem as regras específicas que fazem
com que exista como tal. Por sistema de formação é preciso, pois,
compreender um feixe complexo de relações que funcionam como
regra: ele prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática
discursiva, para que esta se refira a tal ou tal objeto, para que
empregue tal ou tal enunciação, para que utilize tal ou tal conceito,
para que organize tal ou tal estratégia. Definir em sua
individualidade singular um sistema de formação é,
A Arqueologia do Saber 83
assim. caracterizar um discurso ou um grupo de enunciados pela
regularidade de uma prática.
Conjunto de regras para uma prática discursiva, o sistema de
formação não é estranho ao tempo. Não reúne tudo que pode
aparecer, através de uma série secular de enunciados, em um ponto
inicial que seria, ao mesmo tempo, começo, origem, fundamento,
sistema de axiomas, e a partir do qual as peripécias da história real
só se desenrolariam de maneira inteiramente necessária. O que ele
delineia é o sistema de regras que teve de ser colocado em prática
para que tal objeto se transformasse, tal enunciação nova
aparecesse, tal conceito se elaborasse, metamorfoseado ou
importado, tal estratégia fosse modificada - sem deixar de
pertencer a esse mesmo discurso; e o que delineia, também, é o
sistema de regras que teve de ser empregado para que uma
mudança em outros discursos (em outras práticas, nas instituições,
relações sociais, processos econômicos) pudesse ser transcrita no
interior de um discurso dado, constituindo assim um novo objeto,
suscitando uma nova estratégia, dando lugar a novas enunciações
ou novos conceitos. Uma formação discursiva não desempenha,
pois, o papel de uma figura que pára o tempo e o congela por
décadas ou séculos: ela determina uma regularidade própria de
processos temporais; coloca o princípio de articulação entre uma
série de acontecimentos discursivos e outras séries de
acontecimentos, transformações, mutações e processos. Não se
trata de uma forma intemporal, mas de um esquema de
correspondência entre diversas séries temporais.
Essa mobilidade do sistema de formação ocorre de duas formas.
Inicialmente, no nível dos elementos que estão relacionados: estes,
na verdade, podem sofrer um certo número de mutações intrínsecas
que são integradas à prática discursiva, sem que seja alterada a
forma geral de sua regularidade; assim, durante todo o século XIX,
a jurisprudência criminal, a pressão demográfica, a demanda de
mão-de-obra, as formas de assistência, o status e as condições
jurídicas do internamente não deixaram de se modificar; entretanto,
a prática discursiva da psiquiatria continuou a estabelecer entre
estes elementos um mesmo conjunto de relações; de modo que o
sistema conservou os caracteres de sua individualidade; através das
mesmas leis de formação, novos objetos aparecem (novos tipos de
indivíduos, novas classes de comportamento
84 Michel Foucault
são caracterizadas como patológicas), novas modalidades de
enunciação são empregadas (notações quantitativas e cálculos
estatísticos), novos conceitos são delineados (como os de
degenerescência, perversidade, neurose) e, certamente, novos
edifícios teóricos podem ser construídos. Mas, inversamente, as
práticas discursivas modificam os domínios por elas relacionados.
Por mais que se esforçassem em instaurar relações específicas que
só podem ser analisadas em seu próprio nível, essas relações não
exercem seus efeitos apenas no discurso; inscrevem-se também nos
elementos por elas articulados uns com os outros. O campo
hospitalar, por exemplo, não permaneceu imutável, uma vez que,
pelo discurso clínico, foi relacionado ao laboratório; sua
ordenação, o status que é atribuído ao médico, a função de sua
observação, o nível de análise que aí se pode efetuar viram-se
necessariamente modificados.
3. O que se descreve como "sistemas de formação" não
constitui a etapa final dos discursos, se por este termo entendemos
os textos (ou as falas) tais como se apresentam com seu
vocabulário, sintaxe, estrutura lógica ou organização retórica. A
análise permanece aquém desse nível manifesto, que é o da
construção acabada: definindo o princípio de distribuição dos
objetos em um discurso, ela não dá conta de todas as suas
conexões, de sua estrutura delicada, nem de suas subdivisões
internas; buscando a lei de dispersão dos conceitos, não dá conta de
todos os processos de elaboração, nem de todas as cadeias
dedutivas nas quais eles podem figurar; se ela estuda as
modalidades de enunciação, não põe em questão nem o estilo, nem
o encadeamento das frases; em suma, deixa em pontilhado a
disposição final do texto. Mas é preciso que fique claro que se ela
permanece na retaguarda em relação a esta construção última, não
é para se desviar do discurso e apelar para o trabalho mudo do
pensamento; não é, tampouco, para se desviar do sistemático e
revelar a desordem "viva" dos ensaios, tentativas, erros e
recomeços.
Quanto a isso, a análise das formações discursivas se opõe a
muitas descrições habituais. Na verdade, temos o costume de
considerar que os discursos e sua ordenação sistemática não são
mais que o estado final, o resultado em última instância de uma
elaboração, há muito tempo sinuosa, em que estão em jogo a língua
e o pensamento, a experiência empírica e as
A Arqueologia do Saber 85
categorias, o vivido e as necessidades ideais, a contingência dos
acontecimentos e o jogo das coações formais. Atrás da fachada
visível do sistema, supomos a rica incerteza da desordem; e sob a
fina superfície do discurso, toda a massa de um devir em parte
silencioso: um "pré-sistemático" que não é da ordem do sistema;
um "pré-discursivo" que se apóia em um essencial mutismo.
Discurso e sistema só se produziriam - e conjuntamente - na crista
dessa imensa reserva. Ora, o que se analisa aqui não são,
certamente, os estados terminais do discurso, mas sim os sistemas
que tornam possíveis as formas sistemáticas últimas; são
regularidades pré-terminais em relação às quais o estado final,
longe de constituir o lugar de nascimento do sistema, se define,
antes, por suas variantes. Atrás do sistema acabado, o que a análise
das formações descobre não é a própria vida em efervescência, a
vida ainda não capturada, mas sim uma espessura imensa de
sistematicidades, um conjunto cerrado de relações múltiplas. Além
disso, essas relações, por mais que se esforcem para não serem a
própria trama do texto, não são, por natureza, estranhas ao
discurso. Pode-se mesmo qualificá-las de "pré-discursivas", mas
com a condição de que se admita que esse pré-discursivo pertence,
ainda, ao discursivo, isto é, que elas não especificam um
pensamento, uma consciência ou um conjunto de representações
que seriam, mais tarde, e de uma forma jamais inteiramente
necessária, transcritas em um discurso, mas que caracterizam
certos níveis do discurso, definem regras que ele atualiza enquanto
prática singular. Não procuramos, pois, passar do texto ao
pensamento, da conversa ao silêncio, do exterior ao interior, da
dispersão espacial ao puro recolhimento do instante, da
multiplicidade superficial à unidade profunda. Permanecemos na
dimensão do discurso.

III
O ENUNCIADO E O ARQUIVO

1

DEFINIR O ENUNCIADO
Suponho, agora, que o risco tenha sido aceito; que se tenha
admitido de bom grado, para articular a grande superfície dos
discursos, essas figuras um pouco estranhas, um pouco longínquas,
que chamei formações discursivas; que se tenha posto de lado, não
de forma definitiva, mas por algum tempo e por uma questão de
método, as unidades tradicionais do livro e da obra; que se deixe de
tomar como princípio de unidade as leis de construção do discurso
(com a organização formal que daí resulta), ou a situação do
sujeito falante (com o contexto e o núcleo psicológico que a
caracterizam); que não mais se relacione o discurso ao solo inicial
de uma experiência nem à instância a priori de um conhecimento;
mas que nele mesmo o interroguemos sobre as regras de sua
formação. Suponho que se aceite empreender essas longas
pesquisas sobre o sistema de emergência dos objetos, de
aparecimento e de distribuição dos modos enunciativos, de
posicionamento e de dispersão dos conceitos, de desenvolvimento
das escolhas estratégicas. Suponho que se queira construir
unidades igualmente abstratas e problemáticas, ao invés de acolher
as que eram apresentadas com indubitável evidência, ou, pelo
menos, com uma familiaridade quase perceptiva.
Mas, de fato, de que falei até aqui? Qual foi o objeto de minha
pesquisa? E estava em meus propósitos descrever o quê?
90 Michel Foucault
"Enunciados" - nessa descontinuidade que os liberta de todas as
formas em que, tão facilmente, aceitava-se fossem tomados, e ao
mesmo tempo no campo geral, ilimitado, aparentemente sem
forma, do discurso. Ora, tive o cuidado de não dar uma definição
preliminar de enunciado. Não tentei construí-la, à medida que
avançava, para justificar a ingenuidade de meu ponto de partida.
Muito mais - e esta é, sem dúvida, a sanção para tanta negligência -
eu me pergunto se, ao longo do caminho, não mudei de orientação;
se não substituí o horizonte inicial por outra pesquisa; se,
analisando "objetos" ou "conceitos", e principalmente
"estratégias", era ainda dos enunciados que eu falava; se os quatro
conjuntos de regras pelos quais eu caracterizava uma formação
discursiva definem grupos de enunciados. Finalmente, em lugar de
estreitar, pouco a pouco, a significação tão flutuante da palavra
"discurso", creio ter-lhe multiplicado os sentidos: ora domínio
geral de todos os enunciados, ora grupo individualizável de
enunciados, ora prática regulamentada dando conta de um certo
número de enunciados; e a própria palavra "discurso", que deveria
servir de limite e de invólucro ao termo "enunciado", não a fiz
variar à medida que deslocava minha análise ou seu ponto de
aplicação, à medida que perdia de vista o próprio enunciado?
Eis, portanto, a tarefa atual: retomar em sua raiz a definição do
enunciado e ver se ela é efetivamente empregada nas descrições
anteriores; ver se é mesmo do enunciado que se trata na análise das
formações discursivas.
Repetidas vezes usei o termo "enunciado", seja para falar (como
se se tratasse de indivíduos ou acontecimentos singulares) de uma
"população de enunciados", seja para opô-lo (como a parte se
distingue do todo) aos conjuntos que seriam os "discursos". À
primeira vista, o enunciado aparece como um elemento último,
indecomponível, suscetível de ser isolado em si mesmo e capaz de
entrar em um jogo de relações com outros elementos semelhantes a
ele; como um ponto sem superfície mas que pode ser demarcado
em planos de repartição e em formas específicas de grupamentos;
como um grão que aparece na superfície de um tecido de que é o
elemento constituinte; como um átomo do discurso.
E logo o problema se coloca: se o enunciado é a unidade
elementar do discurso, em que consiste? Quais são os seus
A Arqueologia do Saber 91
traços distintivos? Que limites devemos nele reconhecer? Essa
unidade é ou não idêntica à que os lógicos designaram pelo termo
proposição, à que os gramáticos caracterizam como frase, ou,
ainda, à que os "analistas" tentam demarcar sob o título speech
act? Que lugar ocupa entre todas as unidades já descobertas pela
investigação da linguagem, mas cuja teoria, muito frequentemente,
está longe de ser acabada, tão difíceis os problemas que colocam,
tão penoso, em muitos casos, delimitá-las de forma rigorosa?
Não acredito que a condição necessária e suficiente para que
haja enunciado seja a presença de uma estrutura proposicional
definida, e que se possa falar de enunciado todas as vezes em que
houver proposição e apenas neste caso. Pode-se, na verdade, ter
dois enunciados perfeitamente distintos que se referem a
grupamentos discursivos bem diferentes, onde não se encontra
mais que uma proposição, suscetível de um único e mesmo valor,
obedecendo a um único e mesmo conjunto de leis de construção e
admitindo as mesmas possibilidades de utilização. "Ninguém
ouviu" e "é verdade que ninguém ouviu" são indiscerníveis do
ponto de vista lógico e não podem ser consideradas como duas
proposições diferentes. Ora, enquanto enunciados, estas duas
formulações não são equivalentes nem intercambiáveis. Não se
podem encontrar em um mesmo lugar no plano do discurso, nem
pertencer exatamente ao mesmo grupo de enunciados. Se
encontramos a fórmula "Ninguém ouviu" na primeira linha de um
romance, sabe-se, até segunda ordem, que se trata de uma
constatação feita seja pelo autor, seja por um personagem (em voz
alta ou sob a forma de um monólogo interior); se encontramos a
segunda formulação "É verdade que ninguém ouviu", só podemos
estar em um jogo de enunciados que constitui um monólogo
interior, uma discussão muda, uma contestação consigo mesmo, ou
um fragmento de diálogo, um conjunto de questões e de respostas.
Nos dois casos, trata-se da mesma estrutura proposicional, mas de
caracteres enunciativos bastante distintos. Pode haver, ao contrário,
formas proposicionais complexas e redobradas, ou, ao contrário,
proposições fragmentárias e inacabadas, aí onde evidentemente se
trata de um enunciado simples, completo e autônomo (mesmo se
fizer parte de todo um conjunto de outros enunciados):
conhecemos o exemplo "O atual rei da França é careca" (que só
pode
92 Michel Foucault
ser analisado do ponto de vista lógico se se reconhecer, sob as
formas de um enunciado único, duas proposições distintas, cada
uma suscetível de ser verdadeira ou falsa em si mesma), ou, ainda,
o exemplo de uma proposição como "Minto" que só pode ser
verdadeira em sua relação com uma asserção de nível inferior. Os
critérios que permitem definir a identidade de uma proposição,
distinguir várias delas sob a unidade de uma formulação,
caracterizar sua autonomia ou sua propriedade de ser completa,
não servem para descrever a unidade singular de um enunciado.
E a frase? Não seria preciso admitir uma equivalência entre
frase e enunciado? Sempre que existe uma frase gramaticalmente
isolável, pode-se reconhecer a existência de um enunciado
independente; mas, em compensação, não se pode mais falar de
enunciado quando, sob a própria frase, chega-se ao nível de seus
constituintes. De nada adiantaria alegar, contra essa equivalência,
que alguns enunciados podem ser compostos - fora da forma
canônica sujeito-ligação-predicado - por um simples sintagma
nominal ("Este homem!") ou por um advérbio ("Perfeitamente"),
ou por um pronome pessoal ("Você"). Os próprios gramáticos
reconhecem, em semelhantes formulações, frases independentes,
mesmo que tenham sido obtidas por uma série de transformações a
partir do esquema sujeito-predicado. Além disso, atribuem o status
de frases "aceitáveis" a conjuntos de elementos linguísticos que
não foram corretamente construídos, contanto que sejam
interpretáveis; atribuem, em compensação, o status de frases
gramaticais a conjuntos interpretáveis, contanto que tenham sido
corretamente formados. Com uma definição tão vasta - e, em um
sentido, tão laxista - da frase, não se vê como reconhecer frases
que não sejam enunciados, ou enunciados que não sejam frases.
Entretanto, a equivalência está longe de ser total, e é
relativamente fácil citar enunciados que não correspondem à
estrutura linguística das frases. Quando encontramos em uma
gramática latina uma série de palavras dispostas em coluna -amo,
amas, amat -, não lidamos com uma frase, mas com o enunciado
das diferentes flexões pessoais do indicativo presente do verbo
amare. Talvez se ache o exemplo discutível; talvez se possa dizer
que se trata de um simples artifício de apresentação, que esse
enunciado é uma frase elítica,
A Arqueologia do Saber 93
abreviada, espacializada de modo relativamente não usual, e que é
preciso lê-lo como a frase "O presente do indicativo do verbo
amare é amo para a primeira pessoa" etc. De qualquer forma,
outros exemplos são menos ambíguos: um quadro classificatório
das espécies botânicas é constituído de enunciados, não de frases
(Genera plantarum de Lineu é um livro inteiramente constituído de
enunciados, em que não podemos reconhecer mais que um número
restrito de frases); uma árvore genealógica, um livro contábil, as
estimativas de um balanço comercial, são enunciados: onde estão
as frases? Pode-se ir mais longe: uma equação de enésimo grau ou
a fórmula algébrica da lei da refração devem ser consideradas
como enunciados; e se possuem uma gramaticalidade muito
rigorosa (já que são compostas de símbolos cujo sentido é
determinado por regras de uso e pela sucessão regida por leis de
construção), não se trata dos mesmos critérios que permitem, em
uma língua natural, definir uma frase aceitável ou interpretável.
Finalmente, um gráfico, uma curva de crescimento, uma pirâmide
de idades, um esboço de repartição, formam enunciados; quanto às
frases de que podem estar acompanhados, elas são sua
interpretação ou comentário; não são o equivalente deles: a prova é
que, em muitos casos, apenas um número infinito de frases poderia
equivaler a todos os elementos que estão explicitamente
formulados nessa espécie de enunciados. Não parece possível,
assim, definir um enunciado pelos caracteres gramaticais da frase.
Permanece uma última possibilidade: à primeira vista, a mais
verossímil de todas. Seria possível dizer que existe enunciado
sempre que se possa reconhecer e isolar um ato de formulação -
algo como o speech act, esse ato "ilocutório" de que falam os
"analistas" ingleses? É claro que não se visa com isso ao ato
material que consiste em falar (em voz alta ou baixa) e em escrever
(à mão ou à máquina); não se visa tampouco à intenção do
indivíduo que está falando (o fato de que quer convencer, que
deseja ser obedecido, que procura descobrir a solução de um
problema ou que deseja dar notícias); não se designa tampouco o
resultado eventual do que ele disse (se convenceu ou suscitou
desconfiança; se foi ouvido e se suas ordens foram cumpridas; se
sua prece foi compreendida); descreve-se a operação que foi
efetuada pela própria fórmula, em sua emergência: promessa,
ordem, decreto, contrato,
94 Michel Foucault
compromisso, constatação. O ato ilocutório não é o que ocorreu
antes do momento do enunciado (no pensamento do autor ou no
jogo de suas intenções); não é o que se pôde produzir, depois do
próprio enunciado, no sulco que deixou atrás de si e nas
consequências que provocou; mas sim o que se produziu pelo
próprio fato de ter sido enunciado - e precisamente esse enunciado
(e nenhum outro) em circunstâncias bem determinadas. Pode-se,
então, supor que a individualização dos enunciados depende dos
mesmos critérios que a demarcação dos atos de formulação: cada
ato tomaria corpo em um enunciado e cada enunciado seria,
internamente, habitado por um desses atos. Existiriam um pelo
outro e em uma exata reciprocidade.
Semelhante correlação, entretanto, não resiste à crítica. É
preciso, frequentemente, mais de um enunciado para efetuar um
speech act: juramento, prece, contrato, promessa, demonstração
exigem, na maior parte do tempo, um certo número de fórmulas
distintas ou de frases separadas: seria difícil contestar, em cada
uma delas, o status de enunciado, sob o pretexto de que são todas
atravessadas por um único e mesmo ato ilocutório. Talvez se diga
que, nesse caso, o próprio ato não permanece único ao longo da
série dos enunciados; que há, em uma prece, tantos atos de prece
limitados, sucessivos e justapostos quantas forem as exigências
formuladas por enunciados distintos; e que há, em uma promessa,
tantos comprometimentos quantas forem as sequências
individualizáveis em enunciados separados. Não poderíamos,
entretanto, nos satisfazer com esta resposta: inicialmente porque o
ato de formulação não serviria mais para definir o enunciado, mas
deveria ser, ao contrário, definido por este - que justamente
constitui problema e requer critérios de individualização. Além
disso, certos atos ilocutórios só podem ser considerados como
acabados em sua unidade singular se vários enunciados tiverem
sido articulados, cada um no lugar que lhe convém. Esses atos são,
pois, constituídos pela série ou soma desses enunciados, por sua
necessária justaposição; não se pode considerar que estejam
inteiramente presentes no menor deles, e que se renovem com cada
um. Aqui também não se poderia estabelecer uma relação
biunívoca entre o conjunto dos enunciados e o dos atos ilocutórios.
Quando se quer individualizar os enunciados, não se pode
admitir sem reservas nenhum dos modelos tomados de
A Arqueologia do Saber 95
empréstimo à gramática, à lógica ou à "análise". Nos três casos,
percebe-se que os critérios propostos são demasiado numerosos e
pesados, que não deixam ao enunciado toda a sua extensão, e que
se, às vezes, o enunciado assume as formas descritas e a elas se
ajusta exatamente, acontece também que não lhes obedece:
encontramos enunciados sem estrutura proposicional legítima;
encontramos enunciados onde não se pode reconhecer nenhuma
frase; encontramos mais enunciados do que os speech acts que
podemos isolar, como se o enunciado fosse mais tênue, menos
carregado de determinações, menos fortemente estruturado, mais
onipresente, também, que todas essas figuras; como se seus
caracteres fossem em número menor e menos difíceis de serem
reunidos; mas como se, por isso mesmo, ele recusasse toda
possibilidade de descrição. E isso se acentua na medida em que
não se vê bem em que nível situá-lo, nem por que método
abordá-lo: para todas as análises que acabamos de evocar, ele
nunca passa de suporte ou substância acidental: na análise lógica, é
o que "resta" quando se extrai e define a estrutura de proposição;
para a análise gramatical, é a série de elementos linguísticos na
qual se pode reconhecer, ou não, a forma de uma frase; para a
análise dos atos de linguagem, aparece como o corpo visível no
qual eles se manifestam. Em relação a todas essas abordagens
descritivas, desempenha o papel de um elemento residual, puro e
simples de fato, de material não pertinente.
Será preciso finalmente admitir que o enunciado não pode ter
caráter próprio e que não é suscetível de definição adequada, na
medida em que é, para todas as análises da linguagem, a matéria
extrínseca a partir da qual elas determinaram seu objeto? Será
preciso admitir que qualquer série de signos, de figuras, de
grafismos ou de traços - não importa qual seja sua organização ou
probabilidade - é suficiente para constituir um enunciado, e que
cabe à gramática dizer se se trata ou não de uma frase; à lógica,
definir se ela comporta ou não uma forma proposicional; e à
análise, precisar qual é o ato de linguagem que pode atravessá-la?
Neste caso, seria necessário admitir que há enunciado desde que
existam vários signos justapostos - e por que não, talvez? - desde
que exista um e somente um. O limiar do enunciado seria o limiar
da existência dos signos. Entretanto, ainda aqui, as coisas não são
tão simples, e o sentido que é preciso dar a uma expressão como
96 Michel Foucault
"a existência dos signos" precisa ser elucidado. O que queremos
dizer quando afirmamos que há signos, e que basta que haja signos
para que haja enunciado? Que status singular atribuir a esse "há"?
É evidente que os enunciados não existem no sentido em que
uma língua existe e, com ela, um conjunto de signos definidos por
seus traços oposicionais e suas regras de utilização; a língua, na
verdade, jamais se apresenta em si mesma e em sua totalidade; só
poderia sê-lo de uma forma secundária e pelo expediente de uma
descrição que a tomaria por objeto; os signos que constituem seus
elementos são formas que se impõem aos enunciados e que os
regem do interior. Se não houvesse enunciados, a língua não
existiria; mas nenhum enunciado é indispensável à existência da
língua (e podemos sempre supor, em lugar de qualquer enunciado,
um outro enunciado que, nem por isso, modificaria a língua). A
língua só existe a título de sistema de construção para enunciados
possíveis; mas, por outro lado, ela só existe a título de descrição
(mais ou menos exaustiva) obtida a partir de um conjunto de
enunciados reais. Língua e enunciado não estão no mesmo nível de
existência; e não podemos dizer que há enunciados como dizemos
que há línguas. Mas basta, então, que os signos de uma língua
constituam um enunciado, uma vez que foram produzidos
(articulados, delineados, fabricados, traçados) de um modo ou de
outro, uma vez que apareceram em um momento do tempo e em
um ponto do espaço, uma vez que a voz que os pronunciou ou o
gesto que os moldou lhes deram as dimensões de uma existência
material? Será que as letras do alfabeto por mim escritas ao acaso,
em uma folha de papel, como exemplo do que não é um enunciado,
será que os caracteres de chumbo utilizados para imprimir os livros
- e não se pode negar sua materialidade que tem espaço e volume -,
será que esses signos, expostos, visíveis, manipuláveis, podem ser
razoavelmente considerados como enunciados?
Olhando-se um pouco mais de perto, esses dois exemplos
(caracteres de chumbo e signos por mim traçados) não podem ser
inteiramente superpostos. O punhado de caracteres tipográficos que
posso segurar na mão, ou ainda as letras que estão indicadas no
teclado de uma máquina de escrever não constituem enunciados:
são, quando muito, instrumentos com os quais poderemos escrever
enunciados.
A Arqueologia do Saber 97
Em compensação, as letras que traço ao acaso em uma folha de
papel, tal como me ocorrem, e para mostrar que elas não podem,
em sua desordem, constituir um enunciado, o que são elas, que
figura formam? Um quadro de letras escolhidas de maneira
contingente, o enunciado de uma série alfabética que só conhece a
lei da probabilidade? Da mesma forma, o quadro aleatório de
números que os estatísticos podem vir a utilizar é uma sequência
de símbolos numéricos que não estão ligados entre si por nenhuma
estrutura de sintaxe; ele é, entretanto, um enunciado: o de um
conjunto de números obtidos por processos que eliminam tudo que
poderia aumentar a probabilidade dos resultados sucessivos.
Voltemos ainda ao exemplo: o teclado de uma máquina de escrever
não é um enunciado; mas a mesma série de letras - A, Z, E, R, T -,
enumerada em um manual de datilografia, é o enunciado da ordem
alfabética adotada pelas máquinas francesas. Eis-nos, pois, em
presença de um certo número de consequências negativas: não se
requer uma construção linguística regular para formar um
enunciado (esse pode ser constituído de uma série de probabilidade
mínima), mas não basta tampouco qualquer realização material de
elementos linguísticos, ou qualquer emergência de signos no tempo
e no espaço, para que um enunciado apareça e passe a existir. O
enunciado, portanto, não existe nem do mesmo modo que a língua
(apesar de ser composto de signos que só são definíveis, em sua
individualidade, no interior de um sistema linguístico natural ou
artificial), nem do mesmo modo que objetos quaisquer
apresentados à percepção (se bem que seja sempre dotado de uma
certa materialidade, e que se possa sempre situá-lo segundo
coordenadas espaço-temporais).
Ainda não é hora de responder à questão geral do enunciado,
mas podemos, de agora em diante, delimitar o problema: o
enunciado não é uma unidade do mesmo gênero da frase,
proposição ou ato de linguagem; não se apóia nos mesmos
critérios; mas não é tampouco uma unidade como um objeto
material poderia ser, tendo seus limites e sua independência. Em
seu modo de ser singular (nem inteiramente linguístico, nem
exclusivamente material), ele é indispensável para que se possa
dizer se há ou não frase, proposição, ato de linguagem; e para que
se possa dizer se a frase está correta (ou aceitável, ou
interpretável), se a proposição é legítima e bem constituída, se
98 Michel Foucault
o ato está de acordo com os requisitos e se foi inteiramente
realizado. Não é preciso procurar no enunciado uma unidade longa
ou breve, forte ou debilmente estruturada, mas tomada como as
outras em um nexo lógico, gramatical ou locutório. Mais que um
elemento entre outros, mais que um recorte demarcável em um
certo nível de análise, trata-se, antes, de uma função que se exerce
verticalmente, em relação às diversas unidades, e que permite
dizer, a propósito de uma série de signos, se elas estão aí presentes
ou não. O enunciado não é, pois, uma estrutura (isto é, um conjunto
de relações entre elementos variáveis, autorizando assim um
número talvez infinito de modelos concretos); é uma função de
existência que pertence, exclusivamente, aos signos, e a partir da
qual se pode decidir, em seguida, pela análise ou pela intuição, se
eles "fazem sentido" ou não, segundo que regra se sucedem ou se
justapõem, de que são signos, e que espécie de ato se encontra
realizado por sua formulação (oral ou escrita). Não há razão para
espanto por não se ter podido encontrar para o enunciado critérios
estruturais de unidade; é que ele não é em si mesmo uma unidade,
mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e de
unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos
concretos, no tempo e no espaço.
É essa função que é preciso descrever agora como tal, ou seja,
em seu exercício, em suas condições, nas regras que a controlam e
no campo em que se realiza.
2
A FUNÇÃO ENUNCIATIVA
Inútil procurar o enunciado junto aos grupamentos unitários de
signos. Ele não é nem sintagma, nem regra de construção, nem
forma canônica de sucessão e de permutação, mas sim o que faz
com que existam tais conjuntos de signos e permite que essas
regras e essas formas se atualizem. Mas se as faz existirem, é de
um modo singular que não se poderia confundir com a existência
dos signos enquanto elementos de uma língua, nem tampouco com
a existência material das marcas que ocupam um fragmento e
duram um tempo mais ou menos longo. É esse modo singular de
existência, característico de toda série de signos, desde que seja
enunciada, que se trata agora de questionar.
a) Consideremos, mais uma vez, o exemplo dos signos
moldados ou delineados em uma materialidade definida e
agrupados de um modo, arbitrário ou não, mas que, de qualquer
forma, não é gramatical, como o teclado de uma máquina de
escrever ou um punhado de caracteres tipográficos. Basta que eu
recopie os signos assim apresentados em uma folha de papel (e na
mesma ordem em que se sucedem sem produzir nenhuma palavra)
para que constituam um enunciado: enunciado das letras do
alfabeto em uma ordem que facilite a impressão, enunciado de um
grupo aleatório de letras. O que ocorreu para que houvesse
enunciado? O que esse segundo
100 Michel Foucault
conjunto pode ter de novo era relação ao primeiro? A reduplicação,
o fato de que é uma cópia? Sem dúvida, não, já que todos os
teclados das máquinas de escrever recopiam um certo modelo e
não são por isso enunciados. A intervenção de um sujeito? A
resposta seria duas vezes insatisfatória: não basta que a reiteração
de uma série seja atribuída à iniciativa de um indivíduo para que
ela se transforme, por esse fato, em um enunciado; e, de qualquer
forma, o problema não está na causa ou na origem da reduplicação,
mas na relação singular entre essas duas séries idênticas. A
segunda série, na verdade, não é um enunciado apenas pelo simples
fato de que se pode estabelecer uma relação biunívoca entre seus
elementos e os elementos da primeira série (essa relação
caracteriza o fato da duplicação - se se trata de uma pura e simples
cópia -, bem como a exatidão do enunciado - se já transpusemos o
limiar da enunciação; mas ela não permite definir esse limiar e o
próprio fato do enunciado). Uma série de signos se tornará
enunciado com a condição de que tenha com "outra coisa" (que lhe
pode ser estranhamente semelhante, e quase idêntica como no
exemplo escolhido) uma relação específica que se refira a ela
mesma - e não à sua causa, nem a seus elementos.
Diremos, sem dúvida, que não há nada de enigmático nessa
relação; que ela é, pelo contrário, bastante familiar e que não
deixou de ser analisada: que se trata da relação do significante com
o significado, e do nome com o que designa; da relação da frase
com seu sentido; ou da relação da proposição com seu referente.
Ora, acredito que se possa mostrar que a relação do enunciado com
o que é enunciado não pode ser superposta a qualquer dessas
relações.
O enunciado, mesmo se está reduzido a um sintagma nominal
("O barco!"), ou se está reduzido a um nome próprio ("Pedro!"),
não tem com o que enuncia a mesma relação que o nome mantém
com o que designa ou significa. O nome é um elemento linguístico
que pode ocupar diferentes lugares em conjuntos gramaticais: seu
sentido ê definido por suas regras de utilização (quer se trate dos
indivíduos que podem ser validamente designados por ele, ou das
estruturas sintáticas nas quais pode corretamente entrar); um nome
se define por sua possibilidade de recorrência. Um enunciado
existe fora de qualquer possibilidade de reaparecimento; e a
relação que mantém com o que enuncia não é idêntica a um
conjunto de
A Arqueologia do Saber 101
regras de utilização. Trata-se de uma relação singular: se, nessas
condições, uma formulação idêntica reaparece - as mesmas
palavras são utilizadas, basicamente os mesmos nomes, em suma,
a mesma frase, mas não forçosamente o mesmo enunciado.
Não é preciso tampouco confundir a relação entre um
enunciado e o que ele enuncia com a relação entre uma proposição
e seu referente. Sabemos que os lógicos dizem que uma proposição
como "A montanha de ouro está na Califórnia" não pode ser
verificada porque não tem referente: sua negação não é, pois, nem
mais nem menos verdadeira que sua afirmação. Será preciso dizer,
da mesma forma, que um enunciado não se liga a nada, se a
proposição a que dá existência não tiver referente? Seria preciso
afirmar o inverso e dizer não que a ausência de referente acarreta a
ausência de correlato para o enunciado, mas sim que é o correlato
do enunciado - aquilo a que se refere, o que é posto em jogo por
ele, não apenas o que é dito, mas aquilo de que fala, seu "tema" -
que permite dizer se a proposição tem um referente ou não: é ele
que permite decidir quanto a isso, de maneira definitiva. Supondo
que a formulação "A montanha de ouro está na Califórnia" não se
encontre nem em manual de geografia nem em narrativa de
viagem, mas em um romance, ou em uma obra de ficção qualquer,
poderemos reconhecer-lhe um valor de verdade ou de erro (caso o
mundo imaginário ao qual ela se relaciona autorize ou não
semelhante fantasia geológica e geográfica). É preciso saber a que
se refere o enunciado, qual é seu espaço de correlações, para poder
dizer se uma proposição tem ou não um referente. "O atual rei de
França é careca" só carece de referente na medida em que se supõe
que o enunciado se refira ao mundo da informação histórica de
hoje. A relação da proposição com o referente não pode servir de
modelo e de lei à relação do enunciado com o que enuncia. Esta
última não só é de nível diferente, como também a precede.
Finalmente, ela não pode tampouco ser superposta à relação
entre uma frase e seu sentido. O afastamento entre essas duas
formas de relação aparece claramente nas famosas frases que não
têm sentido, apesar da estrutura gramatical inteiramente correta
(como no exemplo: "Incolores idéias verdes dormem
furiosamente"). De fato, dizer que uma frase como essa não tem
sentido supõe que já tenhamos excluído um
102 Michel Foucault
certo número de possibilidades: admitimos que não se trata da
narração de um sonho, que não se trata de um texto poético, que
não se trata de uma mensagem codificada, ou da fala de um
drogado, mas de um certo tipo de enunciado que deve estar
relacionado, de modo definido, a uma realidade visível. É no
interior de uma relação enunciativa determinada e bem estabilizada
que a relação de uma frase com seu sentido pode ser assinalada.
Além disso, essas frases, mesmo se as tomamos no nível
enunciativo em que elas não têm sentido, não estão, enquanto
enunciados, privadas de correlações: de início, as que permitem
dizer que, por exemplo, idéias jamais são coloridas ou incolores, e
que por isso a frase não tem sentido (e essas correlações se referem
a um plano de realidade em que as idéias são invisíveis, em que as
cores podem ser vistas etc.); por outro lado, as que fazem valer a
frase em questão como menção de um tipo de organização sintática
correta mas desprovida de sentido (e essas correlações se referem
ao plano da língua, de suas leis e de suas propriedades). Por mais
que uma frase não seja significante, ela se relaciona a alguma
coisa, na medida em que é um enunciado.
Como definir a relação que caracterizaria, exclusivamente, o
enunciado - relação que parece implicitamente suposta pela frase
ou pela proposição e que lhes aparece como anterior? Como
separá-la, em si mesma, das relações de sentido ou dos valores de
verdade com os quais usualmente a confundimos? Um enunciado -
qualquer que seja e por mais simples que o imaginemos - não tem
como correlato um indivíduo ou objeto singular que seria
designado por determinada palavra da frase: no caso de um
enunciado como "A montanha de ouro está na Califórnia", o
correlato não é essa formação real ou imaginária, possível ou
absurda, designada pelo sintagma nominal que exerce a função de
sujeito. Mas o correlato do enunciado não é tampouco um estado
de coisas ou uma relação suscetível de verificar a proposição (no
exemplo escolhido, seria a inclusão espacial de uma certa
montanha em uma região determinada). Em compensação, o que se
pode definir como correlato do enunciado é um conjunto de
domínios em que tais objetos podem aparecer e em que tais
relações podem ser assinaladas: por exemplo, um domínio de
objetos materiais que possuem um certo número de propriedades
físicas constatáveis, relações de grandeza perceptível - ou, ao
contrário, um
A Arqueologia do Saber 103
domínio de objetos fictícios, dotados de propriedades arbitrárias
(mesmo que elas tenham uma certa constância e uma certa
coerência), sem instância de verificações experimentais ou
perceptivas; um domínio de localizações espaciais e geográficas,
com coordenadas, distâncias, relações de vizinhança e de inclusão -
ou, ao contrário, um domínio de dependências simbólicas e de
parentescos secretos; um domínio de objetos que existem no
mesmo instante e na mesma escala de tempo em que se formula o
enunciado, ou um domínio de objetos que pertence a um presente
inteiramente diferente - aquele que é indicado e constituído pelo
próprio enunciado, e não aquele a que o enunciado também
pertence. Um enunciado não tem diante de si (e numa espécie de
conversa) um correlato - ou uma ausência de correlato, assim
como uma proposição tem um referente (ou não), ou como um
nome próprio designa um indivíduo (ou ninguém). Está antes
ligado a um "referencial" que não é constituído de "coisas", de
"fatos", de "realidades", ou de "seres", mas de leis de possibilidade,
de regras de existência para os objetos que aí se encontram
nomeados, designados ou descritos, para as relações que aí se
encontram afirmadas ou negadas. O referencial do enunciado
forma o lugar, a condição, o campo de emergência, a instância de
diferenciação dos indivíduos ou dos objetos, dos estados de coisas
e das relações que são postas em jogo pelo próprio enunciado;
define as possibilidades de aparecimento e de delimitação do que
dá à frase seu sentido, à proposição seu valor de verdade. É esse
conjunto que caracteriza o nível enunciativo da formulação, por
oposição a seu nível gramatical e a seu nível lógico: através da
relação com esses diversos domínios de possibilidade, o enunciado
faz de um sintagma, ou de uma série de símbolos, uma frase a que
se pode, ou não, atribuir um sentido, uma proposição que pode
receber ou não um valor de verdade.
Vê-se, de qualquer forma, que a descrição do nível enunciativo
não pode ser feita nem por uma análise formal, nem por uma
investigação semântica, nem por uma verificação, mas pela análise
das relações entre o enunciado e os espaços de diferenciação, em
que ele mesmo faz aparecer as diferenças.
b) Um enunciado, além disso, se distingue de uma série
qualquer de elementos linguísticos, porque mantém com um
sujeito uma relação determinada que se deve isolar,
104 Michel Foucault
sobretudo, das relações com as quais poderia ser confundida, e
cuja natureza é preciso especificar.
Não é preciso, na verdade, reduzir o sujeito do enunciado aos
elementos gramaticais de primeira pessoa que estão presentes no
interior da frase: inicialmente, porque o sujeito do enunciado não
está dentro do sintagma linguístico; em seguida, porque um
enunciado que não comporta primeira pessoa tem, ainda assim, um
sujeito; enfim e sobretudo, todos os enunciados que têm uma
forma gramatical fixa (quer seja em primeira ou em segunda
pessoa) não têm um único e mesmo tipo de relação com o sujeito
do enunciado. Compreende-se facilmente que essa relação não é a
mesma em um enunciado do tipo "A tarde começa a cair" e "Todo
efeito tem uma causa"; quanto a um enunciado do tipo "Deitei-me
cedo durante muito tempo", a relação com o sujeito que enuncia
não é a mesma, se o ouvimos articulado no curso de uma conversa,
e se o lemos na primeira linha de um livro que se chama À la
recherche du temps perda.
