SONHOS E TELEPATIA | FREUD

| segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Atualmente, quando se sente tão grande interesse pelo que é chamado de fenômenos ‘ocultos’, expectativas muito definidas serão indubitavelmente despertadas pelo anúncio de um artigo com esse título. Não obstante, apresso-me em explicar que não há fundamento para tais expectativas. Nada aprenderão, deste meu trabalho, sobre o enigma da telepatia; na verdade, nem mesmo depreenderão se acredito ou não em sua existência. Nesta ocasião, propus-me a tarefa muito modesta de examinar a relação das ocorrências telepáticas em causa, seja qual for sua origem, com os sonhos, ou, mais exatamente, com nossa teoria dos sonhos. Saberão que comumente se acredita ser muito íntima a conexão entre sonhos e telepatia; apresentarei a opinião de que ambos pouco têm a ver reciprocamente, e que, viesse a existência de sonhos telepáticos a ser estabelecida, não haveria necessidade de modificar nossa concepção dos sonhos, em absoluto.

Atualmente, quando se sente tão grande interesse pelo que é chamado de fenômenos ‘ocultos’, expectativas muito definidas serão indubitavelmente despertadas pelo anúncio de um artigo com esse título. Não obstante, apresso-me em explicar que não há fundamento para tais expectativas. Nada aprenderão, deste meu trabalho, sobre o enigma da telepatia; na verdade, nem mesmo depreenderão se acredito ou não em sua existência. Nesta ocasião, propus-me a tarefa muito modesta de examinar a relação das ocorrências telepáticas em causa, seja qual for sua origem, com os sonhos, ou, mais exatamente, com nossa teoria dos sonhos. Saberão que comumente se acredita ser muito íntima a conexão entre sonhos e telepatia; apresentarei a opinião de que ambos pouco têm a ver reciprocamente, e que, viesse a existência de sonhos telepáticos a ser estabelecida, não haveria necessidade de modificar nossa concepção dos sonhos, em absoluto.
O material em que se baseia o presente relato é muito tênue. Em primeiro lugar, devo expressar meu pesar de não poder fazer uso de meus próprios sonhos, como fiz quando escrevi A Interpretação de Sonhos (1900a). Porém, nunca tive um sonho ‘telepático’. Não que eu passasse sem sonhos do tipo que transmitem a impressão de que um certo evento definido está acontecendo em algum lugar distante, deixando ao que sonha decidir se o fato está acontecendo naquele momento ou acontecerá em alguma época posterior. Também na vida desperta amiúde me dei conta de pressentimentos de acontecimentos distantes. Contudo, nenhuma dessas impressões, previsões e premonições se ‘realizaram’, como dizemos; não se demonstrou existir uma realidade externa correspondente a elas e, portanto, tiveram de ser encaradas como previsões puramente subjetivas.
Sonhei certa vez, por exemplo, durante a guerra, que um de meus filhos então servindo na frente de batalha fora morto. Isso não estava diretamente enunciado no sonho, mas expresso de uma maneira inequívoca através do bem conhecido simbolismo de morte, cuja descrição foi dada pela primeira vez por Stekel [1911a]. (Não devemos nos esquecer de cumprir o dever, que amiúde se sente ser inconveniente, de apresentar agradecimentos literários.) Vi o jovem soldado de pé sobre um patamar, entre a terra e a água, digamos, e ele me apareceu muito pálido. Falei-lhe, mas não me respondeu. Havia outras indicações inequívocas. Não estava usando uniforme militar, mas um costume de esqui que usara quando um grave acidente de esquiagem lhe acontecera, vários anos antes da guerra. Ficou de pé sobre algo semelhante a um banquinho, com um armário à sua frente, situação sempre associada em meu espírito à idéia de ‘cair’, através de uma lembrança de minha própria infância. Menino de pouco mais de dois anos de idade, eu subira num banquinho como aquele para apanhar algo de cima de um armário — provavelmente algo bom de comer —, caí e causei-me um ferimento de que ainda hoje posso mostrar a cicatriz. Meu filho, contudo, a quem o sonho pronunciava como morto, voltou ileso da guerra para casa.
Apenas há pouco tempo atrás tive outro sonho trazendo más notícias; deu-se, penso eu, exatamente antes de me decidir a reunir essas poucas observações. Dessa vez, não houve muita tentativa de disfarce. Vi minhas duas sobrinhas que moram na Inglaterra. Estavam vestidas de preto e me disseram: ‘Enterramo-la na quinta-feira.’ Soube que a referência era à morte de sua mãe, então com 87 anos de idade, viúva de meu irmão mais velho.
Seguiu-se um tempo de desagradável expectativa; certamente nada haveria de surpreendente no fato de uma senhora tão idosa ter-se finado subitamente; contudo, seria muito desagradável que o sonho coincidisse exatamente com a ocorrência. A próxima carta da Inglaterra, contudo, dissipou esse temor. Em benefício daqueles que se interessam pela teoria onírica da realização de desejos posso interpolar a reafirmação de que não houve dificuldade em detectar pela análise os motivos inconscientes que se poderia presumir existirem nesses sonhos de morte, bem como em outros.
Espero que não contestem o valor do que acabo de relatar, conquanto as experiências negativas provem tão pouco aqui quanto o fazem em assuntos ocultos. Estou bem ciente disso e não aduzi esses exemplos com qualquer intenção de provar algo ou de sub-repticiamente influenciá-los em algum sentido específico. Meu único propósito foi explicar a pobreza de meu material.
Outro fato por certo me parece de maior significação: que durante cerca de 27 anos de trabalho como analista, nunca me achei em posição de observar um sonho verdadeiramente telepático em qualquer de meus pacientes. E esses pacientes, contudo, constituíam uma boa coleção de naturezas gravemente neuropáticas e ‘altamente sensíveis’. Vários deles relataram-me incidentes bem notáveis em sua vida anterior, nos quais baseavam uma crença em misteriosas influências ocultas. Acontecimentos como acidentes ou doenças de parentes próximos, sobretudo a morte de um dos genitores, ocorreram com bastante freqüência durante o tratamento e o interromperam, mas sequer numa única ocasião essas ocorrências, eminentemente apropriadas, como eram, em caráter, permitiram-me a oportunidade de registrar um único sonho telepático, embora o tratamento se estendesse por diversos meses ou mesmo anos. Quem se interessar, pode procurar uma explicação para este fato, que restringe ainda mais o material à minha disposição. Seja como for, ver-se-á que tal explicação não influenciaria o tema deste artigo.
Tampouco me embaraça indagarem-me por que não fiz uso da abundante reserva de sonhos telepáticos ocorrida na literatura do assunto. Não teria de procurar muito, visto que as publicações tanto da Sociedade Inglesa quanto da Sociedade Americana de Pesquisas Psíquicas me são acessíveis como membro de ambas. Em nenhum desses relatos há qualquer tentativa de submeter tais sonhos à investigação analítica, que seria nosso primeiro interesse em casos assim. Ademais, logo perceberão que, para os fins do presente artigo, um único sonho será o bastante.
