MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES | JUNG

| segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.
Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a
personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas
condições inconscientes e experimentar-se como totalidade. A
fim de descrever esse desenvolvimento, tal como se processou
em mim, não posso servir-me da linguagem científica; não
posso me experimentar como um problema científico.
O que se é, mediante uma intuição interior e o que o
homem parece ser sub specie aeternitatis só pode ser expresso
através de um mito. Este último é mais individual e exprime a
vida mais exatamente do que o faz a ciência, que trabalha com
noções médias, genéricas demais para poder dar uma idéia justa
da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual.
Assim, pois, comecei agora, aos oitenta e três anos, a
contar o mito da minha vida. No entanto, posso fazer apenas
constatações imediatas, contar histórias.
PRÓLOGO

Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.
Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a
personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas
condições inconscientes e experimentar-se como totalidade. A
fim de descrever esse desenvolvimento, tal como se processou
em mim, não posso servir-me da linguagem científica; não
posso me experimentar como um problema científico.
O que se é, mediante uma intuição interior e o que o
homem parece ser sub specie aeternitatis só pode ser expresso
através de um mito. Este último é mais individual e exprime a
vida mais exatamente do que o faz a ciência, que trabalha com
noções médias, genéricas demais para poder dar uma idéia justa
da riqueza múltipla e subjetiva de uma vida individual.
Assim, pois, comecei agora, aos oitenta e três anos, a
contar o mito da minha vida. No entanto, posso fazer apenas
constatações imediatas, contar histórias. Mas o problema não é
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saber se são verdadeiras ou não. O problema é somente este: é a
minha aventura a minha verdade?
Quando se escreve uma autobiografia, não se dispõe de
qualquer medida, de qualquer base objetiva a partir da qual se
possa chegar a um julgamento. Não há possibilidade de uma
comparação exata. Sei que em muitos pontos não sou
semelhante aos outros homens e no entanto ignoro o que
realmente sou. Impossível comparar o homem a qualquer outra
coisa: ele não é macaco, nem boi, nem árvore! Sou um homem.
Mas o que isto significa? Como todos os outros entes também
fui separado da divindade infinita, mas não posso confrontarme
com nenhum animal, com nenhuma planta ou pedra. Só
uma entidade mítica pode ultrapassar o homem. Como formar
então sobre si mesmo uma opinião definitiva?
Cada vida é um desencadeamento psíquico que não se
pode dominar a não ser parcialmente. Por conseguinte, é muito
dificil estabelecer um julgamento definitivo sobre si mesmo ou
sobre a própria vida. Caso contrário, conheceríamos tudo sobre
o assunto, o que é totalmente impossível. Em última análise:
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nunca se sabe como as coisas acontecem. A história de uma
vida começa num dado lugar, num ponto qualquer de que se
guardou a lembrança e já, então, tudo era extremamente
complicado. O que se tornará essa vida, ninguém sabe. Por isso
a história é sem começo e o fim é apenas aproximadamente
indicado.
A vida do homem é uma tentativa aleatória. Ela só é um
fenômeno monstruoso.'Por causa de seus números e de sua
exuberância. É tão fugitiva, tão imperfeita, que a existência de seres
e seu desenvolvimento parece um prodígio. Isto já me
impressionava quando era ainda um jovem estudante de medicina
e julgava um milagre o fato de não ser destruído antes da minha
hora.
A vida sempre se me afigurou uma planta que extrai sua vitalidade
do rizoma; a vida propriamente dita não é visível, pois jaz
no rizoma. O que se torna visível sobre a terra dura um só verão,
depois fenece... Aparição efêmera. Quando se pensa no futuro e
no desaparecimento infinito da vida e das culturas, não podemos
nos furtar a uma impressão de total futilidade; mas nunca perdi o
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sentimento da perenidade da vida sob a eterna mudança. O que
vemos é a floração – e ela desaparece. Mas o rizoma persiste.
Em última análise, só me parecem dignos de ser narrados os
acontecimentos da minha vida através dos quais o mundo eterno
irrompeu no mundo efêmero. Por isso falo principalmente das experiências
interiores. Entre elas figuram meus sonhos e fantasias,
que constituíram a matéria original de meu trabalho científico.
Foram como que uma lava ardente e líquida a partir da qual se
cristalizou a rocha que eu devia talhar.
Diante dos acontecimentos interiores, as outras lembranças
empalidecem: viagens, relações humanas, ambiente. Muitos
conheceram a história do nosso tempo e sobre ela escreveram: será
melhor buscá-la em seus escritos, ou então ouvir o seu relato. A
lembrança dos fatos exteriores de minha vida, em sua maior parte,
esfumou-se em meu espírito ou então desapareceu. Mas os
encontros com a outra realidade, o embate com o inconsciente, se
impregnaram de maneira indelével em minha memória. Nessa
região sempre houve abundância e riqueza; o restante ocupava o
segundo plano.
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Assim também os seres tornaram-se para mim lembranças
imperecíveis na medida em que seus nomes sempre estiveram
inscritos no livro do meu destino: conhecê-los equivalia a um
relembrar-me.
Mesmo aquilo que em minha juventude, ou mais tarde, veio
do exterior, ganhou importância, estava colocado sob o signo da
vivência interior. Muito cedo cheguei à convicção de que as
respostas e as soluções das complicações da vida não vêm do
íntimo, isto quer dizer que pouco significam. As circunstâncias
exteriores não podem substituir as de ordem interior. Eis porque
minha vida foi pobre em acontecimentos exteriores. Não me
estenderei sobre eles, pois isto me pareceria vazio e imponderável.
Só posso compreender-me através das ocorrências interiores. São
aquelas que constituem a particularidade da minha vida e é delas
que trata minha “autobiografia”.
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VISÕES
No início de 1944 fraturei um pé e logo depois tive um
enfarte cardíaco. Durante a inconsciência tive delírios e visões
que provavelmente começaram quando, em perigo de morte,
administraram-me oxigênio e cânfora. As imagens eram tão
violentas que eu próprio concluí que estava prestes a morrer.
Disse-me minha enfermeira.mais tarde: “O senhor estava como
que envolvido por um halo luminoso.” É um fenômeno que ela
observara às vezes nos agonizantes. Eu tinha atingido o limite
extremo e não sei se era sonho ou êxtase. Seja o que for,
aconteceram coisas muito estranhas.
Parecia-me estar muito alto no espaço cósmico. Muito ao
longe, abaixo de mim, eu via o globo terrestre banhado por uma
maravilhosa luz azul. Via também o mar de um azul intenso e
os continentes. Justamente sob os meus pés estava o Ceilão e na
minha frente estendia-se o subcontinente indiano. Meu campo
visual não abarcava toda a Terra, mas sua forma esférica era
nitidamente perceptível e seus contornos brilhavam como prata
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através da maravilhosa luz azul. Em certas regiões, a esfera
terrestre parecia colorida ou marchetada de um verde escuro
como prata oxidada. Bem longe, à esquerda, uma larga extensão
– o deserto vermelho-alaranjado da Arábia. Era como se ali a
prata tivesse tomado uma tonalidade alaranjada. Adiante o Mar
Vermelho e mais além, como no ângulo superior esquerdo de
um mapa, pude ainda perceber uma nesga do Mediterrâneo.
Meu olhar voltarase sobretudo para essa direção, ficando o
restante impreciso. Evidentemente via também os cumes
nevados do Himalaia, mas cercados de brumas e nuvens. Não
olhava “à direita”. Sabia que estava prestes a deixar a Terra.
Mais tarde informei-me de que distância dever-se-ia estar
da Terra para abarcar tal amplidão: cerca de mil e quinhentos
quilômetros! O espetáculo da Terra visto dessa altura foi a
experiência mais feérica e maravilhosa da minha vida.
Após um momento de contemplação eu me voltei.
Postara-me, por assim dizer, dando as costas ao Oceano indico
com o rosto voltado para o norte. Parecia-me agora virar em
direção ao sul. Algo de novo surgiu no meu campo visual. A
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uma pequena distância percebi no espaço um enorme bloco de
pedra, escuro como um meteorito, quase do tamanho de minha
casa, talvez um pouco maior. A pedra flutuava no espaço e eu
também.
Vi pedras semelhantes nas costas do Golfo de Bengala. São
blocos de granito marrom escuro, nos quais às vezes se escavavam
templos. Minha pedra era também um desses escuros e gigantescos
blocos. Uma entrada dava acesso a um pequeno vestíbulo; à
direita, sobre um banco de pedra estava sentado na posição de
lótus, completamente distendido e repousado, um hindu de pele
bronzeada vestido de branco. Esperava-me sem dizer uma
palavra. Dois degraus conduziam a esse vestíbulo: no interior, à
esquerda, abria-se o portal do templo. Vários nichos cheios de
óleo de coco em que ardiam mechas cercavam a porta de uma
coroa de pequenas chamas claras. Isso eu realmente vira em
Kandy na ilha do Ceilão, quando visitava o templo do Dente
Sagrado; inúmeras fileiras de lâmpadas a óleo cercavam a
entrada dele.
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Quando me aproximei dos degraus pelos quais se chegava ao
rochedo, ocorreu-me algo estranho: tudo o que tinha sido até
então se afastava de mim. Tudo o que eu acreditava, desejava ou
pensava, toda a fantasmagoria da existência terrestre se desligava
de mim ou me era arrancada – processo extremamente doloroso.
Entretanto alguma coisa subsistia, porque me parecia então ter ao
meu lado tudo o que vivera ou fizera, tudo o que se tinha
desenrolado a minha volta. Poderia da mesma maneira dizer:
estava perto de mim, e eu estava lá; tudo isso, de certa forma, me
compunha. Eu era feito de minha história e tinha a certeza de que
era bem eu. “Eu sou o feixe daquilo que se cumpriu e daquilo que
foi”. Esta experiência me deu a impressão de uma extrema
pobreza, mas ao mesmo tempo de uma extrema satisfação. Não
tinha mais nada a querer nem a desejar; poder-se-ia dizer que eu
era objetivo; era aquilo que tinha vivido. No princípio, dominava o
sentimento de aniquilamento, de ser roubado ou despojado;
depois, isso também desapareceu. Tudo parecia ter passado; o que
restava era um fato consumado sem nenhuma referência ao que
tinha sido antes. Nenhum pesar de que alguma coisa se perdesse
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ou fosse arrebatada. Ao contrário: eu tinha tudo o que era e tinha
apenas isso.
Tive ainda uma outra preocupação: enquanto me aproximava
do templo, estava certo de chegar a um lugar iluminado e de aí
encontrar o grupo de seres humanos aos quais na realidade
pertenço. Então finalmente compreenderia – isso também era para
mim uma certeza – em que relação histórica me alinhava,.eu ou
minha vida. Eu saberia o que houvera antes de mim, porque me
tornara o que sou e para o que minha vida tenderia. Minha vida
vivida me apareceu freqüentemente como uma história sem
começo nem fim. Tinha o sentimento de ser uma perícope
histórica, um fragmento ao qual faltasse o que o precede e o que se
segue. Minha vida parecia ter sido cortada por uma tesoura numa
longa corrente e na qual muitas perguntas tinham ficado sem
resposta. Por que aconteceu isso? Por que trouxera comigo tais
condições prévias? Que fizera eu dela? O que dela resultaria? Eu
tinha certeza de que receberia uma resposta a todas essas
perguntas, assim que penetrasse no templo da pedra. Aí
compreenderia porque tudo fora assim e não de outra maneira. Eu
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me aproximaria de pessoas que saberiam responder à minha
pergunta sobre o antes e o depois.
Enquanto pensava nessas coisas, um fato atraiu minha
atenção:, de baixo da Europa, ergueu-se uma imagem: era meie
médico, ou melhor sua imagem, circundada por uma corrente
de ouro ou por uma coroa de louros dourada. Pensei
imediatamente: “Ora veja! é o médico que me assistiu! Mas
agora aparece em sua forma primeira, como um Basileus de Cos.l
Durante sua vida fora um avatar desse Basileus, a encarnação
temporal da forma primeira, que existe desde sempre. Ei-lo
agora em sua forma original.
Sem dúvida eu também estava na minha forma primeira.
Não cheguei a percebê-lo, somente imagino que deva ter sido
assim. Quando ele chegou diante de mim, pairando como uma
imagem nascida das profundezas, produziu-se entre nós uma
silenciosa transmissão de pensamentos. Realmente meu médico
fora delegado pela Terra para trazer-me uma mensagem:
protestavam contra a minha partida. Não tinha o direito de
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deixar a Terra e devia retornar. No momento em que percebi
essa mensagem a visão desapareceu.
Decepcionei-me profundamente; tudo parecia ter sido em
vão. O doloroso processo de “desfolhamento” tinha sido inútil:
não me fora permitido entrar no templo, nem encontrar os
homens entre os quais tinha o meu lugar.
Na realidade passaram-se ainda três semanas antes que me
decidisse a viver; não podia alimentar-me, tinha aversão pelos
alimentos. O espetáculo da cidade e das montanhas que via do
meu leito de enfermo parecia uma cortina pintada com furos
negros ou uma folha de jornal rasgada com fotografias que nada
me diziam. Decepcionado, pensava: “Agora é preciso voltar
`para dentro das caixinhas!'.” Parecia, com efeito, que atrás do
horizonte cósmico haviam construído artificialmente um
mundo de três dimensões no qual cada ser humano ocupava
uma caixinha. E de agora em diante deveria de novo convencerme
que viver nesse mundo tinha algum valor! A vida e o mundo
inteiro se me afiguravam uma prisão e era imensamente irritante
pensar que encontraria tudo na mesma ordem. Apenas exCARL
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perimentara a alegria de estar despojado de tudo e eis que de
novo me sentia – como todos os outros homens – preso por
fios dentro de uma caixinha. Quando estava no espaço não
tinha peso e nada podia me atrair. E agora, tudo terminado!
Sentia resistência contra meu médico porque ele me reconduzira
à vida. Por outro lado, inquietavarime por ele: “Por Deus, ele
está ameaçado! Não me apareceu sob a forma primeira? Quando
alguém chega a essa forma é que está para morrer e desde então
pertence à sociedade de “seus verdadeiros semelhantes”.
Repentinamente tive o terrível pensamento de que ele deveria
morrer – no meu lugar! Procurei fazê-lo entender da melhor
maneira, mas não me compreendeu. Então me aborreci. “Por
que finge ignorar que é um Basileus de Cos e que já reencontrou a
sua forma primeira? Quer-me fazer acreditar que não sabe?” Isso
me irritava. Minha mulher reprovou a falta de amabilidade que
eu demonstrava em relação a ele. Ela tinha razão, mas ele me
contrariava, recusandome a falar de tudo o que vivêramos em
minha visão. “Deus meu, é preciso que ele preste atenção! Não
pode ficar tão despreocupado assim. Gostaria de falar-lhe a fim
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de que tomasse cuidado consigo”. Era minha firme convicção de
que ele estava em perigo porque eu o vira em sua forma original.
E, com efeito, fui seu último paciente. Em 4 de abril de
1944 – sei ainda exatamente a data – fui autorizado pela primeira
vez a sentar-me à beira da cama e neste mesmo dia ele se deitou
para não mais levantar. Soube que tivera um acesso de febre.
Pouco depois morreu de septicemia. Era um bom médico; tinha
algo de gênio, senão não teria aparecido sob os traços do
príncipe de Cos.
Durante essas semanas o ritmo de minha vida foi estranho.
Durante o dia sentia-me freqüentemente deprimido, miserável e
fraco e ousava com dificuldade fazer um movimento;
melancolicamente pensava: “Agora preciso voltar a este mundo
cinzento”. De tarde, adormecia e o sono durava até perto de
meia-noite. Então acordava e ficava desperto, talvez uma hora,
mas num estado muito particular. Ficava como que num êxtase
ou numa grande beatitude. Sentia-me pairando no espaço como
que abrigado no meio do universo, num vazio imenso, embora
pleno do maior sentimento de felicidade possível. Era a
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beatitude eterna; não se pode descrevê-la, é extraordinariamente
maravilhosa, eu pensava.
Os que me cercavam também pareciam encantados. A essa
hora da noite, a enfermeira tinha o hábito de esquentar minha
refeição, porque somente então podia tomar algum alimento e
comer com apetite. Durante certo tempo pareceu-me que a
enfermeira era uma velha judia, muito mais velha do que na
realidade, e que preparava pratos rituais. Quando a olhava,
acreditava ver uma halo azul em torno de sua cabeça. Eu próprio
me encontrava nos Pardes Rimmonim, o jardim das romãs, e aí se
celebrava o casamento de Tiphereth com Malchuth. Ou então
era como se eu fosse o rabino Simão ben Yochai, cujas bodas
eram celebradas no além. Era o casamento místico tal como
aparecia nas representações da tradição cabalística. Não poderia
dizer o quanto tudo isso era maravilhoso. Eu não deixava de
pensar: “É o jardim das romãs! É o casamento de Malchuth com
Tiphereth!” Não sei exatamente que papel eu desempenhava na
celebração. No fundo, tratava-se de mim mesmo: eu era o
casamento, e minha beatitude era a de um casamento feliz.
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Pouco a pouco a visão do jardim das romãs se dissipou e se
transformou. A essa visão se sucedeu o “casamento do
cordeiro”, numa Jerusalém pomposamente ornamentada. Sou
incapaz de descrever os
pormenores. Eram inefáveis estados de beatitude com
anjos eduzes. E eu próprio era o “casamento do cordeiro”. Isso
também se dissipou e deu lugar a uma última visão. Eu seguia
um largo vale até ao fundo, aos pés de uma suave cadeia de
colinas; o vale terminava num anfiteatro antigo que se situava,
admiravelmente, na paisagem verdejante. E neste teatro
desenrolava-se o Meros gamos (matrimônio sagrado): dançarinos e
dançarinas apareceram e, sobre um leito ornado de flores, Zeus-
Pai do universo e Hera consumavam o Meros gansos tal como
está descrito na Ilíada.
Todas essas visões eram magníficas. Eu estava mergulhado,
noite após noite, na mais pura beatitude, “no meio das imagens
de toda a criação”. Pouco a pouco, os motivos se misturavam e
empalideciam. Comumente as visões duravam aproximadamente
uma hora, depois tornava a dormir e logo de manhã sentia: “De
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novo uma manhã cinzenta! Volta o mundo sem cor com seu
sistema de alvéolos. Que estupidez! Que terrível loucura!” Esses
estados interiores eram tão fantásticos que o mundo se me
afigurava risível. À medida que retornava à vida, exatamente três
semanas após a primeira visão, esses estados visionários
cessaram completamente.
É impossível ter uma idéia da beleza e da intensidade do
sentimento durante as visões. Foi o que vivi de mais prodigioso.
E que contraste o dia! Vivia então atormentado e meus nervos
estavam completamente esgotados. Tudo me irritava, tudo era
muito material, grosseiro, pesado e espiritualmente limitado;
tudo parecia artificialmente diminuído com uma finalidade
desconhecida e, no entanto, parecia ter uma força hipnótica tão
decisiva que era como se fosse a própria realidade, e ao mesmo
tempo era claramente discernível sua insignificância. No fundo, a
partir dessa época, apesar de recuperar minha crença no mundo,
jamais me libertei totalmente da impressão de que “a vida” é este
fragmento da existência, que se desenrola num sistema universal
de três dimensões com essa finalidade específica.
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Tenho ainda uma lembrança precisa: no início, na época do
jardim das romãs, pedia à irmã que me perdoasse caso sofresse
algum dano; havia tal sacralidade no quarto que lhe poderia ser
prejudicial.
Naturalmente ela não compreendia. Para mim a presença
do sagrado criava uma atmosfera mágica, no entanto, eu temia que
fosse insuportável para outra. Era por esse motivo, que me
desculpava; pois nada podia fazer para evitá-lo. Foi então que
compreendi porque dizem que um quarto recende a “odor de
santidade”. Era isso! Havia no espaço um pneuma de inefável
santidade, do qual o mysterium conjunctionis era a manifestação.
Nunca pensei que se pudesse viver uma tal experiência, e
que uma beatitude contínua fosse possível. Essas visões e
acontecimentos eram perfeitamente reais. Nada havia de
artificialmente forçado; pelo contrário, tudo era de extrema
objetividade.