Esse sujeito exterior à frase não seria, simplesmente, o
indivíduo real que a articulou ou escreveu? Não há signos sem
alguém para proferi-los ou, de qualquer forma, sem alguma coisa
como elemento emissor. Para que uma série de signos exista, é
preciso - segundo o sistema das causalidades - um "autor" ou uma
instância produtora. Mas esse "autor" não é idêntico ao sujeito do
enunciado; e a relação de produção que mantém com a formulação
não pode ser superposta à relação que une o sujeito enunciante e o
que ele enuncia. Não tomemos, pois seria demasiado simples, o
caso de um conjunto de signos materialmente moldados ou
traçados: sua produção implica um autor; não há, entretanto, nem
enunciado nem sujeito do enunciado. Poderíamos lembrar também,
para mostrar a dissociação entre o emissor de signos e o sujeito de
um enunciado, o caso de um texto lido por uma terceira pessoa, ou
do ator representando seu papel. Mas esses são casos extremos. De
maneira geral, parece, pelo menos à primeira vista, que o sujeito do
enunciado é precisamente aquele que produziu seus diferentes
elementos com uma intenção de significação. Entretanto, as coisas
não são tão simples. Sabe-se que, em um romance, o autor da
formulação é o indivíduo real cujo nome figura na capa do livro
(ainda se coloca o problema dos elementos dialogados e das frases
que se referem ao
A Arqueologia do Saber 105
pensamento de um personagem; ainda se coloca o problema dos
textos publicados sob pseudônimo: e sabemos todas as dificuldades
que esses desdobramentos suscitam para os defensores da análise
interpretativa quando querem relacionar, de uma só vez, todas
essas formulações ao autor do texto, ao que ele queria dizer, ao que
pensava, enfim, ao grande discurso mudo, inaparente e uniforme
sobre o qual se apóia toda essa pirâmide de níveis diferentes); mas,
até fora dessas instâncias de formulação que não são idênticas ao
indivíduo-autor, os enunciados do romance não têm o mesmo
sujeito, conforme dêem, como se fosse do exterior, os marcos
históricos e espaciais da história contada, ou descrevam as coisas
como as veria um indivíduo anônimo, invisível e neutro,
magicamente misturado às figuras da ficção, ou ainda dêem, como
se fosse por decifração interior e imediata, a versão verbal do que,
silenciosamente, experimenta um personagem. Esses enunciados,
ainda que o autor seja o mesmo, ainda que só os atribua a si, ainda
que não invente relais suplementar entre o que ele é e o texto que
se lê, não supõem para o sujeito enunciante os mesmos caracteres;
não implicam a mesma relação entre o sujeito e o que ele está
enunciando.
Talvez se diga que o exemplo, tantas vezes citado, do texto
romanesco, não tem valor probante; ou, antes, que questiona a
própria essência da literatura e não o status do sujeito dos
enunciados em geral. Seria uma particularidade da literatura que o
autor dela se ausentasse, se escondesse, se destacasse ou se
separasse; e dessa dissociação, não se deveria concluir,
universalmente, que o sujeito do enunciado é distinto em tudo -
natureza, status, função, identidade - do autor da formulação.
Entretanto, essa ruptura não está limitada apenas à literatura. É
absolutamente geral na medida em que o sujeito do enunciado é
uma função determinada, mas não forçosamente a mesma de um
enunciado a outro; na medida em que é uma função vazia, podendo
ser exercida por indivíduos, até certo ponto, indiferentes, quando
chegam a formular o enunciado; e na medida em que um único e
mesmo indivíduo pode ocupar, alternadamente, em uma série de
enunciados, diferentes posições e assumir o papel de diferentes
sujeitos. Consideremos o exemplo de um tratado de matemática.
Na frase do prefácio em que se explica por que o tratado foi
escrito, em que circunstâncias, para responder a que problema não
resolvido,
106 Michel Foucault
ou a que inquietação pedagógica, utilizando que métodos, depois
de que tentativas e fracassos, a posição de sujeito enunciativo só
pode ser ocupada pelo autor ou autores da formulação: as
condições de individualização do sujeito são de fato muito estritas,
muito numerosas, e autorizam, nesse caso, apenas um sujeito
possível. Em compensação, se no próprio corpo do tratado
encontramos uma proposição como "Duas quantidades iguais a
uma terceira são iguais entre si", o sujeito do enunciado é a posição
absolutamente neutra, indiferente ao tempo, ao espaço, às
circunstâncias, idêntica em qualquer sistema linguístico, em
qualquer código de escrita ou de simbolização, e que pode ser
ocupada por qualquer indivíduo, para afirmar tal proposição. Por
outro lado, frases do tipo "Já demonstramos que..." compreendem,
para que possam ser enunciadas, condições contextuais precisas
que não estavam compreendidas pela formulação precedente: a
posição é então fixada no interior de um domínio constituído por
um conjunto finito de enunciados; é localizada em uma série de
acontecimentos enunciativos que já se devem ter produzido; é
estabelecida em um tempo demonstrativo cujos momentos
anteriores jamais se perdem e que não têm, pois, necessidade de
serem recomeçados e repetidos identicamente, para se
apresentarem de novo (basta uma menção para reativá-los em sua
validade original); é determinada pela existência prévia de um
certo número de operações efetivas que talvez não tenham sido
feitas por um único e mesmo indivíduo (o que fala no momento),
mas que pertencem, de direito, ao sujeito enunciante e que estão à
sua disposição, podendo ser por ele retornadas quando necessário.
Definiremos o sujeito de tal enunciado pelo conjunto desses
requisitos e possibilidades; e não o descreveremos como indivíduo
que tivesse, realmente, efetuado operações, que vivesse num tempo
sem esquecimento nem ruptura, que tivesse interiorizado, no
horizonte de sua consciência, todo um conjunto de proposições
verdadeiras, e que delas retivesse, no presente vivo de seu
pensamento, o reaparecimento virtual (nos indivíduos, isso não
passa, quando muito, do aspecto psicológico e "vivido" de sua
posição enquanto sujeitos enunciantes).
Da mesma forma, poderíamos descrever qual é a posição
específica do sujeito enunciante em frases como "Chamo de reta
todo conjunto de pontos que..." ou "Consideremos um
A Arqueologia do Saber 107
conjunto finito de elementos quaisquer"; em ambas, a posição do
sujeito está ligada à existência de uma operação ao mesmo tempo
determinada e atual: em ambas, o sujeito do enunciado é também o
sujeito da operação (aquele que estabelece a definição é também
aquele que a enuncia; aquele que coloca a existência é, ao mesmo
tempo, quem coloca o enunciado); em ambas, finalmente, o sujeito
liga, por essa operação e pelo enunciado em que ela toma corpo,
seus enunciados e suas operações futuros (enquanto sujeito
enunciante, ele aceita o enunciado como sua própria lei). Existe, no
entanto, uma diferença. No primeiro caso, o que está enunciado é
uma convenção de linguagem - dessa linguagem que deve ser
utilizada pelo sujeito enunciante e no interior da qual ele se define:
o sujeito enunciante e o que é enunciado estão no mesmo nível
(enquanto, para uma análise formal, um enunciado como esse
implica o desnivelamento próprio da metalinguagem). No segundo
caso, ao contrário, o sujeito enunciante faz com que exista, fora de
si, um objeto que pertence a um domínio já definido, cujas leis de
possibilidade já foram articuladas e cujos caracteres são anteriores
à enunciação que o coloca. Vimos, há pouco, que a posição do
sujeito enunciante nem sempre é idêntica quando se trata de
afirmar uma proposição verdadeira; vê-se, agora, que ela não é
tampouco a mesma quando se trata de efetuar, no próprio
enunciado, uma operação.
Não é preciso, pois, conceber o sujeito do enunciado como
idêntico ao autor da formulação, nem substancialmente, nem
funcionalmente. Ele não é, na verdade, causa, origem ou ponto de
partida do fenômeno da articulação escrita ou oral de uma frase;
não é, tampouco, a intenção significativa que, invadindo
silenciosamente o terreno das palavras, as ordena como o corpo
visível de sua intuição; não é o núcleo constante, imóvel e idêntico
a si mesmo de uma série de operações que os enunciados, cada um
por sua vez, viriam manifestar na superfície do discurso. É um
lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por
indivíduos diferentes; mas esse lugar, em vez de ser definido de
uma vez por todas e de se manter uniforme ao longo de um texto,
de um livro ou de uma obra, varia - ou melhor, é variável o
bastante para poder continuar, idêntico a si mesmo, através de
várias frases, bem como para se modificar a cada uma. Esse lugar é
uma dimensão que caracteriza toda formulação enquanto
enunciado,
108 Michel Foucault
constituindo um dos traços que pertencem exclusivamente à função
enunciativa e permitem descrevê-la. Se uma proposição, uma frase,
um Conjunto de signos podem ser considerados "enunciados", não
é porque houve, um dia, alguém para proferi-los ou para depositar,
em algum lugar, seu traço provisório; mas sim na medida em que
pode ser assinalada a posição do sujeito. Descrever uma
formulação enquanto enunciado não consiste em analisar as
relações entre o autor e o que ele disse (ou quis dizer, ou disse sem
querer), mas em determinar qual é a posição que pode e deve
ocupar todo indivíduo para ser seu sujeito.
c) Terceira característica da função enunciativa: ela não pode se
exercer sem a existência de um domínio associado. Isso faz do
enunciado algo diferente e mais que um simples agregado de
signos que precisaria, para existir, apenas de um suporte material -
superfície de inscrição, substância sonora, matéria moldável,
incisão vazia de um traço. Mas isso o distingue, também e
sobretudo, da frase e da proposição.
Consideremos um conjunto de palavras ou de símbolos. Para
decidir se eles constituem uma unidade gramatical como a frase, ou
uma unidade lógica como a proposição, é necessário e suficiente
determinar segundo que regras foi construído. "Pierre est arrivé
hier" forma uma frase, mas "Hier est Pierre arrivé", não; A + B=
C + D constitui uma proposição, mas ABC + = D, não. Apenas o
exame dos elementos e de sua distribuição em referência ao
sistema - natural ou artificial - da língua permite estabelecer a
diferença entre o que é proposição e o que não é, entre o que é
frase e o que é mero acúmulo de palavras. Além disso, esse exame
basta para determinar a que tipo de estrutura gramatical pertence a
frase em questão (frase afirmativa, no passado, comportando um
sujeito nominal etc.), ou a que tipo de proposição corresponde a
série de signos visada (uma equivalência entre duas adições). Em
casos extremos, pode-se conceber uma frase ou uma proposição
que se determina "sozinha", sem nenhuma outra para lhe servir de
contexto, sem nenhum conjunto de frases ou de proposições
associadas: o fato de serem, nessas condições, inúteis e
inutilizáveis não impede que se possa reconhecê-las, mesmo assim,
em sua singularidade.
Pode-se fazer, sem dúvida, um certo número de objeções,
como, por exemplo, a de que uma proposição só pode ser estaA
Arqueologia do Saber 109
belecida e individualizada como tal caso se conheça o sistema de
axiomas a que obedece: essas definições, regras, convenções de
escrita não formariam um campo associado inseparável da
proposição (do mesmo modo que as regras da gramática,
implicitamente atuantes na competência do sujeito, são necessárias
para que se possa reconhecer uma frase, e uma frase de um certo
tipo)? Entretanto, é preciso notar que esse conjunto - atual ou
virtual - não é do mesmo nível da proposição ou frase: mas que
versa sobre seus elementos, encadeamento e distribuição possíveis.
Não é associado a estes: é por ela suposto. Poderíamos objetar,
também, que muitas proposições (não tautológicas) não podem ser
verificadas a partir apenas de suas regras de construção, e que o
recurso ao referente é necessário para decidir se elas são
verdadeiras ou falsas: mas, verdadeira ou falsa, uma proposição
permanece uma proposição, e não é o recurso ao referente que
decide se ela é ou não uma proposição. O mesmo acontece com as
frases: em muitos casos, elas só podem produzir seu sentido pela
relação com o contexto (seja porque compreendem elementos
"dêiticos" que remetem a uma situação concreta; ou porque fazem
uso de pronomes, em primeira ou segunda pessoa, que designam o
sujeito falante e seus interlocutores; ou ainda porque se servem de
elementos pronominais ou de partículas de ligação que se referem a
frases anteriores ou futuras); mas o fato de que seu sentido não
possa ser concluído não impede que a frase seja gramaticalmente
completa e autônoma. Certamente, não se sabe muito bem o que
"quer dizer" um conjunto de palavras como "Isso eu lhe direi
amanhã"; de qualquer modo, não se pode datar esse amanhã, nem
nomear os interlocutores, nem adivinhar o que deve ser dito. Só
resta dizer que se trata de uma frase perfeitamente delimitada,
conforme as regras de construção da língua. Finalmente,
poderíamos objetar que, sem contexto, é às vezes difícil definir a
estrutura de uma frase ("se ele está morto, jamais saberei" pode ser
construída: "No caso de ele estar morto, ignorarei sempre tal
coisa"; ou "Jamais serei avisado de sua morte"). Mas trata-se de
uma ambiguidade perfeitamente definível, cujas possibilidades
simultâneas podem ser enumeradas, e que faz parte da estrutura
própria da frase. De maneira geral, pode-se dizer que uma frase ou
proposição - mesmo isolada, mesmo retirada do contexto natural
que a esclarece, mesmo
110 Michel Foucault
libertada ou amputada de todos os elementos a que, implicitamente
ou não, pode remeter - continua a ser sempre uma frase ou
proposição, e é sempre possível reconhecê-la como tal. Em
compensação, a função enunciativa - mostrando assim que não é
pura e simples construção de elementos prévios - não pode se
exercer sobre uma frase ou proposição em estado livre. Não basta
dizer uma frase, nem mesmo basta dizê-la em uma relação
determinada com um campo de objetos ou em uma relação
determinada com um sujeito, para que haja enunciado -, para que
se trate de um enunciado é preciso relacioná-la com todo um
campo adjacente. Ou antes, visto que não se trata de uma relação
suplementar que vem se imprimir sobre as outras, não se pode
dizer uma frase, não se pode fazer com que ela chegue a uma
existência de enunciado sem que seja utilizado um espaço
colateral; um enunciado tem sempre margens povoadas de outros
enunciados. Essas margens se distinguem do que se entende
geralmente por "contexto" - real ou verbal -, isto é, do conjunto dos
elementos de situação ou de linguagem que motivam uma
formulação e lhe determinam o sentido. E elas dele se distinguem
na medida em que o tornam possível: a relação contextual não é a
mesma entre uma frase e as que a envolvem, caso se trate de um
romance ou de um tratado de física; não será a mesma entre uma
formulação e o meio objetivo, caso se trate de uma conversa ou de
um relatório de experiência. É sobre uma relação mais geral entre
as formulações, sobre toda uma rede verbal que o efeito de
contexto pode ser determinado. As margens não são, tampouco,
idênticas aos diferentes textos, às diferentes frases que o sujeito
pode ter em mente quando fala; ainda aí, elas são mais extensas
que o envolvimento psicológico; e, até certo ponto, elas o
determinam, pois, segundo a posição, o status e o papel de uma
formulação entre todas as outras -conforme se inscreva no campo
da literatura ou deva se dissipar como um propósito indiferente,
conforme faça parte de uma narração ou comande uma
demonstração -, o modo de presença dos outros enunciados na
consciência do sujeito não será o mesmo; não é nem o mesmo
nível, nem a mesma forma de experiência linguística, de memória
verbal, de evocação do já dito que são utilizados. O halo
psicológico de uma formulação é comandado de longe pela
disposição do campo enunciativo.
A Arqueologia do Saber 111
O campo associado que faz de uma frase ou de uma série de
signos um enunciado e que lhes permite ter um contexto
determinado, um conteúdo representativo específico, forma uma
trama complexa. Ele é constituído, de início, pela série das outras
formulações, no interior das quais o enunciado se inscreve e forma
um elemento (um jogo de réplicas formando uma conversação, a
arquitetura de uma demonstração - limitada, de um lado, por suas
premissas, do outro, por sua conclusão -, a sequência das
afirmações que constituem uma narração). É constituído, também,
pelo conjunto das formulações a que o enunciado se refere
(implicitamente ou não), seja para repeti-las, seja para modificá-las
ou adaptá-las, seja para se opor a elas, seja para falar de cada uma
delas; não há enunciado que, de uma forma ou de outra, não
reatualize outros enunciados (elementos rituais em uma narração;
proposições já admitidas em uma demonstração; frases
convencionais em uma conversa). É constituído, ainda, pelo
conjunto das formulações cuja possibilidade ulterior é propiciada
pelo enunciado e que podem vir depois dele como sua
consequência, sua sequência natural, ou sua réplica (uma ordem
não abre as mesmas possibilidades enunciativas que as
proposições de uma axiomática ou o início de uma narração). É
constituído, finalmente, pelo conjunto das formulações cujo status
é compartilhado pelo enunciado em questão, entre as quais toma
lugar sem consideração de ordem linear, com as quais se apagará,
ou com as quais, ao contrário, será valorizado, conservado,
sacralizado e oferecido como objeto possível, a um discurso futuro
(um enunciado não é dissociável do status que lhe pode ser
atribuído como "literatura", ou como propósito irrelevante, próprio
para ser esquecido, ou como verdade científica adquirida para
sempre, ou como discurso profético etc.). Pode-se dizer, de modo
geral, que uma sequência de elementos linguísticos só é enunciado
se estiver imersa em um campo enunciativo em que apareça como
elemento singular.
O enunciado não é a projeção direta, sobre o plano da
linguagem, de uma situação determinada ou de um conjunto de
representações. Não é simplesmente a utilização, por um sujeito
falante, de um certo número de elementos e de regras linguísticas.
De início, desde sua raiz, ele se delineia em um campo enunciativo
onde tem lugar e status, que lhe apresenta relações possíveis com o
passado e que lhe abre um futuro
112 Michel Foucault
eventual. Qualquer enunciado se encontra assim especificado: não
há enunciado em geral, enunciado livre, neutro e independente;
mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um
conjunto, desempenhando um papel no meio dos outros, neles se
apoiando e deles se distinguindo: ele se integra sempre em um jogo
enunciativo, onde tem sua participação, por ligeira e ínfima que
seja. Enquanto a construção gramatical, para se efetuar, só
necessita de elementos e de regras; enquanto se poderia conceber,
em termos extremos, uma língua (certamente artificial) que só
serviria para construir, no total, uma única frase; enquanto,
considerando-se o alfabeto, as regras de construção e de
transformação de um sistema formal, se pode perfeitamente definir
a primeira proposição dessa linguagem, o mesmo não acontece
com o enunciado. Não há enunciado que não suponha outros; não
há nenhum que não tenha, em torno de si, um campo de
coexistências, efeitos de série e de sucessão, uma distribuição de
funções e de papéis. Se se pode falar de um enunciado, é na
medida em que uma frase (uma proposição) figura em um ponto
definido, com uma posição determinada, em um jogo enunciativo
que a extrapola.
Sobre esse cenário da coexistência enunciativa se destacam, em
um nível autônomo e descritível, as relações gramaticais entre
frases, as relações lógicas entre proposições, as relações
metalinguísticas entre uma linguagem-objeto e aquela que lhe
define as regras, as relações retóricas entre grupos (ou elementos)
de frases. É lícito, certamente, analisar todas essas relações sem
que se tome por tema o próprio campo enunciativo, isto é, o
domínio de coexistência em que se exerce a função enunciativa.
Mas elas só podem existir e só são suscetíveis de análise na medida
em que as frases tenham sido "enunciadas"; em outros termos, na
medida em que se desenrolem em um campo enunciativo que
permita que elas se sucedam, se ordenem, coexistam e
desempenhem um papel umas em relação às outras. O enunciado,
longe de ser o princípio de individualização dos conjuntos
significantes (o "átomo" significativo, o mínimo a partir do qual
existe sentido), é o que situa essas unidades significativas em um
espaço em que elas se multiplicam e se acumulam.
d) Finalmente, para que uma sequência de elementos
linguísticos possa ser considerada e analisada como um
A Arqueologia do Saber 113
enunciado, é preciso que ela preencha uma quarta condição: deve
ter existência material. Poderíamos falar de enunciado se uma voz
não o tivesse enunciado, se uma superfície não registrasse seus
signos, se ele não tivesse tomado corpo em um elemento sensível e
se não tivesse deixado marca - apenas alguns instantes - em uma
memória ou em um espaço? Poderíamos falar de um enunciado
como de uma figura ideal e silenciosa? O enunciado é sempre
apresentado através de uma espessura material, mesmo
dissimulada, mesmo se, apenas surgida, estiver condenada a se
desvanecer. Além disso, o enunciado tem necessidade dessa
materialidade; mas ela não lhe é dada em suplemento, uma vez
bem estabelecidas todas as suas determinações: em parte, ela o
constitui. Composta das mesmas palavras, carregada exatamente
do mesmo sentido, mantida em sua identidade sintática e
semântica, uma frase não constitui o mesmo enunciado se for
articulada por alguém durante uma conversa, ou impressa em um
romance; se foi escrita um dia, há séculos, e se reaparece agora em
uma formulação oral. As coordenadas e o status material do
enunciado fazem parte de seus caracteres intrínsecos. Eis uma
evidência, ou quase, pois, desde que a isso se preste um pouco de
atenção, as coisas se embaralham e os problemas se multiplicam.
Claro, somos tentados a dizer que se o enunciado é
caracterizado, pelo menos em parte, por seu status material, e se
sua identidade é sensível a uma modificação desse status, o mesmo
acontece com as frases ou as proposições: a materialidade dos
signos, na verdade, não é inteiramente indiferente à gramática ou
mesmo à lógica. Conhecemos os problemas teóricos colocados a
esta última pela constância material dos símbolos utilizados (como
definir a identidade de um símbolo através das diferentes
substâncias em que pode tomar corpo e das variações de forma que
tolera? Como reconhecê-lo e assegurar que é o mesmo, se é preciso
defini-lo como "um corpo físico concreto"?); conhecemos também
os problemas que lhe são colocados pela própria noção de uma
sequência de símbolos (O que quer dizer preceder e seguir? Vir
"antes" e "depois"? Em que espaço se situa semelhante
ordenação?). São muito mais bem conhecidas, ainda, as relações da
materialidade e da língua - o papel da escrita e do alfabeto, o fato
de que nem a mesma sintaxe, nem o mesmo vocabulário são
empregados em um texto e em uma conversa, em um jornal e em
um
114 Michel Foucault
livro, em uma carta e em um cartaz; além disso, há sequências de
palavras que formam frases bastante individualizadas e
perfeitamente aceitáveis nas manchetes de um jornal, e que, no
entanto, no curso de uma conversa, jamais poderiam ter valor de
uma frase com sentido. Entretanto, a materialidade desempenha, no
enunciado, um papel muito mais importante: não é simplesmente
princípio de variação, modificação dos critérios de
reconhecimento, ou determinação de subconjuntos linguísticos. Ela
é constitutiva do próprio enunciado: o enunciado precisa ter uma
substância, um suporte, ura lugar e uma data. Quando esses
requisitos se modificam, ele próprio muda de identidade. Logo
surge uma quantidade de questões. Uma mesma frase repetida em
voz alta e em voz baixa forma um único enunciado ou vários?
Quando se decora um texto, cada recitação dá lugar a um
enunciado, ou deve-se considerar que o mesmo se repete? Uma
frase fielmente traduzida para uma língua estrangeira forma dois
enunciados distintos ou apenas um? E em uma récita coletiva -
prece ou lição - devem-se contar quantos enunciados? Como
estabelecer a identidade do enunciado através dessas ocorrências
múltiplas, dessas repetições, dessas transcrições?
O problema se complica, sem dúvida, porque nele se
confundem, frequentemente, níveis diferentes. É necessário pôr de
lado, inicialmente, a multiplicidade das enunciações. Diremos que
há enunciação cada vez que um conjunto de signos for emitido.
Cada uma dessas articulações têm sua individualidade
espaço-temporal. Duas pessoas podem dizer ao mesmo tempo a
mesma coisa; já que são duas, haverá duas enunciações distintas.
Um único e mesmo sujeito pode repetir várias vezes a mesma
frase; haverá igual número de enunciações distintas no tempo. A
enunciação é um acontecimento que não se repete; tem uma
singularidade situada e datada que não se pode reduzir. Essa
singularidade, entretanto, deixa passar um certo número de
constantes - gramaticais, semânticas, lógicas - pelas quais se pode,
neutralizando o momento da enunciação e as coordenadas que o
individualizam, reconhecer a forma geral de uma frase, de uma
significação, de uma proposição. O tempo e o lugar da enunciação,
o suporte material que ela utiliza, tornam-se, então, indiferentes,
pelo menos em grande parte: o que se destaca é uma forma
indefinidamente repetível e que pode dar lugar às enunciações mais
A Arqueologia do Saber 115
dispersas. Ora, o próprio enunciado não pode ser reduzido a esse
simples fato da enunciação, pois ele pode ser repetido apesar de
sua materialidade: não teremos problemas em afirmar que uma
mesma frase pronunciada por duas pessoas, em circunstâncias,
entretanto, um pouco diferentes, constitui apenas um enunciado. E,
no entanto, ele não se reduz a uma forma gramatical ou lógica, na
medida em que, mais do que ela e de modo diferente, é sensível a
diferenças de matéria, substância, tempo e lugar. Qual é, pois, essa
materialidade própria do enunciado e que autoriza certos tipos
singulares de repetição? Como se pode falar do mesmo enunciado
onde há várias enunciações distintas - enquanto devemos falar de
vários enunciados onde podemos reconhecer formas, estruturas,
regras de construção, alvos idênticos? Qual é, pois, esse regime de
materialidade repetível que caracteriza o enunciado?
Sem dúvida não é uma materialidade sensível, qualitativa,
apresentada sob a forma da cor, do som ou da solidez e
esquadrinhada pela mesma demarcação espaço-temporal que o
espaço perceptivo. Consideremos um exemplo muito simples: um
texto reproduzido várias vezes, as edições sucessivas de um livro,
ou, ainda melhor, os diferentes exemplares de uma mesma tiragem
não dão lugar a igual número de enunciados distintos: cm todas as
edições das Fleurs du mal (com exceção das edições cujo texto
diverge do original e dos textos condenados) encontraremos o
mesmo jogo de enunciados; entretanto, nem os caracteres, nem a
tinta, nem o papel, nem, em qualquer que seja o caso, a localização
do texto e a posição dos signos são os mesmos: toda a
materialidade mudou. Mas aqui "pequenas" diferenças não são
eficazes para alterar a identidade do enunciado e para fazer surgir
um outro: elas estão todas neutralizadas no elemento geral -
material, é claro, mas igualmente institucional e econômico - do
"livro". Um livro, qualquer que seja seu número de exemplares ou
de edições, quaisquer que sejam as substâncias diversas que ele
pode utilizar, é um lugar de equivalência exata para os enunciados,
uma instância de repetição sem mudança de identidade. Vê-se, no
primeiro exemplo, que a materialidade do enunciado não é definida
pelo espaço ocupado ou pela data da formulação, mas por um
status de coisa ou de objeto, jamais definitivo, mas codificável,
relativo e sempre suscetível de ser novamente posto em questão:
sabe-se, por exemplo, que, para
116 Michel Foucault
os historiadores da literatura, a edição de um livro publicado sob os
cuidados do autor não tem a mesma importância que as edições
póstumas, que os enunciados têm aí um valor singular, que eles
não são uma das manifestações de um único e mesmo conjunto,
mas sim o que é e deve ser repetido. Da mesma forma, entre o
texto de uma Constituição, de um testamento, ou de uma revelação
religiosa, e todos os manuscritos ou impressos que os reproduzem
exatamente com a mesma escrita, nos mesmos caracteres e sobre
temas análogos, não se pode dizer que haja equivalência: de um
lado, há os próprios enunciados, do outro, sua reprodução. O
enunciado não se identifica com um fragmento de matéria, mas sua
identidade varia de acordo com um regime complexo de
instituições materiais.
Um enunciado pode ser o mesmo, manuscrito em uma folha de
papel ou publicado em um livro; pode ser o mesmo pronunciado
oralmente, impresso em um cartaz, reproduzido por um gravador;
em compensação, quando um romancista pronuncia uma frase
qualquer na vida cotidiana, visto que a coloca tal qual no
manuscrito que redige, atribuindo-a a um personagem, ou mesmo
deixando-a ser pronunciada pela voz anônima que representa a do
autor, não se pode dizer que se trate, nos dois casos, do mesmo
enunciado. O regime de materialidade a que obedecem
necessariamente os enunciados é, pois, mais da ordem da
instituição do que da localização espaço-temporal; define antes
possibilidades de reinscrição e de transcrição (mas também
limiares e limites) do que individualidades limitadas e perecíveis.
A identidade de um enunciado está submetida a um segundo
conjunto de condições e de limites: os que lhe são impostos pelo
conjunto dos outros enunciados no meio dos quais figura; pelo
domínio no qual podemos utilizá-lo ou aplicá-lo; pelo papel ou
função que deve desempenhar. A afirmação de que a terra é
redonda ou de que as espécies evoluem não constitui o mesmo
enunciado antes e depois de Copérnico, antes e depois de Darwin;
não é que, para formulações tão simples, o sentido das palavras
tenha mudado; o que se modificou foi a relação dessas afirmações
com outras proposições, suas condições de utilização e de
reinvestimento, o campo da experiência, de verificações possíveis,
de problemas a ser resolvidos, ao qual podemos remetê-las. A frase
"os sonhos
A Arqueologia do Saber 117
realizam os desejos" pode ser repetida através dos séculos; não é o
mesmo enunciado em Platão e em Freud. Os esquemas de
utilização, as regras de emprego, as constelações em que podem
desempenhar um papel, suas virtualidades estratégicas constituem
para os enunciados um campo de estabilização que permite, apesar
de todas as diferenças de enunciação, repeti-los em sua identidade;
mas esse mesmo campo pode, também, sob as identidades
semânticas, gramaticais ou formais, as mais manifestas, definir um
limiar a partir do qual não há mais equivalência, sendo preciso
reconhecer o aparecimento de um novo enunciado. Mas é possível,
sem dúvida, ir mais longe: podemos considerar que existe apenas
um único e mesmo enunciado onde as palavras, a sintaxe, a própria
língua não são idênticas. Consideremos um discurso e sua tradução
simultânea; um texto científico em inglês e sua versão francesa;
uma informação em três colunas em três línguas diferentes: não há
tantos enunciados quantas são as línguas em jogo, mas um único
conjunto de enunciados em formas linguísticas diferentes. Melhor
ainda: uma informação dada pode ser retransmitida com outras
palavras, com uma sintaxe simplificada, ou em um código
convencionado; se o conteúdo informativo e as possibilidades de
utilização são as mesmas, poderemos dizer que ambos os casos
constituem o mesmo enunciado.
Ainda aí, não se trata de um critério de individualização do
enunciado, mas de seu princípio de variação: ora é mais diverso
que a estrutura da frase (e sua identidade é então mais elaborada,
mais frágil, mais facilmente modificável que a de um conjunto
semântico ou gramatical), ora mais constante que essa estrutura (e
sua identidade é então maior, mais estável, menos acessível às
variações). Ainda mais: além do fato de que a identidade do
enunciado não pode ser situada, de forma definitiva, em relação à
da frase, ela própria é relativa e oscila segundo o uso que se faz do
enunciado e a maneira pela qual é manipulado. Quando se utiliza
um enunciado para ressaltar sua estrutura gramatical, sua
configuração retórica ou as conotações de que é portador, é
evidente que não se pode considerá-lo como idêntico em sua língua
original e em sua tradução. Em compensação, se queremos que ele
entre em um processo de verificação experimental, então texto e
tradução constituem o mesmo conjunto enunciativo. Ou ainda,
em
118 Michel Foucault
uma certa escala da macroistória, podemos considerar que uma
afirmação como "As espécies evoluem" forma o mesmo enunciado
em Darwin e em Simpson; em um nível mais elaborado e
considerando campos de utilização mais limitados (o
"neodarwinismo" em oposição ao sistema darwiniano
propriamente dito), tratamos de dois enunciados diferentes. A
constância do enunciado, a manutenção de sua identidade através
dos acontecimentos singulares das enunciações, seus
desdobramentos através da identidade das formas, tudo isso é
função do campo de utilização no qual ele se encontra inserido.
Vê-se que o enunciado não deve ser tratado como um
acontecimento que se teria produzido em um tempo e lugar
determinados, e que poderia ser inteiramente lembrado - e
celebrado de longe - e um ato de memória. Mas vê-se que não é,
tampouco, uma forma ideal que se pode sempre atualizar em um
corpo qualquer, em um conjunto indiferente e sob condições
materiais que não importam. Demasiado repetível para ser
inteiramente solidário com as coordenadas espaço-temporais de
seu nascimento (é algo diverso da data e do local de seu
aparecimento), demasiado ligado ao que o envolve e o suporta para
ser tão livre quanto uma pura forma (é algo diferente de uma lei de
construção referente a um conjunto de elementos), ele é dotado de
uma certa lentidão modificável, de um peso relativo ao campo em
que está colocado, de uma constância que permite utilizações
diversas, de uma permanência temporal que não tem a inércia de
ura simples traço, e que não dorme sobre seu próprio passado.
Enquanto uma enunciação pode ser recomeçada ou reevocada,
enquanto uma forma (linguística ou lógica) pode ser reatualizada,
o enunciado tem a particularidade de poder ser repetido: mas
sempre em condições estritas.
Essa materialidade repetível que caracteriza a função
enunciativa faz aparecer o enunciado como um objeto específico e
paradoxal, mas também como um objeto entre os que os homens
produzem, manipulam, utilizam, transformam, trocam, combinam,
decompõem e recompõem, eventualmente destroem. Ao invés de
ser uma coisa dita de forma definitiva - e perdida no passado, como
a decisão de uma batalha, uma catástrofe geológica ou a morte de
um rei -, o enunciado, ao mesmo tempo que surge em sua
materialidade, aparece com um status, entra em redes, se coloca
em campos de utilização.
A Arqueologia do Saber 119
se oferece a transferências e a modificações possíveis, se integra
era operações e em estratégias onde sua identidade se mantém ou
se apaga. Assim, o enunciado circula, serve, se esquiva, permite ou
impede a realização de um desejo, é dócil ou rebelde a interesses,
entra na ordem das contestações e das lutas, torna-se tema de
apropriação ou de rivalidade.
3
A DESCRIÇÃO DOS ENUNCIADOS
O front da análise encontra-se consideravelmente deslocado;
quis retomar essa definição do enunciado que tinha sido, no início,
deixada em suspenso. Tudo se passara e tudo fora dito como se o
enunciado fosse uma unidade fácil de ser estabelecida, cujas
possibilidades e leis de agrupamento era importante descrever. Ora,
voltando atrás, apercebi-me de que não podia definir o enunciado
como uma unidade de tipo linguístico (superior ao fenômeno e à
palavra, inferior ao texto); mas que tinha de me ocupar de uma
função enunciativa, pondo em jogo unidades diversas (elas podem
coincidir às vezes com frases, às vezes com proposições; mas são
feitas às vezes de fragmentos de frases, séries ou quadros de
signos, jogo de proposições ou formulações equivalentes); e essa
função, em vez de dar um "sentido" a essas unidades, coloca-as em
relação com um campo de objetos; em vez de lhes conferir um
sujeito, abre-lhes um conjunto de posições subjetivas possíveis; em
vez de lhes fixar limites, coloca-as em um domínio de coordenação
e de coexistência; em vez de lhes determinar a identidade, aloja-as
em um espaço em que são consideradas, utilizadas e repetidas. Em
suma, o que se descobriu não foi o enunciado atômico - com seu
efeito de sentido, sua origem, seus limites e sua individualidade -,
mas sim o campo de exercício da função enunciativa e as
condições segundo as
A Arqueologia do Saber 121
quais ela faz aparecerem unidades diversas (que podem ser, mas
não necessariamente, de ordem gramatical ou lógica). Mas
encontro-me, agora, diante da obrigação de responder a duas
questões: o que devemos entender, daqui para a frente, pela tarefa,
inicialmente proposta, de descrever enunciados? Como a teoria do
enunciado pode-se ajustar à análise das formações discursivas que
havia sido esboçada sem ela?
A
1. Primeiro cuidado: fixar o vocabulário. Se aceitamos chamar
performance verbal, ou talvez melhor performance linguística,
todo conjunto de signos efetivamente produzidos a partir de uma
língua natural (ou artificial), poderemos chamar formulação o ato
individual (ou, a rigor, coletivo) que faz surgir, em um material
qualquer e segundo uma forma determinada, esse grupo de signos:
a formulação é um acontecimento que, pelo menos de direito, é
sempre demarcável segundo coordenadas espaço-temporais, que
pode ser sempre relacionada a um autor, e que eventualmente pode
constituir, por si mesma, um ato específico (um ato
"performativo", dizem os "analistas"* ingleses); chamaremos frase
ou proposição as unidades que a gramática ou a lógica podem
reconhecer em um conjunto de signos: essas unidades podem ser
sempre caracterizadas pelos elementos que aí figuram e pelas
regras de construção que as unem; em relação à frase e à
proposição, as questões de origem, de tempo e de lugar, e de
contexto, não passam de subsidiárias; a questão decisiva é a de sua
correção (ainda que sob a forma de "aceitabilidade"). Chamaremos
enunciado a modalidade de existência própria desse conjunto de
signos: modalidade que lhe permite ser algo diferente de uma série
de traços, algo diferente de uma sucessão de marcas em uma
substância, algo diferente de um objeto qualquer fabricado por um
ser humano; modalidade que lhe permite estar em relação com um
domínio de objetos, prescrever uma posição definida a qualquer
sujeito possível, estar situado
* Foucault chama de "analistas" os adeptos ou representantes da chamada
filosofia analítica, uma das vertentes básicas da filosofia do século XX (N. da ed.
bras.).
122 Michel Foucault
entre outras performances verbais, estar dotado, enfim, de uma
materialidade repetível. Quanto ao termo discurso, de que aqui
usamos e abusamos em sentidos bem diferentes, podemos agora
compreender a razão de seu equívoco: da maneira mais geral e
imprecisa, ele designava um conjunto de performances verbais; e
entendia-se então por discurso o que havia sido produzido
(eventualmente tudo que havia sido produzido) em matéria de
conjunto de signos. Mas se compreendia também por discurso um
conjunto de atos de formulação, uma série de frases ou de
proposições. Enfim - e este sentido foi finalmente privilegiado
(com o primeiro que lhe serve de horizonte) -, o discurso é
constituído por um conjunto de sequências de signos, enquanto
enunciados, isto é, enquanto lhes podemos atribuir modalidades
particulares de existência. E se conseguir demonstrar - como
tentarei em seguida -que a lei de tal série é precisamente o que
chamei, até aqui, formação discursiva, se conseguir demonstrar
que esta é o princípio de dispersão e de repartição, não das
formulações, das frases, ou das proposições, mas dos enunciados
(no sentido que dei à palavra), o termo discurso poderá ser fixado:
conjunto de enunciados que se apóia em um mesmo sistema de
formação; é assim que poderei falar do discurso clínico, do
discurso econômico, do discurso da história natural, do discurso
psiquiátrico.
Sei que essas definições, em sua maioria, não correspondem ao
uso corrente: os linguistas têm o hábito de dar à palavra discurso
um sentido inteiramente diferente; lógicos e "analistas" usam de
forma diferente o termo enunciado. Mas não pretendo, aqui,
transferir para um domínio - que esperaria apenas essa luz - um
jogo de conceitos, uma forma de análise, uma teoria, que teriam
sido formados em algum outro lugar; não pretendo utilizar um
modelo aplicando-o, com a eficácia que lhe é própria, a conteúdos
novos. Não, certamente, que eu queira contestar o valor de
semelhante modelo; não que eu queira, antes mesmo de tê-lo
testado, limitar-lhe o alcance e indicar imperiosamente o limiar
que não deveria ser por ele transposto. Mas gostaria de fazer
aparecer uma possibilidade descritiva, esboçar o domínio ao qual
ela é suscetível, definir seus limites e sua autonomia. Essa
possibilidade descritiva se articula com outras, não deriva delas.