Assim, meu material consiste simples e unicamente em dois relatos que chegaram até mim de correspondentes na Alemanha. Os autores não me são pessoalmente conhecidos, mas fornecem seus nomes e endereços; não tenho o menor fundamento para presumir, de sua parte, qualquer intenção de embuste.

I

Com o primeiro dos dois já havia mantido correspondência; fora suficientemente gentil em enviar-me, como muitos de meus leitores fazem, observações de ocorrências cotidianas e coisas assim. Trata-se obviamente de um homem instruído e extremamente inteligente; dessa vez, coloca expressamente seu material à minha disposição, caso me interesse em transformá-lo em ‘relato literário’.
Sua carta diz o seguinte:
‘Considero o seguinte sonho como de interesse suficiente para que o transmita ao senhor, a título de material para suas pesquisas.
‘Devo primeiro enunciar os seguintes fatos. Minha filha, que é casada e mora em Berlim, esperava seu primeiro parto em meados de dezembro deste ano. Eu pretendia ir a Berlim, na ocasião, com minha (segunda) esposa, madrasta de minha filha. Durante a noite de 16 para 17 de novembro sonhei, com vividez e clareza nunca experimentada, que minha esposa havia dado à luz gêmeos. Vi os dois saudáveis bebês muito claramente, com seus rostos rechonchudos, deitados em seu berço, lado a lado. Não lhes observei o sexo; um, de cabelos claros, tinha distintamente as minhas feições e algo das de minha esposa; o outro, de cabelos castanhos, parecia-se claramente com ela, com algum aspecto meu. Disse a minha esposa, que tem cabelos louro-arruivados: “Provavelmente o cabelo castanho de ‘seu’ filho também ficará ruivo mais tarde.” Minha mulher deu-lhe o seio. No sonho, ela também fizera um pouco de geléia numa bacia de lavar e as duas crianças engatinhavam pela bacia e lambiam-lhe o conteúdo.
‘Quanto ao sonho, é só. Quatro ou cinco vezes que despertei durante ele perguntei-me se era verdade que tínhamos gêmeos, mas não cheguei, com exatidão alguma, à conclusão de ser apenas um sonho. Este durou até eu despertar e, após, ainda decorreu tempo até que me sentisse inteiramente esclarecido sobre o verdadeiro estado de coisas. Ao desjejum, contei à minha esposa o sonho, que muito a divertiu. Disse ela: “Será que Ilse (minha filha) vai ter gêmeos?” Respondi: “Dificilmente, uma vez que os gêmeos não são costume, seja em minha família ou na de G” (marido dela). Em 18 de novembro, às dez horas da manhã, recebi um telegrama de meu genro, passado na tarde anterior, comunicando-me o nascimento de gêmeos, um menino e uma menina. O nascimento, assim, dera-se na ocasião em que estava sonhando que minha esposa tivera gêmeos. O parto ocorrera quatro semanas mais cedo do que qualquer de nós esperava, com base nos cálculos de minha filha e meu genro.
‘Mas há ainda uma outra circunstância: na noite seguinte [isto é, antes também de recebido o telegrama], sonhara que minha falecida esposa, mãe de minha filha, tomara a seu cargo 48 bebês recém-nascidos. Quando a primeira dúzia estava chegando, protestei. Nesse ponto, o sonho findou.
‘Minha falecida esposa gostava muito de crianças. Freqüentemente falava a esse respeito, dizendo que gostaria de ter um bando inteiro delas em torno de si, quanto mais, melhor; que se sairia muito bem se a encarregassem de um jardim de infância e que seria muito feliz assim. O barulho que as crianças fazem era música para ela. De tempos em tempos convidava um bando inteiro de crianças das ruas e as regalava com chocolate e bolos no pátio de nossa vivenda. Minha filha deve ter pensado em seguida na mãe após o parto, especialmente devido à surpresa de sua prematuridade, da vinda de gêmeos e de sua diferença de sexo. Sabia que a mãe teria acolhido o fato com a mais viva alegria e simpatia: “Pense só no que mamãe diria, se estivesse comigo agora!” Esse pensamento deve, indubitavelmente, ter-lhe passado pela mente. E então sonhei com minha falecida esposa, com quem raramente sonho, e em quem não falara nem pensara após o primeiro sonho.
‘O senhor acha que a coincidência entre o sonho e o fato foi acidental em ambos os casos? Minha filha é muito ligada a mim e estava certamente pensando em mim durante o trabalho de parto, particularmente porque amiúde trocáramos cartas sobre o seu modo de vida durante a gravidez e eu lhe havia constantemente dado conselhos.’
É fácil adivinhar o que foi minha resposta a essa carta. Fiquei triste por descobrir que o interesse de meu correspondente pela análise havia sido tão completamente morto por seu interesse na telepatia. Evitei assim sua pergunta direta e, observando que o sonho continha muito coisa além da vinculação com o nascimento dos gêmeos, pedi-lhe para fornecer-me quaisquer informações ou idéias que lhe ocorressem e pudessem dar-me uma pista quanto ao significado do sonho.
Logo após recebi a seguinte segunda carta que, deve-se admitir, não me forneceu inteiramente tudo o que eu queria:
‘Não pude responder sua amável carta do dia 24 senão hoje. Ficarei encantado em contar-lhe, “sem omissão ou reserva”, todas as associações que me ocorrerem. Infelizmente não são muitas, e outras viriam em conversa.
‘Pois bem: minha esposa e eu não queremos mais filhos. Quase nunca temos relações sexuais; seja como for, por ocasião do sonho certamente não havia “perigo”. O parto de minha filha, que era esperado para meados de dezembro, constituía naturalmente um tema freqüente de conversa entre nós. Minha filha fora examinada e radiografada no verão e o médico que fizera o exame estava certo de que a criança seria um menino. Minha esposa disse na ocasião: “Vou rir se, ao fim das contas, for uma menina.” Na ocasião, também observou que seria melhor que fosse um H. em vez de um G. (nome de família de meu genro); minha filha é mais bonita e faz melhor figura que ele embora ele tenha sido oficial da marinha. Efetuei alguns estudos da questão da hereditariedade e tenho o hábito de olhar para bebês, a fim de ver com quem se parecem. Uma coisa ainda: temos um cãozinho que se senta conosco à mesa, à noite, para receber sua comida, e que lambe os pratos. Todo esse material aparece no sonho.
‘Gosto de crianças pequenas e amiúde tenho dito que gostaria de novamente cuidar da educação de uma criança, agora que devo possuir bem mais compreensão, interesse e tempo para dedicar-lhe; porém, com minha esposa não o desejaria, visto que não possui as qualidades necessárias para criar judiciosamente uma criança. O sonho faz-me presente de dois filhos; não observei seu sexo. Vejo-os ainda neste momento, deitados na cama, e reconheço-lhes as feições, um deles mais “eu” e o outro mais minha esposa, cada qual, porém, com traços menores do outro lado. Minha esposa possui cabelos louro-arruivados, mas um dos filhos tem cabelos castanhos (avermelhados). Digo eu: “Ora bem, eles também ficarão ruivos mais tarde.” Ambas as crianças engatinham por uma grande bacia de lavar em que minha esposa esteve mexendo geléia e lambem-lhe o fundo e os lados (sonho). A origem desse pormenor é facilmente explicável, assim como o sonho como um todo. Ele não seria difícil de compreender ou interpretar se não houvesse coincidido com a chegada inesperadamente precoce de meus netos (três semanas mais cedo), uma coincidência de tempo quase exata. (Não posso dizer exatamente quando começou o sonho; meus netos nasceram às 9 e 9 e 15 da noite; fui deitar-me por volta das onze horas e tive o sonho no decorrer da noite.) Também o nosso conhecimento de que a criança seria um menino junta-se à dificuldade, embora possivelmente a dúvida sobre se isso fora inteiramente determinado possa explicar o aparecimento de gêmeos no sonho. Mesmo assim, a coincidência do sonho com o aparecimento inesperado e prematuro dos gêmeos de minha filha permanece.