Teme-se usar a expressão “eterno”; não posso, entretanto
descrever o que vivi senão como a beatitude de um estado
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intemporal, no qual presente, passado e futuro são um só. Tudo
o que ocorre no tempo concentrava-se numa totalidade
objetiva. Nada estava cindido no tempo e nem podia ser
medido por conceitos temporais. Poder-se-ia, antes, evocar o
que fora vivido como um estado afetivo, no entanto
inimaginável. Como representar que vivi simultaneamente o
ontem, o hoje, e o amanhã? Havia o que ainda não começara,
havia o mais claro presente e algo que já chegara ao fim e, no
entanto, tudo era uma-e única coisa. O sentimento só poderia
apreender uma soma, uma brilhante totalidade na qual está
contida à espera do que vai começar, tanto quanto a surpresa do
que acaba de ocorrer e a satisfação ou a decepção quanto ao
resultado do que já passou. Um todo indescritível no qual
estamos mergulhados e que, no entanto, podemos perceber com
plena objetividade.
Mais tarde, tive ainda uma vez ocasião de viver esta
objetividade: foi depois da morte de minha mulher. Ela me
apareceu em sonho como se fosse uma visão. Postara-se a
alguma distância e me olhava de frente. Estava na flor da idade,
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tinha cerca de trinta anos e trajava o vestido que minha prima, a
médium, lhe fizera, talvez o mais belo que jamais usara. Seu
rosto não estava alegre nem triste, mas expressava
conhecimento e saber objetivos, sem a menor reação
sentimental, além da perturbação dos afetos. Sabia que não era
ela, mas uma imagem composta ou provocada por ela em minha
intenção. Nessa imagem estava contido o início de nossas
relações, os acontecimentos de nossos trinta e cinco anos de
casamento e também o fim de sua vida. Diante de tal totalidade
permanecemos mudos pois dificilmente podemos concebê-la. A
objetividade vivida nesse sonho e nas visões pertence à
individuação que se cumpriu. Esta é desprendimento dos juízos
de valor e do que nós designamos por liames afetivos. Em geral
o homem atribui grande importância aos laços afetivos. Ora,
estes encerram sempre projeções que é preciso retirar e
recuperar para chegar ao si-mesmo e à objetividade. As relações
afetivas são relações de desejo e de exigências, carregadas de
constrangimento e servidão: espera-se sempre alguma coisa do
outro, motivo pelo qual este e nós mesmos perdemos a
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liberdade. O conhecimento objetivo situa-se além dos
intrincamentos afetivos, e parece ser o mistério central.
Somente ele torna possível a verdadeira conjunctio.
Depois dessa doença começou um período de grande
produtividade. Muitas de minhas obras principais surgiram
então. O conhecimento ou a intuição do fim de todas as coisas
deram-me a coragem de procurar novas formas de expressão.
Não tentei mais impor meu próprio ponto de vista, mas
submetia-me ao fluir dos pensamentos. Os problemas
apoderavam -se de mim, amadureciam e tomavam forma.
Minha doença teve ainda outras repercussões: elas
consistiram, poder-se-ia dizer, numa aceitação do ser, num
“sim” incondicional ao que é, sem .objeções subjetivas, numa
aceitação das condições da existência como as vejo e
compreendo; aceitação do meu ser como ele é simplesmente.
No início da doença sentia que minha atitude anterior tinha sido
um erro e que eu próprio era de qualquer forma responsável
pelo acidente. Mas quando seguimos o caminho da individuação,
quando vivemos nossa vida, é preciso também aceitar o
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erro, sem o qual a vida não será completa: nada nos garante –
em nenhum instante – que não possamos cair em erro ou em
perigo mortal. Pensamos talvez que haja um caminho seguro;
ora, esse seria o caminho dos mortos. Então nada mais acontece
e em caso algum ocorre o que é exato. Quem segue o caminho
seguro está como que morto.
Foi só depois da minha doença que compreendi o quanto
é importante aceitar o destino. Porque assim há um eu que não
recua quando surge o incompreensível. Um eu que resiste, que
suporta a verdade e que está à altura do mundo e do destino.
Então uma derrota pode ser ao mesmo tempo uma vitória.
Nada se perturba, nem dentro, nem fora, porque nossa própria
continuidade resistiu à torrente da vida e do tempo. Mas isso só
acontece se não impedirmos que o destino manifeste suas
intenções.
Também compreendi que devemos aceitar os pensamentos
que se formam espontaneamente em nós como uma parte de
nossa própria realidade e isso fora de qualquer juízo de valor.
As categorias do verdadeiro e do falso certamente sempre
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existem, mas porque não são constrangedoras, ficam à margem.
Porque a existência das idéias é mais importante do que seu
julgamento subjetivo. Os julgamentos, entretanto, enquanto
idéias existentes, não devem ser reprimidos, porque fazem parte
da expressão da totalidade.
SOBRE A VIDA DEPOIS DA MORTE
O que aqui está relatado são lembranças que estão na
origem das reflexões que se seguem sobre o além e a vida
depois da morte. Tratase de imagens e pensamentos nos quais
vivi, que me trabalharam e me preocuparam. De um certo modo
constituem um dos fundamentos de minhas obras que, no
fundo, são apenas tentativas renovadas de dar uma resposta à
questão das interferências entre o “aquém” e o “além”. Ora,
jamais escrevi, expressis verbis, a respeito da sobrevivência, porque
teria sido necessário justificar meus pensamentos e isso não é
possível. Mas mesmo assim abordarei esse tema.
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Ainda agora, a esse respeito, só posso narrar “histórias”,
contar fábulas, mythologein: “mitologizar”. Talvez a proximidade
da morte seja necessária para que se tenha a indispensável
liberdade de abordar o assunto. Não desejo, nem deixo de
desejar que tenhamos uma vida após a morte e absolutamente
não cultivo pensamentos dessa ordem, mas para não escamotear
a realidade, é preciso constatar que, sem que o deseje ou
procure, idéias desse gênero palpitam em mim. São verdadeiras
ou falsas? Eu ignoro, mas constato sua presença e sei que
podem ser expressas desde que não as reprima constrangido por
um preconceito qualquer. A idéia preconcebida é um entrave e
prejudicá a livre e plena manifestação da vida psíquica, a qual
conheço e distingo pouco demais para querer corrigi-Ia,
pretextando conhecê-la bem. A razão crítica parece ter há
pouco, eliminado, juntamente com numerosas outras
representações míticas, também a idéia de uma vida após a
morte. Essa eliminação foi possível porque os homens, hoje, se
identificam freqüentemente apenas com a consciência e
imaginam ser apenas aquilo que conhecem de si próprios. Ora,
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todo homem que de leve suspeita o que seja a psicologia poderá
facilmente imaginar que este saber é muito limitado. O
racionalismo e a doutrinação são doenças do nosso tempo;
pretendem ter resposta para tudo. Entretanto, muitas
descobertas que consideramos impossíveis – quando nos
colocamos de um ângulo limitado – serão ainda feitas. Nossas
noções de espaço e tempo são apenas relativamente válidas;
deixam aberto um vasto campo de variações absolutas ou
relativas. Levando em conta tais possibilidades, presto viva
atenção aos estranhos mitos da alma; observo o que se passa
comigo e o que më acontece, estejam em concordância ou não
com meus pressupostos teóricos.
Infelizmente, o lado mítico do homem encontra-se hoje
freqüentemente frustrado. O homem não sabe mais fabular. E
com isso perde muito, pois é importante e salutar falar sobre
aquilo que o espírito não pode apreender, tal como uma boa
história de fantasmas, ao pé de uma lareira e fumando
cachimbo.
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O que significam “na realidade” os mitos ou as histórias de
uma sobrevida, ou qual a realidade que aí se dissimula,
certamente não sabemos. Não podemos estabelecer se têm
qualquer justificativa além do seu indubitável valor de projeção
antropomórfica. É preciso claramente consentir que não existe
nenhuma possibilidade de chegar-se a uma certeza nesses
assuntos que ultrapassam nossa com preensão.
De maneira alguma podemos representar um mundo cujas
circunstâncias fossem totalmente diferentes das nossas, porque
vivemos num mundo determinado que contribui para constituir
e condicionar nosso espírito e nossos pressupostos psíquicos.
Somos estreitamente limitados por nossa estrutura inata e é por
isso que estamos, pelo ser e pelo pensamento, ligados a este
mundo que é o nosso. O homem mítico reivindica certamente
“algo além”, mas o homem na sua responsabilidade científica
não pode dar-lhe assentimento. Para a razão, o fato de
“mitologizar” (mythologein) é uma especulação estéril, enquanto
que para o coração e a sensibilidade essa atividade é vital e
salutar: confere à existência um brilho ao qual não se quereria
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 31 –
renunciar. Nenhuma motivação seria suficiente, aliás, para
justificar essa renúncia.
A parapsicologia aceita como prova cientificamente válida
da continuidade da vida após a morte o fato de que um morto
pode manifestar-se – seja como aparição, seja através de um
médium – e comunicar fatos de que só ele tinha conhecimento.
Mesmo que haja casos bem confirmados as questões ficam em
aberto, isto é, se a aparição ou a voz são exatamente idênticas às
do morto ou se são projeções psíquicas, ou ainda se as
comunicações são verdadeiramente do morto ou se se originam
de um saber presente no inconsciente.)
Apesar dos argumentos razoáveis contra uma certeza neste
domínio, é preciso não esquecer que para a maior parte dos
homens é de grande importância supor que sua existência atual
terá uma continuidade indefinida após a morte. Vivem então
mais razoavelmente, comportam-se melhor e permanecem mais
tranqüilos. Acaso não temos séculos e séculos à nossa frente e
não dispomos de uma duração infinita? Então para que essa
precipitação que não tem sentido?
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 32 –
Naturalmente nem todos pensam assim. Há pessoas que
não sentem nenhuma necessidade de imortalidade e que se
arrepiam à idéia de ficar durante milênios sentados numa
nuvem, tocando harpa! Também há outros – e são numerosos –
tão maltratados pela vida e que experimentam tal desgosto pela
própria existência, que um fim absoluto lhes parecerá bem mais
desejável do que qualquer forma de continuidade. Mas na maior
parte dos casos, a questão da imortalidade é tão premente, tão
imediata, tão enraizada, que urge tentar uma concepção a esse
respeito. Como será isso possível?
Minha hipótese é de que podemos alcançar esse propósito
graças às alusões que nos envia o inconsciente como, por
exemplo, nos sonhos. Freqüentemente recusamo-nos a levar a
sério essas indicações porque estamos convencidos de que não
há resposta à questão. A este ceticismo, bem compreensível,
aliás, oponho as seguintes sugestões: se nos é impossível
penetrar na essência de um fenômeno, devemos renunciar a
fazer dele um problema intelectual. Ignoro por quais razões
surgiu o universo e nunca o saberei. Devo renunciar então a
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 33 –
transformar essa questão num problema científico e intelectual.
Mas se uma idéia se oferece a mim, sobre este assunto – por
exemplo no decorrer dos sonhos e nas tradições míticas – devo
então concederlhe atenção: devo mesmo ter bastante audácia
para edificar uma concepção a seu respeito, mesmo que
permaneça para sempre como uma hipótese impossível de ser
verificada.
O homem deve provar que fez o possível para formar uma
concepção ou uma imagem da vida após a morte – ainda que
seus esforços sejam confissão de impotência. Quem não o fez,
sofreu uma perda. Porque a instância interrogativa que fala nele
é uma herança muito antiga da humanidade, um arquétipo, rico
de uma vida secreta que desejaria juntar-se à nossa vida para
perfazê-la. A razão nos impõe limites muito estreitos e apenas
nos convida a viver o conhecido – ainda com bastantes
restrições – e num plano conhecido, como se conhecêssemos e
verdadeira extensão da vida. Na realidade, nossa vida, dia após
dia, ultrapassa em muito os limites de nossa consciência e, sem
que saibamos, a vida do inconsciente acompanha a nossa
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 34 –
existência. Quanto maior for o predomínio da razão crítica,
tanto mais nossa vida se empobrecerá; e quanto mais formos
aptos a tornar consciente o que é mito, tanto maior será a
quantidade de vida que integraremos. A superestima da razão
tem algo em comum com o poder de estado absoluto: sob seu
domínio o indivíduo perece.
O inconsciente nos dá uma oportunidade, pelas
comunicações e alusões metafóricas que oferece. É também
capaz de comunicar-nos aquilo que, pela lógica, não podemos
saber. Pensemos nos fenômenos de sincronicidade, nos sonhos
premonitórios e nos pressentimentos! Um dia eu voltava de
Bollingen para casa, por ocasião da segunda guerra mundial.
Trouxera um livro, mas não me foi possível lê-lo porque no
momento em que o trem partia, a imagem de um homem que se
afogava se impôs ao meu espírito; era a lembrança de um
acidente que ocorrera na época do meu serviço militar. Durante
todo o trajeto não pude desfazer-me da imagem. Estava
exageradamente inquieto e perguntava a mim mesmo: O que se
passou? Aconteceu alguma desgraça?
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 35 –
Em Erlenbach desci do trem e entrei em casa, sempre
perseguido por essa lembrança e por minha inquietação. No
jardim encontrei os filhos de minha segunda filha. Ela estava
morando conosco, tendo vindo de Paris por causa da guerra.
Todos pareciam um pouco atordoados e quando perguntei: “O
que está acontecendo?” disseram que Adriano, o menor, caíra
na água, no abrigo do barco. A água aí já era bastante profunda
e como não sabia nadar, quase se afogara. O irmão mais velho
conseguira salvá-lo. O fato ocorreu exatamente no mesmo
momento em que, no trem, eu fora assaltado pela lembrança.
O inconsciente dera-me um sinal. Por que não mp poderia
dar outras informações?
Vivi um episódio semelhante antes da morte de um
membro da família de minha mulher. Sonhei, então, que o leito
de minha esposa era um fosso profundo com paredes mal
cimentadas. Era um túmulo que despertava lembranças da
antiguidade. Ouvi nesse momento um profundo suspiro, como
o de um agonizante. Uma forma que se assemelhava à de minha
mulher ergueu-se da tumba e elevou-se nos ares. Trazia uma
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 36 –
veste branca tecida de curiosos signos negros. Despertei,
acordei também minha mulher e olhei o relógio. Eram três
horas da manhã. O sonho era tão estranho que pensei
imediatamente que podia anunciar um falecimento. As sete
horas chegou-nos a notícia de que uma prima de minha mulher
falecera às três horas.
Freqüentemente apenas se trata de uma premonição vaga e
não de um saber antecipado. Foi assim que uma vez sonhei que
me encontrava participando de uma festa. Percebi minha irmã,
o que me espalitou bastante, pois morrera havia alguns anos.
Um de meus amigos, também falecido, estava na recepção. Os
outros convidados eram pessoas então vivas na época. Minha
irmã se encontrava em companhia de uma senhora que eu
conhecia muito bem, e já no próprio sonho concluíra que ela
parecia como que tocada pela morte. Ela estava marcada, dizia a
mim mesmo. No sonho sabia exatamente' quem era essa
senhora e que morava em Basiléia. Quando desperto, embora
tivesse o sonho inteiro diante de meus olhos e em toda sua
vivacidade – não pude, apesar da melhor boa vontade do
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 37 –
mundo, recordar-me de quem se tratava. Passava em revista
todos os meus conhecidos de Basiléia; esforçava-me, agindo
assim, em descobrir alguma ressonância em mim. Em vão!
Algumas semanas mais tarde, recebi a notícia de que uma
senhora de nossas relações fora vítima de um acidente fatal. Fiz
imediatamente a ligação: era ela que vira em sonho sem que
pudesse recordar-me. Tinha dessa senhora Uma lembrança rica
em pormenores: fora minha paciente durante muito tempo, até um
ano antes de sua morte. Quando me esforçara para trazê-la à
memória, sua imagem não aflorara no longo desfile de minhas
relações de Basiléia, embora devesse ter sido uma das primeiras.
Quando se passa por tais experiências, é natural que sintamos
um certo respeito pelas possibilidades e faculdades do
inconsciente. É preciso, no entanto, preservar o espírito crítico e
lembrar-se de que “comunicações” dessa espécie podem ter
também um significado subjetivo, e coincidir ou não com a
realidade. Aprendi contudo, por experiência, que as concepções
adquiridas a partir dessas alusões do inconsciente me-trouxeram
esclarecimentos e abriram perspectivas a novos pressentimentos.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 38 –
Guardar-me-ei, de qualquer forma, de escrever um livro de
revelações, um novo Apocalipse sobre o assunto, mas reconheço
que possuo um “mito” que suscita meu interesse e me estimula a
aprofundar o problema. Os mitos são formas antiquíssimas da
ciência. Quando falo do que pode ocorrer depois da morte, estou
sendo animado por uma emoção interior e não posso me valer
senão de sonhos e de mitos.
Naturalmente, pode-se desde o início objetar que mitos e
sonhos que concernem a uma continuação da vida após a morte
são fantasias simplesmente compensatórias e inerentes à nossa
natureza: toda vida aspira à eternidade. A isso não tenho outro
argumento a opor, senão, precisamente, o mito. Além disso, há
também indícios que mostram que uma parte da psique, pelo
menos, escapa às leis do espaço e do tempo. A prova científica foi
estabelecida pelas experiências bastante conhecidas de Rhine.2 Ao
ládo de inumeráveis casos de premonições espontâneas, de
percepções não espaciais e outros fatos análogos, dos quais
busquei exemplos em minha vida, essas experiências provam que,
por vezes, a psique extrapola a lei da causalidade espaço-temporal.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 39 –
Disso resulta que as representações que temos do espaço, do
tempo e também da causalidade são incompletas. Uma imagem
total reclama, por assim dizer, uma nova dimensão; só então
poderia ser possível dar uma explicação homogênea à totalidade
dos fenômenos. É por esse motivo que ainda hoje os racionalistas
persistem em pensar que as experiências parápsicológicas não
existem; pois seriam fatais à sua visão do mundo. Porque se tais
fenômenos podem produzir-se, a imagem racionalista do universo
perde o seu valor por ser incompleta. Então a possibilidade de
outra realidade, atrás das aparências, com outras referências, tornase
um problema intransponível e ficamos constrangidos em abrir
os olhos para o fato de que nosso mundo de tempo, espaço e
causalidade está relacionado com uma outra ordem de coisas, atrás
ou sob ele, ordem na qual “aqui” e “ali”, “antes” e “depois” não
são essenciais. Não vejo qualquer possibilidade de contestar que ao
menos uma parte de nossa existência psíquica se caracteriza por uma
relatividade de espaço e de tempo. À medida que nos afastamos da
consciência, esta relatividade parece elevar-se até ao não-especial e a
uma intemporalidade absolutas.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 40 –
Não foram somente meus próprios sonhos mas,
ocasionalmente, os de outras pessoas que, revisando ou confirmando
os meus, deram forma às minhas concepções a respeito de uma
sobrevida. Uma de minhas alunas de quase sessenta anos teve um
sonho particularmente importante, mais ou menos dois meses antes
de morrer: ela chegava ao além; numa sala de aula, nos primeiros
bancos, estavam sentadas várias de suas amigas falecidas. Uma
atmosfera de expectativa geral reinava no ambiente. Olhou em torno,
procurando um mestre ou um conferencista, mas não encontrou
ninguém. Fizeram-na compreender que o conferencista era ela
própria, porque todos os mortos deviam, imediatamente depois do
falecimento, apresentar um relatório da soma de experiências por
que passaram em vida. Os mortos se interessavam
extraordinariamente pelas experiências da vida que os defuntos
traziam, como se os fatos'e os atos da vida terrestre fossem
acontecimentos decisivos.
Em todo caso, o sonho descreve uru auditório muito singular,
impossível de ser encontrado na Terra: as pessoas se interessavam ardentemente
pelo resultado final, psicológico, de uma vida humana,
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 41 –
que, segundo nossa maneira de pensar, nada tem de notável – além
da conclusão que dela se possa tirar. Mas se o “público” se encontra
numa intemporalidade relativa, em que “escoamento”, “acontecimento”,
“desenvolvimento” se tornaram noções aleatórias, compreende-
se que possa interessar-se particularmente pelo que – mais
lhe falta no estado em que se encontra.