A Arqueologia do Saber 123
Vê-se, em particular, que a análise dos enunciados não pretende
ser uma descrição total, exaustiva da "linguagem" ou de "o que foi
dito". Em toda densidade resultante das performances verbais, ela
se situa num nível particular que deve ser separado dos outros,
caracterizado em relação a eles e abstraído. Ela não toma o lugar
de uma análise lógica das proposições, de uma análise gramatical
das frases, de uma análise psicológica ou contextual das
formulações: constitui uma outra maneira de abordar as
performances verbais, de dissociar sua complexidade, de isolar os
termos que aí se entrecruzam e de demarcar as diversas
regularidades a que obedecem. Pondo em jogo o enunciado frente à
frase ou à proposição, não se tenta reencontrar uma totalidade
perdida, nem ressuscitar, conforme convidam muitas nostalgias
que não querem se calar, a plenitude da expressão viva, a riqueza
do verbo, a unidade profunda do logos. A análise dos enunciados
corresponde a um nível específico de descrição.
2. O enunciado não é, pois, uma unidade elementar que viria
somar-se ou misturar-se às unidades descritas pela gramática ou
pela lógica. Não pode ser isolado como uma frase, uma proposição
ou um ato de formulação. Descrever um enunciado não significa
isolar e caracterizar um segmento horizontal, mas definir as
condições nas quais se realizou a função que deu a uma série de
signos (não sendo esta forçosamente gramatical nem logicamente
estruturada) uma existência, e uma existência específica. Esta a faz
aparecer não como um simples traço, mas como relação com um
domínio de objetos; não como resultado de uma ação ou de uma
operação individual, mas como um jogo de posições possíveis para
um sujeito; não como uma totalidade orgânica, autônoma, fechada
em si e suscetível de - sozinha - formar sentido, mas como um
elemento em um campo de coexistência; não como um
acontecimento passageiro ou um objeto inerte, mas como uma
materialidade repetível. A descrição dos enunciados se dirige,
segundo uma dimensão de certa forma vertical, às condições de
existência dos diferentes conjuntos significantes. Daí um paradoxo:
ela não tenta contornar as performances verbais para descobrir,
atrás delas, ou sob sua superfície aparente, um elemento oculto, um
sentido secreto que nelas se esconde, ou que através delas aparece
sem dizê-lo;
124 Michel Foucault
e, entretanto, o enunciado não é imediatamente visível; não se
apresenta de forma tão manifesta quanto uma estrutura gramatical
ou lógica (mesmo se esta não estiver inteiramente clara, mesmo se
for muito difícil de elucidar). O enunciado é, ao mesmo tempo,
não visível e não oculto.
Não oculto, por definição, já que caracteriza as modalidades de
existência próprias de um conjunto de signos efetivamente
produzidos. A análise enunciativa só pode se referir a coisas ditas,
a frases que foram realmente pronunciadas ou escritas, a elementos
significantes que foram traçados ou articulados - e, mais
precisamente, a essa singularidade que as faz existirem, as oferece
à observação, à leitura, a uma reativação eventual, a mil usos ou
transformações possíveis, entre outras coisas, mas não como as
outras coisas. Só pode se referir a performances verbais realizadas,
já que as analisa no nível de sua existência: descrição das coisas
ditas, precisamente porque foram ditas. A análise enunciativa é,
pois, uma análise histórica, mas que se mantém fora de qualquer
interpretação: às coisas ditas, não pergunta o que escondem, o que
nelas estava dito e o não-dito que involuntariamente recobrem, a
abundância de pensamentos, imagens ou fantasmas que as
habitam; mas, ao contrário, de que modo existem, o que significa
para elas o fato de se terem manifestado, de terem deixado rastros
e, talvez, de permanecerem para uma reutilização eventual; o que é
para elas o fato de terem aparecido - e nenhuma outra em seu
lugar. Desse ponto de vista, não se reconhece nenhum enunciado
latente: pois aquilo a que nos dirigimos está na evidência da
linguagem efetiva.
Trata-se de uma tese difícil de sustentar. Sabemos - e, talvez,
desde que os homens falam - que as coisas, muitas vezes, são ditas
umas pelas outras; que uma mesma frase pode ter,
simultaneamente, duas significações diferentes; que um sentido
manifesto, aceito sem dificuldade por todos, pode encobrir um
segundo, esotérico ou profético, que uma decifração mais sutil ou
apenas a erosão do tempo acabarão por descobrir; que sob uma
formulação visível pode reinar uma outra que a comande,
desordene, perturbe, lhe imponha uma articulação que só a ela
pertence; enfim, que, de um modo ou de outro, as coisas ditas
dizem bem mais que elas mesmas. Mas, de fato, esses efeitos de
redobramento ou de desdobramento, esse não-dito que se encontra
dito, apesar de tudo,
A Arqueologia do Saber 125
não afetam o enunciado, pelo menos como foi aqui definido. A
polissemia - que autoriza a hermenêutica e a descoberta de um
outro sentido - diz respeito à frase e aos campos semânticos que ela
utiliza: um único e mesmo conjunto de palavras pode dar lugar a
vários sentidos e a várias construções possíveis; ele pode ter,
entrelaçadas ou alternadas, significações diversas, mas sobre uma
base enunciativa que permanece idêntica. Da mesma forma, a
repressão de uma performance verbal por outra, sua substituição
ou sua interferência, são fenômenos que pertencem ao nível da
formulação (mesmo se têm incidências sobre as estruturas
linguísticas ou lógicas); mas o próprio enunciado não é afetado,
pelo desdobramento ou pelo recalcamento, já que é a modalidade
de existência da performance verbal tal como foi efetivada. O
enunciado não pode ser considerado como o resultado cumulativo
ou a cristalização de vários enunciados flutuantes, apenas
articulados, que se rejeitam entre si. O enunciado não é
assombrado pela presença secreta do não-dito, das significações
ocultas, das repressões; ao contrário, a maneira pela qual os
elementos ocultos funcionam e podem ser restituídos depende da
própria modalidade enunciativa: sabemos que o "não-dito", o
"reprimido", não é o mesmo - nem em sua estrutura nem em seu
efeito -quando se trata de um enunciado matemático e de um
enunciado econômico, quando se trata de uma autobiografia ou da
narração de um sonho.
Entretanto, a todas essas modalidades diversas do não-dito que
podem ser demarcadas sobre o campo enunciativo, é necessário,
sem dúvida, acrescentar uma ausência, que, ao invés de ser
interior, seria correlativa a esse campo e teria um papel na
determinação de sua própria existência. Pode haver - e, sem
dúvida, sempre há -, nas condições de emergência dos enunciados,
exclusões, limites ou lacunas que delineiam seu referencial,
validam uma única série de modalidades, cercam e englobam
grupos de coexistência, impedem certas formas de utilização. Mas
não se deve confundir, nem em seu status, nem em seu efeito, a
ausência característica de uma regularidade enunciativa e as
significações encobertas pelo que se encontra formulado.
3. Ora, por mais que o enunciado não seja oculto, nem por isso
é visível; ele não se oferece à percepção como portador
126 Michel Foucault
manifesto de seus limites e caracteres. É necessária uma certa
conversão do olhar e da atitude para poder reconhecê-lo e
considerá-lo em si mesmo. Talvez ele seja tão conhecido que se
esconde sem cessar; talvez seja como essas transparências
familiares que, apesar de nada esconderem em sua espessura, não
são apresentadas com clareza total. O nível enunciativo se esboça
em sua própria proximidade.
Há várias razões para isso. A primeira já foi dita: o enunciado
não é uma unidade ao lado - acima ou abaixo - das frases ou das
proposições; está sempre dentro de unidades desse gênero, ou
mesmo em sequências de signos que não obedecem a suas leis (e
que podem ser listas, séries ao acaso, quadros); caracteriza não o
que nelas se apresenta ou a maneira pela qual são delimitadas, mas
o próprio fato de serem apresentadas, e a maneira pela qual o são.
Ele tem essa quase-invisibilidade do "há", que se apaga naquilo
mesmo do qual se pode dizer: "há tal ou tal coisa".
Outra razão é a de que a estrutura significante da linguagem
remete sempre a outra coisa; os objetos aí se encontram
designados; o sentido é visado; o sujeito é tomado como referência
por um certo número de signos, mesmo se não está presente em si
mesmo. A linguagem parece sempre povoada pelo outro, pelo
ausente, pelo distante, pelo longínquo; ela é atormentada pela
ausência. Não é ela o lugar de aparecimento de algo diferente de si
e, nessa função, sua própria existência não parece se dissipar? Ora,
se queremos descrever o nível enunciativo, é preciso levar em
consideração justamente essa existência; interrogar a linguagem,
não na direção a que ela remete, mas na dimensão que a produz;
negligenciar o poder que ela tem de designar, de nomear, de
mostrar, de fazer aparecer, de ser o lugar do sentido ou da verdade
e, em compensação, de se deter no momento - logo solidificado,
logo envolvido no jogo do significante e do significado - que
determina sua existência singular e limitada. Trata-se de suspender,
no exame da linguagem, não apenas o ponto de vista do significado
(o que já é comum agora), mas também o do significante, para
fazer surgir o fato de que em ambos existe linguagem, de acordo
com domínios de objetos e sujeitos possíveis, de acordo com outras
formulações e reutilizações eventuais.
Finalmente, última razão da quase-invisibilidade do enunciado:
ele é suposto por todas as outras análises da linguagem
A Arqueologia do Saber 127
sem que elas tenham jamais de mostrá-lo. Para que a linguagem
possa ser tomada como objeto, decomposta em níveis distintos,
descrita e analisada, é preciso que haja um "dado enunciativo" que
será sempre determinado e não infinito: a análise de uma língua se
efetua sempre a partir de um corpus de discursos e textos; a
interpretação e a revelação das significações implícitas repousam
sempre em um grupo delimitado de frases; a análise lógica de um
sistema implica a reescrita, em uma linguagem formal, de um
conjunto dado de proposições. Quanto ao nível enunciativo,
encontra-se cada vez neutralizado: seja porque se defina somente
como uma amostra representativa que permite liberar estruturas
indefinidamente aplicáveis; seja porque se esconda em uma pura
aparência, atrás da qual deve aparecer a verdade de uma outra fala;
seja porque valha como uma substância indiferente que serve de
suporte a relações formais. O fato de ser sempre indispensável para
que a análise possa ocorrer lhe tira toda pertinência em relação à
própria análise. Se acrescentarmos a isso que todas essas
descrições só se podem efetivar quando elas próprias constituem
conjuntos finitos de enunciados, compreenderemos,
concomitantemente, por que o campo enunciativo as envolve de
todas as maneiras, por que elas não podem liberar-se dele e por que
não podem tomá-lo diretamente como tema. Considerar os
enunciados em si mesmos não será buscar, além de todas essas
análises e em um nível mais profundo, um certo segredo ou uma
certa raiz da linguagem que elas teriam omitido. É tentar tornar
visível e analisável essa transparência tão próxima que constitui o
elemento de sua possibilidade.
Nem oculto, nem visível, o nível enunciativo está no limite da
linguagem: não é, em si, um conjunto de caracteres que se
apresentariam, mesmo de um modo não sistemático, à experiência
imediata; mas não é, tampouco, por trás de si, o resto enigmático e
silencioso que não traduz. Ele define a modalidade de seu
aparecimento: antes sua periferia que sua organização interna,
antes sua superfície que seu conteúdo. Mas o fato de que se pode
descrever essa superfície enunciativa prova que o "dado da
linguagem não é a simples laceração de um mutismo fundamental;
que as palavras, as frases, as significações, as afirmações, os
encadeamentos de proposições não se apóiam diretamente na noite
primeira de um silêncio; mas
128 Michel Foucault
que o súbito aparecimento de uma frase, o lampejo do sentido, o
brusco índice da designação surgem sempre no domínio de
exercício de uma função enunciativa; que entre a linguagem, tal
como a lemos e ouvimos, mas também como a falamos, e a
ausência de qualquer formulação não há o formigamento de todas
as coisas pouco ditas, de todas as frases em suspenso, de todos os
pensamentos semiverbalizados, do monólogo infinito do qual
emergem apenas alguns fragmentos; mas, antes de tudo - ou, pelo
menos, antes dela (pois depende delas) -, as condições segundo as
quais se efetua a função enunciativa. Isso prova, também, que é
inútil procurar, além das análises estruturais, formais, ou
interpretativas da linguagem, um domínio finalmente liberto de
qualquer positividade, onde se poderiam desdobrar a liberdade do
sujeito, o labor do ser humano ou a abertura de uma destinação
transcendental. Nada há a objetar contra os métodos linguísticos ou
as análises lógicas: "Que faz você - depois de tanto falar sobre suas
regras de construção - da própria linguagem, na plenitude de seu
corpo vivo? Que faz da liberdade, ou do sentido anterior a toda
significação, sem os quais não haveria indivíduos se entendendo no
trabalho sempre retomado da linguagem? Ignora você que, tão logo
ultrapassados os sistemas finitos que tornam possível o infinito do
discurso, mas que são incapazes de fundá-lo e de dar conta dele,
encontramos a marca de uma transcendência ou a obra do ser
humano? Sabe que você somente descreveu alguns caracteres de
uma linguagem cuja emergência e modo de ser são, em suas
análises, inteiramente irredutíveis?" Estas objeções devem ser
afastadas: pois se é verdade que há uma dimensão que não pertence
nem à lógica, nem à linguística, ela não é, nem por isso, a
transcendência restaurada, nem o caminho reaberto em direção à
inacessível origem, nem a formação pelo ser humano de suas
próprias significações. A linguagem, na instância de seu
aparecimento e de seu modo de ser, é o enunciado; como tal, se
apóia em uma descrição que não é nem transcendental, nem
antropológica. A análise enunciativa não prescreve para as análises
linguísticas ou lógicas o limite a partir do qual elas deveriam
renunciar e reconhecer sua impotência; ela não marca a linha que
fecha seu domínio; mas se desenrola em outra direção que as cruza.
A possibilidade de uma análise enunciativa, se for estabelecida,
deve permitir erguer o suporte
A Arqueologia do Saber 129
transcendental que uma certa forma de discurso filosófico opõe a
todas as análises da linguagem, em nome do ser dessa linguagem e
do fundamento em que se deveria originar.
B
Devo voltar-me, agora, para o segundo grupo de questões: como
a descrição dos enunciados, assim definida, pode ajustar-se à
análise das formações discursivas, cujos princípios esbocei
anteriormente? E ao contrário: até que ponto se pode dizer que a
análise das formações discursivas é uma descrição dos enunciados,
no sentido que acabei de dar a essa palavra? É importante dar uma
resposta a essa questão, pois é neste ponto que o empreendimento a
que me liguei, há tantos anos, e que havia desenvolvido de maneira
um tanto ou quanto cega, mas cujo perfil geral tento agora retomar
- livre para reajustá-lo, livre para retificar-lhe erros ou
imprudências -, deve fechar seu círculo. Já pudemos vê-lo: não
tento dizer aqui o que quis fazer outrora em tal ou tal análise
concreta, o projeto que tinha em mente, os obstáculos que
encontrei, as renúncias a que fui levado, os resultados mais ou
menos satisfatórios que pude obter; não descrevo uma trajetória
efetiva para indicar o que ela deveria ter sido e o que será a partir
de hoje; tento elucidar nela mesma - a fim de medi-la e estabelecer
suas exigências - uma possibilidade de descrição que utilizei sem
conhecer bem suas restrições e recursos; em vez de procurar o que
eu disse, e o que teria podido dizer, esforço-me para mostrar, na
regularidade que lhe é própria e que eu controlava mal, aquilo que
tornava possível o que eu dizia. Mas vê-se, também, que não
desenvolvo aqui uma teoria, no sentido estrito e vigoroso do termo:
a dedução, a partir de um certo número de axiomas, de um modelo
abstrato, aplicável a um número indefinido de descrições
empíricas. O momento de tal construção, se for possível,
certamente ainda não chegou. Não infiro a análise das formações
discursivas a partir de uma definição dos enunciados que valeria
como fundamento; não infiro, tampouco, a natureza dos
enunciados a partir do que são as formações discursivas, como se
pôde abstraí-las desta ou daquela descrição; mas tento mostrar
como se pode organizar, sem falha, sem contradição, sem
imposição
130 Michel Foucault
interna, um domínio em que estão em questão os enunciados, seu
princípio de agrupamentos, as grandes unidades históricas que eles
podem constituir e os métodos que permitem descrevê-los. Não
procedo por dedução linear, mas por círculos concêntricos, e vou
ora na direção dos mais exteriores, ora na dos mais interiores:
partindo do problema da descontinuidade no discurso e da
singularidade do enunciado (tema central), procurei analisar, na
periferia, certas formas de grupamentos enigmáticos; mas os
princípios de unificação com que me deparei, e que não são nem
gramaticais, nem lógicos, nem psicológicos e que, por conseguinte,
não podem referir-se nem a frases, nem a proposições, nem a
representações, exigiram que eu voltasse para o centro, ao
problema do enunciado e que tentasse elucidar o que é preciso
entender por enunciado. E considerarei não que eu tenha
construído um modelo teórico rigoroso, mas que tenha liberado um
domínio coerente de descrição - do qual, se não estabeleci o
modelo, pelo menos abri e preparei a possibilidade - se tiver
conseguido "fechar o círculo" e mostrar que a análise das
formações discursivas está bem centrada na descrição do
enunciado em sua especificidade. Em suma, se tiver conseguido
mostrar que as dimensões próprias do enunciado é que estão
utilizadas na demarcação das formações discursivas. Não se trata
de fundar, de direito, uma teoria - e antes de poder eventualmente
fazê-lo (não nego que lamento não ter ainda chegado a tanto) -,
mas sim, no momento, de estabelecer uma possibilidade.
Examinando o enunciado, o que se descobriu foi uma função
que se apóia em conjuntos de signos, que não se identifica nem
com a "aceitabilidade" gramatical, nem com a correção lógica, e
que requer, para se realizar, um referencial (que não é exatamente
um fato, um estado de coisas, nem mesmo um objeto, mas um
princípio de diferenciação); um sujeito (não a consciência que fala,
não o autor da formulação, mas uma posição que pode ser ocupada,
sob certas condições, por indivíduos indiferentes); um campo
associado (que não é o contexto real da formulação, a situação na
qual foi articulada, mas um domínio de coexistência para outros
enunciados); uma materialidade (que não é apenas a substância ou
o suporte da articulação, mas um status, regras de transcrição,
possibilidades de uso ou de reutilização). Ora, o que se descreveu
sob o nome formação discursiva constitui, em sentido estrito,
grupos de
A Arqueologia do Saber 131
enunciados, isto é, conjuntos de performances verbais que não
estão ligadas entre si, no nível das frases, por laços gramaticais
(sintáticos ou semânticos); que não estão ligados entre si, no nível
das proposições, por laços lógicos (de coerência formal ou
encadeamentos conceituais); que tampouco estão ligados, no nível
das formulações, por laços psicológicos (seja a identidade das
formas de consciência, a constância das mentalidades, ou a
repetição de um projeto); mas que estão ligados no nível dos
enunciados. Isso supõe que se possa definir o regime geral a que
obedecem seus objetos, a forma de dispersão que reparte
regularmente aquilo de que falam, o sistema de seus referenciais;
que se defina o regime geral ao qual obedecem os diferentes modos
de enunciação, a distribuição possível das posições subjetivas e o
sistema que os define e os prescreve; que se defina o regime
comum a todos os seus domínios associados, as formas de
sucessão, de simultaneidade, de repetição de que todos são
suscetíveis, e o sistema que liga, entre si, todos esses campos de
coexistência; que se possa, enfim, definir o regime geral a que está
submetido o status desses enunciados, a maneira pela qual são
institucionalizados, recebidos, empregados, reutilizados,
combinados entre si, o modo segundo o qual se tornam objetos de
apropriação, instrumentos para o desejo ou interesse, elementos
para uma estratégia. Descrever enunciados, descrever a função
enunciativa de que são portadores, analisar as condições nas quais
se exerce essa função, percorrer os diferentes domínios que ela
pressupõe e a maneira pela qual se articulam é tentar revelar o que
se poderá individualizar como formação discursiva, ou, ainda, a
mesma coisa, porém na direção inversa: a formação discursiva é o
sistema enunciativo geral ao qual obedece um grupo de
performances verbais - sistema que não o rege sozinho, já que ele
obedece, ainda, e segundo suas outras dimensões, aos sistemas
lógico, linguístico, psicológico. O que foi definido como
"formação discursiva" escande o plano geral das coisas ditas no
nível específico dos enunciados. As quatro direções em que a
analisamos (formação dos objetos, formação das posições
subjetivas, formação dos conceitos, formação das escolhas
estratégicas) correspondem aos quatro domínios em que se exerce
a função enunciativa. E se as formações discursivas são livres em
relação às grandes unidades retóricas do texto ou do livro, se não
têm por lei o
132 Michel Foucault
rigor de uma arquitetura dedutiva, se não se identificam com a obra
de um autor, é porque utilizam o nível enunciativo com as
regularidades que o caracterizam, e não o nível gramatical das
frases, ou lógico das proposições, ou psicológico da formulação.
A partir disso, podemos adiantar um certo número de
proposições que estão no centro de todas essas análises.
1. Pode-se dizer que a demarcação das formações discursivas,
independentemente dos outros princípios de possível unificação,
revela o nível específico do enunciado; mas pode-se dizer, da
mesma forma, que a descrição dos enunciados e da maneira pela
qual se organiza o nível enunciativo conduz à individualização das
formações discursivas. Os dois procedimentos são igualmente
justificáveis e reversíveis. A análise do enunciado e a da formação
são estabelecidas correlativa mente. Quando chegar, enfim, o dia
de fundar a teoria, será necessário definir uma ordem dedutiva.
2. Um enunciado pertence a uma formação discursiva, como
uma frase pertence a um texto, e uma proposição a um conjunto
dedutivo. Mas enquanto a regularidade de uma frase é definida
pelas leis de uma língua, e a de uma proposição pelas leis de uma
lógica, a regularidade dos enunciados é definida pela própria
formação discursiva. A lei dos enunciados e o fato de pertencerem
à formação discursiva constituem uma única e mesma coisa; o que
não é paradoxal, já que a formação discursiva se caracteriza não
por princípios de construção, mas por uma dispersão de fato, já que
ela é para os enunciados não uma condição de possibilidade, mas
uma lei de coexistência, e já que os enunciados, em troca, não são
elementos intercambiáveis, mas conjuntos caracterizados por sua
modalidade de existência.
3. Pode-se então, agora, dar um sentido pleno à definição do
"discurso" que havia sido sugerida anteriormente. Chamaremos de
discurso um conjunto de enunciados, na medida em que se apóiem
na mesma formação discursiva; ele não forma uma unidade
retórica ou formal, indefinidamente repetível e cujo aparecimento
ou utilização poderíamos assinalar (e explicar, se for o caso) na
história; é constituído de um número
A Arqueologia do Saber 133
limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto
de condições de existência. O discurso, assim entendido, não é
uma forma ideal e intemporal que teria, além do mais, uma
história; o problema não consiste em saber como e por que ele
pôde emergir e tomar corpo num determinado ponto do tempo; é,
de parte a parte, histórico - fragmento de história, unidade e
descontinuidade na própria história, que coloca o problema de seus
próprios limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos
específicos de sua temporalidade, e não de seu surgimento abrupto
em meio às cumplicidades do tempo.
4. Finalmente, o que se chama "prática discursiva" pode ser
agora precisado. Não podemos confundi-la com a operação
expressiva pela qual um indivíduo formula uma idéia, um desejo,
uma imagem; nem com a atividade racional que pode ser acionada
em um sistema de inferência; nem com a "competência" de um
sujeito falante, quando constrói frases gramaticais; é um conjunto
de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no
espaço, que definiram, em uma dada época e para uma
determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as
condições de exercício da função enunciativa.
Resta-me, agora, fazer oscilar a análise e, após ter relacionado
as formações discursivas aos enunciados que descrevem, procurar
em uma outra direção, rumo ao exterior desta vez, o uso legítimo
dessas noções: o que se pode descobrir através delas, como podem
ter lugar entre outros métodos de descrição, até que ponto podem
modificar e redistribuir o domínio da história das idéias.
Entretanto, antes de efetuar essa reversão e para realizá-la com
mais segurança, ficarei ainda um pouco mais na dimensão que
acabei de explorar, e tentarei precisar o que é exigido e o que é
excluído pela análise do campo enunciativo e das formações que o
escandem.
4
RARIDADE, EXTERIORIDADE, ACÚMULO
A análise enunciativa leva em conta um efeito de raridade.
A análise do discurso está colocada, na maior parte do tempo,
sob o duplo signo da totalidade e da pletora. Mostra-se como os
diferentes textos de que tratamos remetem uns aos outros, se
organizam em uma figura única, entram em convergência com
instituições e práticas, e carregam significações que podem ser
comuns a toda uma época. Cada elemento considerado é recebido
como a expressão de uma totalidade à qual pertence e que o
ultrapassa. Substitui-se, assim, a diversidade das coisas ditas por
uma espécie de grande texto uniforme, ainda jamais articulado e
que, pela primeira vez, traz à luz o que os homens haviam "querido
dizer", não apenas em suas palavras e seus textos, seus discursos e
seus escritos, mas nas instituições, práticas, técnicas e objetos que
produzem. Em relação a esse "sentido" implícito, soberano e
comunitário, os enunciados, em sua proliferação, aparecem em
superabundância, já que é apenas a ele que todos remetem e só ele
constitui sua verdade: pletora dos elementos significantes em
relação a esse significado único. Mas já que esse sentido primeiro e
último brota através das formulações manifestas, já que se esconde
sob o que aparece e secretamente o desdobra, é que cada discurso
encobria o poder de dizer algo diferente do que ele dizia e de
englobar, assim, uma
A Arqueologia do Saber 135
pluralidade de sentidos: pletora do significado em relação a um
significante único. Assim estudado, o discurso é, ao mesmo tempo,
plenitude e riqueza indefinida.
A análise dos enunciados e das formações discursivas abre uma
direção inteiramente oposta: ela quer determinar o princípio segundo o
qual puderam aparecer os únicos conjuntos significantes que foram
enunciados. Busca estabelecer uma lei de raridade. Essa tarefa
compreende vários aspectos:
- Ela repousa no princípio de que nem tudo é sempre dito; em relação
ao que poderia ser enunciado era língua natural, em relação à
combinatória ilimitada dos elementos linguísticos, os enunciados (por
numerosos que sejam) estão sempre em deficit; a partir da gramática e do
tesouro vocabular de que se dispõe em dada época, relativamente poucas
coisas são ditas em suma. Vamos, então, procurar o princípio da rarefação
ou, pelo menos, do não-preenchimento do campo das formulações
possíveis, tal como é aberto pela língua. A formação discursiva aparece,
ao mesmo tempo, como princípio de escansão no emaranhado dos
discursos e princípio de vacuidade no campo da linguagem.
- Estudam-se os enunciados no limite que os separa do que não está
dito, na instância que os faz surgirem à exclusão de todos os outros. Não
se trata de fazer falar o mutismo que os cerca, nem de reencontrar tudo
aquilo que, neles e ao lado deles, se havia calado ou sido reduzido ao
silêncio. Não se trata, tampouco, de estudar os obstáculos que impediram
tal descoberta, retiveram tal formulação, recalcaram tal forma de
enunciação, tal significação inconsciente, ou tal racionalidade em devir;
mas de definir um sistema limitado de presenças. A formação discursiva
não é, pois, uma totalidade em desenvolvimento, tendo seu dinamismo
próprio ou sua inércia particular, carregando consigo, em um discurso não
formulado, o que ela não mais diz, ainda não diz, ou o que a contradiz no
momento; não é uma rica e difícil germinação, mas uma distribuição de
lacunas, de vazios, de ausências, de limites, de recortes.
- Entretanto, não ligamos essas "exclusões" a um recalcamento ou a
uma repressão; não supomos que, sob enunciados manifestos, alguma
coisa permaneça oculta e subjacente. Analisamos os enunciados não como
se estivessem no lugar de outros enunciados caídos abaixo da linha de
emergência possível, mas como estando sempre em seu lugar próprio.
Recolocamo-los em um espaço que seria inteiramente aberto e que não
comportaria nenhuma reduplicação. Não há texto embaixo, portanto
nenhuma pletora. O domínio enunciativo está, inteiro, em sua própria
superfície. Cada enunciado ocupa aí um lugar que só a ele pertence. A
descrição não consiste, pois, a
136 Michel Foucault
propósito de um enunciado, em reconhecer o não-dito cujo lugar ele
ocupa; nem como podemos reduzi-lo a um texto silencioso e comum;
mas, pelo contrário, que posição singular ocupa, que ramificações no
sistema das formações permitem demarcar sua localização, como ele se
isola na dispersão geral dos enunciados.
- Essa raridade dos enunciados, a forma lacunar e retalhada do campo
enunciativo, o fato de que poucas coisas, em suma, podem ser ditas,
explicam que os enunciados não sejam, como o ar que respiramos, uma
transparência infinita; mas sim coisas que se transmitem e se conservam,
que têm um valor, e das quais procuramos nos apropriar; que repetimos,
reproduzimos e transformamos; para as quais preparamos circuitos
preestabelecidos e às quais damos uma posição dentro da instituição;
coisas que são desdobradas não apenas pela cópia ou pela tradução, mas
pela exegese, pelo comentário e pela proliferação interna do sentido. Por
serem raros os enunciados, recolhemo-los em totalidades que os unificam
e multiplicamos os sentidos que habitam cada um deles.
Diferentemente de todas essas interpretações cuja própria existência
só é possível pela raridade efetiva dos enunciados, mas que entretanto não
tomam conhecimento dela, e, ao contrário, tomam como tema a compacta
riqueza do que é dito, a análise das formações discursivas se volta para
essa raridade; toma-a por objeto explícito; tenta determinar-lhe o sistema
singular; e, ao mesmo tempo, dá conta do fato de que pôde haver
interpretação. Interpretar é uma maneira de reagir à pobreza enunciativa e
de compensá-la pela multiplicação do sentido; uma maneira de falar a
partir dela e apesar dela. Mas analisar uma formação discursiva é procurar
a lei de sua pobreza, é medi-la e determinar-lhe a forma específica. É,
pois, em um sentido, pesar o "valor" dos enunciados. Esse valor não é
definido por sua verdade, não é avaliado pela presença de um conteúdo
secreto; mas caracteriza o lugar deles, sua capacidade de circulação e de
troca, sua possibilidade de transformação, não apenas na economia dos
discursos, mas na administração, em geral, dos recursos raros. Assim
concebido, o discurso deixa de ser o que é para a atitude exegética:
tesouro inesgotável de onde se podem tirar sempre novas riquezas, e a
cada vez imprevisíveis; providência que sempre falou antecipadamente e
que faz com que se ouça, quando se sabe escutar, oráculos retrospectivos;
ele aparece como um bem - finito, limitado, desejável, útil - que tem suas
regras de
A Arqueologia do Saber 137
aparecimento e também suas condições de apropriação e de
utilização; um bem que coloca, por conseguinte, desde sua
existência (e não simplesmente em suas "aplicações práticas"), a
questão do poder; um bem que é, por natureza, o objeto de uma
luta, e de uma luta política.
Eis outro traço característico: a análise dos enunciados trata-os
na forma sistemática da exterioridade. Em geral, a descrição
histórica das coisas ditas é inteiramente atravessada pela oposição
do interior e do exterior, e inteiramente comandada pela tarefa de
voltar dessa exterioridade - que não passaria de contingência ou
pura necessidade material, corpo visível ou tradução incerta - em
direção ao núcleo essencial da interioridade. Empreender a história
do que foi dito é refazer, em outro sentido, o trabalho da expressão:
retomar enunciados conservados ao longo do tempo e dispersos no
espaço, em direção ao segredo interior que os precedeu, neles se
depositou e aí se encontra (em todos os sentidos do termo) traído.
Assim se encontra libertado o núcleo central da subjetividade
fundadora, que permanece sempre por trás da história manifesta e
que encontra, sob os acontecimentos, uma outra história, mais
séria, mais secreta, mais fundamental, mais próxima da origem,
mais ligada a seu horizonte último (e, por isso, mais senhora de
todas as suas determinações). Essa outra história, que corre sob a
história, que se antecipa a ela sem cessar e recolhe indefinidamente
o passado, podemos descrevê-la - de um modo sociológico ou
psicológico - como a evolução das mentalidades; podemos dar-lhe
um status filosófico no recolhimento do logos ou na teleologia da
razão; podemos tentar, enfim, purificá-la na problemática de um
traço que seria, antes de qualquer palavra, abertura da inscrição e
afastamento do tempo diferido: é sempre o tema
histórico-transcendental que se reinveste.
Desse tema a análise enunciativa tenta liberar-se, para restituir
os enunciados à sua pura dispersão; para analisá-los em uma
exterioridade sem dúvida paradoxal, já que não remete a nenhuma
forma adversa de interioridade; para considerá-los em sua
descontinuidade, sem ter de relacioná-los, por um desses
deslocamentos que os põem fora de circuito e os tornam
inessenciais, a uma abertura ou a uma diferença mais fundamental;
para apreender sua própria irrupção no lugar e no momento em que
se produziu; para reencontrar
138 Michel Foucault
sua incidência de acontecimento. Sem dúvida, seria melhor falar de
"neutralidade" que de exterioridade; mas essa palavra remete demasiado
facilmente a uma suspensão de crença, a um desaparecimento ou a uma
colocação entre parênteses de qualquer posição de existência, enquanto o
que importa é reencontrar o exterior onde se repartem, em sua relativa
raridade, em sua vizinhança lacunar, em seu espaço aberto, os
acontecimentos enunciativos.
- Essa tarefa supõe que o campo dos enunciados não seja descrito
corno uma "tradução" de operações ou de processos que se desenrolam
em algum outro lugar (no pensamento dos homens, em sua consciência ou
em seu inconsciente, na esfera das constituições transcendentais); mas que
seja aceito, em sua modéstia empírica, como local de acontecimentos, de
regularidades, de relacionamentos, de modificações determinadas, de
transformações sistemáticas; em suma, que seja tratado não como
resultado ou vestígio de outra coisa, mas como um domínio prático que é
autônomo (apesar de dependente) e que se pode descrever em seu próprio
nível (se bem que seja preciso articulá-lo como algo que não seja ele).
- Ela supõe também que esse domínio enunciativo não tome como
referência nem um sujeito individual, nem alguma coisa semelhante a
uma consciência coletiva, nem uma subjetividade transcendental; mas que
seja descrito como um campo anônimo cuja configuração defina o lugar
possível dos sujeitos falantes. Não é mais preciso situar os enunciados em
relação a uma subjetividade soberana, mas reconhecer, nas diferentes
formas da subjetividade que fala, efeitos próprios do campo enunciativo.
- Ela supõe, em consequência disso, que em suas transformações, em
suas séries sucessivas, em suas derivações, o campo dos enunciados não
obedeça à temporalidade da consciência como a seu modelo necessário.
Não se deve esperar - pelo menos nesse nível e nessa forma de descrição -
poder escrever uma história das coisas ditas que seria, de pleno direito, ao
mesmo tempo era sua forma, em sua regularidade e em sua natureza, a
história de uma consciência individual ou anônima, de um projeto, de um
sistema de intenções, de um conjunto de metas. O tempo dos discursos
não é a tradução, em uma cronologia visível, do tempo obscuro do
pensamento.
A análise dos enunciados se efetua, pois, sem referência a um cogito.
Não coloca a questão de quem fala, se manifesta ou se oculta no que diz,
quem exerce tomando a palavra sua liberdade soberana, ou se submete
sem sabê-lo a coações que percebe mal. Ela situa-se, de fato, no nível do
"diz-se" - e isso
A Arqueologia do Saber 139
não eleve ser entendido como uma espécie de opinião comum, de
representação coletiva que se imporia a todo indivíduo, nem como
uma grande voz anônima que falaria necessariamente através dos
discursos de cada um; mas como o conjunto das coisas ditas, as
relações, as regularidades e as transformações que podem aí ser
observadas, o domínio do qual certas figuras e certos
entrecruzamentos indicam o lugar singular de um sujeito falante e
podem receber o nome de um autor. "Não importa quem fala", mas
o que ele diz não é dito de qualquer lugar. É considerado,
necessariamente, no jogo de uma exterioridade.
Eis o terceiro traço da análise enunciativa: ela se dirige a
formas específicas de acúmulo que não podem identificar-se nem
com uma interiorização na forma da lembrança, nem com uma
totalização indiferente dos documentos. Geralmente, quando
analisamos discursos já efetuados, consideramo-los como afetados
por uma inércia essencial: o acaso conservou-os, ou o cuidado dos
homens e as ilusões que puderam tecer sobre o valor e a imortal
dignidade de suas palavras; mas não são, a partir daí, nada mais
que grafismos amontoados sob a poeira das bibliotecas, dormindo
um sono para o qual não deixaram de deslizar desde que foram
pronunciados, desde que foram esquecidos, e desde que seu efeito
visível se perdeu no tempo. Quando muito, são suscetíveis de
serem favoravelmente retomados nas redescobertas da leitura;
quando muito, podem ser aí descobertos como portadores das
marcas que remetem à instância de sua enunciação; quando muito,
essas marcas, uma vez decifradas, podem liberar, por uma espécie
de memória que atravessa o tempo, significações, pensamentos,
desejos, fantasmas sepultados. Estes quatro termos, leitura - traço -
decifração - memória (qualquer que seja o privilégio que se dê a
um ou outro, e qualquer que seja a extensão metafórica que se lhe
atribua e que lhe permita reconsiderar os três outros), definem o
sistema que permite, usualmente, arrancar o discurso passado de
sua inércia e reencontrar, num momento, algo de sua vivacidade
perdida.
Ora, a particularidade da análise enunciativa não e despertar
textos de seu sono atual para reencontrar, encantando as marcas
ainda legíveis em sua superfície, o clarão de seu nascimento;
trata-se, ao contrário, de segui-los ao longo de seu
140 Michel Foucault
sono, ou, antes, de levantar os temas relacionados ao sono, ao
esquecimento, à origem perdida, e de procurar que modo de existência
pode caracterizar os enunciados, independentemente de sua enunciação,
na espessura do tempo em que subsistem, em que se conservaram, em que
são reativados, e utilizados, em que são, também, mas não por uma
destinação originária, esquecidos e até mesmo, eventualmente,
destruídos.
- Essa análise supõe que os enunciados sejam considerados na
remanência que lhes é própria e que não é a do retorno sempre possível
ao acontecimento passado da formulação. Dizer que os enunciados são
remanentes não é dizer que eles permanecem no campo da memória ou
que se pode reencontrar o que queriam dizer, mas sim que se conservaram
graças a um certo número de suportes e de técnicas materiais (de que o
livro não passa, é claro, de um exemplo), segundo certos tipos de
instituições (entre muitas outras, a biblioteca) e com certas modalidades
estatutárias (que não são as mesmas quando se trata de um texto religioso,
de um regulamento de direito ou de uma verdade científica). Isso quer
dizer, também, que eles estão investidos em técnicas que os põem em
aplicação, em práticas que daí derivam em relações sociais que se
constituíram ou se modificaram através deles. Isso quer dizer, finalmente,
que as coisas não têm mais o mesmo modo de existência, o mesmo
sistema de relações com o que as cerca, os mesmos esquemas de uso, as
mesmas possibilidades de transformação depois de terem sido ditas.