‘Não foi a primeira vez que fatos distantes se me tornaram conhecidos antes que recebesse as notícias reais. Para fornecer um exemplo entre muitos, em outubro recebi uma visita de meus três irmãos. Não nos havíamos reunido durante trinta anos, exceto por um tempo muito breve, uma vez nos funerais de meu pai e outra nos de minha mãe. Ambas as mortes eram esperadas e não tivera “pressentimentos” em nenhum dos casos. Mas, há cerca de 25 anos atrás, meu irmão mais moço faleceu de modo inteiramente súbito e inesperado, quando tinha dez anos. Quando o carteiro entregou-me o cartão-postal com a notícia de sua morte, antes que passasse o olhar por ele veio-me logo o pensamento: “É para dizer que meu irmão morreu.” Fora o único que ficara em casa, um rapaz forte e sadio, ao passo que nós, os quatro irmãos mais velhos, já estávamos plenamente desenvolvidos e havíamos deixado a casa paterna. Por ocasião da visita de meus irmãos, a conversa fortuitamente girou em torno dessa experiência minha e, como se fosse uma palavra de ordem, todos os três irmãos declaravam haver-lhes acontecido exatamente a mesma coisa. Se ocorreu exatamente da mesma maneira, não posso dizer; de qualquer modo, cada um declarou que se sentira perfeitamente certo da morte, exatamente antes que a notícia inesperada chegasse. Somos todos, pelo lado materno, de disposição sensível, embora homens fortes e altos, mas nenhum de nós é, de modo algum, inclinado ao espiritismo ou ao ocultismo; pelo contrário, rejeitamos a adesão a qualquer dos dois. Meus irmãos são todos homens de formação universitária, dois professores, o outro agrimensor, todos antes formalistas que visionários. Isto é tudo o que posso contar-lhe em relação ao sonho. Se puder transformá-lo em um relato literário, fico encantado em colocá-lo à sua disposição.’
Temo que os leitores possam comportar-se como o autor dessas duas cartas. Também estarão primariamente interessados em saber se o sonho pode ser realmente considerado como uma notificação telepática do nascimento inesperado dos gêmeos, e não estarão dispostos a submeter o sonho à análise, como qualquer outro. Prevejo que sempre será assim quando a psicanálise e o ocultismo se encontrarem. A primeira tem, por assim dizer, todos os nossos instintos mentais contra ela; do último, vamos a seu encontro a meio caminho, movidos por simpatias poderosas e misteriosas. Entretanto, não vou assumir a posição de não ser mais que um psicanalista, de os problemas do ocultismo não me serem concernentes; com acerto julgariam isso como apenas uma fuga ao problema. Nada disso eu posso dizer que constituiria uma grande satisfação para mim, se pudesse convencer-me, assim como a outros, da inatacável evidência da existência de processos telepáticos, mas considero também que as informações fornecidas sobre esse sonho são inteiramente inadequadas para justificar um pronunciamento desse tipo. Observação que nem uma só vez ocorre a esse homem inteligente, profundamente interessado em saber como se acha no problema de seu sonho, dizer-nos quando pela última vez viu a filha ou que notícias teve dela ultimamente. Escreve, na primeira carta, que o nascimento foi um mês mais cedo; na segunda, porém, esse mês transformou-se em apenas três semanas e nenhuma delas nos diz se o nascimento foi realmente prematuro ou se, como tão amiúde acontece, os interessados estavam enganados em seus cálculos. Temos, porém, de considerar esses e outros pormenores da ocorrência, se quisermos pesar a probabilidade de aquele que sonhou haver feito estimativas e palpites inconscientes. Sinto também que isso não seria útil, ainda que conseguisse obter resposta a tais perguntas. No processo de chegar à informação, sempre surgiriam novas dúvidas, que só poderiam ser acalmadas se tivéssemos o homem à nossa frente e pudéssemos reviver todas as lembranças pertinentes que talvez ele tenha afastado como não essenciais. Tem certamente razão no que diz no começo de sua segunda carta, de que mais coisas surgiriam conversando.
Considerem um outro caso semelhante, em que nenhum papel desempenha o intérprete perturbado pelo ocultismo. Amiúde devem os leitores ter estado em posição de comparar a anamnese e as informações sobre a doença, dadas durante a primeira sessão por qualquer neurótico, com o que dele obtiveram após alguns meses de psicanálise. À parte as abreviações inevitáveis, quantas coisas essenciais foram omitidas ou suprimidas, quantas conexões foram deslocadas; na realidade, quanto de incorreto ou inverídico lhes foi contado naquela primeira ocasião! Não me chamarão de hipercrítico se recusar-me, nas circunstâncias, a fazer qualquer pronunciamento sobre se o sonho em causa é um evento telepático, uma realização particularmente sutil por parte do inconsciente do que sonhou, ou se deve simplesmente ser tomado como uma coincidência notável. Nossa curiosidade deve satisfazer-se com a esperança de que, em alguma ocasião posterior, seja possível efetuar um exame oral pormenorizado do que sonhou. Mas não podem dizer que esse resultado de nossa investigação os desapontou, porque os preparei para ele; disse-lhes que não ouviriam nada que lançasse luz sobre o problema da telepatia.
Se agora passarmos ao tratamento analítico do sonho, seremos novamente obrigados a expressar nossa insatisfação. Os pensamentos que aquele que sonhou associa ao conteúdo manifesto do sonho, são mais uma vez insuficientes e não nos permitem efetuar qualquer análise do sonho. Por exemplo, o sonho entra em grandes pormenores sobre as semelhanças das crianças com os pais, discute a cor de seus cabelos e a provável mudança de cor numa idade posterior, e como explicação desses elaborados detalhes recebemos apenas, do que sonhou, a árida informação de que sempre se interessou por questões de semelhança e hereditariedade. Estamos acostumados a esperar um material bastante mais amplo que este! Em determinado ponto, porém, o sonho admite uma interpretação analítica e exatamente nesse ponto a análise, que sob outros aspectos não possui conexão com o ocultismo, vem em auxílio da telepatia de uma maneira digna de nota. É apenas por causa desse ponto isolado que lhes estou pedindo sua atenção para este sonho.