Na época em que teve esse sonho, a pessoa em questão temia
morrer e procurava, tanto quanto possível, afastar essa idéia do pensamento
consciente. Ora, o problema da morte deveria constituir o
“centro de interesse” essencial para o homem que está
envelhecendo, como também a oportunidade de familiarizar-se
precisamente com essa possibilidade. Uma inelutável interrogação
lhe é colocada e é necessário uma resposta de sua parte. Para esse
fim ele deveria dispor de um mito da morte, porque a “razão” só lhe
oferece o fosso escuro no qual está prestes a entrar; o mito poderia
colocar sob seus olhos outras imagens, imagens auxiliares e
enriquecedoras da vida no país dos mortos. Quem acredita nisso ou
lhe concede algum crédito tem tanta razão como aquele que não crê.
Mas aquele que nega avança para o nada; o outro, o que obedece ao
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 42 –
arquétipo, segue os traços da vida até à morte. Certamente um e
outro estão na incerteza, mas um vai contra o instinto, enquanto o
outro caminha com ele, o que constitui uma diferença e uma
vantagem para o segundo.
As figuras do inconsciente são também “ininformadas” e têm
necessidade do homem ou do contacto com a consciência para adquirir
o saber. Quando comecei a me ocupar com o inconsciente,
as “figuras imaginárias” de Salomé e de Elias desempenharam um
grande papel. Em seguida passaram a um segundo plano para reaparecer
cerca de dois anos mais tarde. Para meu grande espanto
elas não tinham sofrido a menor mudança; falavam e se
comportavam como se nesse ínterim absolutamente nada tivesse
ocorrido. Entretanto os acontecimentos mais inauditos tinham-se
desenrolado em minha vida. Foi-me necessário, por assim dizer,
recomeçar desde o início para lhes explicar e narrar tudo o que se
passara. De início fiquei bastante espantado. Só mais tarde
compreendi o que tinha acontecido: as figuras de Salomé e Elias
haviam nesse meio-tempo soçobrado no inconsciente e em si
próprias – poder-se-ia também dizer, fora do tempo. Elas ficaram
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 43 –
sem contacto com o eu e suas circunstâncias variáveis e
“ignoravam” por essa razão o que se passara no mundo da
consciência.
Muito cedo eu já tinha percebido que devia instruir os
personagens do inconsciente ou os “espíritos dos mortos” que
freqüentemente se distinguem daqueles com dificuldade. Tomei
consciência disso pela primeira vez por ocasião de uma viagem de
bicicleta que fiz em 1911, com um amigo, ao Norte da Itália. Na
volta viemos de Pávia a Arona, na parte sul do Lago Maior e aí
pernoitamos. Tínhamos a intenção de seguir pelas margens do lago
e de atravessar o Tessin até Faido. Desejávamos em seguida tomar
o trem que segue para Zurique. Mas em Arona tive um sonho que
veio modificar nossos projetos.
Nesse sonho eu me encontrava numa assembléia de ilustres
espíritos dos séculos passados e experimentava um sentimento
análogo ao que senti mais tarde em presença dos “ilustres
ancestrais” que se encontravam na pedra negra de minha visão de
1944. Falava-se em latim. Um senhor, com uma longa cabeleira,
dirigiu-me a palavra, colocando-me uma questão difícil; fui
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 44 –
incapaz, ao despertar, de me recordar do seu conteúdo. Eu o
compreendi, mas não tinha conhecimento suficiente de latim para
responder nessa língua. Fiquei de tal forma confuso, que a emoção
me despertou.
Logo que acordei, pus-me a pensar no trabalho que
preparava: Me tamorlóses e Símbolos da Libido e experimentei tais
sentimentos de inferioridade no tocante à questão a que não
soubera responder, que tomei imediatamente o trem de volta para
casa a fim de retomar a tarefa. Ter-me-ia sido impossível continuar
a viagem de bicicleta e sacrificar desse modo mais três dias. Era
necessário trabalhar e en
contrar a resposta. Só muito depois é que compreendi o
sonho e minha reação: o senhor de longa cabeleira era uma espécie
de “espírito dos ancestrais ou dos mortos”; ele me colocara
questões às quais não soubera responder. Eu estava ainda muito
atrasado. Não tinha avançado bastante, mas tinha como que um
obscuro pressentimento de que pelo trabalho a que então me
dedicava eu responderia à questão que me fora proposta. De
qualquer maneira eram meus ancestrais espirituais que me
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 45 –
interrogavam, na esperança e na expectativa de que pudessem
aprender aquilo que não tinham podido saber em seu tempo;
conhecimento que só os séculos ulteriores poderiam criar e trazerlhes.
Se questão e resposta houvessem existido desde sempre,
meus esforços teriam sido inúteis, pois tudo poderia ter sido
descoberto, não importa em que século. Parece, com efeito, que
um saber sem limites está presente na natureza, mas que tal saber
não pode ser apreendido pela consciência a não ser que as
condições temporais lhe sejam propícias. O mesmo ocorre
provavelmente na alma do indivíduo que traz consigo, durante
anos, certos pressentimentos, mas só os conscientiza tempos
depois.
Quando escrevi, em seguida, os Septem Sermones ad Mortuos,
foram novamente os mortos que me propuseram questões cruciais.
Voltavam – diziam eles – de Jerusalém porque não tinham encontrado
o que procuravam. Isso me espantou muito nessa época
porque, de acordo com a opinião tradicional, são os mortos que
possuem o grande saber; com efeito, devido à doutrina cristã que
supõe que no além olharemos as coisas face a face, a opinião
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 46 –
acatada é que os mortos sabem mais do que nós: mas,
aparentemente, as almas dos mortos só “sabem” o que sabiam no
momento da morte e nada mais. Daí seus esforços para penetrar
na vida, para participar do saber dos homens. Freqüentemente
tenho a sensação de que elas se colocam diretamente atrás de nós,
na expectativa de perceber que respostas daremos a ela e ao
destino. Parece-me que o que lhe importa a todo custo é receber
dos vivos – r isto é, daqueles que lhes sobreviveram e que
permanecem num mundo que continua a se transformar –
respostas às suas questões. Os mortos questionam como se não
tivessem a possibilidade de saber tudo, como se a onisciência ou a
oniconsciência apenas pudesse ser privilégio da alma encarnada
num corpo que vive. Tam bém o espírito dos vivos parece, pelo
menos num ponto, avantajar-se ao dos mortos: a aptidão em
adquirir conhecimentos nítidos e decisivos. O mundo
tridimensional, no tempo e no espaço, parece-me um sistema de
coordenadas: o que se decompõe aqui em ordenadas e abscissas,
“lá”, fora do tempo e do espaço, pode aparecer talvez como uma
imagem original de múltiplos aspectos ou talvez como uma nuvem
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 47 –
difusa de conhecimentos em torno de um arquétipo. Mas um
sistema de coordenadas é necessário para poder distinguir
conteúdos distintos. Tal operação nos parece inconcebível num
estado de onisciência difusa ou de uma consciência carente de
sujeito, sem determinações espaço-temporais. O conhecimento,
como a geração, pressupõe um contraste, um “cá” e um “lá”, um
“alto” e um “baixo”, um “antes” e um “depois”.
Se há uma existência consciente após a morte, parece-me que
ela se situaria na mesma direção que a consciência da humanidade,
que possui em cada época um limite superior mas variável. Muitos
seres humanos, no momento de sua morte, não só ficaram aquém
de suas próprias possibilidades, mas sobretudo muito distantes
daquilo que outros homens ainda em vida tornaram consciente, daí
sua reivindicação de adquirir, na morte, esta parte da consciência
que não adquiriram em vida.
Cheguei a essa conclusão dépois de observar sonhos em que
intervinham mortos. Foi assim que me aconteceu, uma vez, sonhar
que visitava um amigo falecido quinze dias antes. Quando vivo, só
conhecera uma concepção convencional do mundo e nunca se
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 48 –
apartara dessa atitude desprovida de reflexão. Sua residência ficava
numa colina semelhante à de Tüllingen, perto de Basiléia. Aí se
elevava um velho castelo cujos muros circulares cercavam uma
praça, com uma pequena igreja e algumas construções menores.
Esse local lembravame a praça perto do castelo de Rapperswil. Era
outono. As folhas das velhas árvores estavam já douradas, um
doce raio de sol iluminava a paisagem. Meu amigo estava sentado à
rrn;sa com sua filha que fora estudante de .psicologia em Zurique.
Eu sabia que ela lhe dava esclarecimentos psicológicos
indispensáveis. Estava meu amigo de tal maneira fascinado pelo
que ela dizia que me saudou apenas com um gesto rápido de mão,
como se quisesse dar a entender: “Não me perturbe”. Sua
saudação estava me despedindo!
Este sonho me sugeria que o morto devia agora viver, por
vias que me eram naturalmente desconhecidas, a realidade de sua
existência psíquica, o que durante o curso de sua vida nunca fora
capaz. Às imagens desse sonho associei, mais tarde, a frase “Santos
anacoretas dispostos no flanco da montanha...” Os anacoretas na
cena final do Segundo Fausto figuram representações de diversos
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 49 –
níveis de desenvolvimento que se completam e se elevam
reciprocamente.
Tive outra experiência sobre a evolução da alma após a morte
quando – quase um ano depois do falecimento de minha mulher –
acordei repentinamente uma noite e soube que fora até onde ela
estava, no sul da França, na Provença, onde tínhamos passado um
dia inteiro juntos. Ela fazia nessa região estudos sobre o Graal.
Isso me pareceu muito significativo, porque ela havia morrido
antes de terminar o trabalho que empreendera sobre esse assunto.
A explicação, a partir do que se tratava – a saber, que minha
anima não tinha ainda terminado o trabalho a ela imposto – nada
me esclareceu; porque sabia muito bem que não tinha ainda terminado
minha tarefa. Mas a idéia que após sua morte minha
mulher trabalhava para continuar seu desenvolvimento espiritual –
como quer que se conceba esta idéia – me pareceu plena de
sentido e, por isso, esse sonho me foi bastante apaziguador.
Representações dessa espécie naturalmente não são
adequadas e dão uma imagem insuficiente como a projeção de um
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 50 –
volume sobre um plano, ou inversamente como a construção de
uma forma quadrimensional a partir de um volume. Elas utilizam,
para exprimir-se de maneira metafórica, as condições do mundo
tridimensional. As matemáticas não temem criar expressões que
exprimam relações que vão além de todo empirismo; da mesma
forma cabe à essência de uma imaginação disciplinada esboçar,
segundo princípios lógicos e na base de dados empíricos, as
imagens daquilo que escapa ao entendimento, tais como, por
exemplo, as indicações dos sonhos. O método que aplico neste
caso é o da “implicação necessária”. Corresponde este método ao
princípio da amplificação na interpretação dos sonhos. É pelas
implicações dos simples números inteiros que podemos mais
facilmente exemplificar.
O UM, primeiro nome dos números, é uma unidade. Mas ele
é também “a unidade”, o Um, o Apenas Um, o Único, o Não-
Dois, não só um nome de número, mas também uma idéia
filosófica, um arquétipo e um atributo de Deus, a mônada. É exato
que o entendimento humano exprime essas afirmações, mas ao
mesmo tempo está ligado e determinado pela concepção de Um e
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 51 –
suas implicações. Em outros termos, não são afirmações
arbitrárias, são determinadas pela essência do Um e, por esse
motivo, necessárias. Teoricamente a mesma operação lógica
poderia ser efetuada com todas as representações individuais dos
números que se seguem, mas praticamente vê-se logo o fim em
razão da multiplicação rápida das complicações que conduz ao
incomensurável.
Qualquer outra unidade traz consigo novas propriedades e
novas modificações. Assim, por exemplo, é uma propriedade do
número quatro o fato das equações do quarto grau poderem ser
resolvidas, enquanto que as do quinto grau não o podem. Uma
“implicação necessária” do número quatro obriga portanto afirmar
que ele é ao mesmo tempo o ápice e o termo de uma ascensão. E à
medida que, com cada nova unidade apareçam uma ou várias
novas propriedades de natureza matemática, as implicações se
complicam de tal maneira que se torna impossível formulá-las.
A série infinita de números corresponde à infinidade
numérica das criaturas individuais. A primeira, também ela, é
composta de indivíduos e as propriedades de seus dez primeiros
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 52 –
membros já representam – se todavia representam algo – uma
cosmogonia abstrata saída da mônada. Ora, as propriedades dos
números são as mesmas que as da matéria e é por-isso que certas
equações permitem prever o comportamento da matéria.
Este é o motivo por que desejaria que se atribuísse a outras
expressões matemáticas (que existem por natureza), o poder de
designar, além delas próprias, realidades não perceptíveis. Penso,
por exemplo, nos produtos da imaginação que gozam do consensus
omnium ou que são caracterizados pela grande freqüência de sua
aparição, e também aos motivos arquetípicos. Da mesma maneira
que ignoramos a que realidade fisica correspondem certas
equações matemáticas, o mesmo acontece com muitas realidades
míticas, pois não sabemos, à primeira vista, a que realidades
psíquicas elas se referem. Foram estabelecidas, por exemplo,
equações que controlam a turbulência de gases em alta
temperatura muito antes que estes tenham sido estudados; há
muito mais tempo ainda, os mitologemas exprimem o desenrolar
de certos processos subliminais e apenas hoje e que podemos
explicar o que eles são.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 53 –
O grau de consciência atingido, qualquer que seja ele,
constitui, ao que me parece, o limite superior do conhecimento ao
qual os mortos podem aceder. Daí a grande significação da vida
terrestre e o valor considerável daquilo que o homem leva daqui
“para o outro lado” no momento de sua morte. É somente aqui,
na vida terrestre, em que se chocam os contrários, que o nível da
consciência pode elevar-se. Essa parece ser a tarefa metafisica do
homem – mas sem mythologein (sem “mitologizar”) apenas pode
cumpri-Ia parcialmente. O mito é o degrau intermediário
inevitável entre o inconsciente e o consciente. Está estabelecido
que o inconsciente sabe mais que o consciente, mas seu saber é de
uma essência particular, de um saber eterno que, freqüentemente,
não tem nenhuma ligação com o “aqui” e o “agora” e não leva
absolutamente em conta a linguagem que fala nosso intelecto.
Somente quando damos às suas afirmações a oportunidade de
“amplificar-se”, como,mostramos mais acima, através dos
números, é que este saber do inconsciente penetra no domínio de
nossa compreensão, tornando possível a percepção de um novo
aspecto. Este processo se repete de maneira convincente em
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 54 –
todas as análises de sonhos bem sucedidas. Por esse motivo é da
mais alta importância não ter opinião doutrinária preconcebida
sobre o que diz um sonho. A partir do momento em que ficamos
surpreendidos por “certa monotonia de interpretação” é que a
interpretação tornou-se doutrinal e, por conseguinte, estéril.
Apesar de não ser possível apresentar uma prova válida no
que diz respeito à sobrevivência da alma depois da morte, há fatos
que dão o que pensar. Considero tais fatos como indicações sem
tema audácia, no-entanto, de conferir-lhes o valor de
conhecimentos.
Uma noite eu não conseguia dormir e pensava na morte
repentina de um amigo, enterrado no dia anterior. Sua morte me
preocupava muito. Subitamente tive a impressão de que ele estava
no meu quarto, ao pé de minha cama e que me pedia que fosse
com ele. Não julgava tratar-se de uma aparição; pelo contrário,
formara do morto uma imagem visual interior e tomei-a por uma
fantasia. Mas, honestamente, foi-me necessário perguntar: “Que
prova tenho de que se trata,de uma fantasia? E se não for? Caso
meu amigo esteja realmente presente, não seria uma
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 55 –
inconveniência de minha parte tomá-lo por uma figura
imaginária?” Mas também não tinha qualquer prova para acreditar
que ele estivesse realmente diante de mim. Então disse a mim
mesmo: “Em lugar de considerar que se trata apenas de uma
fantasia, posso, da mesma maneira, aceitá-lo como se fora uma
aparição, pelo menos para ver o que disso resultaria.” No mesmo
momento em que tive esse pensamento, ele se dirigiu para a porta
e fez que eu entrasse no jogo. Isso certamente não estava
previsto. Foi-me necessário então fortalecer a argumentação.
Então somente o segui em imaginação.
Ele me conduziu para fora de casa, ao jardim, à rua e
finalmente à sua própria casa. (Na realidade apenas algumas
centenas de metros a separavam da minha). Entrei, introduziu-me
em seguida em seu escritório e, subindo num tamborete, indicoume
o segundo volume de uma série de cinco, encadernados em
vermelho; eles se encontravam muito alto na segunda prateleira.
Então a visão se dissipou. Não conhecia sua biblioteca e ignorava
que livros possuía. Por outro lado, não poderia de onde estava ler
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 56 –
os títulos dos volumes que ele indicara, pois se encontravam na
prateleira superior.
Esse fato me pareceu tão estranho que na manhã seguinte,
fui à casa da viúva e pedi autorização para entrar na biblioteca do
meu falecido amigo para uma verificação. Realmente, havia
debaixo da prateleira vista em minha imaginação, um tamborete e,
já de longe, percebi os cinco volumes encadernados em vermelho.
Subi no tamborete pára ler os títulos. Eram traduções dos
romances de Zola. O título do segundo era: O Legado de uma
Morta. Se o conteúdo me pareceu desprovido de interesse, o
título era, por outro lado, muito significativo pela relação com o
que se passara.
Um outro acontecimento de minha vida, que me deu o que
pensar, ocorreu antes da morte de minha mãe. Quando ela morreu
eu me encontrava no Tessin. Fiquei aturdido pela notícia, porque
sua morte foi inesperada e brutal. Durante a noite precedente,
tivera um sonho espantoso. Encontrava-me numa floresta sombria
e espessa; blocos de rochedos fantásticos e gigantescos jaziam
entre árvores enormes, como uma floresta virgem. Era uma
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
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paisagem heróica, primitiva. De repente ouvi um silvo estridente
que parecia repercutir através do universo. Meus joelhos tremeram.
Em seguida, na mata, ouvi um estrépito e um monstruoso lobo de
fauces ameaçadoras saiu correndo. Vendo-o, meu sangue
congelou-se nas veias. Passou por mim rapidamentë e logo
compreendi: o Caçador Selvagem lhe ordenara que trouxesse um
ser humano. Acordei numa angústia mortal e na manhã seguinte
recebi a notícia da morte de minha mãe.
Raramente um sonho me transtornou tanto, pois se fosse
considerá-lo superficialmente ele pareceria dizer que o diabo viera
se apossar de minha mãe. Mas, na verdade, era o Caçador
Selvagem, de “chapéu verde”, que naquela noite – era um desses
dias de janeiro em que sopra o foehn – caçava com seus lobos. Era
Wotan, o deus dos ancestrais alemães que “reunia” minha mãe a
seus antepassados, isto é, negativamente, às hordas selvagens e,
positivamente, aos “mortos bem-aventurados”. Foi sob a
influência dos missionários cristãos que Wotan foi assimilado ao
diabo. Em si mesmo, é um deus significativo, um Mercúrio ou um
Hermes, como os romanos discerniam claramente; é um espírito
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 58 –
da natureza que ressurge na lenda do Graal sob os traços de Merlin
e que, corno spiritus mercurialis, constituía o arcano procurado pelos
alquimistas. Assim, o sonho diz que a alma de minha mãe encontra
acolhida neste vasto contexto do Si-Mesmo, além do plano cristão,
na totalidade da natureza e do espírito em que os conflitos e
contradições são englobados.
Voltei imediatamente para casa. À noite, no trem,
experimentava um imenso sentimento de tristeza, mas no mais
íntimo de meu coração eu não podia ficar aflito e isso por uma
estranha razão: durante o trajeto escutei ininterruptamente música
de dança, risos e ruídos alegres, como se celebrassem um
casamento. Havia um contraste brutal com a impressão apavorante
provocada pelo sonho: aqui havia a jovialidade da música de dança,
dos risos alegres e era impossível deixar-me dominar totalmente
pela tristeza. Ela estava sempre presente, prestes a me dominar,
mas no momento seguinte já me encontrava no meio de alegres
melodias. De um lado um sentimento de calor e alegria, de outro,
terror e luto, numa alternância contínua de contrastes afetivos. O
contraste pode explicar-se: a morte era sentida, ora do ponto de
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
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vista do eu, ora do ponto de vista da alma. No primeiro caso ela
parecia uma catástrofe, como se potências más e impiedosas
tivessem aniquilado um ser humano.