Embora a conservação através do tempo seja o prolongamento acidental
ou bem-sucedido de uma existência feita para passar com o momento, a
remanência pertence, de pleno direito, ao enunciado; o esquecimento e a
destruição são apenas, de certa forma, o grau zero da remanência. E sobre
o fundo por ela constituído, os jogos da memória e da lembrança
podem-se desenrolar.
- Essa análise supõe igualmente que os enunciados sejam abordados
na forma de aditividade que lhes é específica. Na verdade, os tipos de
grupamento entre enunciados sucessivos não são sempre os mesmos e não
procedem jamais por simples amontoamento ou justaposição de
elementos sucessivos. Os enunciados matemáticos não se adicionam entre
si como os textos religiosos ou os atos de jurisprudência (cada um tem um
modo específico de se compor, de se anular, de se excluir, de se
completar, de formar grupos mais ou menos indissociáveis e dotados de
propriedades singulares). Além do mais, as formas de atividade não se
apresentam de forma definitiva para uma categoria determinada de
enunciados: as observações médicas de hoje formam um corpus que não
obedece às mesmas leis de composição que a coleção dos casos do século
XVIII; a matemática moderna
A Arqueologia do Saber 141
não acumula seus enunciados pelo mesmo modelo que a geometria de
Euclides.
- A análise enunciativa supõe, finalmente, que se levem em
consideração os fenômenos de recorrência. Todo enunciado compreende
um campo de elementos antecedentes em relação aos quais se situa, mas
que tem o poder de reorganizar e de redistribuir segundo relações novas.
Ele constitui seu passado, define, naquilo que o precede, sua própria
filiação, redesenha o que o torna possível ou necessário, exclui o que não
pode ser compatível com ele. Além disso, coloca o passado enunciativo
como verdade adquirida, como um acontecimento que se produzia, como
uma forma que se pode modificar, como matéria a transformar, ou, ainda,
como objeto de que se pode falar. Em relação a todas essas possibilidades
de recorrência, a memória e o esquecimento, a redescoberta do sentido ou
sua repressão, longe de serem leis fundamentais, não passam de figuras
singulares.
A descrição dos enunciados e das formações discursivas deve-se livrar
da imagem tão frequente e obstinada do retorno. Ela não pretende voltar,
além de um tempo que seria apenas queda, latência, esquecimento,
recobrimento ou errância, ao momento fundador em que a palavra não
estava ainda comprometida com qualquer materialidade, não estava
condenada a nenhuma persistência e se retinha na dimensão não
determinada da abertura. Não tenta constituir para o já dito o instante
paradoxal do segundo nascimento; não invoca uma aurora prestes a
retornar. Ao contrário, trata os enunciados na densidade do acúmulo em
que são tomados e que, entretanto, não deixam de modificar, de inquietar,
de agitar e, às vezes, de arruinar.
Descrever um conjunto de enunciados, não como a totalidade fechada
e pletórica de uma significação, mas como figura lacunar e retalhada;
descrever um conjunto de enunciados, não em referência à interioridade
de uma intenção, de um pensamento ou de um sujeito, mas segundo a
dispersão de uma exterioridade; descrever um conjunto de enunciados
para aí reencontrar não o momento ou a marca de origem, mas sim as
formas específicas de um acúmulo, não é certamente revelar uma
interpretação, descobrir um fundamento, liberar atos constituintes; não é,
tampouco, decidir sobre uma racionalidade ou percorrer uma teleologia. É
estabelecer o que eu chamaria, de bom grado, uma positividade. Analisar
uma formação discursiva é, pois, tratar um conjunto de
142 Michel Foucault
performances verbais, no nível dos enunciados e da forma de
positividade que as caracteriza; ou, mais sucintamente, é definir o
tipo de positividade de um discurso. Se substituir a busca das
totalidades pela análise da raridade, o tema do fundamento
transcendental pela descrição das relações de exterioridade, a busca
da origem pela análise dos acúmulos, é ser positivista, pois bem, eu
sou um positivista feliz, concordo facilmente. E não estou
desgostoso por ter, várias vezes (se bem que de maneira ainda um
pouco cega), empregado o termo positividade para designar, de
longe, a meada que tentava desenrolar.
5
O A PRIORI HISTÓRICO E O ARQUIVO
A positividade de um discurso - como o da história natural, da
economia política, ou da medicina clínica - caracteriza-lhe a
unidade através do tempo e muito além das obras individuais, dos
livros e dos textos. Essa unidade, certamente, não permite decidir
quem dizia a verdade, quem raciocinava rigorosamente, quem se
adaptava melhor a seus próprios postulados: Lineu ou Buffon,
Quesnay ou Turgot, Broussais ou Bichat; ela não permite,
tampouco, dizer qual das obras estava mais próxima de uma meta
inicial ou última, qual delas formularia mais radicalmente o projeto
geral de uma ciência. No entanto, permite o aparecimento da
medida segundo a qual Buffon e Lineu (ou Turgot e Quesnay,
Broussais e Bichat) falavam da "mesma coisa", colocando-se no
"mesmo nível" ou a "mesma distância", desenvolvendo "o mesmo
campo conceitual", opondo-se sobre "o mesmo campo de batalha";
e ela faz aparecer, em compensação, a razão pela qual não se pode
dizer que Darwin fala da mesma coisa que Diderot, que Laennec dá
continuidade a Van Swieten, ou que Jevons se segue aos
fisiocratas. Ela define um espaço limitado de comunicação: espaço
relativamente restrito, já que está longe de ter a amplidão de uma
ciência tomada em todo o seu devir histórico, desde sua mais
longínqua origem até seu ponto atual de realização; mas um espaço
mais extenso, entretanto, que o jogo
144 Michel Foucault
das influências que pôde ser exercido de um autor a outro, ou que o
domínio das polêmicas explícitas. As diferentes obras, os livros
dispersos, toda a massa de textos que pertencem a uma mesma
formação discursiva - e tantos autores que se conhecem e se
ignoram, se criticam, se invalidam uns aos outros, se plagiam, se
reencontram sem saber e entrecruzam obstinadamente seus
discursos singulares em uma trama que não dominam, cujo todo
não percebem e cuja amplitude medem mais - todas essas figuras e
individualidades diversas não comunicam apenas pelo
encadeamento lógico das proposições que eles apresentam, nem
pela recorrência dos temas, nem pela pertinácia de uma
significação transmitida, esquecida, redescoberta; comunicam pela
forma de positividade de seus discursos. Ou, mais exatamente, essa
forma de positividade (e as condições de exercício da função
enunciativa) define um campo em que, eventualmente, podem ser
desenvolvidos identidades formais, continuidades temáticas,
translações de conceitos, jogos polêmicos. Assim, a positividade
desempenha o papel do que se poderia chamar um a priori
histórico.
Justapostas, as duas palavras provocam um efeito um pouco
gritante; quero designar um a priori que não seria condição de
validade para juízos, mas condição de realidade para enunciados.
Não se trata de reencontrar o que poderia tornar legítima uma
assertiva, mas isolar as condições de emergência dos enunciados, a
lei de sua coexistência com outros, a forma específica de seu modo
de ser, os princípios segundo os quais subsistem, se transformam e
desaparecem. A priori, não de verdades que poderiam nunca ser
ditas, nem realmente apresentadas à experiência, mas de uma
história determinada, já que é a das coisas efetivamente ditas. A
razão para se usar esse termo um pouco impróprio é que esse a
priori deve dar conta dos enunciados em sua dispersão, em todas
as falhas abertas por sua não-coerência, em sua superposição e
substituição recíproca, em sua simultaneidade que não pode ser
unificada e em sua sucessão que não é dedutível; em suma, tem de
dar conta do fato de que o discurso não tem apenas um sentido ou
uma verdade, mas uma história, e uma história específica que não
o reconduz às leis de um devir estranho. Deve mostrar, por
exemplo, que a história da gramática não é a projeção, no campo
da linguagem e de seus
A Arqueologia do Saber 145
problemas, de uma história que seria, em geral, a da razão ou de
uma mentalidade; de uma história que, de algum modo, ela
compartilharia com a medicina, a mecânica ou a teologia; mas que
ela comporta um tipo de história - uma forma de dispersão no
tempo, um modo de sucessão, de estabilidade de reativação, uma
rapidez de desencadeamento ou de rotação - que lhe pertence
particularmente, mesmo se estiver em relação com outros tipos de
história. Além disso, o a priori não escapa à historicidade: não
constitui, acima dos acontecimentos, e em um universo inalterável,
uma estrutura intemporal; define-se como o conjunto das regras
que caracterizam uma prática discursiva: ora, essas regras não se
impõem do exterior aos elementos que elas correlacionam; estão
inseridas no que ligam; e se não se modificam com o menor dentre
eles, os modificam, e com eles se transformam em certos limiares
decisivos. O a priori das positividades não é somente o sistema de
uma dispersão temporal; ele próprio é um conjunto transformável.
Diante dos a priori formais cuja jurisdição se estende sem
contingência, ele é uma figura puramente empírica; mas, por outro
lado, já que permite compreender os discursos na lei de seu devir
efetivo, deve poder dar conta do fato de que tal discurso, em um
momento dado, possa acolher e utilizar ou, ao contrário, excluir,
esquecer ou desconhecer, esta ou aquela estrutura formal. Ele não
pode dar conta (através de algo como uma gênese psicológica ou
cultural) dos a priori formais; mas permite compreender como os a
priori formais podem ter na história pontos de junção, lugares de
inserção, de irrupção ou de emergência, domínios ou ocasiões de
utilização, e compreender como a história pode ser não uma
contingência absolutamente extrínseca, não uma necessidade da
forma que desenvolve sua própria dialética, mas uma regularidade
específica. Nada, pois, seria mais agradável, mas menos exato, que
conceber esse a priori histórico como um a priori formal e, além
do mais, dotado de uma história: grande figura imóvel e vazia que
surgiria, um dia, à superfície do tempo; que faria valer sobre o
pensamento dos homens uma tirania da qual ninguém poderia
escapar; que depois desapareceria, de repente, em um eclipse a que
nenhum acontecimento teria dado sinal prévio - transcendental
sincopado, jogo de formas que cintilam. O a priori formal e o a
priori histórico não são nem do
146 Michel Foucault
mesmo nível nem da mesma natureza: se se cruzam é porque
ocupam duas dimensões diferentes.
O domínio dos enunciados assim articulado segundo a priori
históricos, assim caracterizado por diferentes tipos de positividade
e escandido por formações discursivas distintas, não tem mais o
aspecto de planície monótona e indefinidamente prolongada que
eu lhe dava no início, quando falava de "superfície do discurso";
deixa igualmente de aparecer como o elemento inerte, liso e neutro
em que vêm aflorar, cada um segundo seu próprio movimento, ou
estimulados por algum dinamismo obscuro, temas, idéias,
conceitos, conhecimentos. Temos de tratar, agora, de um volume
complexo, em que se diferenciam regiões heterogêneas, e em que
se desenrolam, segundo regras específicas, práticas que não se
podem superpor. Ao invés de vermos alinharem-se, no grande
livro mítico da história, palavras que traduzem, em caracteres
visíveis, pensamentos constituídos antes e em outro lugar, temos
na densidade das práticas discursivas sistemas que instauram os
enunciados como acontecimentos (tendo suas condições e seu
domínio de aparecimento) e coisas (compreendendo sua
possibilidade e seu campo de utilização). São todos esses sistemas
de enunciados (acontecimentos de um lado, coisas de outro) que
proponho chamar de arquivo.
Não entendo por esse termo a soma de todos os textos que uma
cultura guardou em seu poder, como documentos de seu próprio
passado, ou como testemunho de sua identidade mantida; não
entendo, tampouco, as instituições que, em determinada sociedade,
permitem registrar e conservar os discursos de que se quer ter
lembrança e manter a livre disposição. Trata-se antes, e ao
contrário, do que faz com que tantas coisas ditas por tantos
homens, há tantos milênios, não tenham surgido apenas segundo as
leis do pensamento, ou apenas segundo o jogo das circunstâncias,
que não sejam simplesmente a sinalização, no nível das
performances verbais, do que se pôde desenrolar na ordem do
espírito ou na ordem das coisas; mas que tenham aparecido graças
a todo um jogo de relações que caracterizam particularmente o
nível discursivo; que em lugar de serem figuras adventícias e como
que inseridas, um pouco ao acaso, em processos mudos, nasçam
segundo regularidades específicas; em suma, que se há coisas ditas
- e somente estas -, não é preciso perguntar sua razão
A Arqueologia do Saber 147
imediata às coisas que aí se encontram ditas ou aos homens que as
disseram, mas ao sistema da discursividade, às possibilidades e às
impossibilidades enunciativas que ele conduz. O arquivo é, de
início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o
aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares.
Mas o arquivo é, também, o que faz com que todas as coisas ditas
não se acumulem indefinidamente em uma massa amorfa, não se
inscrevam, tampouco, em uma linearidade sem ruptura e não
desapareçam ao simples acaso de acidentes externos, mas que se
agrupem em figuras distintas, se componham umas com as outras
segundo relações múltiplas, se mantenham ou se esfumem segundo
regularidades específicas; ele é o que faz com que não recuem no
mesmo ritmo que o tempo, mas que as que brilham muito forte
como estrelas próximas venham até nós, na verdade de muito
longe, quando outras contemporâneas já estão extremamente
pálidas. O arquivo não é o que protege, apesar de sua fuga
imediata, o acontecimento do enunciado e conserva, para as
memórias futuras, seu estado civil de foragido; é o que, na própria
raiz do enunciado-acontecimento e no corpo em que se dá, define,
desde o início, o sistema de sua enunciabilidade. O arquivo não é,
tampouco, o que recolhe a poeira dos enunciados que novamente
se tornaram inertes e permite o milagre eventual de sua
ressurreição; é o que define o modo de atualidade do
enunciado-coisa; é o sistema de seu funcionamento. Longe de ser o
que unifica tudo o que foi dito no grande murmúrio confuso de um
discurso, longe de ser apenas o que nos assegura a existência no
meio do discurso mantido, é o que diferencia os discursos em sua
existência múltipla e os especifica em sua duração própria.
Entre a língua que define o sistema de construção das frases
possíveis e o corpus que recolhe passivamente as palavras
pronunciadas, o arquivo define um nível particular: o de uma
prática que faz surgir uma multiplicidade de enunciados como
tantos acontecimentos regulares, como tantas coisas oferecidas ao
tratamento e à manipulação. Não tem o peso da tradição; não
constitui a biblioteca sem tempo nem lugar de todas as bibliotecas,
mas não é, tampouco, o esquecimento acolhedor que abre a
qualquer palavra nova o campo de exercício de sua liberdade; entre
a tradição e o esquecimento, ele faz aparecerem as regras de uma
prática que permite aos enunciados
148 Michel Foucault
subsistirem e, ao mesmo tempo, se modificarem regularmente. É o
sistema geral da formação e da transformação dos enunciados.
É evidente que não se pode descrever exaustivamente o arquivo
de uma sociedade, de uma cultura ou de uma civilização; nem
mesmo, sem dúvida, o arquivo de toda uma época. Por outro lado,
não nos é possível descrever nosso próprio arquivo, já que é no
interior de suas regras que falamos, já que é ele que dá ao que
podemos dizer - e a ele próprio, objeto de nosso discurso - seus
modos de aparecimento, suas formas de existência e de
coexistência, seu sistema de acúmulo, de historicidade e de
desaparecimento. O arquivo não é descritível em sua totalidade; e é
incontornável em sua atualidade. Dá-se por fragmentos, regiões e
níveis, melhor, sem dúvida, e com mais clareza na medida em que
o tempo dele nos separa: em termos extremos, não fosse a raridade
dos documentos, seria necessário o maior recuo cronológico para
analisá-lo. Entretanto, como poderia essa descrição do arquivo
justificar-se, elucidar o que o torna possível, demarcar o lugar de
onde ele próprio fala, controlar seus deveres e seus direitos, testar e
elaborar seus conceitos pelo menos no estágio da pesquisa em que
ele só pode definir suas possibilidades no momento de seu
exercício - se se obstinava em descrever somente os horizontes
mais longínquos? Não será preciso nos reaproximarmos o máximo
possível dessa positividade a que ele próprio obedece, e do sistema
de arquivo que nos permite falar, hoje, do arquivo em geral? Não
será necessário esclarecer, apenas obliquamente, o campo
enunciativo de que ele mesmo faz parte? A análise do arquivo
comporta, pois, uma região privilegiada: ao mesmo tempo próxima
de nós, mas diferente de nossa atualidade, trata-se da orla do tempo
que cerca nosso presente, que o domina e que o indica em sua
alteridade; é aquilo que, fora de nós, nos delimita. A descrição do
arquivo desenvolve suas possibilidades (e o controle de suas
possibilidades) a partir dos discursos que começam a deixar
justamente de ser os nossos; seu limiar de existência é instaurado
pelo corte que nos separa do que não podemos mais dizer e do que
fica fora de nossa prática discursiva; começa com o exterior da
nossa própria linguagem; seu lugar é o afastamento de nossas
próprias práticas discursivas. Nesse sentido, vale para nosso
diagnóstico. Não porque nos
A Arqueologia do Saber 149
permitiria levantar o quadro de nossos traços distintivos e esboçar,
antecipadamente, o perfil que teremos no futuro, mas porque nos
desprende de nossas continuidades; dissipa essa identidade
temporal em que gostamos de nos olhar para conjurar as rupturas
da história; rompe o fio das teleologias transcendentais e aí onde o
pensamento antropológico interrogava o ser do homem ou sua
subjetividade faz com que o outro e o externo se manifestem com
evidência. O diagnóstico assim entendido não estabelece a
autenticação de nossa identidade pelo jogo das distinções. Ele
estabelece que somos diferença, que nossa razão é a diferença dos
discursos, nossa história a diferença dos tempos, nosso eu a
diferença das máscaras. Que a diferença, longe de ser origem
esquecida e recoberta, é a dispersão que somos e que fazemos.
A revelação, jamais acabada, jamais integralmente alcançada do
arquivo, forma o horizonte geral a que pertencem a descrição das
formações discursivas, a análise das positividades, a demarcação
do campo enunciativo. O direito das palavras - que não coincide
com o dos filólogos - autoriza, pois, a dar a todas essas pesquisas o
título de arqueologia. Esse termo não incita à busca de nenhum
começo; não associa a análise a nenhuma exploração ou sondagem
geológica. Ele designa o tema geral de uma descrição que interroga
o já dito no nível de sua existência; da função enunciativa que nele
se exerce, da formação discursiva a que pertence, do sistema geral
de arquivo de que faz parte. A arqueologia descreve os discursos
como práticas especificadas no elemento do arquivo.

IV
A DESCRIÇÃO ARQUEOLÓGICA

1
ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA DAS IDÉIAS
Pode-se agora inverter o procedimento; pode-se descer no
sentido da corrente e, uma vez percorrido o domínio das formações
discursivas e dos enunciados, uma vez esboçada sua teoria geral,
correr para os domínios possíveis de aplicação. Refletir sobre a
utilidade dessa análise que, por um ato talvez muito solene, batizei
de "arqueologia". Aliás, isso é preciso, pois, para ser franco, as
coisas, no momento, não deixam de ser bastante inquietantes. Eu
havia partido de um problema relativamente simples: a escansão do
discurso segundo grandes unidades que não eram as das obras, dos
autores, dos livros ou dos temas. E eis que, com o único fim de
estabelecê-las, comecei a trabalhar toda uma série de noções
(formações discursivas, positividade, arquivo), defini um domínio
(os enunciados, o campo enunciativo, as práticas discursivas),
tentei fazer com que surgisse a especificidade de um método que
não seria nem formalizador, nem interpretativo; em suma, apelei
para todo um aparelho, cujo peso e, sem dúvida, bizarra
maquinaria são embaraçosos, pois já existem vários métodos
capazes de descrever e analisar a linguagem, para que não seja
presunção querer acrescentar-lhes outro. E, além disso, eu havia
mantido sob suspeita unidades de discurso como o "livro" ou a
"obra" porque desconfiava que não fossem tão imediatas e
evidentes quanto pareciam: será
154 Michel Foucault
razoável opor-lhes unidades estabelecidas à custa de tal esforço,
depois de tantas hesitações e segundo princípios tão obscuros que
foram necessárias centenas de páginas para elucidá-los? E o que
todos esses instrumentos acabam por delimitar, esses famosos
"discursos" cuja identidade eles demarcam, coincidem com as
figuras (chamadas "psiquiatria" ou "economia política" ou "história
natural") de que eu tinha empiricamente partido, e que me serviram
de pretexto para remanejar esse estranho arsenal? Forçosamente,
preciso agora medir a eficácia descritiva das noções que tentei
definir. Preciso saber se a máquina funciona e o que ela pode
produzir. O que pode, então, oferecer essa "arqueologia", que
outras descrições não seriam capazes de dar? Qual é a recompensa
de tão árdua empresa?
E, imediatamente, uma primeira suspeita me ocorre. Agi como
se descobrisse um domínio novo e como se, para descrevê-lo,
tivesse necessidade de medidas e marcos inéditos. Mas, na
verdade, não me alojei exatamente no espaço que se conhece bem,
e há muito, sob o nome de "história das idéias"? Não foi a ele que
me referi implicitamente, mesmo quando em duas ou três ocasiões
tentei manter-me distante? Se minha intenção tivesse sido não
desviar os olhos dele, será que nele não encontraria, já preparado e
analisado, tudo que buscava? No fundo, talvez eu não passe de um
historiador das idéias, mas envergonhado ou, se quiserem,
presunçoso. Um historiador das idéias que quis renovar
inteiramente sua disciplina; que desejou, sem dúvida, dar-lhe o
rigor que tantas outras descrições, bastante próximas, adquiriram
recentemente; mas que, incapaz de modificar realmente a velha
forma de análise, incapaz de fazer com que transpusesse o limiar
da cientificidade (quer porque tal metamorfose jamais seja
possível, quer porque não tenha tido forças para operar ele mesmo
essa transformação), declara, para iludir, que sempre fez e quis
fazer outra coisa. Toda essa nova nebulosidade serviu para
esconder o fato de que permanecemos na mesma paisagem, ligados
a um velho solo gasto até a miséria. Eu não teria o direito de estar
tranquilo enquanto não me separasse da "história das idéias",
enquanto não mostrasse em que a análise arqueológica se
diferencia de suas descrições.
Não é fácil caracterizar uma disciplina como a história das
idéias: objeto incerto, fronteiras maldesenhadas, métodos
A Arqueologia do Saber 155
tomados de empréstimo aqui e ali, procedimento sem retitude e
sem fixidez. Parece, no entanto, que podemos atribuir-lhe dois
papéis. Por um lado, ela conta a história dos elementos secundários
e das margens. Não a história das ciências, mas a dos
conhecimentos imperfeitos, malfundamentados, que jamais
puderam atingir, ao longo de uma vida obstinada, a forma da
cientificidade (história da alquimia e não da química, dos espíritos
animais ou da frenologia e não da fisiologia, história dos temas
atomísticos e não da física). História das filosofias obscuras que
perseguem as literaturas, a arte, as ciências, o direito, a moral e até
a vida cotidiana dos homens; história dos tematismos seculares que
jamais se cristalizaram em um sistema rigoroso e individual, mas
que formaram a filosofia espontânea dos que não filosofavam.
História, não da literatura, mas do rumor lateral, da escrita
cotidiana e tão rapidamente apagada que nunca adquire o status da
obra ou que imediatamente o perde: análise das subliteraturas, dos
almanaques, das revistas e dos jornais, dos sucessos fugidios, dos
autores inconfessáveis. Assim definida - mas vê-se de imediato o
quanto é difícil fixar-lhe limites precisos ~, a história das idéias se
dirige a todo esse insidioso pensamento, a todo esse jogo de
representações que correm anonimamente entre os homens; no
interstício dos grandes monumentos discursivos, faz aparecer o
solo friável sobre o qual repousam. Trata-se da disciplina das
linguagens flutuantes, das obras informes, dos temas não ligados.
Análise das opiniões mais que do saber, dos erros mais que da
verdade; não das formas do pensamento, mas dos tipos de
mentalidade.
Mas, por outro lado, a história das idéias se atribui a tarefa de
penetrar as disciplinas existentes, tratá-las e reinterpretá-las.
Constitui, pois - mais do que um domínio marginal -, um estilo de
análise, um enfoque. Ela se encarrega do campo histórico das
ciências, das literaturas e das filosofias: mas aí descreve os
conhecimentos que serviram de fundo empírico e não refletido para
formalizações ulteriores; tenta reencontrar a experiência imediata
que o discurso transcreve; segue a gênese de sistemas e obras, a
partir das representações recebidas ou adquiridas. Mostra, em
compensação, como, pouco a pouco, as grandes figuras assim
constituídas se decompõem: como os temas se desatam, seguem
sua vida isolada, caem em desuso ou se recompõem de um novo
modo. A história das
156 Michel Foucault
idéias é, então, a disciplina dos começos e dos fins, a descrição das
continuidades obscuras e dos retornos, a reconstituição dos
desenvolvimentos na forma linear da história. Mas ela pode,
também e dessa mesma forma, descrever, de um domínio a outro,
todo o jogo das trocas e dos intermediários: mostra como o saber
científico se difunde, dá lugar a conceitos filosóficos e toma forma
eventualmente em obras literárias; mostra como problemas,
noções, temas podem emigrar do campo filosófico em que foram
formulados para discursos científicos ou políticos; relaciona obras
com instituições, hábitos ou comportamentos sociais, técnicas,
necessidades e práticas mudas; tenta fazer reviverem as formas
mais elaboradas de discurso na paisagem concreta, no ambiente de
crescimento e de desenvolvimento que as viu nascerem. Torna-se,
então, a disciplina das interferências, a descrição dos círculos
concêntricos que envolvem as obras, as sublinham, as unem umas
às outras e as inserem em tudo que não é obra.
Vê-se bem como os dois papéis da história das idéias se
articulam um com o outro. Em sua forma mais geral, podemos
dizer que ela descreve sem cessar - e em todas as direções em que
se efetua - a passagem da não-filosofia à filosofia, da
não-cientificidade à ciência, da não-literatura à própria obra. Ela é
a análise dos nascimentos surdos, das correspondências
longínquas, das permanências que se obstinam sob mudanças
aparentes, das lentas formações que se beneficiam de um
sem-número de cumplicidades cegas, dessas figuras globais que se
ligam pouco a pouco e, de repente, se condensam na agudeza da
obra. Gênese, continuidade, totalização: eis os grandes temas da
história das idéias, através dos quais ela se liga a uma certa forma,
hoje tradicional, de análise histórica. É normal, nessas condições,
que qualquer pessoa que ainda tem da história, de seus métodos, de
suas exigências e de suas possibilidades, essa idéia de agora em
diante um pouco enfraquecida, não possa conceber que se
abandone uma disciplina como a história das idéias; ao contrário,
considera que qualquer outra forma de análises dos discursos é
uma traição à própria história. Ora, a descrição arqueológica é
precisamente abandono da história das idéias, recusa sistemática de
seus postulados e de seus procedimentos, tentativa de fazer uma
história inteiramente diferente daquilo que os homens disseram. O
fato de que alguns não reconheçam nessa
A Arqueologia do Saber 157
tentativa a história de sua infância, que a lamentem e que
invoquem, numa época que não é mais feita para ela, a grande
sombra de outrora, prova certamente o extremo de sua fidelidade.
Mal tal zelo conservador torna-me mais firme em meu propósito e
me dá certeza do que quis fazer.
Entre análise arqueológica e história das idéias, os pontos de
separação são numerosos. Tentarei estabelecer, em seguida, quatro
diferenças que me parecem capitais: a propósito da determinação
de novidade; a propósito da análise das contradições; a propósito
das descrições comparativas; a propósito, enfim, da demarcação
das transformações. Espero que se possa compreender, nesses
diferentes pontos, as particularidades da análise arqueológica e que
se possa, eventualmente, medir sua capacidade descritiva. Que
baste, no momento, indicar alguns princípios.
1. A arqueologia busca definir não os pensamentos, as
representações, as imagens, os temas, as obsessões que se ocultam
ou se manifestam nos discursos, mas os próprios discursos,
enquanto práticas que obedecem a regras. Ela não trata o discurso
como documento, como signo de outra coisa, como elemento que
deveria ser transparente, mas cuja opacidade importuna é preciso
atravessar frequentemente para reencontrar, enfim, aí onde se
mantém à parte, a profundidade do essencial; ela se dirige ao
discurso em seu volume próprio, na qualidade de monumento. Não
se trata de uma disciplina interpretativa: não busca um "outro
discurso" mais oculto. Recusa-se a ser "alegórica".
2. A arqueologia não procura encontrar a transição contínua e
insensível que liga, em declive suave, os discursos ao que os
precede, envolve ou segue. Não espreita o momento em que, a
partir do que ainda não eram, tornaram-se o que são; nem
tampouco o momento em que, desfazendo a solidez de sua figura,
vão perder, pouco a pouco, sua identidade. O problema dela é, pelo
contrário, definir os discursos em sua especificidade; mostrar em
que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer
outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor
salientá-los. Ela não vai, em progressão lenta, do campo confuso
da opinião à singularidade do sistema ou à estabilidade definitiva
da ciência; não é
158 Michel Foucault
uma "doxologia", mas uma análise diferencial das modalidades de
discurso.
3. A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra;
não busca compreender o momento em que esta se destacou do
horizonte anônimo. Não quer reencontrar o ponto enigmático em
que o individual e o social se invertem um no outro. Ela não é nem
psicologia, nem sociologia, nem, num sentido mais geral,
antropologia da criação. A obra não é para ela um recorte
pertinente, mesmo se se tratasse de recolocá-la em seu contexto
global ou na rede das causalidades que a sustentam. Ela define
tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras
individuais, às vezes as comandam inteiramente e as dominam sem
que nada lhes escape; mas às vezes, também, só lhes regem uma
parte. A instância do sujeito criador, enquanto razão de ser de uma
obra e princípio de sua unidade, lhe é estranha.
4. Finalmente, a arqueologia não procura reconstituir o que
pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos
homens no próprio instante em que proferiam o discurso; ela não
se propõe a recolher esse núcleo fugidio onde autor e obra trocam
de identidade; onde o pensamento permanece ainda o mais
próximo de si, na forma ainda não alterada do mesmo, e onde a
linguagem não se desenvolveu ainda na dispersão espacial e
sucessiva do discurso. Em outras palavras, não tenta repetir o que
foi dito, reencontrando-o em sua própria identidade. Não pretende
se apagar na modéstia ambígua de uma leitura que deixaria voltar,
em sua pureza, a luz longínqua, precária, quase extinta da origem.
Não é nada além e nada diferente de uma reescrita: isto é, na forma
mantida da exterioridade, uma transformação regulada do que já
foi escrito. Não é o retorno ao próprio segredo da origem; é a
descrição sistemática de um discurso-objeto.
2
O ORIGINAL E O REGULAR
Em geral, a história das idéias trata o campo dos discursos
como um domínio de dois valores; todo elemento que aí é
demarcado pode ser caracterizado como antigo ou novo; inédito ou
repetido; tradicional ou original; semelhante a um tipo médio ou
desviante. Podem-se, pois, distinguir duas categorias de
formulações: aquelas valorizadas e relativamente pouco
numerosas, que aparecem pela primeira vez, que não têm
antecedentes semelhantes, que vão eventualmente servir de modelo
às outras e que, nesse caso, merecem passar por criações; e aquelas
banais, cotidianas, maciças, que não são responsáveis por si
mesmas e que derivam, às vezes para repeti-lo textualmente, do
que já foi dito. A cada um dos dois grupos a história das idéias
atribui um status; além disso, não os submete à mesma análise.
Descrevendo o primeiro, ela conta a história das invenções, das
mudanças, das metamorfoses, mostra como a verdade se subtraiu
ao erro, como a consciência despertou de seus sonos sucessivos,
como formas novas se ergueram, alternadamente, para nos dar a
paisagem que é, agora, a nossa; cabe ao historiador reencontrar, a
partir desses pontos isolados, dessas rupturas sucessivas, a linha
contínua de uma evolução. O outro grupo, ao contrário, manifesta a
história como inércia e marasmo, como lento acúmulo do passado
e sedimentação silenciosa das coisas ditas;
160 Michel Foucault
os enunciados devem aí ser tratados em massa e segundo o que
têm em comum; sua singularidade de acontecimento pode ser
neutralizada; perdem importância também a identidade de seu
autor, o momento e o lugar de seu aparecimento; em compensação,
é sua extensão que deve ser medida: até onde e até quando eles se
repetem, por que canais se difundem, em que grupos circulam, que
horizonte geral delineiam para o pensamento dos homens, que
limites lhe impõem e, caracterizando uma época, como permitem
distingui-la das outras. Descreve-se, então, uma série de figuras
globais. No primeiro caso, a história das idéias descreve uma
sucessão de acontecimentos de pensamento; no segundo, temos
camadas ininterruptas de efeitos; no primeiro, reconstituímos a
emergência das verdades ou das formas; no segundo,
restabelecemos as solidariedades esquecidas e remetemos os
discursos à sua relatividade.
É verdade que, entre as duas instâncias, a história das idéias não
deixa de determinar relações; jamais se encontra uma das análises
em estado puro: ela descreve os conflitos entre o antigo e o novo, a
resistência do adquirido, a repressão que este exerce sobre o que
nunca tinha sido dito, os recobrimentos pelos quais o mascara, o
esquecimento a que, às vezes, consegue condená-lo; mas descreve,
também, as facilitações que, obscuramente e de longe, preparam os
discursos futuros; descreve a repercussão das descobertas, a
rapidez e a extensão de sua difusão, os lentos processos de
substituição ou os bruscos abalos que transtornam a linguagem
familiar; descreve a integração do novo no campo já estruturado do
adquirido, a queda progressiva do original no tradicional, ou ainda
os reaparecimentos do já dito e a nova revelação do originário. Mas
esse entrecruzamento não a impede de manter sempre uma análise
bipolar do antigo e do novo, análise que reinveste, no elemento
empírico da história e em cada um de seus momentos, a
problemática da origem: em cada obra, em cada livro, no menor
texto, o problema é reencontrar o ponto de ruptura, estabelecer com
a maior precisão possível a divisão entre a densidade implícita do
já aí, a fidelidade, talvez involuntária, à opinião adquirida, a lei das
fatalidades discursivas e a vivacidade da criação, o salto na
irredutível diferença. Essa descrição das originalidades, se bem que
pareça evidente, coloca dois problemas metodológicos bem
difíceis: o
A Arqueologia do Saber 161
da semelhança e o da sequência. Supõe, na verdade, que se possa
estabelecer uma espécie de grande série única em que cada
formulação seja datada segundo marcos cronológicos homogêneos.
Mas, se olharmos mais de perto, será que foi da mesma forma e na
mesma linha temporal que Grimm, com sua lei das mutações
vocálicas, precedeu Bopp (que a citou, a usou, lhe deu aplicações e
lhe impôs ajustamentos) e que Coeurdoux e Anquetil-Duperron
(constatando analogias entre o grego e o sânscrito) anteciparam a
definição das línguas indo-européias e precederam os fundadores
da gramática comparativa? Será na mesma série e segundo o
mesmo modo de anterioridade que Saussure é "precedido" por
Peirce e sua semiótica, por Arnauld e Lancelot com a análise
clássica do signo, pelos estóicos e a teoria do significante? A
precedência não é um dado irredutível e primeiro; não pode
desempenhar o papel de medida absoluta que permitiria avaliar
qualquer discurso e distinguir o original do repetitivo. Não basta a
demarcação dos antecedentes para determinar uma ordem
discursiva: ela se subordina, ao contrário, ao discurso que se
analisa, ao nível que se escolhe, à escala que se estabelece.
Estendendo o discurso ao longo de um calendário e dando uma
data a cada um de seus elementos, não se obtém a hierarquia
definitiva das precedências e das originalidades; esta só se refere
aos sistemas dos discursos que tenta valorizar.
Quanto à semelhança entre duas ou várias formulações que se
seguem, ela coloca, por sua vez, toda uma série de problemas. Em
que sentido e segundo que critérios pode-se afirmar: "isto já foi
dito"; "a mesma coisa já se encontra em tal texto"; "esta proposição
é muito próxima daquela" etc.? O que é identidade, parcial ou total,
na ordem do discurso? Sabemos que o fato de duas enunciações
serem exatamente idênticas, formadas pelas mesmas palavras
usadas no mesmo sentido, não autoriza a que as identifiquemos de
maneira absoluta. Ainda que encontrássemos em Diderot e
Lamarck, em Benoit de Maillet e Darwin, a mesma formulação do
princípio evolutivo, não poderíamos considerar que se tratasse de
um único e mesmo acontecimento discursivo que teria sido
submetido, através do tempo, a uma série de repetições. Exaustiva,
a identidade não é um critério; ainda mais quando é parcial,
quando as palavras não são usadas cada vez no mesmo sentido, ou
quando um mesmo núcleo significativo é apreendido
162 Michel Foucault
por meio de palavras diferentes: até que ponto se pode afirmar que
é o mesmo tema organicista que se revela através dos discursos e
dos vocabulários tão diferentes de Buffon, de Jussieu e de Cuvier?
E, inversamente, pode-se dizer que a mesma palavra - organização
- abrange o mesmo sentido em Daubenton, Blumenbach e
Geoffroy Saint-Hilaire? De modo geral, é o mesmo tipo de
semelhança que se identifica entre Cuvier e Darwin, e entre o
mesmo Cuvier e Lineu (ou Aristóteles)? Não há semelhança em si,
imediatamente reconhecível, entre as formulações: sua analogia é
um efeito do campo discursivo em que a delimitamos.
Não é legítimo, pois, indagar à queima-roupa, aos textos que
estudamos, sobre seu valor de originalidade e sobre os fragmentos
de nobreza que se medem aqui na ausência de ancestrais. A
indagação só pode ter sentido em séries muito exatamente
definidas, em conjuntos cujos limites e domínio foram
estabelecidos, entre marcos que limitam campos discursivos
suficientemente homogêneos.1 Mas buscar no grande amontoado
do já dito o texto que se assemelha "antecipadamente" a um texto
ulterior, procurar por toda parte para encontrar, através da história,
o jogo das antecipações ou dos ecos, remontar até os germens
primeiros ou descer até os últimos vestígios, ressaltar
alternadamente, a propósito de uma obra, sua fidelidade às
tradições ou sua parte de irredutível singularidade, aumentar ou
diminuir sua cota de originalidade, dizer que os gramáticos de
Port-Royal nada inventaram, ou descobrir que Cuvier tinha mais
predecessores do que se acreditava, são passatempos simpáticos,
mas tardios, de historiadores de calças curtas.
A descrição arqueológica se dirige às práticas discursivas a que
os fatos de sucessão devem-se referir, se não quisermos
estabelecê-los de maneira selvagem e ingênua, isto é, cm termos de
mérito. No nível em que se coloca, a oposição
originalidade-banalidade não é, portanto, pertinente: entre uma
formulação inicial e a frase que - anos, séculos mais tarde - a
repetiu mais ou menos exatamente, ela não estabelece ne-
1. Foi dessa maneira que M. Canguilhem estabeleceu a sequência das proposições
que, de Willis a Prochaska, permitiu a definição do reflexo.