Corretamente falando, o sonho não tem qualquer direito a ser chamado de ‘telepático’. Não informou quem o sonhou de nada que (fora de seu conhecimento normal) se estivesse realizando noutro lugar. O que o sonho contou foi algo inteiramente diferente do acontecimento comunicado no telegrama recebido no segundo dia após a noite do sonho. Este e a ocorrência real divergem num ponto particularmente importante, mas concordam, afora a coincidência de tempo, noutro elemento muito interessante. No sonho, a esposa do que sonhou teve gêmeos. A ocorrência, contudo, fora que a filha dele dera à luz gêmeos, em sua casa distante. O que sonhou não desprezou essa diferença; não parecia conhecer nenhum modo de superá-la e como, de acordo com seu próprio relato, não tinha inclinações para o oculto, perguntava apenas, de modo bastante experimental, se a coincidência entre o sonho e a ocorrência sobre o ponto do nascimento de gêmeos poderia ser mais que um acidente. A interpretação analítica dos sonhos, contudo, extingue essa diferença entre o sonho e o acontecimento e dá a ambos o mesmo conteúdo. Se consultarmos o material associado ao sonho, ele mostra, a despeito de sua dispersão, que existia um vínculo íntimo de sentimento entre o pai e a filha, um vínculo de sentimento que é tão costumeiro e natural que deveríamos deixar de nos envergonharmos dele, um vínculo que, na vida cotidiana, simplesmente se expressa como um interesse terno e só é impulsionado à sua conclusão lógica nos sonhos. O pai sabia que a filha se aferrava a ele, estava convencido de que amiúde pensara nele durante o trabalho de parto. Penso que, em seu coração, dera-a de má vontade ao genro, a que, em uma das cartas, faz algumas referências depreciativas. Na ocasião do parto (esperado ou comunicado por telepatia) o desejo inconsciente tornou-se ativo na parte reprimida de sua mente: ‘ela deveria ser minha (segunda) esposa’; foi esse desejo que deformou os pensamentos oníricos e constituiu a causa da diferença entre o conteúdo manifesto do sonho e o acontecimento. Temos o direito de substituir, no sonho, a segunda esposa pela filha. Se possuíssemos mais associações com o sonho, poderíamos indubitavelmente verificar e aprofundar esta interpretação.
E agora cheguei ao argumento que quero apresentar-lhes. Esforçamo-nos por manter a imparcialidade mais estrita e permitimos que duas concepções do sonho se classificassem como igualmente prováveis e igualmente não provadas. Segundo a primeira, o sonho é uma reação a uma mensagem telepática: ‘sua filha acabou de trazer gêmeos ao mundo’. De acordo com a segunda, está subjacente ao sonho um processo inconsciente de pensamento capaz de ser reproduzido mais ou menos assim: ‘Hoje é o dia em que o parto deveria realizar-se, se é que aqueles jovens em Berlim estão realmente errados de um mês em seus cálculos, como suspeito. E se minha (primeira) esposa ainda estivesse viva, certamente não ficaria contente com um só neto. Para agradá-la, teria de haver pelo menos gêmeos.’ Estando certa essa segunda opinião não surge nenhum problema novo. Trata-se simplesmente de um sonho como qualquer outro. Os pensamentos oníricos (pré-conscientes), tal como delineados acima, são reforçados pelo desejo (inconsciente) de que nenhuma outra mulher senão a filha deveria ser a segunda esposa do que sonhou e assim surge o sonho manifesto, tal como nos foi descrito.
Se preferirem pressupor que uma mensagem telepática sobre o parto da filha chegou ao que dormia, surgem novas questões da relação de uma mensagem como esta com um sonho e de sua influência na formação dos sonhos. A resposta não se acha distante, sendo bastante clara. Uma mensagem telepática será tratada como uma parte do material que entra na formação de um sonho, como qualquer outro estímulo externo ou interno, como um ruído perturbador na rua ou uma insistente sensação orgânica no próprio corpo do que dorme. Em nosso exemplo, é evidente a maneira pela qual a mensagem, com a ajuda de um desejo reprimido à espreita, remodelou-se numa realização de desejo; infelizmente, não é tão fácil demonstrar que se combinou com outros materiais que se tornaram ativos ao mesmo tempo, misturando-se com eles para formar um sonho. As mensagens telepáticas — se temos justificativa para reconhecer sua existência — não provocam assim alteração no processo de formação de um sonho; a telepatia nada tem a ver com a natureza dos sonhos. E, a fim de evitar a impressão de que estou tentando ocultar uma noção vaga por trás de palavras abstratas e bem sonantes, estou pronto a repetir: a natureza essencial dos sonhos consiste no processo peculiar da ‘elaboração onírica’, que, com o auxílio de um desejo inconsciente, transporta os pensamentos pré-conscientes (resíduos diurnos) para o conteúdo manifesto do sonho. O problema da telepatia interessa aos sonhos tanto quanto o problema da ansiedade.
Tenho esperanças de que irão pressupor isso; irão porém levantar a objeção de que, não obstante, existem outros sonhos telepáticos em que não há diferença entre o acontecimento e o sonho e nos quais nada mais se pode encontrar senão uma reprodução não deformada do evento. Em minha própria experiência, não tenho conhecimento desses sonhos, mas sei que foram muitas vezes comunicados. Se presumirmos a necessidade de lidarmos com um sonho telepático assim, indisfarçado e inadulterado, surgirá outra questão. Deveríamos chamar essa experiência telepática realmente de ‘sonho’? Certamente o farão enquanto se ativerem à praxe popular, segundo a qual tudo o que acontece na vida mental durante o sono é chamado de sonho. Vocês, também, talvez digam: ‘Agitei-me no sonho’ e ainda se acham menos conscientes de alguma incorreção quando falam: ‘Derramei lágrimas no sonho’ ou ‘Senti-me apreensivo no sonho’. Mas sem dúvida notarão que em todos esses casos estão empregando ‘sonho’, ‘sono’ e ‘estado de estar adormecido’ intercambiavelmente, como se não houvesse distinção entre eles. Penso que seria interessante para a precisão científica manter ‘sonho’ e ‘estado de sono’ mais distintamente separados. Por que deveríamos fornecer uma contrapartida à confusão evocada por Maeder que, por recusar-se a distinguir entre a elaboração onírica e os pensamentos oníricos latentes, descobriu uma nova função para os sonhos? Supondo-se, então, que somos colocados frente a frente com um ‘sonho’ telepático puro, denominemo-lo de preferência, em vez de ‘sonho’, de experiência telepática em um estado de sono. Um sonho sem condensação, deformação, dramatização e, acima de tudo, sem realização de desejo, certamente não merece esse nome. Recordar-me-ão de que, sendo assim, existem outros produtos mentais no sono a que o direito de serem chamados ‘sonhos’ teria de ser recusado. Experiências reais do dia são, às vezes, simplesmente repetidas no sono; reproduções de cenas traumáticas em ‘sonhos’ [ver em [1]] levaram-nos ainda ultimamente a revisar a teoria dos sonhos. Há sonhos que devem ser distinguidos do tipo habitual por certas qualidades especiais que, dizendo corretamente, nada mais são que fantasias noturnas, não havendo sofrido acréscimos ou alterações de espécie alguma e sendo, sob todos os outros aspectos, semelhantes aos familiares devaneios ou sonhos diurnos. Seria esquisito, sem dúvida, excluir essas estruturas do domínio dos ‘sonhos’. Entretanto, todas elas provêm de dentro, são produtos de nossa vida mental, ao passo que a própria concepção do sonho puramente ‘telepático’ reside em ser ele uma percepção de algo externo perante o qual a mente permanece passiva e receptiva.