É que a morte também é uma terrível brutalidade – nenhum
engodo é possível! – não apenas enquanto acontecimento físico,
mas ainda mais como um acontecimento psíquico: um ser humano
é arrancado da vida e o que permanece é um silêncio mortal e
gelado. Não há mais esperança de estabelecer qualquer relação:
todas as pontes estão cortadas. Homens a quem se desejaria uma
longa vida são ceifados na flor da idade, enquanto os inúteis
atingem uma idade avançada. Eis uma cruel realidade que não se
deveria dissimular. A brutalidade e a arbitrariedade da morte
podem provocar no homem tal amargura que ele chega a descrer
num Deus misericordioso, na justiça e na bondade.
Entretanto se nos colocarmos diante de outro ponto de vista,
a morte parece ser um acontecimento alegre. Sub specie aeternitatis,
ela é um casamento, um mysterium conjunctionis (um mistério da
união). A alma, pode-se dizer, alcança a metade que lhe falta, atinge
a totalidade. Nos sarcófagos gregos o elemento alegre era
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
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representado por dançarinas; nas tumbas etruscas representavamno
por banquetes. Quando morreu o piedoso cabalista Rabbi
Simon ben Jochai, seus amigos disseram que ele celebrava suas
bodas. Hoje ainda, em muitas regiões, é costume, no Dia de Todos
os Santos, organizar um pique-nique sobre os túmulos. Essas
manifestações mostram que a morte é sentida, por assim dizer,
como uma festa.
Alguns meses antes da morte de minha mãe, em setembro de
1922, tive um sonho que me anunciava isso. Este sonho dizia
respeito a meu pai e me causou grande impressão: desde sua morte
– em 1896 – jamais sonhara com ele e eis que me aparece num
sonho, como se tivesse voltado de uma longa viagem. Parecia
rejuvenescido e não manifestava qualquer autoridade paterna.
Estava ao meu lado, em minha biblioteca e eu me alegrava
extraordinariamente por saber que ele chegara. Sentia-me
particularmente feliz por lhe apresentar minha esposa, meus filhos
e contar-lhe tudo o que tinha feito mostrando-lhe o homem que
me tornara. Queria também falar de meu livro Os Tipos
Psicológicos, recentemente publicado, mas imediatamente notei
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 61 –
que esses assuntos o importunavam porque parecia preocupado.
Tinha o ar de quem esperava qualquer coisa. Eu percebi e por isso
me mantive reservado. Disse-me então que por ser eu psicólogo
gostaria de consultar-me sobre a psicologia do casamento.
Dispunha-me a dissertar longamente a respeito das complicações
da união conjugal, mas nesse momento acordei. Não pude
compreender o sonho como deveria, pois não tive a idéia de que
era preciso ligá-lo à morte da minha mãe. Só o compreendi quando
ela morreu subitamente em janeiro de 1923.
O casamento de meus pais não fora uma união feliz, mas
uma prova de paciência sobrecarregada de múltiplas dificuldades.
Ambos cometeram os erros típicos comuns a numerosos casais.
Meu sonho me deveria ter feito prever a morte de minha mãe;
após uma ausência de vinte e seis anos, meu pai, no sonho,
informava-se junto a um psicólogo sobre conhecimentos e
aquisições mais atuais concernentes às dificuldades do matrimônio,
pois chegara para ele o tempo de retomar o problema. Em seu
estado intemporal, não adquirira, evidentemente, nenhum saber
novo e por isso dirigia-se a um vivo que, beneficiado com as
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 62 –
mudanças trazidas pelo tempo, pudera adquirir novos pontos de
vista.
Assim fala o sonho. Incontestavelmente eu teria podido, se
tivesse compreendido sua significação dentro de meu plano
subjetivo, ganhar muito ainda. Mas porque tive esse sonho
justamente antes da morte de minha mãe, fato de que não tivera
nenhum pressentimento? O sonho está nitidamente voltado para
meu pai, por quem tinha uma simpatia que, com os anos, se
aprofundara.
Em decorrência de sua relatividade espaço-tempo, o
inconsciente tem melhores fontes de informação que a
consciência, a qual apenas dispõe de percepções sensoriais. Por
esse motivo, estamos reduzidos, no que se relaciona com o mito
de uma vida post-mortem, às escassas alusões do sonho e a outras
manifestações espontâneas do inconsciente. Não podemos, já
dissemos, outorgar a essas indicações o valor de conhecimentos ou
de provas; mas elas podem servir de base adequada para
amplificações míticas; elas permitem ao intelecto indagador esse
âmbito de possibilidades absolutamente necessárias à sua atividade
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 63 –
vital. Não havendo o mundo intermediário da fantasia mítica, o espírito
fica ameaçado de congelar-se no doutrinarismo. Mas, inversamente,
o interesse por tais germes míticos constitui um perigo
para espíritos fracos e sugestionáveis, que poderão tomar esses
pressentimentos por conhecimentos e hipostasiar fantasmas.
Um mito muito divulgado sobre o além é constituído por
idéias e . representações a respeito da reencarnação.
Num país em que a cultura espiritual é muito diferente e
muito mais antiga do que a nossa, como a Índia, a idéia da
reencarnação é, por assim dizer, natural e tão espontânea como
entre nós a idéia de que Deus criou o mundo ou a existêncla de um
spiritus rector (de um espírito diretor), de uma providência. Os
hindus cultos sabem que não pensamos como eles, mas isso não os
inquieta. De acordo com as características espirituais do oriental, a
sucessão de nascimento e niorte é considerada como um
desenrolar sem fim, como uma roda eterna que gira sempre sem
objetivo. Vivemos, discernimos; morremos e recomeçamos do
início. Foi somente com Buda que aparece a idéia de um objetivo:
o de superar a existência terrestre.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 64 –
A necessidade mítica do homem ocidental exige a imagem de
um mundo em evolução, que tenha um começo e um objetivo. O
ocidental rejeita a imagem de um mundo que tenha um começo e
um simples fim, da mesma forma que repele a representação de um
ciclo estático eterno, fechado sobre si mesmo. O oriental, pelo
contrário, parece poder tolerar essa idéia. Não há, evidentemente,
consensus geral sobre qual seja a essência do mundo e os próprios
astrônomos não puderam ainda chegar a um acordo a respeito
desta questão. Ao homem do Ocidente o absurdo de um universo
simplesmente estático é intolerável. É preciso pressupor-lhe um
sentido. O oriental não tem necessidade alguma de tal pressuposto,
pois que ele incorpora esse sentido. Enquanto o ocidental quer
completar o sentido do mundo, o oriental esforça-se por realizar
esse sentido no homem, despojando-se ele mesmo do mundo e da
existência (Buda).
Daria razão tanto a um como a outro. Porque o ocidental me
parece sobretudo extrovertido e o oriental introvertido. O primeiro
projeta o sentido, isto é, coloca-o nos objetos; o segundo sente-o
em si mesmo. Ora, o sentido porém está tanto no exterior como
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 65 –
no interior. Não se pode separar a idéia da reencarnação da idéia
do carma. A questão decisiva é saber se o carma de um ser
humano é ou não pessoal. Se o destino preestabelecido com que
um ser humano entra na vida é o resultado de ações e realizações
das vidas anteriores, existe então uma continuidade pessoal. Na
outra hipótese, um carma é, por assim dizer, apreendido por
ocasião do nascimento; incorpora-se novamente sem que haja uma
continuidade pessoal.
Duas vezes os discípulos perguntaram a Buda se o carma do
homem era pessoal ou impessoal. Duas vezes ele se esquivou a
responder evitando comprometer-se: conhecer a resposta, disse,
não contribuiria para libertar o homem da ilusão do ser. Buda
considerava que lhes era mais útil meditar sobre a cadeia dos
nidanas, isto é, nascimento, vida, velhice e morte, causa e efeito
dos acontecimentos dolorosos.
Não sei responder se o carma que vivo é o resultado de
minhas vidas passadas, ou uma aquisição de meus ancestrais, cuja
herança se condensou em mim. Serei, por acaso, uma cojnbinação
de vidas ancestrais e será que reencarno de novo essas vidas? Terei
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 66 –
vivido, antes, como personalidade determinada e terei progredido
.o suficiente nessa vida ulterior para poder agora esboçar uma
solução? Eu o ignoro. Buda não respondeu à pergunta e posso
supor que ele próprio não tinha certeza.
Posso facilmente imaginar que já vivi em séculos anteriores e
ao depararcom perguntas a que ainda não posso responder, supor
que me é necessário nascer novamente, por não ter completado a
tarefa que me foi imposta. Quando morrer meus atos me seguirão.
É, pelo menos, o que imagino. Levarei comigo o que fiz, tendo a
esperança, contudo, de não chegar ao fim de meus dias com as
mãos vazias. Buda parece ter pensado assim quando procurava
afastar seus discípulos de especulações inúteis.
O sentido de minha existência residir no fato da vida colocame
uma questão. Ou, inversamente, sou eu próprio uma questão
colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso
contrário,.estarei reduzido à resposta que o mundo me der. Tal á a
tarefa vital transpessoal que cumpro com dificuldade. Talvez esta
questão já tenha preocupado meus antepassados, sem que tenham
encontrado uma resposta. Será por este motivo que me
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 67 –
impressiona tanto o fato de que o final do Fausto não traga
nenhuma solução? Ou ainda o problema do episódio dionisíaco
em que Nietzsche naufragou e que parece ter escapado ao homem
cristão? Ou então é o Wotan-Hermes cheio de inquietude dos
meus ancestrais alemães e francos que me propõem enigmas
provocantes? Ou finalmente será que Richard Wilhelm tinha
razão quando dizia, brincando, que eu fora, numa vida anterior,
um chinês rebelde que devia – à guisa de punição – descobrir na
Europa sua alma oriental?
O que experimento como resultante das vidas de meus
antepassados, ou como carma adquirido numa vida anterior
pessoal poderia, do mesmo modo, ser perfeitamente um
arquétipo impessoal que hoje mantém em suspenso o mundo
inteiro e que particularmente me tomou por exemplo, o
desenvolvimento secular da tríade divina e sua confrontação com
o princípio feminino, ou a resposta, ainda por encontrar, à
questão dos gnósticos sobre a origem do mal; em outros termos,
o inacabado da imagem cristã de Deus.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 68 –
Penso também numa outra possibilidade: através de um ato
individual poderá surgir uma questão no mundo, cuja resposta irá
constituir uma nova exigência. Por exemplo: as questões que
levanto e as respostas que procuro dar a elas podem não ser
satisfatórias. Nestas condições, alguém que tenha o meu carma –
talvez eu mesmo – deverá então renascer para fornecer uma
resposta mais completa. Por este motivo, poderei imaginar que não
tornarei a nascer enquanto o mundo não sentir necessidade de uma
nova resposta e, enquanto isso, terei alguns séculos de repouso, até
que haja de novo necessidade de que alguém se interesse por esse
genero de coisas. Poderei então retomar de novo a tarefa, com
proveito. Sinto que agora poderá ocorrer um período de calma, até
que a obra realizada seja assimilada.
O problema do carma, assim como o da reencarnação ou
da metempsicose, ficaram obscuros para mim. Assinalo com
respeito a profissão de fé indiana em favor da reencarnação e,
olhando em torno, no campo de minha experiência, pergunto a
mim mesmo se em algum lugar e como, terá ocorrido algum fato
que possa legitimamente evocar a reencarnação. É evidente que
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 69 –
deixo de lado os testemunhos relativamente numerosos que
acreditam na reencarnação. Uma crença prova apenas a
existência do “fenômeno da crença”, mas de nenhuma forma a
realidade de seu conteúdo. E preciso que este se revele
empiricamente, em si próprio, para que eu o aceite. Até estes
últimos anos, embora tivesse tido toda atenção, não cheguei a
descobrir absolutamente nada de convincente neste campo. Mas
recentemente observei em mim mesmo uma série de sonhos que,
com toda a probalidade, descrevem o processo da reencarnação
de um morto de minhas relações. Era mesmo possível seguir,
como uma probabilidade não totalmente negligenciável, certos
aspectos dessa reencarnação até à realidade empírica. Mas como
nunca mais tive ocasião de encontrar ou tomar conhecimento de
algo semelhante, fiquei sem a menor possibilidade de estabelecer
uma comparação. Minha observação é, pois, subjetiva e isolada.
Quero somente mencionar sua existência, mas não o seu
conteúdo. Devo confessar, no entanto, que a partir dessa experiência
observo com maior boa vontade o problema da
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 70 –
reencarnação, sem no entanto defender com segurança uma
opinião precisa.
Se admitirmos que há uma continuação no “além”, só
poderemos conceber um modo de existência que seja psíquico,
pois a vida da psique não tem necessidade de espaço ou tempo.
A existência psíquica – e sobretudo as imagens interiores de que
nos ocupamos desde agora – oferecem matéria para todas as
especulações míticas sobre uma vida no além, e esta eu a
represento como um caminhar progressivo através do mundo
das imagens. Desse modo a psique poderia ser essa existência na
qual se situa o “além” ou o “país dos mortos”. Inconsciente e
“país dos mortos” seriam, nessa perspectiva, sinônimos.
Do ponto de vista psicológico, a “vida no além” aparece
como uma seqüência lógica da vida psíquica na velhice. Com
efeito, à medida que o homem progride em idade, a contemplação,
a reflexão e as imagens interiores desempenham, o que é natural,
um papel cada vez maior: “Os velhos terão sonhos .3” Isso indica
que a alma dos velhos não está petrificada – sero medicina paratur
cum mala per longas convaluaere moras. (O remédio foi preparado
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 71 –
tardiamente quando o mal já se agravou pela longa demora). Na
velhice deixamos que as lembranças se desenrolem diante do olho
interior e encontramo-nos a nós mesmos através das imagens
interiores e exteriores do passado. É como se fosse o primeiro
passo, uma preparação para a existência no além, da mesma
maneira que, segundo a concepção de Platão, a filosofia é uma
preparação para a morte.
As imagens interiores impedem que nos percamos na
retrospectiva pessoal: muitos homens de idade se enredam na
lembrança de acontecimentos exteriores, neles se aprisionando;
mas se neste olhar para o passado houver reflexão e tradução em
imagens, poderá ser um reculer pour mieux sauter: procuro ver a
linha que conduziu minha vida no mundo e que a conduz de
novo para fora deste mundo.
Em geral as representações que os homens fazem do além
são determinadas por seus desejos e preconceitos. É por este
motivo que freqüentemente representações claras e serenas são
associadas ao
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 72 –
além. Mas isso não me convence. Custa-me imaginar que
após nossa morte aterrissaremos em suaves campinas floridas. Se
tudo fosse claro e bom no além, deveria haver amistosas
comunicações entre nós e os numerosos espíritos bemaventurados,
e, por conseguinte, vertamos descer sobre nós, em
estado pré-natal, efusões de beleza e bondade. O que acontece
não é isso. Por que esta insuperável barreira entre os mortos e
os vivos? A metade, pelo menos, das narrações de encontros
com os espíritos dos mortos versa sobre episódios aterradores e
a regra é que na morada dos mortos reina um silêncio glacial,
um desprezo pela dor dos abandonados.
Se tomo consciência do que penso, involuntariamente, o
mundo me aparece a tal ponto unitário que se torna impossível
um “além” ao qual faltasse completamente a natureza das
oposições polares. Porque “lá” deve também reinar uma
“natureza” que, a seu modo, é de. Deus. O mundo em que
entramos após a morte será grandioso e assustador, à
semelhança da divindade e da natureza que conhecemos.
Também não posso conceber que o sofrimento deixe de existir
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 73 –
nele. Certamente, o que vivi em muitas visões de 1944 (a
libertação do fardo do corpo e a percepção do Sentido)
trouxeram-me profunda felicidade. E, no entanto, mesmo no
seio desta beatitude, reinava uma obscuridade e uma carência
singulares de calor humano. Pensem no rochedo negro de que
me aproximei! Era negro e do granito mais duro. O que poderia
isso significar? Se não houvesse qualquer imperfeição, qualquer
defeito primordial no próprio fundamento da criação, por que
então esta necessidade de criar e para que esta aspiração de
cumprir o que se deve? Por que a continuação da cadeia dos
nidanas até o infinito? Afinal de contas, Buda opõe à ilusão
penosa da existência seu quod non (não é assim) e o cristão
espera um próximo fim deste mundo!
Acho provável que existam igualmente no além certas
limitações; mas as almas dos mortos só descobrem
progressivamente onde residem os limites do estado de
libertação. Em algum lugar, “lá”, reina uma necessidade
imperiosa que condiciona o mundo e quer pôr um termo ao
estado de existência no além. Esta necessidade criadora decidirá
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 74 –
– assim penso – quais as almas que serão de novo mergulhadas
na encarnação e no nascimento. Eu poderia imaginar que para
algumas almas o estado de existência tridimensional seria mais
feliz do que o estado “eterno”. Mas isso dependerá talvez do
que elas tenham levado consigo como soma de perfeição ou de
imperfeição de sua existência humana.
Pode ser que uma continuação da vida tridimensional não
tenha mais nenhum sentido, uma vez que a alma tenha atingido
certos degraus de inteligência; que esteja liberta da necessidade de
retornar à Terra e que uma compreensão superior suprima o
desejo de ver-se reencarnada. Então a alma escaparia ao mundo
tridimensional e atingiria o estado a que os budistas chamam de
Nirvana. Mas se ainda há um carma que deva ser cumprido, a alma
recai no mundo dos desejos e retorna novamente à vida, talvez
sabendo mesmo que falta alguma coisa para cumprir.
No meu caso é uma aspiração apaixonada compreender o
que, em última instância, suscitou o meu nascimento. É esse
com efeito o elemento mais poderoso do meu ser. Esse instinto
insaciável de compreensão criou, poder-se-ia dizer, uma
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 75 –
consciência para conhecer o que é, o que ocorre e, por
acréscimo, descobrir representações míticas a partir das fracas
alusões ao que não pode ser conhecido.
Não somos, de forma alguma, capazes de demonstrar que
qualquer coisa de nós se conserva eternamente. Tudo o que
podemos dizer é que existe uma certa probabilidade de que
alguma coisa se conserve além da morte fisica. E o que continua
a existir é em si mesmo consciente? Também não o sabemos. Se
tivermos a necessidade de opinar sobre esse assunto, talvez
possamos levar em consideração aquilo que é conhecido nos
fenômenos de dissociação psíquica. Com efeito, na maior parte
dos casos em que se manifesta um complexo autônomo, ele
aparece sob a forma de uma personalidade, como se o
complexo tivesse consciência de si próprio. É por este motivo
que as vozes dos doentes mentais são personificadas. Este
fenômeno do complexo personificado, eu o estudei em minha
tese. Poder-se-ia, se quiséssemos, invocar tal fato em favor de
uma continuidade da consciência. Em favor desta hipótese,
podemos citar as surpreendentes observações feitas quando
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 76 –
ocorrem graves colapsos ou desmaios profundos, oriundos de
lesões agudas do cérebro. Nos dois casos pode haver
percepções do mundo exterior, assim como intensos fenômenos
oníricos, mesmo que se trate de uma profunda perda de
consciência. Como a superficie cerebral, que é a sede da
consciência, é posta fora de circuito durante a síncope, estes
fenômenos ainda hoje permanecem inexplicáveis. Eles
poderiam testemunhar em favor de uma conservação, pelo
menos subjetiva, da aptidão da consciência – mesmo no estado
de aparente inconsciência.
O problema das relações entre o “homem intemporal”, o
si-mesmo, e o homem terrestre, no tempo e no espaço, suscita
as mais dificeis perguntas. Dois sonhos vieram esclarecê-las.
Num sonho que tive em outubro de 1958, notei, de minha
casa, dois discos de metal brilhante em forma de pequenas lentes;
iam em direção ao lago, por sobre a casa, descrevendo um arco de
fraca luz. Eram dois U.F.O. (Unidentified Flying Objects). Em
seguida, um outro corpo parecia dirigir-se para mim. Era uma
pequena lente circular como a objetiva de um telescópio. A quatro
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 77 –
ou cinco metros de distância, o objeto imobilizou-se por um
instante, e em seguida desapareceu. Imediatamente após, um outro
corpo chegou, atravessando os ares: uma pequena lente de objetiva
com um prolongamento metálico que terminava numa caixa, uma
espécie de lanterna mágica. A sessenta ou setenta metros de
distância, parou no ar e me fitou. Acordei, tomado por um
sentimento de espanto. Ainda no meio do sonho uma idéia me
atravessou o espírito: “Sempre acreditamos que os U.F.O.
fossem projeções nossas; ora, ao que parece, nós é que somos
projeções deles. A lanterna mágica me projeta sob a forma de C.