A Arqueologia do Saber 163
nhuma hierarquia de valor; não faz diferença radical. Procura
somente estabelecer a regularidade dos enunciados. Regularidade
não se opõe, aqui, à irregularidade que, nas margens da opinião
corrente, ou dos textos mais frequentes, caracterizaria o enunciado
desviante (anormal, profético, retardatário, genial ou patológico);
designa, para qualquer performance verbal (extraordinária ou
banal, única em seu gênero ou mil vezes repetida), o conjunto das
condições nas quais se exerce a função enunciativa que assegura e
define sua existência. A regularidade, assim entendida, não
caracteriza uma certa posição central entre os limites de uma curva
estatística - não pode, pois, valer como índice de frequência ou de
probabilidade; especifica um campo efetivo de aparecimento. Todo
enunciado é portador de uma certa regularidade e não pode dela ser
dissociado. Não se deve, portanto, opor a regularidade de um
enunciado à irregularidade de outro (que seria menos esperado,
mais singular, mais rico em inovações), mas sim a outras
regularidades que caracterizam outros enunciados.
A arqueologia não está à procura das invenções e permanece
insensível ao momento (emocionante, admito) em que, pela
primeira vez, alguém esteve certo de uma verdade; ela não tenta
restituir a luz dessas manhãs festivas, o que não quer dizer que se
dirija aos fenômenos médios da opinião pública e à palidez do que
todo mundo, em uma certa época, podia repetir. O que busca nos
textos de Lineu ou de Buffon, de Petty ou de Ricardo, de Pinel ou
de Bichat, não é estabelecer a lista dos santos fundadores; é revelar
a regularidade de uma prática discursiva que é exercida, do mesmo
modo, por todos os seus sucessores menos originais, ou por alguns
de seus predecessores; prática que dá conta, na própria obra, não
apenas das afirmações mais originais (e com as quais ninguém
sonhara antes deles), mas das que eles retomaram, até recopiaram
de seus predecessores. Uma descoberta não é menos regular, do
ponto de vista enunciativo, do que o texto que a repete e a difunde;
a regularidade não é menos operante, nem menos eficaz e ativa em
uma banalidade do que em uma formação insólita. Em tal
descrição, não se pode admitir uma diferença de natureza entre
enunciados criadores (que fazem aparecer alguma coisa nova, que
emitem uma informação inédita e que são, de certa forma, "ativos")
e enunciados imitativos (que recebem e repetem a informação,
permanecem por assim dizer
164 Michel Foucault
"passivos"). O campo dos enunciados não é um conjunto de plagas
inertes, escandido por momentos fecundos; é um domínio
inteiramente ativo.
Essa análise das regularidades enunciativas se abre em diversas
direções que talvez devam ser, um dia, exploradas com mais
cuidado.
1. Uma certa forma de regularidade caracteriza, pois, um
conjunto de enunciados, sem que seja necessário - ou possível -
estabelecer uma diferença entre o que seria novo e o que não seria.
Mas as regularidades - voltaremos a isso em seguida - não se
apresentam de maneira definitiva; não é a mesma regularidade que
se encontra atuante em Tournefort e Darwin, ou em Lancelot e
Saussure, em Petty e em Kaynes. Temos, portanto, campos
homogêneos de regularidades enunciativas (eles caracterizam uma
formação discursiva), mas tais campos são diferentes entre si. Ora,
não é necessário que a passagem a um novo campo de
regularidades enunciativas seja acompanhada de mudanças
correspondentes em todos os outros níveis dos discursos. Podemos
encontrar performances verbais que são idênticas do ponto de vista
da gramática (vocabulário, sintaxe e, de uma maneira geral, a
língua); que são igualmente idênticas do ponto de vista da lógica
(estrutura proposicional, ou sistema dedutivo no qual se encontra
situada); mas que são enunciativamenie diferentes. Assim, a
formulação da relação quantitativa entre os preços e a moeda em
circulação pode ser efetivada com as mesmas palavras - ou
palavras sinônimas - e ser obtida pelo mesmo raciocínio; ela não é
enunciativamenie idêntica em Gresham ou Locke e nos
marginalistas do século XIX; não pertence, em nenhum caso, ao
mesmo sistema de formação dos objetos e dos conceitos. É preciso,
pois, distinguir entre analogia linguística (ou tradutibilidade),
identidade lógica (ou equivalência) e homogeneidade enunciativa.
São dessas homogeneidades - e exclusivamente -que a arqueologia
se encarrega. Ela pode ver surgir uma prática discursiva nova
através das formulações verbais que permanecem linguisticamente
análogas ou logicamente equivalentes (retomando, às vezes,
palavra por palavra, a velha teoria da frase-atribuição e do
verbo-ligação, os gramáticos de Port-Royal abriram uma
regularidade enunciativa cuja especificidade a arqueologia deve
descrever). Inversamente, ela
A Arqueologia do Saber 165
pode negligenciar diferenças de vocabulário, pode passar sobre
campos semânticos ou organizações dedutivas diferentes, se for
capaz de reconhecer em ambos, e apesar da heterogeneidade, uma
certa regularidade enunciativa (desse ponto de vista, a teoria da
linguagem de ação, a pesquisa sobre a origem das línguas, o
estabelecimento das raízes primitivas, tais como as encontramos
no século XVIII, não são "novos" em relação às análises "lógicas"
feitas por Lancelot).
Vemos desenhar-se, assim, um certo número de desligamentos
e de articulações. Não se pode mais dizer que uma descoberta, a
formulação de um princípio geral, ou a definição de um projeto,
inaugura - e de forma maciça - uma fase nova na história do
discurso. Não se deve mais procurar o ponto de origem absoluta,
ou de revolução total, a partir do qual tudo se organiza, tudo se
torna possível e necessário, tudo se extingue para recomeçar.
Temos de tratar de acontecimentos de tipos e de níveis diferentes,
tomados em tramas históricas distintas; uma homogeneidade
enunciativa que se instaura não implica de modo algum que, de
agora em diante e por décadas ou séculos, os homens vão dizer e
pensar a mesma coisa; não implica, tampouco, a definição,
explícita ou não, de um certo número de princípios de que todo o
resto resultaria como consequência. As homogeneidades (e
heterogeneidades) enunciativas se entrecruzam com continuidades
(e mudanças) linguísticas, com identidades (e diferenças) lógicas,
sem que umas e outras caminhem no mesmo ritmo ou se dominem
necessariamente. Entretanto, deve existir entre elas um certo
número de relações e interdependências cujo domínio, sem dúvida
muito complexo, deverá ser inventariado.
2. Outra direção de pesquisa: as hierarquias internas às
regularidades enunciativas. Vimos que todo enunciado se
relacionava a uma certa regularidade - que nada, por conseguinte,
podia ser considerado como pura e simples criação, ou maravilhosa
desordem do gênio. Mas vimos, também, que nenhum enunciado
podia ser considerado como inativo e valer como sombra ou
decalque pouco reais de um enunciado inicial. Todo o campo
enunciativo é, ao mesmo tempo, regular e vigilante: é insone; o
menor enunciado - o mais discreto ou banal - coloca em prática
todo o jogo das regras segundo as quais são formados seu objeto,
sua modalidade, os conceitos
166 Michel Foucault
que utiliza e a estratégia de que faz parte. As regras jamais se
apresentam nas formulações; atravessam-nas e constituem para
elas um espaço de coexistência; não podemos, pois, encontrar o
enunciado singular que as articularia. Entretanto, certos grupos de
enunciados empregam essas regras em sua forma mais geral e mais
largamente aplicável; a partir deles, podemos ver como outros
objetos, outros conceitos, outras modalidades enunciativas, ou
outras escolhas estratégicas, podem ser formados a partir de regras
menos gerais e cujo domínio de aplicação é mais específico.
Pode-se, assim, descrever uma árvore de derivação enunciativa:
em sua base, os enunciados que empregam as regras de formação
em sua extensão mais ampla; no alto, e depois de um certo número
de ramificações, os enunciados que empregam a mesma
regularidade, porém mais sutilmente articulada, mais bem
delimitada e localizada em sua extensão.
A arqueologia pode assim - e eis um de seus temas principais -
constituir a árvore de derivação de um discurso, por exemplo, o da
história natural. Ela colocará, junto à raiz, como enunciados
reitores, os que se referem à definição das estruturas observáveis e
do campo de objetos possíveis, os que prescrevem as formas de
descrição e os códigos perceptivos de que ele pode servir-se, os
que fazem aparecerem as possibilidades mais gerais de
caracterização e abrem, assim, todo um domínio de conceitos a ser
construídos; enfim, os que, constituindo uma escolha estratégica,
dão lugar ao maior número de opções ulteriores. Na extremidade
dos ramos, ou pelo menos no curso de todo um florescimento, ela
encontrará "descobertas" (como a das séries fósseis),
transformações conceituais (como a nova definição do gênero),
emergências de noções inéditas (como a de mamíferos ou de
organismo), atualizações de técnicas (princípios organizadores das
coleções, métodos de classificação e de nomenclatura). Essa
derivação a partir dos enunciados reitores não pode ser confundida
com uma dedução que se efetuaria a partir de axiomas; não deve,
tampouco, ser assimilada à germinação de uma idéia geral, ou de
um núcleo filosófico cujas significações se desenvolveriam, pouco
a pouco, em experiências ou conceitualizações precisas;
finalmente, não deve ser compreendida como uma gênese
psicológica a partir de uma descoberta que, pouco a pouco,
desenvolveria suas consequências e ampliaria suas possibilidades.
Ela é diferente de todos esses percursos e deve ser
A Arqueologia do Saber 1 67
descrita em sua autonomia. Podem-se, assim, descrever as
derivações arqueológicas da história natural sem começar por seus
axiomas indemonstráveis ou seus temas fundamentais (por
exemplo, a continuidade da natureza) e sem tomar como ponto de
partida e como fio condutor as primeiras descobertas ou as
primeiras abordagens (as de Tournefort antes das de Lineu, as de
Jonston antes das de Tournefort). A ordem arqueológica não é nem
a das sistematicidades, nem a das sucessões cronológicas.
Mas vemos abrir-se todo um domínio de questões possíveis.
Por mais que essas diferentes ordens sejam específicas e tenham
cada uma sua autonomia, deve haver entre elas relações e
dependências. Para certas formações discursivas, a ordem
arqueológica talvez não seja muito diferente da ordem sistemática,
já que em outros casos ela segue talvez o fio das sucessões
cronológicas. Tais paralelismos (ao contrário das distorções que se
encontram por aí) merecem ser analisados. É importante, de
qualquer forma, não confundir os diversos ordenamentos; não
procurar em uma "descoberta" inicial, ou na originalidade de uma
formulação, o princípio de onde podemos tudo deduzir e derivar;
não procurar, em um princípio geral, a lei das regularidades
enunciativas ou das invenções individuais; não pedir à derivação
arqueológica que reproduza a ordem do tempo ou que revele um
esquema dedutivo.
Nada seria mais falso do que ver na análise das formações
discursivas uma tentativa de periodização totalitária: a partir de um
certo momento e por um certo tempo, todo mundo pensaria da
mesma forma, apesar das diferenças de superfície, diria a mesma
coisa, através de um vocabulário polimorfo, e produziria uma
espécie de grande discurso que se poderia percorrer
indiferentemente em todos os sentidos. Ao contrário, a arqueologia
descreve um nível de homogeneidade enunciativa que tem seu
próprio recorte temporal, e que não traz com ela todas as outras
formas de identidade e de diferenças que podem ser demarcadas na
linguagem; e neste nível, ela estabelece um ordenamento,
hierarquias e todo um florescimento que excluem uma sincronia
maciça, amorfa, apresentada global e definitivamente. Nas tão
confusas unidades chamadas "épocas", ela faz surgirem, com sua
especificidade, "períodos enunciativos" que se articulam no tempo
dos conceitos, nas fases teóricas, nos estágios de formalização e
nas etapas de evolução linguística, mas sem se confundir com eles.
3
AS CONTRADIÇÕES
A história das idéias, normalmente, dá um crédito de coerência
ao discurso que ela analisa. Será que lhe ocorre constatar uma
irregularidade no uso das palavras, diversas proposições
incompatíveis, um jogo de significações que não se ajustam umas
às outras, conceitos que juntos não podem ser sistematizados? Ela
se encarrega de encontrar, em um nível mais ou menos profundo,
um princípio de coesão que organiza o discurso e lhe restitui uma
unidade oculta. Essa lei de coerência é uma regra heurística, uma
obrigação de procedimento, quase uma coação moral da pesquisa:
não multiplicar inutilmente as contradições; não se deixar prender
às pequenas diferenças; não atribuir peso demasiado às
transformações, aos arrependimentos, aos retornos ao passado, às
polêmicas; não supor que o discurso dos homens esteja
continuamente minado, a partir do interior, pela contradição de
seus desejos, das influências que sofreram, ou das condições em
que vivem; mas admitir que se eles falam e dialogam é muito mais
para superar essas contradições e encontrar o ponto a partir do qual
poderão ser dominadas. Porém, essa mesma coerência é também o
resultado da pesquisa: ela define as unidades terminais que
arrematam a análise; descobre a organização interna de um texto, a
forma de desenvolvimento de uma obra individual, ou o ponto de
encontro de discursos
A Arqueologia do Saber 169
diferentes. Somos obrigados a supô-la para reconstituí-la, e só
estaremos seguros de havê-la encontrado se a tivermos perseguido
de bem longe e por muito tempo. Ela aparece como um ótimo: o
maior número possível de contradições resolvidas pelos meios
mais simples.
Ora, os meios empregados são muito numerosos e, por isso
mesmo, as coerências encontradas podem ser bem diferentes.
Analisando a verdade das proposições e as relações que as unem,
podemos definir um campo de não-contradição lógica:
descobriremos, então, uma sistematicidade; remontaremos do
corpo visível das frases à pura arquitetura ideal que as
ambiguidades da gramática, a sobrecarga significante das palavras,
mascararam, sem dúvida, tanto quanto traduziram. Mas podemos,
inversamente, seguindo o fio das analogias e dos símbolos,
reencontrar uma temática mais imaginária que discursiva, mais
afetiva que racional e menos próxima do conceito que do desejo;
sua força anima as figuras mais opostas, para, entretanto, fundi-las
logo em uma unidade lentamente transformável; o que se descobre,
então, é uma continuidade plástica, é o percurso de um sentido que
toma forma em representações, imagens e metáforas diversas.
Temáticas ou sistemáticas, tais coerências podem ser explícitas ou
não: podemos procurá-las no nível de representações de que tinha
consciência o sujeito falante, mas que - por razões de circunstância
ou por uma incapacidade ligada à própria forma de sua linguagem -
seu discurso não foi capaz de exprimir; podemos procurá-las,
também, em estruturas que teriam coagido o autor, mais do que
este as teria construído, e que lhe teriam imposto, sem que disso ele
se desse conta, postulados, esquemas operatórios, regras
linguísticas, um conjunto de afirmações e de crenças fundamentais,
tipos de imagens, ou toda uma lógica da alucinação. Enfim, pode
ser o caso de coerências que estabelecemos no nível de um
indivíduo - de sua biografia, ou das circunstâncias singulares de
seu discurso -, mas que podemos também estabelecer segundo
marcos mais amplos e dar-lhes as dimensões coletivas e
diacrônicas de uma época, de uma forma geral de consciência, de
um tipo de sociedade, de um conjunto de tradições, de uma
paisagem imaginária comum a toda uma cultura. Sob todas essas
formas, a coerência assim descoberta desempenha sempre o
mesmo papel: mostrar que as contradições imediatamente
170 Michel Foucault
visíveis não são mais que um reflexo de superfície; e que é preciso
reconduzir a um foco único esse jogo de fragmentos dispersos. A
contradição é a ilusão de uma unidade que se oculta ou que é
ocultada: só tem seu lugar na defasagem existente entre a
consciência e o inconsciente, o pensamento e o texto, a idealidade
e o corpo contingente da expressão. De qualquer forma, a análise
deve suprimir, sempre que possa, a contradição.
Ao fim desse trabalho, permanecem somente contradições
residuais - acidentes, faltas, falhas - ou surge, ao contrário, como se
toda a análise a isso tivesse conduzido, em surdina e apesar dela, a
contradição fundamental: emprego, na própria origem do sistema,
de postulados incompatíveis, entrecruzamento de influências que
não se podem conciliar, difração primeira do desejo, conflito
econômico e político que opõe uma sociedade a si mesma; tudo
isso, ao invés de aparecer como elementos superficiais que é
preciso reduzir, se revela finalmente como princípio organizador,
como lei fundadora e secreta que justifica todas as contradições
menores e lhes dá um fundamento sólido: modelo, em suma, de
todas as outras oposições. Tal contradição, longe de ser aparência
ou acidente do discurso, longe de ser aquilo de que é preciso
libertá-lo para que ele libere, enfim, sua verdade aberta, constitui a
própria lei de sua existência: é a partir dela que ele emerge; é ao
mesmo tempo para traduzi-la e superá-la que ele se põe a falar; é
para fugir dela, enquanto ela renasce sem cessar através dele, que
ele continua e recomeça indefinidamente, é por ela estar sempre
aquém dele e por ele jamais poder contorná-la inteiramente que ele
muda, se metamorfoseia, escapa de si mesmo em sua própria
continuidade. A contradição funciona, então, ao longo do discurso,
como o princípio de sua historicidade.
A história das idéias reconhece, pois, dois níveis de
contradições: o das aparências, que se resolve na unidade profunda
do discurso, e o dos fundamentos, que dá lugar ao próprio discurso.
Em relação ao primeiro nível de contradição, o discurso é a figura
ideal que se deve separar de sua presença acidental, de seu corpo
demasiado visível; em relação ao segundo, o discurso é a figura
empírica que as contradições podem assumir, e cuja aparente
coesão devemos destruir para reencontrá-las, afinal, em sua
irrupção e violência. O discurso é o caminho de
A Arqueologia do Saber 171
uma contradição a outra: se dá lugar às que vemos, é que obedece
à que oculta. Analisar o discurso é fazer com que desapareçam e
reapareçam as contradições; é mostrar o jogo que nele elas
desempenham; é manifestar como ele pode exprimi-las, dar-lhes
corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia aparência.
Para a análise arqueológica, as contradições não são nem
aparências a transpor, nem princípios secretos que seria preciso
destacar. São objetos a ser descritos por si mesmos, sem que se
procure saber de que ponto de vista se podem dissipar ou em que
nível se radicalizam e se transformam de efeitos em causas. Eis um
exemplo simples, e diversas vezes aqui mesmo citado: o princípio
fixista de Lineu foi contestado no século XVIII não tanto pela
descoberta da Peloria, que mudou somente suas modalidades de
aplicação, mas por um certo número de afirmações
"evolucionistas" que se pode encontrar em Buffon, Diderot,
Bordeu, Maillet e muitos outros. A análise arqueológica não
consiste em mostrar que, sob tal oposição, e em um nível mais
essencial, todos aceitavam um certo número de teses fundamentais
(a continuidade da natureza e sua plenitude, a correlação entre as
formas recentes e o clima, a passagem quase insensível do
não-vivo ao vivo); não consiste, tampouco, em mostrar que tal
oposição reflete, no domínio particular da história natural, um
conflito mais geral que divide todo o saber e todo o pensamento do
século XVIII (conflito entre o tema de uma criação ordenada,
adquirida de forma definitiva, desenvolvida sem segredo
irredutível, e o tema de uma natureza abundante, dotada de poderes
enigmáticos, desenrolando-se pouco a pouco na história e
tumultuando todas as ordens espaciais segundo o grande impulso
do tempo). A arqueologia tenta mostrar como as duas afirmações, a
fixista e a "evolucionista", têm seu lugar comum em uma certa
descrição das espécies e dos gêneros: essa descrição toma por
objeto a estrutura visível dos órgãos (isto é, sua forma, seu
tamanho, seu número e sua disposição no espaço); e pode limitá-lo
de duas maneiras (no conjunto do organismo, ou em alguns de seus
elementos, determinados seja por sua importância, seja por sua
comodidade taxionômica); revela-se, então, no segundo caso, um
quadro regular, dotado de um número de casos definidos,
constituindo, de alguma forma, o programa de toda criação
possível (de modo que, atual, ainda
172 Michel Foucault
futuro, ou já desaparecido, o ordenamento das espécies e dos
gêneros está definitivamente fixado); e, no primeiro caso, grupos
de parentesco que permanecem indefinidos e abertos, que estão
separados uns dos outros e que toleram, em número indeterminado,
novas formas tão próximas quanto se queira das formas
preexistentes. Fazendo assim com que a contradição entre duas
teses derive de um certo domínio de objetos, de suas delimitações e
de seu esquadrinhamento, não a resolvemos; não descobrimos o
ponto de conciliação. Mas não a transferimos tampouco a um nível
mais fundamental; definimos o lugar em que se dá; fazemos
aparecer a ramificação da alternativa; localizamos a divergência e
o lugar em que os dois discursos se justapõem. A teoria da
estrutura não é um postulado comum, um fundo de crença geral
partilhado por Lineu e Buffon, uma sólida e fundamental
afirmação que lançaria para o nível de um debate acessório o
conflito do evolucionismo e do fixismo; é o princípio de sua
incompatibilidade, a lei que rege sua derivação e sua coexistência.
Tomando as contradições como objetos a ser descritos, a análise
arqueológica não tenta descobrir em seu lugar uma forma ou uma
temática comuns, e sim determinar a medida e a forma de sua
variação. Em relação a uma história das idéias que desejaria fundir
as contradições na unidade seminoturna de uma figura global, ou
transmutá-las em um princípio geral, abstrato e uniforme de
interpretação ou de explicação, a arqueologia descreve os
diferentes espaços de dissensão.
Ela desiste, pois, de tratar a contradição como uma função geral
que se exerce, do mesmo modo, em todos os níveis do discurso, e
que a análise deveria suprimir inteiramente ou reconduzir a uma
forma primeira e constitutiva: o grande jogo da contradição -
presente sob mil facetas, depois suprimida, afinal reconstituída no
conflito maior em que ela culmina - é substituído pela análise dos
diferentes tipos de contradição, diferentes níveis segundo os quais
se pode demarcá-la, diferentes funções que ela pode exercer.
Tratemos, inicialmente, dos diferentes tipos. Certas
contradições localizam-se apenas no plano das proposições ou das
assertivas, sem afetar em nada o regime enunciativo que as tornou
possíveis: assim, no século XVIII, a tese do caráter animal dos
fósseis opõe-se à tese mais tradicional de sua natureza mineral; as
consequências dessas duas teses,
A Arqueologia do Saber 173
certamente, são numerosas e vão longe; mas podemos mostrar que
elas nascem na mesma formação discursiva, no mesmo ponto e
segundo as mesmas condições de exercício da função enunciativa;
são contradições arqueologicamente derivadas e que constituem
um estado terminal. Outras, ao contrário, ultrapassam os limites de
uma formação discursiva e opõem teses que não se referem às
mesmas condições de enunciação: assim, o fixismo de Lineu é
contestado pelo evolucionismo de Darwin, mas somente na medida
em que se neutraliza a diferença entre a história natural, a que
pertence o primeiro, e a biologia, a que se relaciona o segundo.
Essas são contradições extrínsecas que remetem à oposição entre
formações discursivas distintas. Para a descrição arqueológica
(sem levar em conta, aqui, idas e vindas possíveis do
procedimento), essa oposição constitui o terminus a quo, enquanto
as contradições derivadas constituem o terminus ad quem da
análise. Entre esses dois extremos, a descrição arqueológica
descreve o que se poderia chamar as contradições intrínsecas: as
que se desenrolam na própria formação discursiva e que, nascidas
em um ponto do sistema das formações, fazem surgir subsistemas -
para nos atermos ao exemplo da história natural no século XVIII, a
contradição que opõe as análises "metódicas" e as análises
"sistemáticas". A oposição, aqui, não é terminal: não são duas
proposições contraditórias a propósito do mesmo objeto, nem duas
utilizações incompatíveis do mesmo conceito, mas duas maneiras
de formar enunciados, caracterizados uns e outros por certos
objetos, certas posições de subjetividade, certos conceitos e certas
escolhas estratégicas. Entretanto, esses sistemas não são a origem:
pode-se mostrar em que ponto derivam ambos de uma única e
mesma positividade que é a da história natural. Essas oposições
intrínsecas é que são pertinentes para a análise arqueológica.
Tratemos, em seguida, dos diferentes níveis. Uma contradição
arqueologicamente intrínseca não é um fato puro e simples que
bastaria constatar como um princípio ou explicar como um efeito.
É um fenômeno complexo que se reparte em diferentes planos da
formação discursiva. Assim, na história natural sistemática e na
história natural metódica, que não deixaram de se opor uma à outra
durante toda uma parte do século XVIII, pode-se reconhecer: uma
inadequação dos objetos (uma descreve o aspecto geral da planta:
a outra, algumas
174 Michel Foucault
variáveis determinadas de antemão; uma descreve a totalidade da
planta, ou pelo menos suas partes mais importantes; a outra, um
certo número de elementos escolhidos arbitrariamente por sua
comodidade taxionômica; ora diferentes estados de crescimento e
de maturidade das plantas são considerados, ora o estudo se limita
a um momento e a um estado de visibilidade ótima): uma
divergência das modalidades enunciativas (no caso da análise
sistemática das plantas, aplica-se um código perceptivo e
linguístico rigoroso e segundo uma escala constante; na descrição
metódica, os códigos são relativamente livres e as escalas de
demarcação podem oscilar); uma incompatibilidade dos conceitos
(nos "sistemas", o conceito de caráter genérico é uma marca
arbitrária, apesar de não enganosa, para designar os gêneros; nos
métodos, esse mesmo conceito deve abranger a definição real do
gênero); finalmente, uma exclusão das opções teóricas (a
taxionomia sistemática torna possível o "fixismo", mesmo se ele
estiver corrigido pela idéia de uma criação contínua no tempo,
exibindo pouco a pouco os elementos dos quadros, ou pela idéia de
catástrofes naturais que perturbaram, sob nossa perspectiva atual, a
ordem linear das vizinhanças naturais; mas ela exclui a
possibilidade de uma transformação aceita pelo método, sem
implicá-la necessariamente).
Chegou a vez das funções. Todas essas formas de oposição não
desempenham o mesmo papel na prática discursiva: não são, de
modo homogêneo, obstáculos a ser superados ou princípio de
crescimento. Não basta, de qualquer forma, procurar nelas a causa
do retardamento ou da aceleração da história; não é a partir da
forma vazia e geral da oposição que o tempo se introduz na
verdade e na idealidade do discurso. Essas oposições são sempre
momentos funcionais determinados. Algumas asseguram um
desenvolvimento adicional do campo enunciativo: abrem
sequências de argumentação, de experiência, de verificações, de
inferências diversas; permitem a determinação de objetos novos,
suscitam novas modalidades enunciativas, definem novos
conceitos ou modificam o campo de aplicação dos que já existem,
mas sem que nada seja modificado no sistema de positividade do
discurso (assim foram os debates entre os naturalistas do século
XVIII a propósito da fronteira entre o mineral e o vegetal, a
propósito dos limites da vida ou da natureza e da origem dos
fósseis); tais processos
A Arqueologia do Saber 175
aditivos podem permanecer abertos, ou se encontrar fechados, de
uma maneira decisiva, por uma demonstração que os refuta ou uma
descoberta que os invalida. Outras induzem uma reorganização do
campo discursivo: colocam a questão da tradução possível de um
grupo de enunciados era outro, do ponto de coerência que poderia
articulá-los, de sua integração em um espaço mais geral (assim a
oposição sistema-método nos naturalistas do século XVIII induz
uma série de tentativas de reescrevê-los, ambos, em uma única
forma de descrição, para dar ao método o rigor e a regularidade do
sistema, para fazer coincidir o arbitrário do sistema com as análises
concretas do método); não são novos objetos, novos conceitos,
novas modalidades enunciativas que se somam linearmente aos
antigos; mas objetos de outro nível (mais geral ou mais particular),
conceitos que têm outra estrutura e outro campo de aplicação,
enunciações de outro tipo, sem que, entretanto, as regras de
formação sejam modificadas. Outras oposições têm um papel
crítico: põem em jogo a existência e a "aceitabilidade" da prática
discursiva; definem o ponto de sua impossibilidade efetiva e de seu
recuo histórico (assim, a descrição, na própria história natural, das
solidariedades orgânicas e das funções que se exercem, através das
variáveis anatômicas, em condições definidas de existência, não
permite mais, pelo menos a título de formação discursiva
autônoma, uma história natural que seja uma ciência taxionômica
dos seres a partir de seus caracteres visíveis).
Uma formação discursiva não é, pois, o texto ideal, contínuo e
sem aspereza, que corre sob a multiplicidade das contradições e as
resolve na unidade calma de um pensamento coerente; não é,
tampouco, a superfície em que se vem refletir, sob mil aspectos
diferentes, uma contradição que estaria sempre em segundo plano,
mas dominante. É antes um espaço de dissensões múltiplas; um
conjunto de oposições diferentes cujos níveis e papéis devem ser
descritos. A análise arqueológica revela o primado de uma
contradição que tem seu modelo na afirmação e na negação
simultânea de uma única e mesma proposição, mas não para
nivelar todas as oposições em formas gerais de pensamento e
pacificá-las à força por meio de um a priori coator. Trata-se, ao
contrário, de demarcar, em uma prática discursiva determinada, o
ponto em que elas se constituem, definir a forma que assumem, as
relações que
176 Michel Foucault
estabelecem entre si e o domínio que comandara. Em suma,
trata-se de manter o discurso em suas asperezas múltiplas e de
suprimir, em consequência disso, o tema de uma contradição
uniformemente perdida e reencontrada, resolvida e sempre
renascente, no elemento indiferenciado do logos.
4
OS FATOS COMPARATIVOS
A análise arqueológica individualiza e descreve formações
discursivas, isto é, deve compará-las, opô-las umas às outras na
simultaneidade em que se apresentam, distingui-las das que não
têm o mesmo calendário, relacioná-las no que podem ter de
específico com as práticas não discursivas que as envolvem e lhes
servem de elemento geral. Bem diferente, ainda nisto, das
descrições epistemológicas ou "arquitetônicas" que analisam a
estrutura interna de uma teoria, o estudo arqueológico está sempre
no plural: ele se exerce em uma multiplicidade de registros;
percorre interstícios e desvios; tem seu domínio no espaço em que
as unidades se justapõem, se separam, fixam suas arestas, se
enfrentam, desenham entre si espaços em branco. Quando se dirige
a um tipo singular de discurso (o da psiquiatria na Histoire de la
folie ou o da medicina em Naissance de la clinique), é para
estabelecer, por comparação, seus limites cronológicos; é também
para descrever, ao mesmo tempo que eles e em correlação com
eles, um campo institucional, um conjunto de acontecimentos, de
práticas, de decisões políticas, um encadeamento de processos
econômicos em que figuram oscilações demográficas, técnicas de
assistência, necessidades de mão-de-obra, níveis diferentes de
desemprego etc. Mas ele pode também, por uma espécie de
aproximação lateral (como em Les mots et les choses), utilizar
178 Michel Foucault
várias positividades distintas, cujos estados concomitantes são
comparados durante um período determinado e confrontados com
outros tipos de discurso que tomaram o seu lugar em uma
determinada época.
Mas todas essas análises são muito diferentes das que são
praticadas comumente.
1. A comparação, nesse caso, é sempre limitada e regional.
Longe de querer fazer aparecer formas gerais, a arqueologia
procura desenhar configurações singulares. Quando se confronta a
gramática geral, a análise das riquezas e a história natural na época
clássica, não é para reagrupar três manifestações - particularmente
carregadas de valor expressivo e estranhamente negligenciadas até
aqui - de uma mentalidade que seria geral nos séculos XVII e
XVIII; não é para reconstituir, a partir de um modelo reduzido e de
um domínio singular, as formas de racionalidade que foram usadas
em toda a ciência clássica; não é nem mesmo para esclarecer o
perfil menos conhecido de uma fisionomia cultural que
acreditávamos familiar. Não quisemos mostrar que os homens do
século XVIII se interessavam, de uma maneira geral, mais pela
ordem que pela história, mais pela classificação que pelo devir,
mais pelos signos que pelos mecanismos de causalidade.
Tratava-se de fazer aparecer um conjunto bem determinado de
formações discursivas, que têm entre si um certo número de
relações descritíveis. Essas relações não extrapolam para domínios
limítrofes, e não se pode transferi-las gradualmente para o conjunto
dos discursos contemporâneos, nem, e tanto mais, para o que se
chama comumente "o espírito clássico": estão intimamente
alojadas na tríade estudada e só têm valor no domínio que se
encontra especificado. Esse conjunto interdiscursivo encontra-se
ele próprio, e sob sua forma de grupo, em relação com outros tipos
de discurso (de um lado, com a análise da representação, a teoria
geral dos signos e "a ideologia", e, de outro, com a matemática, a
análise algébrica e a tentativa de instauração de uma mathesis). São
essas relações internas e externas que caracterizam a história
natural, a análise das riquezas e a gramática geral como um
conjunto específico e permitem que nelas se reconheça uma
configuração interdiscursiva.
Alguns diriam: "Por que não ter falado da cosmologia, da
fisiologia ou da exegese bíblica? Será que a química antes de
A Arqueologia do Saber 179
Lavoisier, ou a matemática de Euler, ou a história de Vico não
seriam capazes, se as utilizássemos, de invalidar todas as análises
que se encontram em Les mots et les choses? Será que não há, na
inventiva riqueza do século XVIII, muitas outras idéias que não
entram no quadro rígido da arqueologia?" A estes, à sua legítima
impaciência, a todos os contra-exemplos que sei que poderiam
fornecer, responderei: certamente. Não só admito que minha
análise seja limitada, mas quero que seja assim e lho imponho.
Para mim um contra-exemplo seria justamente a possibilidade de
dizer: todas as relações que vocês descreveram a propósito de três
formações particulares, todas as redes em que se articulam umas
com as outras as teorias da atribuição, da articulação, da
designação e da derivação, toda essa taxionomia que repousa em
uma caracterização descontínua e uma continuidade da ordem, nós
as encontramos uniformemente e do mesmo modo na geometria,
na mecânica racional, na fisiologia dos humores e dos germens, na
crítica da história sagrada e na cristalografia nascente. Isso seria,
com efeito, a prova de que eu não teria descrito, como pretendi
fazê-lo, uma região de interpositividade; teria caracterizado o
espírito ou a ciência de uma época -contra o que todo o meu
trabalho se voltou. As relações que descrevi valem para definir
uma configuração particular; não são signos para descrever, em sua
totalidade, a fisionomia de uma cultura. É a vez de os amigos da
Weltanschauung ficarem decepcionados: cuido que a descrição que
encetei não seja do mesmo tipo da deles. O que entre eles seria
lacuna, esquecimento, erro, é para mim exclusão deliberada e
metódica.
Mas ainda se poderia dizer: você confrontou a gramática geral
com a história natural e a análise das riquezas. Mas por que não
com a história tal como era praticada na mesma época, com a
crítica bíblica, com a retórica, com a teoria das belas-artes? Não
seria todo um outro campo de interpositividade que você teria
descoberto? Qual o privilégio do que você descreveu? - Privilégio
algum; é apenas um dos conjuntos descritíveis; se, na verdade,
retomássemos a gramática geral e se procurássemos definir suas
relações com as disciplinas históricas e a crítica textual, veríamos,
seguramente, desenhar-se um sistema inteiramente diferente de
relações; e a descrição faria aparecer uma rede interdiscursiva que
não se superporia à primeira, mas a cruzaria em alguns de seus
pontos.
180 Michel Foucault
Da mesma forma, a taxionomia dos naturalistas poderia ser
confrontada não tanto com a gramática e a economia, mas com a
fisiologia e a patologia: ainda aí, novas interpositividades se
delineariam (se compararmos as relações
taxionomia-gramática-economia, analisadas em Les mots et les
choses, e as relações taxionomia-patologia, estudadas na Naissance
de la clinique). Tais redes não são, pois, em número previamente
definido, só a prova da análise pode mostrar se existem e quais
existem (isto é, quais são suscetíveis de ser descritas). Além disso,
cada formação discursiva não pertence (de qualquer forma não
pertence necessariamente) a um único desses sistemas, mas entra
simultaneamente em diversos campos de relações em que não
ocupa o mesmo lugar e não exerce a mesma função (as relações
taxionomia-patologia não são isomórficas às relações
taxionomia-gramática; as relações gramática-análise das riquezas
não são isomórficas às relações gramática-exegese).
O horizonte ao qual se dirige a arqueologia não é, pois, uma
ciência, uma racionalidade, uma mentalidade, uma cultura; é um
emaranhado de interpositividades cujos limites e pontos de
cruzamentos não podem ser fixados de imediato. A arqueologia:
uma análise comparativa que não se destina a reduzir a diversidade
dos discursos nem a delinear a unidade que deve totalizá-los, mas
sim a repartir sua diversidade em figuras diferentes. A comparação
arqueológica não tem um efeito unificador, mas multiplicador.
2. Confrontando a gramática geral, a história natural e a análise
das riquezas nos séculos XVII e XVIII, poderíamos perguntar que
idéias tinham em comum, nessa época, linguistas, naturalistas e
teóricos da economia; poderíamos perguntar que postulados
implícitos supunham em comum, apesar da diversidade de suas
teorias, a que princípios gerais obedeciam, talvez silenciosamente;
poderíamos perguntar que influência a análise da linguagem
exercera sobre a taxionomia, ou que papel a idéia de uma natureza
ordenada tinha representado na teoria da riqueza; poderíamos
estudar, igualmente, a difusão respectiva desses diferentes tipos de
discurso, o prestígio de cada um, a valorização decorrente de sua
antiguidade (ou, ao contrário, de sua data recente) e de seu maior
rigor, os canais de comunicação e as vias pelas quais se fizeram
A Arqueologia do Saber 181
as trocas de informação; poderíamos, finalmente, reunindo análises
inteiramente tradicionais, perguntar em que medida Rousseau havia
transferido, para a análise das línguas e sua origem, seu saber e
experiência de botânico; que categorias comuns Turgot tinha aplicado à
análise da moeda e à teoria da linguagem e da etimologia; como a idéia
de uma língua universal, artificial e perfeita fora remanejada e utilizada
por classificadores como Lineu e Adanson. Todas essas questões,
certamente, seriam legítimas (pelo menos algumas delas...). Mas nem
umas nem outras são pertinentes ao nível da arqueologia.
O que esta quer libertar é, inicialmente - mantidas a especificidade e a
distância das diversas formações discursivas -, o jogo das analogias e das
diferenças, tais como aparecem no nível das regras de formação. Isso
implica cinco tarefas distintas:
a) Mostrar como elementos discursivos inteiramente diferentes
podem ser formados a partir de regras análogas (os conceitos da
gramática geral, como os de verbo, sujeito, complemento, raiz, são
formados a partir das mesmas disposições, do campo enunciativo -teorias
da atribuição, da articulação, da designação, da derivação -que os
conceitos, entretanto bem diferentes e radicalmente heterogêneos, da
história natural e da economia); mostrar, entre formações diferentes, os
isomorfismos arqueológicos.
b) Mostrar até que ponto essas regras se aplicam ou não do mesmo
modo, se encadeiam ou não da mesma ordem, dispõem-se ou não
conforme o mesmo modelo nos diferentes tipos de discurso (a gramática
geral encadeia, uma à outra, e nesta mesma ordem, a teoria da atribuição,
a da articulação, a da designação e a da derivação; a história natural e a
análise das riquezas reagrupam as duas primeiras e as duas últimas, mas
as encadeiam em ordem inversa): definir o modelo arqueológico de cada
formação.
e) Mostrar como conceitos perfeitamente diferentes (como os de valor
e de caráter específico, ou de preço e de caráter genérico) ocupam uma
posição análoga na ramificação de seu sistema de positividade -que são
dotados, assim, de uma isotopia arqueológica- ainda que seu domínio de
aplicação, seu grau de formalização, sobretudo sua gênese histórica, os
tornem totalmente estranhos uns aos outros.
d) Mostrar, em compensação, como uma única e mesma noção
(eventualmente designada por uma única e mesma palavra) pode
abranger dois elementos arqueologicamente distintos (as noções de
origem e de evolução não têm nem o mesmo papel, nem o mesmo
182 Michel Foucault
lugar, nem a mesma formação no sistema de positividade da gramática
geral e no da história natural); indicar as defasagens arqueológicos.
e) Mostrar, finalmente, como, de uma positividade a outra, podem ser
estabelecidas relações de subordinação ou de complementaridade (assim,
em relação à análise da riqueza e à das espécies, a descrição da
linguagem desempenha, durante a época clássica, um papel dominante,
na medida em que ela é a teoria dos signos de instituição que desdobram,
marcam e representam a própria representação): estabelecer as
correlações arqueológicas.