II

O segundo caso que apresentarei à observação, na realidade segue outras linhas. Não se trata de um sonho telepático, mas de um sonho recorrente da infância em diante, em uma pessoa que teve muitas experiências telepáticas. A sua carta, que reproduzirei aqui, contém certas coisas notáveis a cujo respeito não podemos formar nenhum julgamento. Uma parte dela é de interesse quanto ao problema da relação da telepatia com os sonhos.

(1) ‘…Meu médico, Herr Dr. N., aconselha-me a fornecer-lhe um relato de um sonho que me perseguiu durante uns 30 ou 32 anos. Estou seguindo o conselho dele e talvez o sonho possa interessar ao senhor, sob algum aspecto científico. Desde que, em sua opinião, esses sonhos devem remontar sua origem a uma experiência de natureza sexual nos primeiros anos de minha infância, relato algumas reminiscências dela. São experiências cuja impressão em mim ainda persiste, e seu caráter foi tão acentuado que chegaram ao ponto de determinar minha religião.
‘Permita-me que lhe peça para notificar-me de que maneira o senhor explica esse sonho e se não será possível bani-lo de minha vida, porque ele me assombra com um fantasma e as circunstâncias que o acompanham — sempre caio da cama e já me infligi danos não pouco consideráveis — tornam-no particularmente desagradável e aflitivo.’
(2) ‘Tenho 37 anos de idade, sou muito forte e me encontro em boa saúde física, mas na infância tive, além de sarampo e escarlatina, uma crise de nefrite. Além disso, aos cinco anos de idade, tive uma inflamação muito grave nos olhos que me deixou com visão dupla. As imagens ficam em ângulo umas com as outras e seu contorno é enevoado, enquanto as cicatrizes das úlceras afetam a clareza da visão. Na opinião do especialista, não existe nada mais a ser feito e nenhuma possibilidade de melhora. O lado esquerdo de meu rosto é repuxado para cima, por ter de retesar o olho esquerdo para ver melhor. À força de prática e determinação, posso fazer os mais delicados trabalhos de agulha; e semelhantemente, quando ainda menina de seis anos, curei-me do estrabismo praticando em frente do espelho, de modo que hoje não existe sinal externo do defeito na visão.
‘Desde os meus primeiros anos fui sempre solitária. Mantinha-me separada das outras crianças e tinha visões (clarividência e clariaudição). Não era capaz de distingui-las da realidade e, conseqüentemente, amiúde me descobria em conflito com outras pessoas, em posições embaraçosas, do que resultou haver-me tornado uma pessoa muito reservada e tímida. Porque desde muito pequena já sabia muito mais do que poderia haver aprendido, simplesmente não entendia as crianças de minha própria idade. Eu mesma sou a mais velha de uma família de doze.
‘Dos seis aos dez anos freqüentei a escola paroquial e até os dezesseis o ginásio das Freiras Ursulinas em B —. Aos dez anos já havia aprendido tanto francês em quatro semanas e oito lições quanto as outras crianças aprendem em dois anos. Tinha apenas de praticar, falando. Era como se já o tivesse sabido e apenas esquecido. Nunca precisei aprender francês, em contraste com o inglês, que não me causou problemas, certamente, mas que eu desconhecia de antemão. Com o latim sucedeu-me como o francês e jamais o aprendi corretamente, conhecendo-o apenas do latim eclesiástico, o qual, contudo, é-me inteiramente familiar. Se hoje leio um livro em francês, passo de imediato a pensar em francês, ao passo que o mesmo jamais me ocorre com o inglês embora o domine melhor. Meus pais são gente do campo que, por gerações, nunca falaram outro idioma que o alemão e o polonês.
‘Visões. — Às vezes a realidade se desvanece por alguns momentos e vejo algo inteiramente diferente. Em minha casa, por exemplo, amiúde vejo um casal idoso e uma criança e a casa acha-se então diferentemente mobiliada. No sanatório, certa vez, uma amiga veio a meu quarto por volta das quatro da manhã; estava acordada, com a lâmpada acesa e sentada à mesa, lendo, porque sofro muito de insônia. A sua aparição sempre significa uma época penosa para mim, como o foi nessa ocasião.
‘Em 1914, meu irmão se encontrava no serviço ativo; eu não estava com meus pais em B —, mas em Ch —. Eram 10 da manhã de 22 de agosto quando ouvi a voz de meu irmão chamando: “Mãe! Mãe!” Aconteceu de novo dez minutos depois, mas nada vi. Em 24 de agosto voltei para casa e encontrei minha mãe muitíssimo deprimida; em resposta às minhas perguntas, disse-me que recebera uma mensagem do rapaz em 22 de agosto. Estivera no jardim pela manhã, quando o ouvira chamar: “Mãe! Mãe!” Acalmei-a e nada lhe disse sobre mim mesma. Três semanas depois chegou um cartão de meu irmão, escrito em 22 de agosto, entre 9 e 10 da manhã; logo após, ele morreu.
‘Em 27 de setembro de 1921, enquanto me achava no sanatório, recebi uma mensagem de algum tipo. Houve violentas batidas, duas ou três repetidas, na cama da paciente que dividia o quarto comigo. Estávamos ambas acordadas; perguntei-lhe se havia batido, porém ela nem mesmo ouvira coisa alguma. Oito semanas mais tarde soube que uma de minhas amigas havia morrido na noite de 26 para 27 de setembro.
‘Agora, algo que é encarado como uma alucinação, questão de opinião! Tenho uma amiga que se casou com um viúvo com cinco filhos; vim a conhecer o marido apenas através de minha amiga. Quase sempre quando ia visitá-la, via uma senhora entrando e saindo da casa. Era natural supor que se tratasse da primeira esposa do marido. Numa ocasião conveniente, pedi para ver um retrato dela, mas não pude identificar a aparição com a fotografia. Sete anos depois vi um retrato com as feições da senhora, pertencente a um dos filhos. Era realmente a primeira esposa. No retrato, ela parecia em muito boa saúde; acabara de fazer um tratamento para engordar e isso altera o aspecto de uma paciente tísica. Estes são apenas alguns exemplos entre muitos.