G. Jung, mas quem manipula o aparelho?”
Eu já sonhara certa vez sobre as relações entre o Si-Mesmo
e o eu. Nesse sonho de outrora eu caminhava por um atalho;
atravessava uma região escarpada, o sol brilhava e tinha sob os
olhos, à minha volta, um vasto panorama. Aproximei-me de uma
capelinha, à beira do caminho. A porta estava entreaberta e
entrei. Para meu grande espanto não havia nenhuma estátua da
Virgem, nem crucifixo sobre o altar, mas simplesmente um
arranjo floral magnífico. Diante do altar, no chão, vi, voltado
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 78 –
para mim, um iogue, na posição de lótus, profundamente
recolhido. Olhando-o de mais perto, vi que ele tinha o meu
rosto; fiquei estupefato e acordei, pensando: “Ah! Eis aquele que
me medita. Ele sonha e esse sonho sou eu.” Eu sabia que
quando ele despertasse eu não existiria mais.
Tive este sonho depois de minha doença em 1944. É uma
parábola: meu Si-Mesmo entra em meditação, por assim dizer
como um iogue e medita sobre minha forma terrestre. Poder-seia
também dizer: ele toma a forma humana para vir à existência
tridimensional, como alguém que veste um equipamento de
mergulhador para lançarse ao mar. O Si-Mesmo, renunciando à
existência no além, assume uma atitude religiosa, como também
o indica a capela na imagem do sonho. Em sua forma terrestre
pode fazer as experiências no mundo tridimensional e, com uma
consciência acrescida, progredir no sentido de sua realização.
A personagem do iogue representava, de algum modo,
minha totalidade pré-natal inconsciente e o Oriente longínquo –
como acontece freqüentemente nos sonhos – um estado
psíquico oposto à consciência e que nos é estranho. Como a
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 79 –
lanterna mágica, a meditação do iogue “projeta” também minha
realidade empírica. Em geral, aprendemos esta conexão causal
em sentido inverso: descobrimos nas produções do inconsciente
símbolos de mandalas, isto é, figuras circulares ou quaternidades
que exprimem a totalidade e, quando queremos exprimir a
totalidade, utilizamos precisamente tais figuras. Nossa base é a
consciência do eu, um campo numinoso que constitui nosso
mundo e que está centrado num ponto focal: o eu. A partir deste
ponto iluminado nosso olhar mergulha num mundo obscuro e
enigmático e não saberíamos dizer em que medida os traços e as
sombras que ali discernimos são criação de nossa consciência, ou
em que proporção elas possuem uma realidade própria. Uma
observação superficial dá-se por satisfeita admitindo que a
consciência cria estas sombras. Mas se olharmos mais de perto
perceberemos que as imagens inconscientes não são em geral
produtos do consciente, mas possuem sua própria realidade e
espontaneidade. Apesar disso, nós as consideramos como
espécies de fenômenos marginais. Os dois sonhos tendem à
inversão total das conexões entre a consciência do eu e o inCARL
GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 80 –
consciente, fazendo do inconsciente o criador da pessoa
empírica. A inversão indica que, na opinião do “outro lado em
nós”. nossa existência inconsciente é a existência real e que o
nosso mundo consciente e uma espécie de ilusão ou uma
realidade aparente forjada em vista de um certo objetivo, à
semelhança do sonho que parece ser real quando nele estamos
mergulhados. Está claro que esta visão das coisas assemelha-se
muito com a concepção do mundo oriental, na medida em que
este crê na Màya.
A totalidade inconsciente parece-me, pois, ser o verdadeiro
spiritus rector de todo fenômeno biológico e psíquico. Ela tende à
realização total e, no que concerne ao homem, à tomada de
consciência total. A tomada de consciência é cultura no sentido
mais vasto do termo, e por conseguinte, o conhecimento de simesmo
é a essência e o coração deste processo. É indubitável
que o Oriente atribuiu ao si-mesmo um valor divino e segundo a
velha concepção do cristianismo o autoconhecimento é o
caminho que conduz à cognitio Dei.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 81 –
Para o homem a questão decisiva é esta: você se refere ou
não aõ infinito? Tal é o critério de sua vida. Se sei que o ilimitado
é essencial então não me deixo prender a futilidades e a coisas
que não são fundamentais. Se o ignoro, insisto que o mundo
reconheça em mim certo valor, por esta ou aquela qualidade que
considero propriedade pessoal: “meus dons” ou “minha beleza”
talvez. Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos
pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a
vida. Sente-se limitado porque suas intenções são cerceadas e
disso resulta inveja e ciúme. Se compreendermos e sentirmos que
já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os desejos e
atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se
não acedemos a ele a vida foi desperdiçada. Em nossas relações
com os outros é também decisivo saber se o infinito se exprime
ou não.
Mas só alcanço o sentimento do ilimitado se me limito ao
extremo. A maior limitação do homem é o Si-Mesmo; ele se
manifesta na constatação vivida: “sou apenas isso!” Somente a
consciência de minha estreita limitação no meu Si-Mesmo me
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 82 –
vincula ao ilimitado do inconsciente. É quando me torno
consciente disso que me sinto ao mesmo tempo limitado e
eterno. Tomando consciência do que minha combinação pessoal
comporta de unicidade, isto é, em definitivo, de limitação, abrese
para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito.
Mas somente desta maneira. Numa época exclusivamente
orientada para o alargamento do espaço vital, assim como para o
crescimento a todo custo do saber racional, a suprema exigência
é ter consciência de sua unicidade e limitação. Ora, unicidade e
limitação são sinônimos. Sem tal consciência não pode haver
percepção do ilimitado – e, portanto, nenhuma tomada de
consciência do infinito – mas simplesmente uma identificação
totalmente ilusória com o ilimitado, que se manifesta na
embriaguez dos grandes números e na reivindicação sem limites
dos poderes políticos.
Nossa época colocou a tônica no homem daqui, suscitando
assim uma impregnação demoníaca do homem e de todo seu
mundo. A aparição dos ditadores e de toda a miséria que eles
trouxeram provém de que os homens foram despojados de todo
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 83 –
o sentido do além, pela visão curta de seres que se acreditavam
muito inteligentes. Assim o homem tornou-se presa do
inconsciente. Sua maior tarefa, porém, deveria ser tomar
consciência daquilo que, provido do inconsciente, urge e se
impõe a ele, em vez de ficar inconsciente ou de com ele se
identificar. Porque nos dois casos ele é infiel à sua vocação, que
é criar consciência. À medida que somos capazes de discernir, o
único sentido da existência é acendermos a luz nas trevas do ser
puro e simples. Pode-se mesmo supor que da mesma forma que
o inconsciente age sobre nós, o aumento de nossa consciência
tem, por sua vez, uma ação de ricochete sobre o inconsciente.
ÚLTIMOS PENSAMENTOS
Minha biografia seria incompleta se as reflexões que se
seguem neste capítulo não fossem anexadas. Elas constituem
esclarecimentos indispensáveis, ainda que corram o risco de
parecer-teóricas aos olhos do leitor. Mas esta “teoria” é uma
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 84 –
forma de existência que fez parte de minha vida; estabelece um
modo de ser, tão necessário para mim como beber ou comer.
I
Um dos dados mais característicos do cristianismo é o fato
de que antecipa em seus dogmas um processo de metamorfose
na divindade, e conseqüentemente uma transformação histórica.
Isso ocorre sob a forma do novo mito resultante de uma cisão
no Céu, à qual se faz alusão pela primeira vez no mito da
Criação. De acordo com este mito, um antagonista do Criador
aparece como serpente e induz os primeiros homens à
desobediência, mediante a promessa de uma consciência
amplificada (Cientes bonum et malum). A segunda alusão é a queda
dos anjos, invasão “precipitada” do mundo humano pelos
conteúdos inconscientes. Os anjos pertencem a àm gênero
singular: são o que são e não podem ser algo de diferente.
Entidades em si mesmas desprovidas de alma; representam os
pensamentos e as intuições de seu Senhor. No caso da quedados
anjos, não se trata unicamente de “maus” anjos. Eles
determinam o efeito bem conhecido da inflação, que podemos
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 85 –
observar hoje no delírio dos ditadores: os anjos criam com os
homens uma raça de gigantes que finalmente se dispõe a devorar a
humanidade, tal como nos é relatado no Livro de Enoch.
Mas o terceiro e decisivo degrau do mito é a própria
realização de Deus sob a forma humana, em cumprimento à
idéia do Velho Testamento no tocante às bodas divinas e suas
conseqüências. Já no cristianismo primitivo a idéia da
Encarnação derivara da concepção do Christus in nobis. Assim, a
totalidade inconsciente irrompera no domínio psíquico da
experiência interior e conferira ao homem uma intuição de sua
estrutura total. Acontecimento decisivo, não somente para o
homem, como também para o Criador: aos olhos daqueles que
tinham sido libertos das trevas, Ele se despojava de Seus
elementos sombrios e nefastos e se tornava o summum bonum.
Este mito manteve-se vivo e inalterável durante um milênio, até
o século XI, momento em que apareceram os primeiros sinais de
uma transformação ulterior da consciência. A partir de então, os
sintomas da inquietação e da dúvida multiplicaram-se, e a
imagem de uma catástrofe universal começou a esboçar-se no
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 86 –
segundo milênio, isto é, antes de mais nada, a imagem de uma
ameaça à consciência. Essa ameaça exprimiu-se no fenômeno
dos gigantes, num desvio da consciência: “Nada é maior do que
o homem e suas ações.” Perdeu-se o caráter transcendente do
mito cristão e, com ele, a visão cristã da totalidade que se perfaz
no além.
À luz seguiu-se a sombra, o outro lado do Criador. Este
desenvolvimento atinge o ponto culminante no século XX. O
mundo cristão confronta-se agora com o princípio do mal, isto é,
com a injustiça, a tirania, a mentira, a escravidão e a opressão das
consciências. Se essa manifestação inequívoca do mal parecia ter
atingido uma forma permanente no povo russo, foi entre os
alemães que eclodiu como o primeiro incêndio gigantesco e
devastador. E assim tornou-se evidente e irrefutável a que alto
grau o cristianismo do século XX fora minado e esvaziado. Em
face disso, o mal não poderia mais ser banalizado pelo
eufemismo da privado boni (privação do bem). O mal tornou-se
uma realidade determinante. Não é mais possível desembaraçarse
dele por meio de uma simples troca de nomes; é necessário
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 87 –
aprender a conviver com ele, pois ele quer participar da vida. Até a
hora atual, ainda é inconcebível como isso será possível, sem
maiores danos.
De qualquer maneira, necessitamos de uma nova
orientação, isto é, de uma metanoia (conversão). Quando se toca
no mal, corre-se o risco iminente de se sucumbir a ele. Ora, o
homem, de um modo geral, não deve sucumbir nem mesmo ao
bem. Um pretenso bem ao qual se sucumbe, perde seu caráter
moral, não porque tenha se tornado um mal em si, mas porque
determina conseqüências más, simplesmente porque se sucumbiu
a ele. Qualquer que seja a forma que revele o excesso a que nos
entregamos, como o álcool, a morfina ou o idealismo, é nociva.
Nunca devemos sucumbir à sedução daquilo que é prejudicial.
O critério da ação ética não pode mais consistir no fato de
que aquilo que é considerado bom tome o caráter de um
imperativo categórico; inversamente, o que é considerado mau
não deve ser evitado de um modo absoluto. Quando
reconhecemos a realidade do mal, o bem toma necessariamente
um caráter relativo e aparece como uma das metades de dois
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 88 –
termos opostos. O mesmo ocorre com o mal. Os dois
constituem, juntamente, um todo paradoxal. Praticamente isto
significa que tanto o bem como o mal perderam o caráter
absoluto e que somos obrigados a tomar consciência de que
representam julgamentos.
A imperfeição de todo julgamento faz-nos, entretanto,
perguntar se nossa opinião, em cada caso particular, é justa.
Podemos sucumbir a um julgamento falso, mas isso só concerne
ao problema ético, na medida que nos sentimos incertos de
nossa apreciação moral. Mas nem por isso devemos deixar de
tomar nossas decisões sobre o plano ético. A relatividade do
“bem” e do “mal” ou do mau não significa de forma alguma que
essas categorias não sejam válidas ou não existam. O julgamento
moral existe sempre e em toda parte, com suas conseqüências
características. Como já assinalei, uma injustiça cometida, ou
somente projetada, ou ainda pensada, vingar-se-á de nossa alma,
no passado como no futuro, qualquer que seja o curso do
mundo. São os conteúdos do julgamento que mudam,
submetidos às condições de tempo e de lugar, e em conseqüência
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 89 –
destes. A apreciação moral baseia-se sempre no código de
costumes, que parece seguro e nos instiga a discernir o bem do
mal. Mas quando sabemos como essa base é frágil, a decisão
ética torna-se um ato criador subjetivo, sobre o que não
podemos estar certos – senão Deo concedeste (com a graça de
Deus) – e isso quer dizer que necessitamos de um impulso
espontâneo e decisivo que emana do inconsciente. A ética, o ato
de decidir entre o bem e o mal, não está implicada em seu
princípio; apenas se tornou mais dificil para nós. Nada pode
poupar-nos do tormento da decisão ética. Mas por mais rude que
isto possa parecer, é necessário, em certas circunstâncias, ter a
liberdade de evitar o que é reconhecido como moralmente bom,
e fazer o que é estigmatizado como mal, se a decisão ética o
exigir. Em outras palavras: é necessário não sucumbir a qualquer
um dos dois termos opostos. Contra a unilateralidade dos
opostos, temos, sob uma forma moral, o neti neti (nem isto, nem
aquilo) da filosofia hindu. Nesta perspectiva, o código moral
será, em certos casos, irremediavelmente abolido, e a decisão
ética dependerá do indivíduo. Isto não representa nada de novo,
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 90 –
pois já significou, no correr dos tempos pré-psicológicos, o que
se chama de conflito de deveres.
O indivíduo, porém, é, em regra geral, de tal modo
inconsciente, que não percebe suas possibilidades de decisão; por
isso procura ansiosamente as regras e as leis exteriores às quais
possa ater-se nos momentos de perplexidade. Abstração feita das
insuficiências humanas, a educação é em grande parte a culpada
por esse estado de coisas: ela procura suas normas
exclusivamente no que é normal, e nunca se refere à experiência
pessoal do indivíduo. Ensina-se freqüentemente um idealismo
que não pode ser satisfeito, e as pessoas que o defendem são
conscientes de que nunca os viveram, nem jamais os viverão.
Quem, por conseguinte, desejar encontrar uma resposta ao
problema do mal, tal como é colocado hoje em dia, necessita em
primeiro lugar de um conhecimento de si mesmo, isto é, de um conhecimento
tão profundo quanto possível de sua totalidade.
Deve saber, sem se poupar, a soma de atos vergonhosos e bons
de que é capaz, sem considerar a primeira como ilusório ou a
segunda como real. Ambas são verdadeiras enquanto
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 91 –
possibilidades e não poderá escapar a elas se quiser viver (como
obviamente deveria), sem mentir a si mesmo e sem vangloriar-se.
Mas, em geral, estamos de tal modo distanciados desse
nível de consciência, que essa perspectiva parece quase sem
esperança, se bem que exista em muitos indivíduos modernos a
possibilidade de um conhecimento profundo de si mesmo. Tal
conhecimento é necessário, pois só em função dele pode-se
atingir aquela camada profunda, aquele núcleo da natureza
humana no qual se encontram os instintos. Estes são fatores
dinâmicos, presentes a priori, dos quais dependem, em última
análise, as decisões éticas de nossa consciência. Eles compõem o
inconsciente e seus conteúdos, a propósito do que não há
julgamento definitivo. Não podemos ter preconceitos em relação
ao inconsciente, pois é impossível abranger sua natureza pelo
conhecimento, nem demarcar suas fronteiras racionais. Só
podemos chegar ao conhecimento da natureza mediante uma
ciência que amplie o consciente, e é por isso que um
conhecimento aprofundado de si mesmo requer uma ciência: a
psicologia. Seria impossível construir uma luneta astronômica ou
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 92 –
um microscópio com as próprias mãos e com boa vontade, sem
que se tivessem sólidas noções de óptica.
Atualmente, necessitamos da psicologia por razões vitais.
Estamos perplexos, aturdidos e desorientados diante dos
fenômenos do nacional-socialismo e do bolchevismo, pelo fato
de que nada sabemos do homem, ou porque vemos apenas a
metade banal e deformada de sua imagem. Se tivéssemos um
certo conhecimento de nós mesmos, o caso seria outro. Ergue-se
diante de nós a terrível questão do mal e não o percebemos, sem
falar da resposta que urge dar a ela. Mesmo que esse mal fosse
visto, não se compreenderia “como as coisas chegaram a esse
ponto”. Um chefe de Estado declarou recentemente, dando
provas de uma ingenuidade genial, que não possuía “imaginação
para o mal”. Isto me parece muito pertinente: nós não possuímos
nenhuma imaginação para o mal, mas ela nos possui.
Alguns nada querem saber sobre o mal e outros com ele se
identificam. Tal é a situação psicológica do mundo atual. Alguns
ainda se imaginam cristãos e pretendem calcar com os pés o
suposto mal, enquanto que outros sucumbem a ele, sem discernir
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 93 –
mais o bem. O mal tornou-se, hoje, uma grande potência visível:
metade da humanidade apóia-se numa doutrina fabricada a
golpes de elucubrações humanas; a outra sofre a falta de um
mito apropriado à situação.
No que se refere aos povos cristãos, o cristianismo
deliqüescente negligenciou desenvolver seu mito no decurso dos
séculos. O cristianismo recusou ouvir aqueles que davam
expressão à dinâmica obscura das representações míticas. Um
Gioacchino da Fiore, um Meister Eckhart, um Jacob Boehme, e
muitos outros foram mantidos em segredo para a grande maioria
dos homens. O único raio de luz é Pio XII e seu dogma ,2 mas
nem mesmo se compreende o que eu pretendo dizer com isto.
Não se compreende que um mito morre quando não vive mais ou
quando seu desenvolvimento cessa. Nosso mito emudeceu e não
mais nos responde. A culpa, porém, não cabe a ele, tal como está
contido nas Sagradas Escrituras, mas a nós que não continuamos a
desenvolvê-lo; pelo contrário, impedimos todas as tentativas
efetuadas nesse sentido. Em sua forma original, o mito mostra
bem os pontos a partir dos quais poderiam nascer as possibilidades
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 94 –
de seu desenvolvimento. Por exemplo, as palavras postas na boca
de Cristo: “Mostrai-vos, portanto, astutos como a serpente e
cândidos como as pombas.” Por que teríamos a necessidade de ser
astutos como a serpente? E quanto à candura da pomba? “... Se
não voltardes ao estado de infância...” (Mateus XVIII, 3). Mas
quem sabe o que as crianças realmente são? Que moral justifica o
Senhor quando usurpa o asno de que tem necessidade para entrar
em Jerusalém como vitorioso? E quanto à sua irritação semelhante
ao de urna criança, quando maldiz a figueira? Que moral se segue à
parábola do intendente infiel? E qual será esse conhecimento
profundo e de tão grande alcance para nós, que encontramos nas
palavras apócrifas do Senhor: “Meu amigo, se sabes o que fazes, és
feliz, mas se não o sabes, és um maldito e um transgressor da Lei?
1,3 O que quer dizer, finalmente, aquilo que Paulo professa
(Romanos, VII, 19): “...'eu não faço o bem que quero e cometo-o
mal que não quero”? E eu silencio diante das profecias inequívocas
contidas no Apocalipse, às quais, em geral, não se dá crédito, porque
são muito embaraçosas.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 95 –
A questão colocada outrora pelos gnósticos: “De onde vem
o mal?” não encontrou resposta no mundo cristão. E a alusão de
Orígensa uma possível redenção do Diabo tornou-se heresia.
Mas hoje a questão nos assedia e precisamos dar uma resposta.
Permanecemos de mãos vazias, espantados, perplexos, e nem
mesmo percebemos que nenhum mito nos ajuda, agora que
temos tanta necessidade dele. Em conseqüência à situação
política e aos acontecimentos terríveis, isto é, demoníacos da
ciência, sentimos calafrios secretos e pressentimentos obscuros.
Mas não sabemos o que fazer e poucos são aqueles que chegam à
conclusão de que, desta vez, trata-se da alma do homem, há muito
esquecida.