Em todas essas descrições, nada se apóia na determinação de
influências, trocas, informações transmitidas, comunicações. Não que se
trate de negá-las ou contestar que jamais possam ser objeto de uma
descrição, mas sim de tomar, em relação a elas, um recuo medido, de
deslocar o nível de ataque da análise, de revelar o que as tornou possíveis;
de demarcar os pontos em que se pôde efetuar a projeção de um conceito
sobre outro, de fixar o isomorfismo que permitiu uma transferência de
métodos ou de técnicas, de mostrar as vizinhanças, as simetrias ou as
analogias que permitiram as generalizações; em suma, de descrever o
campo de vetores e de receptividade diferencial (de permeabilidade e de
impermeabilidade) que, para o jogo das trocas, foi uma condição de
possibilidade histórica. Uma configuração de interpositividade não é um
grupo de disciplinas vizinhas; não é somente um fenômeno observável de
semelhança; não é somente a relação global de diversos discursos com
algum outro; é a lei de suas comunicações. Não se deve dizer: pelo fato de
Rousseau e outros terem refletido alternadamente sobre o ordenamento
das espécies e a origem das línguas, estabeleceram-se relações e
produziram-se trocas entre taxionomia e gramática; pelo fato de Turgot,
depois de Law e Petty, ter desejado tratar a moeda como um signo, a
economia e a teoria da linguagem se aproximaram, e sua história traz,
ainda, a marca de tais tentativas. Mas sim dizer- se, pelo menos, se quer
fazer uma descrição arqueológica - que as disposições respectivas dessas
três positividades eram tais que, no nível das obras, dos autores, das
existências individuais, dos projetos e das tentativas, podem ser
encontradas trocas semelhantes.
3. A arqueologia faz também com que apareçam relações entre as
formações discursivas e domínios não discursivos (instituições,
acontecimentos políticos, práticas e processos
A Arqueologia do Saber 183
econômicos). Tais aproximações não têm por finalidade revelar
grandes continuidades culturais ou isolar mecanismos de
causalidade. Diante de um conjunto de fatos enunciativos, a
arqueologia não se questiona o que pôde motivá-lo (esta é a
pesquisa dos contextos de formulação); não busca, tampouco,
encontrar o que neles se exprime (tarefa de uma hermenêutica); ela
tenta determinar como as regras de formação de que depende - e
que caracterizam a positividade a que pertence - podem estar
ligadas a sistemas não discursivos; procura definir formas
específicas de articulação.
Consideremos o exemplo da medicina clínica, cuja instauração
no final do século XVIII é contemporânea de um certo número de
acontecimentos políticos, de fenômenos econômicos e de
mudanças institucionais. É fácil suspeitar, pelo menos
intuitivamente, que existam laços entre esses fatos e a organização
de uma medicina hospitalar. Mas como analisá-los? Uma análise
simbólica veria, na organização da medicina clínica e nos
processos históricos que lhe foram concomitantes, duas expressões
simultâneas que se refletem e se simbolizam uma à outra, que
funcionam reciprocamente como espelho, e cujas significações são
tomadas em um jogo indefinido de remissões: duas expressões que
não exprimem nada mais que a forma que lhes é comum. Assim, as
idéias médicas de solidariedade orgânica, de coesão funcional, de
comunicação tissular - e o abandono do princípio classificatório
das doenças em proveito de uma análise das interações corporais -
corresponderiam (para refleti-las, mas também para nelas se mirar)
a uma prática política que descobre, sob estratificações ainda
feudais, relações de tipo funcional, solidariedades econômicas,
uma sociedade cujas dependências e reciprocidades deviam
assegurar, na forma da coletividade, o analogon da vida. Uma
análise causai, em compensação, consistiria em procurar saber até
que ponto as mudanças políticas, ou os processos econômicos,
puderam determinar a consciência dos homens de ciência - o
horizonte e a direção de seu interesse, seu sistema de valores, sua
maneira de perceber as coisas, o estilo de sua racionalidade; assim,
em uma época em que o capitalismo industrial começava a
recensear suas necessidades de mão-de-obra, a doença tomou uma
dimensão social: a manutenção da saúde, a cura, a assistência aos
doentes pobres, a pesquisa das causas e dos focos patogênicos
tornaram-se um encargo
184 Michel Foucault
coletivo que o Estado devia, por um lado, assumir e, por outro,
supervisionar. Daí resultam a valorização do corpo como
instrumento de trabalho, o cuidado de racionalizar a medicina pelo
modelo das outras ciências, os esforços para manter o nível de
saúde de uma população, o cuidado com a terapêutica, a
manutenção de seus efeitos, o registro dos fenômenos de longa
duração.
A arqueologia situa sua análise em um outro nível: os
fenômenos de expressão, de reflexos e de simbolização são, para
ela, apenas os efeitos de uma leitura global em busca das analogias
formais ou das translações de sentidos; quanto às relações causais,
elas só podem ser assinaladas no nível do contexto ou da situação e
de seu efeito sobre o sujeito falante; de qualquer modo, umas e
outras só podem ser demarcadas uma vez definidas as
positividades em que aparecem e as regras segundo as quais essas
positividades foram formadas. O campo de relações que caracteriza
uma formação discursiva é o lugar de onde as simbolizações e os
efeitos podem ser percebidos, situados e determinados. Se a
arqueologia aproxima o discurso médico de um certo número de
práticas é para descobrir relações muito menos "imediatas" que a
expressão, mas muito mais diretas que as de uma causalidade
substituída pela consciência dos sujeitos falantes. Ela quer mostrar
não como a prática política determinou o sentido e a forma do
discurso médico, mas como e por que ela faz parte de suas
condições de emergência, de inserção e de funcionamento. Essa
relação pode ser assinalada em vários níveis. Inicialmente, no do
recorte e da delimitação do objeto médico: não, é claro, que a
prática política, desde o século XIX, tenha imposto à medicina
novos objetos como as lesões dos tecidos orgânicos ou as
correlações anatomofisiológicas; mas ela abriu novos campos de
demarcação dos objetos médicos (tais como são constituídos pela
massa da população administrativamente enquadrada e fiscalizada,
avaliada segundo certas normas de vida e saúde, analisada segundo
formas de registro documental e estatístico; são constituídos,
também, pelos grandes exércitos populares da época revolucionária
e napoleônica, com sua forma específica de controle médico; são
constituídos, ainda, pelas instituições de assistência hospitalar que
foram definidas, no final do século XVIII e no início do século
XIX, em função das necessidades econômicas da época e da
A Arqueologia do Saber 185
posição recíproca das classes sociais). Vemos aparecer também a
relação entre a prática política e o discurso médico no status
atribuído ao médico, que se torna o titular - não apenas
privilegiado, mas quase exclusivo - desse discurso, na forma de
relação institucional que ele pode ter com o doente hospitalizado
ou com sua clientela particular, nas modalidades de ensino e de
difusão que são prescritas ou autorizadas para esse saber.
Finalmente, podemos compreender tal relação na função que é
atribuída ao discurso médico, ou no papel que dele se requer,
quando se trata de julgar indivíduos, tomar decisões
administrativas, dispor as normas de uma sociedade, traduzir - para
"resolvê-los" ou mascará-los - conflitos de uma outra ordem,
apresentar modelos de tipo natural às análises da sociedade e às
práticas que lhe são pertinentes. Não se trata, portanto, de mostrar
como a prática política de uma dada sociedade constituiu ou
modificou os conceitos médicos e a estrutura teórica da patologia,
mas como o discurso médico, como prática que se dirige a um
certo campo de objetos, que se encontra nas mãos de um certo
número de indivíduos estatutariamente designados, que tem, enfim,
de exercer certas funções na sociedade, se articula em práticas que
lhe são exteriores e que não são de natureza discursiva.
Se, nessa análise, a arqueologia suprime o tema da expressão e
do reflexo, se ela se recusa a ver no discurso a superfície de
projeção simbólica de acontecimentos ou de processos situados em
outra parte, não é para encontrar um encadeamento causai que se
poderia descrever ponto por ponto e que permitiria relacionar uma
descoberta e um acontecimento, ou um conceito e uma estrutura
social. Mas, por outro lado, se ela mantém em suspenso semelhante
análise causai, se quer evitar o revezamento necessário feito pelo
sujeito falante, não é para assegurar a independência soberana e
solitária do discurso; é para descobrir o domínio de existência e de
funcionamento de uma prática discursiva. Em outras palavras, a
descrição arqueológica dos discursos se desdobra na dimensão de
uma história geral; ela procura descobrir todo o domínio das
instituições dos processos econômicos, das relações sociais nas
quais pode articular-se uma formação discursiva; ela tenta mostrar
como a autonomia do discurso e sua especificidade não lhe dão,
por isso, um status de pura idealidade e
186 Michel Foucault
de total independência histórica; o que ela quer revelar é o nível
singular em que a história pode dar lugar a tipos definidos de
discurso que têm, eles próprios, seu tipo de historicidade e que
estão relacionados cora todo um conjunto de historicidades
diversas.
5
A MUDANÇA E AS TRANSFORMAÇÕES
O que se passa, hoje, com a descrição arqueológica da
mudança? Seria possível fazer à história tradicional das idéias
todas as críticas teóricas que se quisesse ou pudesse: pelo menos
para si, ela tem de tomar por tema essencial os fenômenos de
sucessão e de encadeamento temporais, de analisá-los conforme os
esquemas de evolução e de descrever, assim, o desenrolar histórico
dos discursos. A arqueologia, em compensação, parece tratar a
história só para imobilizá-la. De um lado, descrevendo suas
formações discursivas, abandona as séries temporais que aí se
podem manifestar; busca regras gerais que valem uniformemente, e
da mesma maneira, em todos os pontos do tempo: não impõe, a um
desenvolvimento talvez lento e imperceptível, a figura coatora de
uma sincronia. Nesse "mundo das idéias", que é por si mesmo tão
lábil, em que as figuras aparentemente mais estáveis se apagam tão
depressa, em que, em compensação, tantas irregularidades se
produzem e recebem, mais tarde, um status definitivo, em que o
futuro se antecipa sempre a si mesmo, enquanto o passado não
deixa de se deslocar, ela não se mostra como uma espécie de
pensamento imóvel? E, por outro lado, quando recorreu à
cronologia, parece que foi unicamente para fixar, nos limites das
positividades, dois pontos de referência: o momento em que
nascem e aquele em que se apagam, como se a duração só
188 Michel Foucault
fosse usada para fixar este calendário rudimentar, sendo eliminada
ao longo da própria análise; como se só houvesse tempo no
instante vazio da ruptura, nessa falha branca e paradoxalmente
intemporal em que uma formação subitamente substitui outra.
Sincronia das positividades, instantaneidade das substituições, o
tempo esquivou-se, e com ele desaparece a possibilidade de uma
descrição histórica. O discurso é subtraído à lei do devir e se
estabelece em uma intemporalidade descontínua. Imobiliza-se por
fragmentos: estilhaços precários de eternidade. Mas, por mais que
se queira, diversas eternidades que se sucedem, um jogo de
imagens fixas que se eclipsam sucessivamente, tudo isso não
constitui nem um movimento, nem um tempo, nem uma história.
É preciso, no entanto, observar as coisas mais de perto.
A
Consideremos, de início, a aparente sincronia das formações
discursivas. Uma coisa é verdadeira: por mais que as regras
estejam investidas em cada enunciado, por mais que, por
conseguinte, sejam reutilizadas em cada um, elas não se modificam
a cada oportunidade; podemos reencontrá-las em atividade em
enunciados ou grupos de enunciados bem dispersos no tempo.
Vimos, por exemplo, que os diversos objetos da história natural,
durante aproximadamente um século - de Tournefort a Jussieu -,
obedeciam a regras de formação idênticas; vimos que a teoria da
atribuição é a mesma e desempenha o mesmo papel em Lancelot,
Condillac e Destutt de Tracy. Além disso, vimos que a ordem dos
enunciados segundo a derivação arqueológica não reproduzia,
forçosamente, a ordem das sucessões: podem-se encontrar em
Beauzée enunciados arqueologicamente anteriores aos que se
encontram na Grammaíre de Port-Royal. Há, então, em semelhante
análise, uma suspensão das sequências temporais - para sermos
mais exatos, do calendário das formulações. Mas a suspensão tem
precisamente por fim fazer aparecerem relações que caracterizam a
temporalidade das formações discursivas e a articulam em séries,
cujo entrecruzamento não impede a análise.
a) A arqueologia define as regras de formação de um conjunto de
enunciados. Manifesta, assim, como uma sucessão de
A Arqueologia do Saber 189
acontecimentos pode, na própria ordem em que se apresenta, tornar-se
objeto de discurso, ser registrada, descrita, explicada, receber elaboração
em conceitos e dar a oportunidade de uma escolha teórica. A arqueologia
analisa o grau e a forma de permeabilidade de um discurso: apresenta o
principio de sua articulação com uma cadeia de acontecimentos
sucessivos; define os operadores pelos quais os acontecimentos se
transcrevem nos enunciados. Ela não contesta, por exemplo, a relação
entre a análise das riquezas e as grandes flutuações monetárias do século
XVII e do início do século XVIII; tenta mostrar o que, dessas crises,
podia ser tido como objeto do discurso, como podiam elas estar aí
conceitualizadas. como os interesses que se defrontavam no decurso
desses processos podiam aí dispor sua estratégia. Ou, ainda, não afirma
que a cólera de 1832 não tenha sido um acontecimento para a medicina:
mostra como o discurso clínico empregava regras tais que todo um
domínio de objetos médicos pôde ser, então, reorganizado, que se pôde
usar todo um conjunto de métodos de registro e de notação, que se pôde
abandonar o conceito de inflamação e liquidar, definitivamente, o velho
problema teórico das febres. A arqueologia não nega a possibilidade de
enunciados novos em correlação com acontecimentos "exteriores". Sua
tarefa é mostrar em que condições pode haver tal correlação entre eles, e
era que ela consiste precisamente (quais são seus limites, forma, código,
lei de possibilidade). Não evita a mobilidade dos discursos que os faz
agitarem-se ao ritmo dos acontecimentos; tenta libertar o nível em que ela
se desencadeia - o que se poderia chamar o nível de embreagem dos
acontecimentos. (Embreagem que é específica para cada formação
discursiva e que não tem nem as mesmas regras, nem os mesmos
operadores, nem a mesma sensibilidade, por exemplo, na análise das
riquezas e na economia política, na velha medicina das "constituições" e
na epidemiologia moderna.)
b) Além disso, todas as regras de formação atribuídas pela
arqueologia a uma positividade não têm a mesma generalidade: algumas
são mais particulares e derivam das outras. Essa subordinação pode ser
somente hierárquica, mas pode comportar também um vetor temporal.
Assim, na gramática geral, a teoria do verbo-atribuição e a do
nome-articulação estão ligadas uma à outra; a segunda deriva da primeira,
mas sem que se possa determinar entre elas uma ordem de sucessão
(diferente da que. dedutiva ou retórica, foi escolhida para a exposição).
Em compensação, a análise do complemento ou a busca das raízes só
podiam aparecer (ou reaparecer) uma vez desenvolvida a análise da frase
atributiva ou a concepção do nome como signo analítico da representação.
Outro exemplo: na época clássica, o princípio da continuidade dos seres é
abrangido pela classificação das espécies segundo os caracteres
estruturais; nesse sentido, eles
190 Michel Foucault
são simultâneos; em compensação, só depois de empreendida essa
classificação é que as lacunas e as faltas podem ser interpretadas nas
categorias de uma história da natureza, da terra e das espécies. Em outros
termos, a ramificação arqueológica das regras de formação não é uma
rede uniformemente simultânea; há relações, ramificações, derivações
que são temporalmente neutras; há outras que implicam uma direção
temporal determinada. A arqueologia não toma. pois, como modelo nem
um esquema puramente lógico de simultaneidades, nem uma sucessão
linear de acontecimentos, mas tenta mostrar o entrecruzamento entre
relações necessariamente sucessivas e outras que não o são. Não se deve
acreditar, consequentemente, que um sistema de positividade seja uma
figura sincrônica que só podemos perceber colocando entre parênteses o
conjunto do processo diacrônico. Longe de ser indiferente à sucessão, a
arqueologia demarca os vetores temporais de derivação.
A arqueologia não tenta tratar como simultâneo o que se dá como
sucessivo; não tenta imobilizar o tempo e substituir seu fluxo de
acontecimentos por correlações que delineiam uma figura imóvel. O que
ela suspende é o tema de que a sucessão é um absoluto: um encadeamento
primeiro e indissociável a que o discurso estaria submetido pela lei de sua
finitude; e também o tema de que no discurso só há uma forma e um
único nível de sucessão. Ela substitui esses temas por análises que fazem
aparecer, ao mesmo tempo, as diversas formas de sucessão que se
superpõem nos discursos (e por formas não se deve entender
simplesmente os ritmos ou as causas, mas as próprias séries) e a maneira
pela qual se articulam as sucessões assim especificadas. Ao invés de
seguir um calendário originário, em relação ao qual se estabeleceria a
cronologia dos acontecimentos sucessivos ou simultâneos, a dos
processos curtos ou duráveis, a dos fenômenos instantâneos e das
permanências, tenta-se mostrar como pode haver sucessão e em que
níveis diferentes encontram-se sucessões distintas. É preciso, portanto,
para constituir uma história arqueológica do discurso, livrarmo-nos de
dois modelos que, por muito tempo sem dúvida, impuseram sua imagem:
o modelo linear de ato da fala (e pelo menos uma parte da escrita) em que
todos os acontecimentos se sucedem, com exceção do efeito de
coincidência e de superposição: e o modelo do fluxo de consciência cujo
presente escapa sempre a si mesmo na abertura do futuro e na retenção do
passado. Por mais paradoxal que
A Arqueologia do Saber 191
isso seja, as formações discursivas não têm o mesmo modelo de
historicidade que o curso da consciência ou a linearidade da
linguagem. O discurso, pelo menos tal como é analisado pela
arqueologia, isto é, no nível de sua positividade, não é uma
consciência que vem alojar seu projeto na forma externa da
linguagem; não é uma língua, com um sujeito para falá-la. É uma
prática que tem suas formas próprias de encadeamento e de
sucessão.
B
A arqueologia fala - bem mais à vontade do que a história das
idéias - de cortes, falhas, aberturas, formas inteiramente novas de
positividade e redistribuições súbitas. Fazer a história da economia
política era, tradicionalmente, procurar tudo que poderia ter
precedido Ricardo, tudo que poderia ter delineado antecipadamente
suas análises, seus métodos e suas noções principais, tudo que
poderia ter tornado suas descobertas mais prováveis; fazer a
história da gramática comparativa era reencontrar o rastro - bem
antes de Bopp e Rask - das pesquisas prévias sobre a filiação e o
parentesco das línguas; era determinar a participação que poderia
ter tido Anquetil-Duperron na constituição de um domínio
indo-europeu; era revelar, mais uma vez, a primeira comparação,
feita em 1769, entre as conjugações sânscrita e latina; era, se fosse
preciso, remontar a Harris ou Ramus. A arqueologia procede
inversamente; procura soltar todos os fios ligados pela paciência
dos historiadores; multiplica as diferenças, baralha as linhas de
comunicação e se esforça para tornar as passagens mais difíceis;
não tenta mostrar que a análise fisiocrática da produção preparava
a de Ricardo; não considera pertinente, a suas próprias análises,
dizer que Coeurdoux havia preparado Bopp.
A que corresponde essa insistência sobre as descontinuidades?
Na verdade, ela só é paradoxal em relação ao hábito dos
historiadores. É esse hábito - e sua preocupação com as
continuidades, passagens, antecipações, esboços prévios -que,
muito frequentemente, representa o paradoxo. De Daubenton a
Cuvier, de Anquetil a Bopp, de Graslin, Turgot ou Forbonnais a
Ricardo, apesar de uma distância cronológica
192 Michel Foucault
tão reduzida, as diferenças são inumeráveis e de naturezas muito
diversas; umas são localizadas, outras gerais; umas referem-se aos
métodos, outras aos conceitos; ora se trata do domínio de objetos,
ora de todo o instrumento linguístico. Mais surpreendente ainda é o
exemplo da medicina: em um quarto de século, de 1790 a 1815, o
discurso médico se modificou mais profundamente que desde o
século XVII, que desde a Idade Média sem dúvida, e talvez até
mesmo desde a medicina grega: modificação que fez aparecerem
objetos (lesões orgânicas, focos profundos, alterações tissulares,
vias e formas de difusão interorgânicas, signos e correlações
anatomoclínicas), técnicas de observação, de detecção do foco
patológico, de registro; um outro esquadrinhamento perceptivo e
um vocabulário de descrição quase completamente novo; jogos de
conceitos e distribuições nosográficas inéditas (categorias às vezes
centenárias, às vezes milenárias, como a de febre ou de
constituição, desaparecem, e doenças, às vezes velhas como o
mundo - a tuberculose -, são finalmente isoladas e nomeadas).
Deixemos aos que, por inadvertência, jamais abriram a
Nosographie philosophique e o Traité des membranes a
preocupação de dizer que a arqueologia, arbitrariamente, inventa
diferenças. Ela se esforça, somente, para levá-las a sério: desfazer
seu emaranhado, determinar como se repartem, se implicam, se
comandam, se subordinam umas às outras, a que categorias
distintas pertencem; em suma, trata-se de descrever as diferenças
não sem estabelecer entre elas o sistema de suas diferenças. Se há
um paradoxo da arqueologia, não é no fato de que ela multiplicaria
as diferenças, mas no fato de que ela se recusa a reduzi-las -
invertendo, assim, os valores habituais. Para a história das idéias, a
diferença, tal como aparece, é erro ou armadilha; ao invés de se
deixar prender por ela, a sagacidade da análise deve procurar
desfazê-la: encontrar sob ela uma diferença menor e, abaixo desta,
uma outra ainda mais limitada, e assim indefinidamente até o
limite ideal que seria a não-diferença da perfeita continuidade. A
arqueologia, em compensação, toma por objeto de sua descrição o
que habitualmente se considera obstáculo: ela não tem por projeto
superar as diferenças, mas analisá-las, dizer em que exatamente
consistem e diferenciá-las. Como se opera tal diferenciação?
A Arqueologia do Saber 193
1. A arqueologia, ao invés de considerar que o discurso é feito apenas
de uma série de acontecimentos homogêneos (as formulações
individuais), distingue, na própria densidade do discurso, diversos planos
de acontecimentos possíveis: plano dos próprios enunciados em sua
emergência singular; plano de aparecimento dos objetos, dos tipos de
enunciação, dos conceitos, das escolhas estratégicas (ou das
transformações que afetam as que já existem); plano da derivação de
novas regras de formação a partir de regras já empregadas - mas sempre
no elemento de uma única e mesma positividade; finalmente, em um
quarto nível, plano em que se efetua a substituição de uma formação
discursiva por outra (ou do aparecimento e do desaparecimento puro e
simples de uma positividade). Tais acontecimentos, de longe os mais
raros, são para a arqueologia os mais importantes: somente ela, de
qualquer forma, pode fazê-los aparecerem. Mas eles não são o objeto
exclusivo de sua descrição; seria errado acreditar que comandam
imperativamente todos os outros e que induzem, nos diferentes planos que
puderam ser distinguidos, rupturas análogas e simultâneas. Todos os
acontecimentos que se produzem na densidade do discurso não se apóiam
uns nos outros. Certamente, o aparecimento de uma formação discursiva
se correlaciona, muitas vezes, cora uma vasta renovação de objetos,
formas de enunciação, conceitos e estratégias (princípio que não é,
entretanto, universal: a gramática geral se instaurou no século XVII sem
muitas modificações aparentes na tradição gramatical); mas não é
possível fixar o conceito determinado ou o objeto particular que
manifesta, repentinamente, sua presença. Não é preciso, pois, descrever
semelhante acontecimento segundo as categorias que podem convir à
emergência de uma formulação ou ao aparecimento de uma palavra nova.
Inútil fazer a esse acontecimento perguntas como: "Quem é o autor?
Quem falou? Em que circunstâncias e em que contexto? Animado por que
intenções e tendo que projetos?" O aparecimento de uma nova
positividade não é assinalado por uma frase nova - inesperada,
surpreendente, logicamente imprevisível, estilisticamente desviante - que
viria inserir-se em um texto e anunciaria quer o começo de um novo
capítulo, quer a intervenção de um novo locutor. Trata-se de um
acontecimento de tipo totalmente diferente.
2. Para analisar tais acontecimentos, é insuficiente constatar
modificações e logo relacioná-las seja ao modelo teológico e estético da
criação (com sua transcendência, todo o jogo de suas originalidades e de
suas invenções), seja ao modelo psicológico da tomada de consciência
(com seus precedentes obscuros, suas antecipações, suas circunstâncias
favoráveis, seus poderes de reestruturação), ou, ainda, ao modelo
biológico da evolução. É necessário definir precisamente em que
consistem essas modificações: substituir a referência
194 Michel Foucault
indiferenciada à mudança - ao mesmo tempo continente geral de todos os
acontecimentos e princípio abstrato de sua sucessão - pela análise das
transformações. O desaparecimento de uma positividade e a emergência
de uma outra implica diversos tipos de transformações. Indo das mais
particulares às mais gerais, pode-se e deve-se descrever como se
transformaram os diferentes elementos de um sistema de formação (quais
foram, por exemplo, as variações da taxa de desemprego e das
necessidades de emprego, quais foram as decisões políticas referentes às
corporações e à universidade, quais foram as novas necessidades e
possibilidades de assistência no final do século XVIII - elementos que
entram no sistema de formação da medicina clínica); como se
transformaram as relações características de um sistema de formação
(como foi modificada, por exemplo, em meados do século XVII, a relação
entre campo perceptivo, código linguístico, mediação instrumental e
informação, que era utilizada pelo discurso sobre os seres vivos,
permitindo, assim, a definição dos objetos da história natural); como as
relações entre diferentes regras de formação foram transformadas (como,
por exemplo, a biologia modifica a ordem e a dependência estabelecidas
pela história natural entre a teoria da caracterização e a análise das
derivações temporais); como, enfim, se transformam as relações entre
diversas positividades (como as relações entre filologia, biologia e
economia transformam as relações entre gramática, história natural e
análise das riquezas; como se decompõe a configuração interdiscursiva
delineada pelas relações privilegiadas entre essas três disciplinas; como se
encontram modificadas suas relações respectivas com a matemática e a
filosofia; como se destaca um lugar para outras formações discursivas e,
singularmente, para a interpositividade que tomará o nome de ciências
humanas). Em vez de invocar a força viva da mudança (como se esta
fosse seu próprio princípio), ou lhe procurar as causas (como se nunca
passasse de puro e simples efeito), a arqueologia tenta estabelecer o
sistema das transformações em que consiste a "mudança"; tenta elaborar
essa noção vazia e abstrata para dar-lhe o status analisável da
transformação. Compreende-se que certas mentes, ligadas a todas as
velhas metáforas pelas quais, durante um século e meio, concebeu-se a
história (movimento, fluxo, evolução), vejam aí tão-somente a negação da
história e a afirmação frustrada da descontinuidade; é que, de fato, não
podem admitir que se limpe a mudança de todos os modelos adventícios,
que se tire dela, ao mesmo tempo, seu primado de lei universal e seu
status de efeito geral, e que ela seja substituída pela análise das
transformações diversas.
3. Dizer que uma formação discursiva substitui outra não é dizer que
todo um mundo de objetos, enunciações, conceitos, escolhas teóricas
absolutamente novas surge já armado e organizado em um
A Arqueologia do Saber 195
texto que o situaria de uma vez por todas; mas sim que aconteceu uma
transformação geral de relações que, entretanto, não altera forçosamente
todos os elementos; que os enunciados obedecem a novas regras de
formação e não que todos os objetos ou conceitos, todas as enunciações
ou todas as escolhas teóricas desaparecem. Ao contrário, a partir dessas
novas regras, podem ser descritos e analisados fenômenos de
continuidade, de retorno e de repetição: não se deve esquecer, na verdade,
que uma regra de formação não é nem a determinação de um objeto, nem
a caracterização de um tipo de enunciação; nem a forma ou o conteúdo de
um conceito, mas o princípio de sua multiplicidade e de sua dispersão.
Um desses elementos - ou vários entre eles - podem permanecer idênticos
(conservar o mesmo recorte, os mesmos caracteres, as mesmas
estruturas), mas pertencendo a sistemas diferentes de dispersão e
obedecendo a leis distintas de formação. Podem-se, então, encontrar
fenômenos como estes: elementos que perduram ao longo de diversas
positividades distintas, mantendo a mesma forma e o mesmo conteúdo,
mas com formações heterogêneas (a circulação monetária como objeto, de
início, da análise das riquezas e, em seguida, da economia política; o
conceito de caráter, a princípio na história natural e depois na biologia);
elementos que se constituem, se modificam, se organizam em uma
formação discursiva e que, afinal estabilizados, figuram em outra [como o
conceito de reflexo, cuja formação na ciência clássica de Willis a
Prochaska e, depois, a entrada na fisiologia moderna foram mostradas por
G. Canguilhem); elementos que aparecem tarde, como uma derivação
última em uma formação discursiva e que ocupam uma posição
dominante em uma formação ulterior (como a noção de organismo,
surgida no final do século XVII], na história natural, e como resultado de
toda a empresa taxionômica de caracterização, e que se torna o conceito
maior da biologia na época de Cuvier; o mesmo ocorre com a noção de
foco de lesão que Morgagni revela e que se toma um dos conceitos
principais da medicina clínica); elementos que reaparecem após um
período de desuso, de esquecimento ou mesmo de invalidação (como o
retorno a um fixismo do tipo do de Lineu em um biólogo como Cuvier;
como a reativação da velha idéia de língua originária no século XVIII). O
problema para a arqueologia não é negar tais fenômenos, nem querer
diminuir sua importância; mas, ao contrário, medi-los e tentar explicá-los:
como pode haver permanências ou repetições, longos encadeamentos ou
curvas que transpõem o tempo. A arqueologia não considera o contínuo
como o dado primeiro e último que deve dar conta do resto; considera, ao
contrário, que o mesmo, o repetitivo e o ininterrupto constituem um
problema tanto quanto as rupturas; para ela, o idêntico e o contínuo não
são aquilo que é preciso reencontrar no fim da análise; eles figuram no
elemento
196 Michel Foucault
de uma prática discursiva; eles também são comandados pelas regras de
formação das positividades; longe de manifestarem a inércia fundamental
e tranquilizadora a que se quer relacionar a mudança, eles próprios são
ativa e regularmente formados. E aos que seriam tentados a criticar na
arqueologia a análise privilegiada do descontínuo, a todos os agoráfobos
da história e do tempo, a todos os que confundem ruptura e
irracionalidade, responderei: "Pelo uso que dele vocês fazem, são vocês
que desvalorizam o contínuo. Tratam-no como um elemento-suporte a
que todo o resto deve ser relacionado; fazem dele a lei primeira, o peso
essencial de toda prática discursiva; vocês gostariam que se analisasse
qualquer modificação no campo dessa inércia, como se analisa qualquer
movimento no campo da gravitação. Mas só lhe deram esse status
neutralizando-o e lançando-o, no limite exterior do tempo, a uma
passividade original. A arqueologia se propõe a inverter essa disposição,
ou melhor (já que não se trata de emprestar ao descontínuo o papel
atribuído até então à continuidade), fazer atuar o contínuo e o
descontínuo um contra o outro: mostrar como o contínuo é formado
segundo as mesmas condições e conforme as mesmas regras que a
dispersão; e que entra -nem mais nem menos que as diferenças, as
invenções, as novidades ou os desvios - no campo da prática discursiva."
4. O aparecimento e a destruição das positividades, o jogo de
substituições a que dão lugar não constituem um processo homogêneo
que se desenrolaria, em toda parte, da mesma maneira. Não se deve
acreditar que a ruptura seja uma espécie de grande deriva geral a que
estariam submetidas, ao mesmo tempo, todas as formações discursivas: a
ruptura não é um tempo morto e indiferenciado que se intercalaria - não
mais que um instante - entre duas fases manifestas; não é o lapso sem
duração que separaria duas épocas e desdobraria, de um lado e de outro
de uma falha, dois tempos heterogêneos; é sempre, entre positividades
definidas, uma descontinuidade especificada por um certo número de
transformações distintas. Desse modo, a análise dos cortes arqueológicos
tem por propósito estabelecer, entre tantas modificações diversas,
analogias e diferenças, hierarquias, complementaridades, coincidências e
defasagens: em suma. descrever a dispersão das próprias
descontinuidades.
A idéia de um único e mesmo corte que divide de uma só vez, e em
um momento dado, todas as formações discursivas, interrompendo-as
com um único movimento e reconstituindo-as segundo as mesmas regras,
não poderia ser mantida. A contemporaneidade de várias transformações
não significa sua exata coincidência cronológica: cada transformação
pode ter seu índice particular de "Viscosidade" temporal. A história
natural, a gramática geral e a análise das riquezas constituíram-se de
modos análogos, e todas três no curso
A Arqueologia do Saber 197
do século XVII; mas o sistema de formação da análise das riquezas
estava ligado a um grande número de condições e de práticas não
discursivas (circulação das mercadorias, manipulações monetárias com
seus efeitos, sistema de proteção ao comércio e às manufaturas,
oscilações na quantidade de metal cunhado): daí a lentidão de um
processo que se desenrolou durante mais de um século (de Grammont a
Cantillon), enquanto as transformações instauradas pela gramática e pela
história natural não se estenderam durante mais de 25 anos.
Inversamente, transformações contemporâneas, análogas e ligadas, não
remetem a um modelo único que se reproduziria, diversas vezes, na
superfície dos discursos e imporia a todos uma forma estritamente
idêntica de ruptura: quando descrevemos o corte arqueológico que deu
lugar à filologia, à história e à economia, foi para mostrar como essas três
positividades estavam ligadas (pelo desaparecimento da análise do signo
e da teoria da representação), que efeitos simétricos ele podia produzir (a
idéia de uma totalidade e de uma adaptação orgânica nos seres vivos; a
idéia de uma coerência morfológica e de evolução regulada nas línguas; a
idéia de uma forma de produção que tem suas leis internas e seus limites
de evolução); mas foi, ainda, para mostrar quais eram as diferenças
específicas dessas transformações (como, em particular, a historicidade
se introduz, de modo peculiar, nessas três positividades, como, por
conseguinte, sua relação com a história não pode ser a mesma, apesar de
todas terem uma relação definida com ela).
Finalmente, existem entre as diferentes rupturas arqueológicas
importantes defasagens - e, às vezes, mesmo entre formações discursivas
muito próximas e ligadas por numerosas relações. Assim acontece com as
disciplinas da linguagem e da análise histórica: a grande transformação
que propiciou o aparecimento, nos primeiros anos do século XIX, da
gramática histórica e comparativa, precede de meio século a mutação do
discurso histórico, de sorte que o sistema de interpositividade no qual a
filologia estava presa encontra-se profundamente alterado na segunda
metade do século XIX, sem que a positividade da filologia seja posta em
questão novamente. Daí os fenômenos de "deslocamento segmentar" de
que se pode citar, pelo menos, um outro exemplo notório: conceitos como
os de mais-valia ou de baixa tendencial da taxa de lucro, tais como se
encontram em Marx. podem ser descritos a partir do sistema de
positividade que já é empregado em Ricardo: ora, esses conceitos (que
são novos, mas cujas regras de formação não o são) aparecem - no próprio
Marx - como referentes, ao mesmo tempo, a uma prática discursiva
inteiramente diversa: são aí formados segundo leis específicas, ocupam
outra posição, não figuram nos mesmos encadeamentos; essa positividade
nova não é uma transformação das análises de Ricardo; não é
198 Michel Foucault
uma nova economia política; é um discurso cuja instauração teve lugar
em virtude da derivação de certos conceitos econômicos, mas que, em
compensação, define as condições nas quais se exerce o discurso dos
economistas e pode, pois, valer como teoria e crítica da economia
política.
A arqueologia desarticula a sincronia dos cortes, como teria desfeito a
unidade abstrata da mudança e do acontecimento. A época não é nem sua
unidade de base, nem seu horizonte, nem seu objeto; se fala sobre ela, é
sempre a propósito de práticas discursivas determinadas e como resultado
de suas análises. A época clássica, que foi frequentemente mencionada
nas análises arqueológicas, não é uma figura temporal que impõe sua
unidade e sua forma vazia a todos os discursos; é o nome que se pode dar
a um emaranhado de continuidades e descontinuidades, de modificações
internas às positividades, de formações discursivas que aparecem e
desaparecem. Da mesma forma, a ruptura não é, para a arqueologia, o
ponto de apoio de suas análises, o limite que ela mostra de longe, sem
poder determiná-lo nem dar-lhe uma especificidade: a ruptura é o nome
dado às transformações que se referem ao regime geral de uma ou várias
formações discursivas. Assim, a Revolução Francesa -já que foi em torno
dela que se centraram até aqui todas as análises arqueológicas - não
representa o papel de um acontecimento exterior aos discursos, cujo efeito
de divisão, para pensarmos como se deve, teria de ser reencontrado em
todos os discursos; ela funciona como um conjunto complexo, articulado,
descritível, de transformações que deixaram intactas um certo número de
positividades, fixaram, para outras, regras que ainda são as nossas e,
igualmente, estabeleceram positividades que acabam de se desfazer ou se
desfazem ainda sob nossos olhos.
6
CIÊNCIA E SABER
Uma delimitação silenciosa se impôs a todas as análises
precedentes, sem que se tenha apresentado seu princípio, sem
mesmo que seu desenho tenha sido precisado. Todos os exemplos
evocados pertenciam, sem exceção, a um domínio muito restrito.
Estamos longe de ter, não digo inventariado, mas sondado o
imenso domínio do discurso: por que ter abandonado
sistematicamente os textos "literários", "filosóficos" ou
"políticos"? Será que, nessas regiões, as formações discursivas e os
sistemas de positividade não têm lugar? Se nos restringimos
apenas à ordem das ciências, por que não ter falado da matemática,
física ou química? Por que ter apelado para tantas disciplinas
duvidosas, informes ainda e destinadas, talvez, a permanecer
sempre abaixo do limiar da cientificidade? Em uma palavra, qual é
a relação entre arqueologia e análise das ciências?
a) Positiuidades, disciplinas, ciências
Primeira questão: será que a arqueologia, sob termos um pouco
bizarros como "formação discursiva" e "positividade", não
descreve simplesmente pseudociências (como a psicopatologia),
ciências em estado pré-histórico (como a história
200 Michel Foucault
natural) ou ciências inteiramente impregnadas de ideologia (como
a economia política)? Ela não é a análise privilegiada do que
permanecerá sempre quase-científico? Se chamamos "disciplinas"
a conjuntos de enunciados que tomam emprestado de modelos
científicos sua organização, que tendem à coerência e à
demonstratividade, que são recebidos, institucionalizados,
transmitidos e às vezes ensinados como ciências, não se poderia
dizer que a arqueologia descreve disciplinas que não são
efetivamente ciências, enquanto a epistemologia descreveria
ciências que se formaram a partir (ou a despeito) das disciplinas
existentes?