‘O sonho [recorrente]. — Vi uma língua de terra rodeada de água. As vagas eram impelidas para a frente e, depois, para trás, pelas ondas de rebentação. Nesse pedaço de terra erguia-se uma palmeira, um tanto torcida em direção da água. Uma mulher passara o braço em torno do caule da palmeira e se inclinava para a água, onde um homem tentava alcançar a praia. Por fim, ela deitou-se no solo, agarrou-se fortemente à palmeira com a mão esquerda e estendeu a mão direita tão longe quanto podia na direção do homem na água, mas sem alcançá-lo. Nesse ponto, caio da cama e acordo. Tinha aproximadamente 15 ou 16 anos de idade quando compreendi que essa mulher era eu própria e, a partir dessa época, não apenas experimentei todas as suas apreensões em relação ao homem, mas, às vezes, me detive lá, como uma terceira pessoa, olhando para a cena sem participar dela. Já tive esse sonho também em cenas separadas. Quando em mim despertou algum interesse pelos homens (dos 18 aos 20 anos de idade), tentei ver o rosto do homem, mas isso nunca foi possível. A espuma ocultava tudo, salvo sua nuca e a parte de trás da cabeça. Duas vezes estive noiva, mas, a julgar por sua cabeça e compleição, ele não era nenhum dos dois homens com quem fui comprometida. Certa vez, deitada no sanatório, sob a influência do paraldeído, vi o rosto do homem, o qual agora sempre vejo no sonho. Era o rosto do médico sob cujos cuidados me achava. Gostava dele como médico, mas não me sentia atraída por ele de nenhuma outra forma.
‘Lembranças. Seis a nove meses de idade. — Achava-me num carrinho de bebê. À minha direita estavam dois cavalos; um deles, de cor castanha, olhava-me muito atenta e expressivamente. Foi a minha mais vívida experiência; tive a impressão de tratar-se de um ser humano.
‘Um ano de idade. — Papai e eu no parque municipal, onde um guarda do parque estava pondo um passarinho em minha mão. Seus olhos fitaram os meus. Senti: “Essa é uma criatura como você.”
‘Animais sendo abatidos. — Quando ouvia os porcos gritando, sempre pedia socorro e gritava: “Você está matando uma pessoa!” (quatro anos de idade). Sempre me recusei a comer carne. A carne de porco invariavelmente me faz vomitar. Somente durante a guerra vim a comer carne e apenas contra a vontade; agora estou aprendendo a passar novamente sem ela.
‘Cinco anos de idade. — Minha mãe estava dando à luz e eu a ouvia gritar. Tive a sensação: “Há um ser humano ou um animal em grande aflição”, tal como tivera quando da matança dos porcos.
‘Em criança fui inteiramente indiferente aos assuntos sexuais; aos dez anos ainda não tinha concepção das ofensas contra a castidade. A menstruação apareceu aos doze anos. A mulher despertou pela primeira vez em mim aos vinte e seis, após haver dado vida a um filho; até essa ocasião (seis meses) constantemente tinha vômitos violentos após a relação. Isso também acontecia sempre que me achava de ânimo deprimido.
‘Tenho poderes de observação extraordinariamente agudos e uma audição excepcionalmente nítida, além de um sentido muito agudo do olfato. De olhos vendados, posso apontar pelo cheiro as pessoas que conheço entre um certo número de outras.
‘Não encaro meus poderes anormais de visão e audição como patológicos, mas atribuo-os a percepções mais refinadas e a uma maior rapidez de pensamento; porém só falei disso ao meu pastor e ao Dr. — (ao último, muito contra a vontade, pois receava que me dissesse serem qualidades negativas aquilo que eu encarava como qualidades positivas, e também porque, de tanto ser mal interpretada na infância, sou muito reservada e tímida).’
O sonho que a autora da carta nos pede para interpretar não é difícil de compreender. Trata-se de um sonho de resgatar das águas, um sonho típico de nascimento. A linguagem do simbolismo, como estão cientes, não conhece gramática; é um caso extremo de uma linguagem de infinitivos e mesmo o ativo e o passivo são representados por uma só e mesma imagem. Se, num sonho, uma mulher puxa (ou tenta puxar) um homem para fora das águas, isso pode significar que deseja ser sua mãe (toma-o por filho, como a filha do Faraó fez com Moisés) ou pode significar seu desejo de que ele a transforme em mãe: quer ter um filho dele, o qual, como semelhança dele, possa ser seu equivalente. O caule a que a mulher se aferrava, facilmente se identifica como um símbolo fálico, ainda que não esteja ereto, mas inclinado no sentido da superfície das águas — no sonho, a palavra é ‘torcido’. A arremetida e o recuo das ondas de rebentação trouxe à mente de outra pessoa que relatava um sonho semelhante, uma comparação com as dores intermitentes do trabalho de parto, e ao perguntar-lhe, sabendo que ela ainda não havia tido um filho, como sabia dessa característica do trabalho de parto, respondeu que o imaginava como uma espécie de cólica — psicologicamente, uma descrição inteiramente impecável. Forneceu a associação ‘As Vagas do Mar e do Amor’. O modo como a nossa presente sonhadora, em idade tão precoce, possa ter chegado aos mais refinados detalhes do simbolismo — língua de terra, palmeira —, acho-me naturalmente incapaz de dizê-lo. Não devemos, ademais, desprezar o fato de que, quando as pessoas asseveram serem há anos perseguidas pelo mesmo sonho, acontece com freqüência que o conteúdo manifesto não é inteiramente o mesmo. Somente o âmago do sonho é que recorreu a cada vez; os pormenores do conteúdo são alterados ou acréscimos lhe são efetuados.
Ao final do sonho, que se acha claramente eivado de ansiedade, ela cai do leito. Esta é uma nova representação do nascimento. A investigação analítica do medo às alturas, do temor do impulso de arrojar-se de uma janela, sem dúvida conduziram, todos, à mesma conclusão.
Quem é o homem, de quem aquela que sonhou deseja ter um filho ou de cuja semelhança gostaria de ser a mãe? Freqüentemente tentou ver-lhe o rosto, mas o sonho jamais lhe permitiu isso; o homem tinha de permanecer incógnito. Sabemos de incontáveis análises o que significa esse ocultamento e a conclusão que basearíamos na analogia é certificada por outra afirmativa da sonhadora. Sob a influência do paraldeído, reconheceu certa vez o rosto do homem do sonho como o rosto do médico do hospital que a estava tratando e que nada significava para sua vida emocional consciente. O original, assim, nunca divulgou sua identidade, mas essa sua impressão em ‘transferência’ estabeleceu a conclusão de que anteriormente deve ter sido sempre o seu pai. Ferenczi [1917] está perfeitamente certo ao apontar que esses ‘sonhos do insuspeitante’ constituem valiosas fontes de informações, confirmando as conjecturas da análise. Aquela que sonhou era a mais velha de doze filhos; quantas vezes não deve ter sofrido as dores do ciúme e do desapontamento, quando não era ela, e sim a mãe, que conseguia do pai o filho por que ansiava!
A sonhadora muito corretamente imaginou que suas primeiras lembranças da infância seriam valiosas para a interpretação de seu sonho precoce e recorrente. Na primeira cena, antes de contar um ano de idade, enquanto estava sentada em seu carrinho, viu dois cavalos a seu lado, um deles olhando para ela. Descreve-o como sendo sua mais vívida experiência; teve a impressão de tratar-se de um ser humano. É um sentimento que só podemos compreender se presumirmos que os dois cavalos representavam, neste caso, como é tão freqüente, um casal: o pai e a mãe. Foi, por assim dizer, um vislumbre de totemismo infantil. Se pudéssemos, perguntaríamos à autora se o cavalo castanho que a olhava tão humanamente não poderia ser identificado, pela cor, com seu pai. A segunda recordação estava associativamente vinculada à primeira mediante o mesmo olhar ‘compreensivo’. Tomar o passarinho na mão, contudo, recorda ao analista, que possui opiniões preconcebidas próprias, de um aspecto no sonho em que a mão da mulher estava em contato com outro símbolo fálico.