O desenvolvimento posterior do mito deveria, sem dúvida,
reportar-se ao momento em que o Espírito Santo se revelou aos
Apóstolos, fazendo-os filhos de Deus; não somente a eles, mas a
todos os que, através deles e depois deles, receberam a filiação – o
estado de filho de Deus – participando assim da certeza de que
não eram apenas animalia autóctones, nascidos da terra, mas
que, pelo fato de serem “duas vezes nascidos”, se enraizavam na
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 96 –
divindade. Sua existência visível, corpórea, era desta terra; mas
sua humanidade invisível, interior, tinha origem e futuro na
primeira imagem da totalidade, no Pai eterno, tal como se
exprime o mito da história cristã da salvação.
Assim como o Criador é uma totalidade, Sua criatura, e,
conseqüentemente Seu filho, deve também ser total. Seria
impossível suprimir o que quer que fosse da representação da
totalidade divina; mas sem que houvesse consciência daquilo
que ocorria, houve uma cisão na totalidade. Um reino de luz e
um reino de trevas nascera. Tal resultado já estava preparado
antes do aparecimento de Cristo, como é possível constatar,
entre outros, no Livro de Jó ou no Livro de Enoch, pré-cristão, e
bastante difundido.
Essa dissociação metafísica continuou abertamente no
cristianismo: Satã, que, no Antigo Testamento, pertencia ainda ao
séquito imediato de Jeová, passou a representar a oposição
eterna e diametral ao mundo de Deus. Foi impossível extirpa-lo
depois disso. Assim pois, não é de se admirar que já no começo
do século XI aparecesse a crença de que o criador do mundo
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 97 –
não fosse Deus, mas o Diabo. Isso foi no início da segunda
metade da era cristã, quando o mito da queda dos anjos já havia
relatado que os anjos que perderam a graça divina é que haviam
ensinado aos homens as ciências e as artes perigosas. O que
diriam esses antigos narradores depois do acontecimento de
Hiroshima?
A visão genial de Jacob Boehme discerniu a dualidade
intrínseca da imagem de Deus e colaborou assim na elaboração
posterior do mito. O símbolo da mandala esboçada por Boehme
representa o deus dissociado; seu círculo interior, com efeito, se
cinde em dois semicírculos que se contrapõem e se dão
reciprocamente as costas.
Uma vez que, segundo as premissas dogmáticas do
cristianismo, Deus é inteiramente presente em cada uma das três
pessoas da Trindade, Ele deve encontrar-Se também, totalmente,
em cada uma das partes que recebeu o Espírito Santo. Desse
modo, cada ser humano pode participar de Deus em sua totalidade
e, assim, à filiação, ao estado de filho de Deus. A complexio
oppositorum (complementaridade dos opostos) no seio da imagem
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 98 –
de Deus, penetra assim no homem, e isso não sob a forma de uma
unidade, mas de um conflito, a metade tenebrosa da imagem se
chocando com a representação já recebida de que Deus é “luz”. É
esse o processo que se desenrola em nosso tempo, sem que os
mestres responsáveis pelos homens o tenham compreendido, se
bem que sua tarefa fosse discernir estes desenvolvimentos. É
verdade que todos sabem que estamos num ponto de mudança
importantes das idades, mas a crença é que esse ponto de mudança
é suscitado pela fissão ou fusão do átomo, ou pelos foguetes interplanetários.
E, como de costume, a cegueira é completa no que diz
respeito à alma humana.
A medida que a imagem de Deus é, psicologicamente, uma
ilustração e uma manifestação das profundezas da alma, e à
medida que esta começa a se tornar consciente sob a forma de
uma profunda dissociação que atinge a política mundial, uma
compensação psíquica chama pouco a pouco a atenção.
Manifesta-se através de imagens unitárias, de pequenos discos
que aparecem espontaneamente e que representam uma síntese
dos contrastes situados no interior da alma. Creio que a esse
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 99 –
fato se liga o rumor mundial em torno dos Unidenti fïed Flying
Objects (U.F.O.), comumente chamados discos-voadores, que
apareceram pela primeira vez em 1945. Esse rumor ora se apóia
em visões, ora em certas realidades. Esses “objetos não
identificados” são interpretados como máquinas voadoras
provenientes de outros planetas, ou mesmo da “quarta
dimensão”.
Há mais de quarenta anos (1918), descobri a existência de
um símbolo aparentemente central, de natureza semelhante, no
decurso de minhas pesquisas sobre o inconsciente coletivo: o
símbolo da mandala. Para estar seguro de minhas idéias,
acumulei outras observações durante mais de dez anos, antes de
publicar, em 1929, sob uma forma provisória e pela primeira
vez, a minha descoberta. A mandala é uma imagem arquetípica
cuja existência é verificável através de séculos e milênios.
Designa a totalidade do si-mesmo, ou ilustra a totalidade dos
fundamentos da alma – no sentido mítico, a manifestação da
divindade encarnada no homem. Em oposição à mandala de
Boehme, a mandala moderna visa à unidade, isto é, representa
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 100 –
uma compensação da cisão, isto é, sua superação antecipada.
Como tal processo ocorre no inconsciente coletivo, manifestase
por toda parte. É o que mostra o rumor a respeito dos
“discos-voadores”, sintoma de uma diposição mental genérica
em vigência.
À medida que o tratamento analítico torna a “sombra”
consciente, cria uma cisão e uma tensão entre os opostos, os
quais, por sua vez, procuram equilibrar-se numa unidade. A
ligação se processará mediante símbolos. A confrontação entre
os opostos chega ao limite do suportável quando é levada a
sério ou quando se é levado a sério pelos opostos. O tertium non
datur (não há um terceiro termo) da lógica se confirma: é
impossível entrever uma terceira solução.
Entretanto, quando tudo se processa de modo satisfatório,
esta terceira solução se apresenta de maneira espontânea,
naturalmente. É então – e somente então – convincente, sentida
como aquilo que se chama “graça”. A solução que nasce da
confrontação e da luta dos opostos é, na maioria das vezes,
constituída por uma mistura inextricável de dados conscientes e
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 101 –
inconscientes, e é por isso que se pode considera-la um
“símbolo” (uma moeda cortada em duas, cujas metades se
encaixam perfeitamente). 6 Esta solução representa o resultado
da cooperação entre o consciente e o inconsciente; representa
uma analogia com a imagem de Deus, sob forma de mandala,
que é indubitavelmente o esquema mais simples de uma
representação da totalidade, oferecendo-se espontaneamente à
imaginação para figurar os opostos, sua luta e conciliação em
nós. A confrontação que é, inicialmente, de natureza puramente
pessoal, logo é acompanhada pela intuição e pelo conhecimento
de que a tensão subjetiva entre os opostos é, no todo, um caso
particular das tensões conflitantes do mundo.
Pois nossa psique é estruturada à imagem da estrutura do
mundo, e o que ocorre num plano maior se produz também no
quadro mais ínfimo e subjetivo da alma. Por este motivo, a
imagem de Deus é sempre uma projeção da experiência interior
vivida no momento da confrontação com um opositor
poderosíssimo. Este é figurado por objetos que deram origem à
experiência interior e que, a partir daí, guardaram uma
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 102 –
significação numinosa; ou então é caracterizado por uma
numinosidade e pela força subjugante dele. No último caso, a
imaginação se liberta do simples plano do objeto e tenta esboçar
a imagem de uma entidade invisível, que existe atrás das
aparências. Penso aqui na mais simples das formas
fundamentais da mandala, a circunferência, e na divisão mais
simples do círculo (mentalmente): o quadrado e a cruz.
Tais experiências têm uma influência benigna ou
devastadora no homem. Este não pode apreendê-las,
compreendê-las, nem dominálas. Não pode livrar-se delas ou
escapar-lhes, e por este motivo as sente como relativamente
subjugantes ou mesmo onipotentes. Reconhecendo com
precisão que elas não provêm de sua personalidade consciente,
o homem as designa de mana, Demônio ou Deus. O
conhecimento científico utiliza o termo “inconsciente”,
confessando assim sua ignorância na matéria, o que é
compreensível, uma vez que esse tipo de conhecimento nada
pode saber da psique, porquanto só através dela pode atingir o
conhecimento. Eis porque não é possível disoutir ou afirmar a
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 103 –
validade da designação de mana, Demônio ou Deus, mas
unicamente constatar quê o sentimento de algo estranho ligado
à experiência de algo objetivo é autêntico.
Sabemos que acontecem coisas totalmente desconhecidas
e estranhas em nossas vidas. Da mesma forma, sabemos que
não fabricamos um sonho ou uma idéia, mas que ambos nascem
como que por si mesmos. Assim o que se abate sobre nós é um
efeito que provém do mana, de um demônio, de Deus ou do
inconsciente. As três primeiras designações possuem a grande
vantagem de abranger e evocar a qualidade emocional do
numinoso, enquanto que a última – o inconsciente – é banal e,
portanto, mais próxima da realidade.
O conceito de inconsciente inclui o plano das coisas
experimentáveis, isto é, a realidade cotidiana, tal como é
conhecida e abordável. O inconsciente é um conceito
demasiado neutro e racional para que, na prática, possa se
mostrar de grande ajuda à imaginação. Ele foi forjado
precisamente para o uso científico; portanto, é mais apto para
uma abordagem das, coisas sem paixão e sem exigências
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 104 –
metafísicas, do que conceitos transcendentes que são passíveis
de crítica e que podem desviar para um certo fanatismo.
Daí, prefiro o termo “inconsciente”, sabendo
perfeitamente que poderia também falar de “Deus”, ou do
“Demônio” se quisesse me exprimir de maneira mítica. À
medida que me exprimo miticamente, “mana”, “Demônio”,
“Deus” são sinônimos de inconsciente, pois sabemos a respeito
dos primeiros tanto ou tão pouco quanto do último. Acreditamos
simplesmente saber mais sobre os, primeiros, o que, na verdade,
para certos fins, é muito mais útil e muito mais eficaz do que
recorrer a um conceito científico.
A grande vantagem dos conceitos de “Demônio” e “Deus”
está em permitir uma objetivação bem melhor do defrontar-se, ou
seja, da personificação deles. Suas qualidades emocionais lhes
conferem vida e eficácia. Odio e amor, medo e veneração surgem
no teatro da confrontação e a dramatizam em grau supremo. Dessa
forma, o que era simplesmente “exposto”, se torna “atuado”.' O
desafio é lançado ao homem total e é com toda a sua realidade que
ele se empenha no com bate. Só dessa forma o homem pode atingir
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 105 –
a totalidade e “Deus pode nascer”, isto é, participar da realidade
humana e associar-se ao homem sob a forma de “homem”. Por
esse ato de encarnação o homem, isto é, o eu, é substituído
interiormente por “Deus” e Deus se torna exteriormente o homem
de acordo com as palavras de Cristo: “Quem me viu a mim, viu
meu Pai” (João XIV, 9).
Esta constatação faz aparecer o inconveniente da
terminologia mítica. A representação de Deus, tal como
habitualmente é feita pelo homem cristão, é a de um Pai
onipotente, onisciente, cheio de bondade, o Criador do mundo.
Para esse Deus tornar-se homem é indispensável uma formidável
kenosis (esvaziamento) que reduza a totalidade divina à escala
infinitesimal do homem; e mesmo que isso aconteça, é difícil
compreender como o homem não explodiria, despedaçado pela
encarnação. Por isso, a especulação dogmática precisou dotar o
Cristo de qualidades que o situam além da condição humana
habitual. Falta-lhe, antes de mais nada, a macula peccati (a mancha
do pecado) e isto já o faz um homem-Deus ou um semi-Deus. A
imagem cristã de Deus não pode, sem contradições, encarnar-se
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 106 –
no homem empírico, abstração feita de que o homem exterior
parece pouco apto para fornecer a representação adequada de
um deus.
O mito deve, enfim, levar a sério o monoteísmo e
abandonar o dualismo (nascido oficialmente) que até hoje faz
subsistir um eterno e tenebroso antagonista ao lado de um bem
todo-poderoso. O mito deve permitir que se exprima a complexio
oppositorum filosófica de um Nicolas de Cusa e a ambivalência
moral que se encontra em Jacob Boehme. Somente assim
poderão ser atribuídos ao Deus único a totalidade e a síntese dos
opostos que lhe são próprias. Quem já experimentou o fato de
que 'os opostos, “por sua própria natureza”, podem unificar-se
graças ao símbolo, de tal modo que não tendam mais a dispersarse,
nem a se combater mas, contrariamente, tendam a completarse
reciprocamente e a dar à vida uma forma plena de sentido,
não terá mais dificuldades diante da ambivalência da imagem de
um Deus da natureza e da criação. Compreenderá precisamente
o mito do “tornar-se homem”, necessário a Deus, mensagem
cristã essencial como uma confrontação criadora do homem com
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
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os elementos contrários, assim como sua síntese na totalidade da
personalidade, o si-mesmo. Os contrastes interiores necessários
na imagem de um Deus criador podem ser reconciliados na
unidade e totalidade do si-mesmo, enquanto coniunctio oppositorum.
– Na experiência do si-mesmo não se cogita mais de superar o
contraste “Deus e homem”, como anteriormente, mas da
oposição no próprio seio da imagem de Deus. É esse o sentido
do “serviço de Deus”, isto é, do serviço que o homem pode
prestar a Deus, para que a luz nasça das trevas, para que o
Criador tome consciência de Sua criação, e que o homem tome
consciência de si mesmo.
Tal é a meta, ou uma das metas, que integra o homem na
criação de maneira sensata e que, ao mesmo tempo, confere um
sentido a ela. Foi esse mito explicativo que cresceu em mim no
decorrer de decênios. Trata-se de uma meta que posso
reconhecer e apreciar e que graças a isso me satisfaz.
Em virtude de suas faculdades de reflexão, o homem
elevou-se acima do reino animal e, mediante seu espírito,
demonstra que é precisamente pelo desenvolvimento da
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consciência que a natureza investiu-o de grande valor. Graças a
tal desenvolvimento, ele se apodera da natureza, reconhece a
existência do mundo e, por isso mesmo, o confirma de qualquer
forma ao Criador. Por isso, o mundo torna-se um fenômeno, o
que não seria, sem reflexão consciente. Se o Criador fosse
consciente de si mesmo, não teria necessidade das criaturas conscientes;
não é provável, também, que os caminhos da criação, indiretos
no mais alto grau, e desperdiçando milhões de anos na
criação de inumeráveis espécies e criaturas, correspondam a uma
intenção polarizada para uma meta. A história da natureza nos
conta a metamorfose fortuita e ao acaso das espécies, que através
de centenas de milhões de anos devoraram e se entredevoraram.
A história biológica e política da humanidade também nos ensina
exaustivamente sobre isso. Mas a história do espírito se inscreve
num outro registro. É aqui que se introduz o milagre da
consciência refletiva, segundo a cosmogonia. A importância da
consciência é de tal forma vasta que não se pode deixar de supor
que o elemento sentido jazia provavelmente oculto em todo o
aparato biológico, monstruoso e aparentemente insensato, e que
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enfim pôde manifestar-se como que por acaso, na escala dos
animais de sangue quente e cérebro diferenciado, não de modo
intencional ou previsto, mas como que pressentido através de
um “impulso obscuro”, intuitivo e tateante.
Exprimindo tais pensamentos, não imagino ter dito algo de
definitivo a respeito do sentido e do mito do homem; creio,
porém, que isto é o que pode e deve ser dito ao fim do eon de
Pisces, diante do von que se aproxima, o de Aquário, cuja forma
é humana. O Aquário vem depois de dois Peixes, em oposição
(uma coniunctio oppositorum) e parece figurar o Si-mesmo. De um
modo soberano, ele derrama o conteúdo do seu cântaro na boca
do Piscis austrinus que representa um filho, um elemento ainda
inconsciente. Deste surgirá, depois de um eon ainda mais vasto,
de cerca de dois mil anos, um futuro evocado pelo símbolo do
Capricórnio. O Capricórnio ou aigokeros é o monstro cabrapeixe,''
simbolizando a união das montanhas e das profundezas
do mar, um contraste de dois animais em junção inseparável.
Este ser singular poderia facilmente representar a imagem
primitiva de um Deus criador que se confronta com o “homem”,
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o anthropos. A respeito dessa imagem permaneço em silêncio; o
mesmo ocorre no que diz respeito ao material de experiências
disponível, isto é, os produtos do inconsciente de outros homens
que conheci, ou documentos históricos. Quando uma
compreensão não é clara por si mesma, toda especulação é
destituída de sentido, que só sobrevém quando existem,
elementos objetivos, como no caso do eon de Aquário.
Ignoramos até que ponto poderá levar o processo da tomada
de consciência e para onde conduzirá o homem. Existe, na história
da criação, um novum (um elemento novo), ao qual não existe
qualquer termo de comparação. Por este motivo não se pode saber
que potencialidades encerra, nem se é lícito prever para a espécie
do homo sapiens um desabrochar e depois um desaparecer, tal
como aconteceu em – relação aos animais pré-históricos. A
biologia é incapaz de nos fornecer um só argumento contrário a
tais possibilidades.
O homem satisfaz à necessidade da expressão mítica
quando possui uma representação que explique suficientemente
o sentido da existência humana no cosmos, representação que
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provém da totalidade da alma, isto é, da cooperação do
consciente e do inconsciente. A carência do sentido impede a
plenitude da vida e significa, portanto, doença. O sentido torna
muitas coisas, talvez tudo, suportável. Jamais alguma ciência
substituirá o mito e jamais o mito poderá nascer de alguma
ciência. Não é “Deus” que é um mito, mas o mito que é a
revelação de uma vida divina no homem. Não somos nós que
inventamos o mito, é ele que nos fala como “Verbo de Deus”.
O “Verbo de Deus” vem a nós e não temos nenhum meio de
distinguir “se” e “como” ele é diferente de Deus. Nada há que
não seja conhecido e humano a respeito do Verbo, salvo a
circunstância de que surgiu espgntaneamente diante de nós e
nos dominou. Ele não depende de nosso arbítrio. Impossível
explicar uma “inspiração”. Sabemos que a “idéia que nos vem
ao espírito” não é fruto de nossas elucubrações, mas vinda de
“algum lugar”, que nos invade. E quanto ao sonho
premonitório, como poderíamos atribui-lo à nossa própria
razão? Em casos semelhantes, ignora-se muitas vezes e por
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muito tempo que o sonho contenha um saber prévio e à
distância.
O Verbo nos ocorre; nós sofremos a sua ação, pois estamos
expostos a uma profunda insegurança; para Deus, enquanto
complexio oppositorum, “todas as coisas são possíveis” no sentido
mais amplo da expressão, isto é, verdade e erro, bem e mal. O mito
é ou pode ser equívoco, tal como o oráculo de Delfos ou um
sonho. Não podemos, nem devemos renunciar ao uso da razão; e
não devemos também abandonar a esperança de que o instinto se
precipite em nossa ajuda. Neste caso, um deus nos apoiaria contra
Deus, tal como Jó o compreendera. Pois tudo aquilo que se
exprime através da “outra vontade” é uma condição humana,
elaborada pelo pensamento do homem, por suas palavras, suas
imagens e todas as suas limitações. É por isso que o homem refere
tudo a si mesmo quando começa a pensar desajeitadamente em
termos psicológicos, acreditando que tudo provém de sua intenção
e de “si próprio”. Pressupõe dessa forma, com uma ingenuidade
infantil, que conhece todos os seus domínios e que sabe “o que ele
próprio é”. Não desconfia que a fraqueza de sua consciência e o
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medo correspondente do inconsciente o impedem de distinguir o
que inventou intencionalmente daquilo que proveio de outra fonte.
Não tem objetividade diante de si próprio e não pode ainda
considerar-se como esse fenômeno que afinal de contas é obrigado
a constatar e ao qual – _ fòr better or worse – é idêntico. Inicialmente,
sofre a ação das coisas, elas lhe ocorrem, “caem sobre ele” e só
muito penosamente consegue conquistar e manter uma esfera de
relativa liberdade.
Apenas quando alcança tal conquista – e somente então –
conseguirá reconhecer que está confrontado com seus
fundamentos involuntários, com as circunstâncias dadas por seu
embasamento, que não teria meios de impedir. Mas seus
fundamentos não se limitam unicamente a fatos passados; pelo
contrário, vivem com ele, como base permanente de sua
existência, e sua consciência depende de sua colaboração, pelo
menos tanto quanto do mundo físico circundante.