Podemos responder negativamente a tais questões. A
arqueologia não descreve disciplinas. Estas, no máximo, em seu
desdobramento manifesto, podem servir de isca para a descrição
das positividades; mas não lhe fixam os limites: não lhe impõem
recortes definitivos; não se encontram inalteradas no fim da
análise; não se pode estabelecer relação biunívoca entre as
disciplinas instituídas e as formações discursivas.
Eis um exemplo de tal distorção. A questão central da Histoire
de la folie era o aparecimento, no início do século XIX, de uma
disciplina psiquiátrica. Esta não tinha nem o mesmo conteúdo, nem
a mesma organização interna, nem o mesmo lugar na medicina,
nem a mesma função prática, nem o mesmo modo de utilização
que o tradicional capítulo das "doenças da cabeça" ou das "doenças
nervosas" que se encontravam nos tratados de medicina do século
XVIII. Ora, interrogando-se a nova disciplina, descobriram-se duas
coisas: o que a tornou possível na época em que apareceu, o que
determinou essa grande mudança na economia dos conceitos, das
análises e das demonstrações, foi todo um jogo de relações entre a
hospitalização, a internação, as condições e os procedimentos da
exclusão social, as regras da jurisprudência, as normas do trabalho
industrial e da moral burguesa, em resumo, todo um conjunto que
caracteriza, para essa prática discursiva, a formação de seus
enunciados; mas essa prática não se manifesta somente em uma
disciplina de status e pretensão científicos; encontramo-la
igualmente empregada em textos jurídicos, em expressões
literárias, em reflexões filosóficas, em decisões de ordem política,
em propósitos cotidianos, em opiniões. A formação discursiva cuja
existência a disciplina psiquiátrica permite demarcar não lhe é
coextensiva; ao contrário, ela a
A Arqueologia do Saber 201
excede amplamente e a cerca de todos os lados. Mas há mais:
recuando no tempo e procurando o que pôde preceder nos séculos
XVII e XVIII a instauração da psiquiatria, percebeu-se que não
havia nenhuma disciplina anterior: o que era dito das manias,
delírios, melancolias, doenças nervosas, pelos médicos na época
clássica não constituía de modo algum uma disciplina autônoma,
mas, no máximo, uma rubrica na análise das febres, das alterações
dos humores, ou das afecções do cérebro. Entretanto, apesar da
ausência de qualquer disciplina instituída, uma prática discursiva
com sua regularidade e consistência era empregada. Essa prática
discursiva, certamente, era empregada na medicina, mas, de igual
modo, nos regulamentos administrativos, textos literários ou
filosóficos, casuística, teorias ou projetos de trabalho obrigatório
ou de assistência aos pobres. Temos, então, na época clássica, uma
formação discursiva e uma positividade perfeitamente acessíveis à
descrição, às quais não corresponde nenhuma disciplina definida
que se possa comparar à psiquiatria.
Mas se é verdade que as positividades não são simples duplos
das disciplinas instituídas, não são elas o esboço de ciências
futuras? Sob o nome formação discursiva não se designa a
projeção retrospectiva das ciências sobre seu próprio passado, a
sombra que lançam sobre aquilo que as precedeu e que parece
tê-las, assim, traçado antecipadamente? O que se descreveu, por
exemplo, como análise das riquezas ou gramática geral,
emprestando-lhes uma autonomia talvez bem artificial, não seria,
simplesmente, a economia política em estado incoativo, ou uma
fase anterior à instauração de uma ciência, enfim, rigorosa, da
linguagem? Por um movimento retrógrado, cuja legitimidade seria,
sem dúvida, difícil de ser estabelecida, a arqueologia não tenta
reagrupar, em uma prática discursiva independente, todos os
elementos heterogêneos e dispersos cuja cumplicidade se revelará
necessária para a instauração de uma ciência?
Ainda aqui, a resposta deve ser negativa. O que foi analisado
sob o nome história natural não encerra, em uma figura única, tudo
o que nos séculos XVII e XVIII poderia valer como o esboço de
uma ciência da vida e figurar em sua genealogia legítima. A
positividade assim revelada dá conta, na verdade, de um certo
número de enunciados referentes às semelhanças e às diferenças
entre os seres, sua estrutura visível, seus caracteres específicos e
202 Michel Foucault
genéricos, sua classificação possível, as descontinuidades que os
separam e as transições que os unem; mas ela deixa de lado muitas
outras análises, que datam, no entanto, da mesma época e que
traçam, também, as figuras ancestrais da biologia: análise do
movimento reflexo (que terá tanta importância para a constituição
de uma anatomofisiologia do sistema nervoso), teoria dos germens
(que parece antecipar-se aos problemas da evolução e da genética),
explicação do crescimento animal ou vegetal (que será uma das
maiores questões da fisiologia dos organismos em geral). Além
disso, longe de se antecipar a uma biologia futura, a história natural
- discurso taxionômico ligado à teoria dos signos e ao projeto de
uma ciência da ordem -excluía, por sua solidez e autonomia, a
constituição de uma ciência unitária da vida. Da mesma forma, a
formação discursiva descrita como gramática geral não dá conta de
tudo que pôde ser dito na época clássica, sobre a linguagem, e cuja
herança ou repúdio, desenvolvimento ou crítica deveriam ser
encontrados, mais tarde, na filologia: ela deixa de lado os métodos
da exegese bíblica e a filosofia da linguagem formulada por Vico
ou Herder. As formações discursivas não são, pois, as ciências
futuras no momento em que, ainda inconscientes de si mesmas, se
constituem em surdina: não estão, na verdade, em um estado de
subordinação teleológica em relação à ortogênese das ciências.
Deve-se dizer, então, que não pode haver ciência onde há
positividades, e que estas, onde podemos descobri-las, sempre
excluem as ciências? Deve-se supor que, ao invés de estarem em
uma relação cronológica em face das ciências, se encontram em
uma situação de alternativa? Que elas são, de algum modo, a figura
positiva de uma certa falha epistemológica. Mas poderíamos,
também nesse caso, fornecer um contra-exemplo. A medicina
clínica seguramente não é uma ciência: não só porque não
responde aos critérios formais e não atinge o nível de rigor que se
pode esperar da física, da química ou mesmo da fisiologia, mas,
também, porque comporta um acúmulo, apenas organizado, de
observações empíricas, de tentativas e de resultados brutos, de
receitas, de prescrições terapêuticas, de regulamentações
institucionais. Entretanto, esta não-ciência não exclui a ciência:
durante o século XIX, ela estabeleceu relações definidas entre
ciências perfeitamente constituídas como a fisiologia, a química ou
a
A Arqueologia do Saber 203
microbiologia; além disso, deu lugar a discursos como o da
anatomia patológica, a que seria, sem dúvida, presunção dar o
título de falsa ciência.
Não se pode, então, identificar as formações discursivas nem às
ciências, nem às disciplinas pouco científicas, nem às figuras que
delineiam de longe as ciências que virão, e nem, finalmente, a
formas que excluem, logo de início, qualquer cientificidade. O que
foi feito, então, da relação entre as positividades e as ciências?
b) O saber
As positividades não caracterizam formas de conhecimento -
quer sejam condições a priori e necessárias ou formas de
racionalidade que puderam, por sua vez, ser empregadas pela
história. Mas elas não definem, tampouco, o estado dos
conhecimentos em um dado momento do tempo: não estabelecem
o balanço do que, desde aquele momento, pôde ser demonstrado e
assumir status de aquisição definitiva; o balanço do que, em
compensação, era aceito sem prova nem demonstração suficiente,
ou do que era admitido pela crença comum ou requerido pela força
da imaginação. Analisar positividades é mostrar segundo que
regras uma prática discursiva pode formar grupos de objetos,
conjuntos de enunciações, jogos de conceitos, séries de escolhas
teóricas. Os elementos assim formados não constituem uma
ciência, com uma estrutura de idealidade definida; seu sistema de
relações é, certamente, menos estrito; mas não são, tampouco,
conhecimentos acumulados uns ao lado dos outros, vindos de
experiências, de tradições ou de descobertas heterogêneas e ligados
somente pela identidade do sujeito que os detém. Eles são a base a
partir da qual se constroem proposições coerentes (ou não), se
desenvolvem descrições mais ou menos exatas, se efetuam
verificações, se desdobram teorias. Formam o antecedente do que
se revelará e funcionará com um conhecimento ou uma ilusão, uma
verdade admitida ou um erro denunciado, uma aquisição definitiva
ou um obstáculo superado. Vê-se bem que esse antecedente não
pode ser analisado como um dado, uma experiência vivida - ainda
inteiramente engajada no imaginário ou na percepção - que a
humanidade, no curso de sua
204 Michel Foucault
história, teria tido de retomar na forma de sua racionalidade, ou
que cada indivíduo deveria atravessar por conta própria, se
quisesse reencontrar as significações ideais que aí estão
introduzidas ou ocultas. Não se trata de um pré-conhecimento ou
de um estágio arcaico no movimento que vai do conhecimento
imediato à apoditicidade; trata-se dos elementos que devem ter
sido formados por uma prática discursiva, para que, eventualmente,
se constituísse um discurso científico, especificado não só por sua
forma e seu rigor, mas também pelos objetos de que se ocupa, os
tipos de enunciação que põe em jogo, os conceitos que manipula e
as estratégias que utiliza. Assim, a ciência não se relaciona com o
que devia ser vivido, ou deve sê-lo, para que seja fundada a
intenção de idealidade que lhe é própria; mas sim com o que devia
ser dito - ou deve sê-lo -para que possa haver um discurso que, se
for o caso, responda a critérios experimentais ou formais de
cientificidade.
A esse conjunto de elementos, formados de maneira regular por
uma prática discursiva e indispensáveis à constituição de uma
ciência, apesar de não se destinarem necessariamente a lhe dar
lugar, pode-se chamar saber. Um saber é aquilo de que podemos
falar em uma prática discursiva que se encontra assim
especificada: o domínio constituído pelos diferentes objetos que
irão adquirir ou não um status científico (o saber da psiquiatria, no
século XIX, não é a soma do que se acreditava fosse verdadeiro; é
o conjunto das condutas, das singularidades, dos desvios de que se
pode falar no discurso psiquiátrico); um saber é, também, o espaço
em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que
se ocupa em seu discurso (neste sentido, o saber da medicina
clínica é o conjunto das funções de observação, interrogação,
decifração, registro, decisão, que podem ser exercidas pelo sujeito
do discurso médico); um saber é também o campo de coordenação
e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem,
se definem, se aplicam e se transformam (neste nível, o saber da
história natural, no século XVIII, não é a soma do que foi dito, mas
sim o conjunto dos modos e das posições segundo os quais se pode
integrar ao já dito qualquer enunciado novo); finalmente, um saber
se define por possibilidades de utilização e de apropriação
oferecidas pelo discurso (assim, o saber da economia política, na
época clássica, não é a tese das diferentes teses sustentadas, mas o
conjunto de seus pontos de articulação
A Arqueologia do Saber 205
com outros discursos ou outras práticas que não são discursivas).
Há saberes que são independentes das ciências (que não são nem
seu esboço histórico, nem o avesso vivido); mas não há saber sem
uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode
definir-se pelo saber que ela forma.
Ao invés de percorrer o eixo consciência-conhecimento-ciência
(que não pode ser liberado do índex da subjetividade), a
arqueologia percorre o eixo prática discursiva-saber-ciência.
Enquanto a história das idéias encontra o ponto de equilíbrio de
sua análise no elemento do conhecimento (encontrando-se, assim,
coagida a reencontrar a interrogação transcendental), a arqueologia
encontra o ponto de equilíbrio de sua análise no saber - isto é, era
um domínio em que o sujeito é necessariamente situado e
dependente, sem que jamais possa ser considerado titular (seja
como atividade transcendental, seja como consciência empírica).
Compreende-se, nessas condições, que seja necessário
distinguir com cuidado os domínios científicos e os territórios
arqueológicos: seu recorte e seus princípios de organização são
completamente diferentes. Só pertencem a um domínio de
cientificidade as proposições que obedecem a certas leis de
construção; afirmações que tivessem o mesmo sentido, que
dissessem a mesma coisa, que fossem tão verdadeiras quanto elas,
mas que não se prendessem à mesma sistematicidade, seriam
excluídas desse domínio: o que Le rêve de d'Alembert diz a
respeito do devir das espécies pode traduzir certos conceitos ou
certas hipóteses científicas da época; isso pode até mesmo
antecipar uma verdade futura; isso não pertence ao domínio de
cientificidade da história natural, mas, em compensação, a seu
território arqueológico, se, pelo menos, se puder descobrir em ação
as mesmas regras de formação encontradas em Lineu, Buffon,
Daubenton ou Jussieu. Os territórios arqueológicos podem
atravessar textos "literários" ou "filosóficos", bem como textos
científicos. O saber não está contido somente em demonstrações;
pode estar também em ficções, reflexões, narrativas, regulamentos
institucionais, decisões políticas. O território arqueológico da
história natural compreende a Palingénésie philosophique ou o
Telliamed, apesar de não responderem, em grande parte, às normas
científicas que eram admitidas na época, e ainda menos,
seguramente, às que seriam exigidas mais tarde. O território
arqueológico da
206 Michel Foucault
gramática geral compreende tanto os devaneios de Fabre d'01ivet
(que jamais receberam status científico e se inscrevem antes no
registro do pensamento místico) quanto a análise das proposições
atributivas (que era então aceita com a luz da evidência e na qual a
gramática gerativa pode reconhecer, hoje, sua verdade
prefigurada).
A prática discursiva não coincide com a elaboração científica a
que pode dar lugar; o saber que ela forma não é nem o esboço
enrugado, nem o subproduto cotidiano de uma ciência constituída.
As ciências - pouco importa, no momento, a diferença entre os
discursos que têm presunção ou status de cientificidade e os que
apresentam realmente seus critérios formais - aparecem no
elemento de uma formação discursiva, tendo o saber como fundo.
Isso abre duas séries de problemas: que local e papel pode ter uma
região de cientificidade no território arqueológico em que se
delineia? Segundo que ordens e que processos se dá a emergência
de uma região de cientificidade em uma formação discursiva
determinada? Esses são problemas que não saberíamos, aqui e
agora, responder: tratemos, somente, de indicar em que direção,
talvez, poderiam ser analisados.
c) Saber e ideologia
Uma vez constituída, uma ciência não retoma a seu cargo, e nos
encadeamentos que lhe são próprios, tudo que formava a prática
discursiva em que aparecia; não dissipa tampouco -para remetê-lo
à pré-história dos erros, dos preconceitos ou da imaginação - o
saber que a cerca. A anatomia patológica não reduziu nem
reconduziu às normas da cientificidade a positividade da medicina
clínica. O saber não é o canteiro epistemológico que desapareceria
na ciência que o realiza. A ciência (ou o que passa por tal)
localiza-se em um campo de saber e nele tem um papel, que varia
conforme as diferentes formações discursivas e que se modifica de
acordo com suas mutações. Aquilo que, na época clássica, era
considerado como conhecimento médico das doenças da mente
ocupava, no saber da loucura, um lugar muito limitado: não era
mais que uma de suas superfícies de afloramento entre muitas
outras (jurisprudência, casuística, regulamentação policial etc.); em
compensação, as análises psicopatológicas do século XIX, que
também passavam por
A Arqueologia do Saber 207
conhecimento científico das doenças mentais, desempenharam um
papel muito diferente e bem mais importante no saber da loucura
(papel de modelo e de instância de decisão). Do mesmo modo, o
discurso científico (ou supostamente científico) não garante a
mesma função no saber econômico do século XVII e no do século
XIX. Encontra-se uma relação específica entre ciência e saber em
toda formação discursiva; a análise arqueológica, ao invés de
definir entre eles uma relação de exclusão ou de subtração
(buscando a parte do saber que se furta e resiste ainda à ciência, e a
parte da ciência que ainda está comprometida pela vizinhança e
influência do saber), deve mostrar, positivamente, como uma
ciência se inscreve e funciona no elemento do saber.
É sem dúvida aí, nesse espaço de ação, que se estabelecem e se
especificam as relações da ideologia com as ciências. A influência
da ideologia sobre o discurso científico e o funcionamento
ideológico das ciências não se articulam no nível de sua estrutura
ideal (mesmo que nele possam traduzir-se de uma forma mais ou
menos visível), nem no nível de sua utilização técnica em uma
sociedade (se bem que esta possa aí entrar em vigor), nem no nível
da consciência dos sujeitos que a constroem; articulam-se onde a
ciência se destaca sobre o saber. Se a questão da ideologia pode ser
proposta à ciência, é na medida em que esta, sem se identificar com
o saber, mas sem apagá-lo ou excluí-lo, nele se localiza, estrutura
alguns de seus objetos, sistematiza algumas de suas enunciações,
formaliza alguns de seus conceitos e de suas estratégias; é na
medida em que, por um lado, esta elaboração escande o saber, o
modifica, o redistribui, e, por outro, o confirma e o deixa valer; é
na medida em que a ciência encontra seu lugar em uma
regularidade discursiva e, por isso, se desdobra e funciona em todo
um campo de práticas discursivas ou não. Em resumo, a questão da
ideologia proposta à ciência não é a questão das situações ou das
práticas que ela reflete de um modo mais ou menos consciente; não
é, tampouco, a questão de sua utilização eventual ou de todos os
empregos abusivos que se possa dela fazer; é a questão de sua
existência como prática discursiva e de seu funcionamento entre
outras práticas.
Pode-se dizer grosso modo, e passando por cima de qualquer
mediação e especificidade, que a economia política tem um papel
na sociedade capitalista, que ela serve aos interesses da classe
burguesa, que foi feita por ela e para ela, que
208 Michel Foucault
carrega, enfim, o estigma de suas origens até em seus conceitos e em sua
arquitetura lógica; mas qualquer descrição mais precisa das relações entre
a estrutura epistemológica da economia e sua função ideológica deverá
passar pela análise da formação discursiva que lhe deu lugar e do
conjunto dos objetos, conceitos e escolhas teóricas que tiveram de ser
elaborados e sistematizados. Deveremos mostrar, então, como a prática
discursiva que deu lugar a tal positividade funcionou entre outras práticas
que podiam ser de ordem discursiva, mas também de ordem política ou
econômica.
Isso permite antecipar um certo número de proposições:
1. A ideologia não exclui a cientificidade. Poucos discursos deram
tanto lugar à ideologia quanto o discurso clínico ou o da economia
política: não é uma razão suficiente para apontar erro, contradição,
ausência de objetividade no conjunto de seus enunciados.
2. As contradições, as lacunas, as falhas teóricas podem assinalar o
funcionamento ideológico de uma ciência (ou de um discurso com
pretensão científica); podem permitir determinar em que ponto do edifício
esse funcionamento se dá. Mas a análise de tal funcionamento deve ser
feita no nível da positividade e das relações entre as regras da formação e
as estruturas da cientificidade.
3. Corrigindo-se, retificando seus erros, condensando suas
formalizações, um discurso não anula forçosamente sua relação com a
ideologia. O papel da ideologia não diminui à medida que cresce o rigor e
que se dissipa a falsidade.
4. Estudar o funcionamento ideológico de uma ciência para fazê-lo
aparecer e para modificá-lo não é revelar os pressupostos filosóficos que
podem habitá-lo; não é retornar aos fundamentos que a tornaram possível
e que a legitimam: é colocá-la novamente em questão como formação
discursiva; é estudar não as contradições formais de suas proposições,
mas o sistema de formação de seus objetos, tipos de enunciação,
conceitos e escolhas teóricas. É retomá-la como prática entre outras
práticas.
d) Os diferentes limiares e sua cronologia
A propósito de uma formação discursiva, podem-se descrever diversas
emergências distintas. O momento a partir do qual uma prática discursiva
se individualiza e assume sua autonomia, o momento, por conseguinte,
em que se encontra em ação um único e mesmo sistema de formação dos
A Arqueologia do Saber 209
enunciados, ou ainda o momento em que esse sistema se
transforma, poderá ser chamado limiar de positividade. Quando no
jogo de uma formação discursiva um conjunto de enunciados se
delineia, pretende fazer valer (mesmo sem consegui-lo) normas de
verificação e de coerência e o fato de que exerce, em relação ao
saber, uma função dominante (modelo, crítica ou verificação),
diremos que a formação discursiva transpõe um limiar de
epistemologização. Quando a figura epistemológica, assim
delineada, obedece a um certo número de critérios formais, quando
seus enunciados não respondem somente a regras arqueológicas de
formação, mas, além disso, a certas leis de construção das
proposições, diremos que ela transpôs um limiar de cientificidade.
Enfim, quando esse discurso científico, por sua vez, puder definir
os axiomas que lhe são necessários, os elementos que usa, as
estruturas proposicionais que lhe são legítimas e as transformações
que aceita, quando puder assim desenvolver, a partir de si mesmo,
o edifício formal que constitui, diremos que transpôs o limiar da
formalização.
A repartição desses diferentes limiares no tempo, sua sucessão,
sua defasagem, sua eventual coincidência, a maneira pela qual se
podem comandar ou implicar uns aos outros e as condições nas
quais alternadamente se instauram constituem para a arqueologia
um de seus domínios maiores de exploração. Sua cronologia, na
verdade, não é nem regular, nem homogênea. Não é com o mesmo
ritmo e ao mesmo tempo que todas as formações discursivas os
transpõem, escandindo, assim, a história dos conhecimentos
humanos em diferentes períodos: na época em que muitas
positividades transpuseram o limiar da formalização, muitas outras
ainda não tinham atingido o da cientificidade ou mesmo da
epistemologização. Além disso, cada formação discursiva não
passa, sucessivamente, pelos diferentes limiares como pelos
estágios naturais de uma maturação biológica em que a única
variável seria o tempo de latência ou a duração dos intervalos.
Trata-se, de fato, de acontecimentos cuja dispersão não é evolutiva:
sua ordem singular é um dos caracteres de cada formação
discursiva. Eis alguns exemplos de tais diferenças.
Em certos casos, o limiar da positividade é transposto muito
antes do da epistemologização: assim, a Psicopatologia, como
discurso de pretensão científica, epistemologizou no início do
século XIX, com Pinel, Heinroth e Esquirol, uma prática
210 Michel Foucault
discursiva que lhe preexistia amplamente e que adquirira, há muito
tempo, sua autonomia e seu sistema de regularidade. Mas pode
acontecer também que esses dois limiares estejam confundidos no
tempo e que a instauração de uma positividade seja, ao mesmo
tempo, a emergência de uma figura epistemológica. Às vezes, os
limiares de cientificidade estão ligados à passagem de uma
positividade a outra; às vezes, são diferentes disso; assim, a
passagem da história natural (com a cientificidade que lhe era
própria) à biologia (como ciência não da classificação dos seres,
mas das correlações específicas entre os diferentes organismos) só
se efetuou na época de Cuvier com a transformação de uma
positividade em outra; em compensação, a medicina experimental
de Claude Bernard, depois a microbiologia de Pasteur modificaram
o tipo de cientificidade requerido pela anatomia e fisiologia
patológicas, sem que a formação discursiva da medicina clínica, tal
como fora estabelecida na época, tivesse sido posta fora de cena.
Da mesma forma, a nova cientificidade instituída, nas disciplinas
biológicas, pelo evolucionismo, não modificou a positividade
biológica que fora definida na época de Cuvier. No caso da
economia, os rompimentos são particularmente numerosos.
Pode-se reconhecer, no século XVII, um limiar de positividade: ele
coincide, aproximadamente, com a prática e a teoria do
mercantilismo; mas sua epistemologização só se produziria um
pouco mais tarde, no fim do século, ou no início do século
seguinte, com Locke e Cantillon. No entanto, o século XIX
assinala, ao mesmo tempo, com Ricardo, um novo tipo de
positividade, uma nova forma de espistemologização, que Cournot
e Jevons por sua vez modificariam, justamente na época em que
Marx, a partir da economia política, faria aparecer uma prática
discursiva inteiramente nova.
Se só se reconhecer na ciência o acúmulo linear das verdades ou
a ortogênese da razão, se nela só se reconhecer uma prática
discursiva que tem seus níveis, seus limiares, suas rupturas
diversas, só se poderá descrever uma única divisão histórica cujo
modelo não se deixa de reconduzir, ao longo dos tempos, para uma
forma de saber, não importa qual: a divisão entre o que não é ainda
científico e o que o é definitivamente. Toda a densidade das
separações, toda a dispersão das rupturas, toda a defasagem de seus
efeitos e o jogo de sua
A Arqueologia do Saber 211
interdependência acham-se reduzidos ao ato monótono de uma
fundação que é preciso sempre repetir.
Só existe, sem dúvida, uma ciência para a qual não se podem
distinguir esses diferentes limiares nem descrever entre eles
semelhante conjunto de defasagens: a matemática, única prática
discursiva que transpôs de uma só vez o limiar da positividade, o
de epistemologização, o da cientificidade e o da formalização. A
própria possibilidade de sua existência implicava que fosse
considerado, logo de início, aquilo que, em todos os outros casos,
permanece disperso ao longo da história: sua positividade primeira
devia constituir uma prática discursiva já formalizada (mesmo que
outras formalizações devessem, em seguida, ser operadas). Daí o
fato de ser sua instauração ao mesmo tempo tão enigmática (tão
pouco acessível à análise, tão fechada na forma do começo
absoluto) e tão valorizada (já que vale, concomitantemente, como
origem e como fundamento); daí o fato de se ter visto, no primeiro
gesto do primeiro matemático, a constituição de uma idealidade
que se desenrolou ao longo da história e que só foi questionada
para ser repetida e purificada; daí o fato de se examinar o começo
da matemática menos como um acontecimento histórico do que a
título de princípio de historicidade; daí, enfim, o fato de se
relacionar, no caso de todas as outras ciências, a descrição de sua
gênese histórica, de suas tentativas e de seus fracassos, de sua
tardia abertura, como o modelo metaistórico de uma geometria que
emerge súbita e definitivamente das práticas triviais da
agrimensura. Mas ao tomar o estabelecimento do discurso
matemático como protótipo do nascimento e do devir de todas as
outras ciências, corre-se o risco de homogeneizar todas as formas
singulares de historicidade, reconduzir à instância de um único
corte todos os limiares diferentes que uma prática discursiva pode
transpor, e reproduzir, indefinidamente, em todos os momentos, a
problemática da origem: assim se achariam renovados os direitos
da análise histórico-transcendental. A matemática foi seguramente
modelo para a maioria dos discursos científicos em seu esforço de
alcançar o rigor formal e a demonstratividade; mas, para o
historiador que interroga o devir efetivo das ciências, ela é um mau
exemplo - um exemplo que não se poderia, de forma alguma,
generalizar.
212 Michel Foucault
e) Os diferentes tipos de história das ciências
Os múltiplos limiares que puderam ser demarcados permitem
formas distintas de análise histórica. De início, no nível da
formalização: é essa história que a matemática não deixa de contar
sobre si mesma, no processo de sua própria elaboração. O que ela
foi em um dado momento (seu domínio, seus métodos, os objetos
que define, a linguagem que emprega) jamais é lançado ao campo
exterior da não-cientificidade, mas se encontra continuamente
redefinido (ainda que a título de região caída em desuso ou
atingida provisoriamente pela esterilidade) no edifício formal que
constitui; esse passado se revela como caso particular, modelo
ingênuo, esboço parcial e insuficientemente generalizado, de uma
teoria mais abstrata, mais poderosa ou de mais alto nível; a
matemática retranscreve seu percurso histórico real, no vocabulário
das vizinhanças, das dependências, das subordinações, das
formalizações progressivas, das generalidades que se enredam.
Para essa história da matemática (a que ela constitui e a que conta
a propósito de si mesma), a álgebra de Diofante não é uma
experiência que permanece em suspenso; é um caso particular da
álgebra tal como o conhecemos desde Abel e Galois; o método
grego das exaustões não foi um impasse de que foi preciso desviar;
é um modelo ingênuo do cálculo integral. Acontece que cada
peripécia histórica tem seu nível e sua localização formais.
Trata-se de uma análise recorrencial que só pode ser feita no
interior de uma ciência constituída, uma vez transposto seu limiar
de formalização.1
É diferente a análise histórica que se situa no limiar da
cientificidade e que se interroga sobre a maneira pela qual ele pôde
ser transposto a partir de figuras epistemológicas diversas. Trata-se
de saber, por exemplo, como um conceito - carregado ainda de
metáforas ou de conteúdos imaginários - se purificou e pôde
assumir status e função de conceito científico; de saber como uma
região de experiência, já demarcada, já parcialmente articulada,
mas ainda atravessada por
1. Cf. sobre o assunto: "Les anamnèses mathématiques" (in Hermès ou la
communication, Michel Serres, p. 78).
A Arqueologia do Saber 213
utilizações práticas imediatas ou valorizações efetivas, pôde
constituir-se em um domínio científico; de saber, de modo mais
geral, como uma ciência se estabeleceu acima e contra um nível
pré-científico que, ao mesmo tempo, a preparava e resistia a seu
avanço, e como pôde transpor os obstáculos e as limitações que
ainda se lhe opunham. G. Bachelard e G. Canguilhem
apresentaram os modelos dessa história. Ela não tem necessidade,
como a análise recorrencial, de se situar no próprio interior da
ciência, de recolocar todos os seus episódios no edifício por ela
constituído, e de contar sua formalização no vocabulário formal
que é, hoje, o seu: como, aliás, ela o poderia, já que mostra do que
a ciência se libertou e tudo que teve de abandonar para atingir o
limiar da cientificidade. Por isso mesmo, essa descrição toma por
norma a ciência constituída; a história que ela conta é
necessariamente escandida pela oposição verdade e erro, racional e
irracional, obstáculo e fecundidade, pureza e impureza, científico e
não científico. Trata-se de uma história epistemológica das
ciências.
O terceiro tipo de análise histórica é o que toma como ponto de
ataque o limiar de epistemologização - o ponto de clivagem entre
as formações discursivas definidas por sua positividade e figuras
epistemológicas que não são todas, forçosamente, ciências (e que,
de resto, talvez jamais cheguem a sê-lo). Nesse nível, a
cientificidade não serve como norma: o que se tenta revelar, na
história arqueológica, são as práticas discursivas na medida em
que dão lugar a um saber, e em que esse saber assume o status e o
papel de ciência. Empreender nesse nível uma história das ciências
não é descrever formações discursivas sem considerar estruturas
epistemológicas; é mostrar como a instauração de uma ciência, e
eventualmente sua passagem à formalização, pode ter encontrado
sua possibilidade e sua incidência em uma formação discursiva e
nas modificações de sua positividade. Trata-se, pois, para tal
análise, de traçar o perfil da história das ciências a partir de uma
descrição das práticas discursivas; de definir como, segundo que
regularidade e graças a que modificações ela pôde dar lugar aos
processos de epistemologização, atingir as normas da cientificidade
e, talvez, chegar ao limiar da formalização. Procurar o nível da
prática discursiva na densidade histórica das ciências não significa
querer reconduzi-la a um nível profundo e originário, ao solo da
experiência vivida (à terra, que se
214 Michel Foucault
apresenta, irregular e retalhada, anterior a qualquer geometria, ao
céu que cintila através do esquadrinhamento de qualquer
astronomia); quer-se, sim, fazer aparecer entre positividades, saber,
figuras epistemológicas e ciências, todo o jogo das diferenças, das
relações, dos desvios, das defasagens, das independências, das
autonomias, e a maneira pela qual se articulam entre si suas
historicidades.
A análise das formações discursivas, das positividades e do
saber, em suas relações com as figuras epistemológicas e as
ciências, é o que se chamou, para distingui-las das outras formas
possíveis de história das ciências, a análise da episteme.
Suspeitaremos, talvez, que a episteme seja algo como uma visão do
mundo, uma fatia de história comum a todos os conhecimentos e
que imporia a cada um as mesmas normas e os mesmos postulados,
um estágio geral da razão, uma certa estrutura de pensamento a que
não saberiam escapar os homens de uma época - grande legislação
escrita, definitivamente, por mão anônima. Por episteme
entende-se, na verdade, o conjunto das relações que podem unir,
em uma dada época, as práticas discursivas que dão lugar a figuras
epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas
formalizados; o modo segundo o qual, em cada uma dessas
formações discursivas, se situam e se realizam as passagens à
epistemologização, à cientificidade, à formalização; a repartição
desses limiares que podem coincidir, ser subordinados uns aos
outros, ou estar defasados no tempo; as relações laterais que podem
existir entre figuras epistemológicas ou ciências, na medida em que
se prendam a práticas discursivas vizinhas mas distintas. A
episteme não é uma forma de conhecimento, ou um tipo de
racionalidade que, atravessando as ciências mais diversas,
manifestaria a unidade soberana de um sujeito, de um espírito ou
de uma época; é o conjunto das relações que podem ser
descobertas, para uma época dada, entre as ciências, quando estas
são analisadas no nível das regularidades discursivas.
A descrição da episteme apresenta, portanto, diversos caracteres
essenciais: abre um campo inesgotável e não pode nunca ser
fechada; não tem por finalidade reconstituir o sistema de
postulados a que obedecem todos os conhecimentos de uma época,
mas sim percorrer um campo indefinido de relações. Além disso, a
episteme não é uma figura imóvel que,
A Arqueologia do Saber 215
surgida um dia, seria convocada a apagar-se bruscamente: é um
conjunto indefinidamente móvel de escansões, defasagens,
coincidências, que se estabelecem e se desfazem. A episteme,
ainda, como conjunto de relações entre ciências, figuras
epistemológicas, positividades e práticas discursivas, permite
compreender o jogo das coações e das limitações que, em um
momento determinado, se impõem ao discurso; mas essa limitação
não é aquela que, negativa, opõe ao conhecimento a ignorância, ao
raciocínio a imaginação, à experiência já acumulada a fidelidade às
aparências, e às inferências e às deduções o devaneio; a episteme
não é o que se pode saber em uma época, tendo em conta
insuficiências técnicas, hábitos mentais, ou limites colocados pela
tradição; é aquilo que, na positividade das práticas discursivas,
torna possível a existência das figuras epistemológicas e das
ciências. Finalmente, vê-se que a análise da episteme não é uma
maneira de retomar a questão crítica ("sendo apresentado algo
como uma ciência, qual é seu direito ou sua legitimidade?"); é uma
interrogação que só acolhe o dado da ciência a fim de se perguntar
o que é, para essa ciência, o fato de ser conhecida. No enigma do
discurso científico, o que ela põe em jogo não é o seu direito de ser
uma ciência, é o fato de que ele existe. E o ponto onde se separa de
todas as filosofias do conhecimento é que ela não relaciona tal fato
à instância de uma doação originária que fundaria, em um sujeito
transcendental, o fato e o direito; mas sim aos processos de uma
prática histórica.
f) Outras arqueologias
Uma questão permanece em suspenso: seria possível conceber
uma análise arqueológica que fizesse aparecer a regularidade de
um saber, mas que não se propusesse a analisá-lo na direção das
figuras epistemológicas e das ciências? A orientação voltada para a
episteme é a única que pode abrir-se à arqueologia? Deve ser esta -
e exclusivamente - uma certa maneira de interrogar a história das
ciências? Em outras palavras, limitando-se, até o momento, à
região dos discursos científicos, a arqueologia tem obedecido a
uma necessidade que não poderia superar - ou tem esboçado, em
um exemplo
216 Michel Foucault
particular, formas de análise que podem ter uma extensão
inteiramente diferente?
No momento, avancei muito pouco para responder
definitivamente a essa pergunta. Mas imagino de bom grado -
aguardando ainda numerosas experiências que seria preciso
empreender e muitas tentativas - arqueologias que se
desenvolveriam em direções diferentes. Consideremos, por
exemplo, uma descrição arqueológica da "sexualidade". Vejo bem,
de agora em diante, como se poderia orientá-la no sentido da
episteme: mostraríamos de que maneira, no século XIX, se
formaram figuras epistemológicas como a biologia ou a psicologia
da sexualidade; e por qual ruptura se instaurou, com Freud, um
discurso de tipo científico. Mas percebo, também, uma outra
possibilidade de análise: ao invés de estudar o comportamento
sexual dos homens em uma dada época (procurando sua lei em
uma estrutura social, em um inconsciente coletivo, ou em uma
certa atitude moral), ao invés de descrever o que os homens
pudessem pensar da sexualidade (que interpretação religiosa lhe
davam, que valorização ou que reprovação faziam recair sobre ela,
que conflitos de opinião ou de moral ela podia suscitar),
perguntaríamos se, nessas condutas, assim como nessas
representações, toda uma prática discursiva não se encontra
inserida; se a sexualidade, fora de qualquer orientação para um
discurso científico, não é um conjunto de objetos de que se pode
falar (ou de que é proibido falar), um campo de enunciações
possíveis (quer se trate de expressões líricas ou de prescrições
jurídicas), um conjunto de conceitos (que podem, sem dúvida, ser
apresentados sob a forma elementar de noções ou de temas), um
jogo de escolhas (que pode aparecer na coerência das condutas ou
em sistemas de prescrição). Tal arqueologia, se fosse bem-sucedida
em sua tarefa, mostraria como as proibições, as exclusões, os
limites, as valorizações, as liberdades, as transgressões da
sexualidade, todas as suas manifestações, verbais ou não, estão
ligadas a uma prática discursiva determinada. Ela faria aparecer,
não certamente como verdade última da sexualidade, mas como
uma das dimensões segundo as quais pode ser descrita, uma certa
"maneira de falar"; e essa maneira de falar mostraria como ela está
inserida, não em discursos científicos, mas em um sistema de
proibições e de valores. Tal análise seria feita, assim,
A Arqueologia do Saber 217
não na direção de episteme, mas no sentido do que se poderia
chamar ética.
Eis o exemplo, entretanto, de uma outra orientação possível.
Para analisar um quadro, pode-se reconstituir o discurso latente do
pintor; pode-se querer reencontrar o murmúrio de suas intenções
que não são, em última análise, transcritas em palavras, mas em
linhas, superfícies e cores; pode-se tentar destacar a filosofia
implícita que, supostamente, forma sua visão do mundo. É
possível, igualmente, interrogar a ciência, ou pelo menos as
opiniões da época, e procurar reconhecer o que o pintor lhes tomou
emprestado. A análise arqueológica teria um outro fim: pesquisaria
se o espaço, a distância, a profundidade, a cor, a luz, as proporções,
os volumes, os contornos, não foram, na época considerada,
nomeados, enunciados, conceitualizados em uma prática
discursiva; e se o saber resultante dessa prática discursiva não foi,
talvez, inserido em teorias e especulações, em formas de ensino e
em receitas, mas também em processos, em técnicas e quase no
próprio gesto do pintor. Não se trataria de mostrar que a pintura é
uma certa maneira de significar ou de "dizer", que teria a
particularidade de dispensar palavras. Seria preciso mostrar que,
em pelo menos uma de suas dimensões, ela é uma prática
discursiva que toma corpo em técnicas e em efeitos. Assim
descrita, a pintura não é uma simples visão que se deveria, em
seguida, transcrever na materialidade do espaço. Não é mais um
gesto nu cujas significações mudas e indefinidamente vazias
deveriam ser liberadas por interpretações ulteriores. É inteiramente
atravessada - independentemente dos conhecimentos científicos e
dos temas filosóficos - pela positividade de um saber.