As duas lembranças seguintes são da mesma categoria e impõem exigências ainda mais fáceis ao intérprete. A mãe a gritar durante o parto recordou diretamente a filha dos porcos guinchando ao serem abatidos e levou-a no mesmo frenesi de piedade. Podemos, entretanto, também conjecturar que isso constituía uma relação violenta contra um irado desejo de morte dirigido contra a mãe.
Com tais indicações de ternura pelo pai, de contato com os órgãos genitais dele e de desejos de morte contra a mãe, fica esboçado o delineamento do complexo de Édipo feminino. A longa conservação de sua ignorância sobre assuntos sexuais e sua frigidez em um período posterior corroboram essas suposições. A autora da carta tornou-se em potencial (e, sem dúvida, realmente, por vezes) uma neurótica histérica. Para sua própria felicidade, as forças da vida carregaram-na consigo. Despertaram nela os sentimentos sexuais de mulher e trouxeram-lhe as alegrias da maternidade e a capacidade de trabalhar. Uma parte de sua libido, porém, ainda se aferra a seus pontos de fixação na infância; ela ainda tem o sonho que a arroja para fora do leito e a pune por sua escolha incestuosa de objeto com ‘danos de não pequena monta’.
E agora se espera que uma explicação, dada por escrito por um médico que é um estranho para ela, realize o que todas as experiências mais importantes de sua vida posterior não puderam fazer! Provavelmente uma análise regular, prosseguida durante um tempo considerável, obteria êxito no caso. Pelas coisas como sucederam, fui obrigado a contentar-me com escrever-lhe que estava convencido de que ela sofria dos efeitos ulteriores de um forte vínculo emocional ligando-a ao pai e de uma correspondente identificação com a mãe, mas que não esperava que essa explicação a ajudasse. As curas espontâneas das neuroses geralmente deixam atrás de si cicatrizes e estas se tornam novamente doloridas de tempos em tempos. Ficamos muito orgulhosos de nossa arte se conseguimos uma cura pela psicanálise, mas ainda nesse ponto nem sempre podemos impedir a formação de uma dolorosa cicatriz como resultado.
A pequena série de reminiscências deve prender um pouco mais a nossa atenção. Afirmei noutra parte que essas cenas de infância constituem ‘lembranças encobridoras’, selecionadas num período posterior, reunidas e não infreqüentemente falsificadas no processo. Esse remodelamento subseqüente serve a um fim às vezes fácil de adivinhar. Em nosso caso, quase se pode ouvir o ego da autora a glorificar-se ou acalmar-se por meio dessa série de recordações: ‘Fui desde a infância uma criatura nobre e compassiva. Aprendi muito cedo que os animais têm alma como nós e não podia suportar a crueldade para com eles. Os pecados da carne achavam-se longe de mim e conservei minha castidade até bem tarde na vida.’ Com declarações como essas ela se encontrava contradizendo em voz alta as inferências que temos de fazer sobre sua primeira infância, com base em nossa experiência analítica; ou seja, que ela tinha em abundância impulsos sexuais prematuros e violentos sentimentos de ódio pela mãe e pelos irmãos e irmãs mais moços. (Ao lado da significação genital que acabei de lhe atribuir, o passarinho pode ser também o símbolo de uma criança, como todos os animais pequenos; sua recordação, assim acentuava com muita insistência o fato de ter essa pequena criatura o mesmo direito de existir que ela própria.) Conseqüentemente, a curta série de recordações fornece um exemplo muito bom de uma estrutura mental com um duplo aspecto. Vista superficialmente, podemos encontrar nela a expressão de uma idéia abstrata, aqui como de praxe com uma referência ética. Na nomenclatura de Silberer, a estrutura possui um conteúdo anagógico. Com uma investigação mais profunda ela se revela como uma cadeia de fenômenos pertinentes à região da vida reprimida dos instintos: apresenta o seu conteúdo psicanalítico. Como sabem, Silberer, um dos primeiros a advertir-nos para não perder de vista o lado mais nobre da alma humana, apresentou a opinião de que todos, ou quase todos, os sonhos permitem tal interpretação dupla, uma mais pura, anagógica, ao lado da ignóbil, psicanalítica. Entretanto, isso infelizmente não é assim. Pelo contrário, uma supra-interpretação desse tipo raramente é possível. Pelo que eu saiba, nenhum exemplo válido de tal análise onírica com duplo sentido foi publicado até o presente, porém observações dessa espécie podem amiúde ser feitas sobre a série de associações produzidas por nossos pacientes durante o tratamento analítico. Por um lado, as idéias sucessivas são ligadas por uma linha de associação que é clara para os olhos, ao passo que, por outro, damo-nos conta de um tema subjacente que é mantido em segredo, porém ao mesmo tempo desempenhando um papel em todas essas idéias. O contraste entre os dois temas que regem a mesma série de idéias nem sempre é o existente entre o altaneiro anagógico e o reles psicanalítico; é, antes, um contraste entre idéias ofensivas e idéias respeitáveis ou indiferentes, fato que facilmente explica por que surge essa cadeia de associações com determinação dupla. Em nosso presente exemplo, naturalmente não é acidental que as interpretações anagógica e psicanalítica estejam em contraste tão nítido uma com a outra; ambas se relacionam ao mesmo material e a última tendência não era outra senão a das formações reativas, erguidas contra os impulsos instintuais repudiados.
Aliás, por que procurarmos uma interpretação psicanalítica em vez de contentar-nos com a anagógica, mais acessível? A resposta está vinculada a muitos outros problemas — à existência em geral da neurose e às explicações que ela inevitavelmente exige —, ao fato de que a virtude não recompensa um homem com tanta alegria e força na vida como seria de esperar, como se trouxesse consigo muito de sua origem (aquela que sonhou, do mesmo modo, não fora recompensada por sua virtude), e vinculada a outras coisas que não preciso debater perante esta assistência.
Até aqui, contudo, negligenciamos completamente a questão da telepatia, o outro ponto de interesse para nós, neste caso; é, pois, hora de retornarmos a ele. Em certo sentido temos aqui uma tarefa mais fácil do que no caso de Herr H. Com uma pessoa que tão fácil e precocemente na vida perdeu o contato com a realidade e a substituiu pelo mundo da fantasia, é irresistível a tentação de vincular suas experiências telepáticas e ‘visões’ à sua neurose e derivá-las dela, embora aqui também não devemos permitir-nos ser enganados quanto à força lógica de nossos próprios argumentos. Estaremos simplesmente substituindo o que é desconhecido e ininteligível por possibilidades que, pelo menos, são compreensíveis.
Em 22 de agosto de 1914, às 10 horas da manhã, nossa correspondente experimentou a impressão telepática de que seu irmão, na ocasião em serviço ativo, estava chamando: ‘Mamãe! Mamãe!’ O fenômeno foi puramente acústico e repetiu-se pouco depois, mas nada foi visto. Dois dias mais tarde, encontrou a mãe e achou-a muito deprimida, porque o rapaz se lhe anunciara com um repetido chamado de ‘Mamãe! Mamãe!’ Ela imediatamente lembrou-se da mesma mensagem telepática que experimentara no mesmo tempo e, na realidade, algumas semanas depois, foi estabelecido que o jovem soldado morrera naquele dia, na hora mencionada.