Esses dados que assaltam o homem e a ele se impõem,
poderosamente, tanto vindos de fora como de dentro,
consubstanciam -se na representação da divindade e é com a
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– 114 –
ajuda do mito que ele pode descrever seus efeitos; o homem
compreendeu o mito como “Verbo de Deus”, isto é, como
inspiração e revelação daquilo que as realidades do “outro lado”
têm de numinoso.
II
A melhor maneira do indivíduo se proteger do risco de
confundir-se com os outros é a posse de um segredo que queira
ou deva guardar. Todo o início da formação de sociedades
implica na necessidade de uma organização secreta. Quando não
há motivos suficientemente imperiosos para a manutenção do
segredo, inventam-se ou “arranjam-se” segredos que só são
“conhecidos” ou “compreendidos” pelos que têm o privilégio
de iniciação. Assim foi entre os rosa-cruz e muitas outras
sociedades secretas. Entre. as pseudo-secrètas existem – ó
ironia! – as que nem mesmo são conhecidas pelos iniciados; por
exemplo, as que emprestaram seus “segredos” principalmente à
tradição alquimista.
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– 115 –
A necessidade de cercar-se de mistério é de importância vital
no estágio primitivo, pois o segredo compartilhado constitui o
cimento da coesão do grupo. No estágio social, o segredo
representa uma compensação salutar da falta de coesão da
personalidade individual, que submerge e se dispersa mediante
recaídas sucessivas na identidade primitiva inconsciente com os
outros. A busca da meta, sendo ela o indivíduo consciente de suas
particularidades, torna-se um longo trabalho educativo, quase sem
esperança, devido ao seguinte fato: uma comunidade constituída
por indivíduos isolados, que tiverem o privilégio da iniciação,
não pode se reconstituir senão através de uma identidade
inconsciente, mesmo quando se trata de uma identidade
socialmente diferenciada.
A sociedade secreta é um estágio intermediário no caminho
da individuação: confia-se ainda a uma organização coletiva a
tarefa de ser diferenciado por ela, isto é, ainda não se
compreendeu que é tarefa do indivíduo ficar de pé, por si
mesmo, e ser diferente dos demais. Todas as identidades
coletivas, quer se refiram a organizações, profissões de fé
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 116 –
relativas a tal ou qual ismo, etc., ameaçam e se opõem ao
cumprimento dessa tarefa. Essas identidades coletivas são
muletas para os paralíticos, escudos para os ansiosos, divãs para
os preguiçosos, recreio para os irresponsáveis, mas também
albergues para os pobres e fracos, o porto protetor para os
náufragos, o seio da família para os órfãos, a meta gloriosa e
ardentemente desejada para os que se extraviaram e se
decepcionaram, a terra prometida para os peregrinos extenuados,
o rebanho e o cercado seguro para as ovelhasdesgarradas e a mãe
que significa nutrição e crescimento.
Por este motivo não se deve considerar esse grau
intermediário como um obstáculo; ele representa, ao contrário, e
ainda por muito tempo, a única possibilidade de existência do
indivíduo que hoje, mais do que nunca, se encontra
ameaçado.pelo anonimato. O fato de pertencer a uma
organização coletiva é tão importante na nossa época que tem
mesmo o direito de parecer como meta definitiva, enquanto que
toda tentativa de sugerir ao homem a eventualidade de um passo
a mais no caminho da autonomia pessoal é considerada como
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presunção, desafio prometeico, fantasia ou mesmo
impossibilidade.
Mas pode acontecer que alguém, por motivos importantes,
se sinta constrangido a procurar o seu caminho, por seus
próprios meios, em direção a horizontes mais largos, porquanto
não encontra em nenhuma forma, em nenhum molde, em
nenhum dos envoltórios, em nenhum dos meios de vida que lhe
são oferecidos, aquele que lhe convém. E então irá só,
representando sua própria sociedade. Será sua própria
multiplicidade que se compõe de numerosas opiniões e
numerosas tendências, nem todas seguindo, necessariamente, o
mesmo sentido. Pelo contrário, estará em estado de dúvida em
relação a si mesmo, e sofrerá grandes dificuldades para conduzir
sua própria multiplicidade a uma ação homogênea e integrada.
Mas o fato de estar exteriormente protegido pelas formas sociais
de um desses graus intermediários, aos quais acabamos de nos
referir, não implica que esteja protegido da multiplicidade
interior que o cinde intimamente e' o impele a voltar ao desvio
que representa a identidade com o mundo exterior.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 118 –
Assim como o iniciado, graças ao segredo da sociedade,
não se marginaliza e participa de uma coletividade menos
diferenciada, o indivíduo isolado tem necessidade, para caminhar
solitário, de um segredo que, por qualquer motivo, não deva nem
possa revelar. Tal segredo o obriga a isolar-se em seu projeto
individual. Muitos indivíduos não podem suportar tal
isolamento. São os neuróticos que brincam de esconde-esconde
com os outros e consigo mesmo, sem se levar a sério, nem aos
outros. Em regra geral, essas pessoas sacrificam sua meta
individual à necessidade da adaptação social, encorajados por
todas as opiniões, todas as convicções e todos os ideais do
ambiente. Por outro lado, não há argumento racional contra
estes últimos. Só um segredo que não se pode trair, isto é, um
segredo que nos inspira medo ou que não poderíamos formular
conceitualmente (e que, por isso, pertence aparentemente à
categoria das “loucuras”), pode impedir a regressão inevitável ao
coletivo.
A necessidade de um tal segredo é, em muitos casos, tão
grande, que suscita pensamentos e ações, cuja responsabilidade é
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– 119 –
quase impossível de se suportar. Às vezes, atrás de tais atitudes,
seria falso ver apenas arbitrariedade e presunção; pelo contrário,
trata-se de uma dira necessitas (cruel necessidade) inexplicável para
o próprio indivíduo e que se apodera dele como um destino
inelutável que mostra a ele – ad oculos – talvez pela primeira vez
em sua vida, a existência de fatores estranhos, mais poderosos do
que ele, no seio de seus mais íntimos domínios, e dos quais se
acreditava senhor.
Um exemplo significativo é a história de Jacó que lutou
com o anjo, saiu com a anca deslocada, mas que desse modo
evitou cometer um assassínio. O Jacó dessa época tinha a
vantagem de que todos acreditaram em sua história. Um Jacó de
hoje apenas encontraria por toda parte um sorriso eloqüente.
Dessa forma, ele preferirá não tocar no assunto, sobretudo se
tiver que formar uma opinião pessoal sobre o enviado de Jeová.
Assim, querendo ou não, tem a posse de um segredo indiscutível,
e sai do círculo da coletividade. Naturalmente, sua restrição
mental surgirá em pleno dia se não conseguir ser hipócrita
durante toda a vida. Mas tornar-se-á neurótico quem quiser fazer
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 120 –
as duas coisas ao mesmo tempo: seguir sua meta individual e
adaptar-se à coletividade. Um “Jacó” não confessa que o anjo é o
mais forte, pois nunca afirmou a impossibilidade do anjo se
afastar, mancando.
Aquele que, impelido por seu daimon, ousa ultrapassar as
fronteiras desse estado intermediário marcado pela pertinência a
uma coletividade penetra, por assim dizer, no “inexplorado para
sempre inexplorável”, onde não há mais caminhos seguros que o
guiem, nem abrigos que estendam sobre ele um teto protetor.
Nessa região, não há mais leis, no caso de uma situação inesperada,
como por exemplo, um conflito de deveres, que não se pode
resolver à força. Habitualmente uma excursão desse tipo nessa no
man's land dura até que uma situação conflitante. apareça no
horizonte. Quando ocorre o conflito, ou quando se lhe sente o
cheiro, mesmo de longe, a excursão finda rapidamente. Se, nessas
condições, alguém “dá no pé”, eu não o censuraria. Mas se, pelo
contrário, alguém se pavoneia e considera um mérito o que foi
fraqueza e covardia, eu não poderia aprova-lo. Como meu
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 121 –
desprezo não faz mal a ninguém, posso exprimi-lo com toda a
tranqüilidade.
Mas se alguém assume a responsabilidade de resolver uma
situação Litigiosa de deveres contraditórios, debatendo a questão
em face do juiz perante o qual comparece dia e noite, encontrarse-
á eventualmente na posição do “homem-só”: possui um
segredo que não admite qualquer debate público pela excelente
razão de que esse homem já é fiador perante si mesmo de uma
acusação impiedosa e de uma defesa obstinada; nenhutn juiz
temporal ou espiritual poderia devolver-lhe o sono. De resto, se
ele não conhecesse.previamente, até à náusea, as decisões desses
eventuais juízes, os fatos nunca teriam chegado a um conflito de
deveres. Este último, sempre supõe uma consciência elevada de
suas responsabilidades. É justamente esta virtude que lhe proíbe
a aceitação de uma decisão coletiva; e por este motivo o júri do
mundo exterior é transposto para o mundo interior onde uma
decisão será tomada, de portas fechadas.
Esta transformação confere ao indivíduo uma significação
antes ignorada. Ele será, doravante, não só seu eu bem
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– 122 –
conhecido e socialmente definido, como também a instância que
negocia o que ele vale em si mesmo. Nada aumenta mais a
tomada de consciência do que a confrontação interior com os
fatores opostos. Não só a acusação coloca sobre a mesa os dados
desconhecidos, como a defesa também passa a procurar
argumentos em que até então não havia pensado. Disso resulta
que uma parte importante do mundo exterior é transportada para
o mundo interior, e esse mesmo elemento é subtraído ao mundo
exterior; por outro lado, o mundo interior ganha na mesma
proporção e é elevado à dignidade de um tribunal de decisão
ética. O eu, que antes era unívoco, por assim dizer, perde a
prerrogativa de ser simplesmente o acusador e adquire, em troca,
o inconveniente de também ter que ser acusado. O eu torna-se
ambivalente, ambíguo e fica mesmo entre a bigorna e o martelo.
Torna-se consciente de uma polaridade de opostos que lhe é “sobreordenada”.
Ainda que se discuta e se argumente até o dia do juízo final,
nem todos os conflitos de deveres serão realmente “resolvidos”.
Talvez nenhum conflito seja efetivamente “resolvido”. Um belo
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– 123 –
dia, entretanto, a decisão simplesmente se apresenta como uma
espécie de curto-circuito. A vida prática não tolera ser mantida
em suspenso por uma eterna contradição. Os pares de opostos e
sua contradição inerente, entretanto, não desaparecem, se bem
que por um momento passem para o segundo plano, em prol do
impulso da ação. Os pares de opostos ameaçam constantemente
a unidade da personalidade e sempre de novo enredam a vida em
contradições.
Considerando tal situação, parece recomendável “ficar em
casa”, isto é, nunca desertar dos cercados e abrigos coletivos,
pois só eles prometem garantia contra os conflitos interiores.
Aquele que não for
obrigado a abandonar pai e mãe estará, seguramente, mais
abrigado junto deles. Mas são numerosos os que se sentem
impelidos para fora do lar, num caminho individual. Sem demora
conhecerão o positivo e o negativo da natureza humana.
Do mesmo modo que toda energia procede de pólos
opostos, a alma possui também uma polaridade interior,
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 124 –
pressuposição inalienável de sua vitalidade, como Heráclito já o
reconheceu. Tanto teórica como praticamente essa polaridade é
inerente a tudo o que vive. Diante dessa poderosa condição
mantém-se a unidade facilmente perturbável do eu que se
formou, de modo progressivo, ao longo de milênios e só com
ajuda de inúmeras medidas de proteção. A elaboração mesma de
um eu parece ter sido possível graças ao fato de que todos os
opostos tendem, reciprocamente, a equilibrar-se. Isto ocorre no
processo energético que começa pela tensão entre o frio e o
quente, o alto e o baixo, etc. A energia, que é a base da vida
psíquica consciente, preexiste a esta última, e é por conseguinte
inicialmente inconsciente. Quando aflora à consciência, se
apresenta primeiro projetada em figuras como mana, deuses,
demônios, etc., cujo numen parece ser a fonte de força que
condiciona sua existência, enquanto essa energia é concebida sob
a forma dessas imagens. Mas. à medida que esta forma se esfuma
e se torna ineficaz, o eu, isto é, o homem empírico, parece tomar
posse dessa fonte de força, e isso no sentido pleno desta
proposição ambígua: por um lado, ele busca tomar posse desta
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 125 –
energia, a fim de ser seu senhor até o ponto de acreditar que a
possui; por outro lado, é possuído por ela.
Esta situação grotesca, entretanto, ocorre quando apenas os
conteúdos da consciência passam por formas de existência do
psíquico. Neste caso, a inflação devida a projeções recorrentes não
pode ser evitada. Mas quando se admite a existência de uma psique
inconsciente, os conteúdos das projeções podem ser integrados em
formas instintivas inatas que precedem a consciência. Graças a
isso, a objetividade e a autonomia da consciência são mantidas e a
inflação é evitada. Os arquétipos que preexistem à consciência e
que a condicionam aparecem então no papel que realmente
desempenham: o de formas estruturais a priori do fundamento
instintivo da consciência. Não constituem absolutamente um em-si
das coisas, mas sim formas em que são percebidas, consideradas e
compreendidas. Naturalmente, os arquétipos não representam a
única base da aparência das representações. Eles são apenas os
fundamentos da parte coletiva de uma concepção. Enquanto
constituem uma. qualidade do instinto, participam de sua natureza
dinâmica e possuem, por conseguinte, uma energia específica que
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 126 –
determina, às vezes de uma forma constrangedora, modos de
comportamento, impulsões. Isto quer dizer que em certas
circunstâncias os arquétipos têm uma força de possessividade e
de obsessão (numinosidade!). Concebê-los sob a forma de
daimonia (poderes sobrenaturais) corresponde perfeitamente à sua
natureza.
Se alguém, por acaso, acreditar que uma tal formulação
possa alterar de algum modo a natureza das coisas, denotará que é
excessiva sua crença no valor das palavras. Os dados reais não
mudam quando aplicamos a eles outros nomes. Só nós
poderíamos, casualmente, ser afetados. Se alguém concebesse
“Deus” como um “puro nada”, de nada atingiria. o princípio que
nos ultrapassa. Continuaríamos tão possuídos por Ele como
antes. Não amputamos absolutamente a realidade mudando-lhe o
nome; no máximo poderemos tomar uma falsa atitude em
relação a ela, se o nome novo implicar uma negação;
inversamente, a denominação positiva de uma coisa incognoscível
poderá colocar-nos diante dela numa atitude positiva. É por
isso que quando aplicamos a “Deus” a denominação de
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 127 –
“arquétipo” nada exprimimos sobre sua natureza própria. Mas
reconhecemos, assim, que “Deus” está inscrito nessa parte de
nossa alma preexistente à nossa consciência e que, portanto, Ele
não pode ser uma invenção desta última. Dessa forma, Deus não
é nem afastado nem aniquilado mas, pelo contrário, é posto na
proximidade daquilo que se pode experimentar. Esta
circunstância não deixa de ser essencial: é comum a suspeita de
que uma coisa não experimentável não existe. Tal suspeita leva
alguns pretensos crentes (que não se dão ao trabalho de
examinar mais a fundo a questão) a nomear de ateísmo, ou então
de gnosticismo, a minha tentativa de reconstituir a alma primitiva
inconsciente; de qualquer modo não reconhecem qualquer
realidade psíquica como a do inconsciente. Se este significa
alguma coisa, deve compor-se das fases percorridas antes do
desenvolvimento histórico de nossa psique consciente.
Quase todos concordam que a hipótese do homem ter sido
criado em toda ã sua glória no sexto dia da Criação, sem degrau
anterior, é muito simplista e arcaica para nos satisfazer. Mas em
relação à psique, as concepções arcaicas continuam em vigor: a
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 128 –
psique não teria antecedentes arquetípicos; seria uma tabula rasa,
uma criação inteiramente nova, que tem origem na ocasião do
nascimento. Em suma, seria apenas o que ela mesma imagina ser.
A consciência é f logenética e ontogeneticamente secundária.
Já é tempo desta evidência ser enfim admitida. O corpo tem uma
pré-história anatômica de milhões de anos – o mesmo acontece
com o sistema psíquico. O corpo humano atual representa em
cada uma de suas partes o resultado desse desenvolvimento,
transparecendo as etapas prévias de seu presente; o mesmo
acontece com a psique. A consciência começou, segundo a
perspectiva de seu desenvolvimento histórico, num estado quase
animal de inconsciência, que a criança repete em sua diferenciação.
A psique da criança, em estado pré-consciente, é nada menos que
tabula rasa; pode-se reconhecer, sob todos os pontos de vista, que é
pré-formada individualmente e equipada com todos os instintos
especificamente humanos, inclusive com os fundamentos a priori
das funções superiores.
É sobre esta base complexa que o eu se forma e é, ela que o
conduzirá ao longo da vida. Quando tal base não preenche seu
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 129 –
papel de apoio o eu se detém e morre. A existência e a realidade
dessa base são de importância vital. Comparado a ela, o mundo
exterior tem uma significação secundária, pois afinal o que
significará esse mundo exterior se me faltar o impulso endógeno
que, normalmente, me incita a apoderar-me dele? Jamais uma
vontade consciente substituirá o instinto de vida. Esse instinto
surge em nós, do íntimo, como uma obrigação, uma vontade,
uma ordem, e quando o chamamos de daimon pessoal, como
sempre aconteceu e acontece, pelo menos exprimimos de forma
pertinente a situação psicológica. E mesmo quando tentamos
circunscrever mais precisamente, mediante o conceito de
arquétipo, o ponto em que o daimon nos agarra, nada eliminamos
e nada podemos fazer para nos aproximar da fonte da vida.
É muito natural, pois, que na qualidade de psiquiatra (que
significa “médico da alma”) eu me incline para tal concepção;
pois o que me interessa, em primeiro lugar, é saber como ajudar
meus doentes a encontrar sua base e sua saúde. Através da
experiência percebi a soma de conhecimentos que tal tarefa
implica! Mas o mesmo ocorreu com a medicina em geral. Ela não
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 130 –
progrediu descobrindo a cura mediante truques que teriam
simplificado enormemente seus métodos. Pelo contrário,
enveredou, a perder de vista, por complicações. em grande parte
devidas a empréstimos feitos a todas as ciências possíveis.
Quanto a mim, não pretendo interferir de forma alguma em
outras matérias; procuro simplesmente utilizar seus
conhecimentos em meu domínio. Naturalmente, tenho o dever
de justificar essas utilizações e suas conseqüências. Pois
descobertas são feitas quando se transferem conhecimentos de
um domínio para outro, a fim de empregá-los de maneira prática.
Quantos achados não teriam ocorrido se os raios X deixassem de
ser utilizados em medicina, por serem uma descoberta da fisica!
Quanto ao fato de que, em certos casos, possa haver perigo na
terapia pelos raios X, isso interessa ao médico, mas não
necessariamente ao fsico, que se serve desses raios de outra
maneira e para outros fins. O fsico não pensará que o médico
pretende iludi-lo ao chamar-lhe a atenção para certas propriedades
nocivas ou salutares da radioscopia.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 131 –
Quando uso, por exemplo, conhecimentos históricos ou
teológicos no domínio da psicoterapia, eles aparecem
naturalmente sob uma nova luz e levam a outras conclusões que
não aqueles limitados domínios de sua especialidade, onde
servem para outros fins.
O fato de que uma polaridade está à base do dinamismo
psíquico implica que a problemática dos opostos, no sentido
mais amplo, penetra no campo de discussão psicológica, com
todos os seus aspectos religiosos e filosóficos. Estes, então,
perdem o caráter independente que possuem em seu domínio
especializado, e isto, necessariamente, porque são premidos,
interrogados, sob um ângulo psicológico; não são mais
considerados sob o ângulo da verdade filosófica ou religiosa, mas
examinados, no sentido de apurar o que comportam de
significação e de fundamento psicológicos.
Livres da pretensão de constituírem verdades
independentes, o fato de serem consideradas empiricamente, isto
é, segundo a perspectiva das ciências de observação, faz com que
tais verdades sejam sobretudo e antes de mais nada, fenômenos
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 132 –
psíquicos. Este fato me parece indiscutível. Essas verdades
pretendem ser fundadas em si mesmas e por elas mesmas; mas o
modo psicológico de considerar as coisas perturba essa
pretensão: isso não exclui, simplesmente, a possibilidade de que
tal exigência seja vista ilegítima, mas lhe consagra uma atenção
toda particular. A psicologia ignora julgamentos tais como: “isso
é apenas religioso” ou “isso é apenas filosófico”, ao contrário da
censura que a ela se dirige freqüentemente, em particular por
parte do mundo teológico: “isso é apenas psíquico”.