Parece-me que se poderia fazer, também, uma análise do
mesmo tipo a propósito do saber político. Tentaríamos ver se o
comportamento político de uma sociedade, de um grupo ou de uma
classe não é atravessado por uma prática discursiva determinada e
descritível. Essa positividade não coincidiria, evidentemente, nem
com as teorias políticas da época, nem com as determinações
econômicas: da política, ela definiria o que pode tornar-se objeto
de enunciação, as formas que tal enunciação pode tomar, os
conceitos que aí se encontram empregados e as escolhas
estratégicas que aí se operam. Em lugar de analisá-lo - o que é
sempre possível - na direção da episteme a
218 Michel Foucault
que pode dar lugar, analisaríamos esse saber na direção dos
comportamentos, das lutas, dos conflitos, das decisões e das
táticas. Faríamos aparecer, assim, um saber político que não é da
ordem de uma teorização secundária da prática e que não é,
tampouco, uma aplicação da teoria. Já que é regularmente formado
por uma prática discursiva que se desenrola entre outras práticas e
se articula com elas, ele não constitui uma expressão que
"refletiria", de maneira mais ou menos adequada, um certo número
de "dados objetivos" ou de práticas reais. Inscreve-se, logo de
início, no campo das diferentes práticas em que encontra, ao
mesmo tempo, sua especificação, suas funções e a rede de suas
dependências. Se tal descrição fosse possível, veríamos que não
haveria necessidade de passar pela instância de uma consciência
individual ou coletiva para compreender o lugar de articulação
entre uma prática e uma teoria políticas; não haveria necessidade
de procurar saber em que medida essa consciência pode, de um
lado, exprimir condições mudas, de outro, mostrar-se sensível a
verdades teóricas; não teríamos de colocar o problema psicológico
de uma tomada de consciência; teríamos de analisar a formação e
as transformações de um saber. A questão, por exemplo, não seria
determinar a partir de que momento aparece uma consciência
revolucionária, nem que papéis respectivos puderam desempenhar
as condições econômicas e o trabalho de elucidação teórica na
gênese dessa consciência: não se trataria de retraçar a biografia
geral e exemplar do homem revolucionário, ou de encontrar o
enraizamento de seu projeto; mas de mostrar como se formaram
uma prática discursiva e um saber revolucionário que estão
envolvidos em comportamentos e estratégias, que dão lugar a uma
teoria da sociedade e que operam a interferência e a mútua
transformação de uns e outros.
Pode-se responder, agora, à pergunta que se propunha há pouco:
a arqueologia só se ocupa das ciências e nunca passa de uma
análise dos discursos científicos? E responder duas vezes não. O
que a arqueologia tenta descrever não é a ciência em sua estrutura
específica, mas o domínio, bem diferente, do saber. Além disso, se
ela se ocupa do saber em sua relação como as figuras
epistemológicas e as ciências, pode, do mesmo modo, interrogar o
saber em uma direção diferente e descrevê-lo em um outro feixe de
relações. A orientação para a
A Arqueologia do Saber 219
episteme foi a única explorada até aqui. A razão disso é que, por
um gradiente que caracteriza, sem dúvida, nossas culturas, as
formações discursivas não param de se epistemologizar. Foi
interrogando as ciências, sua história, sua estranha unidade, sua
dispersão e suas rupturas, que o domínio das positividades pôde
aparecer; foi no interstício dos discursos científicos que se pôde
apreender o jogo das formações discursivas. Não é surpreendente,
em tais condições, que a região mais fecunda, a mais aberta à
descrição arqueológica, tenha sido a "era clássica" que, do
Renascimento ao século XIX, desenvolveu a epistemologização de
tantas positividades; não é surpreendente, tampouco, que as
formações discursivas e as regularidades específicas do saber se
tenham delineado justamente onde os níveis da cientificidade e da
formalização foram os mais difíceis de ser atingidos. Mas esse é
apenas o ponto preferencial da abordagem; não é um domínio
obrigatório para a arqueologia.

V
CONCLUSÃO

- Ao longo deste livro, você tentou, nem bem nem mal, escapar
do "estruturalismo" ou do que se compreende, comumente, por
esse nome. Acentuou que não usava seus métodos, nem seus
conceitos; que não se referia aos processos da descrição linguística;
que não tinha nenhuma preocupação com formalização. Mas o que
significam tais divergências, a não ser que você fracassou em
empregar o que pode haver de positivo nas análises estruturais, o
que elas podem comportar de rigor e de eficácia demonstrativa, e
que o domínio que você tentou abordar é rebelde a esse gênero de
empreendimento, continuando sua riqueza a escapar aos esquemas
em que você queria fechá-lo? Com muita desenvoltura, você
mascarou sua impotência em termos de método; apresenta-nos,
agora, como uma diferença explicitamente desejada, a distância
invencível que o mantém e o manterá sempre separado de uma
verdadeira análise estrutural.
Você não conseguiu nos enganar. É verdade que, no vazio
deixado pelos métodos que você não empregou, você lançou toda
uma série de noções que parecem estranhas aos conceitos hoje
admitidos pelos que descrevem línguas ou mitos, obras literárias ou
contos; você falou de formações, positividades, saber, práticas
discursivas; toda uma panóplia de termos cuja singularidade e
poderes maravilhosos você tinha a satisfação de sublinhar, a cada
momento. Mas teria de inventar tantas extravagâncias, se não
tivesse tentado valorizar, em um domínio que lhes era irredutível,
alguns dos temas fundamentais do estruturalismo - e até aqueles
que constituem seus postulados mais contestáveis, sua mais
duvidosa filosofia? Tudo se passa como se você tivesse retido
métodos contemporâneos de análise, não o trabalho empírico e
sério, mas dois ou três temas que são mais extrapolações destes do
que princípios necessários.
224 Michel Foucault
Foi assim que você quis reduzir as dimensões próprias do
discurso, abandonar sua irregularidade específica, ocultar o que ele
pode comportar de iniciativa e de liberdade, compensar o
desequilíbrio que instaura na língua: você quis fechar essa
abertura. A exemplo de uma certa forma de linguística, você
procurou dispensar o sujeito falante; acreditou que se podia livrar o
discurso de todas as suas referências antropológicas e tratá-lo como
se jamais tivesse sido formulado por alguém, como se nunca
tivesse nascido em circunstâncias particulares, como se não fosse
atravessado por representações, como se não se dirigisse a
ninguém. Finalmente, você aplicou-lhe um princípio de
simultaneidade: recusou-se a ver que o discurso, diversamente
talvez da língua, é essencialmente histórico, que não era
constituído de elementos disponíveis, mas de acontecimentos reais
e sucessivos, e que não se pode analisá-lo fora do tempo em que se
desenvolveu.
-Você tem razão: ignorei a transcendência do discurso;
recusei-me, descrevendo-o, a relacioná-lo como uma subjetividade;
não acentuei, em primeiro lugar, e como se devesse ser a forma
geral, seu caráter diacrônico. Mas tudo isso não se destinava a
prolongar, além do domínio da língua, conceitos e métodos que
nela tinham sido experimentados. Se falei de um discurso, não foi
para mostrar que os mecanismos ou os processos da língua aí se
mantinham integralmente; mas, antes, para fazer aparecer, na
densidade das performances verbais, a diversidade dos níveis
possíveis de análise; para mostrar que, ao lado dos métodos de
estruturação linguística (ou dos de interpretação), podia-se
estabelecer uma descrição específica dos enunciados, de sua
formação e das regularidades próprias do discurso. Se suspendi as
referências ao sujeito falante, não foi para descobrir leis de
construção ou formas que seriam aplicadas da mesma maneira por
todos os sujeitos falantes, nem para fazer falar o grande discurso
universal que seria comum a todos os homens de uma época.
Tratava-se, pelo contrário, de mostrar em que consistiam as
diferenças, como era possível que homens, no interior de uma
mesma prática discursiva, falassem de objetos diferentes, tivessem
opiniões opostas, fizessem escolhas contraditórias; tratava-se,
também, de mostrar em que as diferentes práticas discursivas se
distinguiam umas das outras; em suma, não quis
A Arqueologia do Saber 225
excluir o problema do sujeito; quis definir as posições e as funções
que o sujeito podia ocupar na diversidade dos discursos.
Finalmente, você pôde constatar: não neguei a história; mantive
em suspenso a categoria geral e vazia da mudança para fazer
aparecerem transformações de níveis diferentes; recuso um modelo
uniforme de temporalização para descrever, a propósito de cada
prática discursiva, suas regras de acúmulo, exclusão, reativação,
suas formas próprias de derivação e suas modalidades específicas
de conexão em sequências diversas.
Não quis, portanto, levar além de seus limites legítimos o
empreendimento estruturalista. Você há de convir que não
empreguei uma única vez o termo estrutura em Les mots et les
choses. Mas deixemos as polêmicas a respeito do "estruturalismo";
elas sobrevivem, com dificuldade, em regiões hoje abandonadas
pelos que trabalham; esta luta, outrora fecunda, só é conduzida
agora pelos farsantes e pelos forasteiros.
- Por mais que você queira evitar tais polêmicas, não escapará
ao problema, pois não é no estruturalismo que ele se encontra.
Reconhecemos de bom grado sua justeza e eficácia: quando se trata
de analisar uma língua, mitologias, narrativas populares, poemas,
sonhos, obras literárias, talvez filmes, a descrição estrutural faz
com que apareçam relações que, sem ela, não poderiam ter sido
isoladas; ela permite definir elementos recorrentes, com suas
formas de oposição e seus critérios de individualização; permite
estabelecer, também, leis de construção, equivalências e regras de
transformação. Apesar de algumas reticências que puderam ser
marcadas no início, aceitamos agora, sem dificuldade, que a língua,
o inconsciente, a imaginação dos homens, obedecem a leis de
estrutura. Mas o que recusamos inteiramente é o que você faz:
poder analisar os discursos científicos em sua sucessão sem
relacioná-los a algo como uma atividade constituinte, sem
reconhecer, até em suas hesitações, a abertura de um projeto
originário ou de uma teleologia fundamental, sem reencontrar a
profunda continuidade que os liga e os conduz até o ponto de onde
podemos retomá-los; poder, assim, destrinçar o devir da razão e
liberar de qualquer índice de subjetividade a história do
pensamento. Limitemos o debate: admitimos que se possa falar, em
termos de elementos e de regras de
226 Michel Foucault
construção, da linguagem em geral - da linguagem de outro lugar e
de outro tempo que é a dos mitos, ou ainda da linguagem, apesar
de tudo um pouco estranha, que é a de nosso inconsciente ou de
nossas obras; mas a linguagem de nosso saber, que temos aqui e
agora, o próprio discurso estrutural que nos permite analisar tantas
outras linguagens, nós a consideramos como irredutível em sua
densidade histórica. Você não pode esquecer, igualmente, que é a
partir dela, de sua lenta gênese, do devir obscuro que a conduziu ao
estado atual, que podemos falar dos outros discursos em termos de
estruturas; foi ela que nos deu essa possibilidade e esse direito; ela
forma a mancha cega a partir da qual as coisas, em torno de nós, se
dispõem como as vemos hoje. Queremos lidar com elementos,
relações e descontinuidades quando analisamos lendas
indo-européias ou tragédias de Racine; aceitamos ainda que se
dispense, sempre que possível, uma interrogação sobre os sujeitos
falantes; mas contestamos que se possam tomar como pretexto
essas tentativas bem-sucedidas para fazer refluir a análise, para
remontar às formas do discurso que as torna possíveis e para pôr
em questão o próprio lugar de onde falamos hoje. A história das
análises, onde a subjetividade se esquiva, guarda consigo sua
própria transcendência.
- Parece-me que é justamente esse (e muito mais que na questão
repisada do estruturalismo) o ponto do debate e da resistência que
você opõe. Permita-me, como passatempo, é claro - porque, como
você bem sabe, não tenho inclinação particular para a interpretação
-, dizer-lhe como compreendi seu discurso de há pouco. "Claro,
dizia você em surdina, estamos de agora em diante coagidos,
apesar de todos os combates de retaguarda que travamos, a aceitar
que discursos dedutivos sejam formalizados; claro que devemos
suportar que se descreva, não a história de uma alma, não um
projeto de existência, mas a arquitetura de um sistema filosófico;
claro, não importa o que pensemos, devemos tolerar as análises que
relacionam as obras literárias, não à experiência vivida de um
indivíduo, mas às estruturas da língua. Claro, foi preciso que
abandonássemos todos os discursos que sujeitávamos outrora à
soberania da consciência. Mas o que perdemos, já há mais de meio
século, queremos recuperar em um segundo momento pela análise
de todas essas análises, ou, pelo
A Arqueologia do Saber 227
menos, pela interrogação fundamental que lhes endereçamos.
Vamos perguntar-lhes de onde vêm, qual é a destinação histórica
que as atravessa sem que disso se dêem conta, que ingenuidade as
impossibilita de ver as condições que as tornam possíveis, em que
clausura metafísica se fecha seu positivismo rudimentar. Será
irrelevante, finalmente, que o inconsciente não seja a extremidade
implícita da consciência, como acreditávamos e afirmávamos; será
irrelevante que uma mitologia não seja mais uma visão do mundo,
e que um romance seja algo diferente da vertente exterior de uma
experiência vivida; pois a razão que estabelece todas essas
"verdades" novas, temo-la sob grande vigilância: nem ela, nem seu
passado, nem o que a torna possível, nem o que a faz nossa, escapa
à delimitação transcendental. Será a ela, agora - e estamos
firmemente decididos a jamais renunciar a isto -, que colocaremos
a questão da origem, da constituição inicial, do horizonte
teleológico, da continuidade temporal. Será este pensamento, que
hoje se efetiva como nosso, que manteremos na dominância
histórico-transcendental. Isso porque, se somos obrigados a
suportar, de bom ou mau grado, todos os estruturalismos, não
podemos aceitar que se toque na história do pensamento que é a
história de nós mesmos; não podemos aceitar que se desfaçam
todos os laços transcendentais que a ligaram, desde o século XIX,
à problemática da origem e da subjetividade. A quem se aproximar
da fortaleza em que nos refugiamos, mas que queremos manter
solidamente, repetiremos, com o gesto que imobiliza a profanação:
Noli tangere.
Ora, obstinei-me em avançar. Não que esteja certo da vitória
nem conte com as minhas armas. Mas porque achei que, no
momento, era o essencial: libertar a história do pensamento de sua
sujeição transcendental. O problema para mim não era,
absolutamente, estruturalizá-la, aplicando ao devir do saber ou a
gênese das ciências categorias que tinham sido testadas no domínio
da língua. Tratava-se de analisar tal história em uma
descontinuidade que nenhuma teleologia reduziria
antecipadamente: demarcá-la em uma dispersão que nenhum
horizonte prévio poderia tornar a fechar; deixar que ela se
desenrolasse em um anonimato a que nenhuma constituição
transcendental imporia a forma do sujeito; abri-la a uma
temporalidade que não prometeria o retorno de nenhuma aurora.
Tratava-se de despojá-la de qualquer narcisismo
228 Michel Foucault
transcendental; era preciso libertá-la da esfera da origem perdida e
reencontrada em que estava presa: era preciso mostrar que a
história do pensamento não podia ter o papel revelador do
momento transcendental que a mecânica racional já não tem desde
Kant, nem as idealidades matemáticas desde Husserl, nem as
significações do mundo percebido desde Merleau-Ponty - a
despeito dos esforços que foram feitos para aí descobri-lo.
Creio que, no fundo, apesar do equívoco introduzido pelo
aparente debate do estruturalismo, nós nos entendemos
perfeitamente, isto é, entendíamos perfeitamente o que queríamos
fazer. Era normal que você defendesse o direito de uma história
contínua, aberta ao mesmo tempo ao trabalho de uma teleologia e
aos processos indefinidos da causalidade; mas não era para
protegê-la de uma invasão estrutural que lhe desconhecesse o
movimento, espontaneidade e o dinamismo interno; você queria, na
verdade, garantir os poderes de uma consciência constituinte, pois
eles é que eram postos em questão. Ora, tal defesa devia ter lugar
em outra cena e não no próprio local do debate: pois, se você
reconhecia em uma pesquisa empírica, em um mínimo trabalho de
história, o direito de contestar a dimensão transcendental, então
abria mão do essencial. Daí uma série de deslocamentos. Tratar a
arqueologia como uma busca da origem dos a priori formais, dos
atos fundadores, em suma, como uma espécie de fenomenologia
histórica (enquanto para ela se trata, ao contrário, de libertar a
história da dominação fenomenológica), e objetar-lhe, então, que
ela fracassa em sua tarefa e que só descobre uma série de fatos
empíricos. Depois opor à descrição arqueológica, à sua
preocupação de estabelecer limiares, rupturas e transformações, o
verdadeiro trabalho dos historiadores que seria o de mostrar as
continuidades (enquanto, há dezenas de anos, o propósito da
história não é esse), e criticar-lhe então sua indiferença em relação
às empiricidades. Depois, ainda, considerá-la como uma empresa
para descrever totalidades culturais, para homogeneizar as
diferenças mais manifestas e reencontrar a universalidade das
formas coatoras (enquanto ela tem por propósito definir a
especificidade singular das práticas discursivas), e objetar-lhe,
então, diferenças, mudanças e mutações. Finalmente, designá-la
como a importação, no domínio da história, do estruturalismo (se
bem que seus métodos e
A Arqueologia do Saber 229
conceitos não possam, em caso algum, se prestar à confusão) e
mostrar, então, que ela não poderia funcionar como uma
verdadeira análise estrutural.
Todo esse jogo de deslocamentos e de incompreensões é
perfeitamente coerente e necessário. Ele comportava uma
vantagem secundária: poder dirigir-se em diagonal a todas as
formas de estruturalismos que é preciso tolerar - e às quais já foi
preciso ceder tanto - e lhes dizer: "Vejam a que vocês se exporiam
se tocassem nos domínios que ainda são os nossos; os
procedimentos que vocês adotam, e que talvez tenham em outro
lugar alguma validade, aí reencontrariam logo seus limites; eles
deixariam escapar todo o conteúdo concreto que vocês queriam
analisar; vocês seriam obrigados a renunciar a seu empirismo
prudente; e vocês cairiam, contra a vontade, em uma estranha
ontologia da estrutura. Tenham, pois, a prudência de se manter nos
domínios que, sem dúvida, conquistaram, mas que fingiremos, de
agora em diante, haver concedido a vocês, já que nós próprios
fixamos-lhes os limites." Quanto à vantagem maior, ela consiste, é
claro, em mascarar a crise em que estamos envolvidos há muito
tempo e cujo âmbito não pára de crescer: crise em que estão
comprometidas a reflexão transcendental com a qual se identificou
a filosofia desde Kant; a temática da origem, da promessa do
retorno pela qual evitamos a diferença de nosso presente; um
pensamento antropológico que consagra todas as interrogações à
questão do ser do homem, e permite evitar a análise da prática;
todas as ideologias humanistas; e - enfim e sobretudo - o status do
sujeito. É esse debate que você sonha mascarar e de que espera,
creio, desviar a atenção, prosseguindo os jogos agradáveis da
gênese e do sistema, da sincronia e do devir, da relação e da causa,
da estrutura e da história. Você está certo de não praticar uma
metátese teórica?
- Suponhamos que o debate esteja onde você diz; suponhamos
que se trate de defender ou de atacar o último reduto do
pensamento transcendental e admitamos que nossa discussão,
agora, tenha lugar na crise de que você fala: qual é, então, o título
de seu discurso? De onde vem e de onde poderia exercer seu
direito de falar? Como poderia legitimar-se? Se você não fez nada
além de uma análise empírica consagrada ao aparecimento e à
transformação dos discursos, se você
230 Michel Foucault
descreveu conjuntos de enunciados, figuras epistemológicas, as
formas históricas de um saber, como pode escapar à ingenuidade
de todos os positivismos? Como sua empresa poderia valer contra
a questão da origem e o recurso necessário a um sujeito
constituinte? Mas se você pretende abrir uma interrogação radical,
se você quer colocar seu discurso no nível em que nós próprios nos
colocamos, você bem sabe que ele entrará em nosso jogo e que
prolongará, por sua vez, a dimensão de que tenta, contudo, se
libertar. Ou não nos atinge, ou nós o reivindicamos. De qualquer
maneira, você é obrigado a nos dizer o que são esses discursos que
você se obstina, há 10 anos, em pesquisar, sem nunca ter tomado o
cuidado de estabelecer sua identidade. Em uma palavra, que são
eles: história ou filosofia?
- Mais do que suas objeções de há pouco, essa questão,
confesso, me embaraça. Ela não me surpreende inteiramente;
entretanto, gostaria, ainda algum tempo, de mantê-la suspensa. É
que no momento, e sem que eu possa ainda prever um fim, meu
discurso, longe de determinar o lugar de onde fala, evita o solo em
que se poderia apoiar. É um discurso sobre discursos, mas não
pretende neles encontrar uma lei oculta, uma origem recoberta que
só faltaria libertar; não pretende tampouco estabelecer, por si
mesmo e a partir de si mesmo, a teoria geral da qual eles seriam os
modelos concretos. Trata-se de desenvolver uma dispersão que
nunca se pode conduzir a um sistema único de diferenças, e que
não se relaciona a eixos absolutos de referência; trata-se de operar
um descentramento que não permite privilégio a nenhum centro.
Tal discurso não tem por papel dissipar o esquecimento,
reencontrar no âmago das coisas ditas, e onde elas se calam, o
momento de seu nascimento (quer se trate de sua criação empírica
ou do ato transcendental que lhes dá origem); não tenta ser
recolhimento do originário ou lembrança da verdade. Tem, pelo
contrário, de fazer as diferenças; constituí-las como objeto,
analisá-las e definir seu conceito. Ao invés de percorrer o campo
dos discursos para refazer, por sua conta, as totalizações suspensas,
ao invés de procurar, no que foi dito, o outro discurso oculto, que
permanece o mesmo (ao invés, portanto, de ele fazer, sem
interrupção, de alegoria e de tautologia), opera sem cessar as
diferenciações: é diagnóstico. Se a filosofia é
A Arqueologia do Saber 231
memória ou retorno da origem, o que faço não pode, de modo
algum, ser considerado como filosofia, e se a história do
pensamento consiste em tornar a dar vida a figuras semi-apagadas,
o que faço não é, tampouco, história.
- Do que você acaba de dizer, deve-se reter, pelo menos, que
sua arqueologia não é uma ciência. Você a deixa flutuar, com o
status incerto de uma descrição, ou ainda, sem dúvida, um desses
discursos que queria passar por alguma disciplina em estado de
esboço; o que traz para seus autores a dupla vantagem de não ter de
fundamentar sua cientificidade explícita e rigorosa, e de abri-la a
uma generalidade futura que a liberta dos acasos de seu
nascimento; ainda um desses projetos que se justificam pelo que
não são, adiando sempre para mais tarde o essencial de sua tarefa,
o momento de sua verificação e o posicionamento definitivo de sua
coerência; ainda uma dessas fundações, como tantas que foram
anunciadas desde o século XIX: pois sabemos que, no campo
teórico moderno, o que se gosta de inventar não são sistemas
demonstráveis, mas disciplinas cuja possibilidade se abre, cujo
programa se delineia e cujo futuro e destino se confiam aos outros.
Ora, apenas acabado o esboço de seu desenho, eis que elas
desaparecem com seus autores. Assim, o campo que deveriam gerir
permanece estéril para sempre.
- É certo que jamais apresentei a arqueologia como uma
ciência, nem mesmo como os primeiros fundamentos de uma
ciência futura. Em vez de traçar o plano de um edifício a ser
construído, dediquei-me a fazer o esboço - reservando-me o direito
de fazer muitas correções - do que realizara por ocasião de
pesquisas concretas. A palavra arqueologia não tem valor de
antecipação; designa somente uma das linhas de abordagem para a
análise das performances verbais: especificação de um nível - o do
enunciado e do arquivo; determinação e esclarecimento de um
domínio: as regularidades enunciativas, as positividades; emprego
de conceitos como os de regra de formação, derivação
arqueológica, a priori histórico. Mas, em quase todas as suas
dimensões e em quase todas as suas arestas, a empresa relaciona-se
a ciências, a análises de tipo científico ou a teorias que respondem
a critérios de rigor. Ela tem, inicialmente, relação com ciências que
se constituem e
232 Michel Foucault
estabelecem suas normas no saber arqueologicamente descrito e
que são para ela ciências-objetos tanto quanto já o foram a
anatomia patológica, a filologia, a economia política, a biologia.
Tem relação, também, com formas científicas de análise de que se
distingue, seja pelo nível, seja pelo domínio, seja pelos métodos, e
das quais está próxima conforme linhas características de divisão;
criticando, na massa das coisas ditas, o enunciado definido como
função de realização da performance verbal, ela se destaca de uma
pesquisa que teria como campo privilegiado a competência
linguística: enquanto tal descrição constitui um modelo gerador
para definir a aceitabilidade dos enunciados, a arqueologia tenta
estabelecer regras de formação para definir as condições de sua
realização; daí um certo número de analogias, mas também de
diferenças (em particular no que se refere ao nível possível de
formalização) entre essas duas modalidades de análise; de qualquer
forma, para a arqueologia, uma gramática gerativa representa o
papel de uma análise conexa. Além disso, as descrições
arqueológicas, em seu desenrolar e nos campos que percorrem,
articulam-se com outras disciplinas: procurando definir, fora de
qualquer referência a uma subjetividade psicológica ou
constituinte, as diferentes posições de sujeito que os enunciados
podem implicar, a arqueologia atravessa uma questão que é
colocada, hoje, pela psicanálise; tentando fazer aparecer as regras
de formação dos conceitos, os modos de sucessão, encadeamento e
coexistência dos enunciados, ela se depara com o problema das
estruturas epistemológicas; estudando a formação dos objetos, os
campos nos quais emergem e se especificam, estudando também as
condições de apropriação dos discursos, se depara com a análise
das formações sociais. Trata-se, para a arqueologia, de espaços
correlativos. Finalmente, na medida em que é possível constituir
uma teoria geral das produções, a arqueologia - como análise das
regras características das diferentes práticas discursivas -
encontrará o que se poderia chamar sua teoria envolvente.
Se situo a arqueologia entre tantos outros discursos que já estão
constituídos não é para fazer cora que se beneficie, como quer por
contiguidade e contágio, de um status que ela não seria capaz de
dar a si mesma; não é para dar-lhe um lugar definitivamente
delineado em uma constelação imóvel; mas para revelar, com o
arquivo, as formações discursivas,
A Arqueologia do Saber 233
as positividades, os enunciados e suas condições de formação, um
domínio específico que não constitui, ainda, objeto de nenhuma
análise (pelo menos no que ele pode ter de particular e de
irredutível às interpretações e às formalizações); mas nada me
garante antecipadamente - no ponto de demarcação ainda
rudimentar em que estou agora - que ele permanecerá estável e
autônomo. Afinal, seria possível que a arqueologia não fizesse
nada além de representar o papel de um instrumento que permite
articular, de maneira menos imprecisa do que no passado, a análise
das formações sociais e as descrições epistemológicas; ou que
permite unir uma análise das posições do sujeito a uma teoria da
história das ciências; ou que permite situar o lugar de
entrecruzamento entre uma teoria geral da produção e uma análise
gerativa dos enunciados. Poderia ser revelado, finalmente, que a
arqueologia é o nome dado a uma certa parte da conjuntura teórica
de hoje. Se esta conjuntura dá lugar a uma disciplina
individualizável, cujos primeiros caracteres e limites globais se
esboçariam aqui, ou se ela suscita um feixe de problemas cuja
coerência atual não impede que possam ser, mais tarde, retomados
em outra situação, de modo diferente, em um nível mais elevado
ou segundo métodos diversos, isso eu não saberia dizer no
momento. E na verdade, a decisão, sem dúvida, não cabe a mim.
Aceito que meu discurso se apague como a figura que conseguiu
trazê-lo até aqui.
- Você mesmo faz um estranho uso da liberdade que contesta
nos outros, pois você se dá todo o campo de um espaço livre que se
recusa até mesmo a qualificar. Mas será que se esquece do cuidado
que tomou para enquadrar o discurso dos outros em sistemas de
regras? Será que se esquece de todas as coações que descrevia com
meticulosidade? Você não tirou dos indivíduos o direito de intervir
pessoalmente nas positividades em que se situam seus discursos?
Você prendeu a menor de suas palavras a obrigações que
condenam ao conformismo a menor de suas inovações. Você
considera a revolução fácil quando se trata de si mesmo, mas
difícil quando se trata dos outros. Seria melhor, sem dúvida, se
você tivesse uma consciência mais clara das condições sob as quais
fala, mas, em compensação, mais confiança na ação real dos
homens e em suas possibilidades.
234 Michel Foucault
- Receio que você esteja cometendo um duplo erro: a respeito
das práticas discursivas que tentei definir e a propósito da parte que
você mesmo reserva à liberdade humana. As positividades que
tentei estabelecer não devem ser compreendidas como um conjunto
de determinações que se impõem do exterior ao pensamento dos
indivíduos ou que moram em seu interior como que
antecipadamente; elas constituem o conjunto das condições
segundo as quais se exerce uma prática, segundo as quais essa
prática dá lugar a enunciados parcial ou totalmente novos, segundo
as quais, enfim, ela pode ser modificada. Trata-se menos dos
limites colocados à iniciativa dos sujeitos que do campo em que ela
se articula (sem constituir seu centro), das regras que emprega
(sem que as tenha inventado ou formulado), das relações que lhe
servem de suporte (sem que ela seja seu resultado último, ou seu
ponto de convergência). Trata-se de revelar as práticas discursivas
em sua complexidade e em sua densidade; mostrar que falar é fazer
alguma coisa - algo diferente de exprimir o que se pensa, de
traduzir o que se sabe e, também, de colocar em ação as estruturas
de uma língua; mostrar que somar um enunciado a uma série
preexistente de enunciados é fazer um gesto complicado e custoso
que implica condições (e não somente uma situação, um contexto,
motivos) e que comporta regras (diferentes das regras lógicas e
linguísticas de construção); mostrar que uma mudança, na ordem
do discurso, não supõe "idéias novas", um pouco de invenção e de
criatividade, uma mentalidade diferente, mas transformações em
uma prática eventualmente nas que lhe são próximas e em sua
articulação comum. Longe de mim negar a possibilidade de mudar
o discurso: tirei dele o direito exclusivo e instantâneo à soberania
do sujeito.
"De minha parte, queria, para terminar, fazer-lhe uma pergunta:
que idéia você tem da mudança e, digamos, da revolução, pelo
menos na ordem científica e no campo dos discursos, se a liga aos
temas do sentido, do projeto, da origem e do retorno, do sujeito
constituinte, em suma, a toda a temática que garante à história a
presença universal do logos? Que possibilidade lhe dá, se a analisa
conforme metáforas dinâmicas, biológicas, evolucionistas, nas
quais, habitualmente, se dissolve o problema difícil e específico da
mutação histórica? Mais precisamente ainda: que status político
pode dar ao
A Arqueologia do Saber 235
discurso se nele só vê uma transparência diminuta que cintila por
um instante no limite das coisas e dos pensamentos? A prática do
discurso revolucionário e do discurso científico na Europa, há 200
anos, não o liberou da idéia de que as palavras são vento, um
sussurro exterior, um ruído de asas que mal ouvimos na seriedade
da história? Ou será preciso imaginar que, para recusar essa lição,
você se obstinou a desconhecer as práticas discursivas em sua
existência própria, e que queria manter contra ela uma história do
espírito, dos conhecimentos da razão, das idéias ou das opiniões?
Qual é, pois, o medo que o faz responder em termos de
consciência, quando lhe falam de uma prática, de suas condições,
de suas regras, de suas transformações históricas? Qual é, pois, o
medo que o faz procurar, além de todos os limites, as rupturas, os
abalos, as escansões, o grande destino histórico-transcendental do
Ocidente?
A essa questão, estou certo de que a única resposta é política.
Mantenhamo-la, por enquanto, em suspenso. Talvez seja
necessário retomá-la logo e de outro modo.
Este livro foi feito apenas para afastar algumas dificuldades
preliminares. Tanto quanto qualquer outra pessoa, sei o que podem
ter de "ingratas" - no sentido estrito do termo - as pesquisas de que
falo e que empreendo há 10 anos. Sei o que pode haver de árido no
fato de tratar os discursos não a partir da doce, muda e íntima
consciência que aí se exprime, mas de um obscuro conjunto de
regras anônimas. O que há de desagradável em fazer aparecer os
limites e as necessidades de uma prática no lugar em que tínhamos
o hábito de ver desenrolarem-se, em pura transparência, os jogos
do gênio e da liberdade. O que há de provocante em tratar como
um feixe de transformações essa história dos discursos que era
animada, até aqui, pelas metamorfoses tranquilizadoras da vida ou
a continuidade intencional do vivido. Enfim, considerando-se o que
cada um quer colocar, pensa colocar de "si mesmo" em seu próprio
discurso, quando tenta falar, o que há de insuportável em recortar,
analisar, combinar, recompor todos os textos que agora voltam ao
silêncio, sem que neles jamais se desenhe o semblante
transfigurado do autor: "Como! Tantas palavras acumuladas, tantas
marcas depositadas em tantas folhas de papel e oferecidas a
inúmeros olhares, um zelo tão grande para mantê-las além do gesto
que as articula, uma
236 Michel Foucault
piedade tão profunda destinada a conservá-las e inscrevê-las na
memória dos homens - tudo isso para que não reste nada da pobre
mão que as traçou, da inquietude que nelas procurava acalmar-se, e
da vida acabada que só tem a elas, daqui por diante, para
sobreviver? O discurso, em sua determinação mais profunda, não
seria 'rastro'? E seu murmúrio não seria o lugar das imortalidades
sem substância? Seria preciso admitir que o tempo do discurso não
é o tempo da consciência levado às dimensões da história, ou o
tempo da história presente na forma da consciência? Seria preciso
que eu supusesse que em meu discurso não está em jogo minha
imortalidade? E que falando dele não conjuro minha morte, mas a
estabeleço ou, antes, suprimo toda interioridade nesse exterior que
é tão indiferente à minha vida e tão neutro que não estabelece
diferença entre minha vida e minha morte?"
Eu compreendo bem o mal-estar de todos esses. Foi, sem
dúvida, muito doloroso, para eles, reconhecer que sua história, sua
economia, suas práticas sociais, a língua que falam, a mitologia de
seus ancestrais, até as fábulas que lhes contavam na infância,
obedecem a regras que não se mostram inteiramente à sua
consciência; eles não desejam ser privados, também e ainda por
cima, do discurso em que querem poder dizer, imediatamente, sem
distância, o que pensam, crêem ou imaginam; vão preferir negar
que o discurso seja uma prática complexa e diferenciada que
obedece a regras e a transformações analisáveis, a ser destituídos
da frágil certeza, tão consoladora, de poder mudar, se não o
mundo, se não a vida, pelo menos seu "sentido", pelo simples
frescor de uma palavra que viria apenas deles mesmos e
permaneceria o mais próximo possível da fonte, indefinidamente.
Tantas coisas em sua linguagem já lhes escaparam: eles não
querem mais que lhes escape, além disso, o que dizem, esse
pequeno fragmento de discurso - falado ou escrito, pouco importa -
cuja débil e incerta existência deve levar sua vida mais longe e por
mais tempo. Não podem suportar (e os compreendemos um pouco)
ouvir dizer: "O discurso não é a vida: seu tempo não é o de vocês;
nele, vocês não se reconciliarão com a morte; é possível que vocês
tenham matado Deus sob o peso de tudo que disseram; mas não
pensem que farão, com tudo o que vocês dizem, um homem que
viverá mais que ele."
Com que propósito escrevi este
livro? Para explicar o que quis fazer
nos livros precedentes em que tantas
coisas ficaram obscuras? Não só, nem
exatamente, mas, indo um pouco mais
longe, para retornar, como que por uma
nova volta de espiral, a um ponto
anterior ao que havia empreendido;
mostrar de onde eu falava; demarcar o
espaço que torna possíveis essas
pesquisas e outras talvez que jamais
concluirei; em suma, para dar
significação à palavra arqueologia que
eu havia deixado vazia.
Palavra perigosa, pois parece evocar
rastros caídos fora do tempo e
petrificados, agora, em seu mutismo.
Na verdade trata-se de descrever
discursos. Não livros (na relação com
seus autores), não teorias (com suas
estruturas e coerência), mas os
conjuntos, ao mesmo tempo familiares
e enigmáticos, que, através do tempo,
se tornam conhecidos como a
medicina, ou a economia política, ou a
biologia. Gostaria de mostrar que essas
unidades formam domínios autônomos,
embora não independentes; regrados,
embora em contínua transformação;
anônimos e sem sujeito, ainda que
integrem tantas obras individuais.
E justamente no ponto em que a
história das idéias, decifrando os
textos, procurava desvendar os
movimentos secretos do pensamento
(sua lenta progressão, seus conflitos e
recaídas, os obstáculos contornados),
gostaria de revelar, em sua
especificidade, o nível das "coisas
ditas": sua condição de aparecimento,
as formas de seu acúmulo e
encadeamento, as regras de sua
transformação, as descontinuidades que
as escandem. O domínio das coisas
ditas é o que se chama arquivo; o papel
da arqueologia é analisá-lo.
Michel Foucault
Debater Foucault
A arqueologia do saber representa um
marco fundamental na trajetória
filosófica de Michel Foucault, que é
também, reconhecidamente, um dos
grandes historiadores de nossa época.
A importância desta obra no percurso
teórico do autor é um esforço notável
no sentido de se restabelecer as bases
sólidas para a investigação científica e
uma revisão conceitual que enfatizem
a natureza recorrente da história
epistemológica.
Foucault nos legou neste livro uma
lição de extraordinário valor, que irá
sobreviver aos ataques radicais de
críticos recentes que propõem
esquecê-lo e o acusam de um niilismo
dogmático e empobrecedor. A lição do
autor é que não temos nada mais o que
esperar de um falso conhecimento
objetivo, nem das ilusões da
subjetividade pura, mas tudo o que
aprender e compreender de uma
arqueologia das práticas (a medicina, a
biologia ou a economia política) que
fizeram de nós aquilo que somos.
De Michel Foucault leia também O
nascimento da clínica.
A Coleção CAMPO TEÓRICO tem como objetivo
publicar textos e análises que definam e explorem campos do
conhecimento que vêm sofrendo profunda mudança conceitual,
como a epistemologia, a história e a filosofia das ciências.
O programa da Coleção, ao mesmo tempo em que procura
fazer uma crítica às tendências empíricas, mecanicistas e
reducionistas de algumas correntes da história das idéias,
marcadamente manipuladoras da ciência e da sociedade, propõe
um conjunto de obras de autores que lançaram as bases da ciência
moderna, desde a revolução copernicana, a física de Galileu
e Newton, até os teóricos da economia e da sociedade, como
Marx, e os críticos da razão ocidental, como Nietzsche e Freud.
Contemporaneamente, esses cientistas e pensadores passam
por um processo de redescoberta crítica e de releitura, graças
aos trabalhos de Lacan, Koyré, Canguilhem, Althusser e
Foucault, entre outros, em diversas áreas do conhecimento,
como a física, a biologia, o direito, a medicina e a psicanálise,
redefinindo conceitos fundamentais e apontando para novas
práticas políticas.
É, portanto, extremamente oportuno esta reedição da obra
A Arqueologia do Saber, de Michel Foucault, que a EDITORA
FORENSE UNIVERSITÁRIA coloca ao alcance dos
estudiosos e do público em geral.



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