Não se pode provar, mas também não se pode refutar, que, em vez disso, o que ocorreu foi o seguinte: Certo dia a mãe lhe dissera que o filho lhe enviara uma mensagem telepática, em conseqüência do que imediatamente lhe ocorrera no espírito haver tido a mesma experiência, na mesma ocasião. Tais ilusões da memória surgem na mente com uma força constrangedora que haurem de fontes reais, mas transformam a realidade psíquica em realidade material. A força da ilusão reside em constituir ela uma maneira excelente de expressar a inclinação da irmã a identificar-se com a mãe: ‘A senhora está ansiosa sobre o rapaz, mas eu sou a mãe dele realmente e seu grito se dirigia a mim; fui eu que recebi essa mensagem telepática.’ A irmã, naturalmente, rejeitaria firmemente nossa tentativa de explicação e aferrar-se-ia à crença na autenticidade de sua experiência. Não poderia, contudo, agir de outra forma. Estaria fadada a acreditar na realidade do efeito patológico enquanto a realidade de suas premissas inconscientes lhe fosse desconhecida. Todos os delírios semelhantes derivam sua força e seu caráter inexpugnável do fato de possuírem fonte na realidade psíquica inconsciente. Observo de passagem que não nos cumpre explicar aqui a experiência da mãe ou investigar sua autenticidade.
O irmão morto contudo não era apenas o filho imaginário de nossa correspondente; representava também um rival a quem havia encarado com ódio desde o dia de seu nascimento. Procede amplamente o fato de que a maioria de todas as notificações telepáticas se relacionam com a morte ou com a possibilidade de morte; quando pacientes em análise se detêm contando-nos da freqüência e da infalibilidade de suas sombrias previsões, podemos com igual regularidade demonstrar-lhes que estão nutrindo desejos de morte particularmente intensos em seus inconscientes contra suas relações mais chegadas e, assim, estiveram por muito tempo suprimindo-as. O paciente cuja história relatei em 1909 foi um exemplo apropriado desse aspecto: era chamado de ‘abutre’ por suas relações. Mas quando esse homem bondoso e altamente inteligente — que já pereceu na guerra — começou a fazer progressos no sentido da recuperação, forneceu-me ele uma assistência considerável no esclarecimento de seus próprios truques psicológicos conjurativos. Da mesma maneira, parece prescindir de outra explicação o relato fornecido pela carta de nosso primeiro correspondente, de como ele e os irmãos haviam recebido a notícia da morte do irmão mais novo como algo de que há muito tempo estiveram interiormente cônscios [ver em [1]]. Todos os irmãos mais velhos teriam estado igualmente convencidos da superfluidade da chegada do mais jovem.
Eis outra das ‘visões’ daquela que sonhou, que provavelmente se tornará mais inteligível à luz do conhecimento analítico. As amigas obviamente tinham grande significação em sua vida emocional. Ainda há pouco a morte de uma delas lhe foi transmitida por uma batida, à noite, na cama de uma companheira de quarto no sanatório. Outra amiga, muitos anos antes, casara-se com um viúvo com muitos (cinco) filhos. Por ocasião de suas visitas à casa deles ela via regularmente a aparição de uma senhora, que não podia deixar de supor que fosse a primeira esposa do marido. Isso não permitiu a princípio confirmação e só virou certeza para ela sete anos mais tarde, quando da descoberta de uma fotografia recente da falecida. Essa realização à guisa de uma visão por parte de nossa correspondente tinha a mesma dependência íntima dos complexos familiares que nos são conhecidos, que o seu pressentimento da morte do irmão. Identificando-se com a amiga, podia, na pessoa desta, encontrar a realização de seus próprios desejos, de vez que toda filha mais velha de uma família numerosa constrói em seu inconsciente a fantasia de tornar-se a segunda esposa do pai, com a morte da mãe. Se esta está enferma ou morre, a filha mais velha assume naturalmente seu lugar em relação aos irmãos e irmãs mais novos e pode mesmo assumir certa parte das funções da esposa, com respeito ao pai. O desejo inconsciente preenche a outra parte.
Encontro-me agora quase ao final do que desejo dizer. Poderia, contudo, acrescentar a observação de que os exemplos de mensagens ou produções telepáticas aqui estudados estão claramente vinculados a emoções pertinentes à esfera do complexo de Édipo. Isso pode soar como espantoso, contudo não pretendo apresentá-lo como uma grande descoberta. Preferiria remeter-me ao resultado a que chegamos pela investigação do sonho que considerei em primeiro lugar. A telepatia não possui relação com a natureza essencial dos sonhos e não pode em absoluto aprofundar o que já compreendemos deles através da análise. Por outro lado, a psicanálise pode realizar algo para fazer avançar o estudo da telepatia, na medida em que, com auxílio de suas interpretações, muitas das enigmáticas características dos fenômenos telepáticos podem tornar-se mais inteligíveis para nós; ou então outros fenômenos, ainda duvidosos, podem, pela primeira vez e definitivamente, ser confirmados como de natureza telepática.
Resta apenas um elemento da vinculação aparentemente íntima entre a telepatia e os sonhos, não influenciado por nenhuma dessas considerações: o fato incontestável de o sono criar condições favoráveis à telepatia. O sono, na verdade, não é indispensável à ocorrência de processos telepáticos, originem-se eles de mensagens ou da atividade inconsciente. Se ainda não sabem, aprendê-lo-ão do exemplo dado por nossa segunda correspondente, da mensagem do jovem que chegou entre as 9 e as 10 da manhã. Deve-se acrescentar, contudo, que ninguém tem o direito de protestar contra as ocorrências telepáticas se o evento e a notificação (ou mensagem) não coincidem exatamente em tempo astronômico. É perfeitamente concebível uma mensagem telepática poder chegar contemporaneamente ao evento e, contudo, só penetrar na consciência na noite seguinte, durante o sono (ou, mesmo na vida desperta, somente após algum tempo, durante alguma pausa na atividade da mente). Como sabem, somos de opinião que a própria formação onírica não espera necessariamente o início do sono para começar. Repetidamente os pensamentos oníricos latentes podem ter estado preparando-se durante todo o dia, até que, à noite, processam o contato com o desejo inconsciente que os modela em um sonho. Mas, se o problema da telepatia é apenas uma atividade da mente inconsciente, então, naturalmente nenhum problema novo se nos apresenta. Pode-se, assim, pressupor que as leis da vida mental inconsciente se aplicam à telepatia.
Dei-lhes porventura a impressão de que estou secretamente inclinado a apoiar a realidade da telepatia no sentido do oculto? Se for assim, lamentaria muito que seja tão difícil evitar dar essa impressão. Isso porque, na realidade, estive ansioso por ser estritamente imparcial. Tenho todas as razões para sê-lo, visto não possuir opinião sobre o assunto e nada conhecer a seu respeito.



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