Todas as expressões possíveis e imagináveis, quaisquer que
sejam, são produtos da psique. Entre outras coisas, a psique
aparece como um processo dinâmico que repousa sobre antíteses
e sobre o caráter antitético de seus conteúdos, podendo ser
representada como uma tensão entre dois pólos. Como os
princípios explicativos não devem ser multiplicados além do
necessário, e a perspectiva energética foi satisfatória enquanto
princípio explicativo das ciências físicas, podemos limitar-nos a
ela também no que diz respeito à psicologia. Não há qualquer
dado seguro que demonstre que outra concepção seja mais
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 133 –
adaptada; além disso, o caráter antitético, a polaridade da psique
e de seus conteúdos se revelaram como um dos resultados
essenciais da experiência psicológica.
Se a concepção energética da psique é correta, todas as
constatações que procuram ultrapassar as fronteiras da
polaridade psíquica, como, por exemplo, as afirmações a respeito
de uma realidade metafisica, serão paradoxais se pretenderem
reinvidicar qualquer validade.
A psique não pode ir além de si mesma, isto é, não pode
estabelecer o estatuto de qualquer verdade absoluta, pois a
polaridade que lhe é inerente condiciona a relatividade de suas
afirmações. Sem pre que a psique proclama verdades absolutas –
como, por exemplo: “a essência eterna é o movimento”, ou “a
essência eterna é o Uno” – ela cai, nolens volens, num ou noutro
dos pólos opostos. Poder-se-ia também afirmar: “a essência
eterna é a imobilidade”, ou “a essência eterna é o Todo”. Caindo
na unilateralidade, a psique se desintegra e perde a faculdade de
discernimento. Degenera numa sucessão de estados psíquicos
irrefletidos (porquanto se mostram refratários , à reflexão), cada
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 134 –
um deles acreditando-se fundado em si mesmo porque não vê ou
não pode ainda ver outros estados.
Isso não exprime, naturalmente, qualquer julgamento de
valor, mas formula o fato de que, muitas vezes ou mesmo
inevitavelmente, se ultrapassa a fronteira, pois “tudo é
transição”. A tese é seguida pela antítese e, entre as duas, nasce
um terceiro termo, uma lysis, uma solução que não era
perceptível anteriormente. Através desse processo a psique, mais
uma vez, manifesta sua natureza antitética, sem sair realmente de
seus próprios limites.
Mediante o esforço de mostrar as limitações da psique, não
quero de forma alguma sugerir que existe somente a psique. Mas
quando e na medida em que se trata de percepção e de
conhecimento, não temos meios de ver além da psique. A ciência
está implicitamente convencida de que existe um objeto nãopsíquico
transcendente. Mas sabe também como é difícil
reconhecer a natureza real do objeto, particularmente quando o
órgão das percepções é deficiente ou inexistente, ou quando as
formas de pensamento que lhes seriam adaptadas não existem ou
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 135 –
ainda estão por ser criadas. No caso em que nem nossos órgãos
sensoriais, nem seus aparelhos auxiliares artificiais nos garantem
a existência de um objeto real, as dificuldades aumentam em
proporções gigantescas, de maneira que se é simplesmente
tentado a negar tal objeto.
Nunca cheguei a uma conclusão precipitada desse tipo,
porque nunca acreditei que nossas percepções pudessem
apreender todas as formas de existência. Por isso estabeleci o
postulado de que o fenômeno das configurações arquetípicas –
acontecimentos psíquicos por excelência – repousa sobre a
existência de uma base psicóide, isto é, condicionalmente psíquica,
mas ligado a outras formas de ser. Por falta de elementos
empíricos, não conheço as formas de existência que são
correntemente designadas pelo termo: “espiritual”. Sob o ponto
de vista da ciência, não é importante o que eu possa crer a esse
respeito. Devo reconhecer minha ignorância. Mas na medida em
que os arquétipos se revelam eficazes, são para mim efetivas, se bem
que eu não saiba em que consistem realmente. É verdade que
isso é válido não só em relação a eles, mas à natureza mesma da
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 136 –
psique. De qualquer modo que se exprima, ela nunca poderá ir
além de si mesma. Toda a compreensão e tudo o que se
compreendeu é fenômeno psíquico, e nessa medida encontramonos
desesperadamente fechados num mundo unicamente
psíquico. No entanto, temos muitos motivos para supor como
existente, além desse véu, o objeto absoluto mas
incompreendido que nos condiciona e nos influencia, mesmo
nos casos em que é impossível qualquer constatação concreta –
particularmente no das manifestações psíquicas. No entanto, o
que se constata a propósito das possibilidades e das
impossibilidades vale, de maneira absoluta, só no interior dos
domínios especializados, em cujos limites elas foram formuladas.
Fora desses domínios tais constatações são meras presunções.
Se bem que de um ponto de vista objetivo seja vedado
fazer constatações às cegas, isto é, sem razões suficientes, nem
por isso algumas deixam de ser efetuadas, aparentemente sem
razões objetivas. Tratase, nesse caso, de uma motivação
psicodiìnâmica comumente qualificada de subjetiva, e que se
considera como sendo puramente pessoal. Comete-se, desse
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 137 –
modo, o erro de não distinguir se a constatação operada emana
de um sujeito isolado, suscitada então por motivações
estritamente pessoais, ou se ela se apresenta em geral, emanando
pois de um pattern, de um modelo dinâmico que existe
coletivamente. Neste último caso, deveríamos concebê-la não
como subjetiva, mas como psicologicamente objetiva, um
número maior ou menor de indivíduos sendo levados, por um
impulso interior, a manifestar-se de forma idêntica, sentindo
como vitalmente necessária esta ou aquela concepção. Como o
arquétipo não é simplesmente uma forma inativa, mas dotado de
uma energia específica, pode ser considerado como a causa
eficiente de tais constatações e compreendido como o sujeito
que as determina. Em outras palavras: não é o homem, enquanto
pessoa, que faz a constatação, mas o arquétipo que se exprime
através dela. Se essa expressão é sufocada ou se não é levada em
conta aparecem manifestações psíquicas de carência, tal como o
demonstra a experiência médica e mesmo um simples
conhecimento habitual dos homens. No nível individual
aparecerão sintomas neuróticos; quando se trata de indivíduos
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 138 –
incapazes de uma neurose, nascerão edificações delirantes
coletivas.
As manifestações dos arquétipos repousam sobre precondicionamentos
instintivos e nada têm a ver com a razão; além de
não serem fundadas racionalmente, não podem ser afastadas por
uma argumentação racional. Foram e são desde sempre partes da
imagem do mundo, “representações coletivas”, tal como Levy-
Bruhl acertadamente as chamou. O eu e sua vontade
desempenham, certamente, um grande papel. Mas num alto grau
e de um modo que lhe é geralmente inconsciente, o que o eu
quer é contrabalançado pela autonomia e numinosidade dos
processos arquetípicos. A consideração efetiva destes constitui a
essência da religião, na medida que esta é passível de uma
aproximação psicológica.
III
Aqui se impõe uma outra realidade: ao lado do campo da
reflexão, há outro domínio, pelo menos tão vasto quanto ele, ou
talvez ainda mais vasto, onde a compreensão racional e a
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 139 –
descrição dificilmente encontram algo que possam captar. É o
domínio do Eros. Na Antiguidade, este era considerado como
um deus cuja divindade ultrapassava as fronteiras do humano e
que, portanto, não podia ser nem compreendido nem descrito.
Eu.poderia tentar abordar, como tantos outros o fizeram antes
de mim, esse daimon, cuja eficácia se estende das alturas infinitas
do Céu aos abismos tenebrosos do Inferno; mas falta-me a
coragem de procurar a linguagem capaz de exprimir
adequadamente o paradoxo infinito do amor. Eros é um
kosmogonos, um criador, pai e mãe de toda consciência. A fórmula
condicional de São Paulo: “... se eu não tiver amor...” parece-me
ser o primeiro de todos os conhecimentos e a própria essência da
divindade. Qualquer que seja a interpretação erudita da frase
“Deus é amor” (João IV, 816), seu próprio enunciado confirma a
divindade como complexio oppositorum – complementaridade,
convivência dos opostos.
Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal
colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca
fui capaz de dar-lhe uma resposta válida. Como Jó, tive que tapar a
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 140 –
boca com a mão: “Prefiro tapar a boca com a mão. – Falei uma
vez... não repetirei; – duas vezes... eu... nada acrescentarei.” Tratase
do que há de maior e de mais ínfimo, do mais longínquo e do
mais próximo, do mais alto e do mais baixo e nunca qualquer um
desses termos poderá ser pronunciado sem o seu oposto. Não há
linguagem que esteja à altura deste paradoxo. O que quer que se
diga, palavra alguma abarcará o todo. Ora, falar de aspectos
particulares, onde só a totalidade tem sentido, é demasiado ou
muito pouco. O amor (a caridade) “desculpa tudo, acredita em
tudo, espera tudo, suporta tudo.” (I Coríntios XIII, 7). Nada se
poderá acrescentar a esta frase. Pois nós somos, no sentido mais
profundo, as vítimas, ou os meios e instrumentos do “amor”
cosmogônico. Coloco esta palavra entre aspas para indicar que não
entendo por ela simplesmente um desejo, uma preferência, uma
predileção, um anelo, ou sentimentos semelhantes, mas um todo,
uno e indiviso, que se impõe ao indivíduo. O homem, como parte,
não compreende o todo. Ele é subordinado a ele, está à sua mercê.
Quer concorde ou se revolte, está preso ao todo, cativo dele.
Depende dele, e sempre tem nele seu fundamento. O amor, para
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 141 –
ele, é luz e trevas, cujo fim nunca pode ver. “O amor (a caridade)
nunca termina”, quer o homem “fale pela boca dos anjos” ou
prossiga com uma meticulosidade científica, nos últimos recantos,
a vida da célula. Poderá dar ao amor todos os nomes possíveis e
imagináveis de que dispõe; afinal, não fará mais do que
abandonar-se a uma infinidade de ilusões. Mas se possuir um
grão de sabedoria deporá as armas e chamará ignotum per
ignotius (uma coisa ignorada por uma coisa ainda mais ignorada),
isto é, pelo nome de Deus. Será uma confissão de humildade, de
imperfeição, de dependência, mas ao mesmo tempo será o
testemunho de sua liberdade de escolha entre a verdade e o erro.
RETROSPECTIVA
Não concordo quando dizem que sou um sábio ou um
“iniciado” na sabedoria. Certo dia um homem encheu o chapéu
com água tirada de um rio. O que significa isso? Eu não sou esse
rio, estou à sua margem, mas nada faço. Outros homens estão à
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 142 –
beira do mesmo rio e em geral pensam que deveriam fazer as
coisas por iniciativa própria. Eu nada faço. Nunca imaginei ser
“aquele que cuida para que as cerejas tenham haste”. Fico lá, de
pé, admirando os recursos da natureza.
Há uma velha lenda, muito bela, de um rabino a quem um
aluno, em visita, pergunta: “Rabbi, outrora havia homens que
viam Deus face a face; por que não acontece mais isso?” O
rabino respondeu: “Porque ninguém mais, hoje em dia, é capaz
de inclinar-se suficientemente”. É preciso, com efeito, curvar-se
muito para beber no rio. A diferença entre a maioria dos homens
e eu, reside no fato de que em mim as “paredes divisórias” são
transparentes. É uma partidularidade minha. Nos outros, elas são
muitas vezes tão espessas, que lhes impedem a visão; eles
pensam, por isso, que não há nada do outro lado. Sou capaz de
perceber, até certo ponto, os processos que se desenvolvem no
segundo plano; isso me dá segurança interior. Quem nada vê não
tem segurança, não pode tirar conclusão alguma, ou não confia
em suas conclusões. Ignoro o que determinou a minha faculdade
de perceber o fluxo da vida. Talvez tenha sido o próprio inCARL
GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 143 –
consciente, talvez os meus sonhos precoces, que desde o início
marcaram meu caminho.
O conhecimento dos processos do segundo plano
estabeleceu, muito cedo, minha relação com o mundo. No fundo
esta relação é hoje o que já era na minha infância. Quando
criança, sentia-me
solitário e o sou ainda hoje, pois sei e devo dizer aos outros
coisas que aparentemente não conhecem ou não querem
conhecer. A solidão não significa a ausência de pessoas à nossa
volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas
que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de
pensamentos que lhes parecem improváveis. Minha solidão
começa com a experiência vivida em sonhos precoces e atinge
seu ápice na época em que me confrontei com o inconsciente.
Quando alguérim sabe mais do que os outros, torna-se solitário.
Mas a solidão não significa, necessariamente, oposição à
comunidade; ninguém sente mais profundamente a comunidade
do que o solitário, e esta só floresce quando cada um se lembra
de sua própria natureza, sem identificar-se com os outros.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 144 –
É importante que tenhamos um segredo e a intuição de
algo incognoscível. Esse mistério dá à vida um tom impessoal e
“numinoso”. Quem não teve uma experiência desse tipo perdeu
algo de importante. O homem deve sentir que vive num mundo
misterioso, sob certos aspectos, onde ocorrem coisas inauditas –
que permanecem inexplicáveis – e não somente coisas que se
desenvolvem nos limites do esperado. O inesperado e o inabitual
fazem parte do mundo. Só então a vida é completa. Para mim, o
mundo, desde o início, era infinitamente grande e inabarcável.
Conheci todas as dificuldades possíveis para me afirmar,
sustentando meus pensamentos. Havia em mim um daimon que,
em última instância, era sempre o que decidia. Ele me dominava,
me ultrapassava e quando tomava conta de mim, eu desprezava
as atitudes convencionais. Jamais podia deter-me no que obtinha.
Precisava continuar, na tentativa de atingir minha visão. Como,
naturalmente, meus contemporâneos não a viam, só podiam
constatar que eu prosseguia sem me deter.
Ofendi muitas pessoas; assim que lhes percebia a
incompreensão, elas me desinteressavam. Precisava continuar. À
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 145 –
exceção dos meus doentes, não tinha paciência com os homens.
Precisava seguir uma lei interior que me era imposta, sem
liberdade de escolha. Naturalmente, nem sempre obedecia a ela.
Como poderíamos viver sem cometermos incoerências?
Em relação a alguns seres, era sempre próximo e presente,
na medida em que mantínhamos um diálogo interior; mas podia
ocorrer que, bruscamente, eu me afastasse, por sentir que nada
mais havia que me ligasse a eles. Tinha que aceitar, penosamente,
o fato de que continuassem lá, mesmo quando nada mais tinham
a me dizer. Muitos despertaram em mim um sentimento de
humanidade viva, mas só quando esta era visível no círculo
mágico da psicologia; no instante seguinte, o projetor poderia
afastar deles seus raios e nada mais restaria. Podia interessar-me
intensamente por alguns seres, mas, desde que se tornavam
translúcidos para mim, o encanto se quebrava. Fiz, assim, muitos
inimigos. Mas, como toda personalidade criadora, não era livre,
mas tomada e impelida pelo demônio interior.
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 146 –
“Vergonhosamente, uma força arrebata-nos o coração Pois
todos os deuses exigem oferendas, E quando nos esquecemos de
algum, Nada de bom acontecerá”, disse Hoelderlin.
A falta de liberdade causava-me grande tristeza. Tinha às
vezes á impressão de encontrar-me num campo de batalha. –
Caíste por terra, meu amigo! Mas devo prosseguir, não posso,
não posso parar! Pois “vergonhosamente uma força arrebata-nos
o coração.” Eu te amo, eu te amo, mas não posso ficar! – No
momento isso é dilacerante. Mas eu mesmo sou uma vítima, não
posso ficar. Entretanto, o daimon urde as coisas de tal modo que
é possível escapar à inconseqüência abençoada e, em oposição à
flagrante “infidelidade”, permaneço totalmente fiel.
Poderia talvez dizer: necessito das pessoas mais do que os
outros, e, ao mesmo tempo, bem menos. Quando o daimon está
em ação, sentimo-nos muito perto e muito longe. Só quando ele
se cala é que podemos guardar uma medida intermediária.
O demônio interior e o elemento criador se impuseram a
mim de forma absoluta e brutal. As ações habituais que eu
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 147 –
projetava passavam, geralmente, para o segundo plano, mas nem
sempre ou em toda parte. Creio, entretanto, que sou conservador
até a medula. Encho o cachimbo, usando o porta-tabaco de meu
avô e guardo ainda seu bastão de alpinista ornado de casco de
camelo, que ele trouxe de Pontresina, onde foi um dos primeiros
veranistas.
Sinto-me contente de que minha vida tenha sido aquilo que
foi: rica e frutífera. Como poderia esperar mais? Ocorreram
muitas coisas, impossíveis de serem canceladas. Algumas
poderiam ter sido diferentes, se eu mesmo tivesse sido diferente.
Assim, pois, as coisas foram o que tinham de ser; pois foram o
que foram porque eu sou como sou. Muitas coisas, muitas
circunstâncias foram provocadas intencionalmente, mas nem
sempre representaram uma vantagem para mim. Em sua maioria
dependeram do destino. Lamento muitas tolices, resultantes de
minha teimosia, mas se não fossem elas não teria chegado à
minha meta. Assim, pois, eu me sinto ao mesmo tempo satisfeito
e decepcionado. Decepcionado com os homens, e comigo
mesmo. Em contacto com os homens vivi ocasiões maravilhosas
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
– 148 –
e trabalhei mais do que eu mesmo esperava de mim. Desisto de
chegar a um julgamento definitivo, pois o fenômeno vida e o
fenômeno homem são demasiadamente grandes. À medida em
que envelhecia, menos me compreendia e me reconhecia, e
menos sabia sobre mim mesmo.
Sinto-me espantado, decepcionado e satisfeito comigo. Sintome
triste, acabrunhado, entusiasta. Sou tudo isso e não posso
chegar a uma soma, a um resultado final. É para mim impossível
constatar um valor ou um não-valor definitivos; não posso julgar a
vida ou a mim mesmo. Não estou certo de nada. Não tenho
mesmo, para dizer a verdade, nenhuma convicção definitiva – a
respeito do que quer que seja. Sei apenas que nasci e que existo;
experimento o sentimento de ser levado pelas coisas. Existo à base
de algo que não conheço. Apesar de toda a incerteza, sinto a
solidez do que existe e a continuidade do meu ser, tal como sou.
O mundo no qual penetramos pelo nascimento é brutal,
cruel e, ao.mesmo tempo, de uma beleza divina. Achar que a vida
tem ou não sentido é uma questão de temperamento. Se o nãosentido
prevalecesse de maneira absoluta, o aspecto racional da
CARL GUSTAV JUNG –MEMÓRIAS, SONHOS, RELFEXÕES
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vida desapareceria gradualmente, com a evolução. Não parece
ser isto o que ocorre. Como em toda questão metafisica, as duas
alternativas são provavelmente verdadeiras: a vida tem e não tem
sentido, ou então possui e não possui significado. Espero
ansiosamente que o sentido prevaleça e ganhe a batalha.
Quando Lao-Tse diz: “Todos os seres são claros, só eu sou
turvo”, exprime o que sinto em, minha idade avançada. Lao-Tse
é o exemplo do homem de sabedoria superior que viu e fez a
experiência do valor e do não-valor, e que no fim da vida deseja
voltar a seu próprio ser, no sentido eterno e incognoscível. O
arquétipo do homem idoso que contemplou suficientemente a
vida é eternamente verdadeiro; em todos os níveis da
inteligência, esse tipo aparece e é idêntico, quer se trate de um
velho camponês ou de um grande filósofo como Lao-Tse.
Assim, a idade avançada é... uma limitação, um estreitamento. E
no entanto acrescentou em mim tantas coisas: as plantas, os
animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem. Quanto
mais se acentuou a incerteza em relação a mim mesmo, mais
aumentou meu sentimento de parentesco com as coisas. Sim, é
CARL GUSTAV JUNG –
– 150 –
como se essa estranheza que há tanto tempo me separava do
mundo tivesse agora se interiorizado, revelando-me uma
dimensão desconhecida e inesperada de mim mesmo.


CARL GUSTAV JUNG

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